Capítulo: 1
Prefácio
O propósito de sua vinda, sua missão e sua posição histórica
A obra “Muhammad, o Amigo da Humanidade”, que a paz esteja sobre ele, é essencialmente a tradução bengali de “Muhsin-e-Insaniyat”, escrita em urdu por Naeem Siddiqi, um dos mais renomados pesquisadores e pensadores islâmicos deste subcontinente. A obra também foi traduzida para o inglês sob o título “Human Benefactor”.
Esta obra não é uma biografia de Muhammad, o Mensageiro de Allah, que a paz esteja sobre ele, escrita segundo o método tradicional. Ela apresenta principalmente uma análise extraordinária, instrutiva e detalhada da incomparável revolução social que o Mensageiro, que a paz esteja sobre ele, realizou, bem como da construção do grupo humano e da sociedade humana excepcionais que ele edificou com a habilidade de um artesão consumado. Por isso, ela é, ao mesmo tempo, uma biografia do Mensageiro, que a paz esteja sobre ele, e um relato da realização da revolução social islâmica. É uma obra muito útil para aqueles que aspiram construir uma sociedade islâmica.
O propósito de sua vinda, sua missão e sua posição histórica
Antes de estudar a vida do Profeta, que a paz esteja sobre ele, é necessário obter uma compreensão clara do propósito de sua vinda. Precisamos identificar precisamente qual foi a grande tarefa para cuja conclusão este grande benfeitor da humanidade surgiu no mundo e à qual dedicou toda a sua vida, a fim de levar com êxito ao término uma luta orientada para um objetivo final. Na realidade, a história da vida do Mensageiro, que a paz esteja sobre ele, é a história de uma luta incansável para implementar um programa de alcance humano universal. A vida do Mensageiro é uma análise prática e dinâmica dos ensinamentos e ideais do Alcorão. A vida do Mensageiro é a continuação da mesma mensagem sagrada cuja tocha os profetas Adão, Abraão, Moisés, Jesus e os demais profetas acenderam em suas respectivas épocas. Sem manter diante dos olhos o modo e a natureza da missão do Profeta, suas características e a vastidão de seu âmbito, não podemos organizar adequadamente o estudo da vida profética, avaliar e analisar os acontecimentos nela ocorridos, determinar o verdadeiro objetivo do estudo de sua biografia nem alcançar tudo o que devemos obter dela.
O salvador da humanidade
Ao examinarmos a história de toda a humanidade, encontramos nela reformadores de vários tipos. Vemos muitos oradores eloquentes ou inflamados, filósofos e pensadores, arquitetos de vastos impérios, reis, monarcas e imperadores, heróis conquistadores, fundadores de grandes partidos e organizações, grandes líderes que provocaram agitação na civilização humana, revolucionários poderosos que repetidamente abalaram a estrutura social, fundadores de novas religiões que surgiram no palco da civilização, além de reformadores morais e legisladores. Contudo, quando observamos seus ensinamentos, as realizações e contribuições que deixaram, bem como os resultados gerais de seus esforços, empenho e atividades, não encontramos em parte alguma um bem completo e um benefício integral. O pouco bem e benefício que se percebe é apenas parcial, unilateral e passageiro. Esses benefícios tornam-se visíveis em algum aspecto da vida e, depois, misturam-se a vários tipos de malefícios. Fora a personalidade dos profetas, não se encontra na história nenhum outro instrumento ou elemento capaz de transformar toda a sociedade humana a partir de seu interior. Tingir toda a sociedade e toda a civilização com a mesma cor de Allah, da mesquita ao mercado, da escola ao tribunal e do lar ao campo de batalha, e realizar uma transformação radical a partir do interior de toda a sociedade humana: esse foi o êxito da da‘wah de Muhammad, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. E essa é a verdadeira grandeza de sua vida. Por meio de sua da‘wah, a mente e o coração das pessoas mudaram, seus modos de pensar se transformaram, sua visão de mundo se alterou, os costumes e hábitos foram modificados, a forma de distribuir direitos e deveres mudou, os critérios do justo e do injusto, do halal e do haram, foram transformados, os valores morais foram renovados, as leis e a constituição foram modificadas, as normas da guerra e da paz foram alteradas, e o casamento e a organização social foram transformados. Em suma, cada aspecto da civilização e cada instituição sofreram uma mudança radical. De uma extremidade à outra dessa transformação abrangente, em lugar algum se via senão bem e prosperidade. Não havia mal em nenhuma de suas partes, nem corrupção em qualquer de seus setores, nem qualquer deformidade. Em toda parte havia apenas bem; em todas as direções, apenas atividade construtiva, desenvolvimento e progresso. Na realidade, pelas mãos do Grande Profeta realizou-se o pleno ressurgimento e a revitalização da humanidade. Fazendo surgir uma alvorada dourada da verdade e da justiça, ele limpou o céu da civilização das nuvens. Inaugurou uma era histórica. Na história mundial, essa é uma realização e um feito tão grandiosos que não há paralelo semelhante em nenhum outro lugar.
O Profeta universal, salvador da humanidade, surgiu numa época em que toda a humanidade estava mergulhada em profunda escuridão. Em alguns lugares, imperava a era da selvageria e da violência. Em outros, a maldição do shirk e da idolatria destruía a vida civilizada. No Egito, na Índia, na Babilônia, em Nínive, na Grécia e na China, as civilizações haviam sido completamente devastadas e arruinadas. Somente em Roma e na Pérsia ainda tremulava a bandeira da civilização. O esplendor exterior das civilizações romana e iraniana ofuscava os olhos. Contudo, no interior daqueles palácios deslumbrantes, eram praticadas terríveis opressões e perseguições. Um fedor nauseante emanava das feridas da vida. Reis e imperadores não eram apenas considerados encarnações de Deus; eles próprios haviam se estabelecido como deuses. Em conluio com eles, a classe de proprietários de terras e sacerdotes exercia domínio sobre o povo. Sob a opressão e a exploração impiedosas dos dois impérios, Romano e Iraniano, o povo comum estava sufocando, à beira da morte. Eles cobravam do povo impostos exorbitantes, tributos, subornos e presentes. Além disso, obrigavam-no a trabalhar como um animal de carga. Entretanto, não tinham qualquer preocupação nem compaixão pelas carências, sofrimentos, dores e infortúnios dessas pessoas, muito menos ofereciam solução ou remédio para seus problemas. O luxo e a adoração da natureza dessas classes dominantes haviam destruído completamente sua essência moral. As mudanças de poder e as ascensões e quedas dos reis, o surgimento de novos conquistadores e as guerras sangrentas provocavam mudanças temporárias na situação, mas nem mesmo isso abria qualquer caminho de libertação para o povo comum. Após cada mudança, o povo comum era esmagado ainda mais sob o moinho da exploração. Qualquer força que surgisse no palco do poder transformava o próprio povo comum em instrumento de exploração, consolidava seu poder usando o sangue do povo como capital e aproveitando seu trabalho e, depois de conquistar a vitória e a autoridade, tornava-se ainda mais opressora e exploradora do que seus predecessores. O próprio Império Romano e o Império Iraniano também permaneciam em conflito e confronto contínuos. Diferentes regiões passavam ora ao domínio de um império, ora eram engolidas pelo outro. Porém, a cada vez, a força vencedora reprimia cruelmente algum grupo entre os súditos. Pode-se citar, como exemplo, que, quando algum território pertencente ao Império Iraniano caía sob o domínio do Império Romano, seus altares de fogo eram apagados e igrejas eram construídas em seu lugar; e, quando algum território romano caía nas mãos dos iranianos, todas as igrejas dali eram transformadas em fogueiras. A maior parte das regiões do mundo permanecia sob o domínio da anarquia. Guerras e batalhas, conflitos e confrontos, e rebeliões ocorriam continuamente. As facções religiosas derramavam o sangue umas das outras. E, em meio a todos esses tumultos e desordens, a dignidade humana era esmagada e triturada. Sua humanidade era humilhada e lançada ao chão. Mesmo trabalhando desumanamente, a pessoa não conseguia satisfazer as necessidades mínimas da vida. Mesmo diante de centenas de opressões e perseguições, não conseguia fazer sequer um pequeno protesto. Tinha de engolir em silêncio até os sentimentos mais amargos. Sua consciência e sua mente permaneciam presas em grilhões de uma escravidão tão severa que ela não tinha sequer a liberdade de emitir um som. Quem se importava em saber em que terrível jaula de ferro ela vivia aprisionada e quantos suspiros de desespero e fracasso tornavam pesado o ar ao seu redor? Naquela jaula de ferro, não havia uma única janela aberta para qualquer direção, e não brilhava sequer uma pequena luz, como um vaga-lume, de qualquer doutrina ou filosofia que trouxesse às pessoas o menor raio de esperança. Sua alma clamava. Mas ninguém respondia sequer a esse clamor, de direção alguma. Nenhuma religião se apresentava para salvá-la, pois os ensinamentos dos profetas haviam desaparecido, afundados nas profundezas pela distorção e pelo mau uso. O pouco que restava em nome da religião havia sido transformado pelas autoridades religiosas em mercadoria comercial. Elas haviam formado uma aliança com os opressores e exploradores de seu tempo. Falemos da filosofia grega. Falemos de Confúcio e do Código de Manu; ou dos Vedas e do Vedanta, do budismo, ou das leis de Justiniano e Sólon: tudo havia se tornado sem vida e inerte. Nenhum raio de luz era visível de direção alguma. Sempre que, em algum lugar do mundo, chega-se a uma situação em que as pessoas ficam aprisionadas numa jaula de ferro e nenhuma luz de esperança é percebida de qualquer direção, surge uma crise e um impasse no sistema social. O Alcorão examinou muito brevemente essa situação histórica da humanidade, de modo incomparável: “A corrupção apareceu na terra e no mar por causa do que as mãos das pessoas fizeram. Assim, Ele lhes faz provar parte do que fizeram, para que talvez retornem ao caminho correto.” (Ar-Rum, 41.) Assim, quando a mais terrível e horrenda anarquia da história se espalhou por todo o mundo, a tocha luminosa do maior amigo da humanidade, o Profeta universal, subitamente se acendeu na escuridão impenetrável daquela anarquia. Essa tocha rasgou o coração da escuridão da calamidade social contemporânea e iluminou todas as direções.
A região mais próxima da Arábia foi o campo inicial de atuação do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Só de pensar na situação terrível que ali prevalecia, o corpo estremece. Durante a época de ‘Ad e Tamud, ou sob a influência imperialista de Sabá e do Iêmen, talvez tenha surgido certa luz de civilização em algum momento, mas ela também havia se apagado muitos séculos antes. O restante da Arábia ainda estava mergulhado na profunda escuridão da pré-civilização. O sol da civilização ainda não havia nascido, e a humanidade ainda não havia despertado do sono da jahiliyyah primitiva. Uma intensa tensão predominava por todos os lados. Conflitos e confrontos entre as pessoas, guerras e pilhagens assolavam a região. A cultura jahilí havia atingido o auge, com a combinação de álcool, adultério e jogos de azar. Os coraixitas, professando uma religião de shirk e idolatria, prosseguiam com o lucrativo negócio da administração da Sagrada Caaba. Os judeus também haviam aberto, em concorrência, lojas de comércio religioso deturpado. O restante dos árabes estava mergulhado na anarquia do pensamento. Os agiotas de Meca e Taife haviam lançado suas redes de negócios baseados em juros. As instituições amaldiçoadas do comércio de escravos funcionavam com grande pompa. Em suma, as pessoas haviam descido ao nível mais baixo da servidão aos desejos e viviam como hienas selvagens e animais quadrúpedes. [Na Surata Al-Furqan do Alcorão, é dito: “Eles são como animais; na verdade, estão ainda mais desviados.” (Versículo 42)] Os poderosos conduziam os fracos pelo cabresto, como rebanhos de cabras e ovelhas. Os fracos permaneciam prostrados aos pés dos poderosos.
Em uma situação como essa, Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) entrou sozinho em campo, convocando uma mudança radical e abrangente. Em um ambiente tão desesperador, qualquer outra pessoa talvez tivesse abandonado as áreas habitadas e fugido. Não é que, no passado, não tenham existido no mundo pessoas honestas e sensíveis o bastante para odiar a injustiça. Houve muitas. Porém, elas não conseguiram enfrentar a injustiça nem remediá-la. Para proteger a própria vida, abandonavam a sociedade e as áreas habitadas, refugiavam-se nas florestas e cavernas das montanhas e tornavam-se ascetas e monges. Mas o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) não pensou em salvar a própria vida deixando a humanidade aflita entregue à sua situação de desamparo. Pelo contrário, lutou contra a injustiça e a perversidade e abriu o caminho da salvação para toda a humanidade. Assumiu o leme da embarcação da civilização e conduziu-a rumo ao destino correto. Para romper o impasse criado naquela época pelas duas superpotências beligerantes, Roma e o Irã, ele surgiu como uma terceira força. Gradualmente, quando essa terceira força se firmou sobre os próprios pés, desafiou tanto Roma quanto o Irã. Derrubou as lideranças poderosas de ambos e libertou os povos da assustadora jaula da civilização, dando-lhes a oportunidade de circular em um ambiente livre [a esse respeito, merecem ser mencionados alguns hadiths: “Fui enviado na melhor época entre as diversas épocas dos filhos de Adão” (Bukhari). “Allah escolheu Quenana entre os descendentes de Ismael, os coraixitas entre os descendentes de Quenana, os Banu Hashim entre os coraixitas e escolheu-me entre os Banu Hashim” (Muslim). “Quando Allah criou o mundo, incluiu-me na melhor classe; depois, na melhor tribo; depois, na melhor família. Portanto, sou o melhor como indivíduo e também como família” (Tirmidhi)]. Um caminho de salvação abriu-se diante dos filhos de Adão, e a caravana humana, cercada por ladrões, partiu rumo à estação do progresso e da prosperidade.
Em suma, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) surgiu como libertador e salvador de todos os habitantes do mundo.
O local, a época e os elementos humanos de seu surgimento
Para reconduzir a humanidade ao caminho correto, o Deus Altíssimo, por um lado, escolheu a personalidade mais eminente para ser o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele); por outro, apesar das condições extremamente degradadas daquela época, escolheu para ele a melhor época, o local mais adequado para a da‘wah e a melhor nação para ser a primeira a ser convocada.
Considerando a situação em seu conjunto, pode-se dizer que aquela época era a mais adequada porque o período do sistema social tribal estava chegando ao fim e a era do internacionalismo se aproximava. A história estava prestes a ingressar na era da ciência após atravessar apenas algumas curvas. A época do surgimento do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) assinalava, na realidade, a fronteira entre essas duas eras mencionadas. Para inaugurar uma era futura mais ampla e luminosa, tornou-se necessário reafirmar a da‘wah dos profetas anteriores, reavivar sua força vital, estabelecer firmemente os fundamentos de uma civilização baseada na obediência a Allah e apresentar de forma completa um sistema social islâmico baseado na igualdade e na justiça, para que as eras posteriores pudessem ser iluminadas pelos raios da realização do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Essa época também era a mais adequada porque não restava diante das pessoas nenhum apoio ou esperança; por isso, seria mais fácil incentivá-las a aceitar o Islam.
Se dirigirmos nossa atenção ao local da da‘wah, veremos que, embora a Arábia fosse uma terra árida e desértica, estava situada no centro do mundo civilizado daquela época. Todas as rotas comerciais que vinham do Oriente, do Ocidente e do Norte convergiam para o território árabe. Todo o comércio exterior realizado entre os diversos países era conduzido por comerciantes árabes. Havia um fluxo de caravanas comerciais entre Amã e o Iêmen, Sanaã e Meca, Jedá e Iambo, e Medina e Dumat al-Jandal. Essas caravanas não podiam circular com segurança sem a autorização dos líderes árabes, isto é, dos coraixitas, e os salvo-condutos das tribos importantes. Desse modo, o território árabe — especialmente Meca, Taife, Medina, Iambo e Dumat al-Jandal — mantinha comunicação com todas as regiões da Índia, China, Irã, Iraque, Egito, Roma e Etiópia. Um centro de da‘wah e pregação coletiva estabelecido aqui teria condições de alcançar mais êxito do que em qualquer outra região. Além disso, Meca e Medina tinham a máxima importância no mundo árabe. Nos aspectos religioso, comercial e cultural, sua liderança e autoridade eram incontestáveis.
Embora o atraso da nação árabe em termos de civilização e cultura, sua indisciplina e anarquia e sua precariedade econômica tivessem criado alguns problemas, isso também trazia uma grande vantagem. Essa vantagem era que a Arábia estava, em grande medida, livre da dominação estrangeira. Além disso, no âmbito interno, ninguém possuía poder suficiente para estabelecer uma autoridade política regular sobre todo o país e, depois, utilizando o poder, a autoridade, a lei e a educação, estruturar a sociedade segundo um modelo específico. Se existisse uma pessoa ou grupo tão poderoso, poderia ter destruído o movimento islâmico, assim como vários reis tirânicos do passado interromperam a da‘wah dos profetas antes que ela atingisse sua plenitude. Os coraixitas tinham considerável influência e prestígio e, de fato, opuseram-se com todas as suas forças. Contudo, não possuíam autoridade política regular sobre toda a Arábia. Por mais profunda que fosse sua influência religiosa e comercial, jamais poderiam substituir um governo bem organizado.
Do ponto de vista religioso, vê-se que, ao redor desta região, permaneciam indeléveis as lembranças da pregação dos profetas anteriores. Os sinais do destino que se abatera sobre os povos daquela época também estavam diante dos olhos de todos. Ao norte ficava Ur, o local de nascimento de Hazrat Ibrahim. Próximo dali situavam-se as regiões de Hazrat Nuh, Hazrat Lut e Hazrat Saleh (a.s.). A Palestina e Jerusalém, locais da ascensão e queda dos Filhos de Israel e da pregação de Isa (a.s.), também ficavam nas proximidades. Ao sul estavam as moradas de Ad e Thamud, a região da represa de Marib e o reino de Saba. Do outro lado do mar ficava o Egito. Ali, Ibrahim e Ismail fortaleceram e consolidaram o centro do tawhid. Ali estabeleceram exemplos brilhantes de adoração e obediência. Para a obediência a Allah, o tawhid e a reforma e o desenvolvimento da humanidade, que outra região poderia ser melhor do que esta? Se ali se elevasse a voz do chamado ao Islam, existiam condições para que os sinais deixados pelos profetas anteriores ressurgissem facilmente na mente das pessoas.
O elemento humano que havia na Arábia também era da melhor qualidade. A característica mais notável desse elemento era que a fonte de seu poder e de sua capacidade ainda permanecia inexplorada e preservada. Os árabes ainda estavam livres das doenças destrutivas geradas pelas civilizações brutais de Roma e da Pérsia. Embora apresentassem defeitos decorrentes de um modo de vida violento, suas boas qualidades também não eram poucas. Por serem beduínos, tinham em seu temperamento uma simplicidade natural. Eram completamente livres de artificialidade. Tinham a oportunidade de observar de muito perto os sinais da natureza. Por isso, eram capazes de compreender os sinais da grande verdade espalhados pelo universo. O clima quente, as rajadas das tempestades de areia, as difíceis viagens de dia e de noite, a experiência da fome e da sede, e os assassinatos e saques diários geravam neles audácia e destemor, o que ajudava a despertar o impulso para o heroísmo. Eram exatamente o tipo de grupo de heróis corajosos necessário para conduzir um movimento mundial. Possuíam generosidade. Para realizar uma tarefa tão grandiosa, pessoas mesquinhas não seriam adequadas. Os árabes tinham uma memória extraordinária. Não apenas memorizavam a genealogia de sua própria linhagem, como também a linhagem de seus cavalos. Pessoas desse tipo eram as mais capazes de aceitar os princípios de um sistema de vida e transmiti-los aos outros. Possuíam plenamente o senso de honra. Por isso, a tarefa de preservar sua dignidade estava ao alcance deles. Sua língua também era elevada, vasta e em desenvolvimento. Sua elegância e seus ornamentos manifestavam-se de modo extremamente belo. Assim, podiam avançar facilmente na disseminação do conhecimento e da ciência. Também seriam mais bem-sucedidos em inspirar os outros por meio de um discurso revolucionário.
Os árabes eram firmes e inabaláveis em sua determinação. Mesmo quando seguiam um caminho injusto, avançavam com plena tranquilidade interior e convicção inabalável de sua consciência. Enfrentando todos os tipos de obstáculos e oposição, prosseguiam em direção ao objetivo desejado. Contudo, se fossem conduzidos pelo caminho da justiça e da verdade, também seriam, nesse caso, firmes e destemidos. Possuíam muitas outras características desse tipo. Com base nelas, não se pode deixar de reconhecer que, assim como o Mensageiro (s.a.) era pessoalmente o melhor líder e convocador para alcançar o objetivo, também lhe havia sido fornecida a melhor força humana possível.
Além disso, esse recurso humano ansiava intensamente por alcançar progresso e desenvolvimento em todos os aspectos. Entre as pessoas instruídas e reflexivas da sociedade árabe jahilíya, também começavam a se acumular inquietação e insatisfação no aspecto religioso. Certas personalidades haviam se tornado ansiosas e ávidas por buscar a grande verdade e obter a orientação do Senhor do universo. No aspecto político, igualmente, começava a surgir entre elas uma nova consciência. Em cidades como Meca e Medina, haviam sido formadas instituições e infraestruturas políticas. Estava sendo esboçado, ainda que de maneira um tanto desorganizada, um Estado-cidade com algum grau de caráter democrático. Além disso, devido à escassez de recursos econômicos na Arábia, a população era obrigada a se expandir para além das áreas desérticas. Quando surge uma estagnação na civilização vigente e a liderança se torna inativa, é uma lei tradicional e evidente de Allah colocar um novo grupo nômade no trono de condutor da civilização. Foi seguindo esse princípio que Allah derrubou o poder faraônico e colocou em seu lugar os Filhos de Israel no poder.
Considerando esses aspectos, os árabes eram a maior força humana do mundo daquela época. Essa força humana era a mais adequada para realizar uma revolução fundamental e abrangente na sociedade humana.
A Kalima Revolucionária
Não há qualquer margem para pensar que o Profeta Universal (s.a.) tenha iniciado o trabalho de reforma e reconstrução sem uma crença, uma ideologia ou um plano. Ele não iniciou essa tarefa impelido simplesmente por uma consciência vaga, uma emoção sem objetivo ou um entusiasmo imaturo. Pelo contrário, desceu ao campo empunhando a tocha da maior verdade do universo. Durante anos, com uma mente extremamente sensível, refletiu sobre os problemas da vida. Na câmara solitária da caverna de Hira, meditou por longo tempo sobre seu mundo interior e exterior. Esforçou-se profundamente para compreender os princípios pelos quais se alcançam o bem e o mal da civilização. Contudo, não tomou medidas práticas até que o Poderoso Allah tivesse iluminado seu coração com a luz da verdade e a maior verdade lhe tivesse sido revelada. Essa verdade suprema é que existe um Criador e Senhor do universo, e que o ser humano é Seu servo e escravo. Essa própria Kalima da verdade foi a semente da revolução iniciada pelo Profeta Universal. Dessa semente nasceu a árvore sagrada da vida virtuosa e da civilização pura, cujas raízes estão plantadas profundamente na terra e cujos ramos se estendem até o alto dos céus.
A Kalima proclamada pelo Profeta Universal era uma Kalima revolucionária no mais alto grau. Todos sabemos que essa Kalima é «La ilaha illallah». Literalmente, ela é extremamente breve, mas, em significado, é profundamente abrangente. «Não existe ilah além de Allah. Ele é o único Ilah». Ilah é aquela força ou entidade a quem se pode servir como escravo, por quem a pessoa pode sacrificar abnegadamente a si mesma e tudo o que possui, cuja supremacia reconhece e adora, a quem oferece louvor absoluto, exaltação, declaração de santidade e veneração. É por quem faz votos, de quem espera todo tipo de bem, cuja punição teme, de quem espera recompensa pelas boas ações e teme o castigo pelas más ações, a quem considera seu soberano absoluto, a quem reconhece como governante e legislador, segundo cujas ordens age e de cujas proibições se abstém, cujos princípios adota como fundamento de sua vida, cujas determinações sobre o lícito e o ilícito cumpre sem questionar, a quem considera a fonte de sua orientação, de acordo com cuja vontade e desejo formula seu sistema de vida, cujos amados honra e cujos opositores rejeita, e cuja satisfação se torna o principal objetivo e propósito de sua vida. Toda essa ampla significação estava contida em uma única palavra: Ilah.
A sociedade humana havia usurpado do Deus único os direitos das divindades e os dividido e repartido em pedaços. Como resultado, inúmeras divindades haviam se estabelecido firmemente nos diversos níveis da sociedade e da civilização. A própria natureza do ser humano e seus desejos, os costumes das famílias e das tribos, as tradições de solidariedade baseadas em casta, linhagem e etnia, o domínio dos latifundiários e dos sacerdotes, a arrogância das famílias reais e dos membros dos conselhos, entre outras coisas, haviam se tornado suas divindades. Em nome dessas divindades, uma classe da sociedade governava, explorava, saqueava e espoliava as demais. A declaração «Lā ilāha illā Allāh» («Não há divindade além de Allah») desferia, de uma só vez, um golpe tremendo contra a divindade de todos esses deuses. Aquele que pronunciava essa profissão de fé declarava, em essência, que não reconhecia nenhuma soberania além da de Allah; não reconhecia a autoridade nem o domínio de ninguém; nenhuma lei criada por alguém lhe era aceitável; nenhum direito sobre-humano adquirido por alguém era legítimo; não se curvaria diante de ninguém; não se importaria com a satisfação ou o desagrado de ninguém; sua vida não seria conduzida pelo gesto do dedo de ninguém; e todas as pretensões de divindade, exceto a de Allah, seriam destruídas por completo. Na verdade, essa profissão de fé era a proclamação da verdadeira liberdade humana.
A segunda parte dessa profissão de fé contém o compromisso de que o único caminho para a orientação da humanidade — isto é, para conduzi-la ao caminho da salvação e do bem-estar — e para a reforma e o aprimoramento da civilização e da cultura é o caminho indicado pelos profetas e mensageiros enviados por Allah. A única fonte do conhecimento verdadeiro e correto necessário à vida é a revelação. É dela que a consciência humana pode conhecer os princípios do pensamento. Muhammad (s.a.w.) é o último profeta e mensageiro, aquele que completou essa sucessão da missão profética. É dele que se deve obter a orientação para o caminho correto da vida, e somente sob sua liderança a humanidade poderá avançar rumo ao bem-estar e ao desenvolvimento.
Foi justamente por causa da importância dessa profissão de fé que reconhecê-la se tornou a primeira condição para aceitar o Islã. Os muezins recitam-na em voz alta ao fazer o adhan, ela foi chamada de melhor dhikr e incluída na oração. Em suma, essa profissão de fé tornou-se, sob todos os aspectos, o lema do movimento islâmico.
Aquele em cujo coração entrou essa profissão de fé revolucionária do Mensageiro (s.a.w.) passou por uma transformação radical interior. Na vida de quem essa profissão de fé entrou, toda a sua configuração mudou. Dessa semente nasceu um novo ser humano, que foi criado, educado e desenvolvido.
O objetivo do Mensageiro (s.a.w.) na reforma da sociedade
Para obter um benefício verdadeiro da biografia do Mensageiro (s.a.w.), é essencial conhecer a resposta a uma questão importante: qual era a extensão da mudança desejada pelo Mensageiro (s.a.w.) e qual era o critério de seu trabalho? No sistema social, ele desejava alguma mudança parcial ou uma mudança total? Seu convite estava limitado apenas à reforma religiosa e moral ou também possuía importância política? Em outras palavras, qual era seu objetivo almejado no âmbito social?
A própria revelação do Alcorão respondeu muito claramente a essa questão. O objetivo do convite islâmico foi apresentado repetidamente, de diversas formas. Aqui mencionarei apenas dois versículos. Em uma passagem, o objetivo do envio de todos os profetas e mensageiros é descrito da seguinte maneira:
﴿لَقَدْأَرْسَلْنَارُسُلَنَابِالْبَيِّنَاتِوَأَنزَلْنَامَعَهُمُالْكِتَابَوَالْمِيزَانَلِيَقُومَالنَّاسُبِالْقِسْطِۖوَأَنزَلْنَاالْحَدِيدَفِيهِبَأْسٌشَدِيدٌوَمَنَافِعُلِلنَّاسِوَلِيَعْلَمَاللَّهُمَنيَنصُرُهُوَرُسُلَهُبِالْغَيْبِۚإِنَّاللَّهَقَوِيٌّعَزِيزٌ﴾
“Enviei os Meus mensageiros unicamente com este objetivo e revelei-lhes o Livro e a balança, para que a humanidade se estabelecesse na justiça. (Surata Al-Hadid: 25)”
Isso foi declarado em termos absolutamente inequívocos. O único objetivo do convite do Islam é construir a vida humana sobre os alicerces da equidade e da justiça, e estabelecer efetivamente o equilíbrio e a justiça no sistema social. Na parte seguinte do versículo, há também uma indicação do uso de armas de ferro para o mesmo propósito. Ou seja, o poder militar também é indispensável para implementar, preservar e desenvolver o sistema jurídico islâmico.
O objetivo do surgimento do próprio Muhammad (s.a.w.) como Profeta foi declarado várias vezes em termos ainda mais claros. Por exemplo:
﴿هُوَالَّذِيأَرْسَلَرَسُولَهُبِالْهُدَىٰوَدِينِالْحَقِّلِيُظْهِرَهُعَلَىالدِّينِكُلِّهِوَلَوْكَرِهَالْمُشْرِكُونَ﴾
“Ele é Allah, que enviou o Seu Mensageiro com a orientação e a verdadeira religião, para que ele a faça prevalecer sobre todas as demais religiões e sistemas de vida, ainda que isso seja detestado pelos idólatras. (Surata As-Saff: 9)”
Em outras palavras, os coraixitas e os demais idólatras da Arábia certamente fariam todos os esforços para preservar o seu próprio sistema de vida jahili. Qualquer voz levantada contra a jahiliyyah seria necessariamente desagradável para eles. Mas, sem levar em conta essas preferências e aversões e ignorando a oposição deles, o Mensageiro (s.a.w.) teria de concluir plenamente a tarefa de estabelecer e implementar o Islam. Se esse não fosse o objetivo do convite ao Islam, de onde surgiriam a disputa, o conflito, o jihad e a hijrah? Por que seria feito o chamado ao sacrifício da vida e dos bens? Com que objetivo teria sido feito o veemente apelo: “Tornai-vos auxiliares de Allah”? Com que objetivo se formaria o “partido de Allah”? Com que finalidade seriam escolhidos os mártires? Na verdade, sem manter firmemente no coração o objetivo do convite ao Islam, não será possível compreender nem o Alcorão nem a Sira.
Agora, examinemos os diversos capítulos da vida do Mensageiro (s.a.w.) e investiguemos qual era o seu objetivo pretendido.
Já no período inicial, o Mensageiro (s.a.w.) convocou uma reunião dos líderes da tribo dos Banu Hashim para apresentar o seu convite. Ali, declarou brevemente que esse convite garantiria o bem-estar tanto neste mundo quanto no Além. Muito tempo depois, ao conversar com uma delegação dos coraixitas, repetiu essa declaração e disse:
(Árabe*****************************)
“Se aceitarem a mensagem que apresento, nela estão o bem e a prosperidade de vocês tanto neste mundo quanto no Além.” (Sira de Ibn Hisham, volume 1, p. 316)
Tomar as duas palavras simples e diretas “o bem deste mundo” no sentido de um benefício parcial é completamente irrazoável. Há algum benefício em toda mensagem. Mesmo em todo sistema mau existe alguma coisa boa. Na realidade, o bem deste mundo significa que a vida terrena se torne bela em todos os aspectos; que o sistema social seja imaculado e perfeito; que se estabeleça um sistema permanente de justiça; e que se possa viver uma vida pura e íntegra.
No estágio inicial, quando o conflito com os coraixitas já havia começado, realizou-se mais uma vez uma conversa entre eles e o Mensageiro. Também nessa ocasião ele disse:
(Árabe***************************)
“Se me derem uma única palavra, por meio dela vocês obterão domínio sobre toda a nação árabe, e todos os povos não árabes existentes no mundo se submeterão a vocês.” (Sira de Ibn Hisham, volume 1, p. 316)
Durante cada feira e na época da peregrinação, ele também percorria os acampamentos das diversas tribos que vinham de diferentes regiões da Arábia e apresentava essa mensagem a cada chefe tribal. Dizia-lhes: “Venham comigo. Deem-me a oportunidade de trabalhar e cooperem comigo, para que eu possa apresentar claramente ao povo a mensagem para a qual fui enviado ao mundo.” [Os membros da tribo Banu Amir que haviam ido realizar a peregrinação, ao retornarem, relataram: “Muhammad (que a paz esteja com ele) nos pediu que o protegêssemos, assumíssemos a responsabilidade por ele e o levássemos para nossa região.” (Sira de Ibn Hisham, volume 2, p. 34)] Ao ouvir essa mensagem e ver a emoção e o entusiasmo do Mensageiro, o chefe da tribo Banu Amir, Bukhayra ibn Firas, ficou tão impressionado que disse aos seus íntimos: “Se eu conseguir apoderar-me desse jovem, poderei engolir toda a Arábia.” Esse perspicaz líder árabe havia compreendido o objetivo da mensagem do Mensageiro e os possíveis resultados de sua atividade. Por isso, quis negociar com o Mensageiro. Informou-lhe que estava disposto a cooperar sob uma condição: quando você vencer seus adversários e assumir o poder, nós nos tornaremos os governantes depois de você. Não há como negar que Bukhayra era extremamente previdente. Se o Mensageiro fosse, em sentido restrito, apenas um pregador religioso e conselheiro, sem qualquer objetivo político, teria respondido claramente: “Meu irmão, sou apenas um homem dedicado a Deus. Que me importa uma parcela do poder? Que relação tenho eu com o Estado e o governo?” Mas o Mensageiro não respondeu dessa maneira. Ele disse:
“O poder e a autoridade estão nas mãos de Deus. Ele os dará a quem quiser.”
Dito isso, ele rejeitou as condições de Bukhaira e a questão da partilha do poder. (Sira de Ibn Hisham, vol. 2, p. 23)
Durante o movimento sob a liderança do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), a questão de “conquistar autoridade sobre árabes e não árabes” alcançou tamanha notoriedade que parecia ter se transformado no slogan do movimento islâmico. Até as crianças costumavam repeti-la. Os opositores tomaram isso como motivo de zombaria. Sempre que viam jovens das classes escrava e pobre que haviam abraçado o Islã e eram esmagados pela opressão e perseguição dos coraixitas, estes apontavam para eles e diziam: “O que mais dizer sobre esses senhores? Dizem que serão governantes dos árabes e dos persas!”
Por maior que se tornasse o nível de sarcasmo, zombaria, oposição e resistência, os homens prudentes da tribo dos coraixitas certamente compreendiam, do fundo do coração, que esse movimento não era algo comum; pelo contrário, suas consequências, extremamente abrangentes e de longo alcance, inevitavelmente se manifestariam. Certa vez, os principais líderes coraixitas de Meca enviaram Utba para conversar com o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Utba ofereceu-lhe a tentação de todo tipo de benefício possível relacionado a cargos oficiais, riqueza e interesses mundanos, para que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) aceitasse, de algum modo, abandonar aquela atividade revolucionária. Entretanto, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) recitou para Utba os primeiros versículos da surata Ha-Mim. Com isso, o rosto de Utba empalideceu. Ao voltar, ele disse: “Esse chamado anuncia uma transformação grandiosa. Uma revolução se aproxima, e tudo na vida social será virado de cabeça para baixo. Por isso, aconselho-vos a não dizer nada a Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Deixai-o fazer o que está fazendo. Não o impeçais. Se o povo árabe o matar, ficareis livres dele por si mesmos. Mas, se ele triunfar, o seu reino será o vosso reino, a sua honra será a vossa honra, e sereis os mais prósperos do mundo.” Em outras palavras, até um homem como Utba havia compreendido que por trás desse movimento se ocultava um império e que seu resultado final não poderia ser outro senão o poder estatal. Se ele percebeu isso, como poderiam o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e seus companheiros não tê-lo percebido? (Sira de Ibn Hisham, vol. 1, p. 314)
Certa vez, quando os muçulmanos estavam sendo esmagados sob o moinho da violência e da perseguição intensa, os companheiros do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) narraram-lhe suas histórias de sofrimento e pediram que suplicasse para que fossem libertados daquela situação. Primeiro, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) explicou-lhes que, na luta para estabelecer efetivamente a religião de Allah, é preciso enfrentar obstáculos difíceis a cada passo. Aqueles que, no passado, cumpriram essa responsabilidade tiveram de suportar sofrimentos e adversidades indescritíveis. Em seguida, com plena certeza, deu-lhes a boa-nova: “Juro por Allah que um dia Ele certamente concederá o sucesso final a esta obra.” Depois, descrevendo esse sucesso, disse:
“Um homem viajará completamente sozinho de Sana até Hadramaut, sem temer ninguém além de Allah.” [Sira de Ibn Hisham — vol. 1, p. 314 (obra árabe original)] Isso significa que será estabelecida na Terra uma sociedade justa e uma era de prosperidade, e será implantado um sistema tão pacífico que, onde hoje assaltos, banditismo e homicídios se tornaram acontecimentos corriqueiros, onde seres humanos são sequestrados em plena luz do dia e até a castidade das mulheres é violada publicamente, um viajante poderá andar sozinho, tranquilo e sem medo, por toda parte. Ninguém ousará tocar em sua vida, seus bens, sua honra ou sua dignidade. Certa vez, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) também disse que se aproximava uma época em que as pessoas viajariam para Meca sem escolta. [Shibli Nomani: Sira do Profeta, vol. 2, p. 3]
A clareza e a luminosidade com que aqui foram expressos o objetivo e a finalidade são realmente incomparáveis.
Certa vez, quando o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) pediu a Uthman ibn Talha, guardião das chaves da Caaba, que abrisse a porta da Caaba, Uthman recusou o pedido. Naquele momento, aparentemente prevaleciam uma situação de extrema anarquia e circunstâncias adversas. Ainda assim, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Não está distante o dia em que esta chave estará em nossas mãos, e nós a entregaremos a quem quisermos.” [Al-Mawahib al-Ladunniyya, Qastallani, vol. 1, p. 158]
Ao estudar o histórico compromisso, ou bay‘ah, assumido no local chamado Aqaba pelos Ansar de Medina, fica claro que eles também compreenderam quão amplo e abrangente seria o conflito e a oposição decorrentes da propagação do Islã. Também compreenderam que a decisão final dessa oposição seria posteriormente tomada no campo de batalha. Por meio desse compromisso, de um lado, os Ansar prometeram lutar, se necessário, contra o mundo inteiro em apoio ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), e acolheram a destruição de seus líderes e a perda de suas vidas e bens. De outro lado, também obtiveram do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) a promessa de que, quando Allah lhe concedesse a vitória, ele não os abandonaria para partir. Nessa promessa de lutar, nessa determinação de sacrifício e nessa esperança de vitória, não se tornaram claros o objetivo e a finalidade do Mensageiro? [Sira de Ibn Hisham (árabe), vol. 2, pp. 50–51; Zad al-Ma‘ad (árabe), vol. 1, pp. 50–51]
A parte final da oração que lhe foi ensinada antes de iniciar a viagem da Hégira foi: “E concede-me, da Tua parte, uma autoridade estatal que me ajude” [Surata Bani Isra’il, versículo 80]
Neste versículo, ele é aconselhado a pedir uma “força auxiliar”. Ou seja, ensina-se a pedir autoridade governamental, pois ela é necessária para patrocinar esta missão sagrada e realizar este nobre objetivo.
Quando se exerceu pressão sobre seu tio Abu Talib para que abandonasse o apoio e a proteção ao Mensageiro de Allah, ele disse ao Mensageiro: “Não crie problemas para mim.” A resposta dada pelo Mensageiro de Allah naquela ocasião está escrita com letras de ouro na história. Ele disse: “Mesmo que eles coloquem o sol na minha mão direita e a lua na minha mão esquerda, ainda assim não abandonarei este meu objetivo.” Suas últimas palavras foram: “Ou Allah concederá a vitória ao meu objetivo, ou morrerei realizando esta tarefa.” [Sira de Ibn Hisham, volume 1, p. 278]
Aqui, ele disse “concederá a vitória”, não disse “completará”. A própria palavra “vitória” contém a ideia de conflito e confronto. E, por sua última frase, entende-se que a intensidade desse conflito e confronto chegava ao nível de colocar a vida em risco.
Depois da Hégira, Adi ibn Hatim foi até o Mensageiro de Allah e começou a avaliar sua personalidade. Tentou compreender a concepção de sua missão e observou seu comportamento e sua maneira de agir com o olhar de um crítico. Ao fazê-lo, seu coração ficou tomado de admiração e encantamento. Em consonância com a maneira de pensar do visitante, ele lhe informou que, no futuro, os edifícios brancos de Babilônia passariam para o domínio do Islã, que haveria ali imensas riquezas e que os muçulmanos se tornariam detentores de extraordinário poder e prestígio. Ao mesmo tempo, informou-lhe também uma característica da sociedade islâmica baseada na justiça: em breve, verias uma mulher partir sozinha de muito longe, de Qadisiyyah, montada em um camelo, rumo a esta mesquita, e chegar aqui em completa segurança. Como se pode dizer que o Profeta, cujo olhar, durante a viagem da Hégira, aparentemente em completa indigência, viu os braceletes do imperador persa brilharem nas mãos de Suraqah, não tinha conhecimento do resultado final de seu movimento nem do objetivo último do novo sistema social que havia iniciado? Como é possível imaginar que não era seu objetivo estabelecer um Estado islâmico, que não houve preparação nem luta para isso, e que tal Estado foi entregue repentinamente à organização do Mensageiro de Allah como uma simples recompensa? No máximo, pode-se dizer que ele não desejava estabelecer um Estado e um governo apenas para obter interesses mundanos e afirmar seu poder e prestígio pessoais. Mas como se pode dizer que um Estado islâmico não era desejável para estabelecer concretamente a religião de Allah, instituir a justiça e a equidade, assegurar a libertação da humanidade e construir a sociedade?
Na realidade, o objetivo do Mensageiro de Allah não era apenas realizar uma revolução doutrinária e moral; seu objetivo incluía também, com plena importância, realizar uma revolução política. Além da reforma do indivíduo, ele desejava a reforma da sociedade. Em outras palavras, o Mensageiro de Allah considerava o ser humano uma entidade coletiva, um ser social, e queria reformá-lo juntamente com todas as suas relações sociais. Ele não considerava o ser humano apenas como indivíduo, separado da sociedade, nem limitava sua missão à vida pessoal das pessoas. Se este aspecto for lembrado e o propósito e o objetivo da vinda do Mensageiro de Allah forem firmemente compreendidos em toda a sua amplitude, será percebida plena continuidade nos acontecimentos da Sira, e será encontrada a explicação para cada acontecimento, cada passo e cada iniciativa. Caso contrário, os mistérios da Sira não serão desvendados, nem os ensinamentos do Sagrado Alcorão se tornarão claros.
Uma religião, um movimento
O alcance do pensamento é exatamente igual ao alcance da filosofia. O filósofo não tem relação direta com o campo prático da vida nem com as subidas e descidas da história. É verdade que o filósofo toma decisões à luz dos acontecimentos, das situações e das circunstâncias; mas não participa de nenhum esforço efetivo nem de nenhuma luta para mudar o curso dos acontecimentos e das situações. A religião, no sentido restrito em que costuma ser entendida, tem um alcance um pouco mais amplo e uma atuação um pouco mais extensa. Além de transmitir algumas crenças e convicções, ela também oferece ao indivíduo, separado da sociedade, uma educação moral. Contudo, o caminho da religião passa à margem do sistema social. Ela não se preocupa com a estrutura política do país, tampouco deseja mudanças abrangentes nas instituições sociais, e não desafia o sistema de governo vigente. A missão religiosa é sempre cumprida por meio de sermões, exortações e conselhos. Um pregador se despede depois de oferecer alguns conselhos doces e agradáveis. Ele não se preocupa em saber se seus ouvintes estão presos em alguma situação crítica, se algum grupo conspirador hostil ao Islã está distorcendo e desviando sua mentalidade e seu caráter por meio de atividades censuráveis, se os acontecimentos e as circunstâncias cotidianas produziram algum efeito negativo em seu caráter, que ideologias e correntes de pensamento estão influenciando, de que lados e em que medida, a favor ou contra seus bons conselhos, nem se as pessoas profundamente religiosas e tementes a Allah, educadas por seus ensinamentos religiosos, estão integradas a algum sistema estatal e social não islâmico. Nada disso lhe causa preocupação. Ele não possui nenhum objetivo coletivo. Não tem nenhum plano de mudança. Não sente necessidade de sabedoria e discernimento políticos e próprios de um líder. Faz-se tudo o que é possível para criar alguma honestidade e retidão parciais em uma pequena parte da vida. Depois, já não se preocupam se, no vasto campo restante, a falsidade e as forças do mal continuam a desfraldar alegremente suas próprias bandeiras.
O Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) não era um filósofo cuja responsabilidade terminaria simplesmente após apresentar algumas ideias de alto nível, sem que tivesse de refletir sobre a realidade. Tampouco era apenas um pregador que, fechando completamente os olhos para a anarquia e a desordem generalizadas, se dirigiria às pessoas apenas individualmente, distribuiria doces e agradáveis conselhos e jamais pensaria no que poderia resultar disso. Esse grande homem, salvador da humanidade, assumiu como missão transformar radicalmente a vida humana, com plena consciência social. Por isso, familiarizou-se com todas as forças que influenciavam e controlavam a vida coletiva. Observou os líderes que conduziam a sociedade e a civilização jahilitas. Chegou a desafiá-los com argumentos e provas. Manteve os olhos voltados para a continuidade da história. Prestou atenção a cada onda do curso dos acontecimentos e das circunstâncias. Examinou e avaliou cada acontecimento com visão perspicaz de líder e sabedoria política, para discernir em que aspecto ele ajudava a alcançar o objetivo da reforma e em que aspecto era prejudicial. Procurou conhecer as capacidades e qualidades de todos os tipos de pessoas da sociedade e, à luz disso, tentou compreender de quem e em que momento poderia esperar ajuda para o trabalho da da’wa. Comparava sua própria força e velocidade com a força e a velocidade dos adversários. Esperava pacientemente, contando os dias, pelo momento mais apropriado para cada iniciativa. Assim que chegava o momento adequado, agia com coragem. Compreendia devidamente como oscilava a opinião pública e, enfrentando cada propaganda caluniosa dos opositores, reduzia sua influência. Quando viu que havia sido criado um círculo de poesia e discursos contrários ao Islã, organizou um círculo equivalente com poetas islâmicos e oradores populares. Embora seguisse rigorosamente os princípios islâmicos, não o fazia de maneira cega. Pelo contrário, observava as circunstâncias e o ambiente, compreendia as exigências do momento e adotava uma perspectiva científica. Onde surgia a oportunidade de avançar, avançava. Quando não considerava sensato avançar, abstinha-se da ofensiva. Ao se deparar simultaneamente com dois perigos, protegia-se de um deles e enfrentava o outro. Quando surgia a necessidade de adotar medidas militares, fazia-o sem hesitação. Quando se criava uma oportunidade de trégua, estendia a mão para a paz com o coração aberto. Acima de tudo, em todos esses esforços e empreendimentos, não apenas preservava a devoção e a obediência a Allah, bem como os valores morais, mas também promovia continuamente seu aprimoramento e desenvolvimento. Se todo esse conjunto de atividades e métodos de ação for reunido e apresentado a partir das páginas do Alcorão e da Sira (a história da vida de Muhammad, que a paz esteja com ele), ficará clara a diferença entre a ‘religião’, na acepção convencional limitada ao culto e à adoração individual, às práticas devocionais e ao desenvolvimento espiritual, e ad-Din, que significa a consciência de obedecer às leis de Allah em todos os campos da vida. Saber-se-á também quão enorme é a diferença entre a pregação e a exortação, de um lado, e o chamado revolucionário, de outro; e entre a purificação individual da alma e o movimento social!
Como o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) conduziu um movimento para implementar um sistema de vida completo e abrangente, procurou, um a um, aqueles que eram naturalmente honestos. Então, quando a luz da verdade se acendia no coração de alguém, ele o incluía na organização, dava-lhe treinamento e fazia dele um companheiro nos testes de fogo ao seu lado. Depois, conforme o grau de força organizada alcançado em cada etapa, incorporava essa força, sob sua liderança, à luta contra o sistema da falsidade. Essa luta ocorreu tanto no campo das ideias quanto no campo político e, por fim, também no campo de batalha. Ele não transformou em sufis e dervixes aqueles que se reuniram ao redor do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Tampouco os formou como iogues ou ascetas, nem criou neles a mentalidade de apenas se protegerem da depravação, de temerem as forças vitoriosas da falsidade ou de se intimidarem diante dos poderosos e ricos. Eles não eram simplórios ao ponto da ingenuidade, nem renunciantes ao mundo ao ponto da passividade. Eram destemidos e corajosos; conscientes e sábios; dotados de dignidade e orgulho próprio; perspicazes e prudentes; trabalhadores e incansáveis; avançados e rápidos em agir. Não eram avessos ao trabalho como sacerdotes e santos. Pelo contrário, estavam sempre ativos e possuíam todas as virtudes e capacidades. Assim, pessoas de caráter excelente, tendo recebido o melhor treinamento, estando ligadas pelos melhores vínculos organizacionais e reunidas sob a melhor liderança, transformaram-se numa força invencível. Foi por isso que, embora constituíssem uma pequena minoria, conseguiram organizar sob sua direção as vastas multidões da maioria de toda a Arábia. Quando, em Meca, o número de membros da organização islâmica era de apenas quarenta pessoas, eles criaram em toda a cidade e nas regiões ao redor uma onda permanente de agitação e entusiasmo. Depois disso, durante anos, se havia um assunto mais discutido de casa em casa e de rua em rua, era a atividade de da‘wah do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e de seus companheiros. Quando chegaram a Medina, o número dos porta-estandartes do movimento islâmico ainda não passava de algumas centenas e os não muçulmanos eram maioria; mesmo assim, foi então que se lançou a base do Estado Islâmico. A política do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e de sua organização islâmica não era esperar que toda a sociedade árabe aceitasse o Islã ou que o caráter da maioria das pessoas fosse corrigido antes de iniciar a construção da sociedade islâmica. Sua visão não era deixar primeiro o trabalho de da‘wah prosseguir, enquanto se reformavam e corrigiam o pensamento e a crença, esperando que, algum dia, a sociedade e o sistema estatal islâmicos surgissem por si mesmos, ou que Allah concedesse ao Islã a vitória como recompensa. Ali foi seguido o eterno fato histórico de que a grande maioria do povo permanece para sempre ignorante e passiva, enquanto apenas uma pequena parte da sociedade é ativa. Uma parte dessa parcela ativa sai a campo levando o chamado à reforma e à revolução, enquanto a outra parte lhe oferece resistência. É entre essas duas partes da parcela ativa da sociedade que ocorre o verdadeiro conflito e confronto. Quando esse conflito é decidido, o povo torna-se ativo por si mesmo. Eles sabiam que, enquanto uma liderança desviada permanecesse como obstáculo no caminho do povo e continuasse a tentar deformar sua vida, ou ao menos os mantivesse na escuridão da ignorância e da passividade, eles não poderiam aceitar amplamente nenhum chamado nem seriam capazes de realizar qualquer mudança em sua vida concreta. Mesmo aqueles que aceitavam a da‘wah não conseguiam embelezar plenamente sua vida no ambiente impuro criado por líderes e governantes corrompidos. Além disso, se a mudança demorasse demais, muitas vezes se tornava difícil até preservar o nível ao qual os chamados à verdade haviam chegado depois de longos anos de esforço, dedicação e trabalho. Isso porque um ambiente adverso exerce continuamente força para empurrar as pessoas para trás. Portanto, o curso natural de qualquer movimento social consiste em selecionar, entre a parcela ativa da sociedade, as pessoas de caráter honesto, acumular o máximo possível de força e empregar essa força no confronto, destruindo o poder da liderança adversária. A história testemunha que toda revolução ocorrida até hoje foi realizada pelas minorias ativas. Como qualquer chamado à reforma e à construção atrai, entre a parcela ativa da sociedade, apenas as pessoas de caráter honesto, cria nelas um sentimento e uma inspiração positivos, e, por meio do treinamento, aumenta sua força moral, o adversário acaba derrotado no confronto, apesar de possuir grande força, influência, prestígio e, em certos casos, superioridade numérica. Uma prova notável e incontestável disso é a Batalha de Badr. Assim, quando ao redor do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) se reuniu um número tão grande de pessoas de bom caráter da parcela ativa da sociedade árabe que, fortalecidas moralmente, eram capazes de lutar contra a liderança jahilí e seus apoiadores, ele não hesitou nem por um instante em tomar as medidas necessárias para alcançar seu objetivo político. O significado da conquista de Meca é precisamente que, por meio dela, a liderança jahilí foi completamente derrubada e eliminada. Com a remoção de todos os obstáculos do caminho do povo, as pessoas começaram a aceitar o Islã em grupos. Não há na história sequer um exemplo de uma liderança desviada da verdade ter conseguido adaptar-se a um sistema estatal e social benéfico, nem de uma revolução ter sido realizada, sem conflito político, apenas por meio de sermões, da‘wah, pregação e esforços de correção individual. Caso contrário, durante os treze séculos passados, depois do Califado Bem-Guiado, foram realizados enormes esforços sob a direção de mesquitas, madraças e khanqahs em nome de sermões, da‘wah, ensino e purificação espiritual; e ainda hoje os ulemás, sufis, pirs, xeiques, professores de madraças e escritores realizam, por meio da fala e da escrita, uma atividade de pregação tão ampla e volumosa que é difícil até imaginá-la. Apesar disso, nem mesmo a purificação espiritual do número desejado de pessoas pôde ser alcançada. O trabalho de reforma social também não avançou a ponto de mudar o sistema da sociedade e repetir a revolução do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Fica claro que havia uma grande falha nas ideias, nos métodos de ação e na ideologia revolucionária adotados até agora. E essa falha consistia em tentar, para mudar a liderança, evitar o conflito político e separar algumas pessoas, em nível individual, do sistema social como um todo, oferecendo-lhes da‘wah e procurando reformá-las. Alguns dizem que estabelecer a religião e fundar o Estado Islâmico não era o objetivo principal, mas que isso teria surgido repentinamente como uma recompensa de Allah. Porém, quando dizem isso, não apenas desvalorizam a contribuição meritória e a luta árdua do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), como também lançam uma mancha sobre elas. Pensem um pouco: com quanto sofrimento essa grande personalidade conseguiu, em apenas alguns meses, incluir os membros das diferentes comunidades de Medina no âmbito de um acordo constitucional; com quanto esforço estabeleceu relações de aliança e amizade com as tribos vizinhas de Medina; com que habilidade formou, com um pequeno número de muçulmanos, uma força militar inexpugnável e organizou patrulhas militares regulares; com quanto empenho bloqueou as rotas comerciais dos coraixitas; com quanta firmeza repeliu os ataques agressivos dos coraixitas; com que astúcia frustrou as conspirações dos judeus e dos hipócritas; com quanta prudência e visão de longo alcance concluiu o tratado de Hudaybiyyah; com que coragem impetuosa eliminou, uma a uma, todas as fortalezas dos judeus e, com que mente vigilante, pôs fim às rebeliões regionais de inúmeras tribos ferozes. Como é possível que escape à atenção dessas pessoas a extraordinária demonstração de visão e sabedoria de estadista, competência e prudência política e habilidade refinada que existe em todas essas medidas? É inteiramente verdadeiro dizer que tudo isso foi uma recompensa de Allah, pois toda coisa boa é uma recompensa de Allah. Mas a pessoa só recebe uma recompensa quando se esforça por ela com o máximo de dedicação, inteligência e visão. Se alguém, ao chamar o estabelecimento da religião de recompensa de Allah, quiser negar a luta, o trabalho árduo, a competência, a habilidade, a sabedoria e a prudência política do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), comete uma enorme injustiça. Infelizmente, o aspecto político da vida do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) permaneceu tão obscuro que hoje se tornou difícil formar uma compreensão correta de sua da‘wah e de seu objetivo. No entanto, se esse aspecto não estiver presente durante o estudo de toda a biografia profética, será impossível compreender a enorme distância entre a concepção estreita e convencional de religião e a concepção abrangente da religião. O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) trouxe um sistema de vida completo, ou din; quis estabelecer, com base nesse din verdadeiro e correto, as normas de conduta e de comportamento para toda a vida, e veio tornar a lei de Allah real e efetiva. Portanto, devemos compreender que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) veio conduzir um movimento de reforma e reconstrução social e cultural completo e abrangente. Para conduzir esse movimento, possuía sabedoria de estadista no mais alto nível, prudência, erudição, visão interior e a mais elevada consciência e inteligência políticas. Assim como ninguém é igual ao Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) em qualquer outro aspecto, também ninguém é seu igual no campo da liderança política. Do mesmo modo que sua vida é um modelo imitável em todos os assuntos, somente sua vida é o modelo na luta e no esforço político. A realização e a contribuição do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) consistem em ter convocado à honestidade, lutado pela vitória da verdade e da justiça e estabelecido uma sociedade e um Estado completos. Um trabalho tão grande e vasto não pode caber nos limites de uma concepção estreita e limitada de religião. Portanto, tratava-se do din, isto é, de um sistema de vida completo, e não de mera religião. Era um movimento total e abrangente, não uma simples prática espiritual de ascetismo.
A integridade indivisível da vida
O grande movimento de Muhammad (S.A.W.), o libertador da humanidade, estabeleceu uma ordem social e estatal por meio da realização de uma revolução singular. Sua característica era que a consciência e a inspiração de seu princípio fundamental se difundiam igualmente em todos os setores e áreas da vida. Toda a sociedade era marcada por perfeita unidade e coordenação. Todas as instituições estavam tingidas pela mesma cor e animadas pelo mesmo espírito. O mesmo Allah que era adorado entre as quatro paredes da mesquita era obedecido nos mercados e nos campos. O mesmo Alcorão que era recitado na oração servia de base para o julgamento dos processos nos tribunais. Os mesmos princípios morais que vigoravam no limitado ambiente familiar eram seguidos também nas atividades internacionais. A mesma verdade proclamada do púlpito da mesquita orientava a administração pública. A mesma crença que era firmemente implantada no coração de cada indivíduo permanecia em vigor em toda a estrutura social. A corrente de pensamento ativa no sistema educacional era aquela segundo a qual se moldavam todas as atividades culturais. Assim como a satisfação de Allah era buscada na oração e no jejum, o mesmo objetivo e propósito permaneciam ativos no campo de batalha, ao manejar a espada e ao ser atingido pelas flechas. Era um sistema integrado, sob o qual toda a vida humana era conduzida pela mesma orientação divina. Não havia valores e orientações diferentes em cada setor da vida. Não havia contradição nesse sistema. Nenhuma de suas partes entrava em conflito com as demais. Em suas diferentes partes não havia complexidade, obscuridade, remendos ou confusão. Foi por isso que, sob sua orientação, a humanidade alcançou um progresso e uma prosperidade tão rápidos, algo sem precedente na história.
A força vital da revolução
Talvez a maior desgraça da humanidade seja que, sempre que, ao longo da história, alguém teve a oportunidade de se sentar no trono do poder — fosse pela força da espada, por meio de conspiração, por eleições democráticas ou por alguma circunstância fortuita, não importando como — começou a imaginar que não era apenas governante dos homens, mas também seu professor e reformador da sociedade. Quando o poder de governar é confiado a esse tipo de professor e reformador autoproclamado, ele se instala como soberano absoluto e árbitro supremo do destino. Considera-se o maior pensador do mundo. Despreza todas as fontes de conhecimento e, afastando as pessoas mais conscientes e sábias da sociedade, toma indiscriminadamente medidas tais que cada uma delas acaba se tornando um terrível desastre. Eles querem transformar as pessoas em seres humanos verdadeiros por métodos violentos e esfriar tudo à força de pancadas. Esses autoproclamados defensores da revolução e da reforma muitas vezes não conhecem sequer a natureza inata do ser humano. Não possuem nem mesmo o conhecimento básico das causas que tornam inevitáveis as rupturas e reconstruções da vida. Nunca procuram saber qual é o método correto para ensinar humanidade às pessoas, onde está a origem da degeneração e da desorientação, de onde começa e onde termina o trabalho de correção e tratamento. Sem aproveitar as experiências anteriores, começam a adquirir experiência de maneira inteiramente nova. Fecham as portas ao aconselhamento e à crítica, para que nenhum benquerente ou pessoa que ame a humanidade possa impedi-los de seguir seu caminho de experiências destrutivas. Conhecem um único remédio universal para todas as doenças: o uso da força e da violência. Isto é, promulgar leis cada vez mais severas e decretar continuamente novas regras rigorosas. Colocar espiões ao redor das pessoas e descarregar repetidamente sobre elas a irritação por meio de punições severas. A força vital da revolução realizada pelo Profeta Universal (S.A.W.), o libertador da humanidade, não era a brutalidade nem o uso da força; era, ao contrário, o desejo do bem e o amor que a impulsionavam. Ele era infinitamente compassivo para com as pessoas. Tinha verdadeira ternura e amor pelos filhos de Adão. Tentava explicar sua missão por meio do seguinte exemplo: “Vocês estão avançando como mariposas em direção à caverna de fogo, enquanto eu tento agarrá-los um a um para salvá-los dela.” Por isso, o Alcorão o chamou de misericórdia para todos os mundos. Pensem um pouco: ele realizou uma revolução tão grandiosa, mas nela não se encontra sequer um exemplo de uso da força ou da violência. Os dez anos que o Mensageiro (S.A.W.) passou em Medina transcorreram inteiramente sob um estado de emergência extremamente grave. A ameaça de ataque estava presente a cada instante. Os coraixitas lançaram três grandes ataques. Pequenas guerras e conflitos de fronteira em vários lugares estavam prestes a se tornar acontecimentos cotidianos. Diferentes tribos que viviam fora de Medina levantavam-se, em vários momentos e de diferentes direções, para atacar Medina. Pequenos destacamentos militares eram enviados de Medina para realizar patrulhas ou eliminar perturbações. Guardas militares eram colocados durante a noite. Em uma palavra, vivia-se como em um acampamento militar. Além disso, as novas conspirações dos judeus e dos hipócritas tornavam a vida pública insuportável. Às vezes conspirava-se para provocar uma guerra; outras vezes, para fragmentar a sociedade muçulmana e incitar conflitos entre os muçulmanos; outras ainda, para fazer fracassar e frustrar a liderança do Mensageiro (S.A.W.); e, em certas ocasiões, chegava-se a conspirar para assassinar o próprio Mensageiro (S.A.W.). Que estado de emergência poderia ser mais grave do que esse? No entanto, o Mensageiro (S.A.W.) jamais desempenhou um papel ditatorial. Não decretou nenhum estado de emergência. Não instituiu nenhuma regra arbitrária. Não enviou ninguém à prisão sob leis de segurança. Não criou tribunais sumários durante o estado de emergência. Não arrancou a pele das pessoas com açoites. Não impôs multas a ninguém. Não impôs a nenhum cidadão encargos além da lei de Allah. Não privou ninguém do direito de criticar ou de sustentar opiniões divergentes, nem impôs restrições a quem quer que fosse. Nem mesmo tomou medidas contra um perigoso inimigo interno e conspirador como Abdullah ibn Ubayy. Dependia inteiramente da sinceridade e autenticidade de sua missão e da pureza de seu caráter. Não intimidava ninguém, não demonstrava desprezo pela humanidade de ninguém, nem manifestava arrogância ou altivez. Pelo contrário, suportava com paciência a arrogância e a altivez de pessoas que, embora exteriormente se vangloriassem, na realidade eram fracas e indefesas. Por isso, conquistava facilmente o coração dos inimigos; seus companheiros permaneciam sempre prontos para acolher qualquer lei, nova ou antiga; e seus opositores sentiam-se extremamente inferiores e humilhados diante dele. Então, quando se submetiam à sua veracidade e sinceridade e aceitavam o Islã, iniciava-se neles uma transformação completa e radical.
O amor a Deus que atuava no coração do Mensageiro ﷺ tinha como outra expressão o profundo amor pela humanidade. Para compreender corretamente esse amor que ele nutria pela humanidade, basta considerar alguns acontecimentos. Quando os habitantes de Meca não lhe permitiram viver em paz nem mesmo depois de ele ter ido para Medina, e quando foram atingidos pela fome, ele os ajudou enviando-lhes provisões e quinhentas moedas de ouro em dinheiro. Também se pode perceber sua natureza compassiva pelo fato de ter perdido o sono assim que ouviu os gemidos dos prisioneiros de guerra de Badr e de ter ordenado que seus grilhões fossem afrouxados. O fato de seis mil prisioneiros de guerra da tribo de Banu Hawazin terem sido libertados por ordem do Mensageiro ﷺ após uma única solicitação também foi um exemplo fulgurante de sua magnanimidade. Se ainda se deseja conhecer outra manifestação de sua compaixão pela humanidade, basta observar sua extraordinária atitude no momento da conquista de Meca. Esse libertador da humanidade entrou em Meca como um conquistador absoluto. Aqueles que haviam lutado contra ele durante vinte anos estavam diante dele completamente indefesos. Qualquer outro teria se vingado de cada ataque, ordenado um massacre em grande escala e só teria parado depois de fazer correr rios de sangue. Não teria partido sem deixar montanhas de cadáveres. Fossem julgados pelos costumes universalmente reconhecidos da sociedade árabe, pela moralidade ou pelas leis, os habitantes de Meca eram culpados dos crimes mais graves. Tanto do ponto de vista religioso quanto político, haviam merecido a pena de morte. Mas, no momento da vitória, o coração do Mensageiro ﷺ derreteu-se de amor pela humanidade, e ele incluiu toda a história da opressão e dos maus-tratos dos coraixitas no âmbito do perdão e declarou:
“Hoje não há mais nenhuma acusação contra vocês. Podem ir. Estão livres e independentes.”
Além disso, para conquistar seus corações, deu-lhes riquezas e, em vez de humilhá-los e rejeitá-los, confiou-lhes diversas responsabilidades e acolheu-os junto ao peito. Para o Mensageiro ﷺ era tão claro quanto a luz do dia que uma revolução que começa buscando vingança termina por si mesma, enquanto uma revolução que pratica o perdão e a magnanimidade submete até os inimigos e transforma os que resistem em servidores.
Foi somente por causa dos excessos dos coraixitas que o Mensageiro ﷺ se viu obrigado a adotar medidas tão firmes, para embotar o fio de suas espadas sedentas de sangue. Depois que eles lhe impuseram a guerra, ele tomou todas as medidas necessárias para proteger o Estado e a sociedade islâmicos. Contudo, o Grande Profeta ﷺ, inspirado pelo amor à humanidade, concebeu uma política militar e estratégias de defesa que resultavam no menor número possível de mortes e no mínimo derramamento de sangue, preservando também a dignidade humana no campo de batalha.
Nenhuma outra revolução oferece um exemplo tão luminoso e abrangente de amor pela humanidade. A revolução do Mensageiro ﷺ foi uma revolução genuinamente educativa, fundamentada no desejo pelo bem-estar da humanidade.
O novo ser humano
Temos diante de nós inúmeros exemplos de movimentos reformadores, construtivos e revolucionários. Contudo, nenhum desses movimentos transformou o ser humano. Cada um tentou apenas mudar o ambiente externo, deixando as pessoas como eram. Mas toda mudança desse tipo fracassou completamente na solução dos problemas da vida humana, pois não conseguiu produzir uma transformação interior. O aspecto mais surpreendente do êxito do Profeta Universal ﷺ foi que as pessoas mudaram interiormente. Não apenas mudaram: suas vidas passaram por uma transformação radical. Os animais adoradores dos desejos que vagavam sob forma humana foram eliminados pela influência de uma única declaração de fé. E, imediatamente, das ruínas de sua destruição surgiu um grupo de pessoas virtuosas, devotadas a Deus. Ao contemplar o brilho do caráter dessas novas pessoas, os olhos ficam ofuscados. Pensem em Hazrat Umar رضي الله عنه, que era um jovem indisciplinado e dado à bebida em Meca: imaginem a mudança ocorrida em sua vida. E quando Fudala mudou, que transformação extraordinária foi aquela! Vejam Dhu al-Bijadayn, que pisoteou sua vida luxuosa e começou a viver como um dervixe. Vejam Hazrat Abu Dharr, que, tomado por um entusiasmo revolucionário, desafiou a Jāhiliyyah em pé diante da Caaba e foi espancado por uma multidão. Observem a situação de Ka’b ibn Malik e Abu Khaythama. Vejam o heroísmo revolucionário e a coragem de escravas como Lubayna e Sumayya. Considerem Ma’iz ibn Malik al-Aslami e a mulher da tribo de Ghamid. Aprendam a bravura de Ja’far al-Tayyar na corte do Negus. Inspirem-se na conversa destemida de Rabi’ ibn Amir diante da corte do comandante iraniano. Em meio a essa constelação de estrelas, haverá alguém que não cintile com a luz da fé?
Foi pela união de pessoas desse tipo que toda aquela sociedade foi formada, e foi com líderes e trabalhadores desse tipo que se estabeleceu aquele sistema de governo honesto e íntegro, no qual toda ordem era posta em prática assim que emitida. De um lado, foi decretada a proibição do consumo de bebidas alcoólicas; de outro, imediatamente, até os recipientes que já estavam nos lábios foram arremessados para longe, e os jarros de bebidas da melhor qualidade foram quebrados, fazendo as estradas principais transbordarem. De um lado, foi emitida a ordem para que as mulheres cobrissem a cabeça e o peito; de outro, imediatamente começaram a confeccionar e usar véus. De um lado, veio o chamado ao jihad; de outro, até adolescentes muito jovens começaram imediatamente a tentar demonstrar sua aptidão para partir para o jihad, apoiando-se nas pontas dos pés. De um lado, foi pedido auxílio para o jihad; de outro, comerciantes ricos, como Osman, apresentaram caravanas inteiras de camelos carregados de mercadorias, e pessoas abnegadas, como o honorável Abu Bakr, empilharam diante do líder do movimento todos os recursos e bens de suas casas; até mesmo trabalhadores diaristas trouxeram e despejaram as tâmaras que haviam recebido como pagamento por um dia inteiro de trabalho. De um lado, pediu-se aos Ansar que ajudassem no reassentamento dos Muhajirun; de outro, imediatamente, os Ansar dividiram ao meio suas casas, terras agrícolas e pomares, estabelecendo um exemplo sem precedentes de fraternidade. Quando os funcionários e servidores administrativos foram convocados a trabalhar nos cargos de responsabilidade elevando-se acima de uma atitude meramente profissional, os administradores que exerciam a função de governadores provinciais em troca de uma diária de um dirham deixaram o mundo maravilhado. Quando foi dada a ordem de entregar ao comandante os espólios de guerra, isso foi feito com tamanha perfeição que cada soldado entregou ao seu próprio comandante até mesmo uma agulha. A história registrará em letras de ouro o fato de que, quando uma joia inestimável dos espólios da batalha de Mada’in caiu nas mãos de um soldado chamado Amer, ele, sem deixar que ninguém sequer suspeitasse do ocorrido, percorreu uma longa distância na escuridão da noite e a entregou secretamente ao seu comandante. Foram essas mesmas pessoas que criaram aquele ambiente puro e sagrado, no qual os crimes eram extremamente raros. Durante toda a década da vida mequense do Mensageiro (que a paz esteja com ele), apenas algumas poucas queixas chegaram ao tribunal. Era uma sociedade tão pura e imaculada que nela não foi empregada nenhuma polícia secreta; ao contrário, a consciência das pessoas foi encarregada de atuar como sua guardiã e supervisora. Esta foi a revolução de Muhammad (que a paz esteja com ele). Essa revolução não mudou apenas o ambiente externo; transformou também as mentes e os corações desde o interior, formando um novo caráter. Por isso, essa revolução conseguiu solucionar todos os problemas fundamentais e reais da vida individual e coletiva, e por meio dela foi criado um caminho para a libertação da civilização contemporânea de sua crise.
O extraordinário autossacrifício do Profeta da humanidade
Essa revolução também foi incomparável em outro aspecto. Aquele que realizou essa revolução, embora a tenha levado à perfeição mediante sacrifícios e abnegações indescritíveis, não aceitou nenhuma recompensa ou retribuição por isso. Ele distribuiu generosamente todos os seus recursos e bens em benefício da humanidade, mas não aceitou nem sequer aquilo que, em troca, não teria sido injusto ou ilegal sob nenhum ponto de vista — da razão, da lei, da moralidade ou dos costumes sociais. Depois de realizar uma obra e prestar uma contribuição tão grandiosas, se tivesse aceitado uma pequena compensação, nem mesmo a menor marca de egoísmo o teria atingido. Ainda assim, ele não a aceitou. Existe em algum lugar comparação para tal sacrifício? Consideremos primeiro o aspecto econômico. O Mensageiro (que a paz esteja com ele) sacrificou seus lucrativos negócios e dedicou toda a riqueza neles acumulada a essa nobre causa. E, quando chegou a época do sucesso, distribuiu com as próprias mãos abundantes riquezas e escolheu para si uma vida de fome, pobreza e simplicidade. Não deixou sequer uma pequena reserva para sua família, não deixou nem um pedaço de terra, não estabeleceu para eles nenhum direito econômico, não deixou para eles nenhum trono de poder permanente por herança e não encheu suas casas de servos, criados, guardas, animais de montaria de várias cores nem artigos luxuosos.
Politicamente, constata-se que ele não estabeleceu nenhuma prerrogativa para si, não exerceu contra ninguém qualquer poder que ultrapassasse os limites estabelecidos por Allah e não promulgou leis autoritárias para exaltar sua imagem política. Em Medina, sempre prevalecia uma situação de intensa tensão. Era preciso enfrentar continuamente novas conspirações dos judeus e dos hipócritas. Ainda assim, ele não prendeu ninguém. Não impôs restrições à circulação de ninguém. Não emitiu nenhuma ordem que privasse as pessoas de sua liberdade individual. Não criou tribunais sumários. E não arrancou a pele de ninguém com açoites. Pelo contrário, concedeu às pessoas liberdade para criticá-lo e expressar suas opiniões, liberdade para adotar opiniões diferentes e até o direito de não aceitar seus nobres conselhos. Esses direitos não eram apenas direitos no papel. As pessoas os exerceram na prática. Muitas vezes, o Mensageiro (que a paz esteja com ele) abandonou sua própria opinião valiosa e aceitou uma opinião diferente. Quando queria conceder algum privilégio especial a alguém, pedia permissão aos seus companheiros. Por exemplo, quando seu genro Abu al-As foi feito prisioneiro de guerra, Zaynab enviou como resgate um colar que era uma lembrança da honorável Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela). O Mensageiro (que a paz esteja com ele) pediu aos nobres companheiros permissão para devolver aquele colar. Da mesma forma, quando os pertences de Abu al-As foram apresentados como ghanima (bens capturados na guerra), ele também os devolveu com a permissão dos companheiros. Em um lugar chamado Ja’rana, chegou uma delegação para pedir a libertação dos prisioneiros de guerra de Hunayn, apresentando o pedido em nome do parentesco distante com o Mensageiro (que a paz esteja com ele). A essa altura, a divisão dos prisioneiros de guerra já havia sido concluída. O Mensageiro (que a paz esteja com ele) concordou em libertar os prisioneiros que correspondiam à parte de sua própria tribo, Banu Hashim. Quanto aos demais, porém, disse-lhes que fizessem o pedido diante da assembleia pública dos companheiros. Quando os companheiros souberam que o Mensageiro (que a paz esteja com ele) havia libertado os prisioneiros que pertenciam à parte de sua própria tribo, todos libertaram os prisioneiros. Em situações desse tipo, ele nunca recorria à pressão nem concluía nada por coerção.
No aspecto social e nas reuniões, percebe-se que ele preferia para si direitos iguais. Não apreciava nenhum status especial. Na alimentação, nas roupas e na moradia, não criou para si nenhuma distinção extraordinária ou aristocrática. Também não escolheu um lugar especial para sentar-se nas reuniões. Não lhe agradava que as pessoas se levantassem reverentemente diante dele ou que se dirigissem a ele como senhor, mestre ou coisas semelhantes. Durante as guerras e no exílio, ao cavar trincheiras e construir mesquitas, ele próprio trabalhava lado a lado com seus companheiros, cortando e carregando terra, quebrando pedras e serrando madeira. Para que o credor não hesitasse em falar-lhe com firmeza a fim de cobrar o que lhe era devido, ele lhe dava permissão para fazê-lo. Certa vez, inclusive, apresentou-se em uma assembleia pública para que alguém se vingasse dele e disse: “Se eu tiver cometido alguma injustiça contra alguém, que venha e se vingue de mim.”
Onde está a nossa posição?
Esta foi a grande revolução iniciada pelo Rasul (SAAS). Fomos designados como guardiões e supervisores dessa mesma revolução. Esta foi a grande mensagem pela qual fomos feitos “testemunhas” perante a “humanidade” e uma “ummah moderada”. Esta é a posição mais nobre e elevada da ummah muçulmana. Esta foi a verdadeira kalima cuja responsabilidade foi colocada sobre nossos ombros. O propósito dessa incumbência é que, como representantes do Rasul (SAAS), sejamos os libertadores da humanidade até o Dia do Juízo. Sempre que a vida humana cair em problemas e crises, e a civilização humana for lançada em uma desordem extrema, devemos ser seus auxiliares. Contudo, na prática, não conseguimos sê-lo. Demonstramos negligência em manter acesa a tocha desta verdadeira kalima e, com nossas próprias mãos, causamos a ruína desta verdadeira lei. O resultado foi que, quando os setores pensantes desta época começaram a se desviar, já não permanecemos capazes de cumprir nossa responsabilidade. E hoje, por causa de nossa própria incompetência e incapacidade, toda a vida humana é vítima de crises e desordem. Os conflitos e confrontos criados por ideologias materialistas mutuamente opostas continuam destruindo a paz mental dos habitantes do mundo. A liderança mundial está nas mãos de forças que se afastaram de Alá, e agora nos tornamos dependentes dessas mesmas forças. Mesmo tropeçando continuamente nas circunstâncias adversas, não recuperamos a consciência. Embora tenhamos sido constantemente alvo de humilhação e desonra, não surgiu em nós arrependimento nem remorso. Mesmo vendo as disputas, conflitos, desavenças e contendas do mundo muçulmano, assim como as calamidades e desastres deploráveis da humanidade, não conseguimos voltar nossa atenção para essa tarefa essencial que deve ser realizada.
Venhamos, com discernimento e reflexão, examinar qual etapa da história a humanidade está atravessando agora e onde está a nossa posição.
Durante minha breve vida, vi a mim mesmo, as pessoas do meu ambiente próximo e as pessoas do mundo inteiro continuamente vítimas de uma situação marcada por preocupação, ansiedade, inquietação, crises e medo. Do lar às organizações internacionais, em toda parte vi prevalecer um ambiente de desconfiança em relação aos outros, tensão, hostilidade, conflitos, disputas e confrontos. Ao longo de todo esse período, tive a impressão de que a história se agitava continuamente como uma panela fervente sobre um fogão em chamas. Nessa panela, assim como os bilhões de pessoas do mundo, eu também parecia estar sendo revirado como um pequeno grão de arroz ou de lentilha. Nossa Terra, esmagada por duas guerras mundiais consecutivas e triturada por inúmeras guerras regionais, ainda não conseguiu se recuperar. No entanto, a espada de mais uma guerra apocalíptica pende sobre sua cabeça. Não há conta de quantos episódios de destruição e pilhagem testemunhei nesse curto período, de quantas vezes vi tudo ser devastado pelos violentos abalos de revoltas, de quantas quedas e surgimentos de impérios presenciei, de quantos conflitos, conspirações e maquinações ideológicas vi ocorrer, nem de quantos países e regiões vi serem despedaçados e milhões e milhões de pessoas se tornarem deslocadas. Nesta mesma subcontinente, ao alvorecer da independência, vi um rio de sangue correr sobre nossas cabeças; e vi, nessa inundação, as vidas, os bens, a honra, as valiosas tradições e os valores humanos serem levados pela correnteza.
Ao espiar por trás da suntuosa cortina da civilização materialista que se estende pelo mundo, depara-se com uma cena tão deplorável da humanidade que a alma de qualquer pessoa estremece. Toda a humanidade está aprisionada pelos tentáculos de um punhado de desejos e paixões. Em toda parte trava-se uma guerra por riqueza e poder. A chama da consciência moral da humanidade se apagou. À medida que a civilização urbana se desenvolve, a criminalidade cresce em ritmo extremamente acelerado. A instabilidade psicológica se intensificou, e a paz mental desapareceu por completo. Surgiram na mente e no caráter das pessoas deformações tão fundamentais que nenhum aspecto da vida conseguiu permanecer livre de seus efeitos nocivos. A força vital da verdade abandonou a filosofia. As crenças de fé e as ideologias perderam o equilíbrio. Os valores espirituais desapareceram. Não há justiça nas leis e normas do Estado. Na política, o egoísmo e o egocentrismo substituíram a mentalidade de serviço. No campo econômico, nasceram duas classes, chamadas exploradores e explorados. Todas as variadas formas de expressão da beleza nas belas-artes foram preenchidas com estímulos sexuais e gestos de mau gosto. Em todo o mundo da civilização prevalecem a oposição e o conflito mútuos, e toda a história se transformou em um drama aterrador. Houve um enorme progresso intelectual. Mas a insensatez dos inteligentes continua nos causando um sofrimento terrível. Novos ramos do conhecimento e da ciência são descobertos continuamente. Contudo, a ignorância e a tolice cultivadas por eles atormentam os filhos de Adão. Há riquezas abundantes espalhadas por toda parte. No entanto, as pessoas continuam sofrendo o tormento da fome e da privação. Apesar da existência de milhares de organizações, entidades políticas, alianças ideológicas e vínculos baseados em tratados, não existe uma relação fraterna entre as pessoas; existe apenas uma relação semelhante à das feras. Proferem-se muitos discursos pomposos em favor do desenvolvimento da consciência intelectual, política, moral e cultural. Entretanto, as táticas extremas, imprudentes e repugnantes de opressão e perseguição ainda são aplicadas contra a humanidade. Hoje, o mundo inteiro se transformou em uma arena de luta corpo a corpo. Em alguns lugares, trava-se uma guerra feroz e sangrenta entre o imperialismo e os amantes da liberdade; em outros, entre o comunismo e o capitalismo; em outros, entre a democracia e a ditadura; em outros, entre o indivíduo e o coletivismo; e entre o orientalismo e o ocidentalismo.
É em um mundo assim que vivemos. Nesta era de satélites artificiais e mísseis, a ciência, como o gênio submisso à lâmpada maravilhosa de Aladim, fornece continuamente novos depósitos de poder material a cada gesto do ser humano. Os mistérios ocultos da natureza, trancados desde tempos imemoriais, estão sendo desvendados com a chave da ciência e da tecnologia. Meios de transporte e instrumentos de comunicação de velocidade espantosa estão dando ao ser humano a capacidade de exercer amplo controle sobre o espaço e o tempo. A energia atômica subjugou um enorme exército de demônios devastadores e o mantém diante do ser humano. Eles aguardam apenas um sinal dos olhos. Por outro lado, a própria condição do ser humano chegou a tal ponto que ele se encontra ainda mais indefeso do que antes, aprisionado nas mãos de forças satânicas e forças destrutivas. Essas forças vêm incitando-o repetidamente a lutar contra si mesmo. Ao longo das eras, essas forças fizeram com que ele destruísse com as próprias mãos suas grandes realizações e suas civilizações deslumbrantes.
Imaginem uma caravana que estabeleceu acampamento no topo de uma montanha. Sob uma suntuosa tenda, seus integrantes estão absortos em banquetes, danças, música e consumo de álcool. Além disso, possuem grandes quantidades de mercadorias comerciais, dinheiro em espécie, veículos e gado. Contudo, a apenas alguns metros abaixo do chão de seu acampamento, um vulcão aterrador se prepara para expelir lava. Dentro de pouco tempo, toda a montanha explodirá, e um fogo ardente se levantará, reduzindo tudo a cinzas. A situação da caravana de nossa civilização atual é muito semelhante. No estágio atual da história, a montanha sobre a qual ela se encontra está prestes a expelir, de seu interior, a lava das mais terríveis crises e calamidades.
O destino nos colocou diante do desafio de uma enorme crise mundial. Não há oportunidade de evitá-la e fugir para trás. E a civilização atual e o ser humano que ela formou não têm capacidade para responder a esse desafio. Tampouco está surgindo alguma nova filosofia que possa ao menos oferecer um consolo temporário. Não se vislumbra a possibilidade de que um caminho se abra em qualquer direção.
Neste momento crítico de instabilidade, quando olho ao meu redor, vejo que um oceano infinito de escuridão me cerca por todos os lados. Nesse imenso oceano, muito distante, a mil e quatrocentos anos de distância, consigo ver um ponto de luz brilhante resplandecendo.
Não é outra coisa senão a tocha da mensagem de Muhammad, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, o maior amigo da humanidade, seu maior benfeitor e seu maior salvador. É a lâmpada cuja luz nós, embora sejamos seus seguidores, perdemos em meio ao entulho de nossos pensamentos desorientados e de nossas ações desenfreadas.
Perspectiva sobre o estudo da Sira
Na minha opinião, há um único objetivo para o estudo da vida do Mensageiro (s.a.w.). Que a tocha da mensagem do Mensageiro (s.a.w.) ilumine novamente a nós e a todos os habitantes do mundo. Que a sociedade humana encontre, em meio às trevas desta época, o caminho da salvação, assim como encontrou o caminho para superar a crise do século VI da era cristã.
Infelizmente, temos tido pouquíssimo sucesso em estudar a vida do Mensageiro (s.a.w.) com essa perspectiva e essa inspiração desejadas. Não estamos sendo motivados pela atitude de buscar, na vida do Mensageiro, um método de viver e moldar nossa vida de acordo com ele; pelo contrário, outras atitudes se infiltraram nesse estudo e continuam crescendo.
Não são poucos os muçulmanos que se interessam pelo estudo da Sira, isto é, da vida do Mensageiro (s.a.w.), apenas para obter recompensa espiritual. (É claro que não se pode negar que toda tentativa de alcançar a proximidade do Mensageiro é querida por Allah e que se deve esperar recompensa por ela. Mas como se pode negar que o objetivo de cada uma dessas tentativas também deveria ser tornar a vida mais bela e bem estruturada?) As reuniões de Milad são realizadas com grande pompa e, em muitos casos, baseiam-se na crença de que o espírito luminoso do Mensageiro (s.a.w.) está presente nessas reuniões e se alegra ao ver as manifestações de devoção e amor dos seus admiradores. Em alguns lugares distribuem-se doces; em outros, espalham-se flores; em outros ainda, há um excesso de incenso, perfume e olíbano; e, em outros, essa mesma crença se expressa por meio de variadas iluminações decorativas. A imagem refletida nesse excesso de devoção ao Milad do Profeta ou à Sira do Profeta não é a imagem de um ser humano feito de carne e sangue, mas a de uma entidade luminosa e sobre-humana. O corpo dessa entidade não projeta sombra; todas as suas ações são milagrosas, sobrenaturais e extraordinárias; os anjos realizam todas as suas tarefas, e tudo o que lhe diz respeito é misterioso. É inegável que a dignidade moral e espiritual do Mensageiro (s.a.w.) é muitas vezes superior à de toda a humanidade. Houve muitos acontecimentos sobrenaturais em sua vida, e ele também realizou muitos milagres. Muitas vezes, os anjos participavam com ele de diversas atividades. Mas é preciso reconhecer que essa sua vida abençoada foi a vida de um ser humano. A razão de sua superioridade é justamente que, sendo humano, ele apresentou um exemplo de vida tão incomparável. Todas as suas ações se realizavam dentro dos limites das leis naturais e das normas da sociedade e da civilização. E, a cada centímetro do caminho para o sucesso, eram estabelecidos exemplos de sacrifício e abnegação. Justamente por ter sido a vida de um ser humano, ela permanece como um modelo para nós e, por isso, contém um ideal instrutivo para nossa vida. Por ter sido um ser humano como nós, podemos aprender com ele firmeza e coragem, lealdade aos princípios e ideais e consciência do dever; podemos adquirir a inspiração para servir à humanidade e criar um forte impulso para resistir às forças dos malfeitores. Se a vida do Mensageiro for transformada inteiramente em milagres e convertida numa realização sobre-humana, que modelo restará nela para as pessoas comuns? Diante de uma personalidade desse tipo, as pessoas podem ficar atônitas e deslumbradas, mas não conseguem refletir sua influência em si mesmas. Podem nutrir por ele profunda devoção e respeito, mas não conseguem imitá-lo nem segui-lo. É por isso que se observa que, onde quer que esse tipo específico de devoção tenha surgido, e quanto mais profunda ela se torna, mais a vida real se afasta do seguimento do Profeta. A situação chega a tal ponto que até aqueles envolvidos nos mais abjetos crimes sociais exibem esse tipo de devoção barata e dão algum consolo à própria mente inquieta, dizendo:
“Seja lá o que formos, fazemos parte da comunidade do teu amado Profeta.”
Por outro lado, penetrou em nossa sociedade outra tendência vinda do Ocidente, chamada culto à personalidade. Essa tendência origina-se fundamentalmente de uma mentalidade e de uma motivação nacionalistas. É uma expressão de uma espécie de orgulho nacional, que leva à exibição, diante dos outros, de personalidades importantes de nossa própria sociedade. A mensagem dessa tendência é: “Vejam quantas grandes personalidades temos; quantos líderes altamente honrados passaram por nossa história; e quantos feitos memoráveis eles deixaram, constituindo nossa gloriosa herança.” O sinal característico dessa tendência é que tudo isso permanece sempre vazio de conteúdo. Sob sua influência, diferentes povos celebram com grande pompa os aniversários de nascimento, de morte e outras datas memoráveis de várias personalidades. Contudo, essas datas em nenhum lugar proporcionam à nação a oportunidade de aprender com a vida dessas grandes personalidades. As personalidades apresentadas com enorme orgulho como modelos da humanidade não deixam qualquer marca de suas políticas e ideais na vida daqueles que as celebram, nem se percebe qualquer interesse em adotar tais marcas. Sob essa tendência, também nas festividades realizadas para despertar a memória do Mensageiro (que a paz esteja com ele), repetem-se sempre os mesmos discursos. Entretanto, não se nota qualquer influência disso na vida dos oradores e organizadores.
A terceira visão equivocada consiste em considerar a mensagem do Mensageiro (que a paz esteja com ele) uma religião como as demais religiões, em vez de um sistema de vida completo. Os influenciados por essa visão pensam que o Mensageiro (que a paz esteja com ele) veio apenas para transmitir ou ensinar algumas crenças e dogmas, certos tipos de atos formais de adoração, algumas súplicas, alguns conselhos morais e algumas instruções legais. Seu objetivo teria sido formar pessoas que, individualmente, adotassem a aparência e o vestuário dos muçulmanos, mas que, qualquer que fosse o sistema social imundo vigente, se tornassem seus melhores servidores. Essas pessoas aprendem do Mensageiro (que a paz esteja com ele) apenas a oração, o jejum, as obras voluntárias, a recordação de Allah e ensinamentos sobre o caráter e a conduta pessoal. Porém, nas atividades mais amplas da vida coletiva, tornam-se, sem qualquer escrúpulo, auxiliares de toda força da falsidade e colaboram com todo tipo de maldade. Esquecem os inúmeros capítulos dourados do sagrado livro da biografia do Mensageiro (que a paz esteja com ele) e concentram-se de tal modo em um único capítulo que acabam perdidos nele. Ao observar o modelo de imitação do Mensageiro (que a paz esteja com ele) apresentado até hoje por esse grupo, nem mesmo um jovem muçulmano instruído, quanto mais um não muçulmano, consegue imaginar que o Mensageiro (que a paz esteja com ele) possa ser seu líder e que dele se possa obter uma solução satisfatória para os problemas mais difíceis da atualidade. Essa visão também se tornou um obstáculo no caminho da correta compreensão da pessoa do Mensageiro (que a paz esteja com ele) e da adesão ao seu ideal.
A única razão pela qual essas visões equivocadas conseguem persistir é que o ambiente lhes é favorável. O sistema estatal, o sistema social e o sistema econômico em que nossa vida transcorre necessitam de um tipo específico de pessoa. É como uma fábrica que requer um tipo específico de maquinaria. Esse sistema social deseja ver em seus membros um caráter completamente diferente. Essas atividades só podem ser realizadas por pessoas dotadas de uma mentalidade e de um caráter completamente diferentes. Em outras palavras, nas atividades práticas de hoje não há absolutamente necessidade daquele modelo de humanidade refletido na vida de Muhammad (que a paz esteja com ele). Na organização geral da atualidade não há qualquer demanda por aquele pensamento e por aquelas ações que são extraídos da vida do Mensageiro (que a paz esteja com ele). No sistema coletivo do mundo atual, o padrão humano exigido de ministros, burocratas, juízes, advogados, líderes, jornalistas, generais, soldados, policiais, oficiais subalternos, cobradores de impostos, administradores, proprietários de terras, agricultores, escritores, literatos e trabalhadores braçais é completamente oposto ao padrão humano das pessoas que o Mensageiro (que a paz esteja com ele) formou e apresentou no palco da história. Os pais de hoje, em cada lar, criam os filhos com carinho e afeto segundo as exigências do sistema social vigente. As instituições de ensino formam, ao longo de quinze ou vinte anos, dez milhões de pessoas de acordo com as necessidades da sociedade em curso. Conforme as exigências da sociedade vigente, toda pessoa consciente dedica a vida inteira a dar uma forma específica ao próprio caráter e à própria mentalidade. O que quer que esse sistema social ame, a sociedade automaticamente começa a produzir essas mesmas coisas em seus membros. E aquilo que ele rejeita e detesta, todos os recursos do ambiente se empenham com toda a força para eliminar e exterminar. O tipo de linguagem que o sistema social e estatal vigente aprecia passa espontaneamente a ser usada por todos. A roupa que ele aprecia começa espontaneamente a adornar o corpo de todos. Com um único gesto seu, até mesmo o niqab desaparece do rosto das noras de famílias tradicionalmente recatadas. O comportamento que a sociedade vigente quer fazer passar por respeitável é considerado respeitável. E aquilo que a sociedade vigente desaprova passa a ser considerado indesejável e desonroso. A arte que ela aprecia alcança popularidade, enquanto todas as atividades que rejeita se tornam desprezadas por todos. Essa sociedade cria seus próprios valores e obriga todos a aceitá-los. Todos os demais valores e tradições tornam-se apagados e sem vida. Algumas pessoas e famílias orgulhosas de sua dignidade erguem resistência, empregando força contra as imposições do ambiente. Mas a pressão da privação econômica, do atraso cultural e do complexo de inferioridade é tão intensa que, com o passar do tempo, elas se enfraquecem e começam a se render ao ambiente. E, mesmo que não se rendam, a geração seguinte fica desanimada. Assim, seja consciente ou inconscientemente, quando o mundo inteiro está empenhado em formar sua vida e seu caráter segundo as exigências do ambiente, de onde virá, entre o povo, o impulso para seguir o sublime ideal do Mensageiro, ainda que esse mundo escreva milhares de livros sobre sua biografia e organize amplamente sermões e exortações?
A verdade é que, para aqueles que fazem acordos e concessões com algum sistema não islâmico e cujos interesses chegam a um entendimento com as forças da falsidade, não há qualquer ensinamento na biografia do Mensageiro. Talvez balancem a cabeça ao ler os livros de Sira e obtenham prazer e satisfação mental. Talvez seu conhecimento também aumente, mas de onde obterão a inspiração para moldar a própria vida à luz da Sira ou da biografia do Mensageiro? De modo algum é possível remover sua inércia e estagnação. Mas o que afirmo é que a biografia de Muhammad, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, não é a história de Sohrab e Rustam, nem um episódio de um romance árabe, nem uma ficção sobre um herói lendário. Sua posição jamais é tão baixa que possamos reduzi-lo a um simples objeto de estudo da literatura de entretenimento ou de erudição. Seu valor e sua dignidade são tão elevados que não nos permitem usar a Sira apenas para obter satisfação mental. Nossa profunda devoção e reverência por ele também nos impedem de transformar sua história de vida em um meio para satisfazer simplesmente o desejo de orgulho nacional.
Todas essas variadas concepções equivocadas estão simultaneamente ativas em nossa sociedade e constituem obstáculos no caminho para alcançar o objetivo verdadeiro. Quem mantém a conta das centenas de reuniões e encontros de Milad al-Nabi e da Sira do Profeta realizados todos os anos em nosso país? Somente no mês de Rabi al-Awwal, quantas pregações, exortações e discursos fazem ressoar os céus e a terra; quantos livros e artigos são escritos; quantas edições especiais sobre o tema são publicadas em jornais e revistas; quantos poemas, naat e ghazals os poetas escrevem; quantas reuniões e assembleias os cantores percorrem entoando naat, ghazals e qawalis; quantas mensagens e declarações são divulgadas por líderes e chefes de Estado; quantos doces são distribuídos e quantos banquetes suntuosos são organizados; e quanto dinheiro é gasto na construção de arcos, na realização de procissões e comícios grandiosos — quem mantém a conta disso? Em algumas regiões, o nível de diversão, alegria e entretenimento nas atividades organizadas por ocasião do Milad e da Sira do Mensageiro (que a paz esteja com ele) vem aumentando continuamente. Até atos pecaminosos cometidos abertamente, tumultos e algazarras estão ocorrendo. Isso significa que a sociedade começou a caminhar exatamente na direção oposta aos ensinamentos e ao modelo de vida do Profeta.
Mas, por outro lado, também é preciso verificar qual está sendo o verdadeiro resultado e a efetividade desse enorme gasto de energia e recursos em nome de um grande objetivo. Coloquem todas essas atividades anuais em um prato da balança e, no outro, os resultados alcançados; então verifiquem se o resultado correto está sendo obtido. Quantas pessoas, inspiradas por todas essas nobres atividades, se dedicam a moldar a própria vida segundo o exemplo da vida do Profeta e a introduzir nela mudanças e correções? Se cada reunião, cada artigo e cada naat ou ghazal tivesse produzido uma mudança sequer em uma única pessoa, imaginem quanto benefício poderíamos ter alcançado ao longo dos últimos duzentos ou duzentos e cinquenta anos. Se esse sucesso desejado não foi alcançado, então é preciso compreender que há necessariamente alguma falha em nossos esforços, e que essa falha é de natureza extremamente fundamental. A tristeza não se deve apenas ao fato de o benefício desejado não ter sido alcançado. Pelo contrário, ao vermos surgir em nossa sociedade uma tendência sinistra totalmente contrária ao modelo e às realizações do Mensageiro (que a paz esteja com ele), sentimos vontade de lamentar. Hoje também estão surgindo em nossa sociedade pessoas que qualificam o modelo do Mensageiro (que a paz esteja com ele) como ultrapassado e inadequado para esta época. Elas zombam dos ensinamentos do Mensageiro (que a paz esteja com ele) e convocam ao abandono de todo o acervo da Sira, da Sunna e dos hadiths. São pessoas que querem separar o Alcorão do movimento e da luta inesquecíveis, de vinte e três anos, daquele que o apresentou, e querem fazer desaparecer de nosso campo de visão a pessoa do Mensageiro (que a paz esteja com ele) como exemplo concreto do ser humano ideal e completo. Mais lamentável ainda é que, em nome da interpretação, da análise, da liberdade de expressão e do exercício do pensamento livre, intelectuais mercenários privados do conhecimento direto do Alcorão e dos hadiths tentam provar que a personalidade, o modelo e as contribuições do Mensageiro (que a paz esteja com ele) são compatíveis com a estrutura ideológica da civilização enferma em curso, e ousam preparar uma imagem inteiramente nova do Mensageiro (que a paz esteja com ele), de acordo com os gostos das potências mundiais estabelecidas. A partir de tudo o que estudei e investiguei, cheguei à conclusão de que perdemos a perspectiva básica e correta do estudo da Sira, e que as concepções equivocadas mencionadas acima continuam ativas entre nós. É por isso que, apesar das inúmeras provas e manifestações de profunda devoção e amor pelo Mensageiro (que a paz esteja com ele), e apesar das extensas pesquisas e reflexões sobre sua biografia, ainda não surgiu no horizonte oriental do mundo muçulmano aquele tipo de novo ser humano cujo modelo completo o Mensageiro (que a paz esteja com ele) havia apresentado à humanidade.
A biografia do Mensageiro (que a paz esteja com ele) só poderá produzir entre nós um reflexo verdadeiro dela quando formos capazes de dedicar nossa vida ao mesmo objetivo e à mesma luta aos quais toda a vida do Mensageiro foi dedicada: realizar uma grande obra e concretizar um objetivo. O único meio de construir uma vida de seguidor do Mensageiro (que a paz esteja com ele) é empreender um movimento e uma luta islâmicos do mesmo tipo daqueles que ele conduziu. E somente por meio de personalidades seguidoras desse tipo será possível construir e conduzir novamente um movimento islâmico bem-sucedido.
A biografia de Muhammad (que a paz esteja com ele) não é simplesmente a biografia de um indivíduo qualquer; é, antes, o relato da vida de uma força histórica que se manifestou sob a forma de um homem. Não é a história de algum dervixe afastado da vida social, ocupado apenas com a própria retificação e formação espiritual, sentado num canto de uma localidade. Pelo contrário, é a história de um homem que foi a força motriz de um movimento coletivo. Não é apenas a história de um homem, mas a história de um artífice que formava homens. Nessa história de vida encontra-se o relato detalhado da contribuição gloriosa do construtor de um novo mundo. Com efeito, a vida do Profeta universal estende-se em todas as direções: da caverna de Hira à caverna de Thawr, do recinto da sagrada Caaba aos mercados de Taife, e dos aposentos das Mães dos Crentes aos campos de batalha. Sua biografia não permaneceu limitada à sua própria pessoa; ao contrário, embelezou a vida de inúmeras pessoas. Abu Bakr, Umar, Uthman, Ali, Ammar, Yasar, Khalid, Khuwailid, Bilal e Suhaib são todos capítulos diferentes do mesmo livro da Sira. Todos eles são árvores e arbustos do mesmo jardim, em cujas folhas e ramos está registrada a biografia do jardineiro desse jardim.
Se essa personalidade mais grandiosa e excelente do mundo for apresentada, ao se escrever sua biografia, simplesmente como um indivíduo isolado, e se, segundo o método convencional de escrever biografias, forem narrados de modo detalhado, minucioso e cronológico os principais feitos de sua vida, suas campanhas notáveis, seu caráter e seus hábitos, então esse tipo de escrita da Sira jamais cumprirá o verdadeiro objetivo da Sira. A vida do Mensageiro (que a paz esteja com ele) também não é como a água parada de um tanque, que pode ser observada de relance estando-se em uma de suas margens. Pelo contrário, é um rio corrente, com uma correnteza impetuosa, movimento e conflito, ondas e espuma, conchas e pérolas; graças às suas águas, terras mortas recuperam a vida, e, para compreender os mistérios desse rio, é preciso acompanhar sua correnteza. Por isso, embora a leitura de diversos livros sobre a Sira possa proporcionar informações raras, ela não cria inspiração nem entusiasmo nos leitores, não desperta emoções, não faz surgir uma nova onda de energia na coragem e na determinação, não reacende um novo calor e uma nova inspiração no gosto pela ação, nem remove a estagnação de nossa vida. Ao ler livros sobre a Sira, talvez uma onda de devoção se erga por um instante no coração e talvez os olhos se encham de lágrimas, mas não obtemos aquela centelha de aspiração cujo calor impeliu um homem solitário, sem recursos e sem apoio a lutar contra um sistema social inválido acumulado ao longo de centenas de anos; tampouco alcançamos aquele vigor e aquela intensidade da fé que transformaram um órfão indigente em senhor do destino de todo o mundo árabe e não árabe.
