Introdução
Ao examinarmos a história, torna-se tão claro quanto a luz do dia que os nobres profetas sempre reorganizaram a sociedade humana. Eles convocaram a humanidade para um ideal fundamental e reuniram, num novo vínculo de unidade, aqueles que responderam a esse chamado. O grupo humano que estava dividido entre diferentes partidos, tribos e clãs, sedento pelo sangue uns dos outros e inimigo da honra alheia, em consequência desse chamado tornou-se irmão uns dos outros e protetor da honra de cada um. Como resultado dessa unidade, surgiu uma nova força, e esse chamado criou a mais importante história do mundo e tornou-se o fator decisivo na formação da mais grandiosa civilização. É para essa verdade profunda que o Alcorão aponta, em seu estilo incomparável:
واذكروا نعمة الله عليكم اذ كنتم اعداء فالَّف بيت قلوبكم فاصبحتم بنعمته اخوانا وَّ كنتم على شفاء حفرة من النار فانقذكم منها –
“Lembrai-vos da graça de Allah, quando éreis ferrenhos inimigos uns dos outros; então Ele uniu os vossos corações, e, por Sua graça e misericórdia, vos tornastes irmãos. (Sem dúvida,) estáveis à beira de um abismo de fogo. Então Ele vos salvou dali (e vos protegeu da destruição).” Al Imran, 103
Os nobres profetas convocaram a humanidade, dizendo:
واعتصموا بحبل الله جميعا ولا تفرقوا –
“Apegai-vos firmemente à corda de Allah (uni-vos) e não vos dividais.”
A unidade do Islã não é apenas uma unidade externa e legal; é, antes, a unidade dos corações. O Islã não considera a unidade meramente legal como verdadeira unidade; ao contrário, deseja estabelecer nos corações humanos a base dessa unidade externa. Sua verdadeira fonte é a unidade da fé e da doutrina, a unidade das esperanças e aspirações, a unidade das decisões e das emoções do coração. Assim como une todos externamente num único vínculo de unidade, também os liga interiormente por meio de uma relação de “ukhuwat”, ou fraternidade. E é verdade que a verdadeira unidade se forma somente quando ambos esses aspectos se manifestam plenamente. Pois a unidade artificial jamais é duradoura; corações cheios de ódio e hostilidade jamais podem unir-se. A mentira jamais pode criar qualquer unidade. A unidade baseada no egoísmo permanece apenas como fonte de divisão e desunião. E somente os laços legais também não podem estabelecer a base de uma união ou amizade genuína. É por isso que o Islã estabeleceu a base da unidade sobre a fé, o amor e o autossacrifício. A relação construída sobre esse alicerce transforma-se numa muralha tão sólida que, ao colidirem com ela, até as maiores tempestades podem apenas despedaçar a própria cabeça, sem conseguir causar-lhe qualquer dano.
Além disso, na sociedade que se forma sobre essa base, desenvolve-se uma cultura de cooperação e apoio, em vez de oposição e conflito. Nela, cada pessoa é auxiliar, apoiadora e colaboradora da outra. Nela, não se permite que aquele que está caindo chegue a cair; ao contrário, inúmeras mãos se estendem para ajudá-lo. Nela, não se abandona aquele que ficou para trás; pelo contrário, ajuda-se essa pessoa de todas as formas e conduz-se-a adiante. Essa sociedade capacita o indivíduo a enfrentar os seus problemas e cumpre a função de amparar aquele que está em queda.
É dever indispensável dos militantes do movimento islâmico compreender muito bem os fundamentos sobre os quais o Islã estabelece as suas relações sociais e empenhar as próprias forças e capacidades para alcançar esse objetivo.
Nosso respeitado amigo e querido irmão Khurram Zia Murad escreveu este livro para atender a essa necessidade fundamental dos militantes do movimento islâmico. Entre os poucos jovens deste país que, apesar de terem recebido uma educação ocidental, fizeram esforços especiais para adquirir conhecimento religioso e alcançaram considerável mérito nessa área, o senhor Khurram é um deles. De fato, assim como se pode reconhecer a flor por sua fragrância, esta sua obra também será útil para compreender o seu pensamento e a sua perspectiva. Na realidade, o tema em discussão tem três aspectos:
Primeiro: que características fundamentais o Islã deseja ver manifestadas no caráter individual para estabelecer e manter estável um modo de vida social e integral.
Segundo: quais coisas destroem e enfraquecem esses fundamentos, para que se possa evitá-las.
Terceiro: quais qualidades fortalecem e aperfeiçoam esses fundamentos, para que possam ser adotadas.
O respeitado autor respondeu de maneira extremamente abrangente a essas três perguntas. Creio que, se os militantes do movimento islâmico lerem atentamente essas respostas e se esforçarem para colocá-las em prática, poderão fazer florescer toda a sua vida, adornando-a com as flores da fé, do amor e do sacrifício — que fazem florescer o jardim da vida.
Para obter benefício desta obra, os militantes também devem prestar atenção a outro aspecto. O ser humano não pode alcançar todas as coisas da noite para o dia. Portanto, nosso dever é compreender todo o plano de formação do caráter, consolidar muito bem cada elemento na mente, depois tentar adotá-lo e segui-lo e, desse modo, aceitar o primeiro, depois o segundo e, em seguida, o terceiro.
É relatado sobre Hazrat Abdullah ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) que ele levou sete ou oito anos para estudar a Surata Al-Baqarah. Quando lhe pediram uma explicação a esse respeito, ele disse: “Eu estudo uma coisa, aceito-a e depois avanço.” De fato, para a formação do caráter, é necessário um esforço gradual, contínuo e incessante desse tipo. O simples estudo não é suficiente para isso. Esse objetivo só pode ser alcançado por meio de esforços e empenho constantes. Também devemos lembrar muito bem que este é um caminho de subidas e descidas. O sucesso nesse caminho reside no esforço incessante, com coragem e confiança. Haverá fracassos nesse caminho, mas será preciso enfrentá-los com firmeza. Os problemas desafiarão para a luta, mas será preciso vencê-los. As crises criarão obstáculos, mas será preciso superá-las. Essas são etapas inevitáveis desse caminho. Diante disso, ficaremos amedrontados ou recuaremos do caminho que conduz ao objetivo?
— Professor Khurshid Ahmad.
Primeiro: A base das relações mútuas: sua importância e necessidade
1. A base e o status das relações
O movimento islâmico é um chamado a uma revolução abrangente e total. Por isso, entre os deveres fundamentais mais importantes desse movimento revolucionário está vincular seus trabalhadores, de modo geral, a todas as pessoas e, de modo especial, uns aos outros, sobre a base correta. Para cumprir esse dever, o Islã esclareceu todos os aspectos dessas relações e determinou cada coisa, desde seus fundamentos até os detalhes mais minuciosos.
Para descrever as relações mútuas, o Alcorão utilizou uma forma de expressão extremamente concisa, porém eloquente, dizendo:
انما المؤمنون اخواة –
“Os crentes são irmãos uns dos outros” — Al-Hujurat: 10
À primeira vista, trata-se apenas de uma pequena frase composta por três palavras. Na realidade, porém, essa frase é suficiente para expressar a base das relações mútuas, seu valor ideológico e sua importância e profundidade para o movimento islâmico. Nesse sentido, ela poderia receber o status de estatuto (Charter) do movimento islâmico.
Isso prova que, no movimento islâmico, as relações entre as pessoas são relações ideológicas. A unidade de metas e objetivos estabelece seus fundamentos, e a unidade da fé no mesmo ideal lhe confere sua configuração. Em segundo lugar, por ser uma relação ideológica, não é uma relação insípida ou frágil. Pelo contrário, a estabilidade, a profundidade e o intenso amor que nela se combinam só podem ser expressos pelo exemplo da relação mútua entre dois irmãos. É a esse tipo de relação que se chama ukhuwat ou fraternidade. Na verdade, para fazer ecoar a estabilidade, a amplitude e a emoção que o Islã introduz numa relação ideológica, que palavra poderia ser melhor do que fraternidade (ukhuwat)?
2. A fraternidade é uma exigência inevitável da fé
Na civilização islâmica, o conceito de fé não se limita a reconhecer algumas verdades sobrenaturais e considerar a questão encerrada. Pelo contrário, é uma convicção de concepção mais ampla, que envolve o coração e a mente do ser humano e circula por suas veias e vasos sanguíneos como o sangue. É um sentimento que agita e mantém em efervescência seu peito. É uma força de pensamento que transforma a estrutura de sua mente, intelecto e coração. Acima de tudo, é a força executiva de uma gestão realista que submete todos os seus membros ao próprio controle e inicia uma revolução em toda a sua vida individual e coletiva. Como poderiam as relações mútuas entre as pessoas escapar ao alcance dessa fé tão amplamente influente? Especialmente quando é uma verdade incontestável que toda a vida humana — exceto uma parte insignificante — está intimamente ligada às relações mútuas entre as pessoas. É precisamente por isso que a fé ordena a seus seguidores que estabeleçam relações com todas as pessoas em geral e entre si em particular. Além disso, para fundamentar essas relações na justiça (adl) e na benevolência (ihsan), ela também molda um sistema de vida e uma civilização abrangentes. Por outro lado, transforma os fundamentos dos direitos e da dignidade num código completo, para que cada pessoa possa observá-lo a partir de sua própria posição. Assim como os dedos de uma mão se unem aos da outra, ou um irmão se une a outro irmão, as pessoas ligadas pela fé devem também unir-se umas às outras. E essa é uma exigência inevitável do valor ideológico da fé. É esse tipo de fé que a natureza humana exige, e é a respeito dela que sua consciência dá testemunho. Se aqueles que abandonam todas as cores para tingir-se apenas com a cor de Allah, renunciam a toda obediência para aceitar somente a obediência a Allah, rompem com toda falsidade para apegar-se apenas à verdade e se dedicam exclusivamente a Allah, não se vincularem uns aos outros nem estabelecerem relações de amor, então quem o fará? Que força maior do que a unidade de propósito pode unir uma pessoa a outra? Cada etapa dessa unidade de direção e do caminho da verdade continua transformando essa relação numa realidade viva. Aquele que se sacrifica pela verdade naturalmente depende e necessita do amor, da solidariedade, do consolo e do apoio de cada viajante desse caminho. Portanto, se, ao ingressar nesse caminho, ele não obtiver sequer essa bênção, nenhuma outra coisa poderá preencher uma carência tão grande.
3. A fraternidade é indispensável para uma revolução islâmica mundial
O objetivo fundamental da fé neste mundo (isto é, criar uma revolução islâmica mundial e estabelecer a civilização islâmica) exige, por sua própria natureza, uma relação sólida, estável e fraternal. Alcançar esse objetivo não é tarefa fácil. É equivalente a ‘aproximar-se do amor’. A cada passo, erguem-se tempestades de perigos e chegam inundações de provações. Evidentemente, para cumprir uma responsabilidade tão grande, a amizade de cada indivíduo é extremamente valiosa. Sua ausência não pode ser compensada por nenhum outro meio. Especialmente porque a escassez de apoiadores e ajudantes nesse caminho é uma realidade natural; por isso, não se pode tolerar nem por um momento um vazio desse tipo.
Além disso, nenhuma revolução abrangente pode ocorrer sem uma Jamaat organizada e poderosa. E uma Jamaat coesa e forte nasce precisamente quando as pessoas que a compõem se encontram intimamente ligadas umas às outras. Para esse fim, deve-se trabalhar de forma tão organizada que, naturalmente, se transforme numa ‘muralha de chumbo’ (بنيان مرصوص); dentro dela, nenhuma divisão ou desunião encontrará um caminho. Na verdade, somente um esforço tão coeso pode garantir o sucesso.
Allah Todo-Poderoso ordenou aos dirigentes de um Estado islâmico recém-formado que estabelecessem uma relação desse tipo:
يايها الذين امنوا اصبروا وصابروا ورابطوا واتقوا الله لعلكم تفلحون –
“Ó vós que credes! Sede pacientes e permanecei firmes diante da adversidade. Temei a Allah, para que possais alcançar o vosso objetivo.” (Al ‘Imran: 200)
Na parte final da Surata Al-Anfal, a relação mútua entre os muçulmanos é apresentada como uma condição indispensável para a realização plena da revolução islâmica. E é dito: aqueles que crerem nesta religião, renunciarem a tudo por ela e sacrificarem seus bens e suas vidas neste movimento terão, inevitavelmente, entre si uma relação de amizade e amor. Para essa relação, utiliza-se aqui a palavra “amizade”.
ان الذين امنوا وهاجروا وجاهدوا باموالهم وانفسهم فى سبيل الله والذين اواو ونصروا اولـــئك بعضهم اولــياء بعضٍ –
“Aqueles que creram, emigraram e combateram pela causa de Allah com suas vidas e seus bens, e aqueles que lhes deram abrigo, ajuda e apoio, são amigos uns dos outros.” (Al-Anfal: 72)
Avançando um pouco mais, fazendo alusão à unidade organizacional dos incrédulos e à força de seu grupo, afirma-se que, se os muçulmanos não estabelecerem relações de amizade semelhantes, o desejo de uma revolução islâmica mundial, fundamentada na justiça, na benevolência e na devoção a Allah, jamais poderá criar raízes firmes no mundo real. Consequentemente, o mundo de Allah ficará repleto de discórdia e corrupção. Pois, sem essas relações amistosas, não será possível aos muçulmanos enfrentar as forças contrárias à revolução.
والذين كفروا بعضهم اولـــياء بعضٍ – الا تفعلوه تكن فتنة فى الارض وفساد كبير –
“E os incrédulos são amigos e aliados uns dos outros. Se vós, ó crentes, não vos ajudardes mutuamente, haverá na Terra grande discórdia e grave corrupção.” (Al-Anfal: 73)
E é evidente que precisamente esse empenho e esforço pela instituição da civilização islâmica e pela criação da revolução islâmica constituem o verdadeiro critério para determinar a autenticidade ou falsidade da fé.
والذين امنوا وهاجروا وجاهدوا فى سبيل الله والذين اَوَاوْ ونصروا اولـــئك هم المؤمنون حقاً –
“Aqueles que creram, abandonaram suas casas e lutaram no caminho de Allah, e aqueles que lhes deram abrigo e auxílio, são os verdadeiros crentes.” (Al-Anfal: 74)
Pouco antes disso, Allah Todo-Poderoso, juntamente com a promessa de Seu auxílio contra os opositores, deu ao Profeta ﷺ a boa-nova acerca da comunidade dos crentes: Ele uniu estreitamente seus corações, e eles são a chave do sucesso da revolução islâmica.
هو الذى ايدك بنصره وبالمؤمنين – والّف بين قلوبهم-
“Foi Ele quem te auxiliou com Seu próprio auxílio e com os crentes, e uniu os corações dos crentes uns aos outros.” (Al-Anfal: 62–63)
4. As exigências da fraternidade: sua importância e seus resultados
Na verdade, a relação mútua entre os convocadores da revolução islâmica é uma relação de fraternidade (ukhuwwat), amizade, misericórdia e amor. Contudo, a palavra “fraternidade” é tão ampla em significado que incorpora em si mesma todas as demais virtudes. Isto é, assim como dois irmãos de sangue se unem, sem que se permitam entre eles diferenças de opinião, conflitos, discórdias ou divergências, os membros do movimento islâmico devem relacionar-se uns com os outros exatamente dessa maneira. Assim como dois irmãos estão prontos a sacrificar tudo um pelo outro, desejam mutuamente o bem, dedicam-se a ajudar e cooperar e tornam-se apoiadores e protetores um do outro, do mesmo modo se estabelece entre os caminhantes da senda da verdade — aqueles que dedicam toda a sua vida pela causa da religião do Islã — uma relação que desperta intensa emoção de amor e vitalidade. Em suma, quanto mais profundamente alguém estiver ligado à revolução islâmica, tanto mais profunda será a relação que estabelecerá com seu irmão companheiro. Do mesmo modo, quanto mais amada for essa finalidade para alguém, tanto mais querida lhe será também essa relação. Isso porque essa relação pertence exclusivamente àqueles que lutam por Allah e em Seu caminho. Portanto, se a relação de alguém que é membro e convocador da revolução islâmica com seu irmão companheiro for, durante a caminhada, como a de pessoas desconhecidas, ele deverá refletir sobre si mesmo e perguntar em que caminho está avançando. Ou, se sua relação com seus companheiros e colaboradores for tão passageira quanto a poeira sacudida do corpo, deverá refletir sobre o valor que a finalidade à qual afirma dedicar seu amor realmente tem em seu coração.
Foi justamente por causa desta relação de fraternidade que o nobre Profeta (s.a.w.)حب الله utilizou uma expressão tão sagrada, abrangente e bela como “amor por Allah”. “Amor” é, por si só, uma expressão grandemente cativante e agradável ao ouvido. As duas qualificações “no caminho de Allah” e “por Allah” elevaram-na, de toda vulgaridade e impureza, ao mais alto nível de nobreza. Assim, esta expressão oferece simultaneamente ao coração e à razão um critério perfeito, pelo qual todo crente pode avaliar a sua relação.
Existe uma relação inseparável entre a fé em Allah e o amor por Ele. Onde uma delas estiver presente, a outra também será encontrada. Se uma delas estiver ausente, a outra se tornará duvidosa. Por isso, o nobre Profeta (s.a.w.) disse:لا تؤمنوا حتى تحابوا
“Não sereis crentes até que ameis uns aos outros.” (Muslim, de Abu Huraira)
Em seguida, foi declarado que estabelecer toda a relação sobre esta base e consagrar o amor e a inimizade exclusivamente a Allah é uma condição indispensável para a perfeição da fé:
من احب لله وابغض لله واعطى لله ومنع لله فقد استكمل الايمان –
“Aquele que ama somente por Allah, demonstra inimizade por Allah, dá algo a alguém por Allah e retém algo de alguém por Allah, aperfeiçoou a sua fé.”
A amizade e a inimizade exercem, de fato, uma influência extremamente poderosa na vida das pessoas. Por isso, é inteiramente natural e lógico que consagrá-las exclusivamente a Allah seja uma condição indispensável para a perfeição da fé. A fé possui numerosos ramos e subdivisões. Cada um deles é importante no seu próprio âmbito. Tendo em vista que o amor por Allah é tão necessário para tornar uma força bem organizada dominante, o nobre Profeta (s.a.w.) chamou-o de superior a todas as ações. Hazrat Abu Dharr (r.a.) narra:
خرج علينا رسول الله صلى الله عليه وسلم فقال أتد رون اىُّ الاعمال احب الى الله تعالى قال قائـــل الصلوة والزكوة وقال قائـــل الجهاد قال النبى صلى الله عليه وسلم ان احب الاعمال الى الله تعالى الحب لله والبغض لله –
“Certa vez, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) veio até nós. Ele perguntou: ‘Vocês sabem qual ação é mais amada por Allah, o Altíssimo?’ Alguns responderam: ‘A oração e o zakat.’ Outros disseram: ‘O jihad.’ O Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: ‘Amar somente por Allah e ser hostil somente por Allah é, entre todas as ações, o que Allah mais ama.’ (Ahmad, Abu Dawud, Abu Dharr)”
Em outra ocasião, Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) perguntou, dirigindo-se a Hazrat Abu Dharr (que Allah esteja satisfeito com ele):
يا اباذرٍّ اىُّ عرى الايمان اوثق قال الله ورسوله اعلم قال
الموالاة فى الله والحب لله وابغض لله “Ó Abu Dharr! Qual ação da fé é a mais sólida?” Ele respondeu: “Allah e Seu Mensageiro sabem melhor.” O Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “É a amizade pelo caminho de Allah, o amor por Sua causa e a inimizade por Sua causa.” (Al-Bayhaqi, Ibn Abbas)
O termo mencionado no hadith عرى também significa uma corda e o aro ou a alça de utensílios de mesa. Além disso, também se chama عرى a árvore cujas folhas não caem nem mesmo no inverno. Em outras palavras, o amor pelo caminho de Allah é uma base tão sólida que, apoiando-se nela, a pessoa pode cumprir tranquilamente as exigências da fé. Em tal base jamais surgem fissuras, nem ela desmorona.
