“Duas palavras”

 

“O Caminho de Meca” é a tradução da obra “The Road of Mecca”, escrita pelo célebre pensador, escritor e jornalista Muhammad Asad. Muhammad Asad era judeu de nascimento. Contudo, ainda na adolescência, perdeu o interesse pelo judaísmo. À medida que amadurecia, passou a sentir aversão pelo estilo de vida moderno do Ocidente e por seus costumes. De um lado, o materialismo consumista do Ocidente; de outro, o pensamento espiritual dos sacerdotes, extramundano e desvinculado do corpo: ambos o afastaram do círculo ocidental e o voltaram para o Oriente. Ele se sentiu atraído pelo modo de vida islâmico, árabe e moderado, baseado na harmonia entre o corpo e a alma. Em 1921, abraçou o Islã e adotou o nome de Muhammad Asad.

“The Road of Mecca”, ou “O Caminho de Meca”, é a autobiografia espiritual de Muhammad Asad. Ao narrar as variadas experiências de suas viagens pelos países, ele expôs a história de seu despertar espiritual. Nesta obra, são descritas, sob a forma de narrativa, tanto as diversas experiências de sua vida de viajante, o modo de vida do mundo árabe e suas características comparativas em relação aos modos de vida do Oriente e do Ocidente, quanto a comovente história da descoberta da verdade por uma mente insatisfeita e empenhada em buscá-la.

É desnecessário dizer que este livro foi escrito por um pensador e sábio de nosso tempo, que não é um muçulmano convertido comum, levado pela emoção e desprovido de razão. Trata-se de uma pessoa excepcionalmente talentosa que, antes de abraçar a religião, procurou compreendê-la e alcançar sua essência à luz de todo o seu conhecimento e intelecto.

A tradução para o bengali desta obra fascinante, de altíssimo nível e grande valor literário, foi realizada pelo célebre contista e pensador islâmico Shahed Ali, ex-editor de “Revista da Fundação Islâmica” e de “Folha Verde”. Não há dúvida de que sua mão mágica, habituada à linguagem da ficção, foi extraordinariamente bem-sucedida ao traduzir a linguagem literária e descritiva desta obra; qualquer leitor desfrutará com prazer de sua fluidez e de suas qualidades encantadoras, e podemos anunciar com alegria que ninguém se cansará ao percorrer suas numerosas páginas. É por essa razão que estamos publicando esta obra em uma nova e renovada edição, para oferecê-la aos leitores. “O Caminho de Meca” pode ser chamado não de tradução, mas de uma nova criação: é uma contribuição original à literatura bengali.

Esperamos que, ao ler esta obra, o leitor encontre novo alimento para refletir sobre os ideais religiosos do Islã e desperte para uma fé ainda mais profunda no Islã.

—Sharif Hasan Tarfadar

Editor

Prefácio

 

Eu provavelmente soube ainda nos tempos de escola que um erudito judeu chamado Leopold Weiss havia abraçado o Islã; mas só muito mais tarde descobri que ele era escritor e um pensador de talento extraordinário. Seu nome muçulmano é Muhammad Asad. Embora sua figura tenha permanecido viva em minha memória, naquela época ainda não tivera a sorte de ler nenhuma de suas obras. Durante o período britânico, ele esteve na Índia; depois da criação do Paquistão, foi diretor da organização de reconstrução islâmica do governo do Punjab Ocidental e editou uma revista inglesa de altíssimo nível chamada ‘Arafat’. Nada mais sabia sobre ele.

Certo dia, provavelmente por volta de 1958, o advogado A. T. Mustafa, que mais tarde se tornaria ministro do governo central do Paquistão, disse durante uma conversa: ‘Irmão, você já leu ‘The Road of Mecca’? De todos os livros que li na vida, este é o livro.’

O irmão Mustafa não era apenas um famoso jurista; era também um ativo e intransigente agente da cultura islâmica e um leitor erudito. Mantinha-se atualizado sobre quais grandes autores do mundo haviam escrito livros sobre o Islã. Ao ouvir de seus lábios os elogios entusiasmados a ‘The Road of Mecca’, empenhei-me em conseguir o livro e, alguns dias depois, mandei trazer um exemplar de Lahore por encomenda postal. Assim que o livro chegou às minhas mãos, mergulhei nele. Tornando-me companheiro de viagem da longa e emocionante jornada espiritual de Asad, desde a infância até sua aceitação do Islã, percorri também diversos países da Europa e da Ásia, por estradas e regiões remotas, feiras e mercados, cidades e portos, e pelo mar; e passei a ver o mundo de novo. Pouco a pouco, a forma plena do Islã foi se abrindo e florescendo diante dos meus olhos, pétala após pétala. Li ‘The Road of Mecca’ repetidas vezes e, enquanto o lia, compreendi em meu íntimo que uma tradução bengali deste livro abriria um novo horizonte da visão islâmica da vida para os leitores e leitoras de língua bengali.

Apesar dos meus recursos limitados e da falta de tempo, comecei a traduzir o livro e passei a publicá-lo em série na revista Islamic Academy, que eu editava. Graças ao conteúdo e ao estilo de escrita extraordinário de Asad, até mesmo a minha tradução imperfeita provocou forte repercussão entre os leitores; muitos se tornaram assinantes da revista Islamic Academy unicamente por causa dessa tradução e expressavam seu descontentamento sempre que a publicação da revista se tornava irregular.

‘The Road of Mecca’, ou O Caminho de Meca, é a autobiografia espiritual de Muhammad Asad. Asad escreveu a história de sua vida em forma de narrativa. Mais saborosa que um romance, essa história, autenticada pelas experiências pessoais de Asad, tornou-se uma análise inédita do Islã para o ser humano contemporâneo. Do início ao fim do livro espalha-se um sabor novo, uma emoção original, que não apenas proporciona prazer ao leitor, mas também o enriquece com uma experiência profundamente gratificante; acompanhando o autor em sua jornada, o leitor também chega finalmente a Meca, isto é, ao centro essencial da visão islâmica da vida, e sua longa jornada pelo caminho do Islã chega ao fim — nas palavras de Asad, um homecoming, um retorno ao lar.

Muhammad Asad foi jornalista, pensador e um intérprete incomparável do Islã — mas, acima de tudo, foi um talento criativo dotado de visão espiritual; ‘The Road of Mecca’ é uma de suas criações extraordinárias. Ele dedicou o livro à sua esposa, Pola Hamida Asad. Ao apresentar esta criação em língua bengali, procurei, tanto quanto possível, conservar o ritmo, o fluxo, a construção das frases e o estilo do original, transmitindo as experiências emocionantes de Asad. Mas nenhuma criação pode ser traduzida literalmente. Por isso, não afirmo ter conseguido expressar inteiramente, em minha própria língua, esta obra incomparável de Asad. Meu consolo, porém, é que, por trás da tradução deste livro, do princípio ao fim, estiveram ativos meu amor inato pela escrita criativa e meu amor, desde a infância, pelo ideal de vida islâmico. Ao entregar a tradução do livro aos leitores e leitoras de língua bengali, cumpri uma responsabilidade que eu mesmo havia assumido; por essa realização, a recompensa cabe a Muhammad Asad perante o Deus Todo-Misericordioso, Allah Ta’ala. Inúmeros leitores ansiosos e interessados insistiram continuamente para que eu concluísse a tradução e a publicasse em forma de livro; sempre que nos encontrávamos, mencionavam o assunto. Sua espera ansiosa finalmente chegou ao fim, e sua exigência foi enfim atendida; por isso, sinto-me aliviado e agradeço a Allah Ta’ala. Entre todos esses inúmeros leitores, é impossível esquecer o irmão Shah Abdul Hannan; seu interesse sincero e sua insistência me deram novo ânimo sempre que minha tradução perdia o ímpeto.

Na primeira etapa da tradução do livro, Mohammad Azizur Islam e Sheikh Tofazzal Hossain, da antiga Islamic Academy, registraram durante muito tempo a minha tradução oral. Na segunda etapa, o poeta Masud-us-Shahid assumiu integralmente essa responsabilidade. Masud dedicou com grande alegria uma parte valiosa de sua vida diária a este trabalho junto comigo. Abdul Mukit Chowdhury aceitou com satisfação a responsabilidade de revisar as provas. O índice do livro foi preparado por Kalam Azad, da Islamic Foundation Press. Todos eles são pessoas queridas para mim; não quero diminuir o valor de sua colaboração sincera com simples agradecimentos.

A Jnanakosh Prakashani conquistou a gratidão de toda a comunidade de leitores de língua bengali ao publicar a terceira edição deste livro.

Shahed Ali

Alguns aspectos da vida dramática de Allama Muhammad Asad

Professor Shahed Ali

A mais brilhante estrela da sabedoria e da erudição caiu do firmamento do mundo muçulmano em 1994. Aos olhos do mundo ocidental, a luz dessa estrela era intensa, ofuscante; por isso, durante quase um século, fingiram não vê-la embora a tivessem diante de um dos olhos. Esse sábio nasceu no Ocidente, em um ambiente europeu. No entanto, desafiou a atual civilização ocidental, avançada no conhecimento e na ciência — e revelou ao mundo o vazio abissal oculto sob seu esplendor exterior. Por isso, o mundo ocidental sempre tentou ignorá-lo com irritação. A notícia de seu falecimento não recebeu divulgação alguma nos meios de comunicação ocidentais.

Assim como uma pessoa que sofre de cegueira noturna nada vê da lua e das estrelas, e um cego não vê o sol, também aos olhos do mundo muçulmano o brilho dos raios dessa estrela jamais se refletiu plenamente. Por isso, mesmo quando a estrela mais brilhante de seu firmamento caiu, o mundo muçulmano não sentiu vazio algum — para um cego, o nascer e o pôr do sol ou das estrelas não fazem diferença. Eles tampouco possuem meios de comunicação próprios. Além disso, mesmo nos meios que existem, essa morte não recebeu grande importância. Diz-se que seu testamento determinava que fosse sepultado em Meca — onde havia vivido por muito tempo, descobrira o Islã, tornara-se seu melhor intérprete e representante, abraçara o Islã e apresentara ao mundo inteiro sua superioridade, e escrevera um livro que causou grande comoção no mundo, como Road to Mecca. Mas seu desejo não se realizou. Ele morreu na Espanha e ali foi sepultado.

Muhammad Asad, cujo nome antes de abraçar o Islã era Leopold Lewis, viveu durante cerca de 26 ou 27 anos na cidade marroquina de Tânger, com sua esposa Pola Hamida Asad. Ele havia firmado um contrato com a Rabita al-Alam al-Islami para traduzir o Alcorão Sagrado, acompanhado de um tafsir conciso. Quando o tafsir dos dez primeiros juz foi publicado, alguns ulemás discordaram de algumas de suas interpretações. Então Asad rompeu relações com a Rabita e foi para o Marrocos; apesar das dificuldades financeiras, decidiu concluir e publicar sozinho a tradução e o tafsir, contando apenas com o auxílio de sua esposa e de alguns amigos. Após vinte longos anos de dedicação, publicou sua tradução e seu tafsir. Desempenhou para o mundo moderno o papel de tradutor e exegeta mais moderno do Alcorão Sagrado.

Leopold Lewis nasceu em 1900, na cidade de Lemberg, na atual Polônia, em uma família judia. Seu avô foi o último rabino de uma família judaica de rabinos ou sacerdotes que se estendia por várias gerações. Embora tivesse recebido educação para formar-se como rabino judeu tradicional, seu pai abandonou essa tradição familiar, estudou advocacia, tornou-se um advogado renomado e casou-se com uma mulher de uma família de banqueiros. Junto com os estudos escolares comuns, Lewis aprendeu a falar e ler hebraico fluentemente e tornou-se também bem familiarizado com o aramaico. Já nessa idade, conheceu plenamente o texto original e os comentários do Talmude. Muitos anos depois, escreveu sobre isso em sua obra autobiográfica espiritual Road to Mecca: “Pareceu-me que o Deus do Antigo Testamento e do Talmude estava ocupado apenas com os rituais pelos quais Seus adoradores deveriam adorá-Lo. Também me parecia que Deus já estava extraordinariamente preocupado com o destino de uma determinada nação. A própria estrutura do Antigo Testamento, como história dos descendentes de Abraão, é tal que dá a impressão de que Deus não é o Criador e Sustentador de toda a humanidade, mas sim uma divindade tribal, que ajusta toda a criação às necessidades de um povo escolhido.”

Embora decepcionado com a doutrina judaica, Louis não seguiu por nenhum outro caminho em busca da verdade espiritual. Depois da Primeira Guerra Mundial, matriculou-se na Universidade de Viena e, com certa arrogância, dedicou-se ao estudo da história da arte e da filosofia. Mas essa vida acadêmica não conseguiu saciar sua sede interior de investigar o significado religioso. Tampouco satisfez seu desejo de aventura. Depois da Primeira Guerra Mundial, Viena estava desesperadamente empenhada em recuperar sua singularidade e sua identidade. A guerra e a queda da antiga monarquia dos Habsburgos, com seus seiscentos anos de existência, destruíram os fundamentos dos antigos valores e tradições. Naturalmente, antes disso, eles já haviam se tornado alvo dos ataques dos conhecedores de arte e da classe intelectual. Influenciado por uma família cética, Louis, como muitos outros rapazes de sua idade, acabou rejeitando diretamente todas as religiões formais. Seu objetivo, então, era a ação, a aventura e a excitação. Impelido por esse desejo, tentou ingressar no exército austríaco sob um pseudônimo, pois ainda não tinha dezoito anos. Assim, seu sonho fracassou. Quatro anos mais tarde, quando pôde legalmente ingressar no exército, seu sonho de glória militar já havia se desfeito. Pois, poucas semanas depois, ocorreu uma revolução, o Império Austríaco desmoronou e a guerra também chegou ao fim.

Mas Louis não sentia nenhuma atração pela vida acadêmica. Sentia o desejo de confrontar profundamente a vida — o desejo de entrar na vida. Em vez de buscar abrigo nos sistemas de defesa que as pessoas amantes da segurança constroem ao seu redor, Louis queria entrar na vida; queria encontrar por si mesmo o caminho para compreender a ordem espiritual que existe por trás de todas as coisas.

Uma característica marcante das primeiras décadas do século XX era o vazio espiritual. Todos os valores aos quais a Europa estivera acostumada durante muitos séculos perderam seus contornos próprios e se tornaram amorfos e sem forma definida diante do que aconteceu entre 1914 e 1918. Em parte alguma se vislumbravam novos valores capazes de preencher esse vazio. A sensação de fragilidade e incerteza, prenúncio de convulsões sociais e psicológicas, fez nascer na mente dos jovens a suspeita de que nada era permanente nos pensamentos e esforços humanos. A inquietação espiritual dos jovens não encontrava apoio em parte alguma, e ninguém conseguia dar respostas satisfatórias às perguntas que deixavam Louis e outros jovens como ele perplexos, por falta de um padrão confiável de moralidade. Louis percebeu: “A ciência diz que o conhecimento é tudo; contudo, sem um objetivo moral, o conhecimento só pode criar o caos.” Não há dúvida de que os reformadores sociais, revolucionários e comunistas daquela época desejavam construir um mundo melhor e mais feliz. Mas, ao olhar perspicaz de Louis, ficou claro que todos pensavam apenas à luz das condições sociais e econômicas externas e que, para corrigir as falhas nesses campos, haviam elevado a concepção materialista a uma nova metafísica antimetafísica. Eles perceberam que muitas vezes havia uma profunda incompatibilidade entre tudo o que acontecia no mundo ao seu redor e as supostas qualidades divinas. As forças que controlavam o destino humano pareciam claramente distintas e separadas das qualidades atribuídas a Deus. Disso concluíram que Deus não existia. Os arrogantes guardiões da religião haviam vestido Deus com suas próprias vestes e o separado do destino humano, tornando-o distante e sem relação com ele. Mas isso não resolvia o problema: a incerteza e a mutabilidade acerca do que se devia fazer na vida individual podiam tornar-se causa de uma desordem profunda e gerar desrespeito pela educação, pela cultura e pelo senso de beleza do ser humano. Por causa dessa percepção instintiva, Louis não parou por aí. Para ele, a construção de uma vida nobre tornou-se um auxílio na busca de um caminho criativo em direção à esperança. Foi impelido por esse desejo que se matriculou na Universidade de Viena e escolheu a história da arte como sua principal área de estudo. Mas a disciplina não satisfez Louis. Percebeu que seus professores — entre os quais se destacavam Strzygowski e Dvořák — estavam excessivamente ocupados em descobrir as regras da estética pelas quais a criação artística é regida; haviam feito pouquíssimo esforço para desvelar o impacto espiritual que existe em seu âmago. Em outras palavras, na opinião de Louis, a visão deles sobre a arte estava estreitamente limitada às formas e aos aspectos por meio dos quais a arte alcança expressão.

Mesmo tendo conhecido as conclusões da nova ciência da psicanálise, que havia despertado grande entusiasmo na Europa durante os dias de confusão juvenil de Louis, ele não se satisfez com ela — tampouco encontrou respostas para suas perguntas — embora, naquela época, a teoria psicanalítica tivesse surgido como uma revolução de primeira grandeza. A descoberta do papel desempenhado pelos desejos do inconsciente na formação da personalidade humana havia, sem dúvida, aberto o caminho para uma compreensão mais profunda de si mesmo; mas essa convicção do jovem Leopold Louis não durou muito. Para ele, o estímulo do pensamento freudiano era tão intenso quanto a embriaguez do álcool. Nos cafés de Viena, ele ouvia fascinado os debates acalorados entre alguns dos primeiros pioneiros da psicanálise — sábios como Alfred Adler, Hermann Stickel e Otto Gross —, mas Louis se perturbou com a arrogância intelectual dessa nova ciência. Pois, em sua opinião, “essa ciência quer reduzir todos os mistérios da alma humana a algumas reações e atividades nervosas”. Percebeu que as conclusões dessa nova disciplina tampouco tinham capacidade de aproximar-se das verdades últimas. Além disso, não encontrou nela nenhuma indicação de um novo caminho em direção a uma vida nobre e elevada. Depois da Grande Guerra, começou a ampla derrocada dos valores geralmente estabelecidos; no curso dessa derrocada, muitas restrições e proibições existentes nas relações entre homens e mulheres também se tornaram mais brandas. Era como ser lançado de uma situação para outra completamente oposta, na qual tudo se transformara em objeto de debate. Em outras palavras, a situação chegou ao ponto de o ser humano ser lançado da fé e da confiança no progresso humano contínuo e ascendente para o amargo pessimismo de Spengler, em meio ao relativismo moral de Nietzsche e ao vazio espiritual criado pela psicanálise. Entre os jovens de ambos os sexos ávidos pelos prazeres do corpo, as relações sexuais tornaram-se casuais e livres. Leopold Louis pensava que isso não passava de uma rebelião contra os costumes vazios. Parecia-lhe que talvez a união entre o homem e a mulher pudesse afastar a terrível solidão que separava um ser humano de outro. Em meio a essa agitação e instabilidade mental, já não lhe era possível continuar os estudos universitários. Seu pai queria que ele se tornasse um erudito e obtivesse um Ph.D. Mas, abandonando isso, contra a vontade do pai, escolheu a vida de jornalista — seria escritor, e a escrita seria sua profissão. De Viena, chegou a Praga, onde, num antigo café, o Westend, conheceu um círculo mágico de artistas e escritores. Algum tempo depois, seu pai soube da notícia e escreveu-lhe: “Agora vejo claramente que você vai morrer como um vagabundo imprestável, caído numa sarjeta à beira da rua.” O jovem Louis, obstinado e extremamente confiante em si mesmo, respondeu: “Não.” Ele havia compreendido que queria ser escritor; nascera nele a convicção de que o mundo dos literatos o esperava ansiosamente, de braços generosamente abertos.

Mas, naquela época, era difícil conseguir acesso a qualquer jornal famoso. Durante dias a fio, ele perambulou pelas ruas de Berlim, sem dinheiro para o metrô ou para o táxi. Passou muitas semanas alimentando-se apenas de chá e dos dois pedaços de pão que a senhoria lhe dava pela manhã. Naqueles dias, seu destino era o jejum absoluto. E seus sonhos noturnos estavam repletos de grossas fatias de pão fresco, cobertas de manteiga.

Em meio àquela extrema penúria, passou algum tempo trabalhando como assistente de um produtor cinematográfico; depois, ganhou algum dinheiro escrevendo o roteiro de um filme para seu amigo vienense Eston Kueh e, mais tarde, escrevendo outro roteiro. Em seguida, passou mais um ano realizando vários trabalhos temporários em diferentes cidades da Europa Central, até que finalmente entrou no mundo dos jornais, em 1921. O Dr. Demart, membro rico do Partido do Centro Católico Alemão e figura proeminente da política alemã, estava prestes a fundar, com a colaboração da United Press of America, uma agência de notícias chamada United Telegraph. Candidatando-se a trabalhar como assistente em sua empresa, conseguiu um emprego de telefonista. Para suas ambições, era um trabalho extremamente desalentador. Mas Lewis não tinha alternativa senão aceitá-lo. Depois de trabalhar ali durante um mês, conseguiu secretamente uma entrevista em Berlim com Madame Maxim Gorky, que viera para lá durante a terrível fome da Rússia em 1921, a fim de mobilizar a opinião pública nas capitais da Europa Central em favor de socorro e ajuda eficazes. Graças a esse encontro, o telefonista Leopold Lewis tornou-se repórter. Tornou-se jornalista.

Leopold Lewis era então um jovem de vinte e dois anos, cheio de vigor. Lewis e os jovens de sua geração estavam inquietos, desejosos de transformar a sociedade e reconstruí-la. Como deveria a sociedade ser organizada para que o ser humano pudesse viver uma vida verdadeira e plena? Como deveriam ser estruturadas suas relações para que todos pudessem romper e sair da solidão e do isolamento que cercavam cada pessoa, e viver em verdadeira amizade e cooperação mútua? O que é o bem, o que é o mal, o que é o destino? Ou, dito de outra maneira, o que deveria o ser humano fazer para ser, em sentido autêntico, uno e indivisível com sua vida, e poder dizer: eu e meu destino não somos diferentes — somos um só!

Em toda parte, a atmosfera de incerteza moral e social era tão intensa que deu origem a um otimismo temerário. Ele se manifestava, por um lado, nas ousadas experimentações da música, da pintura e do teatro daquela época e, por outro, numa busca quase revolucionária, tateante e cega, por uma estrutura e um contorno para a cultura. Mas, ao lado desse otimismo mantido artificialmente vivo, também se fazia presente um vazio espiritual. Um relativismo vago e arrogante nascia de um pessimismo cada vez maior. Depois da Segunda Guerra Mundial, no mundo europeu, tomado por emoções exaltadas, sofrimento, insatisfação e agitação, nada mais funcionava com a naturalidade e a ordem de antes. Aos olhos de Lewis, ficou claro que o verdadeiro deus do mundo ocidental não era nada espiritual. Seu único objeto de adoração era o conforto, o bem-estar e a mediocridade; para um europeu — fosse ele democrata, comunista, trabalhador ou intelectual — a única crença significativa era a adoração do progresso material, pois não poderia haver outro objetivo na vida senão torná-la continuamente mais fácil. Em linguagem contemporânea, libertar o ser humano do domínio da natureza era o único propósito da vida. Os templos dessa nova religião eram as enormes fábricas, os cinemas, os laboratórios químicos, os salões de dança e as instituições zoológicas. E os sacerdotes desses templos eram banqueiros, engenheiros, políticos, estrelas de cinema, estatísticos, diretores de educação, criadores de discos, aviadores e comissários. Da discordância universal quanto às noções de bem e mal e da adoção do oportunismo em todas as questões sociais e econômicas surgiu a expressão do fracasso moral — daquele oportunismo comparável ao de uma prostituta de rua, que entrega o corpo sempre que alguém a deseja, não importando quem seja. Já naquela idade, Lewis percebeu que a insaciável sede de poder e felicidade mantinha o mundo ocidental inevitavelmente dividido em grupos mutuamente hostis. Cada um desses grupos estava equipado com armas mortíferas e, sempre que seus interesses recíprocos eram atingidos, lançava-se desesperadamente à destruição dos outros. A suprema medida do certo e do errado era então a utilidade prática, o sucesso mundano. Sobre seu estado naquela época, Lewis disse: “Vi como a vida se tornara infeliz e confusa. Como era escassa a ligação entre as pessoas. Embora se desse ênfase à sociedade e à nação, com gritos ensurdecedores e frenéticos. Como nos afastáramos do mundo de nossos sentimentos inatos. E como nossas almas se haviam tornado estreitas e apagadas. Naquele tempo, o princípio e o fim de todos os nossos pensamentos era a Europa.”

Lewis diz: “Mas minha incapacidade de participar das aspirações sociais, econômicas e políticas divergentes das pessoas ao meu redor, ou de qualquer grupo entre elas, gradualmente assumiu em mim a forma de uma noção vaga: eu não era exatamente um deles, não tinha relação com eles; e, ao mesmo tempo, nasceu em mim o desejo de pertencer a alguém — mas a quem? Eu tinha de fazer parte de alguma coisa — mas de quê?” Foi com o coração cheio desse anseio e dessa inquietação que, em 1922, aos vinte e dois anos, ele partiu para Jerusalém, no Oriente, atendendo ao chamado do Alcorão. Depois de conviver longamente com os árabes, encontrou a resposta: a quem pertenceria, de que faria parte. Como correspondente do mundialmente famoso jornal Frankfurter Zeitung, chegou a Jerusalém e, alguns anos depois, percorreu a Palestina, a Transjordânia, o Iraque, a Pérsia e o Afeganistão. Durante sua permanência em Jerusalém, entrou pela primeira vez em contato com o Islã e sentiu-se atraído pelo modo de vida dos árabes. Depois de uma convivência íntima com eles, descobriu que a sociedade muçulmana tradicional possuía uma harmonia natural entre a mente e os sentidos — uma harmonia que a Europa havia perdido. Descobriu neles a certeza do coração e a libertação da insegurança interior, uma libertação que estava além dos sonhos dos europeus. Finalmente, Leopold Lewis encontrou a resposta à pergunta sobre a que pertenceria e de que faria parte; e, ao retornar à Europa, em 1926, abraçou o Islã juntamente com sua esposa. Seu nome muçulmano passou a ser Muhammad Asad. Na autobiografia de Asad, o livro ‘O Caminho para Meca’, sua conversão ao Islã é chamada de ‘retorno ao lar’. Depois de abraçar o Islã, Asad viveu cerca de seis anos na Arábia, adquirindo profundo conhecimento da vida e da língua árabes. Tornou-se íntimo do rei Ibn Saud. Em seguida, deixou a Arábia e foi para a Índia, onde conheceu o grande poeta e filósofo muçulmano Allama Iqbal. Seguindo seu conselho, Asad abandonou o plano de viajar ao Turquestão Oriental, à China e à Indonésia e permaneceu na Índia para interpretar e analisar as fontes intelectuais do Estado islâmico. Naquela época, o Estado islâmico era apenas o sonho de uma mente de poeta visionário, arrebatada por um sonho. Nas palavras de Muhammad Asad: “Para mim, assim como para Iqbal, era um sonho: encontrar um caminho — na verdade, o único caminho — para reviver todas as almas adormecidas do Islã: criar a entidade política de um povo cuja coesão não se baseasse no mesmo sangue e na mesma carne, mas na lealdade comum a um ideal. Durante muitos anos, dediquei-me a esse objetivo por meio do estudo, da escrita e das conferências e, com o tempo, alcancei certa fama como intérprete da lei islâmica.” Mas essa conquista não foi apenas certa fama; na realidade, ele alcançou fama mundial.

Quando o Paquistão foi fundado, em 1947, o governo desse Estado convidou Muhammad Asad a criar e dirigir uma instituição chamada Departamento de Reconstrução Islâmica, cujo objetivo era expor detalhadamente as concepções ideológicas islâmicas sobre o Estado e a sociedade, nas quais a recém-nascida organização política pudesse apoiar-se para sua orientação ideológica. Depois de dar continuidade durante dois anos a esse trabalho extremamente estimulante, Muhammad Asad ingressou no Serviço Exterior do Paquistão. No Ministério das Relações Exteriores do Paquistão, tornou-se chefe da Divisão do Oriente Médio. Muhammad Asad forneceu todos os dados e documentos históricos como apoio à luta de argumentos e informações que o Paquistão conduzia com êxito, nas Nações Unidas, em favor dos palestinos contra o sionismo. No Ministério das Relações Exteriores, dedicou-se a fortalecer as relações entre o Paquistão e o mundo muçulmano. Nessa época, Muhammad Asad foi nomeado ministro plenipotenciário da missão paquistanesa nas Nações Unidas. Mais tarde, no final de 1952, renunciou a esse cargo e dedicou-se à redação de sua imortal obra, The Road to Mecca.

A história da história

A história que me proponho contar neste livro não é a autobiografia de uma pessoa ilustre por seu papel nos assuntos de Estado; tampouco é uma narrativa descritiva de aventuras ousadas — pois, embora muitas aventuras extraordinárias tenham ocorrido em minha vida, elas foram apenas acontecimentos secundários em relação ao que se passava dentro de mim, e nunca foram mais do que isso —, nem é a história de um esforço consciente para buscar uma fé religiosa, pois essa fé chegou à minha vida ao longo de muitos anos, sem qualquer tentativa de minha parte para alcançá-la. Minha história é simplesmente o relato da descoberta do Islã por um europeu e de sua integração na sociedade muçulmana.

Nunca pensei em escrever este livro. Pois jamais me ocorreu que minha vida pudesse ter algum interesse especial para alguém além de mim mesmo. Mas, quando, depois de passar vinte e cinco anos fora do mundo ocidental, cheguei a Paris e, de lá, a Nova York, no início de 1952, fui obrigado a mudar de opinião. Como eu trabalhava então como ministro plenipotenciário do Paquistão nas Nações Unidas, era natural que todos os olhos estivessem voltados para mim; tornei-me objeto de grande curiosidade entre meus amigos, conhecidos europeus e americanos. A princípio, eles pensavam que meu trabalho era o de um ‘especialista’ europeu, contratado pelo governo de um país do Oriente para um propósito específico, e que eu havia simplesmente me adaptado, por conveniência, aos costumes do povo a cujo serviço me encontrava. Mas, quando minhas atividades nas Nações Unidas se tornaram claras, eles ficaram um tanto surpresos ao perceber que eu havia me identificado não apenas no plano profissional, mas também emocional e intelectualmente, com os objetivos políticos e civilizacionais do mundo muçulmano em geral. À medida que os dias passavam, cada vez mais pessoas começaram a perguntar sobre minhas experiências anteriores. Descobriram que, logo no início de minha vida profissional, eu começara a trabalhar como correspondente estrangeiro de jornais continentais e que, depois de viajar extensamente por todo o Oriente Médio durante vários anos, me tornara muçulmano em 1926; que, após minha conversão ao Islã, vivera cerca de seis anos em terras árabes e conseguira conquistar a amizade do rei Ibn Saud; que, depois, deixara a Arábia e fora para a Índia, onde conhecera Muhammad Iqbal, o pai espiritual da ideia do Paquistão e grande poeta-filósofo muçulmano. Foi ele quem, em pouco tempo, me convenceu a abandonar meus planos de viajar pelo Turquestão Oriental, pela China e pela Indonésia, e a permanecer na Índia para explicar e analisar as fontes intelectuais do futuro Estado islâmico, que então não passava de um sonho na mente sonhadora de Iqbal. Para mim, assim como para Iqbal, esse sonho era o símbolo de um caminho — na verdade, o único caminho — para reavivar todas as esperanças adormecidas do Islã: a criação de uma entidade política de um povo cuja coesão não se baseasse no mesmo sangue ou na mesma linhagem, mas na lealdade comum a um ideal. Durante muitos anos, dediquei-me a esse objetivo por meio do estudo, da escrita e de conferências e, com o tempo, conquistei certa fama como intérprete da lei islâmica e da civilização. Quando o Paquistão foi fundado, em 1947, o governo desse Estado convidou-me a criar e dirigir um departamento chamado ‘Departamento de Reconstrução Islâmica’; seu objetivo era expor detalhadamente as concepções ideológicas islâmicas sobre o Estado e a sociedade, nas quais a recém-nascida organização política pudesse apoiar-se para sua orientação ideológica. Depois de dar continuidade durante dois anos a esse trabalho extremamente estimulante, ingressei no Serviço Exterior do Paquistão. No Ministério das Relações Exteriores do Paquistão, fui nomeado chefe da Divisão do Oriente Médio. Ali dediquei-me a fortalecer os laços e as relações entre o Paquistão e o restante do mundo muçulmano; e foi nessa época que fui nomeado para a missão paquistanesa nas Nações Unidas, em Nova York.

Tudo isso aponta para algo muito mais profundo do que a mera adaptação externa de um europeu que, por força das circunstâncias, vive no seio de uma sociedade muçulmana: implica, antes, a retirada consciente e de todo o coração da lealdade a uma família cultural e a expressão de lealdade a um ambiente cultural inteiramente diferente. Para muitos de meus amigos ocidentais, isso parece muito surpreendente. Eles não conseguiam conceber como alguém nascido no mundo ocidental, criado e educado ali, poderia identificar-se tão completamente e, aparentemente, sem reprimir nada em seu íntimo, com o mundo muçulmano; como lhe fora possível aceitar a herança cultural islâmica em lugar da herança cultural ocidental, e o que o levara a adotar um ideal religioso e social que, segundo me parece, eles tomavam como evidente ser muito inferior a todas as concepções europeias.

Mas por quê, comecei a perguntar a mim mesmo, meus amigos ocidentais tomavam esse assunto como algo evidente? Será que alguma vez haviam sentido realmente a necessidade de tentar alcançar diretamente a essência do Islã? Ou suas opiniões se baseavam em concepções distorcidas, transmitidas de geração em geração, e em alguns lugares-comuns? Seria possível que o antigo modo de pensar grego e romano — que dividia o mundo em dois grupos, de um lado gregos e romanos e, de outro, os bárbaros, isto é, os povos bárbaros — estivesse ainda tão profundamente arraigado na mente ocidental que ela fosse teoricamente incapaz de reconhecer que qualquer coisa situada fora de sua própria órbita cultural tivesse algum valor claro e específico?

Desde a época dos gregos e romanos, pensadores e historiadores europeus têm estado inclinados e dispostos a conceber a história do mundo à luz e nos termos da história europeia e apenas da experiência cultural ocidental. Nesse quadro, as civilizações não ocidentais só entram em cena quando sua existência, ou determinados movimentos surgidos em seu seio, exerceram ou exercem uma influência direta sobre o destino dos povos ocidentais; e, por essa razão, aos olhos dos ocidentais, a história do mundo e suas diversas culturas não passam, em última análise, de uma história ocidental ampliada!

Naturalmente, uma perspectiva tão estreita dá origem a uma visão distorcida. Como os ocidentais estão familiarizados sobretudo com os escritos que retratam sua própria cultura ou discutem, com riqueza de detalhes e em cores vivas, os problemas de sua própria civilização, e não fazem mais do que voltar ocasionalmente o olhar, aqui e ali, para o restante do mundo, o europeu ou americano médio facilmente se torna vítima da ideia equivocada de que a experiência cultural ocidental não é apenas superior à experiência cultural do resto do mundo, mas também tão vasta em extensão que não há comparação possível entre as duas; e, por isso, o modo de vida ocidental seria o único modelo aceitável, à luz do qual se poderiam julgar todos os demais modos de vida. Isso implica, naturalmente, que qualquer concepção intelectual, instituição social ou avaliação moral que não coincida com esse ideal ou modelo ocidental é, na realidade, produto de uma forma inferior de vida. Seguindo as pegadas dos gregos e romanos, o mundo ocidental gosta de pensar que todas essas diferentes civilizações, as que existiram no passado ou existem atualmente, não passam de experimentos que obstruem o caminho do progresso que o Ocidente segue infalivelmente; ou, no máximo, pode-se dizer — como no caso das civilizações antigas, que se desenvolveram diretamente antes da civilização ocidental moderna, na mesma linha — que são apenas alguns capítulos sucessivos do mesmo livro, sendo naturalmente a civilização o capítulo final.

Quando expressei essa opinião a um de meus amigos americanos — um homem bastante brilhante no campo intelectual e que, por sua inclinação mental, podia ser considerado um erudito —, ele manifestou inicialmente certa dúvida.

“Concedo”, disse ele, “que os antigos gregos e romanos demonstravam uma visão limitada ao julgar as civilizações estrangeiras; mas essa limitação não foi o resultado inevitável da dificuldade de comunicação entre eles e o restante do mundo? E essa dificuldade não foi em grande parte superada nos tempos modernos? De qualquer modo, nós, ocidentais, hoje certamente nos mantemos relacionados com o que acontece para além de nossa própria órbita cultural. Você não está se esquecendo dos numerosos livros publicados na Europa e na América, no último quarto de século, sobre a arte e a filosofia orientais, bem como sobre as correntes de pensamento político que dominam a mente dos diversos povos do Oriente? Certamente não seria justo ignorar o desejo dos ocidentais de compreender o que outras culturas podem oferecer!”

“Talvez haja alguma verdade no que você diz”, respondi. “Não há dúvida de que aquela antiga perspectiva greco-romana já não está inteiramente ativa nos dias de hoje. Sua rigidez perdeu consideravelmente o fio, e isso não por outra razão senão porque, entre os pensadores ocidentais, aqueles dotados de uma capacidade de reflexão mais amadurecida tornaram-se desiludidos e céticos em relação a muitos aspectos de sua própria civilização. Alguns deles começam a perceber que talvez não exista um único livro e uma única história do progresso humano, mas que podem existir muitos livros e muitas histórias; e isso simplesmente porque, em sentido histórico, a humanidade não é uma entidade homogênea, mas uma curiosa combinação de diferentes grupos, entre os quais existem concepções muito diversas e distantes sobre o significado e o objetivo da vida humana. Ainda assim, não creio que o mundo ocidental tenha começado a demonstrar, em relação às culturas estrangeiras, uma atitude realmente menos condescendente e paternalista do que a dos gregos e romanos; pode-se dizer que o Ocidente apenas se tornou mais tolerante. Mas lembre-se: essa tolerância não se dirige ao Islã, e sim apenas a certas culturas orientais que acrescentam uma espécie de atração espiritual para as pessoas do Ocidente atormentadas pela fome espiritual e que, ao mesmo tempo, estão tão distantes da visão de mundo ocidental que não são consideradas um verdadeiro desafio aos seus valores.”

“O que você quer dizer com isso?”

“Veja”, respondi, “quando um ocidental discute, digamos, o hinduísmo ou o budismo, ele invariavelmente se mantém consciente das diferenças fundamentais entre essas doutrinas e as suas próprias. Pode apreciar isto ou aquilo nessas doutrinas, mas naturalmente jamais estará disposto a considerar a possibilidade de adotá-las em lugar de suas próprias ideias. Como já admite de antemão essa impossibilidade, pode refletir sobre essas culturas estrangeiras com serenidade mental e, frequentemente, com uma atitude de compreensão simpática. Mas, quando se trata do Islã, que, ao contrário das filosofias hindu ou budista, não se opõe de modo algum, na mesma medida, aos valores ocidentais, essa serenidade ocidental quase sempre e inevitavelmente se vê perturbada por um preconceito emocional. Será que a razão não é, como às vezes penso com espanto, precisamente o fato de os valores islâmicos serem tão próximos dos valores ocidentais, constituindo assim um desafio implícito a muitas concepções ocidentais da vida espiritual e social?”

E comecei a falar-lhe de uma teoria que me ocorrera alguns anos antes; uma teoria que, a meu ver, também poderia ajudar a esclarecer a profunda hostilidade arraigada contra o Islã que frequentemente se encontra na literatura ocidental e no pensamento contemporâneo.

‘Para encontrar uma explicação verdadeiramente convincente para esse ódio’, disse eu, ‘é preciso olhar muito para trás, para dentro da história — e tentar compreender o contexto psicológico das primeiras relações entre o Ocidente e o mundo muçulmano. As raízes do que os ocidentais hoje pensam e sentem em relação ao Islã encontram-se na pressão de profundas influências e nas marcas das lembranças que nasceram na época das Cruzadas’.

‘As Cruzadas!’, exclamou meu amigo, com voz surpresa. ‘Você certamente não quer dizer que algo ocorrido há quase mil anos ainda possa exercer influência sobre as pessoas deste século XX?’

‘Mas é claro que exerce. Sei que isso parecerá inacreditável. Mas você não se lembra com que incredulidade foram recebidas as primeiras descobertas dos psicanalistas, quando eles tentavam provar que grande parte da vida emocional de um adulto — e quase todas as tendências, gostos e preconceitos aparentemente sem sentido contidos na palavra “idiossincrasias”, ou “humores e disposições particulares” — podia ter sua origem encontrada nas diversas experiências da primeira infância, o período mais formativo de sua vida? Ora, o que são as raças e as civilizações senão indivíduos coletivos? Sua evolução também está intimamente ligada às experiências de sua primeira infância. Tal como no caso das crianças, essas experiências da infância podem ter sido agradáveis ou dolorosas; podem ter sido inteiramente razoáveis ou, pelo contrário, resultado de uma interpretação infantil e ingênua de algum acontecimento. A capacidade de cada uma dessas experiências de transformar a mente depende sobretudo da intensidade com que foi vivida no início. O século imediatamente anterior às Cruzadas — isto é, o período que encerrou o primeiro milênio da era cristã — pode facilmente ser descrito como a primeira infância da civilização ocidental…’

Recordo ao meu amigo — ele próprio um historiador — que foi essa a época em que, pela primeira vez após os séculos sombrios que se seguiram à desintegração do Império Romano, a Europa começou a vislumbrar seu próprio caminho cultural. Sem manter qualquer relação com a tradição romana, quase esquecida, foi precisamente então que começaram a surgir novas literaturas nas diversas línguas maternas dos povos europeus; as belas-artes, recuperando-se do abatimento mental causado pelas migrações, com espírito guerreiro, de godos, hunos e ávaros de um lugar para outro, começaram gradualmente a ganhar vida sob a inspiração da experiência religiosa do cristianismo ocidental. Em meio à imaturidade do início da Idade Média, nascia um novo mundo cultural. Justamente nesse momento decisivo, quando se encontrava no ponto mais delicado e sensível de seu desenvolvimento, a Europa recebeu das Cruzadas o golpe mais violento de sua vida — aquilo que, na linguagem moderna, se chama “trauma”, ou lesão emocional, capaz de se tornar causa de uma doença mental…

As Cruzadas foram uma tremenda pressão coletiva sobre uma civilização que apenas começava a adquirir consciência de si mesma. Historicamente falando, as guerras das Cruzadas constituíram a primeira tentativa da Europa, e uma tentativa inteiramente bem-sucedida, de contemplar a si mesma à luz da coesão cultural. Antes ou depois da Primeira Cruzada, a Europa jamais viveu uma experiência comparável ao entusiasmo e à exaltação que ela suscitou. Uma poderosa onda de loucura atravessou o continente europeu — uma alegria e uma euforia que, pela primeira vez, ultrapassaram todas as barreiras entre os diversos Estados, tribos e classes. Antes disso, havia francos, saxões, alemães, burgúndios, sicilianos, normandos e lombardos — uma mistura de tribos e povos entre os quais quase nada era comum, salvo uma coisa: quase todos os seus reinos e províncias feudais eram os restos do Império Romano, e todos professavam a fé cristã. Mas, nas guerras das Cruzadas e por meio delas, esse vínculo religioso foi elevado a um novo plano, que constituía o objetivo comum de todos os europeus: a concepção político-religiosa do “Reino Cristão”. Foi isso, afinal, que deu origem a uma consciência cultural baseada na Europa. Quando, em novembro de 1095, o papa Urbano II, em seu famoso discurso de Clermont, incitou os cristãos a guerrear contra a “nação pagã” que ocupava a Terra Santa, provavelmente proclamou, sem se dar conta, a carta constitutiva da civilização ocidental.

A experiência do tremendo trauma emocional causado pelas guerras das Cruzadas foi o que deu à Europa sua consciência cultural e sua unidade; mas, no fim, essa mesma experiência passou a aplicar sobre o Islã aquela camada de falsa cor com a qual ele posteriormente apareceu aos olhos dos ocidentais — não apenas porque as Cruzadas significavam guerra e derramamento de sangue. Quantas guerras semelhantes não ocorreram entre diferentes povos, guerras que esses mesmos povos mais tarde esqueceram completamente — e quantas hostilidades e inimizades que lhes pareceram, em determinado momento, irreconciliáveis não se transformaram depois em amizade! O dano causado pelas diversas Cruzadas não se limitou ao choque das armas: antes de tudo, foi um dano psicológico — o envenenamento da mente ocidental contra o mundo muçulmano por meio de uma interpretação deliberadamente falsa dos ensinamentos e ideais do Islã. Pois, para manter a justificativa do apelo às Cruzadas, era indispensável identificar o profeta dos muçulmanos como o Anticristo e retratar sua religião nos termos mais abjetos, como fonte de libertinagem e de gosto pervertido. Foi durante a época das Cruzadas que entrou na mente ocidental a ideia absurda de que o Islã era uma religião de pura sensualidade e de conflitos brutais, não uma religião de purificação do espírito, mas de observância de rituais; e foi ali que essa ideia permaneceu desde então. Naquele período, os europeus transformaram o nome do profeta Maomé — o mesmo Maomé que ordenara à sua comunidade que respeitasse os profetas de outras religiões — em “Maomé”, uma designação pronunciada com ódio e desprezo. A época em que a investigação livre começou na Europa ainda estava muito distante. Para as forças então existentes, era muito fácil semear as negras sementes do ódio e da hostilidade contra uma religião e uma civilização completamente diferentes da religião e da civilização ocidentais. Portanto, não é acidental que, enquanto essas guerras estavam em curso, a ardente Canção de Rolando — que narra a fantástica vitória do reino cristão sobre os muçulmanos infiéis do sul da França — não tenha sido composta, mas sim três séculos depois, isto é, precisamente pouco antes da Primeira Cruzada; e também não é acidental que o épico sobre essa guerra tenha constituído o início de uma literatura “europeia”, claramente distinta da literatura regional anterior: sobre a infância da civilização europeia ergue-se um ódio feroz ao Islã.

Parece uma ironia da própria história que a hostilidade cultivada durante séculos no Ocidente contra o Islã, originalmente religiosa, ainda persista no seu subconsciente justamente numa época em que a religião perdeu quase toda a sua autoridade sobre a imaginação do homem ocidental. Naturalmente, isso não é, na verdade, surpreendente. Sabemos que as crenças religiosas inculcadas no homem durante a infância permanecem por toda a vida — “E foi exatamente isso”, concluo minha exposição, “que aconteceu com a personalidade coletiva da civilização ocidental. A sombra das Cruzadas ainda se estende sobre a civilização ocidental; e, em todas as suas reações para com o Islã e o mundo muçulmano, há sinais evidentes desse fantasma que, embora morto, não morre…”

Meu amigo permanece calado por alguns instantes. Ainda consigo ver aquele homem alto e esguio caminhando de um lado para o outro dentro do compartimento. Mantém as duas mãos nos bolsos do casaco e abana a cabeça, como se estivesse um tanto perplexo; por fim, diz:

“Pode haver algum fundamento no que você está dizendo — talvez haja mesmo —, embora eu não esteja em condições de, neste momento, avaliar a sua teoria. Seja como for, a sua vida, que para você é tão simples e livre de complicações, deve parecer absolutamente extraordinária e insólita aos ocidentais, não? Por que você não escreve a sua autobiografia? Tenho certeza de que seria um livro muito fascinante e interessante.”

Respondo, rindo em voz alta: “Sim, talvez, ao escrever um livro desse tipo, eu pudesse me preparar para abandonar o serviço exterior. Afinal, escrever é a minha profissão principal…”

A resposta que eu dera em tom de brincadeira foi-se dissipando lentamente, ao longo das semanas e dos meses seguintes, sem que eu percebesse. Comecei a pensar seriamente em registrar a história da minha vida e, com isso, ajudar, por pouco que fosse, a afastar a espessa cortina que o espírito ocidental interpôs entre o Islã e a sua cultura. Minha entrada no Islã foi, sob muitos aspectos, algo singular e incomparável: não me tornei muçulmano por ter vivido durante muito tempo entre muçulmanos; ao contrário, decidi viver entre eles porque havia abraçado o Islã. Não poderia eu contribuir mais para o entendimento mútuo entre o mundo islâmico e o mundo ocidental dando aos leitores ocidentais conhecimento da minha experiência pessoal, absolutamente própria, do que poderia fazê-lo ocupando um posto diplomático — posto que poderia ser preenchido com igual competência por qualquer outro cidadão do meu país? Em suma, qualquer homem inteligente pode ser ministro do Paquistão junto às Nações Unidas — mas quantos são capazes de falar aos ocidentais sobre o Islã da maneira como eu posso fazê-lo? Sou muçulmano, mas também é verdade que nasci no mundo ocidental; por isso, posso falar na linguagem dos instruídos de ambos os mundos, o islâmico e o ocidental…

E foi por essa razão que, no final de 1952, renunciei ao Serviço Exterior do Paquistão e comecei a escrever este livro. Não posso dizer se ele se tornou o “livro fascinante” que meu amigo americano esperava. Com a ajuda apenas de algumas notas antigas, diários fragmentários e alguns dos artigos que eu havia escrito para jornais naquela época, nada mais me restava senão empreender, a partir da memória, uma viagem de volta ao passado, seguindo as complexas linhas de um desenvolvimento e de uma evolução que se estenderam por muitos anos e por uma vasta extensão geográfica.

E esta é a história: não a história de toda a minha vida, mas apenas a daqueles anos — os anos anteriores à minha partida da Arábia a caminho da Índia —, aqueles anos emocionantes que passei viajando por quase todos os países situados entre o deserto da Líbia e os picos cobertos de neve do planalto do Pamir, e entre o Bósforo e o mar da Arábia. Esta história é contada tendo como pano de fundo — e é preciso lembrar disso — a minha última viagem pelo deserto, de dentro da Arábia até Meca, no final do verão de 1932; pois foi durante aqueles vinte e três dias que o padrão da minha vida se tornou inteiramente claro para mim.

A Arábia descrita nas páginas seguintes já não existe. Sua solidão e sua coesão desmoronaram de repente sob o impacto violento do petróleo, jorrado com força avassaladora, e sob o peso do ouro que ele trouxe. Sua nobre simplicidade desapareceu e, com ela, também desapareceu aquele aspecto singular e incomparável de sua humanidade. Quando alguém sente dor por algo precioso que se perdeu para sempre e que nunca mais poderá ser recuperado, é com essa dor que me lembro daquela última e longa jornada pelo deserto — quando nós dois, cavalgando, seguíamos adiante; e seguíamos, os dois sobre dois camelos, através da luz que fluía…”

 

Sede

Um

Nós dois, montados em dois camelos, seguimos, simplesmente seguimos; o sol arde sobre nossas cabeças, tudo brilha e crepita sob a luz, e por toda parte há solidão e silêncio queimado pelo sol — e através de tudo isso avançamos, dois homens sobre dois camelos, balançando-nos no ritmo e no movimento da marcha, que entorpecem o homem e o fazem esquecer o dia, o sol, o vento quente e a longa estrada. Aqui e ali, no alto das dunas, há tufos de capim amarelado e, espalhados por toda parte, moitas de hamd nodoso, enroscadas sobre a areia como enormes pítons. Meus sentidos parecem adormecidos. Balanço-me sentado na sela. Não sinto nada, nem o ruído da areia sendo triturada sob os pés do camelo, nem o atrito dos pregos de madeira que prendem a sela contra a parte interna dos meus joelhos. Para proteger o rosto do sol e do vento, cubro-o com uma ponta do meu turbante. Tive a impressão de estar atravessando a minha própria solidão como se ela fosse uma coisa, uma substância tangível, sim, atravessando-a justamente em direção aos poços de Taima… em direção àqueles profundos poços de Taima, que fornecem água aos sedentos… exatamente através do Nufud, em direção a Taima — ouvi uma voz, não sei se uma voz ouvida em sonho ou a voz do meu companheiro:

— Você estava dizendo alguma coisa, Zayed?

— Estava — respondeu meu companheiro. — Pouquíssimas pessoas teriam a ousadia de atravessar o Nufud em linha reta, apenas para ver os poços de Taima.

Eu e Zayed tínhamos ido a Qasr Asaymin, na fronteira entre Najd e o Iraque, a pedido do rei Ibn Saud. De lá, nós dois estávamos voltando. Depois de concluir meu trabalho, eu dispunha de muito tempo livre. Por isso decidi visitar o remoto e antigo oásis de Taima, situado cerca de duzentas milhas a sudoeste. Era a “Tema” do Antigo Testamento — aquela sobre a qual Isaías disse: “Os habitantes de Tema levam água aos sedentos”. Em toda a Arábia não se encontram águas tão abundantes nem poços tão grandes quanto os de Taima. Por causa dessa água e desses poços, Taima havia se tornado, na época pré-islâmica, um importantíssimo centro do comércio de caravanas e um santuário da antiga civilização árabe. Há muito eu desejava conhecer o lugar. Assim, em vez de seguir as rotas tortuosas usadas pelas caravanas do deserto, entramos diretamente no vasto Nufud, partindo de Qasr Asaymin. Entre as regiões elevadas da Arábia central e o deserto sírio estende-se o Nufud, um imenso deserto de areia avermelhada. Nesta parte daquela terrível região desolada não há pegadas, nem caminhos. O vento parece ter assumido a responsabilidade de impedir que os passos de homens ou animais deixem marcas permanentes naquela areia macia, cedente e solta, e de fazer com que nenhum marco do terreno permaneça por muito tempo para orientar o viajante! Sob o impacto do vento, os contornos das dunas mudam incessantemente; elas fluem devagar, num movimento tão suave que mal se percebe, assumindo forma após forma. Montanhas transformam-se em vales, vales… o vale assume uma nova forma e produz um suave e novo murmúrio. Até na boca do camelo esse capim tem gosto de cinza amarga!

Atravessei este deserto muitas vezes. Ainda assim, não tenho coragem de encontrar sozinho o caminho através dele, sem a ajuda de alguém. Por isso fiquei imensamente feliz por ter Zayed comigo. Zayed é natural desta região do país. O nome de sua linhagem é Shammar; os membros da família Shammar vivem ao sul e a leste dos limites do Nufud. Quando as dunas se transformam subitamente em densos campos verdes depois das chuvas torrenciais, eles pastoreiam camelos no meio do Nufud durante alguns meses do ano. A relação de Zayed com o humor mutável do deserto é de sangue; o coração de Zayed pulsa em sintonia com ele.

De todas as pessoas que conheci até hoje, parece-me que Zayed é a mais bela. Tem a testa larga, o corpo esguio, estatura mediana, belas proporções, uma força extraordinária, maxilares firmes e bem formados e um rosto estreito, cor de trigo, de expressão ao mesmo tempo severa e sensual. Nele há aquela gravidade esperada, característica especial dos habitantes da Arábia desértica — uma atitude de recolhimento, sincera e doce, aliada ao senso de dignidade. Ele é uma bela combinação de sangue beduíno e vida urbana de Najd; embora livre dos defeitos da exuberância beduína, conserva intacta em si a segurança dos instintos simples do beduíno e, sem cair vítima da artificialidade materialista dos habitantes das cidades, adquiriu deles o conhecimento prático da vida doméstica. Como eu, ele também leva uma vida de aventuras, repleta de acontecimentos e emoções. Durante a Grande Guerra, o governo turco formou uma força irregular de cavaleiros de camelo para operar na Península do Sinai, e Zayed, ainda menino, foi um de seus soldados. Além disso, lutou para defender as terras de sua família Shammar dos ataques de Ibn Saud. Durante algum tempo, também contrabandeou armas no Golfo Pérsico. Amou apaixonadamente muitas mulheres em muitas regiões do mundo árabe. Naturalmente, em algum momento, casou-se legalmente com cada uma delas e depois também se divorciou delas conforme a lei. No Egito, negociou cavalos durante algum tempo. No Iraque, foi um soldado aventureiro em busca de fortuna; por fim, há quase cinco anos é meu companheiro na Arábia. E agora, neste fim do verão de 1932, nós dois seguimos, como tantas outras vezes, montados em camelos, vagando por caminhos solitários entre as dunas; paramos junto a alguns poços de amplos pátios e descansamos à noite sob o céu cintilante de estrelas. Sobre a areia quente ouve-se o suave sussurro dos pés dos camelos; às vezes, durante a marcha, acompanhando o compasso das passadas, Zayed entoa uma canção com voz monótona. À noite armamos a tenda, preparamos café, cozinhamos arroz e, às vezes, assamos a carne de animais selvagens caçados. À noite, quando estamos deitados sobre a areia, o vento passa sobre nós com um toque frio. O sol nasce sobre as dunas; o sol avermelhado fragmenta-se numa explosão violenta, como fogos de artifício, e, como hoje, às vezes vemos a manifestação maravilhosa da vida surgir entre as ervas assim que encontram água.

Paramos para a salat do meio-dia, e, tirando água de um odre, lavo as mãos, o rosto e os pés. Algumas gotas escorrem sobre um tufo seco de capim junto aos meus pés — um pequeno e indefeso tufo de erva, amarelado pelo calor cruel do sol, vergado e sem vida sobre a areia. Mas, assim que algumas gotas caem sobre ele, um estranho arrepio percorre suas folhas encaracoladas; vejo claramente como elas se abrem diante dos meus olhos. Mais algumas gotas… As folhinhas se movem, encolhem-se e depois, lentamente, como que estremecendo de pudor, endireitam-se. Prendo a respiração e despejo mais um pouco de água sobre o tufo. A erva se agita com mais rapidez e intensidade, como se uma força invisível a empurrasse para fora do torpor da morte e a despertasse. E suas folhas — que visão de alegria! Começam a se contrair e a se expandir como braços de peixe, como se, numa tímida mas indomável excitação, estivessem tomadas por uma verdadeira explosão momentânea de prazer dos sentidos. Aquilo que, poucos instantes antes, parecia morto recupera assim a vida, abertamente, vigorosamente; uma vida diante da qual a morte se rende e cuja riqueza é inacessível à inteligência humana.

No deserto, você sentirá sempre a vida em sua forma régia. Como é tão difícil, tão árduo, manter a vida, no deserto ela parece ser sempre uma bênção, um tesouro, um prodígio. E o deserto está sempre pronto a maravilhar o ser humano. Mesmo depois de muitos anos de convivência com o deserto, há constantemente espaço para o espanto. Às vezes, quando parece que o deserto está diante de nossos olhos com toda a sua dureza e seu vazio, ele como que desperta do sonho, começa a respirar e, onde ontem não havia senão areia e fragmentos de pedra, vemos de repente surgir uma relva tenra, verde-pálida. O sopro do deserto começa novamente a passar, e um bando de passarinhos principia a voar pelo ar, batendo as asas. De onde vieram, para onde irão esses pássaros esmeralda, de corpo esguio e asas longas? Ou talvez um enxame de gafanhotos se erga de repente para o céu, em velocidade feroz e com um zumbido, cinzento e faminto, feroz e interminável como um exército de guerreiros…

A manifestação da vida em sua forma régia: justamente porque a vida é rara no deserto, sua forma régia é sempre espantosa, sempre surpreendente; e é aí que reside toda a fragrância inominada deste deserto arenoso da Arábia e de tantas outras paisagens mutáveis!

Às vezes, o caminho passa por solo de lava — negro e irregular —, outras vezes por dunas sem fim. Um uádi, ou vale coberto de arbustos espinhosos, entre duas montanhas rochosas; e, de vez em quando, um coelho assustado salta de repente desses arbustos e atravessa o nosso caminho de um lado ao outro. Às vezes encontramos areia solta marcada pelas pegadas de gazelas e duas ou três pedras enegrecidas pelo fogo, sobre as quais, há muito, muito tempo, viajantes perdidos no ventre do esquecimento cozinharam sua comida num dia esquecido. Às vezes avistamos uma aldeia sombreada por uma alameda de tamareiras, e as rodas de madeira giram sobre o poço, produzindo uma espécie de música… E os viajantes escutam essa música contínua. Às vezes encontramos um poço no meio de um vale desértico, e ao redor dele pastores beduínos se aglomeram para dar de beber às suas ovelhas e aos seus camelos sedentos. Cantando em coro, puxam a água em grandes bolsas de couro e, assim que a água é despejada com um jorro nos recipientes de couro, a excitação dos animais chega ao auge. Sobre tudo isso paira a solidão da estepe, dominada pelo sol inclemente; aqui e ali, a relva amarelada e os arbustos de folhagem densa, que se arrastam pelo chão como serpentes, espalhando seus galhos, transformam alguns lugares em pastagens acolhedoras para os camelos. Talvez uma solitária árvore de acácia esteja de pé, estendendo os galhos pelo céu azul de aço. Entre montes de terra e pedras, lançando olhares para a direita e para a esquerda, surge um lagarto dourado; depois desaparece novamente como uma sombra, como uma aparição fantasmagórica. Dizem que esse lagarto dourado nunca bebe água. No fundo de uma depressão, erguem-se as tendas negras de tecido e lã! Ao entardecer, talvez um rebanho de camelos seja conduzido de volta para casa, enquanto os pastores cavalgam os dorsos nus dos camelos jovens. Quando chamam seus animais, o silêncio do deserto parece sorver-lhes a voz, e ela desaparece nesse silêncio sem despertar eco algum.

Às vezes, no horizonte distante, veem-se sombras levemente luminosas — serão nuvens? Flutuam baixo. Sua cor e sua posição mudam constantemente. Neste momento, talvez pareçam montanhas cinzento-acobreadas — naturalmente, um pouco acima do horizonte vazio —, e no instante seguinte assumem, para o mundo inteiro, a forma de uma alameda sombreada de cedros rochosos — mas suspensa no vazio. Depois, quando descem lentamente e se transformam em lagos e rios correntes, e os reflexos de montanhas e árvores tremulam na água que acena para você, de repente você reconhece o que são! São o aceno dos gênios — aquela miragem que tantas vezes despertou falsas esperanças no coração dos viajantes e, com isso, os conduziu à ruína; e, involuntariamente, a mão do viajante então se estende para o odre sobre o camelo…

Algumas noites estão repletas de perigos de outra natureza. Então há tensão e agitação de guerra entre as diversas tribos; o viajante arma sua tenda, mas não acende fogo, para que ninguém possa vê-los de longe. Mantendo o rifle entre os dois joelhos, permanecem acordados hora após hora. E há aqueles dias de paz, quando, depois de percorrer longas estradas solitárias, o viajante encontra uma caravana e, ao cair da tarde, escuta atentamente a conversa dos homens sérios, queimados pelo sol, sentados ao redor do fogo da tenda — eles falam da vida e da morte, da fome e da saciedade, do orgulho, do amor e do ódio, da luxúria do corpo e da satisfação dessa luxúria, da guerra e das coisas simples e grandiosas das alamedas de tamareiras das aldeias distantes; e você jamais os ouvirá falando bobagens, pois no deserto ninguém pode falar bobagens…

E você compreenderá a exigência da vida nos dias de sede, quando a língua, seca como um pedaço de madeira, fica colada ao palato e nenhuma mensagem de libertação chega do horizonte; em vez disso, chega o ardente simum do deserto e a tempestade de areia que gira. Em dias ainda mais diferentes, talvez você seja hóspede numa tenda beduína; os homens lhe trarão recipientes cheios de leite — leite de camelas gordas e robustas no começo da primavera, quando, depois das chuvas torrenciais, a estepe e as dunas ficam verdes como jardins, e as ancas dos animais se tornam arredondadas e pesadas. De um lado da tenda, você ouvirá as mulheres, em sua honra, cozinhando carneiro sobre o fogo aberto e rindo alto.

O sol desaparece por trás das montanhas, como um metal rubro. Aqui, o céu noturno, cintilante de estrelas, é mais grandioso que em qualquer outro lugar da Terra, e, sob essas estrelas, seu sono é profundo e sem sonhos; as manhãs são de um cinza pálido e suavemente frias, e as noites frias de inverno, com o vento que faz tremer os ossos açoitando o fogo da tenda, ao redor do qual você e seus companheiros se apertam para obter um pouco de calor. E os dias de verão são abrasadores, quando você viaja sentado no dorso do seu camelo que avança balançando-se, durante horas e horas, como se viajasse por toda a eternidade; bem acima de você, uma ave de rapina gira e dá voltas, para proteger seu rosto do vento escaldante…

Dois

A tarde vai passando lentamente, com suas dunas, seu silêncio e sua solidão. Depois de algum tempo, a solidão é rompida por um grupo de beduínos. São quatro ou cinco homens e duas mulheres. Todos montam camelos. Sobre o dorso de um animal de carga levam sua tenda negra dobrada, utensílios de cozinha e todos os demais apetrechos da vida beduína. Duas crianças estão sentadas sobre um monte de objetos. O grupo atravessava nosso caminho. Quando se aproximam bastante de nós, puxam as rédeas dos animais e dizem:

—«As-salamu alaykum — que a paz esteja sobre vocês.» Respondemos: «E sobre vocês também esteja a paz, e estejam sobre vocês as Suas bênçãos.»

—«Para onde vocês vão, viajantes?»

—«Inshallah, Tayma.»

—«De onde vocês vêm?»

—«Qasr — de Asaymin», respondo. Depois, todos ficam em silêncio. Entre eles há um homem idoso, magro, de rosto afilado e penetrante, e barba negra e pontuda. Não há dúvida de que é o líder deles. Seu olhar tornou-se ainda mais afiado e penetrante quando, vindo de Zayd, fixou-se desconfiadamente em mim — um estrangeiro de pele clara. Eu apareci de repente, do nada, inesperadamente, neste ermo desolado e sem caminhos — venho da direção do Iraque ocupado pelos britânicos. Talvez eu seja um (A mão do homem de rosto afilado parece brincar, aturdida, com a parte dianteira de sua sela. Enquanto isso, seus companheiros esperam ao nosso redor, espaçados. Afinal, como chefe do grupo, é ele quem deve falar. Depois de alguns momentos, pareceu que já não conseguia suportar aquele silêncio e perguntou-me:

—De que árabes você é? —isto é, queria saber de que tribo ou região eu era. Mas, antes que eu pudesse responder, ele me reconheceu, e seu rosto se iluminou com uma súbita gargalhada.

—Ah, agora consigo reconhecê-lo. Vi você com Abdul Aziz. Mas isso foi há muito tempo —há exatos quatro anos, não foi?

Ele estendeu para mim a mão cheia de amizade. Depois falou daquele tempo em que eu vivia na cidadela real de Riade —e em que ele havia chegado com um grupo de chefes do clã dos Shammar para prestar homenagem à tribo de Ibn Saud. Os beduínos sempre chamam Ibn Saud pelo seu primeiro nome, “Abdul Aziz”. Não acrescentam ao seu nome nenhum título honorífico formal, pois os beduínos são homens livres. Para eles, o rei é simplesmente um homem —certamente digno de respeito, mas não de mais do que um homem merece. Assim, por algum tempo, tornamos vivos, com a ajuda da memória, aqueles dias desaparecidos, falando ora disto, ora daquilo. Ele contava uma história sobre Riade, e eu contava outra —essa Riade dentro e fora da qual, todos os dias, mil hóspedes viviam às custas do rei e, ao partir, recebiam presentes conforme a dignidade de cada um: desde um punhado de moedas de prata ou uma abaya até sacos cheios de moedas de ouro, cavalos ou camelos, que o rei frequentemente dava aos chefes.

Mas a magnanimidade do rei era muito mais do coração do que do dinheiro. Talvez fosse sobretudo pelo calor de seus sentimentos que todos ao seu redor o amavam —e eu também o amo.

Durante os anos que passei na Arábia, a amizade de Ibn Saud sempre se derramou sobre minha vida como o brilho de uma luz cálida. Ele me chama de amigo, embora seja um rei e eu apenas um jornalista. Não é simplesmente porque, durante os anos que passei em seu reino, recebi sempre sua amizade em abundância que o amo. Pois ele distribui sua amizade a muitas pessoas. Chamo-o de meu amigo porque, assim como abre sua bolsa para muitos homens, às vezes também abre seu coração para mim. Gosto de chamá-lo de meu amigo porque, apesar de todos os seus defeitos —e quem não os tem?—, ele é um homem excepcionalmente nobre; não exatamente “bondoso”, pois a bondade pode, às vezes, tornar-se uma coisa barata quando existe por si só. Ao contemplar uma velha espada de Damasco, você diz, maravilhado: sim, esta é uma arma “excelente”, pois há nela tudo o que se pode desejar de uma arma; exatamente assim considero Ibn Saud um homem nobre. Ele é fechado em si mesmo e segue sempre o próprio caminho; e, se frequentemente erra em seus atos e empreendimentos, é também porque nunca deseja ser outra coisa senão aquilo que é.

Meu primeiro encontro com o rei Abdul Aziz ocorreu em Meca, no início de 1927, poucos meses depois de eu abraçar o Islã.

Minha esposa —que me acompanhara em minha primeira peregrinação a Meca— havia morrido recentemente de maneira súbita, e isso me deixara melancólico; eu me tornara antissocial. Esforçava-me desesperadamente para libertar-me da escuridão, do mais extremo desespero. Passava a maior parte do tempo em meu quarto. Naquela época, mantinha contato com apenas algumas pessoas e, havia várias semanas, vinha evitando até mesmo as visitas de cortesia habituais ao rei. Então, certo dia, ao visitar um dos hóspedes estrangeiros do rei Ibn Saud —o haji Agus Salim, da Indonésia—, soube que, por ordem do rei, meu nome também fora incluído na lista de seus hóspedes. Parece que ele havia compreendido a razão do meu silêncio e o aceitara com silenciosa benevolência. Assim, como hóspede —um hóspede que até então não tivera sequer uma única vez a sorte de ver o rosto de seu anfitrião—, cheguei a uma bela casa na extremidade sul de Meca, perto de um desfiladeiro rochoso. Era por esse desfiladeiro que passava a estrada para o Iêmen. Do pátio, eu podia ver grande parte da cidade —os minaretes da Grande Mesquita, fileiras de milhares de casas com telhados de tijolos coloridos e as montanhas desérticas, sem vida, sobre as quais se erguia o céu como uma cúpula, um céu que brilhava como metal líquido.

Ainda assim, talvez eu tivesse continuado adiando meu encontro com o rei se, por acaso, não tivesse encontrado seu segundo filho, o príncipe Faisal, numa biblioteca situada na varanda da Grande Mesquita. Sentar-me naquela longa e estreita sala, cercado por antigos livros e manuscritos árabes, persas e turcos, era uma alegria; a imobilidade e a escuridão da sala enchiam-me de uma paz extraordinária. Naturalmente, um dia aquele silêncio habitual foi rompido pela presença ruidosa de um grupo de pessoas. À frente do grupo iam guarda-costas armados. O príncipe Faisal atravessava a biblioteca com seus acompanhantes. Era alto e magro, e muito mais digno do que sua pouca idade e seu rosto imberbe poderiam fazer supor. Embora ainda fosse jovem, seu pai lhe confiara, logo após a conquista do Hijaz, dois anos antes, a pesada responsabilidade de representá-lo no Hijaz (em Najd, o representante do rei era o irmão mais velho de Faisal, o príncipe Saud —embora o próprio rei passasse metade do ano em Meca, a capital do Hijaz, e o restante em Riade, a capital de Najd).

O diretor da biblioteca era um jovem erudito de Meca. Eu era seu amigo havia algum tempo. Foi ele quem me apresentou ao príncipe.

Faisal apertou minha mão e, quando inclinei a cabeça diante dele, empurrou-a delicadamente para trás com a ponta dos dedos; seu rosto irradiou um sorriso cordial.

Ele disse: «Nós, o povo de Najd, não acreditamos que um homem deva inclinar a cabeça diante de outro! Ele só deve inclinar a cabeça diante de Deus, para realizar a salat.

O príncipe me pareceu bondoso, sonhador e um tanto sério e tímido. Essa impressão que tive dele tornou-se ainda mais sólida nos últimos anos de nosso convívio. A nobreza de seus modos não era artificial; parecia jorrar de dentro dele, irradiando-se. Naquele dia, enquanto conversávamos, senti de repente um desejo intenso de conhecer o pai daquele filho.

— O rei ficará muito feliz em vê-lo — disse o emir Faisal. — Por que o está evitando?

No dia seguinte, o secretário do emir levou-me de automóvel ao palácio do rei. Seguíamos pela rua do mercado de Al-Ma’ala, avançando lentamente por entre a multidão e o alvoroço de camelos, beduínos e leiloeiros. Os leiloeiros vendiam tudo de que os beduínos necessitavam: selas de camelo, abaias, tapetes, espadas com trabalho de prata, tendas e cafeteiras de latão. Depois de passar por eles, saímos para uma estrada mais larga, silenciosa e aberta, e finalmente chegamos ao enorme palácio onde o rei residia. O espaço aberto diante do palácio fervilhava de camelos selados; alguns homens armados estavam numa sala com arcos, cujo chão era coberto por tapetes baratos, junto às paredes havia longos divãs cobertos de tecido cáqui, e entre as frestas das janelas viam-se folhas verdes: era o começo de um jardim que estava sendo cultivado com enorme dificuldade no solo de Meca.

Um servo negro veio apresentar-se: «O rei o convidou.»

Entrei numa sala semelhante àquela de onde acabara de sair. A diferença era que a sala era menor e mais leve, embora um de seus lados fosse completamente aberto para o jardim. O chão estava coberto por um caro tapete persa; junto a uma janela rendilhada aberta para o jardim, o rei estava sentado no divã, com as pernas cruzadas. O secretário estava sentado no chão, aos pés dele, tomando seu ditado. Quando entrei, o rei levantou-se e, estendendo as duas mãos, disse: «Ahlan wa sahlan» — «Esta é a sua casa; fique à vontade.»

O significado desta saudação é: “Agora você entrou na sua própria família; que possa colocar seu assento num lugar confortável”: esta forma de expressar as boas-vindas é o mais antigo e o mais belo costume árabe.

Por um momento, contemplei maravilhado a estatura imensa do rei Ibn Saud. Quando — a essa altura eu já me familiarizara com os costumes najdianos — beijei delicadamente a ponta de seu nariz e sua testa, tive de me apoiar na ponta dos pés, embora eu tivesse um metro e oitenta de altura, enquanto o rei precisou inclinar-se, baixando a cabeça, em minha direção. Em seguida, lançou ao secretário um olhar de desculpa, sentou-se no diwan e fez com que eu me sentasse ao seu lado:

— Um minuto, estou quase terminando a carta.

Enquanto continuava a ditar calmamente, ele também começou a conversar comigo — e, nem uma única vez, as duas coisas se confundiram. Depois de algumas frases formais, entreguei-lhe uma carta de apresentação. Ele a leu — isto é, continuou realizando três tarefas ao mesmo tempo — e então, sem interromper o ditado nem deixar de perguntar por meu estado, ordenou que trouxessem café.

Nesse meio-tempo, tive a oportunidade de observá-lo mais de perto. Seu corpo era tão bem proporcionado e a disposição de seus membros tão harmoniosa que sua enorme estatura — ele certamente tinha pelo menos dois metros — só se percebia quando ficava de pé. Com o rosto emoldurado pelo tradicional kufiya xadrez azul e branco e o igal trabalhado em fios dourados sobre a cabeça, sua fisionomia era intensamente máscula. Segundo a moda najdiana, mantinha a barba e o bigode aparados e curtos. Tinha a testa larga, o nariz forte e proeminente, semelhante ao bico de uma águia; seu rosto cheio, embora não fosse suave, às vezes parecia absolutamente feminino por causa de uma timidez sensual. Quando falava, seu rosto ganhava vida com o movimento extraordinário dos músculos faciais; mas, quando se calava, sua face parecia de algum modo triste — como se tivesse retornado à solidão de seu íntimo. A posição profunda dos olhos do rei talvez contribuísse um pouco para isso. A visão turva do olho esquerdo prejudicava um pouco a beleza extraordinária de seu rosto! Parecia haver um véu sobre o olho do rei. Mais tarde vim a conhecer a história desse sofrimento, embora a maioria das pessoas, sem saber, dissesse que o olho esquerdo do rei havia ficado assim naturalmente; na verdade, porém, o acontecimento ocorrera em circunstâncias trágicas.

Alguns anos antes, uma de suas esposas, instigada pela família de Ibn al-Rashid, rival do rei, havia colocado veneno num frasco de perfume com o claro propósito de matar o rei. Frascos de perfume de latão desse tipo são usados em Najd nas reuniões cerimoniais. Segundo o costume, antes de o frasco ser colocado diante dos convidados do rei, ele é primeiro oferecido ao próprio rei. Ao sentir o aroma pela primeira vez, Ibn Saud percebeu imediatamente que havia algo estranho nele — e atirou o frasco ao chão. Sua cautela salvou-lhe a vida, mas, antes disso, seu olho esquerdo já havia sido ferido e ficara parcialmente cego. Em sua situação, muitos reis certamente teriam se vingado; mas Ibn Saud perdoou a mulher traidora em vez de vingar-se dela, pois estava firmemente convencido de que ela agira sob a influência inevitável de sua própria família, uma vez que a família dela era ligada à família de Rashid. Limitou-se a divorciar-se dela e depois a enviou, com muito ouro, prata e presentes, para Hail, sua cidade natal.

Depois daquele primeiro encontro, o rei passou a mandar chamar-me quase todos os dias. Certa manhã, fui vê-lo com um desejo. Não esperava muito que ele fosse atendido, pois eu havia pedido permissão para viajar pelo interior do país, e o rei não permite que estrangeiros comuns viajem por Najd. De todo modo, enquanto eu começava a apresentar a proposta, o rei lançou-me de repente um olhar breve, mas intenso; era um olhar que parecia penetrar diretamente no âmago dos meus pensamentos não expressos. O rei sorriu levemente e então disse: “Ó, Muhammad, você não virá comigo a Najd e permanecerá alguns meses em Riade?”

Fiquei completamente surpreso, e me pareceu que os outros presentes ali se encontravam exatamente na mesma situação que eu. Um convite tão espontâneo a um estrangeiro era algo quase inaudito.

Ele continuou: “Quero que, no próximo mês, você viaje comigo de automóvel.

Enchi o peito de ar e então disse: “Ó Imame, que Deus lhe conceda longa vida. Mas que proveito terei em viajar de automóvel? Que benefício haverá em correr de Meca a Riade em cinco ou seis dias, se não puder ver nada do seu país… além do deserto, de algumas dunas e, em algum ponto junto ao horizonte, algumas pessoas, pessoas semelhantes a sombras? Que Deus lhe conceda longa vida; para mim, um camelo será muito mais útil do que todos os seus automóveis!”

Ibn Saud riu: “Então você está ansioso para olhar nos olhos dos meus beduínos? Já o aviso de antemão: eles são muito atrasados. E o meu Négede é um deserto, sem qualquer atrativo; nesta viagem, a sela do camelo parecerá dura e a comida será escassa; não haverá nada além de arroz, tâmaras e, muito raramente, carne. Mas, seja como for, se você quer viajar montado num camelo, assim será; e talvez, no fim, depois de conhecer o meu povo, você não se arrependa: eles são pobres, nada sabem, não são nada, mas têm o coração cheio de fé simples.”

E, algumas semanas depois, parti por uma rota indireta em direção a Riade; para a viagem, o rei me deu um camelo, provisões, uma tenda e um hadi, ou guia. Levei mais de dois meses para chegar a Riade. Essa foi a minha primeira viagem pelo interior da Arábia — a primeira de muitas. Pois aqueles poucos meses de que o rei havia falado acabaram se prolongando por alguns anos; e como facilmente se transformaram em anos — anos durante os quais percorri não apenas Riade, mas quase todas as regiões da Arábia, e a sela do camelo já não me parece dura!

“Que Deus conceda longa vida a Abdulaziz”, disse o homem de rosto afilado; “ele ama os beduínos, e os beduínos o amam!” E por que não o amariam? — pergunto a mim mesmo. O rei é generoso com os beduínos do Négede, e essa ajuda é uma característica permanente de seu governo. Talvez não seja uma característica muito louvável, pois os presentes em dinheiro que o rei distribui regularmente entre os chefes das diversas tribos e seus seguidores fizeram com que eles se tornassem tão dependentes das dádivas reais que perderam o propósito de melhorar, por seus próprios esforços, as condições de sua vida e, pouco a pouco, tornaram-se mendigos, ignorantes e satisfeitos em permanecer ociosos.

Durante toda a minha conversa com o homem de rosto afilado, notei que Zayd parecia estar ficando um tanto impaciente. Enquanto falava com um deles, lançava frequentemente os olhos para mim, como se aquele olhar quisesse lembrar-me de que ainda tínhamos diante de nós um longo caminho, e que a rememoração de antigas lembranças e as reflexões sobre o passado deixado para trás não aceleravam o passo dos camelos. Despedimo-nos. Os beduínos de Shammar começaram a avançar para leste, conduzindo os camelos, e em pouco tempo desapareceram por trás das dunas. Do lugar onde estávamos, ainda podíamos ouvir um deles entoar uma melodia nômade — uma canção que cantam para aumentar o passo do camelo e afastar a monotonia da cavalgada. Quando Zayd e eu retomamos nossa rota para oeste, rumo à distante Tayma, a melodia foi desaparecendo lentamente atrás de nós, e o silêncio voltou a reinar.

Três

— “Olhe, olhe”, a voz de Zayd rompe o silêncio; “um coelho!”

Olho para o feixe de pelos grisalhos que acaba de saltar de um arbusto, e Zayed escorrega da sela, soltando a vara de madeira que pende da extremidade dela. Ele salta atrás do coelho e, justamente quando vai arremessá-la, seu pé fica preso na raiz de um “hamde”; tropeça e cai de bruços — e o coelho desaparece de vista.

—“Perdemos uma excelente refeição”, digo, sorrindo para Zayed. Zayed se recompõe e se levanta, olhando com remorso para a vara em sua própria mão.

—“Mas não fique triste por isso, Zayed; o coelho certamente não estava destinado a nós…”

—“Não, ele não estava destinado a nós”, responde, um tanto distraído. Então noto que ele também está andando com dificuldade, mancando.

—“Você se machucou, Zayed?”

—“Oh, não foi nada. Apenas torci o tornozelo. Vai melhorar em pouco tempo.”

Mas, na verdade, ele não melhorou. Depois de prosseguirmos por mais uma hora, sentados nas selas, noto algum suor no rosto de Zayed e, quando olho para seu pé, vejo que o tornozelo está completamente torcido e terrivelmente inchado.

—“Não faz sentido continuar assim, Zayed. Vamos montar a tenda aqui mesmo hoje. Uma noite de descanso fará você melhorar.”

Zaid se contorce de dor durante toda a noite. Ele se levanta muito antes da alvorada, e sua súbita agitação também me desperta do meu sono desconfortável.

—Só consigo ver um camelo —diz ele. Então, ao olharmos ao redor, descobrimos que um dos dois animais —justamente o camelo de Zaid— desapareceu. Zaid quer partir montado no meu camelo em busca do seu, mas, por causa do ferimento no pé, mal consegue ficar de pé; quanto a caminhar, montar no camelo ou descer dele, nem se fala.

—É melhor você descansar, Zaid. Eu vou no seu lugar; não terei dificuldade para voltar pelo mesmo caminho que seguirei.

E, ao nascer do sol, parto montado no meu camelo, seguindo as pegadas do camelo perdido; as marcas avançam, sinuosas, pelo vale arenoso e depois desaparecem atrás de uma duna.

Caminho durante uma hora —depois mais uma, e ainda mais uma—, mas as pegadas do animal desaparecido se estendem muito adiante quando desço do camelo por algum tempo para comer algumas tâmaras e beber um pouco de água do odre amarrado ao animal. O sol está muito alto. Mas, não sei por quê, já não tem o brilho ofuscante de antes. O que normalmente não acontece nesta época do ano: nuvens cor de ocre flutuam imóveis sob o céu; um ar extraordinariamente espesso e pesado comprime o coração do deserto, e os contornos das dunas se tornaram muito mais suaves do que costumam ser.

Um movimento estranho no alto de uma elevada duna diante de mim atrai meu olhar —é um animal? Talvez o camelo perdido! Mas, quando observo com mais atenção, percebo que o movimento não está no topo da duna, mas dentro dela. A duna começa a se mover muito devagar, avançando suavemente, sem parar, formando ondas indistintas e ondulantes; depois parece rolar pela encosta em minha direção, como o topo de uma onda que rola lentamente. Do outro lado da duna, um vermelho escuro se ergue, rastejando pelo céu. Sob esse vermelho, as linhas das dunas perdem sua nitidez e se tornam indistintas, como se de repente uma cortina tivesse sido estendida no meio; uma pálida luminosidade avermelhada do amanhecer se espalha rapidamente pelo deserto. Nuvens de areia começam a girar sobre meu rosto e ao meu redor e, de súbito, o vento atravessa o vale com golpes violentos, rasgando-o e despedaçando tudo, enquanto um rugido começa a se erguer de todos os lados. Assim como o topo da primeira duna, os cumes de todas as dunas dentro do meu campo de visão começam a se desfazer em grãos e a escorrer. Em poucos minutos, o céu adquire uma profunda cor de ferrugem, e o ar se enche de partículas de areia em turbilhão, que, como uma espessa névoa avermelhada, encobrem tanto o sol quanto o dia. Não há dúvida: é uma tempestade de areia!

O camelo, sentado de cócoras, tenta se levantar aterrorizado. A essa altura, o vento já se transformou numa tempestade. Tento me manter ereto em meio ao vento e amarro uma corda ao pescoço do camelo, fazendo-o sentar; amarro com a corda as duas patas dianteiras do animal e, para maior segurança, também uma das traseiras. Depois me estendo no chão e puxo a abaya sobre a cabeça. Para não sufocar com a areia que voa, pressiono o rosto contra a axila do camelo. Percebo que o animal também encostou o rosto no meu ombro, sem dúvida; por isso sinto a areia se acumular sobre mim do lado em que não estou protegido pelo corpo do camelo. Para não ficar completamente soterrado sob a areia, sou obrigado a mudar de posição de tempos em tempos.

Minha preocupação não é infundada, pois esta não é a primeira vez que sou surpreendido por uma tempestade de areia no deserto. Enrolo-me bem apertado na minha própria abaya, estendo-me e fico deitado no chão.

Espero que a tempestade pare. Nada posso fazer além de ouvir o rugido do vento e o estalar das minhas roupas, como o estalar de uma vela solta das cordas — ou o ruído de uma bandeira ao vento —, semelhante ao estalar das bandeiras tribais no alto de longas hastes, nas mãos do exército beduíno que marchava, tal como as bandeiras dançavam e estalavam, quase cinco anos antes, sobre os cavaleiros beduínos de Najd; eram milhares, e eu estava entre eles. Depois de realizar o Hajj, voltávamos de Arafat para Meca! Era a minha segunda peregrinação. Depois de passar cerca de um ano no interior da Península Arábica, eu conseguira retornar, quase por acaso, a Meca para me juntar, precisamente na época do Hajj, à multidão de peregrinos reunida na planície de Arafat, a leste da Cidade Sagrada — eu estava com uma imensa multidão de beduínos najdis vestidos de branco —, para me juntar, precisamente na época do Hajj, à multidão de peregrinos na planície poeirenta. E, no caminho de volta de Arafat, vi — eu estava com uma imensa multidão de beduínos najdis vestidos de branco — milhares de camelos avançando em passo cerrado e veloz pela planície poeirenta, como um mar de homens vestidos de branco — alguns montados em camelos amarelos cor de mel; milhares de camelos avançavam, dançando e saltando em movimento estrondoso, que fazia a terra tremer, como uma onda irresistível precipitando-se para a frente. As bandeiras tribais rugiam ao vento, e os gritos tribais, por meio dos quais proclamavam os feitos heroicos de suas várias tribos e de seus antepassados, erguiam-se de cada grupo como ondas. Na verdade, para os habitantes de Najd, isto é, para os habitantes das terras altas da Arábia Central, a guerra e o Hajj têm a mesma origem… E os inúmeros peregrinos de outros países — vindos do Egito, do subcontinente indiano, do Norte da África e de Java —, que não estavam acostumados a esse tipo de frenesi, dispersaram-se aterrorizados diante de nós, pois qualquer pessoa que permanecesse perto do caminho daquela hoste rugidora sabia que não poderia sobreviver, assim como era inevitável a morte de qualquer cavaleiro que caísse da sela em meio aos milhares de camelos em disparada.

Por mais delirante que fosse aquele avanço sobre o dorso dos camelos, eu participava daquele delírio e sentia no coração uma alegria selvagem, um zumbido e um silvo; entregara-me àquele momento especial, à velocidade e ao rugido — e o vento que passava veloz sobre meu rosto parecia cantar: “Você nunca mais será estrangeiro; entre o meu povo, nunca mais será considerado um estranho.”

Deitado na areia sob a ‘abaya’ que esvoaçava, ouço, como um eco do próprio rugido da tempestade de poeira: “Você nunca mais será estrangeiro.”

Não sou estrangeiro. A Arábia tornou-se minha pátria. Meu passado ocidental parece um sonho visto há muito tempo — não tão irreal que eu possa esquecê-lo, nem tão real que possa tornar-se parte do meu presente. Não se trata de eu ter me tornado um sonhador ocioso; ao contrário, sempre que permaneço alguns meses numa cidade — como Medina, onde ficaram minha esposa árabe e um filho pequeno, além de uma biblioteca repleta de livros sobre a história inicial do Islã — torno-me inquieto e sinto-me atraído pela ação e pelo movimento, pela vida vibrante do deserto, pelo cheiro dos camelos e pelo contato com as selas dos camelos. O mais surpreendente é que, durante a maior parte da minha vida (agora tenho pouco mais de trinta e dois anos), a ânsia de vagar que me deixou tão inquieto e repetidamente me impeliu a enfrentar todos os tipos de riscos e perigos não se originou tanto da paixão pela aventura quanto do desejo de encontrar para mim um lugar de conforto no mundo, de chegar a um ponto em que houvesse consonância entre tudo o que penso, sinto e desejo. E, se compreendi corretamente, ao longo desses anos foi precisamente esse desejo de descoberta interior que me empurrou para um mundo novo, inteiramente diferente, tanto em pensamento quanto em aparência exterior, afastando-me de tudo aquilo que meu nascimento europeu e minha criação num ambiente europeu pareciam ter determinado para o meu destino.

Quando a tempestade cessou completamente, saí, sacudindo o corpo, do monte de areia que se acumulara ao meu redor. Meu camelo também estava meio enterrado na areia, mas, como experiência, aquilo não fora tão ruim, pois algo assim já devia ter acontecido muitas outras vezes na vida dele. À primeira vista, pareceu que a tempestade não nos causara grande dano, além de encher meu rosto, meus ouvidos e meu nariz de areia e arrancar a pele de carneiro de cima da minha sela. Mas logo percebi meu engano.

Os contornos de todas as dunas ao meu redor haviam mudado completamente. A tempestade apagara as pegadas do camelo perdido e as minhas. Eu estava sobre uma terra inteiramente nova. Agora nada mais havia a fazer senão voltar à tenda, ou pelo menos tentar voltar; contava apenas com o sol e com uma noção geral da direção, uma espécie de sensação quase instintiva que qualquer pessoa acostumada a viajar pelo deserto possui. Mas, neste caso, nem mesmo essas duas referências eram inteiramente confiáveis; por causa das dunas, não se pode avançar em linha reta — não se pode seguir diretamente na direção que se deseja acompanhar.

A tempestade me deixara terrivelmente sedento, mas, confiando que não ficaria longe da tenda por mais de algumas horas, eu já havia bebido o último gole de água do meu pequeno odre. De qualquer modo, tinha certeza de que não me afastara muito da tenda e meu camelo, embora não tivesse bebido água desde a última vez que paramos junto ao poço, dois dias antes, era um viajante experiente; não havia dúvida de que conseguiria levar-me de volta à tenda. Virei a cabeça do meu camelo na direção em que me pareceu que ficava a tenda e parti em passo rápido.

Passou uma hora, depois outra, depois mais outra, mas não havia sinal de Zayd nem do lugar onde ficava nossa tenda. Nenhuma das montanhas alaranjadas conservava uma aparência familiar. Mesmo que não tivesse havido uma tempestade, seria realmente muito difícil encontrar algo conhecido entre aquelas montanhas.

Ao final da tarde, cheguei junto de algumas rochas de granito que se projetavam para fora da areia; é raro encontrar rochas assim em meio a essas extensões arenosas. Reconheci-as assim que as vi. Zayed e eu havíamos passado por elas na tarde anterior, não muito antes de montar a tenda para a noite. Senti um grande alívio, pois não havia dúvida de que eu me afastara do lugar onde esperava encontrar Zayed; bastava seguir diretamente para sudoeste, como no dia anterior, e não seria muito difícil encontrá-lo.

Lembro-me de que havia três horas de caminho entre essas rochas e nossa tenda noturna; mas agora, depois de conduzir o camelo por mais três horas sem encontrar qualquer sinal da tenda ou de Zayed, será que o perdi novamente? Continuo avançando, continuo avançando, sempre em direção ao sudoeste, observando atentamente o movimento do sol no céu. Quando caiu a noite, decidi que não fazia sentido continuar. Era melhor descansar um pouco e esperar a luz da manhã! Desci do camelo, amarrei-o e tentei mastigar algumas tâmaras, mas, para dizer a verdade, estava com uma sede terrível; por isso, coloquei as tâmaras diante do camelo e deitei-me com a cabeça apoiada sobre seu corpo.

De vez em quando, vem-me a sonolência — não exatamente sono, nem exatamente vigília, mas uma sucessão de estados oníricos cuja base é o cansaço. Essa sonolência é repetidamente interrompida pela sede, que se torna cada vez mais terrivelmente dolorosa. Além disso, em algum lugar da região mais profunda do coração, que a pessoa não quer revelar nem a si mesma, encontra-se a branca honestidade do medo, um molusco contorcido — o que será de mim se eu não conseguir encontrar novamente o caminho de volta até Zayed e nossos mashk? Pois, partindo daqui em qualquer direção, mesmo viajando durante muitos dias, não encontrarei nenhum povoado nem água.

Partimos novamente ao fajr. Durante a noite, refletindo, cheguei à conclusão de que certamente havia avançado muito para o sul. Portanto, a tenda de Zayed, onde eu passara a noite, deveria estar em algum lugar ao norte ou a nordeste dali. Assim, seguimos para o norte, para nordeste, atravessando as ondas de areia de um vale a outro, contornando ora as colinas de areia da direita, ora as da esquerda. Ao meio-dia, descansamos. Minha língua está colada ao céu da boca e parece uma velha pele grossa, rachada. Minha garganta está ferida e meus olhos ardem. Puxo minha abaya sobre a cabeça e tento dormir por algum tempo, encostado ao ventre do camelo, mas não consigo dormir. À tarde, partimos novamente, desta vez mais para leste, pois a essa altura percebi que havíamos avançado muito na direção oeste; mas, estranhamente, ainda não havia qualquer sinal de Zayed ou da tenda.

Assim chega outra noite. A sede transforma-se em tormento, e o desejo de água torna-se o único pensamento irresistível da minha mente, que já não consegue sequer pensar com clareza. Mas, quando o sol da manhã espalha sua luz uniforme, volto a sentar-me sobre o dorso do meu camelo; a manhã passa, o meio-dia passa, e chega a tarde de mais um dia; continuo conduzindo o camelo, continuo avançando. Apenas dunas, sem fim. Ou será este o fim — o fim de todos os meus caminhos, o termo de tudo o que desejei e alcancei? Meu fim entre aqueles entre os quais jamais serei considerado um estrangeiro…? “Ó Allah”, desabo em oração: “não permitas que eu seja destruído assim…”

À tarde, subi uma duna alta, na esperança de observar melhor o terreno ao redor. Quando vi, a leste, algo que parecia um ponto negro muito distante, quis gritar de alegria, mas nem sequer tinha forças para isso. Não tenho dúvida de que aquela mancha negra não é outra coisa senão a tenda de Zayed e os dois mashk — dois enormes mashk cheios de água! Ao montar novamente no camelo, meus dois joelhos começaram a tremer violentamente. Avançamos lenta e cautelosamente em direção àquela mancha negra — não havia a menor dúvida de que era a tenda de Zayed. Desta vez, tomo todas as precauções para não perder novamente a direção. Sigo em linha reta — ora subindo uma colina de areia, ora descendo a um vale arenoso, aumentando assim duas ou três vezes o nosso esforço. A única coisa que me anima é a esperança de que, dentro de pouco tempo, no máximo uma ou duas horas, chegarei ao meu destino. Finalmente, depois de ultrapassar o topo da última duna, meu destino tornou-se nítido diante dos meus olhos; puxei as rédeas do camelo e olhei para aquela mancha negra, a cerca de meia milha de distância. Pareceu-me que meu coração havia parado de bater, pois o que vi diante de mim não era outra coisa senão aquelas rochas negras de granito que se projetavam da areia, as mesmas pelas quais eu passara com Zayed três dias antes e pelas quais tornara a passar sozinho dois dias antes…

Estou andando em círculos há dois dias.

Quatro

Quando desci da sela, estava completamente exausto, sem força alguma no corpo. Nem sequer me ocorreu amarrar as patas do camelo. Na verdade, o animal também estava tão cansado que já não tinha vontade de fugir. Tive vontade de chorar, mas de meus olhos secos e inchados não caiu uma única lágrima.

Quanto tempo terá passado desde que chorei!… Mas, enfim, tudo isso não pertence a um passado distante? Tudo é coisa do passado, e não existe presente algum! Há apenas sede… e calor… e sofrimento.

Faz quase três dias que não bebo água. E meu camelo bebeu água pela última vez há cinco dias. Talvez consiga continuar assim por mais um dia, no máximo dois. Mas sei que não conseguirei caminhar até lá. Talvez enlouqueça antes de morrer, pois a dor no meu corpo está entrelaçada ao medo em minha mente; uma nasce da outra — ardente, torturante, dilacerante! …

Quero descansar, repousar, mas ao mesmo tempo sei que, se descansar agora, jamais conseguirei me levantar outra vez. Arrasto-me de algum modo e monto novamente na sela; depois, golpeando e dando pontapés, obrigo o camelo a se levantar. Quase caio da sela quando o camelo se inclina para a frente ao erguer-se sobre as patas traseiras — e depois se inclina para trás ao endireitar as patas dianteiras. Começamos a avançar lentamente, em meio à dor, para o oeste. Para o oeste: que ironia! Mas quero viver, e é por isso que seguimos, continuamos avançando.

Com o pouco de força que ainda nos resta, passamos a noite inteira avançando, arrastando os pés. Quando caio da sela, certamente já amanheceu. Não caí sobre algo duro; a areia é muito macia e confortável; parece abraçar-nos com carinho. Por alguns instantes, o camelo permanece imóvel, de pé. Então, soltando um longo suspiro, deixa o corpo cair primeiro sobre os joelhos e depois sobre as patas traseiras, estende o pescoço na areia e se deita encolhido ao meu lado.

Também me deito na areia, à sombra estreita do meu camelo. Envolvo-me com minha ‘abaya’, para me proteger do calor do deserto lá fora e da dor, da sede e do medo dentro de mim. Já não tenho forças para pensar. Não consigo fechar os olhos. Ao menor movimento das pálpebras, parece que um metal em brasa se move sobre os globos oculares. Sede e calor… sede e um silêncio devastador — um silêncio quente e seco, cuja solidão e desolação me cobrem como uma mortalha —, enquanto o som do sangue em meus ouvidos transforma o breve suspiro do camelo em algo terrível; como se estes fossem os últimos sons existentes na Terra, e nós dois — um homem, um animal — fôssemos as últimas criaturas vivas, desventuradas, sobre a face da Terra, cuja destruição é inevitável!

Muito acima de nós, um abutre gira no calor líquido, sem parar uma única vez; contra o fundo desbotado do céu, parece a ponta de uma agulha, voando livremente sobre todos os horizontes…

Minha garganta está inchada — a laringe secou e está quase completamente obstruída —, e cada respiração parece cravar mil agulhas na base da minha língua, aquela grande e majestosa língua que não deveria se mover, mas que não consegue parar nem por um instante sem se mover. Tudo dentro de mim arde; tudo se transformou em uma dor incessante. Durante alguns segundos, o céu semelhante ao aço se iluminou diante de meus olhos arregalados!

Minha mão parece estender-se por si mesma e tocar a coronha rígida da pequena arma pendurada no arção da sela. Imediatamente, a mão fica ali, e, com súbita clareza, minha mente vê cinco cartuchos novos no carregador e o que pode acontecer num instante com uma leve pressão no gatilho — algo dentro de mim sussurra: depressa, pegue a arma antes que você fique incapaz de se mover novamente.

E, naquele momento, senti meus lábios se moverem, dando forma às palavras sem som que vinham das cavernas profundas da minha mente: “Eu certamente vos porei à prova… certamente vos porei à prova”, e as palavras vagas e indistintas foram gradualmente tomando forma, tornando-se semelhantes a um versículo do Alcorão: “Certamente vos poremos à prova com algo de medo, fome e diminuição dos bens, das vidas e dos frutos. E anuncia boas-novas aos pacientes, que, quando uma desgraça os atinge, dizem: ‘Somos de Deus e a Ele retornaremos’.”

Tudo está quente e sombrio. Em meio a essa melancolia ardente, sinto no ar uma respiração revigorante e ouço seu suave sussurro, como se o vento soprasse entre as árvores, murmurando — sobre a água — e essa água fosse um riacho estreito que corre lentamente entre duas margens cobertas de relva verde, perto da casa da minha infância. Estou deitado à beira do rio — um menino de nove ou dez anos, mastigando a ponta de uma haste de capim e olhando para as vacas brancas — as vacas pastam ali perto, com seus grandes olhos baços e uma simples expressão de contentamento. Ao longe, mulheres camponesas trabalham nos campos. Uma usa um lenço vermelho e uma saia azul com largas listras vermelhas. Patos brancos, agitando a água com o movimento dos pés. E a brisa suave continua a soar sobre meu rosto, como o som da respiração de um animal. Sim, é isso — o som da respiração de um animal. A grande vaca branca, cujas pernas brancas são salpicadas de manchas acobreadas, aproximou-se muito de mim e agora me empurra, respirando ruidosamente pelas narinas; sinto, junto ao meu corpo, o movimento das patas da vaca.

Abro os olhos; ouço o relincho do meu camelo e sinto o movimento de suas patas ao meu lado; o camelo está meio erguido sobre as patas traseiras, com o pescoço e a cabeça levantados, as narinas dilatadas — como se tivesse subitamente percebido, no ar do meio-dia, o indício de uma fragrância agradável. Mais uma vez, ele resfolega ruidosamente, e percebo sua excitação, como se uma onda descesse por sua garganta, passasse pelos ombros e rolasse em direção ao seu enorme corpo semierguido. Depois de uma longa jornada pelo deserto, quando sente o cheiro de água, é assim que o camelo respira ruidosamente pelas narinas e faz barulho — já vi isso antes. Mas aqui… aqui não há água. … Ou há? Ergo a cabeça e olho atentamente na direção para a qual o camelo voltou o rosto. Ele se voltou para a duna mais próxima de nós — um cume baixo contra o vazio de aço do céu; nada se move ali, nem se ouve qualquer som — apenas um ruído indistinto, como a vibração da corda de uma velha lira, muito suave e frágil, agudo: um som agudo, alto e frágil, vindo da voz de um beduíno que conduz um camelo, acompanhando ritmicamente o passo do animal. Embora, em termos de distância, ele esteja muito perto, exatamente do outro lado do topo da duna, numa fração de segundo compreendo que o lugar está muito além do meu alcance; minha voz jamais chegará até lá. Certamente há pessoas ali, mas não tenho força alguma para alcançá-las. Estou tão fraco que nem sequer consigo ficar de pé. Tento gritar, mas da minha garganta não sai nada além de um gemido rouco. Então, minha mão, por si mesma, encontra a coronha rígida da pequena arma pendurada no arção da sela… e, com os olhos da mente, vejo cinco cartuchos novos no carregador!

Com um esforço supremo, consegui tirar a arma do arção da sela. Carregar a arma, retirando-a da coronha, pareceu tão pesado quanto erguer uma montanha sobre a cabeça; ainda assim, finalmente consegui. Em seguida, apoiei a arma sobre a coronha, apontei o cano diretamente para o céu e puxei o gatilho. A bala sibilou e desapareceu no vazio, de modo lastimável, produzindo um som muito fraco. Quebrei novamente o cano, coloquei outro cartucho, disparei e fiquei escutando. A canção, semelhante ao som de uma lira, havia cessado. Por um momento, restou apenas o silêncio, nada mais. De repente, algo apareceu acima do topo da duna. A cabeça de um homem, depois os ombros, e outro homem ao lado dele. Eles olharam para baixo por alguns instantes, depois se viraram e gritaram algo para os companheiros invisíveis; em seguida, subiram de quatro até o topo da duna e vieram correndo em minha direção, metade correndo, metade escorregando pela encosta.

Uma excitação intensa me cercava: dois ou três homens — que multidão enorme depois de tanta solidão e desolação! Eles tentam me levantar; seus movimentos, o agitar desordenado das mãos e dos pés, formam uma cena de extrema confusão! Sinto algo como gelo ardente e fogo sobre os lábios e vejo o rosto de um beduíno barbudo inclinado sobre mim, enquanto sua mão empurra um pano sujo e molhado para dentro da minha boca. A outra mão do homem segura um odre aberto. Estendo automaticamente a mão em direção ao odre, mas o beduíno empurra minha mão para trás; mergulha o pano na água e depois o espreme, deixando cair algumas gotas sobre meus lábios; e, para impedir que a água entre na minha boca e queime minha garganta, mantenho os dentes cerrados. Mas o beduíno, sem separar meus dentes, coloca novamente algumas gotas de água em minha boca. Isto não é água, é como chumbo derretido. Por que estão me tratando assim? Quero fugir e me salvar da violência deles. Mas eles me seguram. Que demônios! Minha pele está queimando; todo o meu corpo está em chamas. Será que querem me matar? Ah, se ao menos eu tivesse força para agarrar a arma e me defender! Mas eles me fazem abrir a boca e põem algumas gotas de água dentro dela; não me resta alternativa senão engolir essa água. Que maravilha! A água já não queima com a mesma intensidade de pouco antes; o pano molhado sobre minha cabeça é agradável, e quando derramam água sobre meu corpo, o contato do tecido molhado traz um arrepio de exultação…

Depois, tudo fica negro; estou descendo por um poço profundo — desço tão rapidamente que o ar passa uivando junto aos meus ouvidos, sussurrando, sussurrando, e esse sussurro se transforma num rugido — numa escuridão cheia de rugidos… Negro — negro…

Cinco

Negro… Negro… um negro macio e suave, sem nenhum som — uma escuridão nobre e benevolente que me envolve como um cobertor quente e desperta em mim o desejo de permanecer sempre assim, tão extraordinariamente cansado, sonolento e indolente. Não tenho necessidade de abrir os olhos nem de mover os braços; ainda assim, movo os braços e abro os olhos apenas para ver a escuridão acima da minha cabeça — a escuridão felpuda da tenda beduína feita de lã de cabra negra, cuja parte dianteira tem uma abertura estreita, através da qual vejo um pedaço do céu noturno, cintilante de estrelas, e, abaixo, à luz delas, a curva suave de uma duna reluzente… Depois — depois, aquela pequena abertura da tenda escurece, e a figura de um homem surge dentro dela — o desenho de sua túnica esvoaçante parece gravado contra o céu, e ouço o grito de Zayed: «Está acordado, ele está acordado!» Em seguida, seu rosto severo e contido se inclina quase sobre o meu; Zayed segura meu ombro com a mão. Outro homem entra na tenda. Não consigo vê-lo claramente. Mas, quando começa a falar em voz baixa e grave, compreendo imediatamente que é um beduíno da tribo de Shammar.

Mais uma vez sinto uma sede ardente e extrema, e agarro com força a tigela de leite que Zayed me estende. Mas, quando o engulo, já não sinto dor alguma. Enquanto bebo o leite, Zayed continua contando como aquele pequeno grupo de beduínos veio montar sua tenda perto dali quando começou a tempestade de areia; como ficou preocupado quando o camelo perdido voltou sozinho durante a noite; como todos se uniram e saíram à minha procura; e como, quase três dias depois, quando já haviam praticamente abandonado toda esperança, ouviram o disparo da minha arma vindo de trás de uma duna…

Depois, armaram uma tenda sobre mim e ordenaram-me que permanecesse deitado dentro dela esta noite e amanhã. Nossos amigos beduínos não têm pressa; seus odres estão cheios de água, e chegaram a dar três baldes inteiros de água ao meu camelo, pois sabem que, depois de um dia de viagem para o sul, nós e eles chegaremos a um oásis onde há alimento em abundância — arbustos de hamd.

Depois de algum tempo, Zayed me tira da tenda e estende um cobertor sobre a areia. Fico deitado sob o céu repleto de estrelas.

Algumas horas depois, acordo ao som tilintante da cafeteira de Zayed — o aroma do café fresco é como o abraço quente de uma mulher!

— Zayed! — grito; observo com espanto que, embora minha voz ainda esteja cansada, já não está rouca — Você me dá um pouco de café?

— Juro por Alá, tio, é claro que darei — responde Zayed, conforme o antigo costume árabe. Os árabes dirigem-se assim àquele a quem desejam demonstrar respeito, seja ele mais velho ou mais jovem que o interlocutor (como no nosso caso — sou alguns anos mais novo que Zayed) — Você terá todo o café que seu coração desejar.

Bebo o café e sorrio mostrando os dentes, olhando para o rosto satisfeito de Zayed: — Ora, irmão, diga-me: por que, em vez de ficarmos em casa como pessoas sensatas, nos lançamos ao encontro de perigos como este?

— Porque — Zaid agora sorri para mim, mostrando os dentes —, para pessoas como você e eu, não é possível ficar em casa até que as mãos e os pés se enrijeçam e fiquemos debilitados! Além disso, acaso as pessoas não morrem em suas próprias casas? Acaso não carregam seu destino sobre os ombros, estejam onde estiverem?

Zaid usa a palavra “kisma” no sentido de “destino” — “qism” significa “aquilo que foi determinado pelo destino”. Essa palavra, em sua forma turca “kismet”, é bem conhecida no Ocidente. Enquanto bebia outra taça de kif, ocorreu-me que essa palavra árabe também possui um significado mais profundo — “aquilo que cabe ao ser humano como sua parte: isso é o kismet”.

Aquilo que cabe ao ser humano como sua parte, isso mesmo…

As palavras despertam em minha memória um som tênue e evanescente; ao mesmo tempo, surge diante de mim a imagem de um sorriso cansado… O sorriso de quem? Uma nuvem de fumaça, uma fumaça pungente, como fumaça de haxixe, e por trás dela um sorriso cansado. Sim, era fumaça de haxixe, e o sorriso pertencia à pessoa mais estranha entre todas aquelas com quem me misturei até hoje. Eu havia encontrado aquela pessoa depois de uma experiência singular em minha vida! Um perigo… que me parecera… sim, que apenas me parecera iminente; para escapar dele e salvar-me, eu avançava sem saber em direção a outro perigo, e esse perigo — aquele que eu tentara evitar — era muito mais real, muito mais iminente… Esses dois perigos, o irreal e o real, juntos, haviam-me empurrado rumo a uma liberdade ainda maior.

Isso aconteceu oito anos atrás. Eu viajava a cavalo, acompanhado de meu criado tártaro, Ibrahim, de Shibaz em direção a Kerman, uma região remota, escassamente povoada e sem estradas, no sul do Irã, perto do lago Neyriz. Era inverno — e, naquela estação, a região havia se transformado numa estepe inteiramente lamacenta e pegajosa; não havia aldeia alguma nas proximidades, e, ao sul, o pântano, cercado pelo Kuh-i-Gushnegan, isto é, a “Montanha dos Famintos”, estendia-se até tocar a margem do lago. À tarde, enquanto contornávamos uma colina baixa, de repente avistamos o lago — uma planície verde e silenciosa, sem movimento, som ou vida, pois sua água era tão salgada que nenhum peixe poderia sobreviver nela. À exceção de algumas plantas atrofiadas e de certas gramíneas do deserto, nenhuma vegetação crescia no solo salino às margens do lago. A terra estava coberta por uma fina camada de neve misturada com lama, e, rio acima, uma trilha estreita e indistinta se estendia por cerca de duzentas jardas a partir da margem.

A noite se aproximava; Khan-i-Khet era o destino de nossa jornada naquela noite — mas ainda não havíamos encontrado nenhum sinal da hospedaria. No entanto, tínhamos de chegar lá, custasse o que custasse. Não havia outro povoado por muitas e muitas léguas, e, como o pântano estava próximo, avançar no escuro tornava-se extremamente perigoso. Na verdade, naquela manhã haviam-nos advertido a não seguir sozinhos por aquele caminho, pois um único passo em falso poderia causar uma morte fácil e súbita. Além disso, depois de um longo dia atravessando aquele terreno úmido e pegajoso, nossos cavalos estavam muito cansados — também precisavam agora de descanso e alimento.

Assim que caiu a noite, começou uma chuva torrencial. Seguíamos encharcados, tristes e em silêncio — confiávamos mais nos instintos naturais dos cavalos do que em nossos próprios olhos inúteis. As horas passavam… mas onde estava a hospedaria? Nenhum sinal! Talvez, sem conseguir percebê-la na escuridão, tivéssemos deixado a hospedaria para trás; nesse caso, talvez tivéssemos de passar a noite ao relento, sob a chuva, que se tornava cada vez mais intensa e violenta! Os cascos dos cavalos golpeavam a água e a espirravam para todos os lados; nossas roupas molhadas grudavam em nossos corpos como um peso. Ao nosso redor, a noite negra e impenetrável pendia sob o véu da água agitada. Tremíamos de frio até os ossos — mas o conhecimento de que o pântano estava perto nos deixou ainda mais apreensivos. Que Alá tenha misericórdia de nós se os cavalos errassem, nem que fosse uma única vez, o passo sobre o solo firme! — havíamos sido advertidos naquela manhã.

Eu seguia à frente, e Ibrahim vinha atrás de mim, talvez a dez passos de distância. Repetidamente, aquela terrível pergunta assaltava minha mente: será que havíamos deixado Khan-i-Khet para trás na escuridão? Passar a noite sob a chuva fria — que perspectiva sinistra! Mas, se já tivéssemos avançado tanto, onde estaria o pântano?

De repente, ouço um som suave e macio de chapinhar sob os cascos do meu cavalo. Percebi que o animal estava afundando na lama — um pouco afundava, um pouco já havia afundado — e então, desesperado, levantava uma pata, apenas para afundar novamente. Subitamente, este pensamento me atravessou a mente: será que havíamos entrado num pântano? Puxei as rédeas com força e comecei a golpear vigorosamente o cavalo com as duas pernas, de cada lado. O animal ergueu a cabeça e começou a se debater furiosamente. Um suor frio brotou e rompeu a minha pele. A noite estava tão negra que eu nem conseguia ver as próprias mãos; mas, pelo modo como o corpo do cavalo se dilatava a cada respiração, compreendi quão desesperadamente ele lutava para escapar do abraço da lama. Quase sem pensar, peguei o chicote do cavalo, que normalmente ficava pendurado no meu pulso quando não era usado, e golpeei com toda a força as ancas do animal; meu objetivo era excitá-lo a empregar o último vestígio de suas forças, pois, se o cavalo permanecesse imóvel naquele momento, afundaria, e eu afundaria com ele naquela lama, cada vez mais profundamente. O infeliz animal, um pônei caxgai, dono de extraordinária velocidade e força, desacostumado a receber golpes daquele tipo, empinou-se sobre as patas traseiras e depois voltou a golpear o chão com as quatro patas; desesperado, esforçava-se por respirar ofegantemente para escapar da lama, saltava, lançava-se novamente para a frente, tornava a escorregar e cair — e, sem parar, os cascos do cavalo continuavam golpeando repetidamente a macia terra lamacenta.

Um objeto misterioso passou zunindo por cima da minha cabeça. Ergui a cabeça imediatamente, e então um golpe duro, incompreensível, caiu sobre mim — mas de onde viera? O tempo e os pensamentos tombaram uns sobre os outros, confundindo-se completamente.

Por um instante, que pareceu durar horas e horas, entre os respingos da chuva e a respiração ofegante do cavalo, ouvi aquele som sugando e bebendo o pântano. Nosso momento final certamente se aproximava. Afrouxei os dois pés dos estribos e então me preparei para saltar da sela e testar sozinho a minha sorte… talvez, se eu permanecesse deitado de costas sobre a lama, pudesse salvar-me. Quando eu estava nesse estado de espírito, de repente, de modo inacreditável, meu cavalo bateu com força uma vez contra um chão muito firme e duro… duas vezes… e eu, soluçando de alegria pela libertação, puxei as rédeas e contive o animal, que tremia. Havíamos sobrevivido.

Naquele momento, de repente, lembrei-me do meu companheiro e, tomado pelo medo, gritei: ‘Ibrahim!’ Mas não houve resposta. Meu coração parou.

‘Ibrahim!’ Mas ao meu redor havia apenas uma noite escura e a chuva. Será que ele não conseguira salvar-se? Com voz áspera, voltei a chamá-lo aos gritos: ‘Ibrahim!’

E então, de modo quase inacreditável, de muito longe veio, indistinta, uma voz gritando: ‘Ei… estou aqui.’

Agora era a vez de minha razão ficar aturdida! Como havíamos ficado tão incrivelmente separados um do outro?

— ‘Ibrahim!’

—Ei… ei…—

E, seguindo aquele som, comecei a caminhar em direção à voz distante, puxando as rédeas do cavalo e testando com os pés cada centímetro do terreno, muito devagar e com extrema cautela: Ibrahim… Ibrahim estava calmamente sentado na sela do cavalo.

—O que aconteceu com você, Ibrahim? Você também acabou por engano no pântano?

—Pântano? Não. Não sei por quê, mas, quando o senhor de repente esporeou o cavalo e desapareceu, eu — imóvel como uma estátua, não me mexi nem um pouco; parei exatamente onde estava.

—Esporeou o cavalo e desapareceu! Só então o mistério se resolveu! Essa tentativa de escapar do pântano fora apenas o fruto da minha imaginação. Certamente meu cavalo havia chegado a uma estrada lamacenta, e eu imaginara que nós dois estávamos afundando no pântano; por isso o chicoteara e o conduzira como um louco! Enganado pela escuridão, tomei o avanço do cavalo, sua corrida para a frente, por uma tentativa desesperada de escapar das garras do pântano e passei a noite cavalgando, sem saber que havia muitas plantas retorcidas espalhadas aqui e ali pelo campo. Não era o pântano, mas aquelas plantas que constituíam o perigo iminente e verdadeiro: o galho que atingira minha mão poderia não ter sido pequeno, mas um galho muito maior, capaz de esmagar meu crânio, e assim minha viagem teria chegado ao fim, assinalando seu término em algum lugar do sul do Irã.

Fiquei furioso comigo mesmo — e também porque havíamos perdido toda a orientação e já não era possível encontrar qualquer sinal da estrada. Não voltaríamos a encontrar a hospedaria.

Mas eu estava novamente enganado.

Ibrahim parou o cavalo e desmontou para sentir com as mãos as condições do solo e talvez, dessa maneira, encontrar novamente o caminho. Enquanto rastejava assim, de repente sua cabeça bateu numa parede — na negra muralha da hospedaria Khan-i-Ket!

Se eu não tivesse cometido o suposto erro de entrar no pântano, talvez tivéssemos continuado avançando, talvez tivéssemos deixado a hospedaria para trás e seguido por uma longa distância; depois, talvez tivéssemos realmente nos perdido naquele pântano, pois mais tarde descobrimos que ele começava a menos de duzentas jardas à nossa frente.

Esta hospedaria é uma das muitas ruínas da época do grande Xá Abbas. Sob os arcos dos robustos edifícios, dispostos em fileiras, há passagens de entrada e saída, portas escancaradas e fornos desmoronados. Aqui e ali, sobre lintéis e ladrilhos de majólica rachados, vi alguns vestígios de antigas inscrições. Nos poucos aposentos inabitáveis espalhavam-se palha velha e esterco de cavalo. Eu e Ibrahim entramos no aposento principal, o “salão”, e vimos o inspetor da hospedaria sentado junto a uma fogueira acesa no chão nu; ao lado dele estava outro homem, descalço, de estatura anã e vestido com roupas rasgadas. Assim que entramos, ambos se levantaram. O homem de baixa estatura cumprimentou-nos solenemente, inclinando a cabeça num gesto quase perfeitamente teatral e mantendo a mão direita sobre o peito. Sua camisa estava coberta de inúmeros remendos, de várias cores; o homem era sujo, completamente desarrumado e desalinhado, mas seus dois olhos brilhavam e seu rosto era sereno e suave.

O inspetor saiu uma vez do aposento para cuidar de nossos cavalos. Joguei fora minhas roupas molhadas, e Ibrahim, sem demora, pôs água para o chá sobre aquela fogueira acesa. Com a elegância de um grande senhor feudal que trata com cortesia os inferiores sem perder a própria dignidade, o anão recebeu graciosamente a xícara de chá que Ibrahim lhe estendia.

Sem demonstrar a mínima curiosidade incomum, como se quisesse apenas iniciar uma conversa casual, ele olhou para mim: — Senhor Ali, o senhor é inglês?

— Não, sou austríaco.

— Seria indelicado se eu lhe perguntasse se veio aqui com fins comerciais?

— Sou redator de jornal — respondi. — Estou viajando pelo seu país para dar a conhecer a terra de vocês ao meu povo. Meu povo gosta de saber como os outros vivem.

Ele assentiu com um sorriso de concordância e depois ficou em silêncio. Alguns instantes mais tarde, tirou das dobras da roupa um narguilé de barro e uma haste de bambu; encaixou a haste de bambu no recipiente de barro; depois, nas palmas das duas mãos, começou a esfregar uma coisa que parecia tabaco; em seguida, com cuidado, como se aquilo fosse mais precioso que o ouro, colocou-a no fornilho e cobriu-a com brasas ardentes. Encaixou a haste de bambu no recipiente de barro; depois ficou em silêncio. Alguns instantes mais tarde, tirou das dobras da roupa um narguilé de barro e uma haste de bambu; encaixou a haste de bambu no recipiente de barro; depois começou a esfregar nas palmas das duas mãos uma coisa que parecia tabaco; em seguida, com cuidado, como se aquilo fosse mais precioso que o ouro, colocou-a no fornilho e cobriu-a com brasas ardentes. Pôs o tubo de bambu na boca e começou a puxar a fumaça com bastante força; enquanto a tragava, começou a tossir violentamente e, desse modo, limpou a garganta. A água dentro do narguilé de barro começou a borbulhar, e um odor pungente foi aos poucos impregnando o aposento. Agora compreendi: aquilo era o haxixe indiano, a “hashish”. Só então o significado de seus modos e gestos estranhos se esclareceu: ele era um “hashshashi”, um fumador de haxixe! Seus olhos não estavam velados como os dos fumadores de ópio; brilhavam com uma espécie de profundidade impessoal e indiferente — seu olhar estava muito distante, tão afastado do mundo real ao seu redor que era impossível medi-lo.

Permaneço calado, olhando para ele. Depois de terminar de fumar, ele me pergunta: — Quer experimentar um pouco?

Recuso a oferta, agradecendo. Experimentei ópio uma ou duas vezes na vida (é claro que não senti nenhum prazer; mas tentar fumar haxixe também me parece muito difícil, até mesmo repulsivo). O haxixeiro sorri em silêncio e percorre-me com o olhar oblíquo, num sarcasmo amistoso:

— Eu sei, estimado amigo, o que está pensando. Está pensando que fumar haxixe é obra do demônio e tem medo dele. Pura bobagem. O haxixe é uma dádiva, uma misericórdia de Alá. É excelente… sobretudo para a mente. Senhor, preste atenção, vou explicar-lhe. O ópio é mau — disso não há dúvida — porque desperta no espírito desejos por coisas que não podem ser obtidas. O ópio torna os sonhos humanos gananciosos, como os desejos dos animais. Mas o haxixe acalma todas as pessoas e as torna indiferentes a tudo no mundo. Sim, é isso. O haxixe dá contentamento ao homem. Pode colocar um maund de ouro diante de um haxixeiro, não apenas enquanto ele estiver fumando haxixe, mas em qualquer momento — o haxixeiro não estenderá sequer um dedo em direção àquele ouro. O ópio torna o homem fraco e covarde, mas o haxixe… o haxixe elimina todo medo e torna o homem tão corajoso quanto um leão. Se disser a um haxixeiro para mergulhar numa corrente gelada em pleno inverno, ele saltará diretamente para dentro dela e rirá… pois aprendeu que quem não tem ganância não tem medo — e, se o homem consegue vencer o medo, também vence o perigo, porque sabe que tudo o que aconteceu em sua vida é parte dele, parte de tudo o que acontece na criação…

Ele ri outra vez, aquele breve e ondulante riso silencioso que não se pode chamar de zombaria, nem de benevolência — algo entre as duas coisas. Depois o riso cessa; por trás da fumaça que se enrola, apenas seus dentes reluzem, e seu olhar brilhante fixa-se numa distância imóvel e inalterável.

“Minha parte em tudo o que acontece…” Deitado sob as constelações do céu amistoso da Arábia, penso comigo mesmo: eu… este feixe de ossos e carne, de sensações e percepções — fui colocado na câmara do Regente do universo, e estou dentro de tudo o que acontece. “O perigo” não passa de uma fantasia ilusória — jamais poderá me derrotar — pois tudo o que acontece em minha vida é parte da corrente que se espalha por toda parte — e eu mesmo sou parte dessa corrente. Talvez o perigo e a segurança, a morte e a alegria, o destino e a plenitude, tudo isso sejam apenas aspectos diferentes deste pequeno, porém digno, “feixe” que sou eu. Que liberdade infinita, ó Alá, concedeste ao ser humano!

A dor prazerosa desse pensamento é tão intensa e aguda que sou obrigado a fechar os olhos, e a brisa suave que passa pelo meu rosto parece tocar-me silenciosamente, de longe, como as asas da libertação.

Seis

A essa altura, sinto força suficiente para me sentar. Para que eu pudesse sentar-me apoiado, Zayed trouxe até mim uma das selas de camelo.

—Tio, descanse; julgando-o morto, fiz luto por você. Hoje, ao encontrá-lo vivo e bem, fiquei tão feliz!

—Sempre o tive como um amigo excepcional! Se você não tivesse vindo correndo ao ouvir meu chamado, diga-me: como eu teria vivido aqueles anos sem você?

