Nota sobre a publicação
No século XX, no subcontinente, Sayyid Abul A’la Mawdudi (r.) foi um renomado pensador e filósofo islâmico. Sua literatura baseada na filosofia islâmica e seu tafsir vêm sendo traduzidos para diversos idiomas em todo o mundo, recebendo amplos elogios e reconhecimento. O interesse por conhecer sua vida pessoal e sua vida dedicada ao trabalho aumentou enormemente. A quinta edição da biografia de Maulana Mawdudi já foi concluída. Agora que a sexta edição está prestes a ser publicada, oferecemos incontáveis agradecimentos ao Grande Rabb al-Alamin e, ao mesmo tempo, rogamos o perdão para a alma do respeitado autor desta obra, Muhtaram Abbas Al Khan, que já não se encontra entre nós.
Além disso, o editor das edições anteriores, o professor Yusuf Ali, também partiu deste mundo. Rogamos a Allah que aceite todas as suas boas ações e o faça habitar no Paraíso.
Espero que esta edição também seja recebida com apreço pelos leitores, como as anteriores. Que o Grande Rabb al-Alamin nos conceda a capacidade de oferecer todo sacrifício na propagação de Sua religião. Amém.
| Daca 16 de abril de 2005 | Respeitosamente Md. Tasnim Alam |
Prefácio da quarta edição
A terceira edição da biografia de Maulana Mawdudi (r.) foi concluída há mais de um ano. Agora que a quarta edição está prestes a ser publicada, ofereço infinitos agradecimentos a Allah Ta’ala. É natural que, apesar da cautela, alguns erros e falhas tenham permanecido na terceira edição. Espero que os leitores benevolentes os vejam com indulgência. Como o Departamento Central de Publicações da Jamaat-e-Islami Bangladesh assumiu a responsabilidade pela publicação deste livro, também lhe expresso minha gratidão.
Espero que esta obra seja recebida pelos leitores com a mesma estima de antes. Que Allah Todo-Poderoso aceite este meu insignificante serviço. Amém.
O autor, humildemente
Julho de 1996
Prefácio da segunda edição
Há cerca de quinze anos, foi publicada a primeira edição desta obra, com um breve relato sobre a vida e as realizações de Mawlana Sayyid Abul A’la Maududi (que Allah tenha misericórdia dele). Esta foi a primeira obra desse tipo em língua bengali. Como o falecido Mawlana ainda estava vivo quando a obra foi publicada, ela não pode ser considerada sua biografia completa. De qualquer modo, ela se esgotou antes da criação de Bangladesh, e começaram a chegar de várias partes pedidos e solicitações para uma nova publicação. Posteriormente, há pouco tempo, Mawlana deixou este mundo e partiu para a proximidade de seu próprio Senhor.
Desta vez, minha própria incapacidade e inadequação para voltar a escrever sobre a vida e as realizações de Mawlana me desencorajaram repetidamente. A posição de Mawlana entre os eruditos do mundo muçulmano é tão elevada, e a contribuição que deixou para a Ummah muçulmana e para seus futuros descendentes é tão grandiosa e vasta, que retratá-la plenamente está além das minhas capacidades. Nada do que devia fazer ou dizer pela Ummah muçulmana e por seus descendentes ele deixou por fazer. Sua literatura e seu pensamento, especialmente seu revolucionário tafsir Tafhim-ul-Qur’an e Seerat-e-Sarwar-e-Alam, continuarão a servir de orientação para a Ummah muçulmana durante vários séculos. Ele deixou uma orientação completa para os diferentes aspectos e setores da vida e da sociedade. Por isso, o mundo islâmico o recorda e continuará a recordá-lo unanimemente como o líder do mundo islâmico, o reformador do século e o criador da história.
Como o chamado, a mensagem e o ideal de Mawlana Sayyid Abul A’la Maududi (que Allah tenha misericórdia dele) eram internacionais, universais e voltados para o bem da humanidade inteira, sua personalidade não era de modo algum limitada a uma base geográfica ou nacional; era, pelo contrário, internacional. Por isso, ele estava muito acima de todo regionalismo, favoritismo e visão unilateral. Assim, para os muçulmanos de todo o mundo, Sayyid Maududi é um nome extremamente querido, objeto da estima e da admiração de todos. Esta obra não é apenas a biografia de uma pessoa; é, antes, uma vida, uma história e um movimento islâmico completo.
A terra de origem dos antepassados de Mawlana era Délhi. Ele nasceu e foi criado em Hyderabad, no Decão. Com o objetivo de concretizar o grande ideal do Islã, abandonou para sempre sua terra natal e escolheu Pathankot, no Punjab Oriental, como local de trabalho. Após a Partição da Índia, fez a hijra para Lahore. O apego a qualquer território regional não pôde desviá-lo do caminho do ideal. Depois de passar os últimos trinta e três anos de sua vida em Lahore, ele não se tornou lahori nem punjabi. Ele pertencia ao mundo inteiro. Pertencia à humanidade universal.
Ele pregou constantemente a verdade. Ergueu a voz contra a mentira, a injustiça, a corrupção, a tirania e a opressão. Suas palavras verdadeiras às vezes desagradaram aos seus familiares, aos seus amigos e a muitos anciãos da comunidade.
Sua língua materna era o urdu, ao qual serviu durante toda a vida. Deu uma nova forma a essa língua e adornou-a com novos ornamentos. Contudo, respeitava todas as línguas e atribuía importância especial à língua materna. Apesar de o urdu ser sua língua materna, manifestou claramente sua opinião favorável a que o bengali se tornasse a língua oficial do Paquistão.
Durante o período do Paquistão unido, criticou severamente a injustiça e o comportamento discriminatório dos governantes paquistaneses ocidentais para com o Paquistão Oriental e apresentou uma solução.
Ele fez comentários claros, baseados na justiça, sobre o comportamento dos muçulmanos vindos de outras regiões no Paquistão Oriental, bem como sobre os problemas linguístico, empregatício e de defesa nacional. Comparou o Paquistão Oriental a uma parte de seu próprio corpo. Disse: “O Paquistão equivale ao meu corpo e à minha vida. Assim como não posso fazer distinção entre minhas duas mãos, também não posso fazer distinção entre as duas partes do Paquistão. Se uma de minhas mãos estiver doente, isso será uma doença de todo o corpo. É meu dever investigar sua causa e providenciar o tratamento correto. Não fazê-lo significa ser inimigo de mim mesmo.”
Durante suas viagens pelo Oriente Médio, criticou destemidamente o nacionalismo árabe diante da população e dos intelectuais locais. Por outro lado, também criticou as atividades dos funcionários das embaixadas paquistanesas que se encontravam no exterior.
Outra característica encantadora de seu caráter era que ele jamais se considerava acima dos erros. Por isso, apresentava-se sempre, nas conferências dos trabalhadores da Jamaat e nas sessões do conselho (Majlis-e-Shura), para ser criticado. Àqueles que estavam sempre dispostos a dar a vida por ele, concedia plena oportunidade para que, caso percebessem algum erro ou falha sua, pudessem mencioná-lo sem hesitação. Desse modo, despedaçou completamente a superstição arraigada de muitos anos: “Também é errado apontar os erros dos anciãos”.
Ele permanecia tão imerso, dia e noite, no serviço à religião que não tinha sequer tempo para cuidar de sua casa e família, de seus filhos e da própria saúde. Dedicara-se inteiramente ao serviço da millat e da humanidade.
Portanto, pode-se afirmar sem hesitação que a personalidade de Sayyid e Murshid Maududi não estava limitada a nenhum país. Ele não era hinduстанiano nem paquistanês, nem árabe nem ajami. Pelo contrário, pertencia ao mundo muçulmano e à humanidade inteira.
Foi por isso que eu dizia que, ao tentar escrever sobre a personalidade do venerável pensador da comunidade muçulmana, Sayyid Maududi, senti repetidamente a minha própria incapacidade. Ainda assim, sob a pressão das crescentes exigências e solicitações de todos os lados, estou tentando publicar uma edição ampliada. Contudo, como não dispus do tempo nem do ambiente tranquilo necessários para isso, posso afirmar sem hesitação que não consegui cumprir devidamente o direito de escrever sobre este tema. Poderiam ser escritos grandes livros sobre os diversos aspectos do pensamento do Maulana, e certamente há também necessidade disso. Creio que, diante das exigências da época, os círculos eruditos certamente se dedicarão a esse trabalho — e muitos já o fizeram.
Faço um apelo aos leitores de língua bengali: procurem conhecer o verdadeiro Maulana com uma perspectiva imparcial e clara. Estou firmemente convencido de que sua literatura é tão vigorosa, fluente e cativante que não pode deixar de agitar o coração e a mente do leitor atento. Peço também aos leitores que leiam, uma vez, as outras obras literárias do Maulana com a mente aberta. É por meio da leitura de sua literatura que sua verdadeira identidade se tornará clara ao coração e à mente.
Meu desejo sincero era tornar este livro, do ponto de vista da impressão, tão excelente quanto possível. Porém, devido à intensa ocupação profissional e às frequentes viagens a Daca e ao exterior, não me foi possível dedicar atenção plena ao trabalho de impressão. Assim, é natural que tenham permanecido erros e imperfeições de impressão. Espero que os leitores benevolentes os vejam com indulgência.
Apesar das inúmeras dificuldades, este livro conseguiu ser publicado; por isso, ofereço incontáveis agradecimentos a Allah, o Altíssimo.
A palavra final é esta: se este livro conseguir conquistar algum apreço entre os leitores, considerarei que meu esforço foi bem-sucedido. Quanto à verdadeira recompensa pelo meu trabalho, espero recebê-la somente na vida futura. Este livro está sendo publicado no início do décimo quinto século da Hégira. Por isso, suplico ao Criador do universo que este pequeno livro possa contribuir de algum modo para as ondas do renascimento islâmico em todo o mundo — Amém.
O autor, humildemente
Daca
Muharram — 1400 da Hégira
Dezembro de 1979
Dedicatória
Este livro é dedicado Àquele cuja vida é aqui narrada, e à memória de minha falecida mãe, de meu pai e de meu tio. Além disso, é dedicado àqueles que, no caminho de Allah, tingiram de sangue esta terra de Allah.
O autor
O hino à vitória da vida na cela do condenado à forca
Em 8 de maio de 1953, o tribunal militar do Paquistão sentenciou Maulana Maududi à morte. Ao ouvir essa sentença, o intrépido e sereno mujahid proferiu esta declaração histórica:
“Lembrem-se de que não cometi crime algum. De modo algum pedirei clemência a eles. Além disso, que ninguém peça misericórdia em meu nome — nem minha mãe, nem meu irmão, nem minha esposa, meus filhos ou meus parentes. Este é também o meu pedido aos membros da Jamaat. Pois a decisão sobre a vida e a morte é tomada no céu, não na terra.”
Os parentes, amigos e simpatizantes daquele viajante revolucionário cuja subida ao cadafalso era certa fizeram-lhe este apelo: “A decisão de não pedir clemência é sua. Isso não significa que a Jamaat tenha de aceitar essa decisão. Você deverá necessariamente acatar a decisão que a Jamaat tomar, à luz das circunstâncias externas, em prol de um interesse maior.”
“Considero que minha decisão também está correta do ponto de vista da Jamaat. É meu dever comunicar-lhes também esta minha decisão clara e firme, para que a transmitam aos líderes da Jamaat.”
“Se eu me sentar,
quem ficará de pé?”
Em outubro de 1963, realizou-se em Lahore uma conferência da Jamaat-e-Islami de todo o Paquistão. Para impedir que a conferência acontecesse, o governo recusou-se a conceder autorização. Mais tarde, declarou proibido o uso de microfones em todo o Paquistão. Ainda assim, a conferência começou sem microfones, com dez ou doze mil pessoas. A cada quinze ou vinte côvados, alguém subia em uma mesa e, simultaneamente ao discurso proferido do palco, lia em voz alta o texto impresso do discurso.
Cerca de dez minutos após o início dos trabalhos da reunião, alguns arruaceiros invadiram subitamente a tenda da conferência. Quase enlouquecidos pela embriaguez, começaram a perturbar a ordem da reunião. De repente, a tenda pegou fogo; do lado de fora, ouviram-se gritos e o som de disparos de pistola. Também foram disparados vários tiros contra o Maulana, mas todos erraram o alvo. Nesse momento, ouviam-se pessoas dizendo de todos os lados: “Maulana, sente-se; Maulana, sente-se.” O Maulana, que fazia o discurso, respondeu calmamente, permanecendo de pé: “Se eu me sentar, quem ficará de pé?”…….. Assim, ele concluiu seu discurso de abertura.
Por meio de uma paciência e de uma sabedoria extraordinárias, os trabalhadores da Jamaat mantiveram toda a situação completamente sob controle e preservaram plenamente a ordem.
Enquanto esse discurso prosseguia, o trabalhador da Jamaat Allah Bakhsh foi martirizado pelos tiros disparados por criminosos contratados.
A linhagem de Maulana Maududi (r.)
Maulana Sayyid Abul A’la Maududi nasceu em uma família extremamente nobre que, há treze ou catorze séculos, mantém no mundo as atividades de divulgação do Islã, educação e formação religiosas, e orientação espiritual por meio de pír e murshid. No terceiro século hijri, um ramo da linhagem de Hazrat Ali-Fátima estabeleceu-se em um lugar próximo à cidade de Herat, no Afeganistão; posteriormente, esse lugar tornou-se mundialmente famoso pelo nome de “Chisht”. O célebre santo e mestre espiritual dessa linhagem, Hazrat Shah Sufi Abdal Chishti (r), era descendente de Hazrat Imam Hasan (r.a.). Foi a partir de Hazrat Abdan Chishti que se difundiu a célebre tariqa Chishtiyya. Ele faleceu no ano 355 da Hégira. Seu neto e sucessor (gaddinshin), Hazrat Nasiruddin Abu Yusuf Chishti (r), era oriundo do segundo ramo da linhagem de Ali-Fátima. Sua genealogia ascendente (nasabnama), por intermédio de Hazrat Imam Ali Naqi (r), remonta a Hazrat Khwaja Qutbuddin Maudud Chishti (r), filho mais velho de Hazrat Imam Husayn, o Mártir (r.a.), que foi o primeiro pir dos pirs da tariqa Chishtiyya indiana. A família Maududi originou-se dele e recebeu seu nome. Khwaja Qutbuddin faleceu no ano 572 da Hégira.
A relação da família Maududi com o célebre sufi e dervixe de Pakistão e da Índia, Hazrat Khwaja Muinuddin Chishti (r), é a seguinte:
Sucessão descendente de pirs
1) Hazrat Qutbuddin Chishti (r)
2) Hazrat Jami Sharif Zindani (r)
3) Hazrat Usman Haruni (r)
4) Hazrat Khwaja Muinuddin Chishti Sinjari (r)
Ou seja, Hazrat Qutbuddin Maudud Chishti (r) foi o pir bisavô de Khwaja Muinuddin Chishti (r).
O primeiro entre os antepassados da família Maududi a pisar na Índia chamava-se Hazrat Abul A’la Chishti (r). Ele veio para a Índia no final do século IX da Hégira, durante o reinado do sultão de Deli, Sikandar Lodi, e passou a residir numa pequena cidade chamada Baras, nos arredores de Carnática. Era um renomado santo venerável. Em 935 da Hégira, partiu para a morada eterna.
Durante o reinado do imperador Shah Alam, essa família veio para Deli e passou a residir ali permanentemente. Desde então, até a quinta geração dessa linhagem, todos viveram em Deli. O atual Maulana Sayyid Abul A’la Maududi (r) pertence à sexta geração dessa linhagem.
Por parte materna, corre nas veias do Maulana Maududi (r) o sangue de guerreiros turcos. Seu bisavô materno, Mirza Qurban Ali Beg Khan Salek, era um poeta e literato turco. Contudo, a carreira militar era a profissão de seus antepassados. Um de seus antepassados, chamado Mirza Tolak Beg, veio para a Índia durante o reinado do imperador Aurangzeb Alamgir e ingressou no exército. Até o reinado do imperador Shah Alam, os membros dessa família ocupavam algum ou outro alto cargo da corte. Depois que o Império Mogol se desintegrou, eles também se dispersaram em várias direções. O falecido Nawab Alam Beg Khan, pai do falecido Qurban Ali Beg Khan Salek, e seu tio, o falecido Nawab Niaz Bahadur Khan, vieram para Haiderabade no final do reinado do então nizam de Haiderabade, o nawab Mir Nizam Ali Khan. Nawab Niaz Bahadur casou-se com a filha de Nawab Mustaqil Jang Izzat-ud-Daula Ashur Beg Khan. Ashur Beg Khan era tio de Niaz Bahadur Khan. Os imperadores mogóis conferiram-lhes diversos títulos, e os nizams de Haiderabade também lhes conferiram títulos semelhantes. Depois de Mustaqil Jang, Nawab Niaz Bahadur Khan sucedeu-o como jamadar e jagirdar.
Nawab Alam Beg Khan casou-se com alguém da família de Abdur Rahim Khan, comandante da fortaleza de Golconda. Foi desse casamento que nasceu Qurban Ali Beg Khan Salek. Em 1822, Nawab Niaz Bahadur Khan foi martirizado nos distúrbios de Chanchalgarh, no Decão. Depois desse acontecimento, Nawab Alam Beg foi para Deli com seu filho pequeno. Cerca de quarenta anos depois, Mirza Qurban Ali Beg foi para Haiderabade, e Salar Jang Azam nomeou-o principal conselheiro educacional. Ali, com a ajuda de Nawab Imad-ul-Mulk Bilgrami, ele compôs uma obra inestimável intitulada “Makhzanul Fawaid”. Não há dúvida de que essa obra, embora talvez não seja a mais antiga de Haiderabade, é uma das suas mais célebres obras antigas. Mirza Qurban Ali Beg Khan Salek faleceu em 1855.
Genealogia do Maulana Maududi (r)
Descendente
Imam dos tementes, nosso senhor Hazrat Ali ibn Abi Talib (ra)
Hazrat Imam Husain, o mártir (ra)
Hazrat Imam Zainul Abidine (que Allah esteja satisfeito com ele)
Hazrat Imam Muhammad Al-Baf (que Allah esteja satisfeito com ele)
Hazrat Imam Muhammad Ja’far al-Sadiq (que Allah esteja satisfeito com ele)
Hazrat Imam Musa al-Kazimi (que Allah esteja satisfeito com ele)
Hazrat Imam Muhammad al-Taqi (que Allah esteja satisfeito com ele)
Hazrat Imam Muhammad al-Naqi (que Allah esteja satisfeito com ele)
Sayyid al-Sadat Abdullah-Ali-Akbar (que Allah tenha misericórdia dele)
Sayyid al-Sadat Husayn (que Allah tenha misericórdia dele)
Sayyid us-Sa’adat Muhammad (r)
Muhammad Shamyan Chishti (r)
Khwaja Nasiruddin Qutbuddin Yusuf Chishti (r) wa
Khwaja-e Khwajagan Qutbuddin Maudud Chishti (r)
Khwaja Abu Ahmad Maududi Chishti (r)
Khwaja Ruknuddin Maududi Chishti (r)
Khwaja Nizamuddin Maududi Chishti (r)
Khwaja Qutbuddin Muhammad Maududi Chishti (r)
Khwaja Ali Abu Ahmad Sani Maududi Chishti (que Allah tenha misericórdia dele)
Khwaja Ahmad Abu Yusuf Sani Maududi Chishti (que Allah tenha misericórdia dele)
Khwaja Muhammad Zahed Maududi Chishti (que Allah tenha misericórdia dele)
Khwaja Qutbuddin Maudud Sani Chishti (que Allah tenha misericórdia dele)
Khwaja Nizamuddin Ali Maududi Chishti (que Allah tenha misericórdia dele)
Khwaja Muhammad Muhyuddin Shah Khajgi Maududi Chishti (que Allah tenha misericórdia dele)
Shah Abul A’la Maududi Chishti (que Allah tenha misericórdia dele)
Shah Abdul Ali Maududi (que Allah tenha misericórdia dele)
Shah Abdul Ghani Maududi (que Deus tenha misericórdia dele)
Khwaja Abdus Samad Maududi (que Deus tenha misericórdia dele)
Khwaja Abdus Shakur (também conhecido como Khushhal Muhammad) Maududi (que Deus tenha misericórdia dele)
Khwaja Abdullah (também conhecido como Gul Muhammad) Maududi (que Deus tenha misericórdia dele)
Khwaja Abdul Bari (também conhecido como Mir Bhikhari) Maududi (que Deus tenha misericórdia dele)
Khwaja Abdul Wali (também conhecido como Mir Fazl Ilahi) Maududi (que Deus tenha misericórdia dele)
Shah Abdul Aziz (também conhecido como Mir Karam Ila) Maududi (que Deus tenha misericórdia dele)
Shah Wares Ali Maududi (que Deus tenha misericórdia dele)
Saiyid Hasan Maududi (r)
Saiyid Ahmad Hasan Maududi (r)
Saiyid Abul A’la Maududi (r)
Saiyid Ahmad Hasan Maududi
O pai de Maulana Maududi (r), Saiyid Ahmad Hasan Maududi (r), nasceu na cidade de Délhi em 1855, dois anos antes da revolta dos sipaios de 1857. Foi um dos primeiros alunos da instituição educacional de Aligarh. É do conhecimento de todos que a instituição educacional de Aligarh não conseguiu obter o apoio e a simpatia dos muçulmanos devotos daquela época. Isso porque eles nutriam extremo desprezo e aversão pela educação inglesa, isto é, pela cultura e civilização ocidentais. Em contrapartida, Sir Saiyid Ahmad, fundador da Universidade de Aligarh, tinha grande interesse por elas. Ele começou a reunir, entre seus parentes, meninos sábios e talentosos e a matriculá-los em Aligarh. Praticamente à força, ele matriculou Saiyid Ahmad Hasan Maududi em Aligarh.
É fácil imaginar que a família Maududi era extremamente contrária e avessa à educação inglesa e ocidental. Isso porque eles não apenas ocupavam uma posição de destaque no campo da educação e formação islâmicas, mas também ocupavam a posição mais elevada entre os pirs da tariqa, ou mestres da iniciação espiritual. Entretanto, como Saiyid Ahmad levou o pirzada Ahmad Hasan para Aligarh invocando os laços de parentesco, o pir Saiyid Hasan Maududi (r), profundamente entristecido, permaneceu em silêncio.
Certa vez, um amigo do pir Saiyid Hasan Maududi (r) foi a Aligarh para tratar de um assunto. Lá, viu o jovem Ahmad Hasan jogando críquete com os outros alunos, vestido à inglesa. Aquele comportamento do filho de um célebre mestre dos mestres da tariqa o deixou profundamente consternado. Ao retornar a Délhi, disse: “Tragam Ahmad Hasan imediatamente de Aligarh para casa; caso contrário, rompam relações com ele. Ele se perdeu.”
Terminou a vida estudantil de Ahmad Hasan em Aligarh. Pois seu pai, Saiyid Hasan, imediatamente o trouxe de volta para casa, levando-o do Aligarh College com um certificado de transferência. O diretor da época forneceu o seguinte certificado de recomendação:
Certifica-se que Ahmad Hasan frequentou a terceira classe escolar deste colégio durante parte do ano passado e que, naquele período, recebia uma bolsa de estudos de 5 rúpias por mês.
Seu comportamento era satisfatório, e o maulvi com quem estudava sua segunda língua declara que ele possuía conhecimentos razoáveis tanto de árabe quanto de persa.
Assinado/- S. D. T. Siddons
Data: 17 de fevereiro de 1877
Diretor
Colégio Anglo-Oriental Maometano de Aligarh
Mais tarde, Ahmad Hasan Maududi concluiu o curso de advocacia em Allahabad. Depois de concluir o curso, foi convidado para trabalhar como preceptor na família real do estado principesco de Deogarh. Ao chegar a Deogarh, soube que um de seus próprios professores também havia sido convidado para o mesmo cargo. Informou respeitosamente ao Raja Sahib que não desejava competir com seu próprio mestre por um emprego. Portanto, ficaria satisfeito se, em seu lugar, seu professor fosse nomeado. Enquanto isso, o Raja Sahib fez ao professor de Ahmad Hasan Maududi algumas perguntas sobre o outro candidato, seu concorrente. Ele respondeu: “Ele é meu próprio aluno e, para mim, não passa de um rapaz. Quanta qualificação ele realmente tem para ensinar?”
Observando essa característica oposta no caráter dos dois candidatos, o Raja Sahib comentou: “Vejo no aluno uma qualificação maior do que no professor.” Por fim, foi Ahmad Hasan Maududi quem foi nomeado preceptor.
Advogado Ahmad Hasan Maududi
Depois de trabalhar durante algum tempo como professor particular em Deogarh, Sayyid Ahmad Hasan Maududi exerceu a advocacia em Meerut, Ghaziabad, Bulandshahr e outros lugares. Em 1896, foi à cidade de Aurangabad, no estado de Hyderabad, para atuar como advogado em um processo. O senhor Mahiuddin Khan era o mir, ou juiz principal, daquele lugar. Ele era tio de Ahmad Hasan Maududi por um parentesco distante. Ahmad Hasan demonstrou grande erudição na condução do processo. Por conselho do mir provincial, estabeleceu-se definitivamente em Aurangabad e iniciou ali sua prática jurídica; em pouco tempo, sua reputação como advogado se espalhou amplamente.
Até então, porém, as ideias e os costumes ocidentais exerciam uma influência especial sobre o advogado Maududi. A centelha religiosa hereditária que existia em seu coração estava encoberta pelas trevas. Entretanto, como resultado da companhia e da proximidade do senhor Mahiuddin Khan, as ideias ocidentais nele começaram gradualmente a transformar-se em uma visão plenamente islâmica. Mahiuddin Khan não era apenas um juiz principal; era também um grande wali, um santo de elevada estatura espiritual. Em 1900, Ahmad Hasan fez bay‘ah com ele e dedicou-se ao dhikr e adhkar, à muraqabah e mushahadah, e à adoração e devoção. Assim transcorreram quatro anos completos.
Em 1904, quando Sayyid Abul A‘la Maududi (r) tinha um ano de idade, o advogado Maududi pensou que a profissão jurídica se havia tornado um grande obstáculo ao seu estudo do conhecimento espiritual. Por isso, abandonou a advocacia e aproveitou a oportunidade para dedicar-se, em desapego, à meditação no amor de Deus. Distribuiu generosamente todo o dinheiro obtido com a prática jurídica, suas roupas, os móveis e utensílios da casa, e foi a Deli com a família, sem quaisquer recursos. Ali refugiou-se em um bairro muito antigo chamado Arab Sarai, nas proximidades do nobre mausoléu de Hazrat Khwaja Nizamuddin Auliya Mahbub-e Ilahi (r). Renunciando em certa medida à convivência com a esposa, os filhos e os demais familiares, permaneceu dia e noite recluso em sua cela, ocupado na meditação em Allah. Assim se passaram três anos inteiros.
Enquanto isso, ao tomar conhecimento da situação de extrema dificuldade do advogado Maududi, o senhor Mahiuddin Khan, juiz principal de Aurangabad, mandou chamá-lo para junto de si em Aurangabad. Ahmad Hasan Maududi retornou a Aurangabad a convite de seu tio paterno e pir-murshid. Mahiuddin Khan aconselhou-o, dizendo que, no caminho para alcançar Deus, não era indispensável renunciar ao contato com o mundo. Pelo contrário, o ascetismo é condenado pelo Islã. É absolutamente necessário ganhar dinheiro para viver e sustentar a família; contudo, deve-se cuidar para que cada centavo seja obtido por meios halal. Seguindo as instruções de seu pir-murshid, Sayyid Ahmad Hasan Maududi voltou a Aurangabad com toda a família e retomou a prática jurídica. A partir de então, porém, iniciou-se um novo capítulo em sua carreira de advogado.
A partir de então, antes de aceitar qualquer processo, ele precisava fazer muitas perguntas para verificar sua veracidade. Como consequência, teve de abraçar a pobreza. Contudo, enquanto, por um lado, cresciam sua visão islâmica e seu profundo amor por Deus, por outro, aumentavam igualmente sua aversão e repugnância pelos desejos de prazer e luxo mundanos. Seus pensamentos, seu modo de vida e todas as suas atividades sofreram uma transformação tão completa que era extremamente difícil acreditar que, certa vez, a corrente arrebatadora das ideias ocidentais tivesse fluído em seu íntimo.
De todo modo, ele exerceu a advocacia em Aurangabad até 1915. Depois foi para Hyderabad. Porém, devido à deterioração de sua saúde, teve de ir para Bhopal. Lamentavelmente, ali foi acometido de hemiplegia e, quatro anos depois, em 1920, alcançou o Paraíso.
Registre-se que Ahmad Hasan Maududi recebeu do professor da Madrasa Islamia de Aurangabad, o muhaddith Maulana Habibur Rahman, o ensino completo de Sahih Muslim Kamil e Nasai Kamil, obteve o certificado correspondente e recebeu autorização para ensinar hadith.
Nascimento e educação de Maulana Maududi
No dia 3 de Rajab do ano 1321 da Hégira (em 1903 d.C.), nasceu uma criança extraordinária na casa de Sayyid Ahmad Hasan Maududi, um famoso advogado da cidade de Aurangabad. O pai, cheio de entusiasmo, deu ao filho o nome de Sayyid Abul A’la Maududi e ofereceu infinitos agradecimentos a Allah, o Altíssimo. Três anos antes do nascimento da criança, um wali buzurg havia dito a seu pai: “Vê, pela graça de Allah, terás um filho. Dar-lhe-ás o nome de Abul A’la Maududi, pois um famoso pir kamil com esse nome veio pela primeira vez à Índia como vosso antepassado.”
Essas palavras proféticas permaneciam vivas no coração do pai. E, verdadeiramente, pela glória de Deus, três anos depois ele foi agraciado com um filho, e seu coração e sua alma derreteram-se de imensa alegria e gratidão para com Deus.
Como já foi dito, uma transformação revolucionária havia ocorrido no pai mesmo antes do nascimento de Sayyid Abul A’la Maududi e, apenas um ano após o nascimento do filho, ele abandonou o mundo, enlouquecido de amor por Deus. Embora mais tarde tenha voltado a aparentar levar uma vida familiar, não retomou a família que havia abandonado anteriormente; em vez disso, construiu um lar plenamente imerso em um ambiente islâmico e moral. O resultado disso foi que, quando os olhos do entendimento do pequeno Maududi se abriram — quando aprendeu a desfrutar da luz e do ar do mundo —, tudo o que ouviu ao seu redor foi o suave murmúrio de um ambiente celestial, doce, islâmico e moral. O modo de vida tanto do pai quanto da mãe estava completamente tingido pelas cores do Islã. Assim, desde a infância, a imagem plena do pensamento islâmico foi gravada no tenro coração de Maududi.
A educação infantil de Maududi
O desejo mais profundo do pai era transformar o filho em um alim da religião. Foi assim que sua educação e formação foram organizadas. Juntamente com a instrução primária, ele foi ensinado, por meio do árabe, do persa e do urdu, em matérias como o Alcorão, os hadiths e o fiqh. Ele foi cuidadosamente mantido afastado do ensino inglês e do contato com o pensamento ocidental. Durante a infância, não foi matriculado em nenhuma escola. Sua educação infantil prosseguiu sob a supervisão de um preceptor doméstico altamente competente e de caráter virtuoso. Em seus momentos de lazer, o pai o levava consigo às reuniões da sociedade culta. Embora nem sequer uma vírgula das discussões filosóficas profundas penetrasse na mente do pequeno Maududi, elas ainda assim deixavam uma marca moral em seu espírito. À noite, o pai contava ao filho, em forma de histórias, as vidas dos profetas (que a paz esteja com eles), dos Companheiros (que Allah esteja satisfeito com eles) e dos piedosos mestres da religião, bem como a história islâmica. Por meio de uma linguagem atraente, compreensível e artisticamente expressiva, gravava no coração do filho pequeno as crenças, os dogmas e o pensamento islâmicos.
O pai mantinha uma vigilância rigorosa para que, no convívio comum e nas conversas com outras pessoas, fossem preservadas a moralidade e a cortesia. Também dava atenção especial à língua materna, o urdu. Mesmo depois de passar longos vinte anos no Decão, conservou intactas a pureza e a elegância da língua. Nenhum sinônimo estrangeiro ou construção de outra língua jamais se infiltrou em sua fala. Ele sempre falava um urdu puro, claro e fluente. Para preservar também a pureza da linguagem do filho, nunca lhe permitia, nem por um instante, qualquer contato com o mundo exterior. Se, por algum motivo, ouvisse o filho usar em sua fala uma palavra de outra língua, corrigia-o imediatamente.
Desde a infância, o pai se esforçou especialmente para formar seu caráter elevado. Mantinha uma vigilância rigorosa para que seu caráter não fosse corrompido pelo contato com pessoas perversas e desonestas.
Certa vez, o jovem Maududi bateu no filho pequeno da empregada da casa. Assim que soube disso, o pai chamou o filho da empregada e ordenou-lhe que batesse no seu próprio filho Maududi exatamente da mesma maneira. Essa lição permaneceu tão profundamente gravada no coração ainda inocente do jovem Maududi que, em toda a sua vida posterior, jamais levantou a mão contra qualquer pessoa subordinada a ele, mesmo quando ela cometia uma falta, nem lhe dirigiu palavras ásperas.
Até os nove anos de idade, o jovem Maududi continuou seus estudos em casa. Nesse período, concluiu diversos livros elementares de gramática árabe, literatura e jurisprudência islâmica. Depois, por conselho de seu mestre, o falecido Maulvi Nadimullah Husaini, foi admitido na turma do último ano do nível Rushdiyya (8ª série) da escola religiosa Fawqaniyya (superior) de Aurangabad. Apenas seis meses após sua admissão, prestou o exame de Rushdiyya, mas foi reprovado. Contudo, passou satisfatoriamente em todas as matérias, exceto matemática. A razão de não ter passado em matemática foi que só seis meses antes recebera pela primeira vez qualquer instrução nessa disciplina. O diretor da escola religiosa, Molla Daud Sahib, admitiu-o na classe superior de Maulvi.
Dessa vez, ele teve a oportunidade de adquirir novos conhecimentos em diversas áreas. Embora o meio de instrução fosse o urdu, desenvolveu grande interesse pela química, pelas ciências da saúde, pela matemática, pela história, pela geografia e por outras disciplinas. Além disso, o convívio e o contato com vários professores ampliaram sua visão e seu modo de pensar. Até então, por ter permanecido afastado do mundo exterior e da sociedade, havia desenvolvido certa insipidez e indiferença; o convívio com os colegas de estudo eliminou essas características.
Convém mencionar que, naquela época, segundo os planos de Allama Shibli Nomani, Nawab Nizam-ul-Mulk Bilgrami e Maulana Hamiduddin Farahi, foi estabelecido em Hyderabad e Aurangabad um novo tipo de sistema educacional. O meio de instrução era o urdu. Ensinavam-se história, Alcorão e hadith, jurisprudência islâmica, mantiq (lógica), entre outras disciplinas. Nesse sistema, o nível de matrícula era chamado Maulvi, o intermediário, Maulvi Alim, e a faculdade de graduação, Darul Ulum.
Em 1914, o jovem Maududi prestou o exame de Maulvi e, por ser fraco em matemática, ficou em sexto lugar entre os alunos aprovados. Nessa época, a saúde de seu pai deteriorou-se completamente. Em 1916, ele foi de Aurangabad para Hyderabad e ali matriculou o filho Maududi no Darul Ulum para estudos superiores. Naquele momento, o diretor do Darul Ulum era o falecido Maulana Hamiduddin. Deixando o filho em Hyderabad, foi para Bhopal a fim de tratar o pai enfermo e cuidar de sua recuperação.
O jovem Maududi continuou seus estudos no Darul Ulum de Hyderabad. Porém, antes que se completassem seis meses, chegou de Bhopal a má notícia de que seu pai estava no leito de morte. Assim que recebeu a notícia, o jovem Maududi foi para Bhopal com sua mãe e dedicou-se a cuidar do pai moribundo. Foi a partir dessa época que ele teve de buscar meios de subsistência. Isso porque, mesmo em tão tenra idade, já havia adquirido conhecimento suficiente para compreender que, para viver no mundo com dignidade, precisava ser autossuficiente e lutar para ganhar a vida por meios honestos. Enquanto isso, depois de lutar durante vários anos contra a pobreza e a doença, seu pai despediu-se para sempre do campo de ação deste mundo em 1920.
Caráter moral firme e força de vontade inabalável
Sob a influência da estreita companhia, educação e formação recebidas de seu pai, o jovem Maududi aprendeu a distinguir o bem do mal. A educação inicial e a formação moral haviam estabelecido nele uma base de caráter tão sólida que nenhum ambiente diferente conseguiu influenciá-lo de modo algum. O resultado foi que, quando tinha apenas quinze anos, já conseguia manter-se de pé e viver de forma completamente independente. Naquele momento, foram justamente as qualidades de seu firme caráter moral que o mantiveram constante no caminho da verdade. Na mesma fase em que o ímpeto e a exuberância da juventude recém-despertada desviam as pessoas do caminho, as ondas e a maré da juventude da vida se arremessaram aos pés de Maududi, despedaçaram-se e reduziram-se a fragmentos. Mas não conseguiram perturbá-lo nem arrastá-lo à deriva em pleno mar.
O início da vida ativa de Maududi
O Deus Misericordioso havia concedido ao jovem Maududi um talento extraordinário. Por isso, ainda muito jovem, ele se tornou um mestre na prática literária. Aos dezessete anos, em um momento de grave crise, teve de escolher o árduo caminho para ganhar a vida. Trabalhar como escriturário em algum escritório ou servir sob as ordens de alguém era contrário à sua natureza. Assim, considerou seu poder de escrita como seu único apoio.
Em 1918, o irmão mais velho de Maududi, Sayyid Abul Khair Maududi, ingressou no campo do jornalismo. Ele assumiu pessoalmente a responsabilidade pela edição do jornal “Madinah”, publicado em Bijnor. Sayyid Abul A’la Maududi também passou a dirigir “Madinah” juntamente com o irmão mais velho. Contudo, dois meses depois, o jovem Maududi partiu dali para Délhi. Naquele período, uma poderosa onda do movimento pela independência varria a Índia. A liberdade de espírito e de pensamento, a tradição familiar e a influência do ambiente de sua infância naturalmente faziam Abul A’la Maududi sentir aversão ao domínio e à civilização britânicos. Consequentemente, ele apoiava qualquer movimento pela independência. Além disso, possuía uma grande inspiração combativa do Islã. Por essas razões, passou a trabalhar como membro da então “Anjuman-e-I’anat-e-Nazarbandan-e-Islam”. Quando os movimentos do Califado e do Satyagraha começaram, em 1919, ele também participou deles.
O movimento do Califado e Maulana Maududi
O movimento do Califado não foi apenas um capítulo significativo da vida de Maulana Maududi; foi também um marco na história nacional dos muçulmanos. Mesmo que brevemente, é necessário discuti-lo, para que a vida do Maulana possa ser plenamente compreendida tendo esse contexto como pano de fundo.
Na Primeira Guerra Mundial, a Turquia, o “homem doente da Europa” (The sick man of Europe), combateu ao lado da Alemanha contra os ingleses. Até então, o Império Otomano na Turquia era considerado o guardião do Califado. Com o objetivo de desferir um golpe decisivo contra o adversário inglês e despedaçar a unidade muçulmana, os ingleses enviaram Lawrence da Arábia aos países árabes como propagandista do nacionalismo árabe. O então xerife de Meca, Hussein Hashmi, foi tão influenciado por essa propaganda que, em 1915, em nome da independência nacional dos árabes, tomou armas contra os muçulmanos e apunhalou a Turquia pelas costas. Na Primeira Guerra Mundial, os ingleses, isto é, as Forças Aliadas (Allied Forces), obtiveram a vitória. Logo no início da guerra, haviam dividido secretamente o Império Otomano entre si por meio de um acordo. Ao fim da guerra, em 1919, o Império Turco foi despedaçado. Sua parte europeia lhe foi tomada. Embora os países árabes tenham se separado do Império Turco em consequência do veneno do nacionalismo árabe, foram repartidos entre a Inglaterra, a França e a Grécia. O Império Otomano ficou limitado à antiga Anatólia (Istambul). Em maio de 1919, na capital otomana, restava apenas a existência nominal do sultão. Mesmo ali, sua independência estava ameaçada. Os líderes muçulmanos da Índia britânica haviam criado entre os muçulmanos a convicção de que o Khalifat-ul-Muslimeen e o sistema do Califado eram partes integrantes de sua verdadeira fé. Depois, ao presenciarem a queda e o estado fragmentado do Império Otomano, os muçulmanos indianos começaram a temer que os ingleses talvez destruíssem o próprio centro do Califado, que os muçulmanos consideravam seu centro religioso e espiritual.
Em seguida, os líderes muçulmanos reuniram-se com o vice-rei na própria Índia e expressaram sua posição. Uma delegação, liderada por dirigentes como Maulana Muhammad Ali Jauhar e Maulana Sayyid Sulaiman Nadvi, reuniu-se com as autoridades britânicas em Londres e apresentou suas reivindicações. Em resposta, disseram-lhes que, exceto o território da própria Turquia, nenhuma outra área lhes poderia ser entregue.
O comportamento britânico deixou os muçulmanos da Índia profundamente indignados, e um poderoso movimento do Califado teve início na Índia para preservar a existência do Califado. Foi formado um Comitê do Califado, e o Congresso Indiano, a Jamiat Ulema-e-Hind e o Comitê do Califado conduziram conjuntamente esse movimento. Em 10 de agosto, o Dia do Califado foi observado em todo o país, e, a partir desse período, greves também começaram a ser realizadas em vários lugares. Em suma, teve início em toda a Índia uma poderosa explosão contra os ingleses. Em apenas um mês, cerca de trinta mil muçulmanos se apresentaram para ser presos. Nas cidades e portos, nos mercados e bazares, nas aldeias e povoados, o movimento do Califado assumiu uma forma intensa. Contudo, todo esse grande movimento e essa explosão de protestos contra os britânicos acabaram fracassando.
Isso porque Kemal Atatürk, aproveitando-se do fervor jihadista dos muçulmanos turcos, conduziu a guerra com extraordinária bravura e discernimento, reconquistando dos ingleses vastas regiões. Unificou os turcos e conseguiu restaurar sua dignidade e glória perdidas. Depois de assumir o poder, Kemal Atatürk depôs, em novembro de 1922, o sultão Muhammad Hashim, da califado otomano, e, em março de 1924, expulsou do país o último sultão, Abdul Majid, abolindo o califado.
O Dr. Moinuddin comenta em sua obra History and freedom movement, parte VIII, volume 1:
Essa medida de Kemal Atatürk causou um profundo choque nos muçulmanos indianos ligados ao Movimento do Califado. Quem sofreu o golpe mais duro foi Maulana Muhammad Ali, que era a alma do Movimento do Califado. Sharif Hussein, que agia como um fantoche nas mãos dos ingleses e cuja traição havia reduzido o Império Turco a ruínas, declarou-se pretendente ao califado. Contudo, ele já havia se tornado objeto de repulsa no mundo muçulmano, e o governo inglês também rejeitou sua reivindicação. Por outro lado, ele tampouco conseguiu repelir os ataques do líder wahabita revolucionário Ibn Saud. No fim do ano, Ibn Saud conquistou Meca e Taife, e a maior parte do Hejaz ficou sob seu controle.
Aqueles que estavam ligados ao Movimento do Califado simpatizavam com Ibn Saud. Porém, quando ele destruiu completamente todos os tipos de monumentos construídos sobre os túmulos, com o objetivo de erradicar o culto aos túmulos, os seguidores de Badauni, Barelvi e de outras correntes semelhantes retiraram-se do Comitê do Califado. Apesar disso, em 4 de janeiro, o Comitê do Califado indiano enviou um telegrama felicitando Ibn Saud por sua condição de califa dos muçulmanos. Mas, apenas quatro dias depois, ele respondeu dizendo que era o rei do Hejaz, não um califa.
— (History of freedom movement — Dr. Moinuddin)
Enquanto isso, Kemal Atatürk construiu, sobre as ruínas do califado otomano, o palácio de uma nova Dīn-i Ilāhī.
O pai do urdu, Maulavi Abdul Haq, diz:
Kemal Paxá chegou a tal ponto que declarou símbolos nacionais da Turquia, por imitação do Ocidente, a alimentação, as vestimentas, os modos de comportamento, a dança e a música, o consumo de álcool e diversas outras culturas contrárias ao Islã. Além disso, aboliu o ensino religioso das instituições educacionais islâmicas. Mudou o antigo alfabeto da língua turca e introduziu o alfabeto romano. Uma delegação turca chegou a Délhi. Repetidamente, eles se orgulhavam de se identificar como uma nação europeia. Os muçulmanos de Délhi os convidaram a realizar a oração de sexta-feira na Grande Mesquita de Délhi. Eles, porém, rejeitaram o convite. O convite da Universidade Muçulmana de Aligarh também foi rejeitado. Entretanto, embora não houvesse qualquer programa previamente estabelecido, visitaram com prazer a Universidade Hindu de Benares.
Sir Syed Ahmad — Maulvi Abdul Haq (p. 34)
Embora o Movimento do Califado tenha terminado em fracasso, deixou uma enorme marca na história da Índia e gerou um impulso indomável para o movimento de independência indiano. Seu impacto sobre Maulana Maududi foi que esse movimento lhe deu inspiração, coragem e força para discursar em assembleias públicas, além de lhe oferecer a oportunidade de expressar, por meio da escrita, as esperanças e aspirações da comunidade muçulmana e seu programa de ação para o futuro. Durante o Movimento do Califado, Maulana Maududi trabalhava na edição do jornal ‘Taj’, em Jabalpur. Ele tinha então apenas dezessete anos. Em sua autobiografia, ele diz:
“Naquela época, não havia aqui ninguém que pudesse falar em uma assembleia pública em nome dos muçulmanos. Fui obrigado a assumir essa tarefa. Isso me trouxe dois grandes benefícios. O primeiro foi que nasceu em mim uma enorme autoconfiança, que antes não possuía. Antes, eu não tinha coragem de assumir qualquer trabalho de responsabilidade. Mas, quando em Jabalpur comecei a trabalhar no jornalismo e no serviço público completamente sozinho, sem a ajuda de ninguém e inteiramente sob minha própria responsabilidade, percebi que havia em mim certas forças ocultas que se manifestavam espontaneamente quando necessário. Depois disso, nunca mais hesitei em assumir qualquer responsabilidade.
O segundo benefício foi que me tornei completamente autossuficiente na vida. Até então, eu costumava morar com algum parente ou amigo, e, embora em pequena medida, ainda existia em mim a fraqueza de depender dos outros. Mas em Jabalpur consegui trabalhar sendo autossuficiente.”
Ao ler os editoriais de Maulana publicados no jornal ‘Taj’ de Jabalpur naquela época, é preciso reconhecer que, apesar de sua pouca idade, ele já havia adquirido tamanho conhecimento profundo que também possuía a capacidade linguística de criar entusiasmo e um impulso indomável entre o povo. Cada uma de suas palavras era extremamente lógica, aceitável para a sociedade instruída e profundamente previdente. Havia perfeito equilíbrio e harmonia entre suas afirmações anteriores e posteriores. Naquela época, ele escreveu um longo editorial criticando duramente os britânicos pela extrema injustiça que haviam cometido contra a Turquia. Como resultado, a publicação do ‘Taj’ foi suspensa.
O movimento da Hégira e Maulana Maududi
Diante da atitude intransigente dos britânicos no Movimento do Califado, os ulemás da Índia declararam que a Índia era ‘dar al-harb’ e que emigrar daqui constituía um dever religioso dos muçulmanos. Em 1920, depois que Maulana Abul Kalam Azad foi libertado da prisão de Ranchi, ele iniciou o movimento da Hégira.
Naquela época, o rei do Afeganistão, Amir Amanullah Khan, disse em uma assembleia pública que os muçulmanos indianos podiam emigrar para o Afeganistão. Pelas palavras de Maulana Azad, os muçulmanos ficaram ansiosos pela Hégira, como se tivessem fechado os olhos para tudo o mais. Foi formado um Comitê da Hégira, e seu escritório foi devidamente estabelecido em Délhi. Milhares de famílias muçulmanas devotas começaram a vender seus bens móveis e imóveis por preços irrisórios e a chegar ao escritório do Comitê da Hégira. Somente no mês de agosto, dezoito mil pessoas emigraram e atravessaram a fronteira afegã. Cerca de quinhentos mil muçulmanos perderam muitos de seus valiosos bens em nome da Hégira.
Os dois irmãos Maududi (Abul A’la Maududi e seu irmão mais velho, Abul Khair Maududi) compareceram ao escritório do Comitê da Hégira de Délhi com o propósito de emigrar. Um conhecido amigo do Maulana, o Sr. Tojammel Hossain, era o secretário. O Maulana teve com ele uma longa conversa. Durante a discussão, o Maulana soube que não havia nenhum plano ou esquema bem pensado e adequado por trás da Hégira. Centenas de milhares de pessoas estavam partindo para o Afeganistão, embora nenhuma conversa ou negociação tivesse sido realizada com o governo afegão sobre o assunto. Os líderes da Jamiat Ulama-e-Hind, entre eles o Mufti Kifayatullah e o Maulana Ahmad Said, estavam muito interessados na Hégira. O Maulana Maududi (o jovem Maududi) encontrou-se com eles e disse que, sem um plano adequado, a Hégira seria irrealista e prejudicial. Eles reconheceram a falha e pediram ao jovem Maududi que apresentasse um plano sobre a questão.
O Maulana Maududi propôs que, antes de tudo, se conversasse com o governo afegão para saber se este desejava reassentar os emigrantes provenientes da Índia e, em caso afirmativo, qual seria o método e o programa para isso. Depois, ao se encontrarem com o embaixador afegão em Délhi, soube-se que eles já estavam enfrentando dificuldades por causa da questão. Embora o governo hesitasse em mandar de volta os que haviam partido da Índia, arcar com suas despesas já estava além de suas possibilidades. Assim, o plano da Hégira teve uma morte prematura.
Sem qualquer plano adequado, movidos apenas pelo fervor religioso, os ulemás da época emitiram uma fatwa sobre a Hégira e reduziram várias centenas de milhares de muçulmanos à miséria e à condição de desabrigados. Graças à visão de longo alcance e à intervenção oportuna do Maulana Maududi, várias centenas de milhares de outros muçulmanos foram salvos do perigo.
O talento extraordinário, a inteligência aguçada e a visão de longo alcance do jovem Maududi deixaram o Maulana Muhammad Ali e os líderes da Jamiat atônitos e encantados. Por isso, eles repetidamente pediram ao jovem Maududi que assumisse a responsabilidade pela edição de seus respectivos jornais.
Maududi no campo do jornalismo
Um nobre homem de Madhya Pradesh chamado Tajuddin era a própria alma da Anjuman mencionada acima. Ele publicava em Jabalpur um semanário chamado “Taj” e, a seu insistente pedido, os dois irmãos Maududi assumiram a responsabilidade pela edição do jornal. Naquela época, a publicação de jornais era extremamente difícil. Por isso, depois de algum tempo, a publicação do “Taj” foi encerrada. Em seguida, os dois irmãos Maududi partiram de Jabalpur para Délhi. Nesse período, o Maulana Maududi havia se interessado tanto pelo jornalismo que foi obrigado a aprender inglês. Depois disso, começou a estudar inglês com um certo Muhammad Fazel. Em vez de ler os livros elementares de inglês, começou diretamente pelos livros do nível da matriculação daquela época. Graças à sua extraordinária capacidade intelectual, em apenas seis meses adquiriu conhecimento suficiente de inglês para compreender, de modo geral, o sentido de qualquer jornal ou livro em inglês que lesse. Estudou a língua inglesa durante dois anos. Sem a ajuda de um professor, continuou a estudar diversas obras apenas com o auxílio de um dicionário, acumulando vastos conhecimentos.
O Sr. Tajuddin voltou a publicar o “Taj” em Jabalpur e confiou sua edição ao Maulana. Graças aos esforços do Maulana, o “Taj” transformou-se de um semanário em um importante diário. A partir desse período, ele se envolveu com a política. Naquela época, não havia ninguém em Jabalpur para liderar os muçulmanos. Assim, o Maulana teve de proferir discursos em várias assembleias públicas, despertando vitalidade e entusiasmo entre os muçulmanos.
Durante sua permanência em Jabalpur, desenvolveram-se no Maulana virtudes como autossuficiência, dedicação ao dever e senso de responsabilidade. Nesse período, ele era capaz de realizar trabalhos de grande importância contando inteiramente consigo mesmo. Contudo, também não lhe foi possível permanecer muito tempo em Jabalpur. Por causa de um editorial do “Taj”, acendeu-se a ira do governo imperialista britânico. O governo abriu um processo contra o editor, o impressor e o publicador do “Taj”. Entretanto, como o Sr. Tajuddin figurava pessoalmente na declaração oficial, consecutivamente, como editor, impressor e publicador do jornal, o Maulana foi isentado do processo. Ainda assim, sua consciência continuou a atormentá-lo por causa disso. Ele prometeu que, dali em diante, não assumiria nenhum trabalho importante sob a autoridade de outra pessoa. Resolveu firmemente trabalhar assumindo sobre os próprios ombros todas as grandes responsabilidades.
No final de 1920, ele foi para Délhi. No início de 1921, conheceu o Maulana Mufti Kifayatullah e o Maulana Ahmad Said, presidente da Jamiat Ulama-e-Hind. Em nome da Jamiat, eles publicaram uma revista chamada “Muslim” e, impressionados com o talento do Maulana Maududi, nomearam-no seu editor. A revista continuou funcionando eficazmente até 1923, e o Maulana permaneceu como seu editor até o fim.
Durante os cinco ou seis anos entre 1916 e 1921, o Maulana teve de atravessar uma enorme provação. Devido à enfermidade incurável de seu pai, à cruel necessidade de ganhar o sustento e à falta de apoio, entre outras razões, o Maulana não teve oportunidade de adquirir o conhecimento adequado. A partir de 1921, em Délhi, passou a dedicar-se com determinação à direção de jornais e, nas horas livres, ao aprendizado. Estudando literatura árabe, hadith, tafsir, fiqh, mantiq (lógica), filosofia e outras disciplinas com eminentes ulemás versados em diversos campos, alcançou profunda erudição.
O Maulana Abdus Sattar Niazi era um dos maiores eruditos religiosos da Índia daquela época. Seu profundo conhecimento e sua erudição no Alcorão, no hadith e na língua árabe haviam se difundido por toda parte, e, em prática e caráter, ele era inteiramente um dervixe. Todos os dias, durante uma hora antes da oração do fajr, Sayyid Maududi estudava com ele gramática árabe (nahw e sarf), ma’qulat, ma’ani e balagha.
Em seguida, em 12 de janeiro de 1926, aos vinte e dois anos, Sayyid Maududi obteve, do Maulana Muhammad Sharifullah Khan, professor do Darul Ulum Fatehpuri, certificados nas ciências “ulume aqliya, adabiya e balaghat” e “ulume aslia e faruiya”.
No ano seguinte (1927), Sayyid Abul A’la obteve do Maulana Ashfaqul Rahman Kandhalvi, professor da mesma instituição, certificados em hadith, fiqh e adab árabe.
Além disso, em 1928, Sayyid Abul A’la Maududi obteve do Maulana Ashfaqul Rahman Kandhalvi os certificados de conclusão do Jami Tirmidhi e do Muwatta do Imam Malik.
É digno de nota que, com o Maulana Sharifullah Khan, o Maulana Maududi também estudou o Tafsir al-Baydawi, a Hidaya, ilm al-ma’ani e balagha.
Assim, durante os sete ou oito anos de sua permanência em Délhi, paralelamente ao jornalismo, o Maulana Maududi, graças à sua extraordinária capacidade intelectual e sabedoria, concluiu os estudos inacabados de sua vida acadêmica e alcançou profunda erudição em língua árabe, hadith, tafsir, fiqh e outras disciplinas.
Após o encerramento de «Muslim», em 1923, Maulana Maududi partiu para Hyderabad. No entanto, no caminho, interrompeu a viagem em Bhopal e ali se dedicou intensamente aos estudos durante um ano e meio. Em 1924, voltou a ir para Deli. Nessa época, conheceu o falecido Maulana Muhammad Ali Jauhar, uma das grandes figuras do subcontinente indo-paquistanês. Maulana Muhammad Ali dirigia então o jornal «Hamdard». Ele convidou o jovem e promissor jornalista Maulana Maududi a assumir as responsabilidades do referido jornal. Exatamente nesse período, Maulana Ahmad Said convidou Maulana Maududi, em nome da Jamiat Ulema-e-Hind, para publicar o jornal «Al Jamiat». Apesar de sua profunda consideração por Maulana Muhammad Ali, o espírito independente de Maududi o impediu de aceitar a subordinação a outra pessoa. Portanto, considerou mais apropriado assumir a direção do jornal «Al Jamiat» com plena independência. De 1924 a 1928, dirigiu com grande competência o semanário «Al Jamiat». Durante esse período, também escreveu valiosas obras sobre diversos temas. Suas primeiras publicações, «Al-Jihad fi al-Islam» e «Dawlat-e Safia wa Hukumat-e Britania», são especialmente dignas de menção.
«Al-Jihad fi al-Islam»
A composição da obra «Al-Jihad fi al-Islam», de Maulana Maududi, possui certo contexto histórico.
No final de 1926, Swami Shraddhanand, fundador e líder do movimento Shuddhi, foi morto pelas mãos de um assassino muçulmano. Como consequência, a Índia hindu ficou extremamente agitada. Por iniciativa dos hindus, começou uma ampla campanha contra os muçulmanos e o Islã. Eles propagavam que o Islã incitava seus seguidores ao assassinato. Até mesmo o Sr. Gandhi declarou, por meio de uma declaração pública, que no passado o Islã havia sido propagado pela espada e que o mesmo continuava acontecendo no presente. A propaganda deles contra o Islã fez ressoar os céus e a atmosfera da Índia, e tumultos e conflitos entre hindus e muçulmanos começaram em vários lugares no exterior. Ao tentar pôr fim a toda essa propaganda infundada e provocadora, Maulana Muhammad Ali Jauhar expressou profunda tristeza e disse: «Ah! Se hoje houvesse na Índia algum mujahid, algum servo de Allah, que pudesse dar uma resposta esmagadora a essa propaganda vil, como seria bom!»
O jovem mujahid Maulana Maududi estava presente na referida reunião da Mesquita Jame. Como já foi mencionado, naquela época ele era o editor do jornal «Al Jamiat». A inspiração do jihad fluiu por sua mente, seu coração e por todas as suas veias. Ele tomou a firme decisão de responder à Índia hindu e aos demais inimigos do Islã. Então, desde o início de 1927, começou a publicar em seu jornal, em série, artigos intitulados «Al-Jihad fi al-Islam». Mais tarde, esses artigos foram publicados na forma de uma volumosa obra.
O Dr. Iqbal fez o seguinte comentário sobre a obra:
«Esta obra, que contém as leis islâmicas relativas ao jihad, à guerra e à paz, é original e excelente. Peço a todas as pessoas instruídas e de bom senso que leiam esta obra.»
A obra, escrita pelas próprias mãos de Maulana, também exerceu considerável influência sobre seu próprio caráter. Sobre esse assunto, ele comentou o seguinte:
“Eu próprio fui quem mais se beneficiou deste livro. Quando o escrevi, o sentimento e o apego ao prestígio nacional eram mais fortes em meu coração do que o senso de dignidade religiosa. Contudo, durante a redação da obra e a pesquisa dos dados relacionados a ela, tive a oportunidade de estudar atentamente e em profundidade a perspectiva fundamental do Islã, bem como suas ordens e proibições. O resultado foi que, além de adquirir pleno conhecimento das normas da Sharia e plena convicção de sua veracidade, surgiu em meu coração uma inspiração irresistível para restabelecer o sistema de governo de Allah. Além disso, também aprendi o método de luta por essa causa. Depois disso, decidi abandonar os métodos então predominantes do jornalismo. Por essa razão, rompi minha relação com o jornal ‘Al Jamiat’. Naquele momento, resolvi que, se algum dia voltasse a ingressar no mundo do jornalismo, só o faria sob a condição de utilizá-lo exclusivamente como instrumento para propagar o ‘Din al-Haqq’. Depois disso, passei cinco longos anos dedicando-me apenas ao estudo e ao cultivo do conhecimento.”
Antes de 1928, o Maulana Maududi começou a aprender alemão. Contudo, depois de estudar durante alguns meses, seu professor mudou-se de Délhi para outro lugar, e sua esperança permaneceu frustrada.
Nessa época, começaram a surgir divergências fundamentais entre o Maulana e a direção do jornal ‘Al Jamiat’, bem como com a Jamiat Ulama-e-Hind. A Jamiat Ulama havia se tornado uma apoiadora cega do Congresso Indiano. No momento em que líderes de renome nacional, como o Maulana Muhammad Ali, haviam abandonado o Congresso por causa de sua obstinação, de sua política dúbia e de sua atitude contrária ao Islã, era extremamente indigno da posição da Jamiat Ulama permanecer como servil seguidora desse mesmo Congresso. Por isso, em 1928, ele renunciou definitivamente à responsabilidade editorial do referido jornal.
A vida independente do Maulana
Depois de abandonar o jornalismo, o Maulana Sayyid Abul A‘la Maududi decidiu dedicar-se à compilação e à redação de livros. Contudo, como em Délhi eram raros os valiosos livros necessários para reunir informações sobre os temas que desejava abordar, teve de voltar novamente a Hyderabad. Permaneceu ali até agosto de 1928. Durante esse período, escreveu Tarikh-e Saljuq (História dos Seljúcidas) e traduziu, da história de Ibn Khaldun, a seção ‘Os califas fatímidas no Egito’; no próprio mês de agosto, adoeceu e partiu para Délhi.
Foram necessários alguns meses para que se recuperasse completamente. Depois, permaneceu alguns meses em Bhopal, onde reuniu os dados necessários para escrever sua tão desejada ‘História do Decão’. Em julho de 1931, voltou novamente a Hyderabad e dedicou-se à redação da obra acima mencionada.
A esse respeito, pode-se mencionar que seu irmão mais velho, Sayyid Abul Khair Maududi, já se encontrava em Hyderabad. Ele era membro da ‘Osmania Dar-ul-Tarjuma’. O Maulana Maududi residiu durante alguns anos em Hyderabad com seu irmão.
Em 1932, o Maulana Maududi traduziu, por encargo do Dar-ul-Tarjuma (Departamento de Tradução) da Universidade Osmania, a obra árabe intitulada ‘Al-Asfar al-Arba‘a’, do Allama Sadruddin Shirazi. O livro é uma obra extremamente complexa de filosofia em língua árabe.
O título completo da obra árabe era “Al-Hikmat al-Mutaʿaliya fi Asfar al-ʿAqliya”. Contudo, entre os especialistas da língua árabe, ela era conhecida simplesmente como “Asfar al-Arbaʿa”. Os grandes eruditos da língua árabe comentaram que a obra era tão complexa e difícil que, naquela época, em toda a Índia, não havia mais de cinco ou dez pessoas capazes de lê-la corretamente, quanto mais traduzi-la.
De qualquer modo, para que a obra fosse traduzida de maneira eficaz e satisfatória, o departamento de tradução pagou ao Maulana uma remuneração vultosa.
Essa grande quantia obtida com a tradução contribuiu para o desenvolvimento do talento do Maulana. Assim que recebeu o dinheiro, o Maulana comprou com ele todos os volumes da “ENCYCLOPAEDIA BRITANNICA”. Além disso, reservou uma parte considerável dessa quantia para a publicação posterior de “Tarjumanul Qur’an” e, com o restante, comprou hadiths, tafsir, fiqh e outras obras valiosas.
A vida combativa do Maulana
Em 1932, iniciou-se um novo capítulo na vida do Maulana Maududi. Ninguém dotado de conhecimento e de consciência sã pode negar que o Maulana dedicou toda a sua vida a mostrar à humanidade confusa e desencaminhada do mundo moderno, à beira da destruição, um caminho simples, correto e fundamentado na ciência. Na verdade, seu esforço ao longo de toda a vida deu início auspiciosamente a um vigoroso movimento islâmico e a uma revolução moral e espiritual na sociedade humana, em meio a um mundo consumido pelo pecado e pelo sofrimento.
Em 1932, o Maulana lançou, em Hyderabad, no Decão, uma revista mensal chamada “Tarjumanul Qur’an”. A partir de então, começou a viver separadamente. Instalou-se numa casa de dois andares próxima ao Mercado Muazzam Shahi e passou a publicar dali a referida revista, com um funcionário. Naquela época, ele ainda era solteiro.
Publicar uma revista não é algo simples. Para isso, é necessária estabilidade financeira. Mas, para dizer a verdade, ele não tinha condição financeira alguma. Não possuía recursos nem bens, não tinha casa ou propriedade herdada, nem qualquer fonte regular de renda mensal. Ele conversou longamente sobre isso com seu irmão mais velho. Ao ouvir falar da decisão de publicar uma revista mensal em meio a tamanha penúria financeira, o irmão mais velho ficou preocupado. Por fim, conseguiu para o Maulana um cargo de professor de alto nível na Universidade de Osmania e pediu-lhe que desistisse da ousadia e do risco de publicar a revista. Durante seis horas, o irmão mais velho tentou persuadir o mais novo a concordar com ele nesse assunto. Ainda assim, o Maulana pediu ao irmão mais velho, em tom calmo e grave:
“Não se pode perder mais tempo. Tenho a firme convicção de que, se houver sinceridade em minhas palavras, minha inspiração não será em vão.”
Ele acrescentou: “A situação tornou-se extremamente grave. Vejo que a inundação não tardará a chegar. Essa inundação será mais terrível e destrutiva do que a inundação do domínio inglês de 1857. Considero meu dever alertar os muçulmanos sobre esse perigo. Tentarei prestar-lhes algum serviço, tanto quanto estiver ao meu alcance.”
Ao ver os argumentos irrefutáveis e a determinação inabalável do irmão mais novo, o irmão mais velho desistiu de dissuadi-lo. Contendo a tentação do atraente emprego, com seu alto salário, na Universidade de Osmania, Maulana Maududi dedicou-se ao serviço da nação por meio do jornal. Através da escrita, deu início a um movimento revolucionário.
É, contudo, inegável que, para conduzir cientificamente um movimento baseado em uma ideologia, são principalmente necessárias três coisas.
Primeiro, é necessário ter conhecimento completo e convicção firme acerca do tema do movimento, bem como dominar um método de ação científico para conduzi-lo.
Segundo, é necessário, por um lado, formar o próprio caráter com base no ideal que será propagado e, por outro, divulgá-lo na sociedade humana.
Terceiro, é necessário formar uma Jamaat ou partido com algumas pessoas plenamente caracterizadas por esse ideal e lançar-se numa luta de vida ou morte para concretizá-lo.
Este é o único método científico e correto para levar qualquer movimento ao sucesso. Também vemos a vida de Maulana Maududi dividida nessas três etapas.
Primeiro, desde a infância até antes de 1932, ele passou esse longo período adquirindo conhecimento sobre o Islã, o movimento islâmico, o Alcorão e os hadiths, o fiqh, o jihad, a guerra e a trégua, e as políticas interna, externa e internacional do Estado islâmico, entre outros temas. Além disso, familiarizou-se também com os conhecimentos e as ciências do mundo moderno.
Depois disso, em 1932, começou a segunda etapa de sua vida. Nessa época, por meio da revista mensal intitulada “Tarjuman-ul-Qur’an”, ele apresentou o ideal islâmico à sociedade humana.
Na terceira etapa, isto é, em 1941, foi formada uma Jamaat ou organização islâmica composta por algumas pessoas idealistas e de caráter íntegro. Até 1971, essa organização conduziu continuamente um movimento islâmico em toda a Índia e no Paquistão e, depois de 1971, no restante do Paquistão e em Bangladesh, de acordo com um programa de ação distinto. Essa mesma organização é conhecida como “Jamaat-e-Islami”. Depois que a lei marcial foi decretada no Paquistão, em 7 de outubro de 1958, ela também foi proibida, como as demais organizações. A Jamaat retomou suas atividades a partir de 1962.
De qualquer modo, a revista mensal “Tarjuman-ul-Qur’an”, fundada e publicada em 1932, vem sendo editada regularmente e com grande esmero até hoje. Ninguém ignora o eloquente apelo que ele dirigiu ao país e à nação por meio dessa revista, nem o fato de que, por intermédio da Jamaat-e-Islami, fundada em 1941, formou alguns verdadeiros soldados do Islã, firmes e inabaláveis como montanhas.
A busca da verdade e o pensamento revolucionário do Maulana anunciavam uma revolução, e essa revolução era plenamente islâmica, social, econômica, política, mental e espiritual. Ele havia compreendido perfeitamente que o caminho que escolhera era cheio de espinhos, perigos e solidão. Ainda assim, o chamado da verdade o deixara como louco. De um lado, a civilização capitalista ocidental, sem religião, oprimia a sociedade humana; como reação a isso, do outro lado, a miragem do comunismo ou igualitarismo privava o ser humano de seus direitos fundamentais e o confinava num curral de animais. A nação muçulmana, desprovida dos ensinamentos islâmicos, seguia à deriva na inundação da confusão mental. Foi precisamente nesse momento crítico e decisivo que o Maulana Maududi, acendendo a tocha do Nobre Alcorão e da Sunna do Mensageiro, convidou as pessoas para o caminho da verdade. Ele sabia claramente que esse caminho não era coberto de flores, mas, ao contrário, era extremamente difícil e repleto de perigos. Mesmo assim, avançou por esse caminho com o coração destemido. No início, os amigos zombaram dele, chamando-o de louco. Quando os parentes se afastaram, suspiraram longamente, tomados pelo desânimo. Os companheiros de jornada pararam no meio do caminho. Mas sua marcha não parou. Seu ritmo não diminuiu, nem seu coração e sua mente perderam o ânimo.
Jihad no caminho de Allah
O Maulana iniciou o jihad no caminho de Allah precisamente por meio de sua primeira publicação, a obra “Al-Jihad fi al-Islam”. Isso foi o início do jihad pela pena. Isso é o jihad pela pena.
Não é possível discutir aqui o conteúdo da obra. Embora tenha sido composta no início de sua vida, a profunda erudição que ele demonstrou acerca de seu importante conteúdo pode ser claramente percebida já no prefácio. Em cada página da obra se manifesta sua reverência a Deus, seu amor por Deus e sua inspiração indomável para assegurar a vitória, a glória e a expansão da preeminência do Islã. Para conhecimento dos leitores, citarei o prefácio que ele registrou na primeira edição da obra:
“Entre as várias acusações falsas e infundadas que a Europa, na era moderna, lançou contra o Islã por interesses políticos, a mais grave é a de que o Islã é uma religião sanguinária e inicia seus seguidores num culto ao sangue. Se houvesse alguma verdade na origem dessas acusações, seria perfeitamente natural que elas tivessem sido formuladas precisamente naquela época em que o mundo tremia diante das conquistas dos muçulmanos. De fato, somente naquela época poderia ter surgido a suspeita de que tais campanhas de conquista fossem resultado dos ensinamentos religiosos sanguinários. Mas, por estranho que pareça, essa acusação foi levantada muito tempo depois de o sol da glória do Islã ter se posto. O espírito dessa imagem autoinventada da acusação foi insuflado numa época em que a espada do Islã havia se tornado cega. Em contrapartida, exatamente nesse período, a espada nua da Europa estava ensanguentada com o sangue fresco de inocentes filhos da humanidade. Assim como uma enorme serpente engole, após morder, pequenos animais e criaturas, a Europa também, naquele tempo, devorava rapidamente as nações fracas. Se naquela época surgisse no mundo um mínimo de bom senso em alguém, certamente se perguntaria: aqueles que fazem correr rios de sangue sobre a terra com o sangue fresco dos fracos e praticam o banditismo contra outras nações têm algum direito de acusar o Islã? Pelo contrário, eles próprios eram culpados desse crime. Por trás de toda a sua investigação histórica e de seus debates eruditos, não haveria acaso uma intenção maliciosa: desviar em direção ao Islã a poderosa torrente de ódio e ira do mundo que começava a fluir em direção a eles? Mas é uma fraqueza natural do ser humano que, quando é derrotado no campo de batalha, também seja vencido no campo das ideias. Aquele que o derrota com o golpe da espada, ele tampouco consegue suportar que o golpe da pena o atinja. É por isso que, em todas as épocas, ganham influência no mundo os pensamentos e doutrinas que se manifestam apoiados na espada. Na realidade, a Europa conseguiu lançar poeira nos olhos do mundo a esse respeito. Como resultado, as nações de mentalidade servil aceitaram, sem julgamento nem reflexão ou investigação, a visão equivocada levantada contra o jihad islâmico como uma verdade absoluta, semelhante à revelação celestial.”
No século passado e também na época atual, as acusações acima mencionadas foram repetidamente respondidas por parte dos muçulmanos. Tanto se discutiu este assunto que agora ele é considerado, de certo modo, redundante e abandonado. Contudo, os defeitos que observei nessas respostas são os seguintes: os defensores do Islã parecem estar dominados pelo adversário, de pé no banco dos réus e prontos a apresentar sua defesa como criminosos. Alguns grandes homens chegaram ao ponto de alterar e reformar os ensinamentos e a política islâmicos para fortalecer o caso em seu favor. Além disso, intimidados e aterrorizados pelo medo dos adversários, tentaram remover da história do Islã os assuntos que, segundo seu próprio juízo, consideravam graves, para que eles pudessem escapar ao olhar dos opositores. Quanto àqueles em quem tais defeitos não se encontram, suas respostas também permanecem incompletas, pois não lançam plena luz sobre os ensinamentos islâmicos acerca do jihad e da guerra islâmica. Parecem empenhados em encobrir esses assuntos, deixando assim espaço para dúvidas a esse respeito.
Para eliminar a confusão, é necessário analisar, à luz do Alcorão, da Sunnah e da ciência do fiqh, os ensinamentos e as leis islâmicas relativos ao jihad e à guerra no caminho do próprio Allah, com o objetivo de exaltar a religião e a palavra de Allah. Não se pode fazer a mínima alteração ou acréscimo em nenhuma dessas leis. Não se deve tentar modificar os objetivos fundamentais e os ensinamentos do Islã. Tenho uma divergência fundamental quanto à ideia de que se deva reapresentar e propagar as próprias crenças de acordo com a perspectiva alheia. Não existe no mundo problema algum sobre o qual todos concordem com a mesma perspectiva. Cada grupo tem sua própria perspectiva e a considera correta. Por mais que, em consideração à perspectiva alheia, apresentemos nossas crenças fundamentais de forma adornada, jamais será possível que os adeptos de diferentes doutrinas concordem com elas. Portanto, o melhor caminho é expor o verdadeiro retrato de nossas crenças e doutrinas, de nossos problemas, ensinamentos e política, e informar o mundo sobre nossa perspectiva da melhor maneira possível. Depois, devemos deixar isso à razão e à consciência deles. Se alguém a aceitar, tanto melhor. Se não a aceitar, isso também não nos preocupa. Este é o único caminho correto para o chamado e a divulgação da verdade. Os profetas e os grandes homens firmemente comprometidos com a verdade seguiram justamente este caminho.
Há muito tempo eu sentia a necessidade disso. Mas, apesar desse sentimento, não pude tomar nenhuma medida a esse respeito. A única razão era a falta de tempo. Pois é sabido por todos que, na vida de um jornalista, raramente há tempo e disponibilidade. Entretanto, no final de dezembro de 1926, ocorreu um acontecimento que me obrigou a tomar medidas efetivas, apesar das muitas dificuldades. O fato foi que Swami Shraddhanand, líder do movimento Shuddhi, foi assassinado. Aproveitando-se disso, pessoas tolas e tacanhas começaram a espalhar confusão sobre o jihad islâmico. Infelizmente, um muçulmano foi acusado desse assassinato, e a imprensa iniciou uma campanha afirmando que o referido indivíduo havia matado Swami Shraddhanand por considerá-lo seu inimigo religioso. Além disso, divulgou-se que ele acreditava que, por esse ato, alcançaria o Paraíso. O verdadeiro mistério, naturalmente, só é conhecido pelo Conhecedor do oculto. Porém, foi apresentada ao público justamente essa versão do acontecimento. Por isso, em geral, surgiu grande agitação entre os inimigos do Islã. Depois, apesar das declarações dos ulemas, da publicação de panfletos de divulgação islâmica e da análise das declarações unânimes dos intelectuais da sociedade, eles não limitaram o acontecimento às suas proporções naturais; responsabilizaram toda a nação muçulmana e os ensinamentos islâmicos pelo assassinato. Também espalharam contra o Sagrado Alcorão a calúnia de que ele transforma os muçulmanos em fanáticos religiosos que consideram seu dever obrigatório matar todo incrédulo e esperam, por meio disso, tornar-se habitantes do Paraíso. Alguns indivíduos insolentes chegaram a declarar que, enquanto os ensinamentos do Alcorão continuassem vigentes, a paz não seria estabelecida. Portanto, a humanidade deveria empenhar-se em eliminá-los. Essas opiniões errôneas foram divulgadas em tal proporção que até uma pessoa de mente sã ficava aturdida. Até Gandhi, o mais perspicaz dos homens da comunidade hindu, influenciado por essa propaganda, chegou a declarar:
“O Islã nasceu em um ambiente no qual todas as suas decisões eram tomadas pela espada, e ainda hoje continuam sendo tomadas assim.”
Embora essas campanhas não fossem fruto de nenhuma investigação da verdade nem de uma discussão filosófica; embora os mestres dos propagandistas lhes tivessem ensinado, desde tempos imemoriais, certas coisas que eles repetiam exatamente como papagaios, ainda assim um acontecimento extraordinário deu a essas crenças cegas uma aparência capaz de facilmente enganar os ignorantes. Na realidade, concepções errôneas desse tipo sempre criaram obstáculos à divulgação do Islã. É justamente em situações assim que se torna necessário fazer resplandecer os verdadeiros ensinamentos do Islã, para que, ao dissipar-se a cobertura de nuvens, o sol possa nascer com seus luminosos raios. Por isso, comecei a dedicar a esse assunto o pouco tempo livre que tinha depois de dirigir o jornal, escrevendo artigos. Ao mesmo tempo, eles também começaram a ser publicados por meio do jornal Al Jamiat.
A princípio, eu havia decidido escrever apenas um breve artigo sobre esse assunto. Mas, depois que a discussão começou, tornou-se necessário, no curso do tema, lançar luz sobre seus diversos aspectos, e o espaço do jornal revelou-se totalmente insuficiente para isso. Assim, fui obrigado a interromper sua publicação no jornal depois que foram publicados vinte e três ou vinte e quatro números. Agora, publico o assunto integralmente na forma deste livro. Embora neste livro sejam discutidos diversos aspectos de vários temas, por falta de tempo fui obrigado a deixar muitos assuntos incompletos. Aqueles que deveriam ter recebido um capítulo próprio foram concluídos resumidamente em uma ou duas linhas. Ao elaborar esta obra, dei especial atenção ao seguinte: em nenhum lugar inseri comentários pessoais, meus ou de qualquer outra pessoa. Pelo contrário, registrei todas as questões fundamentais e detalhadas à luz do Sagrado Alcorão. Sempre que considerei necessária uma explicação detalhada, recorri às coletâneas de hadith, a obras confiáveis de fiqh e a exegeses confiáveis e autênticas. Ao ver isso, cada leitor poderá compreender que nenhuma novidade foi criada neste livro para acompanhar o mundo atual. Pelo contrário, tudo o que foi dito nele baseia-se inteiramente nas palavras de Allah, de Seu amado Mensageiro e dos profetas.
Meu apelo aos não muçulmanos que não alimentam uma hostilidade cega contra o Islã por mero sentimento de ódio é que procurem, por meio deste livro, conhecer os verdadeiros ensinamentos islâmicos relativos à guerra. Depois disso, se tiverem algo a dizer contra eles, que o digam. Se, ainda assim, restar alguma dúvida no coração de alguém, tentarei removê-la.
Délhi
15 de junho de 1972. Abul A’la.
Temas abordados nesta obra
Nos cinco primeiros capítulos desta extensa obra, discute-se detalhadamente a dignidade do jihad islâmico, a guerra defensiva, a propagação do Islã e a espada, bem como as leis islâmicas relativas à guerra e à paz. O sexto capítulo trata da política de guerra das religiões hindu, budista, judaica e cristã. No sétimo capítulo, as guerras e os acordos de paz conduzidos sob a civilização contemporânea são tomados como tema de discussão.
Pode-se afirmar sem hesitação que, em nenhuma língua do mundo, nenhum autor escreveu sobre este tema uma obra tão informativa, argumentativa e fundamentada. Essa honra e fama foram concedidas por Allah Ta’ala ao Maulana Sayyid Abul A’la Maududi.
Tarjuman-ul-Qur’an
Foi dito acima que o próprio Maulana Maududi foi quem mais se beneficiou da obra “Al-Jihad fi al-Islam”. Inspirado por ela, após cinco ou seis anos de estudo profundo e aquisição de conhecimento, ele começou uma luta incansável em 1932, publicando em Hyderabad, no Decão, a revista mensal “Tarjuman-ul-Qur’an”. Nas páginas de Tarjuman-ul-Qur’an encontra-se, página após página, o registro do apelo revolucionário que ele fez, sozinho e em meio a dificuldades financeiras, para despertar uma nação adormecida e conduzi-la pelo caminho da verdade.
A publicação de Tarjuman-ul-Qur’an
Em 31 de julho de 1931, o Maulana Maududi retornou de Délhi para Hyderabad. Na cidade de Hyderabad, um muçulmano de bom coração, o senhor Abu Muhammad Musleh, vinha publicando havia algum tempo uma revista mensal chamada “Tarjuman-ul-Qur’an”. Seu objetivo era levar a mensagem sagrada do Alcorão a todos os lares. Fascinado pela sabedoria, pelo talento, pela louvável competência do Maulana Maududi no campo do jornalismo e, acima de tudo, por seu extraordinário conhecimento islâmico, ele lhe confiou a responsabilidade editorial de Tarjuman-ul-Qur’an. O Maulana aceitou essa responsabilidade por considerar que poderia utilizar plenamente a revista para o trabalho da da’wah e do movimento islâmicos. A partir de então, as seguintes palavras passaram a ser impressas todos os meses na contracapa da revista (Back Page):
“Em toda a Índia há apenas uma revista desse tipo. Seu único objetivo é elevar a palavra de Allah e convocar ao jihād fī sabīl Allāh. Seu principal objetivo e tema de discussão é analisar, à luz do Alcorão, as correntes de pensamento, ideologias e princípios fundamentais das civilizações e culturas difundidos no mundo; em suma, interpretar e analisar cada assunto — filosofia, ciência, política, economia, cultura e vida social — à luz dos princípios apresentados pelo Alcorão e pela Sunna. Esta revista convoca a um novo modo de vida a ummat dos muçulmanos. O resumo de seu chamado é: “Tornai muçulmanos vossa mente e vosso coração. Abandonai os costumes e métodos da jahiliyya e trilhai o caminho reto do Islã. Saí levando o Alcorão nas mãos e permanecei no mundo com a aparência de vencedores.”
Convém mencionar que, no início de 1932, ele comprou a propriedade de Tarjuman al-Qur’an, pertencente ao senhor Abu Muhammad Musleh, cuja edição estava a cargo do Maulana, e dedicou-se, de forma independente, ao serviço do dīn e da millat.
Sob sua direção, na terceira página do primeiro número de Tarjuman al-Qur’an, publicado em 1932, ele declarou: “O Islã deve ser apresentado em sua verdadeira luz, a mesma luz na qual o Alcorão Sagrado o apresentou.”
Na quinta página, declarou: “É preciso ajudar todos, muçulmanos e não muçulmanos indistintamente, a compreender o Alcorão — e remover as dúvidas e incertezas que surgem na mente daqueles que estudam o Alcorão.
Na página 150 da revista, talvez tenha sido ele o primeiro a apresentar desta forma a concepção islâmica da vida:
“Do ponto de vista do Islã, o mundo não é algo desprezível e repugnante, do qual se deva abrir mão, nem algo pelo qual o ser humano venha a ficar obcecado e se dissolva inteiramente em seus prazeres. Ele não é completamente tranquilidade, nem completamente mal, inquietação e desordem. Não é correto manter-se afastado dele, nem mergulhar completamente nele. Ele não é totalmente impuro e maculado, nem totalmente puro e limpo. Além disso, a relação do ser humano com este mundo não deve ser como a relação de um rei com seu reino. Tampouco deve ser como a de um prisioneiro que se curva diante de sua prisão. O ser humano não é tão vitorioso e poderoso que todas as coisas se curvem diante dele. Não é tão impotente que sua vontade nada represente, nem tão poderoso que sua vontade e seu arbítrio sejam tudo. Ele não é o governante absoluto da criação, nem o escravo impotente de inúmeros e incontáveis senhores. A verdadeira realidade é uma condição intermediária entre esses dois extremos.”
Quando sua revista entrou no segundo ano, ele comentou no editorial:
‘Tarjuman al-Qur’an’ está concluindo seu primeiro ano sob minha direção e entrando no segundo. Considero meu dever agradecer profundamente a Allah Ta’ala pela força que me concedeu, ao longo deste ano, para servir ao Seu dīn e ao incomparável livro, o Alcorão Sagrado, e pela forma como me manteve firme e inabalável nesse trabalho, mesmo em meio a circunstâncias extremamente desanimadoras. Naturalmente, em comparação com Sua graça e Seus dons, minha gratidão é insignificante. Dadas as circunstâncias em que assumi a responsabilidade editorial desta revista e todos os perigos que posteriormente tive de enfrentar, certamente eu teria ficado desesperado se, em vez de confiar unicamente em Deus, tivesse dependido dos meios e recursos mundanos e de minha própria força e capacidade. Mas, graças a Deus, eu não tinha a menor confiança em coisa alguma deste mundo; dependia unicamente da graça de Allah. É literalmente verdadeira esta promessa de Deus: aquele que se esforça com paciência e dedicação em Seu caminho terá o sucesso garantido, e nem mesmo o sofrimento e as dificuldades poderão tocá-lo.” (Tarjuman al-Qur’an, Muharram de 1353 H.).
Mesmo enfrentando enormes dificuldades e penúria financeira, Maulana Maududi não pediu ajuda às pessoas nem se submeteu a elas. Isso era um sinal de sua profunda relação com o Senhor. O Departamento Religioso do Estado do Nizam de Hyderabad comprava todos os anos várias centenas de exemplares de Tárjumán-ul-Qur’án. Certa vez, essa compra foi interrompida. Nawab Zul Qadr Jang Bahadur era o funcionário responsável por esse departamento. Ele manifestou o desejo de que, se Maulana comparecesse pessoalmente diante dele para fazer um pedido e bajulá-lo, providenciaria a retomada da compra de sua revista em maior quantidade. Ao ouvir essa notícia, Maulana disse: “Mesmo que eu viva até o Dia da Ressurreição, não irei até ele. Pois isto não é um trabalho pessoal meu; é, antes, um trabalho da religião.”
Como consequência, naturalmente, Maulana teve de enfrentar uma enorme perda financeira.
Quando a revista entrou em seu terceiro ano, Maulana escreveu o seguinte editorial—
“A partir deste mês começa o terceiro ano de Tárjumán-ul-Qur’án. O primeiro ano transcorreu em meio à penúria. No segundo ano, pela graça de Deus, observou-se certo conforto. Agora, no terceiro ano, voltam a surgir sinais de dificuldades e penúria. De qualquer modo, tanto na felicidade quanto na tristeza, devemos depender somente de Allah. Pois somente Ele é digno de confiança e o único amparo. Ele afirmou categoricamente que, certamente, depois da dificuldade virá a facilidade, e isso é inevitável. Portanto, temos plena convicção de que, se permanecermos firmes no serviço à religião mesmo em meio às dificuldades, e confiarmos n’Ele, considerando Allah o único auxiliador e realizador de nossos desejos, então as parcelas de Sua graça se apresentarão diante de nós sob a forma de felicidade. Sabemos que todas as dificuldades, humilhações, tristezas e pobrezas nos sobrevêm justamente para nos pôr à prova.”
No referido artigo editorial, ele também diz:
“A situação da atual nação muçulmana é semelhante à de um terreno estéril, onde crescem em grande quantidade plantas inferiores. Mas árvores de boa qualidade não conseguem crescer ali. Diante de nossos olhos, muitas sementes de bondade e benefício desapareceram sob a terra. Em outros lugares, embora as sementes tenham germinado, acabaram morrendo sem conseguir expandir suas raízes. …. Contudo, na minha opinião, não pode ser próprio de um homem muçulmano desanimar e ficar sentado ao ver a esterilidade do solo, as condições climáticas adversas da estação e a escassez de água. Desde os primórdios, esta tem sido a lei da natureza: é preciso arar a terra estéril e lutar contra sua dureza. Deve-se umedecer essa terra com o próprio suor e, se necessário, até com gotas de sangue, e sem preocupar-se com o resultado, semear as sementes. Se, por seus esforços, a terra estéril se tornar verdejante e produtiva, não há mais o que dizer. Mas, se ele passar toda a vida trabalhando em vão nessa terra improdutiva e, por fim, morrer um dia, isso, na realidade, não será sua derrota. Acaso não é um grande sucesso que, tendo considerado obrigatório (fard) o trabalho que devia realizar, tenha permanecido firme nele até o último momento de sua vida, e que nenhum fracasso tenha conseguido desviá-lo de seu dever? (Tárjumán-ul-Qur’án, Muharram, 1354 H.)”
O amor e a afeição por Deus, a profunda e estreita relação com Ele, a dependência exclusiva d’Ele e a dissolução do próprio eu n’Ele—tudo isso constitui o provisão dos viajantes que desejam seguir pelo caminho de Allah. Também encontramos todas essas características no caráter de Maulana Maududi. O editorial acima mencionado e suas ações concretas, portanto, comprovam isso sem qualquer dúvida.
Quando Tárjumán-ul-Qur’án entrou em seu quarto ano, ele comentou em sua coluna editorial—
“Acaso não é uma grande graça de Deus que Ele tenha utilizado uma pessoa insignificante como eu para prestar um grande serviço à religião? Se alguém tivesse sido incumbido desta tarefa com base no conhecimento, no temor de Deus, na sinceridade e no conhecimento pleno do exterior e do interior, eu jamais teria sido considerado digno dela. Além disso, Sua graça ainda maior consiste em que todas as minhas falhas e desvios foram ignorados. Eu era ignorante; Ele me concedeu conhecimento. Estava desviado; Ele me mostrou o caminho reto. Estava sem recursos e desanimado. Ele me concedeu paciência, coragem e firmeza em minha resolução. Eu não tinha apoio nem recursos — Ele me concedeu ajuda a cada passo, proveniente de tesouros invisíveis, e tornou cada dificuldade tão fácil que isso estava além da minha imaginação. Tenho sede de conhecimento — além Dele, não há ninguém que possa saciar essa sede. Há inúmeras falhas e desvios em meu conhecimento e entendimento. Se há alguém capaz de removê-los, esse alguém é somente Ele. Meu coração está angustiado, minha alma está inquieta e agitada, e minha mente está intranquila. Somente Ele pode curar essa minha enfermidade. Estou submerso em um mar de pecados. Há inúmeras falhas e defeitos em minhas obras. Minha fraqueza natural me mantém, a cada passo, afastado do caminho de agradar a Deus. Além de Deus, não há ninguém que possa remover esses meus defeitos. Peço-Lhe uma capacidade de pensamento correta e uma visão clara. Peço-Lhe a força para amar e odiar unicamente por amor a Allah.”
(Tarjumān ul-Qur’ān, Muharram, 1355 H.)
Nas palavras acima expressou-se claramente a vida interior de um devoto que ama a Deus e de um adorador sincero. Com a cabeça curvada pelo pensamento de seus próprios pecados, envergonhado e humilhado por sua indignidade. O intenso desejo de caminhar sobre a Sirat al-Mustaqim, a ânsia por conhecimento, a prostração humilde diante do Senhor, com o rosto lançado ao pó, e o desejo ardente de alcançar o amor do Senhor — tudo isso caracteriza um mard-e mu’min, um crente apaixonado.