Em suma, a fé exige a vida inteira da pessoa. Isto é, cada momento da vida — enquanto a respiração continuar entrando e saindo do corpo — deve ser vivido de acordo com as exigências da fé. Porém, enquanto todas as relações do crente não se transformarem em relações de amor por Allah, não poderá começar na vida, de modo tão amplo, a prática de boas ações. Isso porque as relações constituem uma parte imensa da vida humana. Elas inevitavelmente influenciam sua vida e, de certo modo, tornam-se o padrão de sua amizade e de sua religião. Por isso, Allah, o Altíssimo, ordenou aos muçulmanos que unissem seu próprio ser àqueles em cuja vida a lembrança de Allah criou raízes firmes. E, para que eles seguissem o caminho da verdade e não se desviassem completamente, caindo no labirinto do esplendor e dos adornos da vida mundana, Ele utilizou a palavra ‘sabr’:
واصبر نفسك مع الذين يدعون ربهم بالغدوت والعشى يريدون وجهه ولا تعد عيناك عنهم تريد زينة الحيوة الدنيا –
‘Mantém-te junto daqueles que invocam o seu Senhor pela manhã e ao entardecer, buscando a Sua satisfação; e que o teu olhar não se desvie deles e corra para outra direção, desejando o brilho da vida mundana.’ — (Surata al-Kahf)
Por outro lado, o Nobre Profeta (s.a.w.) advertiu as pessoas a refletirem muito bem antes de estabelecerem uma amizade. Pois:
المرء على دين خليله فلينظر احدكم من يخالل – (احمد- ترمذى – ابو داود –بيهقى- ابو هريرة)
“A pessoa permanece na religião do seu amigo (khalil). Portanto, cada um de vós deve refletir cuidadosamente sobre quem escolheis para amigo.” (Transmitido por Abu Huraira, r.a.)
A palavra mencionada no hadithخليل deriva da raizخلت. Isso significa um amor e uma sinceridade que se arraigam profundamente no coração. No hadith, é apresentado um excelente exemplo do amor e da companhia de pessoas boas e más. Foi dito: a companhia de uma pessoa boa é como sentar-se junto de um vendedor de perfume; mesmo que não se obtenha perfume, a sua fragrância revigorará o coração e a mente. Do mesmo modo, mesmo que não se obtenha perfume, a sua fragrância revigorará o coração e a mente. Já o contato com uma pessoa má é como estar numa oficina de ferreiro; mesmo que as roupas não se queimem, a fuligem e a fumaça certamente deixarão o coração e o humor perturbados.
Ao alcançar um determinado nível de iman, a própria pessoa sente uma alegria e uma doçura especiais no iman e na realização das suas exigências práticas. É por causa dessa sensação de alegria que surge no ser humano a motivação para praticar boas ações. O Nobre Mensageiro (s.a.w.) chamou precisamente a isso deحلاوت الايمان. Ele mencionou três condições para isso. Uma delas é esta:
ان يحب المرء لا يحبه الا لله –
“Ele amará outra pessoa, e esse amor não será dirigido a ninguém além de Allah.” (Bukhari e Muslim)
Se um escravo e servo conseguir conquistar o amor do seu Proprietário e Senhor, o que mais poderia receber em troca desse imenso tesouro? Na realidade, esse amor é, para o crente, como um Mi‘raj. O Nobre Profeta (s.a.w.) disse: “Aqueles que estabelecem entre si relações de amizade por causa de Allah são dignos dessa imensa bênção.” Por isso, Hazrat Mu‘adh ibn Jabal (r.a.) diz:
سمعت رسول الله صلى الله عليه وسلم يقول قال الله تعالى وجبت محبتى للمتحابين فى المسجالسين فى المتزاورين فى والمتباذلين فى-
“Ouvi o Mensageiro de Allah dizer que Allah, o Altíssimo, afirmou: ‘Meu amor torna-se obrigatório para aqueles que se amam uns aos outros por Minha causa, que se sentam juntos por Minha causa, que visitam uns aos outros por Minha causa e que gastam seus recursos uns com os outros por Minha causa.’ — (Malik)
5. Os benefícios da fraternidade na Outra Vida
Os frutos desse amor por Allah já se manifestam na vida mundana; porém, na Outra Vida, quando cada boa ação do ser humano será considerada valiosa e até mesmo a caridade de uma única tâmara e uma boa palavra serão reconhecidas como um grande ganho para ele, essa relação conferirá a um crente uma posição elevadíssima. Na verdade, considerando tudo o que sabemos sobre a importância dessa relação no que diz respeito à revolução islâmica, isso é algo bastante natural e evidente.
Naquele dia, ninguém terá qualquer preocupação com os outros. A pessoa fugirá para longe, deixando para trás tudo: seus pais, irmãos e irmãs, esposa, filhos e filhas. Estará disposta até mesmo a oferecer todos eles como resgate para salvar-se do Inferno. Naquele dia, todo o segredo da amizade será revelado, e o amigo a quem, na vida mundana, ela ofereceu amor e cuja imagem havia se enraizado em sua mente transformar-se-á ali em inimigo. Mas a amizade dos verdadeiramente tementes a Allah permanecerá naquele lugar. Isso porque, naquele dia de angústia, será conhecido com precisão e sua importância será devidamente sentida: o que esses amigos deram uns aos outros, na vida mundana, que lhes poderá ser útil naquele dia.
الا خلاء يومئذ بعضهم لبعض عدو الا المتقين ياعباد لا خوف عليكم اليوم ولا انتم تحزنون –
“Naquele dia, os que eram amigos uns dos outros tornar-se-ão inimigos, exceto os muttaqi. Ó Meus servos! Hoje não haverá temor algum sobre vós, nem ficareis aflitos.” — (Surata Az-Zukhruf)
Assim, o destino da pessoa estará ligado ao daqueles com quem estabeleceu uma relação de amor. Mesmo que aqueles que se amam por Allah estejam um no Oriente e o outro no Ocidente, ainda assim o Grandioso Senhor, Rabbul-Alamin, Allah, os reunirá no Dia da Ressurreição e dirá: ‘Aquele por quem nutriste amor por Minha causa é justamente este homem.’ A narração do hadith é a seguinte:
1) المرء مع من احبَّ
2) لو ان عبد ين تحابَّا فى الله عزَّ وجلَّ واحد فى المشرق واخر ى المغرب لجمع الله بينهما يوم القيامة يقول هذا الذى كنت تحبه فىَّ
1. “A pessoa estará ligada, em seu destino, àquele que ama.” (Bukhari, Muslim; Ibn Masud, que Allah esteja satisfeito com ele.)
2. “Mesmo que dois homens que nutrem amor um pelo outro por Allah estejam um no Oriente e o outro no Ocidente, Allah, o Senhor dos mundos, reunirá ambos no Dia da Ressurreição e dirá: ‘Este é aquele por quem nutrias amor por Minha causa.’” (Bayhaqi; Abu Huraira, que Allah esteja satisfeito com ele.)
Naquele dia, fogo será lançado sob os pés das pessoas, haverá nuvens de fogo sobre suas cabeças e delas cairão faíscas de fogo. À direita, à esquerda, à frente e atrás, somente o fogo as envolverá, e haverá apenas uma sombra na qual poderão buscar abrigo. E essa será a sombra do Trono Divino. Naquele dia, sete categorias de pessoas encontrarão lugar nessa sombra. Sobre elas, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse:
رجلان تحابَّا فى الله اجتمعا عليه وتفرق عليه –
‘Entre eles haverá dois homens que se amaram por Allah, se reuniram por Sua causa e se separaram por Sua causa.’
Que a misericórdia de Allah recaia sobre aquele que nos transmitiu este mandamento Dele:
ان الله تعالى يقول يوم القيامة اين المتحابون فىَّ بجلا لى اليوم اظلهم فى ظلى يوم لا ظلَّ الا ظلِّى –
‘Allah, o Altíssimo, dirá no Dia da Ressurreição: “Onde estão hoje aqueles que se amavam por causa da Minha grandeza? Hoje, Eu lhes darei abrigo à Minha sombra. Hoje, não há sombra alguma além da Minha sombra.” — (Muslim — Abu Huraira, que Allah esteja satisfeito com ele.)
E que grande honra será para aqueles sobre os quais Allah, o Altíssimo, transmitiu a seguinte notícia:
المتحابون بجلالى لهم منابر من نور يغيطهم النبيون والشهداء –
‘Para aqueles que se amam por causa da Minha grandeza serão preparados, na Outra Vida, púlpitos de luz, e os profetas e os mártires terão inveja deles.’ — (Tirmidhi — Mu‘adh ibn Jabal)
6. A importância das relações mútuas
Essa relação profunda, estável e repleta de afeição, baseada numa única fé por Allah, é tão importante para o movimento islâmico que qualquer distorção dela foi vista com extrema preocupação. A advertência severa que foi proferida sobre a ruptura das relações mútuas, a promessa feita quanto à reconciliação entre as pessoas e à promoção dessa reconciliação, e tudo o que foi dito sobre aqueles que corrompem as relações serão discutidos em detalhes mais adiante. Entretanto, é necessário lembrar aqui que o Nobre Profeta (s.a.w.) comparou a distorção das relações e o cultivo da inimizade a uma arma que elimina completamente toda a religião:
هى الحالقة لا اقول تحلق الشعر ولكن تحلق الدين – (احمد وترمذى- زبير)
A partir disso, pode-se compreender quão amplos e duradouros são os efeitos dessa relação. Aqueles que se vincularem a esta religião com devoção e sinceridade deixarão continuamente brotar do íntimo de seus corações fontes de amor por seus companheiros. Essa relação lhes será tão querida, e criará em seus corações um valor tão elevado, que estarão prontos a aceitar qualquer outro sacrifício; mas não tolerarão nenhum dano a ela.
Allah Ta’ala considerou esse vínculo de amor e afeição mútua, isto é, de fraternidade, entre os trabalhadores do movimento islâmico como uma de Suas maiores bênçãos. E sobre a jamaat islâmica que adquirir esse tesouro inestimável serão derramadas Sua graça e Sua bênção especiais. Isso porque essa relação é a força vital da jamaat islâmica e o sinal de sua vitalidade. Ela cria para seus membros um ambiente no qual, apoiando-se mutuamente, continuam a determinar o destino do caminho da verdade; permanecem sempre empenhados em conduzir uns aos outros pelo caminho da virtude. A grande riqueza de união, amor e fraternidade mútua que Allah Ta’ala concedeu à jamaat islâmica da primeira época é mencionada na Surata Al Imran e chamada de Sua bênção especial:
واذكروا نعمة الله عليكم اذ كنتم اعداء فالف بين قلوبكم فاصبحتم بنعمته اخوانًا –
“E lembrai-vos da bênção de Allah para convosco: quando éreis inimigos uns dos outros, Ele uniu vossos corações e, por Sua misericórdia, vos tornastes irmãos.” — (Al Imran: 103)
Em seguida, na Surata Al-Anfal, dirigindo-se ao Nobre Profeta (que a paz esteja com ele), foi dito que, mesmo que se gastassem todas as riquezas do mundo, não vos teria sido possível unir os corações dos muçulmanos em uma relação de amor, afeição e fraternidade. Isso só foi possível pelo poder de Allah Ta’ala — somente Ele tinha poder para fazê-lo. Ele concedeu às pessoas uma religião e lhes deu a capacidade de ter fé e amor por ela. O resultado inevitável disso é este amor e esta afeição.
Dois: A necessidade do caráter e suas características fundamentais
Para estabelecer e manter o padrão que o Islã determinou também para as relações mútuas, Allah e Seu Mensageiro (que a paz esteja com ele) estabeleceram um conjunto de normas com base nos direitos e na dignidade recíprocos. Seguindo essas normas, essa relação pode facilmente ser elevada ao padrão almejado pelo Deen do Islã. A base dessas normas está assentada em alguns princípios fundamentais. Se a pessoa os adotar e seguir em sua vida moral, tudo relacionado àqueles direitos e àquela dignidade continuará a manifestar-se como consequência natural dessas qualidades fundamentais. Em outras palavras, essas qualidades continuarão a exigir e a instar constantemente a pessoa, a partir de seu interior, a cumprir cada dever e a alcançar cada dignidade. Como resultado, não será necessário oferecer bons conselhos ou advertências a cada passo. Entre essas qualidades, a primeira e mais importante é desejar o bem.
1. Desejar o bem
No Hadith Sagrado, a palavra “nasihah (“نصخت) foi usada para o desejo de bem. Essa palavra tem um significado extremamente amplo. Por isso, o nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) afirmou até mesmo: الدين النصيحة (ثلاثا) “A religião consiste exclusivamente em desejar o bem.” (Ele pronunciou esta frase três vezes consecutivas.) — Muslim.
Em seguida, como explicação mais detalhada, foram mencionadas as pessoas a quem se deve desejar o bem. Entre elas, também são mencionados os muçulmanos em geral. Assim, certa vez, o Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) recebeu de alguns de seus Companheiros o juramento de desejar o bem (nasihah) aos muçulmanos em geral. À luz do significado lexicográfico, o sentido dessa palavra é que não deve permanecer qualquer falsidade ou deficiência na relação. Em outras palavras, podemos definir essa qualidade da seguinte maneira: a pessoa estará sempre empenhada em pensar no bem e no benefício de seu irmão; a cada momento estará ansiosa por promover o bem dele, esforçar-se-á de todas as formas para beneficiá-lo e não aceitará causar-lhe qualquer dano ou sofrimento. Pelo contrário, procurará ajudá-lo em tudo o que for possível, tanto nos assuntos da religião quanto nos assuntos mundanos. O verdadeiro critério para desejar o bem é que a pessoa deseje para seu irmão exatamente aquilo que deseja para si mesma. Pois ninguém pode desejar o próprio mal. Pelo contrário, cada um se empenha em obter para si o máximo possível de benefício, bem e prosperidade. Quando se trata de seus próprios direitos, não aceita sofrer o menor prejuízo; não é avarento ao gastar tempo e dinheiro para seu próprio benefício; não consegue ouvir falar de seu próprio dano; jamais tolera sua própria desonra; ao contrário, deseja obter para si a maior quantidade possível de oportunidades e facilidades. Portanto, desejar o bem significa que essas qualidades mencionadas devem surgir no caráter humano, e que a pessoa deve desejar para seu irmão exatamente aquilo que deseja para si mesma. Dessa forma, sua conduta e seu comportamento continuarão a se desenvolver.
O Mensageiro Nobre (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) mencionou esta característica moral do crente como uma condição indispensável da fé:
والذى نفسى بيده لا يؤمن عبد حتى يحب لاخيه ما يحب لنفسه –
“Juro por Aquele em cuja mão está a minha vida! Nenhum servo pode tornar-se crente enquanto não desejar para seu irmão aquilo que deseja para si mesmo.” (Bukhari e Muslim — Anas)
Assim, foram mencionados seis direitos importantes de um muçulmano sobre outro muçulmano; entre eles, o desejo de bem foi descrito da seguinte forma em um Hadith:
وينصح له اذا غاب او شهد –
Isto é: “Ele deseja o bem de seu irmão, esteja ele presente ou ausente.” (Siyaghi-Bukhari — Abu Huraira, que Allah esteja satisfeito com ele)
Em outro hadith, é dito a esse respeito que o muçulmano tem seis direitos sobre outro muçulmano, um deles é:
ويحب له ما يخب لنفسه –
“Aquilo que deseja para si, deseja também para ele.” (Tirmizi, Fábisi-Ali (que Allah esteja satisfeito com ele).)
Mais adiante, veremos quantos direitos e honras estão contidos nessa qualidade de desejar o bem, os quais surgem diretamente como suas exigências inevitáveis.
2. Autossacrifício (ايثار)
Quando um muçulmano não apenas deseja para seu irmão o mesmo que deseja para si, mas lhe dá preferência sobre si mesmo, essa qualidade é chamada de ايثر ou autossacrifício. Esta é a segunda qualidade fundamental. ايثارA palavra اثر deriva de . Seu significado é dar um passo à frente ou dar preferência. Em outras palavras, o muçulmano dará preferência ao bem-estar e à prosperidade de seu irmão sobre seu próprio bem-estar e prosperidade. Deixará sua própria necessidade de lado para atender à necessidade de outro. Suportará dificuldades para proporcionar conforto a outro. Permanecerá faminto para saciar a fome de outro. Se necessário para si mesmo, aceitará coisas contrárias à sua disposição e natureza, mas protegerá, tanto quanto possível, o coração de seu irmão de qualquer situação desagradável.
Na verdade, esta é uma nobre qualidade de caráter, que não se pode esperar de todos. Isso porque nenhum direito ou dever foi estabelecido como seu fundamento. No entanto, com base nela, manifesta-se uma grandeza de caráter ilimitada.
Esse autossacrifício deve ocorrer, antes de tudo, dentro dos limites das necessidades; depois, no âmbito do conforto e do luxo; e, por fim, no âmbito da disposição e da natureza. Este último aspecto é especialmente importante. As pessoas são naturalmente diferentes em sua natureza e, por isso, seus desejos e necessidades também assumem formas diversas. Nessas circunstâncias, se cada pessoa permanecer inflexível diante das exigências de sua própria natureza, a sociedade humana estará fadada a se desintegrar completamente. Por outro lado, se aprender a dar preferência ao gosto, às preferências e às inclinações dos outros, poderão formar-se relações extremamente excelentes e cordiais.
O nível mais elevado desse autossacrifício consiste em dar prioridade às necessidades do próprio irmão acima das suas, mesmo estando você próprio em necessidade, privação e dificuldades. A vida dos companheiros do Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) está repleta de acontecimentos desse tipo. O Alcorão também elogiou essa qualidade deles:
ويوثرون على انفسهم ولو كان بهم خصاصة –
“E dão preferência aos outros, em detrimento de si mesmos, mesmo estando em necessidade.” — (Surata Al-Hashr, 9)
De fato, a maneira como os Ansar, apesar de sua própria pobreza e privação, receberam os irmãos Muhajirun e lhes deram espaço entre si é, sem dúvida, um exemplo ideal de autossacrifício. Como ocasião da revelação do versículo acima, menciona-se um episódio de Hazrat Abu Bakr Talha Ansari. Esse episódio oferece um exemplo extraordinário disso:
“Certo dia, um homem faminto foi até o nobre Mensageiro (que a paz esteja com ele). Naquele momento, não havia comida em sua casa. Ele disse: ‘Quem hospedar este homem como convidado nesta noite, Allah derramará Sua misericórdia sobre ele.’ Hazrat Abu Talha levou o homem para sua casa. Ao chegar, porém, soube por sua esposa que em casa havia apenas comida suficiente para saciar o convidado. Ele disse: ‘Alimente as crianças e apague a lamparina. Nós dois passaremos toda a noite sem comer. Naturalmente, o convidado pensará que também estamos comendo.’ Por fim, foi exatamente isso que fizeram. Pela manhã, quando se apresentaram diante do Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele), ele disse: ‘Allah ficou extremamente satisfeito com essa sua boa ação’, e em seguida recitou-lhes este versículo.” (Bukhari e Muslim)
Este é um exemplo de autossacrifício em meio à privação financeira. Mas um acontecimento ainda mais extraordinário ocorreu durante uma Jihad, podendo ser chamado de ápice do autossacrifício. O episódio foi o seguinte:
“No campo de batalha, levaram água a um homem ferido. Exatamente naquele momento, ouviu-se, dali perto, o lamento de outro homem. O primeiro disse: ‘Levem-na primeiro àquele homem.’ Quando chegaram ao segundo homem, a mesma situação se repetiu, e ele, mesmo em estado agonizante, deu prioridade à necessidade de seu companheiro. Assim, a mesma situação repetiu-se até o sexto homem, e cada um passou a dar preferência à necessidade do outro em detrimento da sua própria. Porém, quando chegaram ao sexto homem, descobriram que sua vida já havia se apagado. E, ao retornarem ao primeiro homem, um após outro, todos haviam falecido.”
Outro significado do autossacrifício é contentar-se pessoalmente com um objeto de qualidade relativamente inferior e oferecer ao companheiro o objeto de melhor qualidade. Certa vez, o Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) passava por uma floresta. Cortou dois miswaks: um era reto e o outro, curvo. Havia um companheiro com ele. Ele lhe deu o miswak reto e ficou com o curvo. O companheiro disse: ‘Ó Mensageiro de Allah, este é melhor e mais adequado para você.’ Ele respondeu: ‘Se alguém mantiver convivência com outra pessoa mesmo pelo período de uma hora, no Dia do Juízo será perguntado se observou o direito devido durante essa convivência ou se o negligenciou.’ (Kimiya-ye Sa’adat) Na realidade, isso indica que o autossacrifício também é um direito da convivência.
