Dedicação
A todas as almas puras e devotadas que, ao cumprirem seu mais sagrado dever no caminho para alcançar a satisfação do Criador, sofreram o martírio.
Ao seu sangue sagrado, que fluiu como ondas agitadas nas páginas da história, para conscientizar as gerações futuras sobre seu supremo dever. A todos esses heroicos mártires que, por ordem do Grande Criador, não hesitaram sequer em sacrificar suas vidas mais queridas na luta para implementar os ideais islâmicos; sem dúvida, foram verdadeiramente obedientes ao Senhor e também alcançarão o sucesso na vida futura. A todas essas pessoas que disseram aos seus companheiros: uni-vos,
Temei a Allah, fortalecei a fé e permanecei entre os membros de Seu partido. Aos jovens heróis que, ao seguir o caminho da verdade, não se deixaram aterrorizar nem mesmo diante de centenas de crises e problemas. Nenhuma tempestade adversa conseguiu retardar seu ímpeto irresistível. Ao meu marido, que, até o último e difícil momento da vida, foi meu apoiador e ajudante. Mesmo nos momentos mais difíceis da vida, ele não abandonou meu lado; além disso, na jornada conjunta para alcançar o mesmo objetivo, entregou sua própria vida ao Criador. Aos irmãos e irmãs muçulmanos do Oriente e do Ocidente que leram minha autobiografia. Rogo a Allah que torne meu esforço bem-sucedido e benéfico e proveitoso para todos. (Amém)
Introdução
Ao amado Profeta Hazrat Muhammad (S.A.W.), o libertador de toda a humanidade, apresentando infinitas bênçãos e saudações, sinto a necessidade de apresentar duas palavras em forma de introdução.
Muitas vezes pensei em registrar os diversos acontecimentos da minha vida, mas, pessoalmente, eles não tinham grande importância para mim e, por isso, não consegui transformar esses pensamentos em realidade. Contudo, quando meus irmãos, irmãs, filhos e filhas envolvidos no movimento islâmico insistiram repetidamente na necessidade de registrar esses acontecimentos como uma das principais responsabilidades religiosas, não pude deixar de concordar com eles a esse respeito.
As forças ímpias e rebeldes contra Deus do Oriente e do Ocidente haviam decidido erradicar não apenas o movimento islâmico, mas também os líderes portadores da bandeira da verdade e os mujahidin revolucionários do Islã, pois os militantes do movimento islâmico haviam declarado sua decisão de pôr em prática o Alcorão de Allah e a Sunnah do Nobre Mensageiro (S.A.W.). Eles diziam: o Alcorão de Allah e a Sunnah do Mensageiro não vieram para permanecer suspensos, mas para serem estabelecidos letra por letra. Na realidade, por meio da educação e formação segundo o ideal do Tawhid e do estabelecimento de uma relação genuína com Allah, é preciso eliminar todos os tipos de superstições e costumes tolos que impedem a ummah muçulmana de desenvolver plenamente sua capacidade criadora. Desse modo, o domínio dos rebeldes contra Deus e dos opressores será extirpado da face do mundo. A escravidão de seres humanos por outros seres humanos chegará ao fim. Somente então a verdadeira forma da vida, como a sociedade dos Companheiros da era dourada, será restabelecida em sua existência real.
Não há dúvida de que o verdadeiro sucesso e a realização da nossa Terra e dos milhares de milhões de pessoas que nela vivem dependem justamente do sucesso do movimento islâmico.
A tortura demoníaca e desumana nas sombrias masmorras das prisões; a brutalidade dos carrascos de coração cruel e dos algozes do chicote; tudo isso aumentou ainda mais a paciência, a coragem e a força dos destemidos e dedicados ativistas do movimento islâmico.
Aqueles que, antes de nós, em todas as épocas, adotaram o caminho e a causa da verdade também tiveram de enfrentar essas tribulações e provações. Porém, nem mesmo os poderosos grupos dominantes de sua época, como Nimrod e o faraó, conseguiram desviá-los do caminho da verdade. Em comparação, a gravidade das punições ou da tortura nas prisões da época atual é, sem dúvida, extremamente insignificante!
É possível enfrentar um argumento com um argumento, uma opinião com uma opinião e uma discussão por meio de outra discussão. Mas os grupos poderosos da falsidade, cegos pelo poder, consideram mais valente lançar sobre os partidários da verdade um chicote colocado nas mãos de um louco do que recorrer a esses métodos positivos. É realmente difícil retirar esses tiranos opressores e seguidores da falsidade, autoproclamados senhores, do emaranhado da confusão e da ignorância e conduzi-los ao caminho da orientação.
O caminho da verdade é apenas um: o caminho de Allah, de Seus profetas e mensageiros e de seus seguidores. O caminho oposto é o caminho da mentira e da falsidade. A cada passo desse caminho espreita Satanás, o inimigo da verdade. Satanás conduz os seres humanos à destruição e ao extravio com extrema astúcia.
“E este é o Meu caminho reto. Segui-o, pois; e não sigais outros caminhos, para que eles não vos afastem do Seu caminho reto.” (Alcorão) Somente adotando os ideais do Islã — isto é, seguindo o caminho de Allah e observando o Alcorão e a Sunnah — será possível libertar a humanidade do mundo atual do polvo do extravio.
Na época atual, vejo sinais de que, por meio dos esforços unidos da comunidade muçulmana, será possível enfrentar as forças rebeldes contra Deus e alcançar a vitória. Estou esperançoso de que em breve testemunharemos também o hasteamento da bandeira vitoriosa da verdade sobre a pirâmide das doutrinas da falsidade. Tenho igualmente a firme convicção de que a nação cumprirá devidamente sua responsabilidade ideológica. Pois a nação muçulmana surgiu justamente para manter erguida a bandeira do Tawhid e da Risalah.
Naturalmente, não penso que haja pressa em fixar um limite de tempo ou de anos para o sucesso do movimento islâmico. Isso tampouco tem grande importância na vida de uma nação idealista. O essencial, porém, é verificar se estamos prosseguindo continuamente em direção à realização do nosso objetivo, mantendo-nos protegidos dos erros e equívocos.
Acreditamos que estamos no caminho da verdade, e aqueles que se juntarem à nossa caravana acrescentarão, cada um deles, um tijolo ao edifício do Emirado Islâmico. Outro ponto importante é que, de modo algum, se deve permitir qualquer enfraquecimento na atividade do movimento; em hipótese alguma o ritmo poderá diminuir, nem será permitido recuar. Consideramos que o sofrimento da prisão que padecemos é uma verdade histórica; de fato, esse é o destino daqueles que lutam sem fazer concessões contra a falsidade!
É desnecessário dizer que foi precisamente diante da importância de tudo isso que, para honrar o pedido de meus irmãos e irmãs, procurei registrar meu relato pessoal; para isso, peço a ajuda de Allah, o Altíssimo.
Ao escrever este relato pessoal, tive de mencionar repetidamente acontecimentos cuja simples imaginação faz a alma estremecer. Na verdade, a feiura e a crueldade dos castigos, bem como o próprio campo de treinamento dos carrascos e especialistas em punição, chamam-se Jahanam. Aqueles que saíram desse fogo ardente de Jahanam proclamaram novamente em voz elevada: Ó gente do mundo! O Islã não é o nome de uma linhagem ou parentesco; é, antes, o eterno ideal de vida baseado na ordem e em sua implementação.
Creio que Allah me ajudará a registrar os acontecimentos variados da vida na prisão e que isso será como um farol para os crentes. O nome do nosso caminho é Sirat al-Mustaqim, e é importante repetir que o nome da perfeição final das mensagens da verdade trazidas, ao longo dos tempos, pelos profetas e mensageiros é a Sharia Muhammadiana (S.A.W.).
“Que acredite quem quiser e que negue quem quiser.” Aqueles que estão preparados para suportar perigos e adversidades ao seguir o caminho de Allah unem-se, pela vontade de Allah, sob a bandeira do Alcorão e da Sunna.
Foi com essa compreensão que nos juntamos ao movimento islâmico: qualquer que seja a provação que enfrentemos por parte de Allah, nós a enfrentaremos com um sorriso. Pois sabemos que Allah comprou dos crentes suas vidas e seus bens em troca do Paraíso. Isso se deve ao fato de que eles combatem no caminho de Allah e até serão martirizados nesse caminho. Allah fez essa promessa por meio da Torá, do Evangelho e do Alcorão.
Amorosas e devotas saudações aos mártires que, antes de nós, se tornaram habitantes do Paraíso. Sem dúvida, somos viajantes no caminho da verdade. Saudações também àqueles em cujo coração ainda brilha, mesmo que minimamente, a luz da fé. Talvez Allah, o Altíssimo, também os agracie com a bênção da orientação. Zainab al-Ghazali
Palavras do tradutor
Hoje, em todos os cantos do mundo, as forças revolucionárias do movimento islâmico estão empenhadas numa luta intransigente, assumindo o firme compromisso de libertar os milhões de filhos de Adão privados de seus direitos e oprimidos pela brutal perseguição, exploração e conspirações dos círculos capitalistas imperialistas ocidentais e dos grupos imperialistas do império vermelho, conduzindo-os à morada dourada da liberdade, da paz e da prosperidade. Não apenas o mundo muçulmano, mas até mesmo as bases das fortalezas centrais dos grupos imperialistas brancos e vermelhos tremem hoje diante do estrondoso brado desses jovens revolucionários. Eles estão determinados a estabelecer, na terra de Allah, a religião de Allah, os direitos fundamentais de toda a humanidade e uma paz duradoura.
Na caravana revolucionária do movimento islâmico, enquanto jovens conscientes e combatentes avançam cantando canções de jihad, também avançam as irmãs, filhas ardentes da luz da verdade, erguendo o toque despertador das melodias do tawhid. Uma dessas irmãs revolucionárias é a ilustre senhora Zaynab al-Ghazali, célebre presidente do movimento islâmico feminino do Egito.
Quando o presidente Nasser, como testa de ferro dos grupos de interesses estabelecidos do mundo árabe e fantoche dos círculos imperialistas, passava o rolo compressor da opressão sobre o povo egípcio que lutava pela liberdade, estabelecendo exemplos da mais abjeta violência e barbárie, Zaynab al-Ghazali era uma das pessoas de fé que erguiam a voz em favor da justiça e da verdade e contra a falsidade. Diante do poderoso movimento popular conduzido sob a liderança de Zaynab al-Ghazali, o presidente Nasser perdeu o controle. Enquanto isso, o governo soviético pressionava o presidente Nasser para que esmagasse imediatamente esse movimento sem precedentes no Egito. Mas Nasser estava ciente da ira fumegante do povo egípcio e da força fundamental do movimento. Por isso, primeiro armou uma cilada conspiratória. Propôs a Zaynab al-Ghazali um importante cargo ministerial e a participação no poder. Mas Zaynab al-Ghazali rejeitou essas propostas e exigiu, conforme a reivindicação do povo, o imediato estabelecimento no país de um sistema social islâmico.
Quando Nasser fracassou repetidamente em atrair essa grande líder da revolução islâmica para a armadilha da conspiração, decidiu-se assassiná-la. Para executar a decisão, foi montada uma operação teatral na forma de um acidente rodoviário. Mas, pela misericórdia de Allah, ela escapou até mesmo da morte certa. Por fim, sem encontrar outra saída, o presidente Nasser lançou a presidente Zaynab al-Ghazali atrás das grades de ferro e respirou aliviado. O relato dos diversos acontecimentos arrepiantes de sua vida na prisão constitui esta sua obra autobiográfica. Considerando a incrível popularidade que o livro conquistou em todo o mundo, sentimos ser necessário entregar sua tradução bengali aos irmãos e irmãs de língua bengali. Se o caráter revolucionário e intransigente de Zaynab al-Ghazali influenciar os irmãos e irmãs bengalófonos, consideraremos nosso trabalho recompensado.
Primeiro capítulo
A animosidade pessoal de Jamal Nasser contra mim
Numa agradável tarde de fevereiro de 1964, eu voltava para casa em meu próprio carro. De repente, outro carro veio da direção oposta em altíssima velocidade, bateu violentamente no meu carro e, imediatamente, meu carro capotou. Fiquei gravemente ferida nesse acidente inesperado e, com a intensidade da dor, quase perdi os sentidos. Naquele momento, eu não estava em condições sequer de imaginar quem estava envolvido em alguma atividade no local do acidente e nas proximidades. Lembro-me apenas de que alguém parecia chamar-me repetidamente.
Ao recuperar os sentidos, vi que estava deitada numa cama do hospital da polícia. De um lado estavam meu amado marido, parentes próximos e familiares; do outro, alguns influentes membros do movimento islâmico. O medo e a ansiedade estavam claramente estampados no rosto de cada um deles. Agradeci a Allah por ter sobrevivido e, ao tentar perguntar-lhes algo para saber a causa do acidente, perdi novamente os sentidos.
Ao recobrar novamente a consciência, vi uma médica chegando com suas assistentes para me levar à ala de raios X. Então, todos os acontecimentos anteriores começaram a voltar à minha memória, um após o outro. Como eu havia escapado da morte certa, meu marido ainda agradecia a Allah com a voz embargada de devoção. Quando perguntei pelo motorista do meu carro, ele informou: “O motorista está bem. Sofreu ferimentos leves e está recebendo tratamento no hospital.” Mais tarde soube que ele havia sofrido lesões na cabeça e no cérebro. Enquanto isso, segundo o relatório de raios X, o osso da minha coxa estava fraturado. Por isso, fui enviada ao hospital “Mazhar Ashur” para ser operada. Ali, o renomado cirurgião Mohammad Abdullah realizou, enquanto eu estava inconsciente, uma operação que durou três horas e meia, salvando-me do perigo.
Depois de passarem vários dias perigosos, soube, por uma fonte confiável, que havia sido justamente o serviço de inteligência do presidente Jamal Nasser que planejara assassinar-me. Os acontecimentos posteriores comprovaram isso de maneira ainda mais clara. Mesmo naqueles dias calamitosos de terror governamental, os militantes revolucionários do movimento islâmico iam regularmente ao hospital para saber do meu estado. Agentes do serviço secreto do governo estavam posicionados do lado de fora do hospital. Depois de me informar detalhadamente sobre a situação adversa do país, proibi os militantes de irem visitar-me no hospital, por meio de seu querido líder, o irmão Abd al-Fattah Abduh Ismail, mártir, tendo em vista o interesse maior do povo e do movimento. Mas fiquei surpresa ao constatar que os militantes não estavam dispostos a ceder à pressão de qualquer situação adversa. Alguns dias depois, o secretário da administração governamental compareceu ao hospital com um arquivo importante, para obter minha assinatura e aprovação. Era natural que viesse falar comigo, pois eu era a presidente da organização. Contudo, assim que meu marido viu o secretário, levantou-se, tomou o arquivo de suas mãos e saiu com ele da sala. Pela conversa entre os dois, ficou claro que, anteriormente, o secretário já havia sido impedido uma vez de encontrar-se comigo. Não gostei daquilo. Quando perguntei ao meu marido a respeito, ele limitou-se a dizer: “Estou apenas cumprindo as ordens do médico”.
Mais tarde, o médico veio examinar meu ferimento e aconselhou-me a abster-me de todo tipo de trabalho. No decorrer da conversa, informou também que havia vários documentos e informações no arquivo. Mas era proibido que tudo aquilo chegasse às suas mãos. Imediatamente protestei contra suas palavras, dizendo que aqueles documentos não continham nada tão terrível que impedisse que fossem entregues a mim. Na verdade, aqueles documentos deveriam chegar até mim para que eu os assinasse. Mas ele se recusou a entregar-me o arquivo. Alguns dias depois, pedi permissão para continuar, da cama, parte do trabalho da organização. Isso também foi recusado. Ao ver e ouvir tudo aquilo, minha suspeita transformou-se em certeza: certamente havia ocorrido algo importante que eles tentavam deliberadamente esconder de mim. Pelas conversas de meu marido, de meu secretário particular e até da secretária-geral do conselho executivo da assembleia, percebia-se que todos eles tentavam ocultar de mim um acontecimento específico.
Por fim, aconteceu exatamente o que eu temia. Na tarde do dia seguinte, a secretária do secretariado governamental aproximou-se de mim, ignorando completamente a presença de meu marido. Antes de revelar o ocorrido, aconselhou-me a preparar-me mentalmente para ouvir qualquer coisa com paciência e coragem. Em seguida, sem a menor hesitação, abriu o arquivo diante de mim. Vi que o assunto extremamente importante que tentavam esconder de mim não era outra coisa senão o decreto governamental que declarava proibida a nossa organização feminina.
A secretária do governo dizia isso para me oferecer algum consolo temporário: “Naturalmente, isso deve causar-lhe uma tristeza imensa.” Perguntei: “Graças infinitas a Allah, mas onde o governo encontrou alguma justificativa ou autoridade constitucional para impor a proibição à organização feminina?” Contudo, a situação havia chegado a tal ponto que já não havia uma única pessoa livre para fazer essa pergunta diante do governo. Nós fizemos tudo o que estava ao nosso alcance, mas Jamal Nasser estava firmemente decidido a proibir a Organização Islâmica Feminina. Ele está pessoalmente muito descontente com a senhora; na verdade, não suporta sequer ouvir alguém pronunciar seu nome. Quando alguém menciona seu nome sem querer, ele reage de uma maneira tão hostil que é indescritível. Parece que sua personalidade e seu movimento lhe tiraram a tranquilidade.” Depois de ouvir a secretária do governo, respondi: “Graças a Allah, Nasser só teme a mim e ao partido por uma razão: estamos promovendo o movimento para estabelecer uma sociedade islâmica, visando à libertação social, econômica e política das pessoas. E a razão fundamental da minha insatisfação com Nasser é que ele ignora as reivindicações islâmicas do povo e rasteja aos pés dos círculos imperialistas estrangeiros. De qualquer modo, ele logo perceberá que não é possível silenciar o movimento islâmico impondo uma proibição governamental, matando-nos ou colocando-nos na prisão. O movimento islâmico continuará avançando em seu curso natural. Nenhuma força do mundo poderá resistir por muito tempo diante deste movimento. Diante do avanço irresistível dos mujahidin da religião de Allah, essas forças chamadas de poder serão obrigadas a voar como palha ao vento. Allah ordenou-nos que realizássemos obras construtivas e criativas e instruiu-nos a resistir às ações de destruição e corrupção.”
Ao ouvir minhas palavras, a secretária do secretariado disse com extrema humildade: “Respeitável presidente! Tenho verdadeira esperança de que a proibição imposta ao seu partido seja suspensa.” Depois, olhando para os lados, disse em voz ligeiramente baixa: “Estou com medo de que tenham escondido aqui algum microfone secreto. A senhora sabe, até as paredes têm ouvidos.” Então, a secretária do secretariado governamental tirou um papel do bolso secreto e, olhando cuidadosamente ao redor, disse: “Ilustríssima presidente! Tenho um pedido pessoal à senhora: por favor, assine este papel. Assim que o assinar, a decisão de impor a proibição governamental ao seu partido será anulada.”
Ao tomar o papel nas mãos para lê-lo, não conheci limites para minha indignação e espanto ao descobrir que se tratava de um formulário de pedido de ingresso no partido socialista governamental, que estava no poder.
Permaneci como que petrificada por alguns momentos. Depois, engolindo toda a amargura, disse à secretária de Jamal Nasser:
Secretária, se encontrar alguma boa ação, vá e faça-a. Lembre-se e diga a Nasser que, antes de assinar em apoio a um governante opressor como ele, seria melhor que minhas mãos ardessem, se queimassem e derretessem. Jamal Nasser está envolvido em atividades injustas contra Allah e o Islã. Ele é inimigo do povo; suas mãos manchadas de infâmia estão tingidas de sangue, seja o do líder popular Abd al-Qader Awudah, seja o de inúmeros muçulmanos revolucionários. Para mim, é preferível aceitar a dissolução do meu partido a apoiar um tirano cruel como ele.
Depois, a secretária do Secretariado do Governo beijou minha mão e disse:
: Mãe, a senhora pode aceitar-me como filha?
: Por que não? — respondi.
: Então, deixe esse assunto de lado; em vez disso, ……
: Não, nem em troca do maior sacrifício possível é concebível assinar em apoio ao governo tirânico de Jamal Nasser. É inconcebível uma aliança entre a verdade e a mentira. Pode ir, secretária!
À medida que fui me recuperando, os dias no hospital chegaram ao fim. Voltei para casa.
Eu e a União Socialista
Depois disso, por assim dizer, aquela secretária do sexo feminino passou a vir até mim quase todos os dias no secretariado. Certo dia, ela veio e disse:
: Boas notícias, madame! A decisão de impor uma proibição à sua organização foi suspensa.
Fiquei surpresa ao ouvir isso e perguntei:
: Por quê?
: Não sei nada com certeza. Contudo, parece que pode ser que estejam abrindo caminho para estabelecer oficialmente um contato e iniciar discussões com a senhora. Assim, a secretária da administração governamental continuou trazendo-me várias informações, e eu também continuei dirigindo as atividades e os trabalhos do partido a partir da minha residência. Alguns dias depois, fui ao hospital para retirar o gesso e soube da libertação do líder popular, o senhor Sayyid Qutb. Ainda na prisão, ele soube do meu acidente de trânsito e, imediatamente após ser libertado, correu ao hospital para me ver.
Poucos dias depois, recebi, por convocação do governo, um cartão de registro. Os dados do cartão eram exatamente os seguintes:
União Socialista Árabe-
Liberdade—Socialismo—Solidariedade-
Nome — Zinat al-Ghazali al-Jubaili.
Também conhecida como — Zinat al-Ghazali.
Cargo/profissão — Presidente da Organização das Mulheres Islâmicas.
Unidade — Albasayeen-Almaja.
Seção — Nova Misr.
Distrito — Cairo.
Junto com este cartão, pelo mesmo correio, chegou também um documento detalhado. Esse documento era uma prova das relações entre o Egito e a União Soviética em 1964.
Depois disso, começaram a chegar continuamente cartas e convites oficiais por parte do partido governista. Também fui convidada a participar de suas diversas reuniões e conferências. Mas eu já havia decidido que não responderia a nenhum tipo de carta ou correspondência desse gênero. Enquanto isso, depois de me recuperar completamente, o médico me autorizou a dedicar-me integralmente às atividades do partido.
Certo dia, na sede da Organização Islâmica das Mulheres, minha secretária pessoal informou que alguém queria falar comigo em nome da União Socialista. Peguei o receptor e disse: “Assalamu alaikum”. Do outro lado, veio a resposta:
“Wa alaikumus salam.”
“Com quem estou falando? Quem deseja falar comigo e por quê?” Fiz as três perguntas de uma só vez, exigindo uma resposta.
“Se a senhora é a respeitável Zinat Ghazali, então, em nome da União Socialista, sinto-me no dever de lhe pedir que, por gentileza, ficaremos muito felizes se as irmãs da Organização Islâmica das Mulheres forem ao aeroporto, sob sua liderança, para receber o Presidente Gamal Nasser.”
Vendo que eu permanecia em silêncio, a pessoa do outro lado voltou a dizer:
“Se a senhora der sua ordem, enviaremos um carro, que ficará sempre à sua disposição.”
“Não, obrigada”, disse eu, e coloquei o receptor no lugar. Dois ou três dias depois, recebi outro telefonema da União Socialista. Dessa vez, uma senhora perguntou:
“Por que vocês não foram ao aeroporto para dar as boas-vindas ao Presidente?”
Eu disse: “Os trabalhadores da nossa organização também são completamente livres para decidir aonde ir ou não ir. Além disso, seguimos os ensinamentos islâmicos. Não nos é possível ir a um lugar onde estejam envolvidos o respeito, a honra e a decência………
Parece que vocês não estão preparados para nos apoiar. Está bem, o senhor não veio, mas não deu ordens para que as outras mulheres chegassem ao aeroporto?
: Não; se considero algo impróprio para mim mesma, nem se pode cogitar que eu dê ordens a outra pessoa nesse assunto.
: Isso significa que vocês não cooperarão conosco de maneira alguma.
: Sim, cooperaremos, mas somente no caminho do Islã. Se vocês seguirem o caminho indicado por Alá, terão nossa cooperação a cada passo; caso contrário, o conflito entre a verdade e a falsidade continuará.
: O senhor pode vir até o nosso escritório para conversarmos?
: Não, ainda não estou completamente recuperada. Contudo, se for possível para o senhor, pode vir à minha humilde casa — vou desligar o telefone. Cerca de uma semana depois dessa conversa telefônica, foi enviada em meu nome uma carta registrada, datada de 15/9/1964. Ela continha uma decisão ministerial datada de 6/2/1964. Seu número era 132. De acordo com essa decisão, a Organização Islâmica das Mulheres foi proibida pela segunda vez, e essa notícia foi enviada por carta registrada.
Não é para os rebeldes contra Deus
Em 15 de setembro de 1964, em reação à decisão do governo de declarar proibida a Organização das Mulheres Islâmicas, realizou-se uma reunião de emergência da organização. Na reunião, foi aprovada por unanimidade uma resolução que recusava aceitar a decisão governamental e transferir os fundos da organização ao governo ou a qualquer partido em particular. Decidiu-se também realizar uma nova reunião especial de emergência no prazo de 24 horas; nessa reunião, decidiu-se desobedecer à decisão do governo e contestar judicialmente essa decisão ilegal do governo.
Com o objetivo de nos representar no processo em nome da organização, nomeamos como advogado o renomado jurista Jawab Abdullah Rishwan e imediatamente enviamos informações detalhadas sobre o assunto ao Presidente, ao Ministro do Interior, ao Vice-Ministro do Interior e aos jornais e revistas. Nessas cartas, deixamos claro que o principal objetivo da Organização das Mulheres Islâmicas, fundada em 1936, é promover e difundir os ideais islâmicos e organizar as mulheres muçulmanas sob a bandeira islâmica, em benefício dos interesses maiores do país e do povo. O governo ou o Ministério do Interior não são patrocinadores da nossa organização para que possam declará-la proibida a fim de realizar algum de seus objetivos ilegais. Não somos obrigadas a aceitar qualquer decisão ou declaração desse tipo do governo; pelo contrário, reiteramos nosso apelo ao governo para que tome medidas imediatas visando à grandiosa meta de implementar, no mundo de Allah, o modo de vida concedido por Allah. Estamos prontas para oferecer toda a cooperação nesse sentido.
Mas a embriaguez do poder e a oposição ao Islã haviam deixado Jamal Nasser tão enlouquecido que ele não estava disposto a considerar digno de atenção nenhum princípio de justiça ou verdade. Foi precisamente por causa de sua atitude hostil para comigo que ele, às pressas, declarou ilegal a organização islâmica e, do mesmo modo, fechou por tempo indeterminado a revista publicada sob minha direção editorial. Ele não hesitou sequer em recorrer às forças militares para realizar esses atos ilegais. De repente, eles entraram à força na sede da organização, sem autorização, e tomaram posse do escritório e de todo o seu mobiliário. Chegaram até a expulsar, empurrando-as para fora, as crianças pobres e inocentes do orfanato adjacente mantido sob o patrocínio da organização. Escolheram para a ocupação um momento em que nenhuma de nossas funcionárias estava presente na sede. Apenas a secretária-adjunta do escritório estava trabalhando naquele momento. Os ocupantes governamentais alegaram que haviam tomado dela o poder de controle. No dia seguinte, entreguei aos jornais e revistas a seguinte declaração para publicação.
“A Organização das Mulheres Islâmicas, fundada em 1936, é uma organização islâmica regida por princípios. Seu principal objetivo é implementar plenamente Al-Islam, o modo de vida concedido por Allah, visando à solução justa e permanente de todos os problemas da humanidade. Na realidade, o detentor de todo o poder é Allah, e Allah é nosso Senhor, e consideramos condenável a tendência de estabelecer o governo de uma pessoa sobre o povo.
Condenamos inequivocamente a decisão governamental de impor uma proibição à Organização das Mulheres Islâmicas e recusamos aceitá-la. Queremos também deixar claro que Jamal Nasser, que surgiu do nada e se instalou no poder, não tem nenhum direito moral de governar o povo muçulmano. Tanto seu cargo quanto seu Conselho de Ministros são ilegais.
Queremos deixar ainda mais claro que o avanço do movimento islâmico não pode ser impedido por meio da força e da opressão, da tirania e de conspirações. O movimento islâmico continuará, mesmo sem qualquer escritório, fundo ou mobiliário. Nenhuma força do mundo poderá nos privar da nossa fé, fonte de uma inspiração vigorosa. A confiança inabalável em Allah e em Seu Mensageiro Muhammad (S.A.W.), bem como a fraternidade islâmica universal, manterá irresistível o nosso progresso. O jihad contínuo no caminho da verdade é o nosso programa de ação. Este movimento continuará até que seja alcançado o grandioso objetivo da revolução islâmica.”
O que faremos?
Depois que o governo tomou posse da sede da Organização das Mulheres Islâmicas, várias delegações de mulheres vieram até mim para consultar-me e pedir orientação sobre o programa de ação seguinte.
O ano de 1964 pode ser considerado, em certo sentido, o auge da ascensão do regime nasserista. A situação chegou a tal ponto que proferir uma única palavra contra sua autocracia era considerado praticamente um grave ato de oposição. Enquanto isso, quase todos os líderes, grandes e pequenos, do renomado movimento islâmico Muslim Brotherhood, ou Irmandade Muçulmana (Ikhwan al-Muslimun), foram presos sob várias acusações falsas ou forjadas. Assim, não restou ninguém para criticar as atividades antipopulares do governo. Por outro lado, políticos oportunistas e interesseiros aproveitavam ao máximo a oportunidade de alcançar seus objetivos bajulando Nasser. Até mesmo alguns líderes religiosos e certas publicações religiosas consideravam, naquela época, que elogiar o regime nasserista era relativamente mais benéfico. Na famosa publicação árabe Al-Azhar também eram publicados artigos e ensaios que mereciam ser considerados uma tentativa de estabelecer, por meio de argumentos racionais, o papel vergonhoso do grupo governante tirânico. E os jornais e revistas mascarados permaneciam ocupados lançando uma onda de propaganda difamatória contra aqueles que eram a força vital dedicada do movimento islâmico. Mesmo em uma situação tão terrível de opressão e terror, os intrépidos mujahidins do movimento islâmico mantinham erguida a bandeira da verdade. Apesar de centenas de perseguições e torturas, seu ânimo não se abateu; não houve o menor enfraquecimento em suas atividades, nem se apagou o doce sorriso de seus rostos.
As mulheres muçulmanas também desempenharam um papel extremamente importante nesse campo. Em vez de buscar ganhos mundanos, aceitaram de bom grado as dificuldades no caminho da obtenção da satisfação de Allah. Superando montanhas de medo, ameaças, obstáculos e adversidades, elas vinham regularmente até mim, trazendo novo entusiasmo e inspiração. Mesmo em tempos tão difíceis, organizavam reuniões domésticas e assembleias gerais em suas respectivas regiões. Naquela época, iniciamos um programa de treinamento para oradoras. Desse modo, providenciou-se o envio, por todo o país, das pessoas treinadas para realizar a divulgação do movimento e organizar as mulheres. Entretanto, pouco depois, devido à rigorosa política de repressão do governo, tivemos de suspender esse plano por enquanto. Depois disso, o movimento ficou limitado a atividades em nível pessoal.
Desculpas e fraude
Algum tempo depois, vários oficiais do serviço secreto de Jamal Nasser encontraram-se comigo e impuseram diversas propostas e condições para reviver a Organização das Mulheres Islâmicas. Eles me fizeram uma proposta condicionada à devolução também da minha publicação. Além disso, ofereceram-me uma pensão mensal de trezentas libras egípcias. Em troca de tudo isso, porém, queriam que eu me afastasse do movimento islâmico.
Eu lhes disse:
Considero extremamente insignificantes, em comparação com a obtenção da satisfação de Allah, todas as riquezas e todos os poderes do mundo. Rejeito essas suas tentações e propostas condicionais.
Apesar da minha clara rejeição, os oficiais do serviço secreto voltaram a dizer-me:
“Veja, se sua organização quiser entrar em cena como grupo auxiliar do partido governista, ela será revivida muito em breve, e sua sede também lhe será devolvida, juntamente com uma verba especial anual de vinte mil libras.”
Em resposta, eu lhes disse:
“Vocês continuam repetindo um equívoco. Devem saber que nenhuma cobiça ou ameaça pode nos desviar do caminho do Islã. Não fazemos parte daqueles que fazem negócios com a religião. Assim como nós mesmos não estamos desencaminhados, também não podemos sequer pensar em desencaminhar outra pessoa. Não acreditamos em nenhum tipo de artifício ou ambiguidade. Podem vir.” Mesmo depois disso, eles continuaram apresentando várias propostas tendenciosas e tentando, de uma forma ou de outra, levar-me a um acordo. Fiquei espantado com aquela tentativa ridícula e presumi que não passava de um ensaio para algum novo teatro governamental. Na realidade, logo se provou que minha suspeita era verdadeira. Todas as suas iniciativas eram apenas o pano de fundo para uma conspiração posterior.
A coruja da noite
Certa tarde, três homens chegaram à minha casa e pediram para falar comigo. Fui à sala reservada para receber os visitantes e vi que os três estavam vestidos com trajes árabes. Depois das saudações, perguntei-lhes o motivo de terem vindo até mim. Um deles respondeu:
“Somos cidadãos sírios. Viemos ao Cairo, vindos da Arábia Saudita, para passar uma breve licença. Estivemos com os líderes da Irmandade na Arábia Saudita: Saeed Ramadan, o xeique Mustafa Alam, Kamel Sharif, Muhammad Usmavi e Fathi Kholi. (É digno de nota que esses líderes, exasperados com a perseguição de Jamal Nasser, foram obrigados a exilar-se na Arábia Saudita.) Eles enviaram saudações e cumprimentos ao povo egípcio e desejam que o povo mantenha sua confiança inabalável no movimento.”
Depois disso, os três cavalheiros começaram a discutir entre si sobre a Irmandade e Jamal Nasser. Após longas discussões sobre as perseguições e os maus-tratos infligidos por Nasser à Irmandade, sobre os acontecimentos de 1954 e sobre o martírio de Abd al-Qader Awda e seus companheiros, disseram-me que estavam preparados para provocar uma revolta no país e assassinar Nasser, e que os líderes exilados da Irmandade concordavam com eles nesse assunto. Em seguida, olharam para mim interrogativamente. Até então eu permanecera calado, apenas ouvindo o que diziam. Então respondi: “O objetivo que vocês descreveram parece-me algo completamente novo, tanto em seu conteúdo quanto em sua terminologia. Não sei nada a esse respeito e tampouco quero saber.”
Ao ouvirem minhas palavras, disseram: “Então voltaremos a procurá-lo mais tarde, para saber a opinião do Murshid al-‘Amm e do partido.”
Eu disse: “Não sei nada sobre qualquer grupo secreto da Irmandade. Além disso, o governo proibiu a Irmandade como partido político. Não posso conversar com o Murshid a esse respeito, pois nossa relação também se baseia na fraternidade islâmica e na amizade familiar. Na minha opinião, nenhum muçulmano sequer pensa em assassinar Jamal Nasser. Pessoalmente, não posso prestar-lhes outro serviço além de aconselhá-los a retornar ao próprio país e buscar a purificação espiritual.”
Depois que terminei de falar, um deles disse:
“O senhor provavelmente está descontente conosco. Mas diga-me: Nasser não destruiu o país?”
“Mas o objetivo da Irmandade não é assassinar Nasser.”
Então pedi que me dissessem seus nomes. Ao dizerem os nomes, os três pareceram ficar desconcertados. Depois de alguma hesitação, um deles disse que se chamava Abdushshafi Abdul Haq, o outro, Abdul Jalil Isa, e o terceiro, Abdur Rahman Khalil. Ao ouvir a maneira como disseram seus nomes e o fato de todos começarem com “Abdu”, já não consegui conter o riso. Tendo entendido o que precisava entender, eu lhes disse:
“Meus irmãos, é melhor que voltem rapidamente à sua pátria, antes que sejam capturados e severamente castigados pela polícia secreta de Nasser.”
Em resposta, um deles disse: “Apa Jinath! A senhora certamente tem o direito de desconfiar de nós. Contudo, em breve descobrirá quem somos!” Depois disso, foram embora.
Mais tarde, quando Abdul Fattah Ismail veio visitar-me, contei-lhe a história daqueles cidadãos artificialmente inofensivos.
Todos são Ahmad Rasekh
Ainda não haviam se passado duas semanas quando, certo dia, um senhor chamado Ahmad Rasekh veio encontrar-se comigo. Ao se apresentar, o senhor informou que era membro do serviço de inteligência. Depois de permanecer calado por alguns instantes, perguntou o que eu havia discutido, cerca de duas semanas antes, com aqueles três cidadãos sírios.
Respondi com indiferença:
“Pelo que acredito, aqueles três senhores de modo algum são cidadãos sírios. Na verdade, vieram julgando que eu era tolo, com o objetivo de me fazer parecer ainda mais tolo. Sou realmente incapaz de compreender por que, mesmo depois de a administração ter tomado meu jornal e minha sede, continua recorrendo a essas manobras teatrais. Afinal, qual é o objetivo do governo?” Em seguida, o senhor do serviço de inteligência mudou de assunto e perguntou:
:O que você pensa sobre Jamaluf e Jamalufa?
:Todos eles são ateus desencaminhados. São extremamente hábeis em atividades injustas e ilegais. Reagindo às minhas palavras, o senhor disse:
:Veja, minha irmã, nós também somos muçulmanos.
:O simples fato de alguém ter um nome que soe muçulmano não o torna muçulmano; pelo contrário, se alguém é muçulmano ou não muçulmano, isso se prova por meio de suas ações — respondi.
“Não estamos dispostos a responder ao chamado que vocês fazem para o Islã. Tampouco somos capazes de considerar o convite de vocês. Portanto, façam o trabalho de vocês e deixem-nos permanecer ocupados com o nosso.” Enquanto falava, o senhor se levantou. Eu lhe disse:
:Que Alá guie a todos e conduza todos nós pelo caminho da justiça e da verdade”.
Dois dias depois desse encontro, um carro oficial chegou e parou no pátio da minha casa. Um jovem vestido com um terno cinza desceu do carro, cumprimentou-me com um salam e disse-
“Sou Ahmad Rasekh, oficial da força de inteligência”. Examinei o jovem dos pés à cabeça, tentando encontrar alguma semelhança com aquele Ahmad Rasekh do Ministério do Interior que anteriormente me convocara ao ministério. Na placa do lado de fora do escritório dele também estava escrito o mesmo nome, ‘Ahmad Rasekh’. Vendo que eu permanecia calado, o jovem oficial disse-
“Ainda há dois dias, um certo Ahmad Rasekh veio encontrar-se com você. E agora, um terceiro Ahmad Rasekh está diante de você”.
Ao ouvir suas palavras, quis examiná-lo com um olhar ainda mais atento. Três oficiais graduados com o mesmo nome, no mesmo departamento, pareciam-me algo quase enigmático. Ao ver que eu o observava em silêncio, o jovem oficial disse, constrangido-
:Por que me olha em silêncio com tamanho espanto? Talvez tenha ficado incomodado por eu ter vindo em uma hora inoportuna?
Sorrindo discretamente, desviei-me de suas palavras e disse-
:A porta desta sala está sempre aberta para receber os visitantes. De qualquer modo, acho necessário contar-lhe um acontecimento curioso; escute. O acontecimento provavelmente foi publicado no jornal Al-Ahram. Foi assim- “Isso aconteceu há alguns anos. A rainha da Holanda e seu marido foram a Londres, a convite do rei da Inglaterra. Certo dia, durante uma conversa, de repente viram a rainha da Holanda deixar a cadeira, aproximar-se de um cão especialmente treinado, colocado na sala de recepção, e observá-lo atentamente por algum tempo. Depois, como uma louca, pegou o cão no colo e começou a beijá-lo. Em seguida, entregou o cão ao marido e sussurrou-lhe algo ao ouvido. Então viram que o marido também começou a beijar o cão como um louco. O rei e a rainha da Inglaterra ficaram extremamente surpresos, observando tudo aquilo. Seu espanto não teve limites quando viram que, ao tentar receber o cão de volta das mãos do marido, os olhos da rainha da Holanda estavam marejados de lágrimas. Ela apertava o cão contra o peito exatamente como se fosse seu próprio filho. Pouco depois, durante o banquete real, também viram que ela continuava mantendo o cão no colo”.
Desta vez, a rainha da Inglaterra, atraindo a atenção da ilustre convidada, disse:
“A dona do cãozinho que a senhora está mimando tanto é a princesa; ela também ama muito o cão. Caso contrário, ficaríamos muito felizes se pudéssemos presenteá-la com o cão”.
A rainha da Holanda acreditava na doutrina de que a alma assume uma existência diferente. Ela disse:
“Há alguns anos, perdi meu único filho. Acredito que a alma do meu filho entrou neste cão. Veja, os olhos do cão são exatamente iguais aos olhos do meu filho”.
Ao ouvir isso, a rainha da Inglaterra conseguiu convencer a princesa a concordar em presentear o cão ao casal real holandês. Escusado dizer que a princesa presenteou o cão ao rei e à rainha da Holanda. Depois de narrar o acontecimento, eu disse ao jovem:
: Pois bem, senhor Rashek, aqueles que acreditam na transmigração da alma veem a marca de um ente querido falecido em algum animal, mas fico espantada ao pensar que os três homens da inteligência egípcia que conheci se chamavam todos Ahmad Rashek! Contudo, não há a menor semelhança entre seus corpos, rostos e compleições, nem sequer qualquer harmonia em seus modos e gestos. Então, será que o senhor presidente de vocês descobriu uma nova doutrina sobre a transmigração da alma? Talvez estejam mandando seguir justamente essa nova doutrina de vocês; diga-me, é algo desse tipo? Ao ouvir minhas palavras, a cor do rosto dele parecia mudar; tentando voltar ao estado normal, ele disse:
: Veja, madame! Não somos pessoas quaisquer. Também somos filhos de famílias nobres. Não é nossa intenção causar-lhe sofrimento. Estamos apenas tentando chegar a um acordo com a senhora. Na verdade, eu sou o verdadeiro Ahmad Rashek.
: Mas por qual lógica devo acreditar que você é o verdadeiro e os outros são falsos? Além disso, para que eu precisaria de tudo isso? Pode dizer claramente o que vocês querem de mim?
:A questão é que o governo está interessado em chegar a um entendimento com a senhora. Achamos que a Irmandade Muçulmana a está confundindo. Eles são pessoas que acreditam na anarquia. Por isso, o único transtorno que queremos lhe causar é que a senhora simplesmente nos informe os nomes das pessoas ativas na Irmandade. Em troca, o próprio presidente assumirá a responsabilidade pela sua segurança, e todas as suas necessidades serão atendidas. Esperamos que, nos próximos dias, a senhora nos entregue uma lista com os nomes dos terroristas da Irmandade. Ficamos surpresos ao ver como uma líder tão respeitada por todos e tão inteligente quanto a senhora pôde tornar-se vítima da conspiração dos membros da Irmandade!
Ele continuou dizendo:
“Grandes líderes da Irmandade, como o imã Huzaybi e Sayyid Qutb, estão agora tentando chegar a um entendimento com o presidente. Mas, como o presidente não está satisfeito com eles, não atende ao interesse deles. Na verdade, se a senhora estivesse informada sobre a propaganda que a Irmandade Muçulmana vem fazendo a seu respeito, viria imediatamente a um entendimento conosco e romperia imediatamente todas as relações com a Irmandade”.
Até então, em vez de demonstrar irritação ao ouvir as mentiras e as palavras infundadas daquele jovem oficial de inteligência, simplesmente ri e disse:
:Meu filho, não sinto nenhuma necessidade de verificar quem ou o que você é no departamento de inteligência, nem de examinar suas palavras, seu nome, seu rosto ou sua aparência. Espero que esta minha breve declaração seja suficiente para você. Contudo, como rapaz, acho que preciso lhe dizer mais uma coisa. Tente conhecer e compreender corretamente os ideais islâmicos e segui-los. Não corra cegamente atrás de qualquer “ismo” ou doutrina emprestada do Ocidente ou do Oriente. Por quê? É impossível para você distinguir a verdade da mentira? Por que, então, vocês, sendo muçulmanos, entoam slogans do socialismo? E por que desperdiçam a própria vida dançando ao som dos sinais de potências estrangeiras? Estou esperando o dia em que jovens como vocês, libertos do turbilhão das dúvidas e das crises, se unirão sob a sombra da bandeira islâmica”.
Para me provar que era um bom muçulmano, ele me disse:
:Madame, por Allah, realizo regularmente a oração de jumua. Quanto às outras orações e aos deveres obrigatórios e necessários… Meu abbu me levava para a oração de jumua desde que eu era pequeno, por isso me acostumei somente com ela.
:Você alguma vez perguntou ao seu abbu por que ele realiza apenas a oração de jumua?
:Diga-me, declarar “Lá ilaha illallah, Muhammadur Rasulullah” não é suficiente para ser muçulmano?
:Mas, se você não viver de acordo com a declaração desta profissão de fé, isso acabará tendo o efeito contrário. Depois de pronunciar a profissão de fé, suas responsabilidades islâmicas não aumentam ainda mais?
:É preciso seguir e obedecer aos governantes.
:Muito bem, então prepare-se para ficar enfileirado, no Dia do Juízo, ao lado desses pobres governantes.
:Veja, vim até você com uma proposta de conciliação.
:Saiba, porém, que jamais houve, nem haverá no futuro, conciliação entre os ensinamentos verdadeiros dos profetas e mensageiros e a mentira satânica. Estamos determinados a permanecer firmes no caminho do Islã; não há possibilidade alguma de compromisso com a falsidade. Enquanto vocês e o governo de vocês não forem seguidores da verdadeira religião, o conflito entre nós e vocês continuará.
Ao ouvir isso, o jovem oficial de inteligência, muito irritado, disse:
:Eu não voltarei a procurá-la nunca mais. Se quiser entrar em contato, este é o meu número de telefone……… Eu respondi sorrindo:
:Obrigado, nunca precisarei disso.
No final de julho de 1965, as notícias das prisões em massa dos líderes da Irmandade deixaram-me profundamente perturbada. Isso porque tenho uma relação muito profunda e antiga com o grande movimento da Irmandade.
Segundo capítulo
O juramento de lealdade
Como já disse, minha relação com a Irmandade dos Muçulmanos é tão profunda quanto antiga. No entanto, os funcionários do governo pensavam que minha relação com a Irmandade estava apenas começando. Na verdade, estou ligada à Irmandade desde 1937. A Associação Islâmica de Mulheres foi fundada no ano 1358 da Hégira. Cerca de seis meses depois, encontrei-me pela primeira vez com o Imame Hasan al-Banna. Logo após proferir um discurso numa reunião organizada para mulheres na sede da Irmandade, o Imame Banna concedeu-me uma audiência. Naquela época, ele queria estabelecer o departamento feminino da Irmandade. Durante a conversa, enfatizou a importância da atuação unida dos muçulmanos em todos os níveis. Depois disso, concordei com quase todas as suas propostas e opiniões. Por fim, ele convidou-me a assumir a responsabilidade de presidir o departamento feminino da Irmandade. Na verdade, esse grupo de mulheres era uma filial da Irmandade. Conversei com as líderes do meu grupo para que considerassem a proposta do Imame Banna. Todas aceitaram a proposta de uma atuação unida dos dois grupos em âmbito mais amplo, bem como de ajuda e cooperação mútuas em todos os campos; mas rejeitaram a proposta de minha filiação à Irmandade como presidente de uma de suas filiais. Naturalmente, mesmo depois disso, continuamos a encontrar-nos e a conversar regularmente. Todas nós considerávamos as opiniões do Imame Hasan al-Banna com grande seriedade e o respeitávamos e amávamos sinceramente.
Por fim, continuamos como grupos separados. Mas nossa relação foi-se fortalecendo dia após dia. Na última reunião realizada na sede central da organização, fiz ao Imame Banna o juramento de que, embora meu grupo mantivesse uma existência separada, responderia a cada chamado da Irmandade e continuaria trabalhando lado a lado, ombro a ombro, para alcançar o mesmo objetivo.
Entretanto, o Imame Banna não pôde ficar plenamente satisfeito com isso. Ele queria que eu me dedicasse à liderança do departamento feminino da Irmandade.
De qualquer modo, a situação começou a mudar rapidamente depois disso. Após o incidente de 1948, a Irmandade dos Muçulmanos foi subitamente proibida, e todos os fundos da Irmandade foram confiscados. Todos os escritórios da Irmandade foram lacrados, e os líderes e membros da Irmandade foram presos e encarcerados de forma implacável. Durante essa crise inesperada e repentina, as mulheres ativistas do movimento islâmico desempenharam um papel extremamente corajoso e destemido. Por meio de minha cunhada e prima Tahia Jubili, recolhi as informações necessárias e logo percebi que deveria ter aceitado integralmente a proposta do Imame Banna. Arrependi-me de não ter aceitado a proposta do Imame.
No dia seguinte à declaração da proibição da Irmandade, compareci à sala que me fora destinada na sede central do grupo. Era a mesma sala onde eu havia conversado com o Imam Banna. Ainda parecia sentir naquela sala a grandiosa presença do venerável Banna! Meu coração ardia então de tristeza e remorso. Lágrimas ardentes escorriam copiosamente dos meus olhos. Eu continuava dizendo para mim mesma:
“O Imam Banna era verdadeiramente dedicado à verdade. É dever de todo muçulmano, seguindo o Imam, avançar pelo caminho da verdade, desfraldando a bandeira do jihad. Fora do caminho pelo qual o Imam convocou as pessoas para estabelecer os direitos humanos, não há outro caminho para a libertação e a paz. Somente uma liderança sábia, visionária e destemida como a de Hassan al-Banna será capaz de conduzir a umma muçulmana ao seu destino almejado”.
Imediatamente enviei minha secretária particular para chamar o irmão Abdul Hafiz al-Saifi. Era por intermédio dele que eu trocava com o Imam Banna informações não escritas. Por meio dele, lembrei ao Imam que deveríamos nos encontrar para conversar, conforme o programa previamente estabelecido. Quando o irmão Abdul Hafiz voltou, depois de transmitir a mensagem ao Imam e obter seu consentimento, enviei ao Imam Banna a seguinte breve carta por intermédio de meu irmão Muhammad al-Ghazali e da esposa dele:
“Venerável Imam Hassan al-Banna!
Para alcançar a satisfação de Allah e servir ao Islã, anseio abandonar todas as demais atividades da minha vida e comparecer diante de você. Você é a única personalidade cuja orientação e patrocínio desejo ardentemente. Se você me der instruções para servir à religião de Allah, cumpri-las ao pé da letra será o mais nobre propósito da minha vida! Venerável Imam! Aguardo ansiosamente suas instruções — serva de Allah”. — Zaynab al-Ghazali.
Em seguida, a sede central da Associação da Juventude Muçulmana foi escolhida como local apropriado para um encontro imediato com o Imam Banna. Contudo, não foi marcada hora nem data para a reunião. Decidiu-se apenas que teríamos um encontro inesperado, quando surgisse a oportunidade.
Certo dia, eu ia à conferência realizada na sede central da Associação da Juventude Muçulmana para proferir um discurso quando, de repente, vi o próprio venerável Imam ao pé da escada. Fiquei extremamente surpresa com sua presença tão simples e despretensiosa, e fui tomada pela emoção e pela alegria. Antes mesmo de nos sentarmos para uma reunião formal, comecei a conversar com o venerável Imam Banna enquanto subíamos a escada.
Primeiro, eu lhe disse:
“Venerável Imam! Meu murshid. Juro em nome de Allah que estou pronto para cooperar plenamente com o nobre esforço que o senhor empreende com o objetivo de estabelecer uma sociedade islâmica e um governo islâmico, e que não hesitarei em fazer qualquer sacrifício neste caminho, nem mesmo em dar a minha vida. Comprometo-me, de todo o coração, a obedecer às suas ordens e proibições.” O Imam demonstrou grande alegria com minhas palavras e meu compromisso. Ele disse: “Que a Associação das Mulheres Islâmicas continue trabalhando, por enquanto, da maneira como tem trabalhado.”
A responsabilidade de manter o contato entre mim e o Imam Banna foi confiada ao meu irmão. O Imam Banna confiou a mim a responsabilidade de manter a mediação entre Nuhas e a Irmandade Muçulmana. Naquela época, Raf‘at e Mustafa Pasha an-Nuhas estavam fora do país. Eles confiaram ao falecido Amin Khalili a missão de eliminar os mal-entendidos. O Imam Banna também concordava com isso. A mim também foi confiada a responsabilidade de manter os contatos.
Numa noite de fevereiro de 1949, o senhor Amin Khalili veio à minha casa. A inquietação estava claramente estampada em seu rosto. Ele disse: “As autoridades estão planejando assassinar o Imam Banna. É preciso providenciar sua saída do Cairo o quanto antes.”
Mas, como meu irmão já havia sido preso, não havia ninguém por meio de quem eu pudesse manter contato direto com o Imam. Por isso, parti eu mesma para encontrá-lo. Mas que desgraça! Foi uma desgraça para mim, para minha nação e para toda a humanidade que, ainda no meio do caminho, recebi a notícia do martírio trágico do honrado Imam. Os inimigos da humanidade assassinaram brutalmente o grande herói revolucionário do século. Diante desse assassinato tão cruel, toda a nação ficou mergulhada em indignação e tristeza. Em toda parte, manifestou-se intenso ódio contra os assassinos. Eu condenei publicamente, com veemência, esse bárbaro assassinato cometido pelo governo e expressei minha sincera indignação. Depois, formou-se no país um governo de coalizão, e o novo governo imediatamente declarou ilegal a Associação das Mulheres Islâmicas.
Entrei com uma ação judicial, contestando a declaração do governo. Em 1950, durante o governo do senhor Hussain Sirri Pasha, o tribunal decidiu a nosso favor, e as atividades da Associação das Mulheres Islâmicas recomeçaram com força total. Nessa histórica ação, nosso advogado foi o célebre jurista senhor Abdul Fattah Hassan Pasha.
Depois, formou-se um governo do Partido Wafd, e a Irmandade Muçulmana retomou suas atividades sob a liderança do senhor Imam Hasan al-Huzaybi. No próprio dia da inauguração da sede central da Irmandade Muçulmana, declarei publicamente minha relação plena com a Irmandade e ofereci, para ser usado como escritório pessoal do Murshid al-‘Amm, senhor Huzaybi, o maior e mais bem mobiliado salão de minha casa.
O irmão da Irmandade, Abdul Qader Awdah, veio agradecer-me pessoalmente por isso e disse:
“Sua declaração pública sobre o estabelecimento de uma relação direta com a Irmandade Muçulmana é realmente digna de louvor e motivo de grande alegria para nós. Na verdade, devemos considerá-la uma grande bênção para nós.”
Respondi humildemente: Louvado seja infinitamente Allah pelo que aconteceu. Desnecessário dizer que eu vinha trabalhando com a Irmandade de maneira extremamente satisfatória. Nesse ínterim, ocorreu a revolução militar liderada pelo general Nagib. Alguns dias antes da revolução, o general Nagib, acompanhado do emir Abdullah Faisal, veio encontrar-se comigo. A Irmandade e a Organização das Mulheres demonstravam certa simpatia por essa revolução.
Entretanto, poucos dias depois, começou a evidenciar-se uma incompatibilidade entre as promessas anunciadas pelo governo revolucionário e suas ações. Em uma discussão sobre o assunto com os líderes da Irmandade, expressei minha opinião. Mais tarde, quando o governo de Nagib propôs a alguns membros da Irmandade que participassem do poder como ministros, opus-me à proposta por meio de meu jornal, afirmando: “Como se revela que o governo revolucionário não é sinceramente adepto do modo de vida islâmico, nenhum membro da Irmandade pode sequer pensar em estabelecer amizade com um governo desse tipo ou assumir uma função sob sua autoridade. Se alguém o fizer, deverá ser expulso da Irmandade. Na verdade, até que os verdadeiros objetivos do governo revolucionário se tornem claros, a Irmandade deve permanecer firme em sua posição e em seus princípios”.
Depois que minha declaração foi publicada no jornal, o senhor Abd al-Qader Awda encontrou-se comigo e pediu que, por enquanto, eu suspendesse a publicação de declarações desse tipo. Nas duas edições seguintes, não escrevi nada sobre o assunto. Mais tarde, porém, voltei a escrever. Dessa vez, o senhor Abd al-Qader Awda trouxe uma carta de instruções do senhor Hudaibi, na qual ele me proibia de escrever sobre o assunto. Naturalmente, obedeci à instrução. Não era possível desobedecer à ordem do líder. Naquela época, eu agia em todos os assuntos de acordo com as ordens e proibições do imã Hudaibi. Inclusive, participei da conferência de paz somente com sua autorização.
A máscara é desmascarada
O tempo seguia seu curso determinado, atravessando o cenário da história. Finalmente, os terríveis acontecimentos de 1945 cobriram de nuvens o horizonte do país. Jamal Abdun Nasser tirou a máscara e revelou sua verdadeira natureza demoníaca. Começou a opor-se abertamente ao Islã e comprometeu-se a silenciar o movimento islâmico. Nesse contexto, as potências estrangeiras e seus agentes locais asseguraram-lhe pleno apoio. Sem demora, Nasser emitiu a infame ordem de enforcar os líderes do movimento islâmico.
Líderes de fama internacional, como o grande herói da luta pela independência, o senhor Abd al-Qader Awda, e o xeque Muhammad Farghali, foram enforcados simplesmente por terem reivindicado o estabelecimento de um sistema social islâmico para o desenvolvimento integral do país e a libertação e prosperidade do povo. Nasser também ordenou que o venerado e idoso líder imã Hudaibi fosse enforcado. Contudo, devido a um súbito ataque cardíaco, os médicos declararam-no inapto para ser enforcado. Disseram ainda que aquele velho não viveria mais que algumas horas. Portanto, não haveria necessidade de enforcá-lo. Pensando da mesma forma, Jamal Nasser comutou a sentença de enforcamento do senhor Hudaibi.
Mas quem pode matar aquele que Allah protege? O imã Hudaibi logo se recuperou e, ignorando a opressão, a perseguição e o olhar ameaçador de Nasser, continuou a liderar o movimento islâmico com o dobro de entusiasmo e fervor. Quando o movimento islâmico se fortaleceu sob seus passos destemidos e sua firme liderança, o governo, enfurecido, prendeu-o e lançou-o numa prisão militar. Os tormentos desumanos que lhe foram infligidos ali fariam até os olhos do mais cruel dos homens marejarem de lágrimas. Mas o imã Hudaibi, verdadeiro símbolo de paciência e perseverança, suportou todos os sofrimentos.
Por fim, diante dos olhos daquele líder idoso, ocorreu a morte e a queda de Nasser e de seus comparsas. Durante o regime ditatorial do presidente Nasser, muitos, exaustos pela indescritível opressão, foram até o imã Hudaibi pedir autorização para, por enquanto, permanecerem silenciosamente inativos. Então, o idoso imã Hudaibi, demonstrando o entusiasmo de um jovem revolucionário, disse:
“Não tenho tempo para pensar em quem entre vocês quer permanecer ativo ou quem quer adotar a inatividade. Contudo, quero recordar-lhes uma coisa: abram os livros de história e vejam que aqueles que, em situações perigosas, ficaram procurando um refúgio seguro jamais puderam servir ao movimento islâmico. Não há lugar no movimento islâmico para covardes medrosos e oportunistas.” Ele proferiu essas palavras enquanto sofria perseguição na prisão; naquela época, tinha oitenta anos. Após a morte do infame Nasser, foi o último de todos a ser libertado da prisão.
O chamado ao cumprimento do dever
Em 1955, milhares de membros do movimento islâmico alcançaram o martírio, vítimas da indescritível perseguição do governo despótico e de execuções indiscriminadas. Fiquei profundamente abalado ao ver a situação lamentável dos filhos inocentes e das viúvas dos irmãos que haviam alcançado o martírio. O choro lancinante desses órfãos e viúvas, seu sofrimento indescritível e sua condição desamparada e destituída encheram-me de profunda tristeza. Para garantir sua adequada reintegração e avançar com o dobro de entusiasmo pelo caminho banhado pelo sangue dos mártires, comprometi-me novamente. Decidi entrar em confronto direto com o governo.
Ao retomar o trabalho, vi que, por todo o país, as pessoas estavam agitadas pela escassez, pela privação e pela fome. Sem duas refeições sequer para sobreviver de algum modo e sem um pedaço de tecido para cobrir a vergonha, milhões de filhos de Adão perambulavam desesperadamente em busca de meios de renda ilícitos. A fome havia arruinado o caráter e a moralidade das pessoas.
A insatisfação estudantil nas faculdades e universidades e a insatisfação operária nas fábricas cresciam em progressão geométrica. Aproveitando-se da situação, os grupos de interesses estabelecidos, os proprietários e os comerciantes implementavam planos sempre novos para explorar o povo.
Enquanto isso, aqueles que saíam após serem libertados de longos períodos de prisão enfrentavam uma situação ainda mais terrível do que a da própria prisão. Nenhum meio de subsistência estava aberto para eles. Apesar disso, as pessoas comuns não ousavam levantar a voz em defesa de seus direitos. Todos viviam aterrorizados pelo medo de que, ao menor protesto, o governo não demoraria a emitir uma sentença de morte sob qualquer acusação forjada. Em particular, para todos os que falassem sobre o Islã e a identidade muçulmana, uma punição severa era inevitável.
