Islã e nacionalidade

Definição de nação:

Desde a escuridão impenetrável da barbárie, já no primeiro passo do ser humano em direção ao caminho luminoso da civilização, surge a ideia de unidade entre os muitos; e, para o mesmo propósito e sistema de bem-estar, torna-se absolutamente necessário que inúmeras pessoas se reúnam e vivam em cooperação e com mútua solidariedade.

Com o progresso e o desenvolvimento gradual da civilização, o âmbito dessa unidade coletiva torna-se cada vez mais amplo e abrangente. Mais tarde, chega também um momento em que um número muito grande de pessoas passa a fazer parte dela. Esse conjunto de muitas pessoas é chamado, na terminologia política, de “nação”. Embora as palavras “nação” e “nacionalidade” sejam inteiramente novas quanto ao seu significado técnico, o sentido em que são usadas é, em essência, tão antigo quanto a própria civilização. A forma de coletividade humana que hoje é denominada “nação” ou “nacionalidade” já existia no antigo Egito, em Roma e na Grécia, assim como hoje existe em países nacionais como a França, a Inglaterra e a Itália.

Elementos indispensáveis da nacionalidade

Não há dúvida de que, em primeiro lugar, a nacionalidade surge de uma ideia inocente e imaculada. Um grupo de pessoas trabalhará coletivamente para estabelecer seus interesses comuns e seu sistema de bem-estar e, a fim de satisfazer as necessidades sociais e coletivas, viverá como uma nação — esse é o primeiro objetivo que está na base da formação de uma nação. Porém, depois que uma nação é formada, a influência intensa do sentimento de hostilidade nacional passa inevitavelmente a atuar sobre ela. Além disso, quanto mais essa nacionalidade se torna rígida e sólida, tanto mais intensos se tornam o sentimento de hostilidade e a consciência da diferença próprios da nacionalidade. Quando uma nação se une em laços recíprocos para obter seus próprios interesses e preservar seu sistema de bem-estar — em outras palavras, quando ergue ao seu redor uma muralha intransponível de nacionalidade —, inevitavelmente distinguirá as pessoas que estão dentro e fora dessa muralha, considerando umas como “suas” e outras como “estranhas”. Em todas as questões, dará a si mesma precedência e importância sobre os outros. Defenderá a si própria contra os demais. Se alguma vez surgir um conflito entre os interesses recíprocos dos “seus” e dos “estranhos” mencionados, essa nacionalidade fará todo o possível para preservar seus próprios interesses — e não hesitará nem por um instante em sacrificar os interesses alheios. Por essas razões, haverá guerra e haverá tratados de paz entre eles; mas, tanto na paz quanto no conflito, uma muralha de diferença, alta como uma montanha, permanecerá erguida entre ambos. Na terminologia, é esse sentimento que se chama cegueira do nacionalismo. Essa é uma característica inseparável da nacionalidade — em todas as circunstâncias, estará inevitavelmente ligada à nacionalidade; não há a menor dúvida quanto a isso.

Elementos fundamentais da formação de uma nação

Entre as muitas causas de unidade e união, uma nacionalidade específica se estabelece — seja qual for a causa. Mas a condição é que nela esteja presente uma força agregadora tão imensa que reúna e inspire diferentes pessoas para a mesma mensagem, o mesmo pensamento e doutrina, o mesmo objetivo e ação; que, por um lado, una as várias e incontáveis partes da nação nos laços indissolúveis da nacionalidade, entrelaçando-as intimamente e tornando todos tão fortes quanto uma montanha firme e inabalável. Por outro lado, essa força deve exercer tal domínio sobre a mente e o intelecto dos indivíduos que, no que diz respeito a todo o interesse nacional, todos se tornem unidos e, quando necessário, estejam plenamente preparados para qualquer tipo de autossacrifício.

A unidade e a organização podem assumir inúmeras formas, mas, dentre todas as nacionalidades estabelecidas desde o início da era histórica até os dias de hoje, a base de todas as nacionalidades, exceto a nacionalidade islâmica, foi estabelecida sobre algum tipo de unidade dos elementos a seguir. E muitas outras formas de unidade também se associaram a ela como fatores auxiliares:

Unidade de linhagem: Com base nela, forma-se a nacionalidade baseada na linhagem.

Unidade da pátria: Com base nela, desenvolve-se a nacionalidade regional.

Unidade da língua: Por ser um meio poderoso de estabelecer a unidade de pensamento e opinião, ela exerce uma enorme influência na formação de uma nação.

Unidade racial: Ela desperta um sentimento de parentesco entre as pessoas da mesma raça, e esse sentimento se desenvolve ainda mais, incentivando-as a manter sua distinção em relação às pessoas de outras raças.

Equidade dos interesses econômicos: Ela separa as pessoas associadas a um tipo de sistema econômico daquelas que defendem outro tipo de sistema econômico. Com base nisso, elas lutam umas contra as outras para obter seus próprios direitos e interesses econômicos.

Unidade do sistema de governo: ela integra os súditos residentes no mesmo reino por meio dos vínculos de uma mesma ordem e disciplina governamental, e estabelece os limites da distância em relação aos súditos em geral de outros Estados.

Desde os tempos mais antigos até esta brilhante era do século XX, todos os elementos fundamentais da formação das nações que foi possível identificar serão encontrados, com certeza, entre os elementos mencionados.

Há dois ou três mil anos, as nacionalidades grega, romana, israelita e iraniana também haviam sido estabelecidas com base nos elementos fundamentais mencionados. E as nacionalidades dos tempos moderníssimos — alemã, italiana, francesa, inglesa, japonesa etc. — também estão fundadas exatamente sobre essas mesmas bases.

A origem das calamidades

Não há dúvida de que as mencionadas formas de unidade, adotadas como base das diversas nacionalidades do mundo, uniram e congregaram inúmeros grupos humanos. Mas ninguém pode negar que, ao mesmo tempo, essas mesmas bases se tornaram uma fonte de grave e mortal perigo para toda a humanidade. Foram essas bases que dividiram a humanidade em centenas e milhares de partes. E essa divisão foi feita de maneira tão cruel que uma dessas partes pode ser empurrada para a destruição, enquanto não é possível iniciar sequer a menor mudança na outra. Uma linhagem não pode transformar-se em outra. Um falante de uma língua não pode ser considerado falante de outra. Uma raça não pode converter-se em outra. Os interesses econômicos de uma nação não podem ser inteiramente iguais aos interesses econômicos de outra nação. Um Estado jamais pode tornar-se outro Estado. Em suma, entre as nacionalidades estabelecidas sobre as bases mencionadas não pode haver a mínima possibilidade de conciliação ou entendimento. Por causa da hostilidade nacional, elas se envolvem numa luta eterna de rivalidade, resistência e vingança umas contra as outras. Esforçar-se-ão inevitavelmente para subjugar umas às outras. Estarão até dispostas a travar guerras entre si e a ser destruídas para sempre. Depois, uma nova nacionalidade, fundada sobre essas mesmas bases, volta a erguer a cabeça. Assim, isso se transforma num vulcão eterno de calamidade, inquietação e destruição no mundo. Na realidade, isso é a maldição de Allah, o Altíssimo, a arma mais afiada de Satanás; é por meio dela que ele caça o seu eterno inimigo.

O ódio da Jahiliyyah

Na verdade, esse tipo de nacionalismo desperta naturalmente nos seres humanos um sentimento de hostilidade bárbara. Ele incita uma nação a opor-se a outra e a manifestar ódio contra ela, simplesmente porque se trata de uma nação completamente diferente. Esse tipo de nacionalismo não tem absolutamente nenhuma relação com a verdade, a honestidade, a imparcialidade, a justiça e a equidade. Para um branco, basta que uma pessoa seja negra para que ela seja considerada detestável. Por ser habitante da Ásia, uma pessoa é inevitavelmente odiada, oprimida, subjugada e privada de seus direitos pelos habitantes da Europa ou da América. Um erudito como Einstein é odiado pela nação alemã apenas pelo “crime” de ser descendente de Israel. Como Tashkidi era um negro, seu Estado foi confiscado pelo “crime” de ele ter punido um criminoso europeu.¹ Para os cidadãos civilizados da América, queimar negros vivos não constitui crime algum, porque eles são negros. As nações alemã e francesa podem odiar-se mutuamente porque estão divididas em duas nações distintas. As qualidades de uma são consideradas, aos olhos da outra, inteiramente como defeitos e falhas. O fato de os afegãos livres da fronteira serem afegãos e de os habitantes de Damasco pertencerem à nação árabe é considerado um crime de tal natureza que, somente por isso, os ingleses e franceses julgam absolutamente justo lançar bombas de aviões bombardeiros sobre suas cabeças e matar em massa o povo daquele país. Entretanto, consideram bárbaro lançar bombardeios semelhantes sobre os habitantes “civilizadíssimos” (?) da Europa. Em suma, são justamente essas diferenças nacionais que cegam completamente as pessoas para a verdade e a justiça. E, por essa razão, no futuro até os princípios eternos da moralidade e da civilidade serão moldados segundo o molde do nacionalismo. Em alguns lugares, a opressão; em outros, a mentira; e, em outros ainda, a baixeza serão estabelecidas como princípios da cortesia e do caráter moral.

A linhagem de uma pessoa é uma, a de outra é diferente; uma pessoa é branca, outra é negra; uma nasceu no lado ocidental de determinada montanha, outra nasceu no lado oriental; uma fala uma língua, outra expressa seus pensamentos em alguma outra língua; uma é habitante de um Estado, outra é cidadã de algum outro Estado — será que, somente por isso, as pessoas devem ser diferenciadas? E será que uma pessoa incapaz, pecadora e desonesta deve ser considerada superior a uma pessoa competente, honesta e buscadora da verdade apenas por essa razão? Pode a cor externa da pele ser responsável pela pureza ou pela corrupção da alma? Pode alguma pessoa sensata admitir que montanhas, rios ou mares tenham qualquer relação com o fato de o caráter moral ser bom ou mau? Pode alguém de mente sã sustentar que a verdade do Oriente, ao chegar ao Ocidente, possa tornar-se falsa e inválida? Pode alguma pessoa dotada de consciência sã aceitar que a essência da virtude, da cortesia e da humanidade possa ser medida pelo sangue que corre nas veias, pela língua falada, pelo local de nascimento e pela terra do lugar de residência? Não resta a menor dúvida de que todos os seres humanos responderiam espontânea e unanimemente “não” a essas perguntas. Mas o tribalismo ou o racismo de linhagem, o regionalismo e seus demais aliados mencionados ousam responder “sim” às perguntas acima.

 

Os elementos fundamentais do nacionalismo

 

Deixando de lado os aspectos mencionados, pode-se examinar as bases modernas do nacionalismo a partir de suas próprias características. Procuraremos verificar aqui se as bases acima mencionadas são, em essência e na realidade, científicas ou se são completamente desprovidas de substância, como uma miragem.

Tribalismo

O tribalismo, ou genealogismo, é um dos principais fundamentos da nacionalidade moderna. Mas o que significa esse tribalismo? Tribalismo é simplesmente o nome dado à relação e à unidade de sangue. Estabelece-se uma relação de sangue entre certo número de pessoas por serem descendentes do mesmo pai e da mesma mãe; este é o primeiro fundamento do genealogismo. Isso se amplia e se manifesta como uma família; daí surgem necessariamente o clã e a linhagem. Ao alcançar esse limite extremo, o homem se afasta tanto do pai ancestral de sua linhagem que sua descendência se transforma então em algo puramente imaginário. No mar dessa chamada linhagem confluem inúmeros rios e canais de sangue estrangeiro. Portanto, nenhuma pessoa dotada de conhecimento e razão pode afirmar que a “água” desse mar é inteiramente pura e não misturada — que, tendo brotado de sua fonte original, nela não se juntou nenhum outro curso de água além daquela água. Mesmo depois de tal mistura, os homens podem aceitar uma linhagem como centro de sua união por causa da semelhança do sangue. Então, por que não se pode aceitar como fundamento da unidade a unidade do sangue do pai e da mãe ancestrais, que une entre si toda a humanidade? E por que não se pode considerar todos os seres humanos do mundo como descendentes da mesma linhagem e pertencentes ao mesmo clã? Aqueles que hoje são considerados fundadores ou “primeiros homens” de diferentes linhagens ou clãs tinham todos, em algum ponto de sua ascendência, antepassados comuns e, em última análise, é preciso reconhecer que todos se originaram da mesma raiz. Então, como se pode admitir essa divisão entre os seres humanos sob os nomes de “arianos” e “não arianos”?

Patriotismo

A unidade do patriotismo é ainda mais obscura e infundada que o tribalismo. O lugar onde uma pessoa nasce certamente não tem mais que uma jarda quadrada de extensão. Se ela considerar esse pequeno espaço como sua pátria, provavelmente não poderá chamar país algum de sua pátria. Contudo, estabelece ao redor desse minúsculo espaço uma fronteira que se estende por centenas ou milhares de milhas, chama de “pátria” o território situado dentro dessa fronteira e declara sem hesitação que não tem relação alguma com as áreas que ficam além dela. Na realidade, isso não passa de sua estreiteza de visão. Em outras palavras, nada a impedia de chamar o mundo inteiro de seu. Pela mesma lógica que permite ao território de uma “jarda quadrada” expandir-se até centenas ou milhares de milhas quadradas e tornar-se sua “pátria”, ele poderia ampliar-se ainda mais e fazer do mundo inteiro sua pátria. Se não restringir seu ponto de vista, o homem poderá ver claramente que rios, mares, montanhas, cordilheiras e tudo aquilo que ele toma imaginariamente como fronteiras, separando uma área de outra, são na realidade partes da mesma vasta Terra; portanto, como essas montanhas e esses rios e mares poderiam aprisioná-lo em uma área limitada? Se ele se considera habitante da Terra inteira, ao considerar o mundo todo como sua “pátria” ou terra natal, por que não se considera habitante de toda a superfície terrestre? Se ele considerar o mundo todo sua pátria ou terra natal, chamar toda a humanidade que habita a superfície terrestre de “conterrâneos” e reivindicar sobre o universo inteiro o mesmo direito que possui sobre o lugar específico onde nasceu, por que isso seria errado?

Discriminação linguística

É inegável que, graças à unidade e à harmonia da língua, as pessoas que falam o mesmo idioma podem ter amplas oportunidades de conversar entre si e trocar pensamentos. Com isso, ergue-se o véu da estranheza entre as pessoas, e elas podem sentir umas às outras como “suas” e “próximas”. Mas o fato de o veículo do pensamento e da opinião ser o mesmo não significa de modo algum que os pensamentos e as opiniões sejam idênticos e harmoniosos. Uma mesma doutrina pode ser divulgada em dez línguas diferentes, e não só é possível como também perfeitamente natural que se estabeleça uma completa unidade de pensamento e opinião entre os falantes dessas diferentes línguas. Por outro lado, dez opiniões diferentes podem ser expressas na mesma língua. Contudo, as pessoas que sustentam essas diferentes doutrinas expressas na mesma língua podem ser diferentes umas das outras e inteiramente separadas. Portanto, a unidade de pensamento e opinião — que, na realidade, é a essência vital da nacionalidade — não depende da unidade linguística. Além disso, ninguém pode afirmar que a unidade e a harmonia da língua necessariamente produzirão unidade de pensamento e de doutrina. Surge então uma questão importante: que influência tem a língua sobre a humanidade do homem e sobre suas qualidades pessoais, boas ou más? Pode-se conceder superioridade a um falante de alemão sobre um falante de francês simplesmente porque o primeiro fala alemão? Na realidade, o que deve ser observado são as qualidades e características interiores do indivíduo, e não a língua ou coisas semelhantes. Contudo, não se pode negar que, na administração da disciplina, da ordem e de todas as atividades de determinado país, bem como nos afazeres comuns, a pessoa que fala a língua daquele país possa ser mais proveitosa. Mas, para dividir a humanidade e determinar características nacionais, a diferença linguística jamais poderá ser uma base correta.

Discriminação racial

Na sociedade humana, a discriminação racial é o fenômeno mais repugnante e sem sentido de todos. A cor é apenas uma qualidade externa do corpo; mas é preciso lembrar que o ser humano não alcançou a dignidade de sua humanidade por causa do corpo: sua alma e sua humanidade são a única razão dessa dignidade. Ora, a alma não possui cor. Nessas circunstâncias, que justificativa pode haver para distinguir os seres humanos pelas cores vermelha, amarela, negra, branca e outras? Não se pode fazer distinção entre o leite de uma vaca negra e o de uma vaca branca. Pois o que importa ali é o leite; o sangue ou a cor não têm qualquer importância. Mas hoje a inteligência falida do ser humano desviou nossa atenção das qualidades e da nobreza interiores do homem para a cor de sua cobertura corporal. Poderia haver situação mais trágica do que esta?

Nacionalidade econômica

A igualdade de interesses econômicos é um filho ilegítimo do egoísmo humano; ela jamais é criação da natureza. A criança humana nasce do ventre materno já dotada de capacidade de trabalho. Diante dela abre-se um vasto campo para o esforço e a dedicação. Os meios e recursos insuficientes da vida oferecem-lhe uma cordial acolhida. Contudo, para satisfazer suas necessidades biológicas, ela não considera suficiente e indispensável apenas que se abra a porta do rizq; ao mesmo tempo, considera indispensável que essa porta se feche para os outros. Quando um grande grupo humano participa igualmente de tal egoísmo, a unidade que daí nasce, mais tarde, ajuda especialmente a organizá-lo como uma nação. À primeira vista, essas pessoas pensam que, organizando-se com base na igualdade de interesses econômicos, protegeram seus próprios interesses e direitos; mas, quando numerosos grupos e nações erguem ao seu redor muralhas intransponíveis de semelhante egoísmo, a vida humana torna-se extremamente penosa por causa de seus próprios atos. Seu próprio egoísmo torna-se grilhão em seus pés e algema em suas mãos: ao tentar fechar a porta do sustento alheio, perde a chave do próprio armazém de subsistência. Hoje esse quadro está claramente diante de nossos olhos. Os Estados da Europa, da América e do Japão estão sofrendo as consequências disso. Hoje eles já não conseguem compreender como destruirão as próprias fortalezas econômicas que haviam construído, julgando-as o meio perfeito de se proteger. Diante de tal situação, ainda não deveríamos considerar inteiramente anticientífica e insensata a divisão em grupos para obter o sustento e o estabelecimento de características nacionais com base nessas divisões? Na realidade, não se pode compreender que mal poderia haver em conceder liberdade às pessoas para buscar e obter o rizq concedido por Allah no vasto mundo de Allah.

Nacionalidade política

A unidade administrativa, isto é, estar sob o mesmo governo, é essencialmente algo temporário, frágil e sem fundamento. Jamais se pode estabelecer sobre essa base uma nacionalidade sólida, duradoura e forte. A ideia de reunir os súditos sob o mesmo Estado pelo vínculo da obediência e formá-los como uma nação jamais foi bem-sucedida. Enquanto o Estado permanece vitorioso, dominante e dotado de força invencível, é verdade que os súditos permanecem organizados e presos aos grilhões de suas leis; mas, assim que esses laços legais se enfraquecem um pouco, povos de diferentes correntes de pensamento são obrigados a dispersar-se imediatamente em todas as direções. Depois que o poder central do Estado se enfraqueceu no Império Mogol, não houve o menor obstáculo ao surgimento de nacionalidades baseadas em políticas independentes nas diversas regiões da Índia. A situação do Império Otomano era semelhante. Por fim, os Jovens Turcos empenharam toda a sua força para erguer o palácio da nacionalidade otomana; mas, com um golpe insignificante, ele se desmoronou como um castelo de cartas. O exemplo da Áustria-Hungria é ainda mais moderno. As páginas da história não carecem de acontecimentos desse tipo. Contudo, mesmo depois de testemunharem esses exemplos históricos, aqueles que julgam possível estabelecer uma nacionalidade política certamente merecem agradecimentos por seus sonhos coloridos e sua ardente fantasia.

Humanismo universal

A partir da análise acima, ficou claro que nenhuma das divisões em que a humanidade foi repartida tem qualquer fundamento científico. Elas não passam de divisões puramente materiais e grosseiras. Por isso, a mínima ampliação da visão já rompe os limites de cada uma delas. A permanência e a duração dessas divisões dependem exclusivamente das trevas da ignorância, da limitação da visão e da estreiteza da mente. Quanto mais brilham e se desenvolvem os lampejos do conhecimento e da ciência, quanto mais aguçada e abrangente se torna a percepção interior e quanto mais se amplia a grandeza do coração, mais se ergue a cortina dessas diferenças materiais e grosseiras. Por fim, o nacionalismo de linhagem é obrigado a ceder seu lugar à humanidade, e o regionalismo, à universalidade do mundo. Mesmo em meio às diferenças de cor e de língua, manifesta-se a unidade da essência vital da humanidade. Na terra de Allah, existem interesses econômicos comuns a todos os servos de Allah. Dentro dos limites dos sistemas políticos, percebem-se apenas algumas sombras; no movimento em torno do sol da fortuna, elas se deslocam sobre a superfície da terra, diminuindo e aumentando.

A ideologia liberal do Islã

Foi exatamente isso que o Islã declarou. O Islã não reconheceu nenhuma diferença material, baseada em bens ou perceptível aos sentidos entre os seres humanos. Segundo o Islã, todos os seres humanos se originaram de uma mesma essência:

خلقكم من نَّفْسٍ وَّاحِدَةٍ وَّ خَلَقَ مِنْهَا زَوْجَهَا وَبَثَّ منهُما رِجَلاً كَثِيرًا وَّنِساءً – (النساء: 1)

“Allah criou-vos de uma mesma essência individual. Depois, dela criou o seu par. E, da união de ambos, espalhou pelo mundo incontáveis homens e mulheres.” — Surata An-Nissá: 1

A diferença entre o lugar de nascimento e o lugar de sepultamento dos seres humanos não é uma diferença fundamental; na realidade, todos os seres humanos são inteiramente iguais:

وهُو الَّذى انْشاْكم من نَّفسٍ وَّاحِدَةٍ فَمُستَقَرَّ وَّمُستَوْدَعٌ ط – (الانعام: 98) “Ele criou-vos de uma mesma alma e determinou para cada um um lugar de permanência e um lugar de depósito.” — Surata Al-An’am: 98. Em seguida, foi desvendada a profunda verdade sobre as diferenças de linhagem e de família:

يَاَيُّها النَّاسُ اِنَّا خلقناكم من ذكَرٍ وَّ اُنْثى و جعلناكم شعوبا وَّقبائلَ لِتِعارَفوا ط اِنَّ اكرمكم عند الله اتقاكم ط – (الحجرات: 13)

“Ó seres humanos! Dividimo-vos em povos e tribos, para que vos conheçais uns aos outros. Mas, na realidade, o mais honrado entre vós, perante Allah, é aquele que é mais piedoso e temente a Allah.” — Surata Al-Hujurát: 13

Isto é, a diferença entre povos e tribos foi estabelecida apenas para que se conhecessem mutuamente; não com o objetivo de alimentar entre si inveja e rancor, glória e orgulho, ou brigas e conflitos. Não é correto esquecer a unidade fundamental da humanidade por causa dessas diferenças e conflitos externos. O único critério para distinguir uns dos outros é o caráter moral, as ações concretas, a honestidade e a propensão ao pecado.

Depois, Allah, o Todo-Poderoso, disse que as dissensões na sociedade humana e a oposição mútua entre os diversos grupos são um castigo especial de Allah, o Todo-Poderoso. Isso vos atormenta com o veneno da inimizade mútua.

اَوْ يلبسكم شِيِعًا وَّيُذيْقَ بعضَكم بَاْسَ بَعضٍ ط – (الانعام : 65)

“Ou vos dividirá em diferentes grupos e fará com que experimenteis a força uns dos outros.” — Surata Al-An’am: 65

As dissensões também foram consideradas no Alcorão Majestoso entre os crimes pelos quais o Faraó foi amaldiçoado e punido por Allah:

اِنَّ فِرْعَونَ علاَ فى الارْضِِ وَجَعَلَ اهلها شِيَعًا – (القصص : 4)

“O Faraó se ensoberbeceu e se exaltou na terra e dividiu seus habitantes em diferentes grupos.” — Surata Al-Qasas: 4

Depois, disse que Allah é o Senhor da terra e que conferiu à humanidade a dignidade do califado nesta terra. Ele submeteu ao ser humano todas as coisas da terra. Portanto, não é necessário que o ser humano permaneça escravo de uma região específica. O vasto mundo está diante dele. Se um lugar se tornar inacessível ou inabitável para ele, é muito fácil que se mude para outro. Onde quer que vá, encontrará presentes as bênçãos infinitas e inesgotáveis de Allah.

Quando criou a humanidade, Allah disse:

اِنِّى جَاعلٌ فِى الارضِ خَليفةٌ ط – (البقرة : 30)

“Quero enviar um califa à Terra.” -Surata Al-Baqara: 30

ألم تَرَ اَنَّ الله سخَّرلكم مَّا فِى الارضِ – (الحج : 65)

“Não vedes que Allah submeteu a vós todas as coisas da Terra?”-Surata Al-Hajj: 65

أَلم تكن ارضُ الله وَاسعَةً فَتُهَاجِرُوا فِيْهَا ط – (النَّساء : 97)

“A Terra de Allah não era vasta? — Não podíeis emigrar de um lugar para outro?” -Surata An-Nisa: 97

وَمن يُّهَاجر فِى سبيل الله يَجِد فِى الارض مُرَغَمًا كَثِيْرًا وَّسَعَةً – (النِّساء : 100)

“Quem emigrar pelo caminho de Allah encontrará na Terra amplo espaço e grande conforto.” -Surata An-Nisa: 100

Leia todo o Alcorão: em parte alguma se encontrará sequer uma palavra em apoio ao racismo de linhagem, ao tribalismo ou ao regionalismo; o Alcorão dirigiu o convite islâmico a toda a humanidade. Ele convida toda a humanidade sobre a face da Terra ao bem-estar e à prosperidade. Nesse aspecto, não foi concedido o menor privilégio ou superioridade a qualquer povo ou região; no mundo, estabeleceu-se uma relação especial apenas com Meca. Porém, sobre essa Meca foi dito:

سَوَاءَنِ العَاكِفُ فِيْهِ وِالبَادِ ط – (الحج: 25)

“Os verdadeiros habitantes de Meca e os muçulmanos de fora são todos absolutamente iguais em Meca. — Surata Al-Hajj: 25

Sobre os politeístas, antigos habitantes de Meca, foi dito:

اِنَّمِا المُشْرِكون نَجَسٌ فَلاَ يَقربوا المَسْجد الحرَام بَعدَ عَامِهِم هَذَا ج- ( التَّوب: 28)

“Os politeístas são impuros; portanto, que não se aproximem da Mesquita Sagrada — a Caaba — depois deste ano.” — Surata At-Tawbah: 28

Da análise clara acima, ficou provado que o patriotismo e o regionalismo foram completamente extirpados do Islã. Agora, todo muçulmano pode dizer: “Todo país é meu país, pois é o país do meu Deus.”

O conflito entre o tribalismo e o Islã

Desde os primeiros tempos do surgimento do Islã, a hostilidade e a discriminação baseadas na linhagem, na tribo e no regionalismo se apresentaram como os principais obstáculos em seu caminho.

A própria comunidade de Muhammad (que a paz esteja com ele) foi a mais avançada nesse aspecto. O orgulho da linhagem e o sentimento de superioridade tribal e pessoal ergueram-se como uma barreira intransponível entre eles e o Islã. Eles diziam:

لَوْ لاَ نُزِّلَ هذا القران على رَجُلٍ من القَرْيَتَيْنِ عَظِيْم – (زخرف: 31) “Se o Alcorão fosse realmente um Livro revelado por Deus, teria sido revelado a alguma personalidade importante de Meca ou Taife.” — Surata Az-Zukhruf: 31

Abu Jahl pensava que Muhammad (que a paz esteja com ele), ao reivindicar ser um profeta, estava apenas elevando o prestígio de sua própria linhagem. Ele disse:

“Havia uma antiga rivalidade entre nós e o clã de Abd Manaf. Competíamos com eles nas corridas de cavalos. Também éramos seus iguais em matéria de comida, hospitalidade e caridade. Agora ele começou a dizer que a revelação desce sobre mim. Juro por Deus, jamais aceitaremos Muhammad como verdadeiro.”

Isso não era apenas o modo de pensar de Abu Jahl; esse era o grande erro de todos os árabes idólatras. Por isso, todos os demais clãs dos coraixitas começaram a hostilizar os Banu Hashim. Por outro lado, os membros dos Banu Hashim, movidos por essa hostilidade étnica, continuaram apoiando e ajudando Muhammad (que a paz esteja com ele), embora muitos deles ainda não tivessem aceitado o Islã. Os Banu Hashim foram sitiados na “ravina de Abu Talib”, e toda a tribo dos coraixitas rompeu relações com eles por esse motivo. As famílias muçulmanas relativamente mais fracas, exaustas pela severa opressão e pela cruel perseguição dos coraixitas, foram obrigadas a emigrar para a Abissínia; já aqueles cuja linhagem era mais poderosa conseguiram, graças à força de sua própria linhagem, salvar-se de algum modo da injustiça e da opressão.

Os judeus da Arábia aguardavam o surgimento de um profeta, conforme as profecias dos profetas da linhagem dos filhos de Israel. Graças às notícias que haviam divulgado, numerosos habitantes de Medina aceitaram o Islã logo no início da pregação islâmica do Nobre Profeta (que a paz esteja com ele). Os próprios judeus, porém, não conseguiram crer no último Profeta unicamente por causa de seu sentimento de superioridade de linhagem. Sua objeção era que o profeta recém-chegado havia nascido na linhagem de Ismael, em vez de ter nascido na linhagem de Israel. Esse sentimento de superioridade os havia confundido e corrompido a tal ponto que, em vez de se associarem aos monoteístas, estabeleceram relações com os idólatras.

A situação dos cristãos daquela região também era assim. Eles igualmente aguardavam o profeta vindouro. Contudo, acreditavam que esse profeta nasceria na Síria. Não estavam de modo algum dispostos a aceitar um profeta árabe. Quando o decreto do Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) chegou a Heráclio, ele disse aos comerciantes coraixitas: “Eu sabia que viria outro profeta; mas não imaginava que ele surgiria entre a vossa linhagem.”

Quando o convite ao Islã chegou a Al-Muqawqis, do Egito, ele também disse: “Eu sabia que viria outro profeta, mas imaginava que ele nasceria na Síria.”

Entre os povos não árabes daquela época, esse sentimento de nobreza também se manifestava com extrema intensidade. Quando a carta do Profeta (que a paz esteja com ele) chegou a Khusrau Parviz, o que o deixou furioso? Ele disse: “Como ousa um homem de uma nação de escravos dirigir-se ao rei do mundo não árabe!” Ele considerava a nação árabe inferior e desprezível. Eles de modo algum estavam dispostos a admitir que, entre um povo assim, pudesse nascer alguém capaz de chamar as pessoas à verdade.

Aos olhos dos judeus, inimigos do Islã, despertar entre o povo a hostilidade tribal e o sentimento de superioridade de linhagem era uma arma extremamente afiada para ser usada contra o Islã. Foi por isso que se aliaram aos hipócritas de Medina. Certa vez, ao relembrá-los da Batalha de Bu’ath, acenderam entre as tribos Aws e Khazraj, dos Ansar, um fogo tão intenso de inveja, hostilidade e orgulho que surgiu uma situação perigosa, na qual as espadas afiadas de ambos os grupos estavam prestes a ser desembainhadas e um confronto direto parecia iminente. Foi a respeito disso que o seguinte versículo foi revelado:

يّايُّهَا الَّذينَ امَنُوا اِنْ تُطِعُوا فَرِيْقًا مِّنَ الَّذِيْنَ اُوْتُوا الكتَابَ يَرُدَّوكُم بَعْدَ اِيْمَانِكم كَافِرُوْنَ – (ال عمران: 100)

“Ó muçulmanos! Se obedecerdes a um grupo dentre aqueles que receberam o Livro, eles vos farão retornar da fé à incredulidade.” — Surata آل عمران, 100

Foi por causa desse sentimento de superioridade baseado na linhagem e na terra natal que os hipócritas de Medina arderam de raiva ao verem o Profeta da linhagem dos coraixitas como governante em Medina e os emigrantes circulando livremente pelos palmeirais dos Ansar. O líder dos hipócritas, Abdullah ibn Ubayy, costumava dizer: “Esses desamparados da linhagem dos coraixitas vieram ao nosso país e ficaram inchados de orgulho. São como cães criados com carinho; agora começaram a morder o próprio dono.” Dirigindo-se aos Ansar, ele disse: “Fostes vós que os colocastes sobre as vossas cabeças, fostes vós que lhes destes abrigo em vosso país. Destes-lhes uma parte de vossos bens. Juro por Deus: se hoje abandonardes o vosso apoio e auxílio a eles, ficarão completamente indefesos.” No Nobre Alcorão, a resposta a essas palavras foi dada da seguinte forma:

هُمُ الَّذِيْنَ يَقُلُونَ لاَ تُنْفِقُونَ على مِنْ عِنْدِ رَسُولِ الله حَتَّى يَنْفَضُّوا ط وَ لِلّه خَزَئِنُ السَّموات وَالارضِ وَلكنَّ المُنَافِقِيْنَ لاَ يَفْقَهُونَ – يَقُوْلُوْنَ لَئِنْ رَّجَعْنَا إلىَ المَدِيْنَةِ لَيُخْرِجَنَّ الاغَزُّ مِنْهَا الاَذَلَّ ط وَلِلَّهِ العِزِّةُ وَلِرَسُوْلِهِ وَلِلْمُةْمِنِيْنَ وَلَكِنَّ المُنافِقِيْنَ لاَ يَعلمون— (8-7)

“São eles que dizem: ‘Não gasteis nada com os companheiros do Mensageiro de Allah, para que eles se dispersem.’ Mas eles não compreendem que a Allah pertencem os tesouros dos céus e da terra. Dizem: ‘Se retornarmos a Medina, o mais honrado expulsará dela o mais humilhado.’ Contudo, toda a honra pertence, na realidade, a Allah, ao Seu Mensageiro e a todos os muçulmanos; mas os hipócritas não sabem disso de modo algum.” — Surata Al-Munafiqun, 7–8

Foi precisamente a intensidade desse sentimento de superioridade que levou Abdullah bin Ubay a acusar Hazrat Aisha e a espalhar calúnias contra ela. E foi graças ao apoio dos Khazraj que esse inimigo de Allah e do Mensageiro escapou de sofrer a punição por seus atos.