A verdade é que o Mensageiro (que a paz esteja com ele) não foi, no sentido limitado do termo convencional, apenas uma pessoa “extraordinária” e “famosa”, e sua Sira, isto é, sua biografia, também não é simplesmente o relato da vida de algum indivíduo “extraordinário” e “famoso” desse tipo, como as biografias escritas para pessoas célebres. A essência e a personalidade do Grande Profeta estão muito acima de tais pessoas extraordinárias e famosas.
Muitas pessoas extraordinárias nasceram e continuam nascendo no mundo, apresentando à sociedade algum bom ensinamento ou algum pensamento construtivo. Elas são chamadas de pessoas extraordinárias. Também são chamadas de grandes e extraordinárias as pessoas que refletem e pesquisam sobre os princípios da moralidade e da lei. O mesmo título é dado àqueles que se dedicaram à reforma da sociedade. O título “extraordinário” também é concedido aos que conquistaram países, deixaram um legado de feitos heroicos, administraram e governaram impérios, estabeleceram exemplos surpreendentes de pobreza e privação e estabeleceram diante do mundo padrões extremamente elevados de caráter pessoal. No entanto, quando estudamos as biografias dessas pessoas extraordinárias e famosas, geralmente constatamos que toda a sua força e capacidade parecem ter sido absorvidas por algum aspecto da vida, enquanto todos os demais ramos parecem ter secado. Se um lado de sua vida aparece muito luminoso, o outro parece absolutamente sombrio. De um lado, o excesso extremo; de outro, a indiferença extrema. Mas cada aspecto da vida do Mensageiro (s.a.) é plenamente equilibrado com os demais, e cada aspecto é igualmente adornado por plenitude e excelência. Onde há a imponência da seriedade e da solenidade, há também o brilho da beleza. Ali, ao lado da espiritualidade, encontra-se a contribuição integrada da dimensão material. Junto ao cultivo da vida futura caminha a preocupação econômica. Ao lado do Din também está o mundo. Embora haja uma atitude de total dedicação, permanece igualmente intacto o senso de dignidade pessoal. Junto à adoração e ao serviço de Allah, manifesta-se o carinho pelos servos de Allah e o respeito por seus direitos. Ao lado da rigorosa disciplina coletiva, há também respeito pelos direitos do indivíduo. Junto à profunda consciência e emoção religiosa, encontra-se uma política abrangente. Embora estivesse ocupado dia e noite com a liderança da nação, as atividades da vida conjugal também eram desempenhadas com perfeição. Ao lado do auxílio aos oprimidos, havia também medidas para resistir aos opressores.
Dessa escola representada pela biografia do Mensageiro podem aprender igualmente um administrador, um governante, um ministro, um funcionário, um patrão, um empregado, um comerciante, um trabalhador, um juiz, um professor, um soldado, um orador, um líder, um reformador, um filósofo e também um escritor. Nela há um modelo igualmente digno de imitação para um pai, um companheiro de viagem e um vizinho. Uma vez que alguém chega a essa escola, não precisa ir a nenhuma outra. O mais elevado e excelente grau de perfeição que a humanidade pode alcançar existe plenamente nessa única personalidade. Foi por isso que me vi obrigado a chamar essa pessoa de “o melhor dos seres humanos” ou “o grande homem”. Em toda a história da humanidade, há apenas uma única pessoa que é “o melhor dos seres humanos”. Podemos fazer dele uma tocha e iluminar nossa vida. Bilhões de pessoas no mundo receberam luz dele. Muitos estão construindo um tesouro de conhecimento a partir dele. Hoje, sua mensagem ressoa em todas as partes do mundo. Os ensinamentos que ele transmitiu exercem profunda influência sobre as civilizações e culturas de diversos países. Não existe pessoa no mundo que não tenha se beneficiado, em algum grau, desse melhor dos seres humanos. Contudo, aqueles que se beneficiaram dele não o conhecem nem sabem quem ele é.
A responsabilidade de apresentar a personalidade do Mensageiro e de divulgar sua mensagem por todo o mundo cabia ao grupo que ele estabeleceu, isto é, à nação muçulmana. Mas essa nação, por si mesma, está muito distante dele e de sua mensagem. As páginas das Escrituras preservadas pelos muçulmanos contêm orientação sobre todos os aspectos da vida, mas não parece haver qualquer influência da biografia desse grande homem em suas vidas. Na vida religiosa, na política, na vida social, na moralidade, no sistema jurídico e na cultura dessa nação, resta muito pouco da marca do modelo de vida do Profeta. E o pouco que resta está sendo deformado ao misturar-se com muitas marcas novas. Em nenhum pequeno recanto do ambiente social dessa nação existe uma situação que permita compreender que ela representa os princípios, o ideal, a tradição e os valores de Muhammad (s.a.). Pelo contrário, essa nação mendiga de porta em porta dos diversos sistemas equivocados e falsos do mundo e, por medo de toda potência estabelecida, parece envergonhar-se de sua gloriosa tradição. Ela envolveu o Alcorão em uma capa, transformou a Sira do Mensageiro (s.a.) em um buquê de flores e deixou ambos no alto de uma prateleira.
Além disso, transformou Muhammad (s.a.), em sentido restrito, em um líder religioso e nacional, convertendo-se em uma comunidade religiosa e nacional. Desse modo, fez da mensagem e do modelo de vida dessa personalidade universal uma propriedade exclusiva de grupo e de seita. Contudo, ele veio como líder de toda a humanidade e trazendo uma mensagem e um modelo para toda a humanidade. Sua história de vida deveria ter sido apresentada como um exemplo e um modelo de humanidade. Se uma pessoa fosse moldada segundo esse padrão, poderia tornar-se um instrumento para o bem de si mesma e de toda a humanidade, libertar-se da rede de problemas diversos e alcançar uma vida pura, imaculada e livre de obstáculos. A mensagem e o modelo de vida do Mensageiro (s.a.) são, na realidade, uma fonte de benefício universal, como os raios do sol, a água da chuva e o ar. No entanto, por nossa própria ignorância, confinamo-lo dentro de um círculo de grupo. Hoje, vemos pessoas de todos os países e de todas as religiões beneficiarem-se, em maior ou menor medida, de Platão, Sócrates, Darwin, Maquiavel, Marx, Freud e Einstein, e aprenderem com eles. Nenhuma nação ou grupo nutre contra eles um ódio cego. Mas são tão grandes a oposição e o ódio à aprendizagem do conhecimento, do ideal e da liderança de Muhammad (s.a.) que não têm medida. As pessoas pensam: Muhammad é o líder dos muçulmanos. Nós somos diferentes dos muçulmanos, e os muçulmanos também são uma nação diferente da nossa. Então, que relação temos nós com o líder e guia dos muçulmanos? O lamentável é que nossas próprias ações contribuíram muito para criar essa ideia e levá-la a um nível tão anormal. Embora sejamos a ummah de Muhammad (s.a.), o amigo de toda a humanidade, foi justamente por termos estabelecido um exemplo tão ruim de segui-lo que esse tipo de pensamento pôde surgir entre as populações não muçulmanas.
Aos povos do Ocidente
A vida do Profeta do universo situa-se entre duas grandes eras da história humana. Ao olhar para trás, a partir do dia em que ele foi investido como profeta, encontramos o tribalismo, o feudalismo, a monarquia, a adoração dos antepassados e a civilização pagã. Ao olhar para a frente, vemos a era da civilização baseada no internacionalismo, na democracia e nas descobertas e invenções científicas. A inauguração desse progresso científico e intelectual foi realizada pelas próprias mãos do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Juntamente com isso, ele ofereceu à humanidade princípios fundamentais que permanecerão aplicáveis até o Dia do Juízo. Ao mesmo tempo, mostrou, por meio de sua própria formação, o tipo de ser humano capaz de assumir as responsabilidades do futuro. Por seu intermédio, à luz das necessidades daquela era que ainda viria, estabeleceu-se um equilíbrio inimaginável e miraculoso entre alma e corpo, moralidade e materialismo, emoção e razão, fé e ação, as aspirações do indivíduo e do grupo, e as circunstâncias e necessidades existentes. Por suas mãos foi formada uma comunidade humana imparcial em sua visão do mundo, mas capaz de governá-lo. Esse grupo, por um lado, era incomparável em sua obediência a Allah e, por outro, estava na vanguarda da atuação sobre o mundo material. De um lado, curvava a cabeça diante da verdade com absoluta humildade; de outro, tornava-se disposto a oferecer o máximo sacrifício de vidas e bens para enfraquecer as forças da falsidade. De um lado, entregava-se à satisfação de Allah; de outro, era extremamente habilidoso em subjugar as forças naturais e utilizá-las. Assim que entrou nos palácios reais da história, esse grupo acendeu a luz do conhecimento e da ciência, abriu as portas das descobertas e invenções e realizou rapidamente novos experimentos para a reconstrução institucional. Todo o mérito de suas atividades, de seu progresso, da expansão do conhecimento e da ciência, das descobertas e invenções e de todas as realizações da civilização e da cultura pertence, em última análise, a Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele).
É lamentável que as nações ocidentais, dirigentes desta civilização intelectual e democrática, não tenham conseguido compreender Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), sua mensagem nem o sistema de vida que ele trouxe. Os intelectuais europeus não conseguiram sequer perceber nem compreender aquele grande homem cuja contribuição extraordinária desempenhou um papel luminoso por trás do novo surgimento do Ocidente, aquele que foi o principal originador da democracia e do internacionalismo e que deu início à reforma e ao movimento religiosos. Havia muitas razões para isso. Parece apropriado discuti-las brevemente aqui:
1. Quando Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) surgiu com sua mensagem, teve de enfrentar tanto o judaísmo quanto o cristianismo. Naquela época, ambas as religiões atravessavam uma era de extrema distorção e decadência. Ambos os povos carregavam, com aparência de santidade e solenidade religiosa, uma estrutura reduzida a rituais, privada de fé e moralidade. Entre ambos haviam surgido classes e seitas religiosas, e eles haviam aberto lojas completamente dedicadas ao comércio da religião. O verdadeiro produto do pensamento e da ação saudável havia sido saqueado. Do lado de fora, restavam apenas letreiros vistosos. Todas as forças eram empregadas para preservar a existência das próprias seitas e classes, e reter os membros de cada grupo era a única tarefa de cada facção. O aperfeiçoamento da humanidade e a reforma da sociedade não eram preocupação de ninguém. Nessas circunstâncias, a mentalidade geral dos judeus e cristãos havia se corrompido a tal ponto que, em vez de avaliar a personalidade inestimável de Muhammad e examinar sua mensagem e o sistema de vida que ele apresentava, passaram a demonstrar contra ele o extremo da inveja, da hostilidade e da obstinação. Começaram a criar resistência e obstáculos à sua pregação. Romperam compromissos e traíram sua confiança, tentando destruir as obras construtivas que ele realizava. Chegaram até a conspirar para assassiná-lo. Depois, mancharam a vida deles próprios e a de seus descendentes com as consequências naturais de todas essas más ações. Corromperam o fluxo vivo da história com sua mentalidade imunda e suas ideias abomináveis, e essa água contaminada continuou a correr até as gerações seguintes. Deixaram para os judeus e cristãos posteriores uma enorme herança de ódio e hostilidade. A reação contaminada e carregada de emoções dos judeus e cristãos contemporâneos de Muhammad continua até hoje refletida na mente e no pensamento de seus sucessores.
2. No mundo humano anterior ao surgimento do Islã, os cristãos tinham clara predominância e enorme poder tanto no âmbito religioso quanto no político. Não lhes faltava o desejo de ampliar essa predominância e esse domínio, e o ambiente era favorável à sua realização. Entretanto, o surgimento do Islã pareceu aos olhos dos cristãos o aparecimento de uma força rival. Quando essa força se desenvolveu gradualmente e se estabeleceu como uma potência mundial efetiva, uma intensa vingança começou a crescer entre eles e foi se fortalecendo cada vez mais. Depois, quando o poder islâmico começou, em diferentes partes do mundo, a tomar de fato dos cristãos o poder e o domínio, sua reação assumiu uma forma ainda mais intensa. Em vez de julgarem, com espírito esportivo, a rivalidade pública entre duas forças iguais no palco aberto da história, os cristãos passaram a alimentar intensa hostilidade contra os muçulmanos; indiretamente, essa hostilidade era contra o próprio Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e contra o Islã. Essa vingança e esse ódio atingiram seu auge durante as Cruzadas. Como, ao se chegar a essa época, as sementes da decadência já haviam sido plantadas entre os próprios muçulmanos, os cristãos começaram a atribuir ao Islã e ao Mensageiro de Allah suas fraquezas e desvios específicos. Começaram a tentar distorcer a imagem do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) por meio do caráter e das ações dos muçulmanos.
3. Na primeira parte desse longo período de conflitos e confrontos entre o Islã e o cristianismo, os sacerdotes cristãos mantinham o povo cristão completamente sob seu controle, enquanto o Islã havia atingido precisamente os interesses corporativos dessa classe sacerdotal. Por isso, esse grupo criou uma falsa ideia sobre o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e sua mensagem, e passou a espalhá-la por toda parte. Séculos dessa propaganda caluniosa corromperam completamente a mente e o pensamento dos ocidentais. É por isso que hoje se vê que até os intelectuais que não professam religião alguma e pensam livres da influência do cristianismo, quando expressam opiniões sobre o Islã e Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), não conseguem elevar-se nem um pouco acima da mentalidade inferior dos sacerdotes estreitos e supersticiosos de seiscentos anos atrás. Basta folhear algumas páginas dos livros escritos pelos orientalistas para ver quantas informações falsas e defeituosas foram acrescentadas de maneira vergonhosa e com que tolice foi retratada a vida do maior ser humano do mundo. Seria diferente se fossem encontrados um ou dois exemplos excepcionais. Mas aqui se fala da prática geral dos ocidentais.
4. Os últimos duzentos anos foram a era satânica do imperialismo ocidental. Nessa era, as nações muçulmanas, como punição por se desviarem do Islã, desobedecerem a Allah e não seguirem o modelo de Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), foram, uma após outra, vítimas da cobiça imperialista do Ocidente capitalista. Em toda parte, essa cobiça imperialista ocidental encontrou uma resistência indomável por parte dos muçulmanos. Em todos os casos, a motivação religiosa esteve ativa por trás dessa resistência. A doutrina do tawhid — isto é, da servidão a um único Allah — ensinada pelo Islã oferece uma educação para a liberdade e a igualdade humana que não permite aos seguidores do Islã consentirem em servir a ninguém além de Allah. Por isso, vemos que, por trás de todos os movimentos surgidos entre os muçulmanos contra o imperialismo ocidental, estiveram ativas a consciência e a inspiração islâmicas. Em toda parte, alguma personalidade religiosa assumiu a liderança, e em toda parte se observou ativa a inspiração para restabelecer o sistema islâmico de governo e o sistema social islâmico. Assim, em todos os movimentos de independência dos países muçulmanos, a motivação religiosa permaneceu fortemente ativa. Por essa razão, surgiu novamente nos corações dos imperialistas ocidentais ódio e hostilidade contra essa força. Afinal, essa força bloqueava seu caminho a cada passo e criava uma inspiração indomável. Foi sob o impulso dessa hostilidade que o amor dos muçulmanos pela religião passou a ser chamado de loucura, e o “mullacracia” foi retratado como uma ameaça terrível. Além disso, a motivação religiosa dos muçulmanos mostrou-se tão poderosa que não apenas não estava disposta a aceitar a derrota diante da cultura e do pensamento ocidentais, como também os enfrentou em todos os países. Mesmo empregando durante muitos anos todo o poder da educação, da literatura e da influência, o imperialismo ocidental conseguiu transformar em seus subordinados apenas um punhado de pessoas entre as nações muçulmanas. Depois, colocou no poder grupos desse tipo, prestando-lhes ajuda e apoio, e utilizou-os amplamente na guerra intelectual, cultural e política contra a consciência islâmica dos muçulmanos. Como resultado, o conflito do Ocidente com o Islã e com o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) foi crescendo continuamente.
5. Quando as nações ocidentais tiveram êxito em transformar os muçulmanos em escravos, tornou-se difícil para elas receber desses muçulmanos, inferiores a elas política, econômica e organizacionalmente, ensinamentos sobre modo de vida e filosofia de vida. Do mesmo modo, tornou-se difícil respeitar o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), apresentador e pregador do Islã. Além disso, quando viram entre os muçulmanos todos os sinais de que estavam submetidos à escravidão mental e aterrorizados pelo Ocidente, essa situação criou um obstáculo ainda maior. Quando perceberam que os muçulmanos de mentalidade moderna por elas formados começavam a modificar e adaptar o Islã segundo a perspectiva ocidental, o que mais poderia acontecer? A estima pelo Islã e pelo Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) diminuiu ainda mais aos seus olhos. A atitude defensiva dos muçulmanos causou enorme dano à imagem do Islã e à dignidade de Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele).
Por essas cinco razões, ergueu-se uma enorme muralha de ferro entre Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e os povos do Ocidente.
Por isso, hoje o mundo ocidental aceita o libertador de toda a humanidade, Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), apenas como um líder sectário dos muçulmanos e estuda sua biografia com uma atitude de oposição e contestação, em vez de adotar uma perspectiva voltada a compreendê-la e explicá-la. O retrato que o Ocidente traçou dessa grande personalidade em sua literatura apresenta a imagem de um homem privado de equilíbrio e saúde mental, cujas atividades eram todas resultado da perturbação intelectual de uma mente inconsciente, e que, empunhando uma espada sedenta de sangue, avançava por onde quer que fosse praticando massacres em massa. Àquele que o mundo inteiro conhece como a própria compaixão, da cabeça aos pés, eles atribuíram a condição de um adorador do mundo e de um agressor invasor ambicioso, e chamaram suas contribuições sinceras de fraude e artimanha. Também tentaram provar que tudo o que havia de bom no movimento islâmico eram elementos tomados dos judeus e dos cristãos. Caso contrário, Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) não possuiria qualquer mérito moral especial. Também foi declarado que todas as atividades de espiritualidade e religiosidade não passavam de ostentação, e que os interesses eram alcançados apenas subjugando o povo por meio de técnicas teatrais. Que chamem qualquer pessoa do mundo de adoradora do mundo e vigarista; mas a questão é: como se pode conciliar com os chamados vigaristas e adoradores do mundo o caráter nobre, inocente e imaculado encontrado em toda a biografia do Mensageiro?
Além disso, comete-se contra ele uma injustiça ainda mais grave: a mensagem central da missão do Mensageiro (S.A.) não é estudada de maneira abrangente, desde suas raízes até seus ramos, folhas e frutos. Em vez disso, sem compreender seus princípios fundamentais nem apreender o profundo significado da filosofia subjacente ao seu pensamento, travam-se debates sobre alguns pormenores, seguindo os métodos dos clérigos polemistas. Diz-se, por exemplo, que o Profeta Muhammad (S.A.) legalizou a poligamia, empunhou armas pela religião, transformou prisioneiros de guerra em escravos e escravas, e assim por diante. Esse método unilateral de estudo e análise é sempre veículo de uma mentalidade hostil e preconceituosa. Com tal mentalidade, não é possível compreender nenhum sistema de vida nem nenhuma religião. Pelo contrário, ela bloqueia o caminho para a compreensão de tudo. O verdadeiro objeto de consideração e aquilo que realmente se deve conhecer e compreender é a filosofia ou ideologia fundamental. O essencial é saber até que ponto essa filosofia e ideologia são verdadeiras e corretas, quanto benefício proporcionam à vida e quanto de seus danos conseguem evitar ou reparar. Depois, é necessário considerar e analisar os princípios formulados a partir dessa essência e ideologia, com base nos quais os diferentes aspectos e setores da vida são estabelecidos e administrados. Em seguida, deve-se examinar as regras e ramificações pormenorizadas derivadas desses princípios, para verificar se estão de acordo com o ideal fundamental. Uma pessoa trouxe até você uma filosofia de vida. Em vez de examinar essa filosofia, você começou a discutir certas regras secundárias acerca das quais existe em sua sociedade uma concepção particularmente arraigada, e você não consegue pensar além dela. O resultado é que você próprio se envolve em confusão e lança milhares de pessoas na confusão e na estreiteza de pensamento. Uma pessoa criou, dentro de seu próprio ser, um novo modelo completo de humanidade e o apresentou diante de você. Antes de compreender o modelo como um todo, você começou a discutir uma ou duas de suas pequenas partes e a questionar sua validade e legitimidade. Se, em vez disso, tivesse compreendido o modelo inteiro de forma abrangente, essas partes teriam se tornado compreensíveis por si mesmas. Para compreender diferentes ideologias e sistemas de vida e analisar personalidades históricas, o Ocidente geralmente adota o método mais científico possível; no caso do Islã e de Muhammad (S.A.), porém, deixa completamente de lado esse método científico. Para formar uma opinião ou tomar uma decisão sobre um jardim, é preciso visitar e observar o jardim inteiro. Não basta separar um galho, uma folha, um fruto ou uma flor de uma árvore daquele jardim e examiná-lo isoladamente. Da mesma forma, contemplem o vasto jardim que é a biografia e o modelo ideal de Muhammad (S.A.) e compreendam sua estrutura global. Então poderão compreender espontaneamente cada um de seus ramos, cada fruto, cada flor, cada botão e cada pétala. Se em uma ideologia, doutrina, movimento ou personalidade de liderança houver algumas coisas contrárias ao seu gosto, às suas tradições e aos costumes que prezam, isso não pode significar que ali não exista mais nada de bom ou que o conjunto deva ser inteiramente rejeitado. Seu gosto ou suas preferências não constituem um padrão universal nem histórico. É possível — e assim deve ser — que uma determinada ideologia, um movimento ou uma personalidade de liderança traga consigo seus próprios critérios do bem e do mal, inteiramente diferentes dos seus. Portanto, a primeira coisa necessária é colocar lado a lado os padrões e critérios e submetê-los à avaliação; juntamente com isso, deve-se examinar a qualidade e a validade da teoria e da ideologia fundamentais.
A literatura que o mundo cristão e os orientalistas produziram até hoje sobre o Alcorão, o Islã e Muhammad (S.A.) está, por um lado, repleta de ignorância e mal-entendidos e, por outro, tem o veneno da obstinação precipitada circulando por todas as suas veias. Até mesmo aqueles que, demonstrando espírito liberal, reconheceram a verdade e foram um passo além, empregando alguma linguagem elogiosa, inseriram aqui e ali, por trás de palavras astutamente escolhidas, facas de açúcar tão bem disfarçadas que o leitor não consegue deixar de ficar estupefato diante de tal habilidade de enganar. É claro que se encontram alguns exemplos brilhantes, nos quais foram oferecidos reconhecimentos sinceros da mensagem e dos feitos do Mensageiro (S.A.). Mas esses autores receberam pouquíssimo apreço entre os ocidentais. Recentemente, quando foi publicado um livro de alta qualidade desse tipo, tenta-se diminuir sua reputação aos olhos dos ocidentais rotulando-o de “apoiador dos muçulmanos” (Pro-Muhammaden). É surpreendente que, atualmente, em razão dos interesses diplomáticos do Ocidente estarem ligados aos países muçulmanos, sejam feitos esforços e démarches sem conta para agradar os países ocidentais. No entanto, até hoje ninguém pensou em reparar a injustiça cometida contra o Mensageiro (S.A.).
Não se está exigindo que você apoie a ideologia e o sistema de vida apresentados pelo Mensageiro (S.A.) contra o veredito de sua consciência. Se sua consciência não os aprovar, você certamente pode discordar — e deve fazê-lo com firmeza. O que se exige de você é que não distorça os fatos violando os princípios e critérios que você mesmo formulou e defende para escrever história e biografias. Não aceite relatos de fontes que, por um lado, são unanimemente consideradas indignas de confiança e inaceitáveis pelos muçulmanos e que, por outro, não atendem aos critérios universalmente reconhecidos da pesquisa histórica. Não descarte as boas causas e razões de um acontecimento para substituí-las deliberadamente por causas e razões indesejáveis. Fale com argumentos; não adote uma atitude motivada por más intenções, insultuosa, grosseira, sarcástica ou zombeteira.
Nosso objetivo com esta discussão não é criar uma situação desagradável, motivada por emoções, mas pôr fim à situação indesejável que prevaleceu até agora. A primeira condição para alcançar esse objetivo é que o Ocidente esclareça sua própria perspectiva sobre o Islã, o Alcorão e Muhammad (S.A.) e crie um novo ambiente psicológico construtivo, algo que só será possível mediante a compreensão do consenso existente entre ocidentais e muçulmanos. Os pontos sobre os quais temos consenso são os seguintes:
– Cristãos, judeus e muçulmanos — essas três comunidades — adoram Allah e creem na vida após a morte. Todos possuem semelhanças em suas formas de adoração e compartilham os mesmos valores morais fundamentais.
– A fonte dos ensinamentos religiosos dessas três comunidades é a revelação, e os muçulmanos creem que todos os profetas e mensageiros carregaram a bandeira da mesma religião e da mesma grande verdade.
Por outro lado, no aspecto social e cultural, ocidentais e muçulmanos compartilham o consenso sobre os seguintes pontos:
– Os meios pelos quais a civilização ocidental promoveu o avanço do conhecimento e da ciência são apoiados pela perspectiva religiosa genuína dos muçulmanos. A ideologia islâmica pode dar lugar, em sua própria sociedade e civilização, ao materialismo (dentro de limites), juntamente com a espiritualidade, embora o Ocidente tenha alcançado, nesse aspecto, o mais alto nível de progresso. Enquanto as outras religiões estão confinadas exclusivamente ao âmbito pessoal, o Islã é relativamente mais liberal por constituir um sistema social e estatal completo.
– Os princípios fundamentais da democracia sobre os quais a civilização ocidental construiu suas instituições estatais já estavam presentes no pensamento e na consciência dos muçulmanos. Não apenas estavam presentes: foi a civilização islâmica que primeiro lhes deu forma plena. [Lebon e Brebault testemunharam, ainda que de modo hesitante, que o espírito e a força vital da democracia chegaram ao Ocidente por meio dos muçulmanos.] A representação popular e as eleições, a consulta à população em geral e às pessoas especializadas sobre questões estatais e administrativas, o Estado de direito, os direitos civis, bem como a igualdade de dignidade e de direitos de todos os cidadãos nessas questões, foram implementados pelos muçulmanos muito antes do Ocidente. Embora o tenham feito em harmonia com o ambiente social e cultural de sua época. Considerando a situação à luz das tensões e instabilidades internacionais, também na solução desse problema a cooperação dos muçulmanos será mais valiosa para os reformistas ocidentais. Há duas razões para isso. Primeiro: se o Ocidente refletir com sinceridade e dedicação, perceberá que ninguém é tão capaz quanto os muçulmanos de colaborar para a paz mundial. As raízes do amor à humanidade estão tão profundamente firmadas nas crenças dessa nação, e a base moral da unidade e da solidariedade internacionais está tão firmemente estabelecida em seu âmago, que nenhuma outra possui algo semelhante. Se essa rara e singular característica dessa nação vier a ser plenamente posta em prática, será possível pôr fim aos conflitos internacionais. Em uma palavra, somente o Islã pode fornecer, em quantidade suficiente, os valores e os elementos morais necessários à construção do Estado mundial do futuro.
Segundo: espera-se que o Islã e seus seguidores desempenhem um papel mais eficaz na resistência às duas formas extremas do materialismo — o capitalismo e o socialismo — e na condução da humanidade por um caminho intermediário de justiça.
Depois de apresentar esses pontos consensuais para reflexão, queremos dizer, à luz deles, o seguinte: que mal haveria se os ocidentais mudassem agora sua perspectiva sobre Muhammad (que a paz esteja com ele)? Por que se oporiam a empurrar e rasgar o véu de hostilidade erguido pelos sacerdotes e orientalistas? Até agora, as doutrinas materialistas foram submetidas amplamente a testes e experimentações. Não é possível continuar indefinidamente com essas experiências, e essa esclarecida população ocidental não está gerando uma nova geração cuja esperança permita continuar esperando por mais algum tempo. Por outro lado, todas as religiões existentes no mundo, exceto o Islã, preferem permanecer retraídas em uma pequena parte da vida individual. Elas não estão preparadas para avançar e tomar as rédeas de toda a civilização. Em uma palavra, a humanidade está ideologicamente completamente falida, tendo perdido todo o seu capital. Resta apenas uma fonte, da qual irradia um pequeno raio de esperança. Se fecharmos as portas da mente e nos privarmos também dessa luz, não virá nenhuma orientação de Marte.
Portanto, ainda há tempo para reconhecermos Muhammad (que a paz esteja com ele) como um criador da história, um salvador da humanidade aflita, um guia de uma civilização e um dos maiores seres humanos. Abramos as janelas da mente e do coração para a luz que dele emana. Tentemos compreendê-lo por meios científicos. Não seria apropriado para nós considerar o Islã meramente uma religião rival do cristianismo; ao contrário, devemos aceitá-lo como um movimento, à semelhança da democracia, do socialismo e de outros movimentos ideológicos semelhantes, e como um sistema de vida que assume o controle de toda a sociedade e civilização. Devemos reconhecer Muhammad (que a paz esteja com ele) como o líder desse movimento e o fundador desse sistema social, e admitir seu mérito: ele inaugurou uma época extraordinária e luminosa da história. Devemos avaliar os ideais e princípios por ele apresentados segundo o quanto são úteis e indispensáveis à administração de um Estado mundial ultramoderno. Devemos examinar o modelo de humanidade que ele criou para verificar em que medida ele é adequado para servir de instrumento e estrutura de uma civilização ideal e perfeita.
Hoje, quando uma escuridão absoluta reina diante de nós e não se vê sequer uma faísca acesa em lugar algum, basta olhar para trás para ver uma tocha ardendo nas mãos do Mensageiro (que a paz esteja com ele), mantendo-se acesa da mesma forma há quatorze séculos, apesar de milhares de tempestades e tormentas. Poderá resultar em algo bom recusar a luz dessa tocha e vendar os olhos apenas por causa da confusão e da hostilidade que nós mesmos criamos? Seria sensato permitir que a humanidade e a civilização humana fossem destruídas nessa terrível escuridão? É preciso compreender muito bem que desafio assustador a situação atual lançou diante de nós e se temos força para respondê-lo.
Mas a verdade é que os verdadeiros culpados somos nós mesmos. Nós não permitimos que o mundo conhecesse a personalidade, a mensagem e os méritos do Mensageiro (que a paz esteja com ele), nem tentamos conhecê-los nós próprios. Por isso, hoje é necessário apresentar novamente o Mensageiro (que a paz esteja com ele). Essa tarefa talvez seja um feito maior do que a descoberta da energia atômica.
Duas palavras sobre esta obra
Apesar da existência de obras de alto nível sobre a sagrada sira, ou biografia, do Mensageiro (que a paz esteja com ele), ousei empreender esta difícil tarefa, apesar da minha própria incapacidade, apenas para que a grandiosa pessoa do Mensageiro (que a paz esteja com ele) volte a ser conhecida como a única fonte para compreender o propósito da vida. As melhores obras biográficas do Mensageiro (que a paz esteja com ele) reúnem todas as informações relativas aos acontecimentos. Contudo, em alguns pontos o leitor fica preso a divergências nas narrativas e, em outros, a discussões teóricas profundas. Em certos lugares, perde-se para ele o vínculo de continuidade entre os acontecimentos; em outros, são apresentados tantos detalhes que ele não encontra neles um significado claro nem uma explicação satisfatória. Em alguns pontos, assusta-se diante do excesso de dados teóricos e de pesquisa, bem como de fontes. No entanto, mesmo depois de ler volumes e volumes de livros, ele não consegue ver diante de si um movimento vibrante. Não consegue contemplar o ambiente conflituoso criado pela missão do Mensageiro (que a paz esteja com ele). Não consegue se ver na época do Mensageiro (que a paz esteja com ele). Ao ler os livros de sira, não sente que também é uma onda impetuosa do movimento dirigido pelo Mensageiro (que a paz esteja com ele), nem que lhe foi confiada a responsabilidade de lutar contra a corrupção do ambiente ao seu redor. Também é sua responsabilidade manter erguida a tocha ardente da grande verdade trazida pelo Mensageiro (que a paz esteja com ele) e fazer sua luz expandir-se tanto que, no mundo da civilização e da cultura, essa tocha se transforme em um sol radiante. Foi para preencher essa lacuna que empreendi esta modesta obra.
Para estudar a história, adotei a perspectiva do Alcorão. A meu ver, o mundo espalhado ao nosso redor é um mundo inquieto e dinâmico. É um mundo diversificado e mutável. Acima de tudo, é um mundo de competição, conflitos, confrontos, jihad e luta. Nele existem tanto atração quanto repulsão. Nele há reação junto com ação, construção junto com destruição e escuridão junto com luz. Aqui, a noite e o dia perseguem-se mutuamente. A vida e a morte, o fogo e a água, o inverno e a primavera estão em guerra entre si. Em suma, para onde quer que olhem neste mundo e em qualquer de seus domínios, verão coisas opostas envolvidas em confronto direto. Num espaço insignificante e minúsculo deste universo — isto é, no planeta chamado Terra — encontra-se o mais terrível campo de batalha da vida humana. Todo o nosso sistema social e estatal é um grande oceano agitado pelas ondas. Nele, onda colide com onda, bolha com bolha e gota com gota a cada instante. Aqui, entre o certo e o errado, a verdade e a falsidade, a justiça e a injustiça, o bem e o mal, a opressão e a equidade, o pecado e a virtude, trava-se uma longa luta desde os tempos antigos até hoje. As rédeas dessa luta estão presas às mãos do ruh, isto é, do espírito, e do nafs, isto é, das más inclinações. Desses dois mananciais brotam, uma após outra, diversas ideias, crenças e doutrinas, e surgem sistemas coletivos com tipos variados de caráter e disposições contraditórias. Cada concepção, crença, doutrina, ideologia, caráter e sistema nasce acompanhado de seu congênere exatamente oposto. Toda força que nasce vem ao mundo trazendo consigo a força que se lhe opõe e é contrária. Dessa oposição e desse contraste surge um conflito totalizante que transformou toda a história da humanidade numa história de luta. A história dessa luta existe hoje diante de nós como uma história escrita em nosso próprio sangue.
Desde o alvorecer da civilização humana, em todas as épocas e países, trava-se uma luta permanente e total. Em alguns lugares, essa luta é travada com as armas da razão; em outros, com armas mortais. Nessa luta, os seres humanos têm-se dividido em dois lados e desempenhado dois papéis. De um lado, são portadores da bandeira da anarquia, da injustiça e da falsidade. De outro, são porta-estandartes da justiça, da verdade, da honestidade e do bem. Às vezes, tornam-se ativos carregadores das bagagens dos vilões da destruição e da corrupção. Outras vezes, avançam como firmes apoiadores dos convocadores e promotores de obras construtivas. Há uma espécie de demônios em forma humana que se empenha com todas as forças na tentativa de afligir a vida humana com sofrimento, miséria e calamidades. Em contrapartida, há pessoas que distribuem generosamente todos os seus recursos e meios para transformar a Terra num paraíso repleto de felicidade, paz e alegria. Entre os soldados dispostos a morrer na guerra da vida, há aqueles por cujas mãos se espalham torrentes de mentira, opressão e transgressão. E há também uma classe de mujahidin intransigentes que deixam o mundo fazendo ressoar o toque de vitória da verdade, da justiça e da equidade.
Foram esses soldados combatentes da verdade, da justiça e da equidade que tornaram a Terra um pouco mais habitável e a vida humana um pouco mais desfrutável. Tudo aquilo que hoje é considerado digno de algum apreço na sociedade constitui contribuição dessas grandes pessoas. Elas apresentaram aos seres humanos um modelo de vida ideal. Colocaram diante de nós um padrão e um modelo de civilização e cultura. Ofereceram-nos objetivos sublimes para a vida e excelentes princípios. Fizeram circular, pelas veias da história, o sangue de uma tradição eterna e imperecível. Fixaram no céu da civilização as estrelas resplandecentes dos valores morais. Deram às pessoas incentivo, entusiasmo, coragem e ambição elevada. Para servir aos objetivos e princípios, ensinaram o sacrifício, a entrega e a luta. Foi graças às obras gloriosas e às contribuições dessas grandes pessoas que a história se tornou tão valiosa que seus vestígios passaram a ser considerados dignos de preservação e continuarão a ser celebrados, até o Dia do Juízo Final, como fonte constante de nova inspiração para a humanidade.
Além disso, sempre que as forças opressoras e mentirosas do mal aprisionaram as pessoas nos tentáculos do governo fascista e tirânico, deixando-as indefesas, e quando elas, tendo perdido a coragem, foram lançadas no profundo abismo do desespero, foram justamente esses grandes heróis da história que avançaram como salvadores da humanidade. Despertaram os adormecidos, levantaram os caídos, fizeram os covardes beberem o elixir revigorante da bravura e recolocaram nas primeiras fileiras do campo de batalha aqueles que haviam deposto as armas, envolvendo-os novamente na luta contra as forças anárquicas e corruptas do mal. Em outras palavras, esses grandes heróis puseram fim à paralisia da história, derreteram o gelo do mar congelado da civilização, criaram um novo fluxo no rio estagnado do pensamento e da ação e, derrubando a tirania dura como aço, restauraram a liberdade e os direitos humanos. Assim, a caravana da humanidade avançou sem obstáculos pelo caminho reto e correto do autodesenvolvimento.
Na primeira fileira da classe virtuosa da sociedade humana, que participou da nobre tarefa de estabelecer a verdade, a justiça e o bem na Terra, bem como de promover a construção e o desenvolvimento, encontram-se os profetas e mensageiros, possuidores de uma dignidade incomparável. Além deles, os siddiqin — aqueles que, assim que recebem o convite ao Islã, o aceitam de todo o coração —, os mártires e os salihin, isto é, os justos, seguem os méritos dessa primeira fileira e trabalham sob sua liderança. E, na sagrada fileira dos profetas e mensageiros, a grande personalidade sobre quem primeiro se concentra o olhar, sem restrições, é Muhammad, sallallahu alaihi wa sallam. Ele é o maior amigo da humanidade e o maior benfeitor da humanidade em toda a história. Observem esse grande homem por qualquer ângulo, e suas inúmeras excelências e sua grandeza se tornarão luminosamente evidentes. Ao longo dos últimos catorze séculos, incontáveis pessoas partiram deste mundo enquanto descreviam essa grandeza e essas excelências; não há como saber quantas foram. Mas a realidade é que, até hoje, a descrição de suas excelências e de sua grandeza ainda não foi completada. Ninguém sabe quem, no futuro, será capaz de levar essa tarefa à sua conclusão. Pessoas do passado acalentaram o desejo irresistível de participar ao menos dessa nobre obra, e muitas outras também o acalentarão no futuro. Certa vez, esse desejo irresistível apoderou-se de mim também. Desejei apresentar, de modo especialmente breve, este aspecto da vida do Rasul, sallallahu alaihi wa sallam: quando ele entrou em campo para promover o bem-estar e a reconstrução da humanidade, que tipo de opressão e perseguição teve de suportar; como a recompensa pelos serviços de um servidor incomparável da humanidade lhe foi dada, durante toda a vida, por meio de oposição cega e de condutas extremamente vis. E, por outro lado, ao avançar em meio a tamanha opressão, perseguição, oposição e tumulto de maus-tratos, que tipo de caráter o Rasul, sallallahu alaihi wa sallam, continuou demonstrando. Nesta dolorosa história da vida do amado Profeta há ensinamentos tanto para aqueles que desejam estabelecer o governo dos justos quanto para aqueles que resistem à luta pela implantação desse governo.
Este é o lugar de Muhammad, sallallahu alaihi wa sallam, na história da humanidade. A história testemunha que ele foi o maior criador da história.
Quando o Mensageiro (que a paz esteja com ele) surgiu para realizar a maior obra em benefício da humanidade, Satanás reuniu todas as perseguições e crueldades infligidas aos profetas e mensageiros ao longo das eras e obrigou esse jovem órfão e desamparado a travar uma luta em todas as frentes. A cena da vida do Mensageiro (que a paz esteja com ele) era semelhante à de um nadador sem barco, em meio à escuridão absoluta, lutando incessantemente contra ondas enormes como montanhas num mar revolto pela tempestade. Uma tempestade furiosa rugia, e, no céu coberto por nuvens negras e densas, relâmpagos ocasionais ofuscavam os olhos. O trovão ameaçava arrebentar os ouvidos. Mesmo assim, o nadador intransigente continuava avançando, seguindo seu próprio caminho. Haverá, em toda a história, algum outro exemplo de perseguição e opressão tão trágicas e de uma luta tão intransigente e indomável?
Sempre que se encena o drama da luta entre a verdade e a falsidade, entre a justiça e a injustiça, seu caráter fundamental permanece o mesmo. O tempo muda, o ambiente geográfico se transforma e os nomes dos protagonistas também mudam. Mas seus papéis específicos jamais se alteram. Um dos papéis é o do propagador da da‘wa.
O protagonista do segundo papel é formado por aquelas pessoas sinceramente dedicadas e puras da sociedade que, assim que ouvem o chamado à verdade, à justiça e à boa conduta, conseguem reconhecê-lo por sua inclinação natural. Elas se alegram e se encantam com esse chamado, aceitam-no sem hesitação e de todo o coração, e assumem o papel de seus primeiros seguidores.
O terceiro papel é assumido por aqueles que discordam educadamente. Eles escutam e refletem sobre o que ouvem. Porém, devido à falta de conhecimento e consciência, bem como a certos obstáculos psicológicos, demoram a compreender a verdade.
Os protagonistas do quarto papel são os grupos de inimigos extremamente fanáticos e veementes, que, por causa de seus próprios interesses, posição social e hábitos corrompidos, começam desde o primeiro dia a se opor de maneira extremamente imprudente. Sua oposição continua apenas aumentando cada vez mais. O quinto papel é assumido pelas massas fracas, tão indefesas diante do poder avassalador das classes superiores da sociedade que não conseguem desempenhar nenhum papel corajoso e ativo. Mentalmente, também não possuem capacidade para compreender o significado mais profundo de qualquer chamado. Por isso, em geral, permanecem durante gerações como espectadores silenciosos do conflito entre os propagadores da verdade e seus inimigos, aguardando para ver qual será o destino de cada lado. Quando um dos lados vence, essa inundação popular flui para o lado da força vitoriosa. Assim, o drama da luta entre a verdade e a falsidade depende dos atores de dois papéis: o papel dos propagadores da verdade e de seus seguidores, e o papel dos opositores ativos e fanáticos. É absolutamente impossível encenar o drama do chamado à verdade sem que os atores desses dois papéis se confrontem. Se você levantar a voz em defesa da verdade e da justiça, é impossível que as forças defensoras da falsidade e da injustiça não se reúnam para resistir. Se você começar a trabalhar pelo bem e pelo serviço à humanidade, é inconcebível que todas as forças perversas da sociedade não se unam e avancem furiosamente contra você, munidas das terríveis armas dos insultos, acusações falsas, difamação, propaganda maliciosa, calúnia, conspiração e violência.
Foi exatamente isso que aconteceu com o Mensageiro (que a paz esteja com ele). Se ele tivesse apenas proferido algumas palavras bonitas, refletido sobre questões de bem-estar público, passado a vida adorando Allah por meio de inclinações e prostrações realizadas de uma maneira específica, conforme sua preferência, permanecido isolado e reservado, ocupado com recordações e louvores, ou mesmo continuado a proferir bons sermões e exortações, formado uma seita de mestres e discípulos e organizado, com seus seguidores, uma associação inofensiva, a sociedade teria tolerado tudo isso. Mas ele queria transformar todo o sistema de vida. Queria reconstruir inteiramente o edifício da sociedade e da civilização. Fora ordenado a demolir todo o sistema coletivo e reconstruí-lo segundo o melhor projeto. Pretendia destruir o acordo injusto, embora sólido, que a sociedade daquela época havia estabelecido entre interesses instalados e direitos adquiridos. Fora enviado para formar as pessoas segundo uma nova estrutura de crenças e valores morais. Desde o primeiro dia, ele convocou as pessoas para essa missão, e desde o primeiro dia o povo compreendeu o significado de seu chamado. Foi justamente por compreender esse significado que, como reação natural, surgiram as atividades de oposição da sociedade da ignorância.
Sempre que se analisam, em qualquer época, os opositores do movimento universal pela verdade e pela justiça, constata-se que as estratégias e a sequência de suas ações negativas foram sempre semelhantes. Primeiro, costumavam fazer zombarias e escárnios banais. Depois, numa etapa seguinte, desencadeavam uma onda de insultos, falsas acusações, difamação, propaganda maliciosa e atribuição de títulos infamantes. Em seguida, iniciavam campanhas deliberadamente falsas para criar confusão e mal-entendidos entre o povo. Quando a situação se agravava ainda mais, por um lado alegavam que os interesses nacionais e a unidade estavam ameaçados; por outro, sob pretextos religiosos, tentavam incitar as massas ignorantes. Enquanto isso, também travavam batalhas de argumentos e promoviam campanhas para humilhar o propagador da da‘wa por meio de perguntas e respostas. Quando perceberam que um movimento perigoso estava ganhando força progressivamente, tentaram chegar a um acordo por meio de tentações. Ao verem que todas as suas artimanhas fracassavam, adotaram o método extremamente abominável da violência. O Mensageiro (que a paz esteja com ele) e seus companheiros foram boicotados social e economicamente. Conspirações de opressão e perseguição também foram postas em prática. Por fim, chegou-se até a conspirar para assassinar o Mensageiro (que a paz esteja com ele). Mesmo depois disso, como não conseguiram silenciar o movimento pela instauração da verdade e da justiça, declararam guerra e convocaram para um confronto direto. Todas essas etapas surgiram, uma após outra, na vida do Mensageiro (que a paz esteja com ele). Mas Allah o fez alcançar um sucesso glorioso em cada uma delas. Por fim, toda a Arábia acabou aos pés do Mensageiro (que a paz esteja com ele).
Neste livro, os acontecimentos da vida do Mensageiro (que a paz esteja com ele) foram apresentados com base em fontes extremamente confiáveis e numa sequência rigorosamente adequada, de tal modo que a cena da terrível luta entre a verdade e a falsidade, entre o bem e o mal, travada pelo Mensageiro (que a paz esteja com ele), rompe a imobilidade da história e surge claramente diante dos olhos. Toda a sua vida foi consumida nessa luta. Espero que, ao ler este livro, o leitor sinta que está muito próximo do Mensageiro (que a paz esteja com ele). Poderá ver o desenrolar dos acontecimentos ocorrendo diante de seus próprios olhos e contemplar, em seu mundo imaginário, as ondas impetuosas do movimento islâmico dançando. Assim, não poderá permanecer sentado como um espectador indiferente e neutro desse conflito entre a verdade e a falsidade. Ao contrário, nele despontará uma consciência positiva, e ele será levado a refletir sobre qual é, atualmente, sua posição na história da humanidade e qual deveria ser.
Tenho a firme esperança de que, deste livro, se poderá aprender coragem e bravura, e que se adquirirá a inspiração para cumprir responsabilidades e deveres mesmo nas situações mais difíceis. Nascerão devoção e amor por aquele grande homem de coração que foi o maior servidor da humanidade e que mais benefícios lhe proporcionou. O coração se encherá de gratidão por ele, e a mente, de profundo amor por ele. É isso que o Islã deseja. Ao ler este livro, compreender-se-á por quais duríssimas provas de fogo passou o portador da luz da verdade que hoje ilumina o nosso íntimo, que ferozes oposições enfrentou, que tipos de ataques repeliu e que imensos mares de sangue e lágrimas atravessou para fazer essa luz chegar até nós. Compreender-se-á também que o caminho dos porta-bandeiras da verdade e da justiça é extremamente espinhoso. Se esse caminho não se tornou livre de espinhos nem se cobriu de flores sequer para uma personalidade virtuosa como Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), para quem então se cobrirá de flores? Para quem será preparado um caminho curto e confortável, pelo qual uma pessoa possa sair de seu quarto seguro e ir diretamente ao Paraíso sem sequer sujar os pés de poeira? A leitura das histórias dolorosas da vida do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) elimina esse equívoco. Caso contrário, a pessoa permanece indiferente, sentada, considerando a obediência a Allah uma tarefa extremamente confortável. À luz da vida do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), devemos refletir: se as provas de fogo, as calamidades, as adversidades, os golpes e os ataques mencionados nos livros do Alcorão, dos hadiths e da sira como inevitáveis na vida de um verdadeiro crente não chegam à nossa vida, então devemos reconsiderar se o caminho que seguimos e o destino a que nos dirigimos estão corretos. Devemos investigar se aquilo que consideramos o caminho do Islã não é, na verdade, o caminho da incredulidade e da jahiliyyah. Ao estudar este livro, todo muçulmano poderá saber antecipadamente que, quando uma pessoa ou grupo da ummah muçulmana entrar em campo levando exatamente a da‘wah e o movimento do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e seguindo fielmente o método de ação por ele adotado, não poderão deixar de surgir contra ele zombaria e escárnio, calúnias, propaganda difamatória, injúrias, conspirações, opressão, perseguição e ataques violentos. Pois tudo isso constitui a recompensa mundana inevitável por esse trabalho. Em meio a todo esse ambiente de calamidades e infortúnios, não é fácil, em qualquer época, reconhecer o pregador da verdade em atividade, compreender suas palavras e aceitá-las. Isso só é possível aos afortunados que, estudando o Alcorão, os hadiths e a sira do Mensageiro, já adquiriram de antemão uma compreensão correta da eterna luta entre a verdade e a falsidade. Todo muçulmano deve saber que as forças da falsidade não pouparam a essência pura e inocente do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), e que aqueles que, posteriormente, não pouparam da opressão e da perseguição grandes personalidades como o Imam Husayn, o Imam Malik, o Imam Ahmad ibn Hanbal, o Imam Abu Hanifa, Hazrat Mujaddid Alf-e-Sani e Shah Waliullah, seguidores do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), também não pouparão ninguém. O estudo da sira do Mensageiro ensina-nos, em todas as épocas, a distinguir entre o caráter dos pregadores da verdade e o dos inimigos da verdade. Neste livro, expus claramente a identidade daqueles que se mantêm ativos no conflito entre o Islã e a incredulidade.
Espero que, por meio do estudo deste livro, nos tornemos conscientes da terrível contradição e incoerência que se estabeleceram entre a fé na Mensagem e a nossa vida prática. Hoje não resta no mundo um único país onde o sistema de vida trazido pelo Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) seja plenamente vitorioso e aplicado. Em todo o mundo muçulmano triunfam as monarquias e as ditaduras, mantendo-nos submersos na escuridão tanto da jahiliyyah antiga quanto da moderna. Mentalmente, estamos mergulhados na jahiliyyah da cabeça aos pés. Economicamente, também estamos derrotados. Culturalmente, somos conhecidos no mundo inteiro como uma nação de mendigos e, no plano internacional, somos vítimas da exploração dos imperialistas. Estamos sofrendo justamente as consequências amargas dessa discrepância entre a nossa fé e o nosso caráter.
Neste livro, convoquei principalmente à revitalização da da‘wah do Profeta universal. Meu objetivo fundamental é que possamos iniciar uma transformação em nossa vida seguindo exatamente o método de ação demonstrado pelo Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), e que possamos estabelecer o sistema social de magnanimidade e justiça que esse grande líder da humanidade instituiu à luz dos princípios do Alcorão e dos hadiths. Chegou o momento de nós e de nossa juventude livrarmos nossos ombros do peso da escravidão mental à civilização ocidental e hastearmos a bandeira da revolta intelectual contra esta era materialista. A biografia de Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) deve ser retirada das páginas dos livros e novamente escrita nas páginas da vida real. Seu ideal deve ser sistematizado na forma de uma organização coletiva e elevado à posição daquela terceira força que indica o caminho da libertação, cujo lugar ainda permanece vazio na história.
Que o Misericordioso Allah aceite este meu esforço insignificante e faça com que seu nobre objetivo seja alcançado.
Amém.
Na’im Siddiqi, 1º de dezembro de 1959.
Capítulo: 2
A personalidade em um relance
Quando fixo os dois olhos em seu rosto,
ele é como o relâmpago que cintila numa nuvem carregada de chuva. [Este famoso poeta árabe da época da Jahiliyyah compôs este verso tendo em mente uma personalidade que lhe era querida. Mais tarde, em certa ocasião, Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) aplicou-o apropriadamente ao Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz).]
— Abu Kabir al-Hudhali
Este rosto não pode pertencer a um mentiroso.
— Abdullah ibn Salam
Um vislumbre
[Escrito principalmente com base no Shama’il de Tirmidhi.]
Aqueles que prestam grandes contribuições meritórias ao mundo, especialmente os Profetas (que a paz esteja com eles), são sempre dotados de uma personalidade extraordinária. A verdadeira fonte da força daqueles que lideram movimentos e a reconstrução das civilizações é a sua personalidade, formada pela combinação de um tipo especial de pensamento e caráter. Compreender devidamente a personalidade do Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) é também um dos principais objetivos do estudo de sua Sira.
A beleza física de uma pessoa ajuda muito a compreender sua personalidade. Pela estrutura do corpo humano, da cabeça aos pés, e pela harmonia de seus membros, pode-se entender que nível de pessoa ela é em termos mentais, morais e espirituais. Especialmente no rosto ou semblante, encontra-se registrada toda a história do caráter e das ações de uma pessoa. Basta lançar-lhe um olhar para podermos perceber que tipo de pessoa ela é.
Nós, que viemos ao mundo em épocas posteriores, somos desafortunados nesse aspecto: o semblante incomparável do melhor dos homens não está diante de nós, e também não teremos a oportunidade de contemplá-lo neste mundo com nossos próprios olhos. O pouco vislumbre que podemos ter da beleza física do Mensageiro (que a paz esteja com ele) só pode ser visto no espelho de suas palavras e de seus feitos.
Não existe nenhum retrato verdadeiro nem estátua do Mensageiro (que a paz esteja com ele). O próprio Mensageiro (que a paz esteja com ele) proibiu que fossem feitas ou mantidas. Isso porque uma imagem é algo tão perigoso que de modo algum impede o risco de cair no shirk. Se existisse alguma imagem do Mensageiro (que a paz esteja com ele), não haveria limite para quantas atividades milagrosas seriam atribuídas a ele como sua origem, nem para quantos novos milagres seriam creditados a ele. Seria difícil até imaginar quantas cerimônias multicoloridas seriam realizadas em sua honra. Não seria de estranhar que até começassem a adorá-lo. Muitas imagens fictícias do Mensageiro (que a paz esteja com ele) foram produzidas na Europa. Mas que artista existe que tenha uma compreensão sutil, ampla e completa de cada aspecto dos pensamentos e das ações do Mensageiro (que a paz esteja com ele), e que consiga expressar plenamente essa compreensão com cores e pincéis? Uma imagem fictícia pode ser de qualquer outra pessoa, mas não de Muhammad (que a paz esteja com ele). Faz-se o retrato de uma personalidade inteiramente baseada em conjecturas e o apresenta-se como sendo do Mensageiro (que a paz esteja com ele). Na produção dessas imagens, não se demonstra a menor honestidade. Deliberadamente, criam-se imagens que dão a impressão de uma personalidade fraca e incompleta. Para produzir todas essas imagens, toma-se como base a concepção da personalidade encontrada justamente nos livros hostis do Ocidente, frutos de obstinação, precipitação, pensamento distorcido e ideias irreais. O mal de produzir imagens ou filmes sobre os profetas e as pessoas piedosas é que seu verdadeiro caráter pode desaparecer por trás da tela.
No entanto, os companheiros do Mensageiro (que a paz esteja com ele) traçaram seu retrato perfeito com o mínimo de palavras, e os transmissores nos transmitiram essas descrições em estado extremamente preservado e sem alterações. Aqui apresentamos esses retratos verbais, para que os leitores possam ter um vislumbre de sua personalidade antes de estudar o caráter desse grande homem. Isso também pode ser chamado de uma espécie de encontro, ou então de uma apresentação.
A impressão de seu santo semblante, de sua constituição física, de seu modo de andar e de sua beleza, que chegou até nós atravessando a distância de mil e quatrocentos anos, reflete a imagem de um homem que era, ao mesmo tempo, extremamente talentoso e inteligente, um herói corajoso, paciente, firme em seus princípios, honesto e justo, generoso e magnânimo, doador, consciente de suas responsabilidades, humilde e solene, afável e eloquente. Mais precisamente, deve-se dizer que a marca da profecia estava notavelmente presente em sua constituição física. Sua bela aparência e harmonia corporal eram símbolos de sua elevada posição. A esse respeito, é digna de menção uma declaração do Mensageiro (que a paz esteja com ele). Ele disse:
“O temor a Deus torna o rosto do ser humano luminoso e belo.”
Sendo a profecia o nível mais elevado da fé e do temor a Deus, o rosto do profeta não poderia deixar de ser luminoso.
Agora, venhamos contemplar um breve vislumbre de seu rosto deslumbrante, radiante como o sol.
Beleza física
“Reconheci o Mensageiro de Allah assim que o vi. Seu rosto não poderia ser o rosto de um mentiroso.” (Abdullah ibn Salam) [Ele era um dos mais destacados eruditos judeus. Seu nome era Husayn. Quando o Mensageiro de Allah chegou a Medina, ele foi vê-lo; aqui, ele relata a impressão que teve ao vê-lo. Abraçou a fé, e seu nome islâmico passou a ser Abdullah. (Sirat al-Mustafa, Maulana Idris Kandhalwi, primeiro volume, pp. 341–350)]
“Compareci levando meu filho comigo. As pessoas me mostraram: ‘Ali está o Mensageiro de Allah’. Assim que me sentei perto dele, disse em meu íntimo: ‘De fato, este é o Profeta de Allah’.” — Abu Ramtha al-Taymi
“Fiquem certos: vi o rosto luminoso deste homem, como a lua cheia. Ele jamais poderia ser desonesto em uma transação com vocês. Se uma pessoa assim não pagar o preço do camelo, eu o pagarei do meu próprio bolso.” — Uma senhora respeitável. [Uma caravana comercial havia chegado e parado nos arredores de Medina. Por acaso, o Mensageiro de Allah foi até aquele lugar. Escolheu um camelo e acertou o preço. Depois, levou o camelo, dizendo que enviaria o pagamento. Mais tarde, os vendedores de camelos ficaram apreensivos, pensando: ‘Que negócio foi esse de vender um camelo fiado a um desconhecido?’ Nesse momento, a esposa do chefe da caravana disse-lhes as palavras acima para tranquilizá-los. O episódio foi narrado por Tariq ibn Abdullah, um membro daquela caravana. Pouco depois, o Mensageiro de Allah enviou tâmaras em quantidade superior ao preço combinado. (Sirat al-Nabi, Shibli Nomani, segundo volume, p. 380; al-Mawahib al-Ladunniyya, primeiro volume, p. 244.)]
“Nunca vimos um homem tão belo. Vimos a luz irradiar de seu rosto.” — A mãe e a tia de Abu Qaysana. [Essas duas mulheres foram com Abu Qaysana até o Mensageiro de Allah para prestar-lhe a bai‘ah (juramento de lealdade). No caminho de volta, expressaram essa reação. (Al-Mawahib al-Ladunniyya, primeiro volume, p. 255)]
“Nunca vi ninguém mais belo que o Mensageiro de Allah. Parecia que o sol cintilava.” — Abu Hurayra
“Se você visse o Mensageiro de Allah, pensaria que o sol havia nascido.” — Rabi‘ bint Mu‘awwidh
“Quem quer que visse o Mensageiro de Allah ficava atônito à primeira vista.” — Ali
“Certa vez, numa noite de luar, eu observava o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Naquele momento, ele estava envolto em uma veste vermelha. Eu olhava uma vez para a lua e outra vez para ele. Por fim, cheguei à conclusão de que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) era mais belo do que a lua.” — Hazrat Jabir bin Samura
“Quando estava feliz, o rosto do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) brilhava como a lua. Só de vê-lo, percebíamos sua alegria.” — Ka’b bin Malik
“Havia em seu rosto um brilho semelhante ao da lua.” — Hind bin Abi Hala
Rosto
“Redondo como a lua cheia.” — Bara bin Azib
“Seu rosto não era completamente redondo, mas quase redondo.” — Hazrat Ali
“Testa larga, sobrancelhas arqueadas, finas e espessas; as duas sobrancelhas eram separadas, e entre elas havia uma veia saliente que se tornava evidente quando ele ficava zangado.” — Hind bin Abi Hala
“Sinais de alegria surgiam em sua testa.” — Ka’b ibn Malik
Tez
“Não era branco como cal, nem de tez escura. Tinha a cor do trigo, porém um pouco esbranquiçada.” — Hazrat Anas
“Branco-avermelhado.” — Hazrat Ali
“Branco, mas luminoso.” — Abu Tufail
“Branco e radiante.” — Hind ibn Abi Hala
“Seu corpo parecia feito de prata.” — Hazrat Abu Huraira
Olhos
“Olhos negros, cílios longos.” — Hazrat Ali
‘‘As pupilas eram negras, o olhar baixo, com a tendência recatada de olhar pelo canto dos olhos.’’ – Hind ibn Abi Hala
‘‘A parte branca dos olhos tinha veias vermelhas; as órbitas eram longas e pareciam naturalmente delineadas com kohl.’’ – Jabir ibn Samura
Nariz
‘‘Um tanto elevado; sobre ele havia um brilho luminoso, por isso parecia grande à primeira vista.’’ – Hind ibn Abi Hala
Bochechas
‘‘Suaves e planas, um pouco carnudas na parte inferior.’’ – Hind ibn Abi Hala
Rosto
‘‘Largo.’’ – Jabir ibn Samura
“Largo.” — Hind ibn Abi Hala
Dentes
“Finos, brilhantes. Um encanto luminoso nos dentes da frente.” — Hazrat Ibn Abbas
“Quando ele falava, um brilho cintilava em seus dentes.” — Hazrat Abbas
Barba
“Rosto cheio de barba espessa.” — Hind ibn Abi Hala
Pescoço
“Fino e longo, belo como se tivesse sido esculpido cuidadosamente, como uma estátua.”
“A cor do pescoço era brilhante e agradável como a lua.” — Hind ibn Abi Hala
Cabeça
“Grande, porém de tamanho médio e bem proporcionado.” — Hind ibn Abi Hala
Cabelos
“Levemente cacheados.” — Abu Huraira
“Não eram completamente lisos, nem muito cacheados.” — Qatada
“Levemente cacheados.” — Anas
“Espessos; às vezes chegavam até os lóbulos das orelhas, e às vezes até o pescoço.” — Bara ibn Azib
“Tinha o cabelo repartido ao meio.” — Hind ibn Abi Hala
“Não tinha muitos pelos no corpo. Havia uma fina faixa de pelos do peito até o umbigo.” — Hazrat Ali e Hind ibn Abi Hala
“Havia apenas alguns pelos no pescoço, nos braços e na parte superior do peito.” — Hind ibn Abi Hala
Constituição geral do corpo
“Tinha uma constituição física robusta. Os ossos das articulações dos membros eram grandes e fortes.” — Hind ibn Abi Hala
“Não tinha o corpo corpulento.” — Hazrat Ali
“Não era muito alto nem baixo; tinha estatura mediana.” — Hazrat Anas (r.a.)
“Era um pouco alto. Quando ficava em pé entre muitas pessoas, parecia ainda mais alto.” — Bara ibn Azib
“Não tinha o abdômen proeminente.” — Umm Ma‘bad
“Era mais vigoroso e forte do que aqueles criados na abundância dos bens mundanos (apesar de ter suportado fome e pobreza).” [É muito conhecido o relato de que, ao realizar a Umrah, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) conduziu sozinho cem camelos e abateu pessoalmente sessenta e três deles. Os restantes foram confiados a Ali (que Allah esteja satisfeito com ele). (Al-Mawahib, volume 1, página 310.)]
“Nunca vi ninguém mais forte do que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele).” — Ibn Umar [Em Meca havia um lutador profissional chamado Rukana. Certa vez, quando o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) o visitou e o convidou ao Islã, ele pediu uma prova da profecia. O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) manifestou o desejo de lutar com ele, de acordo com sua preferência. Lutaram três vezes, e nas três vezes ele o derrotou. Além disso, derrotou em luta livre Abu al-Aswad al-Juhami e vários outros. (Al-Hakim, Abu Dawud, Tirmidhi e al-Bayhaqi; Al-Mawahib al-Ladunniyya, primeiro volume, p. 303.)]
Ombros e peito
“O peito era largo, e o peito e o abdômen eram planos.” — Hind ibn Abi Hala
“O peito era largo.” — Bara ibn Azib
“A distância entre os dois ombros era maior do que a medida comum.” — Hind ibn Abi Hala e Bara ibn Azib
“A região entre os dois ombros era musculosa.” — Ali
Mãos e braços
“Os braços eram longos, as palmas das mãos, largas, e os dedos, proporcionalmente longos.” – Hind ibn Abi Hala
“Nunca vi seda, fosse fina ou espessa, ou qualquer outra coisa tão macia quanto as mãos do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele).” – Abbas
Pés
“As panturrilhas não eram carnudas; eram leves e delgadas.” – Jabir ibn Samura
“As palmas das mãos e as plantas dos pés eram carnudas. As plantas dos pés eram ligeiramente côncavas. Eram tão delgadas que nem mesmo a água permanecia sobre elas.” – Hind ibn Abi Hala
“Havia pouquíssima carne nos calcanhares.” – Jabir ibn Samura
Um retrato geral
Embora muitos companheiros do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) tenham fornecido relatos impressionantes sobre ele, não há comparação com o relato de Umm Ma‘bad. Quando o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) partiu da caverna do monte Thawr para emigrar para Medina, no primeiro dia fez uma pausa na casa dessa nobre anciã da tribo de Khuzá‘a. O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e seus companheiros estavam extremamente sedentos. Pela graça especial de Allah, a velha, faminta e debilitada cabra deu naquele momento tanto leite que, depois de o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e seus companheiros beberem até se saciar, ainda restou um pouco. Ao voltar para casa, o marido de Umm Ma‘bad ficou surpreso ao ver o leite. Perguntou de onde ele tinha vindo. Umm Ma‘bad contou-lhe todo o acontecido. Então seu marido disse: “Descreva-me a aparência desse jovem coraixita, para que eu veja se ele é o tão esperado homem.” Umm Ma‘bad então fez uma descrição dele em linguagem magnífica. Naquela época, Umm Ma‘bad não conhecia o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), nem nutria inveja ou hostilidade contra ele. Ela descreveu exatamente o que havia visto. É melhor consultar essa descrição no árabe original. [Veja Zād al-Ma‘ād, vol. 1, p. 307]. Aqui apresentamos sua tradução:
“Rosto puro e amplo, caráter agradável, ventre não saliente, sem calvície, belo e formoso, olhos negros, grandes e expressivos, cabelos longos e espessos, voz grave e solene. Pescoço alto, olhos realçados com kohl, sobrancelhas finas e unidas, cabelos negros e ondulados. Silenciosamente digno e sincero; visto de longe, belo e cativante. Visto de perto, extremamente doce e formoso. De fala agradável e expressão clara; sua conversa era livre de palavras desnecessárias. Todas as suas palavras se encadeavam como um colar de pérolas. De estatura mediana: ninguém o considerava repulsivo nem o desprezava. Belo e jovem, era amado por aqueles que o acompanhavam constantemente. Quando falava, todos escutavam em silêncio; quando dava uma ordem, todos se apressavam imediatamente para cumpri-la. Servido por todos e obedecido por todos; não falava menos do que o necessário, nem era excessivamente loquaz.” [Zād al-Ma‘ād, vol. 1, p. 307].
Vestuário
A personalidade de uma pessoa também se manifesta por meio de suas roupas. O tamanho, o comprimento, a largura, a cor, a qualidade, a limpeza e outras características semelhantes de suas roupas revelam que tipo de caráter e mentalidade possui quem as veste. As informações fornecidas pelos companheiros do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) acerca de suas roupas revelam em grande medida seu gosto e sua mentalidade.
Na realidade, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) apresentou uma interpretação prática do seguinte versículo sobre o vestuário:
﴿يَابَنِيآدَمَقَدْأَنزَلْنَاعَلَيْكُمْلِبَاسًايُوَارِيسَوْآتِكُمْوَرِيشًاۖوَلِبَاسُالتَّقْوَىٰذَٰلِكَخَيْرٌۚذَٰلِكَمِنْآيَاتِاللَّهِلَعَلَّهُمْيَذَّكَّرُونَ﴾
“Ó filhos de Adão, determinamos para vós roupas que cobrem as vossas partes íntimas e que realçam a vossa beleza. Contudo, a roupa da piedade é a melhor.” (Surata Al-A‘raf: 26)
As demais características das roupas são descritas na Surata An-Nahl da seguinte maneira:
سَرَابِيلَتَقِيكُمُالْحَرَّوَسَرَابِيلَتَقِيكُمبَأْسَكُمْ
“Ele vos forneceu roupas e armaduras para vos proteger do calor e vos manter seguros na guerra.” (Surata An-Nahl)
Assim, a principal característica das vestes do Mensageiro (S.A.W.) era que elas cobriam a nudez, proporcionavam beleza e eram vestes de taqwa, isto é, de temor a Deus e retidão. Elas atendiam às necessidades, garantiam a observância dos princípios morais e refletiam o bom gosto próprio de pessoas nobres. O Mensageiro (S.A.W.) evitava rigorosamente a arrogância, a pompa, o luxo e a ostentação. Ele disse:
“Sou apenas um servo de Allah e visto as roupas apropriadas aos servos.” [Al-Mawahib al-Ladunniyya, vol. 1, p. 328.] Ele declarou proibidas aos homens as roupas feitas de seda. Certa vez, vestiu uma camisa de seda que havia recebido de presente. Contudo, tirou-a imediatamente, com grande inquietação. Como deixar a camisa, o lungi e o turbante excessivamente compridos era sinal de arrogância, e esse tipo de vestimenta era costume dos arrogantes, ele a detestava intensamente. [Abu Dawud, An-Nasa’i, Ibn Majah, At-Tirmidhi, Musnad Ahmad].
Ele também proibiu imitar as vestes de outras nações, especialmente os tipos específicos de roupas usados por suas classes de sacerdotes religiosos. [Musnad Ahmad, Abu Dawud]. Ele impôs essa proibição para preservar a identidade e o senso de dignidade da ummah, impedindo que, ao imitar roupas e modas, as pessoas começassem também a imitar o caráter e os ideais alheios. Por isso, introduziu um gosto inteiramente novo para as vestimentas, a moda e a cultura abrangidas pela cultura islâmica. O Mensageiro (S.A.W.) dava especial atenção à maneira de preservar, nas roupas, a proteção contra o clima, a cobertura da nudez, a simplicidade, a limpeza e a dignidade. Se observarmos as vestes do Mensageiro (S.A.W.) no contexto das tendências culturais contemporâneas, das necessidades geográficas, culturais e climáticas da Arábia e dos costumes então vigentes, ficará claro que aquelas vestes eram um símbolo de gosto extremamente elevado. Vejamos agora como eram as vestes do Mensageiro (S.A.W.). [Consultar Ash-Shama’il at-Tirmidhi, Zad al-Ma’ad e Al-Mawahib al-Ladunniyya].
Ele gostava muito de usar camisas. As mangas não eram nem muito justas nem muito largas; eram de largura média. Às vezes, as mangas chegavam até os cotovelos e, outras vezes, até os pulsos. A camisa que usava quando estava fora de casa, especialmente durante viagens para o jihad, tinha comprimento e mangas relativamente mais curtos. A parte da camisa que cobria o peito na frente podia ser deixada aberta por necessidade climática, e ele também rezava nessa condição. Ao vestir a camisa, introduzia primeiro o braço direito e depois o esquerdo. Também ensinava isso aos Companheiros. A preferência pela mão direita e seu uso nas boas ações constituíam uma parte importante da cultura ensinada pelo Mensageiro (S.A.W.).
Ele usou o lungi durante toda a vida. Mantinha-o ligeiramente abaixo do umbigo e o vestia até um pouco acima dos tornozelos. A parte da frente ficava ligeiramente mais baixa.
Ele gostou da pajama assim que a viu pela primeira vez. Os Companheiros também a usavam. Certa vez, ele próprio comprou uma. (Há divergência quanto a ter ou não chegado a vesti-la.) Ela foi encontrada entre os bens que deixou. O episódio da compra da pajama é bastante interessante. O Mensageiro (S.A.W.) foi ao mercado acompanhado de Abu Huraira (R.A.) e entrou nas lojas dos vendedores de roupas. Comprou a pajama por quatro dirhams. No mercado havia um pesador renomado para pesar as mercadorias. Levaram a pajama até ele para que a pesasse, e o Mensageiro disse: “Pese-a inclinando a balança.” (Isto é, pese-a de modo que o peso seja maior que o peso real.) O pesador disse: “Nunca ouvi ninguém dizer algo assim.” Abu Huraira (R.A.) chamou sua atenção, dizendo: “Você não reconhece o seu Profeta?” O homem imediatamente avançou para beijar a mão do Profeta, mas ele o impediu e disse: “Esse é um procedimento não islâmico.” De qualquer modo, ele mandou pesar a pajama, comprou-a e foi embora. Abu Huraira perguntou, surpreso: “O senhor realmente a usará?” A razão de sua surpresa provavelmente era, em primeiro lugar, o espanto diante de uma mudança tão significativa em relação a um costume antigo. Em segundo lugar, a pajama era uma vestimenta persa, enquanto o Mensageiro (S.A.W.) evitava tudo o que fosse próprio de povos estrangeiros. (Naturalmente, ele aceitava os bons elementos da cultura de outras nações.) O Mensageiro (S.A.W.) disse: “Sim, vou usá-la. Usá-la-ei em casa ou no estrangeiro, de dia ou de noite, em todas as circunstâncias, pois fui ordenado a cobrir o awrah, e não há vestimenta melhor para cobrir o awrah do que a pajama.” [Al-Mawahib al-Ladunniyya, vol. 1, pp. 336–337].
Gostava muito de usar um turbante na cabeça. O turbante não era nem muito grande nem muito pequeno. Segundo uma narração, tinha sete jardas de comprimento. Deixava uma ponta do turbante pendurada atrás, com cerca de um palmo de comprimento. Às vezes, para se proteger da intensidade do sol, abria o turbante e sua ponta, espalhando-os sobre a cabeça. Conforme a necessidade do clima, às vezes desfazia a última volta do turbante e a enrolava ao redor do pescoço. Quando não tinha turbante, amarrava um grande lenço na cabeça. [Segundo alguns, fazia isso somente quando estava doente, especialmente quando sentia dor de cabeça]. Para manter o turbante protegido da oleosidade, por razões de higiene, usava sobre os cabelos, sob o turbante, um tecido especial chamado em árabe ‘kan-na’. Ainda hoje, muitas pessoas usam um pedaço de papel ou celuloide sob o gorro. É verdade que esse pedaço ficava manchado de óleo. Contudo, era tão cuidadoso com a limpeza que, segundo várias narrações, ninguém jamais viu esse pedaço sujo. Além do branco, às vezes usava turbantes amarelos (muito provavelmente de cor parda ou cinzenta). Na conquista de Meca, também usou um turbante preto. Usava e apreciava igualmente um gorro de tecido sob o turbante. Segundo algumas narrações, esse uso do turbante junto com o gorro tornou-se um estilo especial da cultura islâmica, e o Mensageiro (S.A.) declarou esse estilo uma moda particular em oposição aos politeístas.
Às vezes, sem turbante, usava apenas um gorro branco. O gorro usado em casa ficava ajustado à cabeça. Já o gorro que usava em viagens era relativamente alto. Também usava um gorro pontudo, feito de tecido densamente costurado.
Usava um xale de quatro jardas de comprimento e dois metros e um quarto de largura. Às vezes enrolava-o ao redor do corpo; outras vezes, passava uma extremidade diretamente por baixo da axila e colocava-a sobre o ombro oposto. Às vezes, ainda, usava esse xale para envolver as pernas enquanto estava sentado; em outras ocasiões, dobrava-o e o utilizava como travesseiro sob a cabeça. Às vezes também estendia o xale para receber visitantes nobres que vinham procurá-lo. Gostava muito dos xales iemenitas chamados jabara. Eles tinham listras vermelhas ou verdes. Certa vez, fizeram para o Mensageiro (S.A.) um xale preto, provavelmente de lã. Quando o vestiu, começou a exalar mau cheiro por causa do suor. Por isso, não voltou a usá-lo, por razões de higiene.
Geralmente vestia roupas novas às sextas-feiras, louvando e agradecendo a Allah. Não mantinha conjuntos extras de roupas. Remendava e consertava as roupas. Como precaução, às vezes inspecionava a casa para verificar se, por conviver com pessoas comuns, algum piolho ou percevejo havia entrado. (Às vezes, pessoas desleixadas também compareciam às orações congregacionais e às reuniões. Mesmo o nível geral dessa falta de higiene só conseguiu melhorar um pouco após muitos anos de esforço contínuo.)
Por um lado, a pobreza e a simplicidade eram uma das características marcantes de sua vida. Por outro, também era sua responsabilidade combater o ascetismo. Certa vez, ao ver um homem abastado levando uma vida excessivamente semelhante à dos pobres, disse: “Allah, o Altíssimo, gosta que os efeitos das bênçãos que concedeu se manifestem na vida de Seu servo.” [Tirmidhi e Nasa’i].
De acordo com esse princípio, o Mensageiro (S.A.) às vezes também vestia roupas elegantes. Seguir um caminho moderado e equilibrado era sua regra, e ele queria proteger sua comunidade dos excessos e dos extremos. Certa vez, usou também uma túnica romana com mangas estreitas. Vestiu ainda um conjunto vistoso com listras vermelhas. Às vezes, usava igualmente uma túnica real tailasani persa. [Al-Mawahib al-Ladunniyya]. Certa vez, comprou por vinte e sete camelas um conjunto de roupas valiosas, vestiu-o e rezou usando-o. Isso era, na verdade, uma explicação prática do versículo do Alcorão: “Dize: quem proibiu os adornos que Allah concedeu?” (Surata Al-A’raf). Contudo, a regra geral era que preferia roupas simples e sem ostentação.
Quanto às roupas, o branco era sua cor preferida. Ele disse: “Para vós, a melhor roupa para vos apresentardes diante de Allah é a roupa branca.” [Abu Dawud, Ibn Majah]. Disse também: “Vesti roupas brancas e amortalhai os mortos com roupas brancas, pois elas são mais puras e mais agradáveis.” [Ahmad, Tirmidhi, Nasa’i, Ibn Majah].
Depois do branco, sua cor preferida era o verde. Contudo, gostava que tivesse listras verde-claras. Detestava muito as roupas de vermelho puro. (Não apenas nas roupas: em certos casos, proibiu também a cor vermelha em outras coisas. Entretanto, usava tecidos com listras vermelhas claras. Da mesma forma, também usou roupas amarelo-claras, de cor parda.)
Os calçados do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) tinham o formato de sandálias ou tamancos, conforme o costume árabe da época. Tinham duas tiras: uma passava entre o dedão e o dedo adjacente do pé, e a outra, entre os dois dedos seguintes. Não tinham pelos. Como os calçados das pessoas comuns, mediam um palmo e dois dedos de comprimento. Às vezes calçava-os em pé e às vezes sentado. Ao calçá-los, introduzia primeiro o pé direito e depois o esquerdo; ao tirá-los, retirava primeiro o pé esquerdo e depois o direito. Usava meias de qualidade comum, média e superior. O rei Negus lhe presenteou com meias pretas; ele as usou e fez a ablução passando as mãos sobre elas. Da mesma forma, Dihya al-Kalbi também lhe presenteou com meias, que ele usou até se rasgarem.
Usava um anel de prata, que também tinha um engaste de prata. Às vezes, o engaste era de pedra abissínia. Segundo alguns relatos, tratava-se de um anel de ferro polido com prata. Por outro lado, é bem conhecido que ele não gostava de anéis de ferro como joias. Normalmente usava o anel na mão direita, embora às vezes também o usasse na esquerda. Não o usava no dedo médio nem no indicador; preferia usá-lo no dedo adjacente ao médio. Mantinha o engaste voltado para a palma da mão, e não para cima. No engaste estava gravado “Muhammadur Rasulullah”. Com ele, selava suas cartas. Segundo os historiadores, esse anel foi feito especificamente para servir de selo. Sua necessidade era indispensável devido à sua posição política.
Vestimentas e adornos
O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) mantinha os cabelos muito bem penteados e arrumados. Usava bastante óleo. Penteava-os, fazia a risca, aparava os pelos excedentes do lábio e mantinha a barba aparada uniformemente, tanto no comprimento quanto na largura. Também ensinava seus companheiros a cuidar disso. Certa vez, ao ver um companheiro com os cabelos desgrenhados, repreendeu-o severamente. Ele próprio aparou os pelos excedentes da barba de outro companheiro e disse: “Quem deixar crescer os cabelos ou a barba deve mantê-los bem cuidados.” Disse a Qatadah: “Mantenha a barba bem cuidada.” [Abu Dawud].
O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) insistia nisso porque, muitas vezes, as pessoas ligadas à religião tornam-se negligentes quanto à limpeza. Em especial, os propagadores do tasawwuf ascético costumam considerar a sujeira um sinal de elevada posição espiritual. Ele tomou medidas para eliminar esse equívoco. Onde quer que estivesse, em viagem ou em casa, mantinha sempre perto de si e junto à cama sete coisas: um frasco de óleo, um pente, um recipiente de kohl (kohl preto), uma tesoura, um siwak, um espelho e um pedaço de madeira leve.
Ao se deitar à noite, aplicava kohl três vezes em cada olho. No fim da noite, depois de atender às necessidades naturais, fazia a ablução, trocava de roupa e aplicava perfume. Gostava especialmente do perfume chamado raihan. Também apreciava a fragrância das flores de hena. Seus perfumes preferidos eram o almíscar e o sândalo.
Em casa, espalhava a fumaça de substâncias aromáticas. Mantinha e usava um recipiente para perfumes, com fragrâncias de alta qualidade. (Às vezes, Aisha aplicava o perfume nele com as próprias mãos.) É amplamente conhecido que a rua por onde passava a pé permanecia perfumada por muito tempo. O próprio ar anunciava que por ali havia passado pouco antes o mensageiro da primavera eterna. Quando alguém lhe oferecia uma substância perfumada, ele certamente a aceitava. Se alguém não aceitava seu presente perfumado, ficava descontente. De acordo com o gosto particular da cultura islâmica, preferia, para os homens, perfumes cuja cor fosse invisível e cuja fragrância se espalhasse por toda parte; para as mulheres, preferia perfumes cuja cor fosse visível e cuja fragrância não se espalhasse.
Modo de andar
Na maneira de andar do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) refletiam-se solenidade, dignidade, cortesia e senso de responsabilidade. Caminhava firmemente, dando passos decididos. Não arrastava os pés de modo preguiçoso. Ao caminhar, mantinha o corpo recolhido. Seguia seu caminho sem olhar para a direita ou para a esquerda. Erguia os pés com vigor e os projetava para a frente. Ao caminhar, inclinava o corpo ligeiramente para a frente. Tinha-se a impressão de que descia de um lugar elevado. Nas palavras de Hind ibn Abi Hala: “Ao vê-lo caminhar, parecia que a terra se recolhia à medida que ele avançava.” Quando caminhava depressa, afastava mais os passos; normalmente, porém, caminhava em ritmo moderado. Mas, nas palavras do honorável Abu Hurayra (que Allah esteja satisfeito com ele): “Era difícil para nós acompanhá-lo.” Seu modo de caminhar era a manifestação prática da orientação da surata Luqman: “Não andes pela terra com arrogância.”
Conversação
A conversação revela plenamente a fé, o caráter e a dignidade de uma pessoa. O tema da conversa e a escolha das palavras, a estrutura das frases, a elevação e a queda da voz, a maneira de falar e a força da exposição — tudo isso mostra a que nível de personalidade pertence o orador.
As responsabilidades e a posição do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) eram de tal magnitude que, se esse pesado encargo tivesse sido colocado sobre qualquer outra pessoa, ela teria mergulhado em profunda preocupação e preferido viver isolada. Uma das características marcantes do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), porém, era que, por um lado, carregava responsabilidades e preocupações tão grandes quanto montanhas, passando seu tempo entre diversas inquietações e angústias; por outro, relacionava-se profundamente com as pessoas, mantendo conversas e diálogos durante o dia e a noite. Havia solenidade em seu temperamento, mas também havia brincadeiras, humor e gracejos. Ele possuía um equilíbrio extraordinário entre qualidades aparentemente opostas. Um movimento de alcance mundial, os problemas de todo um império, as diversas complexidades de uma sociedade e de uma organização, e a responsabilidade por sua própria grande família constituíam para ele um fardo tão grande quanto uma montanha. Esse fardo estava colocado sobre seus próprios ombros. O imame Hasan (que Allah esteja satisfeito com ele), citando seu tio materno Hind ibn Abi Hala, disse: “O Mensageiro de Allah estava sempre ocupado com diferentes assuntos. Pensava e repensava continuamente em vários problemas. Nunca conseguia ficar sequer por um instante livre de preocupações. Permanecia calado durante longos períodos. Não falava sem necessidade.” [Shamā’il al-Tirmidhi, capítulo sobre a maneira de o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) falar].
Mas ele era um pregador, um convocador e o líder de um movimento. Por isso, o contato com o povo era indispensável para realizar atividades de pregação, ensino, reforma e correção, bem como de administração política. E o meio mais importante desse contato era a fala. Assim, fazia parte de seu modo de agir participar de todos os tipos de conversas e diálogos. O honorável Zayd ibn Thabit disse: “Quando conversávamos sobre assuntos mundanos, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) também participava. Quando falávamos sobre a vida futura, ele também discorria sobre esse assunto. Quando falávamos sobre comida e bebida, ele também se juntava à conversa. Apesar de tudo isso, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) jurou que nada saía de sua boca além da verdade e da justiça. O Alcorão também testemunhou que ele não dizia nada de sua própria invenção.”
Ao falar, pronunciava cada palavra lenta e claramente, de modo que o ouvinte podia memorizá-la com facilidade; era possível até contar as palavras à medida que as pronunciava. Umm Ma‘bad, ao elogiá-lo, disse: “Sua fala era como um colar de pérolas.” Não falava mais do que o necessário, nem menos; não era excessivamente conciso, nem se alongava demais. Para dar ênfase às palavras, explicar melhor e facilitar a memorização, repetia três vezes certas frases e palavras importantes. Quando não considerava apropriado fazer uma declaração explícita sobre determinado assunto, falava por alusões e insinuações. Detestava conversas indecorosas, obscenas e despudoradas. Geralmente acompanhava sua fala com um sorriso discreto. Abdullah ibn al-Harith disse: “Não vi ninguém sorrir mais discretamente do que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele).” Esse sorriso impedia que sua solenidade se transformasse em severidade e aumentava sua atratividade aos olhos de seus companheiros. Enquanto falava, olhava repetidamente para o céu. Durante um discurso, quando queria dar importância a algum assunto, levantava-se de repente da posição reclinada e sentava-se ereto, repetindo certas frases. Quando queria advertir os ouvintes sobre algo, batia a mão no chão enquanto falava. Também recorria a gestos das mãos e dos dedos para explicar alguma coisa. Por exemplo, para mostrar a união de duas coisas, juntava o dedo indicador ao dedo médio. Às vezes, entrelaçava os dedos das duas mãos para expressar a ideia de firmeza e unidade. Quando precisava apontar para alguma coisa ou direção, movia a mão inteira. Às vezes, sentado reclinado e discutindo um assunto importante, colocava a mão direita sobre o dorso da mão esquerda e entrelaçava os dedos. Ao demonstrar surpresa, por vezes virava as palmas das mãos para cima. Às vezes batia, com a palma da mão direita, sobre a parte central do polegar da mão esquerda. Por vezes balançava a cabeça e pressionava os lábios contra os dentes. Em outras ocasiões, batia na coxa com a mão.
Esse ilustre homem, membro de uma refinada e nobre família da tribo coraixita de Meca, cresceu no ambiente da tribo Banu Sa‘d e, além de dominar a língua mais pura da Arábia, teve a beleza de sua fala ainda mais aperfeiçoada pela linguagem eloquente da Revelação. Na verdade, ele era o homem mais eloquente da Arábia. O nível literário da linguagem do Rasul S.A. era elevado e excelente, mas, ao mesmo tempo, ela também era clara e simples. Embora usasse uma linguagem compreensível, ele jamais empregava palavras vulgares ou indecentes, nem apreciava qualquer forma de linguagem artificial. Na verdade, o Rasul S.A. criou uma linguagem própria para as necessidades de sua da‘wah e de seu objetivo, bem como desenvolveu um estilo de expressão distinto. Ao explicar a declaração do Rasul S.A. ‘A guerra é uma estratégia’, Tha‘labi disse que essa era uma linguagem especial do Rasul S.A. Ele criou muitos termos, além de numerosas novas expressões idiomáticas, comparações e exemplos. Introduziu um novo método de discurso e abandonou muitas palavras e métodos então correntes. Certa vez, alguns homens da tribo Banu Nahd vieram e conversaram longamente com ele. Durante a conversa, os visitantes perguntaram, muito admirados: ‘Ó Rasulullah, nós e você somos filhos dos mesmos pais e fomos criados no mesmo lugar. Ainda assim, você fala um árabe cujo significado a maioria de nós não consegue compreender. Qual é o segredo disso?’ Ele respondeu: ‘O próprio Allah me ensinou a língua e a literatura e, por isso, ensinou-me a melhor das línguas. Além disso, fui criado na tribo Banu Sa‘d. Esse é o segredo.’ Certa vez, ele conversava com um visitante, enquanto o Hazrat Abu Bakr o escutava com profunda atenção. Abu Bakr perguntou: ‘O que esse homem lhe disse e o que você lhe respondeu?’ O Rasul S.A. explicou. Então o Hazrat Abu Bakr começou a dizer: ‘Percorri todos os recantos da Arábia e ouvi os discursos puros e eloquentes dos melhores oradores árabes. Contudo, jamais ouvi da boca de alguém palavras tão doces e agradáveis quanto as suas.’ Também nessa ocasião, o Rasul S.A. repetiu que Allah o havia ensinado a língua e que ele fora criado na tribo Banu Sa‘d. De modo semelhante, certa vez o Hazrat Umar R.A. disse: ‘Ó Rasul, você nunca esteve afastado de nós; como, então, fala numa língua mais bela e pura do que todos nós?’ Ele respondeu: ‘Minha língua é a língua de Ismael A.S. Aprendi-a especialmente. Jibril trouxe-me precisamente essa língua e a firmou em meu coração.’ Isto é, a linguagem do Rasul S.A. não era o árabe comum; era, antes, uma linguagem profética especial, semelhante à língua do Hazrat Ismael. E a língua na qual Jibril revelava o Alcorão também era essa linguagem profética.
É preciso lembrar aqui que os grandes personagens históricos, especialmente os profetas, que surgem com uma missão e um objetivo específicos, envolvem-se em conflitos e confrontos com o ambiente e têm sempre dentro de si o fervor da verdade e da justiça, quando falam, fazem transparecer em suas palavras o profundo significado da grandeza de seus propósitos e objetivos; sua sinceridade e dedicação elevam seu valor literário, e sua excelência de caráter as torna mais puras.
Uma das características mais notáveis do Rasul S.A. era ter sido agraciado com os ‘Jawami‘ al-Kalim’. Ele próprio disse: [Muslim: Abu Huraira R.A.] (‘Foi-me concedido o Jawami‘ al-Kalim.’) As frases mais breves do Rasul S.A., que carregam significados amplos, são chamadas de ‘Jawami‘ al-Kalim’. Ninguém se igualava ao Rasul S.A. em transmitir os mais amplos significados com o menor número de palavras, e ele considerava isso um dom especial de Allah.
Eis alguns exemplos de seus Jawami‘ al-Kalim:
1. (*******) A pessoa estará, no Dia da Ressurreição, com aquele a quem ama.
2. (*******) Torne-se muçulmano e poderá viver em paz. [Parte da carta de da‘wah enviada ao imperador romano Heráclio.]
3. (******) As ações serão julgadas de acordo com as intenções.
4. (******) Quem realiza uma ação somente obtém dela o resultado correspondente à sua própria intenção.
5. (******) O filho pertence ao leito, e para o adúltero há a pedra.
6. (******) A guerra é uma estratégia.
7. (******) Ver e ouvir não são a mesma coisa.
8. (******) A confidencialidade é indispensável numa reunião.
9. (******) Abster-se de fazer o mal também é uma boa ação.
10. (******) Aquele que serve o povo é o seu líder.
11. (******) Toda pessoa afortunada é alvo de inveja.
12. (******) Dizer boas palavras também conta como uma boa ação.
13. (******) Quem não demonstra misericórdia não recebe misericórdia.
Geralmente, é possível reconhecer as palavras do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) pela linguagem, pelo estilo de expressão e pelo conteúdo. Nas obras de hadith e de sira, as palavras do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) brilham como pérolas. Poucas palavras, a maravilhosa harmonia entre elas, a profundidade do significado e a sinceridade capaz de tocar o coração são características marcantes das palavras do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Apresento, como exemplo, algumas palavras dotadas dessas características:
Exorto-vos constantemente a temer Allah. Faço um forte apelo para que, visando à organização da coletividade, escuteis e sigais as ordens do líder, mesmo que esse líder seja um escravo negro. Pois aqueles dentre vós que viverem depois de mim estarão envolvidos em inúmeras divergências. Nessas circunstâncias, é vosso dever seguir o meu caminho e o caminho dos meus califas ortodoxos, bem guiados, agarrando-vos firmemente a ele e apertando-o com os molares. Cuidado! Abstei-vos de introduzir novas regras no Islã. Pois toda nova regra é uma inovação, e toda inovação é desvio. 24 [24. Mishkat — capítulo sobre apegar-se ao Livro e à Sunnah].
Amr ibn Abasa fez algumas perguntas ao Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), e ele deu respostas muito breves e concisas. Observai este pequeno diálogo!
— Quem estava convosco, no início, nesta obra (na da’wa e no movimento islâmicos)?
— Um homem livre (Hazrat Abu Bakr) e um escravo (Hazrat Zayd).
— O que é o Islã?
— Dizer boas palavras e alimentar os famintos.
– O que é a fé?
– Paciência e generosidade.
– De quem o Islã é o melhor?
– Aquele de cuja língua e mãos as pessoas estão a salvo de excessos (isto é, más ações e más palavras).
– De quem a fé é a melhor?
– Daquele que tem bom caráter.
– Que tipo de oração é a melhor?
– Aquela em que se permanece de pé por longo tempo, com humildade.
– Que tipo de hijra é superior?
– Abandonar para sempre as coisas que desagradam ao seu Senhor.
– Qual jihad é superior?
– A jihad daquele cujo cavalo morre no campo de batalha e que também alcança o martírio.
– Qual é o melhor momento (para a adoração)?
– A última parte da noite. [Mishkat — Livro da Fé.]
Certa vez, perguntaram qual coisa, principalmente, torna inevitável para as pessoas o Inferno. Ele respondeu: “A boca e as partes íntimas.” [Tirmidhi — narrado por Abu Huraira.] Por boca, entendem-se as palavras e a alimentação. E por partes íntimas, entendem-se as relações sexuais ilícitas. Ou seja, as palavras más, o sustento ilícito e os desvios sexuais são os maiores instrumentos da destruição da vida futura das pessoas. A maioria das injustiças, opressões, disputas e conflitos também nasce deles.
Certa vez, Hazrat Ali pediu-lhe que explicasse seus princípios. Em resposta, ele apresentou, numa linguagem extremamente concisa, porém tão adornada, um retrato tão amplo de seus pensamentos, caráter e espiritualidade que constitui um prodígio na história da linguagem humana. Ele disse:
“O conhecimento de Allah é o meu capital; a inteligência é a base da minha religião; o amor é o meu fundamento. A aspiração é a minha montaria; a lembrança de Allah é o meu amigo; a confiança e a fé são as minhas companheiras; o conhecimento é o meu membro; a paciência é a minha vestimenta; a satisfação de Allah é uma dádiva imensa para mim; a humildade é a minha honra; o zuhd, isto é, a indiferença aos bens mundanos, é a minha profissão; a convicção é a minha força (conforme a pronúncia, pode significar alimento); a veracidade é o meu intercessor. A obediência é a minha proteção; o jihad é o meu caráter, e a oração é o refrigério dos meus olhos.” [Qadi Iyad: Ash-Shifa.]
Nas palavras do Mensageiro (s.a.w.), encontram-se muitos exemplos e parábolas extraordinários. Por meio deles, ele explicava grandes verdades aos beduínos. Apresento aqui um deles:
“A provisão de orientação e conhecimento que Allah, o Altíssimo, me concedeu pode ser comparada à chuva torrencial que caiu sobre a terra. A parte mais fértil da terra absorveu abundantemente a água. Como resultado, as plantas que estavam caídas reviveram, e novas árvores e vegetação brotaram. Havia também partes duras do solo que retiveram a água dentro de si, e Allah depositou nelas muitos benefícios para as pessoas. Ele fez com que a água fosse utilizada para irrigação. Depois, essa água caiu sobre outra região, repleta de pedras. Esse solo não reteve a água nem a absorveu para dentro de si, e tampouco mostrou sinais de fertilidade. A primeira é o exemplo daqueles que adquirem conhecimento do Islam e se beneficiam das orientações que Allah me transmitiu. Eles próprios adquirem conhecimento do Islam e também o ensinam aos outros. A segunda é o exemplo daqueles que não aceitaram o meu convite nem a orientação enviada por Allah por meu intermédio.”
Se fosse preciso dar um título à maneira de falar do Mensageiro (s.a.w.), ele poderia ser extraído desta frase do Alcorão: “Convoca as pessoas com uma linguagem atraente.” A eloquência cativante do Mensageiro (s.a.w.) continha simplicidade, e ele se mantinha muito distante da artificialidade. Ele disse:
“Entre vocês, os que estarão mais distantes de mim no Dia da Ressurreição serão aqueles que falam de maneira exagerada, falam em excesso e demonstram arrogância em suas palavras.”
Além disso, ele detestava profundamente a tagarelice e as conversas obscenas. Sua companhia era sempre alegre, e seu rosto era o mais sorridente de todos, embora estivesse quase sempre cercado por pesadas responsabilidades, dificuldades e adversidades.
Sermões
O sermão é uma parte importante da fala. O Mensageiro (s.a.w.) trouxe uma mensagem grandiosa e valiosa para a humanidade e, por isso, os sermões eram indispensáveis. Os árabes eram naturalmente eloquentes. Em especial, os coraixitas possuíam extraordinária capacidade oratória. O Mensageiro (s.a.w.) estava muito acima do ambiente oratório dos árabes e dos coraixitas. Quando, por dever de liderança, precisava proferir um sermão, pronunciava sem demora um discurso adequado à ocasião. Então, sua língua tornava-se ativa, ora como a brisa suave da alvorada, ora como uma correnteza impetuosa e ora como uma espada afiada.
No entanto, ele se abstinha de fazer discursos e sermões com demasiada frequência. Fazia discursos equilibrados, de acordo com as necessidades da sociedade e com o seu contexto geral. Quando discursava na mesquita, permanecia de pé apoiado em sua bengala; e, quando fazia um discurso no campo de batalha, ficava apoiado sobre um canhão. Às vezes, discursava sentado sobre o dorso de sua montaria. Durante o discurso, inclinava ligeiramente o corpo para a direita e para a esquerda. Movia as mãos conforme a necessidade. Durante os discursos, às vezes fazia um juramento, dizendo: “Pelo Ser em cuja mão está a minha vida, ou pela vida de Muhammad, que está em Sua mão”. As emoções de seu coração refletiam-se igualmente em sua voz e em seu rosto, causando também impacto nos ouvintes. Os discursos desse grande homem agitavam profundamente o coração das pessoas. Aqui darei apenas dois exemplos. Após as batalhas de Hunayn e Ta’if, enquanto distribuía os espólios de guerra, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), em conformidade com as claras determinações do Alcorão, deu parcelas bastante grandes aos chefes de Meca que haviam recentemente abraçado o Islã, para que seus corações se tornassem ainda mais receptivos e para que eles se vinculassem mais estreitamente ao Estado Islâmico pelos laços da magnanimidade. Alguns dos Ansar reagiram duramente a isso. Eles disseram:
“O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) deu muitos prêmios aos coraixitas, mas nos privou deles, embora ainda pinguem gotas de sangue de nossas espadas.” Alguns disseram:
“Lembram-se de nós nas adversidades, mas são os outros que recebem os espólios de guerra.”
Essas palavras chegaram aos ouvidos do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Então, uma tenda de couro foi armada, e os Ansar foram reunidos ali. O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) perguntou-lhes: “Vocês disseram todas essas coisas?” Responderam: “É verdade o que você ouviu. Contudo, nossos responsáveis não disseram essas coisas. Foram alguns jovens que as disseram.” Depois de investigar todo o incidente, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) fez o seguinte discurso:
“Não é verdade que, no início, vocês estavam desviados, e então Allah os guiou ao caminho reto por meu intermédio? Não estavam vocês tão separados, e Allah os uniu por meu intermédio? Não eram vocês pobres, e Allah os tornou prósperos por meu intermédio?” (A cada pergunta, os Ansar respondiam: “Sem dúvida, Allah e Seu Mensageiro nos concederam muitas dádivas.”)
“Não; vocês poderiam, em vez disso, ter respondido também: ‘Ó Muhammad, quando todos o rejeitaram, nós cremos em você. Quando as pessoas o expulsaram, nós lhe demos abrigo. Quando você veio sem apoio, nós o ajudamos.’ Se vocês respondessem com essas palavras, eu certamente diria que estão dizendo a verdade. Mas, ó Ansar! Não lhes agrada que todos os demais levem consigo camelos, cabras e outras coisas, enquanto vocês voltem para casa levando Muhammad?” (Bukhari)
Observem as variações e os altos e baixos de suas palavras; observem o vigor do discurso, aguçado por emoções delicadas; observem a clareza da linguagem e, depois, reflitam sobre como o orador despertou nos ouvintes a inspiração desejada. Os Ansar exclamaram espontaneamente: “Queremos apenas Muhammad; não queremos mais nada.”
Além do discurso proferido do alto do monte Safa, no início da missão de pregação, ele fez discursos diante dos coraixitas em várias outras ocasiões. Vale a pena observar um trecho de um dos discursos daquela época:
“O guia de uma caravana nunca fornece informações falsas à caravana. Juro por Allah: mesmo que eu estivesse disposto a mentir para todas as outras pessoas, não mentiria para vocês. Mesmo que enganasse todos os demais, não enganaria vocês. Juro por Aquele além de quem ninguém é digno de adoração: sou o Mensageiro de Allah enviado especialmente a vocês e, de modo geral, a toda a humanidade. Juro por Allah: assim como vocês dormem e despertam do sono, também é certa a sua morte e a ressurreição após a morte. Vocês certamente serão responsabilizados por suas ações e terão de receber a boa recompensa pelas boas obras e sofrer as más consequências pelas más obras. Depois disso, haverá ou o Paraíso para sempre, ou então o Inferno para sempre.”
Que estilo de exposição simples e fluente, e que apelo tão racional e comovente! A benevolência do pregador transparece em cada palavra. Cada frase está repleta de fé e convicção. Esse breve discurso também apresenta exemplos. Nele estão plenamente incluídos os ensinamentos fundamentais sobre o tawhid, a risalat e a akhirat.
O Mensageiro (S.A.) proferiu ainda dois discursos históricos. Um foi proferido após a conquista de Meca, e o outro durante a Peregrinação de Despedida. Esses dois discursos são de natureza inteiramente revolucionária, e neles se ouve o eco da fé, da moralidade e do poder. O discurso da Peregrinação de Despedida pode ser considerado, por assim dizer, uma proclamação do início de uma nova era.
