Introdução

Ilah, Rabb, dīn e ibadah — na terminologia do Alcorão, estas quatro palavras possuem importância fundamental. A mensagem geral do Alcorão é que somente Allah, o Altíssimo, é o único Rabb e Ilah; não há outro ilah além d’Ele, nem outro Rabb. Ninguém participa com Ele na uluhiyyah e na rububiyyah. Portanto, reconhecei somente a Ele como vosso Ilah e Rabb; rejeitai a uluhiyyah e a rububiyyah de todos os demais além d’Ele. Adorai-O; não adoreis ninguém além d’Ele. Consagrai o dīn exclusivamente a Ele e rejeitai todos os demais dīns.

——————-Surata An-Nisā: 25——————– A todo Mensageiro que enviámos antes de ti, revelámos: “Não há ilah além de Mim. Portanto, adorai somente a Mim.” — An-Nisā: 25

———————Surata At-Tawbah: 31——————— Não lhes foi ordenado senão adorar este Ilah; não há outro ilah além d’Ele. Ele está livre daquilo que associam a Ele. — At-Tawbah: 31

——————–Surata Al-Anbiyā: 92—————– Certamente, esta vossa comunidade — isto é, a comunidade de todos os profetas — é uma única comunidade, e Eu sou o vosso Rabb. Portanto, adorai somente a Mim. — Al-Anbiyā: 92

———————Surata Al-An‘ām: 164 ————– Dize: “Acaso procurarei outro Rabb além de Allah, quando Ele é o Rabb de todas as coisas?” — Al-An‘ām: 164

——————–Surata Al-Kahf: 110 —————- Portanto, quem espera encontrar-se com o seu Rabb, que pratique boas ações e não associe ninguém à adoração do seu Rabb. — Al-Kahf: 110

——————-Surata An-Nahl: 36 ——————- Enviámos um Mensageiro a cada comunidade, com a instrução: “Adorai Allah e afastai-vos da adoração do tāghūt.” — An-Nahl: 36

——————Surata Al Imran: 83—————— Acaso procuram uma religião diferente do Dīn de Allah? No entanto, tudo quanto existe nos céus e na terra Lhe é submisso, voluntária ou involuntariamente, e a Ele retornarão. — Al Imran: 83

———————-Surata Az-Zumar: 11————— Diz: Foi-me ordenado adorar Allah e dedicar exclusivamente a Ele o meu Dīn. — Az-Zumar: 11

——————–Surata Al Imran: 51—————– Certamente, Allah é meu Rabb e vosso Rabb. Portanto, adorai somente a Ele. Este é o caminho reto. — Al Imran: 51

Como exemplo, foram apresentados estes poucos versículos. Todo aquele que estudar o Alcorão perceberá, já à primeira vista, que toda a discussão do Alcorão gira em torno destes quatro termos. A ideia central do grandioso Livro, o Alcorão, é esta:

Allah é o Rabb e o Ilah.

Ninguém além de Allah tem direito à Rububiyyah e à Uluhiyyah.

Portanto, deve-se adorar somente a Ele.

O Dīn deve ser dedicado exclusivamente a Ele.

A importância dos quatro termos

É evidente que, para compreender os ensinamentos do Alcorão, é absolutamente indispensável compreender corretamente e em sua plenitude o significado dos quatro termos. Se alguém não souber o significado da palavra ilah, a definição de ibadah e o que se entende por din, então todo o Alcorão se tornará sem sentido para essa pessoa. Ela não poderá conhecer o tawhid, não compreenderá o shirk, não poderá dedicar exclusivamente a ibadah a Allah, nem poderá consagrar o din exclusivamente a Allah. Do mesmo modo, se o significado desses termos permanecer obscuro e incompleto na mente de alguém, todo o ensinamento do Alcorão continuará obscuro para essa pessoa. Apesar de ter fé no Alcorão, tanto sua crença e prática quanto sua fé e suas ações permanecerão incompletas. Ela dirá com os lábios: “La ilaha illallah”, isto é, “não há ilah além de Allah”, mas, ainda assim, tomará muitos outros como ilah. Embora declare com os lábios: “Não há outro Rabb além de Allah”, na prática muitos outros se tornarão seus rabbs. Com a mais sincera boa intenção, dirá: “Não adoro ninguém além de Allah”; apesar disso, permanecerá ocupada adorando muitos outros objetos de adoração. Dirá com toda ênfase: “Estou no din de Allah”; se lhe disserem que ela está em outro din, estará pronta para lutar, mas, ainda assim, carregará ao pescoço as correntes de muitos dins. Jamais sairá de sua boca a palavra “ilah” ou “Rabb” em relação a alguém que não seja Allah; entretanto, no sentido para o qual essas palavras foram formuladas, ela terá muitos ilahs e rabbs. E a pobre pessoa nem sequer saberá que, na prática, tomou muitos rabbs e ilahs além de Allah. Se lhe disserem: “Você está adorando outros e cometendo shirk no din”, ela correrá para atirar pedras; contudo, à luz do significado de ibadah e din, estará de fato adorando outros e seguindo outro din. Nem sequer saberá: “O que estou fazendo, na realidade, não é nada além de adorar outros.” Sobre uma pessoa que caiu nessa situação, não se pode dizer outra coisa senão que ela está no din de alguém que não seja Allah.

A causa fundamental das concepções equivocadas

Quando o Alcorão foi apresentado na Arábia, todos sabiam o que significava ilah e quem era chamado de Rabb, pois essas duas palavras já eram correntes em sua linguagem. Eles sabiam o que essas palavras significavam e qual era seu sentido. Por isso, quando lhes foi dito que somente Allah era o Rabb e o ilah, e que ninguém tinha qualquer participação na uluhiyyah e na rububiyyah, compreenderam perfeitamente. Entenderam claramente o que estava sendo proibido em relação aos outros e o que estava sendo determinado exclusivamente para Allah. Aqueles que se opunham, opunham-se sabendo exatamente onde os atingia a negação da uluhiyyah e da rububiyyah de tudo o que não fosse Allah. Eles aceitaram a fé sabendo o que teriam de abandonar e o que teriam de aceitar ao adotar essa doutrina. Da mesma forma, as palavras ibadah e din também eram correntes em sua língua desde tempos antigos. Eles sabiam quem era um ‘abd e que tipo de estado era a ‘ubudiyyah. Sabiam que tipo de conduta se pretendia com ibadah e qual era o significado de din. Por isso, quando lhes foi dito: “Abandonai a adoração de todos os outros e adorai Allah; desligai-vos de todos os dins e ingressai no din de Allah”, não tiveram dificuldade para compreender o chamado do Alcorão. Assim que ouviram esse ensinamento, compreenderam que tipo de mudança ele exigia em seu sistema de vida.

Mas, nos séculos posteriores, o significado fundamental que essas palavras possuíam na época da revelação do Alcorão foi mudando gradualmente. Por fim, cada palavra perdeu toda a amplitude de seu significado e passou a ser usada para um sentido extremamente limitado e até mesmo obscuro. Uma das causas foi a falta de uma compreensão correta da língua árabe; a segunda foi que, entre as pessoas que surgiram na sociedade islâmica, já não permanecia o significado de ilah, Rabb, din e ibadah que prevalecia na sociedade não muçulmana quando o Alcorão foi revelado. Por essa razão, nos dicionários e livros de tafsir posteriores, a maioria das palavras corânicas foi explicada não segundo seus significados lexicais, mas segundo sentidos compreendidos pelos muçulmanos de épocas posteriores. Por exemplo:

A palavra ilah foi transformada quase em sinônimo de ídolo e divindade. Rabb foi transformada em sinônimo de nutridor, sustentador ou provedor. O significado de ibadah foi reduzido a culto e adoração ritual, e din foi transformada em sinônimo de religião, madhhab e Religion. Taghut foi traduzido como ídolo ou Satanás.

O resultado foi que as pessoas passaram a ter dificuldade até mesmo para compreender o objetivo fundamental do Alcorão. O Alcorão diz: “Não tomeis ninguém como ilah além de Allah.” As pessoas pensam: “Abandonamos os ídolos e as divindades; portanto, cumprimos o objetivo do Alcorão.” Contudo, continuam agarradas a tudo aquilo a que o significado de ilah também se aplica, sem sequer perceberem que estão tomando como ilah aquilo que não é Allah. O Alcorão diz: “Não reconheçais ninguém como Rabb além de Allah.” As pessoas dizem: “Não reconhecemos ninguém além de Allah como nosso provedor; portanto, nosso tawhid está completo.” Entretanto, considerando os demais sentidos em que a palavra Rabb é usada, a maioria das pessoas reconheceu, na prática, a rububiyyah de outros em lugar de Allah. O Alcorão diz: “Abandonai a ibadah do taghut e adorai somente Allah.” As pessoas dizem: “Não adoramos ídolos, amaldiçoamos Satanás e prostramo-nos somente diante de Allah; portanto, também cumprimos essa exigência do Alcorão.” Contudo, continuam agarradas a outros taghuts além dos ídolos de pedra e reservaram para aquilo que não é Allah todas as formas de ibadah que não consistem em adoração ritual. O mesmo ocorre com o din. Considera-se que purificar o din para Allah significa apenas que a pessoa aceitará a “religião islâmica” e não permanecerá hindu, judia ou cristã. Com base nisso, todos os que pertencem à “religião islâmica” pensam: “Purifiquei meu din para Allah.” Entretanto, à luz do sentido mais abrangente de din, a maioria dessas pessoas tem um din que não está purificado para Allah.

Os efeitos das concepções equivocadas

É verdade que, simplesmente porque o significado destes quatro termos fundamentais ficou encoberto, mais de três quartos dos ensinamentos do Alcorão — na verdade, seu verdadeiro espírito — tornam-se ocultos à vista. Apesar de aceitarem o Islã, os erros observados na crença, na prática, nas convicções e nas ações das pessoas têm aí uma de suas principais causas. Portanto, é absolutamente necessário apresentar os ensinamentos fundamentais do Alcorão Sagrado e sua explicação detalhada.

Em muitos artigos anteriores, tentei expor o significado dessas palavras. Mas, até agora, o que discuti, por um lado, não é suficiente para eliminar todas as concepções errôneas e, por outro, não pode proporcionar plena satisfação às pessoas. Isso ocorre porque, sem citar os dicionários e os versículos do Alcorão, as pessoas consideram todas as minhas explicações meras opiniões pessoais. Para aqueles que não concordam comigo, minhas opiniões, pelo menos, não podem ser motivo de satisfação. Nesta obra, tentarei apresentar com extrema clareza o significado completo destes quatro termos. Não direi nesta obra coisa alguma que não encontre comprovação nos dicionários e no Alcorão.

Ilah

 

Análise lexicográfica

As letras-raiz da palavra são alif, lam e ha (——-). Eis a descrição dos termos encontrados nos dicionários derivados dessa raiz:

——– Ele ficou exausto.

——– Ao buscar refúgio nele ou estabelecer uma relação com ele, obtive paz e satisfação.

—————————— Ao ser atingida por algum sofrimento ou aflição, a pessoa ficou amedrontada e aterrorizada; então outra pessoa lhe ofereceu refúgio.

—————————— Movido por intenso interesse, o homem prestou atenção à outra pessoa.

———————– O filhote de uma camela que perdera a mãe, assim que a encontrou, buscou abrigo em seu colo.

—————————– Foi coberto ou ocultado, elevou-se, subiu acima.

————-Prestou adoração.

————– Pode-se compreender isso observando esses significados radicais: por que e em que sentido se estabeleceu a relação entre ibadah, isto é, adoração (culto), e ilah, isto é, mabud, o objeto de adoração.

Um: É precisamente da necessidade que surge no coração humano o impulso inicial para a ibadah. Antes que surja na mente da pessoa a ideia de que alguém pode satisfazer suas necessidades e oferecer-lhe abrigo nas adversidades, ela sequer consegue imaginar adorar alguém.

Dois: Uma pessoa sequer pode considerar alguém capaz de satisfazer suas necessidades sem julgá-lo superior a si mesma. Não basta reconhecer sua superioridade apenas em termos de posição e status; é preciso também reconhecer sua superioridade em força e capacidade.

Três: Também é verdade que não surge no coração humano nenhum impulso para adorar as coisas por meio das quais, em geral, suas necessidades são satisfeitas sob a relação de causa e efeito, quando todos os processos de satisfação dessas necessidades estão diante de seus olhos ou dentro dos limites de seu conhecimento. Por exemplo, preciso de dinheiro para gastar, então vou a uma pessoa e solicito um emprego ou trabalho remunerado. Essa pessoa aceita meu pedido, dá-me algum trabalho e também me paga por esse trabalho. Como todos esses processos ocorreram dentro do alcance dos meus cinco sentidos e dos limites do meu conhecimento, sei como ela satisfez minha necessidade. Por isso, não surge em meu coração a ideia de que ela seja digna de adoração. Somente quando a personalidade, a força e a capacidade de alguém, ou o processo pelo qual satisfaz necessidades e exerce influência, estão envoltos em mistério, é que pode surgir em meu coração a ideia de adorar essa pessoa. É por isso que foi escolhida para o mabud uma palavra que, além do significado predominante de superioridade, também inclui os sentidos de ocultação e de instabilidade e agitação.

Quarto: em relação àquele que o ser humano acredita poder remover a necessidade em tempos de carência, oferecer refúgio em tempos de perigo e proporcionar paz em tempos de inquietação, é indispensável que o ser humano se volte para ele com interesse.

Da discussão acima, sabe-se que os conceitos com base nos quais a palavra ilah foi usada para o ma‘bud são os seguintes: satisfazer necessidades; oferecer refúgio; proporcionar paz e tranquilidade; possuir poder superior; ser detentor de influência e autoridade; possuir todos os poderes e direitos com base nos quais se possa esperar que o ma‘bud seja capaz de satisfazer necessidades e oferecer refúgio; ter sua personalidade envolta em mistério ou não estar presente no cenário comum; e despertar o interesse das pessoas.

A concepção da era da ignorância sobre o ilah

Depois de discutir esse sentido lexicográfico, veremos que concepção os árabes e os povos antigos tinham acerca da uluhiyyah, concepção que o Alcorão pretende refutar.

—————————– Eles adotaram outros ilah além de Allah, para que isso pudesse ser uma fonte de força para eles (ou para que, refugiando-se sob sua proteção, pudessem estar seguros). Surata: Maryam: 81

Um: ———————————— Eles adotaram outros ilah além de Allah, na esperança de que fossem ajudados (isto é, de que esses ilah os ajudassem). Surata: Ya-Sin: 84

Esses dois versículos mostram que, acerca daquele a quem as pessoas da era da ignorância chamavam de ilah, sua concepção era que ele era seu líder e condutor, que os protegia nas adversidades e que, com sua ajuda, eles ficavam a salvo do medo e do mal.

Dois: —————————– Quando chegou o momento da decisão do teu Senhor, aqueles a quem eles invocavam como ilah além de Allah não puderam acrescentar-lhes nada, exceto a destruição. — Surata Hud: 101

——————————————– Aquele a quem eles invocam em vez de Allah não é criador de coisa alguma; ao contrário, ele próprio é uma criatura. Está morto, não vivo. E não sabe quando serão ressuscitados com uma nova vida. O vosso Ilah é um só Ilah. _ An-Nahl: 20–22

———————— E não invoqueis outro Ilah juntamente com Allah. Não há outro Ilah além d’Ele.¹ -Surata Al-Qasas: 88

(1) (Deve-se observar aqui que, no Alcorão, a palavra Ilah é usada em dois sentidos. Primeiro: um ma‘bud (objeto de adoração) que é efetivamente adorado, seja esse ma‘bud verdadeiro ou falso. Segundo: o ma‘bud que, em essência, é digno de adoração. Neste versículo, a palavra Ilah foi usada nos dois lugares nesses dois sentidos distintos.)

———————— Aqueles que invocam outros parceiros além de Allah não seguem nada senão meras conjecturas. Seguem apenas suposições e correm atrás da imaginação. -Yunus: 66

Estes versículos lançam luz sobre alguns pontos. Primeiro: aqueles a quem as pessoas da época da ignorância chamavam de Ilah, elas invocavam para afastar as dificuldades e satisfazer as necessidades. Em outras palavras, faziam du‘a a eles.

Segundo: os seus Ilah não eram apenas jinns, anjos ou divindades; eram também pessoas mortas. Isso fica claramente evidente neste versículo do Alcorão—

——————- Estão mortos, não vivos. E não sabem quando serão ressuscitados.

Terceiro: em relação aos Ilah sobre os quais imaginavam que ouviam as suas du‘as, também acreditavam que eles eram capazes de vir em seu auxílio.

É preciso também ter em mente aqui o significado da súplica e a natureza da ajuda que se espera deles. Se eu sentir sede e chamar o criado para trazer água, ou se, estando doente, chamar um médico para me tratar, isso não pode ser chamado de súplica. Tampouco significa transformar o criado ou o médico em um ilah, pois tudo isso está submetido à cadeia de causas e efeitos, e não acima dela. Mas, se, estando com sede ou doente, em vez de chamar o criado ou o médico, eu chamar algum wali ou ancião piedoso, ou alguma divindade, isso significará transformá-lo em um ilah e suplicar-lhe. Com efeito, chamar um wali ou ancião piedoso que está deitado em seu túmulo, a milhares de quilômetros de mim, significa considerá-lo ouvinte e vidente. Tenho a convicção de que ele exerce autoridade sobre o mundo das causas e efeitos, podendo, assim, fazer chegar água até mim e providenciar a cura da minha doença. Do mesmo modo, chamar uma divindade em tais circunstâncias significa crer que ela tem autoridade sobre a água e sobre a saúde e a doença. Ela pode ativar as causas e os efeitos de modo sobrenatural para suprir a minha necessidade. Portanto, o conceito com base no qual se suplica a um ilah é necessariamente o de uma força sobrenatural (autoridade sobrenatural), juntamente com a ideia de que ele possui essa força sobrenatural.

Três: —————————————————- Destruímos os habitantes dos povoados cujos vestígios podem ser vistos ao redor de vocês. Mostramos-lhes repetidamente, em sucessivas etapas, os Nossos sinais, para que pudessem retornar. Por que não os ajudaram aqueles que, abandonando Allah, eles haviam tomado como ilah, acreditando que poderiam aproximar-se deles? Longe de ajudá-los, eles desapareceram, abandonando-os. Essa era a verdadeira natureza de sua conduta falsa e inventada. — Surata Al-Ahqaf: 27–28

———————————————— Aquele que me criou: por que eu não adoraria a Ele, a quem todos vocês terão de retornar? Tomaria eu, em vez d’Ele, outros como ilah, os quais, se o Misericordioso desejasse causar-me algum dano, de nada me serviria a sua intercessão, nem poderiam salvar-me? — Surata Yasin: 22–23

———————————————– E, além de Allah, tomam outros como associados e auxiliares, dizendo: “Nós só os adoramos para que nos aproximem de Allah.” Allah decidirá entre eles, no Dia da Ressurreição, acerca daquilo em que divergem. — Az-Zumar: 3

——————————————- Eles adoram, além de Allah, forças que não podem causar-lhes nem benefício nem dano. E dizem: “Eles intercederão por nós junto a Allah.” — Yunus: 18

Esses versículos também lançam luz sobre alguns outros assuntos. Deles se sabe que o povo da época da ignorância não acreditava, a respeito de seus ilah, que toda a divindade tivesse sido distribuída entre eles e que não houvesse nenhuma autoridade superior acima deles. Eles tinham claramente a ideia de uma autoridade superior; por isso, em sua linguagem, existia a palavra Allah. Sua crença fundamental acerca dos outros ilah era que eles tinham certa participação e influência na divindade da autoridade superior. Suas palavras eram acatadas, por meio deles nossos objetivos podiam ser alcançados e, mediante sua intercessão, podíamos obter benefícios e ser protegidos do mal. Foi com base nessas concepções que consideravam também esses seres ilah juntamente com Allah. Portanto, segundo sua terminologia, considerar alguém intercessor junto a Allah e pedir-lhe ajuda, demonstrar-lhe honra e reverência e apresentar-lhe votos e oferendas significava transformá-lo em um ilah.¹

Nota: (1) É preciso saber aqui que há dois tipos de intercessão. Primeiro: a intercessão fundada em algum tipo de poder ou influência. Seja como for, no fim, aquilo que se pretende é fazer com que a decisão seja aceita, e só então se concede a intercessão. Segundo: aquela cuja ideia é semelhante a um simples pedido ou apelo, sem que haja por trás dela qualquer poder efetivo capaz de impor a aceitação. Segundo o primeiro sentido, considerar alguém intercessor, transformá-lo em um ilah e fazê-lo sócio da divindade de Deus são uma única e mesma coisa. O Alcorão rejeita esse tipo de intercessão. Segundo o segundo sentido, profetas e mensageiros, anjos, santos e virtuosos, crentes e todos os servos podem interceder por outros servos. Allah tem plena autoridade para aceitar ou rejeitar a intercessão de qualquer pessoa. O Alcorão reconhece esse tipo de intercessão.)