A jihad do Islã contra o elitismo e a hostilidade

A partir da discussão acima, tornou-se absolutamente claro que, depois do kufr e do shirk, o elitismo e a hostilidade baseados na linhagem e no nacionalismo são os maiores inimigos do grandioso convite e movimento do Islã. Por essa razão, durante os 23 anos de sua vida profética, o Último Profeta travou, depois do kufr, o maior jihad contra essa jahiliyyah do elitismo e da hostilidade, com o objetivo de erradicá-la para sempre. Basta abrir todos os livros de hadith e de biografia para comprovar, sem sombra de dúvida, a veracidade dessa afirmação. Ao refletirmos sobre a maneira como o Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) eliminou as distinções entre o sangue, a terra, a cor, a língua e as posições elevadas e inferiores dos seres humanos, destruiu as anormais e impenetráveis barreiras de conflito e discriminação entre as pessoas, e tornou toda a humanidade igual e unida enquanto seres humanos, realmente ficamos sem palavras diante de tal maravilha.

Hazrat (que a paz esteja com ele) disse em voz altissonante:

ليسَ مِنَّا مَنْ مَّاتَ على العَصَبِيَّةِ لَيْسَ مِنَّا الى دعى الى العَصَبِيَّةِ لَيْسَ مِنَّا قَاتَلَ على العَصَبِيَّةِ –

“Aquele que morre por causa do sentimento de superioridade e do ódio, aquele que convoca outros para isso e aquele que combate e luta por essa causa não pode ser contado entre a minha ummah.”

Ele disse:

لَيْسَ لاَحَدٍ فَضْلٌ على اَحَدٍ اِلاَّ بِدِيْنٍ وَتَفْوًى – النَّاسُ كُلُّهمْ بَنُوادَمَ وَاَدَمُ مِنْ تُرابٍ –

“Não se pode conceder a uma pessoa a mínima superioridade sobre outra com base em qualquer fundamento que não seja a piedade, a observância religiosa e a devoção. Todos os seres humanos são descendentes de Adão, e Adão foi criado do barro.”

Ele destruiu as distinções baseadas na linhagem, na pátria, na língua e na cor, dizendo:

لأ فَضْلَ لِعَرَبىٍّ عَلى عَجْمِىْ وَلاَ لِعَجَمِىْ عَلى عَرَبِىٍُّ كُلُّكُمْ اَبْنَاءُ اَدَمَ – (البخارى)

“Nenhum árabe é superior a um não árabe, nem um não árabe é superior a um árabe. Todos vocês são descendentes de Adão.”

لأ فَضْلَ لِعَرَبىٍّ عَلى عَجْمِىْ وَلاَ لِعَجَمِىْ عَلى عَرَبِىٍُّ وَلاَ لِاَبْيَضَ على اَسْوَدَ وَلأ لِاَسْوَدَ على ابيَضَ الاَّ بالتَّقوى – (زَادِ المَعَاد)

“O árabe não tem qualquer superioridade sobre o não árabe, nem o não árabe sobre o árabe; o branco não tem qualquer superioridade sobre o negro, nem o negro sobre o branco. Essa distinção só pode existir em virtude do temor a Allah e da observância religiosa.”

اِسْمَعُوْا وَاَطِعُوا وَلَوْ اُسْتُعْمِلَ عَلَيْكُمْ عَبْدٌ حَبشىٌّ كَانَ رَأسُهُ زَبِيْةٌ – (البخارى)

“Mesmo que um escravo abissínio com um cérebro do tamanho de uma uva-passa seja nomeado líder do Estado, ainda assim escutem-no e obedeçam-lhe, prestando-lhe plena lealdade.”

Após a conquista de Meca, quando o poderio militar dos muçulmanos curvou as cabeças orgulhosas e insolentes dos coraixitas, o nobre Mensageiro de Deus (que a paz esteja com ele) levantou-se para proferir um discurso e declarou com voz solene como um trovão:

اَلأَ كُلُّ مَا ثَرَةٍ اَوْ مَالٍ اَوْ يُدْعى فهوَ تَحتَ قَدَمِىِْ هَاتَيْنِ –

“Sabei que hoje, sob os meus dois pés, foram esmagados todos os bens do orgulho, da arrogância, da glória e do sentimento de nobreza, bem como todas as reivindicações relacionadas com sangue e propriedade.”

يَا مِعْشَرِ قَرَيْشٍ اِنَّ اللهَ اَذهَبَ عَنْكم نُخْوَةَ الجَاهِلِيَّةِ وَتَعَظُّمَهَا الاَبَا –

“Ó coraixitas! Deus extirpou toda a animosidade, o ódio, o orgulho, a arrogância, a glória ancestral e o sentimento de superioridade da era da ignorância.”اَيُّهَا النَّاسُ كُلُّكم من ادمَ وَادمُ من ترابٍ – لاَفَخْرَ للاَنْسَابِ لاَ فَخْرَ للعربىِّ على العجمىِّ ولاَ للعجمىِّ على العرَبِىِّ اِنَّ اكرمكم عِنْدَ اَللهِ اَتْقَأكُمْ –

“Ó seres humanos! Todos vós sois descendentes de Adão, e Adão foi criado do barro. Não há lugar algum para o orgulho de linhagem. O árabe não tem superioridade sobre o não árabe, nem o não árabe sobre o árabe. Entre vós, o mais honrado é aquele que é mais piedoso e mais temente a Deus.”

Depois de completar a adoração a Deus, o Profeta (que a paz esteja com ele) apresentava diante de Deus o testemunho e a sincera afirmação de três verdades. Primeiro: Deus não tem associado algum. Segundo: Muhammad (que a paz esteja com ele) é servo e Mensageiro de Deus. E terceiro: todos os servos de Deus são igualmente irmãos uns dos outros.

A base da nacionalidade islâmica

Assim, Allah e Seu Mensageiro destruíram completamente os fundamentos limitados, materiais, sensíveis, mundanos e supersticiosos sobre os quais foram construídos os edifícios das diferentes nacionalidades do mundo. Com base nas mencionadas divergências e discriminações anticientíficas relativas à raça, à tribo, à terra natal, à língua, à economia e à política, os seres humanos, devido à sua própria ignorância e extrema insensatez, haviam dividido a humanidade em diversos fragmentos, cada vez menores; o Islã despedaçou todos eles com um golpe decisivo e, aos olhos da humanidade, fez de todas as pessoas membros da mesma classe, dotadas da mesma dignidade e dos mesmos direitos.

Depois de erradicar essa barbárie da era da ignorância, o Islã apresentou, com base na ciência, um novo conceito de nacionalidade. Na nacionalidade islâmica, faz-se, de fato, uma distinção entre as pessoas; mas ela não se baseia em qualquer motivo material, mundano ou exterior, e sim em aspectos espirituais, morais e humanitários. Uma lei natural da verdade foi apresentada à humanidade; seu nome é Islã. Toda a humanidade foi convidada à servidão e à obediência a Allah, à pureza e à retidão do coração e da mente, e à sinceridade, honestidade e observância da religião nas ações. Em seguida, foi declarado que aqueles que aceitassem esse convite seriam considerados uma única nação. Já os que o rejeitassem pertenceriam a uma nação inteiramente diferente. Em outras palavras, uma é a nação da fé e do Islã, e a totalidade de seus indivíduos constitui uma ummahوَكَذَالِكَ جَعَلناكم اُمَّةً وَّسَطًا; a outra é a nação da incredulidade e do desvio. Seus seguidores, apesar de suas divergências de opinião e diferenças mútuas, são considerados membros do mesmo grupo e da mesma nação.وَاللهُ لاَ يَهْدىِ القَومَ الكافِرِيْنَ

Entre essas duas nações não há diferença quanto à linhagem ou à tribo. A diferença está na crença e nas ações. Assim, até mesmo dois filhos do mesmo pai podem, devido à mencionada distinção entre o Islã e a incredulidade, ser considerados membros de duas nações diferentes; e dois desconhecidos sem qualquer laço de parentesco podem pertencer à mesma nação por terem abraçado o mesmo Islã.

A diferença de terra natal também não pode ser causa de distinção entre essas duas nações. Aqui, a distinção é feita com base na verdade e na falsidade. E a verdade e a falsidade não têm uma “pátria”. Duas pessoas da mesma cidade, do mesmo bairro e da mesma casa podem ter nacionalidades diferentes devido à distinção entre o Islã e a incredulidade. E um negro pode, pelo vínculo do Islã, ser irmão de um marroquino.

A diferença de raça também não é, aqui, causa de distinção nacional. A cor da aparência exterior é insignificante no Islã; aqui, a única cor que tem importância é a cor de Allah, e ela é a melhor e mais excelente de todas.

صِبْغَةَ اللهُ ط وَمَنْ اَحسَنُ مِنَ اللهِ صِبْغَةًAos olhos do Islã, um branco e um negro podem ser considerados membros da mesma nação, e, por causa da incredulidade, é perfeitamente possível que dois brancos pertençam a duas nações diferentes.

A diversidade linguística também não é causa da diferença entre o Islã e a incredulidade. No Islã, a língua falada não tem valor algum; o que tem valor é a linguagem sem palavras da mente e do coração. Pois ela é falada em todo o mundo e todos podem compreendê-la. Sob esse aspecto, um árabe e um africano podem ter a mesma língua, e dois “árabes” podem ter línguas diferentes.

A diferença entre os sistemas econômico e político também é absolutamente irrelevante para a distinção entre o Islã e a incredulidade. Aqui não há qualquer controvérsia quanto ao dinheiro e à riqueza; a questão da riqueza da fé é a mais importante de todas. Não o domínio do ser humano, mas a obediência a Allah é o único fundamento dos conflitos e lutas políticas daqui. Todos os que apoiam e obedecem ao governo divino, e que sacrificaram por ele a si mesmos, suas riquezas e suas vidas, constituem uma única nação, sejam habitantes do Paquistão ou do Turquestão. Já aqueles que são inimigos do governo de Allah e venderam suas vidas e seus bens a Satanás pertencem a uma nação completamente distinta. Não há qualquer margem para controvérsia sobre o reino de que são habitantes ou súditos, nem sobre o tipo de sistema econômico sob o qual vivem.

Assim, o limite ou fronteira que o Islã estabeleceu para a nacionalidade não é algo sensorial, material ou mundano; é inteiramente uma fronteira baseada na ciência. Duas pessoas da mesma casa podem ficar separadas por causa dessa fronteira. Em contrapartida, duas pessoas situadas no Extremo Oriente e no Extremo Ocidente podem estar incluídas nessa mesma fronteira.

Aqui há algum texto em urdu.

O centro desse círculo da nacionalidade islâmica é a profissão de fé: “Não há divindade senão Allah; Muhammad é o Mensageiro de Allah.” Toda amizade e inimizade se estabelece com base nessa profissão de fé. Seu reconhecimento une as pessoas, e sua rejeição provoca uma separação definitiva entre elas. Aquele que essa profissão de fé separa não pode ser unido por nenhum vínculo de sangue, terra, língua, raça, alimento, sistema de governo ou parentesco. Da mesma forma, nada pode separar aqueles que essa profissão de fé une. Nenhuma língua, tribo ou raça, nenhuma disputa por riqueza, propriedade ou terra pode estabelecer, dentro dos limites do Islã, qualquer fronteira discriminatória entre os muçulmanos; ninguém tem esse direito. Seja o muçulmano chinês ou marroquino, negro ou branco, falante de hindi ou de árabe; semita ou ariano; cidadão do mesmo Estado ou residente em Estados diferentes, todos pertencem à nação muçulmana. São membros da sociedade islâmica, cidadãos do Estado islâmico, soldados do exército islâmico e guardiões da lei e dos preceitos islâmicos. Nenhum ramo da sharia islâmica — seja no culto, nas transações mútuas, na organização social, na economia ou na política, em qualquer área da vida — faz a menor distinção entre os muçulmanos com base no sexo, na língua ou na terra natal; não declara ninguém superior ou inferior a qualquer outro.

 

Princípios islâmicos de organização e de Bipen

Contudo, seria um grave erro supor que o Islã rejeitou completamente todas as relações humanas e práticas. O Islã ordenou aos muçulmanos que preservassem os laços de parentesco e proibiu expressamente seu rompimento. Exortou vigorosamente à obediência aos pais e ao cumprimento de suas instruções. Estabeleceu a herança, entre as pessoas ligadas por laços de sangue, segundo a lei sucessória, e reconheceu aos parentes próximos o primeiro direito nas questões de caridade e esmola. Ordenou que se protegessem a família, o lar e os bens contra os ataques do inimigo. Ordenou combater o opressor, e as pessoas mortas nesse tipo de guerra foram chamadas de mártires. Ensinou a tratar toda pessoa, em todos os aspectos da vida e independentemente de sua religião, com compaixão, benevolência, amor e afeição. Não se pode entender, nem fazer entender, a partir de qualquer ensinamento do Islã, que ele proibiu esforçar-se para servir e proteger o país e a nação, ou manter relações de paz e cortesia com o vizinho não muçulmano.

A orientação dada pelo Islã para que as pessoas mantenham relações umas com as outras é apenas a expressão coerente e natural dessas relações práticas. Mas, no que diz respeito à nacionalidade, existe uma diferença fundamental entre o Islã e o não islã. Essa diferença também se manifesta claramente no fato de que os demais povos do mundo fundamentaram a nacionalidade nessas coisas materiais, enquanto o Islã não fundamentou a nacionalidade em nenhuma delas. Na perspectiva do Islã, a relação da fé é superior e mais importante que as relações materiais mencionadas. Até mesmo, se necessário, deve-se estar disposto a sacrificar todos os demais tipos de relação para preservar unicamente essa relação. A declaração do Islã é a seguinte:

قَد كَانت لكم اُسْوَةٌ حَسَنَةٌ فىْ اِبْرَاهِيْمَ وَالَّذِيْنَ مَعَهُ ج اِذ قَالوُا لِقَوْمِهِم اِنَّا بُرِءَؤُا منكم وَ مِمَّا تعبدون من دُوْنِ اللهِ ز كَفَرْنَا بِكُمْ وَبَدَاْ بَيْنَنَا وَبَيْنَكم العَدَاوَةَ وَألبَغَضَاءُ اَبَدًا حَتَّى تَؤْمِنُوْا بِاللهِ وَحدَهُ – (الممتحنة: 4)

“Nas ações de Abraão e de seus companheiros há, para vós, um modelo digno de ser seguido. Eles disseram claramente à sua nação, baseada na pátria e na linhagem: ‘Não temos nenhuma relação convosco nem com aqueles que adorais além de Allah. Rompemos todos os vínculos convosco. Entre nós e vós começou uma inimizade e um ódio permanentes, até que creiais no Deus Único.’ — Surata al-Mumtahina: 4

O Islam disse:

لاَ تَتَّخذوا ابَاءَكم وَاِخوانكم اَوْ لياءَ اِنِ اِسْتَحَبُّوا الكُفرَ على الايْمَان ط وَمن يَتَوَلَّهم منكم فَاُلَــــئِك هُمُ الطَّلِمُوْنَ – (التَّوبة : 23)

“Mesmo que vossos pais e irmãos prefiram e amem a incredulidade em vez da fé em Allah, não os considereis como ‘os vossos’. E quem quer que dentre vós os tome como amigos será certamente contado entre os injustos.” — Surata At-Tawbah: 23

Mais— اِنَّ مِنْ اَزواجكم وِاَوْلاَدكم عَدُوًّا لَّكم فاحذَرُوْهُمْ ج – (التَّغَابُنْ : 14)

“Entre vossas esposas e vossos filhos há também aqueles que são vossos inimigos; portanto, acautelai-vos deles.” — Surata At-Taghabun: 14

A orientação do Islam é que, se surgir oposição e conflito entre a vossa religião, o Islam, e a vossa pátria, deveis abandonar a pátria e partir em prol da religião, o Islam. Aquele que, por amor à religião, não consegue esquecer o amor à pátria e fazer a Hégira é um hipócrita; não podeis ter relação alguma com ele.

فَلاَ تَتَّخِذُوْا منهم اَوْلــياءَ حَتَّى يُهَاجِرُوا فى سَبِيْل اللهِ ط – (النســـاء : 89)

“Enquanto eles não fizerem a Hégira pelo caminho de Allah, não tomeis ninguém dentre eles como amigo.” — Surata An-Nissa: 89

Por causa da diferença entre o Islã e a incredulidade, até mesmo os laços de parentesco mais próximos pelo sangue são rompidos. Pais, irmãos e filhos tornam-se estranhos unicamente por se oporem ao Islã. Por causa da inimizade para com Allah, rompem-se as relações com pessoas da mesma linhagem. Quando começa a extrema inimizade entre a incredulidade e o Islã, é preciso abandonar de coração tranquilo até a própria terra natal. O significado claro disso é que o Islã ocupa o lugar mais elevado acima de todos os bens e relações do mundo. Pelo objetivo do Islã, pode-se sacrificar com muita facilidade tudo o que existe no mundo; mas o Islã não pode ser abandonado por coisa alguma. Do outro lado, observa-se uma cena semelhante e uma disposição semelhante. O Islã une em estreitos laços de fraternidade pessoas entre as quais não existe qualquer relação ou afinidade baseada em coisas materiais, como sangue, pátria, língua ou raça; elas se tornam mutuamente “irmãos”. No Alcorão Sagrado, dirigindo-se a todos os muçulmanos, foi dito:

وَاعتَصِمُوا بحبل اللهِ جَمِيْعَا وَّلاَ تَفَرَّقُوا ص وَاذكُرُوا نِعمِةَ اللهِ عليكم اِذ كنتم اعداءً فَالَّفَ بَيْنَ قُلُبِكم فَاصْبحتُم بِنِِعمته اِخْوَانَا ج وَكنتم على شَفَا حُفْرَةٍ مِّنَ النَّارِ فَانْقَذَكم مِنْهَا ط – (ال عِمران: 103)

“Apegai-vos todos juntos à corda de Allah e não vos dividais. Lembrai-vos da graça de Allah para convosco: outrora éreis inimigos declarados uns dos outros, mas Ele suscitou amor mútuo em vossos corações, e, pela graça de Sua bênção — o Islã —, tornastes-vos ligados uns aos outros por laços de fraternidade. Estáveis à beira de uma profunda e ardente cova de fogo (por causa do orgulho de nobreza e da inveja e hostilidade), mas Allah, o Altíssimo, salvou-vos dela.” — Surata Al Imran: 103

Sobre todos os tipos de não muçulmanos, foi dito:

فَاِنْ تَابُوا وَاَقَامُوا الصَّلوة وَاَتُوا الزَّكوة فَاِخْوَانكم فى الدِّيْنِ ط – (التَّوبة: 11)

“Se abandonarem a incredulidade, arrependerem-se, estabelecerem a salat e derem o zakat, serão considerados vossos irmãos na religião.” — Surata At-Tawbah: 11

Em contrapartida, ao identificar os muçulmanos, foi dito:

مُحَمَّدُ الرَّسُولُ اللهِ ط وَالَّذِيْن َمَعَهُ اَشِدَّءُ على الكُفَّارِ رُحُمَاءُ بَيْنَهُم – (الفتح: 29)

“Muhammad (que a paz esteja com ele) é o Mensageiro de Allah, e seus companheiros são indomáveis, firmes como aço, inflexíveis e resolutos diante dos incrédulos, mas estão unidos entre si por um vínculo incomparável de afeição e amor.” — Surata Al-Fath: 29

O venerável Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele) disse:

“Foi-me ordenado combater as pessoas até que testemunhem que não há outra divindade além de Allah e que Muhammad (que a paz esteja com ele) é Seu Profeta; que se voltem em direção à nossa qibla, estejam dispostas a comer os animais abatidos por nós e realizem a oração como nós. Quando fizerem isso, suas vidas e seus bens estarão protegidos de nós. Contudo, mesmo depois disso, permanecerá aberta a possibilidade de intervir contra eles em nome da verdade e da justiça. Seus direitos serão iguais aos direitos dos demais muçulmanos, e seus deveres serão semelhantes aos deveres dos demais muçulmanos.” — Abu Dawud, Kitab al-Jihad.

Eles não serão iguais apenas em direitos e deveres. Na realidade, não haverá possibilidade de estabelecer entre eles qualquer diferença ou discriminação em nenhum aspecto. Junto com o hadith acima, também foi mencionado o seguinte:

المسلم للمسلمِ كالبنيانِ يَشُدُّ بَعضَهُ بَعْضًا –

“Existe entre os muçulmanos uma relação tão forte quanto uma muralha. Cada parte dela fortalece a outra.”

مَثَلُ المُؤمِنِيْنَ فِىْ تَوَادِّهِمْ وَتَرَحُمِهم وَتَعَاطُفِهِمْ كَمَثَلِ الجَسَدِ الوَاحِدِ اِذَا اشْتَكَ منه عُضْوٌ تداعى له سائِرُ الجَسَد بالسَّهْرِ وَالحُمَّى –

“Quanto ao amor, à afeição e à ternura mútuos, a nação muçulmana é semelhante a um corpo completo. Quando uma parte dele sente dor, todo o corpo, por causa disso, fica privado de sono e de descanso.”

O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) denominou “comunidade” o “corpo” da nação islâmica. Ele disse:

يَدُ اللهِ على الجماعة وَمنْ شَذَ شُذَ فِىْ النَّارِ-

“A mão de Allah está sobre a comunidade. Quem se separar da comunidade será lançado no Inferno.”

مَنْ فَارَقَ الجمعة شِبرًا خلع رِقْبَةً الاِسْلامِ من عُنُقِهِ –

“Quem se afastar e se distanciar da comunidade sequer pela largura de um dedo, é como se tivesse rompido a corda do Islã de seu próprio pescoço.”

Não termina aqui; chegou-se a dizer até o seguinte:

مَنْ اَرَدَ اَنْ يُفَرِّقُ جَمَاعتَكم فَاقْتُلُوهُ –

“Quem desejar provocar uma cisão em vossa comunidade, matai-o.” E مَنْ اَرَدَ اَنْ يُفَرِّقُ اَمرالاُمَّةِ وَهِىَ جَمِيعُ فَاضْرِبُهُ بالسُّيُفِ كَائنا من كان – (مسلم, كتاب الامارة) “Quem desejar romper o firme vínculo desta nação islâmica, castigai-o com a espada — seja ele quem for.”

Como se formou a nacionalidade islâmica?

Com base no ideal islâmico, não havia qualquer discriminação entre sangue, terra, raça e língua. Salman, do Irã, era uma figura ilustre desta nação. Quando lhe perguntavam sobre sua ascendência, ele dizia: “Salman ibn Islam” — filho do Islã, o Islã. Hazrat Ali (que Deus esteja satisfeito com ele) dizia a seu respeito: “Salman é da nossa própria família.” Badhan ibn Sasan e seu filho Shahr ibn Badhan também viviam naquela sociedade. Eles eram descendentes de Bahramgur. O Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) nomeou Badhan governador do Iêmen e seu filho governador de Sana. Bilal, o negro da Abissínia, também era um membro daquela comunidade. Hazrat Umar Faruq (que Deus esteja satisfeito com ele) dizia a seu respeito: “Ele é o escravo de um líder e também nosso líder.” Suhaib, de Roma, também pertencia a esta nação. Hazrat Umar (que Deus esteja satisfeito com ele) costumava nomeá-lo para conduzir a oração em seu lugar. Sobre Salim, escravo de Hazrat Abu Hudhaifa, Hazrat Umar disse no último momento de sua vida: “Se Salim ainda estivesse vivo hoje, eu proporia seu nome para ser o próximo califa depois de mim.” Zayd ibn Haritha era um escravo, mas, por também pertencer à nação islâmica, o Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) casou com ele sua prima, a Mãe dos Crentes, Hazrat Zaynab. Usama, filho de Zayd, também era um “membro” daquela comunidade. O Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) nomeou-o comandante do exército, no qual Hazrat Abu Bakr, Umar Faruq, Abu Ubayda ibn al-Jarrah e outros ilustres Companheiros participaram como simples soldados. A respeito de Usama, Hazrat Umar (que Deus esteja satisfeito com ele) disse a seu filho Abdullah: “O pai de Usama era melhor que teu pai, e Usama é melhor que tu.”

O ideal dos Muhajirun

A nação, ou comunidade, formada segundo o ideal islâmico destruiu, com o golpe da espada afiada do Islã, todos os deuses designados pelos nomes de linhagem, pátria, raça e língua, bem como os fundamentos das inimizades e dos ódios que haviam perdurado desde tempos imemoriais. O Nobre Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) abandonou sua terra natal e migrou para Medina com seus companheiros. Isso não significa que Hazrat (que a paz esteja com ele) e seus companheiros não sentissem qualquer apego ou afeto natural pela terra natal. Ao deixar Meca, ele disse: “Ó Meca, tu és, para mim, a mais querida de todas as terras do mundo. Mas que posso fazer? Teus habitantes não me permitiram permanecer nesta terra.” Quando Hazrat Bilal (que Deus esteja satisfeito com ele) adoeceu depois de chegar a Medina, lembrou-se de algo relacionado a uma pessoa de Meca. Apesar disso, todos esses grandes homens emigraram exclusivamente por causa do Islã e, por isso, jamais surgiu em seus corações qualquer ressentimento.

الاليت شعرى هل ابيتن ليلة * بفتح وحولى اذخرو جليل وهل اردن يوما مياه مجنة * وهل تبدو الى شامة وطفيل

A conduta dos Ansar

Por outro lado, os habitantes de Medina ofereceram uma grandiosa acolhida ao Nobre Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) e aos demais Muhajirun. Sacrificaram generosamente por eles até a própria vida e os próprios bens. Foi por isso que Hazrat Aisha (que Deus esteja satisfeito com ela) disse: “Medina foi conquistada pelo Alcorão.” O Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) uniu os Ansar e os Muhajirun em laços de fraternidade. E eles também se ligaram por uma fraternidade tão profunda que, durante longo tempo, herdaram uns dos outros. Então, Deus encerrou essa prática ao revelar este versículo:وَاُولُو الارحام بَعضَهُم اَولى بِبَعضٍNo que diz respeito à herança, os parentes consanguíneos têm maior direito. Os Ansar dividiram suas próprias terras em partes iguais e as distribuíram entre seus irmãos Muhajirun. Mais tarde, quando as terras dos Banu Nadir foram conquistadas, os Ansar pediram ao Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) que também desse essas terras aos seus irmãos Muhajirun. Louvando esse autossacrifício, o Altíssimo declarou:وَيُؤثرونَ على اَنْفُسِهِم وَلو كان بِهِم خِصَاصةٌ –

“Eles dão preferência a seus irmãos Muhajirun em detrimento de si mesmos, embora estejam necessitados e sofram privações.”

Hazrat Abdullah ibn Awf e Hazrat Sa’d ibn Rabi al-Ansari estabeleceram entre si um vínculo de fraternidade. Então Hazrat Sa’d deu metade de seus bens a esse seu irmão na fé e chegou a preparar-se para divorciar-se de uma de suas várias esposas e casá-la com ele. Quando os emigrantes da época do Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) começaram a ser continuamente nomeados califas, nenhum habitante de Medina lhes disse sequer: “Vocês são estrangeiros; que direito têm de exercer autoridade em nosso país?” O Mensageiro Nobre (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e Hazrat Umar Faruq (que Allah esteja satisfeito com ele) haviam concedido terras aos emigrantes nos arredores de Medina; contudo, nenhum ansari proferiu sequer uma palavra a esse respeito.

Ruptura dos laços mundanos para preservar os laços islâmicos

Depois, nas batalhas de Badr e Uhud, os emigrantes de Meca travaram abertamente uma luta sangrenta, em nome da religião do Islã, contra os próprios parentes. Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) golpeou pessoalmente com a espada seu filho Abd al-Rahman; Hazrat Hudhayfa atacou seu próprio pai, Abu Hudhayfa; Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) matou seu tio materno. O próprio tio paterno do Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), Abbas, seu primo Aqil e seu genro Abu al-As foram capturados na batalha de Badr e tratados como prisioneiros comuns. Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) propôs que todos os prisioneiros de guerra fossem mortos e que cada um matasse o parente próximo que estivesse cativo.

Durante a conquista de Meca, o Nobre Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), com a ajuda de pessoas estrangeiras que não eram seus parentes, atacou sua própria tribo e sua terra natal. Fez com que outros degolassem seu próprio povo. Na história árabe, foi realmente um acontecimento extraordinário e sem precedentes: um árabe atacar sua própria tribo com pessoas de fora dela — e isso não para vingar-se nem para apoderar-se de riquezas ou propriedades, mas unicamente para estabelecer na prática uma palavra de fé. Quando o grupo de jovens malfeitores da tribo dos coraixitas estava sendo morto, Abu Sufyan veio e disse: “Ó Mensageiro de Allah! Todos os jovens filhos dos coraixitas estão sendo mortos; assim, até o nome e os vestígios dos coraixitas desaparecerão.” O Misericordioso para os mundos (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) concedeu segurança aos habitantes de Meca. Então os ansares pensaram que Hazrat (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) talvez tivesse se deixado atrair por seu próprio povo. Disseram: “Hazrat (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) não é nada além de um ser humano; no fim, não conseguiu deixar de preservar o prestígio de sua própria linhagem.” Ao tomar conhecimento disso, o Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) reuniu os ansares e disse: “O amor pela linhagem ou pela própria tribo não me atraiu nem me desviou nem um pouco; sou servo de Allah e Seu Mensageiro. Migrei por Allah para junto de vocês. Agora, minha vida e minha morte estão ligadas às de vocês.” Tudo o que o Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse aqui foi comprovado como verdadeiro por cada ato de sua vida. Após a conquista de Meca, nenhuma das razões pelas quais ele havia emigrado de Meca permanecia; ainda assim, ele não permaneceu vivendo em Meca. Isso prova que o Mensageiro Nobre (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) não atacou Meca movido por qualquer sentimento nacionalista ou vingativo; atacou-a unicamente para propagar e estabelecer a grandiosa mensagem da verdade.

Mais tarde, quando os bens das tribos Hawazin e Thaqif foram tomados como espólio, voltou a surgir um equívoco semelhante. O Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) deu uma parcela maior dos bens do espólio aos recém-convertidos ao Islã da tribo dos coraixitas. Alguns jovens ansares expressaram a suspeita de que isso fosse favoritismo nacionalista. Um tanto irados e exaltados, disseram: “Que Allah perdoe o Mensageiro Nobre (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele); ele deu aos coraixitas e privou-nos, embora até agora o sangue deles ainda esteja pingando de nossas espadas.” Ao ouvir isso, o Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) reuniu-os novamente e disse: “Dei-lhes mais porque aceitaram o Islã recentemente. Meu único objetivo é conquistar seus corações. Eles levarão os bens mundanos, enquanto vocês terão o Mensageiro de Allah. Não apreciam esta ‘distribuição’?”

Durante a batalha contra os Banu Mustaliq, houve uma discussão entre um homem da tribo de Ghifar e um homem da tribo de Awf. O homem de Ghifar esbofeteou o homem de Awf. A tribo de Awf convocou os ansares a avançar para ajudá-los contra os ghifaritas. Por outro lado, a tribo de Ghifar pediu ajuda aos emigrantes para o confronto. As espadas afiadas de ambos os lados quase foram desembainhadas. Ao receber a notícia, o Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) chamou os dois grupos e disse: “Que palavras da época da ignorância foram hoje pronunciadas por suas bocas?” Eles responderam: “Um emigrante bateu num ansari?” O Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Abandonem as palavras dessa época bárbara e obscura; isso é algo extremamente abominável.”

Abdullah ibn Ubay, o célebre líder nacionalista de Medina, também participava dessa batalha. Ao ouvir sobre o ocorrido, disse: “Eles chegaram ao nosso país, ‘floresceram e frutificaram’ aqui, e agora estão subindo sobre nossas cabeças. Depois de alimentar um cão com comida nutritiva, tornando-o bem nutrido e forte, se ele morde o próprio dono, essa situação pode ser comparada à nossa situação atual. Juro por Allah! Quando retornarmos a Medina, o grupo honrado e poderoso entre nós expulsará da cidade o grupo fraco e humilhado.”

Então, dirigindo-se aos ansares, disse: “E vocês, o que lhes aconteceu? Foram vocês que deram abrigo a essas pessoas em seu próprio país e repartiram com elas suas riquezas e propriedades. Juro por Allah! Se vocês as abandonarem, elas serão obrigadas a viver alimentando-se apenas do ar.” Quando o Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) ouviu essas palavras, chamou Hazrat Abdullah, filho de Abdullah ibn Ubay, e disse-lhe: “Seu pai está dizendo isso.” Hazrat Abdullah amava muitíssimo seu pai e orgulhava-se de que nenhum filho da tribo de Khazraj amasse o pai tanto quanto ele. Porém, ao ouvir aquilo, disse: “Ó Mensageiro de Allah! Se o senhor ordenar, trarei imediatamente a cabeça dele.” Mas o Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) respondeu negativamente. Depois de retornar da batalha a Medina, Hazrat Abdullah ergueu a espada contra o próprio pai e disse: “Sem a permissão de Hazrat, você não poderá entrar em Medina. Não foi você quem disse que o grupo honrado entre nós expulsaria de Medina os humilhados? Saiba, portanto, que toda honra está reservada unicamente a Allah e a Seu Mensageiro.” Ao ouvir isso, Ibn Ubay começou a gritar e disse: “Ó filhos de Khazraj, escutem! Agora é meu próprio filho que não me deixa entrar em casa.” As pessoas vieram e tentaram persuadir Hazrat Abdullah de muitas maneiras. Mas ele disse: “Enquanto não houver a permissão de Hazrat, de modo algum permitirei que ele entre em Medina.” Por fim, quando chegou a permissão de Hazrat, ao ouvi-la Hazrat Abdullah embainhou a espada e disse: “Uma vez que o Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) deu sua permissão, não tenho objeção.”