—Tio, nunca me arrependi dos anos que passei ao seu lado. Ainda me lembro daquele dia, cinco anos atrás, em que recebi sua carta. Nela, você me chamava para Meca. A ideia de tornar a vê-lo era-me muito querida. Havia também uma razão especial: nesse intervalo, você fora agraciado com a bênção do Islã. Foi justamente nessa época que me casei com uma jovem virgem muntáfiq; não havia limite para a minha alegria no amor dela. A cintura daquelas moças iraquianas é muito fina, e os seios, firmes e duros, exatamente como estes — recordando a cena passada com um sorriso suave, ele pressionou o indicador contra a ponta rígida da sela sobre a qual eu estava apoiado —, e é muito difícil libertar-se de seus abraços. Então pensei: ‘Irei, mas não agora. Terei de esperar algumas semanas.’ Mas semana após semana se passou… e depois mês após mês. Embora, poucos dias depois, eu tivesse repudiado aquela mulher — aquela filha de uma cadela, que lançava olhares lascivos ao primo —, ainda assim não conseguia abandonar meu serviço entre os iraquianos, nem meus amigos, nem as alegrias de Bagdá e de Basra; e continuava dizendo a mim mesmo: ‘Agora não, mais tarde.’ Mas um dia, quando saía montado no camelo, levando o meu salário da nossa tenda, e pensava em passar a noite na casa de algum amigo, de repente me lembrei de você. Lembrei-me de que, em sua carta, você escrevera sobre a morte de sua querida esposa, sua companheira — que Deus tenha misericórdia dela —, e pensei em como você devia sentir-se solitário depois de perdê-la. Compreendi imediatamente que não podia mais esperar: precisava correr para junto de você, ali mesmo, naquele instante. Arranquei então a estrela do meu agal iraquiano e a atirei fora; depois, nem sequer fui até a casa buscar minhas roupas. Virei a cabeça do meu camelo na direção do Nufud… na direção do Najd, e parti. Parei apenas uma vez, na aldeia seguinte, para comprar um odre e alguma comida… Depois continuei conduzindo o camelo dia após dia, até encontrá-lo em Meca, quatro semanas mais tarde…

—E você se lembra, Zayed, da nossa primeira viagem juntos pelo interior da Arábia, rumo ao sul, aos palmeirais e aos campos de trigo de Wadi Bishah, e dali às extensões arenosas de Rania, que nenhum não árabe havia atravessado antes?

—Como me lembro claramente, tio. Você estava tão ansioso para ver aquela região deserta (o vasto deserto arenoso e desabitado chamado Rub al-Khali, que cobre–a Península Arábica em–um quartoda sua extensão)।] para ver onde, sob o sol, as areias cantam sob a influência dos jinn. E os beduínos que vivem nos limites daquela região? Naquela época, nunca tinham visto óculos na vida e pensaram que os seus óculos eram feitos de água congelada. Eles próprios são como os jinn: assim como outras pessoas leem livros, eles leem as marcas das trilhas na areia e leem, no céu e no vento, a chegada das tempestades de poeira — muitas horas antes de elas chegarem. E, tio, você se lembra do guia que contratamos em Rania, daquele demônio beduíno, a quem você quis matar a tiros porque ele pretendia abandonar-nos no meio do deserto? Como ele ficou furioso com o aparelho que você usava para tirar fotografias!

Nós dois rimos daquela aventura que havíamos deixado para trás, muito longe. Mas, naquela ocasião, não estávamos nem um pouco em condições de rir. Estávamos a seis ou sete dias de viagem ao sul de Riade quando aquele guia, um beduíno rude do acampamento dos “Ikhwan” de Rayn, explodiu de raiva porque eu lhe expliquei a finalidade da câmera. Naquele mesmo instante e lugar, ele se preparou para nos abandonar, pois sua alma corria perigo por tirar fotografias tão jahilíyah. Eu não teria tido a menor objeção a me livrar dele, se não fosse o temor de que tivéssemos chegado a uma região que nem eu nem Zayd conhecíamos — e, se ele nos deixasse sozinhos, certamente ficaríamos desorientados. Primeiro tentei convencer aquele nosso “demônio beduíno” por meio da razão. Mas não adiantou nada. Ele não queria entender de jeito algum. Pelo contrário, virou o camelo e o conduziu de volta na direção de Raniya. Então deixei claro que, se ele insistisse em nos entregar daquela maneira a uma morte quase certa de sede, não conseguiria escapar com vida. Apesar desse aviso, quando ele começou a conduzir o camelo, apontei-lhe meu rifle e me preparei para atirar — eu realmente pretendia fazê-lo; e pareceu que, finalmente, isso fez com que todas as preocupações de nosso amigo com sua alma fossem sufocadas. Depois de algum tempo murmurando, ele concordou em nos conduzir até o próximo acampamento, a três dias de viagem dali — onde poderíamos apresentar nossa questão controvertida diante do cádi, para que fosse julgada. Eu e Zayd tomamos-lhe as armas e passamos a vigiá-lo em turnos, para que ele não pudesse fugir. Alguns dias depois, quando pedimos justiça ao “cádi” de Qubaiya, ele primeiro decidiu a favor de nosso guia. “Porque”, baseando-se numa interpretação equivocada de um hadith do Mensageiro, declarou que “tirar retratos de seres vivos é uma ação reprovável”; contudo, apesar da forte convicção que até hoje prevalece entre muitos muçulmanos de que é proibido fotografar seres vivos, não há nenhuma disposição nesse sentido na lei islâmica. Então estendi diante do “cádi” a carta aberta do rei, dirigida a “todos os emires do país e a qualquer pessoa que a leia”; e, à medida que a lia, o rosto do “cádi” foi se alongando cada vez mais: “Muhammad Asad é meu hóspede, meu amigo e meu querido; quem quer que o trate com amizade estará tratando a mim com amizade, e quem quer que lhe seja hostil será considerado meu inimigo…” As palavras e o selo de Ibn Saud agiram como magia sobre o severo cádi. Por fim, ele decidiu que, “em certas circunstâncias”, era permitido tirar fotografias. Depois dessa decisão, deixamos nosso guia e contratamos um novo para nos conduzir na direção de Riade.

— Tio, você se lembra daqueles dias em Riade, quando éramos hóspedes do rei e o senhor ficou tão desolado ao ver os antigos estábulos reais cheios de automóveis reluzentes? E se lembra da bondade do rei para com o senhor?

— E você se lembra, Zayd, de como o rei nos enviou para descobrir o mistério da revolta beduína e de como, noite após noite, viajamos e entramos secretamente no Kuwait? Por fim, descobrimos o verdadeiro mistério por trás dos novos e reluzentes riais e das armas que chegavam aos revoltosos atravessando o mar…?

— E, tio, lembra-se de nossa missão, quando Sayyid Ahmad — que Deus prolongue sua vida — nos enviou à Cirenaica? De como atravessamos o mar secretamente num dhow e entramos no Egito, e de como, evitando o olhar daqueles italianos — que Deus os amaldiçoe —, penetramos em Jabal al-Akhdar e nos juntamos aos mujahidin sob a liderança de Umar al-Mukhtar? Como foi emocionante!

No silêncio da noite desértica iluminada pelas estrelas, quando uma delicada brisa tépida faz pequenas ondas surgirem na areia, as imagens do passado e do presente entrelaçam-se repetidamente, depois se separam, e chamam-se umas às outras para trás, com um som maravilhoso que mantém vivas as lembranças, através de muitos anos: os primórdios de meus anos árabes, minha primeira peregrinação a Meca e a escuridão que envolveu aqueles primeiros dias; e, diante dela, a morte daquela mulher que amei como nunca mais amei nenhuma outra, e que agora jaz sob o solo de Meca. À cabeceira há uma pedra simples, sem nenhuma inscrição, assinalando o fim de seu caminho e o começo de um novo caminho para mim: um fim e um começo, um chamado e um eco no vale rochoso de Meca, maravilhosamente entrelaçados nos sonhos um do outro!

— Zayd, pode trazer mais café?

— Às suas ordens, tio! — responde Zayd. Ele se levanta sem nenhuma agitação, com a longa e esguia cafeteira na mão esquerda. Depois, um ou dois minutos mais tarde, duas pequenas xícaras sem asa tilintam em sua mão direita — uma para mim e outra para ele. Primeiro despeja um pouco de café numa das xícaras e a entrega a mim. Sob a sombra de sua kufiya vermelha e branca, seus olhos me observam com profunda concentração, como se demonstrar respeito dessa maneira fosse muito mais importante do que a pequena xícara de café! Aqueles dois olhos brancos e atentos, alongados, emoldurados por longos cílios, profundos, contidos e serenos, tristes em repouso, mas brilhando de intensa alegria, contam a história de cem gerações vividas na liberdade das estepes: são os olhos de um homem cujos antepassados jamais foram oprimidos e jamais oprimiram ninguém. Mas o mais belo nele são os gestos: tranquilos, conscientes do ritmo próprio de cada movimento, nunca apressados — e jamais hesitantes; tão perfeitos e desprovidos de qualquer excesso que nos fazem pensar na interação entre os diversos instrumentos dentro da harmonia de uma orquestra perfeitamente afinada. Entre os beduínos, é comum ver gestos desse tipo; neles se reflete a simplicidade do deserto. Pois, salvo algumas cidades e aldeias, a vida do povo da Arábia foi tão pouco moldada pelas mãos humanas que a natureza, com suas leis severas, obrigou os homens a eliminar todo tipo de dispersão de seu comportamento e a transformar todos os atos realizados por vontade própria ou necessidade em algumas formas fundamentais, muito precisas — formas que permaneceram iguais durante inúmeras gerações e, com o passar do tempo, adquiriram a clareza suave e cristalina. É essa simplicidade herdada que agora vemos tanto nos gestos do árabe autêntico quanto em sua atitude diante da vida.

— Zayd, diga-me: para onde vamos amanhã?

Zayed olha para mim com um sorriso discreto: — Por quê, tio? Nós estamos indo justamente na direção de Tayma…?

— Não, irmão, eu realmente queria ir a Tayma! Mas agora já não quero mais. Estamos indo para Meca…

O início do caminho

Um

Alguns dias depois de sermos dominados pela sede, quando já se aproximava o anoitecer, eu e Zayed chegamos a um pequeno oásis abandonado e decidimos passar ali a noite. Sob os raios do sol poente, as montanhas de areia a leste reluziam como enormes blocos de pedras de ágata, em uma sucessão contínua de sombras coloridas, cor de giz, e reflexos de luz suavizada, em transformação constante; e essa mudança de tonalidades era tão delicada que parecia seguir um fluxo de sombras quase imperceptível, avançando em direção ao cinza do crepúsculo que se adensava — a ponto de os olhos parecerem violentá-la ao tentar acompanhá-la. Ainda se podiam ver claramente as copas das tamareiras, como coroas adornadas de plumas, e, atrás delas, semicobertas, as casas baixas de barro e os muros dos jardins! As rodas de madeira sobre o poço ainda cantavam.

A certa distância da aldeia, fizemos nossos camelos se deitarem sob o palmeiral. Depois descarregamos os pesados fardos e retiramos as selas dos lombos quentes dos camelos. Vendo que éramos estrangeiros, algumas crianças travessas se juntaram ao nosso redor; entre elas havia um menino, de olhos muito grandes e vestido com roupas rasgadas, que disse a Zayed que lhe mostraria onde encontrar lenha. Enquanto os dois saíam à procura de lenha, levei os camelos até o talab. Quando baixava meu balde de couro e o içava cheio de água, algumas moças vieram da aldeia para buscar água, trazendo recipientes de cobre e jarros de barro. Elas carregavam os recipientes com facilidade sobre a cabeça, deixando os dois braços pendentes aos lados e inclinando-se ligeiramente para a frente, para acompanhar o ritmo da carga, enquanto erguiam com as duas mãos as pontas soltas da burca, como leques que se agitassem.

— Assalamu alaikum, que a paz esteja sobre vocês, ó viajantes.

E eu respondi: — E sobre vocês também desçam a paz e a graça de Allah.

Suas roupas são negras e seus rostos estão descobertos, como acontece com quase todas as mulheres camponesas e beduínas desta região da Arábia; assim, é fácil ver seus enormes olhos negros. Embora estejam estabelecidas num oásis há muitas gerações, não perderam o espírito da vida nômade de seus antepassados. Seus modos são claros e definidos; sua reserva ao falar é inteiramente livre de timidez ou vergonha. Quando as vi silenciosamente tomando de minhas mãos a corda do balde e tirando água para meus camelos — exatamente como aquela mulher fizera, quatro mil anos antes, junto a um tanque, para o servo de Abraão, quando ele veio de Canaã a Padã-Arã, junto ao seu povo, a fim de conseguir uma noiva para Isaque, filho de seu senhor —

“Ao cair da tarde, ele fez seus camelos ajoelharem-se fora da cidade, junto a um tanque.

e disse: ‘Ó meu senhor, Deus de Abraão, rogo-te que hoje me concedas êxito e mostres bondade para com meu senhor Abraão. Eis que estou aqui junto a um tanque de água, e as filhas dos habitantes da cidade vêm tirar água. Que aconteça isto: quando eu disser à jovem: “Peço-te que inclines o teu cântaro, para que eu beba”, e ela responder: “Bebe, e também darei de beber aos teus camelos”, que ela seja aquela que escolheste para o teu servo Isaque; e assim saberei que mostraste bondade para com meu senhor.’

E eis que, antes mesmo de ele terminar de falar, Rebeca apareceu, com o seu cântaro sobre o ombro. A jovem era muito bonita e virgem; nenhum homem a havia tocado. Ela desceu ao poço, encheu o cântaro e tornou a subir.

O servo correu até ela e disse: ‘Peço-te: dá-me de beber um pouco da água do teu cântaro.’ Ela respondeu: ‘Beba, meu senhor.’ E rapidamente baixou o cântaro até a mão dele e deu-lhe de beber. Depois que ele bebeu, a jovem disse: ‘Também tirarei água para os camelos, até que saciem a sede.’ Sem demora, esvaziou o cântaro na gamela de onde os camelos beberiam, correu novamente ao poço e continuou a tirar água para todos os camelos…”

Estou junto a um poço, num pequeno oásis entre as vastas areias do Nufude, com meus dois camelos, olhando para a moça que toma de minhas mãos a corda do balde e, segurando-a com as suas, tira água para meus animais — enquanto a história bíblica passa pela minha mente. A terra chamada Padã-Arã e a época de Abraão estão muito, muito distantes; mas, graças à lembrança despertada pelos gestos dignos dessas mulheres, toda a distância do lugar desapareceu, e quatro mil longos anos não parecem ser nada diante do tempo!

— Queridas irmãs, que Allah abençoe e proteja suas mãos.

— E, ó viajante, que você também permaneça sob a proteção de Allah — respondem elas; depois voltam sua atenção para as gamelas e os cântaros, enchendo-os para levar água para casa.

Ao voltar ao lugar onde está a nossa tenda, faço os meus camelos ajoelharem-se e prendo-lhes as patas dianteiras, para que não possam afastar-se durante a noite. Zaid já acendeu o fogo e começou a preparar o café. Uma cafeteira alta, de bico curvo, ferve borbulhando; junto ao cotovelo de Zaid está pronta outra cafeteira menor, do mesmo formato. Na mão esquerda ele segura uma enorme colher chata de ferro, cujo cabo tem dois pés de comprimento; com essa colher, torra em fogo brando um punhado de grãos de café, pois na Arábia o café é torrado de novo para cada cafeteira. Assim que os grãos adquirem uma cor ligeiramente acobreada, Zaid coloca-os num almofariz de bronze e os reduz a pó. Em seguida, despeja na cafeteira menor um pouco da água fervente da maior, vira dentro dela o café moído e deixa a cafeteira junto ao fogo, para que a água ferva lentamente. Quando a bebida está quase pronta, Zaid acrescenta-lhe algumas sementes de cardamomo para torná-la mais forte, pois dizem na Arábia que, para ser bom, o café deve ser tão forte quanto a morte e tão picante e quente quanto o amor.

Mas ainda não estou pronto para tomar café tranquilamente. Depois de horas e horas de cansaço, de calor e de permanecer sentado na sela, minhas roupas suadas estão grudadas à pele do corpo de modo tenaz e, naturalmente, todo o meu ser anseia por um banho; por isso, volto lentamente ao poço, sob as palmeiras.

Enquanto isso, a escuridão se adensou. Todos já voltaram para casa, vindos do palmeiral. Apenas ao longe, onde se erguem as casas, um cão late. Tiro as roupas e desço para dentro do poço, apoiando mãos e pés nas saliências e reentrâncias de sua parede e valendo-me de algumas cordas das quais pendem os odres de água. Desço até a água escura e depois entro nela. A água está muito fria e chega-me ao peito. No escuro, ao meu lado, as cordas de içar a água permanecem retas, agora sob o peso dos enormes odres submersos. Durante o dia, esses mesmos odres são usados para irrigar os campos. Sob os meus pés, sinto um fio tênue de água que sobe, gotejando, de uma fonte subterrânea e mantém o poço fresco por meio de um fluxo lento, incessante e eternamente renovado.

Acima de mim, o vento uiva sobre a boca do poço e cria em seu interior um eco débil, como o som dentro de uma concha marinha encostada ao ouvido — uma grande concha marinha que eu gostava de apertar contra o ouvido para escutar, na casa de meu pai, muitos e muitos anos atrás, quando eu era criança — apenas alta o bastante para que eu mal conseguisse olhar por cima da mesa. Eu encostava a concha ao ouvido e me perguntava, maravilhado, se aquele som surgia o tempo todo dentro dela ou se começava a soar somente quando eu a levava ao ouvido. Teria ele alguma relação comigo? Aquela música tocava por si mesma? Ou começava a tocar somente quando eu queria escutá-la? Muitas vezes tentei ludibriar a concha, deixando-a longe de mim para que o sibilo cessasse; depois, de repente, tornava a apertá-la contra o ouvido. De novo, a mesma música, o mesmo som! Nunca consegui resolver o problema: quando eu tentava escutar, aquela música continuava tocando dentro da concha?

É claro que, naquela época, eu não compreendia que minha mente estava se enredando numa questão que havia deixado perplexos, por incontáveis eras, homens muito mais sábios do que eu: existe algo como uma “verdade” ou uma “realidade” independente da nossa mente, ou é a nossa percepção direta que a cria? Mas, ao olhar para os dias passados, parece-me que esse problema não me perseguiu apenas na infância; continuou a fazê-lo mais tarde — como continuará a perseguir, em algum momento, consciente ou inconscientemente, todo ser humano pensante. Pois, seja qual for a verdade independente do indivíduo, o mundo se revela a nós na forma e na medida em que se refletem em nossa mente. Portanto, cada um de nós só pode perceber a “verdade” através do vínculo com a própria experiência. Talvez aqui se encontre uma explicação racional tanto para o primeiro despertar da consciência humana quanto para a crença eterna do homem na sobrevivência após a morte; e essa crença é tão profunda, tão amplamente difundida entre todos os povos e em todas as épocas, que não pode ser facilmente descartada como uma simples fantasia. Talvez não seja exagero dizer que essa crença se tornou inevitável, necessariamente inevitável, devido à estrutura particular da mente humana. Em sentido teórico e abstrato, talvez não seja difícil para o homem conceber a própria morte como uma extinção definitiva, mas é impossível tornar essa extinção visível. Pois isso significaria que o homem seria capaz de testemunhar o desaparecimento de tudo o que é material e real. Em outras palavras, ele teria de ser capaz de conceber o nada — uma ideia que nenhuma mente humana é capaz de conceber.

Os filósofos e os profetas e mensageiros não nos ensinaram de novo a acreditar na existência de uma vida após a morte — apenas deram forma e significado espiritual a uma ideia tão antiga e inata quanto o aparecimento do homem na Terra.

Não consigo deixar de sorrir interiormente diante da incongruência entre pensar em problemas tão profundos e uma atividade puramente mundana como lavar a poeira e o suor da viagem de um dia. Existe alguma fronteira visível ou intelectualmente perceptível entre os aspectos mundano e profundo da vida? Por exemplo, que poderia ser mais mundano do que sair à procura de um camelo perdido? E que poderia ser mais profundo e incompreensível do que uma sede quase mortal?

Talvez tenha sido o impacto daquela experiência que tornou meus sentidos agudos e penetrantes e fez imperiosa a necessidade de alguma explicação para mim mesmo. Essa necessidade é a de compreender o curso da minha própria vida de maneira mais plena do que antes. Mas isso significa, lembro a mim mesmo, que enquanto vive o homem pode realmente compreender o sentido da própria vida?

Talvez tenha sido o impacto dessa experiência que aguçou meus sentidos e tornou inevitável, para mim, a necessidade de explicar alguma coisa. Essa necessidade é a de compreender o curso da minha própria vida de modo mais completo do que antes. Mas, lembro a mim mesmo, isso significa que, enquanto vive, o ser humano pode realmente compreender o sentido da própria vida? Às vezes sabemos o que aconteceu em nossa vida neste momento ou em determinada ocasião, mas nosso propósito, nosso destino, não são tão fáceis de compreender ou enxergar. Pois o destino é a soma total do passado e do presente, de tudo o que aconteceu dentro de nós e nos impulsionou, e de tudo o que acontecerá dentro de nós e nos impulsionará no futuro; por isso, sua forma completa só pode se revelar no fim absoluto de nossa jornada, e, enquanto seguimos pelo caminho, sempre o compreenderemos mal ou apenas pela metade.

Como posso eu, aos meus trinta e dois anos, dizer qual foi ou qual é o meu destino?

Quando olho para a vida que deixei para trás, às vezes tenho a impressão de estar vendo a vida de dois homens. Mas, sempre que penso nisso, surge a pergunta: essas duas partes da minha vida eram realmente tão diferentes uma da outra, ou, sob todas essas diferenças externas de forma e de método, havia sempre, em ambas as partes, uma afinidade de sentimentos e um mesmo objetivo?

Ergo a cabeça e, acima da borda circular do poço, vejo um segmento circular do céu e as estrelas. Fico imóvel durante muito tempo; e tenho a impressão de ver como elas se deslocam lentamente no espaço para completar o ciclo de milhões e milhões de anos que jamais terá fim. E então, contra a minha vontade, sou obrigado a pensar no pequeno número de anos que atravessei, nesses anos indistintos que passei na segurança calorosa do lar de minha infância, numa cidade em que eu conhecia cada ruela… Depois, nos dias passados em grandes cidades, cidades cheias de excitação e esperança, sentimentos que só um adolescente pode experimentar… Em seguida, num mundo novo, onde os rostos das pessoas a princípio me pareceram estrangeiros, mas que, com o tempo, trouxe uma nova intimidade e um novo sentimento de retorno ao lar. Depois… desconhecido… em cenários ainda mais desconhecidos, vivendo em cidades tão antigas quanto a mente humana, nas estepes sem horizonte, nas montanhas, cuja primitividade nos recorda a selvagem primitividade do coração humano… E, na solidão desolada e ardente do deserto, os dias foram passando e, pouco a pouco, nasceram novas verdades — verdades novas para mim… E, naquele dia, depois de uma longa conversa, em meio às neves das montanhas do Hindu Kush, um amigo afegão exclamou, espantado: “Mas você é muçulmano; simplesmente não sabe disso.” … E, outro dia, alguns meses depois, quando eu mesmo vim a sabê-lo. Depois, meu primeiro hajj em Meca, a morte de minha esposa e o desespero que se seguiu; e, desde então, todos esses momentos passados entre os árabes — momentos intermináveis —, e, ano após ano, viajando pelo deserto e pelas estepes, em meio aos perigos da guerra dos beduínos árabes nômades; participando da luta pela independência da Líbia e permanecendo por longo tempo em Medina… onde, na Mesquita do Profeta, procuro completar meu conhecimento do Islã; depois, hajj repetidos; casamentos com moças beduínas e, mais tarde, divórcios; relações calorosas com as pessoas e os dias áridos da solidão… Discussões eruditas com muçulmanos instruídos de todas as regiões do mundo, viagens por áreas desconhecidas e inexploradas: anos de imersão num mundo muito distante dos pensamentos e objetivos da vida ocidental.

Que longa procissão de anos após anos! Agora, neste momento, todos esses anos submersos vieram à tona e, erguendo novamente o véu de seus rostos, começaram a me chamar com muitas vozes; e, num súbito estremecimento do coração, percebi quão longa, quão interminável era a minha jornada! — Você sempre esteve apenas seguindo, e seguindo — digo a mim mesmo —, mas ainda não conseguiu dar à sua própria vida uma forma que o homem possa apreender com as mãos, e nunca conseguiu responder à pergunta: “Onde?” … Você apenas seguiu e seguiu… como viajante, através de muitos países, hóspede de muitas casas; mas o desejo de sua viagem ainda não terminou e, embora não seja mais um desconhecido, você ainda não conseguiu criar raízes.

Conquistei meu lugar entre um grupo humano — eles acreditam que passei a acreditar em tudo aquilo em que eles acreditam —, e, no entanto, ainda não consegui criar raízes. Por quê?

Quando, dois anos atrás, tomei uma esposa árabe em Medina, meu desejo era que ela me desse um filho. Ao receber Talal, seu filho, que nasceu em nossa casa apenas alguns meses atrás, comecei a sentir que os árabes eram, ao mesmo tempo, meus parentes e meus irmãos ideológicos. Quero que Talal crie raízes no interior profundo do país e cresça consciente da nobre herança de sangue e civilização que possui. Parece-me que isso seria suficiente para despertar em qualquer pessoa o desejo de se estabelecer permanentemente em algum lugar e fundar um lar permanente para sua família. Então, por que minhas andanças ainda não terminaram, por que ainda preciso seguir meu caminho? Por que a vida que eu mesmo escolhi ainda não consegue me satisfazer por completo? O que é que não encontro neste ambiente? Certamente não é a curiosidade intelectual da Europa. Deixei tudo isso para trás. Não é que eu tenha perdido muito com isso. Na verdade, afastei-me tanto dessas coisas que, dia após dia, tornou-se mais difícil para mim preparar textos para os jornais europeus que me garantem o sustento. Sempre que envio um texto, tenho a impressão de estar atirando uma pedra num poço sem fundo: a pedra desaparece no vazio escuro, e nem sequer chega um pequeno eco para me informar que ela alcançou o seu destino.

Enquanto pensava assim, inquieto e perplexo, semissubmerso nas águas escuras do poço de um oásis árabe, de repente comecei a ouvir, no fundo de minhas lembranças, uma voz… a voz de um velho nômade curdo: “Se a água perde o movimento num pântano estagnado, torna-se velha, deteriorada e suja; mas, quando se move e flui, torna-se límpida e pura. O mesmo acontece com o homem que se mantém continuamente em movimento.” Depois, tive a impressão de que, como por um encantamento, toda a minha agitação havia desaparecido. Comecei a olhar para minha vida com os olhos bem abertos, como olho para uma página de um livro para ler uma história, e comecei a compreender que o curso da minha vida não poderia ter sido diferente; pois, quando me pergunto: “Qual é o resultado total da minha vida?”, alguém dentro de mim responde: “Você partiu de um mundo para encontrar outro — para conquistar um mundo novo em lugar de um mundo antigo, do qual, na realidade, você nunca foi dono.” E, com uma clareza repentina, compreendo que tal empreendimento pode, na verdade, exigir uma vida inteira.

Saio do poço, visto a longa túnica limpa que trouxe comigo e volto para junto de Zaid, perto do fogo e dos camelos. Bebo o café forte que Zaid me dá e depois me estendo no chão, junto ao fogo, revigorado e cheio de vida.

Dois

Tenho as duas mãos cruzadas sob o pescoço e olho para esta noite árabe, uma noite escura e cravejada de estrelas, arqueada como um arco sobre mim. Um meteoro atravessa o céu como uma descarga elétrica, e eis outro, depois mais outro: lanças de luz rasgam o seio da escuridão! Serão apenas fragmentos de planetas despedaçados, restos de alguma catástrofe cósmica, que agora avançam sem propósito pela extensão infinita do universo? Oh, não. Se você perguntar a Zaid, ele lhe dirá que são lanças de fogo com as quais os anjos expulsam Satanás, que em certas noites sobe sorrateiramente ao céu para roubar o conhecimento dos mistérios de Allah… Será então o próprio Iblis, o rei de Satanás, sobre quem acaba de ser arremessado, com enorme velocidade, um dardo de fogo no céu oriental…?

As lendas relacionadas a este céu e às suas estrelas são-me mais familiares, desde a casa da minha infância…

E de que outra maneira poderia ter sido? Desde que entrei na Arábia, vivi como um árabe, vesti apenas roupas árabes, falei somente em árabe e até sonhei em árabe; os costumes e a riqueza de imagens da Arábia moldaram meu pensamento quase sem que eu percebesse. Por mais competente que um estrangeiro seja nos costumes e na língua de um país, nunca fui impedido por aquelas limitações da mente que normalmente o impossibilitam de encontrar o verdadeiro caminho para compreender as emoções e os sentimentos dos habitantes de uma terra estrangeira e de fazer do mundo deles o seu próprio mundo.

De repente, exulto numa risada de felicidade e liberdade — rio tão alto que Zaid me olha com os olhos arregalados de espanto, e meu camelo vira a cabeça para mim com um movimento lento, indistinto e altivo; pois, naquele momento, vi o meu caminho: apesar de tão longo, quão simples e direto ele era — a estrada que ia de um mundo que não era meu até o meu próprio mundo.

Minha vinda a este país — não será verdadeiramente um retorno à minha própria casa? O retorno de um coração à sua própria casa, depois de percorrer as curvas de milhares de anos em busca dela, e que agora reconheceu este céu — o meu céu — com uma alegria dolorosa? Pois o céu da Arábia é tão profundo, tão alto e muito mais festivo, estrela após estrela, do que o céu de qualquer outro país; este mesmo céu era como um dossel sobre o caminho dos meus antepassados, aqueles guerreiros pastores nômades que, milhares de anos atrás, no próprio alvorecer de seu poder, partiram cegos pela cobiça de terras e despojos, das regiões férteis da Caldeia rumo a um futuro desconhecido: a pequena tribo beduína dos judeus — os antepassados daquele homem que mais tarde nasceu em Ur, entre os caldeus.

Esse homem, cujo nome era Ibrahim, não era habitante da região de Ur. Sua tribo era uma entre as muitas tribos da Arábia. Em algum momento, essas tribos árabes partiram, serpenteando desde o deserto faminto da península rumo à terra dos sonhos do norte, que imaginavam inundada de leite e mel. Essas regiões eram as terras cultivadas do Crescente Fértil, a Síria e a Mesopotâmia. Às vezes, essas tribos derrotavam os habitantes locais e se estabeleciam em seu lugar como governantes; com o tempo, misturavam-se aos vencidos e, junto com eles, davam origem a um novo povo, como os assírios e os babilônios — que construíram seus reinos sobre as ruínas da antiga civilização suméria —, ou como os caldeus, que se tornaram poderosos na Babilônia, ou ainda como os amorreus, que mais tarde ficaram conhecidos como cananeus na Palestina e como fenícios no litoral da Síria. Outras vezes, os pastores nômades vindos de fora eram tão fracos que não tinham força para derrotar os que haviam chegado antes deles; por fim, desapareciam entre os povos anteriores, ou os agricultores empurravam os nômades de volta para o deserto, obrigando-os assim a procurar novas pastagens e, talvez, conquistar uma região diferente. Segundo a Torá, o nome original de Ibrahim era ‘Ab-Ram’, que em árabe antigo significa “aquele que é ambicioso”. Evidentemente, a tribo de Ibrahim era uma das mais fracas. A história bíblica sobre seu assentamento numa região árida, à margem do deserto, descreve o período em que compreenderam que haviam fracassado em encontrar um novo lar para si na região do Tigre e estavam se preparando para partir, seguindo o curso do Eufrates rumo ao noroeste, em direção a Harã e, dali, à Síria.

«O homem que era ambicioso» — esse meu remoto antepassado, a quem Allah impelira para regiões desconhecidas e ignotas, para que assim descobrisse o próprio ser — certamente compreendia, compreendia muito bem, por que eu vim parar aqui; pois também ele teve de correr de um país para outro, deambular por muitos países — e, antes de conseguir dar à própria vida uma forma que se pudesse apreender e tocar com as mãos, também ele teve de ser hóspede em muitas casas, antes de fincar raízes num lugar específico. Diante de suas experiências, ao mesmo tempo inspiradoras de respeito e temor, a minha pequena perplexidade não lhe pareceria problema algum. Ele compreenderia, tal como agora compreendo, que o sentido das minhas andanças reside num desejo latente de conhecer a mim mesmo familiarizando-me com um mundo que se aproxima das questões mais profundas da vida e da própria verdade — um mundo inteiramente diferente de tudo aquilo com que eu estava familiarizado e acostumado na infância e na juventude.

Três

Que longa distância separa a minha infância e juventude na Europa Central da minha vida atual na Arábia! Mas como é agradável recordar os dias que ficaram para trás na vida.

Aqueles primeiros dias da infância — passados numa casa de Lwów, na Polônia, que ainda estava sob o domínio austríaco — uma casa tão silenciosa e digna quanto a rua ao lado da qual se erguia. Uma rua comprida, um tanto coberta de poeira, mas limpa, ladeada por fileiras de castanheiros; pavimentada com grossas pranchas de madeira, abafava o som dos cascos dos cavalos e transformava cada momento do dia numa tarde preguiçosa. Eu amava aquela bela rua com uma consciência singular, como amava as cidades da minha infância — não apenas porque era a rua da minha casa; creio, antes, que realmente a amava porque, com uma sensação de nobre tranquilidade, ela se estendia do centro animado da cidade alegre e efervescente em direção ao silêncio dos bosques nos arredores e ao vasto cemitério escondido nesses bosques. Às vezes, belas carruagens pareciam voar sobre rodas silenciosas, acompanhando o ritmo do rápido toc-toc-toc-toc dos cascos dos cavalos a galope; e, se fosse inverno e a rua estivesse coberta por neve de meio metro de profundidade, então os trenós deslizavam por ela, vapor saía das narinas dos cavalos, seus sinos tilintavam no ar pesado de neblina, e, se você próprio estivesse sentado num trenó, sentindo a neblina correr ao seu lado e tocar seu rosto com um contato gelado, seu coração infantil compreenderia que os cavalos galopantes o conduziam a uma felicidade sem começo nem fim.

Depois, havia aqueles meses de verão no campo, onde um tio meu, rico banqueiro, possuía uma grande propriedade para a alegria de sua numerosa família. Um pequeno rio de curso preguiçoso corria entre fileiras de salgueiros em ambas as margens; depois, os celeiros dali, repletos de gado tranquilo — e aquele claro-escuro misteriosamente impregnado do cheiro dos animais e do feno, e do riso das filhas dos camponeses rutenos, ocupadas em ordenhar as vacas ao entardecer; você podia beber o leite quente e espumoso diretamente do balde, não apenas por estar com sede, mas porque era emocionante beber algo ainda tão próximo de sua origem animal. Havia também aqueles dias de agosto que passei nos campos com os trabalhadores que ceifavam o trigo e com as moças que o juntavam e amarravam em feixes: jovens mulheres de bela aparência e corpo robusto, com seios fartos e braços firmes e vigorosos, cuja força eu sentia quando, ao meio-dia, elas me faziam rolar, brincando, sobre as pilhas de trigo; naturalmente, eu era tão pequeno naquela época que não conseguia atribuir outro significado aos seus abraços risonhos.

E as viagens com meu pai e minha mãe a Viena e Berlim, aos Alpes e às florestas da Boêmia, ao Mar do Norte e ao Báltico; os lugares ficavam tão distantes uns dos outros que cada um parecia um mundo novo. Sempre que partia para uma viagem desse tipo, meu coração parecia parar ao imaginar as novas maravilhas que surgiriam diante de nós ao primeiro apito da locomotiva e ao primeiro solavanco de suas rodas!

Além disso, havia muitos companheiros de brincadeiras — meninos e meninas —, um irmão e uma irmã, e muitos primos e primas; e, depois dos dias tristes da escola durante a semana — que não eram tão penosos assim —, aqueles domingos luminosos e livres; correr pelos campos, meus primeiros encontros secretos com belas meninas da minha idade e o rubor provocado por uma estranha excitação, que eu levava horas e horas para superar…

Essa infância foi feliz — embora passada, ainda assim era satisfatória. A vida de meu pai e de minha mãe era uma vida de conforto e bem-estar; pode-se dizer que viveram sobretudo para os filhos. Talvez a origem da facilidade com que, nos anos posteriores, consegui adaptar-me a situações desconhecidas e por vezes adversas esteja em alguma influência da serenidade e do silêncio imperturbável de minha mãe; por outro lado, a agitação mental de meu pai talvez tenha se refletido na minha natureza inquieta…

Se eu tivesse de descrever meu pai, diria que aquele homem bonito, esbelto, de estatura mediana e tez escura — cujos olhos eram negros e ansiosos — não se ajustava muito ao ambiente. No início da juventude, sonhava em dedicar-se à ciência, especialmente à física. Mas esse sonho não se realizou em sua vida. Ele foi obrigado a contentar-se em ser advogado. É claro que teve bastante sucesso nessa profissão, pois, para sua mente aguçada e inquieta, ela talvez representasse um desafio. Ainda assim, papai nunca conseguiu aceitar aquela profissão de coração e alma. A solidão que se instalara ao seu redor talvez tivesse como raiz a consciência, sempre presente, de que sua verdadeira vocação o havia enganado.

O pai de meu pai era um rabino ortodoxo, isto é, um líder religioso judeu, na capital da então província austríaca da Bucovina, Jarnowitz. Ainda me lembro dele — o velho era muito bonito; suas mãos eram longas e macias, e seu rosto, expressivo e curioso, estava emoldurado por uma barba branca. Durante toda a vida, em suas horas de lazer, dedicou-se à matemática e à astronomia; tinha profundo interesse por essas duas disciplinas. Além disso, era o melhor jogador de xadrez daquela região — e talvez tenha sido justamente isso a base de sua longa amizade com o arquiepiscope grego ortodoxo, que também era um célebre enxadrista. Os dois velhos passavam noite após noite diante do tabuleiro de xadrez, e suas reuniões terminavam com discussões sobre os princípios mais elevados de suas respectivas religiões. Muitos poderiam pensar que, com uma disposição mental assim, seria natural que meu avô acolhesse com satisfação a inclinação de meu pai para a ciência. Mas, desde o início, decidiu em seu íntimo que seu primogênito seguiria a tradição do rabinato judaico, uma antiga tradição mantida por várias gerações da família. Ele nem sequer estava disposto a considerar qualquer outra profissão para meu pai. Sua determinação talvez tenha sido fortalecida pelo esqueleto vergonhoso guardado no armário da família: a memória de um de seus tios, isto é, de um irmão de meu bisavô, que rompera de maneira extremamente incomum com a tradição familiar — chegando até a abandonar a religião de seus antepassados.

Ao que parece, aquele irmão quase lendário de meu bisavô — cujo nome jamais era pronunciado em voz alta naquela família — fora criado dentro da mesma tradição familiar. Ainda muito jovem, tornou-se um rabino completo, e nessa mesma idade foi casado com uma mulher que, ao que parece, não amava. Naquela época, o salário de um rabino não era muito alto. Por isso, para aumentar sua renda, ele negociava peles e, todos os anos, precisava ir a Leipzig, o centro do comércio de peles da Europa. Quando tinha cerca de vinte e cinco anos, partiu numa longa viagem desse tipo em uma carruagem puxada por cavalos. Era a primeira metade do século XIX; naquela ocasião, foi a Leipzig e vendeu suas peles, mas, em vez de voltar para casa, vendeu também a carruagem e os cavalos. Depois, raspou a barba e as costeletas e, esquecendo a esposa que não amava, partiu para a Inglaterra. Durante algum tempo, ganhou a vida com trabalhos braçais; à noite, estudava astronomia e matemática. Parece que algum de seus patronos descobriu sua identidade judaica e providenciou para que ele prosseguisse seus estudos em Oxford! Alguns anos mais tarde, o irmão de meu bisavô saiu de Oxford como um estudioso promissor e um recém-convertido ao cristianismo. Pouco depois de enviar à esposa judia os papéis do divórcio, casou-se com uma moça não judia. Nada se soube de especial sobre sua vida posterior em nossa família — apenas que alcançou bastante fama como astrônomo e morreu condecorado como cavaleiro.

Parece que foi justamente esse terrível exemplo que tornou tão inflexível a atitude de meu avô diante do interesse de meu pai pelo estudo das ciências profanas. Ele teria de ser um rabino — e ponto final! É claro que meu pai não estava disposto a desistir tão facilmente. Durante o dia, estudava o Talmude; mas, à noite, às escondidas, estudava sem a ajuda de qualquer professor um currículo secundário humanístico. Mais tarde, contou tudo à mãe. Talvez ela tenha se sentido magoada com os estudos secretos do filho; ainda assim, graças à sua nobreza de caráter, compreendeu que seria muito cruel privá-lo da oportunidade de seguir a vocação de seu coração. Aos vinte e dois anos, tendo concluído em quatro anos o curso secundário de oito anos, meu pai preparou-se para os exames de bacharelado e foi aprovado com distinção. Com esse diploma em mãos, ele e sua mãe reuniram coragem para revelar a meu avô a terrível notícia. Posso imaginar a cena dramática que se seguiu. Mas o resultado foi que, por fim, meu avô amoleceu e concordou que meu pai não prosseguisse os estudos rabínicos, mas estudasse na universidade. Naturalmente, a situação financeira da família não lhe permitia estudar sua matéria preferida, a física. Por isso, escolheu uma profissão mais lucrativa — a advocacia — e, no devido tempo, formou-se advogado. Alguns anos depois, estabeleceu-se na cidade de Lwów, na Galícia Oriental, e ali se casou com minha mãe, uma das quatro filhas de um rico banqueiro local. Foi ali que nasci, no verão de 1900, como o segundo dos três filhos do casal.

O desejo frustrado de meu pai manifestava-se em seus amplos estudos sobre assuntos científicos e talvez também em seu estranho, embora muito discreto, favoritismo por este seu segundo filho — isto é, por mim. Ao que parece, eu também me sentia mais atraído por aquelas coisas que nada tinham a ver com ganhar dinheiro imediatamente ou com uma carreira bem-sucedida. Ainda assim, não havia qualquer possibilidade de que se realizasse seu sonho de me transformar em cientista. Embora não fosse tolo, eu era um aluno extremamente desatento. A matemática e as ciências naturais me entediavam. Eu sentia um prazer imenso lendo os empolgantes romances históricos de Sienkiewicz, as histórias fantásticas de Júlio Verne, os contos de James Fenimore Cooper e Karl May sobre os índios americanos e, mais tarde, os poemas de Rilke e Assim falou Zaratustra, escrito em versos profundos e grandiosos. Os mistérios da gravidade e da eletricidade não me despertavam o menor interesse, tanto quanto a gramática latina e grega. Como resultado, fui promovido todas as vezes depois de quase reprovar nos exames. Sem dúvida, isso era profundamente decepcionante para meu pai. Mas é muito provável que ele encontrasse algum consolo no fato de que meus professores estavam muito satisfeitos ao ver minha inclinação pela literatura e pela história polonesas e alemãs.

Seguindo a tradição da minha família, em casa adquiri, com um mestre, um conhecimento completo da religião hebraica. A razão não era a religiosidade ostensiva de meu pai e de minha mãe. Eles pertenciam a uma época em que as pessoas apenas manifestavam lealdade verbal a alguma das crenças religiosas que haviam moldado a vida de seus antepassados; ninguém fazia o menor esforço para moldar, de acordo com os ensinamentos dessa religião, sua conduta prática ou sequer seu pensamento moral. Na ritualidade árida e sem vida de pessoas que se apegavam à sua herança religiosa apenas por hábito, apenas por força do hábito… ou, mais ainda, na indiferença altiva dos “emancipados”, que consideravam a religião uma superstição antiquada, à qual alguém podia ocasionalmente adaptar-se exteriormente, mas da qual se envergonhava interiormente, por não ser possível apoiá-la com a razão. Sob todos os aspectos, meu pai e minha mãe pertenciam ao primeiro grupo. Mas às vezes surge em mim a vaga suspeita de que, pelo menos meu pai, tendia para o segundo. Apesar disso, para agradar a seu pai e a seu sogro, ele insistia em que eu passasse longas horas lendo os livros religiosos. Assim, aos doze ou treze anos, não apenas aprendi a ler hebraico muito rapidamente, como também adquiri a capacidade de falar hebraico com facilidade. Além disso, obtive algum conhecimento de aramaico. Talvez tenha sido graças a esse conhecimento que, mais tarde, consegui dominar o árabe com tanta facilidade. Li o “Antigo Testamento” em sua língua original. Desse modo, também me familiarizei com a “Mishná” e a “Guemará” — isto é, o texto principal do Talmude e seu comentário. Com considerável autoconfiança, eu podia discutir as diferenças entre o Talmude de Jerusalém e o da Babilônia. E mergulhei de tal maneira nas complexidades do “Targum”, isto é, dos comentários da Bíblia, que a vida de um “rabino” parecia ter sido destinada para mim!

Apesar de todo esse novo conhecimento religioso, ou talvez justamente por causa dele, logo comecei a adotar uma atitude altiva em relação a muitos dos princípios do judaísmo. É verdade que eu não discordava da ênfase dada em toda a literatura judaica à retidão moral, nem da grandiosa consciência divina dos profetas judeus. Mas me parecia que o “Alá” do Antigo Testamento e do Talmude estava indevidamente preocupado apenas com os rituais por meio dos quais seus adoradores deveriam adorá-lo. Também me parecia que Alá se ocupava, de maneira surpreendente, desde tempos remotos, apenas do destino de uma determinada nação, os judeus. A própria estrutura do Antigo Testamento como história dos descendentes de Abraão é tal que parece apresentar Alá não como o Criador e Sustentador de toda a humanidade, mas como uma divindade tribal que regula, em toda a criação, as necessidades de um povo escolhido: recompensa-os com a conquista de terras quando praticam boas ações e, sempre que se desviam do caminho que lhes foi determinado, obriga-os a sofrer dor e humilhação pelas mãos dos incrédulos. Quando observo tudo isso à luz dessas falhas fundamentais, parece-me que nem mesmo na inspiração moral de profetas posteriores, como Isaías e Jeremias, há qualquer mensagem universal.

Mas o resultado daqueles meus primeiros estudos, embora contrário ao que se esperava — pois, em vez de me atrair para a religião de meus antepassados, eles me afastaram dela —, ajudou-me mais tarde a compreender aquilo que às vezes considero o propósito fundamental de toda religião, qualquer que seja sua forma. Embora o judaísmo me tivesse decepcionado, naquela época não tentei buscar a verdade espiritual em nenhum outro lugar. Influenciado por um ambiente cético, rejeitei diretamente, como muitos outros meninos da minha idade, todas as religiões formais. Como a religião nunca me parecera mais do que um enorme conjunto de leis proibitivas, meu afastamento dela não tinha, na realidade, nenhuma relação com ela. O que eu queria não era muito diferente daquilo que quase todos os outros meninos queriam: eu queria ação, queria aventura e emoção!

Por volta de 1914, quando a Grande Guerra já havia começado, pareceu-me que a primeira grande oportunidade de realizar meus sonhos infantis surgira ao alcance da mão. Aos quatorze anos, fugi da escola e alistei-me no exército austríaco — sob um nome falso. Eu era muito alto para a minha idade e passei facilmente por alguém de dezoito anos, que era a idade mínima para ingressar no exército. Mas era evidente que eu não possuía nenhuma característica de soldado. Cerca de uma semana depois, meu pai encontrou-me com a ajuda da polícia. Em seguida, fui levado vergonhosamente para Viena, onde minha família começara a morar pouco tempo antes. Quase quatro anos depois, fui efetivamente e legalmente incorporado ao exército austríaco, mas, antes disso, meu sonho de glória militar já havia desaparecido; eu procurava outro caminho para realizar-me. De todo modo, poucas semanas depois de meu alistamento, ocorreu uma revolução, o Império Austro-Húngaro desmoronou e a guerra chegou ao fim.

Durante cerca de dois anos depois da Primeira Guerra Mundial, estudei de maneira bastante desorganizada história da arte e filosofia na Universidade de Viena. Eu não tinha interesse nesses estudos. A vida acadêmica tranquila não me atraía de modo algum. Sentia o desejo de enfrentar a vida mais profundamente, o desejo de entrar na vida. Queria entrar na vida sem recorrer às defesas artificiais que as pessoas amantes da segurança erguem ao seu redor; queria encontrar por mim mesmo o caminho para compreender a ordem espiritual que existe por trás de todas as coisas — uma ordem que eu sabia existir, mas que ainda não conseguia enxergar com clareza.

Não é nada fácil expressar em palavras o que eu entendia então por ordem espiritual. Certamente não refletia sobre essa questão no sentido religioso comum; na verdade, pode-se dizer que não lhe atribuía sentido determinado algum. Para ser justo comigo mesmo, devo dizer que essa imprecisão, essa indeterminação, não foi criada por mim: era, na realidade, a imprecisão, a indeterminação de toda uma época.

Uma característica das primeiras décadas do século XX era o vazio espiritual. Todos os valores morais aos quais a Europa se habituara durante muitos séculos perderam seus contornos definidos e tornaram-se amorfos sob a terrível pressão do que aconteceu entre 1914 e 1918. E, em seu lugar, ainda não se vislumbrava em parte alguma um novo conjunto de valores. Todos sentiam uma atmosfera de transitoriedade e incerteza, um presságio de convulsões sociais e psicológicas, que levou as pessoas a começar a duvidar de que pudesse haver novamente qualquer estabilidade no pensamento e nos esforços humanos. Tudo parecia flutuar numa inundação informe e sem contornos. E a inquietação espiritual dos jovens não encontrava em parte alguma um apoio. Como não havia nenhum padrão confiável de moralidade, ninguém podia dar aos nossos jovens respostas satisfatórias às perguntas que nos deixavam perplexos. A ciência proclamava que “o conhecimento é tudo” e havia esquecido que, sem um objetivo moral, o conhecimento só pode criar o caos. Os reformadores sociais, os revolucionários e os comunistas — não há dúvida de que todos desejavam construir um mundo melhor e mais feliz —, mas cada um deles pensava apenas à luz das condições sociais e econômicas externas e, para corrigir as falhas, elevava sua concepção materialista da história a uma nova metafísica — uma metafísica antimetafísica. Enquanto isso, os religiosos comuns não conheciam nada melhor do que atribuir a Deus as qualidades que haviam adquirido de seus próprios modos de pensar, qualidades que há muito se tinham tornado rígidas e sem sentido. E quando nós, jovens, vimos que o que acontecia no mundo ao nosso redor muitas vezes estava em flagrante desacordo com as qualidades divinas imaginadas, dissemos a nós mesmos: “As qualidades atribuídas a Deus são claramente diferentes e distintas das forças que governam o destino humano. Portanto, não existe Deus.” Muito poucos de nós pensaram que a causa de toda essa confusão talvez estivesse nos caprichos e excentricidades dos arrogantes guardiões da religião, que afirmavam ter o direito de “apresentar” Deus e que, assim, vestindo Deus com suas próprias roupas, O haviam separado do ser humano e de seu destino.

Na vida individual, essa incerteza e mutabilidade quanto ao que fazer podem trazer uma profunda desordem moral e um desrespeito pela arte, pela beleza e pela cultura humanas; por outro lado, também podem ajudar na busca de um caminho pessoal e criativo para alcançar aquilo que constitui uma vida nobre.

Indiretamente, talvez tenha sido essa percepção instintiva que me levou a escolher a história da arte como minha principal área de estudos na universidade. Parecia-me que a verdadeira tarefa da arte era apresentar à nossa mente um modelo capaz de reunir numa unidade harmoniosa a multiplicidade que certamente existe por baixo das imagens fragmentárias dos acontecimentos que nossa consciência nos revela — um modelo que só poderia ser plenamente expresso com o auxílio do pensamento imaginativo. É claro que minha área de estudos não conseguiu me satisfazer. Parecia-me que meus professores — entre os quais alguns, como Strzygowski e Dvořák, eram eminentes em seus respectivos campos — estavam excessivamente ocupados em descobrir, na estética, as regras pelas quais a criação artística é regida; muito pouco tentavam revelar a vibração espiritual que está em seu âmago. Em outras palavras, a meu ver, sua visão da arte estava estreitamente limitada às formas e aos estilos por meio dos quais a arte encontra expressão.

Também nas conclusões da psicanálise que conheci naqueles dias de confusão juvenil permaneci igualmente insatisfeito, talvez por razões um tanto diferentes. Não há dúvida de que, naquela época, a psicanálise surgiu como uma revolução psicológica de primeira ordem. Eu sentia profundamente que, ao abrir desse modo novas portas para o conhecimento e a compreensão, até então fechadas, ela afetaria profundamente, talvez transformasse por completo, a maneira como as pessoas pensavam sobre si mesmas e sobre a sociedade; a descoberta do papel desempenhado pelos desejos do inconsciente na formação da personalidade humana havia, sem dúvida, aberto o caminho para uma compreensão mais profunda de si mesmo, algo que as teorias psicológicas anteriores não nos haviam podido oferecer. Eu estava disposto a aceitar tudo isso — na verdade, o estímulo do pensamento freudiano era para mim tão intenso quanto a embriaguez do vinho. Passei muitas noites ouvindo, nos cafés de Viena, as discussões acaloradas entre alguns dos pioneiros da psicanálise em seus primeiros tempos — como Alfred Adler, Hermann Stekel e Otto Gross. Contudo, fiquei perturbado com os fundamentos de sua análise, pois essa ciência pretendia reduzir todos os mistérios da alma humana a certas reações e processos nervosos. As conclusões filosóficas a que chegaram o fundador dessa doutrina e seus seguidores pareciam-me, não sei por quê, excessivamente sutis, excessivamente seguras de si e excessivamente simplificadas; por isso, pareceu-me que elas não tinham sequer a capacidade de aproximar-se das verdades últimas; além disso, certamente não ofereciam nenhuma nova orientação para uma vida melhor.

Embora esses problemas ocupassem frequentemente minha mente, não me sentia particularmente incomodado por eles. Nunca me interessei muito pela contemplação de qualquer coisa transcendental nem pela busca consciente de verdades que fossem meramente conceituais. Minha atração voltava-se para tudo o que podia ser visto e sentido, para as pessoas, suas atividades e suas diversas relações. E foi justamente nessa época que comecei a descobrir as relações com as mulheres.

Logo após a Grande Guerra, começou o amplo desmoronamento dos valores geralmente estabelecidos; no curso desse desmoronamento, muitas das restrições existentes nas relações entre homens e mulheres também se afrouxaram. A meu ver, isso foi menos uma revolta contra o estreito conservadorismo do século XIX do que um arremesso espontâneo de uma condição para a sua exata oposta — de uma condição em que certos princípios morais eram considerados eternos e indiscutíveis para outra em que tudo se tornara objeto de discussão. Foi o retorno do pêndulo da crença humana no progresso ascendente e ininterrupto da humanidade à amarga desilusão de Spengler, ao relativismo moral de Nietzsche e ao vazio espiritual produzido pela psicanálise. Ao olhar para aqueles primeiros anos do pós-guerra, parece que os rapazes e as moças que falavam e escreviam com tanto entusiasmo sobre a “libertação do corpo”, e que a todo momento recorriam ao “deus Pã”, estavam muito distantes da inspiração sumamente exaltada desse deus. Seu estado de espírito era tão comodista que lhes era impossível ser revolucionários. Em geral, o contato sexual entre eles acontecia de modo casual, surgia sem reflexão, numa espécie de torpor insensível, que frequentemente terminava em relações sexuais promíscuas.

Mesmo que eu me considerasse subjugado ao domínio do que quer que restasse da moralidade tradicional, ainda assim teria sido muito difícil proteger-me do vento que se tornara tão amplo e tão poderoso. Eu, antes, como muitos outros da minha geração, sentia orgulho justamente daquilo que era considerado uma rebelião contra as convenções vazias. As brincadeiras amorosas facilmente se transformavam em relações apaixonadas, e algumas dessas relações assumiam a forma de êxtase sexual. Certamente não me considero um libertino, pois mesmo nos meus amores juvenis, por mais insignificantes e efêmeros que fossem, vibrava quase sempre uma esperança indistinta, porém vigorosa: talvez a terrível solidão que separara claramente um homem de outro pudesse ser rompida pela união entre um homem e uma mulher.

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Minha inquietação continuava a crescer. Como consequência, tornava-se cada vez mais difícil para mim prosseguir os estudos na universidade. Por fim, decidi abandonar completamente os estudos e tentar a sorte no jornalismo. Mas meu pai opôs-se violentamente a isso. Ele apresentou sua objeção com argumentos ainda mais fortes do que aqueles que, na época, eu estava disposto a aceitar. Disse que, antes de escolher a escrita como profissão, era indispensável que eu provasse, pelo menos a mim mesmo, que sabia escrever. Depois de uma discussão acalorada, encerrou o assunto dizendo: “De qualquer modo, nunca se soube que um doutorado tivesse impedido alguém de se tornar um escritor bem-sucedido.” Seu argumento era perfeito, irrefutável. Mas eu era muito jovem, extremamente otimista e excessivamente impetuoso. Quando compreendi que ele não mudaria de opinião por nada, não me restou alternativa senão começar a vida à minha maneira. Sem contar a ninguém o que eu pensava, num dia de verão de 1920 deixei Viena e embarquei num trem de passageiros rumo a Praga.

À parte meus pertences pessoais, eu não possuía nada além de um anel de diamante. Eu o recebera de minha mãe. Ela havia falecido um ano antes. Em Praga, o principal ponto de encontro dos escritores era um café; com a ajuda de um garçom daquele café, vendi o anel. É muito provável que tenham me enganado completamente, mas o dinheiro que recebi pareceu-me, ainda assim, um tesouro de sete reis. Com essa fortuna no bolso, cheguei a Berlim. Ali, alguns amigos vienenses apresentaram-me ao círculo mágico de artistas e escritores do antigo Café des Westens.

Compreendi que, dali em diante, teria de abrir meu próprio caminho sem a ajuda de ninguém. Nunca mais esperaria nem aceitaria qualquer auxílio financeiro de minha família. Algumas semanas depois, quando a raiva de meu pai diminuíra um pouco, ele escreveu-me: “Agora vejo claramente: um dia você morrerá como um vagabundo imprestável, estendido à beira da estrada, numa sarjeta.” Respondi imediatamente: “Não haverá sarjeta à beira da estrada para mim — verá que chegarei ao próprio cume.” Eu ainda não fazia a menor ideia de como subiria ao cume; sabia, porém, que queria escrever, que queria ser escritor — e também começara a acreditar que o mundo dos escritores me aguardava ansiosamente, de braços generosamente abertos.

Alguns meses depois, meu dinheiro acabou; então comecei a procurar trabalho. Para um jovem ambicioso que deseja tornar-se jornalista, a escolha mais óbvia é conseguir emprego em algum dos famosos jornais diários; mas descobri que eles não gostavam de mim — embora, naturalmente, não tenha percebido isso de imediato. Para compreender esse fato, tive de caminhar durante semanas pelas calçadas de Berlim, e como era penoso caminhar assim — pois até conseguir o dinheiro da passagem do metrô ou do táxi havia se tornado um problema. Além disso, depois de inúmeras entrevistas humilhantes com redatores-chefes, editores de notícias e subeditores, cheguei à mesma conclusão: salvo um milagre, nenhum jovem sem sequer uma única linha, nem uma gota de experiência…

Nenhum milagre aconteceu para mim. Em sua companhia conheci a fome e passei muitas semanas vivendo de chá e dos dois pedaços de pão que minha senhoria me dava todas as manhãs. Os amigos escritores que eu havia conquistado no Café des Westens também não podiam fazer muita coisa por um futuro escritor cru e inexperiente como eu. Assim, os dias iam passando, sentados à beira do vazio; com enorme dificuldade, eles tentavam manter apenas o queixo acima da água. Às vezes, quando, por obra da sorte, alguém vendia um bom texto ou algum quadro, encontrávamos de repente a riqueza; então um deles oferecia uma festa com cerveja e salsichas de Frankfurt e me convidava a participar daquela fortuna inesperada. Outras vezes, algum novo-rico medíocre e cheio de complexos de inferioridade convidava aqueles estranhos nômades intelectuais para seu apartamento e ficava olhando para nós, boquiaberto, com uma deferência misturada ao medo, enquanto enchíamos nossos estômagos vazios com caviar, canapés e champanhe e retribuíamos a bondade do anfitrião com “nossa visão interior da vida boêmia”. Mas casos assim eram exceções. A regra geral daqueles dias era o jejum absoluto, e meus sonhos noturnos estavam repletos de grossas fatias de pão fresco, cobertas de manteiga. Várias vezes tive vontade de escrever a meu pai e pedir ajuda. Certamente ele não a teria recusado. Mas, todas as vezes, minha dignidade me impediu; por isso, em vez de pedir auxílio, eu lhe escrevia dizendo que havia conseguido um emprego excelente e recebia um salário elevado.

Por fim, a sorte mudou. Conheci F. W. Murnau. Ele acabara de entrar na arena da fama como um produtor cinematográfico em ascensão. (Eu o conheci poucos anos antes de ele ir para Hollywood. Lá alcançou fama ainda maior e acabou morrendo tragicamente, prematuramente.) Murnau tinha um temperamento excêntrico e impetuoso e, por isso, era muito querido por todos os seus amigos. Assim que me viu, sentiu-se atraído por aquele jovem, tão intensamente otimista e ansioso quanto ao futuro apesar de todas aquelas adversidades. Perguntou-me se eu aceitaria trabalhar como seu assistente no novo filme que estava prestes a começar; e, embora o trabalho fosse muito temporário, pareceu-me que as portas do paraíso se abriam diante de mim quando, gaguejando, respondi: “Sim — aceito.”

Dois meses brilhantes — livre das preocupações com dinheiro! Completamente absorto em experiências maravilhosas e estranhas, do tipo que jamais me acontecera na vida, continuei trabalhando como assistente de Marno. Minha autoconfiança aumentou enormemente; e certamente ela não diminuiu pelo fato de a protagonista do filme — uma famosa e bela atriz — não ter se sentido incomodada com o jogo amoroso do jovem assistente do diretor. Quando terminou o trabalho do filme e Marno se preparou para viajar ao estrangeiro para um novo projeto, deixei o emprego com a convicção de que os piores dias da minha vida haviam chegado ao fim.

Pouco tempo depois, um amigo meu, jornalista vienense que então conquistara grande reputação em Berlim como crítico teatral, chamado Anton Kuh, pediu-me que o ajudasse a escrever o roteiro de um filme. A responsabilidade de escrever o roteiro foi confiada a mim. Aceitei com enorme entusiasmo. Creio que trabalhei arduamente nessa obra. De qualquer modo, o diretor, satisfeito, pagou-nos a quantia que havia prometido — eu e Anton dividimos o dinheiro igualmente. Para tornar memorável nossa entrada no mundo do cinema, oferecemos uma festa no restaurante mais elegante de Berlim. Quando recebemos a conta para pagar o restaurante, descobrimos que todo o nosso dinheiro teria de ser gasto em lagostas, ovas de peixe salgadas e vinho francês. Mas a sorte nos salvou. Imediatamente começamos a escrever outro roteiro, tendo Balzac como tema: uma história inteiramente fictícia, baseada numa experiência extraordinária também fictícia dele! E não só isso: no próprio dia em que terminamos a obra, encontramos um comprador para ela. Dessa vez, não organizamos nenhum ‘banquete’ para comemorar nosso sucesso. Em vez disso, partimos para algumas semanas de lazer pelas regiões da Baviera.

Depois veio mais um ano — um ano repleto de sucessos e fracassos aventureiros. Depois de realizar vários trabalhos temporários em diferentes cidades da Europa Central, consegui entrar no mundo dos jornais.

Essa conquista da fortaleza ocorreu no outono de 1921, depois de mais um breve período de dificuldades financeiras. Certo dia, eu estava sentado no Café des Westens, cansado e sem consolo. Foi então que um amigo meu veio sentar-se à minha mesa. Quando lhe contei sobre minhas dificuldades, ele me aconselhou:

— ‘Pode haver uma oportunidade para você. O próprio Damart está prestes a fundar uma agência de notícias com a colaboração da United Press of America. O nome da agência será United Telegraph. Creio que ele precisará de muitos subeditores. Se quiser, posso apresentá-lo a ele.’

Por volta dos anos 1920, o Dr. Damart era uma figura conhecida nos círculos políticos da Alemanha. Entre os membros do Partido do Centro Católico, ele era realmente incomparável. A ideia de poder trabalhar como seu assistente pareceu-me tentadora.

No dia seguinte, meu amigo levou-me ao escritório do Dr. Damart. O excelente homem de meia-idade pediu-nos que nos sentássemos, com modos corteses e amistosos.

— ‘Sr. Fingal. (Esse era o nome do meu amigo.) Ele me falou a seu respeito; você já trabalhou alguma vez como jornalista?’

—“Não, senhor”, respondo, “mas tenho uma vasta experiência de outro tipo. Pode dizer que sou especialista nos países do Leste Europeu e que conheço muitas línguas. (Na realidade, eu só conseguia falar uma única língua do Leste Europeu, o polonês, e tinha apenas uma ideia muito vaga do que estava acontecendo naquela região. Ainda assim, estava firmemente decidido. Não deixaria que uma modéstia desnecessária desperdiçasse minha oportunidade.)

—“É mesmo? Excelente”, comenta o Dr. Damart, com ainda mais ironia; “gosto muito de especialistas. Mas o triste é que, neste momento, não posso aproveitar você em nenhum trabalho relacionado ao Leste Europeu.”

Certamente ele percebeu a sombra de desânimo em meu rosto, pois disse prontamente: “Ainda assim, tenho um trabalho para você — embora, naturalmente, talvez não seja exatamente adequado à sua dignidade…”

—“Que tipo de trabalho, senhor?” pergunto, lembrando que ainda não conseguira pagar o aluguel da minha casa.

—“Veja, preciso de mais alguns telefonistas — não, não, não se preocupe, não se trata de operadores. Preciso de telefonistas do tipo que transmitirão, por telefone, notícias aos jornais provinciais…”

Essa proposta era um insulto às minhas ambições. Olhei para o Dr. Damart, e ele também olhou para mim; quando vi que as rugas jocosas e espirituosas ao redor de seus olhos se tornavam mais cerradas, compreendi que meu jogo arrogante fracassara.

—“Farei isso, senhor”, respondo com um suspiro e um sorriso.

Na semana seguinte, comecei meu novo trabalho. Era extremamente monótono e cansativo. Tinha muito pouco a ver com o sonho que eu alimentara da vida de jornalista. Meu trabalho consistia em enviar, várias vezes por dia, por telefone, mensagens breves aos jornais de várias regiões do país que pertenciam à nossa agência de notícias. Eu era, porém, um excelente telefonista, e meu salário também era excelente!

Comecei a trabalhar assim por um mês. O trabalho era extremamente monótono e cansativo. Tinha pouca relação com o sonho da vida jornalística que eu vinha acalentando. Minha tarefa consistia em enviar, várias vezes ao dia, por telefone, breves mensagens aos jornais de várias regiões pertencentes à nossa agência de notícias. Contudo, eu era um excelente telefonista, e meu salário também era excelente!

Trabalhei assim durante um mês. No fim do mês, surgiu para mim uma oportunidade inesperada.

Em 1921, uma fome assolou a Rússia, de uma intensidade sem precedentes. Dezenas de milhões de pessoas passavam fome e morriam aos milhares. Os jornais de toda a Europa ocupavam-se de descrições arrepiantes daquela situação. Estavam sendo elaborados vários planos para enviar ajuda estrangeira; um deles era dirigido por Herbert Hoover, que havia prestado uma assistência enorme à Europa Central depois da Grande Guerra. Dentro da Rússia, Maksim Górki liderava um grande esforço de ajuda. Seus apelos dramáticos por auxílio comoveram o mundo inteiro, e corriam fortes rumores de que sua esposa em breve visitaria as capitais da Europa Central para mobilizar a opinião pública em favor de uma ajuda mais eficaz.

Eu era apenas um telefonista. Portanto, não tive participação direta no envio de relatos sobre aqueles acontecimentos empolgantes, mas, no fim, fui envolvido inesperadamente por um comentário casual feito por um amigo de um conhecido ocasional. (Eu tinha muitos amigos ocasionais desse tipo, nos lugares mais inesperados.) Nesse caso, esse conhecido era o porteiro noturno do Hotel Esplanade, um dos homens mais espertos de Berlim, e ele disse: “Veja bem, Madame Górki — ela é uma mulher maravilhosa; ninguém jamais poderia imaginar que ela é bolchevique!”

— Madame Górki? Onde você a viu?

O porteiro abaixa a voz e sussurra: — Ela está hospedada no nosso hotel. Chegou apenas ontem, mas registrou-se com um nome diferente no livro do hotel. Somente o gerente sabe quem ela é. Ela não quer que os repórteres fiquem à sua volta.

— Mas como você ficou sabendo disso?

— Nós, os porteiros, sabemos tudo o que acontece no hotel, diz ele, abrindo um largo sorriso. Você acha que nosso emprego duraria muito se não soubéssemos nem mesmo isso?

Que maravilha seria conseguir uma entrevista exclusiva com Madame Gorki! Sobretudo porque nenhum jornal havia publicado sequer uma linha sobre o fato de ela estar em Berlim. Naquele instante, minha imaginação pegou fogo.

—Você poderia, de algum modo, conseguir que eu me encontrasse com ela? —perguntei ao meu amigo.

—Não sei se conseguirei. Madame Gorki é absolutamente contrária a deixar que alguém saiba qualquer coisa sobre ela. Mas talvez eu possa fazer uma coisa. Se você se sentar no saguão à noite, talvez eu consiga indicar-lhe quem ela é por meio de um sinal.

Foi isso que conversamos. Corri para o meu escritório na United Telegraph. Quase todos já haviam ido embora, mas, por sorte, o editor de notícias ainda trabalhava à sua mesa. Insisti com ele: —Se eu lhe prometer conseguir uma história sensacional, o senhor me dará uma credencial de imprensa?

—Que tipo de história? —perguntou ele, desconfiado.

—Dê-me a credencial de imprensa, e eu lhe entregarei a história. Se eu não a entregar, o senhor poderá pegar a credencial de volta a qualquer momento.

Por fim, o velho editor, louco por notícias, acabou concordando comigo. Saí do escritório com uma credencial —saí como o orgulhoso portador de um cartão graças ao qual minha identidade agora era a de representante da United Telegraph.

Passei as horas seguintes no saguão do Esplanade (a sala de entrada). Às nove horas, meu amigo chegou para trabalhar. Parado à porta, fez-me um sinal com os olhos; depois desapareceu atrás da recepção e voltou alguns minutos mais tarde, dizendo que Madame Gorki não estava em seu quarto: havia saído.

—“Se você tiver paciência e ficar sentado por bastante tempo, certamente a verá quando ela chegar.”

Por volta das onze horas, recebi o sinal do meu amigo. Ele me indicava discretamente uma mulher que acabava de entrar pela porta giratória: uma bela mulher de pequena estatura, entre quarenta e quarenta e cinco anos, vestida com um elegante vestido preto de corte impecável e uma peça solta, sem mangas, que se arrastava pelo chão atrás dela, acompanhando seus passos. Havia em seus modos uma aristocracia tão autêntica que era realmente muito difícil imaginá-la como a esposa do “poeta dos trabalhadores braçais”, e ainda mais difícil imaginá-la como cidadã da União Soviética. Bloqueei-lhe o caminho, inclinei a cabeça em cumprimento e preparei-me para dirigir-me a ela, tornando minha voz o mais atraente possível: —“Madame Górki…”

Por um instante, ela ficou paralisada, atônita de surpresa. Aos poucos, seus belos olhos negros se iluminaram com um sorriso discreto. Então respondeu em um alemão tão perfeito que mal se percebia um sotaque eslavo: “Não sou Madame Górki — você se enganou. Meu nome é…” (Ela disse um nome que soava russo, mas que esqueci.)

—“Não, Madame Górki”, insisti. “Eu sei que não me enganei. Sei também que a senhora não quer ser incomodada por nós, repórteres — mas, se eu tiver a oportunidade de conversar com a senhora por alguns minutos, isso já será suficiente para mim — sim, será suficiente para mim. Esta é a primeira oportunidade da minha vida, a oportunidade de me afirmar. Tenho certeza de que a senhora não permitirá que eu a desperdice.” Em seguida, mostrei-lhe meu cartão de imprensa: —“Acabo de recebê-lo hoje — e, se não puder entregar uma reportagem sobre minha entrevista com Madame Górki, terei de devolvê-lo.”

O sorriso discreto continuava nos lábios da aristocrática senhora: —“Mas, se eu jurar que não sou Madame Górki, você acreditará em mim?”

—“Acreditarei em tudo o que a senhora disser sob juramento.”

A mulher caiu na gargalhada: “Você é mesmo um rapaz extraordinário.” (Era duvidoso que sua bela cabeça chegasse à altura do ombro de Amr.) “Não vou lhe contar nenhuma mentira. Você venceu. Mas não podemos passar o resto da noite no saguão. Aceita tomar chá comigo no meu quarto e me fazer um pouco de companhia?”

Assim, tive a honra de sentar-me no quarto de Madame Górki e tomar chá com ela. Durante quase uma hora, ela descreveu em todos os seus horrores a devastação causada pela fome. Depois, quando me despedi dela à meia-noite, levei comigo muitas páginas cheias de anotações.

Os olhos dos subeditores que estavam de plantão noturno no escritório da United Telegraph se arregalaram ao me verem no escritório àquela hora incomum. Mas não senti necessidade de dar qualquer explicação, pois tinha um trabalho urgente nas mãos. Assim que terminei de escrever o relatório da minha entrevista, reservei, sem esperar pelo editor, um chamado urgente à imprensa para cada jornal assinante da nossa agência.

Na manhã seguinte, a bomba explodiu. Nem uma única linha sobre a presença de Madame Gorky foi publicada em nenhum dos famosos jornais diários de Berlim; entretanto, todos os jornais do interior assinantes da nossa agência de notícias publicaram na primeira página o relato exclusivo da entrevista de Madame Gorky com o representante especial da United Telegraph. O telefonista havia produzido um relatório de primeira classe!

À tarde, realizou-se uma reunião dos editores no escritório do Dr. Damart. Fui chamado até lá e depois me fizeram uma longa preleção, explicando que nenhuma notícia importante deveria jamais ser distribuída sem a autorização do editor de notícias. Após essa preleção inicial, fui informado de que havia sido promovido ao cargo de repórter.

Finalmente, tornei-me jornalista.

Quatro

Passos suaves e leves sobre a areia: Zayed está voltando do poço, trazendo água num odre. Ele deixa o odre cair pesadamente no chão e depois volta a se ocupar do preparo do nosso almoço: arroz e um pequeno pedaço de carne de carneiro que havia comprado na aldeia na noite anterior. Mexe mais uma vez com a concha; quando o vapor começa a borbulhar na panela, volta-se para mim:

— O senhor vai comer agora, tio? E, sem esperar minha resposta — pois sabe que ela não pode ser outra senão sim —, amontoa a comida da panela numa grande travessa, coloca-a diante de mim e ergue uma jarra de bronze cheia de água para que eu lave as mãos:

— Bismillah, que Allah nos prolongue a vida. Depois nos sentamos um diante do outro, de pernas cruzadas, e começamos a comer com os dedos da mão direita.

Comemos em silêncio. Nenhum de nós dois sabe falar muito; além disso, de qualquer modo, naquele momento minha mente havia mergulhado no reino das antigas lembranças. Eu pensava nos meus primeiros dias na Arábia, quando ainda nem havia conhecido Zayed. Por isso, não conseguia falar com clareza; limitava-me a conversar comigo mesmo, em pensamento, misturando ao meu estado de espírito presente o sabor e o aroma do humor daqueles momentos passados.

Depois de terminar a refeição, quando me sentei recostado na sela do meu camelo, meus dedos brincavam com a areia, enquanto eu contemplava as constelações do céu árabe, silencioso e imóvel. Pensei em como seria maravilhoso ter ao meu lado alguém a quem pudesse contar, de coração aberto, tudo o que havia acontecido na minha vida naqueles anos distantes! Mas, ao meu lado, não havia ninguém além de Zayed. Zayed era um homem maravilhoso e leal; em muitos momentos solitários da minha vida, eu o tivera como companheiro. Zayed era extremamente perspicaz, capaz de perceber até as coisas mais sutis, e seu conhecimento do caráter humano era profundo. Mas, quando olhava de soslaio para seu rosto, inclinando o pescoço, via seu rosto bem-formado e limpo, emoldurado pelas longas costeletas, inclinado naquele instante sobre a xícara de café, esquecido de tudo; e, no momento seguinte, Zayed virava o pescoço e olhava para os camelos sentados perto, no chão, ruminando tranquilamente. Então eu compreendia que desejava um ouvinte inteiramente diferente; alguém que não tivesse relação apenas com aquele meu passado distante, mas que também estivesse muito longe das paisagens, dos sons e dos cheiros dos meus dias e noites presentes, diante de quem eu pudesse desatar, um por um, os nós das minhas lembranças — para que seus olhos pudessem vê-las e, depois, os meus próprios olhos pudessem voltar a vê-las; alguém que, assim, me ajudasse a capturar, na rede das minhas palavras, a minha própria vida passada.

Mas aqui não há ninguém além de Zayed. E Zayed é justamente o presente em pessoa.

 

O vento

I

Seguimos avançando, sem parar — dois homens sobre dois camelos —, e a manhã foi passando e nos ultrapassou.

— Que coisa extraordinária — uma coisa realmente espantosa —, a voz de Zayed ressoa em meio ao silêncio.

— O que é extraordinário, Zayed?

—Não é uma coisa extraordinária, tio? Há apenas alguns dias, estávamos indo em direção a Tayma, mas agora nossos camelos estão voltados para Meca. Creio que, antes daquela noite, nem o senhor sabia disso. O senhor é um andarilho como Baddur… exatamente como eu! Tio, será que foi algum jinn que, quatro anos atrás, despertou de repente em mim o desejo de encontrar o senhor em Meca e que agora fez nascer no seu coração a decisão de ir para Meca? Será que estamos simplesmente voando ao sabor do vento, por não sabermos o que queremos?

—Não, Zayd, nós dois estamos nos deixando levar voluntariamente pelo vento, porque sabemos o que queremos; nosso coração sabe, embora às vezes nosso pensamento demore a compreender isso. Mas, no fim, nosso pensamento acompanha o coração, e então imaginamos que chegamos a uma decisão…!

.. .                        .. .                        …                            .. .             .. .                …

Talvez dez anos antes, naquele dia, meu coração também não soubesse disso, quando eu estava de pé no convés do navio. O navio me levava ao Oriente Próximo, em minha primeira viagem para aquelas terras, rumo ao sul, através do Mar Negro, pela opacidade de uma noite cinzenta, enevoada e sem limites, atravessando uma madrugada envolta em neblina, na direção do Bósforo. O mar parecia feito de chumbo; às vezes, a espuma espirrava sobre o convés, e as batidas do motor pareciam o pulsar de um coração!

Eu estava de pé, segurando o corrimão, com o olhar voltado para aquela palidez sombria. Se alguém me tivesse perguntado, naquele momento exato, no que eu estava pensando ou com que expectativas havia partido para minha primeira expedição ao Oriente, teria sido muito difícil dar uma resposta clara. Curiosidade, talvez; mas não era uma curiosidade intensa e, ao que parece, seu objeto não tinha grande importância. Essa névoa do meu desconforto, que parecia estar de algum modo relacionada à neblina que se adensava sobre o mar, não se dirigia às terras estrangeiras nem às pessoas dos dias que viriam; as imagens do futuro próximo, as cidades e portos estranhos, os rostos, as roupas e os costumes estrangeiros, que logo começariam a lançar sua sombra sobre meus olhos, ocupavam pouco espaço em meus pensamentos. A viagem me parecia algo um tanto acidental. Eu a aceitara como uma pausa agradável, embora não muito importante, em minha longa jornada. Naquele período, minha mente estava agitada e dispersa pelas lembranças do passado!

O passado? Será que eu realmente tinha um passado? Eu tinha vinte e dois anos. Mas as pessoas da minha idade — aquelas que haviam nascido no início daquele século — provavelmente amadureceram muito mais depressa do que as pessoas de qualquer época anterior; em pouco tempo, haviam acumulado a experiência de uma vida muito mais longa — e tive a impressão de que estava olhando para trás, contemplando a vasta extensão do tempo. Todas as dificuldades e aventuras daqueles anos — todas aquelas esperanças e aspirações, tentativas e fracassos, todas aquelas mulheres e meus primeiros assaltos inesperados à vida — tudo começou a ganhar vida diante dos meus olhos. Eram aquelas noites intermináveis sob um céu cintilante, quando eu não sabia exatamente o que queria e caminhava por ruas desertas com algum amigo, conversando sobre questões espirituais, esquecendo por completo quão vazio estava meu bolso e quão incerto seria o dia seguinte para mim — uma doce insatisfação que somente um jovem pode sentir, acompanhada do desejo de transformar o mundo e reconstruí-lo: como deveria a sociedade organizar as relações entre as pessoas, para que todos pudessem romper o isolamento que cercava cada indivíduo e viver em verdadeira cooperação e amizade mútua? O que era o bem e o que era o mal, o que era o destino — ou, em outras palavras: o que deveria fazer o ser humano para ser verdadeiramente uno com sua vida, e não apenas em palavras, e poder dizer: ‘Eu e meu destino não somos separados; somos um só’ — discussões desse tipo que jamais pareciam chegar ao fim. Os cafés literários de Viena e Berlim, onde se discutia incessantemente a ‘forma’, o ‘estilo’ e o ‘modo de expressão’, o significado da liberdade política, as relações entre mulheres e homens… A fome de conhecimento e, às vezes, também a fome do estômago… E as noites passadas em meio a paixões sensuais desenfreadas: ao amanhecer, a cama permanecia suja e desarrumada, enquanto a excitação da noite diminuía e aos poucos se tornava cinzenta, dura e sem alegria. Mas, quando amanhecia, eu esquecia os restos vazios da madrugada e, cambaleando, voltava a caminhar, sentindo que o chão sob meus pés tremia de alegria… A excitação de ver um rosto novo ou de pegar um livro novo nas mãos… Procurar respostas para as perguntas e encontrar respostas pela metade — e aqueles momentos extremamente raros em que parecia que a Terra havia subitamente parado por alguns segundos, iluminada por um clarão de compreensão — uma compreensão que trazia o vislumbre de algo que ninguém jamais alcançara antes de desvendá-lo: uma única resposta para todas as perguntas…

Aqueles anos do início do século XX foram estranhamente maravilhosos. Por toda parte, a atmosfera de incerteza social e moral que então prevalecia dava origem a um otimismo temerário, que se manifestava, por um lado, em ousadas experiências na música, na pintura e no teatro e, por outro, numa busca às apalpadelas pelos contornos e estruturas da cultura, muitas vezes de caráter quase revolucionário; mas, paralelamente a esse otimismo mantido à força, também se desenvolvia uma vacuidade espiritual, um relativismo vago e arrogante, nascido de um desespero cada vez maior diante do destino humano.

Apesar da minha pouca idade, não me era oculto que, depois da devastação da Grande Guerra, nada mais funcionava como antes no mundo europeu, aterrorizado, insatisfeito, atormentado pelas emoções, agitado e levado a um tom estridente. Percebi que seu verdadeiro objeto de adoração já não era algo espiritual; seu único deus era o ‘conforto’, o bem-estar. Sem dúvida, ainda havia muitas pessoas cujos sentimentos e pensamentos eram orientados por um significado religioso, pessoas que se esforçavam desesperadamente para ajustar suas convicções morais à essência de sua civilização. Mas eram raras exceções.

Parece que, para o europeu médio, fosse ele democrata ou comunista, operário ou intelectual, havia uma única crença verdadeiramente significativa: o culto do progresso material — a crença de que a vida não pode ter outro objetivo senão tornar-se continuamente mais fácil ou, como se costuma dizer na terminologia moderna, que o único propósito da vida é “libertá-la do domínio da natureza”. Os templos dessa religião são as enormes fábricas, os cinemas, os laboratórios químicos e de pesquisa, os salões de dança e as empresas de energia hidrelétrica; e os sacerdotes desses templos são os banqueiros, engenheiros, políticos, estrelas de cinema, estatísticos, administradores da educação, aviadores criadores de recordes e comissários! A discordância geral quanto às noções de bem e mal e o recurso ao oportunismo em todas as questões sociais e econômicas expressaram o fracasso moral — um oportunismo comparável ao de uma prostituta de rua caiada, que se entrega a qualquer pessoa, a qualquer momento, sempre que é desejada. A insaciável ânsia de poder e prazer dividiu inevitavelmente a sociedade ocidental em diversos grupos rivais, cada um deles armado com toda espécie de armas e decidido a destruir os outros sempre que e onde quer que seus interesses entrem em conflito. No campo da civilização, o resultado foi a criação de um tipo de ser humano para quem a utilidade prática parecia ser o único critério da moralidade e para quem o mais alto padrão para distinguir o certo do errado era o sucesso mundano.

Vi como nossas vidas haviam se tornado infelizes e confusas, como era escassa a verdadeira ligação entre as pessoas, embora a sociedade e a nação fossem exaltadas com gritos ensurdecedores, quase frenéticos. Vi quanto nos havíamos afastado do mundo de nossos sentimentos naturais e como nossa alma se tornara estreita e agitada. Vi tudo isso. Mas, por alguma razão, jamais me ocorreu profundamente que talvez uma solução parcial pudesse existir em algum lugar além da própria experiência cultural da Europa, assim como isso nunca me ocorrera antes. A Europa era o princípio e o fim de todos os nossos pensamentos. E, aos dezessete anos, ou por volta dessa idade, a descoberta de Lao Tsé também não provocou nenhuma mudança em minha atitude a esse respeito.

  . ..                                        …                                                  …

Aquilo foi uma descoberta genuína. Antes disso, eu nunca sequer ouvira o nome de Lao Tsé e não tinha a menor ideia de sua filosofia; então, certo dia, encontrei subitamente, no balcão de uma livraria de Viena, uma tradução alemã do Tao Te Ching. O título estranho do livro despertou um pouco a minha curiosidade. Enquanto folheava suas páginas ao acaso, meus olhos de repente pousaram sobre um de seus pequenos capítulos, repleto de significado, e senti um romance súbito, um arrepio repentino, como uma facada de felicidade. Esqueci completamente o que me cercava e permaneci imóvel, como que enfeitiçado, exatamente onde estava, com o livro nas mãos; pois naquele livro vi a vida em sua forma perfeitamente suave e pura, na serena e humilde alegria que se eleva, uma alegria que está sempre disponível ao coração humano quando o homem se preocupa em fazer bom uso de sua própria liberdade. … Eu sabia que aquilo era verdade: uma verdade que sempre fora verdadeira, embora a tivéssemos esquecido; e, naquele momento, contemplei essa verdade com a mesma alegria com que uma pessoa retorna ao seu lar perdido havia muitos anos…

Durante alguns anos, a partir de então, Lao Tsé foi para mim uma espécie de janela através da qual eu contemplava as regiões cristalinas da vida, uma vida muito distante de toda estreiteza e de todos os medos criados pelo próprio homem, livre da fantasia infantil que nos obrigara, de momento a momento, sempre e a qualquer preço, a garantir novamente a segurança de nossa existência por meio do progresso mundano. Não que o “progresso material” me parecesse errado ou desnecessário; pelo contrário, eu ainda o considerava benéfico e necessário. Mas, ao mesmo tempo, nasceu em mim a convicção de que o “progresso material” jamais poderia alcançar seu verdadeiro objetivo — aumentar a felicidade geral dos seres humanos — se não fosse acompanhado por uma nova configuração de nossa atitude espiritual e por uma nova fé, independente de outras considerações, nos valores supremos. Mas não me era nem um pouco claro como essa nova configuração seria possível, nem qual seria a natureza dessa nova avaliação dos valores.

Em vez de agarrar-se à vida e tiranizá-la, o homem deveria entregar-se às mãos da vida — esperar que, assim que alguém começasse a pregar algo semelhante a esse ensinamento particular de Lao Tsé, as pessoas mudassem o objetivo da vida e, desse modo, mudassem a direção de seus esforços e aspirações não passaria de uma fantasia vã. A mera pregação, a mera compreensão intelectual, não era de modo algum capaz de provocar qualquer mudança na atitude espiritual da sociedade europeia. Tornara-se necessária uma nova fé no coração, uma nova religião — a entrega, animada pelo fogo da fé, a valores nos quais não há lugar para “ses” nem “mas”. Mas onde encontrar essa religião…?

Por alguma razão, não me ocorreu que a forte objeção de Lao Tsé se dirigia precisamente contra a atitude intelectual, transitória e, por isso, mutável. Seu desafio, antes, era dirigido contra a concepção fundamental da qual essa atitude se originava. Se eu soubesse disso, teria sido obrigado a concluir que a Europa não tinha capacidade de alcançar a leve serenidade da alma de que Lao Tsé falava, a menos que reunisse coragem para questionar suas próprias bases espirituais e morais. Naturalmente, eu era então jovem demais para chegar conscientemente a uma conclusão desse tipo… Ainda não tinha idade para compreender todo o significado do protesto daquele sábio chinês e toda a sua riqueza. É verdade que sua mensagem abalou o âmago do meu ser — revelou-me uma forma de vida na qual o homem pode sentir-se uno com seu destino e, desse modo, consigo mesmo. Mas eu não conseguia ver como uma filosofia desse tipo poderia ultrapassar os limites da contemplação puramente mental e tornar-se realidade no contexto da vida europeia. Aos poucos, comecei, portanto, a duvidar que sua realização fosse de fato possível. Eu ainda não havia chegado ao ponto em que poderia perguntar a mim mesmo: se o modo de vida europeu fosse julgado à luz de seus princípios, seria ele realmente o único modo de vida possível? Em outras palavras, eu estava, como todos os demais à minha volta, completamente dominado pela visão cultural autocentrada da Europa.

Assim, embora a voz de Laotse nunca tenha ficado inteiramente silenciosa, foi-se retirando gradualmente para o segundo plano da imaginação contemplativa e, com o tempo, tornou-se apenas um veículo de bela poesia, nada mais. Eu ainda o lia de vez em quando e era ferido pela lâmina de uma expectativa agradável. Mas, a cada vez, fechava o livro com o sincero pesar de que ele não passava de um chamado onírico para uma torre feita de marfim e de que, embora não conseguisse acompanhar o ritmo do mundo desafinado, amargo e cego de ganância do qual fazia parte, não desejava viver numa torre de marfim.

Ainda assim, eu não sentia absolutamente nenhum entusiasmo pelos objetivos e esforços que, naquela época, percorriam incessantemente o ambiente intelectual da Europa e enchiam sua literatura, sua arte e sua política com o murmúrio de debates vigorosos — pois, por mais opostos que fossem entre si, a maioria desses objetivos e esforços tinha algo em comum: a simples ideia de que seria realmente possível arrancar a vida da confusão presente e “melhorá-la”, bastando aprimorar as condições econômicas e políticas externas. Eu já sentia isso profundamente: que o mero progresso material não era a solução; e, embora não soubesse com certeza onde a solução poderia ser encontrada, nunca encontrei em mim qualquer indício daquela excitação entusiástica que meus contemporâneos sentiam “em nome do progresso”.

Não é verdade que eu fosse infeliz. Nunca fui uma pessoa introspectiva. E, justamente naquela época, desfrutava de um sucesso quase extraordinário em minha vida prática. Embora tivesse pouca disposição para levar muito a sério minha profissão, meu trabalho na United Telegraph pareceu abrir-me muitos caminhos para o mundo mais amplo — pois, como eu conhecia várias línguas, havia sido promovido a subeditor e me fora confiada a tarefa de fornecer notícias aos jornais dos países escandinavos. O Café da Westens e seu sucessor espiritual, o Romanisches Café, eram, de certo modo, o lar de minha mente e de meu espírito: ali se reuniam quase todos os escritores, artistas, jornalistas, atores e diretores de cinema famosos da época. Minha relação com essas pessoas célebres era de amizade e, às vezes, de intimidade, e eu me considerava um deles, em termos de visão interior, ainda que não de fama. Desfrutei tanto de amizades profundas quanto de amores passageiros. A vida me parecia emocionante, cheia de promessas e expectativas, rica em sensações contraditórias; pois eu não sabia realmente o que queria, embora, junto com a ridícula arrogância da juventude, tivesse nascido também a convicção de que um dia certamente descobriria. Assim, eu oscilava entre a satisfação e a insatisfação do coração exatamente como oscilavam muitos jovens naqueles anos maravilhosos — pois nenhum de nós era verdadeiramente infeliz; e, no entanto, também era verdade que, naquele tempo, pouquíssimos pareciam conscientemente felizes.

Eu não era infeliz, mas minha incapacidade de participar das diversas esperanças e aspirações sociais, econômicas e políticas daqueles que me cercavam, ou de qualquer um dos grupos entre eles, foi gradualmente assumindo a forma de uma vaga sensação de que eu não era realmente um deles, de que nada me ligava a eles; e, ao mesmo tempo, nasceu em mim o desejo igualmente vago de que eu tinha de pertencer a alguém — mas a quem? De que tinha de fazer parte de alguma coisa — mas de quê?

 …                         …                                             …                                       …

Então, certo dia, na primavera de 1922, recebi uma carta de meu tio Dorian.

Dorian era o irmão mais novo de minha mãe. Nossa relação não era a de tio e sobrinho, mas a de dois amigos. Ele era psicanalista, um dos primeiros discípulos de Freud; naquela época, dirigia um hospital psiquiátrico em Jerusalém. Como não era sionista e tampouco tinha muita simpatia pelo sionismo, sentia-se, pelo contrário, atraído pelos árabes, que nada mais tinham a oferecer. Meu tio era solteiro, e aquele jovem sobrinho poderia fazer-lhe companhia em sua solidão. Em sua carta, ele mencionava aqueles dias emocionantes em Viena, quando me guiara pelo novo mundo da psicanálise, e terminava assim: “Venha para cá e fique comigo alguns meses. Pagarei suas despesas de ida e volta. Você poderá retornar a Berlim quando quiser. Aqui, ficará numa antiga casa árabe de pedra, extremamente agradável, ligeiramente fresca nos dias quentes (e terrivelmente fria no inverno). Passaremos o tempo juntos. Tenho muitos livros; quando você se cansar de contemplar as paisagens estranhas e encantadoras ao seu redor, poderá ler quanto quiser…”

Tomei minha decisão prontamente. Aliás, essa prontidão sempre foi uma característica das grandes decisões de minha vida. Na manhã seguinte, informei ao Dr. Damart, no escritório da United Telegraph, que precisava ir ao Oriente Próximo por causa de um trabalho urgente e que, portanto, deixaria a agência dentro de uma semana —

Se alguém me tivesse dito então que meu primeiro contato com o mundo islâmico não se limitaria a uma experiência de férias, mas teria consequências de longo, longuíssimo alcance e mudaria o rumo da minha própria vida, eu teria rido, descartando tal ideia como absolutamente irreal e absurda. Também não seria correto dizer que eu estava livre do fascínio dos países aos quais meu espírito se ligara, como o da maioria dos europeus, sob a atmosfera romântica das Mil e Uma Noites. Eu, naturalmente, esperava um esplendor de cores, costumes desenfreados e encontros insólitos. Mas nunca me ocorrera que também pudesse esperar novas aventuras no mundo do espírito. Não me pareceu que essa nova viagem guardasse para mim qualquer promessa pessoal especial. As ideias que eu adquirira até então na vida, eu as conciliara facilmente com a visão de mundo ocidental, e esperava que, com isso, pudesse alcançar, dentro do único ambiente cultural que conhecia, esse campo mais amplo de sentimentos e ideias. E, se pensar a respeito, como poderia eu ter tido uma percepção diferente? Eu era um europeu muito, muito jovem, e crescera acreditando que o Islã e tudo o que o Islã representava não passavam de um beco romântico da história humana; portanto, sua simples menção, quanto mais uma comparação, era imprópria diante das duas únicas religiões que o Ocidente europeu julgava dignas de consideração séria: o cristianismo e o judaísmo.

Foi com esse vago preconceito europeu contra o conteúdo islâmico — embora não contra o exterior romantizado da vida muçulmana — que iniciei minha viagem no verão de 1922. Para ser justo comigo mesmo, não posso dizer que estivesse imerso em alguma preocupação de significado pessoal; ainda assim, sem o saber, estava profundamente envolvido naquela mentalidade autocontemplativa e culturalmente egocêntrica que sempre foi uma característica do Ocidente.

…                                            …                                           …

E agora estou a caminho do Oriente, de pé no convés de um navio. Uma viagem lenta levou-me a Constança e, de lá, a esta extensão enevoada.

Por trás do véu de neblina surgiu diante dos meus olhos uma amêndoa vermelha, que então se inclinou e passou raspando bem perto do navio. Ao ver a amêndoa, compreendi que o sol estava prestes a despontar através da neblina. Algumas coisas pálidas, com uma espécie de dureza metálica. Sob a pressão delas, a neblina compacta, branca como leite, pareceu instalar-se lentamente, embora se espalhando, sobre a água; depois curvou-se e separou-se em círculos e, por fim, dos dois lados dos raios do sol, começou a subir, como asas, em largas formas flutuantes, semelhantes a manchas de sangue.

—Bom dia. Ouvi uma voz grave e plena. Virei-me e reconheci a batina negra do meu companheiro da noite anterior. Reconheci também o sorriso amistoso daquele rosto, um sorriso pelo qual eu me apaixonara ao longo das poucas horas de nosso conhecimento. O padre jesuíta era meio polonês, meio francês; lecionava num colégio de Alexandria. Depois de desfrutar suas férias, estava voltando ao seu posto. Após embarcarmos, passáramos a noite em conversa íntima. Embora logo eu tivesse percebido que nossas opiniões divergiam amplamente em muitos assuntos, também havia muitos pontos em que concordávamos; e eu já tinha idade suficiente para compreender que diante de mim estava um homem dotado de uma mente excelente, séria e, contudo, espirituosa…

—Bom dia, Padre Félix; olhe um pouco para o mar—

Com o nascer do sol vieram a luz do dia e o aparecimento das cores. Estávamos de pé na proa do navio, voltados para o ar da madrugada. Embriagado pelo impossível, tentei determinar por mim mesmo o movimento das cores entre a subida e a descida das ondas. Azul? Verde? Cinzento? A cor poderia ter sido azul, mas, enquanto isso, um brilho intenso, vermelho como sangue, que tremulava e era o próprio reflexo do sol, deslizou pelo vale inclinado da onda; entretanto, o topo da onda desmoronou numa massa de espuma branca como gelo, e sobre ela correu algo cinzento como aço, em forma de tecido rasgado e enrugado. O que um instante antes fora uma montanha de água tornara-se agora um movimento pulsante — transformou-se em milhares de redemoinhos minúsculos e separados — e, nas cavidades sombreadas desses redemoinhos, o vermelho semelhante ao sangue mudou e tornou-se um verde escuro e liso; depois esse verde começou a subir e transformou-se num violeta trêmulo e palpitante, que, ao descer, tornou-se vermelho como o primeiro vinho, mas, um instante depois, voltou a subir com ímpeto para um azul celeste, transformou-se no topo da onda e desabou; e novamente a espuma branca lançou sua rede sobre as montanhas de água que rolavam, altivamente… E assim o jogo infinito continuou.

A percepção de que jamais seria capaz de compreender esse jogo de cores e seu ritmo mutável a cada instante trouxe-me uma inquietação que era quase uma sensação física. Pode-se dizer que, quando olhei para ele de maneira bastante casual pelo canto dos olhos, por um momento pareceu-me talvez possível captar tudo aquilo numa única imagem; mas, ao tentar concentrar-me conscientemente com atenção — hábito especial de ligar uma ideia isolada a outra ideia isolada —, tudo o que obtive foram algumas imagens fragmentadas e separadas, nada mais. Contudo, em meio a essa crise, a essa estranha e irritante confusão, surgiu de repente em mim uma ideia extremamente clara — ou, melhor dizendo, foi exatamente isso que me pareceu naquele momento —, e quase involuntariamente exclamei em voz alta para mim mesmo:

— “Aquele que for capaz de perceber tudo isso com os sentidos será capaz de controlar o próprio destino.”

— “Sei o que você quer dizer”, responde o padre Félix, “mas por que haveria o homem de desejar dominar o destino? Para livrar-se do sofrimento e da dor? Não seria melhor libertar-se do destino?”

— “Você está falando quase como um budista, padre Félix! Então também acredita que o nirvana é o objetivo de todos os seres vivos?”

— “Não, não, certamente não — nós, cristãos, não desejamos a destruição da vida e dos sentimentos; desejamos apenas elevar a vida do domínio da matéria e dos sentidos ao mundo do espírito.”

— “Mas isso não é renúncia?”

— “Isto não é renúncia, meu jovem amigo, não é renúncia! Este é o único caminho para a verdadeira vida… a paz…”

O estreito de Bósforo abriu-se diante de nós — uma ampla via de água, ladeada por montanhas formadas de rocha. Aqui e ali eu via edifícios arejados construídos sobre colunas, jardins com pátios, fileiras de ciprestes que se elevavam a alturas misteriosas e antigas fortalezas dos janízaros, rochas compactamente amontoadas que pendiam sobre a água como ninhos de aves de rapina. Pareceu-me então que a voz do padre Félix vinha de muito longe:

—Pense: o símbolo mais profundo do desejo de todos os seres humanos é o símbolo do Paraíso. Você sempre verá, embora em imagens sempre diferentes, que seu significado é sempre o mesmo: o ser humano quer libertar-se das mãos do destino. No Paraíso não existe destino humano; o destino surgiu quando o ser humano se rendeu às tentações do corpo e da natureza e, assim, cometeu aquilo que chamamos de pecado original. E o que é esse pecado original? É a queda do espírito diante das tentações do corpo, que se interpõem no caminho do ser humano; e essas tentações são, na realidade, a natureza animal que restou na natureza humana. A essência do ser humano, sua parte humana e humano-divina, é apenas sua alma. A jornada da alma é em direção à luz. Mas, por causa do pecado original, seu caminho é sempre obstruído por obstáculos que surgem dos ossos do corpo, de sua estrutura não divina e de suas tentações. Portanto, o objetivo do cristianismo é libertar o ser humano do aspecto vão e transitório, animalesco, da vida e fazê-lo retornar à sua herança espiritual!»

Vi a célebre fortaleza antiga de Rumili Hisar. Uma de suas muralhas — que tinha inúmeras aberturas para atacar o inimigo de dentro da fortaleza — descia quase até a borda da água. Na margem, dentro do semicírculo formado pelas muralhas da fortaleza, havia um pequeno cemitério turco, cujas lápides estavam tombadas, como se, deitadas, sonhassem.

—Pode ser, Padre Félix, mas penso — e muitos outros também pensam assim — que há algum erro na distinção entre o essencial e o não essencial na estrutura do corpo, e na separação entre corpo e alma… Em suma, não consigo concordar com você que nada de nobre e sagrado exista nas exigências do corpo, na carne e no sangue e no destino terreno — meu objetivo de desejo está em outro lugar! Sonho com uma forma de vida — embora admita que aqui não consiga vê-la com muita clareza — na qual o ser humano inteiro, corpo e alma unidos, prossiga esforçando-se em busca de uma plenitude cada vez mais profunda de seu ser; na qual a alma e os sentidos não sejam inimigos uns dos outros; na qual o ser humano, assim como perceberá a unidade dentro de si, também perceberá a unidade com o significado de seu destino, para que, ao alcançar o ápice de sua vida, possa dizer: ‘Eu sou o meu destino.’

—‘Este é um sonho helênico.’ Padre Félix responde: ‘Mas qual foi o resultado desse sonho? Primeiro, nos mistérios órficos e dionisíacos; depois, nas ideias de Platão e Plotino; e, desse modo, novamente na percepção de que corpo e alma são opostos… A libertação da alma do domínio do corpo: esse é o significado da redenção cristã, o significado de nossa fé no sacrifício de nosso Senhor na cruz…’ Aqui ele parou; depois lançou-me um olhar rápido e disse: ‘Veja, eu não sou sempre um missionário… Se lhe falo de minha fé, perdoe-me, pois ela não é a sua fé…’

—Mas eu também não tenho fé alguma — assegurei-lhe.

—Sim — diz Padre Félix —, eu sei disso. A falta de fé, ou melhor, a incapacidade de acreditar, é a verdadeira doença de nossa época. Você, como tantos outros, vive em meio a uma confusão que tem mil anos. A confusão consiste em que a razão só consegue enxergar o aspecto dos esforços humanos. Mas a própria razão não consegue alcançar o conhecimento espiritual, porque está inteiramente ocupada em alcançar objetivos mundanos. A fé — somente a fé — pode libertar-nos dessa cegueira.

—‘Fé?’, pergunto. Você mencionou novamente essa palavra. Há uma coisa que não consigo entender: você disse que não é possível adquirir conhecimento e viver uma vida virtuosa apenas por meio da razão; que é necessária a fé — foi o que você disse. Concordo plenamente com você. Mas como pode alguém que não tem fé adquirir fé? Existe algum caminho para isso, isto é, algum caminho aberto à nossa vontade?’

—A vontade, por si só, não é suficiente, meu querido amigo. Esse caminho só pode ser percorrido pela graça de Allah. No entanto, ele está sempre aberto àquele que, do mais profundo de seu coração, reza pedindo luz e orientação.’

—Rezar? Mas, padre Félix, quando uma pessoa consegue rezar, é porque já tem fé. O senhor está tentando me fazer andar em círculos, pois, se alguém reza, já tem de antemão a convicção da existência daquele a quem reza. Como essa convicção lhe surgiu? Por meio da razão? Isso não equivale a admitir que é impossível alcançar a fé através da razão? Além disso, que significado poderia ter a misericórdia para alguém que não teve nenhuma experiência desse tipo?

O padre deu de ombros, com pesar, foi o que me pareceu. Se alguém não conseguiu perceber Allah por si mesmo, deve estar disposto a orientar-se pela experiência dos outros, pela experiência daqueles que O perceberam…

……                    .. .                  .. .

Alguns dias depois, desembarcamos em Alexandria; naquela mesma tarde, parti para a Palestina.

O trem avançou velozmente durante toda aquela tarde, atravessando as paisagens suaves e úmidas do delta. Pelo caminho, surgiram os canais trazidos do Nilo, cidades cobertas pelas sombras das amendoeiras e de muitos barcos de fundo chato. Pouco a pouco, inúmeras cidadezinhas desapareceram atrás de nós; fileiras de casas acinzentadas pela poeira e minaretes esguios. Aldeia após aldeia, formada por cabanas de barro com aspecto de caixas, correu para trás. Campos de algodão já colhido, canaviais onde despontavam os brotos; búfalos corpulentos dirigiam-se agora para casa sem pastores, depois de passarem o dia mergulhados até o corpo em poças cheias de lama — tantas cenas passavam diante dos olhos e logo desapareciam atrás de nós. Ao longe, vi homens vestidos com longas túnicas — pareciam flutuar —, tal era a limpidez do ar, sob o céu altíssimo e azul, semelhante a um céu feito de vidro. Às margens dos canais, os juncos curvavam-se ao golpe do vento; mulheres vestidas de finas roupas de seda negra enchiam de água seus cântaros de barro: mulheres de uma beleza extraordinária, esbeltas e de pernas longas; ao vê-las caminhar, pensei nas árvores de longos galhos, que se agitam suavemente ao vento, embora sejam fortes e robustas! Jovens e mães — todas caminhavam como se flutuassem.

A noite se aproxima, depois se espalha, vasta, como a respiração de um animal que repousa. Homens de corpo esguio caminhavam de suas terras para casa, e pareciam avançar a cada passo imenso — e, ao mesmo tempo, tive a impressão de que eram retirados do dia que lentamente se apagava. Parecia que cada passo deles possuía uma existência própria — cada passo completo em si mesmo, eterno; e, na eternidade, há sempre apenas aquele único passo. Essa sensação de leve suavidade talvez tivesse sua origem na embriagadora luz crepuscular do delta do Nilo, ou talvez fosse apenas a nossa própria agitação depois de contemplar tantas coisas novas; mas, qualquer que fosse a causa, de repente senti dentro de mim o peso da Europa: o peso das intenções deliberadas em tudo o que fazemos. Pensei comigo mesmo: como é difícil, para nós, encontrar a verdade! Estamos sempre tentando agarrá-la com a mão… Mas a verdade não aceita ser capturada. Ela só se entrega ao ser humano quando o subjuga.

Os passos do trabalhador egípcio, que já haviam desaparecido ao longe, na escuridão, continuavam a oscilar dentro de mim como uma música de louvor a tudo o que é grandioso.

Chegamos ao Canal de Suez e, de repente, fazemos uma curva em ângulo reto; por algum tempo, uma melodia nos conduz para o norte ao longo da margem cinzento-negra. Banhado pelo luar, o canal transformou-se numa estrada larga, real e, contudo, onírica — como um espesso fecho de metal reluzente! A terra azul do vale, exausta e ressequida, deu lugar, com velocidade prodigiosa, à formação de duna após duna! Essas dunas cercavam as duas margens do canal com uma indefinição e uma nitidez que raramente se veem em outras paisagens noturnas. Em meio ao silêncio concentrado, erguiam-se aqui os esqueletos de dragas. Do outro lado, um condutor de camelos corria, quase invisível, e a noite já o havia engolido… Que correnteza imensa e simples: do Mar Vermelho, passando pelo lago Timsah, até o Mediterrâneo… diretamente através de um deserto, para que o Oceano Índico pudesse se precipitar contra os portos de desembarque da Europa…

Depois de uma breve viagem de trem em Kastara, uma balsa lenta e preguiçosa leva os viajantes para o outro lado, atravessando um canal silencioso e imóvel. Ainda falta quase uma hora para o trem para a Palestina partir. Sento-me diante do edifício da estação. Ainda falta quase uma hora para o calor do ar passar. Sento-me diante do edifício da estação. O ar está quente e seco. À minha direita, deserto; à minha esquerda, deserto — uma monotonia cinzenta e trêmula, riscada aqui e ali e interrompida pelo chamado isolado de algum animal — talvez uma raposa, talvez um cão. Um beduíno desembarca da balsa carregando pesados fardos feitos de tecido de tapete colorido e dirige-se a um grupo mais adiante — e só então percebo que são algumas pessoas imóveis e alguns camelos ajoelhados, prontos para partir com cargas sobre o dorso. Parecia que estavam esperando a chegada do beduíno. O beduíno deixa seus fardos sobre o dorso de um camelo, com um baque; trocam algumas palavras e, primeiro apoiados nas patas traseiras, depois nas dianteiras, os cavaleiros começam a balançar-se para a frente e para trás. Então partem, conduzindo os camelos com um suave som de passos, e por alguns instantes meus olhos os acompanham: os corpos de cor clara dos animais que desaparecem, balançando, e a ampla veste beduína, listrada de marrom e branco.

Um trabalhador da ferrovia aproximou-se de mim. Vestia um sobretudo azul e parecia ser manco. Acendeu o próprio cigarro no meu e, num francês entrecortado, perguntou-me: “O senhor vai para Jerusalém?” Quando respondi “sim”, tornou a perguntar: “É a primeira vez?”

Faço que sim com a cabeça. Ele estava prestes a ir embora, mas depois voltou e sentou-se novamente diante de mim: “O senhor viu ali a grande caravana que veio do deserto do Sinai? Não viu? Então venha comigo, vamos encontrá-los. O senhor ainda tem tempo.”

Avançamos por um estreito caminho muito usado, através de um vazio silencioso. As solas dos nossos sapatos afundam na areia. O caminho chega até as dunas. Um cão late na escuridão. Enquanto avançávamos, tropeçando entre os pequenos matagais espinhosos, chegaram aos meus ouvidos muitas vozes — indistintas, desordenadas, abafadas, como o som de muitas gargantas humanas; e, misturado ao ar seco do deserto, veio o odor forte, embora suave, de muitos animais descansando. De repente, como às vezes vemos numa noite coberta de neblina, num porto citadino, o tremeluzir da luz de uma lâmpada ainda invisível na extremidade da estrada, que apenas ilumina a neblina — uma fina chama de luz ergueu-se de baixo para cima, como se tivesse vindo de sob a terra e subisse diretamente, rasgando o ar escuro. Era o brilho de uma fogueira que se erguia da ravina profunda entre duas dunas; o caminho estava tão coberto por um espesso matagal de espinhos que eu não conseguia ver o chão. Agora só consigo ouvir as vozes humanas. Ainda não consigo ver aqueles que falam. Ouço a respiração dos camelos e o ruído de seus corpos roçando uns nos outros naquele caminho estreito. Uma enorme sombra humana cai sobre a luz, corre pela encosta do lado oposto e depois desce novamente. Depois de avançar mais alguns passos, vejo tudo: muitos camelos sentados no chão, com os joelhos dobrados, formando um grande círculo; aqui e ali, junto às selas, estão amontoados sacos e fardos amarrados — e, entre tudo isso, algumas figuras humanas! O cheiro dos animais é doce e denso como vinho. De vez em quando, um deles move o corpo, cuja forma não se distingue por causa da escuridão ao redor; depois ergue o pescoço e respira o ar noturno pelas narinas, produzindo um som — parecia suspirar. Foi assim que ouvi pela primeira vez na vida o som do suspiro de um camelo. Uma ovelha balia suavemente; um cão rosnava; e, para além daquele caminho estreito, a noite era completamente escura e sem estrelas.

Enquanto isso, já era tarde. Eu precisava voltar à estação. Mas avancei muito devagar pelo caminho por onde havíamos vindo — aturdido e estranhamente perturbado — como se uma experiência tão misteriosa tivesse me deixado aturdido e perturbado, tomado um canto do meu coração e não me permitisse mais partir! O trem leva-me através do deserto do Sinai. O frio da noite no deserto e os solavancos e sacudidas do vagão, que percorre os trilhos assentados sobre a areia solta, deixam-me cansado e insone. Diante de mim está sentado um beduíno, envolto numa enorme abaia cor de cobre. Ele também tremia de frio — cobriu o rosto com o tecido do turbante. Sentado no banco de pernas cruzadas, em posição de lótus, traz no colo uma espada curva, guardada numa bainha ornamentada de prata. Está quase amanhecendo. Lá fora, consigo ver os contornos das dunas e dos bosques de cactos.

Ainda me lembro de como amanheceu naquele dia — desenhando uma imagem cinzento-escura, traçando lentamente os contornos — e de como foi retirando as dunas da escuridão, formando alguns montes compactos, enormes e harmoniosos. Na penumbra que gradualmente surgia, vi algumas tendas; enquanto as observava, elas também desapareceram para trás, e abaixo delas vi redes de pescadores, como teias de neblina espalhadas pelo ar, penduradas sobre o chão para secar, presas a estacas fincadas aqui e ali: redes de pesca no deserto, balançando ao vento da madrugada, como uma cortina de sonho entre o dia e a noite, transparente, irreal.

À direita, o deserto; à esquerda, o mar. Na costa, vi um cameleiro solitário. Talvez tivesse passado a noite inteira montado no camelo. Parecia que agora havia adormecido, reclinado sobre a sela — e os dois, o cameleiro e o camelo, balançavam no mesmo ritmo. Mais uma vez surgiram à vista as tendas negras dos beduínos; as mulheres já haviam saído das tendas, com jarros de barro sobre a cabeça, prontas para ir ao poço. A penumbra torna-se cada vez mais clara, e nessa luz desperta um mundo nítido, como se impulsionado por um estímulo invisível — tudo o que há de simples e direto parece nascer desse maravilhamento, e ele parece não ter fim!

O sol se espalha sobre a areia em raios cada vez mais densos, e a cinzenta madrugada explode em fogos de artifício alaranjados e dourados. Corremos através do oásis chamado Al-Arish. De ambos os lados, fileiras de palmeiras; seus milhares de ramos finos, como lanças, erguem-se nas duas margens, formando na luz e na sombra uma espécie de treliça marrom-esverdeada. É por entre ela que corremos. Vejo uma menina voltando do poço, com um jarro cheio sobre a cabeça; depois ela avança por um caminho que passa sob as palmeiras. Veste uma roupa que combina vermelho e azul, com uma longa franja — parecia uma nobre senhora saída de um conto de fadas!

Assim como os pomares de palmeiras de Al-Arish surgiram de repente à vista, rapidamente desapareceram dela. Agora viajamos através de uma luz cor de concha. Para além das barras trêmulas das janelas do vagão, reina um silêncio tão absoluto que eu jamais poderia tê-lo imaginado possível. Em todas as formas e movimentos que surgiam à vista, parecia não haver ontem nem amanhã; como se estivessem depositados ali, numa singularidade deliberada. Vi areia macia e suave; o vento a transformara em dunas delicadas, que sob o sol brilhavam como pergaminho muito antigo, banhado numa cor de laranja — apenas um pouco mais macias que o pergaminho, e menos quebradiças nas suas fraturas e curvas. A areia golpeava o cume após cume das dunas, como golpes agudos e precisos num instrumento de cordas; as encostas das dunas eram de uma suavidade ilimitada, e nos seus sulcos e rugas rasos repousavam sombras de aquarela transparente — púrpura, azul-claro, carmesim e vermelho-pálido como ferrugem. Nuvens brancas e luminosas como leite, moitas de cactos aqui e ali e, às vezes, capim resistente de longos ramos surgiam à vista. Uma ou duas vezes vi beduínos de pés descalços, leves e esguios, e uma caravana de camelos carregados de ramos de palmeira, que eles levavam de um lugar para outro. Fiquei absorto na grandiosidade da paisagem natural!

Paramos algumas vezes em pequenas estações, que geralmente não passam de alguns barracões feitos de madeira e lata. Meninos de pele acobreada, vestidos com roupas rasgadas, correm de um lado para outro com cestos, anunciando a venda de azeitonas, ovos cozidos e peixe, além de pão achatado de farinha. O beduíno sentado à minha frente tirou o turbante da cabeça e abriu a janela. Seu rosto era fino, castanho e aguçado — o rosto de um falcão, sempre fitando atentamente o que havia à frente. Comprou um bolo e se preparava para voltar a sentar-se; nesse momento, seu olhar caiu sobre mim e, sem dizer palavra, partiu o bolo em dois e estendeu-me metade. Mas, quando viu que eu hesitava, surpreso e constrangido, riu; pude ver como aquele sorriso suave se ajustava maravilhosamente ao seu rosto e à concentração de instantes antes. Sorrindo suavemente, pronunciou uma palavra que então eu não compreendi, mas que agora entendo; disse: ‘tafaḍḍal’ — ‘permita-me fazer-lhe uma gentileza’. Peguei o pedaço de bolo e agradeci-lhe com um aceno de cabeça. Outro passageiro, usando um fez vermelho, mas com todo o restante da roupa europeia, pareceu-me um pequeno comerciante; espontaneamente, assumiu o papel de intérprete. Em inglês hesitante, disse:

—‘Ele diz que você é um viajante, e ele também é um viajante. O caminho dele e o seu são o mesmo.’

Agora, quando penso nesse pequeno episódio, parece-me que talvez tenha sido ele a raiz de todo o meu amor posterior pelo caráter árabe. Pois, no comportamento daquele beduíno, que, apesar de todos os obstáculos do desconhecimento, reconheceu amizade num companheiro de viagem encontrado por acaso — e desejou dividir o pão com ele —, devo certamente ter sentido desde então a fé e o gesto de uma humanidade desimpedida!

Pouco depois, surgiu no caminho a antiga cidade de Gaza, como uma fortaleza de barro, levando sua vida extensa sobre uma colina de areia, entre muralhas de figueiras-da-índia. Meu companheiro beduíno depositou seus sacos de bagagem e saudou-me com um sorriso solene; depois desceu do vagão, varrendo a areia com a ponta da roupa que se arrastava sobre a plataforma. Lá fora, na plataforma, estavam mais dois beduínos; apertaram-lhe a mão e beijaram-no nas duas faces, dando-lhe uma acolhida calorosa.

O comerciante que falava inglês pousou a mão no meu braço e disse: ‘Venha comigo. Temos quinze minutos aqui.’

Do outro lado do edifício da estação, uma caravana havia armado suas tendas. Meu companheiro informou-me que eram beduínos do norte do Hijaz; seus rostos eram castanhos, cinzentos de poeira e ardentes de emoções selvagens. Nosso amigo foi colocar-se entre eles. Parecia ser uma pessoa bastante respeitada, pois todos se puseram ao seu redor, em semicírculo, e começaram a responder às suas perguntas. O comerciante conversou com eles. Então eles se voltaram para nós. Pensando na vida em nossas cidades, olharam para nós com uma expressão amistosa… Pareceu-me que nos observavam com uma espécie de altiva exaltação. Ao redor deles havia uma atmosfera de liberdade, um ar livre. Nasceu em mim um desejo intenso de compreender a vida deles. O ar era seco e eletrizante; parecia penetrar em mim, atravessando meu corpo. Naquela atmosfera, todos os nós da rigidez pareciam desfazer-se, e todos os pensamentos se tornavam desordenados, indolentes e imóveis! Havia nela uma espécie de atemporalidade, na qual cada visão, cada som, cada visão, cada som, cada aroma assumia uma forma de valor próprio e definido. Aos poucos, compreendi isto: os beduínos que vivem no ambiente do deserto certamente veem e sentem a vida de maneira inteiramente diferente das pessoas de todas as outras regiões; devem estar livres das obsessões e dos sonhos que caracterizam os habitantes de regiões mais frias e prósperas, e talvez também de muitos sonhos — e certamente de muitos pães! Como dependem mais intimamente das próprias sensações, esses habitantes do deserto certamente estabelecem valores completamente diferentes para todas as coisas do mundo.

Talvez aquilo fosse um presságio da futura revolução da minha própria vida — que me arrebatou, naquele primeiro dia num país árabe, ao contemplar os beduínos —, o presságio de um mundo cuja definição não conhece limite algum, embora não seja sem forma: um mundo completo em si mesmo e, ainda assim, aberto em todas as direções; um mundo que, pouco depois, se tornaria o meu próprio mundo! Não é verdade que eu estivesse então consciente do que o futuro me reservava; certamente não. Era antes aquela sensação que se tem ao entrar, pela primeira vez na vida, numa casa desconhecida, quando, a meio do caminho, um aroma indefinível lhe dá uma vaga indicação de tudo o que acontecerá naquela casa — coisas que acontecerão tendo você como centro — e, se forem acontecimentos felizes, você sentirá como se seu coração tivesse sido traspassado pela faca de uma alegria súbita. E, muito, muito tempo depois de esses acontecimentos terem passado, você se lembrará deles e dirá consigo mesmo: eu já havia percebido tudo isto há muito tempo, exatamente assim — e não de outra forma —, naquele salão, naquele primeiro instante; naquele primeiro instante!

Dois

Um vento impetuoso sopra sobre o deserto, e por um instante Zaid pensa que estamos prestes a enfrentar outra tempestade de areia. A tempestade não veio, é verdade, mas o vento não nos poupou: continuou a seguir-nos em rajadas regulares, e, quando descemos a um vale arenoso, as rajadas uniram-se e passaram a soprar como um sibilo contínuo. No meio do vale havia uma aldeia cheia de palmeiras, formada por alguns povoados separados, cada um cercado por muros de barro; a aldeia estava quase inteiramente coberta pela poeira e pela areia levantadas pelos redemoinhos.

A região parecia uma caverna do vento: todos os dias, da manhã à noite, o vento golpeava-a continuamente com as suas fortes asas; à noite calava-se e, no dia seguinte, despertava com novas forças. Sob os golpes incessantes do vento, as palmeiras curvadas não conseguiam crescer tanto quanto deveriam; permaneciam atrofiadas, estendendo os ramos em todas as direções, rente ao solo. Essas palmeiras estavam sempre ameaçadas pelas dunas que avançavam de todos os lados. Se os habitantes não plantassem fileiras de tamargueiras ao redor de cada pomar, a aldeia já teria sido enterrada na areia havia muito tempo. A resistência dessas árvores altas era maior que a das palmeiras. Com os seus troncos robustos e os ramos perenes que faziam nascer um murmúrio, elas formavam ao redor dos povoados uma parede viva e ofereciam-lhes uma segurança incerta.

Desembarcamos junto à casa de barro do chefe da aldeia, Amir — pretendíamos descansar um pouco ali naquele calor da tarde. O kahwa reservado para receber os hóspedes era aberto e trazia as marcas da pobreza. Diante do fogareiro de pedras onde se acendia o fogo para o café havia apenas uma esteira de palha. Mas, como é natural, toda pobreza se rende à hospitalidade árabe: mal nos sentámos na esteira, puseram gravetos no fogareiro e acenderam o fogo; o tilintar dos grãos de café recém-torrados sendo triturados num almofariz de cobre dava ao aposento uma característica própria, adequada a uma recepção; e as tâmaras de cor castanho-clara, amontoadas numa grande travessa, afastavam a fome dos viajantes.

O nosso anfitrião, um velho baixinho e franzino, de olhos semicerrados, vestindo apenas um pano de algodão e um turbante na cabeça, convida-nos a partilhar:

— Que Alá vos conceda uma vida longa. Esta casa é a vossa casa. Comei em nome de Alá. Isto é tudo o que temos — e faz com a mão um gesto de desculpa, um único gesto; e todo o peso do seu destino se expressa naquela força genuína de dirigir-se às pessoas, característica dos povos que vivem em íntima comunhão com os sentimentos simples — mas as tâmaras não são más; comei, ó viajantes, o que podemos oferecer-vos dentro das nossas possibilidades…

Na verdade, entre as melhores tâmaras que comi na vida, estas mereciam ser incluídas, e o nosso anfitrião estava claramente feliz com a fome que conseguira saciar! Ele recomeça:

— O vento… o vento… torna a nossa vida dura, penosa; mas é a vontade de Alá! O vento destrói as nossas árvores e plantas. Temos de lutar constantemente para que elas não sejam cobertas pela areia. É claro que nem sempre foi assim. Antigamente não havia tanto vento aqui, e a aldeia era então maior e mais próspera. Mas agora a aldeia encolheu. Muitos dos nossos jovens estão a partir daqui, porque nem todos conseguem suportar uma vida assim. Dia após dia, a areia vai cercando-nos cada vez mais. Não falta muito para que já não reste espaço algum para estas palmeiras. Este vento… mas nós não nos queixamos. Vós sabeis que o Profeta — que a misericórdia de Alá esteja sobre ele — nos disse: ‘Alá diz: não censureis o destino, pois sabei que Eu sou o destino…

É bem possível que eu tenha me sobressaltado, pois o velho interrompeu o que dizia e me olhou atentamente; como se tivesse compreendido por que eu me assustara, sorriu discretamente. Aquele sorriso, semelhante ao sorriso de uma mulher, parecia estranho naquele rosto cansado e enrugado. O velho voltou a falar em voz baixa, quase como se desse as boas-vindas:

“Saiba que eu sou o destino.” O modo como ele moveu a cabeça enquanto dizia isso expressava seu orgulhoso reconhecimento do lugar que ocupava na vida. Nunca vi, em toda a minha vida, uma aceitação tão realista acompanhada de tamanha serenidade e certeza — nem mesmo entre pessoas felizes. Ele desenhou vagamente um círculo vazio, estendendo amplamente os braços; era como se o movimento dos braços denotasse algo semelhante à sensualidade.

Ele desenhou, com os braços estendidos, um círculo dentro do qual cabia tudo o que se relacionava à vida humana: o quarto pobre e escuro, o vento e seu bramido eterno, o avanço irresistível da areia, o desejo de felicidade e a submissão ao que é imutável; a travessa cheia de tâmaras, a luta dos pomares para sobreviver por trás da muralha de tamariscos sempre verdes; o fogo aceso no fogão e, em algum lugar do outro lado do pátio, o riso de uma jovem. E, no meio de tudo isso, na atitude e nos gestos que davam vida e unidade a todas essas coisas, ouvi a harmonia de um espírito vigoroso que não reconhecia circunstância alguma como obstáculo e que encontrava a paz em si mesmo.

Volto novamente muito para trás, dez anos antes, a Jerusalém, àquele dia de outono em que outro velho me falou da submissão a Allah — a submissão por meio da qual o ser humano pode estabelecer uma relação pacífica com Allah e, desse modo, também com o próprio destino.