Comunicação social comum
Em geral, aqueles que realizam grandes feitos não têm tempo para se relacionar com pessoas de todas as classes, nem conseguem prestar atenção a todos os aspectos. Em muitas pessoas de posição elevada desenvolvem-se o gosto pela solidão e a aspereza de temperamento. Algumas, entregando-se à arrogância, criam para si um mundo à parte. Mas o Mensageiro (S.A.) era uma exceção nesse aspecto. Embora ocupasse a posição mais honrosa e tivesse realizado feitos capazes de mudar o curso da história, mantinha contato constante com pessoas de todos os níveis da sociedade. Conservava relações pessoais com os membros da comunidade. Não havia nele o menor sinal de isolamento social, arrogância ou aspereza. Na verdade, o sistema baseado na fraternidade que ele havia estabelecido exigia essencialmente que as pessoas permanecessem unidas por profundos laços mútuos, beneficiassem umas às outras e conhecessem os direitos umas das outras. O tipo de civilização e cultura que está surgindo no mundo ocidental atual é exatamente o oposto disso. Nessa cultura, ninguém mantém qualquer relação com ninguém. Essa ausência de vínculos transformou-se agora em um instrumento destruidor da humanidade. Por isso, tornou-se necessário transformar esse ambiente sob a liderança de Muhammad (S.A.). Venhamos, pois, observar o Mensageiro (S.A.) no contexto da comunicação social comum.
Seu costume era saudar primeiro com salam qualquer pessoa que encontrasse pelo caminho. Quando precisava transmitir uma notícia a alguém, nunca deixava de enviar também o salam. Quando alguém lhe transmitia o salam de outra pessoa, respondia separadamente ao remetente e ao portador da saudação. Certa vez, ao passar por um grupo de crianças, cumprimentou-as com salam. Quando se aproximava das mulheres, também lhes oferecia o salam. Ao entrar e ao sair de casa, cumprimentava com salam os familiares. Também apertava a mão dos amigos e os abraçava. Depois de apertar a mão de alguém, não a retirava até que a outra pessoa retirasse a sua.
Quando ia a uma reunião, não gostava que os Companheiros se levantassem em sua honra. Sentava-se em um dos lados da reunião. Não entrava forçando passagem. Dizia: ‘Eu me sento e me levanto da mesma maneira que um servo comum de Allah.’ — Narrado por Aisha.
Não se sentava estendendo os joelhos à frente dos seus companheiros. Quando alguém ia visitá-lo, estendia sua própria capa para que a pessoa se sentasse. Não se levantava nem deixava a reunião até que o visitante se levantasse por iniciativa própria.
Em nenhuma reunião levantava assuntos irrelevantes para discussão; pelo contrário, participava do tema que estivesse sendo discutido. A reunião começava depois da oração congregacional do fajr, e ele conversava longamente com os nobres Companheiros. Às vezes, quando surgiam histórias da época da ignorância, todos riam bastante. [Narrado por Jabir ibn Samura (que Allah esteja satisfeito com ele).] Os Companheiros também recitavam poesia. Quando percebia sinais de aborrecimento e monotonia no rosto dos participantes da reunião, mudava de assunto. Dava atenção a cada pessoa presente, para que ninguém sentisse que ele estava favorecendo alguém em detrimento dos demais. Se alguém levantava uma pergunta irrelevante no meio da conversa, ele continuava a discussão sem lhe dar atenção e, depois de concluí-la, voltava sua atenção para aquela pessoa. Não desviava o rosto do interlocutor enquanto este próprio não o desviasse. Quando alguém lhe falava em segredo, mantinha a cabeça inclinada continuamente em sua direção até que a pessoa terminasse de falar e se afastasse. Não interrompia a fala de ninguém, a menos que se tratasse de algo manifestamente injusto. Nesse caso, ou corrigia o erro, ou sinais de desagrado apareciam em seu rosto, ou então levantava-se e saía. Não gostava de discutir assuntos importantes enquanto permanecia de pé. Evitava assuntos desagradáveis; caso contrário, sua maneira habitual de expressar reprovação era não mencionar diretamente o nome da pessoa, mas fazer uma alusão geral ou aconselhá-la de modo discreto. Quando surgia uma situação extremamente constrangedora, o que ocorria apenas em questões islâmicas, adotava algumas medidas para alertar os amigos. Quando a pessoa envolvida vinha até ele, ou não respondia ao seu salam, ou não lhe dava atenção. Mesmo quando aparecia alguém indesejado, recebia-o sorrindo. Certa vez, veio até ele um homem que considerava o pior membro da tribo à qual pertencia. Ainda assim, falou com ele cordialmente. Ao expressar sua admiração diante disso, Aisha perguntou-lhe, e ele disse: “Por Allah, no Dia do Juízo, será considerado perante Allah a pior das pessoas aquele de cuja má conduta as pessoas têm tanto medo que deixam completamente de conviver com ele.” [Al-Mawahib al-Ladunniyya, p. 291]
Quando ia visitar alguém, ficava de pé à direita ou à esquerda da porta, anunciava sua presença e pronunciava o salam três vezes para pedir permissão para entrar. Se não recebia resposta ao salam, retornava sem demonstrar qualquer irritação. Ao visitar alguém durante a noite, dizia o salam em um tom que permitisse que a pessoa o ouvisse se estivesse acordada, mas que não perturbasse seu sono caso estivesse dormindo.
Quando alguém removia poeira ou palha de seu corpo ou de suas roupas, expressava gratidão e dizia: “Que Allah afaste de você algo desagradável.” Aceitava presentes e lembrava-se de retribuí-los. Se alguém acabava sendo prejudicado por ele, ainda que sem intenção, concedia-lhe o direito de pedir reparação e, às vezes, oferecia-lhe um presente em compensação. Quando alguém comparecia diante dele usando roupas novas, dizia: “Excelente, excelente! Use-as por muito tempo e continue a usá-las até que se gastem.” Não retribuía o mau tratamento com mau tratamento; perdoava. Quando perdoava as faltas dos outros, enviava-lhes seu próprio turbante como símbolo para informá-los disso. Sempre que alguém o chamava, respondia “Labbaik”, fosse a pessoa um membro de sua família ou um de seus Companheiros.
Visitava os doentes com grande atenção. Sentava-se junto à cabeceira e perguntava: “Como você está?” Tocava a testa e as têmporas do enfermo. Às vezes, acariciava com ternura seu peito, abdômen e rosto. Perguntava o que o paciente havia comido. Se ele demonstrava interesse por alguma coisa, trazia-a, desde que não fosse prejudicial. Para consolá-lo, dizia: “Não há motivo para preocupação; se Allah quiser, em breve você estará curado.” Fazia súplicas pela cura. Suplicou três vezes pela cura de Saad. Visitava também seus tios idólatras quando adoeciam. Certa vez, visitou uma criança judia enferma. (Mais tarde, a criança abraçou a fé.) Não havia dia ou horário específico para esse ato. Sempre que recebia a notícia e encontrava tempo, ia visitá-los.
Certa vez, Jaber adoeceu. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, foi com Abu Bakr e caminhou uma longa distância. (A área habitada de Medina era dispersa.) Jaber estava inconsciente. Ao vê-lo, ele realizou a ablução, aspergiu água sobre ele e fez uma súplica. Com isso, o estado do enfermo começou a melhorar. Jaber chegou a conversar e a perguntar sobre as questões jurídicas relativas aos seus bens.
Ele era tão compassivo com as pessoas que chegou a visitar até mesmo Abdullah ibn Ubayy, o líder dos hipócritas, quando este adoeceu.
Quando alguém morria, ia até o local. Ao receber a notícia de que alguém estava à beira da morte, ou ao ser chamado, ia aconselhá-lo sobre o tawhid e sobre voltar sua atenção para Allah. Oferecia condolências aos familiares do falecido, aconselhava-os a ter paciência e proibia-os de chorar aos gritos. Insistia que o corpo fosse amortalhado em um pano branco e recomendava que o amortalhamento e o sepultamento fossem concluídos rapidamente. Acompanhava o corpo quando este era levado para o sepultamento. Ele próprio conduzia a oração fúnebre dos muçulmanos e suplicava pelo perdão dos pecados. Ao ver um cortejo fúnebre passar, levantava-se imediatamente, mesmo que o falecido fosse um não muçulmano. (Algumas narrações também afirmam que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, permanecia sentado. Outros dizem que a prática de levantar-se havia sido posteriormente abolida. [Zad al-Maad, p. 145].) Aconselhava os vizinhos a enviarem comida para a família do falecido. (Hoje em dia, ocorre justamente o contrário: organizam-se banquetes para outras pessoas na casa do morto.) Ele detestava que reuniões formais de luto continuassem por vários dias.
Quando alguém que retornava do exterior queria visitá-lo, ele o abraçava e, às vezes, beijava-lhe a testa. Quando ia despedir-se de alguém que partia para o exterior, pedia-lhe: “Lembre-se de nós quando fizer suas súplicas.”
Por excesso de carinho e afeto, tornava-se tão cordial e à vontade com algumas pessoas que as chamava por formas abreviadas de seus nomes. Por exemplo, chamava Abu Huraira simplesmente de ‘Abu Hur’, e, às vezes, Aisha de ‘Aish’.
O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) era muito afetuoso com as crianças. Sempre que via uma criança, passava a mão sobre sua cabeça, demonstrava carinho, fazia uma súplica por ela e, quando era muito pequena, tomava-a no colo. Para distrair as crianças, dizia coisas surpreendentes. Por exemplo, dizia: ‘Irmãos lagartos, à noite ferem os olhos dos mosquitos com os dentes’. Certa vez, enquanto beijava uma criança inocente, disse: As crianças são as flores do jardim de Allah. Dava nomes às crianças. Às vezes, colocava-as em fila e organizava corridas, oferecendo um prêmio, dizendo: ‘Vamos ver quem consegue me tocar primeiro’. As crianças corriam até ele. Algumas caíam de bruços sobre sua barriga, e outras sobre seu peito. Brincava e gracejava com as crianças. Por exemplo, às vezes dizia carinhosamente a Anas: ‘Ó homem de duas orelhas’. Quando o filhote de pássaro de estimação de Abu Umair, irmão de Anas, morreu, ele ficou sentado, abatido. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) foi à casa deles e chamou: ‘Ó Abu Umair, onde está o seu nugair (filhote de pássaro)?’ Certa vez, a mãe de outra criança, Abdullah ibn Bashir, enviou uvas ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele)) por meio dele. Abdullah comeu todas as uvas pelo caminho. Quando o fato veio a público, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) segurou carinhosamente a orelha de Abdullah e disse: ‘ياغدرياغدرÓ seu enganador, ó seu enganador’. Ao voltar do exterior, se encontrasse pelo caminho alguma criança, levava-a montada atrás de si na montaria. Se a criança fosse pequena, colocava-a na frente; se fosse maior, atrás. Quando chegavam os primeiros frutos da estação, fazia uma criança comê-los primeiro, acompanhado de uma súplica pela bênção. Ele acreditava que essa criança se tornaria futuramente uma líder do movimento islâmico.
Ele demonstrava grande respeito pelos idosos. Durante a conquista de Meca, quando Abu Bakr Siddiq (que Allah esteja satisfeito com ele) levou ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) seu pai idoso e cego para que aceitasse o Islã, ele disse: ‘Por que o fez passar por esse incômodo? Eu mesmo teria ido até ele.’
Demonstrava o mais elevado grau de magnanimidade. Certa vez, quando uma mulher meio perturbada de Medina veio dizer que tinha algumas coisas para lhe falar em particular, ele respondeu: ‘Está bem, vamos. Espere por mim em tal rua; eu já vou.’ Depois foi até lá, ouviu suas queixas e necessidades e tomou providências para resolvê-las. [Al-Mawahib al-Laduniyya, volume 1, p. 295.] Adi ibn Hatim também presenciou um acontecimento desse tipo e considerou a magnanimidade do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) um sinal de sua profecia.
Anas (que Allah esteja satisfeito com ele) fez um retrato excelente de quão cordial era o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e de quão doce era seu comportamento nas relações interpessoais. Ele disse:
‘Servi o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) durante dez anos. Ele jamais demonstrou o menor aborrecimento ou irritação. Qualquer que fosse a maneira como eu realizasse uma tarefa, nunca dizia: “Por que a fez assim?” E, se eu não a realizasse, nunca dizia: “Por que não fez isso?” Tratava seus servos e criadas da mesma maneira. Jamais bateu em alguém.’
Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse que ele nunca bateu em suas esposas, servos ou criadas. Também nunca se vingou pessoalmente de ninguém. Contudo, se tomasse alguma medida ao combater no caminho de Allah ou ao aplicar a punição por um crime conforme a lei de Allah, isso seria uma questão completamente diferente.
Vida pessoal
Geralmente, são chamados de líderes aqueles que vestem uma capa artificial na vida coletiva, mas a tiram assim que entram na vida pessoal. Demonstram exteriormente muita grandeza e generosidade, mas, ao chegar à vida doméstica, descem ao nível mais baixo da vulgaridade. Na sociedade, mostram o máximo de simplicidade e humildade, mas, assim que retornam ao lar, entregam-se ao luxo e ao conforto. Parece que, quanto maior for a distância entre a vida coletiva e a pessoal de alguém, maior será sua dignidade. No entanto, a vida pessoal e a vida coletiva do Mensageiro (S.A.W.) eram exatamente iguais.
Certa vez, um homem perguntou a Hazrat Aisha (R.A.): “O que o Mensageiro (S.A.W.) fazia em sua vida doméstica?” Ela respondeu: “O Mensageiro (S.A.W.) era como as pessoas comuns. Ele mesmo cuidava de suas roupas (isto é, verificava se não tinham sido infestadas por insetos). Ele próprio ordenhava as cabras e realizava suas tarefas necessárias. Quando era preciso remendar uma roupa, ele mesmo a remendava; consertava os próprios sapatos. Carregava cargas e alimentava os animais. Quando havia algum servo, ajudava-o em seu trabalho; por exemplo, moía farinha com ele. Às vezes, trabalhava sozinho. Nunca sentia vergonha de ir ao mercado. Ele mesmo comprava e trazia as provisões. Geralmente, trazia os artigos necessários amarrados em um pedaço de tecido. Algumas pessoas perguntaram como o Mensageiro (S.A.W.) se comportava na vida doméstica. Hazrat Aisha respondeu: ‘Ele tinha o caráter mais humilde e se comportava com alegria, sempre sorrindo.’ A dimensão de sua humildade pode ser compreendida por esta afirmação: ‘Ele jamais repreendeu sequer um servo.’ [Al-Mawahib al-Ladunniyyah, volume um, p. 293] Em bondade para com sua família e parentes, ninguém se comparava ao Mensageiro de Allah (S.A.W.). (Sahih Muslim)”
Certa vez, em resposta a uma pergunta de Hazrat Imam Husain, Hazrat Ali (R.A.) disse: “Quando estava em casa, o Mensageiro (S.A.W.) dividia seu tempo entre três tipos de atividades. Passava parte do tempo na adoração de Allah, dedicava outra parte à família e empregava outra parte no descanso. De cada um desses três períodos, reservava uma parcela para aqueles que desejavam visitá-lo. Além das reuniões gerais na mesquita, se algum amigo quisesse encontrá-lo em particular, se chegasse um hóspede ou se alguém viesse apresentar uma necessidade ou reclamação, ele lhes concedia parte de seu tempo de descanso. Assim, percebe-se que lhe restava muito pouco tempo para descansar. [Shamā’il al-Tirmidhi, capítulo sobre a humildade e simplicidade do Mensageiro (S.A.W.)]”
Também era ele quem providenciava o sustento e atendia às diversas necessidades de suas esposas. Além disso, a responsabilidade por sua educação e instrução estava sobre seus ombros. Depois, por meio delas, o trabalho de orientar as mulheres era mantido. As mulheres vinham apresentar seus diversos problemas e buscavam sua solução por intermédio das Mães dos Crentes. Ainda assim, ele não permitia que o ambiente doméstico se tornasse, por um lado, enfadonho e monótono, nem, por outro, deixava que houvesse nele qualquer artificialidade. Seu lar era como o lar de qualquer ser humano, e nele havia o fluxo e o refluxo natural das emoções. Ali derramavam-se lágrimas, e sorrisos brilhavam. Às vezes, chegava a surgir também alguma tensão causada pelo ciúme. Assim como havia preocupação e inquietação, também chegavam momentos de alegria. Quando o Mensageiro (S.A.W.) chegava em casa, era como uma brisa suave da madrugada, trazendo uma extraordinária onda de tranquilidade e alegria. Conversavam. Às vezes, contavam histórias uns aos outros. Também havia brincadeiras e gracejos divertidos. Hazrat Aisha (R.A.) relatou, por exemplo, o seguinte episódio: “Certa vez, preparei khamīra (um tipo de alimento feito de carne moída cozida com farinha). Hazrat Sawda (R.A.) também estava presente. O Mensageiro (S.A.W.) sentou-se entre nós duas, e havia uma atmosfera de sincera cordialidade. Eu disse a Sawda: ‘Coma.’ Ela recusou. Insisti novamente, mas ela continuou dizendo: ‘Não vou comer.’ Insisti ainda mais, dizendo: ‘Você tem de comer.’ Mesmo assim, ela não aceitou. Eu disse: ‘Se você não comer, vou passar essa khamīra no seu rosto.’ Sawda manteve sua recusa. Então, enfiei de verdade a mão na khamīra, peguei um punhado e passei-o no rosto de Sawda. O Mensageiro (S.A.W.) riu muito ao ver aquilo. Disse a Sawda: ‘Agora passe também no rosto de Aisha, para que fiquem quites.’ Sawda imediatamente passou a khamīra no rosto de Aisha. Então o Mensageiro (S.A.W.) riu novamente. [Al-Mawahib al-Ladunniyyah, volume um, pp. 296–297]”
Certa vez, Abu Bakr (R.A.) entrou e viu Aisha conversando em voz alta com o Mensageiro (S.A.W.). Abu Bakr (R.A.) ficou furioso e se preparou para bater nela. O Mensageiro (S.A.W.) o acalmou e disse: “Não houve nenhuma discussão entre nós.” Ainda assim, Hazrat Abu Bakr saiu levando consigo a raiva. Depois que ele saiu, o Mensageiro (S.A.W.) disse a Hazrat Aisha, em tom irônico: “Viu como eu a protegi?”
Algumas pessoas consideram esses altos e baixos naturais da vida doméstica inferiores ao ideal islâmico. Em especial, guardam no coração uma imagem da vida familiar do Mensageiro (S.A.W.) como se nela vivessem alguns seres sobre-humanos, que não tivessem emoções, desejos ou inclinações. Contudo, aquela também era uma família humana. Nela estavam presentes todas as emoções humanas. Porém, naquela família não existiam desobediência a Allah nem pecado. Nesse aspecto, era uma família ideal. À noite, quando o Mensageiro (S.A.W.) ia dormir, conversava normalmente com sua família: às vezes sobre assuntos domésticos, outras vezes sobre os problemas dos muçulmanos em geral. Às vezes, chegava até a contar histórias. Certa vez, contou a Hazrat Aisha a história de Umm Zara. Nessa narrativa, onze mulheres descrevem umas às outras o caráter e a personalidade de seus respectivos maridos. Uma delas era ‘Umm Zara’. Ela descreveu o caráter encantador de seu marido, Abu Zara. Do ponto de vista literário, é uma história muito interessante. Ao final, o Mensageiro (S.A.W.) disse a Hazrat Aisha: “Para Umm Zara, Abu Zara era como eu sou para você.” Em outra ocasião, durante uma reunião, ele contou uma história. Uma das ouvintes exclamou: “Esta parece uma história de Khurafa.” Khurafa era uma figura histórica árabe, sobre quem se conta que escreveu muitas histórias e relatos surpreendentes. O Mensageiro (S.A.W.) perguntou àquela mulher: “Você sabe quem era Khurafa?” Em seguida, contou também a história desse famoso homem chamado Khurafa. Esse homem da tribo de Banu Adhra havia sido levado pelos gênios e depois devolvido. [Shamā’il al-Tirmidhi].
O Mensageiro (S.A.W.) manteve durante toda a vida o hábito de despertar no início da segunda metade da noite, realizar a ablução e usar o miswak, e então rezar o tahajjud. [Zad al-Ma‘ad]. Ao recitar o Alcorão muito lentamente, às vezes permanecia tanto tempo em qiyam (de pé) durante a oração que seus pés inchavam. [Tirmidhi: narrado por Ibn al-Musayyib.] Ao verem esse sofrimento, os Companheiros diziam: “Allah já perdoou todos os seus pecados anteriores e posteriores. Por que, então, o senhor se submete a tamanho esforço?” O Mensageiro (S.A.W.) respondeu: “Mesmo assim, não devo ser um servo agradecido de Allah?” [Zad al-Ma‘ad]
A visão do Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) sobre a casa e seus móveis era que a vida neste mundo deveria ser vivida como a de um viajante. Ele disse: “Sou como um viajante que descansa por algum tempo à sombra de uma árvore e depois segue rumo ao seu destino.” Em outras palavras, para aqueles que tomam a Outra Vida como destino, passam a vida terrena considerando-a apenas um período para cumprir deveres ou ser postos à prova, e devem trabalhar aqui para alcançar o objetivo mais elevado, o Paraíso, onde estaria a oportunidade de construir casas enormes e altíssimas, enchê-las de móveis e desfrutar plenamente do conforto e do luxo? Por isso, ele e seus Companheiros não construíram casas luxuosas, não acumularam móveis nelas, nem aumentaram sua decoração e esplendor. Pode-se dizer que suas casas eram excelentes hospedarias para viajantes. [Zad al-Ma’ad] Essas casas tinham boas condições para proteção contra o frio e o calor, segurança contra animais e privacidade. Além disso, também havia nelas condições para a preservação da saúde. O Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) mandou construir, para suas esposas, pequenos aposentos ligados à Mesquita do Profeta. Neles não havia nenhuma decoração além da limpeza e da higiene. Seu apreço pela limpeza era tão intenso que ordenou rigorosamente aos Companheiros que mantivessem limpos os pátios de suas próprias casas. [Tirmidhi]
Entre os utensílios, alguns eram de extrema simplicidade. Havia, por exemplo, uma taça de vidro com uma folha de ferro aplicada sobre ela. Ela era amplamente usada para beber e comer. Longe de armazenar provisões, nem sequer havia comida suficiente para satisfazer as necessidades diárias. Sua cama era um colchão de couro cheio de fibras de tamareira. Ele também usava uma cama feita de fibras de palmeira e outra feita de esteira. Esta última era estendida dobrada ao meio. Certa vez, quando foi estendida dobrada em quatro, pela manhã ele perguntou a todos: “Que conforto havia hoje na cama para que eu tenha dormido tão profundamente e perdido a oração do tahajjud?” Quando soube do que realmente acontecera, disse: “Deixem a cama dobrada ao meio, como antes.” Ele também tinha o hábito de dormir sobre uma esteira estendida no chão. Certa vez, ao ver no corpo do Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) as marcas da madeira da cama, alguns de seus Companheiros — Umar e Abdullah ibn Masud — começaram a chorar. [Shama’il al-Tirmidhi]
Em outra ocasião, ao ver que seu corpo ficara marcado por dormir numa cama sem cobertura, Umar começou a chorar. Quando o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) perguntou a razão de suas lágrimas, Umar respondeu: “Os imperadores de Roma e da Pérsia estão imersos no luxo, enquanto esta é a sua situação!” O Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: “Ó Umar! Não estás satisfeito com que eles levem este mundo e nós obtenhamos a Outra Vida?”
Comida e bebida
Os hábitos alimentares do Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) eram extremamente simples e dignos. Ele apreciava especialmente a carne. Gostava sobretudo da carne das costas, da coxa e do pescoço. Também apreciava muito os ossos próximos. Gostava igualmente do delicioso prato árabe chamado tharid, preparado deixando pedaços de pão de molho no caldo da carne. Entre seus outros alimentos preferidos estavam o mel, o vinagre e a manteiga. Também gostava de comer tâmaras com leite. (Trata-se, aliás, de um alimento muito nutritivo.) Tâmaras untadas com manteiga também eram, para ele, uma iguaria. Como alimento para enfermos, preferia comidas calóricas e aconselhava os outros a consumi-las. Comia com frequência farinha de cevada torrada. Certa vez, quando lhe ofereceram farinha torrada de amêndoas, recusou-a, dizendo que era alimento dos ricos. Quando se cozinhava algum ensopado em casa, pedia que preparassem uma porção maior para o vizinho.
Entre as bebidas, sua preferida era a água doce, que era trazida com grande cuidado de uma distância de dois dias de viagem. Ele também bebia com prazer leite misturado com água e xarope de mel. Gostava ainda de extrato de tâmaras que não tivesse propriedades intoxicantes. As tâmaras eram deixadas de molho em água dentro de um odre ou recipiente de pedra, e ele consumia essa bebida continuamente ao longo do dia. Porém, por receio de que se tornasse intoxicante se permanecesse guardada por muito tempo, ele a descartava. Segundo o relato de Abu Malik al-Ash’ari, ele também disse: “Alguns membros da minha comunidade beberão vinho, mas lhe darão outro nome.” (A história testemunha que, em épocas posteriores, os governantes bebiam vinho chamando-o de extrato de frutas.)
Ele não gostava que cada pessoa comesse separadamente. Aconselhava que se sentassem juntos para comer. Considerava comer sentado à mesa e em cadeiras contrário à sua natureza humilde. Do mesmo modo, considerava contrário ao seu gosto colocar a comida em pequenas taças e pratos sobre a toalha de mesa. Declarou absolutamente ilícito o uso de recipientes de ouro e prata. Usava recipientes de vidro, barro, cobre e madeira. Depois de lavar as mãos sobre a toalha, tirava os sapatos e sentava-se. Comia com a mão direita, retirando a comida da parte à sua frente. Não colocava a mão no centro do recipiente. Não tinha o hábito de comer ou beber recostado. Às vezes sentava-se com os dois joelhos levantados e, outras vezes, com as pernas cruzadas. Ao levar cada porção à boca, dizia “Bismillah”. Se não gostava de algum alimento, deixava-o de lado sem mencionar qualquer defeito. Não comia alimentos muito quentes. Às vezes cortava com uma faca a comida cozida antes de comê-la. Contudo, considerava isso artificial e afetado, e não gostava muito de fazê-lo. [Bukhari e Muslim (relatado por Amr ibn Umayya); Abu Dawud e Bayhaqi (relatado por Aisha).] Ele sempre pegava o pão e semelhantes com os dedos, sem permitir que molho ou outros alimentos grudassem neles. Às vezes comia frutas em pé ou enquanto caminhava. Também comia duas frutas ao mesmo tempo — por exemplo, uma tâmara numa mão e um melão na outra. Jogava fora o caroço da tâmara com a mão esquerda. Nunca recusava um convite. Se outra pessoa estivesse casualmente com ele — por estar conversando ou por qualquer outro motivo —, levava-a consigo, mas pedia ao anfitrião autorização para que ela entrasse. Quando oferecia comida a um convidado, dizia-lhe repetidamente: “Coma à vontade e com satisfação, sem constrangimento.” Por educação, era o último a se levantar da refeição. Quando os demais terminavam antes, ele também terminava rapidamente e se levantava com eles. Ao terminar de comer, lavava obrigatoriamente as mãos e fazia uma súplica agradecendo a Allah e pedindo bênçãos para o sustento e para o anfitrião. Quando recebia algum alimento como presente, não deixava de compartilhá-lo com os amigos presentes e reservava a parte dos amigos ausentes. Ensinava todos a comer com tanto cuidado que nenhum grão fosse desperdiçado durante a refeição. Ao beber água, não fazia ruído de gole e, em geral, bebia afastando a boca três vezes para respirar. Começava cada vez dizendo “Bismillah” e terminava dizendo “Alhamdulillah”. Normalmente bebia água sentado, embora às vezes também a bebesse em pé. Quando alguma bebida chegava à reunião, geralmente começava a servi-la pelo lado direito. Onde terminava o serviço de uma coisa, dali começava o serviço da seguinte. Dava prioridade aos mais idosos, mas só interrompia a ordem estabelecida a partir da direita depois de pedir permissão àqueles que, nessa sequência, tinham direito a ser servidos. Quando oferecia uma bebida aos amigos, bebia por último e dizia: “Quem serve a bebida é o último a beber.” Não gostava que se soprasse ou cheirasse a comida e a bebida. Como não gostava de mau hálito, nunca apreciava comer cebola e alho crus. Ordenou que alimentos e bebidas fossem sempre mantidos cobertos. Quando chegava algum alimento novo, perguntava seu nome antes de comê-lo. Depois do incidente em que lhe deram veneno, adquiriu o hábito de, quando um desconhecido lhe oferecia comida, fazê-lo comer primeiro uma ou duas porções.
Apesar de seu gosto extremamente refinado, na maior parte do tempo sofria sob os golpes da fome e da pobreza. Este assunto será explicado em detalhes no devido lugar. Ele disse: “Minha comida e bebida são como as de um servo comum de Allah.”
Sentar-se e dormir
Às vezes sentava-se com as pernas cruzadas; outras vezes, sentava-se envolvendo as duas coxas com as duas mãos; e, em algumas ocasiões, em vez das mãos, envolvia-as com uma peça de roupa, como um xale. Quando se recostava sentado, geralmente apoiava-se sobre a mão esquerda. Ao refletir e pesquisar sobre algum assunto, ficava cutucando o chão com um pedaço de madeira. Normalmente dormia deitado sobre o lado direito, com a bochecha direita apoiada na palma da mão direita. Às vezes também dormia de costas, colocando uma perna sobre a outra. No entanto, zelava rigorosamente pela cobertura das partes íntimas. Detestava intensamente dormir de bruços e proibia todos de fazê-lo. Não gostava de dormir em um quarto escuro onde nenhuma lâmpada estivesse acesa. Não considerava apropriado dormir sob um teto aberto. Tinha o hábito de dormir após fazer a ablução e, antes de dormir, além de várias súplicas, recitava as suratas Al-Ikhlas, An-Nas e Al-Falaq, soprando depois sobre o próprio corpo. Enquanto dormia, emitia um leve som de ronco. Quando se levantava à noite para atender às necessidades naturais, depois de se purificar, lavava obrigatoriamente as mãos e o rosto. Tinha uma lungi separada para dormir. Tirava a camisa e a pendurava.
Necessidades humanas
Para satisfazer suas necessidades naturais, como naquela época não havia o costume de usar latrinas, ele ia para os campos e lugares ermos. Geralmente afastava-se tanto que ficava fora da vista. Às vezes chegava a percorrer até dois milhas. Por isso, procurava um solo macio, para que não respingasse. Ao chegar ao local onde atenderia às necessidades, colocava primeiro o pé esquerdo e depois o direito. Ao sentar-se, só tirava a roupa depois de se aproximar bastante do chão. Sentava-se atrás de alguma elevação, árvore ou coisa semelhante. Nessa ocasião, saía usando calçados nos pés e uma cobertura na cabeça. Não se sentava voltado de frente ou de costas para a quibla. Ao atender às necessidades naturais, retirava o anel da mão (pois nele estavam gravados os nomes de Allah e do Mensageiro, que a paz esteja com ele). Sempre realizava a higiene com a mão esquerda. Ao sair do local, dava primeiro o passo com o pé direito e depois com o esquerdo.
Considerava indispensável manter-se coberto para tomar banho. Quando tomava banho em casa, estendia uma cortina de tecido. Quando tomava banho na chuva, amarrava uma lungi sobre a cabeça. Ao espirrar, fazia pouco barulho e cobria a boca com a mão ou com um pano.
Viagens
Preferia as quintas-feiras para partir em viagem ou em uma expedição. Conduzia rapidamente o meio de transporte. Tinha o hábito de partir pela manhã do local de parada. Durante as viagens, participava necessariamente de todos os trabalhos coletivos que surgissem. Certa vez, preparava-se uma refeição. Quando os companheiros dividiram entre si as tarefas, ele também assumiu a responsabilidade de recolher a lenha. Todos disseram: “Não é necessário que o senhor se dê esse trabalho. Nós somos suficientes.” Ele disse: “Não gosto de ficar sentado entre vocês como alguém de status diferente.” (Al-Mawahib al-Ladunniyya, volume 1, p. 294.) Durante as viagens, revezava-se para permitir que alguns companheiros de viagem que iam a pé montassem em seu próprio meio de transporte. Não gostava de retornar de uma viagem à noite. Quando voltava, em vez de ir diretamente para casa, ia primeiro à mesquita e fazia uma oração voluntária. Só ia para casa depois que a notícia de sua chegada tivesse sido transmitida.
Emoções e sentimentos
Não podemos pensar na humanidade deixando de lado as emoções e os sentimentos. Também no Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) os sentimentos humanos estavam presentes em seu nível mais elevado. Ele era um homem de sentimentos intensos. Alegrava-se com a alegria e sofria com a tristeza e a dor.
Ele não fazia parte da categoria daqueles chamados grandes homens que se afligem com as dores e tristezas do mundo inteiro, mas permanecem insensíveis e indiferentes diante das tristezas de sua própria família. Tinha um amor sincero por suas nobres esposas. Bebia água no mesmo recipiente que Hazrat Aisha. Mandava chamar meninas dos Ansar para brincarem com suas esposas. Enquanto assistia às habilidades esportivas dos negros, Hazrat Aisha ficou tão cansada que continuou observando apoiada no ombro do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Ainda assim, quando ele lhe perguntou: “Já está satisfeita?”, Hazrat Aisha respondeu: “Não, ainda quero assistir mais.” Assim, ele desfrutou daquele espetáculo durante muito tempo. [Al-Mawahib al-Ladunniyya, vol. 1, p. 296.] Para ajudar Hazrat Safiyya a subir no camelo, ele estendeu o próprio joelho; Safiyya subiu no camelo apoiando-se sobre aquele joelho. Certa vez, quando a camela escorregou e caiu, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e Hazrat Safiyya caíram ao chão. Hazrat Abu Talha estava com eles. Quando correu até o Mensageiro, este disse: “Primeiro socorra a mulher.” Certa vez, quando o responsável pela caravana fez os camelos andarem depressa, o Mensageiro disse: “Cuidado, há recipientes de vidro — recipientes de vidro. Vá um pouco mais devagar, cuidado.” [Bukhari e Muslim; por “recipientes de vidro”, referiu-se às mulheres.] Foi por causa desse amor que certa vez jurou não comer mel. Por isso, foi repreendido no Alcorão com as palavras: “Não tornes ilícito o que é lícito.” [Os escritores ocidentais atacaram a vida conjugal pura e imaculada do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Entretanto, entre os homens mais responsáveis e de maior posição que nasceram em sua civilização, muitos não apenas alcançaram um nível de depravação na vida doméstica, como também levaram uma vida repulsivamente desonrosa fora desse âmbito. A característica do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) era que todas as suas emoções, sentimentos e desejos estavam limitados às suas esposas, e mesmo isso era marcado por pureza e decoro. Ele satisfez as exigências naturais de maneira mais adequada, mantendo-as dentro dos limites da decência, e estabeleceu uma forma refinada de amor conjugal.]
O carinho e o afeto do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) por seus próprios filhos eram profundos. Ele confiou Ibrahim aos cuidados de uma ama de uma família de ferreiros nos arredores de Medina, para que fosse amamentado. Caminhava uma longa distância para visitá-lo. Sentava-se em uma casa envolta em fumaça e acariciava o filho no colo. Quando Hazrat Fatima chegava, levantava-se para recebê-la. Às vezes, ele próprio ia visitá-la. Falava de sua situação e ouvia sobre a situação dela. Tinha grande carinho por seus dois filhos, Imam Hasan e Imam Husayn. Pegava-os no colo, colocava-os sobre os ombros e fazia de conta que era um cavalo, carregando-os nas costas. Permitia que subissem em seus ombros até mesmo durante a oração. Certa vez, Hazrat Aqra ibn Habis ficou surpreso ao vê-lo beijar Hazrat Hasan e disse: “Tenho dez filhos, mas nunca demonstrei esse carinho a nenhum deles. No entanto, você os beija.” O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) respondeu: “Quem não demonstra misericórdia e carinho não recebe misericórdia nem carinho.”
Quando seu filho Ibrahim morreu, seus olhos se encheram de lágrimas por causa da tristeza. Outra filha também morreu diante dele. A serva Umm Ayman começou a chorar aos gritos. O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) proibiu-a de fazer isso. Ela disse: “Mas o senhor também está chorando.” O Mensageiro respondeu: “Chorar assim, em silêncio ou com voz baixa, não é proibido. A ternura e o afeto do coração que fazem surgir esse choro suave são uma manifestação da misericórdia de Allah. Quando se pôs diante do túmulo de sua filha Umm Kulthum, lágrimas também escorriam de seus olhos. Diante do corpo de Hazrat Uthman ibn Maz’un, seus olhos também estavam cheios de lágrimas. Ele beijou sua testa. [Al-Mawahib al-Ladunniyya, vol. 1, p. 297.] Ao descrever a natureza de seu choro, disse: “Os olhos estão cheios de lágrimas, o coração está aflito, mas, ainda assim, não proferiremos com a boca palavra alguma que Allah não aprecie. Nos momentos de tristeza e luto, recitava frequentementeحسبنااللهونعمالوكيلNunca chorava em voz alta; apenas soltava longos suspiros, e de seu peito saía um som semelhante ao de algo fervendo em uma panela.
Quando um coração tão compassivo suplicava a Allah, mesmo nesse momento lágrimas brilhavam em suas pálpebras como pérolas. Certa vez, pediu a Hazrat Abdullah ibn Mas’ud que recitasse o Alcorão. Quando ele chegou a este versículo da Surata an-Nisa: “Como será, então, quando trouxermos de cada comunidade uma testemunha e te fizermos testemunha contra estes?”, lágrimas começaram a correr dos olhos do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). [A maioria dos relatos foi compilada de Shama’il al-Tirmidhi.]
A fonte do profundo carinho, afeto e compaixão que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) tinha por toda a humanidade, especialmente pelos membros da comunidade muçulmana, era justamente a ternura de seu coração. Mesmo com um coração tão terno e uma mente tão cheia de emoções, a paciência e a firmeza que o Mensageiro demonstrou diante de duras calamidades e adversidades são verdadeiramente admiráveis.
Humor
Como já disse, o Mensageiro ﷺ estava sempre sorridente. Ele disse: “Sorrir para o seu irmão também é uma boa ação.” Também foi narrado a respeito do Mensageiro ﷺ: “Ele era extremamente sorridente e sempre alegre.”
Uma das características marcantes das grandes personalidades que realizaram grandes feitos no mundo é que elas tornam suportável o peso das difíceis responsabilidades da vida com seu sorriso e conquistam um lugar no fundo do coração de seus companheiros. Ele fazia brincadeiras tão espontâneas que um profundo amor por ele se enraizava no coração de seus companheiros.” Por meio de gracejos e brincadeiras, ele criava um ambiente alegre nas reuniões. Contudo, mantinha sempre o equilíbrio. A quantidade de humor em suas conversas era igual à quantidade de sal na comida. Não havia nelas nenhuma palavra injusta ou falsa, ninguém se magoava com elas, e ninguém caía em gargalhadas. Elas provocavam apenas um leve sorriso, no qual se viam somente os dentes, sem que se vissem a cavidade da boca ou a garganta.
Certa vez, Abu Huraira disse, admirado: “Vejo que o senhor também brinca conosco!” O Mensageiro ﷺ respondeu: “Sim, brinco. Contudo, não digo nada injusto nem falso.”
Aqui apresentamos alguns exemplos das brincadeiras do Mensageiro ﷺ, preservados nos livros de hadith: [A maioria dos relatos foi compilada de Shama’il at-Tirmidhi]
Certa vez, um mendigo pediu-lhe um camelo de montaria. O Mensageiro ﷺ disse: “Darei a você um filhote de camela.” O mendigo, surpreso, perguntou: “O que farei com ele?” O Mensageiro ﷺ respondeu: “Todo camelo é filhote de alguma camela.”
Certa vez, uma idosa veio e disse: “Peça a Deus que me conceda o Paraíso.” O Mensageiro ﷺ, brincando, disse: “Nenhuma idosa poderá entrar no Paraíso.” A idosa começou a chorar e se preparou para ir embora. O Mensageiro ﷺ disse aos presentes: “Digam a ela que Deus não a levará ao Paraíso como idosa, mas a transformará em uma jovem. Deus disse: ‘Criarei novamente as mulheres do Paraíso e farei delas jovens virgens da mesma idade.’” Em suma, Deus concederá uma nova juventude às mulheres que entrarem no Paraíso.
O Mensageiro ﷺ tinha amizade com um beduíno chamado Zaher ou Zohair. Ele ajudava esse amigo beduíno nas questões relacionadas à cidade, e o beduíno ajudava o Mensageiro ﷺ nas questões relacionadas ao campo. Às vezes, o beduíno lhe dava presentes com sincera afeição. O Mensageiro ﷺ insistia bastante e acabava pagando-lhe o preço daqueles presentes. Ele dizia: “Zaher é nosso representante no campo, e nós somos seu representante na cidade.” Certo dia, Zaher vendia algumas de suas mercadorias no mercado. O Mensageiro ﷺ aproximou-se silenciosamente por trás, cobriu-lhe os olhos com as mãos e disse: “Diga-me, quem sou eu?” O beduíno ficou inicialmente confuso. Mas logo compreendeu e, tomado de alegria, começou a esfregar a cabeça contra o peito do Mensageiro ﷺ. Então o Mensageiro ﷺ brincou: “Quem comprará este escravo?” Zaher respondeu: “Ó Mensageiro de Deus, quem comprar um escravo inútil como eu será enganado.” O Mensageiro ﷺ disse: “Aos olhos de Deus, você não é inútil.”
Certa vez, comeram tâmaras em uma reunião. Brincando, o Mensageiro ﷺ começou a retirar os caroços das tâmaras e a colocá-los diante de Ali. Por fim, apontando para a pilha de caroços, disse: “Parece que você comeu muitas tâmaras.” Ali respondeu: “Eu não comi as tâmaras com os caroços.”
Durante a Batalha da Trincheira, houve um episódio em que o Rasulullah (que a paz esteja sobre ele) riu tanto que até seus dentes molares ficaram visíveis. Sa’id, pai de ‘Amir, disparou uma flecha. Um guerreiro do lado inimigo era o alvo do ataque. Ele cobria o rosto muito rapidamente com o escudo e, por isso, as flechas de Sa’d não conseguiam de modo algum atingi-lo. Por fim, Sa’d preparou novamente o arco e a flecha e ficou aguardando uma oportunidade. Assim que o soldado inimigo colocou a cabeça para fora do escudo, não teve escapatória. A flecha de Sa’d acertou-lhe diretamente a testa; ele virou a cabeça e caiu com tanta força que suas duas pernas ficaram levantadas para o alto.
As pessoas das gerações posteriores ficavam surpresas ao ouvir sobre esse tipo de humor dele. Afinal, sempre se associava à religião uma certa concepção de vida insípida, e todos sabiam que as pessoas tementes a Deus deveriam ter semblantes quase chorosos e um temperamento austero e rigoroso. Além disso, considerando a devoção constante do Rasulullah (que a paz esteja sobre ele), sua piedade e seu extraordinário senso de responsabilidade, era difícil entender como uma pessoa tão excepcional conseguia abrir espaço para o humor e a jovialidade em sua vida. Perguntaram a Ibn Umar se os companheiros do Rasulullah (que a paz esteja sobre ele) riam. Ele respondeu: “Sim, riam. Embora tivessem em seus corações uma fé maior e mais firme que as montanhas.” (Ou seja, o humor e a brincadeira não são incompatíveis com a fé e o temor a Deus.) Durante o treinamento de tiro com arco, eles corriam de um lado para o outro e rolavam de tanto rir uns com os outros. (Relato de Qatada.)
Já mencionei anteriormente que, após a oração do fajr, realizava-se regularmente uma reunião na qual surgiam assuntos relacionados à época da ignorância, e o Rasulullah (que a paz esteja sobre ele) também ria muito junto com os companheiros. Já discuti anteriormente as brincadeiras e o humor que ele praticava com as crianças e com suas esposas.
Entretenimento
O entretenimento (dentro dos limites permitidos) é uma parte indispensável de uma vida equilibrada. Assim como o humor, se essa parte também desaparecer, a vida se tornará um fardo. Nenhuma sociedade consegue sustentar por muito tempo um sistema de vida que não reserve lugar para o entretenimento. O Rasulullah (que a paz esteja sobre ele) apreciava algumas formas de entretenimento e as praticava dentro dos limites permitidos.
Pessoalmente, ele gostava de passear pelos jardins. Às vezes ia sozinho, e outras vezes levava seus companheiros; ali também realizava reuniões.
Nadar também estava entre suas atividades preferidas. Às vezes nadava em um lago com seus amigos. Para isso, formavam pares de duas pessoas. Cada par nadava de longe em direção ao outro. Certa vez, o Rasulullah (que a paz esteja sobre ele) escolheu Hazrat Abu Bakr como seu parceiro de natação.
Quando chovia, depois de alguns dias de estiagem, ele amarrava o lungi e tomava banho numa fonte. Às vezes, para se distrair, sentava-se à beira de um poço e deixava as pernas penduradas para dentro. [Shamā’il al-Tirmidhi]
Organizava competições de corrida e de tiro com arco e participava delas com grande entusiasmo. Em situações assim, também se ria muito.
Gostava que se tocassem tambores e que meninas cantassem nas festividades. Certa vez, no dia do Eid, duas meninas estavam cantando na presença de Aisha. O Mensageiro (que a paz esteja com ele) estava deitado ali perto. Abu Bakr chegou, viu aquela cena e repreendeu-as, dizendo: “Por que essas práticas satânicas estão sendo realizadas na casa do Mensageiro de Allah?” Ao ouvir isso, o Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: “Deixe-as cantar.” [Muslim, narrado por Aisha]
Também incentivava que se tocassem tambores por ocasião dos casamentos. (Narrado por Aisha e Muhammad ibn Hātih al-Juhmī.) Aisha disse: “Eu tinha comigo uma moça dos Ansar. Eu a casei. Por ocasião do casamento, o Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: ‘Aisha, você não providenciou canto? O povo dos Ansar gosta de canto.’” Em outra narração — provavelmente sobre esse mesmo acontecimento — consta que o Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: “Teria sido melhor se vocês tivessem enviado uma cantora com a noiva. Ela cantaria: ‘Viemos até vocês; portanto, sejam felizes, e nós também seremos felizes.’” Em uma cerimônia de casamento desse tipo, algumas meninas pequenas estavam cantando. Amr ibn Sa’d repreendeu alguns ouvintes, dizendo: “Ó companheiros do Mensageiro! Ó guerreiros de Badr! Essas coisas estão acontecendo diante de vocês?” Os companheiros presentes responderam: “Se quiser, sente-se e escute; caso contrário, vá embora. O Mensageiro de Allah nos deu permissão para isso.”
Como forma de entretenimento, o Mensageiro (que a paz esteja com ele) também demonstrava interesse pela poesia. Contudo, evitava a maneira como a poesia era idolatrada na Arábia. A forte atração pela doce melodia da revelação não lhe dava muita oportunidade de se voltar para a poesia. Mas ele tampouco era completamente privado do gosto pela poesia. Apreciava bastante a boa poesia quanto ao conteúdo. Pode-se dizer, antes, que o Mensageiro (que a paz esteja com ele) proporcionou à sociedade um novo gosto nesse aspecto e estabeleceu um novo critério de seleção e avaliação. Jabir ibn Samura disse: “Participei de mais de cem reuniões na presença do Mensageiro (que a paz esteja com ele). Nessas reuniões, assim como se contavam histórias da época da ignorância, os companheiros também recitavam poesia. Certa vez, ele elogiou os dois versos seguintes de um poema do poeta árabe Labid:”(Árabe***********)
“Sabei que tudo perece, exceto Allah; todas as dádivas deste mundo um dia desaparecerão.”
Certa vez, enquanto estava no exílio, pediu a Shurayd que lhe recitasse cem poemas do poeta Umayyah ibn Abi al-Salt. Depois comentou: “Esse homem chegou perto de aceitar o Islã.” Às vezes, ele próprio também falava espontaneamente e sem intenção, especialmente no campo de batalha, em um estilo semelhante ao da poesia. Quando os inimigos do Islã recitavam poemas de difamação contra o Islã, fazia com que Hassan e Ka’b ibn Malik compusessem poemas em resposta. Ocasionalmente, fazia Hassan sentar-se em seu púlpito para recitar poesia e dizia: “Este poema é mais duro contra o inimigo do que uma flecha.” Também disse: “Assim como o crente combate com a espada, combate também com a língua.” Quero discutir detalhadamente, em um artigo separado sobre poesia, literatura e outras questões culturais, como o Mensageiro (que a paz esteja com ele) utilizava o gosto das pessoas em atividades construtivas.
Alguns gostos refinados
Neste ponto, quero mencionar alguns hábitos e gostos pessoais do Mensageiro (que a paz esteja com ele) que não foram incluídos em nenhum outro título.
Ele realizava o ato de dar e receber qualquer coisa sempre com a mão direita. Quando era necessário escrever uma carta, fazia escrever primeiro “Bismillah”. Depois vinha o nome do remetente e, abaixo dele, o nome daquele a quem a carta era dirigida.
Ele era livre de fantasias e não acreditava em nenhum “bom presságio” ou “mau presságio”. Contudo, gostava de nomes de pessoas e lugares que tivessem bons significados e fossem agradáveis de ouvir. Não gostava de nomes ruins. Em particular, durante as viagens, escolhia como locais de parada lugares cujos nomes expressassem alegria, bênção ou sucesso. Da mesma forma, não confiava nenhuma tarefa a uma pessoa cujo nome transmitisse o significado de discórdia, luta ou prejuízo. Confiava as responsabilidades somente àqueles cujos nomes expressassem alegria, sucesso e semelhantes. Ele mudou muitos nomes.
– Entre os animais de montaria, o cavalo era o seu preferido. Dizia que nos cavalos havia bênção e prosperidade até o Dia da Ressurreição. Cuidava especialmente dos olhos, da boca e do nariz dos cavalos, limpando-os pessoalmente.
– Ele não gostava de alvoroço nem de tumulto. Amava a calma, a disciplina e a pontualidade em todos os assuntos. Até mesmo sobre a oração disse: “Não venhais correndo; vinde com calma e serenidade.” Quando houve muito alvoroço no dia de Arafat, ergueu seu bastão e ordenou que se mantivessem calmos e observassem a disciplina, dizendo: “Não há mérito na pressa.” [Bukhari e Muslim]
Caráter e personalidade
Não é possível descrever o caráter, a personalidade e a moral do Mensageiro (S.A.) sob um único subtítulo, pois toda a sua vida foi a própria personificação do bom caráter. Hazrat Aisha disse: “O Alcorão era o seu caráter.” Hazrat Anas ibn Malik disse: “Ele era o mais justo, generoso e corajoso de todos.”
Ele era o mais justo de todos, pois jamais causou sofrimento a alguém ao longo de toda a sua vida (exceto no que foi prescrito por Allah) e nunca se vingou das agressões dos outros. Perdoou a todos, inclusive os opressores sem precedentes de Meca e Taif, bem como todos os hipócritas e malfeitores. Era o mais generoso de todos, pois Hazrat Jabir (que Allah esteja satisfeito com ele) disse que o Mensageiro de Allah nunca se recusou a dar algo a quem quer que lhe pedisse. Se tinha algo em mãos, dava imediatamente; às vezes tomava emprestado de outra pessoa para dar; e, quando não tinha, pedia que voltassem mais tarde ou permanecia em silêncio. Era o mais corajoso de todos. Como prova disso, basta dizer, por ora, que ele entrou sozinho em campo com o ideal da verdade e permaneceu firme diante da oposição e da perseguição de toda a população do país. Jamais demonstrou medo ou fraqueza diante de qualquer das guerras mais difíceis. Fosse na caverna do monte Thawr, fosse nos campos de batalha de Uhud e Hunayn, em toda parte demonstrou firme determinação e fé.
Capítulo: 3
O Amigo da Humanidade (que a paz esteja com ele) na era de Meca: diante de intensa oposição
Esta é uma verdade eterna.
Aceitem esta verdade e
tornem-se meus companheiros. Vocês verão:
com o seu poder, toda a Arábia será de vocês.
Ela se unirá como um punho e, sob sua influência,
o mundo inteiro ficará sob o domínio de vocês.
— O Amigo da Humanidade (que a paz esteja com ele)
Agora, examinemos o contexto do acontecimento. Observemos o crescimento daquela árvore florida que desabrochou no deserto árido e ao redor da qual foram espalhados espinhos como forma de recepção.
Este é o jovem
Numa família ilustre, nobre e tradicional da Arábia, nasceu sem pai uma criança extraordinária, no lar de um casal afortunado e de natureza pura. Alimentada pelo leite de uma pobre e virtuosa ama de leite, foi criada e cresceu no colo da natureza, num ambiente rural saudável e autêntico. Sob cuidados especiais, enquanto corria pelo deserto, começou a preparar-se para enfrentar os extremos perigos, calamidades e sofrimentos da vida, e, pastoreando cabras e ovelhas, recebeu treinamento para liderar uma nação de alcance mundial. Antes mesmo de completar toda a infância, essa criança extraordinária foi privada também da sombra afetuosa da mãe. Embora a presença do avô pudesse preencher em parte esse vazio parental, não demorou muito para que esse abrigo também lhe fosse retirado. Por fim, o tio tornou-se seu responsável. Era como uma etapa de preparação para cumprir as grandes responsabilidades da vida sob a proteção do único verdadeiro Senhor, sem depender do amparo de qualquer abrigo terreno.
Até ingressar na juventude, esse adolescente extraordinário não se revelou travesso e desregrado como os demais meninos; ao contrário, manifestava a solenidade e a gravidade dos mais velhos. Quando chegou à juventude, apesar de ter sido criado num ambiente extremamente imundo, conseguiu manter sua juventude imaculada. Numa sociedade em que o amor, a troca de olhares lascivos e o adultério eram motivo de orgulho para os jovens, esse rapaz extraordinário não permitiu sequer que seu olhar fosse corrompido. Numa sociedade em que havia oficinas de fabricação de bebidas alcoólicas em cada esquina e tabernas em todas as casas, e em que cada reunião se transformava numa animada sessão de declarações públicas de amor a mulheres alheias e de recitação de poemas sobre a embriaguez, esse jovem não levou à boca sequer uma gota de álcool. Onde os jogos de azar haviam assumido a forma de eventos sociais, esse jovem, revestido de pureza da cabeça aos pés, não tocava sequer no jogo. Onde contar histórias fantásticas e tocar música eram partes inseparáveis da cultura, esse habitante de um mundo diferente não se aproximava nem um pouco dessas manifestações de decadência cultural. Embora em uma ou duas ocasiões tivesse tido a oportunidade de ir a esse tipo de entretenimento, assim que chegava era tomado por um sono tão forte que não conseguia assistir nem ouvir qualquer apresentação dali. Numa sociedade em que prostrar-se diante de ídolos havia se tornado uma prática religiosa, esse jovem de temperamento puro, descendente de Ibrahim, não inclinava a cabeça diante de ninguém além de Allah, nem alimentava qualquer concepção semelhante às dos idólatras. Certa vez, quando lhe ofereceram carne cozida de um animal sacrificado diante de um ídolo, recusou-se a comê-la. Enquanto os coraixitas realizavam o Hajj na temporada da peregrinação sem ir ao campo de Arafat, esse extraordinário jovem coraixita rejeitou diretamente essa regra inventada. Enquanto os descendentes de Ibrahim distorciam o ideal de Ibrahim e, além de muitas outras transgressões, instituíam a abominável inovação de circundar a Caaba despidos, esse jovem modesto não aceitou tal inovação nem por um instante. Num país onde a guerra havia se transformado em jogo e o derramamento de sangue em espetáculo, esse jovem, porta-estandarte da honra da humanidade, não derramou sequer uma gota de sangue. Na juventude, esse rapaz foi obrigado a participar de uma grande guerra chamada Harbul Fijar. Como a participação da tribo dos coraixitas naquela guerra era considerada justa, ele juntou-se a ela, mas não feriu pessoalmente ninguém.
E não é só isso. Vejam também quais eram os interesses desse jovem de caráter íntegro e comprometido com a verdade. Na idade em que os rapazes geralmente se desviam, ele se juntou justamente a uma associação reformista chamada Hilful Fudul, com o objetivo de ajudar os pobres e oprimidos e pôr fim à injustiça dos opressores. Os que dela participavam comprometiam-se a concretizar esses objetivos.
Depois de receber a profecia, o Mensageiro (que a paz esteja sobre ele), ao recordar aquela associação, dizia:
Mesmo que alguém me desse camelos vermelhos em troca daquele compromisso, eu ainda assim não renunciaria a ele. E, ainda hoje, se alguém me convidar a firmar um acordo semelhante, estarei pronto para isso.
A dimensão das qualidades e da capacidade desse jovem pode ser compreendida por este acontecimento: durante a reforma da Caaba, surgiu um intenso conflito interno entre os coraixitas sobre a recolocação da Pedra Negra. A situação chegou a tal ponto que as espadas foram desembainhadas e se levantou um grande clamor. Felizmente, foi justamente esse jovem que teve a oportunidade de resolver a disputa. Em meio à extrema tensão, esse juiz, porta-estandarte da paz, estendeu um manto e colocou sobre ele a pedra chamada Pedra Negra. Depois, convidou os representantes de todos os ramos da tribo dos coraixitas a levantarem o manto.
Quando o manto que continha a Pedra foi erguido e chegou ao lugar apropriado, esse jovem levantou a Pedra e a colocou em seu devido lugar. A confusão cessou, e os rostos de todos se iluminaram de alegria e satisfação.
Quando esse jovem ingressou no campo da obtenção de sustento, escolheu o comércio, uma profissão tão pura e honrosa. Os grandes capitalistas do país o escolheram para administrar seus capitais e realizar negócios. Certamente havia nele qualidades que os levaram a escolhê-lo. Saib, Qais ibn Saib, Hazrat Khadija e várias outras pessoas, uma após outra, tiveram experiência concreta da incomparável honestidade desse jovem, e todos, em uníssono, o agraciaram com o título de “Tajir al-Amin”, ou seja, “comerciante honesto”. O testemunho de Abdullah ibn Abi al-Hamsa ainda está preservado. Antes da profecia, certa vez ele combinou com esse jovem comerciante honesto: “Fique aqui; eu já volto.” Mais tarde, porém, esqueceu-se disso. Três dias depois, ao passar por acaso por aquele lugar, Abdullah viu que o comerciante honesto permanecia ali, imóvel, preso à corrente de sua promessa. Ele disse a Abdullah: “Você me causou sofrimento. Estou aqui de pé há três dias.” — Abu Dawud
Depois, observem que, ao escolher uma companheira de vida, esse jovem não voltou sequer os olhos para as jovens frívolas e inquietas que começavam a florescer em Meca; em vez disso, casou-se com uma mulher cuja principal característica era ser casta, virtuosa e de bom caráter, pertencente a uma família extremamente nobre. Essa escolha revela profundamente sua mentalidade, sua natureza e seu caráter. Foi Hazrat Khadija quem enviou a proposta de casamento, impressionada com a honestidade incomparável e o caráter puro desse jovem. E o jovem aceitou a proposta de todo o coração.
Além disso, se quisermos avaliar o caráter e a mentalidade de uma pessoa observando seus amigos e companheiros, vejamos então que tipo de pessoas eram amigas desse jovem.
Provavelmente, sua amizade mais profunda e sua relação mais sincera eram com Hazrat Abu Bakr. Eram da mesma idade e, além disso, tinham pensamentos semelhantes. Outro de seus amigos era Hakim ibn Hizam, primo de Hazrat Khadija. Esse homem era servidor da Mesquita Sagrada. Até o oitavo ano da Hégira, ele ainda não havia abraçado a fé. Mesmo assim, mantinha profunda amizade e afeição pelo Mensageiro (S.A.). Por causa dessa amizade, certa vez comprou uma roupa valiosa por cinquenta moedas de ouro, foi a Medina e a ofereceu de presente ao Mensageiro (S.A.). Porém, o Mensageiro (S.A.), depois de muita insistência, pagou-lhe o valor da roupa. Um médico chamado Dimad ibn Tha’laba al-Azdi também era um de seus amigos mais próximos. Ora, não se encontra sequer uma pessoa baixa, vil, de maus hábitos, tirânica ou pecadora entre os amigos desse jovem!
Sempre que esse jovem encontrava algum tempo livre, afastado das ocupações domésticas, comerciais e de outras preocupações mundanas, não o passava em diversões e entretenimentos. Não o passava vagando sem rumo, em rodas de conversa ou dormindo preguiçosamente. Pelo contrário, afastando-se de toda agitação e deixando de lado todas as ocupações, adorava o Deus Uno e Único, seguindo a orientação de sua consciência e de sua natureza inata, pura e imaculada, recolhendo-se ao recinto isolado da caverna de Hira. Para compreender a grande verdade oculta do universo e conhecer os mistérios invisíveis da vida humana, dedicava-se à reflexão e à investigação dentro de si mesmo e nas profundezas da natureza universal. Pensava em como elevar seus compatriotas e toda a humanidade, retirando-os da imoralidade e da baixeza e elevando-os ao nível dos anjos. Pode a consciência, a razão e a percepção humanas chegar a alguma conclusão sobre a natureza elevada e pura desse jovem, cuja juventude foi consumida em uma reflexão e investigação tão profunda?
Por meio de acontecimentos desse tipo na vida cotidiana, o futuro Profeta universal foi criado e educado no seio da sociedade de Meca, diante dos olhos dos coraixitas; depois, entrou na juventude e alcançou a maturidade. Esse retrato da vida não mostrava que esse jovem era um ser humano extraordinário? Seria possível de algum modo imaginar, a respeito de uma personalidade que cresceu assim, que ele pudesse ser um mentiroso ou impostor? Ou que pudesse ser alguém ambicioso por cargos, egoísta, ou um comerciante da religião que fizesse negócio usando a religião como capital? Jamais. Os próprios coraixitas reconheceram, repetidas vezes, que ele era um homem veraz, confiável e honesto, sábio, de alma pura e de nobre caráter. Até seus inimigos testemunharam a superioridade de sua inteligência e de sua moralidade, inclusive durante os mais intensos conflitos e confrontos. O próprio Alcorão também apresenta como testemunho o retrato da vida desse grande pregador da verdade, ordenando-lhe que dissesse:
“Eu já passei entre vós uma parte da minha vida antes disso; ainda assim, não compreendeis?” (Yunus, 16)
Mas, quando essa joia radiante da nação assumiu o posto de profeta e apresentou a mensagem da verdade, a atitude deles mudou de repente. Todo o valor de sua honestidade, veracidade, cortesia, grandeza e nobreza de linhagem desapareceu. Até o dia anterior, ele era a menina dos olhos da nação; agora, recebeu os títulos de inimigo, rebelde e vergonha da nação. Até o dia anterior, todas as crianças o respeitavam; agora, tornou-se alvo da ira de todos. Durante mais de quarenta anos, ele havia provado ser irrepreensível; contudo, bastou começar a anunciar a unicidade de Allah, a verdade e a justiça para que, aos olhos dos coraixitas, ele se tornasse uma pessoa má! Na realidade, ele não era mau. A distorção estava nos olhos dos que o avaliavam entre os coraixitas, e os critérios deles eram equivocados.
Mas será que os olhos dos coraixitas estavam realmente tão cegos que não conseguiram ver uma lua tão luminosa em meio à escuridão profunda? Ao verem um líder de caráter íntegro no meio de uma reunião de pessoas sem caráter, não conseguiram reconhecê-lo? Uma guirlanda de pérolas caída num depósito de lixo não lhes chamou a atenção? Numa sociedade de pessoas incivilizadas e vis, esse homem, revestido da cabeça aos pés de educação e boas maneiras, não conseguiu conquistar o devido respeito e consideração? Não, não foi isso. Os coraixitas sabiam muito bem que tipo de homem era Muhammad. Mas, mesmo sabendo disso, colocaram vendas sobre os próprios olhos. O egoísmo e a hostilidade os tornaram cegos embora tivessem olhos. Como diz o Alcorão: “Eles têm olhos, mas não veem com eles.” Quando pessoas cegas apesar de terem olhos agem, não há perigo que não possam causar, nem calamidade que não possa surgir.
As razões da oposição dos coraixitas
Se hoje pudéssemos, de algum modo, conversar com os coraixitas de Meca, certamente lhes perguntaríamos: que ato mau, afinal, aquele querido membro da vossa tribo vos incitou a praticar por meio do convite que vos fez? Ele vos teria chamado a roubar e assaltar? Teria vos convocado a matar e pilhar? Teria apresentado algum plano para oprimir, perseguir e explorar órfãos, viúvas e pessoas vulneráveis? Teria vos incitado a continuar lutando entre vós e a provocar conflitos entre as tribos? Teria querido fundar alguma associação para acumular riquezas e adquirir propriedades? Que dificuldade encontrastes em atender ao seu chamado? Que calamidade sentistes em seu programa? Por que vos empenhastes tão obstinadamente contra ele?
Aquilo que deixava os coraixitas enfurecidos para manter o sistema equivocado da Jahiliyyah e erguer resistência contra a mudança não era qualquer defeito no pensamento ou no caráter do Mensageiro, nem havia algo gravemente prejudicial em seu chamado. Tampouco era porque seu movimento parecesse conduzir a sociedade jahilita daquele tempo ao atraso. Pelo contrário, aquilo era simplesmente o egoísmo dos coraixitas. Na estrutura social árabe formada ao longo de centenas de anos, os coraixitas haviam conseguido ocupar uma posição de liderança superior. Todos os cargos políticos e religiosos estavam sob seu controle. Seu domínio econômico e comercial era irresistível. Em uma palavra, eram eles os governantes e dirigentes de toda a nação árabe. Essa liderança e esse domínio incontestáveis só podiam funcionar dentro da estrutura religiosa, cultural e social herdada da era da Jahiliyyah. Se, consciente ou inconscientemente, estavam obrigados a preservar sua liderança e autoridade absolutas, então também estavam obrigados a proteger seu sistema social jahilita de todo tipo de ataque e decadência.
Embora a tribo dos coraixitas fosse líder e dirigente dos árabes nos âmbitos social e político, também era sacerdotisa da religião idólatra dos árabes, guardiã e servidora dos santuários religiosos e administradora exclusiva de todas as atividades religiosas. Essa administração religiosa exclusiva e autoridade absoluta também sustentavam sua autoridade política e social, constituindo por si mesmas um grande sistema. Por causa disso, recebiam oferendas e dádivas de todas as regiões da Península Arábica. Por causa disso, eram objeto de profunda devoção e reverência. As pessoas beijavam seus pés. Quando a religião se transforma em negócio de uma classe ou grupo, sua verdadeira inspiração, consciência e força vital desaparecem, e ela assume a forma de um espetáculo vazio e ostensivo, repleto de todo tipo de ritual. Ninguém mais se lembra das exigências fundamentais da religião. Então tradições e cerimônias inventadas passam a ter importância primordial. O conhecimento e as leis baseados na revelação de Allah desaparecem, e desenvolve-se uma nova sharia criada pelos exploradores da religião. A racionalidade desaparece. A fé cega e as crenças ilusórias espalham-se por toda parte. Desaparece o costume de apresentar argumentos acompanhados de provas e testemunhos. A emoção e a agitação sufocam a voz da razão. O caráter popular e democrático da religião é eliminado, e a ditadura dos exploradores da religião instala-se sobre a sociedade. O conhecimento verdadeiro desaparece, enquanto afirmações sem fundamento ganham popularidade. Em lugar da crença e das normas simples e claras, impõem-se, a cada passo, regras complexas e tortuosas. O direito de sustentar opiniões divergentes é completamente retirado, e a autoridade despótica de um grupo passa a vigorar livremente. Não resta sequer sinal de verdade, honestidade, cortesia ou temor de Allah, e a religião assume a forma de um negócio enganoso e multiforme. Sempre que uma religião foi corrompida, isso aconteceu por esse mesmo processo. Na sociedade jahilita da Arábia, essa corrupção atingira seu nível mais baixo. Sobre essa corrupção estava estabelecido o trono do sacerdócio religioso da tribo dos coraixitas. Para preservar esse trono de poder, tão lucrativo, era necessário manter aquele ambiente e aquela estrutura religiosa corrompidos. Era indispensável impedir qualquer contestação, protesto ou voz discordante contra isso, bem como qualquer apelo a reformas e correções. Portanto, era perfeitamente natural que a tribo dos coraixitas se enfurecesse contra o chamado do Islã.
Além disso, a cultura dos coraixitas era uma cultura de extrema depravação. O consumo de álcool, o adultério, o jogo, a usura, a violência contra as mulheres, enterrar vivas as meninas, transformar pessoas livres em escravas e oprimir os fracos — tudo isso caracterizava a cultura coraixita. Essa cultura era formada pela combinação de maus hábitos acumulados ao longo de centenas de anos com práticas sociais repulsivas que haviam assumido a forma de gloriosas tradições nacionais. Para os coraixitas, não era fácil romper a jaula de ferro cultural que haviam construído com as próprias mãos e preparar-se para viver num novo ambiente. Eles compreenderam imediatamente que o chamado de Muhammad era inimigo de seus costumes e tradições ancestrais, hábitos, desejos, artes e, em suma, de sua amada cultura. Por isso, tomados por uma intensa emoção, decidiram firmemente opor-se àquele chamado.
Na verdade, foi por todas essas razões que os dirigentes do sistema social corrompido estabelecido, os contratantes religiosos e os adoradores dos próprios desejos sempre se uniram para se opor ao chamado da verdade.
Algumas faíscas de fogo na escuridão absoluta
Antes de o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, receber a profecia, começou a surgir inquietação no coração de algumas pessoas talentosas da Arábia. Com base nos indícios e sinais divinos refletidos nos sinais naturais presentes no universo, elas passaram a sentir desconfiança e aversão pela sociedade, pelo ambiente e pela religião idólatra vigentes. Esse estado deixou seus corações inquietos e os levou a expressar uma oposição espontânea e veemente. Também no íntimo das poucas pessoas sensíveis cujos nomes mencionamos pouco antes havia despontado um anseio indistinto por mudança.
Certo dia, o povo dos coraixitas estava reunido ao redor de um ídolo, celebrando uma festividade. Eles entoavam cânticos de louvor àquela divindade de pedra, prestavam-lhe devoção, ofereciam-lhe diversas oferendas e realizavam a circunvolução ao seu redor. Foi justamente nessa ocasião que quatro homens — Waraqa ibn Nawfal, Abdullah ibn Jahsh, Uthman ibn al-Huwayrith e Zayd ibn Amr —, desgostosos com aquela festividade sem sentido, sentaram-se num lugar afastado para realizar uma reunião secreta. Depois de jurarem preservar o segredo das palavras uns dos outros, começaram a conversar. Sua opinião unânime era a seguinte: “Nosso povo segue uma ideologia completamente sem fundamento. Abandonou a religião de seu antepassado Ibrahim. A estátua de pedra que adoram não vê, não ouve, não pode beneficiar ninguém nem causar dano a ninguém. Companheiros, consultem a própria consciência e, por Allah, compreenderão que não têm fundamento algum. Percorram os países do mundo e procurem saber se existe em algum lugar um verdadeiro seguidor da religião de Ibrahim. (Sīrat Ibn Hisham, volume 1, p. 242.) Mais tarde, Waraqa ibn Nawfal tornou-se cristão. Abdullah ibn Jahsh tornou-se muçulmano inicialmente levado pela inquietação e depois, também levado pela inquietação, tornou-se cristão novamente. Uthman foi até o imperador romano e aceitou o cristianismo. Já Zayd não se tornou nem judeu nem cristão, mas também abandonou a idolatria. Deixou de comer a carne de animais mortos, o sangue e a carne dos animais sacrificados nos altares, e começou a proibir as pessoas de matar meninas recém-nascidas. Ele dizia: “Adoro o Senhor de Ibrahim”. (Sīrat Ibn Hisham, volume 1, p. 242.) Asma, filha de Hazrat Abu Bakr, disse: “Vi o velho chefe tribal Zayd sentado, encostado à Caaba Sagrada. Ele dizia: ‘Ó povo dos coraixitas, por Allah, nenhum de vocês segue a religião de Ibrahim, exceto eu.’ Depois disse: ‘Ó Allah, se eu soubesse qual prática Te agrada, eu Te adoraria segundo essa prática. Mas não sei.’ Então colocava as palmas das mãos no chão e prostrava-se. (Sīrat Ibn Hisham, volume 1, p. 242.) Quando alguém o visitava, ele frequentemente recitava este poema, cujo significado era: ‘O Senhor deveria ser um só, ou milhares? Quando os problemas da vida são distribuídos entre vários senhores, a qual deles devo obedecer?’”
“Abandonei completamente Lāt e Uzzā. É isso que fazem as pessoas determinadas e pacientes.”
“Contudo, continuarei certamente adorando meu Misericordioso, para que esse Senhor perdoador perdoe os meus pecados.”
“Portanto, mantenham continuamente o princípio de temer unicamente a Allah; enquanto o mantiverem, não serão destruídos.”
A pobre esposa de Zayd, Safiyya bint al-Hadrami, estava constantemente em seu encalço. Às vezes, Zayd queria deixar Meca em busca da verdadeira religião de Ibrahim. Mas sua esposa informava antecipadamente Khattab ibn Nufayl. E Khattab o repreendia severamente por abandonar a religião ancestral. Zayd era tão dedicado às suas convicções que, assim que entrava no recinto da Caaba Sagrada, exclamava:
“Ó verdadeiro Senhor! Vim até Ti para Te adorar com sinceridade e espírito de servidão.” Depois dizia também: “Voltado para a Caaba, busco refúgio junto Àquele junto a quem Hazrat Ibrahim buscava refúgio.” (Sīrat Ibn Hisham, p. 248.)
Khattab ibn Nufayl atormentava Zayd. Em determinado momento, exilou-o para fora de Meca. Zayd passou a permanecer nas proximidades de Hira, nos arredores de Meca. Depois, Khattab nomeou como seus guardas alguns jovens e homens de má índole da tribo dos coraixitas e ordenou que não lhe permitissem entrar em Meca. Às vezes, Zayd vinha secretamente a Meca. Quando Khattab e seus companheiros descobriam, expulsavam-no novamente. Eles o torturavam com grande crueldade, acusando-o de corromper a religião. Finalmente, exasperado, ele deixou o país e passou a viajar por Mossul, Síria e outros lugares em busca da religião de Ibrahim. Por fim, encontrou um sábio dervixe na região de Roulka, em Damasco, e foi até ele para perguntar sobre a religião de Ibrahim. O dervixe disse: “Hoje já não encontrarás sequer uma pessoa que siga esta religião. Contudo, em breve surgirá um profeta portador da bandeira desta religião, e ele surgirá justamente no lugar de onde vieste. Vai e encontra-o.” Zayd havia examinado cuidadosamente as religiões judaica e cristã. Nenhuma das duas o havia atraído. Seguindo o conselho do dervixe, partiu apressadamente em direção a Meca. Porém, no caminho, foi morto por pessoas num lugar chamado ‘Bilad Lakhm’. [Sira de Ibn Hisham, (volume 1, pp. 249-250)]
Após o surgimento do Islam, Sa‘id, filho de Zayd, e Umar perguntaram ao Mensageiro de Allah se podiam orar pelo perdão dos pecados de Zayd. O Mensageiro de Allah respondeu: “Sim, pois no Dia da Ressurreição ele será ressuscitado como uma comunidade distinta.” Em outras palavras, tendo recebido da sua natureza pura toda a orientação que uma pessoa podia obter, Zayd a aceitou com plena sinceridade; depois, empenhou-se intensamente em buscar a orientação da revelação. Por fim, partiu ao encontro do Mensageiro de Allah, mas foi martirizado justamente no caminho em busca da verdade.
Desta longa narrativa compreende-se que a história estava inquieta, prestes a tomar um novo rumo, e que a consciência humana estava perturbada. Contudo, além dos vagos indícios da natureza, não se encontrava nenhuma orientação que apontasse para a luz. O ambiente de práticas religiosas corrompidas e cerimônias irracionais sufocava a individualidade humana. As pessoas estavam aprisionadas entre as quatro paredes da estagnação. Os indivíduos sensíveis ou haviam chegado ao cristianismo e ali parado, pois o ambiente lhes era favorável, ou eram obrigados a deixar o país. Mas lutar contra o desvio em curso era extremamente difícil. Entre os quatro homens mencionados surgiu uma revolta. Entre eles, somente Zayd teve coragem suficiente para invocar o Deus Único enquanto estava sentado no Santuário Sagrado e condenar o paganismo diante dos coraixitas. Ainda assim, não pôde fazer mais do que manifestar sua inquietação e protestar, pois diante dele não havia um modelo claro e completo que pudesse adotar como base para a pregação e o movimento. Mesmo assim, Meca recusou-se a tolerar sua existência.
Na sociedade da jahiliyyah, os poetas gozavam de grande prestígio. Eles também exerciam liderança psicológica sobre as pessoas. Sua poesia era a expressão da mentalidade e do pensamento da sociedade daquele tempo. A marca da inquietação da consciência social refletia-se na poesia dos poetas da jahiliyyah da época imediatamente anterior ao Mensageiro de Allah. Nesses poemas, muitas vezes a consciência humana erguia a voz em defesa das verdades fundamentais.
Entre esses poetas estava Umayya ibn Abi al-Salt, um ilustre chefe de Taife. Ele apresentou boas concepções sobre o tawhid, o Dia da Ressurreição e a recompensa pelas ações. Além disso, seus poemas continham vários conselhos morais. Ele também era rebelde contra o pensamento pagão. Contudo, não teve a ventura de aceitar a pregação do Mensageiro de Allah. O Mensageiro de Allah apreciava sua poesia e dizia que aquele homem havia chegado ao limiar da aceitação do Islam.
Ao observar a agitação interior de pessoas conscientes desse tipo, parece que o ambiente se tornara ansioso por receber uma nova mensagem vivificante.
A força revolucionária cuja chegada a história aguardava manifestou-se, no momento apropriado, por meio de Muhammad. Ele não surgiu apenas para erguer a voz em protesto negativo, trazendo sua disposição pessoal e seu nobre caráter; surgiu, antes, com uma doutrina e uma ideologia positivas e abrangentes, para realizar uma transformação radical em toda a nação e em todo o ambiente. Como seria possível às poderosas forças do erro que então dominavam a Arábia tolerarem esse “crime” (?)?
A primeira época da pregação: a divulgação secreta
Durante o período em que, como preparação para o início da missão profética, o Mensageiro (s.a.w.) permanecia absorto em meditação solitária, recebia vários sonhos verdadeiros. Às vezes, ouvia vozes do invisível. Às vezes, via um anjo. Por fim, chegou a primeira mensagem do Trono de Allah. Jibril veio e se dirigiu a ele: (Árabe********)
Essa foi sua primeira experiência de receber a revelação. Ele sentiu como se um fardo enorme e aterrorizante tivesse se instalado sobre seu pescoço. Ao voltar para casa, contou o ocorrido à sua esposa. Ela o consolou, dizendo que seu Senhor jamais o abandonaria. Waraqa ibn Nawfal disse: “Este é o mensageiro de Allah que foi enviado a Moisés (a.s.).” Disse ainda: “Seu povo o chamará de mentiroso, o perseguirá, expulsará você do país e lutará contra você. Se eu estiver vivo naquele dia, apoiarei você na causa de Allah.” Depois disso, ele foi oficialmente encarregado da missão de transmitir a verdade em nome de Allah. Um imenso fardo de responsabilidade foi colocado sobre ele. Esse chamado foi apresentado primeiro a Hazrat Khadija, que recebeu a honra de ser a primeira pessoa a crer nele. Depois, esse trabalho começou a avançar lentamente e em segredo. Hazrat Abu Bakr Siddiq era seu amigo de infância. Os dois tinham temperamento e gosto semelhantes. Quando recebeu o chamado à verdade, aceitou-o imediatamente, como se sua alma já estivesse esperando por ele. Zaid, o filho adotivo do Mensageiro (s.a.w.), também se tornou seu companheiro. Ele já havia sido influenciado por sua vida e seu caráter.
A fé dessas pessoas mais próximas nele era uma prova de sua devoção, sinceridade e veracidade. Durante vários anos, essas pessoas haviam conhecido completamente sua vida pessoal e social, seu interior e seu exterior. Ninguém poderia conhecer melhor do que elas a vida, o caráter, os pensamentos e a mentalidade do Mensageiro (s.a.w.). Essas pessoas mais próximas responderam ao seu chamado desde o início e testemunharam que a veracidade e a sinceridade do pregador eram incontestáveis.
Assim que Hazrat Abu Bakr (r.a.) se tornou um soldado do movimento do Mensageiro (s.a.w.), começou imediatamente a trabalhar intensamente entre as pessoas sob sua influência. Ele conseguiu tornar membros desse movimento revolucionário várias personalidades importantes, entre elas Hazrat Umar, Uthman, Zubair, Abd al-Rahman ibn Awf, Sa’d ibn Abi Waqqas e Talha (r.a.). Com extrema cautela, sigilo e silêncio, eles começaram a expandir esse trabalho. Entre os demais que, nessa época secreta e inicial do movimento islâmico, entraram para o grupo dos primeiros muçulmanos estavam Hazrat Ammar, Khabbab, Arqam, Sa’id ibn Zayd (filho de Zayd ibn Amr, mencionado anteriormente, que havia sido profundamente influenciado pelo pai), Abdullah ibn Mas’ud, Uthman ibn Maz’un, Abu Ubaidah, Suhayb al-Rumi e outros.
Quando chegava a hora da oração, o Mensageiro (s.a.w.) ia para alguma montanha e realizava a oração secretamente com seus companheiros. Somente a oração do duha ele realizava no pátio da Caaba, pois essa oração também era praticada pelos coraixitas. Certa vez, o Mensageiro (s.a.w.) realizou a oração em uma passagem montanhosa acompanhado de Hazrat Ali. Naquele momento, seu tio Abu Talib os viu. Ao observar aquela nova forma de oração, ficou atônito e continuou olhando atentamente. Depois da oração, perguntou: “Que religião é essa que vocês adotaram?” O Mensageiro (s.a.w.) respondeu: “Esta é a religião de nosso avô Abraão.”
Ao ouvir isso, Abu Talib disse: “Não me é possível adotar essa religião. Contudo, dou-lhes permissão; ninguém poderá impedi-los. [Sirat-un-Nabi, Shibli Numani, (volume 1, p. 192).]
Hazrat Abu Dharr também abraçou a fé durante esse período secreto do movimento islâmico. Segundo o erudito Shibli Numani, ele ocupava a sexta ou a sétima posição. Ele também estava entre aqueles que sofriam de inquietação e que, abandonando a idolatria, adoravam Allah e O invocavam apenas em resposta ao chamado de sua natureza pura e de sua consciência. De algum modo, ele ficou sabendo do chamado do Mensageiro (s.a.w.). Então enviou seu irmão para obter informações precisas. Seu irmão encontrou-se com o Mensageiro (s.a.w.), ouviu sua recitação do Alcorão e, ao voltar, disse-lhe: “Fui ver esse pregador. As pessoas o chamam de apóstata [Vejam a estranha forma que uma sociedade deformada pode assumir. Aquele que veio ensinar a fé a todas as pessoas do mundo é justamente chamado de apóstata! Os exploradores da religião de todas as épocas costumam emitir veredictos desse tipo]. Mas ele ensina nobres virtudes morais e recita uma mensagem extraordinária, completamente diferente da poesia humana. Sua conduta é semelhante à sua.” Depois disso, ele próprio foi até lá e abraçou o Islã.
Esse acontecimento comprova que, apesar do sigilo adotado, a fragrância da verdade, carregada pelo vento, corria de horizonte em horizonte. Nessa época, também começaram a atribuir vários epítetos ofensivos ao Mensageiro (s.a.w.). Apesar disso, o ambiente permanecia relativamente tranquilo e normal, pois os líderes coraixitas ainda não haviam compreendido a gravidade do perigo iminente.
Observem também outro ponto importante: entre os líderes da vanguarda deste movimento islâmico, não havia sequer um que ocupasse um alto cargo nacional ou religioso. Por isso, estavam livres de todos os vínculos do interesse próprio. Na história, são jovens de espírito independente como esses que costumam ocupar as primeiras fileiras para iniciar grandes transformações. Nenhum líder ou pessoa em posição elevada contribuiu para essa causa.
Os líderes dos coraixitas não consideravam esse movimento islâmico, ainda em sua fase secreta, digno de qualquer atenção. Pensavam que aquilo não passava da loucura de alguns jovens. Eles falavam coisas sem sentido; depois de alguns dias, voltariam espontaneamente à razão. Quem teria coragem de se rebelar contra nós? Assim, aqueles que ocupavam os tronos do poder estavam tão desorientados pelo orgulho de sua autoridade que, sem que percebessem, à sombra desses tronos, as sementes da verdade foram crescendo pouco a pouco até se transformarem em árvores gigantescas da história. Os coraixitas também acreditavam que, já que veneravam e adoravam tanto divindades como Lat, Manat e Uzza, seriam elas mesmas que protegeriam sua honra e a religião pagã. Sua maldição espiritual acabaria com a rebeldia contra os deuses daquele pequeno grupo de monoteístas.
A pregação pública
Assim, três anos se passaram. Mas não é costume de Allah permitir que uma situação permaneça para sempre da mesma forma. Seu costume invariável é apresentar a verdade para resistir à falsidade e provocar um confronto entre ambas. Assim, Allah diz: “Ao contrário, lançamos a verdade contra a falsidade, e então a verdade a golpeia. E eis que a falsidade desaparece.” — Surata Al-Anbiya
De acordo com esse costume invariável de Allah, foi dada a ordem: “Proclama aquilo que te foi ordenado.”
O Mensageiro (que a paz esteja com ele), reunindo toda a determinação e coragem e preparando-se para a nova situação potencialmente conflituosa, subiu certo dia ao monte Safa e ali ficou de pé. Em seguida, conforme um costume peculiar dos árabes, chamou o povo de Quraysh. Quando surgia algum perigo, era costume convocar o povo para ajudá-lo por meio de um sinal sonoro especial. Ele adotou esse método. As pessoas correram até lá. Formou-se uma enorme multidão. Todos ficaram atentos, escutando ansiosamente para saber o que havia acontecido.
O Mensageiro (que a paz esteja com ele) perguntou primeiro: “Se eu lhes dissesse que, do outro lado desta montanha, um exército invasor está vindo correndo para atacá-los, vocês acreditariam em mim?”
Todos responderam em uníssono: “Sim, por que não acreditaríamos? Sempre vimos você dizer a verdade.”
— Então, ó descendentes de Abd al-Muttalib, ó descendentes de Abd Manāf, ó descendentes de Zahrah, ó filhos de Tamīm, ó filhos de Makhzūm, ó descendentes de Asad, escutai: eu vos digo: aceitai o Deus Único como Senhor e divindade; caso contrário, um severo castigo cairá sobre vós. Com essas palavras, ele apresentou, pela primeira vez, o convite público de forma extremamente breve.
Seu tio Abu Lahab, assim que ouviu aquilo, inflamou-se de raiva e disse: “Desgraçado, que pereças ainda hoje! Foi para dizer isso que nos convocaste aqui?” Abu Lahab e os demais líderes partiram muito irritados e furiosos.
É digno de nota que, da parte de Abu Lahab, a pregação do Mensageiro foi recebida como algo meramente insignificante e indigno de ser levado em consideração. Além disso, nenhuma outra reação foi manifestada naquele momento. A única acusação era: “Tu nos incomodaste sem motivo e desperdiçaste o nosso tempo.”
O segundo passo da pregação pública foi dado quando o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, organizou um banquete para os membros da família de Abd al-Muttalib. Personalidades importantes, como seus tios Hamzah, Abu Talib e Abbas, também participaram do banquete. Após a refeição, ele proferiu um breve discurso. Disse: “A doutrina que trouxe é benéfica tanto para este mundo quanto para o Além. Quem está disposto a ser meu companheiro nesta tarefa?” Isso mostra que, desde o início da pregação, ele estava consciente de que não havia vindo com uma religião desligada da vida terrena, mas com uma religião capaz de tornar o mundo benéfico e belo.
Entre os presentes reunidos em resposta ao seu apelo, instalou-se o silêncio. De repente, um menino de treze anos rompeu o silêncio e se levantou. Ele disse: “Embora eu sofra de uma doença nos olhos, tenha as pernas fracas e seja apenas um menino, ainda assim serei teu companheiro.” Tratava-se de Ali, que Allah esteja satisfeito com ele. Mais tarde, ele se provaria um dos pilares desse movimento.
Ninguém, além daquele menino, respondeu. Ao verem essa cena, os presentes irromperam em gargalhadas. Por meio dessas gargalhadas, os descendentes de Abd al-Muttalib disseram, implicitamente, o seguinte: que grande revolução poderiam realizar, juntos, esta pregação, seu pregador e o menino que lhe respondeu? Tudo isso não passava de uma brincadeira e uma loucura. Uma gargalhada zombeteira era suficiente como resposta a esse chamado.
Mesmo após esse segundo acontecimento, a tranquilidade do ambiente não foi perturbada. Porém, quando o terceiro passo foi dado, a tensão surgiu na sociedade e começou a intensificar-se progressivamente.
Antes de discutir esse terceiro passo, parece necessário relatar mais um acontecimento. Já mencionei que, devido ao ambiente desfavorável, a oração era realizada secretamente; o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, e seus companheiros iam orar fora da cidade, em terrenos montanhosos, elevados ou baixos, ou em planícies. Certo dia, os politeístas descobriram o honorável Sa’d ibn Abi Waqqas enquanto ele orava com outros Companheiros numa passagem montanhosa. Durante a oração, os politeístas começaram a proferir palavras obscenas e a zombar de cada movimento da oração. Quando não receberam resposta alguma, irritaram-se e iniciaram um ataque terrorista. Nesse confronto, Sa’d ibn Abi Waqqas, que Allah esteja satisfeito com ele, foi ferido pelo golpe da espada de um dos politeístas. Esse foi o primeiro episódio de derramamento de sangue no caminho de Allah em solo de Meca. Foi a primeira reação violenta e descontrolada da sociedade da ignorância. Essa reação dava a entender que a oposição começava agora a trilhar o caminho da violência.
Criação de um clima de incitação e agitação
Gradualmente, quarenta companheiros se juntaram ao movimento islâmico. Desse modo, a organização islâmica transformou-se numa força concreta. A ordem de proclamar publicamente a declaração da verdade já havia sido dada. Para cumprir essa ordem, certo dia o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, ficou no pátio da Caaba e proclamou a unicidade de Allah. Mas, quando a consciência religiosa se corrompe, os valores religiosos acabam sendo pisoteados. Assim, declarar a unicidade de Allah no pátio daquela Casa sagrada, que um dia fora estabelecida como centro da propagação da mensagem do tawhid, foi considerado uma profanação daquele centro. É realmente espantoso que a Caaba Sagrada não fosse considerada profanada pela instalação de tantos ídolos; que não fosse profanada quando as pessoas esfregavam a testa diante dos ídolos; que sua santidade não fosse violada quando elas circundavam a Caaba nuas, soltavam gritos e batiam palmas. A Caaba também não era considerada insultada quando animais eram sacrificados em nome de divindades, nem quando se cobravam impostos pelo sacerdócio e pelo serviço de guardião. Ela era considerada insultada apenas quando se mencionava o nome do verdadeiro Dono daquela Casa.
Ouviu-se um grito: “A Caaba foi profanada, a honra do Haram Sagrado foi violada.” Que coisa terrível! Um ato provocador, capaz de fazer o sangue subir à cabeça! Os politeístas, descontrolados pela intensa agitação e desnorteados pela emoção, avançaram de todos os lados ao ouvir a declaração do tawhid. Começou o tumulto. O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, foi cercado. Harith bin Ubay correu para proteger o Mensageiro de Allah ao ouvir a confusão. Mas foi martirizado por um golpe de espada. No conflito entre o Islã e a jahiliyyah na Arábia, esse foi o primeiro martírio ocorrido com o objetivo de defender o Islã.
Em vez de analisar e decidir sobre o chamado apresentado de maneira extremamente pacífica e racional, e de responder aos argumentos com argumentos, responderam-lhe com emoção cega e violência desenfreada. O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, não obrigou ninguém a aceitar a declaração da verdade pela força da espada. Mas a força de oposição veio ao seu encontro empunhando espadas. A principal característica dos líderes egoístas de um sistema falso é que respondem aos argumentos com incitação e agitação, e às provas com violência e terror. Os opositores não tinham sequer a tolerância necessária para refletir, durante ao menos algumas semanas, alguns dias ou alguns minutos, sobre a declaração feita no pátio da Caaba. Poderiam ter reconhecido que Muhammad, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, assim como eles, tinha o direito de professar alguma religião, ideologia, filosofia ou crença de aqidah, de falar de acordo com ela e de se opor à religião, opinião ou crença de aqidah de qualquer outra pessoa. Poderiam ao menos ter admitido a possibilidade de que houvesse alguns erros e falhas entre nós, e de que a ideologia propagada por Muhammad, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, pudesse conter um meio de corrigi-los. Na realidade, entre os líderes de qualquer sistema falso, a tolerância para com opiniões divergentes desaparece completamente, e sua capacidade de pensar, ponderar e julgar se perde.
Tente imaginar por um momento como era aquele ambiente em que nosso amado Profeta Muhammad, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, cumpria sua missão, arriscando a própria vida, completamente desarmado e sem recursos, pelo bem-estar terreno e eterno de todos nós.
Propaganda difamatória
Embora o assassinato de um homem inocente pelos habitantes de Meca no interior do Haram Sagrado — símbolo das sagradas emoções, inspirações e esperanças do Profeta Ibrahim e do Profeta Ismail, que a paz esteja sobre ambos — tenha dado uma ideia do futuro que estava por vir, ele não marcou o início da verdadeira era da violência.
A primeira etapa da oposição é sempre atravessada por brincadeiras, zombaria, escárnio e sofismas, transformando-se gradualmente em terrorismo e bandidagem.
Com o objetivo de diminuir a importância da pregação do Rasul (S.A.), os hábeis propagandistas começaram, além da vil vulgaridade dos insultos, a inventar toda espécie de epítetos.
Por exemplo, alguém dizia: “Não deem ouvidos ao que esse homem diz. Afinal, ele é um ‘apóstata’. Abandonando a religião tradicional de nossos antepassados, ele próprio inventou uma religião absurda e fantasiosa.” Eles não davam a mínima para qualquer argumento. Quem quisesse emitia uma fatwa de kufr. Às vezes diziam que ele havia se tornado um “sabeu” (adorador dos astros ou da natureza). Como, na sociedade politeísta daquela época, ser sabeu era algo indesejado e vergonhoso, chamar alguém de sabeu era considerado um insulto, tal como chamar hoje um muçulmano de judeu, kharijita ou ateu. Para aqueles incapazes de apresentar argumentos e provas contra a verdade, o único recurso é a propaganda negativa. E uma das armas dessa propaganda negativa é dar nomes e epítetos ruins. Em cada rua e viela, e em cada reunião e assembleia, os propagandistas de Meca proclamavam aos brados: “Eles se tornaram sabeus, abandonaram a religião, renunciaram à religião de seus antepassados e estão apresentando novas crenças”; e assim por diante. Quando se levantava uma tempestade de propaganda desse tipo, chega a arrepiar pensar quão opressivo e sufocante se tornava o ambiente para as pessoas comuns, e quão difícil ficava encontrar o caminho correto. E tampouco é fácil imaginar a crise que aquela pequena caravana da verdade enfrentava em tal ambiente. Porém, por mais perigosa que seja a situação e o ambiente, eles não conseguem bloquear o caminho dos homens resolutos e determinados. Allah diz:
“Ninguém pode impedir a graça que Allah abre para as pessoas.” (Surata Fátir)
Quando se passa a lançar insultos contra os argumentos e as provas, sempre acontece o seguinte: os argumentos e as provas permanecem firmemente estabelecidos em seu lugar, mas o insulto proferido, apoiando-se na emoção, embora possa durar alguns dias, logo perde o brilho e se desvanece, e as pessoas passam a sentir repulsa e aversão por ele. Por isso, o princípio daqueles que são experientes nessa prática é continuar inventando novos insultos.
De acordo com esse princípio, inventaram mais um novo insulto para o Rasul (S.A.). Era “ibn Abi Kabsha”. “Abi Kabsha” era o nome de um indivíduo notório da Arábia. Contra a orientação religiosa de toda a Arábia, ele adorava uma estrela chamada “Sha‘ra”. Foi desse nome, Abi Kabsha, que surgiu o epíteto “ibn Abi Kabsha”. Significa filho ou seguidor de Abi Kabsha. Nauzubillah. Para satisfazer seu rancor, quantas coisas não inventaram os habitantes tomados pela emoção de Meca!
Quando a figura central e principal de uma pregação ou movimento é transformada em alvo de ataques tão baixos, o objetivo não é apenas causar sofrimento a essa pessoa; o verdadeiro objetivo é depreciar a doutrina, a ideologia e o movimento, além de manchar sua imagem, pois os adversários estão aterrorizados com sua expansão crescente. Mas como seria possível deter uma correnteza impetuosa com uma barragem de areia? Os zombadores de Meca viam claramente que, por mais barragens que construíssem com sujeira e lixo, elas eram levadas como palha pela força dessa da‘wah, que avançava cada vez mais, pouco a pouco, a cada manhã e a cada tarde. Por isso, adotaram uma nova estratégia de propaganda negativa. Inventaram um novo epíteto para o Rasul (S.A.) e começaram a dizer: “Esse homem ficou realmente louco. Nauzubillah. Sua mente se desarranjou devido à maldição dos deuses. As coisas que ele diz não são próprias de uma pessoa consciente, nem são palavras resultantes de discernimento sutil e reflexão. Ele é uma pessoa acometida por algum transtorno mental ou histeria. Quando essa doença se agrava, às vezes ele vê anjos. Às vezes sonha com o Paraíso e o Inferno; outras vezes imagina que alguma revelação ou alguma palavra estranha lhe chega do mundo invisível. Na verdade, ele é um homem mentalmente perturbado. Não se deve prestar atenção ao que ele diz. Todos devem permanecer firmes em sua confiança nas próprias crenças religiosas tradicionais.” Dizer que os convocadores à verdade são loucos e insanos, ou chamá-los de estúpidos e tolos para embotar o fio de seus argumentos, é uma prática tradicional dos seguidores da falsidade. Aqueles cujo hábito é deixar-se levar pela corrente das normas e costumes vigentes da sociedade, a fim de aumentar o conforto e a prosperidade mundanos e satisfazer a própria ganância, cobiça e desejos, são considerados pessoas inteligentes e perspicazes. Por outro lado, no vocabulário dos adoradores do mundo não há palavra mais apropriada do que chamar de estúpidos e insanos aqueles que, ao assumirem um programa de reforma e correção da sociedade, lançam a própria vida em risco.
Todos esses insultos não eram proferidos apenas na ausência dele; também eram ditos diretamente em sua presença:
ياايهاالذىنزلعليهالذكرانكلمجنون
“Ó tu que alegas ter recebido revelação, não passas de um louco.” (Surata Al-Hijr, 6)
Na verdade, se não se puder insultar alguém na sua própria cara, não se desfruta do verdadeiro prazer do insulto.
Mas há algo que merece reflexão: existe algum exemplo de pessoas de uma sociedade que já tenham se unido para iniciar um movimento sob a liderança de um louco? Será que uma juventude de mente sã, caráter honesto e consciente já aceitou a liderança de pessoas tolas? Será que pessoas sãs e inteligentes já responderam ao chamado de algum louco de mente perturbada? Para responder a essa pergunta, os politeístas de Meca prepararam mais uma desculpa. [Para as pessoas devotas, os ocidentais criaram o termo Fanatics, ou fanáticos, precisamente com o sentido de que elas são pessoas emotivas e mentalmente desequilibradas. Quando os ímpios de nossa sociedade chamam os muçulmanos devotos de “mullahs”, fazem-no com o sentido de que eles são ingênuos, ignorantes das exigências da época e fanáticos cegos pelas ideias do passado. Descendo ainda mais um degrau, os opositores costumam chamar as pessoas religiosas de ignorantes e tolas em matéria de política.] Eles dizem: este homem que alega ser profeta também é perito em magia. Sempre que alguém vai encontrar-se com ele, ele diz algumas palavras, hipnotiza a pessoa e demonstra o auge de sua habilidade mágica. Por isso, até pessoas muito inteligentes estão caindo gradualmente em sua armadilha.
Mas não se pode deixar de perguntar: até hoje, algum mágico já dirigiu um movimento religioso e cultural? Algum mágico ou astrólogo já usou a magia para ensinar a adoração a Allah, o tawhid, a honestidade e a justiça? Existe na história algum exemplo de uma pessoa com mentalidade semelhante à de um mágico que tenha criado um movimento revolucionário, valendo-se de seus poderes mágicos para transformar o sistema social e o sistema estatal vigentes? Há em algum lugar algum exemplo de alguém que tenha mudado a mente, o cérebro, o caráter e a alma por meio do poder da magia? E que tipo de mágico era ele, afinal, que, em vez de exibir truques mágicos para ganhar algumas moedas, suportava a opressão e a perseguição de todo o povo do país, selecionava os melhores membros da sociedade e os preparava para dirigir uma enorme campanha coletiva? Isso era algum tipo de truque? Na realidade, era uma acusação convencional. Em todas as épocas, essa acusação foi lançada contra as pessoas envolvidas no trabalho de pregação e transmissão da mensagem. Com isso, tentou-se fazer o povo acreditar que essa pregação não tinha qualquer relação com a verdade e que, por isso, não havia nela nenhum elemento capaz de despertar uma atração espontânea. O argumento do pregador não tinha força alguma para conquistar o coração das pessoas; pelo contrário, todo o assunto estaria fundamentado em fraude e artimanhas mágicas. Era por isso que até pessoas muito inteligentes estavam sendo influenciadas pela pregação e perdendo o equilíbrio.
É possível que algumas pessoas tenham apresentado aos líderes coraixitas as palavras recebidas pelo Mensageiro (S.A.) por meio da revelação, especialmente os versículos do Alcorão, dizendo que elas continham uma linguagem de elevada ornamentação. É possível também que os especialistas em literatura daquela época tenham discutido e refletido profundamente sobre essa linguagem e percebido que aquelas palavras da revelação eram milagrosas e extraordinariamente poderosas. Por isso, para refutar a ideia do caráter milagroso dessas palavras, começaram a dizer: “O que há de tão milagroso nisso? Trata-se apenas de uma espécie de poesia, de exercício artístico da linguagem e de vigor literário. Muhammad (S.A.) é um orador de alto nível. Graças à força de sua eloquência, alguns jovens de mente imatura estão se desviando.”
Mas a questão é: quantos poetas já surgiram no mundo! Será que alguma vez apareceu no mundo um poeta dotado de um caráter tão incomparável e imaculado quanto o caráter de Muhammad (S.A.) e de seus companheiros? Será que aqueles que simplesmente animavam rodas de poesia alguma vez conseguiram realizar, diante dos olhos dos coraixitas, atividades religiosas do tipo que eles testemunharam?
Essa pergunta também deixava os coraixitas desconcertados. Em resposta, espalharam contra o Mensageiro (S.A.) outra calúnia: a de que ele praticava astrologia. Os astrólogos seguiam certas aparências religiosas. Criavam um ambiente misterioso. Passavam a vida em meditação, retiro, recitação e fórmulas mágicas durante quarenta dias. Reuniam informações variadas por meios anormais e expressavam-nas numa linguagem misteriosa e técnica. Circulavam entre as pessoas comuns como seres extraordinários. Essas pessoas, de certo modo desequilibradas, eram chamadas de “kahin”. Ao chamar o Mensageiro (S.A.) por esse nome, pretendiam insinuar que ele também havia aberto o mesmo negócio de fraude, para que as pessoas viessem tornar-se seus discípulos e, assim, resolvesse também seus problemas de subsistência. (Que Allah nos proteja.)
Mas o Alcorão respondeu de modo contundente a todas essas calúnias, dizendo:
(Árabe*********)
“Ele não é poeta. Mas sois vós mesmos que fechastes as portas da vossa crença e da vossa fé. Ele não é adivinho. Mas vós não refletis.” (Surata Al-Haqqa)
Eis a breve análise que o Alcorão fez sobre o tumulto de sua desenfreada insolência:
(Árabe********)
“Vede que tipos de provérbios, exemplos, termos e títulos eles empregam a teu respeito.” Depois de fazerem tudo isso, sobre como de repente se desviaram, o Alcorão diz:(Árabe*****)“Eles próprios se mantiveram enganados.”