Fica claro, a partir da descrição acima, por que circunstâncias adversas ele conclamava, com espírito sereno e firme, a nação muçulmana à verdade. Durante seis ou sete anos consecutivos, tentou assim despertar uma consciência entre os muçulmanos do Paquistão e da Índia. Ele prosseguia sozinho e sem cessar em sua luta por um caminho difícil. Tinha no peito uma coragem ilimitada, nas mãos uma pena irresistível e plena confiança em Deus. Ainda assim, devido à natural fraqueza humana, às vezes manifestavam-se nele profunda tristeza e dor. Por meio de sua revista, ele comentou:
—“Meu desejo mais íntimo é promover o máximo desenvolvimento desta revista. Mas não estou satisfeito com a forma como ela está sendo publicada. Quero que ela se transforme em uma força revolucionária. Que ilumine o pensamento humano com o esplendor da luz do Islã, tirando-o das trevas da ignorância, e que, fundamentado nos autênticos princípios islâmicos, esse pensamento seja purificado, iluminado e desenvolvido. Que esta revista possa apresentar à sociedade o Islã, que foi transformado em uma simples matéria inerte, meramente memorável do passado, como uma força dinâmica e criadora de movimentos e revoluções ativos para o estabelecimento de um sistema de vida. Espero que, por meio de crítica elevada e protesto, ela extirpe do mundo, uma a uma, as raízes da oposição ao Islã e, mediante investigação profunda dos fatos, resolva cada problema da vida com base nos princípios fundamentais do Islã. Há seis anos acalento essa esperança no coração e, empregando todas as minhas forças, esforço-me para alcançar esse objetivo. Mas, infelizmente, estou completamente sozinho neste caminho, sem meios, recursos, apoio ou auxílio. Minha capacidade é limitada. Portanto, não consigo realizar aquilo que desejo fazer. Procuro por toda parte colaboradores e companheiros de trabalho, mas não os encontro em lugar algum. Nesta cidade populosa, sinto-me solitário, desconhecido e forasteiro. Não encontro a pessoa amada por cujo amor estou enlouquecido. Quando me aproximo daqueles a quem venho expondo meus sentimentos há anos, parece-me que estão muito distantes de mim. Suas aspirações diferem das minhas. O objetivo de suas vidas é distinto do meu. Meu coração lhes é estranho. Por isso, meu apelo angustiado não chega aos seus ouvidos. É como se eu vivesse em um mundo completamente diferente.”
De qualquer modo, em meio a esperanças e desilusões, golpes e contragolpes, o Tarjumān ul-Qur’ān continuou avançando, limpando, com sua espada de dois gumes, o lixo acumulado e o desespero do mundo do pensamento dos muçulmanos, e iluminando todos os horizontes com sua tocha de orientação.
Maulana Maududi em Darul Islam
Em meados de abril de 1938, Maulana Sayyid Abul A‘la Maududi migrou de Hyderabad, no Decão, para um lugar chamado Pathankot, no distrito de Gurdaspur, no Punjab Oriental. Seguindo o conselho do falecido Allama Iqbal, foi estabelecido, a cerca de quatro milhas da cidade de Pathankot, um centro de pesquisa islâmica chamado Darul Islam. De 1938 até a época da Partição da Índia, Darul Islam não foi apenas um centro de pesquisa islâmica; dali também foram formados numerosos verdadeiros soldados do Islã e homens mujahid.
É digno de nota que o filósofo Iqbal, idealizador do Paquistão, lia regularmente o Tarjumanul Quran publicado pelo Maulana Maududi. Ele ficara tão profundamente influenciado pelos pensamentos revolucionários e pelos artigos do Maulana que, às vezes, ouvia-se dizer-lhe: “Somente este Maududi pode indicar um caminho correto aos muçulmanos indianos desorientados.” Isso porque o filósofo Iqbal havia percebido no Maulana sinais claros de um grande homem do futuro. Depois de conhecer os talentos multifacetados, a capacidade de trabalho, a ambição e o caráter imaculado do Maulana, o poeta Iqbal mandou chamá-lo a Lahore. Esse foi o primeiro encontro e conhecimento entre o poeta Iqbal e o Maulana. O tema principal da conversa foi o pedido do perspicaz poeta para que o Punjab se tornasse o campo de atuação do Maulana. Após o encontro, o Maulana voltou novamente a Hyderabad.
Entre aqueles que refletiam e planejavam um programa de ação correto para o futuro da comunidade islâmica estava também o senhor Chaudhry Niaz Ali Khan. Ele apresentou ao poeta Iqbal o esboço de seu plano e programa de ação. Porém, declarando-se incapaz de fazer algo a esse respeito por motivos de saúde, o poeta disse: “De qualquer maneira, levem o Maulana Maududi para Darul Islam.”
É digno de nota um episódio curioso. Certa vez, tive a oportunidade de visitar a cidade de Patoki, no Punjab. Ali fui hospedado na casa de um venerável hakim, Ne’mat Ali. O episódio que ele me relatou foi o seguinte:
Um certo Chaudhry Niaz Ali Khan, devotado a Deus, pediu o conselho de seus amigos sobre como empregar sua enorme riqueza em alguma obra benéfica para a religião. Um de seus amigos disse-lhe que procurasse Allama Iqbal para conversar sobre o assunto. Então, Chaudhry Niaz Ali Khan encontrou-se com Allama Iqbal e expôs-lhe o desejo de seu coração. Depois de ouvir atentamente tudo o que ele disse, Allama Iqbal levantou-se e entrou na parte interna da casa. O senhor Chaudhry ficou sentado por muito tempo esperando o retorno de Allama; por fim, decepcionado, levantou-se e foi embora. Como Allama não lhe dissera sequer uma palavra, ele ficou profundamente triste.
Ao ouvir isso, seu amigo disse: “Volte a procurar Allama. Ele é muito filósofo e reflexivo. Talvez tenha mergulhado em algum oceano de pensamentos e se esquecido do que você lhe disse. Desta vez, talvez lhe dê o conselho correto.” Chaudhry Niaz Ali voltou a expor seu desejo a Allama Iqbal e disse, em tom humilde:
“Senhor, naquele dia o senhor entrou sem me dizer uma palavra sequer. Por isso, creio que meu plano não lhe agradou.”
Allama disse: “Como assim, não disse nada? Disse, certamente que disse. Você é que não conseguiu entender.”
Então, mostrando o Tarjumanul Quran editado pelo Maulana Maududi, ele disse:
“Naquele dia, você não percebeu que entrei lá dentro mostrando-lhe esta revista? Isso significa que, para concretizar seu projeto, é necessário contar com o editor desta revista, Abul A’la Maududi. Se conseguir trazê-lo, todo o seu trabalho será realizado.”
Choudhury Niaz disse: “Huzur, eu nem sequer o conheço.”
O Allama disse: “Está bem, está certo. Ele virá a Délhi em tal dia. Vá encontrá-lo levando uma carta.”
No momento oportuno, Choudhury Niaz Ali Khan foi a Délhi e entregou a carta do Allama às mãos de Maulana Maududi.
Maulana Maududi ficou atônito ao ler a carta do Allama Iqbal. O Allama o convidava a deixar Hyderabad e mudar-se para o Punjabe. Algum tempo depois, Maulana Maududi encontrou-se com o Allama e discutiu longamente o assunto.
Depois disso, Maulana deixou Hyderabad e chegou a “Darul Islam”. Mas quem poderia saber que aquele a cujo chamado e insistente pedido Maulana abandonara sua terra natal e seus parentes e amigos, escolhendo sua moradia numa aldeia do interior estrangeiro, partiria para o Além logo depois de fazer o convite? Maulana havia chegado a “Darul Islam” e estava ocupado organizando e arrumando sua bagagem e seus pertences quando recebeu uma carta do senhor Sayyed Nazir Niazi, de Lahore. O teor da carta era o seguinte:
“A condição do Doutor Sahib é muito grave. Ele está muito ansioso para vê-lo uma vez. Se possível, venha imediatamente.”
O próprio Maulana Maududi relata a esse respeito: “Fiquei atônito ao receber a carta. Eu havia acabado de chegar ao novo lugar. A bagagem estava amontoada por toda parte. Pensei em arrumá-la e organizá-la um pouco e ir dali a dois ou quatro dias. Mas quem poderia saber que o anjo da morte estava à espreita? Quando eu me preparava para ir a Lahore, chegou de repente a notícia do falecimento do Allama.”
Mal havia posto os pés numa terra estrangeira desconhecida quando, com o falecimento de seu benfeitor e patrocinador, o barco da vida do Maulana talvez tenha sofrido um enorme solavanco e, por um instante, girado desorientado; mas o hábil timoneiro permaneceu silenciosamente firme, segurando vigorosamente o leme.
Realização do trabalho em Darul Islam
O ambiente isolado e tranquilo de Darul Islam, livre de tumultos, favoreceu o florescimento e o pleno desenvolvimento do pensamento e da pesquisa islâmicos. Como resultado de dez longos anos de escrita ininterrupta, por um lado, formou-se um acervo de literatura islâmica produzido pela pesquisa do Alcorão e dos hadiths, e a mente, o intelecto, os costumes, a conduta e as ações de alguns servos de Allah foram tingidos com a cor de Deus; por outro lado, foi justamente no centro de pesquisas de Darul Islam que nasceu o elemento fundamental para a criação do Paquistão: a doutrina da teoria das duas nações. Entre as obras do Maulana publicadas a partir daqui estão Khutbat (a essência da fé, do Islã, da oração, do jejum, do hajj, do zakat e de outros temas), A teoria política do Islã, As quatro expressões fundamentais do Alcorão, Tajdid wa Ihya-e Din, O caminho da revolução islâmica, entre outras. Foi também aqui que teve início o comovente e revolucionário tafsir do Alcorão do Maulana, Tafhim al-Qur’an. Além disso, a incomparável obra de reflexão islâmica e sentimento nacional Muslim Aur Maujooda Siyasi Kashmakash, volume 3, foi concluída durante um abençoado mês de Ramadã em Darul Islam. Em suma, quando a nação muçulmana havia perdido o caminho na escuridão de uma noite tenebrosa, a tocha ardente de Darul Islam iluminou-lhe o caminho.
Não seria exagero dizer que Darul Islam era uma “fábrica de munições”, de onde foram produzidas duas armas de guerra robustas e poderosas, com as quais os cem milhões de muçulmanos do subcontinente indo-paquistanês despedaçaram a rede de todas as conspirações políticas e culturais do Congresso. Essas duas armas eram Mas’ala-e Qaumiyat e Muslim Aur Maujooda Siyasi Kashmakash.
A migração do Maulana
A palavra hijra significa abandonar, em prol do Islã e com o objetivo de obter a satisfação de Allah, a própria terra natal, os parentes, os amigos, os campos, as fazendas, os negócios e o comércio, escolhendo em outra parte da terra de Allah um lugar para viver onde seja possível praticar plenamente o Islã ou de onde se tenha uma oportunidade maior de servir à religião. Ninguém pode negar que esse ato é extremamente difícil e doloroso. O lugar onde uma pessoa nasce, cujo ar e cuja luz a nutrem e fazem crescer, cujas árvores, rios, paisagens naturais, entes queridos, amigos e diversas riquezas e bens de uso criam uma rede de encantamento que a mantém presa — romper tudo isso e partir para outro lugar não é coisa pequena. Até o Santo Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) sentiu tristeza ao romper relações desse tipo. Mas teve de fazê-lo por Allah.
Maulana Maududi nasceu em Aurangabad, uma cidade moderna do próprio Hyderabad. Mais tarde, escolheu a cidade de Hyderabad como seu campo de trabalho. Mas, com um grande propósito e atendendo ao chamado de Allama Iqbal, fez a hijra para a aldeia isolada de Jamalpur, sob a delegacia de Pathankot, na província do Punjab. Ali não havia sequer eletricidade. A estação ferroviária mais próxima, Sarnau, ficava a vários quilômetros dali. À noite, era preciso trabalhar à luz de lamparinas de querosene. Não havia casas modernas nem instalações modernas de banheiro e latrina. Era necessário tirar água do poço para o banho e para preparar a comida. Era preciso rachar lenha e, em meio a nuvens de fumaça, cozinhar com grande dificuldade.
O Maulana casou-se com uma mulher de uma família extremamente distinta da cidade de Delhi. Pode-se facilmente imaginar como era difícil para sua esposa viver numa aldeia tão isolada. Embora viver em tal lugar fosse inadequado ao gosto e à saúde deles, tiveram de aceitar isso, como se colocassem uma pedra sobre o coração. Seria isso um sacrifício e uma renúncia insignificantes? Mas ele fez tudo isso unicamente para servir à religião e com o objetivo de obter a satisfação de Allah. Não hesitou em fazer qualquer sacrifício ou renúncia nesse caminho. Hoje, incontáveis pessoas no mundo desfrutam da colheita dourada desse sacrifício — abandonando o caminho equivocado da vida e voltando ao caminho correto.
O casamento do Maulana
Um ano antes de emigrar para Darul Islam, em 5 de março de 1937, segundo o calendário inglês, o Maulana Maududi casou-se com uma família Sayyid de renome.
O imperador da Índia, Shah Jahan, gostava de realizar a oração atrás de um imame pertencente exclusivamente à linhagem Sayyid. Por isso, nomeou como imame da Mesquita Jami de Deli um erudito altamente instruído, pertencente à linhagem Sayyid, vindo de Bucara. Um erudito descendente de um ramo dessa mesma linhagem ainda ocupa o cargo de imame da Mesquita Jami de Deli. Foi nessa linhagem que se casou o Maulana Sayyid Abul A’la Maududi.
A contribuição imortal do Maulana para o movimento do Paquistão
Quando a nação muçulmana estava confusa e perdida no movimento nacionalista pan-indiano do Congresso Hindu — isto é, no movimento para estabelecer o Ram Rajya numa Índia indivisa —, o Maulana Maududi acendeu diante dela a tocha da verdade, mostrou-lhe o caminho e fez um veemente apelo para que se unisse pelos laços da fraternidade islâmica. Como já foi mencionado, em sua obra “Al Jihad fi al-Islam”, ele apresentou o Islã como um verdadeiro movimento revolucionário ideológico e descreveu os deveres, objetivos e propósitos da nação muçulmana. Devido à cega paixão pelo Congresso da Jamiat Ulema-e-Hind, ele rompeu suas relações com o periódico “Al Jamiat”. Mais tarde, depois que os históricos Quatorze Pontos do Sr. Muhammad Ali Jinnah — que ainda não havia se tornado Quaid-e-Azam — foram adotados na Conferência da Mesa-Redonda, na Inglaterra, a Liga Muçulmana organizou um movimento de autodefesa contra o Congresso nacionalista hindu. Na realidade, este também não era um movimento ideológico verdadeiramente sólido.
É evidente que o esforço de muitos anos do Congresso consistia em formar uma nação geográfica e regional pela integração de todas as comunidades. Percebendo seu caráter terrível, os muçulmanos adotavam outro caminho equivocado para se proteger dele. Esse caminho era o nacionalismo muçulmano, em substituição ao nacionalismo único influenciado pela civilização e pela cultura hindu. Na realidade, ambos os tipos de nacionalismo são perigosos. Por isso, no primeiro volume de sua obra “Siyasi Kashmakash”, o Maulana Maududi analisou cientificamente, em primeiro lugar, o objetivo fundamental, o ideal e o papel político do Islã. Depois, no segundo volume da mesma obra, analisou os defeitos do nacionalismo desejado pelo Congresso e as consequências terríveis dele resultantes. Em seguida, analisou também as terríveis consequências do nacionalismo muçulmano para o qual os muçulmanos indianos estavam se inclinando sob a liderança da Liga Muçulmana. Na verdade, o Islã não veio para criar qualquer nacionalismo nem para estabelecer um National State (Estado nacional). Pelo contrário, pretende apresentar ao mundo um ideal correto, uma filosofia de vida e uma filosofia social, e formar um Estado ideológico ou ideal. Nesta obra (no segundo volume de “Siyasi Kashmakash”), fala-se precisamente da formação de um Estado islâmico, e não da formação de um Estado muçulmano.
Desde 1935, o Maulana, em obras como “Tanqihat”, “Siyasi Kashmakash”, “Purdah” e “Tajdid wa Ihya-e Din”, proferiu advertências sobre o turbilhão político no qual os muçulmanos indianos haviam caído e pelo qual, desorientados, haviam perdido o rumo, apresentando também a solução.
O Maulana jamais pôde apoiar o movimento destrutivo do Congresso. Pelo contrário, era sua opinião que os muçulmanos deveriam romper todas as relações com o Congresso e viver como um partido ou uma nação ideológica independente. Tendo esquecido os verdadeiros ensinamentos do Islã, seus ideais e sua moralidade ideal, os muçulmanos estavam se inclinando para a civilização e a cultura europeias. Ele proferiu severas advertências contra isso e, por meio da obra “Tanqihat”, mostrou claramente as consequências venenosas dos frutos da árvore venenosa da civilização europeia. O objetivo central de todos os seus escritos, esforços e atividades era que os muçulmanos se erguessem no mundo como uma nação ideal e que, em toda a vida humana, somente os mandamentos de Allah Ta’ala fossem plenamente estabelecidos. Na realidade, mais tarde foi precisamente isso que tomou a forma do movimento do Paquistão.
O nacionalismo de Maulana Madani
O Congresso, porém, permaneceu sempre firme em seu próprio objetivo: criar uma única nacionalidade em toda a Índia e, com base nisso, conquistar a independência do país. Com o propósito de provar o nacionalismo geográfico e regional, e assim confundir e enganar os muçulmanos indianos, o Congresso hindu utilizou um dos maiores eruditos. O falecido Hazrat Maulana Husain Ahmad Madani, chefe do departamento de hadith do centro de estudos islâmicos de Deoband, o mais destacado da Índia, certa vez, na Mesquita Jami de Lahore, citando o Alcorão e os hadiths, tentou provar a existência de uma única nação geográfica, composta por todos na Índia, sem distinção entre hindus, muçulmanos, budistas, cristãos e jainistas. Seu discurso também foi publicado em forma de livreto. Naquela época, o movimento da Liga Muçulmana estava ganhando força e havia avançado justamente ao apresentar os muçulmanos como uma nação distinta. Mas, ao ouvirem da boca do chefe do departamento de hadith daquele famoso centro de estudos os argumentos em favor de uma única nacionalidade, formada pela união de muçulmanos e não muçulmanos, os círculos da Liga Muçulmana e, de modo geral, a Índia muçulmana ficaram atônitos, perplexos e agitados pelo desespero. Naquele tempo, o poeta filósofo e visionário do Paquistão, Iqbal, estava acamado. Ao tomar conhecimento, em seu leito de enfermidade, das palavras de Madani, ficou profundamente angustiado e inquieto. Lentamente, com o corpo trêmulo, sentou-se na cama e, como poeta por natureza, em meio às dores da doença, criticou severamente em versos as palavras de Maulana Madani:
Os persas ainda não compreenderam o segredo da religião árabe,
Pois Husain Ahmad, de Deoband, que estranha maravilha é esta!
Um cântico no púlpito: que a nação provém da pátria.
Quão alheio está ao posto de Muhammad, o Árabe!
Chega a Mustafa, pois toda a religião é ele;
se não chegares a ele, tudo será Abu Lahab.
Isto é—
Aquele habitante de Ajam não compreendeu
A essência do dīn, a perplexidade,
Por isso, em Deoband, Husain
Ahmad diz palavras estranhas.
“Da watan nasce a millat”
Estas palavras ele volta a cantar,
Ai, não compreendeu o maqām do Profeta
Ele é o orgulho dos árabes.
Leva-o ao Profeta
a exigência desta religião para consigo mesmo.
Se não conseguires fazê-lo chegar
tudo será «abu-lahabiano».
É desnecessário dizer que, embora alguns versos do Dr. Iqbal tenham açoitado a posição do falecido senhor Madani, eles não foram suficientes para provar que a unidade nacional era falsa. Como resultado, os muçulmanos indianos e a Liga Muçulmana, vendo seu movimento envolto em neblina, ficaram desorientados. Foi precisamente nesse momento de crise que Maulana Maududi iniciou sua vigorosa atividade de escrita e compôs uma valiosa obra revolucionária intitulada «Mas’ala-e Qaumiyyat».
Aqui considero necessário mencionar brevemente as palavras do falecido Maulana Madani. Em seu discurso, ele tentou provar justamente que, nos tempos atuais, uma nação se forma com base na regionalidade geográfica. Para provar sua afirmação, ele começou dizendo:
«Considero agora necessário apontar os erros e falhas de tudo quanto foi e está sendo publicado a respeito da oposição à teoria de uma só nação e da tentativa de provar que ela é contrária aos princípios da justiça. Desde 1885, o Congresso vem empreendendo esforços e diligências consideráveis para reivindicar, perante os habitantes da Índia, a unidade nacional com base no patriotismo. As forças que lhe são contrárias estão fazendo esforços desesperados para provar que negar isso é, antes, ilícito e haram. Na realidade, nada é mais perigoso do que isso para o imperialismo britânico. Essas palavras não foram publicadas apenas hoje; foram publicadas em 1886 ou mesmo antes.»
Ele acrescenta:
“Mesmo que a ideia de uma só nação seja de fato uma coisa tão amaldiçoada e vil, ainda assim, como os europeus extirparam as raízes do domínio islâmico e do califado otomano justamente empregando essa arma, é dever dos muçulmanos hoje utilizar essa mesma arma com o objetivo de arrancar pela raiz o domínio britânico.” (Islã e Nacionalismo, p. 43).
Em resposta à declaração do falecido senhor Maulana Sayyid Abul A‘la Maududi, ele escreveu, no início da obra revolucionária (“Islã e Nacionalismo”, tradução bengali da obra em urdu “Mas’ala-e Qaumiyyat”, escrita pelo Maulana Maududi):
“O diretor do Darul Ulum Deoband, o senhor Maulana Husain Ahmad Madani, escreveu um livreto intitulado ‘A teoria de uma só nação e o Islã’. Era natural esperar que esse livreto, escrito por um renomado erudito e pelo diretor da mais importante instituição de ensino religioso da Índia-Paquistão, apresentasse uma análise simples da ‘complexa teoria da nacionalidade’ e a plena expressão da verdadeira perspectiva islâmica. Mas, depois de lê-lo, ficamos cruelmente decepcionados e consideramos esse livro prejudicial à posição do seu autor. Na época atual, inúmeras ideologias contrárias ao Islã estão prestes a lançar um ataque vigoroso contra os princípios fundamentais do Islã; hoje, o Islã encontra-se indefeso dentro de sua própria casa. Os próprios muçulmanos não examinam os acontecimentos e problemas do mundo à luz do Islã puro. É desnecessário dizer que não conseguem fazê-lo simplesmente por ignorância. Além disso, a questão da ‘nacionalidade’ é tão complexa que a vida ou a morte de cada nação depende precisamente de compreendê-la com clareza. Se uma nação combinar os fundamentos da sua própria nacionalidade com princípios inteiramente diferentes, não poderá sobreviver no mundo como ‘nação’. Ao tomar a pena para tratar dessa questão complexa, era necessário que uma pessoa como o senhor Maulana Husain Ahmad permanecesse plenamente consciente da sua própria responsabilidade. Pois a confiança do Profeta foi depositada sob sua custódia. Se algum dia se acumular lixo e detritos sobre os verdadeiros ensinamentos e os princípios fundamentais do Islã, cabe precisamente a pessoas como ele removê-los.”
Na atual era de trevas, eles deveriam ter compreendido plenamente que sua responsabilidade era muito maior e mais rigorosa do que a dos muçulmanos comuns. Se os muçulmanos comuns estiverem imersos no erro, essa classe de pessoas será a primeira a ser responsabilizada por isso. Por isso, devo dizer novamente que não há, no livreto do Maulana Madani, qualquer prova de seu senso de responsabilidade ou de sua consciência dela.” (Islã e Nacionalismo, p. 41).
Para provar que a “teoria de uma só nação” de todos os habitantes da Índia era legítima, o senhor Maulana Madani apresentou também outro argumento:
“Todos os dias formamos associações ou sociedades para interesses comuns e não apenas participamos delas, mas também nos esforçamos com todas as forças para obter sua condição de membro. … Existem áreas urbanas, áreas notificadas, conselhos municipais, conselhos distritais, conselhos legislativos, associações educacionais e centenas de associações desse tipo, formadas para fins específicos segundo regras e normas determinadas. Ninguém declara proibido participar dessas associações e, para esse fim, esforçar-se de modo total ou parcial. Mas é surpreendente que, se uma associação desse tipo for fundada para trabalhar pela independência do país e contra o domínio britânico, participar dela se torne proibido, contrário à justiça, contrário aos ensinamentos do Islã e contrário à razão e ao bom senso, entre outras coisas.” (Islã e Nacionalismo, p. 52).
Em resposta, o Maulana Maududi disse:
“Com efeito, isso se chama tirar uma conclusão errada com base num erro. Maulana Madani, considerando um ato pecaminoso como obrigatório e apaixonando-se cegamente por ele, está tentando provar como legítimo outro pecado semelhante. No entanto, em ambos os casos está presente a mesma razão fundamental para serem proibidos. Quero dizer claramente que, para os Ulemás da Índia, declarar num dia que a adesão ao Conselho e à Assembleia é proibida e, no dia seguinte, que é permitida, tornou-se nada mais que uma brincadeira de bonecas. Isso porque não é princípio deles declarar algo proibido após examinarem a realidade da questão. Basta uma palavra de Gandhi para ativar seu poder de emitir fatwas. Mas eu digo, com base nos princípios e ideais eternos e imutáveis do Islã, que apoiar, por parte dos muçulmanos, instituições gerais que concedem aos seres humanos autoridade absoluta para emitir novos veredictos sobre assuntos a respeito dos quais Deus e Seu Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) já proferiram decisões claras é, sem dúvida, um crime eterno. Porém, quando nessas instituições gerais, dotadas de tal autoridade e poder absolutos, os não muçulmanos se tornam maioria e todas as decisões são tomadas com base nessa maioria, isso é considerado um crime duplo. Portanto, o primeiro dever dos muçulmanos é separar o âmbito de atuação dessas instituições gerais dos limites específicos da sharia de Deus; e, para eles, essa é a verdadeira luta pela liberdade. Se os limites acima mencionados do exercício da autoridade forem distintos para ambos, então será legítimo para os muçulmanos cooperar com grupos formados para atender a algum interesse comum das nações muçulmana e não muçulmana. Seja para repelir o ataque de um inimigo, seja para realizar atividades econômicas ou industriais, não há diferença. Contudo, enquanto os limites da atuação e do poder das duas nações permanecerem interligados, longe de união e cooperação, será completamente inadequado para os muçulmanos viverem sob tal sistema de governo conjunto. Nesse assunto, todos os muçulmanos, sem exceção, serão considerados culpados até que todos, unidos e com a ajuda de sua força conjunta, destruam o referido sistema de governo. E aqueles que aceitarem esse sistema de governo com entusiasmo e se esforçarem para implementá-lo serão ainda mais culpados. Mas aquele que, seja quem for, apresentar argumentos do Alcorão e do Hadith em favor da implementação desse sistema de governo terá o maior de todos os crimes.”
(Islã e Nacionalismo — página 53)
Observando os efeitos venenosos do nacionalismo de uma só nação do Congresso, Maulana Maududi diz:
“Foi precisamente para esse objetivo que o Plano Wardha foi elaborado. Esse também era o objetivo do Plano Vidyamandir. Esse objetivo havia sido expresso claramente em ambos os planos. Mas Maulana Madani não examinou de modo algum esses planos nem seus programas de estudos. Pandit Nehru vinha propagando a educação desse mesmo nacionalismo havia vários anos. Mas nenhum de seus discursos ou escritos chegou ao conhecimento de Maulana Madani. Cada pessoa responsável no Congresso estava proclamando e escrevendo exatamente isso, além de divulgá-lo intensamente com a ajuda do poder estatal obtido pelo novo sistema de governo. Mas Maulana Madani não conseguia ouvir, ver nem perceber nada disso. E, no entanto, todas essas ações estavam sendo realizadas por cada uma das instituições gerais que ele havia mencionado.” (Islã e Nacionalismo — páginas 59–60).
Maulana Maududi acrescenta:
“Portanto, teria sido melhor se Maulana Madani tivesse usado alguma expressão como ‘amizade mútua’ para expressar sua atitude e, em vez de apresentar isso como política e ação do Congresso, tivesse apresentado, em seu próprio nome, uma proposta como recomendação. Se ainda agora ele conceder ao menos um pouco de benevolência a esta nação, isso será uma grande bondade. Caso contrário, há plena possibilidade de que seus escritos provoquem uma grande catástrofe. Tudo o que reis e governantes tirânicos e líderes de Estado ímpios fizeram, os eruditos religiosos provaram ser verdadeiro com argumentos do Alcorão e do Hadith, usando assim a religião como instrumento de opressão e exploração.
Após a publicação do mencionado opúsculo de Maulana Madani, tornou-se extremamente necessário analisar o ‘nacionalismo’ sob uma perspectiva puramente científica e esclarecer a diferença fundamental entre as doutrinas islâmica e não islâmica a esse respeito. Se isso fosse feito, todos os conceitos equivocados relacionados a essa questão seriam removidos da mente das pessoas, e elas poderiam escolher conscientemente um dos dois caminhos. Essa era uma responsabilidade dos eruditos religiosos; mas, quando a principal figura da comunidade dos eruditos ergueu a bandeira do nacionalismo de uma só nação e nenhum erudito se mostra disposto a cumprir seu verdadeiro dever, nós, pessoas comuns como nós, teremos de tomar a iniciativa nesse sentido.” (Islã e Nacionalismo — página 61).
Ao descrever os fundamentos do nacionalismo islâmico nesta obra, ele diz:
“As bases limitadas, inertes, sensíveis e supersticiosas sobre as quais foram erguidos os palácios das diversas nacionalidades do mundo, Allah e Seu Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) despedaçaram-nas completamente. Com base nas diferenças e discriminações anticientíficas de raça, tribo, pátria, economia e política, os seres humanos, devido à sua própria ignorância e extrema insipiência, esmagam a humanidade; e, do ponto de vista da humanidade, concederam a todas as pessoas a mesma categoria, a mesma dignidade e os mesmos direitos.”
“Na nacionalidade islâmica, de fato se faz distinção entre as pessoas, mas não por qualquer motivo material, mundano ou externo. A distinção é feita sob os aspectos espiritual, moral e humano. É apresentada à humanidade uma lei natural e verdadeira, cujo nome é Islam. Toda a humanidade é convidada à servidão e obediência a Allah, à pureza e purificação do coração e da mente, à sinceridade das ações, à honestidade e à observância da religião. Depois, afirma-se que aqueles que aceitarem esse convite serão considerados uma nação. E aqueles que o rejeitarem pertencerão a uma nação completamente diferente. Em outras palavras, uma das nações humanas é a nação da fé e do Islam, e a totalidade de seus indivíduos constitui uma ummah. A outra é a nação do kufr e do desvio. Seus seguidores, apesar de suas divergências e discriminações mútuas, são considerados um mesmo grupo e pertencentes à mesma comunidade.”
“Entre essas duas nações não há diferença quanto à linhagem ou à tribo. A diferença está na crença e nas ações. Portanto, até dois filhos dos mesmos pais podem, em razão da diferença acima mencionada entre o Islam e o kufr, ser considerados membros de duas nações distintas; e duas pessoas sem qualquer parentesco ou relação, completamente desconhecidas uma da outra, podem, por terem abraçado o Islam, pertencer à mesma nação.”
“A diferença de pátria também não pode ser causa de separação entre essas duas nações. Aqui, a distinção é feita com base na verdade e na falsidade. E não existe algo como uma ‘pátria’ ou ‘terra natal’ da verdade e da falsidade. Duas pessoas da mesma cidade, do mesmo bairro e até da mesma casa podem ter nacionalidades diferentes devido à diferença entre o Islam e o kufr. Um negro pode, pelo vínculo do Islam, tornar-se irmão de um marroquino.”
“A diferença de raça também não se deve aqui a uma diferença nacional. No Islam, a cor da aparência externa é insignificante. Aqui, somente a cor de Allah tem importância. Essa é a cor mais excelente.”
“A diversidade das línguas também não é causa da diferença entre o Islam e o kufr. No Islam, a língua falada não tem valor algum. O que tem valor é a linguagem da mente e do coração — as palavras sem língua.”
O centro desse círculo da nacionalidade islâmica é a declaração: Lā ilāha illā Allāh, Muhammad é o Mensageiro de Allah. A amizade e a inimizade baseiam-se nessa declaração. Essa afirmação une as pessoas, enquanto sua rejeição provoca uma separação definitiva entre elas. Aquela que essa declaração separa, nenhum vínculo ou parentesco — seja de sangue, terra, língua, raça, alimento, sistema de governo ou qualquer outra coisa — pode unir. Do mesmo modo, nada pode separar aqueles que essa declaração une.
O Maulana prossegue, dizendo:
“É importante observar que a relação da nação muçulmana com as nações não muçulmanas possui dois aspectos. O primeiro é que, enquanto seres humanos, muçulmanos e não muçulmanos são todos iguais. O segundo é que, devido à diferença entre o Islã e o kufr, fomos completamente distinguidos deles. No que diz respeito ao primeiro aspecto, os muçulmanos devem tratá-los com simpatia, compaixão, generosidade e cortesia. Pois, do ponto de vista da humanidade, é esse o tratamento que eles podem esperar. Além disso, se eles não forem inimigos do Islã, também se pode manter com eles amizade, fazer tratados de paz e cooperar em objetivos comuns (Common Cause). Contudo, nenhuma espécie de relação material ou mundana pode unir-nos a eles e transformar-nos em ‘uma só nação’.”
De qualquer modo, a obra acima mencionada de Maulana Maududi provocou grande comoção na sociedade daquela época, e dissipou completamente a confusão causada pelos discursos e pelo panfleto de Maulana Madani. Os líderes e ativistas do Movimento do Paquistão utilizaram-na como uma arma afiada. Na realidade, essa obra estabeleceu a base científica da teoria das duas nações, tornando-se a principal causa da criação do Paquistão. A obra refutou os argumentos do perigoso plano do Congresso para estabelecer o Ramrajya e da teoria do nacionalismo regional apoiada por Maulana Husain Ahmad Madani, demonstrando que eram anticientíficos, irracionais, anti-islâmicos e destituídos de conteúdo. Mais do que isso, por meio dessa obra, Maulana Maududi tornou clara e brilhante a legitimidade da reivindicação dos muçulmanos por uma nacionalidade distinta e pelo estabelecimento de um Estado próprio.
Essa é a principal razão do fanático rancor de Maulana Madani contra Maulana Maududi. Com base nesse rancor, Maulana Madani posteriormente lançou contra Maulana Maududi, como se disparasse de uma metralhadora de fatwas que funcionaria até sua morte, uma saraivada de fatwas incendiárias, extraídas de acusações infundadas, sem base e movidas pelo ódio. Mais lamentável ainda é que muitos discípulos e seguidores do falecido Maulana Madani, conhecidos como ‘ulama do din’, seguindo o mestre, também se entregaram à oposição cega a Maulana Maududi. É inegável que Maulana Madani e seus discípulos e seguidores criaram enormes obstáculos à criação do Paquistão. Mesmo depois de o Paquistão ter sido proclamado, durante o ‘referendo de Sylhet’, esses respeitáveis ulama foram de porta em porta entre os muçulmanos de Sylhet para angariar votos contra o Paquistão. Depois da criação do Paquistão, esses respeitáveis ulama subitamente passaram a posar como seus maiores benfeitores e acusaram Maulana Maududi de ser contrário ao Movimento do Paquistão. Na história do ‘Islã’ e dos ‘ulama do din’, que mancha maior, que deturpação maior da verdade poderia existir?
Ninguém dotado de consciência, conhecimento, justiça e mente sã pode negar a enorme contribuição de Maulana Sayyid Abul A‘la Maududi para a criação do Paquistão. Isso permanecerá escrito em letras de ouro nas páginas da história para as gerações futuras.
Alguns partidos políticos egoístas e oportunistas de nosso país, bem como alguns de seus apoiadores cegos e até mesmo alguns ulama, acusam Maulana Maududi de ter sido, certa época, um ferrenho opositor do Paquistão, como seguidor do Congresso e da Jamiat Ulama-e-Hind. Não será difícil para as pessoas instruídas compreenderem que essa propaganda nasce da hostilidade ao Islã e constitui uma conspiração maligna para impedir o renascimento do Islã. Pedimos aos leitores e leitoras imparciais e às pessoas ilustres do país que procurem conhecer e compreender todas as atividades passadas de Maulana Maududi. Maulana Maududi não é mais do que um ser humano. É natural que possua falhas e limitações humanas. Mas isso não significa que seja aceitável, por parte de qualquer pessoa boa, lançar falsas acusações motivadas pelo ódio contra alguém que dedicou todo o tempo, o dinheiro e o esforço de sua vida ao caminho de Allah e continua empenhado incansavelmente na restauração do din do Islã. Que injustiça e opressão maiores poderiam ser cometidas contra ele? Contudo, pessoas desse tipo devem lembrar-se de que, um dia, a verdade certamente se manifestará em todo o seu esplendor de luz celestial, e nesse dia desaparecerão no vazio todos os balões das mentiras.
Maulana Maududi e a Liga Muçulmana
Embora o Movimento do Paquistão continuasse a ser conduzido sob a liderança da Liga Muçulmana de Toda a Índia, Maulana Maududi não aderiu à Liga Muçulmana. A discussão a seguir revelará por que não o fez. Ainda assim, é inegável que, entre os pensadores cujas ideias deram origem ao Movimento do Paquistão, Maulana Maududi foi um dos principais. Mais do que isso, ele prestou colaboração ativa a esse movimento. Não somos apenas nós que o afirmamos: esse fato também foi reconhecido por outros círculos e, em especial, pelo próprio círculo da Liga Muçulmana. Como prova, apresentamos abaixo algumas citações—
Maulana Zafar Ahmad Ansari, M.A., L.L.B., foi, no período anterior à Partição, a mão direita do falecido Quaid-e-Azam e do falecido Liaquat Ali Khan. Foi secretário adjunto da Liga Muçulmana de Toda a Índia, secretário de seu Comitê de Ação (Committee of Action) e do Conselho Parlamentar Central. Ele diz—
“Sobre esse tema, o Maulana Abul A’la Maududi escreveu uma série de artigos intitulada ‘O problema do nacionalismo’ (Mas’ala-ye Qawmiyyat). Graças aos argumentos e provas irrefutáveis e ao estilo vigoroso de exposição, o artigo foi extremamente bem recebido pelos muçulmanos. Em pouco tempo, tornou-se rapidamente um tema de discussão entre eles. Como resultado dessa importante discussão, a crença na ideia de uma única nação foi completamente despedaçada, e o sentimento de uma teoria nacional distinta propagou-se entre os muçulmanos com a velocidade de um raio. Isso não foi um simples debate ideológico sobre o nacionalismo; pelo contrário, derrubou o palácio de sonhos do Congresso e da Jamiat Ulama-e-Hind. A estratégia mais perigosa dos hindus era eliminar, de qualquer maneira, o sentimento de uma teoria nacional distinta do coração dos muçulmanos e esvaziar de conteúdo as bases de sua existência nacional. A própria Liga Muçulmana também procurava tornar mais evidente o aspecto religioso desse debate, para que o povo pudesse compreender o jogo do Congresso e fosse levado a cumprir as exigências de sua religião e de sua fé.”
(‘O movimento pelo Paquistão e os ulama’, revista mensal Cherag-e Rah, edição especial sobre a ideologia do Paquistão, p. 232).
O Maulana Ansari Sahib prossegue:
“Na realidade, mesmo antes da aprovação da resolução sobre o Paquistão, surgiam de vários setores reivindicações por um ‘Governo Divino’, um ‘Hindustão Muçulmano’, um ‘Califado do Senhor’ e outros semelhantes. Allama Iqbal havia apresentado a ideia de um Hindustão Muçulmano. A literatura do senhor Maududi havia erguido a voz pelo ‘Governo Divino’. O Maulana Azad Sobhan havia apresentado a ideia do ‘Califado do Senhor’. O surgimento de reivindicações desse tipo em diferentes lugares provava que os muçulmanos sentiam profundamente a necessidade de estabelecer um Estado com base em seu próprio pensamento e que, diante das circunstâncias, sua determinação latente estava despertando plenamente.
(‘O movimento pelo Paquistão e os ulama’, revista mensal Cherag-e Rah, edição especial sobre a ideologia do Paquistão, p. 233).
Allama Iqbal havia sido profundamente influenciado pelos artigos e outros escritos do Maulana Maududi. O senhor Mia Mohammad Shafi, editor do semanário Iqdam, publicado em Lahore, afirma que Allama Iqbal ouvia, lidos por outra pessoa, aqueles artigos da Tarjumanul Quran. Ficou tão fascinado e influenciado por eles que pediu ao Maulana que deixasse Hyderabad, no Decão, e fosse para o Punjab. Foi em resposta a esse apelo que o Maulana Maududi se mudou para o Punjab em 1938.
Mia Mohammad Shafi Sahib comentou, em um artigo intitulado ‘Diário de Lahore’, publicado no semanário Iqdam de 9 de junho de 1963:
“O Maulana Saiyid Abul A’la Maududi era, na realidade, inimigo dos muçulmanos nacionalistas. Digo isto com plena responsabilidade: eu costumava ouvir Allama Iqbal dizer: ‘Maududi dará uma lição a esses muçulmanos congressistas.’ Allama Iqbal criticava claramente Azad (Maulana Abul Kalam Azad) e Madani (Maulana Husain Ahmad Madani). Contudo, tinha o hábito de pedir a outra pessoa que lhe lesse trechos específicos da Tarjumanul Quran do Maulana Maududi. Além disso, sobre este assunto afirmo com absoluta responsabilidade que Allama Iqbal pediu ao Maulana Maududi, por meio de uma carta, que fizesse do Punjab, em vez de Hyderabad, no Decão, seu local de trabalho; e ele fez com que essa carta fosse escrita por mim.”
Syed Sharifuddin Pirzada, consultor da Comissão Constitucional formada durante o período do regime militar no Paquistão e presidente da Comissão de Direito das Companhias, afirma em sua obra Evolution of Pakistan:
“Por meio de uma série de artigos publicados no Tarjumanul Quran em 1938-39, Maulana Maududi desmascarou o Congresso e advertiu os muçulmanos. Além disso, analisou a história dos muçulmanos deste subcontinente. Desmascarou a fachada do secularismo do Congresso e provou que, diante das condições especiais da Índia, a democracia era inadequada para ela. Isso porque aqui há um voto para os muçulmanos e quatro votos para os hindus. Condenou o imperialismo nacionalista dos hindus e expressou a opinião de que eleições conjuntas, ou a obtenção de um número ligeiramente maior de assentos nas assembleias, ou ainda a fixação de uma determinada proporção de empregos não constituíam solução alguma para o problema político da nação muçulmana. Sobre essa questão, apresentou também três propostas alternativas.” (Evolultion of Pakistan, Page- 191)
Entre essas três propostas, a terceira era a proposta da divisão da Índia. O senhor Pirzada faz o seguinte comentário final em sua obra:
“Todas aquelas propostas e sugestões apresentadas por Sir Abdullah Harun, Dr. Latif, Sir Sikandar Hayat Khan, um certo punjabi, Dr. Qadri, Maulana Maududi, Chaudhry Khaliquzzaman e outras personalidades foram, em certo sentido, indicações do caminho para a criação do Paquistão.” A obra citada.
Não era necessário apresentar as citações acima para provar o que afirmamos. Mas sentimos necessidade delas apenas por causa daqueles que não estavam familiarizados com as condições daquela época. Isso prova quanto as duas obras de Maulana Maududi, “Muçulmanos e a atual convulsão política” e “A questão do nacionalismo”, prestaram um serviço nacional no movimento de independência do Paquistão e da Índia, especialmente no caminho para a conquista do Paquistão.
As três propostas de Maulana mencionadas por Sharifuddin Pirzada em sua obra eram propostas de três sistemas constitucionais alternativos, publicadas nas edições de outubro, novembro e dezembro de 1938 do Tarjumanul Quran.
Em resumo, são apresentadas abaixo:
Primeira proposta
(a) O sistema estatal será baseado nos princípios da Federação Internacional (International Federation). Em outras palavras, não será o Estado de uma única nação, mas um Estado de nações federadas (A state of federated nations).
(b) Cada nação participante desta federação terá direito à autonomia cultural (Cultural autonomy).
(c) Nas questões nacionais e internas comuns, os procedimentos serão elaborados com base na parceria igualitária (Equal partnership).
Em seguida, o Maulana também analisa os princípios fundamentais da autonomia cultural.
Segunda proposta
Se a proposta da Federação Internacional não for aceita, a segunda proposta alternativa é que sejam identificados territórios separados para as diversas nações, onde elas possam estabelecer seus Estados democráticos. Para a troca de habitantes, será fixado um prazo de vinte e cinco, ou aproximadamente dez, anos. Cada Estado terá direito a um grau maior de autonomia, enquanto a federação central terá poderes muito limitados.
Terceira proposta
Se a proposta acima também não for aceita, a terceira proposta alternativa é estabelecer separadamente os nossos Estados nacionais e formar federações distintas para eles.
A terceira e última proposta era, em essência, a própria proposta de Maulana Maududi para a divisão da Índia, que a Liga Muçulmana adotou quinze meses depois, em 23 de março de 1940, e que ficou conhecida como a histórica Resolução de Lahore, ou Resolução do Paquistão.
Agora surge a pergunta: por que, mesmo depois de tudo isso, Maulana Maududi não participou do movimento em conjunto com a Liga Muçulmana? A única razão era o programa de ação da Liga Muçulmana. Ao analisá-lo em diversas ocasiões, Maulana disse:
— Se nosso objetivo é estabelecer um Estado islâmico, então, para alcançar esse objetivo, também teremos de preparar nossa nação no aspecto moral. Para isso, teremos de trabalhar em todos os campos, como educação e formação, pensamento, moralidade, cultura e civilização, política etc. Caso contrário, será extremamente difícil alcançar esse objetivo.
— Neste movimento, será necessário agir com extrema cautela na escolha da liderança, tanto de modo geral quanto em todos os setores. A multidão que se forma ao reunir num mesmo lugar socialistas, ateus, irreligiosos, jagirdares, latifundiários e outros jamais poderá conduzir a nação pelo caminho correto. Eles tentarão usar a nação para destruir uns aos outros e satisfazer seus próprios interesses. Consequentemente, o objetivo final será perdido. (É desnecessário dizer que os receios de Maulana naquela época se confirmaram. A história das três décadas seguintes do Paquistão provou repetidamente isso — o autor.)
— A característica fundamental dos muçulmanos é que eles são um grupo idealista que chama as pessoas à verdade. Que essa característica jamais seja influenciada, a qualquer preço.
É lamentável que as autoridades da Liga Muçulmana não tenham considerado necessário dar qualquer importância a essas palavras.
Em resposta a uma carta enviada pelo Comitê de Ação da Liga Muçulmana de Toda a Índia, Maulana disse:
“Nunca pensem que não estou participando deste trabalho por causa de algum desacordo. Na realidade, minha incapacidade consiste em não compreender como eu poderia participar, caso o fizesse. Métodos parciais ou incompletos não me agradam. Considero mais apropriado para mim observar, como um estudante, em vez de participar ativamente desta questão, para ver que método os planejadores determinam para esse trabalho parcial de reforma e construção, e que benefícios os executores produzem ao transformá-lo em prática.” (Tarjumān al-Qur’ān, julho–outubro de 1944)
Esta era a divergência do Maulana em relação ao método de atuação da Liga Muçulmana. Pode haver opiniões divergentes quanto a esse ponto de vista. Mas o futuro historiador provavelmente não poderá ignorar esta verdade: os obstáculos que surgiram e continuam surgindo no caminho da instituição de um sistema social islâmico no Paquistão após a divisão da Índia; o fato de que, mesmo trinta e sete anos após a independência, o Paquistão não se tornou, na prática, um Estado Islâmico, permanecendo assim apenas no papel; e, além disso, a maneira como aqueles que tentam transformá-lo num verdadeiro Estado Islâmico vêm sendo esmagados por prisões, execuções e diversas formas de opressão e perseguição — tudo isso já se tornara claramente previsível nos artigos do Maulana ainda antes da divisão.
Ainda assim, não se deve esquecer que, embora o Maulana não tenha participado diretamente do movimento pelo Paquistão, ele o apoiou por meio de seus escritos, oferecendo uma análise clara do sistema de vida islâmico. Durante o movimento pelo Paquistão, algumas pessoas entre os muçulmanos começaram a comentar: “É possível tolerar que a Índia seja fragmentada?” Em resposta, o Maulana disse:
“Como muçulmano, não dou a menor importância à questão de saber se a Índia permanecerá unida ou se será dividida em dez partes. O mundo inteiro é um só país. Os seres humanos dividiram-no em mil partes. Se as divisões em que o mundo foi fragmentado até hoje foram justas, que prejuízo haveria se no futuro ele fosse dividido em mais algumas partes? O sofrimento causado pela fragmentação desta imagem divina é sentido por aqueles que a consideram uma divindade. Se eu encontrasse aqui sequer uma milha quadrada de terra onde nenhum outro além de Deus tivesse domínio e autoridade sobre as pessoas, eu consideraria esse pequeno pedaço de terra mais valioso do que toda a Índia.”
(Siyāsī Kashmakash, volume III, páginas 76–77).
Quando a reivindicação pelo Paquistão foi comparada à reivindicação dos israelenses, o Maulana protestou veementemente e declarou:
“Na minha opinião, não se pode estabelecer comparação alguma entre a reivindicação pelo Paquistão e a reivindicação dos judeus por uma pátria nacional. A Palestina, na realidade, não é a pátria dos judeus. Os judeus não se encontravam na situação de possuir um país que fosse sua pátria nacional e cuja cultura estivessem empenhados em promover. Pelo contrário, sua verdadeira posição é que um determinado país não é de modo algum sua pátria nacional, mas eles reivindicam que lhes seja dada a oportunidade de serem reunidos e estabelecidos ali, vindos de diferentes lugares do mundo, e que esse país seja transformado à força em sua pátria nacional. Em contrapartida, a base da reivindicação pelo Paquistão é que as regiões onde os muçulmanos são maioria constituem sua pátria nacional. O argumento dos muçulmanos é que, por permanecerem unidos às demais regiões da Índia no atual sistema democrático, a entidade política de sua pátria nacional é prejudicada; por isso, devem ser protegidos dessa situação e, em vez de um Estado independente numa Índia indivisa, devem existir dois Estados independentes, chamados “Índia Hindu” e “Índia Muçulmana”. Em outras palavras, a reivindicação dos muçulmanos não é que se crie uma pátria nacional para eles. Seu argumento é, antes, que lhes seja concedido o direito de estabelecer um Estado independente, separadamente, na pátria nacional que já possuem.”
(Tarjumān al-Qur’ān, julho-outubro de 1944).
A Liga Muçulmana divulgava com grande ênfase que o Paquistão seria um Estado Islâmico plenamente constituído. Alguns membros dos círculos da Liga percebiam que, uma vez que se havia formado um movimento em favor do sistema social islâmico, era necessário preparar um projeto contendo seus princípios fundamentais. Para esse fim, foi formado um comitê de ulemás por iniciativa da Liga Muçulmana Provincial da U.P. Entre seus membros, merecem menção especial o Maulana Sayyid Sulayman Nadwi, o Maulana Sayyid Abul A‘la Maududi, o Maulana Abdul Majid Daryabadi, o Maulana Azad Subhani, o nababo Muhammad Ismail (nababo de Chhatari), o nababo Shamsul Hasan e Chaudhry Khaliquzzaman.
O presidente do referido comitê era o Nawab Muhammad Ismail Khan, de Chhatari. Na primeira semana de janeiro de 1941, o Nawab de Chhatari escreveu ao Maulana, solicitando que participasse da reunião do comitê da “Nadwatul Ulama”, em Lucknow. A carta que o Maulana enviou a Sayyid Abul Hasan Ali Nadwi, da “Nadwa”, antes de participar da reunião, foi incluída ao final da obra descritiva intitulada “Meu livro predileto”.
O senhor Kamruddin Khan, leitor do Instituto Central de Pesquisas Islâmicas, afirma que certa vez, em 1941, encontrou-se com o Quaid-e-Azam por recomendação do Maulana Maududi. Ele relata o episódio da seguinte maneira:
“Por intermédio do Raja de Mahmudabad, foi organizado nosso encontro na Gulrana Bhavan, em Délhi. O Quaid-e-Azam ouviu minhas palavras com extrema paciência durante quarenta e cinco minutos. Depois disse que apreciava imensamente o serviço prestado pelo Maulana Maududi. Contudo, para os muçulmanos deste subcontinente, a conquista de um Estado independente era mais urgente do que sua vida santa e sua trajetória de trabalho. A Jamaat está trabalhando por um grande objetivo, enquanto a Liga se empenha na solução imediata desse problema. Pois, se ele não for solucionado, o trabalho da Jamaat não poderá ser concluído.”
— Semanário Thinker (um artigo de 27 de dezembro de 1963).
A discussão acima demonstra claramente que o Maulana Maududi não foi apenas um apoiador do Movimento pelo Paquistão; ele também prestou amplo auxílio a esse movimento, aumentou seu ímpeto e respondeu com argumentos irrefutáveis e racionais às declarações e críticas contrárias ao movimento. Contudo, ele não se filiou à Liga Muçulmana, nem pôde fazê-lo. Um partido formado pela aglomeração de pessoas de diferentes temperamentos e ideologias, inclusive de ideologias contrárias ao Islã, jamais pode avançar em direção a um grande ideal. O Maulana possuía esse conhecimento. A melhor prova disso é que as previsões que fez sobre esse assunto muito antes da divisão da Índia foram vistas refletidas, depois da criação do Paquistão, em cada uma de suas palavras, e continuam a sê-lo até hoje. Espero que, com isso, se dissipe o equívoco daqueles que sustentam uma opinião desfavorável sobre o Maulana.
Maulana Maududi — depois da histórica Resolução de Lahore
Sob a liderança da Liga Muçulmana, os muçulmanos indianos finalmente aprovaram a Resolução do Paquistão em uma histórica sessão da Liga realizada em Lahore, em 23 de março de 1940. Era necessário reconhecer os muçulmanos como uma nação distinta e conceder-lhes, no próprio subcontinente indiano, uma pátria separada onde pudessem estabelecer um Estado completo de acordo com sua religião, sua civilização e suas tradições. Esse era o ponto central do Movimento pelo Paquistão. Embora esse movimento prosseguisse em nome do Islã, o Maulana Maududi compreendia claramente que ele não era de modo algum favorável ou adequado ao estabelecimento do Islã. Isso porque a Liga Muçulmana, em vez de marchar em direção ao destino que havia declarado, começara a avançar por outro caminho e em outra direção. Pode haver duas razões para isso. Primeiro, talvez faltasse plena sinceridade em seus objetivos; ou, segundo, talvez ela não conhecesse um método adequado e científico para chegar ao destino.
Seis meses depois da aprovação da Resolução do Paquistão, em 11 de setembro, o Maulana Maududi proferiu um longo discurso em uma reunião realizada no Stachie Hall da Universidade de Aligarh, por iniciativa da “Anjuman de História e Civilização Islâmicas”. O tema de seu discurso era: “Como se estabelece um Estado islâmico?” (Islami Hukumat Kis Tarah Qaim Hoti Hai?). Esse discurso foi publicado em forma de folheto em urdu, inglês, bengali e outras línguas. A obra “O caminho da revolução islâmica” é sua tradução para o bengali.
Em seu discurso, Maulana disse:
“O Estado islâmico é simplesmente um Estado baseado em uma ideologia. Ele é completamente livre do nacionalismo estreito e de sua influência, direta ou indireta. Na realidade, é precisamente essa primeira característica do governo islâmico que lhe confere total distinção em relação aos demais Estados do mundo. Em inglês, esse tipo de Estado é chamado de IDEOLOGICAL STATE. O mundo não pôde conhecer mais de uma vez um Estado baseado em tal ideologia. Aqueles que, embora tenham nascido em uma sociedade muçulmana, adotaram suas concepções e doutrinas sociais da história, da política e das ciências sociais europeias não podem dar lugar a essa ideologia em sua mente e em seu pensamento.” (O caminho da revolução islâmica — p. 48).
Maulana acrescentou:
“Toda a estrutura do edifício do Estado islâmico está assentada sobre o fundamento da soberania de Allah Ta’ala. Na realidade, essa é a segunda característica do governo islâmico. Todo o universo é unicamente o reino de Allah Ta’ala; Ele é seu Senhor, governante e legislador. Essa é a concepção fundamental da política estatal islâmica. Nenhum indivíduo, família, classe ou nação — nem mesmo a humanidade inteira — possui qualquer direito de soberania. O direito de elaborar as leis do Estado e de emitir ordens e instruções pertence exclusivamente a Allah Ta’ala — a ninguém mais. O ser humano atuará neste mundo como khalifa ou representante de Allah Ta’ala. Esse é o único modo correto e adequado de governar os Estados da Terra.” (O caminho da revolução islâmica).
Sobre as qualidades especiais necessárias para governar um Estado islâmico, Maulana disse:
“Para governar um Estado islâmico, é necessário estabelecer uma disposição mental especial, uma natureza especial e um tipo especial de atividades. Não pode haver qualquer comparação entre ele e qualquer outro sistema estatal. Seu exército, sua polícia, seus tribunais, sua economia, suas leis e sua política, sua política de tratados e de guerra, bem como todas as atividades relacionadas, são completamente diferentes das de um Estado secular. Os juízes e o presidente do tribunal de um Estado materialista e secular nem sequer são dignos de se tornarem escriturários ou peões do governo islâmico. O inspetor-geral da polícia de lá não poderia ser nomeado nem para o cargo de um simples policial no governo islâmico. O marechal de campo de lá não poderia sequer ingressar aqui no exército comum. O secretário de Relações Exteriores de lá, longe de obter qualquer cargo em um Estado islâmico, seria digno de receber a pena de exílio por crimes de propaganda falsa, fraude e traição.” (O caminho da revolução islâmica — p. 11).
Em seu discurso, Maulana declarou claramente que, como o Estado islâmico é um Estado baseado em uma ideologia, para construí-lo e governá-lo seria necessário, antes de tudo, formar certo número de pessoas de caráter plenamente moldado pelo ideal islâmico e dotadas de qualidades islâmicas, bem como criar um ambiente correspondente. Caso contrário, um Estado baseado em tal ideologia seria impossível. Como exemplo, ele disse:
“Rousseau, Voltaire, Montesquieu e outros líderes haviam criado na França, durante longo tempo, um campo moral e mental específico para determinado ideal; foi como resultado disso que ali se tornou possível realizar uma revolução de acordo com seus objetivos. A Revolução Russa só pôde ser criada pelas ideias de Marx, pela liderança de Lenin e Trotsky e pelas atividades revolucionárias de milhares de militantes comunistas profundamente instruídos na ideologia do comunismo — por nenhum outro meio. O nacional-socialismo da Alemanha pôde criar raízes e firmar-se precisamente naquele tipo especial de campo moral, psicológico e cultural que havia sido criado pelas pesquisas, ideias e doutrinas de Hegel, Fichte, Goethe, Nietzsche e inúmeros outros pensadores semelhantes, bem como pela audaciosa liderança de Hitler. Do mesmo modo, a revolução islâmica só surgirá e o Estado islâmico só será estabelecido quando um movimento popular se erguer sobre os fundamentos do ideal e da doutrina do Alcorão e do caráter e das ações do Profeta Mustafa (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Então será possível transformar completamente, com a ajuda de uma luta intensa, toda a base mental, moral, psicológica e cultural da vida social. Nenhuma revolução islâmica pode ser criada por meio do movimento nacionalista. Pois por trás dele está um sistema educacional equivocado, e sua base foi estabelecida sobre uma disposição oportunista e sobre a tendência indisciplinada de flutuar sem direção na corrente do conformismo de seu tempo. Na realidade, no campo da filosofia do Estado e da sociedade, assim como o ex-ministro francês Monsieur Renou, não acredito de modo algum em qualquer acontecimento anormal desse tipo. Essa é minha convicção sincera. O resultado será inevitavelmente conforme o trabalho realizado — não é possível haver exceção a isso.” (O caminho da revolução islâmica, pp. 18–19.)
Criticando severamente o tipo de movimento e método de ação que estava sendo conduzido em favor do Paquistão e do governo islâmico, Maulana disse:
“Uma parcela dos muçulmanos considera que todos os sofrimentos chegarão ao fim se for possível organizar de algum modo a nação muçulmana. Se for possível reunir uma nação que se autodenomina muçulmana em uma determinada plataforma e organizá-la e conduzi-la sob uma liderança central, então o Estado islâmico se estabelecerá por si só. Na realidade, porém, isso não passa de uma fantasia irreal. Além disso, não há dúvida de que se trata apenas de uma visão cega nacionalista e de um método de ação nacionalista. Qualquer nação que queira estabelecer seu domínio no mundo terá de adotar esse método, independentemente da religião ou do país ao qual pertença. A maior marca de um líder que se deixa arrebatar pelo amor à nação é que ele sabe falar levando em conta o tempo e as oportunidades, sabe empregar diversos tipos de estratagemas e possui plenamente a capacidade de dar instruções e conduzir um grupo. É inegável que, sob a liderança de tal dirigente, a nação pode alcançar grande progresso. Do mesmo modo, isso seria possível se os muçulmanos fossem apenas o nome coletivo de um conjunto de pessoas pertencentes a uma nação com uma linhagem ou uma tradição histórica. Mas não é necessário dizer novamente que nenhum tipo de revolução islâmica pode ser criado por meio desse tipo de liderança e método de ação, nem um Estado islâmico pode ser estabelecido por meio dele.” (O caminho da revolução islâmica, pp. 20–21.)
Embora o movimento pelo Paquistão estivesse avançando com pleno vigor na Índia indivisa, não se fez qualquer esforço para reformar a sociedade desviada e moralmente corrompida, nem se adotou qualquer programa a esse respeito. A consciência islâmica e a condição moral existentes na sociedade eram extremamente anárquicas. Tentava-se estabelecer um Estado islâmico juntamente com o entulho e os vícios morais da era da ignorância. Maulana protestou veementemente contra tudo isso e disse:
“Se se reunir a multidão de pessoas de opiniões e naturezas diversas pertencentes a uma nação cuja condição moral é tão baixa e degenerada e se formar com ela um exército, ou se, por meio de educação e treinamento político, elas forem tornadas astutas como raposas, ou, tornando-as peritas na arte da guerra, se despertar nelas a ferocidade de tigres, talvez seja fácil conquistar o domínio do mundo selvagem; mas, com a ajuda delas, não é de modo algum possível divulgar a religião do Islã, o din do Deus Altíssimo, nem estabelecer um governo islâmico. Pois, em tal situação, ninguém no mundo reconhecerá sua superioridade moral, o sentimento e a inspiração do Islã não despertarão no coração de ninguém e, por todas essas razões, jamais teremos a sorte de contemplar o maravilhoso espetáculo de pessoas do mundo ingressando em grupos nos limites do Islã.” (O caminho da revolução islâmica, p. 22.)
Apontando, por meio de uma análise científica, o erro do caminho equivocado pelo qual a Liga Muçulmana conduzia seu movimento, Maulana Maududi disse:
“Não consigo compreender como, uma vez estabelecido um Estado nacional sem religião, seria possível, em um futuro indefinido, transformá-lo e reconstruí-lo segundo o ideal islâmico. Se, de acordo com as regras democráticas, a doutrina islâmica, o caráter e a perspectiva islâmicos e os valores islâmicos não forem despertados entre os eleitores do país, e se eles não estiverem previamente acostumados a viver uma vida islâmica, então jamais um indivíduo verdadeiramente muçulmano poderá ser eleito por seus votos para o Parlamento ou para integrar a assembleia legislativa. Consequentemente, o poder do Estado cairá nas mãos de pessoas que, embora sejam contadas como ‘muçulmanas’ nos registros do recenseamento, não possuem entre si sequer o menor vestígio do Islã em sua doutrina e pensamento, em seu ideal e método de ação. Como resultado da entrega do poder estatal às mãos desse tipo de pessoa, mesmo depois de obtermos plena liberdade e um Estado independente, seremos obrigados a viver exatamente na mesma condição em que vivíamos antes da independência, sob o domínio de um Estado não muçulmano. Poderá surgir uma situação ainda pior e mais perigosa. Pois o Estado nacional que ostentar o rótulo de ‘governo islâmico’ será ainda mais ousado e destemido do que um Estado não muçulmano para bloquear o caminho da revolução islâmica. Inclusive, nos casos em que um Estado não muçulmano aplicaria uma pena de prisão, o ‘Estado nacional muçulmano’ aplicará pena de morte e de exílio. E, apesar disso, os dirigentes do Estado nacional muçulmano serão chamados, durante sua vida, de ‘ghazi’ e ‘mujahid heroico’, e, após a morte, de ‘glorificados’. Portanto, é absolutamente errado pensar que o Estado nacional muçulmano possa ajudar no estabelecimento de um Estado islâmico.” (O caminho da revolução islâmica, p. 28.)
É desnecessário dizer que as palavras acima do prudente e perspicaz Maulana se refletiram, ao pé da letra, poucos anos após o nascimento do Estado do Paquistão, e continuam a se refletir até hoje.
Maulana também comentou na referida obra:
“Mas agora a questão é: se realmente queremos estabelecer um Estado islâmico, que método devemos adotar? Muitas pessoas em nossa sociedade também colocaram toda a sua confiança nos líderes e permanecem sentadas, de braços cruzados. Sua esperança é que os próprios líderes estabelecerão o governo islâmico. Por isso, não há necessidade de que façam coisa alguma. Mas essa concepção é tão equivocada quanto o método adotado no início do movimento dos muçulmanos para a organização nacional e o estabelecimento de um Estado.” (O caminho da revolução islâmica, pp. 28–29)
É motivo de profundo pesar que, mesmo depois de analisar, em sua palestra no Strachey Hall da Universidade Muçulmana de Aligarh, o quadro completo do Estado islâmico, o método científico para estabelecê-lo, seus princípios e características, bem como as terríveis consequências do método equivocado, a Liga Muçulmana tenha continuado a agir temerariamente segundo seu procedimento habitual. Graças à sua visão de longo alcance, Maulana compreendeu claramente que, como resultado do movimento de massas, certamente talvez nascesse um novo Estado. Mas, em vez de se tornar um Estado islâmico, ele seria conduzido por uma via tão equivocada que, para protegê-lo de suas terríveis consequências, seria necessário tomar medidas preventivas desde o início. Isso porque o quadro do futuro já havia se delineado claramente na mente de Maulana. Ele, naturalmente, não era um profeta do futuro. Contudo, conseguiu compreendê-lo por meio do conhecimento adquirido com as experiências passadas da história e da relação científica entre causa e efeito. Em sua palestra acima mencionada, ele disse:
“Se uma árvore for uma laranjeira desde o momento em que rompe o ventre da terra até se transformar em uma árvore adulta, ela não poderá, de repente, dar mangas quando chegar a época de produzir frutos.”
Por isso, ele também foi capaz de fazer uma declaração clara sobre o futuro do movimento pelo Paquistão.
Criação do ambiente para o movimento islâmico
Maulana Sayyid Abul A’la Maududi teve de dedicar-se incansavelmente, durante anos, a tecer uma rede de reflexão e inspiração para criar o ambiente e o contexto necessários à concretização do quadro que havia traçado em sua mente para o estabelecimento de um sistema de vida islâmico. Para que os leitores possam compreender corretamente o intenso esforço e a dedicação que lhe foram necessários para romper, com infinita paciência, a escuridão do desespero, apresento-lhes o tema central das discussões seriadas de Tarjuman al-Qur’an. A partir disso, eles poderão compreender esta verdade: iniciar um verdadeiro movimento islâmico entre uma nação muçulmana deformada e decadente em sua crença, pensamento e ação era uma tarefa extremamente difícil — tarefa que Maulana Maududi realizou. Ninguém pode construir um movimento islâmico simplesmente por desejar fazê-lo, nem em qualquer momento. Para isso, são necessários profundo conhecimento e erudição sobre o Islã, isto é, sobre o Alcorão e a Sunna; um poder incomparável de escrita para expressá-los em linguagem simples, clara e cativante; sabedoria e habilidade para conduzir a sociedade humana desviada ao caminho da verdade e da luz. Além disso, são necessárias sensibilidade, infinita paciência e tolerância, capacidade para produzir obras literárias atemporais e uma habilidade organizacional incomparável. Tudo isso Allah, o Altíssimo, lhe havia concedido plenamente.
Fundação da Jamaat-e Islami
Para estabelecer a “religião da verdade”, Maulana Abul A’la Maududi iniciou o movimento por meio de sua revista mensal Tarjuman al-Qur’an. Para conduzir adequadamente qualquer movimento e dar-lhe forma concreta, é necessária uma jamaat ou um partido. Sem esforço e luta total e unificada, não é de modo algum possível conduzir qualquer movimento. Com esse objetivo, em 1941, Maulana fundou um partido chamado Jamaat-e Islami. É necessário discutir detalhadamente por que, durante o movimento pelo Paquistão, houve necessidade de fundar outro partido chamado Jamaat-e Islami e que situação os muçulmanos indianos daquela época enfrentavam nos aspectos político, religioso, moral e cultural. Também precisamos saber claramente se a Liga Muçulmana era capaz de atender a todas as necessidades dos muçulmanos e, caso não fosse, que alternativa poderia ter sido adotada.
O governo britânico havia compreendido, desde a parte final do século XIX, que era preciso conceder aos indianos o direito de participar da administração do país, e que isso deveria ocorrer por meio de instituições democráticas. Essa democracia, por sua vez, seria semelhante à democracia vigente na Inglaterra. O governo britânico considerava que, assim como na Inglaterra, os habitantes da Índia constituíam uma única nação, independentemente de raça e religião. O partido majoritário entre eles dirigiria a administração, enquanto o partido minoritário, permanecendo na oposição, tentaria conquistar a maioria. Por trás de tudo isso estava também a sua filosofia civilizacional e política. Isto é: a religião deveria permanecer limitada à vida privada das pessoas, e o Estado deveria ser secular. A única parte que poderia se beneficiar das mudanças constitucionais iniciadas com base nessa visão e nessa filosofia política seria aquela que constituía a maioria na Índia. Por isso, o governo britânico não apenas se dispôs a aceitar esse sistema, como também começou a defendê-lo vigorosamente. Enquanto isso, todo o movimento do Congresso Indiano, desde o início, desenvolvia-se com o objetivo de tentar formar um governo responsável de acordo com a referida visão. Mas, para os muçulmanos, a ideia desse Estado nacional, democrático e secular era equivalente a veneno mortal; por isso, eles se viram diante de um enorme problema.
A princípio, eles pensaram que seria melhor que o direito de autodeterminação não chegasse às mãos dos habitantes do país; que, pelo contrário, permanecesse nas mãos dos governantes britânicos. Mais tarde, porém, aceitaram o próprio princípio fundamental da criação de um Estado democrático baseado na ideia de uma única nação. Ao mesmo tempo, esforçavam-se para que houvesse garantias legais para eles, a fim de preservarem a própria identidade. Depois, repentinamente, durante o movimento do Califado, começaram a promover o slogan da unidade hindu-muçulmana e aceitaram submeter-se, depositando confiança na comunidade majoritária. Em seguida, voltaram a apresentar a exigência de garantias legais. Mas, a respeito dessa questão, começaram gradualmente a divergir entre si. Um grupo defendia que primeiro se alcançasse a independência unindo-se à maioria, e que depois se apresentasse a exigência de garantias. O segundo grupo dizia que, primeiro, deveriam ser estabelecidas garantias para eles na condição de minoria; depois, poderia ser realizado o movimento conjunto pela independência. Contudo, nenhum dos dois grupos compreendeu que, dentro do sistema democrático estabelecido com base no princípio de uma única nação, nenhuma identidade nacional distinta poderia permanecer intacta, e que, em um Estado sem religião, tampouco seria possível o desenvolvimento de qualquer civilização e cultura religiosas.
Foi nesse contexto que, em 1935, foi aprovada a Lei do Governo da Índia, e novos governos foram estabelecidos nas províncias da Índia com base no pleno autogoverno. Assim, a experiência permitiu compreender que a comunidade majoritária do país continuaria a exercer a administração com base nos princípios da democracia fundada na ideia de uma única nação e do secularismo, isto é, da ausência de religião.
O clarividente Maulana Maududi refletiu que era necessário apresentar claramente aos muçulmanos a terrível situação que teriam de enfrentar no futuro em consequência de tal sistema. Pois, para ele, era tão claro quanto a luz do dia que, sob semelhante sistema, nenhuma espécie de garantia legal poderia impedir que os muçulmanos e sua civilização e cultura fossem absorvidos pela civilização e cultura da maioria. Ao perceber esse perigo, Maulana Maududi escreveu, durante três anos consecutivos, de 1937 a 1939, por meio de Tarjuman al-Qur’an, os artigos intitulados “Muçulmanos e a atual crise política” e “A questão do nacionalismo”, que mais tarde foram publicados em forma de livro. Por meio desses artigos, ele tentou fazer os muçulmanos compreenderem que, se aceitassem a criação de um Estado democrático e irreligioso com base no princípio de uma única nação, isso equivaleria ao seu próprio suicídio.
Depois disso, surgiu entre os muçulmanos certa dose de bom senso. Eles compreenderam claramente que, sob o governo democrático estabelecido com base na ideia de uma única nação, nenhuma medida de proteção legal lhes seria de qualquer utilidade. Mas então, qual seria a solução? Um grupo disse que se deveria exigir a divisão da Índia e separar da Índia as regiões de maioria muçulmana. Muitos, a princípio, não aceitaram essa proposta. O Sr. Muhammad Ali Jinnah também inicialmente não estava de acordo com ela. Pois acreditavam que isso resolveria o problema de apenas uma parte de uma nação; em contrapartida, a outra parte, muito maior, espalhada por diversas regiões da Índia como uma minoria fraca, seria deixada à mercê da benevolência da Índia hindu.
Foi precisamente nessa época que Maulana Maududi publicou o terceiro volume de “Crise política”. Nessa obra, Maulana Maududi afirma que a única razão pela qual os muçulmanos indianos se viram diante do problema que enfrentavam era o fato de, ao se considerarem uma nação, pensarem que, na democracia, sua força dependia do número. Por isso, caíram em um problema duplo. Se a Índia permanecesse unida, seriam destruídos. Se houvesse uma divisão, metade da nação teria de ser deixada à mercê da benevolência dos hindus indianos. Mas Maulana afirma que os muçulmanos indianos, na realidade, não são apenas uma nação, mas um grupo ideológico, ou uma millat. Não são uma nação hereditária como os alemães, os franceses e os ingleses. Possuem uma visão de vida distinta, um ideal e um grande objetivo na vida. Foi graças a esse ideal que, no passado, conquistaram país após país. Os atuais milhões de muçulmanos da Índia também foram conquistados por esse mesmo ideal. Portanto, se os muçulmanos lutassem por seu próprio ideal e sua visão de vida, em vez de lutarem por direitos e interesses nacionais, o resultado seria que ninguém poderia destruí-los na Índia; pelo contrário, seria possível esperar que, um dia, a bandeira islâmica tremulasse sobre toda a Índia. Pois nenhuma nação ou grupo da Índia possui um ideal vivo semelhante ao que foi concedido aos muçulmanos islâmicos.
Maulana apresentou aos muçulmanos indianos a doutrina acima mencionada. Mas a maioria das pessoas não lhe deu atenção. Em 1940, a Resolução do Paquistão foi adotada na sessão da Liga Muçulmana realizada em Lahore, e iniciou-se uma vigorosa campanha por ela como objetivo nacional.
Depois disso, naturalmente, duas questões começaram a inquietar os pensadores. A primeira era: se, após o movimento pelo Paquistão — que Deus não permita — os muçulmanos viessem a se decepcionar, como poderiam o Islã, a civilização e a cultura islâmicas e a identidade dos muçulmanos ser protegidos das consequências dessa derrota nacional? A segunda era: depois da criação do Paquistão, como manter acesa a luz do Islã entre os milhões de muçulmanos da Índia? E como impedir que o Paquistão se tornasse uma segunda Turquia sob a liderança das pessoas que conduziam o movimento pelo Paquistão?
Essas duas questões haviam deixado o Maulana preocupado. Por isso, após muita reflexão e pesquisa, ele fundou, em 1941, um partido chamado “Jamaat-e Islami”. Seu objetivo era que, por meio desse partido, fossem formados, no subcontinente indo-paquistanês, alguns verdadeiros soldados do Islã, que prosseguissem na luta para manter elevada a mensagem do Islã neste país. Se o movimento pelo Paquistão fracassasse, eles protegeriam os muçulmanos das terríveis consequências da derrota nacional e, depois da criação do Paquistão, ajudariam a conduzi-lo pelo caminho correto.
A organização da Jamaat-e Islami
“Agora, o futuro da humanidade depende do Islã. Todas as ideologias criadas pelo homem fracassaram. Já não há qualquer possibilidade de que alguma delas alcance o sucesso. Tampouco resta entre os homens coragem suficiente para criar uma nova ideologia e arriscar a própria vida a fim de submetê-la à prova. Nessas circunstâncias, o Islã é a única ideologia e o único caminho do qual a humanidade pode esperar o bem e o progresso; ele será o sistema de vida completo da humanidade, e, seguindo-o, o homem poderá libertar-se da destruição.”
Na edição de abril de 1941 de Tarjuman al-Qur’an, o Maulana Maududi escreveu um artigo intitulado “A necessidade de uma Jamaat virtuosa”. Nele, após apresentar um relato detalhado do fracasso do politeísmo, do ascetismo e do moderno sistema de vida materialista do Ocidente, fez o comentário acima e afirmou que, agora, a salvação da humanidade reside unicamente no Islã. Naturalmente, isso não significa que, continuando a realizar a pregação do Islã, vocês conquistarão o mundo inteiro apenas com isso. A verdade é que, para derrubar qualquer civilização, é necessária uma força, um grupo. Do mesmo modo, uma nova civilização também necessita de uma nova linha de pensamento e de um novo grupo. Portanto, para livrar o mundo do perigo de uma futura era de trevas e permitir que ele se beneficie da contribuição do Islã, não basta que já exista uma ideologia correta. É também necessário, junto com a ideologia correta, uma Jamaat ou um grupo virtuoso.
Depois de dizer que cada membro dessa Jamaat ou grupo deveria ser de nível muito elevado em termos de fé e prática, ele afirmou que era necessário romper todas as relações com a atual civilização e cultura e seus seguidores. Era preciso abandonar toda esperança e todo desejo de benefícios, prazeres, conforto, desenvolvimento e progresso associados a esse sistema civilizacional e social. Em seguida, seria necessário suportar todas as perdas materiais, sofrimentos, dificuldades, perigos e calamidades inevitáveis para erradicar um sistema social equivocado e estabelecer em seu lugar um sistema correto. Para essa revolução, seriam necessários esforços totais, e deveriam ser sacrificados os bens, a vida e o tempo precioso. Era preciso aceitar todo tipo de trabalho mental e físico. Era necessário estar preparado para a prisão, a execução, a tortura, as punições e assim por diante. Os bens poderiam ser confiscados, e a esposa, os filhos e os familiares poderiam ficar expostos à ruína. Tudo isso deveria ser aceito com um sorriso. Se necessário, seria preciso sacrificar a própria vida nesse caminho. Sem atravessar um caminho tão árduo, nenhuma revolução surgiu no mundo no passado, nem pode surgir agora.
A respeito das pessoas de caráter elevado, iniciadas no ensinamento da prova de fogo, o Maulana diz:
“Dizem-nos: onde ainda se encontrarão pessoas desse tipo nesta época? Pessoas assim foram formadas numa época santa e grandiosa. Mas o Criador encerrou para sempre a criação de pessoas desse tipo.”
Na realidade, isso é uma concepção equivocada, uma superstição. Essa superstição surgiu na mente daqueles que se tornaram vítimas do desespero. Pessoas com todos os tipos de aptidão são encontradas no mundo em todas as épocas. Se as pessoas, acreditando em Hitler, Marx e Gandhi, conseguem fazer tanto, então não se pode fazer nada acreditando em Deus? Se existe tamanho apego à pátria que uma pessoa pode sacrificar por ela a própria vida e os próprios bens, então não existe nem mesmo um pouco de apego à satisfação e à proximidade de Deus?”
No artigo intitulado «A organização da Jamaat-e-Islami», publicado na Tarjuman-ul-Qur’an, o Maulana explica as razões para a formação da Jamaat e diz:
«Eu e várias pessoas que concordavam comigo vínhamos tentando, há três anos, fazer com que um ou outro dos grandes partidos muçulmanos existentes atualmente introduzisse, em seu método de organização e programa de ação, algumas mudanças que permitissem atender a essa necessidade do Islã e tornassem desnecessária a formação de um novo partido. Mas, lamentavelmente, nossa tentativa não foi bem-sucedida. Depois disso, não nos restou outra alternativa senão reunir aqueles que não estavam satisfeitos com as atividades dos partidos atuais e desejavam trabalhar com base nos verdadeiros princípios islâmicos. Assim, em agosto de 1941, foi convocada uma conferência com a participação deles e, com base em consultas mútuas, foi estabelecida a Jamaat-e-Islami.»
Jamaat-e-Islami
Desejo apresentar aos leitores o relato de como e em que circunstâncias a Jamaat-e-Islami foi formada.
No terceiro volume de sua obra «Muçulmanos e a atual crise política», o Maulana Maududi explicou o movimento islâmico, descreveu a necessidade de formar um partido para promovê-lo e apresentou também um esboço do método de organização desse partido. Posteriormente, na edição da Tarjuman-ul-Qur’an do mês de Safar de 1360 da Hégira, o Maulana Maududi fez um apelo ao público muçulmano, solicitando que aqueles que aceitassem a ideologia e a perspectiva mencionadas e desejassem trabalhar de acordo com elas entrassem em contato com o escritório da Tarjuman. Em poucos dias, começaram a chegar notícias de que um número considerável de pessoas estava interessado em formar um partido islâmico e trabalhar por sua causa. Por isso, todos os envolvidos foram convocados a reunir-se em Lahore no dia 1º de Shaaban de 1360 da Hégira, correspondente a 25 de agosto de 1941.
Ao todo, 75 pessoas de diferentes partes do país participaram da conferência. No primeiro dia, várias pessoas fizeram ao Maulana perguntas sobre diversos assuntos. O Maulana deu respostas satisfatórias a todas elas.
A conferência começou às oito horas da manhã do segundo dia. Antes de tudo, em seu discurso, o Maulana lançou ampla luz sobre a história do movimento islâmico até aquele momento. Apresentando o «Din» como um movimento, ele disse: «Não devemos permitir que a prática religiosa em nossa vida permaneça inativa e estagnada, reduzida a uma questão puramente pessoal. Pelo contrário, devemos ser capazes de estabelecer o Din em nossa vida como um todo e lutar para extirpar as forças reacionárias. A fundação de Dar-ul-Islam, em 1938, foi o primeiro passo nesse sentido. Naquela época, eu tinha apenas quatro companheiros de trabalho. Esse pequeno começo era extremamente insignificante. Ainda assim, não perdemos a esperança. Pelo contrário, pela graça de Deus, continuamos a disseminar o chamado do movimento islâmico e a preparar a visão, a mente e o coração para esse movimento. Pela graça de Allah, o número de companheiros foi aumentando, um ou dois de cada vez. Pequenas instituições filiais de pessoas desse tipo começaram a ser estabelecidas em diferentes partes do país. Ao mesmo tempo, prosseguiram a publicação de literatura islâmica e o trabalho fundamental de da‘wah e tabligh. Finalmente, depois de avaliar e analisar a reação ao movimento, compreendeu-se que já havia condições para formar a Jamaat-e-Islami e conduzir o movimento islâmico de maneira organizada. Foi por isso que esta conferência foi convocada.»
Depois de analisar esse contexto, o Maulana disse: «Antes de tudo, precisamos compreender claramente qual é a diferença fundamental entre o movimento islâmico e todos os movimentos que, em geral, foram realizados no passado e estão sendo realizados atualmente entre os muçulmanos.»
“Em primeiro lugar, talvez alguns desses movimentos sejam conduzidos com base em uma parte específica do Islã ou em algum objetivo mundano. Mas o nosso movimento será conduzido com base no Islã completo.”
“Em segundo lugar, a organização partidária deles foi estruturada segundo os métodos dos demais partidos do mundo. Nós, porém, estamos adotando exatamente o sistema de organização partidária que existia originalmente no grupo estabelecido pelo Rasulullah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele).”
“Em terceiro lugar, quando alguém é admitido nesses grupos, isso é feito sob a premissa de que, por ter nascido entre a nação muçulmana, certamente será um verdadeiro muçulmano. O resultado foi que, desde os membros e trabalhadores do grupo até seus líderes, infiltraram-se nesses grupos muitas pessoas que, em termos de caráter, não são de modo algum confiáveis nem aptas a desempenhar qualquer grande responsabilidade. Nós, porém, não aceitamos ninguém em nosso grupo com base na suposição de que ‘ele será muçulmano’. Pelo contrário, só o aceitamos quando, tendo compreendido o significado, a essência e as exigências da Kalima Tayyiba, ele se compromete a crer nela. Depois de ingressar, a condição indispensável para continuar sendo membro do grupo é que cumpra as exigências mínimas da fé. Assim, insha’Allah, somente pessoas virtuosas serão selecionadas entre a nação muçulmana e ingressarão neste grupo.”
Depois de analisar assim as razões para a formação de um grupo islâmico, seu método de organização e suas diferenças comparativas em relação aos demais grupos, Maulana Maududi leu o projeto do estatuto da Jamaat-e-Islami. Naturalmente, uma cópia impressa dele havia sido distribuída a todos no dia anterior. Após uma discussão completa, o estatuto foi aprovado por unanimidade, com apenas algumas pequenas alterações.
Em seguida, Maulana Maududi levantou-se, recitou a Kalima da shahada e declarou, dirigindo-se a todos os presentes: “Sejam todos testemunhas de que estou renovando minha fé e ingressando na Jamaat-e-Islami.”
Depois disso, um por um, todos recitaram a Kalima da shahada e declararam que se uniam à Jamaat. Durante a recitação da Kalima, todos choravam soluçando. De um lado, o temor de Allah e, de outro, a emoção e o sentimento de assumir uma enorme responsabilidade faziam tremer seus corações.
Inicialmente, setenta e cinco pessoas ingressaram na Jamaat-e-Islami, e foi com elas que a Jamaat-e-Islami foi fundada. Maulana Maududi foi eleito Amir da Jamaat por unanimidade.
(a) Após a eleição do Amir, Maulana Manzur Nu’mani levantou as mãos para fazer uma oração. O senhor Nu’mani orou: Ó Deus! Alguns de Teus servos insignificantes decidiram transmitir a Tua mensagem ao mundo inteiro. Eles desejam transformar a sociedade e purificar o Islã do contato com a falsidade. Somos Teus servos insignificantes, incapazes e fracos. Movidos pelo desejo de alcançar apenas a Tua satisfação, levantamo-nos com um propósito tão grandioso. Concede-nos a capacidade para que, ao longo de toda a nossa vida, possamos tornar este propósito e objetivo uma parte inseparável de nossa existência. Para que possamos restaurar o Islã à sua verdadeira forma.”
A súplica do Maulana No’mani, proferida com a voz embargada pelas lágrimas, fez brotar uma torrente de lágrimas nos olhos de todos. Infundiu nos corações novo vigor e entusiasmo, bem como uma determinação irresistível de seguir o caminho de Allah.
O Hakim Maulana Muhammad Abdullah, que participou, disse: «Esta súplica e a emoção extraordinária suscitada entre os participantes deixaram-me tão profundamente comovido que é algo que jamais esquecerei em minha vida. Ainda mais comovente, e algo que permanecerá para sempre na minha memória, foi o fato de que, ao término da refeição dos convidados, o Maulana Sayyid Abul A’la Mawdudi retirou com as próprias mãos os ossos espalhados aqui e ali sobre a toalha de mesa, bem como os demais restos, e limpou o local da refeição.»
Este foi o discurso proferido pelo Maulana Mawdudi após ser eleito Amir:
«Eu não sou o mais instruído entre vocês, nem o mais temente a Allah. Tampouco tenho superioridade sobre vocês em qualquer outro aspecto. Mas, quando, depositando confiança em mim, vocês me confiaram a responsabilidade desta grande obra, peço a Allah — e peçam vocês também — que Ele me conceda força para cumprir esta responsabilidade e preserve a confiança que vocês depositam em mim. Esforçar-me-ei ao máximo para realizar esta tarefa com pleno temor de Allah e senso de responsabilidade. Não negligenciarei voluntariamente minha responsabilidade de modo algum. Conforme o conhecimento e a ciência que possuo, não deixarei de seguir o Livro de Allah, a Sunnah do Mensageiro e os passos dos Califas Bem-Guiados. Ainda assim, se eu cometer algum erro ou desvio, e algum de vocês sentir que me afastei do caminho correto, não pensem que isso foi intencional. Pelo contrário, mantendo uma boa opinião a meu respeito, tentem corrigir-me. Enquanto eu permanecer no caminho correto, vocês me apoiarão, seguirão minhas orientações, darão conselhos sinceros, prestarão toda a ajuda e cooperação possíveis e manter-se-ão afastados de qualquer método de atuação que viole a disciplina da Jamaat. Tenho plena consciência da grandeza deste movimento e dos meus próprios erros e deficiências. Sei que este é um movimento liderado pelos grandes profetas e mensageiros de Allah e que, depois do fim da era da profecia, foi conduzido por homens extraordinários que eram os melhores indivíduos da sociedade humana. Nem por um instante tenho a ilusão de que sou digno de liderar este grande movimento. Pelo contrário, considero desafortunado que, para esta enorme tarefa, vocês não tenham encontrado alguém mais qualificado do que eu. … Jamais permitirei que eu mesmo me torne um obstáculo no caminho de Allah. Tampouco darei a ninguém ocasião de dizer: “Tragam uma pessoa inadequada.” Depois disso, o cargo que vocês me deram permanecerá sempre vago para essa pessoa. Naturalmente, não estou disposto a dizer que, se ninguém mais avançar para levar esta obra adiante, eu também não avançarei.»
«Este movimento é o objetivo da minha vida. Minha vida e minha morte são por ele. Quer alguém siga ou não este caminho, eu tenho de segui-lo. Se ninguém caminhar comigo por este caminho, caminharei sozinho. Se o mundo inteiro se unir para se opor a ele, terei de lutar contra o mundo e não recuarei.»
Majlis-e Shura
Após a realização da histórica conferência de fundação da Jamaat-e-Islami, o Amir da Jamaat anunciou os nomes dos membros de seu Majlis-e Shura. No dia seguinte, realizou-se a reunião da Shura, e o Amir da Jamaat, Maulana Mawdudi, anunciou o seguinte programa:
Aqueles que se juntaram a esta Jamaat deverão purificar suas almas e aperfeiçoar seu modo de vida de acordo com o Islã. Por outro lado, aos que estão fora desta Jamaat — sejam eles não muçulmanos ou muçulmanos que se afastaram de suas responsabilidades e objetivos religiosos — deverá ser apresentado, em geral, o convite para negar a soberania de qualquer outro além de Allah e reconhecer a soberania do Senhor dos Mundos. Depois disso, deverão ser tomadas medidas conforme as circunstâncias. É preciso, naturalmente, ter em mente que desmantelar um sistema social firmemente estabelecido sobre a obediência a outros além de Allah e estabelecer um modo de vida baseado na obediência a Allah não é, de modo algum, uma tarefa fácil. Nisso, perdas de vidas, bens e de todas as coisas são inevitáveis. Por isso, somente aqueles que estiverem prontos para sacrificar, de bom grado, todos os tipos de oportunidades, prazeres e luxos, e aceitar alegremente toda espécie de prejuízo, deverão avançar nesta tarefa.
No manifesto da Jamaat-e-Islami, foi declarado o seguinte:
“Os grupos que geralmente são chamados, em sentido restrito, de partidos políticos, religiosos ou reformistas não são a Jamaat-e-Islami. Na realidade, porém, ela é um grupo baseado em um ideal. Este grupo crê em uma visão de vida abrangente e universal para a humanidade. Deseja implementar efetivamente essa visão de vida no pensamento e nas crenças humanas, no caráter e na conduta, na educação e formação, na literatura e nas artes, na civilização e na cultura, na religião e na vida social, nos campos econômico e político e na administração do Estado. Segundo esta Jamaat, quando o ser humano abandona a obediência a Deus, esquece que prestará contas diante de Allah na vida futura e se recusa a seguir o caminho indicado pelos nobres profetas (que a paz esteja sobre eles), torna-se então a única causa de toda a perturbação e injustiça na Terra.”