Naquele outono, eu estava na casa do meu tio Dorian, bem no centro da antiga cidade de Jerusalém. Chovia quase todos os dias, e por isso eu não podia sair muito. Muitas vezes eu ficava sentado junto à janela, que dava para um pátio enorme nos fundos da casa. O pátio pertencia a um velho árabe; as pessoas o chamavam de “Haji”, porque ele havia feito a peregrinação a Meca. Ele alugava jumentos para transportar passageiros e cargas. Assim, seu pátio havia se transformado numa espécie de hospedaria.

Todas as manhãs, antes do nascer do sol, chegavam das aldeias vizinhas camelos carregados de verduras, legumes e frutas; depois, tudo era transferido para o lombo dos jumentos e enviado pelas ruelas estreitas aos mercados da cidade. Durante o dia, eu via os enormes e pesados corpos dos camelos descansando no chão; as pessoas estavam sempre fazendo algazarra, cuidando dos camelos e dos jumentos e verificando tudo, mas, quando começava a cair uma chuva torrencial, eram obrigadas a buscar abrigo no estábulo. Aqueles homens, condutores de camelos e jumentos, eram pobres, e eu via que suas roupas estavam rasgadas; porém, em seu porte e comportamento, podiam ser comparados a soberanos livres e independentes. Quando se sentavam juntos no chão para comer pão achatado feito de farinha, acompanhado de um pouco de queijo ou de duas ou três azeitonas, eu não conseguia deixar de admirar a nobreza e a espontaneidade de seu comportamento, bem como a serenidade de seus corações. Eu via claramente que respeitavam a si mesmos e também tudo aquilo de que necessitavam no cotidiano. O Haji caminhava apoiado num bastão, pois sofria de reumatismo e seus joelhos estavam inchados; era uma espécie de chefe entre eles. Eu via que o escutavam sem fazer qualquer objeção. Várias vezes por dia, ele os reunia para a salat e, quando não chovia, eles a realizavam ao ar livre. Todos ficavam em uma única fila comprida, e ele se colocava à frente deles como seu imam. Pela precisão dos movimentos durante a salat, pareciam soldados: voltados todos ao mesmo tempo para Meca, inclinavam a cabeça, tornavam a se endireitar, depois se ajoelhavam e encostavam a testa no chão. Parecia que seguiam as palavras inaudíveis que saíam dos lábios do imam — ele se levantava da prostração e, antes de voltar a prostrar-se, permanecia descalço sobre o tapete de oração, com os olhos fechados e as mãos cruzadas sobre o peito, movendo os lábios em silêncio; era evidente que estava profundamente absorto na meditação. Eu o via rezar com toda a sua alma!

Ao ver a união entre uma oração tão autêntica e movimentos quase mecânicos, senti certo constrangimento e, um dia, perguntei ao Haji, que entendia um pouco de inglês:

— Vocês realmente acreditam que Allah quer que se curvem repetidamente, ajoelhem-se e se prostrem para demonstrar sua devoção a Ele? Não seria melhor voltar-se para dentro de si mesmos e rezar a Ele no recolhimento do próprio coração? Por que fazem esses movimentos?

Assim que as palavras saíram de minha boca, arrependi-me, pois não desejava ferir os sentimentos religiosos daquele velho. Mas o senhor Haji não pareceu nem um pouco ofendido. Um sorriso surgiu em seu rosto desdentado, e ele disse:

— Então, de que outra maneira poderíamos adorar Allah? Acaso Ele não criou juntos o corpo e a alma? Ouça, vou lhe dizer: nós, muçulmanos, oramos apenas da maneira como oramos, e não de outra forma. Voltamo-nos para a Kaaba, para a Casa Sagrada de Allah situada em Meca, conscientes de que os rostos de todos os muçulmanos do mundo — onde quer que estejam — se voltam para essa Casa durante a oração; e todos nós formamos um só corpo, tendo Allah como centro de nossos pensamentos. Primeiro, permanecemos de pé, eretos, e recitamos o Sagrado Alcorão, lembrando que estas são Suas próprias palavras, dadas à humanidade para que ela possa viver com retidão, justiça e firmeza; depois dizemos: Allah é grande, o Altíssimo. Com isso, recordamo-nos de que, além de Allah, não há ninguém que possa ser adorado por nós. Depois dessas palavras, inclinamo-nos profundamente, porque O honramos acima de todos e louvamos Seu poder e Sua majestade. Em seguida, prostramo-nos e encostamos a testa no chão, pois compreendemos que, diante Dele, somos apenas partículas de pó e nada somos — enquanto Ele é nosso Criador e Sustentador. Depois levantamos a cabeça do chão, sentamo-nos imóveis e oramos para que Ele perdoe nossos pecados, derrame Sua misericórdia sobre nós, nos guie pelo caminho reto e nos conceda saúde e sustento; então voltamos a nos prostrar e encostamos a testa no pó diante da majestade do Deus único. Depois nos sentamos novamente, imóveis, e oramos para que Ele conceda Sua misericórdia ao profeta Muhammad, que nos trouxe a mensagem de Allah, assim como concedeu Sua misericórdia aos profetas e mensageiros anteriores. Oramos para que Ele tenha misericórdia de nós e de todos os que seguem o caminho da verdade; pedimos-Lhe que nos conceda o bem deste mundo e o bem do outro mundo. Por fim, viramos a cabeça para a direita e para a esquerda e dizemos: que a paz e a misericórdia de Allah estejam sobre todos vocês; e assim saudamos todos os que praticam o bem, onde quer que estejam.

Era assim que nosso Mensageiro (que a paz esteja com ele) realizava a salat, e foi assim que ensinou sua ummah a realizá-la em todos os tempos, para que se submetesse voluntariamente a Allah; esse é precisamente o significado do Islã, e é assim que se estabelece uma relação de paz com Ele e também com o próprio destino.

É claro que o velho não usou exatamente essas palavras, mas esse era o sentido do que disse, e é assim que me lembro delas. Alguns anos mais tarde, compreendi que, com sua explicação, o senhor Haji havia aberto pela primeira vez para mim a porta do Islã. Ainda assim, muito antes de me ocorrer a ideia de que o Islã poderia tornar-se minha própria religião, comecei a sentir uma humildade sempre que via — como acontecia com frequência — um homem descalço de pé sobre seu tapete de oração ou sobre uma esteira de palha, com as duas mãos cruzadas sobre o peito e a cabeça inclinada, completamente recolhido em si mesmo e alheio a tudo o que acontecia ao seu redor — estivesse ele dentro de uma mesquita ou na calçada de alguma rua movimentada: um homem sem qualquer queixa contra si mesmo — tranquilo e satisfeito!

*         *            *          *          *          *

A “casa árabe de pedra” sobre a qual meu tio Dorian me escrevera era realmente encantadora. A casa ficava à margem da “Cidade Velha”, perto da “Porta de Jafa”. Seus quartos amplos, de tetos altos, pareciam carregados das lembranças dos nobres que haviam vivido ali em diferentes épocas do passado; e suas paredes vibravam com o pulso do presente vivo, que irrompia dos mercados próximos. E havia aquelas cenas, sons e odores, tão diferentes de tudo o que eu conhecera antes.

Ao parar no terraço do telhado, vi a área claramente delimitada da Cidade Velha, com suas ruas irregulares espalhando-se como uma rede e seus becos escavados na pedra. Na extremidade oposta, relativamente próxima considerando a vasta extensão, ficava o complexo da Mesquita de Suleiman; e, bem no limite, a Mesquita de Al-Aqsa, considerada a mais sagrada depois das de Meca e Medina; exatamente no centro encontrava-se o “Domo da Rocha”. Do outro lado, as muralhas da antiga Cidade Santa estendiam-se em direção ao vale do Cedron e, além do vale, erguiam-se montanhas suaves e lisas, sem folhagem nem vegetação, marcadas aqui e ali apenas por oliveiras em suas encostas. A leste havia sinais de uma fertilidade um pouco maior; foi nessa direção que avistei um jardim, descendo pela encosta em direção à estrada, de um verde escuro e cercado por muros. Era o “Jardim do Getsêmani”. Entre as oliveiras, de um lado, e os ciprestes, do outro, brilhavam as cúpulas douradas, em forma de cebola, das igrejas russas.

Era como um líquido fundido, agitado e tremulante no recipiente do alquimista, claro mas indescritível, variado em mil cores, além do alcance das palavras e até mesmo do pensamento. Era assim que eu via, do Monte das Oliveiras, o vale do Jordão e o Mar Morto. Montanhas ondulantes pareciam desenhadas, como num suspiro contido, sobre um fundo luminoso, branco como leite; junto delas, a linha azul-escura do rio Jordão, os redemoinhos circulares do Mar Morto ao longe e, ainda mais distante, como um mundo inteiramente separado, a cadeia montanhosa de Moabe imersa no crepúsculo — uma paisagem de beleza tão inacreditável, tão estranha e tão magnífica, que meu coração começava a tremer de emoção.

Para mim, Jerusalém era um mundo inteiramente novo. De cada lugar da “Cidade Velha” despertavam inúmeras lembranças históricas: aquelas ruas que tinham ouvido Isaías pregar; aquelas pedras sobre as quais caminhara Jesus (que a paz esteja com ele); aquelas muralhas que haviam envelhecido enquanto nelas ecoavam os passos pesados dos soldados romanos; e o arco sobre a porta, no qual estavam gravadas inscrições do reinado de Saladino. O céu era de um azul profundo, que talvez não parecesse novo àqueles que conheciam outros países mediterrâneos. Mas, para mim — pois havia crescido em um clima muito menos amistoso —, aquele azul era ao mesmo tempo um chamado e uma promessa. As casas e as ruas pareciam envoltas numa suave luminosidade trêmula, e os movimentos e modos das pessoas eram espontâneos, livres de rigidez, com gestos dignos e nobres — e por pessoas refiro-me aos árabes daqui, pois foram eles que, desde o início, deixaram em minha consciência a marca dos habitantes desta terra: nascidos do próprio solo e da própria história do país, estavam unidos à sua luz e ao seu ar. Suas vestimentas eram variadas e vistosas, e as roupas que usavam tinham a extensão e a amplitude das descrições bíblicas; fossem fellahs ou beduínos — pois eu frequentemente via beduínos chegando à cidade para comprar e vender mercadorias —, cada um vestia suas roupas à sua maneira, sempre um pouco diferente dos demais, como se, inspirado pelo momento, tivesse inventado uma moda inteiramente própria.

Bem em frente à casa de Dorian, talvez a uns quarenta metros de distância, erguiam-se as muralhas escuras, enegrecidas e desgastadas da fortaleza de Davi — parte das ruínas da Cidade Velha; era uma autêntica fortaleza urbana árabe medieval, provavelmente construída sobre fundações da época herodiana; sua torre de vigia era alta e estreita como um minarete. (Embora não tivesse nenhuma ligação direta com o rei Davi, os judeus sempre a chamaram por esse nome, pois, segundo se dizia, era ali, no monte Sião, que se localizava o antigo palácio real.) Voltado para a “Cidade Velha”, havia um edifício baixo e amplo, por cujo interior passava a entrada; diante dela, sobre o antigo fosso, havia um arco de pedra curvado como um arco de tiro — uma ponte. Quando vinham à cidade, os beduínos usavam regularmente aquele caminho como ponto de encontro. Certo dia, vi ali um beduíno alto, imóvel, uma silhueta contra o céu cinzento-prateado, como a figura de uma antiga lenda. Emoldurado por uma pequena barba castanho-avermelhada, seu rosto de maxilar afiado tinha uma expressão de profunda gravidade: um semblante triste e abatido, como se esperasse alguma coisa, embora não conseguisse acreditar que ela realmente aconteceria. A ampla túnica listrada de marrom e branco que vestia estava gasta e rasgada! E, de repente, não sei por quê, ocorreu-me que aquela túnica estava sobre o corpo do homem havia muitos meses de perigo e de fuga — seria ele, então, um daqueles poucos guerreiros que haviam seguido o profeta Davi? Talvez, naquele momento, Davi estivesse escondido e dormindo em alguma caverna, no sopé das montanhas da Judeia, e aquele amigo fiel e corajoso tivesse vindo silenciosamente à capital com um companheiro, para descobrir o que Saul pensava de seu líder e se era seguro para ele retornar. E agora, naquele instante, o amigo de Davi esperava ali pelo companheiro, temendo uma grande desgraça: talvez não pudessem levar boas notícias a Davi…

De repente, o beduíno se moveu e começou a descer pela encosta, e minha fantasia se desfez. Então, subitamente, lembrei-me: aquele homem era árabe, enquanto aquelas figuras da Bíblia eram judias. Mas minha surpresa durou apenas um instante, pois de repente compreendi, com aquela clareza que às vezes irrompe em nosso íntimo como um relâmpago e ilumina o mundo durante um único batimento do coração, compreendi que Davi e os homens de seu tempo estavam muito mais próximos de suas origens árabes, assim como Abraão e os homens do tempo de Abraão, e que, por essa razão, estavam mais próximos dos beduínos de hoje do que dos judeus atuais — que se consideram descendentes de Davi e Abraão…

Eu costumava sentar-me sob a Porta de Jaffa, sobre o pilar pontiagudo de pedra, e observar grupos de pessoas entrando na Cidade Velha e saindo dela, todos avançando roçando uns nos outros e esbarrando os cotovelos uns nos outros — árabes e judeus de todos os tipos possíveis. Entre eles havia fellahs de ossos fortes, com panos marrons ou turbantes cor de laranja na cabeça; havia também beduínos, de rostos marcantes, nítidos e quase sempre magros. Vestiam túnicas com uma extraordinária atitude de segurança, frequentemente mantendo as duas mãos nos quadris e os cotovelos estendidos, como se tivessem certeza de que todos lhes abririam passagem. Eu também via mulheres camponesas: usavam roupas de algodão pretas ou azuis, com flores bordadas em linha branca sobre o peito; muitas vezes traziam tranças na cabeça e caminhavam com um ritmo humilde, simples e gracioso. Vistas de costas, muitas mulheres de sessenta anos pareciam moças. Seus olhos pareciam límpidos e livres dos efeitos da idade — a menos que fossem acometidos pelo tracoma, uma incurável doença ocular egípcia, uma maldição particular de todos os países do Mediterrâneo oriental.

E também via os judeus: os judeus locais, que usavam o tarbush e túnicas largas e amplas, cujos traços faciais tinham grande semelhança com os dos árabes; e os judeus vindos da Polônia e da Rússia, que haviam trazido consigo tanta mesquinhez e estreiteza de sua antiga vida europeia que era surpreendente que afirmassem pertencer à mesma raça que os orgulhosos judeus do Marrocos e da Tunísia, vestidos com seus brancos bernouses. No entanto, embora os judeus europeus destoassem claramente do cenário ao seu redor, eram eles que criavam o tom e o espírito da vida e da política judaicas e, por isso, eram responsáveis pela tensão quase visível entre árabes e judeus.

Quanto sabia um europeu comum sobre os árabes naquela época? Na verdade, nada. Ao vir para o Oriente Próximo, trazia consigo algumas ideias românticas e equivocadas e, se tivesse boa vontade e fosse intelectualmente honesto, teria de admitir que não sabia absolutamente nada sobre os árabes. Antes de vir para a Palestina, eu nunca havia pensado neste país como uma terra árabe. É claro que tinha a vaga noção de que aqui também viviam “alguns” árabes — mas os imaginava apenas como nômades habitantes de tendas no deserto e moradores de oásis refrescantes. Tudo o que eu havia lido anteriormente sobre a Palestina fora escrito por sionistas; naturalmente, escreviam apenas de acordo com seu próprio ponto de vista. Por isso, eu não compreendera que as cidades também estavam cheias de árabes; não compreendera que, ainda em 1922, para cada judeu na Palestina havia cinco árabes e que, por essa razão, a Palestina era incomparavelmente mais uma terra árabe do que uma terra judaica!

Quando fiz esse comentário ao senhor Ussishkin, presidente do Comitê de Ação Sionista, pareceu-me que os sionistas nem sequer estavam dispostos a considerar o fato de que os árabes constituíam a maioria. Não estavam de modo algum preparados para atribuir importância à oposição dos árabes ao sionismo. A reação do senhor Ussishkin pareceu-me nada além de ódio e desprezo pelos árabes:

—Não existe neste país nenhum movimento árabe verdadeiro contra nós —isto é, nenhum movimento que tenha suas raízes nas massas. Tudo aquilo que o senhor considera oposição não passa dos gritos de alguns agitadores descontentes. Isso desmoronará por si só em alguns meses —no máximo, em alguns anos—.

Seu argumento não me pareceu nem um pouco convincente. Desde o início, eu sentia que toda a ideia do estabelecimento de colônias judaicas na Palestina era artificial, irrealista e, pior ainda, perigosa —pois havia o risco de importar para um país que talvez pudesse viver mais feliz sem elas todas as complexidades e os problemas insolúveis da vida europeia. Os judeus não estavam realmente chegando à Palestina de uma maneira que pudesse ser chamada de retorno; ao contrário, estavam desesperados para transformar a Palestina em uma pátria segundo moldes europeus e com objetivos europeus. Em poucas palavras, eram estrangeiros que haviam entrado pela porta. Por isso, não encontrei nada de censurável na firme oposição dos árabes à ideia de uma pátria judaica em seu meio. Pelo contrário, logo compreendi que se estava tentando impor à força um Estado judeu e que os árabes lutavam contra isso com toda a razão.

Na Declaração Balfour de 1917, prometeu-se um “lar nacional” judaico na Palestina. Vi nessa declaração uma manobra política astuta, daquelas de que todas as potências coloniais costumam lançar mão. Tratava-se do velho princípio de governar um país por meio da política de dividir para governar. No caso da Palestina, esse princípio era ainda mais descarado. Pois, em 1916, em troca da ajuda inglesa contra a Turquia, os ingleses haviam prometido ao então governante de Meca, o xerife Hussein, um Estado árabe independente. A ideia era que esse Estado abrangesse todos os países situados entre o Mediterrâneo e o Golfo Pérsico. Os ingleses não só violaram essa promessa ao firmar, apenas um ano depois, o Acordo Sykes-Picot com a França —pelo qual se estabeleceu a dominação francesa sobre o Líbano e a Síria—, como, na prática, excluíram a Palestina do compromisso que haviam assumido em relação aos árabes.

Embora eu próprio fosse de família judaica, desde o início senti uma intensa oposição ao sionismo. Mesmo deixando de lado minha simpatia pessoal pelos árabes, pareceu-me profundamente imoral que estrangeiros viessem de fora para este país, com o apoio de grandes potências estrangeiras e com o objetivo declarado de alcançar a maioria numérica, e assim expulsassem de sua própria terra uma nação que, desde tempos imemoriais, sempre a considerara sua. Por isso, sempre que surgia alguma discussão sobre o problema árabe-judaico, eu naturalmente tomava o partido dos árabes. E esse problema era discutido com frequência. Quase todos os judeus com quem entrei em contato nesses meses eram incapazes de compreender minha atitude. Eles não conseguiam entender o que eu havia visto entre os árabes. Para eles, os árabes não passavam de um povo atrasado. Olhavam para os árabes com uma atitude que não diferia muito da dos colonos europeus da África Central. Não tinham absolutamente nenhuma preocupação com o que os árabes pensavam. Quase nenhum deles fazia qualquer esforço para aprender árabe, e todos aceitavam sem hesitação o axioma de que a Palestina era a legítima herança dos judeus.

A esse respeito, ainda me lembro da breve conversa que tive com Chaim Weizmann, o líder incontestável do movimento sionista. Ele havia vindo à Palestina em uma de suas visitas regulares. (Creio que seu endereço permanente era em Londres.) Encontrei-me com ele na casa de um amigo judeu. Não pude deixar de me impressionar com a energia inesgotável daquele homem —uma energia que se expressava também em seus movimentos físicos e em seus longos passos, semelhantes aos de uma mola, enquanto caminhava de um lado para o outro dentro da sala. Também não pude deixar de me impressionar com o brilho da inteligência que se destacava em sua testa larga e com o olhar penetrante de seus olhos.

Ele falava das dificuldades financeiras que obstruíam o caminho para transformar em realidade o sonho de um lar nacional judaico, e da pouca receptividade que os judeus no exterior demonstravam a esse sonho. Isso me levou à seguinte desagradável conclusão:

Como quase todos os outros judeus, Weizmann também estava ansioso para transferir para o “mundo exterior” a responsabilidade moral por tudo o que acontecia na Palestina. Por isso, fui obrigado a romper o silêncio respeitoso com que todos os presentes o escutavam. Perguntei:

—Mas e os árabes?

Eu certamente havia cometido uma gafe ao introduzir na conversa uma nota tão dissonante, pois Weizmann virou lentamente o rosto para mim, pousou a xícara que segurava e repetiu as palavras:

— E quanto aos árabes?

— Diante da veemente oposição dos árabes, como espera transformar a Palestina em sua própria pátria? Afinal, o ponto principal é que os árabes são a maioria neste país.

O líder sionista deu de ombros e disse: — Esperamos que, dentro de poucos anos, eles já não sejam a maioria.

— Talvez seja assim! O senhor trabalha nessa questão há muitos anos e certamente compreende a situação melhor do que eu. Mas, deixando de lado todos os obstáculos políticos que os árabes podem — ou talvez não possam — criar para vocês, o aspecto moral desse problema não o incomoda nem um pouco? O senhor não acha injusto, da parte de vocês, expulsar aqueles que sempre viveram neste país?

— Mas este país é nosso — respondeu o Dr. Weizmann, erguendo as sobrancelhas —; não estamos fazendo mais do que recuperar aquilo de que fomos injustamente privados.

— Mas vocês estão afastados da Palestina há quase dois mil anos. Antes disso, governaram este país, mas nunca o país inteiro — por menos de quinhentos anos. O senhor não acha que, pela mesma lógica, os árabes poderiam reivindicar a Espanha, já que também exerceram autoridade sobre ela durante cerca de setecentos anos e a perderam completamente há aproximadamente quinhentos anos?

Percebi que o Dr. Weizmann estava ficando impaciente:

—Bobagem! Os árabes apenas “conquistaram” a Espanha; aquele país nunca foi sua terra natal original. Portanto, foi justo que, no fim, os espanhóis os expulsassem de lá.”

—Perdoe-me —respondi—, mas parece-me que há aqui alguns erros de fato histórico. Na realidade, os hebreus também chegaram à Palestina como conquistadores. Muito antes deles, viviam aqui numerosas tribos semíticas e não semíticas —como os amorreus, edomitas, filisteus, moabitas e hititas, entre outras. Essas tribos continuaram vivendo aqui durante os reinos de Israel e Judá. Mesmo quando os romanos expulsaram daqui os nossos antepassados, aquelas tribos ainda viviam aqui. E continuam vivendo aqui até hoje. Os árabes que, no século VII, conquistaram esta região e se estabeleceram na Síria e na Palestina sempre constituíram apenas uma pequena minoria da população. Os demais, que hoje descrevemos como “árabes” palestinos ou sírios, são, na realidade, apenas os habitantes nativos da região que foram arabizados. Ao longo dos séculos, muitos deles se tornaram muçulmanos. Outros continuaram cristãos. Naturalmente, os muçulmanos casavam seus filhos e filhas com correligionários vindos da Arábia. Mas o senhor pode negar que a maioria dos habitantes da Palestina que falam árabe, sejam muçulmanos ou cristãos, descende diretamente dos habitantes originais daqui —originais no sentido de que já viviam aqui muitos séculos antes da chegada dos hebreus?”

Diante dessa minha explosão, o Dr. Weizmann suavizou-se num sorriso cortês e desviou o rumo da conversa para outro assunto.

Não fiquei feliz com o resultado da minha intervenção. É claro que eu não esperava que ninguém ali —muito menos o Dr. Weizmann— concordasse comigo em que, do ponto de vista moral, o ideal sionista era muito fraco e vazio. Mas eu tinha esta expectativa: meu apoio à causa árabe, se não produzisse outra coisa, provocaria pelo menos algum desconforto entre a liderança sionista —um desconforto que talvez os levasse a uma maior introspecção e, com isso, criasse uma disposição mental mais favorável para aceitar que havia uma possível legitimidade moral na oposição árabe ao sionismo. Mas nada disso aconteceu. Em vez disso, vi diante de mim uma parede vazia que parecia fitar-me com os olhos arregalados: um protesto cheio de censura contra a minha temeridade —a temeridade de ousar questionar os direitos incontestáveis dos judeus à terra de seus antepassados!

Eu me perguntava, maravilhado, como era possível que judeus dotados de uma inteligência tão criativa conseguissem ver o conflito sionista-árabe apenas do ponto de vista judaico! Não compreendiam que, em última análise, a solução do problema dos judeus na Palestina só poderia ser alcançada por meio de uma cooperação amistosa com os árabes? Estavam realmente tão cegos a ponto de não perceber que sua política inevitavelmente traria um futuro doloroso? Mesmo que obtivessem êxito militar, não tinham a menor visão para perceber que aquele pequeno Estado judeu, como uma ilhota num mar de árabes hostis, enfrentaria para sempre conflitos, ódio e amargura?

E que coisa espantosa, pensava eu: uma nação que, ao longo de sua história longa e dolorosa, havia sido repetidamente vítima de injustiça, tirania e opressão, agora, em seu esforço obstinado para alcançar os próprios objetivos, se preparava para infligir uma opressão terrível a outro povo —um povo que era absolutamente inocente em relação aos sofrimentos passados dos judeus! Eu sabia que algo assim jamais havia acontecido na história, mas, ainda assim, ao ver isso prestes a acontecer diante dos meus olhos, minha tristeza não conhecia limites.

Naquela época, a base das minhas reflexões incessantes sobre o cenário político da Palestina não era apenas a minha simpatia pelos árabes e a preocupação com a experiência sionista; minha curiosidade jornalística também desempenhava um papel ativo. Eu era então correspondente especial do “Frankfurter Zeitung”, um dos melhores jornais da Europa. Obtive essa oportunidade quase por acaso.

Certa noite, eu separava os papéis velhos que enchiam uma das minhas malas e, remexendo neles, encontrei o cartão que me haviam dado um ano antes, em Berlim, como representante da United Telegraph. Eu estava quase rasgando-o quando o tio Dorian segurou minha mão e exclamou, brincando: “Não rasgue. Se você apresentar este cartão no escritório do Alto Comissariado, em poucos dias receberá um convite para jantar no edifício do governo. Neste país, os jornalistas são pessoas muito bem-vindas.”

Embora eu tivesse rasgado o cartão desnecessário, a brincadeira de meu tio provocou em mim uma reação. É verdade que eu não estava nem um pouco ansioso pelo convite para jantar no edifício do governo — mas, por isso, por que não aproveitaria esta rara oportunidade de estar no Oriente Próximo numa época em que via que pouquíssimos jornalistas da Europa Central tinham a oportunidade de visitá-lo? Por que não retomaria minhas atividades jornalísticas? Não, porém, como representante da United Telegraph, mas como correspondente de algum importante diário. E, assim como costumo tomar decisões repentinas sobre todas as questões importantes, de repente resolvi: entraria no mundo do jornalismo ‘de verdade’!

Embora tivesse trabalhado durante um ano para a United Telegraph, eu não tinha nenhuma relação direta com qualquer jornal importante. Além disso, como nada havia sido publicado até então em meu próprio nome, meu nome ainda era completamente desconhecido no mundo jornalístico. Naturalmente, isso não me desanimou. Escrevi um artigo sobre minhas ideias a respeito da Palestina e enviei cópias a dez jornais alemães. Junto com ele, propus que estava disposto a escrever regularmente artigos sobre o Oriente Próximo.

Isso aconteceu nos últimos meses de 1922 — época em que a Alemanha sofria uma inflação extrema e devastadora. Tornara-se difícil para os jornais alemães sobreviver. Pouquíssimos periódicos podiam arcar, em moeda forte, com as despesas de seus correspondentes estrangeiros. Portanto, não foi de modo algum surpreendente que os dez jornais aos quais eu enviara meu artigo de amostra me comunicassem, um após o outro e em termos mais ou menos corteses, sua rejeição. Dos dez jornais, apenas um aceitou minha proposta e, aparentemente satisfeito com o que eu havia escrito, nomeou-me seu correspondente especial itinerante no Oriente Médio, enviando-me também um contrato: ao voltar, eu deveria escrever um livro. Esse jornal era o Frankfurter Zeitung. Quase desmaiei quando percebi que não apenas conseguira estabelecer uma relação com um único jornal — e que jornal! —, como também alcançara, logo na primeira tentativa, uma posição que poderia ser invejada por muitos jornalistas experientes!

É claro que havia também um espinho nessa situação. Por causa da inflação, o Frankfurter Zeitung não podia me pagar o salário em dinheiro vivo. Eles me disseram, cortesmente, que minha remuneração seria calculada em marcos alemães; assim como eles, eu sabia que, com isso, seria difícil até mesmo arcar com o custo dos selos necessários nos envelopes para enviar meus artigos. Mas a honra de ser correspondente especial do Frankfurter Zeitung pareceu-me muito mais valiosa — apesar da dificuldade temporária de não receber dinheiro como correspondente. Comecei a escrever artigos sobre a Palestina, na esperança de que, mais cedo ou mais tarde, graças a alguma mudança favorável do destino, um dia talvez pudesse viajar por todo o Oriente Próximo.

*         *              *        *          *          *          *          *          *

Agora eu tinha muitos amigos na Palestina — tanto judeus quanto árabes.

É verdade que, por causa da minha simpatia pelos árabes, claramente expressa nos artigos que eu publicava no Frankfurter Zeitung, os sionistas me olhavam com uma desconfiança mesclada de surpresa. Evidentemente, não conseguiam decidir se eu havia sido ‘comprado’ pelos árabes (pois os sionistas estavam acostumados a interpretar quase tudo em termos de dinheiro) ou se eu era simplesmente um intelectual excêntrico, que amava tudo o que fosse estrangeiro. Mas nem todos os judeus que então viviam na Palestina eram sionistas. Alguns haviam ido para a Palestina não por algum objetivo político, mas por devoção religiosa à Terra Santa e às lembranças e associações bíblicas ligadas a ela.

Entre eles estava meu amigo holandês Jacob de Haan — baixo, atarracado, de rosto redondo e barba dourada, com cerca de quarenta e cinco anos. Antes de vir para cá, ele fora professor de direito em uma das principais universidades da Holanda. Agora era correspondente especial do Handelsblad, de Amsterdã, e do Daily Express, de Londres. Sua fé religiosa era profunda, tão ortodoxa quanto a de qualquer judeu do Leste Europeu — mas ele não apoiava o pensamento sionista, pois acreditava que, para o retorno de seu povo à Terra Prometida, eles deveriam esperar a chegada do Messias.

—«Nós, os judeus», disse-me ele várias vezes, «fomos expulsos da Terra Santa e espalhados por todo o mundo porque não cumprimos a responsabilidade que Deus nos havia confiado. Ele nos havia escolhido para proclamar a Sua Palavra, mas, em nossa arrogância presunçosa, começamos a pensar que Ele nos havia feito o “povo escolhido” apenas por consideração; e assim O traímos. Agora, nada mais nos resta fazer senão arrepender-nos e purificar o coração. E, quando formos novamente dignos de ouvir a Sua Palavra, Ele enviará um Messias para levar outra vez os Seus servos à Terra Prometida».

—«Mas», pergunto eu, «não está também na raiz do movimento “sionista” a ideia do Messias? O senhor sabe que não o apoio; mas não é natural que toda nação deseje ter uma pátria própria?»

O Dr. de Haan olha para mim com uma expressão levemente irônica: —«Você acha que a história é apenas uma sequência de acontecimentos? Eu não acho. O fato de Deus nos ter obrigado a perder nosso país e nos ter espalhado por vários países não foi sem propósito. Mas os sionistas não estão dispostos a reconhecer isso; sofrem da mesma cegueira espiritual que foi responsável por nossa queda. Os dois mil anos de exílio e sofrimento dos judeus não lhes ensinaram nada. Em vez de tentarem compreender a causa fundamental de nosso sofrimento, estão tentando evitá-lo agora; pode-se dizer que, ao criar um “lar nacional” sobre os alicerces obtidos da política das potências ocidentais, continuam cometendo o crime de privar outra nação de seu próprio lar!»

Naturalmente, as opiniões políticas de Yakob de Haan tornavam-no muito impopular entre os sionistas (na verdade, alguns dias depois de eu deixar a Palestina, fiquei consternado ao saber que ele havia sido assassinado a tiros por terroristas durante a noite). Quando o conheci, seu convívio social limitava-se a uns poucos judeus que compartilhavam suas opiniões; alguns eram europeus, outros árabes. Ele parecia ter grande simpatia pelos árabes, e estes também tinham uma opinião muito elevada a seu respeito. Muitas vezes o convidavam para suas casas. Na verdade, os árabes ainda não haviam se tornado totalmente hostis aos judeus enquanto judeus. Foi somente depois da Declaração Balfour — isto é, apesar de centenas de anos de convivência harmoniosa e de um sentimento de unidade étnica — que os árabes começaram a considerar os judeus inimigos políticos. Mas, mesmo nas circunstâncias transformadas do início da segunda década, os árabes distinguiam claramente entre os sionistas e os judeus amistosos como o Dr. de Haan.

….      ….         ….       ….       ….

Os primeiros meses, determinados pelo destino, de minha viagem entre os árabes pareceram fazer fluir uma corrente de emoções e reflexões da consciência. Na verdade, certas esperanças e desejos pessoais, até então inarticulados, começaram a exigir um lugar em minha consciência.

Deparei-me com uma concepção da vida inteiramente nova para mim. Parecia que um sopro humano, cálido e ardente, emanava do sangue daqueles homens e fluía por seus pensamentos e gestos — e que neles não existiam aquelas dolorosas fendas da alma, aqueles fantasmas de medo, ressentimento e bloqueios mentais que tornaram a vida europeia mais feia e tão pobre em promessas… Nada disso existe entre esses árabes. Comecei a encontrar entre eles algo que, sem sequer saber, eu vinha desejando: uma atitude emocional para enfrentar levianamente todas as questões da vida. Pode-se dizer que era um grande bom senso no campo dos sentimentos.

Com o passar do tempo, compreender a essência dessa nação muçulmana tornou-se, para mim, a questão mais importante. Não porque sua religião me atraísse (pois, naquela época, eu sabia muito pouco sobre ela). Tornou-se tão importante para mim porque eu via neles uma harmonia inata entre a mente e os sentidos, uma harmonia que a Europa havia perdido. Será que, através de uma compreensão mais profunda da vida dos árabes, não seria possível descobrir a relação secreta entre os sofrimentos de nosso mundo ocidental, sua carência destrutiva de solidariedade humana e a causa desses sofrimentos? O que foi que nos ensinou, a nós ocidentais, a fugir daquela liberdade absoluta da vida, da qual estes árabes são possuidores mesmo nesta época de decadência mental e política — e da qual talvez também tenhamos sido possuidores em algum momento do passado? Se não fosse assim, como teríamos criado todas as grandes obras de arte de nosso passado, as magníficas igrejas da Idade Média, o êxtase delirante da Renascença, o jogo de luz e sombra nos quadros de Rembrandt, as melodias de Bach, o sonho suave e delicado de Mozart, o esplendor da cauda do pavão nas pinturas de nossos camponeses e o voo de Beethoven, ruidoso e cheio de esperança, em direção a cumes indistintos, quase inestimáveis, de onde o homem pode dizer: “Eu e meu destino somos um só”.

Como não conhecemos a natureza e as características das forças espirituais, já não somos capazes de utilizá-las verdadeiramente. Nunca mais nascerá entre nós um Beethoven ou um Rembrandt! Em seu lugar, agora vemos apenas violentas disputas em torno de novas formas de expressão nas artes, nas ciências sociais e na ciência política; apenas slogans contraditórios e uma luta intensa entre políticas minuciosamente planejadas. Todas as nossas máquinas e os nossos edifícios que tocam o céu não foram capazes de fazer coisa alguma para restaurar a integridade da nossa alma. Mas, apesar disso… será que a glória espiritual perdida do passado da Europa se perdeu realmente para sempre? Ao compreendermos onde erramos, não poderemos recuperar ao menos uma parte dessa glória espiritual?

E aquilo que, a princípio, era apenas a minha simpatia pelos objetivos políticos dos árabes, pela forma exterior da vida árabe e pela estabilidade emocional que observei entre os membros desse povo transformou-se gradualmente, sem que eu percebesse, em algo comparável a uma busca pessoal. Aos poucos, tornei-me mais consciente de um desejo absorvente e extasiante: o desejo de saber o que estava na raiz da sua serena segurança emocional e o que tornava a vida dos árabes tão diferente da vida ocidental. E pareceu-me que esse desejo estava misteriosamente ligado aos meus próprios problemas mais profundos. Comecei a procurar um caminho que me proporcionasse uma visão mais profunda do caráter e das concepções dos árabes — caráter e concepções que lhes deram uma forma especial e, espiritualmente, os tornaram tão distintos dos europeus. Comecei a estudar profundamente a sua história, civilização e religião. E, nesse impulso que sentia de descobrir aquilo que havia inspirado e preenchido os seus corações e lhes dera uma direção na vida, pareceu-me vislumbrar a promessa de uma inspiração, de descobrir uma força secreta que me inspiraria, me preencheria e me daria uma direção.

 

A voz

Um

Seguimos montados em camelos, e Zayd canta. As dunas agora são mais largas do que antes. Aqui e ali, a areia cede lugar a leitos de seixos e a fragmentos de basalto; bem à nossa frente, muito ao sul, ergue-se a linha sombria de uma cadeia de montanhas: a cordilheira de Jabal Shammar.

Os versos da canção de Zayd atravessam, misturando-se, a minha sonolência — mas precisamente de tal modo que as palavras que me escapam se tornam carregadas de um significado mais amplo e mais profundo, sem qualquer relação com o seu sentido exterior!

Esta é uma das canções dos cavaleiros de camelo que se ouvem com frequência na Arábia — canções que as pessoas cantam para manter regulares e rápidos os passos dos seus animais e para se protegerem de adormecer —, a melodia dos homens do deserto, que passam a vida num lugar sem limites nem fronteiras, sem sequer um eco: uma melodia sempre entoada na tonalidade principal dos instrumentos, no mesmo nível sonoro, solta e um tanto áspera, saindo quase do alto da garganta e desaparecendo lentamente no ar seco — como se a respiração do deserto estivesse capturada na voz de um homem. Quem já viajou pelo deserto jamais poderá esquecer essa voz. Essa voz é a mesma em todos os lugares onde a terra é estéril, o ar é quente, tudo ao redor é aberto e ilimitado e a vida é difícil.

Seguimos montados em camelos, e Zayd continua cantando, como certamente cantaram antes dele o seu pai, todos os homens da sua tribo e os homens de muitas outras tribos, durante milhares de anos; pois foram necessários milhares de anos para formar essas melodias profundas e monótonas e dar-lhes a sua forma definitiva. A música ocidental, melodiosa e composta de muitos tons, quase sempre expressa algum sentimento pessoal, mas essas melodias árabes — entoadas inúmeras vezes, sempre com o mesmo caráter — parecem ser apenas símbolos melódicos de percepções recebidas do deserto, vivenciadas por muitas pessoas; não têm por objetivo despertar um sentimento específico, mas recordar-lhe a sua própria experiência espiritual. Essas melodias nasceram há muito, muito tempo, do clima do deserto, do ritmo do vento e da vida nômade, da sensação da vastidão das planícies e dos espaços abertos, da contemplação de um presente eterno; e, assim como os temas fundamentais da vida permanecem sempre os mesmos, também essas melodias estão além do tempo e além da mudança.

Raramente alguém no Ocidente consegue conceber esse tipo de melodia. No Ocidente, as melodias distintas não são apenas um aspecto da música; são também um aspecto de seus sentimentos e desejos. O clima frio, os rios e riachos que correm, as quatro estações sucessivas — todos esses elementos conferem à vida uma tal multiplicidade de significados e direções que o homem ocidental é naturalmente atormentado por numerosos desejos e, por fim, por um desejo intenso: o desejo de agir simplesmente pelo impulso de agir. Ele precisa sempre criar, construir e vencer, para reafirmar repetidamente sua existência nas diversas formas de sua própria vida; e essa complexidade em constante transformação também se reflete em sua música. Mesmo na música ocidental ondulante e sublime, o som vem do fundo do peito, e o sublime está sempre subindo e descendo em ritmos diversos; nessa música fala aquela “natureza faustiana”, sob cuja influência os ocidentais sonham muito mais, desejam muito mais e lutam muito mais pelo desejo de vencer — mas talvez também percam muito mais, e percam de maneira muito mais dolorosa! Pois o mundo do homem ocidental é o mundo da história: apenas tornar-se, acontecer e passar ao passado; nele não existe a serenidade da quietude. O tempo é um inimigo que deve ser sempre observado com desconfiança; e a palavra “agora” jamais traz consigo qualquer indício de eternidade…..

Em contrapartida, a paisagem natural ao redor do árabe do deserto e das estepes não o conduz a um mundo onírico e ilusório; para ele, essa paisagem é uma realidade tão dura quanto o dia, sem espaço para o jogo de luzes e sombras dos sentimentos. O exterior e o interior, o eu e o mundo, não são para ele entidades opostas e contraditórias, mas diferentes aspectos de um presente imutável; um medo oculto não domina sua vida, e, quando realiza qualquer ação, ele o faz por uma necessidade exterior, não movido pelo desejo de segurança psicológica. É verdade que, em termos de resultados, ele não conseguiu alcançar tão rapidamente quanto os ocidentais o “sucesso” material, mas conseguiu salvar sua alma.

….      ….         …..      …..

….. “Por quanto tempo?” — pergunto a mim mesmo quase com um estremecimento físico — poderão Zayed e os homens da raça de Zayed salvar suas almas diante do perigo que os cerca por todos os lados, com uma sutileza e uma crueldade tão implacáveis? Vivemos numa época em que o Oriente já não pode permanecer inerte diante do Ocidente em avanço. Milhares de forças — políticas, sociais e econômicas — batem às portas do mundo muçulmano. Será que o mundo muçulmano ficará subjugado pela pressão do Ocidente do século XX e, nesse processo, perderá não apenas suas formas tradicionais, mas também seus fundamentos espirituais?

Dois

Durante os anos que passei no Oriente Médio, de 1922 a 1926, primeiro como um forasteiro solidário e, depois, como muçulmano e participante das esperanças, aspirações e objetivos da comunidade islâmica, observei como os europeus, lenta e inexoravelmente, continuavam a absorver a vida moderna e a liberdade política dos muçulmanos; e, sempre que as nações muçulmanas tentavam se proteger dessa penetração, a opinião pública europeia invariavelmente rotulava sua resistência de “xenofobia”, assumindo essa atitude por ter sua fé ingênua ferida.

Há muito tempo a Europa se acostumou a simplificar grosseiramente tudo o que acontece no Oriente Médio e a considerar a história atual do Oriente Médio apenas como uma área de interesses europeus. Embora em toda parte do Ocidente (exceto na Grã-Bretanha) a opinião pública sempre tenha demonstrado grande simpatia pelo movimento de independência irlandês, ou (fora da Rússia e da Alemanha) pelo despertar nacional da Polônia, essa simpatia jamais se estendeu às esperanças, aspirações e sonhos semelhantes dos muçulmanos. O principal argumento do Ocidente é a fragmentação política e o atraso econômico do Oriente Médio; e, segundo os promotores dessas intervenções — que afirmam isso fingindo agir com boas intenções —, o objetivo de toda intervenção ocidental ativa não é apenas preservar os interesses “legítimos” do Ocidente, mas também promover o progresso dos próprios habitantes locais!

Os especialistas ocidentais em assuntos do Oriente Médio esquecem completamente que toda intervenção direta vinda de fora, mesmo quando benevolente, apenas dificulta o desenvolvimento de um país e, ainda assim, mostram-se sempre ansiosos para engolir alegações desse tipo! Eles veem apenas as novas ferrovias construídas pelas potências coloniais; não percebem a destruição da estrutura social de um país. Contam os novos quilowatts de eletricidade, mas não contam o golpe desferido contra o orgulho nacional de um povo.

As mesmas pessoas que jamais aceitariam a “missão civilizadora” da Áustria nos Bálcãs como uma desculpa razoável para a intervenção austríaca nos Bálcãs, aceitam, contudo, avidamente desculpas semelhantes no caso da Grã-Bretanha no Egito, da Rússia na Ásia Central, da França no Marrocos e da Itália na Líbia; e nunca lhes ocorre que muitas das doenças sociais e econômicas de que sofre o Oriente Médio são consequência direta desses interesses ocidentais; tampouco lhes ocorre que o objetivo inevitável da intervenção ocidental é tornar permanente e ampliar a desintegração interna já existente e, desse modo, tornar impossível que os povos envolvidos se recomponham.

Comecei a sentir isso pela primeira vez em 1922, quando observei o papel duplo das autoridades britânicas no conflito entre árabes e sionistas. Isso se tornou ainda mais claro para mim no início de 1923, quando, depois de passar vários meses percorrendo a Palestina, cheguei ao Egito. O Egito encontrava-se então em um movimento revolucionário quase contínuo contra o protetorado britânico. Bombas eram lançadas em todos os lugares públicos que os soldados britânicos frequentavam com frequência — e a resposta vinha por diversos meios repressivos: governo militar, prisões políticas, exílio dos líderes, fechamento de jornais e assim por diante. Mas, por mais severas que fossem essas medidas, nenhuma delas conseguiu sufocar o espírito de liberdade do povo. Algo semelhante a uma onda de choro ansioso e contido havia atravessado toda a nação egípcia — não era um choro de desespero, mas de entusiasmo impaciente, um pranto provocado pela excitação da descoberta da fonte de sua própria força interior!

Naqueles dias, apenas os paxás ricos, proprietários de enormes latifúndios, eram conciliadores em relação ao domínio britânico. O restante da incontável população, entre a qual se encontravam os desafortunados fellahin, para quem um acre de terra parecia uma riqueza abençoada para uma família inteira, apoiava toda a luta pela liberdade. Um dia, talvez se ouvisse pelas ruas os vendedores de jornais gritarem: “Todos os líderes do Partido Wafd presos pelo governador militar”; mas, já no dia seguinte, seus lugares eram ocupados por novos líderes — e assim cresciam tanto a fome de liberdade quanto o ressentimento. Para os europeus, havia uma única palavra para isso: “xenofobia”.

Naquela época, eu fora ao Egito movido por um desejo: queria ampliar, para o Frankfurter Zeitung, o âmbito do meu trabalho para além da Palestina, incluindo outros países. O tio Dorian não estava em situação financeira que lhe permitisse mostrar grande entusiasmo por mim; ainda assim, tomou a iniciativa de me dar algum dinheiro adiantado, para que eu pudesse pagar, de algum modo, a passagem de trem de ida e volta de Jerusalém ao Cairo e as despesas de quinze dias de permanência ali.

No Cairo, encontrei um lugar para morar em uma viela estreita, habitada principalmente por artesãos árabes e lojistas gregos. A dona da casa era uma velha de Trieste, alta, corpulenta, desgrenhada e de cabelos brancos. Da manhã à noite, despejava garganta abaixo um forte licor grego e cambaleava de um estado de espírito a outro. Seu temperamento era extremamente feroz e intenso, e ela jamais parecia compreender a própria natureza. Mas era amistosa comigo, e eu gostava de sua presença.

Cerca de uma semana depois, o dinheiro que eu tinha em mãos estava quase acabando. Eu não queria voltar tão depressa à segurança da casa do meu tio na Palestina. Por isso, comecei a procurar outra maneira de ganhar a vida.

Meu amigo de Jerusalém, o Dr. de Haan, havia entregue a um comerciante do Cairo uma carta apresentando-me. Fui procurá-lo em busca de conselho. Ele era holandês; percebi que era muito generoso e bondoso, e que sua curiosidade e seus interesses intelectuais se estendiam muito além de seu próprio campo de atividade. Pela carta de Jacob de Haan, soube que eu era correspondente do Frankfurter Zeitung. A pedido dele, quando lhe mostrei alguns dos meus artigos publicados recentemente, suas sobrancelhas se ergueram até a testa, de puro espanto:

— Diga-me, quantos anos você tem?

— “Vinte e dois anos.”

— “Então, por favor, fale-me de outra coisa. Quem o ajudou com estes artigos? — Dya Ha’n?”

Sorri: — “Claro que não, fui eu mesmo que os escrevi! No meu trabalho, faço sempre tudo sozinho. Mas por que está desconfiado?”

Ele balançou a cabeça, como que atordoado de espanto: — “Mas isso é realmente extraordinário… De onde tirou a maturidade para escrever artigos desse tipo? Como consegue, em meia frase, dar um significado quase místico até às coisas que parecem tão comuns?”

O respeito oculto nessas palavras encheu-me de um orgulho impossível de expressar. Como resultado, minha autoestima aumentou muito. Em conversa com esse novo amigo meu, ficou claro que não havia nenhuma possibilidade de emprego em seu próprio negócio; mas ele achava que talvez pudesse arranjar-me um trabalho numa empresa egípcia com a qual mantinha relações comerciais.

O escritório que ele me indicou ficava num dos bairros mais antigos do Cairo. Não era muito longe de minha casa: uma viela estreita, ladeada por antigas residências aristocráticas, agora transformadas em escritórios e apartamentos baratos. Meu futuro patrão era um comerciante egípcio idoso e careca, cujo rosto parecia o de um abutre curtido pelo tempo. Ele precisava de um escriturário de meio período para cuidar, em seu nome, da correspondência em francês. Consegui convencê-lo de que seria capaz de cumprir essa tarefa, embora não tivesse experiência alguma em negócios. Eu só teria de trabalhar três horas. O salário era correspondentemente baixo, mas bastava para pagar meu aluguel e manter-me indefinidamente satisfeito com pão, leite e azeitonas.

Entre minha casa e o escritório ficava o bairro dos prostíbulos do Cairo. Era um labirinto particularmente intrincado, onde prostitutas elegantes e vulgares passavam seus dias e noites. À tarde, quando ia para o trabalho, eu encontrava as vielas vazias e silenciosas. Talvez alguma mulher estendesse languidamente o corpo à sombra de uma janela gradeada; diante desta ou daquela casa, sentadas junto a pequenas mesas com homens de rosto sério e barba, as moças bebiam café tranquilamente, e pareciam muito distantes da embriaguez física.

Mas, ao voltar para casa à noite, eu descobria que o bairro era mais animado do que qualquer outro. O lugar ressoava com a melodia suave e delicada das flautas árabes, com tambores e com o riso das mulheres. Enquanto você caminha sob a luz de muitas lâmpadas elétricas e lanternas coloridas, a cada passo um braço macio se enlaça ao seu pescoço; o braço pode ser moreno ou branco, mas sempre tilinta com correntes e pulseiras de ouro e prata, e sempre traz o aroma de almíscar, guggul e pele quente de animal. É preciso ser muito firme para se manter livre de todos esses abraços sorridentes e dos chamados de “ya habibi”, “meu querido Saadatek”, “que você seja feliz”. Você precisa abrir caminho entre membros palpitantes, a maioria dos quais o inebria com suas formas simples, belas e sugestivas. O Egito inteiro parece desabar sobre você; desabam o Marrocos e a Argélia, desabam o Sudão e a Núbia, desabam a Arábia, a Armênia, a Síria e o Irã. Em bancos encostados longitudinalmente às paredes das casas, homens de longas roupas de seda sentam-se lado a lado, exultantes de alegria… rindo, chamando as moças ou fumando silenciosamente narguilés de coco. Mas nem todos são “clientes” dali… muitos vieram passar uma ou duas horas na atmosfera alegre e livre das convenções daquele bairro… Às vezes você precisa recuar diante de um dervixe sudanês vestido em trapos, que canta pedindo esmola, com o rosto em transe e as duas mãos estendidas, imóveis. A fumaça do incenso que sobe do turíbulo oscilante do vendedor ambulante de perfumes escova seu rosto em forma de nuvens enroladas! Com frequência você ouve canções em vozes unidas e começa a compreender o significado de alguns daqueles sons árabes, suaves e sibilantes. … E, repetidamente, ouve expressões suaves e felizes, como o murmúrio de um riacho… a felicidade animal daquelas moças (pois, sem dúvida alguma, estavam desfrutando de si mesmas), vestidas de roupas azul-claras, amarelas, vermelhas, verdes, brancas e douradas cintilantes, feitas de seda fina, tule leve tecido em delicadas redes, voile ou tecidos estampados — e o riso delas corre silenciosamente como um gato pela calçada coberta de seixos; ora exaltado, ora declinante, e no instante seguinte novamente brotando dos lábios de outras…

Esses egípcios — como era possível que conseguissem sorrir assim? Com que alegria e animação eles percorriam, dia e noite, as ruas do Cairo, balançando-se ao andar, dando passos largos, vestidos com suas longas galabiyas semelhantes a camisas, listradas com todas as cores do arco-íris! Caminhavam de coração leve e espírito livre, dando a impressão de que a pobreza, o descontentamento e a agitação política — tudo aquilo que esmaga a vida humana — só era levado em consideração de maneira relativa. Mesmo em meio à intensa excitação, sempre prestes a explodir, daqueles homens, havia espaço para a tranquilidade, sem qualquer mudança visível de humor. Uma paz completa, até mesmo uma espécie de indolência, como se nada jamais tivesse acontecido e nada tivesse sido perdido. Por isso, a maioria dos europeus pensava — e talvez ainda pense — que os árabes são leves e superficiais como seres humanos! Mas, já no início, naqueles mesmos dias, compreendi que, na raiz desse desprezo ocidental pelos árabes, havia uma tendência a atribuir importância excessiva a todas as emoções que parecem “profundas” e a condenar tudo o que é “leve”, superficial, ligeiro, aéreo e despreocupado. Percebi que os árabes estavam livres de todos os conflitos, choques e tensões psíquicos que caracterizam o Ocidente. Como, então, poderíamos aplicar-lhes os nossos próprios critérios? Se eles nos pareciam “leves” e superficiais, talvez fosse porque suas emoções fluíam livremente em seu comportamento, sem terem de enfrentar conflitos ou confrontos. Talvez, sob a pressão da “ocidentalização”, também eles perdessem aos poucos essa característica natural de contato direto com a realidade. Pois, embora a influência ocidental seja, de muitas maneiras, um estímulo e um fator fecundo no pensamento árabe contemporâneo, inevitavelmente cria entre os árabes os mesmos problemas graves que afligem e atormentam a vida espiritual e social do Ocidente.

…..     …..        …..      …..

Bem em frente à minha casa — e tão perto que eu quase poderia alcançá-la estendendo a mão — erguia-se uma pequena mesquita, com um minarete estreito, do qual se fazia diariamente, cinco vezes, o chamado à salat. Um homem de turbante branco subia ao minarete, erguia as duas mãos e cantava melodiosamente: “Allahu Akbar” — Deus é grande, o Altíssimo — e “presto testemunho de que Muhammad (que a paz esteja com ele) é o Mensageiro de Allah…”. Enquanto se voltava lentamente para os quatro lados, o som de sua voz elevava-se, avolumando-se no ar límpido; em árabe, oscilava e vibrava sobre os profundos sons que vinham de sua garganta, avançando e recuando alternadamente. Sua voz era grave, solene, suave e firme, com grande amplitude de ascensão e queda. Mas eu compreendia que era a paixão ardente, e não a arte de falar, que tornava bela aquela voz!

Essa melodia do muazzin era a música principal dos meus dias e noites no Cairo — exatamente como fora, para mim, a música principal da antiga cidade de Jerusalém e como continuou a ser, mais tarde, em todos os meus períodos de viagem pelos países muçulmanos, existindo como a minha única música. Apesar das diferenças entre os dialetos e das variações evidentes na pronúncia da fala cotidiana das pessoas, o adhan é proclamado em toda parte. A partir dessa unidade das palavras, compreendi, já naqueles dias no Cairo, quão profunda era a unidade interior de todos os muçulmanos e quão artificial e sem sentido era a linha de separação entre eles. Seu modo de pensar é o mesmo; ao distinguir o bem do mal e o honesto do desonesto, todos os muçulmanos são iguais, e sua concepção dos elementos de uma vida nobre também é idêntica.

Pela primeira vez, tive a sensação de haver encontrado um povo no qual o vínculo entre as pessoas não se baseava no fato acidental de terem o mesmo sangue e a mesma ascendência, nem em interesses econômicos, mas em algo muito mais profundo e muito mais duradouro. A origem desse parentesco estava numa mesma visão de mundo — uma visão que eliminava todos os obstáculos que, de diversas maneiras, impedem a comunhão entre os seres humanos.

No verão de 1923, voltei a Jerusalém enriquecido por uma visão mais clara da vida e da política do Oriente Médio.

Com a ajuda de meu amigo Yakub de Haan, fui apresentado ao emir Abdullah da região vizinha da Transjordânia. Ele me convidou para seu país. Foi ali que vi pela primeira vez um país beduíno autêntico. A capital, Amã, era então uma pequena cidade construída sobre as ruínas da colônia grega de Filadélfia, fundada por Ptolemeu Filadelfo. Sua população não passava de seis mil habitantes. As ruas estavam cheias de beduínos — beduínos autênticos das estepes abertas, do tipo raramente visto na Palestina: guerreiros independentes e criadores de camelos! Carroças circassianas puxadas por bois — pois a cidade fora inicialmente povoada pelos circassianos, que vieram estabelecer-se neste país depois que os russos conquistaram sua terra natal, no século XIX — avançavam lenta e penosamente pelo mercado. Embora o mercado não fosse muito grande, a agitação e o tumulto que nele se viam seriam mais próprios de uma cidade muito maior.

Como havia poucos edifícios na cidade, o emir Abdullah vivia então num acampamento de tendas montado sobre a montanha, que parecia contemplar do alto a cidade de Amã, abaixo. Sua tenda era um pouco maior que as demais; dentro dela havia vários compartimentos separados por divisórias de lona, e sua extrema simplicidade a distinguia de todas as outras tendas. Em um desses compartimentos, num canto, havia uma cama feita com uma pele de urso negro estendida sobre o chão. Na sala de recepção, quando alguém se sentava sobre o tapete, havia um belo par de selas de camelo com ponteiras trabalhadas em prata, destinadas a apoiar os dois braços.

Quando entrei na tenda do principal conselheiro do Emir, o Dr. Riza Tawfik Bey, havia ali apenas um negro, vestido com roupas de brocado esplêndidas e trazendo uma adaga de ouro à cintura. Riza Tawfik Bey era turco; anteriormente fora professor universitário e, antes de Kemal Atatürk, fora durante três anos membro do gabinete turco. Ele me disse que o Emir voltaria dentro de poucos minutos. Naquele momento, o Emir conversava com alguns chefes beduínos sobre o mais recente ataque najdiano no sul da Transjordânia. Aqueles najdianos wahhabitas, explicou-me o Dr. Riza, haviam assumido dentro do Islã um papel não muito diferente do dos reformadores ortodoxos do mundo cristão, pois se opunham ferozmente ao culto dos pirs e dervixes, assim como às superstições místicas que, ao longo de muitos séculos, haviam penetrado no Islã. Além disso, eram inimigos irreconciliáveis da família sharifiana, cujo chefe era o pai do Emir, o rei Hussein do Hijaz. Segundo Riza Tawfik Bey, as opiniões religiosas dos wahhabitas não podiam ser rejeitadas sumariamente; na verdade, suas opiniões estavam muito mais próximas do espírito do Alcorão do que as ideias existentes entre as populações dos demais Estados muçulmanos. E isso poderia exercer uma influência benéfica sobre o desenvolvimento cultural do Islã. Naturalmente, o excessivo fanatismo deles tornara um tanto difícil para os outros muçulmanos compreenderem inteiramente o movimento wahhabita; e essa falha, dizia ele, talvez não fosse indesejável em certos círculos, que consideravam a possível reunificação das nações árabes uma ameaça terrível.

Pouco depois, o Emir entrou. Tinha cerca de quarenta anos, estatura mediana, uma pequena barba dourada e calçava chinelos de couro envernizado preto. Caminhava com passos suaves, vestido com uma ampla roupa árabe de seda branca e reluzente, sobre a qual usava uma ‘abáia de algodão branco quase transparente. Ele disse:

— Ahlan wa sahlan — “Esta é a sua casa, fique à vontade”. Foi a primeira vez que ouvi essa bela saudação árabe!

Havia algo na personalidade do Emir Abdullah que era atraente, algo que quase conquistava as pessoas à força — e esse algo era seu profundo senso de humor, sua conversa emotiva e espirituosa e sua presença de espírito. Não era difícil compreender por que, naquela época, ele era tão popular entre seu povo. Naturalmente, muitos árabes não estavam satisfeitos com o papel que ele desempenhara na revolta sharifiana contra os turcos, instigada pelos britânicos. Consideravam esse papel uma traição de muçulmanos contra muçulmanos. Apesar disso, ele conquistara certo prestígio ao assumir a liderança na defesa dos interesses árabes contra o sionismo. Ainda não chegara o dia em que as artimanhas de sua política tornariam seu nome odioso em todo o mundo árabe.

Enquanto bebíamos o café servido pelo criado abissínio em pequenas xícaras, conversávamos. De vez em quando, o Dr. Riza nos ajudava; falava um francês excelente. Conversávamos sobre as dificuldades administrativas desse novo país, a Transjordânia. Ali, todos andavam armados e estavam acostumados a obedecer apenas às leis de sua própria tribo. — Mas — disse o Emir — o bom senso dos árabes é excelente. Até os beduínos começaram a compreender que, para se libertarem do domínio estrangeiro, precisam necessariamente abandonar seus antigos hábitos de fazer tudo como bem entendem. As disputas entre as diversas tribos, das quais certamente o senhor já ouviu falar, começaram agora a diminuir pouco a pouco.

Em seguida, continuou descrevendo os beduínos indisciplinados e irrequietos: brigavam entre si pela menor das razões. Suas inimizades familiares frequentemente se prolongavam por muitas gerações e, às vezes, passavam do pai ao filho, até mesmo por séculos — provocando novos assassinatos, derramamento de sangue e renovadas amarguras, embora a causa original tivesse quase desaparecido por completo no abismo do esquecimento. Havia apenas um caminho para uma solução pacífica: se um jovem da tribo e do clã do homem morto anteriormente raptasse uma donzela da tribo e do clã do culpado e se casasse com ela, o sangue derramado na noite de núpcias — considerado simbólico do sangue da tribo do assassino — seria, em definitivo, tido como a vingança pelo derramamento de sangue ocorrido no momento do assassinato. Às vezes, acontecia que os membros das duas tribos se cansavam da inimizade existente havia muitas gerações, pois ela esgotava a força de ambos os lados. Nesses casos, muitas vezes o rapto era providenciado por um casamenteiro de uma terceira tribo.

— Fiz algo ainda melhor — disse-me o Emir. — Criei uma verdadeira “Comissão das Inimizades Familiares”; essa comissão é formada por homens de confiança. Eles percorrem todo o país e providenciam esse tipo de rapto simbólico e casamento entre tribos em conflito. — Mas — seus olhos brilharam ao dizer — procuro sempre explicar aos membros da comissão que devem agir com cuidado ao escolher as donzelas, pois não quero que, por causa de uma possível decepção do noivo, surja novamente uma inimizade dentro da própria família.

Um menino saiu de trás da cortina; devia ter cerca de doze anos. Correu veloz e silenciosamente pelo aposento da tenda, já escurecido pelo crepúsculo, e saltou para o dorso de um cavalo que estava do lado de fora da tenda, sem sequer pôr os pés nos estribos. Um criado segurava o cavalo, que estava preparado para ele. O menino não era outro senão Tala, o filho mais velho do Emir. Em seu corpo leve, em sua maneira de montar o cavalo de um salto e em seu olhar brilhante, percebi novamente aquela coisa: uma ligação direta e lúcida com a realidade da própria vida, que colocava a Arábia a uma distância tão grande de tudo o que eu tivera oportunidade de conhecer na Europa!

Percebendo meu olhar claramente admirado para seu filho, o Emir disse: “Como qualquer outra criança árabe, ele cresceu tendo em mente um único pensamento: liberdade, azadi.” Nós, árabes, não pensamos estar livres de todo defeito ou de todo erro. Mas queremos cometer nossos próprios erros e aprender assim como evitá-los. Assim como uma árvore, à medida que cresce, aprende como crescer; ou como uma correnteza, ao correr, encontra seu próprio curso correto. Não queremos que aqueles que não possuem sabedoria própria — que têm apenas poder, armas e riqueza, e que sabem somente perder os amigos que poderiam facilmente conservar — nos mostrem o caminho da sabedoria! [Naquela época (1923), ninguém imaginava que, mais tarde, uma intensa oposição destruiria a relação entre o Emir Abdullah e seu filho Talal: o filho odiava a atitude conciliatória do pai em relação à política britânica no mundo árabe, e o pai expressava seu desagrado diante dos discursos veementemente francos do filho. Nem naquela época nem depois jamais vi em Talal qualquer sinal de doença mental, o pretexto usado para obrigá-lo a abdicar do trono da Jordânia em 1952.]

Eu não pretendia permanecer indefinidamente na Palestina. Yakob de Haan veio novamente em meu auxílio. Sua reputação como jornalista estava solidamente estabelecida, e ele mantinha relações com várias pessoas e instituições em toda a Europa. Graças à sua recomendação, consegui firmar contrato com dois pequenos jornais para escrever uma série de artigos; um deles era da Inglaterra e o outro, da Suíça. O acordo era que os dois jornais me pagariam em florins holandeses e francos suíços. Eram jornais provincianos e não gozavam de grande prestígio. Não tinham condições de pagar honorários elevados. Mas, como meu modo de vida era simples, o dinheiro que recebi deles pareceu-me suficiente para custear minha planejada viagem de uma extremidade à outra do Oriente Médio.

Minha intenção era ir primeiro para a Síria. Mas as autoridades francesas, que acabavam de estabelecer sua autoridade em meio a uma população hostil, não estavam dispostas a conceder uma autorização de entrada a um antigo soldado estrangeiro inimigo, austríaco. O golpe foi cruel; mas nada havia que eu pudesse fazer a respeito. Assim, decidi ir para Haifa e, chegando lá, embarcar num navio com destino a Istambul. Evidentemente, isso também fazia parte do meu plano.

Durante a viagem de trem de Jerusalém a Haifa, deparei-me com um problema. Meu casaco se perdeu no caminho; dentro dele estavam minha autorização de viagem e uma pequena bolsa. Restaram-me apenas algumas moedas de prata no bolso da calça. Portanto, por enquanto, não havia como pensar em ir a Istambul: eu não tinha passaporte nem dinheiro. Não me restava alternativa senão voltar a Jerusalém de ônibus. O valor da passagem teria de ser pago quando eu chegasse lá, como sempre, tomando-o emprestado do tio Dorian. Em Jerusalém, eu teria de esperar algumas semanas por uma autorização de viagem do consulado austríaco no Cairo (pois naquela época não havia consulado na Palestina) e por mais algum dinheiro vindo da Holanda e da Suíça.

Assim, na manhã seguinte, cheguei a um escritório de ônibus nos arredores de Haifa. Terminei de negociar a passagem. Ainda faltava uma hora para o ônibus partir. Para passar o tempo, comecei a caminhar pela rua, indo e voltando; sentia uma irritação imensa comigo mesmo — uma irritação contra meu destino, que me obrigava a recuar de maneira tão humilhante na luta pela vida. A dependência é sempre desagradável — e o pensamento de que meu plano de voltar a Jerusalém havia fracassado, esse sentimento de derrota, era o mais amargo de todos, ainda mais porque Dorian sempre duvidara que eu pudesse executar meu plano com tão pouco dinheiro. Além disso, eu não poderia viajar pela Síria e só Deus sabia se algum dia eu conseguiria voltar a esta região do mundo. Havia, naturalmente, a possibilidade de que, em algum momento posterior, o “Frankfurter Zeitung” custeasse outra viagem minha ao Oriente Médio, e de que o governo francês um dia suspendesse suas restrições aos estrangeiros de países anteriormente inimigos. Mas isso não era certo e, enquanto isso, a oportunidade de visitar Damasco não me seria concedida desta vez… “Por quê?”, pergunto a mim mesmo, amargamente, “Damasco foi proibida para mim?”

Mas será que isso era realmente verdade? É claro que eu não tinha passaporte nem dinheiro. Mas será que passaporte e dinheiro eram de fato absolutamente indispensáveis…?

Depois de levar o pensamento tão longe, parei de repente. Se tivesse coragem suficiente, poderia viajar a pé, confiando nos camponeses árabes. E talvez pudesse, de algum modo, atravessar clandestinamente a fronteira sem me preocupar com passaporte ou autorização de entrada…

E, antes mesmo que eu tivesse plena consciência disso, minha decisão estava tomada: eu iria para Damasco. Eu havia mudado de ideia novamente e bastaram dois minutos para explicar aos motoristas de ônibus que, afinal, não iria a Jerusalém. Levei mais alguns minutos para conseguir um par de macacões azuis e uma kufia árabe… (esta é provavelmente a melhor maneira de proteger-se do sol escaldante da Arábia), guardar alguns objetos necessários numa bolsa e providenciar o envio de minha mala para Dorian, C. e D. Depois parti pela longa estrada a pé rumo a Damasco.

Não era possível separar da felicidade o indomável sentimento de liberdade que me dominava. Eu tinha no bolso apenas algumas moedas miúdas. Estava prestes a arriscar-me a cometer um ato ilegal, pelo qual poderia ser lançado na prisão. Diante de mim erguia-se, de forma vaga e incerta, o problema de atravessar a fronteira. Eu havia apostado tudo na minha astúcia; essa consciência era a causa da minha felicidade. Hoje estou feliz.

Comecei a caminhar pela estrada da Galileia. Ao cair da tarde, a planície de Esdrelon estendeu-se à minha direita. A planície ficava abaixo do caminho por onde eu andava; aqui e ali, estava salpicada de retalhos de luz e sombra. Atravessei Nazaré e, antes do anoitecer, cheguei a uma aldeia árabe — um povoado sombreado por caneleiras e ciprestes. À porta da primeira casa estavam sentados três ou quatro homens e mulheres. Perguntei-lhes se aquela aldeia era Ar-Raína. Quando me disseram que sim, preparei-me para partir novamente. Nesse momento, uma das mulheres chamou-me: “Ya sidi, não quer refrescar-se um pouco?” Então, como se tivesse compreendido a minha sede, estendeu-me uma bilha cheia de água fria.

Quando bebi a água e refresquei a garganta, um dos homens — naturalmente, o marido daquela mulher — perguntou-me:

— Não quer ter a gentileza de comer conosco? E não passará a noite em nossa casa?

Eles não me perguntaram quem eu era, para onde ia ou qual era o meu propósito! Passei a noite ali mesmo, como seu hóspede.

Ser hóspede de um árabe — até os alunos das escolas europeias ouvem muitas histórias a esse respeito. Ser hóspede de um árabe significa entrar, por algumas horas, por um breve período, verdadeira e inteiramente na vida de pessoas que desejam ser “seu irmão ou sua irmã”. Na raiz dessa hospitalidade tão intensa e generosa dos árabes não atua apenas uma nobre tradição; sua verdadeira causa é a liberdade interior deles. Estão tão livres da desconfiança em relação a si mesmos que podem facilmente abrir o coração aos outros. Esses árabes não precisam de nenhuma das belas, na aparência, paredes que, nos países ocidentais, cada pessoa ergue entre si e o próximo.

Comemos juntos, homens e mulheres, sentados de pernas cruzadas sobre uma esteira, ao redor de uma enorme travessa. A travessa estava cheia de “mingau”, preparado com trigo grosseiramente quebrado e leite. Meus anfitriões arrancavam pequenos pedaços de pães grandes, embora finos como papel, e com eles recolhiam o mingau com tamanha habilidade que seus dedos jamais tocavam nele. Deram-me uma colher; mas não a aceitei. Tentei — e com sucesso — imitar o método simples, higiênico e admirável com que comiam, e meus amigos ficaram visivelmente satisfeitos.

Quando nos deitamos, quase uma dúzia de pessoas no mesmo quarto, olhei para as vigas do teto, das quais pendiam fileiras de pimentas secas e pés de berinjela; olhei para as prateleiras das paredes, cheias de utensílios de cobre e pedra, e para os corpos adormecidos de homens e mulheres. Então perguntei a mim mesmo: alguma vez a minha própria casa poderia ter-me parecido mais acolhedora do que aquela?

Nos dias seguintes, quando a cor marrom-escura das montanhas da Judeia, com suas sombras azul-acinzentadas e violetas, foi ficando gradualmente para trás, surgiram à vista as montanhas mais agradáveis e férteis da Galileia. Muitas fontes e canais de água apareceram inesperadamente. A vegetação foi-se tornando cada vez mais densa. Vi fileiras de oliveiras cobertas por espessas copas de folhas e altos ciprestes escuros; as flores do verão passado ainda eram visíveis nas encostas das montanhas.

Às vezes eu caminhava com os condutores de camelos por uma parte do caminho e, durante algum tempo, desfrutava do calor de seus corações simples. Todos bebíamos água do meu cantil e fumávamos juntos o mesmo cigarro; depois eu caminhava sozinho, passava as noites nas casas dos árabes e sentava-me com eles para comer seu pão. Dia após dia, eu continuava caminhando pela região baixa e quente que se estende junto às margens do lago da Galileia e através do frio suave e agradável da região do lago Hula. O lago parecia um espelho metálico coberto por uma névoa prateada, levemente avermelhada pelos últimos raios do sol vespertino, que pendiam sobre a água. Perto da costa viviam pescadores árabes, em cabanas feitas de esteiras de palha precariamente colocadas sobre armações de galhos. Eram muito pobres, mas, nessas cabanas abertas ao ar, vestindo algumas roupas desbotadas e gastas, com alguns punhados de trigo para fazer pão e os peixes que haviam pescado com as próprias mãos, não pareciam precisar de mais nada; e pareciam sempre ter abundante disposição para convidar o viajante a entrar em suas casas e sentar-se com eles para comer.

O lugar mais setentrional da Palestina era a colônia judaica de Metula; mais tarde fiquei sabendo que Metula era uma pequena faixa vazia entre a Palestina sob domínio britânico e a Síria ocupada pelos franceses. Pouco depois, com base em um acordo entre os dois governos, Metula e mais duas colônias vizinhas foram incorporadas à Palestina. Durante aquelas poucas semanas de transição, nenhum dos dois governos exercia autoridade efetiva sobre Metula. Era, portanto, um excelente lugar de onde se podia entrar facilmente na Síria. Eu havia compreendido que, dali em diante, nas estradas principais, seriam exigidos dos viajantes documentos de identificação. Diziam que o controle sírio era o mais rigoroso. Na prática, não era possível avançar muito. A polícia obrigava todos os passageiros a parar. Naquela época, Metula ainda era considerada parte da Síria. Assim, como os habitantes das outras partes do país, todos os moradores dali tinham de portar documentos de identidade emitidos pelas autoridades francesas. Tornou-se especialmente urgente para mim obter um documento desse tipo.

Comecei a investigar o assunto com muita cautela. Por fim, levaram-me até um homem que talvez pudesse entregar-me seu próprio documento de identidade, possivelmente em troca de algum lucro. Era um homem enorme, com cerca de quarenta anos; o documento dobrado e engordurado que ele tirou do bolso do peito também trazia uma descrição como essa. Mas, como o documento não tinha fotografia, o problema não parecia insolúvel.

— Quanto você quer por ele? — perguntei.

— Três libras.

Tirei do bolso todas as moedas que tinha e comecei a contá-las; descobri que possuía cinquenta e cinco piastras — isto é, pouco mais de meia libra ao todo.

— Isto é tudo o que tenho — disse. — Terei necessariamente de guardar uma parte para o restante da viagem. Não posso dar-lhe mais de vinte piastras (isto é, não tenho condições de dar mais que exatamente um quinto do que ele pediu).

Depois de alguns minutos de negociação, ficou decidido que seriam pagos trinta e cinco “piastres”. O documento agora estava em minhas mãos. Uma de suas folhas era impressa e continha duas colunas: uma em francês e outra em árabe. As informações necessárias haviam sido escritas a tinta sobre linhas pontilhadas. Não precisei me preocupar muito com a descrição pessoal que constava ali, pois era exatamente o tipo de descrição que geralmente se faz nesses casos; isto é, uma descrição espantosamente vaga e imprecisa. Mas a idade registrada era de trinta e nove anos, embora eu tivesse apenas vinte e três e aparentasse vinte. Essa discrepância seria facilmente percebida até por um policial desatento; portanto, tornou-se necessário reduzir a idade no documento. Se ela tivesse sido mencionada apenas uma vez, essa alteração não teria sido tão difícil, mas, para meu infortúnio, estava escrita tanto em francês quanto em árabe. Com muito cuidado, usei a caneta para alterar o número; mas o resultado não pareceu muito capaz de fazer a falsificação parecer convincente. Além disso, qualquer pessoa com olhos perceberia que o número havia sido alterado com as duas canetas. Mas eu não tinha outra coisa a fazer. Teria de confiar na minha sorte e na desatenção da polícia.

Bem cedo, meu amigo comerciante levou-me por uma viela atrás da aldeia e, apontando para algumas colinas a cerca de meia milha de distância, disse: “Ali está a Síria”.

Eu caminhava pela viela. Embora ainda fosse de manhã, fazia muito calor, e a velha mulher árabe que estava sentada sob uma árvore perto das colinas — além das quais ficava a Síria — certamente também sentia muito calor, pois chamou-me com a voz seca e entrecortada e disse:

“Filho, você poderia dar um pouco de água a esta velha?”

Tirei do ombro o cantil que acabara de encher e entreguei-lho. A velha bebeu avidamente, aos grandes goles, e, devolvendo-me o cantil, disse:

“Que Allah tenha misericórdia de você; que Ele o mantenha são e salvo e o conduza ao destino que deseja.”

“Obrigado, mãe, não quero mais nada.” E, quando me virei para ela e olhei para seu rosto, os lábios da velha tremiam, movendo-se em oração; senti uma estranha exultação.

Cheguei às colinas e deixei-as para trás. Agora eu estava na Síria. Diante de mim estendia-se uma vasta planície estéril. Muito longe, perto do horizonte, avistei algo que parecia vegetação e outra coisa que se assemelhava a uma casa. Certamente era a cidade de “Banias”. Não gostei daquela planície, pois nela não havia árvores nem arbustos atrás dos quais fosse possível esconder-se, algo que poderia tornar-se necessário por estar tão perto dos soldados. Mas não havia outro caminho. Senti-me exatamente como alguém que, num sonho, caminha nu por uma rua movimentada.

Já era quase meio-dia quando cheguei a um pequeno canal — um canal que dividia o terreno pedregoso em duas partes. Eu estava sentado, tentando tirar os sapatos e as meias, quando olhei ao longe e vi quatro cavaleiros vindo em minha direção. Seus rifles estavam atravessados sobre as selas; por isso pareciam policiais militares de aspecto assustador. Na verdade, eram mesmo policiais militares. Portanto, não faria sentido tentar fugir. Procurei me consolar pensando que aconteceria o que tivesse de acontecer. Se fosse capturado agora, talvez não recebesse mais do que algumas pancadas de rifle, e eles me levariam de volta a Metula.

Atravessei o canal, subi e me sentei; comecei a secar os pés muito lentamente, enquanto esperava que os policiais militares se aproximassem. Eles chegaram e me olharam com desconfiança; pois, embora eu usasse um turbante árabe, não havia dúvida alguma de que eu era europeu.

— De onde? — perguntou-me um deles, em árabe, com voz aguda.

— De Metula.

— Para onde está indo?

— Para Damasco.

— Com que propósito?

— Ah, nada de especial, uma viagem de recreio!

—«Tem algum documento?»

—«Certamente.»

Imediatamente, o documento de identidade de «Amr» saiu do meu bolso, e, junto com ele, meu coração subiu-me à boca. O policial militar abriu o documento e olhou para ele. Meu coração escorregou de volta ao lugar e começou a palpitar novamente. Pois vi que ele segurava a parte de cima do documento voltada para baixo; não foi difícil compreender que não sabia ler. Satisfeito com os dois ou três grandes selos oficiais, dobrou novamente o documento, após alguma reflexão, e devolveu-o à minha mão:

—«Sim, está tudo em ordem; pode ir.»

Por um instante, tive vontade de apertar-lhe a mão, mas depois pensei que seria melhor manter nossa relação inteiramente oficial; os quatro homens fizeram seus cavalos girar e desapareceram ao longe, em passo cadenciado, enquanto eu retomava a viagem pelo meu próprio caminho.

Ao chegar perto de Baniyas, perdi o caminho. O que no meu mapa era descrito como uma «estrada adequada para carroças e cavalos» revelou-se quase uma trilha invisível, que serpenteava através de estepes, pântanos e pequenos rios e riachos, até finalmente desaparecer por completo junto de algumas colinas cobertas de grandes pedras. Fiquei vagando sem rumo por essas colinas durante várias horas, vencendo subidas e descidas, e, assim, ao continuar andando, encontrei dois árabes à tarde; levavam, sobre os lombos de seus jumentos, uvas e queijo para Baniyas. Caminhamos juntos até o fim da estrada. Eles me deram uvas suculentas para comer. Ao chegarmos aos pomares antes da cidade, cada um seguiu seu próprio caminho. À beira da estrada, corria um riacho límpido, estreito e veloz! Deitei-me de bruços sobre a terra, mergulhei a cabeça até as orelhas na água gelada como gelo e continuei a engoli-la, a beber.

Eu estava realmente faminto e muito cansado, mas não queria ficar em Baniyas — pois suspeitava que, sendo o primeiro posto do lado da Síria, certamente haveria ali um posto policial. Meu encontro com a polícia militar havia me deixado bastante seguro quanto aos soldados sírios comuns — pois era razoável supor que a maioria deles fosse iletrada e analfabeta e, por isso, incapaz de descobrir minha fraude. Mas um posto policial onde houvesse um oficial era outra coisa. Assim, comecei a avançar a passos rápidos pelas vielas, evitando a rua principal do mercado, pois era muito provável que o posto policial ficasse justamente nela. Numa viela, ouvi o canto de um homem acompanhado pelo som de uma flauta de bambu e de palmas. Atraído por aquilo, contornei a esquina e parei completamente mudo e imóvel. Bem diante de mim, talvez a dez passos de distância, havia uma porta sobre a qual estavam gravadas duas palavras: «Posto policial». Ali estavam alguns policiais sírios, entre eles um oficial. À tarde, sentados em bancos ao sol, apreciavam o canto de um companheiro. Agora não havia como recuar, pois já tinham me visto, e o oficial, que aparentemente também era sírio, chamou-me e disse: «Ei, venha cá!»

Não havia alternativa senão obedecer à ordem. Comecei a me aproximar devagar, quando de repente me ocorreu uma ideia. Com a câmera na mão, cumprimentei o oficial em francês e, sem esperar que ele fizesse qualquer pergunta, comecei a dizer:

— Venho de Metula a esta cidade para uma breve visita. Mas não partirei daqui sem levar uma fotografia sua e do seu amigo, cuja canção tanto me encantou.

Os árabes gostam de lisonjas. Além disso, sentem prazer em ser fotografados. Por isso, o oficial aceitou minha proposta com um sorriso discreto e pediu-me que, depois de revelar e imprimir a fotografia, eu lhe enviasse uma cópia (e eu a enviei, acompanhada dos meus agradecimentos). Ele já nem se lembrou de pedir meus documentos de identidade. Em vez disso, ofereceu-me chá doce. E, por fim, quando me levantei para voltar a Metula, desejou-me boa viagem. Retornei pelo mesmo caminho por onde tinha vindo, dei a volta pela cidade e, assim, tomei novamente a estrada de Damasco.

Exatamente duas semanas depois de deixar Haifa, cheguei a uma aldeia bastante grande, que se poderia chamar de cidade, chamada Majdal ash-Shams. A maioria dos habitantes dessa aldeia era drusa, e alguns eram cristãos. Escolhi uma casa; parecia ser a casa de uma pessoa bastante abastada. Assim que bati, um marinheiro apareceu pela fresta da porta. Disse-lhe que, se me desse abrigo durante a noite, eu ficaria muito agradecido. Ao tradicional cumprimento de “Ahlan wa sahlan”, a porta se abriu completamente e, poucos minutos depois, percebi que tinha sido cordialmente acolhido por aquela pequena família.

Agora estou no interior da Síria. Daqui ainda há um longo caminho até Damasco. Por isso, decido confiar em meu anfitrião druso e pedir-lhe conselho. Eu sabia que nenhum árabe poderia ser desleal ou trair seu hóspede. Assim, conto-lhe tudo, inclusive que viajo com um documento de identidade falso. Meu anfitrião então me diz que seria muito perigoso para mim seguir pela estrada principal. Pois, a partir daqui, todo o caminho é vigiado pela polícia militar francesa; eles não me deixariam partir tão facilmente quanto a polícia síria.

— Estou pensando em mandar meu filho com você — disse meu anfitrião, apontando para o marinheiro que havia aberto a porta para mim. — Ele o conduzirá pelas montanhas e o ajudará a evitar as estradas principais.

Depois do jantar, sentamo-nos no pátio aberto diante da casa e discutimos qual caminho tomaríamos na manhã seguinte. Sobre meus joelhos estava estendido um pequeno mapa da Palestina e da Síria, feito na Alemanha. Eu o trouxera comigo de Jerusalém. Tentava acompanhar, nesse mapa, o caminho indicado por meu amigo druso. Enquanto estávamos absortos nessa conversa, chegou, caminhando pela estrada da aldeia, um homem de uniforme de oficial de polícia, evidentemente sírio. O homem surgiu tão repentinamente por trás de um abrigo que não tive tempo sequer de dobrar o mapa, muito menos de escondê-lo de seu olhar. O oficial percebeu que eu era estrangeiro, pois, inclinando ligeiramente a cabeça para o anfitrião, atravessou o pátio e aproximou-se lentamente de nós.

— Quem é você? — perguntou-me em francês, num tom que não pareceu muito cruel.

Como sempre foi meu hábito, continuei dando voltas numa longa e desconexa explicação, dizendo que era um colonizador de Metula e que estava viajando por prazer. Ainda assim, quando ele me exigiu o documento de identidade, não pude deixar de entregá-lo. Ele examinou o papel atentamente, e seus dois lábios se curvaram num sorriso seco. — Mas o que é isso que você tem nas mãos? — perguntou-me, apontando para o mapa alemão.

—«Não é nada de grande importância», digo; mas o oficial começa a insistir em vê-lo e, com os dedos hábeis de quem está acostumado a examinar mapas, desdobra-o, fixa os olhos nele por alguns segundos, depois dobra-o cuidadosamente de novo e devolve-o às minhas mãos com um sorriso discreto. Em seguida, diz, num alemão rudimentar:

—«Durante a guerra, servi no exército turco ao lado dos alemães». —Depois de dizer isso, saúda-me à maneira militar, mostra os dentes e volta a sorrir; então vai embora.

—«Ele percebeu que você é um ‘alemani’ —isto é, alemão; ele também ama os alemães e odeia os franceses. Não vai mais incomodá-lo».

Na manhã seguinte, ponho-me a caminho com meu jovem companheiro druso. É muito provável que esta tenha sido a viagem mais árdua da minha vida. Caminhamos por mais de onze horas, com uma breve pausa de cerca de vinte minutos ao meio-dia, atravessando montanhas pedregosas, passando entre grandes pedras, pisando cautelosamente sobre seixos afiados, vencendo descidas e subidas, subidas e descidas —até que percebi que já não tinha forças para caminhar. Quando chegamos, à tarde, à cidade de Al-Qatana, na planície de Damasco, eu estava completamente exausto: os dedos dos meus pés estavam dilacerados e ambos os pés haviam inchado. Quis passar a noite ali mesmo, mas meu jovem amigo opôs-se veementemente: havia muitos policiais franceses por toda parte e, como aquilo era uma cidade, não uma aldeia, seria absolutamente impossível encontrar abrigo sem atrair atenção. O único meio era embarcar em um dos carros que fazem o trajeto daqui a Damasco. Eu ainda tinha comigo vinte ‘piastres’ (desde Haifa, não havia gastado nem um centavo em toda a minha viagem). E a passagem de carro daqui a Damasco também custava vinte ‘piastres’.

No escritório em ruínas do contratante de transportes, na praça principal da cidade, soube que teria de esperar ali cerca de meia hora, até a partida do próximo carro. Despeço-me do meu amigo Rahnuma; ele me abraça como a um irmão de sangue e, sem demora, toma o caminho de volta para sua casa. Perto da porta do escritório de reservas, deixo a mochila ao lado e cochilo sob o doce sol do fim da tarde. De repente, meu torpor é interrompido quando um homem segura meu ombro e me sacode com força; é um policial militar sírio. Respondo às perguntas rotineiras com respostas rotineiras. Mas tive a impressão de que o homem não ficara satisfeito com minhas respostas.

—«Venha comigo à delegacia», diz ele; «fale com o oficial encarregado».

Eu estava tão cansado que, para mim, já não fazia a menor diferença ser preso ou não.

O ‘oficial’ sentado ao fundo da sala da delegacia era um sargento francês alto, largo e corpulento; diante dele, sobre a escrivaninha, havia uma garrafa vazia de arak e um copo sujo. Estava completamente embriagado e furioso; abriu os olhos vermelhos como sangue e lançou um olhar feroz ao policial que me trouxera até ali.

—E agora, o que foi?

O policial explica-lhe em árabe que me viu, a mim, um estrangeiro, sentado na praça principal. Enquanto isso, explico-lhe em francês que não sou estrangeiro, mas um cidadão leal.

—“Cidadão leal?” —brada o sargento—. “Vocês são uns vagabundos, uns andarilhos. Ficam circulando pelo país apenas para nos importunar. Onde estão seus documentos?”

Completamente desamparado, tateio os bolsos com os dedos rígidos e estendidos à procura do meu documento de identidade, quando ele dá um soco na mesa com o punho cerrado e ruge como uma tempestade:

—“Está bem, não é preciso; saia daqui.” E, enquanto saio e fecho a porta atrás de mim, vejo que ele torna a erguer o copo e a garrafa nas mãos.

Depois da longa e generosa jornada a pé, entrar de automóvel, vindo de Al-Qatana pela estrada de Koshada, na planície de Damasco coberta de pomares e jardins floridos — que libertação, que conforto viajar de carro! Não, era como flutuar cautelosamente no ar! No horizonte está o meu destino: um mar sem fim formado pelas copas das árvores densamente agrupadas; contra o pano de fundo do céu, veem-se, indistintas, algumas cúpulas e minaretes. Muito ao longe, um pouco à direita, ergue-se o cume da montanha nua e deserta, ainda banhado pelos raios do sol, embora sombras suaves já tenham começado a rastejar por sua base. Sobre aquela montanha pende apenas uma nuvem — estreita, comprida, resplandecente, enegrecida; ao longe, sob o céu azul-claro, absolutamente reto, sobre a planície, espalha-se, contra o fundo das montanhas à nossa direita e à nossa esquerda, uma luminosidade dourada, cinzenta como uma pomba. E o ar — como era leve!

Depois, surgem à beira da estrada altos jardins floridos, cercados por muros de barro; todo tipo de montaria, carroças de mão, carroças puxadas por animais, soldados (soldados franceses), de tudo! O crepúsculo tornou-se verde como a água. Um oficial passa velozmente ao nosso lado numa motocicleta, produzindo um ruído ensurdecedor; usa enormes óculos, que o fazem parecer um tipo de peixe das profundezas do mar. Depois — primeiro, a casa fica ao lado da estrada. Depois — logo depois, Damasco, como uma massa de espuma exaltada e revolta pelo tumulto, depois do silêncio da planície aberta. Nas janelas e nas ruas, acenderam-se todas as primeiras luzes da noite. Meu ser exultou com uma sensação de alegria tão grande que eu não conseguia retê-la na memória.

Mas minha felicidade, minha alegria, desmoronou de repente quando o carro parou junto à delegacia, na periferia da cidade.

—‘O que está acontecendo?’, perguntei ao motorista sentado ao meu lado.

—‘Oh, nada. Todo carro que vem de fora tem de se apresentar à polícia depois de chegar aqui’.

Um policial sírio saiu da estação:

—‘De onde o senhor vem?’

—‘Apenas de Al-Qatana’, respondeu o motorista.

—‘Está bem, então pode ir’ (pois esta é apenas uma viagem local). O motorista deu a partida no carro, rangendo os dentes. Começamos a avançar e respiramos aliviados. Mas, naquele instante, alguém gritou novamente da estrada: —‘O teto está solto’; e, poucos passos depois de passarmos pela ‘delegacia’, o motorista parou seu carro precário para consertar o teto aberto, que até então pendia para um lado. Enquanto o motorista se ocupava disso, o policial aproximou-se outra vez, lentamente, de nós — parecia não se interessar por nada além do problema mecânico do motorista. Depois, porém, seu olhar recaiu sobre mim. Percebi isso e, imediatamente, todo o meu corpo ficou rígido; seus olhos tornaram-se atentos e vigilantes; ele me examinava da cabeça aos pés. Aproximando-se mais, lançou um olhar enviesado para o assoalho do carro, onde estava minha mochila.

—‘Quem é o senhor?’, perguntou-me com voz desconfiada.

—‘De Metulla’, comecei; mas vi que o policial balançava a cabeça, desconfiado. Em seguida, falou em voz baixa com o motorista. Eu conseguia entender as palavras: —‘Soldado inglês, desertor’. E só então percebi que meu sobretudo azul, minha kufiya marrom bordada, presa pelo agal, e minha mochila de estilo militar (que eu havia comprado em Jerusalém, numa loja de artigos usados) eram todos muito semelhantes ao uniforme dos guardas irlandeses que o governo da Palestina havia recrutado naquela época. Também me lembrei de que havia um acordo entre os governos francês e britânico para que ambos expulsassem seus respectivos desertores do país.

Tento explicar ao policial, em meu árabe fragmentado, que não sou um desertor, mas ele não aceita minha explicação e diz:

— Explique tudo ao senhor inspetor.

E assim, fui obrigado a ir à delegacia. O motorista murmurou que não poderia esperar por mim; depois, de fato, ligou o carro e desapareceu de minha vista. O inspetor não estava na delegacia naquele momento; disseram-me, porém, que ele poderia voltar a qualquer instante. Tive de esperar em uma sala. Havia nela apenas um banco para sentar e, além da entrada principal, duas portas. Numa delas estava gravada a palavra “carcereiro”; na outra, estava escrito “prisão”. Tive de esperar mais de meia hora naquele ambiente desconfortável, e a cada instante se fortalecia em mim a convicção de que ali terminaria minha viagem; pois a palavra “inspetor” me parecia muitíssimo mais sinistra do que a palavra “oficial”. Se eu fosse preso agora, passaria alguns dias, talvez algumas semanas, na cadeia, como prisioneiro aguardando julgamento; depois receberia, conforme o costume, uma pena de três meses. Ao cumprir essa pena de três meses na prisão, teria de partir novamente a pé — sob a escolta da polícia militar montada — rumo às cidades da Palestina e, acima de tudo, talvez fosse expulso da Palestina por violação da lei dos passaportes. A melancolia que reinava na sala de espera não era nada comparada à minha tristeza interior.

De repente, ouvi o som de um carro. O carro entrou na delegacia e parou bem diante da passagem; instantes depois, dele desceu um homem em roupas civis, usando um tarbush na cabeça. Logo atrás dele desceu um policial que tentava explicar algo, com grande agitação, ao homem vestido à paisana. Era evidente que o inspetor estava extremamente ocupado.

Não sei exatamente como aconteceu o que aconteceu depois. O que fiz naquele momento crítico talvez tenha sido fruto daquele raro lampejo súbito de genialidade que, em circunstâncias diferentes e entre pessoas diferentes, dá origem a acontecimentos capazes de mudar a história. Num salto, fui parar bem diante do inspetor e, sem esperar por suas perguntas, lancei sobre ele uma torrente de queixas em francês contra o comportamento insultuoso e grosseiro do policial, que havia tomado um cidadão inocente como eu por um soldado desertor, fazendo-me perder o carro que ia para a cidade! O inspetor tentou me interromper várias vezes, mas não lhe dei uma única oportunidade e o envolvi num fluxo incessante de palavras, do qual pareceu não compreender nem um décimo, exceto os dois nomes “Metula” e “Damasco”, que mencionei inúmeras vezes em meu discurso. Ficou claro que ele se sentia constrangido por eu o estar impedindo de cuidar de uma tarefa urgente; ficou claro que ele se sentia constrangido por eu o estar impedindo de cuidar de uma tarefa urgente. Mas não lhe permiti dizer uma única palavra; sem parar sequer para respirar, continuei disparando minha artilharia de palavras. Por fim, exasperado, ele lançou as mãos ao ar e gritou:

— Pare, pare, pelo amor de Deus, pare. Você tem algum documento?

Minha mão entrou mecanicamente no bolso do peito e, ainda falando sem parar, palavra após palavra, enfiei em sua mão meu documento de identidade falso. Talvez o homem indefeso tivesse então a sensação de estar se afogando, pois dobrou rapidamente o papel, examinou um de seus cantos, viu o carimbo oficial e depois o atirou de volta para mim.

— Está bem, sim, está tudo bem; agora vá, por favor, simplesmente vá. Não esperei que ele repetisse o pedido.

Há alguns meses, em Jerusalém, encontrei um professor damasceno. Foi ele quem me convidou para, quando eu chegasse a Damasco, ficar como seu hóspede. Pus-me então a procurar sua casa. Um menininho concordou em ser meu guia. Foi ele quem me tomou pela mão e me conduziu até a casa que eu procurava.

Anoitecera profundamente na cidade velha. As ruas eram estreitas; as janelas das casas suspensas sobre as vielas tornavam-nas ainda mais escuras do que a noite poderia fazê-las. Aqui e ali, à luz amarelada dos lampiões de querosene, eu via alguma loja de frutas, diante da qual se empilhavam melancias e cestos cheios de uvas. As pessoas pareciam figuras de sombra. De vez em quando, do outro lado das janelas com rótulas, chegava a voz estridente de alguma mulher. Então o menininho exclamou uma vez: “Ali está a casa”.

Bati a uma porta. Alguém respondeu de dentro. Abri o ferrolho e entrei num pátio pavimentado. Mesmo na escuridão, pude ver as videiras vergadas sob o peso dos frutos e uma bacia de pedra da qual jorrava uma fonte. Alguém chamou do andar de cima:

—“Entre, meu senhor, por favor, entre!” Então subi por uma estreita escada que acompanhava a parede exterior da casa, atravessei um pátio aberto e fui direto cair nos braços vigorosos do meu amigo.

Eu estava então cansado e exausto — completamente sem forças. Por isso, deixei-me cair pesadamente na cama que me haviam preparado. Eu ouvia o murmúrio do vento nas árvores do pátio diante de mim e nas árvores do jardim atrás da casa. De longe chegaram sons muito abafados: era o som de uma grande cidade árabe preparando-se para dormir!

Com a excitação de uma nova descoberta e os olhos abertos para coisas e assuntos dos quais antes eu não tinha a menor ideia, eu vagava, naqueles dias de verão, pelas vielas do antigo mercado de Damasco. E sentia a maravilhosa serenidade que envolvia a vida de seus habitantes. Observava essa sensação de segurança interior no modo como tratavam uns aos outros, no respeito caloroso e cheio de emoção com que se encontravam e se despediam, no modo como duas pessoas caminhavam juntas, de mãos dadas como crianças, simplesmente porque se consideravam amigas, e no comportamento dos comerciantes uns para com os outros. Os lojistas das pequenas lojas certamente chamavam os transeuntes aos gritos, mas não me pareciam homens atormentados por algum medo oculto ou consumidos pela inveja. A confiança chegava a tal ponto que, quando o dono de uma loja precisava ausentar-se por alguns instantes, deixava sem hesitação seu comércio aos cuidados do vizinho e concorrente. Muitas vezes eu via um verdadeiro cliente parar diante de uma loja deixada assim, evidentemente refletindo consigo mesmo se deveria esperar o comerciante voltar ou ir comprar numa loja vizinha. E, em todas essas ocasiões, o lojista ao lado, que na realidade era concorrente do comerciante ausente, aproximava-se, perguntava ao cliente o que ele desejava e vendia-lhe os artigos necessários da loja do ausente — não os seus próprios, mas os do vizinho ausente —, deixando o dinheiro sobre o banco do vizinho. Onde, quando, na Europa, alguém já viu uma venda assim!

Em algumas ruas do mercado, agrupavam-se beduínos fortes, robustos e trabalhadores, vestidos com amplas túnicas compridas e esvoaçantes. Eram homens de tal espécie que, ao vê-los, parecia que carregavam a própria vida consigo e estavam sempre seguindo seu próprio caminho. Os homens altos, de olhos profundos e brilhantes, reuniam-se em grupos e ficavam de pé ou sentavam-se diante das lojas. Não diziam muitas palavras uns aos outros — uma palavra, uma frase curta dita com atenção e ouvida com atenção bastava para uma longa conversa. Compreendi que aquele grupo de beduínos não sabia tagarelar inutilmente. Tagarelar é falar de coisas sem conteúdo, sem risco, um sinal particular de uma alma desgastada. E lembrei-me das palavras do Alcorão que descrevem a vida no Paraíso: “E ali não ouvirás conversa vã alguma”. Pareceu-me que o silêncio era uma virtude beduína. Cobriam-se com largas túnicas marrons, brancas ou negras e permaneciam calados. Quando passavam ao seu lado, olhavam para você com o olhar silencioso de uma criança — orgulhoso, humilde e atento. Quando você se dirigia a eles em sua própria língua, um sorriso subitamente brilhava nas íris de seus olhos negros! Pois não viviam fechados em si mesmos e queriam que os estrangeiros os compreendessem. Eram “nobres… sharifs”… absolutamente silenciosos, mas de coração aberto para todos os aspectos da vida.

Às sextas-feiras, que são o dia de descanso dos muçulmanos, eu observava na vida de Damasco uma mudança de ritmo, uma pequena agitação de alegre excitação, um sobressalto e, ao mesmo tempo, uma gravidade de espírito. Lembrei-me dos nossos domingos na Europa — das ruas desertas das cidades e das lojas fechadas, daqueles dias sem sentido e vazios, e do vazio que trazia um sofrimento insuportável. Mas a questão é: por que haveria de ser assim? Aos poucos comecei a compreender: a razão era que, para quase todos os habitantes do Ocidente, sua vida cotidiana era um fardo do qual somente os domingos podiam libertá-los. O domingo já não era um dia de lazer; tornara-se, antes, um meio de fugir para um mundo irreal, para um esquecimento autoenganoso, por trás do qual espreitavam os dias passados da semana, duas vezes mais pesados e terríveis.

Enquanto isso, para os árabes, a sexta-feira não é uma oportunidade de esquecer os demais dias da semana; isso não significa que os frutos da vida caiam fácil e sem esforço em seu colo. Seu significado simples é, antes, que seu trabalho, por mais árduo que seja, não entra em conflito com seus desejos e aspirações pessoais. Não há, na vida deles, rotina pela rotina. Em vez disso, existe uma ligação íntima e sincera entre o homem que trabalha e seu trabalho. Portanto, em suas vidas, o descanso só se torna necessário quando sentem cansaço. O Islã certamente considera natural a harmonia, essa concordância entre o homem e seu trabalho, e é por isso que não foi estabelecido nenhum descanso obrigatório na sexta-feira. Os artesãos e os comerciantes do mercado de Damasco trabalham algumas horas; depois deixam suas lojas por algumas horas e vão à mesquita para realizar a salat al-jumu’ah. Em seguida, sentam-se em algum café e encontram os amigos. Depois retornam às lojas e aos seus respectivos trabalhos. E continuam trabalhando por mais algumas horas, com alegria e animação, de coração despreocupado, cada um como deseja. Vi apenas algumas poucas lojas fechadas, e mesmo essas somente na hora da salat, quando as pessoas iam reunir-se na mesquita. No restante do dia, as ruas permanecem cheias de gente e movimentadas, como nos outros dias da semana.

Numa sexta-feira, fui à Mesquita dos Omíadas com um amigo de quem eu era hóspede. A cúpula da mesquita ergue-se sobre muitas colunas; a luz que entra pelas janelas faz com que ela brilhe. O aroma do almíscar flutua no ar. O chão da mesquita está coberto de tapetes vermelhos e azuis. As pessoas estão de pé, alinhadas em longas fileiras uniformes, atrás do imã. Baixam a cabeça, ajoelham-se, encostam a testa no chão e tornam a levantar-se; há entre todos uma unidade disciplinada, como entre soldados. Tudo acontece em um silêncio tranquilo. Quando as pessoas se colocaram em congregação, eu estava muito distante. Do interior da enorme mesquita, eu podia ouvir a voz do velho imã. Ele recitava versículos do Alcorão. Quando baixava a cabeça ou ia para a prostração, toda a congregação o seguia como se fosse uma só pessoa. Baixavam a cabeça e prostravam-se diante de Allah, como se Allah estivesse diante de seus olhos.

Naquele exato momento, compreendi quão próximo e íntimo eram, para aquelas pessoas, Allah e a religião!

— Que maravilhoso! Que magnífico! — digo ao meu amigo enquanto saímos da mesquita. — Vocês sentem Allah tão próximo de vocês! Eu gostaria de também poder senti-lo exatamente assim.

— Mas, irmão, como poderia ser de outro modo? Como diz o nosso Livro Sagrado: “Allah não está mais próximo de vós do que a vossa veia jugular?”

Agitado por essa nova compreensão, passei muito tempo em Damasco lendo tudo o que encontrava sobre o Islã. Embora meu domínio da língua árabe fosse suficiente para conversar, ainda era muito insuficiente para ler o Alcorão no original. Por isso, recorri a duas traduções: uma francesa e outra alemã. Reuni as traduções numa biblioteca; quanto ao restante, tive de depender dos livros dos orientalistas europeus e das explicações e análises do meu amigo.

Por mais parcial e fragmentário que tudo isso fosse, para mim essas leituras e conversas foram como a abertura de uma cortina: comecei a vislumbrar um mundo de ideias sobre o qual, até então, eu era completamente ignorante.

Pareceu-me que o Islã não era aquilo que as pessoas geralmente entendem por religião; era, antes, um modo de vida, muito mais do que apenas um sistema de preceitos religiosos: um programa de conduta pessoal e social fundamentado na consciência de Allah. Em parte alguma do Alcorão encontrei qualquer menção à necessidade de “salvação”. Entre o indivíduo e seu destino não se interpõe nenhum pecado original e inato; pois o homem nada obterá senão aquilo por que se esforça. Não há necessidade de ascetismo ou monasticismo para abrir alguma entrada secreta para a santidade — e pecado é justamente o afastamento das qualidades inatas e benéficas com que Allah criou cada ser humano. Pecado não é outra coisa além disso. Ao julgar a natureza humana, não se deixa espaço para nenhum dualismo. O Islã considera o corpo e a alma uma só entidade indivisível.

No princípio, eu me havia surpreendido com o interesse do Alcorão não apenas por questões espirituais, mas também por aquilo que, à primeira vista, parecia ser algo trivial e material na vida. Porém, pouco a pouco comecei a compreender: se o ser humano é uma entidade inteira, composta de corpo e alma, como afirma o Islã, então nenhum aspecto da vida pode ser tão insignificante a ponto de ficar fora da autoridade religiosa. Tendo em vista todas essas questões, o Alcorão jamais permite que seus seguidores se esqueçam de que esta vida terrena do ser humano é apenas uma etapa no caminho para sua vida superior, e que seu objetivo último é de natureza espiritual. O progresso e a prosperidade materiais são desejáveis, mas não constituem o objetivo. Por isso, embora a fome e a sede tenham sua própria razão de ser, devem necessariamente ser contidas e reguladas pela consciência moral. Essa consciência não se relacionará apenas com a relação do ser humano com Allah, mas também com sua relação com os outros seres humanos; relacionar-se-á também com a criação, de modo a favorecer o desenvolvimento espiritual de todos, para que todos os seres humanos possam viver plenamente.

Tudo isso era, do ponto de vista mental e moral, muito mais respeitável do que tudo o que eu havia ouvido e lido anteriormente sobre o Islã. A visão islâmica dos problemas do mundo espiritual pareceu-me muito mais profunda do que a do Antigo Testamento. Além disso, nela também não havia o preconceito do Antigo Testamento em favor de uma determinada nação. Ademais, sua atitude diante dos problemas biológicos era completamente diferente e muito mais positiva do que a do Novo Testamento. A relação entre a alma e o corpo, cada qual com suas próprias características, não é senão os dois aspectos da vida humana criada por Allah.

—Não será este ensinamento —pergunto a mim mesmo— o responsável pela certeza do sentimento e da emoção que há tanto tempo venho percebendo entre os árabes?

Certa noite, meu anfitrião convidou-me para acompanhá-lo a um banquete na casa de um rico amigo seu em Damasco. O amigo celebrava o nascimento de um de seus filhos.

Nós dois caminhávamos pelas vielas sinuosas da cidade velha. A viela era tão estreita que as janelas e as varandas com treliças, projetadas sobre a rua a partir das paredes das casas de ambos os lados, quase se tocavam. Entre as antigas casas de pedra instalavam-se sombras profundas e um silêncio amplo; de vez em quando, uma ou outra moça coberta por um negro véu passava por nós com passos rápidos e miúdos. Certa vez vi um homem barbado, vestido com um longo kaftan, sair de uma esquina da rua e desaparecer lentamente em outra. As esquinas e os ângulos irregulares eram todos iguais; as mesmas vielas estreitas, uma cruzando a outra em várias direções, sempre com a promessa de que logo adiante haveria alguma descoberta maravilhosa, e, todas as vezes, desembocando em outra viela do mesmo tipo!

Mas a descoberta aconteceu somente no fim. Meu amigo e o guia pararam diante de uma porta de madeira sem nome nem número, instalada numa parede simples revestida de barro, e, batendo nela com o punho fechado, disseram: —Aqui estamos nós.

A porta se abriu com um rangido. Um homem extremamente velho nos deu as boas-vindas com seu rosto desdentado, dizendo: «Ahlan wa sahlan». Depois entramos, por um pequeno corredor com duas curvas em ângulo reto, no pátio da casa —que, vista de fora, não parecia mais do que uma concha de cor parda.

O pátio era amplo e arejado. Estava pavimentado com pedaços de mármore branco e preto. Parecia um enorme tabuleiro de xadrez. No centro, de uma bacia octogonal baixa, jorrava uma fonte, espalhando uma fina névoa de água. O piso revestido de mármore tinha pequenas aberturas a intervalos regulares. Nas aberturas, limoeiros e arbustos de loendro, curvados sob o peso de suas flores e frutos, estendiam seus ramos por todo o pátio e ao longo das paredes internas da casa. As paredes estavam cobertas, do chão ao teto, por relevos de alabastro finamente trabalhados, com complexos desenhos geométricos e arabescos de folhagens; a única exceção eram as janelas, instaladas em amplas molduras de mármore com treliças vazadas. De um lado do pátio, as paredes se curvavam e formavam, a cerca de três pés do chão, um nicho profundo do tamanho de um grande aposento, ao qual se subia por uma larga escadaria de mármore. Nesse nicho, chamado liwan, havia divãs baixos e ornamentados encostados às três paredes, e no chão estava estendido um tapete muito caro. Nas paredes do nicho estavam pendurados grandes espelhos, cada um com cerca de quinze pés de altura. O pátio inteiro, suas plantas, seu piso branco e preto, seu alabastro, os relevos, as treliças das janelas de mármore, a porta entalhada que dava acesso ao interior da casa e a multidão colorida de convidados —alguns sentados nos divãs, outros circulando em torno da bacia de água—, tudo isso se refletia nos espelhos do liwan. Quando olhei para eles, descobri que a parede oposta do pátio também estava inteiramente revestida de espelhos, fazendo com que toda a cena se refletisse duas vezes, quatrocentas vezes, e assim adquirisse a forma de um encantamento: mármore, alabastro, fontes, incontáveis pessoas, moitas de limoeiros, loendros e o interminável circuito dos arbustos —uma cidade de sonhos sem fim, cintilando sob o céu vespertino, ainda rosado pelos raios infinitos do sol.

Uma casa desse tipo, simples e ornamentada para a rua, mas suntuosa e agradável por dentro, era para mim algo inteiramente novo. Com o tempo, porém, vim a descobrir que esse era o modelo tradicional das moradias das pessoas abastadas, não apenas na Síria e no Iraque, mas também no Irã. Antigamente, nenhum árabe ou iraniano se preocupava com a fachada da casa. Para eles, a casa servia para morar, e sua utilidade limitava-se ao interior. Quão diferente é isso do esforço que se faz na arquitetura ocidental moderna para impor uma ‘utilidade’! Presos nas malhas de um romantismo deformado e inseguros quanto aos próprios sentimentos, os ocidentais de hoje, ao projetarem casas, criam problemas; os árabes e iranianos criam — ou, ainda ontem, criavam — casas.

Meu anfitrião fez-me sentar junto à parede, à sua direita. Um criado descalço serviu café numa pequena bandeja de latão; a fumaça do narguilé ‘narkele’, que borbulhava e gorgolejava, misturou-se ao ar perfumado com água de rosas do liwan e, formando espirais, flutuou em direção às velas cobertas por redomas de vidro, enquanto elas eram acesas uma após outra, junto às paredes e entre o verde espesso das plantas.

Todos os presentes eram homens, e de tipos muito variados. Muitos vestiam cafetãs de seda damascena listrada e áspera, ou de seda chinesa grossa, cor de marfim, ou enormes ‘jubbahs’ de lã fina azulada. Na cabeça, usavam turbantes brancos bordados a ouro sobre o vermelho ‘tarbush’. Alguns trajavam roupas europeias, mas, mesmo assim, era evidente que se sentavam muito à vontade no divã, com as pernas dobradas sobre o corpo. Alguns chefes beduínos haviam vindo das estepes com seus grupos; tinham olhos brilhantes e barbas negras e curtas em rostos magros e morenos. A cada movimento de seus corpos, ouvia-se o farfalhar das roupas novas; cada um carregava uma espada coberta por uma bainha de prata. Sua postura era de completo conforto, despreocupada e lânguida: eram verdadeiros aristocratas — com a diferença de que, ao contrário dos aristocratas europeus, não eram uma casta de brilho suave, produzida pelo cuidado dedicado durante gerações e por uma vida refinada; pareciam, antes, fogo ardente emanado da certeza de seus próprios sentimentos. Um belo ar, num clima seco e límpido, cercava-os. O mesmo tipo de atmosfera, por sua pureza, envolvia todos os presentes, mas não de maneira imposta. Aqueles homens pareciam amigos de terras distantes, viajantes passageiros daquele lugar: em algum outro sítio, esperava-os uma vida livre e sem destino definido.

Uma dançarina saiu por uma porta e subiu os degraus até o liwan com passos leves. Era muito jovem, certamente não tinha mais de vinte anos, e extraordinariamente bela. Vestia uma izar de seda ondulante, que estalava e mudava de cor conforme ela se movia, trazia nos pés um par de chinelos de fios dourados e usava um corpete guarnecido de pérolas, que revelava mais do que cobria seus seios altos e firmes. Avançou irradiando a sensualidade de uma jovem acostumada a receber a admiração de todos e a ser desejada; e pareceu-me ouvir uma onda de prazer percorrer a reunião diante da visão de seus membros macios e delicados e de sua pele tensa, branca como marfim.

A moça começou a executar, acompanhando o ritmo dos golpes do tambor tocado pelo homem de meia-idade que entrara com ela no liwan, aquele tipo de dança tradicional e excitante tão apreciado no Oriente, cujo objetivo é despertar os desejos adormecidos e prometer a realização de anseios ofegantes.

— Oh, como você é maravilhosa! Oh, como é magnífica! — murmurou meu anfitrião; depois deu um leve tapinha no meu joelho e disse: — Uma garota não é como um bálsamo suave e refrescante sobre uma ferida?

A dançarina partiu tão depressa quanto havia chegado; nada dela restou, exceto um brilho indistinto nos olhos da maioria dos homens. Sobre o tapete do liwan, quatro cantores haviam agora tomado o lugar da dançarina. Um dos convidados disse-me: ‘Alguns deles estão entre os melhores cantores da Síria’. Um deles segurava uma flauta de bambu de pescoço comprido. Outro tinha nas mãos um tambor achatado, de uma só face, parecido com um tamborim sem guizos; o terceiro segurava um instrumento semelhante a um violão, e o quarto trazia uma ‘tambura’ egípcia, como uma garrafa de latão muito larga, cuja parte inferior era coberta por pele de tambor.

A princípio, eles produziam, como quem brinca, sons delicados e tilintantes, golpeando os tambores sem qualquer melodia ou ritmo claramente perceptível; era como se cada um estivesse ocupado consigo mesmo, como se afinassem os instrumentos em preparação para criar um ritmo ascendente comum. O homem do violão passava várias vezes as pontas dos dedos pelas cordas, de cima para baixo, produzindo uma espécie de ressonância de harpa controlada. O tocador de tambura tocava suavemente sua ‘tambura’, fazia uma pausa e voltava a tocá-la. O flautista parecia golpear, em rápida sucessão, algumas cordas baixas e agudas, como se elas se combinassem subitamente com o som seco e monótono de um pandeiro golpeado repetidas vezes, obrigando a ‘tambura’ a responder hesitante ao poderoso ressoar, ora da flauta, ora das cordas do violão. Antes que eu me desse conta, uma melodia e um ritmo unificados haviam unido os quatro instrumentos e se transformado numa só harmonia. Uma harmonia? Não sei dizer. Pareceu-me que eu estava testemunhando um acontecimento emocionante, mais do que prestando atenção a uma apresentação musical. E dos sons agudos e incompreensíveis dos instrumentos nasceu uma nova melodia, que subia a tons elevados, como uma linha espessa e espiralada, semelhante a uma concha, e depois descia subitamente até os registros mais baixos, como a ascensão e a queda ritmadas de um objeto metálico: ora veloz, ora lenta, ora suave, ora vigorosa. Por meio de uma indiferença obstinada e de mudanças incessantes, esse acontecimento contínuo, esse fenômeno sonoro e auditivo, tremendo numa embriaguez harmoniosa, cresceu, espalhou-se com força e penetrou em minha consciência. E quando, por fim, no curso de uma música que se precipitava para os tons elevados, subitamente — ah, como depressa! como depressa parou! — compreendi: eu estava cativo. A excitação daquela música havia me enfeitiçado sem que eu percebesse; era como se eu tivesse sido agarrado e levado para o reino daqueles sons, que, por meio de sua monotonia exterior, lembravam a eterna repetição de todas as coisas existentes e, batendo às portas dos meus sentimentos, traziam gradualmente à luz tudo o que agia dentro de mim sem meu conhecimento — desvelando e colocando diante de mim algo que sempre estivera ali, mas que agora se tornava claro para mim com uma intensidade tão radiante que meu coração começou a bater descompassadamente.

Estou familiarizado com a música ocidental. Nela, todo o cenário emocional do compositor é conduzido por cada tom distinto e reflete, em cada estado de espírito, todos os demais estados de espírito possíveis. Mas esta música árabe parecia brotar do mesmo plano da consciência, de um único estado delicado — de nada além desse estado delicado — e, por isso mesmo, era capaz de acolher os humores pessoais dos sentimentos de cada ouvinte….

Após alguns segundos de silêncio, o tambura começou a tocar num tom grave, abafado e pesado, e os demais instrumentos o seguiram. Desta vez, a melodia era muito mais feminina que a anterior; o desenvolvimento era muito mais suave, e as vozes distintas de cada instrumento se ajustavam intimamente umas às outras, abraçando-se e tornando-se, com calor emocional, muito mais excitantes, como se estivessem unidas por um encantamento. Elas se golpeavam e fluíam ao redor umas das outras em linhas suavemente ondulantes, que a princípio colidiam algumas vezes com o ritmo veloz do tambura, como se chocassem contra uma barreira sólida. Mas aos poucos se tornavam mais agressivas, venciam o tambura e o capturavam, arrastando-o consigo até os agudos de uma melodia comum, que se elevava em espirais; e o tambura, embora relutante no início, logo sucumbia ao torpor geral e, embriagado, juntava-se aos demais. A linha ondulante perdia a sua graça feminina e disparava com uma intensidade crescente, tornando-se cada vez mais rápida, mais alta e mais aguda — dentro da fria fúria de um instinto consciente, um instinto que rompera todas as amarras da contenção! Essa mesma linha ondulante transformava-se então num êxtase embriagado, numa ascensão delirante rumo a invisíveis picos de poder e soberania; do fluxo que, pouco antes, girava ao redor um do outro, nascia, na harmonia dos sons, um rodopio ciclônico, círculos correndo de eternidade em eternidade, sem medida, sem limite, sem objetivo, como um acrobata imprudente e ofegante correndo sobre uma corda estendida sobre a borda afiada de um abismo, através do centro de um presente eterno, rumo a uma percepção que se poderia chamar de liberdade e poder — e que está além de todo pensamento. De repente, no meio de uma expansão ascendente, veio uma pausa: um silêncio de morte — impiedoso! Honesto. Transparente.

O fôlego voltou entre os ouvintes e espectadores, como o murmúrio das folhas das árvores, e um prolongado murmúrio de “Ya Allah, ya Allah” ergueu-se entre eles. Pareciam crianças inteligentes, entregues a jogos que conheciam muito bem e que sempre as seduziam. Sorriam, felizes e contentes.

Três

Seguimos conduzindo os nossos camelos, e Zaid canta; sempre no mesmo ritmo, sempre na mesma melodia monótona. Pois a mente árabe é monótona; mas isso não significa que seja pobre em imaginação. Ela possui imaginação suficiente. Porém, o seu sentimento inato não se ocupa, como o do homem ocidental, da extensão, do espaço tridimensional e das muitas mudanças sutis da emoção simultaneamente. A música árabe expressa um único desejo de cada vez: levar uma experiência emocional única até o extremo de seus limites. É nessa monotonia pura, nesse desejo quase sensual de condensar o sentimento e apresentá-lo como uma linha ascendente ininterrupta, que residem tanto a força quanto a deficiência do caráter árabe. Sua deficiência é querer experimentar este mundo primeiro também no âmbito material. Sua força é que a crença na possibilidade de o conhecimento emocional ascender por uma linha infinita pode conduzir o homem, no mundo interior, à percepção de Allah — e a nenhum outro lugar. Foi apenas sobre o fundamento dessa tendência inata, uma característica extraordinária dos habitantes do deserto, que se tornou possível o surgimento do tawhid, ou monoteísmo, dos antigos judeus e sua consumação bem-sucedida na religião de Maomé. Por trás de ambos está o deserto, como uma mãe.

 

A alma e o corpo

Um

Os dias passam, e as noites são curtas. E nós dois avançamos rapidamente para o sul. Nossos camelos estão agora muito saudáveis e fortes. Foram recentemente bem alimentados e, nos últimos dois dias, receberam bastante capim nos pastos. Ainda há quatorze dias de viagem entre Meca e este lugar, talvez até mais, se passarmos algum tempo — o que é muito provável — em Hail e Medina, as duas cidades que ficam no nosso caminho.

Uma impaciência incomum tomou conta de mim — uma urgência cuja explicação eu desconhecia. Até então, eu viajara por puro prazer, sem qualquer pressa; nunca sentira uma necessidade especial de chegar depressa ao destino. A realização da viagem e o destino sempre me haviam parecido acidentais. Mas agora comecei a perceber algo que jamais percebera em meus muitos anos na Arábia: a impaciência de chegar ao fim da estrada. E qual é o fim da estrada? Ver Meca? Eu estivera tantas vezes nessa cidade sagrada e conhecia tão detalhadamente esse modo de vida que Meca já não trazia para mim a promessa de nenhuma nova descoberta — ou seria uma nova descoberta que eu esperava? Certamente era isso. Pois eu me sentia atraído por Meca por uma estranha expectativa pessoal. Esse centro espiritual do mundo muçulmano, com sua reunião de povos vindos de todas as regiões da Terra, parecia ser a entrada para um mundo mais vasto que aquele em que eu vivia então. Não era que eu estivesse cansado da Arábia; não, eu amava o deserto árabe, suas cidades e o modo de vida de seus habitantes, assim como sempre os amara. Desde que, quase dez anos antes, tivera no deserto do Sinai meu primeiro vislumbre da vida árabe, nunca encontrara motivo para desilusão, e os anos seguintes apenas haviam fortalecido minhas primeiras expectativas. Mas, desde a noite que passara perto de Idara, dois dias antes, nascera em mim a convicção de que a terra árabe me dera, até o fim, tudo o que tinha para me dar.

Sou forte, jovem e saudável. Posso conduzir camelos durante horas a fio, sem me cansar inutilmente. Sei viajar e, há muitos anos, venho viajando como um beduíno, sem as tendas e os pequenos confortos que, segundo os habitantes urbanos do Najd, são indispensáveis numa longa viagem. Estou acostumado a toda a variedade de pequenas habilidades da vida beduína e, quase sem perceber, adotei os costumes e as maneiras dos árabes do Najd. Mas será isso tudo o que é possível? Passei todos esses anos na terra árabe apenas para me tornar um árabe? Ou estaria me preparando para algo que ainda não aconteceu?

…..     ……      …..      ……

A inquietação que agora sinto é muito semelhante à intensa impaciência que experimentei ao voltar à Europa depois de minha primeira viagem ao Oriente Médio: a sensação de ter parado de repente justamente antes de uma grande descoberta — uma descoberta que poderia ter ocorrido em minha vida se eu tivesse tido apenas um pouco mais de tempo.

E a tensão inicial de deixar aquele mundo e voltar a entrar na Europa havia se tornado um pouco mais tênue porque, depois de deixar a Síria, passei alguns meses na Turquia, no outono de 1923. A Turquia de Mustafa Kemal ainda estava entrando em sua fase de imitação reformista. Ainda era autenticamente turca em seu modo de vida e em suas tradições; por isso, através do vínculo de unidade do Islã, ainda estava relacionada com a corrente geral da vida árabe. Mas o conflito no coração da Turquia parecera um tanto pesado, menos transparente, menos leve e muito mais oriental. Quando viajei por terra de Istambul a Sófia e Belgrado, minha entrada do Mashriq no Magrebe não me pareceu uma ruptura repentina; as paisagens mudaram pouco a pouco, gradualmente, de um ambiente para outro — o número de minaretes diminuía progressivamente, e, no lugar dos longos cafetãs dos homens, apareciam as camisas apertadas na cintura dos camponeses. Quando a vegetação esparsa e os bosques da Anatólia desapareceram nas florestas de abetos da Sérvia, de repente, na fronteira italiana, percebi: eu havia voltado à Europa.

Eu viajava de trem de Trieste para Viena. Enquanto avançava, a vivacidade das impressões que a Turquia havia gravado em minha mente começou a desaparecer, e apenas os dezoito meses que eu passara nas terras árabes permaneceram como a única realidade. Foi como um golpe quando percebi que contemplava as paisagens europeias, antes tão familiares para mim, com os olhos de um estrangeiro. As pessoas me pareceram terrivelmente feias, seus movimentos rudes e desajeitados; não havia relação direta entre aquilo que realmente sentiam e desejavam e o que faziam; e, de repente, num lampejo, compreendi que, embora tudo o que faziam apresentasse exteriormente a aparência de um propósito, elas, sem saber, viviam num mundo de fingimento… Como resultado de minha convivência com os árabes, minha atitude em relação àquilo que eu passara a considerar indispensável e fundamental na vida havia mudado de maneira absolutamente clara e irrevogável; com bastante espanto, lembrei-me de que muitos europeus antes de mim haviam conhecido o modo de vida árabe. Como era possível, então, que eles não tivessem sofrido o choque da descoberta que agora me abalava? Ou será que também o haviam sofrido? Será que alguns deles também haviam sido abalados no mais profundo de seu ser, como eu agora estava?