Agora observai mais uma tentativa de espalhar confusão. Aqueles que alegavam ser seguidores da religião de Hazrat Ibrahim dizem que um jinn ia até Muhammad, que a paz esteja com ele, e lhe ensinava palavras e discursos estranhos. Às vezes, mencionava-se o nome de um escravo cristão romano de Meca (Jaber, Jabra ou Jarab), dizendo que esse escravo ia secretamente até Muhammad e escrevia para ele todos esses discursos. No entanto, ele ia apenas ocasionalmente para ouvir as conversas do Mensageiro, que a paz esteja com ele. Certa vez, um grupo dos líderes coraixitas disse ao Mensageiro, que a paz esteja com ele: ‘Ouvimos dizer que um homem chamado Al-Rahman, de Yamama, ensina-te todas essas coisas. Por Deus, jamais creremos nesse Al-Rahman.’ [Sira de Ibn Hisham, primeiro volume, p. 317] O objetivo de todas essas calúnias infundadas era fazer o povo acreditar que tudo isso era obra de alguma força estrangeira maligna ou de alguma pessoa. Muhammad, que a paz esteja com ele, teria se tornado um instrumento dessas forças malignas e, conspirando com elas, tramado destruir a nossa religião e o nosso sistema social. Por outro lado, também se tentou transmitir a ideia de que essas palavras encantadoras e ornamentadas não eram fruto do talento de Muhammad, que a paz esteja com ele, nem um dom de Allah. Pelo contrário, por meio delas, alguma terceira força externa estaria tentando exercer influência sobre eles. Além disso, com isso o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, era acusado de atribuir falsamente uma calúnia a Allah. Frustrando essas más intenções, o Alcorão deu uma resposta muito detalhada. Contudo, o seu desafio que se mostrou mais irrefutável e infalível foi: ‘Se puderdes, mesmo reunindo os esforços dos jinn e dos seres humanos, compendei uma surata ou alguns versículos semelhantes aos do Alcorão e apresentai-os.’
Indiretamente, também se afirmava com isso que Muhammad, que a paz esteja com ele, não estava dizendo nada novo nem demonstrando algum mérito raro. Na verdade, ele estaria reunindo diversos elementos de antigas histórias e lendas e apresentando-os novamente em uma linguagem vigorosa. Isso seria uma espécie de arte de contar histórias. Assim como os contadores de histórias animam uma reunião contando histórias, Muhammad conquistaria o coração dos ouvintes contando histórias divertidas. Há uma insinuação sarcástica em insultar a mensagem do Islã chamando-a de antigas histórias e lendas: como essas histórias antiquadas poderiam resolver os problemas da era atual? O tempo mudou muito. Os antigos contos de fadas não têm nenhuma utilidade para as pessoas de hoje.
O curioso é que, por um lado, o Mensageiro, que a paz esteja com ele, era acusado de propagar uma nova religião completamente contrária à religião de seus antepassados. Por outro lado, a própria mensagem apresentada por esse Mensageiro, que a paz esteja com ele, era condenada como antigas histórias e lendas. É um hábito recorrente dos conspiradores mal-intencionados e ardilosos pegar uma falha de um lado sem pensar no antes e no depois e, em outro momento, atacar pelo lado oposto, levantando exatamente a objeção contrária. No entanto, eles nem sequer percebem que, agindo assim, estão sendo contraditórios.
Nesta etapa, abriu-se uma frente por meio dos poetas. Abu Sufyan ibn Harith, Amr ibn al-As e Abdullah ibn Zabari foram encarregados de compor e divulgar poesias de intensa condenação contra o Mensageiro (S.). É oportuno mencionar que, na sociedade árabe da época da ignorância, os poetas exerciam uma influência enorme. Pode-se dizer que desempenhavam o papel de instrutores psicológicos e orientadores das pessoas. Cada palavra que saía de seus lábios deixava uma profunda impressão no coração das pessoas, e era memorizada e divulgada. Pode-se considerar que, naquela época, os poetas ocupavam, em grande medida, uma posição semelhante à dos jornalistas de hoje. Assim como atualmente um jornalista competente, valendo-se de sua escrita e do poder de seu jornal, pode causar muitos danos a alguém ao persegui-lo, e pode criar uma montanha de problemas para uma da‘wah, um movimento ou uma organização por meio de comentários maliciosos e mordazes, sarcasmos indecentes e zombarias, cartas impróprias, omissão ou distorção de notícias e manchetes enganosas, os poetas árabes desempenhavam exatamente esse tipo de papel. Havia vários poetas encarregados de espalhar, por todas as vielas, a má fama e as calúnias contra Muhammad (S.) e seu movimento, e de envenenar o ambiente com insultos rimados e slogans de condenação. Ao redor de Muhammad (S.), criou-se exatamente o tipo de cena que se vê quando cães são atiçados contra um transeunte respeitável. Contudo, a mensagem e o caráter do Profeta Muhammad (S.), o Amigo da Humanidade, anulavam e tornavam completamente ineficaz o efeito mágico da propaganda difamatória dos poetas.
É importante observar que toda essa campanha de propaganda difamatória não era conduzida por causa de algum mal-entendido; ao contrário, fazia parte de uma conspiração cuidadosamente pensada e meticulosamente planejada. Eles haviam decidido, por unanimidade e de forma unida, que:(Árabe*******)
“Não escuteis este Alcorão; pelo contrário, fazei barulho durante a recitação do Alcorão, talvez assim possais sair vitoriosos.” (Ha-Mim as-Sajdah, versículo 26)
Ou seja, não deis atenção alguma às palavras do pregador e nem tenteis compreendê-las. Do contrário, poderá ocorrer uma mudança na maneira de pensar e as crenças existentes poderão ser destruídas. Criai obstáculos à sua divulgação fazendo barulho e transformai-a em motivo de risos e zombarias. Assim, o poder do Alcorão será destruído, e a vitória final será vossa. Pode-se deduzir deste versículo como é a psicologia das forças contrárias ao Islã. Elas não querem ouvir nem compreender, e também não querem permitir que outros ouçam e compreendam. Por isso, querem criar obstáculos provocando tumulto. Foi justamente com pessoas desse tipo que se deparou o nosso amado líder!
As ibn Wa’il as-Sahmi lançava a seguinte diatribe, numa tentativa de prejudicar a imagem da da‘wah e do movimento do Mensageiro (S.): “Deixai Muhammad fazer o que está fazendo. Ele não tem descendência. Não possui filhos homens. Quando morrer, ninguém sequer se lembrará dele, e vós vos livrareis para sempre de seu domínio.” Esse comentário malicioso foi feito porque os filhos homens do Mensageiro (S.) não permaneceram vivos. Na Arábia, esse comentário não era inteiramente sem fundamento. Contudo, pessoas como as de antigamente não conseguiam compreender que, no caso de personalidades criadoras da história, como os profetas, seus verdadeiros filhos são suas realizações extraordinárias e históricas. De suas mentes surgem novas civilizações. Para carregar o legado de sua da‘wah e de seus ensinamentos e reavivar sua memória, seus companheiros e seguidores avançam em grupos. O imenso bem que assim se reúne é muito maior em força e valor do que multidões de filhos homens. Foi em resposta a esse comentário mordaz que a Surata Al-Kawthar foi revelada. Nessa surata, foi dito a As e a seus companheiros: “Concedi ao Meu Profeta Al-Kawthar, fiz dele uma fonte de abundante bem para ele, concedi-lhe a mais sublime das dádivas, como o Alcorão, dei-lhe uma grande comunidade de crentes obedientes a Allah e ao Mensageiro, empenhados na implementação e na divulgação do Islã, e preparei para ele, na Vida Futura, o lago chamado Al-Kawthar.” Se alguém receber uma vez permissão para beber água desse lago, jamais sentirá sede novamente, por toda a eternidade. Então Allah disse: “Ó Profeta, na verdade, são os teus inimigos que não têm descendência. Na realidade, ninguém se lembrará deles. Ninguém sequer se lembrará deles, nem por engano, perguntando quem foi tal pessoa. Eles não terão lugar algum na história.”
Talvez não seja inadequado apresentar aqui uma lista dos miseráveis de Meca que mais se destacavam em sarcasmos e zombarias. Eram: Aswad ibn al-Muttalib, da tribo de Banu Asad; Aswad ibn Abd Yaghuth, da tribo de Banu Zuhrah; Walid ibn al-Mughirah, de Banu Makhzum; As ibn Wa’il, de Banu Sahm; e Harith ibn Talatilah, da tribo de Banu Khuza‘ah.
Debates capciosos
Junto com os sarcasmos, as zombarias, os insultos e a atribuição de epítetos indecentes, também começou a fase dos debates capciosos. Aqueles que não queriam aceitar uma verdade evidente tentavam criar vários debates capciosos entre si mesmos e o pregador, numa tentativa de criar obstáculos. Quando uma dessas tentativas fracassava, iniciavam outra com novo vigor. As pessoas envolvidas nesse tipo de tentativa acabam desperdiçando toda a vida nisso, sem conseguir beneficiar a si mesmas nem prestar qualquer serviço construtivo aos outros. As perguntas e objeções levantadas com sinceridade têm uma natureza, mas as perguntas e objeções levantadas conspiratoriamente para bloquear o caminho do pregador têm uma natureza completamente diferente. O ato de levantar perguntas e objeções dessa última categoria é chamado de debate capcioso. Os debates capciosos sempre são um símbolo de infidelidade, má-fé e conspiração. A característica dos que recorrem a debates capciosos é que não querem aprender nada com a da‘wah; ao contrário, procuram artificialmente nela alguma espécie de distorção. Essa condição foi descrita no Alcorão assim: “Eles procuram a distorção.” (Surata Hud: 19)
Por um lado, esses defensores fanáticos e intransigentes da religião dos antepassados perguntavam repetidamente ao Mensageiro (S.A.): se és um profeta, por que não trazes contigo algum sinal ou prova incontestável de tua profecia, diante da qual ninguém pudesse fazer outra coisa senão reconhecê-la?
Em outras ocasiões, fingindo uma simplicidade extrema, diziam: «Por que não foi enviado diretamente para nós algum sinal, ou por que não aconteceu algo que nos permitisse ver diretamente o nosso Senhor?» (Surata Al-Furqan, versículo 31)
Em outras palavras, para que servem longas discussões ou debates? Bastaria que anjos descessem diretamente do céu, em grupos, e circulassem diante de nós. E, em vez de Allah nos enviar notícias por teu intermédio e estabelecer Sua divindade, Ele poderia simplesmente comparecer diante de nós. Poderíamos ver que este é o nosso Allah. Então não haveria mais discussão.
De vez em quando, também diziam: se tudo o que dizes realmente vem de Allah, seria melhor que um Livro escrito viesse até nós, diante dos nossos olhos. Melhor ainda seria que tu mesmo descesses do céu por uma escada, trazendo o Livro nas mãos. Então aceitaríamos, com a cabeça inclinada, que és de fato um profeta. Também se levantava a questão: por que o Alcorão é revelado assim, parte por parte? Por que o Livro inteiro não é revelado de uma só vez? Contudo, as respostas detalhadas a cada uma dessas perguntas foram dadas repetidamente no Alcorão. Era justamente por causa dessas respostas que eles estavam furiosos, pois elas desmascaravam suas conspirações e as faziam fracassar.
Outro de seus sofismas era este: tu és um ser humano feito de carne e sangue, como nós. Também sentes fome, és obrigado a ganhar a vida, vais ao mercado, vives com dificuldade, sofres todo tipo de opressão, e ninguém te presta auxílio. Nessas circunstâncias, como podemos acreditar que és um servo amado de Allah e que recebeste a responsabilidade de reformar e corrigir os habitantes do mundo? Se fosses uma pessoa tão eminente e extraordinária, um grupo de anjos marcharia à tua frente como guarda-costas, ordenando às pessoas que saíssem do caminho. E, se alguém sequer cometesse uma pequena falta de respeito contigo — para não falar de te oprimir —, esses anjos lhe quebrariam a cabeça com seus bastões. Se fosse assim, todos aceitariam sem qualquer discussão que és um servo amado de Allah e um profeta. Tesouros deveriam descer do céu para ti. Deverias viver com pompa e esplendor reais; deveria haver um palácio de ouro para tua morada, um canal construído especialmente para ti e um grande pomar de frutas, do qual obtivesses renda suficiente para viver confortavelmente. Se reivindicasses a profecia cercado de tamanho luxo e magnificência, certamente te aceitaríamos. Entretanto, somos muito superiores a ti em riqueza e número de seguidores. Tu e teus companheiros sois as pessoas mais pobres e das classes mais baixas da sociedade. Não tendes nenhuma superioridade em relação a nós. Então, ó Muhammad, diz-nos tu mesmo: com que argumento devemos aceitar-te como profeta?
Por isso, sempre que o Mensageiro (S.A.) passava por alguma rua, as pessoas imediatamente exclamavam: «Este é aquele que Allah enviou como Mensageiro?» Agitando os dedos e fazendo gestos, os arruaceiros e terroristas de Meca diziam: «Vejam, Allah não encontrou ninguém além deste desprovido de tudo para fazer dele um profeta e mensageiro. Que seleção maravilhosa!» Do mesmo modo, apontando para os líderes e ativistas do movimento islâmico, diziam: «Então estes são os ilustres que Allah escolheu e preferiu a nós?»
Também diziam: «Por que não trazes o castigo com o qual nos ameaças, querendo tornar-te um líder? Vamos ver-te fazer cair um pedaço do céu sobre nós, incrédulos como somos! Chegavam a suplicar ao próprio Allah: “Ó Allah, se esta pregação é verdadeira, destrói-nos com um castigo.”»
Esses reivindicadores do monopólio da religião dos antepassados também diziam às vezes: «Ó Muhammad! Quando dizes que Allah é onipotente, por que Ele não usa Seu poder para nos conduzir ao caminho do Islã? Se quer ver-nos como pessoas monoteístas e virtuosas, por que não nos torna pessoas monoteístas e virtuosas? Ele pode impedir-nos de adorar ídolos. Pode impedir-nos de manter crenças errôneas. Se não faz isso, certamente aprova nosso modo de vida atual. Nessas circunstâncias, por que condenas e criticas nosso modo de vida e nossos costumes? Quem és tu, afinal?»
Eles também zombavam da Ressurreição. Perguntavam, de maneira muito teatral: “Diga-nos, quando acontecerá esse evento? A data da Ressurreição não está determinada?”
Estes exemplos foram reunidos dos livros do Alcorão, dos hadiths e da História. Por meio deles, pode-se imaginar o ambiente degradante que o maior benfeitor da Terra e o maior benquerente da humanidade teve de enfrentar. Pessoas de gosto extremamente vil cercavam-no por todos os lados, proferindo condenações e calúnias. Inventavam e apresentavam todo tipo de pergunta em tom de debate. Enquanto isso, o Mensageiro (que a paz esteja com ele) apresentava os argumentos em favor de sua da‘wah com extrema serenidade, calma, educação e compostura. Não respondia com condenações nem repreensões. Não demonstrava interesse pelo debate. Não se irritava. Entretanto, nem por um instante recuava da da‘wah nem da apresentação de argumentos em seu favor.
O Alcorão oferece um retrato completo do sofrimento e da perseguição psicológica que o Mensageiro (que a paz esteja com ele) suportou ao avançar em meio a esse turbilhão de zombarias, sarcasmo e sofismas.
O próprio Allah, o Altíssimo, consolou e confortou o Mensageiro (que a paz esteja com ele) e ordenou-lhe que atravessasse essa fase com paciência. Disse: “Adota a política do perdão, ordena o bem e afasta-te dos ignorantes.” (Surata Al-A‘raf, 199)
Ou seja, durante aquela era de opressão e perseguição, o Mensageiro (que a paz esteja com ele) recebeu a ordem de cumprir três tarefas: não dar importância à propaganda difamatória nem aos insultos, continuar dizendo a verdade em todas as circunstâncias e não correr atrás de pessoas imorais e tolas.
Tanto o Alcorão quanto a História testemunham que o Mensageiro (que a paz esteja com ele) atravessou toda aquela era de opressão e perseguição cumprindo à risca essas três instruções. Apesar de sofrer a mais extrema angústia, não permitiu que houvesse qualquer mudança em sua linguagem, não deixou que seu elevado caráter como pregador sofresse qualquer alteração e não permitiu que a agudeza de seus argumentos se tornasse nem um pouco menos brilhante.
Que Allah faça descer misericórdia e bênçãos sobre sua alma pura e sobre seus Companheiros. Sempre que aqueles sofistas apresentavam algum argumento perspicaz, ele o refutava completamente, sob a orientação da revelação, por mais baixo que fosse seu nível.
Argumentos
Em meio à zombaria, à difamação e aos sofismas, os líderes coraixitas às vezes apresentavam um ou dois argumentos contundentes, mas eram muito poucos. Eis alguns exemplos:
Às vezes, apresentavam um argumento desse tipo da seguinte maneira: nós nunca consideramos os ídolos maiores do que Allah. Apenas dizemos que as grandes personalidades cujas almas são simbolizadas por esses ídolos podem interceder por nós perante Allah. Podemos aproximar-nos de Allah prostrando-nos diante desses ídolos e oferecendo sacrifícios.
Eles também diziam: para nós, a vida terrena é a única vida; não teremos outra vida além desta, nem seremos ressuscitados depois da morte. Portanto, como podemos aceitar uma religião que, com a ideia de outro mundo, quer privar-nos dos interesses, da felicidade e da paz desta vida terrena?
Também argumentavam que, se aceitássemos a da‘wah de Muhammad, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, permitíssemos que o atual sistema religioso e social fosse abolido e deixássemos que nossa predominância sobre ele fosse reduzida, seríamos expulsos do país.
Esses dois ou três exemplos mostram que, em meio aos sofismas e às artimanhas, eles também apresentavam alguns argumentos. Contudo, o Alcorão também dava respostas contundentes a todos eles.
Terrorismo e banditismo
Junto com a zombaria, os insultos e a campanha de difamação, a oposição fanática dos coraixitas assumia gradualmente a forma de banditismo, terrorismo e violência. Quando os líderes das conspirações nefastas perceberam que sua zombaria e difamação estavam fracassando, o banditismo e o terrorismo tornaram-se seu passo seguinte. Os habitantes de Meca adotaram uma conduta tão vil para importunar o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, que qualquer outro pregador, por mais corajoso e entusiasmado que fosse, teria perdido seu ânimo e sua motivação e se entregado ao desespero. Mas a cortesia e a dignidade do Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, avançavam, ignorando toda a violência e o banditismo.
O comportamento que havia se tornado absolutamente rotineiro era o seguinte: os grandes chefes e líderes tribais residentes em seu bairro espalhavam regularmente espinhos em seu caminho, zombavam e faziam algazarra enquanto ele rezava, lançavam as vísceras de animais abatidos sobre suas costas durante a prostração, enrolavam um manto em seu pescoço e o estrangulavam, incitavam os meninos e meninas do bairro a bater palmas e fazer algazarra, e, quando ele recitava o Alcorão, insultavam-no, insultavam o Alcorão e insultavam Allah.
Abu Lahab e sua esposa foram os mais empenhados nessa perversidade. Durante vários anos seguidos, essa mulher jogava lixo, detritos e espinhos no caminho dele. O Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) limpava o caminho todos os dias com grande dificuldade. Essa desventurada o atormentou tanto que, para consolá-lo, Allah, o Altíssimo, revelou especialmente a Surata al-Lahab e informou-lhe que o destino daquele casal perverso era o Inferno.
Certa vez, o Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) estava orando no recinto da sagrada Caaba. Nessa ocasião, Uqbah ibn Abi Mu’ayt enrolou um manto em torno do pescoço do Mensageiro e apertou-o com tanta força que ele caiu inconsciente. Esse mesmo perverso certa vez lançou vísceras sobre suas costas enquanto ele orava.
Certa vez, enquanto caminhava pela rua, um malfeitor jogou terra sobre sua cabeça. Ele voltou silenciosamente para casa naquele estado. Quando a pequena Fátima (que Allah esteja satisfeito com ela) lavava sua cabeça, começou a chorar de tristeza e indignação. Ele consolou a filha, ainda criança, dizendo: “Minha filha, não chore. Allah protegerá seu pai.”
Em outra ocasião, quando ele estava orando no recinto sagrado, Abu Jahl e alguns outros chefes coraixitas perceberam isso. Então, por ordem de Abu Jahl, Uqbah ibn Abi Mu’ayt foi buscar vísceras e as lançou sobre o corpo do Mensageiro (que a paz esteja sobre ele), fazendo todos caírem em gargalhada. Naquele dia, também, a pequena Fátima lavou e limpou o corpo dele e amaldiçoou Uqbah.
A resistência a essa boa exortação — “Obedecei ao Deus Único, segui a honestidade e a justiça e ajudai o órfão e o viajante” — foi feita desta maneira: espalharam espinhos para tentar bloquear o caminho do movimento islâmico. Jogaram lixo e detritos numa tentativa vã de eliminar pela raiz o puro chamado ao tawhid e à boa conduta. Ao colocar um fardo de vísceras sobre as costas do Mensageiro (que a paz esteja sobre ele), imaginaram que a verdade já não conseguiria erguer a cabeça. Ao apertar uma corda em torno do pescoço do Mensageiro, os perversos que sabiam o que faziam pensaram que, dessa vez, a voz da revelação seria silenciada. Aquele que foi recebido com espinhos continuou sempre a espalhar flores. Aquele sobre cujo corpo jogaram lixo e detritos continuou a distribuir incessantemente perfume e rosas à nação. Aquele sobre cujo pescoço colocaram o fardo de vísceras removeu o fantasma da falsidade dos ombros da humanidade. Aquele cujo pescoço foi estrangulado libertou a civilização das correntes dos costumes e ritos falsos. A brutalidade não conseguiu bloquear o caminho da civilidade nem por um instante. Se os porta-estandartes da civilidade e da decência estão verdadeiramente determinados, então o terror e a brutalidade, contrários à lei eterna da história humana, devem ser erradicados para sempre mediante punição extrema, exatamente dessa forma.
A tentativa vã de privar o movimento islâmico de apoio
Quando os opositores do chamado islâmico percebem que a situação transbordou, descontrolam-se e tentam privar o movimento, seus líderes e seus trabalhadores de todo tipo de apoio e patrocínio efetivo da sociedade. Mesmo quando não conseguem fazê-lo diretamente, procuram, por meio de pressão indireta, tornar inativos os soldados da revolução.
Os habitantes de Meca queriam eliminar completamente o Mensageiro (que a paz esteja sobre ele). Porém, temiam que o fogo do fanatismo tribal e do desejo de vingança se acendesse de tal maneira que ninguém mais fosse capaz de interromper a sequência de derramamento de sangue. Pouco tempo antes, uma guerra devastadora os havia deixado tão mutilados e feridos que de modo algum estavam preparados para correr imediatamente o risco de outra guerra semelhante. Além disso, havia outra complicação. Entre os Banu Hashim e os Banu Umayya existiam antigas disputas e rivalidade. Os líderes dos Banu Umayya, especialmente Abu Lahab, não conseguiam de forma alguma tolerar que alguém de uma família do clã dos Banu Hashim se tornasse profeta e que, por esse motivo, aquela família obtivesse reconhecimento social. Os Banu Hashim chegaram a decidir, uma ou duas vezes, o seguinte: “Que mal há em apoiar abertamente Muhammad? Ele é um dos nossos. Se ele prosperar e sua religião se espalhar, isso trará benefício e prosperidade para nós mesmos.” Mas os líderes dos Banu Umayya jamais lhes permitiram pôr essa decisão em prática. Embora os Banu Hashim não pudessem fazer muita coisa de maneira efetiva, não era fácil levantar a mão contra um de seus membros enquanto não o expulsassem da tribo. Enquanto isso, o Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) estava sob a proteção de seu tio Abu Talib. Enquanto essa proteção permanecesse, pode-se dizer que todo o clã dos Banu Hashim era seu protetor. Por isso, seus inimigos empregaram todas as suas forças para tentar privar o Mensageiro do apoio de seu tio. Para esse fim, continuaram pressionando Abu Talib durante muito tempo, mas a cada vez fracassaram.
Certa vez, uma poderosa delegação de personalidades proeminentes, como Utba e Shayba, os dois filhos de Rabia, Abu Sufyan ibn Harb, Abu al-Bukhtari, al-Aswad ibn Abd al-Muttalib, Abu Jahl, Walid ibn al-Mughira, Nabih e Munabbih, os dois filhos de al-Hajjaj ibn Amir, e As ibn Wa’il, compareceu diante de Abu Talib e disse:
«Ó Abu Talib, seu sobrinho insulta os nossos deuses e ídolos, critica a nossa religião, considera tolos os nossos antepassados e os chama de desviados. Agora, pedimos-lhe que o impeça de ultrapassar os limites contra nós; caso contrário, entregue-o às nossas mãos. Pois, em matéria de crença, você também pertence ao nosso grupo e se opõe a ele. Se você não conseguir controlá-lo, nós certamente conseguiremos.»
Abu Talib ouviu calmamente tudo o que disseram e, depois de tentar convencê-los, despediu a delegação. O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, continuou o seu trabalho como de costume, enquanto os coraixitas ardiam de raiva. Leia atentamente o discurso da delegação. Verá quão profundas eram as emoções nele mobilizadas. Foi feito um apelo extremamente vigoroso. Esse discurso mostra que os inimigos do Islam haviam preparado uma campanha especial para incitar o povo. Levantaram slogans e acusações de tal natureza que, assim que os ouvisse, o povo explodiria de ira e ficaria terrivelmente enfurecido e agitado contra o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. A história testemunha que, sempre que uma guerra foi organizada contra o Islam, alguma informação enganosa foi necessariamente divulgada com o objetivo de incitar o povo.
Uma dessas informações enganosas era a alegação de que os sentimentos religiosos de vocês estavam sendo feridos e que os seus deuses estavam sendo insultados.
A segunda era que se estava criticando a religião tradicional e ancestral.
A terceira era que os antepassados estavam sendo insultados.
Os politeístas de Meca já haviam reunido esses elementos para provocar a agitação. Embora a revelação enviada ao Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, não insultasse os deuses dos coraixitas — pelo contrário, os muçulmanos foram proibidos de insultá-los —, tentou-se enfurecer o povo classificando como insultos os argumentos e as provas apresentados contra esses deuses. Ele não insultou os antepassados deles; apenas disse que não é de modo algum sensato conservar algo simplesmente sob o pretexto de que foi transmitido de geração em geração. Mas até essa afirmação foi considerada um insulto aos antepassados. Do mesmo modo, tudo o que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse para provar a racionalidade do tawhid e a irracionalidade do shirk, bem como a análise que fez da religião vigente em resposta às próprias perguntas dos politeístas, foi classificado como uma busca de defeitos na religião tradicional.
Outra vez, veio uma delegação diferente. Eles também repetiram as mesmas acusações e disseram:
‘Ó Abu Talib, você é o mais velho entre nós em idade e também o mais nobre e respeitado em status e dignidade. Havíamos pedido que nos protegesse da opressão de seu sobrinho, mas você não fez nada. Por Allah, é insuportável para nós a maneira como nossos antepassados estão sendo insultados, como nossos ancestrais estão sendo chamados de tolos e como nossos deuses estão sendo criticados. Se você não o impedir, nós cuidaremos tanto dele quanto de você. Ou nós continuaremos vivos, ou Muhammad e seus apoiadores continuarão vivos. [Sira de Ibn Hisham, volume 1, p. 108]
Abu Talib então chamou o Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) e lhe contou tudo o que havia acontecido. Depois, suplicou-lhe, dizendo: ‘Meu sobrinho, não coloque sobre mim um fardo que não posso suportar.’ Nesse momento, ele se viu diante de uma situação em que até seu único refúgio parecia estar vacilando. Aparentemente, chegara o momento mais perigoso para o movimento islâmico. Mas observem com que profunda sinceridade e determinação inabalável ele, inspirado, disse:
‘Meu tio, por Allah, mesmo que eles me oferecessem o sol na minha mão direita e a lua na minha mão esquerda para que eu abandonasse esta missão, eu ainda assim não poderia abandoná-la. Minha missão só cessará no dia em que Allah me conceder a vitória nela; caso contrário, eu perecerei enquanto me empenho e luto por ela.’
Através dessas palavras do Mensageiro (que a paz esteja sobre ele), ouvimos a voz clamorosa daquela força genuína que transforma a história, esmaga toda resistência e conspiração e alcança seu objetivo. É lamentável que os coraixitas não tenham percebido a presença dessa força. Abu Talib, influenciado por seu efeito mágico, disse: ‘Vá, meu sobrinho, convoque as pessoas para aquilo que lhe agrada. Em nenhuma circunstância o abandonarei à própria sorte.’
Depois de alguns dias, chegou outra delegação, trazendo consigo Amara ibn al-Walid. Desta vez, vieram com um plano extraordinário. Disseram a Abu Talib: ‘Veja, este é o jovem mais robusto e belo da tribo dos coraixitas. Aceite-o. A inteligência e a força dele lhe serão muito úteis. Adote-o como seu filho e, em troca, entregue Muhammad às nossas mãos. Pois ele se rebelou contra a religião sua e de seus quatorze antepassados, semeou divisão e desordem entre o povo de sua terra e considerou tolos os antepassados deles. Queremos matá-lo. Estamos lhe dando uma pessoa em troca de outra. [Ibn Hisham, volume 1, p. 279]
Observem a maneira de pensar dessas pessoas. Uma personalidade tão grandiosa como Muhammad (que a paz esteja sobre ele) era tratada como uma mercadoria. E Abu Talib, como se não fosse seu tio, mas um comerciante! Ao ouvir as palavras dos delegados, os sentimentos de Abu Talib foram profundamente feridos. Ele disse: ‘Vocês querem que eu crie e cuide carinhosamente do filho de vocês, enquanto vocês levam meu sobrinho para matá-lo. Isso jamais poderá acontecer.’ Por fim, o episódio terminou com uma troca exaltada de palavras. Até mesmo entre os membros da delegação surgiu uma divergência.
Desta vez, os coraixitas começaram a incitar todas as tribos que tinham algum muçulmano, para que perseguissem os companheiros do Mensageiro (que a paz esteja sobre ele). Começaram a submetê-los a severas torturas para fazê-los abandonar o Islã. Somente o Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) foi protegido por Allah sob o patrocínio de Abu Talib. Ao observar a atitude dos coraixitas, Abu Talib ficou inquieto e apelou a Banu Hashim e Banu Abd al-Muttalib para que garantissem a segurança da vida do Mensageiro (que a paz esteja sobre ele). As pessoas se reuniram e se prepararam para proteger Muhammad (que a paz esteja sobre ele). Porém, devido à forte oposição de Abu Lahab, não foi possível chegar a nenhuma decisão definitiva.
Mais tarde, quando dois homens influentes entre os inimigos, Hamza e Umar, aderiram ao movimento islâmico, voltou a surgir uma intensa irritação no campo inimigo. Ficou claro que o movimento liderado por Muhammad (que a paz esteja sobre ele) começava então a penetrar em todos os lares. Portanto, era preciso fazer alguma coisa. Abu Talib estava acamado. Eles foram até ele. Dessa vez, seu plano era firmar um acordo com o Mensageiro (que a paz esteja sobre ele), segundo o qual ele não interferiria nos assuntos deles, e eles também não interfeririam nos assuntos dele. Ele não teria nenhuma relação com a religião deles, e eles também não teriam nenhuma relação com a religião dele. O Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) foi chamado. Depois de ouvir as exigências dos coraixitas, disse:
(Árabe: *********)
«Ó líderes dos coraixitas, aceitai apenas esta minha única palavra e vereis que toda a humanidade, árabe e não árabe, se tornará submissa a vós.»
Imaginem por um instante que ambiente mortal era aquele. Que situação terrível, dilacerada pelo veneno das conspirações e da oposição. Apesar disso, quão profunda e inabalável era, no coração do Mensageiro (que a paz esteja com ele), a confiança na força e no potencial inerentes à sua pregação. Era como se, de pé na escuridão profunda da noite, dissesse com plena certeza: o sol nascerá dentro de instantes. Mais do que isso, observai também como, diante dele, brilhavam claramente não apenas os aspectos religiosos do seu ideal, mas igualmente os seus aspectos sociais e políticos.
Abu Jahl exclamou abruptamente: «Sim, pelo teu pai, não apenas uma, mas dez palavras serão aceitas.»
Outro disse: «Por Allah, não me parece que este homem vá aceitar qualquer palavra que seja do vosso agrado.»
Depois disso, partiram desanimados. Contudo, algumas coisas ficaram claras a partir da conversa da delegação. Primeiro, foram obrigados a reconhecer o movimento islâmico como uma força e perceberam que era muito melhor encontrar algum meio de compromisso e coexistência do que persistir na vã tentativa de eliminá-lo. Segundo, apesar de toda a sua perseguição, opressão e conspiração, os coraixitas começaram a perceber a própria impotência.
Essa era a situação do próprio Mensageiro (que a paz esteja com ele). Por outro lado, também se tentava privar da proteção aqueles entre os seus companheiros que viviam sob a tutela de algum protetor.
Por exemplo, Abu Salama também estava sob a proteção de Abu Talib. Vieram homens da sua tribo, Banu Makhzum. Eles disseram: «Abu Talib, não entregaste o teu sobrinho às nossas mãos. Mas que direito tens de impedir que tratemos de um membro da nossa tribo?» Abu Talib respondeu: «Ele é meu sobrinho e pediu-me proteção. Vós o estáveis oprimindo. Por Allah, ou cessareis a opressão, ou farei o que for necessário para protegê-lo.»
De modo semelhante, certa vez, após o início da Hégira para a Abissínia, o honorável Abu Bakr, exasperado com a sufocante situação de Meca, deixou a cidade e partiu. Depois de percorrer certa distância, encontrou um homem chamado Ibnud Dughunna. Ao perguntar e descobrir que ele também estava emigrando, disse-lhe: “Pessoas como você não deveriam abandonar sua terra natal dessa maneira. Você ajuda seus parentes nas dificuldades, alimenta os famintos e veste os desnudos. Você próprio pratica boas ações e incentiva os outros a praticá-las também.” Assim, Ibnud Dughunna trouxe o honorável Abu Bakr de volta, responsabilizando-se pessoalmente por sua segurança, e anunciou diante dos coraixitas que Abu Bakr estava sob sua proteção. Em casa, ele se sentava no local onde fazia suas orações e recitava o Alcorão com uma voz melodiosa. Ao mesmo tempo, lágrimas escorriam de seus olhos. Por isso, quem quer que ouvisse sua recitação ficava comovido. Pouco a pouco, o assunto chegou aos ouvidos dos coraixitas. Eles foram até Ibnud Dughunna e disseram: “Ao dar abrigo a Abu Bakr, você nos causou uma grande desgraça. Ele recita o Alcorão com uma voz melodiosa, e, ao ouvi-lo, nossas mulheres e crianças estão sendo influenciadas. Você não precisa mais protegê-lo. Envie Abu Bakr para sua própria casa. Lá, que ele faça o que quiser. Nós não vamos interferir.” Então, Ibnud Dughunna, sem outra alternativa, enviou Abu Bakr para sua casa. (Ibn Hisham)
A frente negativa
Os inimigos do Islã estavam envolvidos em todo tipo de conspiração para fazer fracassar o maior serviço à humanidade ao qual o melhor dos homens, Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, estava dedicado. Apesar de tudo isso, seu trabalho de pregação continuava, e alguns de seus frutos também começavam a aparecer. Nessas circunstâncias, foi formada uma célula ativa de propaganda oposicionista. Sob sua coordenação, alguns dos principais líderes de Meca passaram a permanecer próximos do Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Seu principal problema era que Meca constituía o centro de toda a Arábia. Caravanas de todos os lugares passavam por ali, criando continuamente novas oportunidades para a pregação da verdade. A fraude que os líderes de Meca conseguiam impor aos próprios habitantes da cidade não funcionava com os forasteiros. Além disso, entre os recém-chegados havia muitas pessoas inteligentes e de consciência pura. Elas podiam avaliar qualquer pregação exclusivamente à luz da razão e avaliar aquele que a transmitia apenas por seus modos, comportamento e caráter, tomando uma decisão completamente independente, sem serem influenciadas por qualquer hostilidade ou acontecimento histórico. Não havia em seus corações inveja ou hostilidade contra a pregação e o movimento de Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, nem havia motivo para que houvesse. Nessas circunstâncias, não adiantaria proteger apenas Meca da influência da pregação de Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, se a sociedade árabe fora de Meca continuasse sendo influenciada por ela. O Alcorão predisse a questão da seguinte maneira:
(Árabe*******)
“Será que eles não veem que estou reduzindo, de todos os lados, o território sob seu domínio?” Sob esse aspecto, a época mais preocupante para eles era a temporada da peregrinação. Pessoas de diferentes tribos da Arábia reuniam-se em Meca em grupos, sob a liderança de seus chefes. Nessa ocasião, o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, ia de tenda em tenda encontrar-se com os membros e líderes desses grupos e convidá-los à fé. Os líderes do movimento reacionário e negativo ardiam de raiva ao ver isso. Certa vez, quando se aproximou a temporada da peregrinação, os líderes coraixitas reuniram-se na casa de Walid ibn al-Mughira e começaram a refletir profundamente. Walid apresentou o problema da seguinte forma:
“Ó povo dos coraixitas, a temporada da peregrinação se aproxima. Pessoas virão em grupos até vocês, de toda a Arábia. Todas já ficaram sabendo do assunto deste homem entre nós, Muhammad. Por isso, virão movidas pela curiosidade de conhecer bem a questão. Portanto, tomem agora uma decisão a esse respeito. Não entrem em divergência uns com os outros. Não pode acontecer de um ficar declarando falsa e refutando a afirmação do outro.”
Os presentes disseram: “Diga você. Defina você mesmo um plano de ação. Nós agiremos de acordo com ele.”
Mas Walid insistiu: “Vocês é que devem discutir; eu vou ouvir.”
Diante disso, começou a discussão.
Um grupo disse: Nós achamos que Muhammad é um astrólogo. É isso que devemos dizer para convencer as pessoas que vierem à peregrinação do Hajj.
Walid: Não, por Deus, Muhammad não é um astrólogo. Já vimos muitos astrólogos. Muhammad não fala como os astrólogos, em versos metrificados e rimados.
As pessoas disseram: Então diremos que ele está possuído por um jinn.
Walid: Não, ele também não está possuído por um jinn. Quando uma pessoa está possuída por um jinn, sua garganta fica contraída, seus membros tremem e seus pensamentos ficam desordenados; Muhammad não apresenta nenhum desses sinais.
O povo: Então diremos que ele é um poeta.
Walid: Não, também não me parece que ele seja poeta. Conhecemos poemas compostos em todos os tipos de métrica. De acordo com isso, ele também não é poeta.”
O povo: Então diremos que ele é um mágico.
Al-Walid: Não, ele também não é feiticeiro. Já vimos muitos feiticeiros e sua magia. Ele não possui o método de soprar sobre objetos e usar amuletos que é próprio da magia; isso não existe no caso de Muhammad, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele.
A multidão: Então, ó Abu Abdush-Shams, diga-nos o que devemos falar para iniciar uma campanha de propaganda contra Muhammad.
Al-Walid: Juro por Allah: suas palavras são extremamente doces. As raízes de suas palavras alcançam muito longe, e seus ramos dão muitos frutos. Este convite certamente triunfará. Não será possível derrotá-lo. Este convite subjugará tudo o mais. Tudo o que vocês disserem se tornará inútil e vão. Contudo, entre tudo o que vocês disseram, a última afirmação foi a mais apropriada. Vocês dirão que ele é um feiticeiro. Há magia em suas palavras. Por meio delas, ele provoca discórdia e separação entre pai e filho, marido e esposa, irmão e irmão, indivíduo e tribo, e entre tribo e tribo. (Essas palavras foram ditas em alusão ao convite do Islã, pois, com base nesse convite, dois grupos haviam surgido na sociedade. Entretanto, a verdadeira causa disso é a conspiração dos inimigos do Islã.) Vocês dirão que é por causa de sua magia que as pessoas o mantêm boicotado. (Sîrat Ibn Hisham e Sîrat al-Mustafa, Idris Kandhalvi.)
Observem como se conspira para realizar uma propaganda falsa contra uma pessoa. Tramam impor à força justamente aquilo que não é aceitável à consciência. Naquela mesma assembleia, decidiu-se que um grupo se posicionaria na entrada de cada estrada que levasse a Meca. Eles advertiriam cada delegação sobre Muhammad, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, e sobre seu convite. O plano foi executado dessa maneira. Mas o resultado foi o oposto. Todas as informações sobre o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, chegaram aos recantos mais distantes da Arábia. Até aqueles que nada sabiam a respeito descobriram que um convite para uma nova religião havia começado na Arábia e que Muhammad, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, era seu porta-estandarte.
Agora, observemos, no palco da história, as atividades do convocador ao Islã e dos ativistas negativos que trabalhavam contra ele.
Rabi‘a ibn ‘Ubada relata: Eu era então jovem. Permanecia com meu pai em Mina. Via o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, indo de tenda em tenda, entre as diversas tribos árabes, e dizendo: “Ó povo de tal tribo, sou o Mensageiro enviado por Allah até vocês. Meu convite a vocês é: adorem somente a Allah e não associem ninguém a Ele. Abandonem todos os ídolos que adoram. Creiam em mim, apoiem-me e garantam minha proteção. Então explicarei detalhadamente tudo aquilo para cuja transmissão Allah me enviou.”
O narrador do episódio diz: Um homem, usando roupas de origem etíope, seguia o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, passo a passo. Sempre que o Mensageiro terminava de falar, aquele homem imediatamente gritava: “Ó hóspedes de tal tribo, este homem quer afastá-los de Al-Lat e Al-‘Uzza e conduzi-los a uma nova religião e ao desvio. Não o escutem nem lhe obedeçam.”
Ao ver essa cena, o jovem perguntou ao próprio pai: “Quem é o homem que corre atrás do convocador? Ele está refutando cada uma de suas palavras.”
O pai responde: «Ele é o tio daquele homem, Abu Lahab.»
Assim como durante o hajj, o Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) também comparecia a várias feiras, para obter algum benefício das reuniões sociais. Certa vez, foi à feira chamada Dhu al-Majaz e convidou as pessoas a aceitar a fórmula da fé. Abu Jahl o perseguia. Chegou a um nível tão extremo de insolência que pegava poeira e a atirava no rosto do Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele), dizendo: «Não o escutem. Ele quer que vocês deixem de adorar Lat e Uzza.» (Sirat al-Nabi, Shibli Nomani)
Ao ouvir as notícias dessa intensa campanha de propaganda contra o Islã, Abu Talib ficou apreensivo, temendo que o povo da Arábia começasse a opor-se de forma organizada. Por isso, escreveu um longo poema e pendurou-o na porta da Caaba. Nele, por um lado, declarou que ele próprio não havia aceitado a pregação de Muhammad. Por outro, anunciou também: «Em nenhuma circunstância poderei abandonar Muhammad. Se necessário, sacrificarei até a minha própria vida por ele.» A maioria dos poemas desse gênero, compilados em nome de Abu Talib, é historicamente frágil. Contudo, não há dúvida de que algumas de suas partes são autênticas. (Sirat Ibn Hisham)
Reações adversas
Sempre que alguma pessoa importante chegava a Meca, os inimigos do Islã imediatamente a cercavam e faziam todo o possível para protegê-la da influência do Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele). Porém, na maioria das vezes, o resultado era justamente o oposto. Parece importante mencionar alguns acontecimentos desse tipo.
Tufayl bin Amr al-Dawsi era um homem nobre e um poeta renomado. Certa vez, quando foi visitar Meca, alguns líderes dos coraixitas foram encontrar-se com ele. Disseram: «Senhor Tufayl, estamos felizes por você ter chegado à nossa cidade. Contudo, tenha um pouco de cuidado durante os dias em que permanecer aqui. As atividades de Muhammad (que a paz esteja com ele) tornaram-se insuportáveis para nós. Esse homem destruiu nossa união e arruinou nossos interesses. Suas palavras são como magia. Ele provoca separação entre pais e filhos, entre irmãos e entre maridos e esposas. Estamos preocupados com você e sua tribo, temendo que vocês se tornem vítimas de seus enganos. Portanto, o melhor é que você não fale absolutamente nada com Muhammad (que a paz esteja com ele), nem escute qualquer coisa que ele diga.»
Tufayl disse: «Como eu não prometi que não falaria com Muhammad nem escutaria o que ele dissesse, eles não me deixaram em paz. Por isso, quando ia à Mesquita Sagrada, colocava algodão nos ouvidos. Certo dia, de repente, vi o Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) em pé junto à Caaba, rezando. Eu também me aproximei bastante dele e fiquei ali. Ouvi as palavras muito doces que ele recitava. Pensei comigo mesmo: Sou por acaso uma criança que ainda mama? Por Allah, sou um homem dotado de razão e discernimento. Sou poeta. Tenho capacidade para distinguir o bem do mal. Então, quem pode impedir-me de ouvir as palavras de Muhammad? Se a mensagem que ele prega for boa, aceitá-la-ei; e, se for má, rejeitá-la-ei.»
Algum tempo se passou enquanto ele refletia sobre isso. Depois da oração, o Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) dirigiu-se para casa. Tufayl caminhou atrás dele. No caminho, contou-lhe tudo: que tipo de propaganda difamatória haviam feito contra ele e como o haviam mantido afastado do Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele). Ao chegar à casa, pediu para conhecer em detalhes qual era a mensagem do Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele). O Mensageiro de Allah explicou-lhe o significado do Islã e recitou-lhe o Alcorão. Tufayl disse: «Por Allah, jamais ouvi palavras tão belas, nem jamais encontrei uma mensagem tão correta e verdadeira. Aceitei o Islã.» Depois, foi até sua própria tribo e pregou o Islã. Assim, toda a sua tribo aceitou o Islã.
Tofail tornou-se um pregador tão fervoroso que, ao chegar em casa e encontrar seu pai idoso, disse imediatamente: «Você também não é meu pai, nem eu sou seu filho». O pai perguntou: «O que é isso? O que aconteceu com você, meu filho?» Tofail respondeu: «Agora aceitei a religião de Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e adotei o caminho da obediência a ele». O pai disse: «Meu filho, a sua religião será também a minha». Imediatamente, tomou banho e aceitou o Islã. Tofail convidou sua esposa para o Islã da mesma maneira, e ela também aceitou o Islã. Depois disso, toda a tribo começou a responder ao chamado. Mais tarde, ele foi até o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, contou-lhe todo o ocorrido e mencionou os diversos defeitos de caráter de sua tribo, pedindo-lhe que suplicasse castigo para eles. O Mensageiro, porém, suplicou por sua orientação e reforma, e ordenou severamente a Tofail que continuasse trabalhando pacientemente pela reforma de sua tribo e que a tratasse com gentileza. (Sua tendência a usar coerção na propagação do Islã não estava de acordo com os princípios islâmicos de atuação.) [Sira de Ibn Hisham, vol. 1, pp. 407–409]
Observem também outro acontecimento. A’sha ibn Qays era igualmente um poeta ilustre. Depois de ouvir muitas coisas sobre o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, partiu em direção a Meca com a intenção de aceitar o Islã. Ele também havia composto um poema em louvor ao Mensageiro. Assim que A’sha entrou nos limites de Meca, um idólatra coraixita — segundo Ibn Hisham, Abu Jahl — aproximou-se dele, cercou-o e perguntou-lhe sobre seu propósito. A’sha respondeu: «Quero apresentar-me a Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e aceitar o Islã». Os dois conversaram longamente sobre o assunto. Para sondar a disposição de A’sha, o idólatra ardiloso disse: «Veja, Muhammad proíbe o adultério». Como isso não o desanimou, disse então: «Muhammad também proíbe o consumo de bebidas alcoólicas». Continuando a falar de uma coisa e de outra, enfraqueceu a resolução de A’sha. Por fim, convenceu-o a concordar com o seguinte: «Desta vez, volte para casa. Venha no próximo ano e aceite o Islã». A’sha retornou, mas morreu antes de poder voltar a Meca no ano seguinte.
O caso mais interessante foi o de Murid al-Arashi. O pobre homem havia ido a Meca com um camelo. Ele havia concluído com Abu Jahl a venda do camelo, mas Abu Jahl começou a protelar o pagamento. Sem alternativa, foi aos diversos líderes dos coraixitas, implorando que o ajudassem a receber o preço do camelo. Havia uma reunião dos coraixitas no pátio da sagrada Caaba. Arashi pediu aos líderes presentes que algum deles cobrasse de Abu Jahl o que lhe era devido. «Sou estrangeiro e estou sendo oprimido». Nenhum dos presentes teve coragem de ir até Abu Jahl para garantir o direito do estrangeiro. Por isso, apontaram com o dedo e disseram: «Aquele homem ali sentado — Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz — pode ajudá-lo. Vá até ele; ele fará com que você receba o que lhe é devido». Na verdade, aquilo era apenas uma zombaria, pois todos sabiam da terrível inimizade entre Muhammad e Abu Jahl. Arashi foi até o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e contou-lhe tudo. O Mensageiro levantou-se imediatamente e disse: «Venha comigo». Todos ficaram esperando para ver o que aconteceria. O Mensageiro saiu do Santuário e foi diretamente à casa de Abu Jahl, onde bateu à porta. Ouviu-se uma voz de dentro: «Quem é?» Ele respondeu: «Sou Muhammad. Saia. Tenho algo urgente para lhe dizer».
Abu Jahl saiu. Seu rosto estava pálido de medo. O Mensageiro disse: «Pague a este homem o que lhe é devido». Abu Jahl pagou imediatamente a dívida, sem dizer uma palavra. Arashi foi alegremente até os homens que estavam reunidos no Santuário e contou-lhes todo o ocorrido.
Esse acontecimento ocorreu devido à influência do caráter imaculado de Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. O próprio Abu Jahl reconheceu isso e também o declarou aos líderes coraixitas que estavam reunidos. Ele disse: «Muhammad veio e bateu à porta. Assim que ouvi sua voz, por alguma razão, fiquei com medo». (Ibn Hisham)
É fácil imaginar o impacto que esse acontecimento deve ter causado no próprio Arashi e nos habitantes de Meca.
Graças aos novos muçulmanos que haviam emigrado para a Abissínia, o chamado ao Islã havia chegado àquela região. De lá, vinte cristãos foram a Meca. Eles encontraram o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, no Santuário. O Mensageiro conversou com eles, respondeu às suas perguntas, recitou o Alcorão e apresentou-lhes o chamado do Islã. Seus olhos se encheram de lágrimas, e eles abraçaram a fé sem hesitação. Quando se levantaram para sair, os coraixitas estavam reunidos em um ajuntamento do lado de fora da mesquita. Abu Jahl disse à delegação da Abissínia: «Como vocês são tolos! Abandonaram a própria religião!» Os membros da delegação responderam: «Nós os saudamos. Não queremos entrar em disputa ou conflito com vocês. Nosso caminho é diferente, e o caminho de vocês também é diferente. Não queremos ser privados de uma bênção».
Temendo que os conspiradores de Meca organizassem uma resistência intensa, todo o episódio do segundo juramento de aliança de Aqaba foi realizado em profundo segredo, no meio da escuridão da noite. Quando a delegação vinda de Medina concluiu o juramento de aliança e chegou ao local onde estava hospedada, os líderes coraixitas foram imediatamente encontrá-la. O sistema de espionagem dos coraixitas era tão eficiente que eles descobriram todo o episódio do juramento e disseram aos membros da delegação: «Vocês pretendem levar Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, daqui e, apertando sua mão, juraram lutar contra nós. Ouçam bem: se provocarem uma guerra entre nós e os árabes, não haverá, aos nossos olhos, pessoas mais detestáveis do que vocês». Os Ansar tentaram ocultar o assunto. Assim, naquele momento, a questão não avançou, e os Ansar partiram para Medina. Contudo, os coraixitas continuaram espionando e acabaram descobrindo todas as informações. Eles perseguiram a caravana dos Ansar e capturaram Sa’d ibn Ubadah e Mundhir ibn Amr, levando-os consigo. Ambos haviam se comprometido a propagar o Islã em suas respectivas tribos. Os coraixitas amarraram os dois com as mãos para trás e os espancaram brutalmente.
Sa‘d ibn Ubada narrou: em nossa situação deplorável, chegou um homem alto e bem-apessoado dos coraixitas. Pensei comigo: se há alguma pessoa boa entre esse povo, provavelmente é este homem; talvez possamos esperar dele algum bom tratamento. Mas, assim que se aproximou, ele me deu uma bofetada violenta. Então compreendi que não se podia esperar deles nenhum bom tratamento. Por fim, um deles me perguntou: “Entre os coraixitas, não há ninguém com quem vocês tenham algum conhecimento anterior, amizade ou pacto?” Mencionei os nomes de Zubair ibn Mut‘im e Harith ibn Harb. Ele me aconselhou a chamá-los, mencionando cada um deles pelo nome. Fiz isso. Então ambos vieram e nos libertaram.
Esses acontecimentos mostram quão ativos eram os opositores da da‘wah islâmica.
A frente da literatura e da música
Nadr ibn al-Harith era outro dos líderes da campanha contra o Islã. Por motivos comerciais, viajava frequentemente à Pérsia. De lá, trazia relatos históricos e literários sobre reis e soberanos não árabes. Depois, em Meca, organizava reuniões de literatura recreativa importada do mundo não árabe para fazer frente à literatura revolucionária do Alcorão. Nessas reuniões, convidava o povo, dizendo: “Ora, o que vocês vão fazer ouvindo de Muhammad — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — as histórias mofadas de ‘Ad e Thamud? Venham a mim, e eu lhes contarei as histórias divertidas das terras de Rustam e Isfandiyar.” Sobre Nadr ibn al-Harith, identificando-o como um personagem humano singular, o Alcorão diz:
“Há pessoas que compram histórias vãs e divertidas, para, sem conhecimento, desviar as pessoas do caminho e para fazer delas objeto de escárnio.” (Surata Luqman: 6)
Certa vez, numa reunião, Nadr ibn al-Harith fez diante de Abu Jahl o seguinte discurso sobre a da‘wah e o movimento do Mensageiro — que Allah o abençoe e lhe conceda paz —:
“Ó comunidade dos coraixitas, hoje vocês se deparam com algo contra o qual nenhuma estratégia de vocês terá êxito no futuro. Houve um tempo em que Muhammad — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — era um jovem muito querido por todos vocês. Era mais veraz que todos vocês e mais digno de confiança e leal que todos vocês. Contudo, assim que atingiu a maturidade e apresentou sua da‘wah, vocês começaram a dizer que ele era um feiticeiro……, começaram a dizer que era um adivinho, começaram a dizer que era louco….. Na realidade, nada disso é verdade. Ó comunidade dos coraixitas, reflitam um pouco mais sobre sua política, pois, por Allah, algo importante se apresenta diante de vocês.” (Sira de Ibn Hisham)
Esse discurso de Nadr ibn al-Harith mostra que ele considerava a da‘wah do Mensageiro — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — algo extraordinário e que também tinha consciência de sua grandeza moral. Contudo, esmagando a própria consciência lúcida, tramava ardilosas conspirações satânicas para se opor à da‘wah do Mensageiro. Ele compreendia muito bem que, para as pessoas comuns, a literatura recreativa e as atividades culturais podiam conter elementos mais atraentes do que o apelo sincero de um movimento positivo e voltado para um objetivo nobre. Por isso, organizava reuniões de literatura recreativa e estética. Nadr ibn al-Harith dizia: “Posso contar histórias mais cativantes e divertidas do que Muhammad.” Depois, quando contava histórias estrangeiras, dizia: “Em que aspecto as histórias de Muhammad — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — são melhores que as minhas?” Por outro lado, ridicularizava as histórias do Alcorão, chamando-as de histórias dos tempos antigos.
Isso não terminou aí: ele também comprou uma escrava habilidosa em canto e música. Ele convidava as pessoas para comer e, depois da refeição, fazia-as ouvir o canto e a música daquela escrava. Sempre que ouvia falar de algum jovem que havia começado a interessar-se pelo Islã, levava a cantora até ele e ordenava à escrava: “Alimenta este jovem, oferece-lhe bebida e entretém-no com música até que fique satisfeito.” Depois de organizar esse tipo de espetáculo artístico e cultural, dizia com orgulho: “O convite ao Islã feito por Muhammad — que a paz esteja sobre ele — é mais agradável, ou é mais agradável aquilo que eu organizo?” (Sīrat al-Muṣṭafā, Maulana Idris Kandhalvi, volume I, p. 188)
Na realidade, a força vital fundamental do Islã é a obediência a Allah e a moralidade. Essa força vital morre num ambiente de livre mistura entre homens e mulheres e de obscenidade. Um ambiente no qual toda a atenção se concentra em comida, bebida, música, entretenimento, belas-artes e sexualidade não é adequado à divulgação islâmica. Foi por isso que Naḍr ibn al-Ḥārith, por um lado, começou a apresentar histórias recreativas e, por outro, promoveu reuniões de música, mistura entre homens e mulheres e obscenidade.
Mas a literatura de entretenimento não consegue deter um movimento construtivo de divulgação e de boas intenções, e as belas-artes, como a música e similares, também não servem para nada nesse propósito. Houve algum alvoroço durante dois ou quatro dias. Depois, tudo ficou em silêncio.
Depois que a conspiração de Naḍr ibn al-Ḥārith fracassou, ele, seguindo o conselho dos líderes coraixitas, foi a Medina procurar os sacerdotes judeus. Perguntou-lhes: “Vocês são pessoas instruídas e sábias, enquanto nós somos ignorantes e analfabetos. Digam-nos como podemos impedir o movimento islâmico e como podemos resistir a Muhammad — que a paz esteja sobre ele.” Os sábios judeus ensinaram-lhes: “Perguntem a Muhammad — que a paz esteja sobre ele — sobre a história de Dhū al-Qarnayn e dos Companheiros da Caverna, e perguntem também o que é a alma.” Eles apresentaram essas três perguntas ao Mensageiro no momento apropriado, e ele também lhes deu respostas satisfatórias com o auxílio da Revelação. Mas como seria possível resistir à obstinação dos incrédulos? (Sīrat Ibn Hishām)
Tentativa de compromisso
Depois de ultrapassarem a fase inicial de clandestinidade, quando o movimento islâmico começou a espalhar-se rapidamente e, mais tarde, quando os diversos esforços de difamação e violência fracassaram e se mostraram inúteis, os opositores começaram a perceber que o movimento islâmico era uma força invencível e que em breve provocaria uma grande mudança no país. Por isso, reiniciaram iniciativas, preparativos e esforços para descobrir um caminho de compromisso e conciliação e para verificar se o conflito poderia ser encerrado com base em concessões mútuas entre as duas partes. Contudo, num movimento ideológico não há margem para tanta flexibilidade a ponto de se encontrar um caminho intermediário por meio de transações e soluções artificiais. Ainda assim, os líderes do fórum examinaram inteiramente essa estratégia, na esperança de obter alguma vantagem de algum modo.
Por exemplo, uma de suas propostas de compromisso era que o Mensageiro — que a paz esteja sobre ele — não censurasse nem criticasse seus deuses e ídolos, nem interferisse em sua religião. Além disso, poderia fazer quantos sermões, exortações e aconselhamentos morais desejasse, sem que houvesse objeção. Em outras palavras, deveria retirar da fórmula central da divulgação a declaração de rejeição da falsidade. Isso significava que seria permitido mencionar o nome de Allah, mas não dizer que não há outra divindade além de Allah (lā ilāha illā Allāh). Não se poderia desafiar as ideias falsas sobre as quais a civilização vigente estava fundamentada. O ambiente nocivo e os elementos nocivos existentes na sociedade deveriam continuar exatamente como estavam. A verdade e a justiça deveriam ser apresentadas de tal forma que não abrissem o caminho para uma revolução, eliminando delas toda inspiração revolucionária. O discurso político do Islã deveria ser neutralizado. Dever-se-ia continuar o trabalho de reforma espiritual da sociedade sob o sistema social existente, mantendo-o como estava. A ideia era que a superioridade de classe e a nobreza dos coraixitas, sua primazia e liderança políticas e econômicas, sua liderança religiosa e aristocracia, seus interesses estabelecidos e todas as posições, privilégios e vantagens adquiridos deveriam ser preservados. Depois disso, faça o que quiser. Mas, se o movimento islâmico aceitasse essa condição, desapareceria por si mesmo.
Da parte deles, também foi imposta a condição de que este Alcorão fosse abandonado e substituído por outro Alcorão, ou que nele fossem feitas alterações de modo a satisfazer plenamente as nossas exigências e reivindicações.
ائْتِبِقُرْآنٍغَيْرِهَٰذَاأَوْ
‘Traga outro Alcorão em lugar deste, ou faça alterações nele.’ (Surata Yunus: 15)
A resposta dada da parte do Mensageiro (S.A.W.), na linguagem da revelação, foi: ‘Não tenho o direito de alterar este Alcorão conforme os meus próprios desejos. Não posso seguir nada além daquilo que me é revelado. Se eu desobedecer ao meu Senhor, posso ter de sofrer o castigo do dia terrível da Ressurreição. E quem é mais injusto do que aquele que tenta fazer passar suas próprias invenções como sendo de Allah?’
Para encontrar um caminho de conciliação, os opositores do movimento islâmico também fizeram a seguinte exigência: que expulsasses de teu redor as pessoas das classes mais baixas da sociedade. Se expulsares aqueles que até ontem eram nossos escravos, poderemos vir sentar-nos contigo e ouvir teus conselhos. Caso contrário, nas atuais circunstâncias, não podemos ir até ti nem ouvir tuas palavras. As pessoas de classe inferior bloquearam nosso caminho. No entanto, são elas que se instalaram como grandes líderes ao teu redor. A respeito dessas pessoas, eles zombavam, dizendo: «São elas, ao que parece, que herdarão os tronos dos impérios Romano e Persa!» Não era que os corações dos politeístas tivessem ficado ansiosos para servir ao movimento islâmico. Pelo contrário, seu objetivo era fazer com que o entusiasmo daqueles jovens de vida vibrante, que corriam como loucos erguendo a bandeira da verdade e da justiça, que sacrificavam todos os seus interesses e recebiam sorrindo todo tipo de perigo e adversidade, e cuja respiração inteira era dedicada à realização desse objetivo sagrado, fosse quebrado, e que o movimento islâmico fosse privado de seu serviço dedicado.
Antes que essa proposta enganosa de conciliação produzisse qualquer efeito na mente do Mensageiro (S.A.W.), o Alcorão o advertiu de que se tratava de uma velha artimanha dos inimigos do Islã. Essa artimanha havia sido usada contra todos os profetas anteriores. O versículo 27 da Surata Hud afirma que uma proposta exatamente desse tipo também foi feita ao Profeta Noé (A.S.). No versículo 52 da Surata Al-An’am, o Mensageiro (S.A.W.) é aconselhado a não afastar de sua companhia, para agradar aos inimigos do Islã, os companheiros dedicados que invocam o nome de Allah de manhã e à tarde. O versículo 215 da Surata Ash-Shu’ara afirma que ele deve continuar cuidando com carinho desses seguidores fiéis. Além disso, nos dez primeiros versículos da Surata Abasa, o Mensageiro (S.A.W.) foi repreendido apenas porque, enquanto conversava com um descrente influente, não apreciou a pergunta feita por um de seus companheiros cegos.
Certa vez, os líderes intransigentes dos coraixitas discutiam esse assunto em uma reunião. Naquele momento, o Mensageiro (S.A.W.) estava sentado sozinho do outro lado. Utba ibn Rabia disse aos líderes coraixitas presentes na reunião: ‘Se concordardes, irei conversar com Muhammad. Apresentarei a ele algumas fórmulas alternativas, e talvez ele aceite uma delas. Se a aceitarmos, talvez ele não queira mais entrar em conflito conosco.’ Tratava-se claramente de uma iniciativa de conciliação. É provável que os coraixitas tenham chegado a esse ponto por causa da aceitação do Islã por Hamza e da rápida expansão do movimento islâmico. Com o consentimento de todos os presentes, Utba foi falar com o Mensageiro (S.A.W.) da seguinte maneira:
‘Ó sobrinho, tu sabes quanta consideração temos por ti. Em toda a tribo, ocupas uma posição elevada. Também és, por linhagem, alguém de grande distinção.’ Depois de fazer por algum tempo uma introdução cheia de lisonjas, mas sem relação com a questão real, Utba disse em tom de reprovação: ‘Lançaste a nação em grande inquietação. Dividiste sua unidade em pedaços. Chamas seus líderes de tolos e ignorantes. Criticas sua religião e seus deuses. Declaraste descrentes seus antepassados. Agora escuta-me. Reflete sobre as propostas que te apresentarei. Talvez uma delas seja aceitável para ti.’ O Mensageiro (S.A.W.) respondeu: ‘Está bem. Fala. Eu te ouvirei.’ Utba apresentou então, uma a uma, as seguintes propostas alternativas:
‘Se teu objetivo é adquirir riquezas, reuniremos para ti tanta riqueza que te tornarás mais rico do que todos nós.’
E, se desejas obter liderança e poder por meio disso, estamos prontos para nomear-te nosso líder e chefe. Não tomaremos nenhuma decisão sem antes consultar a tua opinião.
Se desejas tornar-te rei do país, também estamos prontos para fazer de ti um rei.
E, se a razão disso for que algum jinn ou algo semelhante exerce influência sobre ti, e esses seres sobrenaturais tenham adquirido poder sobre ti, arrecadaremos contribuições para providenciar o teu tratamento. Depois, se ficares curado, será ótimo; caso contrário, ficará comprovada a nossa incapacidade.’
Essas propostas conciliatórias refletiam diferentes tipos de atitudes e concepções. Os opositores do movimento islâmico geralmente alimentavam essas ideias. Essas propostas deixam claro que, na visão deles, havia duas possibilidades. Primeiro, talvez o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) não estivesse empreendendo conscientemente e de modo deliberado uma confrontação tão grande com o sistema social da era da ignorância, mas o fizesse sob a influência de algum fantasma ou espírito, ou em estado de inconsciência. Segundo, se ele tivesse tomado todas essas iniciativas de forma consciente e deliberada, então certamente seu objetivo seria obter um reino ou poder. De qualquer modo, depois de ouvir todas as propostas, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: ‘Ó pai de Walid, terminaste de falar?’ Ele respondeu: ‘Sim.’ O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: ‘Agora escuta o que tenho a dizer.’ Utbah disse: ‘Está bem, fala, vamos ouvir.’ O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) deixou todas as propostas de lado e começou a recitar desde o início da Surata Ha-Mim Sajdah:
‘Ha-Mim. Esta é uma revelação enviada pelo Misericordioso, o Misericordiosíssimo. É um Livro cujos versículos foram bem elaborados e claramente explicados. É um Alcorão em língua árabe, para pessoas dotadas de entendimento. Este Livro anuncia boas-novas aos crentes e adverte os incrédulos. Contudo, a maioria deles se afastou e não dá ouvidos. Eles dizem: “Nossos corações estão fechados para aquilo a que nos convocas; em nossos ouvidos há surdez, e entre nós e vós existe uma barreira. Portanto, age conforme o que te cabe, e nós agiremos conforme o que nos cabe.” (Versículos 1–5)
Enquanto o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) continuava a recitar, Utbah permaneceu sentado em silêncio, apoiando-se nas mãos levadas para trás, e escutava atentamente. Quando chegou ao versículo da prostração, ele interrompeu a recitação e prostrou-se. Depois disse: ‘Ó pai de Walid, ouviste? Agora faze o que achares melhor.’
Depois disso, Utbah levantou-se e foi até seus companheiros. Assim que viram seu rosto, disseram: ‘O rosto de Utbah mudou. Ele já não está como estava quando saiu.’ Com voz preocupada, perguntaram: ‘O que aconteceu?’
Utbah disse:
‘A questão é que acabo de ouvir uma mensagem como nunca ouvi em toda a minha vida. Juro por Allah: não era poesia, nem magia, nem palavras de um adivinho. Ó povo de Quraysh, escutai-me. Digo isto assumindo plena responsabilidade: deixai Muhammad em sua situação atual e não o persigais. Juro por Allah que, por meio da mensagem que ouvi, certamente se produzirão grandes resultados. Se os árabes matarem Muhammad, então vos livrareis dele por meio de outros. E se ele se tornar rei da Arábia, seu reino será o vosso reino e sua força será a vossa força. Então, graças a ele, vos tornareis a nação mais afortunada. (Sira de Ibn Hisham, volume I, pp. 313–314)
O discurso de Utbah permite conhecer vários pontos importantes. Primeiro, os grandes oradores e poetas literatos da Arábia daquela época eram obrigados a inclinar a cabeça diante da excelência e da beleza da linguagem do Alcorão. Segundo, enquanto os opositores não ouviam diretamente da boca do pregador a mensagem fundamental do Islã, eram influenciados por todo tipo de propaganda venenosa e permaneciam firmes em sua oposição. Mas, assim que alguém tinha a oportunidade de ouvir diretamente uma parte da verdadeira mensagem, seu coração imediatamente a aceitava. Terceiro, todos os homens intelectualmente capazes da sociedade politeísta tinham a convicção de que, com base na mensagem da revelação, certamente ocorreria uma grande revolução. Eles conseguiam visualizar, por trás dela, o cenário de uma revolução completa e supunham que, com base nessa palavra, seriam estabelecidos um império e um sistema social, político e econômico.
Mas, depois de ouvirem as palavras de Utbah, começaram as zombarias e os escárnios na assembleia dos coraixitas, e muitos disseram: ‘Pai de Walid, parece que Muhammad também lançou um feitiço sobre o senhor.’ Utbah respondeu: ‘Já expressei minha opinião sobre ele. Agora fazei o que achardes melhor.’
Alguns dias depois, fizeram outra tentativa nesse sentido. Certo dia, após o pôr do sol, todos os grandes chefes dos coraixitas se reuniram no pátio da Caaba. Entre eles estavam Utbah ibn Rabi‘ah, Shaybah ibn Rabi‘ah, Abu Sufyan ibn Harb, Nadr ibn al-Harith, Qandah, Abu al-Bukhtari, Aswad ibn al-Muttalib, Zam‘ah ibn al-Aswad, al-Walid ibn al-Mughirah, Abu Jahl ibn Hisham, Abdullah ibn Umayyah, ‘Ash ibn Wa’il, Nabih e Munabbih ibn al-Hajjaj (Banu Sahm), e Umayyah ibn Khalaf. Eles mandaram chamar o Mensageiro (que a paz esteja sobre ele). O Mensageiro foi até eles cheio de uma nova esperança. Mas eles não disseram nada de novo. Apenas repetiram a proposta que havia sido apresentada anteriormente por Utbah ibn Rabi‘ah. Ao ouvi-la, o Mensageiro respondeu da seguinte maneira: ‘O que estais dizendo é completamente diferente da minha questão. O objetivo da mensagem que vos trouxe não é obter riquezas, alcançar liderança e autoridade, nem estabelecer um reino. Allah me enviou a vós como profeta e mensageiro. Ele revelou para mim o Livro e ordenou-me que fosse, para vós, um admoestador e um anunciador de boas-novas. Em conformidade com isso, transmiti-vos as orientações de Allah e cumpri meu dever de vos aconselhar sinceramente. Se aceitardes aquilo que trouxe, isso garantirá o bem-estar de vossa vida neste mundo e na outra vida. Mas, se o rejeitardes, permanecerei paciente, aguardando a próxima ordem de Allah, até que Allah pronuncie Seu julgamento entre mim e vós. (Sira de Ibn Hisham, volume I, p. 315)
Ao ouvirem essa resposta e perceberem que não havia caminho para avançar, começaram a apresentar todo tipo de argumentos capciosos. Por exemplo, disseram: ‘Tu sabes que nossa terra é muito estreita. Há pouquíssima água aqui e a vida é extremamente difícil. Pede a Allah que remova aquelas montanhas, amplie nosso território e faça surgir nele rios como os do Iraque e da Síria. Pede-Lhe que ressuscite nossos antepassados, especialmente Qusay ibn Kilab. Ele era muito veraz, e nós lhe perguntaremos se tua mensagem é verdadeira ou falsa. Se assim nossos antepassados forem ressuscitados um após o outro e testemunharem que tua mensagem é verdadeira, e se realizares tudo o que estamos exigindo, aceitaremos que és o Mensageiro de Allah. Mas, se não fizeres isso, faze descer sobre nós o castigo.’ Em resposta a todas essas exigências impossíveis, o Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) repetia sempre: ‘Não fui enviado para isso.’ Por fim, quando o Mensageiro retornava para casa, seu primo Abdullah ibn Ubayy foi caminhando com ele. Disse-lhe: ‘Os homens de tua tribo quiseram oferecer-te algumas vantagens, mas não aceitaste nenhuma delas. Agora, juro por Allah, não acredito mais em ti; nem mesmo se te visse subir ao céu por uma escada instalada para esse fim. E, mesmo que te visse descer do céu com meus próprios olhos e quatro anjos viessem contigo para testemunhar a favor de tua veracidade, ainda assim não acreditaria. Juro por Allah que, mesmo se eu viesse a crer, não me parece de modo algum que eu realmente me tornaria teu apoiador.’ (Sira de Ibn Hisham)
Depois disso, o Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) voltou para casa profundamente entristecido.
Outro acontecimento desse tipo ocorreu após a viagem a Taif. Nessa época, o Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) saiu de Meca e começou a pregar e transmitir a mensagem às tribos vizinhas de Banu Qanda, Banu Hanifa e outras. Quando foi pregar à tribo de Banu Amir, encontrou Bukhayra ibn Firas, o chefe daquela tribo. Bukhayra ouviu a mensagem do Mensageiro. Depois, disse a seus apoiadores: ‘Juro por Allah que, se eu conseguisse este jovem da tribo de Quraysh, conquistaria toda a Arábia por meio dele.’ Em seguida, perguntou ao Mensageiro (que a paz esteja sobre ele): ‘Se aceitarmos esta mensagem e tu venceres teus opositores, toda a autoridade do Islã passará para minhas mãos depois de ti?’
É importante refletir sobre o fato de que, assim que recebeu uma breve mensagem inicial, aquele homem passou a imaginar que se tratava de uma mensagem capaz de provocar uma revolução. Ela também tinha possibilidades de triunfar e, se triunfasse, poderia contribuir para seus próprios interesses. Foi por causa dessas ideias que surgiu na mente de Bukhayra uma atitude de caráter comercial. Mas o Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) era simplesmente um pregador da mensagem. Ele não havia aberto um empreendimento político. Por isso, respondeu:
‘Isso está nas mãos de Deus. Depois de mim, Ele nomeará quem quiser.’
Bukhayra disse:
’Muito bem! Hoje lutaremos contra todos os árabes. Depois, assim que seu objetivo for alcançado, outros aproveitarão as oportunidades e obterão vantagens. Vá embora. Não temos nenhum interesse nesse assunto.’ (Rahmatul lil-‘Alamin, primeiro volume, p. 89)
Se o Mensageiro (S.A.) fosse um pregador apolítico, ou se tivesse se dedicado ao trabalho de purificação moral da sociedade segundo o método do sufismo ou da relação entre mestre espiritual e discípulo, teria respondido diretamente: ’Meu caro, que sonhos são esses? Isso é um trabalho de reforma realizado pelos homens de Deus. De onde surge nele a questão de interesses e vantagens? Como poderia surgir a questão de tornar-se sucessor, ou de obter liderança e autoridade? O próprio Mensageiro (S.A.) sabia quão abrangente era seu movimento e qual era sua dimensão política. Do mesmo modo, qualquer pessoa com quem ele conversasse percebia qual seria o destino final desse chamado.
A vantagem que as forças opositoras queriam obter com todas essas tentativas variadas de compromisso era a seguinte: se o Mensageiro (S.A.) aceitasse um compromisso para encontrar uma maneira de avançar com segurança no movimento ou para salvar seus companheiros da perseguição, a força de seu chamado, enquanto movimento idealista, seria destruída. E, se demonstrasse intransigência, poderiam fazer propaganda dizendo: “Vejam, cidadãos: quisemos oferecer toda espécie de vantagens e encontramos vários meios para resolver os conflitos e as disputas, mas este homem é tão obstinado que não aceitou nenhuma solução.” Na realidade, a posição do Mensageiro (S.A.) era extremamente delicada. Por isso, o Alcorão, para enfrentar todas essas fórmulas de compromisso,
continuou a proferir advertências ao Mensageiro (S.A.), exortando-o a demonstrar firmeza. Em certa passagem, chegou a ordenar, em linguagem extremamente severa, que ele se protegesse desse engano dos opositores, assegurando-lhe também a proteção de Deus nesse assunto.
Nos versículos 74 e 75 da Surata Bani Isra’il, Deus diz:
’Se não tivéssemos te concedido firmeza, seria possível que te inclinasses um pouco para eles. Se isso tivesse acontecido, teríamos feito você provar uma punição dobrada nesta vida e na outra. Então você não encontraria ninguém que pudesse ajudá-lo contra Nós.’
Em suma, por meio de extrema prudência, habilidade e paciência, o Mensageiro — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — protegeu o movimento dessas negociatas.
A forma extrema da violência
Os inimigos do Islã sempre foram desonestos quanto aos seus objetivos e fracos e falidos quanto aos argumentos. Seu verdadeiro problema sempre foi o egoísmo e a embriaguez do poder. Assim que alguém entra em campo levando o convite do Islã, eles se levantam contra ele com todas as suas forças e respondem aos argumentos e às provas com violência, terror e banditismo. O movimento islâmico atua com base na consciência, na inteligência e na capacidade de reflexão humanas. Mas os opositores do Islã tentam impedir seu avanço por meio da ira, do espírito de vingança, da emoção e da agitação. Se alguma força empreende sequer a mais modesta iniciativa para mudar a estrutura social e estatal vigente, ela acaba sendo espancada pelos defensores e sustentáculos da ordem social. Contudo, como o convite do Islã conclama a uma transformação abrangente e de longo alcance, os líderes do Estado e da sociedade vigentes são tomados por uma espécie de intensa loucura em reação a ele. Foi exatamente isso que ocorreu em Meca. Embora a violência tenha começado juntamente com o início do convite público, a ferocidade da ignorância e o grau de perseguição aos muçulmanos foram aumentando gradualmente. Em cinco ou seis anos, Meca transformou-se, para os que haviam aceitado o Islã, numa fornalha ardente. Após o falecimento da venerável Khadija e do senhor Abu Talib, o poder abrasador dessa fornalha assumiu uma forma ainda mais intensa e terrível. Em maior ou menor grau, ninguém escapou de ser queimado nessa fornalha. Ao serem queimados, aquecidos e derretidos nela, eles se transformaram em ouro puro. Embora o próprio Muhammad — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele —, líder do movimento, tenha suportado a maior parte do calor dessa fornalha, seus companheiros também não sofreram pouco. Sabemos muito pouco, pela história, sobre essa terrível perseguição infligida aos nobres Companheiros. Ainda assim, o pouco que se conhece pela história é de arrepiar. Aqui apresento um breve relato de parte dessa perseguição promovida pelos inimigos do Islã.
O próprio Mensageiro — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — era submetido a todo tipo de violência a cada instante. Mas o sofrimento infligido aos seus companheiros também perfurava profundamente, de forma indireta, seu coração sensível. Vejam agora que tipo de perseguição foi infligida a cada um.
Khabbab ibn al-Aratt al-Tamimi foi vendido como escravo na época da ignorância. Uma mulher chamada Umm Numar comprou-o. Quando a casa de Arqam era o centro do movimento islâmico, e de lá o Mensageiro — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — dirigia todas as atividades organizacionais, foi então que Khabbab aceitou o Islã. Os coraixitas espalhavam brasas ardentes e deitavam-no sobre aquele leito de fogo. Imediatamente, um homem ficava de pé sobre seu peito, para que Khabbab não pudesse virar-se de lado. Por fim, as brasas se apagavam sob suas costas. Mais tarde, quando Khabbab — que Allah esteja satisfeito com ele — mostrou certa vez suas costas a Umar — que Allah esteja satisfeito com ele —, este viu manchas brancas semelhantes às da lepra. Khabbab era ferreiro de profissão. Depois de aceitar o Islã, quando cobrava de várias pessoas o que lhe deviam, elas respondiam: “Enquanto você não romper sua relação com Muhammad — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele —, não receberá nem um centavo.” Assim, ele estava sendo submetido a uma opressão econômica. Mas esse soldado da verdade respondeu: “Isso jamais será possível para mim.”
O negro Bilal — que Allah esteja satisfeito com ele — era escravo de Umayya ibn Khalaf. Quando o sol ficava exatamente sobre a cabeça, deitavam-no sobre a areia ardente do deserto árabe e colocavam uma pesada pedra sobre seu peito, para que ele não pudesse virar-se de lado. Umayya dizia-lhe: “Renuncia ao Islã; caso contrário, morrerás assim mesmo.” Em resposta, Bilal — que Allah esteja satisfeito com ele — gritava apenas: “Ahad! Ahad!” (“Allah é Um, Allah é Um”). Isso aumentava ainda mais a ira de Umayya. Ele amarrava uma corda ao pescoço de Bilal e soltava contra ele os jovens desordeiros da cidade. Eles o arrastavam pelas ruas e vielas. Mas aquele devotado amante de Allah continuava proclamando em voz alta “Ahad! Ahad!” mesmo naquela situação. Às vezes, envolviam-no em couro de boi; outras vezes, vestiam-no com uma armadura de ferro e o deixavam sentado sob o sol escaldante. Abu Bakr — que Allah esteja satisfeito com ele — comprou-o em troca de outro escravo e concedeu-lhe a liberdade.
Ammar ibn Yasir era descendente de Qahtan. Seu pai, Yasir, havia vindo do Iêmen para o Hijaz com seus dois irmãos, à procura de outro irmão que haviam perdido. Mais tarde, os dois irmãos retornaram ao Iêmen. Yasir, porém, estabeleceu uma aliança com Abu Hudhaifa al-Makhzumi, permaneceu em Meca e casou-se ali. Mais tarde, Yasir e toda a sua família aceitaram o Islã. Como Ammar ibn Yasir não tinha nenhum parente ou aliado em Meca, era submetido a terríveis torturas. Como punição por ter aceitado o Islã, também era deitado sobre a areia escaldante. Os coraixitas batiam nele até deixá-lo inconsciente. Seus pais também eram submetidos a torturas físicas semelhantes. Mergulhavam-no na água e também o deitavam sobre brasas ardentes. O Mensageiro — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — passava carinhosamente a mão sobre sua cabeça, fazia súplicas por ele e lhe dava as boas-novas do Paraíso. Segundo o relato de Ali — que Allah esteja satisfeito com ele —, o Mensageiro — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — dizia: “Ammar está cheio de fé da cabeça aos pés.” A mãe de Ammar, Sumayya — que Allah esteja satisfeito com ela —, foi morta por ter aceitado o Islã.
O próprio Abu Jahl matou-a de maneira extremamente brutal, golpeando-a com uma lança. Esse foi o primeiro martírio na história do Islã. O pai de Ammar, Yasir — que Allah esteja satisfeito com ele —, também morreu como mártir em consequência das torturas.
Ele havia aceitado o Islã juntamente com Suhaib e Ammar. Era espancado com tanta brutalidade que perdia o equilíbrio mental. Na época da Hégira, os coraixitas permitiram que ele emigrasse sob a condição de que lhes deixasse todos os seus bens e recursos. Suhaib (r.a.) aceitou alegremente essa condição e foi para Medina de mãos vazias.
Abu Fukaiha Suhali era escravo de Safwan ibn Umayya. Ele foi contemporâneo de Hazrat Bilal na aceitação do Islã. Certa vez, colocaram uma pedra tão pesada sobre seu peito que sua língua ficou para fora. Às vezes, colocavam-lhe grilhões de ferro e o deitavam de bruços sobre a areia escaldante. Hazrat Abu Bakr (r.a.) comprou-o e concedeu-lhe a liberdade.
Antes de Hazrat Umar (r.a.) aceitar o Islã, havia em sua família uma escrava chamada Lubayna. Umar (r.a.) cansava-se de espancá-la com extrema crueldade. Depois dizia: “Não a soltei por piedade, mas porque me cansei.”
Havia outra escrava na família de Hazrat Umar, chamada Zunaira. Por ter aceitado o Islã, Hazrat Umar (r.a.) também a espancava com extrema brutalidade. Certa vez, Abu Jahl destruiu sua visão enquanto a golpeava repetidamente. Contudo, segundo um relato, pela bênção da fé, Allah Todo-Poderoso logo lhe devolveu a visão. Hazrat Abu Bakr as-Siddiq comprou-a e concedeu-lhe a liberdade.
Duas escravas chamadas Nahdiya e Umm Umais também suportaram severas torturas por terem aceitado o Islã.
Hazrat Uthman era respeitado por sua idade e posição, além de possuir grande riqueza e elevada condição social. Apesar disso, quando aceitou o Islã, seu próprio tio amarrou-o com uma corda e espancou-o.
Assim que Hazrat Abu Dharr aceitou o Islã, foi à Caaba Sagrada e fez uma proclamação. Imediatamente, os terroristas coraixitas lançaram-se sobre ele e espancaram-no até derrubá-lo.
O tio de Hazrat az-Zubair ibn al-Awwam, como punição por ele ter aceitado o Islã, enrolava-o numa esteira e fazia fumaça entrar em seu nariz. Mas ele dizia com plena firmeza: “Em circunstância alguma retornarei à incredulidade.”
Quando seu primo Sa’id ibn Zayd aceitou o Islam, Hazrat Umar o amarrou com uma corda.
Sa’d ibn Abi Waqqas também sofreu uma perseguição insuportável.
Depois de aceitar o Islam, Abdullah ibn Mas’ud foi o primeiro a permanecer no pátio da Sagrada Caaba e recitar o Alcorão em voz alta. Assim que começou a recitar a Surata Ar-Rahman, os incrédulos lançaram-se sobre ele e começaram a desferir socos consecutivos em seu rosto. Mesmo assim, ele continuou a recitação e voltou para casa com o rosto ferido.
Inicialmente, Uthman ibn Maz’un estava seguro por estar sob a proteção de Walid ibn al-Mughira. Porém, ao ver a terrível opressão e perseguição infligidas aos companheiros do Mensageiro (que a paz esteja sobre ele), ele pensou: “Quando meus companheiros estão sofrendo tanta perseguição, por que eu deveria viver em segurança sob a proteção de um idólatra?” Ele disse a Walid ibn al-Mughira: “Estou devolvendo sua proteção.” Walid tentou convencê-lo, dizendo: “Meu sobrinho, temo que alguém possa tratá-lo mal.” Ele respondeu: “Não, permanecerei sob a proteção de Allah. Não desejo a proteção de ninguém além d’Ele.” Ele foi à Sagrada Caaba e anunciou que estava devolvendo a proteção de Walid ibn al-Mughira. Depois, sentou-se na assembleia dos coraixitas. Ali, o poeta Labid recitava um poema de sua autoria. Quando recitou: “Tudo, exceto Allah, é falso”, Uthman disse: “Você disse a verdade.” Porém, quando Labid recitou o verso seguinte: “Todas as bênçãos são perecíveis”, Uthman disse: “Você está errado quanto a isso. As bênçãos do Paraíso jamais perecerão.” Labid ficou furioso. Olhou ao redor, procurando quem tivera a audácia de apontar seu erro. Labid disse: “Ó assembleia dos coraixitas, quem foi tão insolente com o poeta que é seu aliado?” Alguém respondeu: “É um tolo que abandonou a religião. Não deem importância ao que ele diz.” Uthman não conseguiu permanecer calado e respondeu adequadamente ao homem. Então, este se levantou e deu um tapa tão forte em Uthman que lhe destruiu o olho. Ao ver isso, Walid ibn al-Mughira disse: “Se você estivesse sob minha proteção, não teria perdido o olho dessa maneira hoje.” Uthman respondeu: “Estou disposto a perder também o olho que ainda está intacto. Aquele sob cuja proteção estou é mais poderoso e forte do que você.”
Depois de aceitar o Islam, Hazrat Abu Dharr al-Ghifari, tomado por um espírito revolucionário, dirigiu-se diretamente ao Santuário Sagrado e ali declarou em voz alta sua nova crença e convicção. Os coraixitas, inflamados de ira, disseram: “Batam nesse apóstata!” Imediatamente começou a espancá-lo. A intenção deles era matá-lo. Porém, o tio do Mensageiro (que a paz esteja sobre ele), Abbas, passava por ali por acaso. Ele disse: “Ora, ele é da tribo de Ghifar. Vocês precisam passar pelo território deles em suas viagens comerciais. Tenham um pouco de cautela.” Então, os coraixitas se contiveram. No dia seguinte, ele voltou a declarar sua crença e convicção islâmicas e novamente foi espancado por uma multidão.
Quando Hazrat Umm Shuraik aceitou o Islam, seus parentes a fizeram ficar sob o sol escaldante. Naquele período, davam-lhe mel com pão para comer, mas não lhe davam água, para que sentisse mais calor e sofresse o dobro do castigo. Assim se passaram três dias consecutivos. Em meio ao sofrimento extremo, quando lhe disseram para abandonar o Islam, sua capacidade de raciocínio havia ficado entorpecida. Ela sequer conseguia entender o que lhe estavam pedindo. Por fim, os opressores apontaram para o céu e disseram: “Negue a unicidade de Allah.” Então, compreendendo o que exigiam, ela disse: “Permaneço firme em minha crença e convicção, e assim continuarei.”
Depois que Khalid ibn al-As aceitou o Islam, seu pai bateu nele e abriu-lhe a cabeça. Além disso, submeteu-o ao castigo da fome.
Em suma, não houve ninguém que não tivesse enfrentado uma prova de fogo severa. Assim como Hazrat Uthman, Hazrat Abu Bakr e Talha também foram amarrados com cordas. Walid ibn Walid, Ayyash ibn Abi Rabi’a e Salama ibn Hisham sofreram severas perseguições e também foram impedidos de emigrar. A perseguição que Hazrat Umar infligiu à própria irmã e ao cunhado também foi desumana. Seus detalhes serão apresentados mais adiante.
De um lado, observem essa terrível perseguição e, de outro, a firmeza dos porta-bandeiras do movimento islâmico. Todo aquele — homem ou mulher, escravo ou escrava — que uma vez aceitou esse chamado jamais recuou. A opressão e a perseguição não conseguiram obrigar sequer uma pessoa a abandonar o Islã. Vemos que, em sentido pleno, uma inspiração revolucionária havia penetrado até a medula de seus ossos. Sua paciência incomparável havia feito fracassar completamente o despotismo opressivo dos coraixitas. Quem quer que respondesse uma vez ao chamado do Islã via nascer dentro de si uma pessoa inteiramente nova, e uma nova força era infundida em seu coração.
A Hégira para a Abissínia
Todo perigo e toda calamidade têm um limite de resistência. Os porta-bandeiras do movimento islâmico estavam enfrentando uma dura prova de fogo, e o exemplo de paciência que deram permanecerá certamente lembrado para sempre. Mas não se via nenhum sinal de interrupção da opressão e da perseguição. Pelo contrário, elas se intensificavam cada vez mais. O Mensageiro (que a paz esteja com ele) sofria profundamente ao ver a situação difícil de seus companheiros. Porém, não tinha poder para fazer nada. Seu único apoio era a confiança em Allah, a fé inabalável na Vida Futura, a firme esperança na vitória final da verdade e súplicas cheias de emoção. O Mensageiro (que a paz esteja com ele) consolava seus companheiros dizendo-lhes que Allah certamente abriria algum caminho. Aparentemente, o ambiente de Meca estava se tornando desesperador, e não havia qualquer sinal de que alguma fruta nasceria da árvore sagrada do movimento islâmico naquela terra estéril. Diante da situação, parecia claro que não havia possibilidade de estabelecer em Meca as bases de um Estado islâmico; talvez essa bênção estivesse destinada a alguma outra terra. O capítulo da Hégira já havia sido incluído anteriormente na história do movimento islâmico. Por isso, era de supor que o Mensageiro (que a paz esteja com ele) e seus companheiros talvez também tivessem de deixar sua terra natal. Embora uma ideologia voltada ao bem-estar de toda a humanidade tenha início em um país e entre um povo específicos, ela se eleva acima das limitações estreitas do nacionalismo ou do regionalismo e não permanece confinada a nenhum país ou povo. Se os habitantes de determinada região se mostrarem indignos, ela escolhe outro povoado para esse objetivo. Contudo, não é prática dos profetas abandonar o centro principal do chamado até que recebam de Allah uma permissão ou ordem clara. Ainda assim, o Mensageiro (que a paz esteja com ele) via o conflito entre a opressão e a paciência avançar para um estágio em que a capacidade humana de suportar poderia se esgotar. Os muçulmanos aguardavam ansiosamente a chegada do auxílio de Allah. Em tal situação, ele aconselhou os companheiros: “Ide para algum país do mundo. Allah em breve vos reunirá em algum lugar.” Eles perguntaram: “Para que país iremos?” O Mensageiro (que a paz esteja com ele) indicou a Abissínia. Ele sabia que o rei daquele país era relativamente justo e seguidor dos ensinamentos de Jesus (que a paz esteja com ele). Sua opinião era que aquele país era adequado para a Hégira. Sobre a Abissínia, ele disse: “É uma terra de honestidade e justiça.” (Sīrat Ibn Hishām)
No quinto ano da missão profética, uma caravana do grupo revolucionário do Mensageiro (que a paz esteja com ele), composta por onze homens e quatro mulheres, partiu durante a escuridão da noite em direção à Abissínia, sob a liderança de Uthman ibn Affan. Ruqayya, sua nobre esposa, isto é, filha do Mensageiro (que a paz esteja com ele), também o acompanhou nessa primeira viagem da Hégira. Sobre esse nobre casal, o Mensageiro (que a paz esteja com ele) comentou: “Depois de Lot e Abraão (que a paz esteja com eles), este é o primeiro casal a abandonar sua terra natal pelo caminho de Allah.” (Al-Mawāhib al-Ladunniyya; Rahmatul lil-ʿĀlamīn)
Quando os coraixitas souberam da partida dessa caravana, enviaram imediatamente homens para persegui-la. Mas, ao chegarem ao porto de Jidá, descobriram que, por terem encontrado um barco prontamente, eles já estavam fora de alcance. Esses emigrantes permaneceram na Abissínia por pouquíssimo tempo (de Rajab a Shawwal). Ouviram um rumor de que os coraixitas haviam aceitado o Islã. Por isso, retornaram a Meca. Porém, assim que chegaram às proximidades de Meca, descobriram que aquele rumor era falso. Então surgiu um problema difícil. Alguns entraram na cidade escondidos, e outros com a ajuda de diferentes pessoas. Como consequência inevitável desse retorno, passaram a sofrer uma perseguição ainda mais intensa do que antes.
Depois, outra grande caravana fez a Hégira para a Abissínia. Essa caravana era composta por 85 homens e 17 mulheres. Na Abissínia, encontraram um ambiente seguro e passaram a viver tranquilamente uma vida islâmica.
Agora observem quão abrangente pode ser a hostilidade dos inimigos do Islã. Eles se reuniram numa assembleia e discutiram todo o assunto. Decidiram enviar Abdullah ibn Rabia e Amr ibn al-As como emissários ao rei da Abissínia. Os dois emissários conversariam com o rei e trariam de volta os emigrantes. Para esse fim, prepararam presentes valiosos para o Najashi e seus cortesãos, e os emissários partiram com grande pompa. Ao chegarem à Abissínia, conspiraram com os cortesãos e sacerdotes e lhes deram subornos. Explicaram-lhes que, em nosso país, alguns indivíduos insolentes haviam criado uma desordem religiosa. Eles eram tão perigosos para a nossa religião ancestral quanto para a vossa. Depois que os expulsamos do país, vieram refugiar-se aqui convosco. Não se deveria permitir que permanecessem aqui. Para esse fim, pediram-lhes que colaborassem. Eles tentaram impedir que todo o caso fosse discutido na corte, que os emigrantes sequer tivessem oportunidade de falar e que o rei os entregasse aos emissários coraixitas depois de ouvir somente o relato unilateral deles. Para esse objetivo, recorreram a subornos e a conluios secretos. Depois de subornarem secretamente os cortesãos, compareceram diante do Najashi levando os presentes. Explicaram assim o motivo de sua chegada: “Os líderes de Meca nos enviaram à vossa corte para pedir que envieis de volta conosco os nossos homens.” Os cortesãos e sacerdotes apoiaram imediatamente o pedido deles. Mas o Najashi recusou-se a agir com base numa exigência unilateral. Declarou claramente: “Não posso entregá-los a vós sem ouvir o relato dos emigrantes.”
No dia seguinte, ambos os lados foram convocados à corte. Quando o chamado do Najashi chegou aos muçulmanos, eles se reuniram para deliberar. Discutiram: “O rei é cristão, enquanto nós divergimos dele em nossas crenças e práticas. O que lhe diremos nessa situação?” Depois da discussão, decidiram que diriam exatamente tudo o que o Mensageiro (que a paz esteja com ele) lhes havia ensinado, sem se desviarem disso nem sequer pela medida de um fio de cabelo. Que acontecesse o que tivesse de acontecer. Reflitam sobre quão forte era a fé deles. Permanecer firmes na verdade e na honestidade mesmo em circunstâncias difíceis é o mandamento de Allah. Quando os emigrantes chegaram à corte, não se prostraram diante do Najashi, conforme o costume vigente. Os cortesãos protestaram e perguntaram: “Por que não vos prostrastes?” Jafar, porta-voz dos emigrantes, respondeu: “Não nos prostramos diante de ninguém além de Allah. Até mesmo ao próprio Mensageiro (que a paz esteja com ele) oferecemos simplesmente a saudação.” Observem em que situação delicada estava sendo feita essa ousada expressão do verdadeiro monoteísmo. Diante da mesma autoridade perante a qual seus adversários ocultavam sua verdadeira identidade e recorriam à astúcia, eles demonstraram destemidamente uma fidelidade idealista e inabalável aos princípios.
Então, os dois enviados de Meca apresentaram sua reivindicação, dizendo que esses emigrantes eram fugitivos procurados em seu país. Eles haviam inventado uma nova religião e, com base nela, provocado um tumulto desastroso. Portanto, que fossem entregues às nossas mãos. O Najashi perguntou aos muçulmanos: “Qual é o problema de vocês? Vocês adotaram alguma terceira religião além do cristianismo e do paganismo?”
Como porta-voz dos muçulmanos, Hazrat Ja’far levantou-se e solicitou ao Najashi que lhe permitisse fazer primeiro algumas perguntas aos dois enviados de Meca. Pediu que lhe fosse concedida autorização para fazê-las. Depois de obter a permissão do Najashi, iniciou o seguinte interrogatório:
Hazrat Ja’far: Éramos escravos de alguém em Meca e fugimos de nossos senhores? Se fosse esse o caso, certamente deveríamos ser devolvidos.
Amr ibn al-As: Não, vocês não são escravos; são livres e nobres.
Hazrat Ja’far: Matamos alguém injustamente antes de vir para cá? Se assim fosse, certamente deveríamos ser devolvidos aos herdeiros ou tutores da pessoa morta.
Amr ibn al-As: Não, vocês não derramaram sequer uma gota de sangue.
Hazrat Ja’far: Roubamos os bens de alguém antes de vir para cá? Se fosse esse o caso, estamos prontos para pagar o que lhe devemos.
Amr ibn al-As: Não, vocês não devem sequer um centavo a ninguém.
Quando, por meio desse interrogatório, o estado moral e a condição dos muçulmanos ficaram claramente evidentes, Hazrat Ja’far proferiu o seguinte discurso:
“Ó rei, éramos um povo ignorante e tolo. Adorávamos ídolos, comíamos a carne de animais mortos, cometíamos adultério, causávamos sofrimento aos vizinhos, cometíamos injustiças e atrocidades uns contra os outros, e os poderosos entre nós exploravam e oprimiam os fracos. Foi então que nasceu entre nós um homem cuja honestidade, justiça, veracidade e gentileza já conhecíamos com certeza. Ele nos convidou ao Islã e nos ensinou a abandonar a adoração das pedras, dizer a verdade, pôr fim ao derramamento de sangue, não usurpar os bens dos órfãos, servir e beneficiar os vizinhos, não caluniar as mulheres castas, realizar a oração, jejuar e dar caridade. Cremos nele, abandonamos o politeísmo e renunciamos a todas as más ações. Por causa desse ‘crime’, toda a nossa nação tornou-se nossa inimiga. Eles nos obrigam, pela força, a retornar àquela antiga perdição. Nessa situação, fugimos para o seu reino a fim de preservar a nossa fé e as nossas vidas. Se o nosso povo tivesse permitido que permanecêssemos na nossa pátria, não teríamos vindo. Essa é a nossa verdadeira situação.”
Quando as palavras são verdadeiras e o orador as profere com sinceridade e devoção, elas não podem deixar de causar impacto no coração do ouvinte. O coração do rei temente a Deus, como Najashi, enterneceu-se. Ele disse: “Recitai para mim uma parte do Livro que foi revelado a vocês, para que eu possa ouvi-la”. Hazrat Ja’far recitou alguns versículos do início da surata Maryam. Ao ouvir esses versículos de Allah, o coração do rei tornou-se ainda mais brando e seus olhos se encheram de lágrimas. Espontaneamente, ele exclamou: “Juro por Allah, esta mensagem e o Evangelho provêm da mesma fonte”. Ele também disse: “Muhammad (que a paz esteja sobre ele) é, de fato, o Mensageiro cuja vinda foi anunciada por Hazrat Jesus (que a paz esteja sobre ele). Graças a Allah, alcancei a época desse Mensageiro (que a paz esteja sobre ele)”. Imediatamente, decretou também que não era possível devolver os emigrantes. Com isso, a audiência na corte terminou, e os dois enviados retornaram derrotados. Mais tarde, ambos decidiram tentar novamente. Najashi era cristão. Não seria estranho que, ao apresentarem na corte as crenças dos muçulmanos sobre Hazrat Jesus (que a paz esteja sobre ele), o fogo da hostilidade religiosa se acendesse no coração do rei.
No dia seguinte, Amr ibn al-As compareceu novamente à corte. Para incitar Najashi, lançou a calúnia de que esses emigrantes tinham uma opinião extremamente negativa sobre Hazrat Jesus (que a paz esteja sobre ele). Najashi convocou novamente os muçulmanos. Quando souberam da situação, ficaram indecisos, pensando: quem sabe qual seria a reação de Najashi se negássemos que Hazrat Jesus (que a paz esteja sobre ele) é o “filho de Allah”?
Mas a firmeza dos crentes novamente lhes ordenou que dissessem, em termos inequívocos, aquilo que era verdade. Hazrat Ja’far disse em seu discurso:
“Nosso Profeta disse: ‘Hazrat Jesus (que a paz esteja sobre ele) é servo de Allah, um sinal de Allah e o Mensageiro de Allah’.”
Ao ouvir isso, Najashi pegou na mão um pedaço de capim do chão e disse: ‘Hazrat Jesus (que a paz esteja sobre ele) não é sequer mais do que este pedaço de capim em relação ao que você disse’. Os sacerdotes, vítimas da conspiração e subjugados por subornos e presentes, agitaram-se muito interiormente. Em certo momento, sons estranhos saíram de seus narizes. Mas Najashi não lhes deu a menor importância. Ordenou claramente que todos os presentes fossem devolvidos. Os dois representantes de Meca retornaram completamente derrotados.
A conversão de Hazrat Umar ao Islã
Uma das histórias mais comoventes e importantes deste capítulo de violência é a história da fúria de Hazrat Umar. Quando o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) recebeu a missão profética, Hazrat Umar tinha vinte e sete anos. O Islã espalhou-se muito rapidamente por sua família. Seu cunhado Sa’id foi o primeiro a aceitar o Islã. Influenciada por ele, sua irmã Fátima também se tornou muçulmana. Outro homem influente da família de Umar, Na’im bin Abdullah, também buscou refúgio à sombra do Islã. A princípio, ele nem sequer sabia que o Islã estava se espalhando daquela maneira em sua família. Assim que descobriu, ficou tomado pela ira e enfureceu-se contra os que haviam aceitado o Islã. Ele espancava Lubaina, uma escrava de sua família, por ter aceitado o Islã, até ficar exausto. Depois de descansar, retomava os espancamentos com renovado empenho.