3. Adl (justiça imparcial)
Duas qualidades fundamentais importantes do caráter são o Adl e o Ihsan. Se o crente seguir essas duas qualidades, não apenas nenhuma causa de rompimento das relações conseguirá erguer a cabeça, como também as relações se tornarão extremamente afetuosas. Por isso, Allah Ta’ala ordenou expressamente a respeito dessas duas qualidades:
ان الله يأمر بالعدل والاحسان –
“Allah Ta’ala ordena que se mantenham firmes no Adl e no Ihsan.” — (Surata An-Nahl-9)
Aqui, a expressão “Allah está ordenando” merece atenção especial. O conceito de Adl contém duas verdades fundamentais. Primeiro: deve-se manter igualdade e equilíbrio no que diz respeito aos direitos das pessoas. Segundo: é direito de cada pessoa que os direitos devidos a todos — morais, sociais, civilizacionais, políticos, econômicos e assistenciais — sejam cumpridos com plena sinceridade de fé. Isto é, um muçulmano deve cumprir todos os direitos legítimos de seu irmão conforme a Shariah, agir de acordo com a vontade da Shariah e tratá-lo segundo as instruções da Shariah. Pois é na Shariah que todas as normas e disposições do Adl foram inseridas de modo completo e belo:
وانزلنا معهم الكتاب والميزان ليقوم الناس بالقسط –
“E fizemos descer com eles (os Mensageiros) o Livro, a balança e a justiça, para que as pessoas possam estabelecer a equidade.” — (Al-Hadid-25)
Da mesma forma, a Shariah exige que, ao retribuir o mal causado por alguém, se retribua apenas na mesma medida do mal que foi cometido. Quem ultrapassar esse limite terá se oposto ao próprio Adl. Uma explicação ampla e uma compreensão completa do Adl foram apresentadas em um hadith do nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Nesse hadith, são mencionadas nove coisas ordenadas por Allah. Uma delas é esta:
كلمة العدل فى الغضب والرضاء –
‘Permanece firme na palavra da justiça, esteja em estado de ira ou de satisfação.’
Na realidade, o sinal fundamental de um caráter plenamente desenvolvido é que, qualquer que seja o estado interior da pessoa, ela não se desviará do caminho da justiça. Deve possuir tanta força de caráter que, por maior que seja a desavença ou o ressentimento entre ela e seu irmão, não permitirá que seus negócios, conduta e comportamento se desviem dos padrões da Sharia. A coisa que se segue a esse Adl é o Ihsan. Este é algo além do Adl.
4. Ihsan (boa conduta)
Nas relações mútuas, a importância do Ihsan é ainda maior que a do Adl. Se o Adl pode ser chamado de fundamento da relação, o Ihsan é sua beleza e perfeição. Se o Adl protege a relação da antipatia e da amargura, o Ihsan cria nela doçura e harmonia. Na realidade, quando cada parte se limita a medir apenas o padrão mínimo da relação, não consegue permanecer por muito tempo recebendo um pouco menos do que lhe é devido e concedendo ao outro um pouco mais do que o seu direito. Como resultado de uma relação tão simples, talvez não surja conflito; mas a pessoa ficará privada das bênçãos do amor, do sacrifício, da moralidade e dos bons desejos, que criam alegria e doçura na vida. Pois essas bênçãos são alcançadas por meio das qualidades do Ihsan — isto é, boa conduta, generosidade no trato, compaixão, bons desejos, bom humor, tolerância, cortesia mútua, urbanidade, conceder ao outro mais do que o seu direito e contentar-se em receber menos do que o próprio direito, entre outras.
O conceito de Ihsan também torna três aspectos completos e claros no hadith que reúne nove aspectos:
ان اصل من قطعنى واعطى من حرمنى واعفو عمَّن ظلمنى –
‘Aquele que se afastar de mim, eu me unirei a ele; aquele que me privar do meu direito, eu lhe concederei o seu direito; e aquele que me tratar injustamente, eu o perdoarei.’ (Surata Ar-Ra‘d, 22)
Isto é, esta qualidade de caráter exige que a pessoa não apenas retribua a justiça e a bondade de seu irmão com justiça e bondade ainda maiores, mas que, mesmo quando ele agir injustamente, lhe responda com justiça.
ويدرون بالحسنة السيّئة –
“Eles repelem a injustiça e o pecado com justiça e bondade.” (Surata Al-Qasas, 54)
5. Misericórdia
Depois dessas quatro qualidades, usarei a palavra “misericórdia” para designar a quinta. Naturalmente, muitos outros termos também foram usados para isso.
Uso a palavra “misericórdia” porque o próprio Deus Todo-Poderoso escolheu esse termo para descrever as relações mútuas entre os muçulmanos. Isso aponta justamente para a amplitude de seu significado:
محمد الرسول الله والذين معه أشداء على الكفار رحماء بينهم –
“Muhammad, o Mensageiro de Allah, e seus companheiros são severos com os incrédulos e misericordiosos entre si.” (Surata Al-Fath, 29)
Para compreender esta qualidade de maneira simples, podemos referir-nos a ela como humildade e ternura do coração. Como resultado, no comportamento da pessoa manifestam-se profundo amor, afeição, carinho, compaixão e preocupação pelo seu irmão. Até mesmo imaginar que possa causar ao coração de seu irmão a menor dor ou ferida é algo doloroso para ela. Esta qualidade de misericórdia torna a pessoa popular e atrai para ela as pessoas comuns. O Alcorão mencionou-a como uma das principais qualidades do Mensageiro e apresentou vários exemplos dela no âmbito da da‘wah e da organização.
لقد جاءكم رسول من انفسكم عزيز عليكم ما عنتُّم حريص عليكم بالمؤمنين رؤف رَّحيم –
“Sem dúvida, veio até vós um Profeta dentre vós mesmos. Ele se aflige profundamente quando sois atingidos por qualquer sofrimento. Está sempre ansioso pelo vosso bem e é extremamente compassivo e misericordioso para com os crentes.” (Surata At-Tawbah, 128)
Na Surata Aal ‘Imran, foi dito que, se o seu coração não fosse terno, as pessoas jamais se aproximariam de você. E essa ternura do coração é uma misericórdia de Allah, o Altíssimo.
فبما رحمة من الله لنت لهم ولو كنت فظا غليظ القلب لا نفضُّيوا حولك –
“Foi pela misericórdia de Allah que você se tornou gentil e compassivo para com eles. Se fosse mal-humorado e de coração duro, eles certamente se afastariam de você.” (Aal ‘Imran, 159)
O resultado espontâneo da fé é o amor e a afeição. E o amor e a afeição jamais podem coexistir com um coração duro. Portanto, quando um crente se torna amoroso, naturalmente adquire um temperamento gentil. Caso contrário, não há bem algum em sua fé. Foi precisamente para esta verdade que o nobre Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) chamou a atenção da seguinte maneira:
المؤمن مالف ولا خير فيمن لا يألف ولا يولف – (احمد وبيهقى – ابو هريرة)
“O crente é um símbolo radiante de amor e afeição. Naquele que não ama ninguém e por quem ninguém é amado não há bem algum.” (Ahmad, Bayhaqi — Abu Huraira, que Allah esteja satisfeito com ele)
E por isso foi dito:
من يحرم الرفق يحرم الخير –
“Quem é privado de um caráter afável também é privado do bem.” (Muslim)
A explicação detalhada dessas palavras é a seguinte:
من اعطى حظه من الرفق اعطى حظه من خير الدنيا والاخرة –
“Aquele a quem foi concedida uma parcela de caráter afável também recebeu uma parcela do bem deste mundo e do Além.” (Sharh as-Sunnah — Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela)
Certa vez, o Magnífico Profeta (que a paz esteja sobre ele) mencionou um dos três habitantes do Paraíso. Esse homem era extremamente compassivo e solidário para com seus parentes e os muçulmanos em geral.
رحيم رفيق القلب لكل ذى قرب وَّ مسلم – (مسلم )
Na verdade, não há ninguém mais desafortunado do que aquele que não tem misericórdia das pessoas do mundo. Isso porque, na vida futura, será privado da misericórdia de Deus. Por outro lado, para aquele que tem misericórdia dos servos de Allah, a misericórdia de Allah torna-se inevitável. Por isso, Muhammad (S.A.W.) disse:
لا تنزع الرحمة الا من شقىٍّ –
“A misericórdia não é retirada de ninguém, exceto do desafortunado.”
Também disse:
الرحيمون يرحمهم الرحمن – ارحم من فى الارض يرحمكم من فى السماء –
“Aqueles que têm misericórdia receberão a misericórdia do Misericordioso. Tende misericórdia dos habitantes da Terra, para que os habitantes dos céus tenham misericórdia de vós.” – (Abu Dawud, Tirmidhi — Ibn Umar, R.A.)
É por meio da demonstração de afeto pelos mais jovens e de respeito pelos mais velhos que se manifestam essas duas diferentes dimensões da misericórdia e da gentileza. Essas duas coisas foram mencionadas nas seguintes palavras:
ليس منا من لم يرحم صغيرنا ولم يوقر كبيرنا –
“Não faz parte de nós aquele que não demonstra compaixão (afeição) pelos nossos mais jovens e respeito pelos nossos mais velhos.” (Tirmidhi—Ibn Abbas, que Deus esteja satisfeito com ele)
Um muçulmano é de natureza gentil no relacionamento com seu irmão e esforça-se ao máximo para, por todos os meios possíveis, manter seu coração feliz, não lhe causar sofrimento e atender a cada uma de suas reivindicações legítimas. O Nobre Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) explicou isso por meio do seguinte exemplo:
المؤمنون هينون لينون كلجمل ان قيد انقاد وان أنيخ على صخرة استنا خ –
“O crente é paciente e afetuoso como aquele camelo que tem um cabresto no nariz: quando é puxado, segue; e, quando é colocado sobre uma pedra, senta-se.” — (Tirmidhi)
O Alcorão Majestoso descreveu todo esse assunto de forma extremamente concisa:
اذلة على المؤمنين –
“Eles serão humildes e gentis para com os crentes.” — (Surata Al-Ma’idah, 5:54)
Na verdade, é precisamente essa qualidade de misericórdia que infunde nova vida e consciência nas relações humanas, conferindo plenitude à sua beleza e excelência. Se uma pessoa conseguir compreender, uma vez que seja, a grandeza dessa misericórdia, torna-se muito difícil convencer o seu coração a romper a relação por meio da qual recebeu essa bênção.
6. Perdão (عفوٌّ)
Perdão significa deixar de punir e perdoar. Naturalmente, esse significado abrange separadamente muitos aspectos, como o controle da ira, a paciência, a tolerância e assim por diante. Contudo, como esses aspectos estão intimamente relacionados com essa qualidade, nós os incluímos também nela. Quando se estabelece uma relação entre duas pessoas, é natural que cada uma delas faça, de uma forma ou de outra, algo que seja desagradável, amargo, doloroso ou triste para a outra. Algumas dessas coisas despertam ira no coração da outra pessoa, enquanto outras lhe dão até o direito de buscar uma vingança legítima. Porém, em situações desse tipo, uma relação de amor exige que o amor prevaleça, que, apesar de terem a possibilidade de se vingar, elas se abstenham disso e sigam o princípio do perdão e da indulgência. Essa era uma qualidade especial do caráter do Mensageiro de Deus (que a paz esteja sobre ele). Por isso, Allah, o Altíssimo, aconselhou-o em muitos lugares:خذ العفو –
“Adota o princípio da gentileza e da indulgência.” — (Surata Al-A‘raf, 199)
فاعف عنهم واستغفرلهم –
“Perdoa-lhes e pede perdão por eles.” — (Al ‘Imran, 159)
Ao ensinar as qualidades de piedade aos muçulmanos, também foi dito:
والكاظمين الغيظ والعافين عن الناس –
“Aqueles que controlam a própria ira e perdoam as pessoas.” — (Al Imran, 134)
Quando uma pessoa sofre ou lhe é causado algum dano, é sobretudo a ira que tenta dominar sua mente e seu coração. E, se a ira conseguir apoderar-se de seu coração e de sua mente, o perdão estará fora de questão; ela acaba cometendo atos tão anormais que desaparece toda esperança de uma relação saudável e normal no futuro. Por isso, antes de tudo, cada pessoa deve pensar em conter a própria ira. Se alguém tiver a oportunidade de refletir sobre essa relação com a mente tranquila, mesmo que depois não siga o princípio do perdão, ao menos não ultrapassará os limites da decência. O Nobre Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) advertiu em diversas ocasiões sobre os malefícios da ira e aconselhou a controlá-la. Ele disse:
ان الغضب ليقسد الايمان كما يفسد الصبر العسل –
“Certamente, a ira destrói a fé da mesma forma que um remédio venenoso destrói o mel.” — (Bayhaqi, de Ibn Umar, que Allah esteja satisfeito com ele)
ما تجرع عبد افضل عند الله عز وجل من جرعة غيظ يكظمها ابتغاء وجه الله تعالى –
“Aos olhos de Allah, nenhum gole engolido por um servo é superior ao gole de ira engolido em busca da satisfação de Allah.” (Ahmad, de Ibn Umar, que Allah esteja satisfeito com ele)
Da mesma forma, o Nobre Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) ensinou a paciência e disse que, em vez de romper os laços, suportar as dores e dificuldades com paciência e permanecer convivendo em harmonia constitui a melhor conduta humana. Ele disse:
المسلم خالط الناس ويصبر على اذاهم افضل من الذى لا يخالطهم ولا يصبر على اذاهم –
“O muçulmano que convive com as pessoas e demonstra paciência diante dos sofrimentos e dificuldades que elas lhe causam é superior àquele que se afasta da convivência com elas e não demonstra paciência diante dos sofrimentos e dificuldades.” (Tirmidhi, Ibn Majah — Ibn Umar, que Allah esteja satisfeito com ele)
Certa vez, ao aconselhar Hazrat Abu Bakr Siddiq, que Allah esteja satisfeito com ele, entre outras coisas, ele disse:
عبدا ظلم بظلمة فيغضى عنها لله عز وجل الا امر الله بنصره –
“Quando um servo é vítima de injustiça e permanece em silêncio unicamente pela satisfação de Allah, Allah lhe concede uma grande ajuda.” (Bayhaqi — Abu Huraira, que Allah esteja satisfeito com ele)
Depois da paciência vem o ato de perdoar de bom grado o próprio irmão, mesmo tendo capacidade de retribuir e se vingar. O Profeta, que a paz esteja com ele, disse: Hazrat Musa, que a paz esteja com ele, perguntou a Allah: “Quem, entre os servos, é mais querido para Ti?” Em resposta, Allah, o Altíssimo, disse:
من اذا قدر عذر –
“Aquele que perdoa apesar de ter capacidade de se vingar.” (Bayhaqi — Abu Huraira, que Allah esteja satisfeito com ele)
Do mesmo modo, o Nobre Profeta, que a paz esteja com ele, deu uma advertência severa àquele que não aceita o perdão de seu irmão:
من اعتذر الى اخيه فلم يعتذره او لم يقبل عذره كان عليه مثل خطيئة صاحب مكسٍ –
“Quem pedir perdão ao seu irmão por uma injustiça que cometeu, mas ele não o considerar perdoado ou não aceitar o seu pedido de perdão, terá tantos pecados quanto um cobrador de impostos ilegítimo.” (Tirmidhi — Sahl bin Muaz)
E aquele que perdoar o seu irmão apesar de estar irado terá a melhor recompensa também na vida futura. Por isso, o nobre Profeta (que a paz esteja com ele) disse:
من كظم غليظا وهو يقدر على ان ينقذه دعاه الله على رئوس الخلائق يوم القيامة حتى يخيره فى اى الحور شاء –
“Quem, embora tivesse poder para satisfazer a sua ira, a contiver, no Dia da Ressurreição Allah o chamará diante de toda a criação e lhe dará a escolha de selecionar qualquer hurí que desejar.” (Tirmidhi — Sahl bin Muaz)
Aqueles que perdoarem na vida terrena terão suas faltas perdoadas por Allah, o Altíssimo.
وليعفوا وليصفحوا الا تحبون ان يغفرالله لكم والله غفور رَّحيم –
“Eles devem adotar a política do perdão e da indulgência. Não desejais que Allah vos perdoe? Na verdade, Allah é Perdoador e Misericordioso.” (Surata An-Nur, 22)
É claro que se pode retribuir uma injustiça com outra de igual proporção, mas a recompensa daquele que perdoa está junto de Allah.وجزاؤ اسيّئة سيّئة مّثلها – فمن عفا واصلح فاجره على الله انه لا يحب الظالمين –
“A retribuição da injustiça é uma injustiça de igual proporção. Mas aquele que perdoar e promover a reconciliação terá sua recompensa junto de Allah; Ele não aprecia os injustos.” (Surata Ash-Shura-40)
Conquistar essa qualidade do perdão não é tarefa fácil. É um ato de grande coragem.
ولمن صبر وغفر ان ذالك من عزم الامور-
“Quem perseverar e perdoar terá praticado um ato de grande coragem.” (Surata Ash-Shura-43)
Mas é justamente isso que cria grandeza e pureza no relacionamento. Por isso, é uma qualidade extremamente importante.
Neste contexto, considero necessário mencionar ainda duas qualidades. Uma é a confiança ou dependência mútua, e a segunda é a percepção de valor.
7. Confiança
O termo amizade também está contido no conceito abrangente de confiança. O conceito que o Alcorão utiliza para definir a natureza das relações mútuas entre os muçulmanos está nele implícito. Na realidade, chama-se amigo àquele que é inteiramente digno de confiança e a quem uma pessoa pode revelar todos os seus segredos com plena tranquilidade. E a relação de fraternidade exige que a pessoa confie em seu companheiro e o associe continuamente a todos os assuntos da vida.
8. Compreensão do valor
O objetivo desta última coisa é que a pessoa esteja suficientemente consciente da importância e da dignidade dessa relação, para que possa compreender seu verdadeiro valor. E isso só será possível quando a pessoa, de modo algum, consentir em romper essa relação.
Três: Meios de proteger a relação contra a distorção
À luz desses princípios fundamentais e dessas virtudes, Allah e Seu Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) nos proporcionaram uma orientação abrangente, para que a relação possa ser elevada ao nível desejado. Alguns desses elementos são negativos: protegem a relação contra males. Outros são positivos: conferem-lhe maior estabilidade e fomentam o afeto.
A primeira e principal coisa proibida é interferir nos direitos.
1. Interferência nos direitos
Neste mundo, toda pessoa possui algum direito. Esses direitos existem tanto em relação às coisas utilizadas pelas pessoas quanto em relação às pessoas ligadas a elas. É dever de um muçulmano manter uma vigilância rigorosa sobre si mesmo, para não se tornar culpado do crime de usurpar qualquer um desses dois tipos de direitos de seu irmão. Assim como não usurpará os direitos de seu irmão relativos a riqueza, propriedade ou interesses materiais, também não deixará de cumprir os deveres que lhe incumbem para com ele no que diz respeito à sua vida, seus bens, sua honra e castidade, e sua religião. O Alcorão discorre detalhadamente sobre todos esses direitos. Em cada questão — herança, casamento, divórcio e todas as demais — Allah estabeleceu Seus limites e fechou o caminho para que se interfira neles. Os pormenores relacionados a isso são mencionados com muita clareza nos hadiths. Além disso, nos lugares em que são apresentadas as normas e disposições pertinentes, exortações sobre os direitos e o temor de Allah são feitas em linguagem extremamente severa, e adverte-se sobre as más consequências de transgredir os limites estabelecidos.
تلك حدود الله فلا تعتدوها ومن يعتدَّ حدود الله فاولـــئك هم الظالمون –
“Estes são os limites estabelecidos por Allah; portanto, não os transgridais. Quem transgride os limites de Allah, esse é um injusto.” (Surata Al-Baqarah, 229)
تلك حدود الله ومن يطع الله ورسوله يدخله جنات تجرى من تحتها الانهار خالدين فيها وذالك الفوز العظيم- ومن يعص الله ورسوله ويعتدَّ حدوده يدخله نارا خالدا فيها وله عذاب مُّهين –
“Estes são os limites estabelecidos por Allah. Quem obedecer a Allah e ao Seu Mensageiro, Ele o fará entrar em jardins sob os quais correm rios, onde permanecerá eternamente. Esse é o maior sucesso. E quem desobedecer a Allah e ao Seu Mensageiro e transgredir os limites estabelecidos por Allah, Ele o lançará no fogo do Inferno, onde permanecerá para sempre; e terá um castigo humilhante.” (Surata An-Nissá, 13–14)
O Santo Profeta (que a paz esteja sobre ele) explicou isso aos muçulmanos da seguinte maneira:
من اقتع حق امرء مسلم بيمينه فقد اوجب الله له النار وحرَّم عليه الجنة –
“Quem, jurando, usurpar o direito de um muçulmano, certamente terá o Inferno como destino inevitável e o Paraíso lhe será proibido.
Alguém entre os companheiros perguntou:
وان كان شيئا يسيرا يا رسول الله ! فقال ان كان قضيبا من اراك –
“E se for algo insignificante?” O Grandioso Profeta (que a paz esteja com ele) respondeu: “Sim, mesmo que seja um galho inútil e insignificante de uma árvore de pilu.”