Em resumo, a Jamaat-e-Islami convoca essencialmente toda a humanidade para três coisas. E são elas:
O apelo da Jamaat-e-Islami
À sociedade humana em geral e, em particular, aos muçulmanos—
— Reconheçam a servidão a Deus e a obediência aos profetas em todos os aspectos da vida.
— Abandonem a atitude de discriminação racial e a hipocrisia, e não associem ninguém a Deus.
— Afastem as pessoas avessas a Deus da liderança e da autoridade, e confiem todo o poder aos verdadeiros crentes e aos virtuosos, para que a vida seja conduzida precisamente no caminho de Deus.
Se acreditam que este chamado é verdadeiro, juntem-se a nós. Vocês mesmos receberão sua recompensa junto a Deus. Que aquele que impedir este trabalho se prepare para prestar contas diante de Deus.
Em suma, a Jamaat-e-Islami levantou-se com a mesma missão pela qual os profetas de Deus vieram ao mundo e cujo desenvolvimento pleno se deu por intermédio do último Profeta, Hazrat Muhammad Mustafa (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele). Isto é, obedecer unicamente a Deus em cada esfera da vida humana, na educação e formação, nas artes e ciências, na civilização e cultura, na vida social, econômica e política, na administração do Estado e no campo de batalha, nos negócios e no comércio, nos escritórios e tribunais, e no estabelecimento de tratados e relações internacionais — este é o objetivo da Jamaat-e-Islami. A isso se chama “Iqamat-e-Din”, ou o pleno estabelecimento da religião islâmica de Deus.
Em 1943, a sede central da Jamaat-e-Islami foi transferida de Lahore para Darul-Islam, em Pathakot, no Punjab Oriental. Em 1945, realizou-se ali a primeira conferência de toda a Índia da Jamaat-e-Islami.
Conferência de Toda a Índia da Jamaat-e-Islami
Em outubro de 1942, a sede central da Jamaat-e-Islami foi transferida de Lahore para Darul-Islam, em Pathankot, no Punjab Oriental. Em 1945, realizou-se ali a primeira conferência de toda a Índia da Jamaat-e-Islami.
Apresentamos aqui um breve trecho do discurso que Maulana Maududi proferiu aos trabalhadores nesta conferência.
É importante observar que, desde a formação da Jamaat, alguns negociantes da religião, movidos por interesses estabelecidos (Vested interests), tornaram-se críticos ferrenhos da Jamaat e do Maulana. Há uma razão para isso, e ela é bastante natural.
A Jamaat-e-Islami é um movimento ideológico, não uma mera organização islâmica de tabligh. Na realidade, existe uma enorme diferença entre movimento (tahrik) e tabligh.
Tabligh significa transmitir às pessoas algumas palavras e ações boas, aconselhá-las a praticar o bem e exortá-las, em geral, a abster-se do mal. Quando se aconselha alguém a praticar o bem e se o exorta a afastar-se do mal, não se espera que fique zangado ou descontente. Pelo contrário, mesmo quando os conselhos daqueles que oferecem esse tipo de orientação são ignorados, eles geralmente são tratados com respeito. Porém, movimento significa arrancar pela raiz, do seio da sociedade, as más ações, a corrupção, a indecência e coisas semelhantes, estabelecendo o bem em seu lugar. Se, diante de uma reunião de dez ou vinte mil pessoas, alguém disser em voz alta: “Pratiquem o bem e afastem-se do mal”, talvez isso alcance algum sucesso. Mas nenhuma força reacionária se levantará para se opor. Contudo, se for dito: “Venham, unamo-nos e estabeleçamos na sociedade tudo o que é bom e arranquemos pela raiz tudo o que é mau”, então isso será chamado de movimento, e certamente se verá que uma força reacionária estará decidida a erguer-se para impedir esse movimento. Esse movimento era o trabalho dos profetas, e a ordem que Deus, o Altíssimo, deu no Alcorão Sagrado — “ordenar o bem e proibir o mal” — só pode ser concretizada plenamente por meio de um movimento.
Como a Jamaat-e-Islami era um movimento, as forças reacionárias se tornaram hostis a ela desde o início. O discurso que o Maulana proferiu aos trabalhadores na primeira conferência de toda a Índia da Jamaat-e-Islami, à luz das críticas e da oposição dos reacionários, é de extrema importância. Por um lado, seu discurso esclarece perfeitamente o propósito e o objetivo da Jamaat; por outro, ao apontar os obstáculos, perigos, aflições, sofrimentos, perseguições e opressões que naturalmente surgiriam no caminho do movimento, ele alerta e adverte os trabalhadores. De um lado, cria entre eles uma inspiração indomável para esse grande movimento; de outro, ordena-lhes que demonstrem tolerância para com os opositores reacionários.
O objetivo da Jamaat é estabelecer o governo divino e alcançar a satisfação de Allah
Em seu discurso, o Maulana disse: “Nada podemos dizer sobre o resultado deste movimento para estabelecer o Din. O resultado está nas mãos de Allah. Se o resultado de nosso esforço for conseguirmos estabelecer uma sociedade justa, isso será uma grande dádiva de Allah. Muitos zombam, dizendo que todos os nossos esforços visam supostamente conquistar o poder, e que alcançar a satisfação de Allah, o Altíssimo, não é nosso objetivo. Essa ideia deles é completamente errônea. Todos os nossos esforços destinam-se a estabelecer o Din de Allah e um sistema de vida justo, concedido por Deus; não há nada de errado nesse esforço para estabelecer o Din de Allah. Tampouco há motivo para vergonha. Quando falamos do governo divino, referimo-nos precisamente a um sistema desse tipo. Não consigo entender o que há de controverso se tal sistema é o objeto que desejamos e almejamos. Será isso algo diferente de buscar a satisfação de Allah? O que poderia proporcionar maior satisfação a Allah do que fazer reinar o próprio Allah sobre a terra de Allah? Quem poderia buscar mais a satisfação de Allah do que aqueles que, sem se importar com coisa alguma, dedicam a vida a impedir que alguém além de Allah exerça autoridade sobre a terra de Allah? Se um esforço desse tipo é mundanismo, então o que é religiosidade: passar a noite inteira repetindo “Allah, Allah” em lembrança de Deus e, durante o dia, tentar estabelecer o governo de Satanás sobre a terra de Allah? Aqueles que dizem coisas desse tipo têm em sua mente e em seu coração uma concepção extremamente vil do Din.”
Em certo momento do discurso, o Maulana disse:
“Vocês sabem que Allah, o Altíssimo, não nos exigirá que estabeleçamos um Estado semelhante ao Estado de Hazrat Abu Bakr e de Hazrat Umar. Ninguém tem capacidade para fazer isso, e Allah tampouco ordenou tal coisa. O que nos foi exigido, porém, é que façamos todo tipo de esforço para estabelecer o Din e que, nesse esforço, empreguemos todos os recursos da vida — isto é, tanto nossa própria vida quanto nossos bens, juntamente com todas as coisas que amamos. Por Din não entendemos nenhuma parte específica dele, por mais importante que seja. Por Din entendemos o Din completo e abrangente. Seus princípios e pormenores, suas crenças e sua prática — por Din entendemos tudo isso. Continuaremos nossos esforços pelo Din com sinceridade, entusiasmo e empenho. Para Allah, isso é o único critério entre a fé e a hipocrisia. Onde não há o impulso para estabelecer o Din, não há lugar para a fé. O coração que não sente preocupação pelo Din jamais poderá ser a casa de Allah. Por mais que se recitem contas do tasbih, por mais que se pratiquem orações devocionais, lembranças e invocações, nada disso pode igualar o amor por estabelecer o Din. Isso é a própria alma de toda a religiosidade, e é isso que Allah buscará primeiro em nossos corações. Além disso, esse esforço para estabelecer o Din deve ser realizado de forma organizada, e não individualmente. Devemos tentar acender no coração o fogo do amor e da afeição pelo estabelecimento do Din. É irrelevante perguntar qual será o resultado. Pode até acontecer que sejamos serrados ao meio.”
Ao comentar a respeito da oposição ao movimento, o Maulana disse:
“A exigência deste caminho é que se desenvolva entre nós a disposição de acolher a oposição. Quer seja o caminho da verdade, quer seja o caminho da falsidade, a lei de Allah a esse respeito é que todo aquele que escolher um caminho terá de enfrentar nele uma prova de fogo. E a própria característica do caminho da verdade é que, do início ao fim, ele está repleto de provas de fogo. Assim como um estudante talentoso de matemática se alegra ao receber um problema difícil, pois isso permitirá testar sua capacidade, também um crente resoluto se alegra ao enfrentar uma provação. Isso porque ela lhe oferece a oportunidade de provar sua obediência. Uma lâmpada bruxuleante se apaga ao menor sopro de vento. Mas uma fornalha acesa arde ainda mais intensamente com o vento. Desenvolvam entre vocês a capacidade de uma fornalha acesa: que, em vez de se apagar por causa de combustível úmido, ela o transforme em combustível próprio; da mesma forma, que vocês não sejam subjugados pela oposição, mas consigam dela extrair alimento e força. Enquanto essa capacidade não se desenvolver entre nós, não se pode esperar que prestemos algum bom serviço ao Din de Allah.”
Em seguida, em certa altura do discurso, o Maulana exorta os membros a estudar profundamente a literatura da Jamaat, o Alcorão Sagrado e a Sira do Profeta, e aconselha-os à purificação espiritual e à formação do caráter. Recomenda que se mantenham afastados de atividades fúteis e inúteis, de debates e controvérsias (assembleias de debate) e de coisas semelhantes.
Em seguida, ele diz: “Se alguém fizer uma crítica severa ao meu caráter e à minha conduta pessoais, não tentem enfrentá-lo. Pois eu também não o farei. Não desperdicem seu tempo e sua energia com essas coisas. … Se, durante uma conversa entre vocês, perceberem agitação entre os oponentes, encerrem a discussão. Pois discussões acaloradas produzem muitos efeitos nocivos.”
Ele também diz: “O movimento islâmico possui, por sua própria natureza, um caráter distinto. Tem um método de trabalho específico, que não guarda qualquer semelhança com o método de trabalho de nenhum outro movimento. Aqueles que até hoje estiveram envolvidos em diferentes movimentos e se acostumaram a tais métodos, ao ingressarem nesta Jamaat, terão de mudar muitas coisas. Reuniões e associações, faixas, estandartes e bandeiras, slogans, uniformes, manifestações, aprovação de resoluções, discursos desenfreados, textos que provocam agitação e tudo o que se assemelha a isso constituem a essência daqueles movimentos, mas são veneno mortal para o movimento da Jamaat. Aqui, o método de trabalho deve ser extraído do Alcorão Sagrado, da vida de Muhammad (que a paz esteja com ele) e da biografia dos nobres Companheiros, e deve ser praticado.”
Por fim, o Maulana diz: “A essência deste movimento é, na realidade, uma relação firme com Allah. Se a relação de vocês com Ele for fraca, não serão capazes de se qualificar para estabelecer o Governo Divino e administrá-lo com sucesso. Por isso, pratiquem regularmente os atos voluntários de adoração além dos obrigatórios. A oração voluntária, o jejum voluntário, a caridade e coisas semelhantes despertam sinceridade no ser humano. E pratiquem tudo isso com o máximo de discrição possível, para que não haja ‘riya’ (ostentação). Façam a oração compreendendo-a. Não como quem recita algo memorizado, mas de tal maneira que, conscientemente, estejam apresentando uma súplica perante o Senhor. …
…… Abstenham-se de todas as formas de dhikr e adhkar, de riyazat (disciplina espiritual), de muraqaba-mushahada, de tasbih e de recitações repetitivas que não tenham sido comprovadas por hadiths autênticos.”
Uma entrevista
Quando lhe perguntaram, em uma entrevista com o Maulana, como a Jamaat Islami foi estabelecida e em que condições teve início, apresentamos abaixo a resposta dada pelo Maulana. Certamente os leitores terão prazer em ouvir da própria boca do artista a história inicial da obra que criou.
Ouçam da própria boca dele quando surgiu em seu espírito a ideia de um esforço abrangente pelo movimento islâmico, antes da organização da Jamaat Islami:
“Pensei sobre a forma correta disso no ano de mil novecentos e trinta e oito ou trinta e nove. Antes disso, naturalmente, eu desejava fundar uma academia de pesquisa e um centro de treinamento (tarbiyatgah), para que algumas pessoas pudessem ser preparadas. Pois trata-se de um trabalho tal que, se não se formarem pessoas por iniciativa própria, ele não pode prosseguir. Só algum tempo depois surgiu em minha mente a ideia de reunir algumas pessoas dentro de um movimento e empreender esforços coletivos de forma organizada.
Mas por que essa ideia surgiu em minha mente, e que situação se havia desenvolvido naquele momento para despertar em mim esse sentimento?
De 1924 até aproximadamente 1937, a situação era extremamente desalentadora. Os muçulmanos haviam enfrentado uma enorme crise. Por um lado, o movimento do Califado havia fracassado e, depois, começaram os motins comunais entre hindus e muçulmanos. Os muçulmanos se dividiram e se dispersaram de tal maneira que não tinham absolutamente nenhum líder ou dirigente em quem pudessem confiar. Não tinham diante de si qualquer objetivo na vida e estavam em conflito uns com os outros. Por outro lado, aproveitando-se justamente dessa situação, as intenções e os objetivos dos hindus tornaram-se claramente evidentes. Gandhi representava pessoalmente os interesses deles. Os muçulmanos confiavam nele. No entanto, ele não lhes servia para nada. Em vez de ajudá-los, causou-lhes apenas prejuízos. Ao observar sua conduta, parecia que sua aparência exterior era de um tipo, enquanto seu interior era de outro. Pois, nos motins entre hindus e muçulmanos, ele atribuía toda a culpa aos muçulmanos e, mesmo quando os hindus excediam os limites, declarava seu apoio a eles. Assim, os muçulmanos começaram a perder a pouca confiança que depositavam nele. Foi nessa época que Maulana Muhammad Ali Jauhar se desesperou. Hakim Ajmal Khan também se desesperou.
Passaram-se um ou dois anos de maneira tão penosa que foram extremamente dolorosos para mim. Naquela época, eu era ainda muito jovem. Não conseguia sequer imaginar que pudesse liderar algum movimento. Pois a situação era clara. Todos os líderes em quem confiávamos haviam fracassado. Eles não tinham nenhuma mensagem capaz de acalmar a comunidade. Mesmo depois de refletir, não conseguia decidir o que poderia ser feito.
Nessa época, começou a disseminação de muitas novas civilizações e correntes de pensamento. Após o fracasso do movimento do Califado, os motins entre hindus e muçulmanos continuaram por quatro ou cinco anos. Depois, o ateísmo e a depravação começaram a criar raízes entre os muçulmanos. Começou a distorção do Islã. Em pouco tempo, isso assumiu as proporções de uma tempestade. [Uma revista editada por Fateh Niazpuri, por meio da qual se iniciou um movimento para provar que a ciência do hadith não era digna de confiança.] A revista ‘Nigar’ surgiu nessa mesma época. Até mesmo das madraças religiosas de nosso país começavam a sair muitas pessoas que, decepcionadas com o Islã, se afastavam dele. Por fim, a situação chegou a tal ponto que as pessoas sentiam vergonha de rezar. Especialmente ao viajar de trem ou quando alguém rezava em jardins e pomares, parecia considerar-se ridículo e digno de zombaria.
Enquanto refletia naquela época, cheguei à conclusão de que era necessário fazer algo para enfrentar aquela situação. Ao observar as circunstâncias, percebi diretamente que, sem um esforço organizado, não era possível proteger e elevar o Islã.”
Pergunta — Então, seu primeiro plano foi purificar as correntes de pensamento?
Resposta — Sim, naquela época eu pensava que, antes de tudo, deveríamos iniciar algum trabalho no campo do pensamento e, dessa maneira, preparar algumas pessoas para esse trabalho. Por fim, seria possível empreender um esforço conjunto.
Depois de travar uma luta no campo das ideias, percebi que, para mim, não havia outra alternativa senão avançar e agir. Mas também tinha uma certa preocupação: e se ninguém respondesse ao meu chamado? Seria eu capaz de levar este movimento adiante? Ainda assim, após ponderar cuidadosamente, cheguei à conclusão de que tudo seria comprovado pela experiência direta. Se não houvesse outra pessoa para avançar e trabalhar, eu mesmo teria de fazê-lo.
Pergunta — Como você solicitou a ajuda de outras pessoas para este trabalho e como as incentivou?
Resposta — Neste assunto, tudo dependia dos artigos e dos comunicados de da‘wah publicados no Tarjumanul Qur’an. Conversei com todos aqueles com quem tive a oportunidade de me encontrar. Escrevi pouquíssimas cartas. A maior parte do trabalho foi realizada por meio dos artigos publicados no Tarjuman e dos encontros pessoais. Não tive pressa para realizar esse trabalho. Por exemplo, não adotei o método de organizar grandes reuniões e conferências para reunir algumas pessoas. Sou favorável a começar em pequena escala. Meu esforço sempre foi iniciar o trabalho com o número de pessoas adequadas e dignas de confiança que fosse possível encontrar.
Pergunta — Quantas pessoas você conseguiu quando a Jamaat foi formada?
Resposta — Quando a Jamaat foi formada pela primeira vez, cerca de 150 pessoas responderam ao meu chamado, e 75 delas ingressaram efetivamente na Jamaat. Esse foi o número inicial. [Na realidade, em resposta ao apelo para a formação da Jamaat publicado no Tarjumanul Qur’an, 150 pessoas enviaram seus nomes e endereços ao escritório do Tarjuman, e foi enviada uma carta a todas elas, pedindo que comparecessem em 25 de agosto de 1941 ao escritório do Tarjumanul Qur’an, em Lahore. Após esse convite, 75 pessoas compareceram, e a Jamaat foi formada com elas — o autor.]
Pergunta — Que reação você sentiu dentro de si no início da Jamaat?
Resposta — Eu compreendia claramente que não se poderia esperar um início melhor do que esse. Nunca imaginei que bastaria fazer um chamado para que milhares de pessoas respondessem e comparecessem.
O Maulana no histórico quatorze de agosto
O dia 14 de agosto de 1947 foi um dia memorável para os muçulmanos da Índia e do Paquistão. Nesse dia, raiou para os muçulmanos o sol da liberdade dos grilhões do imperialismo britânico e hindu. O distrito de Gurdaspur, no Punjab, era inteiramente de maioria muçulmana. De acordo com o princípio fundamental, unanimemente aceito, da divisão da Índia, o distrito de Gurdaspur pertencia por direito ao Paquistão. Por isso, para os muçulmanos desse distrito, aquele era um dia de Eid. Mas, por uma cruel ironia do destino, a alegria dos muçulmanos transformou-se em tristeza. O Laudo Radcliffe, ao arrancar da Índia Oriental e Ocidental vários distritos de população predominantemente muçulmana, como Gurdaspur, e anexá-los à Índia, deu um exemplo extremo de parcialidade, injustiça e descarada preferência pelos hindus.
Nesse dia, Maulana Maududi encontrava-se em Darul Islam, próximo de Pathankot, no distrito de Gurdaspur. A cidade de Pathankot era habitada quase inteiramente por siques e hindus. O próprio povoado de Darul Islam estava cercado por hindus e siques. Assim que ouviu pelo rádio que Gurdaspur fora incorporado à Índia, Maulana comentou, profundamente entristecido, que a Caxemira havia escapado das mãos dos muçulmanos. Disse também que, se tivesse consigo cem soldados armados, em vez de ir para o Paquistão, teria ido à Caxemira para participar da luta por sua libertação.
Após a divisão da Índia, o incêndio dos motins comunais espalhou-se por todo o Punjab. A questão da segurança de Darul Islam, cercada por hindus e siques, tornou-se então uma grande preocupação para os habitantes daquele pequeno povoado. Nesse período, Maulana Maududi agiu como um comandante militar extremamente prudente. Sob suas ordens, de um lado, foram cavadas várias trincheiras em Darul Islam, e todos permaneceram preparados com apenas duas armas e alguns bastões, para que pudessem se defender caso fossem atacados pelos hindus e siques. De outro lado, os responsáveis pela Jamaat começaram a apelar aos líderes siques para que se abstivessem dos motins.
Certa vez, espalhou-se o boato de que várias centenas de siques e hindus estavam se preparando para atacar Darul Islam com armas. Confiando Maulana o assunto a Allah, enviou o secretário da Jamaat, Mian Tofail Muhammad, acompanhado de dois companheiros, aos líderes siques Jagir Singh e Chunilal Singh. Os três muçulmanos desarmados chegaram à casa dos líderes siques atravessando uma colônia sique repleta de homens armados. Ao vê-los, os líderes ficaram extremamente surpresos. Os dirigentes da Jamaat disseram destemidamente: “Ouvimos dizer que vocês pretendem atacar Darul Islam. Se isso for verdade, qual é o motivo?” O caráter íntegro de Maulana e dos habitantes de Darul Islam já havia causado uma impressão profunda neles. Agora, ficaram encantados com a coragem daqueles homens e, depois de tranquilizá-los, acompanharam-nos até um local seguro.
Por ordem de Maulana, muçulmanos ameaçados de várias regiões distantes receberam abrigo em Darul Islam. Mais tarde, foram transferidos para o Paquistão com a ajuda de um comboio que vinha do Paquistão. Depois de enviar todas as pessoas em segurança para o Paquistão, Maulana finalmente deixou Darul Islam e partiu para Lahore.
Depois de se transferirem para Lahore, a questão de encontrar um lugar para Maulana e seus colaboradores morarem tornou-se premente. Depois que o governo lhes destinou uma casa, ela foi retomada em menos de vinte e quatro horas. Maulana proibiu seus homens de aceitar uma casa por meio de alocação governamental. Então, instalaram-se em tendas no Parque Islam. Mais tarde, mudaram-se para casas alugadas em Ichhra.
Com esses dirigentes da Jamaat, agora desabrigados, Maulana iniciou duas campanhas: a limpeza da cidade e o serviço aos muhajirs. Naquela época, os montes de lixo malcheiroso acumulados em muitos pontos da cidade anunciavam a chegada de doenças epidêmicas. Os trabalhadores da Jamaat puseram-se a remover o lixo de Mochi Darwaza e Bhati Darwaza.
Para servir os muhajirs, uma equipe foi enviada à fronteira, enquanto outras duas se dedicaram a atender às necessidades dos muhajirs alojados nos campos de Walton e Bawli.
Em suma, Maulana Maududi, emigrando para Lahore com muitos de seus companheiros, iniciou seu trabalho no Paquistão não tornando-se dependente do governo ou do povo, mas servindo aos outros muhajir que chegavam.
Após a divisão da Índia
Após a divisão da Índia, o escritório central da Jamaat-e-Islami foi transferido para Lahore. A Jamaat-e-Islami dividiu-se em duas Jamaats distintas, denominadas “Jamaat-e-Islami do Paquistão” e “Jamaat-e-Islami da Índia”. Maulana Maududi foi então eleito Ameer da Jamaat-e-Islami do Paquistão.
De outubro de 1947 até janeiro do ano seguinte, a Jamaat-e-Islami do Paquistão dedicou-se às atividades de serviço no campo de muhajir de Lahore.
É especialmente digno de nota que as previsões feitas por Maulana Maududi, seis anos antes, no Strachey Hall de Aligarh, acerca da futura forma do Estado do Paquistão começaram a refletir-se, letra por letra, desde o nascimento do Estado. A educação, a formação, a visão moral e as crenças daqueles que assumiram a responsabilidade de criar e cuidar do novo Estado não eram de modo algum favoráveis à formação de um Estado islâmico. Aqueles que, após a conquista do Paquistão, ocuparam os assentos dos senhores brancos britânicos também se tornaram os senhores negros do povo paquistanês e constituíram um enorme obstáculo à realização do grande objetivo pelo qual o Paquistão fora criado, objetivo pelo qual milhões de homens e mulheres muçulmanos haviam sacrificado suas vidas, riquezas e honra. Esquecendo o grande sacrifício daqueles milhões que, inspirados pelo jihad, haviam bebido até o fim o cálice do martírio para estabelecer unicamente a religião de Allah, os governantes do novo Estado continuaram a seguir os passos dos próprios senhores britânicos. Além disso, não se podia perceber, por nenhum gesto ou sinal, sequer o menor desejo de moldar esse novo Estado segundo o modelo islâmico. Assim, cinco meses após a conquista do Paquistão, em janeiro de 1948, em sua primeira palestra no Lahore Law College, Maulana Maududi exigiu que o sistema de governo do Paquistão fosse islâmico. Novamente, em fevereiro, em uma palestra sobre a “Lei Islâmica” no mesmo college, Maulana apresentou quatro exigências. Em março, no histórico comício realizado no Jahangir Park, em Karachi, ele proferiu um discurso analisando suas quatro exigências. As quatro exigências eram estas—
(1) O único soberano do Estado do Paquistão é Allah, o Altíssimo, e somente a Sua vontade será cumprida nesse Estado.
(2) Todas as leis contrárias ao Islã que estejam atualmente em vigor devem ser revogadas.
(3) Somente a Sharia Islâmica será a fonte de todas as leis e regulamentos do Paquistão.
(4) O Paquistão pode agir conforme sua vontade, mas somente dentro dos limites estabelecidos pela Sharia.
A Jamaat-e-Islami foi a primeira a iniciar um movimento popular para que essas quatro exigências fossem aceitas pelo Estado paquistanês e pela Assembleia Constituinte. Em três meses, esse movimento adquiriu tal intensidade e amplitude que os governantes ficaram transtornados. Embora não se submetessem às quatro exigências do povo islâmico, eles também não tinham coragem de rejeitá-las. A razão era a seguinte:
— Essas eram exigências plenamente condizentes com o Islã, e durante os dez anos anteriores eles haviam se apoiado nos ombros do povo em nome desse mesmo Islã. Portanto, agora não tinham a audácia de rejeitar as exigências islâmicas.
— As exigências eram justas e razoáveis sob todos os aspectos.
— Por trás das exigências havia um movimento bem organizado e sólido.
— O povo havia aderido ao movimento com tal rapidez que opor-se a ele equivaleria a opor-se ao próprio povo. Apesar disso, os governantes avessos ao Islã finalmente começaram a recuar. Para sabotar o movimento islâmico, adotaram as seguintes artimanhas. Começaram a espalhar a falsa alegação de que—
(1) Maulana Maududi não está disposto a reconhecer a guerra da Caxemira como jihad.
(2) A Jamaat-e-Islami enfraqueceu o sistema de segurança do Estado ao proibir o alistamento nas forças armadas.
(3) A Jamaat-e-Islami não quer reconhecer a obediência ao Estado.
Como todos os meios de comunicação do país estão sob o controle do Estado, o governo pode proclamar amplamente a verdade como mentira e a mentira como verdade, além de poder impedir qualquer crítica ou protesto contra isso. Foi o que também aconteceu nesse caso. Na realidade, o então secretário de Relações Exteriores do Paquistão, Sir Zafrullah Khan, declarou na reunião da Liga das Nações, em 3 de fevereiro de 1948, que seu governo havia proibido que a guerra da Caxemira fosse considerada jihad. Quando Maulana Maududi foi instado a declarar a guerra da Caxemira como jihad, ele disse: “A responsabilidade de declarar jihad contra qualquer país cabe a um Estado; esse não é trabalho de nenhum indivíduo.
Se, da parte do Estado, está sendo especialmente proibido declarar a guerra da Caxemira como jihad, como poderia qualquer indivíduo ou grupo sob a autoridade desse Estado declará-la como jihad? Ainda assim, pessoalmente, Maulana Maududi e, como grupo, a Jamaat-e-Islami prestaram todo tipo de cooperação ativa na guerra da Caxemira.
As outras acusações contra o Maulana e a Jamaat eram igualmente infundadas e mal-intencionadas. Até hoje, ninguém conseguiu apresentar qualquer prova delas. É isso que se chama o descarado “roubo de lagoa” da máquina de propaganda governamental.
A primeira prisão de Maulana Maududi
Em vez de rejeitarem diretamente as reivindicações islâmicas, os governantes recorreram à mentira e empenharam-se numa tentativa mal-intencionada de frustrá-las. Com a ajuda da máquina de propaganda governamental, começaram a divulgar amplamente aquelas histórias infundadas e, sob falsos pretextos mal-intencionados, prenderam Maulana Maududi, juntamente com vários líderes destacados da Jamaat (Mian Tufail Muhammad e Maulana Amin Ahsan Islahi), após o maghrib de 4 de outubro de 1948, sob a infame Lei de Segurança Imperialista, mantendo-o na prisão de Multan. Um mês depois, seu período de detenção foi prorrogado por mais seis meses.
Em 11 de outubro, Maulana Abdul Jabbar Ghazi foi eleito emir da Jamaat e manteve o movimento em plena continuidade. Todo tipo de propaganda governamental maliciosa começou gradualmente a ser desmascarado aos olhos do povo, e o movimento islâmico também começou a ganhar força. O público passou a aderir ao movimento com crescente simpatia e cooperação. Com o apoio do público, os trabalhadores da Jamaat conduziram o movimento com tal ímpeto que, em 12 de março de 1949, a histórica “Resolução de Objetivos” foi adotada pela Assembleia Constituinte do Paquistão, com o apoio da Jamiat Ulema-e-Islam, favorável à Liga Muçulmana.
Após a adoção da “Resolução de Objetivos”, supunha-se que a causa do descontentamento entre a Jamaat-e-Islami e o governo desapareceria com a aprovação dessa resolução. De fato, em uma reunião realizada em 13 de março, o Majlis-e-Shura da Jamaat felicitou o governo pela Resolução de Objetivos. Muitos também tinham essa esperança. O surpreendente é que, a partir de 4 de abril de 1949, o período de sua prisão foi novamente prorrogado por seis meses. Apesar disso, nas reuniões de 6, 7 e 8 de abril, o Majlis-e-Shura central da Jamaat expressou o desejo de cooperar plenamente com o governo, para que o trabalho de redigir a Constituição pudesse avançar com base na Resolução de Objetivos. Mas o fogo da ira do governo ainda não havia se extinguido. Eles decidiram que, por ter sido forçado a aceitar a “Resolução de Objetivos” contra a sua vontade, sob a pressão do povo, o governo deveria tirar plena vingança de Maulana Maududi. Em 4 de outubro de 1949, o governo prorrogou pela terceira vez a detenção do Maulana por mais seis meses. A razão para manter o Maulana durante tanto tempo atrás da cortina de ferro, sem julgamento e sem motivo, era precisamente esta: subjugar dessa maneira o líder do movimento islâmico e eliminar seu partido e a Jamaat.
O papel dos governantes avessos ao Islã após a adoção da Resolução de Objetivos
De outubro de 1949 a maio de 1950, durante esses oito meses, os membros da Jamaat-e-Islami tiveram de enfrentar um período de grandes dificuldades. De acordo com a “Resolução de Objetivos”, eles exigiram a elaboração de uma constituição islâmica para todo o Paquistão, esperando que talvez o governo então libertasse Maulana Maududi. Mas iniciaram o movimento. Duas obras de Maulana Maududi daquele período, a saber, “Elaboração da Constituição Islâmica” e “Princípios Fundamentais da Constituição Islâmica”, são especialmente notáveis. Entretanto, os governantes começaram a procurar pretextos para impedir a constituição islâmica. Começaram a declarar, de várias maneiras, que—
—A Caxemira está em perigo; portanto, não é possível elaborar uma constituição.
—O Paquistão está agora em perigo; portanto, este é o momento da jihad, não o momento de elaborar uma constituição.
—O fato de o governo estar nas mãos dos “mulas” não o torna um governo islâmico. Pelo contrário, qualquer governo de muçulmanos é chamado de governo islâmico.
—A “Resolução de Objetivos” não foi elaborada de acordo com os princípios do antigo e decadente Islã; pelo contrário, foi elaborada de acordo com o Islã moderno do Ocidente.
—Não é razoável elaborar uma constituição segundo os ideais islâmicos para qualquer Estado progressista da era moderna.
—Se um Estado for estabelecido em nome do fanatismo religioso, o mundo moderno zombará dele.
Os membros da Jamaat-e-Islami continuaram a dar uma resposta contundente à propaganda caluniosa acima mencionada das forças contrárias ao Islã, por meio de argumentos e provas irrefutáveis, de maneira bem organizada e sistemática; assim, começou a formar-se em todo o Paquistão uma forte opinião pública favorável à constituição islâmica.
A libertação do Maulana
Já não era possível aos governantes manterem, sem qualquer justificativa, dentro das muralhas da prisão, o pioneiro do movimento islâmico e líder revolucionário islâmico da época atual. Em 28 de maio de 1950, o governo libertou o Maulana por força de uma obrigação legal. Após dezenove meses e vinte e cinco dias, o Maulana Sayyid Abul A‘la Mawdudi saiu de trás da cortina de ferro e retornou à atmosfera livre do mundo. Após sua libertação, a Jamaat-e-Islami voltou a investi-lo no cargo de amir.
Após a libertação do Maulana, durante quatro meses, de junho a setembro, o governo tentou bloquear o caminho da constituição islâmica mediante várias interpretações enganosas da “Resolução de Objetivos”. Entretanto, sob a liderança do Maulana, os membros da Jamaat frustraram todos os seus esforços com argumentos e provas irrefutáveis e apresentaram ao povo o objetivo fundamental da “Resolução de Objetivos”. Forçado pelas circunstâncias, o governo apresentou, em setembro, à Assembleia Constituinte o relatório do Comitê de Princípios Constitucionais. Esse relatório revelou claramente a verdadeira mentalidade da classe governante inclinada ao Ocidente. Com efeito, nele haviam sido incorporadas todas as disposições contrárias ao Islã, e não havia qualquer compatibilidade entre ele e a Resolução de Objetivos. Por isso, em um enorme comício realizado em 14 de outubro no Mochi Darwaza, em Lahore, o Maulana Mawdudi denunciou veementemente o referido relatório e protestou contra ele; o governo foi obrigado a retirar o relatório e as recomendações do Comitê de Princípios Constitucionais. Depois disso, o governo recolheu-se e permaneceu silencioso. Alguns de seus ulemás subordinados e inclinados ao Ocidente, contudo, lançaram um desafio aos ulemás, insinuando-os, para que apresentassem um projeto de constituição islâmica.
A reivindicação unificada dos ulemás
Assim, vinte e um ilustres ulemás de várias partes do Paquistão aceitaram o referido desafio e reuniram-se na cidade de Karachi em 21 de janeiro de 1951. Em sua conferência, formularam por unanimidade 22 princípios fundamentais, que foram apresentados ao governo e divulgados entre o povo. Isso foi, na realidade, considerado uma forte “prática” da constituição islâmica no Paquistão. A Jamaat-e-Islami publicou em grande quantidade esses 22 princípios fundamentais apresentados pelos ulemás e os espalhou por todo o país. Com isso, os esforços ant islâmicos do governo foram frustrados.
A partir de então, o movimento pela constituição islâmica começou com pleno vigor. Porém, quando, apesar disso, a elaboração da constituição continuou sendo adiada, a Jamaat-e-Islami iniciou uma campanha para recolher as assinaturas do povo em folhas impressas contendo nove reivindicações. As referidas nove reivindicações eram:
— A sharia islâmica será a verdadeira fonte da constituição do país.
— Não será permitido promulgar nenhuma lei contrária à Sharia.
— Todas as leis e regulamentos contrários à Sharia deverão ser revogados.
— Será dever do governo ordenar o bem e proibir o mal.
— Não será permitido privar ninguém de seus direitos civis sem julgamento por um tribunal.
— Todo cidadão terá o direito de recorrer aos tribunais do país contra o poder executivo e as autoridades governamentais.
— Não será permitida a interferência do poder executivo no poder judiciário.
— O governo deverá assumir plena responsabilidade pelas necessidades básicas do ser humano, a saber: alimentação, vestuário, moradia, educação e assistência médica.
— A comunidade qadiani deverá ser declarada uma minoria não muçulmana.
— A comunidade cादiani deve ser declarada uma minoria não muçulmana.
Além da campanha de coleta de assinaturas em apoio às referidas nove reivindicações, foi realizada em todo o país uma campanha para exigir, por meio de cartas e telegramas enviados individualmente e em nome de assembleias e associações, a promulgação sem demora de uma constituição islâmica. Essa campanha prosseguiu até o final de 1952.
Naquele ano ocorreu no Paquistão um acontecimento extremamente trágico. O primeiro-ministro do Paquistão, senhor Liaquat Ali Khan, foi morto a tiros por um assassino em Rawalpindi, em 16 de outubro de 1951. Como consequência do surgimento de um sinistro astro no céu da política paquistanesa, esse brutal assassinato manchou de sangue a história do Paquistão. De qualquer modo, após o falecido Liaquat Ali Khan, Khawaja Nazimuddin tornou-se primeiro-ministro do Paquistão.
Ainda naquele ano, em 21 de novembro, realizou-se em Karachi, por iniciativa da Jamaat-e-Islami, uma histórica assembleia popular em apoio às nove reivindicações acima mencionadas. Nessa assembleia, o emir da Jamaat-e-Islami, Maulana Sayyid Abul A’la Maududi, declarou em tom firme que, se o projeto de constituição desta vez fosse, como o anterior, anti-islâmico, o povo islâmico o lançaria na própria face de seus autores. Depois, ao verem a longa procissão que saiu naquele dia, com vários cartazes, exigindo a elaboração de uma constituição islâmica, os governantes ficaram atônitos. Isso provocou na cidade de Karachi uma reação tão forte que o governo foi obrigado a ceder e, no mês de dezembro, ao final do ano, apresentou pela segunda vez um projeto de constituição.
Desta vez, para examinar as recomendações constitucionais, realizou-se em Karachi, em janeiro de 1953, uma conferência de 31 eminentes ulemas. Em 18 de janeiro, os ulemas apresentaram suas propostas extremamente bem fundamentadas sobre o referido projeto de constituição.
Ainda naquele mês, foi convocada em Karachi uma convenção multipartidária para declarar os cadianis uma minoria. Maulana Maududi também participou da referida convenção. Nela, enfatizou que a questão cadiani não deveria ser examinada separadamente, mas incorporada ao próprio movimento constitucional.
Ação Direta pela Convenção Multipartidária
Em 27 de fevereiro de 1953, realizou-se em Karachi uma reunião do conselho executivo da Convenção Multipartidária. Nessa reunião, decidiu-se empreender uma “Ação Direta”, ou luta direta, para obrigar o governo a resolver a questão cadiani. O representante da Jamaat-e-Islami opôs-se veementemente à Ação Direta, ou luta direta, e anunciou o desligamento da Jamaat-e-Islami da convenção. Já no dia seguinte, os líderes da “Ação Direta” foram presos, e a luta direta em Karachi terminou em fracasso. Entretanto, no Punjab, assumiu proporções terríveis.
Considera-se que a agitação ocorrida no Punjab, oficialmente denominada Punjab Disturbances, foi instigada pelo governo do Punjab Ocidental. A causa principal da agitação foi o fato de algumas reivindicações legítimas do povo terem sido rejeitadas. Todas as organizações políticas e religiosas do Paquistão participaram da convenção de todos os partidos, a saber: a Liga Muçulmana, a Jamaat-e Islami, o Majlis-e Ahrar, a Jamiat Ulama-e-Paquistão, a Jamiat Ahl-e-Hadith, a Anjuman-e Tahaffuz-e Huquq-e Shia, entre outras. A reivindicação conjunta desses partidos era que os qadიანis fossem declarados uma comunidade minoritária. Havia ainda uma ou duas outras reivindicações menores desse tipo; eram reivindicações do povo do Paquistão, pois as organizações mencionadas representavam muçulmanos de todas as classes do país. Como o governo se recusou a aceitar essas reivindicações, foi tomada a decisão de empreender uma Direct action, ou luta direta.
Foi dito acima que, fora do Punjab, essa luta direta não foi efetivada em nenhum outro lugar. Provavelmente também não teria ocorrido no Punjab. Contudo, considera-se que o governo do Punjab cometeu aqui um erro grave. No Punjab estava instalado o ministério Daultana. A luta direta da organização da Liga Muçulmana contra o ministério da Liga Muçulmana parece ter perturbado o equilíbrio mental do ministério Daultana. Assim, começou a estremecer de medo dos fantasmas ao ver apenas uma sombra negra. A agitação durou de 4 a 6 de março. Desde o primeiro dia, a polícia começou a atacar brutalmente o povo com bastões e a disparar contra ele. Na tarde de 4 de março, um policial disfarçado compareceu a uma assembleia pública e informou que a polícia havia golpeado a multidão com bastões em determinado lugar e que havia chutado e rasgado em pedaços o Alcorão Sagrado amarrado ao pescoço de certa pessoa, espalhando seus fragmentos. Em seguida, mostrou à multidão algumas páginas rasgadas do Alcorão. Como resultado, a multidão ficou extremamente enfurecida. O povo em geral, trabalhadores, estudantes, professores e até funcionários dos departamentos governamentais expressaram forte protesto contra o governo. Desse modo, o povo estava sendo intensamente incitado contra o governo.
Outro acontecimento acrescentou lenha àquele fogo ardente. Naquele mesmo dia, disparos incessantes eram efetuados contra o povo a partir de um jipe. Após uma investigação, descobriu-se que alguns qadიანis haviam embarcado no jipe.
Assim, um incêndio devastador irrompeu contra o governo. Porém, a agitação não pôde continuar por muito tempo. Em 6 de março, a lei marcial foi decretada em Lahore e, em poucas horas, a agitação cessou completamente.
Nas sessões do Majlis-e Shura central da Jamaat-e Islami, presididas por Maulana Maududi em 4 e 5 de março, a “luta direta” foi veementemente condenada. Após analisar suas consequências terríveis, o povo foi exortado a manter-se afastado dela. Nessa época, foi publicado um livreto de Maulana Maududi intitulado “O Problema Qadiani”. Nessa obra, ele analisou as diferenças fundamentais entre os muçulmanos e os qadიანis e apresentou uma solução pacífica e apropriada para o problema.
A sentença de morte contra Maulana Maududi
Em 28 de março, as autoridades da lei marcial prenderam subitamente Maulana Maududi e os demais líderes da Jamaat. Nenhuma razão foi apresentada para as prisões.
Maulana Maududi e seus colaboradores Malik Nasrullah Khan Aziz e o senhor Naqi Ali foram acusados perante um tribunal militar de disseminar hostilidade entre o povo por meio do livreto “O Problema Qadiani” e de incitar uma rebelião contra o governo. Com base nessa mesma acusação, em 8 de maio, o tribunal militar condenou Maulana Maududi à forca.
É digno de nota que, embora o autor tenha sido condenado à morte por ter escrito o opúsculo, as autoridades não tiveram coragem de confiscá-lo. Durante o julgamento no tribunal militar, centenas de exemplares do referido opúsculo eram vendidos na própria cidade de Lahore. Em nenhum ponto do opúsculo havia algo que pudesse ser considerado censurável aos olhos da lei. Pelo contrário, no livro “O Problema Ahmadia”, a ação direta era condenada. No entanto, os escravos da civilização ocidental e os inimigos do Islã e da lei islâmica entregaram-se a uma conspiração para remover da face da Terra, por todos os meios e artifícios, o heroico combatente imortal do movimento islâmico. Depois de publicada a sentença de morte, de dentro e de fora do Paquistão surgiram exigências pela sua revogação, acompanhadas de veementes condenações à imprudência e à falta de visão do governo. Tal onda de protestos surgiu em todos os países muçulmanos do mundo que o principal oficial da lei marcial anulou a sentença de morte e condenou o Maulana a quatorze anos de prisão com trabalhos forçados.
A sentença de morte revelou a extraordinária personalidade do Maulana Maududi, sua popularidade em todo o mundo muçulmano e o grandioso e magnífico testemunho de sacrifício do conhecimento pela causa de Allah; isso permanecerá como um feito imperecível na história do Islã. A sentença de morte contra ele e, posteriormente, a prisão perpétua não desanimaram a Jamaat-e Islami; pelo contrário, inspiraram seus trabalhadores com uma motivação jihadista cem vezes maior. Aceleraram muitas vezes o progresso da organização. A lição da história é que, desde tempos imemoriais, em todos os tempos e épocas, o movimento islâmico avançou após ser golpeado pelas forças que lhe são contrárias. Todos os que tentaram erguer uma resistência diante de sua força irresistível e inflexível foram arrastados por sua poderosa corrente, e seus nomes e vestígios desapareceram da face da Terra.
Não se pode deixar de mencionar, a esse respeito, que certas pessoas contrárias ao Islã e ao sistema de governo islâmico fazem contra o Maulana Maududi a falsa acusação de que ele foi o principal responsável pelos distúrbios ahmadis no Punjab e que, por sua instigação, milhares de pessoas foram mortas ali. Podemos afirmar com orgulho que, na exposição sequencial do movimento constitucional apresentada acima, não há sequer um mínimo de falsidade ou exagero. A discussão acima não prova que o Maulana Maududi tenha sido responsável pelos distúrbios no Punjab. Pessoas interessadas deram-lhes o nome de “distúrbios ahmadis”, mas, antes de tudo, eles de modo algum foram “distúrbios ahmadis”, nem milhares de pessoas foram mortas neles. A Convenção de Todos os Partidos exigiu do governo que os ahmadis fossem declarados uma minoria não muçulmana. Quando o governo se recusou a aceitar essa exigência, a referida convenção adotou a ação direta (Direct Action) contra o governo. Tratava-se, na realidade, de uma luta entre o governo e o povo. Para reprimi-la, foi proclamada a lei marcial, e os disparos das forças armadas mataram 11 pessoas e feriram 49. (Ver o Relatório Munir, p. 1.)
Longe de participarem dessa luta, o Maulana Maududi e a Jamaat-e Islami, pelo contrário, opuseram-se à “ação direta” da Convenção de Todos os Partidos e apelaram ao povo para que se abstivesse dela. Qualquer pessoa imparcial e dotada de consciência reconhecerá francamente que a acusação feita contra ele é inteiramente motivada por hostilidade, infundada e sem base.
Em nenhum lugar do Relatório Munir o Maulana é responsabilizado por esses distúrbios. A principal responsabilidade foi atribuída aos líderes do extinto partido Ahrar, e os demais partidos também foram responsabilizados, direta e indiretamente. O curioso é que certos partidos políticos oportunistas e sem princípios do país, formando seus próprios partidos com os líderes do partido Ahrar, responsabilizam o Maulana Maududi pelos distúrbios do Punjab para encobrir seus próprios malfeitos.
Mais curioso ainda é que, na linguagem oficial, os distúrbios do Punjab (Punjab Disturbance) ocorreram em 1953. Tratava-se de uma luta entre o governo e o povo. A Jamaat-e Islami, e portanto o Maulana Maududi, não tinha sequer a mais remota relação com esses distúrbios.
Por outro lado, o livro “O Problema Ahmadia”, por cuja autoria o Maulana foi condenado à morte, também não tinha qualquer relação com os distúrbios do Punjab. Foi assim que os inimigos imprudentes e cegos do Islã cometeram um erro gravíssimo. O livro por cuja causa foi decretada a pena capital não foi confiscado, nunca o foi, e ainda hoje pode ser encontrado no mercado. Não há nele sequer uma linha que pudesse justificar o menor castigo para o autor. Mas era preciso eliminar da noite para o dia, mesmo sem culpa, um dos maiores porta-vozes do Islã. Portanto, era necessário apresentar alguma razão. Apenas pelo título “O Problema Ahmadia”, os inimigos do Islã imaginaram que se tratava de uma obra perigosa. É provável que, sem lerem o livro, tenham concebido a ideia de que ele incitava ao extermínio dos ahmadis. Nem sequer tiveram tempo de ler o livro. Tampouco lhes ocorreu confiscar o livro pelo qual se estava impondo a pena de morte.
Algumas pessoas que ocupavam os mais altos cargos do governo paquistanês daquela época quiseram, ocultando sua enfermidade interior, extirpar o movimento islâmico. Não conseguiram; sua mentalidade oculta veio à luz. O movimento islâmico não morreu, e o Maulana Maududi também não morreu. Mas os adversários sofreram uma morte inglória. A sua morte inglória não nos traz alegria. Contudo, este é o julgamento implacável da história.
É motivo de profundo pesar que, mesmo vinte e cinco anos após os distúrbios de Punjab, algumas pessoas continuem a insultar o Maulana, chamando-o de assassino de centenas de cadianos. Não há dúvida de que sofrem de uma doença mental ainda mais grave do que a dos governantes paquistaneses daquela época. Sentimos compaixão por elas. Por isso, oramos para que sejam curadas dessa doença mental.
É uma cruel ironia da justiça e da equidade que nenhuma sentença de morte tenha sido proferida contra aqueles que foram diretamente responsáveis pelos distúrbios de Punjab. O único delito do Maulana Maududi foi ter reivindicado no Paquistão um sistema de governo islâmico. É evidente que o desejo mais ardente dos interesseiros era removê-lo da face da Terra da noite para o dia e frustrar o movimento islâmico. Mas talvez os inimigos do Islã não soubessem como Allah, o Altíssimo, concede a vitória aos Seus amados e ao Seu partido dessa maneira.
************************************************
“Allah está satisfeito com eles, e eles estão satisfeitos com Allah — apesar das adversidades, da opressão e da perseguição. Eles pertencem ao partido de Allah. Portanto, ficai atentos e lembrai-vos: certamente, o partido de Allah será vitorioso.” Al-Mujadalah (22)
Maulana Maududi na câmara da forca
Quando o homem de fé, de cabeça curvada diante de Allah, o Rei da religião e do mundo, estava absorto na adoração, foi-lhe comunicada a sentença de morte. Mesmo diante da sentença de morte, não havia qualquer sinal de medo ou ansiedade nos olhos e no rosto do amado servo de Allah. Com o semblante sereno e sorridente, aceitou a ordem de execução com gratidão.
Quero apresentar aos leitores o relato de uma testemunha ocular. O senhor Sayyid Naqi Ali, editor e impressor do livreto “O Problema Cadiano”, disse:
“No dia oito de maio, estávamos rezando a oração do magrib na antiga quadra de tênis da casa civil. O Maulana era o imam. Entre os fiéis, éramos cinco, além do chefe dos prisioneiros e do cozinheiro da prisão: Mian Tofail Muhammad, Maulana Amin Ahsan Islahi, Malik Nasrullah Khan Aziz, Chaudhry Muhammad Akbar e eu. Quando estávamos na segunda rakaat, a porta se abriu de repente e, em seguida, ouvimos os passos de algumas pessoas. Houve alguns sussurros e o som de pessoas voltando.”
Mal havia terminado de devolver a saudação da Sunna quando se ouviu novamente um toc-toc. Vimos alguns soldados e funcionários da prisão entrarem. Um deles perguntou: Quem é o Maulana Sayyid Abul A’la Maududi?
O Maulana disse com voz serena: Sou eu; diga.
O funcionário do governo: Pela publicação de duas declarações no jornal Tasnim, o senhor foi condenado a sete anos de prisão com trabalhos forçados, e Malik Nasrullah Khan Aziz, a três anos. Em resposta, ambos disseram: “Está bem, está certo”, e permaneceram em silêncio.
O funcionário continuou: Pela redação do livro “O Problema Qadiani”, o Maulana Sayyid Abul A’la Maududi foi condenado à morte, e seu impressor, Sayyid Naqi Ali, a nove anos de prisão com trabalhos forçados.
Nós dois dissemos: “Está bem, obrigado”, e permanecemos calados.
A sentença de morte do Maulana foi totalmente inesperada. Ainda assim, não havia ansiedade no rosto de ninguém. Mas nossas mentes se encheram de pensamentos. Todos nós olhamos para o Maulana. Vimos sua figura serena e tranquila. Seu olhar tinha uma profundidade imensa, como a profundidade infinita do mar profundo.
O funcionário entregou um pedaço de papel ao Maulana e disse:
Maulana, se quiser, pode pedir clemência dentro de uma semana.
Maulana recebeu silenciosamente o pequeno papel, com um leve sorriso. Ao despedir-se, o funcionário disse:
— Maulana, prepare-se; o senhor terá de partir daqui a pouco.
— Para onde?
— Para a cela dos condenados à forca.
— Estou pronto.
Depois, seguimos silenciosamente em direção ao aposento da ala civil. Enquanto caminhávamos, ouvimos o funcionário dizer:
Malik Nasrullah Khan Aziz e Sayyid Naqi Ali, vocês também terão de ir. Mas… bem, está certo. Levarei vocês amanhã de manhã.
Eu e o senhor Malik fingimos não ter ouvido. Pois a notícia da sentença de morte de Maulana havia nos deixado tão consternados que não prestávamos atenção a mais nada.
No palco do mundo, quantas humilhações e quantas perseguições e opressões sofrem os caminhantes do caminho da verdade! Todos nós, humildes servos do Dīn da Verdade, tivemos a boa fortuna de nos igualar aos homens que lutam pelo caminho da verdade. O crime? O crime de publicar o livro sobre o problema qadiani? Isso é dito apenas para enganar o mundo. Mas, na realidade, nosso crime é este: queremos utilizar, em favor do Islã, a força conjunta da nação e do governo no Paquistão. Fizemos do estabelecimento da religião de Allah o objetivo de nossas vidas. Esse era o nosso único crime.
Sim, era isso que eu estava dizendo. O Maulana estava sendo realmente levado para a câmara da forca. Um pensador tão venerado não apenas no Paquistão e na Índia, mas em todo o mundo árabe, estava agora sendo levado para a câmara da forca? Eu pensava: será que isso é verdade?
O heroico mujahid do movimento islâmico seria hoje pendurado no patíbulo? Os obtusos dirigentes da nação, que, por causa de sua própria insensatez, não desejam ver o triunfo do Islã no Paquistão, estavam prestes a tomar hoje essa medida?
Será que o movimento islâmico seria privado dessa grande personalidade ainda em sua infância?
As palavras claras, lentas e solenes do Maulana começaram a ressoar em meus ouvidos: “Lembrem-se de que não cometi crime algum. De modo algum pedirei a eles que me poupem a vida. Nem permitirei que qualquer outra pessoa peça isso em meu nome — nem minha mãe, nem meu irmão, nem minha esposa, meus filhos ou meus familiares. Este é também o meu pedido aos membros da Jamaat.”
O senhor Mian Tofail Muhammad abriu e estendeu o hold-all do Maulana. Todos nós começamos a colocar as coisas dentro dele. O Maulana e eu arrumamos a mala de couro, pois tudo aquilo teria de ser enviado de volta para a casa do Maulana.
Enquanto isso, prepararam uma pequena cama para ser enviada com o Maulana à câmara da forca. Junto com ela, colocaram comida amarrada num pano, o Alcorão Majid e também um lota e um copo.
Eu não conseguia falar. Meu coração tremia. Meus braços e pernas começavam a ficar rígidos. A ideia da sentença de morte do Maulana parecia espalhar-se, como eletricidade, por cada átomo e molécula de meu corpo. O estado do senhor Tofail era exatamente o mesmo. Malik Nasrullah Khan Aziz caminhava de um lado para o outro, com uma expressão solene e pensativa, e orações também lhe saíam dos lábios em voz indistinta. O estado do mais velho de todos nós, o senhor Chaudhury Muhammad Akbar, era extraordinário. Ele permanecia simplesmente de pé, mudo e imóvel. O senhor Islami ora caminhava de um lado para o outro, ora parava subitamente. Suas emoções e efusões reprimidas manifestavam-se em seu rosto, que adquiria uma coloração vermelha como sangue.
Enquanto amarrava a roupa de cama, fortalecendo o coração, disse de uma vez:
— Maulana, a decisão de não pedir clemência é exclusivamente sua. Não há razão alguma para que a Jamaat tenha de aceitar essa decisão. O que os membros da Jamaat decidirem, considerando a situação externa, o senhor terá de acatar.
Maulana respondeu com sua voz característica:
Considero que minha decisão é correta também do ponto de vista da Jamaat. É dever de vocês informar os líderes da Jamaat sobre a minha decisão.
Enquanto isso, um funcionário da prisão apareceu. Estávamos extremamente tranquilos, como o mar permanece calmo antes da tempestade.
Mas Maulana? O valoroso combatente do movimento islâmico e do caminho da verdade, a quem havia sido anunciado o privilégio do martírio, esse Maulana estava absolutamente tranquilo, sereno e inabalável.
Maulana abraçou cada um de nós com todo o coração. Foi um abraço tão sincero que permanecerá para sempre em nossa memória.
Levamos parte dos pertences, e o numerador da prisão levou outra parte. Saímos da cela e fomos até a porta da sala civil para nos despedirmos de Maulana. Então, a tempestade que se havia acumulado em nosso peito veio à tona. Mian Tofail Sahib e eu começamos a chorar convulsivamente; ao voltar, prostrei-me sobre o tapete de oração.
O senhor Islahi, o senhor Malik e o senhor Chowdhury já haviam se prostrado em oração.
Todos nós começamos a suplicar a Deus, chorando. O ímpeto do choro era irreprimível; a torrente de lágrimas, impetuosa e inesgotável.
Não sei quanto tempo passamos assim. De repente, o som dos passos firmes do carcereiro atraiu nossa atenção. Vimos que ele havia trazido de volta as roupas, a comida, os utensílios, os sapatos e outros pertences do Maulana. Também havia devolvido o Alcorão Sagrado, pois não havia lugar para guardá-lo na cela da forca.
O Maulana Islahi tomou as roupas do Maulana das minhas mãos e começou a beijá-las repetidamente, deleitando-se com seu doce contato nos olhos e no peito. Pois aquelas roupas pertenciam a um mujāhid no caminho de Deus, que estava encerrado na cela da forca, à espera de beber o néctar do martírio.
O senhor Mia Tofail tomou aquelas roupas das mãos do Maulana Islahi e continuou a passá-las pelo rosto, pelos olhos e pelo peito. As roupas ficaram encharcadas com as lágrimas de todos nós.
Por que era tão intensa e sincera a nossa afeição por ele?
— Ele era acaso nosso parente?
— Tínhamos acaso algum vínculo de linhagem com ele?
– Esse amor e afeto se devem ao fato de pertencermos à mesma raça e ao mesmo clã?
– Isso acontecia por sermos habitantes do mesmo país?
– Não, não, apenas porque ele estava prestes a sacrificar a vida no caminho de Allah. Foi somente o vínculo do Islã que tornou nosso amor tão histórico e desinteressado.
O amor ilimitado do Maulana por Allah e seu ardente desejo de sacrificar a vida no caminho de Allah deixaram o mundo estupefato. Também deixaram os funcionários da prisão maravilhados e atônitos, e legaram à história do Islã um exemplo extremamente luminoso.
Na câmara de execução, deram ao Maulana um pijama sem cordão na cintura para vestir. O Maulana perguntou ao carcereiro:
“Irmão, você se esqueceu de dar o cordão da cintura.”
O carcereiro respondeu:
“Maulana, não se dá um cordão da cintura a um condenado à execução. E se ele acabar cometendo suicídio com ele?”
O Maulana diz com um leve sorriso:
«Ora, será que aquele que está prestes a sorver, de todo o coração, a taça do martírio é tão insensato a ponto de cometer suicídio e ir para o Inferno?»
Na câmara da forca, o Maulana não demonstrava qualquer preocupação. Não tinha qualquer inquietação com a possibilidade de perder a vida. Não havia qualquer sinal de tristeza em seu rosto ou em seus olhos. Em vez de ler o Alcorão Sagrado, adormeceu em grande felicidade e com toda a naturalidade enquanto lia a biografia de Sayyid Ahmad Shahid (que Allah tenha misericórdia dele). Em circunstâncias normais, não se percebeu diferença alguma entre o sono em sua própria casa e o sono na câmara da forca.
Outra declaração inestimável do Maulana nessa ocasião foi proferida quando seus parentes, amigos e incontáveis admiradores e devotos ficaram angustiados com a sentença de enforcamento; ele os consolou, dizendo:
«A decisão sobre a vida e a morte é tomada no céu, não na terra.»
Que convicção firme! Que força de espírito inabalável!
Ouçamos da própria boca do Maulana como ele se encontrava na câmara da forca. Quando lhe perguntaram sobre isso, ele disse:
Quando, no recinto do tribunal civil, me comunicaram a sentença de enforcamento e, ao mesmo tempo, me concederam o direito de pedir clemência dentro de uma semana, três tipos de pensamentos surgiram em minha mente.
A primeira razão é que pedir misericórdia ao opressor é contrário à minha dignidade.
A segunda é: por que haveria eu de pedir perdão? Seria por estar sendo enviado ao Paraíso? É verdade que, depois de servir à religião durante toda a vida, morrer de outra maneira não oferece a mesma certeza de alcançar o Paraíso que morrer como mártir. Portanto, haveria eu de dizer: “Liberta-me do Paraíso”?
A terceira razão é que, se alguém como eu hoje implorar pela própria vida, o senso de dignidade desaparecerá do coração do povo comum deste país.
Por isso, adverti severamente meus amigos, dizendo-lhes que ninguém da minha família ou da Jamaat deveria pedir perdão em meu nome. Caso contrário, jamais os perdoaria.
Quando fui levado para a cela dos condenados à forca, fui privado de todos os artigos necessários. Tudo me foi confiscado. Até minhas roupas foram retiradas e me deram roupas da prisão. Deram-me um pijama sem izarband. Ao vê-lo, pensei inicialmente que talvez tivessem se esquecido de fornecer o izarband. Mas, ao perguntar, soube que o izarband não era fornecido de modo algum, pois o prisioneiro poderia, em desespero, usá-lo para cometer suicídio. Fui obrigado a juntar as duas extremidades dianteiras do pijama para vesti-lo. Porém, ele não servia para cobrir o satr, e comecei a ter grande dificuldade para fazer a oração. Inicialmente quis manter comigo o Alcorão Sagrado, mas, quando percebi que não havia lugar para guardá-lo além do chão onde eu dormiria, devolvi-o. O que estava gravado em meu coração permaneceu comigo.
Enfim, depois que todos foram embora, veio um guarda (Warder) e insultou de todo o coração o governo e os ministros. Depois vieram o segundo, o terceiro e o quarto. Cada um deles foi embora amaldiçoando o governo.
À noite, começaram na cela dos condenados à forca tantos gritos e lamentos que não consegui dormir antes das duas da madrugada. Alguns chamavam pelo nome de algum pīr ou santo venerável. Outros recitavam poemas, e alguém continuava murmurando: “Mawlā, salva-nos; Mawlā, salva-nos”.
Quando lhe perguntaram qual era sua opinião sobre a execução da pena de morte, o Maulana disse:
Eu tinha a convicção de que, se não houvesse uma grande manifestação popular, considerando a atitude do governo, eles certamente o enforcariam. Se tivessem a oportunidade de tomar essa medida, isso seria extremamente grave. Depois disso, o trabalho religioso neste país seria interrompido por muitos anos. Mas, se o povo agisse conscientemente e o governo fosse obrigado a recuar uma vez, então, insha’Allah, teria de continuar recuando, e não seria possível bloquear o caminho do movimento islâmico. Este é um momento de uma grande prova de fogo para todo o país.
No segundo dia, o xeique Sultan Ahmad e o senhor Safdar vieram visitar-me, levando os meninos. Mais uma vez, falaram comigo sobre pedir perdão. Eu os repreendi e disse que não deveriam pedir perdão em hipótese alguma.
Depois, veio Mian Mahmud Ali Kasuri. Ele também quis oferecer seus próprios serviços para pedir perdão. Eu lhe disse que não conseguia de modo algum compreender aquilo.
Perguntaram ao Maulana se havia algum sofrimento especial na cela dos condenados à forca. Em resposta, o Maulana disse:
Para começar, as roupas fornecidas eram inadequadas e insuficientes, além dos gritos e da algazarra. Em segundo lugar, a própria estrutura da cela da forca era penosa para os prisioneiros em todas as estações. Era um aposento estreito, sem luz nem ventilação. Não havia como se proteger do sol, da chuva, do frio ou do calor. Além disso, na cela da forca, a comida fornecida era de classe C — absolutamente intragável.
No terceiro dia, por volta das duas horas da tarde, alguém veio correndo e disse: “Maulana, venho felicitá-lo: sua sentença de morte foi anulada.” Depois, as pessoas começaram a chegar em grupos para dar essa notícia. Pouco depois, o Maulana Niazi e eu fomos retirados dali e levados ao hospital.
Reações no país e no exterior à sentença de morte
Foi mencionado acima que o tribunal militar de Lahore condenou o Maulana Sayyid Abul Ala Maududi inicialmente à morte e, depois de revogar essa sentença, a catorze anos de prisão com trabalhos forçados. A enorme onda de protestos que surgiu contra essa sentença, não apenas no Paquistão, mas em todo o mundo muçulmano, não encontra precedente nas páginas da história passada. Os protestos contra esse tratamento dispensado a ele — greves, procissões, reuniões e assembleias — não se limitaram às grandes cidades e capitais; pelo contrário, as chamas dos protestos começaram a arder intensamente também nas pequenas cidades e nas zonas rurais do interior do país. De todos os lugares, desde as aldeias remotas até as grandes cidades, começaram a chegar intensos protestos e gritos de condenação por meio de incontáveis telegramas, cartas e resoluções. Essa manifestação mundial não foi realizada sob o efeito de uma excitação passageira ou de uma emoção momentânea. Foi, na realidade, a expressão espontânea do respeito duradouro do mundo muçulmano pelo Maulana. Ela não se elevou como uma bolha de água para desaparecer de repente. Esses protestos e manifestações de repúdio prosseguiram ininterruptamente durante cinco meses. Até aqueles que, no passado, haviam testemunhado diversas formas de protesto na época dos movimentos do Califado e do Congresso reconheceram abertamente que manifestações desse tipo, solidariedade sincera, pesar e súplicas aflitas jamais haviam sido vistos antes.
É importante observar que este protesto não foi realizado por mera cortesia social nem para exibição pública. Cada momento das noites silenciosas e dos dias atarefados testemunhava que não apenas os homens, mas também as mulheres que observavam o purdah, estavam profundamente feridas, enlutadas e perturbadas. No meio da noite, suas esteiras de oração para o tahajjud ficavam umedecidas pelas lágrimas. O mundo muçulmano considerou uma grande tragédia a sentença de morte e, posteriormente, a prisão perpétua desse herói invencível da causa islâmica. Por isso, os líderes da Arábia, do Egito, do Iraque, da Síria, do Marrocos, da Argélia, da Indonésia e de outros países muçulmanos manifestaram seu veemente protesto. Nos editoriais dos jornais desses países, condenou-se a conduta do governo paquistanês e exigiu-se a imediata libertação do Maulana.
No Paquistão, os editores dos jornais a seguir também manifestaram seu protesto por meio de um memorando:
Carachi: o diário Jang, o diário Anjam, o diário Millat, o Times of Karachi, o diário Imroz, o diário Al Muntazer, o diário Iqbal, o diário Asr-e-Jadid, o diário Mussalman, o diário Naya Roshni, o diário Shabnam, o diário Watan, o diário Nayi Sindh, Al Waheed, Maqasid, o semanário Jahan-e-Nau, o quinzenário Nimkadan, o mensal Faran, o mensal Riyaz, o mensal Mushir, o mensal Chiragh-e-Rah, o quinzenário Students’ Voice, o mensal Kaleem, entre outros.
Daca: o diário Pasban, Azad, Angara, Sitara, Morning News, o semanário Al Qaed (em inglês), The Mail, o semanário Dainik e Nizam-e-Islam.
Lahore: o diário Pakistan Times, o diário Imroz, o diário Afaq, o diário Nawa-e-Waqt, o diário Ihsan, o semanário Kandeel, o diário Hilal-e-Pakistan, o diário Safina, Civil and Military Gazette, o diário Asar, o mensal Khadim-ul-Haramain, o mensal Aref, o mensal Al Jamia, o mensal Islamic Life, o mensal Muslim, o mensal Adabi Duniya, o semanário Iqdam, o semanário Karwan,
Bahawalpur: Insaf, Qainat, Ilham, Al-Imam, Azam, Rahbar, Parwaz, Difa, Rafiq, Naya Daur, Karwan, Tabligh, Nawa-e-Bahawalpur.
Quetta: Mizan, Pasban, Nara-e-Haq, Maqasid, Hilal, Khurshid, Tarjuman Rahbar-e-Niswan, Bachuka Shaheen, Times, Muallim, Dushman, Pukar, Nawa-e-Baluchistão, Niswan-e-Duniya, Nawa-e-Watan, Paigham-e-Jadid, Sadaqat, Karwan Tameer-e-Baluchistão.
Além disso, os jornais estrangeiros também manifestaram seu veemente protesto—
Assijil-Bagdá, Ikhwanat Islamiya de Bagdá, Ad-Da‘wat-Cairo, Mimbarsch Sharq-Cairo.
Os estudantes dos países muçulmanos que estudavam na Inglaterra e os muçulmanos residentes na Inglaterra apresentaram um protesto ao primeiro-ministro do Paquistão, senhor Muhammad Ali (de Bogra), advertindo o Governo do Paquistão por causa da sentença de morte contra o Maulana e exigindo sua libertação imediata.
O Grande Mufti da Palestina, Al-Hajj Muhammad Amin al-Husseini; o murshid da Irmandade Muçulmana, Sheikh Hasan al-Hudaybi; o advogado da Universidade de Al-Azhar, Muhammad Abdul Latif Daraz; e o presidente da Associação dos Jovens Muçulmanos, Muhammad Saleh Harb, declararam em uma mensagem conjunta dirigida ao governador-geral e ao primeiro-ministro do Paquistão:
“Todos os muçulmanos que nutrem amor e boas intenções pelo Paquistão ficaram profundamente consternados com a sentença de enforcamento do Maulana Sayyid Abul A‘la Maududi. Espero que o Governo do Paquistão aja com sabedoria e revogue a sentença de morte de nosso ilustre senhor Maududi.”
O grande mujtahid da comunidade xiita do Irã, Sua Eminência o Imã Muhammad al-Khalisi, e o maior líder da comunidade Ahl al-Sunna wa al-Jama‘a do Iraque, Allama Amjad al-Zahawi, enviaram um telegrama conjunto aos seguintes estadistas, solicitando-lhes que pressionassem o Governo do Paquistão pela libertação do Maulana Maududi:
Segundo Emir Faisal—Bagdá; Sultão Ibn Saud—Arábia Saudita; Allama Ayatollah Kashani—Irã; Dr. Mossadegh, ex-primeiro-ministro—Irã; o primeiro-ministro do Iraque; o primeiro-ministro do Egito, General Naguib; o Shaykh de Al-Azhar, Hasan al-Hudaybi; e o Grande Mufti da Palestina. Eles também enviaram um telegrama semelhante ao governador-geral e ao primeiro-ministro do Paquistão.
O grande mujāhid da Indonésia, Allama Isa Ansari, declarou em nome das sessenta organizações islâmicas da Indonésia:
“O Maulana Maududi é um patrimônio do mundo. Se o Paquistão não precisa dele, o mundo islâmico precisa. Nós, muçulmanos da Indonésia, apoiamo-lo plenamente e consideramos que hoje o mundo muçulmano necessita de seu pensamento e de suas ideias.”
Além disso, entre os líderes do Paquistão que protestaram e exigiram a libertação do Maulana, merecem especial menção o ex-primeiro-ministro do Paquistão, Khawaja Nazimuddin, o Sr. M. Gazdar, o Sr. Hussain Imam, o Maulana Zafar Ahmad Usmani, o Pir Ghulam Muhyiddin Sirhindi, o Maulana Akram Khan, o Maulana Din Muhammad Khan, o Maulana Abdul Hamid Khan Bhashani e o Maulana Ragib Ahsan.
Em suma, a força contrária ao Islã que queria eliminar o Maulana da noite para o dia e frustrar o movimento islâmico foi, é verdade, obrigada a curvar-se diante do olhar irado do mundo muçulmano revoltado; contudo, incapaz de conter o ódio acumulado durante muitos anos contra o Maulana, tentou obter algum consolo condenando-o a quatorze anos de trabalhos forçados.
A libertação do Maulana
Havia fortes exigências pela libertação incondicional do Maulana, não apenas no Paquistão, mas em todo o mundo muçulmano, e seus detalhes foram apresentados anteriormente. Por fim, o governo reduziu a pena de quatorze anos de prisão para três anos e meio. Depois, devido a uma crise jurídica no Paquistão, o Maulana foi libertado após dois anos e nove meses. A crise jurídica consistiu no seguinte: no final de 1958, o então primeiro-ministro do Paquistão, Muhammad Ali de Bogra, falecido, havia anunciado que, naquele mesmo ano, em 25 de dezembro, aniversário de nascimento do Quaid-e-Azam, presentearia a nação com uma constituição islâmica.
O governador-geral Ghulam Muhammad sofria profundamente por não ver o Maulana Maududi pendurado no cadafalso. Além disso, o anúncio de uma constituição islâmica pelo primeiro-ministro lançou sal sobre sua ferida. Por isso, enfurecido, dissolveu a Assembleia Constituinte do Paquistão.
Como resultado, criou-se no país um impasse constitucional. Com a dissolução da Assembleia Constituinte, todas as leis e regulamentos foram anulados.
Enquanto isso, foi apresentado ao Tribunal Superior um pedido de habeas corpus para que fossem apresentadas as razões da detenção do Maulana. Porém, antes que a audiência começasse no tribunal, o governo anunciou a libertação incondicional do Maulana.
A visita do Maulana ao Paquistão Oriental
Após a libertação do Maulana da forca e da prisão perpétua, o mundo muçulmano ofereceu graças a Deus. Como o povo do Paquistão Oriental jamais havia visto o Maulana, começou a desejar encontrá-lo. Além disso, tornou-se urgentemente necessário que o Maulana visitasse o Paquistão Oriental.
Nesse período, surgiu novamente no Paquistão Oriental uma nova crise constitucional. Depois que o Governador-Geral dissolveu a Assembleia Constituinte, formou-se um gabinete talentoso (dotado), composto por militares e civis. O falecido mártir Suhrawardy foi nomeado ministro da Justiça. Em seguida, tramou-se, por meio de uma convenção e com o auxílio de uma portaria, impor ao povo uma constituição não islâmica e antidemocrática. Contudo, depois que a decisão do Tribunal Federal declarou inconstitucional a formação da convenção, o Governador-Geral e o gabinete talentoso foram obrigados a realizar eleições para a Assembleia Constituinte em maio de 1955. Após essas eleições, Chaudhry Muhammad Ali foi eleito primeiro-ministro. Seu grande interesse era elaborar uma constituição islâmica para o país. Entretanto, na Assembleia Constituinte, o falecido mártir Suhrawardy, líder da Liga Awami, e os líderes congressistas tornaram-se um obstáculo extremo à elaboração de uma constituição islâmica. Suhrawardy havia defendido vigorosamente a destituição de Khwaja Nazimuddin e, por fim, a dissolução da Assembleia Constituinte, com o objetivo de fechar o caminho para uma constituição islâmica neste país. Posteriormente, enquanto era ministro da Justiça do gabinete talentoso, também se extinguiu a esperança de Suhrawardy de impor à nação, por meio da convenção, uma constituição antidemocrática e irreligiosa. Portanto, para impedir que a Assembleia Constituinte novamente eleita elaborasse uma constituição islâmica, ele formou uma poderosa frente contrária ao Islã com os membros do Congresso hindu. Assim, tornou-se necessário intensificar o movimento popular para frustrar essa manobra e criar um ambiente favorável à constituição islâmica.
Após ser libertado da prisão, o Maulana Maududi visitou pela primeira vez o Paquistão Oriental em 24 de janeiro de 1956. Permaneceu aqui durante um mês e meio, visitando quase todas as cidades distritais e importantes cidades subdivisionais. Nessa ocasião, discursou diante de centenas de milhares de pessoas, apresentou o chamado do Islã, explicou a necessidade de uma constituição islâmica, respondeu a centenas de perguntas e concedeu audiências pessoais a centenas de pessoas. Desse modo, fortaleceu também no leste do Paquistão a reivindicação por uma constituição islâmica. Além disso, adquiriu conhecimento direto de todos os problemas internos e das privações e queixas desta província.
Na parte final da viagem, em 4 de março, no salão do Conselho Distrital de Daca, durante um congresso de trabalhadores da Jamaat-e-Islami, o Maulana Maududi discutiu longamente, sobretudo, todos os problemas, privações e queixas do Paquistão Oriental, bem como o caminho adequado para solucioná-los. O discurso foi publicado em forma de livreto, em tradução bengali, sob o título «Os problemas do Paquistão Oriental e sua solução».
O Maulana Maududi discutiu em detalhes vários problemas complexos dos habitantes do Paquistão Oriental e também apresentou suas soluções. Determinou as verdadeiras causas das graves queixas dos habitantes do Paquistão Oriental e lançou luz sobre elas.
Sobre o caminho equivocado que os muhajires estavam seguindo no Paquistão Oriental, ele comentou:
«Uma grande parte daqueles que vieram para cá como funcionários públicos não desempenhou nenhum papel particularmente digno de elogio. Sentados nas cadeiras dos ingleses, passaram a considerar-se ingleses. Adotaram a mesma política que os ingleses seguiam para governar outra nação. Não pensaram que haviam assumido a responsabilidade de governar e servir sua própria nação em seu próprio país. Se seu objetivo era imitar os ingleses, então seu dever era seguir a política vigente na Inglaterra. Na realidade, esta é a principal razão pela qual o povo do Paquistão Oriental começou a acreditar que havia sido transformado em uma colônia.»
(Os problemas do Paquistão Oriental e sua solução, p. 5)
Advertência do Maulana aos forasteiros
Sobre os empresários forasteiros, ele fez o seguinte comentário:
“Somos gratos aos empresários e proprietários de fábricas vindos de fora por terem vindo administrar a indústria e o comércio daqui. Contudo, eles deveriam ter considerado este país como seu próprio país e esta nação como sua própria nação, esforçando-se para ajudar seus irmãos subdesenvolvidos a progredir; deveriam tê-los ajudado a avançar no campo da indústria e do comércio; deveriam ter gasto aqui mesmo os recursos ganhos aqui, a fim de aliviar sua situação precária; deveriam ter estabelecido instituições adequadas para o bem-estar e o progresso deles; e deveriam ter prestado assistência apropriada nos momentos de perigo e dificuldade. É profundamente lamentável que muitos deles não estivessem conscientes desse dever.” (Ver o referido folheto, pp. 7–8.)
O problema linguístico
A seguir apresenta-se a opinião clara expressa pelo Maulana sobre o movimento pela língua bengali e o problema linguístico no Paquistão Oriental:
“O problema linguístico foi a questão importante em primeiro lugar. Na realidade, no Paquistão Oriental nunca houve qualquer sentimento de hostilidade contra a língua urdu. Pelo contrário, entre as pessoas instruídas daqui observava-se um interesse especial quanto à sua necessidade. O povo comum daqui respeitava muito os falantes de urdu. Até hoje, depois da língua árabe, a língua urdu também desfruta de uma espécie de status religioso. Contudo, se ela fosse adotada como a única língua nacional e oficial, isso se tornaria uma grande dificuldade para a população daqui. Pois nem mesmo as pessoas instruídas daqui conhecem o urdu. Consequentemente, temiam ficar para trás dos instruídos falantes de urdu em todos os campos. Foi nesse contexto que os falantes de bengali exigiram que o bengali também fosse reconhecido como língua oficial, juntamente com o urdu. Se essa exigência tivesse sido aceita desde o primeiro dia, compreendendo plenamente a gravidade da situação, isso teria demonstrado prudência. Mas, na prática, fez-se exatamente o contrário. Por um lado, tentou-se esmagá-la por meio de uma política de repressão; por outro, vozes foram repetidamente levantadas contra ela no Paquistão Ocidental. Por essa razão, a reivindicação do bengali deixou de ser um problema solucionável e assumiu a forma de uma ideologia e de um movimento emocional — e esse foi o seu desfecho natural. Pois, se em resposta a uma reivindicação se diz ‘não será concedida’, então, em réplica, inevitavelmente se levantará o grito: ‘havemos de conquistá-la, custe o que custar’. Foi exatamente isso que aconteceu também nesse caso.”
O problema dos empregos públicos
No discurso que proferiu no DB Hall, em Daca, o Maulana Maududi também expressou, a respeito dos empregos públicos, exatamente o sentimento íntimo do Paquistão Oriental.
Ele diz:
“O segundo problema é o problema relacionado aos empregos no serviço público. Não há dúvida de que, durante o domínio inglês, os muçulmanos eram extremamente atrasados no campo dos empregos. Sua representação nos altos cargos era praticamente nula. É claro que também não era fácil corrigir de repente essa deficiência criada ao longo de duzentos anos pelos ingleses e hindus. Mas, após a criação do Paquistão, os muçulmanos das regiões orientais esperavam, com toda a justiça, que lhes fossem dadas oportunidades de progredir. Lamentavelmente, essa esperança não foi realizada. A amargura que se criou a esse respeito entre os jovens do Paquistão Oriental é inteiramente justificável. É extremamente lamentável a mentalidade dos funcionários que, onde quer que tenham influência, procuram empregar seus próprios parentes. Pelo menos as pessoas de alta posição e influência deveriam ter evitado essa injustiça. Seu dever era tentar elevar seus irmãos muçulmanos negligenciados e subdesenvolvidos de Bengala, para que também pudessem ter a oportunidade de participar igualmente do serviço ao país. Mas, lamentavelmente, houve extrema negligência nesse assunto. Tanto assim que, por causa dessa negligência, surgiu uma queixa generalizada no Paquistão Oriental.” (Ver o referido opúsculo, pp. 14–15.)
O problema da defesa do país
O problema mais doloroso do Paquistão Oriental é o problema da segurança. A esse respeito, o Maulana diz:
“Uma questão ainda mais importante é a dos empregos nas forças armadas. A política do governo central a esse respeito é realmente censurável. Até hoje, continua prevalecendo aqui a concepção da época inglesa de que somente as ‘raças marciais’ são adequadas para as forças armadas. O resultado disso é que a carreira militar se tornou monopólio dos habitantes de uma determinada região. Não apenas não se concede aos habitantes do Paquistão Oriental uma parcela significativa da verba militar, como também não lhes é dada uma participação relevante nas demais questões essenciais da instrução militar.
Não sei se, aos olhos de nossos governantes, os habitantes de países como Ceilão, Birmânia, Síria, Indonésia e Filipinas são considerados raças marciais. Se não forem, então ou deveriam ser privados da capacidade de defender seus países, ou deveria ser convocado pessoal militar de outros lugares para formar as forças armadas. E, se os habitantes desses países são capazes de defender seus próprios países, em que aspecto os habitantes do Paquistão Oriental são inferiores a eles para serem considerados incapazes de servir nas forças armadas? A importância dessa questão não termina aqui. Pelo contrário, ela é uma questão de vida ou morte para o Paquistão. Mais da metade da população deste país vive numa área tão pequena que seus três lados estão dentro da esfera de controle do Hindustão. É preciso defender uma fronteira de aproximadamente mil e quatrocentas milhas. Parece impossível prestar-lhe qualquer ajuda do Paquistão Ocidental durante uma guerra. Se os habitantes daqui não forem capazes de defender seu próprio país e não forem preparados, em todos os aspectos, para esse propósito, jamais terão em seus corações a sensação de segurança. Vocês jamais poderão tranquilizá-los fazendo-os acreditar que, durante uma guerra, a região ocidental defenderá a região oriental. Pois isso significa que, primeiro, a região oriental será uma vez violada pelo inimigo e, depois, vocês pressionarão a partir da região ocidental para expulsá-lo. Isso não passa de uma visão equivocada. E essa é a principal causa do ressentimento dos habitantes do Paquistão Oriental.”
(Ver o referido opúsculo, pp. 15–16.)
Após o fim do regime militar, quando os partidos políticos começaram legalmente a exercer suas atividades, realizou-se na cidade de Rangpur uma conferência de três dias da Jamaat-e-Islami. Na assembleia pública organizada por ocasião dessa conferência, em 18 de novembro de 1962, o Maulana disse:
“Disse muitas vezes, antes da lei marcial, e digo novamente hoje que o Paquistão Oriental deve ser preparado de todas as formas para a defesa do país.”
O discurso acima do Maulana prova claramente que ele considerava cada centímetro do território do Paquistão e seus habitantes como seus. O regionalismo ou a estreiteza baseada na língua jamais conseguiu tocar seu coração. Além de um pleno sentimento de fraternidade islâmica, o Maulana possuía, como característica de seu caráter, um amplo sentimento de humanidade. Ele demonstrava igual preocupação com os diversos problemas regionais do Paquistão. Por isso, jamais podia negligenciar nenhum deles.
O Maulana expressou belamente isso em seu discurso daquele dia no Dhaka DB Hall. Ele disse:
“O Paquistão é para mim como meu corpo e minha vida. Assim como não consigo fazer distinção entre minhas duas mãos, tampouco consigo fazer qualquer distinção entre as duas partes do Paquistão. Se uma de minhas mãos adoecer, isso será uma doença de todo o meu corpo. É meu dever investigar sua causa e providenciar o tratamento adequado. Não fazê-lo significa ser hostil a mim mesmo.”
Após a adoção da Constituição Islâmica
Graças aos esforços sinceros e ao trabalho incansável do primeiro-ministro do Paquistão, Chaudhry Muhammad Ali, uma Constituição Islâmica foi elaborada e adotada no Paquistão. Em 29 de fevereiro de 1956, a Assembleia Constituinte aprovou a Constituição Islâmica. Em 2 de março, o Governador-Geral a assinou, e ela entrou em vigor em 23 de março. É desnecessário dizer que, quando essa Constituição foi adotada, o falecido senhor Suhrawardy boicotou a Assembleia Constituinte juntamente com os membros de seu partido, a Liga Awami, e os membros do Congresso. Embora a Constituição Islâmica tivesse sido adotada, um movimento reacionário começou a ganhar força, promovido pelos círculos anti-islâmicos do país contra os seguintes pontos:
(1) A denominação do Estado como República Islâmica,
(2) Que o chefe de Estado fosse muçulmano
(3) Não promulgar leis contrárias ao Alcorão e à Sunna,
(4) Proibir o consumo de álcool, os jogos de azar, o adultério e outras práticas semelhantes.
Quando foi adotada uma constituição islâmica para o Paquistão (embora, do ponto de vista do Islã e da democracia, ela estivesse longe de ser inteiramente isenta de falhas), toda a ira de algumas pessoas recaiu sobre Maulana Maududi. Em seguida, começaram as acusações e críticas contra o Maulana. A acusação mais infundada e lamentável contra ele era a de que, desde o início, ocupava o cargo de Amir da Jamaat-e-Islami sem ter sido eleito.
Para provar que jamais havia desejado exercer a liderança, o Maulana renunciou de bom grado ao cargo de Amir. Além disso, anunciou que, devido ao longo período que passara encarcerado, após sua renúncia o senhor Chaudhry Ghulam Muhammad seria eleito Amir provisoriamente, enquanto se prosseguia, de acordo com a constituição, com os preparativos para a eleição do Amir.
Com esse objetivo, em fevereiro de 1957, realizou-se em Machigote, localidade pertencente ao estado principesco de Bahawalpur, uma conferência de membros da Jamaat-e-Islami com duração de uma semana. Este humilde autor também teve a fortuna de participar da conferência. Mais de oitocentos membros da Jamaat, provenientes de diversas regiões do Paquistão, participaram dela. Os trabalhos da conferência foram concluídos em um ambiente de perfeita paz, disciplina e pureza incomparável. Foi nessa conferência que se realizou novamente a eleição do Amir da Jamaat-e-Islami. Verificou-se que, entre os mais de oitocentos eleitores, todos, exceto apenas quatro, votaram secretamente em Maulana Maududi para o cargo de Amir. Assim, o Maulana não pôde esquivar-se da responsabilidade que todos lhe haviam espontaneamente confiado. Ele voltou a assumir o cargo de Amir.
Nessa conferência, o Maulana proferiu um discurso extremamente lógico e esclarecedor, com duração de seis horas, sobre o futuro programa de ação da Jamaat-e-Islami. Esse discurso tornou-se um patrimônio inestimável da Jamaat-e-Islami. Foi publicado em forma de livro sob o título “O futuro programa do movimento islâmico”.
Enquanto isso, o céu político do Paquistão começou a ficar bastante carregado. Iskander Mirza sucedeu Ghulam Muhammad como governador-geral e, posteriormente, tornou-se presidente do Paquistão. A Constituição enfatizava a aceleração das eleições gerais em todo o Paquistão, mas o método eleitoral não havia sido definido. Diante da extrema oposição da Liga Awami e do Congresso, já era muito difícil aprovar qualquer tipo de constituição islâmica. Portanto, não havia qualquer oportunidade de discutir se seria adotado o sistema eleitoral conjunto ou o sistema eleitoral separado. Agora, os setores contrários ao Islã tiveram uma oportunidade de ouro para frustrar a constituição islâmica. Estavam certos de que, se conseguissem introduzir o sistema eleitoral conjunto entre muçulmanos e não muçulmanos, os candidatos islâmicos teriam pouquíssimas chances de vencer as eleições. Consequentemente, seria fácil alterar a constituição islâmica ou as cláusulas islâmicas da Constituição.
Quanto ao sistema eleitoral, havia sido decidido apenas que a Assembleia Nacional daria a decisão final sobre o assunto, com base nas recomendações das duas assembleias provinciais. A Assembleia do Paquistão Ocidental recomendou o sistema eleitoral separado. Foi anunciada para fevereiro de 1958, em Daca, uma reunião da Assembleia Nacional. Também foi anunciado que nessa mesma reunião seria tomada a decisão final sobre o sistema eleitoral.
A segunda visita do Maulana ao Paquistão Oriental
É inegável que, num país onde muçulmanos e não muçulmanos vivem juntos, o sistema social islâmico e os valores islâmicos desse país dependem de eleições separadas. Os muçulmanos elegerão separadamente seu líder nacional e, da mesma forma, os não muçulmanos elegerão seu líder nacional. Como os muçulmanos, constituídos somente por muçulmanos, formam uma nação distinta, foi precisamente essa teoria nacional que deu origem ao Paquistão. Assim como as eleições conjuntas de todas as comunidades, sem distinção entre muçulmanos e não muçulmanos, abalam o ideal do Paquistão, elas também eliminam as esperanças e aspirações nacionais dos muçulmanos.
No Paquistão Oriental, estava instalado um gabinete ministerial do partido Liga Awami. A atitude da Liga Awami em relação ao Islã não era desconhecida de ninguém. Por isso, a Jamaat-e-Islami, o Partido Nizam-e-Islam e a Liga Muçulmana começaram a empreender esforços conjuntos para formar a opinião pública a favor de eleições separadas no Paquistão Oriental. Com esse objetivo, foi organizado um comício no Campo de Paltan, em Daca. Porém, um grupo de capangas armados, designado pelo governo, atacou o local da reunião e derrubou, com golpes cruéis, muitas figuras proeminentes. O governo provincial, que se apresentava como porta-estandarte da democracia, exultou, orgulhoso da vitória, por semelhante ato criminoso contra a democracia e a humanidade.
Foi nessa época que, em 1958, o Maulana Maududi visitou o Paquistão Oriental pela segunda vez. Foi elaborado um programa para a visita do Maulana a cada cidade distrital e a importantes cidades de subdivisão. Em 21 de fevereiro, milhares de pessoas aguardavam ansiosamente a chegada do Maulana à estação de Rangpur, para recebê-lo calorosamente. Mas ocorreu algo extremamente extraordinário na história da democracia. Enquanto o trem do Maulana se dirigia a Rangpur, foi-lhe entregue, em nome do governo provincial, uma ordem oficial. Nela se declarava que, devido ao temor de perturbação da paz, o Maulana não poderia desembarcar do trem na cidade de Rangpur. O comício também fora proibido. O governo da Liga Awami do Paquistão Oriental criou um novo recorde na história da democracia.
A multidão na estação de Rangpur estava explodindo em protestos. Parecia que uma grande catástrofe estava prestes a acontecer. Quando o trem parou na estação, o Maulana ficou à porta do trem, recebeu a respeitosa saudação do povo e disse, com palavras muito calmas e amáveis: “Sempre fui partidário de cumprir a lei. Peço-lhes que preservem a lei e a ordem do país. Se Deus quiser, algum dia voltarei à sua cidade para servi-los.” [Em 18 de novembro de 1962, o Maulana Maududi proferiu seu valioso discurso diante de uma multidão na cidade de Rangpur, realizando o antigo desejo dos habitantes de Rangpur.]