Por fim, certo dia, tomou a decisão mais terrível de todas: era preciso eliminar o principal pregador desse movimento. Segundo várias fontes, naquela época Abu Jahl havia anunciado uma recompensa de duzentos camelos para quem conseguisse matar o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), e obter essa recompensa era um dos objetivos dessa decisão. Contudo, não combinava com o temperamento de Hazrat Umar ser movido por uma ganância desse tipo. Parece que ele queria realizar esse ato acreditando sinceramente que estava servindo à religião de seus antepassados. De qualquer modo, partiu levando a espada. No caminho, encontrou Na’im bin Abdullah, que o impediu de prosseguir. Na’im disse: «Primeiro vá procurar sua irmã e seu cunhado; depois vá aonde quiser». Umar voltou imediatamente e dirigiu-se à casa de sua irmã. Quando chegou, sua irmã Fátima estava recitando o Alcorão. Assim que ouviu o som dos passos, ela se calou e escondeu as páginas do Alcorão. Ao entrar na casa, Hazrat Umar perguntou: «O que você estava recitando?». Sua irmã permaneceu em silêncio. Umar disse: «Eu já descobri: vocês dois apostataram. Mas agora vou mostrar-lhes o que é diversão». Com essas palavras, lançou-se sobre o cunhado. Quando sua irmã avançou para proteger o marido, ele também a espancou. O corpo dela ficou coberto de sangue. Mas, olhando para o irmão com os olhos cheios de lágrimas, Fátima disse com voz firme:
«Umar! Faça o que quiser. Mas nós não podemos abandonar o Islã.»
Diante dele estava uma mulher com o corpo ferido, as roupas ensanguentadas, os olhos cheios de lágrimas e o coração tomado pela emoção. E não era apenas uma mulher: era sua própria irmã. E que palavras inflamadas saíam de sua boca! Pensem em como o Islã havia despertado uma nova inspiração até mesmo numa mulher considerada indefesa. Diante de uma cena tão comovente, até a força indomável de Umar se rendeu. A couraça de seu propósito duro como aço desfez-se no meio do caminho. Ele disse: «Está bem, deixem-me ouvir um pouco do que vocês estavam recitando». Fátima foi buscar as páginas do Alcorão que havia escondido. Enquanto recitava, quando chegou a esta passagem, “************”, ele exclamou espontaneamente: «Ashhadu alla ilaha illallah wa ashhadu anna Muhammadan abduhu wa rasuluhu». Depois de abraçar a fé, dirigiu-se à casa de Hazrat Arqam, o centro do movimento islâmico. Ali, prestou o juramento de fidelidade nas mãos do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Com uma alegria transbordante, os muçulmanos presentes deram o takbir — «Allahu Akbar» — com tanta força que todo o ambiente de Meca ressoou. Os porta-estandartes do movimento islâmico saíram dali e espalharam-se por toda a cidade de Meca. Sentiram que sua força havia aumentado. Imediatamente após a conversão de Hazrat Umar, começaram pela primeira vez a realizar publicamente a oração congregacional na Caaba.
Hazrat Umar gozava de grande prestígio entre os jovens de Meca por sua inteligência e sua energia apaixonada. Sua conduta era repleta de sinceridade e dedicação. A inimizade que nutria contra o Islã na época da ignorância não era motivada por nenhum interesse pessoal; ele a mantinha sinceramente porque a considerava justa. Depois, quando a verdade se revelou para ele e o véu que cobria sua consciência foi removido, ergueu bem alto a bandeira do Islã com plena dedicação e sinceridade. Embora sua oposição tivesse sido extremamente feroz e exaltada, sua inteligência aguçada e sua consciência pura sempre absorveram, pouco a pouco, a luz da verdade. Cada acontecimento ocorrido no ambiente de Meca continuava a influenciar e agitar sua alma, preparando-o para aceitar o Islã. Por um lado, ele ouvia continuamente notícias sobre o convite ao Islã. Por outro, a mentalidade vil e torpe de seus opositores tornava-se cada vez mais clara diante dele. Assim, observava, de um lado, o caráter puro e honesto do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e de seus companheiros e, de outro, os aspectos corrompidos e sombrios do caráter dos opositores do Islã. Essa observação comparativa constante continuava a influenciar e a comover cada vez mais esse jovem de Meca, dotado de uma consciência alerta e desperta. Além dessas duas cenas gerais e opostas da situação, alguns acontecimentos específicos também provocaram nele uma reação intensa.
Por exemplo, Umm Abdullah bint Abi Hashma estava se preparando para emigrar para a Abissínia. Certo dia, Hazrat Umar foi até elas e disse: «Umm Abdullah, parece que você está se preparando para deixar Meca e ir para algum lugar». Umm Abdullah respondeu: «Sim, é isso mesmo que estamos fazendo. Vocês nos causaram muito sofrimento e nos perseguiram bastante. Agora Allah abriu para nós um caminho para sobrevivermos». Umar disse: «Que Allah os acompanhe». Umm Abdullah contou: «Nunca vi Umar tão abatido quanto naquele momento. Ele sentiu uma profunda dor ao ver nossa preparação para partir para o exílio». Quando Umm Abdullah contou ao marido, Amir bin Rabiah, sobre aquela dor de Umar, Amir perguntou: «Ao vê-lo mudar dessa maneira, você ainda espera que ele aceite o Islã?». Umm Abdullah respondeu: «Sim». Amir disse: «Quando aquele que você viu aceitar o Islã, até o jumento de Khattab aceitará o Islã» (Khattab era o nome do pai de Hazrat Umar). Umm Abdullah disse que esse desespero havia surgido por causa da crueldade e da brutalidade de Umar em relação ao Islã. (Sira de Ibn Hisham, primeiro volume)
Mas quem pode dizer que esse acontecimento não desferiu um golpe poderoso na consciência de Hazrat Umar? De modo semelhante, outra narrativa informa que seu coração foi influenciado ao ouvir o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) recitar o Alcorão. Sobre isso, suas próprias palavras são as seguintes:
“Eu estava muito distante do Islã. Na época da ignorância, era viciado em vinho e bebia em grande quantidade. Em Hazwara [naquela época, era um mercado de Meca; atualmente, este terreno faz parte da Mesquita Sagrada], costumávamos realizar nossas reuniões para beber, e ali se reuniam amigos coraixitas. Certa noite, atraído pelos meus companheiros, fui àquela reunião. Procurei muito por eles no local, mas não encontrei ninguém. Depois, lembrei-me de um vendedor de vinho e pensei em ir até lá para beber. Mas também não o encontrei. Então pensei em ir à Caaba Sagrada e fazer ali sessenta ou setenta circunvoluções. Quando cheguei, vi o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, rezando. Ele estava de pé entre o Rukn al-Aswad e o Rukn al-Yamani, voltado para Bayt al-Maqdis. De repente, surgiu em minha mente o desejo de ouvir um pouco do que aquele homem estava recitando. Entrei sob o revestimento da Caaba e fui me aproximando devagar, até chegar bem perto, e comecei a escutar. Entre mim e o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, não havia nada além do revestimento da Caaba. Quando ouvi o Alcorão, meu coração se derreteu. Meus olhos se encheram de lágrimas. Naquele exato momento, o Islã entrou em meu coração. [Sira de Ibn Hisham, volume 1, pp. 368–369]”
No trecho restante dessa narrativa, afirma-se que Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, foi imediatamente com o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e abraçou o Islã. Contudo, na realidade, a narrativa mencionada anteriormente é a correta quanto à sua conversão ao Islã. Foi ao ver a fé, a paciência e a firmeza de sua irmã que sua mente e seu coração foram definitivamente conduzidos à aceitação do Islã. É muito significativo este trecho do próprio relato de Umar, que Allah esteja satisfeito com ele: ele foi ouvir o Alcorão do Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. E os versículos do Alcorão que ouviu com os próprios ouvidos plantaram a semente da fé em seu coração. No contexto de um conflito e de uma confrontação que se prolongavam continuamente havia anos, era perfeitamente natural que algo assim acontecesse. Como poderia uma personalidade como Umar tomar uma decisão sem ouvir com os próprios ouvidos o chamado do Islã?
Muitos outros que se opunham ao Alcorão, inclusive grandes líderes, também iam secretamente, movidos pela curiosidade, para ouvir essa doce melodia que descia do céu. Entretanto, nas assembleias públicas, eram eles mesmos que diziam: “Nossos ouvidos estão surdos”. Certa vez, em uma noite muito avançada, enquanto o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, recitava o Alcorão em sua própria casa, Abu Sufyan, Abu Jahl e Al-Akhnas ibn Shurayq reuniram-se secretamente nos arredores da casa do Mensageiro e ficaram escutando. Mais tarde, ao voltarem para casa, por acaso se depararam uns com os outros. Então começaram a censurar-se mutuamente, dizendo que não se devia fazer aquilo. Caso contrário, se pessoas comuns de pouca inteligência os vissem, isso causaria nelas uma impressão negativa. Depois de dizerem isso, foram embora. No dia seguinte, voltaram novamente, e mais uma vez trocaram as mesmas censuras e advertências. Na terceira noite, o episódio voltou a acontecer e, por fim, fizeram um juramento muito firme de que jamais tornariam a fazer algo semelhante. Contudo, entre si, perguntaram-se o que cada um pensava sobre as palavras que haviam ouvido de Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Cada um disse alguma coisa. Por fim, Abu Jahl declarou, com voz exaltada: “Nossa rivalidade com os Banu Abd Manaf sempre existiu. Quando eles ofereciam hospitalidade, nós também oferecíamos; quando pagavam indenizações de sangue, nós também pagávamos; quando praticavam generosidade, nós também praticávamos. Assim, havíamos nos igualado a eles. Não ficamos atrás deles em nenhum aspecto. De repente, agora começaram a dizer que surgiu um profeta em sua tribo. Como podemos aceitar isso? Nesse caso, não podemos reivindicar igualdade com eles. Portanto, por Allah, não podemos crer nele nem apoiá-lo. [Sira de Ibn Hisham, volume 1, pp. 337–338]”
Naquela época, havia despertado no público em geral uma intensa curiosidade e desejo de investigar a respeito do Islã, o que às vezes também atraía Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, até o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, para ouvir com os próprios ouvidos a palavra de Allah. Mencionei este episódio justamente para tornar isso compreensível.
Mais um passo adiante
Em suma, a conversão de Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, ao Islã foi um acontecimento grandioso. Muitos fatores atuaram por trás desse acontecimento. Outra razão para sua importância ter aumentado foi que esse homem buscador da verdade avançou justamente quando a violência unilateral contra o Islã havia atingido seu auge. As forças opositoras perseguiam as pessoas precisamente para impedi-las de aceitar o Islã. Mas, em completa oposição ao objetivo delas, essa perseguição derretia o coração do povo e o tornava solidário com os perseguidos. Uma das provas irrefutáveis de que o Islã é a verdade é justamente esta: quanto mais aumentava a resistência violenta e agressiva, mais pessoas dotadas das melhores mentes e do mais elevado caráter ingressavam no Islã. No período posterior à Hégira para a Abissínia, as joias preciosas de Meca começaram a reunir-se no Islã.
Como seria possível que uma personalidade como Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, aceitasse o Islã sem provocar uma nova comoção? Ele decidiu que desafiaria, de uma vez por todas, toda a sociedade. Abdullah ibn Umar ainda era apenas um menino. Ele relata: “Depois que meu pai, Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, abraçou a fé, procurou saber quem, entre os coraixitas, era especialista em espalhar notícias. Encontrou um homem chamado Jamil ibn Muammar al-Jumahi. Foi até ele bem cedo. Eu também o acompanhei, para ver o que ele faria. Ao chegar, disse-lhe: ‘Ó Jamil, sabes que aceitei o Islã e me juntei ao grupo de Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz?’ Jamil, sem dizer uma palavra, colocou seu manto sobre os ombros e dirigiu-se diretamente à porta da Mesquita Sagrada. Então começou a proclamar com uma voz que rasgava os céus: ‘Ó povo dos coraixitas, escutai! Umar, filho de Al-Khattab, que Allah esteja satisfeito com ele, tornou-se um sábi — um apóstata!’ Umar também chegou logo atrás dele e gritou: ‘Jamil está mentindo. Eu não sou um sábi; tornei-me muçulmano. Declaro que não há divindade além de Allah e que Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, é Seu servo e Mensageiro.’ Os coraixitas lançaram-se sobre ele. Ele chegou a lutar intensamente até mesmo com o próprio pai. Enquanto se engalfinhavam, o sol chegou ao alto do céu. Nesse momento, um ancião líder coraixita apareceu e perguntou o que estava acontecendo. Depois de ouvir toda a história, disse: ‘Esse homem escolheu para si uma opinião e um caminho. O que vocês pretendem fazer agora? Pensem: os Banu Adi — o clã de Umar — deixariam seu homem indefeso em suas mãos dessa maneira? Deixem-no.’ O nome desse líder era Al-As ibn Wa’il al-Sahmi. Ele colocou Umar sob sua proteção. (Sira de Ibn Hisham, volume 1, pp. 370–371)”
Com isso, Umar encontrou mais uma maneira de expressar seu entusiasmo e fervor pela fé. Na primeira noite após abraçar a fé, pensou: quem é o mais obstinado e feroz opositor do Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz? Concluiu que não havia opositor mais obstinado e feroz do que Abu Jahl. Ao levantar-se de madrugada, foi até a casa de Abu Jahl. Assim que bateu à porta, Abu Jahl saiu. Depois de recebê-lo, perguntou o motivo de sua visita. Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: ‘Vim informar-lhe que creio em Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e reconheço como verdadeiras as coisas que ele diz.’ Abu Jahl limitou-se a dizer: ‘Que Allah amaldiçoe a ti e a esta tua notícia’, e fechou a porta com força.
Por outro lado, Umar (r.a.) fez o movimento islâmico avançar um passo. Mesmo depois de ser espancado, ele deu início à oração pública no recinto da Caaba. Hazrat Abdullah ibn Masud disse: “Antes de Umar aceitar o Islã, não podíamos rezar publicamente diante da Caaba. Quando Umar aceitou o Islã, lutou contra os coraixitas e rezou na Caaba; nós também rezamos junto com ele.”
Assim, mesmo em meio à intensa violência, os melhores homens dentre os inimigos continuavam a ingressar no Islã.
A aceitação do Islã por Hazrat Hamza
O episódio de Hazrat Hamza foi quase do mesmo tipo. Esse jovem de Meca era, ao mesmo tempo, inteligente, corajoso e influente. Entre os tios do Profeta (s.a.w.), depois de Abu Talib, ele era o único que, apesar de discordar dele, amava o Profeta (s.a.w.). Era apenas dois ou três anos mais velho que ele. Como tinham praticamente a mesma idade, na infância tio e sobrinho eram muito afetuosos e próximos.
Certa vez, perto do monte Safa, Abu Jahl insultou o Profeta (s.a.w.) e dirigiu-lhe palavras extremamente ofensivas. O Profeta (s.a.w.) foi paciente e não se vingou daquele insulto. Por acaso, uma escrava presenciou o ocorrido. Hazrat Hamza estava caçando. Assim que voltou, com o arco nas mãos, a escrava contou-lhe o que havia acontecido e disse: “Ah! Se você tivesse visto com os próprios olhos em que situação seu sobrinho ficou.” Ao ouvir o relato, despertou em Hamza um intenso senso de honra. Ele foi diretamente à assembleia dos coraixitas e parou diante de Abu Jahl. Golpeou a cabeça de Abu Jahl com o arco e perguntou: “Você insultou Muhammad? Se insultou, saiba que eu também passei a seguir a religião dele e digo tudo o que ele diz. Se tiver coragem, venha enfrentar-me.” Um homem dos Banu Makhzum levantou-se em defesa de Abu Jahl. Porém, Abu Jahl o impediu e disse: “Deixe estar; eu realmente insultei o sobrinho de Hamza com palavras muito obscenas.” Depois disso, Hazrat Hamza permaneceu firme no Islã. Os coraixitas compreenderam que a força do Mensageiro havia aumentado ainda mais. (Sira de Ibn Hisham, primeiro volume)
O boicote e o confinamento
Os inimigos do Islã ficaram desnorteados ao verem o fracasso de todas as suas intrigas, o avanço do Islã e a conversão de grandes homens influentes. No mês de Muharram do sétimo ano da missão profética, todas as tribos de Meca se uniram e firmaram um acordo para boicotar os Banu Hashim. Ficou estabelecido no acordo que, enquanto os Banu Hashim não entregassem Muhammad (s.a.w.) às nossas mãos e não nos concedessem o direito de matá-lo, ninguém manteria relações de parentesco com eles, não estabeleceria vínculos matrimoniais, não faria negócios nem convivência social com eles e não permitiria que qualquer alimento ou bebida chegasse até eles. Mesmo depois de conversarem várias vezes com Abu Talib, ele não se mostrou disposto a retirar o Profeta (s.a.w.) de sua proteção. E, por causa disso, os Banu Hashim também não puderam romper relações com ele. Desesperados por esse motivo, eles firmaram aquele acordo. No sistema tribal, essa decisão era uma medida extremamente grave e definitiva. Toda a tribo dos Banu Hashim acabou confinada, em situação de desamparo, num vale chamado “Shi’b Abu Talib”. Esse confinamento durou cerca de três anos. Ao ler o relato das dificuldades pelas quais passaram nesse período, até uma pedra se derreteria. Os membros dos Banu Hashim chegaram a mastigar folhas de árvores e a comer couro seco depois de cozinhá-lo ou assá-lo no fogo. A situação chegou a tal ponto que, quando uma criança inocente dos Banu Hashim chorava de fome, seus gritos lancinantes podiam ser ouvidos a grande distância. Os coraixitas ficavam extasiados de alegria ao ouvir aqueles choros. Toda a tribo dos Banu Hashim foi lançada em semelhante cativeiro apenas por causa do líder do movimento islâmico. O boicote era tão rigoroso que, certa vez, Hakim ibn Hizam, sobrinho de Hazrat Khadija, enviava alguns grãos por meio de seu servo. No caminho, Abu Jahl viu aquilo e tentou tomar os grãos. Nesse exato momento, Abu al-Bakhtari também chegou, e surgiu nele um pouco de compaixão humana. Ele disse a Abu Jahl: “Ora, deixe-o em paz.” Além disso, Hisham ibn Amr também enviava secretamente alguns grãos.
Esse mesmo Hisham ibn Amr tornou-se o primeiro a tomar a iniciativa de anular aquele acordo opressivo. Ele foi até Zuhayr ibn Umayya e disse-lhe: “Você se alegra com o fato de comer, beber, vestir-se e casar-se, enquanto seus tios maternos se encontram numa situação em que não podem sequer comprar ou vender, nem se casar? Se a situação fosse a dos tios maternos de Abu al-Hakam ibn Hisham (Abu Jahl), e você lhe propusesse firmar um acordo desse tipo, ele jamais aceitaria tal proposta.” Ao ouvir isso, Zuhayr disse: “O que posso fazer? Sou apenas um homem sozinho. Por Allah, se houvesse mais alguém comigo, eu tomaria a iniciativa de anular esse acordo e não descansaria até anulá-lo.” Hisham disse: “Você já encontrou a segunda pessoa.” Zuhayr perguntou: “Quem é?” Hisham respondeu: “Eu mesmo.” Depois disso, Hisham foi até Mut’im ibn Adi e explicou-lhe a situação da mesma maneira. Ele também respondeu, como Zuhayr: “O que posso fazer sozinho?” Hisham disse-lhe também: “Estou com você.” Mut’im disse: “Então encontre uma terceira pessoa.” Hisham respondeu: “A terceira pessoa eu já encontrei.” Ele perguntou: “Quem é?” Hisham disse: “Zuhayr ibn Abi Umayya.” Mut’im disse: “Agora é preciso encontrar uma quarta pessoa.” Então Hisham foi até Abu al-Bakhtari e Zamra ibn al-Aswad e conversou com eles.
Quando o movimento pela revogação do pacto de boicote avançou efetivamente de forma discreta, todos se reuniram e estabeleceram os próximos passos. Planejou-se que Hisham levantaria a questão publicamente. Conforme combinado, Hisham deu sete voltas em torno da Caaba Sagrada. Depois, dirigiu-se ao povo e disse: “Ó habitantes de Meca, é justo que nós comamos e nos vistamos, enquanto os Banu Hashim ficam se contorcendo de fome e não conseguem comprar coisa alguma?” Então, expressou sua determinação da seguinte maneira:
“Juro por Allah que não descansarei enquanto não despedaçar este pacto opressor que rompe os laços de parentesco.”
Abu Jahl gritou: “Você é um mentiroso. Jamais conseguirá rasgá-lo.”
Zam‘a ibn al-Aswad respondeu a Abu Jahl: “Juro por Allah que você é o maior dos mentirosos. Não aprovamos este pacto tal como foi redigido.” Abul Bukhtari também exclamou: “Zam‘a tem razão. Não aprovamos este pacto e tampouco o reconhecemos.” Mut‘im também o apoiou, dizendo: “Vocês dois estão certos. Quem disser o contrário estará errado.” Como a maioria das pessoas continuava a falar dessa maneira, Abu Jahl ficou sentado, constrangido, e o pacto foi rasgado. Quando as pessoas o retiraram da parede da Caaba, viram, admiradas, que os cupins haviam devorado todo o pacto. Restava apenas a expressão “Bismika Allahumma”. (Sira de Ibn Hisham)
O Ano da Tristeza
Com o fim do confinamento, o Mensageiro (S.A.) voltou a viver, junto com sua família, em liberdade. Mas então começou uma época ainda mais difícil. Corria o décimo ano da missão profética. O primeiro acontecimento trágico daquele ano foi a morte de Abu Talib, pai de Ali. Assim se perdeu o último abrigo que, até então, havia protegido o Mensageiro (S.A.) das garras dos inimigos com extremo carinho e que, sem se submeter a qualquer pressão ou provocação, havia frustrado todas as conspirações até o último momento.
Nesse mesmo ano, o segundo golpe sofrido pelo Mensageiro (S.A.) foi o falecimento de Khadija (R.A.). Khadija (R.A.) não era apenas a esposa do Mensageiro; ela também fazia parte do grupo afortunado dos primeiros a abraçar a fé. Mesmo antes do início da missão profética, ela não havia poupado esforços para demonstrar-lhe simpatia e solidariedade. Desde a descida da primeira revelação até os instantes que antecederam sua morte, desempenhou, no caminho da verdade, o papel de verdadeira companheira de vida do Mensageiro (S.A.). Gastou também grande parte de sua riqueza em apoio ao movimento islâmico. Ofereceu conselhos a cada passo e cooperou com sinceridade. Por isso, alguns comentaram que ela era a ministra do Mensageiro (S.A.). Na realidade, esse comentário é justo e apropriado.
Por um lado, o Mensageiro (S.A.) teve de suportar esses dois golpes consecutivos. Por outro, com a perda desses dois apoios externos, a oposição assumiu uma forma ainda mais intensa. A partir de então, a oposição, a perseguição e a opressão pareciam superar todos os recordes anteriores. Mas talvez a vontade de Allah fosse que o Islã passasse a proteger-se por si mesmo, abrisse seu próprio caminho e aprendesse a manter-se de pé. Se os apoios mundanos não tivessem sido afastados dessa maneira, talvez a força vital da verdade não pudesse tornar-se plenamente visível. Foi devido ao surgimento dessa situação dolorosa e insuportável que aquele ano ficou conhecido como o Ano da Tristeza.
Então os coraixitas começaram a agir de maneira extremamente selvagem. Passaram a incitar contra ele garotos arruaceiros. Eles faziam algazarra. Quando o Mensageiro (s.a.) rezava, batiam palmas. Enquanto ele caminhava pela estrada, lançavam resíduos imundos contra ele. Espalhavam espinhos diante de sua porta. Às vezes, tentavam colocar uma corda em seu pescoço. Outras vezes, chegavam a agredi-lo e o insultavam abertamente. Jogavam terra em seu rosto. Alguns desses desumanos chegaram a cometer uma insolência tão abominável que cuspiram em seu rosto luminoso. Certa vez, Umm Jamil, esposa de Abu Lahab, veio até a Mesquita Sagrada carregando uma pedra e procurando o Mensageiro (s.a.). Pretendia matá-lo com um único golpe. O Mensageiro (s.a.) estava diante dela na Mesquita Sagrada. Mas Allah o ocultou de seus olhos de tal maneira que ela não conseguiu vê-lo. Sem alternativa, voltou furiosa e descarregou sua ira diante de Abu Bakr, recitando os seguintes versos: “Rejeitamos a obediência ao homem censurado, desobedecemos às suas ordens e nutrimos hostilidade contra sua religião.” Na verdade, deturpar nomes e usar palavras ofensivas são sinais de baixeza moral e decadência. Quando o inimigo desce ao nível mais baixo da vileza, recorre a essas armas imundas.
Ao ouvir essas coisas, o Mensageiro (s.a.) costumava dizer: “Allah me protegeu dos insultos deles. Eles insultam Muḍammam (o censurado), mas eu sou Muhammad. Portanto, os insultos deles não me atingem.”
De modo semelhante, certa vez Abu Jahl aproximou-se dele com a intenção de matá-lo, golpeando-o com uma pedra. Mas Allah repentinamente deixou Abu Jahl tão aterrorizado e assustado que ele não conseguiu fazer nada.
Certa vez, os inimigos lançaram-se em grupo contra o Mensageiro (s.a.) e o submeteram a torturas desumanas. O contexto desse acontecimento doloroso foi o seguinte: os inimigos do Islã estavam sentados em uma de suas rodas de conversa, dizendo: “Temos demonstrado tolerância demais com este homem (Muhammad, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Não há precedente de tamanha tolerância.” Por coincidência, justamente naquele momento o Mensageiro (s.a.) chegou ali. Os inimigos perguntaram: “É você quem diz todas essas coisas?” Com plena firmeza moral, o Mensageiro (s.a.) respondeu: “Sim, sou eu quem diz todas essas coisas.” Então, não houve mais escapatória: atacaram-no de todos os lados. Abdullah ibn Amr ibn al-As narra: “Nunca vi, da parte dos coraixitas, um excesso de violência como aquele contra o Mensageiro (s.a.).”
Quando os atacantes pararam, depois de algum tempo, o Mensageiro (s.a.) voltou a adverti-los com aquela coragem sobre-humana: “Trouxe-vos uma mensagem segundo a qual sereis abatidos.” Em outras palavras, a mesma lâmina de opressão e tortura que estais passando em minha garganta será, no fim, pela lei de Allah e pelo princípio eterno da história, a lâmina com que sereis abatidos. O vosso reinado de opressão será completamente destruído.
É difícil determinar com precisão quando ocorreram todos esses acontecimentos. Contudo, presume-se que tenham ocorrido justamente quando a violência atingiu seu extremo. É certo que esses acontecimentos ocorreram logo após a morte de Abu Talib.
Hazrat Uthman ibn Affan narra que, certa vez, o Mensageiro (s.a.) estava realizando a circunvolução da sagrada Caaba. Os líderes coraixitas Uqba ibn Abu Muayt, Abu Jahl e Umayya ibn Khalaf estavam sentados no Hatim da Caaba. Sempre que o Mensageiro (s.a.) passava diante deles, lançavam contra ele insultos obscenos. Isso aconteceu três vezes. Na última, o Mensageiro (s.a.), com o semblante transformado, disse: “Juro por Allah: se o castigo de Allah não descer imediatamente sobre vós, de modo algum cessareis.” Hazrat Uthman diz que, assim que ele pronunciou essas palavras, tomou conta deles um terror tão grande que todos começaram a tremer de medo. Depois de dizer isso, o Mensageiro (s.a.) dirigiu-se para casa. Hazrat Uthman e os demais também partiram com ele. Nesse momento, o Mensageiro (s.a.) dirigiu-se aos seus companheiros, dizendo:
“Recebei as boas-novas: Allah certamente dará vitória à Sua religião, completará Sua palavra e ajudará Sua religião. E em breve Allah fará com que essas pessoas sejam abatidas pelas vossas mãos.”
Observem: essa boa-nova foi anunciada em uma situação aparentemente anárquica. No entanto, com que rapidez e esplendor ela se comprovou verdadeira! O movimento islâmico parecia tornar possível o impossível.
O convite ao Islã em Taife
É difícil afirmar com certeza em que momento exatamente esse acontecimento ocorreu. Alguns o mencionaram como o contexto da revelação da surata Al-Muddaththir. Se aceitarmos essa opinião, teremos de situar o acontecimento no período inicial. Porém, pelo tipo de acontecimento, parece tratar-se de algo ocorrido no final do período de Meca.
Certa manhã, o Mensageiro (que a paz esteja com ele) saiu de casa ao amanhecer. Percorreu as diversas ruas e vielas de Meca, convidando as pessoas ao Islã. Mas, mesmo depois de passar o dia inteiro nisso, não encontrou sequer uma pessoa que desse atenção à sua mensagem. Naquela época, os opositores do Islã haviam adotado uma nova estratégia: assim que viam o Mensageiro (que a paz esteja com ele) aproximar-se, todos fugiam. Isso porque, ao ouvir suas palavras, surgiam complicações; se alguém se opusesse ou debatesse, a mensagem se espalharia ainda mais. Essa estratégia foi bastante eficaz. Mesmo quando encontrava uma ou duas pessoas, elas respondiam com zombaria ou violência. Como o dia inteiro havia sido perdido, ele voltou para casa cheio de desânimo e abatimento. Quando alguém se dispõe a beneficiar outra pessoa e a desejar-lhe o bem, mas essa pessoa tenta matar aquele que a beneficia e lhe quer bem, o coração do benfeitor fica oprimido por uma dor insuportável; o estado de espírito do Mensageiro (que a paz esteja com ele) era exatamente assim.
A partir da experiência daquele dia especial, começou a formar-se na mente do Mensageiro (que a paz esteja com ele) a ideia de que o solo de Meca estava se tornando estéril para o convite ao Islã e que tudo o que poderia florescer ali já havia florescido. Com a contínua deterioração da situação, essa sua impressão acabou se confirmando. As últimas pessoas promissoras já haviam se reunido ao redor do Mensageiro (que a paz esteja com ele). É provável que, desde aquele dia, tenha se fortalecido em sua mente a ideia de que era necessário sair de Meca para prosseguir com o trabalho. Na verdade, é natural que um pregador perspicaz e sábio pense assim. Quando ele conclui tanto trabalho de pregação em seu centro inicial que todas as pessoas aptas daquela região aceitam o convite, restando apenas os obstinados e teimosos, não continua desperdiçando forças naquele lugar; antes, procura novos campos e, ao mudar de ambiente, adquire novas experiências.
Foi justamente diante de uma situação desse tipo que o Mensageiro (que a paz esteja com ele) decidiu trabalhar nos arredores de Meca. Escolheu Taife como novo campo para o convite ao Islã. Levou consigo Zayd ibn Harithah. Um dia, partiu de Meca a pé acompanhado de Zayd ibn Harithah. Ao longo do caminho, convidou ao din de Allah todos os membros das tribos cujas moradias encontrou. Entre a ida e a volta, passou-se quase um mês.
Taife era um lugar de clima relativamente fresco, densamente arborizado, abundante em água e fertilidade, coberto de plantações, jardins e campos. Seus habitantes eram muito prósperos e felizes, entregues ao excesso de luxo, prazeres e conforto. Quando geralmente alcança prosperidade e abundância financeira, a pessoa se esquece de Allah e passa a dedicar-se à satisfação dos desejos de sua natureza instintiva. Essa era precisamente a condição dos habitantes de Taife. Entre os habitantes de Meca, ainda era natural haver certo recato moral, devido às responsabilidades de liderança religiosa e governo do país. Mas os habitantes de Taife eram completamente desregrados. Além disso, a usura havia extinguido por completo seu senso de humanidade. Viajar para um lugar assim significava que o Mensageiro (que a paz esteja com ele) estava indo para um local ainda pior que Meca.
Muhammad (que a paz esteja com ele), o mais dedicado amigo de toda a humanidade, chegou a Taife e foi primeiro encontrar-se com os líderes da tribo de Saqif. Eram três irmãos: Abd Yalil, Mas’ud e Habib. Cada um deles tinha como esposa uma mulher da tribo Banu Jumah, pertencente à linhagem dos coraixitas. Por isso, ele esperava que talvez demonstrassem alguma cortesia. O Mensageiro (que a paz esteja com ele) foi até eles, sentou-se, convidou-os a voltar-se para Allah usando as melhores palavras, explicou detalhadamente o convite e pediu sua ajuda e cooperação para estabelecer a verdadeira religião de Allah. Mas vejam que resposta deram esses três homens:
Um dos irmãos disse: Se foi realmente Allah quem te enviou, então deve-se entender que Ele quer profanar o revestimento da Caaba.
O segundo irmão disse: Que maravilha! Allah não encontrou ninguém mais adequado do que tu para fazer Seu Mensageiro!
O terceiro irmão disse: Juro por Allah, não falarei contigo. Pois, se és realmente o Mensageiro de Allah, conforme afirmas, seria uma tremenda falta de respeito responder a alguém como tu. E, se atribuíste falsamente algo a Allah, então não tens dignidade suficiente para que se fale contigo.’
Cada uma dessas palavras começou a cravar-se no peito do Mensageiro como uma flecha envenenada. Ele ouviu com extrema paciência aquelas palavras dolorosas e pediu-lhes insistentemente que mantivessem tais palavras restritas a eles mesmos e não incitassem o povo dizendo-lhes essas coisas.
Mas eles fizeram exatamente o contrário. Mandaram os jovens mais desprezíveis e desordeiros da cidade, os criados e os escravos, atrás do Mensageiro, ordenando-lhes: “Vão expulsar este homem da cidade.” Um enorme grupo de jovens desordeiros avançou, insultando-o pela frente e por trás, fazendo algazarra e atirando pedras. Eles miravam os seus joelhos, para lhe causar ainda mais dor. Com os golpes das pedras, ele caía sentado, incapaz de se mover, de tempos em tempos. Mas os arruaceiros de Taife puxavam-no pelos braços, obrigavam-no a levantar-se e, depois, voltavam a atirar pedras contra os seus joelhos, batendo palmas e soltando gargalhadas. O sangue jorrava abundantemente das feridas. Assim, o interior e o exterior dos seus sapatos ficaram tingidos de sangue. E uma multidão se reuniu para assistir àquele espetáculo extraordinário. Desse modo, os arruaceiros expulsaram-no da cidade e levaram-no para perto de um vinhedo. O vinhedo pertencia a Utba e Xaiba, filhos de Rabia. Completamente exausto, o Mensageiro sentou-se apoiado numa videira. Os donos do vinhedo observavam-no e também tinham testemunhado parcialmente os maus-tratos que ele sofrera antes.
Ali, depois de realizar uma oração de duas rak‘at, ele fez a seguinte súplica comovente:
’Ó Allah! Somente a Ti queixo-me da minha fraqueza, da minha falta de recursos e da minha impotência diante do povo. Tu és o Senhor dos pobres e dos incapazes. Tu és o meu Senhor. A quem queres entregar-me? A um rival que me hostiliza ou a um inimigo? Contudo, se não estás irado comigo, não me importo com coisa alguma. Mas, se eu receber paz e segurança da Tua parte, isso será para mim mais amplo e preferível. Busco refúgio na Tua luz e na Tua beleza contra o temor de cair na Tua ira ou no Teu castigo; por meio delas, toda escuridão é dissipada e todos os problemas deste mundo e da outra vida são resolvidos. Nada desejo além da Tua satisfação. Não é possível obter força de lugar algum senão de Ti.’
Enquanto isso, os donos do vinhedo chegaram. Seus corações estavam cheios de compaixão. Chamaram seu escravo cristão, Addas, e mandaram-no levar uvas numa bandeja. Addas colocou as uvas diante do Mensageiro e sentou-se. Quando o Mensageiro disse “Bismillah” e estendeu a mão para as uvas, Addas disse: “Juro por Allah, os habitantes desta cidade nunca dizem palavras desse tipo.” O Mensageiro perguntou: “De que cidade és e qual é a tua religião?” Ele respondeu: “Sou cristão e sou de Nínive.” O Mensageiro disse: “Vejo que és da cidade do servo virtuoso de Allah, Yunus ibn Matta.” Addas, espantado, perguntou: “Como conheces Yunus ibn Matta?” O Mensageiro respondeu: “Ele é meu irmão. Ele também foi profeta, e eu também sou profeta.” Assim que ouviu isso, Addas começou a beijar as mãos e os pés do Mensageiro. Um dos filhos de Rabia ficou interiormente irritado ao ver aquela cena. Quando Addas voltou, repreendeu-o, dizendo: “O que estavas fazendo? Estavas prestes a destruir a tua própria religião.” Addas disse, profundamente emocionado: “Ó meu senhor, não há nada melhor do que ele no mundo. Esse homem disse-me algo que ninguém além de um profeta poderia saber.”
Na realidade, após a morte de seu tio Abu Talib, o Mensageiro (s.a.) ficou aparentemente completamente sem apoio e sem proteção em Meca. O poder e a influência de seus inimigos haviam aumentado enormemente. Por isso, ele pensou que talvez encontrasse em Taife alguns servos de Allah como companheiros. Contudo, foi justamente ali que surgiu uma situação daquela natureza. De lá, ele foi para Nakhlah e permaneceu ali. Depois, retornou e chegou à caverna de Hira. Dali, enviou uma mensagem a Mut’im ibn Adi — um dos principais responsáveis pela revogação do pacto de boicote — dizendo: “Pode conceder-me proteção?” Uma característica tradicional do caráter nacional dos árabes era que, quando alguém pedia proteção, ela lhe era concedida, mesmo que fosse um inimigo. Mut’im aceitou o pedido do Mensageiro (s.a.). Ordenou a seus filhos que circulassem armados pelo pátio da Caaba e garantissem a segurança de Muhammad (s.a.). Ele próprio foi buscar o Mensageiro (s.a.), levou-o consigo a Meca e, montado em um camelo, anunciou: “Concedi proteção a Muhammad (s.a.).” Os filhos de Mut’im, vigiando com as espadas desembainhadas, conduziram o Mensageiro (s.a.) ao recinto sagrado e depois o acompanharam até sua casa.
A história não conseguiu nos transmitir um relato completo da situação angustiante em que o Mensageiro (s.a.) se encontrou em Taife. Certa vez, Aisha (r.a.) perguntou: “Ó Mensageiro de Allah, alguma vez você enfrentou um dia mais difícil que o de Uhud?” Ele respondeu: “Embora seu povo tenha me causado todo tipo de sofrimento, o dia mais difícil para mim foi aquele em Taife, quando convidei Abd Yalil [à fé]. Ele rejeitou o convite e causou-me tanto sofrimento que, com extrema dificuldade, consegui chegar a um lugar chamado Qarnus Saalib e escapar.” (Al-Mawahib al-Ladunniyya, volume 1, p. 56)
Zaid ibn Haritha, que, depois de o Mensageiro (s.a.) ficar exausto e inconsciente devido à violência dos maus-tratos, o carregara sobre os ombros para fora da cidade, disse com o coração aflito: “Peça a Allah que lance uma maldição contra eles.” O Mensageiro de Allah (s.a.) respondeu: “Por que eu lançaria uma maldição contra eles? Mesmo que não creiam em Allah, é de esperar que seus descendentes adorem somente o Deus Único.”
Durante essa viagem, Gabriel veio e disse: “Os anjos encarregados das montanhas estão diante de você. Se você der um sinal, eles unirão aquelas duas montanhas, entre as quais se encontram Meca e Taife. Com isso, ambas as cidades serão esmagadas e destruídas.” Mas o grande Profeta, amigo da humanidade, não consentiu nisso.
Foi justamente em uma situação tão desesperadora que os gênios vieram ouvir a recitação do Alcorão pelo Mensageiro (s.a.) e creram diante dele. Por meio disso, Allah, o Altíssimo, informou ao Mensageiro (s.a.): “Mesmo que todas as pessoas do mundo rejeitem o convite ao Islã, em Minha criação existem muitos seres prontos para ajudá-lo.”
Um presságio de um dia auspicioso
A experiência de Taife foi tão trágica que, ao atravessá-la, o Mensageiro (s.a.) chegou ao limite extremo da tristeza e da dor. Foi somente depois de alcançar esse limite que Allah abriu as portas do sucesso para a humanidade. A sociedade de sua época aparentemente havia rebaixado o Mensageiro (s.a.) ao nível mais baixo. Como consequência inevitável disso, sua posição foi elevada ao nível mais alto perante Allah.
Sempre que Allah, o Altíssimo, enviou Seus profetas e provocou o confronto entre a verdade e a falsidade, Ele submeteu esse conflito a uma regra específica. Essa regra era a seguinte: quando a falsidade chega ao limite extremo da injustiça, da perseguição e do uso da força contra os soldados da verdade; quando os mujahidins perseguidos atravessam, um a um, todos os níveis da injustiça e da opressão com extrema paciência e perseverança, e ultrapassam também o último momento de sofrimento mortal, somente então se aproxima o momento da ajuda invisível de Allah. Os caminhos que conduzem ao Paraíso estão repletos de espinhos. Sobre quando chega a boa-nova do sucesso para aqueles que seguem esse caminho, o Alcorão diz o seguinte:
“A adversidade, a calamidade e as desgraças recaíram sobre eles, e eles ficaram completamente desorientados. A tal ponto que o Mensageiro e seus companheiros crentes exclamaram: ‘Quando virá o auxílio de Allah?’ (Ao chegarem a esse ponto, foi-lhes dada a boa notícia:) ‘Sabei que o auxílio de Allah está próximo.’” (Al-Baqara: 214)
Após a experiência de Taife, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) parece ter superado essa última prova. De acordo com o decreto de Allah, o início de uma nova era era agora inevitável, e aproximava-se também o momento de anunciar essa boa notícia. Foi precisamente com o propósito de anunciar essa boa notícia que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) foi honrado com o Miraj.
Na realidade, o significado do Miraj é que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) foi elevado ao mais alto grau de proximidade e intimidade com o Altíssimo Allah. O Soberano do universo, em representação de quem o Mensageiro suportou durante vários anos toda espécie de sofrimento, tribulação e calamidade, e passou seus dias travando batalhas ideológicas e intelectuais contra diversas forças do mal, convocou seu mensageiro à Sua própria presença para adorná-lo com o mais sublime de Seus títulos. Ao valoroso guerreiro que, empenhado na luta para convencer seu próprio povo a aceitar as verdades fundamentais relativas à vida e ao universo, suportou incessantes golpes vindos de todas as direções, foi concedida, por meio do Miraj, a oportunidade de contemplar de perto essas verdades. Ao último Profeta, dedicado ao esforço total pelo bem-estar integral da humanidade, foi concedida a rara felicidade de visitar um dos grandes e antiquíssimos centros desse movimento (Baitul Maqdis) e, dali, ascender ao mundo celestial para encontrar-se com os antigos líderes desse movimento.
Aos profetas anteriores era concedida a oportunidade de receber uma graça especial por meio da contemplação das verdades ocultas e da chegada à íntima proximidade com Allah. No Alcorão, por um lado, é dito a respeito do Profeta Abraão (que a paz esteja sobre ele) que lhe foram mostrados os reinos dos céus e da terra. Por outro lado, o Profeta Moisés (que a paz esteja sobre ele) foi convocado ao monte Tur. Ali, Allah, o Altíssimo, falou com ele por detrás de uma árvore luminosa, anunciando: ‘Eu sou Allah’. Em outra ocasião, foi nesse mesmo ambiente de intimidade que lhe foram concedidas as leis da Sharia. Em suma, todos os grandes profetas tiveram, de uma forma ou de outra, a oportunidade do Miraj. Contudo, o Miraj do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) foi completo.
Entre os acontecimentos de Taife e da Hégira, não ocorreu nenhum acontecimento mais importante e extraordinário do que o Miraj. Quando ele anunciou a notícia desse acontecimento, houve grande alvoroço em Meca. Ele descreveu abertamente tudo o que tinha visto naquela noite e em todos os lugares por onde passara. Apresentou uma imagem completa da forma de Baitul Maqdis. Também descreveu sinais absolutamente certos encontrados pelo caminho, que mais tarde se provaram exatos.
A revelação especial que foi enviada naquele momento auspicioso de íntima proximidade está presente entre nós na forma da Surata Bani Israil. Essa surata começa justamente com o relato do Miraj. E toda a surata está impregnada da inspiração do Miraj. As seguintes declarações dessa surata merecem especial atenção:
1- Tendo diante de si a história instrutiva dos Filhos de Israel, foi explicado que a lei de Allah leva até mesmo os indivíduos e grupos mais poderosos a responderem perante o tribunal da responsabilidade; e, quando se desviam, eles são derrotados por meio de outro indivíduo ou grupo obediente. Por outro lado, também foi ensinado que, ao alcançarem a era da vitória e do sucesso, eles não devem começar a agir como os Filhos de Israel.
2- Em um ambiente extremamente adverso, foi declarado em tom inequívoco: a verdade chegou, e a falsidade foi derrotada (versículo 89); isto é, a escuridão será então dissipada e a aurora surgirá.
3- Allah Todo-Poderoso também lhe informou que, desta vez, os habitantes de Meca empreenderiam esforços para expulsá-lo de Meca. Mas, depois de expulsá-lo, não conseguiriam permanecer em paz por muito tempo. (Versículo 76) A oração que Allah ensinou para a Hégira tinha a seguinte formulação: “Ó meu Senhor, faze-me entrar pela porta da verdade e faze-me sair pela porta da verdade (do ambiente atual), e concede-me, da Tua parte, autoridade governamental como auxílio.” (Versículo 80) Ao incluir nessa oração o pedido de autoridade governamental, anunciou-se implicitamente a boa-nova de que o período posterior à Hégira seria uma era de domínio e governo.
4- Nos versículos 22 a 29, são apresentados em sequência os princípios fundamentais do sistema de vida islâmico, para que, com base nesses princípios, sejam construídas uma nova sociedade e uma nova civilização.
Ao contemplar o futuro, levando no coração essas declarações da revelação anterior à Ascensão, o Mensageiro (s.a.w.) provavelmente via um enorme fluxo de luz descendo do céu. Se, em vez dele, houvesse outro líder materialista naquele ambiente assustador de Meca, talvez ele tivesse se desesperado e interrompido todo o seu programa e todas as suas atividades. Mas, embora envolto na escuridão de um ambiente extremamente adverso e desanimador, o Mensageiro (s.a.w.) mantinha a certeza de que a alvorada estava chegando. Uma rajada dessa brisa da alvorada parecia ter chegado aos seus ouvidos para lhe dizer em segredo que o nascer do sol da nova alvorada ocorreria não em outro lugar, mas em Medina. Pois os jovens dali haviam começado a aderir ao movimento islâmico com plena satisfação e sinceridade.
No fim do período de vida em Meca, o Mensageiro (s.a.w.) foi perguntar a Taife: “Poderás carregar a tocha da verdade?” Taife respondeu: “Sou ainda menos apta para essa tarefa do que Meca.” Ao ouvir essa resposta desalentadora, enquanto o Mensageiro (s.a.w.) estava absorto pensando em definir o programa das ações seguintes, Yathrib disse: “Estou pronta para me tornar Madinat an-Nabi (a Cidade do Profeta). Erguerei a tocha da verdade e iluminarei o mundo inteiro. Em meu seio será cultivada a legislação da verdade e da justiça. Em meu regaço florescerá uma nova história.” Taife, embora próxima, afastou-se. Yathrib, embora distante, aproximou-se.
No décimo primeiro ano da profecia, no dia em que seis revolucionários vindos de Yathrib firmaram um pacto com o Mensageiro (s.a.w.), Yathrib tornou-se ainda mais próxima. Após longas conversas, o juramento que fizeram de seguir o tawhid e as normas morais do Islã ficou conhecido como a Primeira Bay’ah de Aqabah. Depois, por ocasião da peregrinação, veio de Medina um grupo ainda maior. Também eles realizaram, numa reunião secreta durante a escuridão da noite, a Segunda Bay’ah de Aqabah. Tratava-se de um pacto totalmente inspirado por uma consciência política. Nele, ficou decidido que o Mensageiro (s.a.w.) faria a Hégira e partiria para Medina, e refletia-se uma disposição para o sacrifício total, a ponto de os ansares de Medina declararem estar preparados para lutar contra o mundo inteiro em defesa do Mensageiro (s.a.w.).
É provável que a Surata Yūsuf tenha sido revelada justamente no período entre a viagem a Taife e a Hégira. Nessa surata, ao narrar a história de vida de outro profeta, o Profeta Yūsuf, foi transmitida uma boa-nova ao Mensageiro (s.a.w.), enquanto seus inimigos foram advertidos acerca de suas práticas desumanas de tortura e opressão e informados de seu lamentável destino.
Adeus, ó Meca!
A violência, o terrorismo e a tortura opressiva constituem as últimas armas de uma ordem social instável e em decadência. Se, mesmo assim, não é possível subjugar o adversário, os opositores da reforma decidem matar o principal líder do movimento revolucionário. Os habitantes de Meca já estavam impacientes de raiva e ansiosos por eliminá-lo. Mas não conseguiram. Agora chegara o momento decisivo. O conflito estava atravessando um período crítico. Aproximava-se o momento de um acerto de contas. A situação chegara a tal ponto que as duas forças rivais, depois de se separarem e se distinguirem completamente, haviam ficado inteiramente apartadas uma da outra. No que dizia respeito à crença e à mentalidade, uma linha divisória nítida havia sido traçada. Um grupo permanecera do outro lado dessa linha, e o outro, deste lado. Nenhum dos dois grupos tinha mais qualquer possibilidade de atravessar essa linha divisória. O movimento islâmico era agora uma força bem organizada e coesa. Sua disciplina interna permanecia intacta, e seu padrão moral era extraordinariamente elevado. Seus argumentos eram muito afiados, e seu apelo, extraordinariamente cativante. A opressão e a perseguição infligidas aos seus líderes e militantes tinham o poder de conquistar o coração do povo. A pequena muda da verdade havia se transformado numa árvore gigantesca. Aquilo que, até ontem, era para os líderes da sociedade da Jahiliyyah apenas uma ameaça hipotética, hoje era realidade. A presença que surgira exigia deles: se tendes poder para impedir essa ameaça, então impedi-a. Caso contrário, na inundação de luz da nova era que se aproxima, vossa religião, vossos cargos e títulos e toda a vossa herança da Jahiliyyah serão arrastados. Depois, tereis de curvar as cabeças altivas diante de Muhammad e de seu ideal. Os líderes da Jahiliyyah ouviam esse desafio da história e ficavam cada vez mais apreensivos. Assim, ao chegarem a esta etapa, os inimigos sedentos do sangue do Mensageiro (s.a.w.) prepararam-se mentalmente para uma conspiração terrível contra ele.
Meca, que para os companheiros do movimento islâmico havia assumido a forma de uma fornalha ardente, já tinha chegado, por si só, ao mais alto grau de calor. A perseguição e a opressão haviam-se tornado insuportáveis. Os selvagens coraixitas passaram o rolo compressor de sua tirania sobre os porta-estandartes da verdade, tornando a vida deles miserável e fazendo transbordar o limite de sua paciência. Isso significava claramente que, naquela situação, uma mudança importante era iminente, que uma saída para a liberdade se tornara inevitável e que o acréscimo de um novo capítulo à história havia-se tornado indispensável. Os coraixitas haviam fechado para eles uma enorme porta de fortuna. Tinham provado ser indignos de se tornarem os pioneiros do movimento islâmico. Nesse ambiente psicológico, depois de ocorrer o episódio da Ascensão, quando o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) anunciou as boas-novas de um futuro radiante e, por alusões e indicações, prometeu que o caminho da Hégira seria aberto e que depois começaria a era do poder, uma nova esperança e entusiasmo foram despertados entre os muçulmanos. Aqueles que haviam sido vítimas da violência encontraram consolo e tiveram seu ânimo fortalecido. Então, quando o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) percebeu que se aproximava o momento prometido, suas emoções e sentimentos atingiram o auge. Por meio de uma fonte oculta, ele compreendeu que o local daquela futura Hégira seria Medina. De um lado, havia os testemunhos evidentes da situação, especialmente os dois episódios do pacto de al-‘Aqaba; de outro, as informações recebidas do Altíssimo Allah permitiam saber isso. Nessas circunstâncias, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) autorizou seus companheiros a partirem para Medina, e os Companheiros começaram a partir um após outro. Gradualmente, muitos foram embora. Bairro após bairro ficou vazio. Certa vez, Abu Jahl, ao ver as casas vazias da tribo dos Banu Jahsh, comentou diante de outros líderes importantes dos coraixitas:
“Isto é obra de nosso sobrinho (Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz). Ele rompeu nossa unidade, despedaçou nossa sociedade e semeou a divisão entre nós.” (Sira de Ibn Hisham, vol. 2, p. 114) Apesar de ter enviado seus companheiros para Medina, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) não abandonou o centro de sua missão. Ele aguardava a permissão de Allah. Nenhum muçulmano permanecia em Meca, exceto um pequeno número de pessoas que os coraixitas haviam detido ou impedido de partir por meio de ameaças e intimidação. Entre seus companheiros mais próximos, porém, o honorável Abu Bakr e o honorável ‘Ali ainda estavam em Meca. Nessas circunstâncias, quando os coraixitas compreenderam que os muçulmanos já haviam encontrado um lugar para onde ir e que todos partiam um após outro, concluíram que Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) logo escaparia de suas mãos. Depois, ele obteria força fora de seu alcance e se vingaria de tudo o que havia acontecido no passado. Então todos se reuniram no local de assembleia pública de Meca, Dar al-Nadwa, e começaram a deliberar sobre que medida tomar contra Muhammad. Surgiu uma proposta: que ele fosse detido numa prisão feita de ferro e mantido com a porta fechada. Objetou-se que ele era um homem cujas palavras sairiam até mesmo de uma sala fechada de ferro. Era preciso encontrar outro meio. Um membro da assembleia propôs que ele fosse expulso de Meca; depois, o que lhe acontecesse não seria problema deles. Mas essa proposta também foi contestada. Muitos disseram: “Vocês não conhecem suas palavras cativantes? Não sabem como ele fala de maneira tão doce? Não são justamente essas coisas a razão de sua tão ampla aceitação entre o povo? Se tomarem essa medida, não escaparão de seu domínio. Ele exercerá influência total sobre os árabes e, pelo poder de sua eloquência, fará com que adotem sua opinião. Depois, lançará um ataque contra vocês acompanhado de todo o povo árabe, arrancará de suas mãos as rédeas do poder e fará com vocês o que quiser.” Então o astuto Abu Jahl concebeu uma estratégia extremamente engenhosa. Disse que deveriam escolher, de cada tribo de Meca, um jovem forte e influente, entregar uma espada a cada um deles e fazê-los atacar Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) todos juntos, matando-o. Assim poderiam libertar-se de suas garras. A responsabilidade pelo assassinato de Muhammad e o pagamento do preço de sangue seriam divididos entre todas as tribos. A tribo dos Banu Hashim não conseguiria vingar-se sozinha de todas essas tribos, nem teria coragem para fazê-lo. Pronto: essa estratégia agradou a todos, e a reunião conspiratória terminou com uma decisão unânime. Sobre essa reunião, o Alcorão fez a seguinte análise:
“E recorda o momento em que os incrédulos tramavam aprisionar-te, matar-te ou expulsar-te. Eles tramam conforme lhes convém, mas Allah também planeja. E Allah é o melhor dos planejadores.” (Surata Al-Anfal, 30)
Aquela noite negra, envolta em mistério, estava diante deles. Ao meio-dia, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) foi à casa de seu mais amado e íntimo companheiro, o honorável Abu Bakr as-Siddiq (que Allah esteja satisfeito com ele). Lá, informou-lhe secretamente: “Recebi a permissão para realizar a Hégira.” O honorável Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) pediu permissão para ser seu companheiro de viagem. Na realidade, ele já havia recebido essa permissão antes mesmo de pedi-la. De tanta alegria por alcançar essa ventura, os olhos do honorável Abu Bakr encheram-se de lágrimas. Ele já havia alimentado e engordado cuidadosamente duas camelas para a Hégira. Mostrando-as ao Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), disse-lhe: “Escolha a que preferir e aceite-a como presente.” Porém, depois de muita insistência e explicação, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) comprou pagando o preço a camela chamada Jadha. Quando chegou a noite, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), seguindo a indicação de Allah, não dormiu em sua própria casa. Ordenou a seu outro amado companheiro, o honorável ‘Ali, que dormisse tranquilamente em seu leito. Ao mesmo tempo, confiou-lhe os depósitos que as pessoas haviam deixado sob sua guarda e pediu-lhe que os devolvesse pela manhã aos respectivos proprietários. Quantos exemplos de ética tão elevada existem na história, em que uma parte conspira para matar alguém e esse próprio homem se preocupa em devolver os depósitos aos seus assassinos? Depois disso, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) foi à casa do honorável Abu Bakr as-Siddiq. A honorável Asma, filha de Abu Bakr, rapidamente cortou seu cinto em dois e, com uma parte, amarrou o saco de comida e, com a outra, fechou a boca do odre de água. Esses dois viajantes do caminho da verdade partiram na escuridão da noite.
Hoje é o dia em que o maior benfeitor e amigo da humanidade, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), é expulso de sua casa sem ter cometido absolutamente nenhum crime. Hoje ele partiu, despedindo-se das vielas por onde caminhara enquanto crescia, pelas quais realizou milhares de viagens de pregação para exaltar a mensagem da verdade e onde suportou incontáveis insultos e perseguições. Hoje chegou o momento de despedir-se do sagrado centro espiritual do Haram, onde muitas vezes se prostrou, muitas vezes suplicou pelo bem-estar e pela paz de sua própria nação, muitas vezes recitou o Alcorão e onde, muitas vezes, tanto naquele pátio como naquele único refúgio garantido pela segurança, foi maltratado pelos opositores e ouviu palavras dolorosas. Hoje ele se prepara para oferecer sua última saudação à cidade que guarda as sagradas memórias e realizações dos honoráveis Ibrahim e Ismail (que a paz esteja sobre ambos), e cujo céu e ar ainda hoje ressoam com suas súplicas.
É perfeitamente natural que, ao fazer isso, seu coração tenha sido dilacerado, que seu íntimo tenha sido cortado em pedaços e que seus olhos tenham transbordado em lágrimas. Mas, como esse sacrifício era necessário para alcançar a satisfação de Allah e cumprir o objetivo de sua vida, o melhor dos seres humanos também não hesitou em oferecer esse sacrifício.
Hoje, é como se a alma tivesse saído do corpo de Meca. É como se a fragrância tivesse desaparecido das flores dos jardins de Meca. É como se suas fontes tivessem secado. Isso porque as pessoas virtuosas e de bom caráter saíram de dentro de sua sociedade.
A muda da árvore do chamado à verdade nasceu no próprio solo de Meca. Mas os habitantes de Meca não tiveram a sorte de colher seus frutos. Essa sorte foi alcançada pelos habitantes de Medina e pelos habitantes do mundo inteiro. Hoje, os habitantes de Meca foram empurrados para trás, e abriu-se um lugar na primeira fileira para os habitantes de Medina. Aqueles que se consideravam grandes, nobres e aristocratas foram rebaixados a uma posição inferior. E para aqueles que eram considerados relativamente inferiores foi reservado, neste dia, um lugar mais elevado e superior.
O Mensageiro de Allah (que a paz esteja sobre ele), lançando um último olhar, disse a Meca:
“Juro por Allah: tu és a melhor terra de Allah e a terra mais querida por Allah. Se eu não tivesse sido expulso daqui à força, jamais teria deixado-te.” (Tirmidhi)
Pouco depois, ele chegou à caverna do monte Thawr.
O próprio Mensageiro de Allah (que a paz esteja sobre ele) determinou por qual caminho deveriam seguir. Foi ele também quem contratou Abdullah ibn Uraiqit como guia, mediante uma remuneração previamente estabelecida. Ele passou três dias na caverna. Abdullah, filho de Abu Bakr, levava à noite todas as notícias de Meca. Amir ibn Fuhaira (o escravo de Abu Bakr) passava o dia pastoreando um rebanho de ovelhas nas proximidades da caverna e, quando escurecia, levava-o para perto da caverna, para que Abu Bakr e o Mensageiro de Allah (que a paz esteja sobre ele) pudessem obter o leite necessário.
Enquanto isso, os coraixitas mantiveram a casa do Mensageiro de Allah (que a paz esteja sobre ele) cercada durante toda a noite. Além disso, fecharam também todos os acessos da cidade. Mas, quando de repente souberam que o homem que tanto desejavam capturar havia escapado, sentiram como se o chão lhes tivesse desaparecido sob os pés. Ao verem Ali na cama do Mensageiro de Allah (que a paz esteja sobre ele), sucumbiram a uma profunda frustração; repreenderam-no duramente para descarregar sua raiva e foram embora. Enviaram pessoas para procurá-los em todas as direções, mas não encontraram nenhum vestígio. Um grupo, depois de correr de um lado para outro, chegou exatamente à entrada da caverna do monte Thawr. De dentro, era possível ver até os pés deles. É difícil descrever em palavras quão terrivelmente delicado foi aquele momento. Abu Bakr ficou preocupado, pensando que, se aquelas pessoas entrassem na caverna, todo o movimento islâmico ficaria ameaçado. Naquele momento, Abu Bakr sentiu exatamente o que seria natural que sentisse qualquer pessoa de natureza humana, mesmo sendo devota. Contudo, como Allah havia feito certas promessas ao Mensageiro de Allah (que a paz esteja sobre ele) e lhe havia assegurado ajuda e proteção, ele sabia com certeza que Allah nos manteria a salvo. Ainda assim, assim como uma revelação havia chegado a Moisés com a garantia: “Não temas”, essa mesma garantia chegou também ao Mensageiro de Allah (que a paz esteja sobre ele). Ele disse a seu companheiro Abu Bakr: “Não te preocupes; Allah está conosco.” E assim aconteceu: aqueles que haviam chegado perto da entrada da caverna voltaram dali mesmo.
Depois de permanecerem três dias na caverna, o Mensageiro de Allah (que a paz esteja sobre ele) saiu levando Abu Bakr e o guia Amir ibn Fuhaira. Para que os espiões dos coraixitas não pudessem segui-los, adotaram a longa rota costeira, deixando de lado o caminho normalmente utilizado. Enquanto isso, foi anunciado em Meca que quem conseguisse matar ou capturar qualquer um dos dois — Muhammad (que a paz esteja sobre ele) ou Abu Bakr — receberia centenas de camelos como recompensa. Muitas pessoas começaram a procurá-los diligentemente. Suraqa ibn Ju’shum soube que dois homens semelhantes a eles haviam sido vistos na estrada costeira. Ele partiu a cavalo, empunhando uma lança. Quando se aproximou e Suraqa os perseguiu em alta velocidade, de repente as duas patas dianteiras de seu cavalo afundaram no chão. Depois de tentar sem sucesso duas ou três vezes, Suraqa pediu perdão e também solicitou um salvo-conduto por escrito. Isso significa que ele percebeu que, por meio daqueles homens, uma nova era estava prestes a começar. O salvo-conduto foi escrito e entregue. Esse salvo-conduto foi útil no dia da conquista de Meca. Nessa ocasião, o Mensageiro de Allah (que a paz esteja sobre ele) também deu a Suraqa a boa notícia, dizendo: “Ó Suraqa, observa quão honrado estarás no dia em que usares os braceletes do imperador da Pérsia.” Essa profecia se cumpriu durante a conquista da Pérsia, na época do califado de Umar. Nessa época, Zubair estava vindo da Síria com uma caravana de comerciantes. No caminho, encontrou-se com o Mensageiro de Allah (que a paz esteja sobre ele) e Abu Bakr, e presenteou ambos com roupas brancas.
Durante essa viagem, Buraida Al-Aslami também se encontrou com eles acompanhado de setenta companheiros. Na realidade, eles haviam saído movidos pela esperança de obter uma recompensa. Mas, assim que se aproximou, Buraida mudou. No momento da apresentação, quando o Mensageiro (S.A.) lhe deu a boa-nova, dizendo: “A tua parte já foi determinada” (isto é, já foi determinado que também contribuirias para o estabelecimento do Islã), Buraida abraçou o Islã juntamente com os seus setenta companheiros. Depois, Buraida disse: “Quando o Mensageiro (S.A.) entrar em Medina, deveria haver uma bandeira à sua frente.” O Mensageiro (S.A.) consentiu, amarrou o próprio turbante na ponta de uma lança e entregou-a a Buraida. Sob essa bandeira, a caravana entrou em Medina.
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“Certamente, sereis postos à prova por meio da perda de vidas e bens. E ouvireis muitas palavras dolorosas dos dois grupos: dos Povos do Livro e dos politeístas. Se permanecerdes firmes diante de todas essas provações e vos abstiverdes da indecência, isso será, sem dúvida, um feito de grande coragem.” (Al Imran, 186)
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“Fostes tão mal-educados para comigo quanto os parentes de qualquer profeta poderiam ser para com ele. Vós me negastes, enquanto outros deram testemunho da minha veracidade. Expulsastes-me da minha terra natal, enquanto outros me deram abrigo entre eles. Fizestes guerra contra mim, enquanto outros me apoiaram.”
— Discurso proferido pelo Mensageiro (S.A.), dirigindo-se aos cadáveres dos politeístas no campo de Badr.
Capítulo: 4
O Amigo da Humanidade (S.A.) no período medinense: a mudança do curso da história
“Ao amanhecer, Umm Ahmad viu-me partir sob a proteção d’Aquele que temo sem jamais tê-Lo visto. Então começou a dizer: ‘Se tens mesmo de partir, não vás para Yathrib; leva-nos para algum outro lugar.’
Respondi-lhe: ‘Agora, Yathrib é o nosso destino. Para onde o Deus Misericordioso quer levar o servo, é para lá que o servo parte.’
Não há como contar quantos queridos companheiros e simpatizantes deixamos para trás, nem quantas mulheres, carregadas de tristeza, vimos derramar lágrimas antes de partir.
Tu pensas que estamos deixando a pátria para conquistar a capacidade de nos vingarmos daqueles que nos expulsaram. No entanto, temos outro objetivo.
De um lado estamos nós, e do outro estão aqueles nossos amigos que se afastaram do caminho da verdade e provocaram tumulto, usando contra nós as armas da opressão.
Uma dessas duas partes em conflito teve a honra de erguer a bandeira da verdade e foi guiada pelo caminho correto. A outra está prestes a enfrentar o castigo de Allah.
Embora, pelo vínculo de sangue, sejam nossos parentes próximos, onde não existe uma relação sincera fundamentada na unidade de ideais e objetivos, o simples vínculo de sangue não tem valor.
Chegará um dia em que a vossa união será despedaçada. A vossa existência coletiva será fragmentada. Então saberás muito bem qual dos dois grupos está no caminho da verdade.”
(Síntese do poema sobre a Hégira de Abu Ahmad ibn Jahsh)
A época de Meca da história da vida de Hazrat Muhammad, o maior amigo da humanidade e criador da maior história do mundo, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, foi a época da pregação e da divulgação do ideal. Já a época de Medina foi a época da ascensão ao poder governamental. Em Meca, formaram-se pessoas. Em Medina, estabeleceu-se uma estrutura coletiva. Em Meca, prepararam-se os recursos. Em Medina, construiu-se o edifício.
Por causa dessa diferença, a impressão das pessoas comuns que estudam de forma superficial o Alcorão, a vida do Profeta e a história do Islã é que o chamado período de provações do movimento islâmico e de seu pregador transcorreu apenas em Meca. Em Medina, a oposição não teria sido tão intensa e feroz, nem teria existido um ambiente tão insuportável de perseguição constante como existia em Meca. Pelo menos, considera-se que, na época de Medina, a oposição e a hostilidade haviam assumido a forma de espadas desembainhadas e passado para o campo de batalha. A época dos comportamentos vis e baixos por parte dos inimigos teria ficado para trás. Mas os fatos reais são o oposto disso. É verdade que, na época de Medina, o principal grupo opositor, os coraixitas, lançava um desafio direto no campo de batalha aberto. Mas também não se pode negar que, à medida que o movimento islâmico se fortalecia mais do que antes, novos inimigos iam surgindo. Esses inimigos não eram inferiores aos habitantes de Meca em suas más ações. Suas novas conspirações atormentaram e constrangeram continuamente o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e seus companheiros, do começo ao fim, e eles não deixaram de tentar nenhum esforço para impedir o trabalho de renascimento.
Uma regra constante da história é que, quanto mais avançam os trabalhos de reforma, correção e renascimento, mais os grupos contrários à reforma e avessos ao trabalho, tomados pela hostilidade, se empenham desesperadamente em destruí-los e arruiná-los. Por fim, quando alguém, resgatado do patíbulo da perseguição, chega de um salto ao trono do poder, a aversão e a vingança da falsidade ultrapassam todos os limites. Como em Medina havia sido estabelecida uma nova sociedade islâmica e um Estado pacífico de bem-estar, surgiu justamente esse tipo de situação.
O ambiente diferente de Medina
Do ponto de vista histórico, é uma realidade extremamente importante que o ambiente político e religioso de Medina era completamente diferente do de Meca. Por isso, a plantinha do Islã, que em Meca não conseguia crescer em um ambiente extremamente adverso, assim que foi transplantada para Medina desenvolveu-se rapidamente, cobriu-se de folhas e ramos e começou a dar frutos.
A primeira diferença era que toda a população de Meca e de seus arredores estava profundamente ligada entre si. Eram tribos da mesma religião, unidas por pactos mútuos, e os coraixitas exerciam sobre elas controle e domínio completos. Entretanto, em Medina e nos seus arredores viviam dois grupos de naturezas completamente diferentes, entre os quais prevaleciam conflitos, disputas e tensão.
Medina era a antiga cidade chamada “Yathrib”, estabelecida pelos judeus. À medida que sua população se multiplicava ao longo do tempo, novos assentamentos judaicos foram surgindo nos arredores de Medina. Além disso, foram construídas pequenas fortalezas militares. Assim, toda a região ficou sob a influência religiosa e política dos judeus.
O segundo grupo era o dos Ansar. Sua verdadeira terra natal era o Iêmen. Eles eram descendentes de Qahtan. As pessoas que sobreviveram à devastação generalizada causada pela inundação historicamente famosa do Iêmen espalharam-se por várias regiões. Os dois irmãos das tribos de Qahtan, Aws e Khazraj, estabeleceram-se em Medina naquela época. É possível que outras pessoas também tenham chegado posteriormente. Contudo, foi por meio desses recém-chegados que novos habitantes começaram a se reunir nessa região. Depois, sua população continuou a crescer e, gradualmente, surgiu uma nova força. A princípio, eles queriam viver separados da sociedade e da cultura judaicas. Porém, pressionados pela influência e pelo poder da comunidade judaica, que já estava firmemente estabelecida, foram obrigados a firmar com ela um tratado de aliança. Essa aliança baseada no tratado manteve-se em boas condições por muito tempo. Mas, assim que os judeus perceberam que o poder crescente dos Ansar constituía uma ameaça à sua influência e prestígio, romperam as relações de aliança.
Entre os judeus surgiu um chefe libertino chamado Fityun. Demonstrando seu poder, ele decretou que toda moça que se casasse em seu território só poderia ingressar na vida conjugal depois de se tornar primeiro sua companheira de leito numa noite de prazer. O grau de decadência e perversão moral a que os judeus haviam chegado pode ser compreendido pelo fato de terem aceitado esse decreto sem resistência. Porém, por causa dessa ordem satânica, certo dia o senso de honra dos Ansar finalmente se levantou. A irmã de Malik bin Ajlan estava prestes a se casar. Mas, justamente no dia em que o noivo chegou, Fityun passou completamente nu diante de Malik. Quando Malik o repreendeu, ele disse que no dia seguinte teria de enfrentar uma situação ainda mais constrangedora. Enfurecido, Malik matou Fityun e fugiu para a Síria. Naquela região governava o rei ghassânida Abu Jabala. Ao tomar conhecimento do ocorrido, ele atacou Medina, matou os principais líderes judeus e recompensou Aws e Khazraj. Esses acontecimentos enfraqueceram o poder dos judeus e fortaleceram o dos Ansar.
Em suma, as relações dos Ansar com os judeus sempre foram marcadas por conflitos e confrontos, mas, por não possuírem nenhum ideal ou objetivo, a unidade interna dos Ansar não pôde ser estabelecida sobre uma base sólida. Seus conflitos e disputas mútuos consumiram e destruíram sua força como os vermes da madeira. Como resultado, chegou a ocorrer uma guerra chamada Bu’ath entre as tribos de Aws e Khazraj, na qual morreram muitas figuras importantes de ambos os lados. Assim, eles se tornaram novamente impotentes diante dos judeus. Nessa situação, foram obrigados a solicitar, pouco tempo antes, uma aliança com os coraixitas. Porém, por várias razões, essa iniciativa fracassou.
Por outro lado, uma das razões para o domínio e o prestígio dos judeus era sua liderança religiosa. Eles possuíam a Torá. Por isso, eram portadores de um sistema religioso distinto; possuíam crenças e um patrimônio ideológico próprios, certos princípios morais, algumas leis e normas religiosas, determinadas tradições e regras específicas para a prática da adoração. Nesse aspecto, os Ansar, pode-se dizer, não possuíam nada. Dependiam dos judeus em todas essas questões. Recebiam ensinamentos no próprio Baitul Maqdis (naquela época, o centro do ensino religioso judaico). Inclusive, se o filho de algum ansari não sobrevivesse, ele fazia o voto de que, caso a criança sobrevivesse, a tornaria judia. Entre os Ansar havia, nesse aspecto, um sentimento de inferioridade. Como seu senso de honra e de prestígio havia sido ferido, sentiam-se constantemente constrangidos. Todas essas informações mostram que, no ambiente de Medina, havia conflitos e disputas entre judeus e Ansar, e que suas relações mútuas eram profundamente marcadas pela rivalidade.
Cabe mencionar que os judeus frequentemente se vangloriavam diante dos Ansar, dizendo: “Em breve virá o último Profeta. Quando ele chegar, nós nos uniremos a ele e daremos conta de vocês.” Por causa dessa ameaça e profecia dos judeus, os Ansar também passaram a contar os dias, aguardando o Profeta esperado. Resolveram, em seu íntimo, que, quando ele surgisse, seriam os primeiros a se juntar ao seu grupo. E foi exatamente isso que aconteceu. Aqueles que haviam feito a profecia ficaram privados dessa honra. Os judeus acabaram derrotados pelas próprias mãos daqueles a quem queriam derrotar. (Sīrat an-Nabī: Shibli Nu’mani)
Ao considerar o ambiente e o contexto de Medina, torna-se claro por que o ambiente de então era mais favorável ao movimento islâmico do que o de Meca.
O movimento islâmico em Medina
Meca ouviu o chamado do Islã durante longos 13 anos. Também conheceu quais eram os argumentos em seu favor. Além disso, diante dela brilhavam o caráter e a atuação de uma personalidade incomparável, iluminada pela luz do Islã. Os porta-estandartes do Islã, mesmo esmagados sob as rodas da opressão e da perseguição, ergueram o brado: “Ahad, Ahad” (Allah é Um, Allah é Um). Ainda assim, o ambiente geral de Meca, do início ao fim, rejeitou esse chamado.
Mas, assim que o convite chegou a Medina, dali se ergueu o brado de “Labbaika” (aceitamos). O primeiro jovem de Medina a aceitar o Islã foi Suwaid bin Samit. Ele era, ao mesmo tempo, um poeta talentoso, um cavaleiro habilidoso e um guerreiro valente. Jovens desse tipo geralmente se tornam soldados de movimentos revolucionários, participam de todo programa de desenvolvimento e construção e sacrificam tudo o que possuem por sua causa. Quando esse jovem foi a Meca, o Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) encontrou-se com ele como de costume e transmitiu-lhe o convite. Suwaid disse: “Tenho comigo algo semelhante a isto, chamado ‘Sahifa de Luqman’”. Ele chegou a recitar-lhe uma parte. Em seguida, o Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) recitou o Alcorão para ele. Vejam o que é uma consciência livre de precipitação e de ódio. Suwaid exclamou imediatamente: “Isto é ainda mais belo!” Depois disso, o convite do Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) firmou-se profundamente em seu coração. Porém, lamentavelmente, logo após retornar de Meca, ele foi morto pelas mãos dos khazrajitas. Muitos disseram a seu respeito que, no momento em que foi morto, ele era muçulmano e pronunciava o brado “Allahu Akbar” com os lábios. (Sira de Ibn Hisham, vol. 2, pp. 67–68)
O nome do segundo jovem de Medina influenciado pelo convite ao Islã foi Iyas bin Mu’adh. Esse homem era membro de uma delegação de Medina. A delegação havia ido a Meca na esperança de firmar um tratado de aliança com os coraixitas contra os khazrajitas e obter ajuda. O Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) transmitiu o convite ao Islã aos membros da delegação e recitou o Alcorão para eles. Iyas bin Mu’adh ainda era apenas um adolescente. Ele disse: “Ó meus companheiros, isto não é melhor do que aquilo por que viestes?” O líder da delegação, Abu al-Husair, imediatamente lançou terra em seu rosto. Com isso, queria dizer: “Que confusão estás criando agora, no meio de tudo?” E acrescentou: “Não viemos por isso”. Abu al-Husair estava ansioso para obter a ajuda dos coraixitas. Ele sabia que, se aceitassem o convite de Muhammad (que a paz esteja com ele), o caminho para obter a ajuda dos coraixitas estaria completamente fechado. Iyas ficou calado, é verdade, mas o convite ao Islã penetrou em seu coração. A delegação retornou a Medina. Infelizmente, esse jovem consciente também morreu pouco depois, vítima da batalha de Bu’ath.
Durante o décimo primeiro ano da missão profética, realizou-se uma longa conversa do Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) com a delegação que havia vindo de Medina. Depois de ouvirem o convite do Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele), começaram a dizer uns aos outros: “Sabei com certeza que este homem é justamente o profeta de quem os judeus vêm falando para vós. Não permitamos agora que os judeus se tornem aliados deste profeta antes de nós”. Então Allah abriu seus corações, e todos eles firmaram o Islã profundamente em seus corações. Em seguida, começaram a dizer:
“Rompemos nossas relações com nosso povo. Talvez não exista outra nação com tanta inimizade, conflito e discórdia entre seus membros quanto a nossa. É possível que Allah volte a unir nosso povo por meio do Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele). Depois de retornarmos a eles, iremos convidá-los para a religião do Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) e expressaremos diante deles, a respeito desta religião, a mesma atitude que manifestamos diante dele. Então, se Allah os fizer concordar sobre esta religião, ele se tornará, depois disso, o homem mais poderoso”. (Sira de Ibn Hisham)
O convite que os habitantes de Meca haviam considerado uma causa de divisão foi visto pelos habitantes de Medina, desde o primeiro olhar, como a base de sua unidade. Os membros deste primeiro grupo de Medina, organizado em Meca para erguer a bandeira do movimento islâmico, eram seis:
(1) Abul Haysam bin bin Ham (2) Asad bin Zurara (3) Auf bin Harith (4) Rafi bin Malik Ajlan (5) Qutba bin Amir (6) Jabir bin Abdullah.
Depois que essas pessoas retornaram a Medina, criaram ali um novo entusiasmo e um novo despertar. O convite ao Islã ganhou popularidade e continuou a se espalhar amplamente. Não havia família entre as famílias dos Ansar em que não se falasse sobre Muhammad (que a paz esteja com ele).
O Primeiro Juramento de Aqaba
No ano seguinte, isto é, no décimo segundo ano da missão profética, doze homens vieram de Medina e prestaram o juramento de lealdade. Este ficou conhecido como o “Juramento das Mulheres”. A razão desse nome é que, nesse juramento, foram assumidos compromissos apenas sobre questões fundamentais, não estando incluída qualquer questão relacionada a guerras ou combates. O teor desse compromisso de fé era o seguinte:
“Não associaremos ninguém a Allah, não roubaremos, não cometeremos adultério, não mataremos nossos filhos, não espalharemos conscientemente acusações falsas contra ninguém e não desobedeceremos a Muhammad (que a paz esteja sobre ele) em qualquer boa ação.”
Quando esse grupo partiu para Medina, o Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) encarregou Mus’ab ibn Umair de realizar em Medina o trabalho de convocação ao Islam. Confiou-lhe a tarefa de ensinar o Alcorão aos muçulmanos, transmitir os ensinamentos do Islam e proporcionar-lhes um conhecimento detalhado e correto do Islam. Ele também conduzia as orações em Medina e ensinava os ideais islâmicos e os princípios islâmicos de caráter. (Sira de Ibn Hisham)
A conversão de dois líderes ao Islam
Certo dia, As’ad ibn Zurarah, proprietário da casa onde Mus’ab, o pregador do Islam nomeado pelo Mensageiro (que a paz esteja sobre ele), estava hospedado, partiu com Mus’ab em uma missão de pregação rumo às moradias das tribos Banu Abd al-Ashhal e Banu Zufar. Eles chegaram às proximidades dos limites das casas dos Banu Zufar, perto de um poço chamado Marak. Naquele momento, algumas pessoas que haviam aceitado o Islam se reuniram junto deles. Os dois líderes dos Banu Abd al-Ashhal, Sa’d ibn Mu’adh e Usaid ibn Hudayr, ainda seguiam a religião de sua tribo, isto é, eram pagãos. Sa’d ibn Mu’adh já estava furioso com as atividades de pregação conduzidas por As’ad ibn Zurarah e Mus’ab. Ao saber da chegada daqueles dois homens, disse baixinho a Usaid: “Esses dois vieram enganar e desviar os fracos entre nós. Vá e impeça-os de vir à nossa casa. Se As’ad ibn Zurarah não fosse meu primo, eu não lhe diria isso; eu mesmo iria enfrentá-lo.” Quando a reunião de pregação começou, conforme as instruções de Sa’d ibn Mu’adh, Usaid aproximou-se dos dois com uma lança erguida. Depois de parar por alguns instantes, falou em tom ofensivo: “Qual é o objetivo da vossa vinda aqui? Estais desviando os nossos fracos. Se quereis salvar a vida, deixai imediatamente o nosso território.” Mus’ab disse humildemente: “Sente-se um pouco e ouça atentamente o que temos a dizer. Se gostar depois de ouvir, aceite; caso contrário, rejeite.” Ao ouvir isso, Usaid se acalmou um pouco. Baixou a lança e sentou-se tranquilamente ao lado de As’ad e Mus’ab. Mus’ab começou a falar e recitou o Alcorão para ele. Antes mesmo de Usaid dizer qualquer coisa, eles perceberam, pela expressão de seu rosto, que ele estava inclinado a aceitar o Islam. Por fim, Usaid exclamou: “Que palavras belas e encantadoras!” E perguntou: “Que procedimento adotais quando aceitais o Islam?” Os dois responderam: “Vá, tome um banho, purifique-se, lave suas roupas, depois dê testemunho da verdade e ore.” Usaid, que pouco antes estava de pé apontando a lança, agora sentia no peito a lança vivificante do Islam. Levantou-se, foi tomar banho, purificou-se e voltou para rezar duas unidades de oração. Ao terminar a oração, Usaid disse: “Tenho outro homem comigo. Se ele também se juntar ao vosso grupo, ninguém mais da tribo se oporá. Vou chamá-lo agora mesmo. Ele é Sa’d ibn Mu’adh.” Imediatamente, foi até Sa’d com a lança na mão. Ali, uma reunião foi realizada. Ao ver Usaid de longe, Mu’adh disse aos seus companheiros: “Juro por Allah que o rosto que Usaid tinha quando partiu não é o mesmo que tem agora.” Depois disse a Usaid: “Diga, por que veio?” Usaid respondeu com simplicidade: “Falei com os dois. Juro por Allah que não senti nenhuma ameaça da parte deles. Eu os proibi de continuar, e faremos aquilo que você disser.” Em seguida, para incitar Sa’d, disse: “Os Banu Haritha querem matar As’ad ibn Zurarah. Mesmo sabendo que As’ad é seu parente, querem fazer isso para humilhá-lo.” Temendo uma agressão por parte dos Banu Haritha, Sa’d enfureceu-se. Arrancou a lança das mãos de Usaid e foi até As’ad e Mus’ab. Ao chegar, porém, viu os dois sentados tranquilamente. Mu’adh disse: “Compreendi imediatamente que Usaid havia me enviado habilmente até ali para que eu ouvisse diretamente a conversa dos dois. Repreendi-o mentalmente e parei diante de ambos. Disse a As’ad ibn Zurarah: ‘Viestes falar conosco de coisas que odiamos.’” Mus’ab respondeu humildemente: “Acalme-se um pouco e ouça o que temos a dizer. Se gostar, aceite; caso contrário, não lhe apresentaremos aquilo que você odeia.” Sa’d se acalmou e disse: “Você falou com justiça.” Quando Sa’d se sentou, Mus’ab transmitiu-lhe a mensagem do Islam e recitou o Alcorão para ele. Também aqui se repetiu o que havia acontecido com Usaid. Antes que Sa’d dissesse qualquer coisa, os sinais de aceitação do Islam já se manifestavam em seu rosto. Em poucos instantes, o segundo líder aceitou o Islam.
Quando Sa’d ibn Mu’adh voltou levando consigo uma “nova vida”, os membros da assembleia tribal disseram, apenas ao vê-lo de longe, que o rosto de Sa’d havia mudado. Assim que chegou, Sa’d disse: “Ó povo da tribo Banu Abd al-Ashhal, qual é a vossa opinião sobre mim?” Todos responderam: “Você é nosso líder. Sua opinião é mais ponderada que a nossa. Você é mais virtuoso e benéfico do que todos nós.” Sa’d disse: “Então sabei que, enquanto não tiverdes fé em Allah e em Seu Mensageiro, será ilícito para mim falar com vossos homens e mulheres.” Depois disso, como poderiam agir de outro modo? Todos os homens e mulheres da tribo aceitaram o Islam em conjunto.
Quando, por meio desses dois líderes, a força do movimento islâmico aumentou enormemente, a campanha de pregação também se intensificou, e o Islam se espalhou de casa em casa e de tribo em tribo.
O Segundo Juramento de Aqabah
Enquanto isso, chegou a temporada do Hajj. Dessa vez, um grande número de muçulmanos foi de Medina a Meca, pois o Islã estava se difundindo amplamente no território de Medina. Estimulados pelo novo fervor religioso, esses novos muçulmanos de Medina foram a Meca por ocasião do Hajj e, evitando o olhar dos coraixitas, encontraram-se à noite com seu amado líder, o Mensageiro de Allah (s.a.). Mais uma vez, foi feito o compromisso de lealdade. Contudo, o compromisso desta vez era muito mais avançado que a “Bay‘ah Materna”. Na primeira bay‘ah, apenas uma cláusula apresentava um conteúdo político. Tratava-se do compromisso: “Não desobedeceremos às ordens justas de Muhammad (s.a.).” Mas, desta vez, assumindo todos os riscos, o conteúdo político foi incluído. À luz desta bay‘ah, ajudar Muhammad (s.a.) significava entrar em guerra contra os coraixitas e toda a nação árabe. Na realidade, a segunda bay‘ah foi realizada precisamente levando esse significado em consideração. Durante as discussões, esses soldados yathribitas do movimento islâmico, compreendendo plenamente as possibilidades futuras, disseram: “Teremos de anular todos os pactos que temos com o povo de Yathrib (isto é, os judeus). Depois de anulá-los, que não aconteça de, quando Allah lhe conceder a vitória, você retornar ao seu próprio povo e nos abandonar.” Em resposta a esse temor, o Mensageiro de Allah (s.a.) sorriu levemente e disse: “Vosso sangue é meu sangue, vossos inimigos são meus inimigos; eu sou dos vossos e vós sois dos meus. Travarei guerra contra aqueles contra quem travardes guerra e farei paz com aqueles com quem fizerdes paz.” Abbas ibn Ubada disse: “Ó descendentes dos Khazraj! Sabeis a que estais vos comprometendo com Muhammad (s.a.)? É um compromisso de lutar contra os habitantes de toda a Terra.” Os membros da delegação responderam com plena consciência da responsabilidade: “Comprometemo-nos a continuar ajudando e apoiando-o, mesmo que isso custe a destruição de todos os nossos bens e a morte dos nossos chefes tribais.” Devido à natureza especial desta bay‘ah, ela passou a ser chamada de “Bay‘at al-Harb”, ou “Compromisso Militar”. Uma de suas condições fundamentais era: “Estejamos na pobreza ou na abundância, na felicidade ou na tristeza, em qualquer situação em que nos encontremos, ouviremos todas as instruções do Mensageiro de Allah (s.a.) e lhe obedeceremos; daremos precedência às ordens do Mensageiro sobre nós mesmos e não entraremos em conflitos e disputas com os líderes e responsáveis. Se alguém nos censurar ou repreender por causa da religião de Allah, não daremos importância a isso.”
Esta bay‘ah pode, na realidade, ser chamada de pedra fundamental do Estado Islâmico. Ao mesmo tempo, também pode ser considerada o prelúdio da Hégira. Por meio desta bay‘ah, os futuros cidadãos aceitaram voluntária e alegremente a liderança política de Muhammad (s.a.) para o futuro Estado Islâmico. Além disso, por meio dela também foi estabelecido o sistema de obediência.
Por meio dela, não apenas foi assumido um compromisso, mas também foi estabelecida a base da disciplina e da ordem coletiva. O líder do movimento islâmico nomeou, de acordo com a opinião da organização cidadã, doze responsáveis regionais (naqibs). Dentre eles, nove foram nomeados entre os Khazraj e três entre os Aws. Foi-lhes ordenado: “Vós sois responsáveis por todos os assuntos de vossos respectivos clãs, assim como os hawariyyun do profeta Jesus (a.s.) eram responsáveis e assim como eu mesmo sou responsável pelo meu grupo.” Eles eram os representantes do próprio Mensageiro de Allah (s.a.). Com sua nomeação, o trabalho de construir uma sociedade organizada começou de maneira sistemática.
Quando a notícia chegou aos ouvidos dos coraixitas, eles começaram a bater no peito de desespero. Enquanto isso, a delegação já havia deixado Meca. Enviaram pessoas para procurá-la. Sa‘d ibn Ubada e Munadhir ibn Amr foram capturados e levados até eles. Eles descarregaram neles toda a sua raiva. Mas que proveito isso poderia trazer? (Sira de Ibn Hisham, volume 2)
Uma nova onda do movimento em Medina
Quando essa delegação retornou a Medina com novo vigor e entusiasmo, o trabalho de da‘wah começou abertamente e em grande escala. Quando os jovens entram em campo como pioneiros de uma mudança, a população idosa não consegue resistir por muito tempo ao seu confronto. Para compreender como será o futuro de um movimento, é preciso saber se ele depende da população mais velha ou se o sangue dos jovens corre em suas veias. Em Meca e, sobretudo, em Medina, quase todos os que avançaram à frente, carregando a bandeira do movimento islâmico, estavam na juventude. Para dar uma ideia de tudo o que essa jovem geração fez para levar adiante o movimento islâmico, parece necessário mencionar um episódio interessante.
Na tribo dos Banu Salama havia um ancião chamado Amr ibn al-Jamuh. Ele havia trazido para sua casa e ali guardado uma estátua de madeira chamada Manat. O velho a adorava e passava o tempo todo limpando-a e espanando-a. Dois jovens dos Banu Salama, Muadh ibn Jabal e Muadh ibn Amr, haviam aceitado o Islã e se tornado membros do movimento islâmico. Este último era justamente filho do velho mencionado. Todas as noites, os dois se levantavam na escuridão, primeiro faziam a estátua do velho rolar na lama e, depois, deixavam-na de cabeça para baixo no buraco onde o povo dos Banu Salama jogava todo tipo de dejeto. Pela manhã, o velho gritava: “Quem mexeu no meu deus durante a noite?” Então saía à procura de seu deus perdido. Depois de encontrá-lo, lavava-o, limpava-o e colocava-o novamente em seu lugar. Na noite seguinte, o mesmo acontecia outra vez. O velho voltava a gritar. Certo dia, irritado, o velho Amr pendurou sua própria espada no pescoço da estátua. Disse-lhe: “Por Allah, não sei quem faz isso contigo. Se tens sequer um pouco de poder, então aqui está a espada que deixei contigo; tenta defender-te.” Chegou a noite. Amr adormeceu. Os dois protagonistas daquela encenação vieram durante a noite. Retiraram a espada do pescoço da estátua. Depois, encontraram um cão morto, amarraram-no com uma corda ao pescoço da estátua e a jogaram num poço fechado que permanecia cheio de excrementos humanos. Pela manhã, Amr levantou-se e viu que seu deus havia desaparecido novamente. Depois de procurá-lo e ver em que estado deplorável ele se encontrava, sofreu uma profunda transformação interior e aceitou o Islã. Isso mostra a mudança radical que havia ocorrido em Medina.
O novo centro do movimento
O líder do movimento islâmico sempre se perguntava: se o movimento não conseguisse se firmar em Meca e a liderança cruel de Meca não estivesse disposta a permitir a construção de um “novo mundo”, em que outra região da Terra se poderia concentrar todas as forças para iniciar esse trabalho construtivo? Seu primeiro olhar voltou-se para a Abissínia, e foi por isso que enviou seus companheiros para lá. Embora o rei Najashi tenha feito tudo o que estava ao seu alcance para ajudar os oprimidos de Meca, os muçulmanos não deixaram de perceber o papel vergonhoso desempenhado pelos sacerdotes cristãos naquele lugar. Sob a influência abrangente deles, não era fácil promover o desenvolvimento do Islã ali. Além disso, seria necessário iniciar do zero o trabalho de pregação entre os habitantes locais. E, ao realizar essa tarefa em terra estrangeira, seria preciso enfrentar diversos obstáculos difíceis de superar. Por isso, procurava-se outro território. Quando Medina respondeu abertamente ao convite para o Islã, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, viu uma luz de esperança. O primeiro juramento de fidelidade de Aqaba fortaleceu ainda mais essa esperança. Depois, após Hazrat Mus’ab ibn Umair permanecer ali e trabalhar por algum tempo, no relatório que apresentou durante a peregrinação, às vésperas do segundo juramento de fidelidade de Aqaba, ele forneceu detalhes sobre os muçulmanos de Medina, informou sobre sua força e capacidade e deu a boa notícia de que naquele ano um grande número de muçulmanos viria para a peregrinação. Esse relatório estimulava profundamente o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, a refletir. O rápido crescimento da força e do número de muçulmanos em Medina era muito promissor. Ali, eles não enfrentavam uma oposição tão grave por parte dos judeus quanto enfrentavam em Meca por parte dos coraixitas. Os habitantes de Iasrib estavam muito preocupados com os companheiros que permaneciam em Meca. Os habitantes de Iasrib tinham muitas vantagens: possuíam campos, plantações e jardins. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, pensava: não seria melhor que os muçulmanos de Meca se mudassem para Medina, se libertassem da opressão dos coraixitas e cumprissem as exigências do Islã? Por isso, expôs essa sua ideia aos membros da delegação que tinham vindo para a peregrinação, e o juramento de fidelidade que foi realizado posteriormente ocorreu precisamente tendo esse contexto como base. (Hayat-e Muhammad, Muhammad Husain Haykal)
Desde o retorno da Abissínia, um ou dois muçulmanos de cada vez iam para Medina com a permissão do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Contudo, depois do segundo juramento de fidelidade de Aqaba, o ritmo se acelerou, e ficou praticamente decidido que Medina seria o destino da segunda Hégira.
Os chefes de Meca percebiam que o movimento islâmico havia estabelecido uma nova base sólida. Aos olhos deles, o futuro parecia extremamente ameaçador. Compreendiam muito bem que, se o Islã fincasse raízes em Medina, transformar-se-ia, fora do alcance deles, numa força invencível. Então, um dia, essa força os atacaria e cobraria deles, centavo por centavo, vingança por seus atos passados. Também temiam que, como a rota comercial para a Síria passava por Medina, o novo centro islâmico em Medina pudesse bloquear esse caminho. Assim, ocorreria a ruína econômica e comercial dos coraixitas de Meca. Interiormente, estavam ficando desorientados por um profundo pânico e ansiedade. Não conseguiam entender o que fazer. Dia e noite permaneciam absorvidos pela preocupação de que Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e todo o seu grupo não lhes escapassem das mãos. Foi por causa dessa preocupação que, por fim, tramaram assassinar o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Uma força histórica havia surgido de sua própria casa e era mais deles do que de qualquer outra pessoa no mundo. Por suas próprias más ações, transformaram essa força em algo “alheio” e eles mesmos se tornaram seus inimigos. Assim, quanto mais ela se fortalecia, mais se convertia, para eles, numa ameaça mortal.
Por isso, quando o primeiro emigrante partiu para Medina, os habitantes de Meca o maltrataram. Esse homem era Abu Salama Abdullah ibn Abd al-Asad al-Makhzumi. Ele estava partindo com a esposa e os filhos montados num camelo quando, naquele exato momento, os homens da tribo paterna de sua esposa, Banu Mughira, correram apressadamente até ali e arrancaram das mãos de Abu Salama as rédeas do camelo de sua esposa, Umm Salama. Disseram: “Não podemos deixar nossa filha Umm Salama tornar-se uma errante com você.” Diante desse incidente carregado de emoção, os membros da tribo de Abu Salama ficaram furiosos. Disseram aos Banu Mughira: “Se vocês tomarem a esposa do nosso homem, não permitiremos que nosso filho permaneça no colo dela.” Como resultado, o marido, a esposa e o filho ficaram separados uns dos outros. Abu Salama partiu para Medina nessa situação. Todas as manhãs, Umm Salama ia até aquele lugar nos arredores da cidade e chorava, lamentando-se. Depois de quase um ano, a compaixão surgiu no coração de certo homem, que persuadiu os Banu Mughira e enviou Umm Salama para Medina, montada num camelo com seu filho pequeno. A mulher partiu sozinha. Pela graça de Allah, aconteceu de ela encontrar Usman ibn Talha no caminho, e ele a acompanhou até os arredores de Medina.
Em outras palavras, depois da amarga experiência da Hégira para a Abissínia, a política dos habitantes de Meca passou a ser não permitir que os muçulmanos lhes escapassem das mãos. Se alguém quisesse emigrar, sua tribo, sua família e seus parentes permaneceriam como reféns nas mãos dos habitantes de Meca. No início, essa política era um pouco branda, mas foi se tornando cada vez mais rigorosa. Assim, os que emigraram tardiamente — Hazrat Umar, Ayyash ibn Abi Rabi’a e Hisham ibn As ibn Wa’il — tiveram de partir tão secretamente que permaneciam apreensivos, temendo ser presos a qualquer momento. Hazrat Umar e Ayyash conseguiram fugir rapidamente, de algum modo. Mas Hisham foi capturado e submetido a torturas. Hazrat Umar e Ayyash chegaram em segurança a Medina. Contudo, um grupo de conspiradores partiu de Meca em seu encalço. Seus membros eram Abu Jahl ibn Hisham e Harith ibn Hisham. Os dois foram encontrar Ayyash e disseram: “Sua mãe está à beira da morte. Ela jurou que não penteará os cabelos nem ficará à sombra até ver seu rosto.” Seus companheiros aconselharam Ayyash insistentemente: “Isso é apenas uma artimanha. Se você cair uma vez na armadilha da astúcia dos habitantes de Meca, eles o obrigarão a abandonar o Islã.” O rico Ayyash também caiu na tentação de voltar para buscar parte de seus bens. Ao saber desse desejo, Hazrat Umar disse: “Sou mais rico do que você, e darei a você metade dos meus bens. Não vá com eles.” Mas Ayyash não deu ouvidos. Hazrat Umar disse: “Se você realmente quiser ir, leve minha veloz camela; onde quer que sinta algum perigo, fuja montado nela e volte.” Porém, os conspiradores de Meca tramaram de tal modo que nem mesmo foi possível a Ayyash conduzir a camela por outro caminho e escapar. Amarraram-no firmemente. Ao chegarem a Meca, disseram aos demais: “Tratem todos aqueles entre vocês que quiserem emigrar da mesma maneira que nós tratamos este homem.”
Mais tarde, Hazrat Umar (r.a.) escreveu pessoalmente uma carta a Hisham ibn al-As. Nessa carta, citou o famoso versículo: “Ó Meus servos que transgredistes contra vós mesmos, não desespereis da misericórdia de Allah”. Hisham leu a carta num lugar chamado ‘Mituwa’, próximo de Meca, e refletiu repetidamente sobre ela. Quando compreendeu que a mensagem se referia especificamente a ele, partiu imediatamente montado num camelo. Contudo, o relato mais autêntico é que, certo dia, após o Mensageiro (s.a.w.) ter emigrado para Medina, surgiu em sua assembleia uma discussão sobre aqueles dois prisioneiros. O Mensageiro (s.a.w.) disse: “Quem me ajudará a libertar Ayyash ibn Abi Rabi‘ah e Hisham ibn As?” Walid ibn al-Mughira declarou estar pronto. Por ordem do Mensageiro (s.a.w.), Walid partiu para Meca. Aproximando-se furtivamente da área habitada, viu uma mulher levando comida. Perguntou-lhe: “Onde estás indo?” Ela respondeu: “Há dois prisioneiros aqui. Estou indo levar-lhes comida.” Walid começou a segui-la. Os dois estavam presos numa sala sem teto. Quando anoiteceu, ele pulou o muro e chegou até eles. Então colocou uma pedra sob as correntes e cortou-as com a espada. Depois, levou os dois para fora, colocou-os sobre camelos, e todos fugiram juntos.
A maioria dos muhajirs que conseguiram chegar a Medina teve todos os seus bens e recursos deixados pelos habitantes de Meca.
Apesar de a hijra ter sido uma empreitada tão dolorosa, homens e mulheres, sem distinção, continuaram a abandonar sem hesitação a sua terra natal para cumprir o dever religioso. Não há comparação para esta realização extraordinária do movimento islâmico: a inspiração islâmica despertou intensamente até as mulheres analfabetas da sociedade árabe incivilizada de centenas de anos atrás.
Ao impedir a partida dos muhajirs, os coraixitas demonstravam uma atitude de extrema intolerância. Em contrapartida, aquele com quem negociavam mostrava-se elevado como uma montanha e generoso e magnânimo como o mar. Era a personificação da paciência, da tolerância, da dignidade e da serenidade. Por isso, permaneceu firme no centro da da‘wah. Era seu dever provar que permaneceria empenhado em cumprir sua responsabilidade de todas as formas até o último momento. Continuava cumprindo pacientemente sua missão até que a vontade de Allah contra os habitantes de Meca se concretizasse plenamente. Era como o ousado capitão de um navio que afunda, obrigado a abandonar o navio por último, somente depois de transferir com segurança todos os tripulantes e passageiros para outra embarcação.
Somente quando já não restava ninguém, exceto aqueles que os coraixitas haviam mantido presos à força ou os que não puderam partir por algum interesse ou benefício especial, foi que ele recebeu de Allah, o Altíssimo, a permissão para fazer a hijra. Abandonou Meca somente quando os habitantes da cidade não estavam dispostos a vê-lo vivo. Quando se aproximou o momento de sua partida, saiu destemida e seguramente por entre um cerco de espadas sedentas de sangue.
Medina: momentos de espera
À medida que aumentava o número de muhajirs, a animação de Medina crescia. O esplendor da da‘wah islâmica espalhava-se por todos os lados. Com a expansão do Islam, cresciam cada vez mais o amor e a atração pelo Mensageiro do Islam. Sobretudo após o segundo juramento de ‘Aqabah, os habitantes de Medina permaneciam a cada instante olhando na direção da estrada de Meca. Era como um campo repleto de plantações esperando a chegada das nuvens para que chovesse. Era como se todos os materiais de construção estivessem empilhados, esperando que o construtor do edifício da humanidade chegasse e começasse a obra com eles.
A notícia também se espalhou por Medina, levada pelo vento, de que Muhammad (s.a.w.) havia partido de Meca e avançava pelo caminho da hijra. Ao ouvir essa notícia, naturalmente a curiosidade atingiu o auge em Medina, e os momentos de espera tornaram-se insuportáveis.