Certa vez, ao explicar isso aos Companheiros de maneira muito agradável, o Mensageiro (que a paz esteja com ele) perguntou-lhes:
أتدرون المفلس؟ قالوا المفلس فينا من لا درهم له ولا متاع فقال ان المفلس فى امتى من يأتى يوم القيامة بصلوة وصيام وزكوة وياتى قد شتم هذا وقذف هذا واكل مال هذا وسفك دم هذا وضرب هذا فيعطى هذا من حسناته وهذا من حسناته فان فنيت حسناته قبل ان يقضى ما عليه اخذ من خطاياهم فطرحت عليه ثم طرح فى النار –
“Sabem quem é o pobre? Os Companheiros disseram, considerando o sentido comum: pobre é aquele que não possui bens. O Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: O verdadeiro pobre entre a minha comunidade é aquele que, no Dia da Ressurreição, virá com obras como a oração, o jejum e o zakat, mas também virá com as obras de ter insultado alguém, caluniado alguém, consumido os bens de alguém, derramado o sangue de alguém e espancado alguém. Então, suas boas ações serão dadas a uma pessoa injustiçada. Depois, suas boas ações serão dadas a uma segunda pessoa injustiçada. Assim, se suas boas ações se esgotarem antes da decisão final, os pecados dos detentores do direito serão trazidos e lançados sobre ele; depois, ele será lançado no Inferno.” (Muslim — Abu Huraira, que Allah esteja satisfeito com ele)
Para preservar da corrupção as relações da vida terrena e escapar do castigo da Outra Vida, é necessária a plena proteção dos direitos. Por isso mesmo, o Nobre Mensageiro (que a paz esteja com ele) aconselhou especialmente que, antes de sua morte, a pessoa pedisse aos seus irmãos muçulmanos perdão por suas próprias faltas.
O fundamento principal da proteção dos direitos é que a vida, os bens e a honra dos muçulmanos estejam protegidos das mãos e da boca de seu irmão. O Nobre Mensageiro (que a paz esteja com ele) incluiu isso entre as qualidades essenciais. Ele disse:
المسلم من سلم المسلمون من لسانه ويده –
“Muçulmano é aquele de cuja língua e mãos todos os muçulmanos estão a salvo.” (Bukhari e Muslim — Abdullah ibn Umar, que Allah esteja satisfeito com ele)
2. A segurança do corpo e da vida
Para todo muçulmano, seu corpo e sua vida são as coisas mais queridas e valiosas. Aquele que agir injustamente nesse assunto jamais poderá considerá-lo seu irmão. Por isso, os muçulmanos foram severamente proibidos de derramar sangue injustamente:
ومن يقتل مؤمنا متعمدا فجزائه جهنم خالدا فيها وغضب الله عليه ولعنه واعدله عذابا عظيما –
“A recompensa de quem matar intencionalmente um crente é o Inferno, onde permanecerá eternamente. Allah lançou sobre ele Sua ira e Sua maldição, e preparou para ele o mais severo castigo.” (Surata An-Nissá, 93)
Durante a Peregrinação de Despedida, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) declarou, em uma linguagem extremamente eloquente, que a vida, os bens e a honra uns dos outros são invioláveis para os muçulmanos; depois disse: “Vede, não vos torneis descrentes depois de mim, começando a degolar uns aos outros.”
Assim, certa vez, ele disse:
سباب المسلم فسوق وقتاله كفرً-
“Insultar um muçulmano é fusuq, e lutar contra ele é kufr.” (Bukhari e Muslim)
O uso indevido da boca, mais do que o da mão, torna extremamente frágeis as relações mútuas. Isso continua gerando fitna de inúmeras maneiras. E cada fitna é tão complexa que resolvê-la é extremamente difícil. Por isso, é ainda mais necessário criar barreiras diante desse tipo de fitna. Assim, Allah e Seu Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) proferiram advertências muito amplas quanto ao uso da boca nas relações e, da mesma forma, identificaram cada causa de distorção e desordem dentro dos limites dessas relações, indicando meios de impedi-las.
O Alcorão diz aos muçulmanos:
ما يلفظ من قول الا لديه رقيب عتيد –
“Ele não profere palavra alguma sem que haja junto dele um observador.” (Surata Qaf, 18)
Certa vez, depois de dar vários conselhos a Hazrat Mu’az (que Allah esteja satisfeito com ele), o Nobre Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) segurou a própria língua e disse:كف عليك هذاSua obrigação é contê-la. Ele perguntou: Ó Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele)! Também seremos questionados sobre tudo o que dizemos? Ele respondeu:
هل يكبَّ الناس على وجوههم الا حصائد ألسنتهم –
“Que outra coisa, além da colheita da língua (isto é, da fala), lançará as pessoas no fogo do Inferno?” (Tirmidhi — Mu’az ibn Jabal)
Sufyan ibn Abdullah perguntou: “De que coisa, no que diz respeito a mim mesmo, devo ter mais medo?” O Mensageiro (que a paz esteja com ele) segurou a própria língua e disse: “Desta”.
3. Linguagem rude e insultos
Insultar um irmão pessoalmente, falar com ele em linguagem rude e zombar dele são completamente proibidos. Do mesmo modo, chamá-lo por nomes deformados também está incluído nisso. Sobre isso, o Alcorão diz:
ولا تنابزوا بالالقاب بئس الاسم الفسوق بعد الايمان –
“E não vos difameis com apelidos ofensivos; depois da fé, dar nomes ofensivos é transgressão.” (Surata Al-Hujurat, 11)
Da mesma forma, o Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse:
لا يدخل الجنة الجواط الجعظرى –
“Nenhuma pessoa de linguagem rude e mau caráter entrará no Paraíso.” (Abu Dawud, Al-Bayhaqi — Harith ibn Wahab)
ان ابغضكم الى وابغضكم منى عبسا يوم القيامة الثارثرون المتشدقون المتفيهقون –
“No Dia da Ressurreição, aos meus olhos, os mais amaldiçoados e os mais distantes de mim serão os tagarelas, os que usam linguagem obscena, os que falsamente alegam possuir conhecimento e os arrogantes.” (Tirmidhi — Jabir (r.a.))
ليس المؤمن بالطّعّان ولا بالَّعان ولا الفاحش ولا البذى –
“O crente não é zombador, nem amaldiçoador, nem obsceno, nem tagarela.” (Tirmidhi — Ibn Masud (r.a.))
Em suma, o crente não atentará de modo algum contra a honra e a dignidade de seu irmão diante dele.
4. Maledicência
Outra forma de corrupção é a maledicência. Ela é ainda mais grave que a anterior. Isso porque, nesse caso, a pessoa não fala mal de seu irmão diante dele; senta-se e fala mal dele pelas costas. Por isso, o Alcorão comparou a maledicência a comer a carne do próprio irmão morto:
لا يغتب بعضكم بعضا – أيحب أحدكم أن يأكل لحم اخيه ميتا فكرهتموه –
“Não faleis mal uns dos outros. Acaso algum de vós gostaria de comer a carne de seu irmão morto? Certamente, vós a detestaríeis.” (Surata Al-Hujurat, 12)
Certa vez, ao explicar a definição de calúnia, o Nobre Mensageiro perguntou aos Companheiros: ‘Sabeis o que é calúnia?’
Os Companheiros responderam: ‘Allah e Seu Mensageiro sabem melhor.’ Ele disse:
ذكرك اخاك بما يكره فقيل ارايت ان كان فى اخى ما اقول قال ان كان فيه ما تقول فقد اغتبته وان لم يكن فيه ما تقول فقد بهته –
“Calúnia é falar de vosso irmão de uma maneira que ele não aprovaria. Perguntaram: E se a deficiência mencionada existir em meu irmão? O Mensageiro respondeu: Se mencionardes uma deficiência que realmente existe nele, então tereis cometido calúnia. Mas, se ela não existir nele, tereis lançado uma acusação falsa contra ele.” (Muslim — Abu Huraira, que Allah esteja satisfeito com ele)
Com efeito, o respeito e a honra de um irmão muçulmano exigem que seu irmão não o difame pelas costas.
5. Intriga
Uma forma de calúnia é a intriga. Ao condená-la, o Alcorão diz:
همَّازٍ مَّشّاء بنميم –
“Aqueles que zombam das pessoas e se dedicam a transmitir intrigas.” (Surata Al-Qalam, 11)
Huzayfa (que Allah esteja satisfeito com ele) disse:
‘Ouvi o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) dizer: aquele que transmite intrigas não entrará no Paraíso.’
O nobre Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) aconselhou especialmente seus companheiros, dizendo:
لا يبلغنى احد من اصابى شيئا فانى احبَّ ان اخرج اليكم وانا سليم الصدر –
“Que ninguém me traga qualquer palavra ruim sobre outra pessoa, pois, quando venho até vocês, gosto que meu coração esteja limpo para com todos.” (Abu Dawud — Ibn Mas‘ud, que Allah esteja satisfeito com ele)
Entre a maledicência e a transmissão de intrigas inclui-se também a prática de causar dano não apenas com a língua, mas igualmente com as mãos, os pés e os olhos.
6. Humilhar
Uma forma particularmente grave de má conduta, que gera repulsa e hostilidade no coração humano, é envergonhar o próprio irmão, diante dele ou perante outras pessoas, por suas faltas e deficiências, e assim humilhá-lo. Como resultado de tal comportamento, seu coração fica dilacerado. Pois ninguém consegue suportar uma humilhação desse tipo.
No Alcorão, foi dito:
ولا تلمزوا انفسكم –
‘Não acuseis o vosso irmão.’ (Surata Al-Hujurat, 11)
Em um hadith, o Mensageiro de Deus (que a paz esteja com ele) disse: Aquele que envergonhar seu irmão por algum pecado não morrerá antes de cometer ele próprio esse pecado.
من غيَّر اخاه بذنب لم يمت حتى يعمله –
Em um hadith narrado por Hazrat Ibn Umar (que Deus esteja satisfeito com ele), Hazrat (que a paz esteja com ele) mencionou alguns dos deveres dos muçulmanos. Nessa ocasião, disse: ‘Não os tomeis como alvo por alguma falta ou pecado, humilhando-os e desonrando-os. (Tirmidhi)
7. Procurar defeitos
Antes de envergonhar alguém por meio de acusações, há ainda outra má ação: ficar procurando os defeitos do próprio irmão, investigando suas falhas. Pois aquele cujas falhas são investigadas fica constrangido, e, quando seus defeitos são expostos, também se arraiga em seu coração uma atitude negativa. Como a investigação de falhas não se preocupa com nenhum método confiável de investigação, geralmente aumenta a possibilidade de alguém, apoiando-se em métodos de investigação inadequados, cometer o grave pecado de nutrir uma opinião negativa — isto é, suspeita — a respeito do próprio irmão. Por isso, o Alcorão, imediatamente após mencionar a opinião negativa, disse aos muçulmanos:
ولا تجسَّسوا
‘E não fiqueis procurando defeitos.’ (Surata Al-Hujurat, 12)
O Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) também disse a esse respeito:
ولا تتَّبعوا عوراتهم فانه من يتَّبع عورة اخيه المسلم يتَّبع الله عورته ومن يتَّبع الله عورته يفضحه ولو فى جوف رحله –
‘Não fiqueis procurando os defeitos dos muçulmanos. Pois, quem fica procurando os defeitos ocultos e os pecados de seu irmão muçulmano, faz com que Allah comece a revelar seus próprios defeitos ocultos. E aquele cujos defeitos Allah começa a revelar, Ele certamente o humilha — ainda que ele se esconda dentro de sua própria casa.’ (Tirmidhi — Abdullah ibn Umar, que Allah esteja satisfeito com ele)
8. Zombar
Entre os graves males da língua há ainda um que separa um irmão de outro: zombar ou escarnecer. Isto é, fazer troça e ridicularizar o próprio irmão de tal modo que se misture a intenção de humilhá-lo; na verdade, na maioria dos casos, a zombaria resulta de humilhar o outro e considerar-se superior. Por isso, o Alcorão proferiu a seguinte advertência a esse respeito:
يايُّها الذين امنوا لا يسخر قوم من قوم عسى ان يَّكونوا خيرًا منهم ولا نساء من نساءٍ عسى ان يّكنًّ خيرًا منهنَّ-
‘Ó vós que credes! Que um grupo não zombe de outro grupo; talvez estes sejam melhores do que aqueles. E que nenhuma mulher zombe de outra mulher; talvez ela seja melhor do que a outra.’ (Surata Al-Hujurat, 11)
Sobre o terrível destino, na Outra Vida, daquele que zomba de algum de seus irmãos muçulmanos, o Nobre Mensageiro (que a paz esteja com ele) descreveu o seguinte:
انَّ المستهزئين بالناس يفتح لاحدهم فى الاخرة باب من الجنة فيقال له هلمَّ فيجئُّ بكربه وغمِّه فاذا جاءه اغلق دونه ثم يفتح له باب اخر فيقال له هلمَّ فيجئُّ بكربه وغمِّه فاذا جاءه اغلق دونه فما يزال كذالك حتى انَّ احدهم ليفتح له الباب من ابواب الجنة فيقال له هلمَّ فما يأتيه من الياس-
‘No Dia da Ressurreição, será aberta uma porta do Paraíso para aquele que zomba das pessoas, e lhe será dito: “Entre”. Ele se dirigirá até lá com dificuldade, mas, assim que chegar à porta, ela será fechada diante dele. Depois, outra porta será aberta e lhe será dito: “Venha, entre”. Ele novamente se aproximará com dificuldade e, no instante em que chegar perto, a porta será fechada. Isso continuará acontecendo repetidamente dessa maneira. Até que, em certo momento, uma porta do Paraíso será aberta para ele e lhe será dito: “Venha”. Então, por causa do desespero, ele não terá coragem sequer de ir até lá e entrar no Paraíso.’ (Al-Bayhaqi)
Uma forma de zombaria é ridicularizar os defeitos e falhas de outras pessoas. Certa vez, quando Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) ridicularizou alguém, o Mensageiro (que a paz esteja com ele) demonstrou grande desagrado e disse:
ما احب انى حكيت احدا وانَّ لى كذا وكذا –
‘Não gosto de ridicularizar ninguém, ainda que me fossem dadas em troca tais e tais coisas (isto é, qualquer bênção mundana). (Tirmidhi — Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela)
9. Desprezar
O que permanece oculto no interior do coração e se manifesta exteriormente por meio de insultar, humilhar, caluniar, fazer intrigas e ridicularizar é considerar o próprio irmão inferior a si mesmo. Na realidade, é somente depois de surgir esse sentimento de superioridade que a pessoa se atreve a tratar o irmão dessa maneira. Caso contrário, aquele que considerar o próprio irmão superior a si mesmo jamais poderá praticar esse tipo de ato. É por isso que, ao impedir a ridicularização, o Alcorão Sagrado indicou que, se a pessoa refletir e perceber que seu irmão pode ser superior a ela, jamais zombará dele.
عسى ان يَّكونوا خيرًا مِّنهم –
‘Pode ser que ele seja melhor do que aquele que ridiculariza.’ (Surata Al-Hujurat, 11)
Alguém entre os Companheiros perguntou: menosprezar um irmão crente e muçulmano, ou nutrir a seu respeito uma opinião baixa e desprezível, jamais pode coexistir com o iman e a taqwa. Pois o critério da honra e da dignidade de cada pessoa é a taqwa, e o julgamento definitivo ocorrerá na Outra Vida, perante Allah. Portanto, menosprezar no mundo o próprio irmão muçulmano significa que a pessoa ainda não compreendeu o verdadeiro valor do iman. Certa vez, o nobre Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), em um hadith de grande significado, descreveu a taqwa como algo do coração e disse:
يحسب امرء مِّن الَِّشرِّ ان يُّحقر اخاه المسلم –
‘Para que uma pessoa seja considerada pecadora, basta que menospreze seu irmão muçulmano.’ (Muslim — Abu Hurayra, que Allah esteja satisfeito com ele)
Em outra narração, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse assim:
ولا يخذ له ولا يحقره –
‘Nenhum muçulmano deve humilhar outro muçulmano nem considerá-lo inferior.’
Certa vez, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse que aquele em cujo coração houvesse sequer o peso de um átomo de arrogânciaتعدnão entraria no Paraíso. Então, em resposta à pergunta de um homem, explicou o significado da arrogância, dizendo:
يطر الحقِّ وغمط النَّاس –
‘Arrogância significa rejeitar a verdade e considerar as pessoas inferiores.’ (Muslim — Ibn Mas‘ud, que Allah esteja satisfeito com ele)
Em um hadith, Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele) mencionou três coisas salvadoras e três coisas destruidoras, dizendo:
اعجاب المرء بنفسه وهى اشدُّ هُنَّ –
‘Uma coisa destrutiva é considerar-se a si mesmo venerável e superior a todos, e isso é o pior dos hábitos.’ (Al-Bayhaqi — Abu Huraira, que Allah esteja satisfeito com ele)
No contexto social de hoje, os membros do movimento islâmico devem praticar a autodisciplina nesse aspecto não apenas no trato com seus próprios amigos e colegas de trabalho, mas também no trato com os muçulmanos em geral.
10. A pior das suposições
A doença das suposições é uma doença grave. Ela corrói os relacionamentos mútuos e os deixa sem substância. No sentido usual, suposição é uma ideia que não tem por trás de si nenhuma evidência clara nem conhecimento direto. E quando tal ideia é de natureza inferior, ela é chamada de suspeita. Se um muçulmano começar a suspeitar de seu irmão sem qualquer conhecimento direto a respeito dele, o amor e a afeição serão obrigados a partir dali. Por isso, o Alcorão disse a esse respeito:
يايها الذين امنوا اجتـنبوا كثيرًا من الظَّنِّ انَّ بعض الظَّنِّ اثم –
‘Ó vós que credes! Evitai muitas suposições; certamente, algumas suposições são pecado.’ (Surata Al-Hujurat — 12)
O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse aos seus companheiros nas seguintes palavras:
ايّاكم والظّنِّ فانَّ الظَّنَّ اكذب الحديث –
“Evitai as suspeitas, pois a suspeita é a pior das mentiras.” (Bukhari e Muslim — Abu Huraira, que Allah esteja satisfeito com ele.)
A maior forma de se proteger das suspeitas é não alimentar uma má opinião sobre a intenção do seu irmão, nem fazer comentários negativos a seu respeito. Isso porque a intenção é algo sobre o qual não é possível obter um conhecimento claro ou direto. Nesse assunto, sempre será necessário depender de suposições. Se tivermos em mente mais alguns pontos a esse respeito, será fácil remediar essa enfermidade.
Em primeiro lugar, assim como é dever obrigatório de todo muçulmano não manter suspeitas ou suposições sobre o seu irmão, também é seu dever não dar aos outros oportunidade de suspeitarem dele. Portanto, deve evitar, tanto quanto possível, tudo aquilo que possa dar margem à suspeita. Em nenhuma circunstância se deve lançar outra pessoa na fitna; o próprio nobre Profeta (que a paz esteja com ele) deu um exemplo a esse respeito. Certa vez, ele estava em retiro espiritual (i‘tikaf). À noite, uma de suas esposas foi visitá-lo. No caminho de volta, ele saiu para acompanhá-la. Por acaso, encontrou dois homens dos Ansar. Ao vê-lo com uma mulher, eles consideraram inoportuna a sua presença e começaram a voltar. Imediatamente, ele os chamou e disse: “Ouvi: esta é minha esposa fulana”. Os dois homens dos Ansar disseram: “Ó Mensageiro de Allah! Se tivéssemos de suspeitar de alguém, será que suspeitaríamos de ti?”. Ele disse: “Satanás circula no ser humano como o sangue circula.”
Em segundo lugar, se, apesar dos esforços para evitá-la, a suspeita ainda surgir, não a deverá guardar no íntimo. Pois guardar uma suspeita no coração equivale a uma traição. Pelo contrário, deverá imediatamente ir até seu irmão e expô-la, para que ele possa esclarecê-la. Por outro lado, aquele sobre quem a suspeita foi manifestada não deve permanecer calado, mas deve refutá-la imediatamente. Caso contrário, uma grande parte desse pecado poderá recair também sobre ele.
11. Calúnia
Considerar conscientemente o próprio irmão culpado ou atribuir-lhe um pecado que ele não cometeu é chamado de calúnia. Isso é claramente uma forma de mentira e traição. Uma forma ainda pior dessa calúnia é atribuir a outra pessoa o próprio pecado. Sobre isso, o Alcorão diz:
ومن يكسب خطيئة او اثما ثمَّ يرم به بريئًا فقد احتمل بهتانا وَّاثمًا مُّبينا –
“Quem comete um pecado ou um ato de desobediência e depois o atribui a uma pessoa inocente, sobrecarrega-se com uma grande perda e com um pecado evidente.” (Surata An-Nisāʾ, 112)
Sobre atribuir falsos calúnios aos muçulmanos, foi dito:
والذين يؤذون المؤمنين والمؤمنات بغير ما اكتسبوا فقد احتملوا بهتانا وَّاثما مُّبينا –
‘Aqueles que causam sofrimento aos homens e às mulheres muçulmanos, imputando-lhes falsas acusações, carregaram sobre si próprios o buhtan e um pecado manifesto.’ (Surata Al-Ahzab, 58)
Na verdade, que lugar pode haver para tal comportamento em uma relação de amor?