———————————————————————————- E Allah diz: “Não tomeis dois ilah; o ilah é apenas um. Portanto, temei somente a Mim.” — Surata An-Nahl: 51

——————————————————————————— (Ibrahim disse:) Não temo de modo algum aqueles que associais a Allah. Contudo, se o meu Senhor desejar algo, isso certamente poderá acontecer. — Al-An’am: 80

———————————————————————- (O povo de Hud lhe disse:) Diremos que algum dos nossos ilahs te amaldiçoou. Surata Hud: 54

Esses versículos mostram que os povos da época da ignorância temiam que, se de algum modo desagradassem aos seus ilahs ou fossem privados do seu olhar favorável, doenças e sofrimentos, pobreza e necessidades, perdas de vidas e bens, além de outros tipos de calamidades, recairiam sobre eles.

Cinco: ——————————————————————————– Eles tomaram seus sábios e sacerdotes como seus senhores, em vez de Allah. Também tomaram o Messias, filho de Maria, como senhor. No entanto, havia-lhes sido ordenado adorar um único ilah; não há ilah além d’Ele. Surata At-Tawbah: 31

———————————————————————————- Que te parece aquele que tomou os desejos de sua alma como seu ilah? Poderias assumir a responsabilidade por ele? Al-Furqan: 43

——————————————————————————– Assim, para muitos mushriks, seus associados inventados (isto é, aqueles que se associam a Allah na uluhiyyah) tornaram extremamente bela a prática de matar os próprios filhos. — Al-An’am: 137

—————————————————————————- Terão eles associados (isto é, parceiros na uluhiyyah) que lhes estabeleceram uma sharia que Allah não autorizou? Ash-Shura: 21

Nestes versículos encontra-se ainda outro significado de ilah. Esse significado é completamente diferente dos anteriores. Aqui está ausente a ideia de qualquer ser sobrenatural. Aquilo que foi tomado como ilah pode ser uma pessoa ou o desejo de uma pessoa. Não se tomou alguém como ilah aqui no sentido de que se lhe fazia súplicas, se o considerava detentor do poder sobre o bem e o mal ou se lhe dirigiam preces na esperança de obter algo; antes, tomou-se essa pessoa como ilah no sentido de que suas instruções foram aceitas como lei, seus mandamentos e proibições foram obedecidos, e o que ela declarou lícito foi reconhecido como lícito e o que declarou ilícito, como ilícito. Presumiu-se que ela tinha autoridade para ordenar e proibir; que não havia autoridade superior à sua cuja aprovação fosse necessário obter ou à qual fosse necessário recorrer.

Na primeira ayat, menciona-se que os ulemás e os sacerdotes (na linguagem do Alcorão, ahbar e ruhban) foram tomados como ilahs. Encontramos uma explicação clara disso no hadith. Quando Hazrat Adi ibn Hatim (que Allah esteja satisfeito com ele) perguntou ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) sobre esta ayat, ele respondeu: vocês consideravam halal aquilo que os vossos ulemás e sacerdotes tornavam halal, e aceitavam como haram aquilo que eles declaravam haram. Não vos importáveis absolutamente com qual era a ordem de Allah a esse respeito.

O significado da segunda ayat é extremamente claro. Aquele que segue os seus desejos e dá a máxima autoridade às suas instruções, na realidade tomou os seus próprios desejos como ilah. Isso é facilmente compreendido a partir da ayat em questão.

É verdade que, nas duas ayat seguintes, em vez de ilah, foi usada a palavra “sharik”. Deixámos claro na tradução das ayat que sharik significa fazer alguém parceiro na uluhiyyah. Estas duas ayat decidem claramente que aqueles que consideram qualquer costume, regra ou código como uma lei válida sem prova da ordem de Allah fazem do legislador um parceiro de Allah na uluhiyyah.

Ilah versus poder

Existe uma relação lógica entre todos os significados de ilah discutidos acima. Aquele que considera alguém, num sentido sobrenatural, como auxiliador, colaborador, removedor das dificuldades, realizador das necessidades, ouvinte das súplicas e causador do bem ou do mal, pensa assim porque, na sua opinião, essa pessoa possui algum tipo de poder na administração do universo. Da mesma forma, se alguém teme uma pessoa e pensa que o seu desagrado lhe causará dano, enquanto a sua satisfação lhe será benéfica, a causa dessa crença e desse comportamento não é outra senão a ideia de que essa pessoa possui algum tipo de poder. Por outro lado, quando alguém, apesar de reconhecer o Grandioso Allah, Rabb al-Alamin, volta-se para outro em tempos de necessidade, a causa desse comportamento é simplesmente considerar esse outro como possuidor de algum tipo de participação na divindade de Allah. Do mesmo modo, aquele que considera a instrução de alguém como lei e os seus mandamentos e proibições como obrigatórios, também reconhece essa pessoa como detentora do poder supremo. Portanto, o verdadeiro espírito da uluhiyyah é o poder. Quer a sua autoridade na administração do universo seja de natureza sobrenatural, quer, na vida material, as pessoas estejam submetidas às suas instruções e estas sejam obrigatórias no seu devido lugar — qualquer que seja o sentido em que esse poder seja reconhecido, esse é o verdadeiro espírito da uluhiyyah.

A argumentação do Alcorão

Com base nesta conceção de poder, o Alcorão emprega todas as suas forças para negar qualquer outro além de Allah e estabelecer a uluhiyyah somente de Allah. O argumento do Alcorão é que, nos céus e na terra, uma única Essência é a possuidora de todo o poder e autoridade. Criar, conceder bênçãos, dar ordens, força e capacidade — tudo está nas Suas mãos. Tudo Lhe obedece, voluntária ou involuntariamente. Ninguém possui qualquer poder além d’Ele; ninguém tem o direito de dar ordens; ninguém conhece os mistérios da criação, da administração e da condução; e ninguém participa sequer minimamente no Seu poder de governo. Portanto, na realidade, não existe ilah algum além d’Ele. Ora, se não existe outro ilah, então os atos que praticais tomando outros como ilahs são, na realidade, errados e injustos. Quer se trate de fazer súplicas e orações, tomar alguém como intercessor, ou obedecer e seguir instruções — qualquer que seja o ato — todas as relações que estabeleceis com outros devem ser exclusivamente reservadas a Allah. Pois somente Ele é o detentor do poder absoluto.

Ouçam, nas próprias palavras do Alcorão, como o Alcorão apresenta a argumentação sobre este assunto:

————————————————————————————- E Ele é Aquele que é a divindade no céu e a divindade na terra; e Ele é Sapientíssimo e Onisciente, extremamente sábio e conhecedor (isto é, Ele possui todo o conhecimento e toda a sabedoria necessários para governar os céus e a terra) — Surata Az-Zukhruf: 84

—————————————————————————— Poderão acaso ser iguais aquele que cria e aquele que não cria? —— Não compreendeis sequer esta simples questão? —– Aqueles que eles invocam além de Allah nada podem criar; pelo contrário, eles próprios foram criados por outros. —– Vosso ilah é um único ilah. — An-Nahl: 17–22

—————————————————————— Ó humanidade, recordai a graça que Allah vos concedeu. Existe algum criador, além de Allah, que vos forneça sustento dos céus e da terra? Não há outra divindade além d’Ele. Mesmo assim, para onde estais correndo? — Surata Fátir: 3

———————————————————— Dize: Considerai acaso que, se Allah vos privasse da audição e da visão e selasse os vossos corações (isto é, vos retirasse o conhecimento e a razão), haveria alguma divindade, além de Allah, que pudesse restituir-vos essas coisas? Al-An’am: 46

—————————————————————– Ele é Allah; não há outra divindade além d’Ele. A Ele pertence todo o louvor neste mundo e na Outra Vida. Ele sozinho decreta e é o detentor do poder supremo. A Ele retornareis. Dize: Considerai acaso que, se Allah vos mantivesse a noite permanentemente até o Dia da Ressurreição, haveria alguma divindade capaz de vos trazer a luz? Não ouvireis? Dize: Já refletistes que, se Allah mantivesse o dia permanentemente sobre vós, haveria alguma divindade capaz de vos trazer a noite, na qual pudésseis encontrar tranquilidade? Não vedes? — Al-Qasas: 70–72

———————————————————————— Dize: Invocai aqueles que tomais por divindades além de Allah. Eles não possuem sequer o peso de um átomo nos céus e na terra, não têm participação alguma na administração dos céus e da terra, e ninguém entre eles é auxiliar de Allah. Nenhuma intercessão será útil perante Allah, exceto a daquele em cujo favor Ele próprio conceder permissão para interceder. (Surata Saba: 22–23)

———————————– Ele criou os céus e a terra com a verdade. Ele faz a noite suceder ao dia e o dia suceder à noite. Submeteu o sol e a lua; cada um segue até um prazo determinado. …. Ele iniciou a vossa criação a partir de uma só pessoa (isto é, iniciou a vida humana). Depois, dela criou o seu par. E criou para vós oito pares de animais quadrúpedes. Ele vos cria no ventre de vossas mães, criação após criação, dentro de três trevas (as três trevas significam: o ventre, o útero e a placenta). Esse é Allah, vosso Senhor. A soberania pertence somente a Ele. Não há outra divindade além d’Ele. Então, para onde vos desviareis? (Surata Az-Zumar: 5–6)

————————————– Quem criou para vós os céus e a terra? Depois, fez descer para vós água do céu e, com ela, fez surgir jardins belíssimos, cuja vegetação não estava ao vosso alcance fazer crescer. Haverá alguma outra divindade associada a Allah nessas coisas? Porém, eles se afastam da verdade. Quem tornou a terra habitável, nela fixou montanhas como âncoras e colocou uma barreira entre os dois mares? Haverá alguma outra divindade associada a Allah nessas coisas? Mas a maioria dos idólatras não possui conhecimento nem compreensão. Quem atende à súplica do aflito quando este O invoca e remove a sua aflição? Quem vos faz sucessores na terra (isto é, vos concede o direito de usufruir e utilizar)? Haverá alguma outra divindade associada a Allah também nessas coisas? Refletis muito pouco. Quem vos guia nas trevas da terra e do mar e, antes da Sua misericórdia (isto é, da chuva), envia os ventos como portadores de boas-novas? Haverá alguma outra divindade associada a Allah também nessas coisas? Allah está muito acima de tudo aquilo que eles associam a Ele. Quem inicia a criação e depois a repete? Quem vos concede sustento dos céus e da terra? Haverá alguma outra divindade associada a Allah nessas coisas? Dize: Se sois sinceros quanto ao politeísmo, apresentai uma prova.¹ Surata An-Naml: 60–64

(1) (Ou seja: se reconheceres que todas essas ações pertencem a Allah e que Ele não tem nenhum associado nelas, então em que aspecto da divindade estás associando outros a Ele? Aqueles que não possuem poder algum e não têm nenhuma ação voluntária nos céus e na terra: como podem ter assumido para si a posição de divindades?) ——————————— Aquele que possui o domínio dos céus e da terra. Ele não tomou ninguém como filho, nem tem qualquer associado no poder governamental. Ele criou todas as coisas e determinou para cada uma a medida adequada. As pessoas, abandonando-O, tomaram como divindades seres que nada podem criar; ao contrário, eles próprios são criaturas e não têm poder de beneficiar ou prejudicar sequer a si mesmos, nem possuem qualquer poder sobre a vida, a morte e a ressurreição. — Al-Furqan, 23

——————————— Ele é quem trouxe os céus e a terra da inexistência à existência. Como poderia ter um filho, quando não tem sequer uma esposa? Ele é quem criou todas as coisas e conhece todas as coisas. Ele é Allah, vosso Senhor. Não há outra divindade além d’Ele. Ele é o Criador de todas as coisas. Portanto, adorai somente a Ele. Ele é suficiente para preservar e cuidar de todas as coisas. — Surata Al-An’am, 101–102

—————————————— Há pessoas que estabelecem, além de Allah, outros como associados e auxiliares na divindade, amando-os como amam Allah. Mas os crentes amam Allah ainda mais. Se esses injustos compreendessem hoje a verdade que compreenderão quando o castigo descer — que todo o poder e toda espécie de força estão nas mãos de Allah! — seria melhor para eles. — Surata Al-Baqara, 165

——————————— Dize: Já refletistes alguma vez sobre a condição das divindades que invocais, além de Allah, para suprir as vossas necessidades? Mostrai-me que parte da terra elas criaram ou que participação tiveram na criação dos céus! … Quem pode estar mais extraviado do que aqueles que invocam, em vez de Allah, seres que não podem responder à sua invocação até o Dia da Ressurreição?¹ (1) Nota: isto é, não podem tomar nenhuma providência em resposta às suas súplicas. ————————————- Se houvesse outras divindades nos céus e na terra além de Allah, a ordem do universo certamente seria transtornada. Portanto, Allah, o Senhor do Trono (isto é, da autoridade governante do universo), está livre e muito acima de tudo o que eles dizem a Seu respeito. Ele não é obrigado a prestar contas por nenhuma de Suas ações; todos os demais são obrigados a prestar contas perante Ele.

——————————— Allah não tomou filho algum, nem há outra divindade com Ele. Se assim fosse, cada uma das divindades se apartaria com aquilo que criou e algumas delas se elevariam contra as outras. (Surata Al-Mu’minun, 91)

——————————— Dize: Se houvesse outras divindades com Allah, como dizem essas pessoas, elas certamente procurariam um meio de apoderar-se do reino do Senhor do Trono. Ele é Puro e está muito acima daquilo que dizem. — Bani Isra’il, 42–43

Em todos esses versículos encontramos, do princípio ao fim, a mesma ideia central. E ela é a seguinte: a divindade e o poder estão inseparavelmente ligados, estreitamente unidos. Em espírito e significado, são uma só coisa. Quem não possui poder não pode ser uma divindade — nem deveria sê-lo. Somente aquele que possui poder pode ser uma divindade; somente ele deve ser uma divindade. Pois todas as necessidades que temos perante uma divindade — em outras palavras, todas as necessidades que nos levam a reconhecer alguém como divindade — não podem ser satisfeitas sem poder. Portanto, a divindade de quem não possui poder é sem sentido e absurda. E voltar-se para tal ser é inútil.

A maneira como o Alcorão apresentou essa ideia central permite compreender claramente, na sequência a seguir, sua função e seus resultados.

Um: Considerais tarefas comuns o suprimento das necessidades, a remoção das dificuldades, a concessão de refúgio, a prestação de ajuda e cooperação, a supervisão e proteção e o atendimento aos chamados — na realidade, nenhuma delas é uma tarefa comum; ao contrário, todas estão ligadas à natureza criadora e ao poder de gestão de todo o universo. Se refletirdes sobre como até a menor das vossas necessidades é satisfeita, descobrireis que isso seria impossível sem a ação conjunta de inúmeras e incontáveis causas e fatores na vasta fábrica dos céus e da terra. Pensai apenas num copo de água para beber e numa partícula de alimento; somente Allah sabe quanto trabalho o sol, a terra, o ar e o mar precisam realizar para fornecer essas pequenas coisas. Só então elas chegam até vós. Portanto, para ouvir as vossas súplicas e remover as vossas necessidades e queixas, não basta um poder comum; é necessário um poder como aquele requerido para a criação dos céus e da terra, a revolução dos planetas e das estrelas, o movimento dos ventos e a queda da chuva — em uma palavra, para dirigir e ordenar todo o universo.

Dois: Este poder é indivisível. É impossível que o poder de criar esteja nas mãos de alguém, o poder de prover o sustento nas mãos de outro, o sol sob o domínio de um, a terra sob o domínio de outro, a criação sob o poder de alguém, a saúde e a doença sob o poder de outro, e a vida e a morte sob o poder de um terceiro. Se fosse assim, a administração do universo não poderia funcionar de modo algum. Portanto, é absolutamente necessário que todo poder e autoridade estejam sob o domínio de um único governante central. Que assim seja é também uma exigência da ordem do universo. Na realidade, foi isso que ocorreu.

Três: Como todo o poder está concentrado nas mãos de um único governante e ninguém possui sequer a menor parcela dele, a uluhiyyah também pertence inteiramente a esse governante, e ninguém compartilha dela. Ninguém possui o poder de responder às vossas súplicas ou aceitar as vossas orações. Portanto, qualquer que seja o significado de ilah presente nas vossas mentes, não existe outro ilah nesse sentido. Tampouco existe um ilah no sentido de que alguém possa exercer alguma autoridade por meio da proximidade com o Governante e Administrador do universo, e que a sua intercessão seja aceita. Ninguém tem o direito de interferir minimamente na administração do Seu reino. Ninguém pode intervir nos Seus atos. Aceitar ou não uma intercessão está inteiramente sob a Sua autoridade. Ninguém possui poder algum com base no qual possa obrigá-Lo a aceitar a sua intercessão.

Quatro: A exigência de um único poder supremo é que todas as categorias de soberania, liderança e autoridade se concentrem na existência daquele que possui o poder único e absoluto. Nenhuma parte da soberania será transferida a qualquer outro. Sendo Ele o Criador, ninguém é Seu associado na criação; sendo Ele o Provedor, ninguém participa com Ele no provimento do sustento; sendo Ele o único dirigente e administrador da ordem do universo, ninguém é Seu associado na direção e administração. Portanto, Ele também é o único que dá ordens e estabelece e promulga leis. Não há razão para que alguém seja Seu associado nem mesmo nesse nível de autoridade. Assim como é falso que, dentro dos limites do Seu reino, qualquer outro seja aquele que responde às súplicas, satisfaz as necessidades e concede refúgio, também é errado e falso que exista qualquer outro que dê ordens de forma independente, um monarca autocrático livre e independente ou um legislador autônomo. Criar e prover o sustento, dar a vida e a morte, submeter a lua e o sol, alternar o dia e a noite, determinar as medidas, dar ordens e exercer o domínio e a autoridade únicos, estabelecer leis e normas — tudo isso são diferentes aspectos do poder único e da soberania. Esse poder e essa soberania são indivisíveis. Se alguém considerar outra pessoa digna de obediência sem a aprovação da ordem de Allah, cometerá shirk, tal como o comete aquele que suplica a alguém além de Allah. Se alguém, em sentido político, reivindicar ser o rei dos reis (——), o detentor do poder supremo e um governante absoluto (—), essa reivindicação será diretamente semelhante à reivindicação de Allah; do mesmo modo que seria a reivindicação de alguém, em sentido sobrenatural, de dizer: “Eu sou o vosso protetor, aquele que administra os vossos assuntos, vosso auxiliar e vosso guardião”. Por isso, sempre que Allah é mencionado como Único, sem associados, na determinação das medidas das coisas criadas e na administração da ordem do universo, afirma-se também que o direito de dar ordens pertence unicamente a Ele (–) e que o direito legítimo pertence somente a Ele; e (–) que ninguém é Seu associado em autoridade e soberania, e assim por diante. Isso prova claramente que o significado de domínio e autoridade também está incluído no significado de uluhiyyah (–) . Também nesse sentido, é indispensável, para a unicidade de Ilah, não reconhecer qualquer participação de outro com Allah. O versículo seguinte expressa isso de maneira ainda mais clara:

Dize: Ó Allah, Senhor do domínio. Concedes o reino a quem queres e retiras o reino de quem queres. Honras a quem queres e humilhas a quem queres. — Aal-Imran, 26

Assim, Allah é o verdadeiro Rei, o Altíssimo. Não há ilah além d’Ele. Ele é o Senhor do Trono majestoso. — Al-Mu’minun, 116

Dize: Busco refúgio no Senhor dos seres humanos, no Rei dos seres humanos e no Ilah dos seres humanos. — An-Nas, 1–3

Isso foi expresso de maneira ainda mais clara no versículo 16 da surata Al-Mu’min:

No dia em que todas as pessoas estiverem sem véus, nenhum de seus segredos permanecerá oculto para Allah. A quem pertence o reino hoje? A Allah, o Único, o Todo-Poderoso.

Isto é, no dia em que os véus de todas as pessoas forem retirados e nenhum segredo de ninguém permanecer oculto para Allah, será proclamado e perguntado: “A quem pertence o reino hoje?” A resposta será somente: “A Allah, o Único, cuja autoridade prevalece sobre todos”; nesse dia, não haverá outra resposta. O Imam Ahmad (que Allah tenha misericórdia dele) narrou, segundo Abdullah ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ele), que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), ao proferir um sermão, disse: “Allah, cerrando os céus e a terra em Sua mão, proclamará: ‘Eu sou o Rei, Eu sou o Poderoso, Eu sou o Soberano de autoridade irresistível. Onde estão aqueles que se fizeram reis na terra? Onde estão os déspotas arrogantes e influentes?’”

Este hadith é a melhor explicação do versículo em questão. Abdullah ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Quando o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) pronunciava essas palavras durante o sermão, seu corpo tremia de tal maneira que temíamos que ele caísse do púlpito!”