A cena daquele dia na plataforma da estação de Rangpur ainda flutua diante dos olhos do autor. Depois desse discurso muito breve do Maulana, toda a ira e a agitação da multidão enfurecida contra o governo dissiparam-se como bolhas. Um ímpeto de choro intenso chegou à garganta, umedeceu os dois olhos com lágrimas e despediu-se sob a forma de um suave sorriso seco. Pareceu que, de algum lugar, havia sido traçado um plano de massacre. E, por esse plano ter sido desfeito, alguém no mundo invisível cravou uma faca no peito de Satanás. O trem que levava o Maulana avançou. A multidão voltou para a cidade com o coração partido.
Depois, o Maulana discursou em comícios nas cidades de Saidpur, Thakurgaon, Dinajpur, Bogra, Rajshahi e Pabna.
Assim, depois de discursar em comícios em todas as cidades distritais do país e em muitas cidades de subdivisão, o Maulana voltou a Daca. Contudo, ignorando a exigência unânime do povo por eleições separadas, a Assembleia Nacional impôs à nação, na atmosfera adormecida do fim da noite, o sistema de eleições conjuntas.
No final do mês de março, realizou-se em Daca uma conferência de três dias da Jamaat-e-Islami. Maulana Maududi participou dessa conferência. No último dia da conferência, uma marcha mista, de uma milha de extensão, composta por membros da Jamaat-e-Islami e pelo povo, reuniu-se no Campo de Paltão, percorrendo várias das principais avenidas da cidade. Foram realizados protestos contra os governos provincial e central, em oposição às medidas antidemocráticas contrárias às esperanças e aspirações do povo muçulmano. Em seguida, Maulana discursou no comício de Paltão. Felizmente, os malfeitores não tiveram a ousadia de perturbar a ordem da reunião.
A viagem de Maulana ao exterior
Para participar da segunda sessão do Mu’tamar-e-Alam-e-Islami, realizada em Damasco, Maulana Sayyid Abul A’la Maududi partiu para o Oriente Médio em junho de 1956. Ele não pôde participar da primeira sessão, pois naquela época cumpria uma pena de prisão perpétua. Nessa sessão do Mu’tamar, os representantes vindos do mundo muçulmano elogiaram abertamente os serviços islâmicos prestados por Maulana. Maulana presidiu uma das sessões do Mu’tamar. Por unanimidade, foi eleito presidente do Comitê de Tabligh e Dawat Islâmica da referida organização.
Depois de concluir a sessão do Mu’tamar-e-Alam-e-Islami, Maulana visitou vários países do Oriente Médio. Nessa ocasião, realizou o Hajj e teve contato direto com muitos sábios e pensadores eminentes do mundo muçulmano.
Quando Maulana chegou a Beirute, a caminho de Damasco, os trabalhadores e líderes da organização do movimento islâmico no Líbano, ‘Ibadur Rahman’, bem como as personalidades ilustres da cidade, ofereceram-lhe uma calorosa recepção no aeroporto. Os escoteiros de Ibadur Rahman prestaram-lhe honras militares. Soube-se por eles que a literatura de Maulana era amplamente difundida entre eles e que todos conheciam bem Maulana Maududi e a Jamaat-e-Islami.
Ao atravessar a fronteira da Síria, as bagagens de Maulana e de seus companheiros foram liberadas sem revista. Um funcionário do posto de controle disse que o governo sírio lhes havia ordenado que oferecessem a Maulana uma calorosa recepção em nome do governo e do povo da Síria. A dez ou doze milhas de Damasco, as personalidades ilustres da cidade já aguardavam havia muito tempo a chegada de Maulana, acompanhadas por uma grande fila de automóveis, para recebê-lo. Maulana entrou na cidade de Damasco com uma recepção real, acompanhado por uma enorme procissão. Mais tarde, além das personalidades ilustres da cidade, participaram da recepção cívica vespertina o secretário da Justiça do governo sírio, o presidente do Parlamento e o secretário do Interior.
Nessa ocasião, soube-se que a literatura de Maulana havia chegado em grande quantidade ao Sudão e continuava chegando a outras regiões do mundo árabe. O senhor Makkiyun Naseri, líder do partido islâmico do Marrocos, também obteve em Tânger autorização para publicar a literatura de Maulana. Ele afirmou que havia planejado publicar as obras de Maulana em árabe e divulgá-las amplamente no Marrocos, na Tunísia e na Argélia.
Eliminação das concepções errôneas sobre o Paquistão
Nesta viagem, Maulana Maududi teve a oportunidade de prestar um grande serviço ao país. Até então, os países árabes tinham uma impressão desfavorável do Paquistão. Eles haviam sido confundidos pela propaganda indiana. Por meio de sua viagem, Maulana removeu esse equívoco. Ele também criticou o nacionalismo árabe e demonstrou seus erros. Disse-lhes que a única base das relações entre o Paquistão e os países árabes é o Islã. Disse ainda que, assim como Israel é inimigo dos árabes, a Índia é um inimigo ainda maior do Paquistão, pois a Índia ocupa injustamente uma vasta parte da Caxemira. Maulana disse que a Índia reconheceu o Estado de Israel, enquanto o Paquistão não o reconheceu. Perguntou: nessas circunstâncias, se os países árabes, em vez de estabelecer amizade com o Paquistão, estabelecerem amizade com a Índia, o que poderão esperar do Paquistão? Durante sua viagem pelo Oriente Médio, Maulana promoveu em toda parte, em suas conversas com os árabes, essa divulgação a respeito do Paquistão. Os árabes disseram, pesarosos, que o Paquistão não havia sido verdadeiramente representado nos países árabes.
Também ao retornar de Damasco, o governo sírio despediu Maulana com a mais alta consideração. O secretário dos Transportes acompanhou Maulana até a estação e ofereceu-lhe uma última saudação de despedida. Veículos oficiais foram providenciados para Maulana até a fronteira da Síria.
O rei Hussein da Jordânia convidou Maulana, que ali teve de proferir um discurso em uma assembleia pública. Nessa reunião, Maulana teve de responder a várias perguntas sobre o sistema de vida islâmico, a Jamaat-e Islami, sua literatura, a tradução de tudo isso para o árabe e outros assuntos. Maulana explicou a política externa do Paquistão, e a audiência expressou satisfação com suas respostas. Maulana disse que, embora os países árabes sejam vinte vezes maiores que Israel, não consideram censurável pedir ajuda à Rússia para se proteger de seus ataques. Se o Paquistão pedir ajuda à América para se proteger dos ataques da Índia, que é quatro vezes mais poderosa que ele, por que isso seria censurável? No entanto, o Paquistão sempre permaneceu um apoiador dos árabes.
Uma delegação especial veio de Alepo para buscar Maulana. Depois, ele viajou para Alepo com o líder marroquino Makkīūn Naseri e o líder argelino Muhammad al-Ghaybi. Também ao longo desse trajeto, Maulana foi recebido em toda parte com sincera cordialidade. Antes de chegar a cada cidade ou porto, os cidadãos recebiam Maulana, acompanhando-o em uma procissão de automóveis, a dez ou doze milhas da cidade.
Em Homs e Hama, os jovens da Irmandade Muçulmana receberam Maulana, segundo o antigo costume árabe, recitando poemas e batendo palmas. Maulana ficou profundamente satisfeito e encantado com sua alegria espontânea e sua sinceridade.
Muitos jovens das forças armadas sírias encontraram-se com Maulana. Eles informaram que haviam lido muitos de seus livros e que não havia nenhuma restrição por parte do governo à leitura de seus livros. Ao saber disso, Maulana ficou muito triste, em seu íntimo, ao lembrar que, em seu próprio país, sua literatura era proibida para os membros das forças armadas. Entre eles, possuir qualquer livro de Maulana é considerado um grande crime.
Na Arábia Saudita, todos aqueles que haviam lido os livros de Maulana vieram encontrar-se com ele, e entre eles houve um intercâmbio de ideias sobre diversos assuntos.
Os muhajirs do Turquestão russo encontraram-se com Maulana e narraram a história da extrema perseguição que o governo russo lhes infligia. Um dos eruditos entre eles traduziu várias obras de Maulana para o turco.
Muitos muçulmanos da Caxemira ocupada, depois de relatarem ao Maulana seus sofrimentos e infortúnios, continuavam a suplicar a Allah, chorando no Haram Sharif.
Muitos muçulmanos da Turquia, depois de inúmeras buscas, conseguiram encontrar-se com o Maulana. Eles souberam que Maulana Maududi viria naquele ano para realizar o Hajj. Depois de procurarem por ele em Meca e não o encontrarem, finalmente conseguiram visitá-lo em Medina. Quando expressaram o desejo de traduzir para o turco as obras literárias do Maulana, ele lhes concedeu permissão de bom grado.
O regime militar no Paquistão
No Paquistão, uma constituição islâmica havia sido adotada e posta em vigor, e, de acordo com a nova constituição, em fevereiro de 1959 seriam realizadas eleições gerais em todo o país para as assembleias nacional e provinciais. Mas, por causa da constituição islâmica, os círculos contrários ao Islã, desde o chefe de Estado até os níveis provinciais, não conseguiam dormir em paz. Para sabotar a constituição islâmica, o chefe de Estado, Iskandar Mirza, começou no centro um jogo de dissolver e formar gabinetes ministeriais. O partido sem poder passou a recorrer a vários artifícios para vencer as próximas eleições. Sob o pretexto de impedir a perturbação da ordem durante as eleições, o partido governista começou a recrutar milhares de policiais especiais entre seus próprios membros. Como no passado, começou também o plano de utilizar funcionários públicos para atravessar o obstáculo eleitoral. Em nome das próximas eleições, um reino de terror foi estabelecido em todo o país.
Maulana Maududi compreendia profundamente essa situação. Para expressar sua posição a esse respeito, foi organizada, em 6 de outubro, uma assembleia pública em Mochi Darwaza, Lahore. Em seu discurso, depois de analisar a situação do país e advertir a nação, o Maulana declarou que, devido à sede de poder e à imprevidência da classe governante do Paquistão, a burocracia local havia se erguido de maneira alarmante. Se o partido governista e o povo ainda não corrigissem seus erros, seria erguido neste país o túmulo da democracia, e sobre ele se construiria o palácio da burocracia.
Desnecessário dizer que as palavras do Maulana eram verdadeiras ao pé da letra. A burocracia paquistanesa estava à espera de uma oportunidade. Os gabinetes ministeriais do centro e das províncias pareciam ter-se transformado em marionetes dançando ao som do chefe de Estado. A baderna da Assembleia do Paquistão Oriental chegou à própria sala de sessões. Essa era a oportunidade de ouro para a burocracia sedenta de poder.
Na mesma noite em que Maulana Maududi pronunciava sua advertência à nação na assembleia pública de Mochi Darwaza, nas últimas horas daquela madrugada, o regime militar foi instaurado no país. Iskandar Mirza venceu, na escuridão daquela noite, o jogo que vinha jogando havia tanto tempo. Ele despedaçou a constituição tão desejada e conquistada com tanto esforço e impôs ao país o regime militar — isto é, o pesado fardo da burocracia. Todos os partidos políticos do país e suas atividades foram proibidos.
A segunda viagem do Maulana ao Oriente Médio
Já se passaram alguns anos desde a viagem do Maulana à Arábia Saudita e ao Oriente Médio. Como resultado dessa viagem, aprofundaram-se as relações com as populações islâmicas e os líderes desses países. O desejo deles é poder ver o Maulana entre eles todos os anos.
Está em vigor um regime militar no Paquistão. Todas as atividades políticas foram suspensas. A Jamaat-e-Islami também não desenvolve nenhuma atividade. Esse era o momento mais apropriado para a viagem do Maulana ao exterior.
Em outubro de 1959, o Maulana viajou pela segunda vez ao Oriente Médio. Dessa vez, sua viagem teve como objetivo exclusivo adquirir conhecimento, visitar lugares históricos e, especialmente, obter experiência direta sobre a “Ardul Quran”, isto é, os lugares mencionados no Alcorão. Para sua mundialmente célebre exegese do Alcorão, Tafhimul Quran, o Maulana considerava necessário contemplar pessoalmente a “Ardul Quran”.
Também nesta viagem, o Maulana foi tratado em toda parte com especial fraternidade. Os governos árabes providenciaram, com grande interesse, facilidades e privilégios especiais para a viagem do Maulana. A sincera hospitalidade demonstrada pela Arábia Saudita e pela Jordânia ao Maulana jamais poderá ser esquecida. Durante a viagem, sempre que teve oportunidade, o Maulana condenou veementemente o nacionalismo árabe e tentou corrigir essa ideologia equivocada. Em suas conversas, apresentou aos árabes a verdadeira posição e a realidade do Paquistão. O Maulana disse-lhes, em termos inequívocos:
“A relação entre vocês e nós existe unicamente por causa do Islã. Se vocês se levantarem pelo Islã, centenas de milhões de muçulmanos do mundo se colocarão atrás de vocês. Mas, se em lugar do Islã vocês adotarem o kufr e a jahiliyyah, não apenas os demais muçulmanos do mundo, mas também os muçulmanos árabes os abandonarão.”
O Maulana acrescentou:
“Minha opinião é que a onda de nacionalismo, ateísmo e imoralidade que se espalhou pelos países árabes tem uma única origem. Os três estão intimamente ligados entre si. Aqueles que carregam a bandeira do nacionalismo árabe são os mesmos que carregam a bandeira do ateísmo e da rebelião contra Deus.”
A segunda viagem do Maulana ao Oriente Médio foi bastante promissora. Em comparação com a primeira viagem, seus livros tornaram-se mais conhecidos e apreciados nos países árabes. Os governos desses países também trataram o Maulana com maior cordialidade, hospitalidade e fraternidade do que antes. Em diversos lugares, diante de multidões, em faculdades e em reuniões de pessoas instruídas, o Maulana expôs claramente sua mensagem e sua missão por meio de discursos e deu respostas satisfatórias a várias perguntas. Com isso, a sociedade instruída passou a conhecer intimamente o Maulana. Soube-se que a vigorosa literatura do Maulana estava influenciando algumas mentes contra o nacionalismo árabe. Em suma, a segunda viagem do Maulana ao Oriente Médio foi plenamente bem-sucedida.
Com o objetivo de tornar autêntico, confiável e atraente o revolucionário tafsir do Alcorão, Tafhim al-Qur’an, escrito para as gerações futuras, o Maulana passou mais de três meses nesta viagem. Entre os locais históricos que visitou, os seguintes merecem especial menção.
Dir‘iyah — que foi o centro do movimento de Muhammad ibn Abd al-Wahhab al-Najdi; Aqrabah — onde Musaylimah, o falso pretendente à profecia, foi derrotado por Khalid ibn al-Walid; a residência de Hazrat Ayyub al-Ansari; Saqifah Bani Sa‘idah; Mu’tah; Yarmuk; Shumaisi, o local do tratado de Hudaybiyyah; o local de nascimento do Santo Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele); Dar al-Arqam; a ravina de Abu Talib; Jabal al-Nur; a caverna; Kuh-e Sattar; as ruínas de Ta’if; Masjid al-Khayf; Jabal al-Rahmah de Uhud, onde o Santo Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) colocou cinquenta arqueiros de guarda; Khaybar; os vestígios de Mada’in Salih; Tabuk; ‘Uqbah — onde os Companheiros do Sábado pescavam; o vale de Musa (que a paz esteja sobre ele); Jabal Musa (que a paz esteja sobre ele); o local de trabalho de Hazrat Harun, entre outros. O resultado desta viagem do Maulana, realizada para fins de pesquisa e educação, foi a inclusão no Tafhim al-Qur’an de fotografias expressivas desses locais e ruínas. Além disso, foram reunidas as informações mais recentes sobre os assuntos descritos no texto original do Sagrado Alcorão.
A contribuição do Maulana para a Universidade de Medina
Pouco depois de concluir sua segunda viagem ao Oriente Médio, o Maulana teve novamente de ir à Arábia Saudita, em dezembro de 1960. Dessa vez, foi a convite do xá Saud. Há muito tempo, o xá Saud acalentava o desejo de fundar uma universidade islâmica em Medina. Para elaborar o projeto inicial dessa universidade proposta, convocou uma reunião de alguns especialistas. O Maulana Maududi participou dessa reunião como “hóspede real”.
O Maulana Maududi já havia preparado o projeto da Universidade Islâmica e o levou consigo. Entregou uma cópia desse projeto a cada membro participante da reunião. Após uma discussão detalhada e pequenas alterações, o plano do Maulana foi aprovado por unanimidade, e a Universidade Islâmica de Medina foi fundada com base nele. O xá Saud pediu ao Maulana que fosse a Medina, examinasse o local e os edifícios da universidade e desse os conselhos necessários. Em seguida, o Maulana foi a Medina.
Como gesto de gratidão, o xá Saud nomeou o Maulana membro permanente do corpo diretivo da Universidade Islâmica de Medina. O xá Saud também prometeu diversas oportunidades e facilidades para os estudantes paquistaneses. Enquanto isso, um número considerável de estudantes do Paquistão já estudava nessa universidade.
Durante esta viagem, o Maulana conheceu muitas pessoas. Professores e estudantes da Universidade de Riade conversaram com o Maulana sobre diversos assuntos. O Maulana proferiu discursos em várias ocasiões.
Nessa ocasião, foi elaborado o programa de divulgação islâmica na África. A convite do Maulana, feito em nome da Anjuman Himayat-e-Islam de Nairóbi, foi preparado um amplo programa. Os muçulmanos do Quênia também aguardavam com grande entusiasmo a chegada do Maulana. Mas, infelizmente, por várias razões, a viagem do Maulana à África não foi possível.
Após o regime militar
Foi mencionado anteriormente que, em 8 de outubro de 1958, o regime militar foi instaurado no Paquistão. Naquela época, todos os partidos políticos do Paquistão foram declarados ilegais. Consequentemente, todas as atividades políticas do país cessaram. É desnecessário dizer que, assim como as atividades dos demais partidos, também foram suspensas as atividades da Jamaat-e-Islami. Em consequência disso, Maulana Maududi pôde fazer pleno uso do inesperado tempo livre que lhe foi concedido. Sua viagem de vários meses pelo Oriente Médio foi especialmente importante. Havia muito tempo que ele acalentava o desejo de visitar os locais históricos importantes mencionados no Alcorão. Seu antigo anseio foi finalmente realizado. Além disso, a pedido do xá Saud, ele também teve tempo para elaborar um grandioso projeto preliminar para a Universidade Islâmica de Medina. Ao visitar pessoalmente a “Terra do Alcorão” e registrar suas experiências concretas relacionadas a ela, ele supriu uma grande lacuna na literatura tafsirí; e não há dúvida de que a Universidade Islâmica de Medina, fundada com base em seu projeto, permanecerá como uma realização do mundo islâmico.
De todo modo, o regime militar chegou ao fim em 1962 e, em julho do mesmo ano, foi aprovada na Assembleia Nacional do Paquistão a Lei dos Partidos Políticos. Com base nessa lei, as atividades dos partidos políticos foram retomadas. Os antigos partidos políticos começaram a se reorganizar. Antes de todos os demais, o trabalho organizacional da Jamaat-e-Islami voltou a prosseguir, como antes, com pleno vigor.
Conferência de Toda a Jamaat-e-Islami do Paquistão
O Majlis-e-Shura (Conselho Central) da Jamaat-e-Islami anunciou que, em outubro de 1963, seria realizada em Lahore uma conferência de toda a Jamaat-e-Islami do Paquistão. Ao observar a sólida organização e a crescente popularidade da Jamaat-e-Islami sob a vigorosa liderança de Maulana Maududi, o partido no poder ficou constrangido. Para impedir a realização da conferência, o governo do Paquistão Ocidental inicialmente se recusou a autorizar qualquer local. Mais tarde, embora tenha sido autorizado um local inadequado, não foi concedida permissão para usar microfones. Em oposição a isso, o uso de microfones foi proibido em todo o Paquistão Ocidental. Ainda assim, quando a conferência de dez a doze mil pessoas começou sem microfones, um grupo de bandidos contratados provocou distúrbios, e um trabalhador inocente da Jamaat foi baleado e morto em plena luz do dia, diante dos olhos da polícia. Apesar de todas essas ocorrências, os trabalhos da conferência foram concluídos com extrema paciência e tolerância.
Quero apresentar aos leitores um breve relato dessa conferência, para que possam compreender plenamente o que de fato aconteceu. O governo não deixou de empregar nenhum artifício para frustrar essa conferência. Como, após quase dez anos, estava prestes a ocorrer uma conferência de âmbito paquistanês, esperava-se a participação de dez a doze mil trabalhadores. Embora fosse necessário um campo amplo para isso, o governo autorizou apenas um local estreito entre Bhati Gate e Taksali Gate. Os vagões ferroviários reservados para os trabalhadores que desejavam participar e que vinham de lugares distantes foram cancelados pouco antes da partida. Em seguida, recusou-se a autorização para o uso de microfones. Manter a disciplina de uma conferência com milhares de pessoas sem microfones era praticamente impossível. Tampouco se podia renunciar ao direito democrático de usar microfones. Por isso, foi impetrado um recurso no Tribunal Superior. Como se previa que a decisão do Tribunal Superior seria favorável à Jamaat, antes mesmo de sua publicação, por meio de um decreto, o uso de microfones foi proibido em todo o Paquistão Ocidental. Naturalmente, em circunstâncias especiais, as autoridades distritais poderiam autorizar o uso de microfones, se assim desejassem. Aproveitando essa possibilidade, solicitou-se às autoridades distritais de Lahore permissão para usar microfones. As autoridades distritais recusaram-se a concedê-la, alegando que os moradores do bairro onde a conferência da Jamaat estava sendo realizada não apreciavam esse tipo de conferência. Afirmava-se que eles haviam solicitado que não fosse concedida autorização para o uso de microfones; caso contrário, haveria risco de perturbação da paz.
Quando a Jamaat comunicou isso aos moradores do bairro, eles ficaram perplexos e declararam que se tratava de uma acusação absurda. Além disso, os moradores protestaram veementemente, informando que não haviam apresentado nenhuma objeção ao uso de microfones. Entre os moradores que assinaram essa declaração de protesto havia dez advogados e um professor.
Mesmo depois de tudo isso, não se obteve autorização para usar microfones. Os trabalhos da conferência deveriam começar em 25 de outubro. Já haviam sido providenciados vários pavilhões com seiscentas tendas, cem casas de banho, trezentas latrinas, telefones, iluminação elétrica e outros recursos. As pessoas começaram a chegar dois dias antes. Em uma reunião extraordinária do Majlis-e-Shura Central (Conselho Central), realizada em 25 de outubro, decidiu-se que a conferência prosseguiria sem microfones.
À tarde, fomos ao acampamento. Vimos que o lugar, outrora cheio de lixo malcheiroso, agora resplandecia com uma beleza celestial incomparável. Os encontros, abraços, conversas e apresentações mútuas entre os amigos feridos, vindos de lugares distantes, fizeram com que a noite avançasse bastante.
No dia seguinte, às nove da manhã, Maulana Maududi faria o discurso de abertura da conferência. Havia uma multidão de quinze a vinte mil pessoas. Maulana havia mandado imprimir seu discurso. Sua instrução era que, no exato momento em que começasse o discurso de abertura do palco, alguns trabalhadores, posicionados entre os ouvintes a cada quinze ou vinte côvados, subissem em mesas e lessem em voz alta o discurso impresso. Assim, seria possível fazer com que todos ouvissem o discurso ao mesmo tempo, sem microfone. E assim o trabalho começou, como um relógio.
Cerca de dez minutos depois do início, alguns bandidos invadiram subitamente o recinto da reunião. Embriagados, estavam quase desvairados. Começaram a perturbar a ordem da reunião; de repente, a tenda pegou fogo, e do lado de fora ouviram-se alvoroço e o som de disparos de pistola. Várias vezes também atiraram contra Maulana, mas todos os tiros erraram o alvo. Naquele momento, ouvia-se de todos os lados: “Maulana, sente-se; Maulana, sente-se.”
Mas Maulana, permanecendo de pé como antes, disse com voz tranquila: “Se eu me sentar, então quem ficará de pé?”
Era, de fato, a resposta apropriada do dirigente do movimento islâmico. Se, no momento extremo do perigo, aquele que lidera se sentar, virar as costas e perder o ânimo, quem poderá duvidar de que esse movimento morrerá prematuramente? Por isso, naquele momento de perigo, ele desempenhou plenamente o papel de um líder capaz do movimento islâmico: permaneceu de pé, destemido, firme e inabalável. Quão grande era sua devoção ao ideal; que preparação sublime tinha para sacrificar a vida pela satisfação de Deus! Quão completa era sua submissão à vontade de Alá!
Os membros da Jamaat conseguiram, com infinita paciência e sabedoria, dominar completamente toda a situação e restabelecer a ordem em dez ou quinze minutos. A polícia, porém, permanecia de pé, assistindo ao espetáculo. De qualquer modo, Maulana retomou seu discurso de abertura e o concluiu. Não houve mais nenhum tipo de desordem.
Mas não percebemos que, em quinze ou vinte minutos, um verdadeiro cataclismo havia devastado tudo do lado de fora do recinto da reunião. Os membros da Jamaat, bem instruídos, altamente capacitados e pacientes, que estavam encarregados de manter a ordem, não permitiram que soubéssemos de nada.
Depois do discurso de abertura, saímos do recinto da reunião e do acampamento. Parecia que um furacão, com uma extensão de cem ou cento e cinquenta milhas, havia passado por ali. As numerosas lojas, barracas de comida e chá montadas para a conferência, o acampamento dos membros da Jamaat de Lahore encarregados da vigilância e tudo o mais estavam completamente destruídos, despedaçados e espalhados pela poeira. Uma hora depois, soubemos que o membro da Jamaat Allah Bakhsh havia sido martirizado por um tiro de pistola disparado por um bandido. A esposa e as filhas do mártir estavam no acampamento das mulheres. O acampamento das mulheres também havia sido atacado pelos bandidos. Fiquei, porém, atônito de espanto ao ver que, apesar de tudo aquilo ter acontecido, não havia tumulto, correria, lamentos nem qualquer sinal de preocupação ou agitação. Nunca poderia ter imaginado um ambiente tão incomparável, banhado em paciência. Onde havia assassinato, não havia gritos; onde havia incêndio, não havia lamentação.
Considero necessário apresentar o discurso inaugural do Maulana para conhecimento dos leitores.
Discurso inaugural do Maulana Maududi na conferência da Jamaat-e-Islami em Lahore
(Durante esse discurso, o trabalhador da Jamaat, Allah Bakhsh, foi martirizado pelas balas de criminosos contratados.)
Amigos!
Hoje, pela primeira vez desde 1957, tivemos a oportunidade de nos reunir em uma conferência de todo o Paquistão. Há vinte e dois anos, a Jamaat-e-Islami foi fundada no coração desta cidade, com apenas 75 membros. Hoje, estamos novamente reunidos no coração desta cidade. É uma infinita misericórdia de Allah Ta’ala que, apesar de todas as nossas falhas, Ele tenha aceitado a sinceridade com que iniciamos este humilde serviço à religião. Ele concedeu tal bênção a esse trabalho que hoje, em todas as regiões do Paquistão, podem ser encontrados milhares de membros e apoiadores da Jamaat, pessoas que simpatizam com ela e pessoas influenciadas por ela; além disso, sua influência alcançou também diversas partes do mundo fora do país. Não tínhamos capacidade para alcançar esse resultado por nossos próprios esforços. Tudo isso é uma dádiva de Deus e o resultado extraordinário da ajuda e do apoio provenientes de Sua Pura Essência. Por isso, oferecemos-Lhe nossos agradecimentos com plena sinceridade.
Amigos!
Na história da Jamaat-e-Islami do Paquistão, não se encontrará um único dia que não tenha caído sob a ira dos governantes deste país nem lhes tenha ferido os olhos como um espinho. Durante os últimos dezesseis anos, todos os que chegaram ao poder aqui consideraram a existência desta Jamaat incômoda e intolerável. Lançaram campanhas de propaganda falsas contra nós, direta e indiretamente. Novas calúnias foram constantemente difundidas contra nós. Nossos jornais e publicações foram fechados. Nossos bens e recursos foram confiscados. Foram criados diversos obstáculos ao nosso trabalho. Tivemos de cumprir penas de prisão. Depois, durante o regime militar, nossa organização foi desmantelada e foram destruídos todos os trabalhos construtivos que havíamos construído, ao longo de anos de esforço, com os recursos obtidos pelo trabalho incansável de nossos obreiros e apoiadores. Contudo, nunca fomos concorrentes pelo poder. Jamais esperamos obter o poder em nossas próprias mãos em lugar de outros. Nossa reivindicação sempre foi, e continua sendo, que, uma vez que este país foi conquistado em nome do Islã, um modo de vida plenamente islâmico deveria ser estabelecido aqui. Repetimos muitas vezes, com plena sinceridade, que apoiaríamos de todo o coração quem realizasse honestamente essa tarefa e que, longe de desejar compartilhar o poder com essa pessoa, não pediríamos dela qualquer recompensa. Mas todos os que chegaram ao poder aqui, por um lado, usando os slogans do Islã, tentaram afastar ainda mais este país do Islã e, por outro, considerando-nos um obstáculo ao seu domínio, empregaram também todas as armas mais vis e desprezíveis para nos subjugar e eliminar.
Não estou relembrando esta história como uma acusação. O favor demonstrado pelos governantes para conosco não é uma nova benevolência. Meu único objetivo é despertar em nós esse sentimento. Durante dezesseis anos, fomos alvo de benevolências semelhantes e ainda mais severas; e, mesmo trabalhando diante de tudo isso, nosso movimento avançou tanto pela misericórdia de Deus. Portanto, não fiquem desanimados apenas porque tentaram frustrar esta nossa conferência privando-nos do microfone. Até agora, nenhuma medida mais severa que essa foi capaz de nos causar qualquer dano; pelo contrário, provou-se benéfica para nós. Então, que dano pode nos causar essa mesquinha e insignificante tentativa? Se houver dano, será devido à nossa própria ignorância, não a qualquer ataque de outros. Naturalmente, se Allah assim quiser, isso será outra questão.
Amigos!
Aquele que precisa trabalhar pela religião de Deus deve necessariamente possuir duas qualidades. Uma é o sabr, e a segunda é a hikmah, ou seja, um discernimento saudável. A exigência do sabr é que, quando algum obstáculo for criado em seu caminho, você não se deixe agitar nem perca o equilíbrio. Pelo contrário, diante de cada obstáculo, deve manter intacta a sua determinação e, protegendo a mente e o coração do calor da agitação, seguir um caminho baseado num discernimento saudável.
Um discernimento saudável significa não se acostumar a seguir de olhos fechados apenas um caminho determinado. Pelo contrário, você deve ter a capacidade de encontrar dez outros caminhos assim que um deles for bloqueado. Aquele que não possui essa hikmah senta-se tão logo vê um caminho fechado. E, se além disso for impaciente, quebra a própria cabeça ao colidir com o obstáculo ou abandona aquele caminho. Mas aquele a quem Allah concedeu tanto hikmah quanto sabr torna-se como uma correnteza em movimento. Nada pode prejudicar o seu destino. O enorme bloco de pedra fica perplexo, e o rio corre por outro lado rumo ao seu destino.
Fazer discursos em reuniões e conferências para transmitir a nossa mensagem a milhares de pessoas não é o único meio de levar a nossa mensagem e ampliar a dawah. Sem dúvida, também é um método para esse trabalho. Mas, se ele for fechado para nós, não há motivo para preocupação. Formem grupos de três ou quatro pessoas e espalhem-se por toda a cidade de Lahore. Vão de casa em casa, de loja em loja, de mesquita em mesquita. Encontrem-se individualmente com cada pessoa. Expliquem a cada uma o que é a Jamaat-e Islami, qual é o seu sistema e a sua organização, qual é o seu objetivo, qual é o seu método de trabalho, que coisas ela deseja corrigir e quais boas ações deseja estabelecer. Apresentem a literatura da Jamaat àqueles que desejarem compreender mais. Depois de estudá-la, eles poderão formar a sua própria opinião. Não desperdicem tempo com os que não demonstram interesse. Pelo contrário, dediquem tempo justamente aos interessados. E, com aqueles que quiserem entrar em debates, avancem sem entrar em conflito. O vosso método—
********************************************
Convidai ao caminho de vosso Senhor com sabedoria e boa exortação. (Surata An-Nahl, versículo 125)
A vossa dawah deve estar de acordo com esta orientação divina. A vossa linguagem será doce. O vosso caráter será imaculado. O vosso comportamento será cortês. Respondereis ao mal com o bem. Que desejais verdadeiramente estabelecer o bem no lugar do mal, isso não deveis provar apenas com palavras, mas também por meio das vossas ações e da forma como vos expressais. Depois, crede: a misericórdia de Allah será vossa aliada, e os anjos de Deus, tornando-se vossos colaboradores, realizarão muito mais trabalho do que aquele que vós mesmos realizardes.
Durante estes dias da conferência, muitos olhos vos observarão de diferentes perspectivas. Por que trouxestes aqui a essência da vossa Jamaat e a deixastes exposta? Sereis testados em inúmeras pedras de toque. Agora, se quiserdes provar que sois puros ou adulterados, isso dependerá das vossas ações. O mundo é um avaliador muito impiedoso. Não podereis ser reconhecidos como genuínos em sua pedra de toque por nenhum artifício artificial nem por qualquer ostentação externa. Na verdade, mesmo que sejais genuínos, ele só reconhecerá a vossa pureza depois de muita consideração e hesitação. Mas crede: se provardes a vossa pureza por meio das vossas ações, por maior que seja o empenho das forças opositoras em provar que sois adulterados, elas acabarão prejudicando a si próprias, e não a vós. Não vos assusteis nem um pouco ao presenciarem ataques falsos. A sua chegada é como uma tempestade, mas desaparece num instante como uma bolha. E, depois de ser completamente destruída, a sujeira oculta em seu interior vem à tona diante dos olhos das pessoas de tal modo que o mundo inteiro passa a condená-la. Portanto, não deveis pensar em combater a falsidade. Deveis pensar na vossa própria veracidade. Se sois verdadeiros, não tereis de combater a falsidade. Allah a combaterá e fará da falsidade de hoje uma lição, assim como fez da falsidade de cada época anterior uma lição.
Por fim, quero dizer o seguinte: qualquer pessoa que considere esta Jamaat e este movimento um perigo terrível para si emprega toda a sua força contra mim. Isso naturalmente é desagradável para aqueles que me amam. Vocês se defrontarão repetidamente com esta situação. Meu receio é que, em vez de ampliarem sua da‘wah, acabem gastando seu tempo e sua energia na minha defesa. Peço a todos os meus irmãos íntimos que tenham certeza de que, pela misericórdia de Deus, não preciso de nenhuma defesa. Não vim parar aqui de repente, vindo de algum espaço sideral. Venho trabalhando nesta terra há muitos anos. Milhões de pessoas conhecem diretamente o meu trabalho. Meus escritos estão espalhados não apenas neste país, mas também por vastas regiões do mundo, e uma das misericórdias do meu Senhor para comigo é que Ele me manteve livre de mácula. Não é fácil manchar a minha reputação. Não é tão simples que qualquer um se levante, faça dez ou vinte acusações falsas e passe uma pincelada de tinta preta no meu rosto. Especialmente pessoas que não têm passado nem futuro, pessoas que a sequência dos acontecimentos elevou ao topo apenas por alguns dias. Jogando esse jogo, insha’Allah, elas não conseguirão me causar dano algum. Portanto, eu mesmo estou tranquilo, e vocês também permaneçam tranquilos. Em vez de se ocuparem da minha defesa, continuem convocando os servos de Allah para o caminho de Allah. Confio no meu Senhor. Se eu tiver servido à Sua religião com intenção sincera, então Ele próprio me defenderá.
Foi pela infinita misericórdia e pela incomparável majestade de Allah que, apesar de terem recorrido a todo tipo de artimanha, não conseguiram frustrar a conferência, nem foi possível causar qualquer dano ao Maulana ou à Jamaat. Além disso, a Jamaat-e-Islami atraiu os olhares solidários de todo o povo do país. Como os pequenos grupos de três ou quatro pessoas, por orientação do Maulana, se espalharam pela cidade, não apenas obtiveram a benevolência do povo, como cerca de dez mil pessoas assinaram as fichas de apoio à Jamaat e ingressaram nela.
Depois de toda aquela confusão do primeiro dia, os dois dias restantes transcorreram bem. Todos nós abandonamos o pavilhão da conferência. Em seguida, reunimo-nos na residência do Maulana, situada no Parque 5-E Jaildar, e nós, membros da Shura Central, começamos a examinar e revisar os diversos assuntos da conferência. Em certo momento da discussão, propusemos todos que, como o governo de Ayub estava decidido a tirar a vida do Maulana e erradicar a Jamaat, fossem designados dois guardas armados para a residência do Maulana, por motivo de segurança.
Com um leve sorriso, o Maulana rejeitou a proposta e disse: “Vejam, estou liderando um movimento islâmico, no qual o risco de vida é inevitável a cada momento. Por um lado, aconselharia vocês a correrem risco de vida e, por outro, designaria guardas para minha própria segurança; poderia haver algo mais ridículo do que isso? Isso também seria indigno de mim.”
Após permanecer em silêncio por um momento, acrescentou: se a morte de alguém não for do agrado de Allah, o mundo inteiro poderá tentar, mas não conseguirá matá-lo. E, se for Sua vontade, um pai pode até perder a vida pela bala disparada por seu próprio filho.
O Maulana deixou escapar algumas palavras como que falando consigo mesmo. Quando, durante os disparos na conferência, lhe pediram que se sentasse, ele havia dito: “Se eu me sentar ao ver o perigo, quem permanecerá de pé?” Essa declaração destemida do Maulana encorajou e inspirou os trabalhadores cem vezes mais. Era, de fato, a declaração de um líder ideal. A declaração desta vez era ainda mais importante. Contudo, suas palavras não eram uma profecia, pois os seres humanos não têm capacidade nem autoridade para fazer profecias. A declaração do Maulana dizia respeito ao provável resultado, com base na análise do curso e da dinâmica do sistema social vigente. Mas, por uma questão surpreendente, suas palavras se tornaram realidade em apenas três ou quatro meses. Por ordem de Ayub Khan, o então governador do Paquistão Ocidental quis transformar a conferência da Jamaat num palco ensanguentado, trazendo capangas contratados de Kalabagh. Três ou quatro meses depois, ele perdeu a vida em sua própria casa, atingido pelos tiros de pistola disparados por seu próprio filho.
A Jamaat-e-Islami é declarada ilegal
Como já foi dito, desde antes da conferência os ministros centrais e provinciais vinham aquecendo o ambiente com uma declaração inflamatória após outra contra a Jamaat-e-Islami e o Maulana Maududi. Depois, ao verem o êxito vitorioso da conferência, ficaram desesperados, decididos a destruir a Jamaat a qualquer custo. Assim, em 6 de janeiro de 1964, a organização Jamaat-e-Islami foi declarada ilegal em todo o país, e sessenta líderes da Jamaat, incluindo o Maulana Maududi, foram presos e enviados para a prisão.
O partido mais sólido, constitucional e amante da paz do Paquistão foi expulso do campo político, e seus líderes foram exilados nas celas escuras das prisões. Os líderes de todos os partidos políticos do país (exceto o partido governamental) expressaram veementes protestos. Protestos e gritos de condenação ergueram-se de quase todos os países muçulmanos. Mas o governo, depois de eliminar a Jamaat-e-Islami, permaneceu em silêncio, respirando aliviado.
É especialmente digno de nota que a revista mensal revolucionária Tarjuman-ul-Quran, publicada por Maulana Maududi em 1932, vinha sendo editada regularmente até então. Durante os trinta e um anos anteriores, nenhum dos governos da Índia antes da Partição ou do Paquistão após a Partição tivera a coragem de suspender essa revista. Contudo, o chamado governo popular e democrático do Paquistão, posterior ao regime militar, proibiu sua publicação por seis meses, a partir de janeiro de 1964, por um motivo insignificante.
É universalmente reconhecido que o Tafsir do Alcorão elaborado por Maulana, Tafhim-ul-Quran, constitui uma contribuição inestimável para a literatura do Tafsir. Tafhim-ul-Quran foi o esforço de toda a vida de Maulana. Contudo, depois que a Jamaat-e-Islami foi declarada ilegal e ele foi enviado à prisão, nem sequer lhe foi permitido escrever o Tafsir do Sagrado Alcorão enquanto estivesse encarcerado. Finalmente, porém, após os fortes protestos da população amante do Islã, o governo concedeu a permissão.
O processo da Jamaat
Algum tempo depois, foram apresentados requerimentos de habeas corpus nas Altas Cortes do Paquistão Ocidental e do Paquistão Oriental contra a ordem governamental que declarara ilegal a Jamaat-e-Islami. A Alta Corte do Paquistão Ocidental decidiu a favor do governo, enquanto a Alta Corte do Paquistão Oriental decidiu a favor da Jamaat. Mais uma vez, em nome de Maulana Maududi, foi interposto recurso perante a Suprema Corte contra a decisão da Alta Corte do Paquistão Ocidental. Estando certa e inevitável a vitória da verdade, a honrosa Suprema Corte, em 25 de setembro, proferiu uma decisão clara em favor da Jamaat-e-Islami, estabelecendo um precedente histórico de justiça adequada e imparcial.
As respostas claras e destemidas que Maulana Maududi deu perante o Tribunal e a Alta Corte do Paquistão Ocidental às acusações com base nas quais o governo declarou ilegal a Jamaat-e-Islami e encarcerou seus líderes são reproduzidas abaixo para conhecimento de todos.
Uma das acusações específicas era que Maulana Maududi havia emitido uma fatwa declarando haram o jihad da Caxemira. Essa acusação continuou a ser repetida incessantemente. A questão da Caxemira é, para o Paquistão, uma questão de vida ou morte. O objetivo dos acusadores era incitar o povo contra Maulana Maududi, divulgando que ele se opunha à solução da questão da Caxemira. Comentários dos líderes populares da Caxemira sobre esse assunto também foram incluídos ao final, para que a doença mental dos acusadores pudesse tornar-se evidente aos leitores e ao público.
A resposta de Maulana Maududi
Ao Secretário do Interior do Governo do Paquistão Ocidental—
Ilustríssimo Senhor,
Em primeiro lugar, apresentarei brevemente as minhas objeções legais aos motivos da minha prisão e detenção apresentados por Vossa Senhoria na carta datada de 13-1-64. Em seguida, farei um comentário geral sobre eles e, por fim, descreverei cada um dos motivos separadamente.
Objeções legais à detenção
As minhas objeções legais aos motivos da prisão e da detenção são as seguintes:
1. Fui preso em 6 de janeiro de 1964, e os motivos da minha prisão e detenção foram-me comunicados na noite de 13 de janeiro. Contudo, não há entre esses motivos sequer um que não tenha sido mencionado no comunicado à imprensa. Esse comunicado foi emitido pelo Governo em 6 de janeiro e publicado em todos os jornais do país em 7 de janeiro. Isso significa que os motivos da detenção foram elaborados em 6 de janeiro. No entanto, foram-me enviados com um atraso de oito dias. É evidente que isso contraria a lei com base na qual fui preso, cujo artigo 3.º, parágrafo (6), estabelece que a pessoa detida deve ser informada dos motivos da sua prisão e detenção tão cedo quanto possível. Pode-se apresentar alguma razão razoável para esse procedimento, segundo a qual o resumo do comunicado à imprensa publicado em 6 de janeiro não poderia ter sido preparado em menos de oito dias?
2. Já no segundo dia após receber a sua carta, solicitei-lhe que me fosse dada autorização para obter de fora os livros e documentos necessários a fim de responder aos motivos da detenção. Contudo, Vossa Senhoria demorou ainda mais a conceder essa autorização, e não consegui obter os livros e documentos necessários antes de 4 de fevereiro. Assim, Vossa Senhoria deixou passar um mês inteiro de tal maneira que não pude sequer aproveitar a oportunidade, concedida nominalmente pela Portaria de Segurança Pública a qualquer pessoa detida, de apresentar a sua versão. Não há nenhuma razão razoável para a morosidade dos procedimentos do seu gabinete que causou esse atraso. Por que deveria sofrer a pena dessa demora a pessoa cuja liberdade vocês usurparam?
3. No requerimento de 14 de janeiro, também solicitei a Vossa Senhoria que me fosse permitido consultar os meus advogados para responder aos motivos da detenção. Em 1.º de fevereiro, apresentei novamente esse pedido. Vários dias depois, por intermédio do Superintendente Distrital, recebi da parte de Vossa Senhoria a resposta de que eu poderia consultar os advogados. Contudo, durante esse encontro estaria presente um funcionário da C.I.D. Sem dúvida, essa era uma condição injusta. Nessas condições, consultar um advogado sobre questões jurídicas era absolutamente inútil para mim. É totalmente incompatível com o bom senso e o conhecimento comum que, quando uma pessoa pretende consultar os seus próprios advogados sobre questões jurídicas para refutar uma acusação apresentada contra ela por uma determinada parte, um agente da outra parte — aquela contra a qual a acusação é dirigida — permaneça entre eles durante a conversa com o seu próprio advogado.
Suponha que a pessoa detida e seu advogado decidam que há possibilidade de apresentar um habeas corpus contra essa detenção. A presença de pessoas da C.I.D. nessa discussão significaria que, antes mesmo de o pedido de habeas corpus chegar ao tribunal, você já estaria informado de seu conteúdo e adotaria as medidas necessárias para fazê-lo fracassar. Isso não seria uma manifesta violação da justiça? [Sou grato pelo fato de que eles eliminaram essa minha acusação em 26 de fevereiro.]
4. Entre todas as razões de prisão e detenção que você apresentou nesta carta, exceto a sétima, todas as demais são vagas, obscuras e meras acusações. Não se pode saber, a partir delas, qual é a base dessas acusações. Apresentar ou não apresentar as razões da detenção dessa maneira dá no mesmo.
5. Entre as razões de detenção que você declarou, a quinta afirma que, antes de a Jamaat-e-Islami ser considerada ilegal nos termos da Lei Penal de 1908, em sua forma emendada, ela estava envolvida em certas atividades, e que você, como seu Amir, participava dessas atividades. Por isso, você foi detido.
Esta detenção ocorreu exatamente no dia e à hora em que a Jamaat-e-Islami foi declarada ilegal com base na Lei Penal de 1908, em sua forma emendada. O significado claro disso é que esta detenção é uma punição por minhas atividades passadas (mesmo que, para fins de argumentação, as aceitemos por um momento). Contudo, a lei com base na qual fui preso e detido lhe confere o poder de detenção preventiva, não de detenção punitiva. Dessa forma, você למעשה ultrapassou os limites da lei. Se o governo temia que, mesmo depois de a Jamaat-e-Islami ser declarada ilegal, eu continuasse a realizar a atividade pela qual ela foi declarada ilegal, então existiam, para esse fim, os incisos 1, 2 e 3 da seção 17 da Lei Penal de 1908, em sua forma emendada. Por que era necessário utilizar a Portaria de Segurança Pública? Isso não prova que o governo estava extremamente ansioso para me prender? Por isso, em vez de esperar sequer um pouco para verificar se eu realizaria ou não essa atividade depois de a Jamaat ser declarada proibida, o governo me puniu por minhas atividades passadas por meio da Portaria de Segurança Pública.
6. No que diz respeito às quinta e sétima razões da detenção, a portaria por meio da qual você me prendeu e deteve está fora de seu âmbito de aplicação. Mesmo que, para fins de argumentação, se admita que realizei todas as atividades que você alegou contra mim, você não tem o direito de tomar medidas contra mim por meio da Portaria de Segurança Pública.
7. A sétima razão está abrangida pela Portaria de Imprensa e Publicações. Além disso, por meio dela, você já havia fechado meu jornal Tarjuman-ul-Quran por seis meses. Agora, de maneira totalmente injusta e ultrapassando os limites da lei, por meio da Portaria de Segurança Pública, também fui punido pela publicação deste artigo.
Algumas considerações gerais sobre as razões da detenção
Depois de apresentar essas objeções legais, quero examinar as razões; antes de examiná-las uma por uma, quero declarar clara e firmemente, com plena consciência de minha responsabilidade, que as razões apresentadas em sua carta para minha prisão e detenção não são as razões reais. Pelo contrário, as verdadeiras razões são outras, e são razões cuja divulgação causa embaraço até mesmo ao governo.
A primeira razão é que, durante um discurso em uma reunião pública em Rawalpindi, em 1963, eu havia reivindicado que, assim como Kalat, Kharan, Makran, Bahawalpur e os demais Estados fronteiriços haviam sido integrados ao Paquistão Ocidental, os importantes Estados de Swat, Dir e outros também deveriam ser integrados ao Paquistão Ocidental. E que os habitantes dessas regiões deveriam receber as mesmas facilidades e direitos de que desfrutavam os demais cidadãos do Paquistão. Nossa reivindicação estava fundamentada em bases plenamente legais: quando todos os Estados importantes da antiga Índia britânica foram incorporados ao Paquistão e à Índia, por que não remover também esse último vestígio da era da escravidão? O fato de eu ter expressado uma razão tão clara e precisa deixou alguns altos funcionários do governo inquietos, e eles explodiram de ira.
Em segundo lugar, graças aos esforços da Jamaat-e-Islami, o partido no poder sofreu derrota em duas eleições suplementares, em Rawalpindi e Hyderabad. Isso atiçou o fogo da ira dos governantes. Essas duas eleições foram realizadas, respectivamente, em setembro e outubro de 1963.
Em terceiro lugar, os governantes consideravam o movimento bem organizado da Jamaat-e-Islami um enorme obstáculo no caminho de sua própria Liga Muçulmana da Convenção e julgavam necessário, antes das próximas eleições, destruir o partido mais bem organizado da oposição e afastar seus líderes do campo político. Pois, ao observar os resultados das eleições suplementares, haviam compreendido que, nas próximas eleições, a Jamaat-e-Islami se provaria uma forte concorrente do partido governista.
Por essas razões, descrevo em ordem cronológica as medidas que foram tomadas sucessivamente contra mim e contra a Jamaat-e-Islami.
Em 21 de setembro de 1963, um funcionário responsável do Ministério Central do Interior telefonou para me ameaçar, dizendo: reconheça publicamente, nos jornais, seu erro a respeito do que você disse em uma declaração publicada contra a Liga da Convenção; caso contrário, o governo tomará medidas severas contra você (ver Nawa-i-Waqt, 22 de setembro de 1963). Enviei imediatamente esse episódio de ameaça a vários jornais do país para publicação, e ele foi publicado. Pois isso permitia deduzir que medidas severas seriam tomadas contra mim e contra a Jamaat-e-Islami.
Em 16 de outubro, foi negada a autorização para o uso de alto-falantes na Conferência de Toda a Jamaat-e-Islami do Paquistão. Entretanto, entre 14 de setembro e 13 de outubro, realizaram-se sucessivamente em Lahore sete ou oito reuniões públicas desse tipo, e em todas elas foi concedida autorização para o uso de alto-falantes, mesmo sob a vigência da Seção 144. Nessas circunstâncias, negar a autorização para uma conferência à qual chegariam cerca de sete mil delegados de todas as regiões do Paquistão e da qual milhares de pessoas da cidade de Lahore pretendiam participar constituía uma prova clara de que, na mente dos governantes, estava ativo um impulso especial de resistência contra a Jamaat-e-Islami.
Em 17 de outubro, foi apresentada uma petição ao Tribunal Superior do Paquistão Ocidental para que fossem tomadas medidas contra a injustiça acima mencionada cometida pelo magistrado distrital de Lahore. A decisão estava prevista para 22 de outubro. Contudo, antes que o Tribunal Superior anunciasse sua decisão, o governador do Paquistão Ocidental, por meio de um decreto especial, proibiu o uso de alto-falantes em toda a província. Isso provou claramente que o poder do governador de legislar por meio de decretos havia sido usado especificamente para frustrar a conferência da Jamaat-e-Islami.
A conferência da Jamaat-e-Islami começaria em 25 de outubro. Exatamente um dia antes, o ministro do Interior do governo central publicou uma declaração extremamente severa e inflamatória contra mim e contra a Jamaat-e-Islami, e, na manhã do dia da conferência, também foram publicadas nos jornais declarações de alguns ministros do governo provincial. Qual era a razão para que, justamente naquele momento, irrompesse de repente uma tempestade desse tipo de ira? Havia alguma outra razão além desta: o governo não conseguia tolerar a manifestação da força e da organização da Jamaat-e-Islami em um lugar central como Lahore?
Na manhã de 25 de outubro, foram provocados atos de vandalismo na reunião da Jamaat-e Islami. Cerca de trinta a quarenta mil pessoas de Lahore testemunharam com os próprios olhos a conduta adotada pela polícia naquela ocasião. Por meio dos jornais, todo o país tomou conhecimento do ocorrido. Relatos desse vergonhoso incidente chegaram também a vários países fora do Paquistão. Em plena luz do dia, diante dos olhos de todos, foram levados arruaceiros ao local. Eles incendiaram o acampamento, cortaram as cordas das tendas e saquearam as bancas de livros. Também atiraram tijolos e garrafas de água com soda contra o acampamento das mulheres. Retiraram exemplares do Alcorão Sagrado de uma banca de livros e os arremessaram contra a assembleia como se fossem tijolos e pedras. Finalmente, chegaram ao ponto de matar a tiros de pistola uma pessoa inocente.
Tudo isso estava acontecendo na presença da polícia, que permanecia de pé, rindo. Cada um desses atos era algo que deveria ter provocado a intervenção policial. Contudo, nenhum arruaceiro foi preso. A própria polícia também não capturou o assassino. Pelo contrário, os trabalhadores da Jamaat o agarraram e o entregaram à força à polícia; somente depois de sua insistência repetida a polícia deteve o assassino. Quer as autoridades governantes reconheçam isso publicamente, quer não, sua consciência sabe muito bem quem fez tudo isso acontecer e com que propósito. Além disso, nenhum dos governantes responsáveis por manter a lei e a ordem em Lahore desconhece este segredo: quem foi que, pelas mãos dos guardiões da lei, desonrou a própria lei?
O objetivo para o qual essa abominável conspiração foi tramada era, na realidade, fazer com que os trabalhadores da Jamaat-e Islami entrassem, de uma forma ou de outra, em confronto com os arruaceiros e, depois de disparar contra eles, obter a oportunidade de declarar toda a Jamaat ilegal, considerando-a uma organização fomentadora de distúrbios. Contudo, a paciência e a contenção dos trabalhadores da Jamaat frustraram essa conspiração.
Passou-se então apenas uma semana. Para incriminar a Jamaat de qualquer maneira, tramou-se novamente outra conspiração contra ela. Em 6 de novembro de 1963, seriam realizadas as eleições da União da Universidade do Punjab. Apenas dois dias antes, Barakallah Khan, candidato à presidência da União, foi expulso da universidade. O resultado inevitável dessa medida — e foi exatamente isso que se tornou evidente — foi a disseminação de grande descontentamento entre os estudantes. Por isso, todos os candidatos a todos os cargos da União, cerca de 65 ao todo, retiraram simultaneamente suas candidaturas. Imediatamente, formaram um comitê de ação. Em 4 de novembro, os estudantes saíram da universidade em uma passeata. Levavam consigo um alto-falante. (Se essa passeata e o uso do alto-falante fossem ilegais, por que os responsáveis pela manutenção da paz e da ordem não os impediram ainda na universidade? Ao contrário, permitiram que a passeata avançasse tanto que a multidão aumentou enormemente e outros interessados em provocar confusão se juntaram a ela.) Então, de repente, perto de Charing Cross, investiram contra eles com cassetetes, dispersaram-nos e prenderam muitos de seus líderes. O objetivo claro dessas ações era provocá-los ainda mais, fazendo-os entrar em confronto com as forças da lei e da ordem, e depois atribuir toda a culpa à Jamaat-e Islami. A maneira como se investigaram esses acontecimentos desde o primeiro dia e como a investigação continuou até o fim torna plenamente evidente que o verdadeiro objetivo era incriminar a Jamaat-e Islami. Nas declarações que, naquela época, iam sendo publicadas nos jornais e transmitidas pelo rádio, desde as do Presidente do país até as dos ministros, também se percebia o reflexo desse mesmo objetivo. Isso demonstrava abertamente o quanto as autoridades governantes estavam ansiosas para envolver a Jamaat-e Islami naquela agitação estudantil. Apesar de todos os esforços, porém, a conspiração fracassou, e não foi encontrada nenhuma prova para responsabilizar a Jamaat pela agitação.
Por quanto tempo mais o governo poderia ficar esperando que a Jamaat-e Islami cometesse algum crime para então prendê-la? E como poderia ser que a Jamaat, que havia se tornado um obstáculo ao avanço da Liga da Convenção, não pudesse ser presa mesmo sem cometer crime algum?
A Lei Penal emendada e a Petition of Public Order foram mantidas no arsenal da lei precisamente para que pudessem ser usadas quando surgisse a necessidade de prender aqueles que não cometem crimes. Assim, em 6 de janeiro, por meio dessas duas armas, eu e minha Jamaat fomos caçados, e contra mim foram apresentadas as acusações descritas no comunicado oficial do governo de 6 de janeiro e nos motivos de minha prisão e detenção enviados por você.
A razão pela qual afirmo que essas acusações não são a verdadeira causa da medida tomada pelo governo é a seguinte: o governo iniciou sua campanha contra mim e contra a Jamaat-e Islami na terceira semana de 1963, e, nesse contexto, foram apresentadas acusações das quais duas — a agitação dos estudantes em Lahore e o artigo de Tarjuman-ul-Quran — dizem respeito a acontecimentos posteriores ao início dessa campanha. As demais acusações, por sua vez, estão relacionadas a assuntos e acontecimentos de vários anos atrás.
Agora discutirei separadamente cada uma das razões que você apresentou para minha prisão e detenção, desvendando sua verdadeira natureza.
Tomada do poder pela força
Sua primeira acusação é que o objetivo da Jamaat-e-Islami era tomar, pela força, a autoridade e o poder político; contudo, o senhor não disse de que maneira tomou conhecimento desse objetivo da Jamaat. Só pode haver duas maneiras de conhecer o objetivo de uma organização como a Jamaat: primeira, por meio de suas ações; segunda, por meio de sua constituição, de suas decisões e das declarações de seus responsáveis. Quanto às ações da Jamaat, pode-se dizer que o ministro do Interior do Governo do Paquistão, o senhor Habibullah Khan, reconheceu diante do mundo inteiro, em sua coletiva de imprensa de 23 de outubro de 1963, que “a Jamaat nem sequer infringiu a lei em suas atividades”. Consulte o relatório dessa coletiva nos jornais Pakistan Times e Dawn de 24 de outubro de 1963. Apresento a seguir uma descrição detalhada do segundo meio:
1. Em setembro de 1948, a Majlis-e-Shura da Jamaat-e-Islami declarou, por meio de uma resolução, a seguinte política:
“O esforço dela (isto é, da Jamaat-e-Islami) consiste em moldar completamente o sistema de vida do país (isto é, do Paquistão) segundo o molde do Islã. Para alcançar esse objetivo, esta Jamaat não considera lícito utilizar métodos e meios que sejam contrários à verdade e à honestidade ou que provoquem desordem e perturbação. Ela acredita no método democrático para a reforma e a revolução. Isto é, por meio da divulgação e da propaganda, corrigir as mentes, os pensamentos e o caráter, e formar a opinião pública para realizar as mudanças que constituem nosso objetivo. Nenhuma ação da Jamaat é realizada secretamente; pelo contrário, tudo é feito abertamente. Ela não deseja violar as leis sobre as quais se baseia o atual sistema de governo do país; pelo contrário, deseja modificá-las de acordo com os princípios islâmicos. Seu objetivo não é afastar as pessoas que dirigem o sistema de governo do país nem ocupar seus lugares. Pelo contrário, deseja reformá-las e, se elas não aceitarem a reforma, substituí-las por meios democráticos, colocando em seus lugares pessoas que, segundo a opinião pública reformada, sejam consideradas honestas.” (Tarjuman al-Qur’an, setembro de 1948, pp. 329–330)
2. Na cláusula 10 da constituição publicada pela Jamaat em 1953 e, novamente, na cláusula 5 da constituição revisada publicada em 1953, afirmou-se claramente que:
“Para alcançar seus objetivos e metas, a Jamaat jamais utilizará meios e métodos que sejam contrários à verdade e à honestidade ou que resultem em destruição no mundo. A Jamaat trabalhará por meios democráticos e legais para realizar a reforma e a revolução declaradas em seus objetivos. Isto é, deverá corrigir a mente, o pensamento e o caráter por meio da divulgação, da propaganda e da disseminação de ideias, e deverá formar a opinião pública para realizar as mudanças que constituem os objetivos da Jamaat. Para alcançar seus objetivos, a Jamaat não tentará imitar métodos secretos; pelo contrário, empreenderá seus esforços aberta e publicamente. (Pode-se mencionar aqui que todo membro da Jamaat-e-Islami, ao ingressar na Jamaat, presta devidamente um juramento de cumprir esta constituição.)”
3. Em 10 de novembro de 1951, por ocasião de um comentário sobre o martírio do falecido senhor Liaquat Ali Khan, em meu discurso como presidente na Conferência de Toda a Jamaat-e-Islami do Paquistão, eu disse:
“Não pode haver infortúnio maior para um país do que retirar do povo, da inteligência, da consciência e da razão, o poder final de decidir, entregando-o à espada do juiz. Uma nação que não seja inimiga de si mesma e cuja consciência não esteja falida não pode ser tão insensata a ponto de confiar a decisão de suas diversas questões, em vez da consciência e da razão, a um juiz cego e venal da espada. Se não queremos declarar sombrio o nosso futuro, devemos, com todas as nossas forças, impedir que a situação de nosso país se desvie nessa direção tão terrível. Nós, e especialmente os nossos responsáveis, devemos empenhar-nos ao máximo para criar e manter aqui uma situação que torne possível realizar pacificamente todos os tipos de mudanças políticas apoiadas pela opinião pública.” (Nossos problemas internos e externos, p. 14, publicado pela Maktaba Jamaat-e-Islami)
4. Em fevereiro de 1957, foi aprovada uma resolução na Conferência de Toda a Federação do Jamaat-e-Islami. Nela, dizia-se claramente:
“Uma vez que o Jamaat-e-Islami é obrigado, de acordo com sua constituição, a trabalhar por meios legais para realizar seu plano de reforma e revolução, e uma vez que, na prática, no Paquistão há um único caminho para produzir essa reforma e revolução — o caminho das eleições —, o Jamaat-e-Islami não pode, evidentemente, manter-se alheio às eleições do país. Pode participar delas por meios diretos ou indiretos, ou, quando necessário, por ambos os métodos.” (O programa futuro do movimento islâmico, p. 14)
5. Em 1958, o Jamaat-e-Islami publicou seu manifesto eleitoral. Nele, seu objetivo era descrito da seguinte maneira:
“Estabelecer uma verdadeira democracia, na qual o povo seja capaz de colocar no poder as pessoas de sua escolha e remover dos assentos de autoridade aquelas de quem não gosta.” (Manifesto eleitoral, p. 14)
6. Durante o Hajj do ano passado, tive a oportunidade de dirigir-me, em Meca, a jovens provenientes dos países árabes. Nesse discurso, aconselhei-os a abandonar as tentativas de realizar revoluções armadas em seus próprios países e a pensar em promover reformas por meios pacíficos, legais e democráticos. Meu discurso foi publicado em todos os países árabes. Uma tradução sua para o urdu também foi publicada na revista Tarjuman-ul-Qur’an. Sua parte final é a seguinte:
“Meu último conselho é que vocês não devem conduzir movimentos clandestinos nem tentar realizar uma revolução por meio das armas. ….. Uma revolução genuína e verdadeira é sempre realizada por meio de um movimento de massas. Trabalhem aberta e amplamente na divulgação da mensagem; dediquem-se em grande escala à purificação dos corações, das mentes e do pensamento. Transformem a maneira de pensar das pessoas. Conquistem os corações com a arma da moralidade. Enfrentem com coragem todos os perigos e obstáculos que surgirem em tais esforços. A revolução que for realizada gradualmente dessa maneira será tão duradoura e forte que as tempestades imaginárias das forças opositoras não poderão destruí-la. Mesmo que uma revolução seja realizada rapidamente por métodos artificiais, poderá ser destruída pelo mesmo caminho pelo qual veio.” (Tarjuman-ul-Qur’an, junho de 1963)
7. Em 10 de novembro de 1963, também repeti esse meu pensamento em uma declaração concedida à imprensa no Paquistão. Essa declaração foi publicada no Nawa-i-Waqt, no Mashriq e em outros jornais. Suas palavras exatas são estas:
“Sou, por princípio, veementemente contrário à violação da lei, aos métodos ilegais e à atuação clandestina. Minha opinião é que, não por medo de alguém nem por alguma necessidade temporária, mas para a existência de uma sociedade civilizada, é indispensável ter respeito pela lei. Se algum movimento destruir uma vez esse senso de respeito, torna-se depois muito difícil, ou melhor, impossível, para as próprias pessoas voltar a submeter-se à lei. Do mesmo modo, as organizações clandestinas também têm vícios tais que as pessoas que atuam por esse método acabam se tornando, para a sociedade, um perigo maior do que aqueles que pretendiam afastar ao adotar esse método. Por essas razões, minha convicção é que a ilegalidade e as organizações clandestinas são profundamente defeituosas. Tudo o que fiz, sempre o fiz abertamente e dentro dos limites da lei. Até mesmo as leis às quais me oponho veementemente, tentei modificá-las por meios democráticos e legais, mas nunca as violei.”
Estas são as declarações autênticas minhas e da Jamaat-e-Islami desde 1948 até hoje. Agora deveria ser informado que provas possui o governo com base nas quais levantou contra mim e contra a Jamaat-e-Islami a acusação de sermos favoráveis à tomada do poder pela força. Possui ele algum escrito ou discurso meu, ou de alguma pessoa responsável da Jamaat-e-Islami, que expresse tal significado? Ou poderá apresentar algum exemplo de que, nos últimos dezessete anos, a Jamaat-e-Islami tenha adotado alguma medida contrária à lei? Se possui alguma prova desse tipo, por que não a apresenta publicamente?
Em seu comunicado à imprensa de 6 de janeiro, o governo baseou todo o fundamento dessa acusação apenas numa citação do Relatório Munir. Nele, foi feita essa acusação contra a Jamaat-e-Islami. Mas é preciso lembrar que o Relatório Munir não é uma decisão judicial. É apenas o relatório de uma comissão de investigação. Nesse relatório, ultrapassaram-se os limites dos Termos de Referência e foram feitas, de maneira desordenada, discussões irrelevantes. Foram desferidos ataques completamente desnecessários contra diversas pessoas e grupos, e empregada uma linguagem tão estranhamente sarcástica que jamais poderia ser digna de um tribunal de investigação imparcial. Diante desse tribunal (ou comissão de investigação), nunca foi submetida a uma análise rigorosa a questão de qual é a ideologia da Jamaat-e-Islami, quais são seus objetivos e metas e que meios ela pretende adotar para alcançá-los. Nem a mim nem a qualquer representante da Jamaat-e-Islami foi feita pergunta alguma sobre esses assuntos. Tampouco essa acusação foi apresentada diante de nós para que nos fosse solicitada uma defesa em seu favor. E, mesmo no trecho do relatório em que a acusação é levantada, nenhuma prova foi apresentada que permitisse saber com base em que a comissão formulou essa acusação contra nós.
A questão é: será que, em qualquer relatório, ainda que se trate de um relatório de investigação judicial, proferir dessa maneira, sem testemunhos nem provas, um veredicto desse tipo contra uma organização pode ser suficiente para lhe retirar o direito de existir e privar seus dirigentes do direito à liberdade? E, depois de dez anos, onde está a legitimidade de aproveitar-se dessa maneira daquela frase do Relatório Munir? O Relatório Munir foi publicado em 1954, mas, com base naquela observação, estamos sendo privados de nossa liberdade e do direito de existência da Jamaat em 1964. Haverá nisso sequer o mais tênue vestígio de lógica?
Oposição à criação do Paquistão
A propósito das razões da prisão e detenção, foi levantada uma segunda acusação: “A Jamaat-e-Islami opunha-se à criação do Paquistão e, depois da criação do Paquistão, manifestou continuamente, em público, uma atitude hostil contra o Paquistão e seu governo.”
Essa acusação tem duas partes. A primeira é que a Jamaat se opunha à criação do Paquistão; a segunda é que, desde a criação do Paquistão, manifestou continuamente uma atitude hostil para com o Paquistão e seu governo. É provável que a segunda parte tenha sido acrescentada porque a primeira pareceu tão absurda aos próprios acusadores que consideraram totalmente intolerável tomar qualquer medida com base apenas nela. Dezesseis anos depois da criação do Paquistão, declarar ilegal e prender os dirigentes de uma organização que havia trabalhado aqui durante todos esses dezesseis anos (exceto durante o período de regime militar), levantando contra ela a acusação de que “se opunha à criação do Paquistão”, pareceria, evidentemente, ridículo à primeira vista para qualquer pessoa. Por isso, para tornar a acusação razoável, acrescentaram que, mesmo após a criação do Paquistão, essa organização havia manifestado durante dezesseis anos uma hostilidade pública não apenas contra o governo, mas também contra o próprio Paquistão. Contudo, mesmo com esse acréscimo, a afirmação continua tão ridícula quanto era inicialmente.
A questão é: se, desde que a Jamaat-e-Islami começou a atuar no Paquistão em 1947 até 5 de janeiro de 1962, essa hostilidade continuou incessantemente — e não em segredo, mas abertamente —, como foi que ela se tornou subitamente visível em 6 de janeiro de 1964? Por que essa hostilidade pública foi ignorada durante todo esse longo período? Que razão especial surgiu agora para que se sentisse a necessidade de tomar medidas contra ela, e medidas tão severas? Por que não se disse claramente que havia surgido a necessidade de retirar do campo um partido bem organizado do grupo oposicionista, a fim de ampliar a Liga da Convenção? Sobretudo antes das eleições, essa necessidade tornou-se muito maior.
A seguir, discutirei separadamente cada parte dessa acusação. Minha resposta à primeira parte da acusação é:
1. Mesmo que, por um momento, se aceite que a Jamaat-e Islami era contrária à criação do Paquistão, pergunto: era ela mais contrária a isso do que o Congresso? Todos sabem que, até 15 de agosto de 1947, a verdadeira luta pelo Paquistão foi travada contra o Congresso. Apesar disso, logo após a criação do Paquistão, o grupo do Congresso que existia neste país fundou imediatamente o Congresso do Paquistão. Seus representantes estiveram em nossa Primeira e Segunda Assembleias Legislativas. Até outubro de 1958, ele permaneceu estabelecido como um partido contrário aos muçulmanos. E nunca se levantou a questão de que, por vocês terem sido contrários à criação do Paquistão, não poderiam agora atuar no Paquistão como partido político. Não há nenhuma razão legal para que o Congresso do Paquistão não seja revitalizado após a retirada da lei marcial; trata-se, antes, de algo semelhante ao fato de a Liga Awami, o Partido Nacional Awami e outros partidos não terem se revitalizado. Se o Congresso do Paquistão quiser hoje se reorganizar, não há nenhum obstáculo legal em seu caminho.
2. Mas é totalmente contrário à verdade afirmar que a Jamaat-e Islami era contrária à criação do Paquistão. A Jamaat-e Islami foi fundada em agosto de 1941. Durante os seis anos completos entre então e agosto de 1947, alguém pode demonstrar que a Jamaat-e Islami realizou alguma reunião para se opor à criação do Paquistão? Que aprovou alguma resolução? Que organizou alguma manifestação? Que apresentou algum candidato contra a Liga Muçulmana nas eleições? Ou que apoiou algum candidato contrário à Liga Muçulmana? Ou que disse ao povo: não votem nos candidatos da Liga Muçulmana? Ou que realizou alguma ação ou empreendeu algum esforço de qualquer outra forma para impedir o avanço rumo à criação do Paquistão? Se alguém possuir alguma prova disso, deve apresentá-la. Mas, se nada disso for encontrado nos registros da Jamaat-e Islami, que se diga, por favor, em que a Jamaat-e Islami se opôs à criação do Paquistão. Quando se opôs? Como se opôs? No máximo, pode-se dizer que a Jamaat não participou conjuntamente com a Liga Muçulmana da luta pela criação do Paquistão. A simples não participação pode ser chamada de oposição?
3. A razão pela qual a Jamaat-e Islami não participou dos esforços para criar o Paquistão não era que a Jamaat não desejasse estabelecer um Estado independente separado para os muçulmanos. Havia, antes, três razões. Essas três razões foram explicadas claramente, mais de uma vez, nos livros e escritos da Jamaat-e Islami. A primeira razão era que era necessário haver entre os muçulmanos uma Jamaat que, caso — Deus nos livre — a Liga Muçulmana fracassasse na luta pela criação do Paquistão, pudesse ajudar a nação; por isso, era necessário manter essa força de reserva separada da luta. A segunda razão era que, mesmo depois da criação do Paquistão, vários milhões de muçulmanos continuariam vivendo naquela parte da Índia britânica que, por meio do plano do Paquistão, passaria ao domínio dos hindus. Depois da partição do país, a Liga Muçulmana nada poderia fazer para ajudar esses muçulmanos. Para esse propósito, era necessário preparar desde o início outro partido bem organizado e também mantê-lo separado da luta pelo Paquistão, para que pudesse realizar esse trabalho na Índia hindu. A terceira razão era que o partido que trabalhava pelo Paquistão — a Liga Muçulmana — concentrava toda a sua atenção exclusivamente na organização e na luta políticas. Não se realizava nenhum esforço para fortalecer e consolidar o partido nos aspectos moral e religioso. Diante dessa situação, percebia-se claramente que, se um partido conquistasse o país por meio de uma luta conduzida dessa maneira, não seria capaz, muito menos, de transformá-lo em um Estado islâmico, nem sequer de estabelecê-lo sobre bases sólidas como Estado nacional. E ali surgiria uma terrível desordem moral e ideológica. Nessas circunstâncias, era necessário formar entre os muçulmanos um partido bem organizado que, depois da criação do Paquistão, pudesse trabalhar para salvar esse Estado da destruição moral e conduzi-lo pelo caminho do Islã. A questão é: era pecado pôr em prática esse plano previdente? Hoje, aqueles que não tiveram nenhuma participação significativa nos esforços para criar o Paquistão querem infligir esse castigo à Jamaat-e Islami. O falecido Quaid-e-Azam não lhe infligiu esse castigo, nem o falecido Liaquat Ali Khan, nem Khawaja Nazimuddin. Durante o governo de todos eles, a Jamaat-e Islami continuou atuando normalmente.
4. Os escritos meus que hoje estão sendo apresentados como prova de oposição à criação do Paquistão foram escritos em 1939 e 1940. Primeiro, é errado lançar essas obras sobre a Jamaat-e Islami, pois a Jamaat só foi fundada em agosto de 1941. Segundo, foram escritos numa época em que apenas começava, entre os muçulmanos, o debate sobre qual seria a solução para seus complexos problemas na Índia britânica. Terceiro, o verdadeiro propósito desses escritos pode ser compreendido a partir do fato de que aqueles que extraíram do conjunto da obra e apresentaram citações sobre os qadianitas e os que rejeitam os hadiths — os munkirīn-e hadith — deram-lhes um sentido contrário ao original. Na realidade, seu verdadeiro significado só pode ser compreendido depois da leitura integral de todos os artigos relacionados. Escrevi esses artigos para explicar aos muçulmanos que, para estabelecer um Estado islâmico, e não simplesmente um Estado nacional, nenhuma organização partidária desprovida de vitalidade moral e religiosa poderia ser adequada. A discussão que desenvolvi em meus artigos para esclarecer esse objetivo foi lida por milhares de pessoas instruídas deste país. Elas não extraíram dela o sentido que agora se tenta obter, isolando algumas frases de meus escritos de seu contexto.
5. Extrair da obra de um autor um sentido contrário às suas próprias declarações claras é, na realidade, uma evidente traição. Como alguém pode dizer a meu respeito que eu era contrário à partição do país e à criação do Paquistão, quando eu mesmo escrevi três livros em apoio à teoria das duas nações (ver meus livros: Muçulmanos e o Atual Conflito Político, volumes 1 e 3, e A Questão da Nacionalidade); quando eu mesmo apresentei, em 1938, um plano para a partição do país (ver meu livro Muçulmanos e o Atual Conflito Político, volume 2, páginas 208–214); quando, em 1944, declarei publicamente que a reivindicação do Paquistão era justa (ver meu livro Cartas e Questões, volume 1, segunda edição, páginas 359–362); e quando apoiei o voto a favor do Paquistão no referendo da Província da Fronteira (ver meu livro Cartas e Questões, volume 1, páginas 362–363)?
Passemos agora à segunda parte da acusação, isto é: “Desde a criação do Paquistão, a Jamaat-e Islami tem manifestado continuamente hostilidade aberta contra o Paquistão e seu governo.” Aquele que formulou essa parte da acusação tem o pensamento tão confuso que não conseguiu perceber a diferença entre o Paquistão e seu governo, e tampouco sabe que, desde a criação do Paquistão até hoje, não houve aqui um único governo, mas vários governos sucessivos que se substituíram.
Quanto aos governos do Paquistão, pode-se dizer apenas que a Jamaat-e Islami tem expressado continuamente sua discordância em relação a eles, e isso é seu direito legal como partido de oposição. A Jamaat-e Islami manteve-se firme no princípio de que, enquanto não obtivermos a maioria nas eleições e não adquirirmos capacidade suficiente para formar nós mesmos o governo e administrá-lo de acordo com nossos próprios princípios, não devemos participar da máquina governamental. Com base nesse princípio, durante os últimos dezesseis anos e meio, a Jamaat-e Islami vinha atuando como partido de oposição. A questão é: se um partido, com base em um princípio democrático razoável e universalmente reconhecido, permanece na oposição e continua expressando sua discordância em relação aos sucessivos governos do país, quando e como isso se tornou um crime a ponto de se obter legitimidade para declará-lo ilegal e prender seus dirigentes?
Além disso, a acusação de oposição ao Paquistão é tão abominável e odiosa que nenhum governo deveria imputá-la aos seus próprios cidadãos enquanto não dispusesse de provas fortes e claras em seu apoio. Que provas o governo possui para sustentar essa grave acusação? Que testemunhos e evidências fundamentaram essa imputação? E, se eles possuem alguma prova em apoio a essa acusação extremamente severa, por que, em vez de levar publicamente a Jamaat a julgamento perante um tribunal, recorreram a leis por meio das quais qualquer pessoa pode ser arbitrariamente acusada e punida à vontade, sem qualquer testemunho ou prova?
Embora caiba ao acusador apresentar provas para considerar qualquer pessoa ou partido culpado, e não recaia sobre a pessoa ou o partido acusado o dever de apresentar provas de sua inocência, ainda assim quero demonstrar que o governo pretende nos eliminar levantando acusações inteiramente infundadas. Por isso, apresentarei, à luz das próprias decisões da Jamaat-e Islami, qual era sua posição em relação ao Paquistão. Na resolução que a Majlis-e Shura da Jamaat-e Islami aprovou sobre sua política em setembro de 1948, dizia-se:
“Como a força interna do país sofreu um golpe imenso com a morte do Quaid-e-Azam e os perigos começaram a surgir também no exterior, a Majlis-e Shura deseja declarar claramente que a Jamaat-e Islami, permanecendo fundamentada em seus objetivos e perspectiva reformistas, empreenderá todos os esforços para preservar a unidade e a independência do Paquistão e, nesse sentido, cooperará, por todos os meios possíveis, com os demais partidos e com o governo do país.”
“Segundo a Jamaat-e Islami, para o bem, o progresso e a estabilidade do Paquistão, era necessário que se anunciasse, o quanto antes e por meios legais, sua transformação em um Estado islâmico. Agora, porém, que já não se conta com o apoio da personalidade do Quaid-e-Azam, essa necessidade tornou-se ainda mais evidente. Depois que esse anúncio fosse feito, as mudanças constitucionais e legais ocorreriam gradualmente, no devido tempo. Mas, após esse anúncio, nosso sistema estatal seria, em princípio, transformado em um sistema islâmico. Quando a verdadeira força do país, o coração e a consciência do povo muçulmano, se sentisse tranquila, os objetivos do Estado e o caminho de seu progresso seriam definidos. E as leis absolutamente necessárias para a estabilidade moral do Paquistão, a unidade de seus elementos inclinados à desordem, a solução de seus importantes problemas culturais e econômicos e o fortalecimento de seu sistema de defesa nacional poderiam ser reunidas para atuar nessa direção. Além disso, com isso também terminaria a oposição ideológica que está surgindo em torno do futuro sistema do país e criando desordem mental.”
Nessa sessão, foi enviada, em nome da Majlis-e Shura, a seguinte mensagem ao então Governador-Geral, senhor Khawaja Nazimuddin: “Com sua sucessão após a morte do Quaid-e-Azam, Allah Ta’ala colocou sobre seus ombros o peso de uma enorme responsabilidade. Rogamos que Aquele que colocou esse fardo sobre você lhe conceda força para carregá-lo e cumprir esse dever. Em seu discurso após tornar-se Governador-Geral, encontra-se uma essência religiosa e percebem-se sinais de boas intenções. Nós as honramos de todo o coração. Esperamos que você se esforce para transformar o Paquistão em um verdadeiro Estado islâmico, tanto em espírito quanto em estrutura. Creia que, em qualquer esforço correto que empreender para esse objetivo, a Jamaat-e Islami cooperará plenamente com você.”
(Tarjuman al-Qur’an, setembro de 1948, páginas 326 e 327).
Na mesma sessão, a primeira das instruções elaboradas para os trabalhadores da Jamaat-e Islami era:
“Preparem-se plenamente para a defesa do país e façam os outros muçulmanos compreenderem a necessidade de se prepararem também. Queremos defender este país pelo Islã. Portanto, tendo essa inspiração, é nosso dever religioso dar a máxima atenção a isso entre todas as nossas atividades.” (Tarjuman al-Qur’an, setembro de 1948, p. 336)
Em 12 de março de 1949, a Assembleia Constituinte do Paquistão aprovou a Resolução de Objetivos e, no dia seguinte, o Majlis-e-Shura da Jamaat-e-Islami publicou a seguinte declaração:
“Segundo o Majlis-e-Shura, ao aprovar esta resolução, a Assembleia Constituinte cumpriu as condições legais mínimas necessárias para transformar um país em um Estado islâmico.”
Novamente, em 18 de abril de 1949, ao discutir a influência e os efeitos da Resolução de Objetivos, o Majlis-e-Shura expressou a seguinte política em relação ao Paquistão:
“Agora se tornou obrigatório para todo crente empregar todas as capacidades da mente e do intelecto, bem como todos os meios e recursos disponíveis, para proteger e fortalecer este Estado, promovê-lo e transformá-lo, tanto no corpo quanto no espírito, em um Estado islâmico. Deve-se servi-lo de todo o coração e com toda a alma, de qualquer maneira e sob qualquer forma que seja possível. Agora nossa relação com o Estado é de lealdade positiva (Positive). O espírito de não cooperação chegou ao fim. Agora não faremos todos os esforços para a reforma e o desenvolvimento apenas de fora, mas também entraremos de dentro — isto é, no Parlamento e no sistema de governo — para empreendê-los plenamente.”
(A posição da Jamaat-e-Islami à luz de suas próprias decisões, pp. 6–7)
Recentemente, na Conferência de Toda a Jamaat-e-Islami do Paquistão, realizada em Lahore, foi aprovada uma resolução em 26 de outubro de 1964. Suas palavras são as seguintes:
“Neste momento de crise, a Jamaat-e-Islami adverte a Índia e as demais potências envolvidas que têm concepções equivocadas sobre o Paquistão: por maiores que sejam nossas divergências nos assuntos internos, os cem milhões de paquistaneses se unirão para defender a segurança e a independência de sua pátria em qualquer circunstância; e, caso surja tal situação, inshallah, nenhum paquistanês ficará para trás.”
“Não apenas porque amamos o país, mas também em vista das exigências da nossa fé e religião, a Jamaat atribui a máxima importância à questão da defesa do Paquistão. Este país foi conquistado em nome do Islã; por isso, todo o Paquistão equivale, para nós, a uma mesquita, e cada centímetro de sua terra é, para nós, um grande depósito de confiança. Apesar de todas as divergências de opinião, asseguramos plenamente ao governo que, qualquer que seja a medida que ele adote para a defesa do nosso país, nós o apoiaremos de todo o coração. O patriotismo não é monopólio de nenhuma pessoa ou grupo específico. Todo paquistanês está igualmente ligado à segurança de seu país. Pois sua vida, seus bens, sua honra e todos os seus valores mais queridos dependem inteiramente da segurança e da estabilidade deste país. Portanto, acreditamos firmemente que todo paquistanês, a menos que tenha a mente pervertida ou seja inimigo de si mesmo, avançará para defender sua pátria.” (Relatório da Reunião de Toda a Jamaat-e-Islami do Paquistão, p. 56)
Estas são resoluções devidamente adotadas e publicadas pela Jamaat-e-Islami. O governo não pode dizer que desconhecia esse assunto. Apesar disso, de olhos fechados, foi feita a acusação de que a Jamaat-e-Islami expressava continuamente uma atitude hostil contra o Paquistão. A base dessa acusação foi uma brochura intitulada “Análise do Passado Recente”, mencionada na nota à imprensa do governo de 6 de janeiro. Sobre essa brochura, a explicação é a seguinte: depois da criação do Paquistão, quando voltei a publicar em Lahore a revista Tarjuman-ul-Qur’an, escrevi, nos três primeiros números, três artigos editoriais consecutivos, em junho, julho e agosto de 1948. Neles, fiz comentários detalhados sobre a situação que surgira no país no momento da divisão. Comentei de maneira imparcial, como um historiador, os pontos de vista e as ações dos três grupos — o governo britânico, o Congresso Nacional Indiano e a Liga Muçulmana —, mostrando quais erros cada um deles cometeu ao resolver a questão da divisão do país e ao implementá-la, e como suas consequências vieram à luz. Em seguida, no terceiro artigo, expliquei quais problemas importantes a nação muçulmana enfrentou depois da divisão e se a Liga Muçulmana conseguiria resolver esses problemas. É possível que, em 1949, sem meu conhecimento, pessoas da Jamaat-e-Islami de Karachi tenham publicado os dois primeiros artigos em Karachi, em forma de brochura, sob o título “Análise do Passado Recente”. De qualquer modo, esses artigos foram publicados durante a vida do falecido Quaid-e-Azam, quando ele era governador-geral. O falecido Liaquat Ali Khan era então primeiro-ministro do Paquistão. Naquela época, ninguém os considerou escritos contra o Paquistão. Pelo contrário, a crítica neles feita ao trabalho da Liga Muçulmana foi considerada um direito legítimo do líder de um partido de oposição. Por essa razão, não foram tomadas contra eles as medidas que o atual governo tomou dezesseis anos depois. Digo que, se hoje um juiz imparcial lesse esses artigos — não uma ou duas frases isoladas de seu contexto, mas os artigos em sua relação do princípio ao fim —, jamais chegaria à conclusão de que foram escritos por alguém que não desejava a criação do Paquistão e que, depois de sua criação, queria aboli-lo. Esse significado só pode ser atribuído a esses artigos por alguém decidido a enredar Maududi e sua Jamaat de qualquer maneira e empenhado em inventar todos os tipos de artifícios para esse fim.
Criar desordem entre os funcionários públicos
A terceira acusação apresentada entre os motivos de sua prisão e detenção é a seguinte: “A Jamaat-e-Islami infiltrou-se nos departamentos governamentais e nas organizações trabalhistas com a intenção de assumir o poder, abalando a base da lealdade dos funcionários públicos e criando desordem.”
Essa acusação também tem duas partes. Uma parte diz respeito aos funcionários públicos, e a outra, às organizações trabalhistas. Responderei separadamente a essas duas acusações.
Em tudo o que foi dito sobre os funcionários públicos, tentou-se deliberadamente dar uma aparência terrível a uma questão simples. A verdade é que a Jamaat-e-Islami vinha atuando amplamente neste país havia anos. Seus livros eram impressos aos milhares e às centenas de milhares. Eram vendidos abertamente em vários lugares. Bibliotecas suas haviam sido estabelecidas em centenas de localidades. Qualquer pessoa tinha plena liberdade de ir até lá, ler os livros e levá-los emprestados por um período determinado. Suas reuniões eram realizadas em todas as partes do país. Pessoas de todos os tipos compareciam e ouviam os discursos. Em centenas de lugares eram ministradas aulas de Alcorão e Hadith. Pessoas de todos os tipos também participavam delas. Assim, esse movimento prosseguia abertamente por todo o país. Nessas circunstâncias, como poderiam os funcionários públicos, que eram habitantes deste próprio país e viviam junto do povo comum nessas localidades, permanecer ignorantes disso e afastados disso? A própria Jamaat não se infiltrou entre os funcionários públicos por meio de qualquer plano ou esforço especial. Os próprios funcionários públicos leram seus livros, compareceram às suas reuniões e participaram das aulas. Aqueles entre eles em cuja mente e coração o apelo da pregação da Jamaat produziu efeito aceitaram por si mesmos a influência da Jamaat. Não podíamos fechar o caminho pelo qual os livros chegavam até eles. Não tínhamos poder para vendar seus olhos, para que não pudessem ler os livros. Não podíamos impedi-los de participar de nossas reuniões e dos encontros de estudo do Alcorão e do Hadith. Se o governo agora quiser fazer isso, que o faça. Ou, se for possível, poderá retirar os funcionários públicos dessas cidades e localidades e confiná-los em alguma fortaleza separada, para que nenhum sopro dos movimentos que estão ocorrendo neste país os alcance.
Tudo o que expus acima deixa claro que a Jamaat-e-Islami não se infiltrou nos departamentos e entre os funcionários do governo. Pelo contrário, suas ideias penetraram espontaneamente entre os funcionários públicos, de maneira natural, e o próprio governo, ao distribuir repetidamente circulares pelos departamentos governamentais e ao obter declarações juramentadas de cada funcionário público, atraiu seus próprios funcionários para o seu lado. Agora, a respeito da alegação de que, devido a essa penetração, os fundamentos da lealdade desses funcionários foram abalados, o governo deveria informar que coisa há nos livros da Jamaat-e-Islami e em sua pregação que desloque a lealdade dos funcionários públicos. Na verdade, quer alguém reconheça isso ou não, onde quer que a influência da pregação da Jamaat-e-Islami tenha alcançado os funcionários públicos, ali eles se tornaram mais responsáveis, mais dedicados ao dever, mais tementes a Deus e mais leais. Se há entre os funcionários públicos alguma classe que mais se abstém da corrupção, do recebimento de subornos e da negligência no cumprimento do dever, é justamente aquela que aceitou os livros da Jamaat-e-Islami e sua influência. Mas, para o governo, isso não tem valor algum. Sua única preocupação é que funcionários e oficiais trabalhem necessariamente como voluntários para a Convention League, mas não tenham qualquer contato com outro partido de oposição, especialmente com a Jamaat-e-Islami. Expus claramente minha política a respeito dos funcionários públicos nas páginas 366–368 da edição de agosto de 1955 de Tarjuman-ul-Quran e nas páginas 420–422 da edição de fevereiro de 1956. Apresento ambas as revistas perante o conselho.
Quanto à segunda parte da acusação, na qual se fala sobre a organização dos trabalhadores, exijo do governo que apresente um exemplo que prove que a Jamaat-e-Islami alguma vez criou distúrbios com a ajuda dos trabalhadores, realizou uma greve ou provocou qualquer tipo de conflito nas fábricas. Não exijo muitos exemplos; exijo apenas um. Tenham a bondade de citá-lo. A realidade é que, depois da criação do Paquistão, quando a Jamaat-e-Islami viu que militantes comunistas e seus «companheiros de viagem», os senhores vermelhos, estavam se infiltrando entre os trabalhadores e iniciando a luta de classes entre patrões e trabalhadores para preparar o terreno para a revolução comunista, ela primeiro formulou uma política para o povo trabalhador e depois começou a agir de acordo com ela.
A política formulada a esse respeito era a seguinte:
1. Deve-se eliminar a ideia de considerar os trabalhadores e os proprietários das fábricas — ou, em outras palavras, os que oferecem trabalho e os que dele se beneficiam — como duas classes distintas, conflitantes e antagônicas. Deve-se fortalecer a ideia de que essas duas classes fazem parte da mesma sociedade e que, em vez de conflito entre elas, deve ser estabelecida uma cooperação baseada nos princípios islâmicos de justiça, para que, como partes dessa sociedade, possam contribuir para o seu progresso.