12. Causar dano
A própria palavra também tem um significado extremamente abrangente. Aqui, porém, significa que o muçulmano deve cuidar para que seu irmão não sofra nenhum dano causado por ele. Esse dano pode ser físico ou mental. Sobre isso, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse em termos extremamente severos:
ملعون من ضارُّمؤمنا او مكربه-
‘Aquele que causa dano a um crente ou engana alguém é amaldiçoado.’ (Tirmidhi, Abu Bakr Siddiq, que Allah esteja satisfeito com ele)
“Quem causar dano a um muçulmano, Allah lhe causará dano. E quem causar sofrimento a um muçulmano, Allah lhe causará sofrimento. (Ibn Majah, Tirmidhi)”
13. Ferir os sentimentos
Para um muçulmano, causar sofrimento ao coração de seu irmão é, sem dúvida, uma atitude indesejável. Tal atitude jamais deve ser tolerada. O coração de um irmão pode ser ferido por outro irmão por vários motivos. Além das grandes causas relacionadas a isso, o temperamento e a maneira de se expressar das pessoas, mesmo em questões minuciosas da vida, também podem causar sofrimento. O princípio fundamental a esse respeito é que todo muçulmano deve esforçar-se para não causar sofrimento ao coração de seu irmão nem ferir seus sentimentos.
Esse também é o fundamento de um pecado tão grave quanto a maledicência. Portanto, a definição de maledicência é falar de alguém de uma maneira que não lhe agradaria ou que poderia causar-lhe sofrimento.
O Nobre Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) disse: ‘Quando três pessoas se reunirem, duas delas não devem conversar em segredo. Contudo, se muitas pessoas estiverem reunidas, isso poderá ser feito.’ A razão apresentada para essa determinação é a seguinte:
من اجل ان يَّحزنه –
‘Por medo de que ele fique preocupado.’ (Muslim — Abu Abdullah Ibn Mas’ud)
Ao examinarmos essas regras e normas estabelecidas pelo Islã, saberemos que, por trás delas, atua como princípio fundamental a proibição de causar sofrimento ao coração de um irmão muçulmano. Causar sofrimento a um muçulmano é também uma grande injustiça do ponto de vista religioso. Por isso, a respeito disso, o Nobre Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) disse:
من اذى مسلما فقد اذى الله –
‘Quem causou sofrimento a um muçulmano, causou sofrimento ao próprio Allah.’ (Tirmidhi — Anas, que Allah esteja satisfeito com ele)
Em contrapartida, quando se realiza uma ação com o objetivo de alegrar o coração de alguém, foram anunciadas boas-novas a respeito:
من قضى لاحد من امَّتى حاجَّة يُّريد ان يُّسرَّه بها فقد سرَّنى ومن سرَّنى فقد سرَّالله ومن سرّالله ادخله الله الجنة –
‘Quem satisfez a necessidade de um membro da minha ummah com o objetivo de alegrá-lo, alegrou-me. Quem me alegrou, alegrou o próprio Allah. E quem alegrou Allah, Allah o fará entrar no Paraíso.’ (Al-Bayhaqi — Anas, que Allah esteja satisfeito com ele)
Aqui, também deve ser lembrada esta declaração do nobre Mensageiro: ‘O crente é um símbolo radiante de amor e afeição. Quem não nutre amor por ninguém e por quem ninguém nutre amor, não há bem nele.’
A mágoa geralmente resulta de importunar alguém por meio de brincadeiras e gracejos. Isto é, fazer brincadeiras de tal maneira que a outra pessoa fique constrangida e se sinta magoada.
Certa vez, os Companheiros viajavam com o Mensageiro. Durante a pernoite da caravana em um lugar do caminho, um homem retirou a corda de outro companheiro que estava dormindo e, desse modo, o deixou constrangido. Ao tomar conhecimento disso, o nobre Mensageiro disse:
لا يحلُّ للمسلم ان يَّروع مسلماً –
‘Não é lícito a um muçulmano importunar outro muçulmano por meio de brincadeiras e gracejos.’ (Ahmad, Abu Dawud, Tirmidhi — Abdur-Rahman, que Allah esteja satisfeito com ele)
Da mesma forma, certa vez, quando ocorreu um incidente de ocultação de uma arma, o Mensageiro (que a paz esteja com ele) proibiu isso, dizendo:
ان يَّروع المؤمن او ان يُّؤخذ متاعه لا لعبا وَّلا جدَّا –
‘Não é permitido assustar um crente, nem levar, por brincadeira ou de fato, qualquer coisa que pertença a alguém.’
14. Enganar
Os muçulmanos foram proibidos de enganar ou mentir para o próprio irmão nas conversas ou nas transações. Isso porque, onde uma parte pode agir dessa maneira com a outra, uma pessoa não pode confiar na outra. E onde as palavras de uma pessoa não são confiáveis para outra, a amizade, o amor e a confiança mútua não podem de modo algum existir. No Hadith Sharif, isso foi denominado ‘a pior das traições’. O Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse:
قال كبرت خيانة ان تحدث اخاك حديثا هولك مصدق وانت به كاذبٌ –
‘A maior traição é dizer algo ao seu irmão e fazê-lo considerar você verdadeiro, quando, na realidade, você lhe disse uma mentira.’ (At-Tirmidhi — Sufyan bin Asad)
15. Inveja
A inveja, ou o ressentimento pelo bem alheio, é uma doença abominável. Se essa doença encontra abrigo uma vez no coração de uma pessoa, não apenas os relacionamentos sinceros são rompidos, como também a fé das pessoas fica ameaçada. A definição de inveja é não gostar de alguma bênção que Allah, o Altíssimo, concedeu a alguém — como riqueza, conhecimento, inteligência ou beleza — e desejar, de todo o coração, que essas bênçãos lhe sejam tiradas. Na inveja, o desejo de tirar algo do outro é mais forte do que o desejo de receber bênçãos para si mesmo.
Às vezes, a inveja tem como origem o ressentimento e a inimizade; às vezes, a arrogância pessoal e o sentimento de inferioridade em relação aos outros; às vezes, o desejo de tornar os outros obedientes; às vezes, o próprio fracasso e o sucesso de outra pessoa em alguma atividade conjunta; e, outras vezes, é causada simplesmente pelo desejo de alcançar honra e prestígio. Sobre a inveja, o nobre Profeta (s.a.w.) proferiu o seguinte alerta:
ايَّاكم والحسد فانَّ الحسد يأكل الحسنات كما تأكل النّار الحطب –
“Guardai-vos da inveja. Pois, assim como o fogo consome a lenha, a inveja consome as boas ações e as virtudes.” (Abu Dawud — Abu Huraira, r.a.)
E é contra essa mesma coisa que o Alcorão ordenou a todo muçulmano que busque refúgio:
من شرِّ حاسدٍ اذا حسد –
“E (busco refúgio) contra o mal do invejoso quando inveja.” (Surata Al-Falaq, 5)
Em um importante hadith, o Nobre Profeta indicou algumas questões indispensáveis à relação de fraternidade. Em uma parte do referido hadith, mencionou-se a respeito da má suspeita. Na parte restante, o Mensageiro (s.a.w.) disse:
ولا تجسَّسوا ولا تناجشوا ولا تحاسدوا ولا تباغضوا ولا تدابروا ولا تنافسوا وكونوا عباد الله اخوانا –
“Não fiqueis procurando os defeitos uns dos outros, não prejudiqueis os negócios uns dos outros, não nutrais inveja e rancor uns pelos outros, não sejais inimigos uns dos outros, não rompais relações uns com os outros, não cobiceis uns os bens dos outros; ao contrário, permanecei como servos de Allah e irmãos uns dos outros.” (Bukhari e Muslim — Abu Huraira (r.a.))
O famoso comentarista de hadith, Hafiz Ibn Hajar al-Asqalani, disse ao explicar isso: ‘O significado é que, quando abandonardes essas ações proibidas, naturalmente vos tornareis irmãos uns dos outros.’ Além disso, a respeito dessa inveja e inimizade, o Mensageiro (s.a.w.) também disse:
دبَّ اليكم داء الامم قيلكم الحسد والبغضاء هى الحالقة لا اقول تحلق الشَّعر ولكن تحلق الدين-
“A doença das comunidades anteriores penetrou em vós. E essa doença é a inveja e a inimizade, que raspam tudo. Não me refiro a raspar os cabelos, mas a raspar a religião.” (Ahmad, Tirmidhi)
Quarto: Métodos para fortalecer as relações
Juntamente com a proibição dessas coisas que corrompem e prejudicam os relacionamentos, Allah e o Mensageiro (que a paz esteja com ele) também nos indicaram claramente aquelas coisas cuja adoção e observância tornam os relacionamentos mais fortes e estáveis, aumentam a amizade e o amor e, assim, criam entre dois corações uma proximidade semelhante à de dois dedos da mesma mão. Algumas dessas coisas foram declaradas indispensáveis. Ou, pode-se dizer, foram apresentadas como direitos (haqq). Para outras, foram dadas recomendações. Estas pertencem ao nível da excelência e da nobreza. As qualidades fundamentais do caráter mencionadas anteriormente constituem, na realidade, a essência dos direitos e da nobreza; contudo, é necessário apresentar cada uma delas separadamente. Isso porque cada uma é extremamente importante para desenvolver e adornar com flores e frutos os relacionamentos de amizade e amor.
1. Proteção da honra e da dignidade
A coisa mais valiosa para uma pessoa é sua honra e dignidade. Ela jamais aceita que sua honra e dignidade sejam destruídas. Por isso, assim como foi proibido ao muçulmano atacar a honra de seu irmão, também foi dada uma ênfase especial à proteção da honra do próprio irmão, sendo isso considerado um dever supremo. Se em algum lugar um irmão for insultado ou falsamente caluniado, é dever de todo muçulmano enfrentar a situação, considerando-a um ataque à honra dele. Assim como ele sofre ao ver sua própria honra destruída, deve sofrer igualmente nesse caso. Se um muçulmano acreditar firmemente que sua honra e dignidade estão seguras nas mãos de seu irmão muçulmano, certamente se estabelecerá entre ambos uma relação sincera. Mas, se ele também acreditar com certeza que o irmão preserva a honra dele, diante dele e pelas costas, exatamente como preservaria a própria honra, é fácil imaginar quão profundo amor poderá surgir em seu coração. É por isso que o Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) orientou sobre esse assunto em inúmeros hadiths. Ele disse:
ما من امرء مُّسلم يخذل امرأ مسلما فى موضع ينتهك فيه حرمته وينتقص فيه من عرضه الا خذله الله فى موطن يحب فيه نصرته وما من امرى ينصر مسلما فى موضع ينتقص فيه من عرضه وينتهك فيه من حرمته الا نصره الله فى موطن يحب نصرته –
“Se em algum lugar um muçulmano for desonrado ou tiver sua honra violada, e algum muçulmano se abstiver de ajudá-lo e apoiá-lo, então, em uma situação tão delicada, Allah também restringirá Sua ajuda a ele, embora Ele queira que alguém se adiante para ajudá-lo e apoiá-lo. Por outro lado, se em algum lugar um muçulmano for insultado e humilhado, e algum muçulmano se levantar para ajudá-lo, Allah também o ajudará e apoiará em tal situação, pois Ele quer que alguém o ajude. (Abu Dawud — Jabir, que Allah esteja satisfeito com ele)
A maior ajuda de Allah é que Ele protegerá do fogo do Inferno. Por isso, o Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse:
ما من مسلم يردُّ عن عرض اخيه الا كان حقا على الله ان يَّردُّ عنه نار جهنَّم ثمَّ تلا هذه الاية وكان حقا علينا نصر المؤمنين –
“Se um muçulmano impedir alguém de violar a honra de seu irmão muçulmano, é direito dele perante Allah que Ele o protegerá do fogo do Inferno. Em seguida, o Mensageiro (que a paz esteja com ele) recitou este versículo: ‘Ajudar os muçulmanos é um dever especial que Nos incumbe’.” (Sharh al-Sunnah — Abu Darda)
Uma forma comum de desonra é a maledicência (ghibah). Sua definição já foi apresentada anteriormente.
A esse respeito, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse:
من اغضب عنده اخوه المسلم وهو يقدر على نصره فنصره نصر الله فى الدنيا والاخرة فان لم ينصره وهو يقدر على نصره اخذه الله به فى الدنيا والاخرة –
“Se, na presença de uma pessoa, seu irmão muçulmano for alvo de maledicência, e ela tiver capacidade de ajudá-lo e o ajudar, Allah a ajudará neste mundo e no Além. Mas, se tiver capacidade de ajudá-lo e não o fizer, Allah a castigará neste mundo e no Além. (Sharhus-Sunnah—Anas, que Allah esteja satisfeito com ele)
Sobre proteger o próprio irmão do mal de outrem, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse:
من حمى مؤمنا من منافقٍ ازاه قال بعث الله ملكا يحمى لحمه يوم القيامة من نَّار جهنَّم –
‘Aquele que proteger um crente do mal de um hipócrita, Allah, o Altíssimo, designará para ele um anjo que protegerá sua carne do fogo do Inferno no Dia da Ressurreição.’ (Abu Dawud)
Sobre a ajuda que um muçulmano deve prestar a seu irmão, recaem muitos tipos de deveres. Por exemplo: auxílio financeiro, remoção de dificuldades, tentativa de resolver problemas e, além disso, o atendimento de inúmeras necessidades religiosas e mundanas. Essas coisas estão relacionadas ao ihsan, para além dos limites da lei. Ainda assim, são coisas necessárias, e será preciso prestar contas delas no Além, embora não seja possível estabelecer uma lei para regulamentá-las. Se um muçulmano puder alimentar outro muçulmano, cobrir seu corpo nu, ajudá-lo a afastar seus perigos e aflições, atender às suas necessidades e eliminar sua dificuldade financeira, então cumprir essas obrigações é um direito que seu irmão tem sobre ele. Caso contrário, no Dia da Ressurreição, Allah, o Altíssimo, mencionará cada uma dessas coisas como Seu direito e exigirá resposta: por que você não cumpriu esse direito? O Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) expressou isso de modo extremamente tocante: ‘Allah dirá: Ó servo, Eu estava faminto; por que não Me alimentaste? Eu estava nu; por que não Me vestiste? Eu estava doente; por que não Me visitaste (iyadat)?’ Contudo, o servo não terá resposta alguma para isso. (Muslim—Abu Hurayra, que Allah esteja satisfeito com ele)
Na verdade, ajudar qualquer servo de Allah ou atender à necessidade de um irmão muçulmano é uma obra tão grandiosa de piedade que nenhuma outra boa ação pode igualá-la. Seu verdadeiro espírito é este: sempre que se encontre qualquer meio de proporcionar conforto a um irmão muçulmano ou alegrar seu coração, não se deve absolutamente tardar em fazê-lo.
Enquanto uma pessoa estiver empenhada em ajudar seu irmão, ela será digna da ajuda de Allah. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse:
والله فى عون عبده ما كان العبد فى عون اَخِيْهِ –
“Allah continuará ajudando Seu servo enquanto este estiver empenhado em ajudar seu irmão.” (Muslim, Tirmidhi — Abu Huraira, que Allah esteja satisfeito com ele)
Neste hadith, o nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), destacando os diversos aspectos da ajuda, fala sobre a recompensa de cada um deles:
من نفس عن مؤمن كربة من من كرب الدنيا نفس الله عنه كربة من كرب يوم القيامة من يَّسَّر على معسر يسَّر الله عليه فى الدنيا والاخرة ومن يستر مسلما ستره الله فى الدنيا والاخرة –
“Quem aliviar uma dificuldade mundana de um crente, Allah aliviará uma de suas dificuldades no Dia da Ressurreição. Quem conceder facilidade a uma pessoa necessitada, Allah lhe concederá facilidade neste mundo e na Outra Vida. E quem ocultar o defeito de um muçulmano, Allah ocultará seu defeito neste mundo e na Outra Vida.” (Muslim — Abu Huraira)
Sobre este mesmo assunto, ele diz em outro hadith:
المسلم اخو المسلم لا يظلمه ولا يسلمه ومن كان فى حاجة اخيه كان الله فى حاجته ومن فرج عن مسلم كربة فرج الله عنه كربة من كربات يوم القيامة –
‘O muçulmano é irmão do muçulmano. Ele não o oprimirá nem, retirando dele o seu auxílio, o empurrará para a destruição. Quem atender à necessidade de seu irmão, Allah atenderá à sua necessidade. E quem aliviar a aflição e a calamidade de um muçulmano, Allah aliviará suas dificuldades no Dia da Ressurreição.’ (Bukhari e Muslim — Ibn Umar, que Allah esteja satisfeito com ele)
Uma grande parte da ajuda e da benevolência incide sobre a riqueza e os bens. Toda pessoa privada a quem Allah concedeu essa dádiva tem o direito de receber auxílio dele:
وفى اموالهم حق للسَّائل والمحروم –
O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) apresentou essa questão com uma forma de expressão extremamente elevada:
الخلق عيال الله فاحبُّ الخلق الى الله من احسن الى عياله –
‘As criaturas são, de modo especial, a família de Allah; portanto, aquele que trata benevolentemente essa família de Suas criaturas é, perante Allah, o mais amado entre Suas criaturas.’ (Bayhaqi)
O Alcorão enfatizou grandemente a alimentação dos famintos. Há muitos exemplos disso nas primeiras suratas de Meca. Ao chegar a Medina, o Nobre Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) ordenou aos muçulmanos, em seu primeiro sermão, quatro coisas e disse que, depois disso, eles poderiam entrar no Paraíso. Uma dessas instruções era:واطعموا الطعام‘E alimentai’
Ele também disse:
ليس المؤمن بالذى يشبع وجاره جائع الى جنيه –
“Não é crente aquele que come até se saciar enquanto seu vizinho mais próximo permanece faminto.” (Al-Bayhaqi — Ibn Abbas, que Deus esteja satisfeito com ele)
Certa pessoa apresentou ao Mensageiro (que a paz esteja com ele) uma queixa sobre a própria dureza de coração. O Mensageiro (que a paz esteja com ele) lhe disse:
قال امسح رأس اليتيم واطعم المسكين –
“Passe a mão sobre a cabeça do órfão e alimente o necessitado.” (Ahmad — Abu Huraira, que Deus esteja satisfeito com ele)
Fazer justiça ao suplicante também é uma ramificação especial dessa ajuda. Por isso, o Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse:
من اغاث ملهو فا كتب الله ثلاثا وثبعين مغفرة وَّاحدة فيها صلاح امره كله واثنتان وسبعون له درجات يوم القيامة –
‘Quem tratar com justiça alguém que lhe apresenta uma reivindicação, Allah registrará para ele 73 recompensas. Uma delas é a garantia do benefício de todas as suas ações. As 72 recompensas restantes elevarão sua posição no Dia da Ressurreição.’ (Al-Bayhaqi)
Interceder em favor de uma pessoa necessitada também é uma das principais formas de ajudar. O Alcorão elogia a intercessão justa e benéfica, dizendo:
من يشفع شفاعة حسنة يكن لَّه نصيب منها –
‘Quem interceder por uma boa ação terá também uma parte da recompensa.’ (Surata An-Nisā, 85)
Quando alguém procurava o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) para expor uma necessidade, ele dizia aos Companheiros:
قال اشفعوا فلتؤ جروا –
‘Intercedam em favor dele e participem da recompensa.’
Certa vez, durante uma conversa com Abu Dharr al-Ghifari (que Allah esteja satisfeito com ele), o Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) esclareceu de maneira extremamente clara os vários níveis e formas de ajuda. Ele (al-Ghifari) disse: ‘Fale sobre as ações juntamente com a fé.’ O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) respondeu: ‘Darás aos outros do sustento que Allah te concedeu.’ Ele perguntou: ‘Ó Mensageiro de Allah! E se essa pessoa for pobre?’ Respondeu: ‘Praticarás boas ações com a tua língua.’ Perguntou novamente: ‘E se a língua dela for incapaz?’ Respondeu: ‘Ajudarás os fracos.’ Perguntou: ‘E se ela própria for fraca e não tiver forças para ajudar?’ Respondeu: ‘Farás o trabalho daquele que não consegue realizar alguma tarefa.’ Perguntou novamente: ‘E se ela própria for completamente incapaz?’ Respondeu: ‘Abster-te-ás de causar sofrimento às pessoas.’