Rabb

Teoria lexicográfica

A palavra deriva da raiz ——. Seu significado primário e fundamental é criar e educar. A partir daí, desenvolveram-se os sentidos de usufruir e utilizar, supervisionar, alterar uma condição, concluir e levar à perfeição. Com base nisso, desenvolveram-se também os sentidos de preeminência, liderança e autoridade, domínio e senhorio. Eis alguns exemplos de seu uso nos dicionários:

Primeiro: criar e educar, promover o desenvolvimento e o progresso graduais e aumentar. Por exemplo, o filho adotivo é chamado de rabīb (–) e a filha adotiva, de rabība (–). A criança criada na casa da madrasta também é chamada de rabībī (–). A ama que cria a criança também é chamada de rabība (–). A madrasta é chamada de rābbah (–), pois, embora não seja a mãe, cria a criança. Por isso, o padrasto é chamado de — (rabbunā). O medicamento que é guardado e preservado é chamado de murabbab ou murabbā (—). ———- significa acrescentar, aumentar e levar à conclusão. Assim: — significa ter acrescentado por meio da graça ou ter levado a graça ao seu limite final.

Segundo: contrair, reunir e juntar. Por exemplo, diz-se —-, isto é, determinada pessoa reúne as pessoas ou todas as pessoas se juntam ao seu redor. O lugar onde as pessoas se reúnem será chamado de (–) marābb; contrair-se e ser reunido chama-se tarabbub (–).

Três: supervisionar, corrigir e transformar a situação, cuidar e ser fiador. Por exemplo, —- significará que fulano cuidou e supervisionou os seus bens. Safwan disse a Abu Sufyan:

Para mim, é mais querido que alguém dos coraixitas me tome sob sua proteção do que ser criado por alguém dos Hawazin.

Um poema de Alqama ibn Ubaida:

————————– Perdi aqueles que antes eram meus mentores; por fim, a responsabilidade pela minha criação chegou às tuas mãos.

O poeta Farazdaq diz:

————————– Neste poema, ———- significa aquilo cuja pele ainda não teve os pelos separados, a pele que não foi curtida e limpa. ———————- significará que fulano exerce o seu ofício junto de sicrano ou aprende com ele uma profissão artesanal.

Quatro: preeminência, autoridade, liderança, exercer o comando e usar, como em: —————- isto é, fulano submeteu o seu povo à sua obediência. ——- Exerci o comando sobre o povo e assumi a posição de chefe. Labid ibn Rabia diz:

——————- Aqui, —- significa o chefe de Kindah, aquele cujo comando prevalecia naquela tribo. É nesse sentido o poema de Nabigha al-Dhubyani:

Cinco: ser proprietário. Assim, consta num hadith nobre que o Profeta (s) perguntou a um homem: ——- És proprietário de ovelhas ou de camelos? Neste sentido, o proprietário de uma casa é chamado de —- (Rabbud-dār), o proprietário de uma camela de —- (Rabbun-naqah) e o proprietário de uma propriedade de ——– (Rabbudh-dāyiʿah). A palavra Rabb também é usada no sentido de senhor e é empregada como o oposto de ʿabd (–) ou escravo. Por ignorância, a palavra Rabb foi limitada apenas ao sentido de Sustentador e Educador. Ao definir rububiyyah, foi dito: ————— não significa completar uma coisa elevando-a gradualmente. Ao examinar sua abrangência plena, sabe-se que a palavra expressa os seguintes significados:

Um: sustentador, fornecedor do necessário, aquele que proporciona educação e desenvolvimento gradual.

Dois: responsável, supervisor, aquele encarregado de cuidar e de corrigir e modificar a situação.

Três: aquele que desempenha um papel central, em torno de quem várias pessoas se reúnem.

Quatro: líder e chefe, a quem se obedece; autoridade poderosa, cujas ordens são cumpridas, cuja autoridade é reconhecida e que tem o direito de intervir e usar a força.

Cinco: proprietário e senhor.

O uso da palavra Rabb no Alcorão

No Alcorão Sagrado, a palavra Rabb foi usada precisamente nesses sentidos. Em alguns lugares, pretende-se um ou dois desses sentidos; em outros, mais do que isso; e em outros ainda, os cinco sentidos são compreendidos simultaneamente. Esclareceremos este assunto apresentando vários exemplos dos versículos do Alcorão.

No primeiro sentido: ele disse: «Refúgio em Deus! Ele, que me tratou tão bem, é o meu Senhor.» 1 — Yūsuf-23

(1) Ninguém deve imaginar que o nobre Yūsuf (que a paz esteja sobre ele) chamou o Aziz do Egito de seu Senhor. Alguns exegetas chegaram a levantar tal dúvida. Na realidade, por «ele» faz-se referência a Deus, em cuja proteção ele buscou refúgio. Foi dito: ——— Quando Aquele a quem se faz referência é Deus, já mencionado nas proximidades, que necessidade há de procurar um «referente não mencionado»?

No segundo sentido: nele também está incluída, em maior ou menor medida, a noção do primeiro sentido:

——————————————————————- O Senhor dos mundos, que me criou, guia-me, dá-me de comer e de beber e cura-me quando adoeço; quanto aos vossos outros senhores, além d’Ele, são meus inimigos. — Ash-Shu‘arā’-77-80

Qualquer benefício que desfruteis, obtende-lo de Deus. Depois, quando alguma calamidade vos atinge, atônitos, voltais-vos somente para Ele. Mas, quando Ele afasta de vós a calamidade, há entre vós alguns que começam a associar outros ao seu Senhor, tanto na concessão dos benefícios como na libertação das adversidades. An-Nahl-54

——————————————- Dize: «Buscarei outro senhor além de Deus, quando Ele é o Senhor de todas as coisas?» — Al-An‘ām-164

————————————– Ele é o Senhor do Oriente e do Ocidente. Não há divindade além d’Ele; portanto, toma-O como teu representante e responsável por todos os teus assuntos. — Al-Muzzammil-9

———————- Ele é, certamente, o vosso Senhor; a Ele retornareis, depois de idas e vindas.

—————————————— Depois, será para o vosso Senhor o vosso retorno. — Az-Zumar-7

————————- Dize: Ele reunirá ambos os nossos grupos. — Sabá-26

———————————– ———————- Não há criatura alguma que se mova sobre a terra, nem ave que voe com as suas duas asas, que não constitua comunidades como vós. Nada omitimos no Livro. Por fim, todos serão conduzidos ao seu próprio Senhor. — Al-An’am-38

———————————————– Assim que a trombeta for soprada, sairão dos seus próprios lugares rumo ao seu próprio Senhor. — Yá-Sin-51

No terceiro e quarto sentidos:

————————- Eles tomaram, em vez de Alá, os seus ascetas, ulemás, sacerdotes e clérigos como seus senhores. (At-Tawbah-31)

—————- E que nenhum de nós tome alguém, além de Alá, como seu próprio senhor.

Em ambos os versículos, Arbab (plural de Rabb) significa aquelas pessoas, nações e diferentes grupos de uma nação que, em geral, eram reconhecidos como seus guias e líderes e considerados, de modo efetivo, detentores do direito de ordenar e proibir.

—————————————————- (Yusuf disse:) Certamente, um de vós dará vinho a beber ao seu senhor. Quanto àquele dos dois sobre quem Yusuf tinha essa opinião, ele seria libertado. Yusuf disse-lhe: “Mencionai-me perante o vosso senhor.” Mas Satanás fê-lo esquecer, e por isso ele não se lembrou de mencionar Yusuf perante o seu senhor. (Yusuf 41–42)

———————- Quando o mensageiro foi ter com Yusuf, este lhe disse: “Volta ao teu senhor e pergunta-lhe qual é a situação das mulheres que cortaram as próprias mãos. Meu Senhor conhece perfeitamente as suas intrigas.” — Yusuf 50

Nestes versículos, ao conversar com os egípcios, Yusuf (que a paz esteja com ele) mencionou repetidamente o governante do Egito, o Faraó, como seu senhor. Isso porque eles reconheciam então a sua autoridade central e soberania, considerando-o o detentor dos mandamentos e das proibições.

No quinto sentido: ——————————————————— Portanto, que adorem o Senhor desta Casa, que lhes providenciou o sustento e os protegeu do medo. Coraix 3–4

————– O teu Senhor — o Possuidor da honra e do poder — está livre e isento dos defeitos que eles Lhe atribuem.

————————- Alá, o Senhor do Trono, está livre e isento de todos os defeitos que eles Lhe atribuem. Al-Anbiya 22

———– Pergunta-lhes: “Quem é o Senhor dos sete céus e do Trono Majestoso?”

——————— Ele é o Senhor dos céus e da Terra e de tudo quanto existe neles. Ele é também o Senhor de tudo sobre o qual o sol nasce.

———— E Ele é o proprietário e Senhor de Sírius (nome de uma estrela).

Concepções equivocadas dos povos desviados acerca da Rububiyyah

Por meio dessas provas e evidências, o significado da palavra Senhor foi determinado de maneira absolutamente inequívoca. Devemos agora examinar quais eram as concepções equivocadas dos povos desviados acerca da Rububiyyah, para cuja refutação o Alcorão foi revelado, e para que coisa o Alcorão convoca. Será mais apropriado discutir separadamente os povos desviados mencionados pelo Alcorão, para que o assunto se torne inteiramente claro.

O povo de Noé (que a paz esteja com ele)

O primeiro povo mencionado pelo Alcorão é o povo de Noé (que a paz esteja com ele). A partir da descrição do Alcorão, fica claro que eles não eram incrédulos quanto à existência de Allah; não negavam Sua existência. O próprio Alcorão cita a seguinte afirmação deles em resposta ao convite de Noé (que a paz esteja com ele):

——————————– Este homem não passa de um ser humano como vós; na verdade, quer exercer domínio sobre vós. Caso contrário, se Allah quisesse enviar um mensageiro, teria enviado anjos.

Eles também não negavam que Allah fosse o Criador e que, no primeiro e no segundo sentidos, Ele fosse o Senhor. Quando Noé (que a paz esteja com ele) lhes disse:

——————————– Ele é o vosso Senhor. A Ele tereis de retornar.

——————————————– Pedi perdão ao vosso Senhor; Ele é sumamente indulgente.

———————————————————————————– Não vedes como Allah criou os sete céus em camadas, fez da lua uma luz e do sol uma lâmpada entre eles, e vos criou da terra? — Nuh 15-16

Nenhum deles disse então: “Allah não é o nosso Senhor”, ou: “Ele não criou os céus, a terra e a nós”, ou: “Ele não governa toda essa ordem dos céus e da terra”.

Eles tampouco negavam que Allah fosse a sua divindade. Foi por isso que o Profeta Noé apresentou-lhes o seu chamado nestes termos:

———— “Não há outra divindade para vós além d’Ele”;

Caso contrário, se eles não reconhecessem Allah como divindade, a linguagem do chamado teria sido:

——————- “Reconhecei Allah como divindade”.

Surge agora a questão: então, em que consistia a divergência do Profeta Noé com eles — sobre qual assunto? Pela consulta aos versículos do Alcorão, sabe-se que as causas da divergência eram duas:

Um: O ensinamento de Hazrat Noé (que a paz esteja com ele) era que somente Aquele que é o Rabbul-Alamin, a quem vocês também reconhecem como o Criador de vocês e de todo o universo, e em quem acreditam como Aquele que satisfaz todas as necessidades, é o seu ilah — ninguém mais. Não há outro ilah além d’Ele. Não existe nenhuma entidade que possa satisfazer suas carências e queixas, remover suas crises e problemas, ouvir suas súplicas e vir em seu auxílio. Portanto, curvem a cabeça somente diante d’Ele — reconheçam somente a Ele como digno de receber obediência:

————– Ó meu povo! Adorem a Allah; não há outro ilah para vocês além d’Ele. ……….. Mas eu sou um Mensageiro enviado pelo Rabbul-Alamin. Transmito a vocês a mensagem do meu Rabb. — Al-A‘raf 59–60

Por outro lado, eles insistiam que outros também tinham maior ou menor participação na administração de Allah. Tinham diversas necessidades ligadas a esses outros. Portanto, reconheceremos outros também como ilah, juntamente com Allah:

————————– Seus líderes e chefes disseram: Ó povo! Jamais abandonem seus ilah — jamais abandonem Wadd, Suwa, Yaghuth, Ya‘uq e Nasr. — Noé 23

Dois: Eles reconheciam Allah como Rabb somente no sentido de que Ele era seu Criador, o Dono dos céus e da terra e o principal administrador, controlador e dirigente do universo. Mas não reconheciam que, também em todas as questões relativas ao caráter moral, à sociedade, à cultura, à política e à vida, somente Ele tinha o direito à soberania e ao poder supremo; somente Ele era o guia e o legislador; somente Ele tinha o direito de ordenar e proibir, somente Ele era o guia, o legislador e o detentor do direito de ordenar e proibir; e a obediência também seria devida somente a Ele. Nessas questões, haviam tomado seus líderes e chefes religiosos como Rabb. Em contrapartida, a reivindicação de Hazrat Noé (que a paz esteja com ele) era: a rububiyyah é indivisível; não a dividam nem a fragmentem. Reconheçam somente Allah como Rabb em todos os sentidos. Sigam as leis e normas que, como Seu representante, eu lhes transmito:

————————————————- Sou, para vocês, o Mensageiro fiel de Allah. Portanto, temam Allah e obedeçam-me. — Ash-Shu‘ara 107–108

O povo de ‘Ad

Depois do povo de Noé (que a paz esteja com ele), o Alcorão discute o povo de ‘Ad. Esse povo também não negava a existência de Allah. Assim como o povo de Noé (que a paz esteja com ele) reconhecia Allah como Rabb, eles também acreditavam em Allah nesse mesmo sentido. Contudo, havia duas questões que constituíam a base da divergência, mencionadas acima no contexto do povo de Noé (que a paz esteja com ele); a seguinte declaração clara do Alcorão apresenta uma prova evidente a esse respeito:

—————————————– E enviamos a eles seu irmão Hud. Ele disse: Ó meu povo! Adorai Allah. Não tendes outra divindade além d’Ele…………. Eles disseram: É por isso que vieste, para que adoremos somente Allah e abandonemos as divindades que nossos antepassados adoravam desde os tempos antigos? — Al-A‘raf, 65-70

—————————– Eles disseram: Se o nosso Senhor quisesse, teria enviado anjos.

———————————- Estes eram os povos de Ad, que se recusaram a aceitar a orientação de seu Senhor, não aceitaram obedecer ao Seu Mensageiro e seguiram os arrogantes, inimigos da verdade. — Hud, 59

O povo de Thamud

Agora, ouçam a respeito do povo de Thamud. Depois de Ad, este foi o povo mais arrogante. Já foi discutido o desvio de Nuh e do povo de Ad. Na realidade, o desvio deles também era do mesmo tipo. Eles não reconheciam que Allah é a única divindade, que somente Ele tem direito a ser adorado e que o senhorio, em todos os sentidos, pertence exclusivamente a Allah. Insistiam em reconhecer, além de Allah, outros como aqueles que atendem às súplicas, removem as aflições e satisfazem as necessidades. Em sua vida moral e civilizacional, estavam firmemente decididos a obedecer, além de Allah, aos chefes, autoridades e líderes que exerciam poder, e a aceitar deles as leis que regiam sua vida. Por fim, isso se tornou a causa de se transformarem em um povo corruptor, uma comunidade causadora de desordem, e de acabarem submetidos ao castigo. As seguintes ayat fornecem uma prova clara disso:

————- (Ó Muhammad!) Se eles se afastarem da tua obediência, dize-lhes que os advirto acerca de um castigo terrível, semelhante ao que os povos de Ad e Thamud receberam. Quando mensageiros foram enviados a esses povos, vindo de diante deles e de trás deles, e lhes disseram: Não adoreis ninguém além de Allah!, eles responderam: Se o nosso Senhor quisesse, teria enviado anjos; portanto, não cremos nem reconhecemos aquilo com que fostes enviados.

————————————- E enviamos ao povo de Thamud seu irmão Salih. Ele disse: Ó meus irmãos de povo! Adorai Allah; não tendes outra divindade além d’Ele. Eles disseram: Ó Salih! Antes, depositávamos em ti grandes esperanças. Estás proibindo-nos de adorar aqueles que nossos antepassados adoravam desde os tempos antigos? — (Surata Hud, 61-62)

———————————————- Quando seu irmão Salih lhes dizia: Não tendes nenhuma preocupação em vos proteger? Vede, sou para vós um Mensageiro confiável de Allah. Portanto, abstende-vos daquilo que provoca o desagrado de Allah e obedecei-me. ……. Não obedeçais aos transgressores, que causam corrupção na terra e não promovem bem algum.

O povo de Ibrahim (A.S.) e Nimrod

Depois vem o relato sobre o povo de Hazrat Ibrahim (A.S.). A questão desse povo é especialmente importante, pois é comum a concepção equivocada de que o seu rei, Nimrod, negava Allah e alegava ser Deus. No entanto, ele reconhecia a existência de Allah e acreditava que Ele era o Khaliq — o Criador — e o Governador do universo. Ele apenas reivindicava para si o título de Rabb no terceiro, quarto e quinto sentidos. Também é muito difundida a ideia equivocada de que esse povo era completamente ignorante a respeito de Allah e de modo algum O reconhecia como Rabb e Ilah. Porém, sua situação não era de modo algum diferente da de Nuh, Ad e Thamud. Eles reconheciam a existência de Allah. Sabiam que Ele era o Rabb, o Criador dos céus e da terra e o Governador de todo o universo; tampouco negavam a Sua ibadah. Sua perdição, contudo, consistia em considerar os astros e as estrelas como parceiros nos primeiros e segundos sentidos de rububiyyah e, com base nisso, tomá-los também como divindades juntamente com Allah. Nos terceiros, quartos e quintos sentidos de rububiyyah, haviam feito de seus próprios reis rabbs. É de admirar que, apesar das declarações claras e inequívocas do Alcorão sobre esse assunto, as pessoas não tenham conseguido compreender a realidade. Vejamos primeiro o episódio do despertar da consciência de Hazrat Ibrahim (A.S.). Nele está retratado o quadro de sua busca pela verdade antes da profecia:

——————————————–

Quando a noite o envolveu com sua escuridão, ele viu uma estrela e exclamou: “Este é o meu Rabb”; mas, quando ela desapareceu, disse: “Não gosto das coisas que desaparecem”. Depois, ao ver a lua brilhando, disse: “Este é o meu Rabb!”. Mas, quando ela também desapareceu, disse: “Se o meu Rabb não me guiar, temo tornar-me um dos povos desviados”. Então, ao ver o sol resplandecente, disse: “Este é o meu Rabb — este é o maior de todos!”. Mas, quando ele também desapareceu, clamou: “Ó meu povo! Não tenho nenhuma relação com aquilo que associais a Allah. Voltei completamente o meu rosto e devotei-me inteiramente Àquele que criou os céus e a terra. E não faço parte dos mushriks.” — Al-An’am, 77–80

Fica claro, a partir das passagens destacadas, que, na sociedade em que Hazrat Ibrahim (A.S.) abriu os olhos, não era uma só a concepção de que o Ser Majestoso, Criador dos céus e da terra, era o Rabb e a concepção da rububiyyah daqueles astros e estrelas. E por que seria diferente? Os muçulmanos que haviam crido em Hazrat Nuh (A.S.) pertenciam àquela mesma linhagem. Entre os povos seus parentes próximos e vizinhos (Ad e Thamud), também prosseguia a renovação da religião do Islam por meio de profetas sucessivos, que a paz esteja com todos eles.

——————————–

Assim, Hazrat Ibrahim (A.S.) havia adquirido de sua própria sociedade a concepção de que Allah era o Criador dos céus e da terra e o Rabb. As perguntas que surgiram em sua mente, contudo, eram sobre até que ponto era realista a concepção encontrada entre seu povo de que a lua, o sol e os astros compartilhavam com Allah o sistema de sustento e governo, e com base na qual eles também associavam outros a Allah na ibadah.¹ Antes da profecia, ele andou em busca dessa verdade; o movimento de nascer e se pôr dos astros ajudou-o a chegar à realidade de que não há outro Rabb além do Criador dos céus e da terra. Por isso, ao ver a lua desaparecer, ele disse: “Se o meu Rabb, isto é, Allah, não me guiar, temo não conseguir alcançar a verdade real. Também serei enganado pelas mesmas aparências que enganam milhões de pessoas ao meu redor.”

Depois, Hazrat Ibrahim (A.S.) foi investido no cargo de profeta e iniciou o trabalho de convidar as pessoas para o caminho de Allah. Se refletirmos sobre a linguagem com que ele apresentou esse convite, a afirmação acima se tornará ainda mais clara. Ele disse:

1. Não será irrelevante mencionar aqui um fato. As informações reveladas pelas escavações arqueológicas sobre a terra de ‘Ur, pátria de Abraão (que a paz esteja com ele), mostram que ali se adorava o deus lunar. Em sua língua, ele era chamado Nannar (–); nas regiões circundantes, cujo centro era Larsa (–), adorava-se o deus solar. Em sua língua, ele era chamado Shamash (—-). O fundador da dinastia governante daquele país era Arnamu (—). Ao chegar à Arábia, seu nome tornou-se Nimrod. Em sua homenagem, o título dos governantes daquele lugar passou a ser Nimrod, assim como o sucessor de Nizam al-Mulk era chamado Nizam.