2. Não se deve permitir que os conflitos que surjam entre trabalhadores e proprietários avancem para greves, lockouts e tumultos; para resolver esses conflitos, eles devem ser solucionados pelos tribunais, de acordo com as leis vigentes no país destinadas a dirimir tais disputas.
3. Quaisquer emendas adicionais à lei necessárias para estabelecer a justiça nas questões industriais devem ser feitas por meio do legislativo do país.
Essa política foi descrita em detalhe nas páginas 425–426 da segunda edição do primeiro volume do meu livro Rasa’il wa Masa’il e nas páginas 37–38 de «Qual é o programa da Jamaat-e-Islami?». De acordo com essa política, o Comitê de Bem-Estar dos Trabalhadores formado pela Jamaat-e-Islami conseguiu, até 1958, que inúmeros conflitos industriais fossem resolvidos pelos tribunais e, em muitos lugares, fez com que greves e lockouts fossem suspensos, encaminhando os conflitos industriais para as vias legais. Como resultado desse esforço, questões no valor de 9 milhões de rupias foram resolvidas pelos tribunais; e, depois da implantação do regime militar, quando a Jamaat teve de interromper suas próprias atividades, havia processos no valor de 70 milhões de rupias em andamento. Já disse que, durante todo esse período, não ocorreu sequer um incidente em consequência do qual a Jamaat-e-Islami tivesse provocado uma greve, um conflito ou um tumulto em qualquer lugar. Se o governo puder apresentar algum incidente desse tipo, deve certamente apresentá-lo. Se não puder apresentá-lo, então peço que o governo se abstenha de lançar falsas acusações contra cidadãos pacíficos e cumpridores da lei, armando-lhes uma cilada para obter ganhos políticos.
Jamiat-e-Talaba Islami
A quarta acusação de sua declaração é a seguinte: “O Amir da Jamaat-e-Islami, com apoio e cooperação ativos, estava tentando, com a ajuda da Jamiat-e Talaba, realizar greves ilegais nas instituições de ensino e criar desordem e tumultos em locais públicos.” Nessa acusação, a Jamiat-e Talaba também foi considerada a contraparte da Jamaat-e-Islami entre os estudantes.
Essa acusação só poderá ser apresentada contra mim e contra a Jamaat-e-Islami quando duas coisas forem provadas. Primeiro: que a Jamiat-e Talaba alguma vez tenha promovido uma greve ilegal em alguma instituição ou criado desordem ou tumulto em algum estabelecimento de ensino. Segundo: que eu ou a Jamaat-e-Islami tenhamos dado alguma indicação para isso. Exijo enfaticamente que o governo não poderá provar nenhuma dessas duas coisas. Por isso, recorreu à Ordenança de Segurança Pública e à Lei Penal alterada de 1908, para não ter de enfrentar o incômodo de apresentar testemunhas e provas perante qualquer tribunal e para que a verdade não venha à tona por meio de uma investigação judicial imparcial.
Embora, em resposta a essa acusação, bastasse o que expus acima, tenho diante de mim o comunicado oficial à imprensa emitido em 6 de janeiro, que declarou a Jamaat ilegal e ordenou a detenção de seus líderes. Nesse comunicado, foi pintado um quadro extremamente assustador da Jamiat-e Talaba, e tentou-se, com grande empenho, provar que, na realidade, a Jamaat-e-Islami estava provocando tumultos entre os estudantes por meio da Jamiat-e Talaba. Por isso, não posso limitar-me a dar uma resposta breve à acusação mencionada. Pelo contrário, quero esclarecer a questão real respondendo detalhadamente às acusações apresentadas no comunicado à imprensa.
A Jamiat-e Talaba foi fundada no final de 1947. É um grupo de estudantes de faculdades e universidades que, além de estudar ciências, filosofia, economia, direito, engenharia, medicina e outras disciplinas modernas nas instituições de ensino de nosso país, possuem uma mentalidade e uma visão islâmicas, aderem a valores morais e também procuram resistir, em suas respectivas instituições, ao ateísmo, à irreligiosidade e à anarquia moral, bem como despertar sentimentos islâmicos entre os estudantes. Entre esses jovens, encontram-se inúmeros estudantes que, ao mesmo tempo que recebem uma educação ocidental moderna de alto nível, também praticam o tahajjud. Nos últimos dezesseis anos, eles realizaram um trabalho extraordinário para impedir a deterioração da fé e da moral da juventude e protegê-la da onda de pensamentos ateístas e práticas libertinas. Tanto quanto sei, afirmo com plena convicção que, até hoje, eles não cometeram nenhum ato contrário à lei. Pelo contrário, observaram rigorosamente o princípio de limitar suas atividades aos limites da lei. Interesso-me por esses estudantes por causa dessas qualidades. Pois desejo ver neste país jovens que, enquanto alcançam níveis cada vez mais elevados de educação, permaneçam também muçulmanos firmes. E esses estudantes também se interessam por mim justamente porque esperam que eu possa oferecer-lhes, à luz do Islã, soluções para os problemas da vida moderna. A relação entre mim e eles não está oculta aos olhos de ninguém, nem há qualquer razão para ocultá-la.
Embora o comunicado oficial tenha forçado uma conexão para provar que a relação entre a Jamaat-e-Islami e a Jamiat-e Talaba é mais profunda e estreita — uma conexão que é uma extrema exageração e cuja maior parte é contrária à verdade —, pergunto: mesmo que tudo isso fosse verdade, qual seria o crime? Os jovens que estudam em nossas faculdades e universidades não são menores de idade. Eles não vivem em alguma floresta, longe das cidades e das áreas habitadas. Leem todo tipo de livro. Leem jornais, participam de reuniões e conferências e ouvem discursos. São jovens instruídos, educados e adultos. Então, como pode alguém sensato esperar que esses jovens permaneçam totalmente alheios aos movimentos conduzidos no país e às ideias e ideologias que se difundem, sem sofrer qualquer influência deles? Na realidade, assim como existem, fora das instituições de ensino, pessoas de opiniões e caminhos diversos, entre os estudantes também existem grupos que seguem tantas ideologias e caminhos diferentes. Entre os estudantes não há apenas uma contraparte da Jamaat-e-Islami; também se encontram contraparte da Awami League, do Partido Nacional Awami, da Liga Muçulmana, do Partido Nizam-e-Islam e do Partido Comunista, que atua clandestinamente. Agora, uma contraparte da Convention League também está surgindo — ou melhor, já surgiu. Se essas contrapartes são legais, como a existência da contraparte da Jamaat-e-Islami pode chegar ao nível de um pecado?
Qualquer que seja a natureza da relação entre a Jamaat-e-Islami e a Jamiat-e Talaba, ela não pode ser considerada ilícita nem servir de base para a adoção de qualquer medida legal enquanto não forem provadas as duas afirmações mencionadas anteriormente: primeiro, que a Jamiat-e Talaba tenha praticado algum ato que constitua crime perante a lei; segundo, que esse ato tenha sido realizado por indicação da Jamaat-e-Islami.
O comunicado oficial apresentou, com grande esforço, dois exemplos disso. Primeiro: em fevereiro de 1962, durante o discurso do senhor Zulfiqar Ali Bhutto, a Jamiat-e Talaba teria provocado tumultos na Universidade do Punjab, e a Jamaat-e-Islami teria emitido instruções para provocar esses tumultos. Mas os autores e divulgadores desse comunicado não se lembram de que, em fevereiro de 1962, vigorava a lei marcial no país. Tanto a Jamiat-e Talaba quanto a Jamaat-e-Islami eram ilegais. Portanto, não havia qualquer questão de um grupo provocar tumultos e de outro grupo emitir instruções para isso. Ainda assim, supondo que sim, que isso fosse verdade, como se poderia explicar que não tenham sido tomadas medidas contra isso por meio da lei marcial? Dois grupos proibidos atuavam abertamente. Um provocava tumultos e o outro emitia instruções para que fossem provocados. Mesmo assim, a lei marcial permaneceu em silêncio? O governo pretende, com isso, provar a incompetência das autoridades da lei marcial? Para dizer a verdade, o fato de hoje, dois anos depois, esse acontecimento estar sendo aceito como base para tomar medidas contra mim e contra a Jamaat-e-Islami prova claramente que o governo procurou e encontrou todas as desculpas possíveis para levantar a mão contra mim e contra a Jamaat-e-Islami. No entanto, se o governo afirma que isso não é uma desculpa inventada, mas a pura verdade, deve apresentar provas em tribunal aberto e provar que, na reunião do senhor Bhutto, primeiro foi a Jamiat-e Talaba que provocou os tumultos e, segundo, que a Jamaat-e-Islami emitiu as instruções. Um relatório suspeito e incompleto do serviço de inteligência — muitas vezes elaborado deliberadamente para incriminar alguém — jamais pode ser aceito como testemunho e prova.
O segundo exemplo apresentado pelo governo é o de que os tumultos provocados recentemente pelos estudantes em Lahore e em outros lugares foram diretamente resultado da instigação dos seguidores da Jamaat-e Islami. A alegação do governo é que ele dispõe de provas e testemunhos sólidos a esse respeito. Eu pergunto: se o governo realmente possui tais provas e testemunhos, por que os manteve ocultos? Por que não os apresentou ao tribunal para provar nosso crime? Na realidade, o próprio governo é inteiramente responsável por esses acontecimentos. O governo deliberadamente criou a tensão e instigou os estudantes. Ele próprio, recorrendo a uma opressão e perseguição extraordinárias, deu ao assunto uma dimensão terrível. Depois, o próprio governo tentou à força atribuir toda a culpa disso à Jamaat-e Islami. No entanto, desde o início afirmei que a Jamaat não tinha a mais remota relação com esses tumultos. O caso começou da seguinte maneira: apenas dois dias antes das eleições da universidade, um candidato à presidência da união universitária, Barakallah Khan, cujos documentos de candidatura haviam sido devidamente aceitos, foi subitamente expulso da universidade, para que fosse automaticamente retirado da disputa eleitoral. (É importante saber aqui que Barakallah Khan não tinha qualquer relação com a Jamaat-e Islami nem com a Jamiat-e Talaba. Em certa época, ele havia sido membro da Jamiat, mas a Jamiat o expulsara de seus quadros.) Tratou-se de uma perseguição tão injusta que, naturalmente, provocou descontentamento entre os estudantes, e todos os candidatos às eleições — cerca de 65, incluindo o rival que concorria contra Barakallah Khan — boicotaram-nas. Em seguida, esses candidatos formaram eles próprios um comitê de ação. Não havia nesse comitê sequer uma pessoa que tivesse a mais remota relação com a Jamiat-e Talaba ou com a Jamaat-e Islami. Foi esse comitê de ação que decidiu protestar contra a expulsão de Barakallah Khan. O mesmo comitê elaborou um programa efetivo de protesto e, por decisão sua, a procissão saiu da universidade em 4 de novembro de 1963. A própria polícia permitiu que a procissão, com seus alto-falantes, prosseguisse até Charing Cross. Depois, sem qualquer aviso ou notificação prévia, investiu contra os estudantes com cassetetes e lançou gás lacrimogêneo. Isso deixou os estudantes ainda mais exaltados. Eles voltaram e apresentaram ao vice-reitor uma petição solicitando medidas contra aquela opressão. Mas o senhor vice-reitor aparentemente se considerava impotente. Assim, longe de acalmar os estudantes, consolando-os, recusou-se até mesmo a sair para enfrentá-los. Naturalmente, isso provocou uma agitação ainda maior entre os estudantes, e um grupo deles entrou no gabinete do vice-reitor e começou ali um tumulto. Esse grupo de estudantes que iniciou o tumulto era constituído, em sua maioria, por estudantes comuns. O governo certamente não dispõe de qualquer prova da presença ali de algum estudante ligado à Jamiat-e Talaba. Em 5 de novembro, de acordo com o programa do comitê de ação, os estudantes decidiram sentar-se em protesto na calçada externa da universidade. Deram-lhes apenas dois minutos para se dispersarem. Ora, nenhuma pessoa sensata pode sequer imaginar como esse grande número de estudantes poderia dispersar-se em dois minutos. Assim que os dois minutos terminaram, a polícia fez uma violenta carga de cassetetes contra os estudantes e, entrando no recinto da universidade, começou a praticar uma brutal perseguição.
Senhor, este é o verdadeiro relato dos acontecimentos, do qual se pode concluir que foram as autoridades governantes que primeiro provocaram a tensão e que também são responsáveis por levar o caso ainda mais longe. Longe de ser possível envolver a Jamaat-e Islami em todo esse assunto, tampouco se poderá provar que a Jamiat-e Talaba tenha sido de algum modo responsável. Se o governo acredita na veracidade de sua alegação e possui provas sólidas de que os apoiadores da Jamaat-e Islami instigaram publicamente os estudantes, deve ter a coragem de vir a público. Deve informar quais membros da Jamaat provocaram a tensão e qual foi sua participação, em palavras e atos, nesses tumultos.
Criar descontentamento nas forças armadas
Sua quinta acusação é a de que “a Jamaat está tentando criar descontentamento entre as forças armadas por meio dos discursos objetáveis de seus líderes”. (É especialmente digno de nota que, entre as razões da prisão e da detenção, aparece a expressão The Jamaat Attemption.) Trata-se de uma acusação extremamente vaga. Dela não se fica sabendo quem teria feito esse discurso objetável, nem o que teria dito. Ainda assim, supondo, para fins de argumentação, que alguns líderes tenham feito tais discursos, por que não foram processados? Onde está a legitimidade de responsabilizar toda a Jamaat pelos discursos deles? A Jamaat jamais decidiu que deveria criar descontentamento nas forças armadas. Eu próprio, como amir da Jamaat, jamais dei tal instrução. Se alguns líderes disseram alguma coisa em seus discursos, eles próprios eram responsáveis por seus discursos.
Mas o que causa espanto é que, no comunicado de imprensa do governo de 6 de janeiro, essa acusação foi feita apenas contra o senhor Mian Tofail Muhammad, sob a alegação de que ele havia proferido um discurso desse tipo em Mianwali, em 7 de setembro, enquanto, nas razões apresentadas para a prisão e a detenção, o senhor acusou os líderes da Jamaat de terem feito tais discursos. Como o senhor explicará essa flagrante contradição entre os dois comunicados oficiais? Isso não deixa claro que todas essas acusações estão sendo feitas sem investigação? E, ao formular uma acusação, o senhor não se lembrou de que, apenas alguns dias antes, o próprio governo, pela boca do honorável senhor Governo, havia declarado algo diferente?
Liderança não islâmica
As acusações acima foram aquelas que o senhor apresentou contra a Jamaat-e Islami e, por meio dela, contra mim. Nesta sexta acusação, o senhor me acusou diretamente de que “em discursos proferidos em várias reuniões públicas, declarei que a liderança da nação era não islâmica e satânica”. Minha resposta é a seguinte: quanto à palavra “satânica”, quero dizer que jamais a usei, e tampouco estou habituado a usar esse tipo de palavra ao expressar discordância em relação a alguém. Contudo, declarei publicamente, e continuo declarando, a respeito daqueles que detêm a autoridade no Paquistão, que eles não estão agindo de acordo com o Islã; portanto, sua liderança é não islâmica. Como líder de um partido de oposição, tenho o direito legal e democrático de criticar a liderança das pessoas que ocupam o poder e suas ações. Não estou de modo algum disposto a renunciar a esse direito. Que me digam: por meio de qual lei essa expressão de opinião pode ser considerada um crime?
O artigo de Tarjuman-ul-Qur’an
Sua última acusação é que, na edição de 1º de outubro de 1963 do meu periódico mensal Tarjuman-ul-Qur’an, publiquei um artigo contra o Irã e sua família real. O senhor também afirmou que, por trás da publicação desse artigo, meu objetivo era golpear pela raiz as relações amistosas entre o Paquistão e seu amigo tradicional, o Irã. A esse respeito, minha declaração é a seguinte:
1. O artigo ao qual o senhor se referiu é um resumo de alguns artigos publicados pelos principais ulemás do Iraque e do Irã. Entre eles, havia uma carta escrita sobre a situação detalhada dos eruditos iranianos contemporâneos. Essa carta foi escrita em nome de um importante erudito xiita, as-Sayyid Abu’l-Qasim al-Khoei. Foi impressa na gráfica an-Nu’man, de Najaf-i-Ashraf. Seu título era: “Risalatun min Ulama-i-Iran”.
O autor do segundo folheto era o próprio as-Sayyid al-Khoei. Nele, ele discutia a crescente influência dos judeus no Irã e advertia o governo iraniano a tomar precauções a esse respeito. O nome desse folheto era: “Tasrihatun Naziratu lil-Ummil Khoi”.
O terceiro folheto era outra fonte do artigo mencionado. Seu nome era: “Kifahul Ulama-il-A’lam”. Foi publicado na Saqafat-e-Islamia, em Carbala. Esse folheto apresentava um relato detalhado, com datas comprovadas, dos acontecimentos ocorridos no Irã.
2. Depois da publicação do artigo mencionado, recebi uma resposta da embaixada iraniana e também a publiquei na edição de dezembro de 1963 do meu periódico. (Uma cópia dessa edição foi apresentada para consideração do conselho, e chamo especialmente sua atenção para os comentários editoriais relativos àquele artigo.) Ora, quando uma revista ou um jornal publica as declarações de ambas as partes, que acusação pode ser levantada contra os princípios universalmente reconhecidos do jornalismo?
3. Posso mencionar pelo menos 50 artigos publicados por diferentes órgãos de imprensa do Paquistão contra a Turquia, o Egito, a Jordânia, a Arábia Saudita, o Iraque, o Kuwait e outros países, tão críticos quanto este ou muito mais. Nesses artigos, chegaram até a fazer comentários sobre a vida pessoal dos governantes dos países mencionados. Na prisão, não tenho condições de reunir os arquivos antigos dessas revistas e jornais. Mas, se me fosse dada a oportunidade, eu poderia reuni-los e apresentá-los para sua consideração. A questão agora é: somente o Irã é amigo do Paquistão? Ou os países mencionados acima também foram reconhecidos como nossos amigos? E, se foram considerados amigos do Paquistão, por que não foram tomadas medidas contra essas revistas e jornais que os criticaram? E que lógica há por trás das medidas tomadas contra Tarjuman-ul-Qur’an?
Soube que, depois de ser suspensa a publicação de Tarjuman-ul-Qur’an, também foi fechado o semanário de Lyallpur, ‘Al-Mimbar’. O jornal havia escrito contra os Estados Árabes Unidos. Isso foi feito para demonstrar que anteriormente não havia sido adotada nenhuma medida meramente discriminatória. Mas ‘Al-Mimbar’ não foi o único a publicar textos desse tipo. Já disse que estou pronto para apresentar pelo menos 50 exemplos desse tipo. Portanto, tomar medidas dessa maneira contra apenas mais um jornal preserva por acaso o equilíbrio?
4. A publicação de Tárjumán ul-Qur’an já havia sido suspensa anteriormente por causa da publicação do referido artigo. Agora, prender-me e manter-me detido pelo mesmo delito serve para fazer justiça ou para se vingar?
5. Sou o único responsável pela publicação do referido artigo em Tárjumán ul-Qur’an. Sou o proprietário desta revista e também o seu editor. Publico-a desde 1932, nove anos antes da formação da Jamaat. A Jamaat não tem qualquer relação com a sua propriedade, edição, administração, lucros ou prejuízos. Eu a dirigi de acordo com a minha situação e capacidade pessoais. Agora, por causa da publicação de um artigo numa revista desse tipo, o governo responsabilizou a Jamaat-e-Islami, declarou-a ilegal e lançou na prisão mais de cem dos seus líderes. Isso não prova que o governo lançou ao vento todos os valores da justiça e da vergonha? E que se empenhou em atribuir à força aos líderes da Jamaat faltas que eles não cometeram?
6. Como soube que, por trás da publicação do referido artigo, minha intenção era golpear pela raiz as relações de amizade entre o Paquistão e o Irã? É um princípio universalmente reconhecido em todo o mundo que, quando o governo de um país segue uma política de opressão contra o seu povo e este se encontra numa situação de desamparo, esse governo, sob a pressão da opinião pública internacional, pode chegar a sentir a necessidade de mudar a política que vem seguindo e estabelecer a justiça. Os habitantes do Irã são nossos irmãos muçulmanos e, naturalmente, sentimos por eles profundo amor e solidariedade. Quando soube, por meio dos escritos de eminentes ulemás do Irã e do Iraque, que o povo estava sendo tratado injustamente, publiquei um resumo desses escritos com o propósito de usar a nossa força moral sobre o governo iraniano para o estabelecimento da justiça. Já mencionei que, com esse mesmo propósito, líderes influentes do Iraque, país vizinho do Irã, publicaram aquelas brochuras. Na realidade, nem a menor parcela da intenção pela qual fui acusado jamais ocupou a minha mente. Nem mesmo a sombra mais tênue da ideia de ‘golpear pela raiz as relações entre o Paquistão e o Irã’ jamais entrou no meu campo de pensamento. Mas, para me oferecer em sacrifício, o governo primeiro deu uma interpretação extremamente distorcida a um princípio internacional universalmente reconhecido e depois levantou uma acusação vergonhosa contra toda a Jamaat (como ficou claramente demonstrado no comunicado à imprensa de 6 de janeiro de 1964). Assim, antes de enforcar a Jamaat, lançou sobre ela uma calúnia. Mas não será suficiente, para demonstrar a estranha disposição do governo de nos imputar qualquer conspiração e colocar em nossa cabeça qualquer chapéu, a sua própria conduta?
Provei que todas as sete acusações que o senhor apresentou contra mim na discussão anterior eram falsas. Lamento ter tido de dizer, nesta discussão, muitas palavras amargas de que o governo não gosta. Mas fui obrigado a fazê-lo. Afinal, como poderia eu admitir acusações falsas e inventadas? Por isso afirmei claramente que as razões apresentadas para a minha prisão e detenção não são as verdadeiras razões. Há outras razões por trás dessa medida tomada pelo governo. O governo tem vergonha de dizê-las. Por isso, para ocultar as verdadeiras razões, foram levantadas acusações inventadas.
| Prisão Distrital, Lahore 24 de fevereiro de 1964. | Seu fiel Abul A’la Maududi 7-3-64 Assinado: G. A. Ali, Superintendente, Prisão Distrital, Lahore. |
Resposta adicional à terceira acusação
Senhor juiz S. A. Mahmud,
Presidente, Conselho de Revisão dos Prisioneiros Políticos, Lahore
Senhor,
Além da resposta que apresentei anteriormente, em 24 de fevereiro de 1964, em resposta à acusação nº 3 do governo, desejo anexar também as respostas a seguir.
Como estou preso e meu escritório particular foi trancado, não pude obter uma parte importante dos materiais necessários para refutar as acusações apresentadas contra mim. Ainda assim, com grande dificuldade, consegui obter um folheto. Seu título é «As atas da Majlis-e-Shura da Jamaat-e-Islami do Paquistão». Essa shura realizou-se de 15 a 19 de abril de 1951. O folheto foi publicado em abril de 1951 pelo Departamento de Organização da Jamaat-e-Islami. Nele é descrito o programa de ação da Jamaat-e-Islami entre os trabalhadores (ver páginas 53–60). Essa descrição da política da Jamaat-e-Islami refuta completamente a acusação apresentada contra ela, segundo a qual ela se infiltra nas organizações trabalhistas e as «incentiva a criar tumultos».
Em abril de 1951, a Majlis-e-Shura decidiu pela primeira vez que a Jamaat deveria interessar-se pelos problemas dos trabalhadores, e fui autorizado, na qualidade de Amir da Jamaat, a definir um programa de ação nesse sentido. Com base na autoridade que me foi concedida, emiti as seguintes instruções:
«Se algum grupo de trabalhadores manifestar o desejo de que organizemos os trabalhadores e lhes proporcionemos liderança, deve-se deixar claro desde o início que só poderemos organizá-los e conduzir o movimento para a satisfação de suas reivindicações se—
(a) as reivindicações forem legais e justas, e suas queixas forem verdadeiras e legítimas. Nunca poderemos apoiar suas reivindicações injustas e ilegais nem suas queixas ilegítimas.
(b) eles estiverem dispostos a submeter seu movimento, destinado a fazer cumprir suas reivindicações, aos limites de um método de ação pacífico, justo e digno. Não aprovamos qualquer tipo de manifestação, tumulto ou vandalismo.»
(c) Eles não poderão limitar suas atividades à satisfação de seus próprios interesses; ao mesmo tempo, deverão estar preparados para melhorar sua própria condição moral e religiosa.”
Na mesma instrução, ao discutir o método de trabalho e a forma de organização de unidades de trabalhadores desse tipo, escrevi: Em primeiro lugar, deve-se despertar entre os trabalhadores uma consciência moral e religiosa. Em seguida, as seguintes ideias devem ser gradualmente estabelecidas em suas mentes:
1. Todos os meios, recursos e riquezas deste país, qualquer que seja sua forma (terra, indústria, propriedade etc.) e independentemente de quem os controle, são, na realidade, patrimônio nacional e um fideicomisso; a preservação, prosperidade e desenvolvimento desse patrimônio da nação constituem dever moral e nacional de cada cidadão do país.
2. São inimigos — não apenas seus próprios inimigos, mas também inimigos do país e da nação — aqueles que, direta ou indiretamente, se dispõem a prejudicar e destruir o patrimônio nacional seguindo o caminho da destruição e da anarquia.
3. Como muçulmanos, somos súditos de Deus, seguidores do Hazrat Muhammad (que a paz esteja com ele) e obedientes à lei do Alcorão. Por mais urgentes que sejam nossas necessidades e por mais justas que sejam nossas reivindicações, não nos é lícito, como muçulmanos, transgredir em qualquer circunstância os limites estabelecidos por Deus e por Seu Mensageiro (que a paz esteja com ele). Enquanto formos muçulmanos, não podemos correr desenfreadamente como um cavalo sem rédeas.
4. Como muçulmanos, não podemos adotar nenhuma filosofia ou ideologia além do Islã para resolver nossos problemas. Tampouco há necessidade de fazê-lo, pois o Islã possui a capacidade e o poder de resolver todos os nossos problemas da melhor maneira possível. (Nesse contexto, os trabalhadores e operários devem adquirir um conhecimento geral dos ensinamentos básicos do Islã e um conhecimento detalhado sobre a solução dos problemas dos trabalhadores. Assim, poderão estar conscientes de seus direitos e deveres e avaliar corretamente os benefícios e facilidades que o Islã lhes concede antes mesmo de os reivindicarem.)
5. As diferentes partes e grupos da sociedade são como os diferentes órgãos do corpo humano. Assim como cada órgão do corpo humano coopera com os demais e, se entrarem em conflito e guerra uns com os outros, nenhum ser humano poderá sobreviver, do mesmo modo, uma sociedade cujas diferentes partes sejam dominadas pelo ódio, rancor, inimizade, rivalidade, luta de classes, conflitos partidários e uma mentalidade de resistência uns contra os outros não poderá sobreviver. Uma sociedade saudável só pode ser estabelecida sobre as bases do amor, da ajuda e cooperação mútuas e da justiça.
6. É completamente equivocada, desumana, cruel e injusta a mentalidade de uma pessoa que exalta apenas o próprio direito e o dever dos outros, mas ignora por completo o próprio dever e os direitos alheios. Na realidade, cada pessoa terá de prestar contas diante de Deus de seu dever e dos direitos dos outros.
Há treze anos, quando a Jamaat começou a trabalhar entre os trabalhadores, foram apresentadas as citações acima sobre as atividades da Jamaat entre os trabalhadores, extraídas de um livreto publicado naquela época. Desde o início, adotamos um método de trabalho transparente. O Governo não pode afirmar que desconhecia este relatório e que não estava informado sobre a política da Jamaat para os trabalhadores. Não é lamentável que, mesmo após esta declaração clara da Jamaat, o Governo tenha cegamente satisfeito a resistência política e a violência do partido no poder e nos tenha imputado acusações falsas, irracionais, infundadas e de toda outra espécie, alegando que queremos tomar o poder criando descontentamento entre os trabalhadores!
| Cadeia Distrital, Lahore 3 de março de 1964 | Seu fiel Abul A’la Maududi Assinatura: G. A. Marée, 7-3-64 Superintendente Cadeia Distrital, Lahore. |
A resposta que Maulana Maududi deu ao Secretário de Relações Exteriores do Governo do Paquistão Ocidental e presidente do Conselho de Revisão dos Prisioneiros Políticos, juiz S. A. Mahmud, foi tão lógica, legal e sábia que não só as acusações do denunciante se comprovaram infundadas e mal-intencionadas, como também veio à luz a verdadeira enfermidade da mente malévola do adversário. O grupo interessado, isto é, a Convention League no poder, ao levantar, em nome do Governo do Paquistão, acusações tão ridículas, tornou um governo estabelecido motivo de escárnio perante o povo, a sociedade esclarecida, os juristas e o mundo exterior.
Os líderes caxemires em resposta às acusações
O ex-presidente de Azad Jammu e Caxemira, senhor Sardar Muhammad Ibrahim Khan, declarou em um comunicado:
“Todas as acusações feitas contra Maulana Maududi a respeito da jihad da Caxemira são absolutamente infundadas. Quando Maulana Maududi foi enviado à prisão em 1994 com base nessas acusações, eu era o presidente deste Estado. Investiguei essas acusações e descobri que não havia nelas sequer o menor vestígio de verdade. Não pode haver qualquer dúvida quanto ao patriotismo de Maulana Maududi, à sua lealdade ao Estado e ao seu pleno apoio ao movimento de independência da Caxemira.” (APP — diário Kohistan, Rawalpindi, 8 de novembro de 1963). O ex-presidente de Azad Jammu e Caxemira, senhor Saiyid Ali Ahmad Shah, declarou:
“Não é correto transformar a jihad da Caxemira em objeto de controvérsia, nem é correto declarar repetidamente que Maulana Maududi é contrário à jihad da Caxemira. Isso prejudica o objetivo da Caxemira. Até hoje, todos os partidos do país estão de acordo quanto à Caxemira. Maulana Maududi sempre apoiou o direito de autodeterminação e o plebiscito para o povo do Estado de Jammu e Caxemira e, se Deus quiser, continuará a apoiá-los no futuro. Sei também com toda a certeza que Maulana Maududi se opõe veementemente à divisão da Caxemira. Todo Estado muçulmano do mundo sustenta precisamente esta opinião sobre a questão da Caxemira. Em 1948, quando a jihad estava em curso na Caxemira, Maulana Maududi e a Jamaat-e-Islami, com a minha autorização, distribuíram dinheiro em espécie e suprimentos entre o Exército de Azad Caxemira. Maulana Maududi nunca foi, nem é agora, contrário ao direito de autodeterminação e ao plebiscito dos caxemires. Tenho a firme convicção de que, se agora ou no futuro as Nações Unidas ou a Índia violarem ou anularem a resolução do Conselho de Segurança, Maulana Maududi certamente aconselhará o Paquistão e os demais Estados muçulmanos a empreenderem a jihad e emitirá uma fatwa nesse sentido.” (Anjam, Peshawar, 1º de dezembro de 1963)
Declaração do líder caxemirense Chaudhry Ghulam Abbas:
“Rawalpindi, 2 de fevereiro de 1964. Realizou-se hoje, no salão da Biblioteca Pública daqui, uma sessão sob a presidência do senhor Raja Muhammad Haidar Khan, presidente da Conferência Muçulmana de Jammu e Caxemira. Duzentos conselheiros do Azad Caxemira participaram da referida sessão. O Qaide Millat Chaudhry Ghulam Abbas declarou em seu discurso perante a sessão: ‘Recebemos, em nome dos conselheiros da Conferência Muçulmana, um aviso solicitando que, na sessão dos conselheiros, seja aprovada uma resolução de condenação das restrições impostas à Jamaat-e-Islami e da prisão de seus líderes. Considero necessário declarar claramente, perante todos os membros do Conselho Geral, que não temos qualquer relação com a política interna do Paquistão. Contudo, temos de expressar nossa opinião sobre as questões relacionadas ao problema da Caxemira.’”
“É uma verdade universalmente reconhecida que todas as pessoas associadas à Jamaat-e-Islami são patriotas. Na verdade, são os mais patriotas. Havia, de fato, apenas um partido no país que estava empreendendo esforços organizados, por meios legais, em favor da democracia islâmica no país. Quanto ao problema da Caxemira e à conquista do direito de autodeterminação dos caxemirenses, não conseguimos fazer, todos nós juntos — nem mesmo com todos os esforços de nosso governo — o que o Maulana Maududi fez sozinho. Por meio da Rabita-e-Alam-e-Islami, formada pela união dos Estados islâmicos, o Maulana Maududi levou o problema da Caxemira ao fórum das nações do mundo e obteve apoio à autodeterminação em nosso favor, algo que o Paquistão deseja. Além disso, o Maulana Maududi era membro do Comitê da Caxemira. Também nesse aspecto, ele fez sozinho mais do que todos nós. Em uma declaração, assegurando apoio e assistência em nome de sua Jamaat, ele afirmou — declaração publicada nos jornais em 1º de janeiro de 1964 —: ‘O governo precisa tomar medidas concretas quanto ao problema da Caxemira.’ Mas o governo do Paquistão tomou, inesperadamente, uma medida concreta de tal natureza que, ao prender o Maulana Maududi e os líderes da Jamaat-e-Islami, calou aquela voz, causando um prejuízo irreparável ao povo da Caxemira.”
“Além disso, ninguém ignora que, atualmente, na Caxemira ocupada, a Jamaat-e-Islami é o único partido solidamente organizado entre todos os partidos políticos. Suas filiais se estendem de aldeia em aldeia. Por isso, ao impor restrições a um partido pacífico e democrático como a Jamaat-e-Islami, em um país islâmico e democrático como o Paquistão, o governo certamente fará nascer no coração do povo caxemirense ódio contra o Paquistão.”
“Atualmente, o ambiente tranquilo e sereno da Caxemira transformou-se em um paiol de pólvora prestes a explodir, e, se o Paquistão realmente quiser conquistar a Caxemira, jamais haverá momento mais propício do que este. Neste momento, deveria haver o apoio e a cooperação sinceros e unidos de toda a nação paquistanesa. O governo do Paquistão havia conseguido isso. Mas, para nosso pesar, justamente neste momento o governo impôs restrições ao Maulana Maududi e à Jamaat-e-Islami, privando-se assim de ajuda e cooperação. Isso demonstra que o governo não deseja tomar nenhuma medida eficaz a esse respeito.”
“Se o governo do Paquistão é sincero quanto ao problema da Caxemira, então exigimos que o Maulana Maududi e os líderes da Jamaat-e-Islami sejam libertados incondicionalmente e que as restrições impostas à Jamaat-e-Islami sejam retiradas.”
Todo o conselho manifestou, por unanimidade, seu apoio ao discurso acima do Qaide Millat e exigiu do governo do Paquistão e do presidente, marechal de campo Muhammad Ayub Khan, que o Maulana Maududi e os líderes da Jamaat fossem libertados e que as restrições impostas à Jamaat-e-Islami fossem retiradas. (Semanário Pak-Caxemira, Rawalpindi, 6 de fevereiro de 1964).
Libertação do Maulana e dos líderes da Jamaat
É digno de nota que, em 6 de janeiro de 1964, assim que a Jamaat-e-Islami foi declarada ilegal, o Maulana Sayyid Abul A’la Mawdudi (Emir da Jamaat-e-Islami do Paquistão) e 13 líderes da Jamaat no Paquistão Ocidental foram presos. Os líderes do Paquistão Oriental foram libertados no prazo de seis ou sete meses. Contudo, mesmo após a sentença clara da Suprema Corte, proferida em 25 de setembro de 1964, o Maulana Mawdudi e os demais líderes do Paquistão Ocidental continuaram injustamente e ilegalmente encarcerados. Entretanto, contra essa ordem de detenção injusta, foi impetrado um habeas corpus no Tribunal Superior do Paquistão Ocidental.
Em 9 de outubro de 1964, o Tribunal Superior do Paquistão Ocidental declarou em sua sentença: “A detenção dos líderes foi totalmente injusta e ilegal.” O honrado Tribunal Superior ordenou ao governo que libertasse imediatamente os líderes.
Por ordem do Tribunal Superior, depois de cumprir mais de nove meses de prisão sem culpa, o Maulana Mawdudi e os demais líderes da Jamaat tiveram a oportunidade de retornar à atmosfera livre do mundo. O povo de Lahore aguardava para dar ao Maulana uma calorosa recepção no portão da prisão. Finalmente, depois das três horas da madrugada, o portão da prisão se abriu; o Maulana saiu, e realizou-se uma enorme procissão em sua honra. O grito de vitória da verdade voltou a ressoar, enquanto o balão da mentira se dissolveu no vasto céu.
O papel do Maulana Mawdudi e da Jamaat-e-Islami na guerra indo-paquistanesa anterior
Em 6 de setembro de 1965, a Índia imperialista atacou o Paquistão por terra e pelo ar, sem declarar guerra. Com tanques, carros blindados e armamentos pesados, as tropas indianas atravessaram a fronteira de Wagah, a leste de Lahore, e avançaram em direção à cidade. Desde o fim da noite anterior, ouvia-se o estrondo trovejante da artilharia e dos disparos indianos. Contudo, os habitantes de Lahore não souberam o que realmente acontecera antes das nove horas da manhã seguinte.
Em 5 de setembro, em Rawalpindi, reuniram-se os líderes, entre eles o líder caxemiriano Chaudhry Ghulam Abbas, o Maulana Mawdudi, Muhammad Ali, Nawabzada Nasrullah Khan e Sardar Shaukat Hayat Khan. Na manhã seguinte, 6 de setembro, assim que receberam a notícia da guerra, às oito horas o Maulana Mawdudi partiu para Lahore.
Pouco antes do meio-dia, o senhor Sayyid Munir Husain, secretário do Departamento de Informação do governo do Paquistão Ocidental, informou por telefone, na residência do Maulana, que o Presidente do Paquistão havia convidado os líderes dos partidos de oposição para se reunirem às sete da noite em sua residência em Rawalpindi. O Maulana Mawdudi ainda não havia conseguido chegar a Lahore. O secretário de Informação pediu que, assim que o Maulana chegasse a Lahore, o avisassem; então ele enviaria um veículo oficial para levá-lo a Pindi.
De todo modo, ao encontrar-se com o Presidente, o Maulana informou-lhe que, naquele momento de extrema crise nacional, ele e sua Jamaat estavam a cada instante prontos para prestar qualquer serviço e fazer qualquer sacrifício.
É desnecessário dizer que, quando a opressão e a perseguição infligidas pela Índia imperialista aos muçulmanos da Caxemira chegaram ao extremo, as massas muçulmanas oprimidas declararam o jihad, no final do mês de agosto, para sua autodefesa. Maulana Maududi já havia feito um veemente apelo ao povo do Paquistão para que prestasse todo tipo de auxílio aos mujahideen da Caxemira e ordenado a todos os membros da Jamaat-e Islami que se apresentassem para colaborar nessa causa. Em seguida, sob o nome de “Fundo do Jihad pela Caxemira”, os membros da Jamaat iniciaram campanhas de arrecadação de fundos no Paquistão Oriental e Ocidental. Não apenas dinheiro em espécie, mas também diversos tipos de bens necessários começaram a ser recolhidos. O povo também passou a doar generosamente, demonstrando um sacrifício e uma devoção sem precedentes.
Maulana Maududi não se limitou a isso. Escreveu a cerca de cem sábios, intelectuais, líderes e editores de jornais de todo o mundo muçulmano, solicitando todo tipo de auxílio para o jihad da Caxemira. Seu apelo foi publicado em numerosos jornais e periódicos do mundo muçulmano. Como resultado, houve grande comoção em toda parte, e começaram rapidamente os trabalhos de acordo com o apelo do Maulana.
Quando, em 6 de setembro de 1965, a Índia iniciou um ataque direto contra o território paquistanês, o Maulana dirigiu o seguinte apelo ao povo do Paquistão:
“Hoje, depois da audácia demonstrada pelas tropas indianas ao cruzarem a fronteira de Wagah e avançarem em direção a Lahore, a guerra já não está limitada apenas a Jammu e Caxemira; pelo contrário, uma guerra em toda a extensão começou entre os dois países. E ela foi iniciada sem qualquer declaração. Agora, é dever religioso de cada cidadão paquistanês preparar-se para matar e morrer, cingindo a cabeça com a mortalha, e proteger cada centímetro deste território sagrado com sua vida e seus bens. Naturalmente, não há dúvida de que, pela graça de Deus, os homens de nosso exército são extremamente valentes e temos plena confiança em sua bravura. Contudo, quando qualquer parte do país é atacada, resistir a esse ataque não se torna um dever religioso apenas do exército; de acordo com a orientação de Allah e de Seu Mensageiro (que a paz esteja sobre ele), isso se torna dever religioso de todo muçulmano. Portanto, faço um apelo a todos os muçulmanos do Paquistão para que se unam plenamente, levantem-se pela segurança deste país e estejam preparados para todo tipo de sacrifício. Depois disso, Maulana Maududi proferiu cinco discursos pela Rádio Paquistão para inspirar a nação com o espírito do jihad. O governo paquistanês imprimiu os discursos em forma de livreto e os distribuiu entre o povo e o exército. Não será exagero dizer que os discursos de jihad do Maulana infundiram no exército, nos habitantes das regiões fronteiriças e, de modo geral, em toda a nação, uma força invencível e sem precedentes para o jihad no caminho de Allah. Após o cessar-fogo, fomos visitar as frentes de batalha no início de dezembro. No histórico setor da frente de batalha de Chawinda — chamado por especialistas estrangeiros de “Graveyard of Indian Tanks”, o “Cemitério dos tanques indianos” — ainda encontramos, nos alojamentos de nossos irmãos soldados, os livretos dos discursos de jihad do Maulana.”
A visita de Maulana Maududi à Caxemira Azad
De Muzaffarabad, Maulana Maududi proferiu, pela Rádio da Caxemira Azad, um discurso repleto de argumentos irrefutáveis e informações sobre a questão da Caxemira. Em seguida, acompanhado do secretário-geral da Jamaat-e Islami e de alguns responsáveis pelo escritório central da Jamaat, visitou diversas zonas de combate da Caxemira Azad e apelou a todos para fortalecerem sua relação com Deus e manterem firme o moral. A visita do Maulana à Caxemira Azad deu grande ânimo e entusiasmo ao povo, aos mujahideen e ao governo da Caxemira Azad.
Depois, a pedido do governo da Caxemira Azad, a Jamaat-e Islami assumiu toda a responsabilidade pelo atendimento e tratamento de milhares de muhajirun vindos da Caxemira ocupada e da Índia, bem como dos soldados feridos na guerra. Para isso, estabeleceu oito centros médicos nos distritos de Poonch e Mirpur, arcando com todas as despesas. Os médicos, oficiais e demais funcionários necessários para esse trabalho foram recrutados pela Jamaat. Esse serviço permaneceu em funcionamento contínuo de novembro de 1965 a junho de 1966.
Segue abaixo uma cópia da carta enviada pelo governo da Caxemira Azad, em agradecimento pelos serviços prestados pela Jamaat-e Islami, ao senhor Sayyid Siddiqul Hasan Gilani, diretor do Departamento de Assistência Social da Jamaat:
Cópia da carta
N.º INF/519/66
RESIDÊNCIA DO PRESIDENTE
MUZAFFARABAD
DATADO DE 5º DE ABRIL DE 1966
SAYED SIDDIQUL HASAN GILANI, ESQ.
ORGANIZADOR, UNIDADES MÉDICAS.
JAMA’AT-I-ISLAMI PAQUISTÃO
ICHHRA, LAHORE
Queira consultar sua carta nº… datada de 25.2.66, sobre o encerramento das unidades médicas estabelecidas pela Jamaat-i-Islami em Azad Caxemira durante o último mês de novembro de 1965.
Fui instruído pelo Presidente do Governo de Azad do Estado de Jammu e Caxemira a transmitir, em seu nome, sua gratidão pela inestimável assistência e cooperação prestadas pela Jamaat-i-Islami em todos os assuntos, particularmente no campo médico. Sem dúvida, o apoio da Jamaat-i-Islami foi motivo de grande alívio para as vítimas da barbárie das forças indianas e dos jana Shanghies do outro lado da Linha de Cessar-Fogo.
Também fui instruído a solicitar-lhe que transmita os sentimentos de gratidão aos médicos e aos demais membros das unidades médicas que trabalharam em Azad Caxemira em condições extremamente difíceis e atenderam aos refugiados com considerável sacrifício pessoal.
- M.., Hashmi
Secretário do Governo
Governo de Azad de Jammu e Caxemira.
Apresento também aos leitores um breve relato desse trabalho de serviço.
Das oito unidades médicas mencionadas acima, durante os últimos oito meses foram tratados ao todo ২,০২,৮৩৬ (duzentos e dois mil oitocentos e trinta e seis) pessoas. Registre-se que, para as atividades de auxílio, a Jamaat-e-Islami arrecadou ao todo ২,৯৫,১৬৮.৬৮ rúpias. Desse montante, 125.000 rúpias em dinheiro foram entregues ao Presidente de Azad Kashmir. A quantia de 75.511,00 rúpias foi destinada às unidades médicas. Aos estudantes foram entregues 3.637,89 rúpias; 2.100,00 rúpias foram fornecidas por Lahore para os refugiados de guerra; 19.044,85 rúpias foram mantidas como reserva no Habib Bank; 5.985,00 rúpias foram gastas em subsídios aos funcionários; 28.551,23 rúpias foram gastas na compra de artigos necessários, como cobertores, colchões, utensílios domésticos e outros; 8.734,26 rúpias foram gastas com veículos, transporte, embalagem e afins; 1.811,48 rúpias foram gastas em subsídios aos voluntários; 2.638,80 rúpias foram gastas na lavagem de roupas e no conserto e compra de calçados. Depois de descontadas as demais despesas diversas, restaram 1.188,44 rúpias no fundo, depositadas no fundo de auxílio da Jamaat.
Além das atividades médicas, foram reunidos e enviados a Azad Kashmir artigos de primeira necessidade de todos os tipos, em quantidade suficiente para mais de cem mil muhajirs. Não havia nenhum artigo necessário às pessoas que não lhes tivesse sido fornecido. Foram enviados até mesmo várias centenas de caixas de lata galvanizada, repletas de valiosos presentes de casamento para os noivos e noivas muhajirs, para que um pouco de alegria pudesse surgir nos casamentos dos desabrigados.
Depois de atendidas as necessidades de Azad Kashmir, 16 caminhões carregados de mercadorias foram devolvidos ao escritório da Jamaat em Rawalpindi e, mais tarde, distribuídos entre as pessoas afetadas pela guerra no setor de Sialkot. O valor dos artigos de auxílio arrecadados pelos trabalhadores da Jamaat após o veemente apelo de Mawlana Maududi ao público muçulmano não foi inferior a trinta e trinta e cinco lakhs de rúpias.
Além disso, os trabalhadores da Jamaat arrecadaram em dinheiro ৫,৫৮,৬৪৫.৩৮ rúpias (quinhentas e cinquenta e oito mil seiscentas e quarenta e cinco rúpias e trinta e oito paisas) para o “Fundo da Jihad da Caxemira”, o “Fundo de Defesa do Paquistão” e a assistência aos desabrigados. Muitos trabalhadores da Jamaat ofereceram seus serviços no campo de batalha. Em algumas frentes de combate, providenciaram alimentos e água para os soldados e, à noite, montaram guarda para proteger as linhas ferroviárias. Inspirado pela jihad, um dos amires distritais da Jamaat-e-Islami repetiu o exemplo do primeiro califa do Islã, Hazrat Siddiq Akbar (que Deus esteja satisfeito com ele). Ele doou generosamente para a jihad todos os móveis de sua casa e até seu último centavo. [Mas é uma grande verdade que a sociedade contrária ao Islã não tolera aqueles que reconhecem somente Allah como Senhor e sacrificam suas vidas e seus bens em Seu caminho. Também neste caso a história se repetiu. As autoridades distritais começaram a ordenar a prisão desse homem mujahid, envolvendo-o sucessivamente em processos políticos. Deve-se mencionar que, durante o governo de Bhutto, ele era um orador franco do partido de oposição. Assim, tornou-se vítima da conspiração do governo de Bhutto e alcançou o martírio ao ser atingido pelos tiros de um assassino. Tratava-se do Dr. Nazir Ahmad, eleito M.N.A. em 1970.]
Apelo à unidade durante a guerra
Mawlana Maududi foi o primeiro a reunir todos os líderes dos partidos de oposição e formar um Comitê Conjunto de Guerra; todo o trabalho do comitê era realizado no escritório central da Jamaat. Esse comitê informou ao governo que prestaria cooperação incondicional em todos os assuntos relacionados à guerra.
Os serviços prestados pelo Paquistão ao mundo exterior
Depois que o Paquistão foi diretamente atacado pela Índia, Mawlana Maududi enviou, para publicação em vários jornais dos países muçulmanos, uma carta aberta dirigida às nações muçulmanas de todo o mundo. Ela foi publicada no devido tempo em quase todos os jornais. Segue abaixo uma cópia da carta:
“A Índia imperialista despiu-se da máscara de amante da paz e da neutralidade e atacou o Paquistão por todos os lados, com numerosas tropas equipadas com armas modernas. Não pode haver outra razão para esse ataque bárbaro senão o fato de que os muçulmanos oprimidos da Caxemira haviam declarado a jihad para se proteger da opressão bestial da Índia, e de que o Paquistão havia ajudado os caxemires, inspirado unicamente pelo sentimento de fraternidade islâmica. Os mujahidin caxemires e paquistaneses conquistaram, em uma semana, muitos lugares da Caxemira ocupada. Ao ver essa situação, a Índia, completamente desnorteada, atacou subitamente o Paquistão por terra, mar e ar e, por outro lado, iniciou uma indescritível perseguição contra os muçulmanos indianos e caxemires. Nossas forças armadas possuem as armas da ‘fé em Allah’ e do ‘tawakkul em Allah’. Por isso, em todos os confrontos ocorridos até hoje, os soldados paquistaneses deram exemplos extraordinários de bravura. Para resistir à agressão indiana, apelo aos cem milhões de muçulmanos do Paquistão e aos Estados muçulmanos para que, inspirados pelo sentimento de fraternidade islâmica, avancem em auxílio financeiro e moral a seus irmãos paquistaneses e caxemires.”
É desnecessário dizer que a resposta sem precedentes que isso suscitou em todo o mundo muçulmano será registrada em letras douradas na história. Ninguém desconhece a forma como o Congresso Mundial Muçulmano de Meca, a Irmandade Muçulmana, os países muçulmanos do Oriente Médio e da África e as diversas instituições dessas regiões responderam. Em resposta, o famoso líder religioso do Irã, Allama Muhammad al-Sadiq al-Ruhani, informou a Maulana Maududi que, em consequência do ataque da Índia ao Paquistão, os ulemás, os mashāyikh e os muçulmanos comuns do Irã haviam ficado inquietos e agitados.
É importante mencionar aqui que o passaporte internacional de Maulana Maududi foi confiscado sem qualquer explicação ainda antes de a Jamaat-e-Islami ser declarada ilegal pelo governo. A sede central do Congresso Mundial Muçulmano de Meca (Rābita al-ʿĀlam al-Islāmī) está estabelecida em Meca. Maulana Maududi é membro de seu comitê executivo central. Ele também é membro vitalício do conselho diretor da Universidade Islâmica estabelecida em Medina. Durante o hajj, realizam-se reuniões urgentes e importantes de ambas as instituições, às quais o Xá Faisal também costumava participar. Depois que o passaporte do Maulana foi confiscado pelo governo, ele não pôde ir a Meca durante vários anos. Após a guerra indo-paquistanesa, seu passaporte foi devolvido e, durante o hajj seguinte, ele foi a Meca. Ele preparou um valioso livreto informativo sobre a questão da Caxemira, em inglês e árabe, e levou consigo cerca de cinquenta mil exemplares. Esses exemplares foram distribuídos entre os peregrinos instruídos vindos de diferentes países do mundo. Os livretos estavam repletos de informações importantes e acontecimentos históricos; neles, as causas fundamentais da questão da Caxemira, seu contexto histórico e a história política, econômica, religiosa e cultural dos muçulmanos caxemires haviam sido escritos em linguagem tão precisa e comovente que, até então, nenhum departamento governamental conseguira apresentar publicamente um livreto, uma história ou uma declaração de nível semelhante. Nesse livreto, Maulana demonstrou claramente uma única coisa: a questão da Caxemira não é apenas do Paquistão, mas de todo o mundo muçulmano. Se o muro de resistência do Paquistão ruir diante da campanha expansionista da Índia ávida por impérios, seu avanço continuará até o extremo ocidental do mundo muçulmano. Além disso, a verdadeira relação da Índia com o Paquistão também se tornará clara para os muçulmanos de todo o mundo.
Além disso, durante o hajj do ano anterior, Maulana Maududi elogiou calorosamente a bravura do exército paquistanês na guerra indo-paquistanesa, em uma assembleia de setecentas ou oitocentas personalidades eminentes, selecionadas de diversos países, organizada por iniciativa do Congresso Mundial Muçulmano. Ele proferiu um longo discurso sobre o ânimo inabalável e o sacrifício extraordinário do povo paquistanês, o comportamento bárbaro e bestial do exército indiano, as más intenções da Índia e outros assuntos. Com palavras claras e argumentos vigorosos, Maulana fez os ouvintes compreenderem que o olhar cobiçoso da Índia sobre os recursos petrolíferos dos países muçulmanos era evidente. Por essa razão, ela queria estabelecer o imperialismo hindu indiano sobre os países muçulmanos da África e da Ásia. Em seguida, uma resolução foi aprovada na reunião do Congresso Mundial Muçulmano exigindo a libertação do xeque Abdullah.
Em suma, desde o início da guerra até o período posterior ao cessar-fogo e ao acordo de Tashkent, os serviços de Maulana ao Paquistão foram incomparáveis. Mas, assim como o morcego não consegue suportar de modo algum os raios solares, a força vivificante do mundo, e passa o dia inteiro de cabeça para baixo tentando golpear o sol com os pés, também certo grupo de pessoas no Paquistão, movido por uma hostilidade infundada contra Maulana, empenha-se em espalhar histórias falsas sobre ele dentro e fora do país. Mesmo depois da guerra, alguns milhares de panfletos contendo acusações infundadas e invectivas contra Maulana foram enviados a Meca por determinado grupo. Contudo, ao observar o ambiente local, não se teve coragem de distribuí-los.
Quando, em uma frente da guerra indo-paquistanesa, as tropas indianas começaram a recuar depois de sofrer uma derrota severa, o Conselho de Segurança e as grandes potências sob sua autoridade começaram a pressionar o Paquistão a aceitar um cessar-fogo. Nessa ocasião, Maulana Maududi expressou claramente a posição da Jamaat-e-Islami sobre o assunto, dizendo que, enquanto não fosse assegurada na Caxemira a realização de um plebiscito, conforme a resolução adotada pelo Conselho de Segurança — resolução que a própria Índia havia aceitado —, concordar com um cessar-fogo equivaleria a um suicídio para o Paquistão. Mesmo depois disso, Maulana continuou oferecendo ao governo paquistanês seus conselhos sinceros, justos e racionais. Mas tudo se transformou em um clamor no deserto. O acordo de Tashkent levou tudo ao fracasso. As esperanças e aspirações nacionais do Paquistão foram esmagadas, e os muçulmanos caxemires oprimidos foram empurrados para diante de canibais famintos e ferozes.
Do pós-guerra indo-paquistanesa até 1970, antes de Maulana viajar ao exterior para tratamento médico
Durante os cinco anos posteriores à guerra indo-paquistanesa, Maulana Maududi desempenhou o papel de líder na luta pela implantação da democracia no Paquistão. Maulana expressou a opinião de que a declaração de um cessar-fogo incondicional e, posteriormente, o acordo de Tashkent, em janeiro, haviam prejudicado a imagem do Paquistão. Em protesto contra o acordo de Tashkent, realizou-se em Lahore, em 13 de fevereiro de 1966, uma conferência nacional multipartidária, na qual Maulana Maududi e os líderes dos partidos de oposição proferiram discursos criticando duramente o governo e o acordo de Tashkent. Contudo, o governo proibiu a publicação dos discursos e das resoluções da conferência. Em reação a isso, iniciou-se em todo o país um movimento popular chamado Movimento Democrático do Paquistão.
A prisão do Maulana
Como o Maulana Maududi era a força vital do movimento democrático, tornou-se um espinho nos olhos do grupo governante. O governo procurava vários pretextos para prendê-lo e afastá-lo indefinidamente do campo de batalha do movimento; por fim, encontrou um pretexto.
Após a noite de 10 de janeiro de 1967, foi anunciado pelo rádio e pela televisão, em nome do Comitê Oficial de Ru’yat-e-Hilal, que a lua nova do Eid al-Fitr havia sido avistada e que, no dia seguinte, 11 de janeiro, o Eid al-Fitr seria celebrado em todo o país. Contudo, a lua não fora avistada em Pindi, Lahore, Karachi, Délhi nem em nenhum lugar do Paquistão Oriental. Por isso, os ulemás ilustres divergiram do Comitê de Ru’yat-e-Hilal. Decidiram que o Eid seria celebrado em 12 de janeiro, em vez de 11 de janeiro, e essa decisão foi divulgada em todo o país pelos jornais. O povo muçulmano também não estava disposto a celebrar o Eid em 11 de janeiro sem avistar a lua, pois não havia chegado de parte alguma qualquer notícia de que ela tivesse sido vista na noite de 10 de janeiro. Assim, embora um número muito pequeno de pessoas em todo o país tenha celebrado o Eid em 11 de janeiro apenas para agradar ao governo, a nação inteira celebrou o sagrado Eid al-Fitr na sexta-feira, 12 de janeiro.
Isso atingiu a dignidade de Ayub Khan. Depois disso, em apoio à decisão do governo e lançando invectivas contra os ulemás, especialmente contra o Maulana Maududi, começaram a ser publicadas nos jornais declarações após declarações de ministros e bajuladores. Assim, ninguém mais teve dúvida sobre as más intenções do governo. Portanto, em 19 de janeiro, quatro renomados ulemás de Lahore, incluindo o Maulana Maududi, foram presos e enviados para prisões diferentes. O Maulana Maududi foi transferido de Lahore para a prisão de Bannu, a várias centenas de milhas de distância, e seus movimentos foram mantidos completamente em segredo perante o povo durante vários dias.
Um mês após as prisões, Ayub Khan declarou com arrogância, numa conferência de governadores, que alguns ulemás haviam sido presos porque queriam fazer da religião um fantoche em suas mãos.
Mas a realidade era exatamente o oposto. O próprio Ayub Khan, em vez de se submeter à religião, queria submeter a religião — isto é, o Islã — a si mesmo. Por outro lado, o Maulana Maududi e os ulemás fiéis à verdade não estavam de modo algum dispostos a tolerar sequer a mínima interferência de quem quer que fosse no Islã.
Quando Chaudhry Rahmat Ilahi, em nome da Jamaat-e-Islami, entrou com uma ação no Tribunal Superior contra essa detenção injusta, a audiência foi marcada para 13 de março. Durante a audiência, o governo foi obrigado a libertar o Maulana em 16 de março. Em seguida, ele foi levado honrosamente da prisão de Bannu para sua residência em Lahore.
A viagem do Maulana ao exterior para tratamento médico
Devido à formação de pedras na bexiga, o Maulana sofreu durante muito tempo dessa doença. Por causa disso, sua saúde havia se debilitado completamente. Para o trabalho da religião, ele havia tornado seu corpo e sua mente tão firmes quanto uma pedra. Por isso, mesmo em meio a uma doença grave, trabalhava dia e noite. Nunca expressou pela boca o sofrimento e a dor da doença. Tampouco jamais se viu em seu rosto qualquer sombra de dor.
Sua primeira cirurgia da bexiga foi realizada em 16 de outubro de 1946, quando ele se encontrava em Darul Islam, Pathankot. Sua doença surgiu devido às horas e horas seguidas de trabalho sentado, privando-se à noite de um sono tranquilo para se dedicar aos estudos e à escrita. Com o uso de medicamentos unani e alopáticos, as pedras saíam junto com a urina, mas voltavam a se formar. O Hakim Muhammad Sharif Amritsari continuou tratando-o, mas a doença não foi curada. Assim, atendendo aos pedidos de todos, o Maulana concordou em submeter-se à cirurgia.
O lahوري Zafar Iqbal era amigo do Maulana, e seu irmão, o Dr. Riyaz Qadir, era um cirurgião renomado. Ficou decidido que, em outubro, o Dr. Riyaz Qadir operaria o Maulana no Hospital de Amritsar. Como preparação para a cirurgia, ele providenciou alguns medicamentos e aconselhou o Maulana a repousar completamente. De acordo com isso, em 25 de setembro o Maulana foi para Shimla e passou a ficar na casa do senhor Sufi Abdur Rahim. Depois, em 13 de outubro, foi para Amritsar, e em 16 de outubro o Dr. Riyaz Qadir realizou sua operação. Foram encontradas cinco pedras em sua bexiga. A operação foi bem-sucedida e, em 13 de novembro, o Maulana deixou o hospital e chegou a Darul Islam ao anoitecer. Seis dias depois, em 19 de novembro, o Maulana foi para Sialkot a fim de descansar e retornou a Darul Islam no final de dezembro.
Vinte e dois anos depois, seguindo novamente a recomendação dos médicos, ele terá de ir a Londres para uma cirurgia na bexiga. Muito naturalmente, os incontáveis admiradores e devotos do Maulana ficaram preocupados e aflitos com a perspectiva de sua ausência. A emoção transbordante de seus corações angustiados pela separação expressou-se em palavras e lágrimas na residência do Maulana, no 5/A Jaildar Park, e nas várias cerimônias realizadas em Lahore por ocasião de sua partida.
De agosto a dezembro de 1968
A tarde de 22 de agosto.
No aeroporto de Lahore está concentrada a emoção transbordante e dolorosa de milhares de pessoas. Entre a multidão reina plena disciplina. Não há tumulto nem alvoroço. Há apenas o desejo ardente de despedir-se em silêncio, com os olhos inundados de lágrimas. O fluxo da multidão em direção ao aeroporto continua incessante. Essa aglomeração reuniu-se para ver o Maulana uma última vez, antes de sua partida para Londres.
À tarde, o sol lança seus raios abrasadores sobre o aeroporto. As pessoas que vieram despedir-se do Maulana aguardam em filas, em perfeita ordem. Seguram vários tipos de faixas: “Qual é a base do Paquistão? — o Islã; o que manterá o Paquistão de pé? — o Islã; qual é a origem do Paquistão? — La ilaha illallah.”
Aquele venerável homem que chama à verdade e à beleza, para vê-lo chegar, este mar de gente veio ao aeroporto. Inumeráveis olhos permanecem fixamente voltados para ele. A multidão que aguarda grava no coração cada palavra que sai de sua boca, e levará sua preciosa mensagem de despedida a milhões de homens e mulheres que não tiveram a oportunidade e a felicidade de participar desta cerimônia de despedida. Com a voz embargada pelas lágrimas, Maulana dirige-se à multidão: “Minha recomendação a todos vocês é que continuem trabalhando com plena sinceridade e firmeza para estabelecer a religião de Allah na terra do Paquistão. Continuarei orando por vocês, e vocês também continuarão orando por mim, para que Allah Todo-Poderoso nos torne verdadeiros servidores de Sua religião. Que Ele nos conceda a capacidade de realizar, com maior competência e dedicação, tudo o que pudermos fazer.”
A multidão exclamou, com voz comovida: “Amém”.
25 de agosto.
Hoje, o aeroporto de Karachi assumiu a aparência que tinha o aeroporto de Lahore dois dias atrás. Maulana está subindo pela escada do avião. Todo o ambiente do aeroporto, coberto pela sombra da tristeza, assumiu um aspecto silencioso, solene e sagrado. As orações da multidão que veio para despedir-se ressoam no ar e no céu do aeroporto. Parado no último degrau da escada, Maulana ergueu a mão e disse à multidão: “Khuda Hafiz”.
O avião Boeing da PIA, apoiado em suas duas asas no céu azul, sobrevoa muitos países, rios e mares, dirigindo-se ao seu destino. Entre os passageiros, alguns satisfazem o desejo de beber, outros conversam com o companheiro ao lado, e outros se entregam ao prazer de alguma literatura recreativa para distrair a mente. Mas que tempo tem Maulana para tudo isso? Ele está ocupado fazendo as correções necessárias na tradução inglesa de suas obras. De tempos em tempos, o avião desce do céu sobre a terra, em Teerã, Beirute e Istambul. Em cada lugar, os gritos de “Allahu Akbar” dos que desejam ver Maulana rasgam o céu e o ar do aeroporto. Entre aqueles que desejam vê-lo estão as personalidades ilustres da cidade, os nobres ulemás, líderes de diversas instituições, professores universitários e estudantes. A personalidade de Maulana não está limitada a um único país; pelo contrário, é universal. Ele não pertence apenas ao Paquistão, mas ao mundo inteiro. É objeto da veneração do mundo muçulmano, que busca nele uma verdadeira orientação para seguir o caminho do Islã.
Para a multidão reunida, Maulana é pessoalmente um desconhecido. Contudo, a sincera homenagem que lhe prestam, bem como a espontânea explosão de emoção e entusiasmo, testemunha precisamente que ambos são profundamente conhecidos um do outro há muitos anos, através das eras e dos séculos. Por que é tão profunda e sólida a relação entre aquele que chama à verdade e os que a aceitam? E onde há tempo, ou mesmo necessidade, de responder a essa e a tantas outras perguntas semelhantes? A resposta está justamente na cena comovente que estes dois olhos contemplam e no que o coração sente.
O maior aeroporto da Europa ressoa e reverbera com os gritos de “Allahu Akbar”. Junto com eles, ouvem-se “Paquistão Zindabad” e “Nizam Islâmico Zindabad”. São cinco e meia da tarde, segundo o horário padrão britânico. Maulana desembarcou do avião. Pessoas vindas espontaneamente de Newton, Birmingham, Manchester, Rochester, Bradford e de outras vinte ou vinte e duas cidades saúdam Maulana. Entre elas há árabes, turcos, pessoas da Ásia e da África. Há também numerosos paquistaneses e novos muçulmanos de várias partes da Europa. As diversas faixas e cartazes escritos em inglês, árabe, urdu, japonês, malaio e turco atraem a atenção dos espectadores. Dos três andares do aeroporto de Londres e de suas galerias, milhares de espectadores europeus contemplam, sem piscar, esta cena sem precedentes. O que foi dito em Lahore, Karachi e nos diversos aeroportos ao longo do caminho está sendo dito agora no aeroporto de Londres. Esta recepção extraordinária e sem paralelo não é uma declaração de apoio pleno a uma personalidade, mas a uma visão de mundo e a um sistema de vida. É também a expressão, por parte de uma millat e de uma nação, do acolhimento no coração de um homem que dedicou toda a sua vida ao Islã e deu testemunho direto da “Shahadat-e-Haq”. É uma forte declaração de aceitação da verdade e rejeição da falsidade.
Pode-se mencionar que esse venerável homem é precisamente aquele que, há quarenta e oito anos, aos dezessete anos de idade, tomou a pena nas mãos. Então o mundo viu que o tema de sua pena era o Islã, e que toda a sua reflexão, empenho e esforço ao longo da vida eram pelo Islã. Cada dia e noite, cada hora e cada momento de seu passado testemunhou que o trabalho ao qual dedicou esse período foi o Din al-Haqq, isto é, o estabelecimento da religião da verdade. Houve momentos em que ele foi visto disposto até mesmo a aceitar a morte por esse Din al-Haqq. Milhões de pessoas observaram cada momento de sua vida. Para elas, não é segredo que ele apresentou a toda a nação esta verdade: o único objetivo da vida dos muçulmanos é fazer do Islã um sistema de vida completo, vitorioso e elevado. Com sua vida, ele provou que, se o trabalho é pelo Islã, então o caráter, a conduta e o comportamento devem ser os de um verdadeiro muçulmano. Se o convite é para o Islã, então o coração deve estar, a cada momento, cheio do temor de Deus. Se o nome invocado é o do Alcorão e da Sunnah, então todo o aprendizado e toda a educação devem provir do Alcorão e da Sunnah. Se a bandeira da verdade deve ser erguida, isso deve ser feito de tal modo que a verdade se torne uma grande ameaça para a falsidade.
Os dias em Londres
Maulana veio a Londres para tratamento — para ser submetido a uma cirurgia na bexiga. Por um lado, prosseguiam todos os preparativos para essa cirurgia. Por outro, muçulmanos vindos de várias partes do mundo e muçulmanos residentes na Inglaterra, juntamente com suas organizações, sentiam que Maulana Sayyid Abul Ala Maududi estava entre eles. Europeus de lugares próximos e distantes, bem como novos muçulmanos ingleses, encontravam-se com Maulana e obtinham respostas satisfatórias para suas diversas perguntas. A FOSIS, organização internacional dos estudantes muçulmanos, oferecia a muitas pessoas a oportunidade de se encontrarem com ele, organizando um jantar em sua homenagem. Maulana respondia às várias perguntas dos visitantes. A BBC e outras agências de notícias também realizavam entrevistas com Maulana.
Na conferência da UK Islamic Mission
Uma conferência internacional de três dias da UK Islamic Mission começou em Londres no dia 31 de agosto. Maulana participou no segundo dia da conferência. Representantes de todos os países do mundo muçulmano participaram dela. Em seu discurso, Maulana disse:
“Vocês são embaixadores do Islam neste país. Querendo ou não, os não muçulmanos daqui os consideram representantes do Islam. Portanto, naturalmente recai sobre vocês e sobre todos os muçulmanos que vivem aqui esta enorme responsabilidade: tudo o que fizerem aqui e toda a imagem que revelarem por meio de sua conduta e comportamento, eles atribuirão inteiramente ao Islam. Vocês serão responsáveis pela opinião que formarem a partir de seus modos e de seu caráter. Pensem cuidadosamente: que grande responsabilidade é esta, pela qual teremos de prestar contas no Dia do Juízo.”
Em um ambiente completamente vibrante e silencioso, cada palavra desse discurso atingia o mais profundo do coração dos ouvintes. Cada coração sentia esse impacto. Este era o elevado chamado de Maulana dirigido a cada consciência. E esse era o atrativo fundamental de seu convite islâmico ao longo de toda a sua vida. Ao abordar o discurso proferido no terceiro dia da conferência, Maulana disse:
“Tenho plena convicção de que, onde quer que as pessoas vivam na Terra, ali é possível que o Islam se expanda. Se vocês apresentarem, por meio de sua conduta e comportamento, a prova da verdade do Islam, então, insha’Allah, o Islam se expandirá também entre as populações não muçulmanas daqui. Para dizer a verdade, vocês são afortunados, pois Allah, o Altíssimo, lhes concedeu a oportunidade de conquistar a nação inglesa.”
No Centro Cultural Islâmico, Maulana proferiu o sermão de sexta-feira (khutbah) no dia 6 de setembro. No dia seguinte, aumentou muito o número de pessoas que desejavam visitá-lo em sua residência, pois no dia 8 de setembro Maulana teria de ir ao hospital para a cirurgia. Entre os visitantes do dia 7 estavam estudantes sudaneses, personalidades nigerianas e pessoas ilustres de outros países. Na noite do dia anterior, Maulana foi à clínica de Londres para a cirurgia marcada para 9 de setembro. Acompanharam-no o professor Khurshid Ahmad e seu filho, o Dr. Ahmad Farooq Maududi.
No dia seguinte, isto é, em 9 de setembro, a operação começou às duas e vinte da tarde, pelo Horário Padrão Britânico, e uma pedra de 24 gramas foi removida da bexiga urinária. Às quatro da tarde, o Maulana foi retirado inconsciente da sala de operações. Às cinco e meia, o Maulana recuperou a consciência. A noite transcorreu tranquilamente. No dia seguinte, ao meio-dia, ele lentamente se sentou na cama e respondeu às saudações daqueles que vieram visitá-lo.
Em 24 de setembro, o Maulana deixou a clínica do Dr. Alexander Bednuk e retornou à sua residência. Em Londres, ele era hóspede do Sr. Rashid Ahmad Siddiqui. Naquela época, na casa do Sr. Siddiqui, acumulavam-se telegramas, telefonemas e cartas que chegavam continuamente de todo o mundo para saber do estado do Maulana. Além disso, havia também o fluxo constante de personalidades ilustres de vários países.
Em 21 de outubro, o Maulana teve de voltar à clínica. Desta vez, seria necessário realizar uma operação para remover uma de suas bexigas urinárias. Essa operação era bastante perigosa. No dia seguinte, após uma operação que durou duas horas, a bexiga urinária inutilizada foi removida. No dia seguinte, o Maulana recuperou a consciência.
O Dr. Bednuk e os demais médicos do conselho médico expressaram simultaneamente espanto e satisfação ao ver a rápida recuperação do Maulana. Eles nunca tinham visto um paciente desse tipo retornar ao estado normal em tão pouco tempo. Isso deve ser considerado uma graça especial do Deus Todo-Poderoso, Allah.
Depois de se recuperar completamente, em 12 de novembro, o Maulana deixou a clínica. Quando expressou o desejo de retornar prontamente ao Paquistão, os médicos aconselharam-no a permanecer alguns dias em Londres, em vez de assumir imediatamente o risco de uma longa viagem. Em 18 de novembro, o Maulana informou por carta ao Hakim Nuruddin, de Sadeqabad (Paquistão):
Pela graça de Allah, meu corpo está agora melhorando gradualmente. Pela primeira vez em vinte e sete anos, sinto-me bem ao acordar pela manhã. Durante anos e anos, o estado do meu corpo era tal que, ao acordar pela manhã, parecia que todo o meu corpo estava tomado pelo cansaço. Em 15 de dezembro, foi organizada, no London Hilton, um hotel alto e magnífico de Londres, uma recepção em homenagem ao Maulana, oferecida pelos muçulmanos residentes na Inglaterra. Embaixadores de países muçulmanos, renomados orientalistas, professores universitários, especialistas de vários departamentos, outras personalidades ilustres e líderes de diversas organizações participaram do evento.
Após a recitação do Sagrado Alcorão, o Dr. Salah Shaheen, do Egito, leu uma mensagem de felicitações. Mais de duas dúzias de câmeras de televisão e de cinema entraram em ação. Todo o salão ficou iluminado pelos repetidos clarões dos flashes. Diante daquela histórica reunião de ilustres eruditos, intelectuais, estudiosos e especialistas, bem como líderes políticos de vários países, muçulmanos e não muçulmanos, o Maulana conclamou os ocidentais a se libertarem de todo tipo de hostilidade e preconceito e a adquirirem conhecimento sobre o Islã com uma mente aberta e desejosa de buscar a verdade. Ele disse: “A busca da verdade é um desejo comum e igualmente compartilhado por toda a humanidade. Não pode haver nenhuma razão que impeça a sua sociedade de buscar orientação no Islã. Aproveitem plenamente todas as oportunidades que tiverem nesse sentido; se conseguirem compreender a verdade do Islã, o benefício será de vocês.”
Dirigindo-se aos muçulmanos que vivem em diferentes partes do Ocidente, o Maulana disse:
“Adquiram pleno conhecimento das ciências e da tecnologia do Ocidente e desfrutem de todo o coração dos seus benefícios. Mas vivam de acordo com as orientações do Islã. Somente assim poderão apresentar, diante dos povos ocidentais, o exemplo de uma sociedade equilibrada, humanitária e justa. Lembrem-se sempre de que o vosso futuro depende inteiramente do Islã. É o modo de vida islâmico que pode garantir a vossa sobrevivência neste mundo. Caso contrário, uma coisa certamente acontecerá: dentro de alguns anos, a sociedade inglesa daqui contará com alguns novos ingleses. Mas isso não aumentará a vossa honra e dignidade, nem haverá nisso qualquer vestígio da vossa lealdade ao Islã.”
Agora, dentro de um ou dois dias, o Maulana terá de retornar ao país.
26 de dezembro de 1968.
Hoje, mais uma vez, uma multidão se reuniu no aeroporto de Londres para se despedir do Maulana. Amigos, admiradores e devotos do Maulana vindos de diversas cidades, membros do Movimento Islâmico, pessoas ilustres e personalidades importantes do Oriente Médio, envoltos em roupas de inverno, reuniram-se no aeroporto. Com a voz embargada pelas lágrimas, despediram-se do Maulana e lhe prestaram suas homenagens. O Boeing 708, levando o Maulana, abriu as duas asas e desapareceu de vista no céu coberto de neve. Com isso, encerrou-se um capítulo brilhante da história da Inglaterra.
O Boeing 708 que transporta o Maulana está dando voltas no céu para pousar no aeroporto de Istambul. O editor da revista mensal ‘Hilal’, publicada em Ancara, os editores dos jornais diários ‘Bogan’ e ‘Itihad’, além de muitas personalidades importantes da Turquia, aguardam ansiosamente para receber o Maulana. Depois que o avião pousa, os que desejam vê-lo encontram-se com o Maulana, fazendo o aeroporto estremecer com os brados de ‘Allahu Akbar’.
Veio receber o Maulana o neto daquele que foi o Shaykh al-Islam da Turquia durante o reinado do sultão Abdul Hamid II. Nem a extrema velhice conseguiu impedi-lo de ir ao aeroporto. Com a voz cheia de emoção, ele diz ao Maulana: “Maulana! Se o senhor estivesse entre nós, o Movimento Islâmico deste país teria avançado cinquenta anos. Fomos privados da liderança de uma personalidade como o senhor. No entanto, temos a felicidade de poder conhecer o seu pensamento por meio da sua literatura.”
A caminho do Paquistão, também nos aeroportos do Kuwait e de Dhahran ocorre uma enorme concentração de pessoas que desejam vê-lo! Elas também prestam ao Maulana sua devoção e seu respeito mais sinceros. O Maulana pousa no aeroporto de Karachi em 27 de dezembro e no aeroporto de Lahore em 29 de dezembro. Em ambos os aeroportos, reúnem-se milhares de pessoas. De Lahore, o Maulana é levado à sua residência em um cortejo de automóveis e scooters.
Poucos meses depois, a residência do Maulana, em 5/A, Zaildar Park, volta a ficar movimentada. Como se, com a chegada da primavera, os botões das flores do jardim tivessem saído de seus véus para espalhar sua fragrância inebriante. Pessoas sedentas de conhecimento, vindas de dentro e de fora do país, começam novamente a se reunir ali.
Este é o histórico 5/A Jaildar Park, Ichhra, Lahore, de onde as faíscas do movimento islâmico se espalharam por todo o mundo. [Para saber sobre a reunião que, desde 1967, era realizada diariamente à tarde em 5/A Jaildar Park, com a presença do Maulana, e à qual se reuniam visitantes vindos de diversas partes do mundo para fazer perguntas e obter respostas, leia A Reunião da Tarde — o autor.]
A reunião da mesa-redonda
Quando, em consequência do movimento popular contra o regime autocrático de Ayub Khan, a situação política do país assumiu uma forma terrível, Ayub Khan organizou, em 26 de fevereiro de 1969, uma reunião da mesa-redonda para dialogar com os líderes dos partidos de oposição. Ali se reuniram os principais líderes dos principais partidos políticos, incluindo o Maulana Maududi; a segunda reunião ocorreu em 10 de março. Contudo, depois de muitas discussões, como Ayub Khan manifestou sua atitude intransigente, a reunião da mesa-redonda terminou em fracasso.
Depois disso, o movimento popular assumiu uma forma intensa, e a deterioração da lei e da ordem continuou a se agravar. Diante do movimento popular e dos protestos, Ayub Khan foi obrigado a transferir o poder. Em 23 de março, transferiu o poder ao general Yahya Khan e retirou-se do cenário político.
Yahya Khan impôs a lei marcial no país. Embora não tenha declarado os partidos políticos ilegais, limitou suas atividades. No ano seguinte, isto é, em dezembro de 1970, realizaram-se as eleições para as assembleias nacional e provinciais. Cabe mencionar que, em janeiro daquele ano, o Maulana visitou Dhaka pela última vez. Ele percebeu que a unidade e a integridade do Paquistão (solidariedade e integridade) estavam ameaçadas.
Nessa época, o curso da política tomou uma direção diferente. Como resultado, dois partidos, a Liga Awami e o Partido Popular do Paquistão, competiram nas eleições com base no regionalismo e saíram vitoriosos. Em outras palavras, a Liga Awami obteve uma vitória por ampla maioria no Paquistão Oriental, e o PPP, no Paquistão Ocidental.
Logo após as eleições, o Maulana Maududi comentou que, naquele momento, nenhuma ação milagrosa poderia manter o país unido. Em outras palavras, era uma verdade inevitável que o Paquistão Oriental e o Paquistão Ocidental se separariam. Sheikh Mujibur Rahman e seu partido, a Liga Awami, obtiveram a maioria na Assembleia Nacional e, de acordo com o sistema democrático, caberia a ele tornar-se o primeiro-ministro do país. A sessão da Assembleia Nacional foi convocada em Dhaka. Contudo, o líder do PPP, Zulfikar Ali Bhutto, por meio de ameaças, impediu os membros do Paquistão Ocidental de participar da sessão da Assembleia. Como resultado, a desconfiança, o descontentamento e a distância entre o Paquistão Oriental e o Paquistão Ocidental aumentaram tanto que, após muito derramamento de sangue, em 16 de dezembro de 1971 o Paquistão Oriental passou a existir como o Bangladesh independente.
O Maulana Maududi já sofria de uma doença havia muitos anos; depois que o Paquistão Oriental se separou e se tornou independente, sofreu um golpe tão grande no coração que tanto seu corpo quanto sua mente desmoronaram completamente.
Por um lado, foi motivo de grande alegria e felicidade que, em 1972, se concluísse Tafhim al-Qur’an, fruto do incansável trabalho e esforço de toda a vida do Maulana; por outro, devido à sua saúde debilitada, ele deixou o cargo de emir da Jamaat-e-Islami. Mian Tufail Muhammad foi eleito emir da Jamaat-e-Islami do Paquistão.
Nos meses de abril e julho de 1978, encontrei-me duas vezes com o Maulana. Naquela época, vi-o em tal estado que era muito difícil conter as lágrimas. Parecia que ele havia sido amarrado como um embrulho e colocado sobre uma cadeira. Mesmo nesse estado, conversava com as pessoas, continuava seus trabalhos de estudo e escrita e dava conselhos valiosos sobre diversos assuntos.
Em resposta a uma pergunta, o Maulana disse:
“Graças a Deus, Ele não me afligiu com nenhuma doença que me impedisse de trabalhar pela Sua religião. Tenho uma doença que causa sofrimento apenas à minha pessoa, e creio que, por meio dela, meus pecados serão perdoados. Por exemplo, agora realizo meu trabalho de estudo e escrita sentado. Isso não me causa dor nem cansaço. Mas, quando me levanto ou começo a caminhar, sinto a dor aumentar gradualmente. Não consigo ficar de pé por mais de um minuto e meio.”
Mesmo nesse estado, em 1975, a Rádio Paquistão gravou uma entrevista do Maulana com mais de duas horas de duração. Essa entrevista foi transcrita um ano após sua morte e publicada na Tarjuman al-Qur’an. Mais tarde, foi publicada em bengali na forma de livro, sob o título “Uma entrevista histórica”; o autor desta obra a traduziu para o bengali.
Entre as questões levantadas nessa entrevista estavam o Movimento do Paquistão, seus antecedentes, a situação religiosa e política dos muçulmanos no subcontinente indiano antes da Partição, a introdução do regime parlamentar na Índia, a conspiração para, partindo do jugo de uma nacionalidade comum que incluía muçulmanos e não muçulmanos, criar uma estranha mistura de uma única nacionalidade geográfica e, sobre ela, erigir uma moderna estrutura de governo democrático, o temor pelas consequências políticas, econômicas e culturais para os muçulmanos, a inspiração para que os muçulmanos formassem uma nacionalidade separada e distinta, a reivindicação de uma pátria própria, isto é, a criação do Paquistão, a reivindicação e a justificativa do estabelecimento de um sistema social baseado em sua própria visão de vida e em sua aqidah e suas crenças, além de muitos outros assuntos. O Maulana respondeu às diversas perguntas sobre esses temas. Com base nas valiosas informações históricas que apresentou ao responder a essas questões, pode-se afirmar sem hesitação que, se algum historiador imparcial se dispuser a escrever a história correta do Movimento do Paquistão e de seus antecedentes, de modo algum poderá ignorar a personalidade de Allama Mawdudi e sua inestimável contribuição.
Além disso, nessa entrevista, Allama Mawdudi disse muitas coisas e recordou muitos fatos que serão de grande utilidade sobretudo para os que atuam no movimento pela religião. Por isso, considero especialmente necessário que os membros do movimento islâmico, e particularmente nossa juventude, leiam esta entrevista histórica.
O falecimento do Maulana
O rigoroso esforço físico e mental a que o Maulana se dedicou durante toda a vida fez com que sua saúde se debilitasse prematuramente. Ele sofreu durante muitos anos de uma doença da bexiga. Como consequência, as dores nos joelhos e na cintura tornaram-se, por assim dizer, permanentes. Em 1968, foi submetido a uma cirurgia da bexiga em Londres. Mas a doença não foi curada. Assim, sofreu durante toda a vida com as dores da enfermidade. Ainda assim, continuou realizando todo o seu trabalho. Jamais se viu no rosto ou nos olhos desse amado servo de Allah qualquer manifestação exterior ou sinal das dores que sofria.
Em 1972, foi concluída a escrita de seu revolucionário tafsir, o “Tafhim al-Qur’an”. Muito antes disso, ele costumava dizer: “Minha vida está chegando ao fim; rezem para que eu possa concluir o Tafhim antes de partir.”
Mesmo depois de concluída a escrita do Tafhim, Allah o manteve vivo. Um grande anseio de sua vida era escrever a biografia do Profeta do mundo. Ele tomou a pena. Em sete anos, terminou de escrever a vida do Profeta em Meca. A obra foi publicada em dois volumes. Deu à biografia o nome de “Sirat-e Sarwar-e Alam”. Também concluiu as notas necessárias sobre a vida em Medina. Mas, antes que pudesse começar a escrever sobre ela, o Senhor do dīn e do mundo o chamou para Sua presença.
No dia 22 de setembro, em um hospital da cidade americana de Buffalo, o maior pensador do mundo moderno, Sayyid Mawdudi, deu seu último suspiro. A oração fúnebre foi realizada em Buffalo, Londres, Karachi e Lahore. Participaram dela os pensadores do mundo muçulmano, milhões de admiradores, o povo em geral e a juventude. A seguir, acrescenta-se uma descrição das cerimônias de sua oração fúnebre.
À luz da experiência da oração fúnebre do Maulana
O Maulana Sayyid Abul A‘la Mawdudi deu seu último suspiro em 22 de setembro de 1979, no hospital da cidade de Buffalo, nos Estados Unidos. Após a oração fúnebre, seu sepultamento foi concluído em Lahore, no dia 26 de setembro. Tive a fortuna de participar de sua oração fúnebre. Quero apresentar aos queridos leitores alguns relatos baseados em minha experiência pessoal a esse respeito.
Na tarde de 23 de setembro, ao retornar do interior para Daca, recebi a triste notícia de que o Maulana Mawdudi havia falecido. Espontaneamente, escapou de meus lábios: “Inna lillahi…”. Mas senti como se o céu tivesse desabado sobre minha cabeça. Eu mesmo teria de ir à oração fúnebre, e o mais depressa possível. No dia seguinte, resolvi as questões do visto, do assento no avião e todos os demais problemas, e no dia 25 cheguei a Karachi em um voo da PIA. Eu também me encontrava em estado semelhante. Naquele mesmo dia, às dez e meia da manhã, o mayyit (caixão) do falecido Maulana chegou de Londres a Karachi e, após a oração fúnebre, partiu para Lahore.
Passei a noite na casa de um amigo. Às nove e meia da noite, a televisão paquistanesa exibiu algumas reportagens sobre a vida do Maulana, incluindo imagens de sua oração fúnebre. O intenso fluxo de lágrimas me impedia de assistir à televisão. Eu tinha grande esperança de obter uma última visão do Maulana. Mas essa esperança permaneceu frustrada. Não consegui um assento no voo noturno para Lahore. Consegui um no voo da manhã seguinte. A oração fúnebre seria realizada em Lahore às dez e meia da manhã. Se o avião se atrasasse, eu também não teria a oportunidade de participar dela. Passei a noite tomado por essa preocupação.
Na manhã seguinte, às sete horas, parti para Lahore. De repente, um companheiro meu veio correndo de Daca. Quando eu estava prestes a embarcar no avião no aeroporto de Daca, ouvi atrás de mim uma voz exausta: “Khan Sahib, graças a Allah, finalmente consegui chegar.” Olhei para trás e vi o Dr. Azizul Haq Chowdhury. O rosto abatido e a aparência desgrenhada faziam-no parecer um amante desvairado. E de fato era um amante. Depois de embarcarmos e descansarmos um pouco, ele veio até mim e disse que não tivera a felicidade de ver o Maulana durante sua vida. Por isso, desejava ardentemente obter uma vez o Deedaar após sua morte.
Eu disse: “Diga, que Allah realize nossas esperanças.”
No caminho de Karachi para Lahore, alguns amigos também se juntaram a nós. Entre eles estava o senhor Ariful Haq, editor do periódico “Impact”, publicado em Londres. Descemos no aeroporto de Lahore às nove horas. Muitas vezes, ao longo da vida, havia embarcado e desembarcado nesse aeroporto. Mas naquele dia vi-o sob uma aparência completamente diferente. O lugar que normalmente fervilhava de gente estava, por assim dizer, totalmente deserto. Do lado de fora do aeroporto pairava uma atmosfera de luto — uma expressão concreta da dor de uma separação dilacerante. Eu tinha certeza de que alguém viria ao aeroporto para nos buscar. Mas não via ninguém em parte alguma. Talvez os amigos de Karachi, dominados pela intensidade do luto, tivessem se esquecido de avisar, ou talvez tivesse acontecido alguma outra coisa.
Um amigo do senhor Faruqi veio de carro para buscá-lo. O destino de todos nós era o mesmo. Por isso, eles nos fizeram entrar os dois em seu carro. Eu disse: “Então, sigamos diretamente para Ichhra, caso ainda possamos ter o último Deedaar.”
O novo Fiat avançava velozmente, sibilando, com a traseira erguida, como um bezerro deixado sozinho no campo que corre ofegante até sua mãe. Em cerca de quinze minutos, passando por Mujang Chungi, chegamos à estrada de Firozpur. Um pouco mais adiante, era preciso virar no cruzamento de Ichhra, ao sul, e entrar à esquerda na viela de Zaildar Park. A casa do Maulana ficava no número 5/A de Zaildar Park. Assim que nosso carro chegou ao cruzamento de Ichhra, um transeunte enlutado nos informou: “Vejam, ao sul está passando o cortejo da oração fúnebre.”
À nossa frente, avistamos um mar de gente. A ampla estrada de Firozpur estava apinhada de pessoas. Entre elas havia carros particulares, ônibus, picapes, caminhões fretados, autorriquixás, scooters, bicicletas e uma procissão multitudinária de enlutados. De suas bocas ouviam-se em voz alta a Kalema-e-Shahadat e “Allahu Akbar”.
À frente, a cerca de meia milha, parecia estar o “Maiyet”. Como o carro poderia avançar em meio à multidão? De vez em quando, avançava lentamente, à velocidade de uma tartaruga. Sem alternativa, seguimos um pouco adiante, viramos à esquerda saindo da estrada de Firozpur e, por outra rota, chegamos rapidamente ao Estádio Gaddafi. Ali seria realizada a oração fúnebre do maior pensador islâmico do século XX, a joia entre os sábios da religião, líder do movimento de renascimento islâmico em todo o mundo, o ilustre Al-Ustaz, Al-Murshidul Am, Allama Abul A’la Maududi.
O Estádio Gaddafi é o maior do Paquistão. Antes mesmo de o Maiyet chegar, metade do enorme estádio já estava lotada. Pelos oito portões do estádio, uma poderosa corrente de pessoas em prantos entrava no interior. Milhares de jovens vigorosos, estudantes de faculdades e universidades vindos de todo o país e dedicados de corpo e alma ao movimento islâmico estavam encarregados de manter a ordem. Não havia como avançar, transpondo a rígida barreira de segurança. Olhava ao redor, impotente. Meu lenço estava completamente encharcado pelas lágrimas. Onde teriam desaparecido os meus companheiros?