Encontrei a resposta a essa pergunta alguns anos depois, na terra árabe. A resposta veio do Dr. van der Meulen, então ministro holandês em Jedá. Era um homem liberal e de cultura ampla. Apegar-se-ia à sua própria religião, o cristianismo, com uma paixão e uma devoção raríssimas entre os ocidentais de hoje. Assim, compreensivelmente, não se podia dizer que fosse amigo do Islã como religião. Ainda assim, confessou-me que amava a terra árabe mais do que qualquer um dos países que conhecera na vida — agora, mais até do que seu próprio país. Quando seu período de serviço no Hijaz estava quase terminado, disse-me certa vez: “Creio que nenhuma pessoa profundamente sensível jamais conseguirá libertar-se do encanto da vida árabe; depois de passar algum tempo entre os árabes, não poderá arrancar esse encanto do coração. Se alguém deixar este país, levará para sempre no coração o vento deste deserto e sempre se voltará para trás, olhando com ansiosa saudade, mesmo que sua própria casa esteja numa região muito mais rica e muito mais bela… ainda assim”.

Fiquei algumas semanas em Viena e cheguei a um acordo com meu pai. Ele já havia vencido a raiva que sentira por eu ter abandonado a universidade e saído de sua casa de maneira tão indelicada. De qualquer modo, eu era então correspondente do Frankfurter Zeitung; esse era um nome pronunciado na Europa Central daqueles dias com algo próximo de temor e reverência. Como correspondente daquele jornal, eu estaria acima de todos — e provei a validade dessa minha pretensão arrogante.

De Viena parti diretamente para Frankfurt, para comparecer pessoalmente ao escritório do jornal para o qual vinha escrevendo havia mais de um ano. Apresentei-me ali com enorme confiança, pois, pelas cartas que recebera de Frankfurt, ficara claro para mim que estavam muito satisfeitos com o meu trabalho. Eu realmente havia “comparecido” ali. Com essa consciência, entrei no solene palácio antiquado da “Frankfurter Zeitung”. Ao entrar, enviei meu cartão ao redator-chefe, o mundialmente famoso Dr. Hainbish Simon.

Quando entrei em seu gabinete, ele me fitou por um instante em mudo assombro; chegou a esquecer-se de levantar da cadeira. Mas logo recuperou a compostura e, pondo-se de pé, apertou minha mão.

— Sente-se, sente-se. Eu estava esperando justamente pelo senhor. Ele continuou olhando fixamente para mim, sem dizer mais nada. Como resultado, comecei a sentir-me constrangido.

— Aconteceu algum problema, Dr. Simon?

—Não, não, não houve erro algum. Ou, se preferir, pode dizer que tudo estava errado… Depois, desatou a rir alto e disse: —De qualquer modo, eu esperava encontrar um homem de meia-idade, usando óculos de armação dourada; e eis que vejo um rapaz… Oh, perdoe-me —se não se importa—, quantos anos você tem?

De repente, lembrei-me do jovial comerciante holandês de Kaibor; ele também me fizera a mesma pergunta um ano antes. Desatei a rir alto: —Tenho pouco mais de vinte e três anos, senhor, quase vinte e quatro. Depois acrescentei: —O senhor acha que esta idade é muito baixa para o Frankfurter Zeitung?

—Não —responde Simon lentamente—, não para o Frankfurter Zeitung, mas para os seus artigos. Eu supunha que vencer o desejo natural de autopromoção e deixar a própria personalidade inteiramente por trás da escrita, como observei em seus textos, fosse algo possível apenas para alguém muito mais velho. O senhor sabe, este é o segredo do jornalismo maduro: escrever objetivamente sobre o que viu, ouviu e pensou, sem misturar essas experiências com a sua própria experiência estritamente “pessoal”… Por outro lado, pensando agora sobre isso, ocorre-me: somente alguém muito jovem poderia escrever com tamanho interesse e entusiasmo, com tamanho —nem sei como dizer— com tamanho arrebatamento e emoção…

Depois, ele suspirou: —Espero que isso não se desgaste. E espero que o senhor não se torne, como todos os outros, satisfeito consigo mesmo, obtuso e grosseiro.

Parece-me que essa descoberta da minha juventude passada fortaleceu ainda mais a convicção do Dr. Simon de que ele havia encontrado em mim um jornalista muito promissor. Ele concordou inteiramente que eu deveria retornar ao Oriente Médio tão logo fosse possível. Quanto mais cedo eu voltasse, melhor. Do ponto de vista financeiro, já não havia nenhum obstáculo a um plano desse tipo. Afinal, fora possível controlar a inflação alemã e, como resultado da estabilização do valor da moeda, quase imediatamente veio uma onda de prosperidade. O Frankfurter Zeitung havia recuperado a capacidade de custear as viagens de seus correspondentes especiais. Naturalmente, antes de partir novamente para o Oriente Médio, eu teria de entregar o livro que inicialmente havia contratado com esse jornal para escrever; e também ficou decidido que, nesse intervalo, eu permaneceria ligado à redação, para que pudesse aprender os detalhes do trabalho de um grande jornal.

Apesar da minha impaciência para voltar ao exterior, aqueles meses em Frankfurt foram extraordinariamente estimulantes. O Frankfurter Zeitung não era apenas um grande jornal; era, na verdade, um centro de pesquisa. O jornal tinha quarenta e cinco editores titulares. Não se incluíam nessa conta os numerosos subeditores e assistentes que trabalhavam na sala de redação. O trabalho editorial era essencialmente trabalho de especialistas. Cada região do mundo e cada questão política ou econômica eram confiadas a um editor que era um especialista excepcional em seu campo. E isso seguia a antiga tradição segundo a qual os artigos e as notícias do Frankfurter Zeitung não seriam apenas um reflexo momentâneo dos acontecimentos em curso, mas uma espécie de testemunho documentado em que políticos e historiadores poderiam confiar. Todos sabiam que, no Ministério das Relações Exteriores em Berlim, os editoriais e comentários políticos do Frankfurter Zeitung eram arquivados com o mesmo respeito dedicado à correspondência dos vários governos estrangeiros. (Na verdade, Bismarck disse sobre o então chefe do escritório berlinense desse jornal: “O Dr. Stein é o embaixador do Frankfurter Zeitung na corte de Berlim”.) Tornar-me membro de uma instituição desse tipo era, para um jovem da minha idade, motivo de verdadeira honra e alegria. Sentia essa alegria ainda mais intensamente porque os editores haviam prestado profunda atenção às opiniões que eu apresentara, com hesitação, sobre o Oriente Médio, e com frequência elas haviam sido objeto das reuniões editoriais diárias. Meu sucesso definitivo, porém, chegou no dia em que me disseram que escrevesse um editorial sobre os problemas recentes do Oriente Médio.

O trabalho que me foi confiado no Frankfurter Zeitung deu um enorme estímulo ao curso do meu pensamento consciente. Com uma clareza muito maior do que aquela que meu pensamento sempre tivera antes, comecei a confrontar minhas experiências no Oriente com o Ocidente, do qual eu voltara a fazer parte. Assim como, alguns meses antes, eu havia descoberto uma ligação entre a sensação de segurança no coração dos árabes e a religião que praticavam, agora comecei a pensar que a falta de coesão espiritual da Europa e a anarquia existente em sua moral talvez fossem causadas pelo rompimento de sua relação com a fé religiosa — a fé que um dia havia moldado a civilização ocidental.

Ali encontrei uma sociedade que, depois de abandonar Allah, estava em busca de um novo caminho espiritual; mas pouquíssimas pessoas no Ocidente aparentemente haviam compreendido qual era o objetivo dessa sociedade. Consciente ou inconscientemente, a maioria dos ocidentais parece ter pensado, em maior ou menor grau, algo mais ou menos assim: “Já que nossa razão, nossas experiências científicas e nossos cálculos nada nos dizem com certeza sobre a origem da vida humana nem sobre seu destino após a morte física, devemos empregar todas as nossas forças no desenvolvimento de nossas possibilidades materiais e intelectuais; não devemos deixar-nos aprisionar por uma ética transcendente e por concepções tidas como evidentes, que não levam em conta as provas científicas”. Assim, embora a sociedade ocidental não tenha negado abertamente Allah, seu sistema de vida intelectual já não lhe reservava lugar algum.

Vários anos antes, quando me desiludi com a religião de meus antepassados, cheguei a refletir um pouco sobre o cristianismo. A meu ver, a concepção cristã de Allah era muito, muito mais nobre do que a concepção do Antigo Testamento, porque essa religião não confinava a ideia de Allah a um único grupo humano; ao contrário, dera origem à ideia de que Ele é o Pai de toda a humanidade. Contudo, na fé cristã existe um elemento que constitui um desvio da visão abrangente dessa religião; esse elemento é a distinção, na perspectiva cristã, entre corpo e alma, a separação e a diferença entre o mundo da fé e o mundo material real.

Como o cristianismo se separou desde o início das tendências que desejam reconhecer a vida e o esforço mundano como realidades, pareceu-me que há muito ele havia perdido a força e a capacidade de acrescentar um estímulo moral à civilização ocidental. Os seguidores do cristianismo acostumaram-se à ideia de que não é função da religião interferir na vida prática dos seres humanos. Contentam-se em considerar a fé religiosa uma prática tranquilizadora, cujo propósito não seria outro senão cultivar, individualmente, entre homens e mulheres, uma vaga noção de moralidade pessoal, sobretudo no que diz respeito à moral sexual. Com a ajuda dessa visão muito antiga da Igreja, deixaram todo o campo das atividades sociais e econômicas fora de sua esfera. Essa visão da Igreja é a divisão: “Dai a Allah o que pertence a Allah e dai a César o que pertence a César”. Ao deixar assim o campo das atividades sociais e econômicas fora de sua esfera, a política cristã e o comércio desenvolveram-se por um caminho inteiramente diferente daquele imaginado por Jesus. Por não conseguir indicar a seus seguidores um caminho prático nos assuntos mundanos, a religião seguida pelo Ocidente, a meu ver, fracassou diante do verdadeiro propósito de Jesus e, pode-se dizer, diante daquilo que constitui o objetivo fundamental de toda religião. Qual é esse propósito ou objetivo? Não apenas mostrar como o ser humano deve sentir, mas também como deve viver corretamente: esse é o objetivo. Como resultado da sensação inata de que sua própria religião, de uma forma ou de outra, o decepcionara e fracassara com ele, o homem ocidental perdeu, ao longo dos últimos séculos, toda espécie de fé no cristianismo. Ao perder essa fé, perdeu também a convicção de que o universo é a expressão de uma única mente planejadora e, por isso, um todo harmonioso. E justamente por ter perdido essa convicção, vive agora em um vazio espiritual e moral. No afastamento gradual do Ocidente em relação ao cristianismo, vi uma revolta vigorosa contra o ódio de São Paulo pela vida terrena, ódio que, desde o início e de modo completo, havia tornado incompreensível o ensinamento de Jesus. Como pode, então, a sociedade ocidental ainda reivindicar ser uma sociedade cristã? E, sem uma fé verdadeira, como poderia esperar superar a atual anarquia moral?

Um mundo virado de cabeça para baixo, arrancado de sua posição original e lançado à desordem: assim era o nosso mundo ocidental. Derramamento de sangue em proporções sem precedentes, devastação, conflitos violentos, a ruptura de muitos costumes e instituições sociais, o choque entre ideais, uma luta amarga e total em favor de novos modos de vida — esses eram os sinais do nosso tempo. Das brumas e da devastação de uma guerra mundial, passando por incontáveis guerras menores e por muitas revoluções e contrarrevoluções, pela catástrofe econômica que ultrapassava tudo quanto havia sido registrado até então — em suma, de todos esses acontecimentos terríveis erguia-se uma verdade: a dependência exclusiva do Ocidente contemporâneo do progresso material e técnico era absolutamente incapaz de eliminar a anarquia e a desordem de nossos dias e estabelecer unidade e disciplina. “O homem não vive somente de pão”: minha convicção instintiva e juvenil consolidou-se na convicção intelectual de que o culto que o homem hoje presta ao “progresso” não passa de uma réplica débil e indistinta da antiga fé nos valores absolutos — e que essa falsa crença foi inventada por aqueles que perderam toda a capacidade interior de acreditar em valores absolutos e incondicionais, e que agora se enganam a si mesmos acreditando que, de algum modo, simplesmente impelido pela evolução, o homem conseguirá superar os obstáculos e impedimentos do presente. Eu não conseguia compreender como qualquer dos novos sistemas econômicos derivados dessa crença fantasiosa poderia ser mais que um remédio temporário para a miséria da sociedade ocidental. Esses sistemas, no máximo, poderiam tratar este ou aquele sintoma, mas nunca a causa fundamental da doença.

……   ……      …….   ……..

Quando trabalhava na redação do Frankfurter Zeitung, eu ia frequentemente a Berlim, onde estavam quase todos os meus amigos, e foi durante uma dessas visitas a Berlim que conheci a mulher que mais tarde se tornaria minha esposa.

Desde o momento em que fui apresentado a Elsa, no meio da multidão animada do Romanisches Café, senti-me profundamente atraído por ela. Essa atração não se devia apenas à delicada beleza de seu rosto, mas também a seu semblante estreito, de ossatura bem definida, com dois profundos olhos azuis e uma boca delicada e sensível, que exprimia senso de humor e bondade — e, mais ainda, à qualidade intuitiva e instintiva do coração com que ela acolhia as pessoas e as coisas. Elsa era pintora. Mais tarde descobri que, embora suas obras não fossem de alto nível, todas traziam a marca daquela profundidade suave, luminosa e intensa que se manifestava em tudo o que ela dizia e em seus gestos. Embora fosse quinze anos mais velha que eu — tinha, portanto, mais de trinta e cinco anos naquela época —, seu rosto liso e o corpo esguio e flexível faziam-na parecer muito mais jovem. De todas as pessoas de raça nórdica pura que conheci na vida, Elsa era provavelmente a mais bela representante. Tinha toda a limpeza e a nitidez características do rosto nórdico; mas estava inteiramente livre da rigidez e da insensibilidade que tantas vezes se encontram entre os membros dessa mesma raça. Elsa nascera numa daquelas antigas famílias de Holstein que poderiam ser descritas como o equivalente norte-alemão da “classe dos proprietários rurais” inglesa. Contudo, a liberdade sem preconceitos presente em seus modos e em sua conduta, em lugar da objetividade própria de uma proprietária rural, dera-lhe um calor inteiramente não nórdico e uma sagacidade natural. Elsa era viúva e tinha um filho de seis anos, a quem amava profundamente.

Certamente, desde o início, a atração era recíproca, pois depois do primeiro encontro passamos a nos ver com frequência. As impressões recentes do mundo árabe ocupavam minha mente de tal modo que eu naturalmente continuava a falar delas a Elsa, e ela demonstrava, em relação às fortes, embora ainda desconexas, sensações e ideias que essas impressões haviam despertado em mim, uma compreensão e uma simpatia extraordinárias, diferentes das da maioria dos meus amigos. Eu queria tanto comunicar essas coisas a Elsa em toda a sua profundidade que, ao escrever a introdução do livro que estava preparando sobre minha viagem ao Oriente Próximo, tive a sensação de estar me dirigindo à própria Elsa:

Quando um europeu viaja por um país da Europa que nunca havia visitado antes, ele continua a mover-se, embora num ambiente um pouco mais amplo, dentro de seu próprio mundo, e pode facilmente distinguir entre aquilo com que o hábito o familiarizou e o novo que encontra no caminho; pois, sejamos alemães ou ingleses, e viajemos pela França, pela Itália ou pela Hungria, a mente e a consciência da Europa nos unem a todos num vínculo comum. Como vivemos dentro de um círculo definido de referências, somos capazes, por meio delas, de compreender uns aos outros e de nos tornar compreensíveis aos demais, como se tivéssemos uma linguagem comum. Chamamos a isso convergência cultural. A existência de tal coisa é certamente uma vantagem, um benefício. Mas, como todas as vantagens que nascem do hábito, ela também pode, às vezes, tornar-se uma desvantagem; pois de tempos em tempos percebemos que estamos como que envolvidos em algodão pela consciência universal. Percebemos que esse hábito nos adormeceu e trouxe preguiça ao coração; fez-nos esquecer o ímpeto de aventurar-nos pelos caminhos perigosos de nossa época anterior, mais criativa, e o esforço de alcançar a verdade transcendente. Em épocas passadas, talvez essas coisas fossem chamadas de possibilidades transcendentes, e todos aqueles — descobridores, exploradores ou artistas — que partiam em sua busca estavam sempre investigando as fontes mais profundas de suas próprias vidas. Nós, que chegamos mais tarde, também estamos procurando nossas próprias vidas; mas, antes que elas se desenvolvam espontaneamente, abrindo pétala após pétala, já estamos obcecados pelo desejo de encontrá-las, e pressentimos vagamente o pecado oculto por trás desse tipo de esforço. Muitos europeus começam hoje a perceber: o terrível perigo de evitar o perigo!

Neste livro descrevo minha viagem por uma região tão diferente da Europa que não é fácil construir uma ponte entre as duas, e pode-se dizer que essa diferença, em certo sentido, envolve um perigo. Estamos deixando para trás a segurança de um ambiente tão uniforme e homogêneo, onde quase nada é estranho e nada é surpreendente, e estamos entrando na maravilhosa e imprevisível diversidade de outro mundo.

Não nos enganemos: nesse mundo diferente, muitas imagens magníficas cruzarão o nosso caminho, e talvez possamos compreender o significado desta ou daquela; porém, assim como é possível compreender conscientemente o significado do quadro inteiro num país ocidental, isso jamais nos será possível neste mundo distinto. O que nos separa das pessoas desse mundo diferente não é apenas o espaço, mas algo além do espaço. Como pode haver intercâmbio de ideias com elas? Saber falar a língua delas não basta. Se alguém quiser compreender como elas percebem a própria vida, terá de entrar no ambiente delas completamente livre de preconceitos e começar a viver em meio a elas e às suas relações e circunstâncias. Isso é possível? E seria desejável? Talvez substituir os nossos velhos e familiares hábitos de pensamento por hábitos de pensamento estrangeiros e desconhecidos acabasse sendo prejudicial, como uma espécie de comércio.

Mas será que estamos realmente fora daquele mundo? Não penso assim. A principal razão pela qual nos sentimos excluídos é que o nosso modo de pensar ocidental se apoia num erro que é próprio de nós. Estamos acostumados a menosprezar valores criativos estrangeiros e desconhecidos e somos sempre tentados a feri-los, assimilá-los segundo as nossas próprias condições e aceitá-los no nosso próprio ambiente intelectual. Contudo, parece-me que, nesta nossa época de ansiedade, já não há lugar para esse tipo de esforço arrogante. Muitos de nós começamos a perceber que a distância cultural pode, e deve, ser vencida não pela violência intelectual, mas por outros meios. Talvez possa ser vencida justamente pela entrega dos nossos sentidos a ela. Como esse mundo desconhecido é tão completamente diferente de tudo o que você conheceu em sua pátria, como nele há tantas coisas de forma e som extraordinariamente novas e estranhas, se você estiver atento, às vezes ele fará passar sobre você o toque de uma lembrança fugaz de todas aquelas coisas que você conheceu num passado remoto e que se perderam, esquecidas, num passado ainda mais distante — aquelas realidades intangíveis da sua própria vida. E quando o sopro dessa memória chegar até você, por sobre o abismo que separa o seu mundo daquele mundo diferente, desconhecido, você próprio se perguntará: talvez seja aqui — e somente aqui — que reside o sentido de todas as viagens, de toda a errância? Qual é esse sentido? Não, é tornar-se consciente da estranheza anônima do mundo ao seu redor e, desse modo, despertar novamente as realidades pessoais que você havia esquecido…

E, como Elsa havia compreendido intuitivamente o sentido daquilo que eu tentara expressar tão inutilmente com essas palavras hesitantes, como um homem tateando o caminho na escuridão, senti intensamente que Elsa — e somente Elsa — podia compreender o que eu perseguia e que somente Elsa poderia ajudar-me nessa busca.

Dois

Terminou mais um dia da longa viagem sem objetivo. Silêncio dentro de mim, e silêncio na noite ao meu redor. O vento sopra lentamente sobre as dunas, acariciando-as suavemente e formando, na areia das encostas, ondulações como lâminas recurvas. Dentro do círculo estreito iluminado pelo fogo que foi aceso, vejo a figura de Zaid, ocupado com seus recipientes e panelas; perto dele estão os sacos da nossa vida, exatamente onde os havíamos atirado ao montar a tenda para a noite — e também as nossas selas de altos arções de madeira. Um pouco adiante, os corpos dos dois camelos, caídos de joelhos, já se dissolvem na escuridão; estão cansados da longa viagem, com os pescoços visíveis na areia, mas tão próximos quanto as batidas do seu próprio coração, no deserto vazio.

Há muitas paisagens mais belas na Terra, mas nenhuma, penso eu, é capaz de moldar a alma humana com um poder tão absoluto. O deserto, com a sua dureza e as suas extensões quase desabitadas e sem vegetação, elimina todos os artifícios do nosso desejo de compreender o sentido da vida — elimina as muitas armadilhas de engano com que uma natureza mais benevolente pode enredar o ser humano e obrigá-lo a projetar a própria imaginação no mundo ao seu redor; o deserto é nu e puro — não sabe fazer concessões. O deserto expulsa do coração humano todas as belas fantasias que podem ser usadas como máscaras de um pensamento caprichoso e, assim, liberta-o para se entregar a um Absoluto que não tem forma: mais distante que todas as distâncias, mas mais próximo que tudo o que é próximo.

Desde que o ser humano aprendeu a pensar, o deserto tem sido o berço de toda a sua fé num único Deus, Allah. É verdade que, em ambientes mais suaves e sob climas mais favoráveis, o ser humano também encontrou repetidamente indícios da existência e da unicidade d’Ele — como na concepção dos antigos gregos da “Moirá”: uma força inexorável que é a fonte do poder de todos os deuses do Olimpo e está além do seu alcance. Mas concepções desse tipo nunca foram mais que o resultado de um sentimento nebuloso, de uma percepção conjectural; não eram fruto de uma sabedoria segura, até que esse conhecimento se revelou aos habitantes do deserto, com uma certeza ofuscante, no próprio coração do deserto. Foi de um espinheiro em chamas no deserto de Midiã que a palavra de Allah ressoou para Moisés; no ermo do deserto judeu, Jesus recebeu a mensagem do Reino de Allah; e foi na caverna de Hira, nas montanhas desérticas próximas de Meca, que a primeira revelação desceu sobre Muhammad, o Profeta da Arábia (s.).

Ela lhe chegou naquele estreito desfiladeiro seco entre montanhas rochosas, naquele vale nu, queimado pelo sol do deserto. Qual era essa mensagem? Não: era o reconhecimento total da vida que nasce da união do corpo e da alma; e o resultado dessa mensagem foi dar forma e objetivo definidos a um povo sem forma e sem religião, composto de diferentes tribos, e, por seu intermédio, em poucas décadas, espalhar-se como uma chama e uma promessa até o oceano Atlântico, a oeste, e a muralha da China, a leste. Seu destino era permanecer, mais de mil e trezentos anos depois, tendo sobrevivido a toda espécie de decadência política e até mesmo à civilização grandiosa que essa mensagem havia criado, mantendo-se até hoje como uma grande força espiritual — essa mensagem que chegou ao Profeta da Arábia…

….      …..        …..      …..

Meu tempo passa entre o sono e a vigília. Penso naqueles dias que se foram, mas ainda não estão mortos. Adormeço e sonho; depois meu sono se desfaz e torno a me sentar. Os sonhos e as lembranças da minha vigília, entre luz e sombra, seguem juntos, com suavidade.

A noite já se aproxima da alvorada. O fogo se apagou completamente. Zaid dorme envolto em seu cobertor. Nossos dois camelos estão deitados, imóveis, como dois montes de terra. As estrelas ainda são visíveis no céu, e talvez se possa pensar que ainda há tempo para dormir. Mas, sob a parte baixa do céu oriental, surge, rasgando a escuridão, um raio de luz pálida e sem brilho, sobre uma faixa ainda mais escura que se espalha pelo horizonte: os dois arautos gêmeos da alvorada, na hora da oração do fajr.

Acima de mim, vejo obliquamente a estrela da manhã, que os árabes chamam de Az-Zohra, a estrela resplandecente. Se você lhes perguntar sobre ela, dirão que outrora essa estrela brilhante foi uma mulher…

Certa vez, havia dois anjos chamados Harut e Marut. Embora a humildade e a modéstia sejam próprias dos anjos, esses dois esqueceram-se disso e se ensoberbeceram, julgando que sua pureza era indestrutível e invencível. Nós somos feitos de luz — estamos acima de tudo isso, desses homens fracos, gerados do sêmen masculino! Mas esqueceram que eram puros apenas porque não possuíam desejos e jamais haviam sido chamados a reprimi-los. Allah se desagradou de sua arrogância e lhes disse: «Ide à Terra e enfrentai ali a vossa prova». Os anjos arrogantes desceram à Terra e passaram a circular entre os filhos dos homens, em corpos humanos; e já na primeira noite encontraram uma mulher cuja beleza era tão extraordinária que as pessoas a chamavam de Az-Zohra… a mulher resplandecente. Quando os dois anjos olharam para Zohra com olhos e sentimentos humanos, naquele momento, suas mentes se confundiram; e, como se fossem verdadeiros filhos dos homens, nasceu neles um desejo irresistível de possuir Zohra. Ambos disseram a Zohra: «Consente em ficar comigo». Mas Zohra respondeu: «Pertenço a outro homem. Se me queres, terás primeiro de me libertar das mãos dele». Então Harut e Marut mataram aquele homem e, com as mãos manchadas pelo sangue que haviam derramado injustamente, consumaram seu desejo ardente com aquela mulher. Mas, no instante em que o desejo deixou de existir, os dois anjos, que pouco antes haviam recobrado a consciência, perceberam que, já na primeira noite na Terra, tinham cometido dois pecados: assassinato e adultério — e que sua arrogância não tinha sentido algum! Então Allah disse: «Escolhei entre o castigo terreno e o castigo do além». Dominados por intenso remorso, os dois anjos escolheram o castigo deste mundo. Allah ordenou então que fossem suspensos, acorrentados, entre o céu e a Terra, e assim permanecessem até o Dia da Ressurreição, como advertência aos anjos e aos homens de que toda virtude se destrói por si mesma quando nela não há humildade e modéstia. Mas, como nenhum olho humano é capaz de ver os anjos, Allah transformou Az-Zohra numa estrela e a suspendeu no céu, para que os homens pudessem vê-la sempre e, recordando sua história, se lembrassem da desventura de Harut e Marut. O esboço desta narrativa parece muito mais antigo que o Islã. Ela se originou, talvez, de alguma das teias de mitos que os antigos semitas teceram em torno de sua deusa Ishtar — que mais tarde se tornou a deusa grega Afrodite. Esse planeta que conhecemos como «Vênus» foi identificado com essas duas deusas. Mas, na forma como ouvi essa história, a narrativa de Harut e Marut é uma criação própria da mente muçulmana. Ela exemplifica a ideia de que a pureza desligada da matéria não possui significado moral algum enquanto depender da ausência de desejos. Pois a necessidade de escolher repetidamente entre o bem e o mal não será justamente a base de toda a moralidade?

O pobre Harut e Marut não sabiam disso. Como anjos, jamais haviam enfrentado uma tentação e, por isso, julgavam-se puros e superiores aos homens em matéria de moralidade. Não compreenderam que negar a legitimidade das necessidades físicas implicaria, indiretamente, negar todos os valores morais nas ações humanas. Pois é somente a presença dessas exigências, tentações e conflitos… «a possibilidade de escolher que faz do homem — e somente do homem, de nenhuma outra criatura — um ser moral, dotado de uma alma».

É com base nessa ideia que, entre todas as religiões superiores, somente o Islã considera a alma um aspecto da personalidade humana, e não algo neutro, existente por direito próprio. Consequentemente, na visão muçulmana, o desenvolvimento da alma humana está intimamente ligado a todos os aspectos de sua natureza. Os desejos e apetites físicos são parte inseparável dessa natureza. Não são fruto de algum «pecado original», mas forças reais concedidas por Allah, que devem ser reconhecidas e utilizadas com inteligência. É desnecessário dizer que a ideia do pecado original é inteiramente estranha à ética islâmica; portanto, o problema do homem não é como reprimir as necessidades do corpo, mas como harmonizá-las com as necessidades de sua alma, de tal modo que a vida se torne plena e virtuosa.

A raiz dessa aceitação da vida, quase não dualista, pode ser encontrada na visão islâmica de que a fitrah original do homem é essencialmente boa. Em contraste com a concepção cristã de que o homem nasce pecador, ou com o ensinamento hindu de que ele nasce inferior e impuro, devendo alcançar a salvação após tatear penosa e tragicamente seu caminho através de muitas vidas, o Alcorão diz: «Criamos o homem na mais bela das formas, em estado de pureza — pureza que só pode ser destruída por uma conduta errônea posterior — e depois o reduzimos ao mais baixo dos baixos, exceto aqueles que creem e praticam boas obras».

Três

À nossa frente estendem-se os palmeirais de Ha’il.

Paramos junto a uma velha torre de vigia em ruínas, para nos prepararmos para entrar na cidade. Pois o antigo costume árabe, frequentemente associado ao bom gosto pessoal e ao senso de beleza, exige que, ao entrar numa cidade, o viajante vista suas melhores roupas e entre nela viçoso e limpo, como se tivesse acabado de montar seu camelo. Assim, gastamos a água que nos restava para lavar o rosto e as mãos, aparámos as barbas descuidadas e tirámos de sob as selas nossas mais alvas túnicas. Com escovas, sacudimos das nossas ‘abayas’ e das borlas coloridas pendentes das selas a areia do deserto acumulada durante semanas, e adornámos nossos camelos com seus melhores arreios.

E agora estamos prontos para nos apresentar na cidade de Ha’il. Esta cidade é muito mais árabe em seu caráter do que, por exemplo, Bagdá ou Medina. Não há nela nenhum elemento de país ou povo não árabe: é pura e genuína como uma tigela de leite recém-ordenhado. No mercado, não se vê nenhuma roupa estrangeira; veem-se apenas as largas ‘abayas’ árabes, ‘kufiyas’ e ‘igals’. Suas ruas são muito mais limpas que as de qualquer outra cidade do Oriente Médio — até mesmo que as de qualquer cidade do Najd, famoso por sua limpeza não oriental —, provavelmente porque, sendo seu povo livre desde tempos imemoriais, conserva muito mais dignidade própria que qualquer outro lugar do Oriente. As casas são construídas com blocos de barro compactado e endurecido, assentados uns sobre os outros; estão muito bem conservadas. A única exceção são as muralhas arruinadas da cidade, que ainda testemunham as guerras passadas entre as famílias de Ibn Saud e Ibn Rashid, bem como a conquista da cidade pelo próprio Ibn Saud em 1921.

Os martelos dos latoeiros, golpe após golpe, fabricam toda espécie de vasilhas; as serras dos carpinteiros guincham enquanto cravam os dentes na madeira; os sapateiros pregam solas nas sandálias. Camelos avançam abrindo caminho pela multidão; os que carregam nas costas fardos de lenha e os demais, com odres de couro cheios de manteiga, trazidos pelos beduínos para serem vendidos, tornam o ar pesado com seus bramidos. Mãos experientes apalpam e examinam as brilhantes bolsas de sela trazidas de Al-Ahsa. Os leiloeiros percorrem o mercado de uma ponta à outra, gritando e anunciando seus produtos, indo e voltando nas datas determinadas. Leilões desse tipo são uma característica tradicional de toda cidade árabe. Aqui e ali, veem-se falcões de caça saltitando sobre seus poleiros de madeira, com as pernas presas por tiras finas de couro. Cães de caça saluki, cor de mel, jazem ao sol, estendendo preguiçosamente seus belos membros. Beduínos magros, vestidos com ‘abayas’ gastas, criados em trajes magníficos e os guardas do emir — quase todos homens das províncias do sul — misturam-se aos mercadores de Bagdá, Basra e Kuwait e aos habitantes de Ha’il. Esses habitantes locais, isto é, os homens — pois das mulheres pouco se pode ver além de suas ‘abayas’ negras, que as cobrem dos pés à cabeça — pertencem a uma das mais belas tribos do mundo. Tudo o que a raça árabe alcançou até hoje em beleza e harmonia de feições e porte parece ter-se encarnado nesta tribo dos Shammar, a respeito da qual cantou um poeta pré-islâmico: ‘Nas terras altas vivem homens ardentes como o aço e mulheres castas e orgulhosas.’

Quando chegamos diante da fortaleza do ‘emir’, onde decidíramos permanecer pelos dois dias seguintes, vimos que nossos anfitriões haviam instalado uma corte ao ar livre, diante do portão da fortaleza. O emir Ibn Musa’ad pertence ao ramo Jiluwi da família de Ibn Saud e é cunhado do rei. É um dos governadores mais poderosos do rei. É chamado de ‘Emir do Norte’ porque não governa apenas a província de Jabal Shammar, mas toda a região do Najd setentrional, até as fronteiras da Síria e do Iraque — uma área tão vasta quanto a França —, sobre toda a qual exerce autoridade.

O ‘emir’, meu velho amigo, e um ‘shaykh’ beduíno vindo das estepes estão sentados num longo e estreito banco de tijolos construído ao longo da muralha da fortaleza. Em longa fila, aos pés deles, estão sentados os ‘rajazil’ de Ibn Musa’ad — guardas armados com rifles e espadas em bainhas de prata —, que jamais o deixam durante o dia, menos para protegê-lo que por respeito à sua dignidade; depois deles vêm os falcoeiros, com as aves pousadas nos punhos enluvados; e, em seguida, os servos de categoria inferior, os beduínos, um grupo de acompanhantes, até os cavalariços dos estábulos menores e maiores — todos considerando-se iguais como seres humanos, apesar da diferença entre suas posições. E neste país, onde nunca se dirige a alguém como ‘meu senhor’, exceto ao dirigir-se a Allah na oração, como poderia ser de outro modo? Diante deles, sentados em grande semicírculo, estão beduínos e citadinos, apresentando ao ‘emir’ suas queixas e disputas para que ele as julgue.

Deixamos nossos camelos sentados fora desse círculo. Deixando-os aos cuidados dos dois acompanhantes que correram em nossa direção, avançamos até o ‘emir’. Ele se levantou, e os que estavam sentados ao seu lado no banco e no chão à sua frente também se levantaram com ele. Estendeu a mão na minha direção e disse: ‘Ahlan wa sahlan’ — ‘Seja bem-vindo; sente-se, que Allah prolongue seus dias’.

Beijo a ponta do nariz e a testa do Amir, e ele beija ambas as minhas faces; depois puxa-me para me sentar no banco, ao seu lado. Zaid ocupa o seu lugar entre os «rajazil».

Ibn Musa’d apresentou-me aos seus convidados. Alguns deles eram-me completamente desconhecidos, enquanto outros eu conhecia havia vários anos. Entre eles estava Gadbān ibn Rimāl, o mais elevado «shaykh» dos Shammar de Sijara. A este alegre guerreiro idoso chamo sempre tio. Ao ver o seu aspecto quase completamente arruinado, ninguém poderia imaginar que ele é o chefe mais temível da região setentrional; cobriu a sua jovem esposa com tantos adornos de ouro, pedras preciosas e pérolas que, segundo se acredita em geral, quando essa jovem deseja sair da sua enorme tenda, armada sobre dezasseis estacas, precisa de duas escravas para suportarem o peso que leva sobre o corpo.

Os seus dois olhos cintilaram quando me abraçou e me sussurrou ao ouvido:

—Ainda não arranjaste uma nova esposa?

Em resposta, limito-me a sorrir levemente e a encolher os ombros.

O Amir Ibn Musa’d deve ter ouvido essa brincadeira, pois riu alto e disse:

—Para o viajante cansado, o que é preciso não é uma esposa, mas café. Depois, chama:

«Qahwa»

—“Qahwa”— repete o servo mais próximo do Emir, e o servo que está no fim da fila leva o som aos lábios e diz: “Qahwa”. Assim prossegue até que a ordem formal chegue ao portão da fortaleza e seja novamente ecoada lá dentro. Num instante, aparece um servo trazendo na mão esquerda a tradicional cafeteira de latão e, na direita, várias pequenas xícaras; primeiro serve o café ao Emir, pela segunda vez a mim e, depois, aos demais convidados, segundo a sua posição. Uma ou duas vezes as xícaras são novamente enchidas; quando algum convidado indica que não deseja mais, a xícara é enchida outra vez e servida ao convidado seguinte.

É evidente que o Emir está ansioso por saber o resultado da minha viagem à fronteira do Iraque. Mas sua curiosidade sobre o que me aconteceu no caminho manifesta-se apenas nessas pequenas perguntas; ele deixa a investigação mais completa para quando estivermos a sós, nós dois. Depois, retomou a audiência do julgamento que havia sido interrompida pela nossa presença.

No Ocidente, um tribunal tão simples e livre de complicações seria inconcebível; naturalmente, como governante e juiz, todas as honras cabem ao Emir. Mas não há qualquer sinal de servilismo no respeito que os beduínos lhe demonstram. Tanto o autor quanto o réu permanecem orgulhosamente conscientes de serem livres como seres humanos. Não há hesitação nem constrangimento em seus gestos; suas vozes são muitas vezes altas e firmes, e cada um fala com o Emir como se falasse com um irmão mais velho — dirigindo-se a ele, mesmo no caso do próprio rei, segundo o costume beduíno, pelo primeiro nome, e não pelo título. Não há o menor indício de ferocidade na nobreza de Ibn Musa’ad. Seu belo rosto, adornado por uma curta barba negra, e seu corpo de estatura média, um tanto atarracado, expressam aquele autocontrole inato e aquele simples senso de dignidade que, na Arábia, tantas vezes coexistem com um poder avassalador. Ibn Musa’ad é muito sério e, em frases breves e precisas, resolve sem demora os casos simples; os casos um pouco mais complexos, que exigem erudição jurídica, envia ao qadi da região.

Não é fácil exercer a autoridade suprema numa grande região beduína. Para chegar à decisão correta em meio à complexidade apaixonada das queixas dos beduínos, é necessário ter um conhecimento profundo de todas as tribos beduínas, das relações entre as diversas famílias, das principais personalidades, das pastagens dos clãs, da história passada e do estado de espírito presente. Nesse caso, a astúcia do coração é tão necessária quanto a agudeza da inteligência, e ambas devem agir juntas, com precisão minuciosa, para evitar erros. Pois os beduínos jamais esquecem um favor que lhes tenha sido feito, assim como jamais esquecem um veredicto que considerem injusto. Por outro lado, aqueles contra quem foi proferida uma sentença justa quase sempre a aceitam com um sorriso. Talvez Ibn Musa’ad seja superior a todos os emires de Ibn Saud no cumprimento de todas essas condições. Ele é tão recolhido, tão silencioso e tão livre de conflitos interiores que, quando seu discernimento chega ao limite extremo, justamente nesse momento seu sentimento inato quase sempre lhe indica o caminho certo. Ele é um nadador no rio da vida. Deixa-se levar pela corrente e adapta-se a ela; controla a corrente.

Neste momento, dois beduínos vestidos com roupas gastas apresentam o motivo de sua briga, com palavras e gestos exaltados. Em geral, é difícil estabelecer qualquer coisa a respeito dos beduínos; há sempre neles algo imprevisível — a possibilidade de uma súbita excitação espontânea, que não sabe fazer concessões —, como se o paraíso e o inferno estivessem sempre próximos um do outro. Mas agora vejo como Ibn Musa’ad os separa em meio à sua ira ardente e os acalma com suas palavras impassíveis. Alguns poderiam pensar que, quando um deles defende seu direito, ele ordenaria ao outro que se calasse; mas não, não fez isso. Ao contrário, permitiu que ambos falassem ao mesmo tempo e se superassem mutuamente em gritos; apenas de vez em quando se coloca entre eles, com uma palavra aqui, uma pergunta ali, e no instante seguinte mergulha no caloroso debate; parece ceder e recuar, apenas para, pouco depois, surgir entre eles com outro comentário adequado. Desse modo, o juiz ajusta sua própria mente à realidade que os dois homens irados interpretam de maneiras completamente opostas — uma cena fascinante. Esse esforço de adaptação não é tanto uma busca da verdade no sentido jurídico, mas antes a lenta revelação de uma verdade objetiva oculta. O Emir avança intermitentemente rumo a esse objetivo e extrai a verdade como se por meio de um fio delicado, devagar, com a máxima paciência, quase sem que autor e réu percebam… até que eles param de repente, olham um para o outro com espanto e perplexidade e compreendem: o veredicto foi proferido, e é tão manifestamente justo que não requer explicação alguma… Então um dos dois se levanta hesitante, sua abaya pendendo longa, segura a mão de seu antigo rival e puxa-a vigorosamente, quase em tom amistoso: “Vamos”. E ambos saem da audiência, ainda um tanto aturdidos e, ao mesmo tempo, libertos da preocupação, desejando em voz baixa paz ao Emir.

A cena é magnífica — parece uma verdadeira obra de arte: um exemplo daquela cooperação fecunda entre a ciência do direito e a justiça que, nos tribunais e parlamentos do Ocidente, ainda se encontra na infância; mas aqui ela floresce em sua plenitude, na praça poeirenta do mercado diante da fortaleza de um Emir árabe!

Ibn Musa’ad encosta-se preguiçosamente à parede de barro e recebe o caso seguinte para julgamento. Seu rosto firme e instruído, com dois olhos profundos cujo olhar é vivaz e penetrante, é o rosto de um verdadeiro líder dos homens, o símbolo supremo das maiores qualidades de seu povo. Qual é essa maior qualidade? O conhecimento intuitivo do coração.

Alguns outros presentes também expressam publicamente esse tipo de admiração maravilhada. Um beduíno da tribo Harb, que aparentemente é guarda-costas do Emir, estava sentado no chão bem diante de mim; estendeu o pescoço em minha direção e, com um sorriso que iluminava o rosto, disse:

‘Não é ele como aquele sultão de quem Mutanabbi diz:

“Encontrei-me com ele quando sua espada ofuscante (aos olhos) estava embainhada,

vi-o quando aquela espada estava manchada de sangue,

e sempre o encontrei

na sua forma mais excelsa entre os seres humanos,

mas, mesmo assim, o que havia de melhor nele era seu nobre coração…?”

Ouvir um beduíno analfabeto citar a poesia de um dos maiores poetas árabes, que viveu no século X, não me pareceu mais deslocado do que ouvir um camponês da Berbéria recitar Goethe, ou ver um marinheiro inglês declamar poemas de William Blake ou Shelley. Pois, apesar da maior difusão da arte entre as massas do Ocidente, o europeu ou americano médio não participa realmente dos maiores tesouros da cultura ocidental; em contrapartida, uma grande parte dos muçulmanos iletrados, e às vezes até analfabetos, participa conscientemente todos os dias da herança cultural de seu passado. Assim como este beduíno foi capaz de recordar um verso apropriado de Mutanabbi para ilustrar uma situação que ele próprio havia presenciado, também muitos iranianos vestidos em trapos, que nunca frequentaram a escola — talvez um carregador de água, um carregador do mercado ou um soldado de um posto fronteiriço — trazem na memória inúmeros poemas de Hafiz, Jami ou Ferdowsi e os entrelaçam na trama de sua conversa cotidiana. Embora tenham perdido em grande medida a criatividade que tornou tão grandiosa sua herança cultural, esses povos muçulmanos ainda mantêm uma relação direta e viva com os cumes dessa herança, com seus maiores tesouros.

……. ………       ………… …………

Ainda me lembro do dia em que fiz esta descoberta no mercado de Damasco. Eu tinha nas mãos um recipiente, uma grande tigela de barro cozido. Sua forma era de uma solenidade estranha: grande e arredondada, como uma esfera achatada de um lado, cujas proporções eram quase exatamente comparáveis às proporções musicais; da parte superior arredondada do recipiente, cuja maciez era tão suave quanto a de uma face feminina, dois cabos se curvavam perfeitamente para fora, algo de que uma ânfora grega poderia orgulhar-se. Eu podia ver as marcas dos dedos dele na argila; ao redor da faixa retorcida para dentro do recipiente, ele havia traçado com golpes rápidos e seguros do cinzel um desenho de folhagens tão delicado que parecia sugerir um jardim de rosas em flor. O oleiro trabalhava depressa, quase com indiferença, enquanto criava aquela maravilhosa simplicidade que evoca toda a glória da cerâmica seljúcida e iraniana, tão apreciada e celebrada nos museus da Europa: aquele oleiro não tinha a intenção de criar uma obra de arte. O que ele fazia era uma panela de cozinha, nada mais, apenas uma panela de cozinha, que qualquer felá ou beduíno poderia comprar qualquer dia, em qualquer mercado, por algumas moedas de cobre.

Eu sei que os gregos alcançaram uma perfeição semelhante ou ainda maior, talvez até nos utensílios de cozinha; pois também eles — aguadeiros, carregadores do mercado, soldados e oleiros, todos eles — eram verdadeiros participantes de uma cultura que não se baseava apenas no fervor criador de um punhado de indivíduos escolhidos, nem em alguns picos elevados aos quais somente os talentosos podiam chegar; era uma cultura que constituía o patrimônio comum de todos. Os belos objetos que faziam parte dessa cultura eram motivo de orgulho para eles como parte de suas atividades cotidianas: uma participação contínua na posse viva e compartilhada de todos.

Enquanto segurava aquele recipiente com as duas mãos, compreendi: felizes são as pessoas que cozinham diariamente em recipientes desse tipo; felizes são aqueles que reivindicam a herança de uma cultura cujo direito não é uma vã jactância, mas algo muito mais profundo.

Quatro

— Maomé, você não vai sentar-se agora para comer comigo e conceder-me essa honra? — A voz de Ibn Musa’d rompe o fio da minha imaginação; abro os olhos e Damasco desaparece novamente no passado, onde é o seu lugar; e volto a ver-me sentado no banco, ao lado do ‘Emir da Região Norte’. A sessão de julgamento havia terminado por aquele dia. Os litigantes despedem-se, um a um. Ibn Musa’d levanta-se do banco, e com ele levantam-se também seu hóspede e seus guardas.

O grupo divide-se em dois e abre caminho para nós. Depois que atravessamos o portão de entrada, eles se reúnem novamente e nos seguem até o pátio da fortaleza.

Pouco depois, o ‘Emir’ Gadbã ibn Rimar e eu sentamo-nos juntos para comer diante de uma bandeja enorme. Sobre o arroz há um carneiro inteiro assado. Além de nós, no aposento estão dois cortesãos do ‘Emir’ e um par de cães de caça saluquis, de cor dourada.

O velho Gadbã pousa a mão sobre meu ombro e diz: — Você ainda não respondeu à minha pergunta; ainda não arranjou uma nova esposa?

Rio-me de sua insistência: «O senhor sabe que tenho uma esposa em Medina — por que iria arranjar outra?»

— Por quê? — Deus me livre, «uma» esposa, e você ainda é um rapaz! Ora, quando eu tinha a sua idade…

— Ouvi dizer, xeique Ghadban — interrompe o emir Ibn Musa’d —, que o senhor ainda não fica atrás do que era antes!

— Ó emir, agora não passo de uma ruína decrépita. Que Alá lhe prolongue a vida, mas às vezes desejo a proximidade de um corpo feminino aquecido para aquecer meus ossos gastos… Mas diga-me — Ghadban volta-se para mim —, aquela moça mutairi com quem você se casou há dois anos, como está? O que fez com ela?

— Ora, nada; e esta é a minha resposta — digo.

— Nada mesmo…? — repete o ancião, arregalando os olhos. — Ela era tão feia assim?

— Não, pelo contrário, ela era muito bonita.

— O que houve? — pergunta Ibn Musa’d. — De que jovem mutairi vocês estão falando? Esclareça um pouco, Muhammad.

Tento informar o Emir sobre aquele casamento fracassado.

Eu vivia então em Medina, sem esposa e sozinho. Um beduíno da tribo de Mutair, chamado Fahad, passava horas todos os dias no meu «majlis de qahwa» e me contava suas incríveis aventuras sob a liderança de Lawrence durante a Segunda Guerra Mundial. Certo dia, disse-me: «Nenhum homem deve passar a vida sozinho, pois assim o sangue se acumulará e engrossará nas suas veias; você deveria se casar». E, quando lhe disse, brincando, que providenciasse uma noiva para mim, ele respondeu: «Isso é muito fácil. A filha do meu cunhado Mutarik já está em idade de se casar e, como irmão da mãe dela, posso dizer-lhe que é extremamente bonita».

Ainda em tom de brincadeira, pedi-lhe que verificasse se o pai dela concordaria. Que surpresa! No dia seguinte, o próprio Mutarik apareceu diante de mim! Depois de terminar, visivelmente constrangido, algumas xícaras de café, tossir um pouco e hesitar várias vezes, finalmente disse-me que Fahad lhe contara que eu queria casar-me com sua filha. «Eu me sentiria honrado em tê-lo como genro; mas Rokeya ainda é uma criança, tem apenas onze anos».

Ao saber que Mutarik viera até ali, Fahad ficou furioso, literalmente em chamas: «Patife! Patife mentiroso, a menina já tem quinze anos! Na verdade, ele não quer dar a filha em casamento a nenhum árabe da aldeia. Por outro lado, sabe quão estreitas são suas relações com Ibn Saud. Portanto, embora não queira rejeitar sua proposta diretamente, também não quer ofendê-lo. Finge, então, que a filha ainda é uma criança. Mas estou lhe dizendo: os seios dela são assim» — e descreveu com as mãos um busto tão tentador em forma e proporção — «como duas romãs maduras, prontas para serem arrancadas e comidas».

Com essa descrição, os olhos do velho Gadbán brilharam: «Quinze anos, bonita e virgem»… Ainda assim, ele disse: «Nada mal! O que mais você poderia desejar?»

— «Bem, espere até eu terminar o resto da história… Tenho de admitir que meu interesse aumentava cada vez mais, talvez em parte por causa da oposição de Mutarik. Dei a Fahad dez moedas de ouro como mahr. Fahad fez tudo o que pôde para convencer os pais da noiva a me concederem sua mão. Um presente semelhante foi enviado à mãe da noiva, irmã de Fahad. Não sei exatamente o que aconteceu na casa deles. Só sei que, no fim, os dois conseguiram convencer Mutarik a consentir nesse casamento.»

— «Parece que esse Fahad», disse Ibn Musa’ad, «é um homem muito astuto. É evidente que ele e a irmã esperavam de você uma gratificação bem maior! Mas o que aconteceu depois?»

Continuei contando como, alguns dias depois, o casamento foi celebrado conforme o costume, na ausência da noiva. De acordo com o ritual, o pai representou a noiva como seu wali e procurador; com o procurador da noiva presente, duas testemunhas atestaram a validade do ijab. Depois, por ocasião do casamento, foi servido um banquete caro e saboroso, acompanhado dos presentes tradicionais para a noiva — que eu ainda não tinha visto uma única vez —, para seus pais e para alguns parentes próximos, entre os quais, naturalmente, Fahad ocupava o lugar de maior destaque. Naquela mesma noite, a mãe da noiva e várias moças cobertas por burcas levaram minha esposa para minha casa, enquanto, nos terraços das casas vizinhas, as mulheres cantavam canções de casamento ao som dos daffs.

Na hora marcada, entro no quarto onde minha esposa e sua mãe estavam esperando por mim. Eu não conseguia distinguir uma da outra. Porque ambas estavam cobertas pela burca, dos pés à cabeça. Mas, quando pronunciei, como manda o costume, as palavras «Agora pode ir», uma das mulheres cobertas pela burca se levantou e saiu devagar do quarto; foi assim que descobri que a mulher que ficara era minha esposa».

– «E depois, pai… o que aconteceu depois?» – pergunta Ibn Rimal, quando faço uma pausa nesse ponto do meu relato. O Amir olha para mim com uma expressão misturada de divertimento.

– «Depois… a pobre menina está sentada; percebo claramente que está terrivelmente assustada por ser entregue desse modo a um homem inteiramente desconhecido. E, quando lhe pedi, com toda a delicadeza e humildade que conheço, que levantasse o niqab do rosto, ela apertou ainda mais a sua ‘abaya’ em torno do corpo».

– «Elas sempre fazem isso.» – diz Ibn Rimal em voz alta. «No começo da noite de núpcias, elas estão sempre tão aterrorizadas assim. Além disso, é até apropriado que uma jovem donzela sinta vergonha. Mas depois geralmente ficam felizes…. A sua esposa não ficou feliz?»

– «Não, ela não ficou feliz assim. Tive de retirar eu mesmo o niqab do rosto dela e, depois de fazê-lo, vi uma garota extremamente bonita, com o rosto da cor do trigo maduro, oval como um ovo, olhos enormes, e os longos cabelos caindo sobre a própria almofada em que estava sentada. Mas, na verdade, aquele era o rosto de uma criança – ela não podia ter mais de onze anos –, exatamente como seu pai havia dito; foi a ganância de Fahad e de sua irmã que a apresentara a mim como apta para o casamento por causa da idade. O pobre Mutarik não tinha mentido nem um pouco».

– «Mas o que isso tem de mais?» – pergunta Ibn Rimal. Como se não tivesse entendido o que eu queria dizer, acrescenta: «Que culpa têm os onze anos? A menina cresce – não cresce? E cresce ainda mais depressa na cama do marido…».

Mas o Amir ibn Musa’d diz: «Não, xeque Gadban, não é isso; ele não é um Najdi como você. Há mais cérebro na cabeça dele!» E, voltando-se para mim, diz com um sorriso deliberado: «Muhammad, não dê ouvidos a Gadban. Ele é um Najdi, e, para quase todos os Najdis, o cérebro (fazendo um gesto com a mão em direção à cabeça) não fica ali – mas aqui» – e aponta para uma parte completamente diferente do corpo!

Todos nós caímos na gargalhada, e Gadban murmura por entre a barba: «Então, ó Amir, certamente tenho mais cérebro do que o senhor!»

Sob a pressão deles, retomo o relato e lhes digo que, fosse qual fosse a opinião do velho Gadbán a esse respeito, a idade extremamente tenra da minha jovem noiva não me parecera nenhuma vantagem. A menina fora vítima de uma manobra vergonhosa do tio materno. Não senti por ela outra coisa senão compaixão. Tratei-a como se trata uma criança. Assegurei-lhe que nada tinha a temer de mim. Mas ela não disse uma palavra; pelo contrário, o modo como tremia revelava o seu terror. Depois de procurar minuciosamente numa prateleira, encontrei um pedaço de chocolate e lho ofereci. Como jamais havia visto chocolate na vida, ela o recusou, abanando vigorosamente a cabeça. Tentei então deixá-la à vontade contando-lhe uma história divertida de ‘Alf Layla’. Mas não pareceu compreendê-la. Nem se cogitava que achasse a história divertida; por fim, pronunciou estas primeiras palavras: ‘Estou com dor de cabeça’… Enfiei-lhe na mão alguns comprimidos de aspirina, acompanhados de um copo de água; mas isso provocou nela uma expressão de medo ainda mais intensa (mais tarde fiquei sabendo que uma amiga lhe dissera que aqueles estrangeiros desconhecidos às vezes davam às esposas esse tipo de remédio na noite de núpcias, para poderem violentá-las com facilidade!). Durante duas horas inteiras, ou quase isso, consegui convencê-la de que não tinha intenção alguma de usar semelhante violência. Por fim, como as crianças da idade dela, adormeceu, enquanto eu estendia a minha cama sobre o tapete, num canto do quarto.

Na manhã seguinte, mandei chamar a mãe dela e exigi que levasse a filha de volta para a própria casa. A mulher ficou absolutamente estupefata! Minha sogra jamais ouvira falar de que algum homem pudesse rejeitar um bocado tão apetitoso, uma virgem de onze anos. Certamente deve ter pensado que eu tinha algum defeito fundamental!

— ‘E depois?’, pergunta Gadbán.

— ‘Nada. Divorciei-me da menina, devolvendo-a exatamente no estado em que ela viera para mim. O negócio não foi ruim para a família dela, pois recuperaram a menina e também o dote matrimonial que eu havia pago, além de todos os presentes de casamento. E espalhou-se por toda parte o rumor de que eu era impotente, incapaz de ser homem; alguns dos meus benfeitores tentaram convencer-me de que talvez alguém, ou uma das minhas esposas anteriores, tivesse feito feitiçaria contra mim, e que eu só poderia libertar-me dela com a ajuda de outro feitiço em sentido contrário…’.

— ‘Muhammad, quando penso no seu casamento seguinte em Medina e no seu filho’, disse Amir, rindo, ‘não há dúvida de que você realmente fez uma grande magia…’.

Cinco

Na noite seguinte, quando eu ia dormir no quarto que me haviam destinado, vi que Zayed estava ainda mais silencioso do que de costume. Ele aproximou-se da porta e ficou ali parado, evidentemente perdido em algum pensamento distante. O queixo estava pousado sobre o peito, e seus olhos contemplavam os desenhos circulares, azuis e verde-musgo, do tapete khorassani estendido no chão.

— ‘Como você se sente ao voltar, depois de tanto tempo, à cidade da sua juventude, Zayed?’, perguntei-lhe, pois, todas as vezes que fui a Ha’il no passado, Zayed se recusou a entrar na cidade.

— Não posso dizer com certeza, tio — responde ele lentamente… Onze anos — já se passaram onze anos desde a última vez que vim aqui. O senhor sabe que, antes, meu coração não conseguia de modo algum consentir que eu viesse. Pois, sempre que vinha, via os homens do Sul reinando no palácio de Ibn Rashid; e isso eu não conseguia suportar. Mas agora digo eu mesmo, nas palavras do Livro: “Ó Deus, Soberano de toda a autoridade, Tu concedes o poder a quem queres e o retiras de quem queres; honras quem queres e rebaixas quem queres. Em Tuas mãos está todo o bem, e Tu tens poder sobre todas as coisas.” Sem dúvida, Deus havia concedido o sultanato à família de Ibn Rashid, mas eles não sabiam como exercer corretamente esse poder. Eram generosos com seu povo, mas severos, cruéis e desenfreados com os próprios parentes; cometeram massacres, irmãos mataram irmãos, e foi por isso que Deus lhes retirou o poder e o devolveu a Ibn Saud. Acho que não devo mais me entristecer por isso, pois não está escrito no Livro: “Às vezes amais uma coisa que pode ser a mais nociva para vós, e às vezes detestais algo que pode ser o melhor para vós”?

Havia na voz de Zayed uma doce e serena atitude de submissão — uma submissão que não significava mais que o reconhecimento daquilo que já acontecera e, por isso, não podia mais ser mudado. Esse silencioso assentimento do coração muçulmano à verdade real de que o passado é imutável — o reconhecimento de que tudo o que aconteceu tinha de acontecer exatamente como aconteceu e não poderia ter acontecido de nenhuma outra maneira — é frequentemente confundido pelos ocidentais com uma espécie de “fatalismo” inerente à visão islâmica. Mas o assentimento dos muçulmanos ao destino diz respeito ao passado, não ao futuro; esse reconhecimento não significa rejeitar a ação, abandonar a esperança ou renunciar ao esforço de se aperfeiçoar; significa, antes, recusar-se a considerar o passado real como obra de qualquer coisa que não seja Deus.

— Além disso — prossegue Zayed, retomando o fio de seu pensamento — Ibn Saud não fez mal aos Shammar. Eles também sabem disso, pois, quando Kutta Ad-Dabish se rebelou contra ele, há cerca de três anos, não o apoiaram eles com suas espadas?

De fato, fizeram-no, e com aquela virilidade do vencido que os árabes genuínos demonstram nos momentos mais grandiosos de suas vidas. Fizeram-no naquele ano terrível de 1929, quando a feroz revolta beduína, liderada por Faisal Ad-Dabish, abalou os alicerces do reinado de Ibn Saud; então, todas as tribos Shammar residentes no Najd, esquecendo sua antiga inimizade para com o rei, colocaram-se ao lado dele. Mais tarde, contribuíram enormemente para a vitória que o rei obteve sobre os rebeldes. Essa reconciliação é realmente notável, pois apenas alguns anos antes Ibn Saud havia conquistado Hail pela força das armas e, desse modo, restabelecido o domínio do Sul sobre a região Norte; e é ainda mais notável porque Ibn Saud é justamente um dos najdenses entre os quais existe, há gerações, esse ódio e hostilidade mútuos com a família Shammar e com o povo do Najd meridional. Esse ódio é muito mais profundo que qualquer disputa pelo poder entre dinastias. Em grande medida, esse ódio — que nem mesmo a recente reconciliação conseguiu apagar por completo — é uma expressão do eterno confronto entre o Sul e o Norte, que percorre todo o curso da história dos árabes e encontra exemplos na história de muitos outros povos. Pois, embora a estranheza étnica entre povos vizinhos inteiramente distintos possa criar inimizade, muitas vezes uma pequena diferença no ritmo e na cadência da vida interior pode gerar ainda mais inimizade entre tribos estreitamente aparentadas.

Além da rivalidade política, outro fator desempenhou um papel significativo no contraste emocional entre as regiões Norte e Sul da Arábia. Cerca de duzentos anos atrás, ao sul do Najd, na direção de Riade, surgiu o reformador puritano Muhammad ibn Abd al-Wahhab; ele inspirou várias tribos — que, naquela época, eram muçulmanas apenas nominalmente — com um novo fervor religioso. Na então obscura família de Ibn Saud — cujo chefe era o governante da pequena cidade de Dabiya — essa reforma encontrou o braço de ferro que deu força prática às suas palavras inspiradas e, em poucas décadas, unificou uma vasta parte da Península Arábica sob o movimento daquela fé ardente e intransigente, conhecido no mundo como “wahabismo”. Em todas as guerras e conquistas wahabitas dos últimos cento e cinquenta anos, esses homens do Sul sempre ergueram bem alto a bandeira do puritanismo, enquanto os homens do Norte apenas os acompanhavam com relutância, pois, embora a tribo Shammar concordasse doutrinariamente com a escola wahabita, seu coração sempre permaneceu muito distante do fervor religioso ardente e inflexível do Sul. Por viver perto das terras fronteiriças da Síria e do Iraque e manter com elas relações comerciais constantes, a tribo Shammar adquiriu, ao longo de muitos séculos, em sua maneira de ver as coisas, uma suave indiferença e uma disposição mental para o compromisso desconhecidas dos habitantes do Sul, muito mais isolados. Os homens do Sul conhecem apenas os extremos e, nos últimos cento e cinquenta anos, não pensaram em outra coisa senão sonhar com a jihad. Esses homens orgulhosos e arrogantes acreditam que somente eles são os verdadeiros representantes do Islã e que todas as demais nações muçulmanas são kharijitas.

Apesar de tudo isso, os wahhabitas não constituem de modo algum uma seita separada. Quando se fala em “seita”, deve-se entender que existem várias opiniões distintas que separaram os seguidores de uma seita de todos os demais seguidores da mesma religião. Naturalmente, a doutrina wahhabita não contém nenhuma crença distinta; pelo contrário, este movimento procurou retornar aos ensinamentos fundamentais do Mensageiro de Deus, removendo as camadas que, ao longo de muitos séculos, se depositaram em torno dos ensinamentos fundamentais do Islã, bem como os princípios e crenças que lhe foram impostos. Pela sua clareza intransigente, havia certamente neste movimento uma iniciativa que, com o tempo, poderia ter libertado o Islã das superstições que haviam obscurecido seus ensinamentos. É desnecessário dizer que a origem de todos os movimentos de renascimento do Islã moderno — o movimento Ahl al-Hadith da Índia, o movimento Sanusi do Norte da África e todos os esforços de Jamaluddin Afghani e de Muhammad Abduh no Egito — pode ser diretamente encontrada no impulso espiritual iniciado no século XVIII por Muhammad ibn Abd al-Wahhab. Mas a forma que seus ensinamentos assumiram no Najd contém duas falhas, razão pela qual o movimento não conseguiu tornar-se uma força de desenvolvimento espiritual. Uma dessas falhas é a estreiteza com que o movimento tenta reduzir quase todos os esforços religiosos à observância literal dos mandamentos e proibições religiosas, negligenciando a necessidade de penetrar através da aparência exterior até o seu centro espiritual. A outra falha está arraigada no próprio caráter árabe: aquele sentimento excessivamente zeloso e piedoso de que somente nós estamos no caminho reto, que não está disposto a conceder a ninguém o direito de sustentar uma opinião diferente. Essa atitude é uma característica do verdadeiro semita, assim como outra característica é exatamente o seu oposto: a completa indiferença em assuntos religiosos. É uma qualidade lamentável dos árabes que tenham de oscilar sempre entre dois extremos e nunca consigam encontrar um meio-termo. Certa vez, há cerca de duzentos anos, os árabes do Najd estavam, no íntimo, mais distantes do Islã do que qualquer outro povo do mundo muçulmano; contudo, desde Muhammad ibn Abd al-Wahhab, não apenas passaram a considerar-se guerreiros da religião, mas também a julgar-se os seus únicos senhores absolutos.

O significado espiritual da doutrina wahhabita residia no esforço de revitalização interior da sociedade muçulmana. Mas esse significado foi precisamente distorcido no momento em que o objetivo exterior da doutrina — a conquista do poder social e estatal — foi alcançado, com a fundação do Estado saudita no final do século XVIII e a expansão desse Estado por grande parte da Arábia no início do século XIX. Assim que os seguidores de Muhammad ibn Abd al-Wahhab chegaram ao poder, seu pensamento transformou-se numa múmia cuidadosamente preservada, pois o espírito não pode ser escravo do poder, e o poder tampouco deseja ser escravo do espírito.

A história do wahhabismo do Najd é a história de uma corrente religiosa que primeiro ascendeu aos céus nas asas do entusiasmo e da esperança e depois caiu nas planícies do sentimento arrogante de que “somente eu estou no caminho certo”; pois toda virtude se destrói por si mesma quando nela não há esperança nem humildade. Harut! Marut!

 

O sonho

Um

Ser amigo e hóspede de um grande “emir” árabe significa ser considerado amigo e hóspede por todos os seus funcionários, por todos os seus “rajajil”, por todos os lojistas da capital e até por todos os beduínos sob o seu governo. Raramente um hóspede pode expressar algum desejo que não seja imediatamente atendido — sempre que isso seja possível; a cada hora ele se vê envolvido e maravilhado pela cordialidade calorosa, impassível e generosa que o cerca, tanto nos amplos salões e corredores da fortaleza quanto nos mercados da cidade — em nada menos intensa.

Como já acontecera tantas vezes antes, o mesmo aconteceu comigo durante os meus dois dias de permanência em Ha’il. Quando desejo tomar café, imediatamente ressoa na minha sala de recepção particular o som melodioso do pilão de bronze. Menciono a Zayed aquele belo arreio que havia visto pouco antes no mercado; um dos criados do emir ouve isso e, à tarde, o objeto é trazido e deixado aos meus pés. Várias vezes ao dia chega um presente após outro: um longo manto de lã da Caxemira, com desenhos de romãs; uma kufiya bordada de flores; uma pele branca de ovelha de Bagdá para o arreio; ou um punhal curvo najdi, com cabo de prata… E eu, eu que sou um andarilho, nada consigo dar em troca a Ibn Musa, exceto um grande mapa inglês das terras árabes. Ele ficou imensamente feliz ao ver que eu havia marcado cuidadosamente o mapa com vários nomes árabes.

A generosidade dos Ibn Musa guarda uma forte semelhança com o comportamento do rei Ibn Saud. Naturalmente, ninguém se admirará disso, considerando a estreita relação entre eles. Não são apenas primos; desde a época em que Ibn Saud era jovem e Ibn Musa ainda era uma criança, foram companheiros um do outro em quase todos os perigos, infortúnios, desastres e sonhos dos primeiros tempos do reinado do rei. Além disso, muitos anos atrás, a relação pessoal entre eles se fortaleceu com o casamento de Ibn Saud com Jawhara, irmã de Ibn Musa. Aos olhos do rei, essa mulher tinha muito mais honra do que todas as outras com quem ele se casou, antes ou depois.

…..       ……         …..   …….

Embora muitos tenham desfrutado de sua amizade, pouquíssimas pessoas tiveram a oportunidade de observar o aspecto mais íntimo e talvez mais significativo da natureza de Ibn Saud. Que aspecto era esse? Sua imensa capacidade de amar, que, se tivesse tido a oportunidade de se desenvolver e perdurar, talvez o tivesse levado a alturas muito maiores do que aquelas que alcançou. Deu-se tanta importância ao grande número de mulheres com quem se casou e de quem se divorciou que muitos de fora o consideram um libertino, um sensualista, alguém mergulhado na busca interminável dos prazeres cotidianos; e, mesmo que de fato tenha existido alguém assim, pouquíssimos estão conscientes de que, deixando de lado os vínculos matrimoniais estabelecidos por razões políticas, cada um dos demais casamentos de Ibn Saud foi resultado de um desejo obscuro e insatisfeito de recuperar algo do amor perdido.

A mãe de seus dois filhos, Muhammad e Khalid, era a amada suprema de Ibn Saud, sua gloriosa bem-amada. Ainda hoje, treze anos depois de sua morte, sempre que o rei fala dela sua voz fica embargada.

Sem dúvida, ela era uma mulher extraordinária — não apenas muito bela (pois, em sua exuberante vida conjugal, o rei tivera a oportunidade de conhecer e possuir muitas mulheres belíssimas), mas também dotada daquela intuição feminina inata que constrói uma ponte entre o êxtase da alma e o êxtase do corpo. Ibn Saud quase nunca permitia que suas emoções e sentimentos se envolvessem profundamente em suas relações com as mulheres. E talvez seja essa a razão por que se casava e se divorciava com tanta facilidade. Mas o caso de Jawhara era diferente; parece que nela encontrou uma satisfação de seus anseios que jamais voltou a experimentar. Embora ainda tivesse outras esposas quando Jawhara era viva, escrevia para ela poemas de amor; e certa vez, num de seus momentos de maior franqueza, disse-me: “Quando o mundo se tornava escuro e eu não encontrava nenhuma saída para os perigos e aflições que bloqueavam meu caminho, eu me sentava e compunha uma canção para Jawhara. Quando terminava de compô-la, de repente o mundo voltava a iluminar-se e ficava claro para mim qual era o meu dever”.

Mas Jawhara morreu em 1919, quando a gripe surgiu como uma epidemia. Da mesma doença morreu também Turki, o primeiro filho de Ibn Saud e seu filho mais querido. Essas duas perdas deixaram em sua vida uma ferida que jamais cicatrizou.

Ele não apenas conseguia entregar inteiramente o coração à esposa e ao filho; amava o pai como pouquíssimos homens amam o próprio pai. Seu pai, Abdur Rahman, com quem travei conhecimento nos meus primeiros anos em Riade, embora fosse bondoso e virtuoso como homem, certamente não possuía uma personalidade tão extraordinária quanto a do filho. E, ao longo de sua longa vida, não desempenhou papel significativo em nenhum objetivo de grande importância. Mesmo depois de conquistar um reino por seus próprios esforços e tornar-se o governante absoluto do país, Ibn Saud era tão humilde e respeitoso no trato com o pai que, se Abdur Rahman estivesse num aposento do palácio, ele não consentia sequer em pisar no aposento acima dele, pois dizia: “Como poderia permitir-me caminhar sobre a cabeça de meu pai?” Nunca se sentava diante dele, a menos que fosse publicamente convidado a fazê-lo. Ainda me lembro de como certa vez fiquei constrangido diante daquela humildade régia. (Penso que isso aconteceu em dezembro de 1927.) Como tantas outras vezes, fui ao aposento do pai do rei, no palácio real, para visitá-lo segundo o costume; o ancião estava me explicando um de seus temas religiosos prediletos. De repente, um criado entrou no aposento e anunciou: “O shaykh está chegando”. No instante seguinte, Ibn Saud apareceu à porta. Naturalmente, quis levantar-me; mas o velho Abdur Rahman segurou-me pelo pulso e puxou-me de volta para o assento, como se quisesse dizer: “Você é meu hóspede”. Enquanto o rei permanecia à porta, saudando o pai de longe — evidentemente aguardando a permissão dele para entrar no aposento — eu era obrigado a continuar sentado, imóvel. É impossível expressar em palavras o quanto me senti constrangido. Mas o rei certamente estava acostumado a esses caprichos do pai, pois, com um sorriso discreto, fez-me um sinal com os olhos, para aliviar meu constrangimento e deixar-me à vontade. Enquanto isso, o velho Abdur Rahman continuou sua conversa, como se nenhuma interrupção tivesse ocorrido. Alguns minutos depois, levantou o rosto, olhou para o filho e acenou com a cabeça; então disse: “Venha cá, filho, sente-se”. O rei devia ter então quarenta e sete ou quarenta e oito anos!

Poucos meses depois — estávamos então em Meca — chegou ao rei a notícia de que seu pai havia morrido em Riade. Jamais esquecerei a cena: ele fitou o mensageiro durante alguns segundos com um olhar incompreensível e imóvel; o desespero foi lentamente, de maneira visível, cobrindo seu rosto habitualmente tão sereno e recolhido. Nem se pode esquecer como ele se levantou de um salto, bradando com voz terrível: “Meu pai se foi! Meu pai se foi!”; como saiu correndo do aposento, dando largas passadas, enquanto seu manto se arrastava atrás dele pelo chão; e como subiu as escadas aos saltos, passando por cima dos rostos aterrorizados de seus guarda-costas, gritando: “Meu pai morreu! Meu pai se foi!” Durante dois dias não recebeu ninguém, não comeu nem bebeu coisa alguma e passou os dias e as noites em oração.

Quantos filhos de meia-idade, reis que conquistaram reinos por sua própria força, poderiam lamentar assim a morte de um pai que morrera pacificamente, em idade avançada!

Dois

Pois Abdul Aziz ibn Saud havia estabelecido inteiramente por seus próprios esforços um reino tão vasto. Quando ele ainda era criança, sua dinastia perdeu na Arábia Central o último vestígio de seu poder, e a família Ibn Rashid, de Hail, que outrora fora vassala dessa casa real, tomou seu lugar. Aqueles dias foram extremamente cruéis e dolorosos para Abdul Aziz. O menino orgulhoso e de poucas palavras via que, na verdade, um estrangeiro governava sua cidade ancestral, Riad, em nome do «emir» Ibn Rashid. Pois então a família de Ibn Saud, que outrora governara quase toda a Arábia, era apenas dependente de Ibn Rashid; este a tolerava, mas já não a temia. Por fim, isso se tornou insuportável para seu pacífico pai, Abd al-Rahman. Ele deixou Riad com toda a família, na esperança de passar o resto de seus dias na casa do sultão do Kuwait, seu velho amigo. Mas não sabia que futuro o aguardava, pois ignorava o que havia no coração de seu filho e o que ele estava pensando!

Entre todos os membros da família, apenas uma pessoa sabia algo do que se passava naquele coração perturbado; sei apenas que, quando o rei fala dos dias de sua juventude, sempre se refere a essa pessoa com profunda ternura.

— Creio que ele me amava mais do que aos próprios filhos. Quando não havia mais ninguém por perto, chamava-me, fazia-me sentar em seu colo e então me dizia que, quando eu crescesse, teria de realizar grandes feitos: «Deves restaurar a glória e a honra da casa de Ibn Saud». Repetia-me isso muitas vezes, e suas palavras eram suaves e ternas, como carícias.

— Mas, Aziz — (a palavra é uma forma abreviada de Abdul Aziz; era assim que o chamavam carinhosamente) — quero que saibas disto — dizia ele —: a glória e a honra da casa de Ibn Saud jamais devem ser o limite de teus esforços e de tua iniciativa. Deves lutar pela glória do Islã. Teu povo sente intensamente o apelo desse caminho, e tu serás o líder. Essas palavras permanecem sempre vivas em meu coração.

Será que elas realmente permanecem?

Ao longo de toda a vida, Ibn Saud gostou de falar do Islã como uma obrigação sagrada que lhe fora confiada. Mesmo nos anos posteriores, quando já havia ficado claro, muito antes, que o poder real era para ele muito mais importante do que a liderança de um ideal que defendera algum tempo antes, sua extraordinária eloquência ainda convenceu muitas pessoas, inclusive o próprio rei, de que aquele ideal continuava sendo seu objetivo.

A rememoração de tais lembranças da infância ocorria frequentemente em Riad, nas reuniões íntimas, que geralmente se realizavam depois da oração de ‘Isha. Assim que terminava a oração na mesquita da fortaleza, sentávamo-nos ao redor do rei em uma das salas menores e, durante uma hora, ouvíamos a recitação de hadiths do Mensageiro ou de algum tafsir do Alcorão. Depois, o rei pedia a dois ou três de nós que entrássemos com ele em um de seus aposentos privados. Certa noite, lembro-me, quando deixava a sala de reuniões com o rei, voltei a me maravilhar com sua imponente estatura. Por causa dela, sua cabeça se erguia acima de todos os que o cercavam. Certamente ele percebeu meu olhar reverente, pois, com aquele seu inexprimível encanto, sorriu brevemente, segurou minha mão e disse:

—‘Ó Muhammad! Por que você está olhando para mim desse jeito?’

—‘Eu estava pensando, ó homem de longa vida: quando alguém vê sua cabeça tão acima das cabeças da multidão, é impossível não perceber que você é um rei’.

Ibn Saud sorriu; sua mão ainda segurava a minha. Ele me conduziu lentamente pelo corredor e disse: —‘Sim, há prazer em ser alto; mas uma vez minha altura só me trouxe sofrimento. Isso aconteceu há muito tempo. Eu era então um menino e vivia no Kuwait, na fortaleza do xeque Mubarak. Eu era muito magro e mais alto do que convinha à minha idade; os meninos da fortaleza — tanto os da família do xeque quanto os da minha própria família — fizeram de mim o alvo de suas brincadeiras e zombarias, como se eu fosse um capricho estranho da natureza. Eu tinha tanta vergonha da minha altura que, quando atravessava os aposentos do palácio real ou caminhava pelas ruas do Kuwait, baixava a cabeça e curvava os ombros, com o objetivo de parecer menor’.

A essa altura já havíamos chegado aos aposentos do rei. O príncipe Saud, seu filho mais velho, esperava ali por seu pai; o príncipe tinha a minha idade e, embora não fosse tão alto quanto o pai, era bastante imponente de aparência. Seus traços eram muito mais ásperos e rudes que os do pai, sem nada da suavidade e da vivacidade do rosto do rei; ainda assim, era bondoso e, segundo a opinião geral, um homem excelente.

O rei sentou-se nas almofadas dispostas junto à parede e fez sinal para que todos nos sentássemos. Em seguida, deu a ordem: ‘Kahwa!’. O criado armado que estava à porta voltou-se para o corredor e gritou: ‘Kahwa!’. Então, por todo o corredor, a palavra foi rapidamente repetida, passando da boca de um criado para a de outro: ‘Kahwa!’ — ‘Kahwa!’. Assim, a ordem do rei chegou, por meio de uma alegre cerimônia de repetição, à sala onde o café do rei era preparado, a alguns aposentos de distância. Pouco depois, apareceu um criado, trazendo pendurada no cinturão uma adaga de cabo dourado, com uma cafeteira de cobre em uma mão e pequenas xícaras de café na outra. O próprio rei recebeu a primeira xícara, e as demais foram servidas aos convidados, na ordem de seus lugares. Em um ambiente doméstico como aquele, Ibn Saud falava livremente sobre tudo o que lhe vinha à mente — sobre o que acontecia nas regiões mais remotas do mundo e sobre alguma nova e maravilhosa descoberta para a qual sua atenção havia sido atraída. Expressava sem restrições tudo o que lhe ocorria acerca de diferentes povos, seus costumes, ritos e instituições. Acima de tudo, porém, gostava de falar sobre suas próprias experiências e costumava estimular os outros a participarem da conversa. Naquela noite em particular, o príncipe Saud deu início a uma nova descoberta quando, sorrindo, voltou-se para mim e disse:

—‘Muhammad! Hoje, alguém expressou uma dúvida a seu respeito. Disse que não conseguia ter certeza de que você não fosse um espião inglês disfarçado de muçulmano… De qualquer modo, não pense nisso. Consegui convencê-lo de que você é realmente muçulmano’.

Sem conseguir esconder um sorriso sem graça, respondi: ‘Ó príncipe, isso é uma bondade sua! Que Allah prolongue sua vida. Mas como conseguiu ter tanta certeza disso? Não é verdade que somente Allah sabe o que existe no coração das pessoas?’

—‘É verdade’, respondeu o príncipe, ‘mas a esse respeito recebi uma percepção especial. Essa percepção me foi dada por um sonho que tive na noite passada… Vi-me de pé diante da mesquita, olhando para o minarete. De repente, apareceu nas escadas do minarete um homem que juntou as duas mãos diante da boca, formando com elas uma espécie de concha, e começou a fazer o chamado à oração: “Allahu akbar” — Allah é sublime, Allah é o maior — e continuou até o fim: “La ilaha illallah” — não há divindade senão Allah. Quando olhei atentamente, vi que aquele homem era você! Ao despertar, soube com certeza — embora antes jamais tivesse duvidado — que você é um muçulmano genuíno; um sonho em que o nome de Allah é proclamado não pode ser falso’.

Fiquei profundamente comovido com a declaração espontânea e vigorosa do príncipe sobre a minha honestidade e sinceridade, e com a sinceridade com que o rei, assentindo com a cabeça, apoiou a extraordinária descrição do emir Saud. Ibn Saud retomou o fio da conversa e disse:

«Acontece frequentemente que Deus ilumine os nossos corações por meio dos sonhos — sonhos que anunciam antecipadamente o futuro e, às vezes, tornam o presente claro. Ó Muhammad! Tu próprio já tiveste alguma experiência desse tipo de sonho?»

—«Ó imã, certamente tive uma experiência assim, muito tempo atrás, muito antes de sequer pensar em tornar-me muçulmano — até mesmo antes de pisar num país muçulmano. Eu tinha então quase dezenove anos e estava em Viena, na casa de meu pai. Sentia-me atraído pela ciência relativa à vida interior do ser humano (foi assim que defini ao rei a definição mais próxima que encontrei para “psicologia”), e tinha o hábito de deixar papel e lápis ao lado da cama, para anotar os sonhos assim que acordasse. Graças a esse hábito, descobri que conseguia lembrar-me dos sonhos por tempo indeterminado, embora nem sempre pensasse neles. Nesse sonho específico, vi-me em Berlim, viajando pela ferrovia subterrânea que existe ali: o trem às vezes passava por túneis subterrâneos e às vezes seguia por cima de pontes, sobre as ruas. O vagão estava cheio de gente — tanta que não havia lugar para sentar. No vagão, uma única lâmpada lançava uma luz bruxuleante. Depois de algum tempo, o trem saiu do túnel, mas não subiu para nenhuma daquelas pontes elevadas; em vez disso, chegou a uma vasta e deserta planície de lama, onde as rodas ficaram atoladas e o trem parou; já não tinha força para avançar nem recuar.»

—«Todos os passageiros, inclusive eu, descemos do trem e ficamos olhando ao redor. A planície que nos cercava era sem horizonte, vazia e árida. Não havia nela arbustos, casas, nem sequer uma pedra. Então os nossos corações foram tomados por uma terrível aflição: agora que estávamos presos ali, como encontraríamos o caminho de volta para onde viviam os outros seres humanos? Sobre a vasta planície espalhava-se uma luz semelhante àquela claridade cinzenta que se vê ao romper da aurora.»

—«Contudo, de algum modo, não consegui compartilhar inteiramente da aflição dos outros. Afastei-me daquele grupo e vi, a cerca de dez côvados de distância, um camelo ajoelhado e deitado no chão. Sobre o dorso do camelo estava perfeitamente ajustada uma sela — “ó imã, exatamente como mais tarde vi colocar selas nos camelos do seu país” — e sobre ela estava sentado um homem vestido com uma abaia branca e marrom, listrada, de mangas curtas. A sua kufia estava puxada sobre o rosto, de modo que eu não conseguia distinguir-lhe os traços. De repente, compreendi no íntimo que o camelo estava à minha espera e que o cavaleiro imóvel seria o meu hadi ou rahmuna. Assim, sem dizer uma palavra, saltei para trás da sela, sobre o dorso do camelo, como um radif, ou cavaleiro traseiro, monta um camelo nos países árabes. No instante seguinte, o camelo levantou-se e começou a avançar com um movimento prolongado e suave, e senti brotar dentro de mim uma felicidade sem nome. Viajamos nesse movimento veloz e macio: primeiro pareceu-me que por algumas horas, depois por alguns dias, depois por alguns meses e, por fim, perdi toda a noção do tempo; a cada passo do camelo, a minha felicidade crescia, até que me pareceu estar nadando no vazio, através do ar. Finalmente, o horizonte à nossa direita tornou-se vermelho com os raios do sol nascente. Mas, diante de nós, no horizonte distante, vi outra luz; vinha de duas luzes brancas resplandecentes. Não era vermelha como a luz do sol que nascia à nossa direita, mas uma luz fria, que se tornava cada vez mais brilhante à medida que avançávamos e espalhava a alegria do meu coração por toda a minha consciência de uma maneira indescritível. E, enquanto avançávamos assim, aproximamo-nos de um portal e da sua luz. Então ouvi uma voz estridente, como se alguém, de algum lugar, proclamasse: “Esta é a cidade mais ocidental”. E acordei.»

—«Subhanallah» — exclama Ibn Saud, admirado, ao terminar eu o meu relato. «E não foi esse sonho que te revelou que havias sido escolhido para o Islã?»

Balancei a cabeça e respondi: «Não, homem de longa vida; como eu poderia saber disso? Nunca havia pensado no Islã e jamais tivera sequer contato com um muçulmano… Sete anos depois, muito tempo após ter esquecido o sonho, abracei o Islã. Encontrei isto há apenas alguns dias, entre os meus papéis — exatamente como o anotei naquela noite, ao acordar.»

—«Mas, meu filho, o que Deus te mostrou naquele sonho era, na realidade, o que estava destinado para ti. Não consegues compreender isso claramente? Aquela multidão, com a qual chegaste a uma planície sem qualquer sinal de caminho, e a sua confusão — não era essa exatamente a condição daqueles que a surata al-Fátiha do Alcorão descreve como “os extraviados”? E o camelo que, com o seu cavaleiro, esperava por ti — não era ele aquilo que o Alcorão repetidamente chama de orientação? E o cavaleiro que não falou contigo e cujo rosto não conseguias ver — quem poderia ser senão o Mensageiro de Deus (que a paz esteja com ele)? Ele gostava de usar túnicas de mangas curtas… E não sabemos, por meio dos nossos muitos livros, que, sempre que aparece em sonhos a um não muçulmano ou a alguém que ainda não se tornou muçulmano, o seu rosto está sempre coberto? E depois, aquela luz fria e suave acima do horizonte: o que poderia ser senão a promessa da luz da fé, que ilumina mesmo antes de arder? Não conseguiste chegar lá no teu sonho porque, como nos disseste, só muitos anos mais tarde vieste a conhecer o Islã em sua verdadeira essência…»

—Ó xeique, a sua interpretação pode estar correta… mas qual era aquela “cidade mais ocidental” para onde as portas do horizonte queriam conduzir-me? Pois, seja como for, a minha conversão ao Islã não me levou para o Ocidente. Pelo contrário, levou-me para bem longe dele—.

Ibn Saud ficou calado e pensativo por um momento! Depois ergueu a cabeça e, com aquele seu doce sorriso, que me era tão querido, disse-me: “Ó Muhammad, não poderia isso significar que a tua conversão ao Islã seria o ponto mais ocidental da tua vida e que, depois disso, a vida ocidental já não seria tua?”

Pouco depois, o rei voltou a falar: “Ninguém conhece o futuro, exceto Allah, mas às vezes Ele nos dá, por meio dos sonhos, um vislumbre do que acontecerá em nossa vida no futuro. Eu próprio tive sonhos assim duas ou três vezes, e todas as vezes eles se realizaram. Na verdade, até o que sou hoje resultou de um sonho… Eu tinha então dezessete anos. Vivíamos uma vida de exílio no Kuwait, mas era insuportável para mim pensar que a família de Ibn Rashid reinaria sobre a minha pátria. Muitas vezes eu suplicava angustiado a meu pai — que Allah derrame Sua misericórdia sobre ele —: ‘Luta, pai, e expulsa a família de Ibn Rashid; ninguém tem mais direito do que tu ao trono de Riade, pai’. Mas meu pai rejeitava minhas exigências apaixonadas como fantasias irrealizáveis e lembrava-me de que Muhammad Ibn Rashid era o governante mais poderoso dos países árabes; o reino sobre o qual ele reinava estendia-se, ao norte, do deserto sírio até as dunas do deserto vazio, ao sul — diante de seu punho de ferro, todas as tribos beduínas tremiam de medo. De qualquer modo, certa noite tive um sonho estranho. Vi-me, à noite, montado num cavalo numa estepe deserta, e à minha frente, também montado, estava o velho Muhammad Ibn Rashid, o usurpador do reino da minha família. Nós dois estávamos desarmados, mas Ibn Rashid segurava uma enorme lanterna brilhante. Quando percebeu que eu avançava em sua direção e compreendeu que eu era seu inimigo, virou-se de repente, golpeou o ventre do cavalo com os pés e fez o animal disparar. Mas eu também lancei meu cavalo atrás dele; enquanto galopávamos, agarrei uma ponta de seu manto, depois seu braço e, por fim, apaguei sua lanterna. Quando me sentei ao acordar, tive a certeza de que um dia arrancaria o poder governante das mãos da família de Ibn Rashid”.

Em 1897, o ano daquele sonho, Muhammad Ibn Rashid morreu. Abdul Aziz Ibn Saud sentiu que aquele era o momento perfeito para atacar! Mas seu pai, Abdur Rahman, não estava disposto a pôr em risco a vida pacífica e tranquila que levavam no Kuwait aventurando-se numa ação tão incerta. Contudo, o entusiasmo do filho era mais forte que a inação do pai. Por fim, o pai consentiu. Com a ajuda de seu amigo, o xeique Mubarak do Kuwait, reuniu as poucas tribos beduínas que ainda permaneciam leais à sua família, formou um exército com elas e, à maneira árabe antiga, conduzindo camelos e cavalos e hasteando as bandeiras de suas respectivas tribos, apresentou-se para combater em campo aberto contra a família de Ibn Rashid. Em muito pouco tempo, porém, foi perseguido por um exército inimigo superior e retornou ao Kuwait, provavelmente com o coração muito mais aliviado do que desanimado, prometendo nunca mais perturbar o crepúsculo de sua vida com qualquer empreendimento temerário semelhante a uma guerra.

Mas o filho não estava disposto a aceitar a derrota tão facilmente. Lembrava-se sempre de seu sonho de infância de vencer Muhammad Ibn Rashid; e, quando o pai renunciou a todas as reivindicações ao domínio de Najd, foi esse sonho do jovem Abdul Aziz que o impeliu ao esforço irresistível de conquistar o poder. Encontrou alguns poucos amigos para acompanhá-lo, entre eles seu primo Abdullah Ibn Jiluwi e Ibn Musaid. Recrutou mais alguns beduínos ao som de tambores. Assim, chegaram a quarenta. Montados, saíram do Kuwait como bandidos, silenciosamente, sem hastear bandeiras, sem tocar tambores, sem cantar; evitaram as estradas mais frequentadas pelas caravanas e, escondendo-se durante o dia, chegaram às proximidades de Riade e acamparam num vale deserto. Naquele mesmo dia, Abdul Aziz escolheu cinco entre os quarenta companheiros e disse aos demais:

—Nós seis agora entregamos inteiramente nosso destino às mãos de Allah. Estamos indo para Riade; ou conquistaremos Riade, ou a perderemos para sempre. Se ouvirem algum tumulto vindo da cidade para o campo, venham ajudar-nos; mas, se até amanhã à tarde não ouvirem nada, considerem-nos mortos e que Allah aceite as nossas orações. Se isso acontecer, voltem todos para o Kuwait às escondidas, o mais depressa que puderem—.

E os seis homens partiram a pé. Chegaram à cidade no início da noite e entraram por uma das brechas que Ibn Rashid havia aberto, alguns anos antes, nas muralhas da cidade conquistada, com o propósito de humilhar seus habitantes. Esconderam as armas sob os mantos e entraram diretamente nos aposentos do governador do “emir” rashidita. O aposento estava trancado, pois, temendo a população hostil, ele normalmente passava as noites na fortaleza situada do lado oposto. Abdul Aziz e seus companheiros bateram à porta. Um escravo abriu-a, mas imediatamente foi levado para dentro da tenda, amarrado pelas mãos e pelos pés e teve os olhos e a boca cobertos com um pano; o mesmo aconteceu com todas as outras pessoas que estavam no aposento: naquele momento, havia ali apenas alguns criados e mulheres. Os seis atacantes pegaram algumas tâmaras do armazém de provisões do “emir”, comeram-nas e passaram a noite recitando o Alcorão alternadamente.

Pela manhã, os portões da fortaleza foram abertos, e o emir saiu cercado por guardas armados e servos. “Ó Deus, Ibn Saud está sob a Tua proteção!”, exclamou Abdul Aziz, lançando-se, com seus cinco companheiros, sobre os inimigos atônitos. Abdullah ibn Jiluwi arremessou sua lança contra o emir; mas este, num instante, curvou a cabeça antes que ela o atingisse. Assim, a haste da lança tremeu, e ela foi cravar-se na parede de barro da fortaleza, onde ainda pode ser vista hoje. O emir, tomado de pavor, recuou e entrou pelo portão; enquanto Abdullah o perseguia sozinho, Abdul Aziz e os quatro companheiros restantes atacaram os guardas dentro da fortaleza. Embora fossem mais numerosos, estavam tão confusos que já não tinham força para se defender eficazmente. Pouco depois, perseguido por Abdullah ibn Jiluwi, o emir apareceu no terraço plano. Pedia misericórdia, mas ela não lhe foi concedida; e, quando caiu no terraço e recebeu o golpe mortal de uma espada, Abdul Aziz gritou lá de baixo: “Vinde, ó habitantes de Riade, vinde! Eis-me aqui, Abdul Aziz, filho de Abdul Rahman, da família de Ibn Saud — vosso governante legítimo!” Os habitantes de Riade, que odiavam seus opressores do norte, correram armados em auxílio de seu príncipe, e seus trinta e cinco companheiros, incitando os camelos, dispararam pelos portões da cidade, varrendo como um vendaval todos os obstáculos que encontravam pela frente. Em menos de uma hora, Abdul Aziz ibn Saud tornou-se o governante incontestado da cidade.

Isso aconteceu em 1901. Ele tinha então vinte e um anos. A fase da juventude em sua vida chegara ao fim, e ele entrava em sua segunda condição: a idade do homem maduro e do governante.

Conquistando uma província após outra, Ibn Saud tomou assim toda a terra de Najd das mãos da família Ibn Rashid, fazendo-a recuar até sua terra natal, Jabal Shammar, e sua capital, Hail. Embora Ibn Saud não tivesse um estado-maior e talvez jamais houvesse sequer examinado um mapa, sua expansão territorial ocorreu de maneira tão bem planejada que parecia ter sido concebida por um estado-maior, com base em mapas, estratégias militares e conhecimentos geopolíticos. Fazendo de Riade seu centro permanente, suas campanhas de conquista avançavam em círculos, como a espiral de um caracol; e ele nunca se aventurava numa nova região sem antes submeter completamente o território já conquistado e consolidar ali firmemente seu poder. Primeiro, tomou os distritos a leste e ao norte de Riade e depois estendeu seu reino pelos desertos ocidentais. Seu avanço para o norte era lento, pois a família Ibn Rashid ainda possuía força considerável e, além disso, contava com o apoio dos turcos, com os quais havia construído uma sólida aliança nas décadas anteriores. Ibn Saud tinha ainda outro obstáculo: sua pobreza. As receitas obtidas nas regiões meridionais de Najd não permitiam, nem mesmo por algum tempo, enviar grandes contingentes de tropas para a guerra.

“Certa vez”, disse-me ele, “eu era tão pobre que fui obrigado a penhorar, no Kuwait, a espada cravejada de joias que o xeque Mubarak me dera, junto a um agiota judeu. Eu sequer tinha condições de conseguir um tapete para minha sela; ainda assim, bastava-me colocar sacos vazios sob uma pele de carneiro.”

Além disso, havia outro problema que tornara muito difícil o início da vida de Ibn Saud. O problema dizia respeito ao comportamento das tribos beduínas.

A Arábia Central, apesar de todas as suas cidades e aldeias, é predominantemente uma região beduína. O apoio ou a oposição dos beduínos controlava o resultado de quase todas as fases da guerra entre Ibn Saud e Ibn Rashid. Os beduínos eram extremamente volúveis; mudavam facilmente de opinião e, sempre que algum grupo parecia prestes a vencer ou prometia uma parte maior dos despojos, em geral juntavam-se a ele. O exemplo máximo desse comportamento dúplice era Faisal al-Dawish, o principal chefe da poderosa tribo Mutair; de sua lealdade dependia frequentemente qual das duas famílias reais rivais venceria e qual seria derrotada. Quando ia a Hail, Ibn Rashid o cobria de presentes; depois, ele abandonava Ibn Rashid e ia a Riade prestar juramento de lealdade a Ibn Saud, e, antes que passasse um mês, traía novamente sua confiança. Não era fiel a ninguém: corajoso e astuto, era louco de ambição pelo poder. Por causa dele, Ibn Saud passou muitas noites em claro.

Diante de dificuldades desse tipo, Ibn Saud concebeu um plano. No início, talvez o plano não passasse de um projeto político, mas acabou transformando-se numa ideia tão brilhante que seria capaz de mudar toda a península: qual era o plano? Era preciso estabelecer assentamentos permanentes para as tribos nômades. Não havia dúvida de que, uma vez estabelecidos permanentemente, os beduínos teriam de abandonar o jogo dúplice que vinham praticando entre os diferentes grupos beligerantes. Como nômades, era-lhes fácil, ao primeiro sinal, desmontar as tendas, vagar de um lugar para outro com seus animais e abandonar um grupo para juntar-se a outro; mas isso não seria possível se passassem a viver em assentamentos permanentes. Pois, se retirassem sua lealdade para transferi-la ao inimigo, correriam o risco de perder suas casas e seus pomares — e, para um beduíno, nada é tão valioso quanto aquilo que lhe pertence!

Em seu programa, Ibn Saud deu a máxima importância ao estabelecimento permanente dos beduínos. Nesse propósito, recebeu grande ajuda dos ensinamentos do Islã. O Islã havia insistido repetidamente na superioridade da vida sedentária sobre a vida nômade. O rei enviou pregadores religiosos às diversas tribos. Eles ensinavam religião a esses grupos e difundiam entre eles novas ideias; o resultado foi inesperado. Aos poucos, tomou forma a organização chamada “Ikhwan” (Irmandade), nome pelo qual os beduínos que se estabeleciam permanentemente começaram a identificar-se. O primeiro assentamento dos Ikhwan foi o assentamento Alwa Mutair, da tribo de al-Dawish. Em poucos anos, seu assentamento de Artawiya tornou-se uma cidade de trinta mil habitantes. Muitas outras tribos seguiram o mesmo caminho.

O fervor religioso dos Ikhwan e seu potencial como guerreiros tornaram-se poderosas armas nas mãos de Ibn Saud. A partir de então, suas guerras assumiram uma nova forma: conduzidas pelo fervor religioso dos Ikhwan, elas ultrapassaram a natureza das antigas disputas pelo poder entre diferentes famílias reais e assumiram o caráter de jihad religiosa. Naturalmente, para os Ikhwan, o significado desse renascimento da religião não se limitava a uma questão de importância pessoal. Em razão de sua lealdade intransigente aos ensinamentos do grande mujaddid do século XVIII, Muhammad ibn Abd al-Wahhab, os Ikhwan estavam frequentemente tomados pela convicção exagerada de que eles próprios eram pessoalmente virtuosos. Mas a maioria deles não aspirava somente à virtude pessoal, e seu objetivo era estabelecer uma sociedade que pudesse, com justiça, ser chamada de sociedade islâmica. O propósito dos ensinamentos de Muhammad ibn Abd al-Wahhab era restabelecer o Islã em sua pureza original, despojada de todos os excessos; esses ensinamentos rejeitavam todas as posteriores bid‘as, isto é, todas as novas adições. É verdade que muitas das ideias dos Ikhwan eram inteiramente primitivas, e que seu fervor frequentemente se aproximava do fanatismo cego. Mas, com orientação e educação adequadas, sua profunda devoção religiosa talvez os tivesse capacitado a ampliar sua visão e, com o tempo, poderia ter-se tornado o centro de um genuíno renascimento social e espiritual de toda a Arábia. Infelizmente, Ibn Saud não compreendeu a enorme importância de tal desfecho. Ele se limitou a dar aos Ikhwan apenas as noções mais elementares de educação religiosa e secular. Na realidade, deu-lhes exatamente a quantidade de instrução que julgava necessária para manter vivo seu zelo fanático. Em outras palavras, Ibn Saud via o movimento dos Ikhwan apenas como uma arma do poder. Nos anos seguintes, suas próprias políticas sofreram as consequências desse fracasso e, em determinado momento, isso pôs em perigo a própria existência do reino que ele havia criado; talvez tenha sido então que se teve o primeiro vislumbre de que Ibn Saud carecia da grandeza de coração que sua nação esperava encontrar nele. Mas a desilusão dos Ikhwan com o rei e a decepção do rei com os Ikhwan haviam começado muito antes…

Em 1913, tendo os Ikhwan prontos para um ataque formidável sob seu comando, Ibn Saud finalmente julgou-se suficientemente forte para conquistar a província de Al-Ahsa, na costa do Golfo Pérsico. Embora Al-Ahsa fizesse parte de Najd, quinze anos antes havia sido ocupada pelos turcos.

A experiência de guerrear contra os turcos não era nova para Ibn Saud. Ele havia enfrentado muitas vezes as tropas turcas, especialmente a artilharia de campanha integrada aos exércitos de Ibn Rashid. Mas atacar Al-Ahsa, sob o domínio direto dos turcos, era algo inteiramente diferente: significaria um confronto direto com uma grande potência. Ibn Saud, porém, não tinha alternativa. Se não conseguisse colocar Al-Ahsa e seus portos sob seu controle, ficaria para sempre isolado do mundo exterior e não poderia obter armas essenciais, munição e muitos dos artigos necessários à vida. A necessidade justificava esse risco do perigo. Mas o risco era tão grave que ele hesitou por muito tempo antes de atacar Al-Ahsa e sua capital, Al-Hofuf. Ainda hoje sente prazer em recordar em que circunstâncias foi tomada a decisão final:

—Já havíamos chegado ao alcance da vista de Al-Hofuf. Do alto da duna em que eu estava sentado, podia ver claramente as sólidas muralhas da fortaleza; parecia que a fortaleza fitava a cidade. Ao ponderar as vantagens e os perigos de meu propósito, caí numa terrível indecisão. Sentia-me extremamente cansado; meu coração ansiava por paz e pelo lar, e, assim que pensei em casa, o rosto de minha esposa, Jawhara, surgiu diante dos meus olhos. Voltei a pensar nos poemas que costumava recitar para ela quando estava ao meu lado e, antes mesmo de me dar conta, comecei a compor um poema para ela, esquecendo completamente onde eu estava e que decisão perigosa precisava tomar! Assim que o poema tomou forma em minha mente, escrevi-o, lacrei-o e chamei um dos meus mensageiros, ordenando-lhe: Pegue os dois camelos mais velozes. Conduza-os até Riad sem parar em lugar algum e entregue isto às mãos da mãe de Muhammad. Quando o mensageiro desaparecia atrás de uma nuvem de poeira, de repente percebi que minha mente havia tomado uma decisão sobre a guerra: atacaria Al-Hofuf, e Alá certamente me concederia a vitória.

Sua confiança mostrou-se justificada. Em um ataque ousado, os soldados tomaram a fortaleza. As tropas turcas renderam-se; foi-lhes permitido deixar a fortaleza com suas armas e equipamentos e retirar-se para a costa. De lá, embarcaram e partiram rumo a Basra. O governo otomano, naturalmente, não estava disposto a abandonar seus direitos com tanta facilidade. Em Istambul, decidiu-se enviar uma expedição punitiva contra Ibn Saud. Mas, antes que essa expedição pudesse ser enviada, eclodiu a Grande Guerra, obrigando os turcos a concentrar todas as suas forças combatentes em outro lugar. Depois do fim da guerra, o Império Otomano deixou de existir.

Privado do apoio dos turcos e agora cercado, ao norte, por territórios governados pela Grã-Bretanha e pela França, Ibn Rashid já não conseguia organizar uma resistência eficaz contra o inimigo. Faisal al-Dawish era então um dos mais corajosos guerreiros feudais do rei Ibn Saud. Sob sua liderança, as tropas do rei conquistaram Ha’il em 1921 e, com isso, Ibn Rashid perdeu até seu último reduto fortificado.

A expansão do reino de Ibn Saud atingiu seu ponto culminante em 1924–25, quando ele conquistou o Hijaz, incluindo Meca, Medina e Jeddah, e expulsou do Hijaz a família Sharif, que havia chegado ao poder na região depois que Sharif Hussein, com o apoio e a ajuda britânicos, se rebelara contra os turcos em 1916. Foi somente depois da conquista dessa terra sagrada do Islã que Ibn Saud —agora com quarenta e cinco anos— surgiu plenamente aos olhos do mundo exterior.

Justamente quando quase todos os países do Oriente Médio estavam sendo esmagados sob os pés do imperialismo ocidental, essa extraordinária vitória de Ibn Saud despertou uma intensa esperança em todo o mundo árabe: a esperança de que, enfim, surgira entre eles um líder que libertaria toda a nação árabe da escravidão. Além dos árabes, muitos outros povos muçulmanos também olharam para ele com expectativa, esperando que revitalizasse o ideal islâmico em seu sentido integral mediante a fundação de um Estado no qual a mensagem essencial do Alcorão seria o princípio supremo da vida individual e social. Mas essas esperanças não se realizaram; permaneceram insatisfeitas. Quando seu poder aumentou e se consolidou, tornou-se claro que Ibn Saud não era nada além de um rei: um rei sem objetivo mais elevado do que muitos dos governantes autocráticos que o haviam precedido nos países do Oriente.

Nobre e justo em sua vida pessoal, leal aos amigos e apoiadores, magnânimo para com os inimigos, o rei Ibn Saud possuía uma inteligência muito superior à de quase todos os seus seguidores. Ainda assim, não demonstrou a amplitude de visão nem a liderança inspiradora que as pessoas esperavam dele. É verdade que trouxe à vida do povo em seu vasto reino uma segurança sem paralelo nos países árabes desde os primeiros califas, mil anos antes; mas, em vez de seguir o exemplo daqueles califas, estabeleceu essa segurança por meio de leis severas e medidas punitivas, não despertando em seu povo um senso de responsabilidade cívica. Enviou alguns jovens ao exterior para estudar medicina e telegrafia sem fio; mas nada fez para incentivar toda a sua nação à educação e, desse modo, tirá-la da ignorância na qual havia permanecido imersa durante muitos séculos. Falava sempre da beleza e da riqueza do modo de vida islâmico, e falava com todos os sinais exteriores de autoconfiança; mas nada fez para construir uma sociedade equilibrada e progressista na qual esse modo de vida pudesse adquirir uma forma cultural.

Ele é simples, humilde e trabalhador; apesar disso, entrega-se pessoalmente a gastos extremamente esbanjadores e a luxos sem sentido, e não se opõe quando vê aqueles ao seu redor entregarem-se a esse tipo de gastos e luxos. É profundamente religioso e cumpre ao pé da letra todas as prescrições formais da lei islâmica; mas raramente parece refletir sobre o significado espiritual e o propósito dessas prescrições. Realiza com grande regularidade as cinco orações obrigatórias diárias e passa horas à noite em profunda meditação. Mas parece que nunca lhe ocorreu que a oração é apenas um meio, e não um fim em si mesma. Gosta de falar sobre a responsabilidade do governante para com seus súditos e cita frequentemente estas palavras do Mensageiro (que a paz esteja com ele): ‘Cada pessoa é um pastor a quem foi confiada a responsabilidade por seu rebanho’; apesar disso, negligenciou até mesmo a educação dos próprios filhos e, assim, pouco os preparou para cumprir as responsabilidades que os aguardam. Certa vez, quando lhe perguntaram por que não tentara organizar seu Estado de maneira mais liberal, em vez de construí-lo sobre uma base tão pessoal, para que seus filhos pudessem receber uma estrutura administrativa organizada, respondeu: ‘Conquistei meu reino com minha própria espada e por meus próprios esforços. Depois de mim, que meus filhos tomem suas próprias iniciativas’.

Lembro-me de uma conversa que tive com o rei, que revelou plenamente sua falta de visão e de perspectiva administrativa. Essa conversa ocorreu em Meca, no fim de 1928, quando o famoso líder do movimento de independência sírio, Amir Shakib Arslan, encontrou-se com o rei. Ibn Saud apresentou-me com estas palavras: ‘Este é Muhammad Asad, meu filho, que acaba de voltar das regiões do sul. Ele gosta de viajar entre meus beduínos’.

Amir Shakib não era apenas um líder político; seus interesses eram diversificados e ele era um grande erudito. Quando soube que eu era europeu e havia abraçado o Islã, imediatamente ficou curioso para conhecer minhas experiências. Contei-lhe sobre as experiências que tivera nas regiões do sul, onde nenhum outro europeu havia viajado antes de mim. O enorme potencial daquela região para a agricultura, seus recursos hídricos e seu solo fértil haviam me parecido extremamente promissores e, ao falar disso, dirigi-me ao rei:

— Ó imã, estou plenamente convencido de que Wadi Bisha poderia facilmente tornar-se um celeiro capaz de fornecer grandes quantidades de trigo a todo o Hejaz, se a região fosse estudada e desenvolvida de maneira científica.

Ao ouvir minhas palavras, o rei ficou atento, pois uma grande parte da receita do país estava sendo gasta na importação de trigo para o Hejaz, e o déficit da receita sempre fora a maior preocupação de Ibn Saud.

— Quanto tempo levaria para desenvolver Wadi Bisha dessa maneira? — perguntou-me.

Eu não era especialista e, portanto, não pude dar uma resposta clara. Sugeri a formação de uma comissão composta por especialistas técnicos estrangeiros, cuja tarefa seria estudar a região e apresentar um plano concreto para seu desenvolvimento. Ousadamente, disse que seriam necessários, no máximo, de cinco a dez anos para obter uma colheita plena da região.

—“Dez anos!” —exclamou Ibn Saud. —“Dez anos é um período muito longo! Nós, beduínos, só conhecemos uma coisa: tudo o que conseguimos pôr nas mãos, pomos na boca e comemos. Planejar para daqui a dez anos — isso é tempo demais para nós!”

Diante desse comentário espantoso, o emir Shakib ficou olhando para mim, boquiaberto e com os olhos fixos, como se não pudesse acreditar nos próprios ouvidos; e, em resposta, também olhei para ele, imóvel e com os olhos arregalados…

Foi então que comecei a fazer a mim mesmo esta pergunta: seria Ibn Saud um homem grandioso a quem o conforto e a realeza afastaram da grandeza, ou seria ele apenas um indivíduo extraordinariamente corajoso e muito astuto, que nada deseja além do próprio poder pessoal?

Até hoje não consigo dar uma resposta satisfatória a essa pergunta. Embora o conheça há muitos anos, e o conheça bem, um aspecto do caráter de Ibn Saud continua incompreensível para mim. Não é que ele tenha o hábito de ocultar de algum modo seus sentimentos dos outros; fala abertamente de si mesmo e frequentemente narra suas próprias experiências. Mas há tantos aspectos em seu caráter que é difícil compreendê-lo com facilidade, e por trás da aparência de simplicidade que se vê exteriormente esconde-se um coração tão agitado quanto o mar e, em matéria de humores, disposições e contradições interiores, tão rico quanto o próprio mar. Sua autoridade pessoal é imensa; mas depende menos do poder efetivo do que da força de seu caráter. Não há nele o menor traço de arrogância, seja na conversa, seja nos gestos. Seu espírito genuinamente democrático ajuda-o a conversar com os beduínos que chegam usando roupas sujas, rasgadas e remendadas, como se ele fosse um deles. E foi desse espírito que ele tirou a capacidade de conceder-lhes o direito de tratá-lo por seu primeiro nome, “Abdul Aziz”. Por outro lado, pode mostrar-se rude e hostil até mesmo com altos funcionários quando percebe neles uma atitude servil; detesta toda espécie de fingimento de nobreza. Lembro-me de um episódio ocorrido em Meca. Estávamos comendo no palácio real quando o chefe de uma das famílias mais nobres do Najd torceu o nariz diante do comportamento beduíno grosseiro de alguns najdianos presentes. Eles engoliam alegremente grandes punhados de arroz, com enorme apetite; enquanto aquele nobre de Meca, para demonstrar seu refinado bom gosto, comia retirando a comida com as pontas dos dedos, de repente ouviu-se a voz do rei: “Vocês, pessoas refinadas, mexem na comida com tanta cautela: será que é porque estão acostumados a remexer sujeira com os dedos? Nós, homens do Najd, não temos medo das mãos — nossas mãos são limpas e puras; por isso comemos satisfeitos e aos punhados”.

Às vezes, quando está completamente entregue ao repouso, um sorriso brinca no rosto de Ibn Saud e se espalha pela beleza de suas feições, conferindo-lhe uma qualidade quase espiritual. Tenho a firme convicção de que, se a música não fosse considerada condenável na doutrina wahhabista ortodoxa que Ibn Saud segue, ele se expressaria por meio dela. Na realidade, porém, revela sua musicalidade em seus pequenos poemas, em suas coloridas descrições de experiências e em suas canções de guerra e de amor, que se espalharam por todo o Najd; os homens as cantam enquanto atravessam o deserto montados em camelos, e as mulheres, na solidão de seus próprios lares. Sua musicalidade também se manifesta no ritmo regular e flexível que governa sua vida cotidiana, adequada às responsabilidades reais. Assim como Júlio César, ele possui em alto grau a capacidade de acompanhar simultaneamente vários fios de pensamento, e pode fazê-lo sem diminuir em nada a intensidade com que enfrenta cada problema. É graças a essa qualidade inata e peculiar que consegue administrar pessoalmente todos os assuntos de seu vasto reino sem se deixar confundir nem sucumbir ao excesso de trabalho, e ainda encontra tempo e conserva o interesse para entregar-se a um luxo tão dispendioso na companhia de mulheres. A sutileza de seus sentimentos é, muitas vezes, quase sobrenatural e arrepiante. Ele possui uma intuição inata, quase infalível, capaz de alcançar o próprio âmago dos movimentos interiores das pessoas com quem lida — como eu mesmo tive muitas vezes a oportunidade de observar. Parece compreender os pensamentos ou sentimentos de uma pessoa antes que ela os expresse em palavras e perceber sua atitude em relação a ele assim que ela entra numa sala. Foi graças a essa capacidade que Ibn Saud conseguiu frustrar várias tentativas muito bem planejadas contra sua vida e tomar decisões afortunadas no próprio local dos acontecimentos políticos.

Em resumo, Ibn Saud possui muitas das qualidades graças às quais um homem pode tornar-se grandioso; mas jamais fez qualquer esforço verdadeiro para alcançar a grandeza. Por não ser introspectivo por temperamento, possui uma enorme capacidade de aplicar seu poder de julgamento racional e de convencer-se de que está no caminho certo diante de erros e falhas absolutamente evidentes. Assim, evita facilmente toda forma de autoexame. Os que o cercam — seus cortesãos e as incontáveis pessoas que imploram favores e dependem de sua generosidade — certamente nada fizeram para conter essa sua lamentável tendência.

Ao desmentir a enorme promessa de seus anos de juventude, quando parecia ser o sonhador de sonhos capazes de despertar entusiasmo, talvez tenha, sem se dar conta, quebrado o espírito de uma nação afinada num tom elevado, uma nação ansiosa por considerá-lo um líder enviado por Allah. As expectativas que depositavam nele eram tão elevadas que lhes era difícil aceitar a decepção com indiferença; muitos dos melhores habitantes do Najd falam hoje em termos extremamente amargos contra aquilo que, em sua opinião, foi uma traição à sua fé.

Jamais esquecerei a expressão de sofrimento e desespero que vi no rosto de um amigo meu do Najd, que outrora acreditara intensamente na liderança de Ibn Saud e o acompanhara, nos anos mais difíceis da vida real do soberano, na alegria e na tristeza, no perigo e na adversidade. Um dia, ao falar comigo sobre o rei, ele me disse:

—«Naqueles primeiros anos, quando saíamos em expedição, conduzindo camelos, com Ibn Saud contra Ibn Rashid, e quando partíamos, conduzindo camelos, sob a bandeira com a inscrição ‘Lā ilāha illā Allāh — não há divindade além de Deus’ contra aquele traidor do Islã, Sharif Hussein, pensávamos que Ibn Saud era um novo Moisés, que libertaria seu povo dos grilhões da jahiliyyah e da decadência e o conduziria à terra prometida do Islã. Mas, quando ele se esqueceu de seu povo e de seu futuro e se instalou em seu recém-adquirido conforto e luxo, estremecemos de medo ao perceber que ele era um faraó…».

É claro que meu amigo foi excessivamente… extremamente severo, até injusto, ao condenar Ibn Saud; pois ele não é um faraó, nem um tirano; é um homem bondoso, e não tenho dúvida de que ama seu povo. Mas isso não significa que seja Moisés. Seu fracasso está justamente no fato de não ter alcançado a grandeza com que seu povo o imaginara — nem ter se tornado aquilo que talvez pudesse ter sido se tivesse seguido o toque de clarim da juventude. Sua comparação é a de uma águia que jamais abriu as asas no céu.

Ele permaneceu, em escala muito… muito maior, apenas um magnânimo chefe tribal…. [Pouco depois de este livro ser concluído (1935), Ibn Saud morreu aos 73 anos e, com sua morte, encerrou-se uma era da história árabe. Quando o vi pela última vez, no outono de 1951 (durante uma visita oficial à Arábia Saudita em nome do governo do Paquistão), tive a impressão de que, finalmente, ele havia se tornado consciente do desperdício trágico de sua vida. O rosto que outrora fora tão firme e vivaz tornara-se amargo e indiferente. Falou de si mesmo — parecia falar de algo que já havia morrido e sido enterrado, algo que não era possível trazer de volta!]

Três

Na manhã em que deixei Ha’il, despertei em meio a uma música de tom elevado que entrava pela janela aberta do aposento de minha fortaleza: uma canção, um chilreio, uma execução tão desordenada e inábil que parecia que centenas de liras e flautas estavam sendo afinadas antes do início de uma ópera grandiosa: o breve compasso dissonante de melodias distintas, de muitos modos, que pareciam tão numerosas e tão disciplinadas — como se tivessem despertado a harmonia de uma música misteriosa, quase fantasmagórica. … Mas certamente era uma orquestra imensa, e por isso as ondas sonoras que dela surgiam eram tão poderosas…

Quando fui até a janela e olhei para fora — para o mercado deserto e, além dele, para a cinzenta alvorada que gradualmente surgia sobre as casas cinzentas de barro da cidade; olhei para o sopé das montanhas, onde crescem tamargueiras e fileiras de tamareiras — compreendi que aquela era a música dos poços de irrigação nos jardins, centenas deles, talvez, que apenas começavam o trabalho do dia. Os camelos puxavam e içavam a água em enormes odres; as cordas que puxavam a água passavam por polias de madeira toscamente construídas, e cada polia, roçando em seu eixo de madeira, cantava, tocava flauta, rangia e assobiava em muitas notas agudas e graves, até que a volta da corda se desenrolava por completo e a polia parava; imediatamente erguia-se um estrondo, como um grito, e esse grito aos poucos se dissolvia nos suspiros das cordas, aos quais agora se misturava vigorosamente o rápido fluxo da água correndo para o tanque de madeira; então o camelo voltava a cabeça e retornava lentamente ao poço, e mais uma vez a polia criava sua música, enquanto as cordas deslizavam por ela e o odre descia e mergulhava no interior do poço.

Como os poços são tão numerosos, essa música não tem sequer um instante de pausa; as diferentes cordas às vezes se unem numa só nota e outras vezes se separam; quando algumas melodias começam com renovado entusiasmo, todas as demais desaparecem lentamente. Parecia que fontes inteiras de ritmos incompreensíveis fluíam ao mesmo tempo e, separadas umas das outras, rugiam, produziam rangidos, assobiavam e cantavam — que maravilha! Que orquestra magnífica! Essa harmonia não foi criada pelo planejamento humano e, por isso, sua excelência e grandeza quase se aproximam da excelência e grandeza da natureza — cuja vontade é incognoscível e impenetrável.

 

O caminho do meio

Um

Deixámos Ha’il e seguimos montados em camelos na direção de Medina; agora somos três, pois um dos homens de Ibn Musa, Mansur al-Assaf, acompanha-nos durante uma parte da viagem, levando uma ordem do «emir».

Mansur é tão belo que, se saísse por uma rua de qualquer cidade ocidental, todas as mulheres ficariam ansiosas por vê-lo. É muito alto, tem o rosto forte e másculo, e os seus traços são extraordinariamente suaves. A sua pele é de um castanho esbranquiçado, um sinal infalível de nascimento nobre entre os árabes; os seus dois olhos negros, bem formados, observam o mundo com interesse por baixo das sobrancelhas unidas. Nada nele há da graça ou da serena indiferença de Zayd; as linhas do seu rosto revelam que Mansur possui instintos ferozes, embora controlados, e conferem à sua fisionomia uma melancolia inteiramente diferente da suave gravidade do meu amigo Shammar. Contudo, tal como Zayd, Mansur também viu muito do mundo, e a sua companhia é verdadeiramente agradável.

No lugar cinzento e amarelado, coberto de cascalho, a que chegámos depois da região arenosa de Nufud, vemos toda espécie de pequenos animais que enchem o lugar: pequenos lagartos cinzentos correm em ziguezague, com uma rapidez incrível, por entre as patas dos nossos camelos, refugiam-se sob um arbusto espinhoso e fitam-nos com os olhos ardentes enquanto avançamos, deixando-os para trás; vemos pequenos ratos-do-campo cinzentos, rechonchudos e de cauda grossa, que se parecem um pouco com esquilos, e também a marmota, sua parente, cuja carne é muito apreciada pelos beduínos najdis. Entre as comidas deliciosas e extremamente tenras que provei até hoje, a sua carne está entre as melhores. Há ainda um réptil halal de cerca de trinta centímetros, chamado «dabb»; esse animal vive das raízes das plantas e a sua carne tem um sabor intermediário entre o de frango e o de peixe. Vemos besouros-do-esterco quadrúpedes, do tamanho de pequenos ovos de galinha, a empurrar com comovente paciência uma bola de esterco seco de camelo; apoiando o peso do corpo nas patas dianteiras, empurram-na para trás com as robustas patas traseiras, semelhantes às de um camelo. E assim conduzem, com enorme esforço, esse precioso objeto que encontraram até à sua morada. Sempre que uma pedrinha lhes bloqueia o caminho, tombam de costas no chão e, depois de muito esforço, rolam até se porem de pé; fazem a bola avançar mais alguns centímetros, tombam novamente de costas, levantam-se outra vez e retomam o trabalho, incansáveis, sem descanso… Às vezes, uma lebre cinzenta sai de sob os arbustos cinzentos e avança aos saltos largos. Uma vez vimos alguns veados, mas estavam tão longe que não foi possível disparar; desapareceram na sombra azul-acinzentada entre duas montanhas.

— Diga-me, Muhammad — pergunta Mansur —, como conseguiu estabelecer-se entre os árabes? E como aceitou o Islã?

— Vou dizer-vos como isso aconteceu — intervém Zayd. — Primeiro, ele apaixonou-se pelos árabes e, por amá-los, acabou também por amar a sua religião. Tio, não tenho razão?

— O que Zayd disse é verdade, Mansur. Há muitos anos, quando vim para a terra dos árabes, senti-me atraído pelo vosso modo de vida. E quando comecei a perguntar a mim mesmo o que pensais e em que acreditais, descobri o que era o Islã!

— Mas, Muhammad, compreendeu subitamente que o Islã era o verdadeiro Kalam de Allah?

—‘Não, não foi isso; essa percepção não surgiu tão depressa. Naquela época eu nem sequer acreditava que Allah tivesse falado diretamente com os seres humanos, ou que os livros que as pessoas afirmam ser Sua palavra fossem algo além de livros de homens sábios…’.

Mansur olha para mim com a mais completa incredulidade: ‘Como isso poderia ser possível, Muhammad? Você nunca acreditou no livro que Moisés trouxe, nem nos ensinamentos de Hazrat Jesus? Mas eu sempre pensei que os ocidentais, pelo menos, acreditassem nessas coisas’.

—‘Alguns acreditam, Mansur, e outros não; eu era um desses últimos…’.

E explico-lhe que, há muito tempo, no Ocidente, muitas pessoas já não consideram seus próprios livros sagrados, nem os livros sagrados de qualquer outra religião, como a verdadeira revelação ou revelação de Allah. Pelo contrário, veem neles a história das esperanças e aspirações religiosas humanas, desenvolvidas ao longo de muitos e muitos séculos.

—‘Mas meu ponto de vista sofreu um terrível abalo assim que travei algum contato com o Islã’, digo, retomando o fio das minhas palavras. ‘Esse contato ocorreu quando percebi que os costumes de vida dos muçulmanos eram completamente diferentes daquilo que os europeus consideram que deveria ser o modo de vida humano; e, cada vez que aprendia algo mais sobre os ensinamentos do Islã, era como se tivesse descoberto algo que eu sempre soubera, sem jamais ter consciência disso…’.

E assim continuo contando a Mansur sobre minha primeira viagem ao Oriente Médio—como, no deserto do Sinai, obtive, a respeito dos árabes,  minhas primeiras impressões, essa história; na Palestina,, no Egito,, na Transjordânia e na Síria, o que vi,, o que senti,, esse relato; como’em Damasco, pela primeira vez tive o pressentimento de que, o caminho de uma verdade até então inimaginada, estava gradualmente se revelando diante de mim e como, após a viagem à Turquia, voltei à Europa e compreendi, que me seria difícil voltar a viver no mundo ocidental; porque, por um lado,…eu ansiava por compreender o significado mais profundo daquele extraordinário desconforto que meu primeiro contato com os povos árabes e sua cultura havia despertado, na esperança de que, isso me ajudasse a compreender mais intimamente o que eu próprio espero da vida, por outro lado,, eu havia então chegado a um ponto em que, para mim, esta verdade  se tornara cada vez mais clara:, eu jamais poderia considerar minhas as esperanças da sociedade ocidental,–suas aspirações e objetivos.