Em dias tão sombrios e calamitosos, todos os nossos esforços pareciam extremamente insignificantes. Eu não conseguia imaginar o que fazer. Era como se uma onda interminável de problemas fluísse, bloqueando nosso caminho em um oceano revolto. Quando já não se vislumbrava nenhum caminho para a libertação, procurei o ilustre professor Sheikh Mohammad Al Uden, da Universidade de Al-Ahjar, na esperança de receber orientação. Devido à sua sabedoria, às suas ideias e à minha relação com o Imam Banna, ele tinha plena simpatia pelo movimento. Antes e depois do martírio do Imam Banna, troquei quase sempre com ele opiniões sobre assuntos importantes.
Apresentei ao professor Al Uden um retrato realista da situação geral do país. Ele ouviu minhas palavras com paciência e continuou derramando lágrimas em silêncio.
Eu lhe disse:
“O único crime dessas crianças inocentes e dessas viúvas é que seus pais e maridos tentaram estabelecer a religião de Allah no mundo de Allah”.
Ao ouvir minhas palavras, ele começou a chorar convulsivamente e, com a voz embargada, pediu-me que iniciasse sem medo as atividades de socorro. Ele acrescentou:
“Providencie, pelo menos, que uma ajuda urgente chegue às famílias dos mártires. Allah lhe dará coragem e auxílio. Estou pessoalmente pronto para ajudá-lo. Lembre-se de que, ignorar a carranca da falsidade e permanecer firme no trabalho do movimento islâmico é a maior exigência do momento. E não há dúvida de que os membros da Irmandade que se tornaram vítimas da perseguição governamental são os verdadeiros mujahidin no caminho de Allah. Eles conduzirão as pessoas ao limiar da verdadeira liberdade e prosperidade. Seu sucesso é inevitável”.
Depois disso, ele me deu alguns conselhos. À luz desses conselhos, elaborei o plano da campanha de socorro. Comecei a enviar mantimentos, em total sigilo, às famílias dos mártires e dos mujahidin encarcerados. Alguns colaboradores confiáveis e competentes me ajudaram nesse trabalho. Com plena responsabilidade e competência, eles continuaram enviando os materiais de socorro aos locais determinados.
Antes mesmo de iniciarmos as atividades de socorro, muitas mulheres se dedicaram a esse grande trabalho, naturalmente mantendo absoluto sigilo. Entre essas mulheres nobres, merecem especial menção a esposa do imã Huzaibi, a líder feminina Amal Usmabi, a professora Moniruddaula, as respeitáveis Amina Qutb e Hamida Qutb, Fathia Bakr, Amina Jawahiri, Alia e Tahia Jubaili. Nosso contato foi se intensificando por meio do trabalho. Eu mesma me encontrei com a respeitável Khaleda Huzaibi, Amina e Hamida Qutb, e definimos métodos práticos de atuação. “Louvado seja Allah infinitamente, pois fomos capazes de fornecer a ajuda necessária às famílias de nossos irmãos mártires e mujahidin. Para fazer surgir um sorriso no rosto dos pequenos órfãos inocentes e das irmãs viúvas e desamparadas, prostramo-nos diante do Senhor, o Misericordioso e Compassivo, provedor do sustento.”
A caminho do hajj com Abdul Fattah Ismail
Meu primeiro encontro com o senhor Fattah ocorreu certa manhã de 1957, no porto de Suez. Eu estava ali como presidente da delegação feminina de peregrinas do hajj. Entre as pessoas presentes para nos oferecer uma despedida, estava também meu irmão, Mohammad al-Ghazali. Ele pareceu ausentar-se por alguns instantes. Voltou acompanhado de um respeitável ancião de aparência serena. Veio diretamente até mim. O ancião mantinha os olhos voltados para o chão. Seu rosto irradiava uma extraordinária serenidade luminosa, emanando o brilho de sua nobre personalidade. Ao apresentá-lo, meu irmão disse:
“Este é o irmão Abdul Fattah Ismail. Na juventude, entre os jovens Ikhwan, ele foi um discípulo extremamente querido do Imam Hasan al-Banna. Assim como o Imam Banna o amava imensamente, também depositava nele uma confiança inabalável. ………Ao saber que o senhor viajaria para o Hajj no mesmo navio, ele veio encontrar-se agora mesmo com o senhor para conhecê-lo”. Em seguida, o senhor Fattah, depois de cumprimentar-me, disse:
“Insha’Allah, encontrá-lo-ei no navio”. Agradeci-lhe, e ele se retirou. Pouco depois, nosso navio partiu rumo a Jidá. Em pouco tempo, deixou a costa e entrou em alto-mar. Comecei a cuidar das diversas necessidades do grupo de representantes das peregrinas. Depois do almoço, quando eu estava prestes a deitar-me para descansar um pouco em meu camarote, ouvi alguém bater à porta. Levantei-me e permiti que o visitante entrasse. Contudo, ninguém entrou. Então bateram à porta mais uma vez. Pensei que talvez a pessoa que chegara não tivesse ouvido minha voz. Por isso, pedi-lhe, em tom mais alto, que entrasse. Dessa vez, abriu a porta silenciosamente e entrou aquele venerável ancião que meu irmão havia me apresentado no porto de Suez. Como era seu costume, lançou o olhar ao chão, cumprimentou-me e disse:
“Infinitas graças a Allah. Embora tenha permanecido por muito tempo em desacordo com o Imam mártir, afinal o senhor prestou o juramento de lealdade”.
Perguntei imediatamente:
“Como ficou sabendo disso?” Ele respondeu brevemente:
“O próprio Imam me informou”.
Quando lhe perguntei o que pretendia, ele disse:
“Nós nos encontraremos na Casa de Allah com o propósito de alcançar somente a satisfação de Allah. Falarei sobre os mesmos assuntos que o Imam Hasan al-Banna queria discutir com o senhor”.
Apontando para Meca, ele disse—
“Insha’Allah, conversaremos sobre esse assunto lá mesmo.” Seu modo de falar era muito simples e claro. Contudo, suas palavras naturais eram movidas por uma força extraordinária de honestidade, responsabilidade e gravidade. Não havia espaço algum para reflexão. Eu lhe disse—
“Se Allah quiser, nossa conversa será em Meca ou no Centro Muçulmano para Mulheres, em Jidá.” Quando ele me pediu meu endereço, dei-lhe o endereço dos meus dois irmãos, Sheikh Usmabi e Mustafa Alam, que estavam em Jidá, e disse—
“Eles o levarão até minha residência em Meca e Jidá.” Ele disse que conhecia muito bem os dois. Em seguida, despediu-se por enquanto, após transmitir suas saudações. Numa noite do mês de Zul-Hijjah, conforme o programa estabelecido, encontrei-me com o falecido principal mufti da Arábia Saudita, o Imam Muhammad ibn Ibrahim, depois da oração de Isha.
Discuti com o falecido principal mufti o memorando que eu havia apresentado ao Rei Saud, enfatizando a necessidade de estabelecer no país condições adequadas para a educação das meninas. No memorando, eu reivindicava a implementação imediata de um programa de educação feminina, tendo em vista o benefício do país. Esse memorando havia sido enviado para a apreciação do principal mufti. Para discutir o assunto, o principal mufti mandou chamar-me. Conversei com ele sobre isso durante cerca de duas horas. No caminho de volta, dirigi-me ao Haram Sharif pela passagem de Babus Salam, a fim de realizar o tawaf em torno da sagrada Caaba. Nesse momento, alguém chamou meu nome por trás; ao me virar, vi o senhor Abdul Fattah Ismail. Ao saber que eu pretendia realizar o tawaf, ele também foi comigo e realizou o tawaf da Casa de Allah. Depois de cumprir a sunnah do tawaf, sentamo-nos voltados para o Multazam, e o senhor Abdul Fattah Ismail iniciou a conversa conforme o programa estabelecido. Primeiro, ele quis saber minha opinião sobre a proibição imposta pelo governo à Irmandade Muçulmana. Eu lhe disse—
“Do ponto de vista da Sharia, esta é uma decisão equivocada.”
Ele disse—
“Na verdade, é justamente sobre esse assunto que quero conversar com você.” Quando lhe propus que nos encontrássemos no “Edifício das Delegações” para discutir o assunto, ele disse—
:Não é de surpreender que agentes do serviço de inteligência de Nasser estejam posicionados nesses lugares. Portanto, não são lugares seguros para conversarmos.
Depois, concordamos em nos reunir para uma sessão no escritório do senhor Sheikh Saleh Kajaz, no departamento responsável pela construção do Haram Sharif. Mas, ao chegarmos lá, ele me disse em voz baixa:
:Não, aqui também não; é melhor irmos ao próprio Haram Sharif para conversar.
Marcamos um horário para nos reunirmos atrás do Maqam Ibrahim. Depois de realizar o tawaf e a sunnat do tawaf, sentamo-nos atrás do edifício construído sobre o poço de Zamzam, ao lado do Maqam Ibrahim, e começamos a discutir a rejeição da decisão do governo de impor uma proibição à Irmandade, bem como a reorganização da estrutura da Irmandade e o reinício de suas atividades com vigor. Durante a conversa, concordamos que, ao regressarmos do Hajj, nos encontraríamos com o Murshid al-‘Amm, o Imam Huzaybi, e lhe pediríamos permissão para retomar o trabalho. Quando, depois do Hajj, estivéssemos partindo de volta para nossa pátria, ele disse:
:É necessário que nos comprometamos diante de Allah a lutar no caminho de Allah até a reorganização da Irmandade, e que de modo algum permaneçamos sentados em silêncio. E aqueles que se opõem a essa nobre obra, sejam quais forem os cargos que ocupem ou o poder de que disponham, nós os rejeitaremos. Nós dois juramos, perante Allah, alcançar o martírio no serviço do Islã e perseverar no jihad. Depois disso, regressamos ao Egito.
Permissão para trabalhar
No início de 1958, encontrei-me repetidas vezes com o senhor Abdul Fattah Ismail na sede da Organização Islâmica das Mulheres e em minha residência. Discutimos e examinamos os problemas dos muçulmanos e procuramos definir um método de trabalho a serviço do Islã, para que a nação pudesse voltar a tomar consciência e manter-se atenta à sua dignidade e ao seu modo de vida. Inspirando-nos na vida do nobre Mensageiro, no caminho dos nobres Companheiros e, posteriormente, no dos sábios muçulmanos, elaboramos um programa e uma constituição cuja base seria o Alcorão e a Sunnah. De acordo com o plano, era necessário reunir todos os que desejassem trabalhar conosco pelos interesses do Islã. Mas tudo isso não passava de discussões e consultas para definir o método antes do início do trabalho. Contudo, quando tomamos a decisão final de começar a trabalhar, sentimos a necessidade de obter a opinião do Imam Huzaybi, como ancião e guia da Irmandade. Pois, depois de nossos estudos jurídicos, ficara claro que a decisão de impor uma proibição à Irmandade era ilegal. Isso porque Jamal Nasser não tinha nenhum direito legítimo de liderar os muçulmanos. Como ele era pessoalmente contrário ao Islã, nenhum muçulmano era obrigado a obedecer-lhe. Além disso, ao tomar qualquer decisão, ele não dava atenção às normas do Alcorão e da Sunnah.
Encontrei-me com o Imam Huzaybi precisamente para obter, em meu nome e no do senhor Abdul Fattah Ismail, permissão para iniciar o trabalho organizacional. Depois de nos reunirmos várias vezes para conversar, ele examinou detalhadamente o esboço de nosso plano e de nosso método de trabalho e nos autorizou a começar.
Depois, como nosso primeiro passo, o senhor Abd al-Fattah Ismail saiu em viagem por todo o Egito, percorrendo distritos, cidades e aldeias, com o objetivo de investigar os fatos, recrutar inicialmente pessoas para a organização, saber quem estava disposto a trabalhar conosco e quais tarefas poderiam ser confiadas a cada um, entre outras questões. Para esse propósito, os antigos membros da Irmandade Muçulmana foram considerados prioritariamente, para que eles próprios pudessem formar a primeira fileira do movimento.
O senhor Abd al-Fattah Ismail entrou primeiro em contato com os membros da Irmandade que haviam sido recentemente libertados da prisão, a fim de avaliar seu entusiasmo pelo trabalho. Ele também verificou pessoalmente se aqueles que haviam passado pela prisão ainda mantinham intactos o entusiasmo, a coragem e o moral. A longa permanência na prisão, as torturas e as perseguições não haviam afastado esses membros do movimento islâmico? Ao lutarem pelo caminho da religião de Deus, ainda eram capazes de demonstrar a mesma disposição para o trabalho de antes? Ainda estavam preparados para qualquer sacrifício e abnegação? Ainda lhes restava força moral para enfrentar as adversidades e calamidades com um sorriso? Para obter respostas a essas perguntas, era necessário conhecer a situação e as opiniões dos membros das áreas relativamente mais afetadas. Novas medidas seriam tomadas à luz disso.
Depois de analisar cada relatório enviado pelo senhor Abd al-Fattah Ismail, eu me encontrava com o Guia Supremo e o informava sobre as questões consensuais e os problemas. Quando expressei minhas dúvidas e apreensões sobre as diversas dificuldades e problemas, ele disse:
“Avancem continuamente, sem parar. Não olhem para trás, nem deem importância ao que este ou aquele ocupante de cargo ou pessoa ilustre tenha dito. Lembrem-se de que vocês estão prestes a construir uma edificação inteira”.
Em alguns assuntos, ele expressava plena concordância conosco; em outros, dava instruções e conselhos. Um de seus principais conselhos era que mantivéssemos diante de nós a obra Al-Muhalla, do imã Ibn Hazm, durante nossas discussões.
Em 1949, concluímos nosso trabalho de pesquisa para elaborar um programa de purificação espiritual. Deus é testemunha: nosso programa não continha nada além de um sistema de treinamento dos muçulmanos. Nosso objetivo era que eles, como árabes, se tornassem conscientes e ativos em relação a seus deveres e responsabilidades, com o propósito de estabelecer uma sociedade islâmica.
Em 1954, devido à declaração da proibição, as atividades da Irmandade Muçulmana haviam sido suspensas; por isso, decidiu-se manter em segredo nossas novas atividades.
Conversa franca com o marido
Ao mesmo tempo que participava dessas atividades, eu continuava enviando regularmente mensagens ao centro da Organização Islâmica das Mulheres e cumprindo devidamente minhas responsabilidades familiares.
Meu marido, Mohammad Saleh, percebeu que o irmão Abd al-Fattah Ismail e outros irmãos membros visitavam repetidamente nossa residência. Por isso, certo dia, perguntou:
:As idas e vindas dos membros da Irmandade, suas conversas e assim por diante indicam que eles estão realizando atividades aqui. É realmente isso que está acontecendo?
Respondi:
:Sim, exatamente!
Então, quando ele quis saber mais sobre a natureza dessas atividades, respondi:
:Quero reorganizar a Irmandade.
Quando ele quis saber mais detalhes sobre isso, recordei-lhe o nosso contrato matrimonial e disse:
Meu amado, lembre-se, por favor: o que lhe disse antes de dar meu consentimento ao casamento?
Ele respondeu:
“Sim, você impôs algumas condições. Mas hoje tenho medo de que o governo tirânico acabe prendendo você.” Depois de dizer isso, ele baixou a cabeça e permaneceu em silêncio. Relembrando o passado, eu disse:
“Lembro-me claramente de ter lhe dito que havia muitas atividades ligadas à minha vida sobre as quais eu precisava informá-lo, pois você estava prestes a se tornar meu companheiro de vida. Portanto, se você não procurasse conhecê-las em detalhes, eu queria informá-lo sobre essas atividades. Além disso, eu lhe imporia algumas condições.
Na verdade, sou a presidente da Associação das Mulheres Muçulmanas. Contudo, muitos pensam que acredito na orientação política do Partido Wafd. Mas isso não é verdade. Na realidade, confio nos princípios da Irmandade Muçulmana. Meu contato com Mustafa Nahhas ocorreu por amizade pessoal e afinidade de pensamento. Mas prestei juramento de lealdade ao Imam Hassan al-Banna, comprometendo-me a fazer jihad no caminho de Deus. Do contrário, eu não poderia sequer pensar em tomar qualquer atitude que me desviasse do caminho indicado por Deus. Pelo contrário, continuarei avançando por esse caminho. Dia e noite, é esse o sonho que vejo e essa a esperança que alimento. Se algum dia eu sentir que seus interesses pessoais e suas atividades econômicas são incompatíveis com meu trabalho islâmico, e se compreender que nossa vida conjugal está criando obstáculos no caminho do movimento islâmico, então nos separaremos.” Naquele dia, ao responder às minhas palavras, seus olhos se encheram de lágrimas, e você disse:
“Por que você não apresenta nenhuma exigência quanto às suas necessidades materiais e à determinação do mahr? E, quanto à condição que impõe para que eu não a impeça de trabalhar pelo Islã, nada sei sobre sua relação com o Imam Hassan al-Banna. O que sei é que você discorda de assumir a responsabilidade pelo ramo feminino da Irmandade.”
Eu disse:
“Mas, graças a Deus, antes do martírio do Imam Banna, durante a calamidade de 1948, cheguei a um acordo com ele sobre essa questão e decidi participar plenamente do movimento islâmico. Eu não poderia exigir de você que também se juntasse a mim nessa jihad; contudo, tenho o direito de lhe pedir que não me impeça de participar dessa jihad no caminho de Deus. E, quando surgir a necessidade de eu me juntar às fileiras dos mujahidin, não me pergunte para onde e por que estou indo.” O homem deve ter plena convicção de que a mulher com quem está prestes a se casar se consagrou, desde o início de sua juventude, ao estabelecimento do governo islâmico e à busca da satisfação de Deus. Ainda assim, se esse casamento se tornar causa de obstáculos no caminho do movimento islâmico, ele será desfeito, e minha existência permanecerá dedicada exclusivamente ao movimento islâmico.”
Depois de permanecer em silêncio por alguns instantes, perguntei-lhe —
:Você se lembra dessas coisas de antes do casamento?
Ele respondeu: — Sim………
Em resposta, eu disse —
“Então, de acordo com a sua promessa, você não perguntará com quem estou me encontrando nem para onde estou indo. Basta que reze apenas perante Allah para que Ele faça a recompensa do meu Jihad unir nós dois e aceite o meu trabalho. Sei muito bem que você tem pleno direito de me impor ordens e proibições, e, como esposa, sou obrigada a obedecer às suas ordens. Mas, na atual situação delicada, dedicar-me ao trabalho do movimento islâmico é muito mais urgente do que cumprir nossas responsabilidades mútuas.” Ao ouvir minhas palavras, ele disse —
“Minha querida! Sinto vergonha de ter-lhe feito perguntas. Rezo para que Allah lhe conceda coragem sincera e entusiasmo para permanecer firme nesta nobre causa. Como seria feliz se pudesse viver para ver o sucesso do Ikhwan! Que Deus estabeleça um governo islâmico por meio dos esforços de vocês. Ah, se eu ainda fosse jovem, também poderia trabalhar lado a lado com vocês!”
Depois disso, nossas atividades aumentaram consideravelmente. Dia e noite, nossa casa permanecia movimentada com a chegada e a movimentação dos membros. Mesmo que alguém batesse à porta no meio da noite, meu marido se levantava, abria a porta para os recém-chegados, levava-os à sala de reuniões e, depois de acordar a governanta e ordenar-lhe que preparasse chá e algo para comer, acordava-me com todo o cuidado e dizia —
“Seus filhos chegaram. Os sinais de cansaço estão claramente estampados em seus rostos.”
Levantei-me e fui recebê-los; antes de ir dormir, meu marido dissera: “Se vocês rezarem a oração do fajr em congregação, por favor, acordem-me também, para que eu possa participar da congregação”.
Conforme o seu desejo, acordei-o no horário apropriado. Depois da oração, ele conversou com os convidados com tanto carinho e atenção, como se fossem seus filhos mais queridos. Em seguida, despediu-se deles com saudações e bênçãos e foi para o seu quarto.
Encontro com Sayyid Qutb
Em 1962, com a autorização do presidente da Irmandade Muçulmana, o professor Hasan al-Hudaybi, e o consentimento do irmão Abd al-Fattah Ismail, visitei primeiro os parentes próximos do famoso pensador e líder revolucionário, o imã Sayyid Qutb, com o objetivo de visitá-lo na prisão. O principal objetivo de ir à prisão para encontrá-lo era obter sua opinião sobre diversos temas de pesquisa e beneficiar-me de seus ensinamentos e conselhos.
Primeiro expliquei à irmã Hamida Qutb o propósito da minha visita e pedi-lhe que transmitisse minhas saudações ao irmão Sayyid Qutb; salientei especialmente que o grupo encarregado de revisar o currículo islâmico estava interessado em conhecer sua opinião.
Apresentei à irmã Hamida Qutb a nossa lista de leituras. Ela incluía o Tafsir de Ibn Kathir, o al-Muhalla de Ibn Hazm, o Kitab al-Umm do imã al-Shafi’i, o Kitab al-Tawhid de Ibn Abd al-Wahhab e o Fi Zilal al-Qur’an de Sayyid Qutb. Pouco depois, Hamida voltou e aconselhou-me a ler a segunda edição da Surata al-An’am. Além disso, mostrou-me um manuscrito e disse que Sayyid Qutb havia escrito aquela obra na prisão e dado a ela o nome de Ma’alim fi al-Tariq — Marcos do Caminho —, que seria publicada em breve. “Depois que você ler estas poucas páginas, também lhe trarei os outros capítulos.”
Fui informado de que o Murshid al-‘Amm revisara o manuscrito e ordenara que fosse impresso imediatamente. Mais tarde, quando lhe perguntei sobre isso, o Murshid al-‘Amm disse:
“Pela misericórdia de Allah! Ao ler esta obra, uma grande esperança em Sayyid Qutb começou a crescer em meu coração; li o livro atentamente duas vezes.”
Sem dúvida, atualmente Sayyid Qutb é o centro de nossas esperanças e aspirações. O Murshid Geral permitiu que eu lesse o manuscrito inteiro. Sentei-me com o manuscrito em uma sala fechada e comecei a lê-lo. Só saí da sala depois de ler integralmente o manuscrito de “Marcos no Caminho”. Depois, consultamo-nos sobre a publicação de cada capítulo separadamente, em forma de pequenos folhetos, para serem distribuídos entre os membros. Tomamos uma decisão unânime a esse respeito. O Imam Sayyid Qutb continuou enviando da prisão vários folhetos sobre os assuntos necessários, e nós organizamos sua leitura coletiva, bem como sua ampla publicação e divulgação.
Os recém-chegados começaram a se reunir para receber os ensinamentos do Alcorão, e seu número aumentava dia após dia. É difícil expressar em palavras quão belas e puras eram as emoções despertadas pelas cenas daqueles círculos coletivos de estudo dos recém-chegados. Nosso método de estudo coletivo era o seguinte: primeiro, recitavam-se dez versículos do Alcorão Sagrado; explicavam-se seus significados literais e técnicos; interpretavam-se seus objetivos e sua importância; e, depois, realizava-se uma discussão prática sobre como seria possível aplicar tudo isso à vida individual e coletiva dos muçulmanos.
Assim, seguindo o método dos Companheiros, recitavam-se e compreendiam-se dez versículos, e então se passava a recitar e compreender os dez versículos seguintes. Dessa maneira, reuníamo-nos à sombra da misericórdia de Allah para recitar e compreender o Alcorão, empenhando-nos na formação de nossa personalidade e levando a mensagem islâmica a outras pessoas, preparando-as para o movimento. Os recém-chegados eram muito entusiasmados com o verdadeiro movimento islâmico. Para preparar as futuras gerações, a fim de que pudessem dedicar-se ao trabalho do movimento islâmico com sinceridade genuína, os recém-chegados davam especial ênfase ao estabelecimento firme do movimento islâmico.
À luz da autorização do Imam Huzaybi e dos conselhos do Imam Sayyid Qutb, decidimos continuar o trabalho de treinar e organizar os muçulmanos para estabelecer, com base em argumentos, sua crença monoteísta. Deixamos claro que, enquanto não se estabelecer um sistema de julgamento segundo a lei islâmica — isto é, à luz do Alcorão e da Sunnah —, não se poderá considerar que exista um governo islâmico ou que o Islã tenha sido estabelecido. A lei da Sunnah deve ser estabelecida na vida coletiva dos muçulmanos. Portanto, seguindo o exemplo dos treze anos do trabalho inicial de pregação do Mensageiro de Deus em Meca, também adotamos um programa especial de treze anos. Para esse fim, deu-se inicialmente ênfase a que os membros da Irmandade estabelecessem plenamente em suas próprias vidas os ideais do Islã e obedecessem ao Imam. Contudo, a aplicação dos hudud, ou das penas previstas pela lei islâmica, permanecerá suspensa até que um governo islâmico seja estabelecido. (Naturalmente, continuarão os esforços para aplicá-los e defendê-los pelos meios possíveis.)
Também sabíamos que, no mundo de hoje, são raros os muçulmanos de caráter dotados de qualidades semelhantes às dos muçulmanos da época do Profeta e de seus Companheiros. Por isso, é dever indispensável prosseguir em um jihad contínuo contra qualquer organização islâmica, e essa luta deverá continuar até que toda a comunidade muçulmana esteja sob a égide do ideal islâmico. Essa luta deve ser conduzida não apenas por meio de slogans, mas também de forma eficaz.
Após uma análise detalhada da situação, tornou-se claro que o governo atual é completamente anti-islâmico, embora o governo tenha declarado várias vezes que instituiu a lei de Alá. Depois dessa avaliação, será realizada uma pesquisa em todo o país, quando cada pessoa, sem distinção entre jovens e jovens mulheres, homens e mulheres, tiver completado o período determinado de treze anos de treinamento. Em seguida, se encontrarmos 75% da população como nossos companheiros — pessoas que concordem conosco que o Islã e a política não são questões separadas e que a política é indispensável para implementar o Islã —, reivindicaremos o estabelecimento de um governo verdadeiramente islâmico no país. Porém, se, mesmo nos primeiros treze anos, a maioria da população continuar afastada da esfera do Islã, na década seguinte voltaremos a nos concentrar em treinar o povo à luz dos ensinamentos islâmicos. Nosso trabalho continuará até a completa erradicação dos opositores do Islã e a plena implementação do ideal islâmico. Juramos permanecer ativos por toda a vida nesta missão do movimento islâmico. Assim, se o momento de nossa morte se aproximar, entregaremos a bandeira do Islã às mãos das gerações seguintes. Por desejo do Murshid Geral, Imam Huzaybi, meu contato com o Imam Sayyid Qutb continuou. Ele também vinha à minha residência, situada em Nova Misr, para responder às diversas perguntas dos jovens e lhes oferecer conselhos. Os jovens lhe faziam pergunta após pergunta sobre vários assuntos, e ele continuava a apresentar, pacientemente, respostas detalhadas e satisfatórias a cada uma delas.
Terceiro capítulo
Conspiração
Como mencionei no início, alguns meses antes da libertação do Imam Sayyid Qutb, foi feita uma tentativa frustrada de me assassinar. Recebemos de uma fonte confiável a informação de que ele estava sendo libertado desta vez justamente com o objetivo de assassiná-lo de maneira mais fácil. Para executar esse assassinato, os serviços de inteligência já haviam elaborado o esboço final de sua conspiração. O nome do irmão Abd al-Fattah Ismail também constava da lista de operações de assassinato dos serviços de inteligência. Contudo, mesmo ouvindo essas notícias, continuamos trabalhando com absoluta serenidade, confiando em Allah. Nenhum de nós poderia desejar que houvesse sequer o menor relaxamento no trabalho do movimento. Naturalmente, discutíamos e analisávamos as artimanhas, as ameaças e as conspirações da tirania. Na realidade, eles pensavam que o nosso era um movimento ideológico. Era liderado pelo dirigente preso, o senhor Sayyid Qutb, enquanto, fora da prisão, sua aplicação prática era realizada por Abd al-Fattah Ismail e Zaynab al-Ghazali.
Foi então que recebemos, de uma fonte extremamente confiável, a informação de que os serviços de inteligência americano e soviético haviam entregado ao presidente Nasser um relatório com o objetivo de eliminar imediatamente a Irmandade Muçulmana e todas as suas atividades. No relatório, manifestavam o temor de que, se a Irmandade não fosse imediatamente silenciada, todo o sucesso alcançado pelo governo militar ao afastar o povo das concepções islâmicas e ao conduzir a população a uma situação de desespero quanto à reforma e à formação por meio do Islã seria reduzido a pó. Portanto, o governo deveria tomar todas as medidas possíveis para erradicar pela raiz o pensamento e o movimento da Irmandade. À luz do relatório recebido dos serviços de inteligência americano e soviético, o presidente Nasser percebeu que a existência do movimento islâmico era o maior obstáculo diante de seu governo ditatorial.
No início de agosto de 1965, soube que a lista daqueles que seriam presos imediatamente já havia sido finalizada. Entre os nomes especialmente incluídos nessa lista estavam o Imam Sayyid Qutb, Zaynab al-Ghazali, Abd al-Fattah Ismail e Muhammad Yusuf Hawwash.
No início de agosto, recebi a notícia. Naquele momento, eu conversava com algumas irmãs quando chegou um telefonema. Informaram-me por telefone que a casa de Sayyid Qutb havia sido revistada e que nem mesmo a revista de seu corpo havia sido poupada. Alguns dias antes, seu irmão Muhammad Qutb também havia sido detido. Meu marido encontrava-se então em Ras al-Bir. Telefonei para ele e pedi que me enviasse informações tranquilizadoras sobre Sayyid Qutb. Cerca de uma hora depois, ele confirmou por telefone que a notícia recebida anteriormente era verdadeira. Suspendi imediatamente a reunião das irmãs e voltei minha atenção para a situação que se seguiria. A notícia da prisão de Sayyid Qutb causou grande agitação e excitação entre os jovens. Quanto a nós, nem é preciso dizer.
O Imam Hudaybi havia confiado toda a responsabilidade pelo movimento a Sayyid Qutb. Mantivemos contato com ele conforme as instruções do senhor Hudaybi. Após a prisão de Sayyid Qutb, encontramo-nos com o Murshid al-Amm, o Imam Hudaybi, para saber quem assumiria a responsabilidade dali em diante.
Eu e Abd al-Fattah Ismail já temíamos, cinco dias antes das prisões, que esse incidente acontecesse. De qualquer modo, depois desse incidente, Abd al-Fattah encontrou-se comigo e ordenou-me que partisse para Alexandria a fim de me encontrar com o Murshid al-Amm. Ele também me apresentou a um jovem e disse:
“Se eu for preso, ele ficará responsável por manter este contato”.
Algumas horas depois, ele telefonou, ordenou-me que permanecesse em minha residência e pediu-me que adiasse a viagem a Alexandria. Contudo, eu já havia estabelecido contato com o Murshid al-Amm. A esposa do Murshid al-Amm também havia vindo de Alexandria. Decidimos manter contato regularmente com o senhor Hudaybi. Dessa vez, a responsabilidade de manter o contato entre nós foi confiada ao irmão Mustafa Mursi.
Depois, encontrei-me com o Murshid al-‘Am, informei-o de tudo e expliquei nosso programa. Ele deu sua aprovação. Expressou profunda tristeza e preocupação com os acontecimentos das prisões, especialmente com a prisão de Sayyid Qutb.
Depois disso, a campanha de prisões continuou. Em pouco tempo, vários milhares de membros da Irmandade foram encarcerados. Após minha prisão, Shams Badran jurou ao presidente Nasser que, nos vinte dias anteriores, cem mil membros da Irmandade haviam sido presos, enchendo as prisões militares, a cadeia da fortaleza, a prisão de Abu Zawál, além das prisões de Alexandria e Tanta e muitas outras.
No dia dezenove de agosto, soube que Fazela, também conhecida como Umm Ahmad, de 85 anos, também havia sido presa. Desde o início, ela havia sido nossa companheira no movimento islâmico. Era uma verdadeira seguidora do Imã Hasan al-Banna e desempenhava um papel enorme no cuidado e na ajuda às famílias dos membros da Irmandade encarcerados. A notícia da prisão daquela nobre octogenária me deixou profundamente abalado. Após permanecer calado por alguns instantes, dirigi-me ao sobrinho do mensageiro e disse-lhe:
“É nossa felicidade que até uma anciã de oitenta e cinco anos esteja suportando com um sorriso os sofrimentos insuportáveis da prisão ao lutar pela causa de Deus, sem, contudo, curvar a cabeça diante do regime ímpio e falso, rebelde contra Deus. Que a misericórdia de Deus desça sobre ela e que Deus se agrade de sua obra.”
Chamei minha filha de fé, Gada Ammar, e disse-lhe:
“A famosa mujahida de Shibla, Fazela, também conhecida como Umm Ahmad, também foi presa… O fundo que mantenho com você para a divulgação do movimento islâmico e para as despesas das famílias dos presos: se eu for presa, entregue todo o dinheiro ao Murshid al-‘Am ou a alguém da família de Qutb.” Dizendo isso, confiei a bolsa de dinheiro a Gada. Esse dinheiro havia sido arrecadado das contribuições dos membros. Mais tarde, já na prisão, soube que Gada havia entregue esse dinheiro à minha outra filha de fé, Fátima Issa. Mas, quando ela também foi presa, os agentes do regime tirânico confiscaram igualmente todo aquele dinheiro. No entanto, esse dinheiro estava destinado às despesas daqueles inocentes — alimentação, aluguel de moradia, compra de medicamentos e custos de seus estudos — cujos pais foram presos apenas porque estavam preparando o terreno para o renascimento islâmico e escrevendo uma nova história.
Gada Ammar e Aliya Huzaibi foram visitar-me na prisão e, ao voltar, contaram-me tudo em detalhes. Eu lhes disse:
“Não há motivo para preocupação; Deus é suficiente para nós. Ele é o melhor dos administradores. Nosso verdadeiro destino está na Outra Vida…… E este mundo é apenas passageiro……”
Até minha prisão, as notícias das prisões em massa dos ikhwan chegavam continuamente ao meu peito como flechas que o atravessavam. Nesse meio-tempo, um mensageiro veio transmitir-me a ordem de ir a Alexandria para encontrar-me com o Murshid al-Amir. No dia 19 de agosto, quando eu me preparava para partir, chegou um segundo mensageiro e pediu-me que adiasse a partida por enquanto.
Agora era a minha vez
Na madrugada de sexta-feira, 20 de agosto, no momento da oração do fajr, os soldados da tirania atacaram de repente a minha residência. Quando lhes pedi que me mostrassem o mandado de busca, responderam: “Mandado? Que mandado? Mandado de quem? Você está louca? Não sabe que este é o regime de Nasser? Saiba que faremos o que bem entendermos.” Então, com uma gargalhada estridente, como a de alguém acometido por histeria, disseram novamente:
“Os ikhwan são realmente loucos. Na era de Jamal Nasser, estão nos pedindo um mandado para entrar em casa.” Depois começaram a quebrar, esmagar e destruir desordenadamente todos os móveis que encontravam pela frente; nada escapou às suas malditas garras. Embora testemunhasse aquela conduta abominável, fiquei observando em silêncio, com um olhar de completa impotência. Depois de revirarem tudo na casa, prenderam meu sobrinho. Ele era estudante do Colégio de Professores e estudava morando em nossa casa. Em seguida disseram: “Você não sairá de casa para lugar algum.” Perguntei:
“Devo entender que estou sob prisão domiciliar?” Responderam: “Até que chegue uma segunda ordem, você ficará sob nossa vigilância. Se tentar sair de casa, será presa.” Eu pensava que meu caso talvez se limitasse à prisão domiciliar. Ainda assim, temendo ser presa, preparava-me para qualquer emergência. Foi então que o marido e os filhos da minha vizinha vieram visitar-me. Temendo que também prendessem aquele senhor, pedi-lhe que deixasse imediatamente a casa, pois já haviam prendido até meu sobrinho. Mas, apesar de todos os meus pedidos, eles não aceitaram ir embora.
Justamente na hora do almoço, os soldados tirânicos de Nasser entraram em minha casa e começaram a destruir o restante dos móveis e utensílios. Destruíram metade dos objetos do cômodo que servia de escritório e confiscaram o baú. Não consegui retirar a tempo os livros mais importantes da minha biblioteca particular, especialmente obras de tafsir, hadith, fiqh e história, entre outras. Também não consegui retirar os manuscritos preliminares de três edições especiais de um jornal declarado ilegal em 1958. Aqueles bárbaros destruíam tudo de qualquer maneira e confiscavam ou arrasavam o que bem queriam. Tive uma discussão com eles por causa da chave do baú. Na verdade, o baú estava sob os cuidados do meu marido. Nele estavam guardados alguns dos meus pertences. Quando os soldados me exigiram a chave do baú, informei-lhes que ela estava com meu marido, que havia viajado durante as férias de verão. Ao ouvirem isso, começaram a fazer um grande alvoroço. Mandaram que um deles abrisse a fechadura. O homem pegou um molho de chaves e tentou uma após outra, mas não conseguiu abrir o cadeado. Então exigi que me entregassem um recibo dos bens e utensílios confiscados. Ao ouvirem minhas palavras, caíram na gargalhada e disseram:
“Recibo? Você quer recibo de tudo isso? Venha, vou dar-lhe um recibo”, disseram, empurrando-me para fora e colocando-me em seu carro. Meu sobrinho estava detido no carro desde aquela manhã. Perguntei-lhe: “Como está, Muhammad?” Mas ele não respondeu. Entendi que o haviam proibido de falar. Haviam-no prendido pouco antes apenas para facilitar as coisas para eles. Desnecessário dizer que os soldados que vieram dessa vez eram diferentes do grupo que estivera ali de manhã cedo.
O carro começou a nos levar. Ao ler a placa no portão principal da prisão, compreendi que aquele era o infame e abominável presídio militar. Depois de entrarmos no interior da prisão, fui retirada do carro. Em seguida, um homem de aparência assustadora levou-me a uma sala. Ali, um homem que aguardava começou a fazer-me perguntas. Depois fui levada a outra sala. Quando outro homem negro que estava ali perguntou meu nome, o homem assustador que me acompanhava informou-lhe meu nome, usando insultos obscenos.
Depois disso, aquele homem de pele escura olhou para mim com os olhos ferozes e injetados de sangue e perguntou em tom severo:
— Quem é você? Respondi calma e tranquilamente:
: Zaynab al-Ghazali al-Jubayli… Essas foram todas as palavras que pronunciei! Antes mesmo de terminar de ouvi-las, ele começou, com seu rosto horrivelmente deformado, a proferir toda sorte de insultos obscenos, de uma linguagem tão repugnante que jamais havia escutado algo parecido em toda a minha vida. O homem aterrorizante que viera comigo, enfurecido, começou a insultar-me, dizendo:
: Desgraçada, responda com educação àquele diante de quem você está. Então eu disse:
: Vocês me prenderam; confiscaram meus pertences, utensílios, dinheiro e livros. Deviam entregar-me uma lista de tudo isso e um recibo, para que, depois de ser libertada, eu pudesse recuperar todos os meus bens. Ao ouvir isso, o chamado advogado do governo, Shams Badran, disse com extremo desprezo:
: Nós vamos matá-la dentro de uma hora, e você ainda vem pedir recibos dos seus livros, dinheiro, pertences e utensílios! Ora, minha patroa! Em seguida, acrescentou outros insultos obscenos, dizendo:
: Assim como enterramos aqui inúmeros de seus companheiros antes de você, também você será enterrada aqui mesmo.
Dizendo isso, ria em voz alta, com um “hô, hô”, e continuava a falar tudo o que lhe vinha à boca. Nenhuma pessoa civilizada poderia sequer imaginar um ambiente tão sujo, bárbaro e grosseiro. Por isso, em vez de dizer qualquer coisa, achei melhor permanecer em silêncio. Nessa situação, o advogado Shams Badran ordenou ao soldado aterrorizante:
: Leve-a daqui.
Ele perguntou—
: Onde?
O advogado disse, fazendo um sinal—
: Eles sabem.
Em seguida, o homem assustador arrastou-me sem piedade para outra sala, enquanto me cobria de insultos. Vi um homem enorme como um gigante, de pé na escuridão esfumaçada, chamando meu nome em meio a palavrões. Ao ver seu rosto cruel, pedi a ajuda de Alá para me proteger de suas ações satânicas e disse—
: Ó meu santo Senhor! Concede-me conforto e dá-me força para suportar com paciência até nos momentos da provação suprema. Mantém-me ocupada pronunciando o Teu santo nome e firme no caminho da Tua satisfação.
O homem assustador que viera comigo, parado à porta, disse ao novo demônio—
:Tome, senhor……
O demônio gigantesco disse:
“Levem-no para a cela número 24”. Em seguida, fui levado a uma sala. Ela parecia um escritório. Havia dois homens sentados ali. Um deles tinha um diário nas mãos. Assim que vi o diário, reconheci que era o diário especial do senhor Abdul Fattah Ismail, que ele costumava tirar quando ministrava a aula de Qur’an para escrever anotações importantes. Compreendi então que ele e seus companheiros também haviam sido presos. Pois naquele momento deveria haver uma reunião naquele local. Ao pensar que os demônios os haviam prendido justamente durante a reunião, comecei a tremer.
Enquanto isso, ouviu-se o chamado para a oração do asr. Preparei-me para a oração. Assim que terminei a oração, aquele demônio aterrorizante avançou contra mim como uma fera selvagem.
O caminho para a cela número vinte e quatro
Desta vez, amarraram minhas duas mãos para trás e, acompanhados por mais dois homens de pele negra, conduziram-me por várias partes da prisão militar. Eles traziam chicotes negros e finos nas mãos. Nas diferentes áreas da prisão, estremeci ao ver as cenas horrendas de tortura e opressão infligidas aos Ikhwan. Eles eram despidos, amarrados firmemente a uma viga e açoitados sem piedade. Com os golpes dos chicotes, sua pele se abria em fendas e o sangue fluía em dezenas de filetes. Alguns Ikhwan eram novamente golpeados com chicotes de caça, e cães predadores famintos eram soltos sobre eles. Seus corpos ficavam dilacerados pelas mordidas venenosas dos cães. Muitos Ikhwan eram amarrados de frente para a parede antes da tortura física. Entre eles, eu conhecia pessoalmente muitos jovens ativistas. Eram queridos para mim como meus próprios filhos. Esses jovens instruídos, benevolentes e tementes a Deus eram mujahidin devotados de corpo e alma ao caminho de Allah. Seus dias passavam no trabalho do movimento islâmico, e, na escuridão da noite, ocupavam-se com o dhikr de Allah. Essa tortura impiedosa, essa brutalidade cruel contra esses jovens, futuros líderes da nação e pupilas dos olhos do povo, só pode ser praticada pelos mais vis inimigos do Islã! Contudo, mesmo depois dessa opressão e perseguição indescritíveis, fiquei estupefato de admiração ao ver o brilho natural, a paciência e a serenidade em seus rostos! Ao ver o exemplo concreto de seu sacrifício e perseverança, e de não se deixarem aterrorizar diante da tortura, senti por eles uma inveja genuína. Sinto orgulho desses jovens de coragem incomparável, símbolos de paciência. Vi que entre esses torturados e oprimidos havia, por um lado, jovens, homens maduros e idosos. Do mesmo modo, havia desde adolescentes e moças muito jovens até idosos de oitenta ou noventa anos. Todos tinham a mesma situação, o mesmo destino.
Todo o corpo deles estava ensanguentado, as costas cobertas de feridas pelos golpes do chicote de caça, o rosto marcado por arranhões ensanguentados, e uma única peça de roupa, rasgada em cem partes, cobria-lhes o corpo. Pela testa que jamais se inclinara diante de alguém, exceto por necessidade diante de Deus, escorria em abundância um fluxo de sangue quente. Mas que maravilha! Seus olhos e rostos resplandeciam com um brilho extraordinário. Mesmo subindo à cruz, cantavam louvores a Allah com semblantes serenos. Eles haviam sido pendurados de cabeça para baixo no teto, mas nem isso causara a menor alteração em sua paciência e veracidade. Contudo, eu já não tinha forças para continuar vendo aquela cena dilacerante. Insuportável…… insuportável…… insuportável!
De repente, um jovem pendurado na forca me viu. Ainda sobre a estrutura de madeira da forca, ele gritou bem alto para mim:
: Ó mãe! Nossa mãe! Que Allah a mantenha firme no caminho da verdade.
: Que Allah também o mantenha firme; que Allah lhe conceda paciência e coragem…… eu disse.
Vi o sangue do seu corpo dilacerado se acumulando num só lugar. Do sangue coagulado emanava uma espécie de brilho intenso. Fiz uma súplica—
“Ó Senhor dos mundos, concede paciência, força, coragem e tranquilidade aos mujahidin da Tua religião! Derrama a Tua misericórdia, ó Deus……!”
Olhando para os heroicos mujahidin oprimidos, eu disse—
“Meus queridos filhos, sucessores do Mensageiro! Não percam a paciência nem a coragem. Allah está ao vosso lado. — O vosso destino é o Paraíso.” O carrasco que me conduzia de um lado para o outro, ao ouvir-me proferir súplicas diante de Allah, levantou as suas enormes e pesadas mãos e desferiu um golpe violentíssimo com o punho contra as minhas têmporas. Com a intensidade do golpe, fiquei surdo e, por alguns instantes, também perdi a visão. Parecia que eu havia ficado atordoado por um súbito raio. Também parecia que os membros do meu corpo estavam sendo arrancados, um após o outro, e que uma estranha aura de luz emanava de todo o meu corpo. Apesar de me contorcer em uma dor insuportável, eu disse—
“Ó Deus, suportarei tudo no caminho da Tua satisfação.” Então me parecia que algumas palavras vinham flutuando do próprio Paraíso: “Ó Senhor! Concede-nos autoconfiança; ó Deus, protege os crentes da opressão dos tiranos.”
“Se não fosses o nosso Senhor, não teríamos recebido orientação, não daríamos sadaqa nem cumpriríamos a oração; em meio às provações e calamidades, concede-nos autoconfiança.” — Hadith
O estalar dos chicotes e dos açoites continuava a aumentar, mas a voz da fé era ainda mais clara e poderosa. De repente, ouvi outra voz; era aquela voz que parecia vir flutuando do Paraíso.
“Não há outro senhor além de Allah; Ele é Um e Único.” Eu disse novamente:
“Tenham paciência, meus filhos, tenham paciência. O Paraíso está à espera de vocês.”
Os duros golpes de punho dos carcereiros do tirano caíam sobre minhas costas como uma chuva torrencial. Eu disse —
Allahu Akbar wa lillahil hamd — Allah é Todo-Poderoso. Todo louvor pertence a Allah…… Ó Allah! Com paciência e contentamento, agradeço-Te por todas as Tuas recompensas, que nos concedeste sob a forma do Islã, da fé e do jihad.
Depois, o carrasco abriu a porta de uma sala escura, deixou-me ali, fechou a porta por fora e foi embora.
Na sala número vinte e quatro
Entrei naquela sala de escuridão impenetrável dizendo Bismillah. Assim que a porta da sala foi fechada, uma intensa luz elétrica pareceu ofuscar meus olhos. Compreendi que meu segundo tipo de punição havia começado. Vi que toda a sala estava cheia de cães. Não me lembro exatamente de quantos cães havia. Fechei os olhos de medo ao ver tantos cães ferozes. Incontáveis mordidas insuportáveis de cães percorriam todo o meu corpo. Parecia que minha cabeça, minhas mãos, meu peito, minhas costas, meus pés — em suma, todo o meu corpo — estavam sendo dilacerados por mordidas de cães. Assim que abri os olhos para ver aquela cena terrível, fui obrigado a fechá-los novamente. Sem outra alternativa, comecei a recitar os nomes de Allah — Asmaul Husna. Esqueci as mordidas venenosas dos cães e fiquei absorto no zikr de Allah. Eu disse:
“Ó Puro Provedor! Rompendo os meus laços com tudo o que existe na Terra, mantenho intacto apenas o meu vínculo contigo. O meu sucesso consiste somente em obter a Tua satisfação…… Em troca da vida e de tudo o que há no mundo, desejo apenas a Tua proximidade. Concede-me um lugar na corte da Tua misericórdia…… Concede-me, no caminho da Tua religião, amor, satisfação e a morte como mártir, e concede firme autoconfiança a cada monoteísta”.
Assim, várias horas se passaram entre as mordidas dos cães e a minha adoração. De repente, a porta da cela se abriu e fui levado para dentro.
Eu tinha a firme convicção de que a roupa branca que vestia estava completamente vermelha de sangue. Mas que maravilha! A minha roupa continuava perfeitamente branca, exatamente como antes, e não havia no meu corpo sequer uma marca das mordidas dos cães. Que maravilha é essa! Que misericórdia oculta de Allah Todo-Poderoso! Ó Deus, será que sou digno de receber tamanha graça Tua?…… Todo louvor é Teu, Senhor!…… Eu dizia tudo isso em pensamento. Nesse momento, o carrasco da prisão perguntou-me:
: O que aconteceu? Os cães não te morderam? Mas por quê? Que coisa espantosa é essa… — disse ele, fixando o olhar no seu chicote. O segundo homem que o acompanhava também balançava a vara na mão, aparentemente perdido em pensamentos.
O último rubor do entardecer no céu ocidental ia empalidecendo. Era hora da oração do Maghrib. Por ter passado mais de três horas entre cães ferozes e ter sido retirado de lá completamente ileso, agradeci a Allah com os olhos marejados de lágrimas.
Depois da oração, um funcionário da prisão levou-me por um longo caminho e fez-me parar diante de uma porta fechada. Quando a porta se abriu, vi à minha frente um campo desolado e aterrador. Atravessei o campo e segui por um longo corredor escuro. Havia inúmeras portas fechadas em ambos os lados do corredor. Por apenas uma porta vi sair luz. Lancei rapidamente o olhar e percebi que era a porta da cela número dois, onde estava sentado um oficial de alta patente, Mohammad Rashad Muhanna. Ele fora outrora príncipe herdeiro do Egito. O governo havia criado a suspeita de que os Irmãos provavelmente o colocariam no cargo de presidente do Egito. Por isso, ele também foi preso.
Na cela número três
A porta da cela número três foi aberta, e fui empurrado para dentro. Assim que a porta se fechou, acendeu-se uma lâmpada elétrica de intensa luminosidade, pendurada no teto. A luz era tão forte que se tornou difícil manter os olhos abertos. Compreendi que aquele jogo de luz ofuscante era, sem dúvida, parte do meu castigo!
Depois de algum tempo, bati à porta por dentro para que a abrissem, e um abissínio aterrorizante abriu-a e veio ficar diante de mim. Quando lhe pedi que trouxesse água para a ablução, ele fez uma careta e disse com voz áspera—
“Você não sabe que aqui é proibido bater à porta, pedir água, fazer a ablução e beber água……” Dito isso, ele girou o chicote no ar e tornou a dizer—
“Fique avisado! Se eu ouvir novamente o som de você batendo à porta, arrancarei a pele do seu corpo com este chicote”.
Não havia absolutamente nada na cela. Além disso, depois de passar até três horas com os cães na cela número vinte e quatro, eu já estava física e mentalmente exausto. Portanto, fiz tayammum no chão, estendi o meu xale e realizei a oração de Isha. Depois, tentei descansar um pouco. Mas eu padecia de uma dor terrível em todos os ossos. Ainda assim, tentei deitar-me, colocando os dois sapatos sob a cabeça. Porém, os inimigos da humanidade começaram a fazer coisas tão terríveis que esqueci completamente a ideia de descansar.
O respiradouro da minha cela era muito grande. Através dele, era possível ver claramente o pátio da prisão. Eles levaram um tronco de tortura e o colocaram exatamente diante daquele respiradouro. Depois, começaram a praticar novos e variados métodos de tortura, colocando sobre ele os jovens militantes do movimento islâmico. Seus corpos foram dilacerados pelos golpes de chicote. Mas aqueles jovens heróis do caminho de Alá suportavam tudo com extrema paciência. Nenhuma palavra, exceto o nome de Alá, podia ser ouvida de seus lábios. A cada golpe do chicote, saía de suas bocas apenas o grito “Ya Alá!”, e nada mais.
Durante aquela tortura abominável e desumana, o carrasco assassino perguntava-lhes, usando uma linguagem extremamente obscena………
: Diga, filho de uma cadela, quando você veio para cá?
Quando eles respondiam, ele perguntava—
:Quando foi a última vez que foste à casa de Zainab al-Ghazali?
Se algum jovem, em resposta a essa pergunta, dissesse que não sabia ou que não se lembrava, então todos aqueles animais bárbaros e vis se lançavam juntos sobre ele e, enquanto o golpeavam com chicotes e açoites, ordenavam-lhe que me insultasse com linguagem obscena. Mas esses jovens cultos e de caráter nobre — entre os quais havia médicos, engenheiros, professores, intelectuais e advogados — sendo muçulmanos, enquanto tivessem vida, nem sequer podiam pensar em insultá-la. Eles diziam:
“Ela é como nossa mãe, uma mulher nobre e devota de Deus.” Quando os jovens se recusavam a proferir insultos obscenos, os carrascos, enfurecidos contra eles, aumentavam a intensidade da tortura. Mas de modo algum era possível corromper os jovens. Milhões e milhões de louvores àqueles jovens heróis que, mesmo diante da morte, não fizeram concessões à mentira e ao batil, e que, apesar de centenas de perigos e calamidades, não se desviaram nem um pouco do caminho da verdade.
Ao ver montanhas de tortura injusta desabarem sobre esses jovens de caráter elevado e personalidade vigorosa, é impossível expressar em palavras como meu coração e minha alma se agitavam. Eu apenas suplicava a Allah………
“Ó Allah, o Rahmanur Rahim, impõe sobre meus ombros a punição daqueles jovens inocentes e concede-lhes a liberdade.”
Eu queria que os jovens obtivessem a liberdade concordando com as palavras dos opressores, e que eu suportasse em seu lugar todas as torturas. Mas isso não aconteceu.
Eles sofriam torturas severas, uma após outra. Invocavam Allah, mas não abandonavam o caminho da verdade. Ao ver todos aqueles sofrimentos e dores, esqueci-me das minhas próprias dores e sofrimentos. Diante do sofrimento deles, as torturas infligidas a mim pareciam muito leves. Agora eu sentia dor por causa da dor deles. Por eles, eu pedia apenas misericórdia a Allah.
Sonho
Naquelas circunstâncias, nem percebi quando adormeci. Talvez nisso estivesse contida a misericórdia de Allah. Durante os meus dias de aflição, já havia visto em sonhos o amado Profeta, Hazrat Muhammad (que a paz esteja com ele), três vezes; e hoje alcancei pela quarta vez essa boa fortuna.
Sonhei que havia muitos camelos numa imensa extensão desértica. Sobre o dorso de cada um deles havia uma sela resplandecente, e em cada camelo estavam sentados quatro viajantes de aparência serena, majestosa e luminosa. Até onde a vista alcançava, por toda a extensão do deserto, havia camelos e uma caravana que se estendia até o horizonte. Então me vi diante de um grande homem, de semblante radiante, solene nos pensamentos, mas sorridente. Vi que havia tantos camelos vagando por toda a extensão que, em cada um deles, a corda presa ao pescoço estava firmemente segura em sua mão.
Perguntei-lhe com extrema humildade e reverência:
:O amado Profeta está aqui? Ele olhou para mim com serenidade e disse:
:Zainab! Estás justamente no caminho seguido pelo Mensageiro de Allah e por Seu servo Muhammad.
Repleta de alegria, perguntei novamente:
Estou realmente seguindo o caminho indicado pelo Mensageiro de Allah e por Seu servo?
:Sim, ó Zainab, ó Ghazali, estás justamente no caminho indicado pelo servo de Allah e por Seu Mensageiro. Perguntei mais uma vez a mesma coisa:
:Ó meu amado Profeta; ó Mensageiro de Allah! Estou eu seguindo o caminho indicado pelo servo de Allah e por Seu Mensageiro?
:O amado Profeta disse:
:Ó Zainab, estás no caminho da verdade; ó Zainab! Estás no caminho seguido pelo servo de Allah e por Seu Mensageiro, Muhammad.
Ao despertar, senti dentro de mim uma força e uma serenidade extraordinárias. Esse sonho tornou-me indiferente e desapegada dos pensamentos sobre toda a opressão e perseguição do presente. Os golpes do chicote ou a brutalidade infligida aos membros da Irmandade no pátio diante da minha cela…… nada disso me parecia mais tão doloroso. Vi que a forca havia sido retirada do pátio diante da minha cela. Agora, o som das pancadas chegava até mim de bem longe.
Fiquei admirada ao pensar que, no sonho, o amado Profeta se dirigira a mim pelo meu verdadeiro nome de família. Meu verdadeiro nome de família é Zainab Ghazali. Mas o público me conheceu como Zainab al-Ghazali.
Por ter tido esse sonho auspicioso, fiz imediatamente o tayammum e me pus a rezar, para agradecer a Allah. Prostrada, disse a Allah com a voz embargada pelas lágrimas:
: Meu Senhor! Com que palavras Te agradecerei? Nem sequer tenho forças para Te agradecer. ……Ó Senhor dos Mundos! Dedico-me ao martírio no caminho da Tua satisfação. ……Ó Sustentador! Que, por minha causa, ninguém caia em tristeza ou infortúnio…… Ó meu Senhor!…… Mantém-me firme apenas no caminho simples e belo da Tua satisfação………
Mesmo depois de terminar a oração, continuei por muito tempo repetindo a mesma súplica. Naquele momento, sentia uma serenidade e uma alegria tais que parecia ter chegado a um mundo novo e estar passeando por ele. Fiquei sobressaltada ao ouvir, no caminho e no pátio do lado de fora da cela, o som de muitos carros e da movimentação apressada das pessoas. Mais tarde soube que era o momento da troca de turno dos algozes. Os algozes antigos haviam partido, e os novos haviam chegado com renovado ímpeto para torturar.
Ao ouvir o azan do fajr, fiz tayammum, repeti várias vezes as palavras do azan e realizei a oração. Nessa situação, permaneci confinado no mesmo quarto durante seis dias completos, de 20 a 26 de agosto. Nesse período, a porta do quarto não foi aberta uma única vez; não me deram sequer uma gota de água nem qualquer tipo de alimento. Também não tive contato nem conversei com ninguém do lado de fora. Sem água, sem alimento, sem conversa — seis dias ou seis noites de solidão num quarto escuro. Tentem imaginar, por um instante, como era essa vida! Que não houvesse comida nem bebida, vá lá; mas como alguém pode negar a uma pessoa o atendimento de suas necessidades naturais?
Que nome vocês dariam àquelas pessoas que afirmam ser humanas, mas cujas ações envergonhariam até o próprio Satanás? Esses governantes opressores passaram a considerar-se alguma espécie de criação sobre-humana e imaginaram estar livres de todos os princípios da humanidade.
Talvez vocês também estejam surpresos, perguntando-se como uma pessoa pode sobreviver seis dias sem comer nem beber e sem sequer poder satisfazer suas necessidades naturais. O carrasco que fazia guarda do lado de fora do meu quarto também sentiu a mesma surpresa. Ele abriu a porta e, ao ver-me sentado, saudável e tranquilo, lançou um palavrão horrível e perguntou:
: Ei, você ainda não morreu, pelo visto! Ainda está vivo? Vou contar-lhes como consegui sobreviver e permanecer saudável depois de tantos dias numa situação tão anormal e inacreditável; escutem!
Em primeiro lugar: a fé e a confiança inabaláveis em Allah. Pois o Islã instila em seus verdadeiros seguidores uma força que permite ao crente superar todo tipo de sofrimento e calamidade, por mais terrível que seja a opressão e a tirania. Pela graça de Allah, o crente adquire tamanha capacidade de suportar que nem mesmo o mais grave perigo consegue aterrorizá-lo ou perturbá-lo. Os opressores tirânicos embriagam-se com a arrogância de sua força exterior, mas, diante da força espiritual do crente, todas as outras forças se mostram insignificantes. O crente é capaz de viver livre de qualquer espécie de medo ou cobiça. Em segundo lugar: aquele sonho sagrado, que, vindo da parte de Allah, equivalia a conceder-me uma vida verdadeira e o sucesso. Por causa dele, encontrei forças para viver ignorando a influência do ambiente. Esse sonho infundiu em mim forças para levar uma vida serena, mesmo suportando qualquer sofrimento ou perigo extremo.
No sétimo dia do meu confinamento solitário, privado de comida e bebida, aquele carrasco entrou no meu quarto levando quatro pães sujos, podres e fedorentos, e um pedaço de manteiga. Jogou tudo no chão diante de mim e disse:
: Enquanto ainda estiver vivo, coma isto………
Além disso, não faltaram os palavrões repugnantes daquela boca horrível. Não toquei nem no pão nem na manteiga. Contudo, peguei o recipiente de água. Mas tanto o recipiente quanto a água estavam tão sujos e fedorentos que era impossível levá-los à boca. Ainda assim, fechei os olhos e o nariz e bebi aquela água, dizendo:
“Em nome daquele grandioso Allah, por cuja bênção nada no céu nem na terra poderá me causar dano. Allah ouve e sabe tudo. Ó Allah, transforma esta água, para mim, em alimento necessário à saúde.”