Como poderia eu temer aqueles que associais a Allah? No entanto, vós não temeis associá-los a Allah, embora Ele não vos tenha revelado nenhuma prova de que eles tenham participação na uluhiyya e na rububiyya.

Eu me desligo daqueles a quem invocais além de Allah. — Maria — 48

Ele disse: “Vosso Senhor é apenas o Senhor dos céus e da terra, que criou tudo isso.” … Disse: “Então adorais, em vez de Allah, esses senhores que não têm poder algum sobre vosso benefício ou vosso prejuízo?” — Os Profetas — 56–66

Quando Abraão disse a seu pai e a seu povo: “O que adorais? Quereis servir, em vez de Allah, às divindades que vós mesmos fabricastes? Então, que pensais do Senhor dos mundos?” — Os Ordenados em Fileiras — 85–87

Abraão e os muçulmanos que o acompanhavam declararam claramente ao povo de sua nação: “Não temos nenhuma relação convosco nem com aqueles que adorais além de Allah. Rejeitamos vossas normas e princípios. Até que creiais no Deus Único, estará estabelecida para sempre, entre vós e nós, a base da inimizade e do ódio.” — A Examinada — 4

As declarações de Abraão (que a paz esteja com ele) deixam claro que ele não se dirigia àqueles que desconheciam completamente Allah, que não O reconheciam como o Senhor dos mundos e o Adorado, ou em cujo coração nenhuma concepção estivesse firmemente estabelecida. Pelo contrário, dirigia-se àqueles que associavam outros a Allah na rububiyya (no primeiro e no segundo sentido) e na uluhiyya. Por isso, em nenhum lugar de todo o Alcorão existe uma declaração de Abraão (que a paz esteja com ele) na qual ele tente levar seu povo a reconhecer a existência de Allah e a aceitá-Lo como divindade e Senhor. Em toda parte, ao contrário, ele proclamou este chamado: somente Allah é o Senhor e a Divindade.

Vejamos agora o caso de Nimrod. O Alcorão menciona da seguinte forma o diálogo que ele teve com Abraão (que a paz esteja com ele):

————————————— Viste aquele que discutiu com Abraão a respeito de seu Rabb? Fez isso porque Allah lhe havia concedido o poder de governar. Quando Abraão disse: “Aquele em cujas mãos estão a vida e a morte está sob minha autoridade”, Abraão disse: “A verdade é que Allah faz o sol nascer do Oriente; agora, vê se consegues fazê-lo nascer do Ocidente!” Ao ouvir isso, o incrédulo ficou atônito. —Al-Baqara—258

Fica claro, a partir desse diálogo, que a divergência não dizia respeito a saber se Allah existe ou não; a divergência dizia respeito a quem Abraão reconhecia como Rabb. Em primeiro lugar, Nimrod pertencia ao povo que reconhecia a existência de Allah. Em segundo lugar, enquanto não tivesse enlouquecido completamente, ele não poderia fazer uma afirmação tão evidentemente tola como a de que era ele próprio o criador dos céus e da terra e aquele que fazia a lua e o sol girarem e mudarem. “Eu sou Allah, o Rabb dos céus e da terra” — essa não era, em essência, a sua reivindicação; sua reivindicação era: “Eu sou o Rabb do reino do qual Abraão é membro.” Ele também não reivindicava ser seu próprio Rabb no primeiro e no segundo sentidos da rububiyyah, pois, nesses sentidos, reconhecia o próprio Allah como o Rabb da lua, do sol, dos planetas e das estrelas. Contudo, no terceiro, quarto e quinto sentidos, reivindicava ser o Rabb de seu próprio reino; isto é, sua reivindicação era: “Eu sou o proprietário deste reino, e todos os habitantes do reino são meus servos e escravos. Meu poder central é a base da sua união, e minha ordem — meu decreto — é a lei para eles.” A base de sua reivindicação de rububiyyah era a arrogância da realeza; a frase “porque Allah lhe havia concedido o poder do reino” indica claramente isso. Quando soube que, em seu reino, havia surgido um jovem chamado Abraão que não reconhecia a rububiyyah sobrenatural da lua, do sol e dos planetas, nem reconhecia a rububiyyah política e cultural do imperador da época, ficou perplexo e chamou Abraão, o honrado, perguntando-lhe: “Então, a quem reconheces como Rabb?” Abraão, o honrado, respondeu primeiro: “Meu Rabb é Aquele em cujas mãos está o poder sobre a vida e a morte.” Mas, ao ouvir essa resposta, ele não conseguiu penetrar profundamente na questão. Tentou estabelecer a sua própria rububiyyah, dizendo: “Também tenho poder sobre a vida e a morte: posso matar quem quiser e dar vida a quem quiser.” Então Abraão, o honrado, disse-lhe: “Reconheço somente Allah como meu Rabb; em todos os sentidos da rububiyyah, somente Allah é meu Rabb. Que espaço há para a rububiyyah de qualquer outro no sistema de administração do universo? Eles não têm a menor influência nem autoridade sobre o nascer e o pôr do sol.” Nimrod era astuto. Ao ouvir esse argumento, a verdade tornou-se evidente para ele: de fato, neste reino de Allah, sua reivindicação de rububiyyah não era senão uma tolice! Por isso, ficou atônito e completamente desnorteado. Mas o orgulho e o apego aos interesses pessoais e hereditários não o levaram a abandonar o trono do governo e da autoridade despótica para aceitar a obediência a Allah e ao Seu Mensageiro. É por isso que, depois de mencionar esse diálogo, Allah, o Altíssimo, diz:

————- Mas Allah não guia o povo injusto. Isto é: depois que a verdade se tornou evidente, ele não se dispôs a adotar o caminho que deveria seguir; ao contrário, julgou preferível oprimir o mundo e a própria alma por meio de uma autoridade arrogante e despótica. Por isso, Allah também não lhe concedeu a luz da orientação. Pois não é da prática de Allah impor à força a orientação àquele que não deseja obtê-la.

O povo de Lot

Depois do povo de Abraão, surge diante de nós um povo cuja reforma e correção foram confiadas a Lot, o sobrinho de Abraão, o honrado. Também a respeito desse povo podemos saber, pelo Alcorão, que não negava a existência de Allah. Tampouco negava que Allah é o Criador e o Rabb no primeiro e no segundo sentidos. Contudo, tinha objeções a reconhecê-Lo como Rabb no terceiro, quarto e quinto sentidos e a aceitar a liderança do Mensageiro como Seu representante fiel. Querer agir como bem entendesse, de acordo com os desejos do próprio coração — esse era o seu verdadeiro crime. Por isso, foi atingido pelo castigo. A seguinte declaração explícita do Alcorão é prova disso:

———————————– Quando seu irmão Lot lhes disse: “Não adotareis a taqwa? Vede, sou para vós um Mensageiro digno de confiança. Portanto, afastai-vos da ira de Allah e obedecei-me. Não vos peço recompensa alguma por isso. Minha recompensa incumbe somente a Allah, o Rabb dos mundos. Entre todas as pessoas do mundo, procurais apenas os homens? E abandonais as mulheres que vosso Rabb criou para vós? Vejo que sois, de fato, um povo transgressor!” —Ash-Shu‘ara—161–166

É evidente que esse discurso só poderia ser dirigido a um povo que não negava a existência de Allah, nem que Ele é o Criador e o Sustentador. Por isso, vemos que, em resposta, eles também não disseram: “O que é Allah?”, ou: “Quem é esse Criador?”, ou: “De onde Ele surgiu para se fazer passar por nosso Rabb?” Pelo contrário, disseram:

————————- “Ó Lot! Se não desistires do que dizes, serás expulso do país.” —Ash-Shu‘ara—167

Em outro lugar, este acontecimento é relatado da seguinte maneira:

——————————————— “E enviamos Lot! Quando ele disse ao seu povo: ‘Cometeis uma indecência que ninguém no mundo jamais cometeu antes de vós. Tendes relações sexuais com homens? Praticais assaltos nas estradas e cometeis más ações abertamente, uns diante dos outros, nas vossas reuniões?’ A resposta do seu povo não foi outra senão: ‘Fazei vir sobre nós o castigo de Allah, se sois veraz.’ — Al-Ankabut, 28–29. Poderia essa ser a resposta de um povo contrário a Allah? Portanto, fica claro que negar a uluhiyyah e a rububiyyah não era a sua verdadeira questão; o seu principal ‘crime’ era que, embora reconhecessem Allah como Ilah e Rabb em sentido sobrenatural, não estavam dispostos a obedecer a Allah, segundo a orientação do Mensageiro, na moral, na civilização e na vida social.

O povo de Shuayb

Consideremos agora o povo de Madyan e os habitantes de Aykah. O profeta Shuayb (que a paz esteja sobre ele) foi enviado a eles. Sabemos que eram descendentes do profeta Ibrahim (que a paz esteja sobre ele). Portanto, nem sequer se coloca a questão de saber se acreditavam na existência de Allah ou se O reconheciam como Ilah e Rabb. Na realidade, a sua posição era a de um povo cuja origem estava no Islã, mas que depois se transformara ao cair na corrupção da crença e das ações; além disso, o Alcorão dá a entender, em grande medida, que eles se consideravam crentes. Por isso vemos que o profeta Shuayb (que a paz esteja sobre ele) lhes disse repetidamente: ‘Se sois crentes, deveríeis fazer isto.’ Considerando todos os discursos do profeta Shuayb (que a paz esteja sobre ele) e as suas respostas, torna-se evidente que eram um povo que acreditava em Allah e O reconhecia também como Ma‘bud e Parvardigar. Contudo, haviam mergulhado em dois tipos de desvio. Primeiro: em sentido sobrenatural, haviam considerado outros além de Allah como Ilah e Rabb; por isso, a sua adoração não era dedicada exclusivamente a Allah. Segundo: na sua opinião, a rububiyyah de Allah não tinha qualquer relação com o caráter moral das pessoas, a política social, a economia, a política e a cultura. Por isso diziam que éramos livres na vida civilizacional: realizaríamos os nossos negócios e atividades como quiséssemos.

Os seguintes versículos do Alcorão comprovam a exatidão da nossa afirmação:

——————– E enviamos ao povo de Madyan o seu irmão Shuayb. Ele disse: ‘Ó meu povo! Adorai Allah; não tendes outro Ilah além d’Ele. Chegou-vos uma orientação clara da parte do vosso Rabb. Portanto, completai corretamente o peso e a medida e não diminuais os bens das pessoas. Não causeis corrupção na terra depois de nela ter sido estabelecida a paz e a ordem. Se sois crentes, isso é melhor para vós…. Se um pequeno grupo dentre vós crer na orientação com a qual fui enviado, enquanto os demais não crerem, então aguardai até que Allah julgue entre nós; e Ele é o melhor dos juízes.’ — Al-A‘raf, 85–87 ——————————————————-

Ó meu povo! Estabelecei a justiça na medida e no peso; medi e pesai com exatidão e não diminuais os bens das pessoas. Não espalheis a corrupção pela terra. O que restar, pela graça de Allah, dos negócios é melhor para vós, se sois crentes. Eu não fui designado para vos vigiar e guardar. Eles responderam: ‘Ó Shuayb! A tua oração ordena-te que abandonemos a adoração dos deuses que os nossos antepassados adoravam? Ou que deixemos de dispor da nossa riqueza conforme a nossa vontade? Só tu restaste como uma pessoa paciente e justa!’ — Surata Hud, 85–86

As últimas linhas destacadas esclarecem nitidamente qual era o verdadeiro desvio deles no que diz respeito à rububiyyah e à uluhiyyah.

O Faraó e seu povo

Agora discutiremos o Faraó e seu povo. Sobre esse assunto, encontram-se concepções ainda mais equivocadas do que as relativas a Nimrod e seu povo. A ideia comum é que o Faraó não apenas não acreditava na existência de Allah, mas também reivindicava ser ele próprio um deus. Em outras palavras, sua mente havia se corrompido a tal ponto que ele proclamava publicamente diante do mundo: “Eu sou o criador dos céus e da terra”. E seu povo havia enlouquecido de tal maneira que acreditara nessa reivindicação. Contudo, o verdadeiro fato pode ser conhecido pelas evidências do Alcorão e da história. A realidade é que sua desorientação quanto à uluhiyyah e à rububiyyah não era diferente da desorientação de Nimrod, e a desorientação de seu povo também não era diferente da do povo de Nimrod. A única diferença era que, por razões políticas, surgiu entre eles e os filhos de Israel uma obstinação semelhante à idolatria nacionalista e uma teimosia tendenciosa. Assim, por puro rancor, recusaram-se a aceitar Allah como seu Rabb e Ilah. Entretanto, o reconhecimento disso estava oculto em seus corações, como fazem hoje em dia a maioria dos materialistas.

O fato é que o honorável Yusuf, ao conquistar o poder no Egito, empregou todos os seus esforços na propagação dos ensinamentos islâmicos. Ele deixou na terra do Egito uma marca tão profunda que ninguém poderia de modo algum apagá-la completamente. Talvez nem todos os habitantes do Egito tenham aceitado a verdadeira religião naquela época, mas é impossível que algum egípcio não conhecesse Allah ou não reconhecesse que Ele é o Criador dos céus e da terra. Além disso, os ensinamentos dele certamente exerceram sobre cada egípcio ao menos a seguinte influência: em sentido sobrenatural, reconhecia Allah como “Ilah dos ilahs” e “Rabb dos rabbs”. Nenhum egípcio se opunha à uluhiyyah de Allah. É verdade, porém, que aqueles entre eles que perseveravam na descrença associavam outros a Allah na uluhiyyah e na rububiyyah. Essa influência permaneceu até o surgimento do honorável Musa.¹ Isso é claramente comprovado pelo discurso proferido por um chefe copta na corte do Faraó. Quando o Faraó manifestou a intenção de matar o honorável Musa, esse dignitário de sua corte — que havia aceitado secretamente o Islã — levantou-se aflito e disse:

—————————————-

1. Com base no relato histórico da Torá, pode-se supor que aproximadamente um quinto da população total do Egito havia aceitado o Islã. À luz do recenseamento dos filhos de Israel registrado na Torá, pode-se dizer que aqueles que deixaram o Egito com o honorável Musa eram cerca de dois milhões. Naquela época, a população do Egito não passava de dez milhões. A Torá menciona todos eles como filhos de Israel. Entretanto, não parece possível, segundo qualquer cálculo, que os descendentes dos doze filhos do honorável Yaqub tenham aumentado para dois milhões em vinte e cinco anos. Portanto, pode-se supor que uma grande parte da população egípcia tenha aceitado o Islã e se unido aos filhos de Israel. Ao deixarem o país, esses muçulmanos egípcios também se juntaram aos israelitas. Isso pode ser deduzido do trabalho de pregação realizado no Egito pelo honorável Yusuf e por seus representantes.

————————————

“Por dizer ‘Allah é meu Rabb’, vocês estão matando um homem? No entanto, ele trouxe diante de vocês provas claras. Se ele for mentiroso, algumas das consequências sobre as quais ele os adverte certamente recairão sobre vocês. Sabei com certeza que Allah não guia para o bem o mentiroso transgressor. Ó meu povo! Hoje o poder do Estado está em vossas mãos, e hoje sois vós os dominadores vitoriosos na terra. Mas quem nos protegerá amanhã, quando o castigo de Allah cair sobre nós? Ó meu povo! Temo que vos aconteça o mesmo que aconteceu aos povos poderosos quando a ira caiu sobre eles. Antes disso, quando Yusuf veio até vós com provas claras, permanecestes em dúvida quanto àquilo que ele apresentara. Depois que ele desapareceu, dissestes: ‘Allah jamais enviará outro mensageiro depois dele’. Ó meu povo! Eu vos convoco à salvação — que coisa espantosa vejo! Vós me convocais para que eu descreia de Allah e associe a Ele aqueles cuja associação não tenho nenhuma prova baseada no conhecimento. E eu vos convoco Àquele que é Todo-Poderoso e Perdoador.” — Al-Mu’min, 28–42

Mesmo após o transcorrer de vários séculos, a influência da grandiosa personalidade do profeta José (que a paz esteja com ele) ainda permanecia — isso é comprovado por este longo discurso. A nação influenciada pelos ensinamentos desse grande profeta não se encontrava em um nível de ignorância tal que desconhecesse a existência de Allah ou não soubesse que Allah é o Ilah e o Senhor, estabelecido o Seu domínio e controle sobre as forças da natureza. Tampouco se pode dizer que ela ignorasse que o Seu castigo era algo a ser temido. Que essa nação não era de modo algum descrente na uluhiyyah e na rububiyyah de Allah também fica claramente evidente na parte final do discurso; pelo contrário, a causa de seu desvio era a mesma mencionada em relação ao desvio de outras nações: associar outros a Allah na uluhiyyah e na rububiyyah. O que dá margem à dúvida é o seguinte: ao ouvir as palavras do profeta Moisés (que a paz esteja com ele) —————————————————————————— «Certamente, sou o mensageiro do Senhor dos mundos» — o Faraó perguntou: ——– «E o que é, afinal, o Senhor dos mundos?» Ele disse ao seu ministro Hamã: «Constrói para mim um palácio elevado, para que eu possa ver o deus de Moisés.» Ao repreender o profeta Moisés (que a paz esteja com ele), disse: «Se tomares alguém além de mim como ilah, certamente te prenderei.» Proclamou por todo o país: «Eu sou o vosso supremo Senhor.» Disse aos seus cortesãos: «Não conheço para vós nenhum ilah além de mim.» Ao observar tais declarações, as pessoas concluíram que talvez o Faraó negasse a própria existência de Allah, não tivesse em mente qualquer conceito do Senhor dos mundos e considerasse somente a si mesmo o único objeto de adoração. Mas a realidade é que todas essas declarações eram motivadas por uma obstinação nacionalista. Na época do profeta José (que a paz esteja com ele), sob a influência de sua poderosa personalidade, os ensinamentos do Islam haviam-se difundido no Egito. Além disso, como resultado da autoridade que ele estabelecera no governo do Estado, os Filhos de Israel haviam-se tornado muito influentes no Egito. Esse poder dos Filhos de Israel permaneceu estabelecido no Egito durante trezentos ou quatrocentos anos. Depois, começou a surgir ali um sentimento nacionalista contra os Filhos de Israel. Por fim, o seu poder foi eliminado. Uma dinastia nacionalista egípcia assumiu o trono. Esse novo grupo governante não se limitou a subjugar e exterminar os Filhos de Israel; tentou também apagar todos os vestígios do governo do profeta José (que a paz esteja com ele) e restabelecer as tradições da sua antiga religião pagã. Quando, nessa situação, surgiu o profeta Moisés (que a paz esteja com ele), temeram que o poder governamental lhes escapasse novamente das mãos! Foi por causa dessa hostilidade e obstinação que o Faraó perguntou repetidamente ao profeta Moisés (que a paz esteja com ele): «Quem é, afinal, o Senhor dos mundos? Quem pode ser ilah além de mim?» Na realidade, ele não desconhecia o Senhor dos mundos. As conversas entre ele e os seus cortesãos, bem como o discurso e as declarações do profeta Moisés (que a paz esteja com ele) mencionados no Alcorão, comprovam essa verdade com absoluta clareza. Para dar aos homens da corte a impressão de que Moisés (que a paz esteja com ele) não era um mensageiro de Allah, certa vez ele disse:

«Então, por que não lhe foram enviados braceletes de ouro, ou por que não vieram com ele anjos em grupo?» — Az-Zukhruf, 53

Pode uma pessoa que não tenha em sua mente qualquer conceito de Allah e dos anjos dizer algo assim? Em outra ocasião, ocorreu o seguinte diálogo entre o Faraó e o profeta Moisés (que a paz esteja com ele):

Então o Faraó lhe disse: «Ó Moisés! Penso que estás enfeitiçado; perdeste o juízo e a razão!» Moisés respondeu: «Sabes muito bem que ninguém além do Senhor dos céus e da terra enviou estes sinais esclarecedores. Penso, ó Faraó, que a tua ruína se aproxima.» — Os Filhos de Israel, 101–102

Em outra passagem, Allah, o Altíssimo, descreveu o estado dos corações dos homens do grupo do Faraó, dizendo:

«Quando os Nossos sinais se tornaram visivelmente claros diante deles, disseram: “Isto não passa de magia evidente!” Seus corações, porém, reconheciam-nos plenamente por dentro; mas, somente por perversidade, arrogância e desobediência, recusaram-se a aceitá-los.» — An-Naml, 13–14

O Alcorão apresenta assim a cena de outra reunião: —————————————————- Moisés lhes disse: «Ai de vós! Não forjais mentiras contra Allah, pois, se o fizerdes, Ele vos destruirá com um castigo severo. Certamente, fracassará aquele que forjar mentiras contra Allah.» Ao ouvirem isso, começaram a discutir e a discordar entre si! Consultaram-se secretamente! Então, muitos disseram: «Estes dois — Moisés e Aarão — são apenas feiticeiros! Pretendem expulsar-vos da vossa terra por meio da magia e desejam eliminar o vosso modo de vida exemplar.» — Ta-Ha, 61–63

É evidente que, depois de serem advertidos sobre o temor do castigo de Allah, o Altíssimo, e sobre as consequências de atribuir-Lhe falsidades, surgiu entre eles uma discussão — porque em seus corações ainda existia, em alguma medida, o temor de Allah e o efeito da Sua majestade. Porém, quando a classe governante nacionalista os ameaçou com uma revolução política, dizendo que, se aceitassem as palavras de Moisés e Aarão (que a paz esteja com eles), o resultado seria que o Egito voltaria a cair nas mãos de Israel, seus corações tornaram-se novamente endurecidos. Todos decidiram opor-se ao Mensageiro.