Até mesmo da boca das criancinhas repetia-se constantemente: “O Mensageiro de Allah, que a paz esteja sobre ele, está chegando; o Mensageiro de Allah, que a paz esteja sobre ele, está chegando.” Todas as manhãs, as pessoas saíam de suas casas, reuniam-se nos arredores da cidade e aguardavam. Quando o sol do verão chegava ao alto do céu e o calor se tornava insuportável, retornavam para casa lamentando. No dia em que o Mensageiro de Allah, que a paz esteja sobre ele, finalmente chegou, as pessoas, como de costume, haviam se reunido e começavam a voltar para suas casas. De repente, um judeu, ao avistá-lo do alto de uma fortaleza, anunciou a boa-nova: “Ó habitantes de Yathrib, eis que chegou aquele grande homem por quem estais esperando!” E então a cidade inteira irrompeu em brados de “Allahu Akbar”. As pessoas correram apressadamente. A maioria dos Ansar saiu armada.
Ele estabeleceu sua primeira residência em Quba, um povoado nos arredores situado a três milhas de Medina. A família de Amr ibn Awf recebeu-o com alegria, e foi essa família que teve a honra de hospedá-lo. Na realidade, aquela casa era uma base central do movimento islâmico. Para a maioria dos emigrantes, ela também se tornou a primeira parada. Alguns companheiros emigrantes ainda permaneciam ali. Ali também se juntou ao seu amado líder e à caravana, depois de entregar os depósitos que lhe haviam sido confiados. Ele permaneceu ali por catorze dias. As pessoas continuavam vindo em grupos para visitá-lo. Seu desejo de ver com os próprios olhos aquele cuja mensagem já haviam aceitado de todo o coração não tinha limites. Todos se reuniam na esperança de contemplar seu rosto, ouvir suas doces palavras e receber sua súplica. Nada era deixado de lado: as saudações, as visitas, as conversas, as súplicas e as reuniões.
Em Quba, o Mensageiro de Allah, que a paz esteja sobre ele, lançou com as próprias mãos os alicerces de uma mesquita. Todo muçulmano participou de sua construção. A maior personalidade da história da humanidade começou a carregar grandes pedras como um trabalhador comum. Enquanto trabalhavam, também cantavam:
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“Verdadeiramente bem-sucedidos são os que constroem mesquitas, recitam o Alcorão e passam a noite em vigília para adorar.”
Essa mesquita não era apenas um conjunto de tijolos, pedras e outros materiais; pelo contrário, todos, desde o Profeta, que a paz esteja sobre ele, até o muçulmano comum, demonstraram o mais elevado entusiasmo. É por isso que o Alcorão disse a respeito dessa mesquita:
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“É uma mesquita cujos alicerces foram estabelecidos sobre a piedade.”
O Mensageiro (S.A.) chegou a Quba numa quinta-feira, no dia 8 de Rabi al-Awwal do décimo primeiro ano da missão profética. Quatorze dias depois, partiu com toda a sua comitiva para Medina. Desde Quba até Medina, os Ansar permaneciam enfileirados dos dois lados do caminho para lhe dar as boas-vindas. Os parentes maternos do Mensageiro, especialmente, posicionaram-se armados. As mulheres se reuniram nos telhados e começaram a entoar cânticos de boas-vindas:
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As criancinhas andavam em grupos, tocando tambores e cantando:
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Em resposta ao amor daquelas crianças, o Mensageiro (S.A.) demonstrou-lhes especial carinho. Conversou com elas e perguntou: “Vocês me querem?” Elas responderam: “Sim!” O Mensageiro (S.A.) disse: “Eu também quero vocês.” (Sīrat an-Nabī)
Quando esse momento histórico coube à sorte de Medina, imagine por um instante que agitação deve ter surgido ali! Pense um pouco na cena que se desenrolou em suas vielas e no sentimento e na comoção que se espalharam pelo ar!
A sorte da casa de Abu Ayyub al-Ansari, escolhida como residência temporária, brilhou intensamente. O Mensageiro (S.A.) permaneceu ali durante sete meses.
Obras de desenvolvimento e construção
Depois de desfrutar de algum descanso e recuperar-se do cansaço da viagem, o Mensageiro (que a paz esteja com ele) iniciou as obras de desenvolvimento e construção. A primeira obra iniciada foi a construção da mesquita. Foi comprado um terreno abandonado pertencente a duas crianças órfãs, e o próprio Hazrat Abu Aiube pagou o seu valor. Nesse terreno foram lançados os alicerces da Mesquita do Profeta. A mesquita não tinha importância apenas como local de oração; ela foi estabelecida como o centro e a fonte do Estado e da civilização islâmicos. A Mesquita do Profeta estava sendo construída simultaneamente como sede do governo, sala de consultas, residência oficial para hóspedes do governo, biblioteca pública e centro nacional de conferências. Também nessa obra de construção houve uma mobilização semelhante à de Quba. Poderia existir algum muçulmano que não participasse dela de todo o coração? O próprio Mensageiro (que a paz esteja com ele) carregava pedras e barro. Ao ver essa cena, um companheiro, tomado pela emoção, exclamou: “Se o Profeta de Allah se dedica a esta obra dessa maneira, enquanto nós ficamos sentados apenas observando, todas as nossas boas ações serão anuladas.”
Em meio à azáfama do trabalho, não havia espaço para conversas fúteis. Pelo contrário, todos, incluindo o Mensageiro (que a paz esteja com ele), entoavam juntos:
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“A felicidade da outra vida é a verdadeira felicidade. Caso contrário, a vida é sem sentido. Ó Allah, concede a Tua graça aos Ansar e aos Muhajirun.” (Sira de Ibn Hisham, volume 2)
Essa inspiração e essa súplica eram os verdadeiros materiais usados na construção da Mesquita do Profeta. Junto à mesquita, também foi construída para o Mensageiro (que a paz esteja com ele) uma pequena habitação feita de ramos e barro. Ele começou a morar nessa habitação.
Com a chegada do Mensageiro (que a paz esteja com ele) a Medina, a pregação começou a se expandir espontaneamente. Durante esses sete meses, o movimento islâmico já havia conquistado companheiros dedicados em cada lar e em cada tribo. Restava apenas a escuridão do politeísmo nas famílias de Khatma, Waqif, Wa’il e Umayya, da tribo de Aws. (Sira de Ibn Hisham, volume 2)
Expandir o trabalho de pregação era a mais importante obra construtiva. O Mensageiro (que a paz esteja com ele) naturalmente também fazia a pregação individualmente. Mas o sermão com que iniciou a pregação coletiva foi o seguinte:
“Ó gente, adquiri a tempo algo para vós mesmos. Sabei que todos vós um dia tereis de morrer. Cada um deixará os seus familiares de tal maneira que eles não terão nenhuma queixa. Então será dirigido a ele um discurso da parte do seu Senhor, sem nenhum intérprete entre eles. Ser-lhe-á perguntado: ‘Não chegou até ti o Meu Mensageiro? E o Mensageiro não te transmitiu a Minha mensagem? Não te concedi riquezas e favores? Então, o que acumulaste para ti?’ Depois, olhará para a direita e para a esquerda, mas não verá nada. Em seguida, olhará para a frente, mas nada verá além do Inferno. Portanto, quem puder, que tente salvar-se do fogo do Inferno, ainda que em troca de uma tâmara. E quem não puder sequer isso, que se proteja, ainda que com uma boa palavra. Pois a recompensa das boas ações é de dez até setecentas vezes. Que a segurança, a misericórdia e as bênçãos de Allah desçam sobre vós.”
(Sira de Ibn Hisham, volume 2)
Eis outro sermão coletivo
“Todos os louvores pertencem a Allah. Louvo somente a Ele e peço auxílio somente a Ele. Buscamos todos a proteção de Allah contra o mal de nossas paixões e contra as más consequências de nossas ações. Aquele a quem Allah guia, ninguém pode desviar; e aquele a quem Ele priva da orientação, não terá guia algum. Testemunho que não há ninguém digno de adoração e obediência além de Allah, Único e sem associados. Sem dúvida, o Livro de Allah é a melhor palavra. Aquele em cujo coração Allah tornou o Alcorão amado, a quem conduziu ao Islam depois da incredulidade e que prefere o Alcorão a todas as demais palavras criadas pelos seres humanos será bem-sucedido. Esta é a melhor e mais influente palavra. Amareis somente aquilo que Allah ama e amareis Allah sinceramente. Não sejais negligentes na causa de Allah, nem permitais que, por isso, vosso coração se torne endurecido. Como Allah escolhe as melhores coisas de Sua criação, Ele distinguiu as melhores ações, os melhores servos e as palavras mais puras. Daquilo que Ele concedeu aos seres humanos, algumas coisas são halal e outras são haram. Portanto, adotai a servidão a Allah e não associeis ninguém a Ele. Protegei-vos de Sua ira da maneira como se deve fazê-lo. Transformai em ações, diante de Allah, todas as boas palavras que proferis com vossa boca. Estabelecei entre vós relações de amor por meio da misericórdia de Allah. Certamente, Allah Se ira quando alguém rompe a promessa feita a Ele. Que a paz esteja sobre vós.” (Sira de Ibn Hisham, volume 2)
O relato de seu sermão encontrado em diferentes narrações é muito breve. Os sermões do Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, geralmente eram breves. Mas observem quantas mensagens de alcance tão amplo foram incluídas nele. Pode-se dizer que todos os problemas foram abordados. Nele há também o convite ao Islam, a ênfase nos ensinamentos do Alcorão, a exortação a distinguir entre o halal e o haram e o ensinamento para estabelecer uma fraternidade baseada em princípios ideais.
Ao observar esses dois sermões, compreende-se como era feito o convite coletivo. Por um lado, as pessoas eram chamadas aos princípios fundamentais. Por outro, à luz desses mesmos princípios, a sociedade recebia orientação para resolver diversos problemas.
Estabelecimento das bases do Estado Islâmico
A terceira medida, e possivelmente a maior realização no aspecto político, foi estabelecer um consenso entre os judeus, os politeístas e os muçulmanos de Medina para a administração do Estado. Com o objetivo de estabelecer uma sociedade de caráter político, foi elaborado um acordo escrito, semelhante a uma constituição escrita. Com razão, ele é chamado de a primeira constituição escrita do mundo. Não quero discutir aqui os artigos dessa constituição; apresentarei, contudo, um resumo de algumas de suas partes importantes. Por meio desse acordo constitucional escrito, o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, alcançou o seguinte:
– Na sociedade recém-formada de Medina, a soberania de Allah e Sua lei adquiriram importância como fundamento principal.
– O poder e a autoridade supremos nos âmbitos político, jurídico e judiciário passaram às mãos de Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele).
– Por meio deste pacto constitucional, o Estado Islâmico foi estabelecido legal e formalmente, e teve início o processo de implementação do sistema de vida islâmico. [Quem se lança ao campo com um objetivo definido sempre pensa, antes de tudo, em estabelecer seu próprio Estado. Vejam quão desprovida de recursos materiais externos e de apoio era a organização islâmica na Arábia. Além disso, observem a situação afligida por problemas de algumas pessoas que chegaram a Medina, um ambiente desconhecido e estranho, sem casa nem terras. Depois, notem com que rapidez o Estado Islâmico foi estabelecido. Como sua Constituição entrou em vigor em apenas alguns meses. Unir tão rapidamente, sob uma única organização, povos mutuamente divergentes em termos religiosos e étnicos foi realmente um acontecimento extremamente extraordinário na história.]
Considerando a complexidade da situação daquela época, pode-se compreender que isso foi uma realização extraordinária. Por trás dela, vê-se atuando uma incomparável sabedoria política e habilidade de negociação. Por meio deste pacto constitucional, de outros pactos e das transações, aprendemos que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) não era simplesmente um dervixe sufista; ao contrário, possuía habilidade especializada e discernimento para administrar e executar com excelência os assuntos coletivos, estando plenamente qualificado para cumprir todas essas responsabilidades.
O sistema de fraternidade
Naquela época, um dos grandes problemas da sociedade de Medina era o reassentamento dos emigrantes. As pessoas abandonavam suas casas, uma após outra, e tornara-se necessário acomodá-las naquela cidade de porte médio, que contava com apenas alguns milhares de habitantes. Na verdade, esse é um problema que, sempre que surge na história, acaba sendo extremamente embaraçoso. Não há paralelo na história do mundo para a competência, o discernimento e a inteligência com que a sociedade de Medina e seu governante resolveram esse problema. Nenhum decreto foi promulgado, nenhuma lei foi imposta, não foi necessário distribuir oficialmente terras ou outros recursos, não foram impostas restrições mediante a fixação de um número de refugiados e não se recorreu à força. Por meio de um simples apelo moral, um problema tão complexo foi resolvido em apenas alguns dias. O Profeta da humanidade (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) estabeleceu, na prática, uma nova fraternidade verdadeira, baseada na fé, nos ideais e nos objetivos, e criou uma relação fraternal entre cada ansari e um emigrante. Cada ansari dividia ao meio seus recursos, casas, jardins e terras agrícolas, entregando sua parte ao companheiro de ideais. Alguns chegaram a estar dispostos a divorciar-se de uma de suas várias esposas para casá-la com seu irmão na fé. Por outro lado, os emigrantes demonstraram tamanha dignidade que diziam: “Mostrem-nos as terras agrícolas ou o mercado; poderemos obter nosso sustento comerciando ou trabalhando.”
Os emigrantes solteiros, especialmente os jovens, que desejavam dedicar-se à aquisição do conhecimento islâmico em vez de constituir uma família, residiam na “Suffa”, isto é, em uma área da Mesquita do Profeta. Ela se tornou uma importante instituição para o trabalho de formação. A sociedade islâmica era responsável pelos companheiros que viviam na Suffa. O próprio Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) permanecia atento e ativo para atender às suas necessidades.
Novamente, o conflito e o confronto
Não pretendo mencionar aqui todos os acontecimentos sucessivos da história do Islã e da vida do Profeta (sira). Desejei apenas mostrar, resumidamente, como a geração do movimento islâmico chegou de Meca a Medina e começou a dar origem a uma nova geração. Como era o ambiente e que tipo de novas atividades começaram nesse ambiente com a chegada de uma força atuante. Como os soldados da verdade avançaram para despertar uma sociedade adormecida e desempenharam um papel eficaz e positivo na formação de seu caráter. De acordo com a lei histórica, era inevitável que, assim que um papel positivo viesse à tona, surgisse também algum papel negativo. Ao lado das atividades construtivas, a ativação de uma força destrutiva era um desdobramento inevitável da lei natural. Quando a verdade se torna ativa no campo, é inevitável que a falsidade também comece a agir em seu próprio campo. O surgimento do vilão ao lado do herói torna-se inevitável. Ao ver a nova sociedade que estava sendo estabelecida em Medina, Satanás sentia uma terrível agitação e desconforto. Queria lançar ao campo alguns de seus seguidores mais devotados. E encontrou os vilões, trazendo-os ao palco. Em Meca, o movimento islâmico havia caído nas mãos dos pretensos seguidores de Abraão; em Medina, deparou-se com conspiradores que vestiam o sagrado manto de Moisés. Assim como os guardiões da Caaba Sagrada haviam tratado o movimento islâmico, também os seguidores de Bayt al-Maqdis começaram a tratá-lo da mesma maneira.
A posição e o papel histórico dos judeus
É um acontecimento trágico na história do Islã e da jahiliyyah que, ao longo dos tempos, foram precisamente os círculos religiosos que, com o máximo fervor e entusiasmo da fé, se empenharam em resistir aos esforços para estabelecer o Islã. Onde os círculos religiosos deveriam ter respondido ao primeiro chamado da verdadeira religião e tomado lugar na primeira fileira, salvo algumas exceções, foram eles mesmos que primeiro o rejeitaram. Inicialmente, os círculos religiosos são servidores e porta-estandartes da religião. Porém, gradualmente, quando passam a ocupar posições de prestígio e alguns interesses seus ficam vinculados à religião, fazem da religião sua subordinada e, pouco a pouco, estabelecem em nome dela certos direitos permanentes para si mesmos. Obrigam as massas devotas a aceitar algumas de suas reivindicações de classe e, como consequência, reservam para si certas recompensas especiais e honrosas. Na época do declínio moral de seus seguidores, a religião sempre atravessa todas essas etapas. Chegando a esse ponto, ela se transforma num negócio extraordinariamente lucrativo e assume a forma de propriedade imóvel transmissível por herança. Nessa fase, a pregação e a exortação tornam-se mercadorias comerciais, o conhecimento religioso transforma-se em meio de subsistência, e a fatwa converte-se em produto vendável, criando seu próprio valor de mercado. O cargo religioso transforma-se numa escada para a liderança espiritual e o poder. Quando os líderes religiosos chegam a esse estágio, sua mentalidade comercial os obriga a pensar, em cada assunto, se seus interesses continuam preservados e se alguém não está tomando deles sua posição. Quando uma mentalidade mercantil, com essas características, entra no domínio da religião, começam a surgir entre eles as seguintes características:
– Não toleram opiniões divergentes da parte de ninguém e não conseguem cooperar com outros por um objetivo mais elevado.
– Não reconhecem entre si qualquer erro, equívoco ou fraqueza, nem se mostram dispostos a corrigi-los.
– Não conseguem abandonar os cargos de liderança e os tronos de influência para cumprir, sob a liderança, as instruções ou o chamado de outra pessoa, as responsabilidades que lhes forem confiadas.
A nação judaica havia chegado ao extremo de todas essas características. Jamais conseguiu aceitar que pudesse existir verdade fora dos limites de sua própria classe. Não admitia que alguém pudesse ser guiado pelo caminho reto sem seguir sua autoridade, nem que o cargo de liderança pudesse caber a qualquer outro além deles.
Tanto os coraixitas de Meca quanto os judeus de Medina se opuseram. Nenhum dos dois grupos deixou de se opor de alguma forma. Contudo, há uma enorme diferença entre os papéis que desempenharam na oposição. Ao comparar suas atitudes, vemos que a verdadeira força motriz por trás da oposição dos coraixitas era a presunção e a arrogância. Já a mente dos judeus estava dominada pela vingança, pelo ódio e pela inveja. Os coraixitas sofriam da doença do orgulho de sua nobreza e superioridade, enquanto os judeus sofriam do mal do complexo de inferioridade. Por isso, entre os coraixitas havia uma atitude de rejeição aberta e confronto, ao passo que, na oposição dos judeus, predominavam a conspiração ardilosa e a fraude. Entre os coraixitas havia uma arrogância heroica, enquanto no caráter dos judeus havia uma mesquinhez covarde. Onde a oposição dos coraixitas era diretamente agressiva, os judeus se destacavam por conluios secretos, intrigas, duplicidade e hipocrisia. Em Meca havia apenas duas comunidades: muçulmanos e incrédulos. Mas em Medina surgiu também uma terceira força, a dos hipócritas, entre essas duas forças, muçulmanos e incrédulos. Esta análise deixou claro quão vil e mesquinho pode ser o caráter da religiosidade hipócrita e da devoção religiosa deformada, ainda mais baixo que o da descrença, do shirk e da jahiliyyah abertos e extremados, e quão mais abominável é o papel que desempenha na oposição à verdade e à justiça.
Vemos também que, nesse conflito entre a descrença e a religiosidade, a religiosidade deformada e interesseira dos judeus ofereceu apoio e cooperação integrais às forças dos incrédulos e politeístas de Meca contra o Islã. Contudo, por maiores que fossem as divergências, ela deveria ter demonstrado maior simpatia pelos porta-estandartes da adoração do Deus Único e da moralidade. No mínimo, seria razoável que os judeus mantivessem sua posição de oposição ao Islã completamente separada da dos incrédulos e politeístas. Mas, mesmo depois de ouvirem o solene chamado: “Vinde, concordemos com uma palavra comum entre nós e vós”, decidiram abandonar os pensamentos e as ações religiosas puras do melhor dos seres humanos, Muhammad, e de seus companheiros, para se tornarem aliados de pessoas vis como Abu Jahl e Abu Lahab. Outro papel histórico e eterno da religiosidade hipócrita e da devoção religiosa deformada é que ela jamais está disposta, em nenhuma circunstância, a apoiar o lado religioso, nem mesmo no campo de batalha. Ao contrário, inevitavelmente se coloca ao lado dos inimigos da religião. Torna-se aliada da descrença, do ateísmo e dos pecadores. Não estou tratando aqui de alguns indivíduos excepcionais. Mesmo nos períodos de maior deformação, algum tipo de exceção pode ser encontrado em qualquer grupo. Estamos discutindo apenas a questão geral como princípio.
Essa era a deplorável posição dos judeus. Eles saíam de suas bases secretas empunhando todas as armas do conhecimento e das práticas religiosas; dirigiam-se à frente subversiva e negativa, apontavam suas armas para o Islã e ficavam à espreita, oferecendo, na prática, todo tipo de apoio aos incrédulos e politeístas. Derramavam insultos obscenos e palavras ofensivas contra o Mensageiro (S.A.) e os Companheiros que eram os líderes e trabalhadores do movimento islâmico; zombavam e escarneciam, e os atormentavam levantando perguntas novas o tempo todo. Promoviam uma onda de calúnias e propaganda enganosa e realizavam espionagem. Às vezes, tentavam provocar conflitos e confrontos mútuos entre os muçulmanos, emitiam veredictos declarando-os incrédulos e pecadores, conspiravam para assassinar o Mensageiro (S.A.) e cometiam traições terríveis em tempos de guerra e de crise. Não deixaram de fazer nada que estivesse ao seu alcance para prejudicar o Islã. Contudo, do início ao fim, permaneceram dominados por uma concepção gravemente equivocada. Pessoas de natureza negativa, envolvidas em atividades subversivas, sempre caem nesse tipo de equívoco. (Mas as gerações posteriores também não aprendem com isso.) Seu equívoco era acreditar que aqueles que não respeitam nenhum princípio ou ideal, não possuem nenhum programa construtivo e descem ao nível mais baixo da degradação moral podem impedir qualquer movimento idealista e construtivo. Na realidade, o papel deles se assemelha ao dos morcegos que, por odiarem os raios do sol nascente, batem as asas no vazio numa tentativa inútil de criar uma escuridão artificial; ao de algumas moscas e mosquitos que zumbem para tentar deter o avanço de um exército armado; ou ao de algum teimoso que, ao ver a lua cheia, cospe em sua direção.
Aqueles que não possuem valor próprio, que não têm nenhum ideal vivo, cujo caráter e comportamento não oferecem nenhum modelo para a sociedade humana contemporânea e de quem a humanidade não pode esperar qualquer serviço construtivo, não conseguem alcançar nenhum sucesso duradouro para si mesmos simplesmente impedindo o avanço dos outros. Aqueles que não dispõem de nenhum recurso além da estagnação, da inatividade, do fanatismo, da perversão e da subversão podem criar obstáculos no caminho de um grupo dinâmico empenhado em um trabalho reformador e construtivo, mas, de qualquer modo, não conseguem criar em si mesmos nenhum valor ou dignidade. No fim, pessoas desse tipo nada obtêm além do fracasso e da humilhação. Mas, quando uma comunidade mentalmente perturbada é arrastada pela corrente de reações emocionais e perde o poder de discernimento, deixa de pensar nas consequências. Continua simplesmente avançando. A comunidade judaica perturbada também, cega pelo complexo de inferioridade e pelo rancor, envolveu-se em conflito com o Islã.
Uma análise comparativa do caráter dos muçulmanos de Medina e do caráter dos judeus também permite compreender que, na mesma medida em que se eleva o caráter daqueles que respondem ao chamado dos porta-estandartes da verdade e da justiça, ocorre a degradação do caráter daqueles que se opõem a eles. Na medida em que um movimento positivo embeleza a humanidade, uma reação negativa procura igualmente deformá-la e destruí-la.
Diante do dirigente da sociedade islâmica havia, por um lado, um plano construtivo extremamente amplo e de longo alcance. Por outro lado, havia o problema de reassentar os refugiados que continuavam chegando e de oferecer-lhes assistência econômica. Além disso, havia a ameaça de ataques a todo instante por parte dos coraixitas de Meca, e era indispensável assegurar um sistema de defesa sólido para repeli-los. Sobre todos esses problemas, havia ainda outro problema gravíssimo: dentro do Estado recém-formado de Medina e da sociedade em desenvolvimento, um grande grupo de inimigos internos, conspiradores e traidores, como Vibhishana, realizava diversas atividades confusas e divisórias. É preciso refletir sobre quão delicadas e complexas devem ter sido as responsabilidades do Profeta Universal em uma situação assim. Talvez seja difícil para nós sequer imaginar quantos tipos de problemas ocupavam dia e noite aquela única mente. Talvez nem consigamos compreender, mesmo pensando longamente, em que situação extremamente angustiante se encontrava uma pequena organização islâmica e um movimento que ainda atravessava seus estágios iniciais. E a história atribuiu exclusivamente aos judeus a responsabilidade por criar todas essas complexidades. Essa responsabilidade recai, com toda justiça, sobre a própria comunidade judaica, que se considerava a legítima representante da pureza, da espiritualidade, do conhecimento de Allah e do temor a Allah, embora professasse obediência a Allah, venerasse o Profeta Ibrahim (A.S.) e o Profeta Musa (A.S.) e seguisse a Torá.
No início, os judeus estavam extremamente esperançosos em relação ao Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e ao Islã. Eles viam que os seguidores dessa religião recém-surgida estavam em conflito com os descendentes de Ismael (isto é, os coraixitas — Nota do tradutor); que também veneravam e respeitavam os profetas que os judeus veneravam; que respeitavam igualmente o Livro deles; e que haviam adotado como sua qibla, ou seja, como direção da oração, Bayt al-Maqdis. Por isso, começaram a imaginar que, gradualmente, seria possível incluir Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e seus companheiros na comunidade judaica. Os judeus não pensavam assim por uma questão de justiça e verdade; tratava-se, antes, de um cálculo puramente comercial. Pensavam que logo conseguiriam tornar obedientes a eles aqueles pobres desabrigados e desterrados. Foi com essa esperança que celebraram um acordo com os muçulmanos sem grandes discussões e aceitaram a organização política que estava sendo estabelecida em Medina. Imaginavam que esse poder político em desenvolvimento já estava no bolso deles e que sua autoridade religiosa e espiritual os cercava por todos os lados. Os judeus não tinham qualquer iniciativa, esforço ou consciência voltados para compreender a verdade e a justiça, corrigir o pensamento e o caráter ou alcançar a salvação na Outra Vida. A preocupação exclusiva com os interesses de seu grupo dominava as mentes daqueles desafortunados. Pensavam que a caça estava se reunindo à porta de suas casas em Medina. Por isso, ficaram à espreita, preparando armadilhas e redes para capturá-la. Aos seus olhos, os muçulmanos eram um cardume de peixes que flutuara do mar em direção à margem. E os pescadores judeus haviam chegado à praia com todo o equipamento necessário, aguardando para prendê-los nas redes da hipocrisia religiosa. Contudo, depois de apenas alguns dias de experiência, suas fantasias descabidas começaram a desmoronar. Os muçulmanos lhes mostraram que não eram uma caça tão fácil. Eram uma força tão sólida que o próprio caçador acabava se tornando a caça em suas mãos. Eles perceberam que, progressivamente, estava surgindo um Estado islâmico de espírito revolucionário. Esse Estado foi se tornando forte como uma fortaleza. Em poucos dias, os judeus compreenderam que o Estado cuja fundação também haviam ajudado a estabelecer por meio do pacto constitucional, longe de ser uma marionete em suas mãos, não lhes oferecia sequer espaço para inserir um dedo onde quer que fosse. Logo fracassaram completamente em seu sonho de conquistar nesse Estado uma posição de autoridade. Fracassaram repetidamente em suas tentativas de exercer influência sobre as diversas instituições e atividades do Estado. Todas as conspirações que tramaram para submeter o presidente do Estado, os demais funcionários e os cidadãos que confiavam em seus princípios foram frustradas. Pelo contrário, já na fase inicial ocorreu algo tão perturbador que os próprios homens deles começaram a se render diante dos princípios apresentados pelo Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Essa corrente revolucionária “perigosa” arrastou não apenas os judeus comuns e iletrados, mas até mesmo várias figuras de destaque. Foi então que recuperaram a consciência. Perceberam que o próspero negócio de sua espiritualidade estava prestes a falir e que suas estimadas presas estavam escapando uma a uma. Ao verem as consequências desastrosas do acordo que haviam firmado, os judeus ficaram aterrorizados. Segundo esse acordo, por um lado, eram obrigados a obedecer às leis do Estado muçulmano; por outro, haviam celebrado com os muçulmanos um pacto de aliança defensiva. E, em terceiro lugar, viam que tudo aquilo que esperavam obter ao fazer isso estava se transformando em uma miragem.
Por essa razão, uma lava de extremo ódio começou a se acumular interiormente entre eles e, de tempos em tempos, essa lava passou a ser expelida do corpo de sua sociedade. Em particular, por ocasião da mudança da qibla, a atitude vingativa da sociedade judaica se revelou de forma descarada. Primeiro, assumiu a forma de propaganda caluniosa. Depois, transformou-se em atividades subversivas. Por fim, manifestou-se sob a forma de traição. Vejamos, na era de Medina, as atividades antislâmicas surgidas como reação a essa atitude, atividades que foram suportadas pelo maior benfeitor da humanidade e seus companheiros, e das quais o Estado islâmico teve de se proteger com grande esforço.
Comportamento intolerante
À luz das grandes responsabilidades que o recém-estabelecido Estado islâmico de Medina precisava assumir, o papel dos cidadãos desse Estado era de grande importância. Em especial, a ausência de qualquer um dos trabalhadores da primeira linha era dolorosa para o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e seus companheiros. Abu Umama As’ad ibn Zurarah, encarregado de propagar o Islã junto à tribo dos Banu Najjar, era precisamente um desses trabalhadores. Contudo, ele faleceu ainda nos primeiros tempos. Assim, surgiu a falta de um soldado competente do Islã. Esse acontecimento já era, por si só, doloroso para o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Além disso, o grupo hostil ao Islã em Medina duplicou sua dor por meio de propaganda enganosa. Os judeus e os hipócritas que os serviam começaram a espalhar: “Está vendo? Se Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) fosse realmente um profeta, será que um trabalhador tão ativo seu morreria em um momento tão inoportuno?” Em outras palavras, não havia limite para sua alegria com a morte dele. O coração sensível do próprio Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), continuamente ferido pelos golpes da tristeza e das calamidades vindos de todos os lados, não pôde permanecer em silêncio diante dessa calúnia. Ele disse: “A morte de Abu Umama é uma morte terrível para os judeus e os hipócritas árabes! Eles ficam dizendo que, se Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) fosse um profeta, seu companheiro não teria morrido. No entanto, eu mesmo não posso me proteger da vontade de Allah, nem posso proteger qualquer um dos meus companheiros.” (Sira de Ibn Hisham, volume 2)
Esse pequeno acontecimento já permite compreender quanto ressentimento se acumulava no coração dos inimigos. Os membros da tribo dos Banu Najjar foram até o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e disseram: “Agora, nomeie outra pessoa responsável por nós.” Como os Banu Najjar eram parentes do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), para consolá-los ele disse: “Vocês são meus tios maternos; estou com vocês em tudo, e eu mesmo sou o responsável por vocês.”
Devido às condições com base nas quais os judeus haviam assinado o acordo, eles não conseguiam impedir o desenvolvimento e a expansão do movimento islâmico. Diante de seus olhos, pessoas comuns e figuras proeminentes se reuniam sob a bandeira do Islã. Enquanto isso, seus líderes espirituais, pires, dervixes e muftis observavam tudo como espectadores silenciosos. Por fim, o Islã começou a entrar até mesmo em suas próprias casas. Como seus próprios membros, especialmente as pessoas de prestígio, continuavam aceitando o Islã, não havia alternativa senão que a paciência dessa comunidade, dominada por uma mentalidade de comércio religioso, chegasse ao limite. Além disso, a capacidade de influência de todo movimento revolucionário é tão irresistível que, para enfrentar aqueles que tentam resistir a ele com uma atitude negativa, os jovens de suas próprias famílias acabam sendo iniciados nesse ideal revolucionário. Consequentemente, os filhos entram em conflito com os pais, as noras com as sogras, as filhas com as mães, os netos com os avôs e avós, e os escravos com seus senhores.
Quando as práticas religiosas dos anciãos são alvo do ataque interno desse novo movimento, eles perdem o controle por causa da ira. Chegando a esse estágio, sua paciência e tolerância se esgotam completamente. A história repetiu em Medina esse seu costume tradicional. Já mencionei com que força a bandeira da vitória do Islã se elevava em Medina e com que rapidez os tambores da vitória do novo ideal ressoavam de casa em casa. Ao testemunharem essa mudança inimaginável, os judeus ficaram impacientes de indignação. Sobretudo quando os chefes de diferentes tribos e pessoas célebres e influentes respondiam ao verdadeiro chamado do Islã, todo o corpo da sociedade judaica estremecia sob o efeito da inveja e do complexo de inferioridade. Por exemplo, no dia em que Abu Qays Abi Anas aceitou o Islã diante dos próprios olhos deles, provavelmente ninguém teria capacidade de expressar em palavras a agitação causada pela excitação no coração dos judeus. Ele era um ancião renomado. Ainda na época da ignorância, começara a seguir uma direção contrária à corrente predominante da sociedade. Impulsionado apenas pela sabedoria natural e pelos apelos da consciência, abandonou a idolatria, considerou obrigatório tomar banho após as relações conjugais e manteve-se afastado das esposas menstruadas. A princípio, sentiu-se atraído pelo cristianismo, mas logo parou. Construiu uma mesquita em sua própria casa e abstinha-se de entrar nela em estado de impureza. Dizia publicamente: “Adoro o Deus de Abraão (a.s.)”. Esse homem, debilitado pela velhice, era muito corajoso ao dizer a verdade. Ainda na época da ignorância, proclamava a grandeza de Allah, o Altíssimo. Expressava suas opiniões por meio da poesia. Alguns de seus poemas foram compilados em livros de história e de biografia profética. Era natural que uma pessoa tão perspicaz, honesta e respeitável fosse reconhecida como uma personalidade ilustre e proeminente na sociedade.
Não é de admirar que os judeus tenham discutido com ele e tentado atraí-lo para o seu lado. Contudo, a natureza pura e livre de distorções que havia despertado nele o desejo e o gosto pela verdadeira religião não podia ser satisfeita por ninguém além do próprio Mensageiro (s.a.w.). Quando o Mensageiro (s.a.w.) chegou a Medina, aproximou-se o momento de sua felicidade. Ele ingressou no movimento islâmico e tornou-se um verdadeiro seguidor do Islã. É possível imaginar, com algum esforço, qual deve ter sido a reação dos judeus a esse acontecimento.
No entanto, tudo o que havia acontecido até então ocorrera fora dos limites de sua própria comunidade. O verdadeiro acontecimento causador de grande agitação ocorreu quando o Islã penetrou no próprio interior da sociedade judaica. Entre esses acontecimentos, aquele que destruiu completamente o equilíbrio mental da comunidade judaica foi a transformação interior de um dos maiores teólogos. A história testemunha que, entre as personalidades de alto nível — sejam elas mundanas ou religiosas — a proporção daqueles que aceitam a verdade costuma ser muito pequena. Todavia, pessoas de caráter íntegro estão presentes em todos os círculos. Quando o sol da verdade espalha seu brilho, elas não fecham os olhos nem se escondem na câmara fechada da obstinação e da hostilidade. Pelo contrário, abrem as janelas do coração e da mente para que entrem os luminosos raios de luz. Embora muito poucos dentre as fileiras dos notáveis, eruditos e virtuosos ingressem no movimento revolucionário islâmico, aqueles que ingressam tornam-se um patrimônio de grande valor. Isso porque precisam romper as grandes correntes do interesse próprio, da posição e do prestígio para poder chegar. Na sociedade judaica, uma pessoa extraordinária desse tipo era Abdullah ibn Salam. Seu nome antes do Islã era Husayn. Ele era um erudito de alto nível e um líder religioso temente a Deus. Pertencia à tribo de Banu Qaynuqa. Depois de encontrar-se com o Mensageiro (s.a.w.), aceitou o Islã e convidou e encorajou também seus familiares a abraçá-lo. Por fim, toda a família aceitou o Islã. Ouçamos a história de sua conversão ao Islã, narrada por um de seus parentes, que a ouviu dele: “Quando ouvi pela primeira vez a notícia da chegada do Mensageiro de Allah, informei-me sobre seu nome, suas características e a data de sua chegada, pois estávamos à sua espera. Por isso, ao ouvir essa notícia, fiquei interiormente muito feliz, mas nada dizia em público. Permaneci em silêncio até que ele chegou a Medina. Quando ele chegou à povoação de Banu Amr ibn Awf, em Quba, um homem veio informar-me de sua chegada. Naquele momento, eu estava trabalhando no alto de uma palmeira, enquanto minha tia Khalida bint al-Harith estava sentada embaixo. Assim que ouvi a notícia de sua chegada, exclamei em voz alta: “Allah é o Maior!” Ao ouvir meu grito, minha tia disse: “Que Allah te destrua! Mesmo que tivesses ouvido a notícia da chegada de Moisés ibn Imran, não terias demonstrado tamanha alegria.” Eu disse: “Minha querida tia! Por Allah, ele é irmão de Moisés ibn Imran e segue a mesma religião que ele. Ele trouxe a mesma lei que Moisés ibn Imran trouxe.” Minha tia disse: “Ó meu sobrinho, este é o profeta sobre quem nos foi dito que viria antes do Dia da Ressurreição?” Eu respondi: “Sim, este é precisamente aquele profeta.” Depois, fui à presença do Profeta de Allah e aceitei o Islã. Em seguida, fui até meus familiares e também os convidei. Como resultado, todos eles aceitaram o Islã. (Sira de Ibn Hisham, volume 2)”
Como esse erudito recém-convertido ao Islam conhecia as fraquezas dos judeus e estava familiarizado com sua mentalidade hostil e seu caráter vil, também sabia qual seria a reação deles à sua conversão ao Islam. Quando grupos e facções são formados com base no egoísmo, ocorre tamanha degradação de caráter que, em vez de chamar o bom de bom e o mau de mau, chama-se o próprio mal de bem e o bem do adversário de mal. Mesmo que a vaca do próprio curral seja preta, diz-se que é branca; e, embora a vaca branca do curral alheio seja branca, diz-se que é preta. Até mesmo a vaca branca do próprio curral, assim que escapa dele, passa a ser chamada de preta. Em todas as épocas, o caráter desse tipo de gente religiosa tem sido o mesmo. Enquanto alguém permanece com eles — ou, pelo menos, enquanto não nasce a suspeita de que suas atividades possam prejudicar os interesses comerciais deles — suas qualidades são reconhecidas abertamente. Às vezes, inclusive, exageram e descrevem de modo indiscriminado a grandeza de seu conhecimento e caráter. Porém, com alguma mudança nas circunstâncias, se o papel de uma personalidade desse tipo se mostra prejudicial aos negócios religiosos de alguém, sua opinião muda imediatamente. Antes, aquele que era um erudito passa a ser chamado de ignorante. Antes, aquele que era um crente passa a ser chamado de incrédulo, pecador e muitas outras coisas. Antes, aquele que era considerado servidor da nação passa a ser chamado de desviado. Antes, aquele que era objeto de veneração e respeito passa a ser alvo de insultos. Abdullah ibn Salam conhecia todas essas baixezas e vilezas do caráter dos judeus, de natureza pervertida. Ele removeu o véu que encobria essa baixeza e vileza. Planejou mentalmente uma encenação e manteve em segredo sua conversão ao Islam. No momento oportuno, apresentou-se diante do Rasul (S.A.) e disse: “Os judeus são um povo adepto da falsidade. Para desmascarar a aparência de sua natureza perturbada, deixe-me sentado atrás de uma cortina em sua casa. Depois, mantendo-me fora da vista deles, pergunte-lhes sua opinião a meu respeito. Então verá o que pensam de mim sem saberem de minha conversão ao Islam. Se souberem que aceitei o Islam, lançarão calúnias contra mim, acusando-me e difamando-me.” O Rasul (S.A.) fez exatamente isso. Deixou Abdullah ibn Salam sentado atrás de uma cortina em sua casa. Enquanto isso, os líderes judeus chegaram, e a conversa começou. Eles fizeram várias perguntas, e estas foram respondidas. Por fim, o Rasul (S.A.) perguntou: “Que tipo de homem é Husayn ibn Salam entre vocês?” Eles responderam: “Ele é nosso chefe e filho de um chefe. É um homem nobre entre nós e um grande erudito.” Depois de o elogiarem dessa maneira, Abdullah ibn Salam saiu de trás da cortina e, dirigindo-se a eles, disse: “Ó comunidade judaica, temei a Allah e aceitai a religião que Muhammad (S.A.) trouxe. Pois, por Allah, sabeis muito bem que ele é o Mensageiro enviado por Allah. Vistes escritos na Torá o nome sagrado e as qualidades de Muhammad (S.A.). Por isso, testemunho que ele é o Mensageiro de Allah. Creio nele, reconheço-o como veraz e o admito.” Os judeus ficaram extremamente constrangidos com aquela encenação e imediatamente disseram: “És um mentiroso.” Em seguida, começaram a difamar Abdullah ibn Salam e a espalhar calúnias contra ele. Aquele que, poucos segundos antes, haviam chamado de grande homem e erudito, começaram a chamar de mentiroso. Abdullah disse ao Rasul (S.A.): “Eu não lhe havia dito que eles são uma comunidade adepta da falsidade? São corrompidos pela arrogância, pela mentira e pela má conduta.” Dessa maneira dramática, Abdullah ibn Salam anunciou a conversão de toda a sua família ao Islam. Pensem na terrível reação que esse acontecimento deve ter provocado na mente e no coração dos judeus. (Sira de Ibn Hisham, vol. 2, pp. 138–139.)
Pouco tempo depois, algo semelhante aconteceu com o famoso erudito e homem respeitado Mukhayriq, no dia da batalha de Uhud. Ele era um homem rico entre os judeus. Possuía muitos pomares de tamareiras. À luz de seu conhecimento, havia reconhecido o Rasul (S.A.) ao observar suas qualidades. Por uma coincidência, chegou o dia de Uhud, que era um sábado. Em uma reunião, ele disse: “Ó comunidade judaica, por Allah, sabeis que ajudar Muhammad (S.A.) é um dever indispensável para vós.” Ele queria dizer que, diante dos idólatras de Meca, era, em princípio, obrigatório para os judeus ajudar o grupo dos muçulmanos. A resposta dos judeus revelou o retrato repugnante de sua falsidade e de sua mentalidade perversa. Eles disseram: “Mas hoje é sábado.” Ao ouvir isso, Mukhayriq respondeu com voz ardente: “Não há sábado para vós.” Depois, tomou suas armas, foi ao campo de Uhud e juntou-se ao Rasul (S.A.). Antes de partir, despediu-se de sua família e disse: “Se eu for morto hoje, entregarei todos os meus bens ao Rasul (S.A.). Ele os gastará como considerar melhor, de acordo com a ordem de Allah.” De fato, aquele soldado abnegado morreu naquele dia. O Rasul (S.A.) recebeu todos os seus bens e os empregou. Contudo, há certa divergência quanto a saber se Mukhayriq havia aceitado o Islam.
A hipocrisia dos judeus, que manifesta uma reação oculta a esta campanha vitoriosa do movimento islâmico, torna-se clara por meio de um acontecimento interessante. A Mãe dos Crentes, a venerável Safiyya bint Huyayy ibn Akhtab, relata: “Eu era mais querida por meu pai (Huyayy, o chefe judeu) e por meu tio do que todos os outros filhos. Ambos me mantinham sempre consigo. Quando o Rasul (S.A.) chegou a Medina e passou a permanecer em Quba, meu pai Huyayy ibn Akhtab e meu tio Yasar ibn Akhtab foram encontrá-lo bem cedo. Voltaram ao pôr do sol. Pareciam muito cansados e exaustos. Caminhavam muito lentamente. Como de costume, fui sorrindo de leve ao encontro deles. Porém, devido ao cansaço, nem sequer prestaram atenção em mim. Meu tio Abu Yasar perguntou ao meu pai: ‘Então, é ele aquela pessoa (o Profeta prometido)?’ Meu pai respondeu: ‘Sim, por Allah.’ Meu tio perguntou novamente: ‘Você o reconheceu? Tem certeza?’ Meu pai respondeu: ‘Sim.’ Meu tio perguntou: ‘Qual é agora a sua atitude em relação a ele?’ Meu pai respondeu: ‘Somente inimizade. Enquanto eu estiver vivo, por Deus, continuarei sendo seu inimigo.’”
Essa era a verdadeira mentalidade dos judeus. Eles sabiam muito bem que aquele que tinha vindo até eles era um convocador à verdade e um profeta. Cada uma de suas palavras testemunhava sua veracidade. Todo o seu caráter deixava clara a sua dignidade. Seu rosto refletia os sinais de sua profecia. Eles não apenas sabiam e compreendiam isso, mas também o reconheciam verbalmente em reuniões secretas. Contudo, em vez de seguir o caminho da fé e da obediência, decidiam opor-se e tornar-se inimigos. Esse era o costume tradicional dos judeus. Quem não sabe que, quando o sol nasce, uma torrente de luz se derrama? Os seres humanos e os animais têm olhos e, por isso, podem ver essa cena. Mas até as folhas de capim, que não têm olhos, percebem que ocorreu o acontecimento que se repete todos os dias ao fim de cada noite escura. Até o calor, o aquecimento, as partículas inanimadas da terra, as gotas de água e as rajadas de vento percebem que surgiu o mensageiro da luz. O nascer do sol é um acontecimento tão revolucionário que até os morcegos e os mudos ficam sabendo dele. Mas a perversidade de sua natureza é tal que, depois que o sol nasce, os olhos de todos os outros seres vivos se abrem, enquanto os olhos das corujas e dos morcegos se fecham. Além disso, para eles, o próprio sinal do nascer do sol é terem os olhos ofuscados e fechados pelos raios solares. Ninguém pode ser tão cego a ponto de os profetas de Allah surgirem diante dele com conhecimento e caráter de nível miraculoso, sem que ele sequer perceba o surgimento de uma personalidade extraordinariamente importante e grandiosa. Essas pessoas veem, sabem e compreendem, mas, mesmo depois de tudo isso, mantêm os olhos fechados. Se, ainda assim, a luz penetra em seus olhos, elas vendam-nos; cobrem-nos com as mãos; escondem o rosto na areia; fecham as portas e janelas do quarto e lançam sobre ele uma cortina negra. Há um provérbio que diz que se pode despertar uma pessoa adormecida, mas não uma pessoa que está acordada. Da mesma forma, é possível ensinar conhecimento a uma pessoa ignorante. Mas não é possível retirar do mundo da ignorância aquele que, embora saiba, finge não saber. Essa era a situação da maioria da nação judaica e de seus grandes sábios. O Alcorão também mencionou essa distorção deles, dizendo que: ********
“Isto é: eles conhecem e reconhecem o Mensageiro (S.A.) com a mesma certeza com que conhecem e reconhecem os próprios filhos.”
Ao verem a elevada dignidade do Mensageiro (S.A.) e as pessoas comuns correndo em direção à sua nova da‘wah, os líderes judeus ardiam de inveja, e a intensa intolerância e estreiteza em seus corações apenas aumentavam.
As flechas dos sofismas e das perguntas absurdas
Quando nasce no coração dos religiosos hipócritas e pervertidos a aversão contra uma da‘wah ativa, um movimento em desenvolvimento ou um grande pregador, e essa aversão se fortalece gradualmente, eles fecham as portas do diálogo que produz compreensão e abrem o caminho da discussão. As perguntas e dúvidas criadas por meio do debate nunca têm o objetivo de compreender alguma coisa; ao contrário, são feitas com o objetivo de não compreender. Em outras palavras, “não vou aceitar” torna-se a fonte de inspiração de seus debates. Mas o objetivo do debate não se limita a isso; ele consiste também em afastar as pessoas simples do caminho natural da busca pela verdade e lançá-las nas garras da dúvida e da incerteza, para que se distanciem dos argumentos simples e diretos, caiam na armadilha de questões teóricas complexas e, em vez de avaliar o valor lógico e o impacto moral da da‘wah, permaneçam dando voltas nos becos sem saída de problemas intrincados. Os falsos sábios têm plena confiança em si mesmos, convencidos de que o movimento islâmico jamais poderá destruí-los. O que temem é perder as pessoas comuns. Por isso, para mantê-las fiéis ao seu apoio, fabricam correntes de perguntas tortuosas. Os falsos sábios judeus também estavam envolvidos nessa mesma artimanha.
Depois que Abdullah ibn Salam se juntou ao movimento islâmico, os judeus concentraram todos os seus esforços em criar debates. Começaram a lançar contra o movimento islâmico flechas de discussões tortuosas e complexas. Mas as operações dessa guerra vergonhosa também não foram iniciadas a partir de uma base aberta; foram lançadas a partir da base secreta dos hipócritas. Pessoas camaleônicas, cobertas pelo esplêndido traje da devoção a Allah, participavam das assembleias do movimento islâmico e, no decorrer das conversas, fazendo-se passar por extremamente simples, inocentes e ingênuas, torciam os lábios e levantavam todo tipo de pergunta.
Certa vez, em uma reunião, fizeram ao Mensageiro (S.A.) a seguinte pergunta: quando Allah criou todo o universo, quem criou Allah? Vejam a perversidade de suas mentes! Os judeus afirmavam crer em Allah. Acreditavam em Seus profetas e eram portadores de Seus Livros. Já conheciam Allah e Seus atributos. No entanto, quando o Islã convocou as pessoas justamente para esse Allah, surgiram em suas mentes perguntas extremamente complexas sobre Allah. Pela aparência de sua pergunta, poderia parecer que, uma vez obtida a resposta, o caminho para avançar se abriria diante deles. Mas a perversidade da pergunta mostrava que seu objetivo não era obter orientação; o verdadeiro objetivo era mostrar às pessoas uma rota de fuga para privá-las da orientação. O Mensageiro (S.A.) respondeu de maneira muito simples a essa pergunta tortuosa. Isto é, recitou para eles, de forma muito fácil e direta, a Surata Al-Ikhlas: “Dize: Ele é Allah, o Único. Allah é o Absoluto, de Quem todos necessitam. Ele não gerou ninguém nem foi gerado, e ninguém é comparável a Ele.” (Hayat-e Muhammad: Muhammad Hossain Misri)
Venha, levá-lo-ei a outra reunião interessante. Certa vez, alguns renomados sábios judeus foram à reunião do Mensageiro (S.A.) e disseram: “Responda às nossas quatro perguntas. Então aceitaremos a sua da‘wah e obedeceremos a você.” O Mensageiro (S.A.) disse: “A responsabilidade por sua promessa ficará sobre vocês mesmos; façam as perguntas que desejarem.” Antes que as perguntas sejam apresentadas, leitor, pense um pouco por si mesmo: que tipo de perguntas seria de esperar de pessoas inteligentes para compreenderem corretamente a natureza do movimento islâmico? Elas deveriam levantar perguntas sobre os princípios fundamentais, indagar sobre os valores morais do Islã e procurar conhecer os sistemas político e econômico e seus métodos de implementação. Deveriam perguntar o que é necessário fazer para tornar-se muçulmano. Mas não tinham qualquer interesse nessas coisas. Para exibir sua superioridade em conhecimento e inteligência, apresentaram, uma após outra, as seguintes perguntas:
1 — Por que as crianças, embora sejam formadas pelo esperma do pai, se parecem com a mãe?
2 — Como é o sono do Mensageiro de Allah (s.a.w.)?
3 — Quais coisas Israel (Jacó, que a paz esteja sobre ele) tornou ilícitas para si mesmo, e por quê?
Diz-se que essas perguntas foram levantadas justamente para verificar se o movimento islâmico era correto ou não. Somente a quarta pergunta tinha alguma relação direta com a pregação e o movimento islâmicos. Mas sua natureza também era a mesma. A quarta pergunta era: o que é o espírito?
O Mensageiro (s.a.w.) respondeu calmamente a cada pergunta. Em resposta à última, disse: “Vocês sabem muito bem que o espírito é Gabriel, e é ele quem vem até mim.”
Talvez o leitor esperasse que, depois de receber essas respostas, eles tivessem aberto o coração para o Islã. Não, de modo algum. Ao ouvir as últimas palavras do Mensageiro (s.a.w.), disseram: “Mas, ó Muhammad (s.a.w.), Gabriel é nosso inimigo. Sempre que ele vem, traz para nós uma mensagem de grande mal.” O significado disso é que, sempre que Gabriel vem da parte de Allah reivindicando ser o portador da bandeira da religião de Allah, um conflito e um confronto tornam-se inevitáveis; ocorrem diversos danos e perdas, e a situação chega até mesmo à guerra. Não temos boa relação com ele. Se a inimizade desse anjo não se interpusesse como obstáculo, certamente nos tornaríamos seus aliados e seguiríamos seu exemplo e sua orientação. Em outras palavras, a pregação, o movimento e a mensagem — tudo está correto. Mas, pelo fato de Allah ter envolvido nesse contexto o anjo em questão, nossa segurança foi destruída. Portanto, onde quer que esteja esse Gabriel, não podemos ir até lá.
O Mensageiro (s.a.w.) respondeu a isso nas palavras do Alcorão, de tal modo que aqueles que as ouviram jamais puderam esquecê-las. Ele disse: “Dize: ó Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), quem for inimigo de Gabriel deve saber que ele fez descer o Alcorão, por ordem de Allah, sobre o teu coração. Este Alcorão confirma as Escrituras celestiais anteriores e é, para os crentes, uma orientação e uma boa-nova — não uma mensagem de inimizade, calamidade ou derramamento de sangue.” (Sira de Ibn Hisham, volume 2.)
Teve início ainda outro debate. Em certa ocasião, ao falar sobre os profetas, o Mensageiro (s.a.w.) mencionou o profeta Salomão (que a paz esteja sobre ele). Isso gerou muita discussão entre os judeus. Começaram a dizer: “Ouviram a coisa surpreendente que Muhammad (s.a.w.) disse? Ele afirma que Salomão, filho de Davi, também era profeta. Ora, por Allah, ele era apenas um feiticeiro — que Allah nos proteja!” O Alcorão refutou essas afirmações delirantes, dizendo que a feitiçaria é incredulidade. O profeta Salomão não se envolveu em incredulidade. Quanto à história corrente sobre o poço da Babilônia, ela não passa de uma artimanha de Satanás. (Sira de Ibn Hisham.)
A mudança da qibla
Nos primeiros tempos do movimento islâmico, os judeus haviam percebido muitos sinais com base nos quais surgiu entre eles a esperança de que, gradualmente, essa força histórica passaria para o controle deles. O Alcorão mencionou a dignidade universal dos Filhos de Israel. Por exemplo: “Eu vos dei primazia sobre todos os povos do mundo.” Além disso, o Alcorão expressou apoio à profecia de seus profetas e aos seus livros sagrados. Ao convocá-los: “Vinde a uma palavra comum entre nós e vós”, exaltou-se a verdade central da religião.
Além disso, diante dos costumes dos politeístas, o Mensageiro de Allah, que a paz esteja com ele, apreciava alguns costumes dos judeus. Por exemplo, os politeístas deixavam crescer uma mecha de cabelo, mas os judeus não a deixavam crescer. Nesse caso, ele se opôs aos politeístas e tomou o partido dos judeus. Em todas as questões sobre as quais não vinha nenhuma orientação de Allah no Alcorão, o Mensageiro, que a paz esteja com ele, seguia as práticas dos judeus e dos cristãos. (Bukhari, capítulo sobre vestimentas.) Os judeus de Medina jejuavam no dia de Ashura. O Mensageiro, que a paz esteja com ele, também jejuava nesse dia e apreciava que os muçulmanos jejuassem. Quando o corpo de um judeu era levado para o sepultamento, ele se levantava. Acima de tudo, a qibla da oração dos muçulmanos era Bayt al-Maqdis. Todas essas coisas provavam claramente que o Islã estava mais próximo do Povo do Livro do que dos politeístas. Na realidade, a estrutura original da religião judaica havia sido completamente distorcida pelos líderes religiosos e espirituais egoístas dos judeus. E essa estrutura distorcida também havia se tornado sem vida. Contudo, a religião trazida pelo Profeta Moisés, que a paz esteja com ele, era exatamente o Islã. Todos os demais profetas também foram portadores, convocadores e divulgadores do Islã. Apenas havia pequenas diferenças nas normas da Sharia em cada época profética. Muhammad, que a paz esteja com ele, apresentou esse mesmo Islã diante do mundo inteiro. Ele não o apresentou apenas como uma teoria; também o aplicou sob a forma de leis e normas concretas. Foi justamente por causa dessa relação teórica que o Mensageiro, que a paz esteja com ele, também esperava que os judeus compreendessem gradualmente a atividade islâmica, que a acolhessem assim que a compreendessem e que considerassem essa obra como seu próprio dever. Um dia, eles se alegrariam porque a bandeira estava sendo erguida em nome de Allah, a vida coletiva da sociedade e do Estado estava sendo construída com base nos princípios morais ensinados pelos profetas e os valores fundamentais da Sharia da Torá estavam sendo revividos de novo. Com base nessa esperança, o Alcorão apresentou sua mensagem de tal modo que, para ele, a identidade partidária ou grupal não tinha importância; a verdadeira importância estava nos princípios e nas ações — isto é, no ideal e no caráter, na crença e na prática. Que uma pessoa seja judia, cristã, adoradora de estrelas ou muçulmana, se ela crê devidamente em Allah, na lei de Allah, na mensagem de Seus profetas e na prestação de contas e responsabilidade no Dia da Ressurreição, e depois demonstra, transformando toda a sua vida numa vida de boas ações, então isso é verdadeiramente o que se deseja e se busca. Não é o nome, mas a ação, que é a verdadeira realidade. Não é a placa, mas o caminho genuíno, que é verdadeiramente desejável. Quem se relaciona com quem, ou a que partido ou grupo alguém pertence, não é de modo algum o que deve ser considerado. O que realmente importa é como é o caráter de cada pessoa e como se pode assegurar o bem coletivo da humanidade. Contudo, assim como as esperanças do movimento islâmico não foram realizadas por parte dos judeus, também os objetivos dos judeus não foram realizados por parte do movimento islâmico.
Em meio a essa tensão, ocorreu subitamente uma mudança revolucionária no movimento islâmico. Essa mudança foi o acontecimento da alteração da qibla. Em todas as épocas, a natureza essencial do movimento islâmico consistiu em querer preservar as características distintivas de sua própria existência e em estar determinado a manter viva, em cada muçulmano, a singularidade ideológica e doutrinária. Enquanto permaneciam em Meca, Bayt al-Maqdis havia sido escolhido como qibla justamente para esse propósito: para que o grupo portador da bandeira do ideal islâmico permanecesse consciente de sua dignidade e posição distintas. Como resultado, durante todo o longo período até a Hégira, os muçulmanos sentiram plenamente sua diferença e singularidade diante dos politeístas. Os próprios politeístas compreenderam que eles e os muçulmanos eram portadores de dois ideais completamente distintos. Essa consciência e esse sentimento foram expressos nesta breve frase: “Para vós, a vossa religião; e para mim, a minha religião”. Nela se declarou claramente: o vosso caminho é diferente, e o nosso caminho é diferente. Não há qualquer semelhança entre nós e vós.
Depois que chegaram a Medina, se havia algum risco de a singularidade dos muçulmanos ser ameaçada, ele vinha dos grupos judeus e cristãos dali. Tornou-se necessário proteger a distinção e a singularidade do movimento islâmico da mistura com a religião sem vida dos judeus e cristãos, e salvar a sociedade muçulmana do perigo de se dissolver mentalmente na sociedade judaica. A necessidade que havia existido no período de Meca de adotar temporariamente Bayt al-Maqdis como qibla havia terminado ali. A ligação do coração dos muçulmanos era mais estreita com a qibla estabelecida pelo Profeta Abraão, que a paz esteja com ele. O próprio Mensageiro, que a paz esteja com ele, era descendente do Profeta Abraão, e os primeiros combatentes do movimento islâmico também pertenciam a essa linhagem. A medida temporária para preservar a singularidade havia então se tornado desnecessária. Por isso, o coração sincero do Mensageiro, que a paz esteja com ele, aguardava e ansiava por essa mudança.
Na realidade, ao ordenar a mudança da qibla, o Deus Altíssimo destituiu definitivamente os Filhos de Israel da liderança mundial. Em seu posto vazio, nomeou a Ummah de Muhammad. O centro da atividade voltada para alcançar o bem e o sucesso de toda a humanidade, que até então estava em Bayt al-Maqdis, foi agora transferido para a Kaaba Sagrada. Os muçulmanos foram designados como a comunidade moderada, isto é, a comunidade central do movimento islâmico mundial. Sobre ela foi depositada a grande responsabilidade de testemunhar a verdade diante da humanidade e a liderança de toda a humanidade.
Durante dezesseis meses após a Hégira para Medina, continuou-se a rezar voltado para Bayt al-Maqdis. Isso ocorreu em Rajab ou Sha’ban do segundo ano da Hégira. Ibn Sa’d narra que o Mensageiro, que a paz esteja com ele, havia ido à casa de Bishr ibn Bara ibn Ma’rur, que Allah esteja satisfeito com ele, para uma refeição. Quando chegou a hora da oração do meio-dia, ele se levantou para conduzir a oração em congregação. Foram rezadas duas unidades. Na terceira unidade, a revelação trouxe o seguinte versículo:
“Vemos o teu rosto voltado para o céu. Então, certamente, voltar-te-emos para uma qibla que te agrade. Volta, pois, o teu rosto em direção à Mesquita Sagrada. E onde quer que estejais, voltai os vossos rostos nessa direção e rezai.” (Surata Al-Baqarah: 144)
Assim que ouviu essa ordem, o servo mais obediente de Allah voltou o rosto para a Caaba ainda durante a oração. E, imediatamente, todos os fiéis que oravam com ele voltaram o rosto para a nova qibla. Bayt al-Maqdis está situado diretamente ao norte de Medina, e Meca, ao sul. A mudança da qibla no meio da oração significava que o imame teve de passar da frente dos que o seguiam diretamente para trás, e as fileiras dos orantes tiveram de se voltar diretamente para trás. Depois, a notícia foi amplamente divulgada em Medina e nas aldeias vizinhas. Bara bin Azib relatou que, quando as pessoas estavam em rukūʿ numa mesquita, a notícia chegou até elas. Assim que a ouviram, ainda naquela posição, voltaram o rosto para a Caaba. Segundo o relato de Anas bin Malik, a notícia chegou à tribo de Banu Salama na oração do fajr do dia seguinte, quando as pessoas haviam realizado uma rakʿa e estavam na segunda. Ao ouvirem nesse momento o anúncio do arauto, todos imediatamente voltaram o rosto para a nova qibla. (Tafhim al-Qur’an, Surata al-Baqara, nota 146)
O Alcorão advertiu previamente os muçulmanos sobre o tumulto que essa mudança inevitavelmente provocaria: “Em breve, os ignorantes criarão uma tempestade de calúnias, perguntando: ‘Por que os muçulmanos mudaram a qibla?’” Seriam levantadas perguntas de toda espécie, surgiriam reações psicológicas estranhas e as relações entre os diferentes grupos étnicos seriam afetadas negativamente. Para que os muçulmanos pudessem manter uma posição firme diante da iminente tempestade de calúnias, o Alcorão explicou antecipadamente o significado da mudança da qibla. Esclareceu que o objetivo inicial de fazer de Bayt al-Maqdis a qibla era despedaçar o ídolo do nacionalismo árabe, pois os árabes não estavam dispostos a reconhecer importância alguma em qualquer coisa que estivesse fora do círculo de sua própria etnia. Agora, o objetivo de voltar o rosto de Bayt al-Maqdis para a Caaba era também destruir o ídolo da supremacia israelita. Uma tarefa havia sido realizada antes; a segunda estava sendo realizada agora. Os adoradores do nacionalismo árabe já haviam sido eliminados; agora chegara a vez de serem eliminados os adoradores do nacionalismo israelita. Assim, a sociedade seria purificada da corrupção chamada hipocrisia. Depois disso, na sociedade islâmica permaneceriam apenas aqueles para quem a ordem de Allah e a Sunna do Mensageiro tivessem a máxima importância. Nesse momento, a mudança pela qual o movimento islâmico avançava libertaria os seguidores sinceros do Mensageiro de toda mistura com pessoas sem ideais. E separaria os sem ideais daqueles fiéis sinceros que acreditam que tanto o Oriente quanto o Ocidente pertencem a Allah, e que Allah é o verdadeiro centro da obediência; daqueles que conhecem a profunda verdade de que a verdadeira virtude não consiste simplesmente em voltar o rosto para o Oriente ou para o Ocidente, mas que a verdadeira virtude é a força vital que atua no interior dessas formalidades exteriores da sharia. Essa força vital consiste em crer em Allah, na Vida Futura, nos anjos, no Livro de Allah e em Seus profetas, e em gastar os bens no caminho de Allah. Portanto, na observância da formalidade exterior da qibla, aquilo a que deveis dar a máxima importância é:
Avançai na prática do bem e das ações benéficas; não temais nenhuma força opositora ao cumprir as grandes ordens revolucionárias e transformadoras de Allah. Temei somente a Allah.
No próprio momento em que proclamou a ordem do Senhor do universo, o Alcorão declarou que esse acontecimento pareceria difícil e penoso para todos, exceto para os crentes firmes na convicção. Quando surgisse a agitação por causa disso, muitos ficariam perturbados. Quando o debate se espalhasse por todas as ruas e vielas, os fracos ficariam atordoados e suas emoções seriam violentamente abaladas. Agora, ouçamos alguns exemplos dos comentários feitos sobre a mudança da qibla.
Os politeístas disseram: “Vejam só! Agora Muhammad e seu grupo recuperaram um pouco do bom senso. Como aceitaram nossa Caaba como qibla, aos poucos também voltarão à nossa religião.”
Os judeus disseram: “O líder do Islã, em sua oposição a nós, ficou tão descontrolado pela ira que chegou a abandonar até a qibla dos profetas. Se fosse realmente um profeta, não teria abandonado essa qibla.”
Os hipócritas começaram a dizer: “Não se entende qual é a qibla correta de Muhammad. Parece que começou um jogo com a qibla. Volta-se o rosto para qualquer direção que se queira. Pelo que se vê, parece que toda a religião do Islã é um jogo de vontades.”
E os que eram verdadeiramente firmes na fé disseram: “Ouvimos a ordem, obedecemos a ela e cremos nela. Tudo isso veio de nosso Senhor.” (Zad al-Maʿad, volume 2)
Esse grupo de crentes mencionado por último acabou sendo atingido pela tempestade da propaganda. De todos os lados começaram a ser lançadas ondas de perguntas, sofismas, sarcasmos e zombarias. Em todas as reuniões discutia-se o mesmo assunto; em cada rua e viela formavam-se aglomerações para os mesmos cochichos, e a todo momento ocorriam debates acalorados. Isso é natural em qualquer movimento revolucionário. A cada mudança importante e a cada passo contrário às concepções tradicionais do povo costuma seguir-se esse tipo de tumulto. Em situações assim, os militantes ficam assustados e desorientados, muitas vezes chegando ao extremo da agitação. Foi tendo em vista esse perigo que se ensinou que, para atravessar todas essas situações críticas, a paciência e a oração eram o melhor caminho. Sobre os propagandistas, foi dito que nunca tinham como objetivo buscar a verdade. Jamais se satisfariam ou se acalmariam com argumentos e provas. O objetivo de suas perguntas era apenas constranger. Enquanto não abandonásseis vossos ideais e princípios fundamentais para vos tornardes seus seguidores, eles jamais ficariam satisfeitos.
A responsabilidade de apresentar provas e argumentos decisivos em resposta aos sofismas sem sentido havia sido confiada ao movimento islâmico. Para cumprir essa responsabilidade, foram apresentados argumentos extremamente incisivos e irrefutáveis, e a grandeza e a excelência da sagrada Kaaba foram explicadas ao povo em uma passagem da surata Al Imran. Foi declarado:
“A primeira Casa estabelecida para a humanidade foi aquela situada em Meca, abençoada e cheia de bênçãos, e feita como centro de orientação para todos os mundos. Nela há sinais evidentes. Nela está o lugar de oração de Ibrahim. Quem nela entrar estará seguro. É dever daquele que tiver condições de chegar a esta Casa peregrinar até ela e realizar o Hajj. E quem se recusar a cumprir esta ordem deve saber que Allah não necessita de ninguém de todos os habitantes do mundo.” (Versículos 96–97)
Já se sabia pela própria Bíblia que, quatrocentos e cinquenta anos depois de Musa, Sulayman mandara construir Bayt al-Maqdis. Foi durante o reinado de Sulayman que ela foi estabelecida como qibla. Em contrapartida, relatos consensuais de natureza tanto histórica quanto religiosa mostram que a Kaaba Sharif foi construída por Ibrahim, oito ou nove séculos antes de Musa. A Kaaba não é apenas mais antiga em termos de tempo; em seu ambiente sagrado também existem sinais de extrema importância. A ela está ligada uma tradição muito valiosa do Islã. Em cada uma de suas partes está gravada a história da exaltação da bandeira da verdade e da justiça. Além disso, nela estão preservados os elementos relacionados à adoração de Ibrahim. Este lugar continua sendo uma fonte de inspiração para o tawhid. A prova irrefutável de que este centro de adoração também é aceito e escolhido por Allah é que, ao redor desta Casa construída no interior de um deserto árido, surgiu uma enorme povoação humana, para onde as pessoas vêm de lugares muito distantes. Outra prova brilhante de sua elevada posição é que todos os tipos de meios de subsistência chegam espontaneamente aos habitantes daquele deserto árido e sem vegetação. O mais importante é que, em meio à sociedade dos beduínos guerreiros da Arábia, esta Casa sagrada permanece há quatro mil anos como uma ilha de paz e segurança. Quem quer que entre em seu recinto protegido tem a vida, os bens e a honra seguros e protegidos. Em contrapartida, até pessoas sedentas de sangue vêm para a sombra desta Casa, embainham as espadas e apagam o fogo da hostilidade. Assassinos e ladrões, assim que entram em seu recinto, tornam-se cidadãos amantes da paz. Portanto, é justo que esta Casa seja o centro espiritual de qualquer movimento que se lance ao campo levando o chamado de Ibrahim. O que há nela que seja contrário à religião ou à razão, para que tantos cochichos corram pelas ruas e vielas a esse respeito?
Se alguma conclusão correta foi alcançada como resultado desse argumento, ela foi alcançada pelo povo em geral. Os judeus consideraram a mudança da qibla uma medida de hostilidade extrema por parte dos muçulmanos, pois, por causa dela, todas as suas esperanças e expectativas haviam chegado ao fim. O sonho que tinham de conseguir dominar os muçulmanos havia sido destruído. Eles compreenderam que não era fácil submeter os muçulmanos. Por outro lado, os muçulmanos também puderam ver claramente toda a sujeira existente no coração dos judeus. Todos os aspectos sombrios de sua mentalidade ficaram claros diante deles. Não era possível continuar mantendo, em relação a pessoas de mentalidade tão desprezível, a boa opinião sobre a qual suas relações com elas haviam sido estabelecidas. Os muçulmanos compreenderam claramente que, também em Medina, o movimento islâmico teria de sobreviver dependendo de suas próprias forças. Era inútil esperar qualquer ajuda ou cooperação dos comerciantes da religião e da piedade. Pelo contrário, dia após dia se consolidava o receio de que os judeus bloqueariam o caminho do movimento islâmico com uma mentalidade ainda pior que a dos incrédulos e politeístas de Meca. Apesar desse receio, porém, a conduta do Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe dê paz, e de seus Companheiros sempre preservou o padrão de moralidade próprio dos que convocam ao Islã. Eles não trataram os judeus, os hipócritas e os demais grupos hostis da mesma maneira que eram tratados por eles. Diante dos sofismas, das zombarias, dos sarcasmos e das atitudes vis, os muçulmanos não se rebaixavam. Quando precisavam dizer algo, limitavam-se a falar apenas de modo racional, com educação e inteligência. Recebiam suas transgressões com paciência e generosidade, mantendo uma atitude aberta.
Ainda assim, a tensão que até então permanecera represada em seus corações acabava irrompendo como uma inundação que rompe as barreiras.
Grosseria e comportamento vil
Aqueles que não possuem objetivos, propósitos e programas construtivos geralmente também não permitem que ninguém faça qualquer trabalho construtivo. A única razão é que isso provaria diante do mundo a sua própria inutilidade. Essa era também a situação dos judeus de Medina. Eles viviam em Medina havia muito tempo, mas não haviam demonstrado capacidade para fazer qualquer coisa que elevasse o nível moral das pessoas de baixa condição. Não haviam tomado nenhuma iniciativa para desenvolver a mente e a disposição das pessoas, corrigir seu caráter, ensinar boas maneiras e disciplina, nem instruí-las a viver uma vida de paz e segurança. Longe de conseguirem amparar a humanidade decaída, eles próprios não conseguiram se proteger da decadência. Todas as doenças sociais e morais do mundo haviam penetrado até a medula de seus ossos, e eles não haviam providenciado tratamento para nenhuma delas. Nessa situação, quando uma nova força surgiu diante deles e começou a acender na mente e no coração das pessoas as lâmpadas de princípios, ideais e crenças inspiradoras, iniciou o tratamento de todas as doenças sociais, começou a construir uma nova nação com renovado vigor e passou a formar o caráter dos indivíduos de acordo com um objetivo e propósito sagrados, tentando, com a ajuda dessas pessoas, construir uma sociedade pacífica e justa, os judeus ficaram furiosos. Começaram a empregar todo tipo de recurso baixo para fazer fracassar esse movimento construtivo. Quando uma força negativa e destrutiva se decide a opor-se a alguém, põe de lado a civilização, a cortesia e a boa educação. Ela se acostuma a comportar-se de maneira extremamente vergonhosa, grosseira e incivilizada. Os judeus também começaram a adotar uma conduta igualmente grosseira e extrema.
A comunidade judaica, conhecida como sucessora dos profetas, seguidora do Livro de Allah e professora e intérprete da lei de Allah, começou, movida pela hostilidade e pelo ódio, a praticar toda sorte de más ações e comportamentos indecorosos. Apresentaremos aqui dois ou três exemplos inesquecíveis disso. Essa comunidade judaica não considerava religioso e temente a Allah ninguém além de si mesma. No entanto, sua moralidade havia chegado a tal ponto que, quando encontrava o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), em vez de dizer “assalamu alaikum”, dizia “assamu alaikum”. Isso significava: “Que a morte recaia sobre você.” Tratavam assim aquele grande homem que trabalhava para reviver a religião trazida por Abraão, Moisés, Jacó, José, Isaque e Ismael (que a paz esteja sobre eles), que se empenhava em reviver a verdadeira essência da Torá e lutava para restabelecer a lei e os mandamentos de Allah. Na verdade, ele estava cumprindo precisamente as responsabilidades que os próprios judeus haviam esquecido e completando o trabalho que eles haviam deixado incompleto. Certa vez, alguns deles foram à casa do Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) e comportaram-se como arruaceiros, usando a linguagem mencionada acima. Contra essa conduta indecorosa, até Aisha, por trás da cortina, manifestou uma forte reação. Ficou tão irritada que não conseguiu deixar de responder. Ela disse: “Desgraçados, que a morte recaia sobre vocês.” Ao ouvi-la, o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: “Aisha, seja um pouco mais moderada.” Aisha perguntou: “Você ouviu o que eles disseram?” O Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) respondeu: “Ouvi, mas respondi apenas ‘wa alaikum’, isto é, ‘e sobre vocês também’. Isso é suficiente.”
Dois outros exemplos vergonhosos de comportamento incivilizado foram preservados para sempre no Alcorão. Vejam:
Primeiro, eles compareciam à presença do Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) e, sempre que, durante a conversa, sentiam necessidade de dizer “Espere um pouco, dê-nos a oportunidade de compreender o que está sendo dito”, usavam a palavra ambígua “ra’ina”. Em árabe, o sentido aparente dessa palavra é: “Dê-nos um pouco de tempo, ouça o que temos a dizer ou preste um pouco de atenção em nós”. Porém, na língua religiosa original dos judeus, o hebraico, uma palavra semelhante e quase homófona era usada com o sentido de: “Escute, torne-se surdo”. Além disso, no árabe havia palavras derivadas de raízes quase semelhantes e de pronúncia quase igual que tinham sentidos muito ruins. Por exemplo, de “raya” derivava-se “ar-raya”, que significava “pessoa desprezível”. Não era nada difícil transformar essa palavra em “rayayena”, cujo sentido seria “a nossa pessoa desprezível”. Da mesma forma, a palavra “rayana” era usada com o sentido de tornar-se ignorante e tolo. Até a própria palavra “rayena”, se pronunciada com uma ligeira torção da língua, podia transformar-se em “rayiyana”, cujo sentido seria “ó nosso pastor”. Os líderes religiosos judeus, vestidos com túnicas e turbantes, lançavam assim, habilmente, flechas de palavras ofensivas. Como pessoas comuns poderiam ter tamanho domínio da literatura e da língua? Isso era obra dos grandes e habilidosos eruditos religiosos. Eles saíam de casa bem preparados, depois de pensar e pesquisar cuidadosamente sobre as maneiras de comportar-se de forma incivilizada naquele dia. A história preservou um relato claro sobre um desses eruditos trapaceiros, chamado Zaid ibn Thabit. Esse rabino judeu hipócrita também teve uma grande participação no estabelecimento de um exemplo abominável de lançamento de frases imorais e ofensivas. Exteriormente, aparentavam estar revestidos de educação e refinamento. Mas, ao olhar para o fundo de seus corações, percebia-se uma mentalidade de arruaceiros em plena atividade. Entre eles, sabiam que estavam zombando e ridicularizando o melhor homem de sua época. Contudo, se alguém protestasse, diziam: “Ora, irmão, você acha que somos mal-educados? Estamos falando com bastante respeito e reverência; apenas pedimos que nos dê a oportunidade de compreender e de fazer-nos compreender.”
Segundo, no meio das conversas, os eruditos judeus, sucessores dos profetas, às vezes falavam com o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) da seguinte maneira: “Isma’ ghaira musma’in.” O sentido aparente dessa frase era: “Ouça um pouco; o senhor é uma pessoa tão respeitável que não se deve dizer nada ao senhor sem sua vontade ou permissão.” Mas sua mentalidade ardilosa pretendia transmitir outro sentido: “Você não é digno sequer de ouvir qualquer palavra. Que Allah o torne surdo e prive-o completamente da audição.”
Observem que tipo de pessoas, possuidoras de mentalidade tão imunda e repugnante, se levantou para resistir a Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz.
Terceiro, quando os crentes se sentavam na reunião do Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), ouviam e compreendiam alguma coisa, diziam, com sinceridade e devoção, conforme a ordem de Allah: “Sami’na wa ata’na”, isto é, “Ouvimos e obedecemos”. Porém, os portadores da Torá comportavam-se de maneira extremamente teatral nessas ocasiões. Primeiro, diziam em voz alta: “Sami’na”, isto é, “Sim, ouvimos”. Em seguida, em vez de “ata’na” (“obedecemos”), torciam ligeiramente a língua e diziam “asaina”, que significava: “Rejeitamos sua ordem e decidimos desobedecê-la”. Aqui também se repetia o mesmo ardil: se alguém protestasse, demonstravam irritação e diziam: “Vocês nos consideram pessoas tão ruins assim? Devido ao excesso de oposição, estão lançando contra nós uma acusação dessas? Vocês não têm nenhum costume de respeitar os eruditos e sábios de fora, além dos que pertencem ao seu próprio grupo? Não estão dispostos a considerar educada e bem-comportada nenhuma pessoa além de vocês mesmos?”
É preciso refletir: esse tipo de comportamento vil chegou a causar algum dano ao movimento do Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz)? Com essa baixeza e essa malícia, conseguiram eliminar a existência do grupo islâmico? Na realidade, lançar insultos e palavras ofensivas não consegue sequer arrancar um pelo de qualquer força construtiva. O único prazer que o adversário obtém com isso é liberar o vapor acumulado em sua mente negativa, destrutiva e fanática. Quando essas figuras religiosas terminavam de praticar tais atos na reunião do Profeta e iam embora, certamente voltavam às suas próprias reuniões e vangloriavam-se: “Hoje fomos dizer palavras duras ao senhor Profeta.” Sentados entre seus próprios discípulos, certamente demonstravam sua suposta habilidade, dizendo: “Vejam que significados conseguimos extrair e impor ao inverter uma única palavra. Graças ao nosso conhecimento da língua, da gramática e da retórica, travamos guerras tão grandiosas.”
A lição que se extrai de todas essas más ações dos líderes religiosos judeus é que, quando os líderes religiosos se tornam decadentes, surge neles, sobretudo, a sórdida doença da distorção das palavras. Em segundo lugar, perdem a capacidade de considerar as exigências e necessidades da humanidade, da cortesia, da decência e das boas maneiras. Em terceiro lugar, nasce uma vergonhosa contradição entre suas ações exteriores e interiores. Em quarto lugar, manifesta-se neles uma espécie de covardia, por causa da qual nem sequer conseguem expressar abertamente as sórdidas emoções de seu coração. Em vez disso, seguem colocando o rótulo da decência e da cortesia sobre sua mentalidade vil e repugnante. Esses sinais são provas irrefutáveis da ineficácia de qualquer pensamento ou mentalidade. Em particular, onde quer que se encontrem palavras grosseiras e indecentes, não pode haver qualquer relação com a verdade e a justiça. Assim como o aroma que sai de uma panela de comida recém-preparada revela claramente o tipo do alimento e a qualidade dos temperos, cada palavra de uma pessoa e sua maneira de falar servem igualmente como medida de seu caráter. Se da panela da mente de alguém exala o mau cheiro de palavras indecentes e de comportamentos grosseiros, não se pode de modo algum esperar que nele esteja se formando um caráter nobre, resultante da união de ideias puras e de uma atitude digna de pessoas educadas. Quando você vir alguém usando palavras indecentes e tratando mal uma pessoa de opinião diferente, compreenda que ele foi derrotado pelo adversário tanto na disputa da argumentação quanto na luta moral. Agora, esse derrotado está apenas expelindo o veneno de seu coração por meio de insultos. E aqueles que expelem o veneno do coração não têm qualquer importância na história. Eles continuam apenas a difamar, enquanto a caravana empenhada no trabalho construtivo de da‘wa segue avançando.
Mas isso não foi tudo. Quando o adhan foi instituído em Medina, como ele também era uma inovação religiosa contrária às normas religiosas tradicionais dos judeus, eles enfrentaram muitas dificuldades em relação ao adhan. Sobretudo quando viam que as palavras e frases do adhan apresentavam plenamente todo o chamado revolucionário do Islã e sua ideologia fundamental, e que a recitação desse adhan cinco vezes por dia, em voz alta e melodiosa, constituía um meio de divulgação extremamente eficaz e influente. Esse som chegava cinco vezes por dia aos ouvidos de suas mulheres, crianças e escravos. Imagine, por um momento, que silêncio pairava sobre o céu e o ar de Medina quando esse som sem precedentes era entoado pela bela voz de Bilal. Talvez o coração de todos, muçulmanos e não muçulmanos indistintamente, fosse atraído. Certamente percebiam a diferença entre o som do adhan e o som dos sinos e dos tambores. Talvez também surgisse nos corações de seu povo algum sentimento em relação a ele. O som dos sinos e dos tambores era apenas som; não continha palavras nem significado. Já o som do adhan era um conjunto de frases ressoando com um significado facilmente compreensível. O som dos tambores e dos sinos não expressava qualquer sentimento humano, ao passo que o chamado do adhan refletia as emoções e os sentimentos das pessoas. Depois de compreender essa diferença, os judeus deveriam ter reconhecido que o adhan era o meio relativamente mais eficaz e superior para convocar à verdadeira adoração. Mas, em vez de reconhecer isso, enfureceram-se. Faziam comparações estranhas com a voz daquele que fazia o adhan, imitavam-na e, distorcendo as palavras, realizavam gestos ridículos. A inveja e o despeito haviam rebaixado esses religiosos hipócritas ao nível de bufões. Mas como seria possível impedir, com zombarias e palhaçadas, o trabalho que o adhan estava realizando?
A grosseria dos judeus chegou a tal ponto que eles fizeram até o próprio Allah ser vítima dela. Por exemplo, em vez de aceitar o sentido simples do versículo corânico “Quem está disposto a conceder um empréstimo a Allah?”, começaram a zombar, dizendo: “Agora até Allah ficou pobre. Ele também começou a pedir empréstimos aos servos.” É raro encontrar exemplo tão abominável de insolência e descaramento para com Allah. Do mesmo modo, sempre que o Alcorão apresentava mosquitos, moscas e coisas pequenas semelhantes como exemplos e apresentava sua existência como argumento, os judeus encontravam a oportunidade de promover uma onda de zombaria. Diziam: “O Allah dos muçulmanos também é muito estranho. Até para dar exemplos, Ele não encontra nada além de criaturas insignificantes como mosquitos e moscas. E como pode ser o Livro de Allah um Alcorão que menciona todas essas coisas insignificantes?” Vejam que resposta contundente receberam, nas palavras de Allah:
“Allah não Se envergonha de apresentar como exemplo um mosquito ou algo ainda menor. Aqueles que estão dispostos a aceitar a verdade compreendem, ao ver esses exemplos, que isto é a verdade e que provém de seu Senhor. Já aqueles que não estão dispostos a aceitar continuam dizendo, ao ouvi-los: ‘O que Allah tem a ver com um exemplo desse tipo?’” (Surata Al-Baqara, 2:26)
Uma reivindicação ridícula
A insolência dos judeus assumiu a forma de uma exigência de provas e transformou-se numa situação absurda e ridícula. Eles começaram a dizer ao Mensageiro: “Por que Allah não fala conosco?” (Al-Baqara, 2:117) Em outras palavras: por que Allah envia anjos secretamente até você e lhe transmite Sua mensagem em segredo? Que Allah desça ao mundo, apareça diante de nossos olhos e diga-nos pessoalmente: “Este é o Meu mandamento; cumpri-o, e este é o Meu profeta; obedecei-lhe.” E, se Ele não quiser fazer isso, que pelo menos envie algum sinal claro e irrefutável, depois de ver o qual ninguém possa mais negar que você é Seu profeta e que o Alcorão é Sua palavra.
Eles também especificaram qual deveria ser esse sinal irrefutável, para que pudessem ficar satisfeitos e convencidos. Sabe-se, pelos livros de história e de biografia, que essa reivindicação se tornou muito importante entre os judeus. Durante muito tempo, ela continuou sendo discutida e foi repetidamente apresentada diante do Mensageiro.
Ouça primeiro como essa alegação surgiu. O fato foi que, antes da chegada do Mensageiro de Allah, os judeus de Medina rezavam deliberadamente pelo aparecimento imediato de um profeta, a fim de assustar Aws e Khazraj. Porém, assim que o Mensageiro de Allah surgiu como profeta, eles imediatamente mudaram de atitude e decidiram firmemente negá-lo e desobedecer-lhe. Essa mudança repentina suscitou dúvidas entre o povo. As pessoas iam perguntar-lhes: “O que aconteceu? Antes eram vocês que rezavam e anunciavam que um profeta viria. E agora são vocês que se enfureceram contra o profeta que surgiu!” Em particular, numa assembleia, líderes importantes como Mu‘adh ibn Jabal e Bishr ibn Bara ibn Ma‘rur disseram abertamente aos líderes judeus: “Ó comunidade judaica! Temei a Allah e submetei-vos. Pois vocês mesmos pediam a Allah o surgimento de Muhammad para obter força contra nós. Nós éramos politeístas. Foram vocês que nos informaram que aquele profeta havia surgido e também descreveram suas qualidades.” É fácil imaginar como conversas desse tipo desmascaravam os judeus. Certamente eles percebiam qual era a opinião do povo a seu respeito. Para preservar sua reputação de religiosidade e piedade, tornou-se inevitável que recorressem a algum tipo de escudo. Que escudo era esse? Para sabê-lo, ouça a resposta à pergunta acima pela boca de Salam ibn Mishkam, um líder judeu de Banu Nadir. Ele disse: “Muhammad não trouxe consigo nenhuma prova pela qual pudéssemos reconhecê-lo como profeta. Portanto, Muhammad não é aquele de quem falávamos a vocês.” (Sira de Ibn Hisham, vol. 2)
Ibn Silvya Fatayuni também disse diretamente isso ao Mensageiro de Allah. Em outras palavras, eles precisavam de algum sinal decisivo. Cabia aos próprios judeus determinar esse sinal. Eles exigiriam qualquer sinal que quisessem. Da mesma forma, o povo também lhes perguntava sobre o compromisso assumido pelos profetas anteriores de reconhecer o último profeta. Mas eles evitavam responder a essa pergunta, dizendo isto ou aquilo. O judeu Malik ibn al-Qatíd chegou certa vez a declarar claramente: “Por Allah, nenhum compromisso foi assumido conosco a respeito de Muhammad.” (Sira de Ibn Hisham, vol. 2)
Para eles, não havia sinal nas palavras sagradas do Alcorão nem nas provas irrefutáveis; não havia sinal no caráter do Mensageiro; não havia sinal no movimento que provocava uma transformação radical na vida; não havia sinal no grupo crescente dos soldados da verdade. Nem mesmo nos sacrifícios, renúncias e vidas oferecidos por um pequeno número de muçulmanos ao enfrentar as poderosas forças perseguidoras e opressoras havia algo capaz de despertar suas consciências. Eles queriam apenas acontecimentos surpreendentes ou divertidos.
Agora ouça que tipo de sinais ou milagres eles estavam exigindo.
Rafi‘ ibn Huraymala e Wahb ibn Zayd foram até o Mensageiro de Allah e, durante a conversa, disseram:
“Ó Muhammad, faze descer do céu para nós um livro inteiro, escrito, para que possamos lê-lo; e faze surgir uma fonte diante de nós. Então te seguiremos e testemunharemos tua veracidade.” (Sira de Ibn Hisham, vol. 2)
Esse mesmo Rafi‘ ibn Huraymala também exigiu: “Ó Muhammad, se és o Mensageiro de Allah, como afirmas, pede a Allah que fale conosco de tal maneira que possamos ouvi-Lo.” (Sira de Ibn Hisham, vol. 2)
Em outra assembleia, líderes judeus como Fakhkhas e Abdullah ibn Sabur conversavam com o Mensageiro de Allah e disseram: “Ó Muhammad, é verdade que nenhum jinn nem ser humano te ensina este Alcorão?” O Mensageiro de Allah respondeu: “Vocês sabem muito bem que este Alcorão veio de Allah e que eu sou o Mensageiro de Allah. Vocês também encontram essa verdade escrita em sua Torá.” Eles disseram: “Ó Muhammad, por mais que digas qualquer coisa, é verdade que, quando Allah envia um mensageiro, Ele realiza tudo o que esse mensageiro deseja, e o mensageiro recebe de Allah o poder de fazer tudo o que deseja. Portanto, faze descer do céu um livro escrito, para que possamos lê-lo e conhecê-lo.” (Sira de Ibn Hisham, vol. 2)
Os judeus encontraram um escudo. A partir de então, já não tinha importância para eles perguntar: qual é a mensagem do Mensageiro, que a paz esteja com ele? O que ele diz? Quais são suas provas e argumentos? Como a vida se transforma por meio de sua mensagem? Que tipo de caráter é formado por seus ensinamentos? Que tipo de sistema cultural é construído por seus esforços construtivos? Todas essas perguntas se tornaram irrelevantes para eles. O que passou a ser a principal exigência deles foi: “Fazei descer um Livro do céu e mostrai-no.” Agora haviam encontrado uma desculpa para silenciar todos. Sempre que alguém mencionava o assunto, respondiam categoricamente: “Estamos prontos para crer. Mas ide dizer a Muhammad, que a paz esteja com ele, que mostre algum sinal.” Os servos amados de Allah conseguem d’Ele aquilo que desejam. Que espécie de Mensageiro é ele, se Allah não atende ao seu pedido? Ó gente, deixai de lado todas essas conversas divisórias. Ide procurar algum servo amado de Allah. Isso não passa de mera evasão.
As atividades à maneira de Shylock dos judeus
É de conhecimento geral que, quando a pressão dos Muhajirun sobre os recursos limitados e as riquezas de Medina começou a aumentar, e as pessoas sem recursos nem abrigo se empenharam na reconstrução de sua vida econômica, a pobreza e a fome se espalharam amplamente entre a maioria dos membros do movimento islâmico. Nessa prova de pobreza e fome, o próprio líder do movimento islâmico e sua família foram participantes em igualdade com os companheiros comuns. Na verdade, a parte principal da provação recaiu sobre seus próprios ombros. As calamidades nunca chegam sozinhas. Além do sofrimento da pobreza e da fome, as doenças também se espalharam entre os Muhajirun. O novo clima não foi suportado pelos forasteiros. Eles começaram a adoecer um após outro. Juntamente com a escassez de alimentos, uma febre dolorosa, que se espalhava em proporções epidêmicas, deixou os Muhajirun reduzidos a pele e osso e incapazes de se empenhar em esforços econômicos. De um lado, o movimento islâmico enfrentava continuamente novos problemas e oposições. O recém-formado Estado Islâmico precisava ser reconstruído em todos os aspectos. Ameaças de todo tipo vinham de inimigos externos e internos. As pessoas aptas para o trabalho iam ficando cada vez mais acamadas. Não havia provisões suficientes de alimento e vestuário. A força com que esse pequeno grupo revolucionário superou tal situação foi a força da fé em Allah, do amor pelo objetivo e do sentimento de fraternidade mútua. Na verdade, a fé e a fraternidade constituem a força central das pessoas e organizações que realizam grandes feitos históricos. Essa força mantinha firmes até mesmo os fisicamente debilitados e reduzia consideravelmente o impacto da escassez de recursos e meios. A luta que continuava contra o ambiente adverso foi, contudo, bastante enfraquecida pela epidemia generalizada. Nessa época, espalhou-se também o rumor de que os judeus de Medina haviam lançado um feitiço e que os muçulmanos já não conseguiriam permanecer ali. Para compreender quão crítica era a situação naquele período, ouçamos as declarações de alguns Companheiros do Mensageiro, que a paz esteja com ele.
Hazrat Abu Bakr se contorcia de dor no leito de enfermidade e expressava sua preocupação recitando um poema:
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“Cada pessoa permanece junto de sua própria família. No entanto, a morte está mais próxima do que o cadarço de seu sapato.”
Enquanto isso, Hazrat Bilal se virava de um lado para o outro no leito de enfermidade e, embora sofresse com dores intensas, continuava recitando um poema cujo significado era:
“Agora se recordam as planícies, as montanhas e as fontes de Meca. Será que algum dia poderei passar uma noite naquela planície onde crescem as gramíneas azkhar e julail? Poderei algum dia novamente entrar nas águas da fonte de Majanna e contemplar as montanhas de Shama e Tufayl?”
Āmir cantava: «Encontrei a morte antes mesmo de provar o sabor da morte. A morte do covarde vem de cima.» Ele sofria dores físicas tão intensas que, antes de a morte chegar, parecia ter ouvido os passos dela.
Hazrat Shaddad também estava doente. O Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) foi visitar esse companheiro. O enfermo, contorcendo-se de dor, disse: «Talvez eu melhorasse se bebesse da água de Bat’han.» O Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) disse: «Vá. Quem o está impedindo?» O enfermo perguntou: «E a hijrah?» O Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) consolou-o, dizendo: «Vá. Onde quer que você vá, continuará sendo um muhajir.»
Após o tratado de Hudaybiyyah, quando os muçulmanos foram a Makkah, seus corpos estavam extremamente debilitados por adoecerem repetidamente. Ao verem esse estado, os habitantes de Makkah zombaram: «Não voltem a Medina.» Por causa dessa zombaria, seguindo a ordem do Mensageiro (que a paz esteja sobre ele), os muçulmanos caminhavam de maneira heroica.
Por essas razões, o Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) dizia:
«Ou seja, a hijrah não é uma brincadeira de criança, mas uma tarefa extremamente difícil. Certa vez, um beduíno foi até o Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) e aceitou o Islã. Porém, assim que chegou a Medina, teve febre. Considerando o Islã um mau presságio, abandonou-o e foi embora. Sobre esse acontecimento, o Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) disse: «Medina é como a fornalha de um ourives: elimina a escória e separa o ouro puro.» (Bukhari) Em outras palavras, aqueles que se empenham na grande tarefa do movimento enfrentam provações a cada passo. Somente os verdadeiros crentes são aprovados nessas provações. Os falsos e hipócritas que alegam ter fé acabam sendo separados em alguma etapa. Assim, essa fase da prova de fogo de Medina desempenhava o papel da fornalha de um ourives. (Uswa-e-Sahaba, Maulana Abdus Salam Nadwi)»
Foi nesse período que o Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) suplicou a Allah com voz angustiada: «Ó Allah! Torna Medina tão querida para nós quanto tornaste Makkah, ou ainda mais. Abençoa para nós seus alimentos e seus cereais. E transfere para Mahiyah a epidemia que chegou a Medina.» (Sira de Ibn Hisham, volume 2)
Por outro lado, a pobreza e a fome haviam criado uma situação extremamente preocupante. Estabelecer as bases da vida econômica num novo lugar e organizar nele meios de obter um sustento halal — justamente numa situação em que, a cada momento, novas despesas surgiam diante do movimento — era uma tarefa de dificuldade indescritível. Os livros de história e de sira estão repletos de relatos dolorosos sobre a situação desastrosa pela qual os soldados da verdade tiveram de passar naquele período.
Hazrat Abu Talha descreveu da seguinte maneira aquele período de calamidade:
Agitados pelas dores da fome, fomos ao Mensageiro, s.a.w., em busca de ajuda. Contamos toda a situação e mostramos o abdômen aberto, explicando que, por termos jejuado por vários dias consecutivos, havíamos amarrado uma pedra ao ventre (com o objetivo de impedir um tipo especial de inflamação produzida no estômago). Ao ver isso, aquela pessoa suprema de toda a história da humanidade também abriu o abdômen e mostrou que ali havia não uma, mas duas pedras amarradas. Ao presenciarmos essa cena, nós, que estávamos relatando nossas próprias histórias de sofrimento, encontramos consolo no coração. (Shamā’il de Tirmidhi, capítulo sobre a vida do Profeta)
Certa vez, em uma situação semelhante, chegou Abu Bakr, r.a., e quis descrever sua própria miséria para obter consolo. Porém, pensando que isso aumentaria desnecessariamente a tristeza do Mensageiro, s.a.w., permaneceu em silêncio. Pouco depois, chegou Umar, r.a. Ele também estava afligido pela mesma calamidade. Quando lhe perguntaram o motivo de sua vinda, declarou abertamente: “Estou desnorteado de fome.” Ao ouvir isso, o Mensageiro, s.a.w., disse: “Minha situação também é a mesma.” Decidiu-se que os três iriam juntos à casa de Abu al-Haitham, um Companheiro relativamente próspero, dono de um jardim. Quando chegaram, viram que o pobre homem, como não tinha criado, havia saído para buscar água pessoalmente. Ao retornar e ver os visitantes, abraçou-os, transbordando de alegria. Depois, levou-os ao jardim e ofereceu-lhes tâmaras. Eles comeram as tâmaras, beberam água e voltaram depois de fazer uma súplica por Abu al-Haitham. (Shamā’il de Tirmidhi)
Sa’d ibn Abi Waqqas certa vez relatou: “Fui o primeiro membro do movimento islâmico por cuja mão foi derramado o sangue de um inimigo do Islã, e fui também o primeiro a lançar uma flecha no campo do jihad. Combatemos em condições tais que, de tanto comer folhas de árvores e frutos de kikar, surgiam feridas em nossas bocas, e defecávamos como camelos e cabras.” [Este relato também foi extraído dos Shamā’il de Tirmidhi. Embora seja um acontecimento um pouco posterior, ele oferece uma ideia geral sobre o período de crise econômica em Medina.]
Abu Huraira, Companheiro próximo do Mensageiro, s.a.w., relatou: “Certa vez, desmaiei de fome entre o púlpito da Mesquita do Profeta e o quarto de Aisha. As pessoas, pensando que eu estava possuído por um jinn, apertavam meu pescoço com os pés (como tratamento). Contudo, eu não estava possuído por um jinn; ficava naquele estado apenas por causa da fome. (Veja Shamā’il de Tirmidhi, capítulo sobre a vida do Profeta.) Abu Huraira também relatou que certa vez eu estava viajando com Umar. Íamos caminhando enquanto discutíamos a explicação de um versículo. De repente, desmaiei e caí. Isso aconteceu por causa da fome.”
Embora, em tais circunstâncias, o Mensageiro, s.a.w., gastasse imediatamente os bens que chegavam ao Bayt al-Mal para aliviar a fome dos Companheiros, a crise era tão ampla que as receitas do Bayt al-Mal, juntamente com as doações generosas dos Muhajirun e dos Ansar prósperos, ainda não eram suficientes. Além dos Muhajirun geralmente famintos, a residência permanente dos Ahl al-Suffa — os Companheiros necessitados que permaneciam continuamente na Mesquita do Profeta — também dependia de uma grande quantidade de ajuda. Convidados chegavam sem cessar. Beduínos vinham a qualquer momento para aceitar o Islã, encontrar-se com o Mensageiro e perguntar sobre as regras da Sharia; os necessitados chegavam pedindo auxílio; e a chegada de novos Muhajirun continuava sem interrupção. Em uma situação assim, até onde poderia o Bayt al-Mal dar conta? Quando a pressão das necessidades dos Companheiros e dos pobres aumentava, o Mensageiro, s.a.w., pedia ajuda, e cada um dava sinceramente o que podia. Às vezes, era necessário tomar empréstimos. Não se conseguiam muitos empréstimos entre os muçulmanos; por isso, era preciso recorrer aos ricos judeus. Os judeus eram agiotas experientes e usurários; sua rede de juros se estendia por toda a região. Mas o objetivo pelo qual emprestavam dinheiro a Muhammad, s.a.w., e aos seus Companheiros era ainda mais terrível que os juros: pretendiam subjugá-los por meio do dinheiro e da ajuda. Com essa mentalidade, ao cobrar os empréstimos, assumiam completamente a forma de Shylock e tratavam os devedores de maneira humilhante. A situação dos politeístas também era semelhante. O próprio Mensageiro, s.a.w., e seus Companheiros tiveram de passar por essas amargas experiências. Muitos acontecimentos desse tipo estão registrados nos livros de história e de sira. Aqueles que dedicaram a própria vida ao bem da humanidade suportaram sofrimentos tão grandes. Mesmo em uma situação tão extrema e desesperadora, a fé dos soldados do Islã e sua luta para alcançar o objetivo não sofreram a menor fraqueza.
O Mensageiro, s.a.w., havia instruído seu Companheiro próximo e assistente pessoal, Bilal, a gastar generosamente os bens recebidos no Bayt al-Mal para as necessidades do movimento islâmico e de seus soldados. Bilal realmente fazia isso. Certa vez, chegaram noventa mil dirrãs, que foram empilhados sobre uma esteira. Sentado ali mesmo, o Mensageiro, s.a.w., distribuiu aquele dinheiro entre os necessitados. Não restou sequer um dirrã. Depois que a distribuição terminou, quando chegou alguém pedindo ajuda, ele ordenou que se tomasse um empréstimo para atendê-lo. Abu Huraira relatou que certa vez havia uma pilha de tâmaras diante de Bilal. O Mensageiro, s.a.w., perguntou: “De quem são esses bens?” Bilal respondeu: “Foram deixados para uma necessidade desconhecida do futuro.” O Mensageiro, s.a.w., disse: “Você sabe que, por manter esses bens retidos dessa maneira, a fumaça do Inferno pode chegar até você no Dia da Ressurreição? Distribua-os também. Ó Bilal, não tema nada da parte do Dono de todo o poder.” Bilal relatou: “Certa vez, um politeísta de Medina veio até mim e disse: ‘Tenho muitos bens. Pegue quando precisar.’” Bilal começou a tomar empréstimos dele. Um dia, quando Bilal havia feito a ablução e se preparava para fazer o chamado à oração, aquele agiota chegou de repente acompanhado de alguns comerciantes e começou a gritar: “Ó abissínio!” Bilal aproximou-se dele. O homem ficou muito exaltado e começou a insultá-lo. Advertiu que o mês estava quase terminando e que, se Bilal não devolvesse o empréstimo no prazo, ele o transformaria em escravo, conforme o costume da época da ignorância na Arábia. Então, Bilal voltaria à sua condição anterior. Bilal disse: “Com aquele comportamento humilhante, senti-me constrangido como qualquer outra pessoa honrada.” Depois da oração da noite, Bilal foi ao Mensageiro, s.a.w., para contar-lhe o triste acontecimento. Sem ver qualquer maneira de pagar a dívida, expressou o desejo de desaparecer e disse que voltaria quando fosse possível providenciar o pagamento. Porém, antes que Bilal pudesse realizar sua intenção, o Mensageiro, s.a.w., mandou chamá-lo na manhã seguinte. Ao chegar, Bilal viu quatro camelos carregados de mercadorias, enviados pelo governante de Fadak. O credor foi chamado, a dívida foi paga e o restante dos bens foi distribuído como de costume.