Aqui, é necessário mencionar novamente aquele hadith:
«Quem quer que satisfaça as necessidades religiosas e mundanas de qualquer membro da minha ummah com o propósito de fazê-lo feliz, terá me deixado feliz; quem me deixar feliz terá deixado Allah feliz, e quem deixar Allah feliz, Ele o fará entrar no Paraíso.»
A esse respeito, foi transmitida uma excelente narração de Hazrat Abdullah ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ele). A narração é a seguinte: certa vez, um homem foi até o Mensageiro (que a paz esteja com ele) e perguntou: «Quem, entre as pessoas, é o mais amado por Allah?» O Mensageiro (que a paz esteja com ele) respondeu:
احبَّ الناس الى الله انفعهم للنَّاس- احبَّ الاعمال الى الله عزَّ وجلَّ سرور تدخله تكشف عنه كربة او تقضى عنه دينا او تطرد عنه جوعا وان تمشى مع اخ فى حاجة احبَّ الىَّ من ان اعتكف فى هذا المسجد شهرًا ومن كظم غيظه ولو شاء ان يمضيه امضاه ملائه الله قلبه يوم القيامة رضاه ومن مَّشى مع اخيه فى حاجة حتى يقضيهاله ثبَّت الله قدميه يوم تزول الاقدام –
«Entre as pessoas, o mais amado por Allah é aquele que mais beneficia as pessoas; e, entre as ações, o que Allah mais aprecia é que alivies a aflição e a calamidade de um muçulmano, ou pagues a sua dívida, ou satisfaças a sua fome e o deixes feliz. Sabe que, para mim, acompanhar um irmão a fim de atender à sua necessidade é mais amado do que fazer i‘tikaf durante um mês nesta mesquita. Quem controlar a própria ira — embora pudesse, se quisesse, dar-lhe livre curso — Allah preencherá o seu coração com a Sua satisfação no Dia da Ressurreição. E quem acompanhar o seu irmão para atender à sua necessidade e a satisfizer, Allah dará firmeza aos seus dois pés naquele dia em que eles tremerão convulsivamente (isto é, no Dia da Ressurreição).»
2. Participação na dor e no sofrimento
A base para ajudar o próprio irmão, atender às suas necessidades e tratá-lo bem é que a dor e o sofrimento de um se transformem na dor e no sofrimento do outro. Se uma pessoa sentir dor, a outra também a sentirá com a mesma intensidade. Assim como um órgão do corpo participa do sofrimento de todos os demais órgãos e membros, um muçulmano também participará da dor e do sofrimento de outro muçulmano.
O Nobre Mensageiro (que a paz esteja com ele) esclareceu este assunto por meio de vários exemplos. Ele disse:
ترى المؤمنين فى تراحمهم وتوادَّهم وتعاطفهم كمثل الجسد اذا اشتكى عضوا تداعى له سائر الجسد بالسهر والحمَّى –
“Vereis os crentes, em sua compaixão mútua, amizade, amor e sentimento compartilhado de sofrimento e dor, como um único corpo. Quando um de seus membros adoece, todo o corpo participa de sua aflição por meio da febre e da vigília noturna.” (Bukhari e Muslim — Nu‘man ibn Bashir, que Allah esteja satisfeito com ele)
De modo semelhante, em uma narração, ao explicar isso, ele disse que a posição de um crente na sociedade é equivalente à da cabeça no corpo inteiro. Assim como todo o corpo sente dor quando a cabeça dói, todos os crentes sentem a dor de um crente. O Mensageiro de Allah deu um exemplo direto e disse:
المؤمن للمؤمن كالبنيان يشدُّ بعضه بعضا ثم شبك بين اصابعه –
“Um muçulmano deve ser para outro muçulmano como um edifício, e eles devem ser uns para os outros uma fonte de firmeza e força, assim como um tijolo de um edifício o é para outro tijolo.” Em seguida, o Mensageiro de Allah entrelaçou os dedos de uma mão com os dedos da outra. (Bukhari e Muslim — Abu Musa, que Allah esteja satisfeito com ele)
3. Crítica e exortação
É dever de um muçulmano observar as ações de seu irmão e, ao vê-lo desviar-se do caminho correto, aconselhá-lo e tentar corrigi-lo. Esse é um dever específico de um muçulmano para com outro muçulmano. Naturalmente, cumprir esse dever muitas vezes se torna algo desagradável. Apesar disso, é inegável que, se uma pessoa tiver plena consciência de que o verdadeiro sucesso está na Vida Futura e de que é necessário ajudar-se mutuamente a alcançar esse sucesso, e também estiver consciente de que a crítica neste mundo é preferível à prestação de contas na Vida Futura, então certamente ficará grata ao irmão que lhe oferecer, durante a vida terrena, a oportunidade de se corrigir. Além disso, se aquele que critica e faz perguntas observar as condições necessárias a esse respeito e realizar esse trabalho com amor, sinceridade e dedicação, essa gratidão avançará ainda mais e enriquecerá e fortalecerá o amor, a amizade e a cordialidade mútuos. Isso porque, como resultado, o crítico se revelará uma pessoa compassiva. No hadith em que o Nobre Profeta aconselhou sobre a crítica, ele também esclareceu toda a questão por meio de um exemplo. Ele disse:
انَّ احدكم مراة اخيه فان راى به اذًى فليمت عنه –
‘Cada um de vocês é como um espelho para seu irmão. Portanto, se alguém vir algo ruim em seu irmão, deve removê-lo.’ (Tirmidhi — Abu Huraira, que Allah esteja satisfeito com ele)
A narração de Abu Dawud sobre isso é a seguinte:
المؤمن مرأة المؤمن والمؤمن اخوُّ المؤمن يكفُّ ضيعته او يحوطه من وَّرائه –
‘Um crente é como um espelho para outro crente, e um crente é irmão de outro crente; ele preserva os direitos deste mesmo durante sua ausência.’
À luz desse exemplo, podem ser estabelecidos os seguintes princípios para a crítica e o aconselhamento:
1. Não se deve procurar defeitos nem ficar investigando falhas. Pois o espelho jamais procura defeitos. Somente quando uma pessoa se coloca diante dele é que ele revela seu rosto.
2. Não se deve criticar pelas costas. Pois um espelho, quando não está frente a frente com alguém, não revela sua forma.
3. Não deve haver qualquer exagero na crítica. Pois o espelho revela o rosto real sem aumentá-lo nem diminuí-lo de forma alguma.
4. No que diz respeito à crítica, é preciso ser imparcial e estar totalmente livre de qualquer busca de interesse próprio ou má intenção, pois o espelho não guarda rancor daquele cujo rosto reflete.
5. Depois de transmitir a observação, não se deve continuar alimentando-a no coração, pois, quando alguém se afasta de diante dele, o espelho não conserva a sua imagem. Em outras palavras, não se deve sair divulgando os defeitos dos outros.
6. O mais importante é que, no seu interior, atuem extrema devoção, sinceridade, compaixão e amor, para que o descontentamento que naturalmente se levanta no coração de cada pessoa ao ouvir uma crítica a seu respeito desapareça assim que ela perceber a atitude do crítico. É por isso que, no hadith, a expressãoمرأة المسلم foi mencionada junto comاخوُّ المسلم também. Na verdade, essa compaixão e essa bondade só podem surgir quando uma pessoa consegue sentir que seus defeitos e falhas são destrutivos para ela e, ao mesmo tempo, em vez de considerar-se superior a ela, considera-se mais pecadora e culpada.
4. Encontro
Uma das principais e fundamentais exigências do amor é que a pessoa visite repetidamente aquele a quem ama, encontre-se com ele, desfrute da sua companhia e sente-se com ele para conversar. Até um estudante iniciante da psicologia humana sabe que essas coisas não são apenas exigências fundamentais do amor e da afeição, mas também um dos meios mais eficazes para desenvolver e fortalecer o amor, bem como para tornar mais firme o vínculo sincero entre as pessoas. O amor exige que, sempre que tiver oportunidade, a pessoa se encontre com seu irmão. Como resultado desses encontros, o amor mútuo cresce naturalmente e, assim, começa um fluxo interminável. Se, durante os encontros, forem lembrados os princípios da sharia mencionados anteriormente e também se prestar atenção aos pontos que serão apresentados adiante, é absolutamente impossível que o encontro entre dois muçulmanos não contribua para o aperfeiçoamento da sua relação mútua e não aproxime ainda mais os dois irmãos. É por isso que vemos que o nobre Profeta (que a paz esteja com ele) atribuiu especial importância a essa prática no âmbito do amor mútuo, ordenou-a e descreveu suas inúmeras virtudes. Em um hadith, ele disse: “A boa companhia é melhor do que a solidão.” (Relatado por Bayhaqi, sob autoridade de Abu Dharr.)
Certa vez, dirigindo-se a Abu Zarain, ele disse:
هل شعرت انَّ الرجل اذا خرج من بيته زئرًا اخيه شيَّعه سبعون الف ملك كلُّهم يصلُّون عليه ويقلون ربَّنا انَّه وصل فيك فصيله فان استطعت ان تعمل جسدك فى ذالك فافعل –
“Você sabe que, quando um muçulmano sai de casa com o propósito de encontrar-se com seu irmão, há setenta mil anjos atrás dele, que rogam por ele e dizem: ‘Ó Senhor, este homem está indo encontrar-se apenas por Ti; portanto, aproxima-os um do outro.’ Se você puder realizar esse ato (o encontro) com o seu próprio corpo, então faça-o certamente.” (Bayhaqi, sob autoridade de Abu Zarain.)
Em um hadith, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) lançou uma luz extraordinária sobre esse encontro:
قال انَّ رجلا زار اخالَّه فى قرية اخرى فارصد الله له على مدرجته ملكا فلما اتى عليه قال: اين تريد ؟ قال اريد اخالّى فى هذه القرية – قال هل لَّك عليه من نعمة تربُّها قال لا غير انِّى احببته فى الله قال فانِّى رسول الله اليك بانَّ الله قد احبَّك كما احببته فيه –
“Um homem partiu para visitar um irmão seu que vivia em outra aldeia. Allah, o Altíssimo, colocou um anjo em seu caminho. O anjo perguntou-lhe: ‘Aonde você vai?’ Ele respondeu: ‘Vou visitar meu irmão em determinada aldeia.’ O anjo perguntou novamente: ‘Você tem algum direito a receber dele e está indo cobrá-lo?’ Ele respondeu: ‘Não. Eu o amo somente por Allah; não há outra razão.’ O anjo disse: ‘Allah me enviou até você e lhe anunciou a boa-nova de que, assim como você ama seu amigo por Sua causa, Ele também o ama.’ (Muslim — Abu Huraira, que Allah esteja satisfeito com ele)”
Certa pessoa declarou seu amor por Hazrat Mu’az ibn Jabal (que Allah esteja satisfeito com ele) e disse: ‘Eu o amo por Allah.’ Ele lhe transmitiu esta boa-nova do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele): ‘Allah, o Altíssimo, diz que Seu amor se torna obrigatório para aqueles que se sentam juntos por Sua causa, visitam-se uns aos outros por Sua causa e gastam seus bens uns pelos outros por Sua causa.’
O Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) também anunciou, da seguinte forma, a recompensa que existe na Outra Vida pelo amor mútuo e pelas visitas realizadas por Allah:
انَّ فى الجنة لعمدا مِّن ياقوت عليها غرف مِّن زبرجدٍ لَّها ابواب مُّفتَّحة منه تضئ كما يضئ الكوكب الدَّرِّىُّ فقالوا يا رسول الله من يَّسكنها قال المتحابُّون فى الله والمتجالسون فى الله والمتلاقون فى الله –
“No Paraíso há colunas de yaqut e, sobre elas, mansões de jabrjad (um tipo de pedra preciosa verde). Suas portas são tão resplandecentes que parecem estrelas cintilantes. Os Companheiros perguntaram: ‘Ó Mensageiro de Allah, quem habitará ali?’ Ele respondeu: ‘Aqueles que se amam uns aos outros por Allah, sentam-se juntos e visitam-se.’ (Bayhaqi — Abu Huraira, que Allah esteja satisfeito com ele)”
A grande ênfase dada ao amor mútuo e às visitas, bem como o anúncio de uma recompensa tão grandiosa por isso, não se deve apenas ao fato de que tais práticas são uma exigência inevitável do amor ou contribuem para o seu desenvolvimento e fortalecimento. Outra razão é que, para manter a pessoa firme no caminho correto, ela também precisa da companhia de seus amigos íntimos. Essa companhia só pode ser obtida por meio de visitas e conversas. Há ainda outra razão: as pessoas normalmente continuam visitando-se, mas, se alguém visitar seu irmão esperando plenamente a recompensa e o mérito e se lembrar de Allah durante essa visita, então esse encontro poderá desempenhar um papel grandioso na formação e no desenvolvimento de sua vida e de seu caráter.
Tendo diante de nós os hadiths e as provas mencionados, podemos dizer que um crente deve procurar encontrar-se e visitar outro crente tanto quanto possível. Com isso, não apenas melhorarão suas relações mútuas, como ele também se tornará merecedor das súplicas de perdão de setenta mil anjos e do amor de Allah. Além disso, se, durante esses encontros, mantivermos em mente os hadiths e as orientações mencionados, o sentimento de encontrar-se por Allah jamais se dissipará do coração.
5. Cuidar do irmão enfermo (عيادت )
Uma forma especial desse encontro é ir visitar e cuidar do próprio irmão enfermo. Isso foi chamado de um dever especial de cada irmão muçulmano para com outro muçulmano. Uma pessoa enferma, por suas necessidades físicas e psicológicas, passa a depender do cuidado, da atenção e da compaixão dos outros. Se, nesse momento, algum de seus irmãos puder atender a essas duas necessidades, isso influenciará tão profundamente seu coração e sua mente que poderá ser de grande ajuda para fortalecer a estabilidade e o desenvolvimento da relação entre ambos.
Em termos gerais, cuidar significa informar-se sobre o estado da pessoa enferma. Na realidade, porém, essa averiguação é apenas a compreensão mínima do cuidado. Caso contrário, expressar compaixão, oferecer consolo, prestar assistência, providenciar medicamentos e alimentação adequada, entre outras coisas, também se incluem nesse âmbito. Ainda assim, mesmo que se considere que cuidar significa apenas informar-se sobre o estado do doente, devemos necessariamente refletir sobre o valor que podem ter a expressão de compaixão, a oferta de consolo, o desejo de recuperação e a prestação de cuidados, quando há tanta insistência e uma recompensa tão grandiosa por simplesmente informar-se sobre ele.
Em cada um dos famosos hadiths sobre os deveres de um muçulmano para com outro muçulmano — nos quais são mencionados cinco, seis ou sete itens — enfatiza-se o cuidado do doente como um dever específico.
واذا مرض فعده –
‘Quando ele adoecer, cuide dele.’ (Muslim — Abu Huraira, que Allah esteja satisfeito com ele)
O Mensageiro de Allah descreveu de modo extraordinário os deveres e direitos do servo. Certa vez, ao explicá-los, disse que esses deveres e direitos foram, em essência, impostos por Allah. No Dia da Ressurreição, o próprio Allah apresentará a queixa e perguntará a esse respeito. Por isso, sobre o cuidado do doente, o nobre Profeta disse que Allah perguntará: ‘Ó filho de Adão, Eu adoeci, mas tu não Me visitaste.’ Ele dirá: ‘Ó meu Senhor, Tu és o Senhor de todos os mundos; como eu poderia visitar-Te?’ Allah dirá: ‘Não sabias que um dos Meus servos havia adoecido? Mas tu não o visitaste. Se o tivesses feito, ter-Me-ias encontrado junto dele.’ Que conselho poderia ser maior do que este: ao cuidar de um doente, o servo também alcança a proximidade de seu Senhor?
Sobre a recompensa por visitar um doente, o Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) disse:
ان المسلم اذا عاد اخاه المسلم لم يزل فى حرفة الجنة حتى يرجع –
“Quando um muçulmano visita o seu irmão muçulmano (doente), continua escolhendo os frutos do Paraíso até retornar.” (Muslim — Thawban, que Allah esteja satisfeito com ele)
ما من مسلم يعود مسلما غد وة الا صلىَّ عليه سبعون الف ملك حتى يمسى وان عاده عشيَّة الا صلىَّ عليه سبعون الف ملك حتى يصبح وكان له حريف فى الجنة –
“Quando um muçulmano visita outro muçulmano (doente) pela manhã, setenta mil anjos continuam suplicando por ele até a noite. E, se o visita à noite, setenta mil anjos continuam suplicando por ele até a manhã. E ele terá um jardim de frutos no Paraíso.” (Tirmidhi, Abu Dawud — Ali, que Allah esteja satisfeito com ele)
من عاد مريضا لَّم بزل يخوض الرحمة حتى يجلس واذا جلس اغتمس فيها –
“Aquele que vai visitar um doente entra no mar da misericórdia. E, quando se senta junto ao doente, mergulha na misericórdia.”
O Mensageiro (que a paz esteja com ele) também disse:
اتمام عيادت المريض انَّ يضع احدكم يده على جبهته او على يده فيساله كيف هو –
‘A forma mais completa de cuidar de um doente é o cuidador colocar a mão sobre a mão ou a testa dele e perguntar-lhe como está.’ (Ahmad, Tirmidhi — Abu Osman, que Deus esteja satisfeito com ele)
Há também algumas regras para cuidar dos doentes. A mais importante delas é oferecer consolo ao enfermo, desejar sua recuperação e prestar-lhe assistência e cuidados. O nobre Mensageiro (que a paz esteja com ele) ordenou isso com as seguintes palavras:
اذا دخلتم على مريض فنفسوا له فى اجله فانَّ ذالك لا يردَّ شيئا ويطيب بنفسه –
‘Quando visitarem um doente, ofereçam-lhe consolo. Embora isso não possa revogar o decreto divino, alegra o coração do enfermo.’ (Tirmidhi, Ibn Majah — Abu Sa’id al-Khudri, que Deus esteja satisfeito com ele)
O próprio Mensageiro (que a paz esteja com ele), quando visitava um doente, colocava a mão sobre sua testa para consolá-lo e dizia:لا بأس طهور انشاء اللهDepois, perguntava-lhe o que desejava em particular. Ele também dizia aos Companheiros: quando forem visitar um doente, coloquem a mão sobre a mão ou a testa dele, ofereçam-lhe consolo e façam uma súplica por sua recuperação. (Abu Dawud — Sirat an-Nabi (que a paz esteja com ele))
Contudo, ele proibiu que permanecessem sentados por muito tempo junto ao doente ou fizessem barulho.
6. A expressão das emoções
Quando existe no coração humano o sentimento de amor, ele naturalmente procura um caminho para se expressar. Da manifestação dos sentimentos geralmente se obtêm dois benefícios. Primeiro: a pessoa que dá ao seu sentimento a oportunidade de se expressar mantém-no sempre vivo e vigoroso, e ele continua a se desenvolver gradualmente. Se o sentimento for reprimido no coração, pouco a pouco a sombra da morte se abaterá sobre ele, e seu crescimento e desenvolvimento cessarão. Privado de vitalidade e vigor, ele irá descendo gradualmente rumo à decadência. O segundo benefício do sentimento é que ele torna as relações mútuas mais fortes e estáveis. Quando uma pessoa toma conhecimento dos sentimentos de seu irmão por ela e percebe quão profundos são o amor, o afeto, a fraternidade e a amizade que o coração de seu irmão nutre por ela, isso naturalmente exercerá uma influência duradoura sobre seu coração. Surgirá em seu coração respeito pelo valor da amizade e do amor de seu irmão. Na realidade, se os sentimentos do coração não forem expressos, mesmo que dois irmãos nutram bons sentimentos, uma relação firme e estável de amizade e amor jamais poderá subsistir entre eles.
Se um irmão muçulmano nutre amor por outro muçulmano, este tem pleno direito de tomar conhecimento dessa disposição e inclinação do coração de seu irmão para com ele. Isso para que possa desenvolver em seu próprio coração sentimentos de igual intensidade em resposta a essa emoção e, por ignorância, não adote uma conduta contrária ou prejudicial ao amor que seu irmão sente por ele.
Por essa razão, para o desenvolvimento e crescimento do amor mútuo entre dois irmãos muçulmanos, não seria exagero dizer que, na maioria dos casos, é absolutamente necessário não ocultar os sentimentos e permitir que se expressem abertamente, a fim de preservar essa relação da ruína. A causa principal da ruína costuma ser a seguinte: uma pessoa ama seu irmão e expressa esse amor de várias maneiras. Mas, se seu irmão, embora também nutra amor em seu coração, permanecer calado, como um espectador silencioso, essa manifestação de amor certamente criará no coração do primeiro irmão suspeita, desconfiança e distanciamento.