Quando se lançou um ataque contra os Banu Qaynuqa, Hazrat Ubadah ibn Samit foi nomeado “árbitro” para resolver a questão em causa. Ele decidiu exilar toda a tribo de Medina. Eles eram aliados da tribo de Hazrat Ubadah, os Khazraj. Ainda assim, ele não deu a isso a menor importância. Do mesmo modo, no caso dos Banu Qurayza, o líder dos Aws, Hazrat Saad ibn Muadh, foi nomeado “juiz”. Ele decidiu que todos os homens dos Banu Qurayza deveriam ser mortos, que as mulheres e as crianças deveriam ser mantidas cativas e que seus bens seriam considerados “espólio de guerra”. Nesse assunto, não deu a mínima atenção ao pacto de paz secular entre os Aws e os Banu Qurayza. Ora, é universalmente conhecido que os pactos mútuos tinham extrema importância na Arábia. Além disso, eles haviam vivido durante centenas de anos junto com os Ansar, no mesmo país. Mas tudo isso fracassou.

A essência fundamental da formação da nação islâmica

Essas provas e informações históricas deixam claramente evidente esta verdade: na fundação da nacionalidade islâmica, linhagem, tribo, língua e raça não têm a menor importância. O construtor que edificou esse “palácio” concebeu um plano completamente original e incomparável. Ele examinou minuciosamente a “matéria-prima” de toda a humanidade. Selecionou e reuniu os melhores e mais excelentes materiais que encontrou. Como a fé e as boas obras eram sólidas e perfeitas, combinou esses diferentes elementos e construiu um palácio dessa nacionalidade que abrange o mundo inteiro e toda a criação. A estabilidade e a permanência desse grandioso e magnífico palácio dependem inteiramente de uma só coisa: que suas diversas “partes”, quanto à sua forma essencial e ao seu lugar, esqueçam sua identidade fundamental independente, aceitem e mantenham na memória apenas uma “essência” e se revistam de uma única cor, esquecendo suas diversas cores. Sem distinção de lugar ou terra, todos sairão do mesmo “centro de libertação” e chegarão ao mesmo “destino da verdade”. Essa parede moldada como chumbo é o cerne da unidade nacional. Se essa unidade for despedaçada, se nos elementos fundamentais da nação despertar intensamente o sentimento de que suas linhagens originais são distintas, de que suas pátrias e lugares de residência são diferentes e de que seus interesses mundanos são mutuamente conflitantes, então será inevitável que surjam rachaduras nas paredes dessa construção, que seus alicerces sejam destruídos e que todos os seus elementos fundamentais se rompam e se dispersem. Assim como não se podem construir vários Estados dentro de um mesmo Estado, também não pode haver várias nacionalidades dentro de uma mesma nacionalidade. É absolutamente impossível reunir, dentro da nacionalidade islâmica, nacionalidades baseadas na linhagem, na tribo, na pátria, na língua e na raça. Entre essas duas nacionalidades, apenas uma pode subsistir — não mais que uma.

Portanto, aquele que é um muçulmano verdadeiro e cuja decisão definitiva é permanecer e viver como muçulmano deve considerar nulos todos os demais sentimentos de nacionalidade do mundo, rompendo e rejeitando todo tipo de vínculo e relação baseados na terra e no sangue. Mas, se ainda assim alguém quiser conservar intactos esses vínculos, como antes, não pode haver dúvida de que o Islã não entrou em seu coração, em sua mente e em seu intelecto. Na realidade, a extrema jahiliyyah encobre a mente e o cérebro de tal pessoa. Assim, mesmo que não seja hoje, amanhã ela certamente abandonará o Islã, e o Islã também a abandonará; disso não pode haver dúvida alguma.

O conselho do último Profeta

Impedir que essa antiga inveja, hostilidade e sentimento de superioridade da jahiliyyah voltassem a erguer a cabeça entre os muçulmanos e, por causa disso, que os alicerces do palácio nacional do Islã fossem completamente destruídos: essa era a maior preocupação do Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) no fim de sua vida. Por isso, ele dizia repetidamente:

لاَ تُرجِعُوا بَعدى كُفَّارًا يَضْرِبُ بعضكم رشقاب بعضٍ – (بخارى؛ كتاب الفتن)

“Depois de mim, não volteis a cair na kufr, para que, como consequência disso, não vos disponhais a matar uns aos outros.”

O nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele), por ocasião de sua última peregrinação — a Peregrinação de Despedida —, proferiu um discurso diante de uma enorme assembleia de muçulmanos no campo de Arafat, dizendo:

“Sabei que tudo o que pertencia à época da ignorância está sob os meus dois pés. Não foi concedida superioridade alguma ao árabe sobre o não árabe, nem ao não árabe sobre o árabe. Todos vós sois filhos de Adão, e Adão foi criado do barro. O muçulmano é irmão do muçulmano; os muçulmanos são irmãos uns dos outros. Todas as doutrinas da época da ignorância foram abolidas. Agora, o vosso sangue, a vossa honra e os vossos bens são invioláveis uns para os outros, assim como este mês e esta cidade são sagrados e invioláveis para vós neste dia da Peregrinação.”

Depois, ao chegar ao lugar chamado Mina, proferiu novamente esse discurso com palavras ainda mais veementes. Naquela ocasião, disse também:

“Escutai! Depois de mim, não volteis a vos desviar do caminho, entregando-vos ao assassinato mútuo. Em breve vos encontrareis com o vosso Senhor. Então sereis chamados a prestar contas de todas as vossas obras.”

“Sabei que, mesmo que um negro de nariz achatado seja nomeado vosso governante e ele vos conduza de acordo com a lei de Deus, deveis certamente ouvi-lo e obedecer-lhe.”

Depois de dizer isso, perguntou à multidão reunida: “Transmiti-vos esta mensagem?” A multidão respondeu: “Sim, ó Mensageiro de Deus.” Então o nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) disse: “Ó Deus, sê testemunha.” E disse também aos presentes: “Que os presentes transmitam a minha mensagem aos ausentes.”

Ao retornar da Peregrinação, foi ao local onde haviam sido martirizados aqueles que morreram na batalha de Uhud e disse: “Não temo que, depois de mim, vos entregueis ao politeísmo. Mas é motivo de preocupação que vos entregueis à cobiça do mundo. Não comeceis a lutar uns contra os outros. Se o fizerdes, sereis destruídos, tal como foram destruídas as nações antigas.”

O maior perigo para o Islã

O maior dos homens, o melhor da humanidade, havia expressado o temor de um perigo; na realidade, esse perigo provou ser extremamente nocivo e destrutivo. Todos os perigos devastadores que, desde a era áurea do Islã até hoje, se abateram sobre o Islã e os muçulmanos tornaram-se possíveis por causa disso. Apenas alguns anos após o falecimento do Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), a sedição provocada pela inveja e pela arrogância da tribo omíada contra a autoridade estatal da linhagem hachemita ergueu a cabeça; e eles destruíram para sempre a verdadeira política e o sistema de governo do Islã. Depois, isso voltou a manifestar-se sob a forma de hostilidade nacional entre árabes, ajamis e turcos, destruindo a unidade política do Islã. Em seguida, na própria base da destruição dos vários “Estados muçulmanos” estabelecidos em diferentes países, também esteve presente a intensa influência dessa sedição. Mas essa sedição destruiu igualmente esses dois elementos. Na Índia, o conflito e a discriminação entre mogóis e indianos despedaçaram os alicerces do Estado mogol, e o Estado turco foi destruído pelas diferenças e disputas mútuas entre turcos, árabes e curdos.

Leia a história completa do Islã e verá que, onde quer que se observe um Estado poderoso, em seus alicerces ocorreu uma confluência, como a união de três rios, dos sangues de inúmeras linhagens e de diferentes povos, sem distinção de raça, cor ou país; verá que seus dirigentes, comandantes militares, escritores, pensadores e guerreiros eram todos oriundos de povos diversos. Verá iraquianos empregados na África, sírios no Irã e afegãos na Índia (indianos no Paquistão), com grande coragem, lealdade, honestidade e destemor, em obras benéficas para o Estado muçulmano. E esse serviço deles não era um serviço estrangeiro ou de política externa; eles o prestavam inteiramente como a seu próprio país. Os Estados muçulmanos não dependiam completamente de nenhum país, tribo ou povo específico para reunir seus valentes e competentes servidores. Onde quer que houvesse uma mente talentosa e uma mão forte, hábil e perita, era dali que essas pessoas eram reunidas. Eles consideravam cada Dar al-Islam como seu próprio país e sua própria casa. Porém, quando surgiu a devastadora sedição da arrogância, do egoísmo e da hostilidade nacional, começaram a acender entre si o fogo da inveja e do ódio. Inundaram-se de facções, conflitos internos e intrigas perversas. A força que outrora era empregada contra os inimigos surgiu agora como uma arma afiada contra eles próprios. Começou entre os muçulmanos uma guerra civil total, e as grandes potências muçulmanas foram apagadas da face da Terra.

A imitação cega do Ocidente

Aprendendo com as nações ocidentais contemporâneas e imitando-as cegamente, os muçulmanos de todos os países do mundo começaram a exaltar o tribalismo, o nacionalismo de linhagem e o patriotismo. Hoje os árabes se orgulham do nacionalismo árabe, e os egípcios recordam o antigo tirano Faraó como um herói nacional. Sob o entusiasmo do turquismo, os turcos sentem uma profunda e estreita afinidade com os famosos Chengiz e Hulagu Khan da história. Hoje os iranianos estão desnorteados pela intensidade de seu sentimento de superioridade iraniana. Segundo eles, foi graças ao imperialismo árabe que homens como Husain e Ali (que Allah esteja satisfeito com ambos) puderam tornar-se heróis nacionais; caso contrário, Rustam e Esfandiyar seriam, na realidade, suas verdadeiras figuras nacionais memoráveis. Mesmo na Índia pré-partição, muitos muçulmanos consideravam-se parte do nacionalismo indiano; muitas pessoas romperam todas as relações com o Zamzam da Arábia e estabeleceram sua relação nacional com as “águas do Ganges”. Consideraram Bhima e Arjuna “heróis” nacionais. Mas qual é a causa disso? A única causa dessa situação perigosa é que esses ignorantes e tolos, assim como não conseguiram compreender minimamente sua própria civilização e cultura, também não compreenderam a civilização ocidental. Os princípios fundamentais e as verdades profundas não lhes foram revelados. Como têm uma visão extremamente superficial, encantam-se ao ver imagens de brilho exterior e de grande fascínio e ficam loucos por elas. Não conseguem compreender de modo algum que aquilo que é néctar vivificante para o nacionalismo ocidental é, para o nacionalismo islâmico, um veneno mortal. O nacionalismo ocidental está fundamentado na unidade de linhagem, país, língua e raça. Por isso, aquele que não pertence à sua própria nação, não descende da mesma linhagem nem fala a mesma língua — mesmo que esteja a apenas uma milha de sua fronteira — é obrigado a romper com ele todo tipo de relação e a não manter qualquer vínculo. Nesse país, os membros de uma nação não podem ser verdadeiros e sinceros amigos dos membros de outra nação; o habitante de um país não pode ser um verdadeiro servidor de outro país. Uma nação não pode depositar em qualquer pessoa de outra nação confiança suficiente para acreditar que ela deixará de lado os interesses de sua própria nação e considerará os interesses alheios superiores. Mas o nacionalismo islâmico é completamente diferente disso. Em vez de se fundamentar na linhagem, na tribo e na pátria, ele se fundamenta na doutrina, na fé e nos mandamentos práticos. Todos os muçulmanos do mundo, acima de toda discriminação nacional, podem compartilhar mutuamente alegrias e tristezas, sendo cooperadores e colaboradores uns dos outros. Um muçulmano indiano (ou bangladês) pode ser amigo e leal ao Egito tanto quanto pode ser na defesa da Síria. É por isso que eu dizia que não existe diferença geográfica, de linhagem ou tribal entre os muçulmanos de um país e os muçulmanos de outro país. Nesse aspecto, os princípios fundamentais do Islã e as normas dos países ocidentais são opostos entre si. Aquilo que é causa de força para estes países provoca ruptura e desastre para o Islã. Inversamente, aquilo que dá vida ao Islã é, para o nacionalismo ocidental, um veneno mortal. O poeta Iqbal expressou esta verdade de maneira realmente maravilhosa: (Aqui há algumas linhas em urdu).

Algumas pessoas imaginam que, mesmo depois de despertar o sentimento de nacionalismo patriótico ou de nacionalismo baseado na linhagem e na tribo, o vínculo do nacionalismo islâmico ainda pode unir profundamente os muçulmanos. Para isso, enganam-se dizendo que esses dois tipos de nacionalismo podem coexistir. Que um não tem a menor possibilidade de prejudicar o outro. Pelo contrário, podemos obter benefícios ilimitados de ambos os tipos de nacionalismo. Mas não há a menor dúvida de que isso é o resultado inevitável da extrema ignorância e da falta de inteligência. Assim como dois espíritos não podem ocupar um só corpo, também é absolutamente impossível conciliar, numa única mente, as correntes de pensamento contraditórias e conflitantes de dois nacionalismos. O sentimento nacionalista traça inevitavelmente uma linha divisória entre “os nossos” e “os outros”. Sob a influência inevitável e irresistível do nacionalismo islâmico, um muçulmano será necessariamente levado a considerar o muçulmano como sendo dos seus e o não muçulmano como “outro”. Por outro lado, como consequência natural do sentimento de nacionalismo patriótico ou baseado na linhagem, ele necessariamente considerará como seus todos os membros de seu país e de sua própria linhagem ou tribo, e como outros os habitantes de outro país ou de outra linhagem. Pode alguma pessoa sensata provar que essas duas correntes de pensamento — esses dois tipos de sentimento — podem ser conciliados no mesmo lugar? Como é possível considerar o não muçulmano de seu próprio país ao mesmo tempo como sendo dos seus e como “outro”, e considerar o muçulmano estrangeiro simultaneamente distante e próximo?

هَل يَجتَمِعًا مَعًا ؟ ألَيْسَ مِنْكُم رَجُلٌ رَشِيْدٌ ؟

Portanto, é preciso compreender claramente que o despertar, entre os muçulmanos, do sentimento de serem indianos, turcos, afegãos, árabes, iranianos, paquistaneses, bengalis e assim por diante é extremamente perigoso e prejudicial à consciência da nacionalidade islâmica e ao sentimento de unidade islâmica. Isso não é apenas resultado de uma linha de pensamento científico; também se tem visto isso ocorrer repetidamente na prática. Quando o ódio e a hostilidade da nacionalidade regional ou de linhagem despertaram entre os muçulmanos, os muçulmanos imediatamente passaram a cortar a garganta uns dos outros, eلاَ تَرجعوا بعدى كَفَّارًا يَضْرِبُ بعضكم رِقاَبَ بَعْضٍ“não comeceis, depois de mim, a cortar a garganta uns dos outros, tornando-vos infiéis.” — o Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) acabou por tornar real esse temor! Portanto, se for necessário promover, em lugar da nacionalidade islâmica, qualquer outra forma de nacionalidade — geográfica, tribal ou baseada na língua — isso deve ser feito com pleno conhecimento e consciência; é preciso saber que a doutrina desse tipo de nacionalidade é inteiramente oposta à nacionalidade pregada pelo Último Profeta, Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele).

Não há benefício algum em iludir a si mesmo nesse assunto, nem em desorientar outras pessoas por meio de fraude e confusão. (Data da redação — Tarjumān al-Qur’ān: novembro-dezembro de 1933.)

 

A mensagem de união do Islã

(Este é um discurso do autor)

Não é possível expressar em palavras quão bela e cativante é a cena do lugar onde o povo muçulmano se reúne — onde se congrega por ser obediente às ordens de um só Allah e membro da ummah de um só Mensageiro. O próprio Allah também aprecia muito cenas desse tipo:

اِنَّ اللهَ يُحِبُّ الَّذِيْنَ يقاتلون فى سبيله صَفُّا كانَّهُم بُنْيَانٌ مَّرْصُوْصٌ – (الصَّف: 4)

“Allah ama aqueles que combatem em Sua causa, alinhados firmemente como uma muralha de chumbo.” — Surata as-Saff: 4

O amor de Allah não se limita apenas a formar fileiras para a guerra; também se pode alcançar o amor de Allah formando fileiras para adorar Allah na oração. Por isso Allah, o Altíssimo, ordenou em linguagem clara:

اذا نُودى للصَّلوة من يَّومِ الجُمُعَةِ فاسعَوا الى ذِكْرِ اللهِ وَذَرُوا البَيْعَ ط – (الجمعة : 9)

“Assim que for feito o anúncio para a oração na sexta-feira, abandonai as atividades e a compra e venda, e apressai-vos para a recordação de Allah e para a oração.” — Surata Al-Jumu’a: 9

Não termina aqui; a coesão indivisa dos muçulmanos, existente desde o Extremo Oriente até às fronteiras do Ocidente, é também, sem dúvida, um sinal claro da infinita graça de Allah.

O próprio Allah, o Altíssimo, disse:وَاذكُرُوا نِعمِةَ اللهِ عليكم اِذ كنتم اعداءً فَالَّفَ بَيْنَ قُلُبِكم فَاصْبحتُم بِنِِعمته اِخْوَانَا ج وَكنتم على شَفَا حُفْرَةٍ مِّنَ النَّارِ فَانْقَذَكم مِنْهَا ط – (ال عِمران : 103)

“Lembrai-vos da infinita graça de Allah para convosco: quando estáveis envolvidos em inimizade mútua, Allah criou amor entre os vossos corações, e, assim, tornastes-vos irmãos uns dos outros. Na verdade, estáveis à beira de uma cratera de fogo, e Ele salvou-vos dela.” — Surata Al ‘Imran: 103

É especialmente digno de reflexão como os muçulmanos podem ser constituídos como uma entidade indivisa, semelhante a uma muralha sólida. A existência de cada muçulmano é completamente individual. O corpo de cada um é distinto, assim como a sua vida e o seu ser. Mesmo em termos de natureza e disposição próprias, não há compatibilidade entre uns e outros. Os pensamentos e a mentalidade de cada um diferem entre si. Contudo, apesar dessa diversidade, um único vínculo relacional aproximou os indivíduos distintos entre os muçulmanos e uniu-os numa ligação profunda. Esse vínculo reúne-os por vezes na mesquita, onde pequenos e grandes, ricos e pobres, permanecem todos alinhados na mesma fileira. Esse mesmo vínculo reúne os muçulmanos, em certa ocasião, no campo de batalha, onde se encontram, esforçam-se e lutam uns com os outros para alcançar um único objetivo fundamental e uma finalidade central. Graças a esse vínculo, podem estabelecer-se relações matrimoniais entre eles. É também por causa dele que os muçulmanos se tornam compassivos e solidários uns para com os outros, e é ele que lhes confere uma dignidade completamente distinta da das demais nações. Mas isso não é algo material nem sensorialmente perceptível; na realidade, é apenas uma “palavra” (Kalima). Chamei-lhe palavra de união precisamente porque essa palavra reúne inúmeras pessoas num único vínculo.

É evidente que, aqui, “palavra” não significa apenas algumas palavras. O que importa é o significado e o sentido subjacente. Quando uma doutrina ou uma linha de pensamento se manifesta revestida da forma de palavras, também ela é chamada de “palavra”. É por isso que o pensamento ou a doutrina que reúne inúmeras pessoas num único vínculo e as transforma numa nação pode ser conhecido como palavra de união. A doutrina com base na qual pessoas de origem turca foram constituídas numa única nação também é uma palavra de união; do mesmo modo, o pensamento ou a ideologia que atua para unir os habitantes da Áustria e da Alemanha também é uma palavra de união. Sem dúvida, todos os pensamentos e doutrinas que procuram transformar em “uma nação” pessoas que falam a mesma língua, ou que provêm da mesma linhagem ou tribo, ou que são habitantes de um mesmo país, são palavras de união. Mas essas palavras de união são extremamente limitadas; obstáculos como rios, mares, montanhas, línguas e tribos confinaram cada uma delas dentro de limites muito estreitos. Como nenhuma delas é capaz de criar a união de toda a humanidade, nenhuma pode ser a palavra de união do mundo inteiro.

Na verdade, nenhuma das mencionadas palavras de união é capaz de unir os muçulmanos. Os muçulmanos não se unem uns aos outros simplesmente por serem habitantes de um mesmo país. Tampouco se tornam irmãos apenas por falarem uma determinada língua. A mera unidade de sangue também não os transforma numa muralha sólida. A unidade de interesses políticos ou econômicos tampouco os transformou numa única nação. Um árabe que fala árabe e um afegão que fala pashto pertencem igualmente à mesma sociedade dos muçulmanos; não são separados. Se o negro da Abissínia e o europeu da Polônia pertencerem à sociedade islâmica, ninguém poderá expulsá-los dela. Isso prova claramente que aquilo em que os muçulmanos acreditam como a “palavra de união” não pode ser limitado em lugar algum por montanhas, rios, mares, linhagem, tribo, língua ou interesses econômicos; e que a única “palavra” capaz de reunir e congregar toda a humanidade do mundo num mesmo “centro de união” pode ser aceita pelos muçulmanos como a verdadeira “palavra de união”. Nenhum objeto terreno ou material pode ser um obstáculo à expansão e à abrangência total dessa “palavra de união”. Diante dela, todos os seres humanos — negros, brancos, amarelos ou morenos, orientais ou ocidentais — possuem exatamente a mesma dignidade. A amplitude inerente à palavra dos muçulmanos não tem limite algum; como pode reunir toda a humanidade num único centro de união, ela é, na realidade, a verdadeira palavra de união. Quando examinada à luz da perspectiva idealista do Islã, ficará indubitavelmente provado que não existe no mundo nenhuma outra palavra dotada de uma vastidão e abrangência infinitas como a palavra de união dos muçulmanos.

Para esclarecer devidamente a questão, pode-se agora apresentar o exemplo de um enorme palácio, cujas sólidas paredes e colunas erguidas possuem, cada uma, uma existência própria. Por outro lado, seu teto e seu piso também são completamente diferentes. Inúmeros objetos e materiais criam diferenças e distinções entre eles. Apesar disso, uma coisa os harmonizou plenamente: cada um dos objetos mencionados é apenas uma parte diferente do mesmo palácio. Eles foram feitos para alcançar o mesmo objetivo e o palácio foi construído segundo o projeto bem elaborado de um engenheiro. Portanto, somente esse aspecto pode reunir, conectar e organizar tantos objetos diferentes. Todos os demais elementos, ao contrário, constituem bases para a divisão e a desigualdade. Do mesmo modo, se as inúmeras nações do mundo, com suas diferentes raças, línguas, tribos e pátrias, desejarem transformar-se em “uma única nação”, só poderá haver um meio: todas elas deverão, juntas, crer e professar, sem qualquer dúvida, a fé num único Allah, Criador do universo, em Seus anjos, em Seus Livros, em Seus nobres profetas enviados e na obrigação de prestar contas perante esse Allah.

Analisemos novamente, um pouco, o exemplo daquela parede. Na realidade, sua cor é branca; alguém que sofra de icterícia pode chamá-la de verde, ou, usando óculos de qualquer outra cor, pode descrevê-la como tendo essa cor. Ou alguém, levado pela obstinação, pode também dizer que ela é preta ou azul. Assim, ignorando sua cor verdadeira, pode-se divulgar ao mundo que ela tem qualquer cor. Mas todas essas divulgações e afirmações seriam completamente falsas — os observadores do mundo, em conjunto, de modo algum as reconheceriam ou apoiariam. Isso porque a unidade jamais pode ser estabelecida sobre a mentira; a unidade e a solidariedade só podem ser fundadas na verdade e na honestidade. Portanto, toda a humanidade reconhecerá de comum acordo a brancura daquela parede. Do mesmo modo, também pode haver — e de fato tem havido — concepções sobre o Criador e Sustentador do universo. Alguns dizem que há dois ou três deuses, ou que Deus se dividiu em milhões e bilhões de seres. Muitas concepções desse tipo existem na sociedade humana, mas, unanimemente, ela testemunha que há apenas um Criador do universo. Portanto, conforme o exemplo acima, a união e a unidade da humanidade só podem basear-se nesta única palavra, nesta única mensagem. Todas as demais palavras, concepções, doutrinas e mensagens são causadoras de separação e divisão; nenhuma delas tem capacidade de criar união, unidade e solidariedade. Também existem concepções correntes sobre os anjos. Alguns os consideram divindades; outros, intercessores; e outros ainda afirmam que são parceiros nas obras divinas. Entre todas essas afirmações e concepções, a única concepção verdadeira é considerar os anjos como servos de Allah e uma nação inteiramente obediente e submissa às ordens de Allah. A unidade no mundo só é possível com base nessa crença verdadeira. Não há dúvida de que todas as demais concepções e crenças são causadoras de divisão.

O mesmo é verdade no mundo a respeito dos nobres profetas enviados por Allah e dos Livros. Cada nação pode proclamar sua autonomia com seu próprio “líder” nacional e seu próprio livro religioso nacional, e pode reivindicar a veracidade de seu próprio líder e a falsidade do outro. Mas afirmações tão diversas não podem reunir as nações do mundo num mesmo centro. A mensagem fundamental para unir todas as nações e formar uma única nação só pode ser esta: todos os profetas e mensageiros que Allah enviou, em diferentes épocas, a diferentes povos são verdadeiros; e todos os Livros que Allah revelou à humanidade são verdadeiros e ensinam a verdade.

Também podem existir diferentes concepções sobre a dissolução da criação e o fim da humanidade. Mas a mente orientada pela verdade só pode aceitar isto: um dia toda a humanidade terá de comparecer diante do Criador para o “juízo final” e apresentar um relato minucioso de suas ações ao longo da vida.

Portanto, a unidade e a solidariedade em escala mundial só podem ser estabelecidas com base na palavra final e na fé. Fora disso, todas as demais opiniões e caminhos são errôneos — todos causam separação e divisão; não há dúvida quanto a isso. Na verdade, crer sem o menor traço de dúvida nesses cinco assuntos é o que se chama “palavra de união:

امَنَ الرَّسُزْلُ بِمَا اُنْزِلَ اليه من رَّبِّهِ والمؤمِنُونَ ط كُلٌّ اَمَنَ بالله والملائكــتِهِ وَكتبهِ وَرُسُولهِ قف لاَ نُفَرِّقُ بَيْنَ اَحَدٍ مِّن رُّسُلِهِ ط وَقَالُوا سمعنا وِاطَعنا غُفرانَكَ رَبَّنَا وَاِلَيْكَ المَصِيْرُ – (البقرة: 285)

“O Mensageiro creu no que lhe foi revelado por seu Senhor. E os demais crentes também creram nele. Todos creram em Allah, em Seus anjos, em Seus Livros e em Seus profetas, e disseram: ‘Não fazemos distinção alguma entre nenhum de Seus profetas. Ouvimos e obedecemos. Ó Allah! Pedimos-Te perdão; a Ti será o nosso retorno.’” — Surata Al-Baqara: 285

Estas são as cinco verdades fundamentais reveladas por Allah, o Altíssimo. O Mensageiro de Allah anunciou-as às pessoas do mundo. Por isso, Ele reuniu a discussão detalhada desses assuntos numa única kalima: “lā ilāha illā Allāh, Muḥammadun rasūl Allāh”. Reconhecer, juntamente com a unicidade de Allah, a profecia de Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) significa que aquele que recitou esta kalima creu em toda a verdade anunciada pelo Profeta. Foi justamente esta kalima que foi descrita como algo muito pesado e grandioso:

اِنَّا سَنُلقِىْ عَلَيْكَ قَوْلاً ثَقِيْلاَ – (المزمل : 5)

“Faremos descer sobre ti uma palavra difícil de suportar.” — Surata Al-Muzzammil: 5

Esta mensagem não é insignificante como uma folha solta ou um pedaço de papel que uma rajada de vento possa levar. Ela não carece de estabilidade num lugar fixo, nem pode ser alterada pelo forte impacto de cada nova descoberta ou perspectiva. Na verdade, a ‘kalima pura’ não é uma mensagem desse tipo. Pelo contrário, é grandiosa, solene e firme como uma montanha. Nenhum golpe de tempestade ou tormenta, nem mesmo um dilúvio devastador, pode abalá-la minimamente. Sobre esta ‘mensagem revolucionária de união’, firme e inabalável, foi dito no Nobre Alcorão:

الم تر كيف ضرب الله مثلاً كلمة طَّيِّبَةً كَشَجَرَةٍ طَّيِّبَةٍ اَصلهَا ثابِتٌ وَّفرها فى السَّماء – تُؤتِىَ اُكْلُهَا كُلَّ حِيْنٍ بِاِذنِ رَبِّهَا ط وَيَضرِبُ اللهُ الامثال للنَّاس لعلَّهُم يَتَذَكَّرُونَ – وَمَثَلُ الكلمة خَبِيْثَةٍ كَشَجَرَةٍ خَبِيْثَةٍ نِ اجتُثَّتْ من فَوقِ الارضِ ما لَهَا مِنْ قَرَارٍ – يُثَبِّتُ اللهُ الَّذِيْنَ اَمَنُوا بالقَوْلِ الثَّابِتِ فِىْ الحيَوة الدُّنيا وفى الاخرة ج وَيُضِلُّ اللهُ الظَّلِمِيْنَ لا وَيَفْعَلُ اللهُ مَا يَشَــاءُ – (27-24)

“Porventura, não consideraste como Allah, o Altíssimo, apresentou o exemplo da boa kalima? Na verdade, ela é como uma árvore de espécie nobre, cujas raízes estão firmemente estabelecidas nas profundezas da terra e cujos ramos se estendem até o alto dos céus. Ela produz frutos continuamente, pela permissão e determinação de Allah. Allah, o Altíssimo, apresenta tais exemplos às pessoas para que possam aprender com eles. Em contrapartida, a kalima impura é comparada a uma árvore de espécie inferior, arrancada desde a superfície da terra, sem a menor estabilidade. Allah, o Altíssimo, concederá firmeza aos crentes, por meio desta palavra verdadeira e comprovada, tanto neste mundo quanto no Além. Os injustos que negarem esta ‘palavra verdadeira’ se desviarão. Em verdade, Allah, o Altíssimo, faz o que deseja.” — Surata Ibrahim: 24–27

O exemplo mencionado no Alcorão tornou muito claro o assunto em questão. Somente a ‘mensagem pura, santa e abrangente’ pode alcançar estabilidade, segurança e expansão sobre a terra. Quanto às demais mensagens falsas, más e repugnantes, não lhes é possível alcançar permanência e expansão. Elas são como parasitas sem valor: espalham-se por inúmeras terras, brotam de várias formas como novas mudas e arrancam todas as mudas antigas. Essas mudas não possuem força nem capacidade para florescer e frutificar; e, se alguma delas por acaso der fruto, ele não poderá deixar de ser extremamente amargo e acre. Na verdade, é por causa dos efeitos devastadores desse tipo de erva daninha e parasita que a sociedade humana atual está afligida. É justamente por isso que hoje se desencadeiam, em todos os países, violentas tempestades de propaganda mentirosa. Em alguns lugares surgem gases venenosos; em outros, vulcões devastadores. Em certos lugares, por causa disso, foram semeadas as sementes do ódio, da hostilidade, da agressão e da vingança.

As demais nações do mundo não são o tema desta discussão; o caso daqueles para cujo destino foi decretado o severo castigo de Allah é inteiramente distinto. Talvez possam sentir satisfação e orgulho com esses seus ‘parasitas’ venenosos e mortíferos. Mas é aconselhável que os muçulmanos se mantenham muito distantes de tudo isso. Eles possuem a grandiosa ‘árvore’ da pureza e das boas ações, que jamais foi arrancada desde a chegada de Adão até hoje, nem jamais deixou de florescer e frutificar; suas raízes estão firmemente fincadas na terra profunda, e seus ramos se estendem pelo céu infinito; dessa ‘árvore’ sempre e em toda parte se obtiveram apenas os ‘frutos’ da paz e da segurança sem temor. Ela jamais impediu ninguém de buscar abrigo no seio pacífico de sua sombra refrescante e de beneficiar-se de seus ‘frutos’. Ela não faz qualquer distinção entre a tribo, a linhagem, a língua ou a terra natal das pessoas, nem demonstra curiosidade a esse respeito. Pelo contrário, todo aquele que buscou seu abrigo esqueceu para sempre o orgulho de sua linhagem, a diferença de língua, a desigualdade de cor e as disputas sobre a terra natal; o mundo inteiro tornou-se, aos seus olhos, completamente igual e uno. Esta é, na verdade, a característica incomparável desta ‘árvore’. O ensinamento abaixo constitui sua essência:

مُحَمَّدُ الرَّسُولُ اللهِ ط وَالَّذِيْن َمَعَهُ اَشِدَّءُ على الكُفَّارِ رُحُمَاءُ بَيْنَهُم تَرَاهُم رُكَّعَا سُجَّدَّا يَبتغُوْنَ فَضْلاً مِنَ اللهِ وَرِضْوَانَا ز – (الفتح: 29)

“O Mensageiro de Allah, Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), e seus companheiros são severos para com os incrédulos e compassivos e humildes uns para com os outros. Tu os verás inclinados e prostrados, buscando o favor e a satisfação de Allah.” — Surata Al-Fath: 29

Com efeito, esta “mensagem” foi apresentada à humanidade para reunir toda a humanidade em torno do vasto centro de uma grande verdade e, apesar das inúmeras divergências econômicas e intelectuais, unir todas as pessoas, sem distinção, em torno de uma questão consensual — em outras palavras, para unir todos os filhos de Adão nos estreitos laços da fraternidade. É por isso que, no Islã, foi reservado tão amplo e vasto espaço às questões da fé. Ela é capaz de oferecer abrigo eterno a toda a humanidade em seu regaço. É por isso que foi ordenado ao propagador desta “mensagem” que proclamasse em voz elevada:

يَاَيُّهَا النَّاسُ اِنِّىْ رَسُلُ اللهِ اِلِيْكُم جَمِيْعًا – (الاعراف: 158)

“Ó humanidade! Sou o Mensageiro de Allah enviado a todos vós.”