Na primavera de 1924, ‘Frankfurter Zeitung’ me enviou ‍ pela segunda vez ao Oriente Médio. Ao descrever minhas viagens anteriores, o livro que comecei a escrever acabou, por fim,  sendo concluído. (Poucos meses depois de eu partir rumo ao Oriente Médio, Unromantisches Morgenland– foi publicado sob esse título. Com essa denominação, eu queria deixar claro, que o livro não era uma imagem romântica e exótica da superfície do Oriente muçulmano,, mas, antes, uma tentativa de alcançar o âmago das verdades reais de sua vida cotidiana. Embora a atitude antissionista do livro– e a simpatia incomum pelos árabes tenham provocado certa agitação na imprensa alemã,, ainda assim, na minha opinião,, o livro não teve grande aceitação.

Atravessei novamente o Mediterrâneo. Diante de mim, avistei a costa do Egito–. A viagem de trem de Port Said ao Cairo pareceu-me como folhear as páginas de um livro introdutório. Entre o Canal de Suez e o lago Manzala, a tarde egípcia revelava sua verdadeira natureza. Patos selvagens nadavam na água, e as tamargueiras moviam seus belos conjuntos de ramos semicirculares  . Na planície, surgia uma aldeia após outra–, inicialmente arenosas e, em alguns lugares, cobertas de vegetação. Pelos campos primaveris, avançava preguiçosamente, arrastando o arado, em passos largos,, com um kess na cabeça,, os braços,, deixando-os’soltos em ambos os’lados,, e então disse a mim mesmo que nada em todo o mundo——o automóvel mais perfeito,, ou a ponte mais orgulhosa,, ou ainda o livro mais profundo—–pode ocupar o lugar dessa espécie de beleza, já ameaçada no Oriente perdido no Ocidente, que–é a verdadeira essência do ser humano  e nada mais que a expressão de uma maravilhosa harmonia entre ele e o mundo ao seu redor……।

Desta vez, eu viajava na primeira classe. No meu compartimento, além de mim, havia apenas mais dois’homens, um comerciante grego de Alexandria–que, com aquela característica observada em todos os habitantes da costa oriental do Mediterrâneo de iniciar facilmente uma conversa, envolveu-me, em pouquíssimo tempo, numa acalorada  discussão, ; fazia comentários espirituosos sobre tudo o que víamos; e havia um egípcio ‘umda’— isto é, um chefe   rural —–que, pelo seu caro caftã de seda e pela espessa corrente de ouro do relógio que saía de dentro do lenço  parecia claramente ser um homem rico, ; ficou claro que, ele se comprazia em ser um completo ignorante!! Na verdade,, apesar de se juntar à nossa conversa, ele também demonstrava, durante a discussão, sua aguda perspicácia e provava repetidamente sua habilidade em travar um combate de argumentos com o comerciante– grego.

Lembro-me de que, estávamos conversando sobre alguns’princípios sociais do Islã que, naquela–época, dominavam intensamente o meu pensamento. Meu companheiro grego não conseguia concordar inteiramente com a minha respeitosa admiração pela justiça social da lei islâmica.

–‘por mais justa que você a considere, na verdade, ela não é tão justa, amigo!’ –Já havíamos começado a conversar em francês. Voltando ao árabe para facilitar as coisas para o nosso companheiro egípcio, o amigo grego dirigiu-se a mim e disse, ‘vocês dizem, que a religião de vocês é uma religião muito justa. Então, pode dizer’por que o Islã permite que um homem muçulmano se case com uma moça cristã ou judia, mas não consente que suas filhas e irmãs se casem com um homem cristão ou judeu? Você quer chamar isso de justiça, hein?

–‘Certamente’, sem hesitar por um instante, o louco vestido com roupas suntuosas–diz, ‘Escute! estou lhe dizendo, por que essa norma existe em nossa legislação religiosa. Nós, muçulmanos, não acreditamos que, Jesus–que a misericórdia de Allah esteja sobre ele–fosse o filho de Allah. No entanto, acreditamos que. ele era um verdadeiro profeta de Allah. Assim como acreditamos que Moisés, Abraão e todos os demais mencionados na Bíblia eram profetas. Assim como o último profeta, Maomé, foi enviado, da mesma forma, todos os profetas foram enviados, da mesma forma, todos os profetas foram enviados à humanidade. Portanto, se uma moça judia ou cristã se casar com um homem muçulmano, ela pode ter certeza de que, para ele–todas as pessoas que lhe são sagradas, não serão alvo de nenhuma palavra desrespeitosa em sua nova família; ao passo que é certo que, se uma moça muçulmana se casar com um não muçulmano, ela insultará aquele que acredita ser o Mensageiro de Allah…e até os próprios filhos dela poderão insultá-Lo, pois não é verdade que, as crianças geralmente seguem a religião do pai! Você acha que seria justo empurrar uma moça muçulmana para esse tipo de sofrimento e humilhação?’

O velho grego encolheu os ombros, impotente; mas não encontrou resposta. Pensei que, esse simples analfabeto ‘louco’ , com a especial sensatez de que seu próprio povo é dotado,–tocara o âmago de uma questão extremamente importante e, pela segunda vez, eu, como acontecera com aquele velho ‘haji’de Jerusalém,, compreendi, que uma nova porta para o Islã parecia estar sendo aberta para mim.

Com a minha situação financeira transformada, agora posso viver no Cairo num estilo de vida–que me é possível manter, e que, poucos meses antes, teria sido inimaginável para mim. Agora já não preciso contar os quartos de–anna. Durante a minha primeira estada nesta cidade, quando tinha de subsistir de pão,, azeitonas e leite,, esqueci-me daquela época.  ‍Mas, num aspecto, mantenho intacta a crença na minha antiga ‘tradição’: em vez de ficar numa área luxuosa do Cairo, alugo alguns quartos justamente na casa da minha velha amiga,, a corpulenta mulher de Trieste. A mulher recebeu-me de braços abertos e’beijou-me ambas as faces com carinho maternal.

No terceiro dia da minha chegada aqui, quando o sol estava se pondo, ouvi o som abafado de um canhão vindo da cidadela. Naquele momento, na mesquita da cidadela, dos’lados, elevando-se em direção ao céu,–duas’torres, na galeria mais alta, ergueu-se de repente uma esfera de luz, e todos os’minaretes das mesquitas da cidade se enfeitaram com guirlandas luminosas do mesmo tipo, e sobre cada minarete surgiu uma esfera de luz igual. Um movimento–de agitação percorreu–a cidade — os passos de seus habitantes tornaram-se mais rápidos e, ao mesmo tempo, mais alegres–e agitados, e elevaram-se os muitos sons variados das ruas: pode-se sentir e quase ouvir por toda parte o eco de uma nova onda de excitação!!

 E tudo isso aconteceu porque, pela segunda vez, a lua anunciou a chegada de um novo mês (pois o calendário islâmico se baseia nos meses e anos lunares) e o mês é o Ramadã, o mês mais solene e importante do calendário islâmico. Este mês recorda o tempo de mais de mil e trezentos anos atrás quando, segundo os relatos históricos, o Mensageiro de Deus recebeu a primeira revelação do Al–corão. Todos os muçulmanos observarão rigorosamente o jejum neste mês–esta é a regra; com exceção dos doentes, para mulheres–e homens, comer e beber (até mesmo fumar) é proibido, durante longos trinta dias, começando no momento em que a faixa de luz visível no horizonte oriental antes do amanhecer aparece, até o pôr do sol. Durante esses trinta dias, os habitantes do Cairo caminham com um brilho nos olhos tal que, parece que foram elevados a uma região sagrada. Durante trinta noites, você ouvirá o som dos canhões, melodias musicais e um alegre alvoroço, enquanto as mesquitas cintilam iluminadas até a chegada do dia.

descobri que o objetivo deste mês do Ramadã era’duas coisas: você deve renunciar à comida e à água para que, também possa sentir em seu próprio corpo o que sentem os pobres e famintos. Assim, cria-se na consciência das pessoas o senso de responsabilidade social com base em um princípio religioso fundamental.

O jejum no mês do Ramadã tem ainda outro objetivo: cultivar o hábito de observar a autodisciplina na vida–o que constitui um aspecto da moralidade racional, moralidade à qual se atribui especial importância em todos os ensinamentos do Islã (como, no caso da proibição total de todos os tipos de substâncias intoxicantes, porque o Islã considera as substâncias intoxicantes um meio extremamente fácil de escapar à consciência e ao senso de responsabilidade). Esses dois’elementos  — isto é, a fraternidade humana e a disciplina autoimposta do indivíduo —–começaram gradualmente a tornar clara para mim a estrutura da visão moral do Islã.

qual é o verdadeiro significado do Islã e o que o Islã deseja, na tentativa de obter um quadro mais completo disso, eu, beneficiei-me enormemente das explicações e análises que alguns amigos muçulmanos do Cairo puderam oferecer. Entre eles, ocupava a posição mais elevada o xeique Mustafa al-Maraghi, um dos maiores eruditos islâmicos de sua época e, sem dúvida alguma, o mais talentoso entre os ‘alim’ de Al–Azhar, a universidade‘de Al-Azhar’— o mais talentoso entre eles (Poucos anos depois, tornou-se reitor de Al–Azhar). É muito provável que tivesse então entre quarenta e cinquenta anos, mas seu corpo robusto e musculoso possuía a agilidade e a vitalidade de um jovem de vinte anos. Apesar de sua erudição e gravidade, jamais perdeu por um instante sequer o senso de humor. Era discípulo do grande reformador egípcio Muhammad Abduh e a fonte de inspiração de sua juventude,–o homem de fogo, Jamaluddin al-, cuja companhia foi uma bênção para o xeique al-–Maraghi; ele próprio era um pensador de mente aguçada e grande discernimento. Nunca deixava de explicar que, os muçulmanos dos tempos recentes haviam se afastado muito dos ideais de sua religião, e que não poderia haver nada mais equivocado do que avaliar o potencial dos ensinamentos de Maomé pelos padrões da vida e do pensamento dos muçulmanos de hoje.

‘Assim como, seria um erro, ‘dizia ele, ‘ver uma negação da mensagem de amor de Jesus nos comportamentos desamorosos dos cristãos uns para com os outros…।

Com esta advertência, o xeique Al-–Maraghi me apresentou a Al-Azhar.

Saindo do tumulto da multidão da rua Mouski, o mercado mais antigo do Cairo, chegamos a uma pequena praça isolada e afastada–um de cujos lados era, Al-–Azhar,, a fachada simples e ampla da mesquita. Entramos por um portão de duas folhas e através de um pátio coberto de sombras–no recinto da própria mesquita. Um grande quadrilátero, cercado por arcadas de mihrabs muito antigas. Usando turbantes, compridas, de cor preta,‘jubbas’sobre o corpo,, os estudantes estão sentados sobre esteiras, lendo em voz baixa seus livros e manuscritos. À frente,, no grande salão da mesquita, coberto por um teto–está sendo dada uma palestra. Alguns mestres também estão sentados sobre esteiras de palha,, sob as colunas,, que atravessam o salão em longas fileiras,, e, diante de cada mestre, um grupo de estudantes está ajoelhado em semicírculo. O professor jamais eleva a voz, por isso,, é preciso muita atenção e concentração para não perder nenhuma palavra que ele pronuncie. É natural que qualquer pessoa pense que, tal atenção não pode deixar de contribuir para uma verdadeira erudição. Mas o xeique Al-—Maraghi logo despedaçou completamente essa minha ideia equivocada.

–‘Você está vendo aqueles ‘“eruditos”’?? —pergunta-me, ‘Eles são como aquelas vacas sagradas da Índia, que, segundo ouvi, ao encontrar papéis impressos na rua, comem tudo.…Sim,, continuam devorando avidamente as páginas impressas de todos os livros escritos centenas de anos atrás, mas nunca as digerem. Hoje já não pensam por si mesmos. Leem e repetem, leem e repetem sem cessar, geração após geração.’

‘Mas, xeque Mustafa’—interrompo para perguntar—, ‘seja o que–for, Al-Azhar é, afinal, o principal centro do ensino islâmico e a universidade mais antiga do mundo. Encontramos seu nome em quase todas as páginas da história cultural dos muçulmanos. O que você diz sobre os pensadores, teólogos, historiadores, filósofos e matemáticos que esta universidade produziu nos últimos dez séculos??

–‘Mas, há vários séculos, Al-–Azhar já não dá origem a intelectuais desse tipo’. O xeque diz, pesaroso:, ‘isso–talvez não seja inteiramente verdade;; mesmo nos tempos recentes, de vez em quando, alguns pensadores independentes surgiram de Al-–Azhar. Mas, em linhas gerais, é verdade que, todo o mundo muçulmano–sofre da esterilidade que o aflige, e Al-—Azhar também foi vítima dessa esterilidade,, e nada mais resta senão o apagamento de seu antigo espírito de iniciativa e inspiração. Os antigos pensadores muçulmanos que você mencionou jamais imaginaram, nem em sonhos, que, muitos séculos depois, sua linha de pensamento não seria mantida nem desenvolvida,, mas apenas repetida continuamente, dando voltas e mais voltas,, como se fossem verdades absolutas e infalíveis!! Se quisermos mudanças para melhor,, então’em vez de nossa atual imitação do pensamento,‘devemos incentivar o pensamento independente….।

Al-–Azhar, sobre cujas características o comentário mordaz do xeique al-—Maraghi, , ajuda-me a compreender uma das causas mais profundas da decadência cultural que você encontrará por toda parte no mundo muçulmano. A inércia desta antiga universidade no campo do conhecimento–não se reflete, em diferentes graus, na atual esterilidade social dos muçulmanos?? Não vemos outra forma dessa mesma inércia mental, na aceitação quase ociosa, juntamente com a inatividade, da pobreza desnecessária em que vivem tantos muçulmanos? e na tolerância silenciosa das injustiças sociais que lhes são infligidas.

E será então assim tão surpreendente, pergunto a mim mesmo, que tantos conceitos errôneos tenham surgido no Ocidente, apoiados por provas tão concretas da decadência dos muçulmanos? a opinião pública ocidental–sobre o Islã pode ser resumida da seguinte maneira: a principal causa da queda dos muçulmanos é precisamente o Islã, que, longe de ser um ideal religioso comparável ao cristianismo ou ao judaísmo, é, ao contrário, uma mistura vil, de cegueira própria do deserto, sensualidade grosseira, superstição e fatalismo mudo, que impede os seguidores do Islã de participar da marcha da humanidade rumo a condições sociais mais elevadas e nobres; O Islã não liberta a mente humana–da resistência à reforma ou à investigação–de modo algum, mas, ao contrário, fortalece ainda mais essa resistência. Portanto, quanto mais depressa as nações muçulmanas se libertarem da servidão às crenças islâmicas e às práticas sociais–e da servidão aos costumes, e quanto mais depressa adotarem o modo de vida ocidental–e se dispuserem a adotar esse sistema, tanto melhor será para elas–e também para o resto do mundo…।

A essa altura, minhas próprias observações haviam me levado à convicção de que, a concepção do islamismo predominante entre os ocidentais é inteiramente distorcida. Página após página do Alcorão, o que encontrei não foi de modo algum uma concepção‘“materialista grosseira”’ do universo,, mas sim uma consciência profunda e intensa de Allah,, cuja expressão se deu na aceitação racional de tudo o que Allah–criou na natureza — juntamente com–um belo equilíbrio entre os impulsos intelectuais e sensoriais,, as necessidades espirituais e as demandas sociais!! Tornou-se claro para mim como a luz do dia: a queda dos muçulmanos não se deve às falhas do Islã–nem aos seus desvios,, mas sim ao nosso fracasso em viver segundo o ideal do Islã,–que é o responsável.

Porque, é verdade que, foi o Islã que levou os primeiros muçulmanos ao ápice dourado da grandeza civilizacional, conduzindo sua energia de ação para o pensamento consciente;e esse pensamento consciente é o único meio de compreender a natureza da criação de Allah e Sua intenção. Não se exigiu que os muçulmanos acreditassem em algum, «dogma» incompreensível‘até mesmo inacessível à razão,’nem lhes foi exigido que nele acreditassem; Na verdade, não há lugar para qualquer espécie de fé cega nos ensinamentos do Profeta. E foi justamente por isso que a busca do conhecimento que caracterizou a história muçulmana em seus primórdios, não se manifestou, como em outras regiões do mundo,, por meio de uma dolorosa luta contra as crenças religiosas tradicionais. Pelo contrário, pode-se dizer que, ela surgiu precisamente dessa religião. O Profeta da Arábia declarou: «A busca do conhecimento é o dever mais sagrado de todo muçulmano–e de toda muçulmana»;’; e entre sua ummah foi criada a crença de que, somente por meio da aquisição do conhecimento é possível prestar plena ibadah a Allah. Allah não cria doença alguma sem criar o seu remédi’o»;’, –quando refletiram profundamente sobre essas palavras do Profeta, compreenderam então que, ao buscar o remédio desconhecido, podiam’ajudar a cumprir a intenção de Allah na Terra, e assim a pesquisa médica passou a ser revestida, para eles, da santidade de um dever religioso. Eles leram no Al-—Corão este versículo:‘«Crio todo ser vivo a partir da água» –e, ao tentar desvendar o significado dessas palavras, começaram a estudar os seres vivos e seu desenvolvimento, e assim estabeleceram os fundamentos da bio-–logia. O Al-Corão aponta para a harmonia das estrelas e de seus movimentos como uma manifestação da glória do Criador, e assim os muçulmanos abraçaram a astronomia e a matemática com um interesse—e um entusiasmo–que, em outras religiões, se limitavam exclusivamente ao campo da oração. O método de Copérnico que–prova a rotação da Terra em torno de seu próprio eixo e a revolução dos planetas ao redor do Sol, só se desenvolveu na Europa no início do século XVI (e foi combatido pelos teólogos com furiosa hostilidade, porque acreditavam que ele contradizia os ensinamentos literais da Bíblia) Mas os fundamentos desse método haviam sido lançados seiscentos anos antes, nos países muçulmanos,–pois já nos séculos IX e X os astrônomos muçulmanos haviam concluído que a Terra era esférica e girava em torno de seu próprio eixo. Foram capazes de calcular com precisão as latitudes e longitudes, e muitos deles afirmavam, que a Terra girava ao redor do Sol, sem que fossem acusados de apostasia por essa afirmação  . Assim, dedicaram-se à física, à química e à fisiologia  e também se empenharam no estudo das demais ciências. É evidente, que foi nesses campos que o gênio muçulmano deixou seus monumentos mais duradouros. Ao erigir esses monumentos, seguiram os conselhos do Profeta, e nada fizeram além disso. O conselho do Profeta era este: «Se alguém parte em busca do conhecimento,, Allah lhe facilita o caminho para o Paraíso»;’, ‘«O cientista caminha pelo caminho de Allah»;’ ‘«A dignidade da tinta da caneta é mais sagrada do que o sangue do mártir».

Durante todo o período criativo da história muçulmana, isto é, nos primeiros quinhentos anos após o Profeta, , não houve patrono maior que a civilização muçulmana em matéria de, conhecimento, – ciência e educação; ; Fora dos– países nos quais o Islã detinha o poder supremo, –em nenhum outro lugar havia um refúgio mais seguro.

Da mesma forma, a vida social foi influenciada pelos ensinamentos do Alcorão, enquanto a Europa cristã, sempre que surgia uma epidemia, pensava que se tratava da ira de Deus, diante da qual não havia alternativa senão a submissão humana. Naquela época e muito antes disso, os muçulmanos seguiam a instrução de seu Profeta de que, para impedir a propagação das epidemias, as cidades e áreas atingidas deveriam ser isoladas das áreas saudáveis–e quando, os reis do mundo cristão,–monarcas e nobres consideravam o banho uma forma quase vulgar de luxo, mesmo naquela época, até mesmo na casa muçulmana mais pobre havia pelo menos um banheiro, e em toda cidade muçulmana havia banheiros públicos com todas as instalações (por exemplo, somente em Córdova, no século IX, havia trezentos’banheiros desse tipo). E tudo isso foi feito para pôr em prática um ensinamento do Profeta:‘A limpeza–e a pureza fazem parte da fé’. Quando o muçulmano desfrutava das coisas belas da vida terrena, não se via diante de nenhum conflito com as exigências da vida espiritual, pois, segundo o ensinamento do Mensageiro de Deus ((que a paz esteja com ele))-—‘Deus ama ver os sinais de Sua riqueza na vida de Seus servos.’

Em poucas palavras,, o Islã foi uma poderosa inspiração, para alcançar realizações no campo cultural,–que ocupa uma das páginas mais gloriosas da história humana,, e o Islã cria essa inspiração ao reconhecer o crescimento e rejeitar o agnosticismo. Isso não significa inatividade,, mas ativismo;; não ascetismo,, mas vitalismo. Portanto, há muito pouco espaço para admiração pelo fato de que, assim que o Islã ultrapassou as fronteiras da Arábia, começou rapidamente a conquistar novos seguidores. O cristianismo pregado por Paulo e Agostinho nutria o ódio–e o desprezo pela vida terrena; as pessoas da Síria e do Norte da África, formadas nesse ambiente, e, algum tempo depois,, os habitantes da Espanha visigótica depararam-se subitamente com um ideal que, ‘rejeita a cegueira da crença no pecado original’e dá importância à dignidade inerente à vida terrena do ser humano,; e por isso começaram a reunir-se em números cada vez maiores, ao lado desse ideal de vida,–que lhes ensinou–que o ser humano é o representante de Allah na Terra. Esta é a explicação das surpreendentes conquistas do Islã no glorioso alvorecer da história islâmica–— não, a lenda de converter pessoas pela força da espada.’

Os muçulmanos não conferiram grandeza ao Islã, foi o próprio Islã que concedeu grandeza aos muçulmanos. Mas, no momento em que sua fé se tornou objeto de seu hábito, ela deixou de ser o programa de suas vidas, o programa que deixou de ser, um programa a ser seguido conscientemente, foi então que , o impulso criativo existente na base de sua civilização começou a se deteriorar e, gradualmente, trouxe a inatividade, a esterilidade e a decadência cultural.

O novo discernimento que adquiri e o progresso que vinha fazendo no idioma árabe ((eu havia contratado um aluno de Al-–Azhar para minhas aulas diárias)) fizeram-me pensar, que agora eu  era possuidor de algo que se poderia chamar de chave para a mente muçulmana. Apenas alguns’meses antes, eu havia escrito em meu livro: “‘Nenhum europeu pode conscientemente apreender o quadro completo’ , já não me foi possível sentir-me tão seguro a esse respeito; pois , agora, se este mundo muçulmano puder libertar-se em certa medida dos hábitos completos de pensamento associados ao Ocidente e aceitar a possibilidade de que, esses hábitos de pensamento talvez não sejam os únicos aceitáveis, então o mundo muçulmano, antes tão desconhecido, também poderá tornar-se inteligível…”…।

Mas embora eu tenha visto que, muitas coisas do Islã apelavam ao meu intelecto e aos meus sentimentos inatos, ainda assim não considerei desejável que, esse sistema, não sendo uma invenção de sua própria imaginação, com algo desse tipo, todos os pensamentos de uma pessoa inteligente ao longo de toda a sua visão de vida–devessem se ajustar.

–‘diga-me, xeique Mustafa, certa vez eu disse ao meu amigo erudito Al-—Maraghi, qual é a necessidade de alguém se confinar a uma doutrina específica e a certos ensinamentos e instruções específicos? não seria melhor deixar toda inspiração moral sob a orientação da voz interior?

–“Jovem amigo, o que me pergunta, é, na verdade, isto, qual é a necessidade da religião formal? A resposta é muito simples. Muito poucas pessoas —–somente os profetas —–têm a verdadeira capacidade de compreender o que a voz interior lhes diz no coração. A maioria de nós  está presa na teia do interesse pessoal e do–desejo, e, se seguirmos aquilo que o nosso coração diz, se cada um de nós seguir isso, então  enfrentaremos uma desordem moral generalizada e, quanto aos costumes–não conseguiremos concordar sobre nenhum modo de conduta. É claro que você pode perguntar, se há alguma exceção a essa regra geral: as pessoas iluminadas pensam, que, no que diz respeito ao que considerarão bom ou mau, não sentem necessidade de ser‘«guiadas» por outros’Mas, ainda assim, pergunto-lhe–muitas pessoas —–na verdade, a maioria das pessoas — não reivindicará esse direito especial para si mesma? E qual será o resultado disso?”

…. ….. …… …     .            ….       …   

         

Estou no Cairo há quase seis’semanas. Durante esse período, voltei a sofrer de malária. No ano anterior, eu havia sido acometido pela malária pela primeira vez na Palestina. Com dor de cabeça, tontura e dores por todo o corpo, começou a febre e  no fim do dia tive de me deitar de costas na cama; e já não conseguia sequer levantar os braços. A dona da minha casa, a signora Vitelli, começou a correr de um lado para o outro ao meu redor, tão atarefada–que, pareceu-me que ela estava quase desfrutando da minha impotência!! Na verdade, porém, sua preocupação comigo era sincera, e genuína. Ela me deu leite quente, e colocou compressas de água fria na minha cabeça; mas, quando lhe disse que seria sensato chamar um médico, ela se inflamou de raiva e repugnância:

–“Doutor? Doutor coisa nenhuma! O que esses carniceiros sabem sobre a malária? Sei mais sobre isso do que qualquer um deles. Meu falecido segundo marido morreu dessa doença na Albânia. Ficamos alguns anos em Durazzo. O pobre homem sofria com frequência, com dores muito maiores que as suas–mas ele sempre confiou em mim…

Eu estava tão debilitado que, não tinha capacidade alguma para discutir. Por isso, tomei, conforme sua vontade, uma mistura forte de vinho grego e quinina–não comprimidos revestidos de açúcar, mas um medicamento em pó absolutamente puro, cujo amargor me fazia tremer ainda mais do que a febre. Mas, de qualquer modo, talvez pareça surpreendente dizer, mas eu tinha plena confiança na Signora Vitelli, apesar de a menção a seu falecido segundo marido’ser sinistra.

Naquela noite, quando meu corpo inteiro ardia de febre,de repente, vinda da rua, uma música suave, e profunda, ouvi o som de–um‘órgão de barril’tocando.

Este órgão não é um daqueles órgãos de barril comuns, com um fole acionado por tração e um cilindro perfurado, mas me lembraria um velho clavicórdio que produz sons entrecortados–abandonado pela Europa há muito tempo por suas variações delicadas, sendo muito frágil e muito limitado. Eu já tinha visto órgãos de barril desse tipo no Cairo: um homem carregava a caixa nas costas, e um menino o seguia, girando a manivela. E dele surgiam melodias, cada uma separadamente, breves e límpidas; como se atravessassem o alvo feito flechas, saltando por cima dos intervalos entre elas, produzindo um tilintar vítreo; as melodias eram tão diferentes umas das outras, tão distintas, que era absolutamente impossível ao ouvinte compreender o sentido da música inteira. Em vez disso, essa música o arrastava por momentos suaves, e sombrios, sacudindo-o. Pareciam um segredo oculto que você queria desvendar, mas não conseguia; e, durante toda a noite, essas melodias ficavam girando repetidamente em minha mente, atormentando-me, como um círculo giratório, do qual eu não conseguia escapar, como a dança que–eu vira os dervixes rodopiantes executarem em Scutari– Foi há alguns meses, ou há alguns anos, , quando eu atravessava a mais profunda floresta de ciprestes do mundo…।

É uma floresta extraordinária, o cemitério de Scutari, que se estende desde Istambul até bem no meio do Bósforo: entre inúmeros cedros, há vielas e caminhos e, sob essas árvores, inúmeras lápides de pedra, umas de pé e outras tombadas de bruços–sepulturas, nas quais estão gravadas, desgastadas pelo vento–e pela água, inscrições árabes. O cemitério havia sido abandonado há muito tempo; os que aqui–jazem, todos morreram há muito–muito tempo atrás. De seus corpos brotaram troncos de árvores gigantescas, alguns com sessenta pés, outros com oitenta pés de altura. Ao longo do ciclo mutável das estações, estas árvores cresceram pouco a pouco, em uma imobilidade silenciosa–e, nesta floresta, o silêncio é tão vasto e profundo que, não há sequer oportunidade para uma pessoa se entristecer ali. Nunca senti, com tamanha profundidade, e intensidade, em outro lugar, que os mortos pudessem dormir. Estes mortos eram seres humanos, habitantes de um mundo onde a vida–era vivida em paz, sem perturbações; são os filhos mortos de uma humanidade sem pressa.

Depois de vagar algum tempo pelo cemitério,, através das vielas estreitas de Scutari, cheguei a uma mesquita. Só pude perceber que era uma mesquita ao ver a magnífica inscrição árabe, ricamente ornamentada, sobre sua porta. A porta estava meio aberta. Entrei por ela e parei numa sala envolta em meia-luz e meia-sombra. Ali, sobre um tapete, algumas poucas pessoas estavam sentadas em círculo ao redor de um homem idoso–muito idoso,– em torno do qual estavam sentadas em círculo apenas algumas’pessoas  . Todas vestiam longos mantos e usavam na cabeça um alto, chapéu de palha, cor de cobre, sem aba. O velho ‘imame’ recitava um versículo do–Alcorão em tom monótono. Junto a uma parede estavam sentados alguns músicos: percussionistas, flautistas e ‘kamancha’istas,,com seus instrumentos musicais de cordas longas, semelhantes a violinos.

De repente, ocorreu-me, que todos aqueles ‘dervixes dançantes’ de que eu ouvira falar tantas vezes, certamente pertenciam a esta estranha assembleia: aquela via mística,, que, em um ritmo determinado,, por meio de certos movimentos corporais, repetidos em sequência e num ritmo cada vez mais rápido, procura levar o iniciado a um estado de êxtase,, o qual lhe permite experimentar Allah de modo direto e pessoal.

‘do imame’Após a recitação, o silêncio que se abatera foi subitamente feito em pedaços pelo som de uma flauta, fino, porém agudo–e a música começou, numa melodia monótona e contínua, quase como um lamento. Pareceu-me, que, com um único movimento dos pés, os dervixes se puseram de pé, atiraram as túnicas ao chão e ficaram de pé usando suas amplas e esvoaçantes kurtas brancas, que lhes chegavam até os joelhos; aquelas kurtas amarradas à cintura com lenços atados em nós; Depois, cada um deles girou parcialmente sobre si, de modo que, formando um círculo, ficaram dois a dois’frente a frente. Em seguida, cruzaram as mãos sobre o peito, e inclinaram a cabeça um para o outro, com profunda sinceridade, (e imediatamente me lembrei, das antigas músicas em dueto e dos cavaleiros usando casacos–de vários tipos, trabalhados, que saudavam as damas inclinando a cabeça respeitosamente.) No instante seguinte, todos os dervixes estenderam os braços’para os lados, viraram a palma da mão direita para cima e a da esquerda para baixo. Um som sussurrado–saiu de seus lábios como um murmúrio: uma palavra‘Hua’–Ele (isto é, Alá). Com esse som pronunciado suavemente nos lábios, começaram a girar lentamente, cada um em sua própria órbita, movendo o corpo ao ritmo daquela música’e, como se ela’viesse de muito..muito longe. Inclinaram a cabeça. arqueando o pescoço para trás, os olhos se fecharam e uma rigidez suave se espalhou por eles, as largas, kurtas, feitas de muito tecido, inflaram-se ao vento e formaram ao redor dos homens rodopiantes um enorme círculo, como um redemoinho branco girando em círculos no mar. Em seus rostos havia uma expressão de profunda concentração..e o movimento circular transformou-se, num giro incessante, numa espécie de transe, e a exultação ganhou uma expressão nítida em todos eles. De seus lábios entreabertos saíam inúmeras, vezes incontáveis, apenas uma palavra:‘Hua..Hua..Hua’-; Seus corpos continuavam a girar, girar e girar, e pareceu-me, que a música os atraía para seu abafado, ritmo–monótono e entrelaçado, cuja melodia subia monotonamente a um tom agudo, e pareceu-me, que eu mesmo, irresistivelmente, era levado para cima pelo redemoinho, por uma escada vertical e giratória, que dava vertigem, subindo sem cessar, degrau após degrau, numa espiral sempre ascendente, em direção a algum destino incompreensível e incognoscível...Até que a mão generosa e amistosa de madame Vitelli tocou minha testa, o redemoinho parou completamente, e, rompendo meu transe, levou-me de volta da Scutari ao frescor suave de uma sala revestida de pedra no Cairo…।

De qualquer’forma,, a signora Vitelli não estava enganada. Seguindo seu conselho, superei os efeitos da malária, embora não tão rapidamente,, pelo menos dentro do tempo que meu médico habitual levaria para curar minha doença. Em’dois dias, minha febre desapareceu completamente e, no terceiro dia, deixei a cama e me sentei numa cadeira confortável. Ainda assim, eu não tinha força alguma para me locomover. O tempo tornou-se muito lento, e penoso. Duas’vezes, meu professor-–discípulo de Al-–Azhar veio visitar-me,, trazendo consigo alguns livros para mim.

A lembrança dos dervixes rodopiantes que trouxe recentemente de Bucara, de qualquer modo, faz-me pensar. Inesperadamente, esse assunto adquiriu para mim um significado tão misterioso, que de modo algum estava evidente em minha experiência original. Os ritos esotéricos desta tariqa —–cerimônias–que vi em vários países muçulmanos  entre as tariqas que vi , esta é uma delas —–não me pareceram compatíveis com a imagem do Islã que vinha gradualmente tomando forma em minha mente. Pedi a meu amigo azharita que me fornecesse alguns livros orientais sobre o assunto. E, ao pegar esses livros–e obras, foi confirmada minha suspeita instintiva de que práticas secretas desse tipo haviam penetrado no Islã a partir de fontes não muçulmanas, Minha suspeita instintiva foi confirmada. Os místicos muçulmanos, que‘sufis’são conhecidos, suas ideias–manifestam a influência dos gnósticos gregos, dos indianos, e, às vezes, até mesmo dos cristãos; disso não há dúvida; e foi como resultado dessa influência que foram importadas ideias ascéticas–e práticas–que não têm qualquer relação com a mensagem do Grande Profeta da Arábia. Em sua mensagem,‘a razão’foi enfatizada como o único caminho para alcançar a fé. Embora, em sua perspectiva, a possibilidade de uma experiência mística não fosse necessariamente tão irreal a ponto de ser indigna de consideração,o Islã era essencialmente uma proposição racional, e não uma questão de emoção. Embora, muito naturalmente, o Islã suscite em seus seguidores uma devoção extremamente apaixonada, ainda assim, nos ensinamentos de Hazrat Muhammad, religiosa‘percepção da experiência’a paixão, no que diz respeito à percepção da experiência religiosa, não recebeu outro papel independente além de ser paixão, não lhe foi atribuído. Pois, por mais profunda que seja a paixão, é muito mais provável que ela seja influenciada por desejos e temores subjetivos, do que a razão pode ser–por mais espaço que possa haver para o erro dentro da razão  seja qual for esse espaço.

…             …                 …           …         ..

–‘Entende, Mansur, é por meio de fragmentos de acontecimentos assim que o Islã se revela a mim; conversas, por meio da leitura de livros ou da observação, um vislumbre aqui, um lampejo ali—assim, gradualmente, quase sem que eu percebesse…।

 

Dois

Quando armamos a tenda para passar a noite, Zayed se põe a assar pão para nós. Misturando água à farinha grossa de trigo, primeiro ele faz uma massa, e então prepara um pão redondo e achatado,, com uma polegada de espessura. Depois cava um buraco na areia e ali enfia galhos secos,–acende-os e, quando o fogo, depois de irromper subitamente, se acalma,, coloca o pão sobre as brasas ardentes, espalha cinzas quentes por cima e sobre elas empilha galhos–e põe-lhes fogo. Depois de algum tempo, remove de cima do pão as brasas e os galhos,–vira-o, cobre-o como antes e torna a acender o fogo sobre ele. Meia hora depois, desenterra o pão assado de sob as brasas e bate nele repetidamente com um pedaço de madeira para remover o restante da poeira e das cinzas. Comemos esse pão untado com manteiga clarificada,, e com tâmaras. Escusado dizer que pão mais saboroso do que este é impossível encontrar em qualquer lugar!!

A fome de Mansur também foi saciada, assim como a minha e a de Zayed,, mas não a sua curiosidade. Enquanto estamos deitados ao redor do fogo,, ele começa a me fazer pergunta após pergunta—– como afinal me tornei muçulmano; e, quando tento explicar isso a ele,, fico tomado de grande assombro:, como é difícil expressar em palavras a minha longa jornada pelo caminho do Islã!!

–‘Porque, ó Mansur, o Islã veio até mim como um bandido, que entra na casa de alguém durante a noite, furtivamente, sem fazer qualquer ruído ou alvoroço; A diferença é que, o Islã não fez o que fazem os bandidos, o Islã entrou na minha casa para sempre, não para ir embora. Mas levei muitos anos para descobrir que eu teria de me tornar muçulmano..।’

Quando me lembro daqueles dias da minha  segunda viagem ao Oriente Médio–quando o Islã começou a exercer sobre a minha mente um domínio poderoso–penso, que ainda estava consciente de ter partido em viagem em busca de uma descoberta. A cada dia despertavam, de dentro, novas perguntas, e de fora chegavam novas respostas—e tudo isso despertava o eco de algo que estava oculto em algum lugar no fundo da minha mente. E, à medida que o meu conhecimento sobre o Islã se tornava mais claro, compreendo repetidamente, que sempre conheci uma verdade, sem jamais ter consciência disso, e por isso ela vai sendo gradualmente desvendada, pode-se dizer, comprovada

1924–No início do verão, parti do Cairo para uma longa viagem, que me ocupou mais de duas’anos. Durante quase dois’anos, percorri países e–terras estrangeiras, —países antigos no que dizia respeito à sabedoria de suas tradições, mas eternamente novos pelo efeito que exerciam sobre minha mente. Minha viagem não tinha pressa; e eu permanecia longamente em cada lugar. Pela segunda vez fui à Transjordânia e passei alguns dias com o Emir Abdullah naquela’terra beduína–em meio à calorosa vitalidade daquele reino, fazendo–algazarra e’festa, que ainda não fora obrigada–a adaptar seu caráter ao fluxo da influência ocidental. Naquela ocasião, o‘Frankfurter Zeitung’; providenciou um visto francês para mim, e tive novamente a oportunidade de viajar pela Síria. Não permaneci muito tempo em Damasco; e essa cidade antiga logo ficou para trás em meu caminho. A vivacidade libanesa de Beirute abraçou-me por algum tempo, mas logo a esqueci, na sonolência desolada da Trípoli síria, e em sua silenciosa tranquilidade. No porto aberto, os pequenos barcos carregados de amêndoas balançavam, puxando suas âncoras, enquanto os mastros latinos rangiam suavemente. Sentados em bancos diante de uma cafeteria no cais, sob o sol da tarde, os cidadãos de Trípoli se divertiam –tomando café e‘fumando o’narguilé. Havia paz e contentamento por toda parte, e parecia que eles tinham comida em abundância! Até mesmo, o mendigo parecia desfrutar do agradável sol morno. como se dissesse, “Ah,, como é prazeroso ser mendigo em Trípoli!”! Cheguei a Aleppo. Suas ruas e edifícios–lembravam-me Jerusalém. As antigas casas de pedra, que pareciam ter brotado da terra, e as ruas ornadas de arcos escuros, curvos como–arcos de flecha, praças e largos desertos e silenciosos, e janelas entalhadas–e esculpidas. Naturalmente, a vida interior de Aleppo era, em comparação com a de Jerusalém  completamente diferente. O temperamento intenso de Jerusalém era estranho, como uma convulsão dolorosa, ao lado de correntes nacionais mutuamente contraditórias. Depois da–contemplação e do profundo fervor religioso, ali se instalara permanentemente, como uma nuvem venenosa, um ódio quase incompreensível às relações entre pessoas e coisas. Mas Aleppo–apesar de ser uma mistura de árabes e libaneses e de também trazer uma leve marca da vizinha Turquia, era livre de–contradições e suave, e serena. Com varandas de madeira e fachadas de pedra, as casas eram vivas mesmo em sua imobilidade. No antigo mercado, a silenciosa atividade dos artesãos, nos pátios das antigas hospedarias, cobertos por telhados e com, dos dois’lados, fileiras de lojas, carregadas de mercadorias diversas. A frugalidade e, junto com ela, uma leve–volúpia–e ambas livres de qualquer espécie de inveja; sem qualquer agitação, e, de imediato, uma espécie de lazer abraça o–‘“estrangeiro”’também, despertando nele o desejo de que, sua própria vida também pudesse criar raízes e estabelecer-se numa tranquilidade sem perturbações. Tudo isso fluía, em conjunto, num ritmo intensamente encantador.

De Aleppo, de carro, cheguei a uma cidade no extremo norte da Síria, –Deir– ez –-Zor. Minha intenção era, de lá, tomar a estrada para Bagdá,, e seguir até Bagdá, situada na antiga e estreita rota de caravanas paralela ao Eufrates. Foi nessa viagem que encontrei Zayed pela primeira vez.

Bagdá-–Damasco, os automóveis circulavam havia alguns’anos. Mas a rota paralela ao Eufrates era pouco conhecida. Na verdade,, antes de mim, apenas um automóvel   havia passado por ali alguns’meses antes. Até mesmo , meu motorista armênio jamais havia atravessado Deir– ez–-Zor antes, embora tivesse grande confiança, de que, de algum modo, encontraria o caminho. Ainda assim, pareceu-lhe, necessário obter informações mais concretas e confiáveis. Por isso, nós dois percorremos juntos ’o mercado em busca de informações.

O bazar atravessa toda Deir–ez-–Zor de ponta a ponta. Pode-se dizer que é uma mistura de cidade provincial síria e capital beduína–embora a influência beduína seja predominante. Aqui, dois mundos se encontraram numa estranha harmonia. Numa loja vendem-se’postais modernos, mas com imagens impressas, enquanto logo ao lado, alguns beduínos conversam sobre a chuva no deserto, e sobre a recente disputa entre a tribo Bishr-Anaza, da Síria, e a tribo Shammar, do Iraque. Um deles menciona, a audaciosa expedição que, algum tempo antes, o chefe beduíno najdi Faysal ad-–Dawish empreendera no sul do Iraque, e fala dela; repetidamente; o nome do venerável homem da Arábia, Ibn Saud, é pronunciado várias vezes por seus lábios. Espingardas antigas, compridas e com–coronhas trabalhadas em prata– que hoje ninguém mais compra, porque os rifles modernos são muito mais eficazes que elas–mantêm uma existência onírica e poeirenta–e cinzenta, ao lado de tecidos de uniformes antigos trazidos de três continentes, selas de camelos najdis, pneus Goodyear, lustres de Leipzig e pesadas túnicas beduínas marrons trazidas de Al-Jawf. Naturalmente, os produtos ocidentais, entre as coisas antiquadas, não pareciam visitantes indesejados; sua utilidade lhes conferia um lugar próprio e natural’entre elas. O senso de realidade dos beduínos era desperto e abrangente; e por isso pareceu-me, que–eles haviam aceitado facilmente até mesmo aquelas coisas que, ainda ontem, estavam muito distantes das hospedarias de suas caravanas do deserto  e, sem abandonar seu antigo eu, haviam-nas tornado suas’Essa estabilidade de seu mundo interior, penso comigo, talvez lhes tenha dado a força com que conseguem enfrentar a torrente da nova era e, talvez, também lhes tenha dado a capacidade de não se deixarem vencer por ela, pois, para essa gente, a nova era começava então a tornar-se muito próxima. — E como são essas pessoas?. –E como são essas pessoas?? Até poucos dias antes, elas haviam permanecido afastadas do mundo exterior, sepultadas em si mesmas. Mas isso não significa que, as batidas à sua porta fossem as batidas de um inimigo; Aceitaram todas essas novidades com curiosidade inocente, pode-se dizer,como se as examinassem por todos os lados com os dedos e ponderassem–sobre seus possíveis usos. Quão pouco eu compreendia então o que a novidade ocidental‘poderia causar a esses simples beduínos analfabetos…।

Quando meu motorista armênio estava pedindo informações a um grupo de beduínos–foi justamente então que senti um forte puxão na manga. Imediatamente me levantei–e vi, diante de mim estava um árabe de mais de trinta anos, sem pelos nos braços,–um belo árabe.

–‘ Com sua licença, ó‘afendi’ , disse ele em voz baixa e áspera, ‘Ouvi dizer, que o senhor está viajando de carro, mas não tem certeza do caminho. Leve-me com o senhor, posso ser de alguma ajuda.’

Imediatamente simpatizei com o homem e perguntei-lhe, quem ele era?

–‘Sou Zaid ibn Ghanim,’respondeu ele, ‘sirvo nos‘agayil iraquianos.

Então notei–o seu ‘kaftan’ de cor cáqui e a estrela de sete raios, símbolo do policial do deserto iraquiano, sobre o seu preto   e a estrela de sete raios, símbolo do policial do deserto iraquiano, sobre o seu preto ‘igas’– . Os árabes chamam esse tipo de força  de ‘Agayel’. Ela existe desde a época dos turcos. Essa força é formada por aqueles que voluntariamente abraçam essa profissão,– recrutados exclusivamente entre os árabes,– que têm as estepes desérticas como lar e os camelos como amigos. O sangue destemido deles os, expulsou de sua pátria áspera e desprovida de luxos, levando-os a um mundo onde há mais dinheiro,, mais movimento e agitação, e onde, ainda hoje,  a mudança de hoje para amanhã é maior.

Zayed disse-me, que, acerca da administração da fronteira sírio-–iraquiana, veio com um de seus oficiais a Deir–ez-Zor–. Embora o oficial tenha voltado ao Iraque, ele ficou para trás por causa de um assunto pessoal e agora prefere voltar comigo, passando por Damasco,, em vez de seguir por uma rota mais inclinada, embora muito mais sinuosa. Ele me confessa abertamente, que até hoje nunca percorreu toda a estrada ao longo do Eufrates e, assim como eu, sabe, que, por causa dos muitos braços do rio,–afluentes e meandros, nem sempre conseguiremos encontrar o caminho com a ajuda do rio, –mas, diz Zayed,, ‘o deserto é o deserto, e o sol e as estrelas são os mesmos; não há motivo para preocupação, Inshallah, certamente encontraremos o caminho’. Fico feliz com sua profunda confiança e aceito alegremente levá-lo comigo.

Na manhã seguinte, partimos de Deir–ez-–Zor, enquanto rodavam pelo imenso deserto de Hammad as rodas do nosso ‘Modelo T ‘Ford’ rolavam sobre uma extensão coberta de pedras–e cascalho, interminável,,plana,, às vezes lisa e regular como asfalto,, às vezes em ondas–que se estendiam, de horizonte a horizonte. Às vezes, o Eufrates surgia à nossa –esquerda,–lamacento,,tranquilo e com as margens baixas;–você pensaria, que era um lago silencioso,,até que um pedaço de madeira flutuante ou um barco entrasse em seu campo de visão, revelando a correnteza impetuosa. O Eufrates é um rio largo,, seu temperamento é régio;; não produz som,, não é brincalhão,, não corre,,em –ondas de crista espumante–não se quebra,, nem arremessa água. O Eufrates corre lentamente,, –num ritmo sereno,,espalhando-se como uma larga fita,, um rio sem amarras,, traçando ele próprio o seu caminho régio,, na direção da inclinação perceptível do deserto,, serpenteando por inúmeras curvas,, mantendo o equilíbrio com o deserto,, com o mesmo orgulho do deserto. Pois,, assim como o rio, a vastidão do deserto, também é poderosa e serena.

Nosso novo companheiro, Zayed, está sentado ao lado do motorista,, com um joelho levantado e uma perna pendurada na porta do carro. Ele veste botas vermelhas de couro marroquino, que comprou no dia anterior no mercado de Deir– ez-–Zor–.

Às vezes encontramos cavaleiros de camelo, como se tivessem surgido de repente do nada, no meio do deserto, ficam imóveis por um instante  de pé, olhando na direção do nosso carro , e depois, conduzindo os animais que montam, desaparecem no vazio. Evidentemente, são pastores, queimados pelo sol, seus rostos adquiriram uma cor cobre escura. Às vezes permanecemos por breves momentos em caravançarais em ruínas, depois começa a extensão infinita do deserto. O Eufrates desaparece além do horizonte. Areia acumulada e varrida pelo vento,rochas,–leitos de cascalho cobrem trechos de terra, e aqui e ali avistam-se alguns tufos de capim ou moitas de espinhos–são visíveis. À nossa direita,, surge de repente uma cadeia de rochas baixa, desmoronada e marcada por profundas fissuras, desprovida de vegetação e sob o sol intenso, ocultando a infinitude do deserto. O que há além dessa estreita cadeia rochosa?? pergunto-me, maravilhado. E sei, que, embora do outro lado haja um deserto igualmente plano ou montanhoso, com a mesma areia e o mesmo cascalho duro, ardendo sob o sol em sua dureza virginal, ainda assim, o sopro de um mistério inexplicável parece flutuar no ar.‘O que poderia haver ali?’? Não há resposta nem eco para isso ao meu redor; nenhum som desperta no silêncio trêmulo da tarde, senão o zumbido do nosso motor e o sibilo dos pneus rodando sobre pedras e cascalho. Será que a extremidade da Terra ali mergulhou num abismo primordial e insondável?? Como não sei, há ali algo desconhecido e, como talvez jamais venha a sabê-lo, por isso, incognoscível,, desconhecido!!

À tarde, nosso motorista descobriu, que havia esquecido de trazer água para o motor da estalagem do deserto que havíamos deixado para trás. O rio fica muito distante; e não há poços num raio de muitos quilômetros. Ao nosso redor, em profunda quietude, estende-se uma planície vazia até o horizonte ondulante–ondulante,vazia, branca e ardente como giz, sobre a qual brinca uma brisa quente, suave e macia,-como se viesse do vazio e também se dirigisse ao vazio, sem começo, nem fim–como um murmúrio surdo que se erguesse desde Mahākāla–um som!

O motorista,que, como todos os libaneses, não dá a menor importância às formalidades exteriores (eu admirava essa qualidade deles–mas não naquele momento), diz, –‘Oh, seja  assim, mesmo assim, conseguiremos chegar à próxima estalagem do deserto–conseguiremos chegar.

 Mas então pareceu que, talvez ainda assim não conseguíssemos chegar–lá. O sol está ardendo, a água do radiador está fervendo como água de chá–de uma chaleira. Voltamos a encontrar pastores. Água! Não, até onde um camelo pode ir em quinze horas, dentro dessa distância, , em quinze horas-camelo–não há água em lugar algum.

–‘Então,, o que vocês bebem?? pergunta o armênio, desesperado.

–Eles caem na risada:, ‘“Nós bebemos leite de camela.”’।

Ao ver que os homens estranhos daquele carro veloz do diabo queriam saber onde havia água, eles devem certamente ter ficado muito surpresos. Porque, até cada criança beduína poderia dizer-lhes que não há água em parte alguma desta região.

Uma situação terrivelmente desconfortável. Por causa da pane no motor,, ficar presos aqui no deserto,, sem água,, sem comida,, em tal situação, e esperar, até que outro carro passe pelo nosso caminho,–talvez esteja vindo,,ou talvez só depois de amanhã,–ou quem sabe só no mês que vem…….।

Aos poucos, desfaz-se o ar de serena indiferença do motorista. Ele para o carro e abre a tampa do radiador;; uma densa nuvem branca de fumaça–escapa com um silvo. Eu tinha um pouco de água em meu cantil, então a ofereço ao motor. O armênio acrescenta um pouco de óleo, e o valente Ford avança conosco por mais algum tempo.

–‘Acho, diz o otimista,, ‘que talvez encontremos água ali, à nossa direita. Está vendo,, como aquelas montanhas parecem verdes?–Parece-me, que há capim fresco ali. E onde nasce capim nesta época do ano,, quando não cai chuva alguma,, certamente há água. E, se há água,, por que não dirigimos até lá para buscar água??

A lógica sempre contém uma força irresistível, e aqui também há essa força, embora parecesse, que a lógica do armênio avançava apoiada em muletas, e mancando. Abandonamos a estrada e avançamos alguns quilômetros em direção às montanhas, fazendo um ruído surdo. Mas não havia água…as encostas das montanhas estavam cobertas, não de relva, mas de pedras esverdeadas.

Houve um som sibilante no motor, os pistões continuaram a golpear rudemente, fumaça saía pelas frestas das junções do capô, em forma de espirais brancas. Mais alguns minutos.. e então , alguma coisa inevitavelmente racharia, o virabrequim se partiria–ou algo desse tipo** alguma outra coisa. Mas agora já nos afastáramos muito do caminho da caravana. Se alguma coisa acontecesse, teríamos de nos sentar, desanimados, naquele lugar deserto. Quase todo o óleo que tínhamos fora despejado no radiador. O armênio começou a beirar a loucura, ele ‘andava à procura de água’, virando o carro para a esquerda e depois para a direita, como um acrobata no circo muda a velocidade para a direita–e para a esquerda, dá voltas, assim, . Mas ainda não surgiu qualquer sinal de água. E a garrafa de caro vinho francês que–eu entreguei com um suspiro, ela–também não serviu para nada além de nos cobrir com uma nuvem de vapores alcoólicos; e, por isso, Zayed (que não bebeu álcool) quase vomita.

A inércia pétrea em que Zayed estivera perdido até então desfez-se em pedaços nesta última experiência. Com um gesto furioso, ele‘puxa a cufia’para baixo, sobre os olhos,, debruça-se sobre a borda quente do carro e fica olhando repetidamente para o deserto–com aquela precisão, concentração vigilante, que caracteriza os que passam a maior parte da vida sob o céu aberto,, uma característica, daqueles que estão acostumados a confiar nos próprios sentidos. Esperamos ansiosamente–sem muita esperança–pois, ele já nos dissera que jamais estivera nesta parte do país. Mas levanta a mão, aponta para o norte e exclama–

–‘Ali!’!

Não eram palavras,, mas como uma ordem,, um comando!! O motorista fica extremamente feliz por ter encontrado alguém que o salve. Sem fazer qualquer pergunta, obedece imediatamente à ordem. O motor leva-nos para o norte, arfando dolorosamente. Mas, de repente, Zayed ergue-se um pouco, pousa a mão sobre o ombro do motorista e manda-o parar. Durante alguns instantes, senta-se inclinado ligeiramente para a frente, farejando como um cão que apanhou a pista da caça. Em torno dos seus lábios cerrados treme ligeiramente, uma excitação quase perceptível.

–‘Não, siga por ali’, grita, apontando para nordeste–.

–‘Depressa.’ O motorista cumpre novamente sua ordem, sem dizer uma palavra. Alguns minutos depois, uma nova ordem sai dos lábios de Zayed:–‘Pare!!’ e ele salta agilmente do carro,, enrola a longa jubbah com as próprias duas’mãos e corre diretamente para a frente,, para e olha ao redor várias vezes,, como se procurasse algo ou escutasse atentamente alguma coisa, e, por muito tempo, esqueço-me do motor e, da minha aflição,, fico tão fascinado pela visão de um homem, que, com todos os seus sentidos e nervos, tenta estabelecer uma ligação íntima com a natureza.…E, de repente, começa a correr a passos largos,, e desaparece num espaço vazio entre dois montes. Um instante depois, sua cabeça torna a aparecer, e suas duas mãos começam a agitar-se:

–‘Água!!’

Corremos até ele. Sim,, é’mesmo. Numa cavidade protegida–do sol por rochas suspensas,, cintila uma pequena poça de água,, um resto das chuvas do inverno passado,, amarelada,–acastanhada,, barrenta,, mas ainda assim, água……água!! Alguma percepção indescritível do deserto revelou a existência dessa água ao homem de Najd...

e, enquanto eu e o motorista armênio retiramos aquela água com latas de gasolina vazias e a despejamos no motor tão castigado, Zayd, sereno, com um sorriso–como um herói silencioso,– caminha uma vez para a frente ao lado do carro,, e outra vez para trás.

.. .. .. … … … …       …                    …                    ….

 

No terceiro dia, ao meio-dia, chegamos à aldeia iraquiana de ‘Ana’, às margens do Eufrates, e, passamos várias horas dirigindo entre seus palmeirais e muros de barro. Ali, conforme Zaid nos dissera, vimos muitos ‘agayel’, a; maioria dos quais pertencia à sua própria tribo. À sombra das palmeiras, avançavam a passos largos por entre cavalos lustrosos e reluzentes,, sobre os quais se refletiam o sol e a luz filtrada pelo verde,, como se cada um fosse um soberano–, pleno de beleza e nobreza e cortês para com os subordinados. Enquanto avançávamos, Zaid inclinava ligeiramente a cabeça, respeitosamente, diante de alguns deles, e, dos dois’ lados  de seu rosto, seus longos cabelos sacudiam-se. Embora levasse uma vida dura sob o calor que queima o deserto e a cidade,– Zaid era tão sensível que, mesmo durante nosso rápido avanço pelas estradas da aldeia enrolava o turbante na cabeça e o amarrava sobre o rosto, para que a poeira não lhe entrasse na boca,, poeira que– nem nós,, citadinos de natureza pervertida, achávamos tão incômoda. Quando voltávamos a dirigir sobre o cascalho e já não havia poeira na estrada nem– areia,, Zaid, com uma doçura quase inteiramente infantil,‘ empurrava a ’kufiya  para trás e começava a cantar. De repente, abria a boca e começava a entoar– uma montanha que de súbito se ergue, rompendo a planície,– com a brusquidão de uma muralha: uma ‘qasida’, , uma espécie de canto ghazal,, num ritmo monótono e contínuo,, um movimento de melodia prolongada,, do deserto,– fluida como o vento,, sem começo, nem fim. Ao chegarmos à aldeia seguinte, Zaid pediu ao motorista que parasse. Depois saltou do carro e, agradecendo-nos pela carona naquele trecho, jogou o rifle sobre as costas e desapareceu entre os palmeirais;; dentro do carro ficou um odor sem nome,, o perfume de uma humanidade completa em si mesma,, a simplicidade e a inocência da alma, tão distante e– extensa, , ou talvez jamais esquecida,, uma evocação ressonante de um passado assim.

‘Em ‘Ana’, naquele dia, não pensei que, voltaria a encontrar Zaid. Mas aconteceu justamente o que eu não sabia.

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No dia seguinte, cheguei à cidade de ‘‘Hit’; esta pequena cidade está situada; num lugar às margens do Eufrates,; onde, emergindo gradualmente do deserto, se torna visível a antiga estrada das caravanas que vai de Damasco a Bagdá–. A cidade está situada no cume de uma colina, , com muralhas e uma fortaleza, como uma antiga– fortificação meio esquecida. As casas, dentro e fora dela, parecem ter penetrado no interior da muralha– da cidade. As casas não têm janelas, , apenas algumas frestas ou fendas, , semelhantes às aberturas de uma fortaleza– deixadas nas muralhas para facilitar o uso de armas a partir do interior. Do interior da cidade, ergue-se em direção ao céu um minarete.

À margem do rio, numa hospedaria de caravanas–para passar a noite, interrompi minha viagem. Enquanto preparavam o jantar para o motorista e para mim, fui até o poço no pátio e lavei as mãos e o rosto. Eu estava agachado no chão, quando um homem, pegou o longo–recipiente de água com bico que eu havia deixado ali ‍e começou a derramar lentamente água sobre minhas mãos. Levantei o rosto, olhei e vi diante de mim–um homem de rosto escuro e ossos largos, com um gorro de lã na cabeça. Sem que eu lhe pedisse, espontaneamente, ele me ajudava a lavar as mãos e o rosto. Era evidente que não era árabe. Quando lhe perguntei quem era, ele respondeu, em árabe entrecortado:–‘«Sou um tártaro,, vim do Azerbaijão»’. Seus olhos eram calorosos e sinceros como os de um cão, e  o antigo uniforme militar que vestia estava quase rasgado, e gasto!!

Comecei a conversar com ele, em parte em árabe e em parte num persa fragmentário, que eu aprendera no Cairo com um estudante iraniano. Fiquei sabendo, que o tártaro se chamava Ibrahim. Quase toda a sua vida –—agora tinha cerca de quarenta anos—–ele a passara pelas estradas do Irã–e pelos seus caminhos; Durante anos e anos, conduzira vagões de carga de Tabriz a Teerã, de Mashhad a Birjand, de Teerã a Isfahan e Shiraz, e certa vez a um grupo de cem cavaleiros  comandara como sua própria unidade; Certa vez, servira como soldado na cavalaria iraniana, e trabalhara como guarda-costas pessoal de um chefe turcomano; Certa época, também fora cavalariço nos caravanserais de Isfahan. Mas desta vez, ao seguir para Karbala–com uma caravana de peregrinos iranianos, como condutor de mulas, e depois de chegar ao Iraque, perdeu o emprego após entrar em conflito com o chefe da caravana e, assim, ficou preso numa terra estrangeira, sem apoio nem recursos.

Mais tarde naquela noite, no pátio da hospedaria de caravanas, sombreado por palmeiras,, recostei-me num banco de madeira para dormir. O calor estava insuportável–e havia enxames de mosquitos–como nuvens,–enormes enxames de mosquitos, inchados até ficarem redondos de tanto beber o sangue humano. Pou’cas lanternas espalhavam sua luz turva e lastimosa pela escuridão. Alguns cavalos,, talvez pertencentes ao dono da hospedaria,, estavam amarrados junto a uma parede. O tártaro Ibrahim escovava um deles. Pela maneira como escovava o cavalo, percebia-se que ele não apenas conhecia cavalos,, mas também os amava. Seus dedos tocavam a crina eriçada do cavalo  como um amante acaricia os cabelos de sua amada.

De repente, tive uma ideia. Eu estava viajando pelas estradas do Irã, e diante de mim se estendia uma longa viagem de muitos meses a cavalo. Por que não levaria este homem comigo?? Parecia um homem excelente e bastante calado. E eu certamente precisaria de alguém desse tipo,, que conhecesse quase todas as estradas e–caminhos do Irã,, e para quem cada hospedaria de caravanas–fosse familiar, como a própria casa.

Na manhã seguinte, quando lhe disse que poderia tomá-lo como meu criado,, ele quase desabou em lágrimas ao expressar sua gratidão e disse-me em persa:‘Hazrat,, por isso, o senhor jamais terá de se arrepender!!’

… …                        ….               …     …      …

Era o meio-dia do quinto dia da minha viagem de automóvel desde Alepo, quando pela primeira vez surgiu diante dos meus olhos a visão do vasto oásis de Bagdá. Entre as copas de inúmeras palmeiras, cintilavam as cúpulas das mesquitas, ornamentadas em ouro, e seus–altos minaretes brilhavam. De ambos os’lados da estrada havia um vasto cemitério antigo–cujas sepulturas, de pedra–cinzenta,, áridas e abandonadas. Uma fina poeira cinzenta pairava sobre o cemitério; e, sob o sol escaldante do meio-dia, essa poeira–acinzentada parecia um niqab de tecido fino, transparente e bordado de prata–como uma tênue parede de névoa entre o mundo morto do passado e o presente vivo. Sim, é assim que deve ser, penso sempre comigo mesmo,  quando alguém se aproxima de uma cidade como aquela e ela é tão completamente diferente, que a mente não consegue apreender a diferença…….

E então mergulhamos numa avenida de palmeiras–em meio às suas fileiras–milhas e milhas de enormes troncos e folhas curvas–até que o palmeiral–parou de repente junto à margem distante do Tigre. O rio é de natureza diferente do Eufrates. De cor barrenta misturada ao verde, pesado–e avançando com um murmúrio contínuo–parece, em contraste com o fluxo silencioso e majestoso do outro rio, exatamente um estrangeiro desconhecido, porém!!’E, quando atravessamos o Tigre, por uma ponte oscilante–feita de barcos, o calor ardente do Golfo Pérsico se derramou sobre nós.

O antigo esplendor de Bagdá–e sua magnificência nada deixaram. Destruída pelos repetidos ataques dos mongóis na Idade Média, a cidade foi tão devastada que, Harun–al-–Rashid. Não restou nada que pudesse evocar a antiga capital de Harun al-Rashid. Ergue-se, desordenadamente, uma cidade de casas–construídas de tijolos–parece que, se trata de uma solução temporária, pensada para uma possível mudança. Na verdade, porém, uma mudança desse tipo já havia começado, sob a forma de uma nova realidade política. A cidade voltou a pulsar com vida; novos edifícios–estão surgindo; e, de um quartel-general provincial turco adormecido, nasce lentamente uma capital árabe.

O calor intenso se abateu sobre tudo e tornou lento todo movimento. As pessoas caminham pelas ruas a passos vagarosos. Parece que o sangue delas é muito espesso e que lhes faltam ritmo e graça. Sob os turbantes de tecido xadrez preto e–branco, seus rostos parecem excessivamente sérios e pouco amistosos. Sempre que vi um belo rosto árabe, marcado por uma dignidade orgulhosa e autocontida,, na cabeça dele via um lenço vermelho, ou branco, a ‘kufia’–o que significa que, o homem não é daqui, veio do norte, ou do deserto sírio, ou da Arábia Central.

Mas entre esses homens brilha uma força tremenda–a força do ódio–o ódio contra a potência estrangeira que lhes roubou a liberdade. Como ogros e–demônios, os habitantes de Bagdá vivem sempre obcecados pelo desejo de liberdade. Talvez a sombra negra e profunda desse monstro tenha caído sobre seus rostos  Talvez todos esses rostos assumam uma aparência completamente diferente quando eles se encontram com seu próprio povo nos estreitos becos da cidade e nos pátios cercados por muros  cercados por muros–ao se encontrarem com seu próprio povo. Pois, se você os observar com um pouco mais de atenção, compreenderá,  que seus rostos não são totalmente desprovidos de encanto–Não raro, como os outros árabes  eles sabem sorrir. Às vezes, como os outros árabes, arrastam suas túnicas atrás de si, com um aristocrático desprezo, pela poeira; como se estivessem caminhando sobre o chão de mosaicos de um palácio feito de mármore! Eles  deixam suas mulheres passearem preguiçosamente pelas ruas, cobertas por camadas de magníficos e multicoloridos brocados; de burca–as preciosas mulheres cobertas, de brocado vermelho–preto e azul–prateado e vermelho-bordô, todas essas figuras deixando lentamente marcas douradas com seus passos silenciosos.…।

.. .. … .. .                        .. .. ..    ..    ..

Algumas semanas depois de chegarmos a Bagdá, enquanto eu caminhava pelo grande bazar,, com tetos em forma de barril–que cobriam vielas ligeiramente sombrias,–de uma delas de repente ecoou um grito. De um canto, um homem disparou,, depois outro,, depois um terceiro. E as pessoas do bazar também começaram a correr,–impelidas por um terror’cuja causa eu não conhecia,, só elas sabiam. Ouviu-se o ruído dos cascos dos cavalos: assustado,–um cavaleiro de rosto aterrorizado esporeou o cavalo em direção à multidão,, que se abriu e se–dispersou diante dele. Mais gente corria, todos vindo da mesma direção, e os comerciantes do bazar corriam com eles. Aos empurrões,, aos solavancos, todo o grupo avançava impetuosamente. Os lojistas, assustados,–e apavorados, colocavam tábuas de madeira diante de suas respectivas lojas. Ninguém  falava,,  ninguém chamava ninguém. Apenas de vez em quando eu ouvia os gritos das pessoas que caíam,, e uma criança soltou um grito lancinante..।

O que aconteceu? Não houve resposta. Para onde quer que eu olhasse, via rostos abatidos. Uma carroça pesada–— ainda meio carregada de fardos —–disparava sem condutor por uma viela estreita,, puxada por cavalos em disparada. Ao longe, uma pilha de vasilhas de barro se despedaçara–e pude ouvir claramente, os cacos das panelas–rolando pelo chão. Tirando todos esses ruídos e o som dos passos e da respiração–das pessoas,, um silêncio profundo e abafado pairava sobre tudo–exatamente como às vezes se manifesta antes de um terremoto–antes. O que se ouvia era, apenas o repetido tropel dos fugitivos; Às vezes ouvia-se o grito angustiado de alguma mulher ou criança, lançada para fora do centro da multidão em movimento. Depois surgiram alguns–cavaleiros. Pavor, fuga e silêncio!! As ruas sob tetos–que se cruzavam formavam uma aglomeração frenética, um tumulto de bêbados!!

Em um desses cruzamentos–formou-se um tumulto  e, preso nele, fiquei de tal modo que não consigo avançar, nem recuar e, francamente,, nem sei para onde devo ir, — eu também–não sei. Naquele momento, percebi, que alguém apertou meu braço, e não era outro senão Zayed, que me puxava para junto dele, entre duas lojas…para trás de uma barricada feita de barris.

–‘Não se mexa’, ele sussurra.

Algo  passou zunindo ao meu lado; uma bala de fuzil?? Impossível–

Bem distante, de algum ponto no meio do mercado, chegou flutuando um rugido abafado de muitas vozes. Novamente algo passou zunindo  e se foi, agora não há mais dúvida quanto a isso. O som de uma bala–ao longe, um som indistinto de atrito, como se alguém estivesse espalhando ervilhas pelo chão seco e duro. Lentamente, o som se aproxima e vai aumentando–aquele ruído frequente, que se repete em intervalos regulares–e compreendi do que se tratava: metralhadoras, o som de canhões……..

 Como já havia acontecido antes  muitas vezes, mais uma vez, do mesmo modo, Bagdá se rebelou novamente’no dia anterior—–de 1924–em 29 de maio. O Parlamento iraquiano aprovou, contra a vontade do povo, um tratado de amizade com a Grã-–Bretanha. E neste momento uma nação desesperada está tentando se defender–contra a amizade de uma grande potência europeia...

E mais tarde fiquei sabendo, que, para reprimir os protestos, as tropas britânicas bloquearam’todas as vias de acesso ao mercado.  Naquele dia, no mercado,, muitas pessoas morreram sob uma saraivada indiscriminada de tiros. Se Zaid não tivesse me impedido, talvez eu também tivesse corrido direto para a frente do fogo dos canhões.

E esta foi a verdadeira origem da nossa amizade. A maneira–prática e a masculinidade lacônica de Zayed atraíam-me intensamente. Quanto a ele, pode-se dizer, que ele–também se apaixonara claramente pelo jovem europeu, que não tinha preconceito contra os árabes nem contra o modo–de vida deles. Ele contou-me a simples história da sua vida. Como, tal qual seu pai antes dele,  havia crescido a serviço dos governantes de Hail,, sob o domínio da família Shammar de Ibn Rashid;; como, quando Ibn Saud tomou Hail em 1921 e o último‘emir’da família de Ibn Rashid foi capturado pelas mãos de Ibn Saud,, muitos homens da tribo Shammar, e com eles também Zayed,, em vez de se renderem aos novos governantes, escolheram um futuro incerto e fo’ram embora do país. E agora ele está aqui,, com seu ‘agal’ adornado com uma estrela iraquiana de sete pontas, usando-a’sobre a cabeça,, com no peito uma saudade intensa da pátria da sua juventude.

Durante as semanas da minha viagem pelo Iraque, tivemos a oportunidade de conhecer muitas coisas um do outro e, nos anos seguintes, mantivemos relações estreitas. Às vezes, escrevo-lhe cartas–e, uma ou duas vezes por ano,’envio-lhe um pequeno presente comprado em algum mercado do Irã ou do Afeganistão. Todas as vezes, ele responde com sua caligrafia desleixada, quase–ilegível e horrível, mencionando os dias, em que cavalgávamos juntos pelas margens do Eufrates, ou íamos ver os leões alados em meio às ruínas da Babilônia. Por fim,, quando cheguei à Arábia, em 1927,, pedi-lhe que se juntasse a mim;; no ano seguinte, Zayd juntou-se a mim. E, desde então, ele tem sido meu companheiro,, muito mais como um camarada do que como um nafar.

 … ..  ..  ..              ..  ..                ..   …. ..  .

Ainda no início da terceira década, os automóveis eram relativamente raros no Irã; e apenas alguns dos grandes centros dispunham deles para aluguel. Para viajar fora das três ou quatro estradas principais, era preciso depender de carruagens puxadas por–cavalos. E elas tampouco chegavam a todos os lugares; pois em muitas regiões do Irã as estradas–simplesmente não existiam. Para alguém como eu—–que–tinha vontade de conviver com pessoas de qualquer país, aceitando as condições delas—–viajar a cavalo era uma indicação inequívoca; e, por isso,, na última semana em Bagdá, eu ia todas as manhãs, acompanhado de Ibrahim, ao mercado de cavalos fora da cidade. Depois de vários dias de negociações–comprei um cavalo para mim e uma mula para Ibrahim. Minha montaria era do sul–do Irã: uma belíssima égua asli, de pelagem, vermelho-–acastanhada,, e a mula era evidentemente um animal magro, vivaz e teimoso, trazido da Turquia,, cujos músculos pareciam grossas cordas de aço sob a pele cinzenta, semelhante a veludo; e que carregava confortavelmente, além do cavaleiro, meus grandes alforjes, nos quais eu guardava tudo de que precisava.

Montado em meu cavalo e conduzindo a mula por uma corda, Ibrahim partiu certa manhã em direção à fronteira iraniana, à última cidade do Iraque,  Khanikin. A cidade era uma estação de um ramal da ferrovia de Bagdá. Dois’dias depois, parti de trem, para me encontrar ali com Ibrahim.

Deixamos para trás Khanqin e o–mundo árabe. Diante de nós erguem-se montanhas, todas–mais altas, como sentinelas contra–as cadeias montanhosas do planalto iraniano,, um mundo novo e expectante. O posto fronteiriço é um pequeno edifício isolado, , sobre o qual está hasteada uma bandeira desbotada —–verde,–branca e vermelha —, com o emblema de um leão, uma espada e um sol nascente. Alguns’funcionários da alfândega,–oficiais , de cabelos pretos,, de pele clara,, vestindo uniformes sujos e chinelos nos pés,, examinavam minha pouca bagagem com algo semelhante a uma cordial brincadeira. Então um deles dirigiu-se a mim, dizendo:

–‘Está tudo em ordem,, ‘Janab–-i-–Ali,’, a posição de Vossa Senhoria está muito acima da nossa competência e capacidade. Teria a bondade de tomar chá conosco e conceder-nos essa honra??”

E, enquanto eu me maravilhava com o estranho  e antiquado protocolo expresso por essa forma de falar, de repente ocorreu-me, como a língua persa, apesar de suas muitas palavras árabes, é tão diferente da língua árabe, tão distinta! Nela há uma doçura melodiosa e refinada, e, depois da língua de consoantes calorosas dos árabes, o som suave e aberto das vogais persas soou surpreendentemente‘“ocidental”’.

Eu não era o único em trajes de viajante. Muitas carroças pesadas, puxadas por quatro cavalos e cobertas de lona, estavam paradas diante do posto alfandegário, e uma caravana havia armado suas tendas nas proximidades. As pessoas cozinhavam sua comida junto ao fogo das tendas abertas. ‍Embora ainda fosse o começo da tarde, pareceu, que elas não pensavam em prosseguir, e nós também , não sei, por quê, tomamos a mesma decisão. Passamos a noite ao ar livre, estendendo cobertores sobre o chão.

Ao amanhecer, algumas carroças e a caravana voltaram a seguir na direção da cordilheira nua; nós também montamos nossas respectivas cavalgaduras e partimos com elas. A estrada serpenteia, subindo, e, por isso, dois’de nós logo deixamos para trás as carroças lentas e, depois, conduzindo nossas montarias, penetramos cada vez mais profundamente no país montanhoso dos curdos–a terra dos pastores altos, e de pele clara.

Vi o primeiro deles, quando, na curva da estrada, de uma cabana feita de varas e palha, que produzia um ruído de farfalhar, ele saiu e, sem dizer palavra alguma,  estendeu diante de nós uma tigela de madeira cheia até a borda de leite. Ele tinha provavelmente dezessete anos; descalço, despenteado– desgrenhado, e não parecia ter tomado banho; com as mãos e os pés mal–lavados, e sujos;um resto de chapéu de palha adornava sua cabeça desgrenhada. Estou bebendo aquele leite ralo, ligeiramente sal–gado e extraordinariamente frio, e, por cima da borda da tigela, vejo dois olhos azuis, dois olhos fixos em mim, sem piscar. Aquela delicada umidade doce e enevoada que se espalha sobre um animal recém-nascido, uma sonolência primordial, que ainda não se desfez completamente, parecia ter-se adensado nos olhos dele!

À tarde, chegamos a uma aldeia curda feita de tendas , apertadas umas contra as outras, silenciosamente estendida entre as encostas  das montanhas: uma aldeia de tendas. Estas tendas parecem–exatamente as tendas dos beduínos seminômades da Síria ou do Iraque. São feitas de–um tecido preto e espesso de pelo de cabra, estendido sobre esteiras de palha. Perto dali corre um riacho, cujas duas’margens se cobrem de fileiras e fileiras de sombras de álamos; Sobre uma rocha que se ergue no meio do riacho, um casal de cegonhas golpeia excitadamente os bicos, produzindo ruídos, e bate as asas; uma jaqueta índigo-–azul, usada por um homem que avança em direção às tendas com passos longos, porém leves; Seu modo de caminhar, ligado à terra, mas muito descontraído–parece falar de sangue beduíno antigo!! Um tecido vermelho-–azul, pendente, arrasta-se pelo chão atrás dela, enquanto, uma mulher caminha lentamente em direção ao riacho, levando sobre o ombro um longo recipiente de barro. Suas duas coxas se delineiam claramente através do  tecido fino de sua roupa: linhas longas e tensas como cordas de violino!! Ao chegar à margem da água, ela se ajoelha e se inclina sobre a água para encher o cântaro. Sua cobertura de cabeça semelhante a um turbante  cai e, como uma  corrente de sangue, toca a superfície cintilante da água, mas apenas por um instante; Ela ergue o pano e volta a enrolá-lo ao redor da cabeça, num único gesto evanescente, que ainda parece ser parte do próprio ato de ajoelhar-se e estar contido no mesmo gesto.

Depois de algum tempo, sento-me à margem do riacho com quatro jovens e um ancião. Todas as quatro possuem uma beleza , consciente de si, mas sincera e pura, que não sabe esconder-se, e, no entanto, é quase impossível separá-la da timidez e da modéstia. A mais bela delas chama-se como um pássaro canoro–‘Tu–Tu’ (a vogal é pronunciada como em persa)Até às delicadas sobrancelhas  toda a sua testa é de um vermelho-escuro com um tom azulado–coberta por um lenço; as pálpebras estão pintadas com surma; sob o lenço, sobressaem’madeixas de cabelo castanho encaracolado, nas quais finas–finas correntes de prata foram torcidas e entrelaçadas como fios. A cada movimento da cabeça, tilintavam ao bater nas delicadas covinhas–das faces–ao longo das faces.

Todos nós desfrutamos de nossa conversa, e de nosso bate-papo–embora minha conversação em persa ainda não estivesse bem organizada, ((há uma relação entre o curdo e o persa)). Essas jovens, que nunca haviam saído dos limites de sua tribo e não sabiam ler–nem escrever, na verdade, porém, são muito inteligentes. Elas conseguem facilmente compreender minhas palavras ditas aos tropeços–e frequentemente escolhem a palavra que estou tateando no escuro e a colocam em minha boca com uma segurança absolutamente prática. Pergunto-lhes o que fazem, Eu lhes pergunto, Elas respondem,, apresentando uma lista dos muitos pequenos, porém nobres, trabalhos de que se enchem os dias de uma mulher nômade: moer grãos entre duas pedras achatadas, assar pão sobre brasas ardentes , ordenhar as ovelhas, fazer manteiga agitando o iogurte dentro de um saco de couro, produzir fios da lã das ovelhas em um tear manual, tecer tapetes com todos esses padrões e‘quilims’tecer  que são tão antigos quanto seu povo; e conceber filhos, além de oferecer descanso e amor a seus homens..

Uma vida assim, em que não há mudança. Hoje, ontem e amanhã. Não existe algo chamado tempo para esses pastores–apenas o dia–e a noite, e a sucessão das estações. A noite foi feita escura, para dormir; o dia é destinado a obter as coisas necessárias para a vida luminosa; o inverno chega em meio ao frio crescente e à escassez de pastagens nas montanhas; por isso, eles vagueiam com seus rebanhos e tendas até chegar às planícies quentes, à Mesopotâmia e ao Tigre; depois, quando o verão se torna mais intenso, com o calor e os ventos ardentes, eles voltam novamente para as regiões montanhosas, aqui, ou ali, em algum lugar entre os locais tradicionais da tribo.

–‘O senhor  nunca deseja viver numa casa de pedra?? pergunto ao velho, que até então não dissera quase palavra alguma e ouvia nossa conversa com um sorriso; Nunca deseja que, o senhor mesmo seja dono de um campo??

 O velho balança a cabeça e diz: ‘Não,… se a água permanece imóvel dentro de uma poça, a água se torna estagnada, lamacenta e ; quando há correnteza na água, a água corre, somente então ela permanece límpida e clara…।’

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Com o passar do tempo, o Curdistão ficou para trás. Durante quase dezoito meses, percorri o Irã de uma extremidade à outra, aquele que é o mais estranho de todos os países. Assim, vim a conhecer um povo, no qual se uniam a sabedoria de três mil anos de cultura e a incerteza irrequieta de uma criança–um povo assim, –que, sabe olhar para si mesmo e para tudo o que acontece ao seu redor com uma lenta e preguiçosa  arrogância, e que, no instante seguinte, é capaz de estremecer, tomado pela emoção e pela paixão desenfreada de um vulcão. A cidade–o conforto refinado das cidades–desfrutei, e, junto com isso, desfrutei o ar cortante das estepes, que faz a alma transbordar de alegria. Dormi nos palácios de governadores provinciais, quando uma dúzia de criados–permanecia de pé, pronta para cumprir minhas ordens, e também dormi em caravançarais meio destruídos–onde se hospedavam caravanas, onde tinha de permanecer alerta durante a noite  para matá-los antes que me picassem. Como hóspede das tribos Bakhtiari e Kashgai, comi carneiros assados inteiros e, sentado à mesa de ricos comerciantes, comi peru assado, recheado de damascos–e de damascos secos. Observei os sacrifícios e o sangue do Muharram– e o frenesi embriagador, ouvi as delicadas canções de Hafiz–poemas que os herdeiros da antiga glória do Irã cantam ao som de uma flauta. Percorri as alamedas de álamos de Isfahan e fiquei maravilhado com as cúpulas douradas das enormes mesquitas , os portais suspensos e a magnificência das fachadas preciosas. A língua persa também se tornou tão familiar para mim quanto o árabe. Nas cidades–conversei tanto com pessoas instruídas  quanto, com soldados e nômades, com comerciantes nos bazares, com ministros e líderes religiosos, com dervixes errantes e com sábios comedores de ópio nas estalagens à beira da estrada. Também vivi nas cidades, e vivi nas aldeias, meus pertences  Viajei com meus pertences por desertos e perigosos pântanos salgados. Eu me havia perdido completamente na atmosfera sem tempo daquele país extraordinário e estranho, desmoronado– e arruinado, daquele país maravilhoso e estranho, sem–tempo  em sua atmosfera. Tornei-me tão íntimo do povo iraniano, e de sua vida e de seu pensamento que, parecia ter nascido entre eles. Mas este país, e esta vida–como uma joia antiga, que espalha uma luz indistinta em todas as direções–nunca puderam tornar-se para mim tão íntimos quanto o mundo cristalino dos árabes.

Durante mais de seis meses, percorri a cavalo as florestas do Afeganistão, as cordilheiras e as estepes: sim, seis’meses corri por um mundo assim, onde todo homem trazia armas–não como ornamento;onde era preciso observar atentamente cada palavra, cada passo, para que uma bala não viesse zunindo pelo ar! Várias vezes, eu, Ibrahim e nossos companheiros ocasionais de estrada tivemos de lutar para salvar a própria vida–contra bandidos.  Naquela época, o Afeganistão estava repleto de salteadores–e ladrões. Mas, às sextas-feiras, não havia motivo para temer os bandidos, pois o Senhor ‘dos mundos considerava vergonhoso matar alguém ou roubar qualquer coisa de alguém no dia reservado à adoração  Dele. Certa vez, perto de Kandahar, escapei por pouco de ser baleado , porque, sem perceber, eu havia fixado o olhar no rosto descoberto de uma bela camponesa que trabalhava no campo, Embora, nas altas passagens montanhosas do Hindu Kush, entre mongóis descendentes dos soldados–dos exércitos de Genghis Khan, num mesmo quarto, no chão de uma cabana de folhas, não parecesse estranho dormir junto com a jovem esposa e as irmãs do anfitrião. Passei algumas semanas como hóspede do rei Amanullah Khan em sua capital, Cabul  Passei noite após noite discutindo os ensinamentos do Alcorão com seus eruditos, ulemás e estudiosos. E muitas outras noites se passaram sentado nas tendas negras dos khans patanes; discutindo como viajar por aquelas regiões devastadas pelos conflitos internos entre várias tribos–e como percorrê-las.

E, com o surgimento de cada um daqueles’dias dos dois anos no Irã e no Afeganistão, foi crescendo em mim a certeza de que, eu estava prestes a chegar a uma decisão final!

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‘Pois foi assim, Mansur,, ao compreender como os muçulmanos vivem, meu conhecimento do Islã foi se aprimorando a cada dia. O Islã sempre ocupou o lugar mais elevado em minha mente..’

–‘ʿIshāʾ’ — é hora da  oração’, da oração, diz Zayd, depois de lançar um breve olhar para o céu noturno.

Para a última oração do dia, ficamos alinhados, , nós três,, voltados para Meca. Zayd e Mansur ficam lado a lado, e eu fico diante deles,, como imã da oração em congregação ((pois o Mensageiro de Allah chamou de congregação toda reunião de dois ou mais homens)), , ergo ambas as mãos para cima e começo: ‘Allāhu akbar’– ‘ — «Somente Allah é grandioso»’ e  então recito a surata Fātiḥa do Alcorão, como os muçulmanos sempre fazem:

Em nome de Allah, o Misericordioso, o Clementíssimo

Louvor somente a Allah

que é o Senhor dos mundos,,

 o Misericordioso,, o Clementíssimo,,

Senhor do Dia do Juízo.

Somente a Ti adoramos.

E somente de Ti pedimos ajuda,,

Guia-nos pelo caminho fácil e–reto,,

o caminho deles, daqueles a quem concedeste a Tua graça,

não o daqueles, que incorreram na Tua ira,

não o daqueles, que se desviaram do caminho.

a surata de número cento e doze’’:

Misericordioso,, Allah é Um,, Único,,

Ele é livre de toda necessidade,, de Quem dependem todas as coisas,,

não é progenitor,, nem foi gerado,,

e ninguém é comparável a Ele.

Mesmo que exista, ainda assim, são muito poucas as coisas que aproximam tanto as pessoas umas das outras, a ponto de as levarem a adorar juntas, Creio, que isso seja verdade no caso de todas as religiões, e especialmente no caso do Islã isso é ainda mais verdadeiro, porque o Islã se fundamenta na crença de que, não há necessidade de intermediário entre Allah e os seres humanos, e, na realidade, isso também não é possível. No Islã, não existe qualquer sistema sacerdotal, nem clero organizado, nem uma‘“igreja”’organizada, e, por isso, todo muçulmano sente que, quando realiza a salat em congregação, está participando verdadeiramente de uma devoção‘comum’  e não está simplesmente marcando presença., Como no Islã não há qualquer questão de iniciação, todo muçulmano adulto e mentalmente são–pode realizar qualquer cerimônia religiosa, seja liderar a oração em congregação, ou conduzir a cerimônia de casamento, ou ainda dirigir o funeral dos mortos. Para servir a Allah, ninguém precisa ser‘especialmente designado’Os mestres religiosos e líderes da comunidade muçulmana são pessoas simples e comuns ((às vezes com razão e às vezes sem serem adequados) ) que têm reputação de erudição em teologia e fiqh.

 

Três

 

Meu ‍ sono se desfaz ao nascer do sol; mas minhas pálpebras ainda estão pesadas de sono. Sobre meu rosto, o vento passa produzindo um delicado murmúrio, da noite que se desfaz para o dia nascente.

Levanto-me para lavar o rosto e expulsar o sono. A água fria é como o toque de uma paisagem distante–de montanhas cobertas por densas árvores e rios–e riachos que correm e fluem, sempre permanecendo límpidos, e claros, naquela manhã!..!..Sento-me sobre as coxas e empurro a cabeça para trás, para que meu rosto permaneça úmido por bastante tempo;; o vento dá um leve golpe sobre a umidade do rosto,, golpeia,  com as delicadas lembranças de todos os dias frios—–muitos –dos dias de inverno de muito tempo atrás,, de colinas,–montanhas e rios e riachos que corriam transbordantes.. ... . da lembrança de cavalgar através da neve e de uma brancura ofuscante.. ... . a brancura daquele dia de muitos anos atrás,, quando eu, no Irã sem caminhos, ‍cavalgava sobre montanhas cobertas de neve,, impulsionando lentamente o cavalo para a frente, e cada passo do cavalo significava ‍que suas patas afundavam na neve, e depois, com grande esforço, eram puxadas para fora da neve.. ... .।

Naquela tarde, lembro-me, descansamos numa aldeia, cujos habitantes pareciam nômades. Dez ou doze buracos no chão, sobre os quais havia telhados de palha–e trepadeiras e terra, baixos e em forma de cúpula, que davam àquele povoado solitário a aparência de uma cidade de toupeiras!! sudeste– do Irã, na província de Kerman. Como os habitantes do submundo dos contos de fadas, as pessoas saem rastejando e ainda hoje olham para os estrangeiros com espanto. Sentada sobre uma dessas cúpulas de terra, uma jovem penteia seus longos, negros, cabelos desgrenhados. Seu rosto oliva-–acastanhado , está voltado, com os olhos fechados, para o sol da tarde desbotada, e ela continua cantando em voz baixa, numa espécie de língua estranha; um bracelete de metal tilinta em seu pulso–— os pulsos são finos e fortes, , como o casco’e a articulação da perna’de um animal selvagem de alguma floresta primordial.

Para reanimar os membros entorpecidos–continuo a engolir chá e arak, em grande quantidade, juntamente com o policial armado, que veio como nosso companheiro, com Ibrahim e comigo. Quando voltei a montar meu cavalo, depois de beber chá e arak até me satisfazer, e parti incitando vigorosamente minha montaria, de repente, o mundo inteiro pareceu alargar-se e estender-se, amplo e límpido, diante de mim, como nunca antes. Pude contemplar sua forma eterna e sentir o*seu–batimento no ermo cinzento, na brancura da solidão, e tudo o que, um instante antes, estava oculto para mim,escondido, agora vejo claramente, quando os mistérios ocultos de Allah se revelarão espontaneamente para nós: quando esses mesmos mistérios estão sempre à nossa espera, para que nos abramos diante deles.. .।

Diante de nós surgiu uma região elevada e plana; e eu, esporeando o ventre do meu cavalo, via o gelo lançado pelos golpes dos cascos ao meu redor, como uma cobertura extremamente luminosa de incontáveis faíscas! os cascos do meu cavalo começaram a trovejar sobre o gelo da corrente congelada.. .

Creio que, foi então que compreendi aquela graça imerecida, da qual–embora eu próprio ainda não a compreendesse inteiramente–o Padre Félix me falara muitos–muitos anos antes, quando eu estava prestes a iniciar a viagem que mais tarde mudaria toda a minha vida: uma iluminação pela graça–que diz ao homem–és tu.. ‘“És tu”’que és  a pessoa esperada.. Entre a minha cavalgada frenética com aquele cavalo pela neve e a minha aceitação do Islã passou pouco mais de um ano. Mas, mesmo então, eu continuava cavalgando, como uma flecha, diretamente rumo a Meca, sem que eu soubesse..।

.. .              .. .              .. .             …  .. .

E agora o meu rosto está seco, e aqueles meus dias de inverno iraniano de mais de sete anos atrás tornam a ficar para trás; ficam para trás, mas não desaparecem. Pois aquele passado faz parte deste presente!

Uma brisa suave e fria, o próprio sopro da aurora iminente, faz ondular os arbustos espinhosos. As estrelas empalideceram. Zayd,Mansur!! Levantem-se….. . Levantem-se. vocês. Novamente acendemos  o fogo e aquecemos nosso café. Depois, selaremos nossos camelos e atravessaremos mais um dia aquele deserto que nos aguarda de’braços abertos.

 

 

A sela

Um

O sol estava prestes a se pôr. De repente, uma grossa cobra preta serpenteando–e rolando pelo nosso caminho; A cobra tinha quase a espessura do braço de uma criança e devia medir um côvado de comprimento. Parando, ergueu a cabeça em nossa direção. Quase automaticamente, desci para trás  da sela, tirei a arma leve do ombro, ajoelhei-me e fiz pontaria, e, naquele momento, ouvi atrás de mim uma voz humana–

–‘Não atire.. . Atire.’Mas eu já havia apertado o gatilho da arma; A cobra se sacode, e rola.. . e então tudo termina!

Mansur ergue para mim seu rosto contrariado: você não deveria ter matado a cobra.. . e, de qualquer modo,–não nesse momento, ao pôr do sol; porque , é nessa hora que os jinn saem de debaixo da terra e muitas vezes assumem a forma de serpentes!

Eu caio na risada com suas palavras e digo, ‘Mansur, você realmente acredita que as histórias de jinn em forma de serpente que–as mulheres de antigamente contavam, são verdadeiras??

–‘Certamente, acredito nos jinn. Não há menção a eles no Livro de Allah?? Mas não sei sob que formas eles às vezes vêm até nós.. mas ouvi dizer que, podem assumir formas extremamente surpreendentes e inesperadas.. .

Podes ter razão, Mansur, digo para mim mesmo,, pois, além das realidades que os nossos cinco sentidos conseguem perceber, –existem outras formas de existência que escapam aos nossos sentidos;, esta–ideia é realmente assim tão fantasiosa?? Não será isto uma espécie de arrogância intelectual, que ensina o homem moderno a negar, além de tudo o que ele próprio consegue ver e medir, a possibilidade de qualquer outro tipo de ser vivo–existir?? Quanto aos jinn, seja como–for,, a sua existência não pode ser comprovada por meios científicos,, mas isso não significa que a ciência possa descartar tais seres–nem a possibilidade da sua existência,, cujas leis da vida–podem ser tão completamente diferentes, que os nossos próprios sentidos só conseguem estabelecer contato com eles em circunstâncias extremamente raras. Não será possível que, ocorram, de tempos em tempos, cruzamentos desse tipo entre esses mundos desconhecidos e o nosso, e então aconteçam manifestações estranhas,, que o imaginário primitivo explicou como, fantasmas,–espíritos,, ogros–e demônios, além de outras manifestações sobrenaturais desse tipo??

Quando volto a montar no meu camelo, repetindo mentalmente essas perguntas, com o meio sorriso incrédulo de um homem cujo ambiente e educação–e formação, — ao contrário daqueles que estão sempre muito próximos da natureza —, o tornaram de pele mais espessa.!Zayed me diz, com o rosto grave, que não foi certo matar a cobra. Certa vez, muito tempo atrás, depois que Ibn Saud conquistou Hail, quando deixei aquela cidade, a caminho do Iraque, atirei e matei uma cobra como aquela. O sol estava se pondo. Pouco depois, quando chegamos para a oração do Maghrib, de repente, senti nos meus dois’pés o peso do chumbo, e uma queimação dentro da cabeça; começou a ribombar como água caindo de um lugar alto  e os membros–do meu corpo se transformaram em fogo; Não consegui ficar de pé, e caí pesadamente no chão, como um saco vazio; Tudo ao meu redor escureceu. Não sei, por quanto tempo fiquei mergulhado naquela escuridão, mas me lembro, de que, por fim, consegui ficar de pé novamente  Um homem desconhecido ficou à minha direita, outro ficou à minha esquerda, e eles me levaram para um enorme salão, entre a luz–e a escuridão, um recinto misterioso–que estava cheio de pessoas; elas caminhavam agitadamente de um lado para o outro e conversavam entre si. Depois de algum tempo, compreendi–que eram dois’grupos completamente distintos, como acontece diante de um tribunal. Ao fundo, sobre um estrado um pouco elevado em relação ao chão, estava sentado um velho de estatura muito baixa. Pensei, que ele fosse um juiz ou um chefe, ou algo do tipo–e em poucos instantes descobri, que eu era o réu.

Alguém disse,-‘ele o matou com um tiro de rifle antes do pôr do sol, ele é culpado.’Um dos defensores respondeu, ‘Mas ele não sabia quem estava matando e pronunciou o nome de Alá ao apertar o gatilho do rifle.‘Mas então a acusação gritou,-‘Não,ele não o pronunciou.’ –Em resposta, todos os defensores disseram em coro, ‘Ele o havia pronunciado–ele havia pronunciado o nome de Alá’e  assim continuou por algum tempo, um grupo avançava, enquanto o outro recuava, acusações e refutações se alternavam, e finalmente pareceu, que os apoiadores do réu estavam prestes a vencer. O juiz sentado ao fundo anunciou então seu veredito: ‘Ele não sabia, quem  estava matando e então louvava a Alá–dizendo: Deixem-no onde o encontraram.’

E os’dois  homens que me levaram à sala de julgamento foram os mesmos que voltaram a me apertar sob os braços deles,, levaram-me pelo mesmo caminho para dentro daquela enorme escuridão de onde eu havia saído e me deitaram no chão. Abri os meus’dois olhos e vi que, em ambos os’lados, eu estava caído entre alguns sacos de trigo empilhados, e sobre os sacos estava estendido  um pedaço de tecido de tenda,, para me proteger dos raios do sol. Parecia ser o início da manhã, e meus companheiros haviam parado aqui. Ao longe, vi nossos camelos pastando na encosta de uma montanha. Tentei levantar a mão,, mas meus membros–estavam completamente exaustos. Quando um dos meus companheiros baixou o rosto sobre mim,, eu disse:, ‘“Café…”,.. .’, pois ouvi perto de mim o som do recipiente usado para moer café.

Meu amigo saltou:, ‘“Está falando….. está falando….. . Ele voltou!” —! –e eles trouxeram diante de mim um café fresco e quente.

Pergunto, se estive inconsciente a noite inteira, e eles   responderam, ‘A noite inteira!! Durante quatro dias inteiros você não se mexeu nem um pouco!! Apenas num dia nós o carregamos sobre um camelo, como um saco, e à noite o descemos do camelo. E tínhamos concluído, que teríamos de enterrá-lo aqui. Mas louvado seja Aquele que dá e tira a vida–o Vivente, que não morre.. .

–‘— Portanto, como o senhor pode ver, tio, não se deve matar uma cobra ao entardecer.

E embora, com o relato de Zayed, metade da minha mente ainda risse, a outra metade pareceu, testemunhar, no crepúsculo que se adensava, a teia das forças invisíveis–sendo tecida diante dos meus olhos, um som sutil, um estrondo aterrador, que não podia ser ouvido; e percebíamos ao nosso redor, no ar, um sopro de hostilidade, e senti uma vaga sensação de remorso por ter matado a cobra ao pôr do sol..।

Dois

‘Hail’Na tarde do terceiro dia após deixarmos, um vale quase circular, cercado por colinas baixas; os dois grandes poços cheios de água doce’estão situados bem no centro do vale. Cada um’dos dois  é propriedade comunitária de uma tribo–o do oeste pertence à tribo chamada ‘Harb’ e o do leste pertence aos Mutair. O solo ao redor é tão vazio quanto a palma da mão; pois, todas as tardes, centenas de camelos e ovelhas são conduzidos até aqui, desde pastagens distantes, para beber água; e qualquer folha tenra de capim que brote nesta terra, não chega a ter sequer tempo de tomar fôlego, antes que  eles a mordam delicadamente, arrancando-a e devorando-a.

Ao chegarmos, vemos todo o vale fervilhando–de animais– e, entre as montanhas banhadas pelo sol,–aparecem rebanhos após rebanhos de ovelhas e camelos carregados. Ao redor dos poços há uma multidão enorme, de agitação e alarido; pois, não é fácil matar a sede de tantos animais. Os pastores puxam água em odres de couro pendurados em longas cordas e cantam uma espécie de canção enquanto seguram a corda, para manter ritmo e regularidade entre os puxões que dão, pois os baldes são enormes e, depois de cheios de água, tornam-se tão pesados que, são necessárias muitas mãos para puxá-los do fundo do poço.

O poço que fica mais perto de nós–que pertence à tribo dos Mutayir–ouço-os cantar dali, dirigindo-se aos camelos–

‘Cantem e não deixem água para trás,

 Este poço cheio de misericórdia, não tem fundo!!

Metade do povo canta o primeiro verso, e a outra metade canta o segundo–ambos repetem-nos em ritmo acelerado, até que o balde venha à tona sobre a borda do poço;; então é a vez das mulheres;; elas despejam a água nas gamelas de couro. E muitos camelos, amontoando-se uns contra os outros, inclinam-se para a frente,, soltando gritos e respirando ruidosamente,, tremendo de excitação,, aglomeram-se ao redor das–gamelas, e parece que, os gritos tranquilizadores dos homens —–‘“hu wih” —–“hu wih” —’não conseguem acalmá-los.  Cada camelo empurra o seu longo pescoço flexível para a frente, entre ou por cima dos companheiros,, para saciar a sede o mais depressa possível;; corpos castanho-claros,, castanho-–escuros,, amarelados,–brancos,, pretos-–acastanhados e cor de mel,–balançam de um lado para o outro,, empurram-se,, agitam-se,,, aglomeram-se e enchem o ar com o cheiro forte e pungente do suor e da urina dos animais. Enquanto isso, o balde é novamente enchido e, com a recitação de mais um ‍poema de dois versos, os aguadeiros puxam o balde para cima:

‘Nada pode aplacar a sede dos camelos

 a não ser a misericórdia de Allah e o trabalho do pastor.

E por todo o lugar recomeçam a agitação, as cenas de camelos bebendo água e os clamores–e o zumbido das canções.

Um velho está de pé à beira do poço, estende os braços em nossa direção e chama:‘Ó viajantes, que Allah, prolongue a vida de vocês. Aceitem a nossa hospitalidade.’–Depois, do meio da multidão ao redor do poço,  alguns homens correm em nossa direção. Um deles segura as rédeas do meu camelo e o faz ajoelhar-se, para que eu possa descer confortavelmente da montaria. Com extrema rapidez,  abriu-se um caminho para que nossos camelos pudessem chegar aos cochos de água, e as mulheres começaram a despejar água para os camelos; pois somos viajantes e, por isso, nossa necessidade tem prioridade!

Zaid, quase como falando consigo mesmo, para se ouvir, , ‘Depois que os clãs Harb e Mutair guerrearam entre si, como vivem agora em uma paz tão admirável!!  ((Pois , isso foi três anos depois da rebelião da tribo Mutair, quando a tribo Harb era uma das mais fiéis apoiadoras do rei)) . O senhor se lembra, tio,, da última vez que estivemos aqui–de como atravessamos Arja durante a noite, dando muitas voltas, em círculos,, sem ousar aproximar-nos destes poços,–sem saber se aqui havia amigos ou inimigos, …..?

Zaid recorda-se de 1928– –29, da violenta  revolta beduína–no clímax de um drama político–em consequência do qual, até os alicerces do reino de Ibn Saud tremeram, e durante algum tempo eu também acabei por me envolver nela.

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Quando se ergueu a cortina de 1927, reinava a paz na vasta extensão da Arábia Saudita, e a luta do rei Ibn Saud pelo poder havia terminado. Nenhuma família real rival mais reivindicava autoridade sobre o Najd. As terras de Hail e dos Shammar pertenciam agora a ele, e, após a expulsão da família Xarifiana do Hejaz, em 1925, o Hejaz também era seu. Nessa época, nos anos anteriores do rei, haviam-se tornado para ele motivo de grande preocupação. Como funcionário do rei, al-–Dawish havia afirmado sua singularidade. Repetidas vezes provou sua lealdade: em 1921, conquistou Hail em nome do rei; e, em 1924, conduziu uma ousada expedição ao interior do Iraque, de onde a família Xarifiana, sob a proteção britânica, conspirava contra Ibn Saud. Em 1925, conquistou Medina e desempenhou um papel decisivo na conquista de Jeddah. E agora, no verão de 1927, com todas essas vitórias —–como uma coroa, repousava na colônia ikhwan de Artawiya, que não ficava muito distante da fronteira iraquiana.

Durante muitos anos, essa fronteira foi palco de ataques beduínos quase ininterruptos. Esses ataques eram realizados por pessoas de várias tribos e clãs que saíam em busca de pastagens e água. Por meio de numerosos acordos sucessivos entre Ibn Saud e os britânicos responsáveis pelo Iraque como potência mandatária, ficou estabelecido: não se deveria criar obstáculo algum a esse tipo de migração inevitável. E em nenhum dos lados da fronteira Najd-–Iraque se poderia construir qualquer muro ou forte. Contudo, no verão de 1927, o governo iraquiano construiu um forte perto dos poços fronteiriços de Bissaya e ali posicionou tropas  e anunciou sua decisão de construir mais fortes ao longo da fronteira  oficialmente. Como consequência,  uma onda de inquietação espalhou-se entre as várias tribos do norte de Najd. Tornou-se evidente que sua própria existência estava ameaçada ;porque haviam sido separadas dos poços dos quais dependiam inteiramente. Ibn Saud protestou abertamente contra essa violação do acordo, e, por isso, alguns meses depois recebeu do alto comissário britânico no Iraque apenas uma resposta evasiva.

O sempre empreendedor e incansavelmente ativo Faisal al-Dawish disse consigo: começar uma briga com os britânicos talvez não fosse conveniente para o rei. Mas isso ‘eu mesmo farei’. E, nos últimos dias de outubro de 1927,–ele, como líder de seu ‘Ikhwan’, partiu, atacou o forte de Bissaya e o destruiu, . Não deu nenhuma atenção à guarnição iraquiana do forte. Aviões britânicos foram vistos sobre o local e, depois de avaliar a situação, partiram, contrariamente ao seu costume, sem lançar sequer uma bomba. Teria sido fácil para eles impedir o ataque. (Eles tinham esse direito, graças ao tratado com Ibn Saud,) e depois, por meio de negociações diplomáticas,–resolver o problema dos fortes. O governo britânico-–iraquiano estava realmente ansioso por uma solução rápida e pacífica para a disputa?!

Chegou a Ibn Saud uma delegação das tribos do norte de Najd, exigindo uma campanha contra o Iraque. Ibn Saud rejeitou diretamente todas essas reivindicações e, ad-–Dabish como transgressor da fronteira e ordenou ao de Ha’il que mantivesse uma vigilância rigorosa sobre as áreas fronteiriças ‘emir’que recebesse ordens. O rei ‘Ikhwan’continuava pagando subsídios financeiros à maioria dos seus membros; Entre eles, ad-–Dabish, os subsídios dos membros das tribos sob seu controle foram agora temporariamente suspensos. Ao próprio ad-–Dabish foi ordenado que esperasse em Artawiya pela decisão do rei. O governo iraquiano foi oficialmente informado de todas essas medidas e avisado de que, ad-–Dabish seria severamente punido. Além disso, Ibn Saud exigiu que, no futuro os acordos fronteiriços com o Iraque fossem cumpridos com maior rigor.

Assim, seria fácil pôr fim a este novo conflito, mas, quando os acontecimentos chegaram a este ponto, o Alto Comissário britânico informou Ibn Saud de que, estava enviando um–esquadrão aéreo para punir os‘Ikhwan’que (haviam retornado havia muito tempo às suas próprias regiões) e obrigá-los a ser leais ao rei. Naquela época, não havia escritório telegráfico em Riade. Por isso, o rei Ibn Saud enviou às pressas um mensageiro ao Barém, e dali foi enviado um telegrama a Bagdá, protestando contra a medida proposta e mencionando o tratado, que proibia ambas as partes de atravessar a fronteira para perseguir um infrator da lei. Ele insistiu, Ad-–Dawish, para estabelecer à força sua autoridade sobre ele, não precisava de assistência britânica  e, por fim, fez o seguinte alerta–se a região de Najd fosse bombardeada, haveria uma reação gravíssima entre os Ikhwan; pois. os membros dos Ikhwan já estavam suficientemente exaltados e indignados!

Esse alerta foi ignorado. No fim de janeiro de 1928, três meses depois do incidente de Bissaya, um esquadrão de aviões britânicos atravessou a fronteira e lançou bombas na região de Najd, destruindo os assentamentos dos beduínos Mutayebi e matando indiscriminadamente mulheres,–homens e animais domésticos,–fazendo com que todos os Ikhwan da região norte começassem a se preparar para vingar-se do Iraque. Entre as várias tribos, somente o enorme prestígio e a honra de Ibn Saud fizeram com que a campanha fosse detida a tempo e limitada a alguns pequenos–confrontos fronteiriços.

A fortaleza devastada de Bissaya, em Itybas, foi novamente reconstruída em segredo pelo governo britânico, e outras novas fortalezas foram construídas na área iraquiana da fronteira.

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Faisal ad-–Dabish, quando foi convocado a Riade, recusou-se a ir até lá para justificar a legitimidade de seus atos–pois, segundo ele, o que havia  feito, fizera-o no interesse do rei. Sua amargura aumentou ainda mais por causa de um ressentimento pessoal. Faisal ad-–Dabish, que servira ao rei de modo tão excelente e com tanta lealdade, era apenas o ‘emir’ de Artawiya, que, apesar de sua grande população, não passava de uma aldeia em crescimento. Foi sob sua liderança que a conquista de Hail chegou à sua conclusão decisiva. Mas não ele, e sim o primo do rei, Ibn Musad, foi nomeado emir de Hail, o ‘emir’।  Durante a campanha do Hejaz, foi ad-—Dabish quem manteve Medina sitiada por meses a fio e, por fim, obrigou-a a se render; mas ele não foi nomeado seu ‘emir’. Seu intenso desejo de poder o deixava inquieto. Disse consigo mesmo, ‘Ibn Saud é da tribo dos Anaza Kabira, e minha tribo é a dos Mutair– da família, Em termos de nobreza, somos iguais um ao outro; por que eu deveria reconhecer a superioridade de Ibn Saud?

Esse tipo de pensamento –e raciocínio sempre foi a maldição da história árabe: ninguém admitirá que, outra  pessoa é superior a ele.

Um após outro, os demais líderes ikhwan najdis começaram a esquecer, diante de Ibn  Saud, o quanto lhe deviam!! Entre eles estavam o xeique da poderosa tribo Atayba e o emir de Ghatghat, um dos maiores assentamentos ikhwan da região de Najd, Sultan Ibn ‍Bujad. Esse sultão derrotou as forças de Sharif Hussein na batalha de Turaba, em 1918. Em 1924, conquistou Taif e Meca. Por que ele deveria contentar-se apenas em ser o  Ghatghat‘como emir’e contentar-se?? Por que não fizeram dele, pelo menos, o emir de Taif?‘Emir’não foi nomeado? Faisal al-–Dabish, assim como ele, também sentiu, que havia sido privado daquilo que, em sua opinião, era seu por direito. E, como o sultão Ibn Bujad era cunhado de al-–Dabish,, pareceu inteiramente razoável que os dois se unissem contra Ibn Saud.

1928 –no outono, essas disputas–e controvérsias; com o objetivo de resolvê-las, convocou-se em Riade uma conferência de chefes e ‘ulemás’ –compareceram quase todos os chefes tribais, exceto Ibn Bujad e ad-–Dabish. Em oposição, os radicais e–intransigentes Ibn Bujad e ad-—Dabish declararam que, Ibn Saud era um herege, contrário à religião estabelecida; pois ele não havia firmado tratados com os infiéis?? E não introduziu nas terras árabes motores–de automóveis,, telefones,, rádios–e equipamentos diabólicos como aviões?? Em Riade, ‘os ulemás que’se reuniram, declararam  de uma só voz: esses novos equipamentos técnicos não só merecem aprovação, como são também extremamente desejáveis do ponto de vista religioso,, pois, com a ajuda deles, o âmbito do conhecimento dos muçulmanos está se ampliando e seu poder aumentando. Invocando o Profeta do Islã, declararam ainda, que tratados com potências não muçulmanas são igualmente desejáveis–se trouxerem paz e liberdade aos muçulmanos.

Mas os dois líderes rebeldes continuaram suas denúncias e começaram a receber uma resposta espontânea daqueles Ikhwan de mente simples, que não tinham conhecimento suficiente para ver nas diversas ações de Ibn Saud outra coisa além da influência de Satanás, Dessas pessoas, começaram a receber apoio espontâneo. O fato de Ibn Saud não ter conseguido anteriormente educar os Ikhwan’e orientar seu fervor religioso para um objetivo definido começou agora a produzir suas consequências trágicas–

As regiões de estepe do Najd começaram a zumbir como uma colmeia. Montados velozmente em camelas, misteriosos espiões começaram a correr de uma tribo para outra; Nos poços distantes, os chefes começaram a realizar reuniões secretas. Por fim, o movimento contra o rei irrompeu em rebelião aberta–e, além das tribos Mutair e Ataib, muitas outras tribos se envolveram. O rei, porém, permaneceu impassível, Ele tentou, com simpatia, tudo  compreender. Enviou mensageiros aos chefes tribais rebeldes–tentando convencê-los com argumentos; mas isso não produziu resultado algum. A Arábia Central e do Norte tornou-se palco de uma guerra de guerrilha em larga escala. A segurança que outrora havia no país, quase proverbial, desapareceu, e no Najd espalhou-se uma completa ‍desordem; Em bandos, os Ikhwan rebeldes, atacando as aldeias, caravanas e tribos que eram leais ao rei, avançaram por toda a região, em todas as direções, como uma tempestade.

Após inúmeros pequenos confrontos locais entre as tribos rebeldes e leais,1929–teve, na primavera, seu desfecho decisivo numa batalha na planície de Sibila, no centro do Najd. De um lado, o rei, com seu enorme exército, e, do outro, as tribos Mutair  e Ataiba, apoiadas pelos pequenos destacamentos das tribos. Nessa batalha, o rei saiu vitorioso. Ibn Bujad rendeu-se incondicionalmente. Foi trazido acorrentado para Riade—–ad-–Dawish ficou gravemente ferido. Dizia-se, que ad-–Dawish não sobreviveria. Ibn Saud, o mais brando e compassivo entre os reis da Arábia, enviou seu médico pessoal para tratá-lo, e o jovem médico sírio descobriu, ao examiná-lo, um grave ferimento no fígado. Ele disse,  que ad-–Dawish poderia viver, no máximo, uma  semana. Depois de ouvir isso da boca do médico, o rei decidiu: “Queremos que, sua morte seja tranquila;, ele já recebeu de Alá o castigo que merecia.” Ordenou que o inimigo ferido fosse levado para junto da família, em Artawiya.

Mas ad-–Dawish não dava qualquer sinal de morte. A ferida que o jovem médico julgara tão grave, na realidade, nem de longe era tão séria. Depois de se recuperar bastante em poucas semanas, fugiu de Artawiya, com a firme determinação de se vingar, mais do que antes.

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 A partir de Artawiya, a rebelião de ad-–Dawish ganhou novo ímpeto. Ouviu-se dizer que ele próprio se encontrava em algum lugar próximo da fronteira do Kuwait, de onde recrutava novos aliados entre as tribos para seu próprio exército Mutair, que ainda mantinha grande importância. O primeiro a juntar-se a ele foi um pequeno, porém feroz  clã ‘Azaman’–cujos assentamentos ficavam na província de Al-Hasa, próxima ao Golfo Pérsico  . O seu ‘xeque’ Ibn Hajlayn era tio materno de Faisal ad-–Dawish. À parte isso, a harmonia entre Ibn Saud e o clã Azaman permanecera intacta. Alguns anos antes, eles haviam matado Saad, o irmão mais novo do rei, e, temendo que ele pudesse vingar-se, por isso, deixaram suas casas– e partiram para o Kuwait. Mais tarde, Ibn Saud perdoou-os e permitiu que retornassem à sua terra ancestral. Ainda assim, o antigo ressentimento continuou a crescer. Sua expressão veio à luz numa hostilidade aberta, quando, durante as negociações de reconciliação, um parente de Ibn Saud, do –emir de Al-Has’a, assassinou traiçoeiramente, na tenda do filho mais velho, do emir, o chefe dos Azaman e vários de seus seguidores.

A aliança entre as tribos Ajman e Mutair–criou uma nova faísca entre as tribos Ataiba de Najd.‘emir’ Ibn Bujad foi capturado, eles se reagruparam sob a liderança de um novo chefe. Mais uma vez, ergueram-se contra o rei  . Por isso, ele retirou quase todas as suas forças do norte de Najd e as concentrou no centro de Najd. Travou-se uma luta intensa,, mas, pouco a pouco, Ibn Saud saiu vitorioso. Ele derrotou os vários grupos dos Ataiba, um após outro,, mas, por fim, eles enviaram uma proposta–de rendição. Numa aldeia entre Riade e Meca,‘os xeques’ juraram lealdade ao rei, e o rei os perdoou, na esperança de que, depois disso, ele Ad-–Dabish e contra todos os demais rebeldes do norte pudesse tomar qualquer medida.–Mas, assim que voltou a Riade, a tribo Ataiba rompeu pela segunda vez a promessa e retomou a luta. Esta era a guerra final,, a luta para exterminar o inimigo. Pela terceira–vez, os Ataiba foram derrotados, e quase um–décimo de seu povo foi aniquilado. Assim, com a destruição completa dos assentamentos Ikhwan, cujas fortificações eram maiores que as de Riade,‘os Ikhwan’ a autoridade do rei foi novamente estabelecida no centro de Najd.

A luta na região norte ainda continuava. Faisal–ad-–Dawish e seus aliados haviam cavado trincheiras perto de Sarhad e estavam firmemente entrincheirados. Em nome do rei, o emir de Hail, ‘’emir’Ibn Musad, lançava ataque após ataque contra eles. Duas vezes espalhou-se a notícia de que, ad-–Dawish havia sido morto, e em ambas as ocasiões a notícia provou ser falsa. Ele continuou vivo; com a determinação de não baixar a cabeça, e não fazer concessões, . Com essa obstinação, seu filho mais velho e setecentos guerreiros foram mortos no campo de batalha. Mesmo assim, ele continuou lutando. Então surgiu a pergunta, de onde –ad-Dawish obtinha dinheiro–e recursos,, indispensáveis para continuar uma guerra até mesmo num país como a Arábia. De onde vinham suas armas e munições??

Começou a circular, sem qualquer confirmação, o relato de que, o–rebelde, que outrora fora um crítico ferrenho dos vários tratados de Ibn Saud com os kafires, agora estava ligado aos britânicos por meio de uma aliança secreta–. Espalhou-se o rumor de que, ele fazia frequentes visitas ao Kuwait: seria possível que realizasse tal coisa, sem que as pessoas deixassem de comentar, sem o conhecimento das autoridades britânicas? ? Ou não seria antes possível que, a rebelião no país de Ibn Saud–e a desordem fossem muito convenientes para que eles alcançassem seus objetivos?

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Em Riade, 1929–numa noite de verão, recolhi-me para dormir;e, enquanto folheava um velho livro sobre as várias dinastias de Omã e tentava distrair-me antes de adormecer, Zayed entrou de repente, quase inesperadamente, no meu quarto: um homem veio dos xeques e deseja falar com o senhor, .

Vesti-me rapidamente e cheguei à fortaleza. Ibn Saud esperava por mim em seus aposentos particulares; sentado num divã, com uma perna sobre a outra. Ao seu redor havia pilhas de jornais árabes, e ele segurava um jornal do Cairo. Respondeu brevemente à minha saudação e, sem interromper a leitura, fez-me sinal para que me sentasse ao seu lado, no divã. Depois de algum tempo, ergueu os olhos do jornal e olhou para  o escravo que estava à porta, fazendo-lhe um gesto com a mão–para indicar que queria ficar algum tempo a sós comigo. Assim que o escravo saiu e fechou a porta, o rei pousou o jornal que tinha nas mãos e, por alguns instantes, fitou-me por trás dos seus óculos reluzentes, como se não me visse havia muitos anos (embora naquela mesma manhã eu tivesse passado várias horas com ele)।

–‘Ocupado com a escrita!!’

–‘Não, sultão de longa vida!! Faz muitas semanas que não escrevo nada.’

–‘Aqueles artigos que escreveste sobre o nosso problema fronteiriço com o Iraque ficaram excelentes.’

Evidentemente, há quase dois’meses eu estava me referindo aos vários relatórios que vinha escrevendo em série para os meus jornais continentais. Alguns deles haviam sido publicados num jornal do Cairo, onde — orgulho-me de dizê-lo — esses relatórios tinham ajudado a resolver uma situação muito complexa. Como conhecia o rei, tinha certeza de que–tenho orgulho de dizer–esses relatórios haviam ajudado a resolver uma situação muito complexa. Como conhecia o rei, tinha certeza de que, o rei não estava falando de maneira desconexa, e que continuaria expondo o que tinha claramente em mente. E, de fato, continuou sua exposição.

–‘Talvez sobre o que aconteceu no Najd, sobre esta rebelião e sua sombra auspiciosa, você queira escrever mais alguma coisa.’Havia uma sugestão em seu tom de voz quando disse, ‘A família dos xarifes me odeia; os filhos de Hussein, que agora estão no Iraque  e governam a Trans–Jordânia, sempre me odiarão, porque não podem esquecer que tomei o Hejaz deles. Eles querem que o meu reino se desintegre e se desfaça em pedaços, pois só então poderão voltar ao Hejaz.. . e os seus amigos, que fingem ser meus amigos, talvez não desgostassem disso.. . Eles não construíram aqueles fortes à toa: eles ‘queriam’ atormentar-me e expulsar-me para longe das suas fronteiras.. .।

Por trás das palavras pronunciadas na voz de Ibn Saud–, eu conseguia ouvir sons fantasmagóricos confusos.. . — o ribombar de um trem, , que, embora ainda imaginário, poderia facilmente tornar-se realidade já amanhã  : o espectro de uma linha férrea britânica de Haifa a Basra.

A existência de um plano desse tipo é conhecida há vários anos. É bem sabido que, a Grã-Bretanha estava ansiosa por estabelecer ‘uma rota terrestre até à   Índia’para estabelecer–— e os mandatos britânicos sobre a Palestina, Trans-–jordânia e Iraque significavam, na realidade, isso. Do Mediterrâneo  até ao Golfo Pérsico, uma ferrovia não seria apenas uma ligação nova e valiosa para o sistema de comunicações da Grã-Bretanha, como também garantiria maior proteção ao oleoduto que seria instalado do Iraque até Haifa, atravessando o deserto sírio–Também, a ligação ferroviária direta entre Haifa e Bassorá avançaria rasgando as províncias orientais de Ibn Saud; a ligação ferroviária avançaria rasgando as províncias orientais de Ibn Saud–e o rei jamais poderia aceitar sequer uma sugestão desse tipo. Não seria possível que, a construção de uma fortaleza após outra ao longo da fronteira Iraque-–Najd, em franca oposição a todos os tratados vigentes, para criar uma perturbação considerável ‍fosse a primeira fase de uma conspiração bem planejada, para que a flexibilidade em relação à Grã-Bretanha pudesse servir de justificativa para a criação de um ‘pequeno Estado-tampão semiautônomo’–?? Faisal al-–Dawish, este ‍poderia ser útil a esse objetivo, e talvez pudesse ajudar nisso mais do que qualquer membro da família Sharif;porque ele próprio é najdi e, entre os ‘Ikhwan’s  tem um grupo poderoso de apoiantes. Mas, para qualquer pessoa familiarizada com o seu passado, era tão claro quanto a luz do dia que, para qualquer pessoa familiarizada com o seu passado, –era tão claro quanto a luz do dia que, a–exagerada devoção religiosa que se costumava mencionar a seu respeito, era apenas uma máscara. Na verdade, o seu único objetivo era o poder. Não há dúvida de que, sem qualquer ajudante, teria sido impossível para ele, sozinho, resistir a Ibn Saud  por tanto tempo. Será que ele está realmente sozinho??

Depois de permanecer calado por muito tempo, o Rei continuou falando: como todos os outros, eu também, Ad-–Dabish, ao que parece, tem em suas mãos armas e munições, penso de onde elas estão vindo, e tenho pensado nisso. Soube que ele possui tudo isso em abundância–e uma enorme quantidade de dinheiro–também. Quero dizer, Ad-–Dabish recebe armas, munições e–suprimentos de pólvora: você sabe alguma coisa sobre as fontes misteriosas desses suprimentos?–Mas quero que, na medida do possível,, você mesmo descubra isso,, pois posso estar enganado.

Então, a questão é esta:, embora o rei falasse de maneira muito despretensiosa, indiferente e coloquial,,ainda assim pronunciava claramente cada palavra, pesando-as. Olhei para ele com um olhar penetrante e inquisitivo. Seu rosto, que momentos antes estava tão sério,–iluminou-se com um sorriso generoso. Ele colocou a mão sobre a minha e, sacudindo-a, disse:,‘Meu filho,, quero que você descubra por si mesmo–repito,, descubra você mesmo de onde Ad-Dabish está obtendo seus rifles,, suas munições–pólvora e dinheiro,, que ele distribui tão indiscriminadamente, e gasta,! ao meu ver, , praticamente não há dúvida quanto a isso. Mas quero que, alguém como você,, que não esteja diretamente envolvido,, diga ao mundo que Ad-–Dabish se rebela e sobre a verdade oculta por trás de sua rebelião.. . Acredito que você conseguirá descobrir o que realmente está acontecendo.’

Ibn Saud sabia o que estava prestes a fazer, e qual era o significado disso. Ele sempre–soube  que eu o amava, embora frequentemente discordasse dele quanto à sua política e nunca escondesse minha discordância. Mesmo assim, ele jamais perdeu a confiança em mim; Ele frequentemente aceitava meus conselhos. Creio, que ele confia ainda mais em mim porque não espero obter dele qualquer benefício pessoal, e ele sabe muito bem disso; Ele está plenamente consciente de que, eu não aceitaria sequer um cargo em seu governo– porque quero permanecer livre e independente. Por isso, no verão de 1929–naquela noite memorável, ele me revelou calmamente seu desejo, de que eu‘Ikhwan’me lançasse à descoberta da rede de intrigas políticas que estava por trás da rebelião–e desvendasse sua verdadeira natureza. Era uma missão que envolvia um risco pessoal considerável e que só poderia ser cumprida mediante esforços extremos.

Mas o‘xeique’não ficou decepcionado com minha reação. O fato de eu amar tanto a ele quanto ao seu país,à parte, a missão que ele me confiou, pareceu-me cheia da possibilidade de uma aventura extraordinariamente emocionante–e surpreendente–— sem mencionar a possibilidade de uma reportagem jornalística sensacional.

–‘Ó homem de vida longa’, eu  respondi sem demora, ‘meus olhos, minha cabeça está às suas ordens. Certamente farei tudo o que puder!!

–‘Não tenho dúvida alguma a esse respeito, Muhammad; e quero que, você mantenha esta missão em segredo. Pode haver perigo nisso. E então, como está sua esposa??’

Essa minha esposa é uma jovem de Riade, com quem me casei no ano anterior. Eu tinha conseguido assegurar ao rei o seguinte:

‘Ela não chorará, ó imã; eu estava pensando em me divorciar dela ainda hoje. Não parecemos adequados um ao outro.’

Ibn Saud sorri conscientemente, pois o divórcio de uma esposa não lhe é algo desconhecido.

–‘Mas e os outros, seus parentes–do seu clã??

–‘Creio que não há ninguém que lamentaria por mim se algo me acontecesse; mas Zayed é uma exceção–em qualquer circunstância, ele permaneceria comigo, e o que acontecesse comigo aconteceria também a Zayed.’