Depois que bebi a água, a porta foi fechada. Então, ao pôr do sol, o carrasco voltou, abriu a porta e, enquanto proferia insultos obscenos à sua maneira habitual, disse—
: Saia, urine e defeque, e volte.
Quando saí, eu estava caindo no chão devido à fraqueza física. Ao ver isso, o carrasco me segurou e me levou até o banheiro. Quando tentei fechar a porta do banheiro, ele disse—
É proibido fechar a porta. Ao ouvir isso, saí e lhe disse—
: Leve-me de volta à minha cela. Não preciso de nada.
Ao ouvir essas palavras, ele demonstrou extrema crueldade e falta de vergonha e disse—
: Estou aqui de pé esperando por você. Vá fazer suas necessidades!
Pensem bem: será possível encontrar outro exemplo de tamanha bestialidade? Poderia até mesmo o pior dos homens ser tão vil, tão abjeto? Mas, sob as ordens de Nasser, esses carrascos fizeram os animais parecerem inferiores a eles em termos de selvageria e crueldade.
Ao voltar para a cela, lamentei e disse—
A morte seria melhor do que isso. Pelo menos eu estaria livre da presença de um homem tão selvagem e bárbaro. Eu não seria obrigado a ir até a torneira de água com aquele demônio. Depois que o carrasco fechou a porta da cela e foi embora, fiz tayammum e realizei a oração do Maghrib. Assim que terminei a oração, a porta se abriu e várias pessoas entraram na cela. Entre elas, vi também aquele demônio cruel que me obrigara a ficar durante três horas no meio de inúmeros cães. Eu estava deitado no chão naquele momento. Aquele demônio disse a alguém—
Venha, doutor, examine-o!
Depois de me examinar, o médico disse—
: “Não aconteceu nada. O coração dele ainda está bem”.
Mas será que o médico sabia que, por causa da tortura, eu estava à beira da morte? Depois disso, eles fecharam a porta e foram todos embora. Alguns minutos mais tarde, abriram a porta, levaram-me para outra cela escura e amarraram-me à parede por duas horas. Proibiram-me até de me mexer. Fecharam a porta e, enquanto me insultavam, disseram—
: Ô, filho de cachorro, o dia da tua morte está se aproximando!
Ignorando o que diziam, clamei a Allah com todas as minhas forças:
“Ó Senhor; que minha morte seja no caminho da fé e do Islã.” Depois comecei a recitar a surata Al-Fátiha e a surata Al-Baqara. Pareceu-me que era a primeira vez na vida que recitava o Alcorão. Eu estava de olhos fechados, absorto na recitação do Alcorão, quando, de repente, alguém desferiu uma bofetada violentíssima em meu rosto. Imediatamente acenderam a luz. Vi um carrasco gigantesco diante de mim, segurando um chicote. Ele começou a desferir impiedosamente golpes de chicote contra mim. Depois colocou três folhas de papel branco diante de mim e disse:
: Escreverás aqui tudo o que dissermos……
De repente, um deles veio, agarrou-me firmemente com suas mãos fortes e atirou-me violentamente contra a parede. Depois, um segundo homem levantou-me do chão e, sacudindo-me, atirou-me com força ao chão; em seguida, ordenou a um soldado, dizendo-.
: Chuta-o com as botas o máximo que puderes.
Depois de me torturar cruelmente por bastante tempo, sentou-me numa cadeira, entregou-me as três folhas de papel e disse-
“Escreve aqui o nome de cada pessoa cujo nome conheces, esteja ela na Arábia Saudita, na Síria, no Sudão, no Líbano ou em qualquer parte do mundo! Se não escreveres conforme a nossa ordem, serás fuzilado aqui mesmo, agora. E também escreverás detalhadamente todas as informações que conheces sobre o Ikhwan e sobre tua relação com ele. Toma, aqui está a caneta.”
Depois fecharam a porta e foram embora.
Apesar de estar sofrendo uma dor indescritível, sentei-me com papel e caneta—
Comecei a escrever—
“Há irmãos e irmãs espalhados por muitos países que me conhecem por meio do movimento islâmico. O objetivo do nosso movimento é estabelecer o dīn de Allah. Juro por Deus: só vêm até nós aqueles que são capazes de escolher o caminho correto. E esse caminho correto é o caminho seguido pelo amado Profeta, Hazrat Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), e pelos Companheiros.
Nosso objetivo é propagar o dīn de Allah e convocar as pessoas a governarem de acordo com as leis do dīn. Em nome de Allah, também convoco vocês a abandonarem o caminho da ignorância e da opressão, a seguirem o tawhid e a risalat e a se submeterem a Allah. O vapor venenoso da falsidade e da injustiça que entrou em suas mentes por seguirem o caminho da falsidade será eliminado pelo caminho de Allah, e Allah os tirará das trevas para a luz”.
“Façam também com que estas palavras cheguem ao presidente do país. Talvez ele se arrependa e retorne novamente ao caminho do Islã. Se ele rejeitar o convite de vocês, terá de prestar contas por si mesmo. Testemunho que não há outra divindade além de Allah e que Hazrat Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) é servo e Mensageiro de Allah”.
“Ó Allah, sê testemunha de que estou cumprindo minha responsabilidade.
Se agora eles se arrependerem, aceita o arrependimento deles. Mas, se quiserem permanecer na escuridão das trevas, Tu sabes tudo e és o melhor dos juízes. Ó Allah! Mantém-nos firmes no caminho da verdade. Concede-nos uma morte de mártir”.
Escrevi tudo isso considerando-o meu dever religioso e, depois de terminar, comecei novamente a recitar o Alcorão Sagrado.
Após algum tempo, Safwat Ruby veio, levou os papéis que eu havia escrito e deixou-me naquele lugar solitário. Não haviam transcorrido sequer alguns instantes quando, de repente, a porta se abriu e quatro militares de Safwat entraram; usando todos os insultos existentes em seu dicionário de xingamentos, disseram:
Que porcarias você escreveu no papel?
Depois, ele gritou da porta:
: Atenção! Atenção! O diretor da prisão militar, Hamza Pasha Basyuni, está chegando.
O diretor entrou na sala e começou a proferir todo tipo de xingamento obsceno e repugnante, algo que uma pessoa comum sequer seria capaz de imaginar. Fiquei olhando para ele com extremo desprezo. Ele pegou das mãos deles algumas folhas que eu havia escrito e disse:
: Tudo o que você escreveu são mentiras.
Dizendo isso, rasgou tudo em pedacinhos.
Referindo-se a Safwat, eles disseram:
: Então isso é alguma brincadeira? As bobagens que você escreveu o afligiram. Basyuni disse—
: —Segure-o —disse ele, saiu e, alguns instantes depois, voltou trazendo um soldado. O soldado me ergueu bem alto com extrema crueldade e me arremessou ao chão com estrondo. Assim que caí no chão, perdi os sentidos. Quando recobrei a consciência, vi que tinham me amarrado, pendurado de cabeça para baixo sobre uma estrutura de madeira, tal como um açougueiro pendura um animal abatido. Depois veio uma surra impiedosa com o chicote. Que espancamento abominável e bestial! Eu, nem se fala; ninguém seria capaz de suportá-lo! Enquanto isso, repetindo o nome de Allah, perdi novamente os sentidos.
Quando recobrei novamente a consciência, vi-me deitado numa maca de hospital. Naquele momento, eu não tinha sequer a mínima força para falar ou me mover. Contudo, ouvia as conversas ao redor.
Depois de algum tempo, fui levado de volta à cela. Meu corpo ainda sangrava por toda parte. Em meio a uma dor insuportável, bati na porta e pedi ao guarda que chamasse um médico e trouxesse ataduras. Mas, em resposta, não recebi nada além de insultos grosseiros. Sem outra alternativa, supliquei a Allah, pedindo que fizesse cessar minhas dores e o sangramento. Allah aceitou minha súplica. O sangramento de várias partes do meu corpo parou. A dor, porém, continuou. Para me livrar dela, comecei a repetir o nome de Allah. Com isso, senti a dor e o sofrimento diminuírem bastante. Foi então que me lembrei de um hadith do amado Profeta. O amado Profeta disse—
“Temei a súplica do oprimido, pois não há véu entre o oprimido e Allah.”
Foi nesse estado insuportável que se passaram várias noites. Não havia nenhum tipo de remédio nem qualquer tratamento. Apenas aquele terrível guarda negro abria a porta diariamente, no horário determinado, e atirava para dentro um pouco de manteiga e alguns pedaços de pão amanhecido. Como eram impróprios para o consumo, eu nem tocava neles. Assim, ele os recolhia exatamente como os havia deixado. Era extremamente difícil suportar o mau cheiro daqueles pães e da manteiga.
Allah é o seu auxílio
Certo dia, ao ouvir o som abafado dos passos de alguém do lado de fora da porta, fui tomado por uma sensação estranha e me aproximei dela. Olhei pelo pequeno orifício por onde o guarda costumava me observar e vi diante de mim o Murshid-e-Aam, Imam Huzaibi. Então também o haviam prendido! Encostei o rosto naquele orifício e recitei este versículo sagrado—
“Se você estiver ferido, então a nação também foi ferida dessa maneira; não demonstre fraqueza nem se entristeça. Se você permanecer firme na fé, alcançará o sucesso.”
Meu olhar beijou seus pés sagrados, e continuei recitando repetidamente aquele versículo do Alcorão. Ele respondia com gestos das mãos, de tal modo que o guarda, parado como uma sombra, não pudesse entender nada. Com essa proximidade do Imam Huzaibi, tornei-me indiferente às minhas dores e tristezas.
Na verdade, os crentes estabelecem entre si uma relação de fraternidade no caminho de Allah. No Islã, não há distinção ou discriminação entre grandes e pequenos. No Islã, cada um trabalha pela satisfação de Allah. Portanto, não há diferença entre o líder e seus seguidores, nem entre o comandante militar e os soldados comuns. Todos trabalham, cada um em sua função, pela satisfação de Allah, e cada um considera os demais como seus próprios irmãos. Esses pensamentos ideológicos trazem ao meu coração a frescura da paz.
O rolo compressor da opressão e da perseguição
Essa tranquilidade não durou muito. Certa tarde, de repente, a porta da cela se abriu e Safwat apareceu. Batendo nas paredes com o chicote que tinha na mão, ele me agarrou, arrastou-me até perto do escritório da prisão, fez-me sentar numa cadeira e foi embora. Poucos instantes depois, um homem veio e me perguntou:
: Você é Zainab al-Ghazali?
Depois de receber uma resposta afirmativa, ele foi embora. Então chegaram três soldados enormes e assustadores. Parecia que tinham acabado de sair do Jahannam. Havia sinais claros de crueldade em seus rostos. Em seguida, outro homem veio e perguntou-lhes:
: Eles conseguiram me reconhecer?
Em resposta, todos disseram—
: Sim, reconheceu, claro. O momento da morte dela se aproxima.
Depois, vi que eles saíram e começaram a chicotear o irmão Faruk Mansabi. Ele já havia sido pendurado numa estrutura alta de madeira. Enquanto o chicoteavam, perguntavam ao irmão Faruk—
“Quantas vezes você se encontrou com Zainab Ghazali? Ao mesmo tempo, ordenavam que ele me xingasse com palavras obscenas. Mas, quando aquele servo de Allah se recusou a obedecê-los, a intensidade das agressões aumentou. Ao ver seu estado, parecia que, em vez de lágrimas, sangue escorria dos meus olhos. Depois de muita surra, o irmão Faruk foi jogado ao chão. Pelo seu estado, parecia que sua alma estava prestes a deixar o corpo. Mas, pela misericórdia de Allah, ele sobreviveu. Por fim, numa farsa de julgamento, condenaram-no à prisão perpétua com trabalhos forçados. Mesmo na prisão, esse soldado de Allah continuou pregando o Islã entre os detentos e incentivando-os ao movimento islâmico. Finalmente, os inimigos do Islã levaram-no para a prisão de Limantara e o assassinaram cruelmente (Inna lillahi………). Até o último momento de sua vida, ele permaneceu firme no caminho da satisfação de Allah e alcançou a bênção do martírio.”
Os pecadores não torturaram apenas o irmão Faruk dessa maneira. Depois, penduraram outro irmão numa estrutura de madeira, fizeram-lhe o mesmo tipo de perguntas e ordenaram que ele me insultasse. Mas, quando o irmão se recusou a me insultar, bateram nele com tanta crueldade que ele perdeu a consciência. Pensando que ele havia morrido nesse estado, colocaram-no numa maca e levaram-no para um lugar desconhecido. Na verdade, os pecadores pensavam que, ao ver tudo aquilo, eu aceitaria prestar falso testemunho conforme a vontade deles. Com esse objetivo, enviaram-me um homem. Esse homem veio até mim e tentou apresentar-se como alguém extremamente educado e meu benquerente.
Ele veio, cumprimentou-me com o salam e apresentou-se—
“Eu sou o advogado Omar Issa”.
Mais tarde, descobri que suas palavras eram falsas. Na verdade, ele também era um daqueles demônios. Ao começar a falar, disse—
“Zainab, estou interessado em chegar a um acordo com você. Meu objetivo é libertá-la do perigo para o qual você mesma se lançou…… Você é uma mulher respeitável. Pense um pouco! Até pessoas como Huzaybi confessaram tudo e revelaram a seu respeito coisas que podem fazer com que você seja condenada à morte. Elas conseguiram salvar a si mesmas, mas empurraram você para um perigo ainda maior. Na minha opinião, enquanto ainda há tempo, você deve preservar sua honra e dignidade e contar tudo. Diga: qual era o objetivo delas? E exponha também detalhadamente a sua própria opinião. Creio que a sua opinião será realmente a correta.”
Mesmo ouvindo todas essas falsidades, permaneci calada. Como não obteve resposta, ele tornou a dizer:
“Zainab, responda depois de pensar muito bem. Na verdade, quero saber o que realmente aconteceu.”
Desta vez, eu disse:
“Pelo que sei, a Irmandade Muçulmana não fez nada que pudesse causar ira a uma pessoa honesta. Eu mesma faço parte da Irmandade. Que crime cometemos? Nós ensinamos às pessoas os princípios islâmicos; isso é algum crime?”
Quando me calei depois de dizer isso, ele falou:
Mas isso prova que eles estavam envolvidos em muitas conspirações, entre as quais se incluíam a conspiração para assassinar Jamal Abdun Nasser e a conspiração para criar a anarquia no país. E você os estava ajudando nisso. Veja, sou promotor; meu trabalho é tomar conhecimento dos fatos. Eu disse:
O objetivo da Irmandade não pode ser assassinar Abdun Nasser nem criar a anarquia no país. Pelo contrário, foi Jamal Nasser quem destruiu o país. Na verdade, é uma verdade incontestável que nosso objetivo é muito elevado e construtivo. Queremos estabelecer o modo de vida escolhido por Allah, baseado no tawhid perfeito, na adoração e no Alcorão e na Sunnah. Quando alcançarmos esse nobre objetivo, o trono e o pavão da falsa escuridão desaparecerão por si mesmos. Todas as narrativas forjadas serão destruídas. Lembre-se: nosso objetivo é reformar e reconstruir. Não destruir, mas construir e progredir: é isso que desejamos.
Ao ouvir isso, ele riu e disse:
“Na verdade, vocês estavam conspirando contra Jamal Nasser e seu governo. Isso fica evidente pelas suas próprias palavras.”
Eu disse:
: Veja, no Islã não há lugar para conspirações ou complôs. Nós nada sabemos disso. Pelo contrário, levantamos a voz contra todo tipo de injustiça. Apresentamos às pessoas a verdadeira natureza de dois caminhos. Um deles é o caminho indicado por Alá, e o outro é o caminho de Satanás. Consideramos aqueles que seguem o caminho de Satanás como doentes, vítimas da desorientação. A essas pessoas oferecemos, com grande carinho, o remédio da verdade. E esse remédio é a sharia de Alá — a religião de Alá.
“Nós revelamos o Alcorão, que é misericórdia e salvação para os crentes, e para os opressores não há nele senão perdição.”
Então, o modo de falar daquele demônio que se apresentava como advogado começou a mudar. Na verdade, ele era Said Abudul Karim. Ele saiu dizendo:
“Eu queria ajudá-la. Mas parece que você ainda é vítima das tendências ideológicas da Irmandade.”
Depois, Safwat Rubi veio e me fez ficar de frente para a parede. Manteve-me imóvel, em pé, durante várias horas, enquanto diante de mim submetiam os membros da Irmandade a torturas indescritivelmente desumanas. Ao ver tudo aquilo, meu sangue gelava. Conhecia muitos deles intimamente, como Sarsi Mustafa, Faruk Assadi e Taher Abdul Aziz Salem. Eles eram membros destacados do movimento. Pouco depois, aquele suposto advogado, Hamza Bisiubi e Safwat Rubi voltaram. Hamza disse:
“Por que você não quer chegar a um acordo com o advogado? Nós estamos tentando salvá-la deste perigo. Pelo que sei de seu marido, ele é um homem muito bom. Mas você se tornou vítima de uma fraude. Hassan Huzaybi contou tudo.”
Perguntei em tom de sarcasmo:
“Será mesmo que os Ikhwan contaram tudo? E é por isso que vocês continuam submetendo-os a torturas desumanas? Pendurando-os no cadafalso e açoitá-los!……… Fique sabendo que jamais poderei mentir contra os Ikhwan nem contra mim mesmo. Somos muçulmanos. Todos os nossos esforços e sacrifícios são pelo Islã. Esse é o nosso trabalho.”
Atrás deles estavam de pé quatro carrascos. Os chicotes e açoites em suas mãos, apenas um instante antes, faziam o sangue dos Ikhwan jorrar.
Atraí a atenção do chamado advogado para aquilo e disse em tom de censura:
Senhor advogado! Esses chicotes e açoites também eram, por acaso, matéria do currículo da faculdade de Direito de vocês? Antes que terminássemos de falar, Hamza Bisyuni desferiu uma violenta bofetada no meu rosto e disse:
“Você nos tomou todos por loucos, não foi? Hoje vou enterrar você de um jeito que enterro dez Ikhwan todos os dias.”
Pela segunda vez, dirigi-me ao chamado advogado e disse:
Se você é realmente um advogado, então por que não anota em seu diário todos esses episódios de tortura?……… Além disso, qual é a prova de que você é advogado……?
Ao ouvir isso, Hamza Bisyuni disse:
“Pronto, vão embora, cada um para o seu trabalho. Eu só queria ajudá-la, mas ela não quer isso.”
Em seguida, Safwat e seus companheiros carrascos começaram a me açoitar indiscriminadamente. Para proteger os olhos, cobri-os com as duas mãos. Todo o restante do meu corpo era dilacerado pelos golpes do chicote. Para diminuir a sensação daquele tormento insuportável, supliquei a Allah e, a cada golpe do chicote, continuei pronunciando as palavras: “Ya Rabb, Ya Allah”.
Depois de desferirem muitos golpes de chicote e ficarem quase exaustos, Safwat e seus companheiros amarraram-me e deixaram-me pendurada contra a parede, puxando minhas duas mãos o máximo possível para cima e prendendo-as, antes de se retirarem. Naquela situação, meu único recurso para encontrar paz e alívio era recitar o nome de Allah. Assim, continuei recitando o nome de Allah e suplicando somente a Ele.
Depois de me manterem assim por várias horas, Safwat veio até mim acompanhado de um homem negro chamado Safwat Sambo. Assim que chegaram, os dois começaram a me desferir socos e tapas sem parar. Depois, levaram-me para a cela e trancaram-me lá.
Depois que eles foram embora, ouvi ao longe o chamado da oração do fajr vindo do minarete de alguma mesquita. Esquecendo todas as dores e sofrimentos, primeiro fiz a oração; depois, ergui as duas mãos e disse a Deus: “Ya Rabb al-Alamin, se Tu não estás descontente comigo, então não me importo com nenhuma perseguição neste mundo. Tua graça e Tua misericórdia são suficientes para mim. Peço-Te a luz que ilumina este mundo e o além, e peço proteção contra Teu descontentamento e Tua ira. Ó Deus, vim apresentar-me diante de Ti; ó Senhor, fica satisfeito comigo. Sem dúvida, Tu és o Senhor de todas as coisas, o Todo-Poderoso”.
O representante do presidente Nasser
Depois de me manterem confinado na cela por três dias consecutivos, levaram-me ao escritório. Ali, um homem branco, alto e corpulento, estava sentado à minha espera. Assim que cheguei ao escritório, o homem disse:
“Sente-se, Zainab! Sabemos que eles o espancaram e o deixaram muito exausto. Eu o conheço pessoalmente. ……Vim diretamente do gabinete do Presidente. Quero chegar a um acordo com você. O povo de todo o país ama você, e nós também o respeitamos. ……Mas você nos manteve afastados e continua se opondo a nós. ………Não sei por que você não está disposto a chegar a um acordo conosco. Juro por Deus: se você fizer um acordo conosco, será libertado hoje mesmo da prisão militar. Todos sabemos que você não é uma pessoa que deveria estar na prisão. Não estamos apenas prometendo libertá-lo da prisão; também garantimos que o nomearemos ministro do Bem-Estar Social, no lugar de Hikmat Abu Zayed”.
Ao ouvir suas palavras, perguntei:
“Então, antes de fazerem de Hikmat Abu Zayed um ministro, vocês devem tê-lo açoitado bastante e deixado entre cães ferozes, não?”
:Por que seria assim? Por que seria assim? Digo a verdade: você está cumprindo pena aqui e sofrendo; na realidade, nós não queríamos isso.
: Então, o que vocês querem de mim? — perguntei. Ele disse:
“Veja, todos os membros da Irmandade Muçulmana fizeram acusações contra você…… O senhor Huzaybi também revelou tudo detalhadamente sobre o assunto. Abd al-Fattah Ismail e Sayyid Qutb também explicaram e relataram tudo. Mas nós acreditamos que todos eles disseram essas coisas apenas para obter a própria liberdade e incriminá-lo. Por isso, vim pessoalmente, por ordem do Presidente Nasser, para chegar a um acordo com você. Se você aceitar o acordo, será libertado imediatamente, e eu mesmo o levarei para casa em meu próprio carro. É necessário dizer-lhe, a propósito, que ficou claro, pelas declarações dadas pelos membros da Irmandade, que eles tentavam tomar o poder e que você havia elaborado um plano para assassinar o Presidente Nasser e seus quatro ministros. A esse respeito, queremos sua declaração detalhada sobre o papel do senhor Huzaybi e de Sayyid Qutb. E quem eram os quatro ministros contra os quais foi elaborado o plano de assassinato? Por favor, dê uma declaração detalhada”.
Sem hesitar por um instante, respondi:
A primeira coisa é que o Ihwan al-Muslimun jamais elaborou qualquer plano para tomar o poder ou assassinar os chamados quatro ministros ou qualquer outra pessoa. A verdadeira questão era adquirir um conhecimento abrangente sobre o Islã, determinar as causas da pobreza e da decadência dos muçulmanos e fazer uma análise baseada na realidade da situação geral; esse era o trabalho do Ihwan, e, nesse aspecto, o Ihwan alcançou o sucesso.
O cavalheiro interrompeu o que eu dizia e falou: “Zainab, eles já contaram tudo”.
Eu disse:
:Disseram, sim! Os carrascos talvez os tenham feito dizer, contra a vontade deles, aquilo que foram obrigados a dizer. Estão sendo submetidos a violência e coerção para confessarem que aconteceu aquilo que não aconteceu. Mas não há sentido algum em uma confissão forçada desse tipo. A verdade, porém, é que nós estávamos apenas pregando os ensinamentos do Islã e treinando as novas gerações para que pudessem compreender corretamente o Islã e colocá-lo em prática. Se, aos olhos de vocês, isso for um crime, então não há alternativa senão recorrer a Allah em busca de justiça”.
O representante do presidente, desta vez jurando por Deus e falando em tom compassivo, disse:
“Quero o seu bem. Eu vim justamente para libertá-la”.
“Agradeci-lhe e disse:
“Veja, jamais desejei tornar-me uma alta autoridade do governo ou obter um cargo ministerial. Passei toda a minha vida a serviço do dīn do Islã. Não tenho o menor interesse em ser uma pessoa rica, um grande líder ou um ministro. Minha primeira e última tarefa é dedicar-me exclusivamente ao serviço do Islã”.
Ao sair da sala, o representante do presidente exclamou furiosamente:
“Eu vim para te servir, justamente para conseguir a tua libertação — mas tu estás negando e rejeitando isso.”
Cerca de uma hora depois da partida do representante do presidente, Riaz e Safwat vieram até mim. Antes disso, Riaz havia me ameaçado várias vezes, dizendo que eu seria morto se não desse uma declaração conforme o que eles queriam.
Logo depois, fui espancado impiedosamente, como três dias antes. Depois de deixar todo o meu corpo ferido e ensanguentado, eles me trancaram novamente na cela e foram embora.
Muitos rostos na minha cela
Na tarde do segundo dia na cela, na hora da oração do asr, algumas vozes conhecidas chegaram aos meus ouvidos. Com muito esforço, levantei-me, fui até a porta e tentei ver o que acontecia lá fora através da abertura destinada ao vigia. Mas não conseguia ver nada, pois Hamza, Safwat e seus companheiros estavam parados justamente diante da abertura. Ainda assim, continuei esperando. Depois de algum tempo, quando eles se afastaram um pouco para um lado e para o outro, diante de mim estavam os rostos radiantes e serenos da mui respeitável Alia Hujaybi e de Ghada Ammar. Escondendo-me tanto quanto possível do olhar de águia dos carrascos, eu continuava contemplando seus rostos puros e santos. Ao vê-las tão perto, cheguei a esquecer até minhas dores e sofrimentos. Até então eu não conseguia encontrar alívio nem deitado ou sentado, quanto mais ficar de pé. Mas agora, como que pelo toque de uma magia desconhecida, eu estava completamente curado…… Eu as contemplava e rezava: Ó puro Senhor Todo-Poderoso! Protege estas minhas irmãs e filhas da opressão e da perseguição dos tiranos. Eu pensava: Alia estava prestes a se tornar adulta, e Ghada Ammar, pode-se dizer, ainda era praticamente uma menina de colo. Mas os inimigos da verdade não hesitaram sequer em prender uma menina tão inocente. Que cruéis são esses tiranos! Não sei em que competição de heroísmo esses covardes impiedosos, embriagados pelo poder, pensavam estar entrando no palco do mundo ao infligir essa abominável tortura a meninas e mulheres indefesas e inocentes. Na verdade, quando esses governantes autocráticos autoproclamados revelam sua verdadeira face bestial, não hesitam sequer em manifestar a mentalidade mais assustadora e desprezível do mundo. Nada resta de sua consciência ou de seu bom senso. Então eles se espalham entre os cidadãos comuns do país como uma maldição. O povo amante da paz do país se vê exasperado pela opressão e pela tirania deles. Nasser e seus comparsas eram exatamente esse tipo de governantes amaldiçoados.
“Ó tirano Nasser, que sejas destruído — peço a Deus a tua morte. Ao enganar a nação, a que situação terrível a arrastaste! —” Vencido pelo excesso de emoção, desabei. Pouco depois, a porta da minha cela se abriu, e aquele guarda negro deixou dentro dela um cobertor e um travesseiro. Fiquei surpreso! Durante dezoito dias estive deitado no chão — por que essa súbita bondade hoje?
Depois, o guarda veio e deixou mais dois cobertores e dois travesseiros. Pouco depois, Safwat e Hamza Basyuni entraram trazendo Alia Hujaybi e Ghada Ammar. Deixaram as duas lá dentro, fecharam a porta e foram embora.
Assim que Alia entrou na sala, abraçou-me e desatou a chorar convulsivamente. Eu então, esquecendo minha própria condição e o mundo inteiro, só conseguia perguntar, com o rosto profundamente pesaroso—
:Alia…… minha Alia……! Você está bem?
Depois, ao olhar para Gada Ammar, vi que o solo árido abaixo estava sendo umedecido pelo fluxo de lágrimas ardentes que escorria de seus dois olhos. Abracei-a e disse—
:Gada, minha filha! Não consegue me reconhecer? Ela disse—
:Não…… não, ó Alhajja! Você mudou completamente, mãe. Seu corpo está ressecado, reduzido a pele e ossos. E, ao olhar para seu rosto, lembro-me de seu irmão Sa’duddin……” Eu a consolei e disse—
:Na situação em que estamos, isso é natural. Estamos respirando em um ambiente terrível. Além disso, sabe, durante as vinte e quatro horas do dia e da noite, recebo como alimento apenas uma colher de salada. Mesmo isso um soldado me traz às escondidas. Se for pego, não terá salvação.
Depois de estenderem um cobertor e um travesseiro, perguntaram-me sobre o dars do Alcorão. Pensavam que eu tivera, pelo menos, a oportunidade de guardar e ler o Alcorão Sagrado. Não sabiam que aqueles com quem estou são inimigos do Alcorão e da humanidade. Quando lhes contei tudo o que havia acontecido, ficaram tomadas pela indignação, pela tristeza e pela emoção. Pouco depois, Alia e Gada Ammar apresentaram-me seus respectivos exemplares do Alcorão Sagrado. Depois de tanto tempo, ao ver o Alcorão diante dos meus olhos, lágrimas de alegria surgiram em ambos os meus olhos.
Pouco depois, quando estendi minha perna ferida para aliviar a dor, elas se assustaram ao ver as feridas abertas e inflamadas causadas pelo chicote. Os olhos de ambas estavam marejados de lágrimas. Recitei para elas os versículos do Alcorão Sagrado relacionados aos Ashab al-Ukhdud. Gada Ammar continuou chorando em silêncio, enquanto Alia, maravilhada, fez uma pergunta.
:Como foi possível tratar as mulheres com tamanha crueldade e brutalidade? Que exemplos de selvageria bárbara são esses……
Mas talvez Alia não pudesse imaginar que os inimigos do Islã e da humanidade, como Jamal Nasser, pudessem descer ainda mais baixo em sua hostilidade a Allah e ao Seu Mensageiro.
O falecimento de Rafaat Mustafa Nuhas
Alia mudou o rumo da conversa e começou a me informar sobre o mundo exterior. Primeiro, ela me deu a notícia da morte de Mustafa Nuhas.
“Ó Rahmanur Rahim! Tu não dependes de ninguém; todos dependem da Tua misericórdia, da Tua compaixão. Tem piedade dele.” Alia me informou que ele faleceu apenas dois ou três dias depois da minha prisão. Milhares de pessoas participaram de sua oração fúnebre. Naquela ocasião, as pessoas protestaram contra o governo. O povo saiu em procissão com seu corpo até a Mesquita de Hussein. O céu e o ar estremeciam com os slogans. O governo perdeu o controle diante daquela maré humana enfurecida. Em suma, na assembleia da oração fúnebre de Mustafa Nuhas, o povo aproveitou a oportunidade para levantar a voz contra a opressão e a corrupção do governo. …… Alia também me informou detalhadamente sobre as explicações e análises publicadas a esse respeito pelos jornais e outros meios de comunicação do país e do exterior.
Com a morte de Mustafa Nuhas, as pessoas começaram a criticar abertamente o governo. Diziam também que, depois de Nuhas, não havia mais nenhum líder. Os cidadãos continuavam expressando suas opiniões. A dor acumulada em seus corações explodiu nos slogans gritados durante a procissão. Entre seus slogans estavam: “Abaixo o reino das mentiras; ouvimos por toda parte que hoje Nasser se tornou um enganador”; “Tirem, tirem, tirem suas máscaras”; “Que o reino de Nasser, o regime tirânico, seja destruído, destruído”, e assim por diante.
Dirigi estas palavras à memória de Mustafa Nuhas:
:Ó amigo do povo! Aqueles hipócritas enganadores a quem entregaste o poder recorreram à injustiça e à corrupção depois de tomarem o poder. E tu reconheceste o governo deles. O governo atual se mantém por meio de propaganda e pela força de seus escritores comprados e de seus capangas. …… Até esses leões de madeira um dia arderão e se transformarão num monte de cinzas………
Aliya informou ainda: Vinte mil pessoas que haviam vindo para participar da oração fúnebre foram presas. O povo também expressou sua indignação contra isso. Na verdade, na oração fúnebre de Mustafa Nahhas, a ira reprimida do povo explodiu. Em voz alta, declararam seu apoio à verdade. Ao conversarmos, lembrei-me da memória de Mustafa Nahhas. Ele era um homem extremamente simples e humilde. Não guardava no coração qualquer rancor nem mesmo contra seus inimigos mais ferrenhos. E tinha a coragem moral de reconhecer publicamente os próprios erros. Em todos os sentidos, ele era um líder nacional do Egito.
Depois, perguntei a Aliya se meu irmão Saif al-Ghazali também havia sido preso. Em resposta, sem dizer nem sim nem não, ela pousou a mão em meu ombro e, hesitando, disse—
:Ó Hajjah! Há um tempo determinado para todas as coisas. Com isso, compreendi que aquilo que eu temia em relação ao meu irmão havia acontecido.
Aliya informou que o Departamento de Informação do governo havia feito todo o possível para impedir que as pessoas participassem da oração fúnebre de meu irmão. Apesar disso, a multidão que se reuniu foi inimaginável. Segundo Aliya, aqueles que o povo considerava os árbitros de seu destino agora tiveram suas máscaras arrancadas. Já não será possível manter o povo enganado por muito mais tempo.
O governo distribui cargos ministeriais a pessoas inescrupulosas e interesseiras em troca de sua atuação contra o Islã e os muçulmanos. Também se tenta comprar a consciência da nação. É assustador até pensar no amargo resultado que aquilo que o governo de Nasser vem fazendo dessa maneira trará para o país e para a nação.
Depois de ouvir a análise de Aliya, olhei para Gada Ammar e perguntei pelo bem-estar de seu marido, de seus filhos e de seus pais. Chorando, ela disse—
“O marido dela foi obrigado a fugir para o Sudão para escapar da perseguição do governo. A mãe está muito doente; se não tivesse consigo as duas crianças, talvez tivesse chegado a sentir aversão pela própria vida.
Consolei-a e fiz uma súplica a Allah pelo bem-estar de todos.
Depois perguntei sobre o casamento de Zia Tuhi. Eles informaram que os haviam prendido e levado diretamente da cerimônia de casamento, ainda vestidos com as roupas nupciais. Tanto o noivo quanto a noiva estão agora presos. Além disso, sua irmã Moli e seu irmão médico também foram detidos na prisão”.
Fiquei profundamente consternado com tais prisões indiscriminadas, especialmente com a prisão de moças inocentes.
:Por quê? Ser irmão, irmã ou parente de alguém do Ikwan também é crime, para que todos estejam sendo injustamente lançados na prisão? Em resposta à minha pergunta, Alia disse-
:É claro que é; além disso, o governo prende até mesmo quem vê rezando.
Ga’da apresentou um relato de quantas pessoas inocentes haviam sido presas daquela maneira. As casas de todos os que pareciam muçulmanos foram revistadas, e inúmeras pessoas foram presas por mera suspeita. Ao ouvir isso, comentei-
“A meu ver, nem mesmo os bandidos mongóis e tártaros demonstraram a tamanha vileza que Gamal Nasser vem demonstrando. Antes da Revolução Islâmica no Egito, nem os romanos jamais infligiram uma perseguição semelhante. Na verdade, no campo dos crimes, Gamal Abdun Nasser deixou para trás até os criminosos mais vis da história da humanidade. Duvido que tenha nascido no mundo alguém tão desprovido de consciência, tão cegamente pecador quanto Nasser. Ele se inflamava ao ouvir o nome do Islã, da verdade e da justiça. Não é de modo algum surpreendente que uma pessoa tão vil e desprezível como ele prendesse mulheres e as açoItasse. Perseguir pessoas inocentes, tornar mulheres viúvas, assassinar e até enterrar pessoas vivas — somente alguém como Nasser seria capaz de fazer isso. Brincar com a vida, os bens e a honra dos opositores políticos, bem como com a vida de suas esposas e filhos, era seu hábito predileto. Embora seja uma verdade extremamente amarga, esta é a verdade”.
Depois dessas conversas amargas e exaltadas, Alia concentrou-se em limpar o ferimento do meu pé e fazer um curativo nele. Ela disse, apreensiva-
:Agora parece que teremos de nos tornar presas do chicote, eu disse-
“Que Alá proteja a todos da opressão dos tiranos.”
Gada perguntou enquanto procurava a bolsa de pano:
“Onde está sua bolsa de pano, alhajja?” Mesmo em meio à dor insuportável, respondi com um leve sorriso:
“Há dezoito dias, minha filha, estou com esta mesma roupa ensanguentada.” Ela olhou para minhas vestes rasgadas e ensanguentadas e começou a chorar convulsivamente. Depois, quando levantaram minha camisa para trocar minhas roupas, ao verem as inúmeras marcas das chicotadas em meu corpo, ambas começaram a gritar e chorar. Elas jamais poderiam imaginar que uma mulher tivesse sido submetida a tamanha crueldade e brutalidade.
Para acalmar seus sentimentos, comecei a falar sobre o louvor a Alá e sobre a necessidade de sacrifício e perseverança no caminho do Islã. Eu disse:
“Vejam, não estamos avançando por qualquer interesse mundano; estamos seguindo pelo caminho de Alá, então por que entristecer-se com este castigo terreno? Graças a Alá, que nos concedeu o Islã, o tawhid e a risala, e nos abrigou sob a sombra da kalima tayyiba: La ilaha illallah, Muhammadur Rasulullah.” Alia mudou de assunto e disse:
“Sabe, senhora respeitável, Khaleda Huzaibi disse: ‘Se minha irmã Zaynab estiver comigo, não me importarei com nenhum sofrimento da prisão’.”
Fiquei feliz ao ouvir isso. Mas, se Khaleda pudesse ver agora meu corpo ferido e banhado em sangue, não sei se ainda pensaria da mesma maneira. Suplico a Alá que proteja todos os irmãos e irmãs muçulmanos da opressão dos tiranos.
Ingerir alimento equivale a um ato de adoração
Nesse momento, a porta foi aberta de repente, e nossa conversa foi interrompida. Aquele guarda negro e satânico voltou, trazendo três pães em uma mão e um prato de aletria cozida na outra. Depois que o guarda saiu, Aliya fechou a porta. Sou incapaz de suportar o cheiro rançoso desse tipo de comida; por outro lado, eu estava quase morrendo de fome. Aliya estava extremamente preocupada comigo. Quando a comida chegou até mim, ela disse humildemente:
“Coma, Alhajja! Pelo que vejo, a comida até que está razoavelmente boa.” Dizendo isso, ela dividiu os três pães entre nós três. Nós três éramos obrigados a comer aquilo, sem outra alternativa. Enquanto comia, Aliya disse que, pelo menos em consideração ao hóspede que ainda estava por vir, era preciso comer alguma coisa. Ela se referia ao possível filho. Porém, ao ver que eu havia parado de comer, ela também parou. Gada igualmente deixou a comida. Então Aliya dirigiu-se a mim e disse: “Veja, Alhajj, de tanto não comer, você ficou reduzido a isso. Nessas condições, ingerir alimento equivale a um ato de adoração. Se continuar jejuando dessa maneira, já pensou nas consequências? Os opressores ficariam felizes se vissem Zaynab al-Ghazali morrer de qualquer maneira. Na verdade, é exatamente isso que eles querem.” Eu lhe disse: “Para conseguir sobreviver de algum modo, ainda como um pouco. É somente com uma colher de salat que Alá me dá forças para continuar vivendo.” Mas, como elas insistiram repetidamente para que eu comesse, acabei concordando. Só Alá sabe com que sofrimento comi aquela comida. Na manhã do segundo dia, na presença de Aliya e Gada Ammar, encontrei-me, como de costume, com o Murshid Amm, o senhor Huzaibi, através da abertura da porta. Também dei essa oportunidade a Aliya e Gada. Depois do encontro com o Murshid Amm, senti uma paz extraordinária. Aliya também conseguia ver o pai regularmente. É desnecessário dizer que Aliya era filha do Murshid Amm Huzaibi. No caminho diante de nossa cela, enquanto iam e voltavam do banheiro, elas conseguiam ver o Murshid e a mim. Gada Ammar contou, um por um, os acontecimentos de sua própria prisão, seu encontro com Hamida Qutb e a prisão de toda a família Qutb. Assim, obtive muitas informações novas. O tempo passava extremamente devagar. Para escapar da inquietação, organizamos a oração em congregação e aulas de estudo do Alcorão.
A noite da calamidade
Depois da oração do isha, o carrasco Safwat Ruby entrou na cela acompanhado de um soldado. Eles me levaram ao escritório. Vale mencionar que eu já havia estado outras duas vezes naquele mesmo escritório. Um homem já estava sentado na sala. Cumprimentei-o com a saudação islâmica. Mas, sem responder à saudação, ele perguntou em tom extremamente áspero:
“É você Zaynab al-Ghazali?”
“Sim, senhor.” Respondi. Ele fez um gesto para que eu me sentasse na cadeira à sua frente e disse:
“Então é você Zaynab Ghazali…! Diga-me, por que escolheu voluntariamente um lugar tão terrível…? Por que está suportando todo esse sofrimento e essas dores apenas por causa da Irmandade Muçulmana? …Todos eles estão se debatendo para obter a liberdade e cada um está jogando toda a culpa sobre você. …E, enquanto isso, você nos deixou em uma situação difícil. Eu vim decidido a libertá-la e a chegar a um acordo com você sobre algumas questões. Depois disso, você irá para sua casa. E não é só isso. Se agir com inteligência, prometo, em nome do presidente Nasser, que a sede da Organização das Mulheres Islâmicas lhe será imediatamente devolvida. …A proibição sobre sua revista será suspensa, e será concedida uma ajuda mensal de dois mil libras egípcias para a revista. Se você chegar a um acordo, receberá ajuda para ampliar ainda mais sua organização. Se disser imediatamente que sim ao acordo, mandarei trazer todas as suas roupas e, dentro de uma hora, providenciarei uma reunião sua com o presidente. Na verdade, os Irmãos Muçulmanos enganaram muito você. Que Alá os perdoe. Você também nos colocou em uma situação extremamente difícil. Enfim, nosso presidente é um homem muito liberal.”
Ele continuava falando unilateralmente, enquanto eu escutava em silêncio. Ao ver que eu permanecia completamente calada, perguntou-me:
: “O que está acontecendo? Por que você não diz nada? Veja, Zaynab, tente compreender o que estou dizendo. Juro por Allah que demitirão o presidente Abu Zayed e nomearão você ministra em seu lugar. Queremos a sua colaboração. Por favor, abra o seu coração e conte tudo sinceramente. Pelas minhas ações, você verá que provarei ser seu irmão e seu benfeitor. Você sabe quantas pessoas fora da prisão amam e respeitam você. Elas estão prontas a fazer qualquer coisa por você. Elas amam você, veneram você; por você, farão qualquer coisa”.
Então respondi em tom sereno:
:Quanto a aceitar o cargo de ministra, nem pensar; não estou disposta sequer a considerar isso. E, sobre a Associação das Mulheres Islâmicas e a revista, direi apenas que as entreguei a Allah. Além disso, não é necessário que os muçulmanos sigam qualquer associação ou revista; ao contrário, é obrigatório para todos trabalhar unidos sob a bandeira de “Não há divindade além de Allah”. No meio disso, ele perguntou:
:Então, Zaynab, por que você estava tentando restabelecer a Irmandade Muçulmana?” Eu respondi:
“Na verdade, a natureza do meu trabalho é diferente. Por exemplo, acredito que a Associação das Mulheres Islâmicas, fundada em 1937, nunca foi dissolvida. No entanto, Jamal Nasser imaginou que, ao tomar todos os bens e a sede da associação, a havia destruído efetivamente. Essa é uma concepção equivocada. Na realidade, nosso sucesso ou fracasso depende unicamente da vontade de Allah. E você certamente já ouviu o provérbio: ‘Se Deus protege, quem pode prejudicar?’ Assim, nem a Irmandade nem a organização das mulheres muçulmanas foram destruídas. Seu trabalho pela religião de Allah continua naturalmente em seu próprio caminho. A verdade sempre permanecerá. O governo e o poder de Jamal Nasser e seus semelhantes são passageiros, mas a religião de Allah e o governo de Allah são eternos. Nós seguiremos nosso caminho até morrer. Mas o governo em breve enfrentará um destino amargo por causa de suas atividades ilegais”.
“Sem dúvida, a religião de Allah permanecerá estabelecida, e ninguém é capaz de impedir o avanço dos mujahidin dedicados ao seu serviço; enquanto isso, o decreto de Allah se cumprirá. Peço a Allah que me mantenha ao lado da verdade e contra a falsidade, e que me inclua entre os que seguem a verdade. Ao lutar em favor da justiça e da verdade e contra o falso e a mentira, eles são os verdadeiros representantes do Mensageiro. E são eles os novos líderes do Islã. Vocês devem saber que Hasan al-Banna não lançou os fundamentos da Irmandade sem reflexão. Pelo contrário, por meio dela, adotou um programa visionário para estabelecer a religião, isto é, instaurar o governo de Allah. Além disso, quem deu a Jamal Nasser autoridade para impor restrições a um movimento tão grandioso?”
Depois de dizer isso, calei-me. Ele disse:
:Você realmente sabe fazer discursos maravilhosos. Mas não vim até você agora para que me faça um discurso sobre a Irmandade. Não vim até você para me tornar membro da Irmandade; vim, sim, para tentar chegar a um entendimento mútuo que a liberte do tormento da prisão. Todos os membros da Irmandade estão acusando você. Abdul Fattah Ismail diz que foi você quem o incitou e armou; o senhor Hudaibi também, com o objetivo de salvar a si mesmo, colocou toda a culpa sobre seus ombros. Ele disse que foi você quem lançou os fundamentos da nova organização. Sayyid Qutb também se livrou transferindo a culpa para você. Então, você está sã ou enlouqueceu? O próprio Gamal Nasser quer salvá-la. Hoje, todo o país está nas mãos de Gamal Nasser. Gamal Nasser está interessado em perdoar seu passado e escrever um novo capítulo nas relações. Ele sabe muito bem que você é uma grande oradora e que o povo a ama imensamente. ………Zaynab, agora a chave dos ganhos e das perdas está em suas mãos. Diga-me: no Egito de hoje, será possível encontrar alguém de quem o próprio Gamal Nasser queira se aproximar e que recuse isso? Acho que você realmente enlouqueceu. Estou dizendo tudo isso abertamente porque desejo o seu bem. Depois de libertada, você poderá dedicar o resto da vida a servir órfãos e viúvas e a outras boas ações.
—Aja com inteligência, Zaynab! Pense na honra de sua família e aceite minha proposta.
Por fim, eu lhe disse:
—Você já terminou tudo o que tinha a dizer? Ela respondeu:
—Veja, diga-me apenas quais membros da Irmandade costumavam frequentar sua casa e como eles quiseram matar Nasser. E diga-me também: quando você recebeu de Hudaibi a ordem para assassinar o presidente? Também quero saber a opinião de Sayyid Qutb. Como o plano foi elaborado e quais são seus detalhes. Juro novamente a você, pela cabeça de Gamal Abdel Nasser, que ainda esta noite você será libertada da prisão e, em breve, será nomeada ministra do Departamento de Assistência Social. Não desperdice esta oportunidade. Jurei a você pela honra do meu presidente; portanto, aja como uma pessoa sensata e pense em seus próprios interesses. Todos os membros da Irmandade agora só estão preocupados com os próprios interesses. Enquanto isso, um homem alto entrou e disse:
—Senhor coronel! Nós apreendemos todas as fitas da residência de Zaynab em Nova Misr. Com sua permissão, podemos providenciar para que sejam reproduzidas.
O coronel disse ao homem que saísse, afirmando que falaria sobre o assunto mais tarde. Depois, dirigindo-se a mim, voltou a dizer:
—Veja, Zaynab, sei que seu marido é uma pessoa importante. Tenho grande respeito por ele também, por sua causa. Além disso, seu irmão é meu amigo íntimo!…… Acredite, tanto eu quanto o próprio presidente estamos interessados em estabelecer relações amistosas com você…… Juro que, no momento em que chegarmos a um acordo com você, queimarei todas essas fitas com minhas próprias mãos. …… Queremos libertá-la do perigo em que os membros da Irmandade a lançaram. Juro por Allah, nós também somos bons muçulmanos. O que é o Islã? O ensinamento do Islã é que uma pessoa não deve prejudicar seu irmão.
Rindo das palavras dele, perguntei-lhe—
“Jura pelo Deus que tomas por testemunha e dize-me: por causa da opressão de vocês, acaso teus irmãos e as outras pessoas não sofreram prejuízos?”
Tentando esquivar-se desse assunto, ele disse—
“Na verdade, nós também somos boas pessoas! Se chegares a um acordo conosco, tu mesmo verás como somos bons.”
Eu disse—
“Peço a Allah que lhes conceda a graça de se arrependerem e que vocês se tornem verdadeiramente muçulmanos.”
Depois, ele tirou papel e caneta da bolsa e perguntou—
“Zainab, agora me dirás quem costumava ir à tua casa?” Eu disse—
:Não me lembro do nome de nenhuma pessoa em particular. Na verdade, não consigo me lembrar dos nomes das pessoas, e não é do meu feitio perguntar o nome de alguém.
:Está bem, então não vamos falar sobre isso por enquanto. Vamos discutir o senhor Huzaybi e Sayyid Qutb — disse ele.
Perguntei:
:Que tipo de assunto é esse, afinal? Ele disse que se tratava de uma tentativa de tomar o poder depois de assassinar Jamal Nasser.
Eu disse:
:Veja, senhor! Assassinar Abdun Nasser é simplesmente uma coisa abominável. Nenhum muçulmano poderia sequer pensar em fazer uma coisa tão abominável. Na verdade, o verdadeiro problema diz respeito ao Islã. Em nosso país, o Islã não está estabelecido. Por isso, tomamos a iniciativa de estabelecer os ideais islâmicos e, com esse objetivo, treinar as novas gerações. No entanto, Jamal Nasser e seus homens começaram uma guerra contra o Islã. Ele se recusa a governar de acordo com os princípios do Islã. E proclama abertamente que o Islã é ultrapassado, acusando de sectarismo aqueles que falam do Islã. As palavras absurdas de Nasser não provocam nenhuma reação em vocês?
Ao ouvir isso, ele disse:
:Você é mesmo louco! Sabe, se eu o matasse e o enterrasse aqui, ninguém jamais saberia; na verdade, é exatamente isso que você merece. Se eu o libertar agora, você será assassinado dentro de uma hora.
Eu disse calmamente:
Allah faz o que quer…… Assim que terminei essa frase, ele ficou furioso e começou a me insultar; então, fazendo sinal para um soldado, mandou chamar Riyaz Ibrahim. Quando Riyaz chegou, disseram-lhe:
:Guarde estas fitas e cassetes para apresentá-las ao tribunal.
……Esta é completamente louca. ……Vocês continuarão cumprindo seu dever em relação a ela. Chamem Sa’d para falar sobre isso. Alguns instantes depois, Sa’d chegou e ficou de pé, saudando-o. Ele disse a Sa’d:
:Dê um jeito nela, Sa’d.
:Quantas chicotadas devo dar, Paxá? Sa’d perguntou-lhe.
:Quinhentas chicotadas. Voltarei daqui a pouco.
Assim que recebeu a ordem, Sa’d começou a me chicotear. Depois de me chicotear por todo o corpo, quando ficou cansado, deixou-me naquela mesma posição, de pé, voltada para a parede, e saiu por um instante. Depois, voltou a me chicotear com renovado vigor. Em seguida, trouxeram alguns jovens ativistas do Ikhwan e começaram a espancá-los cruelmente, ordenando-lhes que me dirigissem insultos obscenos. Mas, quando não foi possível aos Ikhwan, soldados da verdade, pronunciar insultos, eles foram espancados ainda mais violentamente. Entre esses jovens ativistas estava também Zia Tuwaiji, piloto de avião egípcio. Ele foi preso e trazido diretamente da festa de casamento, ainda vestido com trajes nupciais.
Agora é a vez de Hamza
Depois de me espancarem brutalmente, assim como aos jovens ativistas do Ikhwan, fui novamente enviada para a prisão. Levaram-me até perto da cela designada, e Sa’d manteve-me de pé, voltada para a parede, por até uma hora. Naquele momento fazia um frio intenso; ao ar livre, sob o vento gélido, todo o meu corpo parecia congelar e transformar-se em gelo. Além disso, havia a dor provocada pelos golpes de chicote. O sangue que escorria das feridas coagulava e endurecia. Em tal estado insuportável, Hamza Bisiubi chegou ali acompanhado de Riyaz. Assim que chegou, Riyaz disse:
“Ei, garota! Aja com juízo. Pense no seu próprio bem. Isso é para o seu próprio bem… Hamza Pasha, explique isso a ela.” Então Hamza começou seu discurso:
“Zaynab! Use a razão e o bom senso. Não dê provas de tolice. Por que você também não admite seu erro, como todos os outros do Ikhwan?”
Perguntei-lhe:
“Que erro cometi para que eu o admita? Veja, nós nos organizamos com o objetivo de disseminar os ensinamentos do tawhid entre os jovens descendentes.”
Ao ouvir minhas palavras, Hamza olhou para Safwat. Safwat já estava de pé atrás dele. Ele disse a Safwat:
“Traga duas cadeiras, uma para mim e outra para ela. O marido dela é meu amigo. É por isso que estou me esforçando tanto para convencê-la.” Quando trouxeram as cadeiras, ele me disse para me sentar.
Ele ficou pensando em como iniciar a conversa. Então tentou contar uma história inventada sobre sua amizade com meu marido e, por causa disso, demonstrar sua simpatia por mim. Eu ia me sentar, mas, devido ao estado em que meu corpo se encontrava por causa das chicotadas, não conseguia sequer sentar-me. Sentia muita dor.
Hamza mandou que eu me sentasse novamente. Eu lhe disse:
“Agora não consigo me sentar. Deixem-me falar e ouvir em pé.”
Ele começou a falar assim:
“Você mesma se fez essa injustiça. Seu rosto ficou deformado e abatido. Seus dois pés assumiram a aparência dos pés de um homem selvagem. Como seu marido não ficaria triste se a visse nesse estado? Ao olhar para você, parece que tem sessenta anos. Seu marido é meu amigo. Fico muito triste ao vê-la nesse estado. Olhe para suas duas mãos… parecem mãos de uma trabalhadora braçal.”
Safwat fez um comentário sarcástico por trás e disse:
“Pasha! Você diz que ela parece uma velha de sessenta anos, mas, para mim, parece uma velha de cento e vinte anos. Veja como até seu rosto e sua aparência se deformaram. Hoje em dia, só de ouvir o nome dela, o marido a xinga; em breve vai abandoná-la e lhe enviará pelo correio, de qualquer lugar, o documento de divórcio.
Sem fazer qualquer comentário sobre aquelas palavras, Hamza dirigiu-se a mim e disse:
“Você colocou um desafio diante de mim. Quero libertá-la da situação difícil em que se encontra. Acredite, sou seu benquerente”.
Permaneci em silêncio, de pé, fitando-o com um olhar carregado de ódio. Não sei se ele compreendia a expressão silenciosa do meu ódio. Mas, na minha opinião, ele era um covarde de primeira ordem.
Quando ele falava comigo aos berros, eu tinha a impressão de que, tentando me assustar, estava apenas tentando esconder o próprio medo. Na verdade, eles haviam ficado apavorados com a minha firmeza.
De repente, ele rugiu como uma fera e ordenou a Safwa que me castigasse. Imediatamente, virei-me para a parede e ergui ambas as mãos contra ela. Então, o chicote nas mãos de Safwat começou a dançar sobre as minhas costas já feridas e dilaceradas. Ele chamou outro soldado, chamado Sa’d, e o colocou ao meu lado. Ele também tinha um chicote nas mãos. Outro soldado trouxe um recipiente com chicotes embebidos em azeite e o colocou diante de mim. O cruel Sa’d chamava minha atenção para aqueles chicotes fervidos no azeite quente. Em seguida, cerca de uma dúzia de outros soldados chegou, cada um segurando um chicote fervido em óleo quente, balançando-o no ar e dirigindo-me insultos obscenos.
Mas eu não lhes dei a mínima atenção nem importância; permaneci absorta no dhikr de Allah. Repetia continuamente aquele versículo do Sagrado Alcorão—
“(São verdadeiramente crentes) aqueles a quem se diz: ‘As pessoas se uniram contra vocês; portanto, temam-nas’. Ao ouvirem isso, sua fé aumenta, e eles exclamam: ‘Hasbunallah wa ni’mal wakil’ — Allah é suficiente para nós, e Ele é o melhor Guardião”.
Pouco depois, o desalmado Rubi veio, alardeando-se, e disse—
“Todos vocês… saiam… esperem… Estou adiando a execução dela para esta noite”.
Depois, seguraram minha mão e me arrastaram até a cela.
Retorno à cela
Quando abriram a porta, entrei na cela e vi Alia e Gha’d Ammar dormindo. Ao ouvirem o som da minha chegada, ambos acordaram e ficaram extremamente assustados ao ver o sangue escorrendo pelas minhas pernas. Pedi que voltassem a dormir e eu mesma continuei recitando aquele hadith do amado Profeta—
“Começo em nome de Allah. Pela grandiosa honra e pelo poder infinito de Allah, busco, por Sua ordem, refúgio contra o mal de tudo o que está à minha frente e atrás de mim”.
Assim se passaram duas noites. Mas a dor não diminuía. Para esconder de Alia e Gha’da as marcas das chicotadas, mantive o corpo inteiro coberto. Elas insistiam em saber o que havia acontecido naquela noite. Quando Gha’da perguntou a Alia sobre o que acontecera naquele dia, Alia a fez calar-se. Percebendo na pergunta de Gha’da uma indicação de alguma nova proposta, também permaneci em silêncio.
A segunda noite
Depois da oração de Isha, a porta da cela se abriu e Safwat entrou com sua aparência assustadora. Com sua voz habitualmente severa, disse—
“Ei, garota, Zaynab”—disse, segurando minha mão e puxando-me—“vamos”. Ele avançava pelo caminho, empurrando-me repetidamente. No caminho, encontramos um homem, e ele disse—
“Safwat, Khalil está esperando por você.” Safwat lançou um insulto contra mim e disse:
“Estou levando esta mulher justamente até ele.”
Aquele homem perguntou:
“Esta é Zainab al-Ghazali?”
Safwat respondeu com um palavrão:
“Sim, esta é Zainab al-Ghazali.” Pouco depois, fui levada para uma sala. Do outro lado da mesa estava sentado um homem de aparência horrenda. Assim que me viu, ele se levantou quase de um salto, como um homem possuído por um jinn. Depois, enquanto patrulhava a sala, disse a Safwat:
“Vá chamá-la e traga-a.”
Safwat entrou acompanhado de um homem. Assim que entrou, ele se sentou na cadeira e me perguntou:
Sua velha! Quem é você?
Zaynab al-Ghazali — respondi.
Ele perguntou:
Por que você está aqui?
O que sei eu sobre ele? — disse…
Ele disse:
Você deveria saber que está aqui hoje porque você, Huzaybi, Sayyid Qutb e Abd al-Fattah Ismail planejaram assassinar o presidente Nasser.
Protestei firmemente, dizendo:
:Isso não passa de falsas acusações.
Ele disse—
:Fale com cuidado. Esta noite não haverá mais espancamento; será assassinato de uma vez… Você não sabe quem eu sou? Sou a fera da prisão militar, entendeu?
Eu disse—
:Até vir para a prisão, não encontrei nenhum ser humano, apenas feras e cães. Quanto aos Irmãos perseguidos, isso é outra coisa. Aqui, os líderes amados pelo povo estão sendo brutalmente humilhados e torturados pelas mãos de feras e cães.
Aquele homem levantou-se de repente, deu-me um forte pontapé e, empurrando-me violentamente com as duas mãos, derrubou-me no chão e continuou a pontapear-me sem parar. Com esse ataque inesperado, fiquei quase inconsciente. Ele próprio também estava ofegante. Lançou-me um olhar penetrante e disse—
:Não quero ouvir conversa filosófica; fale direito. Dito isso, deu-me um forte tapa no rosto.
Safwat segurou-me com as duas mãos e fez-me sentar numa cadeira. Depois fechou a porta e foi embora.
Pouco depois, veio um segundo homem e disse:
Ó Zaynab, o que você está fazendo? Você está insultando e ridicularizando as pessoas? Sabe, o presidente é um homem muito liberal. Ele quer o seu bem. Queremos fazer de você uma testemunha do Estado no processo. Retiraremos a acusação contra você de que havia elaborado, junto com a Irmandade Muçulmana, o plano em questão.
Eu disse:
Os criminosos não são a Irmandade Muçulmana nem eu. Pelo contrário, os criminosos são vocês. Vocês são criminosos por governarem à força um país muçulmano.
Ele disse:
Você ou é louca — ou talvez tenha apresentado alguma fraqueza psicológica. De qualquer modo, vou deixá-la. Porém, enviarei alguém que sabe muito bem como chegar a um acordo com você.
Quando ele saiu, agradeci a Allah. Ele não me obrigara a permanecer de pé.
Eu estava sentindo um cansaço extremo.
Pouco depois, um homem entrou, com um chicote na mão, mandou que eu me levantasse e perguntou meu nome. Respondi naturalmente:
:Zainab al-Ghazali.