Por isso foi dito: o sangue e a honra daquele que aceitar esta “mensagem” são inteiramente sagrados. Quem o matar será mergulhado no castigo eterno do Inferno, e aquele que violar sua honra será um “fásiq”. Apesar disso, fragmentamos esta grandiosa e incomparável “mensagem de união”. Aqueles que creem em Allah, nos anjos, nos Livros, nos Mensageiros e no Além são muçulmanos segundo o mandamento de Allah. Mas, ignorando essas coisas, adotamos muitas questões inúteis, inventadas por nós mesmos, como fundamento da fé e da incredulidade. Chegamos até a distribuir, sem hesitação, a maldição da “incredulidade” entre aqueles que creem nesses cinco assuntos. Embora esta abrangente “mensagem de união” ainda exista, despedaçamo-nos de tal maneira que até nossa própria “religião” parece ter-se tornado múltipla. Separamos e distinguimos tudo: nacionalidade, mesquita e salat; rompemos também as relações matrimoniais entre nós e destruímos o vínculo indissolúvel de fraternidade que havia sido estabelecido entre nós com as palavras “todos os crentes são irmãos”. Depois, deparamo-nos com um grave perigo. Abandonando os verdadeiros princípios de nossa nacionalidade e fraternidade, adotamos de outros povos novos ensinamentos de nacionalismo regional e genealógico — embora isso seja, em essência, completamente contrário ao Islã. Todos os rancores, ódios, cegueira, favoritismo para com os parentes e conflitos mútuos da época da Jahiliyyah, que o Islã veio eliminar, nasceram um a um entre nós. Uns iniciaram o movimento pan-turabiano, outros hastearam a bandeira do pan-arabismo; uns se dedicaram a provar a superioridade da linhagem ariana, enquanto outros convidam à autossubmersão no nacionalismo baseado na região e na terra natal. Em suma, diversos grupos religiosos e políticos empregam todas as suas forças para despedaçar a incomparável “grande mensagem de união” do Islã. No entanto, foi justamente para eliminar essas diversas facções e divisões que a “mensagem de união” havia sido propagada.

Não estou dizendo que esta “mensagem de união” eliminará todas as divergências, desigualdades e diferenças, grandes ou pequenas. As divergências e diferenças são, em essência, naturais; é absolutamente impossível eliminá-las por completo. A diversidade de cor, tribo, língua e terra natal não pode ser totalmente extinta. Tampouco é possível eliminar as diferenças entre as capacidades de pensamento e as naturezas inatas. Portanto, não há dúvida de que essas divergências e diferenças continuarão manifestando-se nas opiniões e crenças, nos interesses e objetivos dos vários grupos humanos. Contudo, o propósito fundamental do envio da “mensagem de união” do Islã era estabelecer, entre essas divergências materiais e perceptíveis, uma harmonia e uma coordenação científica, moral e civilizacional, para que todas as pessoas, sem exceção e de coração aberto, pudessem aceitá-la e, ao adotá-la, pudessem tornar-se uma única nação com base exclusivamente nela, apesar de suas diferenças geográficas, tribais, econômicas, de cor e linguísticas. Por isso, juntamente com a apresentação dessa “mensagem de união”, foi enfatizada aos seus seguidores a realização da salat em congregação. Foi determinada uma única quibla para todo o mundo. O jejum, o hajj e outros atos também eliminaram todos os tipos de divergências e diferenças sociais e nacionais. A todos os muçulmanos do mundo foi concedido o mesmo status jurídico. E todos foram integrados na mesma civilização abrangente e universal. Seu objetivo principal era eliminar, com base na unidade da religião do Islã, todas as demais divergências e separações menores e incluir toda a humanidade em uma nova forma de nacionalidade. Mas, em vez de disseminarem entre toda a humanidade essa grande dádiva de Allah para eles, os muçulmanos adotaram eles próprios as ideias completamente anti-islâmicas do nacionalismo regional, linguístico, tribal e econômico. Entretanto, os acontecimentos da era moderna testemunham inequivocamente que o imperialismo, o ditatorialismo, o despotismo e as guerras e conflitos do mundo atual — essas calamidades destruidoras da humanidade, que devastam a paz e a civilização do mundo e fazem rios de sangue fresco dos oprimidos correrem sobre a face da Terra — são criação dessas ideias e dessa visão modernas.

Se houver, nas proximidades de uma cidade ou povoado, um dique que impeça as inundações de um rio, não pode haver dúvida de que a segurança daquela localidade depende da solidez e da impermeabilidade do dique. Mas, se as pessoas ouvirem a notícia de que há uma profunda fissura nele, pode-se afirmar com certeza que empregarão todas as suas forças para fechá-la. Contudo, o dique que se ergue para conter a corrente avassaladora de desintegração e calamidade extremas, de ódio e inimizade mútua, na sociedade humana — dique de cuja firmeza e resistência depende a segurança do mundo inteiro — hoje sofreu uma grave fissura. O surpreendente, porém, é que as pessoas — especialmente os muçulmanos — não prestam a isso a menor atenção; não se preocupam com isso, nem demonstram a mínima inquietação. A verdade é que, para preservar este grandioso e sublime dique, mesmo que fosse necessário sacrificar a própria mente, não se deveria hesitar. — Tarjuman al-Qur’an: julho de 1934.

 

Uma nacionalidade e o Islã

O senhor Maulana Husain Ahmad Madani, diretor do Darul Ulum Deoband, escreveu um opúsculo intitulado «Uma nacionalidade e o Islã». Era natural esperar que, nesse opúsculo escrito por um renomado erudito e pelo diretor da mais importante instituição de ensino religioso da Índia muçulmana, houvesse uma análise simples da complexa «teoria da nacionalidade» e uma expressão plena da verdadeira perspectiva islâmica. No entanto, sua leitura nos causou uma cruel decepção, e o livro nos pareceu desonroso para a posição do autor. Na época atual, inúmeras ideologias contrárias ao Islã estão empenhadas em lançar um violento ataque contra os princípios fundamentais do Islã — e hoje o Islã encontra-se indefeso dentro de sua própria casa. Os próprios muçulmanos não examinam os acontecimentos e os problemas do mundo à luz do Islã puro; escusado dizer que não conseguem fazê-lo simplesmente por causa de sua ignorância do Islã. Além disso, a questão da «nacionalidade» é tão complexa que a vida ou a morte de cada nação depende de compreendê-la claramente e assimilá-la profundamente. Se uma nação combinar os fundamentos de sua própria nacionalidade com princípios inteiramente diferentes, não poderá sobreviver no mundo como «nação». Ao tomar da pena para tratar de um assunto tão complexo, era necessário que uma pessoa como o Maulana Husain Ahmad tivesse plena consciência de sua própria responsabilidade. Pois a «amanat» do Profeta está confiada a ele. Se algum dia se acumularem entulho e detritos sobre os verdadeiros ensinamentos e os princípios fundamentais do Islã, cabe a pessoas como ele removê-los e tornar claros os ensinamentos islâmicos diante de todos.

Na atual era de trevas, eles deveriam ter compreendido plenamente que sua responsabilidade é muito maior e mais árdua do que a dos muçulmanos comuns. Se os muçulmanos comuns estiverem mergulhados no erro, serão прежде de tudo essas pessoas que serão responsabilizadas por isso. Por isso tenho de dizer novamente que, no opúsculo do Maulana Madani, não se encontra prova alguma de seu senso de responsabilidade nem de sua consciência do dever.

Perspectiva anticientífica

Em uma obra escrita por um autor, busca-se прежде de tudo conhecer seu ponto de vista. Isso porque a revisão e a análise do tema central, bem como a chegada, ao final, a uma conclusão correta ou equivocada, dependem unicamente desse ponto de vista. Um ponto de vista pode ser o seguinte: é preciso desviar o olhar de todas as demais considerações e tentar conhecer apenas a verdade efetiva; é preciso ver e julgar o problema fundamental em sua forma real e verdadeira e, sem considerar se a conclusão final a que chega a análise imparcial dessa verdade efetiva é contrária a alguém ou favorável a alguém, é dever aceitá-la diretamente. Na realidade, essa é a perspectiva inteiramente natural e científica da discussão e da análise; e é também a perspectiva islâmica. Pois, neste assunto,الحُبُّ فِى اللهِ واللَغْضُ فِىْ اللهِ— “amar por Allah e ser inimigo por Allah” — esse é o princípio fundamental do Islã.

Além dessa perspectiva simples e direta, existem muitas outras perspectivas tortuosas e complexas. Deixar-se fascinar pelo amor cego por determinada pessoa e tomar, em cada ação e questão, decisões unicamente favoráveis a ela também é uma espécie de perspectiva. Do mesmo modo, envolver-se na oposição cega a alguém, procurar apenas coisas odiosas e prejudiciais e aceitá-las também é uma espécie de perspectiva. Porém, por mais tortuosas, enviesadas e complexas que sejam perspectivas desse tipo, não há a menor dúvida de que todas serão contrárias à verdade efetiva. Portanto, não há esperança alguma de que, adotando-as e valendo-se delas, se possa chegar a uma conclusão correta em qualquer discussão. Assim, não convém de modo algum, sobretudo a um erudito, envolver-se na discussão de qualquer problema adotando essa perspectiva. Pois ela é uma perspectiva inteiramente não islâmica.

Agora verificaremos qual das perspectivas mencionadas na obra em questão foi adotada por Maulana Madani.

Logo no início do opúsculo, ele afirmou:

“Parece agora necessário apontar os erros e falhas de tudo quanto foi publicado a respeito da oposição à ideia de uma só nação e da tentativa de provar que ela é contrária à justiça e à ética. Desde 1885, o Congresso vem empreendendo esforços e diligências consideráveis para reivindicar, perante os habitantes da Índia, a unidade nacional baseada no patriotismo. As forças que se lhe opõem esforçam-se de todas as maneiras para provar que ela é inaceitável — ou melhor, ilícita e haram. Na verdade, nada é mais perigoso do que isso para o imperialismo britânico. Essas coisas não foram divulgadas apenas hoje; vêm sendo divulgadas desde 1886, ou mesmo antes. E não se pode esperar que os habitantes da Índia aceitem essa ‘revelação’, divulgada de várias maneiras, pois suas mentes e intelectos ficaram paralisados sob a influência da magia dos diplomatas britânicos.” — (págs. 5–6)

A esse respeito, o Dr. Iqbal disse: “Sua personalidade não é a de uma pessoa comum. Mas, apesar de todas essas qualidades, ele caiu sob a influência da magia dos ‘feiticeiros’ britânicos.”

Depois de uma longa discussão, ele expôs claramente seu ponto de vista nas seguintes palavras:

“A partir do trecho citado do artigo do professor Seeley, pode-se compreender sem dúvida quão perigoso para a Inglaterra é a transformação dos habitantes da Índia em uma só nação com base no patriotismo. Se essa corrente de pensamento despertar entre os habitantes da Índia, ainda que de modo muito tênue e fraco, mesmo que isso não lhes dê força para expulsar os ingleses da Índia, o Império Britânico será sepultado pelo simples fato de que estará profundamente arraigada entre eles a ideia de que é vergonhoso cooperar com uma ‘nação estrangeira’.” — (pág. 38)

Depois disso, ele expressou uma opinião tão surpreendente que, ao lê-la, chega a ser constrangedor imaginar como um renomado erudito temente a Deus pôde escrevê-la!

“Mesmo que uma só nacionalidade seja, por si mesma, uma coisa amaldiçoada e vil, ainda assim, uma vez que os europeus, empregando precisamente essa arma, extirparam os reis islâmicos e o Califado Otomano (?), é dever dos muçulmanos hoje utilizar essa arma com o objetivo de erradicar os britânicos.” — (pág. 38)

No contexto desta discussão, Maulana Madani reconheceu, em primeiro lugar, que “o grau em que os Estados muçulmanos foram prejudicados ao longo dos últimos dois séculos deveu-se precisamente à propaganda europeia, intensa e perniciosa, contra a unidade e a coesão islâmicas”. “Os europeus criaram entre os muçulmanos diferenças e divisões de caráter genealógico, patriótico e linguístico” e também despertaram entre eles a ideia de que não se deveria empreender nenhum jihad para proteger a religião e a espiritualidade, mas fazê-lo pela linhagem, pela tribo e pela terra natal. Portanto, seria aconselhável abandonar os sentimentos religiosos.” — (págs. 35–36)

Mas, na realidade, tendo chegado tão perto da verdade profunda, ele se perdeu no labirinto da hostilidade aos ingleses. Ele escreveu:

«É lamentável que, naquela época, ninguém se tenha levantado para pregar contra a unidade dos muçulmanos numa só nação, contra o nacionalismo territorial e contra a linhagem e as tribos. Nem sequer se ofereceu resistência à inundação avassaladora dos jornais europeus e dos discursos dos oradores. Como resultado, o pan-islamismo transformou-se numa história do passado e chegou ao fim, enquanto os Estados islâmicos, caindo nas mãos das nações europeias, perderam tudo. Agora, depois de terem fragmentado e destruído os muçulmanos em regiões como África, Europa e Ásia, dizem-nos que ninguém que dê importância à unidade e à solidariedade apenas dos membros da mesma millat pode unir-se e associar-se a um não muçulmano, nem pode formar uma “nação única” com qualquer não muçulmano.» — (págs. 36–37)

Basta ler o trecho citado para compreender claramente que, aos olhos de Maulana Madani, o critério último entre verdade e falsidade, entre o haq e o batil, é a Grã-Bretanha. Ele não quer examinar todos os assuntos com uma perspectiva científica e imparcial para descobrir qual é a realidade da verdade genuína e subjacente! Tampouco os julga com uma preocupação pelo bem dos muçulmanos, para saber qual é, na realidade, o veneno para eles! Abandonou ambas essas perspectivas. Apenas a perspectiva da “hostilidade à Grã-Bretanha” exerceu sobre ele influência absoluta. Assim, aquilo que é veneno para a Grã-Bretanha, Maulana Madani considera precisamente o elixir da vida. Nessa situação, se alguém considerar essa mesma coisa um veneno também para os muçulmanos e se opuser a ela por esse motivo, aos olhos de Maulana essa pessoa não poderá ser outra coisa senão um “simpatizante britânico”. Pois ele é tão entusiasta da morte da Grã-Bretanha quanto não é entusiasta da sobrevivência dos muçulmanos. Foi por isso que descobriu que a “unidade numa só nação” dos habitantes da Índia é fatal para a Grã-Bretanha; então, aos olhos de Maulana Madani, que outra coisa poderia ser cada pessoa que se opõe a essa unidade senão um simpatizante britânico? Se alguém tivesse informado Maulana sobre outro método infalível para destruir a Grã-Bretanha; se lhe dissesse que o suicídio coletivo simultâneo dos 350 milhões de habitantes da Índia garantiria o sepultamento definitivo do Império Britânico; e se Maulana compreendesse a eficácia infalível dessa receita, não hesitaria nem por um instante em acusar de simpatizante britânico toda pessoa que se opusesse a ela. Embora o suicídio seja uma ação extremamente vil e amaldiçoada, como seria possível, por meio dele, extirpar a Grã-Bretanha pela raiz, aos olhos de Maulana também a prática desse ato pecaminoso se tornaria um dever.

Com efeito, à luz de palavras e doutrinas desse tipo, pode-se compreender a lógica e o profundo mistério de fazer do “amor por Deus e da ira por Deus” o critério da verdade islâmica. Se a relação com Deus for eliminada do meio e qualquer outra coisa se tornar diretamente amada ou odiada, é daí que começa o ódio e a animosidade bárbaros. Então, todos os meios e métodos favoráveis à satisfação de todas as tendências humanas de amor e desamor passam a ser considerados lícitos e legítimos. Na realidade, já não se examina de modo algum se isso está de acordo com a lei de Deus. É por isso que se disse que nem mesmo a inimizade pessoal contra Satanás é desejável; também nesse caso é indispensável que a relação com Deus esteja presente. Caso contrário, essa inimizade contra Satanás pode transformar-se numa lei, e, na inimizade cega contra Satanás, os limites estabelecidos por Deus podem ser transgredidos. Consequentemente, acaba-se fazendo o trabalho de Satanás.

Paixão cega para provar a própria tese

Foi justamente por causa dessa mentalidade que Maulana Madani, levado por uma paixão cega para provar a própria tese, não hesitou em ignorar até mesmo os acontecimentos mais célebres e brilhantes da história. Quando a Europa propagava entre os muçulmanos o nacionalismo baseado na linhagem e nas tribos, no território e na língua, será que realmente ninguém entre os muçulmanos se levantou para lhe resistir? ………. Será que ele nunca ouviu os nomes de Tipu Sultão, Jamaluddin Afghani, Mufti Muhammad Abduh, Mustafa Kamel egípcio, Amir Shakib Arslan, Anwar Paxá, Jalal Nuri, Shibli Nomani, Sayyid Sulaiman Nadwi, Mahmudul Hasan, Muhammad Ali, Shaukat Ali, Iqbal, Abul Kalam (falecido) e outros? Será que nenhum dos mencionados advertiu os muçulmanos de que uma divisão jahilita desse tipo, em bases nacionais, os reduziria a pedaços e os despedaçaria? Em resposta a essa pergunta, Maulana Madani talvez não possa dizer “não”. Ainda assim, desviando o olhar desses fatos concretos, ele lamenta, afirmando que “ninguém se levantou para pregar a unidade dos muçulmanos numa só nação”. …… Que necessidade havia de apresentar uma afirmação tão equivocada? ……… Seu único objetivo era provar que a unidade e a solidariedade nacional dos muçulmanos eram contrárias aos interesses britânicos e que, por isso, todos os muçulmanos haviam se dedicado a espalhar diferenças e divisões baseadas na linhagem e nas tribos, no território e na língua. E agora, como a unidade e a solidariedade islâmicas se tornaram favoráveis aos interesses britânicos (?), começou-se a pregar a unidade nacional dos muçulmanos. Portanto, ficou provado que toda pessoa contrária ao nacionalismo territorial é simpatizante britânica; é a magia britânica que a faz dizer isso. Na realidade, não há dúvida de que isso é o resultado de uma atitude de hostilidade jahilita. Como “britânico” se tornou o critério entre verdade e falsidade, entre haq e batil, pode até ser considerado legítimo divulgar algo contrário à verdade genuína e à realidade — desde que isso possa atingir os interesses britânicos.

Em todo o livreto de Maulana Madani manifesta-se espontaneamente essa mentalidade. Nele, dicionários, versículos do Alcorão, hadiths e acontecimentos históricos foram quebrados e rearranjados conforme sua própria vontade, numa tentativa de provar sua tese; e ele negou e ignorou sem hesitação toda verdade que contrariasse sua tese, por maior que fosse essa verdade em todos os aspectos, internos e externos. Além disso, não hesitou nem por um instante em criar falsas impressões semânticas, apresentar exemplos sem qualquer analogia e estabelecer opinião equivocada sobre opinião equivocada. Na realidade, ao ver tais atos por parte de um erudito temente a Deus, a cabeça se inclina de vergonha.

Onde se forma uma nação com base no regionalismo??

 

O Maulana Madani afirma que “nos tempos atuais, as nações são formadas com base no regionalismo”. Mas, na realidade, isso é inteiramente falso, enganoso e completamente desprovido de fundamento. Não se pode apresentar, na história da humanidade, sequer um exemplo de uma nação formada em algum lugar apenas porque seus habitantes pertenciam a uma mesma região. As nações do mundo atual também estão diante de todos. Qual delas foi formada unicamente com base no regionalismo? Os negros, os indígenas americanos e os brancos dos Estados Unidos pertencem à mesma nação? Os judeus e os alemães da Alemanha formam uma única nação? Na Polônia, Rússia, Turquia, Bulgária, Grécia, Iugoslávia, Tchecoslováquia, Lituânia e Finlândia, existe em algum lugar uma “nação única” apenas porque a pátria é a mesma? Foi somente a unidade da pátria que as criou? Esses fatos concretos não podem ser negados. Se você quiser dizer que, daqui em diante, as nações deveriam ser formadas com base no patriotismo, pode dizê-lo. Mas, sem argumento nem prova, que direito você tem de afirmar que as nações são formadas com base no patriotismo e na unidade da pátria?

Os estrangeiros consideram e designam todos os habitantes de um país como habitantes daquele país. Por “americano” entende-se qualquer habitante do país chamado América — seja ele negro ou branco; para quem está de fora, ele será chamado de “americano”. Mas isso não torna falsa a verdade de que, essencialmente, eles pertencem a duas nações diferentes. Não há dúvida de que, nas relações internacionais, cada pessoa é conhecida como “nacional” de seu próprio Estado. Se o Maulana Hossain Ahmad Madani fosse para fora da Índia, seria designado como pertencente à “nacionalidade britânica”. Mas essa nacionalidade meramente terminológica se tornaria a verdadeira nacionalidade do Maulana? Então, que fundamento científico pode haver na afirmação de que, “como habitantes da Índia, hindus, muçulmanos, siques, cristãos e parses são todos conhecidos como uma ‘única nação’”? Há uma diferença entre ser “considerado” como tal e ser, de fato, uma “única nação” — uma diferença enorme. Portanto, não se pode apresentar uma coisa como argumento para provar a outra.

Apresentação de provas equivocadas a partir dos dicionários e do Alcorão

Depois, o Maulana Madani pretendeu provar, com base nos dicionários árabes, que a palavra “qawm” significa “um grupo de homens”, ou “um conjunto de muitos homens e mulheres”, ou “os parentes próximos de uma pessoa”, ou ainda “um grupo de inimigos”. Ele também tentou provar isso apresentando versículos do Alcorão, citando aqueles nos quais os incrédulos são chamados de “qawm” (nação) dos profetas ou dos muçulmanos. Entretanto, nesses versículos, a palavra “nação” é usada no terceiro ou no quarto dos quatro sentidos mencionados. Ele também apresentou os versículos nos quais a palavra “qawm” (nação) expressa o primeiro ou o segundo sentido. Mas aqui não há qualquer discussão sobre o significado dicionarizado ou antigo da palavra “nação”; a discussão diz respeito à terminologia da época moderna. Jawaherlal e Sayyid Mahmud não falam na linguagem dos dicionários árabes nem na linguagem do Alcorão, e essa linguagem antiga tampouco é usada no programa do Congresso. As palavras que eles empregam são aquelas cujos significados são geralmente aceitos atualmente. Nos tempos atuais, as palavras “qawm” e “qawmiyyat” são usadas como equivalentes de Nation e Nationality em inglês. Lord Bryce explica isso em seu livro “Intertational Relations”, dizendo:

“Uma nacionalidade é um conjunto de numerosas pessoas que foram unidas e integradas por certos sentimentos intensos e atrativos. Entre eles, dois atrativos são de longe os mais fortes: um é o atrativo da ascendência ou da tribo, e o outro é o atrativo da religião ou do sistema de vida. Entretanto, o uso de uma língua comum, uma literatura do mesmo tipo, atividades nacionais coletivas no passado, a lembrança de sofrimentos compartilhados, festividades e celebrações comuns, pensamentos e opiniões compartilhados e o sentimento de um propósito também podem ser fatores que criam esse mesmo agrupamento. Às vezes, quando essas relações se combinam em um só lugar, elas entrelaçam a coletividade humana. Outras vezes, uma ‘nacionalidade’ surge mesmo sem que exista entre elas qualquer atrativo.” — (p. 117)

A explicação de nação ou nacionalidade foi apresentada na “Encyclopedia of Religon and Ethics”:

A nacionalidade é criada por uma qualidade comum ou por várias qualidades que estão presentes de maneira semelhante em todos os membros de um grupo, e é isso que os reúne e os transforma em uma nação. … Em toda sociedade há pessoas ligadas umas às outras pela semelhança de ascendência e tribo, tradições compartilhadas, costumes e língua. Elas conseguem compreender-se muito bem. Na realidade, essa é a principal relação que as mantém entrelaçadas. Mesmo contra a própria vontade, estão ligadas umas às outras. Sob diversos aspectos, nasce entre elas amizade e afeição. As pessoas de nações diferentes são espontaneamente percebidas como “diferentes” e desconhecidas, porque seus gostos, modos de expressão e hábitos parecem extraordinários, e sua natureza, opiniões e sentimentos exaltados ocultos no coração parecem muito difíceis e inconvenientes de compreender. É por isso que os povos antigos olhavam para os povos de outras nações com desconfiança. Mesmo as pessoas civilizadas dos tempos modernos passam a nutrir repulsa pelos hábitos, costumes e modo de vida dos povos de outras nações, por considerá-los contrários ao próprio gosto.”

Nesse sentido, o Majestoso Alcorão concedeu sequer a mínima permissão para que incrédulos, politeístas e muçulmanos fossem incluídos na mesma nação? Nesse sentido, algum profeta veio ao mundo com o propósito de transformar todos os crentes e descrentes em uma única nação? Se não, por que foi introduzida essa discussão inútil? Ao longo das transformações da história, as palavras mudaram inúmeras vezes de significado. Ontem uma palavra tinha um sentido, e hoje é usada com outro. Ignorando o contexto interno e afirmando que “segundo a perspectiva do Alcorão, é possível que muçulmanos e incrédulos sejam uma única nação”, o que isso pode ser senão uma confusão terminológica? Pois o sentido que “nacionalidade” tinha certa vez na linguagem do Alcorão não tem qualquer relação com o sentido atual. Os juristas anteriores não faziam, do ponto de vista terminológico, uma distinção especial entre as palavras “makruh” e “haram”. Por isso, em muitos lugares, a palavra “makruh” foi empregada no sentido de “haram”. Mas, nos tempos atuais, foram criados termos distintos para indicar os diferentes graus dessas duas proibições. Agora, usar “haram” no sentido de “makruh” e apresentar como prova um trecho dos escritos de autores antigos pode ser algo além de fraude? A palavra “nacionalidade” também se tornou, nos tempos atuais, um termo técnico desse tipo. Aplicar a palavra “nacionalidade” tanto a muçulmanos quanto a incrédulos e, para silenciar os contestadores, apresentar o uso antigo como prova não pode resultar em outra coisa senão criar um labirinto de confusão.

Confusão semântica

Prosseguindo, o Maulana afirma que o Nobre Profeta havia formado em Medina uma nacionalidade livre de judeus e muçulmanos. Como prova dessa afirmação, ele menciona o tratado de paz estabelecido entre o Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e os judeus após a Hégira. Em algum ponto desse tratado, o Maulana encontrou a seguinte expressão:وَاَنْ يَّهُود بنى عَوفٍ امَّةُ مع المؤمنين— “Os judeus dos Banu Awf serão considerados uma só ummah com os crentes.”

Considerou-se essa expressão suficiente para provar que, também nos tempos atuais, pode ser formada uma nacionalidade livre de muçulmanos e não muçulmanos. Mas isso não passa de um labirinto semântico. Na língua árabe, ummah significa um grupo unido por algo, seja esse algo o lugar, o tempo, a religião ou qualquer outra coisa. Assim, quando duas comunidades diferentes chegam temporariamente a um acordo em torno de um interesse comum, também podem ser chamadas de uma só ummah. Por isso, o autor do reconhecido dicionário árabe Lisan al-Arab escreveu:وقوله فى الحديث ان يهود بنى عوف امة من المؤمنين يريد انهم بالصلح الذى وقع بينهم وبين المؤمنين كجماعة منهم كلمتهم وايديهم واحدة— “Quando o Mensageiro de Allah disse no hadith: ‘Os judeus dos Banu Awf são uma ummah entre os crentes’, quis dizer que, pelo tratado de paz firmado entre eles e os crentes, tornaram-se como um grupo destes; sua palavra e seu poder são um só e o mesmo.”

Como poderia o termo lexical mencionado, ‘ummah’, ser sinônimo da moderna expressão ‘uma única nacionalidade’? No máximo, ele poderia ser chamado, na terminologia moderna, de ‘aliança militar’ (Military alliance). Na realidade, não era mais que um acordo mútuo. Os judeus seguiriam sua própria religião e os muçulmanos, seu próprio sistema; as funções culturais e políticas de ambos permaneceriam distintas. Contudo, se um dos grupos sofresse qualquer ataque externo, ambos se uniriam para repeli-lo e gastariam seus próprios bens nessa guerra — esse era o conteúdo fundamental do referido acordo. O acordo foi encerrado em apenas dois ou três anos. Os muçulmanos exilaram alguns judeus e condenaram outros à morte. …… Pode um acordo desse tipo ser chamado de ‘uma única nacionalidade’? Há no referido acordo sequer a menor semelhança com aquilo que hoje se entende por ‘uma única nacionalidade’? Foi estabelecido em Medina um Estado de nacionalidade unificada? Foi formado algum conselho legislativo conjunto? Foi assinado algum acordo segundo o qual ‘judeus e muçulmanos’ se transformariam numa coletividade, aqueles que nela obtivessem a maioria governariam Medina e as leis aprovadas por eles seriam promulgadas em Medina? Foi estabelecido ali algum tribunal conjunto, no qual as disputas entre judeus e muçulmanos fossem julgadas conjuntamente e segundo uma mesma lei nacional? Na realidade, não foi formado ali nenhum congresso nacional, nem um alto comando eleito pela maioria judaica fazia judeus e muçulmanos dançarem ao simples movimento de seu dedo. Em segundo lugar, o tratado de paz foi celebrado entre o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e os líderes judeus; Ka’b ibn Ashraf e Abdullah ibn Ubayy não tentaram diretamente estabelecer ‘mass contact’ (contato com o povo) com indivíduos muçulmanos. Tampouco foi elaborado ali qualquer plano educacional, semelhante ao Wardha Scheme, para educar meninos muçulmanos e judeus segundo uma educação adequada a uma sociedade unificada. Em suma, não existe a mais remota relação ou semelhança entre aquele tratado de paz e a moderna ideia de uma única nacionalidade. Qual dos elementos constitutivos de uma ‘nação única’ moderna pode ser encontrado na ‘única nacionalidade’ que o Maulana Madani hoje atribuiu ao Nobre Mensageiro? Posso afirmar com certeza: nenhum elemento pode ser encontrado nela. Assim, apenas por ver no tratado do Nobre Profeta a expressão ‘uma só ummah com os muçulmanos’, o Maulana Madani quer incutir nos muçulmanos a crença de que aquilo que o Congresso hoje tenta fazer — formar uma ‘nação única’ — foi exatamente o que o próprio Nobre Profeta realizou um dia em Medina. Portanto, ao fazer a propaganda do Maulana Madani: ‘Entrem na atual nação única com plena certeza e tranquilidade’, não lhe ocorreu o mínimo temor de que Allah pudesse exigir dele uma prestação de contas por essa falsa propaganda? Isso não é uma afirmação completamente falsa a respeito do Nobre Profeta?

O próprio Maulana Madani é um grande erudito e muhaddith. Gostaria de lhe perguntar algo sobre um hadith narrado por Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela). O hadith afirma:كان النَبِىُّ صلى الله عليه وسلَّمَ يَقْبَلُ ومباشر وهو صائم“O Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) beijava e praticava mubasharat mesmo estando em jejum. Se tomarmos o significado corrente da palavra ‘mubasharat’, fica provado que é permitido manter relações sexuais mesmo em jejum. Mas será que é correto extrair do hadith uma opinião contrária à Shariah simplesmente adotando seu sentido aparente?

Esses dois argumentos são inteiramente do mesmo tipo. Portanto, não se pode fazer qualquer distinção quanto a esse princípio em nenhum dos dois casos. Sobretudo quando quem apresenta o argumento goza da confiança do povo e este deseja receber orientação dele, a questão se torna ainda mais grave. Se o departamento de saúde pública distribui veneno, onde se poderá encontrar o elixir da vida?

Fundamentar uma opinião errônea em uma prova errônea

Para provar como legítima a ‘única nacionalidade’ de todos os habitantes da Índia, o Maulana Madani apresentou ainda outro argumento. Ele disse:

“Todos os dias formamos organizações populares ou associações para interesses comuns e não apenas participamos delas, mas também fazemos o máximo esforço para nos tornarmos seus membros. …Existem áreas urbanas, áreas notificadas, conselhos municipais, conselhos distritais, conselhos legislativos, associações educacionais e centenas de associações desse tipo, formadas segundo regras e regulamentos específicos para fins determinados. Ninguém proíbe a participação nessas associações nem o esforço, total ou parcial, feito para esse propósito. Mas é surpreendente que, se uma dessas ‘associações’ for fundada para trabalhar pela independência do país e contra o domínio britânico, participar dela se torne haram, contrário à justiça, contrário aos ensinamentos do Islã e também contrário ao conhecimento, à razão e assim por diante.” (página 41) É precisamente a isso que se chama tomar uma decisão errada com base em um erro. Maulana Madani considera um ato pecaminoso obrigatório e, tomado por seu amor cego a ele, tenta provar como legítimo outro pecado semelhante. No entanto, em ambos os casos existe a mesma razão fundamental para serem haram. Quero dizer claramente que o fato de os Ulema-e-Hind declararem num dia haram e no dia seguinte halal a participação nos conselhos e assembleias tornou-se simplesmente uma brincadeira de criança. Pois não é política deles declarar algo haram observando a realidade do assunto. Uma única palavra de Gandhi faz entrar em ação sua capacidade de emitir fatwas. Mas, com base nos princípios e ideais eternos e imutáveis do Islã, afirmo que apoiar, por parte dos muçulmanos, as instituições gerais que concedem aos seres humanos autoridade absoluta para decidir novamente sobre assuntos acerca dos quais Allah e Seu Mensageiro já deram decisões claras é, sem dúvida, um crime eterno. Porém, quando os não muçulmanos se tornam maioria nessas instituições gerais dotadas de semelhante autoridade e poder absolutos, e todas as decisões são tomadas com base nessa maioria, isso é considerado um crime duplo. Portanto, o primeiro dever dos muçulmanos é separar o campo de atuação dessas instituições gerais dos limites específicos da Sharia de Allah; para eles, essa é a verdadeira guerra de independência. Se os limites mencionados para o exercício da autoridade forem distintos para ambos, então será legítimo que os muçulmanos cooperem com um grupo formado para algum interesse comum das nações muçulmana e não muçulmana. Seja para repelir o ataque de um inimigo, seja para realizar atividades econômicas ou artísticas, não há qualquer diferença.”