Um fotógrafo de um jornal fotografou-me de longe. Gritou: “Venha, Maulana! A primeira fila é para hóspedes estrangeiros como vocês.” Então, rompendo o rígido cordão dos voluntários, fui ocupar um lugar na primeira fila. O Dr. Chowdhury também chegou. Pouco depois, o mayyit chegou ao campo e foi colocado diante de nós. Junto estavam os filhos do falecido Maulana, Mia Tufail Muhammad, o professor Khurshid, o Maulana Hamidi, Chowdhury Jilani e muitos outros. Ao abraçá-los, desatei a chorar. Apesar de todos os esforços, não conseguia conter-me. Parecia que meu coração havia sido despedaçado.
Muitas outras pessoas começaram a entrar na primeira fila, e ela foi se estendendo para os dois lados. Tive de me afastar um pouco para a direita, deixando o lugar inicial.
Entre os hóspedes estrangeiros que estavam na primeira fila, destacavam-se o embaixador saudita Riyad al-Khatib; o embaixador da Jordânia; o representante especial do aiatolá Khomeini e secretário do Interior do governo iraniano; o Dr. Yusuf Abdullah al-Qaradawi, vice-chanceler da Universidade do Catar; o Dr. Muhammad Tutunji, secretário-geral adjunto do Conselho Mundial da Juventude Muçulmana; os célebres eruditos e pensadores sírios Sheikh Said Hawwa e Sheikh Adnan Saaduddin; o Sheikh Abdullah al-Aqeel, diretor da Divisão de Assuntos Islâmicos do Ministério dos Awqaf do Kuwait; o célebre jurista kuwaitiano Sheikh Mubarak al-Mukawa, editor da amplamente divulgada revista “Al-Mujtama”; o distinto amigo do falecido Maulana, Sheikh Abdul Aziz al-Ali al-Motawa; o Dr. Kamal, importante líder da Irmandade Muçulmana egípcia; o advogado Sheikh Saiful Islam, filho do mártir Hasan al-Banna; e outros grandes intelectuais. Também estavam na primeira fila o emir da Jamaat-e-Islami Hind, Maulana Yusuf; o presidente do Paquistão, General Zia-ul-Haq; o governador do Punjab, tenente-general Sarwar Khan; o pir sahib de Deval Sharif; e alguns oficiais de alta patente das forças armadas.
Os líderes de todos os partidos políticos do Paquistão, exceto o PPP, numerosos ulama, cidadãos respeitados e funcionários públicos e privados participaram espontaneamente da oração fúnebre. Entre eles destacavam-se Mufti Mahmud, Nawabzada Nasrullah Khan, o ex-presidente da Azad Caxemira, Sardar Abdul Qayyum Khan, Sardar Shaukat Hayat Khan, Chowdhury Zahur Elahi, Khwaja Khairuddin, Allama Ihsan Ilahi Zaheer e outros. Quase duzentos ulama e ativistas do movimento islâmico vindos da Índia participaram da oração fúnebre.
O “caixão” da oração fúnebre estava envolto na bandeira da Jamaat-e-Islami, com a Kalima Tayyibah, e na bandeira nacional do Paquistão. O presidente Zia-ul-Haq usava no braço uma braçadeira preta sobre o uniforme militar. Ele determinou que qualquer funcionário público que desejasse poderia participar da oração fúnebre do Maulana. Instantes antes da oração, a cena no estádio era de partir o coração, à beira da explosão. Cerca de um milhão de pessoas estavam dentro do estádio, enquanto milhares que não conseguiram entrar batiam no peito e lamentavam do lado de fora. De milhares de vozes ressoava a Kalima Shahadah, o canto fúnebre de luto — “Ya Sayyidi, Murshidi, Maududi-Maududi”. Os lamentos e cantos fúnebres de milhões de vozes ressoavam e ecoavam ao redor do estádio, rasgando o céu e elevando-se em direção ao Arsh sagrado. A multidão tentava avançar freneticamente para ver o mayyit uma única vez, obter a última visão do jasad-e-khaki (corpo terreno) do Maulana e tocar um pouco o mayyit com as mãos. Uma jovem força de voluntários empenhava-se com todas as forças em manter a ordem.
Havia sido anunciado que o imã da Caaba, Sheikh Muhammad bin Abdullah bin Subayyil, conduziria a oração fúnebre. Porém, pouco antes de partir de Meca, a viagem teve de ser adiada por uma razão inevitável. Depois, a responsabilidade de conduzir a oração foi atribuída ao Dr. Yusuf Abdullah al-Qaradawi, vice-chanceler da Universidade do Catar. Ele obteve um doutorado em Estudos Islâmicos e Ciências Religiosas pela Universidade de Al-Azhar, no Cairo. Era um célebre erudito religioso e nutria profunda reverência pelo Maulana. Antes de conduzir a oração, dirigiu-se à multidão e disse: “Sayyid Maududi permanecerá eternamente vivo por causa de seu chamado universal e de seu pensamento. Deixou mais de uma centena de obras inestimáveis. E deixou também dezenas de milhões de filhos espirituais. Não vim de milhares de milhas de distância para lhes transmitir palavras de consolo. Vim, sim, para dizer que milhões e milhões de pessoas em todo o mundo, atraídas por seu pensamento, começaram a trabalhar. Avançaremos a passos firmes com o movimento do Maulana. Para o Paquistão, a única coisa benéfica é que aqui seja estabelecido um verdadeiro Estado islâmico. Vocês que nutrem amor e respeito pelo Maulana, continuem lutando por isso.”
Depois do discurso do Dr. Qaradawi, milhões de vozes entoaram: “Sayyidi, Murshidi — Maududi, Maududi”. Milhares de vozes que aguardavam do lado de fora do estádio também entoaram: “Sayyidi, Murshidi — Maududi, Maududi”. Esse clamor ecoou pelo céu e pelo ar, pelas árvores ao redor, pelos edifícios e por cada canto e recanto.
Depois da oração fúnebre, rompeu-se a barreira do mar de gente. O objetivo de todos era o mayyit. Tornou-se impossível manter a ordem. Com grande dificuldade, o mayyit foi protegido da pressão da multidão, levado para fora do estádio e colocado em um caminhão. Sob a pressão insuportável das pessoas vindas de todos os lados, faltava-nos o ar. O Dr. Chowdhury e eu avançávamos para fora, agarrados um ao outro. O Dr. Chowdhury era forte como um lutador. Por isso, eu tinha alguma esperança de que conseguiríamos sair em segurança. Assim que chegamos à estrada do lado de fora, de repente dois ou três jovens caíram inconscientes diante de nós. Meu companheiro, forte como um lutador, não conseguiu mais se manter e caiu. Eu também caí. E não apenas caí: meia dúzia de pessoas caiu sobre mim. Não sei como sobrevivi. Mas certamente recitava a Kalima. Em poucos instantes, duas ou três pessoas me agarraram, levantaram-me e levaram-me para fora. Meu companheiro desaparecera em algum lugar. Minhas roupas estavam sujas de poeira. Também sofri ferimentos em alguns lugares.
Este não foi o único caso de jovens robustos perderem a consciência — houve muitos. E por que não haveria de ser assim? Depois que a notícia da oração fúnebre do Maulana foi publicada nos jornais, pessoas de regiões distantes e remotas do país correram para Lahore como loucas. Vieram de trem, de ônibus, de avião, de lambreta e de bicicleta — cada um como pôde. Alguns vieram a pé, caminhando quinze ou vinte milhas, apesar da tristeza e do sofrimento, da fome e da sede, do cansaço e do intenso calor do sol.
A maior razão é que a literatura do Maulana, seu apelo islâmico universal e sua personalidade internacional atraíram milhões de jovens para o Islã. Ele os tirou da densa escuridão da jahiliyyah e os conduziu à luz radiante do tawhid. Trouxe uma grande revolução aos seus pensamentos, às suas concepções e à sua disposição mental. Essa é a única razão para sua enorme atração, seu respeito e seu profundo amor pelo Maulana. A morte do Maulana os deixou enlouquecidos e desorientados. Era a primeira vez em suas vidas que enfrentavam um luto tão grande e dessa natureza. Todos eram filhos espirituais do Maulana. Por isso, muitos jovens, sem exceção, abatidos pelo golpe desse luto, desmoronaram e perderam a consciência.
Enfim, com grande dificuldade encontrei o carro de Hashem Faruqi, estacionado a meia milha dali. Não havia ninguém no carro. Meu corpo tremia. Dos meus dois olhos jorravam lágrimas como torrentes montanhosas. Cerca de dez minutos depois, chegou o Dr. Chowdhury. Com a voz embargada, disse: “Aconteceu uma desgraça.”
Eu disse: “Mas o senhor está vivo. Então, que desgraça foi essa?”
Ele disse: “Se eu tivesse morrido, não haveria motivo para tristeza. Minha querida câmera foi quebrada e reduzida a pedaços. Eu havia tirado vinte e duas fotografias belíssimas. Aquilo com que eu contava para voltar para casa — isso foi o que perdi.” O Sr. Azizul Haque Chowdhury faleceu em 7 de abril de 2003, em sua residência em Daca.
Pouco depois, Hashem Faruqi e seu amigo chegaram. O caminhão com o corpo já havia partido. No entanto, avançava muito lentamente. No caminhão estavam os filhos do Maulana — Umar Faruq, Ahmad Faruq, Muhammad Faruq e Husayn Faruq. Também estavam Mian Tufail Muhammad e o professor Khurshid Ahmad. Entre os estrangeiros estavam o Dr. Qarazi, o Dr. Tutunji e o xeque Mubarak al-Mukawa.
O caminhão com o corpo passará pelo estreito beco do Parque Jaildar até a residência do Maulana, onde será concluído o enterro. Como poderiam milhões de pessoas chegar até lá? Por isso, foi organizado que apenas pessoas ilustres pudessem entrar no beco. Os convidados estrangeiros, os líderes da Jamaat e quatro ou cinco jornalistas, entre eles o Sr. Altaf Hasan Quraishi, receberam permissão para ir até a residência do Maulana.
O corpo foi colocado numa elevação diante do aposento privado do Maulana. Das varandas e dos telhados das casas de ambos os lados, milhares de homens e mulheres enlutados mantinham os olhos marejados fixos no corpo. Faltava pouco para que fosse preparado o eterno local de repouso do Maulana. Embora o espaço fosse estreito, vários milhares de pessoas estavam aglomeradas ali.
Nesse momento, surgiu uma cena extraordinária, porém de partir o coração. Duas criancinhas saíram de dentro da casa e aproximaram-se do corpo do falecido. Uma dizia à outra: “Não vá para aquele lado; o vovô está dormindo.”
A outra dizia: “Por que há tanta gente aqui? O vovô vai acordar. Se tantas pessoas vierem aqui todos os dias, como o vovô vai trabalhar?”
Aqueles aos cujos ouvidos chegaram as doces palavras das crianças inocentes não conseguiram conter as lágrimas. Quanto carinho e preocupação aquelas criancinhas sentiam por seu querido vovô! Mas o vovô havia partido, deixando-as para trás, para muito, muito longe. Pouco depois, Sayyid e Murshid Maududi foi colocado em seu leito eterno. Caiu o pano sobre um capítulo luminoso da história da humanidade. Talvez, sem que nossos ouvidos percebessem, tenha ressoado:
*******************************************
“Ó alma tranquila! Retorna ao teu Senhor, satisfeita e agradada. Junta-te, pois, aos Meus servos virtuosos e entra no Meu Paraíso.” (Al-Fajr: 27–30)
As palavras finais, porém, ouvi-as realmente com meus próprios ouvidos no dia seguinte. Por volta das nove da manhã, fui da casa de hóspedes para o 5/A, Zaildar Park. Jamais havia imaginado que viria a este lugar sem poder ver o Maulana — que veria seu leito eterno. Meu peito se contorceu de uma dor inexprimível. Vi cerca de vinte ou vinte e cinco pessoas ao redor do túmulo do Maulana. Entre elas estava o Pir Sahib de Deval Sharif. Todos tinham as mãos erguidas para a oração. As primeiras palavras que ouvi da boca do Pir Sahib foram:
****************************************
Ele permanecia com as mãos erguidas para a oração e continuava dizendo: “Sayyid Maududi falou a verdade durante toda a sua vida, convocou as pessoas à verdade e permaneceu firme na verdade até o fim. O ser humano é como um gravador. O gravador que vocês veem é fabricado pelo ser humano. O ser humano é um gravador fabricado por Allah. O gravador feito pelo ser humano ri, chora, canta e fala. Mas Sayyid Maududi é um gravador criado por Allah, que falou a verdade neste mundo, continua falando no túmulo e falará também na vida futura.” —–
O Pir Sahib continuava dizendo essas coisas, enquanto lágrimas rolavam copiosamente dos olhos dos ouvintes.
Assim que o Pir Sahib terminou a oração e virou o rosto, cumprimentei-o com salam e apertei sua mão. Gostei imensamente de suas palavras. Eram a expressão de seus sentimentos sinceros.
Meus queridos leitores e leitoras! Por enquanto, voltemos um pouco ao passado. Considero necessário conhecer alguns detalhes da viagem do Maulana ao exterior, partindo de Lahore para tratamento, e de sua passagem deste mundo para o Além.
O Maulana não tinha absolutamente nenhuma vontade de ir ao exterior para tratamento. Talvez tivesse compreendido claramente que o tratamento não traria benefício algum, pois seu tempo havia chegado. Entretanto, ocorreu um acontecimento que acelerou sua viagem ao exterior. O rei Khalid, da Arábia Saudita, enviou seu médico particular, Dr. Maruf Dawalibi, para examinar o Maulana. Ele conversou com o Maulana durante cerca de duas horas. Durante a conversa, o Maulana não deixou que ninguém percebesse que seus nervos haviam ficado debilitados. Porém, assim que o Dr. Dawalibi deixou o quarto do Maulana, ele caiu inconsciente. Esse acontecimento deixou todos preocupados e aflitos. O Dr. Ahmad Faruk ficou ansioso para levar o Maulana aos Estados Unidos para tratamento. Mas nem Begum Maududi, nem todos os demais moradores da casa juntos conseguiram convencer o Maulana. O Maulana havia escondido seu passaporte. Todos ficaram extremamente preocupados. Por fim, o contador do Maulana, o senhor Bashir Ahmad Butt, usando de astúcia, conseguiu obter o passaporte das mãos do Maulana. Então, em 26 de maio, o Maulana partiu de Lahore para Islamabad e, de Islamabad, com destino aos Estados Unidos, seguiu para Londres. Até Londres, ele foi acompanhado pelo marechal do ar Asghar Khan. Begum Maududi viajou com o Maulana e permaneceu ao seu lado até o fim.
O Maulana foi internado para uma operação no Miller Fillmore Hospital, na cidade de Buffalo, a cerca de quatrocentas e cinquenta milhas de Nova York.
O segundo filho do Maulana, Ahmad Faruk Maududi, é um médico renomado (especialista em cérebro) e também estava ali. O Maulana foi operado no hospital em 4 de setembro. Foi necessário realizar a operação devido a uma lesão na artéria.
Os médicos dizem que, em tal condição, o paciente sente uma dor insuportável. Mas isso não aconteceu com o Maulana. No dia anterior, o Maulana não conseguira falar. Após a operação, seu estado era satisfatório. Naquele dia, às quatro da tarde, um amigo do Maulana, o Dr. Amirullah Husseini, foi visitá-lo. Quando lhe perguntaram como estava, o Maulana disse que estava bem. Quando o doutor lhe pediu que fizesse uma oração, o Maulana recitou a seguinte oração do Alcorão:
*********************************
Concede-me a morte como muçulmano e inclui-me entre os justos e virtuosos. — Surata Iúçufe (101)
No dia seguinte, 5 de setembro, sofreu um ataque cardíaco. A partir do dia 7, porém, sua saúde começou novamente a melhorar. No dia 19, seu estado piorou de repente outra vez, e a dor no coração se intensificou muito. Na noite do dia 21, Begum Maududi permaneceu sentada ao lado do leito do marido até tarde, recitou a Surata Iacine e outras passagens, além de súplicas, e partiu deixando-o sob a proteção de Allah Ta‘ala.
No dia seguinte, o Maulana passou a maior parte do tempo inconsciente. Contudo, mesmo inconsciente, durante os horários da oração, o dedo indicador da sua mão direita movia-se para cima e para baixo — algo que todos observaram. Em 22 de setembro de 1979, às quinze para as nove da manhã, aos 76 anos, o Maulana encontrou-se com seu verdadeiro Ma‘bud — Inna lillahi…
Segundo a lei vigente nos Estados Unidos, um corpo não pode ser retirado do hospital antes de decorridas 48 horas. Primeiro, o departamento de saúde emite o atestado de óbito. Depois, o caixão é preparado. Todas as providências necessárias para a conservação do corpo são concluídas. Só então o corpo pode ser removido. Isso leva pelo menos 48 horas. Além disso, para levar um corpo para fora dos Estados Unidos, também é necessária autorização do governo. Contudo, deve-se considerar uma misericórdia especial de Allah Ta‘ala o fato de que todos esses procedimentos foram concluídos de maneira surpreendente em pouquíssimo tempo.
Às quatro da tarde, o corpo foi transferido do hospital para a residência do Dr. Faruk Maududi, situada na Willing Road, nos arredores da cidade de Buffalo. Em seguida, começaram a afluir à Willing Road muçulmanos, novos muçulmanos e pessoas enlutadas de vários países do mundo, influenciados pela literatura do Maulana, vindos de diferentes lugares do Canadá e dos Estados Unidos. Em 22 de setembro, foram realizadas três orações fúnebres na cidade de Buffalo. A primeira foi conduzida pelo Maulana Sharif Bukhari; a segunda, pelo Qari Sahib de Toronto, Canadá; e a terceira, pelo Dr. Israr Ahmad, pregador da Mesquita Jinnah, em Lahore, e presidente da Anjuman Khuddamul Qur’an. Eles chegaram de avião vindos de Chicago. Até o entardecer daquele dia, pessoas continuaram chegando sem cessar de Toronto, Nova York, Chicago, Detroit, Michigan, Indiana e outras cidades. Assim que recebeu a notícia, o cônsul-geral do Irã participou da primeira oração fúnebre em Buffalo. Quando o corpo foi levado para a Willing Road, estavam presentes o Dr. Ahmad Faruk, Begum Maududi, o genro do Maulana, Sayyid Masud, e o irmão de Begum Maududi. Em seu breve discurso, o Dr. Ahmad Faruk disse: «Todos nós devemos continuar lutando pela missão pela qual o falecido Maulana Maududi dedicou toda a sua vida. É motivo de alegria para nós que o Maulana tenha comparecido à presença de Allah Ta‘ala, aquele que verdadeiramente lhe concede honra. Seguindo seus passos, levaremos, inshallah, o chamado do Islã não apenas ao Paquistão, mas ao mundo inteiro.»
O Dr. Ahmad disse ao cônsul-geral do Irã: «O Maulana havia dito que, se sua saúde permitisse, certamente faria uma parada no Irã durante sua viagem. O Maulana também havia dito: “A Revolução Islâmica do Irã é o pulsar do meu coração.”»
Uma entrevista memorável em Buffalo
No dia 22 de julho, o Maulana recebeu uma delegação de trinta e cinco pessoas vindas de regiões remotas da América do Norte. A entrevista ocorreu na residência do Dr. Ahmad Faruk. O Maulana respondeu às diversas perguntas que lhe fizeram e apresentou soluções para muitos problemas. Naquela ocasião, seu estado físico parecia bom à primeira vista. Seu humor também estava bastante alegre. Durante a conversa, fez algumas brincadeiras, como era de seu feitio.
Nesse momento, alguém trouxe de Nova York paan para o Maulana. Em seguida, surgiu uma conversa sobre o paan. Um certo Anwar Beg disse: “Maulana, parece que Deus Todo-Poderoso certamente deixou paan no Paraíso.”
Em resposta, o Maulana brincou: “Irmão, talvez você não saiba que o paan é, na realidade, uma folha do próprio Paraíso e que de lá veio para a Terra.”
Como já disse, retirar um cadáver de um hospital nos Estados Unidos e transportá-lo para outro país é uma tarefa extremamente difícil. Os devotos e admiradores do Maulana, vindos de várias cidades da América do Norte, ajudaram consideravelmente a concluir satisfatoriamente todos esses preparativos. De Nova York, chegavam repetidos pedidos por telefone para que fosse realizada a oração fúnebre. De vários lugares, também telefonavam ansiosamente para perguntar até que ponto os preparativos haviam avançado. O telefone da casa do Dr. Ahmad tocava sem parar.
Por outro lado, assim que soube da morte do Maulana, o Allama Ayatollah Ruhollah Khomeini declarou: “A comunidade islâmica perdeu um eminente erudito e pensador islâmico.” Em seguida, informou imediatamente à Begum Maududi, em Buffalo, que um avião iraniano estava pronto para prestar a grande honra de transportar o corpo do Maulana. Ao receber a notícia da morte, o rei Khaled, profundamente consternado, declarou: “O falecimento do Al-Ustaz Maulana Sayyid Abul A’la Maududi é uma tragédia dolorosa para o mundo muçulmano.” Ele também informou que um avião da Saudi Airlines estava pronto para ter a honra de transportar o corpo do Maulana. Do mesmo modo, o presidente do Paquistão, general Zia-ul-Haq, ficou profundamente angustiado com a notícia da morte do Maulana e ofereceu os serviços da PIA para transportar seu corpo.
A Begum Maududi expressou profunda gratidão a esses governos, especialmente ao Allama Khomeini, ao rei Khaled e ao general Zia-ul-Haq, e disse: “Aquele que durante toda a vida jamais estendeu a mão a ninguém, nem sequer uma vez, para pedir qualquer coisa, seria desrespeitado se, após sua morte, aceitássemos esse tipo de serviço em seu favor. Reconhecendo a gratidão de todos, digo que realizaremos essa tarefa de acordo com nossas próprias possibilidades.”
Foram tomadas todas as providências para que, em um avião fretado, o corpo partisse de Buffalo para Nova York às quatro da tarde de 23 de setembro e, de Nova York, fosse enviado a Londres no voo noturno da Pan Am.
Em um ambiente de luto, entre lágrimas incessantes, foi dada a última despedida ao corpo do reverenciado Murshid-e-A’m. Antes disso, às duas e meia da tarde, foi realizada pela quarta vez a oração fúnebre em Buffalo. Depois, o avião fretado levantou voo rumo a Nova York, deixando Buffalo imersa em um mar de lágrimas. De Nova York, o avião da Pan Am decolou com o corpo, rasgando a escuridão da noite e atravessando os céus do oceano Atlântico rumo a Londres.
Em Londres e no Paquistão, todos acreditavam que não se poderia esperar a chegada do corpo antes de quarenta e oito horas. Mas, inesperadamente, depois que o avião partiu de Nova York, essa notícia chegou a Londres.
Um certo Chowdhury Muhammad Yasin era um amigo íntimo do Maulana e de sua família. Ele também participou de todos os preparativos para o tratamento do Maulana. Fazia negócios em Londres. Depois de levar o Maulana aos Estados Unidos, voltou a Londres e manteve contato constante com o Dr. Ahmad Faruk. Ele disse: “De repente, na noite do dia 23, recebemos em Londres a notícia de que o corpo do Maulana havia partido de Nova York. Naquele momento, não havia tempo para publicar a notícia em nenhum jornal. A notícia foi transmitida a todos os lugares apenas por telefone.”
O avião vindo de Nova York pousou no aeroporto de Londres na manhã seguinte, isto é, às oito e meia do dia 24 de setembro. “Allahu Akbar!” Nunca antes havia ocorrido uma aglomeração tão grande na história do aeroporto de Londres. Antes mesmo da chegada do avião, o aeroporto já estava abarrotado de gente. Via-se um fluxo incessante de pessoas, com os olhos marejados de lágrimas, dirigindo-se ao aeroporto.
Begum Maududi, o Dr. Ahmad Faruk e Sayyid Masud desembarcaram do avião acompanhando o corpo. As vozes de milhares de pessoas que choravam no aeroporto ressoavam com a declaração de fé e com gritos de “Allahu Akbar!”. O corpo foi retirado do avião e colocado no lounge Shalimar da PIA, e a oração fúnebre foi organizada no Terminal 47. Na primeira vez, o senhor Khurram Jah Murad dirigiu a oração fúnebre; na segunda, o professor Khurshid Ahmad. Em seguida, chegaram várias lotações de pessoas vindas de Birmingham. Dessa vez, a oração foi dirigida pelo vice-presidente da Missão Islâmica do Reino Unido. Mesmo depois disso, as pessoas continuaram chegando sem parar. A partida do avião da PIA sofreu um atraso considerável. Por isso, a oração fúnebre foi realizada mais duas vezes. Muitos jornalistas nacionais e estrangeiros estavam presentes no aeroporto. Eles comentaram que jamais haviam visto, nem imaginado, um mar de gente tão abatido pela dor.
Para prestar homenagem à alma do Maulana, compareceram ao aeroporto o assessor especial do presidente do Paquistão, senhor Muazzam Ali, o secretário-geral do Conselho Islâmico da Europa, senhor Salim Azam, e representantes diplomáticos de muitos países.
No início da noite, com atraso, o avião da PIA partiu levando o corpo e, passando por Amsterdã, Damasco e Dubai, pousou no aeroporto de Karachi às dez da manhã do dia seguinte (35/9/79).
O dia 25 foi um acontecimento memorável na história de Karachi.
A partir das nove da manhã, as pessoas começaram a se reunir no aeroporto de Karachi. Aquele era o dia das eleições da Corporação Municipal de Karachi. A maior parte dos veículos estava empenhada no trabalho eleitoral. Ainda assim, apesar das grandes dificuldades, muitas pessoas corriam em direção ao aeroporto.
Às nove e meia, o emir da Jamaat-e-Islami do Paquistão, Mian Tufail Muhammad, entrou no lounge VIP acompanhado dos dirigentes da Jamaat de Karachi e de dez ou doze jornalistas e fotógrafos. Seus rostos estavam abatidos e enlutados. Os voluntários da PIA permaneciam enfileirados, ocupados em manter a ordem. Do lado de fora, na varanda, algumas mulheres usando burca choravam. Milhares de pessoas aguardavam o avião. Anunciou-se que a chegada do avião sofreria algum atraso: não às dez, mas às dez e meia. Pelo alto-falante, anunciou-se que, quinze minutos após a chegada do avião, seria realizada uma oração fúnebre no estádio do aeroporto, a uma milha de distância. As pessoas começaram a correr naquela direção.
Mian Sahib está sentado em silêncio entre a multidão enlutada no saguão VIP. Pouco depois, Sardar Sherbaz Mazari entra no saguão e passa a expressar seu pesar juntamente com Mian Sahib, Jan Muhammad Abbasi e os demais.
Nesse momento, um funcionário público de alto escalão cumprimenta Mian Sahib e diz: “Venho da Rússia. Fui até lá para participar de uma conferência internacional. Assim que a notícia da morte do Maulana chegou à conferência, espontaneamente as pessoas ergueram as mãos para fazer súplicas.”
Ele acrescenta: “A morte do Maulana não representa uma perda apenas para sua família e para a Jamaat-e-Islami; é, antes, uma perda irreparável para todo o mundo muçulmano.”
Ele pronuncia essas palavras com a voz embargada.
Exatamente às dez horas, o avião pousa na pista e para diante do saguão VIP. Centenas de pessoas desatam a chorar. Algumas, dominadas pela dor, chegam a perder a consciência.
O Dr. Ahmad Farooq é o primeiro a desembarcar do avião. Em seguida, a Begum Maududi. Atrás dela vêm o professor Khurshid, Syed Masud e Chaudhury Muhammad Yasin, da ‘Dawn Travels London’. Esses cinco vieram com o corpo do falecido.
Com muita dificuldade, o corpo do falecido é colocado no caminhão em meio à multidão. Sobre o caminhão estão Mian Sahib, o Dr. Ahmad, o professor Khurshid e outros líderes. O caminhão parte em direção ao estádio do aeroporto, atravessando um mar de pessoas. Às onze horas e cinco minutos, Mian Tufail Muhammad Sahib conduz a oração fúnebre.
Após a oração, o corpo do falecido é colocado novamente no caminhão. Desta vez, entre os demais, encontra-se também o governador de Sindh, General Abbasi. Até então, as pessoas haviam se contido com infinita paciência. Mas agora o dique de sua paciência se rompeu. Inúmeras pessoas vieram de toda a cidade ao aeroporto. Quem não desejaria, no momento da despedida final, contemplar pela última vez o rosto de seu amado líder? Todos correm como loucos atrás do caminhão. O desejo de todos é tocar uma vez o corpo do falecido e contemplar, uma vez mais e de todo o coração, aquele rosto luminoso. Este é o momento da despedida final. Aquele que despertou suas almas adormecidas e dirigiu um veemente apelo à sua consciência hoje está ele próprio adormecido e silencioso. Tendo concluído sua missão, partiu para a presença de seu Senhor. Repetidamente ressoam os gritos de ‘Allahu Akbar’ e, junto com eles, ‘Meu senhor, meu guia espiritual, adeus, adeus’.
A cena de colocarem o corpo do falecido no avião é ainda mais dilacerante. Muitos abraçam-se uns aos outros e continuam chorando entre soluços. Muitos perdem os sentidos. Depois que o corpo foi colocado no avião, à uma hora, a porta da aeronave foi fechada. Às uma e meia, o avião levantou voo, abrindo suas duas asas no céu, rumo a Lahore. O som ensurdecedor do avião continuava golpeando o coração de cada pessoa tomada pela dor. Se eles também tivessem duas asas, voariam junto com o avião como um bando de pássaros. Assim, juntamente com o desespero, os suspiros e as lágrimas, havia em seus lábios uma fervorosa oração pelo amado murshid.
O corpo do falecido em Lahore
Aeroporto de Lahore. O sol intenso de Ashwin já se inclina no céu ocidental. Quem poderia saber que aquele mard-e mumin que, no dia 26 de maio, partiu deste aeroporto rumo à América, despedindo-se com “Khuda Hafiz” da comunidade islâmica oprimida pela tristeza, estava dando sua última despedida? Ele nunca mais conseguiu voltar a Lahore. Ele era um daqueles servos queridos de Allah Ta’ala sobre os quais Ele declarou: “Radhiyallahu anhum wa radu anhu”; e partiu, satisfeito, para a proximidade de seu Senhor. Hoje, somente seu corpo inerte e terreno voltou a Lahore. Uma multidão aflui em direção ao aeroporto de Lahore para dar uma calorosa saudação ao seu corpo. Estava previsto que o avião com o corpo pousasse às três horas.
Enquanto isso, mais de cem mil pessoas haviam se reunido no aeroporto. Aqueles que não conseguiram chegar até o aeroporto vieram prestar homenagem ao corpo do Maulana a partir dali.
Entre os que vieram ao aeroporto, além dos líderes da Jamaat, destacavam-se o juiz Afzal Cheema, presidente do Conselho de Ideologia Islâmica; uma delegação de mais de cem pessoas, liderada pelo Amir Maulana Yusuf, da Jamaat-e Islami Hind; uma delegação vinda da Jordânia, liderada pelo Dr. Latif; os embaixadores dos países muçulmanos; representantes de Jammu e Caxemira; representantes do Islamic Students Movement of India; e os líderes dos mujahidin afegãos.
Entre os líderes dos partidos políticos estavam Chaudhry Zahur Elahi, Malik Qasim, Khwaja Khairuddin, Sahebyadi Mahmuda Begum, Sardar Shaukat Hayat e muitos outros. Também chegaram, em um carro preto, as mulheres da família do Maulana. Imóveis como estátuas de pedra — símbolos personificados do luto. As lágrimas haviam se acumulado nos cantos dos olhos.
Exatamente às três horas da tarde, quando o avião aguardado começou a circular no céu sobre o aeroporto, a multidão impaciente ficou atordoada pela intensa emoção da dor. No céu e no ar, ecoavam, em vozes embargadas pelo choro, o Kalima da Shahada e os brados de Takbir.
Às três horas e cinco minutos, o avião pousou e parou diante do saguão VIP. Um caminhão da PIA parou junto à janela do avião. Subiram ao avião para retirar o corpo: Husain Faruk Maududi, Chaudhry Zahur Elahi, Qazi Husain Ahmad e o funcionário da Piyasi, Maulvi Rafiq Ahmad.
Depois que o corpo mortuário foi colocado no caminhão, este partiu lenta e vagarosamente em direção à residência do Maulana. Uma procissão de milhões de pessoas seguia junto ao caminhão. Gente de todas as cidades e localidades, desde Khayber até Quetta e desde Azad Kashmir até Multan, havia vindo, jovens e idosos sem distinção. Das duas margens da estrada e do alto dos edifícios, incontáveis homens e mulheres derramavam lágrimas ao ver aquela procissão de luto e prestavam homenagem, lançando flores sobre o corpo mortuário. Junto ao caminhão, avançava uma fila de quilômetros de carros particulares, ônibus especiais, peruas, scooters, autorriquixás, bicicletas e outros veículos; com ela, milhões de pessoas enlutadas caminhavam a pé. Não havia desordem em parte alguma, nem algazarra ou tumulto. Mantendo plenamente a disciplina na qual haviam sido treinados durante tanto tempo, a multidão avançava. De um carro atrás, recitavam-se pelo alto-falante a Kalima da Shahada e os takbires. Essa procissão partiu do aeroporto às três e meia. Passou pela Shahrah-e Quaid-e-Azam, Charing Cross, Shahrah-e Fatima Jinnah e Mujang Chungi, seguindo pela Ferozepur Road; depois chegou ao entroncamento de Ichhra às seis da tarde. Por fim, com grande dificuldade, o caminhão que transportava o corpo mortuário chegou à residência do Maulana. Dos minaretes das mesquitas ao redor ressoava o adhan do Maghrib. Em nenhuma mesquita das redondezas havia sequer o espaço de um grão de gergelim para as pessoas ficarem de pé. Enquanto isso, muitos, tanto crianças quanto idosos, perderam a consciência devido à intensidade do luto.
Depois do Maghrib, anunciou-se que, até as nove da noite, somente as mulheres poderiam ter a última visão do corpo mortuário. Depois disso, das dez da noite até as oito da manhã do dia seguinte, somente os homens teriam a oportunidade de vê-lo. O corpo mortuário havia sido colocado num local elevado, diante do aposento privado do Maulana. As pessoas entrariam por um portão, lançariam um olhar ao corpo mortuário e sairiam pelo outro portão. Desde as seis da tarde, a fila de mulheres se estendia para dentro do portão do 5/A Jaildar Park, e esse fluxo continuou incessantemente até as nove da noite.
As estudantes da Universidade do Punjab chegaram em três ônibus lotados. Todas tinham a voz tomada pelo choro do luto. Parecia que, no céu e no ar, ouvia-se o clamor do pranto: choram os anjos de Allah, chora toda a criação.
Às sete e meia da noite, veio o presidente do Paquistão, General Zia-ul-Haq, para a última visão. As mulheres foram interrompidas por alguns instantes para que ele pudesse ter essa oportunidade. Mian Tufail Muhammad entrou na residência do Maulana acompanhando o General Zia-ul-Haq. Com o presidente do Paquistão estavam o governador do Punjab, General Sarwar Khan, o secretário-chefe e outros oficiais militares e civis. Também os acompanhava o líder da Jamiat Islami, o senhor Liaqat Baloch. Depois de contemplar o Maulana, o General Zia-ul-Haq permaneceu algum tempo em silêncio, enquanto copiosas lágrimas escorriam por suas duas faces.
Com a voz embargada, o General Zia-ul-Haq disse: “Eis um rosto absolutamente radiante.” Depois, consolando os filhos do Maulana, disse: “O falecimento do Maulana é uma perda irreparável. Essa perda não é apenas de sua família, nem do Paquistão, mas de todo o mundo muçulmano. O grande serviço que ele prestou continuará a orientar o caminho da nação muçulmana durante os próximos séculos. Espero que seus filhos se esforcem para manter acesa a chama da orientação que o Maulana deixou iluminando.” Cerca de dez minutos depois, ele se retirou.
Das nove e meia da noite até as nove da manhã do dia seguinte, milhares de pessoas, enfileiradas, tiveram, ainda que por um breve instante, a oportunidade de contemplar o Maulana pela última vez.
Pouco antes das nove da manhã, interrompeu-se a entrada das pessoas, e o corpo mortuário foi novamente colocado no caminhão para a oração fúnebre. Exatamente nesse momento, aterrissei no aeroporto de Lahore. As cenas dolorosas que se seguiram já foram descritas anteriormente.
No dia vinte e sete de setembro, por iniciativa da Anjuman-e Ittehad-e Talaba da Universidade do Punjab, realizou-se uma assembleia de luto no Auditório Faisal, no campus da universidade. A presidência foi exercida por Mian Tufail Muhammad. Ali, numerosos sábios e intelectuais do país e do exterior proferiram discursos, prestando profunda homenagem ao Maulana.
O vice-reitor da Universidade do Catar disse: “O funeral de Sayyid Maududi foi um plebiscito. O povo do Paquistão anunciou sua decisão em favor do Islã.”
O secretário-geral adjunto do Parlamento Mundial da Juventude Muçulmana, Dr. Muhammad Ahmad Tutunji, disse que o pensamento do Maulana continuará iluminando as mentes e os corações até o Dia da Ressurreição. O diretor do Departamento de Assuntos Islâmicos do Ministério dos Awqaf do Kuwait, Sheikh Abdullah Al-Aqeel, disse que o Maulana Maududi havia frustrado a conspiração para confinar o Islã dentro das quatro paredes das mesquitas e madraças. O representante oficial da Arábia Saudita, Dr. Taha Jabir, disse que Sayyid Maududi havia revivificado a religião de Allah neste século. Um erudito kuwaitiano, Abdul Aziz Al Ali Al-Mutawa, disse que Sayyid Maududi havia fundado uma Jamaat que atua na luta para estabelecer a supremacia do Islã em todo o mundo. O amir da Jamaat-e-Islami Hind, Maulana Yusuf, disse: “Tomo Allah como testemunha e afirmo que o Maulana Maududi cumpriu plenamente sua responsabilidade. Eu havia dito que a literatura e o pensamento do Maulana provocaram uma revolução mental em centenas de milhões de pessoas.” Um erudito sírio, Sheikh Said Hawa, disse que o Maulana Maududi havia espalhado pelo mundo inteiro a fragrância do Paquistão. O presidente da Jamiat-e-Islami, Liaquat Baloch, disse que a literatura e o pensamento do Maulana haviam tornado dedicados ao Islã centenas de milhões de jovens deste país e do mundo muçulmano. Se hoje fosse possível trazer o Maulana de volta em troca de suas vidas, centenas de milhares de jovens estariam prontos para sacrificar suas vidas por isso.
O advogado egípcio Sheikh Saiful Islam, filho do fundador da Irmandade Muçulmana, o mártir Sheikh Hasan al-Banna, disse: “Depois que Sheikh Hasan al-Banna se tornou mártir, os membros da Irmandade pensaram que não havia ninguém para liderá-los. Mas, pouco tempo depois, perceberam que agora Al-Ustaz Sayyid Abul A’la Maududi era seu murshid-e-am, seu mestre e guia.”
Em seu discurso como presidente, Mia Saheb disse: “Empregaremos todas as nossas forças para difundir a primazia do pensamento do Maulana.”
Ainda assim, foi realizada uma assembleia de luto na Universidade do Punjab e várias outras em diferentes locais de Lahore por ocasião da morte do Maulana. Fui convidado e participei de quase todas elas.
Tentei conhecer o Maulana durante os últimos vinte e dois anos — conheci-o e vi-o. Tentei conhecê-lo e vê-lo com todo o meu coração. Hoje sinto claramente que, por maior e mais grandioso que eu tivesse visto o Maulana durante sua vida, a morte o tornou centenas de milhares de vezes mais grandioso e magnífico. A morte multiplicou muitas vezes a honra e a reverência que lhe eram concedidas no país e no exterior.
Nesta viagem ao Paquistão, viajei de Karachi a Lahore, de Lahore a Pindi e de Pindi a Peshawar. Em toda parte — no céu e no ar, nas folhas e nos galhos, nas ondas que fluíam ao som murmurante dos rios Indo, Ravi, Jhelum e Attock, nas colinas e montanhas — ouvi a elegia do luto. Em toda parte vi imagens concretas da dor. Ouvi, nas vozes de milhões de homens, mulheres, jovens e idosos, como num lamento de Muharram: “Sayyidi, Murshidi, Maududi, adeus, adeus.” De Buffalo a Nova York e Londres, de Londres a Karachi e de Karachi a Lahore, atravessando tantos rios, mares, montanhas, vales, cidades, povoados e desertos, seu corpo inerte de barro voou, fazendo o mundo inteiro flutuar num oceano de lágrimas, para repousar em seu leito eterno. Por isso, hoje, com sua morte, o mundo muçulmano chora e canta sua elegia.
Hoje compreendi, com tudo o que há em minha vida, que a diferença entre o Maududi vivo e o Maududi que partiu deste mundo de pó é imensa — como a diferença entre o céu e a terra. Maududi hoje é vitorioso sobre a morte. Seu chamado islâmico universal, seu inestimável acervo literário e seu pensamento claro o manterão imortal para sempre. Aqueles que, durante sua vida, o olharam com desconfiança hoje estão cheios de elogios a ele. Hoje, Altaf Gauhar, da era de Ayub, por meio da BBC, lançou luz sobre vários aspectos da vida do Maulana e expressou sua profunda reverência por ele. O líder da PNA, Mufti Mahmud, disse que Maulana Abul A’la Maududi era “a própria autoridade do Alcorão e da Sunnah”.
Com o falecimento do Maulana, todo o mundo muçulmano ficou tomado pela tristeza. Em cidade após cidade, mesquita após mesquita, passaram a realizar-se orações fúnebres na ausência e reuniões de luto. Diversos eruditos, intelectuais, personalidades respeitadas, professores e estudantes continuaram a prestar homenagem ao Maulana nos jornais e revistas, expressando as emoções e os sentimentos de seus corações banhados em lágrimas e consumidos pela dor. Entre os que manifestaram sua reação, destacam-se ainda o Major (aposentado) Mustafa Shaheen, o Dr. Muhammad Qutb, o renomado cirurgião Dr. Ali Al-Hajj, de Cartum, capital do Sudão, o ex-ministro Yusuf Hashem Ar-Rifa‘i, da Fundação Islâmica de Nairóbi, o linguista francês Professor Hamidullah, Nazir Hasan, residente em Hong Kong, um dos grandes eruditos do mundo árabe, o Dr. Mustafa Az-Zarqa, o Presidente do Supremo Tribunal dos Emirados Árabes Unidos, Sheikh Abdul Aziz Al-Mubarak, o Allama Ayatullah Yahya Nuri, do Irã, o Dr. Ibrahim Agah, da Turquia, o Dr. Ismail Raji Al-Faruqi, da América, o Maulana Abul Hasan Ali Nadwi, da Índia, Sayyid Masud Ali Rizvi, de Jedá, Muhammad Amin, de Riade, Hussain Khan, do Japão, o Maulana Saeed Ahmad Akbarabadi, da Índia, Abdul Mujib, de Medina Sharif, o Maulana Sadruddin Rifa‘i Mujaddidi, o advogado A. K. Brohi, o editor jurídico Muzaffar Beg e Sarwat Saulat, do mundo árabe. O número dessas personalidades respeitadas, profundamente enlutadas, é tão grande que seria necessário escrever uma obra independente para publicar todos esses testemunhos.
[Segunda Parte]
A inspiração para o talento de escrita do Maulana
Não é desconhecido no mundo literário que o Maulana era um ensaísta, literato e pensador de altíssimo nível. Também é inegável que ele conferiu à língua urdu uma nova forma e uma nova vitalidade. Seu estilo de escrita, sua construção frasal e sua maneira de expressão eram inteiramente próprios. A inspiração para uma escrita extraordinária parecia ser inata nele, e essa inspiração manifestou-se já na mais tenra infância.
A seguir, apresenta-se, para conhecimento dos leitores, seu próprio depoimento sobre esse assunto:
“Quando eu tinha nove anos de idade, surgiu em mim uma inspiração natural para escrever ensaios. Naquela época, um meu amigo chamado Janab Ashfaq Ahmad Zahidi veio a Aurangabad e ficou alguns dias em nossa casa. Ele tinha grande inclinação para escrever ensaios e ler livros. Foi ele quem despertou em nós, dois irmãos, o interesse por escrever ensaios e nos incentivou a ler, além dos livros escolares, revistas em geral e jornais. Certa vez, para testar nossa capacidade, ele disse: ‘Imaginem que vocês se apaixonaram por uma menina. Agora escrevam uma carta de amor à sua amada imaginária, na qual transpareçam a emoção e o entusiasmo do amor, bem como a dor da separação.’”
Nesse assunto, éramos completamente inexperientes. Particularmente, eu tinha uma idade em que nem sequer havia surgido em minha mente qualquer noção do que fossem amor, amada, separação e coisas semelhantes. Mas, naquela época, eu já havia lido Gulistan e Bustan. A partir deles, eu adquirira um pouco de conhecimento: ‘O amor é uma doença especial que nasce ao se contemplar um belo e formoso rosto; então, por efeito dessa doença, começa a arder um fogo no coração. Esse fogo se apaga somente ao ver aquele rosto. Enquanto ele não é visto, o fogo continua ardendo no coração. E o nome desse estado do coração é “separação”.’ De qualquer modo, aplicamos tão bem quanto pudemos esse conhecimento e, descrevendo aquela situação, escrevemos uma longa carta. Nenhum de nós três — nós dois irmãos e Ashfaq — se lembra do que escrevemos naquela ocasião. Mas certamente nos lembramos de que o irmão Ashfaq ficou estupefato depois de ler as duas cartas e de que gostou especialmente mais da minha. Embora a carta de meu irmão mais velho fosse consideravelmente maior.
Depois de passar no exame de maulvi, em um período de folga e a pedido de meu irmão mais velho, traduzi para o urdu um livro árabe de Qasim Amin Bey, intitulado ‘Al-Mir’at al-Jadid’. Não sei onde estarão agora os manuscritos dessa tradução. Contudo, lembro-me muito bem de que meu falecido pai ficou extremamente satisfeito com a fluência, a simplicidade da linguagem e a construção frasal harmoniosa dessa tradução, e de que meu irmão mais velho também a elogiou muito.
Este foi o meu esforço inicial. Depois, ao mudar-me para Bhopal em 1917, a inclinação para escrever ensaios, juntamente com os estudos gerais, tornou-se tão arraigada que cheguei a pensar que não conseguiria concluí-la antes de morrer. Os três ou quatro primeiros anos foram uma fase de imitação. Eu tentava imitar o estilo de escrita de quem quer que eu apreciasse. Porém, à medida que os meus estudos avançavam, compreendi cada vez mais que a beleza de um ensaio não se desenvolve pela imitação do método alheio, mas, sim, por meio de um estilo próprio de expressão. Desde 1921, adotei um método e estilo próprios e permanentes, nos quais não sigo ninguém.
Sustento a ideia de que, com cada pensamento e concepção, surge também uma determinada linguagem. E, para expressar cada pensamento e concepção, a linguagem mais correta e apropriada é aquela que surge espontaneamente junto com o próprio pensamento e concepção. Portanto, deve-se pensar apenas sobre o ensaio. Quanto à linguagem, não há necessidade de se afligir com a sua escolha. Ela surgirá espontaneamente junto com o ensaio.
É por essa razão que, quando preciso escrever algo, todos os meus esforços são dedicados apenas a organizar as ideias e a reunir o material, os argumentos e as provas. Depois que o conteúdo se consolida na minha mente, não levo muito tempo para transformá-lo em texto. Sinto tanta segurança quanto à escolha das palavras para escrever que, salvo em assuntos de especial importância, em quase todos os casos não preciso revisar o texto uma segunda vez depois de escrevê-lo.
A literatura revolucionária do Maulana
Ao longo do último meio século, a vigorosa e revolucionária literatura do Maulana Sayyid Abul A’la Mawdudi provocou uma revolução na mente e no coração de centenas de milhões de seres humanos. Ao inspirar em inúmeros homens e mulheres um profundo amor por Deus e pelo Mensageiro, transformou o rumo de suas vidas. A sua literatura e o seu pensamento selecionaram, entre centenas de milhões de pessoas, muitos que passaram a empenhar-se numa luta incessante contra a falsidade. A estagnação que se havia acumulado durante séculos no mundo do pensamento muçulmano foi removida pela literatura do Maulana, que despertou um pensamento amplo, de longo alcance, claro e puro. É incalculável quantas pessoas a influência da sua literatura libertou da cobiça e dos desejos mundanos, bem como do medo e da intimidação, tornando-as possuidoras de um caráter firme e imaculado.
Características da sua literatura
A primeira característica da literatura do Maulana Mawdudi é que ele apresenta o Islã não como uma religião estagnada, antiga, tradicional ou herdada, mas como uma filosofia revolucionária de vida e um movimento. Ele apresentou a sua argumentação mais vigorosa como prova interna, extraída do próprio pensamento islâmico. Dão testemunho dessa concepção revolucionária da religião os versículos inspiradores e estimulantes do Alcorão Sagrado, os vinte e três anos de luta da vida do Santo Profeta, a luta e o empenho constantes dos nobres Companheiros e a era gloriosa do Califado Ortodoxo. O Maulana não tentou provar nada tecendo uma rede de palavras com a força do seu estilo; antes, expôs diante da comunidade islâmica, limpos e reluzentes, os princípios e fatos que haviam permanecido ocultos às pessoas devido ao pensamento estagnado e não praticado de séculos.
A segunda característica da sua literatura e do seu pensamento é que ele destacou e iluminou cada aspecto e área do Islã, descrevendo-os de modo apropriado à época atual. Refutou, por meio de argumentos e provas, todas as acusações que a era científica moderna dirige contra a religião. Traçou um quadro do edifício completo do sistema social islâmico. Descreveu minuciosamente, com argumentos e provas, os princípios do Islã em todos os aspectos e áreas da vida: sociais, políticos, econômicos, culturais, jurídicos e educacionais, agrícolas e industriais, morais e espirituais — em suma, em cada dimensão da vida. Explicou quais são as exigências modernas do Islã e o que o mundo moderno exige do Islã. Demonstrou que o comunismo é equivocado. Demonstrou também que o capitalismo é uma doutrina destrutiva. Considera o fascismo, o socialismo, o liberalismo e todos os demais ismos doutrinas perigosas para a humanidade.
Ele não considera estas obras “inúteis”, à maneira de algum “mullah fanático”. Pelo contrário, analisou suas falhas e desvios e os apontou claramente.
A terceira característica é que Maulana Maududi provou que o Islã não é simplesmente uma religião de culto e rituais que “não tem relação” com a política; pelo contrário, não existe nenhum setor da vida que possa permanecer independente do Islã. O Islã é um sistema de vida completo, e a política é um de seus setores. Enquanto esse setor político da vida não for submetido ao Islã, sua exigência não será cumprida.
Breve apresentação de algumas obras de Maulana
Tafhim al-Qur’an
“Foram produzidas tantas obras em nossa língua sobre a tradução e o tafsir do Nobre Alcorão que não parece ser um bom uso do tempo e do esforço escrever e publicar mais uma tradução ou tafsir apenas para obter o mérito e as bênçãos de alguém. … Há muito tempo eu vinha percebendo que, apesar dos louváveis esforços dos tradutores e exegetas, de modo algum havia sido possível saciar a sede cada vez maior que se manifestava entre nossos círculos instruídos de compreender o significado interior do Alcorão e seu verdadeiro propósito. Pensei: por que eu também não deveria tentar, de algum modo, saciar essa sede?”
Maulana expressou essas palavras na introdução do Tafhim al-Qur’an, obra que ele compôs. Ao traduzir o Alcorão, portanto, ele abandonou a prática tradicional da tradução literal e verteu os termos técnicos árabes para um urdu simples, fluente e claro. Esta é uma manifestação extraordinária e primorosa de sua arte de composição. Ele diz:
A primeira coisa é que, ao ler uma tradução literal, parece que não se percebe de modo algum a continuidade do texto original, a doçura da linguagem nem o impacto do discurso. Em cada linha da tradução do Alcorão encontra-se uma exposição sem vida que, depois de lida, não desperta inspiração no coração do leitor, não faz seu corpo arrepiar-se, não lhe faz derramar lágrimas pelos olhos nem produz em sua mente uma corrente de pensamento revolucionária. Ele não consegue sentir nem um pouco que algo está influenciando seu conhecimento, sua razão e sua consciência e penetrando nas profundezas de seu coração. Contudo, por maior que seja o impacto dos ensinamentos sagrados e do elevado conteúdo do Alcorão, o impacto de sua literatura não é menor. Foi por isso que até corações duros como pedra se derreteram ao ouvir a sagrada mensagem do Alcorão, e toda a Arábia estremeceu diante do estrondo trovejante de suas palavras. Até seus adversários reconheciam seu poder de influência e temiam que suas palavras possuíssem uma força tão mágica que, ao ouvi-las, as pessoas se submetessem completamente a elas. Se a linguagem do Alcorão não tivesse tal força, e se o Alcorão tivesse sido revelado numa linguagem do mesmo tipo daquela que encontramos em suas traduções, ele jamais teria sido capaz de despertar uma vitalidade indomável em toda a nação árabe e conquistar seus corações e mentes. (Introdução do Tafhim al-Qur’an).
Depois, ao ler o Alcorão, surgem repetidamente na mente do leitor esta perplexidade e estas perguntas: por que o Alcorão é tão diferente de nossos livros comuns? Qual é seu tema? Por que nele não há ordem e continuidade? Como foi compilado e preservado depois de sua revelação? Maulana refutou todas essas dúvidas e suspeitas na introdução do Tafhim al-Qur’an. Logo no início, apresentou respostas satisfatórias a todas essas perguntas. Sua introdução pode, na realidade, ser considerada o princípio fundamental para compreender o Sagrado Alcorão, e também foi publicada separadamente em forma de livreto.
O Maulana iniciou, em 1943, a redação contínua de Tafhimul Qur’an por meio de sua revista mensal, Tarjumanul Qur’an, e concluiu-a ao longo de trinta anos. Pode-se dizer que dedicou a maior parte de sua vida à redação desta obra inestimável. Para as gerações futuras, esta é sua maior contribuição.
Certa vez, durante sua assembleia vespertina (a reunião realizada do ‘Asr ao Maghrib), ele comentou:
“Dividi o meu tempo, dia e noite, em três partes. Uma parte é dedicada aos trabalhos cotidianos do país e da organização, uma parte às gerações atuais e uma parte às gerações futuras. Considero a redação de Tafhimul Qur’an um direito que as gerações futuras têm sobre mim. Não posso sacrificar esse direito em consideração às gerações atuais.”
Ele empregou toda a sua energia para tornar a obra mais útil, autorizada e rica em informações para as gerações futuras. Percorreu pessoalmente o Oriente Médio, a ‘Ardul Qur’an (os lugares históricos mencionados no Qur’an), e inseriu em sua obra fotografias desses lugares históricos.
Ao explicar a Palavra Divina em Tafhimul Qur’an, o Maulana não introduziu nenhuma afirmação inventada. Seguiu as opiniões dos antigos sábios muçulmanos, ou dos salaf صالحین, os hadiths autênticos e a Sīrat Paak. Entre os tafsirs que consultou especialmente ao escrevê-lo, destacam-se Kashshaf ‘an Haqa’iq al-Tanzil, de Allama Jarullah Zamakhshari; Tafsirul Qur’an al-Azim, de Allama Ibn Kathir; Ahkamul Qur’an, de Abu Bakr Jassas; e Ahkamul Qur’an, de Ibn al-‘Arabi al-Maliki.
Ao se deparar com questões relacionadas ao fiqh durante a explicação do Qur’an, o Maulana estudava as obras fundamentais dos quatro imames das escolas de fiqh — Hanafi, Maliki, Shafi‘i, Shafi‘i e Hanbali. Isso porque era seu hábito constante estudar sempre as obras das fontes originais para determinar a verdade ou falsidade de qualquer questão. Sobre sua mesa ficavam espalhados vários tafsirs, hadiths, obras fundamentais de fiqh, livros de Sīrat, história do Islã e outros. Antes de registrar qualquer parte de Tafhimul Qur’an, ele anotava em folhas separadas as informações necessárias extraídas dessas obras. Às vezes, o exame minucioso e a investigação de um tema específico consumiam dias e dias, semanas e semanas de seu tempo.
Uma característica de Tafhimul Qur’an é que o Maulana explicou diversos temas em suas notas tendo em vista a mentalidade moderna. Sem introduzir teorias complexas da lexicografia, da gramática e da lógica árabes, apresentou, em linguagem simples e clara, soluções para os problemas da era moderna. Lançou uma luz esclarecedora sobre as dúvidas, incertezas e questões que poderiam surgir na mente do leitor durante a leitura do Qur’an.
Outra característica notável de Tafhimul Qur’an é que, no início de cada surata, foi incluída uma apresentação, introdução ou nota preliminar. Logo de início, são apresentados em detalhes o tema central da surata, seu contexto histórico, o motivo de sua revelação e o ambiente e as circunstâncias sociais, políticas e culturais em que ela foi apresentada. Assim, o conteúdo da surata, juntamente com seu significado intrínseco, torna-se previamente claro na mente do leitor. Este é um método inovador de compreender o Qur’an, que o Maulana apresentou aos leitores.
Outro aspecto digno de nota do Tafhim-ul-Qur’an é que, por seu intermédio, o Maulana realizou um trabalho louvável sobre a nobre biografia do Profeta Mustafa (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Ao apresentar a verdadeira identidade do Profeta Mustafa (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), guardião e portador do Sagrado Alcorão, despertou no leitor um amor e uma afeição imensuráveis por ele. Ao dividir a vida mecana e medinense do Santo Profeta em diferentes estágios, esclareceu vários aspectos da Sira do Profeta. Apresentando, a cada passo, provas irrefutáveis da profecia, criou no leitor uma firme convicção na missão apostólica. Depois disso, o leitor pode sentir claramente que a revelação, os profetas e mensageiros, o Livro e a Sunna estão intimamente interligados. Apesar da discussão completa da Sira nas notas do Tafhim-ul-Qur’an, o Maulana desejava escrever uma obra independente sobre o assunto. Pela infinita graça de Allah, também concluiu esse grandioso trabalho. Essa obra (Sira Sarwar-e-Alam) foi publicada em vários volumes.
Entre as obras literárias revolucionárias do Maulana, o Tafhim-ul-Qur’an ocupa o lugar de destaque, e a base de sua atividade literária é «Al-Jihad fi al-Islam». Pode-se afirmar sem hesitação que esta é sua base de atividade literária e sua maior contribuição para a humanidade do futuro.
Já começaram, de forma dispersa, pesquisas no país e no exterior sobre o Tafhim-ul-Qur’an e as obras do Maulana. Contudo, para que as gerações futuras obtenham benefícios duradouros do Tafhim, é necessário estabelecer, em nível estatal, uma academia de pesquisa ou um centro de estudos de alto nível. Espero que Allah também facilite o caminho para esse trabalho.
Os quatro termos fundamentais do Alcorão
Para compreender corretamente o Alcorão, esta obra abre as portas do coração do leitor. Por isso, sua importância é imensurável. Nesta obra, os quatro termos sobre os quais o Maulana lançou plena luz são: ilah, Rabb, ibadat e din. Se o leitor não tiver uma compreensão clara desses quatro assuntos, de modo algum será possível compreender o Alcorão. Se o leitor imaginar que ilah significa uma divindade adorada, din significa uma religião qualquer, Rabb significa mantenedor e ibadat significa louvor, elogio e atos de adoração, então será absolutamente impossível para ele compreender a essência da mensagem do Alcorão. É por isso que o Maulana considerou indispensável oferecer uma explicação correta desses quatro termos e escreveu esta obra.
É claro que isso não significa que, no Tafhim-ul-Qur’an, não tenham sido dadas explicações desses quatro termos conforme o contexto. Entretanto, reconhecendo sua importância, sentiu-se a necessidade de escrever uma obra independente sobre eles.
A essência da cultura islâmica
Atualmente, entre os muçulmanos, prevalecem uma confusão mental e uma anarquia em relação à cultura islâmica. Tudo o que os muçulmanos fazem ou vêm fazendo por herança familiar está sendo chamado de cultura islâmica ou muçulmana. Tudo o que um muçulmano fizer seria islâmico e deveria contar com o apoio do Islã. A tentativa de incluir as belas-artes e os eventos musicais na cultura islâmica em nome do entretenimento é resultado da influência da civilização ocidental. A questão agora é saber se o Islã apresenta ao mundo algum conjunto de valores culturais e se possui princípios fundamentais no campo da cultura; o que se entende por cultura; sobre que fundamentos estão estabelecidas a civilização e a cultura islâmicas; e se a crença no tawhid, na missão apostólica e na vida futura admite determinadas concepções culturais, entre outras questões. A discussão detalhada de todos esses assuntos, bem como suas soluções corretas e os princípios correspondentes, foi apresentada na obra mencionada acima. Sem dúvida, esta obra servirá de guia para as pessoas de bom gosto dedicadas à cultura.
Al-Jihad fi al-Islam
Sobre isso, discute-se logo no início da obra.
Movimento do Renascimento Islâmico
O Islã é uma filosofia de vida vibrante, que o Criador do universo enviou à humanidade com o propósito de que o ser humano conduzisse toda a sua vida de acordo com essa filosofia. A plena concretização dessa filosofia de vida ocorreu durante a existência do último Profeta, Muhammad Mustafa (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Ela permaneceu intacta, imaculada e pura também na época do Califado Rashidun. Mais tarde, porém, quando o califado se transformou em monarquia, começou gradualmente a penetração da jahiliyyah no Islã. Então isso se tornou um problema difícil para as pessoas comuns: entre todas essas coisas, qual é o Islã e qual é a jahiliyyah? Para libertar o Islã do entulho da jahiliyyah e reencontrá-lo em sua forma pura e verdadeira, é necessário um reformador, chamado, na terminologia islâmica, de “mujaddid”. Sempre que a nação muçulmana sentiu a necessidade de purificar o Islã da impureza, surgiu na história do Islã um mujaddid.
Nesta obra, o Maulana analisa, no contexto do conflito ideológico entre o Islã e a jahiliyyah, quatro concepções sobre a vida e demonstra que somente o Islã é uma concepção aceitável para a humanidade. Em seguida, apresenta a definição de mujaddid, a diferença fundamental entre um mujaddid e um profeta, o Imam Mahdi e outros temas. Depois, discute alguns dos grandes mujaddids da nação muçulmana e suas atividades.
O conflito entre o Islã e a civilização ocidental
Após a expansão do domínio político britânico no subcontinente indiano, os muçulmanos não apenas foram privados do poder governamental; a civilização moderna destruiu até sua autoconfiança, tranquilidade mental, iman e crença na aqidah. Depois, sempre que a civilização ocidental franzia a testa, com repulsa, para algo dos muçulmanos, estes, arrependidos dessas coisas, começaram a abandoná-las. Fossem suas roupas e seu vestuário, seus modos de agir, sua língua ou seu iman e sua aqidah. Em outras palavras, começaram a abandonar, uma a uma, todas as coisas indesejáveis aos olhos do Ocidente. Por fim, uma parcela dos muçulmanos avançou tanto que passou a considerar digno de fé, como a revelação, tudo o que era importado da Europa, enquanto a verdadeira “revelação” se tornou, para eles, algo duvidoso. Fascinados e atraídos pelas novas descobertas da ciência, começaram a oferecer sobre elas várias interpretações inventadas. A nação que cai sob esse tipo de escravidão mental acaba, depois, cavando com as próprias mãos a sua sepultura. Embora tenha nascido entre essa nação, o Maulana critica severamente essa escravidão mental e, por meio de sua escrita afiada, tenta salvar os muçulmanos desse caminho de autodestruição.
Na obra acima mencionada, o Maulana lança luz sobre a escravidão mental e suas causas, o declínio da civilização islâmica, as enfermidades da civilização moderna, os discursos vazios dos progressistas e outros temas, oferecendo uma discussão interessante sobre os remédios para as enfermidades da civilização moderna. Por meio dessa obra, ele desperta a consciência de uma nação que havia se esquecido de si mesma.
Introdução ao Islã
Para adquirir conhecimentos básicos sobre o Islã, este livro é muito importante e proveitoso. Por meio dele, o leitor pode compreender o verdadeiro significado e a essência do Islã. Em linguagem simples, clara e cativante, o Maulana discute minuciosamente neste livro o Islã, o iman, a profecia, o dīn, a sharia e as normas e disposições da sharia.
Ensinamentos fundamentais do Islã
(Série Khutbat ou Haqiqat)
Neste livro, a essência do iman, do Islã, da oração e do jejum, do zakat, do hajj e do jihad é apresentada em detalhes. A linguagem é simples e, ao mesmo tempo, compreensível para o público em geral. O livro é uma compilação das palestras que ele proferiu em sequência sobre esses temas nos sermões de sexta-feira.
O sistema de vida islâmico
Este livro lança luz sobre as normas e os princípios políticos, econômicos, sociais, espirituais e morais do Islã. Logo após a fundação do Paquistão, as sucessivas palestras radiofônicas que o Maulana proferiu sobre esses temas foram reunidas, compiladas e publicadas em forma de livro. O livro testemunha que o Islã é um sistema de vida completo para toda a humanidade.
O véu e o Islã
Esta obra constitui uma das maiores contribuições literárias do Maulana. Nela, um dos mais destacados pensadores islâmicos do mundo, o Maulana Sayyid Abul A’la Maududi, aborda com firmeza uma questão controversa da era moderna. Logo no início da obra, ao discutir os problemas fundamentais da sociedade humana, ele afirma:
“Há dois problemas principais e mais complexos da civilização humana. O progresso e o bem-estar geral da humanidade dependem da solução adequada desses dois problemas. Por isso, os intelectuais e círculos esclarecidos do mundo encontram-se perplexos e preocupados em busca de sua solução.
O primeiro problema é como devem ser estabelecidas as relações entre homens e mulheres na vida social. Na realidade, este é o alicerce da civilização; e, se houver nele qualquer possibilidade de desvio, o edifício civilizacional que se erguer sobre essa base será necessariamente deformado.
O segundo problema diz respeito às relações individuais e coletivas da humanidade. Se permanecer a menor incongruência que seja na harmonização dessas duas dimensões, a humanidade terá de suportar por longo tempo suas amargas consequências.” Em seguida, o Maulana traçou um quadro extremamente doloroso dos sistemas sociais da Grécia antiga, de Roma e dos países da Europa cristã. Ao descrever a ideia de liberdade do século XVIII, apresentou exemplos históricos da anarquia sexual (Sexual Anarchy), das doenças sexualmente transmissíveis, da libertinagem e da obscenidade, como consequências inevitáveis. Com base em dados históricos, demonstrou como a sociedade ocidental, tendo fracassado em determinar o lugar correto do homem e da mulher na sociedade, avança rapidamente rumo ao suicídio nacional. Após oferecer uma análise filosófica, natural, científica e psicológica das relações entre homens e mulheres na sociedade, apresentou uma descrição detalhada do sistema social islâmico como solução adequada e duradoura para o problema. Esta obra provocou uma enorme comoção no mundo das ideias.
Além das obras acima mencionadas, também são de grande importância seus livros intitulados ‘O movimento pela independência da Índia e os muçulmanos’, ‘O Estado Islâmico’, ‘Ismamic Law and Constitution’, ‘O Islã e o controle da natalidade’, ‘O califado e a monarquia’, entre outros. Além disso, mais de cinquenta outros livros e obras do Maulana estão espalhados por todo o mundo, e, até o momento, a maioria deles foi traduzida para cerca de quarenta idiomas.
A influência do Maulana e de sua literatura em outros países
Índia
Entre os países fora do Paquistão onde a mensagem e a missão do Maulana Maududi exerceram influência, a Índia merece menção especial. O Maulana iniciou seu trabalho na Índia ainda indivisa e, após a Partição, pessoas influenciadas pelo pensamento e pelo programa de ação do Maulana continuaram trabalhando por meio da organização Jamaat-e-Islami indiana. Atualmente, trabalham com base no seguinte programa de quatro pontos:
* Abolição dos conflitos comunitários.
* Reforma da sociedade muçulmana segundo os princípios islâmicos e ampla divulgação e disseminação do conhecimento religioso entre seus membros.
* Influenciar a classe instruída e talentosa, desenvolver seus talentos e empregá-la em trabalhos construtivos. Em especial, conter, por meio de argumentos e provas científicas, a poderosa corrente do ateísmo, do comunitarismo, do socialismo e do comunismo.
* Adquirir a capacidade de escrever ensaios e proferir discursos em hindi e em outras línguas regionais, para que a grandiosa mensagem do Islã possa ser divulgada nessas línguas.
O trabalho deles está sendo realizado em larga escala e é extremamente promissor.
Ceilão
Os muçulmanos instruídos do Ceilão, especialmente os educadores e estudantes, influenciados pela literatura de Maulana Maududi e pelo movimento islâmico, estão trabalhando por meio da organização MUSLIM BROTHERHOOD MOVEMENT. Eles divulgam seus ideais por meio de reuniões semanais e de dois jornais. A classe empresarial local também demonstra grande interesse nesse assunto. Eles traduziram várias obras de Maulana para a língua cingalesa. Atualmente, essa organização atua sob o nome de Jamaat-e-Islami do Ceilão.
América
Nos últimos anos, a literatura do Maulana tem sido lida com apreço na América. A organização dos muçulmanos da Filadélfia chamada “Liga Muçulmana” costuma solicitar e receber as obras do Maulana. Também são enviados pedidos das demais localidades pelas obras do Maulana.
É especialmente digno de nota que esteja sendo realizada uma pesquisa sistemática sobre o pensamento e a perspectiva de Maulana Maududi na Universidade McGill, no Canadá. O trabalho está sendo conduzido pelo professor Dr. Charles J. Adams. Pela Fundação Rockefeller, foi-lhe concedida uma bolsa de seis mil dólares para esse trabalho.
Esse trabalho está sendo realizado sob a responsabilidade do Instituto de Estudos Islâmicos da universidade. No âmbito desse instituto, estão sendo feitas pesquisas sobre a perspectiva política de Maulana Maududi e sobre a organização e o programa da Jamaat-e-Islami.
O professor Adams permaneceu dois anos no Paquistão e encontrou-se com o Maulana e seus colaboradores. Ele também estudou diligentemente a língua urdu.
Para sua pesquisa, foram reunidas todas as obras do Maulana e todos os arquivos de Tarjuman ul-Quran.
Há algum tempo, o Dr. Adams enviou a seguinte carta ao jornal “Voice of Islam”, de Karachi.
“No ano passado, uma instituição americana pediu-me que escrevesse um artigo. A instituição está interessada em estabelecer relações entre as diversas religiões. De qualquer modo, em meu artigo discuti detalhadamente Maulana Maududi. Na reunião em que apresentei meu artigo, estava presente um representante da Fundação Rockefeller. Depois da apresentação do artigo, ele veio falar comigo e pediu-me que realizasse uma pesquisa sobre o pensamento político de Maulana Maududi. Agora, durante um ano, escreverei um livro sobre Maulana Maududi. Nele, discutirei especialmente suas ideias sobre a formação de um Estado islâmico.”
O jornal diário da Universidade McGill, “McGill Daily”, publicou o seguinte comentário:
“Entre os três ou quatro pensadores do mundo moderno que tentaram estabelecer um Estado moderno à luz da perspectiva tradicional do Islã, Maulana Maududi é um deles. Sob esse aspecto, a vida do Maulana é de extrema importância.
Influenciado pela literatura do Maulana, um jovem neo-muçulmano altamente instruído fundou, em 1971, um partido islâmico chamado The Islamic party of Narth America, seguindo o modelo da Jamaat-e-Islami do Paquistão. O trabalho do partido é extremamente promissor. O partido possui dois conselhos: o primeiro, Central Cuidance Council (Conselho Central da Majlis-e-Shura), e o segundo, General Council (Conselho Geral). Em nome do partido, são publicados regularmente dois periódicos como órgãos de divulgação do Islã: o mensal Al-Islam, em inglês, e o quinzenal New Trend.
O fundador e atual presidente desse partido, Yusuf Muzaffaruddin Hamid, diz: “Para compreender a força vital da revolução islâmica, é absolutamente necessário estudar conjuntamente Tafhim al-Qur’an, do mestre Maulana Maududi, e Fi Zilal al-Qur’an, do mártir Sayyid Qutb.
É desnecessário dizer que a literatura do Maulana conduziu Yusuf Muzaffaruddin a um caminho extremamente árduo do movimento islâmico. Ele diz:
“Organizamos nossa Jamaat de maneira científica. O partido possui vários departamentos, tais como educação, política, relações exteriores, publicações literárias, entre outros. Em cada departamento, pessoas instruídas responsáveis e trabalhadores devotados desempenham suas funções abnegadamente. Damos também especial importância à formação dos trabalhadores e à educação das futuras gerações. Foi criada uma organização especial para a educação de meninos e meninas. Também providenciamos para que, juntamente com o currículo convencional, se possa adquirir um conhecimento correto da religião do Islã. Trabalhamos em vinte e dois estados da América.”
É digno de nota que, em 1969, Yusuf Muzaffaruddin foi ao Paquistão e passou uma semana na companhia do Maulana como seu hóspede. Durante vários dias, manteve longas conversas com o Maulana, que respondeu satisfatoriamente às suas diversas perguntas. Os livros do Maulana, a constituição, o método de trabalho e a organização da Jamaat-e-Islami o impressionaram tanto que ele expressou o desejo de tornar-se membro da Jamaat. Contudo, como a filiação era proibida a cidadãos estrangeiros, retornou ao seu país e fundou, em 1971, o referido partido islâmico.
Inglaterra
Chegam pedidos da literatura do Maulana de várias localidades da Inglaterra. Ela é muito procurada entre os estudantes muçulmanos. Eles costumam apresentar ao Maulana diversos tipos de questões religiosas complexas. As dificuldades que enfrentam enquanto vivem em Londres, eles as enviam ao Maulana, solicitando que ele lhes ofereça soluções.
Depois de ler os livros do Maulana, alguns muçulmanos residentes em Londres, inspirados e motivados pelos ideais islâmicos, estabeleceram recentemente naquele país uma organização de propagação do Islã chamada “UK Islamic Mission”, com o objetivo de realizar a da‘wah islâmica. Os muçulmanos residentes em Londres desejam ardentemente vê-lo uma vez entre eles. Com esse propósito, chegaram a convidar o Maulana para ir a Londres, mas sua esperança não se concretizou. Devido a várias dificuldades, não foi possível reservar tempo para essa viagem do Maulana.
Na década de 1970, inspirados pelo pensamento do Maulana, os muçulmanos de língua bengali de Londres fundaram uma organização chamada “Dawatul Islam” e vêm trabalhando para disseminar a da‘wah islâmica. Filiais da Dawatul Islam também foram estabelecidas em várias cidades.
A organização também realiza um trabalho louvável ao proporcionar educação islâmica aos filhos dos falantes de bengali por meio da criação de escolas primárias em várias cidades.
Na cidade de Leicester, foi estabelecido um centro de pesquisa islâmica chamado “Islamic Foundation”, tendo como foco a literatura e o pensamento do Maulana. Pensadores islâmicos e pesquisadores de vários países vêm desenvolvendo seus trabalhos com grande empenho por meio da Islamic Foundation.
Alemanha
Na Alemanha, a influência da mensagem e da missão do Maulana Maududi também está sendo sentida de maneira significativa. O senhor Eric Abdur Rahman Rusler, vice-presidente da Comunidade Islâmica de Hamburgo, entrou em contato com o Maulana e pediu que lhe enviasse seus livros.
Ele informou ao Maulana que as pessoas dali sofrem atualmente de quatro tipos de enfermidade: inquietação mental, completo desespero, terror e extrema desordem no campo do pensamento.
O Maulana enviou-lhe todos os seus livros traduzidos para o inglês. Graças aos esforços do senhor Abdur Rahman, atualmente há um trabalho considerável de da‘wah islâmica em andamento na Alemanha.
O trabalho de pregação islâmica também está sendo realizado pelo Centro Islâmico estabelecido em Genebra, onde também foram traduzidos os livros do Maulana. Alguns eruditos alemães recém-convertidos ao Islã também começaram a trabalhar na tradução das obras do Maulana.
Maurício
Um dos colegas do Maulana está realizando atividades de da’wah em Maurício. Ele trabalha como professor em uma escola, atua também como khatib em uma mesquita, ministra aulas de Alcorão e Hadith e edita uma revista. O progresso de seu trabalho é promissor.
Coreia Civil
O grupo de jovens daqui estuda com interesse as obras do Maulana.
Além disso, em Burma, Laos, Índias Ocidentais, Guiana Britânica, América do Sul, Pretória, África do Sul, Kano, Nigéria, Marrocos, Joanesburgo e vários outros lugares, as obras do Maulana circulam amplamente em urdu, árabe e inglês.
A Sociedade Islâmica de Pretória obteve permissão para traduzir as obras do Maulana para o inglês.
O governo de Maurício designou alguns livros do Maulana como livros didáticos nas escolas sob sua administração.
Já foi mencionado que a literatura do Maulana recebeu grande apreço nos países árabes. Eles planejaram traduzir a literatura do Maulana para o árabe, o inglês e outras línguas europeias.
Japão
Entre as nações não muçulmanas da Ásia, o povo japonês manifesta um intenso desejo de buscar refúgio à sombra refrescante do Islã. Eles veem o imperialismo e o domínio americanos com desprezo. Não sentem a mínima atração pelo cristianismo. O encanto da religião xintoísta já se dissipou para eles. Materialmente, são muito prósperos. Mas sua condição espiritual os deixa inquietos e atormentados. Até hoje, vinte e cinco mil japoneses aceitaram o Islã.
Não é preciso dizer que tudo isso é fruto da influência da literatura do Maulana. Na década de 1960, um talentoso membro da Jamaat-e-Islami do Paquistão foi ao Japão com o objetivo de expandir a da‘wah islâmica. Graças aos seus esforços, foi estabelecido um Centro Islâmico em Tóquio. Iniciaram-se o trabalho de da‘wah e a tradução da literatura do Maulana para o japonês. O despertar islâmico que hoje se observa entre o povo japonês é resultado da literatura comovente do Maulana e dos esforços do Centro Islâmico. A tradução do Tafhim al-Qur’an do Maulana para o japonês também está em andamento. Um paquistanês chamado Hussain Khan é o diretor desse centro.
Sudão
No Sudão, há três décadas vem ocorrendo uma luta contínua entre o Islã e a incredulidade, entre a verdade e a falsidade. O movimento islâmico de lá, atravessando diversos reveses e reviravoltas, ascensões e declínios, ainda se mantém como uma força significativa.
Em 1950, os estudantes da Universidade de Cartum, no Sudão, lançaram-se pela primeira vez ao movimento comunista, e a maioria dos professores também aderiu a ele. Contudo, a Ikhwan al-Muslimun e a literatura do Maulana despertaram uma nova consciência entre os estudantes e formaram uma frente poderosa contra o comunismo. Em 1956, o Sudão conquistou a independência e, quando o movimento islâmico se espalhou por todo o país, o povo passou a exigir em voz alta uma constituição islâmica. Em 1967, pouco antes da aprovação da constituição islâmica, ocorreu no país um golpe militar por meio de uma conspiração estrangeira, e a influência da Rússia começou a expandir-se por toda parte. Iniciaram-se a perseguição e a opressão contra os líderes e ativistas do movimento islâmico.
Apesar disso, não foi possível apagar a influência do movimento islâmico da mente e do coração do povo. Um dos líderes do movimento, o Dr. Hassan al-Turabi, foi libertado após passar muitos anos na prisão, e o movimento islâmico está se fortalecendo gradualmente. O governo islâmico já foi estabelecido no Sudão. Ali, começaram gradualmente a implementar as leis da Sharia. A juventude está pronta para dar a vida pelo Islã. — Autor
Maulana Maududi é o convocador de uma missão internacional. Seu programa se estende da reforma e correção do indivíduo ao Estado, e do Estado à reforma, libertação e bem-estar de toda a humanidade. Por isso, sua eloquente mensagem é internacional e universal.
Em comparação com todos os sistemas vigentes na sociedade humana do mundo moderno, Maulana Maududi apresentou o Islã como um sistema integral de vida. Ele também demonstrou que o Islã é superior a qualquer outro sistema. Seu pensamento exerce considerável influência até mesmo em muitos países não muçulmanos do mundo. Por isso, suas obras começaram a ser traduzidas nesses países. Pessoas ponderadas também iniciaram pesquisas aprofundadas sobre o assunto.
Em segundo lugar, ele traçou um quadro completo da constituição islâmica para construir o sistema estatal sobre os princípios do Islã. Sua valiosa obra ‘Ismamic Law and Constitution’ recebeu altos elogios de círculos instruídos dentro e fora do país. No Paquistão, ele liderou durante oito anos um movimento popular em favor de uma constituição islâmica completa e lançou luz sobre numerosas questões complexas e minuciosas. Deu respostas satisfatórias a muitas acusações e a suspeitas, temores e receios infundados. Como resultado, na consciência popular, quando se fala em constituição islâmica, entende-se um sistema fundamentado no Alcorão e na Sunna. Também ouvimos o eco do movimento pela constituição islâmica em outros países muçulmanos, onde estão sendo feitos esforços para estabelecê-la. Entre os sábios muçulmanos do mundo atual considerados especialistas em leis e normas islâmicas, Maulana Sayyid Abul A’la Maududi ocupa a posição mais elevada de todas.
Hoje, sua personalidade é internacional. Ele é, em particular, um dos maiores pensadores do mundo islâmico. O breve relato de sua viagem ao Oriente Médio apresentado acima deixa claro que ele carrega a luz da esperança do mundo islâmico e que seu pensamento moderno constitui um grande patrimônio para o mundo muçulmano.
Maulana Maududi e o Tasawwuf
Em nosso país, ainda há algumas pessoas que criticam e se opõem a Maulana Maududi, afirmando que ele é contrário ao Tasawwuf.
Entre elas, algumas, alimentando um ódio injustificado contra o Maulana, querem feri-lo com a arma dessa crítica, enquanto outras dizem essas coisas por pura ignorância.
Maulana Maududi dedicou toda a sua vida à luta pelo estabelecimento da religião. Não há fim para as perseguições e opressões que teve de suportar nesse caminho. Apesar disso, jamais se submeteu, nem por um instante, diante da falsidade. Entre aqueles que se opõem ao Maulana, chamando-o de contrário ao Tasawwuf, nunca se viu uma atitude combativa na luta pelo estabelecimento da religião. Pelo contrário, exibindo pompa de relações entre pires e murides, eles se uniram às próprias forças da falsidade. Muitos deles, por um lado, apresentam-se como mestres iniciadores no ‘Tasawwuf, Ma’rifat’ ou no ‘Ilm-e-Batin’, e, por outro, atuam como apoiadores e membros de partidos políticos cujos esforços e atividades são todos empregados contra o Islã. Não consideram isso censurável porque, segundo eles, política e Islã são duas coisas distintas. Isso demonstra que sua visão fundamental sobre o Islã é equivocada. Um muçulmano deve seguir sempre, em todos os aspectos de sua vida, somente as instruções de Allah. Para ele, é inconcebível pensar que, dentro das quatro paredes da mesquita, obedecerá às instruções de um Deus, enquanto, na política, no comércio e nos negócios, e nas artes, obedecerá às instruções de outro deus.
O grande mestre Hazrat Abdul Qadir Jilani (r.a.) disse: O tasawwuf deriva da palavra musafat *******************. Isso significa libertar a mente e o intelecto de todas as doutrinas, ideologias e pensamentos contrários ao Islã; purificar-se do amor e afeição, do medo e temor, da servidão e obediência a tudo, exceto Allah. Também faz parte do objetivo do tasawwuf proteger-se da adoração dos desejos, da inveja e do rancor, da cobiça e ambição mundanas, da difamação e da maledicência, do orgulho e da vaidade, entre outras coisas. Os grandes críticos deveriam refletir sobre até que ponto conseguiram manter-se acima de tudo isso.
Maulana Maududi fez a seguinte declaração clara sobre o tasawwuf: tasawwuf não é o nome de uma única coisa. Pelo contrário, várias coisas ou assuntos receberam esse nome. O tasawwuf que aceitamos é uma coisa, o tasawwuf que não aceitamos é outra, e o tasawwuf que desejamos reformar e corrigir é ainda uma terceira coisa.
Um tipo de tasawwuf é aquele que existia entre os sufis do período inicial do Islã, como Fudail ibn Iyad, Ibrahim ibn Adham, Maruf Karkhi (r.a.) e outros. Ele não possuía uma filosofia distinta nem um método de ação próprio. Seus pensamentos e ações tinham como fonte o Alcorão e a Sunnah, e seu propósito e objetivo eram os mesmos do Islã: sinceridade e devoção exclusiva a Allah.
******************************************
E só lhes foi ordenado que adorassem Allah e permanecessem devotados à religião, afastando-se de todas as demais direções. — (Al-Bayyinah, 5)
Reconhecemos a autenticidade desse tasawwuf. Mais do que isso, desejamos reavivá-lo e divulgá-lo.
O segundo tipo de tasawwuf é aquele no qual se misturaram o espiritualismo grego, a doutrina de Platão sem qualquer traço de desejo carnal, e as filosofias zoroastrista e vedanta. Nele foram incluídos os métodos dos sacerdotes cristãos e dos ascetas hindus. Ideias e práticas politeístas infiltraram-se nele. A sharia, a tariqah e a ma’rifah tornaram-se distintas umas das outras. Em vez de preparar o ser humano para cumprir sua responsabilidade como califa de Allah na Terra, ele é preparado para uma tarefa completamente diferente. Desejamos refutar esse tasawwuf. Em nossa opinião, erradicar esse tasawwuf é tão necessário para estabelecer a religião de Allah quanto erradicar a jahiliyyah moderna.
Além desses dois tipos de tasawwuf, existe ainda um terceiro tipo, no qual, como se pode comprovar, estão mescladas as características do primeiro e do segundo. Vários anciãos da religião, que eram eruditos e tinham boas intenções, registraram os métodos desse tasawwuf. Contudo, não estavam livres das características de sua própria época nem da influência dos tempos passados. Fizeram todo o possível para compreender o tasawwuf correto do Islã e purificar seu método de prática da impureza do tasawwuf jahilí. Apesar disso, sua visão continha alguma influência da filosofia do tasawwuf jahilí, e seus métodos de ação continham alguma influência de métodos externos. A respeito dessas coisas, eles acreditavam que não eram contrárias aos ensinamentos do Alcorão e da Sunnah; ou, no mínimo, que não poderiam ser consideradas contrárias mediante interpretação e análise. Além disso, o propósito e o resultado desse tasawwuf diferem, em maior ou menor medida, do propósito e do resultado desejado pelo Islã. Seu objetivo não é preparar claramente cada pessoa para cumprir sua responsabilidade moral, e o Alcorão ****************
Isto é: para que sejais testemunhas perante a humanidade — Al-Baqara, 143). Também não é seu objetivo ensinar aquilo que foi indicado por essas palavras. Tampouco esse tasawwuf poderia produzir resultados capazes de formar pessoas que compreendessem plenamente o dīn, ficassem inquietas com o pensamento de estabelecer o dīn e se tornassem aptas para essa tarefa. Não aceitamos inteiramente esse terceiro tipo de tasawwuf, mas também não queremos rejeitá-lo por completo. Pelo contrário, nosso apelo aos seus seguidores e apoiadores é que, preservando intacta a fé e a reverência pelas grandes personalidades, examinem criticamente esse tasawwuf à luz do Alcorão e da Sunnah e tentem corrigi-lo. Além disso, se alguém criticar algum aspecto desse tasawwuf por considerá-lo contrário ao Alcorão e à Sunnah, quer sua opinião seja aceita ou não, que ao menos não se negue seu direito de criticar nem se censure injustamente essa pessoa.
O Maulana era contrário ao tasawwuf?
Sobre isso, falou o célebre escritor e jornalista Abed Nizami. Ele disse:
Isso aconteceu há cinquenta anos. Naquela época, o Maulana Sayyid Abul A‘la Mawdudi apresentava, todos os domingos, das nove da manhã em diante, uma aula do Alcorão em uma mesquita atrás do Lahore Hotel, na Fateh Muhammad Road. Muitas pessoas se reuniam ali. Eu tinha então quinze ou dezesseis anos. Meu ambiente familiar era inteiramente influenciado pelo tasawwuf. Eu ouvia dizer que o Maulana Mawdudi era contrário ao tasawwuf e aos sufis. Não seria de esperar que eu sentisse qualquer atração ou simpatia por uma pessoa assim.
Certo dia, por alguma razão, compareci à sua aula. Levei de casa, escrita em um pedaço de papel, a seguinte pergunta: por favor, diga-me, por que o senhor se opõe ao tasawwuf?
O pedaço de papel passou pelas mãos de várias pessoas até chegar às mãos do Maulana. O Maulana respondeu: na verdade, é uma enorme calúnia contra mim dizer que sou contrário ao tasawwuf. Repeti muitas vezes, em meus diversos artigos, que o significado de tasawwuf para mim é a purificação da alma, e que ele é o espírito ou a força vital do dīn. No Alcorão Sagrado, isso é chamado de ‘tazkiyah’ e ‘hikmah’. Nos hadiths, recebeu o nome de ‘ihsan’. Ora, como um muçulmano poderia opor-se a algo comprovado pelo Alcorão e pelos hadiths? Naturalmente, não apoio de modo algum aquele tasawwuf que não tem qualquer relação com a Shariah islâmica. Os sufis do Islã também se opuseram a esse tipo de tasawwuf. Na realidade, tasawwuf é o nome de seguir o ‘uswah hasanah’ do Mensageiro com intenção pura e amor pleno.
Com essa resposta clara do Maulana, percebi que sua explicação simples e direta do tasawwuf exerceu uma enorme influência sobre minha mente.
A partir de então, passei a frequentar sua aula. Também comparecia às reuniões realizadas depois da oração de Asr no pátio junto à sua casa, no 5/A, Jilardar Park. Certo dia, disse ao Maulana: Maulana, sonhei que o senhor me entregava o livro ‘Zabt-e Wiladat’ (controle de natalidade) e me mandava lê-lo.
Maulana perguntou: — Leu este livro?
Respondi: — Sim, li.
Maulana disse: — Então, depois do casamento, continue a pôr em prática os seus ensinamentos.
Em 1967, fui transferido para Rawalpindi. Certa noite, levei um bebê doente, de seis ou sete meses, ao dispensário Hamdard, situado na Murree Road. Antes mesmo de atravessar a rua para chegar ao dispensário, vi Maulana saindo da Chandni Chowk, depois de realizar a oração do Magrib. Aproximei-me e o cumprimentei. Ele perguntou: — O que aconteceu? O que faz aqui? Respondi: — Maulana, fui transferido para cá. O bebê está gravemente doente, por isso vim buscar remédio.
Maulana acariciou o bebê. Depois, com muito carinho, recitou algumas palavras e soprou sobre ele.
Brincando um pouco, eu disse: — Maulana, o senhor também pratica curas por meio de encantamentos e sopros?
Maulana respondeu: — Sim, é claro que pratico. Senhores sufis como o senhor é que, sem motivo, ficam me divulgando como “Wahhabi”.
De qualquer modo, voltei diretamente para casa. Minha esposa perguntou: — Onde está o remédio? Contei-lhe todo o ocorrido. Agora, insha’Allah, ele se recuperará sem remédio — e foi exatamente isso que aconteceu.
Desde então, minha relação com Maulana foi se tornando cada vez mais profunda.
Um episódio dos anos setenta. No Parque Zaildar, 5/A, realizava-se uma reunião vespertina. Maulana respondia à pergunta de um homem. Nesse momento, um jovem apareceu segurando uma faca afiada, colocou-a sobre a mesa diante de Maulana e começou a pedir-lhe perdão com a voz embargada pelo choro. Soube-se que o jovem tinha ouvido, em Lyallpur (atual Faisalabad), um discurso terrivelmente instigador contra Maulana proferido por um مولوی e viera para matá-lo. Ao ver o rosto radiante de Maulana e ouvir sua conversa cativante, ficou tão atraído que começou, ao contrário, a insultar justamente aquele مولوی.