Ele disse
:Sua desgraçada! Hoje é a última noite da sua vida. Eu ficarei aqui até o seu último momento.
Nesse momento, outro homem chegou e disse ao primeiro:
:Vá. Eu ficarei com ela por algum tempo. Essa moça praticou muitas boas ações ao longo da vida. Mas, no fim, caiu nas garras da Irmandade e hoje se vê diante de um perigo tão grande.
O primeiro disse, surpreso:
:Sério! Ela também fez boas ações na vida?
Mas, de qualquer modo, resta muito pouco tempo de vida para ele. Dentro de pouco, será morto.
O segundo homem disse –
:Vá, então. Vou ver se consigo chegar a algum acordo com ele! Afinal, o que vocês esperam dele?
O primeiro homem disse–
:Tanto o presidente quanto seu conselheiro querem que ele seja testemunha do Estado no julgamento e preste depoimento contra os Ikwan. Os Ikwan já confessaram seus crimes. Dito isso, o primeiro homem foi embora.
Então o segundo homem, demonstrando uma falsa compaixão por mim, disse–
:Zaynab, por que você está sendo injusta consigo mesma? Sua roupa está rasgada e reduzida a farrapos.
Em seguida, ele se sentou sobre a mesa e disse–
: Reúna toda a sua inteligência, ouça e responda a cada uma das minhas perguntas.
Vendo que eu permanecia em silêncio, ele disse novamente:
: Encontrei-me esta manhã com seu irmão Abdul Momen, Saif e seu marido. Seu marido é realmente um homem muito bom. Mas você lhe causou dificuldades. Estou interessado em tirá-la deste perigo. E, para isso, você só precisa tornar-se testemunha da acusação. É um caminho muito fácil.
Depois, chamou Safwat e disse:
: Ela precisa dormir e descansar. Leve-a de volta para a cela.
Disse-me:
: Ah, sim! Voltaremos a nos encontrar amanhã; venha depois de pensar muito bem.
Breve descanso
Quando cheguei à cela, Alia e Ghada estavam dormindo. Ao ouvir o som da minha chegada, Alia despertou. Com a voz pesada de sono, perguntou:
—Você chegou, Alhajja!
—Alhamdulillah —respondi. Eu queria dormir, mas o sono não veio. Enquanto isso, soou o adhan do fajr. Todos nós fizemos a oração em congregação. Depois da oração, quando Ghada perguntou sobre as dificuldades da noite, eu lhe disse:
—Suplique a Allah para que Ele me mantenha firme no caminho da verdade. Eles querem me submeter a uma nova provação. Estão exigindo que eu realize tarefas impossíveis.
—Allah certamente a ajudará. Mas Ghada continuou fazendo pergunta após pergunta para saber o que havia acontecido durante a noite. Como eu estava extremamente cansada e sofrendo dores, não consegui contar-lhe nada. Em pensamento, eu me preparava para enfrentar a situação da noite seguinte. Alia compreendia a gravidade da situação. Ela fez Ghada ficar em silêncio. Assim, de algum modo, aquele dia chegou ao fim.
A noite da opressão
Por fim, chegou a noite que eu temia. Alia e Ghada Ammar suplicaram diante de Allah por mim e pelo bem-estar e a libertação de todos os ikhwan. A porta se abriu e um homem novo entrou com Safwat. Depois de entrar comigo em uma sala, o homem novo ordenou que Safwat saísse, indicou que eu me sentasse em uma cadeira e disse:
—Zaynab! Você fez todos aqueles que vieram para ajudá-la e apoiá-la voltarem decepcionados. Hoje eu também vim até você! Espero que nosso Senhor me ajude e que Allah também lhe mostre o caminho correto. E, em vez de falar em favor dos ikhwan, espero que você se concentre nisto: eles a enganaram e a arrastaram para esta situação delicada. Você foi enganada por eles. Pense bem: será que eles realmente querem implementar os ideais islâmicos? Ou estão usando o nome do Islã para conquistar o poder? Queremos que você adote uma perspectiva mais generosa em relação a nós. O senhor Huzaybi disse coisas a seu respeito com base nas quais você poderia até ser condenada à morte. Sayyid Qutb também apoiou a opinião do senhor Huzaybi. Naturalmente, não reconhecemos as palavras deles, porque queremos libertá-la deste conflito. Queremos transformá-la em testemunha do Estado contra o governo. Queremos que você volte agora para casa e, sempre que precisarmos do seu testemunho, enviaremos alguém para buscá-la, ou eu mesmo irei. Se você concordar comigo a esse respeito, posso providenciar um encontro seu com o Presidente e seu conselheiro. Além disso, será emitida imediatamente uma ordem do Presidente para que a sede da sua organização a devolva. E não apenas isso: o Presidente a nomeará para um cargo ministerial elevado e lhe serão concedidos títulos honoríficos por todas as universidades do país, além de presentes. Agora ficou claro que os ikhwan a traíram. Eles estão colocando todo o peso da culpa sobre os seus ombros e os meus, enquanto procuram um caminho para se livrar.
O homem continuava falando daquela maneira, e eu o escutava em silêncio. Enquanto falava, ele também tentava ler as reações no meu rosto. Depois, apertou a campainha sobre a mesa e chamou Safwat. Em seguida, dirigiu-se a mim e disse:
:Você toma kahwa (um tipo de café), não é? Quer que eu peça que tragam uma tigela para você?
Eu disse:
:Muito obrigado. No momento, não preciso de nada. Ao ouvir minha resposta, ele mandou Safwat trazer chá para ele e disse:
:Zaynab, vou lhe dar papel e caneta. Escreva neles os pontos sobre os quais chegamos a um acordo.
Eu disse, surpresa:
:Eu não concordei com você em nenhum assunto. Também não sei o que devo escrever.
Enquanto me entregava o papel e a caneta, ele disse:
:Você ainda não conseguiu avaliar devidamente os seus próprios interesses.
:Você ainda não conseguiu avaliar devidamente os seus próprios interesses. O presidente Jamal Nasser quer ajudá-la e está disposto a livrá-la deste processo.
Perguntei:
:Que processo? Um processo por o povo estar se unindo para compreender corretamente o din? Na verdade, o processo deveria ser movido contra o presidente, seus conselheiros e seus comparsas. Pois são eles os responsáveis pela decadência moral e de caráter no país, pela disseminação da obscenidade e pela importação de correntes de pensamento ateístas. Foram eles que criaram a desordem no país. Se tenho de escrever, escreverei sobre a realidade geral deste país pobre. Posso escrever apenas as verdades que me são claras e que chegaram ao meu conhecimento por meio da minha observação.
Ele disse:
:Eu sei, Zaynab, que você é uma mulher altamente instruída e que seu talento é incomparável; espero que você não queira que sua situação se torne ainda mais deplorável. Aqui estão papel e caneta; pense bem e escreva o que for melhor para você. Estou indo embora. Ah, e, ao escrever, lembre-se de que o presidente quer mantê-la livre deste processo. O conteúdo do processo já lhe foi explicado. Repito: Huzaybi e Sayyid Qutb planejaram tanto o assassinato de Jamal Nasser quanto a tomada do governo. Segundo as declarações de ambos, foi Zaynab al-Ghazali quem elaborou o plano. Eles estão atribuindo toda a culpa a você para se livrarem. Chegam a dizer que somente você é responsável por todos esses acontecimentos e que, por sua causa, eles hoje se encontram diante do perigo. Agora escreva. Mas pense muito bem antes de escrever sobre sua própria opinião e sobre a avaliação dos Irmãos a seu respeito. Eles estão responsabilizando você por tudo. Em nossa opinião, foram eles que a desviaram do caminho e, depois de incitá-la, recuaram. Diga: isso foi bravura ou covardia?
Depois disso, ele me deixou sozinha com papel e caneta e foi embora. Comecei a escrever devidamente:
:Mil lamentos por estes infelizes papel e caneta, que acabaram nas mãos de uma prisioneira torturada de uma cela. Nós nos reuníamos com os jovens Irmãos para estudar jurisprudência islâmica, hadith, a sunnah do Mensageiro, o tafsir do Sagrado Alcorão e assuntos semelhantes. Líamos Al-Muhalla, de Ibn Hazm; Zad al-Ma’ad, de Ibn Qayyim; At-Targhib wa at-Tarhib, de Hafiz Montazeri; e Fi Zilal al-Qur’an e Ma’alim fi at-Tariq, de Sayyid Qutb. Estudávamos as biografias do nobre Mensageiro e dos Companheiros, para saber como estabelecer o ideal de vida islâmico. Esses cursos eram realizados com a permissão e sob a supervisão do Imã Huzaybi. O objetivo desses cursos era atrair a nova geração para o pensamento correto e as boas ações e criar as condições para uma liderança íntegra. Sentíamos a necessidade de formar verdadeiros militantes, na esperança de restabelecer o ideal islâmico no mundo. Depois de discussões detalhadas, análises e reflexões, decidimos organizar os jovens. Nosso objetivo era conduzir os jovens iletrados e desorientados da sociedade ao caminho correto. Para realizar esse objetivo, adotamos um plano com duração de treze anos. Depois, faríamos uma pesquisa em todo o país. Se descobríssemos que a proporção dos habitantes comprometidos com o ideal islâmico era inferior a 25%, decidiríamos implementar novamente um plano de treze anos. Dessa maneira, avaliaríamos a situação de forma sistemática pela segunda, terceira e até quarta vez. Esse trabalho de formação continuaria assim até que 75% da população do país se tornasse apoiadora ativa do ideal islâmico. O que há nisso que deva causar medo a Jamal Nasser? E por que vocês, que estão ligados ao governo, têm tanto medo? Talvez várias décadas se passem antes de alcançarmos nosso objetivo. Então por que seus corações tremem de ansiedade? Nosso plano não contém absolutamente nada sobre matar Nasser. Matá-lo não seria um problema; pelo contrário, toda a nação enfrenta problemas maiores do que matar muitos como ele. Quanto a matar alguém, está fora de nossa imaginação até mesmo ferir levemente qualquer criatura. Mas vocês estão tramando o assassinato injusto de inúmeros muçulmanos crentes, levantando acusações falsas e infundadas desse tipo. Antes, respondam-me vocês: quem lhes deu a ordem de prender e torturar-nos indiscriminadamente e de executar planos para nos matar? Vocês cometem esses atos injustos e ilegais por ordem dos judeus ou por determinação dos líderes socialistas? Hoje, diante do renascimento islâmico dos muçulmanos, os comunistas, socialistas e ateístas, os capitalistas cristãos ocidentais hostis à religião e exploradores, e os sionistas não encontram fim para suas preocupações. O slogan da revolução islâmica tornou ilícito o conforto de seus dias e noites. Sim, é verdade! O nome do Islã é insuportável para eles. Por isso, soltaram seus serviços de inteligência contra os movimentos islâmicos em todo o mundo muçulmano e, por meio de seus agentes amestrados, estão executando conspirações para perseguir e matar os mujahidin do Islã.
Mas saibam que Allah espalhará Sua luz e humilhará os incrédulos. Se hoje vocês nos matarem, amanhã avançará uma caravana irresistível de milhões de crentes para manter erguida a bandeira do Islã.
Quanto à revista da Associação das Mulheres Muçulmanas, à sede da associação ou a todo este mundo ao nosso redor, direi apenas isto: não dependemos de coisa alguma. Queremos somente a satisfação de Allah e o estabelecimento da própria religião de Allah no mundo de Allah. Escrevi minha declaração e, abaixo, assinei meu nome: “Zaynab al-Ghazali”.
Quando Safwat Roubi entrou e pediu os papéis escritos, eu os entreguei a ele. Ele os levou consigo e saiu. Depois de algum tempo, veio até mim o homem que havia trazido o papel e a caneta. Ele tinha alguns papéis nas mãos. Naturalmente, aqueles não haviam sido escritos por mim. Mas ele rasgou e retalhou aqueles papéis e os atirou de tal maneira que parecia querer me mostrar que havia rasgado em pedaços os papéis que eu mesma escrevera.
Desta vez, ele chamou Safwat e disse:
— Segure-a, Safwat… Esta é realmente uma mulher que merece ser enforcada; as pessoas fizeram bem em decidir matá-la. Eu vim ajudá-la. Como ela rejeitou minha proposta, agora deixe que seja enforcada. — Depois de dizer isso, ele foi embora. Em seguida, Safwat começou a me espancar como um animal. Ele me dava socos com as duas mãos e continuava me chutando. Quando ficou cansado, trancou-me na cela e foi embora.
Eu me perguntava, perplexa, o que eles queriam obter de mim, afinal, depois de eu ter deixado minha posição clara repetidas vezes, oralmente e por escrito, enquanto tentavam agir contra mim e me seduzir com ganância e cobiça. Eles já deveriam acreditar que nada poderia me fazer abandonar meus princípios. Ou será que queriam sentir alívio matando-me de acordo com um plano previamente estabelecido? Eu já havia explicado tudo claramente várias vezes; nada estava oculto, tudo estava claro e tudo fora descrito com suas devidas explicações. Então, o que eles queriam?
A mala e a carta do presidente Nasser
Quando a porta da cela se fechou, foi como se eu tivesse chegado a outro mundo. Todo o meu corpo, cada articulação e cada membro pareciam estar se soltando e caindo aos pedaços. Eu estava em um estado de agitação por causa das dores, do ardor e do sofrimento. Não conseguia encontrar paz de modo algum. Não conseguia sentar-me nem permanecer de pé. Tentei deitar-me um pouco, toda rígida, mas doía. Eu apenas me contorcia em uma dor insuportável, causada pelos golpes de chicote, socos e pontapés. Eles haviam coberto todo o meu corpo de feridas com as surras e entristecido minha alma com insultos obscenos e impronunciáveis. Enquanto eu me virava de um lado para o outro, inquieta e atormentada, ouviu-se o chamado para a oração do fajr. Alia e Gada Ammar acordaram para a oração. Fizemos a oração após realizar o tayammum. Naquele momento, meu estado era como uma resposta a todas as perguntas. Era perfeitamente claro o que havia acontecido e por quê. Alia me disse:
:O médico me deu um comprimido para dormir. Você quer tomar um…? Eu disse –
:Pode dar. Pedi com a intenção de dormir. Mas como dormir? Com o corpo despedaçado pelos golpes e a inquietação da mente ferida, de onde viria o sono? Não há outro recurso senão a misericórdia de Allah. Encontro tranquilidade somente no nome de Allah. Mesmo em meio a tantos tormentos, sinto dentro de mim uma força desconhecida para fazer o namaz e recitar o Alcorão de Allah.
Ga’da costumava fazer marcas na parede da cela de Ammar e anotar as datas. Ela disse–
:Hoje é dezoito de outubro. Eu disse–
:Pela graça de Allah, os dias restantes também passarão. Aliya disse–
:Inshallah.
Às quatro da tarde, a porta da cela se abriu, e Safwat entrou acompanhado de dois soldados. Eles traziam uma mala enorme nas mãos. Assim que vi a mala, reconheci-a. Ela havia sido trazida da minha casa. Safwat abriu a mala, tirou um objeto e, enquanto o mostrava, disse–
:Zaynab, trouxemos estas roupas e estes objetos da sua casa. Depois, colocou novamente todas as coisas na mala e fechou-a. Parecia que iam me enviar para algum lugar numa longa viagem. Perguntei-lhe–
:Quem mandou trazer estas coisas e quem as trouxe? Safwat disse-
:Fomos nós que mandamos trazê-las, e sua irmã Hayat as trouxe até aqui. Depois, ele disse aos soldados que saíssem e, pouco depois, também foi embora. Ao ver o carrasco voltar novamente, fechei os olhos, irritada, e de repente desmaiei. Alia e Gada começaram imediatamente a massagear minhas mãos e as plantas dos meus pés. Quando recuperei a consciência graças aos esforços delas, elas me consolaram e disseram-
:Não é nada, Alhajja! A questão é muito simples! As roupas que você vestia estragaram, então talvez tenham mandado trazer roupas melhores. Não há nenhum outro motivo especial.
Eu disse a Alia-
:Isso é um indício da crise que se aproxima, Alia!
:Não, Alhajja! Eles devem ter mandado trazer isso simplesmente porque você precisava. — disse Alia.
Eu disse-
:Não, Alia, não! Isto não será mais uma provação? Por que trariam apenas minhas roupas? Eu não pedi que as trouxessem — uma enorme calamidade está prestes a se abater sobre mim… Que Allah me mantenha firme na verdade e me livre da calamidade.
Estávamos realizando a oração do asr. De repente, Safwat entrou, deu-me um empurrão enquanto eu ainda orava e, arrastando-me à força, disse:
:Venha comigo. Depois, trancou Aliya e Ghada na cela e levou-me consigo. Conduziu-me separadamente a uma galeria. Em seguida, fui empurrada para um lugar estreito, escuro e malcheiroso. Era um local terrivelmente assustador, cheio de tocas de cobras e ratos. O frio intenso, o mau cheiro e o silêncio aterrador deixaram-me profundamente apavorada. Com os olhos cheios de lágrimas, supliquei a Allah e pedi Sua ajuda para enfrentar a provação. “Saiba que, ao mencionar o nome de Allah, uma força e uma serenidade indescritíveis são infundidas na alma.
De repente, surgiu uma luz, e Safwat entrou, estendeu a mão e disse:
:Pegue, leia esta carta.
Abri a carta e vi que estava escrita em letras impressas:
“Gabinete do Presidente. Em seguida, estava escrito em letras datilografadas:
“Por ordem do Presidente Abdel Nasser, que Zaynab al-Ghazali seja submetida a torturas e a um castigo mais doloroso do que os infligidos aos homens”.
Assinatura
Jamal Abdun Nasser
Presidente do Egito.
Na carta também estavam desenhados o emblema oficial do governo e o selo presidencial especial. Depois de ler a carta do presidente, ao devolvê-la a Safwat, eu disse—
: Allah é muito maior e mais poderoso do que todos vocês. Allah é suficiente para nós.
Ele me lançou um olhar assassino e, enquanto proferia insultos indescritíveis, fechou a porta da cela e foi embora.
Pouco depois, assustei-me ao ouvir novamente a voz de Safwat; ele dizia—
: Cuidado, atenção!
Quando abriram a porta da cela, vi Bisyuni. Ele entrou e disse—
: Está sendo concedida a você mais uma hora para pensar e tomar uma decisão com mais cuidado. Tenha uma compreensão correta do que é melhor para você. Mandei trazer as roupas necessárias para o seu encontro com o presidente Gamal Abdel Nasser e seu conselheiro Abdel Hakim. Depois disso, sua opinião sobre o caso vai mudar. Olhando para Safwat, ele disse:
: Leia para ele a carta do presidente. Safwat leu a carta novamente.
“Por ordem do presidente Abdel Nasser, que Zaynab al-Ghazali seja submetida a mais torturas e a uma punição mais dolorosa do que os homens”.
Assinatura
Gamal Abdel Nasser
Presidente do Egito.
Hamza, tirando a carta das mãos de Safwat, entregou-a a mim e disse:
: Pegue, sua maluca! Leia a carta e tente compreender bem o seu conteúdo.
Eu disse:
Já li esta carta. Ele disse:
Leia-a novamente. Onde está o chicote, Safwat? Peguei a carta e tornei a lê-la. Depois atirei-a ao chão e disse:
Seus filhos de infiéis pecadores; estou mandando que saiam. Meu Senhor é muito poderoso…… Hamza Bisiuni saiu da cela e chamou os soldados. Os soldados entraram carregando aquela mala de roupas e gritaram:
Estamos lhe dando mais uma hora de oportunidade. Estas são as suas roupas. Pense bem e faça o que for melhor para você. A solução do problema está agora em suas mãos.
Depois fecharam a porta da cela e foram embora. Eu fazia uma súplica diante de Allah:
“Ó meu puro Senhor e Sustentador! Dá-me força e coragem para que eu possa enfrentar as adversidades”.
Exatamente uma hora depois, ouviu-se a voz áspera de Safwat:
: Atenção, cuidado! Hamza Bisiuni está chegando. Hamza entrou, viu-me e perguntou:
: O que houve? Você ainda não se vestiu. Então você quer mesmo morrer, é isso? Eu respondi:
: Não me importo. Dediquei minha vida. Hamza disse:
: Está bem, Safwat, esta moça está oferecendo a própria vida em troca das vidas de Sayyid Qutb e Huzaibi. Eles só querem se libertar dele. Agora serão absolvidos inocentemente… Safwat me puxou e arrastou com mão firme em direção a um caminho desconhecido. Ao passar ao lado da galeria, entoei em voz alta: ‘Allahu Akbar’. Meu objetivo era fazer Alia e Gada Ammar ouvirem. Pois, conforme as palavras de Hamza Bisiuni, eu pensava que aquele talvez fosse o momento final da minha vida.
Capítulo Quatro
As torturas de Shams Badran
Safwat caminhou comigo por muito tempo até chegar ao escritório do oficial Hani. Em seguida, Hani levou-me ao escritório de Shams Badran.
Sabe quem é esse Shams Badran? Um indivíduo depravado, inferior até mesmo a uma fera cruel e impiedosa. Mais feroz e selvagem que uma hiena, esse homem estabeleceu um terrível histórico de opressão contra as pessoas. Quando encontra muçulmanos crentes, assume uma forma ainda mais terrível. Ele tortura os muçulmanos por meio de métodos especiais e bárbaros, com tamanha dureza e violência que é impossível apresentar uma descrição exata. Com todas as suas forças, tenta destruir a aquida e as convicções dos muçulmanos e transformar um muçulmano em não muçulmano à força de pancadas. Naturalmente, todos os seus esforços bestiais acabam fracassando.
Quando cheguei, ele perguntou com extrema arrogância e desprezo—
: Zainab al-Ghazali! Você ainda está viva?
: Sim! Respondi com a mesma palavra, em voz calma e serena.
O escritório de Hamza Bisiuni ficava ao lado do escritório de Shams Badran. Atrás de mim, Safwat estava preparado, junto com mais dois carrascos, com chicotes nas mãos. A ponta negra e brilhante do chicote se contorcia como uma labareda de fogo.
Shams Badran disse arrogantemente—
: Ei, garota… Zainab……! Ainda há tempo; corrija sua atitude…… cuide do seu próprio bem. Eu também quero me livrar do seu problema e voltar minha atenção para os outros. ……Pela honra de Abdun Nasir! Vou cortar e retalhar você em pedaços, golpe após golpe do Hunter.
Eu disse do mesmo modo, em voz calma e serena—
: Acontece aquilo que Allah quer; Ele é o Todo-Poderoso.
Ela disse:
: Ei, garota! Que insolência absurda é essa que estás demonstrando? Permaneci em silêncio.
Desta vez, ela perguntou:
: Que relação tens com Sayyid Qutb e al-Hudaybi? Respondi em tom natural:
: Uma relação de fraternidade islâmica.
Como um idiota, ele perguntou:
: Fraternidade de quê?
Respondi novamente:
: Irmandade Islâmica.
: Qual é a profissão de Sayyed Qutb? — perguntou ele.
Eu respondi:
: O professor e imame Sayyed Qutb é um bravo mujahid no caminho de Allah, um mufassir do Sagrado Alcorão, isto é, um exegeta, um mujaddid e um mujtahid.
Ele perguntou como um ignorante:
: O que significam todas essas coisas?
Desta vez, pronunciando claramente e devagar, enfatizei especialmente cada palavra e disse:
: Professor Sayyed……Qutb……líder……e professor……líder do pensamento islâmico……escritor……famoso literato e um autêntico seguidor do Mensageiro de Allah……
Ao fazer um gesto silencioso na direção dos carrascos, os carrascos então se lançaram sobre mim com seus chicotes e açoites.
Depois que as pancadas continuaram por bastante tempo, ele perguntou novamente—
: Ei, garota! Qual é a profissão de Huzaybi?
Respondi—
: O professor Imam Hasan Huzaybi é o líder e imam dos muçulmanos. Ele mantém vínculos com a Irmandade Muçulmana. Está determinado a estabelecer as normas e preceitos da Sharia islâmica. É um mujahid no caminho de Allah. Seu objetivo é que toda a comunidade muçulmana retorne ao caminho do Alcorão e da Sunnah……
Antes mesmo que eu terminasse de falar, os chicotes e açoites começaram novamente a incendiar minhas costas.
Shams Badran, ardendo de raiva, disse—
: Só bobagens, garota; você está delirando sem sentido……!
Hasan Khalil também estava presente. Ele disse:
: Pasha, deixe-a falar. Uma informação importante está prestes a ser descoberta. Em seguida, ele veio até mim, segurou minha mão e perguntou:
: Você leu a obra de Sayyid Qutb, ‘Ma‘alim fi al-Tariq’ — Marcos no Caminho? Respondi:
: Sim, li, sim.
Muitos oficiais de alta patente estavam presentes ali. Eles tinham vindo para desfrutar da tortura demoníaca infligida a mim. Um deles disse:
: Você poderia nos recitar um resumo desta obra? Eu disse: sim, Bismillahir-Rahmanir-Rahim, wa-s-salatu wa-s-salamu ‘ala Rasulihil Amin — começo em nome de Allah, o Clemente, o Misericordioso. Que abundantes bênçãos e saudações sejam concedidas ao Mensageiro fiel…
Mas Shams Badran não me deixou prosseguir. Ele bateu as mãos de uma maneira estranha e me perguntou:
: Você acha que conseguiu um púlpito de mesquita? Lembre-se: não estamos numa mesquita… estamos numa igreja. Em seguida, lançou uma série de obscenos insultos.
Hasan Khalil disse—
: Perdoe-me, Pasha! …… Bem, Zaynab, que lição você aprendeu com ‘Ma’alimu fit-Tariq’?
Desta vez, falei com solenidade—
: ‘Ma’alimu fit-Tariq’ é uma famosa obra do mufassir e mujtahid literário Sayyid Qutb. Nela, ele convocou a comunidade muçulmana a retornar à sombra do Islã. Convocou os muçulmanos a se erguerem novamente com base na crença no tawhid…… Ele mostrou a luz do Alcorão e da Sunnah aos confusos e desviados…… Disse-lhes que se arrependessem de seus erros e avançassem pelo caminho do din; disse à comunidade muçulmana que saísse da escuridão da ignorância e erguesse o facho luminoso do ideal islâmico. Disse que o único caminho para a salvação e o progresso é o Islã. O único caminho para alcançar a paz e a prosperidade é o Islã. Enquanto os muçulmanos não adotarem o caminho do Islã, seu destino não mudará. Por isso, é preciso ler o Alcorão e compreendê-lo. É preciso avançar pelo caminho da realização dos objetivos e das metas. Disse que os muçulmanos devem atender ao chamado do conhecimento, da razão e da consciência. Devem seguir o tawhid e a risalat. Porque somente os ideais do tawhid e da risalat podem garantir à comunidade muçulmana uma vida mais luminosa.
Depois de ouvir minhas palavras, todos permaneceram sentados em silêncio absoluto por alguns momentos. Então, rompendo o silêncio, Hasan Khalil fez um comentário típico de Ahmad—
: Pelo visto, ela é uma boa oradora; sabe fazer um discurso excelente. Outra pessoa disse—
: Além disso, é escritora e jornalista. Depois, ele leu para nós um trecho do editorial do jornal publicado sob minha direção, que fora apreendido no momento da minha prisão.
Mas Shams Badran não estava gostando daquilo. Ele me interrompeu e, olhando para mim com ferocidade, disse estupidamente—Nada do que essa garota diz entra na minha cabeça.
: Assim que ele terminou de falar, os carrascos investiram novamente contra mim com seus chicotes. Enquanto me golpeavam, disseram:
: Diga ao paxá tudo exatamente como aconteceu.
Pelo modo como Hasan Khalil falava, ficava evidente que ele estava armando uma cilada para me capturar. Ele lhes disse:
: Não há problema. Por que tanta pressa?
Em seguida, dirigindo-se a mim, disse:
: Quero saber o significado daquilo que vocês adotaram como seu slogan mais amado e importante: La ilaha illallah, Muhammadur Rasulullah. Eu disse:
: Pois bem, o amado Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele) convocou toda a humanidade e disse que não é digno do ser humano adorar ídolos, pessoas ou qualquer outro objeto ou poder. O ser humano é o representante de Allah. A dignidade e a importância do ser humano são superiores às de todos os seres e coisas da criação. Portanto, o ser humano não adorará ninguém além de Allah, por meio da adoração e do culto devidos somente a Ele. Curvará a cabeça apenas diante de Allah. Em nenhum outro lugar, nem diante de quem quer que seja. Esse é, em linhas gerais, o significado de ‘La ilaha illallah’. Já o significado de ‘Muhammadur Rasulullah’ é que Muhammad (que a paz esteja com ele) é o último Mensageiro escolhido por Allah. Por meio dele, Allah enviou à humanidade o Islam, o código de vida eterno e perpétuo, para estabelecê-lo no mundo. O Alcorão e a Sunna constituem a essência do Islam. Crer plenamente em Allah, em Seu Mensageiro Muhammad — isto é, no Alcorão e na Sunna — e apresentar exemplos práticos disso em todos os aspectos da vida é um dever obrigatório. Em resumo, esse é o significado de nossa Kalima Tayyiba.
Shams Badran pareceu incendiar-se ao ouvir aquelas palavras. Gritou:
: Pare com essas bobagens.
: Imediatamente, seus animais domesticados começaram a chover sobre mim golpes de chicote e açoite. Hasan Khalil, como se julgasse que a presa estava próxima de sua armadilha, disse a Shams:
: Paxá! Por minha consideração, dê-lhe mais um pouco de trégua.
Depois, olhando para mim, disse:
: Qual é a sua opinião sobre nós? Somos muçulmanos ou kafirs?
Eu disse:
: Coloque-se à prova na pedra de toque do Alcorão e da Sunna. Ficará claro o que você é e se sua relação com o Islã é de hostilidade ou de amizade.
Ao ouvir isso, Shams Badran explodiu de raiva. Começou a dizer tudo o que lhe vinha à boca. Passou a proferir insultos extremamente imundos e obscenos. Mantive-me calado. Afinal, que outra coisa eu poderia fazer? Mesmo assim, sem se acalmar, começou a bufar e a saltar como um animal feroz. Ele começou a vociferar:
Você não sabe absolutamente nada sobre o regime selvagem de Jamal Nasser. Nele reina uma barbárie cega, que varrerá tudo à sua frente como palha diante de uma tempestade violenta. Os homens dele estão acostumados a devorar os viajantes à beira da estrada como tigres famintos……
Shams Badran olhou para Safwat e disse:
Pelo jeito, nem com pancadas ele vai se render; pendurem-no de cabeça para baixo. Safwat saiu e voltou trazendo uma grossa barra de ferro e dois suportes de madeira. Atrás dele vieram mais três carrascos com chicotes nas mãos.
Quando terminaram de preparar tudo para me deixar pendurado, pedi-lhes uma calça comprida para vestir.
Hasan Khalil disse a Badran:
: Isso não importa. Em seguida, Shams Badran mandou trazer uma calça comprida para mim. Um soldado foi buscá-la rapidamente e a trouxe. Shams Badran disse:
: Vá àquela sala, vista a calça e volte.
Quando fui vestir a calça, vi uma sala enorme, com ar-condicionado central. Era um salão bem decorado, com móveis de alta qualidade, o chão coberto por tapetes caros e todo equipado com os apetrechos do luxo. Enfim, quando voltei usando a calça comprida, por ordem de Shams Badran fui suspenso no ar. Não me lembro exatamente de como me amarraram e me penduraram, atando juntos meus braços e minhas pernas. Lembro-me, porém, de que Shams Badran dava ordens aos homens encarregados de me pendurar como se estivesse comandando soldados no campo de batalha.
Depois de me amarrarem e me pendurarem, ele gritou:
: Safwat, dê-lhe quinhentas chicotadas. Imediatamente começou aquele espetáculo de tortura brutal e selvagem. Parecia haver uma competição para ver quem conseguia bater mais forte; é possível imaginar o quanto aquela surra conjunta aumentou minhas dores e sofrimentos. Ainda assim, não demonstrei minha fraqueza diante daqueles animais. Eu suportava os golpes aterrorizantes de suas varas e chicotes, lembrando-me do nome de Alá e procurando tranquilidade no coração. Mas, quando a dor ultrapassou os limites do suportável, já não era possível continuar suportando em silêncio; então ergui um clamor de súplica diante do Todo-Poderoso, para quem tudo, tanto o manifesto quanto o oculto, é igualmente claro. Eu repetia: “Ya Allah, ya Allah!”, enquanto os golpes do chicote tornavam minha dor ainda mais intensa. Depois, continuei invocando somente Alá até perder a consciência. Desmaiado, caí no chão como um corpo sem vida. Eles tentavam me pôr de pé e pendurar-me novamente, mas não conseguiram. Não me restava a menor força para ficar de pé. Sempre que tentava me levantar, tornava a cair. Minha dor ultrapassava os limites do suportável. O sangue escorria por minhas duas pernas, enquanto Shams Badran ordenava a Safwat que me pusesse de pé e me pendurasse novamente. Quando, em meio à intensa agonia, tentei me apoiar na parede, Safwat me afastou dela com uma chicotada. Então, sem outra saída, eu disse:
: Deixem-me sentar um pouco no chão.
Em resposta, Shams Badran disse:
: De jeito nenhum permitiremos que você se sente. Onde está o seu Alá? Vamos, chame-o para que o salve de nossas mãos! Em vez disso, chame Abdun Nasser e veja que proveito terá. Não dei ouvidos às palavras daquele vil e imbecil, e permaneci calado. Ele, gabando-se, disse:
: Diga-me, onde está agora o seu Alá?
Vendo que eu permanecia calado, ele gritou novamente:
Onde está o seu Alá? Responda!
Desta vez, falei com a voz embargada pelas lágrimas—
: Allah, o Todo-Poderoso, é onipotente e o melhor dos administradores.
Depois, fui levado diretamente do escritório de Shams Badran para o hospital.
A cela de águ’a
Ao sair do escritório de Shams Badran, comecei a sentir falta de ar. Sentei-me por alguns instantes, sentindo a necessidade de normalizar minha respiração. Parecia que todos os meus membros haviam se desprendido do meu corpo. Mas não havia alternativa: os carrascos eram incapazes de compreender a dor humana. Quando Safwat me arrastou até a última galeria do hospital, Hasan Khalil disse de repente, por trás de mim—
: Safwat, volte. O paxá está chamando Zaynab. Assim, tive de voltar novamente por ordem de Shams. Assim que entrei no escritório, vi à minha frente minha irmã Hamida Qutb. Eu a reconheci assim que a vi, mas, como minha estrutura física havia se deformado, ela não conseguiu me reconhecer ao me ver. Por causa da fome, da sede e, além disso, daquela tortura indescritível a cada instante, meu corpo, meu rosto e toda a cor e aparência da minha pele haviam se deformado. Shams Badran perguntou à respeitável Hamida Qutb—
: Esta é Zaynab al-Ghazali?
Ao ouvir a pergunta, Hamida me olhou atentamente e disse em voz apagada—
: Sim.
Eu estava então num estado entre a inconsciência e a semiconsciência. Por isso, não consegui lembrar em detalhes do interrogatório e da conversa com a irmã Hamida Qutub. Contudo, ao ouvir algumas palavras, parecia-me que Shams Badran perguntava à irmã Hamida Qutub sobre a irmã Issa Fatema. Ela estava na cela ao lado da minha.
Enquanto Hamida Qutub respondia às perguntas de Shams Badran, ele ordenou que eu saísse.
Assim que saí do escritório dele, fiquei completamente inconsciente e caí no chão. Safwat mandou chamar uma enfermeira por intermédio do soldado Abdul Mabud. A enfermeira abriu a tampa de um frasco e fez-me cheirá-lo; então recuperei a consciência. Depois, o carrasco Safwat fez-me ficar de pé e, girando o chicote que segurava, disse:
: Ande depressa — mais depressa.
Enquanto caminhava, fiquei novamente inconsciente e caí no chão. Quando recuperei a consciência, ele tornou a fazer-me ficar de pé e ordenou que eu andasse depressa. Ao mesmo tempo, usava o chicote contra mim. Os golpes do chicote sobre o meu corpo ferido ardiam como fogo. Assim, entre levantar-me e cair, enquanto apanhava, fiquei em estado lastimável. O chicote enlouquecido do carrasco era extremamente cruel. Ó Alá! Essas pessoas também são criaturas Tuas! Que criaturas estranhas, na verdade: caminham apoiadas em duas pernas e num chicote. Nesse momento, alguém pareceu ordenar:
: Soltem-no na cela número cinco. Veio outra ordem:
: Levem-no para a cela de água.
Safwat mandou que eu entrasse em um cômodo e me sentasse; chamou uma enfermeira, que fez um curativo no meu ferimento.
Quando a porta da cela se abriu, vi, atrás dela, uma parede de ferro. Sua altura era igual à de uma árvore grande. Ele me ergueu até o alto daquela parede e ordenou que eu pulasse dali para baixo. Ao ouvir suas palavras, todo o meu ser pareceu congelar de medo. Eu não conseguia sequer reunir forças para me mover um centímetro. Do outro lado da parede, avistei um poço de água. Reunindo todas as minhas forças, eu disse a Safwat—
: Eu não vou tirar minhas roupas de jeito nenhum. Ele deu uma risada cruel e disse—
: Você vai entrar na água usando apenas uma peça de roupa. Eu disse—
: Estou apenas envolta em um pano. Ele disse com desprezo—
: Dentro de uma hora, você vai morrer de qualquer maneira. Tire também a calça comprida.
Eu disse—
: Quando eu for ao cômodo, devolverei isso a você. Ele perguntou em resposta—
: Que cela? Vou jogar-te já neste poço.
Eu disse:
: Então vira-te para o outro lado. Ele virou-se de costas, e eu tirei as calças compridas e devolvi-lhas. Assim, devolveram-me as calças compridas que me tinham dado para vestir quando fui levado ao escritório de Shams Badran.
Agora, vestido com roupas velhas e esfarrapadas, eu pensava no que fazer! Quando Safwat me mandou saltar para a água, resisti e disse:
: Não, não vou cometer suicídio. Se querem matar-me, terão de assumir toda a responsabilidade por isso.
Eu pensava que eles tinham realmente tomado a decisão final de me matar. Era o que parecia diante daquela situação. Pois que outro objetivo poderiam ter a tortura anormal, os insultos indescritíveis, as ameaças e a ordem para saltar no poço de água? Era claro que desejavam a minha morte. Se quisessem, poderiam empurrar-me para dentro do poço e matar-me. Ser martirizado assim no caminho de Allah era o meu desejo. Eu dizia:
: Ó Allah, Santo Provedor. Saúdo a morte como mártir no caminho da Tua religião… dou-lhe as boas-vindas.
O carrasco veio e, açoitando-me, obrigava-me a saltar para a água. Mas recusei-me a saltar por minha própria vontade. E então, sem parar, os açoites começaram a inundar de sangue as minhas costas, como a chuva de Shraban. Por fim, incapaz de suportar mais, caí desfalecido no chão. Ao ver isso, Safwat, juntamente com Sa’d e Samb, agarrou-me e atirou-me para o poço de água.
Quando caí lá embaixo, vi que havia chão duro sob meus pés. Então percebi meu engano: aquilo não era uma cisterna de água, mas uma cela de água. Mais um método abominável de punição. Levantei as mãos diante de Allah e disse:
: Ó Senhor dos mundos! Entreguei todos os meus assuntos em Tuas mãos. Desejo apenas a Tua satisfação. Enquanto eu tiver vida, permanecerei firme no caminho da Tua satisfação. Ó Allah, desejo a Tua satisfação e o Teu amor. Concede-me paciência e coragem, para que eu possa enfrentar qualquer perigo ao seguir o Teu caminho.
Enquanto isso, Safwat continuou a me chicotear impiedosamente.
Enquanto me chicoteava, ele disse:
: Sente-se.
: Como vou me sentar com tanta água? Isso é impossível!
O torturador Safwat, usando a boca e o chicote ao mesmo tempo, disse:
: Sente-se da maneira como você se senta para fazer a oração. E isso você deve saber muito bem. Sente-se… sente-se e veremos, rápido. … Só Jamal Naser sabe como castigar os Irmãos… Estou mandando você se sentar… Ei, menina, está ouvindo?
Quando consegui me sentar de algum modo, a água já me cobria até o queixo. Safwat disse:
Cuidado! Não se mexa nem sequer um fio de cabelo para nenhum lado. Não poderá mover as mãos, os pés nem qualquer parte do corpo! Jamal Nasser ordenou que você recebesse mil chicotadas por dia…… Portanto, daremos dez chicotadas por cada movimento seu.
Ao me encontrar naquele ambiente inimaginavelmente horrível, fiquei tão aflita que cheguei a perder até a sensação de dor e sofrimento. Naturalmente, ao tocar na água, a dor das feridas se tornou muitas vezes mais intensa. Se eu não tivesse recebido a misericórdia especial de Allah naquela situação, teria sido incapaz de suportar tamanho sofrimento e dor. Com a intensidade da agonia, cheguei a esquecer até dos carrascos Safwat, Sa’d e Samb. Além disso, Safwat voltou a me açoitar, tornando ainda mais insuportável a amargura daquele ambiente. Enquanto brandia o chicote, Safwat disse:
: Escute, miserável! Se tentar dormir, este chicote vai acordá-la; ficará sentada exatamente assim, sem se mexer. …… Está vendo aquela abertura na porta? Será por ela que observarão seu estado. Se tentar se levantar um pouco, esticar as mãos ou os pés, ou olhar para os lados, o chicote estará pronto para endireitá-la…… Nós a colocamos bem no meio da cela. Nem pense em tentar se aproximar da parede! Se quiser ir até a parede, dez chicotadas. Se esticar as pernas, dez chicotadas; se esticar as mãos…… dez chicotadas… se mexer a cabeça, dez chicotadas… Lembre-se: assim, serão completadas mil chicotadas por dia. Vamos ver se Huzaybi ou Sayyid Qutb conseguem salvá-la…… Lembre-se: este é o inferno de Nasser. Mesmo que passe a vida inteira gritando o nome de Allah, ninguém virá salvá-la. Mas, se por sorte invocar o nome de Abdun Nasser, as portas do paraíso se abrirão imediatamente para você. Entendeu? O paraíso de Abdun Nasser…… Se não entendeu, há castigos muito mais severos à sua espera. Se obedecer às minhas palavras, estou disposto a interceder junto ao Pasha pela sua libertação. Você irá até ele e fará o que ele mandar. Depois disso, não haverá mais tristeza nem preocupação. Diga-me: você é louca? Idiota. Por quem e por quê está destruindo a própria vida? Pelo Ikhwan? Eles já contaram tudo. Agora a corda da forca está suspensa sobre a sua cabeça.
Eu permanecia sentada, impassível, ouvindo aquela tagarelice. Aquele imbecil, estúpido, tolo, obstinado e arrogante era incapaz de compreender a linguagem do meu rosto. Por isso, continuou:
Obedeça às minhas ordens e, refletindo cuidadosamente sobre minhas palavras, providencie a sua própria libertação…… caso contrário, sua morte estará assegurada amanhã ao amanhecer, Zaynab.
Mesmo assim, quando não disse nada, ele se enfureceu e disse:
Não vai responder, hein?
Mesmo assim, permaneci calado, e ele continuou seu discurso—
: Veja, estou lhe mostrando um caminho muito fácil. Vou levá-lo até o paxá. Você só lhe dirá como ele havia planejado assassinar Sayyid Qutb e Hajaybi Nasser.
Não conseguindo mais suportar aquelas palavras absurdas, gritei com toda a força da minha voz—
: Todos os ikhwan são inocentes e sem culpa. Em breve, Allah fará justiça contra a violência e a tirania de vocês. Não desejamos interesses mundanos; o que mais desejamos é a satisfação de Allah… Basta; depois disso, aconteça o que tiver de acontecer.
Ao ouvir minhas palavras, Safwat permaneceu ali por meia hora, insultando-me com palavrões. Depois, enquanto ia embora, disse—
: Bem, já lhe informei a ordem da sua punição diária.
Depois que ele saiu, pensei: como eu poderia me mexer? Se estendesse as pernas, meu nariz e minha boca afundariam na água. Portanto, não havia outra opção além de ficar de pé. O que eu poderia fazer? Teria de suportar dez chicotadas. Confiando em Allah, levantei-me dentro da água.
Eu havia pensado que o soldado sentinela estava dormindo. Ao ouvir o chamado para a oração do fajr, bati as mãos na parede e fiz tayammum; quando eu estava realizando, por gestos, primeiro duas rak’ahs de oração sunnah e depois duas rak’ahs de oração obrigatória, a porta se abriu, e o sentinela entrou e começou a desferir chicotadas. Terminei rapidamente a oração e voltei a sentar-me na água submersa até o queixo. A água estava tão suja e malcheirosa que não era possível fazer wudu com ela.
Quando me sentei, a porta foi novamente fechada. Eu repetia várias vezes: “Hasbunallahu wa ni’mal wakil”. Aos poucos, comecei a cochilar. Mas, assim que meu queixo mergulhava na água, o sono desaparecia.
Assim, cada guarda entrava na cela cinco vezes seguidas para me açoitar. Tanto meus movimentos quanto as chicotadas eram absolutamente necessários.
Crime
Na hora da oração de Chasht, por volta das nove da manhã, Safwat veio, tirou-me da cela de água e trancou-me em outra cela ao lado. Sentei-me, apoiando-me em uma das paredes da cela. Naquele momento, até aquela dura parede de pedra me parecia macia como um travesseiro de algodão. Quase entregava a alma por causa da dor, do sofrimento e da fome; meu estômago ardia de fome, e a dor dos ferimentos parecia despedaçar-me. As feridas do corpo, unidas às feridas do coração, haviam criado um tormento tão inimaginável, indescritível e doloroso que não era possível compará-lo a nada.
Nesse estado insuportável, Safwat apareceu acompanhado de um demônio de pele negra, girando um chicote. Safwat ficou de pé e ordenou ao demônio de pele negra:
: Entregue-se com ela ao ato mais abominável. Se ela protestar ou oferecer resistência, este chicote estará aqui para subjugá-la.
Ao ouvir aquela ordem vil e demoníaca, supliquei a Allah, dizendo:
: Ó Allah, protetor da vida e da honra! Sou tua serva e permaneço firme em minha promessa de perseverar no caminho da tua satisfação… Por causa da minha fraqueza, imploro-te ao menos esta pequena ajuda: protege minha honra e castidade das conspirações de Satanás e das mãos dos pecadores, e ajuda-me contra o opressor.
Verdadeiramente, quão incomparável é a glória de Allah: aquele que fora designado para me torturar desumanamente, aquele cuja visão e cuja voz quase faziam minha consciência desaparecer, chamou-me de “tia querida”. Voltei para ele o olhar, surpresa. Aquele aspecto horrendo já não estava mais em seu rosto. Seus olhos e seu rosto haviam se iluminado com o brilho de uma luz extraordinária. Ele disse com voz clara:
: Tia querida, fique tranquila. Mesmo que eles me cortem em pedaços, ainda assim não lhe causarei a menor tristeza. Eu disse, com a voz embargada e tomada pela emoção da alegria:
: Meu filho… meu querido! Que Allah lhe conceda orientação. Que Allah o recompense da melhor maneira. De repente, a porta da cela se abriu com um solavanco. Safwat começou a açoitar aquele homem, dizendo:
: Seu filho de uma cadela amaldiçoada! Você se colocou em perigo por não cumprir minhas ordens. Vou enviá-lo imediatamente à corte marcial… Seu filho de uma cadela! Você desobedeceu às ordens de Jamal Nasser… Se quiser salvar a vida, cumpra minhas ordens antes que eu o leve até Shams Paxá. Estou lhe dando uma hora; veremos se você fará o que deve. Se ainda deseja continuar vivo, comece agora mesmo.
Safwat foi embora pelo pequeno vão da porta, levando consigo todas aquelas ordens.
O soldado, ainda de dentro da cela, saudou Safwat e disse:
: As ordens do senhor são sagradas.
Com medo, passei a invocar ainda mais o nome de Allah e pedi Sua ajuda para me proteger daquele perigo iminente. Eu pensava que, ao receber as novas ordens e para salvar a própria vida, aquele soldado seria obrigado a me maltratar. Talvez agora ele se lançasse sobre mim como uma fera faminta. Mas não! Ele realmente demonstrou bravura. Sorriu para mim como uma criança inocente e perguntou:
: Mãe, por que eles estão tratando você com tanta crueldade?
Eu lhe expliquei—
: Meu filho, nós convocamos as pessoas para o caminho da verdade e da paz indicado por Allah e exigimos o estabelecimento de um sistema social islâmico para o bem-estar do povo do país. Não queremos nenhum poder nem riqueza para nós mesmos. Aos olhos dos opressores, esse é o nosso crime.
Ao ouvir o azan do meio-dia, bati as mãos na parede, fiz o tayammum e rezei. Quando ergui as mãos para fazer uma súplica, ele pediu que eu também suplicasse por ele. Supliquei pelo seu bem-estar geral. Depois, quando me pus de pé para a oração sunnah, ele disse novamente—
: Tia, suplique a Allah para que eu também possa me tornar alguém que reza…… Tia, parece que vocês não são humanos, mas algo maior que isso, e eles estão fazendo vocês sofrerem injustamente…… Ó seguidores de Nasser, que Allah os destrua pela raiz.
Perguntei-lhe—
: Você sabe fazer a ablução?
Ele respondeu—
: Sim, sim, eu sei. Antes, eu fazia regularmente a oração. Mas, quando me veem fazendo a oração, eles me prendem e me mantêm encarcerado.
Eu lhe disse—
: Meu filho! Quer eles o prendam na prisão ou lhe causem qualquer outro sofrimento, continue fazendo regularmente a oração. Allah estará sempre ao seu lado.
Ao ouvir minhas palavras, um brilho de luz celestial surgiu em seus olhos e em seu rosto. Ele disse, com entusiasmo—
: Sim, mãe, eu vou orar.
Exatamente naquele momento, um soldado espiou pelo orifício da porta e, enquanto chutava a porta, dirigiu-se a ele, dizendo—
: Ei, seu filho da puta, o que você está fazendo?
Ele respondeu—
: Que ele ainda não terminou a oração… Então o soldado bateu palmas e disse:
: Safwat está vindo… Foi ele quem me mandou para testar você.
Pouco depois, Safwat entrou como um cão raivoso e começou a açoitar aquele jovem soldado. Incapaz de suportar as terríveis chicotadas, ele caiu inconsciente. Outro carrasco veio, levou-o embora e a porta da cela tornou a se fechar. Fiquei profundamente triste porque aquele rapaz foi torturado apenas por minha causa, apenas para me dar um pouco de paz e uma oportunidade de descansar. Ele havia encontrado o caminho da satisfação de Allah, alcançado a visão da verdade e se recusado a obedecer às ordens do opressor. Ele havia criticado e condenado aqueles opressores cujo tormento me fazia definhar enquanto eu contava os momentos até a morte. E por isso teve de suportar um castigo terrível. Em meio a essa dor insuportável, ofereci naquele dia a oração do Asr.
Novamente na cela de ’água
Assim que o sol se pôs, os carrascos da prisão militar entraram em atividade. As paredes austeras da prisão estremeceram com suas gargalhadas cruéis e brutais. As nuvens da escuridão destruidora tornaram-se ainda mais densas e ameaçadoras.
Eles me levaram novamente, na escuridão da noite, para a cela de água. Meu estômago ardia de fome, meu peito parecia prestes a explodir de sede, e os golpes de chicote haviam tornado todo o meu ser amargo. Foi nesse estado de extremo cansaço que adormeci. Em meio ao sono, sonhei que várias pessoas, vestidas com roupas adornadas de pérolas e pedras preciosas sobre seda de um negro profundo, estavam ocupadas comendo frutas excelentes em recipientes de ouro e prata muito valiosos e bebendo bebidas requintadas. Sua toalha de mesa estava repleta de abundantes provisões. Assim que tive o sonho, despertei e esqueci completamente a fome e a sede. Já não sentia a menor fome ou sede. Parecia que acabara de comer. Agradeci infinitamente a Allah por essa sensação extraordinária. Permaneci preso durante três dias inteiros, sozinho e sem comer nada, submerso até o pescoço na cela de água. Depois, Safwat veio, entrou na água e, enquanto me empurrava com força, disse:
: Por quantos dias mais você permanecerá firme em sua arrogância? Já lhe disse: conte-me tudo e liberte-se disso. Conte toda a história de como planejaram o assassinato de Sayyid Qutb e Huzaybi Nasser. E você havia dito que Abdul Fattah Ismail deu a ordem para assassinar Nasser… Por que não conta tudo isso e o resto?
Eu lhe disse:
: Essas palavras são completamente absurdas. O que eu poderia dizer sobre um acontecimento que nunca ocorreu?
Ao ouvir minha resposta, ele voltou, xingando. Cerca de uma hora depois, Safwat voltou, tirou-me da cela de água, prendeu-me em outra cela vizinha e foi embora. Essa era justamente a cela onde Safwat havia ordenado a um soldado que me tratasse da maneira mais vil. Ao pensar nisso, tremi de medo e supliquei a Allah que me ajudasse a preservar minha honra e dignidade.
Pouco depois, Safwat Ibrahim voltou com um oficial militar e disse:
: O oficial falará com você.
O oficial mandou Safwat sair e disse-me:
: Tenha consciência do seu bem-estar e dos seus interesses; isso não seria melhor para você? Saiba que os opressores e tiranos não reconhecem Allah, o Deus. Eles não temem Allah. Você sabe o que aconteceu àquele soldado? Sim, naquele dia ele foi fuzilado por ter desobedecido à ordem de puni-lo. Agora eles estão formando, para lidar com você, um grupo de pessoas extremamente incivilizadas e acostumadas à prática de crimes. Meu conselho é que você aceite o que eles dizem e se proteja das garras desses selvagens bárbaros. Hassan al-Hudaybi, Sayyid Qutb e Abd al-Fattah Ismail são todos responsáveis por seus próprios erros.
Mesmo depois de ouvir as palavras persuasivas daquele oficial, permaneci em silêncio. Eu também considerava o que ele dizia uma fraude deliberada e mais uma conspiração para me chantagear. Eu estava indiferente ao fato de que, na verdade, uma tortura terrível e horripilante me aguardava.
O oficial militar…… provavelmente magoado, disse:
: Faça o que quiser, Safwat… Vejo que você está realmente irredutível…
Safwat entrou e, por hábito, primeiro me cobriu de insultos; depois disse:
: Abdun Nasser enviou um bando de demônios. Eles vão cortar você em pedaços e acabar com você. Por quanto tempo você conseguirá se proteger das mãos deles? O tempo está passando; a cada momento, você se aproxima mais do abismo da morte. Em seguida, ele fechou a porta da cela por dentro.
Depois da oração do Asr, eles me mandaram novamente para a cela de água. Após passar três dias naquela cela horrível, no quarto dia Safwat veio, tirou-me da água e me prendeu em outra cela. Naquela mesma tarde, depois do Asr, fui novamente enviado para a cela de água, e permaneci ali, caído na água, até as nove horas da manhã do quinto dia. Assim, todos os dias me mandavam de uma cela para outra, submetendo-me a tortura mental e física.
Na minha ce’la, o cadáver da bestialidade
Meu corpo e minha mente não estavam ilesos sob aspecto algum. Quanto dessa sequência contínua de abusos e tormentos pode um ser humano de carne e osso suportar? Não há precedente para esse tipo de tortura. Um tormento intenso, tanto físico quanto mental. Chicotes, chibatas, insultos, enganos e ameaças — tudo isso me era imposto diariamente, como parte da rotina. E aqueles que me atormentavam com esse sofrimento e essa dor desumanos também eram pessoas como eu. Eles também têm carne, sangue e coração. Mas o ambiente e o treinamento os transformaram de tal maneira que, hoje, na verdade, já não parecem humanos. À vista e ao ouvido, parecem seres humanos com braços e pernas. Mas, na realidade, são criaturas horríveis e distintas, sob a forma humana. Criaturas vis e aterrorizantes, completamente diferentes dos seres humanos ou dos outros animais. Uma criação vil e aterrorizante, completamente diferente dos seres humanos ou dos outros animais. Será que o propósito de criá-los também é diferente?
Tiraram-me da cela de água e levaram-me novamente à cela ao lado, onde o chicote de Safwat, recém-untado de óleo, me deu as boas-vindas. Ao ritmo das chicotadas, ele disse:
: O que será feito hoje com você não é feito nem mesmo com um cachorro.
Dizendo isso, fechou a porta e foi embora. Pouco depois, Hamza Bisyubi, Safwat e dois soldados entraram na cela.
Hamza, enquanto proferia insultos em linguagem obscena, disse: Huzayb, Sayyid Qutb e Abd al-Fattah Ismail admitiram, cada um, seus próprios erros e também deram sua confissão. Também soube, por meio de Huzayb, que ele havia mandado dizer, através de Abd al-Fattah Ismail, que era lícito matar Nasser, pois ele é um infiel.
Ao ouvir isso, parecia que o fogo jorrava de seus olhos ensanguentados. Furioso, disse:
Você deve saber que só vou deixá-lo depois de obter uma confissão sua. Fale… Vai falar ou não?
Em seguida, Safwat deu uma ordem:
: Safwat, explique a tarefa deles. E apontou para os soldados:
: Se algum filho da puta negligenciar a tarefa designada ou desobedecer à ordem, mandem-no ao meu escritório.
Depois disso, Safwat começou a ordenar aos soldados, de maneira extremamente vulgar e repugnante, que praticassem atos vis. Suas palavras ultrapassavam até os limites extremos da vergonha e do pudor.
Ele ordenou a um soldado:
: Feche a porta e faça o seu trabalho. Entendeu, filho da puta? …… E, quando terminar o seu trabalho, mande o seu companheiro para fazer o mesmo…… Entendeu?
Depois dessa ordem, ele foi embora.
Quando o soldado avançava gradualmente em minha direção, gritei com todas as minhas forças:
: Cuidado! Não avance nem mais um passo. Se tentar vir para a frente, eu vou matar você… Vou matar você… Entendeu? Apesar disso, ele continuava avançando como uma fera faminta. Depois disso, só me lembro de ter saltado sobre ele e apertado sua garganta com as duas mãos; então, com toda a minha força, dizendo “Bismillah—Allahu Akbar”, cravei os dentes com força em sua garganta. De repente, ele se soltou das minhas mãos e caiu no chão. Espuma, como espuma de sabão, saía de sua boca. Ele permaneceu inconsciente aos meus pés.
Eu estava exausta de fome e sede. Apesar de ser uma mulher indefesa, ferida e machucada por apanhar todos os dias, permaneci de pé como uma heroína. Fortalecida apenas pelo poder da fé, consegui empurrar uma fera tão poderosa e selvagem para as garras da morte. Ainda hoje fico maravilhada ao pensar de onde Allah fez brotar tanta força em meu corpo fraco e debilitado naquele momento.
Nesta batalha entre a verdade e a mentira, a mentira também foi derrotada. Foi uma vitória da verdade e da fé. É assim que a ajuda de Allah chega ao verdadeiro muçulmano. Por mais poderosos que sejam os seguidores da mentira, eles não conseguem resistir diante de um muçulmano desarmado que segue o caminho da verdade. Basta ter uma força de vontade inabalável e firme autoconfiança.
Ó Deus, como és misericordioso e compassivo. A Ti, minha eterna gratidão.
Eles sempre vieram lutar contra a religião de Allah, mas somente os crentes alcançaram o sucesso. O verdadeiro crente jamais fracassará.
Pouco depois, quando o chefe dos carrascos, Hamza Bisiubi Safwat, e os demais soldados abriram a cela e entraram, seus olhos pousaram sobre aquele animal prostrado. Sua boca ainda estava mergulhada em espuma.
Ao verem aquela situação, os inimigos de Allah ficaram estupefatos. Ficaram sem palavras, como mudos, e começaram a olhar uns para os outros. Depois, todos se retiraram com o rabo entre as pernas, como gatos molhados. Ao sair, trancaram-me novamente na cela da água.
Dos ratos para a água
Fiquei confinado na cela da água durante cinco dias seguidos. No sexto dia, tiraram-me da cela da água e levaram-me para a cela ao lado.
Enquanto aguardava os acontecimentos que viriam, minha paciência estava prestes a se esgotar. Também nesta cela, montanhas de diferentes tipos de opressão e tortura desabavam sobre mim. Permaneci indiferente a todo aquele sofrimento, absorto na contemplação de Allah. Passei o tempo todo sentado, encostado à parede da cela.
De repente, senti uma espécie de ruído de raspagem acima da minha cabeça. Olhei para cima e vi que, através do caminho do ventilador, estavam abrindo a boca de um saco e enviando centenas e milhares de ratos para a minha cela. Que cena terrível! Meu sangue parecia estar congelando. Comecei a recitar esta súplica:
Busco refúgio em Allah contra os perversos e as perversas. Ó Allah, afasta de mim o mal, como e da maneira que quiseres—
“Peço refúgio a Allah contra a astúcia de mulheres e homens enganadores. Ó Allah, afasta de mim todas as calamidades — somente Tu sabes onde está essa calamidade e como ela é.”
Enquanto recitava essa súplica, ouviu-se o chamado para a oração do meio-dia. Fiz o tayammum, realizei a oração e voltei a ocupar-me com a recordação de Allah. Assim, ouviu-se o chamado para a oração da tarde, e também realizei a oração da tarde.