Mas, enquanto os limites das funções e dos poderes das duas nações permanecerem interligados, para os muçulmanos, viver sob tal sistema de governo unido será completamente inadequado, sem falar em união e cooperação. Sem exceção, todos os muçulmanos serão considerados culpados nessa questão, até que, unidos e com a ajuda de uma força conjunta, destruam o referido sistema de governo. E aqueles que aceitarem esse sistema de governo com entusiasmo e se esforçarem para colocá-lo em funcionamento serão ainda mais culpados. Mas a pessoa — seja ela quem for — que apresentar argumentos do Alcorão e do Hadith em favor da implementação desse sistema de governo terá a maior de todas as culpas.

Quando, em determinado assunto, ao mesmo tempo se encontra, por um lado, a razão para que algo seja haram e, por outro, também se vê uma razão para considerá-lo permitido, então, em minha opinião, observar isoladamente apenas a razão de sua permissibilidade, tomar uma decisão a seu favor e não dar a mínima atenção à razão de sua proibição não é prova de piedade nem de temor a Allah — tampouco demonstra conhecimento religioso. Maulana Madani declara indispensável esforçar-se pela independência do país e pela eliminação do imperialismo britânico; mas, nesse momento, de modo algum se lembra de que o grupo que, com essa concepção, se esforça pela independência é, na realidade, precisamente aquele que formula esse sistema de governo, o administra e o conduz à sua plena consumação. No entanto, nesse sistema de governo foi concedido ao legislativo humano poder absoluto para alterar as determinações de Allah. Por meio dele, a lei de Allah não pode ser aplicada; e, se alguma vez for aplicada, será somente depois de obter a aprovação do legislativo. Consequentemente, os não muçulmanos, sendo maioria, obterão plena autoridade para formular as regras e os regulamentos da vida social e geral dos muçulmanos, e, por causa disso, poderão exercer uma influência intensa sobre seu caráter moral, sua vida social e as futuras gerações. É atrás da independência do país que será obtida com tal sistema de governo que vocês estão correndo — pois seu único objetivo é o fim do imperialismo britânico, independentemente de como esse fim seja alcançado. Por isso, apresenta-se apenas a razão favorável à adesão a tal grupo; mas não se presta a mínima atenção ao fato de que nele também existe uma grande razão racional para sua proibição. Nós, porém, somos obrigados a decidir sobre o assunto mantendo diante de nós ambos os tipos de razões de ambos os lados, e não podemos aceitar a razão da permissibilidade sem eliminar a razão da proibição. Pois tanto o fim do imperialismo britânico quanto o pleno estabelecimento do Islã são nossos objetivos. Se alguém chamar essa perspectiva de adoração aos britânicos, não nos importamos nem um pouco com sua provocação.

Ignorância lamentável

Maulana Madani escreveu em outro lugar: “A fatwa contra o nacionalismo patriótico conjunto é emitida apenas porque, segundo a terminologia ocidental, nacionalismo patriótico significa uma forma geral totalmente contrária à religião e porque ele permaneceria vinculado exclusivamente a esse sentido terminológico. Mas esse sentido não está geralmente fixado na mente de todos; nenhum muçulmano justo pode apoiá-lo. Além disso, o movimento atual também não está sendo conduzido com base nesse sentido, nem o Congresso e seus trabalhadores estão conduzindo o movimento nesse sentido, e tampouco o estamos apresentando ao país dessa forma.” (página 41)

Em apoio a essa afirmação, foram mencionados muitos argumentos antigos, embora sua essência já tenha sido esclarecida várias vezes — a saber, a declaração proclamada pelo Congresso de conceder direitos fundamentais. A partir disso, está sendo tirada a seguinte conclusão:

“Mesmo no nacionalismo conjunto que o Congresso deseja estabelecer na Índia, ele não pretende realizar qualquer ação que possa produzir algum efeito prejudicial sobre a religião, a cultura, a civilização ou as leis pessoais dos habitantes da Índia. Seu único desejo é organizar de maneira adequada e ordenada as questões relacionadas aos interesses comuns e às necessidades nacionais. Pois os governantes estrangeiros mantiveram essas questões sob seu próprio controle e lançaram os habitantes da Índia à beira da destruição. Nas áreas notificadas, nos conselhos municipais, nos conselhos distritais, nos conselhos, nas assembleias e assim por diante, decidem-se assuntos internos e externos. Nesses assuntos, não há qualquer questão de união entre nações ou religiões.” (página 57)

A citação acima é uma prova clara de como os muçulmanos estão sendo orientados, num momento de grave e difícil crise, com visão grosseira e imprudência. Considera-se uma “brincadeira de criança” tomar qualquer decisão definitiva sobre assuntos dos quais depende inteiramente o bem-estar ou o infortúnio de oitenta milhões de muçulmanos, embora até mesmo um pequeno erro a esse respeito possa provocar uma enorme catástrofe em sua futura vida social e moral; por isso, não se sente a necessidade de pensar, pesquisar, estudar e exercitar-se nesses temas. No entanto, para proferir sentenças em processos relacionados ao divórcio, às leis de herança e assim por diante, cada pessoa precisa realizar tanta reflexão e pesquisa! Cada palavra da citação acima deixa claro que Maulana Madani não conhece o significado técnico de nacionalidade e que desconhece completamente os objetivos e as metas do Congresso. Ele sequer refletiu sobre o significado de “direitos fundamentais”. Além disso, não sabe absolutamente de que maneira, segundo a constituição vigente, os limites das funções e dos poderes das associações gerais que menciona repetidamente penetram nos limites da cultura e civilização, das crenças religiosas e do caráter moral. Pelo modo como empregou palavras como “cultura”, “tahzib”, “lei pessoal” e outras, fica claramente comprovado que, apesar de ser uma pessoa tão grande, um “alim e homem venerável”, ele não compreendeu minimamente o significado e a essência dessas palavras — afirmo isso com plena responsabilidade e plena consciência. Percebi que meu discurso claro será insuportável para aqueles que estão habituados a avaliar a verdade pelo padrão das pessoas, em vez de avaliar as pessoas pelo padrão da verdade. Por isso, preparei-me para ouvir, em resposta a estas palavras, mais alguns insultos. Mas, quando vejo claramente que, sob o sagrado certificado da liderança religiosa, os muçulmanos estão sendo conduzidos por um caminho equivocado, que, em vez da verdade genuína e da doutrina correta, estão sendo levados a falsas e infundadas concepções, e que estão sendo empurrados para uma estrada imensa, com um abismo profundo e sem fundo, como se fosse uma via principal reta, plana e aberta, tornou-se impossível para mim observar isso com paciência. Portanto, se minhas palavras francas e verdadeiras despertarem a ira de alguém, é meu dever estar inteiramente preparado para isso.

Objetivo principal do nacionalismo regional

Ao explicar o nacionalismo, releia o que foi citado anteriormente de “Relações Internacionais”, de Lord Bryce, e da “Enciclopédia do Caráter Moral e das Religiões”. Sob esse aspecto, os indivíduos podem transformar-se em uma nação por uma única razão fundamental: uma força de atração que estará presente entre todos eles como a própria vida e os manterá unidos uns aos outros. Contudo, a mera existência dessa atração não é de modo algum suficiente para formar uma “nação”. Ela precisa ser extremamente poderosa, capaz de esmagar as correntes de pensamento que mantêm os indivíduos, ou pequenos grupos de indivíduos, separados uns dos outros. Pois, se os elementos de separação forem fortes demais para que as correntes de pensamento unificadoras lhes façam frente, estas não poderão ter êxito na criação da união — em outras palavras, não poderão formar uma “nação”. Além disso, para um nacionalismo, também são necessários a língua, a literatura, a tradição histórica, os costumes e usos, a sociabilidade e o modo de vida, as correntes de pensamento e as doutrinas, os interesses econômicos e os objetivos materiais. Todas essas coisas devem ser compatíveis com a natureza das correntes de pensamento que criam a união. Em outras palavras, nada que possa despertar correntes de pensamento separatistas deve estar presente nelas. Pois tudo isso exerce influência na união dos indivíduos. Somente se sua inclinação e tendência forem favoráveis ao objetivo principal da “mensagem de união” poderão cumprir a tarefa de criar a união. Caso contrário, formarão grupos de uma maneira completamente diferente, e a tarefa de criar uma “nação” se tornará extremamente fraca.

Agora, deve-se refletir sobre quais poderiam ser os meios possíveis de unir e integrar os diferentes povos que vivem em um país nessas condições. Quanto mais se pensa a respeito, parecem possíveis apenas dois meios. Primeiro: esses povos seriam mantidos em suas nacionalidades distintas e entre eles seria firmado um acordo “federal”, sob condições claras e precisas, em virtude do qual trabalhariam juntos apenas pelos interesses comuns; em todos os demais assuntos, seriam completamente livres e soberanos. Mas o Congresso adotou esse método? Não há alternativa senão responder: “não”. O segundo meio é: como transformar esses povos em uma “única nação”? ………. Para isso, é absolutamente necessário, antes de tudo, reconhecer uma força de atração comum e uma mensagem central de união. Uma força de atração e uma mensagem central de união desse tipo só podem ser formadas pela combinação dos seguintes elementos: primeiro: o nacionalismo patriótico,

segundo: o ódio aos inimigos estrangeiros e

terceiro: o estímulo dos interesses econômicos comuns.

Além disso, como disse acima, é necessário que essa força de atração seja tão poderosa que as correntes de pensamento e as causas que mantêm esses povos separados uns dos outros se tornem completamente apagadas diante dela. Pois, se o muçulmano sentir uma atração muito forte pelo Islã, o hindu pelo hinduísmo e o sikh pela religião sikh, e, sempre que surgir a questão da religião e da nacionalidade, os muçulmanos se unirem aos muçulmanos, os hindus aos hindus e os sikhs aos sikhs, e cada grupo se levantar com uma organização distinta em defesa de sua própria causa, isso significa que o “amor à pátria” não conseguiu transformar várias nacionalidades em uma “única nação”. Que o muçulmano reconheça o Islã, que o hindu permaneça fiel à doutrina hindu e que vá ocasionalmente ao templo — isso é algo inteiramente distinto; mas, para tornar-se uma “única nação”, todos devem atribuir uma importância extrema ao nacionalismo patriótico, de modo que cada adepto de uma religião seja capaz de sacrificar sua própria religião e suas crenças pela pátria. Sem uma corrente de pensamento tão devotada e sinceramente comprometida, não se pode formar de modo algum um nacionalismo “patriótico”.

Esta é, afinal, a semente fundamental do nacionalismo pátrio ou regional. Essa semente jamais poderá produzir uma árvore enquanto não forem criados o clima e o ambiente adequados para ela. Para isso, são indispensáveis um campo e uma estação favoráveis. Já disse anteriormente que, para criar a atração do nacionalismo, são absolutamente indispensáveis a língua, a literatura, as tradições, os costumes e práticas, a sociabilidade e o modo de vida, as ideias e doutrinas, bem como os interesses econômicos e objetivos materiais, entre outras coisas. São precisamente essas coisas que organizam solidamente os grupos humanos em sociedade. Tudo isso deve estar espontaneamente presente na natureza da força de atração do nacionalismo. Pois, se a tendência dessas diversas forças, que criam comunicação entre diferentes indivíduos, for necessariamente no sentido da separação, elas se oporão violentamente à criação da união e da coesão, e de modo algum permitirão que isso se torne uma “única nação”. Portanto, para formar uma nação unificada, é absolutamente necessário destruir as forças que criam, dentro de cada povo, correntes de pensamento nacional distintas; em seu lugar, torna-se indispensável tingir toda a nação com a mesma cor e, gradualmente, moldar todos segundo o mesmo ideal nacional, criando entre eles uma natureza comum e uma orientação moral comum. É preciso difundir entre eles o mesmo tipo de pensamento, doutrina e ideal, transformando-os de tal modo que, doravante, todos possam ser conhecidos e considerados membros de uma mesma sociedade. Suas atitudes, perspectivas e pontos de vista deverão ser inteiramente iguais; do mesmo manancial histórico deverá brotar a concepção de sua antiga glória, e, por fim, não deverá restar absolutamente nenhuma causa para criar oposição e desigualdade entre eles. Foi com esse objetivo que o “Plano de Wardha” foi elaborado. Esse também era o objetivo do “Plano Vidyamandir”. Esse objetivo havia sido explicitamente escrito em ambos os planos. Mas Maulana Madani jamais examinou esses planos nem seus programas de ensino. Pandit Nehru vem, há vários anos, soprando precisamente a trombeta desse nacionalismo. Contudo, nenhum de seus discursos ou escritos chegou ao conhecimento de Maulana Madani. Cada pessoa que ocupou uma responsabilidade no Congresso declarou e escreveu exatamente isso, e também vem divulgando-o vigorosamente com o auxílio do poder estatal obtido pela nova constituição. Mas Maulana Madani não consegue ouvir, ver nem sentir nada disso. Entretanto, cada uma das instituições abrangentes que ele mencionou está realizando essas tarefas. Isso porque o campo de atuação dessas instituições se estende a tudo, desde a civilização e a cultura até o direito pessoal e demais assuntos. Porém, embora essas atividades ocorram diariamente de uma extremidade da Índia à outra, nem mesmo o mais débil som delas penetra nos ouvidos de Maulana Madani. Entre todas essas coisas, ele obteve apenas uma: aquilo que se chama “direitos fundamentais”. Baseando-se exclusivamente nisso, ele ousa propagar o princípio da “nação única” como sendo o ideal do Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele). Na realidade, porém, esses “direitos fundamentais” não são, em nenhum aspecto, superiores à famosa proclamação da Rainha Vitória. Comparar uma manobra tão cruel da diplomacia ocidental com a obra do Santo Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) é algo que nós, pecadores como somos, não temos coragem de fazer. Naturalmente, aqueles que possuem tanta taqwa e piedade que ainda podem esperar perdão depois de demonstrarem tamanha ousadia injusta constituem um caso à parte.

Aproveitamento da ambiguidade de palavras

Maulana Madani fixou em sua mente um significado específico de “nação única”. Ele próprio delimitou esse conceito, levando em conta todas as condições diabólicas e fechando todos os caminhos possíveis. Apresenta-o cuidadosamente, para que ninguém possa questioná-lo do ponto de vista das normas da sharia. Mas seu principal erro está justamente no fato de ter concluído definitivamente que o Congresso também sustenta aquilo que ele próprio concebeu. O Congresso, porém, está muitas e muitas etapas distante disso. Se Maulana Madani tivesse dito apenas: “Por ‘nação única’, entendo isto”, não teríamos qualquer discussão com ele. Mas ele não se detém aí; avançando, afirma também que esse é o objetivo do Congresso e que o Congresso atua inteiramente segundo o ideal do Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele). Diz que é dever dos muçulmanos consagrarem-se, com absoluta destemor e confiança, ao movimento por essa nação única. É precisamente aqui que começa nossa divergência com ele. Vejamos um exemplo. Uma pessoa entende “derramar água” como fazer chover água, enquanto outra chama de “derramar água” o ato de atear fogo. É fácil compreender quão grande injustiça seria ignorar essa diferença verbal e aconselhar todos a entregar suas casas e propriedades às mãos da segunda pessoa. É precisamente para situações desse tipo que o Sagrado Alcorão determinou: “Quando uma palavra puder admitir tanto um significado incorreto quanto um correto, e perceberdes que seu uso está dando origem a uma situação perturbadora para os incrédulos, então os muçulmanos não devem usar esse tipo de palavra.”يايُّها اللَّذِينَ اَمَنُوا لا تقولوا راعنا وقولوا انظرنا واسمعوا ط وللكافرينَ عذابٌ اَليْمٌ – (البقرة : 104)

“Ó vós que credes, não digais ‘ra‘ina’; dizei, antes, ‘unzurna’, e escutai. E para os incrédulos haverá um castigo doloroso.” — Surata Al-Baqara: 104

Portanto, teria sido melhor se Maulana Madani tivesse usado alguma expressão como “amizade mútua” para expressar sua própria atitude e a tivesse apresentado como uma proposta e recomendação pessoal, em vez de apresentá-la como política e ação do Congresso. Se ao menos agora ele demonstrar um pouco de consideração por esta nação, isso será uma grande gentileza. Caso contrário, há o grande risco de que seus escritos provoquem uma enorme calamidade. Consequentemente, poderá também repetir-se no futuro o que se dizia antigamente: “Os reis e governantes tirânicos e ímpios faziam o que queriam, e os eruditos religiosos comprovavam suas ações como verdadeiras mediante provas do Alcorão e do hadith; usavam a religião como instrumento de opressão e exploração.”رَبَّنَا لاَ تجعلنَأ فتنةً لِّقَومٍ الظَّلِمِيْنَ – (يونس : 85)

“Ó nosso Senhor! Não nos tornes uma provação para o povo injusto.” — Surata Yunus: 85

Após a publicação do opúsculo mencionado de Maulana Madani, tornou-se extremamente necessário analisar o “nacionalismo” sob uma perspectiva puramente científica e tornar claramente visível, nesse assunto, a diferença fundamental entre as doutrinas islâmica e não islâmica. Se isso for feito, todos os conceitos equivocados relacionados a essa questão serão removidos das mentes das pessoas, e elas poderão escolher conscientemente um dos dois caminhos. Esse era o dever dos eruditos religiosos; mas, quando a figura “principal” da comunidade dos eruditos ergueu a bandeira da “nação única” e nenhum erudito se dispõe a cumprir seu verdadeiro dever, então nós, pessoas comuns como nós, teremos de tomar a iniciativa. — Tarjumanul Qur’an: fevereiro de 1939

 

Poderá o nacionalismo algum dia proporcionar a libertação?

Quando Maulana Ubaidullah Sindhi retornou à Índia, após viver longos anos no exílio, foi convidado, em nome da Jamiat-e Ulama de Bengala, a presidir à sua sessão em Calcutá. Ao ler o discurso que proferiu nessa sessão, os habitantes da Índia tiveram, pela primeira vez, a oportunidade de conhecer sua doutrina peculiar. Apresentam-se aqui as partes de seu discurso que particularmente revoltaram os muçulmanos: Um: “Se meu país quiser proteger-se dos males e prejuízos da revolução que agora tomou conta do mundo inteiro e continua a expandir-se a cada dia, deverá promover e desenvolver o nacionalismo segundo o ideal europeu. O mundo inteiro está plenamente ciente de quão famoso nosso país foi em épocas passadas. Mas, se atualmente não conseguirmos estabelecer nossa dignidade entre as nações, não poderemos tirar o menor proveito de nossa antiga fama.”

Dois: “Recomendo que nossos líderes religiosos e nacionais procurem obter, tanto quanto possível, os benefícios do período de duzentos anos de domínio do governo britânico. Devemos agora abandonar a maneira como limitamos nosso progresso ao nutrir ódio pela Europa. A esse respeito, estudei e observei plenamente a revolução da nação turca, desde o sultão Mahmud até a democracia estabelecida por Mustafa Kemal. Desejo que nosso país seja considerado um membro respeitado nas conferências internacionais da Europa. Mas, para isso, devemos necessariamente sentir a necessidade de criar uma revolução em nossa sociedade.”

Explicando essa revolução social, Maulana Sindhi apresentou um programa revolucionário para a província de Sindh. Ele disse: “Os habitantes de Sindh usarão roupas produzidas em seu próprio país; porém, elas terão a forma de casacos e calças, ou de camisas com colarinho e ‘shorts’. Os muçulmanos podem usar shorts compridos até abaixo dos joelhos. Em ambos os casos, será usado chapéu. Na mesquita, os muçulmanos tirarão o chapéu e farão a oração com a cabeça descoberta.”

Maulana Sindhi é uma pessoa experiente e conhecedora do mundo. O enorme sacrifício que fez durante vários anos por seus ideais e objetivos demonstra sua devoção absoluta aos ideais. Nessas circunstâncias, se ele apresentar alguma solução para nossos diversos problemas sociais, por mais que ela pareça, à primeira vista, ser fruto de experiência, reflexão e pesquisa, é nosso dever verificar cientificamente suas doutrinas, libertando nossa mente de toda suspeita e dúvida.

Acreditamos que, quando os erros inerentes ao que uma pessoa competente e inteligente diz com boas intenções se tornarem claros para ela, não hesitará em abandoná-los. Mas, se ela não estiver de modo algum disposta a abandoná-los, será absolutamente necessário extirpar essa doutrina equivocada mediante os golpes contundentes da crítica científica.

Nacionalismo baseado no oportunismo

As razões, os argumentos e as recomendações apresentados pelo orador para promover o nacionalismo com base nos princípios europeus são os seguintes: Um: Se nosso país quiser ser salvo da corrente revolucionária que mantém o mundo inteiro sob seu domínio e continua a engoli-lo cada vez mais, …..” deverá fazer algo semelhante.

Dois: “Embora o mundo conheça nossas realizações passadas e os relatos de nossa glória, não poderemos tirar delas o menor proveito se não conseguirmos conquistar um lugar e uma posição apropriados entre as nações atuais.”

E é evidente que esse lugar e essa posição só podem ser obtidos imitando as nações ocidentais. Três: tanto o antigo capítulo de nossa civilização indiana — conhecido como civilização hindu — quanto a era moderna — célebre como civilização islâmica — foram estabelecidos sobre uma base de ideias religiosas. Mas a doutrina europeia moderna está completamente separada da concepção religiosa. Ela se fundamenta apenas na ciência e na filosofia. Portanto, se em nosso país não se desenvolver a capacidade de compreender essa revolução, teremos inevitavelmente de sofrer prejuízos.”

Aqui, com “capacidade de compreender”, ele provavelmente quis dizer a capacidade de aceitar. Pois as premissas anteriormente apresentadas pelo orador comprovam isso.

É necessário verificar e analisar essas três afirmações. Em primeiro lugar, não se convocou à aceitação de algo por ser verdadeiro ou aceitável em princípio; afirmou-se que isso seria necessário segundo o curso das circunstâncias e uma política de conveniência (Expediency). Nessas condições, que valor pode ter o subcontinente para uma pessoa muçulmana idealista? “É preciso fazer isto para evitar determinado prejuízo”, “se fizermos isto obteremos tal benefício” ou “determinada coisa já não pode ser praticada no mundo; em seu lugar, devemos adotar ‘isto’”: nenhuma pessoa idealista, moral e orientada por uma doutrina pode aceitar uma visão desse tipo. Isso não é nada além de uma perspectiva meramente oportunista (Opportunism). Ela não pode ter relação alguma com o conhecimento, a razão e a filosofia moral. Uma pessoa ética e fiel a um ideal, depois de pensar, investigar, verificar e analisar, adotará a opinião e o ideal que considerar verdadeiros e agirá firmemente de acordo com eles; essa é a única conduta correta. Se em outros países do mundo se continua agindo segundo uma política equivocada, seu dever é esforçar-se para conduzir toda a sociedade humana ao seu próprio ideal, em vez de seguir-lhe os passos. Se deixar de acompanhar o mundo nos fizer sofrer dores e dificuldades, é desejável suportá-las com especial paciência e perseverança. Se, justamente por não seguirmos o mundo, ele não reconhecer nossa posição, devemos desferir um golpe contra um mundo assim. A estima e a posição mundanas não são nossa divindade nem nosso senhor; não podemos correr de um lado para outro para satisfazê-las. Mesmo que a “era” daquilo que consideramos verdadeiro já tenha passado, é desejável que ainda tenhamos personalidade e autoconsciência suficientes para agarrar a era pela “orelha” e fazê-la retornar à verdade. Mudar a si mesmo conforme a mudança dos tempos pode ser a política dos covardes, mas não a de uma pessoa idealista.

Nesse assunto, os muçulmanos deveriam demonstrar ao menos o máximo de firmeza e idealismo que os seguidores dos passos de Karl Marx demonstraram durante a Primeira Guerra Mundial. Em 1914, quando soavam os tambores da guerra mundial, surgiu uma terrível divergência entre os membros da “Segunda Internacional” acerca desse nacionalismo. Os socialistas que atuavam na frente internacional dos socialistas, ao verem suas próprias nações lançarem-se na fornalha da guerra, foram inspirados pela estreita concepção do nacionalismo cego e quiseram apoiar suas respectivas nações na guerra em curso. Mas os marxistas declararam: segundo o ideal (?) pelo qual iniciamos nossa luta, os capitalistas de todas as nações do mundo são nossos inimigos, e todos os trabalhadores e operários são nossos amigos; nessas condições, como podemos apoiar o nacionalismo? Pois ele divide e separa os trabalhadores uns dos outros, incita-os a lutar entre si ao lado dos capitalistas e, com base nesse princípio, os marxistas romperam as relações com muitos de seus antigos camaradas. Além disso, os comunistas autênticos despedaçaram com as próprias mãos o ídolo desse nacionalismo estreito. Os comunistas alemães lutaram contra a Alemanha em nome de seu ideal; os comunistas russos, contra a Rússia em nome de seu ideal; e, assim, os comunistas de cada país lutaram contra o governo de seu próprio país em nome de seu ideal. Assim como os comunistas têm uma opinião e um ideal, também um muçulmano tem, do mesmo modo, uma opinião e um ideal. Nessas condições, por que um muçulmano se desviaria de seu ideal para escapar de perdas e danos ou obter de alguém um pouco de reconhecimento? ….. Se ele inevitavelmente se desviar, é seu dever compreender primeiro, muito bem, o que está abandonando e o que pretende aceitar. Pois abandonar um princípio não é nada além de fraqueza; mas considerar-se seguidor de um princípio mesmo depois de dele se desviar é, além de fraqueza, também sinal de inconsciência. Enquanto eu agir em todos os aspectos da vida segundo a concepção e as normas islâmicas, permanecerei “muçulmano”. Se algum dia abandonar essa concepção e adotar outra doutrina, continuar a considerar-me “muçulmano” não será senão grave ignorância. Adotar uma doutrina não islâmica sendo muçulmano é claramente absurdo. “Muçulmano nacionalista”, “muçulmano comunista” e expressões semelhantes são contraditórias; isso é tão errado quanto dizer “comunista fascista”, “jainista açougueiro”, “senhorio comunista” ou “politeísta monoteísta”, entre outras coisas.

Nacionalismo e Islã

Aqueles que refletirem sobre o significado do nacionalismo e sua doutrina profunda reconhecerão, sem dúvida, que, quanto às suas concepções subjacentes, metas e objetivos, o Islã e o nacionalismo são dois ideais mutuamente conflitantes. O Islã convoca toda a humanidade, sem distinção, enquanto seres humanos. Diante de toda a humanidade, o Islã apresenta um código moral ideológico e baseado na fé — estabelece um sistema social fundamentado na justiça e no temor a Deus — e convoca todos, sem distinção, a aceitá-lo. Depois, todos os que o aceitam são acolhidos em seu âmbito, com iguais direitos e dignidade. Em nenhum aspecto da adoração, da economia, da sociedade, dos direitos e deveres legais etc., o Islã cria qualquer distinção étnica, genealógica, geográfica ou de classe entre aqueles que o aceitam. O objetivo supremo do Islã é estabelecer um Estado mundial (World state) no qual, rompendo todos os grilhões do ódio e da hostilidade genealógicos e étnicos entre os seres humanos, se estabeleça um sistema civilizacional e político que proporcione a toda a humanidade iguais oportunidades para obter direitos iguais. Em vez da competição hostil entre os membros da sociedade, será criada uma cooperação baseada na amizade mútua. Assim, todas as pessoas ajudarão umas às outras a alcançar o progresso e a prosperidade materiais e o desenvolvimento espiritual. A política e o modo de vida que o Islã apresenta para promover o bem-estar humano só podem ser aceitos pelas pessoas comuns quando nelas não houver qualquer concepção jahilí nem ódio ou hostilidade. Libertando-se do encanto da tradição nacional, da embriaguez da nobreza e da glória de linhagem e da atração cega pelos vínculos de sangue e de terra, a pessoa deve avaliar a verdade, a justiça, a equidade e a honestidade simplesmente como ser humano — não como membro de uma classe, nação ou país — e deve buscar o caminho do bem-estar da humanidade como um todo.

Em contrapartida, o nacionalismo cria distinções entre as pessoas com base na nacionalidade. Como consequência inevitável do nacionalismo, o nacionalista de cada nação considerará sua própria nação superior a todas as demais. Mesmo que não seja um nacionalista extremamente agressivo (Aggressive Nationalist), pelo simples fato de ser nacionalista ele será obrigado a distinguir, nos aspectos social, econômico, político e jurídico, entre sua própria nação e as outras. Tentará reservar para sua nação o máximo possível de interesses e oportunidades. Será obrigado a erguer muros de desigualdade econômica em nome dos interesses nacionais. Além disso, terá de esforçar-se para preservar as tradições e os antigos sentimentos de hostilidade sobre os quais seu nacionalismo está fundado e para manter desperto em si o senso de superioridade nacional. Em nenhum setor da vida estará disposto a compartilhar com pessoas de outras nações em bases igualitárias. Onde quer que sua nação continue obtendo ou possa obter mais interesses e oportunidades do que as demais, nenhuma palavra de justiça se manifestará em sua mente ou em seu coração. Estabelecer um Estado nacional (National state), em vez de um Estado mundial (World State), será seu objetivo supremo. Mesmo que adote uma ideologia universal, ela certamente se transformará em imperialismo. Pois, em seu Estado, as pessoas de outras nacionalidades jamais poderão ocupar o lugar de parceiras iguais. No máximo, poderão ser aceitas como escravas e servas.

Aqui foi feita apenas uma discussão geral sobre os princípios, objetivos e concepções subjacentes dessas duas doutrinas. Essa breve discussão demonstra claramente que elas são completamente opostas entre si. Onde houver nacionalismo, o Islã jamais poderá ser estabelecido. Do mesmo modo, onde o Islã for estabelecido, esse nacionalismo não poderá permanecer sequer por um instante. Quando o nacionalismo se desenvolver e prosperar, o caminho para a propagação e o estabelecimento do Islã será bloqueado. E, quando o Islã for estabelecido, as raízes do nacionalismo serão inevitavelmente arrancadas. Nessas circunstâncias, uma pessoa só pode adotar uma dessas duas doutrinas ao mesmo tempo. Uma pessoa só pode adotar uma única doutrina ao mesmo tempo. É impossível para alguém embarcar simultaneamente nesses dois barcos que seguem em direções opostas. Pretender seguir uma delas e, ao mesmo tempo, apoiar, ajudar e favorecer o ideal exatamente oposto é sinal de desvio mental. Sobre aqueles que agem assim, somos obrigados a dizer que ou não compreenderam o Islã, ou não compreenderam o nacionalismo, ou não foram capazes de compreender corretamente nenhum dos dois.

A verdadeira situação do nacionalismo europeu

Acima, mencionou-se apenas aquilo que se pode compreender ao refletir sobre as origens fundamentais do nacionalismo. Mas devemos avançar mais e examinar também o nacionalismo europeu.

Na antiga era jahilí, as concepções das pessoas sobre o nacionalismo ainda não haviam alcançado grande maturidade. Como os seres humanos ainda não tinham adotado completamente o nacionalismo, permaneciam mais profundamente imersos em concepções de linhagem ou de tribo. Por isso, naquela época, até grandes filósofos e cientistas ficaram cegos pela embriaguez do nacionalismo. Um pensador de alta categoria como Aristóteles expressou, em sua obra Politics, a opinião de que as nações incivilizadas e bárbaras foram criadas precisamente para a escravidão. Segundo ele, fazer guerra para escravizar essas pessoas era um dos meios de produção. Mas, quando vemos que os gregos consideravam ‘bárbaros’ todos os não gregos, podemos perceber imediatamente a gravidade da opinião mencionada por Aristóteles. Pois eles acreditavam firmemente que o caráter moral e os direitos humanos dos gregos eram completamente distintos dos dos demais povos do mundo.

Essa semente inicial do nacionalismo veio a estabelecer-se posteriormente na Europa. É verdade que a doutrina cristã havia contido seu avanço durante muito tempo. O ensinamento de um profeta — por mais que tenha sido distorcido — pode naturalmente adotar uma visão humanitária ampla, em vez da visão estreita do tribalismo e do nacionalismo. Além disso, como a política abrangente do imperialismo romano havia submetido e vinculado muitas pequenas nações a um poder central comum, reduziu consideravelmente a intensidade do ódio e da hostilidade nacionais e tribais. Assim, durante vários séculos, a autoridade e o domínio espiritual do papa e o domínio e a autoridade políticos do imperador mantiveram unidos estreitamente o mundo cristão. Contudo, essas duas forças ajudavam-se mutuamente na opressão, na repressão e na oposição ao conhecimento e à ciência. No que dizia respeito à distribuição do poder temporal e dos interesses materiais, envolviam-se em hostilidade mútua. Por um lado, seus conflitos e lutas recíprocos; por outro, suas más ações, tirania e opressão; e, em terceiro lugar, o renascimento científico moderno deram origem, no século VI, a um movimento religioso e político. Esse movimento foi chamado de ‘movimento da Reforma’.