Depois de estabelecida esta verdade, podemos afirmar com facilidade e segurança qual era a questão fundamental da divergência entre Moisés (que a paz esteja sobre ele) e o Faraó, e em que consistia exatamente o verdadeiro desvio do Faraó e de seu povo. Em que sentido o Faraó reivindicava a uluhiyyah e a rububiyyah? Para esse propósito, examine atentamente, uma a uma, as seguintes passagens do Alcorão:

Primeiro: os membros da corte do Faraó que insistiam na necessidade de erradicar completamente a pregação de Moisés (que a paz esteja sobre ele) dirigiram-se ao Faraó nessa ocasião, dizendo:

Você deixará Moisés e seu povo livres para que abandonem você e os seus deuses e espalhem a corrupção pelo país? — Al-A‘raf, 127

Por outro lado, aquele entre os membros da corte que havia crido em Moisés (que a paz esteja sobre ele) dirigiu-se a eles, dizendo:

Vocês me convidam a cometer incredulidade contra Allah e a associar a Ele alguém para cuja associação não tenho nenhuma prova científica? — Al-Mu’min, 42

Quando comparamos essas duas passagens com o conhecimento que adquirimos sobre os egípcios daquela época por meio da história e dos vestígios arqueológicos, podemos saber claramente que o próprio Faraó e os membros de seu povo associavam à divindade certos deuses, nos dois primeiros sentidos da rububiyyah, e os adoravam. É evidente que, se o Faraó reivindicasse a divindade no sentido sobrenatural — isto é, se sua reivindicação fosse a de que também exercia autoridade sobre a cadeia de causa e efeito e que, além dele, não havia outro Rabb-Ilah dos céus e da terra —, ele próprio não adoraria outro ilah.¹

Segundo: estas palavras do Faraó são mencionadas no Alcorão:

———————————————– 1. Alguns exegetas, movidos unicamente pela ideia de que o próprio Faraó havia reivindicado ser o ‘Ilah dos mundos’ (‘Ilahul ‘Alamin), adotaram, na passagem acima citada da surata Al-A‘raf, a leitura (qira’ah) —————- em lugar de ———. E tomaram —- no sentido de adoração. De acordo com essa leitura, a tradução da passagem seria: “abandonem você e a sua adoração”. Mas, em primeiro lugar, essa leitura é rara e contrária à leitura conhecida e consagrada. Em segundo lugar, a ideia com base na qual essa leitura foi adotada é inteiramente infundada e sem fundamento. Em terceiro lugar, o significado de – pode ser, além de adoração, ma‘bud ou deusa. Na Arábia da época da ignorância, essa palavra era usada para o sol. É sabido que, em geral, o principal ídolo dos egípcios era o sol. Na língua egípcia, o sol era chamado Ra (-). E o significado de Faraó era descendente feminino de Ra, encarnação de Ra — em outras palavras, encarnação do sol. Portanto, aquilo que o Faraó reivindicava era isto: sou apenas a manifestação corpórea do deus Sol.

Ó nobres! Não conheço outra divindade para vós além de mim. —Al-Qasas, 38

————————— Ó Moisés! Se tomares alguém além de mim como divindade, certamente te incluirei entre os prisioneiros. —Ash-Shu’ara, 29

O significado dessas palavras não é que o Faraó negasse todas as divindades além de si mesmo; seu verdadeiro objetivo era rejeitar a mensagem de Moisés (que a paz esteja com ele). Isso porque Moisés (que a paz esteja com ele) convocava para uma divindade que não era objeto de adoração apenas no sentido sobrenatural, mas que também, no sentido político e civilizacional, era a autoridade dos mandamentos e proibições e o detentor do poder supremo. Por isso, ele disse ao seu povo: “Não há para vós nenhuma divindade como tal além de mim.” E, ameaçando Moisés (que a paz esteja com ele), disse que, se aceitasse alguém além dele como divindade nesse sentido, seria lançado na prisão.

Também se sabe pelos versículos do Alcorão, e encontra-se confirmação disso na história e nos vestígios arqueológicos, que a dinastia dos Faraós do Egito não reivindicava apenas soberania absoluta; ao estabelecer uma relação com a divindade, reivindicava também uma espécie de sacralidade, para que pudesse firmar uma posição sólida no coração e na mente dos súditos. Nesse aspecto, a dinastia dos Faraós do Egito não é um caso excepcional; pelo contrário, na maior parte dos países do mundo, as famílias reais, além da soberania política, fizeram, em maior ou menor medida, tentativas de usurpar uma parcela da divindade e da rububiyyah em sentido sobrenatural. Também tornaram obrigatório para os súditos praticar diante delas alguma forma de servidão. Mas, na realidade, isso era apenas uma questão secundária. O verdadeiro objetivo era consolidar a soberania política. A reivindicação de uma uluhiyyah sobrenatural era usada como um meio para isso. Por essa razão, tanto no Egito quanto em outros países dominados por concepções e crenças da jahiliyyah, juntamente com a queda política, a uluhiyyah da família real sempre desapareceu por completo. A uluhiyyah também passou àqueles em cujas mãos caiu o trono do poder.

Terceiro: a reivindicação principal do Faraó não era uma divindade sobrenatural; sua reivindicação fundamental era a divindade política. Nos terceiro, quarto e quinto sentidos da rububiyyah, ele dizia: “Eu sou o maior Senhor (Overlord) da terra do Egito e de seus habitantes; sou o proprietário deste país e de todos os seus elementos e recursos. O direito à soberania absoluta sobre este país pertence somente a mim; minha personalidade integral é a base da organização social e da civilização e cultura deste país. Aqui, nenhuma lei ou regulamento de qualquer outro poderá vigorar além dos meus.”

Nas palavras do Alcorão, o fundamento de sua reivindicação era o seguinte:

——————– E o Faraó proclamou entre seu povo: “Ó meu povo! Não me pertence o reino do Egito? Não é meu o reino do Egito? Não vedes que estes rios e canais correm sob minha ordem?” —Az-Zukhruf, 51

A reivindicação de rububiyyah de Nimrod também estava fundamentada nessa base.

(———————) Foi com base nisso que o soberano contemporâneo de Yusuf também se fez passar por senhor do seu povo.

Quarto: o convite de Moisés (que a paz esteja com ele) — causa pela qual ele disputava com o Faraó e a dinastia do Faraó — consistia fundamentalmente em que, além de Allah, o Senhor dos mundos, não existe ilah algum, em sentido algum. Ele é o único Ilah também no sentido sobrenatural, e igualmente no sentido social e político. A adoração, a devoção e a obediência devem ser dirigidas somente a Ele; somente Suas leis e normas devem ser seguidas. Foi Ele quem me nomeou Seu representante, munindo-me de sinais claros; por meu intermédio, Ele estabelecerá as normas e leis dos mandamentos e proibições. Portanto, o controle do poder sobre Seus servos não deve estar em tuas mãos, mas nas minhas. Foi com base nisso que o Faraó e seus aliados políticos repetidamente diziam: “Esses dois irmãos querem expulsar-nos do país e ocupar eles próprios o poder. Estão empenhados em eliminar a religião e o sistema civilizacional do nosso país, para estabelecerem a sua própria religião e civilização.”

———————– E enviamos Moisés, com Nossos versículos e sinais claros da revelação, ao Faraó e aos líderes de seu povo. Porém, eles seguiram a ordem do Faraó, embora a ordem do Faraó não fosse justa. — Hud 96–97

——————– E, antes deles, submetemos o povo do Faraó a uma provação. Chegou-lhes um nobre Mensageiro. Ele disse: “Entregai-me os servos de Allah. Sou, para vós, um Mensageiro digno de confiança. Não vos ensoberbeçais perante Allah. Apresento-vos um sinal claro da revelação.” — Ad-Dukhan 17–19

——- (Ó habitantes de Meca!) Enviamos-vos um Mensageiro, como testemunha sobre vós, assim como enviamos um Mensageiro ao Faraó. Porém, quando o Faraó desobedeceu ao Mensageiro, apanhámo-lo com um castigo rigoroso. — Al-Muzzammil 15–16

———————- O Faraó disse: “Ó Moisés! (Se não reconheces nenhuma das divindades nem a linhagem real,) então quem é o teu Rabb?” Moisés respondeu: “Meu Rabb é Aquele que deu a cada coisa a sua forma particular e, em seguida, lhe indicou o modo de cumprir a sua função.” — Taha 49–50

————————— O Faraó disse: “E o que é esse Rabb dos mundos?” Moisés respondeu: “O Rabb dos céus, da terra e de tudo o que existe entre ambos — se credes.” O Faraó disse aos que estavam à sua volta: “Ouvistes?” Moisés disse: “Vosso Rabb e também o Rabb dos vossos antepassados.” O Faraó disse: “Esse vosso Mensageiro, que vos foi enviado, é certamente louco.” Moisés disse: “O Rabb do Oriente e do Ocidente, e de tudo quanto existe entre ambos — se ao menos tivésseis algum conhecimento.” Então o Faraó exclamou: “Se tomares alguém além de mim como ilah, incluir-te-ei entre os encarcerados.” — Ash-Shu’ara 23–29

— O Faraó disse: “Ó Moisés! Vieste para expulsar-nos da nossa terra por meio da tua magia?” — Taha 57

]——————— E o Faraó disse: “Deixai-me, para que eu mate Moisés. Que ele invoque seu Senhor em busca de ajuda. Tenho receio de que ele mude a vossa religião (modo de vida) ou cause corrupção na terra.” — Al-Mu’min-26

—————————— Eles disseram: “Estes dois são certamente feiticeiros. Com sua força, querem expulsar-vos de vossa terra e eliminar vosso sistema ideal de vida.” — Taha-63

Ao examinar sucessivamente estes versículos, fica claro que o desvio acerca da rububiyyah, que desde o princípio prevalecia entre vários povos do mundo, também havia tomado conta da terra do Nilo. Na mesma direção para a qual todos os profetas e mensageiros vinham convocando desde o princípio, Moisés e Aarão (que a paz esteja sobre eles) também convocavam.

Judeus e cristãos

Depois do povo do Faraó, surgem diante de nós os Filhos de Israel e os demais povos que haviam adotado o judaísmo e o cristianismo. Não se pode imaginar que eles negassem a existência de Allah ou que não O reconhecessem como Rabb-Ilah. Afinal, eram povos do Livro, fato cuja veracidade o próprio Alcorão confirmou. Então surge a pergunta: que inconsistência, erro ou desvio havia em sua crença, convicção e conduta a respeito da rububiyyah, para que o Alcorão os qualificasse como desviados? Encontramos no próprio Alcorão uma resposta resumida:

—————————– Dize: “Ó povo do Livro! Não cometais excessos injustos em vossa religião. Não sigais as ideias falsas dos povos que se desviaram antes de vós. Eles desviaram muitos e também se afastaram do caminho reto.” — Al-Ma’idah-77

Isso mostra que o desvio dos povos judeus e cristãos era, em essência, do mesmo tipo daquele em que seus povos predecessores vinham mergulhando desde o princípio. Além disso, também se sabe que esse desvio entrou entre eles pelo caminho do “ghuluw fid-din” — o excesso injusto e desnecessário em matéria de religião. Vejamos agora como o Alcorão apresenta a explicação desse breve relato:

—————————————– Os judeus dizem: “Uzair é filho de Allah”, e os nazarenos dizem: “O Messias é filho de Allah.” — At-Tawbah-30

———————————— Aqueles cristãos que dizem que o Messias, filho de Maria, é Allah — cometeram kufr. No entanto, o Messias disse: “Ó filhos de Israel! Adorai Allah, que é meu Senhor e vosso Senhor.” — Al-Ma’idah, 72

——————————- Aqueles que dizem que Allah é o terceiro de três — cometeram kufr. No entanto, não há divindade alguma senão o Único Ilah. — Al-Ma’idah, 73

————————————————– E quando Allah perguntar: “Ó Jesus, filho de Maria! Foste tu que disseste às pessoas: ‘Tomai a mim e à minha mãe como divindades, além de Allah’?” Ele responderá: “(Subhanallah!) Não me era permitido dizer aquilo que não era meu direito dizer; acaso eu poderia dizer tal coisa?” — (Al-Ma’idah, 116)

——————————————————- Não é próprio de um ser humano que Allah lhe conceda o Livro, a autoridade e a profecia, e então ele diga às pessoas: “Tornai-vos meus servos, abandonando Allah”; ao contrário, ele dirá: “Tornai-vos rabbanis (devotados a Deus), conforme ensinais e estudais o Livro de Allah.” Não é próprio de um profeta dizer: “Tomai os anjos e os profetas como senhores.” Depois de vos tornardes muçulmanos, acaso ele vos ensinaria a cometer kufr? — Al ‘Imran, 79–80

À luz desses versículos, o primeiro desvio do Povo do Livro foi que eles elevaram à condição de divindade grandes personalidades — profetas, mensageiros, homens devotos, anjos e outros — acima de sua verdadeira posição. Fizeram deles parceiros e associados nas ações de Allah. Adoraram-nos. Consideraram-nos participantes delas e passaram a acreditar que eles também possuíam o poder de perdoar, ajudar, prestar auxílio e proteger. Depois, seu segundo desvio foi o seguinte:

———————————————- Eles tomaram como senhores, além de Allah, seus próprios sábios e xeques — seus sacerdotes e clérigos. — Surata At-Tawbah, 31

Ou seja, aqueles cuja posição no negócio religioso consistia apenas em explicar as determinações da Shariah de Allah e formar o caráter de acordo com a vontade de Allah receberam gradualmente uma posição tal que passaram a declarar lícito ou ilícito o que quisessem, segundo sua própria autoridade; ordenavam o que queriam sem a aprovação da religião e do Livro, proibiam o que queriam e podiam impor qualquer método que desejassem. Assim, acabaram mergulhando em dois grandes desvios fundamentais. Tal como o povo de Noé, Abraão, ‘Ad, Thamud, o povo de Madian e outros povos haviam mergulhado nesse desvio, eles também fizeram dos anjos e das grandes personalidades, em sentido sobrenatural, parceiros de Allah na Rububiyyah. Da mesma forma, sem se importar com a aprovação de Allah, começaram a adotar das pessoas as normas de sua civilização, cultura, costumes, comportamento, ética e política. Até que, por fim, a situação chegou ao ponto de:

—————————————————————- Acaso não viste aqueles que receberam uma parte do Livro de Allah? Sua condição era tal que reconheciam o Jibt e o Taghut. — An-Nisa, 51

—————————– Dize: “Quereis que vos diga quem terá o pior destino diante de Allah, pior ainda que o dos fásicos? São aqueles que Allah amaldiçoou, sobre os quais recaiu a ira de Allah, muitos dos quais, por ordem Sua, foram transformados em macacos e porcos, e que adoraram e serviram o Taghut. Estes são os que ocupam a pior posição. E afastaram-se muito do caminho reto e verdadeiro.” — Al-Ma’idah, 60

A palavra “Jibt” é extremamente abrangente e compreende todo tipo de pensamento e imaginação fantasiosa. Magia e feitiçaria, amuletos, adivinhação, previsões do futuro, as ideias e fantasias de bom e mau agouro, atividades sobrenaturais — em uma palavra, todo tipo de concepção e imaginação inventada — está incluído nessa categoria. Já “Taghut” significa todas aquelas pessoas, grupos ou organizações e instituições que adotaram arrogância e desobediência diante de Allah, transgrediram os limites da servidão e se fizeram porta-estandartes da divindade. Os judeus e cristãos haviam mergulhado nos dois tipos de desvio mencionados anteriormente. A consequência do primeiro tipo de desvio foi que todo tipo de concepção e fantasia se instalou em suas mentes. E o segundo tipo de desvio levou-os da servidão a seus ulemás e xeques, sábios e sufis, padres e sacerdotes, mestres religiosos sufis e ascetas, até à servidão e obediência a opressores e malfeitores que eram abertamente rebeldes contra Deus.

A sociedade politeísta da Arábia

Agora examinaremos que tipo de desvio havia entre os politeístas árabes a esse respeito. Foi a eles que o Mensageiro (que a paz esteja com ele) foi enviado, e foram eles os primeiros a ser interpelados pelo Alcorão. Eles ignoravam Allah? Não acreditavam em Sua existência? O Mensageiro teria sido enviado apenas para fazê-los reconhecer a existência de Allah? Eles não reconheciam Allah como Rabb e Ilah? O Alcorão teria sido revelado apenas para fazê-los reconhecer a uluhiyyah e a rububiyyah do Deus Altíssimo? Eles negavam a adoração e o serviço a Allah? Ou será que acreditavam que, na realidade, Lat, Manat, Hubal, Uzza e as demais divindades eram os criadores, proprietários, provedores e governantes e administradores do universo? Ou reconheciam essas divindades como fontes da lei e como fontes de orientação nas questões morais e civilizacionais?

No Alcorão encontramos respostas negativas a cada uma dessas perguntas. O Alcorão nos informa que os politeístas árabes não apenas acreditavam na existência de Allah, mas também O reconheciam como o Criador e Proprietário de todo o universo e de suas próprias divindades, como o Grande Senhor, e O reconheciam como Rabb e Ilah. Em tempos de crise, problemas, calamidades e adversidades, era à Sua corte que faziam seu último apelo. Tampouco negavam a adoração e o serviço a Allah. Eles não acreditavam que seus próprios deuses e divindades fossem os criadores e provedores deles mesmos e do universo, nem acreditavam que essas divindades lhes proporcionassem orientação nas questões morais e civilizacionais da vida. Os versículos seguintes esclarecem isso: ————————————– “Ó Profeta! Pergunta-lhes: ‘A quem pertence a terra e tudo o que nela há? Se sabeis, dizei.’ Eles dirão: ‘A Allah.’ Dize: ‘Ainda assim não vos lembrareis da exortação?’ Pergunta-lhes: ‘Quem é o Rabb dos sete céus e do Trono Magnífico?’ Eles dirão: ‘Allah.’ Dize: ‘Ainda assim não O temereis?’ Dize: ‘Em cuja mão está o domínio de todas as coisas? Quem é Aquele que protege, enquanto ninguém pode proteger-se contra Ele? Dizei-me, se sabeis.’ Eles dirão: ‘Esse poder e essa característica pertencem somente a Allah.’ Dize: ‘Então, como podeis ser enganados?’ A verdade é que lhes apresentamos a verdade, mas eles são certamente mentirosos.” — Al-Mu’minun, 84–90

Ele é Allah, Aquele que vos faz viajar por terra e mar. E quando embarcais em um navio e navegais alegremente com vento favorável, então, de repente, um vento contrário sopra com violência e as ondas começam a se agitar de todos os lados — e eles pensam que a tempestade os cercou — todos invocam somente Allah. Dedicam-Lhe sinceramente sua religião e suplicam: ‘Se nos salvares deste perigo, seremos certamente Teus servos agradecidos.’ Mas, quando Ele os salva do perigo, eles se rebelam injustamente na terra, afastando-se da verdade. — Yunus, 22–23

————————————— Quando vos sobrevém uma calamidade no mar, desaparecem todos aqueles que invocáveis, exceto Allah. Mas, quando Ele vos salva e vos faz chegar à terra firme, afastais-vos d’Ele. Na verdade, o ser humano é extremamente ingrato, um servo profundamente ingrato. — Bani Isra’il, 67

O Alcorão mencionou assim, nas próprias palavras deles, a concepção que tinham acerca de suas divindades:

————————————————————— E aqueles que, em vez d’Ele, adotam outros como amigos e administradores de seus assuntos dizem: “Nós os adoramos somente para que nos aproximem de Allah.” — Az-Zumar 3

———————- E dizem: “Eles são nossos intercessores perante Allah.”

Eles tampouco consideravam seus ma‘bud (deuses adorados) como guias para os problemas da vida. Na surata Yunus, versículo 35, Allah instrui Seu Profeta:

——————————– Pergunta-lhes: entre esses parceiros que inventastes, há algum que guie para a verdade?