Quando o amor oculto do coração, a amizade e a disposição para a harmonia se manifestam exteriormente, isso ocorre de muitas maneiras. Nesse caso, cada ação, comportamento e passo de uma pessoa expressa seus sentimentos por seu irmão. Essa expressão ocorre tanto por meio das ações quanto por meio da palavra. Na realidade, essa disposição se manifesta através do bom trato, do atendimento às necessidades, da crítica sincera e do esforço para corrigir, do convite para uma refeição, do rosto alegre, do sorriso discreto, do abraço, da participação nas tristezas e dificuldades, da confiança mútua em assuntos pessoais e de outras coisas semelhantes. Já discutimos alguns desses aspectos; os restantes serão abordados adiante.
Nesse contexto, a segunda grande força eficaz é a língua. Assim como uma palavra dolorosa proferida pela língua age como uma flecha, sendo difícil apagar sua marca, uma palavra agradável exerce uma influência tão profunda que é difícil para outra pessoa sequer avaliá-la. Por isso, vemos que o Mensageiro de Allah ordenou que se tivesse o máximo cuidado com a língua. Seu uso indevido pode levar as relações mútuas ao nível mais baixo da ruína e da distorção; mas, quando bem utilizada, pode elevar essas relações aos níveis mais altos de amor, afeto e amizade. Poucas pessoas compreendem isso. Normalmente, um conjunto de poucas palavras proferidas pela língua — palavras que expressam amizade e amor a outra pessoa — pode satisfazer profundamente o coração humano. Às vezes, nem mesmo um grande ato de bondade pode igualá-las. No entanto, há muitas pessoas que são avarentas até mesmo ao proferir uma palavra boa, uma frase inspiradora e uma expressão alegre. Assim, não apenas se privam da felicidade de proporcionar imensa alegria ao coração de seu próprio irmão — sobre o que já foi declarado anteriormente: quem alegra o coração de um irmão muçulmano alegra o Mensageiro de Allah; quem alegra o Mensageiro de Allah alegra o próprio Allah; e quem alegra Allah, Allah o fará entrar no Paraíso —, mas às vezes também ferem o coração de seu irmão por não dizerem palavras agradáveis. Chegam, em certas ocasiões, a não hesitar em fazer declarações irrefletidas e irresponsáveis. No entanto, foi declarado a esse respeito: “Quem aflige o coração de um muçulmano aflige o próprio Allah.”
Por manifestação dos sentimentos através da língua entende-se geralmente a expressão de amor, a saudação, a súplica, as palavras gentis e afetuosas, a demonstração de compaixão, a pergunta sobre o bem-estar e coisas semelhantes. Tendo em vista essa importância da língua, o nobre Profeta apresentou aos Companheiros o seguinte quadro do Dia da Ressurreição: naquele dia, ao redor das pessoas haverá apenas fogo ardente ou suas obras e boas ações, e nesse dia Allah, o Altíssimo, fará pessoalmente o acerto de contas. Em seguida, ordenou: “Proteja-se desse fogo terrível, ainda que seja com um pedaço de tâmara; e, se isso também não for possível, diga ao menos uma palavra boa.”
Com efeito, considerando todas as provas e evidências e ponderando todos os aspectos, podemos facilmente compreender o que o Mensageiro de Allah ordenou sobre esse assunto e por que o ordenou. Sobre a manifestação do amor, ele disse:
اذا احبَّ الرَّجل اخاه فليخبره انه يحبه-
‘Quando uma pessoa ama seu irmão, é necessário que lhe comunique que o ama.’ (Tirmidhi, Abu Dawud)
Certa vez, um homem passava diante do Santo Profeta (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). Então, um dos que estavam com ele exclamou: ‘Eu amo aquele homem por amor a Allah.’ O Nobre Profeta (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) perguntou-lhe:
أعلمته قال لا قال قم فاعلمه فقام اليه فاعلمه فقال احبَّك الذى احببتنى له –
‘Você lhe comunicou isso?’ Ele respondeu: ‘Não.’ Ele disse: ‘Vá e comunique-lhe que você o ama por amor a Allah.’ Então, ele se levantou, foi até o homem e lhe disse. O homem respondeu: ‘Que Aquele por cuja satisfação você me ama também o ame.’ (Bayhaqi, Tirmidhi — Anas bin Malik, que Allah esteja satisfeito com ele)
Hazrat Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele) narrou um acontecimento, dizendo que o Mensageiro Nobre (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) estava beijando Hazrat Hasan bin Ali (que Allah esteja satisfeito com ele). ‘Afra bin Jalis (que Allah esteja satisfeito com ele) estava sentado junto dele. Ao vê-lo beijar o menino, disse: ‘Tenho dez filhos, mas nunca beijei nenhum deles.’ O Mensageiro Nobre (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) olhou para ele e disse: ‘Não se demonstra misericórdia àquele que é privado de misericórdia.’
من لا يرحم لا يرحم –
Em outro hadith, a questão foi expressa assim: ‘O que posso fazer se Allah privou seu coração da misericórdia?’ (Bukhari e Muslim.)
A melhor oportunidade para expressar os sentimentos é o encontro. A importância e a necessidade do encontro já foram mencionadas anteriormente. Vejamos agora como deve ser o encontro para que os sentimentos sejam expressos.
7. Encontro com afeição e bom humor
Depois do bom trato, o encontro é o meio mais eficaz para melhorar as relações mútuas. Mas a condição para isso é que, durante o encontro, por um lado, não se cause sofrimento a ninguém por meio de palavras desagradáveis, brincadeiras sarcásticas, zombaria e coisas semelhantes; por outro, o encontro deve ocorrer de tal modo que a emoção do amor se manifeste pela própria maneira do encontro. A esse respeito, encontramos muitas orientações nos hadiths. Uma dessas formas consiste em, durante o encontro, em vez de comportamentos dolorosos e dilacerantes, como rudeza, severidade, desprezo e indiferença, demonstrar suavidade, cortesia, amabilidade e palavras agradáveis. Sobre a pessoa afável, o Mensageiro de Deus (s.a.w.) disse:
الا اخبركم بمن يحرم على النَّار وبمن تحرم النّار عليه على كلِّ هيِّن ليِّن قريب سهل –
«Vou falar-vos de uma pessoa para quem o fogo do Inferno é proibido e para quem o Inferno também é proibido. Essa pessoa é afável no temperamento, na natureza e na fala.» (Ahmad, Tirmidhi — Ibn Mas’ud, que Deus esteja satisfeito com ele)
Outra forma é encontrar-se com o rosto sorridente e sorrir ligeiramente assim que se avista a outra pessoa. O Nobre Mensageiro (s.a.w.) recomendou ambas essas coisas. Certa vez, disse:
لا تحفرنَّ من المعروف شيئا ولو ان تلقى اخاك بوجه طليقٍ –
«Não considereis insignificante nenhum ato virtuoso, mesmo que consista em encontrar-vos sorridentes com o vosso irmão.» (Muslim — Abu Dharr, que Deus esteja satisfeito com ele)
Em outro lugar, foi dito: «Sorrir ligeiramente ao ver o vosso irmão também é uma caridade.»
Não se deve encontrar o outro com desprezo e indiferença, mas sim com interesse e atenção, deixando claro à outra pessoa que esse encontro está sendo realizado por um sincero sentimento de alegria.
Os Companheiros dizem, a respeito do Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele), que, quando dava atenção a alguém, fazia-o com todo o corpo e toda a alma. Al-Bayhaqi narrou um episódio desse tipo. O episódio é o seguinte: certa vez, o Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) estava sentado em uma reunião na mesquita. Nesse momento, chegou ali um homem, e o Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) se mexeu e se levantou. O homem disse: “Ó Mensageiro de Deus, há espaço suficiente.” Ele respondeu:
انَّ للمسلم لحقاً اذا راه اخوه انْ يَّتزخزح له-
“É direito do muçulmano que, quando seu irmão o vê, se prontifique para recebê-lo.” (Al-Bayhaqi — Wailah ibn Khattab, que Deus esteja satisfeito com ele)
Aisha (que Deus esteja satisfeito com ela) conta que, quando Zayd ibn Harithah (que Deus esteja satisfeito com ele) chegou a Medina e bateu à porta do lado de fora para encontrar-se com o Mensageiro de Deus, este saiu apressadamente, sem sequer amarrar o manto, apenas arrastando-o consigo. Juro por Deus que nunca o vi assim, nem antes nem depois disso. Impelido pelo afeto, ele abraçou Zayd pelo pescoço e o beijou. Da mesma forma, quando Ja‘far al-Tayyar (que Deus esteja satisfeito com ele) retornou da Abissínia, o Mensageiro de Deus (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) abraçou-o pelo pescoço e o beijou. Quando ‘Ikrimah ibn Abu Jahl (que Deus esteja satisfeito com ele) foi prestar-lhe seus serviços, ele disse: “Seja bem-vindo, cavaleiro emigrante.”
8. Salām
A expressão de afeto por meio do salām foi designada como um método específico e também foi incluída entre os deveres e direitos de um muçulmano para com outro muçulmano. Assim, por um lado, expressa-se o afeto e, por outro, manifesta-se a súplica — isto é, os bons votos — pelo próprio irmão. O Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele), depois de chegar a Medina, proferiu seu primeiro sermão, no qual deu instruções sobre quatro assuntos. Um deles era o seguinte:
وافشوا السَّلام بينكم –
«Difundi o salām entre vós.» A importância disso manifesta-se ainda mais claramente no seguinte hadith:
لا تدخلون الجنَّة حتَّى تؤمنوا ولا تؤمنوا حتّى تحابُّوا الا ادلُّكم على شيئ اذا فعلتموه تحاببتم افشوا السلام بينكم –
«Nunca entrareis no Paraíso até que sejais crentes. E não sereis crentes até que vos ameis uns aos outros. Não quereis que vos indique algo que, se o praticardes, fará com que vos ameis uns aos outros? É isto: difundi o salām entre vós.» (Muslim—Abu Huraira (r.a.))
Em outra ocasião, depois de indicar seis deveres e direitos do muçulmano para com o muçulmano, ele disse:
يسلِّم اذا لقيه –
«Sempre que te encontrares com ele, saúda-o com salām.» (Nasa’i—Abu Huraira (r.a.))
Neste contexto, aquele que inicia o salām e toma a iniciativa foi especialmente incentivado. O Nobre Mensageiro (s.a.w.) disse:
«Aquele que inicia o salām mantém-se afastado da arrogância.»
Ele também disse:
انَّ اولى النّاس بالله من بدء السلام –
‘Aquele que inicia o salam está entre os que estão mais próximos da misericórdia de Allah.’ (Ahmad, Abu Dawud — Abu Usman, que Allah esteja satisfeito com ele)
É evidente que a exigência do amor é que a pessoa se adiante e faça uma súplica pelo seu irmão, expressando assim os sentimentos do seu coração. O Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) sempre iniciava o salam quando caminhava pela estrada. A todos que encontrava no caminho — mulheres, homens ou crianças, sem distinção — ele oferecia o salam. Além disso, era especialmente solícito em oferecer o salam às crianças. Sobre o salam, ele disse:
اذا لقى احدكم اخاه فليسلِّم عليه فان حالت بينهما شجَّرةٌ او جدارٌ او حجر ثمَّ لقييه فليسلِّم عليه –
‘Quando alguém dentre vós encontrar seu irmão, deverá oferecer-lhe o salam. Depois, se uma árvore, uma parede, uma pedra ou qualquer outra coisa criar uma barreira entre os dois e eles se encontrarem novamente, também deverão oferecer o salam. (Abu Dawud — Abu Huraira, que Allah esteja satisfeito com ele)
Ele recomendou especialmente que se oferecesse o salam aos familiares e disse a Hazrat Anas (que Allah esteja satisfeito com ele):
يا بنىَّ اذا دخلت على اهلك فسلِّم يكون بركة عليك وعلى اهل بيتك –
“Ó meu filho! Quando entrares em tua casa, saúda todos com salam. Isso será benéfico para ti e para os membros da tua família.” (Tirmidhi — Anas, que Allah esteja satisfeito com ele)
A troca de salam só pode aumentar o amor quando for feita com o sentimento correto: um irmão suplica pela paz do outro irmão e, por meio disso, manifesta a profundidade do amor e da boa vontade que há em seu coração. Caso contrário, não há dúvida de que a simples emissão habitual de duas ou poucas palavras da boca, como no islam convencional, não pode aumentar o amor mútuo.
9. Musafaha
Para expressar o amor e a emoção do coração durante o encontro, a segunda coisa que o Nobre Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, recomendou depois do salam foi o musafaha, ou aperto de mãos. Perguntaram a Anas, que Allah esteja satisfeito com ele, se o musafaha era praticado entre os Companheiros do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Ele respondeu: “Sim.”
Na realidade, o musafaha é a conclusão ou a complementação do salam. Ou seja, por meio dele, todo o espírito do salam alcança sua plenitude. O próprio Nobre Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, declarou:
تمام تحيّاتكم بينكم المصافحة –
“Por meio do musafaha, o salam mútuo entre vós alcança sua plenitude.” (Ahmad, Tirmidhi — Abu Umalah, que Allah esteja satisfeito com ele)
Sobre o musafaha, o Nobre Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, também disse: “Continuai a fazer musafaha, pois por meio dele a inimizade é afastada.
(تصافحوايذهب الغلَّ) Além disso, o Nobre Mensageiro (que a paz esteja com ele) também deu as seguintes boas-novas sobre a recompensa do musafaha:
ما من مسلمين يلتقيان فيصا فحان الاَّ غفرلهما قبل ان يَّتفرَّقا وفى رواية اخرى اذا التقى المسلمان فتصافحا وحمدا الله واستغفرا الله غفرلهما –
“Quando dois muçulmanos se encontram e fazem musafaha entre si, todos os seus pecados são perdoados antes que se separem. Em outra narração, consta que, quando dois muçulmanos fazem musafaha, louvam a Allah e pedem-Lhe perdão, eles são perdoados.” — (Ahmad, Tirmidhi, Ibn Majah — Baiá bin Gálib, que Allah esteja satisfeito com ele)
10. Tratar pelo melhor nome
Toda pessoa que conhece a natureza humana deseja ser tratada por um nome nobre. Essa é uma aspiração natural do ser humano. E quanto mais afetuosa e emotiva for a maneira como alguém é tratado, mais seu coração será tocado pela sinceridade e pelo amor de quem o trata. Portanto, não se deve ser mesquinho nesse assunto. Pelo contrário, deve-se procurar chamar o próprio irmão de tal maneira e com tal tom que o sentimento de amor por ele se expresse plenamente. No movimento de Sayyid Ahmad Shahid (que Allah tenha misericórdia dele), cada pessoa tratava os que tinham posição equivalente ou eram mais velhos acrescentando a palavra “irmão” aos seus nomes, enquanto aos mais jovens se dirigia apenas pelo nome. Em suma, o tratamento deve ser de tal natureza que o próprio amor se manifeste plenamente e o coração do outro também se alegre. Não há lugar, numa relação de afeição e sinceridade, para que alguém trate seu irmão com uma linguagem de que ele não gosta. A esse respeito, aplica-se plenamente todo o hadith sobre o discurso afetuoso. Quando Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) foi questionado sobre o que fortalece a amizade, ele deu uma resposta realmente maravilhosa. Disse: “Trata o teu amigo pelo melhor nome.”
11. Interesse pelos assuntos pessoais
Uma das exigências do amor sincero é demonstrar interesse pelos assuntos pessoais do próprio irmão, assim como se demonstra interesse pelos próprios assuntos pessoais. Quando te encontrares com teu irmão, pergunta por sua situação pessoal e demonstra pleno interesse por ela. Desse modo, surgirá no coração de um irmão a convicção quanto à sinceridade e à benevolência do outro, e os sentimentos do coração de um irmão se revelarão ao outro. Consequentemente, essas coisas tornarão a relação entre eles ainda mais sólida. O Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) também chamou atenção para esse aspecto ao instruir seus companheiros a se conhecerem pessoalmente. Ele disse:
اذا اخى الرَّجلُ الرَّجلَ فليسأله عن اسمه واسم ابيه وممَّن هو فانَّه او صل للمودَّة –
«Quando uma pessoa fizer amizade com outra, deve perguntar-lhe o nome, o nome de seu pai e sua origem tribal. Pois, por meio disso, as raízes do amor mútuo tornam-se mais fortes.» (Tirmidhi — Yazid ibn Na‘ama, que Allah esteja satisfeito com ele)
O próprio nome e coisas semelhantes fazem parte dos assuntos pessoais de uma pessoa. Desse modo, o hadith em questão aponta justamente para o princípio que apresentei. A afirmação «além disso, as raízes do amor se fortalecem» também lança luz sobre seu verdadeiro significado.
12. Presentes
Oferecer presentes para expressar amor e sinceridade ao irmão é algo extremamente eficaz para a estabilidade dos relacionamentos. Na verdade, falar boas palavras, chamar alguém por um nome honroso, demonstrar amor e coisas semelhantes são presentes da língua. Por meio deles, um irmão expressa seu amor e sua emoção ao outro e procura atraí-lo para si. Assim como esses presentes da língua alegram o coração, estabelecem vínculos entre diferentes corações e ajudam uns a atrair os outros para si, os presentes materiais também ligam o coração de uma pessoa ao coração de outra e, desse modo, o amor mútuo aumenta. Ao aconselhar a oferta de presentes, o Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) também esclareceu este benefício: por meio deles, a impureza dos corações é lavada e removida. Ele disse:
تهادوا تحابُّوا وتذهب شحناؤكم – (او كما قال عليه السلام)
«Enviai presentes uns aos outros; por meio disso, o amor mútuo aumentará, e a distância e a inimizade entre os corações desaparecerão.» (Muwatta de Malik, ‘Ata)
O próprio Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) oferecia repetidamente presentes aos seus companheiros, e seus Companheiros enviavam presentes a ele e uns aos outros. A esse respeito, as coisas que devemos recordar e a orientação que recebemos da vida do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) são as seguintes:
1. Os presentes devem ser oferecidos sempre de acordo com as próprias possibilidades, e não se deve deixar de oferecê-los por não poder dar algo valioso ou especial; na realidade, aquilo que cria vínculos entre os corações não é o valor ou a importância do presente, mas a sinceridade e o amor de quem o oferece.
2. Qualquer que seja o presente, deve-se sempre aceitá-lo com gratidão.
3. Deve-se sempre procurar retribuir um presente com outro presente. Isso não significa que o presente tenha de ser de valor equivalente; pelo contrário, cada um deve dar de acordo com as suas próprias possibilidades. Era prática do Nobre Profeta (S.A.W.) procurar sempre retribuir os presentes. Certa vez, quando um homem se recusou a aceitar a retribuição, ele manifestou grande desagrado.
4. Entre os presentes, o que o Nobre Mensageiro (S.A.W.) mais apreciava era o perfume. Hoje em dia, os livros também podem ser incluídos nessa categoria.
13. Expressar gratidão
Expressar gratidão é uma excelente maneira de manifestar os próprios sentimentos de amor e demonstrar que se reconhece o amor do outro. Quando uma pessoa percebe que seu irmão compreende devidamente a importância e o valor das ações realizadas por amor a ele e sob o impulso desse amor, seu amor sincero por seu irmão aumentará. Por outro lado, se uma pessoa que nutre amor perceber que sua sinceridade e seu amor não têm qualquer valor, suas emoções naturalmente começarão a se extinguir. Por isso, quando um muçulmano ajudar outro irmão muçulmano, tratá-lo bem, disser-lhe alguma palavra amável ou lhe oferecer um presente, é dever indispensável desse irmão muçulmano expressar-lhe alegremente a sua gratidão. Assim, fará com que ele saiba que reconhece plenamente o valor de sua sinceridade e de seu amor. Sobre o Nobre Profeta (S.A.W.), os Companheiros dizem que, quando alguém lhe oferecia algo, ele o aceitava com gratidão; e, quando alguém realizava algum serviço para ele, expressava sua gratidão por isso.