Como resultado desse movimento, chegou ao fim o poder contrário ao progresso e à reforma exercido pelo papa e pelo imperador. Mas, por outro lado, houve também este prejuízo: por sua causa, os diversos povos unidos por um mesmo vínculo acabaram separados. O movimento da Reforma (Reformation) não conseguiu oferecer qualquer alternativa para a relação espiritual existente entre os diferentes povos cristãos. Depois que a unidade e a solidariedade religiosas e políticas foram destruídas e os povos se separaram uns dos outros, começaram, dispersos, a formar seus próprios Estados nacionais independentes. A língua e a literatura de cada povo começaram a desenvolver-se separadamente. Os interesses econômicos de cada povo começaram a diferenciar-se dos interesses dos povos vizinhos. Assim, começou a estabelecer-se uma nova nacionalidade sobre bases étnicas, políticas, econômicas e culturais. Ela começou a ocupar o lugar do sentimento de aristocracia étnica e da hostilidade e do ódio. Depois, o conflito e a competição (Competition) entre os diferentes povos começaram a ganhar força. Guerras e lutas começaram a eclodir. Um povo começou a atacar sem hesitação os interesses de outro povo. Passou-se a demonstrar o auge da tirania e da opressão. Como resultado, a amargura no pensamento relacionado à nacionalidade tornou-se cada vez mais intensa. Assim, o sentimento de nacionalidade (sence of Nationality) transformou-se em “nacionalismo” (Nationlism).

O nacionalismo que se desenvolveu e alcançou seu auge na Europa surgiu somente depois da criação de intensa competição e conflito com os povos vizinhos; por isso, inevitavelmente incorporou as quatro ideias seguintes: Primeiro: orgulho da nobreza nacional. Por causa disso, uma pessoa se torna uma adoradora cega da tradição e das características de sua própria nação. Começa a considerar sua nação, sob todos os aspectos, superior, mais desenvolvida e melhor do que as demais. Segundo: arrogância nacional. Por causa disso, a pessoa deve apoiar sua própria nação em todas as circunstâncias, elevando-se acima da justiça e da injustiça. Terceiro: o espírito de proteção nacional. Para proteger os interesses reais e imaginários da nação, ele obriga o povo a realizar muitas ações, desde a defesa do país até o ataque a territórios estrangeiros. Para proteger os interesses econômicos, torna-se necessário aumentar ou reduzir as tarifas de importação e exportação, controlar a entrada de pessoas de outras nações, fechar aos estrangeiros, dentro das fronteiras do próprio país, o caminho para obter sustento e direitos civis, tentar adquirir uma força militar excessivamente grande para defender o país e viajar para outros Estados a fim de proteger o próprio país e a própria nação. Quarto: orgulho nacional e sentimento de superioridade (National Aggrandisment). Isso desperta, em toda nação em desenvolvimento e dotada de poder, o desejo de obter superioridade e domínio sobre os demais povos do mundo. Faz com que se procure promover a própria prosperidade utilizando o dinheiro de outras nações. A nação poderosa explora as nações fracas, considerando-se responsável por disseminar civilização e cultura entre os povos subdesenvolvidos e julgando ter um direito inato de desfrutar os recursos naturais de outros países.

Embriagado por esse nacionalismo europeu, alguém proclama: “A Alemanha acima de todos”; outro afirma: “A América é o próprio país de Deus”; outro diz: “Ser italiano é a essência da religião”. Ouve-se da boca de alguém a declaração de que “somente os britânicos têm o direito inato de governar”. Assim, todo nacionalista sustenta, como se fosse um dogma religioso, a ideia: “Meu país, esteja certo ou errado” (My country Wrong or right). Na realidade, essa loucura do nacionalismo amaldiçoou cruelmente a humanidade do mundo atual. Ela é extremamente perigosa para a civilização humana. Transforma as pessoas em feras selvagens contra todos os que não pertencem à sua própria nação.

Não se chama nacionalismo simplesmente o fato de amar a própria nação e desejar vê-la independente, próspera e desenvolvida. Pois, em sua essência, não há dúvida de que isso é um sentimento nobre. Na realidade, não é o amor pela própria nação, mas a hostilidade, o ódio, a inveja, o rancor e o desejo de vingança contra os povos estrangeiros que criam o nacionalismo e o alimentam. O sentimento ferido pelo ataque do nacionalismo e o fanatismo nacional oprimido acendem uma espécie de fogo no coração humano; na realidade, esse é a fonte de vida do nacionalismo. Esse fogo ultrapassa até mesmo o grande e sagrado sentimento de amor à nação, imbuído do orgulho desta época bárbara, e o transforma em algo impuro. Em cada nação, esse sentimento surge inicialmente para vingar-se de alguma opressão real ou imaginária cometida por um povo estrangeiro. Mas, como nenhuma norma moral, ensinamento espiritual ou Shariah de Allah orienta seu caminho, ele ultrapassa os limites e produz imperialismo (Imperialism), nacionalismo econômico (Economic Nationalism), ódio étnico, guerras e catástrofes internacionais. Um famoso escritor da era moderna, Francis W-Cocker, escreveu:

“Alguns escritores nacionalistas afirmam que somente as nações em desenvolvimento têm o direito de viver livremente……, aquelas que possuem maior riqueza cultural e espiritual. Seu argumento é que os direitos e deveres de uma nação civilizada de classe superior não consistem apenas em preservar sua própria liberdade e conduzir seus assuntos internos sem a interferência de outros, mas também incluem a expansão de sua influência e autoridade sobre as nações relativamente subdesenvolvidas; para isso, não há impedimento, mesmo que seja necessário empregar a força. Eles dizem que toda nação desenvolvida possui uma dignidade de alcance mundial e que não tem o direito de limitar seus talentos e capacidades internas ao solo de seu próprio país, nem de empregá-los apenas para seu próprio progresso, movida pelo egoísmo. ….. Na realidade, foi precisamente com esse tipo de argumento que, no último período do século XIX, ideias e linhas de raciocínio semelhantes foram usadas para apoiar o imperialismo e submeter a Europa e a América às políticas imperialistas.”

Ele escreveu ainda: “Ainda hoje se diz que, quando uma grande nação é atacada, ela não tem apenas o direito de resistir, mas também o direito de impedir qualquer ação prejudicial ao seu modo de vida independente e à sua prosperidade. A preservação de suas fronteiras, a colocação de seus próprios recursos sob seu próprio controle e a garantia de sua honra não são suficientes para a vida de uma nação. Para sobreviver, ela precisa fazer muitas outras coisas. Deve avançar, expandir-se, aumentar sua própria força militar e manter suas características nacionais e seu esplendor. Caso contrário, essa nação descerá gradualmente rumo à decadência e, por fim, sua existência será eliminada na competição internacional. Quanto mais uma nação for bem-sucedida em proteger seus próprios interesses e ampliar o alcance de sua influência e autoridade políticas e econômicas, maior será seu direito de sobreviver. Vencer na guerra é a prova mais clara de que uma nação é a mais apta (Fittest). Nas palavras do Dr. Beechat: ‘A guerra forma as nações.’”

Ele escreveu então: “A teoria da evolução de Darwin também foi utilizada de modo completamente equivocado para apoiar essas doutrinas. Ernest Haeckel (Ernist Haekel) foi o primeiro e mais destacado ‘porta-voz’ do darwinismo na Alemanha! Ele aplicou suas teorias biológicas (Biological) à filosofia e à sociologia (Sociology) com grande cautela. Considerava o egoísmo e a autoadoração uma lei universal da vida e dizia que essa lei vigorava na sociedade humana como um sistema de destruição hereditária dos seres humanos. Segundo ele, não há na Terra meios de subsistência disponíveis para todos os animais que nela nascem. Como resultado, a linhagem dos animais fracos chega ao fim. Isso ocorre não apenas porque eles são incapazes de competir com sucesso com os demais na intensa luta e competição pela obtenção dos limitados meios de subsistência da Terra, mas também porque não possuem qualquer capacidade de resistir ao avanço vitorioso dos animais fortes. Assim, Karl Pearson chamou a luta e o conflito internacionais de ‘um capítulo da história natural da humanidade’. Sua afirmação é que, do ponto de vista da concepção científica da vida (Scientific View of Life), o progresso da civilização e da cultura humanas ocorre essencialmente por causa desse conflito e dessa luta, que existem eternamente não apenas entre indivíduos, mas também entre nações. Quando uma nação de classe superior destrói os descendentes fracos e aumenta sua capacidade interna criando apenas uma descendência forte, começa a desenvolver sua capacidade externa (Fitness) ao enfrentar outras nações. Nesse conflito, as nações fracas (inaptas) são exterminadas. Apenas as nações fortes permanecem. Desse modo, a humanidade como um todo avança rumo ao progresso. Uma nação só pode provar que é igual às nações mais desenvolvidas quando se empenha continuamente em competir com elas no comércio e nos negócios, bem como na obtenção de matérias-primas e alimentos. Se começar a viver em harmonia com as nações inferiores, deve-se considerar que retirou sua reivindicação de superioridade. E somente quando expulsa essas nações e ocupa ela própria seus países, ou lhes concede o direito de viver e utiliza esse direito em benefício de seus próprios interesses, é que a superioridade de uma nação pode ser comprovada e estabelecida. — Recent Political Thought, Nova York, 1934, p. 443–48.”

Outro autor chamado Joseph Lighten escreveu: “Desde o século XV, a história do mundo tem sido, em grande medida, a história dos conflitos e das lutas econômicas entre os Estados nacionais. O nacionalismo econômico tornou-se continuamente a causa dos conflitos entre as nações. A princípio, a competição e os obstáculos surgem no campo do comércio e dos negócios. Logo depois, a guerra é travada. A expansão do domínio sobre a América, a África, as ilhas dos sete mares e grandes partes da Ásia, o estabelecimento de colônias e a exploração (Exploitation) dos recursos econômicos desses países — tudo isso constitui apenas diferentes capítulos da história dessa pilhagem. Embora tudo isso também tenha ocorrido em escala muito reduzida quando, após a queda dos romanos, os povos bárbaros se dispersaram em várias direções enquanto pilhavam. A diferença, porém, é que, dos escombros do Império Romano, foi estabelecida uma organização internacional com base religiosa, moral e cultural, mas isso não foi possível no novo mundo.” — Social Philosophies in Conflict, Nova York, 1937, p. 439

Esse autor escreveu em outro lugar: “Quando uma nação dotada de unidade cultural é politicamente independente e possui interesses econômicos comuns, e quando surge nela um sentimento de superioridade baseado nesse nacionalismo cultural, político e econômico, o nacionalismo econômico inevitavelmente se manifesta com intensidade. Isso ocorre porque esse nacionalismo é a consequência inevitável do conflito e da luta existentes entre as diversas nações do mundo. E esse mesmo nacionalismo logo se transforma em imperialismo econômico. As nações lutam umas contra as outras para obter vantagens no comércio e nos negócios, e entram em conflito entre si para conquistar os mercados estrangeiros e os recursos econômicos dos países atrasados.”

“O problema do nacionalismo político e econômico — para o qual não se encontrou nenhuma solução — é que, por um lado, a existência de um Estado nacional é indispensável para promover o bem-estar e a prosperidade de uma nação, e não apenas seu conforto econômico, mas também seu desenvolvimento cultural, sua educação, sua ciência e sua arte — o progresso de cada uma dessas áreas depende inteiramente do desenvolvimento e do fortalecimento do Estado nacional. Por outro lado, no ambiente de competição existente atualmente, o nacionalismo econômico surge por si mesmo. Cada nação procura desenvolver-se prejudicando as demais. Como resultado, sentimentos de vingança, suspeita, medo e ódio continuam a ser alimentados entre as nações. O caminho que vai da competição internacional no campo econômico até o conflito militar no campo aberto é livre e muito curto.” — Ibidem, pp. 4–5.

A diferença entre o nacionalismo ocidental e o ideal islâmico

Em vez de apresentar com minhas próprias palavras o nacionalismo ocidental, seu modo de pensar e sua política de ação, considerei muito melhor expô-los aqui nas palavras dos pensadores ocidentais. Assim, com o auxílio dos próprios escritos dos estudiosos ocidentais, o verdadeiro retrato do nacionalismo europeu tornou-se claramente visível aos leitores. Das citações acima ficou inequivocamente comprovado que todas as ideias e concepções, bem como todos os princípios e ideais sobre os quais o nacionalismo foi estabelecido e desenvolvido na Europa, são sem dúvida alguma extremamente prejudiciais à humanidade. Esses princípios e concepções elevaram o ser humano ao nível da bestialidade e da extrema ferocidade. Eles cobrem a Terra de Allah de opressão, sofrimento e derramamento de sangue, e impedem o progresso da civilização humana. O princípio do nacionalismo ocidental destrói completamente o grande objetivo pelo qual, desde os tempos primordiais, os profetas enviados por Allah se esforçaram no mundo. Ele se opõe ao propósito para o qual a sharia de Allah veio ao mundo e aos ensinamentos e ideais morais e espirituais com os quais os Livros celestiais foram revelados. Esse princípio satânico torna o ser humano estreito de espírito, limitado em sua visão e invejoso. Transforma as nações e as linhagens em inimigas mortais umas das outras e as torna completamente cegas para a verdade, a justiça e a humanidade. Ao substituir a verdade moral pela força material e pelo poder bestial, desfere um golpe violento no próprio âmago da sharia divina.

O propósito eterno da Sharia divina é estabelecer relações morais e espirituais entre as pessoas, tornando-as mutuamente prestativas e compassivas num vasto e amplo campo de atuação. Porém, o nacionalismo corta essas relações com a espada afiada das distinções de linhagem, tribo e geografia, cria hostilidade e rancor nacionais e transforma as pessoas em inimigas e rivais umas das outras.

O objetivo da Sharia divina é criar amplas oportunidades para que as pessoas estabeleçam entre si relações e vínculos tão livres quanto possível. Pois o desenvolvimento e a consolidação da civilização e da cultura humanas dependem disso. Assim, o nacionalismo cria um forte obstáculo ao estabelecimento dessas relações e vínculos. Consequentemente, torna-se absolutamente impossível para uma nação viver numa área sob a influência de outra nação.

O objetivo da Sharia divina é que cada indivíduo, cada nação e cada geração tenha plena oportunidade e todos os meios necessários para cultivar suas características naturais e aptidões inatas, a fim de poder desempenhar seu papel no progresso geral da humanidade. Porém, o nacionalismo incita cada nação e cada geração a adquirir poder, desprezar, desvalorizar e humilhar outras nações e gerações, transformá-las em escravas e não lhes permitir qualquer oportunidade de desenvolver suas aptidões inatas e trabalhar; ao contrário, priva-as até mesmo do direito de existir.

O princípio supremo da Sharia divina é que os direitos humanos sejam fundamentados na moralidade, e não na força; de modo que uma pessoa ou grupo poderoso assegure os direitos de uma pessoa ou grupo fraco quando a norma moral o exigir. Em contrapartida, o nacionalismo estabelece o princípio de que a força é a verdade — “Might is right” — e que os fracos não têm direitos, pois não têm capacidade para reivindicá-los.

Assim como a Sharia divina não se opõe ao desenvolvimento da personalidade dentro dos limites da moralidade, também não se opõe ao cultivo da identidade nacional. Na realidade, a Sharia divina o auxilia e apoia. Pois deseja cultivar cada nação de tal maneira que ela progrida em seu próprio lugar e avance levando consigo compaixão, ajuda e benevolência para com a humanidade em geral (Humanity at Large), desempenhando um papel semelhante ao que o rio desempenha para o mar. O nacionalismo, por outro lado, cria nas pessoas uma mentalidade que as leva a dedicar toda a sua força, capacidade, aptidão e talento exclusivamente à supremacia de sua própria nação; e não apenas deixam de contribuir para a humanidade em geral, como também não hesitam em sacrificar os interesses da humanidade em geral no altar dos interesses de sua própria nação. Na vida individual, o lugar do “interesse próprio” é ocupado, na vida social, pelo “culto à nação”. Um nacionalista é, por natureza, tacanho. Ele vê toda a beleza, excelência e virtude do mundo apenas em sua própria nação e tribo, e não vê nas outras nações, linhagens ou tribos nada de valor que tenha o direito de sobreviver. A manifestação extrema dessa mentalidade pode ser vista no nacional-socialismo alemão. Nas palavras de Hitler, a definição de nacional-socialismo é: “Qualquer pessoa que esteja disposta a elevar os objetivos e propósitos nacionais a tal altura que, para ela, nada possa existir acima do bem-estar e da prosperidade de sua própria nação, e que tenha conseguido compreender plenamente o significado do nosso hino nacional — Germany above all, Alemanha acima de todos —, isto é, que, em todo este vasto e extenso mundo, não possa haver em sua visão nada mais querido e digno de honra do que a terra e a nação alemãs, essa pessoa será um nacional-socialista.”

Em sua autobiografia Minha Luta, Hitler escreveu: “Tudo o que há de valioso no universo — ciência, artes, excelência tecnológica e invenções e descobertas — é resultado do talento criativo de um pequeno número de nações. E essas nações estão, em essência, ligadas à mesma linhagem. Se dividirmos a humanidade em três grupos — os que criam a cultura, os que preservam a cultura e os que destroem a cultura —, somente a raça ariana pertencerá à primeira categoria.”

Foi com base nesse orgulho de linhagem que, na Alemanha, se restringiu a possibilidade de os não arianos viverem. E sobre essa base foi construída a visão alemã de conquistar o mundo. Segundo um socialista alemão, a missão da nação alemã no mundo é destruir as raças inferiores e usá-las como instrumentos para a expansão da civilização. E isso não é uma característica apenas da Alemanha; nos Estados Unidos da América, amantes da democracia, a discriminação racial também é praticada com base nisso. Os americanos brancos não estão dispostos a considerar os negros africanos como seres humanos. Essa também é a perspectiva de todas as nações europeias, seja ela a Grã-Bretanha, a França, a Itália ou a Holanda.

Assim, uma característica inevitável do culto à nação é que ele transforma as pessoas em adoradoras do interesse próprio. A Sharia foi enviada ao mundo para transformar as pessoas em seres guiados por princípios. A Sharia divina deseja tornar a conduta humana seguidora de princípios independentes, princípios que não mudem conforme os interesses e os desejos pessoais; ao contrário, o culto à nação torna as pessoas desprovidas de princípios. Para quem cultua a nação, não existe no mundo nenhum princípio além de desejar o bem de sua própria nação. Se a ciência da ética, os preceitos da religião e a filosofia da civilização servirem a esse objetivo, ele proclamará alegremente sua adesão e fé nesses princípios. Mas, se forem um obstáculo nesse caminho, abandonará tudo isso e adotará outra ética e outra filosofia.

Na vida de Mussolini, vemos um exemplo completo do caráter de um nacionalista. Antes da Guerra Mundial, ele era socialista. Durante a Guerra Mundial, separou-se dos socialistas unicamente porque percebeu que o interesse nacional estava na participação da Itália na guerra. Porém, como a Itália não obteve o benefício desejado entre os frutos da guerra, ele então hasteou a bandeira do movimento fascista. Mesmo nesse novo movimento, continuou mudando de princípios repetidamente. Em 1919, era um socialista liberal; em 1920, tornou-se anarquista, isto é, ditador. Durante alguns meses de 1921, foi opositor dos socialistas e das classes democráticas; durante alguns meses, tentou formar uma aliança com elas. Por fim, separou-se delas e formulou uma nova política. Essa mudança constante de posição, essa falta de princípios e esse oportunismo não são características exclusivas de Mussolini. Pelo contrário, essa é a característica natural da natureza nacionalista. Tudo o que uma pessoa egoísta pode fazer na vida pessoal, um nacionalista pode fazer exatamente da mesma maneira na vida nacional. É-lhe impossível acreditar independentemente em qualquer filosofia política.

Mas o conflito entre o nacionalismo e a Sharia divina manifesta-se de modo ainda mais evidente sob outro aspecto. É claro que qualquer profeta enviado por Allah nascerá em alguma localidade. Do mesmo modo, o Livro que for concedido a esse profeta estará necessariamente na língua da localidade em que ele foi enviado. Além disso, os lugares relacionados com a missão profética e que ocuparão uma posição de honra e dignidade também estarão, em sua maioria, nessa mesma localidade.

Mas, apesar dessas limitações, a mensagem verdadeira e o ensinamento da orientação que um profeta traz da parte de Allah não ficam limitados a nenhum país ou povo. Pelo contrário, destinam-se a todas as pessoas; toda a humanidade é instruída a crer nesse profeta e no Livro que ele apresentou. Quer a missão de um profeta seja limitada, como a de Hazrat Hud e Hazrat Salih, que a paz esteja com ambos, entre muitos outros, quer seja abrangente, como a de Hazrat Ibrahim e Hazrat Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, em todos os casos todas as pessoas foram ordenadas a crer em todos os profetas e a honrá-los. Quando a missão de um profeta é universal, é natural que o Livro por ele apresentado adquira importância internacional, que sua influência cultural também seja internacional e que seus lugares sagrados adquiram importância internacional, embora estejam situados em um único país. Não somente esse profeta, mas também seus companheiros e os primeiros homens que participaram mais ativamente da propagação de sua missão serão chamados de heróis entre todos os povos, embora estejam ligados a uma determinada nação. Tudo isso é contrário à natureza, às inclinações, aos sentimentos, à filosofia e à visão de um nacionalista. O sentimento nacionalista de um nacionalista não pode de modo algum aceitar que ele reconheça como heróis pessoas que não pertencem ao seu próprio povo, que aceite como centro sagrado um lugar que não faz parte de sua pátria, que reconheça a influência cultural de uma língua que não é a sua e que receba inspiração espiritual de tradições vindas do exterior. Ele não apenas chamará essas coisas de estrangeiras, mas também as verá com o mesmo ódio e intolerância com que se veem todas as coisas dos invasores estrangeiros. Esforçar-se-á para remover da vida de seu próprio povo toda influência externa. A exigência natural da inspiração de seu nacionalismo é que ele vincule todos os sentimentos de honra e dignidade somente ao solo de sua pátria, e cante louvores aos rios, canais e montanhas de sua terra natal. Dará vida à antiga história e às tradições de seu próprio povo — tradições que a religião vinda do exterior costuma chamar de época da jahiliyyah — e sentirá orgulho disso. Estabelecerá uma relação entre seu presente e o passado, e entre sua cultura e a cultura de seus antepassados; aceitará como heróis os anciãos históricos ou lendários de seu povo e obterá inspiração espiritual de seus feitos reais ou imaginários.

Em suma, faz parte da própria natureza essencial do nacionalismo que, afastando-se de tudo o que vem de fora, ele se volte para aquilo que pertence à sua própria casa. O caminho chega ao seu destino final quando a religião estrangeira também é definitivamente rejeitada e são reavivadas as tradições religiosas que algum nacionalista herdou da época de jahiliyyah de seu próprio povo. Talvez muitos nacionalistas não consigam chegar ao destino final e permaneçam em algum ponto intermediário; mas o caminho que percorrem conduz nessa direção.

Tudo o que está acontecendo atualmente na Alemanha é uma explicação e demonstração completas dessa característica natural do nacionalismo. Um grupo de nazistas expressa abertamente seu descontentamento com Hazrat Jesus, que a paz esteja com ele, porque ele era de origem judaica. E o simples fato de uma pessoa ser judia é suficiente para que um adorador da raça ariana negue todo o seu valor e importância culturais, morais e espirituais. Por isso, os membros desse grupo dizem sem hesitação: “O Messias era um judeu proletário. Ele foi um precursor de Marx. Foi por isso que disse: os pobres e despossuídos serão os herdeiros da Terra.” Por outro lado, os nazistas que ainda guardam um lugar para o Messias em seus corações tentam provar que ele era de origem nórdica. Assim, um nacionalista alemão ou não aceitará de modo algum o Messias, porque ele era judeu, ou, mesmo que o aceite, não aceitará o Messias israelita, mas sim um Messias de origem nórdica. Em qualquer caso, sua religião está subordinada ao culto da raça. Nenhum alemão adorador da nação está disposto a reconhecer um não ariano como líder da civilização espiritual e moral. A verdade mais extrema é que, para um nacionalista alemão, nem mesmo é aceitável o Deus cuja concepção foi importada do exterior. Alguns círculos nazistas estão tentando reavivar os deuses que a tribo dos teutões adorava antigamente. Por isso, após uma investigação minuciosa da história antiga, foi preparada uma narrativa completa sobre os deuses e deusas. E o deus chamado Wotan, que os membros da tribo teutônica reconheciam, na antiga época de jahiliyyah, como o deus das inundações, é por eles reconhecido como o grande deus. Esse movimento religioso acaba de começar. Mas, mesmo no ensino que atualmente é ministrado oficialmente à juventude nazista, Deus não é reconhecido como o Senhor dos mundos, mas apenas como o Senhor dos alemães, isto é, o Deus dos alemães. As palavras dessa profissão de fé são: “Cremos em Deus como aquele que é a fonte primordial da força e da vida, na Terra e na criação……. Para o povo alemão, a ideia de Deus é inata. Nossa concepção de Deus e da eternidade não coincidirá de modo algum com a concepção de qualquer outra crença religiosa. Cremos que a nação alemã e a Alemanha são eternas, porque cremos que a força e a vida são eternas. Cremos na concepção nacional-socialista da vida. Cremos que nosso objetivo nacional é verdadeiro. Cremos em nosso líder, Adolf.”

Em outras palavras, Deus é o nome de uma força e de uma vida que penetraram na nação alemã, e a nação alemã é a manifestação desse Deus na Terra. Hitler é o mensageiro desse Deus. E o objetivo e propósito nacional constituem a religião apresentada por esse mensageiro. Se houver alguma semelhança entre a concepção religiosa e a mentalidade de um nacionalista, é somente esta.

O desfecho do nacionalismo ocidental

Se o nacionalismo for desenvolvido na política europeia, acabará finalmente por deter-se neste ponto. Aqueles que ainda estão no caminho intermediário e ainda não foram capazes de alcançar o limite devem sua incapacidade unicamente ao fato de que o impulso de seu nacionalismo ainda não sofreu um golpe semelhante àquele que atingiu a Alemanha em consequência da Guerra Mundial. Mas esteja certo de que, tendo eles entrado no caminho do nacionalismo, seu destino final será inevitavelmente a jahiliyyah em seu grau extremo, que não se aquietará enquanto não transformar até Deus e a religião em algo nacional. Esta é a exigência da natureza e da essência do nacionalismo. Quem, ao adotar o nacionalismo, pode escapar às suas exigências naturais? Reflita: assim que adota o pensamento nacionalista, que coisa faz naturalmente o nacionalista egípcio voltar-se para os faraós do Egito? O que leva o iraniano a entusiasmar-se pelos heróis das histórias do Shahnameh? O que arrasta o hindu-indiano para os “tempos antigos” e o faz entoar em seus lábios o louvor da santidade do Ganges e do Yamuna? O que obriga o turco a eliminar a influência árabe de cada setor de sua língua, literatura e vida cultural, e o incentiva e inspira, em todos os campos, a retornar às tradições turcas da era da jahiliyyah? Que outra caracterização psicológica se pode dar à mente em que foi semeada a semente do nacionalismo, senão que todos os seus interesses ficam confinados aos limites da nacionalidade e ela se afasta de tudo que está além deles?

Ao redigir este artigo, tenho diante de mim um artigo escrito pelo Diretor-Geral de Imprensa de Ancara, intitulado “A mulher turca na história”. As frases iniciais do artigo são as seguintes: “Antes de discutir o lugar elevado e honroso que nossa democracia recém-surgida deseja conceder às mulheres turcas, devemos observar, de relance, como foi a vida das mulheres turcas em diferentes épocas ao longo da história. Esta breve análise deixa claro que o testemunho hoje observado entre os homens turcos não é algo novo em nossa história nacional. Ela também mostrará que, quando a família turca e o sistema cultural turco estavam livres de influências externas, as mulheres turcas participavam de todo movimento cultural. Nosso célebre sociólogo Ziya Gökalp pesquisou bastante esse assunto. Por meio de sua pesquisa, tomamos conhecimento de muitos direitos que as mulheres turcas haviam conquistado na civilização antiga (na era de jahiliyyah da Turquia). Esses testemunhos deixam claro que há profunda semelhança, quanto à liberdade cultural e política, entre a mulher turca de antigamente e a mulher turca de hoje.”

Observe as frases acima. Veja como um turco nacionalista se afasta daquele capítulo de sua história em que sua nação caiu sob domínio estrangeiro e como, para o seu presente, aceita o passado como um “ideal superior”, quando sua nação estava livre dessa influência estrangeira. Assim, o nacionalismo conduz a mente humana do Islã à jahiliyyah. Gökalp Ziya foi, essencialmente, o pai fundador da Turquia moderna no aspecto da civilização e da cultura, e a atual nação turca segue o caminho por ele indicado. Nas palavras de Khalida Adib Khanum, ele é: “Alguém que deseja construir uma Turquia capaz de preencher o vazio entre os turcos otomanos e seus antepassados turanianos. ………. Com base nas informações que forneceu sobre a organização política e cultural da Turquia na era pré-islâmica, deseja realizar reformas culturais. Acreditava firmemente que o Islã estabelecido pelos árabes não se adapta à nossa situação. Se não quisermos retornar à era da jahiliyyah, devemos realizar uma reforma religiosa compatível com nossa natureza e nosso caráter.”

Estas palavras não são de algum propagandista ocidental que queira difamar os turcos; são, antes, palavras de uma mulher turca nacionalista. Nelas, pode-se ver claramente como, quando a adoração da nação começa a entrar na mente dos muçulmanos por um lado, o Islã começa a sair por outro. Isso não se aplica apenas aos turcos: qualquer muçulmano que fizer um acordo com o demônio do nacionalismo terá inevitavelmente de despedir-se, apertando a mão, do anjo do Islã. Recentemente, certo poeta “muçulmano” do Hindustão compôs uma canção patriótica. Nela, dirigindo-se à Mãe Índia, ele diz: Observação: aqui há algumas linhas em urdu.

Sentido: és o reservatório daquele cuja água é néctar,

és o reservatório daquele cujos grãos são relâmpagos,

A mina cujas pedras são diamantes, essa mina és tu,

O jardim por causa do qual o mundo é um paraíso, esse jardim és tu,

Tu és a morada dos deuses e deusas,

Faremos de ti uma Caaba por meio das nossas prostrações.

Depois de recitar o último versículo, pode haver alguma dúvida de que o Islã e o nacionalismo são duas coisas completamente opostas? É absolutamente impossível que essas duas coisas, de mentalidades opostas, se encontrem num mesmo lugar. Na realidade, o nacionalismo é por si só um credo que se opõe à Sharia divina. Mais precisamente, o nacionalismo reivindica estabelecer sua autoridade sobre os aspectos da vida humana que a Sharia divina deseja colocar sob seu próprio domínio. Para uma pessoa inteligente, resta apenas uma opção: aceitar um dos dois pretendentes à mente e ao corpo, entregar-se às suas mãos e, ao buscar abrigo no colo de um deles, não pronunciar sequer o nome do outro.

 

Sob a maldição de qual nacionalismo o mundo está prostrado??

Não há dúvida de que, na época atual, o único meio comprovado de alcançar liberdade, progresso, avanço, honra e dignidade conhecido pelos povos do mundo é a receita do nacionalismo. Por isso, toda nação que aspira ao progresso corre nessa direção. Antes de também corrermos para onde vemos os outros correrem, devemos refletir sobre por que o mundo se encontra hoje nessa situação. O mundo caiu nessa condição simplesmente porque hoje não possui nenhuma força capaz de controlar as esperanças e aspirações do indivíduo e da coletividade; nenhum poder capaz de manter as esperanças, aspirações, entusiasmo e estímulo dentro de limites legítimos; nenhuma força capaz de orientar pelo caminho reto o empenho e o esforço; nenhuma educação racional e intelectual, nem qualquer conhecimento moral capaz de indicar o caminho correto e infalível para conquistar liberdade, progresso, avanço, honra e dignidade. É por falta dessa força e desses princípios que hoje várias nações do mundo se desviaram. É por falta dessa moralidade e desses princípios éticos que hoje várias nações foram empurradas para a ignorância, o obscurantismo, a opressão e a injustiça. A razão pela qual os hindus, sikhs, parses e outros povos do nosso país estão hoje adotando as ideias nacionalistas ocidentais é precisamente que também foram privados de uma orientação correta nesse assunto. Se em algum lugar existe um remédio para esse perigo e uma correção para esse desvio, ele só pode ser a lei de Allah. E, no mundo, somente os muçulmanos são o grupo que representa a Sharia de Allah. Portanto, devem avançar e cortar as raízes dessas ideias nascidas da ignorância, que avançam como um incêndio para devorar o mundo inteiro. É seu dever proclamar em voz alta a cada nação e grupo do mundo que, para vocês, o caminho não apenas da liberdade, do progresso, do avanço e da honra, mas também da paz, da segurança, da verdadeira prosperidade e do verdadeiro progresso, é somente aquele que o Mensageiro de Allah trouxe da parte de Allah. O caminho que o imame da destruição e da ruína, enviado por Satanás, lhes mostra não é o caminho da verdadeira libertação e prosperidade.

Mas a maior tragédia, ou seja, o acontecimento mais doloroso da época atual, é que o grupo muçulmano capaz de salvar o mundo da destruição e do desvio, aquele que Allah enviou com a responsabilidade de estabelecer e disseminar no mundo a missão dos profetas, que a paz esteja com eles, hoje permanece esquecido de sua própria responsabilidade. Em vez de iluminar, com a tocha da orientação, o mundo que se debate nas trevas, hoje eles próprios estão prontos para correr atrás das massas desviadas. É lamentável que, neste hospital, havia um único médico, e agora esse médico também está prestes a juntar-se aos doentes!

Que palavras maravilhosas disse o poeta: “Boas-novas para a morte: Isa está ele próprio enfermo.”