Nesse momento, Safwat chegou. Antes que ele entrasse na cela, todos os ratos haviam escapado pelo caminho do ventilador. Surpreso, começou a lançar olhares pela cela. Não conseguia entender para onde tinham ido tantos ratos. Sem encontrar explicação, fechou-me na cela de água, praguejando contra mim de modo indistinto, e foi embora. Pouco depois, voltou trazendo Riyaz. Riyaz era um oficial de alta patente. Permanecendo do lado de fora da cela, tentava convencer-me. Ele disse:
: A organização dos Ikhwan estava tentando assassinar Nasser, tomar o poder e mudar o governo.
Protestei em tom inequívoco:
: Tudo isso é conversa fiada, mentira. Havíamos nos organizado para formar os jovens segundo o Alcorão e a Sunnah. Depois de compreender o Islã corretamente, tentávamos estabelecer um sistema de governo islâmico.
: Ainda estás repetindo a mesma coisa…? Então agora vais entender…… o que é castigo. Tudo o que sofreste até hoje foi apenas um castigo de nível inicial. Depois ele foi embora, e eu continuei caído na água. Permaneci assim durante oito dias naquela cela de água fechada. É impossível explicar a tristeza, o sofrimento e a agitação em que aqueles dias se passaram. Naquela época, qualquer pessoa que me visse poderia ter composto uma elegia.
No nono dia, Riyaz, Safwat e um oficial fardado vieram e me tiraram daquela água suja e fétida. Riyaz repreendeu-me e disse:
: Esta é a última oportunidade para a sua libertação. Ou confesse tudo, ou morra.
É verdade que o seu Allah tem o Inferno…… mas aqui Abdun Nasser também tem um Inferno e um Paraíso. O Paraíso e o Inferno de Jamal Nasser não são coisas imaginárias como o Paraíso e o Inferno do seu Allah; pelo contrário, são uma realidade concreta.
Eles me tiraram da cela de água, trancaram-me em outra cela ao lado e foram embora. Peço a Allah que me livre do mal dessas pessoas.
Enquanto eu estava ocupado em súplica, Safwat e Hamza, acompanhados de dez soldados da Biciubi e de um oficial, entraram na cela. Safwat perguntou a Hamza:
: Paxá! Qual é a sua ordem a respeito desta moça? Em resposta, Hamza perguntou aos soldados: — O que vocês vão comer?
: Os soldados responderam: Vamos tomar chá.
Hamza disse, furioso:
: Ah, que droga! Vão tomar chá, seus filhos de cadela? Chá não; Safwat, traga para eles bebidas alcoólicas, charas e haxixe — e tragam também o que mais quiserem — e deixem-na nas mãos deles. Que eles façam com ela o que quiserem; da minha parte, declaro meu pleno apoio.
Depois, eles trancaram a cela e foram embora. Eu estava fazendo a oração do Asr na cela. Enquanto estava em prostração, Safwat apareceu de repente, empurrou-me para fora e me levou à cela de água, onde me trancou.
Riyaz voltou e disse:
: Você quer permanecer puro e imaculado? Aqueles soldados foram especialmente preparados para castigá-la. Eles foram todos para os alojamentos. Amanhã mesmo voltarão e comerão sua carne, arrancando-a aos pedaços. Eles receberam injeções especiais no hospital. Agora estão como cães enlouquecidos. Tudo isso foi feito por ordem do presidente Nasser. Nasser não a deixará viva. Todos nós tentamos convencê-la da melhor maneira que podíamos. Quantas dificuldades enfrentamos para tentar fazê-la entender, mas você não abandonou a sua teimosia. Agora, diga-me, como pretende permanecer pura e imaculada? Fale, responda! Onde está o seu chicote, Safwat? Safwat começou a me bater, e Riyaz continuou a incitá-lo a bater ainda mais.
: Ó moça satyagrahi! Você por acaso imagina que, trinta anos após a sua morte, as pessoas construirão mesquitas e mausoléus em sua memória, reconhecerão seus grandes feitos na prisão e dirão: “Este é o memorial daquela Zaynab al-Ghazali que, mesmo tendo chegado ao limite da tortura carcerária, permaneceu firme em seus princípios de fé…” ? Mas você deve saber que nem mesmo o diabo, quanto mais as pessoas, perceberá como estamos tratando você e o que ainda faremos.
Apesar de estar atormentada pela dor e pelo sofrimento, ao ouvir suas palavras um sorriso de desprezo surgiu em meu rosto. Para reduzir a pó sua falsa arrogância e seu orgulho, sorri desdenhosamente e disse:
: Se o que você está dizendo fosse verdade, Allah Todo-Poderoso não teria nos mantido a salvo do mal de vocês; eu não poderia sequer rir sentada, como você diz, no chamado inferno de Abdun Nasser, e Allah não me daria forças para suportar tantas dores e sofrimentos… Na verdade, somos buscadores da verdade. Buscamos apenas a satisfação de Allah. Inshallah, seremos vitoriosos, e os dentes venenosos daqueles que vocês prepararam para morder e comer a carne do meu corpo serão quebrados.
Ao ouvir minhas palavras claras, Riyaz começou a olhar de um lado para o outro com olhos apreensivos. Safwat estava então em algum lugar um pouco mais distante. Ele começou a chamá-lo em busca de ajuda:
: Venha depressa, Safwat… Essa moça já começou a fazer um discurso. …Mal terminou de falar, Safwat veio correndo como um raio e, enquanto fazia o chicote estalar repetidamente sobre meu corpo coberto de feridas, disse a Riyaz:
: Senhor, deixe este comigo. Amanhã verá em que estado ele estará.
Depois, como todos os dias, eles fecharam novamente a cela de água e foram embora. Somente Allah sabe em que estado deplorável se encontravam então meu corpo e minha mente, sob tanta dor e sofrimento. Ninguém poderia sobreviver em tal situação. Mas continuo vivo somente pela força da fé.
Senti uma tristeza profunda pela situação calamitosa do país. Sob o domínio de um governante tirânico, a verdadeira situação do país era extremamente preocupante. O povo insatisfeito e inquieto estava indefeso diante de governantes cruéis, embriagados pelo poder; não havia nada que se pudesse chamar de lei ou ordem. O partido no poder fazia tudo o que bem entendia. Reinava uma terrível anarquia por todo o país.
Ao refletir sobre o país e ver sua situação calamitosa, minha própria dor e sofrimento pareceram insignificantes em comparação; contudo, psicologicamente, minha tristeza pareceu aumentar várias vezes. O país inteiro me parecia um campo de prisioneiros, e Hamza, Safwat e Riyaz passavam o rolo compressor da opressão sobre a população inocente de todo o país. Reinava um estranho domínio de medo, pavor e terror. Essas pessoas eram apenas nomes diferentes do mesmo grupo. Por natureza e caráter, eram todos iguais, desde o presidente até o carrasco. Eram eles que saqueavam e exploravam o país e seu povo, negociando os interesses maiores da nação com potências estrangeiras.
Ah, país! Meu desafortunado país…… Não, não, por que digo que serás desafortunado? Pois teus filhos possuem o tesouro inestimável do Alcorão e da Sunnah. Firmes em seus princípios de Tawhid e Risalat, estão decididos a promover o renascimento. Mesmo que anciãos como eu cheguem ao fim…… uma geração de jovens está avançando. Sua bandeira da vitória está erguida em teu coração, com a promessa de estabelecer a religião de Allah. Hoje talvez reine o domínio de Satanás, mas num futuro próximo o governo de Allah será estabelecido em teu seio; a escuridão de hoje passará, e amanhã surgirá o dourado sol de uma nova era…… O ser humano voltará a prostrar-se diante de seu verdadeiro Senhor.
Da cela de água ao advogado
Peço desculpas por mencionar repetidamente acontecimentos do mesmo tipo. Mas também não se pode negar a necessidade de apresentar fielmente as coisas tal como aconteceram. Por isso, embora todos os acontecimentos sejam em grande parte semelhantes, estou relatando-os.
Enquanto suportávamos esses abusos na prisão, qual era a situação do meu país, o Egito? Pode dizer: uma situação terrível. O povo vivia constantemente aterrorizado; ninguém tinha segurança na vida. Em toda parte triunfavam a força, a tirania e a opressão. Os que estavam fora das celas temiam ainda mais. Saques, assassinatos, assaltos e roubos ocorriam sob o patrocínio do governo. Capangas contratados e criminosos inescrupulosos haviam sido espalhados por toda parte para subjugar o povo. Com seus abusos desenfreados, a vida, os bens e a honra da população haviam se tornado sem valor. Eles não compreendiam o significado de honestidade nem de civilidade. Para eles, não tinham valor a dignidade, a honra ou a educação. Pensadores, intelectuais, escritores, jornalistas, poetas, sábios religiosos, professores, líderes populares e até oficiais militares de caráter íntegro eram humilhados e maltratados pelas mãos daqueles criminosos. Mas ninguém tinha condições de proferir sequer uma palavra. Pois o próprio presidente Nasser liderava esses grupos de criminosos e antissociais.
Adolescentes, jovens, idosos, mulheres e homens — sem exceção, todos os cidadãos pacíficos do país eram assim maltratados. Eles também atiçavam seus agentes contra pessoas de posição respeitável. E, se alguém ousasse protestar contra essas injustiças, era preso sob alguma acusação, açoitado, lançado no meio de uma matilha de cães e, por fim, acabava chegando até a cela dos condenados à forca. Essa era a situação geral do Egito durante o governo de Nasser. Enfim, bem cedo, no nono dia, Safwat veio, tirou-me da cela da água e disse:
: Você está sendo levado ao advogado An-Nayabata. Sua sentença já foi proferida. No entanto, se quiser, ainda pode salvar-se. Depois, ameaçou-me, dizendo:
: Certamente você está ciente de nossas intenções. Agora veremos o que você dirá diante do advogado. Enquanto dizia essas coisas, começou a arrastar-me como um animal. Eu lhe disse:
: Veja, as roupas que estou vestindo estão completamente rasgadas. Já não servem para vestir. …… Traga-me minhas outras roupas.
Sem dar muita importância às minhas palavras, ele disse:
: Isso veremos; porém, se você disser, a respeito de Hassan al-Hudaybi e Sayyid Qutb, que eles estão tentando assassinar Abdel Nasser e tomar o poder…… então lhe trarei um cobertor.
Eu disse:
: Não, não, isso é mentira.
Então ele disse:
: Então continue nua. Vamos ver se o seu Islã pode cobrir a sua vergonha! E que os membros da Irmandade também a vejam nessa mesma condição.
Ao ouvir essas palavras da boca daquele bárbaro incivilizado, eu disse:
: Sem dúvida, Allah é o amparo dos desamparados, o Misericordioso, o Onisciente e o Justo.
Fui retirada da prisão militar e levada a uma sala espaçosa de outro edifício. Um cavalheiro estava sentado no meio da sala. Mais tarde soube que ele era Jalal Adib. Ele lançou-me um olhar e disse:
: Sente-se.
Fui sentar-me numa cadeira do outro lado da mesa. Ao começar a conversa, ele disse:
: A senhora é a célebre líder do movimento islâmico, Zaynab al-Ghazali. Por que a senhora adotou pessoalmente tal posição? Está feliz na situação em que se encontra? Veja, sou muçulmano e seu amigo; vim justamente com o objetivo de salvá-la desta situação. Meu nome é Fakhruddin al-Nayyabata. Não consigo sequer imaginar que uma líder célebre como Zaynab al-Ghazali esteja sentada diante de mim em tal estado. Espero sinceramente que a senhora coopere comigo em seu esforço para libertar-se disso.
Eu lhe respondi:
: Veja, eu certamente direi o que é verdade e o que agrada a Allah. Dou-lhe minha palavra, jurando por Allah.
Ao ouvir minhas palavras, as rugas de sua testa se franziram. Ele perguntou, com certa irritação:
: Qual é a sua idade atualmente?
: Nasci em 2 de janeiro de 1971.
Ao saber da minha idade, ele disse, estupefato:
: Olhando para você, pensei que tivesse pelo menos noventa anos. Uff, diga-me, por que veio parar nesta situação deplorável? Em resposta, falei calmamente:
: O que Allah destinou para nós certamente acontecerá. Allah é nosso maior amigo, e somente Ele é a última esperança de todo mu’min muçulmano.
Ele disse com compaixão:
: Parece-me que até falar lhe causa grande dificuldade.
Permaneci em silêncio. Em seguida, ele perguntou:
: Em que assunto você e Abd al-Fattah Ismail haviam concordado?
: Havíamos concordado quanto à formação islâmica dos jovens e ao ensino do Alcorão e da Sunna. Isso era indispensável para resolver os problemas sociais atuais.
Ele me interrompeu e disse:
: Veja, não vim ouvir um discurso; quero apenas uma explicação dos acontecimentos reais. O senhor Huzaybi pediu que você levasse uma mensagem a Abd al-Fattah e outra mensagem a Sayyid Qutb; quais eram essas mensagens? Acho que minha pergunta é muito clara. O que me diz?
Desta vez, eu disse:
: Pedi ao Murshid-e Aam Huzaibi autorização para incluir, como tema das reuniões de estudo coletivo dos jovens, algumas obras fundamentadas no Alcorão, no hadith e no fiqh, como Al-Muhalla, de Ibn Hamza, as obras de Ibn Abd al-Wahhab e Kitab al-Tawhid, de Ibn Taymiyya, além dos escritos de Sayyid Qutb. Entre os jovens, o irmão Abdul Fattah também estava incluído.
O advogado disse, com um sorriso abatido:
: Não, Zaynab, não fale dessas coisas; diga o que realmente aconteceu. Tente salvar a si mesma. Conte-me os fatos verdadeiros.
Eu disse:
A verdadeira questão e o verdadeiro objetivo são a reconstrução completa e o renascimento dos descendentes do Profeta, isto é, da comunidade muçulmana. Desta vez, ele disse com ênfase:
: Todos eles admitiram os próprios erros e colocaram você em perigo. Eu disse, com minha habitual voz grave:
: Allah me manterá, assim como a eles, em segurança. Não voltaremos para a mentira.
Em resposta, ele disse, exaltado.
: Tenho a impressão de que o senhor só quer continuar exibindo o poder de sua eloquência. O senhor sofre de autoengano; até mesmo o tribunal superior não consegue chegar a um acordo com o senhor. Naquele momento, eu não tinha forças para dizer a verdade. Estava sofrendo demais; mas, ao ouvir seu discurso sobre o tribunal superior, fui obrigado a falar.
: Se o tribunal superior estivesse consciente e atento às suas responsabilidades e deveres, então……
Ele me interrompeu, tomando a palavra, e disse-
: Pare! Agora vejo que o senhor também está prestes a dizer todo tipo de coisa sobre o tribunal superior do Egito……
Em seguida, chamou Safwat, que estava de pé junto à porta, e disse-
: Não adianta, Safwat! Ele chegou até a insultar o tribunal.
Safwat parecia estar esperando. Ele me puxou e arrastou, olhou para o advogado e perguntou-
: Onde, senhor?
O advogado disse: “Em direção à água.” Depois, voltei novamente ao campo de flagelação incessante, entre a água e Safwat. Dessa vez, ele começou a me torturar de uma maneira nova, ainda mais cruel, impiedosa e descarada. Porém, quanto mais intensa se tornava a sua brutalidade, mais crescia a minha proximidade com Alá.
Que Alá proteja os muçulmanos das mãos desses opressores vis, cruéis e estúpidos.
Comida e chicote
Depois da oração do Asr, no décimo dia, abriram a porta da cela, tiraram-me da água e entregaram-me a dois outros carrascos, dizendo:
: Deixem-no na cela número três.
Ao chegar à cela número três, caí no chão como um cadáver sem vida. Meu corpo, inchado de tantos golpes, havia ficado redondo como uma bola de futebol. Parecia que minha alma estava prestes a abandonar o corpo. Naquele momento, eu não tinha sequer forças para gemer. Entreguei minha vida e minha alma a Alá, o Misericordiosíssimo. Permaneci caído, confiando somente no grandioso Alá, em cujas mãos estão as chaves do controle de todo o universo.
Não sei por quanto tempo permaneci naquele estado de inconsciência e semiconsciência. De repente, ouvi uma enorme algazarra do lado de fora da cela. Com muita dificuldade, avancei até a porta e, olhando para fora pelo buraco, vi uma grande multidão de irmãos ikhwan em fila. Cada um segurava uma tigela. No início da fila, um soldado colocava um tipo de alimento líquido nas tigelas deles. Quando avançavam para receber a comida, outro carrasco chicoteava as costas de cada um. Talvez ninguém jamais tivesse sequer imaginado antes aquela cena dilacerante: comida e chicote sendo oferecidos ao mesmo tempo. Ai, que tirania!
E não era só isso. De cada lado da fila dos ikhwan, havia também duas fileiras de soldados posicionados com chicotes. No caminho de volta, levando a comida nas tigelas, os ikhwan também suportavam os golpes violentos dos chicotes daqueles soldados. Assim, em troca de um punhado de alimento, eram obrigados a pagar o preço, suportando incontáveis golpes de chicote. Um dos carrascos percebeu que eu havia observado aquela cena trágica escondido. Imediatamente, avançou contra mim como uma fera enlouquecida e começou a me desferir socos e pontapés tão violentos que caí novamente no chão, inconsciente.
O malvado Safwat e um de seus assistentes, depois de muito esforço, fizeram-me recobrar a consciência. Vi em suas mãos um recipiente com um pouco de lentilhas de cor preta. Dela exalava um odor extremamente fétido. Safwat me disse:
: Coma isto. Se não comer, serão dez chicotadas—
Eu disse:
Deixe aí. Eu vou comer.
Safwat disse ao seu assistente:
: Se ele não comer isto dentro de dez minutos, dê-lhe dez chicotadas e venha informar-me. Passei aquela noite também em meio a extremo sofrimento, dor e inquietação.
No hospital
No décimo primeiro dia, Safwat abriu a porta da cela, chamou alguém de dentro e disse:
: Doutor Majed, entre.
O doutor Majed entrou vestindo uniforme militar, acompanhado de seu auxiliar, o soldado Abdul Mabud. Naquele momento, sangue e pus saíam dos meus pés. Além disso, o estado de todo o meu corpo era deplorável: feridas e lesões, acompanhadas de dores insuportáveis.
O doutor Majed disse ao seu auxiliar: «Limpe muito bem os dois pés dele, retire todo o sangue contaminado e o pus de dentro deles e leve-o rapidamente ao hospital». Depois, os dois carrascos deixaram-me no hospital.
Novamente nas garras de Shams
Só me permitiram permanecer um dia no hospital. Eles não conseguiam ficar tranquilos sem me infligir agressões físicas e mentais. Assim, a intensidade das punições recomeçou. Desta vez, porém, mudaram-me de lugar e fui mantido na própria prisão do hospital. Apesar de a tortura continuar, eu sentia uma paz relativamente maior na prisão do hospital. Por isso, agradeci a Allah. Eu desejava intimamente que minha permanência na prisão do hospital se prolongasse. Pensava que, com isso, minhas feridas poderiam cicatrizar e a dor nos ossos diminuir. Mas, ai de mim! Os carrascos não permitiram que nem mesmo essa pequena esperança se realizasse. Levaram-me novamente àquele inferno amargo e venenoso.
O carrasco começou a levar-me ao escritório de Shams Badran. Eu avançava com extrema dificuldade. Nem sequer tinha forças para sustentar o peso do próprio corpo. Ainda assim, eles não hesitaram em açoitar-me naquele estado. Ao menor sinal de lentidão no caminho, seus chicotes e correias se ocupavam de mim. Não consegui caminhar do hospital até o escritório de Shams Badran. Por causa da fraqueza, desabei no chão. Mas os carrascos não me deixaram ficar caído. Arrastaram-me pelo chão até me levar ao escritório de Shams Badran.
Assim que o assassino e tirano Shams Badran pôs os olhos em mim, chamou Safwat e, tomado pela raiva, começou a fazer estranhos movimentos e contorções. Parecia estar atuando diante de uma câmera. Seu rosto havia se deformado de raiva, e seus olhos pareciam vermelhos como carvão em brasa. Chamou Safwat e, apontando com o dedo a partir do lado oposto, disse:
«Pendure-o imediatamente de cabeça para baixo e dê-lhe quinhentas chibatadas». Barbárie sobre barbárie. Somente homens como Shams Badran poderiam dar um exemplo de tamanha violência e crueldade. Seguindo as ordens de seu senhor, Safwat pendurou-me e começou a completar as quinhentas chibatadas, contando uma por uma. Eu invocava Allah, Allah, em meio a uma dor insuportável. Shams Badran zombava, dizendo: «Onde está o teu Allah, a quem estás chamando? Se Allah realmente existisse, certamente te ajudaria. Vê, chama Abdun Nasser; ele te ajudará imediatamente». Então proferiu afirmações tão insolentes sobre Allah que nenhum muçulmano poderia suportá-las. Quando as quinhentas chibatadas terminaram, baixaram-me e fizeram-me ficar de pé. Naquele momento, o sangue escorria abundantemente pela minha perna ferida. Ao ver isso, Shams Badran disse: «Dêem-lhe um castigo ainda mais severo; esse será o tratamento para a perna dele». Pouco depois, apoiei-me na parede e sentei-me, vencido por uma exaustão insuportável. Ao ver isso, Safwat tentou puxar-me e pôr-me de pé com toda a força. Mas não conseguiu.
Nesse exato momento, Hamza, a pior fera da prisão militar, veio e disse:
: Isso tudo é encenação.
Depois, não sei o que aconteceu. Porque fiquei inconsciente. Quando recobrei a consciência, estava ao lado do médico. O médico estava aplicando uma injeção no meu braço. Depois de aplicar a injeção, o médico ordenou-lhes que me dessem uma xícara de suco de laranja. Mas quem obedecia às ordens do médico? Shams Badran me disse:
: Não adianta continuar teimando assim. Faça o que queremos; caso contrário, você será pendurada de cabeça para baixo e espancada, não uma, duas ou três vezes, mas centenas de vezes. Não pense que somos incapazes de arrancar de você as palavras. Na verdade, estamos apenas lhe dando uma oportunidade, entendeu? Mesmo que a enterrássemos viva, ninguém viria perguntar por que fizemos isso. Quem nos impediria?
Eu disse:
: O que Allah quer, acontece. Para obter a satisfação de Allah, rendemos-Lhe graças somente a Ele.
Ao ouvir isso, ele se inflamou e disse —
: Não diga esse tipo de coisa diante de mim.
Hasan Khalil também me aconselhou, dizendo:
: Use a razão, menina. Nenhum membro da Irmandade virá em teu socorro aqui. Eles próprios estão desnorteados diante dos seus problemas. Só querem se livrar disso de algum modo. Depois, tirou papel e caneta e disse, em tom de conselho:
: Safwat! Leve-a ao hospital e deixe-a escrever livremente sobre a Irmandade; ela deverá escrever em detalhes como e de que maneira entrou em contato com os membros da Irmandade. E escreva também como se chegou ao consenso para assassinar Abdun Nasir, além de todos os nomes dos membros da Irmandade que conhece.
A caminho do hospital, Safwat ordenou que eu andasse mais depressa. Mas eu estava como uma criança que mal começava a dar os primeiros passos. Por isso, Safwat começou a me açoitar repetidamente enquanto caminhávamos, dizendo:
: Este é o tratamento para as tuas pernas.
Só Alá sabe como consegui chegar até o quarto do hospital. Enquanto me entregava papel e caneta, Safwat disse:
: Ei, pequeno membro da Irmandade! É claro que sabes qual é o nosso objetivo. Por isso estou te dizendo: não há necessidade de filosofar. Escreve exatamente o que sabes. Escreve como tentaste assassinar Jamal Nasir e tudo o mais… Enquanto falava, fechou a porta e foi embora.
Como eu tinha bolhas nas duas mãos, era difícil segurar a caneta. O primeiro dia passou assim. Não escrevi sequer uma letra. Quando Safwat veio buscar meu depoimento escrito e viu o papel em branco sobre a mesa, disse:
: Para salvar sua vida, deixarei novamente alguns papéis. Ele foi embora exatamente como havia chegado.
Por fim, comecei a escrever mesmo com as mãos doloridas. No terceiro dia, Hamza Bisiubi veio, reuniu todos os papéis e os levou. Passei o dia inteiro em extrema agitação. Por causa da dor nos pés, não conseguia sentar, ficar de pé nem dormir. Cada osso doía. Era uma situação completamente insuportável. Safwat veio pelo mesmo caminho, trazendo mais dois soldados para me levar ao escritório de Shams Badran. Assim que entrei na sala de Shams Badran, ele lançou sobre mim um olhar furioso e começou a gritar horrivelmente; depois rasgou em pedaços os papéis que eu havia escrito, jogou-os na lixeira e disse:
: Minha pobre menina, será que todas essas punições ainda não foram suficientes para você? …… O que foi que você escreveu? Tudo isso é bobagem……… Então chamou Hamza e disse:
: Aplique-lhe o chicote.
Hamza e Khalil disseram em uníssono:
: Não, Paxá; seria melhor mandá-la para a cela dos cães, entre os cães ferozes. Shams Badran disse em tom exaltado:
: Então tragam os cães para cá—
Safwat e seu companheiro trouxeram dois dos cães mais ferozes, especialmente treinados na prisão militar, e os apresentaram. Shams Badran ordenou que soltassem os dois cães sobre mim. Ambos os cães me atacaram com suas presas venenosas e suas patas. Os dentes e as garras cravaram-se por todo o meu corpo. Sem outra saída, pedi a ajuda de Allah e supliquei — Hasbunallahu wa ni’mal wakil — Ó Allah, protege-me de todos os perigos.
De um lado, as mordidas e as unhadas dos cães; de outro, os insultos obscenos proferidos por Shams Badran continuavam a dilacerar igualmente meu corpo e minha alma. Enquanto isso, continuavam as ordens:
: Escreve que decidiste assassinar Jamal Naser… Como vocês queriam matá-lo?
Desta vez, soltaram mais um cão. O ataque de três cães ferozes, suas mordidas venenosas e golpes de suas patas. E eu, uma mulher indefesa, atormentada pela fome e pela sede, desesperada com a dor e o tormento dos açoites. Mas, pela misericórdia de Allah, recebi forças para suportar tudo.
Quando Shams Badran e seus companheiros viram que nem mesmo os cães conseguiriam fazê-los alcançar seu objetivo, Shams Badran gritou furiosamente para Safwat:
: Leva-a e continua a açoitá-la.
Seu corpo tremia de raiva. Pouco depois, o médico chegou. Depois de examiná-la, o médico proibiu que continuassem a açoitá-la, pelo menos naquele dia, e disse:
: Ela já não tem forças para suportar mais golpes.
Shams Badran disse a Hamza:
: Deixem-na na cela número vinte e quatro. Depois quero ver o cadáver dela. Fui enviada para a cela número vinte e quatro. Nunca tinha vindo aqui antes. Ao entrar na cela, estremeci de horror. Bem no centro da cela ardia um fogo dentro de um círculo. Ao redor dele, um grupo de carrascos permanecia de pé, com chicotes nas mãos. Eu observava, aterrorizada, aquela cena infernal.
De repente, um carrasco me golpeou com o chicote e ordenou que eu entrasse no círculo ao centro. Quando me aproximei do fogo, outro carrasco me afastou com uma chicotada. Assim, todos juntos me obrigavam a correr ora em direção ao fogo, ora em direção à parede. Era como se uma chuva de chicotadas caísse sobre mim. Os golpes do chicote e o calor do fogo criaram uma situação de dor indescritível; durante duas horas inteiras, continuei queimando e sendo açoitada naquela cela de fogo.
Depois, Hamza Bisiubi veio e, lançando-me um olhar furioso, disse:
: Escreva que vocês queriam matar Abdun Naser. …… Caso contrário, você será lançada neste fogo e morrerá queimada.
Sem responder a palavra alguma, permaneci fiel aos meus princípios, gritando em silêncio e chorando sem lágrimas. Por fim, desmaiei novamente. Recuperei a consciência outra vez no hospital.
Cenas dramáticas de tortura
Certa manhã, quando me tiraram do quarto do hospital, fiquei surpresa ao ver alguns fotógrafos à minha frente, preparados com suas câmeras. Mandaram que eu me sentasse numa cadeira, cruzasse as pernas e levasse um cigarro à boca. Pelo visto, tornara-se muito importante tirar uma fotografia minha dessa maneira.
Eu disse:
: Impossível; quanto a colocá-lo na boca, nem pensar: eu nem sequer tocarei no cigarro.
Em resposta, eles encostaram pistolas na minha cabeça e nas minhas costas e disseram:
: Se não puser o cigarro na boca, acabaremos com você. Sem me importar com as pistolas deles, recusei-me novamente a pegar no cigarro e continuei recitando a declaração de fé. Eu disse:
: Façam o que quiserem; em circunstância alguma tocarei no cigarro. Então eles me açoitaram violentamente. Depois encostaram novamente a pistola exatamente na minha garganta e disseram:
: Você terá de pôr o cigarro na boca.
Mas continuei recusando repetidamente.
Por fim, quando entenderam que não conseguiriam fazer-me tocar no cigarro, simplesmente tiraram as fotografias e foram embora.
No dia seguinte, eles vieram e disseram:
: Você terá de dizer diante das câmeras de televisão aquilo que lhe ensinarmos. Dito isso, mandaram que eu decorasse toda sorte de falsas acusações contra a Irmandade. Eu lhes disse:
: Se eu tiver de dizer alguma coisa pela televisão, o que direi será:
“Gamal Nasser é um incrédulo, um kafir, e está travando uma guerra contra o Islã. É por isso que nos opomos a ele. Pois ele se recusou a governar à luz do Alcorão e chamou o Islã de reacionário. Culpou a religião pelo atraso e pela pobreza. Para elaborar suas leis e administrar o governo, adotou todas as normas e regulamentos do comunismo e do ateísmo. Segundo ele, a vida nada mais é que rebelião contra Deus e luxo materialista. É por isso que travamos com ele uma luta defensiva, em defesa da justiça e da verdade. Ao ouvirem minhas palavras, disseram:
: Como você tem coragem de fazer uma declaração tão destemida, mesmo vendo que o cano de uma pistola está encostado em seu ombro e em suas costas? Diga o que disser, você terá de dizer diante da televisão aquilo que estamos mandando.
Eu disse:
: Ontem, apesar de todas as tentativas, vocês não conseguiram fazer com que tocássemos nos cigarros diante dos jornalistas e dos fotógrafos de imprensa. Como puderam imaginar, então, que hoje eu diria mentiras absurdas por medo das pistolas de vocês? Não; juro por Deus que não nos curvaremos diante da mentira. Somos seguidores de um ideal. Somos servidores da ummah muçulmana e herdeiros do Alcorão. Depois de fracassarem em alcançar seu objetivo, começaram a me açoitar. Depois de me chicotearem por bastante tempo, levaram-me de volta e me deixaram na cela.
Cela número trinta e’dois
Penso, com enorme espanto, em uma coisa: se eles realmente me prenderam por algum crime específico, por que estão tentando obter de mim tantas confissões? Por que exigem que eu confesse que concordei em matar Nasser ou que fui eu quem planejou isso? Se eles têm em seu poder as provas do meu crime, por que todo esse assédio desnecessário, essa coerção e essa violência? Estão me exigindo confissões tão absurdas que elas não existem em lugar algum, exceto na imaginação deles. Na verdade, o objetivo dessas prisões e dessas torturas e perseguições desumanas não seria simplesmente desestabilizar, dessa forma, o movimento islâmico e sua influência? Assim que me viu, expressou surpresa fingida e disse:
: Ei, você ainda está vivo? Hamza, eu não te disse que quero ver o cadáver dele?
Hamza disse em tom suplicante—
: Perdoe-me, Paxá! Agora estou pronto para obedecer a qualquer ordem que o senhor me der.
Shams Badran disse, dirigindo-se a mim—
: Então escreva……
Eu disse—
: Não escreverei nada além dos acontecimentos reais. Então por que vocês simplesmente não me matam? Talvez, pela vontade de Deus, seja a minha morte de mártir.
Hasan Khalil disse—
: Nós jamais deixaremos que você se torne um mártir.
Eu disse:
: O martírio vem como um presente de Deus. Ele certamente o concede àquele para quem o destinou.
Shams Badran disse, irritado:
: Safwat, pendure-o e dê-lhe quinhentas chibatadas…… Vejamos quem é o Deus dele!
Assim que receberam a ordem, os torturadores cumpriram a determinação de me pendurar de cabeça para baixo e aplicar quinhentas chibatadas. Eles não tinham sequer a oportunidade de pensar que aquele pobre infeliz não era capaz nem de suportar golpes corriqueiros. Quando terminaram de me açoitar, mandaram-me de volta para a cela. Ele fez um gesto para que eu me sentasse numa cadeira e disse:
: Você nos considera muito cruéis e desprovidos de sentimentos. No entanto, ficamos profundamente comovidos ao ver o seu estado. Sabe que meu pai é professor da Universidade de Al-Azhar……
Sem dizer palavra, fiquei olhando para ele em silêncio, com profundo desprezo.
Ele voltou imediatamente à sua verdadeira natureza e disse, repreendendo-me:
: Hamza, deixe-o na cela número trinta e dois.
Ao entrar na nova cela, vi que uma estrutura de madeira havia sido colocada paralelamente sobre dois pilares altos de madeira, e nela haviam sido fixados dois grandes anéis de ferro. Os carrascos me fizeram ficar de pé sobre uma cadeira e mandaram que eu segurasse os dois anéis com as duas mãos. Depois de me golpearem com o chicote, assim que segurei os dois anéis, retiraram a cadeira debaixo dos meus pés. Fiquei pendurado no vazio, segurando os anéis. Assim que eu caía no chão, os carrascos avançavam com o chicote e me penduravam novamente daquela maneira. Eu caía outra vez; e esse cruel exercício continuou assim por três horas.
O valor da fé e a humilhação da mentira
Levaram-me novamente ao escritório de Shams Badran. Com um gesto teatral, Shams mandou que eu me sentasse na cadeira ao lado. Depois que me sentei, Jalal e Hasan Khalil começaram a tentar convencer-me a dar uma declaração escrita de acordo com a vontade de Pasha. Diziam que isso seria supostamente benéfico para mim.
Eu disse a ambos:
: Não posso escrever nada sobre aquilo que não sei. Eles disseram:
: Nós sabemos de tudo. Os Ikhwan já contaram tudo.
Em seguida, ordenou a Jalal que abrisse os arquivos e lesse as supostas declarações de Majid Shadli e dos Ikhwan. Seguindo suas instruções, Jalal leu primeiro a declaração de Ali Usmabi. Fiquei estarrecido! Depois que todas as declarações foram lidas, Shams perguntou, balançando a cabeça:
Qual é a sua opinião sobre essas declarações?
Respondi imediatamente:
Não passam de mentiras, invenções e calúnias.
Shams Badran disse:
Você tomou a iniciativa de reorganizar os Ikhwan — quer negar isso? No entanto, ficou claramente provado pelas palavras dos seus companheiros que foi você quem lançou as bases para a refundação dessa organização……… Jalal, então leia a declaração de Huzaibi, por favor!…… Mas logo em seguida disse:
Está bem, pare, pare, deixe essa de lado. Por enquanto, faça-me ouvir apenas a declaração de Abdul Fattah Ismail.
Depois que ela foi lida, Shams me perguntou: e agora, qual é a sua opinião……?
Depois, Jalal começou a abrir os arquivos um após o outro e a ler uma confissão de cada vez. Quando terminou de ler tudo, Shams me disse:
: Qual é a sua opinião sobre tudo o que ouviu……? Agora diga: você escreverá tudo o que quisermos?
Respondi firmemente:
Tudo é inventado, um completo absurdo.
Ele perguntou com um sorriso de quem sabe das coisas:
: Então, qual é a verdade?
Eu disse:
: Na minha opinião, a confissão de Ali Usamabi que foi registrada está errada. Quanto aos demais membros da Irmandade, digo que são defensores da verdade e verazes. E essas declarações e confissões redigidas em seus nomes não passam de falsas calúnias contra eles.
Shams chamou Hamza e disse:
: Agora pendure este homem de cabeça para baixo e traga Ali Usmabi. Ali Usmabi chegou usando roupas claras, limpas e bem cuidadas. Seu cabelo estava cuidadosamente penteado; não havia em seu corpo ou rosto qualquer sinal de punição ou sofrimento. Ao observá-lo e compará-lo comigo e com os demais prisioneiros, não tive outra escolha senão acreditar que aquele homem havia traído os outros e, ao prestar falso testemunho contra os Ikhwan, caíra na conspiração daqueles mentirosos e brutos. Eles não respeitam princípio algum nem religião alguma. E ele também, tendo se tornado vítima de Shams Badran, juntara-se ao grupo de Nasser.
Shams Badran perguntou-lhe:
: Muito bem, Ali! Quando você foi à casa de Zaynab al-Ghazali pela última vez, o que recebeu dela e o que ela lhe disse?
Usmabi disse:
: Ela me deu mil guinéus egípcios e disse que eu deveria levar esse dinheiro a Ghada Ammar, para que ela o entregasse à casa de Huzaybi ou de Sayyid Qutb…… Se eu fosse preso, caso precisasse do dinheiro, deveria entrar em contato com Ghada Ammar ou Hameeda. Elas sabem onde o dinheiro está.
Shams Badran perguntou-me:
: Quanto dinheiro havia, Zaynab? E por que você estava tão assustada por causa dele?
Eu disse:
: Os companheiros do Ikhwan que se encontram no Sudão e na Arábia Saudita enviam quatro mil jinih como contribuição para ajudar as famílias dos irmãos presos. Além disso, mil jinih são gastos para ajudar estudantes pobres que frequentam escolas e faculdades, pagar aluguéis e outras despesas… Foi nas mãos do homem que está dando testemunho diante de você que foram enviados mil jinih. Para custear as despesas da família do irmão Abdul Fattah Ismail…
Desta vez, Shams perguntou-lhe:
: Ali! O que você comeu da última vez na casa de Zaynab al-Ghazali? Ali Usmabi respondeu:
: Ela cozinhou fígado, serviu um prato cheio de arroz e disse: “Coma, Ali! Allah o ajudará.”
Shams disse:
Está bem, basta! Agora vá, Ali. Ali saiu, tendo conquistado a satisfação de Shams Badran.
Shams então disse a Hamza:
: Tragam Abdul Fattah Ismail.
Pouco depois, Hamza apareceu trazendo Abdul Fattah Ismail. Nos olhos de Abdul Fattah Ismail brilhava o atraente fulgor de uma personalidade austera. Na prisão, ele vestia roupas completamente rasgadas. As marcas das torturas desumanas a que fora submetido eram visíveis por toda parte. Ao chegar e ver-me, cumprimentou-me com a natural humildade. Eu também respondi à sua saudação.
Shams perguntou-lhe:
“Abdul Fattah! O que você fazia na casa de Zaynab al-Ghazali e por que ia até ela? Abdul Fattah respondeu com voz corajosa.”
Ela é minha irmã islâmica no caminho da satisfação de Allah. Nós nos ajudamos mutuamente na tarefa de transmitir aos jovens muçulmanos os ensinamentos do Alcorão e da Sunnah. Naturalmente, nosso objetivo era mudar o governo e estabelecer um governo islâmico no lugar do governo partidário da falsidade.
Ao ouvir suas palavras, Shams Badran enfureceu-se e disse:
Então você começou um sermão? Por acaso não sabe que não está de pé sobre um púlpito?… Saia… saia.
Abdul Fattah Ismail saiu exatamente como havia entrado. Ao partir, cumprimentou-me, e eu respondi:
“E sobre vós a paz, a misericórdia de Allah e Suas bênçãos.”
Shams Badran continuou a proferir insultos abomináveis como um louco…… No entanto, ao ouvir as palavras claras, nobres e dignas de uma grande personalidade de Abdul Fattah Ismail, senti sinceramente alívio e paz. Um verdadeiro mujahid, sem dúvida! Ele permanece firme e inabalável nos princípios da verdade, apesar de todos os perigos. Infinitos agradecimentos a Allah por ainda existirem pessoas tão fiéis à verdade mesmo nesta era moderna de ignorância. Roguei a Allah por ele. O que importa se pessoas como Ali Usmavi cometem traição? Milhares de soldados da verdade continuam avançando com paciência e coragem na caravana dos mujahidin pelo caminho de Allah.
Ao ouvir os gritos de Shams Badran, fiquei alerta. Ele gritava:
: Levem esta moça. Tragam-na novamente à minha presença pela manhã, junto com o documento escrito.
Hasan Khalil Safwat deu papel e caneta, e fui enviada para a sala do hospital. Com o papel e a caneta nas mãos, eu me perguntava: o que escreveria? O que eles queriam? Queriam que eu escrevesse contra o meu Allah e contra Sua religião? Não, juro por Deus, isso jamais acontecerá. Escrevi:
: Seguimos o caminho indicado por Allah, unidos sob a bandeira do Alcorão; não há outra divindade além de Allah. O amado Profeta, Hazrat Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), é o último Mensageiro de Allah. Em nenhum momento e sob nenhuma circunstância associaremos alguém a Allah. Somente a Ele adoraremos e somente a Ele prestaremos culto. Ó nosso Allah! Concede-nos coragem e paciência, e concede-nos a morte na fé e no Islã.
E vocês, faraós da vossa época! Completem este breve período da vida terrena. A morte está certamente determinada para um dia. Muito em breve enfrentarão as consequências de seus atos.
No dia seguinte, Hamza Bisyubi, Riyaz e Safwat vieram buscar o documento escrito e foram embora. Cerca de uma hora depois, voltaram, colocaram-me no carro e levaram-me ao escritório de Shams Badran. Naquele momento, eu não tinha condições de caminhar. Shams rasgou alguns papéis diante de mim, jogou-os na lixeira e disse:
: Estes são os papéis que você escreveu… Estou vendo que você não escreverá conforme a minha vontade até que eu extraia de seu corpo uma taça de sangue.
Depois, entre insultos e golpes de chicote, fui deixado novamente no hospital.
Minha sentença de morte
Como eu estava quase à beira da morte, fui mantido no hospital sob tratamento por alguns dias. Um dia, pouco antes do pôr do sol, fui levado ao escritório de Shams Badran. Porém, em vez de me fazerem entrar no escritório, fizeram-me ficar diante de uma máquina gigantesca. Dessa máquina elétrica saíam um ruído horrendo e um ar extremamente quente. Fui mantido durante toda a noite diante daquela máquina aterrorizante. Pela manhã, fui enviado novamente ao hospital. Ao ver o estado do meu rosto, o doutor Majed perguntou a Abdul Mabud:
: O rosto dele ficou completamente amarelado… Será que o levaram novamente à noite?
Abdul Mabud respondeu: Sim, senhor!
Meia hora depois, Abdul Mabud me deu pão e um pouco de doce de frutas, dizendo que o doutor havia mandado aquilo e ordenado que eu comesse. Ao pôr do sol, fui levado novamente para uma cela perto do escritório de Shams Badran e deixado ali. Pouco depois, Hamza Safwat Riyad chegou. Eles conversaram entre si em voz baixa sobre sabe-se lá o quê. Os dois primeiros foram embora, e o terceiro ficou ali mesmo. De repente, ele começou a dar tapas e socos no próprio rosto, arrancou os próprios cabelos e iniciou uma cena estranha, como um louco enlouquecido. Voltado para mim, começou a gritar:
: Sua louca! Se hoje você não obedecer ao que Shams diz, hoje mesmo será o último dia da sua vida. Você sabe onde estão Rifayat, Ismail e Al-Qumayra?
Ele disse:
: Aqui, nesta prisão, por ordem de Nasser, dez cães da Irmandade são enterrados todos os dias.
Quando lhe disse que eles haviam se tornado mártires no caminho de Allah e entrado no Paraíso, ele começou a bater no próprio rosto com ainda mais força e disse:
: Até agora, nem cães, nem água, nem fogo, nem chicotes, nem açoites conseguiram fazê-lo vacilar. Hoje, Pasha vai degolá-lo de uma vez por todas. Ele já obteve a permissão de Nasser. O que você vai fazer?
Eu disse calmamente:
: Allah é quem determina o que deve ser feito.
Então ele começou a dizer:
: Você quer que nós também façamos como você e fracassemos? A União Soviética governa metade do mundo; você quer que nós o deixemos partir? E que sigamos as palavras de Huzaybi, Sayyid Qutb e Hasan al-Banna?
—Vocês são loucos……… Nós não somos loucos como vocês, entenderam……?
Em resposta, recitei um versículo do Alcorão e disse:
: Quando se diz a essas pessoas que não há divindade além de Allah, elas dizem com arrogância: “Acaso abandonaremos todas essas nossas divindades por causa das palavras de um poeta louco?” E essas divindades são ídolos rebeldes. E os governantes estão encarregados de proteger esses ídolos. Foram eles que não hesitaram em chamar de louco o Profeta da humanidade, Hazrat Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Hoje, a história se repete novamente. Hoje, vocês também chamam de loucos os mujahidin do caminho de Allah, enquanto os governantes seguidores da falsidade e do erro se tornaram seus senhores e os utilizam em todo tipo de trabalho vil. E vocês, em troca de apenas algumas moedas, abandonaram seu senso de humanidade e levam uma vida desonesta. Digam: querem enfrentar a ira de Allah para agradar aos opressores e tiranos?
Desta vez, ele perguntou:
: Vocês querem nos fazer voltar àquela estagnação e atraso?
Nesse momento, a porta se abriu, e os carrascos começaram a me açoitar impiedosamente com chicotes e correias. Ao ver aquilo, Riyaz dizia, rindo:
: Juro por Deus, Zainab; eu tenho carinho por você e também me preocupo com você.
Enquanto recebia as chicotadas, perguntei-lhe com sarcasmo:
: Afeto e apreensão? Que conversa é essa? Você é um covarde medroso? A questão está muito clara. Por que vocês estão tão ansiosos apenas para obter a minha confissão? O objetivo principal de todas as suas falsas fabricações, calúnias, punições sem culpa, farsas de processos movidos com objetivos específicos e acusações infundadas contra pessoas inocentes já ficou muito claro.
Riyaz, batendo no peito, balançando a cabeça e arrancando os cabelos, gritou repetidamente:
: Todo o nosso conhecimento, inteligência e força foram provados inúteis diante de você? Nós, mesmo comendo e vivendo saudáveis, acabamos adoecendo…… E você? Com que força ainda está vivo? …… O médico disse que, se não lhe dermos comida agora, você vai morrer.
Hamza e Safwat chegaram e perguntaram a Riyaz:
: O que você fez, irmão? Espero que a razão dele tenha voltado.
Sorri discretamente, olhei para Hamza e disse:
: Não consigo entender quem é o louco entre vocês.
Sem dizer uma palavra, Hamza ficou olhando para mim em silêncio e disse a Safwat:
: Leve-o ao escritório ao lado.
No escritório do Paxá
Shams deixou-me sentar na cadeira ao lado e disse:
: Veja, em minha opinião, não há benefício em manter uma inimizade contínua.
Escreva tudo como eu quero.
Eu disse em tom calmo e natural:
: É isso que você quer que eu escreva: que tentamos assassinar Nasser? …… Isso é impossível. Juro por Deus que nos reunimos apenas para estudar os ensinamentos do Alcorão e do Hadith. Queríamos informar as pessoas de que deveriam seguir a religião de Allah, em vez de seguir homens opressores, e instruí-las sobre como adorar Allah e como estabelecer a religião de Allah neste mundo. Agimos de acordo com o Alcorão e a Sunnah; não desobedecemos a nenhum mandamento de Allah. Se, por erro ou engano, acabamos desobedecendo a algum mandamento de Allah, arrependemo-nos e fazemos tawba por isso. Em nossa opinião, o governo atual é incompetente e, por isso, precisa ser extinto. Mas não pela força ou coerção. Queremos promover uma mudança por meios constitucionais, convencendo e instruindo o povo para que fique plenamente informado sobre o Islã……… Queremos um verdadeiro sistema de governo islâmico……
Quando, de repente, começaram a me açoitar, gritei:
: Não, não, não escreverei uma mentira; mesmo que me matem, não escreverei; para mim, o mundo não tem valor algum……
Shams Badran perguntou-me, dirigindo-se a mim—
: Por que você não escreveu o nome de Abdul Aziz Ali nos papéis que rasguei?
Perguntei:
Qual Abdul Aziz Ali?
: Aquele Abdul Aziz Pasha, a quem Nasser nomeou membro de seu gabinete. Mas ele traiu Nasser, cortou justamente a mão que o havia ajudado e começou a se opor a Nasser.
Dessa vez consegui reconhecê-lo e disse—
: Abdul Aziz Ali foi o fundador do movimento Krishnagupta contra o imperialismo britânico. Ele é um dos principais líderes do Partido Nacional. Abdun Nasser e seus companheiros receberam dele sua iniciação no nacionalismo. Na minha opinião, ele é uma grande personalidade. Ele é amigo do meu marido. E agora é meu irmão islâmico no caminho de Allah. A esposa dele é membro do conselho central de nossa organização, minha amiga e minha irmã islâmica……
Shams perguntou em tom áspero—
: Então, por que você não o incluiu entre os Ikhwan?
Eu disse—
: Isso estava entre as minhas considerações… mas, como diz o provérbio, há quem tenha a cabeça cheia de fogo em vez de cérebro……
Sem me deixar terminar, Shams gritou furiosamente—
: Pare com essas bobagens. Em seguida, ordenou que me açoitassem. Durante algum tempo, eles cochicharam entre si; depois, Hasan Khalil me perguntou.
: Por que você apresentou Abdul Aziz a Abdul Fattah Ismail, e onde essa apresentação ocorreu?
Em resposta, eu disse—
: Quando minha perna se quebrou em consequência do ataque de sua força de inteligência, ele e sua esposa iam ao hospital visitar-me. Mesmo depois de eu deixar o hospital e voltar para casa, eles continuaram vindo de vez em quando. Certo dia, o irmão Abdul Fattah Ismail também chegou justamente na presença de Abdul Aziz. Foi assim que eles se conheceram. É só isso que sei a esse respeito.
Hasan Khalil disse—
: Admito que o encontro entre Abdul Aziz e Abdul Fattah foi acidental. Mas como Abdul Aziz conheceu Farid Abdul Khaleq, por seu intermédio, em sua casa?
Respondi—
: Quando a enfermeira foi à minha casa para fazer um curativo no osso quebrado da minha perna, o irmão Abdul Aziz foi sentar-se na sala de estar. Naquele momento, o irmão Farid Abdul Khaleq também chegou e sentou-se ali. Eles ainda não se conheciam. Quando a enfermeira terminou de fazer o curativo na minha perna e foi embora, o irmão Farid Abdul Khaleq entrou para me visitar. Nesse momento, o irmão Abdul Aziz também entrou para despedir-se. Aproveitei a ocasião para apresentar um ao outro.
Ao ouvir minhas palavras, Shams ficou furioso e chamou Safwat. Quando recuperei a consciência no hospital, ambas as minhas pernas estavam enfaixadas. Eu me contorcia com uma dor insuportável nas duas pernas. E, num instante, essa dor se espalhou por todo o corpo. Parecia que meu corpo inteiro estava sendo frito em óleo fervente.
No turbilhão da dúvida
Depois de permanecer alguns dias em tratamento no hospital, fui novamente levado ao escritório de Shams Badran. Ele continuou repetindo suas antigas declarações e suspeitas. Tenho a impressão de que, ao expressar repetidamente uma suspeita, repetindo-a uma vez após outra, ele fez com que essa dúvida assumisse, em sua mente, a forma da realidade. Agora começara a acreditar em sua mera suspeita como se fosse um acontecimento real. Repetia a mesma afirmação de que a Irmandade Muçulmana havia tramado o assassinato de Abdun Nasser. Shams Badran, olhando para mim, expressou espanto e disse—
: Você ainda está viva? No entanto, todo tipo de punição já lhe foi aplicado.
Em resposta, contei o episódio dos Ashab al-Ukhdud—
: Allah diz: «Os Ashab al-Ukhdud foram mortos»; aqueles que os mataram enlouqueceram completamente por causa de suas mentiras e calúnias. E essas pessoas, martirizadas pelas mãos de membros de seu próprio povo, eram dignas da confiança e nobres aos olhos de todos. Elas se empenhavam em transmitir às pessoas a mensagem de Deus e em ensiná-las a cumprir seus deveres com fé.
Shams Badran disse—
: Nós não entendemos esse tipo de discurso moralista. Então, você ainda acredita na existência de Allah? No entanto, desde 1948 até hoje vocês vêm fracassando continuamente. Vocês foram tremendamente derrotados na oposição à revolução de 1954 contra o rei Farouk e, em 1965, ao presenciarem a reação contrária à revolução… Diga-me: onde está esse seu suposto Deus? Eu lhe disse—
: Em 1948, fomos bem-sucedidos; em 1954, também fomos nós os vitoriosos, e em 1965 conquistamos o campo de batalha.
Ele disse—
: Nós a penduramos de cabeça para baixo como uma galinha, mergulhamos você na água até o pescoço, obrigamos você a correr em meio às labaredas do fogo e fizemos cães ferozes mordê-la… Se vocês realmente tivessem algum Deus ou Senhor, ele não teria vindo para salvá-la? Fale, sua garota desgraçada…
Eu disse em tom firme:
: Açoitando-nos e submetendo-nos a todo tipo de tortura cruel, vocês talvez estejam satisfeitos, pensando que venceram. Mas, na realidade, vocês estão sempre apavorados por nossa causa.
ele rugiu furiosamente:
: Cale-se, menina! Vocês todas são criminosas.
: De modo algum — respondi com a mesma firmeza.
Eu disse ainda: — Por que seríamos criminosas? …… Nós estamos no caminho da verdade, incumbidas de proclamar a verdade e a paz. Somos timoneiras da verdade e guias da luz inextinguível. Ele perguntou —
: Como vocês poderiam ter vencido a nós?
Eu disse:
: Pois é por parte de Allah que somos prósperos e poderosos. É somente n’Ele que depositamos nossa devoção inabalável e nossa fé inquebrantável; é em Seu caminho que fazemos jihad e lutamos. Somente quando negligenciarmos o cumprimento de nossa responsabilidade de manter elevado o prestígio do Islã e a bandeira do tawhid ficará comprovada nossa derrota. Na verdade, o Islã é uma concepção de vida eterna e universal. O Islã é a concepção de vida que orienta todos os aspectos da religião, do governo, da política interna e internacional, da organização social, bem como da vida individual e coletiva. Estabelecer a paz e a harmonia, a fraternidade e a tolerância, a justiça e a equidade é o objetivo do Islã. Ele é a concepção de vida eterna e natural de toda a humanidade.
O Islã liberta o ser humano da escravidão e o incentiva a adorar o Deus Único. Não se deve seguir nenhum ser humano em rebeldia contra Deus. Aqueles que aceitaram o Islã com sinceridade, coração puro e plena confiança certamente alcançarão o destino dourado do verdadeiro sucesso. Eles se tornam soldados de Allah; e, sendo soldados no caminho de Allah, por que haveriam de temer qualquer outra pessoa ou poder? Aqueles que se reúnem sob a bandeira do Islã em defesa da verdade e da justiça consideram os interesses mundanos extremamente estreitos e insignificantes. A realidade da vida e do mundo torna-se clara para eles. Por isso, em vez dos pequenos interesses desta breve e perecível vida terrena, avançam pelo caminho indicado por Allah, na esperança da vida paradisíaca da Outra Vida, uma vida de prosperidade e paz sem fim.
E vocês, covardes desorientados! O que são capazes de fazer? Podem nos oprimir; podem bater, cortar e matar; podem infligir centenas de tipos de tortura demoníaca; podem nos empurrar para a água ou para o meio de uma matilha de cães e divertir-se assistindo; podem obter satisfação açoitando-nos. Pois vocês têm chicotes e açoites nas mãos, além de muitos tipos de armas. Mas, para nós, todas essas tiranias e torturas de vocês são absolutamente sem sentido. Nenhuma de suas crueldades será capaz de nos desviar do caminho da verdade. Vocês estão destinados a fracassar.
Por que vocês, com medo, nos mantêm presos separadamente? Por que tanto medo? É porque somos mujahidin no caminho de Allah, enquanto vocês são lacaios de Satanás. A derrota e a humilhação são inevitáveis para aqueles que guerreiam contra Allah e Seu Mensageiro. Na verdade, são eles os desprezíveis e vis. A religião de Allah e de Seu Mensageiro permanecerá vitoriosa. Sem dúvida, a única fonte de todo poder é Allah. Era impossível para Shams Badran suportar minhas palavras. Ele apertou as mãos contra a cabeça e disse, como uma pessoa aterrorizada:
: Safwat, Safwat! Pendurem-no de cabeça para baixo e deem-lhe quinhentas chibatadas. Depois de me chicotearem, mandou que me baixassem e me ordenou responder àquelas perguntas repetidas. Eu também continuei dando minhas respostas. Irritado com isso, Shams Badran ordenou que me pendurassem novamente e me dessem duzentas e cinquenta chibatadas. Quando sua ordem foi cumprida, eu estava inconsciente. Ao recuperar a consciência no hospital, vi uma multidão de médicos ao meu redor, aplicando curativos e medicamentos em várias partes do meu corpo. Depois de permanecer alguns dias em tratamento no hospital, fui levado novamente em uma maca ao escritório de Shams Badran.
No fim da vida, perguntei-lhe com uma voz fraca e débil, como a de um moribundo. Advogado!…… Quem é você?
Ele disse: Nós o preparamos para apresentá-lo ao tribunal. Perguntei:
: O que mais vocês querem de mim?
O advogado disse, ameaçadoramente:
: Fale com cuidado. Você não tem agora força no corpo para apanhar…… Nós estamos … completamente preparados……
: Eu disse: — Allah é quem concede o sucesso e ajuda.
O advogado perguntou —
: Por que Muhammad Qutb e os jovens da Irmandade se reuniam em sua casa?
Eu disse:
: O professor Muhammad Qutb e suas duas irmãs vinham frequentemente me visitar. Shams, enfurecido, proferiu insultos e perguntou novamente:
Por que Muhammad Qutb e os jovens da Irmandade se reuniam em sua casa? Diga logo.
Protestando veementemente contra seus insultos, digo:
: Estudantes e militantes do movimento islâmico vinham visitar-me e, por acaso, acabavam encontrando-se também com o professor Muhammad Qutb.
: Ele bradou: Estou dizendo: quando os jovens lhe pediam que lhes proporcionasse um encontro com Muhammad Qutb, você convidava aqueles jovens e Muhammad Qutb para um almoço. Depois da refeição, eles se reuniam,…… por quê?
Respondi calmamente:
: Quando foram publicados os dois livros do professor Muhammad Qutb, ‘At-Tatawwur wa ath-Thabāt fī al-Ḥayāt al-Bashariyya’ — Desenvolvimento e estabilidade na vida humana — e ‘Jāhiliyyat al-Qarn al-‘Ishrīn’ — A ignorância do século XX —, eu e os membros do movimento islâmico manifestamos o desejo de encontrar-nos com o professor Muhammad Qutb para conhecer mais detalhadamente os diversos temas dessas duas obras. Para esse fim, o professor Qutb veio várias vezes, atendendo ao convite.
Desta vez, ele perguntou:
: Por que Abd al-Fattah Ismail comparecia a essas reuniões? Eu respondi:
: Porque ele também fazia parte dos jovens de caráter do Ikhwan al-Muslimun……
Ele zombou da palavra «virtuosos» e disse:
: Allah não depende desses virtuosos. Então, em qual dessas reuniões se chegou a um acordo para assassinar Abdun Nasser?
Eu disse: A história fictícia do assassinato de Abdun Nasser não passa de uma narrativa forjada por vocês.
Shams perguntou: Por que você não se tornou advogado?
: Eu disse: Graças a Allah, Ele me manteve em uma condição melhor. Dediquei minha vida ao caminho de Allah e continuarei cumprindo apenas o dever do caminho que busca a satisfação de Allah. De repente, Shams Badran se levantou e começou a me chutar violentamente. Ofegante, continuou dizendo: Hoje você não escapará. Você terá de morrer pelas minhas mãos. Ainda nessa situação, ele perguntou:
: Qual era o nome da organização que você fundou junto com Muhammad Qutb? …… Quem havia sido encarregado de assassinar Abdun Nasser, Abdul Fattah ou Al-Faiyoumi? Eu disse:
: Você já matou Al-Faiyoumi…… Que sentido faz mencionar o nome dele novamente?
Ele soltou uma risada horrenda em voz alta e disse:
: Você o conhece? Ele era muito bonito? Safwat… Safwat amava Fayoumi.
Safwat veio com o chicote e novamente se lançou sobre mim como uma hiena selvagem. Incapaz de suportar os golpes, perdi a consciência. Eles me enviaram novamente ao hospital, com o objetivo de me recuperar um pouco e me preparar para mais torturas e maus-tratos.
Shams permanece firme em sua ilusão
Fui enviado novamente ao escritório de Shams Badran. Como eu havia recobrado a consciência, era necessário que fosse até lá para suportar a tortura. Naturalmente, fui levado ao escritório dele numa maca. Shams estava sentado com seus capangas. Fizeram-me sentar numa cadeira, e ele disse-
: Já não tens nem o mínimo de resistência para suportar a tortura. Tem piedade de ti mesmo agora. Caso contrário, juro por Abdun Nasser que te enterrarei junto com Fatohi. Um dos seus lacaios acrescentou-
: Escuta, Zaynab, responde corretamente ao paxá e cuida da tua vida futura. Queremos chegar a algum acordo contigo.