Abu Hadr al-Aslami, um soldado do movimento islâmico, contraiu uma dívida com um judeu. Para pagar a dívida, não possuía nada além da roupa que vestia. Abu Hadr pediu ao judeu mais tempo. Porém, aquele agiota com aparência de Shylock não aceitou conceder nem sequer um prazo. Agarrou Abu Hadr, levou-o ao Mensageiro, s.a.w., e disse: “Providencie o pagamento do que me é devido.” O Mensageiro, s.a.w., disse a Abu Hadr: “Pague a dívida.” Abu Hadr apresentou sua justificativa. Mas, vendo a inflexibilidade do agiota, o Mensageiro, s.a.w., disse: “Devolva a dívida como puder.” O Companheiro tornou a dizer: “A batalha de Khaybar está próxima. Espero que seja possível pagar depois que voltarmos de lá.” O Mensageiro, s.a.w., ordenou novamente, com firmeza, que ele se livrasse daquela dificuldade. Por fim, o judeu só foi embora depois de tirar a roupa que Abu Hadr vestia. Abu Hadr tirou o turbante e amarrou-o à cintura. Vejam a forma da opressão exercida pelo agiota judeu por uma dívida tão pequena: ele não se contentou até tirar do devedor a própria roupa que vestia.
Hazrat Jabir bin Abdullah era outra personalidade renomada do movimento islâmico. Era residente de Medina e bastante próspero. Ainda assim, de vez em quando, por necessidade, era obrigado a contrair empréstimos junto a um agiota judeu. Certa vez, como a colheita de tâmaras não fora boa, não conseguiu devolver o empréstimo no prazo e obteve uma prorrogação até a colheita seguinte. A colheita seguinte também foi ruim. O agiota não aceitou conceder mais prazo. Por fim, ele também compareceu à presença do Mensageiro (que a paz esteja com ele) para descrever sua situação difícil. O Mensageiro foi à casa do judeu acompanhado de alguns companheiros. Pediu-lhe que concedesse a Jabir mais algum tempo. Mas o judeu recusou. O Mensageiro ficou andando de um lado para outro por algum tempo e voltou a conversar com o judeu. Porém, o coração pétreo do agiota não se abrandou. Depois disso, o Mensageiro dormiu por algum tempo. Ao acordar, fez novamente o mesmo pedido. Dessa vez também, o homem permaneceu inflexível. Por fim, o Mensageiro foi até o palmeiral de Jabir e ficou ali de pé, dizendo-lhe: “Colha as tâmaras.” Quando as tâmaras foram colhidas, encontrou-se uma quantidade inesperadamente grande. A dívida foi paga, e ainda sobrou alguma coisa. (Sirat-un-Nabi, Shibli Nu’mani)
A armadura pessoal do Mensageiro (que a paz esteja com ele) estava penhorada junto a um judeu. Até sua morte, ele não conseguiu juntar dinheiro suficiente para resgatá-la. (Sirat-un-Nabi, Shibli)
Certa vez, um beduíno foi até o Mensageiro (que a paz esteja com ele) e começou a pressioná-lo pelo pagamento de uma dívida. À sua maneira habitual, falou de forma extremamente exaltada. Os companheiros lhe explicaram que deveria considerar com que grande homem estava falando. Ele respondeu: “Estou apenas pedindo de volta o que me é devido.” O Mensageiro disse aos companheiros: “Vocês devem apoiá-lo, pois isso lhe é devido.” Em seguida, ordenou que lhe pagassem o que lhe era devido e deu-lhe algo a mais do que o valor da dívida. (Sirat-un-Nabi, Shibli)
O episódio de Zaid bin Sahnah permite compreender melhor essa crise. Ele era um sábio judeu e verificava a veracidade da reivindicação de profecia do Mensageiro (que a paz esteja com ele) à luz de vários sinais. Ele relatou que certa vez um beduíno foi encontrar-se com o Mensageiro. Disse: “Minha tribo se tornou muçulmana. Quando os convidei ao Islã, disse-lhes que, se aceitassem o Islã, Allah lhes concederia abundantes riquezas. Mas, infelizmente, ocorreu o contrário e surgiu uma fome. Se não forem ajudados agora, há o risco de abandonarem o Islã.” O Mensageiro lançou um olhar interrogativo a Hazrat Ali. Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) respondeu: “Neste momento, não há nada.” Zaid bin Sahnah disse: “Pegue emprestadas de mim 80 miskals de ouro. Em troca, dê-me tâmaras na época da colheita.” O acordo foi concluído. O Mensageiro recebeu o ouro e o entregou ao beduíno. Certo dia, quando ainda faltavam dois ou três dias para o prazo estipulado, o Mensageiro, depois de participar da oração fúnebre de alguém acompanhado de alguns companheiros, estava parado junto a uma parede. Então Zaid segurou sua camisa e seu manto e disse, de maneira extremamente rude: “Ó Muhammad! Por que não pagas minha dívida? Por Allah, conheço muito bem que tipo de pessoas sois, vós, descendentes de Abdul Muttalib. Estais acostumados a não pagar as dívidas.”
Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) lançou um olhar penetrante para Zaid. Então disse: “Ó inimigo de Allah! Por Allah, se eu não temesse ser repreendido pelo Mensageiro, teria decepado tua cabeça.” O Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse a Hazrat Umar: “Umar! Nesta situação, deverias ter me aconselhado a pagar a dívida corretamente e, por outro lado, ter aconselhado este homem a pedir o pagamento da dívida de maneira cortês.” Depois disse: “Vai, paga o que lhe é devido. E, em vez de repreendê-lo, dá-lhe vinte sa’a adicionais de tâmaras.”
Na realidade, esse episódio foi o último teste da profecia do Mensageiro (que a paz esteja com ele) realizado por Zaid bin Sahnah. Ele revelou sua identidade a Hazrat Umar e, tendo-o como testemunha, aceitou o Islã. Depois, doou metade de seus bens à comunidade muçulmana. Esse mesmo Zaid bin Sahnah ocupava uma posição especialmente respeitada entre os agiotas judeus. Entretanto, seu episódio também mostra em que grave crise financeira se encontravam o movimento islâmico e seus membros, quantos empréstimos tinham de contrair por causa da crise e quanto tratamento duro tinham de suportar por parte dos credores.
De um lado, os judeus e os politeístas ricos empregavam a arma da usura contra o movimento islâmico. De outro, tentavam impedir também que os muçulmanos gastassem seus recursos no caminho de Allah, para que o movimento se enfraquecesse por falta de recursos financeiros. Com esse objetivo, por um lado, ridicularizavam os versículos que incentivavam as doações no caminho de Allah. Diziam: “Vejam só: até o Allah dos muçulmanos ficou falido e está implorando por empréstimos.” Às vezes também diziam: “A mão de Allah está acorrentada.” Essas palavras, transmitidas pelos judeus, eram igualmente pronunciadas pelos hipócritas e contaminavam todo o ambiente. Por outro lado, encontravam-se com os muçulmanos acostumados a doar e diziam: “Ora, por que estão desperdiçando seus próprios bens? Que benefício vocês obtêm ao alimentar alguns mendigos de Meca? Cuidem de seus próprios filhos. Invistam seus bens no comércio e nos negócios. Onde encontraram um destino tão insensato para investir seus recursos?” Sobre esses judeus e hipócritas que conduziam tais campanhas de difamação, o Alcorão diz que ******** “isto é, ensinam as pessoas a praticar a avareza. Eles iam sentar-se com os ansar e, assumindo a aparência de conselheiros bem-intencionados, diziam: ‘Não desperdicem assim seu dinheiro. Isso os deixará na pobreza e na necessidade. Portanto, não gastem tanto dinheiro com o movimento islâmico. Tentem compreender o que acontecerá com a situação.’” (Sirat de Ibn Hisham)
Enquanto isso, entre os membros da quinta coluna, marionetes dos judeus, cochichava-se: “Parem de gastar dinheiro com os companheiros do Mensageiro (que a paz esteja com ele), para que eles se dispersem por todos os lados.” (Surata Al-Munafiqun, versículo 7)
Que plano ardiloso e previdente era esse! De um lado, o empenho para bloquear a fonte da disposição e do entusiasmo de fazer doações no caminho de Allah. De outro, a tentativa de esmagar o movimento islâmico, tornando-se agiotas e exercendo sua própria opressão à maneira de Shylock. Se esse plano tivesse sido bem-sucedido, a Revolução Islâmica poderia ter sido derrotada sem ser enfrentada nos campos da fé, da razão, da prática e do caráter. Porém, como a questão estava ligada a Allah, Onisciente e Todo-Poderoso, por meio de Seu sutil desígnio, a conspiração dos inimigos do Islã foi frustrada.
O ponto central desta narrativa é o caráter e a atitude paciente e benevolente do Mensageiro de Allah ﷺ e dos nobres Companheiros, que se manifestaram em resposta à vil perseguição dos adversários. Mesmo em situações de extrema anarquia e sofrimento, eles jamais permitiram que seu elevado padrão moral caísse sequer um pouco. Ainda que se reflita sobre isso, não se consegue compreender plenamente quão grandiosos e luminosos exemplos de humanidade eles foram.
A quinta coluna formada pelos judeus
Os milhares de testemunhos da história humana comprovam que, sempre que um movimento é conduzido com sinceridade e dedicação, tendo como objetivo a honestidade e o bem-estar da humanidade, e avança rumo à vitória, uma das forças reacionárias que o resistem é formada por aqueles que se envolvem abertamente no conflito e lutam até o último momento, empregando as armas de seu tempo. A outra força é composta por pessoas anárquicas e subversivas que, devido à sua baixeza e degradação moral, descem aos níveis mais baixos da covardia e da dissimulação, instalando-se no esconderijo secreto da hipocrisia para se dedicar a tecer redes de conspiração. O comportamento reacionário dos politeístas de Meca correspondia à primeira força, enquanto os judeus de Medina e seus descendentes correspondiam à segunda.
Como o movimento islâmico havia assumido a forma de um Estado, e esse Estado crescia diante dos olhos de todos, enquanto pessoas conscientes, ativas e laboriosas se juntavam a ele de todos os lados, as forças opositoras eram vítimas de uma terrível reação de inferioridade e espírito vingativo. Contudo, não tinham meios de expressar a agitação que fervilhava em seu interior nem de influenciar a situação. Para enfrentar a crença e o ideal islâmicos, os judeus não possuíam nenhuma doutrina construtiva, racional, simples, atraente para o povo e capaz de despertar entusiasmo. Possuíam apenas algumas crenças sem vida e vazias, capazes de impedir o curso da história e produzir paralisia e estagnação na natureza humana. Diante da força humana de elevado caráter moral reunida pelo movimento islâmico, os judeus não dispunham de uma força humana com caráter moral equivalente que pudesse resistir. A força humana que possuíam estava, moralmente, abaixo até mesmo do nível mínimo desejável de humanidade. Não lhes restava nenhuma motivação ou força motriz capaz de tirá-los desse estado de decadência. O ser humano novo formado pelo chamado corânico para a reconstrução da humanidade não podia sequer ser enfrentado pelo ser humano de molde antigo criado pelo judaísmo. Por mais que espalhassem propaganda, criassem mal-entendidos e suscitassem hostilidade, a força judaica era cada vez mais obrigada a recuar no campo da argumentação. Independentemente do que pensassem de si mesmos, as forças da história estavam ao lado do movimento islâmico. No campo da realidade, os judeus sofriam continuamente golpes impetuosos. A sociedade humana contemporânea avançava, deixando-os para trás e hasteando a bandeira do sistema de vida islâmico. No campo político, os judeus desejavam destruir a Revolução Islâmica, mas o tratado de aliança mantinha suas mãos atadas. Diante dessa realidade, ficaram completamente impotentes e desamparados. E o sentimento dessa impotência e desse desamparo, combinado com as características fundamentais de seu caráter, assumiu a forma de covardia. Em um ambiente de desamparo e covardia, a mentalidade competitiva ativa no coração humano sempre o conduz, pelo caminho da inveja e do ódio, ao esconderijo secreto da hipocrisia. Assim, em vez de atacar o adversário pela frente, desfere-lhe um golpe secreto pelas costas. Em vez de um roubo aberto, trama um arrombamento furtivo. Foi esse papel covarde que a comunidade judaica adotou.
A situação real criou dois fatores auxiliares para o surgimento da desprezível rede de hipócritas. Primeiro, a mentalidade vingativa do círculo judaico e de seus descendentes. Como essa mentalidade não tinha capacidade para um ataque direto, o esconderijo secreto da hipocrisia foi ativado. Segundo, ao verem o poder crescente do Islã, muitas pessoas começaram a entrar por esse caminho oculto, a fim de construir seu próprio futuro.
Foi a mente judaica que inaugurou esse caminho oculto. Seus líderes renomados, escondendo sua mentalidade hostil, começaram a entrar na organização islâmica vestindo o manto do Islã. As seguintes personalidades notáveis dos Banu Qaynuqa entraram no Islã como a “quinta coluna”:
(1) Sa’d bin Hanif (2) Zayd bin Lusait (3) Nu’man bin Awfa bin Amr (4) Rafi bin Huraimala (5) Rifa bin Yazid bin Tabut (6) Salsala bin Barham (7) Kinana ibn Surayya.
Entre eles, Zayd ibn Lusayt era o homem que havia provocado uma briga com Hazrat Umar no mercado de Banu Qaynuqa. Além disso, quando a camela do Mensageiro de Allah se perdeu, esse homem zombou, dizendo: “Ele costuma nos informar sobre as notícias dos céus, mas não sabe onde está sua própria camela!” Em resposta, o Mensageiro de Allah disse: “Não sei nada além do que Allah me informa. Agora Allah me informou sobre a camela. Ela está em tal campo, e a corda de sua rédea ficou presa a uma árvore.” Quando os Companheiros saíram à sua procura, viram com os próprios olhos que ela estava exatamente naquela situação.
Rafi ibn Huraymala era um hipócrita de tão alto nível que, no dia em que morreu, o Mensageiro de Allah disse: “Hoje morreu um dos principais líderes dos hipócritas.” Rifa ibn Zayd ibn Tabut era outro semelhante. Quando um vendaval se levantou no retorno da batalha de Banu al-Mustaliq, as pessoas ficaram assustadas. O Mensageiro de Allah as consolou, dizendo: “Este vendaval veio para punir um certo líder dos hipócritas.” Depois que chegaram a Medina, todos souberam que Rifa havia morrido justamente naquele vendaval. (Sira de Ibn Hisham, volume 2.)
O interessante é que todos os que se juntaram às fileiras dos hipócritas eram idosos e abastados. Eram egoístas e tinham o coração de pedra. Os jovens, em geral, eram companheiros do movimento islâmico. Apenas um jovem, Qays ibn Amr ibn Sahl, é encontrado entre a quinta coluna.
Esse círculo não era tão limitado. Na realidade, aqueles poucos homens eram os líderes e comandantes da quinta coluna. Eles também recrutavam novos hipócritas entre os círculos que conheciam. Além disso, procuravam cuidadosamente pessoas fracas entre os muçulmanos, influenciavam-nas e utilizavam-nas; espalhando dúvidas e suspeitas entre elas, acrescentavam escárnio e zombaria às questões importantes nas reuniões dos muçulmanos e deterioravam o ambiente. Iam à mesquita, ouviam todas as discussões importantes e depois apresentavam relatórios sobre elas em suas próprias reuniões. À noite, realizavam reuniões conspiratórias; novos planos prejudiciais eram elaborados e executados por novos métodos. Os modos desajeitados criados pelos hipócritas eram bem conhecidos pelo Mensageiro de Allah e pelos muçulmanos, devido à sua própria anormalidade. Ao mesmo tempo, por meio da revelação, eram identificados em cada nível seus pensamentos, atividades e conspirações, e até mesmo sinais específicos de suas consciências inclinadas ao crime. Certa vez, o comportamento desses líderes hipócritas tornou-se insuportável na Mesquita do Profeta. Em uma reunião geral, esse grupo havia se sentado completamente separado e conversava em particular, aos sussurros. Ao ver essa cena, o Mensageiro de Allah ordenou que saíssem da mesquita. Alguns eram tão íntimos uns dos outros que foram expulsos enquanto ainda estavam de mãos dadas e abraçados.
A liderança central desse círculo de hipócritas estava concentrada na pessoa de Abdullah ibn Ubay. Esse homem foi o principal vilão do episódio da difamação contra Hazrat Aisha. O ódio, a hostilidade e o desejo de vingança contra a revolução islâmica estavam entranhados em sua medula. Ouçam da boca de Hazrat Usayd ibn Hudayr a causa desse ódio e dessa hostilidade incuráveis. Durante a batalha de Banu al-Mustaliq, ele disse ao Mensageiro de Allah a respeito de Abdullah ibn Ubay:
“Ó Mensageiro de Allah! Seja um pouco bondoso para com os sentimentos dolorosos desse homem. Quando o senhor chegou a Medina, havíamos concluído todos os preparativos para colocá-lo no trono real. Uma coroa estava sendo feita para ele. Com a sua chegada, todos os seus esforços foram reduzidos a cinzas. O pobre homem está apenas descarregando seu ressentimento.” (Tafhim al-Qur’an, introdução à surata An-Nur.)
Aqueles cujos planos são frustrados por uma causa ou movimento e cujos interesses fracassam mesmo depois de chegarem à porta do sucesso passam a vida inteira agitados, com veneno no peito. Um rival derrotado assim jamais consegue perdoar o adversário. Essa era também a situação em relação ao Islã. Abdullah ibn Ubay carregou desde o primeiro dia a amarga lembrança de seu fracasso e a carregou por toda a vida. Desde o início, ele aceitou o Islã para poder abrir espaço para si dentro dessa nova força e, elevando-se gradualmente a partir de dentro dela, alcançar o nível máximo de poder e liderança. Mas, dentro desse sistema, quem quisesse avançar em qualquer direção teria de seguir o caminho da fé e das boas ações. Por isso, Abdullah ibn Ubay não tinha outra alternativa senão permanecer como hipócrita. Desde o começo, sua hipocrisia permaneceu oculta. Porém, certo dia, essa doença imunda de seu coração veio acidentalmente a público.
Certo dia, o Mensageiro de Allah foi visitar o Companheiro enfermo Sa‘d ibn Ubadah. Ele foi montado em um jumento. Usama ibn Zayd estava sentado atrás dele. O próprio Usama narra que, no caminho, Abdullah ibn Ubay estava sentado numa reunião em um determinado lugar. Ao seu redor estavam sentados apenas membros de sua própria tribo. Ao ver o Mensageiro passando por ali, ele virou o rosto, aborrecido. O Mensageiro de Allah foi até ele e o cumprimentou. Depois, fez uma breve pausa, recitou uma passagem do Alcorão, transmitiu o convite ao Islã, recordou-lhe Allah e advertiu-o contra sua ira. Abdullah ibn Ubay permaneceu sentado em silêncio, prendendo a respiração. Porém, quando o Mensageiro terminou de falar e partiu, ele gritou em linguagem extremamente grosseira e indecente: “Ó, fulano! Esse modo de falar não é correto. Fique em sua própria casa. Àquele que for até você, diga o que quiser dizer. Não incomode quem não vai até você. Não vá à casa de ninguém e, sem ser convidado, ofereça-lhe um convite que não lhe agrada.” Vejam como cada palavra está cheia de veneno! Que linguagem suja e dolorosa, e que emoção tão provocadora!
Na realidade, essas palavras não eram do indivíduo Abdullah bin Ubayy. Eram a expressão venenosa da jahiliyyah em declínio contra a era de felicidade e prosperidade que se aproximava.
O Mensageiro (S.A.W.) ouviu esse discurso vil a partir de sua elevada e honorável posição. Ao ouvi-lo, talvez seu coração magnânimo tenha sido tomado pela compaixão, em vez da ira.
Abdullah bin Rawahah, membro do grupo muçulmano presente na reunião, também estava ali. Seu senso de honra o impeliu a cumprir seu dever. Ele respondeu ao líder hipócrita em tom veemente: “Por que o Mensageiro (S.A.W.) não viria? Nós o queremos. Ele virá às nossas casas e às nossas reuniões. Nós o amamos, e foi por meio dele que Allah nos honrou.”
Depois de vivenciar essa experiência no caminho, o líder da humanidade, Sa’d bin Ubadah, foi visitado. Ao notar um sinal incomum no rosto do Mensageiro (S.A.W.), Sa’d perguntou a causa. O Mensageiro (S.A.W.) relatou o ocorrido. Sa’d também explicou o contexto, dizendo: “Quando Allah o trouxe para Medina, estávamos fazendo uma coroa para ele. Com a sua chegada, você destruiu o sonho do reinado dele.” Ele queria dizer que aquela reação era natural e que era melhor não lhe dar importância.
Esse homem continuou a desempenhar no palco da história o papel de principal vilão de todo o drama da hipocrisia. Ele era seu principal instigador. Atrás dele estavam as bênçãos dos grandes líderes. Atrás deles havia grupos de hipócritas conscientes e muçulmanos imaturos. E, por trás de todos, estavam os beduínos ignorantes e obtusos. Cada medida reacionária dirigida contra o movimento islâmico contava, sucessivamente, com a contribuição dessas diversas classes. Por trás de toda a oposição e resistência que os muçulmanos enfrentaram em Medina, e de todas as conspirações que o Mensageiro (S.A.W.) teve de enfrentar, havia um papel enorme dessa força deformada e destrutiva dos hipócritas influenciados pelos judeus. Embora a liderança de todas as atividades hostis estivesse nas mãos dos judeus, na prática, o papel principal por trás de todos os acontecimentos negativos provocados para bloquear o caminho do Mensageiro (S.A.W.) era desempenhado por aqueles hipócritas que agiam como marionetes dos judeus.
Atividades de propaganda difamatória
Quando um círculo anárquico e avesso ao trabalho se vê diante de um movimento reformista e construtivo, dedica-se com todo empenho a perseguir seus líderes e ativistas. Eles próprios não querem fazer nada, nem sentem qualquer responsabilidade para com Allah ou o povo. Por isso, empregam com extrema facilidade toda a sua força e talento em atividades negativas. Essas pessoas cercam os líderes e ativistas dos movimentos reformistas e construtivos como fantasmas, tentando descobrir suas falhas com lentes de aumento. Analisam minuciosamente cada palavra, ação e acontecimento relacionado a eles. Então, ao encontrar a menor distorção ou falha, começam a alardear: “Ó povo! Vejam, eles estão envolvidos em desvio, deturpação e incredulidade. Tal ato é contrário aos antigos sábios; é uma afronta aos grandes imames e uma crítica aos grandes santos.” Quando, movidos pelo fanatismo da oposição cega, desejam prejudicar uma pessoa boa e seu trabalho em benefício do povo, por um lado apontam as falhas de toda boa obra. Por outro, mesmo que os que trabalham cometam um pequeno erro, transformam-no em algo enorme, divulgam-no publicamente e inflamam a opinião pública. A maior oportunidade para os sabotadores surge quando algum acontecimento ocorre contra as ideias equivocadas, superstições e maus costumes do povo em geral, ainda que seja correto e justo. É universalmente reconhecido que os movimentos reformistas, construtivos e revolucionários precisam opor-se a muitas coisas populares. Assim, sempre se encontra algum assunto para uma propaganda hostil. O Mensageiro (S.A.W.) e os Companheiros honoráveis enfrentavam exatamente essa situação por parte dos judeus. Todas as manhãs e tardes havia algum tumulto e alguma campanha difamatória era lançada.
A acusação de ambição por cargos
Em todas as épocas, os opositores costumam caluniar todo aquele que porta a bandeira da verdade, tentando macular sua sinceridade e dedicação com algum interesse pessoal, dizendo que ele é um homem ávido por cargos. Que deseja tornar-se alguém importante. Contra Moisés e Aarão foi feita precisamente a acusação de que queriam apoderar-se do trono do Estado. Sobre Jesus foram espalhadas calúnias de que ele queria tornar-se rei dos judeus. Quando a delegação de Najran chegou, os judeus acusaram o Mensageiro de Allah (S.A.W.) de brincar com a vida de tantas pessoas apenas para usurpar a posição que Jesus (A.S.) ocupava. Diziam que ele queria que cristãos e outros começassem a adorá-lo. Observem que o Mensageiro de Allah (S.A.W.) jamais fez qualquer reivindicação desse tipo. Ele nunca deu sequer indícios de desejar obter um trono ou cargo. Ainda assim, da mente fértil dos opositores foram construídas e inventadas acusações fantasiosas: diziam que o objetivo de Muhammad (S.A.W.) seria fazer com que o adorassem, à semelhança de Jesus (A.S.). Não fez tal reivindicação com a boca, e daí? Certamente ele a guardaria no coração; os sinais indicavam que, se não hoje, algum dia no futuro ele faria essa reivindicação. Foi porque tais disparates haviam sido incutidos nos ouvidos da delegação de Najran que um de seus membros, Abunafe Qarzi, perguntou abertamente ao Mensageiro de Allah (S.A.W.): “Você quer que os cristãos o adorem assim como adoram Jesus (A.S.), e que os muçulmanos também o adorem?” Outro membro perguntou: “Você quer que prestemos culto e adoração a você e é por isso que nos convida?” Ele respondeu: “Busco refúgio em Allah contra adorar alguém além de Allah ou convidar alguém a adorar outro além d’Ele. Allah não me enviou nem me ordenou com esse propósito.” (Sira de Ibn Hisham, volume 2.) Nesse momento, o Alcorão também declarou claramente: “Não é lícito a nenhum ser humano que Allah lhe conceda o Livro, a sabedoria e a profecia e que depois diga às pessoas: ‘Tornai-vos meus servos em vez de servos de Allah.’”
A acusação de profanar símbolos religiosos universalmente reconhecidos
Depois que o líder da humanidade, o Mensageiro de Allah (S.A.W.), migrou para Medina, começou a despertar novamente em Meca o desejo de vingança, e eles passaram a considerar continuamente a possibilidade de atacar Medina. Seus espiões circulavam pelos arredores de Medina. Começaram a trocar cartas com os judeus de Medina, e seus grupos militares chegavam, a qualquer momento, até as fronteiras do Estado islâmico. Em resposta, o Estado islâmico também estabeleceu um sistema de patrulhamento. Grupos militares e civis realizavam patrulhas e observavam os movimentos dos espiões e das tropas dos coraixitas. Com essas atividades, Medina queria fazer os coraixitas compreenderem que não estávamos dormindo. Ao mesmo tempo, eram advertidos de que, se destruíssem o ambiente de paz, as rotas de circulação de suas caravanas comerciais seriam fechadas.
No âmbito desse sistema de patrulhamento, no mês de Rajab do segundo ano da Hégira, o Mensageiro de Allah (S.A.W.) enviou um grupo de oito soldados para investigar os movimentos e os planos futuros dos coraixitas. Esse grupo não recebeu autorização para tomar qualquer medida militar. Porém, acabou encontrando uma pequena caravana comercial dos coraixitas. O encontro chegou a tal nível de tensão que o grupo militar do Estado islâmico lançou um ataque e matou um deles. Os demais foram presos e levados para Medina, juntamente com suas mercadorias. Como esse episódio ocorreu à noite, no fim do mês de Rajab e no início de Shaaban, os coraixitas de Meca, de um lado, e os judeus e hipócritas de Medina, de outro, aproveitaram a oportunidade para criar uma tempestade de propaganda caluniosa. Associaram categoricamente o episódio ao sagrado mês de Rajab e começaram a incitar o povo, dizendo: “Eles querem ser servos queridos de Allah, mas não hesitam em derramar sangue nem mesmo durante os meses sagrados.” (Tafhimul Qur’an)
O resultado dessa propaganda caluniosa foi extremamente prejudicial para os muçulmanos. Essa pequena e jovem força já estava cercada por inimigos e perigos de todos os lados. Para ela, o apoio de qualquer pessoa ou grupo era muito valioso. Era extremamente perigoso que se espalhasse na Arábia a ideia de que eles estavam violando a santidade do mês sagrado, pois a estabilidade do sistema religioso e econômico da Arábia dependia da preservação dessa santidade. Havia o risco de que até os apoiadores dos muçulmanos se tornassem seus opositores. Além disso, como a questão estava ligada aos sentimentos religiosos sensíveis do povo, também servia de motivo para incitação. Essa propaganda era especialmente capaz de destruir a confiança que o povo depositava nos muçulmanos quanto ao temor de Allah, à religiosidade e à responsabilidade moral. O episódio de Nakhlah também foi considerado censurável pelo próprio Estado islâmico por outra razão: o Mensageiro de Allah (S.A.W.) não havia autorizado aquele grupo militar a envolver-se em qualquer confronto. Mesmo sem receber as instruções devidas, o grupo tomou uma medida que poderia frustrar o próprio objetivo do sistema de patrulhamento do Estado islâmico e prejudicar o plano elaborado para esse fim. Medidas estavam sendo tomadas com extrema cautela para implementar esse plano. Agora, como o incidente de Nakhlah havia sido inteiramente uma ação ilegal e contrária às normas, o Mensageiro de Allah (S.A.W.) submeteu os envolvidos a um rigoroso interrogatório, puniu-os e recusou-se a aceitar os prisioneiros detidos como prisioneiros de guerra ou a depositar suas mercadorias no tesouro público (Bayt al-Mal).
O Estado islâmico tomou, de acordo com sua própria disciplina e regulamentos, as medidas apropriadas diante dessa ação contrária às normas. Porém, quando os opositores começaram a fazer propaganda caluniosa sobre o assunto, o Estado islâmico enfrentou-a com uma resposta mais racional, moralmente influente, clara e, ao mesmo tempo, contundente. O próprio Allah fez chegar a resposta por meio da revelação, através das palavras do Mensageiro de Allah (S.A.W.):
“As pessoas perguntam sobre combater durante o mês sagrado. Dize: ‘Combater nele é um grande pecado.’ Porém, impedir as pessoas de seguir o caminho de Allah, negar-Lhe obediência, impedir os servos de Allah de chegar à Mesquita Sagrada e expulsar dela seus habitantes é, aos olhos de Allah, um pecado muito maior. E a perseguição é mais grave do que o derramamento de sangue.” (Al-Baqara, 217)
Disso fica claro que, influenciados e perturbados pela intensa campanha de propaganda dos opositores do Islã, os muçulmanos perguntaram qual era, do ponto de vista islâmico, a posição sobre travar guerras e combates durante os meses sagrados. Aqueles que nutriam uma concepção desequilibrada sobre honestidade e amor à paz, e que se alarmavam diante da menor oposição, ficaram especialmente preocupados: será que estamos perdendo o verdadeiro espírito do Islã e o temor a Deus? Será que, submetidos a um amor excessivo pela política, estamos nos afastando de nosso objetivo original e afastando o próprio povo? O constrangimento dessas pessoas era incomum, e a paz de suas mentes estava sendo destruída. Essa preocupação estava especialmente ativa por trás da pergunta. Nesse contexto, também foi dada uma resposta contundente aos opositores do Islã. Deus declarou que os politeístas de Meca, culpados de crimes tão graves como impedir as pessoas de seguir o caminho de Deus, desobedecer a Deus, impedir a entrada daqueles que vinham ao Santuário Sagrado e atormentar os habitantes do Santuário, expulsando-os dele, com que autoridade agora apareciam em campo fingindo ser defensores da honra dos meses sagrados? Indiretamente, também foi dito aos judeus e aos hipócritas: durante todos esses atos de opressão e perseguição cometidos pelos habitantes de Meca, bem como durante suas ações que violavam a santidade dos símbolos religiosos, vocês permaneceram calados e continuam silenciosos a esse respeito. Hoje, por causa de um incidente isolado em Nakhla, vocês passaram a fingir ser tão zelosos defensores da santidade religiosa? E, além disso, as autoridades do Estado islâmico não haviam dado autorização para essa ação. Pelo contrário, o incidente ocorreu devido ao erro de algumas pessoas. O governante do Estado recusou-se a aceitar os benefícios desse acontecimento e puniu os envolvidos.
A análise histórica desse acontecimento mostra como os inimigos do Islã ficam à espreita, esperando que ocorra o menor deslize para lançar um ataque. Assim que alguém comete o menor erro, eles imediatamente o espalham por todo o mundo, revestindo-o com as cores de sua própria interpretação.
Num lugar onde, a todo instante e em todos os assuntos, são feitos esforços para espalhar confusão, suspeitas e provocações, é fácil imaginar quanta preocupação e ansiedade enfrentavam o pequeno Estado islâmico cercado de inimigos, o movimento revolucionário que o fundou e seu dirigente. Todo o ambiente estava repleto de dúvidas, suspeitas, questões e objeções geradoras de confusão. Contudo, obstáculos desse tipo jamais conseguiram impedir a vitória de uma organização idealista e íntegra.
A acusação de buscar interesses pessoais sob o disfarce da religião
Como já mencionei, os eruditos judeus provocaram agitação de maneira completamente injustificada contra cada medida reformadora implementada pelo Islã. Uma reforma significativa dizia respeito à posição e aos direitos do filho adotivo, ou filho considerado como tal. Também em torno disso foi realizada uma campanha de propaganda hostil com grande intensidade.
De acordo com as antigas concepções religiosas e sociais, havia na Arábia uma importante prática tradicional: casar-se com a esposa divorciada de um filho adotivo (isto é, de um filho considerado como tal) era tão ilícito quanto casar-se com a esposa divorciada de um filho biológico. Para abolir essa prática, Allah Ta’ala, segundo Seu próprio plano, fez com que os acontecimentos se desenrolassem de maneira extraordinariamente surpreendente e os conduziu a um desfecho revolucionário. O acontecimento foi o seguinte: aos dez anos de idade, Zaid ibn Haritha tornou-se escravo. O Mensageiro de Allah passou a criá-lo com tanto afeto e cuidado que, em sua casa, ele adquiriu a posição de filho adotivo. Mais tarde, o pai e o irmão de Zaid vieram buscá-lo, e o Mensageiro também lhe deu permissão para partir. Entretanto, nesse meio-tempo, Zaid havia passado a amar o Mensageiro de Allah tão profundamente que não conseguiu aceitar a ruptura daquela relação e recusou-se a ir com o pai. Embora Zaid tivesse se tornado escravo por circunstâncias do destino, era na realidade filho de uma família árabe nobre. Por isso, alguns líderes de Meca propuseram que ele se casasse com Zaynab, prima do Mensageiro de Allah. Porém, o irmão de Zaynab não concordou com o casamento. Isso ocorreu porque o casamento não correspondia aos critérios e padrões então vigentes na Arábia. Segundo a mentalidade da era da ignorância, ainda havia na testa de Zaid a marca de desonra da escravidão. Além disso, sua falta de recursos e de meios de subsistência era considerada outra deficiência. O Islã considerou necessário transformar também essa mentalidade. O Mensageiro de Allah, amigo da humanidade, procurou remover do caminho do casamento o obstáculo da discriminação de origem e transformar toda a sociedade islâmica numa família unida. Como resultado desse esforço, o muro da discriminação desmoronou completamente, e o termo ‘kufū’ — ou igualdade familiar — adquiriu um novo significado. Ele mudou profundamente a perspectiva dos muçulmanos. Ensinou-lhes que, ao escolher uma esposa, deveriam observar antes de tudo o caráter e a religiosidade da noiva. As demais qualidades deveriam ser consideradas numa etapa posterior. Certa vez, disse também que, se estabelecessem qualquer outro critério em lugar da religiosidade e da moralidade, surgiriam na sociedade grande anarquia e desordem. Assim, a concepção de ‘kufū’ que se difundiu passou a ser esta: o cônjuge deve ser escolhido considerando quem poderá ser o melhor companheiro ou companheira de vida em relação ao verdadeiro objetivo da existência, e com quem será possível desenvolver a maior harmonia e afinidade em termos de gosto e mentalidade. Inúmeros casamentos — na verdade, a maioria deles — passaram a ser realizados de acordo com essa nova perspectiva. O nível alcançado por essa transformação mental e social pode ser percebido pelo episódio do casamento de Abu Talha. Abu Talha, ainda descrente, enviou uma proposta de casamento a Umm Sulaym. Entretanto, Umm Sulaym já havia aceitado o Islã. Ela respondeu: “Você ainda é descrente, enquanto eu aceitei o Islã. Como duas vidas opostas podem ser unidas? Se você aceitar o Islã, não pedirei de você outro mahr além de sua aceitação do Islã.” Essa resposta mostra que a proposta de casamento também era desejada por Umm Sulaym. Contudo, o Islã havia criado uma mentalidade tão revolucionária que ela, impondo força ao próprio coração, rejeitou a proposta. Ao mesmo tempo, incentivou-o a aceitar o Islã. Por fim, Abu Talha aceitou o Islã. O casamento foi realizado e, verdadeiramente, o Islã foi estabelecido como seu mahr. (Muwatta do Imam Malik e Uswa-ye Sahabiyat, Maulana Abdus Salam Nadwi, que Allah tenha misericórdia dele.)
Em suma, estavam ocorrendo mudanças no gosto e nos padrões relativos ao casamento. Ainda assim, alguns obstáculos permaneciam. Foi por isso que o irmão de Zaynab não consentiu com o casamento proposto. O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) também desejava que o casamento se realizasse. Porém, quando uma simples mentalidade da jahiliyyah se interpôs em seu caminho, isso foi identificado como algo indesejável aos olhos de Allah e do Mensageiro. Essa atitude foi criticada por meio de alusões na Surata Al-Ahzab. No versículo 35, foi dito: “Para as mulheres muçulmanas e os homens muçulmanos, as mulheres crentes e os homens crentes……………….. Allah preparou perdão e uma grandiosa recompensa.” A mensagem central desse versículo é que as mulheres e os homens muçulmanos que possuem a ideologia islâmica, a mentalidade islâmica e o caráter do Islam são completamente iguais e afinados entre si. Há proximidade e afeição entre eles, e são dignos de serem valorizados uns pelos outros. Portanto, não é desejável que a discriminação e a distinção de linhagem, nem as noções ignorantes de nobreza e aristocracia, se tornem obstáculos entre eles. Mas a alusão não se limitava a isso. O versículo seguinte é ainda mais rigoroso. Nele foi dito que, quando Allah e Seu Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) tomam uma decisão sobre qualquer assunto, nenhum homem ou mulher crente tem o direito de dar importância às suas próprias preferências, aversões e padrões em oposição a essa decisão. “E aqueles que desobedecem a Allah e a Seus Mensageiros desviaram-se para muito longe.” (Surata Al-Ahzab, 36) Ou seja, quando se facilita o estabelecimento de uma relação matrimonial entre um homem muçulmano e uma mulher muçulmana, criar obstáculos dando importância às antigas concepções da jahiliyyah é uma forma de arbitrariedade contra a orientação e as decisões de Allah e do Mensageiro. Esse tipo de arbitrariedade acaba assumindo a forma de desvio. Assim, esse versículo desferiu um golpe bastante forte, atingindo precisamente o alvo. Ao ouvir esses versículos, o irmão de Zaynab compreendeu a alusão e consentiu com o casamento. Isso significou que se romperam as correntes dos padrões ignorantes de nobreza e não nobreza, de pertença ou não pertença a uma linhagem nobre, determinados pelo nascimento.
Por meio desse acontecimento, Allah decidiu também abolir a concepção equivocada então difundida a respeito dos filhos adotivos. Mais tarde, a situação chegou a tal ponto que o marido e a esposa não conseguiram viver em harmonia. A diferença real existente entre os dois afetou o relacionamento. Uma queixa após outra começou a chegar ao Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Porém, em vez de melhorar, o relacionamento continuou a se deteriorar. Por fim, Zaid começou a manifestar ao Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) sua intenção de divorciar-se. O Mensageiro ficou profundamente aflito, pois estava se desfazendo um casamento realizado com o objetivo de estabelecer na sociedade um exemplo revolucionário. Além disso, o próprio incentivo e aconselhamento do Mensageiro haviam desempenhado um papel importante nesse casamento. Ele era o responsável por Zaid. Por isso, uma grande responsabilidade recaía sobre ele nesse caso. Repetidamente, tentou preservar o casamento e impedir que Zaid se divorciasse. Mas, no fim, todas essas tentativas fracassaram. Zaid divorciou-se dela. Finalmente, surgiu a necessidade de que o próprio Mensageiro se casasse com Zaynab. Não havia nenhum impedimento da Shariah para isso. Contudo, devido às antigas concepções da jahiliyyah, temia-se que o povo ficasse atônito e que, ao mesmo tempo, os opositores obtivessem mais um instrumento para sua propaganda caluniosa. Mas o plano de Allah era que a eliminação da concepção equivocada sobre os filhos adotivos, herdada da época da jahiliyyah, fosse realizada de modo muito claro e transparente pelas próprias mãos do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), para que a raiz desse mau costume fosse completamente extirpada. No Alcorão, Allah revelou sua preocupação oculta. Disse: “Allah certamente tornará manifesto aquilo que escondes em teu íntimo. Temes as pessoas, quando Allah é quem mais deve ser temido.” (Al-Ahzab, 37) Em tom de leve crítica, foi dito que ele escondia no coração algo que Allah estava determinado a revelar. Ele temia as pessoas; ou seja, Allah não aprovava que aquilo que era permitido pela lei de Allah fosse ocultado por receio das concepções ignorantes da sociedade. Isso precisava ser manifestado, “para que não haja restrição alguma sobre os crentes em relação às esposas de seus filhos adotivos, quando estes se divorciarem delas”. (Al-Ahzab, 37) Em outras palavras, o objetivo era remover para sempre dos muçulmanos as antigas severidades socialmente impostas no que dizia respeito aos filhos adotivos. Para quebrar essa corrente da jahiliyyah, foi desferido o golpe final: Allah tomou pessoalmente a iniciativa especial de realizar o casamento do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) com Zaynab.
Assim que esse acontecimento ocorreu, instalou-se grande alvoroço entre os círculos contrários ao Islam em Medina. Eles começaram a fazer propaganda, dizendo: “Vejam só a ostentação de religiosidade e pureza! Ele acabou se casando com a esposa de seu filho adotivo!” Ao mesmo tempo, inventaram vários relatos para tornar a história mais sensacionalista e atraente. Os judeus maledicentes e os hipócritas começaram então a espalhar o boato de que — Deus nos livre — “na verdade, ele havia se apaixonado pela nora! Por isso a obrigou a divorciar-se e depois casou-se ele mesmo com ela”. Alguns orientalistas hostis da era moderna adotaram literalmente da história todas as calúnias imundas atribuídas pelos então ferrenhos inimigos do movimento islâmico. Esse acontecimento também se tornou um tema amplamente aceito entre esses estudiosos e pesquisadores, que o embelezaram ainda mais e o apresentaram em seus livros. Dizem que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) teria visto Zaynab de repente e se apaixonado por ela. É preciso refletir: o homem que passou toda a sua vida em esforços constantes e atividade incansável, com uma juventude inteiramente imaculada, e que não pôde passar sequer um momento em tranquilidade, teria chegado ao auge da maturidade de caráter apenas para se tornar tão frágil que uma única olhada o deixasse enlouquecido de amor? Será que essa ofensa se harmoniza de algum modo com seu caráter como um todo? Além disso, Zaynab era prima do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) por parte de tia paterna e havia crescido diante dele, brincando alegremente, desde a infância. Sua existência não era novidade alguma para o Mensageiro. Também é fato que ele próprio se empenhara muito para casá-la com Zaid e que, nesse casamento, ele mesmo era o responsável por Zaid. Diante desses fatos incontestáveis, é possível encontrar algum fundamento para essa história inventada, criada pelos judeus e hipócritas de Medina e novamente utilizada pelos orientalistas contra o Islam? Segundo os próprios padrões daqueles que reivindicam racionalismo e pesquisa, essa ficção passa pelo crivo?
E não foi um casamento qualquer: foi realizado diretamente nos céus. Dizem que ele fez revelações descerem à vontade para criar o ambiente propício a esse casamento. Anteriormente, haviam sido feitas muitas campanhas hostis de propaganda contra a aqidah e o fiqh. Mas, em torno desse acontecimento, foi realmente lançada uma propaganda imunda, e foi realizado um ataque contra a grandeza moral do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). É bem conhecido que o ataque mais grave contra qualquer movimento reformador e construtivo pode ser desferido precisamente no campo moral. Se os opositores de um da’wah espalharem sobre seu líder que ele é um libertino, que não hesita em recorrer a qualquer método para satisfazer os desejos de sua própria natureza, e que não respeita nenhum padrão de caráter, não pode haver golpe mais prejudicial do que esse. É fácil imaginar quanta propaganda imunda os inimigos fizeram em Medina em torno desse acontecimento e quantos dias de sofrimento psicológico viveu esse maior benfeitor da humanidade.
Parece que essa campanha difamatória dos judeus era extremamente constrangedora também para os muçulmanos inocentes e de espírito simples. Talvez eles fossem importunados no caminho com todo tipo de palavras tolas e ofensivas, enquanto se tentava semear em suas mentes diversas dúvidas e suspeitas. Alguns muçulmanos imaturos talvez ficassem assustados por causa disso. Os hipócritas infiltrados entre eles talvez, fingindo ser dos seus, espalhassem todo tipo de disparates. Diante dessa situação, Allah, o Altíssimo, consolidou na mente dos muçulmanos alguns princípios, para consolá-los e educá-los. Informou-lhes que não havia qualquer restrição sobre o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) quanto àquilo que Allah havia tornado lícito para ele. (Surata Al-Ahzab, 38.) Esclareceu também o propósito dessa medida: não deveria haver impedimento para que os muçulmanos se casassem com as mulheres divorciadas por seus filhos adotivos. (Surata Al-Ahzab, 37.) Declarou ainda que Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) não era pai de nenhum dos seus homens. (Surata Al-Ahzab, 40.) Por fim, dirigindo-se ao próprio Mensageiro, disse: “Não sigas os incrédulos e os hipócritas, nem te aflijas com suas calúnias. Confia em Allah; Allah é suficiente.” (Surata Al-Ahzab, 40.) Assim, de maneira extremamente serena e digna, foi dada resposta àquela detestável e imunda campanha difamatória promovida pelos judeus com intenções vis.
Mais uma campanha difamatória imunda
O acontecimento acima permite compreender que, quando Satanás não encontra nenhuma oportunidade de prejudicar os ideais e os objetivos do movimento islâmico atacando-o de frente, incita-o a golpeá-lo pelas costas. E, aos olhos de Satanás, a melhor maneira de atacar pelas costas é manchar a personalidade e a liderança de seu dirigente. Foi por isso que, em certa fase, acusações vis e infundadas de fascínio pelo poder e, em outra, de egoísmo foram lançadas contra o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Depois, essa campanha difamatória avançou ainda mais e a família do líder supremo do movimento islâmico tornou-se seu alvo. No entanto, essa família havia sido estabelecida como modelo central, do ponto de vista social e moral, para toda a humanidade e para toda a Ummah muçulmana. Era em torno dessa família que a estrutura da sociedade islâmica estava sendo construída. E atacar o centro dessa família era a maneira mais eficaz de destruir aquela estrutura. Por fim, as forças subversivas não hesitaram sequer em desferir esse último golpe. A história dolorosa desse ataque hostil está preservada, para que dela se extraia uma lição, nos livros do Alcorão, do Hadith, da história e da Sira, sob o nome de “o incidente da Ifk”, ou seja, “a história da calúnia contra Aisha”.
Antes de apresentar os fatos do acontecimento principal, considero necessário analisar como foi possível que o terrível tumulto provocado por uma calúnia tão vil surgisse na sociedade honesta e virtuosa formada pelo movimento islâmico e no interior de um grupo treinado e bem organizado. Por qual brecha essa terrível tempestade entrou na fortaleza protegida da organização islâmica e teve a oportunidade de provocar, por algum tempo, um horror extremo?
O ambiente propício à criação da confusão
Para que Satanás cause sabotagem e desordem no interior do sistema social islâmico, é indispensável que exista um tipo especial de ambiente propício. Quer esse ambiente surja devido a alguma falha na disciplina e na moralidade da sociedade, quer nasça das imposições das circunstâncias e do contexto, assim que se cria uma oportunidade para gerar confusão, a conspiração de Satanás pode alcançar certo êxito. No curso da ordem natural estabelecida por Allah, sempre permanecem algumas brechas para que Satanás atue, por mais ideal que seja a sociedade. Na verdade, existem na natureza humana certas fraquezas que permitem a entrada da confusão e da discórdia. Tampouco é possível garantir, no caso da sociedade estabelecida pelo Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, que em seu interior não haverá nenhuma oportunidade para forças anárquicas atuarem. Assim como é possível que uma pessoa, por mais saudável que seja, às vezes seja acometida de febre, tosse e resfriado, também é possível que até a sociedade mais pura seja acometida por doenças. O que se pode esperar de uma sociedade saudável e vigorosa é que ela esteja sempre empenhada em prevenir as doenças e destruir os germes. Mas não se pode esperar que jamais ocorra nela o surto de qualquer doença. Para Satanás, o ambiente mais propício em qualquer sociedade é o ambiente de consultas secretas e sussurros. Esse ambiente surge quando, em um sistema coletivo, em vez de expressarem abertamente opiniões, conselhos, críticas e perguntas diante de todo o povo, diferentes indivíduos se reúnem separadamente para consultas secretas. No Alcorão, isso é chamado de “najwa”. Na realidade, najwa é o nome dado ao início de uma caminhada perigosa na vida coletiva. Quando as pessoas sentem constrangimento em agir abertamente, é preciso compreender que certamente há algo por trás disso. Essa tendência de substituir a transparência por consultas secretas e sussurros acaba se transformando em conspiração e conluio.
Infelizmente, dentro do movimento dirigido sob a supervisão do Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, os hipócritas, liderados pelos judeus, criaram esse ambiente de sussurros e continuaram a perturbar incessantemente os líderes e os membros do movimento. O Alcorão também continuou a corrigir aqueles que criavam esse ambiente. E continuou a advertir os dirigentes da organização islâmica. O Alcorão diz:
“Não vês que aqueles a quem foi proibido fazer consultas secretas voltam a repetir esse ato proibido? Eles fazem consultas secretas entre si sobre pecados, arrogância e desobediência ao Mensageiro. (Surata Al-Mujadalah, 8)”
“Ó crentes! Sempre que conversardes em particular uns com os outros, não planejeis atos de iniquidade, arrogância e desobediência ao Mensageiro. Ao contrário, conversai sobre a retidão e o temor a Deus.” (Surata Al-Mujadala, 1)
“As conversas sussurradas são uma obra satânica destinada a atormentar os crentes. Contudo, sem a permissão de Allah, nada pode lhes causar dano.” (Surata Al-Mujadala, 10)
“Esses que realizam consultas secretas podem esconder-se dos olhos das pessoas, mas não podem ocultar-se dos olhos de Allah. Quando, na escuridão da noite e em segredo, dizem coisas que desagradam a Allah, Ele está com eles.” (Surata An-Nisa, 108)
“Sempre que três pessoas se reunirem para uma consulta secreta, Allah será o quarto entre elas; e, quando cinco se reunirem, Allah certamente estará com elas, onde quer que estejam.” (Surata Al-Mujadala, 7)
“Eles dizem com a boca: ‘Obedeceremos (às decisões coletivas e às ordens do líder).’ Mas, quando saem de tua presença, um grupo deles passa a noite deliberando contra as tuas palavras. E Allah registra os seus planos.” (Surata An-Nisa, 8)
Nesses versículos, foi declarado inequivocamente que, para garantir o apoio, a obediência, a implementação e a continuidade dos princípios estabelecidos sobre os quais a sociedade, o Estado e a organização islâmicos funcionam coletivamente, bem como das decisões sociais e tradições partidárias vigentes, as pessoas podem conversar livremente umas com as outras, em particular ou publicamente. Contudo, desobedecer a esses princípios, divergir deles, frustrá-los, organizar uma rebelião contra eles, levantar objeções e realizar consultas secretas e conversas sussurradas com o propósito de anulá-los constituem pecados tão abomináveis que destroem o caráter e o destino dessas pessoas e deixam todo o sistema social perturbado e assolado por problemas. Satanás é o verdadeiro instigador da rebelião secreta e das conversas sussurradas. O Alcorão advertiu a organização islâmica contra essa instigação.
Um dos temas das consultas secretas e das conversas sussurradas era “desobedecer à ordem do Mensageiro”. Na verdade, esse era o tema central. No ambiente abrangido pelo movimento islâmico de Medina, não havia possibilidade alguma de o próprio movimento, seus ideais e seus objetivos serem transformados em alvo de propaganda difamatória, nem de ser tomada qualquer medida de rebelião contra a desobediência a Allah e contra o Seu Livro. No máximo, os hipócritas tinham a oportunidade de criar alguma confusão, envolvendo-se em debates com a liderança do movimento islâmico e provocando agitação contra o líder supremo. A maneira mais eficaz e fácil de destruir um movimento moral pode ser espalhar difamações contra sua mais eminente personalidade.
A esse respeito, já disse anteriormente que já haviam sido lançadas acusações relacionadas ao egoísmo e à ambição pelo poder. Mas, na realidade, isso não se limitou à formulação de acusações específicas; ao contrário, uma campanha de disseminação de rumores (campanha de sussurros) e uma “guerra fria” assumiram um caráter permanente.
Por exemplo, mais tarde, quando o sistema de zakat e distribuição foi oficialmente instituído, foi lançada contra o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, a calúnia vil de que ele se apropriava, conforme seus próprios caprichos, do dinheiro acumulado no Bayt al-Mal. O que acontecia era que, quando o zakat e o ushr começaram a ser regularmente cobrados de todos os bens acumulados, capitais comerciais, rebanhos e produtos agrícolas, uma enorme quantidade de riquezas começou a ser reunida num único centro e passou a ser distribuída pelas mãos do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Ao verem aquela imensa acumulação de riquezas, os ávidos por dinheiro ficavam cobiçosos. Queriam que, tal como na época da Jahiliyyah, essas riquezas continuassem concentradas nas mãos dos ricos como eles. Porém, o sistema econômico estabelecido pelo movimento islâmico orientava as riquezas para os pobres. Os abastados ficaram profundamente descontentes com essa mudança revolucionária. Não podiam atacar o sistema econômico islâmico, que, em vez de encher seus bolsos, cobrava deles, por força da lei, a “multa” chamada “zakat”. Para satisfazer seu ressentimento, transformavam o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, em alvo de ataques. Diziam que ele gastava riquezas com seus apoiadores e parentes e que, especialmente, fazia doações generosas aos muhajirun. Em outras palavras, favorecia sua família e seus parentes com o dinheiro do tesouro público do Estado islâmico. Tomava, em nome de Allah, as riquezas arduamente adquiridas pelo povo comum, e esse dinheiro era gasto para ampliar sua influência, prestígio e domínio. Em qualquer sistema de governo, quando se acusa o governante em relação ao dinheiro do tesouro público, a questão assume proporções graves. Mas, sobretudo num sistema social religioso e moral, em que o tesouro é considerado propriedade de Allah e cada uma de suas receitas e despesas é administrada em nome de Allah e de acordo com a lei de Allah, acusações desse tipo podem provocar uma agitação extrema.
É motivo de reflexão que essa calúnia esteja sendo dirigida contra aquele homem exemplar que tornou legalmente ilícito o dinheiro do zakat e das esmolas não apenas para si e sua família, mas para todo o clã Banu Hashim. Talvez não se encontre em toda a história da humanidade comparação alguma para uma pessoa tão altruísta. No entanto, até a fronte luminosa dessa personalidade ilustre, indivíduos mesquinhos e de caráter vil tiveram a audácia de manchar.
O Alcorão identificou essas pessoas da seguinte maneira: elas ferem o coração do Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, com suas palavras abomináveis (Surata At-Tawbah). Em vez de discutir abertamente, num ambiente livre, os problemas coletivos do movimento, elas persistiam em atacar a personalidade de seu maior líder. O próprio Alcorão apresentou um exemplo desse ataque. O fato era que as atividades e o comportamento dos hipócritas no seio da sociedade islâmica constituíam algo tão deslocado que se tornavam extremamente irritantes para os crentes. Os crentes sentiam-se muito constrangidos ao ver tais comportamentos. Além disso, era difícil tomar medidas legais, mas também era árduo tolerá-los silenciosamente. O que poderiam fazer os pobres muçulmanos? Conforme as exigências da comunidade, eram obrigados a informar o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, sobre as atividades indecorosas dos hipócritas. Assim, cada hipócrita era gradualmente identificado na sociedade, e o Mensageiro reagia de uma maneira específica em relação a ele. No início, essa reação era extremamente branda, mas depois tornava-se gradualmente mais severa. Nessa situação, os atingidos pela doença da hipocrisia, sentindo-se negligenciados e encurralados, começaram a dizer: — Que Allah nos livre! O Mensageiro de Allah não tem discernimento; acredita em tudo o que ouve de qualquer pessoa. Pessoas insignificantes, que não possuem personalidade alguma em comparação conosco, vão até o Mensageiro, dizem o que querem sobre nós, e ele acredita imediatamente em tudo o que dizem. Estamos sendo prejudicados por causa dessa fraqueza do líder supremo. Hoje somos chamados de hipócritas e conspiradores. E aqueles jovens escravos famintos de antigamente tornaram-se seus companheiros mais próximos.
Provavelmente como reação a esse tipo de situação, certo grupo de hipócritas reuniu-se certa vez com o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, para uma sessão de conversa privada. Durante a reunião, um hipócrita após outro levantava-se repentinamente e dizia: “Tenho algumas coisas para lhe dizer em particular.” Por cortesia, o Mensageiro deixava essa oportunidade aberta a todos. Mas essa encenação de falar especialmente em particular tinha outro objetivo. Com isso, os hipócritas queriam impor sua influência sobre os muçulmanos comuns e transmitir a ideia de que eram pessoas extraordinariamente importantes, uma espécie de VIP. Queriam dizer: “Nós conversamos pessoalmente com o líder supremo, no mais alto nível.” O segundo objetivo era obter artificialmente proximidade aos olhos do Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e, na medida do possível, criar uma má impressão acerca dos crentes sinceros, aliviando um pouco a situação de negligência e encurralamento em que se encontravam, situação que havia surgido precisamente por causa de suas próprias más ações. Porém, a cortesia do Mensageiro, que havia criado uma oportunidade irrestrita para os hipócritas desperdiçarem seu tempo, foi revogada por Allah, o Altíssimo, mediante a seguinte ordem:
“Ó crentes, quando desejardes encontrar-vos em conversa privada com o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, reservando um tempo especial, dai uma caridade antes da conversa.” — (Al-Mujadilah, 12)
Com essa ordem, os hipócritas extremamente avarentos ficaram abalados, e cessou o hábito de repetidamente solicitar conversas em horários especiais. No entanto, essa prática havia começado com base na ideia de que o líder do movimento era muito crédulo. Portanto, pensavam: “Em confronto com os sinceros, também tentaremos pôr várias coisas em seus ouvidos e trazê-lo para o nosso lado.” Mas não podiam imaginar que, assim como era crédulo em relação aos crentes sinceros, ele era extremamente cauteloso com os conspiradores. De qualquer modo, é fácil compreender que aqueles que, dentro da organização islâmica, espalhavam esse tipo de comentário depreciativo contra seu líder supremo não poderiam ter amor e lealdade adequados à disciplina e à ordem. E é justamente essa lealdade e esse amor que tornam ativos e laboriosos os membros do grupo. Numa organização religiosa e moral, aqueles que se envolvem em propaganda maliciosa e conversas sussurradas contra a liderança estão, na realidade, empenhados numa tentativa de destruir essa organização.
Quando o movimento islâmico estava fazendo uma virada revolucionária do estágio da da’wah e da divulgação para o estágio do jihad, surgiu um grande número de hipócritas. No momento de uma virada desse tipo, em todo movimento algumas pessoas ficam atordoadas e perdem o equilíbrio. Em tais circunstâncias, somente conseguem manter o equilíbrio aqueles membros que já haviam ouvido antes para que direção estavam caminhando e quais etapas teriam de atravessar pelo caminho. Caso contrário, em todos os movimentos do mundo ocorre o seguinte: quando surge uma grande virada e é necessário saltar de um estágio para outro, aqueles que não compreendem previamente essa mudança tornam-se incapazes e inativos. Em acontecimentos históricos desse tipo, muitas vezes bons membros são apanhados por complicações e perdem o ânimo. Foi exatamente isso que aconteceu no movimento islâmico. Quando o movimento passou do estágio da divulgação para o estágio da luta, algumas pessoas perderam o equilíbrio mental. Especialmente aqueles que não estavam preparados para suportar o pesado fardo do jihad tornaram-se hipócritas para sempre. Como não haviam preparado previamente suas mentes e corações para essa situação, tiveram de aceitar esse destino.
Foi dito no Alcorão que, nos primeiros tempos, foi ordenado a certo grupo de pessoas: “Contendei as vossas mãos”. Isto é, ao transmitir a mensagem do Islã, suportai a opressão e os excessos, e não entreis em conflito. Limitai-vos a atividades como estabelecer a oração e pagar o zakat (An-Nissá, 77). Porém, nessa fase, essa ordem não lhes agradava. Mais tarde, quando foi ordenado a essas mesmas pessoas que combatessem, de repente ficaram tão amedrontadas diante das pessoas que sua atuação chegou a parar. Sua reação psicológica foi tal que disseram a Allah: “Ó Allah, por que nos prescreveste o combate? Poderíamos continuar pregando por mais alguns dias, purificando nosso caráter por meio da oração e do zakat, arrecadando contribuições e realizando obras construtivas. Nossas necessidades ainda não foram atendidas em uma única etapa, e já nos impuseste o trabalho da etapa seguinte antes do tempo!”
Mas eles estavam desamparados. Não podiam discutir com Allah, nem impedir que Sua ordem fosse promulgada. Diante deles restava apenas a personalidade do Rasul (s.a.). Por isso, jamais conseguiram perdoá-lo. Fugiram de todas as batalhas e, em cada situação delicada, recorreram a todo tipo de pretexto. Desforraram-se plenamente, no líder do movimento islâmico, das responsabilidades que Allah lhes havia imposto.
Quando qualquer movimento se envolve em conflito, seus porta-bandeiras golpeiam o inimigo, mas também recebem golpes. Alguns golpes são bem-sucedidos e outros fracassam. Às vezes, o resultado corresponde às expectativas; outras vezes, é decepcionante. Não se encontra, na história do mundo, nenhum campo de batalha em que apenas um dos lados tenha sempre triunfado. Mesmo o lado vencedor paga o preço da vitória sacrificando muitas vidas; muitos são feridos e grande parte dos bens é destruída. Os hipócritas que atuavam no movimento islâmico de Medina (……………) não acreditavam na máxima: “Com toda dificuldade vem, certamente, a facilidade”. A cada perda e a cada golpe, gritavam que isso havia acontecido devido à falta de sabedoria e discernimento do líder do movimento. (Que Allah nos livre!) No Alcorão, o surgimento de sua propaganda filosófica, contrária à ação, é apresentado da seguinte forma:
“Quando alcançam algum sucesso, dizem: ‘Isto provém de Allah’; mas, quando lhes sobrevém algum dano, dizem: ‘Isto aconteceu por tua causa (ó Rasul (s.a.))’.” (Surata An-Nissá, 78)
Ou seja, por todo golpe sofrido nos diversos conflitos, por toda perda e dano, por todo sacrifício exigido e por todo esforço ou estratégia que não produzia o resultado esperado, eles culpavam o Rasul (s.a.). A ideia era a seguinte: o Islã, o movimento islâmico e a disciplina da organização islâmica eram todos excelentes, mas aquele que os liderava era incompetente. Demonstravam também certa aparência de temor a Allah ao dizer que todo sucesso alcançado provinha de Allah. Como se a propaganda não fosse apenas filosófica, mas também piedosa. Contudo, esse temor hipócrita a Allah não conseguiu demonstrar sequer um mínimo de obediência ou boa vontade para com um líder como o Rasul (s.a.), embora o Islã ordene que se demonstrem tais qualidades até para com a liderança de um escravo negro. Que forma maior de autoengano poderia existir do que essa tentativa fracassada de alcançar a proximidade de Allah demonstrando desobediência ao Mensageiro de Allah e ao maior líder do movimento islâmico? E que instrumento mais terrível poderia alguém reunir para sua própria destruição?
Convém mencionar que o sucesso que eles reconheciam como uma dádiva de Allah não era reconhecido por gratidão nem como reconhecimento de uma bênção. Com isso, queriam dizer que os aspectos positivos que surgiam ocasionalmente devido às circunstâncias e os benefícios obtidos de tempos em tempos nas guerras e conflitos não tinham qualquer relação com a perspicácia e o discernimento do Rasul (s.a.), mas eram apenas acontecimentos casuais criados por Allah. [Na explicação do versículo correspondente da Surata An-Nissá, o Tafsir Muzihul Qur’an também afirma o mesmo. Quando a estratégia de guerra se mostrava correta e a vitória era alcançada, os hipócritas diziam que aquilo havia acontecido por acaso, pela vontade de Allah. Não reconheciam a perícia militar do Rasul (s.a.). Porém, se ocorresse uma derrota, atribuíam-na à incompetência do Rasul (s.a.).]
É fácil compreender o sofrimento que o maior líder do movimento islâmico devia suportar, pois, em cada momento de dificuldade, estavam presentes dentro do próprio movimento os chamados companheiros que expressavam críticas, zombaria e desprezo. A todo instante diziam: “Foi por causa deste líder que agora surgiu tal calamidade, tivemos de sofrer tal golpe e aquela desgraça veio daquela direção”, e assim por diante. Depois de conhecerem o resultado de cada acontecimento importante, sentavam-se como sábios e comentavam: “Não deveríamos ter feito tal coisa; teria sido melhor fazer aquela outra”, e coisas semelhantes.
Além dessa mentalidade vil, às vésperas de cada guerra e conflito, proferiam todo tipo de disparates, como: “Tememos que também sejamos atingidos por alguma calamidade” (Al-Má’idah, 52). Em outras palavras, o movimento estava sendo conduzido com tamanha incompetência que poderia enfrentar uma calamidade a qualquer momento. Por que haveríamos de arriscar inutilmente nossas vidas?
Foi precisamente por causa dessa mentalidade que, durante a Batalha de Uhud, os hipócritas lamentaram: “Se tivéssemos tido alguma participação na liderança, não teríamos morrido aqui” (Al Imran, versículo 154; veja Tafhim al-Qur’an). Os que sustentavam essa mentalidade nutriam uma clara desconfiança em relação à liderança e à perspicácia do Mensageiro (S.A.A.S.). Consideravam-se os mais inteligentes de todos. E aquele que, havia tantos anos, conduzia o movimento segundo a orientação da revelação, embora fosse um profeta, aos olhos deles não era nada. Se já se sentiam tão incomodados com a liderança direta do Profeta, somente Deus sabe o que teriam feito caso a liderança tivesse sido confiada a algum companheiro; afinal, esse grupo se considerava o único detentor de habilidade e perspicácia.
Todos esses exemplos mostram que, em vez de se oporem diretamente ao movimento islâmico, considerou-se mais eficaz fazer da personalidade do Mensageiro (S.A.A.S.) o alvo dos ataques e empreender uma ofensiva indireta — e foi exatamente esse o caminho adotado. Nas reuniões secretas de consulta, eram elaboradas objeções e campanhas difamatórias contra o líder supremo do movimento, e novas medidas eram constantemente consideradas com o objetivo de desobedecer-lhe e rebelar-se contra ele.
A complexidade do sistema moral dentro da organização islâmica
O sistema organizacional do movimento islâmico era, do início ao fim, um sistema moral. Esse ambiente era o campo mais amplo e favorável para a atuação de Satanás. Em particular, dois de seus aspectos favoreciam os causadores de desorientação. Uma dificuldade específica do sistema moral é que, enquanto fatos claramente censuráveis não surgem sob a forma de provas comprovadas, a organização não pode tomar nenhuma medida contra eles; e aqueles que se sentem constrangidos também não podem expor publicamente o contexto confuso da situação antes que o resultado final se manifeste. A norma moral do Islã proíbe os membros da sociedade islâmica de nutrirem maus pensamentos uns sobre os outros. Uma pessoa justa é obrigada a oferecer, tanto quanto possível, uma boa interpretação para cada ação suspeita de seus companheiros. Depois, mesmo que, após examinar todos os fatos de um acontecimento indesejável, ela acabe nutrindo uma suspeita no íntimo do coração, ainda assim precisa esperar por bastante tempo para verificar se surgirá alguma informação contrária capaz de refutar essa suspeita.
Não é possível instaurar um processo formal contra alguém nem colocar a pessoa envolvida no banco dos réus com base em meras suspeitas, por mais fortes que sejam. Por essas razões, os muçulmanos sinceros de Medina, embora percebessem as atividades iniciais dos agitadores e anarquistas envolvidos em consultas secretas como sinais indesejáveis, eram obrigados a permanecer como espectadores silenciosos. Contudo, somente quando a sedição começava efetivamente a produzir frutos é que o sistema moral da sociedade lhes permitia falar contra ela e ativar o mecanismo coletivo.
A segunda dificuldade do sistema moral era que, quando alguém apresentava uma acusação contra o líder supremo da organização ou contra outros responsáveis, a situação deles se tornava extremamente delicada. Por um lado, a autoridade administrativa do grupo estava em suas mãos, e somente eles tinham o poder de eliminar toda a sedição, a anarquia e a desorientação. Por outro lado, eles próprios acabavam vitimados pela sedição e chegavam a uma situação tal que, se os líderes adotassem medidas disciplinares contra os agitadores antes que suas máscaras caíssem diante da população muçulmana, seriam, ao contrário, os próprios líderes acusados de repressão às críticas e às opiniões divergentes. Seriam considerados culpados de derrotar, por métodos autoritários, aqueles que elevavam a voz da verdade. Assim como se pode dizer, no caso de uma pessoa, que a cortesia é sua maior força, mas também sua maior fraqueza, do mesmo modo se pode dizer, no caso de um grupo, que o sistema moral é também sua maior dificuldade. A única solução para essa dificuldade é que a consciência coletiva do grupo esteja tão vigilante e atenta, e seu caráter coletivo seja tão firme e sólido, que não permita permanecer dentro dele nada contrário à sua própria disposição ou natureza. No ambiente do grupo, ninguém deve estar disposto a dar ouvidos a conversas contrárias à disciplina, murmúrios, rumores ou consultas secretas, e ninguém deve ousar espalhar de um lado para outro qualquer assunto desse tipo que chegue aos seus ouvidos. Entretanto, é difícil que um grupo alcance integralmente esse padrão supremo e excelente, e nele permaneça constantemente. Nenhuma sociedade humana pode ficar completamente livre e purificada de pessoas que alimentam maus pensamentos, dão más incitações e instigam a más ações com a boca, ou escutam pelos ouvidos essas coisas indesejáveis. Satanás não deixa de participar, de uma forma ou de outra, daquilo que as pessoas pensam, dizem e ouvem.
Os hipócritas se beneficiaram plenamente dessa flexibilidade e tolerância do sistema moral e desfrutaram de suas vantagens. Mas, no fim, não conseguiram escapar de serem alcançados por sua força irresistível. Nas palavras do Alcorão, o resumo de todas as suas atividades foi: “Eles não obtiveram o que desejavam”. Contudo, certamente constrangeram a organização islâmica e certamente a lançaram na desordem.
Nesse ambiente de consultas secretas, disseminação de rumores, murmúrios e sussurros, a personalidade do principal líder do movimento islâmico tornou-se alvo de ataques desde o início, e ataques sucessivos eram desferidos contra ele. Em semelhante ambiente, se a sorte favorecesse os agitadores ardilosos e subversivos, não lhes seria de modo algum impossível provocar uma calamidade devastadora por meio da disseminação de calúnias cada vez mais astutas e mais vis, produzindo uma catástrofe após outra. Para aproveitar esse ambiente flexível e utilizá-lo habilmente por meio dos hipócritas, a segunda coisa de que Satanás precisava era de um vilão experiente, cujo cérebro fosse extremamente criativo e hábil na elaboração de conspirações tortuosas, e que tivesse coragem de lançar uma brasa ardente sobre o monte de pólvora criado pelos conspiradores das consultas secretas. Um vilão experiente desse tipo já estava pronto na figura de Abdullah ibn Ubayy. O coração desse homem estava repleto de orgulho por sua personalidade e seu prestígio. E por que não estaria? Às vésperas da Hégira, preparavam-se para colocar em sua cabeça a coroa do reinado de Medina. Somente a presença de Muhammad (S.A.A.S.) frustrou suas esperanças. Longe de alcançar o reinado, por causa de seu caráter ele não obteve sequer uma posição entre as fileiras principais da organização islâmica — nem mesmo nas segunda ou terceira fileiras. Esse acontecimento produziu em sua mente e em seu coração uma reação extremamente amarga e venenosa, e dessa reação nasciam, a cada instante, novas sedições e novas conspirações. Satanás não atua diretamente de modo muito intenso dentro dos seres humanos. Ele precisa de seus homens-satanás subservientes. E, para manter esses homens-satanás ativos contra a religião de Deus, precisa de um líder adequado, de um líder especialista em conspirações. Satanás encontrou pronto um líder adequado, especialista em conspirações. Ele também era alguém de dentro do círculo do movimento islâmico. Por um lado, esse homem declarava aceitar o movimento conduzido sob a liderança do Profeta; por outro, estava continuamente envolvido em conflitos contra o próprio movimento.
Esse vilão arrogante e conspirador, experiente em atacar no momento oportuno, extraiu, num momento histórico, uma brasa incandescente do vulcão de inveja ardente que trazia no peito e lançou-a no sagrado lar familiar do Mensageiro (s.a.). Assim que a lançou, toda a sociedade começou a arder psicologicamente.
O próprio relato de Aisha (r.a.)
Há relatos detalhados e autênticos sobre a tempestade que atravessou a alma de Aisha (r.a.) durante essa terrível calamidade, registrados nas importantes obras de hadith, história e sira. Esses relatos foram transmitidos pela própria Aisha (r.a.) e por outros narradores. Tenho em mãos, neste momento, obras autênticas como Zad al-Ma’ad (vol. 2, pp. 113–115) e a Sira de Ibn Hisham (vol. 2, pp. 342–347). Contudo, como o autor de Tafhim al-Qur’an apresentou da maneira mais bela essa dolorosa história de Aisha (r.a.), é esse relato que citarei aqui:
“Ao chegar a Medina, adoeci e fiquei acamada por quase um mês. Rumores contendo essa calúnia espalhavam-se pela cidade. Eles haviam chegado até os próprios ouvidos do Mensageiro (s.a.), embora eu nada soubesse. O que me causava estranheza era que, durante minhas doenças, o Mensageiro (s.a.) costumava dar-me uma atenção especial; desta vez, porém, não me dava a mesma atenção. Quando entrava em casa, perguntava apenas: ‘Como você está?’. Não dizia mais nada. Ao perceber isso, suspeitava que algo certamente havia acontecido. Por fim, pedi-lhe permissão e fui para a casa de minha mãe, para que ela pudesse cuidar melhor de mim. Certa noite, saí para atender às necessidades naturais. Naquela época, ainda não havia latrinas em nossa casa; por isso, íamos ao campo. A mãe de Mistah também estava comigo. Ela era prima materna de minha mãe (segundo outros relatos, Abu Bakr as-Siddiq (r.a.) havia assumido a tutela de todos os membros dessa família. Apesar de uma tão grande benevolência, Mistah havia se juntado aos que espalhavam calúnias contra Aisha (r.a.)). Enquanto seguíamos em direção ao campo, a mãe de Mistah tropeçou. Imediatamente, sem conseguir conter-se, exclamou: ‘Que Mistah morra!’. Eu disse: ‘Que espécie de mãe é você, para amaldiçoar o próprio filho? Além disso, ele participou da batalha de Badr’. Ela disse: ‘Você não ouviu o que ele fez?’. Então contou-me todo o acontecimento. Explicou-me detalhadamente que tipo de coisas os caluniadores estavam espalhando sobre mim. Entre os muçulmanos que, além dos hipócritas, se envolveram nessa intriga, destacavam-se Mistah, o famoso poeta Hassan ibn Thabit e Hasna bint Jahsh (irmã de Zaynab bint Jahsh, a Mãe dos Crentes). Ao ouvir esse relato, meu sangue gelou, e cheguei a esquecer a necessidade natural para a qual havia saído. Voltei diretamente para casa e passei a noite inteira chorando.” (No relato de Ibn Hisham, acrescenta-se ainda: “Eu chorava tanto que meu fígado quase se rompeu!”)
De um lado, Aisha (r.a.) contorcia-se em intensa agonia psicológica. De outro, os rumores continuavam a circular por toda a cidade, como de costume. Seu pai e seu marido eram os únicos que poderiam oferecer a defesa mais vigorosa em favor de Aisha (r.a.). Porém, quando pessoas perversas espalham calúnias desse tipo, quanto mais próxima é a pessoa envolvida, mais complicada se torna sua situação. Assim, o pai e o marido ficaram em silêncio e passaram a ser atingidos pelas flechas da difamação lançadas de todos os lados.
Para Muhammad (s.a.), o maior amigo e benfeitor da humanidade, aqueles momentos haviam se tornado insuportáveis, tanto pessoalmente quanto do ponto de vista dos interesses da organização. Qualquer pessoa nobre, consciente e responsável poderia compreender a situação do Mensageiro (s.a.). Ele teve muita paciência e passou longo tempo em silêncio. Contudo, não era possível deixar indefinidamente suspensa uma questão tão delicada nas circunstâncias presentes. Tornara-se inevitável tomar alguma decisão. Por isso, o Mensageiro (s.a.) iniciou uma investigação imparcial. Chamou dois de seus companheiros próximos, Ali (r.a.) e Usama ibn Zayd, e pediu-lhes sua opinião. Usama (r.a.) disse: ‘Ó Mensageiro! Ela é sua nobre esposa. Não encontramos nela nada além de bondade. Tudo o que está sendo espalhado são acusações falsas e propaganda sem fundamento.’ (Sira de Ibn Hisham) Ali (r.a.) deu sua opinião sob outra perspectiva. Disse: ‘Ó Mensageiro! Não faltam mulheres. Você pode tomar outra esposa em lugar de Aisha. Mas chame a criada e investigue-a’. Na realidade, a intenção de Ali era dizer que seria melhor tomar outra esposa do que o Mensageiro (s.a.) continuar sofrendo, e que seria preferível divorciar-se da esposa em torno da qual havia ocorrido tamanho tumulto. De fato, por causa de seu vínculo especial de parentesco, Ali deu mais importância ao sofrimento pessoal do Mensageiro (s.a.) do que ao aspecto daquela questão relacionado ao movimento. Por isso, aconselhou o Mensageiro (s.a.) a libertar-se da perturbação mental.
Ainda assim, o Mensageiro (s.a.) aceitou a segunda parte do conselho de Ali. Chamou a criada. Ali deu-lhe uma bofetada e advertiu-a severamente, dizendo: ‘Você dirá a verdade diante do Mensageiro (s.a.)’. Ela disse: ‘Juro por Allah, não sei nada de bom sobre ela além de bondade. Só vi uma falha em Aisha: quando eu saía para preparar a farinha, pedia-lhe que cuidasse dela por um momento. Mas ela adormecia, e a cabra vinha e comia a farinha’ (Sira de Ibn Hisham). Com esse testemunho espontâneo, a criada inocentou Aisha (r.a.) de forma tão completa que nenhuma outra declaração poderia acrescentar algo. Ela retratou fielmente uma jovem de simplicidade e ingenuidade tais que seria impossível à consciência e à razão humanas imaginar nela qualquer mal. Em seguida, o segundo passo tomado pelo Mensageiro (s.a.) foi convocar uma assembleia geral e proferir um discurso. Depois de começar louvando a Allah, disse com voz profundamente dolorida:
“Qual é a intenção daqueles que me fazem sofrer por causa de minha família e espalham sobre ela palavras irreais? Juro por Allah, não sei nada sobre os membros de minha família além de bondade. Também sei que é uma boa pessoa aquele a quem envolveram nessa calúnia. Ele nunca entrou em minha casa na minha ausência.” (Sira de Ibn Hisham, vol. 3)
Segundo outro relato, o Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse inicialmente: “Há alguém que possa me salvar das garras daquele que está me causando sofrimento por causa da minha família?” (Zad al-Ma’ad, volume 2)
Ao ouvir isso, Usayd ibn Hudayr, líder da tribo de Aws, levantou-se e disse: “Ó Mensageiro de Deus! Se essas pessoas forem da nossa tribo, nós lhes daremos uma lição apropriada. Mas, se forem khazrajitas, dê a ordem. Juro por Deus que a punição adequada para pessoas desse tipo é a decapitação.”
Imediatamente, do outro lado, Sa’d ibn ‘Ubada, líder dos Khazraj, protestou: “Você está mentindo. Juro por Deus que não os decapitaremos. Ah, entendi: você disse isso justamente porque pensa que eles são dos Khazraj.” Usayd ibn Hudayr ficou muito irritado com essa resposta de Sa’d. Talvez tenha compreendido que um grupo que oferece apoio e proteção, por meio de alguma figura importante, a criminosos, anarquistas e conspiradores não é capaz de livrar a sociedade do crime. Pessoas como ‘Abdullah ibn Ubayy sempre surgem em todos os movimentos. Mas um grupo forte e consciente de si não permite que pessoas assim permaneçam em suas fileiras; pelo contrário, expulsa-as. Porém, se um conspirador consegue o abrigo e a proteção de pessoas influentes em uma organização, os inimigos internos, como traidores de sua própria casa, passam a ser criados e mantidos, e a sociedade sofre por causa deles. Percebendo essa amarga verdade, Usayd (que Deus esteja satisfeito com ele) exclamou: “Não sou eu que minto; é você. Juro por Deus que, sendo um hipócrita, você está defendendo os hipócritas.” (Sira de Ibn Hisham)
A razão para o surgimento daquele ambiente amargo era que se tramavam continuamente conspirações para provocar tensão entre Aws e Khazraj. Por isso, uma simples palavra acabou gerando tensão, e quase irrompeu uma briga. O grande líder que havia estabelecido boas relações entre as duas tribos não queria que a união delas, construída ao longo de muitos anos de esforço, fosse novamente destruída por sua causa. Ele desceu do púlpito, acalmou os dois grupos e a reunião foi encerrada. (Sira de Ibn Hisham)
A experiência daquele ponto fraco do grupo aumentou ainda mais a angústia do Mensageiro (que a paz esteja com ele). Na verdade, aquilo era consequência do fogo da antiga discórdia e hostilidade que ‘Abdullah ibn Ubayy havia acendido durante a expedição contra Banu Mustaliq.
Ouçam da própria boca de Aisha o final da história, que transformou a tragédia em comédia!
“Os rumores dessa calúnia continuaram circulando pela cidade durante aproximadamente um mês. O Mensageiro (que a paz esteja com ele) passou a sofrer uma terrível angústia. Eu chorava o tempo todo. Meus pais estavam tomados pela mais profunda preocupação, ansiedade e inquietação. Finalmente, um dia, o Mensageiro veio e sentou-se perto de mim. Durante todo aquele período, ele não havia se sentado uma única vez ao meu lado. Abu Bakr e Umm Ruman (a mãe de Aisha) imaginaram que naquele dia seria tomada uma decisão definitiva. Por isso, os dois também se aproximaram e sentaram-se. O Mensageiro disse: ‘Aisha, chegaram até mim todas essas notícias a seu respeito. Se você for inocente, espero que Deus revele sua inocência. Mas, se tiver cometido algum pecado, arrependa-se diante de Deus e peça-Lhe perdão. Quando o servo reconhece seu pecado e se arrepende, Deus o perdoa.’ Ao ouvir isso, minhas lágrimas secaram. (É justamente essa reação que se pode esperar de uma pessoa inocente. — N. S.)
Eu disse ao meu pai: ‘Responda às palavras do Mensageiro de Deus (que a paz esteja com ele).’ Ele respondeu: ‘Minha filha, não consigo entender o que devo dizer.’ Eu disse à minha mãe: ‘Diga alguma coisa.’ Ela também respondeu: ‘Eu também não consigo entender o que devo dizer.’ Então eu disse: ‘Uma coisa chegou aos seus ouvidos e imediatamente se fixou em seus corações. Agora, se eu disser que sou inocente — e Deus é testemunha de que sou completamente inocente — vocês não acreditarão. Mas, se eu confessar falsamente algo que não fiz — e Deus é testemunha de que não fiz isso — vocês acreditarão em mim. Naquele momento, tentei me lembrar do nome do profeta Jacó, mas não consegui. (Quando uma pessoa inocente fica desnorteada por ser vítima de uma grave calúnia, é natural que ocorram acidentes desse tipo em seu mundo psicológico. — N. S.) Por fim, disse: “O que mais posso dizer nesta situação? Direi apenas as palavras que o pai de José havia pronunciado: ‘Paciência sublime’.” (Quando os filhos de José deram a Jacó o falso relato de que José havia sido devorado por um lobo, ele disse essas palavras. — O tradutor.) Depois disso, virei o rosto para o lado oposto e deitei-me. (Quando uma calúnia é lançada contra uma pessoa inocente, é justamente esse estado de desamparo, acompanhado de uma atitude desafiadora, que se manifesta nela. — N. S.) Naquele momento, eu dizia a mim mesma: Deus conhece minha inocência. Certamente Ele revelará a verdadeira realidade. Embora, até então, eu nem sequer pudesse imaginar que seria revelada uma revelação em meu favor, que seria recitada até o Dia da Ressurreição. Nunca me considerei tão elevada que Deus falasse pessoalmente em minha defesa. Porém, eu imaginava que o Mensageiro teria algum sonho e, por meio dele, Deus informaria que eu era inocente. De repente, o Mensageiro passou por uma transformação semelhante à que normalmente ocorria no momento da revelação, e, mesmo em uma estação de frio intenso, gotas de suor como pérolas começaram a cair de seu rosto. Todos ficamos em silêncio. Eu estava completamente destemida. Mas meus pais ficaram tão encolhidos de medo que, se alguém os cortasse naquele momento em qualquer parte do corpo, provavelmente nem sangue sairia. Eles temiam que Deus revelasse algo terrível. Quando o estado do Mensageiro voltou ao normal, percebeu-se que ele estava extremamente feliz. Sorrindo, as primeiras palavras que disse foram: ‘Aisha, parabéns! Deus declarou sua inocência.’ Em seguida, o Mensageiro recitou dez versículos. Minha mãe disse: ‘Levante-se e agradeça ao Mensageiro de Deus.’ Eu respondi: ‘Não agradecerei a ele, nem a vocês. Agradeço somente a Deus, que declarou minha inocência. Vocês nem sequer rejeitaram essa calúnia.’” (Tafhim al-Qur’an, surata An-Nur) Nas palavras de Aisha manifesta-se apenas uma censura carregada de intenso senso de honra. Observem: poderia isso ser a fala de uma consciência culpada? Cada palavra desse relato declara que se trata do relato genuíno, espontâneo e perfeito da dor e do sofrimento de uma pessoa inocente.
A inocentação pela revelação
A tempestade de difamações e a crise dela resultante foram prontamente afastadas com a descida da revelação. A surata revelada para eliminar essa crise recebeu o nome de “An-Nur” (A Luz). Esse nome se ajustou maravilhosamente à situação real, pois essa surata foi revelada justamente para dissipar a escuridão criada por uma grave crise social e iluminar o ambiente. Nessa surata, são examinadas a organização e a sociedade dos muçulmanos, identificadas suas fraquezas e oferecidas orientações morais e jurídicas para libertá-los permanentemente de todas essas fraquezas.
O início da mensagem dessa surata tão impactante é realmente surpreendente. Nela se afirma:
“Esta é uma surata que Nós fizemos descer, que tornamos obrigatória como responsabilidade (para a sociedade islâmica) e na qual apresentamos instruções claras. Talvez, por meio dela, vocês possam beneficiar-se.” (versículo 1)
Agora, dirigida à sociedade, vem a declaração veemente da surata An-Nur:
“Aqueles que forjaram essa calúnia são um grupo dentre vocês mesmos. (…) Cada um que dela participou terá colhido uma parcela equivalente de pecado. E aquele que assumiu a maior parte da responsabilidade por ela terá um castigo terrível.” (versículo 11)
Que repreensão terrivelmente irônica! Uma acusação sem testemunhas nem provas, sem qualquer indício válido, espalhou-se com a velocidade de uma tempestade, e não partiu de nenhum inimigo ou rival externo; surgiu, ao contrário, do próprio interior de um grupo muçulmano treinado ao longo de muitos anos. Também não se tratava de um súbito deslize de uma ou duas pessoas. Durante um mês inteiro, um grupo continuou provocando uma catástrofe psicológica extrema. A surata An-Nur afirma que, no ambiente de seu grupo, existem fraquezas tais que os próprios construtores dele podem empenhar-se em destruí-lo. Nesse ambiente há brechas pelas quais a mentira e a falsidade podem penetrar na sociedade e na organização dos soldados da verdade. Afirma-se que não se tratava apenas de um episódio isolado de calúnia, mas de uma corrente contínua de pecado. Dessa corrente, alguns encheram um tambor, outros encheram uma jarra, e outros tomaram apenas o quanto cabia na palma da mão. Assim, cada um acumulou para si uma quantidade de pecado proporcional à sua participação. Em seguida, faz-se alusão ao principal instigador desse ato perverso, isto é, Abdullah ibn Ubayy, que acendeu o primeiro fogo e depois, soprando continuamente, transformou-o num incêndio devastador.
Na surata An-Nur, é feita a seguinte pergunta:
“Quando ouvistes isso pela primeira vez, por que os homens e as mulheres crentes não tiveram uma boa opinião de si mesmos e por que não disseram imediatamente: ‘Isto é uma calúnia terrível’?” (versículo 12)
É digno de nota quão forte é o apelo moral contido nesta declaração e quão intenso é o golpe dirigido ao senso de decoro e aos sentimentos próprios dos crentes. Em outras palavras, uma nobre mulher da sociedade islâmica separou-se acidentalmente da caravana, e um membro respeitado dessa mesma sociedade encontrou-a no caminho e levou-a consigo; como pôde um acontecimento tão limitado tornar-se para vós a base sequer do mais ínfimo nível de má suspeita? Se qualquer outro homem ou mulher entre vós tivesse sido vítima de uma situação semelhante por acidente, isso significaria necessariamente que teria cometido um ato tão vil? É essa a vossa concepção do vosso próprio caráter? É a vossa sociedade tão baixa que, sempre que duas de suas pessoas se separam por acaso, não perde a menor oportunidade de se envolver em adultério? Se não podeis ter uma opinião tão degradante sobre vós mesmos, que direito tínheis de alimentar uma suspeita tão abominável acerca de uma das melhores mulheres do vosso grupo e de um de seus membros mais distintos?
Na verdade, a grande maioria dos membros dessa sociedade manteve sua superioridade moral mesmo durante essa crise. Caso contrário, se esse veneno tivesse tido a oportunidade de se espalhar por todo o corpo social e a sociedade, como um todo, fosse incapaz de lhe oferecer resistência psicológica, esse golpe teria despedaçado toda a sua existência. Nesse caso, Hadrat Abu Ayyub Ansari demonstrou a reação mais correta. Quando sua esposa lhe contou aquele rumor imundo, ele disse: “Ó mãe de Ayyub, se estivesses no lugar de Aisha, terias feito tal coisa?” Ela respondeu: “Juro por Allah, jamais.” Hadrat Abu Ayyub disse: “Então Aisha é muito melhor do que tu. Eu também digo que, se estivesse no lugar de Safwan, tal pensamento nem me teria passado pela cabeça. E Safwan é um muçulmano melhor do que eu.” (Sira de Ibn Hisham, volume 3)
Na Surata An-Nur, perguntou-se aos propagadores dessa calúnia imunda: por que não conseguistes reagir como Abu Ayyub Ansari?
Em seguida, a Surata An-Nur levantou a questão do ponto de vista jurídico:
“Por que não apresentaram quatro testemunhas como prova de sua acusação? Diante de Allah, são eles os mentirosos.” (versículo 13)
Em outras palavras, difamar o caráter de um homem ou de uma mulher não é uma simples brincadeira; é um crime grave, e a adoção de medidas legais contra isso é extremamente necessária numa sociedade viva. Dizer, a bel-prazer, que um cidadão honesto e inocente cometeu assassinato, roubo ou adultério não é algo trivial que possa ser ignorado com a desculpa de que o que aconteceu já aconteceu. Isso exige o mais alto grau de consciência da responsabilidade. Depois de fazer uma acusação desse tipo, torna-se indispensável apresentar sua prova e as testemunhas legalmente exigidas. Aqueles que lançam uma calúnia contra dois homens respeitados e honrados da sociedade islâmica, sem terem visto o fato com os próprios olhos, têm o dever de apresentar as provas e testemunhos da acusação feita. Caso contrário, segundo a lei, eles próprios são mentirosos e criminosos.
Em seguida, observai como a Surata An-Nur identificou as falhas dos membros vulneráveis da sociedade islâmica:
“Pensem bem no gravíssimo erro que estavam cometendo ao espalhar essa mentira de boca em boca e ao proferir com os próprios lábios algo sobre o qual não tinham conhecimento algum. Vocês consideraram isso uma questão insignificante, embora, aos olhos de Allah, fosse algo grave. Por que, assim que ouviram essas palavras, não disseram: ‘É injusto da nossa parte pronunciar algo assim’? Subhanallah! Isto é uma calúnia abominável!” (versículos 15-16)
É uma enorme fraqueza de qualquer sociedade ou organização que rumores infundados e irresponsáveis se espalhem facilmente em seu seio. Isso é uma fraqueza ainda maior no caso de uma organização estabelecida para a reforma moral do mundo inteiro e sob cuja liderança se conduz um movimento social e político. Uma pessoa ouve algo com os ouvidos, acredita imediatamente naquilo de todo o coração e o divulga com a boca; então isso passa de uma boca para outra, sem que ninguém verifique sua veracidade, faça qualquer distinção ou ponha fim a essa cadeia em algum ponto. Cada um pode dizer livremente o que quiser contra quem quiser e difamar quem quiser, sem encontrar obstáculo algum. Em uma sociedade desse tipo, a honra de ninguém pode estar segura. Se, em uma sociedade na qual o próprio Rasul de Allah, Hadrat Aisha Siddiqah, Hadrat Abu Bakr Siddiq e Safwan não conseguiram escapar da calúnia espalhada por um hipócrita, a honra de quem mais poderia estar segura?
É por isso que, na Surata An-Nur, se afirma em tom de severa repreensão:
“Sobre aqueles que difamam mulheres inocentes recaem a maldição neste mundo e no Além, e para eles haverá um castigo severo.” (versículo 23)
Neste versículo, é retratado o caráter de Hadrat Aisha. Trata-se de uma mulher virtuosa e crente, que sequer tinha noção do que era o adultério ou de como ele era praticado, e em cuja imaginação nem sequer ocorria que alguém pudesse acusá-la disso. Essa imagem de uma mulher tão ingênua e injustiçada comoveu moralmente o coração de todas as pessoas.
É lamentável que, entre aqueles crentes sinceros, obedientes a Allah e ao Rasul e leais ao movimento islâmico, que foram arrastados por essa torrente impetuosa e avassaladora, houvesse também uma personalidade que havia prestado valiosos serviços ao movimento islâmico e ampliado seu patrimônio literário e espiritual. Tratava-se de Hadrat Hassan ibn Thabit. Hassan também acabou incluído entre aqueles que foram alvo da reprimenda e da censura da Surata An-Nur. E isso apesar de ocupar uma posição muito elevada na organização islâmica e perante o Rasul de Allah. Em diversas ocasiões, o Rasul de Allah o aconselhava especialmente a responder, por meio da poesia e da literatura, aos ataques dos poetas e literatos da época da jahiliyyah, e a desempenhar a tarefa de explicar e interpretar o Islã. Em certa ocasião, Hassan alcançou ainda a rara honra de ser colocado pelo próprio Rasul de Allah em seu púlpito, onde lhe pediu que entoasse o hino nacional do movimento islâmico. Hadrat Aisha compreendia tão bem essa posição dele que, depois de passado aquele período de tensão, sempre o tratava com respeito. Às vezes, lembravam-lhe que aquele homem havia participado da difamação contra ela. Então Hadrat Aisha, elevando-se ao mais alto grau de generosidade e magnanimidade, dizia: “Deixem isso de lado. Ele sempre deu, em nome do Rasul de Allah e do movimento islâmico, uma resposta contundente aos poetas contrários ao Islã e prestou uma contribuição valiosa no campo da poesia.”
Seja como for, o fato é que essa personalidade extraordinária do movimento islâmico acabou presa na rede de enganos armada pelos hipócritas. Embora tenha desempenhado seu papel naquela confusão com sinceridade e considerando-o justo, sua atuação foi extremamente prejudicial ao movimento. Ao observar sua atuação, qualquer pessoa pode aprender que, por mais firme que seja o caráter de alguém, essa pessoa não pode ter certeza de que jamais cairá em algum engano, sob nenhuma circunstância. Do mesmo modo, por mais elevada que seja a posição de outra pessoa, ninguém pode garantir que ela jamais será vítima de um erro de julgamento em qualquer assunto. Toda pessoa, pequena ou grande, é a cada instante um alvo das conspirações de Satanás. Na verdade, ele se mostra ainda mais empenhado em lançar redes de conspiração ao redor de toda pessoa importante e de liderança. É por isso que o princípio fundamental seguido pelo movimento islâmico em todas as épocas é que a verdadeira lealdade do grupo deve ser dirigida aos princípios e ideais, e não às pessoas.
Prender numa armadilha uma das principais personalidades do movimento islâmico foi um grande êxito de Abdullah ibn Ubayy e de seus companheiros. Impulsionados pela astúcia hipócrita, eles tramavam suas ações maliciosas, enquanto Hassan ibn Thabit se empenhava sinceramente para fazer sua conspiração triunfar. Não seria inadequado dizer que, para o movimento, a sinceridade e a ingenuidade de Hassan foram ainda mais destrutivas do que a hipocrisia de Abdullah ibn Ubayy. Isso porque uma iniciativa tomada com sinceridade e boas intenções costuma ser muito mais eficaz em causar dano do que uma iniciativa voluntariamente motivada por más intenções.
Hassan ibn Sabet não compreendeu em favor de quem estava agindo nem a visão de quem estava difundindo. Ele não percebeu que estava colocando em prática as ideias e os propósitos de quem, nem a que classe da sociedade suas ações favoreciam, ou qual grupo da organização estava fortalecendo. O fato de ele não ter demonstrado, nessa questão, a perspicácia e a sabedoria próprias de um crente foi, ao que parece, resultado da vontade de Allah.
A relação de Abdullah ibn Ubay com a sociedade islâmica era frágil e distante. Suas atividades hostis podiam ser toleradas. Mas Hassan ibn Sabet era alguém próximo da organização islâmica. Por isso, seu comportamento hostil parecia intolerável. Pois todos sentiam que era como se uma de nossas próprias espadas estivesse nos ferindo. Sempre que uma situação desse tipo surge em um movimento ou organização, a barreira da paciência fica prestes a ruir. Talvez tenha sido isso que aconteceu. Mas a rigorosa disciplina moral da organização islâmica conteve as emoções. Apenas uma pessoa não conseguiu se controlar. Era Safwan ibn Muattal. Ele perdeu o controle por duas razões. Primeiro, estavam lançando uma calúnia contra Aisha, a quem ele considerava como sua própria mãe. Segundo, a mesma calúnia estava sendo lançada envolvendo o próprio Safwan. Safwan era, além disso, um combatente de Badr, um servidor dedicado do movimento islâmico e conhecido por sua franqueza. Ademais, até então não havia aparecido qualquer sinal de pecado em seu caráter; como um rapaz tímido, sem sequer olhar uma vez para Aisha e sem dizer uma única palavra durante todo o caminho, ele a havia conduzido cuidadosamente do local de retaguarda até a posição seguinte do exército islâmico. Por isso, ficou tomado pela ira.
Safwan ouviu alguns versos do poema que Hassan havia escrito descrevendo a calúnia lançada pelos hipócritas. A linguagem era de Hassan, mas o conteúdo e a mentalidade eram dos hipócritas.
Safwan discutiu com Hassan. Em determinado momento, golpeou-o com a espada. Sabet ibn Qays interveio para tentar detê-lo, amarrou Safwan e levou-o à casa de Banu Harith. Por fim, o assunto chegou ao Mensageiro de Allah. Ele chamou Hassan e Safwan. Safwan disse: “Ó Mensageiro, este homem me ofendeu e proferiu contra mim palavras extremamente indecentes. Por isso, não consegui controlar minha raiva e bati nele.” O Mensageiro de Allah acalmou Hassan, explicando-lhe a situação com palavras gentis, e fez com que Safwan recebesse a diyah (indenização) pelo ferimento causado pela espada. (Sira de Ibn Hisham, volume 3)
Era natural que Safwan se exaltasse. Por isso, Hassan se mostrou compreensivo. Allah o protegeu de alimentar qualquer desejo de vingança e de pensar em fazer posteriormente algo ainda mais prejudicial ao movimento.
Mais tarde, Hassan caiu em profundo remorso, que se refletiu em um de seus poemas. Por meio desse poema, ele tentou remover a desonra lançada sobre Aisha. Ele disse:
“Ela é uma mulher casta e recatada, acima de qualquer suspeita. Está livre de qualquer intervenção na honra de mulheres simples e inocentes. É uma mulher virtuosa e de caráter puro. Allah purificou sua natureza e a manteve pura do pecado. Nada do que foi dito até agora se aplica a ela. Eu só disse aquilo porque fui enganado pelas mentiras inventadas por um difamador.” (Sira de Ibn Hisham, volume 3)
Junto com isso, a surata An-Nur apresenta aos muçulmanos uma teoria social na forma de um princípio lógico:
“As mulheres de má conduta são para os homens de má conduta, e os homens de má conduta são para as mulheres de má conduta; e as mulheres puras são para os homens puros, e os homens puros são para as mulheres puras. Estes estão livres do que dizem.” (Versículo 26)
Isto é, para o casamento, geralmente se procura um parceiro semelhante nos aspectos moral e psicológico. A pessoa escolhe alguém em quem vê um caráter semelhante ao seu. Especialmente aqueles que dedicam toda a vida a um objetivo e propósito específicos procuram, para a vida conjugal, um parceiro que possa ser apoio e colaborador na conquista desse objetivo e propósito. Como ignorar esta verdade, adquirida pela experiência mundial, de que a harmonia de caráter e mentalidade, bem como a convergência de pensamentos e perspectivas, é o que pode garantir a união e o bom entendimento de qualquer casal? Sem isso, do princípio ao fim, haverá conflitos, discórdias e desavenças. Este versículo, convidando os caluniadores a compreenderem a verdade, pergunta: não percebestes que a nobre mulher que o grande líder do movimento islâmico escolhera para a vida conjugal, com quem mantinha uma profunda ligação de coração e cuja afinidade e harmonia de perspectivas e pensamentos constituíam um modelo ideal, era por acaso apenas uma boneca enfeitada, cuja aparência teria desmoronado num instante, restando somente uma boneca inerte?