Todos os presentes ficaram atônitos, profundamente espantados. Maulana perdoou-o de bom grado. O jovem deixou a reunião arrependido e com o coração transformado.
Certa vez, alguém perguntou: “Maulana, quando, no Dia da Ressurreição, o senhor estiver diante do Senhor, que feito meritório apresentará ali?”
Maulana respondeu com a voz trêmula: “Feito meritório? Não, não; naquele dia, ficarei aguardando, cheio de esperança na Sua misericórdia especial. Se, por Sua infinita misericórdia, Ele aceitar alguma de minhas ações, isso será uma graça especial Sua.”
Certo dia, nessa reunião vespertina, um jovem disse, muito exaltado: “Maulana! Algumas pessoas espalham contra o senhor calúnias tão terríveis que arrepiam o corpo. Alguns مولوی chegam a caluniar também os membros de sua família do púlpito e do mihrab da mesquita. Por que o senhor não move uma ação por difamação contra essas pessoas no tribunal?”
Maulana respondeu: “Fique tranquilo: já apresentei contra eles uma ação em um tribunal tão elevado que eles jamais poderão escapar. O dia não está muito distante: chegará o dia em que suas orações e jejuns serão atribuídos à minha conta.”
Reforma e correção espiritual
Maulana Maududi fez o seguinte comentário sobre a reforma espiritual em Tarjuman al-Qur’an:
‘…. Entendam bem isto: de modo algum se deve dar preferência à reforma externa em detrimento da reforma e correção espiritual. Antes de tudo, tentem transformar-se em verdadeiros muçulmanos à luz do padrão de referência do Alcorão. Depois, continuem realizando mudanças externas somente na medida em que ocorrerem mudanças internas. Caso contrário, se, tendo diante de si apenas regras e métodos, derem forma ao aspecto exterior tal como a imagem externa de uma pessoa muttaqi é apresentada nos livros de hadith e fiqh, mas a verdadeira taqwa não tiver sido criada, então seu exemplo será como o de uma moeda de cobre sobre a qual foi estampada a marca de uma moeda de ouro. Estampar a marca de uma moeda de ouro não é difícil. Pode-se realizar esse trabalho com toda facilidade, como se quiser, sobre qualquer metal barato. Mas fornecer uma moeda genuína é uma tarefa difícil. Essa qualidade só pode ser adquirida após muitos anos de trabalho alquímico. Infelizmente, em nosso país, há algum tempo vem sendo dada uma importância extraordinária ao aspecto exterior. O resultado é que moedas de cobre, ferro, chumbo e de todos os tipos de metais inferiores, ostentando a marca de moedas de ouro, entraram em circulação. O mercado do mundo prático é tão ativo em seus negócios que a fraude dessas moedas falsas não durará por muito tempo. Durante algum tempo, moedas de ouro falsas circularam, mas agora não valem sequer um centavo no mercado. Portanto, o tipo de religiosidade que devemos criar entre nós exige que, em vez de tentar estampar a marca de uma moeda de ouro, tentemos tornar-nos moedas de ouro genuínas.’
Em vez de lutar, no mundo exterior, contra os rebeldes contra Deus, subjugue o rebelde que reside dentro de você e insiste continuamente em fazê-lo agir contra a lei de Deus e a Sua vontade. Se esse rebelde, alimentado dentro de você, exercer tanta influência sobre você que consiga fazê-lo aceitar suas exigências contra a satisfação de Allah, então declarar guerra contra o inimigo externo se tornará sem sentido. O exemplo é exatamente este: há uma garrafa de vinho dentro de casa, enquanto a guerra é travada contra os bêbados do lado de fora. Essa discrepância é extremamente perigosa para o nosso movimento. Primeiro, incline você mesmo a cabeça diante de Deus. Depois, exija obediência dos outros.’
A relação com Allah
Entre os conselhos que Maulana Maududi ofereceu aos seus companheiros, ele deu o seguinte conselho sobre estabelecer uma relação com Allah:
De acordo com a descrição do Kalam Pak sobre o significado de estabelecer uma relação com Allah, vê-se que a vida, a morte, a adoração, a devoção, o sacrifício e tudo mais na vida humana estarão limitados exclusivamente a Allah.
******************************************
“Com plena concentração, dedicarás o teu sistema de vida, ou din, exclusivamente a Allah, o Altíssimo, e obedecerás somente a Ele.” – (Al-An’am, 162)
******************************************
O venerável Mensageiro (S.A.W.) explicou este assunto detalhadamente em várias ocasiões, de tal modo que nada sobre seu significado, importância e demais aspectos permaneceu obscuro.
Ao explicar este assunto detalhadamente em várias ocasiões, o Nobre Profeta (S.A.W.) não deixou nada sobre seu significado, importância e demais aspectos obscuro.
Ao analisar os ditos do Nobre Profeta (S.A.W.), vê-se que o significado de estabelecer uma relação com Allah ************************************* é temer Allah em todas as ações, em segredo ou abertamente — (Al-Hadith). Além disso, significa confiar mais no grandioso poder de Allah do que nos próprios recursos e meios.
******************************************
e incorrer no desagrado das pessoas para agradar a Allah
******************************************
(Al-Hadith)
O estado completamente oposto é conquistar a desaprovação de Allah Ta’ala para obter a satisfação das pessoas.
Mais tarde, quando esse vínculo e relacionamento aumentar gradualmente e chegar a tal ponto que a amizade, a inimizade, as transações e tudo o mais com qualquer pessoa sejam realizados unicamente por Allah, sem que haja sequer a mínima influência dos próprios desejos, inclinações, interesses ou aversões, então será preciso compreender que o relacionamento com Allah se tornou completo.
******************************************
Aquele que ama somente por Allah, demonstra inimizade somente por Allah, dá algo a alguém somente por Allah e deixa de dar algo a alguém somente por Allah completou a sua fé. (Abu Dawud)
Como determinar o relacionamento com Allah Ta’ala
Maulana Maududi também explicou claramente, em seus conselhos, como se pode medir o relacionamento com Allah. Ele disse:
Como poderemos saber se o nosso vínculo e relacionamento com Allah Ta’ala está aumentando ou diminuindo? Como solução para isso, quero dizer-lhes que, para perceber isso, não é necessário receber uma “boa-nova” em sonho, nem possuir kashf-karamat. Não há necessidade de permanecer deitado em um aposento escuro esperando a “iluminação”. Allah Ta’ala colocou no coração de cada crente os meios necessários para medir esse vínculo e relacionamento. Enquanto estiver desperto, durante o dia, você pode medi-lo e examiná-lo quando quiser. Reflita sobre a sua vida, seus esforços e todas as suas ideias, opiniões e tendências. Depois de ajustar as suas contas, compare-as com o pacto que você firmou com Allah e veja quanto dele cumpriu. No que diz respeito aos depósitos confiados por Allah Ta’ala, você tem direitos apenas como um depositário. Portanto, deve necessariamente avaliar se não cometeu algum tipo de traição em relação a eles. Quanto do seu tempo, esforço, capacidade, aptidão, riqueza e assim por diante está sendo empregado de acordo com os mandamentos de Allah Ta’ala? E quanto foi empregado em outros caminhos? Quando os seus interesses ou sentimentos são atingidos, quão aborrecido e irado você fica? Observe essa situação: quando uma rebelião é declarada contra Allah Ta’ala, como e em que medida se manifestam também a sua ira, a sua dor e a sua ansiedade e inquietação? Além disso, você pode fazer muitas outras perguntas ao seu próprio coração e à sua consciência. Com base nas respostas reunidas para essas perguntas, poderá compreender diariamente se possui ou não relacionamento e comunicação com Allah Ta’ala. Se possui, em que medida? Está aumentando ou diminuindo gradualmente? Abstenha-se de tentar recorrer a meios sobrenaturais como basharat, kashf-karamat, anwar ou tajalliyat. Na realidade, permanecer neste mundo material, em meio à sua diversidade enganosa, e compreender a verdadeira essência do tawhid é o maior kashf que existe; não há outro maior. Diante das tentações e ameaças que Satanás e seus asseclas oferecem, não há karamat maior do que permanecer firmemente no caminho da verdade simples. Ver a luz da verdade em meio às densas trevas do kufr, do fisq e do desvio, e ver algum “nur” para segui-la, não é algo tão significativo. Para os crentes fiéis, o melhor meio de alcançar a maior boa-nova é aceitar Allah Ta’ala como o próprio Senhor e Sustentador, permanecer firmemente apegado a essa crença e cumprir os Seus mandamentos.
******************************************
Certamente, sobre aqueles que dizem: “Deus é o nosso Senhor”, e depois permanecem firmes nessa declaração, descem os anjos, dizendo: “Não temais nem vos aflijais, e recebei as boas-novas do Paraíso que vos foi prometido.” (Ha-Mim as-Sajdah, 30)
Se o que foi dito acima não é o verdadeiro tasawwuf, então o que mais pode ser chamado de tasawwuf? Maulana Maududi não se limitou a dar todos esses conselhos aos seus companheiros. Ele refletiu em sua própria vida cada uma das suas inestimáveis palavras de orientação.
As inestimáveis palavras de orientação de Maulana Maududi sobre a reforma e o aperfeiçoamento espiritual estão registradas na obra intitulada “Hidayat”.
A mensagem de Maulana Maududi
Minha mensagem aos muçulmanos é que eles devem compreender e cumprir a responsabilidade que lhes foi imposta por serem muçulmanos. Vocês não estarão isentos simplesmente por dizerem: “Somos muçulmanos; aceitamos Deus e a Sua religião.” Pelo contrário, quando aceitaram Deus como o seu Deus e a Sua religião como a sua religião, algumas responsabilidades também passaram a recair sobre vocês; é necessário que tenham consciência delas e reflitam sobre como cumpri-las. Se não as cumprirem, não escaparão das suas terríveis consequências nem neste mundo nem no Além. Quais são essas responsabilidades? Elas não consistem apenas em crer em Deus, nos Seus anjos, nos Seus Livros, nos Seus profetas e no Além. Também não consistem apenas em realizar as orações, jejuar, peregrinar e pagar o zakat. Tampouco consistem apenas em seguir as normas prescritas pelo Islã em questões como casamento, divórcio e herança. Além de tudo isso, há sobre vocês uma responsabilidade enorme e extremamente importante. É a de se apresentarem diante do mundo inteiro como testemunhas da verdade na qual vocês creem. O único propósito para o qual, segundo o Alcorão Sagrado, foi criada uma comunidade permanente chamada muçulmana é que vocês transmitam plenamente aos seres humanos o testemunho da verdade.
******************************************
“E assim fizemos de vós uma comunidade do meio, para que sejais testemunhas da religião de Deus perante as pessoas e para que o Mensageiro seja testemunha da religião de Deus perante vós.” (Al-Baqara, 143)
Esse é o verdadeiro propósito de permanecerem como uma comunidade. Se não o cumprirem, a própria vida se tornará um fracasso. Esse é o dever obrigatório que Deus determinou para vocês. Pois o Seu mandamento-
******************************************
Ó crentes, mantende-vos firmes por Deus e sede testemunhas da verdade.” (An-Nissá 135)
Esta não é apenas uma ordem geral de Allah, o Altíssimo; ao contrário, foi dada com forte ênfase.
******************************************
“E quem pode ser mais injusto do que aquele que possui um testemunho da parte de Allah e o oculta?” (Al-Bácara 140)
Em seguida, Allah, o Altíssimo, também vos informou quais poderiam ser as consequências de não cumprir este dever. Antes de vós, os judeus foram colocados no banco dos réus como testemunhas. Porém, ocultaram parte da verdade e testemunharam contra outra parte dela. Em suma, permaneceram como testemunhas da falsidade em vez da verdade. O resultado foi que Allah os humilhou e amaldiçoou.
******************************************
“Foram esmagados pela humilhação e pela pobreza, e tornaram-se vítimas da ira ardente de Allah.” (Al-Bácara 61)
A responsabilidade de prestar testemunho que vos foi confiada significa que deveis testemunhar diante do mundo sobre a verdade que chegou até vós e foi revelada, e sobre a veracidade do caminho indicado para o bem-estar e a salvação da humanidade. Deveis dar um testemunho tal que a sua civilização se manifeste claramente e a autenticidade do Din fique plenamente comprovada diante das pessoas do mundo. Esse testemunho só pode ser de dois tipos: um fundamental e outro prático. O método do testemunho fundamental é que, por meio de discursos e da escrita, tornaremos manifesta a verdade que nos chegou através dos profetas (que a paz esteja com eles). Adotaremos todos os métodos possíveis para fazer as pessoas compreenderem essa verdade e firmá-la em seus corações. Utilizaremos todos os meios possíveis nas atividades de tabligh, da’wah e divulgação. Com a ajuda de todos os meios e recursos que o conhecimento e a ciência reuniram, tornaremos resplandecente diante do mundo o ensinamento do Din determinado por Allah. Analisaremos minuciosamente tudo o que este Din apresentou para orientar a humanidade nos diversos campos: nas ideias e crenças, na moralidade, na civilização e na organização social, na obtenção dos meios de subsistência e nas transações, nas leis e no sistema judicial, na política e na administração do Estado, bem como nas relações internacionais. Com argumentos, debates e provas, demonstraremos a sua veracidade e, por meio de uma crítica racional de tudo o que se lhe opõe, explicaremos quanto mal há nisso. Esse testemunho verbal jamais poderá ser bem-sucedido enquanto toda a Ummah, coletivamente, não se preocupar em guiar a humanidade da mesma forma que os profetas se preocupavam individualmente. Para torná-lo bem-sucedido, é necessário fazer desta tarefa o tema central de todos os nossos esforços, empreendimentos e lutas nacionais. Devemos dedicar a esta tarefa toda a força de nossas mentes e de nossos intelectos, bem como todos os meios e recursos de que dispomos. Todas as nossas atividades deverão ser orientadas para esse objetivo, e não toleraremos de modo algum que se manifeste entre nós qualquer coisa que preste testemunho contra a verdade.
Resta agora o testemunho prático. Isso significa que devemos aplicar na vida real todos os ideais que reconhecemos como verdadeiros. O mundo não ouvirá apenas, de nossas bocas, grandes discursos sobre a veracidade desses ideais; pelo contrário, deverá contemplar com os próprios olhos a sua beleza e as suas bênçãos em nossa vida prática. Deverá experimentar, em nossa conduta e comportamento, a doçura que a fé produz no caráter humano. Deverá ver por si mesmo que tipo de pessoas virtuosas pode ser formado sob a orientação do Din, quão pura e limpa pode nascer uma civilização, quão harmoniosamente podem florescer o conhecimento, a ciência e as artes literárias, quão justa, compassiva e consensual pode tornar-se a cooperação econômica, e como cada aspecto da vida individual e coletiva pode ser corrigido, organizado e tornado benéfico. Esse testemunho só poderá ser bem-sucedido quando nos tornarmos, individualmente e em nível nacional, testemunhos vivos da veracidade do nosso Din. O caráter de cada um de nós dará prova desse testemunho; nossos lares estarão repletos de sua fragrância; nossas lojas, fábricas e oficinas serão iluminadas por sua luz. Nossas instituições e nossos estabelecimentos de ensino resplandecerão com o seu brilho. A literatura e o jornalismo portarão o certificado da sua beleza. Nossa política nacional e todos os nossos esforços e empreendimentos serão exemplos luminosos da sua veracidade. Em suma, onde quer que estejamos e onde quer que entremos em contato com qualquer indivíduo ou povo, nosso caráter individual e nacional deverá demonstrar claramente que os ideais que proclamamos como verdadeiros são de fato verdadeiros e que, por meio deles, a vida humana se torna verdadeiramente bela em todos os seus aspectos, excelente e elevada ao mais alto grau. Além disso, quero dizer que esse testemunho só pode alcançar a sua plenitude quando um Estado for estabelecido com base nesses ideais. Então esse Estado, aplicando o Din em sua totalidade, adotará um programa de reforma baseado na justiça. Por meio de sua administração correta, da paz e da segurança, do bem-estar e do progresso do povo, da pureza do caráter dos governantes, de uma nobre política interna, de uma política externa justa, de guerras nobres e de tratados confiáveis, provará diante do mundo que o Din que deu origem a esse Estado é verdadeiramente um símbolo do bem-estar humano e que o bem da humanidade reside na sua observância. Quando esse testemunho se unir ao testemunho fundamental, a responsabilidade confiada à nação muçulmana estará completa; então a prova contra a humanidade terá sido concluída, e toda a nação muçulmana alcançará tamanha capacidade que, no tribunal do Além, poderá permanecer de pé depois do Profeta Nobre (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) e testemunhar: a mensagem que o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) nos transmitiu, nós também a transmitimos aos outros. Se, depois disso, eles não seguirem o caminho reto, a responsabilidade será deles.
Portanto, a minha mensagem é exatamente aquela que Allah, por meio da boca de Seu Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele), transmitiu:
******************************************
«Vinde, aceitemos algo que é comum entre nós e vós: que não adoremos nem obedeçamos a ninguém além de Allah, que não Lhe associemos coisa alguma e que nenhum de nós tome outro como senhor em vez de Allah. (Al Imran, 64)
Todos somos servos de um só Deus, seguidores do mesmo Mensageiro, crentes no mesmo Livro, e a mesma qibla é o nosso centro e o fundamento do nosso retorno. Concordemos nisto: não serviremos a ninguém neste mundo além de Allah, não aceitaremos nenhuma lei além da Sua lei e não permitiremos que neste mundo vigore qualquer ordem que não seja a Sua.
As ideias de Maulana Maududi sobre o sistema educacional
Em nossa história, tendo em vista as exigências do tempo, Sir Syed Ahmad surgiu com um plano educacional. Mais tarde, manifestaram-se tanto os bons quanto os maus resultados de quaisquer objetivos temporários que esse plano possuía. Contudo, após a divisão da Índia, em 1947, o Paquistão surgiu como um Estado independente. Consequentemente, todas as necessidades desse plano para uma nação e um Estado independentes chegaram ao fim. Ele já não é de modo algum adequado para uma nação independente.
Pouco antes da conquista da independência do subcontinente, ouviu-se, pela primeira vez, um vigoroso apelo a uma revolução educacional completa sob a perspectiva do Islã. Era a voz de Maulana Sayyid Abul A’la Maududi. Não se tratava apenas de uma voz; juntamente com ela, por meio de seus diversos artigos e discursos, Maulana Maududi deixou para nós um vasto material sobre um plano educacional abrangente, um programa prático para implementá-lo, listas de disciplinas e outros assuntos semelhantes.
Maulana escreveu tanto sobre um verdadeiro sistema educacional islâmico que não há espaço aqui para discutir tudo isso. Apresentaremos, porém, resumidamente, sua perspectiva central. Ele disse:
“Tornou-se indispensável abolir ambos os sistemas educacionais opostos que ainda vigoram entre nós. Isto é, é preciso eliminar tanto a antiga educação religiosa sob o domínio dos ingleses quanto o sistema educacional moderno. Em lugar desses dois sistemas educacionais, é necessário um novo sistema que, por um lado, esteja livre de todas as deficiências e erros do passado e, por outro, seja capaz de atender a todas as necessidades que, neste momento, são indispensáveis para nós como nação muçulmana, nação independente e nação voltada para o desenvolvimento.”
Ao fazer esse apelo por uma revolução educacional, Maulana descreveu claramente, em vários de seus artigos, a estrutura e os princípios fundamentais do sistema educacional islâmico desejado. Antes, porém, de lançar luz sobre a política educacional islâmica, Maulana apresentou concepções corretas e claras acerca do ser humano, da filosofia de vida humana, da natureza do universo e de outros temas; é sobre essas concepções claras e corretas que pode ser lançada a pedra fundamental do sistema educacional islâmico. Em seguida, ao expor a filosofia da educação, explicou a verdadeira definição do conhecimento e sua verdadeira fonte.
Ao descrever o objetivo da educação, ele atribuiu a máxima importância à formação do caráter. Disse que o objetivo da educação é a purificação da alma. Se o caráter humano não for nobre, não será possível estabelecer o equilíbrio correto na sociedade. Como o ser humano é o representante de Deus, a melhor maneira de ocupar esse importante posto é desenvolver, em seu caráter e em sua conduta, as qualidades das quais seu próprio Senhor e Criador, Allah, o Senhor dos mundos, é o verdadeiro possuidor. Seu caráter deve necessariamente conter qualidades como afeto e ternura, bondade e generosidade, retidão e princípios de justiça, equidade e outras semelhantes.
Em seu livro “Ta’limat” (O sistema educacional: uma perspectiva islâmica), Maulana diz: “Em nosso sistema educacional, devemos dar mais importância à formação moral do que à formação mental.
Ele também considerou o desenvolvimento de capacidades e talentos latentes um dos objetivos da educação. Disse ainda que o objetivo primordial da educação é alcançar o verdadeiro conhecimento de Deus. Depois disso, suas capacidades e talentos devem desenvolver-se de tal modo que ele possa ser considerado um recurso benéfico para a sociedade.
Maulana diz que, por meio da educação, manifesta-se uma determinada civilização e cultura. O objetivo da educação não é apenas manter a cultura viva, mas também transmiti-la às gerações futuras.
Ele diz: o objetivo do nosso sistema educacional deve ser promover o desenvolvimento com base na ideologia e nos objetivos sob cuja orientação a vida é conduzida. É precisamente com esse propósito que as nações vivas estabelecem seu próprio sistema educacional para o futuro.
Formação para a liderança
O Maulana diz que o objetivo da educação é formar pessoas capazes de adquirir, na era moderna, a competência necessária para liderar corretamente o mundo de acordo com os princípios fundamentais do dīn da verdade. Em outras palavras, um objetivo importante da educação é formar cidadãos excelentes, para que sejam capazes de exercer a liderança no mundo. A nação cujo objetivo é liderar o mundo estrutura seu sistema educacional de modo a alcançar esse objetivo.
Vários círculos começaram a pesquisar a política educacional de Maulana Maududi. O professor Muhammad Husain, da instituição “Educação e Pesquisa” da Universidade do Punjab, escreveu um longo artigo intitulado “As ideias de Maulana sobre a educação”, que foi publicado em forma de livro pela Agência de Pesquisa e Publicação de Lahore. Esse esclarecedor artigo foi muito elogiado por especialistas em educação e por ilustres defensores da educação.
O Maulana sobre o sistema educacional do Paquistão
Mesmo alguns anos depois de o Paquistão ter surgido como um Estado independente baseado em ideais, seu sistema educacional permaneceu exatamente como era durante a era de escravidão sob o domínio inglês. Não houve esforço algum para criar um sistema educacional baseado nos ideais do Paquistão em substituição ao sistema elaborado pelos governantes estrangeiros e alheios à nação. Embora toda a nação tivesse sentido profundamente que, entre todas as medidas necessárias para concretizar suas esperanças e aspirações, a maior importância deveria ser dada ao seu próprio sistema educacional nacional. Mas os governantes continuaram agarrados às lembranças deixadas pelo antigo senhor que havia partido. A estrutura do sistema educacional permaneceu exatamente como era; ao tentar reformá-la minimamente, acabaram por torná-la ainda mais decadente e completamente contrária ao ideal nacional.
Na conferência anual da All-Pakistan Islami Jamiat-e-Talaba, realizada em Lahore em 25 de dezembro de 1952, Maulana Maududi proferiu um discurso extremamente importante e esclarecedor sobre o sistema educacional. Ele apresentou uma discussão fundamentada sobre as deficiências do sistema educacional vigente, seu caráter terrível e suas consequências venenosas, e expôs brevemente a estrutura de um sistema educacional adequado ao Paquistão. Esse seu discurso histórico foi publicado em forma de folheto. A seguir, citarei alguns trechos dele—
O sistema educacional sem Deus
Nas matérias ensinadas segundo o sistema educacional moderno, não há nenhum sinal do Islã. E tampouco poderia haver. Na medida em que essas matérias se desenvolveram na Europa, pessoas rebeldes contra Deus têm exercido sua liderança nelas. Os que então eram nominalmente religiosos haviam sido privados, muitos anos antes, de qualquer espaço no campo do pensamento e da devoção. Foi por isso que pessoas desse tipo assumiram a liderança em todos os campos, como a filosofia, a história e a sociologia. Mesmo não sendo ateus, não sentiam, em sua vida prática, nenhuma necessidade de reconhecer a submissão a Deus. As ciências e os livros que os ingleses importaram e introduziram neste país continuam sendo ensinados em nosso país até hoje. Naturalmente, os cérebros daqueles que estudam segundo esse sistema educacional moderno afastaram-se gradualmente, sem que percebessem, da religião do Islã, da perspectiva islâmica e de seus costumes. Sua vontade, seu interesse ou seus esforços não tiveram absolutamente nenhuma participação nisso. Portanto, se em tudo o que uma pessoa estudou desde o primeiro dia de sua vida escolar até o último momento, em todo o conhecimento que adquiriu no mundo, não houver em parte alguma uma perspectiva religiosa ou divina, como poderá nascer em seu coração a fé em Deus? Se em nenhum lugar de seus livros didáticos houver sequer qualquer menção a Deus, ela estudará história, mas nela o próprio ser humano será apresentado como aquele que determina o destino da vida humana, e não qualquer outro; na filosofia que estudará, não haverá necessidade alguma do Criador do universo para desvendar o mistério da natureza da fé; estudará ciência, mas em lugar algum do mundo haverá menção à existência de um Criador habilíssimo e do supremo dirigente e administrador. Por mais que estude disciplinas como direito, ciência política e economia, em lugar algum haverá menção à questão de saber se o Criador da humanidade lhes prescreveu algum método para viver. Pelo contrário, o princípio básico de todas as ciências é que o próprio ser humano tem o direito de determinar seu modo de vida, e que ninguém mais possui semelhante direito ou autoridade.
Não é necessário dizer a uma pessoa educada dessa maneira: “Negue Deus”. Que impedimento haverá para que, sem se dar conta, ela se torne completamente despreocupada e indiferente em relação a Deus?
Educação sem princípios
Esse sistema educacional moderno não tem nenhuma relação com a religião e o Islã; pior ainda, a ironia do destino é que ele tampouco desperta nos nossos jovens sequer um senso básico de princípios. No entanto, todos sabem que, para uma nação desprovida de princípios e sem caráter, não apenas é impossível progredir, como é absolutamente impossível até mesmo sobreviver neste mundo como nação. É por isso que, entre aqueles que ingressaram na vida profissional depois de receber uma educação moderna, encontram-se todos os defeitos e maus hábitos das nações ocidentais. Mas neles não se vê sequer o menor vestígio das virtudes dos povos ocidentais. Entre os chamados instruídos modernos não há senso de responsabilidade, perseverança, coragem, autocontrole, firmeza de caráter, lealdade ou fidelidade a qualquer outro além de si mesmos. São como parasitas, trepadeiras sem suporte. Ao observar seu comportamento, não parece que possuam qualquer coisa que se possa chamar de caráter ou identidade nacional. Mesmo depois de ocuparem cargos de grande honra, não hesitam em cometer, com toda a facilidade, as formas mais abjetas de traição e crimes. Entre eles, não se encontram apenas um ou dois subornados, nepotistas, solicitadores de favores injustos, comerciantes do mercado negro, contrabandistas, sufocadores da justiça e dos princípios de equidade, usurpadores dos direitos legítimos do povo, destruidores do destino de toda a nação em troca de pequenos interesses pessoais e negligentes no trabalho; encontram-se milhares deles, circulando livremente por toda a sociedade. Depois da partida dos ingleses, a responsabilidade pela administração do Estado foi confiada a essas pessoas. Como resultado, todos sentem a calamidade que se abateu sobre o país em apenas alguns anos, sob o domínio desses indivíduos sem caráter. Para observar diretamente o caráter e o comportamento dos jovens que atualmente adquirem conhecimento segundo esse chamado sistema educacional moderno, basta ir, em qualquer ocasião, a residências estudantis, centros de entretenimento ou mercados e feiras durante eventos nacionais.
Acrescentar estudos religiosos ao sistema educacional anterior
Parece que aqueles que hoje controlam nosso destino, em cujas mãos se encontra nosso sistema educacional e que de vez em quando anunciam a boa notícia da introdução de um sistema educacional islâmico, também estão prestes a repetir o erro. O sistema educacional introduzido durante o domínio inglês continuará funcionando como antes, e bastará apenas aumentar um pouco a proporção de estudos religiosos. Na realidade, o plano educacional que têm diante de si não contém muito mais do que isso. É por essa razão que continuo dizendo hoje o que disse alguns anos atrás. Pois, a meu ver, não há erro mais grave do que elaborar um sistema educacional mediante a combinação de duas coisas contraditórias e opostas. Trata-se, além disso, de duas correntes em conflito, uma das quais considera a outra completamente falsa. O uso de uma mistura desse tipo não pode produzir nada além de desordem mental.
Suponha que tenha reservado cinquenta por cento dessa mistura para as ciências religiosas [na verdade, nas instituições educacionais atuais, falar em cinquenta por cento de estudos religiosos é um exagero: em alguns lugares eles chegam a zero e, onde existem, aparecem apenas em pequenas doses. Além disso, há a coeducação, a livre mistura entre estudantes homens e mulheres, e dança, música e livros de entretenimento]. E que tenha deixado a outra metade assentada sobre as bases do sistema educacional introduzido durante o domínio inglês. Consequentemente, o ambiente mental de cada estudante será inevitavelmente transformado em um campo de batalha.
Se todo o ambiente continuar, como antes, impregnado de costumes estrangeiros, tal como era durante o domínio inglês, e se nosso Estado também for administrado segundo a política anterior, como ocorreu durante o domínio inglês, então, como consequência natural, surgirão em nosso país três classes de pessoas.
Uma categoria de pessoas — aquelas que, mesmo depois de estudarem a religião, serão consideradas rebeldes contra Deus. Isso porque, entre as matérias de seu currículo, também estão incluídos muitos conteúdos contrários à religião. Além disso, todo o ambiente das instituições de ensino continuará a apoiar essa rebeldia contra Deus. Ademais, o ambiente estatal também lhes será favorável.
A segunda categoria de pessoas — aquelas que, sob a influência do estudo da religião, considerarão o Islã como seu sistema de vida.
A terceira categoria de pessoas — aquelas que seguirão, entre a incredulidade e o Islã, um caminho que não será inteiramente incredulidade nem inteiramente Islã.
Este é o resultado natural de se oferecer a mistura mencionada acima. Se vocês a colocarem em prática, verão que no país se formaram três classes mutuamente antagônicas, incapazes de cooperar umas com as outras com dedicação na tarefa de desenvolver e fazer progredir qualquer civilização ou sistema de vida.
A questão é: será que o sistema educacional de algum país é elaborado com o objetivo de criar nele um depósito de lixo mental e moral?
Determinação do objetivo da educação
Segundo muitos, adquirir conhecimento secular é o objetivo da educação. Eles dizem que o povo deve ser educado de maneira completamente neutra, para que possa determinar livremente suas próprias opiniões por meio do “estudo objetivo” (Objective Study) dos problemas da vida individual e social, das transações e de todos os mistérios. Mas, neste caso, quero dizer que esse tipo de estudo objetivo só é possível para uma câmera; o ser humano não é capaz disso. Atrás dos dois olhos do ser humano há um cérebro. Em todas as circunstâncias, ele possui uma perspectiva própria. Também possui uma concepção específica para examinar e analisar os problemas. Tudo o que o ser humano vê e ouve, e todo conhecimento que adquire, ele assimila de acordo com sua própria perspectiva. É com base nessa maneira de pensar que seu sistema de vida se estabelece. É a isso que chamamos cultura. Ora, se temos uma cultura própria, se somos um povo que possui sua própria ideologia, crenças, visão de vida, objetivos e modo de conduzir sua vida prática, então somos obrigados a seguir um caminho e a organizar a educação e a formação de nossos futuros descendentes de tal maneira que eles sejam capazes de preservar nossa civilização e cultura. E não apenas isso: que sejam capazes de desenvolvê-la e aperfeiçoá-la, mantendo-a estabelecida sobre seus fundamentos originais. Cada nação do mundo elabora para si um sistema educacional independente com esse objetivo. Não conheço o nome de uma única nação que tenha elaborado seu sistema educacional apenas com base no “estudo objetivo” (Objective Study). Tampouco conheço o nome de uma nação que tenha adotado integralmente o sistema educacional de outro povo ou que tenha começado a formar seus futuros descendentes segundo ideais estrangeiros, sem acrescentar a ele sua própria maneira de pensar. Se, por fraqueza e desamparo, já cometemos uma vez essa tolice, não faz absolutamente sentido continuar mantendo-a como antes.
Eliminação da distinção entre a religião e o mundo
Devemos adotar ainda um princípio como fundamento do nosso sistema educacional: a base sobre a qual deve ser elaborado um único sistema de educação para toda a nossa millat é que eliminaremos a atual distinção entre a religião e o mundo. Pois a ideia de criar uma distinção entre a religião e o mundo é defendida apenas pela doutrina cristã; são os budistas, os hindus e os iogues ascetas que também a sustentam. Mas, quanto a isso, a concepção do Islã é completamente oposta. No campo da educação, do Estado e da civilização, não pode haver erro mais grave do que reconhecer uma distinção entre religião e política, ou, em outras palavras, entre a religião e o mundo. De modo algum admitimos que tenhamos dois sistemas educacionais separados, um religioso e outro material. Pelo contrário, reconheceremos que todo o nosso sistema educacional será considerado religioso e, ao mesmo tempo, será capaz de atender às nossas necessidades mundanas.
Mundano no sentido de que poderemos conhecer o mundo e conduzir seus assuntos com eficiência. Religioso, por outro lado, no sentido de que compreenderemos o mundo segundo a perspectiva islâmica e poderemos cumprir todos os deveres relativos a ele de acordo com as instruções da religião. O Islã não é uma religião que lhe permita realizar todas as atividades segundo sua própria vontade, bastando acrescentar a isso alguns artigos de fé ou crenças e atos de adoração como um apêndice. O Islã jamais pode se contentar em desempenhar o papel de um apêndice da vida humana; nunca se contentou com isso e ainda não o aceita. Ele quer liderar toda a sua vida. Está pronto para desempenhar um papel ativo como programa de toda a vida. Ele não fala apenas do mundo superior, desligado do mundo terreno. Pelo contrário, trata de maneira plena e abrangente de todos os assuntos mundanos. O Islã lhe diz qual é o verdadeiro mistério deste mundo, com que propósito você foi enviado para cá e qual é o objetivo da sua vida, qual é o seu verdadeiro lugar neste universo, qual é a sua dignidade e como e segundo quais princípios você deve agir na vida terrena, neste mundo. Ele também diz que este mundo é, na realidade, como um campo de cultivo para a vida futura. Tudo o que você obterá na outra vida depende inteiramente do tipo de semente que plantou neste campo. Ele também lhe explica claramente como este campo deve ser cultivado. Diz-lhe com toda clareza qual deve ser a sua conduta durante toda a vida terrena, cujo fruto você poderá colher na vida futura. Como pode uma religião assim admitir que vocês tenham um sistema educacional mundano e outro religioso? Ou que bastaria acrescentar um apêndice religioso a um sistema educacional mundano? O que ela quer é que todo o seu sistema educacional seja elaborado exclusivamente segundo o ideal da ‘religião’.
Os valiosos conselhos do Maulana sobre a defesa nacional
Os sábios conselhos que o Maulana, como perspicaz estadista, ofereceu sobre a defesa nacional do Paquistão são extremamente valiosos não apenas para o Paquistão, mas para qualquer país ou Estado muçulmano. O Maulana disse:
“Vocês sabem que todo o Paquistão é uma fronteira; isto é, as fronteiras de Estados estrangeiros chegam a encontrar-se com as fronteiras do Paquistão. Não há uma única grande cidade que não esteja situada na fronteira. Por isso, é necessário que cada cidadão compreenda sua responsabilidade e permaneça sempre preparado para enfrentar qualquer perigo. Nessas circunstâncias, o que é extremamente importante é o moral da nação (Morale). Em outras palavras, se a nação não tiver moral, até os meios de guerra se tornam inúteis. Por mais numerosas que sejam as armas, elas não podem compensar a falta de força moral ou de moral. Pelo contrário, na ausência de força moral, essas armas podem cair nas mãos do inimigo. Não consideramos a força moral limitada ao entusiasmo, à coragem e à motivação para defender a pátria. Ao contrário, essa força moral deve ser adquirida ao longo de toda a vida. Pois, para receber a ajuda de Alá, é preciso submeter toda a vida à Sua vontade. É absurdo que uma pessoa ou uma nação, por um lado, permaneça envolvida na desobediência a Alá e, por outro, peça a Sua ajuda. Uma nação que de modo algum reconhece Deus pode continuar existindo por algum tempo mesmo desobedecendo-Lhe, pois, para ela, há uma linha especial de prorrogação concedida por Alá, o Altíssimo. Mas, se uma nação conhecida como pregadora da adoração de Deus, portadora e transmissora do Grande Livro revelado por Alá e representante da religião da verdade, adotar uma atitude de escárnio para com as instruções de Deus, nenhuma força do mundo poderá livrá-la do castigo de Deus. Tal atitude, em vez da misericórdia de Deus, invoca maldição e castigo.”
Para manter intacto o moral, discursos motivacionais, grandes palavras e declarações tornam-se inúteis. Embora essas palavras possam criar um moral temporário, ele não permanece. Em vez de palavras, devemos fortalecer nosso moral por meio de ações concretas.
“Devemos instruir toda a população para que, durante um ataque inimigo, cada pessoa permaneça firme onde quer que esteja. Não se deve tentar fugir de modo algum. É preciso fazê-los compreender que não poderão escapar da morte. Quando chegar a hora determinada da morte, ninguém poderá proteger-se dela, mesmo estando dentro de uma fortaleza sólida. Mesmo durante um bombardeio no campo de batalha, se a hora da morte ainda não tiver sido determinada, a morte de modo algum virá. E a própria crença dos muçulmanos é que não é absolutamente possível escapar da morte. Portanto, em uma situação desse tipo, fugir para salvar a própria vida e tentar salvar os filhos são atitudes indesejáveis sob todos os aspectos. Deve-se dizer às pessoas: onde existe para nós um lugar tão seguro para o qual possamos fugir e sobreviver? O fato é que, para onde quer que esses covardes vão, eles também quebrarão o moral das pessoas daquele povoado. O inimigo, por sua vez, dispõe de lugares suficientes para se proteger. Pode recuar por uma grande distância. Mas nós não temos sequer um pequeno espaço onde possamos fugir e permanecer em segurança. Portanto, devemos permanecer firmes e inabaláveis onde quer que estejamos, preparados para qualquer situação.”
“Outro ponto especialmente digno de atenção no que diz respeito à defesa nacional é que a opressão, a injustiça e a usurpação dos direitos alheios dentro do país devem ser definitivamente eliminadas. Embora tais práticas não devam ser toleradas em nenhuma circunstância na sociedade, se forem adotadas especialmente durante a guerra, abrirão uma brecha na nossa fortaleza de defesa e ajudarão o inimigo a penetrar no interior do país.”
“É uma verdade do senso comum que, se no coração de alguém despertar o impulso de defender a pátria, isso só poderá acontecer se ele sentir que vive em um país onde todos os seus direitos e sua honra estão protegidos e onde é possível concretizar suas esperanças e aspirações. Mas, se a amarga experiência de sua vida for que, neste país, nem sua honra é protegida nem seus direitos individuais, então não pode haver razão alguma para que surja nele qualquer impulso de defender a segurança deste país. Onde o povo é privado da justiça, onde a injustiça econômica obriga as pessoas a passar fome, onde a honra e a dignidade dos indefesos são saqueadas pelos poderosos, não pode surgir no povo, por ocasião de um ataque estrangeiro, o impulso de defender a pátria. Isso porque não estão protegidas coisas que lhes sejam mais queridas que a própria vida e cuja proteção considerem mais necessária. A história repetiu muitas vezes o fato de que, em tais circunstâncias, o povo permaneceu indiferente durante os ataques de inimigos externos e, muitas vezes, os povos oprimidos acolheram favoravelmente a agressão estrangeira, com o propósito de verem com os próprios olhos a destruição daqueles que lhes haviam usurpado todos os seus direitos. Devemos aprender com esses exemplos da história. Depois disso, devemos preservar os direitos uns dos outros. Que a justiça plena seja estabelecida em nosso país. A opressão e a injustiça enfraquecem o sistema de segurança do país. Aquele que, por interesse pessoal, fere o autorrespeito do povo, na realidade facilita o caminho para a chegada do inimigo.”
“Consideramos que esta terra não é nossa, mas sim a ‘casa’ do Islã. Depois de vários séculos, surgiu para nós esta oportunidade de manifestar o Dīn al-Haqq em sua forma verdadeira e testemunhar sua veracidade perante o mundo. Isso é uma grande dádiva para nós, e estamos preparados para preservá-la a qualquer custo. Queremos despertar no coração de cada muçulmano a disposição de respeitar essa dádiva. Queremos incutir profundamente na mente de cada um a ideia de que, para preservar essa dádiva, ele não recuará diante de qualquer sacrifício. Lembrem-se: entregar a vida pela causa de Deus e de Sua religião é muitas vezes superior a sacrificar a vida para proteger a própria casa, os bens e a honra. Não há dúvida de que entregar a vida com essa inspiração — a shahāda — é uma entrega da vida de altíssimo nível.”
Sistema econômico
Igualdade de direitos nos esforços econômicos
Do ponto de vista islâmico, Allah, o Altíssimo, criou a terra e tudo o que nela existe para os seres humanos. Portanto, é direito inato do ser humano esforçar-se para obter seu sustento desta terra. Todas as pessoas são igualmente titulares desse direito. Ninguém pode ser privado dele, nem pode alguém ter, nesse assunto, precedência sobre outro. Segundo a Sharia islâmica, não se pode impor a qualquer pessoa, linhagem ou classe a proibição de utilizar alguns dos meios de subsistência, nem fechar-lhe o caminho para adotar determinada profissão. Da mesma forma, segundo a Sharia, não se pode estabelecer uma diferenciação que faça com que os meios de subsistência ou as portas da riqueza se tornem monopólio de determinada classe, linhagem ou família. Na terra criada por Deus, todos têm direitos iguais ao esforço para reivindicar seus direitos sobre os meios e recursos criados por Ele, e esse caminho está igualmente aberto a todos.
(Princípios fundamentais da economia islâmica)
Os problemas econômicos e o Islã
O Islã considera censurável acumular riqueza além das necessidades. Sua exigência é que toda riqueza que você possui seja gasta para satisfazer suas necessidades ou doada a outra pessoa, para que ela possa gastá-la em suas próprias necessidades. Desse modo, toda a riqueza se espalhará e continuará circulando pela sociedade. Porém, se isso não for feito e houver insistência em acumular a riqueza, deverá ser retirado dela o equivalente a dois por cento e meio, para ser dado àqueles que não são capazes de obter seu sustento ou que, apesar de se esforçarem para obtê-lo, não conseguem satisfazer suas necessidades. Este é o ‘sistema de zakat’. A orientação que o Islã dá para a administração do zakat é que ele deve ser depositado no tesouro público (Public Exchequer), de onde serão satisfeitas as necessidades de todos os necessitados. Este é, na realidade, o melhor método de segurança financeira (Social Insurance) para a sociedade e erradica os males que resultam da inexistência de uma administração adequada para distribuir a assistência social.
As normas detalhadas sobre tudo isso foram estabelecidas no Alcorão e nos hadiths. O Maulana apresentou uma discussão racional e cativante sobre tudo isso em sua obra “A realidade do zakat”.
O Maulana diz:
“A Bayt al-Mal está sempre presente como sua auxiliadora; portanto, você não tem motivo para se preocupar. Se estiver necessitado, recorra à Bayt al-Mal e reivindique o seu direito. Depois disso, não haverá necessidade de cheque bancário nem de apólice de seguro. Deixe este mundo em paz, sem preocupações, deixando para trás seus filhos e familiares. O tesouro da sociedade será responsável pelo sustento deles após a sua morte. Na velhice e em todos os tipos de adversidades e calamidades, a Bayt al-Mal será sua auxiliadora em todos os momentos, e você poderá pedir-lhe ajuda. O capitalista não poderá obrigá-lo a trabalhar sob suas próprias condições. Enquanto a Bayt al-Mal existir, não haverá razão para temer viver desamparado, faminto e sem roupas. [Problemas econômicos e sua solução (em urdu), pp. 40, 43]”
Após realizar uma análise detalhada da economia, o Maulana escreveu duas valiosas obras, intituladas “Juros” e “O Islã e as doutrinas econômicas modernas”. Essas duas obras são referências valiosas sobre economia.
Na obra “Juros”, após uma discussão detalhada sobre a economia baseada em juros e a economia islâmica sem juros, ele demonstrou que a economia islâmica é o único sistema econômico benéfico para a humanidade.
Na segunda obra, por meio de uma análise comparativa do capitalismo, do comunismo e do Islã, demonstrou a vacuidade dos dois primeiros sistemas. Expôs as falhas e deficiências do sistema feudal latifundiário, do Renascimento europeu, do liberalismo medieval, da Revolução Industrial e do liberalismo moderno. Em seguida, também apresentou a solução islâmica para os problemas econômicos modernos.
Maulana Maududi aos olhos de outros
Há comentários de muitos sábios e pensadores sobre o Maulana Sayyid Abul A‘la Maududi, assim como há impressões de pessoas próximas a ele, que oferecem muitos ensinamentos e exemplos a serem seguidos. Alguns deles são apresentados a seguir:
Begum Maududi
O senhor Maududi é uma pessoa comum. Mas, considerando a grandeza do caráter corânico e profético que Deus Todo-Poderoso lhe concedeu, pode-se dizer sem hesitação que cada uma de suas ações está em conformidade com o Alcorão.
“Eu estava perdido. O senhor Maududi surgiu diante de mim como um guia do Caminho Reto. Ele era silencioso, mas suas ações, a cada momento, inspiravam-me a seguir o caminho da verdade. Se ele tivesse aberto a boca, me impedido em cada uma de minhas ações e me dado instruções sobre cada assunto, então, longe de me corrigir, talvez nem tivesse sido possível para mim viver com ele. Mas ele jamais fez isso. Esse era o método científico que ele adotava para propagar o Islã, aprendido no Sagrado Alcorão.
“Ele era perspicaz, paciente e afetuoso. Não me lembro se, durante os últimos quinze ou vinte anos, alguma vez me deu uma ordem severa a respeito de ordenar o bem e proibir o mal. A doçura de seu caráter consistia nisto: bastava permanecer algum tempo em sua companhia para conquistar sua aprovação.”
“O senhor Maududi dava mais atenção à correção espiritual do que à correção exterior. Certa vez, voltou de algum lugar e se deitou, exausto. Nesse momento, um visitante quis vê-lo. Eu disse que ele havia adormecido. Ao ouvir isso, o senhor Maududi limitou-se a dizer: ‘Você acabou de contar uma mentira?’”
“Certa vez, estávamos todos sentados juntos para comer. Eu dizia ao meu filho mais velho: ‘Rapaz, faça a oração; caso contrário, as pessoas dirão que o filho do senhor Maududi não faz a oração’.”
“Ele disse: ‘Veja, rapaz, quando fizer a oração, faça-a unicamente por Deus, e não por seu pai’.”
“Ele era tão afetuoso com os filhos que nunca vi ninguém assim. Sempre que chegava em casa, chamava cada um pelo nome. Em Darul Islam, tínhamos uma tanga. Ele mesmo levava a mim e aos meninos para passear antes do anoitecer. Nunca os mandava a lugar algum com outra pessoa, temendo que algum deles caísse repentinamente da tanga. Certa vez, por alguma razão, mandou os meninos a Pathankot com o cocheiro. Depois, foi passear à beira do rio. Ao voltar da margem do rio antes do magrib, descobriu que os meninos ainda não haviam retornado. Então, sem entrar em casa, ficou sentado do lado de fora por horas a fio. Só entrou com eles depois que os meninos voltaram.”
«Aos dezessete anos, o senhor Maududi ficou órfão de pai. Pela graça de Allah, sua mãe ainda está viva.» [Após a declaração acima da Begum Maududi, a mãe do Maulana Maududi faleceu em 1957.]
«Ele servia sua mãe de tal maneira que um filho assim é realmente raro. Quando algo que sua mãe fazia não lhe agradava, permanecia em silêncio. Nunca demonstrava qualquer irritação. Mesmo quando ela dizia algo desagradável sobre ele, não deixava de olhar para o rosto de sua mãe. A cada momento, estava pronto para servi-la.
«Meus antepassados vieram de Bucara para Délhi durante o reinado do imperador Shah Jahan. Desde então, por vivermos em Délhi de geração em geração, acostumamo-nos à vida urbana. Depois que o Maulana Maududi veio de Haiderabade para Darul Islam, começou um novo capítulo da minha vida.»
«O assentamento de Darul Islam começou com apenas três famílias, incluindo a nossa. Casas rurais simples. Ali não havia luz elétrica, nem torneira de água, nem os demais meios e facilidades da vida cotidiana. Esse foi o estágio inicial da paciência em minha vida.»
«Certa vez, não havia lenha em nossa casa. O Maulana tomou o café da manhã e foi para o escritório. Então fiquei sentada, pensando no que fazer. Nesse momento, o Maulana entrou nos aposentos internos e disse: ‘O que houve? Por que está sentada aí tão calada?’
Respondi: ‘Não há lenha, e a cozinheira está sentada sem poder fazer nada.’ Ele disse: ‘Já ficou impaciente por tão pouco?’ Dizendo isso, saiu de casa com um machado na mão. Havia alguns pedaços de madeira do lado de fora da casa. Ele começou a rachá-los com as próprias mãos. Assim que deu uma ou duas machadadas, pessoas vieram correndo de todos os lados e, em pouco tempo, formou-se uma pilha de lenha.»
«Certo dia, por alguma razão, o carregador de água não trouxe água. Naquele dia, além disso, fazia um calor terrível. Eu fiquei sentada, com as mãos sobre a cabeça. Ao saber disso, o Maulana foi até o poço com dois baldes e começou a tirar água com as próprias mãos para enchê-los. Ao verem isso, as pessoas imediatamente encheram as casas de água.» [A Begum Maududi, Mahmuda Khatun, faleceu em 4 de abril de 2003.]
Mahirul Qadiri
O famoso poeta e escritor do Paquistão e da Índia, e editor da revista mensal «Faran», o senhor Mahirul Qadini, afirma:
«Tenho grande respeito pelo Maulana. Creio que o serviço que ele presta à religião por meio de seus escritos e discursos raramente encontra paralelo na época atual. Mesmo nos países árabes não há quem se compare a ele.»
Ao comentar sobre o Maulana, ele disse:
«Ele é o maior pensador do mundo islâmico. Foi ele quem deu início à verdadeira pesquisa islâmica entre os muçulmanos e provocou uma mudança na maneira de pensar das pessoas; é um intérprete do Alcorão e da Sunnah, um defensor da verdade, a personificação da veracidade, aquele que deu forma às imagens obscuras da herança islâmica, um servo dedicado da religião de Deus, alguém em cujas palavras e ações se pode depositar plena confiança, cuja juventude inteira foi dedicada ao serviço da religião e que, por meio de seu pensamento, pesquisa, trabalho e devoção, envelheceu antes do tempo; um eminente sábio cujas palavras e escritos vêm convocando à verdade há um quarto de século; um erudito tão grandioso que pode, ao mesmo tempo, discutir de forma investigativa o Alcorão e os hadiths, a jurisprudência islâmica, o ‘ilm al-kalam, a filosofia, a história, a economia, o sistema de governo, a política e vários outros assuntos; um soberano da lógica e um oceano de conhecimento, familiar não apenas com as correntes de pensamento do Oriente, mas também com as do Ocidente, que examinou e avaliou; um convocador à criação de uma relação com Deus e à obediência ao Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele), cujo movimento não pôde ser silenciado pelas quatro paredes da prisão de Multan nem pela escura câmara de execução do Forte de Lahore, e cuja voz não pôde ser sufocada pela emissão de fatwas de descrença; aquele que examina e avalia cada palavra e ação na pedra de toque do Alcorão e da Sunnah e que, sem medo, torna público tudo o que essa pedra de toque revela, ainda que se trate de um grande erudito ou sábio; aquele cuja missão é estabelecer a religião, cujo programa é convocar à verdade e cujo objetivo é a satisfação de Deus; aquele que, para propagar a verdade, não se intimida nem se atemoriza diante da ira do mundo inteiro e não teme perder sua reputação; aquele que suportou tudo com paciência, embora ignorantes e tolos lhe dirigissem várias acusações; aquele cuja pena enriqueceu e purificou a literatura urdu, tornando-se uma contribuição inestimável para a língua urdu; o inovador de um modo extraordinário de expressão nos discursos, de tal forma que, ao falar, parece que rajadas de tempestade e relâmpagos irrompem de um céu carregado; aquele cujo nome faz o qadიანismo tremer e começa a sufocar os que não creem nos hadiths; o defensor da Sunnah e o extirpador do politeísmo e das inovações religiosas; aquele que, apesar de seu vasto conhecimento, prestígio e extraordinária fama, consegue conviver com as pessoas comuns sem formalidade, com simplicidade e palavras doces e agradáveis, como se não houvesse diferença alguma entre ele e os demais; aquele que não é apenas um sábio, pensador, orador e autor, mas também um verdadeiro mujāhid, que não demonstra qualquer reação sequer ao ouvir uma sentença de morte; aquele que não foi criado pela história, mas que cria a história.»
Bashirul Ibrahimī
O líder popular da Argélia e presidente da Associação dos Ulemás Muçulmanos daquele país, o erudito Muhammad al-Bashirul Ibrahimī, afirma:
«Raramente encontrei alguém como ele (Sayyid Abul A‘la Maududi). Em particular, encontrei pouquíssimas pessoas dotadas de uma personalidade e de qualidades como as dele, alguém que ocupa uma posição de destaque entre os eruditos. Entre suas qualidades, uma das mais notáveis é que ele permanece firme e inabalável na verdade, é paciente no caminho da verdade e, longe de bajular a classe governante, opõe-se até mesmo a obter o auxílio dela.»
«Entre as pessoas que vi no Paquistão e na Índia e sobre as quais pude obter informações, ele é quem possui maior conhecimento dos dados relativos à Sharia islâmica e à história islâmica. Seus estudos são extremamente amplos e profundos. Ele possui uma percepção sutil, uma inteligência superior, um pensamento claro e um conhecimento profundo.
“Maulana Maududi adquiriu um conhecimento considerável sobre a ciência moderna e a civilização. Ele julga todos pela pedra de toque da justiça.”
“No mês passado, surgiu uma grande agitação no Paquistão, e também ocorreram alguns assassinatos e atos de violência. Como os jornais dos países árabes não divulgaram nenhuma informação detalhada sobre o assunto, não consegui compreender suas causas e seu profundo mistério. Contudo, minha convicção clara é que a exigência de um sistema islâmico de governo foi a causa fundamental de tudo isso. É possível que, ao perceber a influência cada vez maior de Maulana Maududi e de seus companheiros no país, o governo tenha encarcerado a maioria deles. Em seguida, foi decretada a lei marcial em Lahore, e toda a autoridade foi confiada às forças militares. O tribunal militar condenou o Maulana à morte. Mais tarde, soube que a pena de morte havia sido anulada e que fora determinada uma pena de quatorze anos de prisão com trabalhos forçados. Os muçulmanos do Paquistão ficaram revoltados com essa decisão tirânica, e uma violenta onda de protestos e manifestações surgiu contra o governo. Não há dúvida de que a pena de morte foi comutada justamente em consequência dos protestos em todo o país.”
Por outro lado, também surgiram protestos por parte das instituições e associações islâmicas bem organizadas do Egito, da Síria, do Iraque, do Kuwait e de outros lugares, que expressaram intenso descontentamento com o governo do Paquistão. Quando eu estava no Kuwait, pude verificar a veracidade dessas notícias. Por estar ligado a essas instituições e com base no respeito mútuo entre elas e a Jamiat ulama, também fiquei revoltado e profundamente entristecido. Isso porque a personalidade de Maulana Maududi não está limitada a uma região específica. Pelo contrário, sua personalidade é digna de ser seguida por todo o mundo muçulmano. Entre os direitos que ele tem sobre nós está o seguinte: quando o governo lhe impôs uma pena de prisão com trabalhos forçados em vez da pena de morte, é nosso dever empreender um movimento por sua libertação…”
“Pelo jihad que Maulana Maududi iniciou no caminho de Allah, já é recompensa suficiente neste mundo o fato de que os muçulmanos do mundo inteiro se uniram para lhe prestar ajuda e apoio. Uma recompensa ainda maior e eterna está reservada para ele junto de Allah.”
Dr. Muhammad Ataur Rahman Nadwi
‘Isto é exatamente o estilo de Ibn Taymiyya.’
Há quinze anos, ouvi essas poucas palavras dos lábios de uma pessoa santa. A cena, tal como a presenciei na maneira comovente em que aquelas palavras foram pronunciadas, permanece viva diante dos meus olhos, preservada em todos os seus detalhes. Parece-me que ainda consigo ver aquele rosto, e aquelas palavras comoventes ainda hoje ressoam em meus ouvidos.
Considero melhor contar tudo abertamente.
De 1930 a 1934, eu estudava na Madrasa Alia de Calcutá. Em 1935, ingressei na Darul Ulum Nadwatul Ulama, em Lucknow. Nessa época, tive a oportunidade de conhecer a “Tarjumanul Qur’an”. Meu estado de espírito tornou-se tal que ler a “Tarjumanul Qur’an” passou a ser uma necessidade natural para mim.
Durante as férias de verão, quando fui para casa (Mauza-Paharpur Bazar, correios de Bara Haria, Saran), levei comigo a “Tarjumanul Qur’an”. Depois, com grande entusiasmo, mencionei o conteúdo da referida revista ao meu respeitado pai. Ele demonstrou interesse em vê-la.
Meu pai, o senhor Maulana Mufti Muhammad Jamil Ansari (que Deus tenha misericórdia dele), era um estudioso da religião, sincero e fiel. Passou toda a sua vida lecionando. Não era apenas professor, mas também mufti. De 1917 a 1941, foi professor da Madrasa Alia de Calcutá e mufti de seu Darul Ifta.
Entreguei ao serviço de meu pai todos os exemplares da “Tarjumanul Qur’an” que eu possuía. Ao vê-los, seu primeiro comentário foi: “Meu rapaz, tudo isto está no Alcorão e na Sunna. Agora é preciso apenas colocá-lo em prática. As pessoas de educação inglesa comum escrevem sobre esses assuntos em seus jornais e revistas, mas elas próprias não os seguem.”
Quando voltei para casa nas férias de 1936, levei ao meu pai o número recém-publicado da “Tarjumanul Qur’an”. Ele o leu com muita atenção e exclamou, com a voz cheia de entusiasmo: “Eu tinha uma concepção completamente equivocada. Esse homem, Maududi, não é apenas instruído em inglês, mas também um grande erudito da língua árabe. Diga-me, qual é a idade dele?”
Eu disse: “Ele deve ter, muito provavelmente, trinta ou trinta e dois anos.”
Surpreso, ele disse: “Tanta erudição e capacidade em uma idade tão jovem? É de ficar admirado ao ler a revista dele.”
“Contei tudo ao senhor Maulana Maududi. Naquela época, ele estava em Pathankot. Em resposta, o Maulana enviou as obras “Siyasi Kashmakash”, “Diniyat” e outras. Meu venerável pai, já falecido, leu essas obras repetidas vezes e disse: “Eu tinha uma concepção equivocada a respeito desse homem. Que Deus me perdoe. Ele se parece extraordinariamente com o erudito Allama Ibn Taymiyya. É surpreendente que, numa época em que pessoas verdadeiramente talentosas são raras — especialmente nesta Índia —, tenha surgido uma pessoa assim. Quando ele começar a pôr em prática seu ideal, terá início uma oposição extrema contra ele. Pois é assim que se trata, neste mundo, as pessoas sinceras e defensoras da verdade. Pode até acontecer que ele seja martirizado.””
A partir de então, o “Targuman-ul-Qur’an” passou a chegar regularmente ao mercado de Paharpur, no endereço da biblioteca Ansari. Quando meu pai voltava de Calcutá para casa durante as férias, lia-o atentamente em seu tempo livre. Finalmente, quando Maulana Maududi começou a indicar, em um artigo editorial do “Targuman-ul-Qur’an”, a necessidade de formar um grupo idealista, meu venerável pai disse:
“Se esse grupo for formado, serei seu primeiro membro.”
Mas é profundamente lamentável que meu pai tenha falecido — que Allah tenha misericórdia dele — apenas dez dias antes da fundação do referido grupo (Jamaat-e-Islami), em 16 de agosto de 1941.
Nessa época, o Allama Syed Sulaiman Nadvi proclamou, em uma grande assembleia pública, a grandiosa personalidade de Maulana Maududi.
No final de dezembro de 1940, realizou-se a “Conferência Nadvi” dos ex-alunos do Darul Uloom. Eu havia recebido meu certificado do Darul Uloom de Nadwa em 1939. Por isso, também fui a Lucknow para participar da “Conferência Nadvi”. O que me havia inspirado especialmente a participar dessa conferência era o fato de que, exatamente naquela época, Maulana Maududi também deveria ir a Lucknow. Assim como eu, os demais ex-alunos de Nadwa também estavam especialmente interessados em conversar com o Maulana. Após a conferência, Maulana Maududi foi à hospedaria de Nadwa. Todos os professores e ex-alunos começaram a conversar com ele. A administração de Nadwa pediu a Maulana Maududi que discursasse diante das personalidades ilustres e dos alunos. A associação de Lucknow havia sido formada pela Universidade de Lucknow e pelas instituições estudantis de Nadwa. Maulana Maududi proferiu, com seu estilo característico, um discurso sobre o “novo sistema educacional”. Maulana Abdul Majid Daryabadi presidiu a sessão, e o Allama Syed Sulaiman Nadvi apresentou o Maulana. As palavras e a maneira como o senhor Syed o apresentou ainda ressoam em meus ouvidos. Ele disse:
“Estou diante de vocês para apresentar um jovem que, contudo, é um oceano de conhecimento. Hoje, todo o mundo acadêmico conheceu Maulana Maududi. Ele é, na época atual, um porta-voz do Islam e um grande erudito do Din. Allah Todo-Poderoso confiou a estas mãos puras a responsabilidade de erguer uma resistência contra a poderosa inundação de irreligião e ateísmo que, vinda da Europa, alcançou a Índia. Ele adquiriu amplo conhecimento sobre as correntes de pensamento antigas e modernas da Europa. Além disso, possui um conhecimento tão profundo do Qur’an e da Sunnah que, com base nele, pode apresentar soluções satisfatórias para todos os problemas da época atual. É por isso que grandes ateus e rebeldes contra Allah se renderam diante de seus argumentos irrefutáveis. Pode-se afirmar claramente e sem hesitação que os muçulmanos da Índia e do mundo islâmico podem esperar muito de Maulana Maududi no que diz respeito ao Din.”
Agha Suresh Kashmiri
Maulana Maududi é a única pessoa que mostrou à inteligência mental do Paquistão a estrada principal do conhecimento.
Na época em que nossa visão islâmica havia sido abandonada sob as correntes da subjugação de duzentos anos, foi ele quem apresentou o Islã como uma filosofia de vida abrangente.
Seu movimento é uma força capaz de resistir à perspectiva europeia moderna.
Sua linha de pensamento contém tamanha vitalidade do Islã que a nova geração da juventude de hoje pode se dispor a aceitá-la de corpo e alma.
O sistema de governo em constante mudança do país pode, por força da lei, suprimir por algum tempo a revolução física e material do país. Mas não possui força nem armas capazes de suprimir uma revolução mental. Nossa sociedade, consciente ou inconscientemente, ou por algumas razões específicas, erigiu uma revolução mental contra o Islã. Se alguém é capaz de impedir seu avanço, essa capacidade pertence unicamente a Maulana Maududi e ao seu partido baseado em ideais.
Maulana Abdul Majid Daryabadi
É desnecessário apresentar aos leitores o editor de Tarjumanul Qur’an. Sua ampla visão e os grandes serviços religiosos que prestou foram discutidos repetidamente nas páginas de Tarjumanul Qur’an. Para resistir à agitação e à desordem da época atual, Allah Ta’ala abriu e ampliou especialmente seu peito. Cada linha que escreve é como néctar para os instruídos modernos. Nesse aspecto, Maulana ocupa uma posição elevadíssima entre os ulama. Na verdade, ele é um homem ponderado da millat.
Maulana Manazir Ahsan Gilani
Sempre tive confiança na natureza equilibrada, na capacidade de pensar corretamente e na profunda perspicácia de Maulana Sayyid Abul A’la Maududi Sahib. Sua conduta e seu comportamento são concedidos por Deus. Seu olhar sobre os problemas é sutil, profundo e abrangente. Sua análise é tão minuciosa que não deixa margem para dúvidas sobre qualquer assunto. Seu método de trabalho é cativante, e suas explicações e análises tocam o coração. Além disso, tenho testemunhado repetidamente sua nobre natureza. Eu mesmo pedi a Maulana, na companhia de Maulana Abdul Bari, que aceitasse um cargo de professor na Universidade de Osmania. Mas, embora sua situação financeira fosse extremamente deplorável, ele rejeitou serenamente nosso pedido. Diante de uma alma tão grandiosa e rica, tão reflexiva e pensante, e de alguém que, como articulista, possui qualidades e características concedidas por Deus, não havia audácia de minha parte para dizer muito mais. Contudo, quero dizer apenas isto: Allah Ta’ala derramou uma graça extraordinária sobre Maulana Maududi. Vejo seu coração iluminado pela luz da fé. Seu coração foi enriquecido com profunda reverência e confiança no Profeta Muhammad Mustafa (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Além disso, ele foi adornado com diversas outras qualidades. Se, com toda essa força literária, mental e de fé, ele se levantar, fazendo do convite ao caminho de Allah o objetivo de sua vida, e se esse trabalho for realizado por algum tempo em urdu, inglês, hindi e outras línguas, talvez as pessoas não o aceitem imediatamente; mas, pelo menos, as centelhas das perguntas que o Islã responde naturalmente se acenderão em suas mentes.
Maulana Abul Hasan Ali Nadwi
Seu método de escrita, seus argumentos irrefutáveis, seu método de discussão fundamental e basilar e, acima de tudo, seu pensamento equilibrado eram extremamente adequados à nossa natureza e mentalidade. Tinha-se a impressão de que seu talento de escritor, concedido por Deus, era o porta-voz de nosso gênio e gosto silenciosos. Nunca esqueceremos o dia em que, sentados com alguns amigos na hospedaria adjacente à mesquita do Darul Uloom de Nadwa, lemos o artigo editorial do Tarjuman al-Qur’an do mês de Muharram do ano 1356 da Hégira, no qual era feita uma previsão de um cataclismo. Tratava-se de um artigo tão inspirador do Maulana que seu eco podia ser ouvido por muitos dias. Todos nós louvamos, do fundo do coração, a perspicácia do Maulana, sua visão interior, sua indicação dos pontos críticos e seu extraordinário talento de escritor. Depois disso, líamos com prazer todos os artigos do Maulana que eram publicados.
Maulana Muhammad Manzur No‘mani
O que me pareceu mais importante no trabalho do Maulana Maududi e da Jamaat-e-Islami foi o seguinte: milhares de jovens, influenciados pela educação ocidental e pelo ambiente ateísta das instituições de ensino, haviam se tornado céticos em relação ao Islã e o abandonado completamente, ou estavam prestes a abandoná-lo. Os artigos do Maulana Maududi e as atividades da Jamaat-e-Islami não apenas os trouxeram de volta ao Islã, mas também produziram em sua vida prática uma revolução islâmica de tal magnitude que ela se tornou uma lição para muitos religiosos de tradição familiar.
Professor Alfred Smith
Maulana Maududi exerceu uma enorme influência sobre o pensamento islâmico da era atual, e seu partido é uma das forças visíveis do Paquistão. A literatura produzida por esse movimento é extremamente vasta e abrangente. A maior parte dela está em urdu. Contudo, suas traduções para o árabe e o inglês vêm aumentando dia após dia. A característica mais evidente do senhor Maududi é que ele apresentou gradualmente e com grande continuidade sua visão de mundo como um sistema de vida correto e atraente. O senhor Maududi parece ser, na era moderna, um homem de pensamento sobre o Islã, segundo um método organizado e baseado em princípios. Ele aperfeiçoou a tendência moderna de moldar o Islã segundo um modelo de governo e disciplina. Foi o primeiro a apresentar a lei islâmica como um sistema claro e eficaz para a era moderna. Ele apresentou o Islã como um sistema de vida que, muitos séculos atrás, já havia reunido as soluções para todos os problemas humanos de todas as eras futuras. Para ele, o Islã não é uma religião que criaria, a cada amanhecer, o novo incômodo de conceder aos seres humanos um novo conhecimento divino para resolver seus problemas. A fonte do sistema de pensamento que ele gradualmente fortaleceu está na primeira era do Islã, de onde foram reunidos os fundamentos essenciais desse edifício sistemático. Ao mesmo tempo, ele também aproveitou suficientemente as perspectivas e correntes de pensamento modernas.
A verdade é que, durante o período de desordem mental e política do Paquistão, ele influenciou os intelectuais e uma grande parcela do público. Em meio à violenta tempestade de decadência moral, demonstrou uma dedicação e um autossacrifício incomparáveis por seu objetivo determinado.
Considero o senhor Maulana Maududi uma pessoa grandiosa e extraordinária. Poucos homens assim nascem. Mas hoje ele se tornou tão grandioso que nunca antes o havia considerado tão grande. Jamais poderia imaginar que Deus Todo-Poderoso tivesse preparado para ele tamanha felicidade: um dia, ele seria condenado à morte no caminho do din. Deus o escolheu entre milhares e lhe concedeu uma posição tão elevada.’
Raja Jaganfar Ali Khan
De 1939 a 1949, eu estudava no Lahore Islamia College. Nesse período, o Maulana Sayyid Abul A’la Mawdudi vinha todos os domingos ao Habibia Hall para dar palestras sobre Islamiyat. Sexta-feira era o dia de descanso semanal da faculdade. Entretanto, aos domingos realizavam-se competições esportivas e outros eventos sociais. As palestras do Maulana também aconteciam nesse dia. Todos os alunos da faculdade participavam de suas aulas.
Era uma época em que a barba do Maulana, sobre seu rosto de tez clara e rosada, era negra. Usava um gorro preto, uma sherwani marrom-escura e um pijama branco, além de óculos azuis. O Maulana estava então na juventude. Contudo, nunca vi rudeza ou emotividade em seu temperamento. Seu modo de falar era extremamente cortês, e tudo o que dizia era muito razoável.
Os rapazes que participavam de suas aulas traziam consigo papel e lápis. Quando a palestra terminava, faziam perguntas em pedaços de papel. O Maulana respondia a elas com grande clareza.
Naquela época, os estudantes eram particularmente influenciados pelo movimento Khaksar. Até antes de 1940, eu era, pode-se dizer, um militante do movimento Khaksar. Quando lhe faziam perguntas sobre esse movimento e seu líder, as respostas do Maulana não me agradavam; por isso, não consegui sentir-me atraído por ele. Tampouco senti necessidade de ler sua literatura. Naquele período, o movimento Khaksar e seu órgão oficial, “Al-Islah”, haviam causado comoção em todo o país. Esse movimento havia influenciado nossas mentes e nosso pensamento.
Na sessão da Liga Muçulmana de Todo o Paquistão, realizada em Lahore em 23 de março de 1940, senti-me atraído pela personalidade do falecido Quaid-e-Azam Muhammad Ali Jinnah. Seu papel vigoroso, a firmeza de seu caráter, sua honestidade e sua total dedicação às suas atividades levaram-me do movimento Khaksar para a Liga Muçulmana.
Na terceira fase da minha vida, passei a interessar-me pela literatura “progressista”. Nesse período, estudei os livros de Marx, Lenin e Stalin. Depois, senti-me atraído pelas pessoas que seguiam essa ideologia. Apesar disso, eu ainda mantinha vínculos com uma família religiosa. Mas o ambiente social levou-me em direção ao comunismo. Em casa, eu frequentemente discutia com meu falecido pai. Eu havia ficado preso numa teia de jahiliyyah tão profunda que, que Allah me perdoe, meu falecido pai deixou de falar comigo.
O Paquistão ainda não havia sido criado. Naquele dia, meu falecido pai deu-me o livro em inglês do Maulana Mawdudi, Towards Understanding Islam. Eu o li. Depois, li-o novamente. O efeito que o livro produziu em mim foi este: a escuridão do desvio que se acumulara sobre minha mente e meu coração dissipou-se. A lógica irrefutável e o estilo de exposição do Maulana eram profundamente cativantes; por isso, comecei também a estudar suas outras obras.
Depois da criação do Paquistão, o Maulana costumava sentar-se à tarde no pequeno jardim coberto de grama verdejante, em frente à sua casa em Ishrat. Eu ia sentar-me ali. Naquela época, não se reunia tanta gente. Eu costumava fazer ao Maulana muitas perguntas absurdas e incoerentes. O Maulana não se incomodava nem um pouco com isso. Respondia a cada uma delas com calma, serenidade e palavras amáveis. Mesmo diante de perguntas descabidas, jamais se via em seu rosto qualquer sinal de irritação ou raiva. Eu contava francamente ao Maulana as perguntas que surgiam em minha mente depois de ler «Tulu-e-Islam». O Maulana refutava as perguntas equivocadas com a arma afiada da razão. Seu modo de responder era tal que o questionador não podia deixar de se sentir influenciado.
Se uma pessoa como eu pôde abandonar o comunismo apenas com base na razão e sentir-se atraída pelo Islã, então certamente muitos outros também devem ter feito o mesmo; sem dúvida, sob a influência da literatura do Maulana, aceitaram o caminho reto ou, no mínimo, não se afastaram da ideologia que haviam recebido de nascimento. Essa é uma característica especial do Maulana. Pessoalmente, nunca vi ninguém como ele em termos de conhecimento vastíssimo. Por isso, sem dúvida alguma, eu o chamarei de mujaddid desta época.
Se alguém me perguntar quem são, para mim, as pessoas célebres, direi: apenas três — Allama Iqbal, Quaid-e-Azam e Maulana Maududi.
A. K. Brohi
O patrimônio mais valioso do ser humano é seu caráter e sua conduta. Se for possível transformar o caráter e a conduta de uma pessoa e provocar nela algum tipo de mudança significativa, então aquele que realiza esse trabalho é o arquiteto ou construtor da vida dessa pessoa. Sob esse ponto de vista, em minha opinião, a maior personalidade do Paquistão atualmente é o Maulana Maududi.
Reconheço a veracidade desta afirmação: se fosse perguntado quem é a pessoa que mais influenciou o caráter e a conduta do povo paquistanês, minha resposta seria: Maulana Maududi. Tenho a firme convicção de que aquilo que digo hoje continuarei a dizer amanhã. E, se no Além Deus Todo-Poderoso quiser aceitar meu testemunho, naquele dia também darei o mesmo testemunho que dou hoje.
Sharifuddin Pirzada
Entre aqueles que sonharam com o Paquistão, Maulana Maududi estava entre os primeiros. Os planos e propostas que ele e os demais apresentaram sobre esse assunto serviram de guia na luta pelo Paquistão. As três propostas alternativas que Maulana Maududi apresentou para um Estado muçulmano separado foram publicadas nas edições de outubro e dezembro de 1938 de Tarjuman-ul-Quran. Lembro-me muito bem de que, durante a condução do movimento pelo Paquistão, os estudantes da Universidade de Aligarh levavam regularmente consigo os números de Tarjuman-ul-Quran, junto com outras publicações, e liam página após página da revista para refutar os argumentos dos porta-estandartes da unidade nacional.
Maulana Amer Usmani, Deoband
Maulana Maududi é a única pessoa cuja inteligência concedida por Deus, capacidade de escrita, compreensão clara da religião, devoção incomparável e sinceridade criaram, não apenas no Paquistão, mas em todo o mundo muçulmano, um acervo literário tão vasto que, ao reconhecer isso, é preciso dizer que, em comparação com esse acervo literário, os sete reinos são insignificantes. Creio que cada página da literatura que ele produziu equivale a uma joia.
Maulana Abdul Quddus Bihari
Apelo, em nome de Deus e do Mensageiro, aos meus irmãos muçulmanos, aos ulemás, à sociedade, aos intelectuais e às pessoas sensatas da nação, para que não percam sequer um momento na tentativa de salvar um pensador islâmico incomparável, um escritor ímpar e um patrimônio nacional como este, e para que mantenham imediatamente a luta, tanto quanto possível, por meios constitucionais.
O testemunho de Maulana Abdul Quddus Bihari
Tem sido repetidamente alegado, por meio dos jornais, que Allama Maududi e a Jamaat-e-Islami se opuseram à criação do Paquistão. Estou doente há bastante tempo. Além disso, meus recursos e meios também são limitados. Ainda assim, esperava que os ulemás partidários da verdade apresentassem a verdade ao povo. Mas vejo que, por alguma razão, até a voz da verdade foi silenciada. Por isso estou cumprindo este dever. Como fundador da Jamiat Ulama-e-Islam e ex-partidário da Liga Muçulmana, considero um dever indispensável da Jamiat Ulama-e-Islam e de todo partidário da Liga Muçulmana falar sobre este assunto. Considerando-me responsável por prestar contas diante de Deus e do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) por apresentar esta verdade, afirmo em termos inequívocos que Allama Maududi jamais se opôs à criação do Paquistão. Pelo contrário, o fato é que, quando o falecido Maulana Husain Ahmad Madani e a Jamiat Ulama-e-Hind, ao apoiarem o Congresso, declararam que uma nação se forma com base na terra natal, Allama Maududi afirmou que a nação se forma com base na religião, e não no país ou na terra natal. Ele escreveu uma poderosa literatura demonstrando a nacionalidade islâmica. Hazrat Allama Shabbir Ahmad Usmani fundou a Jamiat Ulama-e-Islam em Calcutá, em resposta à Jamiat ligada ao Congresso e para fazer frente a ela. Allama Shabbir Ahmad Usmani chamou Allama Maududi de espada do Islã e protestou energicamente contra sua primeira prisão. Na realidade, Allama Shabbir Ahmad Usmani e a Jamaat-e-Islami formaram a opinião pública em favor do referendo, em consequência do qual a Província da Fronteira e Sylhet foram incluídas no Paquistão. É importante mencionar que Allama Maududi jamais se opôs à criação do Paquistão e de um Estado islâmico. Contudo, surgiu uma concepção equivocada porque Hazrat Allama Maududi expressou desconfiança em relação a alguns líderes da Liga Muçulmana, suspeitando que eles criariam obstáculos à implementação da lei islâmica. A prova disso ainda pode ser vista: nem mesmo nos últimos vinte e cinco anos foi possível promulgar a lei islâmica. Não se pode acusá-lo de se opor ao Estado islâmico por nutrir desconfiança em relação aos líderes. Resta então a acusação de que ele se opôs ao Qaide Azam. Allama Maududi jamais fez isso. Naturalmente, ele exigiu repetidamente o estabelecimento da lei islâmica. Escreveu literatura valiosa e numerosas obras sobre o Islã. A nação lhe é grata por isso.
Maulana Zafar Ahmad Ansari
Maulana Zafar Ahmad Ansari, secretário-geral da Liga Muçulmana de Toda a Índia da Índia não dividida, disse:
Meu primeiro encontro com o Maulana Maududi ocorreu em Allahabad, em 1938. Naquela época, a Jamaat-e-Islami ainda não havia sido fundada. O Maulana estava hospedado na casa do Dr. Nazir Ali Zaidi. Quando vinha a Allahabad, sempre ficava ali. O segundo encontro ocorreu em 1941, também em Allahabad, numa reunião realizada na casa de Hakim Khalid Sahib, em Hardarã. Ali, ele também proferiu uma palestra no Islamia College. Fiquei profundamente atraído pela vasta erudição do Maulana.
Algum tempo depois, tive de me mudar para Délhi. Quando o Maulana ia a Délhi, eu naturalmente me encontrava com ele. Ele se hospedava na casa do sogro. Certa vez, também ficou na residência de Chaudhry Muhammad Ali. Ele também ia à minha casa, e conversávamos durante horas. Mesmo antes da criação do Paquistão, os volumes de Tarjuman-ul-Quran já adornavam a biblioteca de Quaid-e-Azam.
Depois da criação do Paquistão, o Maulana foi várias vezes à minha casa. Não é correto dizer que o Maulana não aceitava a proposta ou o conselho de ninguém. Minha experiência pessoal é que ele aceitava aquilo que estivesse de acordo com os princípios. Tenho a má reputação de que, depois de se encontrar comigo, o Maulana às vezes mudava uma decisão da Jamaat. O Maulana ouvia atentamente cada palavra. Quando lhe era apresentado um argumento consistente, aceitava-o imediatamente.
A personalidade do Maulana era extraordinariamente grandiosa. Enfrentar as críticas com imensa paciência e um sorriso no rosto era uma de suas qualidades mais notáveis. É tão claro quanto a luz do dia que ele permanecia firme e inabalável no caminho que considerava correto para a propagação e a elevação do Islã.
Dr. Ibrahim Agah
Diz o professor Dr. Ibrahim, da Universidade de Ancara, na Turquia:
Sayyid Abul A’la Maududi foi um erudito de grande estatura. Era um estudioso tão eminente que, em todo o mundo, suas palavras são compreendidas e suas opiniões são aceitas. Também na Turquia, o Maulana Maududi é um dos autores universalmente reconhecidos. Várias de suas obras foram traduzidas para o turco.
Não tive a oportunidade de encontrar-me com o Maulana Maududi. No entanto, encontro-o em suas obras. A vitalidade que ele despertou por meio de sua personalidade dinâmica exerce uma enorme influência sobre a época atual e continuará a exercer uma influência ainda maior no futuro.
Yasin Umar
O membro do Conselho Nacional do Sudão, Yasin Umar, declarou:
Sayyed Abul Ala Maududi iniciou o movimento de renascimento islâmico. Na era moderna, foi a primeira pessoa a desafiar as doutrinas e correntes de pensamento ocidentais. Ele demonstrou claramente, à luz da razão, que as doutrinas e correntes de pensamento ocidentais desafiam a razão. Ele demonstrou claramente, à luz da razão, que o pensamento ocidental é prejudicial à humanidade. Ele enfrentou a civilização ocidental e empenhou outros também nessa luta. Deu início a essa grandiosa tarefa no campo do pensamento. Apresentou, numa nova forma de expressão, um retrato tão claro das doutrinas e da visão islâmicas que os muçulmanos que haviam se afastado do Islã por não conseguirem enfrentar o pensamento ocidental mudaram sua maneira de pensar, e aqueles que se encontravam em dúvida e conflito também retornaram ao Islã. A literatura do Maulana Maududi criou neles uma convicção firme e incutiu entre os muçulmanos uma determinação de aço pelo Islã. ….. Sayyed Abul Ala Maududi esclareceu à juventude muçulmana sua verdadeira identidade não apenas no Paquistão e na Ásia, mas também na África e em todo o mundo. Ele uniu a juventude muçulmana mundial em torno do Islã e fez do Islã o objetivo de suas vidas.
Antes de dizer quão elevada é a posição de Sayyed Maududi na história, quero relatar, com base em minha experiência pessoal, que antes de estudar sua literatura eu era um defensor do comunismo. Sentia prazer em me apresentar como comunista e socialista. Somente a literatura de Sayyed Maududi me tirou de ser um seguidor do comunismo e me conduziu à luz do Islã.
Eu chamaria Sayyed Maududi de um grande homem. Mas sinto que essa palavra é incapaz de descrever sua grandeza. Sayyed Maududi é uma pessoa que mudou o curso da história; hoje ele é um criador da história. Sua pena afiada derrotou a civilização, o pensamento e a cultura ocidentais. Na verdade, ocorreu hoje uma revolução tal que a juventude muçulmana começou a proclamar-se “islâmica”, em vez de se denominar “oriental e ocidental”. É preciso dizer que se trata de uma grande mudança, e, com o passar do tempo, sua influência se espalhará por todo o mundo.
Dr. Sirajul Haque (Bangladesh)
O conhecimento e a erudição profundos do Maulana Sayyed Abul Ala Maududi ocupam uma posição extremamente elevada. Tão elevada que não é possível avaliá-los corretamente dizendo apenas isso. O trabalho de pesquisa e conhecimento que realizou continuará a exercer influência por várias gerações e ao longo de séculos. …. O Maulana Maududi é a única pessoa que, quando toma a pena para escrever sobre qualquer assunto, não deixa mais nada a dizer. Quando ele ia a Daca, eu me encontrava com ele, e também nos encontrávamos quando eu vinha aqui. Certa vez, nesta cidade de Rawalpindi, encontrei-me com ele em circunstâncias tais que jamais poderei esquecê-las. Ele foi convidado certa vez para o I DO NOT AGREE CLUB de Pindi. Eu também havia sido convidado. Por meio de seu discurso, o Maulana atraiu e influenciou todos os presentes. Sua discussão fundamentada continha uma luz nova de tal intensidade que ninguém poderia permanecer diante dela.
Sayyed Maududi influenciou a história de sua época ainda durante sua vida. Sua influência também permanecerá sobre tudo o que acontecer no futuro. Pelo contrário, ela se tornará cada vez mais intensa com o passar do tempo. Depois disso, o número daqueles que seguirão seus passos continuará a aumentar, e ele será considerado cada vez mais digno de respeito. Ele é e continuará sendo o “querido” de todos. [I DO NOT AGREE CLUB, um clube especial de eminentes membros do CSP e de altos funcionários públicos. — O autor.]
Cartas de Maududi
Maulana Sayyid Abul A’la Maududi foi um líder islâmico revolucionário do século XX. Ao longo de toda a sua vida, no caminho do movimento, teve de enfrentar inúmeros obstáculos e adversidades, escárnio e críticas, perseguição e opressão. Em diferentes momentos e circunstâncias, precisou expressar seus pensamentos por meio de cartas a várias pessoas. A personalidade do autor, seu verdadeiro caráter, seus ideais e sua visão de mundo manifestam-se através de suas cartas. Aqui são reunidas algumas cartas que ele escreveu em diferentes ocasiões; nelas se revelam sua filosofia de vida, os ideais e objetivos de sua vida, o verdadeiro pensamento islâmico, as qualidades e o método de atuação do movimento islâmico, bem como sua atitude de tolerância para com os inimigos do sistema social islâmico. Espero que essas cartas também sirvam de luz-guia na vida dos leitores.
[1]
Ao senhor Abdus Sattar.
Pathankot, Punjab.
7 de junho de 1941
Meu respeitado senhor—
Que a paz e a misericórdia de Allah estejam sobre vós.
Eu tinha ido a Srinagar. Ao voltar, recebi sua carta. Sou descendente de Hazrat Qutbuddin Maudud Chishti (que Deus tenha misericórdia dele). Por isso, escrevo meu nome como Maududi. Isso não é uma ação de propaganda para tornar-me conhecido, nem tenho por objetivo obter qualquer benefício por meio disso. Para que os seres humanos se conheçam mutuamente e preservem sua individualidade, Allah, o Altíssimo, dividiu a humanidade em diferentes tribos e linhagens. Portanto, apenas declaro a linhagem na qual nasci.
“Maududi” não é o nome de uma doutrina nem de uma comunidade religiosa; por isso, posso ser acusado.
Você não mencionou quais das minhas palavras, ao lê-las, deram-lhe a impressão de que tenho uma opinião negativa sobre os anciãos da religião. Tampouco explicou qual é a opinião que se deve ter sobre os anciãos da religião. Se, por gentileza, esclarecer esses dois pontos, poderei apresentar minha posição. Não consegui compreender, por meio de sua carta, de que falta fui considerado culpado. Suspeito, antes, que você não leu meu artigo com a devida calma e serenidade. Tornou-se uma regra geral que, se alguém encontra em um artigo algo contrário ao seu gosto, começa a olhar para o artigo inteiro com ódio e desconfiança. Depois, não encontra sequer tempo para refletir tranquilamente sobre o que o autor está dizendo.
Talvez você não saiba que nasci em uma linhagem na qual, há mil anos, se mantém a tradição da bai‘at e da iniciação espiritual. Tive a oportunidade de estudar diretamente todos os seus aspectos bons e maus. Não observei essas coisas com a atitude hostil de alguém de fora; pelo contrário, naturalmente, minha perspectiva em relação a tudo isso era extremamente compassiva. Portanto, se cheguei à conclusão de que, assim como as demais instituições do Islã, esta instituição se corrompeu e necessita de várias mudanças, isso não será considerado a opinião de um inimigo externo, mas a opinião de um amigo da própria casa, expressa unicamente em nome da verdade. Se o serviço à verdade não fosse meu objetivo, eu poderia facilmente ter ocupado o assento hereditário de minha família e, estabelecendo uma assembleia de pirs e murids, teria visto muitos grandes homens, beijadores de mãos e pés e ofertantes de nazr e niyaz, reunirem-se ao meu redor.
Khaksar
Abul A‘la.
[2]
Em nome do senhor Hakim Muhammad Sharif, de Hafizabad.
Nova Prisão Central
Multão.
17 de março de 1949
Meu estimado,
Que a paz, a misericórdia e as bênçãos de Deus estejam com você.
…… Não se preocupe com a minha saúde. A verdade é que, há muitos anos, não tive a saúde que tenho agora. Meu peso aumentou, meu apetite aumentou e durmo tão bem que não dormia tão bem havia quinze anos. Consigo realizar muito mais esforço físico e mental do que antes e sinto muito menos cansaço. Isso se deve ao fato de que hoje não há ninguém no mundo mais feliz do que eu. Não tenho preocupação alguma com meus filhos, minhas filhas e meus parentes, pois os confiei a Deus. Não tenho preocupação alguma com a nação, porque, quanto à responsabilidade que Deus havia colocado sobre mim nesse assunto, o atual governo a tomou sobre os próprios ombros. Também não tenho preocupação alguma com a Jamaat e com a pregação islâmica, pois, assim que fui preso, fiquei livre de responsabilidades. Além disso, tenho plena confiança de que minha prisão não causará nenhum prejuízo à Jamaat; pelo contrário, será benéfica para ela. Agora, pense você mesmo: quem poderia ser mais feliz do que eu?
Khaksar
Abul A’la
[3]
Em nome do hakim Muhammad Sharif, de Hafizabad.
Nova Prisão Central de Sultan
22 de abril de 1949
Meu estimado senhor,
Que a paz e a misericórdia de Deus estejam convosco.
O pesar que o senhor expressou pelo prolongamento do meu período de reclusão é um sinal do seu amor sincero por mim. Mas, em princípio, lembre-se de uma coisa: Deus não trata mal aquele que mantém uma boa relação com Deus e com Sua criação e trabalha, no caminho de Deus, para o bem de Sua criação. Aquilo que exteriormente parece ser prejudicial para ele, pela graça de Deus, eu obtive como benefício. Isto não é simplesmente a expressão de uma boa opinião, mas uma grande verdade. No caminho da reforma e da correção pela qual estou trabalhando, não havia nenhum obstáculo como uma montanha rochosa. Pelo contrário, o obstáculo era uma imundície e um lixo que se elevavam até o céu. Comecei a limpar essa imundície e esse lixo apenas para obter a satisfação de Deus. Ao realizar esse trabalho, suportava pacientemente os respingos de imundície e lixo que caíam sobre mim. Mas meu Deus não quis que eu continuasse realizando o trabalho de um varredor. Por isso, trouxe-me para um lugar isolado e tranquilo. Agora, aquilo que é a imundície deles está sendo lançado sobre eles mesmos. … Esse trabalho ainda está incompleto. Quando estiver concluído, vocês me encontrarão entre vocês.
Khaksar
Abul Ala
[4]
Em nome de Syed Abul Khair Maududi Sahib.
Nova Prisão Central, Multan
23 de novembro de 1949
Irmão Sahib
A paz esteja convosco, assim como a misericórdia de Allah.
Com base em tudo o que estudei ao longo da minha vida, posso dizer que as forças que se refugiam no interior de uma fortaleza jamais conseguem permanecer vivas neste mundo. Isso porque fugir da competição em campo aberto e esconder-se dentro de uma fortaleza é sinal de covardia, e Allah, o Altíssimo, não criou esta terra para o governo dos covardes. Meu estudo também revela que a embarcação de madeira de tais covardes morais — cujas atividades se baseiam na mentira, no engano e na fraude, que consideram perigoso vir à luz da verdade e cujo poder de governo precisa de leis de segurança para sua proteção — não pode permanecer por muito tempo sobre o desenvolvimento. Isso é contrário à consciência, contrário às leis da natureza, e mil anos de experiência histórica testemunham que aqueles que dependem de tudo isso, por mais poderosos que sejam por um breve período, não conseguem subsistir por muito tempo.