O nacionalismo e a Índia

Por meio da discussão doutrinária anterior, provamos que, do ponto de vista das ciências sociais, o nacionalismo regional está em conflito com o idealismo islâmico e lhe é completamente contrário. Portanto, se por muçulmano se entende uma pessoa cuja vida, em todos os seus aspectos, está orientada pela perspectiva islâmica, e se por muçulmano não se entende absolutamente nada além disso, então é natural que se torne dever do muçulmano opor-se ao nacionalismo regional onde quer que esteja e em qualquer condição em que se encontre; opor-se a ele é seu dever absoluto. Assim, não pode haver razão para qualquer controvérsia especial sobre qual é — ou pode ser — o papel do muçulmano diante do nacionalismo baseado em um país ou regionalista em qualquer país ou região específica. Apesar disso, como nos são repetidamente apresentadas exigências para apoiar o nacionalismo indiano (ou o nacionalismo bengali), tornou-se necessário examinar, à luz da situação desta Índia (não dividida), quais poderiam ser aqui as consequências do nacionalismo e se existe alguma possibilidade de que, por meio dele, a Índia — e, portanto, os muçulmanos indianos — alcancem a libertação.

Os elementos fundamentais do nacionalismo

Para que um nacionalismo se desenvolva em um país, é absolutamente necessário que já exista ali uma nacionalidade ou, caso contrário, que exista a possibilidade de ela vir a existir. Pois, onde não há originalmente uma nacionalidade, não é possível criar entre o povo uma mentalidade de culto à nação. Outro nome para o nacionalismo é precisamente a mentalidade de culto à nação. Se a centelha original não existe, como seria possível que dela surgisse o fogo? Mas que tipo de nacionalidade precisa existir para que se acenda o fogo da mentalidade nacionalista?

Há um tipo de nacionalidade que existe do ponto de vista político: trata-se do nacionalismo político (Political Nationalism). Ou seja, as pessoas que vivem sob um único sistema estatal podem ser consideradas uma “nação” apenas no sentido da unidade política. Para esse tipo de nacionalidade, não é de modo algum necessário que sejam idênticos os sentimentos e as emoções, os pensamentos e as crenças, as ideologias, os valores morais e as perspectivas, as tradições e a história, a língua, a literatura e os modos e costumes de vida de todas as pessoas que dela participam. Embora essas pessoas sejam diferentes nesses aspectos, pode-se considerar que existe entre elas uma nacionalidade política. E, enquanto permanecerem unidas política e administrativamente, a duração dessa nacionalidade também se manterá exatamente pelo mesmo período. Contudo, mesmo que suas diversas sociedades se tornem diferentes e mutuamente antagônicas — mesmo que seus objetivos, propósitos e impulsos nacionais se tornem conflitantes e, por essa razão, sejam empreendidos esforços concretos uns contra os outros —, sua nacionalidade política continuará sendo a mesma. Embora se possa chamar esse tipo de nacionalidade de uma nacionalidade, deve-se considerar que aqui estão completamente ausentes a mentalidade e as características indispensáveis à criação de uma verdadeira unidade nacional.

Outro tipo de nacionalidade é o nacionalismo cultural (Cultural Nationalism). Essa nacionalidade só pode ser encontrada entre pessoas que têm a mesma religião, os mesmos pensamentos e ideologias, as mesmas emoções e sentimentos e os mesmos valores; entre as quais se encontram os mesmos tipos de qualidades morais; que, nas questões importantes da vida, cultivam o mesmo tipo de sensibilidade e perspectiva e, sob sua influência, manifestam a mesma mentalidade nos âmbitos cultural e coletivo da vida. Os critérios para determinar o bom e o mau, o justo e o injusto, o haram e o halal, o puro e o impuro, entre outros, são os mesmos. Essas pessoas compreendem profundamente os sentimentos umas das outras e conhecem bem os hábitos, o caráter, os interesses e as inclinações umas das outras. Alegram-se com a alegria de um de seus membros e consideram como sua própria tristeza e dificuldade a tristeza e a dificuldade de um deles. Em sua sociedade, os vínculos de sangue e de espírito se desenvolvem de maneira ampla e profunda. São inspiradas e motivadas pelo mesmo tipo de herança histórica. Em suma, nos aspectos mental, espiritual, moral, social e coletivo, tornam-se um grupo, uma sociedade, uma sociedade una e indivisível. É somente por meio de uma mentalidade desse tipo que podem surgir entre as pessoas o impulso e o despertar nacionais, e é somente ela que pode constituir a base da nacionalidade. Somente nessa sociedade podem ser cultivados, preservados e progressivamente desenvolvidos uma forma nacional, um caráter nacional e um idealismo nacional comum. É isso que, mais tarde, cria uma unidade nacional e desperta a autoconsciência nacional (National self). Uma unidade nacional regional ou baseada no país traz um mandado de morte para semelhante mentalidade.

Como pode surgir a libertação por meio do nacionalismo indiano??

Basta verificar a situação da Índia à luz da análise acima mencionada para compreender com certeza se os fundamentos mencionados do nacionalismo estão presentes aqui ou não. Na Índia, certamente existe uma nacionalidade política, pois os habitantes deste país vivem sob o mesmo sistema de governo. As mesmas leis vigoram sobre sua vida social e econômica, e todos estão presos por uma única força de ferro, em rígidos grilhões. Mas, como já disse, uma nacionalidade puramente política não é suficiente para criar o nacionalismo. Esse tipo de nacionalidade também existia na Austrália, na Hungria, na Grã-Bretanha, na Irlanda e em muitos outros impérios. Ainda hoje existe em muitos países. Mas não criou o “nacionalismo” em país algum. Tampouco a união com o objetivo de conquistar a independência, ou a participação conjunta em sofrimentos, dificuldades e perigos, pode criar o nacionalismo. E qualquer pessoa dotada de visão pode perceber de imediato que não existe absolutamente nenhum tipo de nacionalidade cultural entre os habitantes da Índia.

Sendo esse o verdadeiro estado das coisas, de que adianta mencionar o nacionalismo? Onde não existe mãe alguma, o que pode ser a menção ao filho senão um absurdo? Apesar disso, aqueles que sonham em estabelecer o nacionalismo neste país devem saber muito bem que esse “filho” só pode nascer do ventre da nacionalidade cultural. E, antes de seu nascimento, é absolutamente necessário que sua mãe nasça. Depois de conhecer essa verdade, torna-se inevitável que mudem sua reivindicação; antes de sequer mencionar essa nacionalidade na Índia, terão de dedicar-se à criação de uma nacionalidade cultural. Caso contrário, o nascimento de uma nacionalidade indiana será absolutamente impossível.

Como poderá surgir o nacionalismo indiano??

Depois disso, é extremamente necessário discutir a criação de um nacionalismo cultural na Índia e seus possíveis resultados.

De fato, num país onde existem diversas nacionalidades culturais, só pode haver duas maneiras de criar um nacionalismo: primeira, a civilização e a cultura de uma nação absorverão as civilizações e culturas de todas as demais nações; ou, segunda, por meio da estreita união e fusão recíproca de todos, será criada uma civilização comum a todas as nações.

É desnecessário discutir aqui o primeiro método, pois os líderes do nacionalismo indiano não o adotaram como seu objetivo. Contudo, aqueles que desejam criar uma “nacionalidade hindu” ou um “nacionalismo muçulmano”¹ podem adotar esse método. Os nacionalistas pan-indianos só podem adotar o segundo método. Por isso, costumam discutir a criação de uma nova nacionalidade por meio da fusão das diferentes nações deste país. Mas, ao ouvir suas conversas infantis, parece que eles não compreenderam sequer o verdadeiro significado da nacionalidade cultural. Também não estão minimamente informados sobre as regras e os princípios segundo os quais esse tipo de nacionalidades poderia fundir-se. Tampouco têm ideia de que tipo de nacionalidade poderia resultar de tal fusão. Consideram esse trabalho uma “brincadeira de criança” e, como crianças de fato, querem praticar esse jogo.

Na realidade, nacionalidade cultural é o nome dado ao intelecto, à natureza e ao sistema moral de uma nação. E uma nacionalidade desse tipo jamais pode tomar forma em um ou dois dias. Ela se desenvolve continuamente ao longo de vários séculos. Quando, durante vários séculos, certo número de pessoas vive hereditariamente sob o mesmo tipo de ideias, crenças, costumes e regras, surge entre elas uma corrente de pensamento comum e consensual, consolidam-se suas qualidades morais coletivas e forma-se uma disposição intelectual específica. As tradições às quais se ligam as emoções e os sentimentos de sua mente tornam-se profundamente arraigadas. A corrente espontânea de seus pensamentos e de sua mente manifesta-se em sua literatura. Forma-se entre eles uma unidade espiritual e mental. Como resultado, desenvolvem-se entre eles amizade mútua e compreensão recíproca (Mutual Intelligibility). Devido a essas influências profundas e sólidas, quando uma nacionalidade distinta se forma em um grupo — ou, em outras palavras, quando sua natureza moral e intelectual se consolida — torna-se quase impossível para ele fundir-se com outro grupo e transformar-se em outra nacionalidade. Muitas vezes, esses grupos vivem lado a lado durante centenas de anos, no mesmo clima, ambiente e território; ainda assim, não ocorre entre eles nenhuma fusão. Na Europa, alemães, magiares, poloneses, tchecos, judeus, salafistas e muitas outras nações desse tipo vivem há muito tempo no mesmo lugar; contudo, até hoje não se produziu entre eles qualquer união. Ingleses e irlandeses vivem juntos há eras, mas também não se produziu entre eles qualquer fusão. Em alguns países, mesmo quando as línguas desses povos são iguais, não se cria qualquer semelhança entre suas mentes e seus corações. As palavras podem ser as mesmas, mas despertam no coração e na mente de cada nação o fluxo de correntes distintas de pensamento e doutrina, inteiramente opostas entre si.

Se não houver uma grande diferença entre os códigos morais e a natureza intelectual dos diversos grupos culturais, mas, ao contrário, eles possuírem naturezas mutuamente compatíveis, então, por meio da convivência e da fusão recíproca prolongada, será possível criar uma nacionalidade unida, pura, completa e coerente, resultante da união desses grupos. Nessa situação, suas características distintas e suas identidades nacionais particulares fundem-se completamente. Então forma-se um sistema moral comum a todos os grupos. Mas isso jamais pode acontecer num simples instante. Somente após um longo período de muitas rupturas, reconstruções, choques e reações é que, pela união recíproca das diversas partes, surge uma natureza distinta. Na Inglaterra, foram necessários centenas de anos para que os povos bretão, saxão e normando se transformassem em uma só nação. Na França, esse processo vem ocorrendo há dez séculos. Mas ainda não se encontrou a origem da nacionalidade. Embora os diversos grupos cuja combinação deu forma à nacionalidade italiana não fossem moralmente opostos entre si, até hoje não se conseguiu criar ali uma corrente de pensamento nacional. Nos Estados Unidos da América, só foi possível criar uma “nação única” com pessoas que eram compatíveis em quase todos os aspectos e que, deixando de lado pequenos conflitos de interesses, foram obrigadas a tornar-se imediatamente uma “nação única”. Mas foram necessários dois ou três séculos para concluir esse processo.

A criação de uma nacionalidade distinta e superior mediante a fusão de povos dotados de um caráter semelhante só é possível porque, no processo dessa fusão, não há necessidade de que eles abandonem suas próprias doutrinas, crenças e padrões morais, nem que extirpem suas elevadas e nobres qualidades morais. Pelo contrário, todas essas coisas já existem entre eles desde muito antes. Essa nova nacionalidade pode ser estabelecida somente por meio da alteração de suas tradições e de sua história, bem como do reajuste de suas emoções, entusiasmos, objetivos e metas (Readjustment). Por outro lado, quando a fusão entre povos de diferentes tipos de caráter moral é realizada mediante alguma pressão artificial, algum esforço anormal ou por qualquer motivo comum, forma-se a mais baixa e inferior das nacionalidades. Pois, em tal situação, os fundamentos de suas doutrinas se enfraquecem. Seu elevado caráter moral — cuja característica distintiva tornara impossível até então a fusão — desaparece por completo. Desaparece o sentimento de sua identidade nacional, sobre o qual sua nacionalidade havia sido estabelecida. Cada povo é obrigado a modificar os padrões de sua própria superioridade e distinção. Como resultado, sua nova nacionalidade transforma-se numa soma da corrupção moral de todos eles. Esse tipo de fusão despedaça a espinha dorsal do caráter moral dos povos envolvidos. Depois disso, é necessário muito tempo para formar um novo caráter moral. Rompem-se todos os vínculos de cada um deles com sua própria tradição antiga, e é preciso esperar longamente até que uma nova tradição seja criada. Eles próprios destroem seu respectivo tipo nacional — mas é necessário um longo período para criar um novo tipo nacional.

A natureza daqueles que mergulharem em semelhante situação desastrosa jamais poderá ser forte; eles serão de caráter vil, estreitos de espírito, sem entusiasmo e sem princípios. Assim como o botão sagrado que, desprendido do caule, caiu ao chão não possui estabilidade alguma — rolando de um lugar para outro a cada sopro do vento —, tal é a verdadeira condição desses povos. Todos os que observaram, no Brasil, na América do Sul, o resultado da fusão mútua de povos com diferentes características de caráter testemunham unanimemente que, em consequência disso, a beleza moral dos povos envolvidos foi completamente destruída e que, por causa disso, a geração posterior daquele país está nascendo absolutamente inferior em inteligência, caráter moral e constituição física.

Nenhuma pessoa especialista em sociologia e capaz de expressar uma opinião independente sobre a realidade, acima dos interesses políticos egoístas, pode considerar que os diversos povos culturais do Paquistão-Índia possuem um caráter harmonioso. Pois, enquanto entre as diferentes nacionalidades culturais da Europa há certo grau de diversidade, entre os povos atuais do Paquistão-Índia existe, quanto às crenças, uma distância entre o nascente e o poente, entre o horizonte do nascer e o céu do ocaso. Os princípios fundamentais da civilização e da cultura deste país são mutuamente contraditórios, e as raízes de suas tradições são completamente diferentes. As emoções íntimas do coração e as correntes de pensamento são opostas entre si. Não há a menor compatibilidade entre o tipo nacional de um povo e o tipo nacional de outro. A consequência de eliminar essas diferentes nacionalidades e criar uma nacionalidade unificada por meros interesses políticos e econômicos será desastrosa, pelas razões já mencionadas. Infelizmente, um século e meio de dominação britânica já mergulhou os povos da Índia no lodo cada vez mais profundo da degradação moral. O sangue da escravidão esvaziou o sentido de humanidade deles. Seu caráter moral sofreu uma queda terrível. Entre as gerações posteriores, essa queda desastrosa produziu efeitos nocivos que tudo devoram. Se, neste momento crítico, para iniciar a tarefa de formar uma nova nação, forem golpeadas as bases de sua cultura destruída, os laços morais de todo o país serão subitamente despedaçados, e o resultado será terrível!

Pode algum benquerente do Paquistão-Índia apoiar uma nacionalidade única??

Os líderes políticos deste país consideram indispensável criar o nacionalismo neste país para libertá-lo do laço da escravidão imposto pelas potências estrangeiras. E, para criar o nacionalismo, seria necessária uma nacionalidade única. Portanto, seria necessário eliminar todas as nacionalidades existentes e formar uma nacionalidade abrangente, de todos os partidos. Na realidade, porém, esse pensamento deles é completamente infundado. Se possuíssem uma percepção interior correta e tentassem pensar libertando-se também da escravidão mental do Ocidente, sem dúvida compreenderiam que não há a menor libertação para o Paquistão-Índia no caminho da nacionalidade única — há, sim, destruição e desaparecimento desastrosos.

Primeiramente, levará muito tempo para alcançar uma nacionalidade por esse caminho. Não é nada fácil eliminar a nacionalidade cultural que se formou sobre a base de tradições de centenas e milhares de anos, estabelecer em seu lugar uma nacionalidade nova e fazer que essa nova nacionalidade se torne forte e ativa até atingir a condição de uma nacionalidade única. Para isso será necessário um longo período. Em segundo lugar, mesmo que se alcance uma nacionalidade por esse caminho, haverá, no fim, o perigo certo de que o caráter moral de todo o país mergulhe na mais baixa degradação. Em terceiro lugar, os povos que desejam preservar suas características próprias e sua existência distinta lutarão com todas as forças contra a criação desse tipo de nacionalidade única e, em consequência dos conflitos internos, não será possível organizar qualquer esforço unido para uma guerra de independência. Assim, a libertação do jugo do domínio estrangeiro também ficará muito distante. Além disso, se forem feitos esforços por esse caminho, existe a possibilidade de que o sonho da independência política se desvaneça para sempre.

Portanto, em minha opinião, aqueles que, imitando as nações ocidentais, consideram o nacionalismo a única arma para alcançar a liberdade são tolos e ignorantes. Já disse antes e digo novamente: para alcançar a independência da Índia e o progresso político e econômico, não há absolutamente necessidade de união e nacionalismo entre os diferentes povos. Num país onde existem diversas nacionalidades culturais, tentar estabelecer uma nacionalidade única não é apenas supérfluo; como princípio, é também um erro desastroso. Além disso, quanto às suas consequências, sem produzir benefício algum, isso certamente criará um enorme mal.

Vestimenta europeia

Maulana Sindi aconselhou os muçulmanos, no final de seu discurso, a usar shorts, casaco e calças, e chapéu. Na parte final desta discussão, quero tratar também desse assunto.

Esses nacionalistas do Oriente são criaturas deveras extraordinárias. Por um lado, fazem intensa propaganda do nacionalismo; por outro, não sentem a menor vergonha em adotar as roupas e os costumes civilizacionais de outras nações e países. Não apenas isso: também se esforçam para fazer dessas roupas e costumes de outras nações um programa indispensável do movimento nacionalista, com o objetivo de introduzi-los entre seu próprio povo. E, onde é possível recorrer à força, tentam impô-los coercivamente à população. Na Índia, no Irã, no Egito e na Turquia — em toda parte, os nacionalistas se encontram na mesma situação. Ora, se a palavra nacionalismo conserva sequer algum sentido de honra nacional, então é dever de cada nação manter-se firmemente apoiada em suas próprias vestimentas nacionais e em sua própria civilização e cultura, sentir nelas sua dignidade e orgulhar-se delas. E onde não existe o menor sentimento de identidade nacional, o nacionalismo é claramente contraditório. Contudo, nossos nacionalistas orientais são mestres em combinar essas correntes de pensamento contraditórias. A verdade é que, para escapar da disparidade e da contradição entre pensamento e ação, são indispensáveis uma mentalidade saudável e imaculada e uma visão ampla, elevada e livre de preconceitos. E, se alguém conseguir alcançar isso, não terá necessidade alguma de abandonar o caminho simples e natural da natureza para buscar refúgio no chamado nacionalismo.

Acima de tudo, o Islã não dá o menor apoio a esse princípio deles. Em todos os campos da vida, o nome do Islã é o método simples, direto, despretensioso e genuíno. Assim como o Islã não aprova os excessos que ultrapassam os limites da nacionalidade, tampouco pode tolerar qualquer coisa que viole seus limites legítimos e naturais, apague a individualidade e as características próprias das nações e crie entre elas um caráter imundo e corrompido.

O Alcorão Sagrado declarou: embora os seres humanos tenham surgido de uma mesma origem, Allah Todo-Poderoso deixou entre eles apenas dois tipos de diferenças. A primeira é a diferença entre a mulher e o homem; a segunda, a diferença de linhagem, tribo e nacionalidade.يَايُّهَا النَّاسُ اِنَّا خَلَقنَاكُمْ من ذَكَرٍ وَّاُنْثَى وَجَعَلناكُم شُعُوْبًا وَّقَابَائــــلَ لِتَعَارِفُوا ط – (الحجرات : 13) “Ó humanidade! Nós vos criamos de um único homem e de uma única mulher e vos dividimos em povos e tribos, apenas para que vos reconheçais uns aos outros.” — Surata Al-Hujurat: 13وَاِنَّهً خَلَقَ الزَّوْجَيْنِ الذَّكَرَ وَالاُنْثَى – (النجم : 45) “E Allah Todo-Poderoso criou os dois sexos humanos: o masculino e o feminino.” — Surata An-Najm: 45

Na realidade, a criação desses dois tipos de diferença é a base da civilização humana e da vida social. Portanto, mantê-los devidamente é uma exigência natural da ordem universal criada por Allah. A diferença sexual foi criada entre a mulher e o homem precisamente para despertar entre ambos a atração e a força de afeição mútuas. Assim, na sociedade e no amplo campo da civilização, é absolutamente indispensável que as qualidades e características naturais de ambos sejam espontaneamente preservadas. Por outro lado, como é extremamente necessário criar para os seres humanos diferentes ambientes e campos sociais, a fim de estabelecer entre eles harmonia e cooperação civilizacionais, é preciso preservar as diferenças mútuas entre as nações. Por isso, é indispensável que cada grupo humano, sociedade e ambiente civilizacional possua algumas características e qualidades distintivas. Com isso, poderá surgir entre eles um amor semelhante, poderão compreender-se mutuamente e poderão preservar sua individualidade diante das pessoas de outros ambientes. Portanto, não pode haver dúvida de que a língua, as roupas, o modo de vida e as características civilizacionais são elementos necessários dessa diferença. Preservá-los devidamente é uma exigência da verdadeira lei da natureza.

É precisamente por essa razão que, no Islã, o ‘tashabbuh’ (تَشَبُّهisto é, tornar-se completamente semelhante ao outro ou adornar-se com a aparência exterior de outra pessoa) foi proibido. Um hadith menciona: o Profeta Nobre (que a paz esteja sobre ele) amaldiçoou as mulheres que usam roupas de homens e os homens que usam roupas de mulheres. Outro hadith menciona: o Profeta Nobre (que a paz esteja sobre ele) declarou amaldiçoados os homens que adotam o modo de vestir das mulheres e as mulheres que adotam o modo de vestir dos homens. A única razão é que a atração e a força de afeição que Allah Todo-Poderoso criou entre a mulher e o homem inevitavelmente se extinguem quando eles trocam suas aparências. E o Islã deseja preservá-las justamente para proteger a própria humanidade. Do mesmo modo, apagar as roupas, a civilização, os objetivos principais e as características mútuas das nações, ou trocá-los entre si para criar uma cultura mista, é totalmente contrário à paz, à estabilidade, aos interesses e ao bem-estar sociais. É por isso que o Islã também se opõe a isso. Quando a identidade nacional ultrapassa seus limites naturais e se transforma em nacionalismo ou culto à nação, o Islã fará jihad contra ela. Pois é isso que dá origem à arrogância pagã, à hostilidade e ao ódio opressivos e ao imperialismo. Mas é preciso lembrar que a inimizade do Islã é contra o nacionalismo ou o culto à nação — não contra a nacionalidade. Em vez do nacionalismo, o Islã deseja preservar a nacionalidade e se opõe à sua destruição apenas na medida em que se opõe à ultrapassagem de seus limites naturais. Para compreender o caminho moderado e equilibrado adotado pelo Islã, observem-se as seguintes orientações:

Primeiro: um companheiro perguntou: o que são o culto à própria nação ou a hostilidade nacional? Amar a própria nação também é hostilidade nacional? Em resposta, o Profeta Nobre (que a paz esteja sobre ele) disse: “Não; apoiar a própria nação mesmo em atos de opressão é o que se chama culto à própria nação.” — Ibn Majah

Segundo: o Mensageiro Nobre (que a paz esteja sobre ele) disse: “Quem adotar a aparência de um povo será contado entre eles.” — Abu Dawud

Três: Hazrat Umar Faruq (que Allah esteja satisfeito com ele) escreveu a Utba ibn Farqad, governador do Azerbaijão: “Não uses as vestes comuns dos mushriks (isto é, dos habitantes do Azerbaijão).” — Kitab al-Libas wa’z-Zinah

Quatro: Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) instruiu todos os seus governadores a impedir que todos os habitantes não muçulmanos do Estado adotassem as roupas e o vestuário dos árabes. Além disso, ao firmar tratados com os habitantes de certas regiões, uma condição específica era devidamente registrada no documento: “Não usareis as nossas vestes.” — Kitab al-Kharaj: Imam Abu Yusuf.

Cinco: Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) e Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) enviavam repetidamente instruções aos árabes destacados no Iraque, no Irã e em outros países para fins militares ou administrativos, ordenando-lhes que preservassem a própria língua e o modo de falar e que não adotassem a língua nem o modo de falar dos não árabes. — Bayhaqi

Esta instrução prova claramente que o tipo de estrutura internacional que o Islã representa não pretende apagar as características distintivas próprias das nações e criar uma mistura confusa. Pelo contrário, deseja manter as nações permanentemente com sua nacionalidade e suas características próprias, criando entre elas um vínculo sólido de civilização, cultura, cortesia, caráter moral e pensamento ideológico, graças ao qual desaparecerão os conflitos e as lutas internacionais, as disputas, a guerra fria, os obstáculos, a opressão, o ódio e a hostilidade, e entre elas se manifestará uma pura corrente de cooperação mútua e fraternidade. O “tashabbuh”, ou imitação de outros, possui ainda outro aspecto, razão pela qual o Islã se opõe veementemente a ele. Uma nação só pode abandonar suas próprias características nacionais quando nela surgem alguma fraqueza mental e relaxamento moral. A pessoa que, sob a influência de outros, abandona suas características próprias e se reveste da cor alheia inevitavelmente carregará em si a grave doença da baixeza e da falta de dignidade, da duplicidade, da fraqueza de ser facilmente influenciada e de atos irresponsáveis; e, se essa doença não for tratada imediatamente, aumentará e se espalhará. Quando essa doença se dissemina entre um grande número de pessoas, toda a nação mergulha na fraqueza mental. Nada resta de firmeza ou vigor em seu caráter moral. Nenhuma base sólida de caráter moral pode ser estabelecida em sua mente. Por isso, o Islã não permitiu que nenhuma nação desenvolvesse em si semelhante fraqueza mental. Não procura proteger apenas os muçulmanos dessa grave doença; se tiver poder, procura também proteger dela os não muçulmanos. Pois o Islã não está disposto a aceitar fraqueza moral em nenhum ser humano.

Essa doença manifesta-se de modo particularmente intenso entre os povos conquistados e subjugados. Neles surge não apenas fraqueza moral, mas também uma atitude tão grave que passam a considerar a si mesmos humilhados e desonrados, começam a julgar-se inferiores em todos os aspectos e desejam obter honra, respeito e prestígio apenas imitando cegamente o grupo governante. Isso ocorre porque veem em seus governantes o modelo ideal de tudo: honra, dignidade, superioridade, nobreza, civilização e cultura. A escravidão destrói a própria humanidade dessas pessoas; depois disso, elas já não sentem a menor vergonha ao exibir corporalmente humilhação, desonra, inferioridade e baixeza; pelo contrário, em vez de vergonha, sentem orgulho disso. O Islã deseja resgatar o ser humano do profundo pântano de toda baixeza e indignidade e conduzi-lo ao mais elevado cume da humanidade; por isso, não está disposto a permitir que qualquer grupo humano seja levado à degeneração. Quando, durante o califado de Hazrat Umar Faruq (que Allah esteja satisfeito com ele), muitas nações não árabes começaram a ficar sob o domínio islâmico, ele proibiu-as severamente de imitar os árabes. Se uma mentalidade servil despertasse entre essas nações, o objetivo fundamental do jihad islâmico teria fracassado. Hazrat Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) não ergueu, pelas mãos dos árabes, a bandeira da vitória do Islã para que os árabes se tornassem senhores e amos das nações.

Por todas essas razões, o Islã nunca apoiou que uma nação copie exatamente outra nação nem que procure imitar suas roupas e seu modo de vida. Contudo, o Islã não se opõe de modo algum ao que inevitavelmente ocorre entre diferentes nações em razão das trocas mútuas de civilização e cultura e da manutenção de relações e contatos recíprocos; pelo contrário, seu objetivo é promover esse intercâmbio. O Islã não pretende erguer uma enorme barreira entre as nações por meio da criação de um sentimento de ódio e hostilidade que diga: “Não aceitaremos nada de outra nação em nossa própria civilização.” O Profeta Karim (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) usou uma “jubba” da Síria (sobretudo), embora ela fizesse parte das vestes dos judeus. Foi mencionado no hadith: فَتَوَضَّأَ وَعَلَيْهِ جُبُّةٌ شِامِيَةٌ“O Profeta Karim (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) fez a ablução, e vestia uma jubba da Síria.” Ele também usou uma jubba romana de mangas estreitas, embora fossem os cristãos católicos romanos que a usassem. Usou ainda um “qaba” nowsheravani. No hadith, ela é mencionada como جُبُّةٌ طَيَا لَسَةٍ كِسْرَوانِيَةٌ. Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) usou um tipo de chapéu alto chamado “barburnus”, que fazia parte das vestes dos monges cristãos. Isso prova categoricamente que o uso de vestes de diferentes origens étnicas não constitui “tashabbuh”. O “tashabbuh” só ocorre quando todo o vestuário de uma pessoa se torna semelhante ao de outra nação e, ao vê-la, torna-se difícil formar uma ideia definida sobre sua nacionalidade; e é isso que o Islã proíbe. Em contrapartida, o intercâmbio mútuo é algo completamente diferente. Se uma nação incorporar ao próprio vestuário algum “item” bom ou adequado de outra nação, não pode haver objeção a isso, pois, coletivamente, seu vestuário nacional continua presente. — Tarjuman al-Qur’an: 1939 d.C.

 

O significado da nacionalidade islâmica

Na época atual, a palavra “qawm” ou “nação” está sendo usada em excesso para designar toda a sociedade muçulmana. Em geral, é essa terminologia que se emprega para expressar nossa forma coletiva. Mas o fato é que, no Alcorão e no hadith, a palavra “qawm” não foi usada como termo técnico no sentido de nação ou Nation. Atualmente, porém, alguns grupos estão obtendo consideráveis vantagens ao explorar esse conceito equivocado. Aqui desejo discutir brevemente por que o Islã não usou a palavra “qawm” ou “nação” para designar os muçulmanos e qual palavra, em seu lugar, foi usada com mais frequência no Alcorão e no hadith. Na realidade, isso não é uma mera discussão científica; quase todas as ideias, crenças e doutrinas que, graças a nós, transformaram completamente em erro nossa conduta e nossa política de ação em diferentes aspectos da vida resultaram do uso incorreto dessa palavra “qawm” ou “nação”.

As palavras ‘qawm’-nação-e ‘nação’ (nation), em inglês, entre outras, são na realidade termos da época da Jahiliyyah. O povo da época da Jahiliyyah jamais estabeleceu a nacionalidade com base puramente cultural (Caltural Basis)—nem na antiga era bárbara, nem na época moderna da Jahiliyyah. O amor às relações de linhagem e históricas foi tão profundamente arraigado em suas mentes que jamais conseguiram libertar o conceito de nacionalidade de sua influência. Na antiga Arábia, a palavra ‘qawm’ (قوم) era geralmente usada para designar pessoas descendentes de uma mesma linhagem ou tribo; de modo semelhante, na época atual, a palavra ‘nação’ contém inevitavelmente o conceito de ‘descendência comum’ (Common Descent). E, como esse conceito é completamente contrário à filosofia social islâmica, no Alcorão a palavra ‘qawm’ e outras palavras árabes de significado semelhante, comoشـــــعب etc., não foram usadas como termos para designar a comunidade dos muçulmanos. Pois, como poderiam ser usados termos desse tipo para uma comunidade cuja filosofia social não admite nem o menor espaço para sangue, terra, carne, raça ou qualquer outra coisa semelhante como fundamento? É universalmente sabido que a sociedade islâmica foi estabelecida unicamente sobre princípios, ideais, doutrinas e crenças, e que essa comunidade teve início por meio da Hégira—a emigração, o rompimento das relações de linhagem e o corte dos vínculos materiais.

No Alcorão, a palavra ‘hizb’ (حــزب) é usada em relação aos muçulmanos; significa partido ou grupo. Uma nação é formada com base na linhagem e na tribo, enquanto um partido é constituído com base em ideais, doutrinas e princípios. Por isso, os ‘muçulmanos’ não são, em essência, uma nação, mas apenas um partido. Os muçulmanos distinguem-se completamente de todos os demais povos do mundo por acreditarem em determinados princípios e ideais e por os seguirem; e é precisamente por isso que estão intimamente ligados uns aos outros. Por mais próximos que estejam daqueles que, no aspecto desses princípios, ideais e doutrinas, lhes sejam semelhantes, nenhuma relação pode existir entre eles e essas pessoas. O Alcorão reconheceu a existência de apenas dois partidos entre essa vasta multidão sobre a face da Terra: um é o partido de Allah (حـــزب الله) e o outro é o partido de Satanás (حـــزب الشيطان). Por maiores que sejam as diferenças e divergências entre os membros do partido de Satanás quanto a princípios e ideais, aos olhos do Alcorão tudo isso é uma só coisa. Pois seus pensamentos, métodos e normas de ação não são islâmicos sob aspecto algum. E, apesar das divergências em questões secundárias e menores, todos concordam plenamente em seguir os passos de um único Satanás. O Alcorão diz:اِسْتَحَوَذ عَلَيْهِم الشَّيطَانُ فَاَنْسَاهُمْ ذِكْرَ الله ط اُوْلَــــئِكَ حـــزب الشيطان ط الا اِنَّ حـــزب الشيطانِ هُمُ الخسِرُوْنَ – (المجادلة : 19) “Satanás os dominou e os fez esquecer a lembrança de Allah. Esses são o partido de Satanás. Sim, por certo, o partido de Satanás é o dos perdedores.” Embora sejam tão diferentes uns dos outros quanto à língua e à herança histórica—e mesmo que seus antepassados tenham sido inimigos de sangue entre si—quando se uniram no sistema de pensamento e no modo de vida concedidos por Allah, Ele os vinculou e os uniu intimamente em relação à autoridade de Allah. Assim que ingressaram nesse novo partido, romperam todos os tipos de relação com os membros do partido de Satanás.