–‘Muito bem’, disse o rei, ‘ah,eu quase me esqueço: para este trabalho, algum dinheiro–será necessário,’e, deslizando a mão por baixo da almofada atrás dele, tirou uma bolsa e a colocou na minha mão, Pelo peso, compreendi imediatamente que a bolsa estava cheia de moedas de ouro. Lembro-me, de ter pensado comigo mesmo: tão certo estava ele de que eu aceitaria essa ordem, mesmo antes de me perguntar sobre isso... .

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Ao voltar aos meus aposentos, chamei Zayed. Zayed estava à espera do meu retorno.

–‘Está bem, Zaid, se eu lhe pedisse que me acompanhasse numa tarefa que poderia acabar sendo perigosa, você iria comigo??’

‘Zaid respondeu, acha, tio,, que eu o deixaria ir sozinho,, qualquer que fosse o–perigo?? Mas para onde estamos indo??’

–‘Estamos indo descobrir de onde ad-–Dabish obtém suas armas e seu dinheiro, para descobrir isso. Mas ninguém deve saber o que estamos fazendo por ordem do rei, até que esteja concluído;, portanto, você terá de permanecer alerta.’

Zaid nem sequer tentou me encorajar. Pelo contrário, levantou uma questão mais prática: ‘Sobre isso, certamente não podemos interrogar ad-–Dabish nem seus homens. Então, como vamos avançar nessa tarefa??

No caminho de volta da fortaleza, eu também pensava repetidamente no problema. Pareceu-me, que seria mais conveniente começar por uma das cidades do Najd Central, onde havia muitos comerciantes, que mantinham relações estreitas com o Iraque e o Kuwait. Por fim, escolhi a cidade de Shaqra, a capital da província de Washm,, a cerca de três dias de viagem de Riade,, onde talvez meu amigo Abdur Rahman al-Sibai pudesse me ajudar.

No dia seguinte, permanecemos ocupados com os preparativos para nossa expedição. Eu não queria que as pessoas se interessassem demasiado por nossos movimentos. Por isso, adverti Zayd, conforme nosso costume habitual,, a não tirar provisões dos depósitos do rei e a comprar no mercado  tudo de que necessitássemos. Antes do anoitecer, ele conseguiu cerca de dez ser de arroz, e a mesma quantidade de farinha para fazer pão,, um pequeno saco de couro cheio de manteiga clarificada,, tâmaras,, grãos de café e sal. Além disso, comprou dois odres novos,, um balde de couro e um longo saco de pelo de cabra, capaz de alcançar o fundo de poços muito profundos,–dentro do qual enfiei as roupas de nós dois,’nós  duas para cada um,’mudas de roupa, e ambos vestimos pesadas‘abaias,’, que, nas noites frias, sobre as selas,, serviriam de cobertura, juntamente com os cobertores colocados sobre elas. Nossas camelas haviam passado algumas semanas no pasto e se tornado muito adequadas para serem montadas.  A camela que recentemente dei a Zayd é uma camela de corrida de Omã,, que se move com extrema rapidez,, enquanto eu montei uma bela camela Asiri, já idosa, da região norte,, que outrora pertencera a um Rashidi de Hail,‘emir’. Ela me foi presenteada por Ibn Saud.

Depois que caiu a noite, partimos de Riade, incitando as montarias. Pela manhã, chegamos a Wadi Hanifa, um leito profundo e deserto entre duas montanhas íngremes, onde, há mais de’mil e quatrocentos anos, ocorreu uma batalha decisiva–entre o exército muçulmano de Abu Bakr, herdeiro do Profeta e primeiro califa do Islã, e o‘“falso profeta”’, Musaylima, ferrenho adversário dos muçulmanos durante muitos anos. Essa batalha marcou o início da vitória final do Islã na Arábia Central. Muitos dos verdadeiros companheiros do Mensageiro de Deus alcançaram o martírio nessa batalha; ‘e, nas encostas rochosas do uádi’ainda hoje se veem os seus túmulos.

Antes do meio-dia, atravessamos a cidade arruinada de Uyayna;que outrora fora uma enorme povoação densamente habitada, estendendo-se ao longo das duas margens do Wadi Hanifa. Fileiras e mais fileiras de muros, o arco vacilante de uma mesquita, ou as ruínas de enormes palácios que ali existiam. Tudo isso, comparado às simples construções de barro do Najd dos nossos dias–revela um estilo arquitetônico muito mais ornamentado. Diz-se, cento e cinquenta’ou duzentos’anos atrás, de Diriyah (a primeira capital da dinastia de Ibn Saud) até Uyayna, por cerca de quinze milhas, todo o curso do Wadi Hanifa era ocupado por uma única cidade, e, quando nascia um filho ao‘emir  de Diriyah, a notícia chegava em poucos minutos à extremidade de Uyayna, de telhado em telhado, de boca em boca entre as mulheres  . A história do declínio de Uyayna está tão envolta em lendas que, é realmente difícil recuperar os fatos históricos. Muito provavelmente, o primeiro governante saudita mandou destruí-la porque os habitantes da cidade se recusaram a aceitar os ensinamentos e a interpretação de Muhammad ibn Abd al-Wahhab. Mas a lenda wahabita é diferente. Segundo eles, como prova da ira de Deus, todos os  poços da Arábia secaram numa única noite, obrigando seus habitantes a abandonar a cidade.

Ao meio-dia do terceiro dia, avistamos as muralhas de barro de Shaqra, as fortalezas e as altas palmeiras–que, se–erguiam acima das casas. Continuamos conduzindo os camelos por entre jardins desertos e ruas vazias, e só então me ocorreu de repente, que hoje era sexta-feira, e que certamente todos tinham ido à mesquita. De tempos em tempos, surgia na estrada uma mulher, dos pés à cabeça, numa negra‘abaya’, ‍envolta’ao ver os desconhecidos, assustava-se e imediatamente, com recato, puxava o niqab sobre o rosto. Às vezes, meninos e meninas brincavam à sombra das casas, e, acima das copas das palmeiras  pairava um calor pesado e sonolento.

Fomos diretamente à casa de nosso querido amigo Abdur Rahman al-Sibai. Naquela época, ele era responsável pelo‘Bayt al-Mal’ ou tesouro provincial. Descemos de nossas montarias diante do portão aberto, e um jovem criado saiu correndo da casa, e imediatamente Zayd anunciou, ‘«Os convidados chegaram!»’।

Zayed e Chelechi descarregavam a sela e a bagagem do dorso da montaria no pátio da casa, e eu estava sentado confortavelmente na “‘cafeteria’” de Abdur Rahman, como se estivesse em minha própria casa. Outro criado não perdeu tempo e acendeu o fogo sob o recipiente de cobre colocado sobre o fogão de preparar café. Eu mal havia engolido a primeira colherada de café quando se ouviram no pátio vozes, —perguntas e respostas. O dono da casa havia voltado. Da escada—–ainda não era possível vê-lo—–ele gritou para me dar as boas-–vindas, ; depois veio postar-se no batente da porta, com as duas’mãos estendidas: um homem baix–o, de saúde delicada e esguio–, de compleição franzina, ; sua barba era castanho-clara, e ele tinha um par de olhos escuros, profundos e cheios de vivacidade irônica, , num rosto irradiando um sorriso–discreto; . Apesar do calor, usava sob a sua “‘abaya’” um casaco de couro peludo, , que considerava seu bem mais valioso. Para aqueles que não conheciam sua história, , ele nunca se cansava de dizer que aquele casaco pertencera ao antigo rei do Hejaz, Sharif Hussein, e que, após a conquista de Meca em 1924, passara para as mãos dele, , isto é, de Abdur Rahman. Não me lembro de jamais tê-lo visto sem esse casaco.

Ele me abraçou com calorosa emoção e, ficando na ponta dos pés, pediu que eu lhe beijasse as duas’faces: ‘Ahlan wa sahlan wa marhaban, , meu irmão. Seja bem-vindo à minha humilde  casa. Afortunado é este momento, que o trouxe até aqui.

Então começaram as perguntas de praxe: de onde vinha, para onde iria, como estava o rei, se havia chovido pelo caminho ou, pelo menos, se eu tinha ouvido falar de chuva  ‍—?-a repetição de todo o ritual árabe de troca de–notícias! ! Eu lhe disse que, meu destino era Anaiza, no Najd central, embora essa afirmação não fosse inteiramente verdadeira, —mas poderia ter sido’.

Nos anos anteriores, Abdur Rahman estivera envolvido em vários tipos de comércio entre Najd e o Iraque; e conhecia bem os meandros de Basra e do Kuwait.–Não foi nada difícil incentivá-lo a falar sobre esses lugares e, de passagem, perguntar-lhe algo sobre as pessoas que poderiam ter ido morar ali recentemente   — fazer-lhe algumas perguntas não foi nada difícil-((pois eu havia pensado que, a saber, Faisal ad-–Dawish, por estar tão perto da fronteira do Kuwait. Assim, talvez se pudesse obter alguma indicação de onde ele recebia seus suprimentos–— deste lugar ou de Basra —–).)Eu soube que, um membro da famosa família Al-–Bassam, de Unaizah,–um velho conhecido meu,–havia ido recentemente ao Kuwait no caminho de volta de Basra e, em vez de se expor ao perigo de viajar através de uma área dominada pelos rebeldes,–havia retornado a Najd via Bahrein. No momento, ele estava em Shakra, e, se eu quisesse, Abdur Rahman enviaria alguém para buscá-lo. Pois, segundo o antigo costume árabe,, é preciso ir encontrar o hóspede recém-chegado, — o hóspede não vai fazer a visita. Pouco depois, na‘cafeteria de Abdur Rahman, veio juntar-se a nós–Abdullah Al-–Bassam.

Embora Abdullah fosse membro da família de comerciantes talvez mais respeitada de Najd, ele próprio não era rico. Toda a sua ‘vida era uma história de altos e baixos, na sua maior parte de baixos–não apenas em Najd, Cairo , Basra, Kuwait, Bahrein e Bombaim. Ele conhecia todas as pessoas importantes desses lugares e carregava, em sua mente astuta, um verdadeiro tesouro de informações sobre tudo o que acontecia nos países árabes , em sua mente astuta. Eu lhe disse que, uma empresa comercial alemã–me pedira que investigasse, se era possível importar máquinas agrícolas para o Kuwait e Basra, e, como essa empresa queria pagar-me uma comissão de algum tipo, eu estava ansioso por descobrir quais comerciantes locais dessas duas cidades poderiam aceitar uma proposta desse gênero. Al-–Bassam, mencionando alguns nomes,  disse:-,

–‘“Creio, que alguém do Kuwait pode interessar-se pelo seu projeto. Eles importam constantemente mercadorias do exterior e, hoje em dia, os negócios parecem estar muito prósperos–e atualmente os negócios parecem estar muito prósperos–tão prósperos que, quase todos os dias chegam grandes quantidades de prata em‘riais’diretamente da  casa da moeda de Trieste.”’

Com a menção aos ‘riais’ de prata, fiquei bastante abalado.   Este tipo especial de ‘rial’, , chamado ‘Maria Theresa Thaler–, juntamente com as moedas oficiais da Arábia, , era considerado a principal moeda comercial de toda a península. Era cunhado em Trieste e, somado ao seu valor em prata, um pequeno custo de cunhagem, era vendido a vários governos e também a alguns comerciantes famosos –que mantinham grande –comércio entre os beduínos, , pois os beduínos não aceitavam moeda de papel; , aceitavam apenas moedas de ouro e prata, , preferindo entre elas a moeda chamada Maria Theresa Thaler. A grande importação dessas moedas pelos comerciantes kuwaitianos parecia indicar que mantinham um comércio intenso com os beduínos.

–‘Por quê?,’ — –pergunto a Al-Bassam:, os comerciantes kuwaitianos estão importando ‘riais’ justamente neste momento??’

–‘Não sei’responde Bassam. Há um tom de perplexidade em sua voz, –‘Dizem que compram camelos para carne dos beduínos dos arredores do Kuwait, para levá-los e vendê-los no Iraque. Atualmente, dizem, o preço no Iraque está muito alto–embora eu não consiga entender muito bem, como podem esperar encontrar camelos nas estepes ao redor do Kuwait nestes dias de tribulação? .. .‘Eu, antes, acho’, ele  acrescenta com um sorriso, ‘que seria mais lucrativo comprar camelos de montaria no Iraque e vendê-los a ad-–Dabish e seus homens. Contudo, o problema é que, não conseguirá reunir dinheiro suficiente para pagar por tudo–ad-–Dabish….. .’

–‘Não conseguirá,, de verdade??

Naquela noite, antes de ir dormir no quarto que nosso anfitrião providenciara para nós, chamei Zaid para um canto e disse-lhe:

‘–Estamos indo para o Kuwait.

–‘Esta tarefa não será nada fácil, tio– responde Zayed; mas o brilho de seus olhos expressava com muito mais clareza do que suas palavras que ele estava preparado para uma tarefa, que não era apenas difícil, mas extremamente perigosa! Naturalmente, viajar pelas áreas sob o controle das tropas leais ao rei e de várias tribos seria uma brincadeira de criança. Mas, antes de alcançar a fronteira do Kuwait, teríamos de percorrer pelo menos cerca de cem’milhas, dependendo inteiramente’de nós mesmos,,em território inimigo,, por onde circulavam incessantemente os homens das tribos rebeldes Mutair e Ajman. Naturalmente, poderíamos ir ao Kuwait por via marítima, passando pelo Bahrein,, mas para isso seria necessária uma autorização das autoridades britânicas. Com isso, nossos movimentos seriam revelados aos olhares inquisitivos e vigilantes. A mesma objeção se aplicaria a viajar pelo Al-Jawf e pelo deserto sírio até o Iraque, e de lá seguir para o Kuwait,, pois seria uma esperança vã sequer imaginar escapar pelos intervalos dos numerosos postos de controle existentes no Iraque. Assim, não nos restava outra rota senão a rota terrestre direta até o Kuwait. Como conseguir penetrar no interior e entrar na própria cidade  seria possível, é uma questão cuja resposta simples não era possível naquele momento; Por isso, deixamos isso nas mãos do futuro,, confiando em nosso destino e esperando oportunidades e possibilidades jamais previstas.

Abd al-Rahman as-–Sibai pediu que eu passasse alguns dias com ele. Mas, quando aleguei ter assuntos urgentes a tratar, ele nos deixou na manhã seguinte; e acrescentou à nossa ração uma grande quantidade de carne seca de camelo. Era uma deliciosa variação para a monótona alimentação que nos aguardava nos dias seguintes. Insistiu que eu, o procurasse na volta, ao que só pude responder: Insha Allah  , se Allah quiser.

De Shaqra, viajamos quatro dias em direção ao nordeste–sem enfrentar nada de anormal. Certa vez, fomos obrigados a parar–por ordem dos beduínos Awazim leais. Mas, quando lhes mostrei a carta aberta que recebera do rei; eles se acalmaram num instante; depois de trocarmos, como de costume, notícias sobre o deserto–retomamos nosso caminho.

Antes do nascer do sol do quinto dia, chegamos a uma região sobre a qual a mão de Ibn Saud já não se estendia. A partir de então, viajar durante o dia estava fora de cogitação; e nossa única segurança consistia em avançar no escuro e em segredo.

do vasto Wadi ar-–Rummah, armamos nossas tendas numa ravina conveniente, não muito distante de seu curso principal. O Wadi ar-Rummah é o leito seco de um rio antiquíssimo, que atravessa o norte da Arábia em direção à cabeceira do golfo Pérsico. Sobre a ravina pendem densos arbustos de ‘arfaj’que nos serviriam de abrigo enquanto permanecêssemos junto à margem quase escarpada., Amarramos firmemente nossos camelos e lhes damos para comer uma pasta grossa de cevada misturada com caroços de tâmaras; e assim eliminamos a necessidade de soltá-los para pastar. Depois, ficamos quietos, esperando a noite. Não ousamos acender uma fogueira–pois, mesmo durante o dia, sua fumaça poderia revelar nossa posição secreta. Por isso, tivemos de nos contentar com tâmaras e água.

A extrema precisão de nossa cautela ficou evidente no fim da tarde, quando a melodia de um condutor beduíno de camelos–chegou de repente aos nossos ouvidos. Apres­sa­damente, pegamos as rédeas dos camelos para que  não pudessem bufar ruidosamente. Depois, com os rifles nas mãos, ficamos de pé, pressionados contra o paredão que formava a encosta da ravina.

Desconhecidos  quanto mais os cavaleiros de camelo se aproximavam, mais forte se tornava a melodia de seu canto; já conseguíamos distinguir claramente estas palavras:  ‘La ilaha illallah –  La ilaha illallah’ –não há divindade além de Allah, não há divindade além de Allah. Este é ‘‘incultos’’beduínos, em lugar da sua  canção pastoril mais mundana,–um canto natural–adotado pelos Ikhwan. Não há dúvida de que, eles são ‘Ikhwan’, e, nesta região, Ikhwan significa Ikhwan hostis. Pouco depois, no topo de uma colina diretamente acima da margem do desfiladeiro, surgiu um grupo de oito a–dez cavaleiros, que avançavam lentamente, numa única fila–claramente delineados contra o céu da tarde. Cada um usava na cabeça uma ‘kufia’sobre a qual trazia o‘turbante branco dos Ikhwan’branco , duas bandoleiras de cartuchos cruzadas no peito e, atrás delas, um rifle preso ao arção da sela: avançava uma procissão de cavaleiros de camelo, solenes e ameaçadores, inclinando-se uma vez para a frente e depois deixando o camelo inclinar-se para trás. Assim, inclinando-se para a frente e para trás–e balançando-se ao ritmo do passo das camelas, em compasso com as grandiosas, mas agora–mal empregadas, algumas’palavras‘La ilaha illallah’— em consonância com o seu clamor. A cena era muito solene e, ao mesmo tempo, profundamente triste. Eram homens, para quem a religião era evidentemente muito mais valiosa do que tudo o mais na vida. Acreditavam estar travando o jihad pela pureza da religião e pela maior glória de Allah, sem saber, contudo, que, seu entusiasmo, ardor e aspirações haviam sido mobilizados para satisfazer a ambição de conquista de um líder sem consciência, cujo objetivo era o poder pessoal.. .

Do nosso ponto de vista, eles estavam na margem sul do desfiladeiro. Pois, se tivessem seguido o caminho do lado oposto, teriam podido ver-nos muito claramente, como agora nós os vemos, de sob os arbustos que se–estendem sobre nós como uma cobertura. Quando eles, entoando o seu cântico religioso,–desapareceram da nossa vista na encosta da montanha, respirámos aliviados.

–‘como jinns,’, sussurrou Zayed, ‘Sim, como jinns–que não conhecem qualquer alegria da vida, nem conhecem o medo da morte.. . São corajosos, a sua fé é firme, ninguém  pode negar isso. Mas eles sonham apenas com assassinato, morte e Paraíso.. .

E, talvez, como que em desafio ao puritanismo melancólico dos ‘Ikhwan’, começa, até certo ponto,‘em voz baixa’ele  começa distraidamente a cantar uma canção de amor síria muito mundana– ‘Ó esbelta donzela de tez castanho-dourada.. .

Assim que escurece bastante, retomamos nossa missão secreta, rumo ao distante Kuwait.

–‘Olhe, olhe, tio,’grita Zayed de repente, ‘Fogo!!

Este fogo é pequeno demais para uma tenda beduína!! Talvez haja ali um pastor solitário, mas, se não for um dos rebeldes, que pastor teria coragem de acender um fogo aqui?? Mas o que será isso?, Vale a pena investigar, pensa. Se ali houver apenas um homem, poderemos facilmente dominá-lo e talvez obter, sobre os movimentos do inimigo nesta região,  algumas informações valiosas.

O solo aqui é arenoso e, enquanto avançamos cautelosamente em direção ao fogo, não se ouve nenhum som dos pés dos nossos camelos. À luz daquele fogo, tornou-se agora claramente visível para nós a figura solitária–do beduíno, ajoelhado. Pareceu-nos, que ele espiava em nossa direção através da escuridão e então, como que satisfeito com o que tinha visto, levantou-se devagar, e cruzou os dois braços sobre o peito, talvez para mostrar que estava desarmado e, calmamente, , sem demonstrar o mínimo medo, ficou à espera de nossa chegada.

–‘Quem ‍é você??’ pergunta Zayed em tom agudo,, vestido com roupas–rasgadas e–remendadas,   enquanto ergue o rifle na direção do desconhecido’.

O beduíno sorri serenamente e diz em voz profunda e ressonante:, ‘Sou sulubbi….. .।

A razão de sua tranquilidade tornou-se clara afinal. Ele era membro daquela estranha tribo semelhante a nômades –— (ou, pode-se dizer,, de um grupo de tribos —,) cujos membros nunca haviam participado das guerras–quase intermináveis dos beduínos;; eles não são inimigos de ninguém,, e ninguém os ataca.

A tribo dos Sulubba ((no singular, Sulubbi)) continua sendo um mistério indecifrável para os investigadores. Ninguém sabe nada sobre sua origem. É certo que não são árabes; A cor de sua pele, tostada pelo sol, parece indicar algo sobre sua origem, mas seus olhos azuis e cabelos castanho-claros dão uma indicação diferente e carregam a lembrança de regiões ainda mais ao norte. Antigos historiadores árabes dizem, que eles são descendentes daqueles cruzados que Saladino capturou e levou para a Arábia. Mais tarde, eles se tornaram muçulmanos. E, de fato, , o nome Sulubba e a palavra‘“salib”’têm a mesma raiz, isto é,‘“cruz”’, e‘“Sulubbi”’significa‘“cruzado”’É difícil dizer se essa explicação está correta. Seja como–for,, os beduínos consideram os Sulubba não–árabes– e, no tratamento que lhes dispensam, demonstram certo desprezo indulgente. Esse desprezo, que é claramente contrário ao senso de igualdade humana; ao explicá-lo, eles, os beduínos insistem justamente que, essas pessoas, em matéria de fé, não são realmente muçulmanas, e não vivem como muçulmanos. Dizem que, os Sulubba não se casam. Eles‘estão acostumados a relações sexuais livres, como cães’;e, além disso,, nesse assunto, não dão importância sequer aos–laços de sangue próximos. Além disso, comem carniça, que, para os muçulmanos, é impura, e imunda. Isso também pode ser  uma tentativa de justificar racionalmente algo depois que aconteceu. A mim, porém, parece, que a consciência beduína da origem estrangeira dos Sulubba, sendo extremamente consciente da linhagem,–os, obriga a traçar ao redor deles um círculo mágico de desprezo, E esta é–uma defesa instintiva dos beduínos contra a mistura de seu sangue com o sangue de outro povo, que, no caso dos Sulubba, era certamente  muito atraente; pois, eles são, quase sem exceção, um povo belo, mais alto que todos os outros árabes, e há uma admirável harmonia na disposição de seus membros; sobretudo, suas mulheres são extremamente graciosas, transbordantes de uma beleza física encantadora e da graça de seus movimentos.

Mas, qualquer que seja a razão,, foi justamente o desprezo dos beduínos pelos Suluubba que lhes deu segurança; pois , quem quer que os–ataque, ou qualquer pessoa que lhes cause dano, é–considerada, aos olhos dos membros de sua tribo, como alguém que perdeu a honra–Além disso,, os Suluubba são muito estimados por todos os habitantes do deserto–como veterinários, fabricantes de selas, e latoeiros e ferreiros. Embora os beduínos desprezem profundamente o artesanato–e os trabalhos manuais, também precisam dessas coisas; e os Suluubba estão ali para ajudá-los nessas necessidades. Além disso, são hábeis pastores, e, acima de tudo,, são inquestionavelmente mestres na caça. Sua capacidade de interpretar os sinais do caminho chega a ser lendária;e, nesse aspecto, os únicos que se comparam a eles são os beduínos Al-–Murra, que vivem na orla setentrional do 1Quadrante Vazio .

Ao saber que nosso novo conhecido era um Sulubbi, respiramos aliviados. Eu lhe disse abertamente, que éramos homens de Ibn Saud. Pedimos-lhe que apagasse o fogo. Identificarmo-nos dessa maneira era bastante seguro, pois essa gente olha para seus superiores com grande respeito. Depois, sentamo-nos no chão e iniciamos uma longa conversa.

Ad-–Dabish não pôde dizer muito sobre a disposição do exército.‘Porque’, ele disse, ‘eles estão sempre em movimento, como génios, e nunca permanecem muito tempo num só lugar.’Claro, soube-se pelo menos que, neste momento, muito perto de nós, não havia nenhum grande acampamento de Ikhwan hostis–deles, embora pequenos grupos atravessassem continuamente o deserto em várias direções. De repente, ocorreu-me uma ideia: não poderíamos aproveitar a capacidade inata dos sulubbi para caçar e orientar-se, para que nos guiasse no caminho até Kuwait??

–‘Já alguma vez foste a Kuwait?’perguntei-lhe. O sulubbi sorriu– ‘Muitas vezes. Vendi ali peles de veado e manteiga  e limpei pelo de camelo. Por quê, Voltei de lá há apenas dez dias.’

–‘Então podes guiar-nos até Kuwait? –ou seja, levar-nos de tal modo que, pelo caminho, evitemos os‘Ikhwan’e consigamos chegar a Kuwait.

Depois de pensar por alguns momentos sobre a minha pergunta, Sulubbi  disse, hesitante,, ‘Talvez eu possa,, mas, se eu for capturado junto com vocês‘pelos Ikhwan, será muito perigoso. Sim, eu certamente posso,,.. . mas isso lhes sairá muito caro.’

–‘Quanto??’

–‘Muito bem,’, e percebi em sua voz o tremor da ganância,, ‘Muito bem, senhor,, se me der cem’riyal,, posso levar o senhor e seu amigo a Kuwait de tal maneira que, ninguém, exceto as aves do céu, nos verá.

Cem\’riyal equivalem a dez ashrafis;, considerando o que essa quantia significava para nós, era ridiculamente insignificante. Mas Sulubbi talvez jamais tivesse visto, em toda a vida, tanto dinheiro em espécie em suas ‍próprias mãos.

–Dar-te-ei cem’ riais, , vinte riais neste momento e o restante depois que chegarmos ao Kuwait.’

Nosso guia talvez não esperasse que sua exigência fosse aceita tão facilmente. Talvez, tenha se arrependido de não ter exigido uma quantia maior. Depois de pensar um pouco, disse:–‘“Mas o que será do meu camelo?? Se eu conduzir meu camelo com vocês até o Kuwait e depois voltar,, o pobre animal ficará completamente exausto,, e eu só tenho este único camelo.”’

Sem deixar que a conversa se prolongasse, respondi prontamente: ‘“Comprarei seu camelo. Você irá montado nele até o Kuwait e lá eu lhe darei o camelo de presente. Contudo, terá de nos conduzir também no caminho de volta.”

Isso estava além de suas esperanças. Exultante de alegria, ele se levantou sem demora e desapareceu na escuridão. Alguns minutos depois, voltou e trouxe, puxando-o pela corda, um animal velho, porém belo,, e evidentemente forte–e robusto. Depois de alguma–negociação,  fixamos seu preço em cento e cinquenta riais. A condição era,  que eu lhe pagaria cinquenta riais agora e o restante, juntamente com sua recompensa, lhe seria entregue no Kuwait. Da bolsa pendurada ao lado de nossas selas, Zaid tirou um saco–cheio de riais, e eu fui contando as moedas e deixando-as cair no colo de Sulubbi. Ele tirou um pedaço de pano, de sob a roupa feita de um lençol, na qual seu dinheiro estava amarrado, e, quando começou a acrescentar meus riais às suas economias, o brilho de uma moeda nova surgiu diante dos meus olhos.

–‘Pare,’ – pondo minha mão sobre a mão dele, quase grito, ‘Deixe-me ver esse seu rial reluzente.’

Com um ar um tanto hesitante,, como se estivesse aterrorizado com medo de ser saqueado,, Sulubbi colocou delicadamente a moeda na palma da minha mão. A borda da moeda parecia bastante afiada, como a de uma moeda nova. Ainda assim, para me certificar, acendi um fósforo e examinei atentamente a moeda. Sim,, esta é certamente uma nova moeda ‘Maria Teresa’ moeda, como se tivesse acabado de sair da casa da moeda. E, segurando o fósforo sobre as moedas restantes de Sulubbi, vi mais cinco–ou seis moedas,, igualmente  surpreendentemente novas.

–‘Onde você conseguiu estes riais??’

–‘Eu… .. . Eu juro, senhor , que consegui isto honestamente... . Não roubei isto. Há algumas semanas, no Kuwait, um Mutairi me deu isto. Ele  havia comprado de mim uma sela nova para camelo, porque a sua havia se estragado.’

–‘Um Mutairi?? Você está dizendo a verdade??’

–‘Estou dizendo a verdade, senhor!! Se eu estiver mentindo, que Allah me leve. Ele era um dos homens de Ad-Dabish,–um dos homens daquele grupo, que recentemente lutava contra o Amir de Hail‘–’. Certamente não foi errado aceitar dele o pagamento pela sela. Não pude recusar, e acredito que o Shuyukh‘—’ –que Allah prolongue sua vida—–compreenderá isso.

Volto a tranquilizá-lo, dizendo-lhe que, o rei não o considerará um inimigo. Isso dissipou o seu terror. Fazendo-lhe mais perguntas, descubro que Sulumbi havia recebido muitas  dessas moedas de pessoas do lado de Ad-–Dabish, , em troca de–bens ou de pequenos serviços... .

Nosso Sulumbi  provou realmente que, era um guia extraordinário. Durante três noites, ele nos guiou, a uma velocidade vertiginosa, através da região rebelde. Durante’essas três noites, atravessou conosco, a uma velocidade vertiginosa , terrenos–sem trilhas, atravessando regiões sem marcas e mostrando-nos o caminho  — regiões que–nem mesmo Zayd jamais havia visto antes, — embora Zayd conhecesse muito bem aquele país. Os dias passaram, mas sempre escondidos, e ocultos. Sulumbi era um verdadeiro mestre em encontrar lugares seguros onde pudéssemos ocultar-nos. Certa vez, levou-nos até uma poça de água, que, segundo Sulumbi nos disse, era desconhecida até mesmo pelos beduínos daquela região, . Naquela água castanha e um tanto salgada, nossos camelos saciaram a sede, e nós também conseguimos encher novamente nossos odres  de água. Apenas duas’vezes avistamos‘grupos de’ikhwan, , mas em nenhuma delas lhes foi possível nos avistar, — não lhes demos uma oportunidade ‍de fazê-lo.

Na manhã do quarto dia após nosso encontro com Sulumbi, chegamos a um lugar de onde se avistava a cidade do Kuwait. Não fizemos o que seria natural para viajantes vindos de Najd; pelo sudoeste, –em vez de tentarmos entrar na cidade por essa direção, avançamos pelo oeste, pela estrada que vinha de Basra, para que, caso alguém nos encontrasse, pensasse que éramos comerciantes iraquianos.

Assim que entramos no Kuwait, instalamo-nos tranquilamente no pátio de um comerciante. Zayed conhecia esse comerciante desde a época em que servia na força policial do Iraque.

Sobre as estradas cobertas de poeira e–as casas feitas de tijolos de barro queimados pelo sol espalhava-se um calor úmido e sufocante; e, acostumado às estepes abertas de Najd, fiquei completamente encharcado de suor quase num instante. Mas não havia tempo para descansar. Deixamos os camelos sob os cuidados de Sulumbi e Zayed e eu seguimos para o mercado, a fim de obter nossas primeiras–informações. Dei a Sulumbi uma ordem severa– para que não dissesse a ninguém de onde vínhamos nem por que havíamos vindo.

Como não conhecia o Kuwait e também não queria que, a minha presença atraísse a atenção das pessoas para Zayed, por isso permaneci cerca de uma hora numa cafeteria, onde fiquei sentado, tomando café e fumando um‘narguilé’de coco. Finalmente, quando Zayed reapareceu, compreendi, ao ver a expressão de sucesso em seu rosto, que ele certamente havia descoberto algo importante.

–‘Tio, vamos sair. É mais fácil falar no mercado sem que ninguém nos ouça. E, veja, trouxe uma coisa para o senhor–e outra para mim.’Enquanto falava, ele tirou de baixo de sua ‘abáia’ dois– igais iraquianos feitos de lã castanha tecida. ‘Com eles, passarão a nos considerar iraquianos’.’

Por meio de um interrogatório cuidadoso, Zayed confirmou, que um de seus ex-sócios– — que fora seu companheiro nos dias de seu contrabando no Golfo Pérsico —– agora vive no Kuwait, e, aparentemente, ainda conduz seu antigo negócio habitual.

–‘Se alguém nesta cidade pode nos dizer algo sobre a importação clandestina de armas, é este Bandar: Bandar é, como eu, da tribo Mammar, um daqueles jovens obstinados, que não conseguiram aceitar plenamente o governo de Ibn Saud. De modo algum se deve informá-lo  de que estamos  ‘a serviço dos xeques’Nem sequer, creio, que devemos dizer-lhe de onde, viemos’nem isso se deve dizer-lhe. Porque, Bandar não é realmente tolo  Ele é muito astuto–— na verdade,–já me enganou tantas vezes no passado, que agora tenho até medo de confiar nele.’

Por fim, encontramos Bandar perto do Grande Bazar,, numa casa numa viela estreita. O homem era alto e esguio,, magro e franzino,, com cerca de quarenta anos;, seus olhos eram escuros e profundos, e seu rosto trazia marcas de amargura e indigestão. Mas, assim que viu Zayed, os traços de seu rosto iluminaram-se com verdadeira alegria. Por causa da minha tez clara, fui apresentado como turco, e disseram que eu vivia em Bagdá e me dedicava ao comércio de exportação de cavalos árabes de raça, de Basra para Bombaim.

–‘Mas hoje em dia já não há lucro em exportar cavalos para Bombaim’, acrescenta Zaid, ‘os comerciantes de Unaizah e Buraidah assumiram completamente o controle do mercado de lá.’

–‘Eu sei’, responde Bandar, ‘aqueles canalhas sulistas de Ibn Saud não se contentaram em ocupar o nosso país; eles estão determinados a nos tirar o nosso–sustento.!

–‘Mas, Bandar, o que você diz sobre o comércio de armas??’ –pergunta Zaid, ‘Do modo como os membros das tribos Mutair e Ajman estão tentando torcer o pescoço de Ibn Saud, esse negócio deveria estar realmente muito movimentado, não acha??’

–‘Sim. O comércio aqui estava realmente muito ativo’, diz Bandar, sacudindo os ombros, ‘há alguns meses ganhei um bom’dinheiro comprando rifles na Trans-– Jordânia, e depois vendendo-os aos homens de Ad-–Dabish. Mas agora tudo está completamente arruinado, completamente acabado! Você já não poderá vender nem este rifle.’

–‘Como pode’ser isso?? Acho que, eles são muito mais úteis do que antes para Ad-–Dabish.’

–‘Sim,’ ‘responde Bandar, ‘Certamente ele precisa delas. Mas ele as consegue por um preço pelo qual nem você nem eu somos capazes de vendê-las. .. . Ele recebe caixas cheias delas do outro lado do mar; por, um fuzil inglês quase novo e du’zentos cartuchos, –ele paga dez riais.’

–‘Alhamdulillah!!’  exclama Zaid, com sincero espanto: , du’zentos cartuchos e um fuzil quase novo por dez riais!! Mas isso é impossível.. .।

Na realidade, pareceu impossível– pois, naquela época, sem sequer cartuchos, um ‍velho Lee-–Enfield custava em Najd de trinta a trinta e cinco riais, e, mesmo considerando que, em comparação com Najd,  os preços no Kuwait poderiam ser mais baixos, a razão da enorme diferença ainda não podia ser compreendida.

Bander sorri, torcendo os lábios, ‘Sim, parece que tem amigos poderosos–— amigos–de Ad-Dabim —–amigos muito poderosos. Alguns dizem:  um dia ele se tornará um‘amir’independente no norte de Najd.’

–‘Bander, o que você está dizendo’, intervenho, ‘é muito bom, muito correto. Ad-–Dabish talvez realmente estabeleça sua independência fora da esfera de Ibn Saud. Mas a questão é que, ele não tem dinheiro, e, sem dinheiro, nem mesmo o conquistador do mundo, Alexandre, teria sido capaz de fundar um reino.

Bandar irrompe numa gargalhada estrondosa: dinheiro–?? Ad –Dabish tem muito–— muitos riais novos,, que, tal como os rifles, chegam em caixas–carregadas até ele do outro lado do mar.’

–‘Caixas cheias de riais?? Que coisa surpreendente!! De onde um beduíno conseguiria caixas cheias de riais novos??’

–‘Isso eu não sei ’– responde Bandar, ‘mas isto eu sei, alguns de seus homens quase todos os dias recebem entregas de novos riais, que chegam até eles na cidade através de vários comerciantes. Ora, só ontem vi, Farhan ibn Mashhur supervisionando o descarregamento de caixas desse tipo no porto.’

Esta era uma notícia digna desse nome. Conheço Farhan muito bem. Ele é sobrinho-neto do célebre chefe beduíno sírio Nuri ash-–Shalan. Esse Nuri certa vez lutou ao lado de Lawrence contra os turcos. Meu primeiro encontro com o jovem Farhan ocorreu em Damasco, em 1924–.; Lá, em todos os lugares de–diversão suspeitos, era famoso por se embriagar. Pouco tempo depois, brigou com o pai de seu tio mais velho. Então partiu para Najd com sua tribo e alguns homens de Rubala, e foi justamente ali que, de repente, se tornou ‘“religioso”’ e juntou-se aos ‘Ikhwan’.  Voltei a encontrá-lo em 1927,, na fortaleza de Ibn Musaad, em Hail. Naquela época, ele já começara a usar, como símbolo de sua religião recém-adquirida, o enorme turbante branco dos ‘Ikhwan’ e desfrutava dos favores financeiros do rei. Quando lhe lembrei, em Bagdá, do nosso–encontro anterior, ele imediatamente mudou de assunto. O homem era estúpido e ambicioso,, e foi por isso que, na revolta de Al-–Dabish, viu, ao norte do vasto e desolado – Nufud, um oásis e –uma oportunidade de se estabelecer como emir independente de Al-Jauf; pois, , como em outros países, também na Arábia os revoltosos seguem o costume tradicional de dividir entre si a pele do leão antes mesmo de caçá-lo.

–‘Então‘Farhan está aqui, em Kuwait?? perguntei a Bandar.

–‘Com certeza. Assim como ad-–Dabish, ele vem aqui com frequência e ‘graças ao favor do Shaykh, ele’vai e vem livremente. Dizem que o Shaykh o ama muito.’

–‘Mas em Kuwait, a chegada de ad-–Dabish e Farhan não incomoda o governo britânico?? Se bem me lembro, que’há alguns meses eles anunciaram que não deixariam ad-–Dabish ou seus homens entrarem nesta região… .. .?

Bandar volta a soltar uma gargalhada–— Sim, eles–fizeram exatamente isso, fizeram–exatamente isso! — mas eu disse a mim mesmo, Ad-–Dabish tem amigos muito poderosos–e aliados .. . Não sei se ele está nesta cidade neste momento;mas Farhan está. Todas as tardes, ele vai‘à oração do Maghrib’na Grande Mesquita. Se não acreditas em mim, aqui podes vê-lo com os teus próprios olhos .. .।

E, de fato, nós o vimos. Depois de receber essa indicação de Bandar, no início da noite, enquanto Zayed e eu caminhávamos nas proximidades da Grande Mesquita, quase esbarrámos num grupo de beduínos! Esses beduínos najdis, inconfundivelmente, tinham saído de uma esquina. À frente deles estava um homem de trinta e quatro–trinta e cinco anos,que–era um pouco mais baixo que todos os beduínos altos que o rodeavam e seguiam, e cujo belo rosto era adornado por uma curta barba negra. Reconheci-o imediatamente. Naturalmente, ainda hoje não sei, se ele me reconheceu. Seus olhos fixaram-se nos meus por um instante; depois, por uma fração de segundo, percorreu-me com os olhos, com um olhar aturdido, como se tentasse trazer à memória uma lembrança vaga e indistinta. Então virou o rosto. Um momento depois, no meio da multidão que corria em direção à mesquita, ele e  os homens do seu grupo desapareceram

Decidimos que não podíamos prolongar nossa visita secreta ao Kuwait–na expectativa de uma oportunidade para ver al-  Dawish. O que Bandar nos havia revelado tornou-se ainda mais convincente graças às hábeis investigações de Zayed entre outras pessoas conhecidas na cidade. Al-–Dawish recebia os fuzis Lee-–Enfield, cujo misterioso suprimento, era publicamente apresentado, para enganar as pessoas, como ‘«compras»’ feitas,— apontava claramente para um comerciante kuwaitiano. Esse comerciante sempre fora proeminente nesta região na importação de armas, e os grandes volumes de riais Maria Teresa, recém-saídos da casa da moeda, que circulavam nos mercados do Kuwait, em quase todos os casos, descobriu-se,, tinham vindo de al-–Dawish e de seus homens. Ver seus depósitos genuínos e examinar os documentos de remessa–— algo praticamente impossível –  — deixando isso de lado, encontramos muitas evidências da veracidade de –todas as suspeitas que o rei havia mencionado–durante nossa conversa.

Minha missão estava cumprida. E, na noite seguinte,, assim como havíamos chegado secretamente ao Kuwait, saímos de lá com o mesmo sigilo. Enquanto Zayed e eu fazíamos perguntas nos mercados,–nosso Sulumbi conseguiu descobrir que–naquele momento não havia nenhum grupo de rebeldes ao sul do Kuwait. Por isso partimos para o sul, em direção à província de al-Hasa,, que estava inteiramente sob o controle absoluto do rei. Assim, após uma viagem de duas noites, vigorosa e cheia de entusiasmo, encontramos um grupo de beduínos Banu Hajir perto da costa,, que o emir al-–Hasan enviara para obter informações secretas sobre as posições mais recentes dos rebeldes,; e com eles entramos novamente na área leal ao rei.

Assim que chegamos em segurança ao reino de Ibn Saud, dispensamos nosso guia, Sulumbi. Ele, em Sandad, guardou no bolso a recompensa que havia conquistado por mérito próprio,, dei-lhe o camelo; conduzindo-o,, desapareceu para o oeste,, enquanto nós seguíamos para o sul,, em direção a Riad.

Mais tarde, na série de artigos que escrevi,–ficou claro, pela primeira vez, que, uma grande potência europeia estava apoiando os rebeldes. Nos artigos, mostrou-se,que o principal objetivo dessas conspirações era empurrar as fronteiras do reino de Ibn Saud para o sul e, em última instância,, transformar, através da Arábia Saudita e do Iraque, sua província mais setentrional em uma‘“independente”’região governada por um chefe, o que daria à Grã-Bretanha a oportunidade de construir uma linha ferroviária através daquela área. Além disso,, a rebelião de Ad-–Dabish havia criado a oportunidade de provocar tamanha confusão no reino de Ibn Saud que, o rei Ibn Saud já não poderia opor-se às exigências britânicas relativas a duas importantes concessões, às quais ele vinha se opondo até então: uma dessas concessões era o arrendamento à Grã-Bretanha do porto de Rabigh, situado ao norte de Jidá, no–Mar Vermelho,, onde a Grã-Bretanha há muito desejava estabelecer uma base naval;; a outra era o controle do trecho da ferrovia Damasco-–Medina que–ficava em território saudita. Se Ad-–Dabish derrotasse Ibn Saud, esses planos teriam se tornado possibilidades absolutamente reais.

Meus artigos, nos jornais europeus e árabes ((principalmente egípcios),) assim que foram publicados, provocaram subitamente uma enorme agitação. É também muito possível que, a revelação antecipada da conspiração secreta tenha sido uma das principais causas do fracasso posterior dessa conspiração. De qualquer modo,, o plano britânico de construir uma ferrovia de Haifa a Basra desapareceu gradualmente na escuridão do esquecimento. Apesar da enorme soma gasta no levantamento preliminar, nunca mais se ouviu falar desse plano.

Tudo o que aconteceu depois pertence à história: no verão de 1929, Ibn Saud protestou junto da Grã-Bretanha contra a liberdade concedida a Ad-–Dabish para comprar armas e munições no Kuwait. Como não dispunha de nenhuma prova concreta de que essas armas fossem fornecidas por uma potência estrangeira,, o rei não podia, por isso, protestar contra esse tipo de venda. Em resposta, as autoridades britânicas declararam, que eram os comerciantes do Kuwait que forneciam armas aos rebeldes e que a Grã-Bretanha nada podia fazer para impedir isso,, –porque, a Grã-Bretanha havia revogado a proibição da importação de armas para a Arábia, conforme o Tratado de Jeddah de 1927. Se Ibn Saud quisesse,, disseram-lhe,, também poderia importar armas através do Kuwait… .. . Quando Ibn Saud objetou, dizendo, que, segundo o mesmo tratado, a Grã-Bretanha e a Arábia Saudita  eram ambas obrigadas a cessar, em seus respectivos territórios, toda atividade  contrária à segurança da outra,, ele também  recebeu esta resposta:–não se podia chamar o Kuwait de território britânico,, pois era um xeicato independente,, que tinha com a Grã-Bretanha um tratado, sem–qualquer relação além de uma relação  de tratado… . . .।

E, por isso, a guerra civil prosseguiu sem interrupção até o fim do outono de 1929. O próprio Ibn Saud entrou em campo; Desta vez, estava firmemente decidido: perseguiria al-–Dabish até mesmo dentro do Kuwait, se–como sempre acontecera no passado,–o Kuwait continuasse sendo uma zona livre para dar abrigo aos rebeldes e uma base para novas operações. Diante dessa ‍firme determinação,, que Ibn Saud não deixaria de comunicar às autoridades britânicas,, eles parecem ter compreendido que, seria muito perigoso avançar mais nesse jogo. Para impedir que al-–Dabish recuasse e voltasse a entrar na área do Kuwait, foram enviados aviões de guerra–britânicos e carros blindados. O rebelde percebeu que seu objetivo havia fracassado. Numa guerra aberta, jamais conseguiria deter o rei. As condições do rei eram breves e claras:  as tribos rebeldes deveriam  se render;; suas armas,, cavalos e camelos seriam confiscados; al-–Dabish teria a vida poupada. Mas teria de passar o resto de seus dias em Riade.

al-–Dabish, , que era ativo e dinâmico a todo instante,, não conseguiu se adaptar a esse tipo de inatividade e imobilidade. Ele rejeitou a proposta do rei. Por fim, lutou contra o enorme exército do rei. Depois de lutar contra o enorme exército do rei, os rebeldes foram completamente derrotados; al-–Dabish e vários outros líderes—– entre eles Farhan ibn Mashhur e o chefe da tribo Ajman, Naik Abu Kilab—fugiram para o Iraque.

Ibn Saud Ad –Dabish exigiu sua expulsão. Durante algum tempo, pareceu que o rei do Iraque, Faisal, talvez rejeitasse sua exigência, invocando o antigo costume árabe da hospitalidade e da concessão de abrigo. Mas, por fim, ele concordou. No início de 1930–, Ad –Dabish, gravemente enfermo, foi entregue ao rei e levado para Riade. Algumas semanas depois, quando ficou claro que, a morte de Ad –Dabish estava realmente iminente,, o rei Ibn Saud, com sua habitual magnanimidade, mandou-o de volta para Artawiya,, para junto de sua família–e parentes. Assim terminou uma vida tempestuosa e turbulenta. E a paz voltou a reinar no reino de Ibn Saud.. .

.. .              …          .. .             .. .        

e novamente a paz desceu sobre os poços de Arza.

‘‘Ó viajantes, , que Allah lhes conceda vida. Participem de nossa generosidade. –— grita em voz alta o velho beduíno Mutaybi, enquanto ele e seus homens nos ajudam a dar água aos nossos camelos. De toda a hostilidade e inimizade de pouco tempo antes, não restava o menor vestígio.

Pois, esses beduínos são uma raça extraordinária. Mesmo, diante de uma provocação imaginária, podem inflamar-se num instante de raiva e fúria indomáveis,, mas, com a mesma rapidez, podem retornar ao ritmo–da vida, regido pelo destino, onde reinam a ternura e a compaixão: Janna e Jahannam, sempre lado a lado,, em estreita proximidade.

E os pastores de camelos Mutaybi–retiram água para os nossos camelos em seus grandes baldes de couro e cantam em coro:

Bebam, e não deixem água sobrando,,

Esta instituição é plena de misericórdia e não tem fundo.

 

Três

Na quinta noite depois de deixarmos Hail, chegamos aos arredores de Medina e avistamos o contorno escuro do monte Uhud. Nossos camelos avançam com passos cansados. Desde muito cedo até esta noite, deixamos para trás um longo caminho. Zaid e Mansur estão silenciosos, e eu também estou calado. À luz da lua, Medina, com suas muralhas de caminhos estreitos  e os esbeltos minaretes retilíneos da Mesquita do Profeta, ilumina-se diante de nós ‍.

Chegamos diante do portão de entrada, conhecido como Porta Síria por estar situado ao norte. À sombra das pesadas colunas desse portão, os camelos ficam um tanto rígidos e retraídos; por isso, usamos os chicotes que temos nas mãos para obrigá-los a entrar pelo portão.

Agora, neste momento, estou novamente na cidade do Profeta, depois de vagar por muitos lugares durante longos anos  voltei para casa, para o lar; pois esta cidade tem sido minha casa há vários anos—meu–lar. Uma profunda paz familiar paira sobre as ruas desertas e adormecidas de Medina. Ao som das patas dos camelos, aqui–e ali, os cães despertam preguiçosos. Um jovem caminha cantando: sua voz, embalada por um ritmo suave, vai desaparecendo lentamente numa viela próxima. As varandas entalhadas e as janelas das casas que se projetam sobre a rua pendem sobre nós como trevas, silenciosamente. A luz da lua banha o ar–suavemente morno, como leite fresco recém-ordenhado. E aqui é minha casa.

Mansur despede-se de nós para encontrar-se com os amigos. E nós dois’fazemos nossos camelos ajoelharem-se. Zaid, sem dizer palavra, põe grilhões nas patas dos camelos e começa a descarregar as selas. Bato à porta. Pouco depois, ouço lá dentro vozes humanas e passos. A luz da lanterna, através da janela em forma de leque, o ferrolho da porta é baixado, e minha velha criada, Aminah, solta um grito de alegria:

–‘Oh, meu senhor voltou para casa!!’


Cartas da Pérsia

Um

Agora é de tarde. Estou sentado junto à porta de entrada sul de Medina, com um amigo, no seu palme’iral. Os troncos das incontáveis palme’iras do palmeiral criaram, ao fundo, uma luz verde-acinzentada e–sombria,, fazendo parecer, que ela não tem fim. As árvores ainda são jovens e baixas;; a luz do sol dança sobre os seus troncos e sobre a delicada cúpula formada pelos seus ramos entrelaçados. Nesta época do ano, as tempestades de poeira que ocorrem quase todos os dias fazem com que o verde das palmeiras do palmeiral fique um tanto empoeirado. Somente o tapete espesso de alfafa sob as palmeiras conservou o seu verde vivo e impecável.

À minha frente–— não muito longe —–erguem-se as muralhas da cidade, antigas, feitas de pedra cinzenta e tijolos de barro–aqui–e ali, bastiões–projetando-se para além das’muralhas da cidade.  Por detrás das muralhas, erguem-se, no interior da cidade, as palmeiras de um jardim que crescem rapidamente–e as–casas, cujas palhas das portas e janelas ficaram castanhas, queimadas pelo sol, e as suas varandas cercadas; algumas das quais foram construídas dentro das próprias muralhas da cidade e se tornaram parte delas. A alguma distância, vejo, os cinco minaretes da Mesquita do Profeta, altos e delicados como o som de uma flauta, vejo, a magnífica cúpula verde que, como um teto, se ergue sobre a pequena casa do Mensageiro de Deus e a esconde, a qual–foi a sua residência durante a vida e, depois da sua morte, tornou-se o seu túmulo; Mais ao longe, para além da cidade, surge diante dos meus olhos a cordilheira rochosa e nua de Uhud: como os minaretes brancos da Mesquita do Profeta, os topos das palmeiras e muitas das casas–da cidade, uma cortina pintada de cor acobreada–vermelha.

O firmamento, iluminado pela luz abrasadora do sol da tarde, paira sobre um conjunto de nuvens brancas, luminosas e brilhantes como leite, aquele céu transparente como vidro, e a cidade parece ter-se banhado numa luz azul, dourada-–esverdeada. Bem alto, o vento brinca ao redor das nuvens suaves, e como esse vento se revela enganador na Arábia!! Aqui, jamais se pode dizer:, ‘«Agora o céu está nublado , vai chover em breve»’. Pois, quando as nuvens se acumulam, tempestuosas–carregadas de tempestade, é precisamente então que acontece algo assim:, de repente, um rugido de vento irrompe do deserto e o vento impele as nuvens densas, varrendo-as completamente; e aqueles que esperavam pela chuva voltam o rosto do céu em silenciosa submissão e começam a murmurar: «‘Ninguém, além de Allah, tem poder algum, nem força»’ – enquanto o céu volta a arder impiedosamente em sua limpidez azul.

Despeço-me do meu amigo e começo novamente a caminhar em direção ao portão de entrada fora da cidade. Um homem passa por mim,, conduzindo dois burros carregados de fardos de erva lurssã e  montado ele próprio num terceiro burro. Ele ergue o bastão que traz na mão para me saudar e diz:, «As-salamu alaykum.» Respondo-lhe com estas palavras. Em seguida, surge uma jovem beduína,, cuja túnica preta se arrasta atrás dela,, e cuja parte inferior do rosto está coberta por um niqab. Seus dois olhos brilhantes são tão negros que, o branco dos olhos e as pupilas negras se fundem num só,; e seu modo de andar é tão hesitante quanto o movimento oscilante de um animal jovem na estepe.!

Entro na cidade e atravesso a–vasta praça aberta de Al-Manakh, chegando à muralha interna da cidade,, sob o pesado arco do portão egípcio,, onde os cambistas estão sentados, tilintando suas moedas de ouro e  prata. Entro no mercado principal,, que é uma rua de, no máximo, vinte e quatro pés de largura,, apinhada de lojas,–apertadas umas contra as outras,, em torno da qual pulsa uma vida pequena, mas calorosa.

Os vendedores, exultantes,; anunciam suas mercadorias por meio de canções. Belos turbantes, de seda e xales caxemires estampados atraem o olhar dos transeuntes. Os ourives estão agachados, atrás de–caixas de vidro repletas de joias beduínas,–braceletes e tornozeleiras,, colares e brincos—–essas joias. Os vendedores de perfumes exibem seus recipientes cheios de hena,, pequenos pacotes vermelhos cheios de surma para tingir os cílios,, numerosos frascos de óleo e de perfumes–multicoloridos, e montes de especiarias.–Os comerciantes de Najd vendem roupas beduínas,, da– Arábia Oriental, selas para camelos e bolsas com longas franjas de seda penduradas nas selas. Um leiloeiro corre pela rua,, gritando com toda a força de sua voz,–com um tapete persa e uma  ‘‘abāya’ de pelo de camelo sobre o ombro’e um samovar de latão sob o braço. De ambos os lados, flui uma torrente de pessoas,, habitantes de Medina e pessoas de outras regiões da Arábia,, das estepes do Senegal–e das estepes do Quirguistão,–e de todos os países entre essas regiões,, das Índias–Orientais e do oceano Atlântico, e de todos os países entre Astracã e Zanzibar: pois o Hajj havia terminado poucos dias antes. Mas, apesar da multidão e da estreiteza da rua, não há aqui nenhum tumulto de pressa frenética;, ninguém empurra ninguém;, ninguém esbarra em outra pessoa,, porque, em Medina, o tempo não cria asas para agarrar ou obter coisa alguma!!

Mas  o que parece ainda mais surpreendente é que, nos rostos e nas formas das pessoas que se aglomeram aqui, e em suas roupas–e vestimentas, apesar de tamanha variedade e diferença, nas ruas de Medina não parece haver uma mistura de coisas estrangeiras ‘‘mistura–heterogênea’’; essa diversidade de rostos só se revelará aos olhos de quem quiser analisá-la. Penso que, todos os que vivem nesta cidade, até mesmo os que vêm aqui temporariamente por alguns dias, pode-se dizer,,  também logo se perdem num estado de espírito e–humor comum, e, desse modo, sua maneira de–agir, e até mesmo a expressão de seus rostos se tornam iguais, porque todos caíram sob a influência irresistível do Grande Profeta–que outrora foi o senhor desta cidade e de quem agora são hóspedes... .

Mesmo após 1.300 anos, a presença espiritual continua aqui tão viva quanto era então. Somente por meio dele, algumas aldeias dispersas e espalhadas, que eram chamadas de Yathrib transformaram-se numa cidade e, até hoje,  continuam recebendo de todos os muçulmanos um amor tão profundo como nenhuma outra cidade de qualquer país do mundo jamais recebeu. Esta cidade nem sequer tem um nome próprio, há mais de treze séculos é chamada de ‘Madinat an-Nabi’ –‘a Cidade do Profeta’. Há mais de treze’séculos, tanto amor  e tanta devoção convergiram para cá que, todas as formas–e configurações, assim como os movimentos, adquiriram uma semelhança familiar, e todas as diferenças entre os rostos transformaram-se numa semelhança comum, — numa semelhança, como a harmonia conjunta de diferentes melodias.

Este é o acorde que cria essa alegre harmonia,–que as pessoas percebem aqui a cada momento., Embora a vida atual de Medina tenha apenas uma relação formal e distante com aquilo que o Mensageiro de Deus ((que a paz esteja com ele)) desejava,, e embora, tal como em outras regiões do mundo muçulmano, a consciência espiritual do Islã tenha sido rebaixada aqui, uma relação emocional indescritível com seu grandioso passado espiritual permanece sempre viva. Nunca uma cidade foi tão amada por causa de um único homem;  nem qualquer homem, que faleceu há treze séculos, e está sepultado sob esta grandiosa cúpula verde, foi considerado tão próximo e amado por uma multidão tão numerosa quanto ele.

Contudo, ele jamais afirmou ser algo além de um homem mortal, e os muçulmanos jamais lhe atribuíram a divindade, como fizeram muitos–seguidores, desses profetas após a morte deles. É desnecessário dizer, que o próprio Alcorão contém muitas declarações, que enfatizam a humanidade de Maomé:‘“Maomé não é senão um profeta. Antes dele, todos os profetas já passaram; Se ele morrer ou for morto, acaso  retornareis sobre os vossos passos?”?’A sua absoluta humildade diante da grandeza de Allah é proclamada no Alcorão da seguinte maneira:‘“Dize, ó Maomé, que não tendes poder para vos causar mal ou bem, nem mesmo tenho poder, senão naquilo que Allah deseja, sobre o meu próprio bem e mal. Se eu conhecesse o invisível, teria obtido abundante benefício, e nenhum mal poderia me atingir. Sou apenas um admoestador e anunciador de boas-novas para o povo crente…”.. ..।’

Foi precisamente por ele ter sido apenas um homem, por ter vivido como os demais seres humanos e, ao fazê-lo, ter desfrutado as alegrias da vida humana e provado seus sofrimentos e dores, que aqueles que o cercavam puderam envolvê-lo de tal maneira, com tanto carinho e amor.

Esse amor sobreviveu à sua morte e ainda hoje permanece desperto no coração de seus seguidores, como a inspiração fundamental de uma “raga” criada pela combinação de muitas melodias. Esse amor continua vivo em Medina. De cada pedra da cidade antiga, ele falará com você. Você quase poderá tocá-lo com as mãos, mas não poderá aprisioná-lo em palavras…

Dois

Enquanto atravesso o mercado em direção à Grande Mesquita, muitos conhecidos de longa data me cumprimentam ao passar. Inclino ligeiramente a cabeça para cumprimentar ora este lojista, ora aquele. Por fim, meu amigo Az-Zughaibi me conduz, puxando-me, até a pequena plataforma onde ele se senta para vender tecidos aos beduínos.

— Quando você voltou, Maomé, e de onde voltou? Você estava aqui; isso foi há alguns meses!

— Venho de Ha’il — venho de Nufud.

— Você não vai ficar em casa por alguns dias?

—Não, irmão, parto para Meca depois de amanhã.

Az-Zughaibi chama aos gritos o rapaz que trabalha na cafeteria do outro lado da rua e, pouco depois, ouvimos o tilintar de pequenas xícaras.

—Mas por quê, Muhammad? Por que você vai a Meca justamente agora? A temporada do hajj já terminou…

—Não vou a Meca com o desejo de realizar o hajj. Ora, não fiz o hajj cinco vezes? Mas, por alguma razão, sinto que não permanecerei por muito mais tempo na Arábia. Por isso, quero ver mais uma vez aquela cidade onde começou minha vida neste país… Depois, acrescento, entre sonoras gargalhadas: “Mas, irmão, para dizer a verdade, eu mesmo não sei por que vou a Meca; só sei que preciso ir…”

Az-Zughaibi balança a cabeça, desanimado: —Como pôde dizer que vai deixar este país e seus irmãos?

Um homem conhecido passa por mim com passos longos e cansados — é Zaid, certamente procurando alguém.

—Zaid, aonde você vai?

Ele para subitamente e me olha com expressão curiosa: —É justamente o senhor que estou procurando, tio. Havia uma pilha de cartas para o senhor nos correios. Aqui estão. E, xeque Az-Zughaibi, que a paz esteja com você.

Sentado diante da loja de Az-Zughaibi, com uma perna sobre a outra, continuo a abrir os envelopes: chegaram várias cartas de amigos de Meca; uma delas foi escrita pelo editor do «Neue Zürcher Zeitung», jornal do qual sou correspondente há seis anos. Veio uma carta da Índia, instando-me a ir até lá para conhecer a maior comunidade muçulmana do mundo. Algumas cartas foram escritas de diferentes regiões do Oriente Próximo. E num outro envelope há o carimbo dos correios de Teerã. A carta foi escrita por meu querido amigo Ali Agha, de quem não recebo notícias há mais de um ano. Abro-a e percorro as páginas, escritas na bela e caprichada shikasta de Ali Agha¹[literalmente, uma forma persa das letras árabes quebradas, usada para escrever depressa]:

Ao meu mais querido amigo e irmão, luz do meu coração, objeto da mais profunda veneração, Asad Agha — que Alá prolongue sua vida e o proteja a cada passo. Amém!

As-salamu alaikum; que a paz desça sobre você, e também a misericórdia de Alá, sempre — a todo instante. Rogo a Alá que lhe conceda saúde e felicidade e, sabendo que ficará contente com isso, informo-lhe que também gozo de perfeita saúde; portanto, louvado seja Alá.

Não lhe escrevi durante muito tempo, pois, nos últimos meses, minha vida transcorreu de modo confuso e desordenado. Meu pai — que Alá tenha misericórdia dele — faleceu há um ano e, como sou o mais velho de seus filhos, tive de dedicar muito tempo e suportar muitas preocupações para pôr em ordem os assuntos de nossa família. E foi da vontade de Alá que uma prosperidade inesperada chegasse à vida deste seu servo indigno, pois o governo o promoveu ao posto de tenente-coronel. Além disso, espero em breve contrair matrimônio com uma bela e encantadora mulher, minha prima Shiri; e assim se aproxima o fim dos meus antigos dias desorganizados. Seu coração amigo bem sabe que, no passado, eu não estive acima dos pecados e dos erros, mas não diz Hafiz:

«Ó Alá, lançaste uma tábua no meio do mar; podes esperar que ela permaneça seca?»

Assim, o idoso Ali Agha finalmente está prestes a constituir família e a tornar-se digno de respeito. Ele não era tão digno de respeito quando o conheci na cidade de Bam, alguns anos atrás — sete, para ser exato. Ali Agha fora exilado para aquela cidade. Tinha então apenas vinte e seis anos. Ainda assim, seu passado era repleto de agitação e atividade. Antes de Riza Khan tomar o poder, participou de vários movimentos políticos. Poderia ter desempenhado um papel importante em Teerã, se não tivesse se deixado arrastar excessivamente pelos prazeres. Seu pai, preocupado e influente, mandara-o para Bam, uma cidade isolada e sem comunicações na região mais ao sudeste do Irã, na esperança de que, afastando-o das diversões de Teerã, ele pudesse se corrigir. Mas, ao chegar a Bam, Ali Agha parece ter encontrado compensação no doce veneno das mulheres, do vinho e do ópio. É desnecessário dizer que Ali Agha era profundamente viciado em tudo isso.

Naquela época, em 1925, Ali Agha era comandante da polícia militar distrital. Seu posto era o de tenente. Quando eu me preparava para atravessar o deserto de Dasht-e Lut, em Bilal, fui visitá-lo levando uma carta de apresentação para o governador da província de Kerman. Essa carta de apresentação baseava-se numa carta do primeiro-ministro e ditador Riza Khan. Encontrei-o num jardim sombreado de laranjeiras, oleandros e palmeiras, onde a luz do sol penetrava entre os arcos formados pelas folhas pontiagudas das palmeiras. Vestia uma camisa de mangas compridas. Sobre o gramado havia um tapete, e sobre ele estavam pratos e uma garrafa de arak pela metade. Ainda havia comida nos pratos. Ali Agha desculpou-se com humildade: «Não é possível beber vinho neste maldito buraco», e então obrigou-me a beber arak local; era uma bebida tão forte que me atingiu o cérebro como um soco. Com os olhos inquietos de um homem do norte da Pérsia, percorreu a carta de Kerman; depois bateu nela, colocou-a de lado e disse: «Mesmo que você tivesse vindo sem carta de apresentação, eu teria atravessado dez homens para acompanhá-lo nesta viagem. Você é meu hóspede. Eu jamais permitiria que atravessasse sozinho o deserto balúchi, conduzindo sua montaria.»

Uma jovem ainda estava sentada, escondendo-se à sombra de uma árvore. Quando se levantou lentamente, vi que vestia uma kurta de seda azul-celeste clara, comprida até os joelhos, e enormes salwars balúchis brancos. Seu rosto era o símbolo do desejo sensual; parecia arder por dentro. Os lábios bem delineados eram vermelhos e belos, mas os olhos estavam estranhamente turvos e indiferentes, com as pálpebras tingidas de surma.

—A menina é cega —sussurrou Ali Agha em francês para mim—, mas canta de maneira extraordinária, maravilhosa!

Não posso deixar de admirar a nobreza, a humildade e o respeito com que Ali Agha tratou a menina. Ela era uma cantora profissional, pertencente a uma classe de mulheres iranianas que pouco diferia das prostitutas. No entanto, nem mesmo para uma dama nobre de Teerã ele poderia ter demonstrado um tratamento melhor.

Nós três nos sentamos sobre o tapete e, enquanto Ali Agha se ocupava fumando o seu cachimbo de ópio, conversei com a menina balúchi. Apesar de cega, ela sabia rir de uma maneira que só é possível àqueles que vivem nas profundezas da alegria do coração; e, entre uma fala e outra, fazia comentários tão astutos e espirituosos que nenhuma dama nobre deste vasto mundo teria motivo para se envergonhar. Depois de terminar o cachimbo, Ali Agha tomou delicadamente a mão dela entre as suas e disse: “Este estrangeiro que está aqui é austríaco. Certamente gostaria de ouvir uma de suas canções. Até agora, nunca ouviu canções balúchis.”

Em seu rosto cego havia a expressão de um sonho distante, quando ela tomou a flauta que Ali Agha lhe oferecera e começou a deslizar os dedos por suas cordas. Cantou, com uma voz profunda e quebrada, uma canção balúchi, que parecia tornar-se melodiosa em seus lábios emocionados, como um eco da própria vida.

Volto ao conteúdo da carta:

Meu irmão e honrado amigo, não sei se ainda se lembra de como nós dois viajamos juntos, naqueles velhos tempos, através do Dasht-e Lut, e de como tivemos de lutar contra aqueles bandidos balúchis para salvar nossas vidas…?

Será que me lembro? Diante dessa pergunta irrelevante de Ali Agha, sorrio interiormente e vejo a mim e a Ali Agha no desabitado Dasht-e Lut, aquele deserto nu que espalha sua imensa vastidão desde o Baluchistão até as profundezas do Irã, quase em seu centro. Eu me preparava para atravessar aquele deserto, passando pela província mais oriental do Irã, o Sistão, a fim de chegar ao Afeganistão. Como vinha de Kerman, não havia outro caminho para mim. Ficamos num oásis verde à beira do deserto, acompanhados pelos policiais balúchis que nos serviriam de guias, com o objetivo de alugar camelos e comprar alimentos para a longa jornada que tínhamos pela frente. A estação telegráfica indo-europeia tornou-se nosso quartel-general temporário. O chefe da estação, um homem alto, de ossos largos e olhar penetrante, não estava disposto a me deixar sair de seu campo de visão nem por um instante. Parecia tentar formar uma ideia da minha situação observando-me atentamente.

—Tenha cuidado com ele —sussurrou Ali Agha ao meu ouvido—. É um bandido, eu o conheço. E ele sabe que eu o conheço. Há alguns anos, era um verdadeiro salteador. Mas agora ganhou muito dinheiro e tornou-se respeitável. Hoje ganha ainda mais dinheiro fornecendo armas aos seus antigos companheiros. Estou esperando uma oportunidade para pegá-lo em flagrante; mas o homem é astuto, e é realmente difícil provar qualquer coisa. Ao ouvir que o senhor é austríaco, ficou terrivelmente agitado. Durante a Guerra Mundial, alguns agentes austríacos e alemães quiseram incitar as tribos desta região contra os britânicos. Carregavam consigo bolsas de moedas de ouro; e nosso amigo imagina que todo alemão e todo austríaco esteja equipado da mesma maneira.”

Mas beneficiamo-nos da astúcia do chefe da estação, pois ele conseguiu arranjar para mim dois dos melhores camelos de montaria da região. O restante do dia passou-se em negociações pela compra de odres, cordas de lã de camelo, arroz, manteiga clarificada e várias outras coisas necessárias para a viagem pelo deserto.

Na tarde do dia seguinte, iniciamos a viagem. Ali Aga decidiu seguir à nossa frente com quatro policiais, a fim de preparar um lugar onde montaríamos as tendas durante a noite. Seus camelos desapareceram no horizonte antes que pudéssemos sequer distinguir a fileira alongada. Nós — Ibrahim, eu e o quinto policial — seguimos atrás deles num ritmo relativamente mais lento.

Seguimos balançando de um lado para o outro (como aquilo me parecia novo naquela época!), acompanhando o estranho compasso dos camelos leves e esguios, que avançavam aos solavancos: primeiro por entre dunas amareladas, às vezes marcadas, ao longe, por tufos de capim; depois cada vez mais fundo, cada vez mais para dentro da planície — uma planície interminável e cinzenta, lisa e vazia — tão vazia que parecia não se estender, mas desabar em direção ao horizonte; pois diante dos olhos não havia nada onde eles pudessem repousar por um instante: nenhuma elevação no terreno, nenhuma pedra, nenhum arbusto, nem sequer uma ponta de capim. Nenhum som de animal, nenhum chilrear de pássaro ou zumbido de besouro rompia aquele imenso silêncio; até o vento, não encontrando obstáculo à sua frente, soprava silenciosamente, rente ao vazio — não, não era isso: ele caía dentro do vazio, como uma pedra que despenca no interior de um poço sem fundo… Não era o silêncio da morte, mas o silêncio daquilo que ainda não nasceu, a quietude de algo que jamais veio ao mundo — o silêncio anterior à palavra primordial.

E então aconteceu. O silêncio foi rompido. Uma voz humana feriu suavemente o ar, como o canto de um pássaro, e pareceu ficar suspensa no vazio; tive a impressão de que não apenas a ouvia, mas a via — tão solitária e desimpedida ela flutuava sobre a extensão do deserto. Não era outro senão o nosso soldado balúchi. Ele cantava uma canção da vida nômade, metade entoada e metade recitada, num ritmo acelerado e alternado — uma estranha música de palavras ardentes e delicadas que eu não conseguia compreender. Sua voz de garganta surgiu entre umas poucas ragas, num único plano, sem qualquer ascensão ou queda; e ele continuou cantando de modo tão constante que, pouco a pouco, aquilo se transformou numa espécie de esplendor luminoso, quando encobriu a melodia fragmentada com o jogo ornamental dos sons vocais e, apenas pela repetição e variação incessantes do mesmo tema, revelou, dentro de seu tom plano, uma riqueza inesperada — plana e ilimitada como o país onde aquela canção havia nascido…

A região por onde viajamos através do deserto é chamada de “Deserto dos Sinos de Ahmad”. Muitos anos atrás, uma caravana, conduzida por um homem chamado Ahmad, perdeu o caminho e veio parar aqui; todos eles — homens e animais, sem exceção — morreram de sede. Ainda hoje, dizem os viajantes, às vezes se ouve o som dos sinos que pendiam do pescoço dos camelos de Ahmad — um ruído semelhante a um lamento fantasmagórico, que encanta o viajante desatento, afasta-o de seu caminho e o conduz à morte no deserto.

Pouco depois do pôr do sol, alcançamos Ali Aga e o grupo avançado e montamos nossas tendas entre o capim kahur — pela primeira vez em vários dias víamos aquele capim. Acendemos o fogo com galhos secos e preparamos o indispensável chá, enquanto Ali Aga, seguindo seu hábito, fumava o cachimbo de ópio. Os camelos foram alimentados com uma ração feita de cevada e dispostos em círculo ao nosso redor. Três policiais foram destacados como sentinelas nas dunas, fora do acampamento, pois, naqueles dias, a região em que nos encontrávamos era o campo de ação dos terríveis demônios do deserto: os invasores das tribos balúchis vindos do sul.

Ali Aga mal havia terminado seu cachimbo e o chá e estava bebendo arak sozinho — eu não estava disposto a acompanhá-lo nisso. De repente, o estampido de um rifle despedaçou o silêncio da noite. Um segundo tiro, disparado do rifle de nossas sentinelas, respondeu-lhe, e logo depois ouvimos um grito em algum ponto da escuridão. Ibrahim, com sua admirável presença de espírito, atirou areia sobre o fogo. Mais tiros de rifle começaram a ecoar de todos os lados. Já não conseguíamos ver as sentinelas. Mas podíamos ouvi-las chamando umas às outras. Não conseguimos saber quantos eram os atacantes, pois eles mantinham silêncio — um silêncio fantasmagórico —, interrompido apenas de vez em quando pelo clarão indistinto de um rifle, que perfurava a escuridão como uma faca, revelando a presença deles; e, duas ou três vezes, pudemos distinguir algumas figuras vestidas de branco correndo silenciosamente pela escuridão. Algumas balas disparadas na direção baixa passaram zunindo sobre nossas cabeças, mas não atingiram nenhum de nós. Pouco a pouco, aquela agitação e tensão cessaram. Mais alguns tiros foram disparados, e a noite absorveu seu som; os invasores, evidentemente desanimados por nossa vigilância, desapareceram tão silenciosamente quanto haviam chegado.

Depois que Ali Aga chamou as sentinelas, sentamo-nos para uma breve reunião. A princípio, havíamos decidido passar a noite ali mesmo. Mas, como não tínhamos a menor ideia da força daquele grupo de atacantes, nem sabíamos se voltariam com mais homens, decidimos que deveríamos desmontar as tendas imediatamente e partir.

A noite de hoje está negra como piche. A lua e as estrelas desapareceram sob densas nuvens baixas. Normalmente, no verão, é melhor viajar pelo deserto à noite. Mas, em condições normais, não nos arriscaríamos a viajar em tamanha escuridão. Pois havia o perigo de perdermos o caminho — as duras pedras roladas do Dasht-e-Lut não conservam qualquer marca de estrada. Antigamente, nos desertos desse tipo, os reis do Irã erguiam postos de orientação feitos de tijolos para assinalar as rotas das caravanas, mas, como muitas coisas boas daquela época, essas marcas desapareceram há muito tempo. Na verdade, já não eram necessárias. A linha telegráfica indo-europeia que o governo britânico instalara no início deste século, desde a fronteira da Índia, atravessando o Dasht-e-Lut até Kerman, servia como guia com igual eficiência — pode-se dizer que até com maior eficiência —, mas, à noite, nem ela nem os postes do telégrafo eram visíveis.

Descobrimos isso horrorizados quando o policial que ia à frente, conduzindo o camelo como nosso guia, depois de quase meia hora de repente puxou as rédeas do animal e informou a Ali Agha, com o rosto envergonhado:

— Senhor, já não consigo ver os fios do telégrafo…

Por um momento, todos ficamos em silêncio, atônitos. Sabíamos que só havia poços ao longo da estrada assinalada pela linha telegráfica, e que a distância entre um poço e outro era enorme. Perder o caminho aqui significava desaparecer para sempre, tal como a caravana da história de Ahmad…

Então Ali Agha falou de uma maneira completamente diferente de seu modo habitual de falar. Era fácil concluir que o arak e o ópio eram os responsáveis por isso. Ele sacou a pistola e rugiu:

— Onde está o fio? Filhos de uma cadela, por que perderam o fio? Sim, eu sei que vocês se aliaram àqueles bandidos e querem nos desorientar, para que morramos por falta de água e nos tornemos presa fácil para a pilhagem de vocês.

De fato, aquela repreensão era injusta; pois um balúchi que uma vez se sentou para comer pão e sal com alguém jamais trairia a confiança dessa pessoa. Nossos policiais, evidentemente feridos pela acusação do tenente deles, asseguraram-nos que não tinham culpa alguma, mas Ali Agha voltou a gritar:

— Silêncio! Encontrem imediatamente o fio do telégrafo; caso contrário, vou atirar em cada um de vocês e acabar com todos — entenderam, filhos do inferno?

Na escuridão, eu não conseguia ver o rosto deles. Mas compreendia quão profundamente aqueles baluches livres haviam sido feridos por aquela humilhação! Já nem sequer sentiam necessidade de responder. Então, de repente, um deles — aquele que, poucos instantes antes, fora nosso guia — afastou-se do grupo, golpeou o corpo do seu camelo com o chicote e, num salto, desapareceu na escuridão.

— Para onde ele vai? — gritou Ali Agha; em resposta, ouviu algumas palavras indistintas. Durante alguns segundos, ouviu-se o som suave e macio das patas do camelo. Depois, aquele som afundou-se na noite.

Apesar da certeza a que havíamos chegado apenas um instante antes, de que o policial balúchi não tinha culpa alguma, um pensamento hesitante passou pela minha mente: agora ele foi ter com os bandidos! Seja como for, a suspeita de Ali Agha estava certa… Ouvi Ali Agha puxar a pistola do coldre, e fiz o mesmo. Ibrahim ergueu lentamente a sua funda. Permanecemos sentados imóveis e silenciosos nas nossas selas. Um dos policiais soltou um resmungo baixo; a coronha do rifle de outro policial bateu numa sela. Longos minutos se passaram. O silêncio era tal que parecia quase possível ouvir a respiração de todos os homens. Então, de repente, um som isolado veio de muito longe. Para mim, pareceu apenas um ruído: “—O-o-o”. Mas os baluches conheciam o seu significado e, em resposta, um deles, formando uma concha com as duas mãos diante da boca, gritou algo em língua brahui, excitadamente. Ouviu-se novamente aquele grito distante. Um dos policiais então se voltou para Ali Agha e disse em persa:

— Aquele, Hazrat, encontrou o fio!

A tensão reprimida finalmente se libertou. Todos nós respiramos aliviados e continuamos a seguir a voz do guia invisível, que, de tempos em tempos, nos dava indicações do caminho. Quando chegamos até ele, levantou-se sobre a sua sela e, apontando para a escuridão, disse:

— Eis o fio do telégrafo!

E, de fato, poucos minutos depois, escapamos por pouco de colidir com um poste telegráfico. A primeira coisa que Ali Agha fez foi reveladora do seu caráter. Agarrou o cinturão do soldado, puxou-o para junto de si e, inclinando-se sobre a sela, beijou-o nas duas faces:

— Meu irmão, tu não tens culpa; eu é que sou um filho de cão. Perdoa-me!

Mais tarde soube-se que aquele soldado balúchi, filho do deserto, avançava em zigue-zague, conduzindo o camelo ora para a direita, ora para a esquerda. Então, em certo momento, ouviu, a meia milha de distância, o vento golpeando os fios e produzindo um sibilo — um som que, mesmo agora, quando passo exatamente por baixo deles, é quase imperceptível aos meus ouvidos europeus!

Avançamos devagar e cautelosamente pela noite envolta em trevas, de um poste telegráfico invisível ao seguinte, também invisível. Um policial sempre caminha à nossa frente. E, quando sua mão toca um poste, ele grita para nos avisar. Encontramos nosso caminho e estamos decididos a não perdê-lo novamente. Desperto do meu sonho e volto à carta de Ali Agha:

Depois de ser promovido ao posto de tenente-coronel, este humilde servidor foi designado para o Estado-Maior do exército; e o trabalho, meu amigo e irmão, tem para mim muito mais atrativos do que a vida numa guarnição de uma cidade provinciana.

Estou certo disso; Ali Agha sempre teve uma compreensão natural da vida da capital e de suas intrigas, especialmente das intrigas políticas. Na verdade, em sua carta ele descreve o clima político de Teerã — as intermináveis disputas e controvérsias sob a superfície lisa, as complexas manobras com que as potências estrangeiras mantiveram o Irã durante tanto tempo numa condição de instabilidade, impedindo que esta extraordinariamente talentosa nação se revelasse em sua própria forma.

Neste exato momento estamos sendo assediados pela Companhia Inglesa de Petróleo. Uma pressão terrível está sendo exercida sobre nosso governo para ampliar ainda mais a concessão e prolongar ainda mais nossa servidão. Nos bazares, já não se consegue ouvir nada por causa dos rumores; só Deus sabe quais serão as consequências de tudo isso!..

O papel do bazar na vida política dos países do Oriente sempre foi muito importante; e isso é ainda mais verdade no caso do bazar de Teerã: nele, o coração secreto do Irã continua batendo, indiferente a toda espécie de decadência nacional e a todo o progresso do tempo. Enquanto leio a carta de Ali Agha, esse enorme bazar, que por si só parece uma cidade, volta a surgir tão nitidamente diante dos meus olhos como se eu o tivesse visto ainda ontem: um labirinto de numerosos salões misteriosos, entre luz e sombra, como grandes treliças de vãos largos, e várias passagens para o trânsito, cobertas por arcos ogivais que se encontram vindo de ambos os lados. Além das pequenas lojas escuras, repletas de bugigangas baratas e sem valor, a rua principal possui pátios cobertos, cujos tetos têm janelas de vidro para deixar entrar a luz; são lojas, cada uma delas, onde se vendem as sedas mais caras da Europa e da Ásia; logo depois das oficinas dos fabricantes de cordas, há as vitrines de vidro dos ourives, ornamentadas com delicadas franjas de ouro e prata; tecidos de algodão de várias cores, de Bucara e da Índia, misturam-se a raros tapetes persas, tapetes com cenas de caça; ao lado das máquinas de costura encontram-se colares de contas de vidro e pérolas, além de isqueiros automáticos; os miseráveis guarda-chuvas negros ficam junto às vestes de pele de carneiro do Coração, com as bordas trabalhadas em amarelo; tudo isso se mistura ao longo desse vasto salão, como na vitrine de uma loja enorme e um tanto desordenada.

Nas incontáveis ruelas dessas artes e mercadorias entrelaçadas, as lojas estão dispostas segundo os ofícios. Aqui você verá uma longa fileira de fabricantes de selas e curtidores, acompanhada pelo vermelho das peles tingidas como cor dominante e pelo cheiro um tanto ácido do couro, espalhado pelo ar; há alfaiates — de seus lugares elevados, reservados a cada um deles, você ouve o ruído contínuo das hábeis máquinas de costura; para cada lojista há uma loja instalada sobre um piso elevado de três ou quatro pés quadrados; longas túnicas ficam penduradas para venda, sempre as mesmas túnicas, de modo que, quando você caminha, às vezes terá a impressão de estar parado. Em muitas outras partes do bazar você terá a mesma sensação. Apesar disso, em cada caso particular, essa imensa semelhança nada tem a ver com a monotonia. Para o forasteiro, essa semelhança é inebriante e preenche seu coração com uma satisfação inquietante. Mesmo que você venha cem vezes, sempre verá ao seu redor o mesmo estado de espírito e a mesma atmosfera; parecerá que nenhuma mudança ocorreu. Mas esse estado de espírito e essa atmosfera são a inesgotável e ressonante imutabilidade das ondas do mar, que sempre mudam de forma, mas mantêm seu núcleo inalterado.

E o bazar dos caldeireiros: como a harmonia de muitos sinos de bronze, golpeados por martelos oscilantes; esses martelos batem no cobre, no bronze e no latão, transformando folhas de metal disformes em bacias, lavatórios e grandes recipientes de formas diversas. Com que extraordinária precisão sonora prosseguem esses golpes de martelo, elevando e baixando o ritmo, de uma extremidade do bazar à outra; ao golpear, cada um segue o ritmo do outro, para que nada dissonante ou desafinado chegue aos ouvidos. Talvez cem artesãos estejam manejando martelos sobre metais diferentes, em lojas diferentes — mas em todo o bazar se ouve uma única música, uma única melodia… Nessa profunda aspiração, quase social, de encontrar uma harmonia — algo mais profundo que a simples música — apreende-se a secreta doçura da alma do Irã.

Depois, o mercado das especiarias: vielas silenciosas, com ambos os lados adornados por montes de açúcar-cande branco e compacto, sacos de arroz, pilhas de amêndoas e pistaches, avelãs e polpa de melancia, cestos cheios de damascos secos e gengibre, pratos de bronze repletos de canela, cúrcuma, pimenta-do-reino, açafrão e sementes de papoula, erva-doce, baunilha, cominho, cravo e inúmeros outros recipientes cheios de ervas e raízes, dos quais emanam os aromas densos e arrebatadores das especiarias. Sentados em posição de lótus, como Buda, os donos dessas coisas maravilhosas inclinam-se sobre as brilhantes balanças de pratos de latão e, de vez em quando, chamam em voz baixa os transeuntes, perguntando-lhes o que desejam. Aqui, falar significa apenas um som indistinto, algo dito em um sussurro, pois, quando o açúcar é lentamente retirado do saco e colocado na balança, ninguém pode fazer barulho — quando se está pesando… tomilho ou cominho… nada mais; essa capacidade de adaptar o temperamento aos instrumentos à mão, graças à qual os iranianos conseguem tecer magníficos tapetes, dando nós em fios de lã de inúmeras cores — unindo fio a fio, fração de polegada a fração de polegada — até que o tapete inteiro se erga em sua perfeição graciosa. Não é por acaso que os tapetes iranianos não têm igual no mundo. Onde mais encontrarão este profundo silêncio no trabalho manual, esta contemplação, esta imersão em si mesmos? Onde encontrarão estes olhos, esta profundidade insondável para a qual o tempo e o passar do tempo são tão insignificantes?

Nas prateleiras com nichos, maiores que as prateleiras comuns, os pintores trabalham sentados, pintando pequenas imagens. Copiam-nas de manuscritos ilustrados que, há muito tempo, foram rasgados e desfeitos, dando forma aos grandes temas da vida com linhas e cores tão delicadas quanto a respiração: cenas de guerra e caça, imagens de amor, felicidade e tristeza. Seus pincéis são finos e delicados como o sistema nervoso, e pequenas formas e pontos são feitos com eles e aplicados aos dedos da mão esquerda. Nas folhas novas, perfeitamente brancas, as imagens antigas ganham nova vida, pincelada após pincelada, tom após tom. Ao lado dos estratos do fundo dourado do original, as cópias vão surgindo lentamente: um fundo luminoso. Num parque real, as laranjeiras que haviam desbotado florescem novamente, cobertas pelo manto de uma nova primavera. As esbeltas mulheres vestidas de seda e lã tornam-se vivas outra vez em seus gestos encantadores; sobre o jogo de polo dos antigos guerreiros ergue-se um novo sol… pincelada após pincelada, tom após tom… Homens silenciosos seguem o poderoso esforço criador de um artista morto, e neles existe o mesmo amor e a mesma magia que havia naquele artista; e esse amor quase faz você esquecer as imperfeições das cópias…

O tempo avança; os pintores continuam trabalhando de cabeça baixa, sem tomar conhecimento do dia. O tempo avança; as ruas próximas à parte ocidental do mercado penetram cada vez mais lentamente entre as lojas; lâmpadas de querosene importadas de Chicago, tecidos estampados de Manchester e louças de chá da Tchecoslováquia avançam com ares de conquistadores; mas os pintores, sentados em posição de lótus sobre suas esteiras de palha gastas, fazem seus olhos delicados e as pontas dos dedos ingressarem na música suprema e jubilosa de outrora, dando nova vida às suas caçadas reais e aos seus amantes arrebatados, dia após dia…

No mercado, há gente incontável — uma multidão sem fim; entre eles estão cavalheiros vestidos à europeia e, com frequência, de trajes europeus ou meio europeus, usando sobre o terno europeu ou meio europeu uma ‘abaya’ árabe que pende até o chão; conservadores citadinos em longos ‘kaftans’, com faixas de seda amarradas à cintura; e camponeses e artesãos com jaquetas azuis ou pardacentas. Você verá os nobres dervixes cantores e mendicantes do Irã em suas roupas brancas, largas e compridas, às vezes com uma pele de leopardo sobre os ombros, cabelos encaracolados e uma constituição física magnífica em todos eles. As mulheres da classe média, conforme seus recursos, usam algumas vestidos de seda, outras de algodão. Mas as roupas são sempre pretas, e sobre o rosto de cada uma pende o tradicional e curto niqab teerãni. As pobres usam xales de algodão claro e florido. Os mulás, montados pomposamente atrás de burros ou mulas cobertos por tecidos belamente trabalhados, e, ao verem um desconhecido, lançam-lhe um olhar tão ortodoxo que parece perguntar: o que você está fazendo aqui? Você é um daqueles que trabalham para destruir nosso país?

A longa experiência dos iranianos com as conspirações ocidentais tornou o povo iraniano desconfiado. Nenhum iraniano realmente espera que os estrangeiros possam fazer algum bem ao seu país. Mas Ali Agha tampouco parece um pessimista desnecessário:

O Irã envelheceu, mas certamente ainda não está preparado para morrer. Fomos oprimidos repetidas vezes. Muitas nações passaram sobre nós como uma torrente, e todas morreram; mas nós permanecemos. A razão é que nós, iranianos, sempre seguimos nosso próprio caminho. Quantas vezes o mundo exterior tentou nos impor novos modos de vida, e todas as vezes fracassou. Não enfrentamos as forças externas com força, o que às vezes pode fazer parecer que nos rendemos a elas. Mas somos gente da família ‘Mabiun’, aquele pequeno inseto que vive sob as paredes. Você, luz do meu coração, certamente já viu no Irã como, de repente, sem nenhuma causa aparente, desabam edifícios sólidos, com paredes firmes e alicerces robustos. Qual é a razão? Nada além disto: essas pequenas formigas, que durante anos, com esforço incansável, escavam dentro dos alicerces dos edifícios, criando caminhos e cavidades, avançam sempre uma distância equivalente à espessura de um fio de cabelo, lentamente, pacientemente, em todas as direções! Por fim, a parede da casa perde o equilíbrio e cai de bruços. Nós, iranianos, somos esse tipo de formiga. Não enfrentamos nenhuma potência do mundo com uma força ruidosa e sem sentido. Em vez disso, deixamos que pratiquem injustiças e opressão tanto quanto puderem, e continuamos silenciosamente a escavar nossos caminhos e cavidades, até que um dia o edifício delas desabe de repente.

E você não viu o que acontece quando uma pedra cai na água? A pedra afunda; na superfície da água aparecem alguns círculos. Os círculos se espalham em todas as direções e desaparecem lentamente. Por fim, a água volta a ficar tão imóvel quanto estava no princípio.

O Xá — que Allah prolongue sua vida — tem de carregar um pesado fardo, com os ingleses de um lado e os russos do outro. Mas não temos dúvida de que, pela misericórdia de Allah, ele encontrará o caminho para salvar o Irã…

À primeira vista, a firme confiança de Ali Agha em Reza Shah não parece ter sido depositada em alguém indigno dela. Entre as personalidades dinâmicas que tive a oportunidade de conhecer no mundo muçulmano, o xá é, sem dúvida, uma das mais notáveis; e, entre os reis que conheço, apenas Ibn Saud pode ser comparado a ele.

A história da ascensão de Reza Shah ao poder parece um conto de fadas, possível apenas no Oriente, onde, às vezes, a coragem e a força de vontade de um indivíduo podem arrancá-lo da obscuridade e do anonimato e elevá-lo ao mais alto cume da liderança. Quando tive pela primeira vez a oportunidade de conhecê-lo, durante minha primeira estada no Irã, nos dias de verão de 1924, ele era primeiro-ministro e ditador incontestado do Irã. Mas o povo ainda não havia se recuperado inteiramente do choque de vê-lo assumir, tão súbita e inesperadamente, o controle dos destinos do país. Ainda me lembro de como, certo dia, um velho funcionário iraniano da legação alemã em Teerã me disse, com enorme espanto: “O senhor sabe que não faz muito tempo, apenas dez anos atrás, o nosso atual primeiro-ministro fazia guarda como um simples soldado no portão desta legação? E eu mesmo, de vez em quando, entregava-lhe uma carta para levar ao Ministério das Relações Exteriores e ralhava com ele, dizendo: ‘Seu filho da puta, corra até o mercado e não perca tempo com bobagens…!’”

Sim, não faz tantos anos assim, quando Reza, um policial montado, servia como sentinela diante das legações e dos edifícios governamentais de Teerã. Posso imaginá-lo em pé, apoiado no rifle, vestindo o grotesco uniforme da Brigada Cossaca iraniana, observando atentamente a atividade que se desenrolava nas várias ruas ao redor; diante de seus olhos, os iranianos caminhavam como num sonho ou sentavam-se à margem dos canais de água, no frio da tarde, como os vi fazer. E ele ouvia, às suas costas, o som peculiar das máquinas de escrever no banco inglês, o burburinho das pessoas ocupadas, todo o rumor indistinto da agitação que a Europa distante havia trazido àquele palácio de Teerã, cuja fachada era incrustada de fragmentos de azulejos azuis. Talvez, pela primeira vez — ninguém me contou isso, mas, por alguma razão, parece-me que foi exatamente o que aconteceu —, este pensamento interrogativo, cheio de assombro, tenha despertado na mente inculta do soldado Reza: será inevitável que as coisas sejam assim?… Sim, será inevitável que, enquanto os povos de outras nações trabalham e se esforçam, nossas vidas continuem a passar como um sonho?

E talvez, naquele momento, o desejo de mudança — que dá origem a todas as grandes obras, descobertas e revoluções — começasse a se acender em seu cérebro, buscando silenciosamente uma forma de expressão….

Em outras ocasiões, talvez estivesse de sentinela diante do jardim, junto ao portão dos fundos de alguma grande legação europeia. As árvores cuidadosamente cultivadas agitavam-se ao vento, e as alamedas cobertas de cascalho rangiam sob os passos de todos os iranianos que saíam pela porta, passando pelos criados vestidos de branco; cada um deles se mostrava tão intimidado e consciente de si que, involuntariamente, era levado a puxar e alongar o paletó e as roupas, tornando os braços constrangidos e desajeitados. De vez em quando chegava uma bela e impecável carruagem puxada por cavalos, de dentro da qual saíam os políticos do Irã. O soldado Reza reconhecia muitos deles de vista: aquele era o ministro das Relações Exteriores, aquele outro era o ministro das Finanças. Sempre que entravam por aquela porta, viam-se em seus rostos sinais de agitação e apreensão; quando deixavam a legação, seus rostos estavam muito iluminados, como se uma enorme graça tivesse sido derramada sobre eles; às vezes, porém, pareciam abatidos e desolados, como se acabassem de ser condenados à morte. Eram aqueles homens misteriosos de dentro do palácio que haviam pronunciado a sentença. O soldado Reza pensava, maravilhado: será inevitável que as coisas sejam assim…’

Às vezes acontecia de um funcionário iraniano sair correndo do edifício que Reza guardava e, enfiando-lhe uma carta na mão, dizer: “Leve isto depressa a fulano. Seu filho da puta, corra, senão o embaixador ficará furioso.” Reza estava acostumado a esse tipo de tratamento, pois seus próprios oficiais não eram menos hábeis no uso de epítetos. Contudo, talvez — como dizer? — quase certamente aquelas poucas palavras, “filho da puta”, o ferissem como uma faca, humilhando-o, porque ele sabia que não era filho de uma puta; era filho de uma grande nação, uma nação que reconhecia como seus nomes como Rוסטam, Dario, Nōšervān, Kay Khosrow, Shah Abbas e Nader Shah. Mas o que sabiam disso aqueles que viviam dentro daquele palácio? As forças que atravessavam o peito daquele soldado de quarenta anos como uma corrente sombria e silenciosa, e que às vezes, sob sua pressão, pareciam querer romper as costelas de seu peito, obrigando-o, no desespero da impotência, a morder a própria mão — ah, se ao menos eu pudesse…?

E o desejo de autoafirmação que habitava, acompanhado de lágrimas, o coração de todo iraniano — às vezes despertava dentro do peito do soldado Reza com uma intensidade dolorosa, inesperada e terrível, tornando sua mente lúcida; então, de repente, ele via um padrão surpreendente em tudo o que lhe aparecia diante dos olhos…

A Grande Guerra havia terminado. Depois da Revolução Bolchevique, as tropas russas retiraram-se da região norte do Irã, que haviam ocupado anteriormente. Pouco depois, porém, os comunistas rebelaram-se na província iraniana de Guilan, às margens do mar Cáspio, sob a liderança do influente Kuchuk Khan e com o apoio das forças terrestres e navais regulares russas. O governo enviou tropas contra os rebeldes, mas os soldados iranianos tinham pouca disciplina e também dispunham de pouquíssimas armas, e por isso eram repetidamente derrotados. O batalhão em que então servia o sargento Reza — com cerca de cinquenta anos — sofreu o mesmo destino. Mas, certa vez, quando sua unidade se preparava para fugir depois de um ataque desastroso, Reza não conseguiu se conter. Saiu de seu grupo desfeito, postou-se de lado e gritou, de modo que todos pudessem ouvi-lo: “Por que vocês estão fugindo, iranianos? Escutem, iranianos, por que estão fugindo?” Naquele momento, certamente sentia no mais profundo de sua consciência — como Carlos XII da Suécia, quando, ferido, jazia no campo de batalha de Poltava e via seus soldados correrem surdos, sem objetivo, ao seu lado, chamando-os em tom desesperado: “Por que estão fugindo, suecos? Ei, suecos!” A diferença, porém, era que o rei Carlos estava coberto de ferimentos e o sangue lhe escorria por todo o corpo. O soldado Reza, entretanto, estava ileso; tinha nas mãos uma pistola Mauser carregada, e sua voz era firme e aterradora quando advertiu os companheiros: “Quem fugir, eu o matarei a tiros — mesmo que seja meu irmão.”

Para os soldados iranianos, uma explosão desse tipo era algo novo. Quando seu estado de desorientação passou, surgiu o espanto. Tornaram-se curiosos e perguntaram: o que se passa na mente deste homem? Alguns oficiais protestaram, dizendo que a situação deles era absolutamente desesperadora, e um deles ironizou: “Então ‘você’ é que trará a vitória para nós!” Naquele momento, talvez Riza tivesse se libertado de todas as frustrações dos primeiros anos de sua vida, e talvez todas as suas esperanças silenciosas tivessem sido subitamente despertadas. Diante de si, viu a extremidade de uma corda mágica e a agarrou com força. “Sim, assumo a responsabilidade!”, gritou ele, e, voltando-se para os soldados, disse: “Vocês me aceitarão como seu líder?”

Em nenhuma nação a mentalidade de culto aos heróis está tão profundamente arraigada quanto entre os iranianos; e, naquele momento, aquele homem lhes pareceu um herói! Os soldados esqueceram o pânico e a fuga e bradaram jubilosamente: “Você será nosso líder.” “Assim seja”, disse Riza. “Eu os liderarei, e matarei qualquer um que tentar fugir.” Mas ninguém pensou em fugir. Jogaram fora as pesadas mochilas e colocaram as baionetas nos rifles. Então, sob a liderança de Riza, todo o batalhão se reagrupou, atacou de repente e tomou uma posição russa; com a ajuda de outras unidades iranianas, esmagou o inimigo, e em poucas horas a batalha estava decidida a favor dos iranianos.

Poucos dias depois, por meio de um telegrama enviado de Teerã, Riza foi promovido ao posto de capitão. Agora podia acrescentar ao próprio nome o título de “Khan”.

Segurando a ponta da corda, ele saltou e montou nela. De repente, seu nome tornou-se famoso. Em rápida sucessão, foi promovido a major, de major a coronel e de coronel a brigadeiro. Em 1921, tomou o poder juntamente com o jovem jornalista Ziauddin e mais três oficiais, prendeu os membros do gabinete corrupto e, com a ajuda de sua brigada leal, obrigou o fraco e insignificante jovem Shah Ahmad a formar um novo gabinete: Ziauddin tornou-se primeiro-ministro, e Riza Khan, ministro da Guerra. Não sabia ler nem escrever, mas, em sua busca pelo poder, era como um demônio; e tornou-se objeto de ilimitado respeito e devoção para seu exército e seu povo, que, depois de muitos séculos, viam pela primeira vez diante de si um homem: um líder!

A cena da história política do Irã mudou rapidamente. Ziauddin desapareceu do palco e reapareceu na Europa, no exílio. Riza Khan permaneceu como primeiro-ministro. Naqueles dias, espalhou-se em Teerã o rumor de que Riza Khan, Ziauddin e o irmão mais novo do Shah, o príncipe herdeiro, conspiravam juntos para depor o Shah do trono; e corriam sussurros — até hoje ninguém sabe se eram verdadeiros — de que, numa tentativa tão incerta, Riza Khan havia revelado ao Shah as palavras de seus amigos, para que seu próprio futuro não ficasse em perigo no último momento. Fosse verdade ou mentira, pouco depois o primeiro-ministro Riza Khan acompanhou o jovem Shah Ahmad, com grande pompa, até a fronteira do Iraque, numa viagem de recreio; e, segundo se conta, teria dito ao Shah: “Se Vossa Majestade algum dia voltar ao Irã, poderá dizer que Riza Khan não entende nada deste mundo.”

Ele não precisava compartilhar o poder com ninguém; embora não de nome, na prática tornou-se o senhor absoluto do Irã. Como um lobo faminto, lançou-se ao trabalho. Era preciso reformar todo o Irã, do alto a baixo. Aboliu o antigo sistema administrativo frouxo e centralizado, bem como o velho costume de arrendar cada província ao maior licitante; os governadores deixaram de ser governantes provinciais e passaram a ser funcionários. A criança mimada do ditador — o exército — foi reorganizada segundo o modelo ocidental. Riza Khan iniciou campanhas contra os indóceis chefes tribais que antes se consideravam pequenos reis e frequentemente se recusavam a obedecer ao governo de Teerã; reprimiu severamente os bandidos que durante gerações haviam aterrorizado o campo; com a ajuda de um conselheiro americano, restabeleceu certa ordem nas finanças do país; impostos e tarifas começaram a ser arrecadados regularmente. A desordem foi eliminada e a ordem foi instaurada.

Parece que a ideia de uma república despertou no Irã como um eco do movimento de Mustafa Kemal na Turquia: primeiro como um rumor, depois como uma reivindicação dos elementos mais progressistas do povo e, por fim, como o objetivo declarado do próprio ditador. Mas, nesse ponto, parece que Riza Khan cometeu um erro de julgamento: do seio do povo iraniano ergueu-se um vigoroso clamor de protesto.

A razão da oposição popular à tendência republicana não era o amor pela família real governante, pois ninguém no Irã nutria qualquer afeição pela dinastia Qajar. Como essa família era turcomena por sangue, sempre foi considerada estrangeira; tampouco se devia a qualquer predileção emocional pelo rosto redondo e infantil do Shah Ahmad. A razão era inteiramente diferente: na raiz de tudo estava o medo do povo de perder a própria religião, tal como os turcos haviam perdido a sua depois da revolução de Atatürk. Por ignorância, os iranianos não compreenderam naquele momento que um sistema de governo republicano tinha muito mais em comum com o modo de vida islâmico do que um sistema monárquico. Guiados pelo conservadorismo de seus líderes religiosos — e talvez justificadamente aterrorizados pelos elogios públicos de Riza Khan a Kemal Atatürk — os iranianos viam na proposta apenas um perigo para o Islã, a força mais influente de seu país.

Uma terrível agitação tomou conta dos habitantes das cidades, especialmente dos que viviam em Teerã. Uma multidão enfurecida, armada de paus e pedras, reuniu-se diante do edifício dos escritórios de Reza Khan e começou a amaldiçoar e ameaçar aquele que, ainda no dia anterior, era quase uma divindade. Os guarda-costas de Reza Khan insistiram para que ele não saísse antes que aquela agitação cessasse. Mas, afastando-os à força, acompanhado apenas por um ordenança e completamente desarmado, ele deixou o pátio do escritório, segurou as rédeas de uma carruagem fechada e fez os cavalos avançarem. Alguns deles quebraram as portas da carruagem e começaram a gritar: “Puxem-no para fora — arrastem-no para a rua!” Entretanto, ele já havia começado a golpear com o chicote a cabeça e os ombros dos que estavam ao seu redor: “Filhos de cadelas, fujam, fujam daqui. Que audácia a de vocês! Eu sou Reza Khan; voltem para suas mães, voltem para suas camas!” E a multidão enfurecida que, poucos minutos antes, o ameaçava recuou, dispersou-se pouco a pouco e desapareceu pelas vielas de Pâm. Um grande líder voltara a falar à sua nação; falara com ira, e foi o bastante para que eles se curvassem. É possível que, naquele momento, atravessando o amor com que Reza Khan amava seu povo, tenha nascido um sentimento de ódio e desprezo, que talvez tenha para sempre obscurecido seu amor pelos compatriotas.

Mas, apesar do glorioso êxito de Reza Khan, a república nunca se concretizou. O fracasso completo desse plano deixou claro que, diante da resistência do povo, somente a força militar não era capaz de criar um “movimento de reforma”. Não se tratava de os iranianos serem contrários a toda e qualquer reforma. Mas havia neles a percepção instintiva de que o resultado da importação das doutrinas políticas ocidentais seria o fim de toda esperança de um desenvolvimento saudável, em algum momento, dentro de seu próprio contexto cultural e religioso.

Nem então, nem depois, Reza Khan compreendeu isso; por causa disso, perdeu o contato com o povo de seu país. O amor que sentiam por ele desapareceu e, pouco a pouco, foi substituído por um ódio e uma hostilidade terríveis. Começaram a perguntar a si mesmos: o que esse grande herói realmente conseguiu fazer por sua nação? Passaram a enumerar, um a um, os êxitos de Reza Khan: a reorganização do exército — mas por ela foi preciso pagar um preço terrível: impor uma carga tributária esmagadora a uma nação que já estava praticamente morta. A repressão das revoltas tribais? Mas, junto com elas, também foi reprimida a parcela patriótica do país. Em Teerã, prosseguiam obras de construção destinadas à ostentação; mas, nas regiões rurais, a miséria e o sofrimento dos camponeses só aumentavam. As pessoas começaram a se lembrar de que, apenas alguns anos antes, Reza Khan era um soldado pobre; agora, porém, era o homem mais rico do Irã, e não havia qualquer registro de quantos acres de terra possuía em seu próprio nome. Eram essas as reformas de que tanto se fazia alarde? Os poucos edifícios de escritórios reluzentes erguidos em Teerã sob a influência do ditador e os poucos hotéis luxuosos construídos aqui e ali constituíam alguma prova de melhoria na sorte do povo?

Foi precisamente nessa fase de sua vida que vim a conhecer Reza Khan. Por mais que circulassem rumores sobre sua ambição pessoal e as acusações de egoísmo feitas contra ele, no momento em que me recebeu em seu escritório no Ministério da Guerra, a grandeza daquele homem não me passou despercebida. Talvez aquele fosse o escritório mais simples que um primeiro-ministro já tivesse usado em qualquer lugar ou época: não havia naquele aposento nada além de uma escrivaninha, um sofá coberto de oleado preto, duas cadeiras, uma pequena estante de livros e um tapete vistoso, embora barato, estendido no chão. E o homem que, entre os cinquenta e os sessenta anos, se levantou lentamente de trás da mesa era alto e corpulento; vestia um simples uniforme cáqui, sem qualquer medalha, fita ou distintivo que indicasse patente ou posição.

Fui apresentado pelo embaixador alemão, o conde von der Schulenburg (pois eu próprio era austríaco e representante de um famoso jornal alemão). Já naquela primeira conversa formal, tornei-me consciente da solene energia da personalidade de Reza Khan. Sob as espessas sobrancelhas grisalhas e eriçadas, um par de olhos castanhos e penetrantes me fitava — olhos autenticamente persas, geralmente ocultos sob as pálpebras: uma estranha mistura de melancolia e determinação! Nas linhas profundas ao redor do nariz e da boca havia uma expressão de amargura, mas, sobre a estrutura óssea robusta de seu rosto, revelava-se uma extraordinária força de vontade, que mantinha seus lábios cerrados e fazia sua mandíbula parecer rigidamente tensa. Ao ouvi-lo atentamente falar em sua voz baixa e bem modulada — a voz de um homem acostumado a dizer coisas importantes e a pesar cada palavra na língua antes de permitir que ela se transformasse em som —, você teria a impressão de estar falando com alguém que trazia consigo trinta anos de vida como oficial de estado-maior e alto comandante militar; e seria difícil acreditar que, apenas seis anos antes, Reza Khan era um sargento e que, apenas três anos antes, havia aprendido a ler e escrever!

Ele também deve ter percebido minha ansiedade por conhecê-lo e talvez minha afeição por sua nação. Pois insistiu quase que implorando para que aquele encontro não terminasse e pediu a mim e a Schulenburg que, na semana seguinte, fôssemos tomar chá com ele em sua residência de verão, nos jardins encantadores de Shemran, a alguns quilômetros de Teerã.

Combinei com Schulenburg que primeiro iria à casa dele (como a maioria dos enviados estrangeiros, ele também passava o verão em Shemran) e que nós dois iríamos juntos à residência do primeiro-ministro. Na prática, porém, não consegui chegar a tempo. Poucos dias antes, eu havia comprado para caçar uma pequena carruagem de quatro rodas, com dois cavalos tazis. Só se revelou plenamente o quanto aqueles cavalos eram fogosos quando, a alguns quilômetros de Teerã, tomados por algum capricho perverso, empacaram de tal maneira que não quiseram avançar de forma alguma e insistiram em voltar para casa. Lutei com eles durante quase vinte minutos. Por fim, mandei Ibrahim levar os cavalos e a carruagem de volta para casa e parti a pé, à procura de algum outro meio de transporte. Depois de caminhar duas milhas, cheguei a uma aldeia; ali, por sorte, encontrei uma “droshky”, uma carruagem aberta, baixa e de quatro rodas, puxada por cavalos. Mas, quando cheguei à embaixada alemã, estava quase uma hora e meia atrasado em relação ao horário marcado. Vi Schulenburg andando de um lado para o outro como um tigre enfurecido; a habitual suavidade havia desaparecido completamente de seu rosto. Para um embaixador prussiano, segundo seu senso de disciplina, não cumprir o horário não era uma falta menos grave que a impiedade. Assim que me viu, explodiu de raiva: “Você não pode fazer isso; não pode fazer isso com um primeiro-ministro! Esqueceu que Reza Khan é um ditador e, como todos os ditadores, extremamente suscetível?”

— Conde Schulenberg, parece que meus cavalos não perceberam este ponto sutil. — Além disso, não consegui encontrar nenhuma resposta: mesmo que eu fosse o imperador da China, não teria podido chegar antes.

Com isso, o senso de humor do conde voltou, e ele caiu na gargalhada:

— Por Deus! Algo assim nunca me aconteceu na vida. Então vamos — contanto que o sentinela da infantaria não feche a porta na nossa cara…

Ele não fez isso. Muito antes de chegarmos ao palácio de Reza Khan, a reunião do chá havia terminado e todos os demais convidados já tinham partido. Mas Reza Khan não ficou nem um pouco ofendido por eu ter violado o protocolo. Ao ouvir a razão do nosso atraso, disse em voz alta:

— Excelente, venha, quero ver seus cavalos. Imagino que sejam certamente do partido da oposição. Não sei se seria prudente mantê-los sob custódia policial!

Minha chegada em hora tão imprópria, em vez de dificultar, ajudou a estabelecer uma relação simples e informal entre o primeiro-ministro que detinha o poder supremo do Irã e um jovem jornalista. Graças a isso, mais tarde pude viajar livremente por todo o país, algo que não era permitido à maioria dos estrangeiros.

Mas a carta de Ali Agha não menciona o Reza Khan dos primeiros tempos, que levava uma vida tão simples que isso era quase inacreditável para os iranianos amantes da ostentação; a carta menciona Reza Shah Pahlavi, que subiu ao Trono do Pavão em 1925. Fala do rei que abandonou toda aparência de humildade e modéstia e queria, imitando Kemal Atatürk, criar em seu antigo país oriental uma fachada ocidental pomposa e arrogante…

Chego agora às palavras finais da carta:

—Meu querido amigo, embora agora esteja na sagrada Medina do Profeta, acredito que não se esqueceu, e jamais se esquecerá, deste seu indigno amigo e de seu país.—

Ó Ali Agha, amigo dos dias da minha juventude — “luz do meu coração”, talvez fosse assim que você mesmo dissesse, naquela sua maneira peculiar de falar. Sua carta, sua carta, embriagou-me de lembranças; pois eu havia ficado embriagado pela Pérsia quando comecei a conhecer seu país, aquela antiga joia sem brilho, assentada no ouro da Antiguidade, no mármore rachado, na poeira e nas sombras, no jogo de sombras de todos os dias e noites de seu país melancólico, dos profundos olhos negros e sonhadores de seu povo…

Lembro-me de Kermanshah, a primeira cidade iraniana que vi depois de deixar para trás as montanhas do Curdistão. Uma estranha atmosfera opaca e sem brilho envolve a cidade, como se ela estivesse coberta, abatida — para não dizer arruinada e desolada. Não há dúvida de que, em todas as cidades do Oriente, a pobreza está visivelmente próxima das planícies. Aqui, a pobreza salta muito mais aos olhos do que em qualquer cidade da Europa. Mas eu já estava acostumado a isso. Não era exatamente a pobreza, no sentido econômico, que se manifestava diante de mim com tanta força; pois dizem que Kermanshah é uma cidade próspera. Era antes uma espécie de desespero que os envolvia diretamente, e que não parecia ter qualquer relação com sua situação econômica.

Os olhos de todos daqui são grandes e negros. Sob as grossas sobrancelhas negras, que se encontram sobre a raiz do nariz, esses olhos ficam ocultos como por uma cortina de pálpebras pesadas. A maioria deles é magra — não me lembro de ter visto uma pessoa gorda no Irã. Nunca riem em voz alta, e em seu sorriso silencioso há uma expressão vagamente irônica que revela muito mais do que esconde. Não há movimento nos rostos, nem tentativa de falar por meio de gestos; apenas movimentos e gestos silenciosos e comedidos — parece que todos usam máscaras.

Como em todas as cidades do Oriente, o centro da vida urbana daqui é o bazar. Aos olhos de um estranho, o bazar surge como uma mistura suavizada de marrom, marrom-dourado e vermelho de tapete — com pratos e bacias de cobre reluzentes espalhados por toda parte e, talvez, a cor da porcelana azul-clara pintada sobre as portas das hospedarias das caravanas, onde aparecem guerreiros de olhos negros e dragões alados. Se olhar com um pouco mais de atenção, descobrirá no bazar todas as cores do mundo — mas nenhuma dessas cores variadas absorve todas as outras. As arcadas curvas, semelhantes a arcos, do teto são perfuradas em intervalos regulares, para que a luz do dia possa entrar por pequenas frestas. Através desses orifícios, ela se materializa e parece uma coluna oblíqua de luz opaca; não parece que as pessoas caminham através delas, mas sim que essas colunas luminosas avançam através dessas pessoas-sombra…

Pois as pessoas deste bazar são corteses e silenciosas como sombras. Se algum comerciante chama um transeunte em voz baixa, ninguém grita nem canta para exaltar a qualidade de suas mercadorias, como se faz nos bazares árabes. Aqui, o passo da vida é silencioso, suave. As pessoas não avançam esbarrando ou empurrando os outros com os cotovelos. São muito corteses, e sua cortesia é de tal natureza que parece inclinar-se humildemente em sua direção; mas, na realidade, mantém você a um braço de distância. É evidente que são muito astutas como pessoas e não têm objeção a falar com estranhos; mas quem fala são apenas seus lábios. Seus corações permanecem em algum outro lugar, ao fundo — ficam ali, de pé, esperando, avaliando com indiferença…

Numa casa de chá, alguns homens da classe trabalhadora estão sentados sobre esteiras de palha — talvez artesãos, trabalhadores diaristas, condutores de camelos ou cavalos de caravana — todos apertados ao redor de um braseiro de ferro cheio de carvão em brasa. Dois longos cachimbos, com fornilhos de porcelana, são-lhes passados; o ar do recinto está impregnado do doce aroma do ópio. Sem pronunciar palavra, aspiram em silêncio; cada um, depois de dar uma longa tragada, passa o cachimbo à pessoa ao lado. E foi então que vi algo que nunca havia visto antes. Muitas, muitas pessoas fumavam ópio, algumas bastante abertamente e outras com um pouco mais de discrição; o dono da loja permanecia sentado em sua loja semelhante a um buraco; sob a entrada abobadada da hospedaria, algum vagabundo ocioso permanecia sentado; o caldeireiro fazia uma pausa momentânea em sua oficina. Todos estavam agora tragando o cachimbo. Com rostos igualmente apáticos, um pouco cansados, olhavam com olhos sem brilho para um vazio ilimitado e sem apoio…

Vendedores oferecem por todo o bazar papoulas verdes frescas em grandes cestos, e as pessoas aparentemente também as comem da mesma maneira. Esta é outra forma mais branda de consumir ópio. De fato, até os meninos comem sementes de papoula, parados ou sentados de porta em porta, em cada esquina. Dividem entre dois ou três aquela coisa divertida, com a tolerância de pessoas adultas umas para com as outras, sem demonstrar nem egoísmo infantil — nem alegria ou entusiasmo infantis. Mas como poderiam ser diferentes disso? Logo no começo de suas vidas, quando choravam e incomodavam os pais, alimentavam-nos com uma bebida forte feita de sementes de papoula. Quando crescem e começam a correr pelas ruas, as fronteiras entre a serenidade, a fraqueza e a compaixão já se tornaram indistintas dentro deles.

E foi então que compreendi qual era a coisa que me havia perturbado tão profundamente quando vi pela primeira vez os olhos cansados e melancólicos dos iranianos. Percebi neles o sinal de um destino trágico, tal como o sorriso doloroso e triste que se fixa no rosto dos oprimidos; e, do mesmo modo, o ópio estava ligado a eles: ligado à sua humildade, ao cansaço de seu íntimo, e até mesmo à sua grande pobreza e nobre frugalidade. Talvez não me parecesse tanto um pecado quanto uma expressão e, quem sabe, também uma ajuda! Ajuda contra o quê? Um mundo assombroso de perguntas.

Minha mente continuou por algum tempo a vagar entre lembranças e imagens daquela primeira cidade iraniana que conheci, Kerman. Pois essas imagens eram variadas, mas sempre se apresentavam diante de mim, em essência, inalteradas. Do começo ao fim dos dezoito meses que passei no Irã, havia em toda parte uma melancolia suave e onipresente, sua característica constante. Nas aldeias e nas cidades, no trabalho cotidiano das pessoas e em suas diversas crenças religiosas, via-se uma cor intensa de tristeza e luto: o pranto pelos acontecimentos trágicos ocorridos 1.300 anos antes, o lamento pela morte do silencioso genro, Ali, e de seus dois filhos, Hasan e Hussein. Para eles, isso parecia mais importante do que o objetivo do Islã e o caminho pelo qual o Islã desejava conduzir a vida humana…

Em muitas noites, em muitas cidades, vi grupos de mulheres e homens reunidos numa rua ao redor de um dervixe viajante, um santo religioso, vestido de branco, com uma pele de leopardo sobre as costas, um machado de cabo comprido na mão direita e, na esquerda, uma tigela de esmolas feita de casca de coco. Ele recitava, metade em canto e metade em palavras, uma narrativa sobre a luta pelo califado que começou após a morte do Mensageiro de Allah, no século VII — uma história dolorosa de fé, sangue e morte —, e ela era sempre mais ou menos assim:

Ouvi, ó povo, a história do que aconteceu ao destino daqueles que Allah havia escolhido e de como o sangue da família do Profeta foi derramado sobre a terra:

Houve um Profeta a quem Allah comparou a uma cidade do conhecimento, e a porta dessa cidade do conhecimento era o mais fiel e maior dos heróis entre seus seguidores, seu genro Ali — a luz da terra, participante da mensagem do Profeta, a quem chamavam de ‘Leão de Allah’.

Quando o Profeta morreu, o Leão de Allah era seu verdadeiro herdeiro, mas homens perversos usurparam o direito daquele leão, determinado por Allah, e fizeram de outro homem o califa do Profeta; depois da morte do primeiro usurpador, sem direito algum, outro de natureza igualmente perversa tornou-se seu herdeiro, e depois ainda outro.

E somente após a destruição desse terceiro usurpador a vontade de Allah se manifestou, e o Leão de Allah alcançou seu lugar legítimo como Amir al-Mu’minin.

Mas Ali e os inimigos de Allah eram numerosos, e certo dia, quando ele se prostrou em oração diante de seu Senhor, foi morto pelo golpe da espada de um assassino. A terra estremeceu de dor diante desse ato pecaminoso e terrível; as montanhas choraram e derramaram lágrimas de granizo:

Ó Deus, que a Tua maldição recaia sobre os injustos e que o castigo eterno os devore.

Então surgiu outro tirano ímpio, que privou Hasan e Husayn, filhos de Ali, o Leão de Deus, e de Fátima, da sua legítima herança ao trono do Profeta. Hasan foi envenenado e morto numa conspiração, e quando Husayn se levantou para defender a religião, a lâmpada da sua belíssima vida foi apagada no campo de Karbala, quando, depois da batalha, se ajoelhou junto a um reservatório para saciar a sede. Ai! Que a maldição de Deus recaia sobre os ímpios, e que aquele que os anjos outrora beijaram com suas lágrimas, o Mensageiro de Deus, fosse cruelmente esquartejado, enquanto o seu corpo decapitado era levado aos seus filhos em prantos, que aguardavam o retorno do pai.

E desde então os crentes vêm invocando a maldição de Deus sobre os tiranos e lamentando a morte de Ali, Hasan e Husayn. Ó crentes, pranteai em alta voz a morte deles, pois Deus perdoa os pecados daqueles que choram pelos descendentes do Profeta…

E assim, o cântico narrativo provoca um choro inconsolável entre as mulheres que o escutam, enquanto lágrimas escorrem silenciosamente pelos rostos dos homens de barba…

Na verdade, esse luto exagerado não tem qualquer relação com o verdadeiro quadro histórico dos acontecimentos que, nos primeiros tempos, criaram a ferida que nunca cicatrizou no mundo islâmico. Que ferida é essa? A comunidade muçulmana dividiu-se em duas escolas: os sunitas e os xiitas. Os sunitas, que constituem a maioria das nações muçulmanas, mantêm-se firmes no princípio da eleição para o cargo de califa; os xiitas afirmam que o Mensageiro de Deus nomeou o seu genro, Ali, como seu legítimo sucessor e califa. Na realidade, porém, o Mensageiro de Deus morreu sem nomear qualquer califa; por isso, Abu Bakr, o mais velho e fiel companheiro dele, foi eleito ‘califa’ pela grande maioria da ummah muçulmana. Depois de Abu Bakr, Umar tornou-se califa, e depois de Umar, Uthman. Foi somente após a morte de Uthman que Ali foi eleito califa. Durante os meus dias no Irão, não encontrei nada de mau ou condenável a respeito dos três califas que precederam Ali. Sem dúvida, eles foram os maiores homens do Islão depois do Mensageiro de Deus e, durante muitos anos, os seus companheiros mais próximos. A ummah muçulmana elegeu-os exercendo livremente o direito que o Islão concedeu aos homens. Eles não eram usurpadores. A luta posterior pelo poder não começou porque os três califas tivessem conquistado o poder, mas porque Ali e os seus seguidores não estavam dispostos a aceitar de todo o coração o resultado dessas eleições populares. Ali foi morto, e o Estado islâmico, originalmente de tipo republicano, transformou-se numa monarquia hereditária sob a liderança do quinto califa, Muawiya — e a transformação atingiu o seu desfecho final com o martírio de Husayn no campo de Karbala.

Sim, eu já sabia de tudo isso antes de chegar ao Irão, mas fiquei espantado ao ver a imensa emoção que, entre os iranianos, ainda hoje desperta a antiga e trágica história de mil e trezentos anos atrás, assim que os nomes de Ali, Hasan e Husayn são pronunciados. Com espanto, eu continuava a perguntar a mim mesmo: será que os iranianos abraçam tão intimamente a doutrina xiita por causa da sua tristeza inata e do seu senso de dramatismo? Ou será que foram as características trágicas presentes no surgimento da doutrina xiita que deram origem à profunda tristeza dos iranianos?

Gradualmente, ao longo de muitos meses, uma resposta surpreendente começou a tomar forma clara na minha mente.

Muito antes de o exército de Umar conquistar, em meados do século VII, o antigo Império Sassânida, levando consigo o ideal de vida islâmico, a doutrina zoroastrista do Irão já se havia transformado num formalismo rígido e ritualista; por isso, não conseguiu oferecer uma resistência eficaz à torrente impetuosa de novas ideias que veio da Arábia. Contudo, no momento em que a explosão da conquista árabe ocorreu no coração do Irão, o país atravessava uma era de efervescência social e intelectual, na qual se vislumbrava a promessa de um renascimento nacional. Como resultado das campanhas árabes, essa esperança de um renascimento mental e organizacional foi despedaçada, e, desde então, os iranianos deixaram de adaptar-se à sua própria concepção de desenvolvimento.

Como em muitos outros países, o surgimento do Islã no Irã foi um sinal de extraordinário progresso social. Sob seu impacto, o tradicional sistema de castas iraniano foi despedaçado. Em seu lugar, o Islã deu origem a esta nova comunidade de seres humanos livres e iguais. Às forças culturais que haviam permanecido adormecidas e não expressas durante longo tempo, o Islã abriu novos canais de expressão. Contudo, apesar disso, os orgulhosos descendentes de Dario e Xerxes jamais conseguiram esquecer que a continuidade histórica de sua vida nacional, a ligação fundamental entre seu passado e seu presente, havia sido subitamente rompida. A própria nação que encontrara seu caráter mais íntimo na estranha dualidade da religião zoroastriana e na adoração quase panteísta dos quatro elementos — água, fogo, terra e ar — viu-se então diante do tawhid rigoroso e intransigente do Islã e de seu ardor pela Verdade absoluta. Para os iranianos, submeter sua consciência nacional profundamente arraigada à ideia de que o Islã transcendia a consciência nacional foi uma transição excessivamente súbita e dolorosa. Embora tenham aceitado essa nova religião muito rapidamente e aparentemente de livre vontade, em seu subconsciente começaram a considerar a vitória dos ideais islâmicos como a derrota do Irã enquanto nação; e a percepção de que haviam sido derrotados e arrancados para sempre do contexto de sua antiga herança cultural — uma percepção profunda, apesar de toda a sua imprecisão — tornou-se, nos séculos seguintes, a causa da destruição de sua autoconfiança nacional. Para muitas outras nações, o resultado imediato da adoção do Islã foi um estímulo extremamente positivo ao desenvolvimento cultural. No caso dos iranianos, porém, sua primeira reação — e, de certo modo, a mais duradoura — foi um profundo sentimento de humilhação e um ressentimento reprimido.