Mas, ao ouvirem essa pergunta, o silêncio os envolveu. Lat, Manat, Uzza ou outros deuses adorados nos indicam o caminho correto do pensamento e da ação; na vida terrena, ensinam-nos paz, tranquilidade e os princípios da justiça; a partir de seu conhecimento, adquirimos conhecimento sobre os princípios fundamentais do universo — nenhum deles deu tal resposta. Ao ver o silêncio deles, por fim Allah disse a Seu Profeta:

————————————— Dize: “Allah é Quem guia para a verdade.” Dize ainda: “Quem é mais digno de ser seguido: aquele que guia para a verdade ou aquele que, se não for guiado, não consegue encontrar orientação por si mesmo? O que há convosco? Que decisão tomastes?” Yunus 35

Depois dessas declarações claras, resta agora uma única questão sem solução. A questão é: então, qual era o verdadeiro desvio deles no que diz respeito à Rububiyyah, para cuja correção Allah enviou Seu Profeta e revelou o Livro? Ao examinar o Alcorão para resolver essa questão, encontramos dois desvios fundamentais tanto em suas crenças quanto em suas ações, os mesmos que também se encontravam, desde os tempos antigos, entre todos os povos desviados: por um lado, num sentido sobrenatural, associavam a Allah outros Rabb-Ilah e acreditavam que, na cadeia de causa e efeito, além d’Aquele que exerce a autoridade, anjos, pessoas piedosas, planetas, estrelas e outros possuíam algum tipo de autoridade sobre os poderes sob Seu domínio. Por isso, nas formas e princípios de súplica, busca de ajuda e adoração, bem como nos ritos e cerimônias, não se voltavam somente para Allah, mas também para esses deuses artificiais.

Por outro lado, no que diz respeito à Rububiyyah civilizacional e política, eram completamente desprovidos de entendimento. Nem sequer lhes ocorria que pudesse existir um Rabb nesse sentido. Assim, fizeram de seus líderes e autoridades religiosas, chefes e notáveis, e dos grandes homens de suas famílias, seus Rabb; deles recebiam o código de vida que seguiam. Sobre seu primeiro desvio, o Alcorão testemunha:

————————– Entre as pessoas, há também quem permaneça nos limites extremos da devoção a Deus e O adore. Quando alcança algum benefício, fica tranquilo e satisfeito com isso. Porém, se enfrenta alguma dificuldade, vira as costas. Tal pessoa arruinou tanto este mundo quanto a Outra Vida. E essa é a perda evidente. Em vez de Deus, invoca alguém que não tem poder para lhe causar nenhum mal, nem tem poder para lhe proporcionar qualquer benefício. Essa é a grande perdição, o enorme desvio do caminho. Para obter ajuda, invoca alguém cuja invocação lhe traz um dano muito mais próximo do que qualquer benefício. Que péssimo protetor e que péssimo companheiro! — Al-Hajj, 11–13

———————– Eles adoram, em vez de Deus, aqueles que não podem causar mal algum nem proporcionar benefício algum. E dizem: “Eles são nossos intercessores perante Deus.” Dize: “Estais informando a Deus sobre algo que Ele não conhece¹ nos céus e na terra?” Deus está livre e isento do que associam a Ele. — Yunus, 18

——————————— Ó Profeta! Dize-lhes: “Realmente, vós renegais Aquele que criou a terra em dois dias e tomais outros como Seus iguais e rivais?” — Ha-Mim as-Sajda, 9

———————————

¹ Isto é, caístes numa concepção tão equivocada que acreditais que esses objetos de adoração têm, perante Mim, tamanho poder que qualquer intercessão que fizerem por vós necessariamente será aceita. É por isso que bateis a cabeça diante dos seus santuários e lhes ofereceis presentes. Não conheço, nos céus e na terra, nenhuma entidade que tenha tamanho poder perante Mim, ou seja tão querida por Mim, a ponto de Me obrigar a aceitar sua intercessão. Será que não sei disso e vós estais Me informando sobre tais intercessores? É evidente que, se algo não existe no conhecimento de Deus, isso significa, na realidade, que tal coisa não existe.

Dize: “Adorais, em vez de Deus, alguém que não tem nenhum poder sobre vosso benefício, nem capacidade de vos causar mal?” Contudo, somente Deus é O que ouve e O que conhece. — Al-Maida, 76

—————————- Quando algum infortúnio atinge o ser humano, ele invoca somente o seu Senhor, com total concentração. Mas, quando Ele o agracia com alguma bênção, esquece o infortúnio pelo qual anteriormente O havia invocado e começa a atribuir iguais a Deus¹, a fim de desviá-lo do caminho de Deus. — Az-Zumar, 8

—————————– Qualquer bênção que tenhais recebido, recebestes graças à dádiva e à generosidade de Deus. Depois, quando algum infortúnio vos atingir, apresentai-vos perante Deus levando vossa súplica. Mas, quando Ele afastar de vós esse infortúnio, alguns de vós começam a associar outros a Ele na libertação desse infortúnio, retribuindo a bênção com o esquecimento da bênção. Pois bem! Aproveitai o prazer. Em breve sabereis o resultado disso. Destinais uma parte da provisão que vos concedemos àqueles que não conheceis.² Deus

1. Fazer alguém igual a Allah significa dizer: “Esta dificuldade foi afastada pela bênção de determinado santo; esta dádiva foi obtida pela graça e benevolência de determinado Hazrat.”

2. Isto é, fazem oferendas e apresentam dádivas votivas, como expressão de gratidão, àqueles que, segundo eles, afastavam as calamidades e removiam as dificuldades — embora nenhuma informação ou conhecimento tenha estabelecido essa verdade a respeito deles. O mais curioso é que fazem tudo isso com o sustento que Nós lhes concedemos.

Juro que sereis certamente interrogados minuciosamente sobre as ideias e concepções estranhas e absurdas que inventais. — An-Nahl, 55–56

Restava a sua segunda forma de desvio. Eis o testemunho do Alcorão a esse respeito: ——————- E, assim, os seus parceiros inventados tornaram agradável, para muitos dos politeístas, o assassinato dos próprios filhos, a fim de lançá-los na destruição e tornar confusa para eles a sua religião.

É evidente que, aqui, shurakā’ (parceiros) não significa ídolos ou divindades, mas sim os líderes e autoridades que apresentavam o assassinato de filhos, aos olhos dos árabes, como uma ação de benefício, honra e beleza; é isso que significa shurakā’ neste contexto. Foram eles que introduziram tal prática monstruosa na religião de Hadrat Ibrahim e Hadrat Ismail (que a paz esteja com eles). É ainda mais evidente que os árabes os consideravam detentores de autoridade na cadeia de causa e efeito, ou os adoravam, ou lhes dirigiam súplicas. Não foram chamados parceiros de Allah nesses sentidos. Foram chamados parceiros na rububiyyah e na uluhiyyah porque os árabes reconheciam a esses líderes o direito de formular, como quisessem, normas para questões sociais e civilizacionais, assuntos morais e questões religiosas.

Acaso estabeleceram como parceiros aqueles que lhes prescreveram, em matéria de religião, leis e normas que Allah não autorizou e sobre as quais não deu ordem alguma? — Ash-Shura, 21

A explicação da palavra dīn será apresentada mais adiante. Ali também ficará plenamente esclarecida a abrangência total do significado deste versículo. Mas, por enquanto, ao menos isto fica claro: estabelecer, sem a permissão de Allah, costumes e normas por parte de seus líderes e autoridades, de natureza semelhante à da religião, e os árabes reconhecerem que era obrigatório segui-los exclusivamente — isso era associá-los a Allah na rububiyyah ilahiyyah; era assim que os árabes reconheciam a sua condição de parceiros.

O convite do Alcorão

A partir da análise das concepções e imaginações das nações desviadas mencionada anteriormente, torna-se absolutamente claro que, desde os tempos antigos até a época da revelação do Alcorão, nenhuma das nações que o Alcorão descreveu como injustas, possuidoras de pensamentos equivocados e desviadas do caminho negava a existência de Allah. Contudo, o desvio fundamental e comum de todas elas consistia em dividir em duas partes os cinco significados de Rububiyyah — que, com base no dicionário e nas provas do Alcorão, estabelecemos desde o início.

A concepção de Rabb como Aquele que, de modo sobrenatural, é suficiente para sustentar, proteger, atender às necessidades e cuidar das criaturas era, aos olhos delas, indicativa de um significado diferente. Embora, de acordo com esse significado, reconhecessem Allah como o maior dos Rabb, associavam a Ele, na Rububiyyah, também os anjos, as divindades, os gênios, as forças invisíveis, os planetas e as estrelas, os profetas, os santos e os pirs e sacerdotes.

A concepção de Rabb como Aquele que possui o direito de ordenar e proibir, o detentor do poder supremo, a fonte da orientação e da direção, a base da legislação, o chefe do Estado e o centro da organização social era, para eles, de natureza completamente diferente. Nesse sentido, ou consideravam os seres humanos como Rabb em vez de Allah, ou, embora considerassem Allah como Rabb em teoria, na prática inclinavam a cabeça em obediência diante da Rububiyyah moral, civilizacional e política dos seres humanos.

Foi precisamente para remover esse desvio que, desde o início, surgiram os profetas e mensageiros. Foi por isso também que, por fim, veio o Hazrat Muhammad (que a paz esteja sobre ele). A mensagem de todos eles era esta: em todos esses sentidos, há um único Rabb. E Ele é o grandioso Allah, Rabbul-Alamin. A Rububiyyah é indivisível. Em nenhum sentido pode alguém obter qualquer parte da Rububiyyah. A administração do universo está submetida a um sistema completo e a uma lei central. Somente Allah é o seu Criador. É o mesmo Allah que exerce autoridade sobre ele. Somente Allah possui todo o poder e toda a autoridade do universo. Ninguém tem qualquer participação na criação do universo; tampouco há qualquer parceiro Seu na sua condução e administração. Também não há ninguém que compartilhe com Ele o governo. Como detentor do poder central, somente Ele é o vosso Rabb sobrenatural. Ele é também o Rabb moral, civilizacional e político. Ele é o vosso Mabud; somente Ele é digno de receber de vós o rukūʿ e o sujūd. Somente Ele é o centro último das vossas súplicas e orações. Somente Ele é o apoio das vossas esperanças e confiança. Somente Ele atende às vossas necessidades e queixas. Assim, somente Ele é o rei, Malik al-Mulk — o Rei dos reis. Somente Ele é o Legislador e possui o direito de ordenar e proibir. Esses dois aspectos da Rububiyyah — que, por causa da jahiliyyah, separastes — são, na realidade, partes indispensáveis de Allah e características próprias de Allah; nenhum deles pode ser separado do outro, e não é permitido associar qualquer criatura a Allah em nenhum desses aspectos.

Ouçam, na própria linguagem do Alcorão, a maneira como ele apresentou este chamado:

—————————————- Na realidade, vosso Rabb é Allah, o Altíssimo. Ele criou os céus e a terra em seis dias e, depois, estabeleceu-Se no trono do reino. Ele cobre o dia com o manto da noite, enquanto o dia corre velozmente atrás da noite. A lua, o sol e as estrelas: tudo está submetido à Sua ordem. Escutai: a criação pertence a Ele, e a autoridade também pertence exclusivamente a Ele. Allah é o Rabb de todos os mundos, o Possuidor de abundante bênção. Al-A’raf-54

———————– Pergunta-lhes: quem vos provê o sustento dos céus e da terra? Sob a autoridade e o domínio de quem estão o poder da audição dos ouvidos e o poder da visão dos olhos? Quem é Aquele que faz sair o vivo do morto e o morto do vivo? Quem administra esta fábrica do universo? Eles certamente dirão: Allah. Dize: ainda assim, não temeis? Se tudo isso pertence a Ele, então Ele é o vosso verdadeiro Rabb. Depois que a verdade se tornou manifesta, o que poderia restar além do desvio? Então, de onde vos afastais da verdade, tropeçando desse modo?

——————————– Ele criou os céus e a terra com toda a verdade. É Ele quem envolve a noite sobre o dia e o dia sobre a noite. Ele submeteu o sol e a lua a uma ordem e disciplina determinadas, de modo que todos seguem continuamente seu curso até um prazo estabelecido. ………………. Este Allah é o vosso Rabb. A soberania pertence somente a Ele. Não há outra divindade para vós além d’Ele. Então, de onde vos afastais, tropeçando?

——————————————— Ele é Allah, que fez a noite para vós, a fim de que nela pudésseis encontrar tranquilidade. E fez o dia luminoso. ….. Esse Allah é o vosso Senhor, Criador de todas as coisas. Não há divindade além d’Ele. Então, enganados por quem, para onde estais a voltar? ….. Allah é Quem fez da terra uma morada para vós, estendeu sobre vós o teto do céu e vos forneceu coisas puras e santas como alimento. Esse Allah é o vosso Senhor. Ele é o Senhor de todos os mundos, o Possuidor de grandes bênçãos. Ele é o Vivente. Não há divindade além d’Ele. Portanto, invocai-O, dedicando-Lhe exclusivamente a religião. -Al-Mu’min-61-65

——————————————- Allah criou-vos do pó. …. Ele faz a noite penetrar no dia e faz o dia penetrar na noite. Submeteu o sol e a lua a uma ordem, e cada um segue o seu curso até um prazo determinado. Esse Allah é o vosso Senhor. A soberania pertence-Lhe. Aqueles que invocais além d’Ele não possuem sequer o poder sobre uma quantidade equivalente ao peso de um átomo. Quando os invocais, não ouvem a vossa invocação; e, mesmo que a ouvissem, não teriam poder para responder ao vosso pedido. E, no Dia da Ressurreição, eles próprios negarão que os tenhais associado a Allah. -Fátir-11-14

————————————- Todos os habitantes dos céus e da terra são Seus servos; todos obedecem ao Seu decreto. …. Allah apresenta-vos uma parábola extraída de vós mesmos: dentre aquilo que vos concedemos, acaso algum dos vossos servos pode ser vosso sócio na propriedade? Sois iguais, vós e os vossos servos, no usufruto dessas coisas? E temeis acaso os vossos servos assim como temeis os vossos semelhantes? Eles seguem as suas conjecturas infundadas, sem conhecimento nem prova. … Portanto, firma-te inteiramente, com o coração dedicado, no caminho da verdadeira religião. Mantém-te na natureza primordial criada por Allah, sobre a qual Ele criou todos os seres humanos. Não há alteração na criação de Allah. Essa é a senda verdadeira e correta, mas a maioria das pessoas não sabe. -Ar-Rum-26-30

—————————————— Eles não conceberam a grandeza e a majestade de Allah como deveriam. No Dia da Ressurreição, verão toda a terra sob o Seu domínio, e os céus dobrados na Sua mão direita. Glorificado seja Ele! Está muito acima daquilo que associam a Ele. -Az-Zumar-67

————————————- Portanto, todo louvor pertence a Allah, Senhor dos céus, da terra e de todos os mundos. A grandeza e a majestade nos céus e na terra pertencem exclusivamente a Ele. Ele é Poderoso sobre todas as coisas, Sábio e Onisciente. -Al-Jássia-36-37

——————————————- Ele é o Senhor e Dono dos céus e da terra, e de tudo quanto neles existe. Portanto, adora-O e mantém-te firme na Sua adoração. Conheces alguém que seja semelhante a Ele? Surata Maryam-65

————————————— Todo o conhecimento dos mistérios ocultos dos céus e da terra está com Allah. Todos os assuntos são apresentados diante d’Ele. Portanto, adora-O e deposita n’Ele a tua confiança. -Surata Hud-123

———————————————– Ele é o Senhor do Oriente e do Ocidente. Não há divindade além d’Ele. Portanto, toma-O como o teu administrador de todos os assuntos. -Al-Muzzammil-9

————————————— Na verdade, esta vossa ummah é uma só ummah. E Eu sou vosso Senhor. Portanto, adorai somente a Mim. As pessoas distribuíram entre si, por conta própria, as funções da rububiyyah e os assuntos da vida. Mas, seja como for, todos terão de retornar a Mim. — Surata An-Nissá, 93–96

—————————————- Segui o Livro que foi revelado da parte de vosso Senhor e, abandonando-o, não sigais ninguém mais como encarregado de resolver vossos assuntos. — Al-A‘raf, 3

———————————- Dize: “Ó povo do Livro! Vinde a uma palavra comum entre nós e vós: que não adoremos senão a Allah, que não Lhe associemos ninguém e que nenhum de nós tome outros como senhores além de Allah.” — Al-Imran, 64

————————— Dize: “Busco refúgio nAquele que é o Senhor dos homens, o Rei dos homens e o Deus dos homens.” — An-Nas, 1–3

——————————- Portanto, quem desejar encontrar seu Senhor deve praticar boas ações e não associar ninguém à adoração de seu Senhor. — Al-Kahf, 110

Ao estudar estes versículos em sequência, fica claro que o Alcorão apresenta a rububiyyah como completamente sinônima de soberania. E esse conceito de Senhor nos apresenta Aquele que é o soberano absoluto do universo, o governante irrestrito, o proprietário sem associado e o juiz.

Nesse sentido, Ele é o nosso Sustentador, educador e provedor de todas as necessidades e queixas, bem como o Sustentador de todo o universo.

Nesse sentido, Ele é nosso supervisor, protetor, responsável por nossos assuntos e patrono.

Assim, a fidelidade a Ele constitui uma base natural sobre a qual o edifício da nossa vida social pode ser estabelecido de maneira sólida e harmoniosa. A ligação com Sua personalidade central pode estabelecer, entre todos os indivíduos e grupos dispersos, o vínculo de uma única ummah.

Assim, Ele é digno de receber a nossa adoração, obediência e culto, bem como os da criação inteira.

Assim, Ele é o Proprietário, o Senhor e o Soberano absoluto de nós e de todas as coisas.

Os árabes e todos os ignorantes e tolos do mundo estiveram, em todas as épocas, e continuam atualmente, imersos neste erro: dividem o conceito abrangente de rububiyyah em cinco tipos distintos de rububiyyah. Com base em suas próprias concepções e imaginações, concluíram que os diferentes tipos de rububiyyah podem estar, e de fato estão, relacionados a diferentes pessoas. Mas o Alcorão demonstrou, por meio de seus sólidos argumentos e provas, que, no sistema perfeitamente centralizado do universo, não há a menor possibilidade de que qualquer função da rububiyyah, em qualquer nível, seja confiada a qualquer outra entidade além d’Aquele em cujas mãos está investida a soberania absoluta. A centralização desse sistema testemunha por si mesma que todas as formas de rububiyyah são exclusivamente destinadas a Allah, que deu existência a esse sistema. Portanto, a pessoa que, vivendo sob esse sistema, considera que qualquer parte da rububiyyah está, em qualquer sentido, relacionada a alguém além de Allah, ou efetivamente a relaciona a outro, entra, na realidade, em conflito com a realidade, volta as costas à verdade, rebela-se contra a verdade e, agindo contra a realidade, mergulha a si própria na destruição.

Adoração

Análise lexicográfica

Na língua árabe, o significado original de ——————— é ——– e——, isto é, submeter-se, obedecer, entregar-se diante de alguém de tal maneira que não haja, perante ele, qualquer resistência, desobediência ou ingratidão. Ele pode receber serviço e utilizar essa pessoa como quiser, conforme sua vontade. Por isso, os árabes chamam o camelo plenamente obediente ao seu cavaleiro de —–; e chamam o caminho que se tornou plano devido à passagem de muitas pessoas de ——–. Depois, nessa raiz, desenvolveram-se os sentidos de escravidão, obediência, adoração, serviço, confinamento ou impedimento. O resumo da explicação dessa palavra apresentada no maior dicionário da língua árabe, Lisān al-ʿArab, é o seguinte:

Primeiro: ———————- chama-se ʿabd a pessoa que pertence a alguém e não é livre. É o oposto de ‘hurr’ ou livre. ——— tornou o homem um escravo e tratou-o como se trata um escravo. ——— e ——— também são usados nesse mesmo sentido nos hadiths:

No Dia da Ressurreição, apresentarei uma queixa contra três pessoas e serei o autor da ação. Uma delas será aquele que escraviza uma pessoa livre ou que, depois de libertar um escravo, trata-o como a um escravo.

O honorável Moisés (que a paz esteja com ele) disse ao Faraó: o significado da reprovação pelo favor que me concedes é que tu escravizaste os Filhos de Israel.

Segundo: chama-se adoração à obediência realizada com plena humildade. Adorou o Tagute significa que se submeteu a ele e lhe obedeceu.

Nós adoramos somente a Ti significa: obedecemos a Ti com plena submissão às Tuas ordens.

Adorai o vosso Senhor, isto é, obedecei-Lhe.

Isto é, quando o Faraó disse que o povo de Moisés e Aarão era nosso adorador e escravo, o significado é que eles obedeciam às minhas ordens. Ibn al-Anbari disse: o significado é que ele obedecia ao seu senhor e seguia as suas ordens.

Terceiro: adorou-o significa que o venerou. Significa tornar-se adorador de alguém. O poeta diz:

Vejo o dinheiro do avarento permanecer intacto.

Quatro: ————— e ——————– significa que ele se vinculou a ele, não se separou; seguiu-o e não mais o abandonou.

Cinco: ———- Quando uma pessoa se abstém de ir até outra, dir-se-á: —— Que coisa o impediu, proibiu-o de vir até mim?