Essa diferença entre os partidos muitas vezes rompe também a relação entre pai e filho. O filho chega até a ser privado da herança do pai! Foi dito no hadith:لا يتَوَارثُ اهل ملتين — “Pessoas pertencentes a duas millat opostas não podem herdar umas das outras.”

Essa diferença entre os partidos provoca separação também entre marido e mulher. Assim que surge essa ‘oposição partidária’, a união entre ambos se torna ilícita. A única razão é que o caminho de vida de ambos passou a seguir direções opostas.

O Alcorão diz:لأهُنَّ حِلٌّ لَّهُم وَلاَهُم يَهِلُّوْنَ لَهُنَّ ط – (الممتحنة : 10) “Elas (as mulheres) não são lícitas para eles (os homens), e eles (os homens) também não são lícitos para elas (as mulheres).”

Essa diferença entre os partidos cria um ‘boicote’ social completo e o rompimento das relações entre pessoas de uma mesma linhagem e tribo. Até mesmo o casamento com membros de sua própria linhagem e tribo que pertençam ao ‘partido de Satanás’ torna-se inteiramente proibido para os membros do partido de Allah. O Alcorão diz: “Não vos caseis com mulheres politeístas enquanto elas não aceitarem o Islã. E não deis vossas filhas em casamento a homens politeístas, enquanto eles não aceitarem o Islã. Mesmo que seja um escravo crente, ele é muito melhor que um homem livre politeísta, ainda que estes vos agradem mais.”

Essa diferença entre os partidos não apenas rompe a relação da nacionalidade formada com base na linhagem e na região, mas também cria entre ambos um conflito enorme e permanente. Enquanto a segunda parte não adotar os princípios do partido de Allah, permanecerá erguido um muro altíssimo de conflito e diferença entre eles.

O Alcorão diz:قَد كَانَتْ لَكُم اُسوَةٌ حَسَنَةٌ فِى ابراهِيْمَ وَالَّذِيْنَ مَعَه ج اِذْ قَالُوا لِقَوْمِهِمْ اِنَّا بُرَاءَؤُا مِنْكُم وَمِمِّا تَعبدونَ من دون اللهِ ز كفرنَا بِكُمْ وَبَدَا بَيْنَنَا وَبَيْنَكُمْ العَدَاوَةَ وَالبَغَضَاءُ اَبَدًا حَتَّى تُؤْمِنُوا بِاللهِ وَحْدَهُ اِلاَّ قَوْلَ اِبْرِاهِيْمَ لِاَبِيْهِ لاَ تَسْتَغْفِرَنَّ لَكَ – (الممتحنة : 4) “Na vida de Abraão e dos que estavam com ele há um excelente exemplo para vós. Eles disseram claramente ao seu povo (ligado por relações de linhagem): ‘Não temos qualquer relação com vós nem com essas divindades que adorais além de Allah. Rompemos completamente convosco e nos desligamos de vós. Entre nós e vós surgiu uma inimizade e um ódio eternos, até que creiais somente em Allah.’ Contudo, não há para vós exemplo na promessa de Abraão de pedir perdão por seu pai incrédulo.” — Surata Al-Mumtahanah: 4وَمَا كَانَ اِسْتَغفَارُ اِبْرِاهِيْمَ لِاَبِيْهِ اِلاَّ عَنْ مَّوْعِدَّةٍ وَّعَدَهََا اِيِّاهُ ج فَلَمَّا تَبَيَّنَ لَهُ اَنَّهُ عَدُوٌّلِّلهِ تَبَرَّامِنْهُ – (التوبة : 114) O vínculo de amor entre os membros de uma família e os parentes próximos é rompido por causa dessa diferença entre os partidos. Se pai, irmão ou filho pertencer ao partido de Satanás e, apesar disso, um membro do partido de Allah nutrir amor por eles, sem dúvida estará traindo o seu próprio partido. Sobre isso, o Alcorão diz claramente:لا تجد قومًا يُّؤمنونَ بِاللهِ واليومِ الاخِرِ يُوَادُّونَ من حَادَّ اللهَ وَرَسُلَهُ وَلو كَانوا اباءَ هًُمْ اَوْ اَبنَاءَهُمْ اَوْ اِخْوَانَهُمْ اَوْ عشيرتَهُمْ ط …….. اُولـــئِكَ حزبَ اللهِ ط الا اِنَّ حزبَ اللهِ هُمُ المفلحونَ – (المجادلة : 22) “Jamais encontrarás um povo que creia em Allah e no Último Dia mantendo amizade com aqueles que se opõem a Allah e ao Seu Mensageiro, ainda que sejam seus pais, seus filhos, seus irmãos ou seus parentes próximos. …… Esses são o partido de Allah. Sim, por certo, o partido de Allah é o dos bem-sucedidos.” — Surata Al-Mujadalah: 22

No sentido de partido ou “grupo”, há outra palavra empregada no Alcorão Sagrado: ummah. Essa palavra também é amplamente utilizada nos hadiths. Qualquer elemento organizador específico que reúna as pessoas — quando entre elas existe um vínculo de unidade consensual — faz com que sejam chamadas, justamente em razão desse vínculo, de “uma ummah”. Por isso, também se chama de “ummah” as pessoas de uma determinada época e período. Os habitantes de uma mesma linhagem ou de um mesmo país são igualmente designados como “ummah”. Contudo, o vínculo de unidade consensual que transformou os muçulmanos em uma única ummah não é a unidade de linhagem e tribo, de terra natal ou de interesses econômicos; é, antes, a verdadeira “missão” de suas vidas e o ideal e os princípios de seu partido. Por isso, o Alcorão Sagrado declara:كُنتم خَيرَ اُمَّةٍ اُخرِجَت للنَّاس تاْمُرُونَ بالمَعرُوف وَتنهونَ عَنِ المنكرِ وَنؤمنون باللهِ— (110) “Sois a melhor nação que foi suscitada para o bem da humanidade. Ordenais a verdade e as boas ações, impedis as pessoas da injustiça e do pecado e tendes uma fé firme e inabalável em Allah.” — Surata Āl ‘Imrān: 110

وكذالك جعلناكم اُمَّةً وَّسَطَا لِّتكونوا شهــداءَ على النَّاسِ وَيَكونَ الرَّسُولُ عليكم شَهِيْدًَا ط-(البقرة: 143) “Assim, criamos-vos como uma ummah moderada. O propósito é que sejais guias da humanidade e que o próprio Mensageiro seja o vosso guia.” — Surata Al-Baqara: 143

Ao refletir sobre esses versículos, pode-se compreender claramente que, aqui, “ummah” significa que os muçulmanos são um partido de status internacional (Partido Internacional). Pessoas de todas as partes do mundo, preparadas para agir de acordo com um princípio e ideal específicos e para cumprir um programa e uma “missão” determinados, foram reunidas e organizadas neste partido. Como surgiram de todas as nações, ao ingressarem neste único partido deixaram de ter a menor relação com qualquer nação específica; por isso, podem ser chamados de partido “intermediário”. Depois de romperem as relações com todas as nações, estabelecer-se-á com elas uma nova relação. Essa relação consiste em que este partido intermediário desempenhará no mundo a responsabilidade do exército de Allah. A expressão “sereis guias-observadores da humanidade” prova que os muçulmanos foram designados por Allah para cumprir no mundo a responsabilidade de soldados. E a expressão “criados para a humanidade” deixa claro que os muçulmanos vieram com uma “missão” internacional. Isto é: o sistema completo de pensamento e ação que Allah, o Altíssimo, concedeu a Hazrat Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), o líder exclusivo do partido de Allah, deve ser estabelecido na prática com o auxílio de todas as forças intelectuais, morais e materiais, e todos os demais caminhos e ideologias devem ser derrotados. Foi precisamente porque essa responsabilidade foi confiada a todos os muçulmanos que todos eles se tornaram uma única ummah.

Para explicar a forma coletiva dos muçulmanos, o Profeta Sagrado (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) empregou uma terceira terminologia: “jamā‘at”. Essa palavra também, assim como “hizb” (حزب), tem o sentido de “partido”.عليكم بالجماعة— “É vosso dever permanecer unidos como um partido” — eيَدُ اللهِ على الجماعة “Sobre a jamā‘at está a mão da misericórdia de Allah” — ao refletirmos sobre hadiths como esses, compreendemos facilmente que o Profeta Sagrado (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) deliberadamente não empregou as palavras qawm (قوم) ou “shu‘ab” (شعـــب) nem palavras de sentido equivalente; em seu lugar, empregou o termo “jamā‘at”. Ele não disse: “Apoiarás sempre a tua nação” ou “Sobre a nação está a mão de Allah”. Em todas as circunstâncias, empregou apenas a palavra “jamā‘at”. A única razão possível é que, para explicar a forma e as características sociais dos muçulmanos, palavras como jamā‘at, hizb e partido são especialmente adequadas e expressam corretamente o sentido, em vez de qawm. Considerando o sentido em que geralmente se emprega a palavra nação ou “qawm”, uma pessoa pode permanecer pertencendo a uma nação mesmo acreditando em qualquer princípio e ideal e seguindo-os — porque nasceu dentro daquela nação. Pelo nome, pelo modo de vida e pelas relações sociais, ela está ligada àquela nação. Porém, no sentido das palavras partido, grupo, jamā‘at e “hizb”, seguir ou não os princípios e o ideal é o único critério para pertencer ou não ao partido ou grupo. Consequentemente, uma pessoa que abandone os princípios e o ideal de um partido jamais poderá ser considerada parte dele; sequer poderá usar seu nome juntamente com o próprio. Além disso, não poderá manter qualquer cooperação com os demais membros do partido. Se alguém dissesse: “Mesmo eu não sendo um defensor dos princípios e do ideal deste partido, como meus pais foram membros dele e meu nome é semelhante aos nomes de seus integrantes, tenho, como todos os membros do partido, os mesmos direitos, e é indispensável que eu os obtenha”, tal afirmação seria considerada tão ridícula que, ao ouvi-la, certamente se concluiria que aquela pessoa enlouqueceu. Mas, abandonando esse conceito inerente ao partido e adotando o conceito de “nação”, abre-se amplo espaço para esse tipo de comportamento risível.

O Islam ordenou que, para criar unidade, harmonia social e igualdade entre os membros de seu partido de status internacional, eles estabelecessem entre si relações matrimoniais, transformando-se em uma sociedade organizada. Ao mesmo tempo, ordenou que se providenciasse para seus filhos uma formação tal que, desde o princípio, eles se tornassem seguidores do ideal e dos princípios do partido e, juntamente com a propagação, a força do partido aumentasse progressivamente por meio do crescimento da descendência. Na realidade, é a partir daqui que esse partido começa a transformar-se em uma nação. Mais tarde, a sociabilidade compartilhada, as relações de parentesco e a tradição histórica fortalecem sua nacionalidade.

Tudo o que aconteceu até agora aconteceu corretamente. Contudo, os muçulmanos começaram gradualmente a esquecer que eram um partido e que a base de sua nacionalidade estava justamente no fato de serem um partido. Esse erro cresceu progressivamente e provocou uma degeneração tão profunda que o conceito de nação se estabeleceu no lugar do conceito de partido. A partir de então, os muçulmanos permaneceram apenas uma nação — assim como os alemães, os japoneses ou os ingleses são uma nação. Os muçulmanos esqueceram completamente que aquilo que o Islam empregara para formá-los como uma única “ummah”, os princípios e o ideal, era a única coisa de valor e a mais importante. Esqueceram por completo a grande “missão” para cuja realização os seguidores do Islam haviam sido organizados em um partido. Esquecendo todos os seus próprios princípios fundamentais, adotaram dos não muçulmanos o conceito jahilí de nacionalidade. Esse é um erro tão grave e fundamental, e seus efeitos nocivos são tão abrangentes, que nenhum esforço para restabelecer o Islam poderá sequer ser iniciado sem antes eliminá-lo.

O amor, a simpatia, o espírito fraternal e a cooperação que se desenvolvem entre os membros de um partido não se devem a relações pessoais ou familiares; antes, surgem inevitavelmente porque todos creem nos mesmos princípios e ideais e os seguem. Se um membro do partido realiza alguma ação abandonando os princípios e ideais do partido, não é dever dos demais ajudá-lo. Pelo contrário, é dever de todos tentar impedi-lo de prosseguir nessa atividade rebelde. Se, apesar disso, ele não desistir, será necessário tomar contra ele medidas rigorosas de acordo com as regras e a disciplina partidárias. E, se isso também não produzir resultado, deverá ser expulso do partido. Não são de modo algum raros os exemplos de pessoas condenadas à pena de morte por se oporem abertamente aos ideais do partido.

Mas reflitam por um momento sobre a situação dos muçulmanos no mundo atual! Eles não se consideram um “partido”, mas uma nação; por isso mergulharam numa grave ilusão. Se algum deles agir, em benefício próprio, segundo princípios contrários ao Islã, continuará esperando que os outros muçulmanos o ajudem. E, se não o ajudarem, começará a queixar-se, dizendo: “Um muçulmano não ajuda outro muçulmano”. Se alguém interceder por outro, dirão que é preciso ajudar um muçulmano. E o próprio ajudante chamará isso de solidariedade islâmica. Em todo esse assunto ouvem-se, da boca de todos, palavras sobre o Islã: ajuda islâmica, fraternidade islâmica e relações islâmicas. Contudo, ninguém sequer por um instante pensa que invocar o Islã ao agir contra ele, pedir ajuda em nome do Islã e oferecer essa ajuda é completamente sem sentido. Na realidade, se o Islã de que falam estivesse verdadeiramente presente neles, ao ouvir que alguém da comunidade islâmica estivesse agindo contra o Islã, começariam a opor-se a ele e fariam com que se arrependesse disso. Longe de ajudá-lo, ninguém dotado de vitalidade e consciência teria coragem de agir contra as normas e os princípios islâmicos. Mas é justamente isso que acontece dia e noite na sociedade muçulmana de hoje. A única razão — e não há outra — é que o nacionalismo jahili despertou entre os muçulmanos. Portanto, aquilo que hoje é chamado de fraternidade islâmica não passa, na realidade, da relação do nacionalismo jahili tomada de empréstimo aos não muçulmanos.

Foi sob a influência dessa concepção jahili que surgiu entre os muçulmanos uma ideia extraordinária sobre o “interesse nacional”. E os muçulmanos chamam a isso interesse islâmico. O benefício das pessoas conhecidas como muçulmanas, a obtenção de suas riquezas, o aumento de sua honra e influência, a aquisição de poder e capacidade por elas e a transformação, de algum modo, deste mundo num mundo de felicidade para elas — isso é o chamado interesse islâmico. Contudo, não se observa de modo algum se esse interesse e esse benefício estão sendo alcançados de acordo com a perspectiva e os ideais islâmicos ou se estão sendo obtidos justamente em oposição a eles. Em geral, somente as pessoas que nasceram muçulmanas e em famílias muçulmanas são chamadas de “muçulmanas”. Considera-se que não há exceção a isso. Isso significa que apenas o corpo exterior é tido como “muçulmano”; sua disposição interior não é considerada muçulmana. Assim, uma pessoa pode ser muçulmana sem possuir as características e qualidades islâmicas. É por causa dessa concepção equivocada que os governos desses muçulmanos exteriores, chamados de muçulmanos, também são chamados de “governos islâmicos”. Seu progresso é declarado progresso islâmico, e seus interesses, interesses islâmicos. Mesmo que esse governo e esses interesses sigam abertamente uma direção completamente contrária aos princípios do Islã, isso não lhes causa nenhum problema. Ser alemão, por exemplo, não é um princípio nem um ideal; é apenas uma medida de nacionalidade. E um nacionalista alemão esforça-se somente pelo progresso dos alemães, por qualquer meio que seja. Da mesma forma, a condição de muçulmano foi considerada uma nacionalidade, e os nacionalistas muçulmanos esforçam-se apenas para que sua própria nação alcance influência e prosperidade. Mesmo que esse progresso e essa influência sejam alcançados pela adoção, em princípio e na prática, de princípios completamente contrários ao Islã, eles não veem nisso motivo algum para objeção. Não será isso uma concepção jahili? Não se esqueceu hoje, na prática, que os muçulmanos constituem um partido de dimensão internacional, reconhecido como tal com uma ideologia específica e um programa prático destinado ao bem-estar da humanidade? Se um muçulmano, individual ou coletivamente, realizar alguma ação segundo outra ideologia, deixando de lado a referida ideologia e programa, como isso poderá ser chamado de ação islâmica? Pode-se chamar de “comunista” um seguidor das normas capitalistas? Pode-se alguma vez chamar de comunista um governo capitalista? Pode-se chamar uma instituição fascista de instituição democrática? Se alguém usasse esses termos dessa maneira, todos zombariam dele, chamando-o de tolo e ignorante. Contudo, atualmente, os termos “Islã” e “muçulmano” estão sendo particularmente mal utilizados, e ninguém considera isso contrário ao Islã.

A própria palavra “muçulmano” prova que ela não é um termo étnico ou nacional, mas um nome qualificativo, e que o único significado de muçulmano é: seguidor do Islã. Não pode ter nenhum outro significado. Ela expressa as qualidades mentais, morais e práticas específicas do Islã presentes numa pessoa. Portanto, a palavra “muçulmano” não pode ser usada para designar uma pessoa da mesma maneira que se usam as palavras hindu, japonês ou chinês para designar um indivíduo hindu, japonês ou chinês. No momento em que uma pessoa chamada muçulmana se desvia dos princípios do Islã, sua condição de muçulmana se rompe, imediatamente e por si mesma. Depois disso, tudo o que fizer, fará como indivíduo. Então já não terá direito algum de usar o nome do Islã. Do mesmo modo, expressões e termos como “interesse dos muçulmanos”, “progresso dos muçulmanos”, “Estado e ministério dos muçulmanos” e “organização dos muçulmanos” só podem ser usados quando tudo isso estiver de acordo com os princípios e ideais do Islã e for realizado com vistas a cumprir a verdadeira missão do Islã. Caso contrário, a palavra “muçulmano” não pode ser associada a nenhuma das coisas mencionadas. Pois, sem a qualidade do Islã, não existe no mundo coisa alguma que possa ser chamada de muçulmana. Não se pode sequer conceber chamar uma pessoa ou uma nação de comunista sem o comunismo. Do mesmo modo, não se pode chamar um interesse de interesse comunista, um Estado de Estado comunista ou uma organização de organização comunista. Mas, apesar disso, por que essa concepção sobre os muçulmanos se arraigou tão profundamente na mente humana? Como se pode chamar uma pessoa ou uma nação de “muçulmana” deixando de lado o Islã?

É precisamente essa concepção equivocada que, em essência, leva a um tratamento completamente errado da civilização, da cultura e da história dos muçulmanos. As monarquias e os governos estatais estabelecidos sobre princípios e ideais contrários ao Islã são chamados de “governos islâmicos” apenas porque uma pessoa conhecida pelo nome de muçulmana se sentou em seu trono. Hoje, a civilização e a cultura cultivadas nas cortes luxuosas de Bagdá, Córdova, Deli e Cairo são celebradas como civilização e cultura islâmicas. Na realidade, porém, nada têm a ver com o Islã. Quando se pergunta a um muçulmano sobre a civilização islâmica, ele imediatamente aponta para o Taj Mahal de Agra. Parece que, aos seus olhos, esse é o exemplo mais brilhante da civilização islâmica. No entanto, cercar permanentemente centenas de acres de terra e gastar milhões para construir sobre eles um palácio destinado a sepultar um cadáver jamais pode ser considerado civilização islâmica.

Assim, sempre que se inicia a discussão sobre os capítulos gloriosos da história islâmica, são apresentadas as façanhas dos imperadores abássidas, seljúcidas e mogóis. Contudo, do ponto de vista da verdadeira filosofia da história islâmica, a maior parte dessas façanhas seria considerada digna de ser inscrita na lista dos crimes, e não entre os feitos gloriosos. A história dos reis e imperadores muçulmanos é chamada de “história islâmica”. Em outras palavras, em vez de fazer da história dos reis e imperadores a “missão” do Islã, examinar a história passada à luz de sua doutrina, regras e princípios, e estabelecer, mediante o aguçado critério da justiça, uma distinção entre os feitos islâmicos e as atividades contrárias ao Islã, passou-se a considerar apoio e resistência aos governantes conhecidos pelo nome de muçulmanos como o serviço à história islâmica. A única razão para essa diferença fundamental de visão, perspectiva e método de julgamento é que se arraigou na mente de todos uma concepção equivocada permanente: considerar islâmica cada coisa relacionada aos muçulmanos. E, mesmo quando uma pessoa conhecida como muçulmana age segundo princípios e métodos contrários ao Islã, sua ação é considerada uma ação de muçulmano — isto é, uma ação islâmica.

Também no campo de sua política nacional os muçulmanos adotaram essa mesma visão equivocada. Ignorando os princípios, ideais e doutrinas do Islã e sua missão — desviando o olhar deles —, chama-se uma nação de nação muçulmana. Em nome, por parte ou em benefício dessa nação, cada indivíduo e cada grupo demonstrou extremo arbítrio. Segundo eles, toda pessoa relacionada à nação muçulmana é representante dos muçulmanos — e não apenas isso: pode até ser seu líder; mesmo que o pobre homem seja completamente ignorante e tolo no que diz respeito ao Islã, não há problema. Ao perceber qualquer possibilidade de obter algum benefício ou interesse, o muçulmano está pronto a seguir qualquer indivíduo ou grupo; mesmo que sua missão seja totalmente oposta à missão do Islã, não considera isso uma falta. Basta ver que alguém está garantindo o sustento dos muçulmanos para que se alegrem desmedidamente; não sentem qualquer constrangimento, ainda que, do ponto de vista islâmico, esse sustento seja ilícito. Em qualquer lugar, basta ver um muçulmano sentado no assento do poder para que o peito se encha de alegria. Mesmo que ele use esse poder, como um não muçulmano, para objetivos contrários ao Islã, não há objeção. Inúmeras coisas não islâmicas foram consideradas islâmicas. Os muçulmanos se preparam para apoiar e cooperar com os grupos formados segundo regras e princípios completamente contrários aos ideais do Islã e aos seus princípios de organização, gastando milhões para alcançar esses objetivos. ….. Foi precisamente por considerar os muçulmanos uma mera nação e esquecer que são um grupo de status internacional que surgiu esse erro indesejável nas concepções e atividades relacionadas aos muçulmanos. Enquanto não se eliminar essa concepção equivocada sobre os muçulmanos e não se passar a considerá-los um grupo orientado por um ideal, não poderá haver conduta correta em nenhuma atividade da vida dos muçulmanos. — Tarjumān al-Qur’ān, abril de 1939.

 

Apêndice

Se a “Jamaat Islâmica” for chamada de algo diferente de uma nação, alguns poderão suspeitar que isso deixaria aberta a possibilidade de ela permanecer parte de alguma nacionalidade regional. Assim como atualmente existem vários partidos políticos dentro de uma nação, e, apesar de cada um possuir um ideal próprio, todos continuam incluídos no grande conjunto chamado “nação”, não seria estranho que surgisse na mente de alguns a suspeita de que, se os “muçulmanos” forem um partido, também eles poderiam tornar-se parte da nacionalidade regional de seu próprio país.

Mas a única razão para o surgimento dessa concepção equivocada é que, ao se dizer Jamaat ou partido, pensa-se simplesmente em um partido político comum. Esse, porém, não é o seu verdadeiro significado. Como há muito tempo a palavra vem sendo usada nesse sentido, esse significado se ligou intimamente a ela. Na realidade, aqueles que se reúnem em torno de uma determinada doutrina, credo, crença, princípio, ideal e objetivo constituem uma Jamaat — um partido. No Alcorão Sagrado, “Hizb” e “Ummah” são usados precisamente nesse sentido, e é isso também que se entende por partido.

Por outro lado, aqueles que se organizam em torno de determinadas ideias e programas de ação política, tendo em vista as circunstâncias específicas de uma nação ou de um país, também constituem um partido. Mas, como esse tipo de partido é apenas um partido político, não é de modo algum estranho — é antes natural — que ele se torne parte de uma nação……..

Mas também são chamados de “jamaat” aqueles que se organizam em torno de uma visão abrangente e de um ideal correto. Eles se empenham e se dedicam ao bem de toda a humanidade, sem distinção de povo ou país. Seu único objetivo é reconstruir a vida em sua totalidade segundo um novo ideal e um novo método. Estão determinados a reformular e reconstruir cada coisa, desde os princípios, ideais, doutrinas, formas de pensamento e normas morais até os pormenores da conduta individual e da organização coletiva. Não poupam esforços para criar uma tahzib e um tamaddun distintos e originais. Embora esse “partido” seja, em essência, apenas um partido, não é um partido que funcione simplesmente como parte ou apêndice de uma grande nação. Sua atuação está muito acima do nacionalismo estreito. Pelo contrário, sua missão principal é destruir os ódios, ressentimentos e antagonismos hereditários, tribais e históricos sobre os quais se formaram as diferentes nacionalidades do mundo. Portanto, uma jamaat ou partido desse tipo não pode estar ligado a essas nacionalidades; ao contrário, destruirá as nacionalidades hereditárias, tribais e históricas e criará em seu lugar uma nacionalidade inteiramente racional (Rational Nationality). Não há dúvida de que, em vez de uma nacionalidade inerte, estagnada e estéril, formará uma nacionalidade em expansão (Expanding Nationality). Ele próprio estabelece os fundamentos de uma nacionalidade nova, pronta a incluir todos os habitantes do mundo com base na unidade intelectual e cultural. Mesmo depois de assumir a forma de uma nacionalidade, porém, continua sendo essencialmente um “partido” ou “jamaat”. Pois ninguém pode ingressar nele por direito de nascimento; aceitar e seguir seus princípios fundamentais, ideais e doutrina é o único meio de dele fazer parte.

“Muçulmano” é, na realidade, o nome de um partido precisamente nesse segundo sentido. Não é um “partido” como os diversos partidos que existem dentro de uma nação. É simplesmente um partido do tipo daqueles que se levantam sob a bandeira de uma tahzib e de um tamaddun completamente distintos e que procuram destruir os limites mais estreitos das pequenas nacionalidades para formar, com base apenas em princípios, uma enorme nacionalidade mundial (World Nationality). Como esse “partido” não está disposto a se vincular, no plano do sentimento interior, a nenhuma das nações hereditárias ou históricas do mundo, mas começa a construir seu próprio edifício de tahzib e tamaddun de acordo com sua própria filosofia de vida e filosofia social (Social Philosophy), sob esse aspecto pode, evidentemente, ser chamado de nação. Contudo, embora seja uma “nação” nesse sentido, em essência é apenas um “partido”. Pois uma pessoa não pode ser considerada membro dessa “nação” simplesmente por ter nascido nela de modo involuntário (Mere Accident of birth), enquanto não seguir seus ideais e princípios. Da mesma forma, não se impede que alguém queira pertencer a outra nação, pois essa pessoa depositou sua fé nos princípios, ideais e doutrina desta nação.

O resumo de toda a discussão acima é que a nacionalidade da nação muçulmana é reconhecida precisamente porque ela é uma jamaat ou partido distinto. Em essência, ela é um partido; somente numa etapa posterior adquire a condição de nacionalidade. O primeiro é a raiz; o segundo é apenas seu ramo. Se o aspecto de jamaat for alguma vez ignorado e ela se transformar simplesmente em uma “nação”, não há dúvida de que se deverá considerar que sofreu uma extrema degeneração (Degeneration).

Na verdade, na história da sociedade humana, a condição e a natureza do partido islâmico constituem algo singular e extraordinário. Por isso, também são motivo de assombro para as pessoas. Antes do Islã, o budismo e o cristianismo haviam rompido os limites estreitos da nacionalidade, convocado toda a humanidade e tentado formar, com base numa ideologia, uma fraternidade de alcance universal. Mas nenhuma dessas duas religiões possuía uma filosofia social adequada à instituição de um sistema abrangente de tahzib e tamaddun; possuía apenas alguns ensinamentos morais. Consequentemente, nenhuma delas conseguiu estabelecer as bases de uma nacionalidade universal. Tudo terminou com a criação de uma espécie de “fraternidade” (Brotherhood). Depois do Islã, a civilização científica surgiu no Ocidente e tentou apelar ao mundo internacional; mas, desde o dia de seu nascimento, o “fantasma” da nacionalidade se instalou sobre seu pescoço. Por isso, também fracassou completamente em formar uma nacionalidade internacional. Em seguida, surgiu o comunismo marxista e tentou criar, com base numa concepção abrangente e ultrapassando os limites estreitos da nacionalidade, uma civilização e uma nacionalidade de alcance mundial. Mas, como essa civilização ainda não foi plenamente concretizada, o marxismo tampouco conseguiu assumir a forma de uma nacionalidade universalmente reconhecida. E a verdade é que o marxismo já havia prejudicado sua condição internacional ao mergulhar na estreiteza do nacionalismo. O nacionalismo russo exerce uma influência muito forte na política de Stalin e de seu partido. Na literatura russa — e até na nova constituição adotada em 1936 —, ao chamar a Rússia de “pátria” (Father Land), exibiu-se o extremo da adoração da nacionalidade. O Islã, porém, não chama nenhum país de “pátria”; chama-o de Dar al-Islam — “a terra do Islã”. Até o presente, em todo o mundo, o Islã é o único sistema de vida capaz de romper todos os vínculos das nacionalidades hereditárias, tribais e históricas e formar, sobre a base de uma nova civilização e cultura, uma nacionalidade de alcance universal. É justamente por isso que aqueles que não conhecem intimamente a corrente idealista inerente ao Islã não conseguem compreender como o mesmo conjunto humano pode ser, ao mesmo tempo, uma “nação” e um “partido”. Eles veem que, no mundo, os membros de cada nação pertencem a ela por terem nascido dos membros daquela nação; ninguém se junta a ela por sua própria vontade ou interesse. Todos sabem que a pessoa nascida na Itália é membro da nacionalidade italiana, mas que, para quem não nasceu na Itália, não há meio algum de tornar-se membro da nação italiana. Contudo, as pessoas em geral não conhecem nenhuma “nação” à qual seja necessário aderir acreditando num ideal e numa doutrina específicos, e da qual se seja necessariamente expulso caso se mudem o ideal e a doutrina. Segundo elas, essa característica só pode pertencer a um partido, não a uma nação. Mas ficam surpresas ao ver que esse partido não está disposto a se vincular e limitar a uma civilização, cultura e nova nacionalidade específicas.

Por não compreenderem a situação real, isso não é verdade apenas no caso dos não muçulmanos; os muçulmanos também estão hoje mergulhados nisso. Em razão de terem recebido durante muito tempo uma educação e formação não islâmicas e vivido num ambiente contrário ao Islã, também despertou entre eles a concepção jahiliana do “nacionalismo histórico”. Na realidade, eles haviam sido formados precisamente para criar uma revolução em escala mundial; propagar seu ideal era o propósito de sua vida, e destruir o sistema social equivocado do mundo e preparar uma nova sociedade com base em sua própria visão de vida era seu dever. Mas os muçulmanos hoje se esqueceram completamente disso. E, tendo esquecido tudo isso, transformaram-se simplesmente numa nação como as demais nações do mundo. Agora, em suas reuniões, assembleias, conferências e congressos, bem como em seus jornais e folhetos, já não se ouve sequer qualquer discussão ou menção à sua verdadeira missão. No entanto, foi precisamente para isso que eles foram selecionados entre as nações do mundo e transformados numa nova nação, numa nova ummah. Agora, sua única tarefa tornou-se proteger os interesses dos muçulmanos. E por “muçulmanos” entendem-se aqueles que nasceram de pais pertencentes a famílias nominalmente muçulmanas. E por “interesses” entendem-se apenas os interesses materiais e políticos desses muçulmanos de linhagem, isto é, a obtenção de vantagens e benefícios. Em certos lugares, isso também significa sua cultura. Para proteger esses interesses, os muçulmanos avançarão sem hesitação para adotar qualquer método ou política de ação que seja considerada indispensável — assim como Mussolini se dispunha a realizar tudo o que protegesse os interesses dos italianos. Ele não tinha qualquer consideração por princípios ou ideais. Dizia: tudo o que for útil e benéfico para a nação italiana é verdade e justiça. E é justamente isso que chamo de sinal da extrema degeneração dos muçulmanos. Para protestar contra essa degeneração, procuro lembrar aos muçulmanos que, essencialmente, vocês não são uma nação semelhante às nações de origem familiar, tribal ou histórica. Na realidade, vocês são apenas um grupo, uma jamaat, e sua vida só poderá ser preservada se permanecer entre vocês a consciência de serem um grupo (sentido de partido); caso contrário, não.

Por não permanecer desperta a consciência de serem um grupo — e, de outro modo, não se pode imaginar quão terríveis são as consequências fatais de esquecerem a si mesmos —, o muçulmano começa a seguir toda e qualquer opinião e caminho, sem sequer avaliar se isso é compatível ou contrário ao ideal islâmico. Assim, o muçulmano torna-se nacionalista e também comunista. Ele também se inicia no fascismo e não sente qualquer constrangimento com isso. Em toda parte podem ser encontrados muçulmanos que seguem as diversas filosofias sociais, opiniões metafísicas e doutrinas científicas do Ocidente. Não há em lugar algum do mundo um movimento político, social ou civilizacional do qual os muçulmanos não tenham participado. E o mais curioso é que, mesmo assim, eles continuam considerando-se muçulmanos, reivindicam esse nome e são chamados de muçulmanos. Mas os seguidores de opiniões e caminhos diversos nem sequer se lembram de que muçulmano não é um título recebido por nascimento; é apenas um nome qualificativo para as pessoas que seguem o caminho específico do Islã. Na verdade, não há dúvida de que chamar de “muçulmanos” aqueles que abandonam o sistema de vida e o caminho específico do Islã para seguir outro caminho é um erro grave. Termos como nacionalista muçulmano, comunista muçulmano e outras expressões desse tipo são tão contraditórios entre si quanto “agiota comunista” e “açougueiro budista”. — Tarjumān al-Qur’ān: junho de 1939.

— Fim —-