Foi preciso comprimir e ocultar esse ressentimento nas dobras do inconsciente, pois, nesse meio-tempo, o Islã havia se tornado a própria religião do Irã. Mas, movidos pelo ódio à conquista árabe, os iranianos instintivamente recorreram àquilo que a psicologia chama de “compensação excessiva”: começaram a considerar que a religião que seus conquistadores árabes lhes haviam trazido era exclusivamente a religião dos árabes. Para esse fim, deram à compreensão árabe de Allah, racional e desprovida de mistério místico, uma forma exatamente oposta: misticismo fanático e emoção melancólica. A religião que para os árabes era presente, real e fonte de estabilidade e liberdade assumiu, na mente dos iranianos, a forma do sobrenatural e de uma súplica oculta em símbolos. O princípio islâmico de que Allah está acima de todas as coisas e de que Sua grandeza, que transcende tudo, está além da compreensão humana foi transformado na doutrina mística segundo a qual Allah Se manifesta fisicamente por meio de seres humanos especialmente escolhidos (no Irã pré-islâmico, existiam muitas doutrinas desse tipo). Segundo essa doutrina, Allah Se revela por meio de pessoas escolhidas com o propósito de que elas transmitam a essência dessa verdade divina a seus descendentes. Onde existia tal tendência, o apoio à doutrina xiita foi aceito como um caminho bastante natural. Pois não há dúvida de que, na devoção dos xiitas a Ali e a seus descendentes — devoção que se pode dizer que quase os diviniza — estava oculto o germe da ideia de que Allah assumiria forma humana e encarnaria repetidamente, de maneira contínua; e essa é uma ideia completamente desconhecida do Islã, mas muito íntima do coração iraniano.

Não foi por acaso que o Profeta Muhammad morreu sem nomear ninguém como seu sucessor; mesmo quando, pouco antes de sua morte, lhe sugeriram que nomeasse alguém, ele se recusou a fazê-lo. Com essa atitude, quis indicar, em primeiro lugar, que o aspecto espiritual da profecia não é algo que possa ser herdado; em segundo lugar, que a futura liderança da ummah seria resultado de uma livre eleição pelo povo, e não de uma instrução do Profeta. (Se ele tivesse nomeado um sucessor, naturalmente esse teria sido o significado.) Dessa maneira, rejeitou deliberadamente a ideia de que a liderança da ummah pudesse ser algo diferente de secular, ou algo semelhante à designação, por Allah, de um “sucessor do Mensageiro”. Ora, esse é precisamente o objetivo fundamental da doutrina xiita. Adotando uma visão completamente contrária aos ensinamentos básicos do Islã, essa doutrina não apenas insistiu na sucessão do Mensageiro, como também reservou esse direito exclusivamente à “família do Profeta”; isto é, somente Ali, seu primo e genro, e seus filhos e descendentes poderiam sucedê-lo, e esse direito foi mantido para a família do Profeta.

Isso está inteiramente de acordo com a tendência mística dos iranianos. Mas, ao aderirem com extremo entusiasmo àqueles que afirmavam que a essência espiritual do Mensageiro de Allah continuava viva em Ali e em seus descendentes posteriores, os iranianos não apenas satisfizeram um desejo místico; por trás dessa decisão também operava outro propósito inconsciente. Se Ali era de fato o legítimo herdeiro e sucessor do Mensageiro de Allah, então os outros três califas eram, sem dúvida, usurpadores injustos do poder, e entre eles estava Umar — o mesmo Umar que havia conquistado o Irã. A vitória do conquistador do Império Sassânida podia agora ser interpretada em termos religiosos como objeto de ódio nacional: a religião havia se tornado a religião do Irã. Umar havia “privado” Ali e seus filhos, Hasan e Husayn, do direito divinamente ordenado de se tornarem califas do Islã e, ao agir assim, havia se oposto à própria vontade de Allah; portanto, por lealdade à vontade de Allah, era preciso apoiar o partido de Ali. Assim, de uma oposição nacional nasceu uma doutrina.

No fato de os iranianos terem acolhido assim a doutrina xiita no trono de seus corações, vi um protesto silencioso dos iranianos contra a conquista árabe do Irã. Agora compreendi por que os iranianos amaldiçoam Umar com tanto ódio, muito mais do que os outros dois “usurpadores do poder”, Abu Bakr e Uthman. Do ponto de vista doutrinário, deveria ser Abu Bakr, o primeiro califa, quem fosse considerado o principal transgressor — mas Umar havia conquistado o Irã…

Então, esta é a razão da extraordinária profundidade da devoção à família de Ali no Irã! Esse culto iraniano é um símbolo da vingança iraniana contra o Islã árabe (o qual se opôs tão intransigentemente à atribuição de divindade a qualquer ser humano, inclusive Muhammad). É verdade que a doutrina xiita não nasceu no Irã; existem grupos xiitas também em outros países muçulmanos. Mas em nenhum outro lugar essa doutrina conseguiu exercer uma influência tão completa sobre as emoções e a imaginação de todo um povo.

Quando os iranianos pranteiam a morte de Ali, Hasan e Husayn, não choram apenas pela destruição da família de Ali — choram também por si mesmos e pela perda de sua glória passada…

Esses iranianos — são um povo melancólico. Essa tristeza se reflete e reverbera na paisagem e no cenário iranianos: na extensão interminável das terras áridas, nas estradas montanhosas desertas e nas grandes rodovias, nas aldeias espalhadas aqui e ali, a grande distância umas das outras, entre casas de barro, e nos rebanhos de ovelhas que, ao entardecer, são conduzidos para os poços, como ondas sucessivas de um mar cinzento e acobreado. Nas cidades e nos portos, a vida escorria gota a gota, em ritmo lento, num gotejar incessante, sem qualquer esforço ou exuberância — parecia que tudo estava coberto pelo véu de um sonho, e no rosto de cada pessoa havia um olhar de espera indolente. Nunca se ouvia música nas ruas. Se, ao entardecer, algum cavaleiro tártaro de uma hospedaria de repente soltasse a voz e começasse a cantar, os ouvintes, sem perceber, aguçavam os ouvidos, tomados de assombro. Em público, somente numerosos dervixes cantavam; e sempre entoavam, em melodia, a mesma velha e trágica lenda sobre Ali, Hassan e Hussein. Ao redor dessas canções, a morte e as lágrimas teciam uma rede, e elas penetravam na mente dos ouvintes como uma bebida muito forte. Parecia que uma espécie de temor da tristeza — uma tristeza aceita voluntariamente, quase com avidez — envolvia aquelas pessoas.

Nas tardes de verão, no Irã, viam-se mulheres e homens sentados imóveis sobre a terra. Sentavam-se às margens dos canais que corriam, sob a sombra dos enormes olmos, ao longo dos dois lados da estrada, e contemplavam, absortos, a água corrente. Não conversavam entre si. Apenas ouviam o murmúrio da água e o sussurro das folhas que passava sobre suas cabeças. Sempre que os via, eu me lembrava das palavras do salmo de Davi:

Às margens dos rios da Babilônia, ali nos sentamos e choramos…

Sentavam-se às margens dos canais como enormes pássaros negros e mudos, como se tivessem se perdido na silenciosa meditação das águas correntes. Em que pensavam — talvez naquela ideia acalentada durante tantos e tantos anos, uma ideia que pertencia somente a eles? Estavam esperando? … O quê?

E Davi cantou: penduramos nossas harpas entre os salgueiros, nos ramos dos salgueiros…

Três

— Vamos, Zaid. Vamos. Dito isso, guardo no bolso a carta de Ali Agha e me levanto para me despedir de az-Zughaibi.

Mas ele balança a cabeça e diz: “Não, irmão, deixe Zaid ficar aqui comigo por algum tempo. Se você esteve ocupado demais para contar o que aconteceu em sua vida durante esses meses que se passaram, que Zaid conte a história em seu lugar. Você acha que seus amigos não estão curiosos para saber o que está acontecendo em sua vida?”

 

Dajjal

Um

Entro, por um caminho sinuoso, na parte mais antiga de Medina. As paredes das casas, feitas de pedra, permanecem enraizadas na sombra; janelas com treliças e varandas pendem sobre as vielas… As vielas parecem desfiladeiros, e em alguns lugares são tão estreitas que é quase impossível até para duas pessoas passarem uma pela outra em direções opostas. De repente, vejo-me nesta praça, diante da fachada da biblioteca feita de pedra cinzenta, fundada cerca de um ano antes por um erudito turco; atrás da grade de bronze trabalhado, há um silêncio — como um convite! Atravesso a praça pavimentada e, no centro dela, há uma árvore solitária, imóvel, fileiras e mais fileiras de estantes envidraçadas, milhares de livros manuscritos — e entre eles encontram-se alguns dos raros manuscritos conhecidos do mundo islâmico. Foram livros como estes que deram glória à civilização islâmica, que desapareceu como se tivesse pertencido a ontem!

Quando olho para esses livros, encadernados em couro trabalhado por máquinas, a discrepância entre o passado muçulmano e o presente muçulmano me atinge como um golpe doloroso…

— O que está te afligindo, rapaz? Por que há essa marca de amargura no teu rosto, diga-me?

Viro-me na direção daquela voz e vejo, junto a uma janela com treliça, sentado sobre um tapete, com um volume in-fólio sobre os joelhos, meu velho amigo, o pequeno xeique Abdullah BulaIhad. Seus dois olhos perspicazes e espirituosos me saúdam com um brilho íntimo quando beijo sua testa e me sento ao seu lado. Ele é o maior alim do Najd e, apesar da espécie de estreiteza associada ao sectarismo da visão wahabita, é um dos homens de inteligência mais penetrante que encontrei até hoje nos países muçulmanos. Sua amizade comigo foi em grande parte responsável por tornar minha vida na Arábia mais fácil e agradável. Pois, no reino de Ibn Saud, exceto o próprio rei, a palavra de nenhum homem vale mais do que a dele. Ele fecha rapidamente o livro e puxa-me para perto, olhando para mim com uma expressão inquisitiva.

— Xeique, eu estava pensando em quão longe nós, muçulmanos, nos afastamos disto — e aponto para os livros que estão ali —, para nossa miséria e decadência atuais!

— Meu filho — responde o ancião —, estamos colhendo o que semeamos. Um dia fomos grandiosos. Foi o Islã que nos engrandeceu. Éramos portadores de uma mensagem. Enquanto fomos fiéis a essa mensagem, nossos corações permaneceram ardentes e inspirados, e nossas mentes, iluminadas e radiantes. Mas, assim que esquecemos com que propósito Alá nos havia escolhido, ocorreu nossa queda. Afastamo-nos muito disto — e o xeique repete o gesto que eu fizera em direção aos livros —, pois nos afastamos muito, muito do que o Mensageiro de Alá, que a paz e as bênçãos de Alá estejam sobre ele, nos ensinou há 1.300 anos…

—Ah, sim, e como está indo o seu trabalho? —pergunta ele depois de uma breve pausa, pois sabe que estou absorto no estudo de questões relacionadas aos primórdios da história do Islã.

—Devo admitir, xeique, que o trabalho não está avançando muito bem. Não encontro tranquilidade no meu coração e não sei por quê. É por isso que voltei a perambular pelo deserto.

Ibn Bulayhid olha para mim com seus olhos oblíquos, iluminados pela inteligência e penetrantes, enquanto enrola com os dedos a barba tingida de hena, e diz: «A mente receberá o que é devido à mente, e o corpo receberá o que é devido ao corpo… Você deveria se casar agora…»

É claro que sei que, em Najd, o «casamento» é considerado a solução para quase todo tipo de aflição. Não consegui conter o riso.

—Mas, xeique, o senhor sabe muito bem que me casei novamente há apenas dois anos e que, este ano, também tive um filho.

O ancião dá de ombros e diz: «Quando um homem encontra conforto em sua esposa, permanece em casa o máximo de tempo que pode. Você também não passa tempo em casa… Além disso, nenhum homem jamais saiu prejudicado por tomar uma segunda esposa.» (Atualmente, ele próprio tem três esposas, embora tenha setenta anos, e ouvi dizer que sua esposa mais jovem, com quem se casou há apenas cerca de dois meses, teria no máximo dezesseis anos.)

—Pode ser —respondo—; pode ser que um homem não sofra ao tomar uma segunda esposa, mas e a questão essencial? O sofrimento dela não merece consideração?

—Meu filho, se uma mulher ocupa todo o coração do marido, ele não pensará em se casar novamente, nem terá necessidade de outro casamento. Mas, se o coração do marido não está inteiramente com a esposa, que benefício ela terá em manter preso somente para si um marido indiferente a ela?

Certamente, não há uma resposta para isso. É certo que o Islã recomenda um único casamento, mas, em circunstâncias especiais, permite ao homem casar-se até quatro vezes. Qualquer pessoa poderia perguntar por que esse direito não foi concedido também à mulher. A resposta é simples. Apesar de, no curso do desenvolvimento e do progresso humanos, o elemento espiritual do amor ter penetrado na vida das pessoas, a lógica biológica subjacente ao desejo sexual, tanto no homem quanto na mulher, é a reprodução; e, enquanto uma mulher só pode conceber um filho de um homem de cada vez e precisa carregá-lo no ventre durante nove meses antes de poder engravidar novamente, o homem foi constituído de tal modo que, cada vez que abraça uma mulher, pode gerar um filho. Portanto, enquanto o instinto inato da mulher de ter vários maridos seria, para a natureza, um simples desperdício, a inegável tendência do homem a manter relações com várias mulheres é biologicamente racional do ponto de vista da natureza. Naturalmente, é muito claro que o aspecto biológico é apenas um dos muitos aspectos do amor, e de modo algum o mais importante. Ainda assim, ele é um elemento fundamental. Pela sabedoria com que o Islã julga a natureza humana, a lei islâmica protege a função sociobiológica do casamento — e não faz mais do que isso (o cuidado dos filhos também está incluído). É por isso que concede ao homem a permissão para ter mais de uma esposa e, ao mesmo tempo, se recusa a conceder à mulher a permissão para ter mais de um marido. Como o aspecto espiritual do casamento é inconcebível e está fora da jurisdição da lei, ele foi deixado de lado; por isso, a questão de o marido casar-se novamente naturalmente não se coloca. Quando o marido não está disposto a compartilhar com outra pessoa o amor que dedica à esposa de todo o coração, e a esposa não aceita tal situação, ela pode divorciar-se e casar-se novamente depois, livremente. Em qualquer caso, como o casamento islâmico não é uma questão sagrada, mas um contrato social, tanto o marido quanto a esposa podem recorrer ao divórcio. Há uma razão especial para isso. O estigma que, em outros lugares, está associado em maior ou menor grau ao divórcio não existe na sociedade muçulmana (a única possível exceção são os muçulmanos indianos, influenciados nesse assunto por séculos de convivência com a sociedade hindu, pois, na sociedade hindu, o divórcio é absolutamente proibido).

É justamente na liberdade que a lei islâmica concedeu tanto ao homem quanto à mulher para casar-se e romper o vínculo matrimonial que se encontra a explicação para o fato de o adultério ser considerado o mais abominável dos crimes no Islã. Pois, onde existe esse tipo de liberdade, uma ligação emocional ou sensual não pode ser aceita como desculpa. É verdade que, durante os vários séculos de declínio dos muçulmanos, os costumes sociais chegaram a um ponto em que se tornou quase difícil para as mulheres exercerem livremente o direito ao divórcio, como o legislador pretendia. Mas a culpa por isso não é do Islã, e sim do costume — assim como o costume, e não a lei islâmica, é responsável por manter as mulheres, durante tanto tempo, confinadas atrás do véu em muitos países muçulmanos; pois nada que apoie esse costume pode ser encontrado no Alcorão ou na Sunnah do Profeta. Ele penetrou na sociedade muçulmana vindo dos bizantinos.

O xeique Ibn Bulaihid interrompe meus pensamentos íntimos, olhando para mim como se soubesse de tudo. “Não há necessidade de tomar uma decisão às pressas, meu filho. Quando chegar a hora de a decisão surgir, ela virá até você por si mesma.”

Dois

A biblioteca está silenciosa e imóvel; apenas o velho xeique e eu estamos na sala abobadada. De uma pequena mesquita próxima vem o adhan do Maghrib e, no instante seguinte, o mesmo som ecoa pelos cinco minaretes da Mesquita do Profeta. A Mesquita do Profeta está invisível para nós neste momento e parece contemplar a cúpula verde com imensa solenidade e um orgulho repleto de doçura. De um dos minaretes, o mu’adhdhin proclama: “Allahu Akbar”… Num tom profundo, grave e baixo, a melodia sobe e desce lentamente, como um longo círculo sonoro. “Deus é o Maior”… “Deus é o Maior”… Antes que ele termine a frase, o mu’adhdhin do minarete mais próximo de nós começa, num tom um pouco mais alto: “O Maior”, “Deus é o Maior”; e, quando a mesma melodia começa a elevar-se lentamente, num tom ainda mais alto, no terceiro minarete, o primeiro mu’adhdhin já terminou a primeira frase e inicia o segundo verso… Os sons da primeira frase que vêm do quarto e do quinto minaretes misturam-se numa harmonia distante: “Testemunho que não há divindade senão Deus”, enquanto as vozes descem dos primeiros, segundos e depois terceiros minaretes, apoiadas em asas suaves… “E testemunho que Muhammad é o Mensageiro de Deus”. Assim, cada verso é recitado duas vezes por cada um dos cinco mu’adhdhins, e o adhan prossegue: “Vinde para a oração, vinde para a oração; vinde correndo para a felicidade eterna”. Cada voz parece despertar as outras e reunir todas as vozes num só lugar, como se seu único propósito fosse afastar-se de um ponto, ir até outro e ali retomar a melodia na garganta, conduzindo-a assim até o verso final: “Deus é o Maior, Deus é o Maior; não há divindade senão Deus.”

Essa elevação, esse profundo abraço, esse afastar-se uns dos outros, esse unir-se e separar-se das vozes humanas não se parece com nenhuma outra melodia humana. Enquanto, tomado por um amor insano por esta cidade e por seus sons, meu coração se debate até alcançar minha garganta, começo a sentir que todas essas minhas viagens e andanças tinham um único significado: compreender, o tempo todo, o sentido deste chamado…

“Venha”, diz-me o xeique Ibn Bulaihid. “Vamos à mesquita para realizar a oração do Maghrib…”

O Haram, ou a Mesquita Sagrada de Medina, recebeu sua forma atual em meados do século passado. Mas algumas de suas partes são muito antigas — algumas foram construídas durante o reinado dos mamelucos do Egito, e outras ainda antes. O salão central, onde se encontra o túmulo do Profeta, foi construído exatamente sobre o lugar onde, no século VII, o terceiro califa, Uthman, havia erguido o edifício. Sobre ele há uma grande cúpula verde, cujo interior é belíssimo, adornado com pinturas ornamentais de várias cores. O teto repousa sobre numerosas fileiras de grossas colunas de mármore, que, dispostas em harmonia umas com as outras, dividem o interior em muitas seções. O piso de mármore está coberto de tapetes caros. De cada lado de cada um dos três mihrabs pendem candelabros de bronze trabalhados com extrema perícia. Os mihrabs são como nichos semicirculares, voltados para Meca; decorados com azulejos de porcelana azul e branca, um deles é sempre reservado ao imã, que conduz a salat em congregação. Centenas de globos de vidro transparente pendem de longas correntes de cobre; à noite, pequenas lâmpadas de azeite são acesas dentro deles, espalhando sobre as fileiras de pessoas em oração uma luz suave e delicadamente cintilante. Durante o dia, uma penumbra esverdeada enche a mesquita, fazendo-a parecer o fundo de um lago, como se, através da água, figuras humanas nadassem descalças sobre tapetes e leitos de mármore; como se, separada por paredes de água, a voz do imã, durante a salat, ecoasse suavemente da extremidade do grande salão, sem produzir nenhum eco.

O túmulo do Rasul não pode ser visto, pois está coberto por um pesado brocado pendente e cercado por uma grade de bronze. O sultão mameluco egípcio Qaitbay mandou fabricar essa grade no século XV. Na verdade, não existe aqui nenhuma estrutura semelhante a um túmulo, pois ele foi enterrado sob o piso de terra do pequeno aposento onde o Profeta viveu e onde faleceu. Mais tarde, uma parede sem porta foi erguida ao redor dessa casa, ocultando assim completamente o túmulo dos olhares externos. Na época do Rasul, a mesquita ficava imediatamente junto ao seu aposento. Depois de transcorridos vários séculos, a mesquita foi ampliada sobre o túmulo e para além dele.

Dentro da mesquita, sobre o piso aberto, quadrado e revestido de pedra, estendem-se longas fileiras de cobertores. Fileiras de pessoas estão sentadas sobre eles, ajoelhadas, recitando o Alcorão, conversando umas com as outras, meditando ou simplesmente passando o tempo enquanto aguardam a salat do magrib. Ibn Mulayhid parece ter se perdido em uma oração silenciosa.

Como sempre acontece, antes do magrib, uma voz chega flutuando de longe: o som da recitação de uma passagem do Alcorão. Hoje está sendo recitada a 96ª surata — a primeira a ser revelada a Muhammad — que começa com estas palavras: “Recita em nome do teu Senhor — em nome do teu Sustentador”… Foi por meio dessas palavras que o chamado de Allah chegou pela primeira vez a Muhammad, na caverna de Hira, perto de Meca.

Como costumava fazer com frequência, ele orava sozinho, meditando em busca da luz e da verdade, quando de súbito um anjo apareceu diante dele e lhe ordenou: “Recita”. Muhammad — que, como quase todos ao seu redor, jamais aprendera a ler — e, acima de tudo, não sabia o que deveria recitar, respondeu: “Não sei ler”. Ao ouvir isso, o anjo o abraçou com tanta força que Muhammad sentiu como se toda a força de seu corpo tivesse se esgotado. Então o anjo o soltou e repetiu sua ordem: “Lê, recita”. Muhammad respondeu novamente: “Não sei ler”. Então o anjo tornou a apertá-lo fortemente contra si, fazendo com que ele enfim desfalecesse e sentisse que sua morte estava próxima. Mais uma vez ressoou uma voz de trovão: “Recita”; e, pela terceira vez, quando Muhammad, com o coração atormentado, sussurrou: “Eu realmente não sei ler”… o anjo o soltou e disse:

Recita em nome do teu Senhor —

Que criou —

Criou o ser humano de uma gota seminal

Leia; teu Senhor é o Mais Generoso

Ele ensinou ao ser humano por meio da pena

Ensinou ao ser humano o que ele não sabia…

E assim o Alcorão começou a ser revelado, apontando para a consciência, a inteligência e o conhecimento humanos; esse processo continuou durante longos vinte e três anos, até a morte do Mensageiro em Medina, aos sessenta e três anos de idade.

A história dessa primeira experiência de sua revelação divina nos faz recordar, certo dia, a luta do anjo com Jacó no livro bíblico do Gênesis. Mas, enquanto Jacó havia resistido, Muhammad entregou-se ao abraço do anjo com reverência misturada ao medo e à dor; com isso, em certo momento, toda a sua força se esvaiu, e nele nada restou senão a capacidade de ouvir uma voz — já não era possível levantar a pergunta nem dizer, a respeito daquela voz: ela veio de dentro ou de fora? Até então, ele não sabia que, dali em diante, teria de ser simultaneamente pleno e vazio: um homem em quem estariam inteiramente presentes os desejos humanos e a consciência de sua própria vida e que, ao mesmo tempo, seria uma passividade dolorosa para receber uma mensagem. Diante de seu coração era exposto o tecido invisível da Verdade eterna — aquela que dá significado a todos os objetos e acontecimentos perceptíveis — na expectativa de que ele compreendesse a essência de tudo isso; e lhe foi dito que ‘lesse’ naquele Livro e o anunciasse ao mundo, para que as pessoas pudessem compreender aquilo que não sabem e aquilo que, na prática, não podem conhecer apenas por suas próprias forças.

O significado extraordinário da visão divina dominou Muhammad. Como Moisés diante da sarça ardente, ele também se considerou indigno da elevada dignidade da profecia e começou a tremer ao pensar que talvez Allah o tivesse escolhido. Ouvimos dizer que, depois disso, voltou para sua casa na própria cidade e disse à sua esposa Khadija: “Cubra-me com um manto”. Pois tremia como um galho de árvore sob a tempestade. Khadija cobriu-o com um cobertor e, pouco a pouco, seus tremores cessaram. Depois, ele contou a Khadija o que lhe havia acontecido e disse: “Verdadeiramente, temo por mim!”

Mas Khadija, com a visão clara que somente o amor pode proporcionar, compreendeu imediatamente que ele estava assustado com a grandeza da responsabilidade que se apresentava diante de Muhammad, e respondeu: “Não, por Allah! Ele jamais colocará sobre você um fardo que seja incapaz de suportar, nem jamais o humilhará; pois todos sabem que você é o melhor dos homens, que cumpre seus deveres para com seus parentes, ajuda os fracos, beneficia os desamparados, é generoso e hospitaleiro com seus convidados e ajuda aqueles que estão verdadeiramente em necessidade”. Para consolá-lo, Khadija levou-o até Waraqa, seu primo, um homem muito instruído. Waraqa havia praticado o cristianismo durante muitos anos; segundo a tradição, conseguia ler a Bíblia em hebraico. Naquela época, Waraqa já era idoso e cego. Khadija disse-lhe: “Ó filho de meu tio paterno, preste atenção a este seu parente”. E, quando Muhammad contou novamente sua experiência, Waraqa ergueu a voz, com reverência misturada ao temor, e disse: “Este é o anjo da revelação que Allah enviou aos profetas anteriores. Ah, se eu fosse jovem! Se eu ainda estivesse vivo e pudesse ajudá-lo quando seu povo o expulsar de sua terra!” Ao ouvir isso, Muhammad, tomado de espanto, perguntou: “Por quê? Por que eles me expulsariam da terra?” E o sábio Waraqa respondeu: “Sim, eles o expulsarão. Até hoje, nenhum homem como você veio a seu povo trazendo aquilo que você trouxe sem ser perseguido!”

Sim, durante longos treze anos eles o oprimiram, até que um dia ele foi obrigado a deixar Meca e chegou a Medina. Pois os habitantes de Meca sempre foram duros de coração…

Mas será realmente difícil compreender a dureza de coração demonstrada pela maioria dos habitantes de Meca após a primeira pregação de Maomé? Eles não sentiam nenhuma sede espiritual; conheciam apenas empreendimentos práticos e materiais. Pois acreditavam que era possível ampliar os horizontes da vida somente ampliando os meios capazes de aumentar o conforto e o bem-estar externos. Para essas pessoas, a ideia de se submeterem incondicionalmente às exigências de um imperativo moral talvez lhes parecesse verdadeiramente insuportável — afinal, o significado literal da palavra Islã é “submissão a Allah”. Além disso, os habitantes de Meca amavam excessivamente a ordem estabelecida e os costumes tribais; os ensinamentos de Maomé colocavam tudo isso em perigo. Quando ele começou a pregar a unicidade de Allah e a condenar publicamente a idolatria como o maior dos pecados, eles não viram nisso apenas um ataque às suas crenças tradicionais; perceberam também uma tentativa de destruir o próprio padrão social de suas vidas. Sobretudo, sua interferência não se ajustava aos assuntos que eles consideravam puramente “mundanos”, fora da jurisdição da religião — como a economia, as questões de igualdade e justiça social e, de modo geral, seus hábitos comerciais, sua permissividade sexual e sua concepção do bem-estar tribal. Para eles, a religião era um assunto privado — uma questão de atitude interior, não de conduta.

E isso era exatamente o oposto do que o Profeta da Arábia tinha em mente quando falava de religião. Para ele, os costumes e comportamentos sociais, assim como as instituições e cerimônias, certamente estavam dentro dos limites da religião, e ele sem dúvida ficaria surpreso se alguém lhe dissesse que a religião era exclusivamente uma questão de consciência individual, sem qualquer relação com a conduta social. Mais do que qualquer outra coisa, era precisamente esse aspecto de sua mensagem que a tornava tão desagradável aos olhos dos infiéis de Meca. Se ele não tivesse interferido nos assuntos sociais, o descontentamento deles com o Profeta talvez tivesse sido menos intenso. Não há dúvida de que o Islã os irritava, pois sua teologia entrava em conflito com suas próprias concepções religiosas. Mas é muito provável que, depois de alguma oposição inicial, eles tivessem se acomodado a ele — assim como, algum tempo antes, haviam se acomodado à pregação fragmentária do cristianismo — se o Mensageiro de Allah tivesse seguido simplesmente o exemplo dos sacerdotes cristãos e limitado sua pregação a alguns temas: exortar as pessoas a crer em Allah, rogar-Lhe pela salvação e comportar-se bem em seus assuntos pessoais. Mas ele não seguiu o exemplo cristão nem se limitou à fé, aos ritos religiosos e à moralidade individual. Como poderia tê-lo feito? Acaso seu Allah não lhe ordenara que fizesse esta oração: “Ó nosso Senhor, concede-nos o bem neste mundo e o bem no mundo futuro”?

Na estrutura desta frase corânica, “o bem deste mundo” foi colocado antes de “o bem do mundo futuro” — primeiro, porque o presente vem antes do futuro, sendo seu precursor; e, segundo, porque o ser humano foi criado de tal modo que, para atender ao chamado da alma e buscar o bem da vida futura, precisa antes se esforçar para satisfazer suas necessidades físicas e terrenas. Na mensagem de Maomé não há qualquer conceito de espiritualidade desligada da vida física ou oposta a ela. Essa mensagem se baseia inteiramente na ideia de que corpo e alma são dois aspectos diferentes de uma mesma realidade; e qual é essa realidade? A vida humana. Por isso, naturalmente, ele não podia se contentar em cultivar no indivíduo apenas uma atitude moral; queria, ao contrário, transformar essa atitude em um sistema social definido que proporcionasse a cada indivíduo da sociedade o maior grau possível de conforto físico e material e, desse modo, garantisse também a maior oportunidade possível de desenvolvimento espiritual.

Ele iniciou sua pregação dizendo às pessoas: “A ação, ou prática, é parte da fé”, pois Allah não leva em consideração apenas a crença individual; Ele também observa as ações de cada mulher e de cada homem, especialmente aquelas que produzem efeitos sobre outras pessoas além dos limites da vida individual. Ele pregou contra a opressão dos fortes sobre os fracos com a ajuda da linguagem ardente e vigorosa que Allah lhe concedera. Apresentou o argumento, até então inaudito, de que, perante Allah, mulheres e homens são iguais, e de que todos os deveres e esperanças religiosos se aplicam igualmente a ambos; o terror dos pagãos ingênuos de Meca não teve limites quando ele chegou a declarar que a mulher, por direito próprio, é uma pessoa independente, e que não é uma pessoa distinta apenas por sua relação com o homem como mãe, irmã, esposa ou filha; por isso, a mulher tem o direito de possuir propriedades, administrar seus próprios negócios e entregar-se livremente a outra pessoa no casamento! Ele declarou condenáveis todas as formas de jogo e todos os tipos de bebidas intoxicantes, pois, nas palavras do Alcorão: “Neles há muito mal e alguns benefícios. Mas o mal é maior que o benefício.” Acima de tudo, ele se levantou contra a opressão secular do ser humano sobre o ser humano; contra os lucros dos empréstimos baseados em juros, qualquer que fosse a taxa; contra o monopólio individual1() e o “corner”2(); contra o jogo especulativo com as necessidades potenciais de outras pessoas — aquilo que hoje chamamos de “especulação” —; e contra a determinação do bem e do mal segundo o espírito de grupo tribal, chamado, na terminologia moderna, de “nacionalismo”. Na verdade, ele não reconheceu qualquer validade moral nas atitudes e nos julgamentos tribais. Em sua visão, a única base legítima — isto é, moral — para um grupo comunitário é o reconhecimento consciente e livre de um padrão comum de valores morais, e não o fato acidental de ter origem na mesma linhagem.

Com efeito, ele insistiu numa ampla revisão de cada uma das concepções sociais que, até então, haviam sido consideradas invioláveis e, desse modo — como dizem as pessoas de hoje — trouxe a religião para a “política”. Escusado dizer que, para aquela época, isso foi uma mudança verdadeiramente revolucionária.

Como quase todos os povos de todas as épocas, os governantes pagãos de Meca acreditavam que os costumes sociais, as ideias e as tradições e práticas em meio aos quais haviam sido criados eram os melhores, e que nada melhor poderia sequer ser imaginado. Por isso, revoltaram-se naturalmente contra o esforço do Profeta de introduzir a religião na política — isto é, de fazer da consciência de Allah o ponto de partida para a transformação social — e o condenaram como imoral, sedicioso e contrário a todas as noções do que era certo ou errado. E, quando ficou claro para eles que Muhammad não era apenas um sonhador, mas que podia despertar nos homens o impulso para a ação, os defensores da ordem social estabelecida adotaram uma poderosa contramedida e começaram a perseguir a ele e aos seus companheiros…

Na verdade, de uma forma ou de outra, todos os profetas desafiaram a ordem social estabelecida de sua própria época. Portanto, é de fato tão surpreendente que quase todos eles tenham sido perseguidos e ridicularizados por seus povos — e que Muhammad, o último deles, ainda seja ridicularizado no mundo ocidental?

Três

Assim que terminou a oração do “Maghrib”, o Shaykh Ibn Bulayhid tornou-se o centro de um círculo curioso de beduínos najdis e habitantes da cidade, pois eles desejavam tirar proveito de sua erudição e sabedoria mundana. Ele próprio também estava interessado em ouvir sobre as experiências deles e o que podiam contar-lhe acerca de suas viagens a terras distantes. Longas viagens não são de modo algum raras entre os najdis; eles se chamam de “Ahl al-Shidad” — “os que cavalgam sobre a sela do camelo” — e, para muitos deles, a sela do camelo é muito mais familiar do que a cama de casa. Certamente ela é mais familiar ao jovem beduíno de Harb que acabara de relatar ao Shaykh suas experiências durante sua recente viagem ao Iraque. Foi durante essa viagem que ele viu pela primeira vez na vida um firangi, isto é, um europeu (os árabes passaram a chamar os europeus por esse nome quando entraram em contato com os francos durante as guerras das Cruzadas).

— Diga-me, Shaykh, por que os firangis sempre usam na cabeça chapéus que lhes cobrem os olhos? Como conseguem ver o céu?

— Eles não querem ver essa coisa — respondeu o Shaykh, olhando para mim sem piscar. — Talvez tenham medo de que a visão do céu lhes faça lembrar Allah; não querem que, durante os dias da semana, alguém lhes faça lembrar Allah…

Todos nós rimos. Mas o jovem beduíno era bastante obstinado em sua busca pelo conhecimento. — Então por que Allah é tão misericordioso com eles e lhes concede riquezas que não concede aos crentes?

—Oh, isso é muito simples, rapaz: eles adoram o ouro e a prata. Por isso, o deus deles está nos bolsos deles… Mas este meu amigo aqui —ele põe a mão sobre o meu joelho— conhece os firangis muito melhor do que eu, porque veio do meio deles; Allah —glorificado seja o Seu nome— foi Quem o tirou das trevas e o trouxe para a luz do Islã.

—É mesmo assim, irmão? —pergunta o beduíno curioso—. É verdade que o senhor também foi um ‘firangi’? —Quando inclino a cabeça em confirmação, ele sussurra: Louvado seja Allah, que guia pelo caminho reto quem deseja. Diga-me, irmão: por que os ‘firangis’ são tão indiferentes em relação a Allah?

—Essa é uma longa história —respondo—; não pode ser explicada em poucas palavras. O que posso dizer-lhe neste momento é isto: o mundo dos ‘firangis’ tornou-se o mundo do ‘Dajjal’, o mundo do enganador ofuscante. Você nunca ouviu a profecia do nosso Profeta de que, no fim dos tempos, a maioria das pessoas do mundo se tornará seguidora do ‘Dajjal’, acreditando que ele é o próprio Allah?

E quando ele me olhou com olhos interrogativos, descrevi, com a anuência do xeique Ibn Bulayhid, a profecia sobre o aparecimento do ‘Dajjal’, mencionada no último livro da Bíblia: ele terá um olho cego, mas possuirá poderes misteriosos concedidos por Allah. Com os seus ouvidos, poderá ouvir até o que se diz nas regiões mais remotas da Terra e, com o seu único olho, verá tudo o que acontece a distâncias incomensuráveis; voará e dará a volta ao mundo em poucos dias; fará surgir subitamente, debaixo da terra, tesouros de ouro e prata; sob o seu comando choverá e brotarão plantas; matará dizendo ser o próprio Allah, e as pessoas se prostrarão diante dele em devoção —mas aqueles cuja fé for firme poderão ler, escrito em letras de fogo na sua testa, ‘negador de Allah’; e assim saberão que o Dajjal não passa de uma fraude destinada a pôr à prova a fé dos seres humanos…

E quando o meu amigo beduíno me fitou com os olhos arregalados e murmurou: ‘Busco refúgio em Allah’, voltei-me para Ibn Bulayhid e disse:

—Ó xeique, esta história alegórica não é uma descrição adequada da civilização tecnológica moderna? Esta civilização é caolha: isto é, contempla apenas um lado da vida, o do seu progresso material, e permanece alheia ao lado espiritual da vida. Com os seus prodígios tecnológicos, deu ao ser humano a capacidade de ver coisas muito distantes, para além das suas faculdades naturais, e de ouvir sons longínquos; deu-lhe a capacidade de atravessar distâncias infinitas a uma velocidade inimaginável. Com o conhecimento científico desta civilização, ‘faz-se chover’ e ‘fazem-se brotar plantas’, e escavam-se do subsolo tesouros de riquezas inesperadas. Os medicamentos dessa ciência dão vida àquele cuja morte parece inevitável; por outro lado, as suas guerras e a sua destruição científica destroem a vida. E o progresso material é tão intenso e ofuscante que os homens de fé fraca começaram a acreditar que ele é, por direito próprio, um ‘deus’; mas aqueles que permanecem conscientes do seu Criador compreendem claramente que adorar o ‘Dajjal’ significa negar Allah…

—Você tem razão, Muhammad, tem razão! —grita Bulayhid, batendo excitadamente com a mão sobre o meu joelho—. Nunca me ocorreu olhar dessa maneira para a profecia sobre o ‘Dajjal’, mas você tem razão! Sem compreender que o progresso humano e o desenvolvimento da ciência são uma dádiva do nosso próprio Allah, os homens, por ignorância, começaram cada vez mais a pensar que esse deus é um fim em si mesmo e digno de adoração.

Sim, penso comigo mesmo, os ocidentais realmente se entregaram à adoração do ‘Dajjal’. Há muito tempo o homem ocidental perdeu toda a sua inocência e toda a sua harmonia interior com a natureza. A vida tornou-se, para ele, um tormento. É cético e, por isso, está separado do seu irmão e solitário no íntimo. Para não desaparecer nessa solidão, ele precisa necessariamente tentar dominar a vida por meios externos —a simples sensação de ‘estar vivo’ já não lhe proporciona segurança interior; precisa lutar incessantemente, momento a momento, contra a dor e com a própria vida. Como perdeu toda espécie de questionamento transcendente e decidiu seguir adiante sem ele, precisa inventar e descobrir continuamente aliados mecânicos para si. E foi assim que começou o seu esforço frenético e imprudente no campo da tecnologia. Todos os dias inventa novas máquinas e dá a cada uma delas algo da sua alma, para que sejam elas a lutar pela sua existência. As máquinas certamente fazem isso, mas, ao mesmo tempo, criam para ele carências sempre novas, novos perigos, novos medos e uma sede insaciável por esse aliado artificial cada vez mais novo. A sua alma perde-se na rotação das rodas das máquinas produtivas, cada vez mais poderosas, cada vez mais extravagantes, cada vez mais terríveis; e a máquina também perde o seu verdadeiro propósito —proteger e enriquecer a vida humana— e torna-se ela própria um deus, um monstro devorador de aço. Os sacerdotes e pregadores desse deus insaciável parecem não estar conscientes de que a rapidez do progresso tecnológico moderno não é apenas resultado do desenvolvimento seguro do conhecimento e da ciência, mas também da desilusão espiritual; e que os surpreendentes avanços materiais com os quais o homem ocidental proclama a sua intenção de dominar a natureza são, no seu significado mais profundo, de natureza defensiva: por trás das suas faces luminosas espreita o terror do desconhecido.

A civilização ocidental fracassou em estabelecer um equilíbrio harmonioso entre as necessidades do homem e da sociedade e as exigências de sua alma. Essa civilização rejeitou a ética religiosa de algum tempo atrás, mas não conseguiu criar, a partir de si mesma, qualquer outro sistema moral que, por mais teórico que fosse, pudesse ser considerado racional. Apesar de seu grande progresso na educação, a civilização ocidental não conseguiu superar a tola disposição existente nas pessoas para se tornarem vítimas dos slogans, por mais absurdos que sejam, que os astutos oradores demagogos julgam necessário inventar. Essa civilização elevou a técnica da organização ao nível de uma bela arte; ainda assim, as nações ocidentais demonstram diariamente sua absoluta incapacidade de controlar as forças geradas pelos cientistas ocidentais e, neste momento, chegaram a uma situação em que as aparentemente ilimitadas possibilidades científicas e o caos mundial avançam lado a lado, de mãos dadas. A luz do conhecimento que sua ciência irradia — luz que, sem dúvida, é grandiosa — já não proporciona qualquer benefício moral aos ocidentais, privados de toda orientação religiosa. Aplicam-se a eles estas palavras do Alcorão:

O exemplo deles é como o de um povo que acendeu um fogo; mas, quando este iluminou o que estava ao redor deles, Deus os deixou nas trevas, sem poderem enxergar — mudos, surdos e cegos; ainda assim, não retornam.

E, apesar disso, na arrogância de sua cegueira, os ocidentais estão convencidos de que, mais do que qualquer outra coisa, será a sua civilização que trará luz, felicidade e paz ao mundo… Nos séculos XVIII e XIX, quiseram difundir por todo o mundo a verdade do cristianismo; mas agora, como seu fervor religioso esfriou tanto que já não consideram a religião mais do que uma música de fundo — algo que se permite acompanhar ‘na prática’ a vida, mas não exercer influência sobre ela — começaram a propagar, em lugar do cristianismo, a teoria materialista do ‘modo de vida ocidental’. E qual é essa teoria? A crença de que todos os problemas humanos podem ser resolvidos nas fábricas, nos laboratórios e sobre as mesas dos estatísticos.

E assim o ‘Dajjal’ surgiu em sua verdadeira forma…

Quatro

O silêncio permanece por muito tempo. Então o ‘xeique’ volta a dizer: volta a dizer: ‘Filho, foi essa compreensão do que significa o ‘Dajjal’ que te obrigou a aceitar o Islã?’

— ‘De certo modo, creio que sim, mas esse foi apenas o último passo.’

— ‘O último passo… Sim, você me contou certa vez a história de como encontrou o caminho do Islã. Mas exatamente quando e como surgiu pela primeira vez em sua mente a ideia de que o Islã poderia ser o objetivo que você buscava?’

—Quando? Deixe-me pensar um pouco… Acho que aconteceu no Afeganistão, num dia de inverno, quando uma ferradura do meu cavalo se perdeu e, por isso, tive de procurar um ferreiro numa aldeia. A aldeia ficava bastante distante do meu caminho. Foi ali que um homem me disse: “Mas o senhor é muçulmano; só não sabe disso.” Foi isso oito meses antes de eu abraçar o Islã… Eu estava viajando de Herat para Cabul…

Eu seguia a cavalo pela estrada de Herat para Cabul. Acompanhavam-me Ibrahim e um soldado afegão. Avançávamos a cavalo pelos vales montanhosos cobertos de neve do Afeganistão central e pelas passagens do Hindu Kush. Fazia um frio terrível; a neve cintilava, e montanhas altas, íngremes, negras e brancas erguiam-se ao nosso redor.

Naquele dia, havia uma tristeza em meu coração e, ao mesmo tempo, eu sentia uma felicidade extraordinária. Sentia tristeza porque me parecia que um espesso véu opaco ocultava das pessoas com quem eu havia vivido nos últimos meses a luz, a força e a inteligência que a fé poderia lhes proporcionar; e sentia felicidade porque a luz, a força e a inteligência dessa fé estavam comigo, junto às montanhas negras e brancas, tão perto que eu podia tocá-las com a mão.

Meu cavalo começou a mancar, e algo pareceu tilintar dentro de seu casco: uma ferradura havia se soltado e pendia presa apenas por dois pregos.

—Há alguma aldeia aqui perto onde eu possa encontrar um ferreiro? —perguntei aos nossos companheiros afegãos.

—A pouco menos de uma légua daqui há uma aldeia chamada Deh-Jangi. Lá há um ferreiro e também uma fortaleza do hakim de Hazarajat.

Assim, seguimos a cavalo pela neve cintilante até Deh-Jangi, num ritmo um pouco mais lento, para que meu cavalo não se cansasse.

O hakim, ou governador do distrito, era um jovem baixo, atarracado e alegre. Esse homem amigável ficou contente por receber um hóspede estrangeiro em sua pequena e isolada residência. Entre todos os afegãos que eu havia conhecido até então e os que conheceria depois, esse jovem era o mais simples e despretensioso, embora fosse um parente muito próximo do rei Amanullah. Ele me obrigou a permanecer ali por dois dias.

Na tarde do segundo dia, sentamo-nos, como de costume, para uma farta refeição. Depois, um homem rústico nos entretém cantando uma canção ao acompanhamento do setar. Ele cantava em pachto — uma língua que não compreendo —, mas algumas palavras persas de sua canção pareciam saltar claramente contra o fundo do aposento aquecido, coberto de tapetes, e do brilho frio da neve que entrava pelas frestas da janela. Lembro-me de que ele cantava sobre a batalha de Davi contra Golias — sobre a luta da fé contra a força bruta — e, embora eu não conseguisse acompanhar bem as palavras da canção, seu sentido tornou-se claro para mim quando ela começou com uma melodia suave e delicada e depois ascendeu num poderoso transbordamento de emoção, num alegre grito de vitória final!

Quando a canção terminou, Hakim comentou: ‘Davi era pequeno, mas sua fé era grande…’

Não pude deixar de acrescentar: ‘E vocês são muitos, mas sua fé é pequena.’

Meu anfitrião olha para mim, surpreso, e, constrangido pelo que deixei escapar quase involuntariamente, começo apressadamente a explicar minhas palavras. Minha explicação transforma-se numa torrente impetuosa de perguntas.

— Como foi possível que vocês, muçulmanos, perdessem a confiança em si mesmos, de modo que seus antepassados, em menos de cem anos, estenderam um dia a religião da Arábia, a oeste, até o longínquo Atlântico, e, a leste, até o interior da grande China, enquanto agora vocês se submetem tão facilmente, como pessoas tão fracas, às ideias e aos costumes do Ocidente? Por quê? Vocês, cujos antepassados um dia iluminaram o mundo com a luz do conhecimento, da ciência e das artes, quando a Europa estava mergulhada na mais extrema barbárie e ignorância, agora não conseguem reunir coragem para retornar aos seus próprios ideais religiosos progressistas e luminosos? Como foi possível que Atatürk, esse insignificante homem mascarado, que nem sequer reconhece que o Islã tenha algum valor, tenha se tornado, para vocês muçulmanos, um ‘símbolo do renascimento muçulmano’?

Meu anfitrião permanece atônito, em silêncio. Lá fora, a neve caía. Senti novamente aquela onda de dor e alegria misturadas que havia experimentado pouco antes de chegarmos a Deh Jangi. Compreendi a glória do passado, que um dia fora realidade, e a vergonha que encobria, com a humilhação, os filhos posteriores de uma grande civilização!

— Diga-me: como foi possível que a religião de seu Profeta, com toda a sua simplicidade e transparência, fosse soterrada sob o entulho das concepções estéreis e das controvérsias dos seus ulemás? Como foi possível que seus reis, soberanos e grandes proprietários se embriaguem de prazer em meio à riqueza, à opulência e ao luxo, enquanto um enorme número de seus irmãos muçulmanos mal consegue sobreviver em uma pobreza indescritível e em ambientes imundos — embora seu Profeta tenha ensinado que nenhum homem pode afirmar ser crente se come até se fartar enquanto seu vizinho permanece faminto? Pode explicar-me por que vocês relegaram as mulheres aos bastidores da vida, embora as mulheres que cercavam o Profeta e seus companheiros participassem amplamente da vida de seus homens? Como foi possível que haja tantos ignorantes entre vocês, muçulmanos, e que tão poucas pessoas possam estudar e ler — embora seu Profeta tenha declarado: ‘Buscar o conhecimento é um dever sagrado obrigatório para todo muçulmano e toda muçulmana’, e embora tenha dito: ‘A superioridade do sábio sobre o devoto é como a superioridade da lua cheia sobre todas as estrelas’?

Meu anfitrião ainda me encara, sem dizer uma palavra e sem piscar, e começo a pensar que talvez minha explosão o tenha ferido profundamente. O músico, que não compreende persa o bastante para me acompanhar, olha, maravilhado, para o estrangeiro que falara com tanta emoção ao ‘Hakim’. Por fim, ‘Hakim’ envolveu-se em seu largo manto amarelo de lã de carneiro, como se estivesse sentindo frio. Então disse em voz baixa:

‘Mas… o senhor é muçulmano…’

Eu irrompo numa risada sonora e digo: não, não sou muçulmano. Mas vi tanta beleza no Islã que, às vezes, fico zangado quando vejo que o senhor a desperdiça… Se fui muito rude, perdoe-me. Não falei como inimigo.’

O senhor é muçulmano; só não sabe disso, eis tudo…’ Por que não diz agora, neste momento: «La ilaha illallah, Muhammadur Rasulullah — não há divindade além de Allah, e Muhammad é Seu Mensageiro»? E por que não se torna efetivamente muçulmano, tal como já é em seu coração? Diga estas palavras agora, irmão; amanhã irei com o senhor a Cabul e o levarei ao ‘Amir’, que o receberá de braços abertos. Ele lhe dará casas, jardins e gado, e todos nós o amaremos. Diga, querido irmão…

—‘Se algum dia eu pronunciar essas palavras, será porque meu coração encontrou a paz — não por causa das casas e dos jardins do ‘Amir’.’

Mas ele continuava insistindo: ‘O senhor já sabe muito mais sobre o Islã do que a maioria de nós. O que é que ainda não conseguiu compreender?’

—‘Não se trata de compreender, mas de crer sem nenhuma dúvida: ter a convicção de que o Alcorão é verdadeiramente a palavra de Allah, e não apenas a criação extraordinária de um grande homem…’

Mas, durante os meses seguintes, jamais consegui tirar da mente as palavras daquele meu amigo afegão.

De Cabul, viajei durante várias semanas a cavalo pelo sul do Afeganistão, passando pela antiga cidade de Ghazni. Foi de Ghazni que, cerca de mil anos atrás, o grande Mahmud partiu para conquistar a Índia. Atravessei Kandahar, que parece uma cidade estrangeira, onde se encontram algumas das tribos guerreiras mais ferozes do mundo. Cruzei o deserto no canto sudoeste do Afeganistão e voltei a Herat, de onde havia começado a estrada para percorrer o Afeganistão a pé.

Era o ano de 1926. No fim do inverno, deixei Herat — na primeira etapa da minha longa viagem de regresso à pátria, viajei de trem da fronteira afegã até Merv, no Turquestão russo; de lá, para Samarcanda; de Samarcanda, para Bucara e Tashkent; e, atravessando as estepes turcomanas, prossegui até os Urais e Moscou.

A primeira e mais duradoura impressão da Rússia soviética que ficou gravada em minha mente foi a de um enorme cartaz, belissimamente ilustrado, na estação ferroviária de Merv — nele se via um jovem proletário, vestido com uma camisa azul folgada, chutando com suas botas um homem ridículo, de barba branca e trajando uma túnica, para fora do céu coberto de nuvens. Sob o cartaz estava escrita esta lenda russa: «Assim, os trabalhadores da União Soviética expulsaram Deus do céu a pontapés.» Publicado pela Associação dos «Bezbojniki» (ateus) da República Socialista Soviética.

Aonde quer que eu fosse, em toda parte, esse tipo de propaganda antirreligiosa, autorizada pelo governo, saltava aos olhos: nos edifícios públicos, nas ruas e, deliberadamente, nas proximidades de qualquer lugar de culto. No Turquestão, naturalmente, a maioria desses lugares de culto eram mesquitas. Embora a oração pública em congregação não tivesse sido oficialmente proibida, as autoridades faziam todo o possível para impedir que as pessoas participassem dela. Eu ouvia com frequência, sobretudo em Bucara e Tashkent, que os agentes da polícia anotavam o nome de qualquer pessoa que entrasse numa mesquita; os exemplares do Alcorão eram reunidos num só lugar e destruídos. E um dos divertimentos dos jovens bezbojniki era atirar cabeças de porco para dentro das mesquitas. É preciso admitir: um costume realmente encantador.

Depois de viajar durante várias semanas pela Rússia asiática e europeia, quando atravessei a fronteira polonesa, soltei um suspiro de alívio. Fui diretamente para Frankfurt e reapareci no ambiente que havia sido tão familiar para mim durante tantos anos como jornalista. Não demorei a compreender que, durante a minha ausência, meu nome se tornara muito famoso e que agora eu era considerado um dos mais conhecidos entre os correspondentes estrangeiros da Europa Central. Alguns dos meus artigos — especialmente os que escrevera sobre a complexa psicologia religiosa dos iranianos — haviam atraído a atenção de eminentes orientalistas, e o reconhecimento que haviam recebido estava longe de ser insignificante. Graças a esse mérito, fui convidado a proferir várias palestras na Academia de Geopolítica de Berlim. Foi ali que me disseram que nunca antes alguém da minha idade — eu ainda não completara vinte e seis anos — havia recebido semelhante distinção. Muitos outros jornais, com a autorização do Frankfurter Zeitung, republicaram os artigos mais úteis ao público em geral. Fiquei sabendo que um dos meus artigos fora republicado cerca de trinta vezes. Em todos os aspectos, minha viagem pelo Irã havia sido extremamente proveitosa.

… … … … … … … … Foi nesse período que me casei com Elsa. Os dois anos que passei longe da Europa não enfraqueceram nosso amor; pelo contrário, tornaram-no ainda mais forte. E, com uma felicidade e uma alegria que nunca antes havia sentido na vida, afastei com um gesto de desdém os receios dela quanto à grande diferença entre as nossas idades.

— Mas como você pode se casar comigo? — argumentou Elsa. — Você ainda nem tem vinte e seis anos, e eu já passei dos quarenta. Pense um pouco: quando você tiver trinta anos, eu terei quarenta e cinco; e quando você chegar aos quarenta, eu já serei uma velha…

Eu ri alto: «E daí? Não consigo sequer imaginar meu futuro sem você.»

E, afinal, Elsa acabou cedendo.

Não exagerei quando disse que me era impossível imaginar o futuro sem Elsa. Sua beleza e sua graça natural haviam tornado Elsa tão irresistivelmente atraente para mim que eu não conseguia sequer olhar para outra mulher. E sua compreensão perspicaz daquilo que eu desejava da vida iluminava minhas esperanças e aspirações e as tornava mais concretas, mais definidas — mais concretas e definidas do que jamais poderiam tê-las tornado minhas próprias reflexões.

Certa vez — muito provavelmente uma semana depois de nosso casamento — Elsa comentou: “Que estranho que, entre todas as pessoas, justamente você despreze o misticismo na religião… Você mesmo é um místico — um tipo de místico por meio do conhecimento adquirido pelos sentidos; aproxima-se da vida ao seu redor tocando-a com as pontas dos dedos, vendo em cada coisa um delicado e complexo desenho místico — em muitas coisas que para outras pessoas parecem extremamente insignificantes, extremamente comuns… No entanto, no momento em que olha para a religião, você se torna inteiramente cerebral. Com quase todas as outras pessoas, aconteceria justamente o contrário…”

Mas Elsa não ficou realmente perplexa. Quando eu lhe falava do Islã, ela sabia o que eu estava buscando; embora talvez não sentisse uma necessidade tão intensa quanto a minha, era o amor que sentia por mim que a tornava minha companheira nessa busca.

Com frequência, nós dois recitávamos o Alcorão juntos e discutíamos seus diversos temas; e Elsa, assim como eu, ficava cada vez mais impressionada com a íntima ligação entre seus ensinamentos morais e suas instruções práticas para a vida real. Segundo o Alcorão, Allah não exige dos seres humanos uma obediência cega; ao contrário, apela à sua inteligência. Ele não permanece distante do destino humano; pelo contrário, está “mais próximo de vós do que a vossa veia jugular”. Ele não traçou nenhuma linha divisória entre religião e conduta social; e, talvez o mais importante de tudo, Allah não partiu do axioma de que a vida está necessariamente oprimida pelo conflito entre matéria e espírito, nem de que, para encontrar o caminho da luz, o espírito precisa ser libertado dos grilhões do corpo. A rejeição da vida e a mortificação do espírito, qualquer que seja sua forma, foram condenadas pelo Mensageiro em afirmações como: “Sabei que a ascese não é para mim” e “Não há monasticismo no Islã”. O desejo humano de viver não foi apenas reconhecido como um impulso positivo e fecundo; também foi revestido da santidade de um axioma moral. Na prática, ensinava-se ao ser humano o seguinte: não apenas “podes” fazer pleno uso da tua vida, como também “deves” fazê-lo.

Uma forma coerente do Islã começou a tornar-se clara com tal finalidade e certeza que, às vezes, eu ficava atônito e deslumbrado. Ela ia tomando forma por um processo que poderia ser descrito como uma espécie de osmose mental; isto é, vinha tomando forma gradualmente, sem que eu fizesse qualquer esforço consciente para reunir e “sistematizar” os fragmentos de conhecimento que havia adquirido ao longo dos quatro anos anteriores de minha vida. Vi diante de mim algo semelhante a uma obra de arquitetura perfeita, cujos elementos e materiais haviam sido dispostos com tamanha harmonia que cada um era complemento e apoio dos demais, sem nada supérfluo nem nada faltando — um equilíbrio e uma serenidade que levavam o ser humano à percepção de que, na visão islâmica e em seus axiomas, cada coisa se encontrava “em seu devido lugar”.

Vinte e três anos atrás, um homem se levantou e declarou: “Sou apenas um ser humano mortal; mas Aquele que criou este universo ordenou-me que vos transmitisse Sua mensagem. Ordenou-me que vos ‘recordasse’ Sua existência, Sua onipotência e Sua onisciência, e que vos apresentasse um programa de conduta, para que pudésseis viver em harmonia com Seu desígnio e propósito. Se aceitardes meu apelo e este programa, segui-me.” Essa foi a essência da missão profética de Muhammad (que a paz esteja com ele).

O plano social que ele adotou é um plano para uma vida simples, que caminha de mãos dadas apenas com a verdadeira nobreza. Ele começa com o princípio de que o ser humano é um ser biológico, dotado de necessidades biológicas, e de que a natureza humana foi criada pelo Criador de tal modo que as pessoas precisam viver em grupos para satisfazer plenamente suas necessidades físicas, mentais e intelectuais: em suma, os seres humanos são “dependentes uns dos outros”. A continuidade do progresso de um indivíduo rumo à elevação espiritual (objetivo fundamental de todas as religiões) depende de ele ter recebido ajuda das pessoas ao seu redor, de ter sido encorajado e protegido por elas; naturalmente, as pessoas ao seu redor também esperam dele a mesma cooperação. Essa interdependência humana é a razão pela qual a religião do Islã não pôde ser separada da economia e da política. No caminho do desenvolvimento da personalidade real do ser humano, os obstáculos devem ser reduzidos ao mínimo e os incentivos, ampliados tanto quanto possível. Essa — e nada mais — é a concepção islâmica do verdadeiro dever da sociedade! E por isso era muito natural que o sistema ao qual o Profeta Muhammad deu forma durante os vinte e três anos de sua missão não dissesse respeito apenas às questões espirituais, mas também contivesse uma estrutura para todos os tipos de atividades individuais e sociais. Esse sistema não apenas elevava o conceito da boa conduta individual, mas também atribuía plena importância à ideia de que uma sociedade equilibrada deveria surgir como resultado dessa boa conduta. Nele se traça apenas o esboço de uma comunidade política — apenas um esboço, pois os pormenores das necessidades políticas humanas são limitados pelo tempo e, por isso, mutáveis —, e há também um esquema de direitos individuais e responsabilidades sociais que antecipa corretamente as realidades da evolução histórica. O modo de vida islâmico abrange todos os aspectos da vida — morais e físicos, individuais e sociais. Nos ensinamentos do Mensageiro, os problemas do corpo e da mente, as questões sexuais e econômicas, receberam seu lugar legítimo ao lado dos problemas da teologia e da adoração; e nada relacionado à vida jamais foi considerado tão insignificante que não pudesse ser incluído no âmbito do pensamento religioso — nem mesmo problemas puramente mundanos como o comércio, a herança, os direitos de propriedade ou a posse da terra!

Todas as disposições da lei islâmica foram concebidas para proporcionar oportunidades iguais, benefícios e bem-estar a todos os membros da sociedade, sem distinção de nascimento, raça ou sexo, e independentemente da lealdade social. Nenhum privilégio foi reservado ao fundador dessa sociedade ou aos seus descendentes. Tampouco existia a noção de classes. Todos os direitos, deveres e benefícios aplicavam-se igualmente a todos os que acreditavam no Islã. Não há necessidade de sacerdotes para mediar entre Deus e os homens, pois Ele sabe o que têm diante de si e o que ocultam às suas costas. A lealdade é devida somente a Deus e a Seu Mensageiro, aos próprios pais e à sociedade cujo objetivo é estabelecer o reino de Deus na Terra. O Islã não reconhece lealdade a ninguém mais, nem deixa espaço para lealdades do tipo: “Meu país, esteja ele certo ou errado”, ou “Minha nação é que está certa”. Ao explicar esse princípio, o Profeta afirmou repetidas vezes, com extrema clareza: “Não é dos meus ummah aquele que proclama objetivos partidários tribais; não é dos meus ummah aquele que luta pelos interesses partidários de sua tribo; e não é dos meus ummah aquele que morre por afeição partidária à sua tribo”.

Antes do Islã, todas as organizações políticas — inclusive as de base teocrática ou semiteocrática — estavam limitadas pelas estreitas concepções de tribo e de homogeneidade tribal. Assim, os reis-deuses do antigo Egito não pensavam em nada além do vale do Nilo e de seus habitantes; e, no primitivo Estado teocrático dos hebreus, mesmo quando se considerava que Deus governava o reino, Deus era inevitavelmente o Deus dos filhos de Israel! Em contrapartida, no âmbito do pensamento corânico, não há lugar para a lealdade ao nascimento ou à tribo. O Islã concebeu uma sociedade estatal autossuficiente que rejeita as divisões convencionais de tribo e nação. Nesse aspecto, o objetivo do Islã e do cristianismo é idêntico; pode-se dizer que ambos desejam formar uma comunidade internacional, construída sobre a lealdade a um ideal comum. Mas, enquanto o cristianismo se contentou em defender esse princípio apenas no plano moral e, ao aconselhar seus seguidores a dar a César o que lhe era devido, confinou seu apelo universal ao campo espiritual, o Islã apresentou ao mundo o ideal de uma organização política na qual a consciência divina seria a principal chave do comportamento prático dos homens e o único fundamento de todas as instituições sociais.

Assim, ao completar aquilo que o cristianismo havia deixado incompleto, o Islã acrescenta um novo capítulo ao desenvolvimento da humanidade: oferece o primeiro exemplo de uma sociedade livre, baseada em um ideal, em contraste com as sociedades fechadas do passado, limitadas por raça ou por fronteiras geográficas.

O Islã concebe e dá origem a uma civilização na qual não há lugar para o nacionalismo, nem para interesses estabelecidos, divisões de classe, uma instituição eclesiástica sacerdotal ou uma aristocracia hereditária. Na realidade, não existe no Islã qualquer ocupação determinada pelo nascimento. O objetivo era estabelecer uma teocracia orientada para Deus e uma democracia entre os homens. A característica mais importante dessa nova civilização — que distinguiu completamente o Islã de todos os demais movimentos da história humana — é o fato de que se concebeu que ela seria construída com base no consentimento voluntário dos povos envolvidos e, na prática, nasceu justamente desse consentimento voluntário. Em todas as demais comunidades e civilizações conhecidas pela história, o progresso social resultou da pressão de interesses conflitantes e de forças sociais opostas — no Islã, porém, não foi assim. Aqui, o progresso da sociedade é parte integrante de uma constituição fundamental; em outras palavras, existe desde a origem um verdadeiro contrato social — não no sentido da retórica a que os detentores do poder de épocas posteriores recorreram para proteger seus privilégios, mas como a verdadeira fonte histórica da civilização islâmica. O Alcorão diz:

Vede, Deus comprou dos crentes seus corpos, suas vidas e seus bens, e, em troca, concedeu-lhes a promessa do Paraíso… Portanto, alegrai-vos pelo que comprastes, pois isto é uma grande conquista.

Eu sabia que essa grande conquista — o único exemplo, na história, de um verdadeiro contrato social — só havia sido concretizada na prática durante algum tempo. Ou, dito de outro modo, durante apenas certo período houve uma tentativa ampla de concretizá-la na realidade. Menos de cem anos após a morte do Mensageiro, a forma estatal original do Islã começou a ser corrompida e, nos séculos seguintes, o programa fundamental foi gradualmente relegado ao segundo plano. O conflito dinástico pelo poder tomou o lugar do livre consentimento de homens e mulheres livres. A monarquia hereditária, tão profundamente contrária ao pensamento religioso do Islã quanto o politeísmo, e igualmente contrária às concepções políticas islâmicas, logo ocupou o palco; e, com ela, vieram os conflitos e as conspirações entre diferentes dinastias, a lealdade tribal e suas noções de bem e mal, a opressão e a degradação geral da religião ao nível de serva do poder político. Em suma, surgiu todo o grupo dos bem conhecidos “interesses estabelecidos” da história. Durante algum tempo, grandes pensadores islâmicos tentaram resgatar o verdadeiro ideal do Islã das mãos da distorção e elevá-lo, mas os que vieram depois deles, inferiores em talento, desapareceram, dois ou três séculos mais tarde, no pântano estagnado das convenções intelectuais vulgares. Abandonaram a responsabilidade de pensar por si mesmos e contentaram-se em repetir as fórmulas mortas de épocas anteriores. Esqueceram que toda “opinião” humana é limitada pelo tempo, que nela há margem para o erro e que, por isso, é sempre necessário dar-lhe uma nova forma. O impulso original do Islã, que no início era tão forte e poderoso — suficiente, durante algum tempo, para elevar a Comunidade muçulmana a grandes alturas no campo da cultura — manifestou-se naquele luminoso mundo de sonhos, repleto de realizações científicas, literárias e artísticas, que os historiadores descrevem como a idade de ouro do Islã. Mas, depois de mais alguns séculos, esse vigor e esse impulso também morreram por falta de alimento espiritual, e a civilização muçulmana tornou-se progressivamente mais estagnada e desprovida de força criadora.

. ..          .. .                  .. .                  .. .

Eu não tinha nenhuma dúvida quanto à situação atual do mundo muçulmano. Durante os quatro anos que passei naqueles países, vi que, embora o Islã ainda esteja vivo — visível na maneira peculiar como seus seguidores veem o mundo e no reconhecimento silencioso dos princípios islâmicos relativos aos deveres morais —, eu próprio estava mais atraído pela força e pelas possibilidades contidas nesse plano do que pelo fracasso dos muçulmanos de hoje em pô-lo em prática, como aqueles que o seguem. Para mim, bastava saber que, bem no início da história do Islã, havia sido feita, ainda que por pouco tempo, uma tentativa bem-sucedida de transformar esse plano em realidade. E aquilo que pareceu possível em certa época talvez também possa tornar-se possível em outra. Dizia a mim mesmo: que importa se os muçulmanos se afastaram dos ensinamentos fundamentais e permaneceram mergulhados na preguiça e na ignorância? E que importa se não vivem de acordo com o ideal que o Profeta da Arábia lhes apresentou há mil e trezentos anos — se esse próprio ideal continua aberto a todos os que desejam sinceramente ouvir sua mensagem?

E também pode ser, penso comigo, que essa mensagem seja ainda mais indispensável para os que vieram depois — mais do que para os contemporâneos de Maomé. Eles viviam num ambiente muito mais simples que o nosso e, por isso, a solução de seus problemas e dificuldades era muito mais fácil. O mundo em que vivo está inteiramente abalado, pois não há consenso sobre o que é bom e o que é mau no plano espiritual e, consequentemente, também nos planos social e econômico. Eu não acreditava que fosse necessária a “salvação” do indivíduo; mas acreditava que a salvação da sociedade moderna era indispensável. Com uma certeza cada vez maior, mais do que em qualquer outra época, sinto que o nosso tempo necessita de uma base filosófica para um novo contrato social: precisa de uma fé que nos revele o vazio do progresso material pelo progresso e que, apesar disso, dê à vida neste mundo o que lhe é devido; que nos ensine a estabelecer um equilíbrio entre as necessidades espirituais e físicas; e que, assim, nos salve da catástrofe para a qual avançamos temerariamente.

.. .                 … ……                       .. .

Não será exagero dizer que, naquele período da minha vida, o problema do Islã — que então era para mim precisamente um problema — havia tomado conta da minha mente, ocultando todo o resto. Naquele momento, a minha profunda concentração voltava-se para seus estágios iniciais, quando ele era apenas uma atração intelectual por um ideal e uma cultura desconhecidos, talvez fascinantes. Mas então isso se transformara numa busca apaixonada pela verdade. Comparada a essa busca, até a excitação das aventuras da viagem dos dois anos anteriores se tornou insignificante; e, como consequência, ficou difícil para mim concentrar-me na redação do novo livro que o editor da Frankfurter Zeitung esperava de mim, com toda a razão.

O Dr. Simon inicialmente viu com indulgência a minha evidente procrastinação na redação do livro. Afinal, eu acabara de voltar de uma longa viagem e tinha direito a algum tipo de férias. Meu casamento recente também tornara necessário um certo afastamento da rotina da escrita. Mas, quando essas férias e esse descanso começaram a prolongar-se para além do que o Dr. Simon considerava razoável, ele disse que eu já devia retornar ao mundo dos mortais. Olhando para trás, parece-me que ele era muito sensato; mas, naquele momento, pareceu-me diferente. Suas perguntas frequentes e urgentes sobre “o livro” produziram um resultado oposto ao que ele esperava: tive a impressão de que um fardo havia sido colocado sobre meus ombros. Assim, comecei a sentir irritação sempre que pensava no livro. Eu estava mais ocupado com o que ainda precisava descobrir do que com a descrição do que já havia visto.

Por fim, exasperado, o Dr. Simon comentou asperamente: “Não creio que esse livro jamais seja escrito por você. Você sofre de ‘horror libri’.”

Respondi, como se tivesse sido picado: “Minha doença pode ser algo ainda mais grave do que isso. Talvez eu sofra de ‘horror scribendi’.”

“Muito bem, se é dessa enfermidade que você sofre”, respondeu ele imediatamente, na minha cara — “você acha que a Frankfurter Zeitung é o lugar adequado para você?” Uma palavra puxou outra, e nossa divergência gradualmente se transformou numa discussão. Naquele mesmo dia, demiti-me da Frankfurter Zeitung e, uma semana depois, parti com Elsa para Berlim.

É claro que eu não tinha intenção de abandonar o jornalismo. Afinal, mesmo deixando de lado o fato de que escrever me proporcionava um meio de vida confortável e prazeroso — algo que aquele “livro” havia destruído temporariamente —, essa era a única maneira de eu voltar ao mundo muçulmano. E eu queria voltar ao mundo muçulmano a qualquer preço. Mas, com a reputação que havia conquistado nos quatro anos anteriores, não foi difícil para mim estabelecer novas relações com jornais. Depois de romper com o Frankfurter, fiz acordos muito satisfatórios com três outros jornais: o Neue Zürcher Zeitung, de Zurique; o Telegraaf, de Amsterdã; e o Kölnische Zeitung, de Colônia. A partir de então, meus artigos sobre o Oriente Médio seriam publicados simultaneamente nesses três jornais. Embora não pudessem ser comparados ao Frankfurter Zeitung, eles estavam entre os jornais mais importantes da Europa.

Por algum tempo, Elsa e eu nos instalamos em Berlim. Eu pretendia concluir ali minhas palestras em série na Academia de Geopolítica e continuar meus estudos sobre o Islã.

Meus antigos amigos escritores ficaram felizes ao me ver novamente. Mas, quando fui para o Oriente Médio, por algum motivo já não foi fácil retomar nossa relação exatamente do ponto em que a havíamos deixado. Havíamos nos tornado estranhos; já não falávamos a mesma linguagem intelectual. Em particular, nenhum dos meus amigos demonstrou uma compreensão solidária daquilo que me absorvia: o Islã. Quando tentei explicar-lhes que, como concepção intelectual e social, o Islã era superior a qualquer outra ideologia, todos eles, pode-se dizer sem exceção, balançaram a cabeça, perplexos e surpresos. Embora às vezes reconhecessem a lógica de uma ou outra proposição do Islã, a maioria pensava que as religiões antigas pertenciam ao passado e que a exigência do nosso tempo era uma nova visão “humanista”. Mesmo aqueles que não rejeitavam de uma só vez toda a legitimidade da religião institucional não estavam dispostos, de modo algum, a abandonar a atitude ocidental segundo a qual, por estar manifestamente relacionada aos assuntos mundanos, faltava ao Islã aquele “misticismo” que as pessoas têm o direito de esperar da religião.

Fiquei ainda mais surpreso ao descobrir que justamente o aspecto do Islã que mais me havia atraído — isto é, sua recusa em dividir a realidade física e a espiritual em verdades separadas, bem como sua ênfase na razão para alcançar a fé — despertava pouquíssimo interesse no coração daqueles intelectuais que, em outros aspectos, estavam acostumados a reivindicar para a razão a maior influência na vida. Somente no campo religioso eles recuavam com tanta facilidade de sua habitual postura racionalista e realista. Nesse aspecto, não consegui ver diferença alguma entre os poucos amigos meus que eram devotos da religião e aqueles que não aceitavam considerá-la algo mais do que uma tradição desgastada.

Com o tempo, porém, compreendi onde estava o problema deles. Comecei a perceber que, aos olhos daqueles que haviam sido criados num ambiente de ideias cristãs — uma linha de pensamento que enfatizava o sobrenatural, supostamente inerente a toda experiência religiosa genuína —, uma religião com uma perspectiva fortemente racionalista parecia afastar-se do valor espiritual da religião. Essa atitude não se limitava aos cristãos crentes: como resultado da longa convivência da Europa exclusivamente com o cristianismo, sem contato com qualquer outra religião, até os europeus céticos haviam aprendido, inconscientemente, a olhar para toda experiência religiosa através das lentes das concepções cristãs. E só consideravam uma experiência religiosa “verdadeira” quando ela vinha acompanhada daquele arrepio de temor e devoção diante de algo oculto e incognoscível para a razão. O Islã não satisfaz essa exigência: ele insiste numa integração dos aspectos físicos e espirituais da vida, num plano inteiramente natural. Na realidade, a visão de mundo islâmica é tão diferente da visão de mundo cristã que, ao aceitar-se a verdade de uma, inevitavelmente se levantam dúvidas quanto à verdade da outra, pois é sobre a visão de mundo cristã que se fundamenta a quase totalidade das concepções morais do Ocidente.

No meu caso, porém, a situação era a seguinte: eu sentia que estava sendo impelido em direção ao Islã. Mas uma última hesitação me obrigou a adiar o passo final e irreversível. A ideia de aceitar o Islã pareceu-me a perspectiva de entrar numa ponte erguida sobre o vazio entre dois mundos diferentes: uma ponte tão longa que, antes que sua outra extremidade se tornasse visível, seria preciso chegar a um ponto além do qual não haveria retorno. Eu sabia muito bem que, se me tornasse muçulmano, teria de romper todos os vínculos com o mundo em que havia sido criado. Não havia outra alternativa possível. Não era possível seguir verdadeiramente a mensagem de Maomé e, ao mesmo tempo, manter uma ligação interior com uma sociedade governada por concepções inteiramente opostas. Mas será que o Islã era realmente uma mensagem vinda de Deus — ou apenas a sabedoria humana de um homem grandioso, porém sujeito ao erro e às falhas…?

Um dia, em setembro de 1926, Elsa e eu viajávamos pelo metrô de Berlim. Estávamos num vagão de primeira classe. Meu olhar distraído pousou num homem bem-vestido sentado diretamente à minha frente: era evidente que se tratava de um rico homem de negócios; sobre os joelhos trazia uma bela pasta, e na mão direita usava um grande anel de diamante. Ocorreu-me ociosa reflexão de como o rosto daquele homem corpulento se encaixava perfeitamente no quadro de prosperidade que se podia ver em toda a Europa Central naquela época — uma prosperidade que parecia ainda mais evidente por ter surgido depois de vários anos de inflação, quando toda a vida econômica havia sido devastada e assumido uma aparência repulsiva, sem exceção. Quase todos agora se vestiam bem e tinham comida em abundância, e por isso o homem à minha frente não me pareceu uma exceção. Mas, quando olhei para seu rosto, tive a impressão de estar olhando para um rosto feliz. Parecia preocupado — e não apenas preocupado, mas profundamente infeliz; seus dois olhos fitavam o espaço à frente com uma expressão vazia, e os cantos da boca pareciam contraídos pela dor, embora não por uma dor física. Não queria ser indelicado. Por isso desviei o olhar e, logo depois, vi uma mulher, bastante graciosa e bonita. Em seu rosto também havia uma expressão estranhamente infeliz, como se estivesse pensando em algo ou passando por alguma experiência dolorosa para ela. Apesar disso, seu rosto permanecia imóvel, como se estivesse preso num sorriso fixo; não tenho dúvida de que aquilo se tornara habitual para ela. Depois me virei e comecei a observar os rostos de todos os outros passageiros do vagão — sem exceção, eram pessoas vestidas com roupas caras e que comiam e bebiam em abundância; e em quase todos eles vi uma expressão de tristeza, tão oculta que parecia que o dono daquele rosto estava completamente inconsciente dela.

Penso que é realmente algo extraordinário. Nunca antes havia visto tantos rostos infelizes ao meu redor, ou talvez eu mesmo nunca tivesse procurado aquilo que agora se manifestava tão intensamente neles. A ideia tornou-se tão forte que falei disso a Elsa. Ela também começou a olhar em volta, com os olhos atentos de uma pintora acostumada a ler os rostos das pessoas. Depois, voltou-se para mim, espantada, e disse: «Você tem razão; todos eles olham como se estivessem sofrendo os tormentos do inferno. Fico pensando: será que eles próprios sabem o que está acontecendo dentro deles?»

Eu sei que não sabem. Se soubessem, não poderiam continuar desperdiçando a vida como fazem. Acreditando em verdades obrigatórias, sem outro objetivo na vida além do desejo de melhorar seu padrão de vida, não poderiam arruinar a existência dessa maneira, mantendo como única esperança a aquisição de cada vez mais meios de conforto material, aparelhos cada vez mais sofisticados (gadgets) e, talvez, mais poder —

Quando voltamos para casa, meus olhos de repente pousaram sobre minha escrivaninha, onde estava aberto um exemplar do Alcorão que eu vinha lendo. Mecanicamente, peguei o Alcorão para guardá-lo. Mas, quando ia fechá-lo, meus olhos caíram sobre a página aberta diante de mim, e comecei a ler:

— Ficais dominados pela cobiça de querer sempre mais, até chegardes aos vossos túmulos. Não, não é assim; logo sabereis. Não, não é assim; certamente sabereis. Se soubésseis com o conhecimento da certeza, certamente veríeis que estais no inferno. Então o vereis com os próprios olhos da certeza, e nesse dia sereis interrogados sobre o que fizestes com as graças que vos foram concedidas.

Por um momento fiquei sem palavras; nada me saía da boca. Parecia-me que o livro tremia em minhas mãos. Depois, estendi-o a Elsa: — Leia isto. Não é a resposta ao que vimos no metrô?

Sim, era a resposta: uma resposta tão definitiva que, de repente, todas as dúvidas foram reduzidas a pó. Agora compreendi, sem sombra de dúvida: o Livro que eu segurava nas mãos era um Livro revelado por Deus. Pois, embora tivesse sido apresentado à humanidade há mais de 1.300 anos, nele se antecipava algo que só poderia ser verdadeiro nesta nossa época mecânica, complexa e dominada por fantasias irreais.

A cobiça sempre existiu no ser humano; mas nunca antes havia ultrapassado o simples interesse em acumular coisas, nem se transformado numa obsessão que torna indistinta a visão de todo o resto: um impulso irrefreável de obter mais, fazer mais, arquitetar mais estratagemas, ter hoje mais do que ontem e amanhã mais do que hoje. Um demônio montou nos ombros dos homens e os conduz, açoitando seus corações, rumo a objetivos que brilham ao longe, ironicamente, e que, assim que são alcançados, desaparecem num vazio insignificante. Promete sempre: à frente há novos objetivos — objetivos ainda mais brilhantes, ainda mais sedutores — até que permanecem no limite do horizonte; e essa fome, essa fome insaciável por objetivos sempre novos, devora a alma dos homens. Não; se soubésseis, veríeis o inferno em que estais —

Percebi que aquilo não era apenas a sabedoria humana de algum homem do remoto passado da distante Arábia. Por mais sábio que ele fosse, seria absolutamente impossível a um homem assim, por suas próprias forças, prever os sofrimentos próprios do século XX. Do Alcorão ergueu-se uma voz que vinha da voz maior e mais sublime de Maomé…

cinco

A escuridão caiu sobre o pátio da Mesquita do Profeta, onde apenas aqui e ali surgiam alguns pontos de luz, vindos das lâmpadas a óleo penduradas em longas correntes entre os pilares dos arcos. O xeque Abdullah Bulayhid está sentado, com a cabeça inclinada sobre o peito e os olhos fechados. Quem não o conhecesse poderia pensar que adormecera; mas eu sei que ele está ouvindo minha narrativa com profunda concentração e tentando compará-la com o vasto padrão de sua própria experiência sobre as pessoas e seus corações. Depois de muito tempo, ele ergue a cabeça e abre os olhos:

—E depois? O que você fez então?

—Fiz o que era natural e inevitável, xeque. Procurei e encontrei um amigo muçulmano. Ele era indiano e, naquela época, dirigia a pequena comunidade muçulmana de Berlim. Eu lhe disse: Quero aceitar o Islã. Ele estendeu a mão direita para mim, e eu coloquei a minha mão direita sobre a dele; então, na presença de duas testemunhas, declarei: Lā ilāha illā Allāh, Muhammadur Rasūlullāh — testemunho que não há divindade senão Deus e que Muhammad é Seu Mensageiro1[Esta declaração de fé é o único rito religioso obrigatório para se tornar muçulmano. No Islã, as palavras Mensageiro e Profeta podem ser usadas uma em lugar da outra no caso dos principais profetas, que trazem cada um uma nova mensagem, como Muhammad, Jesus, Moisés e Abraão.] Algumas semanas depois, minha esposa também aceitou o Islã.

—E o que seus familiares disseram então?

—Não, eles não gostaram. Quando contei ao meu pai que havia me tornado muçulmano, ele nem sequer respondeu à minha carta. Alguns meses depois, minha irmã me escreveu dizendo que meu pai me considerava morto… Então enviei outra carta e assegurei-lhe que minha conversão ao Islã não havia provocado nenhuma mudança em minha atitude para com ele nem no amor que sentia por ele. Pelo contrário, o Islã me ensinou a amar e honrar meu pai e minha mãe acima de todos. Mas também não obtive resposta a essa carta.

—Seu pai certamente é muito apegado à religião dele…

—Não, xeque, ele não é, e esse é o aspecto mais surpreendente desta história. Creio que ele me considera um renegado — um apóstata —, não tanto da religião dele (pois a religião jamais o prendeu com tanta força), mas da sociedade em que foi criado e do meio ao qual está ligado.

—«E depois disso, não voltaste a encontrá-lo?»

—«Não, logo depois de aceitarmos o Islã, minha esposa e eu deixámos a Europa. Já não nos era possível continuar ali. Nunca mais voltei»… 2[Em 1935, a nossa relação foi novamente reavivada, quando o meu pai finalmente compreendeu as razões pelas quais eu havia aceitado o Islã e foi capaz de lhes dar o devido valor, embora nunca mais nos tivéssemos encontrado। 1942 até esse ano, mantivemos correspondência regular; nesse mesmo ano, os nazis deportaram o meu pai e a minha irmã de Viena, e mais tarde eles morreram em campos de concentração nazis।

 

 

Jihad

Um

Quando eu saía da Mesquita do Profeta, uma mão agarrou uma das minhas; virei-me e deparei com os bondosos olhos envelhecidos de Sidi Muhammad az-Zubai, líder dos Senussi.

—«Pai, que feliz estou por te ver depois de tantos meses! Que as bênçãos de Deus sejam derramadas sobre os teus passos nesta cidade abençoada do Profeta…»

Caminhamos lentamente, de mãos dadas, pela estrada coberta de cascalho que vai da mesquita até ao mercado principal. Sidi Muhammad, vestido com a túnica que os árabes e os berberes do Norte de África usam, juntamente com um turbante na cabeça, é uma figura conhecida em Medina. Vive aqui há vários anos. À medida que avançamos, muitas pessoas param-nos no caminho para o cumprimentarem. Esses cumprimentos são uma homenagem não só aos seus setenta anos, mas também à sua fama como um dos líderes da heroica luta de libertação da Líbia.

—«Pai, quero informar-te de que Sayyid Ahmad está em Medina. A saúde dele não vai bem. Ficará muito feliz por te ver. Quanto tempo ficarás aqui?»

—«Somente até depois de amanhã», respondo, «mas certamente não partirei sem ver Sayyid Ahmad. Vamos, vamos até ele agora mesmo.»

—Não há homem em toda a Arábia a quem eu ame mais do que Sayyid Ahmad; pois não se encontrará ninguém que tenha se sacrificado por um ideal de maneira tão completa e tão desinteressada quanto ele. Ele é erudito e guerreiro. Dedicou toda a sua vida ao renascimento espiritual da comunidade muçulmana e à luta por sua liberdade política — pois sabe muito bem que não é possível criar uma sem a outra. Como me lembro claramente do meu primeiro encontro com Sayyid Ahmad, em Meca, muitos anos atrás…

Ao norte da Cidade Santa ergue-se o monte Abu Qubays, centro de muitas lendas e histórias antiquíssimas. Além disso, dali, onde se encontra uma pequena mesquita caiada, coroada por dois minaretes baixos, descortina-se uma vista magnífica do vale de Meca: bem no fundo está a mesquita quadrada da Caaba, e as casas, coloridas e espalhadas como cenários de teatro, parecem subir por todos os lados pelas encostas nuas e rochosas das montanhas. Logo abaixo do cume do monte Abu Qubays há uma fileira de construções de pedra, suspensas sobre uma estreita ravina plana como um conjunto de ninhos de águias: o centro mecano da Irmandade Senussi. O velho com quem me encontro aqui é famoso em todo o mundo muçulmano: o Grande Senussi, Sayyid Ahmad. Aqui ele é um exilado. Depois de trinta anos de luta e de sete anos de peregrinações entre o Mar Negro e as montanhas do Iêmen, todos os caminhos de seu retorno à Cirenaica foram fechados. Nenhum outro nome causou tantas noites insones aos governantes coloniais do Norte da África — nem mesmo o do grande Abd al-Qadir da Argélia do século XIX, ou o de Abd el-Krim do Marrocos, que, em tempos mais recentes, foi como um espinho terrível no peito dos governantes franceses. Por mais inesquecíveis que esses nomes sejam para os muçulmanos, sua importância era apenas política. Mas a liderança de Sayyid Ahmad e sua tariqa atuaram durante muitos anos como uma imensa força espiritual.

Meu amigo javanês, Haji Agus Salim, apresentou-me a ele. Haji Salim gozava da posição de líder na luta pela liberdade política que então se travava na Indonésia. Ele viera a Meca para realizar o hajj. Quando Sayyid Ahmad soube que eu havia recentemente abraçado o Islã, estendeu-me a mão e disse suavemente:

—«Meu jovem irmão, bem-vindo entre os teus irmãos…»

Guerreiro intransigente pela religião e pela liberdade, avançando em direção à velhice, trazia gravada sobre as belas sobrancelhas a marca de uma profunda tristeza e dor. O rosto de Sayyid Ahmad, de barba levemente branca e com uma fisionomia sensível e inteligente, sulcada por profundas linhas de sofrimento, estava cansado. As pálpebras pendiam pesadamente sobre os olhos, fazendo-os parecer sonolentos. Também o som de sua voz era, sob o peso da tristeza e da dor, igualmente suave e grave. Mas às vezes uma súbita inspiração despertava nele; então seus olhos tornavam-se brilhantes, e sua voz aguda adquiria aos poucos majestade e vibração musical; e, das dobras de sua branca djellaba, erguia-se um braço como a asa de uma águia!

Ele era herdeiro de uma ideologia e de uma missão que, se realizadas, talvez tivessem provocado um renascimento no Islã moderno; apesar da idade e da doença, e embora o propósito de sua vida tivesse sido frustrado, esse grande herói do Norte da África não perdera seu brilho radiante. Tinha o direito de não se desesperar. Sabia que o desejo de um renascimento religioso e político segundo o verdadeiro espírito do Islã — objetivo do movimento Senussi — jamais poderia ser apagado dos corações das nações muçulmanas.

.. ..                .. ..                  .. ..

O avô de Said Ahmad era o grande erudito argelino Muhammad ibn Ali al-Senussi (o sobrenome foi tomado da tribo Banu Senus, na qual ele nasceu), que, na primeira metade deste século, sonhara com uma fraternidade islâmica que um dia abriria o caminho para o estabelecimento de uma verdadeira comunidade islâmica. Depois de viajar e estudar durante muitos anos em diversos países árabes, Muhammad ibn Ali al-Senussi estabeleceu em Meca, no monte Abu Qubais, a primeira zawiya, ou centro, da tariqa; em pouco tempo, conquistou um grande número de seguidores entre os beduínos do Hejaz. No entanto, não permaneceu em Meca: retornou ao Norte da África e, por fim, fixou residência permanente no oásis de Jaghbub, situado no deserto entre a Cirenaica e o Egito. Foi dali que sua mensagem se espalhou como um raio por toda a Líbia e para além das fronteiras líbias. Quando morreu, em 1859, os Senussi — como passaram a ser conhecidos todos os membros dessa tariqa — controlavam um vasto Estado, que se estendia desde a costa do Mediterrâneo até o interior da África equatorial e a região dos tuaregues do Saara argelino.

Naturalmente, a palavra “Estado” não descreve com exatidão essa criação incomparável, pois o Grande Senussi nunca desejou estabelecer um governo pessoal para si ou para seus descendentes; seu objetivo era criar uma base organizacional para o renascimento moral, social e político do Islã. Em função desse objetivo, nada fez para destruir as estruturas tribais tradicionais daquela região. Nem sequer desafiou a soberania nominal do sultanato turco sobre a Líbia — continuou a reconhecer o sultão turco como o califa do Islã — e dedicou todos os seus esforços a instruir os beduínos nos ensinamentos fundamentais do Islã, dos quais haviam se afastado no passado, e a despertar neles aquela consciência de fraternidade que era o propósito do Alcorão, mas que havia se perdido em grande parte após séculos de conflitos tribais. As numerosas zawiyas que a Senussiya fundou por todo o Norte da África levaram sua mensagem às tribos das regiões mais remotas e, em poucas décadas, produziram uma transformação quase inacreditável tanto entre os árabes quanto entre os berberes. Aos poucos, a anarquia intertribal do passado chegou ao fim, e os antigos guerreiros indisciplinados do deserto foram inspirados por um espírito sincero de ajuda mútua, algo que até então lhes era desconhecido. Nas zawiyas, seus filhos aprenderam não apenas os ensinamentos islâmicos, mas também muitos ofícios práticos e trabalhos manuais, antes desprezados pelos nômades guerreiros. Foram incentivados a cavar poços mais numerosos e melhores nas regiões que haviam permanecido estéreis durante centenas de anos; sob a direção dos Senussi, começaram a surgir, aqui e ali, como pontos dispersos no deserto cinzento, prósperos assentamentos. O comércio foi estimulado, e a paz e a ordem trazidas pelo sistema Senussi tornaram possível viajar até mesmo por regiões onde, no passado, nenhuma caravana conseguia avançar sem ser saqueada. Em suma, a influência dessa tariqa tornou-se um poderoso impulso para a civilização e o progresso; além disso, sua inabalável devoção religiosa elevou muito acima do nível a que estavam acostumados, pela experiência passada, os padrões morais dos habitantes desta parte do mundo. Quase todos os indivíduos, tribos e chefes tribais aceitaram voluntariamente a liderança espiritual do Grande Senussi; até mesmo as autoridades turcas das cidades costeiras da Líbia perceberam que, graças à liderança moral da tariqa, era agora muito mais fácil lidar com as tribos beduínas que outrora eram consideradas “indomáveis”.

Assim, por um lado, a tariqa concentrou seus esforços e tornou-se quase impossível separá-la da capacidade de governo das populações locais. A base do poder da tariqa Senussi estava em sua capacidade de libertar os simples beduínos religiosos e os tuaregues do Norte da África da estéril religiosidade ritualista dos tempos anteriores e despertá-los; em sua capacidade de encher seus corações com o desejo de viver em verdadeira harmonia com a mensagem essencial do Islã; e no mérito de criar neles a consciência de que todos trabalhavam pela liberdade, pela dignidade humana e pela fraternidade. Desde a época do Profeta, em nenhum lugar do mundo muçulmano havia surgido um movimento de tamanha amplitude que se aproximasse tanto, como o movimento Senussi, do modo de vida islâmico!

Essa era de paz foi despedaçada no último quarto do século XIX, quando a França começou a avançar para o sul, da Argélia em direção à África equatorial, e passou a ocupar, passo a passo, os territórios que antes eram livres sob a liderança dessa tariqa. Para defender essa liberdade, Muhammad al-Mahdi, filho e sucessor do fundador do movimento, foi obrigado a empunhar a espada — e nunca mais lhe foi possível embainhá-la. Essa longa luta foi uma verdadeira “jihad” islâmica, uma guerra de autodefesa, descrita no Alcorão nestes termos:

Lutai, no caminho de Deus, contra aqueles que combatem contra vós; mas não sejais vós os agressores, pois Deus certamente não ama os agressores. Combatei-os até que a opressão seja eliminada e todas as pessoas possam adorar livremente a Deus. Mas, se eles cessarem, toda hostilidade deverá cessar.

Mas os franceses não desistiram. Levaram cada vez mais fundo, para dentro dos países muçulmanos, suas bandeiras tricolores na ponta de suas baionetas.

Quando Muhammad al-Mahdi morreu, em 1902, seu sobrinho Sayyid Ahmad assumiu, em seu lugar, a liderança da tariqa. Desde os dezenove anos de idade, durante a vida de seu tio e depois, quando ele próprio se tornou o Grande Senussi, continuou lutando sem interrupção contra a penetração francesa na região que hoje é chamada de África Equatorial Francesa. Quando os italianos invadiram a Tripolitânia e a Cirenaica, em 1911, ele teve de conduzir a guerra em duas frentes. Essa nova e maior pressão obrigou-o a voltar sua principal atenção para o norte. Lutando lado a lado com os turcos e, depois que a Turquia abandonou a Líbia, sozinhos, Sayyid Ahmad e seus mujahidin Senussi — nome pelo qual esses guerreiros se designavam — combateram com êxito os invasores; apesar de suas armas superiores e de sua enorme vantagem numérica, os italianos só conseguiram, com grande dificuldade, firmar-se em algumas cidades costeiras!

A potência britânica havia então se estabelecido firmemente no Egito! Não parecia estar particularmente preocupada ao ver os italianos expandirem seu poder pelo interior do Norte da África. Por essas razões, naquela época a potência britânica não era hostil aos Senussi. Essa atitude de neutralidade era de extrema importância para a tariqa Senussi, pois todos os suprimentos dos “mujahidines” vinham do Egito, onde quase toda a população simpatizava com eles. Parece muito provável que, graças à neutralidade britânica, a Senussiya teria afinal conseguido expulsar completamente os italianos da Cirenaica. Mas, em 1915, a Turquia entrou na Grande Guerra ao lado da Alemanha, e o sultão otomano, como califa do Islã, convocou o Grande Senussi a atacar as forças britânicas no Egito e ajudar os turcos. Como o governo britânico estava naturalmente mais ansioso do que nunca para garantir a segurança de sua retaguarda no Egito, pediu a Sayyid Ahmad que permanecesse neutro. Em troca dessa neutralidade, estava disposto a reconhecer politicamente a tariqa Senussi da Líbia; estava até preparado para deixar nas mãos dos Senussi algumas oásis egípcias do deserto ocidental.

Se Sayyid Ahmad tivesse aceitado essa proposta, teria simplesmente seguido aquilo que o bom senso indicava inequivocamente. Ele não tinha nenhuma lealdade especial à Turquia; pois fora justamente essa Turquia que, alguns anos antes, entregara a Líbia à Itália, deixando apenas o próprio Senussi para lutar contra os italianos. A potência britânica não havia praticado nenhum ato hostil contra os Senussi; pelo contrário, havia lhes dado a oportunidade de obter suprimentos do Egito, que era seu único meio de abastecimento. Além disso, a declaração de jihad pelo sultão otomano, feita pelo governo de Berlim, certamente não preenchia as condições estabelecidas no Alcorão. Os turcos não estavam lutando em autodefesa; ao contrário, haviam se aliado a uma potência não muçulmana numa guerra de agressão. Portanto, tanto as considerações religiosas quanto as políticas apontavam ao Grande Senussi um único caminho: manter-se afastado de uma guerra que não era sua. Alguns dos líderes Senussi mais influentes — entre eles estava meu amigo Sidi Muhammad al-Azzubair — aconselharam Sayyid Ahmad a permanecer neutro. Mas o desejo sublime, embora irrealista, de proteger o fraco califa do Islã prevaleceu sobre os ditames da razão e o levou a tomar uma decisão equivocada. Ele declarou-se a favor dos turcos e atacou as forças britânicas no deserto ocidental.

Esse conflito de consciência e suas consequências no curso dos acontecimentos tornaram-se ainda mais trágicos no caso de Sayyid Ahmad — pois, para ele, não se tratava apenas de ganhos ou perdas pessoais; com isso, talvez tenha sido causado um dano irreparável ao nobre objetivo de toda a sua vida, da vida das duas gerações que o precederam e da vida de todos os Senussi. Por conhecê-lo, não tenho a menor dúvida de que o motivo por trás de seu ato era absolutamente desinteressado: seu objetivo era preservar a unidade do mundo muçulmano. Mas também tenho pouca dúvida de que, do ponto de vista político, ele jamais poderia ter tomado uma decisão pior. Ao declarar a jihad contra a potência britânica, sacrificou todo o futuro da tariqa Senussi — sem compreender plenamente isso naquele momento.

Por causa disso, foi obrigado a continuar lutando em três frentes: ao norte, contra os italianos; a sudoeste, contra os persas; e a leste, contra os britânicos. No início, obteve alguns êxitos. Quando, acuada pelo avanço germano-turco em direção ao Canal de Suez, a potência britânica se retirou dos oásis do deserto ocidental, Sayyid Ahmad ocupou-os imediatamente. Sob a liderança de Muhammad al-Azzubair — que, com sua sabedoria, se opusera tão veementemente a esse empreendimento — várias formações de tropas velozes montadas em camelos penetraram até as proximidades do Cairo. Mas, naquele exato momento, o curso da guerra mudou subitamente: o rápido avanço das forças germano-turcas foi detido no vale do Sinai, e o avanço transformou-se em retirada. Pouco depois, no deserto ocidental, os britânicos lançaram um contra-ataque contra as forças Senussi, ocuparam os oásis e os poços da região fronteiriça e, assim, cortaram a única rota de abastecimento dos mujahidines. O interior da Cirenaica, sozinho, não era capaz de abastecer e manter viva a população empenhada numa luta de vida ou morte, e os poucos submarinos alemães e austríacos que chegaram trazendo armas e munições não trouxeram mais que uma ajuda simbólica.

Em 1917, Sayyid Ahmad foi a Istambul de submarino, seguindo o conselho de seus assessores turcos, para providenciar um apoio mais eficaz. Mas, antes de partir, deixou a liderança da tariqa na Cirenaica nas mãos de seu primo, Sayyid Muhammad al-Idris. *[Rei da Líbia desde 1952] Idris, de temperamento mais conciliador que Sayyid Ahmad, tentou imediatamente concluir uma trégua com os britânicos e os italianos. Os britânicos, desde o início, não haviam gostado desse conflito com os Senussi. Por isso, sem hesitar, o governo italiano reconheceu oficialmente Sayyid Idris como “emir dos Senussi” para concluir a trégua. Idris conseguiu manter, até 1922, uma semindependência vacilante no interior da Cirenaica. Mas, quando ficou claro que os italianos na realidade não pretendiam cumprir o acordo e estavam decididos a colocar todo o país sob seu domínio, Sayyid Idris deixou o Egito, no início de 1923, em protesto, entregando a liderança dos Senussi a Umar al-Mukhtar, um seguidor fiel de longa data. Logo depois ocorreu a esperada violação da trégua, e a guerra na Cirenaica recomeçou.

Enquanto isso, na Turquia, Sayyid Ahmad começou a enfrentar decepção após decepção. Seu desejo era voltar à Cirenaica assim que alcançasse seu objetivo. Mas esse objetivo jamais foi alcançado, pois, assim que entrou em Istambul, começaram toda sorte de conspirações, em consequência das quais ele foi obrigado a adiar seu retorno semana após semana, mês após mês. Tornou-se quase claro para ele que aqueles que cercavam o sultão realmente não queriam que os senussitas tivessem êxito e fossem vitoriosos. O temor dos turcos era antigo: que os árabes recém-despertados tentassem novamente estabelecer sua liderança no mundo muçulmano! A vitória dos senussitas inevitavelmente proclamaria o advento de tal renascimento árabe e transformaria o grande Senussi — cuja fama na Turquia também era quase lendária — no indiscutível herdeiro do califado. Nem mesmo o fato de que ele próprio não alimentava semelhante ambição dissipou as suspeitas dos mais altos detentores do poder na Turquia; e, embora lhe fossem concedidas todas as honras e o mais elevado respeito compatíveis com sua posição, Sayyid Ahmad foi detido na Turquia de maneira discreta, porém efetiva. Quando o Califado Otomano desmoronou, em 1918, e depois as Potências Aliadas ocuparam Istambul, soou o dobre de finados de sua esperança ilusória e, ao mesmo tempo, todas as portas da Cirenaica se fecharam para ele.

Mas o ímpeto de sua inspiração pela unidade muçulmana não permitiu que Sayyid Ahmad permanecesse inativo. Quando as Potências Aliadas estavam desembarcando em Istambul, ele atravessou a fronteira e chegou à Ásia Menor para juntar-se a Kemal Atatürk — então ainda conhecido apenas como Mustafa Kemal —, que acabara de começar a organizar a resistência turca no interior da Anatólia.

É preciso lembrar que, no início, a luta empreendida por Kemal na Turquia apresentava os traços de uma luta islâmica; e, naqueles dias terríveis, somente o fervor religioso deu à nação turca a capacidade de combater as forças gregas, muitas vezes mais poderosas, às quais as Potências Aliadas forneciam todo o seu apoio e equipamento.

Para alcançar seu objetivo, Sayyid Ahmad começou a percorrer incansavelmente as diversas cidades e aldeias da Anatólia, empregando seus magníficos poderes espirituais e morais; e conclamou o povo a apoiar Mustafa Kemal, o “Ghazi” ou defensor da religião. A contribuição desse esforço do grande Senussi — e, com ele, o brilho e o esplendor de seu nome — para o êxito do movimento kemalista entre os simples camponeses da Anatólia foi incalculável; pois, para todos esses camponeses, os slogans nacionalistas não significavam absolutamente nada, ao passo que, havia gerações, acreditavam que sacrificar a própria vida pelo Islã era para eles uma questão de honra.

Mas também aqui o grande Senussi voltou a equivocar-se em seu julgamento — embora não no que dizia respeito ao povo turco, pois o fervor religioso deste o tornara vitorioso contra um inimigo muitas vezes mais poderoso. O erro de Senussi foi quanto às intenções do líder do povo turco. Pois, assim que o “Ghazi” alcançou a vitória, tornou-se claro para ele que havia uma enorme distância entre suas verdadeiras intenções e as expectativas que haviam sido suscitadas em sua nação. Atatürk baseou sua revolução social no Islã revivificado e animado por uma nova força vital — de modo desnecessário, até mesmo do ponto de vista do próprio Atatürk. Pois ele poderia facilmente ter aproveitado o intenso entusiasmo religioso de sua nação para criar uma iniciativa ativa e orientada para o progresso. Para isso, não teria precisado arrancá-la pela raiz de tudo aquilo que moldara sua cultura e a transformara em uma grande nação.

Profundamente decepcionado com as várias reformas ant islâmicas de Atatürk, Sayyid Ahmad afastou-se de toda atividade política na Turquia e, por fim, em 1923, partiu para Damasco. Embora se opusesse ali a várias das políticas internas de Atatürk, voltou a tentar convencer os sírios a se unirem à Turquia em nome da unidade muçulmana. Naturalmente, o governo do Mandato Francês passou a vê-lo com extrema desconfiança. Por volta de 1924, quando seus amigos descobriram que sua prisão era iminente, ele atravessou o deserto de automóvel e chegou à fronteira do Najd; dali partiu para Meca, onde foi recebido calorosamente pelo rei Ibn Saud.

Dois

— E como vão os trabalhos dos “mujahidin”, ó Sidi Muhammad? — pergunto, pois faz quase um ano que não recebo notícias da Cirenaica.

O rosto de Sidi Muhammad Azzubai, adornado por uma barba branca e redonda, escurece: “As notícias não são boas, meu filho. A guerra terminou há alguns meses. Os mujahidin foram derrotados. Até a última bala deles foi gasta. Agora, entre nossa desafortunada nação e a cólera dos seus opressores, resta apenas a misericórdia de Allah…”

— E que notícias há de Sayyid Idris?

— Sayyid Idris? — responde Sidi Muhammad, soltando um suspiro. — Sayyid Idris ainda está no Egito, esperando impotente — à espera de quê? — Ele é um homem muito bom, que Allah tenha misericórdia dele, mas não é um guerreiro. Vivia entre os seus livros; a espada não se ajusta bem à sua mão…

— Mas Umar al-Mukhtar — ele certamente não se rendeu? Ele havia ido para o Egito?

Sidi Muhammad para no meio do caminho e olha para mim, com os olhos arregalados de espanto: “Umar…? Então você também não ouviu isso?”

— O que eu não ouvi?

— Meu filho — diz ele suavemente —, Sidi Umar, que Allah tenha misericórdia dele, morreu há quase um ano…

Umar al-Mukhtar morreu… O leão da Cirenaica, que, mesmo tendo mais de setenta anos, não deixou de lutar pela liberdade de seu país até o último momento… Está morto… Durante dez longos anos… dez anos terríveis, ele foi a alma da resistência de sua nação, seu espírito enfrentando obstáculos cuja superação parecia impossível, enfrentando forças italianas dez vezes maiores que o seu exército… forças italianas equipadas com as armas mais modernas, carros blindados, aviões e canhões — enquanto Umar e seus mujahidin, sem forças por viverem quase em jejum, não tinham nada além de rifles e alguns cavalos, com os quais tiveram de travar uma guerra de guerrilha desesperada num país que havia sido transformado num enorme campo de prisioneiros…

Minha própria voz se torna difícil de acreditar quando digo: «Durante o ano e meio que se passou desde que voltei da Cirenaica, soube a cada instante que a destruição dele e de seus apoiadores era certa. Quanto não tentei convencê-lo a retirar-se para o Egito com os mujahideen que ainda estavam vivos, para que pudesse viver entre os membros de seu povo… E com que serenidade ele resistiu aos meus esforços para persuadi-lo, embora soubesse definitivamente que a morte — nada além da morte — o aguardava na Cirenaica. E agora, depois de cem batalhas, aquela morte tão esperada finalmente o alcançou… Mas diga-me: quando foi que ele caiu?»

Muhammad Azzubai balançou lentamente a cabeça e, quando saímos da estreita viela do mercado para a praça aberta e escura de Al-Manakh, disse-me:

—Ele não morreu em combate; foi ferido, capturado com vida e então os italianos o mataram… Enforcaram-no como a um simples ladrão…

—Mas como puderam fazer isso? —perguntei, com a voz tomada de espanto. Nem Graziani teria ousado cometer um ato tão terrível!

—Mas foi ele quem fez isso, foi ele quem fez isso —respondeu ele, com um riso misturado de escárnio. O general Graziani ordenou pessoalmente que o enforcassem até à morte. Sidi Omar e os seus vinte e cinco companheiros encontravam-se bem no interior do território ocupado pelos italianos quando decidiram visitar o mausoléu de Sidi Rafi, um companheiro do Mensageiro. O mausoléu ficava perto dali. De algum modo, os italianos descobriram a sua presença e bloquearam ambos os lados do vale com muitos homens. Não havia outro caminho para fugir e salvar-se. Sidi Omar e os mujahideen lutaram em legítima defesa; no fim, restaram apenas ele e dois dos seus companheiros. Por fim, o cavalo que montava foi atingido e morto por uma bala inimiga e, assim que o animal caiu, ele também rolou pelo chão. Mas o velho leão ainda empunhava o rifle e continuava a disparar. A certa altura, uma bala esmagou-lhe uma das mãos; então ele continuou a disparar com a outra, mas, por fim, também ficou sem munição. Então eles o capturaram, amarraram-no e levaram-no para Suluq. Ali, apresentaram-no diante do general Graziani. Este perguntou-lhe: “O que dirás se o governo italiano, por sua magnânima misericórdia, te permitir continuar vivo? Estás disposto a prometer que passarás pacificamente o resto dos teus anos?” Mas Sidi Omar respondeu: “Não cessarei de combater o teu povo e a ti até que abandoneis o país ou eu me despeça da vida. Juro, em nome d’Aquele que conhece o que há nos corações dos homens, que te digo: se neste momento as minhas duas mãos não estivessem atadas, lutaria contigo de mãos nuas, embora seja velho e esteja destroçado…”

Com isso, o general Graziani soltou uma gargalhada e ordenou que Sidi Omar fosse enforcado e morto no mercado de Suluq. Eles executaram a ordem. E fizeram milhares de muçulmanos, homens e mulheres, que estavam presos em várias tendas, reunirem-se e serem conduzidos como rebanhos de vacas e ovelhas, obrigando-os a assistir, no cadafalso, à morte do seu líder… .1[Este ato heroico dos italianos ocorreu em 16 de setembro de 1931।]

 

Três

Então, de mãos dadas, Muhammad Azzubai e eu dirigimo-nos para a zawiya senussi, isto é, o retiro religioso. A escuridão espalhava-se pela vasta praça. Deixáramos para trás o tumulto do mercado. A areia cedia sob as nossas sandálias. Aqui e ali, viam-se grupos de camelos de carga descansando; ao longe, na extremidade da praça, uma fileira de casas aparecia indistintamente contra o fundo do céu noturno encoberto de nuvens. Esta cena fez-me recordar a orla de uma floresta distante, aquelas florestas de zimbro da região planáltica da Cirenaica, onde encontrei Sidi Omar al-Mukhtar pela primeira vez; e a lembrança daquela viagem infrutífera ergueu-se dentro do meu peito com todo o pathos da escuridão, do perigo e da morte. Vi o rosto grave e melancólico de Sidi Omar inclinado sobre uma pequena chama bruxuleante e ouvi a sua voz fragmentada e solene: “Temos de lutar pela nossa religião e pela nossa liberdade até conseguirmos expulsar os invasores ou até morrermos nós mesmos… Não temos outra alternativa…”

.. .                  .. .                      .. .

Era uma missão extraordinária, que me levou à Cirenaica no fim de janeiro de 1931. Alguns meses antes — mais precisamente, no outono de 1930 — o Grande Senussi havia chegado a Medina. Passei horas em sua companhia e na de Muhammad al-Zubayr, discutindo a terrível crise dos mujahidin que, sob a liderança de Umar al-Mukhtar, continuavam lutando na Cirenaica. Ficou claro que, se não recebessem ajuda rápida e eficaz do mundo exterior, não conseguiriam resistir por muito mais tempo.

A situação na Cirenaica era, em linhas gerais, a seguinte: todas as cidades costeiras e alguns lugares ao norte de Jabal Akhdar — a chamada “Montanha Verde” da Cirenaica central — estavam sob o rígido controle dos italianos. Entre essas posições fortificadas, veículos blindados e um número considerável de tropas de infantaria patrulhavam incessantemente; a maioria delas era composta por askaris ou soldados eritreus. Em apoio a eles, um esquadrão de aviões voava frequentemente pelos céus, sobre as áreas rurais. Era absolutamente impossível para os beduínos — que constituíam o núcleo da força de resistência senussi — movimentarem-se sem serem imediatamente avistados pelo inimigo e atacados do ar. Muitas vezes acontecia que um avião de reconhecimento transmitia por rádio ao posto mais próximo a notícia da existência da tenda de alguma tribo beduína. Enquanto as metralhadoras do avião não lhes permitiam dispersar-se, vários veículos blindados avançavam diretamente através das tendas, dos camelos e das pessoas, matando indiscriminadamente todos os que encontravam ao alcance — mulheres, homens, crianças e animais. Os poucos seres humanos e animais que sobreviviam eram reunidos num só lugar e levados para o norte, como manadas de gado e ovelhas, para dentro do enorme cercado de arame farpado que os italianos haviam instalado no litoral. Naquela época, no fim de 1930, eles haviam reunido ali cerca de oitenta mil beduínos, além de várias centenas de milhares de bois, ovelhas e camelos, como rebanhos de animais, num espaço que não dispunha sequer de provisões para um quarto daquele número. Consequentemente, a mortalidade entre pessoas e animais era terrível. Além disso, os italianos estavam construindo uma barreira de arame farpado desde a costa marítima em direção ao sul, até Jaghbub, ao longo da fronteira egípcia. A valente tribo Maghariba, sob a liderança de seu invencível chefe al-Ataybis — que era o braço direito de Umar al-Mukhtar — ainda resistia firmemente ao inimigo nas proximidades da costa ocidental da Cirenaica. Mas a maioria das tribos já havia sucumbido ao número esmagador e ao armamento superior dos italianos. Mais ao sul, no interior, a tribo Zuwayya, sob a liderança do nonagenário Abu Qaraym, ainda travava uma jihad até a morte, mesmo depois de perder Jalu, o oásis central de sua tribo. No interior, os beduínos morriam aos milhares de fome e doenças.

O maior contingente que se podia reunir de uma só vez para a batalha em Sidi Umar mal passava de mil homens. Naturalmente, isso não se devia à falta de pessoas. No tipo de guerra de guerrilha que os mujahidin travavam, não era conveniente operar em grandes grupos de combatentes. Ao contrário, esse tipo de guerra dependia da rapidez e da mobilidade de pequenos grupos capazes de atacar, que surgiriam subitamente do nada e investiriam contra uma formação italiana ou uma base distante, capturando suas armas. Depois, desapareceriam sem deixar vestígio nas densas florestas de zimbro dos planaltos da Cirenaica e nos vales acidentados e ondulados dos leitos secos dos rios. Por mais audazes que fossem e por mais que considerassem a vida e a morte servas sob seus pés, era evidente que pequenos grupos desse tipo jamais poderiam obter uma vitória decisiva sobre um inimigo que possuía recursos quase ilimitados em população e armamentos. A questão, portanto, era como aumentar a força dos mujahidin, para que não fossem apenas capazes de infligir danos ao invasor por meio de ataques isolados, mas também de tomar as posições que o inimigo havia fortificado e ocupar, mantendo-as sob seu controle contra novos ataques.

O aumento da força senussi dependia de vários fatores: providenciar a chegada regular, a partir do Egito, dos alimentos indispensáveis; obter armas para enfrentar a devastação causada pelos aviões e veículos blindados, especialmente rifles antitanque e artilharia pesada; dispor de pessoal tecnicamente treinado no uso dessas armas e treinar os mujahidin para utilizá-las; e, por fim, estabelecer um sistema confiável de comunicação por rádio entre os vários grupos de mujahidin da Cirenaica, além de depósitos secretos de suprimentos no interior do território egípcio!

Durante quase uma semana, noite após noite, o Grande Senussi, Sidi Muhammad, e eu nos sentamos juntos para deliberar sobre o que poderia ser feito. Sidi Muhammad disse que, mesmo que de vez em quando se reforçassem as forças dos mujahidin na Cirenaica, isso não resolveria o problema. Acreditava que era preciso transformar novamente o oásis de Kufra, muito ao sul do deserto líbio, no centro de todas as guerras futuras. Kufra ainda estava muito além do alcance do exército italiano. Além disso, a sede da tariqa senussi sob a liderança de Sayyid Ahmad ficava em Kufra. Kufra situava-se numa rota de caravanas pelo deserto, direta — embora longa e difícil — em direção aos oásis egípcios de Bahariya e Farafra; por isso, era possível organizar ali o abastecimento de maneira muito mais eficaz do que em qualquer outro lugar do país. Ademais, poderia tornar-se um centro de reunião para os muitos milhares de emigrados cirenaicos que viviam nos diversos acampamentos do Egito. Desse modo, poderia transformar-se numa reserva regular de efetivos para a força guerrilheira de Sidi Umar, no norte. Se fosse devidamente treinada e equipada com armas modernas, Kufra seria capaz de repelir ataques de artilharia lançados por aviões voando baixo. Por outro lado, se os bombardeios fossem realizados de altitudes muito elevadas, haveria pouco risco real para as tendas, espalhadas a distâncias tão grandes umas das outras.

O Grande Senussi disse: se fosse possível reorganizar dessa maneira os métodos da luta, ele próprio retornaria a Kufa para dirigir dali todas as operações futuras. Para Sayyid Ahmad, era essencial restabelecer relações amistosas com o Governo britânico. Não é preciso dizer que, ao atacar as forças britânicas em 1915, Sayyid Ahmad havia transformado desnecessariamente o Governo britânico num inimigo feroz. Talvez uma melhoria desse tipo nas relações não fosse impossível, pois a Grã-Bretanha não estava nada satisfeita com o espírito expansionista da Itália. Sobretudo quando Mussolini anunciava ao mundo, com grande alarde, que pretendia restaurar o “Império Romano” em ambas as margens do Mediterrâneo e, com olhos cobiçosos, também voltava seu olhar para o Egito. Meu profundo interesse pelo destino dos Senussis não se devia apenas à minha admiração pelo extremo heroísmo empregado na conquista de um objetivo justo; eu estava ainda mais preocupado com a possível repercussão que uma vitória dos Senussis poderia produzir em todo o mundo árabe. Como muitos muçulmanos, durante muitos anos eu também havia depositado minhas esperanças em Ibn Saud, como possível líder de um renascimento islâmico. Mas agora que essa esperança se havia revelado falsa, em todo o mundo muçulmano eu só conseguia ver um movimento que se esforçava sinceramente para concretizar os ideais da sociedade islâmica: o movimento Senussi, naquele momento empenhado numa jihad desesperada para sobreviver.

E Sayyid Ahmad sabia que meus sentimentos e minha paixão estavam íntima e profundamente ligados aos objetivos do movimento Senussi. Por isso, virou-se para mim, fitou diretamente meus olhos e disse:

— Ó Muhammad, você pode ir à Cirenaica em nosso nome e verificar o que pode ser feito pelos mujahideen? Talvez você seja capaz de enxergar tudo com mais clareza do que os meus homens…

Olhei para ele e balancei a cabeça em silêncio, embora estivesse consciente da confiança que depositava em mim. Por isso, não fiquei inteiramente surpreso com sua proposta. Ainda assim, ela quase me tirou o fôlego. A possibilidade de uma aventura tão grandiosa deixou-me tão atordoado que isso não pode ser expresso em palavras. Mas o que mais me emocionou foi pensar que talvez eu também pudesse fazer algo pela causa pela qual tantos homens haviam se sacrificado!

Sayyid Ahmad estendeu a mão para uma prateleira acima de sua cabeça e pegou um exemplar do Alcorão envolto em tecido de seda. Colocou-o sobre os joelhos, tomou minha mão direita entre as suas e a pousou sobre o Alcorão:

— Jure, Muhammad, por Aquele que conhece tudo o que há no coração dos homens: você sempre protegerá a confiança dos mujahideen…

Prestei o juramento — e jamais, em toda a minha vida, tive tanta certeza quanto naquele momento sobre o juramento que havia feito.

Para a missão que Sayyid Ahmad me confiara, o mais absoluto sigilo era indispensável; minha relação com o Grande Senussi era amplamente conhecida, e não seria possível escapar à atenção das missões diplomáticas existentes em Jedda. Por isso, não teria sido sensato correr o risco de viajar abertamente em direção ao Egito e ser preso. A conspiração que eu havia recentemente descoberto por trás da revolta de Faisal al-Dawish certamente não havia aumentado minha reputação aos olhos do Governo britânico. Ao contrário, era muito provável que, no instante em que eu pisasse em solo egípcio, eles passassem a vigiar atentamente meus movimentos. Assim, decidimos manter em segredo também a minha ida ao Egito. Eu atravessaria o Mar Vermelho a bordo de algum veleiro árabe e desembarcaria secretamente, sem passaporte nem visto, em algum lugar isolado do Alto Egito. No Egito, eu poderia circular livremente disfarçado de um hejazi, pois os habitantes das cidades e aldeias egípcias estavam acostumados a ver as muitas pessoas que chegavam de Meca e Medina, fosse para fins comerciais, fosse à procura de possíveis peregrinos do Hajj. E, como eu falava com grande facilidade o dialeto hejazi, poderia passar sem dificuldade em qualquer lugar como habitante de uma dessas duas cidades sagradas.

Foram necessárias várias semanas de preparação para concluir os preparativos. Estes incluíam organizar uma troca secreta de cartas com Sidi Umar, na Cirenaica, bem como com aqueles no Egito que mantinham relações com os Senussis. Assim, na primeira semana de janeiro de 1931, Zayed e eu deixamos Yanbu, a cidade portuária do Hejaz, e chegamos a uma parte da costa onde quase não havia movimento de pessoas. Não havia lua no céu; era uma noite de lua minguante, e caminhar de sandálias pela estrada era extremamente difícil. Certa vez, quando tropecei, a coronha da pistola Luger presa sob o meu cafetã hejaziano atingiu-me as costelas e, com isso, a natureza terrível da aventura arriscada em que eu me lançara tornou-se clara para mim.

Aqui estou eu, dirigindo-me a um lugar determinado, na companhia de um marinheiro árabe desconhecido que me levará, em seu pequeno veleiro, através do mar, para me desembarcar secretamente em algum ponto da costa egípcia. Eu não tinha nenhum documento que pudesse revelar a minha identidade. Portanto, mesmo que fosse detido no Egito, não seria fácil provar quem eu era! Mas, comparado ao perigo que me aguardava, o risco de passar algumas semanas numa prisão egípcia não significava nada para mim. Eu teria de atravessar transversalmente todo o deserto ocidental, evitando ser visto pelos aviões de patrulha italianos e, provavelmente, também pelos patrulheiros de carros blindados, e chegar ao centro de um país onde ninguém conhecia outra linguagem além da linguagem da espada. Por que estou fazendo isso? pergunto a mim mesmo.

Embora o perigo não me fosse desconhecido, nunca o procurei apenas na expectativa de uma aventura. Sempre que me vi envolvido em algum perigo, na sua raiz havia uma resposta a um impulso (Urge), consciente ou inconsciente, intimamente relacionado com a minha própria vida. Então, qual era o significado desta minha iniciativa atual? Eu realmente acreditava que a minha intervenção faria a maré voltar-se a favor dos mujahidins? Quis acreditar que sim; mas, no fundo do meu coração, sabia que partira numa missão irreal, dominada pela fantasia. Então, por Deus, estaria eu assim lançando a minha vida ao perigo como nunca antes, quando a promessa diante de mim era tão insignificante?

Mas, antes mesmo que a pergunta se formasse conscientemente, a sua resposta tornou-se clara diante de mim.

Quando conheci o Islã e o aceitei como o código da minha vida, pensei que todas as minhas perguntas e todas as minhas buscas tinham chegado ao fim. Mas, gradual e muito lentamente, comecei a perceber que não era esse o fim: pois aceitar um código de vida como obrigatório implica, pelo menos para mim, um desejo inseparável de vê-lo seguido por pessoas que compartilham as mesmas convicções. Não se tratava de segui-lo apenas num sentido pessoal; para mim, o Islã era um caminho, não um objetivo, e os guerrilheiros destemidos de Umar al-Mukhtar lutavam com a vida e o sangue pela liberdade de seguir esse caminho, exatamente como haviam feito os nobres Companheiros mil e trezentos anos antes. Por mais incerto que fosse o resultado, ajudá-los naquela luta dura e encarniçada era, para mim, uma necessidade pessoal, tão indispensável quanto a salat…

E então surgiu a costa. Sobre a suave ondulação das pequenas ondas que batiam nos seixos da margem, balançava o barco a remos que nos levaria para longe, até o navio ancorado na escuridão. Quando o solitário remador se levantou no barco que nos aguardava, virei-me para Zayed e disse:

— Irmão Zayed, você sabe que partimos numa aventura tão arriscada que pode revelar-se mais perigosa para nós dois do que todos os Ikhwan reunidos de Ad-Dabish? Você não sente vontade de voltar à paz de Medina e aos seus amigos?

— Tio, o seu caminho é o meu caminho — respondeu Zayed. O senhor mesmo não me disse que a água que não corre fica estagnada e poluída? Vamos seguir adiante — e que a água se torne limpa enquanto corre…

O navio é um daqueles grandes e grotescos veleiros que navegam rente à costa da Arábia: inteiramente construído de madeira, está impregnado do cheiro de peixe seco e algas marinhas. Na popa há um convés elevado, dois mastros para a armação das velas em estilo latino e, entre os dois mastros, uma grande cabine de teto baixo. O “rais”, ou comandante do navio, é um experiente árabe idoso de Mascate. Sob um enorme turbante multicolorido, dois olhos pequenos, semelhantes a contas de um rosário, fitavam-me semicerrados; neles vi uma expressão vigilante, moldada por muitos anos de riscos em atividades ilegais e expedições clandestinas — e o punhal curvo, de bainha prateada, enfiado em sua cintura, não parecia ser apenas um adorno.

—Marhaba, ahlan wa sahlan, meus amigos —gritou ele, dando-nos as boas-vindas assim que pisamos a bordo—. Este é certamente um momento auspicioso!