14. Fazer refeições juntos
Participar juntos das refeições e convidar outra pessoa para comer em sua própria casa também são excelentes maneiras de expressar sinceridade e amor. Isso não apenas proporciona a oportunidade de conversar francamente, mas, quando um muçulmano convida seu irmão para comer em sua casa, cria no convidado o sentimento de que seu irmão nutre profundo amor por ele. E, quando esse sentimento é criado, a relação mútua certamente se fortalecerá. Os Companheiros costumavam convidar uns aos outros e também convidavam frequentemente o Nobre Profeta (S.A.W.). Quando o próprio Nobre Profeta (S.A.W.) tinha algum alimento ou recebia algo de algum lugar, fazia com que toda a assembleia participasse dele. Deve-se ter em mente, no que diz respeito aos convites e às refeições feitas juntos, as coisas mencionadas anteriormente a propósito dos presentes. Sobretudo, não se deve permitir qualquer constrangimento em relação aos convites; ao contrário, cada um deve oferecer comida de acordo com suas possibilidades, ainda que seja apenas a refeição cotidiana. Contudo, se for possível preparar algo especial nessa ocasião, isso certamente produzirá uma boa impressão no convidado. Seja o que for que lhe seja apresentado, é dever do convidado aceitá-lo com satisfação e gratidão. A conclusão sobre este assunto é que, assim como no caso dos presentes, também se deve procurar retribuir os convites.
A esse respeito, também é importante saber que, nos primeiros tempos, havia entre os muçulmanos certa hesitação e constrangimento quanto a comer nas casas de seus entes queridos e parentes. Sobre esse assunto, Allah, o Altíssimo, eliminou essa hesitação e esse constrangimento ao revelar um versículo no próprio Alcorão, na surata An-Nur.
15. Súplica
A súplica é algo que, por um lado, assimila em si mesma muitos dos deveres e direitos que discutimos e, por outro, aumenta a amizade e o amor mútuos. Por meio da súplica, um muçulmano pede ao seu próprio Senhor misericórdia e perdão para o seu irmão, roga pelo seu bem-estar e prosperidade e solicita a melhoria da sua situação. É evidente que somente o muçulmano mantém a convicção de que a verdadeira chave das causas está nas mãos de Allah. Nessas circunstâncias, quando vê que o seu irmão ergue as mãos diante do seu próprio Senhor para suplicar por ele, fica profundamente tocado e influenciado.
A súplica pode ser feita tanto em segredo quanto face a face. Uma de suas formas é o salam, por meio de cuja fórmula completa o muçulmano pede paz, misericórdia e bênçãos para o seu irmão. Outro dever de um muçulmano para com outro é que, quando este espirrar e disser «Al-hamdulillah», deve pedir misericórdia para ele. Oferecer a oração fúnebre pelo seu irmão muçulmano também é um dever especial, e isso igualmente constitui uma forma de súplica. O cuidado do irmão enfermo — mencionado anteriormente — também contém uma súplica.
Quando a súplica é feita face a face ou chega ao conhecimento da pessoa envolvida, seu primeiro benefício é que ela passa a acreditar de todo o coração na sincera benevolência e no amor de seu irmão. Como o objetivo almejado por ambos é a misericórdia de Allah, ela percebe que seu irmão não apenas se empenha concretamente pelo seu bem, mas também apresenta diante de Allah as suas esperanças e aspirações, assim como apresenta as próprias. Mesmo agitado por suas próprias dores e aflições, ele estende as mãos diante do seu Senhor, pede perdão não apenas pelos próprios erros e pecados, mas também pelos erros e pecados dela, e espera, para ela assim como para si mesmo, a satisfação e a misericórdia de Deus. Percebe ainda que seu irmão se preocupa tanto com ela que, quando estão a sós apenas o irmão e o seu Allah, ele ainda se lembra dela. Nessas circunstâncias, nasce naturalmente em seu coração amor pelo irmão que suplica por ela. Assim, todos os benefícios da expressão dos sentimentos podem ser obtidos por meio da súplica.
Em segundo lugar, quando aquele que suplica procura incluir o outro em sua própria súplica, a relação sincera entre ambos se fortalece ainda mais e, ao mesmo tempo, a pureza se introduz nessa relação.
Além disso, juntamente com as súplicas por misericórdia, perdão, atendimento das necessidades e remoção das dificuldades, foi recomendado que se suplique pelo irmão, para que permaneça firme no caminho da verdade, e também pela amizade mútua.
اللّهمَّ الِّف بين قلوبنا واصلح ذات بيننا –
«Ó Allah! Une os nossos corações e remove a animosidade entre nós.»
Assim, também foi recomendado fazer súplicas para que a mácula, a animosidade e coisas semelhantes sejam removidas do coração. Isso porque nutrir no coração amargura, ressentimento ou queixas uns contra os outros é uma doença extremamente grave. Por isso, deve-se suplicar humildemente pela sua cura.
ربَّنا اغفرلنا ولاخواننا الَّذ ين سبقونا بالايمان ولا تجعل فى قلوبنا غلاًّ لّلَّذين امنوا ربَّنا انَّك رؤف الرَّحيم –
‘Ó nosso Senhor! Perdoa-nos e perdoa também os nossos irmãos que nos precederam na fé, e não permitas que haja em nossos corações qualquer rancor ou hostilidade contra os que creem. Ó nosso Senhor! Tu és, realmente, Dotado de grande benevolência e Misericordioso.’ (Surata Al-Hashr, 10)
Mencionar o nome do próprio irmão ou lembrar-se dele durante a súplica contribui para fortalecer ainda mais a relação. Fazer espontaneamente súplicas pela misericórdia para o próprio irmão, pedir a Allah amizade e amor por ele e rogar para que a relação seja protegida da distorção e dos danos é, evidentemente, um dever de todo muçulmano para com outro muçulmano; mas pedir uns aos outros que façam súplicas por si e expressar o desejo de participar das súplicas também pode contribuir para o fortalecimento das relações mútuas. Como exemplo, o Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) disse: ‘Quando fores visitar o teu irmão enfermo, pede-lhe também que faça uma súplica por ti. Isso porque a súplica dele é mais prontamente aceita.’
Certa vez, quando Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) partia para o Hajj, o Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) disse-lhe algumas palavras. Sobre essas palavras, o próprio Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) declarou: ‘Isto é o que mais amo em toda a minha vida.’ As palavras foram: ‘Ó nosso irmão, lembra-te de nós em tuas súplicas.’
16. Retribuir de maneira bela
Todo muçulmano deve esforçar-se para retribuir a sinceridade e o amor de seu irmão muçulmano com uma sinceridade e um amor ainda maiores. Isso porque nenhuma relação pode desenvolver-se por meio de um amor unilateral. Além disso, o coração do outro irmão permanece tranquilo, sabendo que seu amor não está sendo desperdiçado nem está sendo tratado com desrespeito. Retribuir a saudação com outra saudação, oferecer um presente em troca de um presente, responder a uma palavra boa com outra palavra boa e cumprir tudo isso de maneira bela — a orientação para fazer todas essas coisas lança luz precisamente sobre o princípio mencionado. A esse respeito, também se deve lembrar a seguinte declaração do Nobre Mensageiro (que a paz esteja com ele):
‘Entre dois amantes, o melhor é aquele que nutre maior amor por seu irmão.’
Se não for possível responder ao amor do próprio irmão com algo ainda melhor, deve-se ao menos corresponder-lhe no mesmo nível; e, ao mesmo tempo, declarar a própria incapacidade certamente tocará o coração do outro.
17. Reconciliação e refutação das queixas
Depois de ter em mente os fundamentos da relação, é natural que surjam várias falhas e incapacidades ao se procurar adotar meios adequados para criar nela sentimentos de amizade e amor e protegê-la da corrupção e do mal. Nenhum ser humano pode afirmar que jamais cometerá um erro em qualquer atividade. Sobretudo porque essa relação é construída em prol da revolução islâmica, Satanás também se mantém extremamente ativo nesse assunto e procura constantemente brechas para corromper a relação mútua e criar nela fissuras. Se tudo o que foi anteriormente discutido sobre as relações mútuas for devidamente mantido em vista, e se forem seguidos princípios como não causar ao próprio irmão, por meio das palavras ou das ações, qualquer sofrimento físico ou mental; esforçar-se ao máximo para ajudá-lo em suas necessidades religiosas e mundanas; manifestar plenamente a própria sinceridade e amor; e, reconhecendo o valor da sinceridade e do amor do outro, demonstrar uma sinceridade e um amor ainda maiores ou, pelo menos, equivalentes, e se o próprio comportamento continuar sendo avaliado por esse mesmo padrão, tornar-se-á muito difícil a infiltração de Satanás nessa relação. Ainda assim, se forem percebidas corrupção e deterioração na relação, cada irmão muçulmano deverá ter em mente algumas coisas. Mantendo essas coisas diante de si, será possível remover facilmente a corrupção, mesmo quando ela se manifestar. A base mais comum da corrupção nas relações é o surgimento de uma queixa, no coração de um irmão, contra outro irmão muçulmano. Pode haver muitas razões para o surgimento de uma queixa. Contudo, as questões discutidas neste capítulo eliminam todas essas causas. Em toda queixa observa-se uma semelhança: quando um muçulmano se sente magoado por alguma palavra ou ação de seu irmão, é daí que nasce a queixa. Se o assunto for grave, essa queixa, por si só, será suficiente para corromper a relação. Se for algo pequeno, porém, a junção de vários outros episódios semelhantes produzirá um sentimento intenso. É necessário que os assuntos discutidos a esse respeito sejam mantidos diante de todos.
Primeiro: um muçulmano não deve dar ao outro qualquer oportunidade de apresentar uma queixa. Deve esforçar-se sempre para não causar, de modo algum, sofrimento ao coração de seu irmão.
Segundo: todo muçulmano deve ser magnânimo em relação ao próprio irmão. Deve manter diante de si os elevados ensinamentos morais do nobre Mensageiro e esforçar-se ao máximo para que não surja nenhuma queixa contra alguém e, caso surja, para removê-la imediatamente do coração.
Terceiro: mesmo depois desse esforço, se surgir uma queixa e não for possível esquecê-la, não se deve alimentá-la no coração. Seja o assunto pequeno ou grande, deve-se comunicá-lo imediatamente ao próprio irmão. Guardar no coração suspeita e mágoa em relação ao próprio irmão e encontrar-se com ele carregando essa mágoa é sinal do pior caráter. Portanto, sem qualquer demora, deve-se procurar imediatamente remover essa mácula do coração.
Quarto: aquele contra quem a queixa foi apresentada não deve ficar descontente nem torcer o nariz por causa disso. Pelo contrário, deve demonstrar gratidão ao irmão compassivo que, em vez de falar pelas costas e agir com deslealdade, veio apresentar a queixa diretamente; que, por considerar a relação algo extremamente valioso, tomou a iniciativa de resolver até mesmo uma pequena queixa e lhe deu a oportunidade de se corrigir.
Quinto: assim que souber que seu próprio irmão tem alguma queixa contra ele, deve procurar corrigir a si mesmo. Isso porque, quanto mais o tempo passa, mais profundamente se enraíza a corrupção. Além disso, quanto mais cedo a causa da discórdia for extirpada, melhor. Se realmente tiver cometido uma falta, deverá reconhecê-la de coração aberto e expressar arrependimento por isso. Se tiver alguma justificativa para essa falta, deverá também apresentá-la. Mas, se não tiver cometido nenhuma falta, e sim tiver surgido algum mal-entendido, ou se houver uma justificativa razoável, deverá esforçar-se para eliminar o mal-entendido. A seguinte declaração de Jesus Cristo, que a paz esteja sobre ele, no Evangelho, lança uma bela luz sobre o cumprimento desse dever por parte de um muçulmano:
“Se fores apresentar tua oferta no local do sacrifício e, ao chegares lá, te ocorrer que meu irmão tem uma queixa contra mim, deixa tua oferta diante do local do sacrifício, volta e reconcilia-te com teu irmão; somente depois disso poderás apresentar tua oferta.”
Aqui foi dito algo extremamente belo. Se teu irmão estiver ressentido contigo, será difícil para ti ser uma pessoa virtuosa e estabelecer tua relação com teu irmão sobre a harmonia. Na realidade, o verdadeiro objetivo da adoração só será plenamente alcançado quando conseguirmos agradar a Allah. Por isso, aconselha-se que, antes de apresentar a oferta, se remova a queixa do irmão, se busque a purificação espiritual e não se demore de modo algum nesse assunto.
Em sexto lugar: quando um irmão muçulmano reconhece uma falta, é nosso dever perdoá-lo; não se deve demonstrar qualquer avareza nesse assunto. Se ele apresentar uma desculpa, é nosso dever considerá-la e aceitá-la. Além disso, se ele apresentar alguma explicação com o objetivo de eliminar um mal-entendido, é nosso dever acreditar que suas palavras são verdadeiras. A esse respeito, devemos recordar as seguintes palavras do Nobre Profeta (que a paz esteja com ele):
‘Quem apresentar a seu irmão muçulmano uma desculpa por sua própria falta, mas não o considerar desculpado nem aceitar sua desculpa, carregará um pecado equivalente ao de um cobrador de impostos que comete injustiça por meio da cobrança de tributos ilegais.’
Para seguir corretamente essas instruções, é preciso compreender muito bem o valor das relações mútuas entre as pessoas, manter no coração plena reverência pelo amor entre irmãos e, ao mesmo tempo, compreender inteiramente quão grave é o pecado de corromper essa relação. O primeiro desses pontos pode ser muito bem compreendido a partir da discussão do primeiro capítulo e da segunda parte do capítulo atual. Sobre o segundo ponto, foi dito que o Nobre Profeta (que a paz esteja com ele), ao explicar a corrupção dessa relação, afirmou: ‘É uma lâmina que raspa, que elimina todo o Din do Islã.’ Portanto, aquele que acredita que o verdadeiro êxito é o êxito na Outra Vida certamente preservará seu Din a qualquer custo; e aquele que deseja proteger seu Din jamais permitirá, dentro de suas possibilidades, que essa relação seja corrompida. As advertências proferidas pelo Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) sobre o descontentamento mútuo e a ruptura das relações são tão agradáveis quanto severas. Ele disse:
لا يحلُّ للرَّجل ان يَّهجر اخاه فوق ثلاث ليالٍ يلتقيان فيعرض هذا ويعرض هذا وخيرهما الَّذى يبدأ بالسلام-
‘Não é permitido a nenhum muçulmano abandonar seu irmão por mais de três dias por causa de ressentimento, nem, quando ambos se encontrarem, virar o rosto um do outro em direções opostas. Entre os dois, o melhor é aquele que iniciar o salam — isto é, aquele que, abandonando o ressentimento, iniciar a reconciliação.’ (Bukhari e Muslim — Abu Ayyub Ansari, que Allah esteja satisfeito com ele)
Isso demonstra a superioridade daquele que inicia a reconciliação. O Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) também disse como Allah trata, perante Ele, dois muçulmanos nessa situação:
تعرض اعمال النَّاس فى كلِّ جمعة مرَّتين يوم الاثنين ويوم الخميس فيغفر لكلِّ عبدٍ مُّؤمن الاَّ عبدأً بينه وبين اخيه شحناء فيقال اتركوا او اركوا هذين حتى يفيئا –
‘Duas vezes por semana, às segundas e quintas-feiras, as ações das pessoas são apresentadas (perante Allah), e todo servo crente é perdoado, exceto aquele que nutre ódio contra o seu irmão muçulmano. Diz-se: “Deixai-o por alguns dias, para que possam reconciliar-se entre si.”’ (Muslim — Abu Huraira, que Allah esteja satisfeito com ele)
Sobre aquele que abandona o seu irmão por três dias, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse ainda:
لا يحلُّ لمسلم ان يَّهجر اخاه فوق ثلاث فمن هجر فوق ثلاث فمات دخل النَّار-
‘Não é permitido a nenhum muçulmano abandonar o seu irmão por mais de três dias. Quem permanecer afastado por mais de três dias e morrer durante esse período será um habitante do Inferno.’ (Ahmad, Abu Dawud — Abu Huraira, que Allah esteja satisfeito com ele)
Ele disse ainda:
فمن هجر اخاه سنة فهو كسفك دمه –
‘Quem abandonar o seu irmão muçulmano por um ano será como aquele que derramou o seu sangue (isto é, terá cometido um pecado dessa magnitude).’ (Abu Dawud — Abu Huraira, que Allah esteja satisfeito com ele)
É possível, contudo, que se apresente uma situação em que uma das partes rompa as relações depois de tentar uma reconciliação, ou permaneça do lado da verdade em uma disputa. Nesse caso, segundo a razão e a Shariah, ela não cometerá pecado algum. Ainda assim, mesmo em tal situação, é recomendado que se aja com magnanimidade, que se perdoe o próprio irmão e que se procure resolver a disputa, embora se esteja do lado da verdade. A respeito de aconselhar o abandono da disputa, o Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse em um hadith:
من ترك المراء وهو على حقٍّ بنى له بيت فى وسط الجنة ومن حسن خلقه بنى له فى اعلاها-
‘Para quem abandona a disputa, será construído um edifício no centro do Paraíso. E, para quem aprimora seu caráter, será construído um palácio no lugar mais elevado do Paraíso.’ (Tirmidhi — Anas, que Allah esteja satisfeito com ele)
Evidentemente, o grau mais elevado do caráter mais nobre é o perdão. É por isso que a pessoa se torna merecedora de ocupar o grau mais elevado do Paraíso.
Juntamente com a reconciliação, é dever dos demais irmãos muçulmanos e, de modo geral, da sociedade muçulmana, zelar pela relação entre os dois irmãos e corrigi-la ao perceber qualquer sinal de deterioração. Pois é dessa correção que depende a estabilidade das relações mútuas. E essa relação é a vida e a alma da sociedade. O Alcorão ordenou essa correção nas seguintes palavras:
انَّما المؤمنون اخوة فاصلحوا بين اخويكم –
“Os crentes são, na verdade, irmãos uns dos outros. Portanto, reconciliai os vossos dois irmãos.” (Surata Al-Hujurat, 10)
Foi dada também a ordem de combater aquele que transgredir nesse assunto.
O nobre Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) perguntou certa vez aos Companheiros: «Quereis que vos fale de uma prática cuja recompensa, em termos de mérito, é maior do que a da oração, do jejum e da caridade?» Os Companheiros disseram: «Sim, ó Mensageiro de Allah! Dizei-nos, certamente.» Ele disse:
اصلاح ذات البين – وفساد ذات البين الحالقة –
«Promover a reconciliação entre as pessoas e criar discórdia entre elas é raspar a própria religião.» (Abu Dawud, Tirmidhi)
A esse respeito, ele também disse (embora a posição do Islã em relação à mentira seja extremamente rigorosa):
ليس الكذَّاب الَّذى يصلح بين النَّاس ويقول خيرًا فيمنى خيرًا او يقول خيرًا –
«Aquele que promove a reconciliação entre as pessoas, diz boas palavras e transmite boas palavras não é mentiroso.» (Bukhari e Muslim — Umm Kulthum, que Allah esteja satisfeito com ela)
Isto é, transmite de uma parte à outra uma disposição benevolente que não foi realmente expressa. Contudo, quando tal mediação for necessária para promover a reconciliação, é apropriado dizer coisas que não foram ditas e falar de maneira que cada parte possa confiar no amor e na benevolência da outra.
À luz dessas instruções, se o muçulmano não der, por sua própria conduta, motivo para queixas, continuar empenhado nos esforços de reconciliação e permanecer atento à sociedade, será muito difícil para Satanás intrometer-se.
18. Buscar o tawfiq junto ao Senhor
A relação de amizade, fraternidade e amor é uma condição fundamental e uma exigência inevitável. Quanto mais amado for o próprio objetivo, mais profunda será também a relação fraterna entre um irmão e outro. Quando o sofrimento e as dificuldades de um se transformam no sofrimento e nas dificuldades do outro, a preocupação de um na preocupação do outro, e a alegria de um na alegria do outro, então a relação se eleva, por um lado, ao nível desejado. E, quando, além disso, há uma combinação de misericórdia e benevolência, a relação alcança a mais elevada posição sob todos os aspectos. Na verdade, somente uma relação assim pode infundir, dentro de uma jamā‘at e de um movimento, uma vida e uma consciência de ação capazes de garantir o sucesso. Quando essa grande bênção é alcançada mediante a adoção de todas as condições e procedimentos indicados por Allah e pelo Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), o tawfiq de Allah também se torna necessário para isso. Pois este é um favor especial de Allah. Portanto, deve-se suplicar humildemente a Ele para que o Senhor dos mundos proteja essa relação sagrada da distorção e da desintegração, e faça crescer continuamente nela a amizade e o amor.
ربَّنا اغفرلنا ولاخواننا الَّذ ين سبقون بالايمان ولاتجعل فى قلوبنا غلاًّ للَّذ ين امنوا ربَّنا انَّك رؤف الرَّحيم –
“Ó nosso Senhor! Perdoa-nos, assim como aos nossos irmãos que nos precederam na fé, e não coloques em nossos corações qualquer ressentimento ou hostilidade contra os crentes. Ó nosso Senhor! Tu és, em verdade, Possuidor de grande benevolência e Misericordioso.” (Surata Al-Hashr, 10)
— Fim —