A partir desta explicação, fica claro que o significado fundamental da raiz (‘abd) é reconhecer a autoridade e a supremacia de alguém e, diante dele, abandonar a liberdade e a arbitrariedade, abandonar a arrogância e a desobediência, e tornar-se obediente a ele. Essa é também a essência da escravidão e da servidão. Portanto, a primeira ideia que surge na mente de um árabe ao ouvir esta palavra é a ideia de escravidão e servidão. Uma vez que a verdadeira função do escravo é obedecer ao seu senhor e cumprir as suas ordens, ele, na prática, não apenas se entrega à obediência, mas também reconhece a sua fidelidade, superioridade e autoridade; por isso, chega igualmente a exceder-se na exaltação da sua honra e dignidade. Expressa de várias maneiras o reconhecimento das bênçãos e, assim, cumpre os ritos da servidão. A isso se chama adoração. Essa ideia passa a fazer parte do significado de (‘abdiyyat) quando o escravo não apenas inclina a cabeça diante do senhor, mas também mantém o coração e a mente submissos. Restam duas ideias. Na realidade, essas duas ideias — ideias associadas a (‘abdiyyat), ou servidão — não são ideias fundamentais.

O uso da palavra adoração no Alcorão

Depois de examinarmos este significado lexicográfico e retornarmos ao Alcorão, descobrimos que, nesta Escritura Sagrada, esta palavra foi usada integralmente nos três primeiros sentidos. Em alguns lugares, os dois primeiros sentidos são pretendidos simultaneamente; em outros, apenas o segundo; em outros ainda, o terceiro; e, em outros, os três sentidos são pretendidos ao mesmo tempo.

No sentido de adoração, servidão e obediência

Eis um exemplo do primeiro e do segundo sentidos:

——————– Então enviamos Moisés e seu irmão Aarão ao Faraó e aos seus dignitários, com os Nossos sinais e provas de uma revelação clara. Mas eles avançaram com arrogância, pois eram um povo poderoso. Disseram: “Acaso haveremos de crer em dois seres humanos semelhantes a nós? Eles pertencem a um povo que é nosso servo e submisso.” — Al-Mu’minun, 45–47

——————- (Faraó dizia a Moisés, censurando-o: “Nós te acolhemos e te criamos em nossa casa durante a infância”; Moisés respondeu) “A graça pela qual me censuras consiste em teres feito dos filhos de Israel teus ‘servos’.” — Ash-Shu‘ara, 22

Em ambos os versículos, ‘ibadah’ significa servidão, escravidão, obediência e submissão às ordens. Faraó disse: “O povo de Moisés e Aarão é nosso adorador”, isto é, nosso escravo e seguidor de nossas ordens. E o honorável Moisés disse: “Tu fizeste dos filhos de Israel teus ‘servos’”, isto é, fizeste deles escravos e obténs deles serviços conforme a tua vontade.

————– Ó crentes! Se é somente a Mim que adorais, comei das coisas puras que vos concedi e agradecei a Allah. — Al-Baqara, 172

Antes do Islã, os árabes, ao seguirem as instruções de seus líderes religiosos e as concepções e imaginações de seus antepassados, observavam vários tipos de proibições e restrições quanto a alimentos e bebidas. Quando aceitaram o Islã, Allah disse: “Se é somente a Mim que adorais, então, abolindo essas proibições e obrigações, comei sem hesitação aquilo que tornei lícito, considerando-o lícito.” O significado claro e inequívoco disso é que não deveis seguir os vossos eruditos e mestres; ao contrário, se sois servos somente Meus, se realmente abandonastes a obediência e a submissão às ordens deles e adotastes a obediência a Mim, então, quanto ao lícito e ao ilícito, ao permitido e ao proibido, deveis seguir a Minha lei em vez das normas inventadas por eles. Portanto, também aqui a palavra ‘ibadah’ foi usada no sentido de servidão e obediência.

——————- Dize: “Quereis que vos informe quem terá, perante Allah, um destino pior do que este? São aqueles sobre quem recaiu a maldição de Allah e a Sua ira; aqueles dentre os quais Ele transformou muitos em macacos e porcos; e aqueles que adoraram o taghut.” — Al-Ma’ida, 60

————————- Enviamos a cada povo um mensageiro para ensinar: “Adorai a Allah e afastai-vos da adoração do taghut.” — An-Nahl, 36

———————– Boas-novas para aqueles que abandonaram a adoração do taghut e retornaram à adoração de Allah. — Az-Zumar, 17

Nos três versículos, a adoração do taghut significa servidão e obediência ao taghut, como já indicamos anteriormente. Qualquer poder estatal que, rebelando-se contra Allah, impõe o seu próprio comando na terra de Allah e, por meio da força, da exibição de cobiça e desejos ou de ensinamentos enganadores, torna os servos de Allah seguidores de suas ordens é chamado de taghut na terminologia do Alcorão. Curvar a cabeça diante da liderança de tal poder, aceitar sua servidão e tomar suas ordens como obrigatórias é adorar o taghut.

No sentido de adoração e obediência

Agora, prestem atenção aos versículos abaixo. Nesses versículos, ibadat foi usado apenas no segundo sentido.

Ó filhos de Adão! Acaso não vos ordenei que não adorásseis Satanás? Pois ele é, de fato, vosso inimigo declarado.

É evidente que ninguém no mundo adora Satanás; pelo contrário, de todos os lados, maldições e condenações são lançadas sobre ele. Portanto, no Dia da Ressurreição, a acusação que será apresentada por parte de Allah contra os filhos de Adão será que eles seguiram as palavras de Satanás e obedeceram às suas leis. Eles correram por todos os caminhos para os quais ele os indicou.

——————— (Quando ocorrer a Ressurreição, Allah dirá:) Reuni todos os injustos, seus companheiros e as divindades que eles adoravam além de Allah, e mostrai-lhes o caminho do Inferno. … Então, começarão a acusar uns aos outros. Os adoradores dirão: “Eram vocês que vinham até nós pelo caminho do bem!” Suas divindades responderão: “Na verdade, vocês mesmos não estavam dispostos a crer. Não tínhamos nenhum poder para vos forçar; pelo contrário, vocês mesmos eram desobedientes.” (As-Saffat, 22-30)

Ao ponderarmos sobre o diálogo mencionado neste versículo entre os adoradores e as divindades adoradas, fica claro que o significado de divindades adoradas aqui não são os ídolos e deuses que eram cultuados; trata-se, antes, daqueles indivíduos que, sob o disfarce de divindades e autoridades, desviaram e desencaminharam as pessoas sob o pretexto de promover o bem; daqueles que apareceram vestidos de santidade e, por meio de rosários, mantos e túnicas, enganaram os servos de Allah e os transformaram em seus devotos e seguidores; ou daqueles que, alegando promover reformas, correções e agir como benfeitores, espalharam destruição, maldade e calamidade. O seguimento cego de tais pessoas e a obediência às suas instruções sem qualquer contestação é que foi aqui chamado de sua adoração.

Eles tomaram seus ulemás e xeques como seus senhores em vez de Allah, e fizeram o mesmo com o Messias, filho de Maria. Contudo, não lhes foi ordenado adorar ninguém além de uma única Divindade. (At-Tawbah, 31)

Fazer dos ulemás e xeques, sacerdotes e clérigos, seus senhores e adorá-los significa, neste contexto, aceitar suas instruções como supremas. Em muitos relatos autênticos, o próprio Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) explicou claramente esse significado. Perguntaram-lhe: “Nós nunca adoramos os ulemás e xeques, nem os sacerdotes e clérigos.” Ele respondeu: “E, quando eles declaravam algo ilícito, vocês não o tornavam ilícito também?”

No sentido de adoração

Vejamos agora os versículos referentes ao terceiro sentido. A esse respeito, é preciso lembrar que, na adoração no sentido de culto, como no Alcorão, estão incluídas duas coisas:

Primeiro: prostrar-se e inclinar-se diante de alguém, permanecer de pé com as mãos cruzadas, realizar a circunambulação, beijar o limiar, fazer oferendas votivas e cumprir os rituais de sacrifício que geralmente são realizados com o propósito de adoração — não importa se tais atos são praticados considerando essa pessoa uma divindade independente (ma‘bud).

Segundo: considerar alguém poderoso no mundo das relações de causa e efeito, suplicar-lhe para obter as próprias necessidades, chamá-lo em busca de ajuda nas próprias aflições e dificuldades e pedir-lhe refúgio para ser protegido de perdas, danos, perigos e calamidades.

Na perspectiva do Alcorão, ambos os tipos de atos pertencem igualmente à categoria da adoração. Por exemplo:

—————— Dize: Foi-me proibido adorar aqueles que adorais em vez de Allah, depois de ter recebido instruções claras da parte do meu Senhor. — Al-Mu’min-66

——————– (Ibrahim disse:) Eu renuncio a vós e a todos aqueles a quem invocais além de Allah, e invoco o meu Senhor. .. aqueles a quem eles adoravam além de Allah. Quando se afastou completamente de todos eles, concedemos-lhe um filho como Isaque. — Maryam-48-49

—————— Quem é mais extraviado do que aquele que, em vez de Allah, invoca alguém que não pode responder à sua invocação até ao Dia da Ressurreição, e que nem sequer tem conhecimento de que está sendo invocado? No Dia da Ressurreição, eles próprios serão inimigos daqueles que os invocaram. Nesse dia, negarão a adoração que lhes prestavam. 1 — Al-Ahqaf-4-4

Em três versículos, o Alcorão esclareceu por si mesmo que, aqui, o significado de ibadat é pedir em súplica e invocar para obter ajuda.

— Ao contrário, eles adoravam os gênios, e a maioria deles acreditava neles.” — Sabá 41

O significado de adorar os gênios e crer neles é explicado pelo versículo 6 da surata Al-Jinn:

— Alguns seres humanos buscavam refúgio junto a alguns gênios. — Al-Jinn 2

Com isso, fica claro que adorar os gênios significa buscar refúgio neles e pedir-lhes proteção contra perigos e danos; e crer neles significa acreditar que eles podem conceder refúgio e oferecer proteção.

———————– No dia em que Allah os reunirá e também reunirá aqueles objetos de adoração que eles adoravam em vez de Allah, Ele lhes perguntará: “Fostes vós que desviastes estes Meus servos, ou foram eles mesmos que perderam o caminho reto?” Eles responderão: “Glorificado sejas! Nunca nos seria apropriado tomar alguém além de Vós como companheiro!” — Al-Furqan 17–18

Pelo modo da narrativa, fica claro que o significado de objetos de adoração é companheiros, e que adorá-los significa considerá-los elevados acima das qualidades da servidão e revestidos de atributos divinos; atribuir-lhes ajuda do invisível, remoção das dificuldades e sustento, até chegar ao limite da adoração.

—— No dia em que Allah reunirá todos eles e, em seguida, perguntará aos anjos: “Eram vós aqueles a quem estes adoravam?” Eles responderão: “Glorificado sejas! Que relação tínhamos nós com eles? Nossa relação era convosco.” — Sabá 40–41

Aqui, o significado da adoração¹ dos anjos é o culto a eles. Esse culto era realizado representando sua posição, sua forma e suas imagens imaginárias. O objetivo desse culto era agradá-los, atrair seu olhar benevolente para sua situação e obter sua ajuda em seus assuntos mundanos.

———— E adoram, além de Allah, aquilo que não pode lhes causar nem benefício nem dano. E dizem: “Estes são nossos intercessores perante Allah.” — Yunus 18

—– E aqueles que, além de Allah, tomaram outros como amigos dizem: “Nós somente os adoramos para que nos aproximem de Allah.” — Az-Zumar 3

Aqui também o significado de adoração é culto. O objetivo pelo qual esse culto era realizado também foi explicado.

No sentido de adoração, servidão e obediência — culto

Ficou claramente demonstrado, pelos exemplos acima, que a palavra adoração foi usada no Alcorão, em alguns lugares, no sentido de servidão e obediência; em outros, somente no sentido de obediência; e, ainda, apenas no sentido de culto. Antes de apresentar um exemplo em que essa palavra é usada simultaneamente nos três sentidos, é necessário recordar outra introdução.

Em todos os exemplos apresentados acima, menciona-se a adoração de outros além de Allah. Onde o significado de adoração é servidão e obediência,

1. Outros povos politeístas transformaram esses anjos em deuses (Gods). Já os árabes os chamavam de filhas de Allah.

O ma‘bud pode ser Satanás ou aquelas pessoas rebeldes que, fazendo-se de taghut, levaram os servos de Allah a prestar-lhes, em vez de Allah, servidão e obediência; ou ainda líderes e autoridades que, em lugar do Livro de Allah, conduziram o povo segundo opiniões e caminhos inventados por eles mesmos. E, onde o significado de ibadah é adoração, o ma‘bud são os profetas, os santos, os justos e os homens piedosos; estes foram transformados em ma‘bud contra seus ensinamentos e sua orientação; ou anjos e gênios, considerados, por mera concepção errônea, associados de Allah em uma rububiyyah sobrenatural; ou estátuas e ídolos de poderes imaginários que, por mera indução satânica, se tornaram o centro da adoração. Ali, o ma‘bud são os profetas, os santos, os justos e os homens piedosos; estes foram transformados em ma‘bud contra seus ensinamentos e sua orientação; ou anjos e gênios, considerados, por mera concepção errônea, associados de Allah em uma rububiyyah sobrenatural; ou estátuas e ídolos de poderes imaginários que, por mera indução satânica, se tornaram o centro da adoração. O Alcorão declara inválidos todos esses tipos de ma‘bud e considera equivocada a adoração que lhes é prestada, seja ela servidão, obediência ou adoração, qualquer que seja a forma. O Alcorão diz: “Esses vossos ma‘bud, aos quais adorais, são servos e escravos de Allah. Eles não têm direito algum de receber a vossa adoração. Da adoração deles, nada vos caberá nem vos trará qualquer benefício, senão fracasso, humilhação e desonra. Na verdade, Allah é o Senhor deles e o Senhor de todo o universo. Todo o poder e toda a autoridade estão em Suas mãos. Portanto, ninguém, exceto Allah, é digno de receber adoração.”

——————— Aqueles a quem invocais em vez de Allah são apenas servos como vós. Invocai-os, então, e que eles respondam ao vosso chamado, se sois sinceros em vossa crença a respeito deles.¹…… Aqueles a quem invocais além de Allah não são capazes sequer de vos prestar qualquer ajuda. — Al-A‘raf 194-17

¹. Responder não significa dar uma resposta verbal, mas adotar medidas em resposta a isso. Já fizemos alusão a esse ponto anteriormente.

————– Eles dizem: “O Misericordioso adotou alguém como filho!” Contudo, Ele está muito acima de ter um filho. Aqueles a quem atribuem como Seus filhos são, na realidade, Seus servos, aos quais foi concedida honra. Eles não têm capacidade sequer de apresentar uma súplica diante de Allah, muito menos de interceder; ao contrário, agem somente conforme Sua ordem. Ele conhece tudo o que lhes é claro e também sabe tudo o que lhes é obscuro e oculto. Eles não podem interceder diante de Allah por ninguém, exceto por aquele cuja intercessão Allah deseja aceitar. E sua condição é tal que eles mesmos permanecem sempre apreensivos por temor de Allah.¹ — Al-Anbiya 26-18

————————– Eles transformaram os anjos — que, na realidade, são servos do Misericordioso — em divindades femininas. — Az-Zukhruf 19

———————————– Eles imaginaram uma relação de parentesco entre os gênios e Allah. No entanto, os próprios gênios sabem que um dia terão de comparecer perante Allah para prestar contas. — As-Saffat 158

——————————– Allah nunca considerou vergonhoso nem censurável ser servo de Allah, e tampouco os anjos mais próximos. E quanto àquele que sente vergonha de servi-Lo e se ensoberbece — para onde fugirá? — Allah reunirá diante de Si todas essas pessoas.

—————————— O Sol e a Lua seguem suas órbitas. As estrelas e as árvores prostram-se em obediência diante de Allah. — Ar-Rahman 5-6

———————————— Os sete céus, a terra e tudo o que há entre eles glorificam a Allah. Não existe coisa alguma que não O glorifique com louvor, mas vós não compreendeis a glorificação deles. -Bani Isra’il-44

————————— Não há criatura alguma que não esteja sob o domínio do poder de Allah. -Hud-56

——————————— Não há ninguém entre os habitantes dos céus e da terra que não compareça diante do Misericordioso como servo. Ele os enumerou a todos. E, no Dia da Ressurreição, todos comparecerão diante d’Ele, um por um. -Maryam-93-995

——————— Dize: Allah! Soberano do reino. Concedes o reino a quem desejas e retiras o reino de quem desejas. Honras a quem desejas e humilhas a quem desejas. Todo o bem está em Tuas mãos. Certamente, Tu és Poderoso sobre todas as coisas. -Aal Imran-26

Depois de provar que todos aqueles a quem se prestou adoração de alguma forma são servos de Allah e incapazes, o Alcorão apresenta a todos os gênios e seres humanos esta exigência: em todos os sentidos, a adoração deve ser somente para Allah. A servidão, a obediência e a adoração — tudo será somente para Ele. Não pode haver sequer o menor vestígio de qualquer tipo de adoração a qualquer outro além de Allah.

————– Enviamos um Mensageiro a cada comunidade com esta mensagem: Adorai a Allah e afastai-vos do taghut. -an-Nahl-36

———————————- Há boas-novas para aqueles que se abstiveram de adorar o taghut e retornaram a Allah. -az-Zumar-17

———————- Ó filhos de Adão! Acaso não vos ordenei que não adorásseis Satanás? Ele é vosso inimigo declarado. E que Me adorásseis somente a Mim? Este é o caminho reto. -Yasin-60-61

————————————– Eles tomaram os ulemás e xeques, os padres e sacerdotes, como senhores em vez de Allah…. embora lhes tivesse sido ordenado que não adorassem ninguém além da Divindade. —At-Tawbah-31

—————————————– Ó crentes! Se realmente adotastes a adoração a Mim, comei sem hesitação as coisas puras que vos concedi e agradecei a Allah. —Al-Baqarah-172

Há evidências nestes versículos de que a adoração, no sentido de servidão, submissão e obediência, deve ser dedicada exclusivamente a Allah.

——————————– Dize: Fui proibido de adorar aqueles que invocais em vez do vosso Allah. Por isso, chegaram a mim, da parte do meu Senhor, provas claras. E foi-me ordenado que me submetesse diante do Senhor dos mundos. —Al-Mu’min-66

———————————————— Vosso Senhor disse: Invocai-Me, e Eu atenderei à vossa invocação. Aqueles que, por arrogância, se recusarem a adorar-Me serão certamente lançados no Inferno. —Al-Mu’min-60

——————————– É Ele, Allah, o vosso Senhor; a soberania pertence-Lhe. Aqueles que invocais além d’Ele não têm poder sequer sobre o peso de um átomo. Quando os invocais, eles não ouvem a vossa invocação; e, mesmo que a ouvissem, não poderiam responder-vos. No Dia da Ressurreição, eles repudiarão a vossa associação de parceiros a Allah.

—————————- Dize: Adorais, em vez de Allah, aquilo que não pode causar-vos dano nem proporcionar-vos benefício? Somente Ele é o Ouvinte de tudo e o Onisciente.

A adoração no sentido de culto, nestes versículos, deve ser dedicada exclusivamente a Allah; para isso, é dada orientação. Há também indicações claras de que a adoração foi usada como equivalente da súplica. Nos versículos anteriores e posteriores, são mencionadas aquelas divindades que eram associadas a Allah no senhorio sobrenatural.

Agora, não é difícil para nenhuma pessoa dotada de discernimento compreender que, em todos os lugares do Alcorão onde se menciona a adoração de Allah, mesmo que não haja nas proximidades nenhuma evidência indicando que ela se refere a algum dos diferentes sentidos da adoração, nesses lugares adoração significa servidão, obediência e culto, os três. Observe, por exemplo, os versículos abaixo.