Shams Badran disse, com ainda mais veemência- Lembra-te: um homem veio até ti em nome de Fuad Sirajuddin e pediu que colaborasses com a Irmandade Muçulmana para derrubar o governo de Nasser. Esse homem também te disse que havia pessoas no escritório do conselheiro Amer que colaborariam contigo e com o “Partido Wafd”.
Expressando minha surpresa diante das mentiras desse demônio e de sua habilidade em distorcer a verdade, respondi, enfatizando cada palavra-
: Isso é uma mentira pura e simples. Fuad Sirajuddin não enviou ninguém até mim por causa de qualquer problema, fosse sobre isto ou aquilo. Na verdade, não o vejo nem me encontro com ele há doze anos. Certa vez, por acaso, meu marido, Mohammad Salem Saleh, encontrou-se com Fuad Paxá numa manifestação pública. Ele perguntou ao meu marido como eu estava e enviou-me saudações e orações.
Assim que disse isso, começou novamente uma chuva de golpes de chicote sobre mim. Os golpes do chicote caíam sobre meu corpo ferido como labaredas de fogo. E, naquele momento, meu pé estava enfaixado. Antes mesmo de as feridas anteriores cicatrizarem, incontáveis golpes já dilaceravam novamente meu corpo. Enquanto golpeava minhas mãos e meus pés com o chicote, o carrasco perguntou:
: Diga, Fuad Sirajuddin enviou-lhe alguma mensagem ou não? Eu respondi: Não.
Então Shams Badran ordenou que me dessem um castigo ainda mais severo. Assim que começou o ataque violento, perdi a consciência. Inconsciente, fui levado de maca para o hospital. Mas, pouco depois, fui levado de volta ao escritório dele.
Shams Badran disse em tom extremamente áspero:
: Fique sabendo: não há ninguém que possa nos impedir. Todos os dias, enterro vinte cães como você. E o pátio desta prisão militar está escancarado, pronto para engolir milhares de cães como esses. Juro por Abdel Nasser! Se você não fizer o que ordeno, também o enterrarei aqui, como os outros.
Não senti necessidade alguma de responder às divagações daquele imbecil e permaneci calada.
Fora de si, ele disse: Responda! Caso contrário, pendurá-la-ei de cabeça para baixo e acabarei com você, espancando-a com o chicote.
Eu disse: Allah é o melhor dos que realizam os desígnios. Ele é suficiente para mim. Ele é o melhor dos auxiliadores. “Ó Deus, concede-nos coragem e força para suportar e concede-nos a morte no Islam”.
Essas boas palavras eram insuportáveis para Shams. Furioso, ele disse a Safwat:
Safwat, traga os cães.
Safwat apareceu imediatamente com cães ferozes, e os cães lançaram-se sobre mim como tigres famintos.
Em meio à dor insuportável das mordidas dos cães, supliquei a Allah por libertação: “Ó Allah, em busca da Tua satisfação, peço-Te proteção contra o Teu castigo. Ó Allah, salva-me desta provação e desta calamidade”. Hamza gritou: “O rosto da Pasha ficou pálido. A morte dela está próxima”. Shams veio, viu meu estado e disse:
Tirem os cães e deixem-na no hospital para morrer.
Assim, fui enviada ao hospital numa maca. Mas, à meia-noite daquele mesmo dia, fui levada novamente, pela quarta vez, ao escritório de Shamsher.
Este é um exemplo abominável de vingança e retaliação. O ódio, a hostilidade e a inimizade deles são contra o Islam. E, como sou uma serva do Islam, ao me torturarem eles deram prova de sua hostilidade ao Islam. Pensaram que, matando os membros do movimento islâmico e atormentando-os com espancamentos e agressões, seriam capazes de impedir o renascimento e a marcha vitoriosa do Islam. Sonham em silenciar o Islam e estabelecer o ateísmo da falsidade. Enfim, assim que me tiraram da maca e me sentaram na cadeira do escritório, desmaiei. Eles me fizeram recuperar a consciência com limonada e uma injeção. Então Shams disse, de maneira teatral:
: Veja, escute com atenção. Você nos colocou em uma situação tremendamente difícil. Nós não somos selvagens — como você pensa que somos…… E o presidente Nasser tem um coração muito generoso… Se você contar tudo, será perdoado…… Agora, pelo menos em seu próprio interesse, diga a verdade.
Eu disse —
: Vou dizer a verdade, a verdadeira verdade? …… Então escutem: a verdade e o que realmente importa é isto: vão dizer a Abdun Nasser que ele é um tirano e um usurpador — que é rebelde contra Deus — que se arrependa e faça tawba — que abandone o caminho falso da vaidade e venha para o caminho da verdade e da justiça — que saia das trevas e venha para a luz……
“A consciência daqueles que os apoiam no caminho da mentira e daqueles que vocês usam em seus atos de força e opressão está morta, e todos vocês são doentes moral e mentalmente”.
Eles me perguntaram, assustados e aterrorizados,
: Devemos transmitir estas suas palavras a Nasser?
Eu disse —
: Sim, sim, foi justamente para que vocês lhe dissessem isso que falei tudo isso a vocês. Eles disseram —
: Você está sendo extremamente audacioso. Então eles gritaram em uníssono, chamando-me de louco, louco.
: É preciso aplicar um choque elétrico nele. Nesse momento, Shams Badran rugiu e disse:
: Onde estão, Hamza, aqueles cães que estão sem comer desde ontem? Nesse momento, Hasan, fingindo, disse:
: Zaynab, você ainda está viva! A morte está bem diante de você. Todos os membros da Irmandade estão sobrevivendo pensando em seus próprios interesses. Espero que o paxá permita que Ali Usmabi seja trazido. Talvez ele consiga fazer Zaynab se lembrar do homem enviado por Fuad Sirajuddin.
Shams Badran disse:
: Você aí, garota, lembre-se disso. Caso contrário, chamarei Ali Usmabi para colocá-lo diante de você.
Eu disse: Ali Usmabi vendeu a própria consciência a tiranos selvagens como vocês em troca de interesses mesquinhos e, ao fazer isso, condenou-se à perda neste mundo e na Outra Vida…… E a história de Sirajuddin também é invenção de vocês. O objetivo dessas histórias forjadas é insultar pessoas nobres e de grande caráter.
Um oficial de alta patente chamado Said Abdul Karim veio àquela sala de interrogatório, juntou-se à discussão e disse:
: Zaynab! Vou lhe dar algumas informações úteis a respeito de Sirajuddin. Assim, você poderá entender a questão. Você deve conhecer Husayni Abdul Ghaffar, do Ikhwan al-Muslimun. Mais tarde, ele se separou de Sayyidena Muhammad. Você trocou opiniões com ele várias vezes. Seu objetivo era trazê-lo de volta às fileiras do Ikhwan. Você queria utilizá-lo para realizar atividades internas ativas no Ikhwan.
Eu disse—
: Hasbunallahu wa ni’mal wakil. Husayni Abdul Ghaffar é meu irmão na fé!…… Conversei com ele sobre voltar a participar ativamente do Ikhwan, mas ele declarou-se incapaz de fazê-lo. Ele não tinha qualquer relação com Sirajuddin nem com o Partido Wafd. Como, naquela época, era presidente da Juventude Ahbar, mantinha distância dos contatos com o Wafd e não o apoiava.
Hasan Khalil disse—
Está bem. Mas, quando se estabelece um consenso entre Ahbar, o Wafd e o Ikhwan sobre qualquer questão, eles naturalmente podem resolver qualquer problema. Eu disse—
: De modo algum. Existe uma enorme distância entre o Ikhwan e eles. Aqueles que não estudaram devidamente o modo de vida islâmico…… Nesse momento, por indicação de Shams, começaram a me açoitar. Abdul Karim disse a Shams—
: Dê-lhe mais algum tempo. Deixe-o terminar seu discurso.
Sim, Zaynab, diga o que você queria dizer—
Eu disse—
: A Irmandade Muçulmana, após refletir detalhada e profundamente sobre a fonte de seus ideais, seus princípios, objetivos e métodos de trabalho, elaborou regras e uma constituição inteiramente fundamentadas no Alcorão e na Sunna. Seus membros estão firmemente determinados a realizar cada ação e cada momento da vida de acordo com o Alcorão e a Sunna. Para a Irmandade, só é amada aquela terra ou país onde o Islã estiver estabelecido, e, pelos interesses do Islã, eles aceitam o martírio. A Irmandade deseja que todas as pessoas sejam livres e que este mundo dos seres humanos também seja livre. E isso só é possível mediante o estabelecimento da religião de Allah.
A Irmandade deseja aproximar tanto as pessoas quanto a terra de Allah. Pois nisso estão a verdadeira libertação, a paz e a prosperidade. Quando o ideal de vida islâmico for realizado dessa maneira, não haverá mais qualquer exploração, opressão ou injustiça. Então, este mundo terreno se tornará belo e pacífico como o Paraíso.
O amado Profeta, Hazrat Muhammad (que a paz esteja com ele), estabeleceu o Islã não parcialmente, mas de forma completa. Ele não começou por formar um país independente para depois propagar o Islã. Não o propagou sob o pretexto de reforma social, nem apenas sob o pretexto da democracia ou falando sobre a distribuição equitativa da riqueza; não realizou primeiro a tarefa posterior, nem a anterior depois. Ao contrário, naturalmente, estabeleceu o Islã completamente, realizando cada etapa em sua devida sequência. O amado Profeta, antes de tudo, inspirou as pessoas com o ensinamento do tawhid e, declarando rebelião contra tudo o que é falso, reuniu-as na adoração do Deus Único. Ele declarou que não há outra divindade além de Allah e que o Mensageiro (que a paz esteja com ele) é o governante enviado por Allah, o detentor de toda a autoridade e o líder de toda a humanidade.
Allah é o Criador, o Sustentador e o Provedor; as chaves do benefício e do prejuízo também estão em Suas mãos. Ele controla a vida e a morte. Ele é o Legislador e o Doador das normas, e somente Ele guia o caminho. Conforme a ordem de Allah, o amado Profeta estabeleceu em Medina o primeiro Estado islâmico e, de acordo com as mensagens do Alcorão reveladas no momento oportuno, estabeleceu, em benefício do indivíduo, da sociedade, do Estado e, em suma, das pessoas do mundo, um sistema social islâmico baseado na verdade, na justiça e na igualdade de direitos.
Shams Badran disse—
Então, suponho que tudo isso tenha sido dito para contar o caso do seu Sirajuddin?
Eu disse—
: O caso de Sirajuddin é uma história inventada por vocês. Aqueles que inventaram essa história fizeram isso em troca de dinheiro. ……… Sobre Siraj, só posso dizer isto: ele é um líder nacional patriota. Acho que, hoje em dia, abandonou todo tipo de atividade e se aposentou.
Shams disse:
: Safwat, traga o cachorro.
Imediatamente, o cachorro e os homens se lançaram sobre mim. As mordidas do cachorro e os golpes de chicote desferidos pelos homens deixaram todo o meu corpo ensanguentado. Um médico estava parado em algum lugar ali perto. Ele avançou e me resgatou das mãos do cachorro e dos carrascos. Exatamente naquele instante, o chamado para a oração do fajr chegava do minarete de uma mesquita distante. Ao ouvir o azan, apesar de toda aquela tristeza e sofrimento, senti uma paz extraordinária e incomum. Lembrei-me da ordem de Allah ao fogo, para salvar o profeta Ibrahim do fogo de Nimrod:
“Ó fogo! Torna-te frio e pacífico para Ibrahim.” Fiz uma munajat e disse: “Ó Senhor, também sou seguidor do teu amado Muhammad (que a paz esteja com ele) e do profeta Ibrahim. Concede-me coragem e força para enfrentar a trama satânica. Não há outro deus além de Ti. Não adoro aqueles que os incrédulos extraviados adoram. Busco a Tua satisfação, ó Deus! Amém.” Não me lembro de quando perdi a consciência. Quando recuperei novamente os sentidos, estava no hospital. É difícil apresentar um registro exato de quantas vezes fui levado ao hospital e saí de lá, perdendo e depois recuperando a consciência e os sentidos.
O governo dos instintos e o domínio de pessoas vis
Quando o poder de governar cai nas mãos de pessoas extremistas e míopes, e a administração passa ao controle de indivíduos incompetentes, a forma mais abjeta da autocracia vem à tona. Esse tipo de governo autocrático torna insuportável a vida do povo, e a roda do progresso do país começa a girar para trás. O grupo autocrático passa a se considerar o senhor absoluto da riqueza e do poder, fazendo tudo conforme a própria vontade. Assim, os interesses maiores do país e da nação são rebaixados diante de seus interesses pessoais. Como resultado de seu arbítrio, a corrupção se espalha em larga escala, e eles tentam usar todo o país e toda a nação como bem entendem.
Com o objetivo de fortalecer as bases da ditadura autocrática, eles mantêm as pessoas conscientes e patrióticas do país inativas, seduzindo-as com ganância e cobiça ou intimidando-as com ameaças e medo, ou então as enviam para trás das grades das prisões de ferro. Depois, elaboram leis conforme a própria vontade e mantêm o povo inocente aprisionado nos tentáculos de um governo severo.
Ao assumir o poder, o governante tenta extinguir os valores morais e de caráter, começa a brincar com a dignidade e a honra das pessoas e empreende esforços vãos para silenciar a voz do conhecimento e da consciência. Naquela época, o grupo governante ditatorial do Egito também recorreu a esses meios abomináveis e manteve o país sob um reinado de terror. Como resultado, a situação geral do país deteriorou-se rapidamente. Como a independência dos tribunais foi restringida, todos os caminhos para a justiça foram fechados. Com os abusos e as perseguições dos bajuladores do governo, a humanidade foi humilhada, e parecia que até Allah havia retirado do país a sombra de Sua misericórdia e compaixão.
De qualquer modo, quando me levaram novamente àquele escritório aterrorizante, Shams e seus assistentes perguntaram: qual era a mensagem que Abdul Ghaffar havia transmitido em nome de Fuad Sirajuddin? Quem eram as pessoas que ajudavam Fuad Sirajuddin no escritório do conselheiro Amer? E que reivindicações haviam sido apresentadas à Irmandade para a insurreição?
Respondi:
: Husain Abdul Ghaffar é meu irmão na fé. E nada sei sobre todas essas acusações falsas e infundadas que estou ouvindo de vocês a respeito dele.
Sayad e Hasan Khalil quiseram saber:
: Escute, Zainab, Husaini não se encontrou com Abdul Fattah Ismail em sua casa? E você não conversou com Husaini sobre ingressar na Irmandade Muçulmana?
Eu soube:
: Conversei com Husaini sobre retornar ao movimento, e isso não é crime. Husaini confia em nosso movimento. Naturalmente, embora Husaini não tenha ingressado na Irmandade, ele deseja o sucesso da Irmandade e apoia a opinião da Irmandade sobre a necessidade de formar o povo de acordo com o Alcorão e a Sunnah. Husaini e Abdul Fattah Ismail discutiram em minha casa o Islã, a atual situação preocupante dos muçulmanos e problemas como a pobreza e o analfabetismo entre os muçulmanos; depois disso, Husaini foi embora naquele dia.
: Depois, certo dia, os dois vieram inesperadamente à minha casa e conversaram entre si. Mais tarde, ele me disse a respeito de Abdul Fattah Husaini que—
: Husaini é um alim extremamente educado, virtuoso, sábio e de coração simples. Ele mantém uma profunda ligação com os sufis espiritualistas—
Depois que eu disse isso, um deles falou—
: Husaini nos contou todo o assunto…… Você quer se sacrificar inutilmente em troca da vida dos ikhwan! Agora vejo que quer se sacrificar por Husaini e Fuad Sirajuddin…… Contudo, estamos lhe dando uma última oportunidade. Conte claramente tudo sobre você, especialmente sobre aquelas pessoas do Partido Wafd que trabalham no escritório do conselheiro Amer, e diga também sua opinião sobre Husaini e Fuad Sirajuddin. …… Arrancaremos seus dois olhos e o deixaremos cego; depois, Husaini e Fuad Sirajuddin também serão trazidos à sua frente.
Eu disse—
: Infinitos louvores a Allah, pois somos capazes de ver com a visão do coração, e ninguém tem o poder de nos privar da visão interior. Portanto, mesmo que nos arranquem os dois olhos, não ficaremos cegos. Ao ouvir minhas palavras claras, Shams Badran gritou de tal maneira, como se uma serpente o tivesse mordido. Ele bradou—
: Safwat, traga os cães.
Um dos seus bajuladores o deteve e disse— Não, Pasha. Esta moça é indiferente à própria vida. Ela ainda sofre com a incerteza sobre a própria morte. Eu lhe respondi—
: A morte está nas mãos de Allah ou nas vossas?…… O controlador da vida e da morte é unicamente Allah. Ele faz tudo e é Todo-Poderoso. Um dos oficiais sentados ao redor de Shams Badran disse —
: Paxá! Dê ordem para que Husayni seja trazido. Em seguida, todos disseram em uníssono a Safwat que trouxesse Husayni. Mas Shams, com extrema arrogância, ignorou o que diziam e falou —
: Por enquanto, deixem esta moça no hospital. Dizem que a coruja não consegue ver nem fazer nada enquanto não chega a noite. A natureza deles também é muito parecida com a da coruja: a escuridão da noite lhes é mais atraente do que a luz do dia. Desnecessário dizer que fui novamente levada, na escuridão da noite, ao escritório de Shams e colocada sentada em um lugar. Poucos instantes depois, Husayni foi trazido. Uma das mãos de Husayni estava quebrada e enfaixada. A mão quebrada ainda pendia sobre seu peito. Também eram claramente visíveis marcas de ferimentos em suas pernas. Havia sinais de tortura por todo o seu corpo. Muitas feridas ainda estavam em carne viva. Assim que entrou na sala e me viu, Husayni me cumprimentou com salam, e eu retribuí seu cumprimento. Ao ver nossos cumprimentos, Shams perguntou em tom de falsa brincadeira —
: Sim, Husayni Sahib! Que relação você tinha com Zaynab?
Em resposta, Husayni disse —
: Está tudo escrito no papel.
Shams entregou os papéis a Husayni e mandou que ele os lesse em voz alta —
Eu não tinha a menor preocupação com o que haviam feito Husayni escrever no papel. Eu estava pensando, antes, no que poderia dizer para que Husayni conseguisse escapar daquele perigo. Não tenho a menor dúvida de que, infligindo a Husayni sofrimentos desumanos, eles o fizeram escrever o que bem entenderam.
Husaini começou a ler o papel que Shams Badran lhe dera. Nele estava escrito algo que eu jamais imaginei que Husaini pudesse escrever ou sequer pensar. Na verdade, o que ela leu não tinha absolutamente nenhuma relação com a realidade. Era totalmente falso e inventado. Quando Husaini terminou de ler, Shams perguntou-me, com ares de sábio—
: Qual é a sua opinião sobre o que você ouviu?
Eu disse—
: Foi por causa da força, da opressão e da tortura desumana que vocês infligiram aos Irmãos que ela foi obrigada a escrever essas coisas infundadas, conforme vocês queriam.
Shams perguntou—
: O que você ouviu não é verdade?
Eu disse— Husaini não é alguém que mentiria. Contudo, tenho a firme convicção de que ela foi obrigada a escrever essas coisas por meio de tortura cruel.
Shams gritou, furioso—
: O que Husaini escreveu… você não lhe disse essas coisas?
Hasan Khalil disse —
: Queremos saber de você se o que Husaini relatou aconteceu ou não? Outro disse —
: Para salvar Husaini, você próprio vai se destruir? Assim como fez para salvar os outros ikhwan?
Eu disse: não; não estou me destruindo, apenas estou tomando o partido da verdade.
Shams perguntou a Husaini —
: Husaini, você entregou a Zainab a carta de Fuad Sirajuddin? Eu também perguntei a Husaini —
Husaini, você não me entregou a carta de Fuad Pasha Sirajuddin?
Husayni perguntou por sua vez—
Fuad, o Sagir de Sirajuddin, ou Mali Pasha?
Eu disse—
: Eu só conheço Fuad Pasha Sirajuddin. Fuad Sagir, Husayni?
Husayni disse: o primo de Fuad Pasha.
Então perguntei a Husayni: afinal, qual era esse problema, Husayni?
Ele disse—
: Como já disse, era um assunto muito banal. …… Ali Solaiman me contou isso……… e eu mencionei isso a Zaynab. Shams então disse furioso: Husayni, saia. Depois eu disse a Shams—
: Muito bem, você transformou essa simples declaração em uma conspiração? Que pena! Uma personalidade como Fuad Pasha não foi poupada das mãos da sua tirania.
Shams Safwat chamou. E os golpes de chicote começaram a cair sobre mim como a chuva do mês de Shravan. Quando terminou de me chicotear, Shams disse a Hamza: — Hamza, deixe-o no hospital.
Coerção e opressão também no hospital
No segundo dia, Hamza apareceu na enfermaria do hospital acompanhado de um oficial militar. Hamza mandou Abdul Mabud trazer uma cadeira e uma mesinha. Quando a cadeira e a mesa chegaram, Hamza disse a Abdul Mabud:
: Tome este papel. Sente-se ao meu lado e continue escrevendo tudo o que esta moça disser. Safwat entrou na sala com um arquivo grosso. Hamza tirou uma folha escrita daquele arquivo e me disse: você registrará como seu depoimento tudo o que está escrito aqui. Nela são mencionados, entre outros, os nomes de Huzaibi, Sayyid Qutb, Abdul Fattah, Hawwash e Abdul Majid.
Eu lhe disse:
: Escreverei apenas aquilo que sei. Não tenho relação alguma com qualquer outra declaração. …Não reconheço tudo isso como declarações da Irmandade, nem acredito que tenha sido escrito ou dito em nome da Irmandade, embora vocês afirmem isso.
Hamza disse: — Escreva o que quiser. Nós o mandaremos para o escritório de Shams. Você vai gostar muito de sofrer ali vários tipos de punição. Digo a Abdul Mabud que escreva tudo aquilo, pois Allah ficará satisfeito com essas palavras e nos ajudará. Na manhã do dia seguinte, fui levado ao escritório de Shams Badran e colocado numa cadeira. Shams pegou algumas folhas, rasgou-as e jogou-as no cesto de lixo e, enquanto me insultava com uma linguagem extremamente vulgar e obscena, disse:
: Ei, menina! Você quer negar todas as realidades? Quer também dizer que tudo o que os Irmãos Muçulmanos dizem está errado? Entretanto, tudo o que os Irmãos Muçulmanos disseram é comprovado e racional, além de digno de crédito. Antes disso, você mesma já havia dito muitas coisas sobre a honestidade dos Irmãos Muçulmanos… Você terá de aceitar o que dizem os Irmãos Muçulmanos.
Eu disse:
Permaneço firme naquilo que considero verdadeiro. Direi apenas o que julgo necessário dizer, de acordo com minhas convicções. Naturalmente, não tenho condições de verificar a veracidade das declarações e respostas dos Irmãos Muçulmanos. … Eu ouvi tudo o que vocês os obrigaram a dizer e escrever sob a ameaça do chicote. Aqui não há liberdade nem direito de dizer a verdade. Ao ouvir minhas palavras, Shams disse furioso:
: Hamza, leve-a daqui. Quero o cadáver dela. … Eu mesmo assinarei os papéis do enterro dela.
Depois, eles me levaram e me trancaram em uma sala. Uma hora mais tarde, tiraram-me de lá, açoitaram-me com um chicote e ordenaram que eu ficasse de pé, voltada para a parede, ao lado de um aparelho de ar-condicionado. Fiquei nessa posição durante seis horas. Eu sentia como se estivesse sobre uma barra de ferro em brasa. Quanto poderia eu dizer sobre as dores, o sofrimento e a agonia…
Quando fui levada novamente ao escritório de Shams, à meia-noite, ele disse:
: Zaynab, venha conosco. O presidente Nasser a perdoará. … A maioria dos Irmãos Muçulmanos já confessou seus crimes. Se você aceitar o que estamos dizendo, amanhã de manhã verá o presidente e depois poderá ir diretamente para casa. Além disso, devolveremos a sede da Associação Islâmica de Mulheres e o capital confiscado da associação, e, para a construção no terreno da associação situado em Nayamishr, você receberá, inicialmente, uma ajuda de cinquenta mil guinéus. Para a republicação do seu jornal, serão dados dez mil guinéus. Outra pessoa que aguardava no escritório perguntou:
: Há um terreno da Associação Islâmica de Mulheres em Nayamishr?
Eu disse: — Sim, existe… 6 mil metros quadrados.
Mais tarde, soube que o nome daquele homem era «Saleh Nasr».
Surpreso, ele quis saber o que a organização faria em um terreno tão grande. Eu disse: — Planejamos estabelecer um instituto de treinamento para mulheres muçulmanas, um auditório para mulheres, uma hospedaria, uma sede central, uma mesquita, uma escola de memorização do Alcorão, um centro de ensino do Alcorão, uma escola primária e uma escola secundária, além de um instituto e uma academia de treinamento para oratória.
Ele perguntou:
— Onde vocês conseguirão tanto dinheiro?
Eu disse: — Por meio da arrecadação de contribuições públicas… Além disso, o trabalho será realizado por etapas. Então, animado, ele disse:
— Então esta é uma oportunidade de ouro; o presidente Nasser lhe proporcionou essa oportunidade. Você será libertado e poderá voltar para sua casa. Sua organização será restabelecida e, conquistando a confiança do presidente, muitos outros objetivos também serão alcançados.
Eu disse:
: Nós confiamos apenas na ajuda do Deus Altíssimo. A fé e o amor por Deus são, para nós, muito mais valiosos do que a vida e os bens, o dinheiro e o poder de governar. E vocês estão brincando com os direitos e a dignidade das pessoas. Não queremos nada de vocês. Não tenho o menor desejo de me encontrar com Abdel Nasser. Aquele cujas mãos estão manchadas com o sangue de mártires como Ismail Fawhi, Bafayat Bakr e Abdul Qader Ouda… não estou de modo algum disposta a me encontrar com ele. Sem dúvida, o sangue desses mártires continuará, até os dias vindouros, a guiar os defensores do tawhid ao caminho da verdade. As gerações futuras se orgulharão do sacrifício desses grandes mártires do passado e permanecerão sempre ativas no cumprimento de seu dever…… Mal terminei de falar, começaram a cair sobre minhas costas chutes de pesadas botas e golpes de punhos violentos. Por fim, incapaz de suportar mais, caí no chão, quase inconsciente! Então Shams Badran ordenou:
: Hamza, leve este homem e deixe-o na cela número trinta e quatro. A cela número trinta e quatro era uma cela de verdade. Pode-se dizer que era um túmulo. Estreita e escura como um túmulo. Terrivelmente assustadora. Além disso, haviam soltado nela dois cães. Assim que entrei na cela, fiz o tayammum e comecei a rezar. Terminada uma oração, começava outra. Para esquecer essas crueldades dos opressores e alcançar a paz interior, não há meio ou alternativa melhor do que a oração. Peço a ajuda de Deus para me proteger da opressão dos tiranos. … Apesar da dor insuportável nos pés, nas costas e em todos os ossos do corpo, eu encontrava paz ao cumprir a oração. Uma hora depois, abriram a porta, retiraram os dois cães da cela e me levaram ao hospital; mas, à noite, depois da oração do isha, fui novamente levado ao escritório de Shams. Assim que entrei no escritório, ele disse: Zaynab, um dia houve uma reunião em sua casa. Nela participaram cinquenta membros da Irmandade, vindos de várias regiões do Egito.
Por que essa reunião, realizada três anos atrás, aconteceu?
Eu disse:
: Rezamos em congregação as orações do maghrib, do isha e do tarawih.
: Quero saber qual era o objetivo da reunião.
Eu disse: não me lembro disso.
: Eles tomaram o desjejum em sua casa?
: Sim, algumas pessoas entre eles haviam tomado o desjejum.
: Por que a reunião havia acontecido?
Eu disse—
: Nós estudamos e trocamos opiniões sobre o ideal islâmico com o propósito de enfrentar o empenho incansável com que as forças do falso se dedicavam a propagar ideias ateístas em nosso país e em nossa sociedade.
Ele perguntou: mas por que justamente em sua casa?
: Porque, pela graça de Allah, eu também sou muçulmano.
Ele quis saber: o que é o falso? O que é o Islã? E o que é o ateísmo?
Eu lhe expliquei—
: Você certamente deve ter visto, no caminho, que em todas as lojas e até nas calçadas estão sendo vendidas e distribuídas, por preços irrisórios, revistas obscenas e livros e periódicos relacionados à propaganda do comunismo. E……
Sem me deixar continuar, ele disse-
: Basta, basta, que conversa mais absurda. Agora diga-me os nomes das pessoas reunidas. Eu disse: Não me lembro do nome de todos.
Ele perguntou-
: Um homem se levantou da reunião, encontrou-se com Huzaybi e depois voltou a entrar em contato por telefone com a casa de Huzaybi. Em seguida, foi embora. Quem era esse homem?
Eu disse-
: Não me lembro. Porém, pelo que me recordo, esse homem havia me pedido permissão para se encontrar com o senhor Huzaybi. E daí? — perguntou ele novamente-
: Por que vocês se reuniram? …… E sim, vou facilitar sua resposta. …… Não era Abdul Fattah Sharif o homem que foi falar com Huzaybi? …… Se você não responder corretamente, será enforcado. …… Vocês haviam concordado em mudar o governo e assassinar Nasser. Eu disse-
: Havíamos concordado em combater a ignorância, o ateísmo, a obscenidade e o comunismo, e em preparar os muçulmanos para viverem seguindo o Alcorão e a Sunna, promovendo os ensinamentos do Alcorão. Ele fez uma careta e disse:
: Então, qual é a função de Al-Azhar? Diga-me, qual é a responsabilidade da Universidade de Al-Azhar? Em seguida, chamou Safwat e disse:
: Safwat, pendure-o de cabeça para baixo e açoite-o.
Os açoites começaram, e continuei suportando os golpes intensos e cortantes do chicote, repetindo “Allah, Allah”, até perder a consciência.
Capítulo V
Tortura na presença de Nasser
Quando recuperei a consciência, vi que muitas pessoas me cercavam. Eu estava estirado no chão, completamente gelado. Depois de me darem alguns remédios, olhei com dificuldade para as pessoas presentes e vi, de um lado, o presidente Nasser de pé, com a mão sobre o ombro de Abdel Hakim Amer; na mão, ele segurava óculos escuros. Ao ver o presidente Nasser e Abdel Hakim, esqueci minhas dores e sofrimentos e senti no corpo e na mente o fluxo de uma nova consciência. Preparei-me mentalmente para enfrentar a situação. Deram-me uma xícara de suco, que bebi. Depois, algumas pessoas me ergueram do chão e me sentaram numa cadeira. Também me deram uma garrafa térmica cheia de café. Mas eu não tinha muito interesse naquilo.
Pelo ambiente, naturalmente concluí que algo importante estava prestes a acontecer. Shams Badran começou dizendo:
: Veja, Zaynab; quero uma resposta clara para cada uma das minhas perguntas. Caso contrário… Zaynab, suponha que a Irmandade Muçulmana esteja governando o país e nós estejamos diante de vocês como réus em um processo; como vocês nos tratariam?
Respondi com toda a força e coragem:
: Não fazemos parte daqueles que cometem injustiça contra si mesmos. Não estamos dispostos a usar nossas mãos para qualquer mal, como os opressores mantiveram suas mãos ocupadas com más ações. Não queremos tingir nossas mãos de sangue. Tampouco desejamos ocupar os assentos dos opressores.
Ele disse em tom ameaçador:
: Pare, sou eu quem está perguntando: se você ocupasse o meu lugar e fosse dona desta cadeira, como me trataria?
Respondi em tom calmo:
: Somos pessoas que buscam a verdade e estamos buscando e seguindo o caminho da verdade. Nosso objetivo não é conquistar o poder governamental; somos, antes, portadores da bandeira de “la ilaha illallah” e dedicamos nossas vidas à defesa da honra desta declaração e desta bandeira. Sem dúvida, Allah comprou dos crentes suas vidas e seus bens em troca do Paraíso. Shams Badran disse, cerrando os dentes:
: Cale-se, menina! Estou perguntando novamente: se o poder chegasse às suas mãos, como vocês nos tratariam?
Eu disse em tom calmo e sereno—
: Não aspiramos ao poder. Tampouco desejamos cargos de maior responsabilidade; pelo contrário, enquanto restar no corpo uma única gota de sangue, permaneceremos empenhados no dever de transmitir a cada pessoa os ensinamentos e a mensagem do grandioso ideal islâmico.
…… Estamos comprometidos a adorar Allah e a trabalhar para implementar a religião de Allah em Seu mundo. Estamos firmemente determinados a criar um despertar islâmico e a cumprir o grandioso compromisso de espalhar por toda parte a luz do Islã. Shams disse, tremendo de raiva—
: Cale-se… cale-se…… Pare! Quero uma resposta a uma pergunta. Suponha que você estivesse sentado na cadeira em que estou sentado e que eu estivesse diante de você como réu; então, como me trataria?
Eu disse no mesmo tom natural—
: Às vezes, podem passar décadas e décadas no trabalho de estabelecer o governo islâmico. Não queremos tomar nenhuma medida precipitada. ……No dia em que o governo islâmico for estabelecido, as mulheres muçulmanas, a partir de seu lugar natural, desempenharão a grande responsabilidade de formar a nação.
Shams gritou como um viajante perdido no deserto—
: Sua garota…… Suponha que você viesse sentar-se no meu lugar; então, como me trataria? Eu disse—
: O Islã — o ideal de justiça, retidão, misericórdia, magnanimidade e igualdade universal. Nele não há lugar para castigos abomináveis como chicotes e açoites, tortura carcerária, exílio, sepultamento em vida, coerção e opressão, aumento do número de órfãos e viúvas, e assim por diante. O sistema judicial do Islã fundamenta-se na verdade e na razão. Nele não há lugar para injustiça, coerção ou opressão. A essência do sistema judicial islâmico são os argumentos e as provas baseados na verdade. Então Shams disse, como um lutador derrotado no chão—
: Pare, pare! Safwat, pendure-o e açoite-o. Safwat pendurou-me e começou a açoitar todo o meu corpo coberto de bandagens. O sangue escorria. E eu estava ficando inconsciente. Depois que o médico me aconselhou a ser libertado, disse—
: Isto é uma situação terrível! Com isso, ele certamente morrerá.
Shams gritou—
: Imbecil; trapaça…… Outro oficial disse—
: Queremos mantê-lo vivo para levá-lo perante o tribunal.
Shams disse —
: Sim, sim, nós também queremos que ele compareça vivo perante o tribunal, para que a nação aprenda uma lição com ele.
O médico disse:
: São indispensáveis alguns medicamentos, mas não os temos.
Shams disse:
: Tragam-nos da farmácia médica do conselheiro Amer.
Depois, fui enviado ao hospital. Não me lembro dos outros acontecimentos daquela noite. Contudo, durante o interrogatório com Shams Badran, na presença do presidente Nasser e de Abdul Hakim, disse tudo o que precisava dizer.
A verdadeira conspiração: rumores
Era necessário manter-me vivo por mais alguns dias para que alcançassem seus objetivos; por isso, eu estava recebendo tratamento. Eu comparecia como réu diante de pessoas cuja profissão e obsessão consistiam em fabricar processos falsos, declarar culpados os inocentes e inocentes os culpados, elevando-os ao posto de heróis. Para satisfazer seus interesses pessoais, eles eram capazes de recorrer a qualquer método. Estavam especialmente acostumados à encenação, à coerção, à cobiça, à fraude e à traição. Não era nada surpreendente que me estivessem administrando medicamentos para me tornar capaz de comparecer ao tribunal.
Depois de permanecer inconsciente por três dias, recuperei a consciência na tarde do quarto dia e ouvi as vozes de Murad e Safwat vindas da cela vizinha do irmão Ahmad. Eles lhe perguntavam o endereço de Saiful Islam al-Banna. Ele foi obrigado a lhes informar o endereço. Cerca de três horas depois, eles voltaram ao irmão Ahmad Kamal e pediram o endereço do escritório de Saiful Islam al-Banna. Saiful Islam Banna era filho do imã mártir Hasan al-Banna. …… Supliquei a Allah pela segurança de cada membro da família deles. Sua mãe sofria do coração, e Saiful Islam cuidava sozinho de toda a família. Roguei a Allah para que todas as conspirações desses opressores contra os membros daquela nobre família fracassassem.
Mais tarde, quando me levaram numa maca ao escritório de Shams Badran, ao ouvir uma de suas perguntas, não tive outra opção senão acreditar que eles também haviam prendido Saiful Islam e o mantinham encarcerado nesta mesma prisão militar. Fiquei extremamente angustiada com isso.
Nesse momento, Shams chamou Hamza e disse:
: Eu lhe disse que essa moça não deveria ser trazida viva ao meu escritório. … Veja, ela ainda está respirando.
Depois, olhando para mim, disse:
: Você ainda está viva? Mas por quê? ……
Eu lhe disse:
: A vida e a morte não estão sob o seu ou o meu controle. Pelo contrário, é Alá quem decide sobre a vida e a morte. Ele rugiu: Basta, basta, cale-se. Só quero a resposta à minha pergunta. …… Diga, quais membros das forças armadas queriam assassinar Nasser no caminho para Alexandria? Hassan Khalil disse a Shams:
: Permita-me explicar o assunto, Paxá. Quando Shams assentiu, concedendo-lhe permissão, Hassan disse:
: Uma pessoa veio lhe dizer que um grupo de soldados estava à espreita no deserto para assassinar Nasser enquanto ele viajasse de carro para Alexandria. Quem lhe contou esse fato e quem eram os que estavam no jipe com o objetivo de assassinar Nasser?
Shams Badran disse: — Agora responda depressa.
Eu disse:
: Por causa de assuntos tão insignificantes e mesquinhos, baseados apenas em suspeitas, vocês estão infligindo montanhas de sofrimento às pessoas. Que Allah os destrua! …… Que vocês sejam destruídos, e que recaia sobre vocês a maldição de toda a nação……
A resposta a essas palavras foi a mesma de antes: uma surra terrível com um chicote. Bateram-me tão brutalmente que a bandagem se rompeu e o sangue começou a escorrer.
Meu estado era de ossos quebrados e completamente estilhaçados.
Shams disse:
: Se nós o enforcarmos, você certamente morrerá… Mas, se contar tudo o que aconteceu, nós o perdoaremos. …… Fale, conte tudo desde o começo. Diga o que Saif lhe contou.
Expressei minha surpresa e disse – Oh, o rumor mencionado por Saif?
Shams avançou, deu um pontapé e, rangendo os dentes, disse: Sim, esse rumor.
Eu disse:
: Quando eu estava na casa do mártir Hasanul Banna, Saif veio dizer que as pessoas estavam comentando um rumor…… Ou seja, alguns militares haviam se escondido com um jipe para matar Nasser enquanto ele seguia de carro para Alexandria. Mas, no último momento, o trajeto de Nasser foi alterado, e ele viajou de trem. O mais curioso é que o jipe fugiu e aquelas pessoas não puderam ser identificadas.
Eu disse a Saif –
: Na verdade, isso é um rumor; não acredito que algum jipe estivesse à espreita dessa maneira. Pelo contrário, essa história foi inventada pelo serviço de inteligência. Quase todos os dias, eles espalham rumores sobre conspirações para assassinar Nasser. E tenho ouvido diariamente notícias de milhares de militares e civis sendo presos com base nesses rumores fabricados.
Saif disse:
Sim, sim, não passa de um simples rumor, e o povo também o considera apenas um rumor. Eu disse:
: Ninguém pensa em matá-lo. Porque matar o tirano opressor não resolve o problema. O verdadeiro problema é mais grave do que assassinar Nasser. E consiste em libertar o país das garras de governantes ignorantes, rebeldes contra Deus e opressores.
Saif disse que se deveria direcionar a atenção das pessoas para o aperfeiçoamento do caráter e para a formação pessoal. Eu disse—
: De qualquer modo, quem destruiu este país, senão os rumores? Hoje, o povo passou a considerar até os rumores como algo em que se apoiar. …… Porque foi com base nesses rumores que muitos homens valorosos e pessoas responsáveis foram assassinados. Depois disso, terminou minha conversa com Saiful Islam. Shams Badran disse—
: Em sua casa, Abdul Fattah e Ali Usmabi discutiram esse incidente e analisaram o plano daquela sua conspiração, bem como seus erros e falhas, mas por quê?
Respondi—
: Isso não aconteceu. Eu apenas disse ao irmão Abdul Fattah o que tinha ouvido de Saiful Islam: que esse rumor……
Mal terminei de dizer isso, começou uma chuva de pontapés e socos. Shams perguntou—
: Por que você contou esse incidente a Huzaybi? Por que fica falando sobre o que as pessoas dizem ou deixam de dizer?
Eu disse:
: É verdade, mas por que alguém se preocuparia com isso?
E então, mais um golpe de chicote.
Shams disse então:
Deixemos isso de lado; agora vamos abandonar o assunto de Saif e conversar sobre outra coisa……
: Diga-me, Abdul Aziz Ali estava desempenhando a responsabilidade organizacional da Irmandade até Sayyid Qutb ser libertado da prisão…… Diga-me, como isso aconteceu?
Eu disse: Isso não está correto.
Ele perguntou:
: Por que não? Reunia-se com Abdul Aziz, Ali Usmavi, Abdul Fattah, Zia, Yahya, Sajli e Majid, e, após a libertação de Sayyid Qutb, encontrou-se com ele várias vezes.
Respondi:
: Não sei absolutamente nada sobre essas reuniões.
Shams disse:
: Quem saberia, além de você? Certamente estava informado sobre essas reuniões.
Eu disse: Isso é uma acusação falsa.
Shams disse, repreendendo-me:
: Vou lhe mostrar uma coisa agora mesmo… Você não consegue ver o que é bom ou ruim para si mesmo, nem está usando a própria razão e inteligência. …
Um dos seus bajuladores entre os presentes disse:
: Se um se exalta, o outro tem de ser conciliador……
Paxá; espere um minuto. Estou tentando.
Em seguida, olhando para mim, disse –
: Zaynab; tanto al-Hudaybi quanto Abd al-Aziz confessaram tudo. Agora não há como negar. Ismail deveria usar o veneno preparado por Abd al-Aziz para matar Nasser. Como foi o episódio do envenenamento e como se chegou a um acordo a esse respeito?
Eu disse em voz alta:
: Vocês estão todos obcecados com a ideia de matar Nasser. Se realmente querem eliminá-lo, então eliminem-no e nos libertem. Providenciem para que eu me encontre com Abd al-Aziz e o imã al-Hudaybi.
Eles disseram: Não, primeiro faremos com que você se encontre com Ali Usmavi.
Eu disse: Ali Usmabi é um mentiroso de primeira. Ele é um mercenário de vocês; não vou falar com ele.
Shams Badran perguntou: Ali Usmabi não é um dos seus?
Ignorei a pergunta dele e disse:
: Providenciem um encontro meu com o respeitável Abdul Aziz e o senhor Imam Huzaybi. Hasan Khalil disse:
: Está bem, nós faremos com que você se encontre com eles.
Shams Badran disse:
: Quando você consultou Hasan Huzaybi, na presença de Abdul Aziz, sobre a liderança dos Irmãos?
Eu disse: Isso nunca aconteceu.
Shams enviou Safwat para chamar Ali Usmavi.
Ali Usmavi veio muito elegante. Seu traje de seda fina, os cabelos cuidadosamente penteados e, além disso, seu modo amável com eles apresentavam provas de sua traição para conosco.
Shams disse-lhe em tom afetuoso:
: Ali, quando a perna de Zaynab se quebrou, em vez de sair do carro, você foi enviado à filha de Huzaybi para saber a opinião dele sobre o assunto. Por que isso foi feito?
Ali Usmavi disse:
: Sim, fui falar com a filha do senhor Huzaybi e disse-lhe que perguntasse ao pai qual era sua opinião sobre a confiança em Abdul Aziz. …… Ela trouxe a opinião e o apoio do senhor Huzaybi a favor da escolha de Abdul Aziz para a liderança interina.
Shams perguntou-me:
: E agora, Zaynab, qual é a sua opinião?
Disse, dirigindo-me a Ali Usmabi—
: Você é um mentiroso terrível… Na verdade, você me disse que um membro da Irmandade desejava apresentar uma proposta de casamento para a neta de Abdul Aziz e queria saber a opinião do senhor Huzaybi a esse respeito. Por acaso, eu estava saindo de carro, quando você também entrou e se sentou no meu carro. Eu lhe disse que… com o pé ferido, eu não era capaz de ir até a casa do senhor Huzaybi… Ao ouvir a proposta de casamento, o senhor Huzaybi disse que não havia nada a investigar sobre a família de Abdul Aziz… era preciso dizer que se tratava de uma verdadeira família muçulmana… Allah abençoaria esse casamento.
Shams perguntou: Ali, o que ele disse é verdade?
Ali Usmabi disse: Pasha— essas são as expressões técnicas dele. Zaynab é muito hábil em usar esse tipo de expressão.
Ao ouvir suas palavras, disse-lhe diretamente—
: Ali, você é um mentiroso de primeira e um traidor. Um dia, certamente será humilhado por seus atos perversos. … Os membros da Irmandade estão sendo pendurados na forca; chicotes e açoites desabam incessantemente sobre eles, cães são soltos contra eles— e tantos outros tipos de perseguição cruel estão sendo praticados. E você está desempenhando o papel de agente contratado deles. É por isso que eles acreditam no que você diz.
Ordenando a Shams que fosse embora, disse—
: Zaynab, estamos lhe dando uma última oportunidade. Conte-me em detalhes sobre a relação de Abdul Aziz com a organização. Explique tudo sobre as cartas trocadas entre Huzaybi e Abdul Aziz por seu intermédio.
Evitei essas questões e disse:
: Estou solicitando especialmente encontrar-me com o senhor Abdul Aziz e o senhor Huzaibi.
Shams Badran chamou Safwat e disse:
: Leve-o daqui até que Abdul Aziz e Huzaibi sejam trazidos.
Safwat me deixou de pé por algum tempo diante de uma parede e depois me levou novamente ao escritório de Shams. Mas Abdul Aziz e Huzaibi não estavam presentes. Perguntei…
: Senhores, onde estão Abdul Aziz e Huzaibi?
Shams respondeu irritado: — Devemos agir de acordo com o que você diz? Quando julgarmos necessário, chamaremos quem quer que seja. …… Pelo que vejo, teremos de lhe aplicar novamente o castigo anterior.
Olhando para seu rosto amaldiçoado, eu disse:
: Se você não teme nem a Allah, quanto se envergonhará diante das pessoas?
Hasan Khalil veio e disse: — Veja, menina, aceite minha ajuda. O Paxá quer entregar você ao tribunal.
Perguntei: — Tribunal? Que tribunal? Quem são vocês?
Shams disse:
: Nós vamos prepará-la para apresentá-la ao tribunal.
Eu disse, em tom sarcástico:
: Preparação para me apresentar ao tribunal, certamente! Chicotes, açoites, cães, celas de fogo e de água, ser pendurada de cabeça para baixo e espancada como um animal abatido, ser insultada com linguagem obscena e imunda, ser mantida sofrendo de fome e sede, não receber permissão para defecar ou urinar durante longos períodos, ser assediada, em nome da investigação, sendo levada de um escritório a outro dia e noite, sofrer tortura bestial, receber punições severas aplicadas mecanicamente — com tratamentos cruéis desse tipo, suponho que estejam me preparando para me apresentar ao tribunal egípcio.
Muhammad Qutb
No escritório de Shams, Hassan Khalil disse: “Antes de iniciarmos os procedimentos do tribunal, queremos concluir a discussão dos assuntos relacionados à organização de Muhammad Qutb, para depois analisarmos o problema do Dr. Masud.”
Shams, fingindo subitamente ter reencontrado algo perdido ou se lembrado de um assunto importante que havia esquecido, disse teatralmente: “Ah, sim, a organização daquele Qutb…?”
Eu disse:
“Já disse antes que Muhammad Qutb não fundou nenhuma organização. Ele é um escritor e pensador. Sua tarefa é orientar as pessoas para o caminho verdadeiro, simples e fácil. Ele dedicou seu talento literário a manter a nação alerta e consciente acerca dos problemas dos muçulmanos e de suas soluções, da etapa que estão atravessando e de outras questões semelhantes. Isso significa que qualquer pessoa tem o direito fundamental de expressar sua linha de pensamento e suas opiniões.”
Shams Badran disse, demonstrando impaciência:
“Hamza, leve-a daqui. Acho que ela quer voltar novamente àquela água, ao fogo, aos cães e ao chicote.”
Hamza levou-me para uma sala a certa distância do escritório de Shams, deixou-me detida ali e foi embora. Meia hora depois, Hassan Khalil veio e disse:
“Escute, Zaynab! Vim dar-lhe um bom conselho. Estou preocupado com a maneira como você está conduzindo a si mesma rumo à destruição. …… Todos os Ikhwan encontraram uma maneira de se salvar. … Havíamos prendido cem mil pessoas. Mas agora restam conosco apenas vinte mil. E, nesse meio-tempo, todos confessaram seus respectivos crimes. Aqueles que pedem perdão estão sendo libertados. Até mesmo pessoas como o Murshid Geral Hassan al-Hudaybi, Abd al-Fattah Ismail e Sayyid Qutb confessaram sua culpa e pediram perdão. E você está tentando salvar o Murshid Geral, embora ele tenha apresentado muitas acusações contra você. Você está lançando a si mesma à beira da destruição por causa de pessoas que se opõem a você. Deve mudar de opinião. Pois eles consideraram você culpada por todos os acontecimentos. Hudaybi, Sayyid Qutb, Abd al-Fattah, Muhammad Qutb e todos os demais Ikhwan estão condenando você. …… Apesar dos insultos e dos maus-tratos de Pasha, Hamza, Safwat e outros, sua opinião nos pareceu louvável. Quando os Ikhwan a insultaram, nós os consideramos desprezíveis, e nossa estima por você aumentou cada vez mais…… Veja, Pasha está pensando em impor-lhe novamente uma punição severa. Mas eu assumi a responsabilidade de chegar a um acordo com você…… Portanto, quero levar a Pasha uma opinião sua que possa salvá-la deste perigo.” Então, ele disse, lançando-lhe um olhar inquisitivo:
: Você almoçava com Huzaybi duas vezes por semana ou, pelo menos, uma vez? O próprio Huzaybi também admitiu isso; e você transmitia as instruções e os conselhos dele a Abd al-Fattah Ismail. Espero que nos forneça exemplos desses conselhos. Tanto Abd al-Fattah quanto Huzaybi admitiram que, desde que Sayyid Qutb foi libertado da prisão, você atuava como intermediária entre ele e Huzaybi. Veja, Zaynab, não estamos falando sem fundamento.
Ele tinha nas mãos uma folha escrita. Falava enquanto a lia. Depois acrescentou:
: Por exemplo, o dinheiro da organização ficava sob sua custódia, e você o enviou a Huzaybi. Todo esse dinheiro voltou para você; mas você o levou novamente à casa de Huzaybi. Depois, o dinheiro voltou outra vez para você; Huzaybi também mencionou isso. Há alguma maneira de negar tudo isso? Todos os segredos vieram à tona, Zaynab! Pronto, agora só falta sua confissão por escrito. Certamente você escreverá tudo isso e outros assuntos. Depois, nós a levaremos ao tribunal. Lá, tudo isso será investigado. Dois dias depois, você será libertada e será empossada como ministra dos Assuntos Sociais. …… Hikmat Abu Zayd já não é mais bem-visto…… O que acha? Assim que disse isso, ele tocou a campainha, e um soldado apareceu. Mandou que ele trouxesse suco de limão e começou a conversar comigo sobre outros assuntos. …… Quando o soldado trouxe dois copos de suco de limão, ele me pediu que os bebesse. Em seguida, ordenou ao soldado que trouxesse dois copos de café e continuou falando. Permaneci em silêncio do começo ao fim, ouvindo-o. Percebi que ele estava bastante tranquilizado. Ao sair, disse ao soldado: “Você ficará sob as ordens de Zaynab.” Então, olhando para mim, disse:
Daqui a uma hora, você será chamada ao escritório do Paxá. Até lá, pense muito bem sobre o que é melhor e pior para você. Sentei-me para escrever, e minha caneta começou a correr.
Em nome de Allah, o Clemente, o Misericordioso
Minha língua é verdadeiramente incapaz de prestar o devido louvor ao Deus Supremo e agradecer por Sua infinita misericórdia. Apesar de minhas inúmeras inadequações, Ele me escolheu para servir ao Seu din; concedeu-me força e oportunidade para seguir o caminho que escolheu para Seus servos amados.
Na verdade, o caminho e o modelo do Alcorão e da Sunnah são o caminho da verdadeira verdade, da paz e da beleza. Allah também convocou toda a humanidade para esse caminho, dizendo: “Ó humanidade, chegou-vos, da parte de vosso Senhor, aquilo que é o melhor caminho para vós e a melhor exortação.” Allah também disse: “Ó humanidade, adorai vosso Senhor; foi Ele quem vos criou e criou os povos que vos precederam.”
Agradeço a esse Deus Supremo, que me concedeu a bênção de formar-me segundo Seu decreto: “Ó nosso Senhor, ouvimos um convocador que chama à fé. Ele disse: ‘Ó habitantes do mundo, crede em vosso Senhor.’ Respondemos ao seu chamado e cremos.” Proclamo o louvor e a grandeza desse Allah, o Misericordiosíssimo, sob a sombra de cuja Palavra encontrei abrigo: “Sem dúvida, Allah comprou dos crentes suas vidas e seus bens em troca do Paraíso.” Ofereço infinitos agradecimentos a Allah, que me incluiu entre os homens e mulheres crentes e me escolheu juntamente com eles.
“Louvado seja o Deus Misericordioso, que me inspirou a propagar Sua religião e Seus princípios, a convocar as pessoas para o caminho da religião, a sacrificar a vida na jihad pelo caminho da religião e me concedeu a capacidade de testemunhar a veracidade da palavra de Deus.” Deus disse: “Os crentes compraram o Paraíso em troca de suas vidas e seus bens. Eles combatem pela causa de Deus, matam e alcançam o martírio.” Deus também disse: “Vós sois a melhor comunidade do mundo. Fostes criados para estabelecer a verdade e a justiça e para enfrentar a mentira e a falsidade”.
“Declaro clara e inequivocamente que Deus é Uno e Único. Não há divindade além de Deus, Ele não tem parceiro algum, e Maomé (que a paz esteja com ele) é servo e Mensageiro de Deus.” Somos os portadores dos dois aspectos e do significado desta declaração da shahada. Estamos encarregados de preservar e implementar o Alcorão de Deus, Suas instruções e Suas leis.” Como Deus disse: “Revelamos-te o Alcorão para que se estabeleça o governo da justiça entre as pessoas.” Somos seguidores do caminho que o querido Profeta Maomé (que a paz esteja com ele) indicou à sua comunidade. O Profeta disse: “Estabelecei a verdade e a justiça na sociedade humana à luz daquilo que Deus vos concedeu.” Estamos firmemente decididos a cumprir, ao pé da letra, as ordens e instruções de Deus e de Seu Mensageiro.
Ó Deus! Sê testemunha de que permanecemos firmes e inabaláveis em Teu caminho. Nenhuma mudança ocorreu entre nós. Portanto, ó Senhor, ajuda-nos na jihad contra esses opressores e tiranos que praticam o shirk, afastam o Teu Alcorão, são hostis à Tua religião e combatem aqueles que percorrem o caminho da Tua religião, carregam a bandeira do Teu Alcorão e seguem os princípios do Teu Mensageiro.
Ó Mensageiro digno de confiança! Viverei assim e assim comparecerei diante de Ti. Ó Deus, inclui-me entre os verdadeiros muçulmanos monoteístas e entre aqueles que Te temem e se envergonham diante de Ti.
Ó Senhor, concede-me força. Que eu ame somente por Ti, odeie por Tua causa e combata pela Tua satisfação. Ó gente! Este é o caminho da nossa vida. Depois disso, fazei o que quiserdes. …… está pensando. Mas aceitei a responsabilidade de chegar a um acordo contigo… Portanto, quero levar ao Paxá uma opinião tua que possa te salvar deste perigo. Com toda a lucidez e sinceridade, estou convocando-vos para o caminho de Deus. Portanto, não tenteis, sem sucesso, tornar-me partícipe da vossa fraqueza, fazer-me tropeçar nas trevas da incredulidade e do desvio e envolver-me numa guerra contra o Islã e os muçulmanos. Estou completamente livre de todas as vossas más ações e permanecerei preparado até o último momento da vida para enfrentar a vossa mentira e falsidade.
Assinatura—
Zaynab al-Ghazali
Hamza entrou na sala e disse—
: Muito bem, Zainab! Se Deus quiser, nosso senhor cooperará com você. A única condição é que você cuide dos seus próprios interesses. …… Seu marido, Salem, é um homem excelente. …… Ele é um amigo íntimo meu. …… Quem sabe como você acabou se tornando presa dos Ikhwan!…… Ah, sim, você terminou de escrever?
Ele pegou os papéis e disse: venha, acompanhe-me ao escritório do Paxá. Fomos em direção ao escritório de Shams. Ao me ver, Shams Badran demonstrou uma alegria fingida e disse: venha, Zainab, sente-se.
Ele ordenou que trouxessem para mim um refresco e café e concentrou-se na leitura dos meus escritos. As mudanças em seu rosto revelavam seus pensamentos e sentimentos. Ao ver a situação, não me restou dúvida de que ele explodiria a qualquer momento. Com efeito, seus dois olhos adquiriram a cor de uma fornalha em chamas e, rangendo os dentes, perguntou aos berros, de maneira horrível:
O-q-u-e-é-i-s-s-o……? …… Safwat, mil chicotadas. Essa garota zombou e escarneceu de cada um de nós. Onde vocês todos estavam?
Enquanto isso, já havia começado a chuva venenosa do chicote. Shams atirou os papéis ao chão e disse:
: Essa garota está se colocando como um desafio diante da inteligência de cada um de nós. Pelo que vejo, ela é escritora e oradora em excesso. Ambas as minhas pernas feridas estavam enfaixadas; cada parte do meu corpo já havia suportado golpes de chicote e do caçador além do limite da resistência, mas, mesmo assim, eles me penduraram novamente de cabeça para baixo, como um animal abatido. Enlouquecido de raiva, Shams Paxá ordenou que desferissem sobre meu corpo fraco e dilacerado uma incontável quantidade de golpes de chicote, insuportáveis.
Ao ver o sangue escorrendo abundantemente por todo o meu corpo, até mesmo através das bandagens, o médico ordenou que me baixassem imediatamente. Fui deixada do lado de fora do escritório de Shams por uma hora. Depois, fui levada ao hospital em uma maca.
Murad e Hamza disseram:
: Segundo os médicos, você está à beira da morte. Mas, na nossa opinião, é necessário apresentá-lo ao tribunal. Assim, você poderá morrer ouvindo pessoalmente a sentença de execução. Amanhã de manhã, vamos entregá-lo ao Ministério da Justiça e do Direito. Lembre-se bem: se você não responder de acordo com as determinações estabelecidas pelo Ministério da Justiça e do Direito, terá de voltar para cá. Em seguida, Hamza chamou Safwat e disse:
: Leve-o às nove da manhã ao prédio do tribunal.
Dizendo isso, todos foram embora.
Investigação
Passei por todas as etapas da tortura. Fui espancado com um chicote que parecia lançar chamas, mordido depois que soltaram cães contra mim, mergulhado numa cela cheia de água, queimado e escaldado numa cela em chamas, e pendurado de cabeça para baixo como um animal abatido. Com esse tipo de opressão e tortura contínuas, tanto meu corpo quanto minha mente foram dilacerados. Depois de toda essa violência e crueldade, o departamento jurídico do governo agora está encenando uma farsa em nome da justiça, tramando impor uma punição ainda mais injusta a oprimidos indefesos e inocentes como eu.
Fui enviado ao campo do departamento de investigação do tribunal. Eles também estão agindo de acordo com o mesmo plano que os outros. No campo de investigação, os investigadores obrigavam os acusados, por meio de ameaças e intimidação, a assinar documentos que continham confissões infundadas de culpa.
E esses documentos contendo acusações falsas foram preparados diante dos olhos dos chamados consultores jurídicos e juízes.
A tradição e a reputação dos veredictos destemidos e imparciais dos juízes muçulmanos em defesa da verdade e da justiça, que mantiveram brilhantes as páginas da história, hoje estão sendo maculadas por seus próprios sucessores, que curvam a cabeça diante da força da mentira e desonram os tribunais e o sistema judiciário. Isso é uma extrema desgraça para a nação. Se isso continuar, a própria existência do povo muçulmano poderá ficar ameaçada. No entanto, a integridade e o amor à justiça dos cádis e juízes muçulmanos sempre conquistaram, em todas as épocas, a admiração irrestrita de toda a humanidade.