Quantas vezes, penso comigo, ele não terá dado da mesma maneira as boas-vindas sinceras aos pobres “hajis” que escondeu secretamente a bordo no Egito e depois desembarcou na costa do Hejaz, sem pensar nem por um instante no bem-estar deles, para que pudessem fugir do pesado imposto do hajj que o governo saudita cobrava daqueles que iam peregrinar à Casa de Deus! E quantas vezes não terá dito exatamente estas mesmas palavras aos traficantes de escravos que, violando completamente a lei islâmica, capturaram algum desventurado abissínio para vendê-lo no mercado de escravos do Iêmen! Ainda assim —consolo-me—, por mais repugnante que seja o contexto da experiência adquirida por nosso “rais”, ela nos será indispensável. Pois poucos marinheiros possuem uma experiência igual à sua das rotas do Mar Vermelho. E, por isso, podemos confiar que ele será capaz de nos desembarcar numa costa segura.

.. .             .. .            .. .             .. .

E, de fato, quatro noites depois de embarcarmos naquele navio, fomos desembarcados novamente numa pequena barca a remos, na costa do Alto Egito, ao norte do porto de Quseir. Ficamos espantados, pois o “rais” não quis aceitar pagamento algum por nos transportar através do mar. “Porque”, disse ele, sorrindo de dentes à mostra, “meu senhor já pagou o que me devia! Que Allah os ajude.”

Como eu esperava, não foi difícil para nós circular por Quseir sem atrair a atenção de ninguém, pois os habitantes da cidade estavam acostumados a ver pessoas vestidas à maneira do Hejaz. Na manhã seguinte à nossa chegada, reservamos lugares para nós num ônibus precário com destino a As-Siut, às margens do Nilo — e, apertados entre uma mulher terrivelmente gorda, sentada com uma cesta de galinhas no colo enorme, de um lado, e um velho “camponês”, que, assim que viu nossas feições, começou a recordar a peregrinação que fizera dez anos antes, do outro — Zaid e eu iniciamos a primeira etapa de nossa viagem pela África.

Sempre achei inevitável que quem quer que se arrisque em atividades secretas e perigosas tenha a consciência de ser suspeito aos olhos de todos que encontra e de que seu disfarce pode ser facilmente descoberto. Mas, para minha surpresa, naquele momento eu não tinha esse pensamento! Durante os anos que passei na Arábia, havia penetrado tão completamente na vida de seus habitantes que, de algum modo, nunca me ocorria que eu pudesse ser outra coisa senão um deles. E embora eu jamais tivesse partilhado da mentalidade particularmente comercial dos habitantes de Meca e Medina, naquele momento sentia-me tão inteiramente à vontade no papel de um malum que, sem demora, envolvi-me com alguns outros passageiros numa discussão quase profissional sobre as virtudes do hajj. Zaid participou do jogo com enorme entusiasmo e, assim, várias horas de nossa viagem transcorreram numa conversa animada.

Em As-Siut, tomamos o trem e, por fim, chegamos à pequena cidade de Beni Suef. De lá, fomos diretamente à casa de nosso amigo senussi, Ismail al-Dhib. Era um homem baixo, robusto, alegre e sorridente, que falava o melodioso árabe do Alto Egito. Como era apenas um modesto comerciante de tecidos, não figurava entre as pessoas importantes da cidade; mas sua lealdade à tariqa senussi fora comprovada muitas vezes, e sua afeição pessoal por Sayyid Ahmad fazia dele alguém duplamente digno de confiança. Já era bastante tarde; mesmo assim, acordou um criado e mandou que preparasse comida para nós. Enquanto esperávamos pela refeição, foi-nos contando, uma a uma, as providências que havia tomado.

Primeiramente, assim que recebeu a mensagem de Sayyid Ahmad, ele entrou em contato com uma personalidade famosa da família real egípcia. Durante muitos anos, esse homem fora um fervoroso e ativo apoiador dos ideais senussitas. Esse príncipe foi plenamente informado sobre o objetivo da minha missão. Ele prontamente concordou em fornecer-me o dinheiro necessário. Também providenciou montarias e dois guias confiáveis para a nossa viagem pelo deserto até a fronteira da Cirenaica. Nosso anfitrião nos informou: naquele momento, eles nos aguardavam em algum palmeiral nos arredores de Beni Suef.

Eu e Zayed agora tiramos nossas roupas do Hijaz, pois esse vestuário poderia despertar grande curiosidade nas rotas desérticas ocidentais. Em seu lugar, deram-nos calças de algodão de corte norte-africano e camisas justas, além de uma espécie de manto de lã — com capuz cobrindo a cabeça — usado pelas pessoas comuns no oeste do Egito e na Líbia. De baixo do alicerce de sua casa, Ismail retirou duas pequenas espingardas de tipo italiano, adequadas para soldados montados a cavalo, “pois para vocês será mais fácil conseguir novamente munição e pólvora para esse tipo de rifle entre os mujahidin”.

Na noite seguinte, partimos da cidade seguindo as instruções de nosso anfitrião. Os dois guias que nos deram eram beduínos da tribo Awlad Ali, do Egito, muitos dos quais eram apoiadores dos Senussi. Um deles chamava-se Abdullah, um jovem cheio de vida e vigor que havia participado da guerra na Cirenaica um ano antes. Para ele era fácil dar-nos muitas informações sobre o que poderíamos esperar encontrar ali. Esqueci o nome do outro. Era magro, abatido e falava raramente. Contudo, não era menos digno de confiança que Abdullah, muito mais bonito que ele. Os quatro camelos que os acompanhavam — aquelas robustas e velozes camelas da raça Bisharin — haviam sido claramente escolhidos por suas qualidades. As selas colocadas em seus dorsos não eram muito diferentes do tipo de sela que eu estava acostumado a usar na Arábia. Como teríamos de avançar rapidamente, sem permanecer muito tempo em nenhum lugar, não se cogitava encontrar comida cozida ao longo do caminho. Assim, nossos mantimentos eram simples: um grande saco cheio de tâmaras, outro saco menor, tão abarrotado de doces feitos de farinha de trigo grossa e tâmaras que quase se rompia! Havia também odres de couro amarrados a três dos camelos.

Pouco antes da meia-noite, Ismail nos abraçou e pediu a bênção de Allah para a nossa expedição. Percebi que Ismail estava muito perturbado. Com Abdullah à frente, deixamos para trás o palmeiral e partimos; pouco depois, sob a luz brilhante da lua, avançávamos em passo rápido pelo deserto pedregoso, rumo ao noroeste.

Era necessário que evitássemos encontrar os homens encarregados da administração da fronteira egípcia. Sabíamos que seus automóveis e seus policiais montados em camelos podiam patrulhar aquela região do deserto ocidental. Por isso, tivemos o cuidado de manter-nos o mais longe possível das principais rotas percorridas pelas caravanas. Mas não havia grande risco nisso, pois todos os veículos que circulavam entre os vales de Bahariya e do Nilo, até as regiões longínquas do norte, passavam por Fayum.

Na primeira noite, percorremos trinta milhas e, durante o dia, permanecemos em um bosque de tamargueiras. Na noite seguinte e nas noites posteriores, percorremos distâncias ainda maiores; como resultado, ao amanhecer do quarto dia chegamos à margem daquela profunda depressão onde se encontra o oásis de Bahariya.

Montamos nossa tenda atrás de algumas grandes rochas, fora do oásis. O oásis era formado por vários povoados e fazendas separados, sendo o maior deles a aldeia de Bawiti. Enquanto armávamos a tenda, Abdullah desceu a pé pela íngreme ravina rochosa até a depressão coberta pela sombra das palmeiras — não lhe seria possível voltar antes do anoitecer, pois precisava encontrar em Bawiti nosso contato. Por isso, deitamo-nos para dormir à sombra das rochas: depois do esforço físico de conduzir os camelos durante toda a noite e do frio, que descanso tão confortável e agradável! Ainda assim, dormi muito pouco, pois todo tipo de ideia havia tomado conta da minha mente.

Enquanto pensava em nosso plano, ocorreu-me que não seria muito difícil manter uma linha permanente de comunicação entre Beni Suef e Bahariya. Eu estava firmemente convencido de que, tomando as devidas precauções, até grandes caravanas poderiam viajar entre esses dois lugares sem chamar a atenção de ninguém. Apesar de haver um posto de controle da administração da fronteira em Bawiti — conseguíamos ver, do nosso esconderijo, os edifícios desse posto através do deserto — talvez fosse possível instalar um aparelho de rádio clandestino em algum povoado ainda mais isolado ao sul de Bahariya. Algumas horas depois, Abdullah e nosso contato, um velho berbere que viera com ele, deram-me novas garantias a esse respeito. Verificou-se que o governo exercia sobre esse oásis uma autoridade bastante frouxa e, mais importante ainda, que seus habitantes eram, em grande número, seguidores da tradição senussita.

Cinco noites excruciantes sobre o dorso dos camelos: primeiro, atravessando rochas, cascalho e terreno irregular, e depois dunas de areia niveladas, passando pelo desabitado oásis de Sitra e seu lago de um azul-escuro sem vida, cujas margens são cercadas por caniços e moitas de palmeiras selvagens; atravessando a região de Ajd, mais baixa que a planície, onde se erguem rochas de argila endurecida, extraordinariamente irregulares, que, banhadas pelo luar, adquiriram uma aparência fantasmagórica e sobrenatural; e, ao fim da quinta noite, a imagem do oásis de Siwa surgiu pela primeira vez diante dos meus olhos.

Durante muitos anos, um dos desejos que acalentei cuidadosamente foi ver uma vez aquele remoto oásis, que outrora fora sede de um templo tão famoso e cenário das atividades de um oráculo célebre em todo o mundo. Mas, por alguma razão, esse meu desejo jamais se realizara. E agora, ao nascer da aurora, o oásis estendia-se diante de mim: uma extensa faixa de terreno pedregoso circundava uma montanha solitária; e, sobre essa montanha, as casas da cidade — cujas fundações se encontravam em cavernas escavadas profundamente na rocha — subiam em camadas, umas sobre as outras, em direção a um alto minarete angular que se erguia sobre o cume plano da montanha; uma estranha miscelânea de construções em ruínas, tal como os homens só costumam ver em sonhos… Um desejo intenso tomou conta de mim: penetrar através de suas misteriosas muralhas e percorrer as vielas que haviam testemunhado a era dos faraós; e contemplar as ruínas do templo onde o oráculo predissera ao rei lídio Creso sua destruição e anunciara a Alexandre da Macedônia suas vitórias universais.

Mas, desta vez também, meu desejo permaneceu irrealizado. Embora tão próximo, a cidade de Siwa continuaria fechada para mim — um lugar onde nenhum desconhecido ou estrangeiro jamais chega. Pois qualquer recém-chegado imediatamente atrairia a atenção de todos. Visitar um lugar tão distante do contato com o mundo exterior seria uma verdadeira tolice. Como se encontra quase na fronteira da Líbia, a administração fronteiriça egípcia mantém sobre ele a mais rigorosa vigilância. E não há dúvida de que o lugar está repleto de espiões pagos pelos italianos. Assim, nesta viagem, não estava no meu destino conhecer Siwa. Com tristeza, consolei-me e apaguei Siwa dos meus pensamentos.

Demos uma ampla volta ao redor dos limites da cidade e, por fim, armamos nossas tendas sob um emaranhado selvagem de arbustos. Não queríamos permanecer ali mais do que o tempo estritamente necessário para esperar, tão perto da fronteira. Por isso, Abdullah, sem sequer descansar, partiu depressa, conduzindo o camelo, para procurar numa aldeia próxima um homem a quem Sayyid Ahmad encarregara de atravessar a fronteira e encontrar-se conosco. Algumas horas depois, voltou com dois novos guias e quatro camelos jovens e vigorosos, que nos levariam adiante. Esses guias eram membros da tribo beduína Barasa, de Jabal Akhdar; eram homens do próprio Umar al-Mukhtar. Ele os enviara especialmente para nos conduzir através do espaço deserto entre os dois oásis ocupados pelos italianos, Jaghbub e Jalu, até o planalto da Cirenaica. Era lá que eu deveria encontrar Umar.

Abdullah e seu amigo despediram-se de nós para voltar às suas casas na aldeia, no Egito. Sob a orientação de Khalil e Abdur Rahman, os dois mujahidin, partimos para uma viagem de uma semana através de uma região de estepe desértica quase sem água, que se elevava gradualmente em direção a Jabal Akhdar. Foi a viagem pelo deserto mais difícil que já fizera na vida; embora, se nos ocultássemos cuidadosamente durante o dia e viajássemos apenas à noite, não fosse muito grande o risco de sermos vistos pelos guardas italianos. Ainda assim, a necessidade de evitar os poços, espalhados a grandes distâncias uns dos outros, transformou essa longa viagem num pesadelo. Apenas uma vez conseguimos dar água aos camelos num poço abandonado de Wadi al-Mrar e reencher nossos odres. E, mesmo assim, quase desfalecemos.

Chegamos ao poço mais tarde do que esperávamos. Na verdade, quando começamos a tirar água para os nossos animais, o sol despontava no céu oriental; e, quando terminamos, o sol já se encontrava baixo no céu ocidental, acima do horizonte. Segundo Khalil, ainda teríamos de esperar duas horas inteiras para alcançar aquele lugar rochoso e baixo que seria nosso esconderijo durante o dia. Mas, assim que retomamos a viagem, o sinistro zumbido de um avião despedaçou o silêncio do deserto; poucos minutos depois, um pequeno avião monomotor apareceu sobre nossas cabeças e começou a girar, descendo cada vez mais, em círculos. Não havia lugar onde nos esconder. Então saltamos dos camelos e nos espalhamos; exatamente nesse momento, o piloto começou a disparar seu canhão.

— Deitem-se, deitem-se no chão! — gritei. — Não se mexam nem um pouco; fiquem estendidos como mortos.

Mas Khalil — que, durante seus muitos anos entre os mujahidin, certamente tivera muitas experiências de confrontos desse tipo — não ficou deitado fingindo-se de morto. Deitou-se de costas, apoiando a cabeça numa pedra, e, apoiando o rifle no joelho erguido, começou a atirar contra o avião que avançava; não disparava a esmo: antes de cada tiro, mirava cuidadosamente, como se praticasse o disparo contra um alvo específico. Foi um ato de terrível audácia. Pois o avião vinha diretamente contra ele, num mergulho raso, metralhando a areia. Mas certamente os tiros de Khalil atingiram o avião. Pois, por um instante, o aparelho pareceu dar uma cambalhota, ergueu rapidamente o nariz para o céu e subiu. Talvez o piloto tenha pensado que não valia a pena matar quatro homens em troca de arriscar a própria segurança. Deu mais uma ou duas voltas sobre nós e depois desapareceu, dirigindo-se para leste, na direção de Jaghbub.

—Aqueles filhos da puta italianos são covardes e medrosos —diz Khalil calmamente enquanto nos reunimos novamente—; querem matar, mas não querem que um arranhão sequer atinja a própria pele.

Nenhum de nós ficou ferido. Mas o camelo de Abd al-Rahman morreu. Colocamos sua sela e seu alforje sobre o camelo de Zayed e, dali em diante, ele passou a viajar sentado numa sela leve atrás de Zayed.

Três dias depois, entramos na floresta de zimbros de Jabal Akhdar e, agradecidos, trocamos os cansados camelos pelos cavalos que um grupo de mujahideen havia deixado para nós num lugar secreto, sob sua proteção. A partir de agora, o deserto ficaria para trás. Galopamos com nossos cavalos por um planalto montanhoso e rochoso. O planalto é marcado como uma teia por inúmeros leitos secos de cursos d’água, e ali crescem zimbros que, em alguns lugares, formam uma floresta quase impenetrável. Dentro do território ocupado pelos italianos, essa floresta sem trilhas é o terreno de caça dos mujahideen.

….             ..        ..               ..     ..

Mais quatro noites de viagem nos levaram a um lugar chamado Wadi at-Taaban. O nome do lugar é extremamente apropriado, pois significa “o vale dos exaustos”. Era ali que deveríamos encontrar Umar al-Mukhtar. Escondemo-nos em segurança numa ravina coberta por uma floresta densa, deixamos nossos cavalos amarrados pelas patas dianteiras atrás de uma rocha e aguardamos a chegada do leão de Jabal Akhdar. A noite estava muito fria, sem estrelas, e carregada de um silêncio entrecortado por murmúrios!

Ainda levaria algumas horas para Sidi Umar chegar; e, como a noite estava mergulhada numa escuridão impenetrável, nossos dois amigos barasa viram que não havia razão sensata para não reabastecermos, nesse intervalo, nossos odres nos poços de Bu-Safaya, a alguns quilômetros a leste! Na verdade, a menos de um quilômetro de Bu-Safaya havia um posto italiano fortificado—

—Mas —diz Khalil— aqueles cães sarnentos não terão coragem de sair de trás das próprias muralhas numa noite de escuridão tão absoluta.

Assim, Khalil partiu a cavalo, levando Zayed consigo e os dois odres vazios. Para que não fizessem barulho ao passar pelo caminho rochoso, amarraram os cascos dos cavalos, envolvendo-os com pedaços de pano rasgado. Depois que os dois desapareceram na escuridão, eu e Abd al-Rahman sentamo-nos junto um do outro, encostados a uma rocha baixa, para nos aquecermos. Acender uma fogueira seria extremamente perigoso.

Cerca de uma hora depois, alguns galhos entre os zimbros começaram a farfalhar, e ouviu-se sobre a pedra o som suave de sandálias. Imediatamente alerta, meu companheiro ficou de pé, com o rifle nas mãos, por alguns instantes, e fitou atentamente a escuridão. Um chamado em voz baixa — não muito diferente do lamento de uma raposa — veio do interior da mata. Abd ur-Rahman respondeu, levando as mãos em forma de concha diante da boca e emitindo um som semelhante. Duas figuras humanas surgiram diante de nós. Eram homens a pé, armados de rifles. Quando se aproximaram, um deles disse: “O caminho de Allah”; e Abd ur-Rahman respondeu: “لا حول ولا قوة إلا بالله” — “Não há poder nem força senão em Allah”, o que me pareceu uma palavra-código.

Ambos os recém-chegados vestiam mantos dos beduínos líbios, jerds completamente esfarrapados. Um deles pareceu reconhecer Abd ur-Rahman, pois este segurou suas duas mãos e o saudou com sincera cordialidade. Fui apresentado aos dois mujahideen, que, um após o outro, apertaram minha mão da mesma maneira. Um deles disse: “Fi amanillah. Que Allah o ajude; Sidi Umar está chegando.”

Ficamos de pé, atentos. Talvez dez minutos depois, ouvimos novamente o farfalhar das folhas entre os arbustos de zimbro… Então, das sombras, surgiram mais três homens, vindos de três direções, e avançaram diretamente sobre nós, empunhando os rifles. Quando perceberam que estávamos ali justamente para encontrá-los, imediatamente se espalharam outra vez pelos arbustos, em várias direções. Evidentemente, haviam se distribuído assim pela moita para vigiar atentamente a segurança de seu líder.

E então ele chegou… Veio montado num pequeno cavalo, cujos cascos estavam envoltos em tecido. De cada lado dele caminhavam dois homens, e alguns outros vinham logo atrás. Quando se aproximou das pedras onde esperávamos apoiados, um de seus homens ajudou-o a descer do cavalo, e percebi que ele caminhava com dificuldade (mais tarde soube que havia sido ferido num ataque repentino apenas dez dias antes). À luz da lua nascente, pude vê-lo claramente: um homem de estatura mediana, de ossos fortes; uma barba curta, branca como a neve, emoldurava seu rosto profundamente marcado por rugas. Seus olhos estavam escondidos no fundo das órbitas; pelas rugas ao redor deles, podia-se imaginar que, em outras circunstâncias, seus olhos talvez se iluminassem facilmente com o riso. Mas agora não havia neles nada além de dor sombria e coragem.

— Bem-vindo, meu filho — disse ele; enquanto falava, seus olhos me examinavam atentamente dos pés à cabeça, como se eu estivesse sendo avaliado — os olhos de um homem para quem o perigo é um companheiro constante!

Um de seus homens estendeu um cobertor no chão, e Sidi Umar sentou-se ali, deixando repousar todo o peso do corpo. Abd ur-Rahman inclinou-se, beijou-lhe a mão e, com a permissão do chefe, sentou-se sob a cobertura da pedra que pendia sobre nossas cabeças para acender uma pequena fogueira. À luz apagada daquele fogo, Sidi Umar leu a carta que eu trouxera comigo de Sayyid Ahmad. Leu-a cuidadosamente, depois dobrou-a e a manteve por algum tempo sobre a cabeça, num gesto de respeito e devoção que, por assim dizer, jamais se vê nas terras árabes, mas é frequente no Norte da África. Então voltou-se para mim com um sorriso:

— Sayyid Ahmad, que Allah lhe prolongue a vida, falou muito bem de você. Você quer nos ajudar. Mas não sei de onde pode vir auxílio, senão do Todo-Poderoso, do Misericordioso Allah! Para dizer a verdade, chegamos quase à extremidade final do tempo que nos foi concedido!

— Mas este plano concebido por Sayyid Ahmad — interrompi, fazendo uma pergunta — não poderia ser um novo começo? Se fosse possível organizar um abastecimento regular e fazer de Kufra uma base para futuras expedições, não seria possível repelir os italianos?

O sorriso amargo e impotente com que Sidi Omar me respondeu era algo que eu jamais tinha visto em toda a minha vida: “Kufra…? Perdemos Kufra. Os italianos a tomaram há quase quinze dias…”

A notícia deixou-me estupefato. Durante todos aqueles meses passados, eu e Sayyid Ahmad vínhamos elaborando nossos planos com base na ideia de que Kufra poderia tornar-se o centro de uma nova concentração para uma resistência firme. Agora que Kufra se perdera, nada restava aos Senussis além das montanhas oprimidas de Jabal Akhdar — nada, certamente, além da maldição da ocupação italiana, que se apertava cada vez mais: perder lugar após lugar, numa morte lenta e inevitável, com a garganta estrangulada, sem que a pressão se aliviasse nem por um instante!

— Como foi a queda de Kufra?

Com um gesto cansado, Sidi Omar fez sinal para que um de seus homens se aproximasse: “Este homem lhe contará a história… Ele é um dos poucos que escaparam de Kufra. Chegou apenas ontem.”

O homem de Kufra sentou-se diante de mim, apoiado sobre as nádegas, e puxou ao redor do corpo seu burnus rasgado e remendado. Falava lentamente, sem qualquer tremor de emoção na voz; mas parecia que todos os terríveis infortúnios que testemunhara estavam refletidos em seu rosto firme.

— Eles nos atacaram por três lados, formando três frentes, com numerosos carros blindados e artilharia pesada. Seus aviões desceram muito baixo e lançaram bombas sobre as casas, a mesquita e os palmeirais. Entre nós havia apenas algumas centenas de homens capazes de portar armas. Os demais eram mulheres, crianças e idosos. Lutamos, uma após outra, para salvar cada casa. Eles eram muito mais fortes do que nós. Por fim, apenas a aldeia de Al-Hawari permaneceu sob nosso controle. Contra os carros blindados deles, nossos rifles tornaram-se inúteis, e eles nos derrotaram. Restamos apenas alguns sobreviventes. Escondi-me no palmeiral, esperando uma oportunidade para escapar por entre as linhas italianas. Durante toda a noite, ouvi os gritos de agonia das mulheres, pois elas haviam sido violentadas pelos soldados italianos e pelos “askaris” eritreus. No dia seguinte, uma velha trouxe-me água e pão ao lugar onde eu estava escondido. Ela me contou que o general italiano reuniu todos os sobreviventes junto ao túmulo de Sayyid Muhammad al-Mahdi e, diante dos olhos deles, rasgou um exemplar do Alcorão em pedaços, lançou-os ao chão, pôs a bota sobre eles e gritou: “Que o vosso profeta beduíno venha agora ajudar-vos, se tiver poder para isso”. Depois, ordenou que todas as palmeiras do oásis fossem cortadas, que os poços fossem destruídos e que todos os livros da biblioteca de Sayyid Ahmad fossem queimados. No dia seguinte, ordenou que alguns de nossos anciãos e ulemás fossem colocados num avião — e eles foram lançados do avião, de uma grande altura, contra o solo, para morrerem despedaçados… Na noite seguinte, ainda ouvi, do meu esconderijo, os gritos das mulheres, as gargalhadas dos soldados e o som dos rifles… Finalmente, naquela noite escura, rastejei para dentro do deserto. Encontrei um camelo pequeno, montei nele e desapareci…”

Quando o homem de Kufra terminou sua terrível história, Sidi Omar puxou-o carinhosamente para junto de si e repetiu: “Assim, meu filho, como pode ver, chegamos realmente à beira do tempo que nos foi destinado”. E, como se respondesse à pergunta não formulada em meus olhos, acrescentou: “Estamos lutando porque somos obrigados a lutar por nossa religião e nossa liberdade, até cairmos nas mãos dos invasores. Não há outra alternativa para nós — ‘Inna lillahi wa inna ilayhi raji’un’ — ‘Pertencemos a Deus e a Ele retornaremos’. Enviamos nossas mulheres e nossas crianças para o Egito, para que, quando Deus quiser nossa morte, não tenhamos de nos preocupar com a segurança delas.”

Um zumbido abafado começou a tornar-se gradualmente audível em algum ponto do céu escuro; sem pensar conscientemente, um dos homens de Sidi Omar começou a espalhar areia sobre o fogo, quase automaticamente. O avião não pareceu mais que uma forma indistinta contra o fundo das nuvens iluminadas pela lua; passou voando bem baixo sobre nossas cabeças, em direção ao leste, e o ruído de seu motor foi desaparecendo aos poucos.

—Mas, Sidi Umar —digo eu—, agora que há um caminho aberto para o senhor e para os seus mujahideen, não seria melhor retirar-se para o Egito? Pois talvez fosse possível reunir no Egito muitos muhajirun vindos da Cirenaica e formar um exército mais eficaz. A luta daqui deveria ser suspensa por algum tempo, para que os homens pudessem recuperar um pouco as forças… Sei que a presença do poder britânico no Egito — com fortes exércitos italianos estacionados de ambos os lados — não deve ter deixado os britânicos muito satisfeitos com essa ideia. Deus sabe que, se conseguirem convencê-los de que não os consideram inimigos, talvez eles não se preocupem com os seus preparativos…

—Não, meu filho, isso já não é possível; é tarde demais. O que disseste teria sido possível há quinze ou dezesseis anos, antes de decidirmos atacar os britânicos para ajudar Sayyid Ahmad contra os turcos. Os turcos, naturalmente, não nos ajudaram… É tarde demais; agora isso já não é possível. A Grã-Bretanha não moverá sequer um dedo para aliviar o nosso destino; e os italianos estão determinados a nos exterminar. Juraram destruir toda possibilidade de resistência no futuro. Se eu e os meus seguidores formos agora para o Egito, nunca mais poderemos voltar. E tu mesmo dize: como poderíamos abandonar o nosso povo e partir, deixando-o sem liderança — para ser destruído pelos inimigos de Allah?

—O que diz Sayyid Idris? Ele também pensa como o senhor, Sidi Umar?

—Sayyid Idris é o filho sensato de um pai nobre, um bom homem.

Mas Allah não lhe deu a coragem necessária para suportar uma luta desse tipo…

Não havia desespero na voz de Sidi Umar, mas um profundo interesse, quando ele conversava comigo daquela maneira sobre o desfecho inevitável da sua longa luta pela liberdade: sabia que nada além da morte o aguardava. Não tinha medo da morte; não a desejava. Mas também não tentou evitá-la, e tenho certeza de que, mesmo se soubesse que tipo de morte o esperava, não teria tentado escapar dela. Parecia consciente, em cada átomo do seu corpo e da sua mente, de que todo homem carrega consigo o seu destino — aonde quer que vá e qualquer que seja a sua ação.

Um leve movimento tornou-se audível no meio do matagal, tão suave que, em circunstâncias normais, não teria sido percebido; mas as circunstâncias de então não eram de modo algum normais. Com os ouvidos atentos, à espera de qualquer espécie de perigo vindo de uma área inesperada, compreendi claramente que os passos furtivos haviam parado de repente e que, alguns minutos depois, o seu som indistinto recomeçara. O matagal se abriu, e dele saíram Zaid e Khalil, acompanhados por dois cavaleiros. Os cavalos que haviam trazido puxando carregavam odres cheios nas costas. Os odres tinham sido tão completamente enchidos de água que estavam inchados como tambores. Ao ver Sidi Umar, Khalil correu para a frente a fim de beijar o líder, enquanto eu apresentava Zaid. Sidi Umar fixou o olhar penetrante no rosto ascético e no corpo despojado de Zaid, com evidente aprovação. Pousou a mão sobre o ombro de Zaid e disse:

—Irmão, vindo da terra dos meus antepassados, seja bem-vindo. De que tribo árabe és? —E quando Zaid respondeu que o nome de sua tribo era Shammar, Umar balançou a cabeça com um sorriso e disse: —Ah, então és da tribo de Hatim at-Tai, que foi o mais generoso dos homens… 1(Este guerreiro e poeta árabe da era pré-islâmica era famoso por sua generosidade e magnanimidade. । Seu nome está agora se tornando sinônimo dessa qualidade, à qual os árabes atribuem grande importância. । Zaid é membro da tribo Shammar. । Os Shammar afirmam ser o povo de Hatim — e, portanto, descendentes dos Tai.)।)

Um dos homens de Sidi Umar colocou diante de nós algumas tâmaras envoltas num pedaço de pano. Ele próprio nos convidou a compartilhar aquela modesta refeição. Quando terminamos de comer, o velho guerreiro se levantou:

—Irmãos, é hora de partirmos daqui. Estamos muito perto do posto italiano de Bu-Sfaiya. Será perigoso permanecer aqui até o nascer do sol.

Arrumamos nosso acampamento precário e montamos, seguindo Sidi Umar. O restante de seus homens veio atrás de nós a pé. Assim que saímos da ravina, vi que o grupo de Sidi Umar era muito maior do que eu imaginara: uma após outra, silhuetas negras disparavam como flechas de trás das colinas e por detrás das árvores, juntando-se à nossa fileira, enquanto vários outros homens haviam sido posicionados longe, à direita e à esquerda, para vigiar. Nenhum observador comum poderia ter imaginado que havia quase trinta homens ao nosso redor; pois cada um deles avançava silenciosamente, como um batedor indígena.

Antes do nascer do sol, chegamos à tenda principal do dawār, ou força guerrilheira, de Umar al-Mukhtar. Naquela época, essa força era composta por pouco mais de duzentos homens. As tendas estavam armadas dentro de um desfiladeiro profundo e estreito, e pequenas fogueiras ardiam nos cumes suspensos acima. Alguns homens dormiam no chão. Outros, que na luz cinzenta do amanhecer pareciam sombras indistintas, estavam ocupados com as várias tarefas do acampamento: limpavam as armas, buscavam água, cozinhavam ou cuidavam dos poucos cavalos amarrados às árvores aqui e ali. Quase todos vestiam roupas rasgadas e remendadas. Naquela época, ou posteriormente, não vi em todo o grupo sequer um jard completo1(um manto de lã semelhante a um cobertor, usado pelos egípcios e líbios) ou um barnus 2(uma espécie de vestimenta com capuz, usada também pelos árabes do Norte da África) sequer. Muitos tinham o corpo coberto de bandagens, testemunho de seus recentes combates com o inimigo. Para minha surpresa, vi duas mulheres naquela tenda: uma idosa e outra jovem. Sentadas junto a uma fogueira, remendavam absortas uma sela rasgada, usando agulhas grossas e rombudas.

—Estas duas irmãs nossas vão conosco aonde quer que vamos —explicou Sidi Umar, respondendo à minha surpresa silenciosa—. Elas não aceitaram refugiar-se no Egito com nossas mulheres; são mãe e filha. Todos os homens de sua família morreram em combate.

Durante dois dias e uma noite —enquanto as tendas eram desmontadas e armadas em outro lugar, entre ravinas do planalto e no interior da floresta—, Sidi Umar e eu ponderamos e discutimos todas as possibilidades de fornecer suprimentos regulares aos mujahideen. Ainda chegavam alguns poucos suprimentos do Egito. Parecia que, desde o momento em que Sayyid Idris chegara a um entendimento com a Grã-Bretanha, na época de seu tratado de paz com os italianos, as autoridades britânicas estavam dispostas a encarar com um pouco mais de tolerância a atividade senussi dentro do Egito —desde que permanecesse limitada a movimentos locais—; em particular, não vigiavam oficialmente os pequenos grupos de combatentes que atravessavam as linhas italianas e iam até Sallum, a cidade egípcia mais próxima da costa, para vender o butim, em sua maior parte mulas italianas, em troca dos alimentos de que tanto necessitavam. Na realidade, esse tipo de expedição era extremamente perigoso para os mujahideen e quase nunca podia ser realizado, sobretudo porque os italianos haviam erguido rapidamente uma cerca de arame farpado ao longo da fronteira egípcia. Sidi Umar concordou comigo que a única alternativa talvez fosse usar como rota de abastecimento o caminho pelo qual eu viera e estabelecer depósitos secretos nos oásis egípcios de Bahariya, Farafra e Siwa. Mas ele tinha sérias dúvidas quanto à possibilidade de esse plano escapar por muito tempo à vigilância atenta dos italianos.

A preocupação de Umar mostrou-se muito bem fundamentada. Alguns meses depois, uma caravana com esse tipo de suprimento realmente chegou aos mujahideen; mas, quando atravessava a passagem entre Jaghbub e Jalu, foi avistada pelos italianos. Logo depois, exatamente no meio do espaço entre os dois oásis, equidistante de ambos, os italianos estabeleceram um forte posto de controle em Bir Tarfaoui; e, com vigilância aérea quase contínua, esse posto tornou novamente extremamente perigosas expedições desse tipo.

Agora eu precisava pensar em meu retorno. Não me sentia muito entusiasmado com a ideia de refazer o longo e penoso caminho que eu vinha seguindo em minha viagem para o oeste. Por isso, perguntei a Sidi Umar se seria possível encontrar uma rota mais curta. Ele respondeu que havia uma, mas era perigosa: atravessar o arame farpado para chegar a Sallum. Naquele momento, um grupo de mujahideen preparava-se para empreender uma expedição desse tipo, a fim de buscar farinha em Sallum; se eu quisesse, poderia juntar-me a eles. Decidi fazê-lo.

Zayed e eu despedimo-nos de Umar al-Mukhtar pela última vez. Nunca mais o veria: menos de oito meses depois, os italianos capturaram Umar e enforcaram-no…

Depois de quase uma semana avançando somente à noite, por terrenos acidentados e através das florestas de zimbro do leste de Jabal Akhdar, nosso grupo de vinte homens chegou àquele ponto da fronteira entre o Egito e a Cirenaica onde planejávamos atravessar o arame farpado. O local não fora escolhido ao acaso. Embora a cerca de arame farpado cobrisse a maior parte da fronteira, ainda não estava completamente concluída. Em alguns lugares, como aquele, havia apenas uma cerca de arame farpado com oito pés de altura e quatro de largura; no entanto, dentro dela estavam dispostas três fileiras separadas de arame farpado, firmemente presas a grossos arames enrolados, atados a postes fincados em bases sólidas. O posto fortificado ficava a cerca de meia milha do local que havíamos escolhido. Também sabíamos que havia um veículo blindado no posto. Mas era uma escolha entre duas alternativas: este setor ou outro, que talvez fosse menos protegido, mas onde poderia haver duas ou três linhas de cerca de arame farpado.

Já haviam sido tomadas providências para que, alguns quilômetros adentro do território egípcio, partidários da tariqa senussi nos encontrassem com animais de montaria e de carga. Assim, não haveria necessidade de pôr nossos cavalos em perigo. Confiamos os cavalos a alguns mujahideen e os mandamos de volta; pouco antes da meia-noite, Zayed, eu e os demais aproximamo-nos a pé do arame, tendo a escuridão como cobertura. Isso porque os italianos haviam cortado e removido toda a vegetação e todos os arbustos.

Ao norte e ao sul, a várias centenas de jardas de distância, depois de posicionarem sentinelas, seis dos nossos homens avançavam rastejando, equipados com alicates corta-fios e as grossas luvas de couro que haviam capturado anteriormente num ataque contra os trabalhadores italianos. Enquanto avançavam, nós lhes dávamos cobertura com nossos rifles. Era um momento tenso. Eu estava atento ao menor ruído. Ouvia apenas o som do cascalho comprimido sob o peso dos corpos que avançavam e, de vez em quando, o chamado de uma ave noturna. Então veio o estalido da tesoura corta-fios mordendo pela primeira vez o arame farpado. Pareceu-me que uma explosão havia ocorrido dentro do meu ouvido, e logo depois veio o som mais suave e distinto do corte dos fios metálicos… chás, chás, chás… cortando, por fricção, cada vez mais profundamente o arame farpado…

Mais uma vez ouviu-se o canto de um pássaro no céu noturno; mas desta vez não era um pássaro, e sim um sinal: vinha de um dos homens que havíamos colocado como sentinelas ao norte — um sinal de perigo iminente… E, exatamente no mesmo momento, ouvi o zumbido de um motor que se aproximava de nós. Um facho de luz de busca projetou-se obliquamente no céu. Todos nós nos lançamos ao chão como um só homem, exceto os encarregados do arame; estes continuavam seu trabalho, agora desesperadamente e com toda a pressa. Já não pensavam em trabalhar em silêncio. Pelo contrário, cortavam com a tesoura como homens possuídos e soltavam o arame farpado cortado com golpes das coronhas dos rifles. Alguns segundos depois, ouviu-se um tiro de rifle: o sinal da sentinela ao norte. O motorista do carro blindado certamente o havia visto, pois o facho do holofote de busca desviou-se subitamente para baixo, e ouvimos o som sinistro das rajadas de metralhadora. O rugido do motor aumentou, e sua sombra negra passou sobre nossos corpos, enquanto a luz dos faróis incidia diretamente sobre o chão. Em seguida, uma rajada de metralhadora foi disparada contra nós. Evidentemente, a arma estava apontada muito para cima. Ouvi o assobio das balas passando sobre nossas cabeças. Deitados de bruços, respondemos com nossos rifles.

— Holofote! Holofote! — gritou alguém. — Atirem no holofote! E, em poucos instantes, o holofote se apagou. Sem dúvida, fora despedaçado pelas balas dos nossos homens de rifle, de pontaria certeira. O carro blindado parou. Mas sua metralhadora continuava disparando às cegas. Naquele exato momento, um grito que se ergueu à nossa frente anunciou-nos que se havia aberto uma passagem na cerca de arame farpado, e nós, um por um, retorcendo o corpo, atravessamos aquela estreita abertura para o outro lado da cerca; no caminho, o arame farpado rasgou e dilacerou nossas roupas e nossa pele. Depois ouvimos o som de homens correndo — e mais duas figuras envoltas em jerds precipitaram-se pela abertura da cerca. Nossos companheiros estavam se reunindo novamente a nós. Ficou claro que os italianos não queriam abandonar a segurança do veículo para nos enfrentar corpo a corpo… E então chegamos ao solo egípcio — ou, melhor dizendo, continuamos correndo, protegendo-nos atrás de pedras, montes de areia e moitas dispersas —, pois eles disparavam de tempos em tempos contra nós, do outro lado da fronteira, às nossas costas.

Ao amanhecer, já havíamos entrado no território egípcio. Estávamos agora fora de perigo. De nossos cerca de vinte homens, havíamos perdido cinco. Provavelmente estavam mortos; outros quatro ficaram feridos, embora não gravemente.

— Deus teve misericórdia de nós — disse um dos mujahidin feridos. — Às vezes, ao atravessar uma cerca de arame farpado, chegamos a perder metade dos nossos homens; mas Deus é grande, e ninguém morre se Deus não quiser que morra… O Sagrado Alcorão não diz?… Não digais que estão mortos aqueles que foram mortos no caminho de Deus; eles estão vivos, viventes…?

Duas semanas depois, no caminho de volta, passamos por Marsa Matruh e Alexandria, chegamos ao Alto Egito e, de lá, conforme o plano previamente estabelecido, eu e Zayd voltamos a Medina de barco, via Yanbu. Toda a expedição levou dois meses… Não pareceu que alguém tivesse sequer notado nossa ausência do Hijaz…

.. .   ..                     ..                .. .         ..

Quando entro em Medina, ao lado de Sidi Muhammad al-Zubayr, pelo limiar daquela antiga zawiya senussi, todos aqueles ecos indistintos de morte e desespero ganham vida em minha consciência; o cheiro dos zimbros e o som das balas passando sobre minha cabeça fazem meu coração estremecer. A dor daquela expedição sem esperança nem consolo desperta novamente dentro do meu peito; depois, pouco a pouco, a lembrança da minha expedição cirenaica se apaga. Resta apenas sua dor!

Quatro

Mais uma vez fico diante do Grande Senussi e olho para o rosto cansado daquele velho guerreiro. Mais uma vez beijo a mão que empunhou a espada por tanto tempo que agora já não tem forças para carregar uma espada.

— Que Allah o abençoe, pai; sente-se confortavelmente… Já faz mais de um ano que nos encontramos, e, com este ano, também se extinguiu a nossa esperança. Mas Allah sabe; Ele faz o que quer…

Certamente, o ano foi doloroso para Sayyid Ahmad. As linhas de seu rosto se aprofundaram ainda mais, e sua voz se tornou muito baixa, como nunca havia sido antes. A águia derrotada desmoronou. Está sentado, encolhido, sobre o tapete. Seu burnous branco está apertado ao redor do corpo — como se fosse para aquecê-lo —, e ele contempla o vazio infinito, mudo e silencioso.

— Se ao menos pudéssemos salvar Umar al-Mukhtar — diz ele em um sussurro —, se ao menos pudéssemos convencê-lo a fugir a tempo e vir para o Egito…

— Ninguém poderia ter salvado Sidi Umar — digo eu, consolando-o. — Ele próprio não queria ser salvo. Queria morrer se não pudesse sair vitorioso; compreendi isso no momento em que me despedi dele, ó Sidi Ahmad!

Sayyid Ahmad balança vigorosamente a cabeça. — Sim, eu também sabia disso… Eu também… sabia, mas só descobri muito tarde. Às vezes penso que foi um erro meu ter atendido ao chamado que veio de Istambul há dezessete anos… E não terá sido isso, talvez, o começo da morte não apenas de Umar, mas de todos os Senussi?

Não tenho resposta para essa pergunta. Pois sempre me pareceu que a decisão de Sayyid Ahmad de se envolver numa guerra inútil contra o poder britânico foi o erro mais fatal de sua vida.

—Mas —prossegue Sayyid Ahmad—, quando o califa do Islã me pediu auxílio, como poderia eu ter tomado outra decisão? Agi corretamente ou procedi como um tolo? Mas quem, além de Deus, pode dizer se um homem agiu corretamente ou errou quando atende ao chamado da própria consciência?»

—Quem pode realmente dizer isso?»

O Grande Senussi continua a balançar a cabeça de um lado para o outro, entre a dor e a perplexidade. Seus olhos estão ocultos atrás das pálpebras caídas e, com uma súbita certeza, compreendi que aqueles olhos jamais voltariam a brilhar com a chama da esperança.1[Sayyid Ahmad faleceu em Medina no ano seguinte (1933)]

 

 

O fim do caminho

Um

Já muito tarde da noite, deixamos Medina pela estrada do leste, a mesma pela qual o Mensageiro de Deus viajou até Meca para realizar sua Peregrinação de Despedida, alguns meses antes de sua morte.

Prosseguimos durante o restante da noite, atravessando a madrugada que se aproximava. Continuamos montados em nossos camelos; paramos por algum tempo para a oração do fajr e entramos no dia, um dia cinzento e nublado. Antes do meio-dia começou a chover e, quando percebemos, decidimos procurar abrigo em uma daquelas tendas negras.

A tenda é pequena. É a tenda dos beduínos de Harb. Ao nos verem, dão-nos as boas-vindas em voz alta: «Ó viajantes, que Deus lhes prolongue a vida. Sejam bem-vindos!» Estendo meu cobertor sobre a esteira de pelo de cabra na tenda do xeque, e a esposa do xeque, cujo rosto está descoberto, como o das quase todas as mulheres beduínas desta região, repete a bela saudação de boas-vindas de seu marido. Depois de uma noite sem dormir, o sono rapidamente desce sobre mim, ao som cadenciado da chuva caindo sobre o teto da tenda. Algumas horas depois, quando acordo, o tamborilar da chuva ainda ressoa. A escuridão da noite me cobre —não, isso não é possível, não é noite, mas apenas a negra e espessa lona da tenda; e seu cheiro é exatamente como o de lã molhada. Estendo os braços e minhas mãos encontram uma sela de camelo colocada no chão atrás de mim. É maravilhoso tocar a maciez de sua madeira antiga. Que prazer brincar com os dedos sobre ela, até que chegam à parte elevada da frente da sela e se encontram com as vísceras do camelo, duras e afiadas como ferro, com as quais a sela foi costurada e unida. Não há ninguém na tenda além de mim.

Depois de algum tempo, levanto-me e entro na parte aberta da tenda. A chuva parece escavar a areia a golpes repetidos… milhões e milhões de pequenos buracos, que surgem naquele instante e de repente desaparecem para dar lugar a novos buracos — e, ao virar-me, vejo-a espalhar água em borrifos sobre o bloco de granito azul-acinzentado à minha direita. Não vejo ninguém, pois certamente, a esta hora do dia, saíram para cuidar dos camelos; lá embaixo, no vale, perto das acácias, muitas tendas negras permanecem silenciosas no silêncio da tarde chuvosa. De uma delas, uma coluna de fumaça cinzenta sobe, enrolando-se em espirais… o sinal da refeição da tarde. A fumaça é tão fina e tênue que não tem força para resistir à chuva… e rasteja junto à borda, tremendo impotente sob o vento forte, como os cabelos de uma mulher. Por trás da cortina móvel de fitas de água prateada e cinzenta, as colinas parecem agitar-se; o ar está carregado do cheiro das acácias selvagens e da lã úmida das tendas.

Aos poucos, cessam os respingos e a chuva miúda, e, sob os raios do sol vespertino, as nuvens começam a fragmentar-se e a fugir. Aproximo-me de um bloco baixo de granito. Sobre essa pedra há uma cavidade tão grande quanto uma gamela, na qual, nos dias de festa, servem aos convidados um carneiro inteiro assado e arroz. Agora ela está cheia de água da chuva. Quando mergulho nela os dois braços, a água chega até meus cotovelos: morna, de um toque surpreendentemente suave; e, quando movimento os braços dentro da água, parece-me que minha pele está bebendo-a! Uma mulher sai de uma tenda com um grande recipiente de cobre sobre a cabeça — evidentemente, saiu para enchê-lo numa das muitas cavidades das pedras e rochedos onde a chuva se acumulou. Ela estende os braços ora para a frente, ora para os lados, ora para cima; segura com as duas mãos a orla de sua ampla veste vermelha, como se fossem leques, e avança balançando-se suavemente. Assim como a água oscila quando escorre lentamente pela pedra abaixo, a mulher caminha balançando-se. Digo a mim mesmo: esta mulher é bela como a água… Ao longe, ouço os chamados dos camelos que retornam; e eis que eles surgem por trás das colinas como um grupo disperso, enquanto os pastores avançam com passos soltos e solenes — conduzem-nos para dentro do vale com pequenos gritos agudos e, depois, pronunciam uma palavra especial: ‘g-r-r… g-r-r…’. Os animais parecem dobrar os joelhos e sentar-se; e vê-se uma grande quantidade de camelos inclinando ritmicamente as costas castanhas em direção ao chão. À medida que a noite se aproxima, os homens prendem as duas patas dianteiras dos camelos e dispersam-se para suas respectivas tendas. E agora chegou a noite, com sua suave escuridão e seu frescor delicado. Diante da maioria das tendas arde um fogo; o tilintar dos utensílios e panelas de cozinha e o riso das mulheres misturam-se aos chamados repentinos dos homens e às suas frases soltas e fragmentárias, que vêm flutuando pelo ar até mim. Depois dos camelos, retornaram as ovelhas e as cabras; elas também berram por algum tempo, e, de vez em quando, um cão solta um uivo, como uivam todas as noites, em cada tenda da Arábia.

Não se vê Zaid em parte alguma. Talvez tenha ido deitar-se em alguma tenda. Caminho devagar até os camelos que repousam confortavelmente. Com seus corpos enormes, cavaram para si covas na areia e estão deitados à vontade. Alguns ruminam, enquanto outros estenderam os longos pescoços sobre o chão. Alguns erguem a cabeça e fazem ruídos pelas narinas quando passo ao lado deles e, brincando, toco suas corcovas volumosas. Um filhote de camelo está deitado bem junto à mãe. Salta e se põe de pé ao toque da minha mão, enquanto a mãe vira a cabeça para me olhar e solta um chamado suave, com a boca enorme aberta. Envolvo com os dois braços o pescoço do filhote, aperto-o contra mim e enterro o rosto em seu pelo quente das costas; de repente, ele fica silencioso e imóvel — parece que todo o seu medo desapareceu. O calor do corpo jovem do animal penetra meu rosto e meu peito — sinto, sob a palma da mão, o sangue revolver-se nas veias de seu pescoço e misturar-se ao pulsar do meu próprio sangue — e desperta em mim um sentimento avassalador: a sensação de uma estreita proximidade com a própria vida, a percepção de um anseio por entregar-me inteiramente à vida.

Dois

Seguimos montados nos camelos, e cada passo deles nos leva para mais perto do lugar onde nossa estrada termina. Assim, atravessando a estepe banhada pelo sol, continuamos a avançar dia após dia. À noite, dormimos sob as estrelas e despertamos no suave frescor da alvorada — e, pouco a pouco, continuo avançando em direção ao fim do meu caminho.

Nunca houve para mim outro caminho além deste, embora eu não o soubesse durante muitos anos. Ele me chamava muito antes de minha mente tomar consciência de Meca — com uma voz poderosa: ‘Meu reino está nesta terra, meu reino está também no mundo futuro; meu reino aguarda tanto o corpo quanto a alma do ser humano, e se estende sobre tudo o que o homem pensa, sente e faz — seus negócios e comércio, sua adoração e devoção, seu quarto de dormir, sua política, tudo. Meu reino não tem fim nem limites.’ E, quando alguns anos mais tarde tudo isso se tornou claro para mim, descobri qual era o meu lugar: descobri que, desde o meu nascimento, a fraternidade islâmica me aguardava, e aceitei o Islã. Finalmente se realizou aquele desejo da minha primeira juventude: encontrar uma órbita definida para meus anseios e pensamentos, tornar-me parte inseparável de uma comunidade de irmãos.

É algo realmente espantoso — embora talvez não seja tão espantoso, se considerarmos qual é o objetivo do Islã — que minha primeira experiência como muçulmano entre muçulmanos tenha sido a da fraternidade…

Nos primeiros dias de janeiro de 1927, parti novamente em direção ao Oriente Médio. Desta vez, Elsa estava comigo, junto com seu filho pequeno, e foi então que senti que esta seria minha última viagem.

Durante alguns dias, navegamos pelo Mediterrâneo, através de um círculo cintilante de mar e céu. Às vezes, dão-nos as boas-vindas uma costa distante e a fumaça dos navios que passam velozmente por nós; a Europa ficou muito para trás, e quase já me esqueci dela.

Muitas vezes saio do conforto do convés das cabines e desço ao setor deteriorado de menor tarifa do navio, onde há beliches de ferro dispostos em camadas. O navio seguia para o Extremo Oriente, por isso a maioria dos passageiros do convés era chinesa: pequenos artesãos e comerciantes que, depois de muitos anos de trabalho árduo na Europa, retornavam à sua terra natal. Havia também um pequeno grupo de árabes iemenitas, que embarcara no porto de Marselha. Eles também estavam voltando para casa. O som e o cheiro dos portos ocidentais ainda estavam entranhados neles. Ainda viviam no crepúsculo do fim do dia, quando suas mãos morenas empunhavam pás para carregar carvão nos navios ingleses, americanos e holandeses; ainda conversavam sobre os estranhos portos de cidades estrangeiras — Nova York, Buenos Aires, Hamburgo. Um dia, impelidos por um súbito desejo pelo desconhecido resplandecente, haviam vendido seus serviços no porto de Áden, como foguistas em navios a carvão 1encarregados de alimentar a fornalha do navio como quem vendia a própria força de trabalho. Haviam saído do mundo que conheciam para o abraço da diversidade inimaginavelmente maravilhosa da Terra; cresceriam e ultrapassariam a si mesmos. Mas o navio logo atracaria no porto de Áden, e aqueles dias de suas vidas se perderiam no passado. Trocariam os chapéus ocidentais pelo turbante ou pela kufia, conservariam os dias passados apenas como lembrança, e cada homem, ocupado consigo mesmo, retornaria ao Iêmen, à sua casa na aldeia. Assim como haviam saído de casa um dia, retornariam exatamente os mesmos homens, ou como homens transformados? O mundo ocidental teria dominado suas almas — ou apenas afagado seus sentidos?

O problema desses homens condensou-se em minha mente e assumiu a forma de um problema de significado mais amplo.

Penso e compreendo que nunca antes, como hoje, o Islã e o mundo ocidental haviam se aproximado tanto. Essa proximidade é uma luta — ao mesmo tempo visível e invisível. Sob a pressão da cultura ocidental, as almas de muitos homens e mulheres muçulmanos estão se encolhendo cada vez mais.

A melhoria do padrão de vida deveria ser um meio de elevar o ser humano espiritualmente; afastando-se dessa crença que antes possuíam, eles estão permitindo que forças diferentes os conduzam. Inclinaram-se para a idolatria chamada progresso, à qual o mundo ocidental se entregou depois de transformar a religião, em algum ponto do curso dos acontecimentos, numa simples melodia harmoniosa de tilintares; e, por isso, esses homens e mulheres muçulmanos foram pouco a pouco se diminuindo, em vez de se engrandecerem. Pois toda imitação cultural, por se opor à criatividade, inevitavelmente rebaixa qualquer nação ou povo…

A questão não é que os muçulmanos tenham pouco a aprender com o mundo ocidental, especialmente no campo técnico. Mas adquirir conceitos e métodos científicos não é, na realidade, imitação; e certamente não o é para um povo cuja religião lhe ordena buscar o conhecimento onde quer que ele possa ser encontrado. A ciência não é ocidental nem oriental; pois todas as descobertas científicas são apenas alguns elos na cadeia interminável do esforço intelectual humano, esforço que envolve toda a humanidade. Todo cientista constrói sobre a base lançada pelos cientistas que o precederam, sejam eles de sua própria nação ou de outra. Esse processo de construção, correção e aperfeiçoamento continua de pessoa para pessoa, de geração em geração, de civilização em civilização; por isso, o êxito científico de qualquer época ou civilização jamais pode ser considerado uma realização exclusiva dessa época ou civilização. Em determinados períodos, uma nação mais vigorosa e empreendedora que as outras pode contribuir mais para o tesouro comum da ciência; mas, no fim, todos participam desse processo, e com razão. Houve um tempo em que a civilização muçulmana era muito mais vigorosa que a civilização europeia. Essa civilização transmitiu à Europa numerosas invenções técnicas de tipo revolucionário e algo ainda mais importante: os próprios princípios fundamentais do “método científico”, sobre os quais se ergueu a civilização moderna. Isso, contudo, não transformou a química numa ciência árabe por causa das descobertas fundamentais de Jabir ibn Hayyan; tampouco se pode chamar a álgebra e a trigonometria de ciências muçulmanas, embora uma tenha sido inventada por Al-Khwarizmi e a outra por Al-Battani, ambos muçulmanos — assim como não podemos falar de uma “teoria inglesa da gravidade”, embora o homem que lhe deu forma tenha sido inglês. Todas essas realizações são patrimônio comum da humanidade. Portanto, se os muçulmanos adotarem os métodos modernos na ciência e na técnica, como certamente devem fazer, estarão apenas seguindo o impulso evolutivo que atua no ser humano para assimilar a experiência de outros homens — nada mais.

Mas, se adotarem os aspectos exteriores da vida ocidental, seus costumes, práticas e concepções sociais — coisas que de modo algum precisam fazer —, jamais se beneficiarão. Pois, nesse caso, aquilo que o Ocidente lhes pode oferecer não será, em absoluto, superior ao que sua própria cultura lhes deu e ao que sua própria fé religiosa também lhes indica. Se os muçulmanos mantiverem a cabeça fria e aceitarem o progresso como meio, não como objetivo, poderão não apenas preservar sua liberdade interior; talvez também consigam devolver ao povo do Ocidente aquele segredo perdido da doçura da vida…

.. .           .. .          .. .             .. .           ..

Entre os iemenitas do navio havia um homem magro, esguio e baixo, cujo nariz era como o bico de uma águia, e cujo rosto era tão intenso que parecia estar em chamas; mas seus gestos eram muito calmos e comedidos. Quando soube que eu era um muçulmano recém-convertido, começou a demonstrar por mim uma afeição especial. Durante horas, nós dois ficávamos sentados juntos no convés, enquanto ele me contava sobre sua aldeia nas montanhas do Iêmen. Seu nome era Muhammad Salih.

Certa noite, desci e fui encontrá-lo no convés. Um de seus amigos estava deitado, acometido de febre, sobre um beliche de ferro. Disseram-me que o médico do navio não acharia necessário descer ao convés de modo algum. O homem sofria de malária. Por isso, dei-lhe quinina. Enquanto eu estava ocupado com ele, os outros iemenitas se reuniram num canto, ao redor do pequeno Muhammad Salih. Olhavam para mim de soslaio e acatavam o conselho que Muhammad Salih lhes dava em voz baixa. Por fim, um deles se aproximou. Era um homem alto, de pele moreno-oliva e olhos negros e ardentes. Ele me ofereceu um punhado de notas francesas amassadas e retorcidas:

—Nós juntamos isto entre nós. Infelizmente, não é uma quantia muito grande. Faça-nos a gentileza de aceitar este dinheiro.

Sobressaltado, recuei e expliquei-lhes que havia dado remédio ao amigo deles, não por dinheiro.

—Não, não, nós sabemos disso; ainda assim, por favor, aceite este dinheiro. Não estamos pagando por algum serviço prestado — este dinheiro é uma oferenda, um presente de seus irmãos. Estamos muito felizes por tê-lo conhecido e é por isso que lhe damos este dinheiro. Você é muçulmano e nosso irmão. Mais do que isso, é superior a nós. Pois nascemos muçulmanos; nossos pais eram muçulmanos, e nossos avós também; mas você compreendeu o Islã com seu próprio coração… Irmão, aceite este dinheiro pelo amor de Rasulullah.

Mas eu ainda estava preso às amarras dos meus costumes europeus; em minha defesa, disse: “Não posso aceitar um presente em troca de um pequeno serviço prestado a um amigo enfermo… Além disso, tenho dinheiro suficiente. Vocês certamente precisam dele mais do que eu. Ainda assim, se desejam doar este dinheiro, deem-no aos pobres quando chegarem a Port Said.”

—Não —disse novamente o iemenita—, aceite este dinheiro de nós; e, se quiser conservá-lo, entregue-o pessoalmente aos pobres.

E, enquanto insistiam comigo e, desanimados com minha recusa, ficavam tristes e silenciosos, compreendi subitamente: no lugar de onde venho, as pessoas estão acostumadas a erguer uma barreira entre o ‘meu’ e o ‘seu’; mas esta sociedade é uma sociedade na qual não há barreiras…

—Dêem-me o dinheiro, irmãos; eu o aceito — e agradeço a vocês.

Três

—Amanhã, se Deus quiser, estaremos em Meca. O fogo que você está acendendo, Zayed, será o último; nossa viagem está chegando ao fim!

—Mas certamente, tio, será preciso acender o fogo outra vez, e diante de você e de mim sempre haverá outra viagem.

—Pode ser assim, Zayed, meu irmão! Mas, de algum modo, sinto que não haverá mais viagens como essas neste país. Vagabundeei pela Arábia durante tantos anos que ela se misturou ao meu sangue, e temo que, se não partir agora, jamais conseguirei partir… Mas, Zayed, tenho de ir. Você não se lembra daquele provérbio? Se a água deve permanecer limpa, precisa estar sempre em movimento, sempre correndo! Enquanto ainda sou jovem, quero ver como nossos irmãos muçulmanos vivem em outras partes do mundo — na Índia, na China, em Java…

—Mas, tio — responde Zayed, com espanto e temor —, certamente seu amor pela Arábia não se extinguiu.

—Não, Zayed; continuo amando-a como sempre a amei; talvez se possa dizer que a amo ainda mais. Amo-a tanto que me dói pensar no que a espera no futuro! Ouvi dizer que o rei planeja abrir seu país aos estrangeiros, para que possa obter dinheiro deles! Ele lhes permitirá escavar e explorar Al-Hasa em busca de petróleo e o Hijaz em busca de ouro; somente Deus sabe qual será o resultado disso para os beduínos! Este país nunca mais será o mesmo…

Do silêncio imóvel da noite no deserto ergue-se o som dos cascos de um camelo correndo aos saltos. Um solitário cavaleiro de camelo surge da escuridão e vem correndo até a luz de nossa fogueira, fazendo ondular as franjas da sela e agitando a abaya; de repente, detém o camelo e, sem esperar que o animal se ajoelhe e se abaixe, salta da sela. Depois de dizer apenas um breve “As-salamu alaykum” — “Que a paz esteja com vocês” —, sem pronunciar mais palavra alguma, começa a retirar a sela das costas do animal, lança junto à fogueira as bolsas amarradas a ela e então se senta no chão, ainda em silêncio, com o rosto voltado para o lado oposto.

—Que Allah lhe conceda vida longa, ó Abu Sayyid —diz Zayd. Pois ficou claro que ele conhecia o recém-chegado. Mas o homem ainda permanecia mudo. Por isso, Zayd voltou o rosto para mim e disse: —Este é um dos rajazil de Ibn Saud —um demônio!

A pele do melancólico Abu Sayyid era profundamente negra; seus lábios eram grossos, e seus cabelos encaracolados, cuidadosamente repartidos em duas partes por uma risca. O punhal enfiado em sua faixa era muito provavelmente um presente do rei, coberto por uma bainha de ouro, e sua montaria era uma magnífica camela cor de mel, descendente dos camelos do norte. Seus membros eram finos e desprovidos de gordura; a cabeça, estreita, e os ombros e as nádegas, sólidos e vigorosos.

—O que aconteceu com você, Abu Sayyid? Por que não fala com seus amigos? Será que algum jinn se apoderou de você?

“Nura”… Abu Sayyid pronuncia num sussurro e, algum tempo depois, quando o café quente lhe desata a língua, começa a nos falar de Nura: Nura, uma moça da cidade de Arras, no Najd (ele também menciona o nome do pai da moça; e descobriu-se que eu o conhecia muito bem). Quando Nura tirava água com as outras moças, Abu Sayyid a observava às escondidas, por cima do muro do jardim, “e senti como se uma brasa ardente tivesse caído dentro do meu coração. Eu a amo, mas o pai dela, aquele cão, de jeito nenhum quer casar a filha comigo —um mendigo!— e diz que Nura tem medo de mim! Eu lhe ofereci muito dinheiro como dote, e até um pedaço das minhas terras; mas ele sempre me rejeitou e, por fim, casou-a com o primo dela. Que a maldição de Allah caia sobre ele —e sobre Nura!”

Um lado de seu rosto forte e negro como a noite se ilumina à luz da fogueira, e a sombra que dança sobre sua face parece a sombra de um inferno de tormento. Ele não consegue permanecer sentado por muito tempo; tomado pela inquietação, salta de pé. Por um instante, apoia as duas mãos sobre os joelhos, volta para perto do fogo e, de repente, dispara para a escuridão da noite vazia. Ouvimo-lo correr em um grande círculo ao redor do lugar onde armamos nossas tendas e gritar —gritar:

—O fogo de Nura está me queimando e me consumindo! O fogo de Nura arde dentro do meu peito —e, de novo, ele irrompe em soluços: —Nura, Nura!

Ele volta a aproximar-se da fogueira e continua correndo em círculos ao redor dela, enquanto sua “kaftan” esvoaça com ele, como uma ave noturna fantasmagórica entre a luz das chamas, dançando inquieta, e a escuridão.

Estaria louco? Não me pareceu. Mas também era possível que, despertas das profundezas sombrias de seu íntimo, emoções relacionadas às lembranças de ancestrais primitivos —as lembranças ancestrais das florestas da África— estivessem vindo à tona; as lembranças daqueles homens que viviam entre fantasmas, espíritos e mistérios sobrenaturais, numa época ainda muito próxima do momento em que a centelha divina da consciência transformara o animal em homem; e essa centelha ainda não era suficientemente forte para unir os instintos desenfreados e transformá-los em uma emoção superior… Por um instante, pareceu-me que eu realmente via diante de mim o coração de Abu Sayyid, um pedaço de sangue e carne ardendo no fogo do desejo, como se um fogo verdadeiro estivesse queimando; e, por alguma razão, pareceu-me perfeitamente natural que ele chorasse daquela maneira terrível, que chorasse e corresse, formando círculo após círculo, como um louco, até que os camelos acorrentados às patas se erguessem aterrorizados sobre três pernas…

Então ele volta para junto de nós e se senta pesadamente no chão. Vejo claramente a irritação que surge no rosto de Zayed diante daquela explosão descontrolada. Pois, para um árabe de genuíno temperamento nobre, nada é mais repugnante que uma emoção tão desenfreada. Mas o grande coração de Zayed logo se recompõe. Ele agarra a manga de Abu Sayyid e a puxa com força; quando Abu Sayyid ergue a cabeça e olha para Zayed com um olhar vazio, Zayed o conduz gentilmente para perto de si:

— Ó Abu Sayyid, como pode esquecer-se de si mesmo assim? Abu Sayyid, você é um guerreiro… matou muitos homens e muitas vezes escapou por pouco de morrer pelas mãos de outros! E agora está derrubado pelo golpe de uma mulher? No mundo há outras mulheres além de Nura… Ó Abu Sayyid, guerreiro, tolo…

Enquanto o africano soluça baixinho e cobre o rosto com as duas mãos, Zayed continua:

— Silêncio, ó Abu Sayyid… Erga o rosto e olhe: consegue ver o caminho luminoso no céu?

Abu Sayyid olha para o céu, maravilhado, e eu, sem me dar conta, sigo automaticamente o dedo indicador de Zayed e volto os olhos para o caminho pálido e irregular que atravessa o céu, de um horizonte ao outro. Vocês o chamarão de Via Láctea; mas os beduínos, com sua sabedoria do deserto, sabem que ele não é outra coisa senão o caminho do carneiro que foi enviado a Ibrahim quando, em submissão a Allah e no desespero de seu coração, ele ergueu a faca para sacrificar seu filho primogênito. Esse caminho do carneiro permaneceu visível no céu para sempre — símbolo de misericórdia e compaixão — como lembrança da salvação enviada para aliviar a dor de um coração humano; e, por isso, é também um consolo para aqueles que virão depois, no futuro: para os que estiverem sozinhos ou perdidos no deserto, e para os que atravessarem o deserto de sua própria vida, chorando, abandonados e solitários, cambaleando e tropeçando!

E Zayed continua falando, erguendo a mão para o céu com solenidade e sem o menor orgulho, como somente um árabe é capaz de fazer:

— Este é o caminho do carneiro que Allah enviou ao nosso antepassado Ibrahim quando ele se preparava para sacrificar seu primeiro filho. Foi assim que Allah demonstrou misericórdia para com Seu servo… Você acha que Allah está se esquecendo de você? Com as palavras comoventes de Zayed, o rosto negro de Abu Sayyid se suaviza numa expressão infantil de assombro, e nele surge uma expressão de maior serenidade; então, com a concentração de um aluno que segue o mestre, ele olha para o céu e tenta encontrar ali, em meio ao seu desespero, uma resposta…

Quatro

Ibrahim e seu carneiro celestial: imagens desse tipo surgem com extrema facilidade na mente das pessoas deste país. A memória daquele antigo patriarca é tão clara e viva entre nós que é muito mais viva do que entre os cristãos ocidentais. Seja como for, os cristãos dependem прежде de tudo da Torá para suas imagens religiosas; contudo, essa memória é muito mais luminosa e viva entre os árabes do que entre os judeus, embora, na visão dos judeus, a Torá seja a primeira e a última palavra de Allah para a humanidade. A presença espiritual de Hazrat Ibrahim é sentida a cada instante na Arábia, exatamente como em todo o mundo muçulmano, não apenas porque meninos muçulmanos recebem frequentemente seu nome — na forma árabe Ibrahim —, mas também porque ele é continuamente lembrado no Alcorão e nas orações diárias dos muçulmanos; em ambos os casos, recorda-se o papel do patriarca como o primeiro pregador consciente da unicidade de Allah. Nisso encontra-se a explicação para a enorme importância que o Islã atribui à peregrinação anual a Meca, cidade à qual a história de Hazrat Ibrahim está intimamente ligada desde os tempos mais remotos. Muitos ocidentais, equivocadamente, imaginam que Ibrahim entrou no âmbito do pensamento muçulmano apenas porque Hazrat Muhammad (que a paz esteja com ele) teria tentado ‘tomar emprestados’ elementos das histórias da religião judaica; mas está historicamente comprovado que, muito antes do surgimento do Islã, os árabes já conheciam bem Ibrahim como pessoa. Cada menção a esse patriarca no Alcorão foi registrada por meio de uma formulação que não deixa dúvida de que ele já estava vivo diante da mente árabe muitos e muitos séculos antes da época de Muhammad (que a paz esteja com ele). Seu nome e os contornos de sua vida são sempre mencionados sem qualquer introdução ou explicação, o que demonstra que os primeiros ouvintes do Alcorão certamente já estavam familiarizados com ele. De fato, mesmo no período pré-islâmico, Ibrahim ocupava um lugar de destaque nas genealogias árabes, por meio de Ismael, filho de Hagar, como antepassado das tribos árabes do norte, grupo que hoje constitui mais da metade da população de toda a nação árabe.

E a tribo de Muhammad, os coraixitas, também pertencia a esse grupo. Na Torá, apenas o início da história de Ismael e de sua mãe é mencionado. Isso porque o destino posterior dessa história não tem qualquer ligação direta com o destino do povo hebreu, e os hebreus não têm participação direta nesse assunto.

Segundo essa tradição, Ibrahim deixou Hagar e Ismael no lugar onde hoje se ergue Meca. A história, tal como chegou até nós, não é de modo algum impossível, se lembrarmos que, para um nômade montado em um camelo, uma viagem de trinta dias ou mais não era nada incomum — e continua não sendo. Seja como for, a tradição árabe diz que Ibrahim trouxe Hagar e seu filho para este mesmo vale — para este desfiladeiro entre montanhas nuas, formadas por rochas, sob o sol da Arábia, sobre o qual sopra um vento do deserto como uma língua de fogo ardente, um lugar evitado até pelas aves de rapina! Mesmo hoje, quando o vale de Meca está cheio de casas, estradas e pessoas de muitas línguas e povos, a solidão do deserto continua a gritar em meio às silenciosas e imóveis encostas montanhosas que o cercam; e, sobre a multidão de homens e mulheres que os peregrinos prostrados se lançam diante da Caaba, flutua no vazio a presença incorpórea de muitos milhares de anos de um passado remoto, enquanto um silêncio ininterrupto e sem vida paira sobre o vale vazio.

Para aquela mulher egípcia, a segunda esposa, Bibi Hagar, este era um ambiente apropriado ao desespero e à frustração. Ela havia dado ao marido um filho, nascido de sua primeira união, e por isso se tornara objeto de tamanho ódio por parte da primeira esposa que ela e seu filho Ismael tiveram de ser exilados. O patriarca Hazrat Ibrahim certamente sofreu em seu coração quando precisou fazer isso para conquistar a afeição de sua esposa inflexível. Mas devemos lembrar que ele era um dos escolhidos de Allah e acreditava firmemente que a misericórdia de Allah não tem limites. No capítulo da Torá sobre a criação, ficamos sabendo que Allah o consolou assim: ‘Não sofras ao ver a situação deste menino e desta tua esposa… De seu filho farei surgir uma nação, porque ele é teu filho.’ E assim Hazrat Ibrahim deixou naquele vale a mulher em prantos e seu filho; deixou-lhes um odre e uma pele cheia de tâmaras, enquanto ele próprio partiu para a terra de Canaã, passando por Mada’in, ao norte.

Naquele vale havia uma única árvore silvestre de sarha. À sua sombra, Hagar sentou-se com o bebê no colo. Ao seu redor não havia nada além da luz ofuscante sobre a areia quente, ondulante, e as encostas de cascalho formadas por rochas. Como era maravilhosa a sombra daquela árvore… Mas aquele silêncio — um silêncio terrível, no qual não se ouvia sequer a respiração de um ser vivo! O dia estava partindo e, pouco a pouco, Hagar pensou: se ao menos alguma criatura viesse até ali — um pássaro, um animal, sim… até mesmo um animal de rapina! Oh, que alegria seria! Mas nada veio, exceto a noite. A noite chegou trazendo o alívio da noite do deserto, como se espalhasse a frescura de um teto de escuridão e céu, suavizando a amargura de seu desespero. Nova coragem brotou no peito de Hagar. Ela deu algumas tâmaras ao filho pequeno, e os dois beberam água do odre.

A noite terminou, veio outro dia e depois outra noite. Mas, quando chegou o terceiro dia, trazendo seu hálito de fogo, não restava sequer uma gota de água no odre; o desespero superou todas as suas forças, e a esperança tornou-se como um vaso quebrado. Quando a criança começou a chorar inutilmente por água, Hagar, com a voz cada vez mais fraca, clamou a Allah. Enlouquecida pelo sofrimento do filho, ergueu as duas mãos e começou a correr de um lado para outro pelo vale. E, em memória de seu desespero, os que hoje vão a Meca para realizar o hajj correm sete vezes entre estas duas colinas, clamando exatamente como Hagar clamou um dia: ‘Ó Misericordioso, ó Compassivo, quem terá misericórdia de nós, se Tu não tiveres misericórdia?’

E então veio a resposta: vejam, uma fonte de água brotou e começou a correr sobre a areia! Hagar gritou de alegria e pressionou o rosto da criança contra aquele líquido precioso, para que ela pudesse beber; e ela também bebeu com o filho, entre uma respiração e outra, dizendo em atitude de oração: ‘Jummi, jummi’ — uma palavra sem significado, apenas uma imitação do som da água que brotava da terra, como se dissesse: ‘Brota, brota’. Temendo que a água acabasse e desaparecesse sob a terra, Hagar foi acumulando areia ao redor da fonte e construiu uma pequena parede; com isso, o fluxo da água cessou e ela se transformou em um poço. Desde então, ele é conhecido como o poço de Zamzam e continua existindo até hoje.

Os dois estavam agora protegidos contra a sede, e as tâmaras duraram por vários dias mais. Alguns dias depois, um grupo de beduínos que havia deixado sua terra natal no sul da Arábia, acompanhado de suas famílias e rebanhos, em busca de novas pastagens, passava por acaso pela entrada daquele vale. Quando viram bandos de pássaros voando em círculos sobre o lugar, concluíram que certamente havia água ali. Alguns deles correram para dentro do vale, conduzindo seus camelos, para ver o que havia lá, e encontraram uma mulher solitária, com uma criança, sentada à beira de um poço cheio até a borda. Aqueles homens eram tranquilos por natureza. Por isso, pediram a Hajar permissão para se estabelecerem em seu vale. Hajar consentiu, sob uma condição: o poço de Zamzam permaneceria para sempre propriedade de Ismael e de seus descendentes.

Quanto a Abraão, a história conta que, algum tempo depois, ele voltou àquele vale e, conforme a promessa de Deus, encontrou Hajar e seu filho vivos. A partir de então, passou a visitá-los com frequência, e diante de seus olhos Ismael tornou-se um homem adulto e se casou com uma jovem de uma tribo do sul da Arábia. Alguns anos depois, o patriarca Abraão recebeu em sonho a ordem de construir, para seu Senhor, uma casa de adoração junto ao poço de Zamzam. Com a ajuda de seu filho, construiu então o primeiro modelo da casa de adoração que ainda existe em Meca e é conhecida como a Caaba. Enquanto cortavam as pedras para construir aquela que futuramente seria reconhecida como a primeira casa erguida para a adoração do Deus único, Abraão ergueu o rosto para o céu e exclamou, com a voz tomada pela emoção: “Labbayk! Allahumma labbayk.” “Estou pronto para Ti, ó Deus; estou pronto para Ti.” É por isso que, quando os muçulmanos vão a Meca para realizar a peregrinação à primeira casa de adoração dedicada ao Deus único e se aproximam da cidade sagrada, erguem o mesmo chamado: “Labbayk! Allahumma labbayk.”

Cinco

‘Labbayk! Allahumma Labbayk।…

Quantas vezes ouvi esse chamado durante minhas cinco peregrinações a Meca. Pareceu-me que ainda o ouvia enquanto estava deitado junto ao fogo, perto de Zaid e Abu Saíde.

Fecho os olhos, e a lua e as estrelas desaparecem diante de mim. Ponho o braço sobre o rosto, e nem mesmo a luz do fogo consegue atravessar minhas pálpebras. Todos os sons e ruídos do deserto submergem. Já não ouço nada, exceto o chamado “Labbayk” em minha mente e, em meus ouvidos, o murmúrio indistinto e a pulsação do sangue. O sangue produz um som abafado, pulsa, bate como as ondas do mar que se chocam contra o casco do navio e como o estremecimento do motor. Ouço o motor vibrar, sinto sob mim a trepidação das tábuas do navio, sinto nas narinas o cheiro da fumaça e do óleo da embarcação e ouço aquele chamado: “Labbayk! Allahumma labbayk.” Assim ele havia ressoado em centenas de vozes naquele navio que me levara, seis anos antes, em minha primeira peregrinação, do Egito à Arábia, sobre um mar chamado Mar Vermelho — e ninguém sabe por que esse mar recebeu esse nome. Pois viajávamos de navio pelo canal de Suez, tendo à direita algumas montanhas da África e, à esquerda, as cadeias montanhosas do vale do Sinai: duas montanhas nuas, desprotegidas, rochosas, sem qualquer vegetação. À medida que o navio avançava, elas recuavam cada vez mais, até quase desaparecerem da vista, e chegamos a uma distância enevoada e cinzenta na qual a terra podia apenas ser sentida, não vista pelos sentidos. Ao longo de todo esse percurso pelo canal de Suez, a água que víamos não era vermelha, mas cinzenta; depois, no fim da tarde, quando entramos no amplo e aberto Mar Vermelho, vimos que, sob o suave toque do vento acariciante, ele era azul, assim como o Mediterrâneo.

No navio há somente peregrinos do Hajj, e são tantos que se pode dizer que ele mal tem capacidade para transportar toda essa gente. A companhia de navegação, ávida e enlouquecida pelos lucros da breve temporada do Hajj, está literalmente abarrotando o navio até a borda, sem se preocupar com o conforto dos passageiros. Nas cabines do convés, nos corredores, em cada escada, nas salas de jantar da primeira e da segunda classe, e nos porões do navio, esvaziados e equipados com escadas justamente para transportar passageiros: cada espaço vazio e cada canto foram dolorosamente apinhados de pessoas. Quase todos são peregrinos do Egito e do norte da África. Com extrema humildade, tendo diante dos olhos apenas o objetivo desta viagem, suportam sem protestos nem queixas esse sofrimento desnecessário. Como eles — mulheres, homens e crianças — jazem amontoados em grupos, como animais, sobre o piso do convés, e com enorme dificuldade esfregam e limpam seus utensílios domésticos; como cozinham, pois a companhia não fornece comida; como, empurrando-se continuamente, correm de um lado para outro em busca de água, levando canecas de lata ou recipientes revestidos de lona — a cada instante, uma aflição em meio àquela massa humana; como se reúnem cinco vezes por dia ao redor das torneiras, porque há pouquíssimas delas para tanta gente fazer a ablução antes da salat. Como sofrem no ar sufocante dos porões profundos do navio, dois andares abaixo do convés, porões onde em outras ocasiões viajam apenas fardos e caixas de mercadorias — qualquer pessoa que os visse compreenderia a força da fé, o poder da crença que fortalece esses peregrinos do Hajj; pois estão tão ocupados, tão absortos na ideia de Meca, que parece que na verdade nem sentem o sofrimento. Em seus lábios só se fala do Hajj, e seus corações se iluminam com a emoção com que contemplam o futuro que se aproxima. As mulheres frequentemente cantam em coro canções da cidade sagrada, e uma exclamação volta a erguer-se repetidamente: “Labbaik! Allahumma labbaik!”

Por volta do meio-dia do segundo dia, a sirene do navio soou: era o sinal de que havíamos alcançado a latitude de Rabigh. Rabigh é um pequeno porto ao norte de Jidá onde, segundo uma antiga tradição, os peregrinos do Hajj vindos das regiões setentrionais devem tirar suas roupas habituais e vestir o ihram, isto é, a roupa dos peregrinos do Hajj. Essa roupa consiste em dois pedaços de tecido branco, de lã ou algodão, sem costura: um deles é enrolado na cintura e chega abaixo dos joelhos; o outro fica solto sobre um dos ombros, enquanto a cabeça permanece descoberta. A origem dessa vestimenta está num exemplo do passado do Mensageiro, e sua razão é esta: durante o Hajj, os fiéis que vêm de todas as partes do mundo para visitar a Casa de Allah não devem sentir-se estranhos uns aos outros; não deve haver distinção entre raças e nações, nem entre ricos e pobres ou entre superiores e inferiores, para que todos saibam que são irmãos, iguais diante de Allah e dos homens. E, num instante, para onde haviam desaparecido do nosso navio todas as roupas masculinas coloridas e vistosas? Já não se viam o tarbush vermelho de Túnis, o elegante e caro burnous dos marroquinos, nem a insípida galabia dos egípcios; agora, por toda parte ao nosso redor, havia os corpos dos peregrinos do Hajj, que se moviam com uma dignidade maior, claramente influenciados por essa transformação e pelo propósito do Hajj. Como o ihram deixaria grande parte do corpo das mulheres exposta, as peregrinas podiam conservar suas roupas habituais. Mas, como vimos em nosso navio, suas roupas eram ou inteiramente pretas ou inteiramente brancas — vestidos pretos nas egípcias e brancos nas mulheres do norte da África —, e sua vestimenta não acrescentava sequer um toque de cor ao quadro geral.

Na madrugada do terceiro dia, o navio lançou âncora, e quase todos nós estávamos de pé junto à amurada, diante da costa da Arábia, olhando para a terra firme, que aos poucos se tornava nítida em meio à névoa da manhã.

Em todas as direções víamos as silhuetas de outros navios de peregrinos do Hajj e, entre esses navios e a terra firme, linhas desbotadas, amarelas e verde-esmeralda, na água: o poderoso recife submerso, parte da longa barreira traiçoeira que se estende diante da costa oriental do mar Vermelho. Espalhado a leste, via-se algo baixo como uma montanha, coberto pela penumbra; mas, quando de repente o sol nasceu atrás dele, deixou de ser uma montanha e tornou-se uma cidade à beira-mar, que subia em degraus desde a margem até o interior, com casas que se elevavam cada vez mais até o centro da cidade — um pequeno e delicado conjunto de construções feito de pedra de coral rosada e amarelo-acinzentada: o porto de Jidá. Aos poucos, distinguíamos claramente as janelas salientes, com franjas, e os balcões recuados, todos tingidos do mesmo cinza pela umidade de muitos anos. No centro, um minarete erguia-se rasgando o céu, branco e reto, como um cacho de uvas apontado para o alto.

Mais uma vez ergueu-se o grito: “Labbaik, Allahumma labbaik!” — um brado jubiloso de entrega e entusiasmo, que se elevou do meio dos peregrinos do Hajj, excitados em suas roupas brancas, e avançou sobre a água em direção à terra de suas maiores esperanças e sonhos!

A esperança deles — e também a nossa —, pois, para mim, aquela visão da costa árabe era o desfecho culminante de muitos anos de busca. Olhei para minha esposa, Elsa, que me acompanhava nesta peregrinação do Hajj, e li em seus olhos o mesmo sentimento…

E então vimos um bando de asas brancas correndo velozmente em nossa direção, vindo da terra firme: eram os barcos costeiros árabes, que avançavam tocando a superfície do mar, com suas velas latinas erguidas e seus cascos inclinados, silenciosos, num ritmo suave, ziguezagueando como se passassem por uma abertura entre dois recifes invisíveis — os primeiros mensageiros enviados pela Arábia, preparados para nos dar as boas-vindas. Os barcos aproximaram-se cada vez mais devagar e, por fim, todos se aglomeraram juntos ao lado do navio, inclinando e balançando os mastros. Suas velas foram sendo recolhidas, uma após outra, em meio à extrema agitação, produzindo sons de swish-swish e estalando com um pat-pat — como se um bando de enormes garças tivesse descido em busca de alimento. E, rompendo o silêncio de um instante antes, ergueu-se entre eles um ruído áspero e uma gritaria: eram os barqueiros, que agora começavam a saltar de um barco para outro e investiam contra a escada do navio para agarrar os embrulhos, caixas e bagagens dos peregrinos do Hajj. Diante da visão da Terra Santa, os peregrinos estavam tão arrebatados pela emoção que, em vez de tentar proteger-se, aceitavam tudo o que lhes acontecia!

As embarcações são pesadas e largas; o acabamento tosco e irregular de seus cascos é surpreendentemente desproporcional aos seus altos mastros e à beleza e elegância de suas velas. Certamente foi a bordo de uma embarcação desse tipo — talvez de uma um pouco maior da mesma espécie — que o audacioso conquistador dos mares, Sindbad, partiu em busca de aventuras para as quais ninguém o havia convidado, e desembarcou numa ilha que, na realidade… oh, que dorso terrível de uma baleia… E foi em navios desse tipo que muitos dos fenícios de Sindbad içavam as velas e partiam pelo mar Vermelho rumo ao sul, atravessavam o mar Arábico e prosseguiam sua viagem… em busca de especiarias quentes, aloés, incenso e dos tesouros de Ofir… .

E agora nós, os débeis e diminutos herdeiros daqueles audaciosos e heroicos viajantes dos mares, avançamos de barco pelo mar de Coral, evitando os recifes submersos, numa ampla linha curva: peregrinos do hajj, vestidos de branco, uma multidão muda de pessoas amontoadas e comprimidas entre malas, caixas, baús e fardos… Nossos corações tremem de expectativa; estamos arrepiados!

Eu também estava cheio de expectativa. Mas, sentado na proa da embarcação, segurando a mão de minha esposa, como poderia eu prever que esse pequeno empreendimento da peregrinação do hajj mudaria nossas vidas tão profundamente, tão completamente? Mais uma vez, sou obrigado a pensar na história de Sindbad. Quando ele deixou a costa de seu país e se lançou ao mar, assim como eu, não fazia a menor ideia do que o futuro lhe reservava; não previu as estranhas aventuras que mais tarde ocorreriam em sua vida, nem desejava prevê-las; queria apenas comerciar e ganhar dinheiro. Eu não queria nada além de realizar o hajj; mas, quando os acontecimentos destinados a ocorrer na vida dele e na minha de fato aconteceram, nenhum de nós dois pôde continuar olhando o nosso mundo com os olhos de antes.

É verdade que nada tão extraordinário quanto aquilo que o marinheiro de Sindbad teve de enfrentar — gênios, mulheres enfeitiçadas ou um gigantesco pássaro Roca — aconteceu em minha vida; contudo, o impacto que meu primeiro hajj causou no fundo de minha vida foi algo que nem todas as viagens marítimas daqueles marinheiros juntas poderiam ter causado na vida dele. A morte aguardava Elsa adiante, e nenhum de nós dois havia percebido qualquer sinal de quão próxima ela estava. Quanto a ela e a mim, eu compreendia — havia compreendido — que deixara o mundo ocidental para viver entre muçulmanos; mas não sabia que estava deixando para trás todo o meu passado. Sem qualquer aviso, meu velho mundo estava chegando ao fim para mim: o mundo das ideias e sentimentos ocidentais, dos esforços e empreendimentos, das imagens mentais! Uma porta se fechava lentamente atrás de mim, tão silenciosa e furtivamente que eu nem sequer tinha consciência disso; mas os dias mudariam por completo, e com eles o objetivo de todos os desejos — esse era o destino!

Até então, eu já havia visto muito do Oriente. Conhecia o Irã e o Egito muito melhor do que qualquer lugar da Europa. Cabul já não era desconhecida para mim havia muito tempo; eu conhecia os mercados de Damasco e Isfahan. Por isso, não consegui considerar tudo aquilo “tão insignificante e comum” quando, pela primeira vez, caminhei por um mercado de Jeddah e vi uma mistura e uma repetição informe daquilo que se pode encontrar, de modo muito mais completo, em outras partes do Oriente!

O mercado está coberto com tábuas de madeira e esteiras de casca, para proteger-se do sol intenso; os raios solares, filtrados pelas frestas e rasgões, iluminam o lugar e revestem a penumbra de um brilho dourado. Aqui e ali, em espaços abertos, há fogareiros diante dos quais meninos negros assam pequenos pedaços de carne sobre brasas incandescentes, espetados em varas. Há também cafés, com utensílios de latão envernizado e assentos feitos de folhas de palmeira; veem-se lojas repletas de mercadorias europeias e orientais! Em toda parte há abafamento, um calor insuportável, cheiro de peixe e coral triturado. A multidão está por toda parte: inúmeros peregrinos do hajj vestidos de branco e os prósperos e respeitáveis cidadãos de Jeddah, cuja aparência, vestuário e maneiras combinam elementos de todos os países do mundo muçulmano; talvez o pai seja hindustani — quando se sabe o nome dele —, ele próprio uma mistura de malaio e árabe, casado com uma mulher descendente de uzbeques pelo lado paterno e provavelmente de uma família somali pelo lado materno: eis o testemunho vivo de muitos séculos de peregrinação do hajj e do ambiente islâmico, no qual não há lugar para diferenças de cor ou distinções de casta. Além da mistura de sangue trazida pelos habitantes locais e pelos peregrinos, naquela época (1927) Jeddah, no Hijaz, era o único lugar onde se permitia a residência de não muçulmanos. Às vezes veem-se letreiros de lojas escritos em línguas europeias, e pessoas usando roupas tropicais brancas, capacetes ou chapéus contra o sol; sobre os consulados tremulam bandeiras estrangeiras.

Tudo isso ainda parece estar ligado à terra firme não mais do que ao mar: aos sons e cheiros do porto, aos navios ancorados além da tênue e sinuosa linha de coral e aos barcos de pesca com suas velas triangulares e coloridas — um mundo não muito diferente do Mediterrâneo. Embora algo já pareça diferente: as casas, o suave movimento do ar, suas fachadas magníficas e bem proporcionadas, com molduras de janelas e varandas feitas de madeira trabalhada, cobertas por telas de ripas de madeira muito finas e delicadas — por entre as frestas dessas cortinas, os moradores podem ver livremente tudo o que há nos espaços abertos, enquanto os transeuntes não conseguem ver o que existe lá dentro. Esses trabalhos de madeira estão incrustados nas paredes de pedra coralina rosada como faixas cinza-esverdeadas, delicadas e perfeitamente harmoniosas. Isto já não é o Mediterrâneo, nem é inteiramente árabe; é o mundo costeiro do mar Vermelho, cujas duas margens exibem esse tipo de arquitetura.

É claro que, nesse meio-tempo, a Arábia proclamou sua própria identidade no céu semelhante ao aço, nas montanhas de rocha nua e nas dunas a leste, e naquele sopro de grandeza e naquela nudez desolada que sempre se entrelaçam de maneira tão surpreendente na paisagem árabe.

Na tarde do dia seguinte, nossa caravana inicia sua jornada rumo a Meca, serpenteando em direção à entrada oriental da cidade por entre uma multidão de beduínos peregrinos, camelos com ou sem liteiras sobre o dorso, camelos de montaria e jumentos com o dorso coberto por tecidos vistosos e coloridos. Com frequência, automóveis passam velozmente por nós — alguns dos primeiros automóveis da Arábia Saudita — carregados de peregrinos e buzinando. Parece que os camelos compreendem que esses novos monstros são seus inimigos. Pois, sempre que um automóvel se aproxima, eles se encolhem e fogem desesperadamente em direção aos muros das casas, agitando seus longos pescoços de um lado para o outro — animais atônitos e indefesos. De modo assustador, uma nova era está despontando para esses animais de corpos longos e pacientes, e os sinais de medo e de extinção iminente os deixam apavorados. Pouco depois, deixamos para trás os muros brancos da cidade e, de repente, nos vemos num deserto — uma vasta planície cinzento-acastanhada e desolada, com moitas espinhosas aqui e ali e tufos de capim da estepe; atravessando essa planície, elevam-se algumas colinas baixas e isoladas, como arquipélagos no mar, enquanto, a leste, erguem-se, como uma muralha, montanhas um pouco mais altas, formadas de rocha, azul-acinzentadas, ásperas à vista e sem sinal de vida. Por toda aquela planície terrível, caravanas vão e vêm em longas procissões — centenas, milhares de camelos, os animais seguindo uns atrás dos outros na mesma fila, carregados de liteiras, peregrinos e trouxas —, desaparecendo por vezes atrás das montanhas e reaparecendo depois diante de nossos olhos. Pouco a pouco, todas as estradas convergem para uma única trilha cinzenta de poeira, formada pelas pegadas de centenas de anos de caravanas semelhantes.

No silêncio do deserto, que não é rompido, mas se torna ainda mais profundo, pelo som surdo dos pés dos camelos, pelos gritos ocasionais dos condutores beduínos e pelo canto em voz baixa de algum peregrino aqui e ali, sou subitamente dominado por uma imensa sensação arrebatadora — um sentimento tão avassalador que se poderia dizer que era uma criação divina. Vejo-me sobre uma ponte suspensa acima de um abismo invisível: uma ponte tão longa que a margem de onde vim já desapareceu na distância remota e indistinta, enquanto a outra extremidade ainda nem sequer surgiu diante dos meus olhos. Estou no meio dela; e meu coração se contraiu de terror quando me vi assim entre as duas extremidades de uma ponte — já tão distante de uma delas e ainda sem estar perto da outra —, e durante longos segundos tive a impressão de que teria de permanecer para sempre entre as duas margens, perpetuamente acima do abismo rugidor…

— quando, sobre o camelo à minha frente, uma egípcia subitamente entoa o antigo brado dos peregrinos: ‘Labbaika, Allahumma labbaik’ — e meu sonho se despedaça!

De todos os lados ouço as pessoas entoarem em coro: ‘Labbaika, Allahumma labbaik’ — ou uma camponesa egípcia cantar em homenagem ao Mensageiro de Allah, depois do que outra mulher solta um ‘gatráfa’, o grito jubiloso das mulheres árabes, que elas lançam em todas as ocasiões festivas — casamentos, nascimento de crianças, circuncisões e todos os tipos de procissões religiosas, especialmente as procissões do Hajj. Na Arábia dos tempos antigos, terra de heróis, quando as filhas dos chefes montavam em suas cavalgaduras e iam à guerra com os homens de sua tribo, o ‘gatráfa’ era frequentemente ouvido no campo de batalha, para inspirá-los e excitá-los a atos ainda mais heroicos (pois permitir que qualquer uma dessas mulheres fosse morta e, pior ainda, capturada pelo inimigo era considerado uma desonra extrema).

Quase todos os peregrinos viajam em liteiras — duas em cada camelo —, e o balanço das liteiras pouco a pouco deixa o cavaleiro mentalmente exausto e desorientado, submetendo seus nervos a um tormento terrível com aquele movimento e balanço incessantes. Por algum tempo, o cavaleiro fica sonolento, privado de toda energia; desperta de repente com um solavanco, volta a adormecer e torna a despertar. Os condutores de camelos que acompanham a caravana a pé chamam seus camelos de tempos em tempos, com gritos. Alguns deles entoam ocasionalmente uma canção ao ritmo dos passos alongados dos camelos.

Pela manhã, chegamos a Bahba. Ali a caravana parou durante o dia, pois o calor é tão intenso que só é possível viajar à noite.

Essa aldeia — que, na realidade, não passa de duas fileiras de cabanas desordenadas, cafés, algumas choças de folhas de palmeira e uma pequena mesquita — fica exatamente a meio caminho entre Jidá e Meca, num lugar onde as caravanas vêm passar o dia há muito tempo. A paisagem daqui é igual à que vimos durante todo o caminho desde que deixamos a costa: um deserto, com montanhas isoladas aqui e ali, e, a leste, uma cadeia de montanhas ainda mais altas e baixas, que separa as terras baixas costeiras do planalto da Arábia Central. Mas agora este deserto que nos rodeia parece um imenso acampamento militar, com incontáveis tendas, camelos, liteiras, trouxas e uma mistura de muitas línguas — árabe, hindustani, malaia, persa, somali, turca, pashto, amárica e, só Allah sabe, quantas outras! Na verdade, é um verdadeiro encontro, uma reunião da Liga das Nações. Mas, como todos vestem o ‘ihram’, que torna todos iguais, quase não se percebe de que linhagem ou nação é cada pessoa, e todas as nações juntas parecem formar uma só nação!

Depois de viajar a noite inteira, os peregrinos estão exaustos. Mas poucos entre eles sabem que até o tempo de descanso pode ser aproveitado. Para quase todos, a viagem é provavelmente uma empreitada extraordinariamente incomum, e para muitos é a primeira viagem de suas vidas — uma viagem inteiramente nova, rumo a um objetivo igualmente grandioso. É natural que estejam inquietos: precisam correr de um lado para o outro e manter as mãos ocupadas com alguma coisa, ainda que isso não seja mais do que abrir e amarrar suas bolsas, sacos e trouxas; caso contrário, seu vínculo com o mundo se romperá, e eles se perderão completamente numa felicidade sobrenatural, como um homem que se perde no mar…

Parece-me que foi isso que aconteceu com a família que está na tenda imediatamente ao lado da minha; ao que tudo indica, são peregrinos do hajj vindos de alguma aldeia de Bangladesh. Quase não falam: estão sentados no chão, com as pernas cruzadas, o olhar fixo para o leste, na direção de Meca — para o interior do deserto, que tremula e arde sob o calor cintilante. Há em seus rostos uma serenidade tão profunda que me pareceu que já estivessem diante da Casa de Deus, quase em Sua presença. A beleza daqueles homens chama a atenção: são esbeltos, têm cabelos finos que lhes caem até os ombros e barbas negras, lustrosas e densas.

Um deles está doente, deitado sobre um cobertor; ao seu lado, duas jovens estão ajoelhadas. Com seus salwars largos, vermelhos e azuis, suas túnicas adornadas com prata e as espessas cabeleiras negras caindo-lhes pelas costas, parecem dois pequenos pássaros multicoloridos. A mais jovem usa um anel de ouro numa das narinas.

À tarde, o homem enfermo morreu. Essas moças não fizeram nada parecido com o lamento que as mulheres dos países orientais costumam fazer, pois aquele homem morrera a caminho do hajj, em terra santa, e por isso era abençoado. Lavaram o cadáver e o amortalharam com o mesmo tecido que o morto usava como roupa. Depois, um deles se postou diante da tenda, levou as mãos em forma de concha à boca e proclamou em voz alta o chamado à oração: “Allahu Akbar”, “Allahu Akbar” — “Deus é Grande”, “Deus é Grande” —; “La ilaha illallah, Muhammadur rasulullah” — não há divindade além de Deus, e Maomé é Seu Mensageiro! … … Uma prece pelo morto! Que Deus tenha misericórdia de todos vocês. Homens vestidos com o ihram vieram correndo de todas as direções e se reuniram, formando fileiras atrás do imã, como soldados de um grande exército. Depois de terminada a oração fúnebre, cavaram uma sepultura; um velho recitou alguns versículos do Alcorão e, em seguida, lançaram terra sobre o peregrino morto, que jazia de lado, com o rosto voltado para Meca…

Na manhã do segundo dia, antes do nascer do sol, a planície poeirenta se estreita e as montanhas se aproximam ainda mais umas das outras; atravessamos um desfiladeiro e, na pálida luz da madrugada, os primeiros edifícios de Meca surgem diante de nossos olhos. Depois, quando o sol sobe ao céu, entramos nas ruas da cidade sagrada.

As casas de agora são semelhantes às de Jedá: janelas do mesmo tipo, com trabalho ornamental e venezianas salientes, e varandas cobertas; mas a pedra usada em sua construção pareceu-me mais pesada e espessa que o leve coral de cor clara de Jedá. Ainda é muito cedo, mas o calor intenso e onipresente já começa a aumentar. Diante de muitas casas há bancos de folhas, sobre os quais dormem pessoas exaustas e fatigadas. As estradas de terra pelas quais nossa caravana avança, balançando-se, em direção ao centro da cidade, tornam-se cada vez mais estreitas. Faltam apenas alguns dias para a festa do hajj. Por isso, as ruas estão apinhadas. Incontáveis peregrinos, envoltos no branco ihram, e muitos outros que temporariamente o trocaram por suas roupas comuns — vestimentas de todos os países do mundo muçulmano; carregadores de água curvados sob o peso de pesados odres ou sob varas das quais pendem, de ambos os lados como baldes, latas de gasolina cheias de água; condutores de burros e burros montados avançam ao som dos sinos em seus pescoços, com as costas cobertas por tecidos de cores vivas; e, para completar essa grande reunião, chegam do lado oposto os camelos, levando nas costas howdahs vazias e soltando bramidos de tons variados. Nas ruas estreitas há tamanho tumulto e algazarra que se poderia pensar que o hajj não é algo celebrado todos os anos há muitos e muitos séculos, mas uma súbita surpresa, um prodígio para o qual ninguém estivesse preparado! Por fim, nossa caravana deixou de ser uma caravana e se transformou num amontoado caótico de camelos, bagagens, peregrinos, condutores de camelos e tumulto!

Eu havia providenciado hospedagem na casa de um famoso mutawwif, ou guia, chamado Hasan Abid. Em meio àquela confusão, pareceu-me muito pequena a possibilidade de encontrá-lo ou localizar sua casa. Mas, de repente, alguém gritou: “Hasan Abid! Peregrinos de Hasan Abid! Onde estão vocês?” E um jovem surgiu subitamente diante de nós, como um gênio saído de uma garrafa, inclinou-se profundamente e nos pediu que o seguíssemos. O próprio Hasan Abid o enviara para nos guiar até sua casa. Depois de um desjejum suficiente na casa do mutawwif, fui com o jovem que antes me recebera até a Mesquita Sagrada. Caminhamos a pé por ruas apinhadas de gente, passando pelas lojas dos açougueiros. Avançamos, suando, em meio a enxames de moscas, aos odores de carne, verduras e legumes e à poeira. Depois atravessamos um bazar estreito e coberto, onde só havia lojas de comerciantes de tecidos — um festival de cores. Como nos bazares de outras partes da Ásia Ocidental e do Norte da África, as lojas daqui consistiam apenas em algumas prateleiras, a cerca de um metro do chão, onde o comerciante se sentava de pernas cruzadas, com todos os tipos de tecidos e peças coloridas empilhados ao seu redor; acima de sua cabeça pendiam fileiras de tecidos para roupas de toda espécie, destinados a todos os povos do mundo muçulmano!

Havia também pessoas de todas as nações, usando toda espécie de vestimenta: alguns com turbantes, outros com a cabeça descoberta; alguns caminhavam em silêncio, de cabeça baixa, talvez segurando um rosário na mão. Outros corriam apressados por entre a multidão; os corpos flexíveis e pardos dos somalis brilhavam como cobre nas dobras de suas roupas largas e peludas; os homens das terras altas do centro da Arábia, esbeltos, de rostos finos e delicados, moviam-se com orgulho; os uzbeques, de membros pesados e constituição firme e robusta, usavam, mesmo naquele calor de Meca, capotes acolchoados e botas de couro até os joelhos; as mulheres de Java, vestidas com sarongues, tinham o rosto descoberto e olhos amendoados; os marroquinos caminhavam em passos lentos, dignificados por seus brancos barnus; os habitantes de Meca vestiam roupas de algodão branco e usavam na cabeça pequenos gorros redondos, ridiculamente minúsculos, que cobriam as palmas; os fellahin egípcios tinham o rosto excitado; indianos de roupas brancas e olhos negros espiavam sob seus enormes turbantes brancos como a neve; e as mulheres indianas estavam tão completamente cobertas por seus brancos véus que pareciam tendas ambulantes. Havia ali negros gigantescos de Timbuktu ou do Daomé, vestidos com roupas azuis e folgadas e usando na cabeça gorros vermelhos que lhes cobriam a coroa; e pequenas chinesas de corpo delicado e bem proporcionado, semelhantes a borboletas multicoloridas, caminhavam com passos leves e compassados, que lembravam os cascos de uma corça. De todos os lados vinham gritos e a excitação tumultuosa da multidão, de modo que me pareceu estar no próprio centro de uma onda arrebentada, da qual eu conseguia apreender apenas alguns detalhes, nunca uma imagem unificada. Tudo flutuava num murmúrio de incontáveis línguas, entre gestos calorosos e excitação. E foi assim que, a certa altura, nos vimos diante de uma das entradas da Mesquita Sagrada, a Haram.

É uma entrada com três arcos; uma escadaria de pedra sobe degrau após degrau até a abertura da entrada. Sentado à entrada está um mendigo indiano seminu, estendendo para nós os seus dois braços magros, descarnados como esqueletos. E foi então que vi pela primeira vez o espaço de aspecto quadrado no interior da Casa Sagrada, situado muito abaixo do nível da rua, bem mais baixo que a entrada; por isso, diante dos meus olhos, ele se revelou como uma bacia: um grande quadrilátero cercado por numerosos arcos semicirculares, apoiados em muitas colunas, e no centro dele erguia-se uma construção quadrada, de seis lados iguais, com quarenta pés de altura, coberta por um pano negro. Ao redor do pano havia uma larga faixa, na qual versos do Alcorão estavam escritos em letras douradas; essa faixa contornava a parte superior da cobertura e envolvia a própria cobertura: a Caaba…

Então esta é a Caaba, o destino dos anseios de centenas de milhões de pessoas ao longo de muitos séculos! Para alcançar esse objetivo, quantos sacrifícios imensos não fizeram incontáveis peregrinos ao longo das eras! Muitos tombaram nos caminhos, nos braços da morte; muitos chegaram a esse destino somente depois de suportarem enormes sofrimentos e perdas. Ainda assim, para todos eles, essa pequena construção quadrada era o ponto culminante de seus anseios, e conseguir chegar até aqui significava realização, plenitude. Aqui se ergue um cubo quase perfeito — o significado etimológico de seu nome árabe, Caaba — inteiramente coberto por um pano negro, como uma ilha serena exatamente no centro do vasto quadrilátero da mesquita: muito mais calma e suave que qualquer obra arquitetônica em qualquer outro lugar da Terra. Quase me ocorre pensar que aquele que primeiro construiu a Casa da Caaba — pois a construção original de Abraão foi reconstruída várias vezes, sempre com a mesma forma — desejava criar uma parábola da humildade e da pequenez do ser humano diante de Alá. O construtor da Caaba sabia que nenhuma beleza do ritmo arquitetônico, nenhuma perfeição das linhas, por mais grandiosa e vigorosa que fosse, poderia fazer justiça à ideia de Alá; por isso, limitou-se ao mais simples projeto tridimensional que se pudesse imaginar: uma construção de pedra, quadrada, com seis lados iguais.

Vi muitas mesquitas muçulmanas pelo mundo, em cujo interior as mãos de grandes artistas criaram obras de arte inspiradoras. Vi mesquitas no Norte da África, santuários resplandecentes feitos de mármore e alabastro branco; vi em Jerusalém a Mesquita de Al-Aqsa, com uma cúpula de perfeição extraordinária, assentada sobre uma estrutura delicada, como o sonho de combinar, sem qualquer conflito, o leve e o pesado; e, em Istambul, palácios magníficos — como a Mesquita de Suleymaniye, a Yeni Valide e a Mesquita de Bayezid —, além das mesquitas de Bursa, na Ásia Menor, e das mesquitas do período safávida no Irã: pedra, azulejos de majólica multicoloridos, mosaicos, grandes arcos de estalactites sobre portas com incrustações de prata, delgados minaretes com galerias de mármore branco e azul-turquesa, quadriláteros revestidos de mármore, contendo fontes e bananeiras antigas — tudo isso formando um conjunto de harmonia majestosa; e, em Samarcanda, as mesquitas de Timur Lenk, nobres ruínas, magníficas até mesmo em sua decadência!

Vi tudo isso — mas nunca na vida senti, como neste momento diante da Caaba, que a mão do construtor tivesse chegado tão intimamente, tão próxima da sua consciência religiosa. Na extrema simplicidade de um cubo, em meio à renúncia completa a toda beleza das linhas arquitetônicas, exprime-se esta ideia: por mais bela que seja a beleza que o ser humano consiga criar com as próprias mãos, considerá-la adequada para Alá seria uma vaidade absolutamente sem sentido; pois, para expressar a majestade de Alá, o conceito mais simples que o ser humano é capaz de conceber é o mais grandioso. A mesma espécie de sentimento talvez tenha estado na origem e atuado na mente humana ao conceber a simplicidade matemática das pirâmides do Egito, embora ali eu tenha encontrado certa vaidade humana e uma expressão dela na escala colossal em que o homem construiu aqueles edifícios. Mas aqui, na Caaba, até a sua forma proclama o sacrifício e a submissão do ser humano. Não há na Terra comparação para a altiva humildade desta pequena construção.

Há apenas uma entrada na Caaba: uma porta revestida de prata, a nordeste, situada a cerca de sete pés acima do chão. Por isso, só se pode chegar até ela por meio de uma escada de madeira, que pode ser transportada de um lugar para outro e é colocada diante da porta durante apenas alguns dias do ano. O interior, que normalmente permanece fechado — vi-o várias vezes mais tarde —, é muito simples: o chão é de mármore, alguns poucos tapetes estão estendidos sobre ele, e lâmpadas de bronze e prata pendem de um teto sustentado por várias pesadas vigas de madeira. Na verdade, o interior da Caaba não possui nenhuma importância especial por si mesmo, pois a santidade da Caaba está ligada à construção inteira, que é a qibla, isto é, a direção da salat, para todo o mundo muçulmano. É voltada para esse símbolo da unicidade de Alá que centenas de milhões de muçulmanos do mundo dirigem o rosto, cinco vezes por dia.

No canto leste da construção está incrustada e exposta uma pedra profundamente negra, cercada por uma larga moldura de prata. Essa Pedra Negra, que, beijo após beijo de peregrinos ao longo de gerações, ficou gasta e côncava, tem sido causa de muitos mal-entendidos entre os não muçulmanos. Eles acreditam que se trata de um símbolo pagão que Maomé aceitou como uma concessão aos infiéis de Meca. Nada poderia estar mais distante da verdade. Assim como a Caaba é objeto de veneração, e não de adoração, o mesmo ocorre com essa Pedra Negra. Ela é honrada como a única pedra restante da primeira construção erguida por Abraão; e, como os lábios do Mensageiro de Alá tocaram essa pedra durante a Peregrinação de Despedida, somente por essa razão todos os peregrinos passaram desde então a beijá-la da mesma maneira. O Profeta sabia muito bem que os fiéis das gerações futuras seguiriam sempre o seu exemplo. Quando beijava essa pedra, sabia que os lábios de todos os peregrinos dos tempos vindouros viriam aqui, para sempre, encontrar a memória dos seus próprios lábios! A memória dos seus lábios sagrados — sob a forma de um abraço simbólico que deixou para toda a sua umma, um abraço eterno e vitorioso sobre a morte, sempre que os seus dois lábios sagrados tocarem a Pedra Negra. E os peregrinos, quando beijam a Pedra Negra, sentem que estão abraçando o Mensageiro de Alá e abraçando todos os outros muçulmanos que vieram antes deles e os que virão depois!

Nenhum muçulmano negará que a Caaba já existia muito antes do Mensageiro de Deus. Na verdade, sua importância reside precisamente nessa realidade. O Mensageiro de Deus não afirmou ser o fundador de uma nova religião. Pelo contrário, segundo a afirmação do Alcorão, a submissão a Deus — isto é, o Islã — existe desde o início do despertar da consciência humana como uma inclinação natural do ser humano. Abraão, Moisés, Jesus e todos os demais profetas de Deus ensinaram isso; e o Alcorão é a última das revelações divinas. Os muçulmanos também não negam que esta Casa Sagrada estivesse cheia de ídolos e símbolos pagãos antes de Maomé os destruir, assim como Moisés despedaçou o bezerro de ouro no Sinai; pois, muito antes de esses ídolos serem colocados na Caaba, o verdadeiro culto a Deus já era praticado aqui. Portanto, o que Maomé fez não foi mais que restabelecer a mesquita de Abraão em sua finalidade original.

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E aqui estou eu, diante da Casa de Culto de Abraão, olhando sem qualquer pensamento — pois o pensamento e a meditação só vieram muito depois — para aquela construção maravilhosa; e, de alguma semente alegre e oculta dentro de mim, nasce pouco a pouco uma exultação orgulhosa, como uma canção.

Com placas de mármore polido, sobre as quais dançam os reflexos dos raios solares, o chão foi coberto ao redor da Caaba, formando um amplo círculo; e sobre as placas de mármore muitas pessoas, mulheres e homens, caminham em círculos ao redor da Casa de Deus, coberta por um manto negro. Algumas choram, outras invocam Deus em voz alta durante a súplica, e muitas não têm palavras nos lábios nem lágrimas nos olhos; simplesmente caminham de cabeça baixa.

Dar sete voltas a pé em torno da Caaba, fazendo o tawaf, é uma parte do hajj; seu objetivo não é apenas demonstrar respeito por este lugar sagrado central do Islã, mas também lembrar a todos qual é a exigência fundamental do modo de vida islâmico. A Caaba é o símbolo da unicidade de Deus, e a circunvolução corporal em torno dela é uma expressão simbólica da atividade humana, cujo significado é que não devemos fazer de Deus apenas o centro de nossos pensamentos e sentimentos, contidos no termo “vida interior”, mas necessariamente também o centro de nossa vida exterior ativa, de nossas ações e de nossos esforços práticos e concretos.

E eu também vou ficando aos poucos absorto; de vez em quando tomo consciência de um homem ou de uma mulher perto de mim; diante dos meus olhos, muitas imagens soltas e velozes aparecem e desaparecem. Vi um negro de corpo enorme, vestido de branco com o “ihram”, com um tasbih de madeira enrolado como uma corrente em seu robusto pulso negro. Um malaio frágil caminhou por algum tempo ao meu lado, arrastando os pés, os dois braços pendendo desamparados e desorientados junto ao seu sarongue de batique. De quem são esses olhos cinzentos sob as sobrancelhas espessas e altivas? E, naquele instante, eles desapareceram no meio da multidão. Entre as muitas pessoas diante da Pedra Negra, há uma jovem indiana; é evidente que está doente. Em seu rosto estreito e delicado floresce um desejo extraordinariamente exposto, visível aos espectadores como peixes e algas no fundo de um lago claro e transparente. Ela mantém voltadas para cima as palmas de suas duas mãos pálidas, erguidas em direção à Caaba, e seus dedos tremem como se acompanhassem o ritmo de uma oração silenciosa…

Continuo caminhando; minuto após minuto passa, e tudo o que havia de mesquinho e amargo em meu coração começa a abandoná-lo. Torno-me parte da corrente circular — ah, então será esse o significado do que estamos fazendo: tomar consciência, compreender que cada um de nós é parte de um movimento, de uma órbita, de uma agitação. Será esse, talvez, o fim de toda a desorientação, de toda a confusão? E os momentos desapareceram, o tempo parou silenciosamente, imóvel — e este é o centro do universo!

Nove dias depois, Elsa morreu.

Ela morreu subitamente, depois de padecer de uma doença por menos de uma semana. A princípio, parecia não ser mais que um ligeiro mal-estar causado pelo calor e pela comida pouco saudável. Mais tarde, descobriu-se que era uma doença desconhecida dos trópicos, diante da qual os médicos sírios do hospital de Meca ficaram completamente perplexos. Uma escuridão cega e o mais profundo desespero desceram sobre mim.

Ela foi enterrada no poeirento cemitério de Meca. Uma pedra foi colocada sobre sua sepultura. Não consegui decidir-me a gravar qualquer inscrição nesse bloco de pedra; pois me pareceu que pensar numa lápide equivaleria a pensar no futuro, e naquele momento eu já não conseguia sequer imaginar o meu próprio futuro.

Ahmad, o filho pequeno de Elsa, esteve comigo por mais de um ano, no interior da Arábia. Era meu companheiro — um audaz camarada de dez anos. Mas, depois de algum tempo, também tive de despedir-me dele. Pois a família de sua mãe finalmente conseguiu convencer-me de que Ahmad precisava ser enviado à escola na Europa. Depois disso, de Elsa nada me restou além da sua lembrança e de uma pedra no cemitério de Meca, e de uma profunda escuridão, que só muito mais tarde se dissipou, depois que me entreguei ao abraço eterno da Arábia. A noite já ia muito adiantada, mas ainda estávamos sentados ao redor da fogueira apagada. Abu Saïd, nesse intervalo, havia superado a violenta tempestade de seu desejo; seus olhos agora estavam tristes, um tanto cansados. Começou a falar-nos de Nura como as pessoas costumam falar de alguém querido que morreu há muito tempo.

— Você sabe que ela não era bonita, mas eu a amava.

Acima de nossas cabeças, a lua cheia — plena como uma criatura viva. Não é de admirar que os árabes da era pré-islâmica considerassem a lua uma filha de Allah? — a deusa de longos cabelos, Al-Lat, que dava à luz sua misteriosa fecundidade. Em sua honra, os jovens de Meca e Taife dos tempos antigos celebravam as noites de lua cheia sob o céu aberto, em embriaguez desenfreada, com jogos amorosos e competições de poesia. Dos jarros de barro e das garrafas de couro corria um vinho vermelho como sangue e, por ser tão vermelho e tão excitante, os poetas o comparavam ao sangue de uma mulher em seus poemas licenciosos dedicados ao amor. Esses jovens orgulhosos e arrebatados derramavam o entusiasmo de seus corações no colo de Al-Lat, “cuja beleza é como o luar quando a lua está plena, e cuja majestade é como um bando de grous negros voando de asas abertas no céu” — essa deusa vigorosa e juvenil dos tempos antigos, que estendera suas asas do sul da Arábia para o norte e chegara até a longínqua Hélade, sob a forma de Leto.

Da abrangente e nebulosa adoração da natureza de Al-Lat, e do culto a uma multidão de outros deuses e deusas, até alcançar o elevado conceito do Deus único do Alcorão, foi para os árabes uma longa e extensa jornada. Seja como for, o ser humano sempre gostou de viajar longamente pelo caminho de sua alma — e aqui, na Arábia, não menos que em qualquer outra parte do mundo: amou tanto as longas viagens que toda a sua história poderia ser descrita como a história de sua busca religiosa.

Para os árabes, essa busca sempre foi a busca do Absoluto. Mesmo na mais remota antiguidade, quando haviam povoado o mundo ao seu redor com incontáveis deuses e demônios, permaneciam sempre conscientes daquele Uno absoluto, que, em sua verdade e majestade supremas, está acima de todos os deuses e deusas: um poder invisível, incompreensível e onipotente, muito além de tudo o que a imaginação humana pode conceber, a causa eterna acima de todas as coisas. Para eles, a deusa Al-Lat e suas duas irmãs divinas, Manat e Al-Uzza, não passavam de filhas de Allah, que estabeleciam uma ligação entre o Uno incognoscível e o mundo visível. Eram símbolos das forças incompreensíveis que cercavam a infância da humanidade; mas, no fundo do pensamento árabe, esteve sempre presente o conhecimento do “Uno”, pronto a irromper a cada instante numa fé consciente e desperta. Como poderia ter sido de outro modo? Eram um povo que se desenvolvera entre um céu severo e uma terra severa, em silêncio e solidão. Nesse espaço austero, simples e sem fim, a vida lhes era verdadeiramente difícil. Por isso, não podiam libertar-se do anseio por uma força que abrangesse todos os seres e toda a criação com justiça infalível e misericórdia, severidade e sabedoria: Allah… o Deus Altíssimo. Ele existe por toda a eternidade e, irradiando luz, ilumina o infinito; mas, como estás dentro dos limites de Sua ação, Ele está mais perto de ti — “mais perto que a tua veia jugular…”

…                            …                                                          …                                   …

A fogueira se apagou. Zayed e Abu Sayyid dormem, e perto dali nossas três camelas estão deitadas sobre a areia branca ao luar, ruminando com um suave som de mastigação, parando de vez em quando. Criaturas magníficas… Às vezes, uma delas muda de posição e esfrega sua corcova semelhante a um chifre contra o chão plano, e às vezes produz um som pelo nariz, como se tivesse suspirado. Magníficas, claramente definidas. Sim, entre todos os animais que o homem utiliza, estas são distintas, diferentes de todas estas paisagens: seres sem qualquer expressão definida, oscilando em meio à contradição, melancólicos e, ainda assim, infinitamente dóceis e humildes.

Não consigo dormir e, por isso, saio caminhando da tenda e subo uma colina próxima. A lua pende muito baixa no céu, sobre o horizonte ocidental, iluminando as baixas montanhas rochosas, que despertam como fantasmas em meio ao deserto morto. Daqui, as planícies costeiras baixas do Hijaz se estendem para o oeste, descendo muito lentamente: uma sucessão de vales atravessados por numerosos leitos sinuosos de cursos d’água secos, sem qualquer sinal de vida, sem aldeias, sem casas, sem vegetação — esses vales imóveis na nudez do luar. E, no entanto, foi justamente desta terra árida e sem vida, do meio destes vales arenosos e destas montanhas nuas, que brotou como uma fonte a religião que, na história da humanidade, deu à vida sua afirmação suprema…

A noite está quente e imóvel. Por causa da luz difusa e da distância, as montanhas parecem mover-se, agitar-se. Sob o luar pulsa um brilho pálido, azul e apagado. E através desse azul sem luminosidade flui lentamente um vislumbre de claridade branca como leite, semelhante à memória fantasmagórica de todas as cores da Terra; mas esse azul sobrenatural torna todas as cores desbotadas, sem se fundir nem se transformar no horizonte, e parece um poderoso chamado para algo inacessível, incognoscível!

Não muito longe daqui, escondida aos meus olhos, encontra-se a planície de Arafat, entre estes vales e montanhas desolados e sem vida — a planície onde todos os peregrinos que vão a Meca se reúnem um dia por ano, como recordação do Dia da Ressurreição, quando cada ser humano terá de prestar contas diante de seu Criador. Estou de pé, com a cabeça descoberta, vestido com a roupa branca do peregrino, entre incontáveis peregrinos vestidos de branco que vieram de três continentes. Todos estamos voltados para Jabal ar-Rahma — a “Montanha da Misericórdia” —, que se ergue no meio da vasta planície; de pé e contemplando-a, o meio-dia passou, a qibla passou, enquanto penso naquele Dia inevitável: “quando vos trouxerem à luz diante dos olhos e nada do que ocultais permanecerá escondido…”

E quando chego ao topo da montanha e olho para baixo, para a planície invisível de Arafat, azul e banhada pelo luar na paisagem diante de mim, que um instante antes estava completamente sem vida, ela de repente ganha vida — com o fluxo de todas as vidas através das quais passou a corrente da existência humana — e se enche das vozes misteriosas de todos aqueles milhões de homens e mulheres que caminharam entre Meca e Medina, que viajaram montados em camelos, em mais de mil e trezentas peregrinações, milhões de peregrinos vestidos de branco ao longo de mil e trezentos anos; ouço os sons e ruídos de seus dias passados, as asas da fé que os protegeram e os trouxeram para esta terra de montanhas rochosas e areias, e a aparente ausência de vida volta a agitar-se com o calor da vida, ao longo de muitos séculos, e esse poderoso bater de asas me arrasta para sua órbita, trazendo meus dias passados para dentro do presente, e mais uma vez conduzo um camelo pela planície—

—conduzindo o camelo, fazendo trovejar a planície sob as patas dos camelos em disparada, voltei de Arafat a Meca com milhares de beduínos vestidos de ihram — uma pequena partícula da inevitável onda estrondosa que faz a Terra tremer, composta por incontáveis camelas e homens em disparada; nas mãos dos homens, penduradas em altos bastões, estão as bandeiras de suas respectivas tribos, batendo no vento como tambores, enquanto seus gritos de guerra tribais rasgam o ar: “Ya Rawga, ya Rawga” — o grito dos homens da tribo Ataiba, invocando seu antepassado; em resposta, a tribo Harb brada “Ya Auf, ya Auf”, e um eco quase em completa oposição surge da extremidade direita da fileira: “Shammar, ya Shammar”.

Corremos conduzindo os camelos, voamos pela planície, e pareceu-me que voávamos sustentados pelo vento; perdemo-nos numa alegria cujo fim é aquele que não tem limite… E o vento anuncia em meus ouvidos, com sua voz, um êxtase insano de alegria: nunca mais serás um estranho, nunca — nunca mais!

À minha direita estão meus irmãos, e à minha esquerda estão irmãos; todos eles me são desconhecidos, mas nenhum está além de mim, nenhum é estranho: neste júbilo poderoso de corrermos rumo ao nosso objetivo, somos um único grupo, em busca do mesmo objetivo! A vasta Terra se estende diante de nós, e em meu coração tremula uma centelha daquela chama que ardia no coração dos companheiros do Profeta. Meus irmãos à direita e meus irmãos à esquerda sabem que ficaram aquém daquilo que se esperava deles e que, ao longo de muitos séculos, seus corações se tornaram pequenos, estreitos; e, ainda assim, a promessa de sucesso não lhes foi retirada, nem a nós…!

Do meio da multidão agitada como o mar, alguém solta seu grito tribal e ergue o brado da fé: somos irmãos daquele que se entrega a Deus; e outro se junta a ele: “Allahu Akbar — Deus é grande.”

E cada grupo das tribos ergue o mesmo brado. Neste momento, já não são beduínos embriagados pelo orgulho tribal: são homens que sabem que o mistério de Deus está verdadeiramente à espera deles… de nós. Em meio ao tropel de milhares de camelos correndo e ao farfalhar de centenas de bandeiras, seus gritos transformam-se pouco a pouco num estrondoso rugido de triunfo: Allahu Akbar.

Esse rugido flui como uma imensa e poderosa onda sobre milhares de homens que avançam no dorso dos camelos, sobre a vasta planície, até cada extremidade da Terra: Allahu Akbar! Esses homens, ao expandirem suas pequenas e insignificantes vidas, tornaram-se grandes, e sua fé agora os leva adiante, rumo à unidade, a horizontes ainda não cartografados… O desejo já não permanecerá pequeno e oculto; ele despertou — o nascer do sol de um triunfo ofuscante! O homem avança a passos largos nesse triunfo, com toda a glória e o esplendor concedidos por Deus; em seus passos está sua exultação, seu conhecimento é sua libertação, e seu mundo é uma esfera sem limites…

O cheiro do esterco dos camelos, sua respiração e seus zurros, o estrondo de trovão produzido pelas incontáveis patas, os gritos dos homens, o tilintar dos rifles pendurados nos pregos das selas, a poeira e o suor — tudo isso contém uma paz alegre e reconfortante.

Viro-me sobre a sela e vejo atrás de mim milhares de cavaleiros de camelo vestidos de branco, a multidão emaranhada quebrando-se onda após onda, e, além deles, a ponte pela qual vim: sua extremidade está exatamente atrás de mim, enquanto seu início já desapareceu na névoa da distância.