——————————- Eu sou Allah. Não há outra divindade além de Mim. Portanto, adora somente a Mim. — Taha 14

———————– Esse é Allah, vosso Senhor! Não há outra divindade além Dele. Ele é o Criador de todas as coisas. Portanto, adorai somente a Ele, e Ele tem pleno conhecimento de todas as coisas. — Al-An’am 102

———————————————————— Dize: Ó povo! Se ainda desconheceis qual é a minha religião, sabei então que não adoro aqueles que adorais além de Allah; pelo contrário, adoro Allah, que vos fará morrer. Foi-me ordenado que estivesse entre os crentes. — Yunus 104

———————————— Aqueles que adorais além de Allah não passam de nomes que vós e vossos antepassados lhes destes; eles não têm existência alguma. Allah não fez descer nenhuma prova de que eles sejam divindades. A autoridade pertence exclusivamente a Allah. Ele ordenou que não adoreis ninguém além Dele. Esse é o caminho reto. — Yusuf 40

———- Somente Allah possui o conhecimento de todas as realidades dos céus e da terra que são desconhecidas pelos servos. Todas as questões são apresentadas perante Ele. Portanto, adora somente a Ele e deposita tua confiança somente Nele. — Hud 123

——————————————————————————————– A Allah, teu Senhor, pertence tudo o que está diante de nós, tudo o que está oculto e escondido para nós, e tudo o que existe entre ambos. E teu Senhor não esquece. Ele é o Senhor dos céus e da terra e de tudo o que existe entre ambos. Portanto, adora somente a Ele e persevera firmemente em Sua adoração. — Maryam 64–65

————————– Portanto, quem espera encontrar-se com seu Senhor deve praticar boas ações e não associar ninguém à adoração de seu Senhor. — Al-Kahf 110

Não há razão para restringir a adoração, nestes versículos e em outros semelhantes, exclusivamente à idolatria, à servidão ou à obediência. Nesses versículos, o Alcorão apresenta, essencialmente, um convite abrangente. O convite explícito do Alcorão é este: tudo o que houver de servidão, obediência e adoração será somente para Allah. Portanto, limitar a adoração, nesses contextos, a um único significado restrito equivale, na realidade, a limitar o convite do Alcorão. E a consequência inevitável disso será que aqueles que crerem com uma concepção limitada do convite do Alcorão seguirão apenas de modo incompleto e imperfeito.

Din

Etimologia

Na língua árabe, a palavra “din” é usada em diversos sentidos.

Primeiro: força e poder; governo e autoridade; obrigar outro à obediência; exercer sobre ele autoridade soberana; torná-lo escravo e submisso às ordens. Diz-se, por exemplo:———— isto é, obrigou as pessoas à obediência;——— isto é, eu os subjuguei, e eles se tornaram obedientes;———- isto é, submeti determinado grupo e o transformei em escravo; ——–determinada pessoa alcançou posição e poder;————– obriguei-o a fazer algo que ele não queria; ———– determinada pessoa foi forçada a fazer aquele trabalho; ———– exerci autoridade sobre ele, impondo minha ordem; ——confiei a determinada pessoa o governo e a autoridade sobre o povo. Com esse sentido, certo poeta, dirigindo-se à sua mãe, disse:

—————————– foste encarregada de proteger e cuidar de teus próprios filhos, até que os deixaste mais finos do que a farinha.

No Hadith Sagrado, é dito:

———————— isto é, sábio é aquele que subjugou seu nafs e realizou ações benéficas para sua vida futura. Nesse sentido, chama-se — (dayyān) aquele que prevalece sobre um país, um povo ou um grupo e exerce autoridade sobre ele. Ashā al-Harmazī, dirigindo-se ao Profeta (que a paz esteja com ele), disse: ———– (Ó líder dos homens, chefe dos árabes). Nesse sentido, –(madīnūn) significa escravo, e – (madīnatun) significa serva ou escrava. E —- significa filha de uma escrava. O poeta Akhtar disse: ————

E o Alcorão diz:

——————- Isto é: se não estais sob a autoridade, submissos e obedientes a alguém, por que não salvais o moribundo das garras da morte?

Dois: servidão-obediência, serviço, submeter-se a alguém, estar sob as ordens de alguém, ser esmagado pela influência e pelo poder de alguém e suportar a humilhação diante dele. Diz-se ———- isto é, eu os venci e eles se submeteram. ——- isto é, servi determinada pessoa. Foi mencionado num hadith que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse:

——————- Quero fazer os coraixitas obedecerem a uma frase tal que, se a reconhecerem, toda a Arábia se curvará diante deles. Nesse sentido, uma nação obediente é chamada —— (qawmun dayyinun). E é nesse sentido que a palavra dīn foi usada no ‘hadith dos khawarij’: 1

1. O significado deste hadith não é que os kharijitas sairão do dīn, isto é, da milla. Pois, quando perguntaram a Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) sobre eles: ———— Eles são incrédulos?, ele respondeu: ——– isto é, foi da própria incredulidade que eles fugiram. Novamente lhe perguntaram: ——– — Então são hipócritas? Ele respondeu: O hipócrita pouco se lembra de Allah, ao passo que a condição deles é que se lembram de Allah e fazem Sua recordação dia e noite. Assim, fica comprovado que, neste hadith, dīn significa obediência ao imã. Ibn al-Athir escreveu em sua obra ‘An-Nihaya’ o seguinte significado:

—————

Três: sharia, leis e normas, caminho e método, religião, milla, costumes, tradições e hábitos. Diz-se, por exemplo: ———- Tenho seguido este caminho e método por toda a vida. ———- Isto é: qualquer que seja o caminho, bom ou mau, que uma pessoa siga, em ambos os casos o caminho que ela segue será chamado dīn. No hadith nobre consta: ————- Os coraixitas e aqueles que seguiam o caminho dos coraixitas. Também consta num hadith: ———- Antes da profecia, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) seguia o dīn de seu povo; isto é, no que dizia respeito ao casamento, ao divórcio, à herança e a outros assuntos sociais e culturais, ele seguia os costumes e as normas vigentes entre seu povo.

Quatro: resultado das ações, troca, recompensa, compensação, decisão, prestação de contas. Há um provérbio em árabe: ——— — isto é, cada ação tem seu resultado. Como agires, assim desfrutarás do resultado. No Alcorão é mencionada esta declaração dos incrédulos: ———– — Depois da morte, seremos chamados a prestar contas? Receberemos uma recompensa? No hadith de Abdullah ibn Umar consta:

——————– Não insulteis os governantes. Se tiverdes de dizer alguma coisa, então dizei: Ó Allah! Trata-os como eles nos tratam. É neste sentido que a palavra ——- (Daiyān) é usada para designar um cádi, um juiz ou um magistrado. Quando perguntaram a um venerável erudito acerca de Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele), ele respondeu: ——- Depois do Profeta (que a paz esteja com ele), ele foi o maior cádi da comunidade.

O uso da palavra dīn no Alcorão

Um: influência, autoridade e domínio — da parte de alguém que detém poder.

Dois: obediência, adoração, servidão e submissão — da parte daquele que se curva diante de quem detém o poder.

Três: regras e princípios, caminho e conduta que são seguidos.

Quatro: prestação de contas, julgamento, recompensa e retribuição.

Os árabes usavam essa palavra de várias maneiras: às vezes com um significado, às vezes com outro. Mas, como suas concepções sobre esses quatro aspectos não eram inteiramente claras nem muito desenvolvidas, havia imprecisão no uso da palavra. Por isso, ela não pôde tornar-se um termo técnico de uma doutrina sistematizada. O Alcorão considerou essa palavra adequada ao seu propósito e empregou-a com um significado absolutamente claro e preciso. Na linguagem do Alcorão, a palavra dīn representa um sistema completo. Esse sistema é constituído por quatro partes:

Um: soberania, poder supremo e abrangente.

Segundo: submissão e obediência perante a soberania.

Terceiro: o pensamento e a conduta formados sob a influência dessa soberania.

Quarto: a recompensa concedida pela autoridade superior como prêmio pela obediência nesse sistema, ou como punição pela rebelião e oposição.

O Alcorão às vezes empregou a palavra no primeiro sentido, às vezes no segundo, às vezes no terceiro e, outras vezes, no quarto. Em certas ocasiões, ao dizer “ad-Dīn”, adotou todo o sistema, com suas quatro partes. Para compreender isso claramente, observem os seguintes versículos do Alcorão:

Dīn no primeiro e no segundo sentido

————————- Ele é Allah, que fez da terra uma morada para vocês e do céu um teto; deu-lhes forma e aperfeiçoou suas formas. Ele lhes fornece provisão de coisas puras. Esse é Allah, o seu Senhor, o Senhor dos mundos, possuidor de majestade sublime e dono das bênçãos. Ele é o Vivente. Não há divindade além d’Ele. Portanto, invoquem-No, dedicando exclusivamente a Ele o Dīn. Todo louvor pertence a Allah, o Senhor dos mundos. —Al-Mu’min, 64–65

———————— Diga: “Fui ordenado a adorar Allah, dedicando exclusivamente a Ele o Dīn. E fui ordenado, antes de tudo, a inclinar a cabeça em submissão.” …….Diga: “Adorarei Allah, dedicando exclusivamente a Ele o meu Dīn. Vocês têm liberdade: podem adorar quem quiserem em vez d’Ele.” … E para aqueles que se abstêm de adorar o taghut e retornam a Allah, há boas-novas. —Az-Zumar, 11–17

————————- Nós lhe revelamos o Livro com a verdade. Portanto, adore somente a Ele, dedicando exclusivamente a Allah o Dīn. O Dīn está dedicado e destinado exclusivamente a Allah. —Az-Zumar, 2–3

Tudo o que há nos céus e na terra pertence a Allah. A religião é dedicada exclusivamente a Ele. Mesmo assim, temereis e praticareis a taqwa diante de alguém além de Allah? (Isto é, existe alguém além de Allah de cuja ordem vos abstereis da desobediência e cujo desagrado temereis? — An-Nahl, 52

Procurais uma religião que não seja a de Allah? Contudo, tudo quanto existe nos céus e na terra está sujeito à ordem de Allah, queira ou não queira. E a Ele todos terão de retornar. — Al Imran, 83

E não lhes foi ordenado senão que adorassem Allah, dedicando-Lhe exclusivamente a religião. — Al-Bayyina, 5

Nestes versículos, a palavra religião foi usada no sentido de reconhecer a autoridade suprema e aceitar a servidão e a obediência a essa autoridade. Dedicar exclusivamente a religião a Allah significa que o ser humano não reconhecerá nenhuma soberania, governo, autoridade ou domínio além de Allah; consagrará sua própria servidão e obediência exclusivamente a Ele, de modo que jamais associará a obediência direta a qualquer outro à obediência a Allah.¹

A religião no terceiro sentido

Dize: “Ó humanidade! Se tendes alguma dúvida sobre a minha religião (isto é, se não tendes conhecimento claro sobre qual é a minha religião), então escutai: quanto àqueles a quem adorais e a quem obedeceis em vez de Allah, eu não… Isto é: qualquer que seja aquele a quem obedecerdes além de Allah, obedecer-lhe-eis sob a obediência a Allah e dentro dos limites por Ele estabelecidos. A obediência do filho ao pai, da esposa ao marido, do escravo ou servo ao senhor e todas as outras formas semelhantes de obediência, se forem baseadas na ordem de Allah e permanecerem dentro dos limites por Ele estabelecidos, serão exatamente obediência a Allah. Mas, se estiverem livres das determinações e dos limites estabelecidos por Allah — em outras palavras, se constituírem uma obediência independente — não serão obediência; serão rebelião aberta contra a ordem de Allah, oposição direta à Sua ordem. Se o sistema de governo do Estado for estabelecido com base na lei de Allah e fizer vigorar a Sua ordem, obedecer-lhe será obrigatório. Caso contrário, obedecer-lhe será um delito, uma espécie de pecado.”

“Não adoro nem obedeço a eles; antes, adoro Allah, que vos fará morrer! E fui ordenado a estar entre aqueles que creem nesse Allah. Foi-me ordenado: mantém-te firmemente nesta religião e não te tornes, de modo algum, um dos idólatras.”

A autoridade governamental não pertence a ninguém além de Allah. Sua é a ordem: não adoreis ninguém além d’Ele. Esta é a religião verdadeira e correta.

———————- Tudo o que há nos céus e na terra pertence a Ele. Todos obedecem à Sua ordem. ……….. Para que compreendais, Ele próprio vos apresenta um exemplo tirado de vossa própria condição. Dizei: este escravo que está sob vosso domínio, acaso algum dos bens que vos concedemos é também seu associado em tais coisas? Acaso o fazeis vosso associado, em igualdade convosco, na propriedade dos bens? Acaso o respeitais como respeitais pessoas do mesmo nível que vós? A verdade é que esses injustos seguem apenas seus caprichos, sem conhecimento nem bom senso. Portanto, estabelece-te firmemente na religião, dedicando-te exclusivamente a ela; segue a natureza primordial segundo a qual Allah criou os seres humanos. Que não haja alteração na criação de Allah.¹ Esta é a religião verdadeira e correta. Porém, a maioria das pessoas permanece na ignorância.

1. Isto é, na natureza segundo a qual Allah criou o ser humano, no que diz respeito à criação do ser humano, ao provimento de seu sustento e ao exercício de Sua soberania sobre ele, ninguém além do próprio Allah é Seu associado. Além de Allah, ninguém é o deus do ser humano, nem seu senhor e dono absoluto, nem digno de receber verdadeira obediência. Portanto, a lei da natureza é que o ser humano seja servo somente de Allah e não servo de qualquer outro.

————- Açoitai com cem chicotadas tanto o adúltero quanto a adúltera. E que a compaixão por eles não vos impeça de aplicar a religião de Allah. — An-Nur, 2

————————— Desde o dia em que Allah criou os céus e a terra, o número de meses, segundo Sua determinação, é doze. Entre eles, quatro são sagrados e honrados. Esta é a religião verdadeira e correta. — At-Tawbah, 36

———————- E assim abrimos um caminho para Yusuf. Segundo a lei do rei, não lhe era permitido apoderar-se de seu irmão. — Yusuf, 76

————————————— E assim, para muitos politeístas, seus associados inventados¹ tornaram o assassinato de seus filhos uma ação admirável, para lançá-los na perdição. E fizeram com que sua religião se tornasse para eles objeto de dúvida.² — Al-An’am, 137

———————————— Acaso tomaram associados que lhes prescrevem, como parte da religião, leis que Allah não autorizou? — Ash-Shura, 21

1. Associado significa alguém que é associado a Allah na soberania, na autoridade e na elaboração das leis.

2. Tornar o dīn objeto de dúvida significa que os falsos legisladores da sharia apresentam o pecado de maneira tão atraente que os árabes ficam em dúvida, pensando que talvez esse ato seja parte daquele dīn que originalmente haviam recebido de Ibrahim e Israel (que a paz esteja com ele).

—————– Para vós, o vosso dīn; e para mim, o meu dīn. — Al-Kafirun, 6

Nestes versículos, dīn significa lei e regulamento, normas e regras, sharia, caminho e método, bem como as ideias e práticas que uma pessoa segue para viver. Se o poder cuja autoridade fundamenta um sistema de normas for proveniente de Allah, então a pessoa está no dīn de Allah; se for de um rei ou soberano, estará no dīn do rei ou soberano. Se for de eruditos e sacerdotes, estará no dīn deles. E se for de uma linhagem, tribo, sociedade ou de toda uma nação, estará no dīn deles. Em suma, aquele cujo fundamento de autoridade uma pessoa considera definitivo e cujo julgamento considera a decisão final, seguindo assim determinado sistema, é seguidor do dīn desse alguém.

O dīn no quarto sentido

——– A notícia sobre a qual estais sendo informados (isto é, a vida após a morte) é uma verdade certa, e o dīn certamente ocorrerá.

——————— Viste aquele que nega o dīn? É aquele que repele o órfão e não incentiva a alimentação dos necessitados. — Al-Ma’un, 1–3

—————————- E sabes o que é o Yawm ad-Dīn? Sim, sabes o que é o Yawm ad-Dīn? Yawm ad-Dīn é o Dia em que nenhum ser humano terá autoridade para fazer algo por outro. Nesse Dia, toda autoridade estará nas mãos do Rabb. — Al-Infitar, 17–19

Nestes versículos, a palavra dīn é usada no sentido de prestação de contas, julgamento e retribuição pelas ações.

O dīn é um termo abrangente

Até aqui, o Alcorão empregou esta palavra praticamente nos sentidos em que ela era usada na linguagem corrente dos árabes. Depois, vimos que o Alcorão emprega esta palavra como um termo abrangente. O Alcorão dá-lhe o significado de um sistema de vida no qual o ser humano reconhece a autoridade suprema de alguém, aceita a sua obediência e domínio, e vive sob as suas normas, regulamentos e leis. Espera honra, progresso e recompensa por obedecer às suas ordens, e teme humilhação, desonra e punição por sua desobediência e rebeldia. Provavelmente, não existe em nenhuma língua do mundo uma palavra tão abrangente que possa transmitir todo esse significado. A palavra moderna “Estado” (State) aproxima-se bastante dele. Mas, para transmitir todo o significado da palavra “dīn”, ainda é necessária uma considerável ampliação.

Nos versículos seguintes, este “dīn” foi empregado como termo técnico.

————————— Combatei aqueles, entre o Povo do Livro, que não creem em Allah (1) (isto é, não reconhecem que Ele é o único detentor da autoridade suprema), não creem no Último Dia (isto é, não reconhecem o Dia do acerto de contas e da retribuição) (2), não consideram proibido aquilo que Allah e o Seu Mensageiro proibiram, (3) e não adotam o dīn da verdade como seu próprio dīn; (4) combatei-os até que paguem a jizya com as próprias mãos e vivam em submissão. — At-Tawbah, 29

Neste versículo, “dīn da verdade” é um termo técnico. O próprio Allah, que estabeleceu esse termo, explicou-o nas três primeiras frases. Mostramos por meio de números que os quatro significados da palavra dīn foram mencionados nessas frases. E o conjunto deles foi denominado “dīn da verdade”.

O Faraó disse: “Deixai-me; certamente matarei Moisés. Que ele invoque então o seu Senhor. Temo que ele mude o vosso dīn e cause corrupção na terra.” — Al-Mu’min, 26

Depois de considerar todo o relato detalhado da história de Moisés e do Faraó no Alcorão, não resta dúvida de que aqui “dīn” não foi empregado simplesmente no sentido de religião. Pelo contrário, foi empregado no sentido de um sistema de Estado (State) e de civilização. A declaração do Faraó era: se Moisés triunfasse em sua missão, o “Estado” mudaria. O sistema de vida então vigente, baseado no governo dos faraós e nas leis e costumes estabelecidos, seria completamente extirpado. Em seu lugar, seria estabelecido um sistema diferente, fundado em bases inteiramente distintas, ou então sistema algum seria estabelecido; ao contrário, a desordem se espalharia por todo o país.

Na verdade, para Allah, o Islã é o dīn. — Aal ‘Imran, 19

—————————- E quem buscar outro din além do Islã, este jamais lhe será aceito. — Al ‘Imran, 85

——————————– Ele é Allah, que enviou Seu Mensageiro com a orientação correta e o din da verdade, para fazê-lo prevalecer sobre todos os demais dins, embora isso seja detestado pelos idólatras. — At-Tawbah, 33

—————- Combate-os até que a fitna seja eliminada e o din seja inteiramente para Allah. — Al-Anfal, 39

————————————- Quando chegar o auxílio de Allah e a vitória for alcançada, e vires as pessoas ingressando em grupos no din de Allah, então glorifica teu Senhor com louvor e pede-Lhe perdão. Com efeito, Ele é Misericordiosíssimo. — An-Nasr

Nestes versículos, o significado de din é um sistema de vida completo. Todos os aspectos do pensamento, da crença, dos princípios e das ações estão abrangidos por ele.

Nos dois primeiros versículos, afirma-se que, perante Allah, o único sistema de vida correto para o ser humano é aquele que se fundamenta exclusivamente na obediência e na adoração a Allah (Islã). Além dele, nenhum outro sistema de vida — cuja base esteja fundada na obediência a poderes imaginários — pode de modo algum ser aceitável perante o Senhor do universo. Naturalmente, isso também não poderia acontecer. Pois Aquele por Quem o ser humano foi criado, sob cuja autoridade se encontra e por Quem é sustentado, em cujo reino vive como um súdito, não pode de modo algum aceitar que o ser humano viva servindo e obedecendo a qualquer poder além d’Ele, ou que siga as instruções de qualquer outro.

No terceiro versículo, afirma-se que Allah enviou Seu Mensageiro com o sistema de vida verdadeiro e correto — isto é, o Islã — e que o objetivo supremo de sua missão é fazê-lo prevalecer sobre todos os demais sistemas de vida.

No quarto versículo, é dada aos seguidores do din do Islã a seguinte instrução: prossegui na luta contra o mundo; não descanseis até que a fitna — isto é, a existência de sistemas rebeldes contra Allah — seja completamente eliminada do mundo, e todos os sistemas de obediência e adoração sejam dedicados a Allah.

No quinto versículo, o Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) é interpelado; essa interpelação ocorre depois que a revolução na Arábia foi concluída, após vinte e três anos de esforço ininterrupto. O Islã, em sua forma plenamente abrangente, havia sido efetivamente estabelecido como um sistema completo para todos os assuntos: pensamento e crença, princípios, educação, sociedade, civilização, economia e política. De todas as regiões remotas da Arábia, as pessoas vinham abrigar-se em grupos sob a sombra desse sistema. Assim, quando a tarefa para a qual Muhammad (que a paz esteja com ele) havia sido incumbido chegou ao fim, foi-lhe dito que não se orgulhasse, considerando essa obra uma realização sua; o Ser perfeito e livre de falhas é somente o seu Senhor, e não qualquer outro. Portanto, para a realização dessa grande obra, manifeste Seu louvor e glorificação e suplique diante d’Ele: Ó Senhor, Sustentador! Perdoa todos os erros e falhas que cometi durante este longo período de vinte e três anos de serviço!

Concluído