Vosso humilde servo
Abul A’la
[5]
Em nome do senhor Sayyid Abul Khair Maududi.
Nova Prisão Central, Multan
16 de maio de 1949
Prezado irmão
Que a paz e a misericórdia de Deus estejam convosco.
Da próxima vez que vier, traga consigo os dois filhos mais velhos. Se Haji Mian [apelido do filho de seu irmão mais velho] quiser vir, traga-o também. Pensando que o ambiente daqui poderia exercer uma má influência sobre eles, inicialmente proibi que os trouxesse. Mas agora, refletindo, cheguei à conclusão de que deveria mostrar-lhes todos os lugares. Ainda pode acontecer que as gerações futuras sejam mais desviadas do que a geração atual e que, para enfrentá-las, as pessoas daquela época tenham de travar uma luta mais árdua do que a nossa. Não quero criar meus filhos para o luxo. Ao contrário, quero educá-los para servir o bem e lutar contra o mal.
Khaaksar
Abul A’la
[6]
Em nome de Ahmad Faruq Maududi.
Nova Prisão Central, Multan
23 de dezembro de 1949
Meu querido filho,
E que a paz esteja convosco.
Não sei quando receberás a carta que hoje te escrevo. Naturalmente, eu também não estou preocupado com isso, e vós também não deveis preocupar-vos. Quer recebais a carta ou não, quer consigais ou não saber como estamos, ficai satisfeitos em todas as circunstâncias, sabendo que tudo o que Allah faz é para o bem. Satanás quer precisamente que, nesta situação, fiquemos extremamente aflitos e impacientes. Mas, confiando em Deus, devemos derrotar essa artimanha de Satanás.
Não consigo entender se estais levando uma vida boa ou má. Mesmo que eu consiga saber algo sobre a vossa situação, boa ou má, nada poderei fazer. Por isso, entreguei-vos a Deus e mantive a paciência. Penso que continuareis a viver exatamente da maneira como teríeis de viver depois da minha morte. É um dos aspectos da majestade de Deus que aquilo que outros têm de enfrentar após a morte de seu tutor vós tivestes de enfrentar durante a minha vida. Não desanimeis por causa dessa experiência; ao contrário, aproveitai esta oportunidade. Insha’Allah, ela provará ser benéfica para vós.
– Abul A‘la Maududi
[7]
Ao senhor Chaudhuri Ghulam Muhammad, de Karachi.
Nova Cadeia Central, Multan
6 de abril de 1950
Que a paz e a misericórdia de Allah estejam convosco.
O espírito do Islã é diferente do espírito dos movimentos revolucionários da época atual. Atualmente, os movimentos revolucionários adotam, em primeiro lugar, medidas de vingança contra aqueles que criam obstáculos para eles. Em segundo lugar, recorrem a métodos extremamente mesquinhos para estabelecer um sistema social em lugar de outro. Não se importam que, como resultado dessa revolução e transformação, milhões de seres humanos possam ser destruídos. O Islã, por outro lado, quando consegue conquistar o poder, geralmente adota a política do perdão em vez da vingança. Depois, ao corrigir as falhas e deficiências do sistema social anterior e implementar em seu lugar o seu próprio programa de reforma e correção, sua política geral é realizar essas reformas gradualmente e, tanto quanto possível, por métodos fáceis, protegendo a vida humana, tanto quanto possível, de uma revolução súbita.
Pessoas ignorantes quanto ao espírito do Islã, em seu extremo zelo pela reforma e correção, imitam os métodos revolucionários correntes no mundo e, ao fazê-lo, colocam neles o rótulo do Islã. O objetivo de expor os princípios islâmicos é justamente analisar seus métodos equivocados de ação.
-Abul A‘la Maududi
[8
Respostas às cartas apresentadas em Rasā’il wa Masā’il
A tempestade da oposição
…. Não ignoro a campanha que foi iniciada contra mim. Esta não é uma experiência nova para mim. Tentaram repetidamente espalhar contra mim acusações falsas desse tipo, e em todas as ocasiões mantive a paciência. Até agora, minha experiência tem sido que Allah Todo-Poderoso não permite que a falsidade prospere.
Sempre foi minha regra não responder a palavra alguma daqueles que vi desprovidos de honestidade, lealdade e temor a Deus, e também não desejo fazê-lo no futuro. Creio que está além das minhas forças vingarme deles. Somente Allah pode vingarse deles. Também penso que não preciso refutar suas mentiras. Inshallah, sua arrogância será desmascarada ainda neste mundo.
Objetivo e método de trabalho
Compreendam bem o objetivo da formação da Jamaat-e-Islami. Esta Jamaat não foi formada para que algum país ou nação resolvesse um problema temporário por meio de um método temporário. Tampouco foi formada com base no princípio de que, para solucionar os problemas, se adotaria qualquer política que estivesse em vigor no momento. Diante desta Jamaat há apenas um problema universal e eterno, que abrange todos os problemas de cada país e nação. Esse problema é saber em que consiste o progresso terreno e a salvação na vida futura da humanidade. E, para esse problema, a Jamaat possui uma única solução: que toda a humanidade adote verdadeiramente a servidão a Allah e, então, siga os princípios estabelecidos no Livro de Allah e na Sunnah do Mensageiro. Além desse problema e de sua solução, não temos interesse algum em qualquer outra coisa do mundo.
A necessidade de formar uma organização
… Está comprovado pelos hadiths que não existe uma vida verdadeiramente islâmica sem uma Jamaat ou organização. Para que a vida seja realmente islâmica, o mais necessário é estar vinculada ao objetivo do Islã, isto é, ao estabelecimento do Din. Isso exige que se faça um esforço total por esse objetivo, e tal esforço não é possível sem uma força unida. Portanto, seria um grave erro chamar de islâmica qualquer vida sem uma Jamaat. A segunda questão é que uma pessoa pode não se filiar à nossa Jamaat, mas deve filiar-se a uma Jamaat cujo objetivo seja esse e cuja organização interna e método de realizar um esforço total estejam de acordo com os ensinamentos islâmicos. Nesse caso, não hesitaremos em reconhecê-la como alguém que segue o caminho correto. Porém, não consideramos correto que uma pessoa siga apenas os métodos de formação do caráter individual prescritos pela Sharia e não se filie a nenhuma Jamaat para se empenhar pelo estabelecimento do Din. Consideramos uma vida assim uma vida de semi-jahiliyyah. Segundo nosso conhecimento e entendimento, a exigência mínima do Islã é a seguinte: se uma pessoa não encontrar ao seu redor nenhuma Jamaat que se empenhe integralmente, por métodos islâmicos, para alcançar o objetivo islâmico, deverá tentar formar uma organização desse tipo e deve estar preparada para que, assim que encontrar uma Jamaat desse gênero, abandone todo o seu individualismo e se una a ela com o espírito de uma Jamaat.
Tabligh e revolução
Pela sua carta, o que pude compreender é que, no momento atual, se deve realizar apenas o tabligh verbal, fazer discursos, escrever artigos e divulgar por meio de jornais e revistas. Além disso, não seria necessário convidar as pessoas a praticarem pessoalmente nada. Depois, quando a mente e o coração de todos os muçulmanos forem influenciados pelas nossas ideias, um dia ocorrerá subitamente uma revolução.
A ideia é bastante interessante. Mas o que se pode fazer, se a natureza do tabligh não é a mesma que a da revolução? O tabligh influente e eficaz só pode ocorrer quando o grupo que o realiza praticar seus próprios princípios e organizar aqueles que os praticam. Simplesmente a pregação e a exortação vêm sendo feitas há muito tempo. Que resultado produziram?
(Rasā’il wa Masā’il)
Algumas palavras valiosas
[1]
Sempre tentei compreender a religião a partir do Alcorão e da Sunnah, em vez de tentar compreendê-la por meio de qualquer pessoa do passado ou do presente. Portanto, para saber o que a religião de Deus exige de mim e de cada crente, não procuro saber o que este ou aquele ancião diz ou faz. Procuro apenas saber o que diz o Alcorão e o que fez o Seu Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele).
– Abul A‘la Maududi
[2]
Na realidade, queremos formar um grupo de pessoas que, por um lado, seja mais avançado em religiosidade e piedade do que aqueles que, em termos técnicos, são chamados de devotos e muttaqis, e que, por outro, tenha mais competência e capacidade do que as pessoas mundanas comuns para administrar os assuntos do mundo. Deve ser formado um grupo de pessoas justas cujos membros sejam tementes a Deus, sinceros e fiéis. Eles devem ser dotados de caráter e qualidades que agradem a Deus. Além disso, devem compreender os assuntos mundanos melhor do que as pessoas mundanas.
– Abul A‘la Maududi
[3]
Quando ficar claro para mim e para os meus amigos e companheiros de trabalho que nos desviamos, ainda que pela largura de um fio de cabelo, do Alcorão e da Sunnah, então, se Deus quiser, verão que não hesitaremos nem por um momento em retornar à verdade. Mas, se vocês fizerem de alguma pessoa, em vez do Livro de Deus e da Sunnah do Mensageiro, o critério para distinguir entre a verdade e a falsidade, então entreguem a si mesmos e o próprio futuro a essa pessoa. Vocês têm pleno direito de fazê-lo. Depois, respondam assim diante de Deus: “Ó Deus, deixamos nossa religião nas mãos de fulano e sicrano, em vez de confiá-la ao Teu Livro e à Sunnah do Teu Mensageiro”. Se essa resposta puder salvá-los diante de Deus, continuem a dá-la de coração satisfeito.
– Abul A‘la Maududi
[4]
Se realizamos este trabalho com uma mentalidade de lojista, então que milhares de maldições recaiam sobre nós e sobre este nosso empreendimento. Mas, se isto é um serviço sincero à religião de Deus, todos nós deveríamos alegrar-nos pelo fato de que essa pessoa não está realizando o trabalho sozinha; outros também estão envolvidos nele. Nossa tarefa é não considerá-la uma rival. Devemos ir até ela repetidamente, para que Deus faça seu coração voltar-se para a verdade.
– Abul A‘la Maududi
[5]
O estabelecimento do Din é um dever inabalável e indispensável
É dever indispensável de toda pessoa que busca a verdade criar em si uma intensa inspiração para o estabelecimento do Din. Depois, deve esforçar-se para que esse fogo se acenda em seu coração. Qual será o resultado desse esforço e empenho está fora do âmbito desta discussão. É possível que sejamos serrados com uma serra, arrastados pelo chão, lançados sobre brasas ardentes e que nossos cadáveres se tornem alimento de corvos e abutres. Mesmo depois de tudo isso, talvez não tenhamos a felicidade de conseguir transformar o atual sistema falso em um sistema verdadeiro e belo. Mas esse fracasso não é fracasso algum. Nenhum receio de fracasso ou incerteza nos livrará da responsabilidade que Allah Ta’ala nos impôs para o estabelecimento do Din. Este é um dever firme e indispensável, que devemos cumprir a qualquer custo e em qualquer circunstância. Se todas as khanqahs tentarem assegurar-vos que certas wazifas e recitações podem isentar-vos dessa responsabilidade, então digo-vos com plena certeza: isso não passa de uma fraude satânica. Enquanto tiverdes a cabeça sobre os ombros e enquanto até o menor palmo da terra de Allah estiver curvado à servidão de alguém que não seja Allah, ser-vos-á proibido dormir o sono da tranquilidade.
– Abul A‘la Mawdudi
(Atas da Jamaat-e Islami — volume 3)
[6]
O governo divino e a satisfação de Allah
Não posso dizer qual será o resultado do esforço pelo estabelecimento do Din. O resultado, naturalmente, só Allah Ta’ala conhece. Se o resultado desse esforço for que consigamos estabelecer um sistema social justo, isso será uma dádiva de Allah. Algumas pessoas dizem, zombando e ridicularizando, que todos os nossos esforços se destinam a obter o poder e que não temos em nós o verdadeiro objetivo do Din, que é alcançar a satisfação de Allah. Essa ideia é absolutamente errada. Todos os nossos esforços destinam-se a um sistema justo e divino. Não há crime algum nesse esforço, nem há nele nada de vergonhoso. Quando falamos em governo divino, referimo-nos precisamente ao sistema acima mencionado. Não consigo entender: se esse é o nosso desejo, por que tanta controvérsia? E como poderia isso ser contrário ao desejo de obter a satisfação de Allah? Na terra de Allah deve vigorar somente a lei de Allah — de que outra maneira se poderia alcançar maior satisfação de Allah? Quem poderia desejar mais intensamente a satisfação de Allah do que aqueles que sacrificam a vida e os bens por essa causa e que, quaisquer que sejam os resultados, de modo algum querem permitir que na terra de Allah prevaleça o domínio de alguém além de Allah? Se esse tipo de esforço combativo é mundanismo, então o que se chama religiosidade: passar as noites acordado fazendo dhikr de «Allah» e, durante o dia, tentar estabelecer o trono de Satanás? Aqueles que falam assim têm em sua mente e em seu coração uma concepção extremamente vil do Din.
– Abul A‘la Mawdudi
(Atas da Jamaat-e Islami — volume 3)
[7]
A exigência do caminho da verdade
A verdadeira exigência deste caminho é que surja em nós o desejo de acolher a oposição. Seja no caminho da verdade, seja no caminho do erro, o princípio de Allah Todo-Poderoso é que cada pessoa será submetida a uma prova de fogo no caminho que escolher. A característica do caminho da verdade é precisamente esta: ele é repleto de provas de fogo do início ao fim. Assim como, na matemática, um aluno talentoso se satisfaz com uma questão difícil porque teve a oportunidade de testar sua capacidade intelectual, da mesma forma, um crente determinado alegra-se ao enfrentar uma nova prova, pois surgiu a oportunidade de demonstrar sua obediência. Uma lâmpada fraca se apaga com uma rajada de vento, mas uma fornalha ardente torna-se ainda mais intensa com o sopro do vento. Desenvolvam em seu interior uma capacidade tal que, assim como uma fornalha ardente não se apaga com combustível úmido, mas o aceita como alimento, vocês não se curvem diante da oposição; pelo contrário, extraiam dela alimento e força. Enquanto essa capacidade não tiver sido desenvolvida em nós, não se pode esperar que possamos prestar algum bom serviço ao Din.
– Abul A‘la Maududi
(Atas da Jamaat-e Islami — volume 3)
[8]
Se eu aceitar a forma como o Din está sendo deturpado e me tornar aquilo que algumas pessoas querem que eu seja, serei culpado de um crime tão grave que terei de prestar contas severas diante de Allah. Naquele dia, ninguém virá me ajudar. Portanto, prefiro ser alvo de suas zombarias e escárnios a colocar a mim mesmo em perigo na vida futura.
– Abul A‘la Maududi
[9]
Deus é testemunha de que não tenho inimizade contra nenhuma pessoa ou grupo. Sou apenas amigo da verdade e inimigo da falsidade. Apresentei também os argumentos que comprovam a verdade daquilo que considero verdadeiro. Daquilo que considero falso, apresentei igualmente os argumentos. Se alguém que não concorda comigo demonstrar, com argumentos, o meu erro, posso mudar de opinião. Ainda há algumas pessoas que se enfurecem apenas porque algo foi dito contra elas ou contra o seu líder predileto. Contudo, não lhes importa saber se o que foi dito é verdadeiro ou falso. Não me preocupo nem um pouco com a chama da ira dessas pessoas. Não responderei aos seus insultos e não me desviarei do meu caminho.
– Abul A‘la Maududi
[10]
A minha franqueza certamente parecerá amarga àqueles grandes homens que estão acostumados a julgar a verdade pelas pessoas, em vez de julgar as pessoas pela verdade. Em resposta a isso, preparei-me para receber ainda mais insultos.
– Abul A‘la Maududi
[11]
Sinto uma profunda tristeza ao ver que a decadência moral dos muçulmanos chegou atualmente a tal extremo que aqueles que violam a lei de Deus circulam orgulhosamente. Por outro lado, são precisamente aqueles que obedecem à lei do Senhor dos mundos e exortam os outros a obedecer-lhe que hoje são humilhados e desonrados.
– Abul A‘la Maududi
[12]
Pela graça de Deus, não fiz nada movido pela emoção. Tudo o que disse em meus discursos, disse medindo cada palavra, pensando que teria de prestar contas disso diante de Deus, e não diante de qualquer servo. Tenho certeza de que não disse sequer uma palavra contrária à verdade. Tudo o que disse era absolutamente indispensável para servir à religião. Temi que Deus me responsabilizasse diante d’Ele não por ter dito isso, mas por não tê-lo dito.
– Abul A‘la Maududi
[13]
Não estou entre aqueles que fizeram da propaganda falsa, das rixas pessoais e dos insultos a sua profissão. Sempre olhei com desprezo para a conduta daqueles que ostentam os turbantes dos grandes da nação e transformam divergências políticas em inimizades pessoais. Aqueles que me conhecem também conhecem esta verdade.
– Abul A‘la Maududi
[14]
Cinema
Pergunta:Às vezes vou ao cinema para me distrair. Não me deixo influenciar pela atração sexual. O que o senhor diz sobre isso?
Resposta:As cenas de cinema só podem ser suportadas por aqueles olhos que ainda não se tornaram plenamente muçulmanos. Tente tornar muçulmanos os seus dois olhos. Então verá que o cinema não lhe proporcionará entretenimento. Será tamanho o sofrimento que parecerá que alguém está espetando uma agulha em seus olhos.
– Abul A‘la Maududi
Uma entrevista
Pergunta:Poderia contar algum acontecimento extraordinariamente importante de sua vida?
Resposta:Não tenho o hábito de escrever um diário e nunca me sentei para refletir sobre essas coisas. Conforme a oportunidade, alguma coisa acaba sendo dita. No decorrer de uma conversa, acabo mencionando algum acontecimento. Mas nunca preparei uma lista dessas coisas, nem jamais refleti sobre elas. Às vezes, de repente, surge algum fato extraordinário. Fora isso, normalmente não sinto grande alegria por coisa alguma, nem fico deprimido.
Pergunta:Alguma vez o senhor passou por uma situação em que teve muita dificuldade para conseguir comida?
Resposta:Não, isso não aconteceu. Graças a Deus por isso. Contudo, uma única vez aconteceu de eu pensar que talvez tivesse de passar o dia sem comer. Mas, antes que eu tivesse de jejuar, Allah, o Altíssimo, providenciou alguma coisa. Graças a Deus, tal situação não ocorreu até hoje. A razão é que vivi sozinho durante muito tempo e muitas vezes também cozinhei com as próprias mãos. Além disso, em muitas ocasiões estive tão ocupado com o trabalho que não tive tempo para cozinhar. Quando chegava a hora de comer, trazia bananas e as comia.
Pergunta:Quando o senhor costumava trabalhar sentado por mais tempo, e por quantas horas?
Resposta:Posso trabalhar o tempo todo. Mas, quando vejo que não tenho tempo livre durante o dia, trabalho à noite. Houve uma época em que trabalhei desde a oração do isha até a oração do fajr. Mesmo nesse intervalo, pessoas vinham visitar-me e também conversávamos.
Pergunta:No trabalho deste movimento e nessas circunstâncias, que atenção o senhor dava à sua saúde?
Resposta:Durante algum tempo, também fui descuidado com a saúde. Na verdade, houve uma época em que trabalhava pensando que precisava empregar todas as minhas forças, qualquer que fosse o resultado. Naquele período, trabalhava desesperadamente. Não me importava nem um pouco com a pressão que isso exerceria sobre meu corpo e minha saúde. Trabalhei dessa maneira de 1939 a 1942. Trabalhei sozinho. Não havia ninguém para ajudar. Eu sentia que, desse trabalho resultar ou não, deveria fazer tudo quanto pudesse. Naturalmente, não havia garantia de que seriam encontrados companheiros de trabalho nem de que o trabalho que eu estava realizando seria bem-sucedido.
Pergunta:O senhor ficou contente ao encontrar companheiros de trabalho e ao ver o trabalho do movimento crescer?
Resposta: Sim, isso é algo inteiramente natural.
Pergunta:Qual foi a sua reação quando foi enviado à prisão pela primeira vez?
Resposta:Desde o início eu havia mantido em mente que essa situação certamente surgiria, e ela não estava além da minha expectativa. Pelo contrário, era justamente isso que eu esperava. Isso também não me causava nenhuma tristeza.
Pergunta:Quando você foi preso pela primeira vez e saiu da prisão depois de passar vinte meses encarcerado, qual era o seu estado de espírito?
Resposta:Naquela época, não senti nenhuma felicidade ou tristeza especial. Eu trabalhava na prisão com todo conforto. A cada seis meses, o governo prorrogava o período da minha detenção. Nunca aconteceu de eu ficar contando os dias e, finalmente, chegar o dia da minha libertação. Eu tinha absoluta certeza de que eles não me libertariam de maneira alguma. Desde o início, eu estava preparado para que, depois de seis meses, o período fosse novamente prorrogado. Eu sabia que tipo de pessoas eram aquelas que detinham o poder naquela época. Por isso, não podia sequer esperar que o período não fosse prorrogado depois de seis meses. Eu já presumia que o período seria prorrogado todas as vezes e, então, tranquilamente voltava a trabalhar. Não sentia nenhuma ansiedade pela libertação.
Pergunta:Você imaginava que seria condenado à morte? Quando recebeu a notícia da sentença de morte, como ficou o seu estado de espírito?
Resposta:Na verdade, não é algo para ser anunciado aos quatro ventos. O que quer que eu diga hoje em resposta a esta pergunta talvez amanhã seja interpretado em sentido contrário. Em suma, há muito tempo eu esperava que, se a morte viesse, eu ainda pudesse contemplar uma vez o capítulo seguinte. Por isso, eu sentia grande alegria, pois, em primeiro lugar, teria a oportunidade de atravessar a porta da morte e ver as cenas do Além. Em segundo lugar, eu ficaria grato àquele que me martirizasse, garantindo assim a minha salvação na آخِرَت. Na verdade, eu sentia uma espécie de alegria. Naturalmente, também pensava: de onde eles tirariam a coragem para me enforcar? Eles querem se livrar de mim, pois a minha existência se tornara insuportável para eles. Por isso, era possível que aproveitassem esta oportunidade. Eu também desejava que assim fosse. Por isso, estava confiante e sem pesar.
Pergunta:Aconteceu algum acontecimento especial em sua vida que tenha mudado o rumo dela nessa direção?
Resposta:Eu não sou o tipo de pessoa cuja vida teria o rumo mudado por causa de algum acontecimento especial. Pesquiso com uma mente calma e serena e avanço gradualmente em uma direção. Apenas um acontecimento especial me deixou profundamente perturbado.
Depois de passar nove anos em Hyderabad, quando cheguei a Delhi em 1937, percebi que, durante esse período, os muçulmanos estavam se afastando muito rapidamente do Islã. A situação que encontrei em Delhi não existia em Hyderabad. As moças de famílias muçulmanas abastadas haviam começado a circular publicamente pelos mercados, algo que eu jamais poderia ter imaginado a respeito delas. Isso me perturbou profundamente. Ao ver a situação de Delhi, eu não conseguia dormir à noite, perguntando-me: o que aconteceu? Tanta mudança em nove anos? Era uma época em que um governo do Congresso havia sido estabelecido, fazendo com que, por toda parte, se percebesse apenas a predominância dos hindus. Essa situação era extremamente dolorosa. Em 1937, quando parti de Delhi rumo a Hyderabad, um líder hindu viajava comigo. Alguns muçulmanos começaram a conversar com ele. Pela conversa deles, parecia que os líderes do Congresso eram os senhores deste país, e os muçulmanos, seus súditos. Parecia que estes eram mendigos e aqueles, doadores. Fiquei ouvindo silenciosamente a conversa. Um quadro completo do que seria o futuro dos muçulmanos surgiu diante dos meus olhos. Depois desse acontecimento, escrevi “Siyasi Kashmakash — Volume I”. Sentado em Hyderabad, eu não conseguira formar, por meio dos jornais, uma ideia correta da situação; ao testemunhar esse acontecimento e percorrer os arredores, pude percebê-la corretamente. Foi isso que me inspirou a empreender esforços de luta de maneira organizada.
(Chirag-e-Rah — edição do Movimento Islâmico)
Algumas declarações históricas
* Este é o país da umma de Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), não o país da umma de Marx e Mao Tsé-Tung. Se tivermos de lutar pela religião de Allah, não hesitaremos sequer em lutar em dez frentes. Ao mesmo tempo, lutaremos contra o governo de um só homem e contra a irreligião. Enquanto estivermos vivos e tivermos a cabeça sobre os ombros, ninguém terá coragem de estabelecer aqui qualquer sistema que não seja o Islã.
* Irmãos, vocês já conhecem a minha atitude. Eles sabem muito bem qual é o meu crime. É melhor dar a vida na forca do que pedir perdão a eles.
* Se eu me sentar, quem permanecerá de pé?
* O tempo é um avaliador extremamente implacável. Você não será considerado genuíno em seus testes por nenhum meio artificial ou método forjado. Mas tenha certeza de que, se conseguir provar sua autenticidade por meio de suas ações, por mais que as forças adversárias tentem provar que você é falso, se Allah quiser, elas fracassarão. Não se assuste com a força da falsidade. Às vezes ela cresce como uma tempestade e, outras vezes, dissolve-se no vazio como uma bolha. Você não deve se preocupar em combater a falsidade; sua preocupação deve ser, antes, com a sua própria honestidade.
* O Islã e a civilização ocidental são agora como dois barcos que seguem exatamente em direções opostas. Se alguém embarcar em um deles, terá necessariamente de abandonar o segundo. E, se embarcar nos dois ao mesmo tempo, será dividido em dois.
* Chegou o momento de tomarmos a decisão final sobre permanecer ou não muçulmanos. Para continuarmos muçulmanos, devemos decidir transformar o nosso próprio ambiente e o mundo inteiro em “Dar al-Islam”. Se não tivermos sequer essa medida de coragem e determinação, devemos abandonar a pretensão de reivindicar o Islã. A questão de saber se a “revolução islâmica” é possível vem depois. A primeira questão é: existe entre vocês a determinação e o desejo de permanecer muçulmanos? Suponham que a revolução islâmica seja impossível. Suponham que, depois de ver a atividade fascista e o domínio total das forças do kufr na época atual, qualquer pessoa que se levante com o objetivo de estabelecer “Dar al-Islam” será certamente chamada de louca, e dirão que ela quer brincar com o fogo. Acreditem também que, falando francamente, quase perdemos o campo de batalha nesta época. Levantar-se para enfrentar essa situação parecerá certamente obra de loucos. Saibam também muito bem que o resultado será aquilo que os nossos líderes de fé fraca imaginam: isto é, cada átomo do céu e da terra se tornará seu inimigo. Saibam ainda de antemão que os campos inimigos do Islã se unirão e se levantarão contra vocês. Por outro lado, os muçulmanos não se unirão para avançar em seu auxílio; ao contrário, zombarão de vocês por essa “loucura”. Sabendo de tudo isso, perguntem sinceramente ao próprio coração se o sentimento e a emoção de permanecer muçulmano dentro dele chegaram ao nível dessa “loucura”. Precisamos somente daqueles em quem existe essa “loucura”, e somente eles podem conduzir o movimento de “Dar al-Islam”.
* É preciso saber bem, a respeito do haqq, ou da verdade, que ele é verdade por si mesmo. É o nome de um valor eterno, absolutamente correto e infalível. Mesmo que o mundo inteiro o abandone, ele continuará sendo a verdade. Pois o fato de ser verdadeiro não está condicionado à aceitação do mundo. A aceitação ou rejeição do mundo não é o critério para distinguir a verdade da falsidade. Se o mundo não aceitar a verdade, isso não faz com que ela fracasse. Pelo contrário, fracassa o mundo que, ao rejeitá-la, aceita a falsidade. As dificuldades e calamidades não recaem sobre a verdade, mas sobre os que seguem a verdade. Contudo, aqueles que, após refletirem e com plena convicção, decidem que devem permanecer firmes na verdade em qualquer circunstância e que devem sacrificar a vida e os bens para elevar sua mensagem, certamente enfrentarão dificuldades, mas jamais serão derrotados. Está registrado no hadith que vieram alguns profetas que passaram toda a vida convocando as pessoas para a verdade, mas nem sequer uma pessoa acreditou neles. Acaso os consideraremos fracassados? Não; fracassadas foram as nações que rejeitaram o haqq, ou a verdade, e aceitaram a liderança dos adeptos da falsidade.
Não há dúvida de que, no mundo, prevalece aquilo que as pessoas comuns aceitam. E aquilo que elas não aceitam não pode prevalecer. Mas a aceitação ou rejeição das pessoas não pode ser o critério da verdade e da falsidade. Se a maioria quiser tatear e tropeçar na escuridão, que continue livremente a tatear e tropeçar. Nossa tarefa é acender uma lâmpada na escuridão, e continuaremos a realizá-la por toda a vida. Buscamos refúgio em Deus contra nos desviarmos ou desviarmos outros do caminho. É uma graça infinita de Allah que Ele nos concedeu o tawfiq para acender uma lâmpada na escuridão. Demonstraremos nossa gratidão por essa graça morrendo enquanto continuamos a acender a lâmpada.
* A mesquita não é o único templo de Deus. Fora desse templo existe também uma segunda mesquita, muito, muito maior, cujo nome é mundo. Assim como, naquela pequena mesquita, a pessoa realiza cada ato e cada passo somente conforme as instruções de Allah, do mesmo modo, se realizar todas as suas atividades fora daquela mesquita segundo as instruções de Allah, isso será adoração, e esse é o significado de “din”.
* Toda a experiência da minha vida me diz que, no mundo, nenhuma força que tentou refugiar-se no interior de uma fortaleza conseguiu sobreviver. Pois esconder-se numa fortaleza por medo do confronto no campo de batalha é um sinal evidente de covardia. Allah não criou esta terra para estabelecer o domínio dos covardes.
Meus livros favoritos
“Li muitos livros da era da Jahiliyyah. Estudei profundamente numerosas obras sobre filosofia antiga e moderna, ciência, história, economia, política e outros assuntos. Mas, quando li o Alcorão Sagrado com os olhos abertos, realmente senti que tudo o que havia estudado até então era insignificante. Agora eu tinha alcançado a fonte do conhecimento. Kant, Hegel, Nietzsche, Marx e os demais grandes pensadores do mundo pareceram-me verdadeiras crianças. Sinto compaixão por eles, pois passaram a vida inteira tentando resolver certos problemas e escreveram grandes obras sobre eles, mas foram incapazes de apresentar suas soluções. Em contrapartida, neste Grande Livro, o Alcorão, as soluções adequadas para todos esses problemas são apresentadas em poucas palavras. Se esses pobres homens não tivessem permanecido ignorantes a respeito deste Grande Livro, não teriam desperdiçado a vida dessa maneira. Este é o meu único livro verdadeiramente favorito. Ele me transformou completamente. Fez de mim um ser humano depois de eu ser um animal. Tirou-me da escuridão e trouxe-me para a luz. Deu-me nas mãos uma lâmpada tal que, para onde quer que eu olhe na vida, a verdade se manifesta diante de mim de tal modo que não resta nela qualquer obscuridade. Em inglês, a chave que abre todo tipo de fechadura chama-se Master Key. Para mim, o Alcorão é a Master Key. Qualquer que seja a fechadura de um problema da vida à qual eu a aplique, ela se abre imediatamente. Não tenho palavras para agradecer ao Deus que concedeu este Grande Livro.”
As palavras valiosas acima constavam de uma carta que Maulana Sayyid Abul Hasan Ali Nadwi escreveu, em 31 de março de 1940, em resposta a uma carta de Maulana Sayyid Abul A’la Maududi, então editor da revista “An-Nadwa”.
A Liga Muçulmana da UP havia criado um comitê para elaborar um projeto de constituição islâmica, do qual Maulana Maududi também fora incluído como membro. Para que Maulana participasse da reunião desse comitê, que seria realizada na Nadwatul Ulama, ele recebeu um convite em nome do Nawab de Chhatari. Apresento também aos leitores a carta que ele escreveu a Sayyid Abul Hasan Ali Nadwi antes de participar da reunião.
Mubarak Park, Poonch Road, Lahore
24 de dezembro de 1940
Respeitado e honrado senhor
As-salamu alaikum.
Recebi sua carta. Hoje recebi a carta do senhor Nawab de Chhatari. Nela, ele me convidou a participar da reunião do comitê para a elaboração de um projeto de constituição islâmica. A reunião será realizada justamente em Lucknow, onde vocês estão. Não tenho, propriamente, grande interesse ou entusiasmo pelos senhores Nawab e por seu comitê. Se se tratasse apenas de participar da reunião do comitê deles, eu tentaria evitá-la. Mas, por meio da participação nesta reunião, surgiu uma oportunidade de estabelecer contato direto com a Nadwa e com vocês. Por isso, decidi ir a Lucknow. Inshallah, chegarei a Lucknow no dia 3 de janeiro. A organização de minha alimentação e hospedagem ficará sob sua responsabilidade. Quero ficar em um lugar onde pessoas de todos os tipos possam ir e conversar livre e abertamente. Quando fui a Aligarh, preferi ficar no Old Boys Lodge. A vantagem disso foi que pessoas de todos os partidos e opiniões puderam encontrar-se comigo sem hesitação. Quero um lugar desse tipo em Lucknow. Comunistas radicais e ateus convivem comigo, assim como convivem os crentes virtuosos. Para conversar com eles, é melhor um lugar onde não estejam pessoas diante das quais eles hesitem em comparecer.
Khaksar
Abul A‘la
A contribuição do Maulana Maududi
A vida de Allama Sayyid Abul A‘la Maududi (que Allah tenha misericórdia dele), seus ideais e seu pensamento, suas convicções e seu método de ação, sua conduta e seu caráter eram plenamente islâmicos e tão transparentes, puros e imaculados quanto um espelho. Todos os que o observaram de perto ou de longe, com mente aberta e imparcial, ficaram maravilhados com sua humanidade e grandeza elevadas aos céus, com sua simplicidade e seu tratamento cordial e afável.
Literatos, poetas, políticos, juristas, cientistas ou filósofos que discutiam com ele fluentemente sobre qualquer assunto acabavam curvando-se diante de sua erudição. Aqueles que, de longe, o julgavam um ‘katmulla de mente estreita’, ao conversar com ele o percebiam como um vasto e generoso oceano; viam nele um intenso desejo, não de afastar as pessoas, mas de atraí-las para perto. O comportamento humilde, modesto e desprovido de arrogância de um homem tão erudito e talentoso era, para muitos, uma grande surpresa.
Embora Maulana não tivesse recebido um certificado de nenhum Darul Ulum ou universidade, ele era um oceano de conhecimento. Assim, mesmo não tendo sido estudante universitário, lecionou gratuitamente, com competência e reconhecimento, em uma renomada faculdade. Depois de ler suas diversas obras e conversar com ele, pode-se afirmar sem dúvida que nada lhe era desconhecido, desde o Alcorão, o Hadith e a jurisprudência islâmica até os conhecimentos e as ciências modernas. A história dos diferentes povos do mundo e o relato de seus altos e baixos religiosos, políticos, sociais e morais estavam na ponta de seus dedos. Além disso, com o objetivo de obter um conhecimento profundo da psicologia dos portadores, propagadores e adoradores da civilização ocidental, peças teatrais e romances em línguas estrangeiras como o inglês e o alemão não foram excluídos de sua lista de leitura. Por isso, ele era, sem dúvida, uma enciclopédia do conhecimento.
Que Allah derrame Suas incontáveis misericórdias sobre o erudito religioso e mujtahid Sayyid Abul A‘la Maududi, criador de uma era no século XX, que dedicou cada momento de toda a sua vida à exaltação do Dīn al-Haqq e empregou nessa grande obra todas as forças de seu corpo e de sua mente, sem levar em consideração o próprio corpo e a própria saúde. Allah, o Altíssimo, também lhe concedeu a honra de ver, ainda em vida, as batidas de seu coração transformarem-se nas batidas do coração de todo o mundo islâmico.
Toda a sua vida foi composta de três capítulos: hijrah, jihad e shahadah. Ele se entregou ao caminho de Allah com tamanha concentração e devoção que recebeu com um sorriso todos os tormentos e perseguições infligidos pelo partido do falso, a prisão e até mesmo o cadafalso. Por isso, ele foi um mártir vivo, um homem mujahid.
Ele deixou para o mundo muçulmano contribuições tão inigualáveis que ninguém mais poderia ter oferecido. Gostaria de mencionar algumas delas como exemplos.
Um. Na era do declínio dos muçulmanos, tantas fitnas começaram a proliferar que os muçulmanos se afastaram do verdadeiro Islã. Uma delas foi a separação entre o dīn e a dunya. Como resultado, ouvia-se até da boca de um muçulmano, e mesmo de um erudito religioso, esta frase sarcástica: ‘Poder de governar? Parlamento? Tudo isso são assuntos mundanos. Reze, jejue, faça o hajj se puder, dê o zakat, recite o Kalam Sagrado, pratique o tasbih e o tahlil — isto é o Islã.’ Nessa era de declínio, foi pela primeira vez da boca de Maulana Maududi que ressoou o slogan: ‘O Islã é um sistema de vida completo.’ Ele ensinou a lição que havia sido esquecida, e hoje esse slogan ressoa e ecoa por todo o mundo muçulmano: o ensinamento fundamental do Islã é que não há aspecto ou esfera da vida que esteja fora do âmbito do Islã.
Dois.Se fosse elaborada uma lista de todas as fitnas criadas contra o Islã, ver-se-ia que não houve nenhuma fitna que ele não tivesse enfrentado com êxito. Deslumbrada pelo brilho sedutor da civilização e cultura materialistas do Ocidente, a juventude muçulmana avançava rapidamente em direção à rebeldia contra Allah.
A primeira tarefa que o Maulana empreendeu foi descobrir como proteger a juventude muçulmana e as gerações futuras do encanto da civilização ocidental. Em sua obra Tanqihat, ele analisou minuciosamente a civilização ocidental e demonstrou seu vazio interior. A amplitude e a influência, semelhantes às de um encantamento mágico, presentes na concepção de suas duas obras, Tanqihat e Tafhīmat, são dignas de ser contempladas. A arma de sua escrita dissecou as doenças fatais que afligiam a civilização materialista da Europa. Por meio de reflexões baseadas em pesquisas e de um pensamento científico, ele desferiu golpes mortais contra aquelas doutrinas que constituíam os fundamentos do materialismo, do ateísmo e do socialismo. Esses golpes deixaram os europeus desconcertados e despertaram extremo entusiasmo, vigor e inspiração entre a juventude muçulmana. A literatura do Maulana saciou a sede da juventude. Como loucos, eles correram em direção à moralidade e ao Islã. Foi pelas mãos puras do Maulana que Allah, o Altíssimo, providenciou a construção de uma barreira diante da inundação de irreligião e ateísmo que viera da Europa para este subcontinente. Ninguém mais realizou esse trabalho.
Três.A maior contribuição do Maulana Maududi foi ter criado entre os muçulmanos o incentivo para compreender o Alcorão. Havíamos esquecido que o Alcorão é a fonte mais confiável e preservada da orientação de Allah, o Altíssimo. Alguns eruditos, em vez de obter do Alcorão orientação para cada aspecto da vida, limitaram-no a amuletos, talismãs e exorcismos. Por outro lado, os orientalistas lançaram contra o Alcorão ataques tão devastadores que a sociedade moderna instruída ficou confusa, e alguns chegaram a alterar completamente o significado de certas passagens do Alcorão. Também se viu que alguns exegetas, ao interpretar, introduzem controvérsias que não têm relação nem com a vida nem com o Alcorão.
Muitas traduções são tão complexas e tão desligadas do contexto anterior e posterior que não se consegue compreender a mensagem original de Allah, o Altíssimo.
O Maulana Maududi realizou neste campo um trabalho tão extraordinário que uma súplica por ele brota espontaneamente do coração do leitor. O interesse da juventude pelo Sagrado Alcorão continua crescendo, e ela começou a sentir um sabor celestial ao estudar a Palavra de Allah. A linguagem de sua tradução é tão compreensível para o povo em geral que não é possível imaginar um estilo de exposição mais simples.
Além da força e da influência da linguagem, em seu tafsir Tafhīm al-Qur’an foi tomada uma providência especial para que o sistema de vida islâmico se apresentasse ao leitor de maneira harmoniosa. Se, no estudo do Alcorão, não se encontra a estrutura desse sistema de vida para o qual este Livro foi revelado e o Profeta de Allah foi enviado, então seu propósito não é cumprido. Sayyid Abul A‘la Maududi apresentou o quadro completo e o palácio perfeito desse sistema, e também se tornou plenamente visível toda a vida do patrono da humanidade — o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele —, que em vinte e três anos concluiu, conforme o projeto, a construção desse palácio.
Quatro.Outra contribuição valiosa é Sīrat-e Sarwar-e ‘Alam (A vida do Profeta). O Profeta Muhammad — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — era a imagem concreta do próprio Alcorão e ocupava o ápice da grandeza e das virtudes de caráter. É raro hoje encontrar uma biografia profética perfeita, em correspondência exata com o Alcorão revelado gradualmente ao longo de vinte e três anos. Assim como não é possível compreender o Alcorão ignorando a vida do Profeta, também não é possível conhecer corretamente o Profeta sem a ajuda do Alcorão. Na obra Sīrat-e Sarwar-e ‘Alam, ambos os temas foram esclarecidos de maneira bela. Nessa biografia encontram-se provas e argumentos tocantes de que o Profeta Muhammad — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — é, sem dúvida, o Profeta universal e o único guia e líder benevolente da humanidade de todos os tempos e épocas. O autor era ele próprio um apaixonado pelo amor ao Profeta, e em cada linha da obra se vislumbram lampejos desse amor. Esse amor pelo Profeta o inspirou a moldar a própria vida segundo o exemplo dele. As contribuições do Maulana Maududi são tão numerosas que poderiam constituir o tema de um livro. Sem seguir nessa direção, desejo agora mencionar algumas características de seu caráter.
Cinco.Muitos acusam o Maulana de ser contrário ao tasawwuf e de condenar os pīrs e os xeques. Na realidade, porém, tasawwuf não é um termo utilizado no Alcorão, no hadith, pelos Companheiros nobres nem pelos tābi‘īn. Mas, se por tasawwuf se entende a tazkiyah do Alcorão e o ihsan do hadith, então, certamente, o Maulana Maududi não era apenas um defensor do tasawwuf; era, antes, um sufi perfeito de altíssimo nível. Toda a sua vida é a prova real disso. Quem poderia ser um sufi maior do que aquele cujo temor, reverência e amor são exclusivamente por Allah; cuja confiança está unicamente em Allah; cuja ligação é somente com Allah; cujo coração está repleto da lembrança de Allah e no qual não há lugar para ninguém além de Allah? O Maulana Maududi era a personificação de tudo isso — não os seus acusadores.
Seis.O Maulana sempre se considerava um servo insignificante, de cabeça curvada por temor a Allah. Ele não gostava nem um pouco que alguém o elogiasse. Os líderes dos partidos seculares desejam que seus seguidores os elogiem efusivamente, encham os céus e a terra com gritos de “Viva!”, os recebam com guirlandas de flores ao pescoço ou com diversos presentes. Com isso, sentem grande satisfação pessoal. A natureza do Maulana, porém, era completamente oposta. A pena de morte do Maulana foi comutada para prisão com trabalhos forçados. Contudo, depois de vinte e cinco meses, ele foi libertado. Em seguida, reassumiu a responsabilidade editorial de Tarjuman al-Qur’an. Em seu artigo editorial, agradeceu àqueles admiradores que expressaram alegria por sua inesperada libertação. Em certo trecho do artigo, ele diz: “Ao mesmo tempo, não posso deixar de fazer este apelo: na expressão da alegria dos amigos, na manifestação de sua afeição e na demonstração de respeito, foram adotados modos e procedimentos que não preservaram o equilíbrio. Também me é difícil proibi-los, pois não gosto de demonstrações de espiritualidade e humildade, e aceitá-las também é difícil. Considero que essas coisas podem causar fitnah. Como teria sido melhor se meus amigos tivessem considerado suficiente expressar suas emoções por mim aquém dos limites do equilíbrio.” (Tarjuman al-Qur’an, volume 4, número 4)
Permitam-me relatar uma experiência pessoal. Em 1958, o Maulana veio visitar o então Paquistão Oriental. Em certo momento, ele iria de Dinajpur para Bogra. Eu o acompanhava. A linha ferroviária de Dinajpur a Bogra passava por Parbatipur, Joypurhat e Santahar. Eu disse: “Maulana, o senhor irá a Bogra justamente passando por Joypurhat, onde fica minha casa. Muitas pessoas de Joypurhat e Santahar virão recebê-lo.”
Ao ouvir minhas palavras, notei certa tristeza no rosto do Maulana. Ele disse claramente: “Irmão, não gosto nem um pouco que as pessoas, ao me verem, gritem slogans de ‘Viva!’ e coloquem guirlandas de flores em meu pescoço. Quero livrar-me desse incômodo. De modo algum passarei por Santahar e Bahura. Vamos por outro caminho.”
O Maulana não aceitou de modo algum seguir por esse caminho. Assim, tivemos de ir a Bogra passando por Rangpur, Kaunia e Gaibandha.
Muitas pessoas foram a Joypurhat e Santahar e, não encontrando o Maulana, voltaram com o coração pesado de tristeza. Na estação de Bahura, também vieram pessoas para recebê-lo e, não o encontrando, ficaram preocupadas. Sem que ninguém soubesse, descemos em Bogra e chegamos ao nosso destino.
Sete.O Maulana era um ‘Yindah Shahid’ — um mártir vivo. Por isso, não tinha o menor receio da morte. Há muitas provas contundentes disso. Durante o discurso do Maulana na Conferência de Toda a Jamaat-e-Islami do Paquistão, realizada em Lahore em 1963, um pistoleiro contratado disparou três vezes seguidas contra ele, de uma distância de dez ou doze côvados. O Maulana não temia a morte. Como se a própria morte tivesse medo, ela nem sequer se aproximou do Maulana. Pela ação do poder infinito de Allah, os três tiros da pistola desviaram-se do alvo, para proteger Seu servo amado. De todos os lados, as pessoas gritavam: “Maulana, sente-se! Sente-se!”
O Maulana respondeu com voz destemida e serena: “Se eu me sentar, quem ficará de pé?”
O Maulana deu a entender que permaneceria firme na Sirat al-Mustaqim, o caminho reto, sem temer a morte.
Não chamemos isso de uma karamat do Maulana; foi, antes, um milagre de Allah, que causou espanto no coração de todos, inclusive no do autor, presente no local do acontecimento.
Quando expunha as complexas teorias e informações do Alcorão e do Hadith numa linguagem simples, direta e concedida por Deus, capaz de tocar o coração, ele parecia ser o luminar dos eruditos do mundo muçulmano moderno, um porta-voz confiável do Islã e alguém que trazia a marca do conhecimento e da pesquisa islâmicos. Por isso, o mundo muçulmano o chamou de Al-Ustadh Al-Murshid, e a Rabita al-Alam al-Islami conferiu-lhe o título de Al-Imam Maududi.
Nos tempos atuais, a nação muçulmana chegou, na história, a uma situação extremamente crítica e repleta de crises. Em quase toda parte, está em curso um amplo esforço, apoiado por algumas forças estatais, para introduzir na vida social muçulmana todas as crenças, convicções e práticas, bem como todas as ideologias e doutrinas contrárias ao Islã. Socialismo-comunismo, capitalismo, os movimentos qadianita e Parteji, o nacionalismo baseado na língua, o nacionalismo árabe e outras ideologias e doutrinas estavam consumindo a força vital do Islã. Com sua poderosa pena, o Maulana quebrou a espinha dorsal de todas essas ideologias. Ele também expressou, em termos inequívocos, as consequências desastrosas do nacionalismo árabe. No Oriente Médio, a insatisfação e os protestos contra ele também começaram a ganhar força.
Certa vez, ao discursar numa reunião de juristas na Biblioteca Bar, ele pareceu ser um jurista que tudo sabia. Uma personalidade de fama internacional como A. K. Brohi sentiu-se, diante dele, um estudante de Direito. Ele elaborou com perfeição o esboço de um Estado islâmico completo e suas leis e regulamentos. Respondeu habilmente a todas as questões modernas sobre o assunto e dissipou todas as dúvidas e incertezas.
Seu talento político e sua visão de futuro eram extraordinários. Por isso, o quadro do futuro distante que ele traçava com base em sua perspicácia e visão políticas veio a se concretizar na realidade.
Sua grande contribuição para a comunidade muçulmana foi que, durante a era do declínio dos muçulmanos, quando as doutrinas e ideias ocidentais sem Deus, assim como a cultura e os costumes ocidentais, haviam obscurecido as mentes dos muçulmanos e transformado estes em escravos mentais dos senhores políticos do Ocidente, o Maulana, por meio de sua poderosa pena, demonstrou o vazio e o caráter destrutivo das doutrinas e ideias ocidentais e salvou a nação muçulmana de sua poderosa inundação. Mais do que isso, apresentou claramente ao mundo o Islã como o único sistema de vida completo, dinâmico, vivo e benéfico para a humanidade. Milhões e milhões de jovens instruídos e pessoas cultas do mundo estão compreendendo o Islã como um sistema de vida completo e formando, à sua luz, suas mentes, seus corações e seu caráter. O eco do Islã que hoje se ouve em todo o mundo é fruto da literatura do Maulana e de seu apelo islâmico universal.
O Maulana era um pensador de espírito prático. Seu apelo pelo bem-estar, desenvolvimento e progresso integral da humanidade era universal. Seu programa nesse campo era extremamente claro, natural e humano. Por meio da análise da biologia, da ciência sexual, da medicina, das ciências naturais e sociais, entre outras, ele tornou claro aos pensadores o que poderia ser uma relação saudável, bela, harmoniosa e feliz entre homens e mulheres, bem como quais seriam seus métodos. Em suma, Maulana Maududi foi um pensador extraordinário e uma contribuição especial para o mundo muçulmano e para a civilização humana.
Ele possuía um caráter incomparável. Jamais foi visto irritar-se com alguém ou usar qualquer linguagem grosseira. Nunca se enfureceu nem mesmo diante de qualquer mau comportamento de familiares, filhos e filhas, empregados, colegas de trabalho ou amigos, e nunca proferiu sequer uma palavra que pudesse ferir o coração. Essa era a rigorosa educação que recebera na infância de seu pai afetuoso, e que observou durante toda a vida. Contudo, para corrigir falhas, fazia críticas por meio do humor.
Mesmo nos momentos de extremo perigo, não se via qualquer sinal de reação em seu rosto. Em meio às tristezas e privações naturais, cercado pela polícia, numa cela estreita de prisão ou ao ouvir a sentença de morte, seu habitual sorriso doce, suave e afável não desaparecia. Era como se dissesse: «Pouco me importo» com tudo isso.
Embora vários partidos políticos e os chamados líderes da comunidade tivessem lançado sobre ele uma torrente incessante de insultos, calúnias infundadas e fatwas, ele nunca usou palavras ofensivas contra eles. Pelo contrário, perdoou-os para sempre. Seu coração era límpido, puro e generoso, acima de toda espécie de impureza e mácula. Ainda assim, as calúnias e os insultos deles não cessaram. Quando sua atenção foi repetidamente chamada para esse assunto, ele disse:
“Percebo que eles estão empenhados em tornar mais pesada a balança das minhas boas ações. Por isso, sou-lhes grato.”
Assim como sua mente era limpa, também suas roupas eram asseadas, de bom gosto moderno e portadoras da civilização e cultura islâmicas. Sua casa era impecavelmente limpa e brilhante, sem o menor vestígio de sujeira, sob um ambiente de pureza e decoro irrepreensíveis. Seus livros, documentos e materiais de escrita eram mantidos de maneira bela e ordenada, cada coisa em seu devido lugar, como se tivessem sido dispostos pelas mãos de um artista perfeito. Sua alimentação era simples e despretensiosa, mas de acordo com o gosto da classe aristocrática de Délhi.
Diante de seu rosto luminoso e sempre sorridente e de sua conversa amável, ninguém desejava se levantar. Essa era uma grande atração de sua personalidade, uma doce característica de seu caráter.
Orar atrás dele proporcionava uma doce alegria celestial. Quando recitava o qirāʾat da oração lenta e claramente, com uma voz baixa e melodiosa, por um lado parecia derramar mel sobre os ouvidos; por outro, despertava na mente uma concentração completa na oração e uma extraordinária sensação da proximidade de Allah, o Altíssimo.
Uma das principais características do caráter do Maulana era que seus ideais e seu modo de pensar se refletiam concretamente em toda a sua vida. Ele não moldou apenas a si mesmo segundo esses ideais; a forma de vida de incontáveis filhos da humanidade, perdidos e pertencentes a diferentes povos e línguas do mundo inteiro, também foi transformada.
O Maulana também levava uma vida extremamente disciplinada. Seus horários para comer, estudar, receber pessoas e dormir eram determinados. Ele não permitia facilmente que houvesse desvios dessa rotina. Naturalmente, somente quando saía em viagem é que, em alguns lugares, ocorria alguma exceção.
O Maulana dizia que, no passado, havia submetido seu corpo a uma terrível violência. Não tinha tempo para comer nem dormir. Durante muitos anos, estudou do momento da oração de ʿIshāʾ até o Fajr. Como resultado, sua saúde ficou completamente debilitada. Ele dizia que, mais tarde, foi obrigado a regular e disciplinar sua alimentação e seu sono.
Certa vez, num lugar do Paquistão Oriental, haviam preparado muitos alimentos para acompanhar o chá da tarde. O Maulana disse que, pela manhã, tomava chá com torradas, ovos fritos e algumas frutas. À tarde, apenas uma xícara de chá.
O Maulana tinha o hábito de, depois da oração do Asr, ir sentar-se no pequeno jardim fora de casa. Visitantes de dentro e de fora do país se reuniam ali, faziam perguntas de vários tipos, e o Maulana respondia. Para essa reunião da tarde vinham pessoas dos países árabes, do Japão e da Noruega, da Malásia e da Indonésia, da Turquia e da Europa e América. Era como uma colmeia internacional. Pessoas sedentas de conhecimento acorriam em busca de saber. O Maulana respondia às perguntas de todos. Assim, saciava a sede de conhecimento de todos.
O Maulana costumava fazer muitas brincadeiras nas conversas. Certa vez, foi à cidade de Saidpur, no distrito de Rangpur. À tarde, os comerciantes e pessoas importantes da cidade conversaram com o Maulana. No decorrer da conversa, o Maulana perguntou a um cavalheiro o que ele fazia.
Cavalheiro — Trabalho com o comércio de couro.
Maulana — Couro de quê? De frango, por acaso?
Um pouco constrangido, o cavalheiro respondeu apressadamente: — Não, senhor, couro de vaca e de cabra.
Maulana — Ah, é mesmo? Desde Daca, em todos os lugares aonde fui, só comi frango e mais frango. Em lugar algum encontrei carne de cabra. Por isso, pensei que neste país talvez também existisse comércio de couro de frango.
O anfitrião inteligente não teve mais dificuldade para compreender que deveria servir carne de cabra ao Maulana.
Em meados de 1963, certa vez o Maulana foi a Rawalpindi. Fomos recebê-lo no aeroporto de Chaklala.
Após uma calorosa recepção, antes de entrar no carro, o Maulana tirou um paan da caixa e o pôs na boca. O Maulana sabia que eu era consumidor de paan. Por isso, deu-me também um. Quando estendi a mão para pegar o zarda, ele disse, brincando
— Oh! Você já tornou o paan halal, rapaz.
Respondi: — Maulana! O paan é halal em qualquer momento.
Maulana: — Quando é que o paan sem zarda se torna halal?
O Maulana partiu deste mundo. Concluiu plenamente sua obra, e realizou o propósito de sua vida. Sua dedicação, sua da‘wat universal e os frutos de seu conhecimento que deixou para trás o manterão imortal para sempre. Ele deixou um inestimável tesouro literário e incontáveis filhos espirituais, espalhados por todo o mundo. A obra que deixou continuará ao longo das eras, por séculos e séculos.
Apêndice 1
Allama Iqbal convidou o Maulana Maududi a emigrar para o Punjab. Abaixo, apresentam-se algumas das cartas que, em seu nome, Saiyid Nazir Niazi trocou com o Maulana a esse respeito:
(Cópia da carta escrita pelo Maulana a Sayyid Nazir Niyazi)
Tarjuman-ul-Qur’an
Hyderabad do Decão
17 de Jumada al-Ula de 1356 H.; 26 de julho de 1937.
Meu respeitado e honrado senhor, que a paz esteja convosco.
Recebi sua carta de consideração. Sou grato por você ter expressado claramente sua opinião. Também quero dizer algumas coisas com franqueza. Estabeleci para minha vida um objetivo e alguns princípios fundamentais. Pela graça de Deus, tenho em mim firmeza suficiente para que, por maior que seja a dificuldade, de modo algum aceite afastar-me do meu objetivo ou alterar qualquer um dos meus princípios. Todas as dificuldades que enfrento agora decorrem precisamente das obrigações que impus a mim mesmo. Caso contrário, esta tempestade de perigos poderia passar. Entre as obrigações que impus a mim mesmo está a de não pedir ajuda financeira a ninguém para meu próprio sustento. A segunda é não pensar em receber remuneração por qualquer serviço nacional ou religioso. A terceira é não me envolver na busca de qualquer lucro que me impeça de trabalhar livremente, segundo meu próprio juízo, no interesse da religião e da comunidade. (Há ainda algumas outras obrigações, mas elas não estão relacionadas com o assunto em questão.) Agora você mesmo pode compreender quão difícil é para mim aceitar o que disse. Não quero ajuda alguma para mim, nem mesmo um centavo, quanto mais cem rúpias. Para minhas despesas pessoais, iniciei uma atividade comercial. Posso fazê-la também em Lahore. Ser imame da Mesquita Shahi é uma bênção inesperada para mim. Que oportunidade de trabalhar poderia ser maior do que essa? Contudo, embora para mim não seja ilícito exercer o imamato mediante remuneração, isso é certamente fortemente makruh. Durante quatrocentos anos, houve consenso entre os muçulmanos de que não era permitido receber remuneração por dirigir as orações e ensinar o Alcorão. Mais tarde, a deterioração das circunstâncias tornou isso permitido. Desde então, essas duas funções perderam sua dignidade e vitalidade. Compreendo bem essa verdade. Por isso, nem consigo pensar em exercer o imamato mediante remuneração. Contudo, se esse serviço me for confiado sem remuneração, estou pronto para aceitá-lo de todo o coração e com toda a minha alma.
Resta agora a questão de manter-me afastado da política. Para isso, de modo algum estou preparado. Não me voltei para a atividade política levado por uma emoção passageira. Pelo contrário, depois de refletir, cheguei à conclusão de que agora preciso sair do meu canto isolado e fazer alguma coisa. Os muçulmanos encontram-se hoje em uma crise extrema. Deixemos de lado aqueles de quem não se esperava que oferecessem orientação correta. Hoje, até mesmo aqueles de quem se esperava tudo estão oferecendo uma liderança equivocada. A expansão do movimento do Congresso provocou uma cisão entre os muçulmanos. Todos os dias chegam notícias de pessoas abandonando seus grupos. O partido de Jawaharlal está rapidamente ampliando sua influência entre o povo. A eleição de Jhansi deixou claro até que ponto a opinião pública muçulmana foi influenciada. A margem que agora resta entre o Congresso e o não-Congresso é muito pequena. Pela leitura das declarações dos líderes muçulmanos e dos artigos da imprensa muçulmana, pode-se estimar quão poucas são as pessoas capazes de compreender a verdadeira posição da Índia muçulmana e diante das quais o caminho correto está inteiramente claro. Em tal situação, pense: como pode ser razoável que, entre as poucas pessoas restantes, uma delas imponha a si mesma a obrigação de um emprego, ainda por cima de cento e cinquenta ou duzentas rúpias? Se eu considerasse isso razoável, que necessidade haveria de eu ir para Lahore? Na Universidade de Osmania há um cargo de quatrocentas rúpias disponível para mim. Por que não o aceitaria? A única razão pela qual quero dirigir-me a Lahore é que, na minha opinião, o destino da Índia muçulmana — que agora está muito próximo de ser decidido — depende da força das três províncias do norte. Quero ir estabelecer-me naquele Dar al-Islam e ver que oportunidades existem ali para fortalecer o poder do Islã e utilizá-lo para o trabalho. Daqui não consigo avaliar isso. Assim que chegar lá, procurarei oportunidades. Qualquer oportunidade que encontrar, dela tirarei proveito. Para obter esse tipo de benefício, quero manter minha mente, meu intelecto, minhas mãos e meus pés completamente livres e independentes. A qualquer preço, não posso aceitar uma obrigação que se torne um obstáculo para aproveitar qualquer oportunidade de servir à religião e à comunidade.
Espero que você tenha compreendido bem meu ponto de vista. As dificuldades que mencionei em minha carta anterior são as seguintes: as despesas mensais de Tarjuman-ul-Qur’an chegam a cerca de trezentas rúpias. Atualmente não há entre o povo um número suficiente de assinantes para que as despesas da revista possam ser cobertas por suas contribuições. O governo de Nizam compra 275 exemplares. É graças a isso que a revista continua funcionando. Se eu for para Lahore, é muito provável que, além de arcar com minhas despesas pessoais, tenha também de suportar o peso do prejuízo financeiro da revista. Para mim, tornar isso administrável se tornaria praticamente impossível. Esse problema poderia ser resolvido da seguinte maneira: vocês poderiam tentar divulgar e ampliar a circulação de Tarjuman-ul-Qur’an no Punjab utilizando seus próprios meios. Se eu puder esperar que o número de assinantes chegue a quinhentos, ficarei tranquilo quanto à revista. Não quero tirar nada da revista, mas não tenho sequer condições de dar-lhe alguma coisa.
É uma grande sorte para mim participar, junto com Allama Iqbal, do trabalho de formar um novo sistema social islâmico. Estou pronto para prestar todo serviço possível. Porém, não necessito de qualquer subsídio financeiro para isso.
O humilde servo
Abul A‘la.
(Segunda carta)
Tarjumanul Qur’an, Hyderabad
13 de agosto de 1936
Meu respeitado e honrado senhor, que a paz esteja convosco.
Recebi sua carta de 2 de agosto. Conforme sua carta, farei a Hégira com firme determinação e confiando em Deus. Decidi fazer de Lahore meu último local de residência. Há algumas dificuldades, e levará algum tempo para resolvê-las. Precisarei de uma quantia considerável para transferir toda a bagagem daqui e quitar algumas de minhas dívidas financeiras. As dívidas de Tarjumanul Qur’an ultrapassam mil rúpias. É preciso pagá-las. Também serão necessárias aproximadamente mil rúpias para levar a bagagem e encerrar aqui meus negócios, recomeçando-os em Lahore. Para esse fim, quero vender um terreno e alguns bens imóveis que possuo. Espero que tudo isso esteja resolvido dentro de três ou quatro meses. Enquanto isso, irei uma vez a Lahore para verificar que providências preciso tomar para morar ali. Pretendo viajar até o fim do próximo mês de Rajab. Depois de permanecer quatro ou cinco dias em Délhi, chegarei a Lahore no fim de Rajab ou no início de Sha’ban. Nessa ocasião, insha’Allah, também ficará decidido o que devo escrever sobre os cadianitas. Até agora, na verdade, não estudei muito esse assunto. Tudo o que pude saber sobre ele veio exclusivamente dos livros de Bani Sahib. Mas isso não é suficiente para escrever algo de caráter investigativo. Consultarei aqueles em Lahore que têm bastante conhecimento sobre o cadianismo e reunirei, com eles, material para a redação.
Observação: Não foi possível obter uma cópia da carta do senhor Nazir Niyazi.
Khaksar
Abul A’la.
Apêndice – 2
Carta dirigida a Maulana Maududi pelo senhor Nazir Niyazi, secretário particular de Allama Iqbal:
25, Macleod Road, Lahore
18 de abril de 1938
Meu respeitável, assalamu alaikum,
Espero que esteja bem pela graça de Allah, o Altíssimo. Há alguns dias, soube pelo senhor Saiyid Muhammad Shah que o senhor chegou a Jamalpur e que em breve também virá a Lahore. Desde então, tenho aguardado continuamente a sua chegada. O Doutor Sahib diz que, se realmente pretende vir a Lahore, venha imediatamente, para que possamos nos encontrar.
O que quero dizer é que o estado do Doutor Sahib Qibla é muito preocupante. Não há qualquer garantia de que disponha sequer de um momento. Mas mantenha isso estritamente entre nós e não conte a ninguém.
Portanto, seria melhor que viesse o mais depressa possível. Reze pela saúde do Doutor Sahib.
Seu sincero
Niyazi
Resposta de Maulana Maududi
Tarjumanul Qur’an
Darul Islam, Pathankot
23 de abril de 1938
Meu respeitado senhor, assalamu alaikum
Eu estava me preparando para partir conforme prometera, quando, de repente, recebi a notícia do falecimento do Allama. Meu coração ficou completamente arrasado. Minha maior tristeza é ter perdido uma oportunidade tão grandiosa e preciosa. Se eu soubesse, teria deixado tudo e chegado imediatamente. Considero um infortúnio extremo ter sido privado do último encontro com ele, alguém cujo igual provavelmente não encontrarei em lugar algum.
A morte do Maulana Muhammad Ali constitui a segunda maior perda para os muçulmanos e, em minha opinião, é ainda maior que a primeira. Não sei qual é a vontade de Allah. Aparentemente, pensamos que os muçulmanos estão sendo punidos por sua ingratidão e incompetência, com a retirada de seu melhor homem justamente quando sua necessidade dele era maior. Agora, olhando para todo o Hindustão, não se vê ninguém como ele a quem se possa recorrer em busca de ajuda. A escuridão tomou conta de todos os lados. Uma lâmpada ainda tremeluzia; ela também foi retirada.
O que me atraiu para o Punjab foi a personalidade de Iqbal. Vim para cá na esperança de receber orientação dele. Sob sua liderança, eu faria pelo Islã e pelos muçulmanos tudo o que estivesse ao meu alcance. Agora sinto que fiquei completamente sozinho neste mar revolto pela tempestade. O estado debilitado de minha mente chegou ao extremo. Consolo-me apenas pensando: “Que importa se Iqbal morreu? Allah está presente. Todos são mortais. Somente Ele, o Hayy e Qayyum, é eterno. Se Ele quiser obter algum trabalho de você, providenciará outros meios e recursos para ajudá-lo.”
Meu querido irmão! Você permaneceu junto do Allama até o fim. Se ele deixou alguma mensagem para mim, por favor, certamente me informe.
O seu humilde servo
Abul A’la
P.S.: Eu estava pensando em enviar uma mensagem de condolências aos que lhe sobreviveram. Depois, ocorreu-me que os seus sobreviventes (Sobreviventes) somos todos nós. E todos nós temos o direito de encontrar consolo nesta tristeza.
Biografia de Maulana Maududi (que Allah tenha misericórdia dele)
| 1903 | 25 de setembro. Nasceu na cidade de Aurangabad, no Decão de Hyderabad. |
| 1903–13 | Educação primária em casa. |
| 1914 | Aos onze anos de idade, foi aprovado no exame de maulvi. |
| 1916 | Ingressou no Darul Uloom de Hyderabad para obter educação superior. |
| 1917 | Permaneceu em Bhopal, cuidando do pai enfermo. |
| 1918 | Aos quinze anos, ingressou no campo do jornalismo. Assumiu a direção do jornal «Madina», publicado em Bijnor. Juntou-se ao movimento do Califado. |
| 1919 | Membro ativo da organização «Anjuman-e Yante Nazarbandane Islam». |
| 1920 | Falecimento do pai. Assumiu a edição do diário «Taj», em Jabalpur. |
| 1921 | Foi para Deli, onde adquiriu conhecimento sobre hadith, tafsir, fiqh e outras áreas islâmicas, além de aprender inglês. |
| 1922 | Assumiu a edição de «Muslim», órgão oficial da Jamiat Ulama-i-Hind. |
| 1923 | Após o encerramento de «Muslim», foi para Bhopal e dedicou-se à aquisição de conhecimentos profundos. |
| 1924 | No início do ano, foi para Délhi. A convite de Maulana Muhammad Ali e de Maulana Ahmad Said, da Jamiat Ulama-e-Hind, respectivamente, foi chamado a assumir a edição dos jornais «Hamdard» e «Al-Jamiat». |
| 1925 | Assumiu a responsabilidade editorial do jornal «Al-Jamiat». |
| 1927 | Aos vinte e quatro anos, escreveu a obra universalmente aclamada «Al-Jihad fi al-Islam». |
| 1928 | Devido a divergências com a direção da Jamiat quanto à questão do apoio ao Congresso Nacional Indiano, demitiu-se do jornal «Al-Jamiat». |
| 1930 | Retorno a Hyderabad. Redação da obra Diniyat (Introdução ao Islã). |
| 1931 | Dedicação, durante todo o ano, à redação de obras. |
| 1932 | Publicação, a partir de Hyderabad, do periódico mensal Tarjumanul Qur’an. |
| 1933 | Redação da obra intitulada «O Islã, sua civilização, seus princípios e fundamentos». Redação das obras «A essência da cultura islâmica» e «A realidade do destino». |
| 1933–1938 | O conflito entre o Islã e a civilização ocidental e a elaboração dos volumes 1 e 2 de Tafhimat. |
| 1934–1935 | Elaboração de obras e início da apresentação pública do chamado islâmico. |
| 1935 | Elaboração de uma obra sobre os direitos dos cônjuges e o controle de natalidade à luz do Islã. |
| 1936 | Início da troca de correspondência com Allama Iqbal. Elaboração de um projeto preliminar de educação abrangente a pedido da Universidade Muçulmana de Aligarh. |
| 1936–37 | Redação das obras Introdução ao Islã, Juros e Purdah. |
| 1937–39 | Encontro com Allama Iqbal em Lahore. O apelo de Allama Iqbal para que o Maulana se transferisse de Haiderabad para o Punjabe. Publicação de artigos sob o título “Muçulmanos e a atual crise política”. |
| 1937–30 | Publicação da revista “Tarjumān al-Qur’ān”. |
| 1938 | 16 de março. Transferência de Haiderabad para o Punjabe. Fundação de “Darul Islam”, em Pathankot. Publicação de artigos revolucionários e capazes de provocar grande repercussão, sob o título “Islã e nacionalismo” (“Mas’ala-e Qawmiyyat”). Publicação da obra Série Khuturat-e Haqiqat. |
| 1939 | Publicação de «Renovação e revitalização da religião», «Uma análise investigativa das práticas islâmicas» e de outras obras fundamentais. Elaboração das obras A doutrina política do Islã e A essência da adoração islâmica. |
| 1940 | A Liga Muçulmana formou um comitê para elaborar um projeto de sistema estatal islâmico e nomeou o Maulana como seu membro. Proferiu na Universidade de Aligarh uma esclarecedora palestra sobre o tema «Islami Hukumat Kis Tarah Qaim Hoti Hai», publicada em forma de livro e, respectivamente, em inglês e bengali, sob os títulos The Process of Islamic Revolution e O caminho da revolução islâmica. Publicação das obras O movimento da Renascença Islâmica, O caminho da revolução islâmica e Um importante istifta. |
| 1941 | 26 de agosto. Fundação da Jamaat-e-Islami com setenta e cinco pessoas, e eleição do Maulana como seu Amir. |
| Elaboração das obras Os quatro termos fundamentais do Alcorão, Islã e jahiliyyah, O novo sistema educacional, A solução islâmica para os problemas econômicos e A necessidade de um partido íntegro. | |
| 1942 | 15 de junho. O escritório central da Jamaat foi transferido de Lahore para Darul Islam, em Pathankot. |
| 1942–47 | Publicação das obras Rasail o Masail e Shantipath. |
| 1943 | Início do mundialmente famoso tafsir “Tafhimul Quran”. Redação das obras “A Única Religião” e “A Punição do Apóstata na Lei Islâmica”. |
| 1944 | Redação das obras “A Perspectiva Ética do Islã” e “A Realidade do Shirk”. |
| 1944–46 | Esforços incansáveis para organizar e fortalecer o movimento islâmico e ampliar sua influência. Publicação de diversos livros e periódicos. |
| 1945 | A realidade do Tawhid |
| Socialismo e Islã. | |
| 1946 | Publicação das obras O testemunho da verdade e O chamado islâmico e a política de ação. |
| 1947 | 30 de agosto. Em consequência dos tumultos e motins comunitários por toda parte, e depois de Peshawar ser cercada por hindus, os poucos habitantes muçulmanos de Peshawar foram obrigados a emigrar para Lahore, e o escritório central da Jamaat-e Islami foi transferido para Lahore. A Jamaat tomou medidas práticas para o reassentamento dos muhajirins despojados de tudo e sem raízes. Primeiro discurso radiofônico do Maulana, transmitido pela Rádio Paquistão, sobre a “qurbani”. |
| 1947 | Publicação das obras O chamado da Jamaat-e-Islami, Construção e desconstrução e A realidade da taqwa. |
| 1948 | Cinco meses após a criação do Paquistão, teve início a luta pela implantação de uma ordem social islâmica no país. Em 6 de janeiro, ao proferir um discurso no Colégio de Direito de Lahore, apresentou a exigência de estabelecer um sistema estatal baseado na lei islâmica. Em 6 de março, numa reunião pública realizada no Parque Jahangir, em Karachi, apresentou quatro exigências para um sistema de governo islâmico. De abril a setembro, realizou-se em todo o país uma campanha de reuniões e assembleias para exigir um governo islâmico e formar a opinião pública. O governo dirigiu contra o Maulana a falsa acusação de que ele havia declarado ilícita a jihad da Caxemira. Em 12 de outubro, o Maulana foi preso com vários companheiros e enviado para a prisão. Publicação das obras O modo de vida do Islã, A lei islâmica, Os direitos dos não muçulmanos no Estado islâmico e A liberdade segundo as exigências islâmicas e as demandas do sistema islâmico. |
| 1949 | 12 de março. Como resultado do movimento da Jamaat, o governo aprovou a Resolução de Objetivos. No segundo dia, a Majlis-e-Shura expressou satisfação com isso. De 6 a 8 de maio, realizou-se em Lahore, durante três dias, a primeira conferência de toda a Jamaat-e-Islami do Paquistão. |
| 1949–50 | Redação das obras Juros — 2.º volume, Disposições sobre a propriedade da terra, Propriedade nacional e A mulher paquistanesa numa encruzilhada. |
| 1950 | 28 de maio: libertação do Maulana da prisão. Discursos em assembleias públicas por todo o país. Como o projeto de Constituição proposto pelo governo não estava de acordo com o Islã, foram apresentadas veementes manifestações contra ele e exigida sua rejeição. |
| 1951 | Realização, em Karachi, da histórica Conferência dos Ulemás de todos os partidos. Por consenso unânime, foram adotadas 22 recomendações constitucionais. Em novembro deste ano, realizou-se em Karachi a segunda Conferência de Toda a Assembleia do Paquistão da Jamaat-e-Islami. |
| 1952 | Apresentação de oito reivindicações à Assembleia Constituinte encarregada de elaborar a Constituição. Movimento em todo o país em favor de uma Constituição islâmica. Participação do Maulana, em Karachi, na Conferência de todos os partidos, com a exigência de que os cadianitas fossem declarados uma comunidade minoritária. |
| 1953 | Fevereiro — anúncio de uma “ação direta” por parte da Conferência de todos os partidos. O representante do Maulana opôs-se à ação direta e boicotou a conferência. O Maulana elaborou o livreto intitulado “O problema cadianita”. |
| Em 28 de março, o Maulana foi preso sob a lei marcial; em maio, foi apresentada uma acusação contra ele perante um tribunal militar. Em 11 de maio, o tribunal militar anunciou a sentença de morte do Maulana. Em consequência dos intensos protestos e manifestações em todo o mundo, a pena de morte foi comutada para prisão perpétua. Mais tarde, essa pena foi reduzida para três anos e meio. | |
| 1955 | A libertação do Maulana em 29 de maio de abril ocorreu por razões puramente legais. Em novembro, realizou-se em Karachi a terceira conferência de toda a organização do Paquistão da Jamaat, conferência. |
| 1956 | Movimento nacional em todo o país pela constituição islâmica. A bem-sucedida viagem de dois meses do Maulana pelo Paquistão Oriental. Ênfase nos problemas do Paquistão Oriental. |
| 1957 | Realizou-se em Machigote a conferência de membros de toda a organização do Paquistão da Jamaat. O Maulana proferiu um discurso histórico. |
| 1958 | Em 7 de outubro, enquanto proferia um discurso numa assembleia pública no Portão Mochi, em Lahore, o Maulana emitiu uma advertência ao governo. No dia seguinte, a lei marcial foi imposta em todo o país. |
| 1959 | Viagem ao Oriente Médio e realização do Hajj com o objetivo de ver pessoalmente os lugares mencionados no Alcorão (Ard al-Qur’an), para a obra Tafhim al-Qur’an. Durante a viagem, proferiu discursos em toda parte, dando especial ênfase à unidade do mundo muçulmano. |
| 1960 | Dezembro. A convite do Xá Saud, foi novamente à Arábia Saudita e apresentou um projeto preliminar para a Universidade de Medina. |
| 1961 | Movimento vigoroso contra a Ordenança das Leis de Família introduzida por Ayub Khan. Depois de tomar providências para viajar a convite dos muçulmanos da África, a viagem foi injustamente impedida pelo governo. Luta contra os que negam os hadiths. |
| 1962 | Participou da Conferência Islâmica Mundial realizada em Meca, a Venerável. Fundação da organização Rabita al-Alam al-Islami. Maulana foi eleito membro vitalício do comitê fundador. |
| 1963 | Durante o discurso inaugural da Conferência de Toda a Jamāʿat-e Islami do Paquistão, em Lahore, dispararam contra Maulana. Um membro da Jamāʿat alcançou o martírio. Fracassaram todas as tentativas do governo de impedir a realização da conferência. |
| 1964 | 4 de janeiro. A Jamāʿat foi declarada ilegal. Maulana foi preso juntamente com os membros do Majlis-e Shura Central. |
| 19 de janeiro. Confisco de todos os documentos e registros da Jamāʿat. Intensificação da propaganda governamental contra a Jamāʿat. Em 25 de setembro, a decisão da Suprema Corte declarou ilegais as medidas tomadas pelo governo. | |
| 1965 | Pouco antes de Maulana participar da reunião da Universidade Islâmica de Medina, seu passaporte foi confiscado. Em 6 de setembro, a Índia atacou o Paquistão. Maulana proferiu consecutivamente seis discursos sobre o “jihad” pela Rádio Paquistão. Em nome da Jamāʿat, foram distribuídos entre os refugiados artigos de ajuda no valor de milhões de rúpias. |
| 1966 | Na conferência nacional multipartidária realizada em Lahore, crítica ao Acordo de Tashkent. Viagem ao Paquistão Oriental. Na reunião da Rabita al-Alam al-Islami, distribuição de um livreto elaborado pelo Maulana, em árabe e inglês, contendo numerosas teorias e informações sobre a Caxemira. |
| 1967 | O Maulana e outros quatro renomados ulemas foram presos por causa da observação da lua nova do Eid. |
| 1968 | Viagem a Londres para tratamento médico. Discurso do Maulana em uma recepção organizada no Hotel Hilton de Londres pelos muçulmanos residentes na Inglaterra. |
| 1969 | Participação na Conferência da Mesa-Redonda convocada por Ayub Khan com o objetivo de solucionar os problemas políticos. Participação na conferência de fundação da Universidade Islâmica do Marrocos. |
| 1970 | Conforme o anúncio do Maulana, o “Dia da Glória do Islã” foi celebrado em todo o Paquistão. |
| 1972 | Conclusão de “Tafhim al-Qur’an” e publicação do sexto volume. Devido a uma doença persistente, renunciou ao cargo de amir da Jamaat-e-Islami. |
| 1979 | 21 de maio. Viajou para a América para tratamento médico. |
| 4 de setembro. Foi submetido a uma cirurgia na bexiga. | |
| 22 de setembro. Faleceu às cinco e quarenta e cinco da tarde, segundo o horário do Paquistão. (Certamente, pertencemos a Deus e a Ele retornaremos.) |
Bibliografia das obras de Maulana Maududi por tema
| Título do livro traduzido para o bengali | Páginas | Título original do livro em urdu | Ano de publicação |
| A. Alcorão | |||
| 1. Tradução do Sagrado Alcorão | 1248 | Tradução do Nobre Alcorão | 1973 d.C. |
| 2. Tafhim al-Qur’an, volumes 1–19 | 4165 | Tafhim al-Qur’an, 6 volumes | 1943–1972 |
| 3. Índice temático de Tafhim al-Qur’an | 540 | Temas corânicos | |
| 4. Os quatro termos fundamentais do Alcorão | 119 | Os quatro termos fundamentais do Alcorão | 1941 d.C. |
| 5. A essência do Alcorão | 48 | Prefácio de Tafhim al-Qur’an | |
| b. Hadith / difícil | |||
| 6. O estatuto jurídico da Sunnah do Mensageiro | 336 | Qual é o estatuto jurídico da Sunnah | 1963 d.C. |
| 7. A grandeza e o mérito do Alcorão | 133 | As virtudes do Alcorão (à luz do Hadith) | 1977 d.C. |
| c. Filosofia de vida islâmica | |||
| 8. Introdução ao Islã | 112 | Rissala-i Diniyat | 1963 d.C. |
| 9. Tawhid, Risalat e Akhirat | 44 | Tawhid, Risalat e vida após a morte | |
| 10. O modo de vida islâmico | 55 | O sistema de vida do Islã | 1948 d.C. |
| 11. A única religião | 45 | A religião da verdade | 1943 d.C. |
| 12. O caminho da paz | 27 | O caminho da segurança | 1942 d.C. |
| 13. A essência da cultura islâmica | 279 | A civilização islâmica e seus princípios e fundamentos | 1933 d.C. |
| 14. Obras selecionadas, volumes 1–3 | 1344 | Tafhimat, volumes 1–3 | 1933–38 d.C. |
| 15. Al-Jihad | 592 | Al-Jihadu fil-Islam | 1928 d.C. |
| 16. Islã e Jahiliyyah | 48 | Islam aur Jahiliyyah | 1941 d.C. |
| 17. O conflito entre o Islã e a civilização ocidental | 228 | Tanqihat | 1933-38 |
| 18. Esboço fundamental do sistema de vida islâmico | 384 | O sistema de vida islâmico e suas concepções fundamentais | |
| 19. A base filosófica do chamado islâmico | 32 | O Islã e a democracia secular ocidental | |
| 20. A perspectiva ética do Islã | 32 | A perspectiva moral do Islã | 1944 d.C. |
| 21. O Islã e o nacionalismo | 119 | A questão do nacionalismo | 1939 d.C. |
| 22. O Islã e o socialismo | 1945 d.C. | ||
| 23. Islã e justiça social | 24 | Islã e justiça social | |
| 24. A fonte de força do Islã | 67 | A fonte de força do Islã | |
| 25. A lição do sacrifício | 48 | A comprovação do sacrifício pelos versículos corânicos | |
| 26. A realidade da fé | 48 | A realidade da fé | 1938 d.C. |
| 27. A realidade do Islã | 44 | A essência do Islã | 1938 d.C. |
| 28. A essência da oração e do jejum | 65 | A essência do jejum e da oração | 1938 d.C. |
| 29. A essência do hajj | 48 | A realidade do Hajj | 1938 d.C. |
| 30. A realidade do zakat | 58 | A realidade do zakat | 1938 d.C. |
| 31. A realidade do jihad | 28 | A realidade da jihad | 1933 d.C. |
| 32. A realidade do qadar | 102 | A questão do jabr e do qadar | 1933 d.C. |
| 33. A realidade da taqwa | A realidade da taqwa | 1947 d.C. | |
| 34. O sistema educacional: uma perspectiva islâmica | 133 | Ta’limat | 1941 d.C. |
| 35. A realidade do shirk | A realidade do shirk | 1944 d.C. | |
| 36. A realidade do Tawhid | A realidade do Tawhid | 1945 d.C. | |
| D. Direito, política e sistema estatal | |||
| 37. Direito islâmico | 63 | Lei islâmica | 1948 d.C. |
| 38. Estado Islâmico | 700 | Estado Islâmico | 1948 d.C. |
| 39. Califado e monarquia | 294 | Califado e monarquia | |
| 40. A doutrina política do Islã | 63 | A visão política do Islã | 1939 d.C. |
| 41. A independência do subcontinente | |||
| O movimento e os muçulmanos, volumes 1–2 | 877 | O movimento pela independência da Índia e os muçulmanos, volumes 1–2 | 1938 d.C. |
| 42. Elaboração da Constituição Islâmica | 86 | Codificação da Constituição Islâmica | |
| 43. Princípios fundamentais da Constituição Islâmica | 86 | Fundamentos da Constituição Islâmica | |
| 44. Direitos humanos fundamentais | 32 | Os mandamentos fundamentais para o ser humano | |
| 45. Os direitos dos não muçulmanos no Estado Islâmico | 50 | Os direitos dos dhimmis no Estado Islâmico | 1948 d.C. |
| 46. História política do Decão | 286 | História política do Decão | |
| 47. Ensinamentos políticos do Alcorão | 57 | Ensinamentos políticos do Alcorão | |
| 48. Unidade nacional e democracia estável | 21 | Unidade nacional | |
| 49. A punição do apóstata na lei islâmica | 68 | A punição do apóstata | 1943 d.C. |
| e. Movimento e organização islâmicos | |||
| 50. A pregação islâmica e a política de ação | 47 | A pregação islâmica e seu método de atuação | 1946 d.C. |
| 51. A pregação da Jamaat-e-Islami | O convite da Jamaat-e-Islami | 1947 d.C. | |
| 52. O movimento do renascimento islâmico | 122 | Renovação e revitalização da religião | 1940 d.C. |
| 53. Da Jamaat-e-Islami | O objetivo da Jamaat-e-Islami | ||
| Objetivo — história e programa de ação | 80 | História e plano de ação | 1951 d.C. |
| 54. Jihad no caminho de Allah | 32 | Jihadun fi sabilillah | |
| 55. A base moral do movimento islâmico | 62 | Os fundamentos morais do movimento islâmico | |
| 56. O movimento islâmico: condições para o sucesso | 64 | Condições para o sucesso do movimento islâmico | |
| 57. O passado, o presente e o futuro dos muçulmanos: programa de ação | 78 | Programa de ação para o passado, o presente e o futuro dos muçulmanos | |
| 58. O caminho da revolução islâmica | 56 | Como se estabelece o governo islâmico | 1940 d.C. |
| 39. O futuro programa de ação do movimento islâmico | 138 | O futuro plano de ação do movimento islâmico | 1947 d.C. |
| 60. Movimento, organização e militante | 224 | O movimento e o militante | |
| 61. O pregador para Allah e o convite para Allah | 42 | O pregador para Allah e o convite para Allah | |
| 62. Demolir e construir | 32 | Construção e destruição | 1947 d.C. |
| 63. A necessidade de um grupo sincero | 23 | A necessidade de uma comunidade virtuosa | 1941 d.C. |
| 64. O martírio de Husayn (r.a.) | 16 | O martírio do Imam Hussein (r.a.) | |
| 65. Movimento pela unidade do mundo muçulmano | 43 | União das Nações Islâmicas | |
| 66. O testemunho da verdade | 40 | Testemunho da Verdade | 1946 d.C. |
| 67. O Islã no mundo de hoje | 42 | O Islã na era atual | |
| 68. Os vinte e nove anos da Jamaat-e-Islami | 54 | Os vinte e nove anos da Jamaat-e-Islami | |
| Ch. Economia e sistema bancário | |||
| 69. Economia islâmica | 328 | A economia do Islã | |
| 70. A solução islâmica para os problemas econômicos | 38 | O problema econômico do ser humano e sua solução islâmica | 1941 d.C. |
| 71. As diretrizes econômicas do Alcorão | 38 | Ensinamentos econômicos do Alcorão | |
| 72. O Islã e as teorias econômicas modernas | 126 | O Islã e as teorias econômicas modernas | |
| 73. Princípios fundamentais do sistema econômico islâmico | 31 | Princípios da economia islâmica | |
| 74. Juros e o sistema bancário moderno | 302 | Juros | 1936 d.C. |
| 75. Disposições sobre a propriedade da terra | 96 | A questão da propriedade da terra | |
| 76. Propriedade nacional | Propriedade comunitária | 1950 d.C. | |
| f. Vida conjugal e a mulher | |||
| 77. Purdah e o Islã | 280 | Purdah | 1937 d.C. |
| 78. Direitos do marido e da esposa | 151 | Os direitos dos cônjuges | 1935 d.C. |
| 79. O controle de natalidade à luz do Islã | 131 | O Islã e o controle de natalidade | 1936 d.C. |
| 80. As exigências do Islã para a mulher muçulmana | 24 | As exigências do Islã às mulheres muçulmanas | |
| Purificação da alma | |||
| 81. Orientação | 55 | Orientação | |
| 82. Ensinamentos fundamentais do Islã | 274 | Sermões | 1938 d.C. |
| 83. A essência da adoração islâmica | 88 | Um olhar investigativo sobre a adoração islâmica | 1939 |
| 84. O método islâmico de purificação da alma | 48 | Purificação da alma | |
| j. Sira | |||
| 85. A Sira do Senhor dos Mundos, volumes 1–5 | 1216 | A Sira do Senhor dos Mundos, volumes 1–2 | |
| 86. O selo da profecia | 75 | O selo da profecia | |
| 87. A identidade corânica do Profeta | 40 | Como o Alcorão apresenta aqueles que o seguem | |
| 88. O ser humano ideal | 32 | O verdadeiro feito do Senhor dos Mundos | |
| 89. A posição dos nobres Companheiros | 40 | A posição dos Companheiros | |
| ঞ. Geral | |||
| 90. Rasā’il e Masā’il, volumes 1–5 | Rasā’il wa Masā’il, volumes 1–5 | 1942–1947 | |
| 91. Maulana Maududi diante da juventude | 450 | Tasrīḥāt | |
| 92. Respostas às perguntas da época, volumes 1–2 | 448 | Istifsalat, volumes 1–2 | |
| 93. A Reunião da Tarde, volumes 1–2 | 250 | Asri Majalis, volumes 1–2 | |
| 94. Cartas, volumes 1–2 | 455 | Makatib Maulana Maududi (que Allah tenha misericórdia dele), volumes 1–2 | |
| 95. Discursos radiofônicos | 87 | Nashri Taqriri | |
| 96. Khutbat al-Haram | Khutbat al-Haram | ||
| 97. Correspondência entre Maulana Maududi e Maryam Jamila | Cartas entre Maulana Maududi e Maryam Jamila | ||
| 98. O problema cadianista | A questão cadianista | 1953 d.C. |
Alguns livros em língua bengali sobre o Maulana Maududi
| Título do livro | Nome do autor | |
| 1. | Maulana Maududi aos olhos dos intelectuais do mundo | Editado por Abbas Ali Khan |
| 2. | Maulana Maududi | Abbas Ali Khan |
| 3. | O estudioso religioso Maulana Maududi | Abbas Ali Khan |
| 4. | A contribuição de Maulana Maududi para o renascimento do Islã | Professor Ghulam Azam |
| 5. | A história da Jamaat-e-Islami | Abbas Ali Khan |
| 6. | Atas da Jamaat-e-Islami — 1.º volume | |
| 7. | Atas da Jamaat-e-Islami — 2.º volume | |
| 8. | A luz da verdade | Maulana Bashiruzzaman |
| 9. | Maulana Mawdudi na terra do Alcorão | Muhammad Asem |
| 10. | As contribuições multifacetadas de Maulana Mawdudi | Abbas Ali Khan |
| 11. | Por trás da oposição à Jamaat-e-Islami | Abul Kalam Muhammad Yusuf |
| 12. | O papel da comunidade dos ulama no movimento pela independência | Zulfiqar Ahmad Kismati |
| 13. | Maududi para crianças | Xeque Ansar Ali |
| 14. | Resposta às acusações contra Maulana Maududi | Maulana Abdul Hakim |
| 15. | Análise teórica das acusações contra Maulana Maududi | Mufti Muhammad Yusuf |
| 16. | Resposta às acusações sobre a obra O Califado e a Monarquia | Juiz Malik Ghulam Ali |
| 17. | Como vi Maulana Mawdudi | Professor Ghulam Azam |