Ouvi alguns desses homens do Departamento Jurídico mentirem descaradamente na prisão militar. De maneira extremamente vergonhosa, eles inventavam declarações e obrigavam pessoas inocentes a assiná-las. Vi com meus próprios olhos como aterrorizavam os prisioneiros com ameaças e intimidações para obter suas assinaturas.
Quando compareci pela segunda vez ao departamento de investigação da prisão, o advogado olhou para mim em silêncio. Meu corpo inteiro estava coberto de bandagens; eu estava tão fraco que desmaiava repetidamente e nem sequer tinha capacidade de pronunciar corretamente as palavras.
O advogado estava sentado atrás de uma pilha de arquivos. Diante dele havia uma folha escrita. Ao seu lado, diante de uma pequena mesa, estava sentado o secretário do advogado. À sua frente havia uma pilha de folhas brancas. Com a caneta na mão, ele estava pronto para cumprir as instruções do advogado. Primeiro, o advogado escreveu meu nome, idade, nacionalidade e endereço residencial.
Em seguida, o advogado, dirigindo-me um olhar indiferente e sem brilho, disse-me:
: Zainab, todos estes arquivos contêm declarações dos Irmãos. Entre elas, a sua declaração é a mais clara. Vou deixar a sua declaração no arquivo. …… Quero ouvir de sua própria boca o que realmente aconteceu. …… Apontando para os arquivos, ele disse:
: Estes estão repletos de declarações de Huzaibi, Sayyid Qutb e Abdel Fattah Ismail. …… Zainab, quero que abandone sua teimosia e siga o caminho correto. Não desperdice nosso tempo com trabalhos inúteis e sem sentido. Caso contrário, você será enviada novamente para a prisão militar.
Depois, ele continuou a me fazer perguntas, e eu continuei a responder. Mas fiquei pasmada ao perceber uma coisa: enquanto eu concluía minhas respostas em apenas algumas frases, eles precisavam de uma página inteira para escrevê-las. Fiquei extremamente furiosa ao ver aquilo. Chamei a atenção do advogado e disse:
: Senhor Konabi! Eu tinha respondido apenas em algumas frases……! Mas……
O advogado disse: — Eu vou ajudá-lo. Porque todas essas suas palavras serão apresentadas, letra por letra, ao presidente. Ele quer saber diariamente o seu depoimento. Eu disse: —
: Não lhes dou o direito de fazer qualquer alteração, acréscimo ou redução no meu depoimento; isto é, em meu nome, somente será escrito aquilo que eu disse.
O advogado disse: — Depois, tudo será lido para você.
Eu disse calmamente: —
: Se vocês continuarem escrevendo as minhas palavras da maneira que lhes convém, então é desnecessário que eu fale. Podem mandar o seu escrivão escrever tudo conforme a sua vontade. Se o processo for conduzido com base nisso, reconhecerei apenas as minhas próprias palavras.
O advogado perguntou novamente: —
: Você quer chamar o presidente Nasser, o governo dele e a sociedade atual de cáfiros?
Eu disse: —
: Não considero os seguidores da Qibla e da Caaba como infiéis.
O advogado quis saber: quem são os seguidores da Qibla e da Caaba?
Eu disse:
: Aqueles que creem na Kalima Tayyiba, La ilaha illallah, Muhammadur Rasulullah, e que obedecem à lei de Allah, enviada por meio do Mensageiro, em todos os aspectos da vida. O advogado perguntou como se estivesse fazendo uma prova:
Analise as qualidades dos seguidores da Qibla e da Caaba.
Eu analisei e disse:
: Aqueles que fazem a oração, pagam o zakat, jejuam no Ramadã, cumprem o hajj quando têm condições, seguem as ordens e proibições do Alcorão e da Sunna, não elaboram leis por conta própria e não governam segundo nenhuma lei que não seja a lei determinada por Allah.
O advogado perguntou:
Você considera Nasser, seu governo e a sociedade atual seguidores da Qibla e da Caaba?
Eu respondi claramente:
: No que diz respeito a Nasser, não penso assim. Pois, se quisesse, ele poderia governar de acordo com o Alcorão e a Sunna; apesar disso, suspendeu as leis do Alcorão e da Sunna. Ele impõe ao povo leis feitas por ele próprio…… Nasser declarou publicamente que não estabelecerá nenhum governo islâmico.
: O advogado perguntou: diga-me claramente que tanto Abdun Nasser quanto seu governo são infiéis.
Eu disse:
: Minha resposta já foi dada. Aqueles que querem verificar sua verdadeira condição têm o dever de testar a si mesmos na pedra de toque do Alcorão de Allah.
Só para escrever essas palavras, o senhor advogado encheu cinco páginas de papel ofício.
Depois de terminar de escrever, ele perguntou: vocês queriam assassinar Umm Kulthum e Abdul Halim Hafez?
Eu disse:
: Para o líder da nação muçulmana e para os membros do movimento islâmico, não há lugar para considerar essas questões mesquinhas. No dia em que os muçulmanos despertarem novamente, toda a injustiça desaparecerá por si só, e a nação se erguerá de cabeça erguida, com verdadeira dignidade. Hoje, os muçulmanos foram confundidos de várias maneiras e mantidos ocupados em atividades satânicas; um dia, tudo isso desaparecerá sem deixar vestígios, como bolhas.
O advogado Mohammad al-Konabi ouvia de mim uma coisa e escrevia outra. Diante de mim, ele distorcia minhas palavras, fazendo alterações e acréscimos. Às vezes, chegava a copiar algumas coisas de outro arquivo!
Assim, durante dez dias, continuou esse estranho teatro de investigação do Ministério da Lei e da Justiça. O conselheiro Abdul Salam vinha diariamente perguntar ao senhor Konabi sobre a situação e ia embora depois de ordenar que os esforços continuassem.
Certo dia, na tenda do acampamento, eu disse ao advogado, senhor Konabi:
: Hoje estou testemunhando algo extraordinário… Vejo pessoas ligadas ao departamento jurídico e aos tribunais assumindo a forma de animais selvagens; estão lançando de seus corpos as vestes da justiça e de suas cabeças a coroa da lei.
O advogado disse:
: Queremos salvá-lo das garras do Ikhwan. À luz das declarações de al-Hudaybi, Sayyid Qutb e Abdul Fattah, a sentença de enforcamento tornou-se inevitável para você. Qual é a sua opinião sobre as declarações de al-Hudaybi, Sayyid Qutb e Abdul Fattah?
Olhei-o nos olhos e disse—
: O senhor está dizendo mentiras sobre eles. Todos eles são líderes do movimento islâmico. Eles jamais dirão mentiras contra alguém.
O advogado reagiu, dizendo: — Você é quem está mentindo.
Perguntei, surpreso—
: Contra quem estou mentindo?
O advogado respondeu—
: Contra o governo e o nosso Judiciário.
Então desafiei o advogado, perguntando—
: Pode apresentar provas de que é uma pessoa ligada a este tribunal? Desta vez, o advogado disse:
: Estou encerrando a investigação e enviando você novamente para a prisão militar, para ser punida. Mais tarde, você terá de voltar aqui.
Depois disso, ele começou a tomar café. Ao terminar de tomar o café, disse:
: Zainab, você quer voltar novamente para aquela prisão de punição? Abdun Nasser quer examinar seus documentos em breve.
Depois, quando o advogado me ordenou que assinasse tudo o que havia escrito, recusei-me a fazê-lo. …… Escusado será dizer que fui novamente enviado ao escritório da prisão militar, onde o chicote e o hunter me deram uma calorosa recepção. Assim, a investigação judicial chegou provisoriamente ao fim.
Novamente no tribunal
Dois dias depois, fui novamente convocado para o edifício do tribunal. Desta vez, vi ali muitos jovens feridos, cobertos de lesões. O advogado Konabi me perguntou:
: Você já se encontrou alguma vez com eles? Quando os conheceu e quais são os nomes deles?
Olhei para os jovens e perguntei-
: Quando foi que vi vocês? Na verdade, vocês já se encontraram alguma vez comigo? Já tinham me visto antes? Quais são os seus nomes?
O advogado gritou, apresentando uma objeção, e disse-
: Eu mesmo farei as perguntas a eles.
Respondi-
: Então pergunte a eles quando foi que se encontraram comigo.
Não me pergunte quando foi que me encontrei com eles.
Depois, o advogado interrogou todos eles, um por um. Quando cada um disse que não havia se encontrado comigo, o advogado perguntou-lhes-
: Mas por que, durante a investigação, todos vocês disseram que haviam se encontrado com Zaynab?
Eles responderam:
: Foram as chicotadas que nos obrigaram a mentir.
Depois, todos nós fomos enviados para a prisão militar. Esses jovens heroicos foram obrigados a passar inúmeras vezes diante de mim, indo e vindo entre o prédio do tribunal e a prisão militar.
Aquela tortura novamente
Os interrogatórios com Shams Badran, em seu escritório na prisão, e a violência contra mim continuaram. Quase todas as noites, Shams ou algum de seus companheiros me levava ao escritório. Primeiro, ameaçavam infligir-me um castigo terrível; depois, levavam-me diante de prisioneiros adolescentes, jovens, mulheres e homens que eu conhecia e perguntavam:
: Quando você se encontrou com essas pessoas?
Respondi:
: Pergunte a eles mesmos quando foi que me encontraram e se eles sequer me conhecem?
Em resposta, eram aplicados castigos sempre novos. Por exemplo, deixavam-me de pé em algum lugar escuro ou obrigavam-me a correr enquanto me golpeavam com um chicote por trás, entre outras coisas. Quando, devido aos ferimentos e à fraqueza, eu caía de bruços no chão enquanto corria, aplicavam-me quinze ou vinte golpes fortes e mandavam-me correr novamente. Por fim, quando eu desmaiava, deixavam-me em um quarto do hospital. Os castigos torturantes que me foram infligidos após a investigação jurídica e judicial eram ainda mais terríveis e dolorosos que os castigos anteriores. Farei uma breve exposição a esse respeito. Com isso, vocês poderão imaginar quão cruelmente Nasser e seus bajuladores mimados são capazes de infligir torturas desumanas.
Castigo
À meia-noite, no escuro, fui levado a outro escritório perto do escritório de Shams Badran. Ali estava sentado um homem chamado Jalaluddin. Assim que me viu, ele perguntou:
: Qual é a sua relação com Zaynab, Khaleda Huzaybi e o marido dela, Ahmad Thabet, e qual era o papel de ambos na organização? Diga.
Eu disse: Meu trabalho com Khaleda Huzaybi limitava-se a ajudar as famílias das pessoas detidas.
Jalal perguntou: Que tipo de ajuda?
Eu disse: Ajuda financeira e material. Por exemplo, alimentos e artigos de primeira necessidade.
Depois, quando ele me perguntou sobre Ahmad Sabet, marido de Khaleda Hujaybi, informei que ele entregava a Khaleda Hujaybi os artigos destinados às diversas famílias pelo escritório da organização feminina. De fato, ele vinha buscar esses artigos, mas permanecia sentado no carro. Não entrava no escritório. Além disso, não tinha nenhuma outra responsabilidade.
Jalal recusou-se a aceitar a veracidade das minhas palavras e entregou-me a Safwat. Safwat fez-me ficar de frente para a parede e voltou a fazer todas aquelas perguntas. Repeti as mesmas respostas anteriores. Assim, a sequência de perguntas e respostas continuou por uma hora; mas, ao não notar nenhuma mudança no meu relato, ele começou a ameaçar-me com o chicote e com cães. Eu, porém, permaneci firme no meu depoimento. Nesse meio-tempo, Hamza e Jalal chegaram. Jalal ordenou que soltassem os cães contra mim. Depois, mantiveram-me detido durante duas horas com um cão e, em seguida, enviaram-me ao hospital.
Na segunda noite, fizeram novamente as mesmas perguntas sobre Hujaybi e seu marido, e eu continuei dando as minhas respostas anteriores. Ao ver que eu expressava repetidamente a mesma opinião, Jalal chamou Safwat. Safwat começou a bater em mim com toda a sua força.
Significado
Fui novamente convocado ao escritório de Shams Badran. Shams Badran disse-me:
: Trouxemos Zaini de Gaza. O Murshid-e A’am e Mamun Hujaybi o conhecem. Se você negar que o conhece, nós o enviaremos novamente para uma reinvestigação do começo ao fim. Zaini? A confissão… é muito importante.
Levaram-me a uma sala e mostraram-me um indivíduo de aparência tão grotesca que não havia a menor possibilidade de eu reconhecê-lo ou saber quem era. Portanto, levaram-me novamente até Shams.
Shams perguntou: — Quem é esta pessoa?
Respondi: Eu não o reconheci.
Shams disse:
: Este é Sadeq Zeini; todos o conhecem. No meio da conversa, Jalal interrompeu Shams e mandou que lhe perguntasse sobre o dinheiro. Quando Shams me perguntou a esse respeito, eu disse:
Esse dinheiro havia sido arrecadado para custear a alimentação, o vestuário, o tratamento médico e a educação dos filhos dos familiares daqueles cujos provedores estavam presos. Shams chamou Hamza com voz exaltada e disse:
Levem-no e, desta vez, fechem-no numa cela de cobras venenosas, em vez de deixá-lo junto aos cães.
Hamza e Safwat me levaram ao hospital. Enquanto se sentava numa cadeira, Hamza disse: Se você contar a verdade sobre o verdadeiro objetivo da arrecadação do dinheiro, não o fecharemos numa cela de cobras.
Eu disse: Vocês já investigaram tudo. Nesse momento, Jalaluddin chegou ao local e perguntou-lhes:
: Ele entrou no caminho certo?
Hamza disse: Deixe-o em minhas mãos. Parece que ele gosta da companhia de cães.
Cães! Sim, a meu ver, em matéria de discernimento e consciência, os cães são muito superiores a essas pessoas. Sempre que me sentava na cela dos cães e pensava no caráter e na mentalidade daqueles homens, eles me pareciam seres muito mais repugnantes do que os cães. Sem dúvida, o ambiente dos cães era muito mais suportável que o de Shams, Hamza, Jalal, Safwat e outros.
Certa noite, levaram-me ao escritório de Shams e, sem qualquer conversa, começaram de repente a espancar-me de tal maneira que, em poucos instantes, perdi a consciência. Deram-me uma injeção e enviaram-me ao hospital. Três dias depois, levaram-me novamente ao escritório de Shams.
Ele jurou por Jamal Nasser e disse:
Se você não responder exatamente às minhas perguntas, terá de sofrer novamente, desde o início, a punição nas celas de número um a trinta e quatro.
Eu já havia suportado as torturas aterrorizantes dessas celas. Shams deixou-me começar a falar e disse:
Zaynab, vou lembrar-lhe de dois acontecimentos. Um deles envolve Mohammad Qutb, a esposa do senhor Huzaybi e as irmãs de Mohammad Qutb; o segundo está relacionado com Ali Usmabi e Mamun Huzaybi.
Se eu disser que Hasan Huzaybi, sua esposa e Mohammad Qutb confessaram essas coisas, você não acreditará. Mas então diga: como foi que ficamos sabendo de tudo isso? Admito que você possa chamar de mentira o acontecimento em que Ali esteve envolvido, mas no outro Ali não está envolvido.
No dia em que Maomé Qutb foi de Helwan à minha casa, à noite, e, depois da conversa, você lhe deu quinhentos guinéus juntamente com as joias de ouro e lhe disse: entregue os quinhentos guinéus à Mãe, isto é, à esposa do senhor Huzaibi, aceite estas joias de ouro como contribuição para as despesas das famílias dos Ikhwan presos e entregue-as à Mãe no devido tempo.
Eu disse:
: Sim, esse acontecimento foi exatamente assim. Mas por que isso deveria causar tanta preocupação? Posso dar minhas joias a quem eu quiser. Doei-as para uma obra de serviço humanitário; isso é motivo de alegria. Naturalmente, o dinheiro pertencia aos Ikhwan. Era meu dever entregar esse dinheiro à pessoa responsável. Shams perguntou:
: Os quinhentos guinéus eram para a organização ou para as famílias mencionadas?
Eu disse: somente para as despesas das famílias.
Shams disse:
: Segundo Ali Usmavi, esse dinheiro era para a organização.
Eu disse: Ali Usmavi é um mentiroso.
Shams disse: Muhammad Qutb afirmou que não sabe com que finalidade foram dados os quinhentos jinihs. Contudo, você lhe entregou esse dinheiro junto com as joias e lhe pediu que o entregasse à esposa do senhor Huzaybi.
Eu disse:
: Tragam Muhammad Qutb à minha presença. …… Eu lhe havia dito que os quinhentos jinihs tinham sido entregues para ajudar as famílias.
Shams disse:
: Está bem, certo? Mas de onde veio esse dinheiro?
Eu disse:
: Certo dia, Ali Usmavi veio até mim para obter uma carta de recomendação para um irmão saudita se encontrar com Murshid ou Mamun. Eu lhe disse que não era necessária nenhuma carta de recomendação nem intermediário para encontrar-se com o irmão Mamun. E Murshid estava em Alexandria. Mamun, porém, estava aqui mesmo, e seria possível encontrá-lo. Mais tarde, Ali Usmavi informou-me que o irmão saudita se encontrara com Mamun e lhe dera algum dinheiro como contribuição. Mamun pediu-lhe que entregasse esse dinheiro da contribuição a Zaynab al-Ghazali. Diante disso, o irmão saudita encarregou Ali Usmavi de fazer chegar até mim aquele dinheiro da contribuição, conforme o pedido de Ali Usmavi. Ele também deixou claro que esse dinheiro seria gasto para ajudar as famílias dos Irmãos Muçulmanos presos.
Shams disse:
: Segundo Muhammad Qutb, esse dinheiro não era destinado à família.
Quando o professor Muhammad Qutb foi levado à minha presença, lembrei-lhe do assunto e disse:
: Quando lhe entreguei as joias e o dinheiro para que os levasse à minha mãe, eu lhe disse que esse dinheiro estava sob minha custódia para ser entregue à família… Talvez você tenha se esquecido disso.
Depois das minhas palavras, o senhor Muhammad Qutb disse:
: Zaynab, se você tem certeza de que me disse isso—
então as palavras de Zaynab são verdadeiras.
Depois disso, obrigaram-me a ficar de pé, voltado para a parede, até o amanhecer. Em seguida, enviaram-me ao hospital.
Dois dias depois, levaram-me novamente ao escritório de Shams e, sem qualquer introdução, disseram:
: Zaynab, reconheça que Muhammad Qutb fundou uma organização.
Eu disse:
: Já fui questionada sobre isso antes e informei que Muhammad Qutb não fundou organização alguma.
Ao ouvir isso, Shams ordenou a Safwat que me pendurasse e me açoitasse. Em seguida, fui levada para outro escritório próximo. Ali, um homem desconhecido me disse:
: Zaynab, você é uma completa tola. Não sabe salvar a própria vida. Os Ikhwan fizeram muitas acusações falsas contra você…… Então, por que você não nos ajudaria a reunir informações sobre Muhammad Qutb? Saiba que, com um pouco da sua colaboração, o caminho para um acordo se tornaria muito fácil.
Perguntei, com ironia:
: Fazer um acordo com vocês? Eu odeio de todo o coração o comportamento, os modos e a astúcia de vocês. Todos vocês são companheiros de Satanás. Mas jamais conseguirão permanecer no nosso caminho. Somos servos de Allah e mujahidin. Por mais que vocês tentem, não conseguirão desviar nenhum de nossos irmãos, nem fazê-los mentir por meio de tortura. É bom que saibam disso.
Ele disse, com voz áspera:
: Nós lhes infligiremos novamente um castigo severo e ordenaremos outra investigação judicial a respeito de vocês.
Eu disse-
: O Ministério da Justiça, o Judiciário e todos vocês são duas faces da mesma moeda. Vocês se afastaram do caminho de Allah. Cada um de vocês está girando no turbilhão do desvio e se tornará vítima da ira de Allah.
Nesse momento, Hamza entrou, deixou um documento escrito à minha frente e saiu. Então aquele homem começou a falar comigo sobre Muhammad Qutb. Pouco depois, ele também saiu da sala.
Depois, Safwat veio, espancou-me impiedosamente e saiu. Em seguida, outro homem veio e começou a me oferecer muitas recompensas em troca de informações sobre uma determinada organização. Mas, quando não conseguiram de modo algum mudar minha opinião, fui colocado e trancado na cela dos cães. Desta vez, porém, havia outro homem com o cão. Hamza disse àquele homem que, se o cão não me mordesse, ele mesmo deveria me morder. A cela ficou trancada por duas horas. Durante esse tempo, permaneci ocupado apenas com a lembrança de Allah. Até a porta ser aberta, duas horas depois, o cão e aquele homem ficaram sentados em silêncio, quietos como crianças dóceis e bem-comportadas.
Depois, fui levado ao hospital. No dia seguinte, fui levado ao escritório de Riaz. Ele quis saber se eu havia me encontrado com alguém de Karwasa. Eu lhe disse-
: Não sei absolutamente nada sobre Karwasa.
Riaz perguntou-
: Algum indivíduo de lá jamais se encontrou com você? Zainab, você não se lembra de que Abdul Hamid Karwasa é justamente um dos nossos? Depois, ele me repreendeu severamente e disse:
: Estou enviando homens do paxá para disciplinar você. Imediatamente depois, um soldado veio, fez-me ficar de frente para a parede e começou a me açoitar. Depois de me torturar por muito tempo, mandaram-me novamente para o hospital. Essas torturas estão sendo infligidas justamente após a investigação judicial.
Alguns dias depois, fui novamente levada ao escritório de Riyaz. Dessa vez, havia também várias outras mulheres presentes. Eu nunca tinha visto nenhuma delas antes.
Perguntaram-me: Qual delas é a esposa de Sisi?
Respondi: Eu não sei.
Nesse momento, o soldado apareceu trazendo um jovem. Perguntaram ao rapaz: Qual delas é Zainab al-Ghazali?
O rapaz olhou ao redor e disse: Eu não sei.
Depois, quando lhe perguntaram sobre Abbas Sisi, ele também declarou não saber. Em seguida, perguntaram-lhe:
: Com qual das mulheres presentes aqui você se encontrou? Quando o rapaz respondeu novamente de forma negativa, ele foi açoitado e mandado para fora.
Nesse momento, de repente, viu-se a irmã Hamida Qutb chegando. Safwat vinha atrás dela. Quando perguntaram à irmã Hamida Qutb sobre a esposa de Sissi, ela também disse: “Não a conheço.”
Depois, todas as mulheres, inclusive a irmã Hamida Qutb, foram mandadas para fora. Mas me fizeram sentar diante de Riaz. Ele me perguntou:
: Dizem que um ikhwaniano se casou quatro vezes. Você sabe alguma coisa sobre isso?
Eu disse: — Não.
Ele rugiu e disse:
Então eu estou mentindo? Se você não disser quem é essa pessoa, será espancada.
Manifestei meu desprezo e disse: — Faça o que quiser.
Ele me virou de frente para a parede, deu-me várias chicotadas e foi embora. Duas horas depois, voltou com Safwat e me enviou ao hospital.
O pacote de carne moída
Observando a rápida deterioração da minha saúde, os médicos disseram que havia risco de morte se não fosse permitida a entrega de alimentos nutritivos para mim vindos de casa. Assim, seguindo a recomendação médica, foi concedida permissão para trazer alimentos de casa para mim. Naturalmente, essa permissão foi limitada ao leite e às frutas. Certo dia, minha irmã teve a excelente ideia de me fazer chegar carne. Ela encheu uma embalagem vazia de leite com carne moída de tal maneira que era difícil perceber por fora. Ela estava tão macia quanto uma verdadeira embalagem de leite. Somente eu consegui perceber. Junto com ela, também foram enviados manteiga e laranjas. Guardei a minha parte e distribuí o restante dos alimentos, por meio de Abdul Mabud, entre os outros irmãos ikhwan que estavam recebendo tratamento no hospital. Naquela época, o professor Abdul Aziz, ex-ministro responsável pela administração local, também estava conosco. Cada um de nós recebeu uma laranja, e dividimos entre nós um pacote de manteiga para cada duas pessoas.
Depois de terminar a distribuição dos alimentos, chamei Abdul Mabud, entreguei-lhe a bolsa de leite e pedi que a distribuísse entre todos os irmãos ikhwan. Ele saiu e voltou novamente, dizendo:
: Ora, vejo que há carne moída aqui. Isso será muito útil para o senhor. Guarde-a consigo.
Mas pedi-lhe que a distribuísse. Mesmo depois de distribuí-la a todos, ainda restou um pouco de carne moída no pacote. Enviei essa carne moída e um pouco de manteiga ao professor Abdul Aziz.
Abdul Mabud perguntou: — O senhor não guardou nada para si?
Eu disse:
: Infinitos louvores a Allah. É Ele quem provê o sustento de Seus servos.
Ele disse: — Todos os louvores pertencem a Allah. Ele é o Senhor, é o provedor do sustento.
O assistente da enfermaria veio e me perguntou:
: Como entrou comida aqui dentro?
Eu disse: — Com a autorização do médico.
Os irmãos da Ikhwan reuniam pequenas quantidades de alimentos de boa qualidade e as guardavam para os irmãos relativamente mais doentes. Por isso, quando qualquer coisa chegava de fora da prisão, ficávamos muito felizes, por menor que fosse! Mesmo vivendo sob o domínio de opressores tirânicos, cuidávamos especialmente do bem-estar uns dos outros.
Sem comida no hospital
Durante o primeiro ano na prisão, fui privado de receber alimentos de casa ou de fora. Já no final, sem outra alternativa, permitiram que me trouxessem comida de casa. Isso também foi permitido para que, à luz das acusações falsas e infundadas deles, o tribunal pudesse me condenar, possivelmente, à pena de morte. Com esse objetivo, na esperança de me manterem vivo ao menos até a sentença de morte, permitiram que me trouxessem de casa alimentos de boa qualidade.
Alguns dias antes do início do processo no tribunal, minha mãe e minha irmã vieram visitar-me na prisão e, no decorrer da conversa, informaram-me que Safwat, usando meu nome, havia extorquido delas uma grande quantia em dinheiro sob o pretexto de comprar medicamentos, frutas, roupas e outras coisas. Além disso, de várias maneiras, exerciam-se diferentes formas de pressão sobre minha família e meus parentes para satisfazer interesses próprios.
A alguns prisioneiros eles permitiam, desde o início, que recebessem comida de fora, mas aos Irmãos não concediam esse tipo de autorização. Pelo contrário, seu objetivo era, de uma forma ou de outra, fazer os Irmãos sofrerem ou matá-los. Por isso, até mesmo no hospital, privavam os Irmãos de sua alimentação devida. Na verdade, tudo isso era a manifestação exterior de sua mentalidade vil e hostil ao Islã.
Certo dia, trouxeram ao hospital um jovem Irmão em estado gravíssimo, ferido. Para seu tratamento, surgiu a necessidade de açúcar. O médico enviou alguém para procurar açúcar ou alguma substância semelhante. Mas não foi possível encontrá-lo em lugar algum. Ao tomar conhecimento do caso, bati à porta da enfermaria. Quando abriram a porta, enviei ao médico o frasco de mel que haviam mandado de casa para mim. Assim, o Irmão pôde ser tratado prontamente. Os espiões do governo destacados no hospital observaram tudo. Segundo a lei, eu supostamente havia cometido um ato proibido.
Por causa disso, alguns dias depois, cortaram o fornecimento de água aos prisioneiros internados no hospital. Este é um exemplo abominável de tratamento desumano. Durante a estação de calor intenso, todas as noites éramos privados até de uma gota de água. Conseguir de algum modo uma xícara de água ao longo do dia era uma tarefa tão difícil quanto obter leite de uma tigresa.
Eu já estava extremamente doente. Minha saúde se deteriorava dia após dia, aproximando-se de seu limite extremo. Por fim, reservaram água apenas para mim. Eu dividia minha água e a enviava ao irmão Abdul Karim, na cela ao lado. Mas fazer chegar água à cela vizinha era extremamente difícil. Não havia como driblar os guardas. Sem alternativa, eu fazia a água escorrer de um lado para o outro através de um orifício muito estreito na parede, enquanto, do outro lado, o irmão encostava a boca no orifício e tentava saciar a sede. Para manter vivo o corpo e o espírito dilacerados pelos golpes do chicote, aquelas poucas gotas de água equivaliam, para ele, a uma nova vida. Os carrascos a serviço do governo praticavam todo tipo de punição abominável contra aquelas pessoas inocentes. Não conheciam de modo algum qualquer sentimento semelhante à humanidade. Não seria exagero dizer que sua crueldade havia ultrapassado os limites da bestialidade.
O arrependimento do opressor e o retorno ao caminho da verdade
Enquanto eu ainda estava no hospital, aconteceu um incidente. Por meio dele, revelaram-se para mim as virtudes adormecidas no ser humano. Não tenho dúvida de que, se alguém receber sinceramente uma exortação à retidão, por pior que seja, mais cedo ou mais tarde aceitará uma boa orientação. Se necessário, basta um esforço sincero. Com esforço, uma nação pode voltar a adquirir a capacidade de avançar com toda a força pelo caminho de seu verdadeiro destino.
Havia no hospital militar, sob nossa supervisão, um auxiliar militar chamado Salah. Ele era responsável por aplicar injeções nos pacientes e também por vigiar os movimentos dos prisioneiros. Certo dia, a caminho do banheiro, vi que a cortina usada como porta do quarto de Sayyid Qutb estava bastante levantada e esvoaçava ao vento. Eu passava por ali justamente naquele momento. Assim que viu aquilo, ele começou a fazer um alvoroço, armando um enorme tumulto. Ele disse:
: Como Zaynab al-Ghazali ousou afastar a cortina e olhar para Sayyid Qutb, que estava sentado lá dentro? Salah começou a insultá-la com palavras obscenas. Ficou pulando e fazendo escândalo; estava completamente fora de si! Exatamente naquele momento, Safwat chegou ali, e os gritos e insultos de Salah aumentaram ainda mais. Com isso, ele queria provar aos seus superiores quão competente e vigilante era no cumprimento de suas responsabilidades. Começou a relatar, uma após outra, provas de que, graças ao seu poder administrativo, mantinha completamente subjugados os prisioneiros feridos e doentes no hospital.
Na verdade, Salah era um homem de natureza bestial, como um animal selvagem, privado de todas as boas qualidades, como conhecimento, inteligência, consciência e educação religiosa. Ao ouvir suas palavras grosseiras e seu alvoroço, o professor Sayyid Qutb chamou-o para perto e explicou-lhe com muito carinho:
: Meu irmão! A cortina estava voando com o vento. Por que ela teria culpa disso? Ela não tem culpa alguma. Assim, ele lhe explicou muitas outras coisas. Que coisa espantosa! Aquele homem abominável, semelhante a uma fera selvagem, pareceu derreter completamente, encantado pelas palavras de Sayyid Qutb. Permaneceu calado, com os olhos humildemente baixos, fitando o chão.
Alguns dias depois, ele veio até mim, expressou vergonha pelo seu erro anterior e disse:
: Quero voltar a ser muçulmano, começando de novo. Quero conhecer o Islã; diga-me, como posso me tornar um verdadeiro muçulmano?
Perguntei, surpreso:
: Você conseguiria suportar as cenas de violência, opressão, abusos e maus-tratos que está vendo serem cometidos contra os ikhwan?
Ele respondeu:
: Se eu também puder tornar-me um muçulmano verdadeiro como eles, Allah também me concederá paciência e força.
Proferi com a voz cheia de emoção:
: Não há divindade além de Allah; Muhammad é o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele).
Ele recitou várias vezes a Kalima Tayyiba, com uma pronúncia extremamente lenta, porém firme.
Depois eu disse:
: Está bem; continue fazendo aquilo que Allah ordenou. Não se curve diante de nenhum poder falso além de Allah.
Ele disse:
: Quero aprender aquela verdadeira educação islâmica que elevou tanto o caráter de vocês e fortaleceu tanto a sua fé, a ponto de vocês não terem alterado nem um pouco seus princípios diante das mais cruéis torturas e suportarem sorrindo toda a opressão e perseguição. Para uma pessoa comum, seria impossível suportar sequer um por cento de torturas desse tipo. Diga-me: como posso adquirir a verdadeira educação islâmica?
Eu lhe disse:
: Quando você for até Sayyid Qutb para tomar injeções e receber medicamentos, faça-lhe esta pergunta. Ele lhe indicará, da melhor maneira, o caminho para o aprendizado islâmico.
Enviei minhas saudações a Sayyid Qutb por intermédio dele.
O veredicto se aproxima
Vários dias depois, antes do início do processo no tribunal, recebi formalmente a acusação.
Este é um processo absurdo. É difícil encontrar na história um exemplo de atuação tão vergonhosa do Judiciário…… Pode-se dizer que isto é uma grande tragédia. Já sabíamos que a sentença final do tribunal estava guardada na gaveta da mesa de Shams Badran. Enquanto isso, preparava-se a encenação da farsa do julgamento. Por ordem do governo, fomos privados do direito de nos defender e de nos encontrar com os advogados. Quando quis nomear o ilustre advogado Sr. Ahmad Khaja, o governo declarou que ele não poderia participar deste processo. Então eu disse que não precisava de advogado. Declarei minha decisão de conduzir pessoalmente minha própria defesa.
O público, sem que eu soubesse, nomeou um advogado cristão para conduzir minha defesa. Pouco antes do início do processo, permitiram que meus parentes próximos me visitassem. Minha mãe e minha irmã vieram ver-me. Ao verem minha situação deplorável e minha fraqueza física, quase desmaiaram. Sentei-me com elas e lhes ofereci consolo e encorajamento. Durante nossa visita, Safwat e Hamza permaneciam de pé ao lado, desempenhando o papel de seus supervisores. Por meio de minha mãe e de minha irmã, pedi a todos que não nomeassem advogado para mim. Mas elas me informaram que Hussein Abu Zayd já havia sido nomeado meu advogado por mil guinéus, e que metade do valor lhe fora paga adiantadamente antes do início do processo. Por isso, pedi-lhes que encerrassem o assunto ali mesmo. Contudo, no primeiro dia do julgamento, vi Hussein Abu Zayd chegar para me defender no processo.
Enquanto isso, no dia anterior ao início do processo, fui levado ao escritório de Shams Badran. Shams chamou-me e disse:
: Espero que você não faça objeção à explicação da declaração escrita durante a investigação e reconheça a veracidade de tudo o que foi escrito. Se você declarar no tribunal que a Irmandade o havia enganado e que se envergonha disso, o caso será resolvido com extrema facilidade, e nós também lhe prestaremos o devido serviço e respeito.
Eu disse:
: Deus faz o que Lhe apraz. Ninguém é capaz de resolver o próprio problema.
Shams disse:
: Meu rapaz! Fale em árabe simples. Não entendo nada dessas suas palavras. Contudo, parece que suas intenções não estão a nosso favor. E nós queremos servi-lo e honrá-lo.
Eu disse:
: Todas as chaves dos mistérios desconhecidos e invisíveis estão nas mãos de Deus. Neste vasto céu e nesta terra, nas águas e em terra firme, ninguém além d’Ele sabe o que acontece e o que deixa de acontecer. Ele sabe, ouve e controla tudo. Ele sabe até da folha que caiu, e somente Ele vê e conhece a semente que germina na profunda escuridão sob a terra. Na verdade, tudo, desde o átomo até o céu, é dirigido sob o Seu controle.
Shams, boquiaberto, ouviu tudo, chamou Hamza e disse:
: Leve-o embora, Hamza. Ele é completamente livre para decidir se quer ou não pensar nos próprios interesses.
Hamza disse—
: Deixe-o comigo, senhor; vou conversar com ele e ver o que consigo.
Fui retirado do escritório de Shams Badran e levado para outra sala. Hamza começou a tentar me convencer a desempenhar no tribunal um papel contrário ao Ikhwan. Continuou a repetir todas aquelas frases gastas que eu já ouvira tantas vezes da boca deles, a ponto de sentir repugnância e irritação. Ele disse—
: Primeiro, todo o dinheiro confiscado de você lhe será devolvido. E, se o Ikhwan for enganado no tribunal, isso será considerado um grande presente seu ao presidente Nasser.
Ele me levou até Shams e começou a me aconselhar a agir de acordo com suas ordens e vontades. Ouvi todas as suas palavras com indiferença, sem pronunciar sequer um sim ou um não. Por fim, depois de repetir várias vezes que me salvaria da pena de morte—
então olhei para ele com compaixão e disse—
: Seu idiota! Se o seu processo de evacuação parar, você não tem sequer a mínima força para fazer as fezes saírem, e veio aqui para me salvar da forca?
Depois de me levar até a cela, ele saiu para concluir os preparativos para registrar um processo falso no tribunal.
Que maravilha! O governo e os tribunais estavam todos na palma da mão deles. Mesmo assim, por que tinham tanto medo de mim? Eles queriam que eu não falasse no tribunal, não negasse as declarações que haviam apresentado e não revelasse a verdade diante da nação aprisionada pelos tentáculos de seu mau governo!
O processo que apresentaram no tribunal carregava as marcas de uma teatralidade ao mesmo tempo ridícula e trágica. Eles tentavam fazer parecer que, vejam, haviam confessado por iniciativa própria que queriam matar Nasser e que cada um havia espontaneamente testemunhado contra si mesmo. Mas, por fim, pela misericórdia de Allah, todas as suas conspirações e más intenções fracassaram. A sentença do tribunal reduziu a pó a conspiração deles. No entanto, haviam completado todos os preparativos para influenciar o tribunal. Até pessoas como o coronel Ozumi vinham sentar-se no estrado do tribunal. Mas ficou provado que a vitória da verdade era inevitável.
Boas-novas
: Em certa ocasião, sonhei que estava de pé num campo que se estendia até o horizonte. Diante de mim, parecia que aquele era o tribunal e que seria ali que seríamos julgados. Todo o céu parecia formar um toldo sobre a terra, lançando sua sombra. E do céu até a terra se espalhava uma agradável faixa de luz. Vi o amado Profeta, Hazrat Muhammad (que a paz esteja com ele), de pé diante de mim, voltado para a qibla, e eu estava atrás dele, ouvindo suas palavras. Ele dizia: “Ouçam atentamente a voz da verdade!” Ouvi uma voz extraordinária, que parecia chegar igualmente de todas as direções do céu e da terra. As palavras que chegavam eram: “Aqui será estabelecido um tribunal falso, e ele decidirá em favor da falsidade. Mas vocês são crentes e guias do caminho da verdade…… Tenham paciência e ensinem a paciência, mantenham contato uns com os outros e temam Allah. Vocês prosperarão”. Essas palavras pareciam atravessar o céu e a terra e sair de modo belíssimo. Sob seu efeito, fui tomada por uma profunda compreensão e por uma alegria indescritível no coração e na mente, de modo que não me lembro de tudo. Quando essa voz extraordinária terminou, o amado Profeta voltou sua atenção para mim e indicou que eu olhasse para a direita. Vi o cume de uma montanha que tocava o céu. Sua vegetação verdejante, viva e bela era extremamente encantadora; parecia que haviam estendido sobre ela um tapete verde.
O amado Profeta me disse:
: “Zainab, suba até o cume desta montanha. No cume, você encontrará Hassan Huzaibi. Transmita-lhe estas palavras”. Em seguida, o amado Profeta olhou para mim com um olhar profundo. Senti em todo o meu ser uma força extraordinária. Embora o amado Profeta não tivesse pronunciado palavra alguma, pareceu-me que eu havia compreendido tudo o que ele queria dizer e também seu propósito. Quando o amado Profeta levantou a mão em direção ao cume da montanha, senti que eu mesma estava subindo a montanha. Durante a escalada, encontrei Khaleda e Alia Huzaibi. Perguntei-lhes:
: Vocês também são minhas companheiras de viagem?
Eles responderam afirmativamente. Deixei-os e continuei avançando. Depois de percorrer certa distância, encontrei Umayyah, Hamida Qutb e Najma Isa. Perguntei-lhes:
: Vocês também estão seguindo comigo?
Eles responderam: Sim.
Continuei avançando. Finalmente, cheguei ao cume. Ao chegar lá, vi um pequeno planalto plano, coberto de tapetes. De um lado, havia um assento magnificamente preparado; o senhor Huzaybi estava sentado ali. Ao me ver, ele se levantou e me cumprimentou com o salam. Demonstrou grande alegria com a minha presença. Depois de perguntar por seu bem-estar, eu disse-lhe:
: Vim incumbido de transmitir-lhe algumas palavras do Profeta Amado.
Ele disse:
: Elas já chegaram até mim.
Sentamo-nos, agradecendo a Allah. As palavras do Profeta Amado haviam chegado não por meio de palavras, mas espiritualmente. Sua imagem nítida havia sido gravada em nosso conhecimento e em nossos sentimentos.
Enquanto estava sentado junto do senhor Huzaibi, olhei para baixo, ao pé da montanha, e vi duas mulheres nuas num trem em movimento. Quando chamei a atenção do senhor Huzaibi para aquele lado, ele também as viu. Fiquei profundamente consternado com a cena. Percebendo a angústia que eu sentia, o senhor Huzaibi disse:
: Isso lhe causa alguma objeção?
Eu disse: Certamente que sim.
Ele disse:
: Você acha que chegamos aqui pela força de nossos braços e pernas? Ao contrário, Allah nos concedeu Sua misericórdia. …… Não se preocupe com aquelas duas mulheres.
Eu disse: Temos de continuar lutando para guiá-las ao caminho reto.
Ele perguntou: Você pode fazer isso pessoalmente?
Eu disse: Com a ajuda de Allah, posso.
O senhor Huzaybi então disse:
: Devemos expressar nossa gratidão pela misericórdia de Allah. Para agradecer, ele ergueu as duas mãos e fez uma súplica. Eu também me juntei a ele. Durante a súplica, repetíamos várias vezes as palavras «Alhamdulillah».
Nesse momento, de repente, meus olhos se abriram. Ao despertar, todo o meu ser foi tomado por uma sensação extraordinária. Depois disso, não restou em meu coração nenhum medo ou apreensão. Senti uma paz e uma força extraordinárias. Esse sonho também afastou minhas dores físicas e minha tristeza e preocupação mental.
Allah disse: “Perdoarei todos os pecados daqueles que emigraram, daqueles que foram expulsos de suas próprias casas, daqueles que suportaram sofrimento e adversidade enquanto trilhavam Meu caminho, daqueles que combateram em jihad e foram martirizados. E os colocarei em jardins sob os quais correm rios. Eles receberão a melhor recompensa, como retribuição da parte de Allah. Não sigais aqueles que descreram de Allah. Ó crentes! Sede pacientes, encorajai-vos mutuamente à paciência, mantende contato uns com os outros e temei a Allah. Alcançareis o bem”.
O Dia Prometido
No dia do anúncio do veredicto do processo, fomos enviados ao escritório para esperar o veículo que nos levaria ao tribunal. Por volta das oito horas, policiais, oficiais e soldados das forças armadas lotaram o pátio da prisão. Ao vê-los, parecia que estavam indo para o campo de batalha para lutar. Quando chegou um veículo, entramos e nos sentamos nele. Os oficiais e soldados ficaram de pé, cercando nosso veículo. Assim que chegamos ao tribunal, fomos conduzidos ao banco dos réus. Éramos 43 ao todo. Seus nomes, em ordem, eram:
1. Sayyid Qutb
2. Muhammad Yusuf Hawwash
3. Mohamed Fattah Ismail
4. Ahmed Abdel Majid Abdus Sami
5. Ahmed, também conhecido como Ibrahim al-Qawmi
6. Majdi Abdel Aziz Mutawalli
7. Abdel Majid Youssef Abdel Majid al-Sajli
8. Abbas Said al-Sisi
9. Mubarak Abdel Azim Mahmoud Ayad
10. Farouk Ahmed Ali al-Mansabi
11. Fayez Mohammed Ismail Youssef
12. Mamdouh Darwish Mustafa al-Diyubi
13. Mohammed Ahmed Abdurrahman
14. Jalaluddin Bikri Disabi
15. Mohammed Abdul Muatta Ibrahim al-Jazzar
16. Mohammed al-Mamoun Yahya Zakaria
17. Ahmed Abdul Halim al-Siroji
18. Salah Mohammed Khalifa
19. Saiyid Saaduddin al-Sayed Sharif
20. Mohammad Abdul Moayatta Abdur Rahim
21. Imam Abdul Abdul Fattah Gais
22. Kamal Abdul Aziz al-Irfi
23. Fuad Hasan Ali Mutawalli
24. Mohammad Ahmad al-Buhairi
25. Muhammadi Hasan Saleh
26. Mostafa Abdul Aziz al-Khuzaibi
27. As-Saiyid Nazili Muhammad Awliyah
28. Mursi Mustafa Mursi
29. Muhammad Badi Abd al-Majid Muhammad Sani
30. Muhammad Abd al-Mun’im Shaheen
31. Mahmud Ahmad Fakhri
32. Muhammad Izzat Ibrahim
33. Salah Muhammad Abd al-Haqq
34. Helmi Muhammad Sadeq Hat’hut
35. Al-Hisam Yahia Abd al-Majid Badawi
36. Abd al-Mun’im Abd al-Ra’uf Yusuf Arafat
37. Muhammad Abd al-Fattah Rizq Sharif
38. Zaynab al-Ghazali al-Jubaili
39. Hamida Qutb Ibrahim
40. Muhyi al-Din Hilal
41. Isabi Sulayman
42. Mustafa al-Alam
O número 43 era Ali Usmabi. Porém, seduzido pelo encanto de interesses mesquinhos, vendeu sua própria religião e sua consciência, tornando-se testemunha da acusação. Assim, ficou envergonhado e humilhado.
Quando chegamos ao banco dos réus, o inimigo da justiça vestiu a toga de juiz e sentou-se no tribunal. Chamando cada um de nós pelo nome, perguntou se tínhamos alguma objeção ao seu julgamento. Em resposta, foi-lhe dito:
: Não temos nenhuma objeção a qualquer pessoa em particular; contudo, temos certamente objeções à lei pela qual estamos sendo julgados. As leis sob as quais estamos sendo julgados são leis inválidas. Não temos nenhuma confiança nelas. Somos crentes somente na lei dada por Allah e queremos ser julgados de acordo com a lei de Allah.
De qualquer modo, após o interrogatório formal do tribunal, foi-nos informado que o tribunal havia decidido anunciar separadamente os veredictos dos casos relacionados a Zaynab al-Ghazali e Hamida Qutb. Em seguida, fomos retirados do banco dos réus. De longe, cumprimentamos com salam, por meio de gestos, os parentes que haviam vindo à sala do tribunal.
Fomos mantidos trancados em uma sala até que a audiência do tribunal fosse suspensa. Depois, fomos enviados de carro para a prisão. Isso aconteceu em 10 de abril de 1966. Até 17 de maio daquele ano, permanecemos na cela escura da prisão, aguardando o início da farsa em nome do julgamento.
Sexto capítulo
O tribunal
Na manhã de 17 de maio, fomos colocados no banco dos réus do tribunal. O coronel Ozumi, das forças armadas, presidia o colegiado de juízes. Sua atitude era extremamente severa. Os demais juízes estavam sentados à sua direita.
Perto do advogado, vários jornalistas já estavam reunidos em torno de uma mesa, observando a movimentação muito antes do início do julgamento. Os fotógrafos da imprensa começaram a tirar fotografias nossas. Entre eles estava também um fotógrafo de imprensa chamado Abdul Azim. Eu o reconheci imediatamente, pois ele costumava comparecer para fotografar diversos eventos da Organização das Mulheres Islâmicas.
Chamei-o e disse:
: Abdul Azim, guarde tudo isso. Talvez seja necessário mais tarde.
Ele respondeu: Certamente.
Embora parecesse prestes a dizer isso destemidamente, pareceu estremecer de medo diante de algo desconhecido. Depois de responder, seu rosto subitamente ficou amarelo. Em poucos minutos, parecia ter fugido para salvar-se. O juiz, coronel Ozumi, iniciou os procedimentos do caso pronunciando meu nome e olhando para os jornalistas. Ele disse:
: Zaynab, o que você está fazendo?
Para responder às perguntas, saí do banco dos réus e fui até o local designado. As perguntas que me foram feitas não tinham relação alguma com o depoimento que eu havia dado durante a investigação.
Em resposta ao que ele disse, respondi: Eu não lhe disse essas coisas. Apenas respondi a duas perguntas.
O coronel-juiz Ozumi disse—
: Hassan Huzaybi diz que aqueles quatro mil guinéus que você lhe deu, você os roubou do seu próprio marido para dá-los a ele.
Eu disse—
: Os quatro mil guinéus eram dinheiro das contribuições dos Ikhwan para a alimentação, o vestuário, a educação e outras necessidades das famílias dos detidos. Depois do processo de 1954, Jamal Abdel Nasser dispersou essas famílias e as empurrou para a beira da destruição.
Ao ouvir minhas palavras, especialmente a última frase, o estado do juiz Ozumi, que usava uma máscara, ficou tal como se ele tivesse acabado de ser picado por um escorpião venenoso.
Ele então disse—
: Quando sua perna se quebrou, por que então surgiu em sua mente uma preocupação acerca desse dinheiro? Por que Abdul Fattah Ismail ia visitá-lo no hospital? Aquele a quem você havia dado a chave do cofre em sua casa, para que tirasse dinheiro dele e o entregasse a Huzaybi!
Eu disse—
: Porque aquele dinheiro pertencia ao movimento islâmico e havia sido reunido para ajudar as famílias dos irmãos prisioneiros. Foram vocês que empurraram essas famílias para a ruína. …… Temendo que, depois da minha morte, os meus herdeiros pudessem tomar aquele dinheiro, devolvi-o ao seu verdadeiro proprietário, isto é, ao movimento islâmico.
O juiz Ozumi disse então:
: O dinheiro daquelas organizações, com o qual vocês compravam armas. Huzaybi disse que não sabe nada sobre a origem desse dinheiro. …… Certamente você roubou o seu dinheiro.
O advogado interveio e disse:
: Segundo o depoimento de Sayyid Qutb, ele pediu que fossem cobrados impostos em grande escala de Hamida.
Eu disse: Isso tudo não aconteceu.
O advogado perguntou: Então, Sayyid Qutb mente? Eu disse: Que Deus o preserve da mentira.
O advogado já não conseguiu suportar. Naquela mesma sala de tribunal lotada, começou a proferir insultos obscenos. Fiquei espantado. Jamais imaginei que algum dia ouviria insultos desse tipo numa sala de tribunal. Incrível! Será que essas pessoas incivilizadas vão estrangular e matar desse modo a tradição de civilidade e decoro do Egito?
Quando o coronel juiz Ozumi anunciou o adiamento do meu interrogatório, voltei ao banco dos réus. Em seguida, Hamida Qutub foi chamada para ser interrogada. Depois de concluído o interrogatório, ela também foi enviada para a prisão. Então o promotor começou a ler seu depoimento.
Não sei se é correto chamar isso de tribunal ou corte de justiça. Que espécie de tribunal é esse, onde o promotor pode insultar pessoas nobres com linguagem grosseira e espalhar acusações inventadas? Aquele indivíduo que falava no tribunal em nome do promotor tinha a mancha de sua alma escurecendo-lhe o rosto e espalhando sua influência sombria também pela sala do tribunal.
Ao ouvir suas abomináveis mentiras, meu sangue ferveu de raiva. Levantei a mão para protestar contra suas palavras ofensivas. O juiz Ozumi, vestido com sua toga, pensou que eu talvez tivesse levantado a mão com a intenção de apoiar o lado deles no último momento, para escapar da sentença de morte. Ele olhou para mim como um idiota e disse: — Fale.
Fiquei calado por alguns instantes, percorri com o olhar toda a sala do tribunal e comecei a dizer:
: Começo em nome de Allah, o Misericordiosíssimo. Nós somos os líderes da nação. Somos os guardiões do Alcorão e da Sharia. Para nós, o Mensageiro é o maior modelo da humanidade. Permaneceremos firmes no caminho de Allah e manteremos erguida a bandeira do Tawhid, da Risalat, da justiça e da verdade. É a partir disso que a nação encontrará a orientação para seu caminho. …… Diante das conspirações e dos enganos dos opressores e tiranos, somente Allah é nosso protetor, e somente Sua misericórdia nos basta.
Em seguida, apontei o dedo para o chamado juiz e para o promotor e disse:
: Somente Allah é suficiente para proteger nossas vidas e nossos bens das mentiras e calúnias deles.
Repeti isso várias vezes. O chamado juiz Ozumi começou a gritar como um paciente acometido de histeria e disse:
: Pare! Pare! O que você está dizendo? Ao dizer isso, ele pronunciava palavras tão absurdas que todas as pessoas presentes na sala do tribunal começaram a rir ao ver suas palhaçadas. Um juiz, sem dúvida!…… Ele nem sequer sabia como um juiz deve falar. Na verdade, todos os colaboradores de Abdun Naser eram uns teimosos ignorantes. Foram esses colaboradores que o confundiram e prejudicaram. Como nenhuma pessoa educada e instruída permanecia em seu círculo, ele nomeava justamente esses ignorantes para desempenhar diversas responsabilidades. Então, sentei-me e disse:
: A ignorância é o verdadeiro problema. É por causa dessa ignorância que surgem todos os tipos de atos perversos. A história certamente registrará como testemunho a competência e a personalidade do juiz e do promotor de hoje. Quando a sessão daquele dia foi suspensa, fomos levados de volta à prisão. Cada um de nós voltou para sua própria cela. Mas eu tive de sofrer a punição por ter falado no tribunal.
A mais extrema barbárie
Eu pensava que, como o julgamento estava em andamento, talvez as torturas contra mim fossem suspensas. Mas não: continuaram, como antes, levando-me de escritório em escritório sob o pretexto de investigação. Dessa vez, exigiram que eu fornecesse informações sobre algumas pessoas. Quando declarei que nada sabia a respeito, fizeram-me ficar de frente para a parede e espancaram-me. De um lado, o processo corria no tribunal. De outro, as torturas contra mim prosseguiam sem cessar. Não se encontrará na história precedente de um tratamento tão cruel para com qualquer acusado. Que tribunal ou que equipe de investigação poderia praticar uma injustiça desse tipo? Até mesmo os coraixitas da época de trevas, nos primórdios do movimento islâmico, não trataram os muçulmanos com tamanha desonestidade e baixeza. Realmente não trataram. A história é testemunha disso.
Anúncio da sentença do processo
No dia do anúncio da sentença, levaram a mim e a Hamida em um veículo separado, sob forte escolta de soldados, para ouvirmos a decisão do tribunal. Os prisioneiros homens foram transportados no veículo à nossa frente. Primeiro começou a audiência dos homens. Enquanto isso, fomos mantidas em uma sala separada. Depois, fomos levadas à sala do tribunal. Primeiro chamaram meu nome e anunciaram: “vinte e cinco anos de prisão com trabalhos forçados, além do confisco de todos os meus bens móveis e imóveis”. Ao ouvir a sentença, eu disse:
: Allahu Akbar. Todo louvor pertence a Allah!…… Zainab não deve demonstrar qualquer fraqueza no caminho da verdade, no caminho do movimento islâmico. Não há motivo para medo ou tristeza. …… Viva como uma crente; no fim, o sucesso beijará seus pés.
Depois de mim, foi anunciado o nome de minha irmã Hamida Qutb—
“Dez anos de prisão com trabalhos forçados”.
Levantei-me, abracei Hamida pelo pescoço e disse:
: Allahu Akbar. Graças a Allah. No caminho do estabelecimento do sistema de governo islâmico, no caminho da satisfação de Allah, nossos esforços e nossa luta estão a caminho do sucesso; estamos satisfeitos.
Conversando naturalmente, chegamos ao pátio do tribunal. Ali vimos carros cheios de irmãos da Irmandade. Estávamos muito preocupadas com eles. Ao nos verem, um deles perguntou em voz alta:
: “……Irmã Zainab……?”
Respondi: “Vinte e cinco anos de prisão com trabalhos forçados pelo estabelecimento do sistema de governo islâmico”.
Então ele perguntou: “……Irmã Hamida……?”
Eu disse: Dez anos de prisão com trabalhos forçados na luta para estabelecer a religião de Allah no mundo de Allah”.
Quando lhes perguntei sobre o senhor Sayyid Qutb, o irmão Abd al-Fattah Ismail e Yusuf Hawwash, eles me informaram: …… mártires no caminho de Allah…… Compreendi que haviam sido condenados à morte. Levantei as mãos e supliquei a Allah.–
: Ó meu Senhor! Aceita o grande sacrifício que eles ofereceram pelo Teu agrado e, em troca, concede força, coragem e ajuda aos Teus mujahidin para estabelecer o governo islâmico sobre esta terra. Insha’Allah, a religião de Allah triunfará.
Safwat e os outros soldados vieram e nos colocaram, a mim e a Hamida, em um pequeno carro. Os jornalistas e fotógrafos da imprensa correram até nós assim que nos viram. Eles queriam tirar fotografias. Isso me pareceu muito desagradável. Chamei-os e disse:
Vocês também são seguidores desses opressores tirânicos? Também se alegram com a injustiça e a opressão cometidas contra nós?…… Vocês uniram as mãos às dos mais desprezíveis inimigos da nação?…… Se é assim, então o que está acontecendo? O que estou vendo?
Imagem
Assim que chegamos à prisão, começou uma nova fase de tortura. Contudo, desde o anúncio do veredito do tribunal, eu e a irmã Hamida Qutb fomos mantidas no mesmo quarto.
Alguns momentos com Sayyid
Cinco dias após o anúncio da sentença de morte, o irmão Sayyid Qutb veio bater à porta do nosso quarto. Quando abrimos a porta, ele entrou acompanhado de um oficial militar. Deixando-o lá dentro, o oficial voltou. Safwat, naturalmente, permaneceu sentado junto de Sayyid Qutb. Dei as boas-vindas ao valente Sayyid e disse-lhe.
: O fato de o senhor ter se sentado conosco por alguns instantes equivale a uma graça especial de Allah sobre nós, e consideramos isso uma das maiores felicidades de nossa vida.
Com uma voz extremamente simples e natural, ele iniciou conosco uma discussão teórica sobre a morte e o momento que lhe foi determinado, dizendo-
: A autoridade sobre a vida e a morte está inteiramente nas mãos de Allah. Ninguém além de Allah pode tomar qualquer decisão a esse respeito.
Ele nos disse que permanecêssemos firmes no caminho de alcançar a satisfação de Allah. Disse: o propósito de nossa vida é adorar Allah, e a verdadeira realização de nossa vida está em sacrificar nossa vida e nossos bens pela satisfação Dele. Depois, sussurrou alguns conselhos ao ouvido de sua irmã, Hamida Qutb, e também me deu alguns conselhos em voz baixa. Safwat, traidor da verdade, não suportou mais nossa conversa, rugiu e ordenou a Sayyid que se levantasse. Em uma conjuntura tão difícil, até mesmo uma pedra talvez derretesse. Mas os corações dos pecadores tiranos são mais duros que pedras. Eles não têm sentimento algum de humanidade. Embora dentro de poucos dias esse irmão estivesse prestes a ser martirizado, eles se recusavam até mesmo a permitir que ele conversasse por alguns instantes com sua irmã prisioneira.
Ao ouvir a ordem grosseira de Safwat, Sayyid Qutb dirigiu-se a nós e disse-
: Não há problema. A paciência deve permanecer firme em nossos corações. Dizendo isso, despediu-se de nós com o salam e partiu.
As intrigas às vésperas da execução
Ouçam da própria boca da irmã Hamida Qutb a conversa que os agentes de Nasser tiveram com ela, depois de chamá-la, na noite determinada para a execução. A irmã Hamida disse-
: Hamza convocou-me ao escritório, mostrou-me a ordem governamental de execução e sua carta de reconhecimento oficial, e disse:
: Se o seu irmão ainda responder conforme queremos, o governo está disposto a revogar a sentença de morte. …… Veja, o enforcamento do seu irmão será motivo de tristeza e luto para toda a nação. E será considerado uma perda irreparável para o Egito. …… Custa-me acreditar que, dentro de poucas horas, perderemos para sempre essa grande personalidade. …… Estamos ansiosos por salvar seu irmão dessa sentença de morte indesejada, seja por que meio for. Para isso, naturalmente, ele só terá de dizer uma ou duas coisas. Logo depois, será poupado da execução por enforcamento. …… Sabemos que, além do senhor, ninguém conseguirá convencê-lo com palavras. O senhor é nossa última esperança nesse assunto… Toda essa conversa ficará sob minha responsabilidade. Mas o senhor será capaz de exercer sobre ele mais influência do que eu. Pronto — ele só terá de dizer uma coisa. Depois disso, todos os problemas estarão resolvidos. Ele só precisa dizer que a verdadeira ligação deste movimento é com outro país. Assim que disser isso, nós lhe perdoaremos a pena de morte, alegando a deterioração de sua saúde, e o libertaremos.
Depois de ouvi-los, eu disse:
: Mas todos vocês, e também o seu presidente Nasser, sabem que este movimento não tem qualquer ligação com outro país ou potência. Hamza admitiu e disse:
: Todos sabem que vocês trabalham abnegadamente pelo Islã no Egito e que, sem dúvida, são as pessoas mais virtuosas, íntegras, conscientes e instruídas do país; mas agora o essencial é salvar Sayyid Qutb. Então eu disse:
Se o seu alto comando estiver especialmente interessado em transmitir-lhe isso, não tenho objeção.
Depois disso, Hamza chamou Safwat e disse:
: Leve-o até o irmão dele.
Fui até meu irmão Sayyid Qutb e lhe transmiti a mensagem do governo. Depois de ouvir tudo, ele me olhou com uma expressão grave e, em silêncio, como se perguntasse:
Você também quer isso? Ou esse é apenas o desejo deles?
Respondi com um gesto:
Isso não é o que penso nem o que desejo.
Em seguida, Sayyid Qutb me fitou gravemente e disse em tom sério:
Juro por Allah que disse o que disse com toda a verdade. Nenhuma força no mundo poderia, em troca de qualquer coisa, fazer-me proferir uma mentira.
Não disse nada impróprio.
Safwat perguntou:
: É essa a sua opinião? Depois de perguntar isso, ele nos disse que ficássemos ali—
: Sente-se mais um pouco e tente ver se consegue entender.
Contei ao meu irmão todos os acontecimentos, do início ao fim.
Hamza me chamou, mostrou-me a ordem oficial do governo para a execução e pediu que eu lhe transmitisse, em nome dele, a mensagem do governo. Meu irmão perguntou-me—
: Você ficaria feliz com isso?
Eu disse: Não!
Ele disse, com voz calma e serena—
: O lucro e a perda não estão sob o controle do ser humano. A vida e tudo o que a acompanha acontecem somente pela vontade de Allah. Ninguém pode prolongar ou encurtar a minha vida. Pois tudo o que deve acontecer está apenas nas mãos de Allah. Ele é quem controla tudo.
Execução da sentença
Alguns dias depois, ouvimos a notícia do martírio de Sayyid Qutb, Abd al-Fattah Ismail e Muhammad Hawwash. Essa notícia caiu sobre nós como um raio. Cada um deles era um líder nacional. Por sua sabedoria, visão de futuro, caráter elevado, generosidade, pensamento revolucionário e qualidades islâmicas, eram objeto do sincero amor e respeito de toda a nação. Até mesmo os inimigos não deixavam de reconhecer abertamente suas vigorosas qualidades morais e de caráter. Hoje, grandes líderes populares como eles foram enforcados sob a orientação do imperialismo vermelho estrangeiro. Que traição tão dolorosa: o grande líder revolucionário Sayyid Qutb foi martirizado. E sua irmã está sentada ao meu lado, comigo, atrás das grades da prisão. Eu não conseguia pensar em que linguagem, com que palavras, poderia consolá-la. Eu também estava atordoada pela dor e pelo sofrimento; não encontrava palavras além do silêncio mudo. O que eu poderia dizer? O que eu poderia fazer? Esta não era a dor somente minha ou de uma pessoa em particular; por causa dessa tragédia, dessa dor, todo o Egito e todo o mundo muçulmano estavam mergulhados no luto. Essa perda não se restringia ao Egito; pelo contrário, todo o mundo muçulmano estava privado da liderança de seus grandes líderes. Isso não era algo simples. Não era possível suportar essa perda com facilidade. Como poderia ser que, na terra de Allah, nos países dos muçulmanos, enforcassem os líderes do movimento islâmico por considerar crime pronunciar o nome do Islã e não houvesse nenhuma reação?
Sayyid Qutb, exegeta do Alcorão, pregador do Islã, luminar da literatura islâmica, líder destemido e intransigente do movimento islâmico, mujahid revolucionário no caminho de Deus — o homem eloquente e ardoroso que dera visão da verdade a milhões de cegos e cuja literatura racionalista era extraordinariamente apreciada nos mais diversos cantos do mundo — foi assassinado. Como é doloroso pensar nisso. Para compreender corretamente a mensagem do Alcorão na época atual, ele escreveu, sob uma perspectiva inteiramente moderna e baseada na razão, sua célebre obra de tafsir, “Fī Ẓilāl al-Qurʾān” — À Sombra do Alcorão. Em sua obra imortal, apresentou soluções islâmicas claras para os complexos problemas econômicos, sociais e administrativos do mundo moderno. Na introdução à surata Al-An’am, expôs diante da humanidade o caminho correto para a salvação.
O Imam Sayyid Qutb é autor de cerca de vinte obras, entre elas Justiça social no Islã, O futuro brilhante do Islã, As cenas do Dia do Juízo e O Alcorão, o ideal de vida da humanidade. Cada uma de suas obras é hoje considerada um tesouro inestimável para a humanidade privada de seus direitos.
Basta ler sua famosa obra “Ma’alim fi al-Tariq” para compreender por que as grandes potências e seus aliados se empenharam tanto em matá-lo. O Imam Sayyid Qutb indicou à humanidade oprimida do mundo o caminho para libertar-se das garras cruéis das duas grandes potências. Ele convocou a humanidade inteira a libertar-se do polvo das chamadas duas superpotências e iniciar uma nova vida, de acordo com o seu modo de vida natural: o Islã. E o significado do renascimento islâmico mundial é a queda do imperialismo capitalista americano e do imperialismo socialista soviético. Por isso, apesar de todas as suas divergências mútuas, as duas grandes potências lançaram-se com todas as forças contra o movimento islâmico. Tornando a nação muçulmana consciente de suas responsabilidades e deveres, Sayyid Qutb disse, nas palavras do Alcorão:
: Entre a humanidade, sois a melhor nação. Portanto, como melhor nação, não podeis negligenciar vossas responsabilidades e deveres. Cheio de esperança, ele diz:
: Por mais que as forças da falsidade e da incredulidade se oponham, este mundo voltará a resplandecer com a luz inextinguível do Islã.
Os últimos dias
No dia em que o Imam Sayyid Qutb foi condenado à morte, naquela madrugada, depois da oração do fajr, adormeci e sonhei que ele me dizia:
: Saibam que não sou companheiro daquelas pessoas; estou em Medina com o amado Profeta. Foi só isso, e então despertei. Levantei-me e contei a Hamida os detalhes do sonho. No segundo dia após a execução, depois da oração do fajr, adormeci novamente enquanto recitava o tasbih e ouvi uma voz nos bastidores:
: Sayyid encontra-se no Jannatul Firdaus.
Quando despertei, contei a Hamida sobre o sonho. Ao ouvi-lo, as lágrimas começaram a rolar copiosamente por seus olhos. Com a voz embargada, ela disse:
: Tenho uma fé inabalável na misericórdia de Allah. Ele certamente está no Jannatul Firdaus. Eu disse: por meio do sonho, Allah Todo-Poderoso está nos dando uma indicação da felicidade de Sayyid.
Enquanto isso, os opressores continuavam a exercer sobre nós sua tirania. Nenhum ser humano seria capaz de suportar aquela tortura cruel. Além disso, sob o pretexto da chamada investigação, continuavam a nos fazer ir diariamente de um escritório a outro. Eu imaginava que, depois do anúncio do veredito do tribunal, estaríamos livres das outras formas de opressão, exceto da punição formal. Mas essa esperança não passava de uma ilusão. Por que eles me dariam algum alívio? Todos os dias me faziam ir de escritório em escritório para me atormentar, e eu era obrigada a seguir os carrascos, deixando sozinha e mergulhada no luto minha irmã Hamida. Todos os dias, ao voltar do escritório, eu tinha de lhe comunicar que os opressores haviam prendido e trazido muitos muçulmanos naquele dia também. Eles me interrogavam sobre pessoas desconhecidas e que eu não conhecia. Na verdade, queriam envolver-me em outros processos. Nem mesmo minha condenação a vinte e cinco anos de trabalhos forçados parecia tê-los satisfeito. Assim, atravessávamos cada momento na prisão em meio a uma situação insuportável. Cada instante parecia durar cem anos. O único meio de escapar daquela tristeza, preocupação e aflição era recitar o Alcorão Sagrado. Quando me sentava para ler o Alcorão, esquecia toda a tristeza, e meu coração e minha alma encontravam repouso numa paz sobrenatural. Allah disse com toda a verdade: “Ouçam: a lembrança de Allah cria paciência e tranquilidade no coração”.
Depois de alguns dias, pedimos jornais. Então Hamza providenciou que nos trouxessem jornais, usando o dinheiro que havíamos depositado no fundo da prisão. Depois que os jornais começaram a chegar, passamos a ter notícias do mundo exterior após muitos dias. Com isso, o tempo também começou a passar melhor.
Sentada na prisão, meus problemas não tinham fim. Enquanto isso, quase todos os dias chegavam notícias de alguma conspiração contra Nasser. Assim que surgia um rumor sobre qualquer conspiração, começavam imediatamente a me arrastar de um lado para outro. Os interrogatórios sem sentido prosseguiam continuamente. Os acontecimentos ocorriam no mundo livre lá fora, mas aqui, a prisioneira confinada numa cela fechada da prisão tinha de responder por aquelas conspirações artificiais. Na verdade, o próprio governo fabricava e divulgava as notícias dessas conspirações. Todos os dias uma conspiração era “desmascarada”, e todos os dias um raio indesejado caía sobre minha cabeça.
O falecimento do meu marido
Depois que o veredito foi anunciado no tribunal, chamei Hamza Bisyubi e pedi-lhe que providenciasse um encontro meu com o meu marido. Como ele não veio nem mesmo depois de alguns dias, voltei a lembrá-lo disso. Sob esse pretexto, fui chamada ao escritório e perguntaram-me por que eu queria encontrar-me com o meu marido. Então lhes disse:
: Fui condenada a vinte e cinco anos de prisão e sou uma prisioneira. Quero conversar com ele sobre a nossa relação conjugal a esse respeito e libertá-lo dos vínculos conjugais. Preciso ouvir a opinião e o conselho dele. Ao ouvir-me, Hamza disse:
: Abdun Naser não vai enforcar você; ao contrário, vai destruí-la pouco a pouco.
Eu disse:
: Confio em Allah! Abdun Naser, vocês e todas as pessoas do mundo não têm sequer força suficiente para fazer cair uma folha de uma árvore. Ninguém pode fazer nada contra a vontade de Allah.
Hamza disse: Em breve entregaremos a você o documento de divórcio do seu marido.
: Vocês são realmente animais! — dizendo isso, voltei. Voltei de fato para a cela, mas o meu coração se agitava terrivelmente. Passei os dias em extrema inquietação. Certo dia, depois da oração do fajr, adormeci e sonhei que a notícia da morte do meu marido havia sido publicada no jornal. Fiquei ainda mais angustiada. Ergui as mãos diante de Allah por ele e disse:
: Ó Senhor da vida e da morte! Não posso dizer: “Devolve-lhe a vida”. Contudo, derrama Tua misericórdia sobre ele. Naquele dia, minha irmã Hamida também teve o mesmo sonho. No dia seguinte, quando chegou o jornal de sexta-feira, nós realmente desabamos ao ler no jornal a notícia do falecimento de meu marido. Ao ler a notícia do falecimento de meu amado marido, perdi a paciência e comecei a chorar como uma criança. Continuei chorando até perder a consciência. Chamaram um médico para me atender.
Alguns dias depois, quando os membros de minha família vieram me visitar, informaram-me que Abdun Naser e seus soldados haviam obrigado meu marido a me abandonar ou a ser preso. Meu marido era uma pessoa extremamente simples e um homem respeitável. Na sociedade, era conhecido e respeitado por todos como Haji Sahib.
Quando os homens de Naser começaram a pressioná-lo intensamente, ele pediu duas semanas para refletir sobre o assunto. Mas eles se recusaram a lhe conceder qualquer prazo e, usando coerção e força, obrigaram meu marido a assinar o documento de divórcio. Ele lhes declarou claramente:
: Allah é testemunha de que, em hipótese alguma, me divorciei de minha esposa, Zaynab al-Ghazali.
Ele acrescentou: “Estou velho. Minha morte está próxima! Deixem-me morrer em paz e com honra. …… Zaynab permanecerá minha esposa até o último momento da minha vida.”
E foi exatamente isso que aconteceu. Meu marido ficou mentalmente doente ao ouvir a notícia de sua condenação à prisão. Além disso, ele sofria de paralisia e, por causa dos prejuízos de sua empresa, da minha prisão, do confisco de sua casa e de seus bens, entre outras coisas, ficou extremamente preocupado. Logo depois de arrancarem à força a assinatura do meu marido, ele faleceu.
Antes do casamento, meu marido era meu irmão na fé. Além da relação conjugal, nossa relação de fé era extremamente afetuosa. Minha relação conjugal com ele também era extremamente afetuosa. Após seu falecimento, meus parentes realizaram seu enterro e seus ritos fúnebres com toda a dignidade devida. Por isso, sou grata e devedora a cada um deles.
Eu havia anotado a data islâmica do episódio em que mencionei ter visto o amado Profeta em sonho. Comparei as datas e descobri que foi exatamente naquele dia que os inimigos obrigaram meu marido a assinar o documento de divórcio. Sonhei que o amado Profeta vestia uma roupa branca, limpa e resplandecente. Atrás do amado Profeta, também vi o senhor Hassan Huzaybi vestido de branco e usando um gorro branco. Eu estava de pé, e ao meu lado estavam a mãe, Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela), e algumas outras mulheres. Ela estava me dando alguns conselhos. Nesse momento, o amado Profeta chegou ali, chamou a mãe Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) e disse—
: Tenha paciência, Aisha! Tenha paciência! Ao mesmo tempo, mãe Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) segurou minha mão, apertou-a suavemente e aconselhou-me a ter paciência.
Ao acordar, contei à irmã Hamida os detalhes do sonho. Ela fez uma súplica a Allah, pedindo que Ele fortalecesse minha paciência. Naquele mesmo dia, senti que talvez um grande perigo estivesse à minha espera. Portanto, ergui as mãos diante de Allah e disse, para obter sucesso nesta nova provação:
: Ó Amparo dos desamparados! Concede-me força para ter paciência; acolhe-me à sombra da Tua misericórdia.
O novo vizinho
Numa noite de inverno extremamente fria, ouvimos uma grande algazarra no quarto ao lado do nosso. Ao abrirmos a porta do quarto para saber o que estava acontecendo, vimos Salah vindo em nossa direção. Assim que chegou, pediu o remédio contra vômitos que lhe havíamos dado pela manhã. Demos-lhe imediatamente o remédio. No dia seguinte, ele disse que os vizinhos do quarto ao lado eram o primeiro-ministro do Iêmen e seus vinte colaboradores. Embora a situação fosse anormal, não fiquei muito surpreso. Afinal, como diz o ditado, a prisão é um museu. Aqui, tudo é possível.
Abdun Nasser continua a fazer uma propaganda ruidosa sobre a conquista do Iêmen. Mas a questão é: por que o primeiro-ministro do Iêmen está preso numa prisão egípcia? Algum de vocês já ouviu dizer que, depois de o imperialismo britânico conquistar o Egito, levou dezenas de egípcios para serem presos nas cadeias de Londres? Ou que Napoleão Bonaparte, depois de ocupar o Egito, levou algum egípcio para ser detido numa prisão de Paris?
Queremos que Nasser seja julgado
Posso perguntar por que não foi instaurado um processo contra Nasser por seus inúmeros crimes graves? Não foi justamente por isso que o Egito perdeu seu lugar de honra na história nacional: porque aqui nunca foi tomada qualquer medida para reprimir os tiranos e opressores!
Se o país ainda hoje não for salvo das atividades criminosas desses criminosos, o problema assumirá uma forma ainda mais complexa.
Nos dias extremamente difíceis do regime ditatorial no Egito, a Irmandade Muçulmana avançou para assumir a grande responsabilidade de preservar os interesses nacionais. A Irmandade protestou destemidamente contra a injustiça, a opressão, o terror e a tirania, e exigiu o estabelecimento dos direitos fundamentais do povo. No início, Nasser tentou enganar a Irmandade com falsas promessas. Mas logo o gato saiu do saco e sua máscara caiu. Quando já não restava a ninguém qualquer dúvida de que Nasser era um agente subserviente do imperialismo soviético, toda a nação ergueu a voz, ao lado da Irmandade, para enfrentar o inimigo. Em 1954, a nação apoiou a Irmandade em sua luta pela verdade. Em 1965, a nação voltou a avançar para cumprir seu dever de fé. Nesse mesmo ano, agentes de potências estrangeiras avançaram com o plano de extirpar completamente o movimento islâmico do Egito. Tentaram silenciar a Irmandade para sempre. Por isso, milhões de pessoas foram presas. Incontáveis militantes foram perseguidos, e é difícil calcular quantas pessoas foram mortas ou feridas. Mas, apesar de toda essa força e opressão, não foi possível apagar a tocha da verdade. Seus sonhos de felicidade foram despedaçados. A obra da religião de Allah continua até hoje como antes e continuará até o fim dos tempos.
As próprias crianças nascidas durante a revolução de Abdun Nasser foram as que, no movimento popular islâmico de 1965, não deram trégua ao regime ditatorial de Nasser.
Com a ajuda de seus senhores estrangeiros, Nasser importou para o país o ateísmo, filmes obscenos, jornais e revistas, esforçando-se ao máximo para corromper o caráter da nova geração do país; mas os jovens heróis da nação frustraram essas conspirações estrangeiras e mantiveram erguido o estandarte da vitória do Islã.
Assim se manifestou o êxito das medidas que havíamos tomado para educar e treinar a nova geração. Os jovens passaram a ser a principal força propulsora do movimento islâmico. Ao ver o papel central dos jovens no movimento islâmico, Nasser ficou furioso e enlouqueceu.
Ele costumava dizer frequentemente aos seus asseclas:
: Zaynab al-Ghazali e Abdun Fattah Ismail arrancaram a juventude das minhas mãos.
Esse reconhecimento de Nasser é motivo de orgulho para nós. Conseguimos proteger a juventude de suas garras duras e descaradas. Criamos, a serviço do Islã, um exército de jovens capaz de manter elevado o estandarte do Islã diante de qualquer onda ou agitação de qualquer época. Na educação e na cortesia, no conhecimento e no caráter, e nas qualidades morais, esses jovens são hoje um exemplo vivo para nossa época.
A contribuição do mártir Abdul Fattah Ismail para este grande sucesso permanecerá inesquecível! Ele próprio era uma organização, e a contribuição de jovens revolucionários extraordinários como Mohammad Hawash também permanecerá imperecível. O atual movimento da juventude islâmica é o fruto dourado de seu incansável trabalho.
Os dias na prisão militar foram chegando gradualmente ao fim. Naqueles longos dias de calamidade, nem a paciência, a coragem e o heroísmo dos bravos soldados do movimento islâmico diminuíram sequer um pouco, mesmo diante de torturas indescritíveis.
Eles atravessaram este vasto oceano repleto de perigos com sua invencível força da fé. Em 5 de junho, a ira de Allah desceu sobre o amaldiçoado Nasser. E, quando naquele dia fomos transferidos da prisão militar para uma prisão civil, todos nós respiramos aliviados.
Assim, Allah nos salvou das garras cruéis de Nasser. Nasser, inimigo do Islã, foi destruído, e os mujahidin do Islã estão se esforçando para construir um futuro de novo entusiasmo.
Assim, o dia 5 de junho permanecerá marcado na história do Egito como o dia da queda da opressão. Naquele dia, o Egito se libertou da existência de Nasser. No Dia da Ressurreição, ele terá de se apresentar humilhado, usando a coroa da desonra. A morte de Nasser, o faraó do século XX, foi uma bênção para a nação egípcia. Em 5 de junho, ele foi expulso do mundo dos homens usando as correntes da humilhação. Durante sua vida, ele praticou torturas bárbaras contra o povo inocente e indefeso, especialmente contra o movimento islâmico; após a morte, terá necessariamente de sofrer suas consequências.
Sétimo capítulo
Transferência para a prisão de Qanatir
Aquele dia permanecerá inesquecível. Antes disso, nos dias 3 e 4 de junho, as portas de nossas celas eram abertas à vontade, sem qualquer aviso prévio. Eles vinham e nos perguntavam repetidamente: “Precisam de alguma coisa?”
Depois, começavam as discussões sobre a guerra, a questão palestina e árabe, entre outras coisas. Eu, porém, permanecia calado. Entre os participantes da discussão havia um médico. Certa vez, perguntei-lhe—
: Somos realmente capazes de libertar a Palestina?
Ao ouvir minha pergunta, ele ficou desconcertado e perguntou por sua vez—
: O quê…… o que você quer dizer?
Eu disse em voz baixa—
: Devemos aprender com os diversos desfechos. Não importa quantas declarações sobre hostilidade ou amizade em relação a Israel nossos governantes repitam, nem o que esperem; enquanto o movimento sionista mundial utilizar as duas superpotências para seus interesses diplomáticos, nossos autoproclamados grandes dirigentes não poderão fazer outra coisa senão servir às grandes potências…… Na verdade, existe apenas uma maneira de recuperar a Palestina e, consequentemente, os territórios árabes ocupados. É declarar o jihad final por meio da verdadeira unidade islâmica. Somente quando um verdadeiro sistema de governo islâmico for estabelecido entre os países árabes e muçulmanos é que o caminho para a recuperação da Palestina e de todos os demais territórios árabes ocupados poderá ser facilitado.
Amanheceu o dia 5 de junho. Mas hoje ninguém veio abrir a porta às pressas. Algum tempo depois, um soldado abissínio abriu subitamente a porta e gritou algo cujo significado não conseguimos compreender. Pelo que se pôde entender, o miserável Nasser havia saído vitorioso.
Depois de dizer algumas palavras incompletas, correu murmurando até os outros. Em seguida, voltou e anunciou a notícia de que haviam abatido vários aviões de combate inimigos. Ao mesmo tempo, começou a contar, um, dois, três, quatro, e assim por diante, as histórias da bravura e das vitórias de seu terceiro grande líder.
Como não conseguíamos sequer fazer qualquer suposição sobre o que fora dito do começo ao fim, permanecemos em silêncio. Depois da oração do Asr, Safwat veio e começou a me chutar com suas pesadas botas, sem dizer uma palavra.
Ofegante, ele dizia: — Nós vencemos.
Depois de receber incontáveis chutes de suas pesadas botas, desmaiei. Hamida perguntava repetidamente a ele por que me havia atacado de surpresa. Mas, além de desferir chutes, nenhuma resposta saía de sua boca. Quando perdi a consciência devido à violência das pancadas, ele ordenou aos soldados que o acompanhavam que jogassem fora todos os meus pertences necessários. Ao recobrar a consciência, ele voltou a me espancar. Depois, mandou que saíssemos da cela e caminhássemos, e avançou também, insultando-nos. Repetia sem parar: “Nós vencemos! Alcançamos o sucesso”. Na tarde de 5 de junho, fizeram Hamida e eu atravessarmos o portão principal da prisão militar, sentados num veículo com oficiais e soldados. Os responsáveis pela prisão estavam sentados no banco ao lado do motorista. Comecei a recitar o tasbih em nome de Allah. Tive a impressão de que cada criatura e cada coisa dos céus, da terra — de todo o universo — estava louvando o nome de Allah junto comigo. Enquanto eu recitava o tasbih em voz alta, Hamida pediu-me que parasse de fazer barulho. Então concentrei-me no significado literal e na importância do tasbih. Dessa vez, parecia que o mundo inteiro estava falando comigo.
Pelas palavras de Safwat durante o ataque de surpresa contra mim na cela da prisão militar, parecia que estavam me levando para ser enforcado. Por isso, entreguei-me à recitação de diversos versículos do Alcorão de Allah. “Sem dúvida, Allah comprou dos crentes suas vidas e seus bens em troca do Paraíso”.
Naquele momento, lembrei-me de alguns versos de um poema. O poeta disse:
……… se a morte vier junto com a fé
Não importa como veio, minha morte?
Em outro lugar, o poeta disse:
“O pássaro voou por um caminho desconhecido, para uma terra silenciosa
eu sei, mas seu destino é doce”.
O poeta diz ainda:
“Se quiserem viver, mulheres, mais
sabendo que é impossível, aqui não há permissão para exigir mais ou menos
”.
…… Basta, aceitem a morte, degrau da paciência,
este degrau termina à porta do coração”.
Quando o carro freou e parou, Hamida me chamou. Abri os olhos e vi à frente a prisão de Kanati. Destinada às mulheres
A noite do sofrimento mental
Depois de atravessarmos o portão principal da prisão de Kanati, fomos levados ao escritório penitenciário. Ali, nossa bagagem foi minuciosamente revistada. Era noite. Em seguida, a carcereira do escritório ao lado do comissário fez outra revista em nós, vestiu-nos com os uniformes destinados às prisioneiras e conduziu-nos a uma cela determinada. Cela? Talvez nem se pudesse chamá-la assim: exceto por algumas barras de ferro, não havia sequer uma porta. No interior, havia apenas uma cama de madeira com um lado quebrado e, sobre a outra cama, um objeto; em nenhum outro lugar havia coisa alguma. Logo depois de nossa cela começava um enorme salão. Junto a ele havia três alas para as prisioneiras. Essas mulheres haviam sido presas sob acusações de furto, tráfico de drogas, assassinato e crimes sexuais ilícitos.
Quando a escuridão da noite se tornou mais densa, o som melodioso do azan chegou do minarete de uma mesquita distante. Fizemos o tayammum e realizamos a oração de isha. Depois da oração, deitamo-nos e tentamos dormir. Mas onde estava o sono? Quem sabe para que reino desconhecido o sono havia fugido! A escuridão da noite foi se tornando ainda mais espessa e aterradora e, assim que a porta da ala foi fechada para aquela noite, a forma horrenda da degradação moral e do caráter começou a se manifestar. As pessoas começaram a despir-se do manto de sua humanidade e a alcançar os limites extremos da imundície descarada. Aquela noite amaldiçoada passou em sofrimento mental e na dor de uma percepção ferida, ao testemunharmos a mais extrema demonstração do destino a que o ser humano pode chegar quando voluntariamente se transforma em desumano. Permanecíamos ocupados por longos períodos no dhikr de Allah. Pois somente por meio da lembrança de Allah é possível alcançar tranquilidade no coração. Quando surgiu o fio de luz da esperança da manhã, respiramos aliviados e agradecemos a Allah. Suplicamos, na presença de Allah, por generosidade de espírito e libertação completa.
Jamais poderei esquecer aquela noite horrenda e infernal. No entanto, naquela noite, nenhum carrasco me golpeou com um chicote ou açoite…… ninguém me insultou. Ainda assim, aquela foi a noite mais terrível, insuportável e infernal de toda a minha vida na prisão. Ao ver o ambiente venenoso e grotesco daquela noite infernal, Hamida ia desmaiando enquanto chorava. Tentei fazê-la recobrar a consciência e disse:
: Nós somos seguidores de um ideal e de um caminho…… Ao percorrê-lo, é necessário ter paciência e perseverança para enfrentar qualquer estado ou situação. Allah nos ajudará. Na prisão militar, fomos submetidos a torturas brutais, fomos humilhados, nossos corpos foram dilacerados a golpes, e sofremos dores indescritíveis de fome e sede; apesar disso, o que vimos e ouvimos naquela noite pareceu-nos muito mais doloroso do que a opressão e a tortura desumanas da prisão militar. Naquela noite, diante de nós, um grupo de pessoas envolvidas na imundície da ignorância e da bestialidade estava entregue às formas mais repugnantes de pecado. Eram todas mulheres. Haviam rompido todos os vínculos com a humanidade e se transformado em escravas da extrema perversão sexual e dos impulsos satânicos. Cada uma delas havia transformado a propensão ao crime em profissão e vício. Não tinham absolutamente nenhuma relação com palavras ou qualidades como humanidade, civilidade, pureza, honra, dignidade e decoro. Na verdade, haviam se transformado em seres tão vis que, para elas, a obscenidade e o pecado sexual eram o próprio sentido da vida.
Podem ser comparadas a seres cuja corda está sendo segurada por outro cego. Sob as ordens desse cego, esses seres cegos continuavam desperdiçando a vida em caminhos de erro, engano e perigo. Nunca tiveram a oportunidade de ver, conhecer ou compreender o caminho reto e belo. Assim, cegas, seguindo seus instintos cegos, chegaram diante das portas do Inferno. Aqueles que, sobre a terra, se empenham em prender outras pessoas nas correntes da escravidão ajudaram ainda mais esses indivíduos cegos e perdidos a seguir pelo caminho do desvio. Os governantes que se rebelam contra Deus consideram necessário aceitar a colaboração de criminosos desse tipo, por seus interesses mesquinhos de prolongar o próprio poder. De qualquer modo, por fim, com o azan da oração do fajr, chegou ao fim aquela noite escura, cheia de pecados. Com a luz celestial da aurora, dissipou-se a escuridão indesejada da noite infernal. Prostramo-nos diante de Allah, o Misericordioso e Compassivo, e pedimos Sua satisfação.
Conflito em uma nova etapa
Quando Hamida e eu fomos ao escritório do comissário da prisão, fomos informadas de que, até novas ordens, estávamos proibidas de ir à cantina e de receber visitas de qualquer pessoa. O comissário disse:
: Vocês duas nem sequer têm os direitos concedidos aos prisioneiros. Até novas ordens, terão de permanecer nessa condição.
Eu lhe disse:
Não viemos procurá-lo por isso, mas para fazer um pedido. Antes que eu terminasse de falar, o comissário perguntou:
Vocês queriam falar comigo?
Eu disse:
Sim. Queremos mudar de cela.
Hamida disse: Queremos uma cela que tenha pelo menos uma porta. Não um curral de animais……
O comissário disse: Que história é essa agora? Está bem, vamos mandar vocês de volta para a prisão militar. Lá poderão voltar a sofrer o que já sofreram.
Eu disse: Não podemos ficar num lugar que é inadequado até mesmo para animais. Ele disse: Eu sou o comissário; isto é uma prisão e vocês são prisioneiras. Além disso, não sei de mais nada.
Então, ele se levantou e gritou:
: Quem está aí? Venham tirá-las daqui.
Eu disse novamente:
: Ficaremos caídas no pátio da prisão, mas em hipótese alguma entraremos naquele quarto; depois veremos o que acontecerá.
O comissário disse: Prisão é prisão. Se vocês se recusarem a obedecer à ordem, serão fuziladas.
Eu disse: Isso seria muito mais fácil……… Além disso, ser morta pelas mãos de vocês significa justamente alcançar o martírio……
O comissário nos fez sair do escritório e nos deixou no pavilhão prisional. Pouco depois, chamou a carcereira e ordenou que nos revistasse.
Para a revista, fomos levadas escada acima. Era um pavilhão espaçoso. Havia vinte camas. Cerca de uma hora depois, a carcereira veio e disse:
: Ei, quanto vocês ganham? Não fomos capazes de compreender o sentido da pergunta. Assim, fomos colocadas na fila das mulheres classificadas como “sujas”. Eram mulheres cujo caráter ou senso de honra e dignidade não significava absolutamente nada. Elas haviam sido presas por seus atos depravados e imorais.
Ao chegar ao lado da cela, a carcereira gritou:
: As entradas de hoje totalizam quarenta e cinco. Vinte e cinco por libertinagem, quinze por crimes sexuais e crimes contra a moralidade, três por roubo e duas prisioneiras políticas.
As prisioneiras políticas éramos Hamida e eu. Quando a carcereira terminou de gritar, saí da fila anterior. Hamida também me seguiu. Ao ver isso, a carcereira disse:
: Ei, aonde vocês vão…? Esperem.
Eu disse: Vamos ficar separadas, porque não temos nenhuma relação com essa gente vulgar. Ela disse: Por que vocês estão empinando tanto o nariz?
Eu disse: não temos nenhuma relação com elas. Portanto, ficaremos separadas. Ela perguntou: elas são inferiores a vocês?
Não respondi e permaneci em silêncio. A carcereira trancou aquelas desviadas e sem caráter em uma cela, aproximou-se de nós e disse:
: Irmãs! A doutora pediu que vocês se sentassem. Quando ela estiver disponível, vocês irão até ela.
Quando a médica ficou disponível, chamou-nos, perguntou nossos nomes, idades e dores, e levou-nos para uma sala. Pouco depois de fechar a porta, começaram a ouvir-se gritos terríveis misturados a soluços. Todo o ambiente adquiriu uma aparência sombria. Curiosas, encostamos o ouvido do lado de fora e compreendemos que havia ocorrido um grave acidente. Entreguei-me à introspecção:
: Quantas crises e acidentes continuam acontecendo, ai de mim! Minha nação desafortunada! Será que desastres, acidentes e lamentos são o teu destino? Quem é verdadeiramente teu?
Uma após outra, terríveis calamidades e acidentes fazem a embarcação avariada da nação afundar repetidamente nas ondas. Ora calamidades morais, ora ideológicas, ora calamidades de anarquia econômica e social. Por fim, o vergonhoso e doloroso acontecimento da derrota humilhante de 5 de junho. O cataclísmico acidente de 5 de junho tornou a vida nacional ainda mais confusa e decadente. Nossa classe governante é tão ávida por imitar quanto os macacos, e tão egoísta e despudorada quanto os porcos. Ao entrar em contato com os amaldiçoados deste país, eles se transformam em verdadeiros demônios e, depois de sofrerem uma derrota deplorável nas mãos do inimigo, começam a exercer uma opressão ainda mais cruel sobre a nação. Diante de sua crueldade, despudor e vileza, até os judeus amaldiçoados sentem compaixão. Eu pensava:
: Que tipo de vida estamos levando? Diante de nossos olhos, todas as virtudes nobres — o Islã, a fraternidade, o senso de dignidade, a educação e as boas maneiras — estão sendo destruídas. Muçulmanos estão sendo mortos indiscriminadamente. Até mesmo os direitos humanos básicos lhes são negados. Não lhes é permitido conquistar sequer o menor direito. Eles tramam destruir tanto o Islã quanto os muçulmanos. Querem tomar dos muçulmanos sua força humana, sua dignidade social, seus recursos e bens, suas terras e seu capital — tudo — para eliminar sua existência. No entanto, os verdadeiros seguidores do Islã, os muçulmanos, são os vigilantes incansáveis da humanidade. Pelo bem das pessoas, eles fazem jihad contra a falsidade e põem fim à opressão e à exploração. Na luta para estabelecer os direitos dos pobres e despossuídos, sacrificam tudo o que possuem, e suas qualidades morais e de caráter tornam a sociedade humana pura, luminosa e bela. A fragrância de sua personalidade perfuma o ambiente social. O muçulmano segue o caminho de Allah e, para alcançar a satisfação de Allah, luta contra a mentira e em favor da verdade. Inclina a cabeça diante da ordem de Allah. Sem se importar com medo, sofrimento ou aflição, avança com uma coragem indomável pelo caminho da libertação da humanidade.
Alguém ao meu lado está sussurrando. Meus irmãos, companheiros de viagem no caminho da verdade! Não falem em voz abafada, não falem lentamente de cabeça baixa; ao contrário, falem com clareza e avancem para a frente — cada vez mais para a frente — com toda a força e coragem. Nada de hesitação, de inércia, de dúvida ou apreensão. Avancem rumo à conquista do objetivo com um ímpeto irresistível, destemido e incessante.
Se abandonardes o caminho da satisfação de Allah, o medo, o temor e a humilhação se tornarão correntes aos vossos pés. Juro por Allah que, se permanecermos firmes no caminho indicado por Allah, Ele certamente nos ajudará. Devemos abraçar o Islã com todo o nosso coração, alma e consciência. Somente poderemos colher seus frutos dourados realizando plenamente o Islã, eternamente vivo, belo, puro e autêntico. Devemos abandonar o ceticismo; é obrigatório evitar o caminho da divisão, das divergências e das disputas, e devemos avançar tendo diante de nós o primeiro e principal objetivo, que é também nosso dever essencial. Se continuarmos assim, pela misericórdia e pela benevolência de Allah, poderemos colher na face da Terra os frutos concretos de nossos sonhos e esforços. Poderemos derrotar as forças temporárias e ilusórias, alcançar o sucesso e estabelecer um Estado ideal de bem-estar à luz da Palavra de Allah e da Sunnah do Mensageiro. Recuperaremos nossa glória perdida, nossa honra e nossa dignidade. Na verdade, é na obediência a Allah que residem nossa honra, dignidade, glória, felicidade, força e prosperidade. Seguindo o Islã, não seremos afortunados apenas nesta vida terrena, mas também na grande vida após a morte: seremos os afortunados de Jannatul Firdaus. O segundo califa do Islã, o grande Umar (que Allah esteja satisfeito com ele), disse:
: O verdadeiro sucesso dos muçulmanos é alcançado ao enfrentarem os inimigos de Allah. É por esse caminho que recebemos a ajuda de Allah. Caso contrário, jamais poderíamos tê-los vencido. Pois, em número, equipamentos, armas e armamentos, nossa preparação é insignificante em comparação com a dos descrentes. Mas, se perdermos as características islâmicas e nos tornarmos iguais aos descrentes, mesmo assim serão eles que nos vencerão.
A única razão pela qual nós, muçulmanos, carregamos hoje a humilhação e a vergonha da derrota é nosso afastamento do caminho do Alcorão e da Sunnah. Se essa situação continuar, teremos de enfrentar perigos ainda maiores e situações mais humilhantes. Pois a humilhação, a derrota, a fraqueza, a decadência, a pobreza, a privação e assim por diante são consequências da oposição a Deus. O resultado da rebelião contra Deus, nesta vida e na outra, não é senão um castigo contínuo e o Inferno.
Allah disse:
“Aqueles que obedeceram à Minha ordem não serão afligidos pela desgraça nem humilhados; mas a vida daquele que abandonou a Minha lembrança será angustiante. No Dia da Ressurreição, Eu o levantarei cego. Ele dirá: ‘Ó meu Senhor! Por que me levantaste cego, quando eu tinha visão?’. Então Allah dirá: ‘Meus sinais chegaram até ti, mas tu os esqueceste; por isso, hoje também foste esquecido. É assim que retribuo os injustos e aqueles que não creem nos sinais de seu Senhor. O castigo da Outra Vida será eterno e extremamente severo’.”
Eu estava submerso num oceano insondável de pensamentos. Muitos significados e interpretações giravam em minha mente. Situações dolorosas e acontecimentos amargos, em meu íntimo mais profundo, além de tristeza e pesar, também projetavam sombras de uma apreensão desconhecida.
Assustei-me ao ouvir o chamado de Hamida. Eu estava sentado justamente no quarto fechado ao lado. Sua porta era aberta de vez em quando. Não havia maneira de saber o que havia ou não havia nas proximidades, nem o que estava ou não estava acontecendo. Certo dia, conseguimos trazer um maço de cigarros enganando a vigilância da guarda feminina. Para aquela guarda de coração duro, um maço de cigarros era um objeto raro. Um único maço era suficiente para amolecê-la e torná-la gentil. Assim, começamos a nos informar sobre a situação ao nosso redor. No quarto vizinho ao nosso havia uma mulher e seu filho pequeno. Ninguém sabia nada sobre o pai da criança. No quarto da frente, uma moça sofria as consequências de seus atos, como paciente de tuberculose. Na ala dianteira, prisioneiras acometidas por doenças graves cumpriam suas penas. Na extremidade do edifício havia um banheiro. Também nos mandaram ir até lá para fazer nossas necessidades. O objetivo dessa ordem era nos infectar também com alguma doença contagiosa.
Na segunda parte do edifício, viam-se quartos limpos, asseados e bem organizados, e inicialmente não conseguimos descobrir de que país eram cidadãs as mulheres que ali estavam. Os banheiros e sanitários daquela parte também eram bastante limpos e asseados.
Certo dia, uma mulher daquela ala limpa nos serviu uma excelente refeição. Como estávamos muito famintos, comemos com grande satisfação. Assim, nossa curiosidade por elas aumentou ainda mais. Ao perceber a educação da mulher, tivemos a impressão de que, de repente, uma pessoa havia chegado àquela selva impenetrável de animais.
Eu disse à guarda:
: Permita-nos usar o banheiro limpo e asseado do outro lado.
Ela disse:
: Ele é reservado apenas para mulheres… médicas e judias.
Perguntei, surpreso:
Judeus? De quem você está falando?
Ela disse: Sim, seis mulheres judias. Madame Mursel, Madame Los e outras.
Elas circulavam bastante. Obtinham tudo o que queriam. Tinham liberdade irrestrita de movimento por toda parte. Suas acomodações eram excelentes. Recebiam alimentos de excelente qualidade e nutritivos. No entanto, todas eram espiãs de Israel. Foram presas e detidas justamente pelo crime de espionagem. A guarda disse, porém:
Vocês deveriam falar sobre isso com a médica. Ela pode lhes dar permissão para usar o banheiro dela.
Em vez de falar com a médica sobre o assunto, conversamos com a carcereira. Ela não concordou de maneira alguma, pois aquele banheiro era reservado exclusivamente às espiãs judias.
Mesmo inimigo, ainda é humano
Por fim, deixei tudo nas mãos da vontade de Allah e me dediquei à Sua adoração. Hamida também estava sentada ao meu lado, adorando. Nesse momento, uma mulher alta e de pele clara entrou em nosso aposento e nos cumprimentou com o salam. Quando respondemos ao salam, ela perguntou:
A senhora é Zainab al-Ghazali?
Quando respondi afirmativamente, ela disse:
Sou Mursel, uma prisioneira política, e naturalmente existem divergências ideológicas entre nós e vocês. Eu sou judia, e vocês são muçulmanas; mas, nesta aflição e desgraça, o mais importante é que somos todas seres humanos. Por isso, na prisão, quaisquer obstáculos ou impedimentos em nossas relações mútuas certamente não são desejáveis. Neste momento, estamos todas em perigo. Vim até vocês escondendo-me da vista das guardas. Meu objetivo é estender a mão da cooperação para a ajuda mútua. Acolhemos sua proposta. Em seguida, ela disse:
: Temos alimentos suficientes, embora em pouca quantidade. Dividiremos os alimentos com vocês. Naturalmente, não lhes será fornecido nenhum tipo de alimento ilícito, haram. É desnecessário dizer que nós, judeus, também consideramos a carne de porco ilícita ou haram, assim como os muçulmanos.
A partir de então, a judia Mursel passou a trazer regularmente alimentos para nós. Mais importante ainda, ela providenciou para que pudéssemos usar o banheiro reservado para elas.
Hamida, porém, parecia sentir certo constrangimento com tudo isso. Eu lhe disse:
Veja, Allah pode adotar qualquer meio para ajudar Seus servos. Ele pode fazer o bem chegar por intermédio de qualquer pessoa. Allah jamais pratica injustiça contra Seus servos, nem os deixa permanentemente em necessidade e privação. Certa vez, fiquei em uma situação terrível numa floresta imensa e, outra vez, no deserto. Naquele momento de perigo, Allah me salvou por intermédio de uma médica cristã. Aquela médica cristã cuidava de mim de tal maneira que eu ficava maravilhado. Na verdade, tudo isso é a rahmat de Allah. Ele faz com que um inimigo realize o trabalho de um amigo. Nesta prisão, era difícil passar nosso tempo com aqueles homens tolos, de caráter degradado, sem caráter e de natureza pervertida. Aqui, nada se consegue sem dinheiro. Com dinheiro, pode-se ficar aberto por um longo período. Obtém-se tudo o que se deseja. Aqui, presos e carcereiros são todos iguais. Aqui, exigem-se das pessoas dinheiro e amor. Ora, isso é assim tão fácil?
A morte e o rebelde
O grupo de governantes tirânicos, embriagado pelo poder, esqueceu completamente que um dia também terá de morrer. Esquecendo-se da morte determinada por Allah, continua impondo aos servos de Allah um governo de opressão e terror. Contudo, o curso do tempo e das eras está inteiramente sob o controle de Allah. O dia depois da noite, geração depois de geração, as idas e vindas, o começo e o fim da vida, o crescimento e o declínio do corpo, a acumulação e o fim da vida — tudo acontece sob a ordem de Allah. H
“Quando a alma daquele que está a caminho da morte chega à garganta e vocês veem que ele está morrendo, por que não fazem retornar essa alma que parte? Nesse momento, Eu estou mais próximo dele do que vocês, mas vocês não veem.” (Alcorão)
No contexto desta vida agitada e desordenada, vê-se a imagem da realidade humana mergulhando nas profundezas insondáveis da humilhação e da degradação. O pessoal da prisão de Kanatir expressou externamente luto e tristeza pela morte de Nasser. Mas Allah é testemunha: sua morte não provocou nenhuma reação em nosso coração. Pois sabemos que a morte está determinada para um dia. Esse dia certamente chegará. Não há como escapar e sobreviver ao seu alcance. Ninguém pode evitar a morte. Sem dúvida, a morte é uma declaração real, extremamente terrível, de humildade. A morte nos chama e diz: “Tomem cuidado; abandonem a opressão e a arrogância. Pois nisso não há bem algum para vocês.” Todas essas suas punições e arrogância, riquezas e tesouros, força, armas, exércitos, filhos e propriedades — nada disso virá com você. Tudo ficará para trás, e você chegará à presença de Allah exatamente despojado e nu, assim como nasceu do ventre de sua mãe.
“Ah, se pudésseis ver os injustos quando se contorcem nas agonias da morte e os anjos, estendendo as mãos, dizem: ‘Entregai vossas almas! Hoje sereis submetidos ao castigo humilhante por causa das palavras que proferíeis injustamente contra Allah e da arrogância que demonstráveis diante de Seus sinais’.”
Allah dirá:
“Agora estás diante de Mim, solitário e sozinho, exatamente como te criei sozinho pela primeira vez. Eu te havia concedido tudo o que te devia conceder, mas deixaste tudo para trás. Agora não considerarei as tuas intercessões, nas quais imaginavas haver algo que pudesse ser útil para ti. Todos os teus vínculos foram rompidos, e tudo aquilo de que tanto te orgulhavas desapareceu de ti”.
Allah também diz:
“Nós não fomos injustos com eles; eles próprios foram injustos consigo mesmos. Quando chegou a ordem de Allah, de nada lhes serviram os seus senhores, aqueles a quem invocavam em vez de Allah. Eles não lhes trouxeram benefício algum, mas apenas destruição e prejuízo”.
“E assim procede o teu Senhor, o teu Rabb, quando se apodera de uma cidade injusta. Na verdade, Seu castigo é extremamente severo e doloroso. Nisto há uma advertência para aqueles que temem o castigo da Outra Vida. Esse é um dia determinado, no qual todas as pessoas serão reunidas, e tudo o que acontecer nesse dia ocorrerá diante dos olhos de todos. Não tardarei muito em relação a esse dia. Em suma, ele tem um prazo determinado. Quando esse dia chegar, ninguém terá coragem de falar. Contudo, será permitido falar algo com a autorização de Allah.”
“Naquele dia, alguns serão desventurados e outros serão afortunados. Os desventurados irão para o Jahannam; ali se contorcerão sob o intenso calor e a sede, e permanecerão nessa situação enquanto existirem os céus e a terra. Contudo, se o teu Senhor quiser outra coisa, certamente o teu Senhor é Possuidor de pleno poder e faz o que quer. E os afortunados entrarão no Jannat e nele permanecerão para sempre, enquanto existirem os céus e a terra. Contudo, se o teu Senhor quiser outra coisa, eles receberão uma recompensa cuja dádiva jamais cessará”.
Portanto, a morte de qualquer pessoa, seja ela quem for, não causa impacto algum no coração dos mujahidin do caminho de Allah. Pois a morte é uma verdade absoluta. Por isso, não há preocupação quanto à morte. O que importa para eles é viver em obediência a Allah, sob a sombra de Sua satisfação, e empenhar-se de corpo e alma na luta para transmitir a grandiosa mensagem do Tawhid. Quando o chamado da morte chega para eles ou para os demais, abandonam este mundo e partem para prestar contas. Ali, cada um receberá castigo ou recompensa de acordo com suas obras.
A luta do Islã não é contra nenhuma pessoa ou grupo específico; pelo contrário, a luta do Islã é a luta da verdade e da justiça contra a falsidade e o batil, a luta da fé contra a descrença e a luta dos monoteístas contra as forças ateias e idólatras que praticam shirk com Allah.
Aquele cuja morte é inevitável certamente morrerá, e aquele para quem o martírio está escrito será feito mártir; o mu’min certamente terá lugar nos amplos e belos jardins do Paraíso. Eles alcançarão Jannatul Firdaus, na extrema proximidade de Allah. Ali haverá belas fontes de águas correntes suaves e jardins adornados que se estendem até o horizonte. Quanto aos mártires, já foi dito: eles são eternos. Não há morte para eles.
“Ó Meus servos, hoje não haverá medo para vós, nem a tristeza vos tocará. Entrai no Paraíso, vós e vossas esposas. Sereis feitos felizes e satisfeitos. Diante deles serão colocadas bandejas e taças de ouro, contendo coisas desejáveis e atraentes. Como resultado das boas obras que praticastes no mundo, pudestes tornar-vos herdeiros deste Paraíso. Aqui tereis frutos abundantes para comer”.
Aqueles que forem mortos ou morrerem em defesa do kufr, do batil e do ateísmo serão habitantes do Jahannam. E o que sabeis vós sobre o Jahannam? Ele vos destruirá, e de modo algum escapareis dele. Vossos rostos e corpos arderão e serão queimados nele. Quando uma pele for queimada, outra pele tomará o seu lugar, para que possa sentir o sofrimento. Haverá fogo acima e abaixo deles, e as chamas ardentes do fogo os cercarão. Se pedirem água, receberão água tão quente que seu vapor lhes queimará os rostos. Será uma água extremamente imunda, insípida e contaminada. A intensidade da fome e da sede não diminuirá nem um pouco.
“Para eles haverá o fogo do Jahannam; ali não morrerão, e o castigo do Jahannam não será diminuído para eles. Assim retribuímos”.
“Todo kafir que nega Allah gritará ali, dizendo: Ó nosso Senhor! Retira-nos daqui. Praticaremos boas obras; o que faremos agora será diferente do que fizemos antes”.
Será dito em resposta a eles:
“Acaso não vos concedi uma idade suficiente para que pudésseis aprender uma lição, caso quisésseis aprendê-la? Agora provai o resultado. Não há aqui nenhum auxiliador para os opressores”. A vida continuará conforme Allah quiser. Idade após idade, vida após vida, tudo chegará ao fim, mas ninguém poderá alterar a vontade de Allah. Algumas pessoas gritavam e choravam pela morte de Abdun Naser, transformando a situação em luto. Dia e noite eram entoadas elegias por ele. Mas tudo isso acontecia apenas para exibição. Em todo aquele choro e naquela manifestação de pesar, não havia sequer um mínimo de sinceridade; tudo acontecia com o objetivo de alcançar interesses próprios, como uma encenação repleta de artificialidade. Apenas alguns anos atrás, sentado em minha casa, um homem havia dito: “Aqueles que consideram Abdun Naser um servidor do Islã são kafir.” Hoje ouço também da boca desse mesmo homem uma elegia por Naser. Pessoas desse tipo vendem assim a própria consciência. São elas que acabam enfrentando a perda neste mundo e no além. Nessa situação, enquanto uma onda de luto e pesar artificial se espalhava pela morte de Naser, nós, em nome de Allah, saudamos a sua partida. Saudamo-la exatamente da maneira como também seria possível saudá-la da parte dos que são apenas nominalmente mu’min.
“E o opressor em breve saberá qual será o seu destino.”
Na prisão de Qanater, espalhou-se bastante a notícia de que não havíamos demonstrado qualquer pesar ou tristeza pela morte de Nasser e de que não havíamos ficado nem um pouco entristecidos com a morte do chamado grande herói. Por isso, seus seguidores ficaram furiosos conosco. Para satisfazer sua cobiça, seus desejos e seus interesses mesquinhos, eles haviam jurado permanecer sempre leais ao serviço de seu senhor. Assim, logo começaram a reagir, expressando sua ira contra nós. Segundo eles, como era possível que não lamentássemos a morte de Nasser?
As bolhas voam
As bolhas voam, mas aquilo que é benéfico para as pessoas permanece na terra. Naturalmente, os hipócritas e os bajuladores servis, que expressavam um pesar artificial, tornaram-se ativos. Para agradar a seus senhores, começaram a nos tratar mal até mesmo por motivos insignificantes. Na manhã do segundo dia após a morte de Nasser, a carcereira abriu a porta de nossa cela, entrou e, de repente, arremessou com enorme força uma pesada barra de ferro contra a minha cabeça. Mas, pela misericórdia de Allah, escapei milagrosamente daquele golpe mortal. Caso contrário, minha cabeça teria sido aberta e esmagada. Mesmo por um crime tão grave, as autoridades da prisão não lhe impuseram qualquer punição, nem sequer exigiram explicações. Aquela carcereira criminosa continuava patrulhando tranquilamente, como se não tivesse cometido crime algum. Foi justamente nessa ocasião que meus parentes vieram me visitar, e eu os informei do ocorrido. Eles se encontraram com todos os oficiais responsáveis, de todos os níveis, mencionaram o incidente e enviaram um telegrama aos órgãos do governo. Por fim, o Ministério da Lei e da Justiça foi obrigado a investigar o incidente. A investigação responsabilizou a carcereira pelo ocorrido, mas declarou que ela era mentalmente doente.
Informei ao Ministério da Lei e da Justiça que sua investigação estava incompleta. Portanto, por trás do incidente não havia a mente da carcereira, mas sim um plano cuidadosamente elaborado por um círculo contrário ao Islã. Por isso, não fazia sentido punir a pobre carcereira. Ela não era responsável por nenhuma de suas ações; apenas agira por ordem dos que estavam acima dela. Eles queriam aterrorizar os servos do Islã. Mas a vontade de Allah acabará triunfando.
Eu sequer podia imaginar um novo tipo de punição indireta como essa. Diante da situação inimaginável, os protegidos de Nasser planejaram desferir esse tipo de golpe indireto. Na verdade, ninguém pode guiar para o caminho reto aqueles a quem Allah deixa extraviados.
Uma nova prova
Na manhã de 9 de agosto de mil novecentos e setenta e um, uma nova prova surgiu diante de mim. A carcereira veio correndo e me disse.
: O comissário está chamando você ao escritório dele.
Esse chamado anormal despertou em mim todo tipo de apreensão. Quem sabe o que vai acontecer? Quem sabe que nova trama os opressores prepararam? Será que agora vão me acusar de estarmos pregando o Islã mesmo sentados na prisão? Ou talvez tenha chegado alguma notícia de casa. Eu pensava em muitas coisas desse tipo. Mas não tinha a menor ideia do que realmente estava prestes a acontecer.
Quando cheguei ao escritório do comissário, anunciaram-me a ordem de libertação. Que coisa estranha! Mesmo depois de me condenarem à prisão perpétua com trabalhos forçados, eles ainda não estavam satisfeitos! Enfim, eu seria libertado e sairia dali, mas Hamida ficaria naquele ambiente insuportável e impregnado de mau cheiro? Meu peito estremeceu de preocupação. Sem perceber, gritei:
: Não… não, isso jamais pode acontecer. Nunca sairei daqui deixando minha Hamida para trás. Vocês são todos fraudadores e conspiradores de planos destrutivos. Eu estava explodindo de raiva. Todo o meu ser tremia sob o efeito de uma sensação estranha.
Vendo o meu estado, o comissário tentou me acalmar e disse:
: Nós não pudemos sequer contestar minimamente esta ordem. Você foi trazido para cá por ordem dos superiores e também está sendo libertado por ordem dos superiores. Nisso, somos tão impotentes quanto vocês.
Poucos instantes depois, vi que Hamida também havia chegado ao escritório do comissário. Ele a mandara chamar justamente para me explicar a situação e me acalmar. Para mim, aquilo era uma prova terrível. Eu sentia uma dor profunda. Como poderia deixar minha Hamida sozinha naquela prisão? Só de pensar em deixar sozinha uma moça tão nobre quanto ela naquele ambiente imundo e repugnante da prisão, senti um frio percorrer todo o meu corpo. Impelido pela emoção, gritei novamente, sem perceber:
: Não, não, de jeito nenhum. Não a deixarei sozinha em hipótese alguma……
Vendo o meu estado, Hamida disse calmamente, com mansidão:
: Isto nada mais é que a benevolência e a misericórdia de Allah para conosco! Tudo acontece por ordem d’Ele. E Allah não Se esquece de Seus servos. Ele é o nosso guardião; fique tranquilo. Assim, passamos muito tempo conversando. O comissário pediu a Hamida:
: Apresente-lhe os meus cumprimentos e volte para a sua cela.
Aquele momento foi extremamente doloroso. De modo algum era possível transformar em palavras as sensações e perceções daquele instante. Abraçámo-nos pelo pescoço e desabámos. No coração agitavam-se ondas revoltas como as de um oceano encapelado; na respiração havia a violência de uma tempestade, e as lágrimas escorriam dos nossos olhos como um caudal ardente.
Naquele doloroso momento de extraordinária emoção e sentimento interior, senti-me sozinho na sala do comissário. O comissário assinou formalmente os meus documentos de libertação, e eu, com o coração inquieto, o espírito perturbado e as lágrimas correndo, dei o primeiro passo em direção ao mundo livre.
A cartada final
O carro que seguia velozmente em direção à minha casa mudou de repente de caminho e parou no Departamento Governamental de Investigação. Assim que me conduziram a uma sala, a porta foi trancada. Fiquei ali, desse modo, das duas da tarde até às nove da noite. Depois levaram-me para uma sala de um escritório. Havia ali dois oficiais sentados. Ambos me fizeram várias perguntas sobre o ideal de vida islâmico. Perguntaram-me também:
: Depois disso, continuará a manter contacto com a Irmandade?
Evitei responder à pergunta deles e disse:
: Fui libertada da prisão perpétua com trabalhos forçados, mas por que Hamida foi mantida detida? Na verdade, vocês querem criar divisão. Mas saibam que Allah jamais permitirá que seus maus desígnios se realizem.
Um deles disse:
Respeitável Zainab! Acalme-se.
Eu disse:
: Vocês querem prender-nos na rede do engano e da fraude. Contudo, Allah está acima de vocês. A decisão d’Ele prevalecerá, embora a maioria das pessoas não saiba disso.
Ele disse:
: Veja, Zainab! Esta é uma ordem dos superiores. Não podemos fazer mais nada.
Depois disso, fui levado ao escritório de Ahmad Rushdi.
: Este é o homem cuja instigação nos bastidores levou os carrascos da prisão militar a me torturarem desumanamente. Poucas pessoas são tão enganadoras e ardilosas quanto ele. Ele acredita no princípio de “dividir para governar”. Quando entrei em seu escritório, ele me pediu que me sentasse no sofá à sua frente e me felicitou pela libertação. Em seguida, o resumo da conversa entre nós foi o seguinte, segundo ele—
Eu interromperia minhas atividades islâmicas.
Eu não me encontraria com meus irmãos e amigos islâmicos.
Não teria nenhuma cooperação mútua com eles nem manteria qualquer relação de afeto e carinho. E compareceria periodicamente ao escritório dele. Quando terminou essa conversa sobre tais condições, declarei claramente que—
: Rejeito integralmente tudo o que você acabou de me dizer. Pelo contrário, também rejeito e recuso a ordem que vocês deram para me libertar. Transmita esta minha rejeição e recusa aos seus superiores. E exijo que me mandem imediatamente de volta à prisão de Kanatir.
Ahmad Rushdi, ignorando o que eu havia dito, respondeu entre risadas—
: Muitos ikhwanis estão aceitando um acordo sob nossas condições.
Interrompi-o e disse-
: Juro por Deus. Ainda mantenho uma excelente opinião a respeito dos Ikhwan. Não quero dizer nada sobre as acusações que você faz contra alguns Ikhwan. Naturalmente, não considero verdadeiras as suas palavras a respeito deles. Sem dúvida, os Ikhwan são verazes e intransigentes no caminho da verdade. É por essa verdade que trabalham incansavelmente, dia e noite, e permanecerão firmes e inabaláveis na luta pela verdade até receberem a ajuda de Allah ou alcançarem o martírio.
Nesse momento, o telefone tocou. Assim que Ahmad Rushdi pegou o telefone, disse alô e expressou sua alegria, dizendo-
: Ahlan wa sahlan. (Bem-vindo, bem-vindo), professor Abdul Monaim. Venha! Venha! Estou esperando justamente pelo senhor.
Depois, colocou o telefone no gancho e disse-
: Abdul Monaim Ghazali está vindo.
Pouco depois, meu irmão mais novo, o professor Abdul Monaim, chegou e me cumprimentou com a voz embargada pelas lágrimas. Ahmad Rushdi disse ao meu irmão: Faça a mediação entre o senhor e sua irmã Zainab. Entre nós também ainda há divergências de opinião.
Meu irmão disse-
: Ele é meu irmão mais velho, e eu sou seu irmão mais novo. Não tenho coragem de convencê-lo. E, se me permite, gostaria de dizer apenas isto: ele tem grande renome no que diz respeito à argumentação e à eloquência.
Ahmad Rushdi disse então-
: Está bem, Zainab! Meus parabéns. Apenas mantenha-se um pouco afastada da organização Ikhwan e não incentive ninguém a trabalhar junto com ela.
Eu lhe disse-
: Toda essa história de organizações secretas é, do princípio ao fim, fruto de suas mentes férteis. Veja, esforçar-se para estabelecer um governante e um governo islâmicos é um dever de todo muçulmano, isto é, uma obrigação coletiva. Para se preparar para isso, é preciso convocar as pessoas ao caminho de Alá, assim como o amado Profeta e seus companheiros convocaram as pessoas. Esse é um dever comum de todo muçulmano. Nesse caso, não se coloca a questão de ser ikhwanita ou não ikhwanita.
Depois, quando cheguei em casa com meu irmão, eram três da madrugada, e a data era 10 de agosto de 1971 d.C.
— Fim —