Ela era a filha querida de uma família pura e irrepreensível, cujos pais estavam entre os primeiros porta-estandartes do movimento islâmico. Sua infância transcorreu no ambiente tempestuoso desse mesmo movimento; como esposa do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, foi ela quem teve a maior oportunidade de beneficiar-se de seu caráter luminoso, foi ela quem recebeu a oportunidade especial de sua educação, e seu aposento foi iluminado muitas vezes pela luz da revelação. Seria possível que o caráter de uma mulher criada e educada em ambiente tão puro fosse tal que uma calúnia tão abominável pudesse aplicar-se a ela? Antes da divulgação dessa calúnia, nem seus pais, nem o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, nem o povo muçulmano em geral jamais haviam sequer imaginado semelhante coisa a seu respeito! Como seria possível que um caráter imaculado, cultivado e desenvolvido durante muitos anos num ambiente familiar inteiramente iluminado pelo esplendor da pureza, da retidão e da honestidade, cometesse subitamente um ato tão abominável, cujos primeiros sinais jamais se haviam manifestado diante de ninguém? Como imaginar que uma magnífica árvore frutífera, depois de produzir frutos doces durante longo tempo, começasse subitamente, certo dia, a produzir frutos azedos?
A lei entrou em vigor
A cidade dos corações dos muçulmanos resplandeceu sob a torrente de luz da Surata An-Nur, a opinião pública avançou concentrada rumo a um objetivo definido, e a sociedade islâmica respirou aliviada ao superar um longo período de perturbação. A Surata An-Nur trouxe consigo a lei referente ao hadd al-qadhf (punição pela calúnia). Além de se arrependerem sinceramente e confessarem o crime, os caluniadores também tinham provas e testemunhos contra si. Eles ofereceram as costas à lei islâmica e, recebendo oitenta chibatadas cada um, preservaram a pureza de sua consciência. Mistah, Hassan ibn Thabit e Hamna bint Jahsh sofreram essa punição. O verdadeiro criminoso, porém, escapou das garras da lei. Entretanto, sua natureza vil e suas maquinações abomináveis foram completamente desmascaradas perante a opinião pública, e a sociedade islâmica, considerando-o totalmente irrelevante, deixou-o de lado.
Todos cometem erros. Com exceção dos profetas, nenhum ser humano é isento de pecado. Mas, ao examinarmos os dois comportamentos opostos no episódio de Adão, que a paz esteja sobre ele, veremos que, depois de o pecado ser cometido, dois caminhos se abrem diante do pecador: um é o caminho escolhido por Satanás. É o caminho imprudente de apegar-se ainda mais fortemente ao pecado. O segundo é o caminho escolhido por Adão, conforme a natureza sã e virtuosa: arrepender-se depois de cometer a falta e corrigir-se. Abdullah ibn Ubayy e seus companheiros seguiram o caminho satânico. Hassan, Mistah e Hamna seguiram o caminho da purificação interior.
Uma bênção na desgraça
Reavive um pouco, com os olhos da imaginação, o curso do tempo e, por um instante, transporte-se para o ambiente tempestuoso da calúnia que durou um mês em Medina. Diante de você surgirá uma situação terrível e dolorosa. O movimento que, recrutando seus membros um a um, se transformara numa pequena caravana revolucionária; o movimento que, depois de percorrer uma longa e árdua estrada, havia criado em Medina um pequeno refúgio de paz chamado Estado Islâmico; o movimento que desejava oferecer abrigo, nesse refúgio de paz, à humanidade aflita, queimada pelo fogo de muitos anos de perturbação e anarquia — se um tumulto destrutivo nascesse no próprio interior desse movimento, não poderia haver nada mais preocupante. Sobretudo numa situação em que esse Estado Islâmico estava cercado por todos os lados pelos ataques dos inimigos, corria o risco de sofrer, a qualquer momento, uma agressão militar em alguma de suas frentes e estava rodeado pelas atividades nocivas de uma grande parte de seus próprios habitantes não muçulmanos.
Mas o Alcorão lhe deu consolo, dizendo que não havia necessidade de se alarmar nem de se preocupar. “Não considere este acontecimento prejudicial para você; na realidade, ele é um meio para o seu bem.” (An-Nur, 11)
Na verdade, quando movimentos idealistas e revolucionários são atingidos por calamidades e tumultos que provocam instabilidade e ansiedade, no resultado final eles acabam se tornando uma causa de maior bem-estar e progresso, reforma e construção, força e capacidade de reação, quer essas calamidades se manifestem a partir de seu próprio interior, quer venham de fora. Assim como, para pessoas ambiciosas e capazes, diversos altos e baixos, acidentes e adversidades podem favorecer o progresso, também, para movimentos dotados de capacidade de pensamento e ação, situações de oposição e anarquia facilitam o caminho para o desenvolvimento e a estabilidade. A organização que permanece consciente e atenta às suas metas e objetivos, que desenvolve uma mentalidade coletiva, cujo caráter moral e intelectual alcança a maturidade, cujas rédeas da liderança permanecem nas mãos de pessoas sempre ativas, vigilantes, perspicazes e sábias, cujos membros mantêm um olhar atento sobre todas as forças hostis e anárquicas, permanecem prontos para lutar com todas as suas forças contra qualquer conflito ou adversidade possível e cuja opinião pública não permite que nenhuma ideologia contrária ao Islã se estabeleça no interior da organização, essa organização sempre obtém algum benefício de cada ataque e oposição hostil.
Também por meio dessa sórdida campanha de calúnias e propaganda difamatória, o grandioso Estado e a organização islâmica de Medina foram beneficiados de várias maneiras e, como consequência, tornaram-se mais fortes e conscientes do que antes.
Por meio de uma amarga experiência direta, os líderes e membros desse luminoso movimento pela honestidade e pela justiça adquiriram conhecimento sobre todas essas perigosas e profundas fraquezas da humanidade. Longe de adquirir esse conhecimento sentados numa khanqah de relações entre mestre e discípulo, nem sequer se pode obter ali a menor noção delas, muito menos preparar as pessoas para enfrentá-las. Por meio desse acontecimento, tornaram-se evidentes muitas brechas na vida coletiva, através das quais todos os defeitos destrutivos poderiam penetrar no seu interior. O Mensageiro de Allah e seus Companheiros reconheceram, por meio disso, quais pessoas, entre os membros dos diversos níveis da organização, estavam afetadas pela doença da hipocrisia, quais possuíam uma fé fraca, quais eram de compreensão superficial e temperamento emotivo, quais se desviavam apesar de serem motivadas por boas intenções e quais, por sua ingenuidade, tornavam-se vítimas dos enganos dos inimigos. Tornou-se especialmente claro até onde poderia chegar o pequeno grupo que o líder hipócrita e conspirador havia criado dentro da organização islâmica.
Depois que, por meio da experiência concreta, foram conhecidas essas fraquezas nas transformações internas da sociedade islâmica, criou-se um ambiente psicológico que foi aproveitado, por um lado, para organizar a formação mediante novas orientações morais e, por outro, para instituir normas sociais capazes de proteger os muçulmanos de diversos defeitos de caráter. Em terceiro lugar, foi promulgado um rigoroso decreto contendo novas leis e normas penais, que garantiu o bem-estar coletivo permanente da humanidade.
Esse acontecimento sacudiu a consciência coletiva da sociedade islâmica de Medina e a despertou. Golpeando os sentimentos, despertou sua moralidade e ativou seu senso coletivo de honra. Depois de se livrar dessa embaraçosa agressão das forças hipócritas, cada membro daquela sociedade tornou-se mais vigilante e mais firme do que antes.
Durante esse acontecimento, quem, juntamente com Aisha, sofreu a maior injustiça foi o próprio Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Mas a generosidade, a magnanimidade, a paciência e a tolerância que demonstrou por meio de sua conduta solene, serena e livre de emoções descontroladas deixam as pessoas maravilhadas. Nesse acontecimento, há um exemplo instrutivo para aqueles que, depois do Mensageiro de Allah, assumirem a liderança do movimento e da organização islâmicos. Para oferecer à humanidade inteira uma ordem social afetuosa, ele suportou extremo sofrimento mental. Aquele que havia surgido para proteger a honra e a dignidade de todos os seres humanos recebeu da sociedade de seu tempo esta retribuição: ela manchou sua honra e dignidade com a mácula de uma falsa calúnia. Se outra pessoa tivesse sido vítima de uma situação assim, ou esmagaria os opositores, ou então, tomada pelo mais profundo desespero, iria sentar-se num canto da casa. Mas ele, como a personificação da paciência e da tolerância, continuou cumprindo seu dever.
Atividades de incitação
Os judeus de Medina, por um lado, orgulhosos de sua força consolidada e, por outro, pressionados por necessidades políticas, firmaram um pacto constitucional com o Mensageiro (que a paz esteja com ele) e passaram a fazer parte da administração do Estado Islâmico. É provável que não tenham compreendido devidamente, no momento oportuno, essa nova força política. Tampouco perceberam seu brilhante potencial futuro. Não conseguiam sequer imaginar que essa força se desenvolveria tão rapidamente e que, com a ajuda de alguns refugiados sem recursos e dos Ansar de Medina, se transformaria, graças exclusivamente à fé e ao caráter, numa força capaz de controlar o curso da história. Pensavam que esses muçulmanos, expulsos de sua pátria como folhas secas caídas das árvores, seriam eliminados ao primeiro golpe das possíveis calamidades e infortúnios. E, mesmo que de algum modo sobrevivessem, não seriam capazes de construir uma sociedade forte. Contudo, pelo poder miraculoso da força vital revolucionária da Kalima Tayyiba, aquelas poucas pessoas construíram uma poderosa estrutura política mesmo num ambiente extremamente hostil. Além disso, em poucos meses, os judeus compreenderam que o Estado Islâmico era um sol nascente diante do qual a lâmpada de sua influência e prestígio começaria a tremeluzir. Sobretudo ao verem os muçulmanos retornarem de Badr não apenas em segurança, mas hasteando a bandeira da vitória, os judeus ficaram tão atônitos que certamente foram obrigados a reconsiderar todo o assunto.
O tratado de paz firmado com o Mensageiro (que a paz esteja com ele) transformara os judeus em aliados e cidadãos legítimos do Estado Islâmico. Mas, em seus corações, o fogo da rebelião e da inveja ardia intensamente.
Essa posição contraditória acabou conduzindo-os ao caminho da conspiração e da anarquia. Sempre que tinham oportunidade — e, quando não a tinham, criavam uma —, tentavam, de qualquer maneira, destruir a unidade social dos muçulmanos e incitá-los, paralisar a administração e a ordem pública por algum meio, criar situações de crise e enfraquecer a liderança do Mensageiro (que a paz esteja com ele). Os bajuladores dos judeus escondiam-se no interior da sociedade islâmica sob a aparência de hipócritas. Junto com pessoas de fé fraca entre os Ansar, executavam os planos dos judeus. Por fim, esses inimigos mal-intencionados e conspiradores elaboraram um plano ardiloso. Compunham poemas obscenos sobre as mulheres muçulmanas, recitavam-nos em voz alta e os divulgavam. Tentavam manchar a reputação delas. Devido a essa prática de poesia indecente, suas mentes foram moldadas de tal maneira que não lhes restava qualquer respeito por um valor social fundamental como a castidade. Um dia, essa mentalidade descarada dos judeus manifestou-se quando alguns jovens judeus passaram a comportar-se como verdadeiros bandidos. Uma tribo judaica chamada Banu Qaynuqa vivia em Medina. Uma mulher árabe muçulmana foi ao mercado deles para fazer compras. Primeiro, o comerciante importunou-a; depois, despiu-a em pleno mercado. Após cometer esse ato abominável, ele e seus companheiros, em vez de se envergonharem, começaram a zombar e escarnecer ainda mais dela. A mulher gritou e pediu ajuda à maneira árabe. Ao ouvir seus gritos, o senso de honra de um jovem árabe despertou; tomado por intensa agitação, ele matou imediatamente o judeu criminoso. Os conspiradores obtiveram exatamente o que queriam. Estava prestes a eclodir um conflito entre árabes muçulmanos e judeus. Ao receber a notícia, o Mensageiro (que a paz esteja com ele) chegou imediatamente ao local. Repreendeu a tribo Banu Qaynuqa por seu ato abominável e também a advertiu, dizendo: “Ó comunidade judaica, emendai-vos antes que vos aconteça o mesmo destino que atingiu os coraixitas (na batalha de Badr).”
Segundo o relato de Ibn Sa’d, como a tribo Banu Qaynuqa nutria intensa hostilidade e obstinação, respondeu em tom exaltado: “Ó Muhammad! Não penses que conquistaste o mundo só porque mataste alguns coraixitas. Eles eram fracos e inexperientes na arte da guerra. Por Deus, se levantares a espada contra nós, descobrirás que somos os verdadeiros combatentes. Nunca antes tiveste contato com pessoas como nós.” (Sira de Ibn Hisham, volume 2)
Até então, os membros das tribos Aws e Khazraj de Medina eram muito mais atrasados que os judeus nos aspectos político, econômico e intelectual. Entretanto, o movimento islâmico havia criado neles o impulso de uma nova vida, e o esforço contínuo para alcançar um objetivo sagrado os unira entre si e aos Muhajirun por laços de unidade. Ao verem a mudança favorável na sorte deles, os judeus ficaram interiormente furiosos. Um velho judeu, famoso por sua astúcia, chamado Shas ibn Qays, observava essa mudança com grande preocupação. Seu peito estava cheio de inveja e ódio contra os líderes e ativistas do movimento islâmico. Certa vez, ele viu pessoalmente uma reunião dos companheiros do Mensageiro (que a paz esteja com ele). Nessa reunião, alguns membros de Aws e Khazraj conversavam entre si. Ao ver a simpatia, a harmonia e a unidade criada pelo Islã entre eles, seu coração pareceu arder até virar cinzas. Onde estava o tumulto das brigas da época da Jahiliyyah, e onde estava aquela doce cena de unidade! O velho judeu dizia consigo: “Ah, entendi. Então agora esta cidade se tornou completamente unida, com os descendentes de Qayla (Qayla era o nome da avó das tribos Aws e Khazraj)! Se eles se unirem dessa maneira, será impossível para nós viver em tranquilidade.” Por fim, os membros de sua tribo tramaram uma conspiração e transformaram um jovem judeu em instrumento para executá-la. Instruíram-no: “Vai sentar-te nas reuniões dos muçulmanos e, misturando-te intimamente com eles, recorda-lhes a batalha de Bu’ath e as guerras anteriores que ocorreram entre Aws e Khazraj.” O agente judeu cumpriu muito bem a tarefa que lhe fora confiada. Certa vez, os membros de Aws e Khazraj estavam sentados juntos numa assembleia. No decorrer da conversa, começaram a discutir o obscuro capítulo da época da Jahiliyyah. Pouco a pouco, surgiram entre eles disputas, conflitos e provocações; começou uma competição para humilhar uns aos outros, que se transformou em agitação. Por fim, os combatentes exaltados de ambos os lados ficaram frente a frente, como se fossem travar uma nova guerra para provar qual deles era mais forte. Ouviram-se gritos: “Trazei as armas, as armas!” Ambas as tribos, Aws e Khazraj, entraram em estado de alarme. Até o local e a hora do combate foram determinados. Os homens exaltados saíam todos armados. Nesse momento, o Mensageiro (que a paz esteja com ele) chegou ao local acompanhado de alguns Muhajirun. Então pronunciou o seguinte discurso:
“Ó muçulmanos, lembrai-vos de Deus. Deus vos guiou ao caminho do Islã, elevou vossa honra por meio dele, lançou fora de vossos pescoços as correntes da Jahiliyyah, libertou-vos da descrença e vos uniu pelos laços do afeto e do amor mútuos. Mesmo assim, na minha presença, começastes a proferir os slogans da Jahiliyyah — como pode ser isso?”
Ao ouvirem esse breve discurso, os homens perceberam que tudo aquilo era, na realidade, uma intriga e uma conspiração ardilosa criada por Satanás. Eram os inimigos do Islã que haviam provocado toda aquela confusão. Arrependeram-se, baixaram a cabeça e, demonstrando obediência, retornaram com o Mensageiro (que a paz esteja com ele).
Um acontecimento desse tipo ocorreu a caminho da batalha de Banu al-Mustaliq. Os hipócritas submissos aos judeus, sob a liderança de Abdullah ibn Ubayy, provocaram um nível perigoso de tensão entre os Ansar e os Muhajirin. Já mencionamos esse acontecimento anteriormente. Naquela ocasião, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) também controlou a situação com extrema rapidez e discernimento.
Entre essas conspirações, a mais organizada e ardilosa foi o episódio da Mesquita de Dirar. O verdadeiro mentor dessa conspiração era um falso líder religioso chamado Abu Amir, da tribo dos Khazraj. Antes da chegada do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) a Medina, ele exercia bastante influência graças ao seu conhecimento das antigas Escrituras celestiais e ao seu modo de vida semelhante ao de um asceta. Quando o Mensageiro de Allah chegou a Medina e se tornou o refúgio de pessoas de todas as classes, a influência e o prestígio de Abu Amir chegaram a zero. Por isso, ele guardava uma enorme irritação no coração. Além disso, o quadro do futuro que o resultado da batalha de Badr apresentou diante dele deixou-o agitado e impaciente. Certo dia, começou a incitar os líderes coraixitas de Meca para a batalha de Uhud; por outro lado, conspirou com outros líderes politeístas da Arábia, incitou os próprios Ansar a se rebelarem contra o Mensageiro de Allah e chegou a convidar até mesmo o imperador romano Heráclio a atacar Medina. (Tafsir de Ibn Kathir, volume 4)
Ele incitou os hipócritas a estabelecerem um centro alternativo para confrontar o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Com base nesse plano, foi construída a Mesquita de Dirar. Os arquitetos desse centro de atividades contrárias ao Islã fizeram um apelo dramático ao Mensageiro de Allah, dizendo: “Construímos esta mesquita apenas para as pessoas fracas e incapazes que não conseguem ir muito longe para fazer a oração. Além disso, nas noites escuras e durante tempestades e chuvas, os moradores das proximidades poderão reunir-se facilmente aqui. Vá inaugurá-la e abençoe-a.” Naquele momento, o Mensageiro de Allah estava partindo para Tabuk. Ele adiou o assunto até seu retorno de Tabuk. Ao voltar, foi advertido por meio da revelação:
“E aqueles que construíram uma mesquita para causar dano, promover a descrença, semear a discórdia entre os muçulmanos e preparar um posto de observação para aqueles que anteriormente guerreavam contra Allah e Seu Mensageiro, e que juram: ‘Só pretendíamos fazer o bem’, Allah testemunha que são mentirosos. Jamais permaneças em oração nessa mesquita que eles construíram. Entretanto, a mesquita cuja fundação foi estabelecida sobre a piedade desde o primeiro dia é mais digna de que permaneças em oração nela. Nela há homens que desejam purificar-se. E Allah ama os que se purificam.” (At-Tawbah, 107-108)
Pode-se extrair daqui a lição de como uma pequena semente de vingança dá origem a uma enorme árvore venenosa, e de como até mesmo as forças da descrença utilizam uma mesquita como base para se opor ao movimento islâmico. Observem como as sedições criadas para prejudicar o Islã se apresentam revestidas com os rótulos da religião e do temor a Allah. Não há conta de quantos grupos e subgrupos, quantas khanqahs, mesquitas, madrassas, editoras e publicações ainda hoje são fundados e mantidos diante de nós, tal como a Mesquita de Dirar, com propósitos malignos. A alegação de seus arquitetos também é a mesma: “Só estamos trabalhando com boas intenções.”
Se essa mesquita tivesse sido construída com o propósito de adorar Allah, e se seu objetivo fosse facilitar a oração congregacional dos muçulmanos incapazes e fracos, então essa necessidade teria sido apresentada à consideração do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Nesse caso, o líder da sociedade islâmica teria decidido pela construção da mesquita. Como as demais mesquitas, ela também teria sido construída com a participação coletiva dos muçulmanos. Porém, em vez disso, algumas pessoas deliberaram secretamente, elaboraram um plano oculto sem o conhecimento da organização islâmica e de seu líder, e construíram uma mesquita separada para si, às escondidas de todos. Isso apesar de a Mesquita de Quba já existir nas proximidades. O significado evidente disso é que, por trás desse ato realizado sob o disfarce do temor a Allah, havia necessariamente algum tipo de fraude. A revelação desmascarou essa fraude e a expôs à sociedade. Se, na presença de uma organização empenhada em um objetivo específico, algumas pessoas pensam em formar dentro dela seu próprio subgrupo e elaboram e executam planos separados, fora do método de trabalho e do programa coletivos, então, por mais que façam discursos grandiloquentes para tornar crível seu temor a Allah, e por mais atraentes que sejam suas vestimentas e sua aparência, o resultado não pode ser outro senão prejudicar a sociedade islâmica, promover a descrença e criar a discórdia.
Por fim, esse centro impuro, construído sob o nome sagrado de mesquita, foi queimado e reduzido a cinzas por ordem do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), para que, juntamente com ele, sua história abominável também fosse apagada. (Sira de Ibn Hisham, volume 4)
Em suma, o grupo judeu, que reivindicava o monopólio da orientação de Allah e se considerava herdeiro dos profetas e mensageiros, não deixou passar nenhuma oportunidade de provocar agitação. Porém, ainda mais destrutivas do que todas essas atividades perturbadoras eram suas ações conspiratórias, realizadas durante cada batalha para prejudicar o sistema de defesa islâmico. Mais adiante, apresentaremos os detalhes dessas atividades.
Obstrução do sistema judicial
A boa administração de qualquer sistema de governo depende da execução adequada de duas tarefas. Em primeiro lugar, seu sistema de defesa deve ser sólido. Em segundo, seu sistema judicial deve funcionar corretamente e suas leis devem ser aplicadas. A primeira tarefa visa proteger o país contra agressões externas; a segunda, mantê-lo seguro contra problemas internos. Contudo, o governo do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) enfrentou resistência dos judeus e dos hipócritas na execução de ambas as tarefas. Desejo mencionar aqui como essas duas forças de resistência obstruíram o sistema judicial do Estado islâmico e que artimanhas utilizaram para enfraquecer a administração civil. Se não for dada a um Estado recém-criado a oportunidade de estabelecer sua administração civil, ele não conseguirá controlar seus problemas internos nem enfrentar as forças externas. Nessas circunstâncias, surge o risco de sua existência ser destruída ainda no início. Há inúmeros exemplos na história de que, onde quer que conquistadores ou revolucionários tenham estabelecido um novo governo, tiveram inicialmente de recorrer a uma severidade e ao uso da força incomuns para consolidar a administração civil. Porém, no sistema moral e judicial sobre o qual se fundamentava o governo do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), não havia espaço para severidade excepcional ou contrária às normas. Por isso, a quinta coluna de Medina teve a oportunidade de recorrer, em certa medida, à astúcia e à hipocrisia.
No pacto constitucional sob o qual os muçulmanos emigrantes, os ansares e as tribos judaicas do Estado Islâmico de Medina haviam sido unificados em uma única entidade política, reconhecia-se que a autoridade suprema (Final Authority), tanto em matéria política quanto judicial, estaria nas mãos de Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Esse documento ainda está preservado e contém as duas seguintes cláusulas explícitas:
(Árabe *******)
Após a conclusão desse pacto constitucional, tornou-se dever obrigatório das tribos judaicas signatárias, nos aspectos legal, moral e político, oferecer toda a cooperação para o êxito do sistema jurídico e judicial do Estado Islâmico e demonstrar plena lealdade à administração conduzida sob a liderança do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Conduzir uma sociedade desorganizada e caótica para a disciplina civil ordenada, com base no Estado de Direito, foi uma realização extraordinária e inestimável do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele); e aplicar, sem discriminação, os princípios naturais e eternos da justiça para extirpar o crime e a delinquência foi uma medida extremamente benéfica. Como resultado dessa medida, um ambiente equilibrado, puro, pacífico e seguro beneficiava os judeus tanto quanto os demais. Além disso, estabelecer a lei de Allah também era um objetivo nacional dos judeus. Aparentemente, os judeus aceitaram voluntária e alegremente as responsabilidades desse pacto constitucional. Contudo, sempre que percebiam que alguma lei do Estado Islâmico prejudicaria seus interesses ou que algum de seus membros seria afetado, negavam completamente, nos aspectos político, jurídico e moral, bem como à luz das responsabilidades atribuídas pelo pacto, e ignoravam por completo os interesses gerais da sociedade e da humanidade. Certa vez, um judeu casado cometeu adultério com outra judia casada. O fato chegou aos ouvidos dos líderes judeus. Eles se reuniram para deliberar e enviaram um homem ao Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) para perguntar qual punição poderia ser aplicada por tal delito. Já haviam decidido que, se Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) ordenasse a ‘tahmiyah’ praticada em sua sociedade (pintar o rosto da pessoa de preto e fazê-la desfilar pela região montada em um jumento), aceitariam Muhammad como rei e obedeceriam à sua ordem. Mas, se ele ordenasse o rajm conforme a lei do Livro de Allah, isso significaria que ele era um profeta (em termos de conhecimento correto, coragem moral e obediência ao mandamento de Allah), e, nesse caso, não se deveria obedecer à ordem de Muhammad. Pois então acabaria também o pouco da influência e do prestígio de líderes que ainda lhes restava. Enfim, o mensageiro chegou e transmitiu a mensagem dos líderes judeus. Estes também haviam proposto que aceitariam o Mensageiro como juiz. A proposta era contrária ao pacto constitucional, pois, segundo o pacto, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) era permanentemente o principal juiz de Medina. Talvez por essa razão o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) se levantou e foi diretamente ao centro religioso dos judeus. Ao chegar, disse: “Chamem seus sábios.” Imediatamente, Abdullah bin Suriya foi trazido. Segundo alguns relatos, Abu Yasar bin Akhta e Wahb bin Yahuda também faziam parte desse grupo junto com Abdullah. Durante a conversa, todos afirmaram unanimemente que Abdullah bin Suriya era a pessoa mais experiente em relação à Torá. O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) chamou Abdullah bin Suriya para conversar em particular; primeiro o advertiu a temer Allah e, recordando-lhe a época áurea da história dos Filhos de Israel, perguntou: “Sabes que, se uma pessoa casada cometer adultério, a Torá ordena que seja submetida ao rajm (morte por apedrejamento)?” Ele respondeu: “Sim, por Allah.” A informação que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) havia recebido por meio da revelação recebeu confirmação até mesmo por parte dos opositores. Porém, na assembleia pública, os líderes e sábios judeus começaram a apresentar argumentos contraditórios. Insistiam que, segundo a lei religiosa deles, a tahmiyah era a punição para o adultério. De acordo com o significado desse termo, os adúlteros judeus tinham o rosto pintado de preto e eram conduzidos pela cidade montados em um jumento. Eles haviam deixado de lado a determinação da Torá sobre o rajm (morte por apedrejamento). Quando a doença do adultério se espalhou entre eles e até pessoas das camadas mais elevadas passaram a estar envolvidas, a sociedade, em vez de defender a lei religiosa, começou a ajudar os criminosos e a suavizar a punição. Os líderes judeus de Medina temeram que, se a determinação da Torá sobre o rajm fosse restabelecida, ninguém mais estaria a salvo: hoje um seria punido, amanhã outro. Foi por isso que quiseram abolir a punição do rajm. Assim, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), por necessidade, pediu publicamente que trouxessem a Torá. A Torá foi trazida, e um sábio judeu leu a passagem correspondente. Naquela cópia da Torá, o versículo relativo ao rajm permanecia intacto. Por isso, o perverso sábio cobriu o versículo com a mão e leu o versículo anterior e o seguinte. Abdullah ibn Salam (um célebre sábio judeu que havia aceitado o Islã) avançou de um salto, afastou-lhe a mão e, apontando para o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), disse: “Ó Mensageiro, aqui está o versículo relativo à determinação do rajm!” [Há uma prova clara no Evangelho escrito por João de que a Torá original registrava a determinação do rajm para a mulher casada adúltera. Vejam esta declaração no versículo 8:5 de João:
“Na Torá, Moisés nos ordenou que apedrejássemos até à morte mulheres desse tipo.” Apesar da mistura introduzida pelos comentaristas, juristas e falsificadores judeus nas versões correntes da Torá, em alguns casos ainda se menciona a pena de morte e de apedrejamento até à morte para o adultério. Por exemplo: “Se um homem for apanhado cometendo adultério com uma mulher que tenha marido, ambos deverão ser mortos.” (Deuteronômio, capítulo 21, versículos 21–22)
“Se uma jovem virgem estiver comprometida com alguém e outro homem a encontrar na cidade e tiver relações com ela, trareis ambos para os arredores da cidade e os apedrejareis até à morte.” (Deuteronômio, capítulo 22, versículo 23) O versículo 26 também declara a pena de morte para aquele que estuprar uma mulher à força. O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, repreendeu severamente aquele erudito judeu por essa falsificação e aplicou ao criminoso em questão a pena de rajm prescrita na Torá, dizendo: “Sou eu o primeiro a reintroduzir e implementar a lei de Allah e as disposições de Seu Livro.” (Sira de Ibn Hisham, volume 2; Sahih Muslim, capítulo sobre a aplicação do rajm aos judeus protegidos; Zad al-Ma’ad, volume 3)
Essa era a artimanha dos eruditos judeus daquela época. Mantendo a lei de Allah debaixo do braço, eles instituíam leis inválidas inventadas por eles mesmos. E, com esse caráter, queriam obstruir o caminho do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, decidido a implementar a lei de Allah em sua forma original e inalterada. Foi a eles que o Alcorão se dirigiu ao dizer: “Enquanto não demonstrais que pondes em prática a Torá, o Evangelho e a orientação revelada por Allah, não tendes fundamento algum.” Isto é, enquanto existir uma contradição tão grave entre vossa crença e vossas ações, sereis uma comunidade sem sentido e sem importância. Um dos principais sinais da corrupção generalizada dos judeus era que sua sociedade havia se dividido permanentemente em classes superiores e inferiores, e a igualdade perante a lei havia desaparecido por completo. Havia leis diferentes para os poderosos e para os fracos. Por exemplo, entre Banu Nadir e Banu Qurayza vigorava um sistema desigual de diya (compensação financeira devida como punição pelo homicídio), baseado na diferença entre fraqueza e poder. Se alguém de Banu Nadir matasse alguém de Banu Qurayza, recebia-se uma diya de cem wasaq. Por outro lado, se alguém de Banu Qurayza matasse alguém de Banu Nadir, recebiam-se cinquenta wasaq. Depois da chegada do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, a Medina e do estabelecimento do sistema islâmico de justiça, quando um homem de Banu Nadir matou um homem de Banu Qurayza, o lado do homicida recusou-se a pagar a diya em dobro e pressionou para que se aceitasse a igualdade. Com o apoio da lei islâmica, sua força havia aumentado. À medida que a discussão se acalorava, chegou-se ao ponto de quase irromper uma guerra entre as duas tribos. Por fim, ambas concordaram em levar sua disputa ao Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, e aceitar sua decisão.
O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, aboliu para sempre essa desigualdade na diya e a tornou igual, conforme a orientação do Alcorão. (Tafsir de Ibn Kathir, volume 2; Sira de Ibn Hisham, volume 2) Ao mesmo tempo, o Alcorão advertiu aqueles que alteram o sistema de justiça equitativa de Allah, dizendo:
“Aqueles que não julgam conforme o que Allah revelou são incrédulos.” (Al-Ma’idah)
Se apenas os judeus de Medina fossem um obstáculo à implementação do sistema islâmico de justiça equitativa e do código penal (hudud), isso já seria suficiente. Na realidade, o problema era que a desigualdade prevalecia em toda a sociedade árabe. Havia uma lei para a classe influente e outra para os fracos e as pessoas comuns.
Durante a conquista de Meca, uma mulher chamada Fátima, da tribo de Banu Makhzum, foi presa por furto. Como era membro de uma tribo influente, os coraixitas ficaram consternados com sua prisão. Não conseguiam sequer imaginar que a mesma punição prevista pela lei para o povo em geral também fosse aplicada a uma mulher tão nobre. Depois de deliberarem, decidiram que deveriam implorar ao Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, para libertá-la. Mas surgiu o problema: quem faria essa súplica? Após muita reflexão, enviaram Usama ibn Zayd para interceder. Assim que Usama apresentou seu pedido, o rosto do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, mudou de cor. Ele disse: “Vieste interceder para que seja suspensa uma punição determinada por Allah?” Bastou ouvir essas palavras para Usama compreender. Ele pediu perdão. Por fim, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, dirigiu-se à multidão reunida, dizendo:
“Uma das razões pelas quais as nações que vos precederam foram destruídas foi que, quando uma pessoa poderosa entre elas cometia um crime, fingiam não ver, embora o vissem. Juro por Allah que, se até minha filha Fátima roubasse, eu também lhe cortaria a mão. (Sahih Muslim: capítulo sobre a proibição de interceder contra a aplicação do código penal)
A mesma atitude manifestou-se no caso de outra mulher chamada Umm Haritha. Essa mulher havia quebrado o dente de alguém. Quando o caso foi levado ao tribunal do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, ele ordenou o qisás (dente por dente). Ao ouvir essa decisão, Umm Rabi’ — provavelmente irmã da culpada, embora haja ambiguidade nas narrações a esse respeito — ficou surpresa e perguntou ao Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele: “Também será aplicado qisás a ela? Juro por Allah, isso não é possível.” O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Ó Umm Rabi’! O qisás é uma determinação de Allah.” Mas a mulher continuou dizendo: “Juro por Allah, não é possível aplicar-lhe qisás.” Ela simplesmente não conseguia entender como o dente de uma criminosa daquele nível poderia ser quebrado.
Enquanto isso, na prática, ambas as partes chegaram a um acordo sobre a diya. Assim, a regra do qisas (em relação à qual também havia a possibilidade de diya) foi cumprida, e a palavra de Umm Rabi também foi mantida. Por isso, o Mensageiro (S.A.) disse, em tom de brincadeira: «Há servos de Allah que, quando fazem um juramento, o próprio Allah faz com que ele seja cumprido.» (Sahih Muslim: capítulo sobre qisas)
Os judeus não obstruíam apenas o trabalho do sistema judicial islâmico. Pelo contrário, onde quer que encontrassem uma oportunidade em toda a administração civil, procuravam criar desordem. Um exemplo notável disso ocorreu após a conquista de Khaybar: a pedido dos judeus de Khaybar, eles foram mantidos como agricultores arrendatários em suas terras, em troca da metade da colheita; quando o coletor de impostos do governo islâmico foi cobrar deles, pela primeira vez, a parte devida ao governo, eles tentaram suborná-lo. Procuraram envolver também os funcionários da nova administração na terrível doença da corrupção que os havia contaminado. Esse coletor era Abdullah ibn Rawaha. O honesto coletor enviado pelo Mensageiro (S.A.) estava muito acima daquilo que os judeus de Khaybar imaginavam. Ele lhes disse claramente: «Ó inimigos de Allah, quereis alimentar-me com comida ilícita?» (Sirat an-Nabi, Shibli Numani)
Ele disse: «O Mensageiro (S.A.) não me enviou até vós para que eu me apropriasse injustamente de vossos bens. Pelo contrário, fui enviado para dividir igualmente entre vós e os muçulmanos. Se concordardes, farei uma estimativa e vos deixarei metade; e, se preferirdes, vós mesmos fareis a estimativa e nos dareis a metade que nos cabe.»
Em seguida, Ibn Rawaha estimou o total em quarenta mil wasaq e reteve vinte mil wasaq como a parte devida aos muçulmanos. Irritados com essa distribuição justa, alguns judeus vis e desprezíveis disseram que aquilo era uma injustiça. Contudo, o povo amante da justiça reconheceu que aquela era a decisão correta. Abdullah ibn Rawaha continuou desempenhando essa função durante toda a sua vida. (Bukhari, capítulos sobre muzara’a e shirkah)
Em suma, ao transformar uma sociedade semiorganizada em um Estado regido por normas e ao implementar os princípios da justiça concedidos por Allah, a nação judaica, que reivindicava desde a antiguidade o monopólio da religião e da civilização, em vez de auxiliar o Mensageiro (S.A.), continuou a obstruí-lo a cada passo e empreendeu, desde os primeiros tempos, o imperdoável esforço de arrancar pela raiz o sistema islâmico.
Tentativa de provocar conflitos na família do Mensageiro
Os inimigos do Islã que viviam em Medina também tentaram criar confusão na família do Mensageiro (S.A.). Na opinião deles, essa era a maneira mais eficaz de provocar conflitos e discórdias entre a família do Mensageiro (S.A.) e seus companheiros próximos. Se a conspiração para envolver o líder do movimento islâmico em disputas domésticas tivesse sido bem-sucedida, suas consequências poderiam ter sido extremamente destrutivas. As mulheres comuns de Medina já frequentavam naturalmente a casa do Mensageiro (S.A.). Depois, tudo o que viam, de acordo com a psicologia própria do sexo feminino, contavam a todos. Assim, os hipócritas e as pessoas de mau caráter podiam saber muito bem que tipo de fome e pobreza prevalecia na família do Mensageiro (S.A.). As esposas do Mensageiro (S.A.) eram mulheres de famílias nobres, e seus padrões de gosto não eram inferiores aos de ninguém. Por outro lado, embora o Mensageiro (S.A.) estivesse sinceramente satisfeito com a condição econômica da família, ela estava muito abaixo do padrão anterior ao qual elas estavam acostumadas. Junto com o Mensageiro (S.A.), suas esposas também suportavam pacientemente aquela situação. Elas compreendiam perfeitamente que, nas circunstâncias extremamente difíceis pelas quais avançava o arquiteto de um mundo novo, não se podia esperar felicidade e tranquilidade completas. Ainda assim, as pessoas continuam sendo pessoas. O ser humano está sempre cercado por suas emoções, sentimentos e esperanças naturais. É verdade que as esposas do Mensageiro (S.A.) ocupavam uma posição elevada em fé e caráter e apresentaram ao mundo exemplos impressionantes de paciência, tolerância e solidariedade. Contudo, por serem membros da mesma família, não era anormal que, às vezes, fossem influenciadas, ainda que minimamente, por uma mentalidade de rivalidade mútua. Além disso, embora entre as mulheres da linhagem coraixita a tradição de devoção e obediência ao marido fosse observada de maneira bastante rigorosa, isso não ocorria tanto entre as mulheres de Medina. As mulheres de Medina, pelo contrário, demonstravam certa firmeza diante dos maridos. Por exemplo, certa vez, quando um homem tão poderoso quanto Umar repreendeu sua esposa enquanto estava em Medina, ela também lhe respondeu prontamente. Surpreso, Umar disse: «Respondeste-me na minha própria cara?»
Nesse momento, ele pôde perceber que, na vida conjugal dos muçulmanos, o ambiente de Medina já havia exercido uma influência considerável sobre as tradições e a mentalidade de Meca.
Essa situação era clara para os hipócritas e os homens de má índole, que assim encontraram uma oportunidade para conspirar. Eles usaram algumas mulheres como espiãs para acender o fogo da discórdia e da confusão no interior da família do Mensageiro (que a paz esteja com ele). O nome de uma dessas mulheres era Umm Jaldah. Sua tarefa era incitar as esposas do Mensageiro (que a paz esteja com ele). Foi por meio das conspirações dessas espiãs que se tornou possível espalhar calúnias contra Hazrat Aisha.
Como resultado de tais conspirações de pessoas de má índole, ocorreram sucessivamente vários acontecimentos que poderiam ter sido muito prejudiciais. Porém, com a ajuda de Allah, o caráter do Mensageiro (que a paz esteja com ele), o apoio dos ilustres Companheiros e a cordialidade de suas esposas, o problema foi resolvido no momento oportuno.
O acontecimento mais perigoso entre todos foi a exigência das esposas de aumentar a provisão destinada à sua manutenção. Foi em consequência dessa exigência que ocorreu o ‘ila’ (o abandono temporário, pelo Mensageiro, da intimidade com suas esposas). Foi uma graça especial de Allah que Hazrat Abu Bakr e Hazrat Umar apoiaram sinceramente o Mensageiro (que a paz esteja com ele) e, em vez de encorajarem suas duas filhas, repreenderam-nas severamente. Então veio um desafio da parte de Allah, o Altíssimo:
“Ó Profeta, dize a tuas esposas: se desejais a vida deste mundo e seus adornos, vinde, eu vos concederei provisões e vos despedirei honrosamente. Mas, se desejais Allah, Seu Mensageiro e a vida do Além, sabei que Allah preparou uma magnífica recompensa para as mulheres virtuosas.” (Surata Al-Ahzab)
Na verdade, dois caminhos haviam sido deixados abertos diante das esposas do Mensageiro (que a paz esteja com ele). Elas poderiam escolher qualquer um dos dois. Graças à sua própria nobreza, as esposas imediatamente se precaveram. O Mensageiro (que a paz esteja com ele) comunicou primeiro essa decisão de Allah justamente a Hazrat Aisha, que liderava aquela exigência por causa de sua influência, prestígio e extraordinária inteligência e talento. E foi Hazrat Aisha quem primeiro declarou: “Não quero nada além de Allah e do Mensageiro.” Depois, uma a uma, todas as outras esposas renunciaram de todo o coração às suas exigências.
Se, em uma família cercada por inimigos, surgisse em algum momento conflito e discórdia devido às contínuas conspirações de pessoas mal-intencionadas e às atividades nocivas de mulheres espiãs da pior espécie, isso não seria algo estranho. Pelo contrário, o fato de essa família ter permanecido segura apesar de tantas conspirações é um sinal da firmeza, união e nobreza de seus membros.
Agora compreenda quantas e variadas redes de conspiração estavam sendo armadas ao redor do Mensageiro (que a paz esteja com ele).
A conspiração para assassiná-lo
Quando o chamado à verdade se transforma em movimento, suas forças adversárias, ao se oporem injustamente a ele, continuam avançando rumo à degradação e à baixeza. Por fim, quando são derrotadas até mesmo no campo dos argumentos contra a mensagem central, e fracassam também em suas campanhas para criar confusão e promover a violência, o ódio, a hostilidade, a obstinação e a vileza cultivados por elas desde sempre fazem surgir em seu interior uma mentalidade criminosa, assassina e semelhante à de bandidos. Chegando a esse estágio, elas se dispõem a assassinar o líder do movimento islâmico. Se esses inimigos conspiradores ocupam o trono do poder e da autoridade, exercem perseguição política contra seus opositores e, brandindo a espada da lei, encenam julgamentos para assassinar os servidores da humanidade. Já os que são privados do poder escolhem diretamente o caminho conspiratório do assassinato. A liderança jahilí de Meca havia escolhido precisamente esse último caminho. E agora os falsos líderes religiosos de Medina também escolheram esse caminho imundo.
Isso ocorreu no quarto ano da Hégira. Amr ibn Umayya al-Damri matou dois homens da tribo de Amir. O Mensageiro (que a paz esteja com ele) foi até o povo da tribo de Banu Nadir para pagar o preço de sangue por esse assassinato e lembrá-los de suas responsabilidades relativas ao tratado de paz. O povo daquele lugar fez o Mensageiro (que a paz esteja com ele) sentar-se à sombra de um muro. Depois, começaram a deliberar secretamente, decidindo que alguém subiria e o mataria lançando uma enorme pedra sobre sua cabeça. Amr ibn Jihhash ibn Ka’b assumiu essa responsabilidade. Ao perceber suas más intenções, o Mensageiro (que a paz esteja com ele) levantou-se e partiu antecipadamente. (Sira de Ibn Hisham, vol. 2; Rahmatullil-Alamin, de Qadi Sulayman Mansurpuri; A vida política do Nobre Mensageiro, do doutor Muhammad Hamidullah)
O pai do famoso líder judeu Ka’b ibn Ashraf era membro da tribo de Tai, e sua mãe era filha do abastado líder judeu Abu Rafi ibn Abi al-Huqayq. Por causa dessa dupla ligação, Ka’b ibn Ashraf exercia influência igual sobre árabes e judeus. Por um lado, era rico; por outro, um poeta renomado. Seu peito estava cheio de veneno contra o Islã. (Fath al-Bari) Outra narração afirma que, por um lado, Ka’b havia convidado o Mensageiro (que a paz esteja com ele), mas, por outro, havia instruído algumas pessoas a matá-lo assim que chegasse. Embora essa narração seja um tanto fraca quanto à sua cadeia de transmissão, parece confiável à luz da hostilidade de Ka’b e de suas atividades concretas.
Quando o Mensageiro (que a paz esteja com ele) renovou o tratado com Banu Qurayza, Banu Nadir enviou-lhe uma mensagem: “Você trará três homens consigo. Nós também apresentaremos três sábios. Você exporá sua posição diante desta reunião. Se nossos sábios apoiarem sua posição, todos nós creremos em você.” O Mensageiro (que a paz esteja com ele) partiu. Porém, no caminho, soube que os judeus estavam se preparando para assassiná-lo. Por isso, retornou.
A conquista de Khaybar
Durante a batalha de Khaybar, uma mulher judia chamada Zaynab bint al-Harith, esposa de Salam ibn Mishkam, assou e preparou a carne de um cordeiro, misturando-lhe veneno. Depois, perguntou de qual parte do cordeiro o Mensageiro (que a paz esteja com ele) gostava mais. Ao saber que ele preferia a carne da perna dianteira, misturou nela uma quantidade ainda maior de um veneno extremamente forte. Em seguida, enviou aquela carne como presente ao Mensageiro (que a paz esteja com ele) e aos seus companheiros. O Mensageiro (que a paz esteja com ele) colocou na boca um bocado de carne — talvez tenha chegado a engoli-lo em parte — e imediatamente o cuspiu. Então disse: “Esta carne está me informando que há veneno misturado nela.” Depois, não comeu mais nem permitiu que os Companheiros comessem. Mais tarde, chamaram a mulher judia e a interrogaram, e ela confessou. Na realidade, por trás desse incidente estava a conspiração conjunta de muitos judeus. Quando o Mensageiro (que a paz esteja com ele) convocou todos eles e falou com eles em uma assembleia pública, todos confessaram. Mas disseram astuciosamente: “Queríamos testá-lo: se você fosse um verdadeiro profeta, descobriria a verdade; caso contrário, escaparíamos do seu controle.” (A vida do Profeta, de Shibli Nomani, vol. 1; fonte: Fath al-Bari)
Entre os Companheiros presentes nesse banquete estava também Bara ibn Ma’rur. Embora tenha sentido a intensidade do veneno ao colocar o bocado na boca, não o cuspiu por receio de cometer uma falta de respeito. Ele morreu por causa daquele único bocado. (Zad al-Ma’ad, vol. 2; Shamail de Tirmidhi; Asahh al-Siyar)
Depois do retorno de Tabuk, a vitória dos muçulmanos fez com que os corações dos hipócritas ardessem de raiva. A esperança desses inimigos secretos era que os muçulmanos sofressem uma derrota. Mas, como essa esperança não se concretizou, conspiraram para assassinar o Mensageiro (que a paz esteja com ele). Doze pessoas participaram dessa conspiração. Seus nomes eram: Abdullah ibn Ubayy, Sa’d ibn Abi Sarh, Abu Fater al-Arabi, Amir, Abu Amir al-Rahib, Jallas ibn Suwayd, Majma ibn Jariya, Malih al-Taymi, Hassan ibn Numayr, Tu’ayma ibn Ubayriq, Abdullah ibn Uyayna e Murra ibn Rabi.
Na reunião conspiratória, Jallás disse: «Esta noite não deixaremos de lançar Muhammad, que a paz esteja com ele, do alto da montanha, ainda que Muhammad, que a paz esteja com ele, e seus companheiros sejam melhores do que nós. Mas parece que nós nos tornamos as cabras e eles, nossos pastores. Nós nos tornamos tolos, e eles, inteligentes.»
Ele também disse: «Se Muhammad, que a paz esteja com ele, é verdadeiramente sincero, então somos inferiores até mesmo a um jumento.» (Sira de Ibn Hisham, volume 2)
Abdullah disse: «Se permanecerdes acordados esta noite, vivereis em paz pelo resto da vida. Matar este homem é a única tarefa que tendes hoje.»
Murra disse: «Se matarmos apenas um homem, todos ficarão a salvo.»
Entre esses doze, Hasan ibn Numayr tinha como grande “mérito” o fato de ter saqueado os bens destinados à caridade.
Outro, Abu Amir, o Monge, aparentava ser um sufista, um dervixe e alguém desapegado do mundo. Contudo, foi o idealizador da Mesquita de Dirar. Conspirava contra o Mensageiro, que a paz esteja com ele, junto aos governantes de Roma e de Gassã. Sua hipocrisia e sua perversidade refletiam-se em suas vestes de aparência piedosa.
Decidiu-se que, quando o Mensageiro, que a paz esteja com ele, passasse pelo alto da montanha, seria lançado abaixo. De acordo com esse plano, os doze conspiradores começaram a caminhar junto do Mensageiro, que a paz esteja com ele. Quando ele chegou perto da montanha, disse a todos que aqueles que quisessem seguir pela estrada larga da planície poderiam fazê-lo por ali. Ele próprio seguiu pelo caminho montanhoso. Muitos dos Companheiros seguiram pelo caminho da planície. Mas os conspiradores permaneceram com o Mensageiro, que a paz esteja com ele. A visão do Mensageiro, que a paz esteja com ele, era naturalmente tão perspicaz que alcançava o íntimo dos corações e percebia até os sentimentos ocultos. Os hipócritas haviam crescido diante do Mensageiro, que a paz esteja com ele. Portanto, quem poderia conhecer os hipócritas melhor do que ele? Além disso, Deus também o advertiu sobre essa conspiração por meio de sinais do invisível. Ele seguiu pelo caminho montanhoso acompanhado de Huzayfa ibn al-Yaman e Ammar ibn Yasir. Pediu a Ammar que fosse à frente, segurando as rédeas do camelo do Mensageiro, que a paz esteja com ele, e a Huzayfa que caminhasse atrás. Quando chegaram ao local determinado, o grupo de conspiradores aproximou-se aos saltos. Era uma noite escura e, além disso, os malfeitores usavam máscaras. Assim que ouviu passos, o Mensageiro, que a paz esteja com ele, ordenou aos dois companheiros que afastassem os que vinham atrás. Huzayfa avançou rapidamente. Ao ver os camelos deles, lançou uma flecha contra o queixo de um deles. Ao avistarem Huzayfa, pensaram que a conspiração havia sido descoberta. Então fugiram para trás e misturaram-se aos muçulmanos comuns.
Quando Huzayfa voltou, o Mensageiro, que a paz esteja com ele, ordenou: «A partir daqui, conduza os camelos depressa.» Depois perguntou a Huzayfa: «Reconheceste-os?» Huzayfa respondeu: «Reconheci as montarias de fulano e de sicrano, mas não reconheci os homens.» O Mensageiro, que a paz esteja com ele, perguntou: «Compreendeste a intenção deles?» Ele respondeu negativamente. Então o próprio Mensageiro, que a paz esteja com ele, informou-lhe: «Eles queriam lançar-me do alto da montanha.»
Na manhã seguinte, o Mensageiro de Allah convocou, um por um e pelo nome, aqueles doze conspiradores. Expondo diante deles a atitude de cada um e o que cada qual havia dito na reunião em que tramaram a conspiração, perguntou a cada um a razão de seu comportamento.
As respostas de todos foram surpreendentes. Hasan bin Numair, por exemplo, disse: “Eu não acreditava firmemente que o senhor soubesse dessas coisas. Mas hoje compreendi que o senhor é verdadeiramente o Mensageiro de Allah. Até agora, eu não era um muçulmano sincero. Hoje aceitei o Islã com plena devoção.”
Cada um apresentou desculpas e pretextos desse tipo. Alguns pediram perdão. O Mensageiro de Allah perdoou a todos. (Asahhus-Siyar — Maulana Abdur Rauf Danapuri)
Vários relatos extremamente confiáveis informam que o Mensageiro de Allah revelou secretamente apenas a Hazrat Huzaifa os nomes dos criminosos envolvidos nesse episódio. Ele não os denunciou diante dos muçulmanos em geral. Além disso, existem algumas divergências a respeito de alguns dos doze. Muitos dizem também que, no caso de dois ou três deles, posteriormente não se observou mais nenhum sinal de hipocrisia.
Entretanto, o acontecimento real está historicamente comprovado no lugar apropriado. É precisamente sobre isso que o Alcorão afirma: “Eles não conseguiram realizar aquilo que pretendiam.”
Não se encontra em nenhum outro lugar da história exemplo semelhante da magnanimidade do Mensageiro de Allah. Ele organizou uma revolução em prol do serviço à humanidade, trabalhando incansavelmente. No entanto, justamente no momento mais delicado do conflito e da luta, alguns malfeitores planejaram assassiná-lo para destruir toda a sua obra e tomaram medidas para executar o plano. Todos os seus atos perversos foram descobertos, e eles também confessaram. Apesar disso, esse grande homem perdoou sem hesitação um crime tão grave. Disseram ao Mensageiro de Allah: “Ordene às tribos de cada um desses criminosos que cortem suas cabeças e as tragam para entregá-las ao senhor.” Mas o Mensageiro de Allah respondeu: “Não gosto que os árabes digam que Muhammad travou uma guerra contra o inimigo acompanhado de algumas pessoas e, depois de alcançar a vitória, começou ele próprio a matar os seus companheiros.” (Tafsir de Ibn Kathir, volume 2) Com essas palavras, o Mensageiro de Allah queria explicar que, se tal vingança fosse adotada, a força essencial do movimento islâmico não conseguiria preservar suas próprias características. Por isso, mesmo que sua vida fosse colocada em risco e ele tivesse de enfrentar conspirações e atos de sabotagem sempre novos, ele suportava tudo. Contudo, não gostava que se recorresse à força para manter a situação sob controle e que, ao primeiro sinal de desordem, ela fosse eliminada pelo poder e pela força da lei. Ao administrar o governo e a organização da sociedade humana, é necessário demonstrar muita sabedoria, discernimento e visão sutil; é preciso levar em consideração muitos interesses e benefícios e aplicar, de diversas maneiras, muitas estratégias para corrigir adversidades e desvios. Uma das razões pelas quais a revolução islâmica é mais difícil que as demais revoluções materiais é que sua essência moral, extremamente delicada e sensível, deve ser preservada a cada instante, para que sua pureza não seja maculada por nenhum mal-entendido comum nem por propaganda hostil.
Entre os episódios de ataques pessoais contra o Mensageiro de Allah, o ataque mágico perpetrado pelos judeus também é um acontecimento digno de nota. Embora os atacantes públicos sejam inimigos, eles demonstram bravura. Mesmo desejando matar alguém, a conduta justa é desafiá-lo abertamente e só então atacá-lo. Porém, os judeus não possuíam esse heroísmo nem essa coragem honesta. Por isso, adotaram o caminho covarde e infernal das conspirações secretas e traiçoeiras. Mas atacar alguém por meio de magia, encantamentos e fórmulas de exorcismo, descendo a um nível ainda mais baixo, é obra daqueles que chegam ao nível mais baixo da covardia e da brutalidade. As feras humanas judias, tomadas pelo excesso de inveja e ira, não hesitaram em cometer também esse ato abominável contra o Mensageiro de Allah.
Um homem chamado Labid bin Asim, da tribo Banu Ruzaik, era aliado dos judeus e um muçulmano hipócrita. Foi por meio dele que o ataque mágico foi realizado. Um jovem judeu, atraído pelo Mensageiro de Allah devido à bondade inata de seu caráter, prestava-lhe serviço. Alguns judeus o obrigaram a conseguir fios de cabelo da cabeça do Mensageiro de Allah e dentes do seu pente. Recitaram encantamentos sobre aqueles fios, deram-lhes doze nós e os colocaram dentro de um poço chamado Zarwan.
Vários hadiths relatam que, em consequência dessa obra de magia, ocorreu uma estranha alteração no estado do Mensageiro (que a paz esteja com ele). Ele pensava ter realizado algo mesmo sem tê-lo feito. Seus efeitos também foram percebidos em sua atração natural por suas esposas. Por meio da revelação, ele foi informado sobre essa obra de magia. O cabelo foi retirado, e ele voltou ao seu estado normal. (Tafhimul Qur’an, volume 2, nota 114)
A propósito desse acontecimento, existe uma controvérsia sobre se a magia pode ou não afetar um profeta. Uma opinião sustenta que isso é absolutamente impossível. Aplicando essa opinião, um grupo que nega os hadiths declarou não confiável toda a ciência dos hadiths. Contudo, assim como o corpo humano de um profeta pode ser afetado por doenças, ferimentos, veneno e outras coisas, suas faculdades mentais também podem ser beneficiadas ou prejudicadas por atividades ocultas e manifestas de toda espécie. Por exemplo, ao ver a magia dos feiticeiros do Faraó, o Profeta Moisés sofreu uma reação psicológica. Ao ver as cordas deles assumirem a forma de serpentes, ele ficou com medo:(Árabe********)
“Moisés sentiu medo dentro de si.” (Surata Ta-Ha, 67) Entretanto, quando se diz que a magia não produz determinado efeito sobre os profetas, isso significa que ela não pode prejudicar sua atividade profética. Ninguém pode estabelecer controle sobre sua mente, nem ele pode perder o controle sobre sua força de vontade.
Mesmo sem dar atenção a essa controvérsia, não há impedimento para reconhecer que os judeus realmente lançaram um ataque de magia contra o Mensageiro (que a paz esteja com ele). Esse crime deles é uma realidade comprovada de modo irrefutável.
Quando esses acontecimentos chegam ao nosso conhecimento, compreendemos por que, no período madinense, os muçulmanos viviam preocupados e apreensivos com o risco à vida do Mensageiro (que a paz esteja com ele). Quando ele precisava sair de casa à noite, seus companheiros ficavam extremamente angustiados. Foi por causa dessa situação que Hazrat Talha bin Bara, durante a doença que precedeu sua morte, deixou como testamento: “Se eu morrer à noite, não informem o Mensageiro (que a paz esteja com ele), pois sua vida corre perigo por parte dos judeus. Que Deus não permita que, ao comparecer ao meu funeral, ele sofra qualquer dano nas mãos dos inimigos.” Às vezes, quando, por acaso, o Mensageiro (que a paz esteja com ele) desaparecia da vista dos companheiros, eles entravam em pânico e saíam à sua procura.
Um famoso hadith de Hazrat Abu Huraira, no qual se afirma que o Paraíso está garantido a quem testemunhar a unicidade de Deus, reflete em certa medida essa situação. Hazrat Abu Huraira disse:
“Estávamos sentados ao redor do Mensageiro (que a paz esteja com ele). Hazrat Abu Bakr e Hazrat Umar também estavam presentes naquela reunião. O Mensageiro levantou-se do nosso meio, foi a algum lugar e demorou muito a voltar. Ficamos profundamente preocupados, temendo que algum mal lhe tivesse acontecido, pois nenhum de nós estava com ele. Todos saímos inquietos à sua procura. Eu fui o primeiro a ficar alarmado. Por isso, saí imediatamente à sua procura.” (Mishkat, Livro da Fé, capítulo 3)
Durante a busca, Hazrat Abu Huraira chegou ao jardim de um certo ansari dos Banu Najjar. Deu a volta ao muro, procurando ver se havia alguma porta. Mas o muro talvez fosse comprido e, por causa do medo e da pressa, ele não conseguiu encontrar um caminho mais próximo. Finalmente, viu que um pequeno canal de água saía por baixo do muro. Encolhendo-se bastante — segundo seu próprio relato, agachando-se como uma raposa — entrou no jardim pelo canal, passando para dentro do muro. Ao ver o Mensageiro (que a paz esteja com ele) ali, sentiu-se aliviado. Depois, Abu Huraira conversou com ele. Foi então que o Mensageiro lhe transmitiu aquela famosa boa-nova.
Ao ler o relato de um ilustre Companheiro, podemos compreender como era o ambiente de Medina devido às constantes conspirações dos judeus e dos hipócritas para assassinar alguém, e quão perigosa era a vida do Mensageiro (que a paz esteja com ele). Contudo, a confiança em Allah era tão grande que, certa vez, por causa de todas essas apreensões e angústias, os nobres Companheiros organizaram uma guarda ao redor do Mensageiro (que a paz esteja com ele). Mas, como Allah havia prometido ao Mensageiro (que a paz esteja com ele) que:(Árabe********)
“Allah o protegerá das pessoas.” (Surata Al-Ma’ida: 67) Por isso, ele próprio pôs a cabeça para fora da tenda e disse aos guardas:
“Ide embora. Allah assumiu pessoalmente a responsabilidade pela minha segurança.” (Tafsir de Ibn Kathir, vol. 2)
Foi essa fé que também inspirou o Mensageiro (que a paz esteja com ele) a libertar outro criminoso que havia sido preso ao vir com a intenção de assassiná-lo. Ele disse: “Deixai-o ir, pois, mesmo que quisesse matar-me, não teria conseguido.” (Tafsir de Ibn Kathir)
Pensem por um momento: quão generoso era o coração desse grande arquiteto do palácio da humanidade, que, apesar das contínuas conspirações para assassiná-lo em todas as direções, permanecia firme e inabalável como uma montanha. Em Medina, algumas aranhas pareciam tecer continuamente suas teias para capturar esse audacioso tigre.
Enquanto isso, o vulcão de Meca tornava-se cada vez mais prestes a entrar em erupção. No interior de Meca, a lava da brutalidade e da ferocidade se intensificava cada vez mais. A grande conspiração conjunta para assassinar o Mensageiro (que a paz esteja com ele), tramada às vésperas da Hégira, assumiu, depois dela, a forma de grandes guerras de agressão. Contudo, o fracasso de todas essas agressões abertas os impelia a preparar conspirações secretas de assassinato.
Na batalha de Badr, o pequeno grupo muçulmano do Mensageiro (que a paz esteja com ele) dera aos filhos da Jahiliyyah uma lição tão severa que eles não conseguiram esquecer sua dor durante muito tempo. Não havia família em Meca que não tivesse perdido nessa batalha algum jovem escolhido ou algum chefe. Mas, como haviam sido derrotados por um punhado de muçulmanos revolucionários, sem apoio nem recursos, até mesmo gemer e lamentar-se era então motivo de ainda maior vergonha. Por isso, os líderes dos coraixitas fizeram promulgar uma ordem proibindo qualquer lamento pelos mortos de Badr. Os três filhos de Al-Aswad haviam sido mortos nessa batalha. Embora a dor ameaçasse despedaçar-lhe o coração, ele não conseguia emitir sequer um som de sua boca. Certo dia, ao ouvir o choro vindo de uma casa vizinha, enviou um criado, dizendo: “Vai e descobre se foi dada permissão para chorar.” O criado foi investigar e voltou informando que uma mulher chorava porque havia perdido o seu camelo. Ao ouvir isso, Al-Aswad já não conseguiu conter a emoção. Espontaneamente, recitou um poema. Esse poema conquistou grande apreço na literatura árabe. A seguir está a tradução de três de seus versos:
“Essa mulher chora porque perdeu um camelo, e perdeu o sono por causa disso? Não chores pelo camelo. Se tiveres de chorar, chora pelo infausto acontecimento de Badr. Se tiveres de chorar, chora por Aqil. Se tiveres de chorar, chora pelo heroico Harith, de juba de leão.”
Naquela atmosfera tão triste de Meca, Umayr ibn Wahb e Safwan ibn Umayya estavam sentados em um lugar, chorando pelos mortos de Badr. Safwan disse: “Agora já não há qualquer prazer em continuar vivendo.” Umayr disse: “Se eu não estivesse endividado e não tivesse de me preocupar com meus filhos, eu iria imediatamente matar Muhammad (que a paz esteja com ele). Meu filho também ainda está cativo em Medina.” Safwan assumiu a responsabilidade pelos filhos e pelas dívidas de Umayr. Imediatamente, Umayr voltou para casa, besuntou sua espada com veneno e partiu em direção a Medina. Quando chegou a Medina, Umar percebeu suas intenções ao observar sua expressão e seu comportamento, agarrou-o pelo pescoço e levou-o até o Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele). O Mensageiro de Allah disse a Umar: “Solte-o.” Então chamou-o para perto e perguntou: “Com que propósito você veio?” Ele respondeu: “Vim libertar meu filho.” Perguntou-lhe: “Por que está carregando uma espada?” Umayr respondeu: “O que há de errado com isso? Para que a espada serviu em Badr?”
Então o Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) revelou o segredo que ele guardava no coração e o colocou diante dele. Disse: “Você e Safwan sentaram-se em uma sala e conspiraram para me matar. Mas Allah não permitiu que essa conspiração de vocês tivesse sucesso.”
Ao ouvir aquilo, Umayr ficou perplexo. Disse: “Juro por Allah que você é realmente um profeta. Além de mim e Safwan, ninguém sabia desse assunto.”
Umayr voltou a Meca como muçulmano. Com coragem, passou a pregar o Islã e fez com que muitas pessoas se tornassem muçulmanas. (Sira de Ibn Hisham, volume 2)
Na época da conquista de Meca, Fudala ibn Umayr também, movido pelo desejo de vingança, decidiu secretamente matar o Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele). O Mensageiro de Allah estava circundando a Caaba Sagrada. De repente, Fudala apareceu. Quando se aproximou, o Mensageiro de Allah o chamou: “Quem é? Fudala?” Ele respondeu: “Sim, Fudala.” O Mensageiro de Allah disse: “Que intenção você está alimentando em seu coração?” Fudala, assustado, respondeu: “Nenhuma. Eu estava apenas me lembrando de Allah.”
Ao ouvir sua resposta, o Mensageiro de Allah sorriu e disse: “Peça perdão a Allah.” Ao dizer isso, colocou a mão sobre o peito de Fudala. Imediatamente, seu coração se acalmou. Fudala disse: “Depois que o Mensageiro de Allah retirou a mão do meu peito, não havia, em toda a criação de Allah, ninguém mais querido para mim do que o Mensageiro de Allah.” Depois dessa revolução psicológica, Fudala voltou para casa. (Sira de Ibn Hisham, volume 2)
Aquele que veio decidido a matar o conquistador não apenas de Meca, mas de toda a Arábia, voltou levando uma vida nova. Aquele que veio para desferir um golpe partiu, ao contrário, levando o bálsamo para curar suas próprias feridas.
Os coraixitas, os judeus e os hipócritas — todos conspiraram conforme suas próprias capacidades. Mas Allah cumpriu Sua promessa e, no fim, protegeu Seu servo e Mensageiro.
O objetivo de todas essas conspirações não era apenas matar um homem; todos eles queriam, antes, destruir todo o movimento islâmico. Queriam enviar ao campo de morte aquele luminoso amanhecer da verdade e da justiça, cuja chegada anunciava o toque de finados para as trevas. Queriam estrangular e matar aquele extraordinário novo sistema social que pretendia, pela primeira vez, conceder o sopro da vida, igualdade, liberdade e dignidade às pessoas exploradas e oprimidas durante centenas de anos.
A traição devastadora
As atividades subversivas das forças hostis ao Islã em Medina, que mencionei acima, constituíam crimes da mais vil natureza, tanto do ponto de vista moral quanto legal. Se, por causa delas, tivessem sido adotadas as mais severas medidas punitivas, isso teria representado a mais perfeita justiça à luz da religião e da política. Contudo, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, manteve uma atitude extremamente serena e paciente. Um movimento cujo verdadeiro objetivo é a correção e a reconstrução moral da humanidade não pode depender inteiramente das armas do poder e da lei. Por mais que as pessoas exibam baixeza e brutalidade, o movimento islâmico jamais se desespera quanto à natureza humana; ao contrário, avança com base em um otimismo de longo prazo. Sua verdadeira força reside em ensinar, explicar e instruir, não em punir e ameaçar. Nenhum sistema estatal pode preservar sua própria existência sem aplicar, de uma forma ou de outra, o poder governamental e a força da lei. Mas a transformação do caráter e da mentalidade das pessoas não se realiza com espada e bastão, e sim por meio do apelo moral e da razão. Nesse caso, a moderação é mais eficaz que a ira, e a paciência e a tolerância, mais que a vingança e o ressentimento. O maior amigo da humanidade, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, desejava iluminar o cenário da história com a luz da boa conduta moral e vencer os excessos e as intrigas ardilosas de seus inimigos com o mais elevado grau de paciência. Não se encontra na história outro exemplo de perdão tão grandioso quanto aquele que ele demonstrou nessa ocasião. O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, havia alcançado, após muitos anos de esforço e dedicação, certo grau de sucesso; alguns poucos homens quiseram destruí-lo provocando tumultos e desordem. Quiseram paralisar a lei, a ordem e a administração. Tramaram conspirações para assassiná-lo e o provocaram das maneiras mais vis. No entanto, em meio à turbulência das calamidades e conspirações, o governante do primeiro novo Estado islâmico do mundo, criado segundo seu próprio modelo, conduziu seu barco com extrema serenidade até um lugar seguro, oferecendo às ondas um discreto sorriso.
Apesar disso, as forças hostis não cessaram antes de chegar ao extremo da criminalidade e da iniquidade. Elas se rebelaram e traíram repetidas vezes, não apenas uma vez, e fizeram isso abertamente, com extrema insolência. Não deram a menor importância ao Estado do qual haviam se tornado cidadãs por meio de um pacto constitucional e ao qual, tanto religiosa quanto politicamente, tinham o dever obrigatório de ser leais. A traição e a rebelião são atos cuja punição, em nenhuma época, foi inferior à perda da cidadania e à pena de morte, e ainda hoje não é. Mas aquele que veio mudar o destino da civilização demonstrou extrema paciência mesmo diante de crimes tão graves e de tamanha magnitude. Até o último momento, continuou tentando despertar nas forças hostis um senso de civilidade, fazer reviver sua capacidade de pensar, levá-las de volta à razão e permitir que se corrigissem na terceira vez, se não na primeira ou na segunda. Mas aqueles que haviam sido conduzidos por caminhos tortuosos, com poucas exceções, não abriram os olhos até caírem no abismo do fracasso.
Apresentarei aqui alguns exemplos notáveis de traição destrutiva, pelos quais se poderá compreender quão difícil e espinhoso é o caminho que devem percorrer aqueles que estabelecem os preceitos da verdade e da justiça.
É bem conhecido que os servos crentes e sinceros que, na reunião do segundo juramento de Al-‘Aqabah, deram sua palavra ao Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, fazendo um pacto com ele, o fizeram plenamente conscientes de que a ida do Mensageiro de Allah a Medina e o estabelecimento ali do centro do movimento islâmico significavam nada menos que guerra. Esse acontecimento se tornaria, por várias razões, um enorme desafio para os coraixitas, que, descontrolados pela intensa emoção e agitação, pegariam em armas. Por isso, estava claro que a vida do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, a existência do grupo que ele fundara e a proteção dos demais centros do movimento islâmico dependiam inteiramente, sob o auxílio de Allah, da cooperação dos habitantes de Medina. Foi com esse objetivo que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, obteve o compromisso dos representantes e dos jovens ativos dos Ansar; e foi também com esse objetivo que, já no primeiro ano da Hégira, celebrou tratados com todas as tribos judaicas. Os Ansar, em sua totalidade, mantiveram seu compromisso até o último momento de suas vidas. Porém, os guardiões da confiança do Livro de Allah, os herdeiros dos profetas e seus seguidores violaram repetidamente os tratados que eles próprios haviam firmado.
O primeiro e mais notável caso de traição foi o seguinte: os coraixitas de Meca, considerando o hipócrita Abdullah ibn Ubayy a pessoa mais indicada, enviaram-lhe uma carta secreta. Por meio dessa carta, enviaram uma mensagem abrangente com o objetivo de colocar sob sua influência todas as pessoas de Medina inclinadas à maldade, à desordem e de fé fraca. Na carta, escreveram:
“Vocês deram abrigo ao nosso homem (isto é, Muhammad, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Juramos por Allah que ou vocês o matarão, ou o expulsarão de Medina. Caso contrário, todos nós os atacaremos, mataremos vocês e transformaremos suas esposas em companheiras de prazer. (Sunan Abu Dawud)”
Se Abdullah ibn Ubay fosse um homem honesto e temente a Allah, esta carta teria chegado imediatamente ao Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), e ele teria desejado sinceramente que o senso de honra de todos os habitantes de Medina fosse mobilizado para enfrentar a ameaça dos coraixitas. Mas a traição estava entranhada nele. Decidiu cumprir os desejos dos coraixitas para se vingar de ter perdido o poder. Ele sabia que havia entre os habitantes de Medina um grande número de malfeitores contra o movimento islâmico. Contudo, o segredo desta carta logo foi descoberto, e o próprio Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) tomou conhecimento do assunto. Ele foi pessoalmente até Abdullah ibn Ubay e lhe explicou: os vossos próprios filhos, sobrinhos e sobrinhos por parte de irmã estão carregando a bandeira do Islã com toda a força da juventude. Se surgir alguma situação indesejável, vereis que os vossos próprios filhos se colocarão contra vós. Tereis de lutar contra os vossos próprios filhos. Abdullah ibn Ubay compreendeu o que ele disse e abandonou seu plano. É importante mencionar que, após a Batalha de Badr, os coraixitas enviaram novamente uma carta desse tipo a Abdullah ibn Ubay.
Em um momento extremamente delicado, esse líder conspirador cometeu um ato de traição gravíssima. Quando, devido às repetidas quebras de promessas e atividades subversivas da tribo judaica Banu Nadir, foi emitido um ultimato para que deixassem Medina no prazo de dez dias, e enquanto os Banu Nadir começavam a se preparar para isso, Abdullah ibn Ubay enviou-lhes uma mensagem: “Atenção! Não obedeçais a esta ordem nem abandoneis vossas casas.”
“Eu vos ajudarei com dois mil homens. De um lado, a tribo judaica Banu Qurayza vos ajudará; de outro, a tribo árabe politeísta Ghatafan já é vossa aliada.” O resultado dessa garantia foi que os Banu Nadir informaram ao Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz): “Não podemos partir daqui. Faça o que quiser.” Por fim, o governo islâmico foi obrigado a adotar medidas militares para fazer cumprir sua ordem.
Depois disso, esse homem cometeu uma traição aberta no momento extremamente delicado e decisivo da Batalha de Uhud. Assim que o exército muçulmano saiu de Medina e chegou a um lugar chamado Shuta, ele retornou a Medina acompanhado de trezentos hipócritas. Esse ato equivalia a apunhalar o exército muçulmano pelas costas. Ele disse: “Por que haveríamos de dar nossas vidas inutilmente quando as decisões não são tomadas de acordo com a nossa opinião e o poder está concentrado nas mãos de outros?” Abdullah ibn Ubay era favorável a lutar dentro de Medina, permanecendo na cidade, em vez de sair dela. (Asahhus-Siyar, de Abdur Rauf Danpuri)
O segundo indivíduo envolvido em conspirações traiçoeiras era Abu Amir. Já o apresentei anteriormente no contexto da Mesquita de Dirar. Enfurecido ao saber da vitória do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) na Batalha de Badr, esse conspirador foi a Meca, encontrou-se com Abu Sufyan e incitou-o a buscar vingança. Assim, também contribuiu para acender o fogo da Batalha de Uhud. Ele próprio entrou na guerra para apoiar o exército coraixita. Imaginava que, por influência de suas palavras, a tribo de Aws abandonaria o apoio ao Islã e se colocaria ao lado dos coraixitas. Chamou os awssitas no campo de batalha. Mas a resposta que recebeu dissipou seu engano. Sem falar dos demais, seu próprio filho, o honorável Hanzala, estava pronto para sacrificar a vida com extrema dedicação, obedecendo às ordens do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). Depois de Uhud, foi até o imperador romano Heráclio para instigá-lo a atacar Medina. Enquanto isso, também deu secretamente aos hipócritas a seguinte garantia: “Ficai preparados; estou indo com uma força de apoio.” Esse homem mandou cavar fossos nas proximidades de Hunayn para causar sofrimento ao Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) caiu em um dos fossos e sofreu bastante. (Asahhus-Siyar e Sira do Profeta, de Shibli)
O terceiro indivíduo traidor era Ka’b ibn Ashraf. Ele também já foi mencionado anteriormente. Por um lado, esse homem criou em Medina uma força de agentes pagos, remunerando-os; por outro, incitava os habitantes de Meca a atacar Medina. Para esse fim, utilizava amplamente sua influência, prestígio, riqueza e talento poético. Instigados por ele, Abu Sufyan e outros agarraram-se ao tecido que cobria a Caaba e juraram vingança.
Nesse ambiente conspiratório, os muçulmanos foram obrigados a adotar medidas especiais de defesa. O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) também permanecia acordado à noite e ordenava aos seus Companheiros que montassem guarda em turnos durante a noite. Um episódio desse período foi o seguinte: certa vez, ele disse em uma reunião: “Hoje, que um homem capaz monte guarda.” Ao ouvir isso, o honorável Sa’d ibn Abi Waqqas, armado, montou guarda durante toda a noite. Naquele período, os Companheiros dormiam com as armas ao lado, do entardecer até a manhã. Foi provavelmente nessa época que ele disse:
“Montar guarda durante um dia no caminho de Allah é melhor do que o mundo inteiro e todos os recursos nele contidos.” (Mishkat)
Ele também disse: “Guardar a fronteira por um dia e uma noite no caminho de Allah é melhor do que jejuar durante um mês e passar um mês inteiro em oração durante a noite.” (idem)
Sobre esse trabalho de guardar a fronteira, ele também disse que sua recompensa continua aumentando até o Dia da Ressurreição e que ele também livra do castigo da sepultura. (Riyad as-Salihin)
Esses membros da quinta coluna, dissimulados em Medina, tinham durante o jihad a melhor oportunidade para apunhalar pelas costas o movimento islâmico. Dos dez anos que o Mensageiro (s.a.) passou em Medina, passou a maior parte em guerras e conflitos. Porém, sempre que o confronto entre a verdade e a falsidade assumia plenamente a forma de uma guerra — o que aconteceu repetidas vezes, com breves intervalos — os judeus e os hipócritas começavam a conspirar. Além da crise econômica, essas guerras e conflitos, somados às atividades nefastas dos traidores internos, criavam uma difícil prova de fogo para os guardiões do Estado islâmico.
Já mencionamos, pouco antes, o episódio de Uhud: quando o exército islâmico se dirigia ao campo de batalha, o líder da conspiração, Abdullah ibn Ubay, voltou para Medina no caminho com trezentos guerreiros. Se qualquer outra força materialista, em vez dos nobres Companheiros, tivesse sido submetida a uma situação semelhante àquela do Mensageiro (s.a.), teria perdido a coragem e imediatamente abandonado a batalha. Pois, enquanto o exército inimigo contava com três mil homens, o exército muçulmano que avançava para enfrentá-lo tinha ao todo apenas mil. Desses, outros trezentos retornaram. Entre os setecentos restantes também havia hipócritas dissimulados. Nessa situação, os mujahidin de Banu Salama e Banu Haritha começaram a pensar em voltar. Mas, aconselhados pelos Companheiros, recuperaram a coragem e permaneceram no campo de batalha. A fé em Allah, a convicção da superioridade do Islã, a certeza do êxito da força moral e a confiança no auxílio do invisível: tudo isso constituía o verdadeiro capital do exército islâmico. Assim, nenhuma fraqueza permaneceu em seus corações. Com plena determinação, partiram em direção ao campo de Uhud. Depois, quando uma situação terrível se instalou no campo de Uhud e se espalhou o rumor do martírio do Mensageiro (s.a.), os hipócritas propuseram que Abdullah ibn Ubay fosse trazido de volta, implorando-lhe de mãos e pés atados, e que se pedisse a Abu Sufyan que lhes concedesse segurança. Para corrigir alguns erros dos muçulmanos nesse campo, Allah lhes impôs uma espécie de derrota; a respeito disso, os hipócritas começaram a dizer: “Se ele fosse um profeta, não teria sido derrotado.” A situação teria se tornado como a dos demais reis e soberanos do mundo: ora vitória, ora derrota. Como resultado dessa propaganda maliciosa, algumas dúvidas e suspeitas também surgiram entre certos muçulmanos. Alguns começaram a pensar: como é possível que, mesmo indo lutar no caminho de Allah sob a liderança do Profeta de Allah, tenhamos de sofrer uma derrota? Em resposta, o Alcorão disse: “Esta calamidade foi causada por vós mesmos.” Isto é, foi resultado dos vossos próprios erros.
Depois disso, no início, no meio ou no fim de cada batalha, os inimigos ocultos continuaram a cometer traições. Onde não era possível fazer algo na prática, tentava-se enfraquecer o movimento islâmico por meio de propaganda maliciosa.
A quinta coluna mostrou suas artimanhas sobretudo durante a batalha da Trincheira. Na batalha de Badr, o poder dos coraixitas havia sido gravemente debilitado. Para se vingarem, fizeram grandes preparativos, lançaram um ataque e ocorreu a batalha de Uhud. Mas foram obrigados a retornar sem completar sua vitória. No quinto ano da Hégira, cercaram Medina com um enorme exército formado por suas próprias forças, pelos conspiradores de Medina e por homens instigados em várias tribos. Essa foi a batalha decisiva. Depois dela, o poder dos coraixitas e dos demais inimigos ficou completamente destruído. Em seguida, os muçulmanos abandonaram a política de autodefesa e adotaram uma política ofensiva para neutralizar os inimigos do Islã. Na realidade, o caminho para a conquista de Meca já havia sido aberto no próprio dia do fim da batalha da Trincheira.
Entre os grupos conspiradores que mais contribuíram para provocar essa batalha decisiva estavam os judeus de Banu Nadir. Aqueles que haviam se estabelecido em Khaybar observavam a situação e permaneciam à espreita, esperando uma oportunidade. Quando souberam que os muçulmanos haviam enfrentado uma terrível calamidade na batalha de Uhud e que os coraixitas, embora não tivessem obtido uma vitória completa, haviam demonstrado grande força, decidiram agir e acelerar o curso da história. Os conhecidos chefes de Banu Nadir — Salam ibn Abi al-Huqayq, Salam ibn Mishkam, Huyayy ibn Akhtab, Kinana ibn al-Rabi e outros — partiram e levaram consigo Hawdha ibn Qays, Abu Imara e outros membros de Banu Wa’il. Foram a Meca, estimularam os coraixitas a atacar Medina e prometeram apoio total. Depois foram até Banu Ghatafan e também os estimularam. Em seguida, percorreram as demais tribos. Os coraixitas organizaram as outras tribos. Assim, dez mil soldados sitiaram Medina. (Asahhus Siyar, Sira de Ibn Hisham)
Antes do início da batalha, Huyayy ibn Akhtab, conspirando com Ka’b ibn Asad, fez Banu Qurayza romper o tratado firmado com o Mensageiro (s.a.). (Sira de Ibn Hisham) Ao ouvirem essa notícia, os muçulmanos ficaram extremamente preocupados. Começaram a temer um ataque de Banu Qurayza a qualquer momento. Para proteger as crianças e as mulheres, o Mensageiro (s.a.) designou trezentos soldados. Enquanto isso, os hipócritas espalhavam rumores que criavam incerteza e medo, e muitos deles começaram a fugir da base sob o pretexto de proteger suas famílias. Iniciaram então uma propaganda maliciosa, dizendo: “Por um lado, Muhammad (s.a.) nos faz sonhar com a conquista dos impérios de Roma e da Pérsia; por outro, nossa situação é tal que nem sequer podemos nos afastar em segurança para satisfazer nossas necessidades naturais.” (Sira de Ibn Hisham)
Certa vez aconteceu que, durante uma batalha, quando não havia sido providenciada uma proteção satisfatória para o local onde as mulheres estavam alojadas, um judeu foi visto perambulando suspeitosamente pelas proximidades. Hazrate Safiyya bint Abd al-Muttalib pegou um pedaço de madeira, foi até ele e o matou. (Sira de Ibn Hisham)
Essa era a situação mais preocupante para os soldados do movimento islâmico. Mas eles receberam a ajuda especial de Allah. Primeiro, a nova estratégia defensiva da trincheira; segundo, a extraordinária habilidade de Nu’aym ibn Mas’ud para romper a aliança entre os coraixitas e os Banu Qurayza; terceiro, a vigorosa atuação, semelhante à dos mujahidin, do Mensageiro, de seus líderes bem treinados e de toda a comunidade muçulmana; e, quarto, o súbito ciclone enviado por Allah — tudo isso expulsou o exército inimigo do campo de batalha.
Outro acontecimento desse tipo foi a expedição de Tabuk. Naquela ocasião, a quinta coluna subversiva de Medina demonstrou alguns exemplos ainda mais sofisticados de suas hábeis artimanhas. O imperador romano Heráclio estava furioso desde que recebera, da parte do Mensageiro (S.A.W.), uma carta contendo o convite ao Islã. Enquanto isso, os líderes da conspiração também chegaram à corte do imperador e tentaram instigá-lo. De repente, chegou a notícia de que esse Heráclio havia enviado um enorme exército de quarenta mil soldados para atacar Medina.
Naquele momento, reinava em Medina uma situação anormal. Era um período de fome. Ainda assim, as árvores estavam carregadas de frutos maduros. O clima estava extremamente quente. Um grande número de soldados teria de ser enviado para muito longe. Entretanto, a situação financeira do governo era fraca. Havia uma carência terrível de equipamentos necessários, camelos, cavalos e provisões. Por isso, o exército expedicionário de Tabuk foi chamado de “Jaish al-Usrah”, o “Exército da Adversidade”. Ao verem essa situação e calcularem que eram reduzidas as possibilidades de obterem ghanima (espólios de guerra), os hipócritas adotaram uma política de não cooperação. Apresentando toda espécie de falsas desculpas, permaneceram em suas casas. Por outro lado, essa expedição também é conhecida como “Ghazwa-e Fadheha”, isto é, a “expedição que desmascarou os hipócritas”. Um exemplo impressionante dos tipos de desculpas ridículas e objeções apresentados pelos hipócritas é o de Jadd ibn Qays. Ele foi até o Mensageiro (S.A.W.) e disse: “As pessoas sabem que sou um pouco suscetível às mulheres. Temo ser tentado ao ver as belas mulheres romanas. Portanto, permita-me ficar em casa.” Esses hipócritas não apenas deixavam de partir para o jihad, mas também diziam aos outros: “Ora, fiquem em casa pronunciando o nome de Allah. Ficaram loucos para querer ir combater num calor tão abrasador?” Na casa de um judeu chamado Suwaylim, eles realizavam suas reuniões de consulta. Aqueles que compareciam eram impedidos de partir para o jihad. Por fim, esse local de reuniões foi completamente extinto.
Enquanto isso, o sempre ativo Abdullah ibn Ubayy formou, num lugar chamado Saniyat al-Wada, um exército separado, composto de judeus e hipócritas, com o objetivo de realizar propósitos malignos. Esse exército também era numeroso. Contudo, não conseguiu partir junto com o Mensageiro (S.A.W.).
Depois que o exército iniciou a marcha, eles provocaram ainda outra perturbação. O Mensageiro (S.A.W.) havia deixado Hazrate Ali em Medina como seu representante pessoal, para cuidar de sua família. Ao verem isso, os hipócritas começaram a espalhar uma calúnia: “Atualmente, Muhammad (S.A.W.) não está satisfeito com Ali. Foi por isso que não o levou consigo.” A dignidade de Hazrate Ali sofreu um forte golpe com isso. Ele imediatamente se armou, encontrou-se com o Mensageiro (S.A.W.) e informou-o sobre as atividades provocadoras dos hipócritas. O Mensageiro explicou-lhe a situação, convenceu-o e mandou-o de volta a Medina, dizendo: “Há o risco de que essas pessoas provoquem algum incidente em Medina.”
Depois que chegaram a Tabuk, os hipócritas que os acompanhavam — alguns hipócritas sempre participavam das expedições militares para provocar algum incidente — começaram a intimidar os mujahidin muçulmanos, dizendo: “Vocês imaginaram que os ferozes guerreiros do exército romano fossem como os árabes? Amanhã, quando todos vocês forem capturados como escravos, compreenderão como essa ideia estava errada.” Quando foram chamados a prestar contas por essa propaganda enganosa, disseram: “Nós estávamos apenas brincando; isso não era nada importante.” (Ver Asahhus-Siyar, pp. 361–385.)
O exército romano, porém, nem sequer chegou ao campo de batalha. Entretanto, por meio dessa expedição, por um lado, os romanos compreenderam que Medina estava plenamente alerta e era capaz de enfrentá-los; por outro, como resultado dela, as regiões chamadas Ayla, Jabria e Dumat al-Jandal ficaram sob a influência do poder muçulmano, reduzindo-se assim o risco de uma invasão externa.
Durante essa expedição, em dois lugares, o Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) proibiu o exército muçulmano de beber água dos reservatórios situados à beira do caminho. Porém, alguns hipócritas violaram a proibição e revelaram a doença que havia em seus corações.
Durante essa mesma expedição, foi tramada uma conspiração malsucedida para assassinar o Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) no desfiladeiro. Já apresentei anteriormente os detalhes desse acontecimento.
Apesar de toda a traição e das conspirações dos hipócritas, o Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) retornou vitorioso dessa expedição e continuou perdoando os hipócritas sem hesitação. Três Companheiros devotados do Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) — Ka‘b ibn Malik, Hilal ibn Umayya e Murara ibn Rabi‘ — permaneceram em Medina por negligência. Eles confessaram sua culpa. Ainda assim, tiveram de permanecer afastados da sociedade durante cinquenta dias, aguardando a ordem de Allah. Foram plenamente bem-sucedidos nessa provação, e seu arrependimento foi aceito. Mas os hipócritas diziam: “Que tolos! Bastaria apresentar qualquer desculpa, como nós fizemos, e tudo estaria resolvido. Colocaram-se em perigo à toa. Agora que aproveitem as consequências.”
Isso mostra as situações extremamente difíceis que o Estado Islâmico e o movimento islâmico tiveram de enfrentar. Aquele que havia mostrado à humanidade o caminho do bem teve de suportar toda espécie de traições e conspirações por parte dos seguidores hipócritas de Moisés e dos hipócritas que eles haviam criado.
Mas a expansão do Estado Islâmico não parou por causa disso; pelo contrário, continuou crescendo. A fé sincera floresceu em toda a sua beleza, enquanto a traição e a hipocrisia foram extirpadas pela raiz.
As abomináveis atividades vingativas dos coraixitas
Nos primeiros tempos em Medina, antes do início das guerras, Sa‘d ibn Mu‘adh, um líder proeminente da tribo de Aws, foi a Meca para realizar a umra. Como Sa‘d mantinha uma antiga relação de amizade com Umayya ibn Khalaf, hospedou-se na casa dele. Juntamente com Umayya, começou a circundar a Caaba em tawaf. Por acaso, Abu Jahl estava presente. Ele chamou Umayya e perguntou: “Quem é esse homem que está com você?” Umayya respondeu: “Sa‘d”. Abu Jahl disse a Hazrat Sa‘d, em tom irado: “Vocês deram abrigo àqueles que abandonaram a religião, não foi? É insuportável para mim que pessoas como você ponham os pés no recinto da Caaba. Se você não estivesse sob a proteção de Umayya, não teria saído vivo daqui hoje.” (Sirat un-Nabi; Shibli Nu‘mani, volume I, com referências a Sahih Muslim e Bukhari)
Observe que a vingança política havia levado a arrogância do líder coraixita a tal extremo que ele estava prestes a proibir os servos de Allah de entrarem em Sua Casa. Queria privá-los de uma adoração como o hajj! Como se a Caaba também fosse propriedade deles. Na realidade, haviam transformado a administração da Mesquita Sagrada em um instrumento de seu poder político. Para o Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) e para todos os seus companheiros que haviam sido obrigados a emigrar, as portas do Recinto Sagrado já estavam fechadas. Mas, ao declarar tão abertamente Sa‘d ibn Mu‘adh incapaz de entrar no Recinto Sagrado, Abu Jahl expôs de maneira extremamente vil a injustiça de sua posição. Por outro lado, Sa‘d ibn Mu‘adh não era um dervixe desprovido de dignidade. Seu senso islâmico de honra estava plenamente ativo, e ele compreendia o significado da soberania política de Medina. Deu uma resposta breve que fez surgir diante dos olhos de Abu Jahl e da comunidade coraixita a imagem de um perigo terrível. Sa‘d disse: “Se vocês impedirem nosso hajj, nós bloquearemos a rota de vocês para Medina (a rota comercial).” Em outras palavras, era uma ameaça de bloqueio econômico contra os coraixitas. Essa ameaça deixou todos os habitantes de Meca em alerta. Mais tarde, a política de Medina foi estabelecida de acordo com essa declaração de Hazrat Sa‘d. Assim, completamente sem alternativa, os coraixitas prepararam-se para entrar na prova decisiva de forças.
Abu Jahl havia proferido tais palavras sob o impulso da exaltação; contudo, essa ameaça indesejada desferiu um golpe terrível contra a influência e o prestígio deles. O Sagrado Alcorão criticou severamente o monopólio que mantinham sobre o Haram Sharif, pois era com base nisso que proibiam os servos de Allah de entrar na Casa de Allah. Allah diz:
“E quem é mais injusto do que aquele que impede que o nome de Allah seja mencionado nas mesquitas de Allah e se esforça para destruí-las?” (Al-Baqara, 114)
“Perguntam-te sobre o combate no mês sagrado. Dize: combater nele é um grande pecado. Porém, impedir as pessoas de seguir o caminho de Allah, negar-Lhe a fé, impedir os servos de Allah de chegar à Mesquita Sagrada e expulsar dela os seus habitantes é um pecado ainda maior.” (Al-Baqara, 217)
“Por que Allah não os castigaria, quando impedem o acesso à Mesquita Sagrada, embora não sejam os seus legítimos administradores?”
Essas declarações do Alcorão foram-se espalhando gradualmente por toda a Arábia, e a imagem religiosa dos coraixitas foi-se debilitando cada vez mais.
Na época do tratado de Hudaybiyyah (no mês de Dhu al-Qi’dah do sexto ano da Hégira), os coraixitas ampliaram ainda mais a prática de impedir as pessoas de chegar à Mesquita Sagrada. Após receber uma indicação da parte de Allah, o Mensageiro (S.A.W.) partiu em direção a Meca com o único objetivo de realizar a Umrah. Nenhuma declaração de guerra havia sido feita. Os Companheiros partiram espontaneamente para realizar a Umrah. Também levaram consigo os animais destinados ao sacrifício. Sem se armarem para fins militares, a caravana partiu levando apenas armas comuns, destinadas à mera autodefesa. No local chamado Dhul-Hulayfah, conforme o conhecido ritual, os camelos destinados ao sacrifício foram marcados e adornados com guirlandas no pescoço. Ao ver isso, qualquer pessoa poderia concluir imediatamente que esses camelos estavam sendo levados para serem sacrificados no Haram Sharif e que não eram transportes militares. Ainda durante o caminho, soube-se, por meio do mensageiro Bishr ibn Sufyan al-Ka’bi, que os coraixitas estavam se preparando para uma guerra total e que, de modo algum, permitiriam o acesso ao Haram Sharif. Ao chegar a Hudaybiyyah, o Mensageiro (S.A.W.) enviou uma mensagem dizendo: “Não viemos para lutar, mas para realizar a Umrah.” Budayl ibn Warqa, da tribo de Banu Khuza’ah, tentou mediar. Depois, Urwah ibn Mas’ud fez algum progresso nas negociações. Em seguida, um homem de Banu Kinanah, chamado Hulays, veio apressadamente para mediar. Quando viu com os próprios olhos uma enorme caravana de camelos adornados com guirlandas pastando no campo, ficou profundamente impressionado. Ao ir contar aos coraixitas a sua reação, eles o desanimaram cruelmente, dizendo: “Ora, homem do campo, o que você entende dessas coisas?” Hulays ficou profundamente magoado. Então disse:
“Ó coraixitas, isto não é o nosso pacto convosco. Tampouco estabelecemos relações de amizade com base nele. Com que justificativa se impediria a entrada na Casa de Allah de pessoas que vieram engrandecer a dignidade da Casa de Allah? Por Allah, permitam que Muhammad (S.A.W.) faça o que pretende fazer. Caso contrário, levaremos de volta todo o nosso povo.”
A política simples e transparente do Mensageiro (S.A.W.) agradara àquele homem. Sua capacidade de discernir o bem do mal começara a funcionar, e sua consciência despertara contra as injustiças praticadas pelos coraixitas. Finalmente, para preservar os seus sentimentos, acalmaram-no dizendo: “Nossa intenção é apenas fazer com que sejam aceitas algumas condições razoáveis. Fique um pouco calado.” Depois, foram impostas condições tais que, no mínimo, a Umrah do sexto ano da Hégira, realizada pelo Mensageiro (S.A.W.) e seus Companheiros, acabou sendo adiada por um ano. (Tafsir de Ibn Kathir, volume 4; Sira de Ibn Hisham, volume 3; Asahhus-Siyar)
Nesta etapa, vejam como o Alcorão desmascarou a mentalidade vil dos guardiões da Caaba:
“Eles são aqueles que adotaram a política de negar a verdadeira religião, impediram-vos de ir à Mesquita Sagrada e não permitiram que os animais destinados ao sacrifício chegassem ao local de abate.” (Al-Fath, 25)
A intervenção e as alterações dos coraixitas nos ritos e costumes religiosos que vinham sendo observados por consenso desde a época de Abraão, que a paz esteja sobre ele, prejudicaram gravemente a sua imagem. Por pura tolice e obstinação, eles formaram em toda a Arábia uma opinião pública desfavorável a seu respeito. O povo compreendeu que entre os coraixitas não havia sequer vestígio de honestidade, devoção religiosa ou cortesia, e que tudo o que faziam era simplesmente por teimosia.
A maior prova de que o desejo de vingança dos coraixitas havia descido ao nível mais baixo da selvageria foi o fato de terem feito com que as duas filhas do Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, se divorciassem de seus maridos, apenas para satisfazer o rancor que traziam no coração. Isso foi um golpe terrivelmente venenoso desferido diretamente no coração do libertador da humanidade.
Hazrat Ruqayya e Umm Kulthum eram casadas com Utbah e Utaybah, os dois filhos de Abu Lahab. Segundo o costume vigente, essa relação com a família dos parentes mais próximos existia desde antes da profecia. O extremamente irascível Abu Lahab não possuía sequer o mínimo de cortesia para colocar a divergência ideológica acima das relações pessoais e não misturar os direitos de parentesco com o conflito. Seu ódio e sua inveja eram sempre excessivamente intensos, e seus atos eram extremamente vis e indignos. Quando, por causa de suas ações abomináveis, foi revelada a Surata Al-Lahab, na qual ele foi amaldiçoado com as palavras “Que pereçam as duas mãos de Abu Lahab”, ele enfureceu-se. O significado da destruição das duas mãos era que, embora realizasse todo tipo de atos hostis e prejudiciais, não conseguiria causar o menor dano ao movimento islâmico, e que a força da honestidade destruiria completamente suas duas mãos. O significado da destruição das duas mãos era que, embora realizasse todo tipo de atos hostis e prejudiciais, não conseguiria causar o menor dano ao movimento islâmico, e que a força da honestidade quebraria e reduziria suas duas mãos a pedaços. Foi ao compreender esse significado que ele ficou inflamado de ira. Começou a pressionar os dois filhos, dizendo que já não podia ser de modo algum lícito para eles manterem em casa as filhas de Muhammad, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Teriam de divorciar-se delas. Hazrat Ruqayya passava o tempo em extrema agitação dentro de sua própria casa. Utbah divorciou-se dela por ordem do pai. Mais tarde, ela se casou com Hazrat Uthman. Os demais chefes dos coraixitas também se esforçaram bastante para provocar Abu Lahab e fazê-lo obrigar seus dois filhos a cometer esse ato abominável. Eles conversavam entre si, dizendo que ultimamente a atividade de atormentar Muhammad, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, havia diminuído bastante. Portanto, era preciso inventar algo novo. Decidiram fazer com que suas filhas se divorciassem dos maridos. Assim, pelo menos, poderiam criar algum problema para Muhammad, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Disseram a Utbah, filho de Abu Lahab, que lhe conseguiriam qualquer moça dos coraixitas que ele quisesse, com a única condição de que repudiasse a filha de Muhammad, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Utbah divorciou-se sem demora. Utaybah mostrou ainda mais arrogância. Depois de divorciar-se de Hazrat Umm Kulthum, apresentou-se diante do Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, como um bandido insolente. Então disse, com extrema insolência: “Eu reneguei a tua religião, divorciei-me da tua filha; tu também não me amas, e eu também não gosto de ti.” Em seguida, com extrema falta de respeito, estendeu a mão, puxou uma parte da túnica do Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, e rasgou-a. O jovem genro não apenas divorciou-se da moça inocente e educada conforme as ordens do pai invejoso, como também se comportou como um bandido, de tal modo que, tomado pela tristeza, uma maldição saiu espontaneamente da boca do Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele: “Ó Allah, lança sobre ele uma de Tuas feras.” Quando Abu Talib soube do ocorrido, disse: “Agora ninguém poderá salvar-te da maldição de meu sobrinho.” Depois, quando Utaybah passava a noite na Síria com uma caravana comercial, um tigre surgiu de algum lugar na escuridão da noite e, escolhendo-o entre todos os integrantes da caravana, mastigou-lhe a cabeça até devorá-la. (Al-Mawahib al-Ladunniyya, vol. 1, p. 197)
Após a morte de Hazrat Ruqayya, o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, também casou esta sua segunda filha, Umm Kulthum, com Hazrat Uthman. Por isso, ele foi chamado de “Dhun-Nurayn”.
Assim como os conspiradores coraixitas pressionaram Utbah, filho de Abu Lahab, também pressionaram Abu al-As, marido de Zaynab, a terceira filha do Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, e tentaram seduzi-lo, dizendo que, se ele se divorciasse da filha de Muhammad, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, lhe dariam qualquer moça bonita que desejasse. Abu al-As possuía brilhantes sinais de nobreza. Ele disse: “Que vergonha! É impossível que eu abandone minha esposa. Não quero que outra mulher entre em minha casa em lugar de Zaynab.” Mais tarde, o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, elogiava essa firmeza de caráter de Abu al-As. Como retribuição por sua atitude nobre, concedeu-lhe grande favor em dois episódios. Primeiro, quando Abu al-As veio entre os prisioneiros de guerra de Badr, o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, devolveu o colar enviado por Hazrat Zaynab como resgate e libertou-o sem exigir resgate. Na segunda ocasião, quando suas mercadorias comerciais haviam sido distribuídas entre os muçulmanos como espólio de guerra, por indicação do Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, todos os bens lhe foram devolvidos intactos. (Sira de Ibn Hisham, vol. 2, p. 296)
Após a batalha de Badr, quando o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, libertou Abu al-As sem exigir resgate, como um favor especial, obteve dele, durante a conversa, a promessa de que permitiria a Hazrat Zaynab partir para Medina. Essa promessa foi mantida em segredo do público. Quando chegou o momento determinado para Hazrat Zaynab partir para Medina, foram enviados dois Companheiros: Hazrat Zayd ibn Haritha e outro homem dos Ansar. O Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, instruiu-os: “Ficareis no local chamado Yajij, que fica a oito milhas de Meca. Quando Zaynab chegar ali, levá-la-eis convosco.” Enquanto isso, Abu al-As preparou Zaynab e arrumou seus pertences. Quando seu cunhado, Kinana ibn al-Rabi, a colocou sobre um camelo ao amanhecer e partiu, os coraixitas descobriram o que estava acontecendo. Aqueles animais pensaram: “Seria uma vergonha que a filha de Muhammad, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, saísse assim em segurança do nosso meio.” Alguns homens foram atrás deles e os alcançaram em Dhu Tuwa. Um certo Habbār ibn al-Aswad lançou uma flecha contra a liteira de Zaynab. Hazrat Zaynab estava grávida. Atingida pela flecha, ficou gravemente ferida e sofreu um aborto. No instante seguinte, quando seu cunhado avançou brandindo o arco e as flechas, aquele covarde bandido de Meca fugiu rapidamente.
Pouco depois, Abu Sufyan também chegou. De longe, chamou os atacantes e disse: “Escutem-me.” Disse a Kinana bin Rabi: “Por que você foi fazer algo assim, saindo publicamente em viagem com esta mulher? Você sabe muito bem que ambiente de hostilidade prevalece. Por causa de Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), esse ambiente indesejável paira sobre nossas cabeças. Com uma atitude dessas, em plena tarde, o povo de Meca se sente humilhado. Juro pela minha vida: não temos intenção alguma de impedir a viagem da filha de Muhammad. Agora, leve-a de volta. Em alguma outra ocasião, leve-a secretamente.”
Isso mostra a que nível deplorável de vileza os habitantes de Meca recorriam para causar sofrimento e importunar o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Em seus corações, os laços de parentesco não tinham importância alguma. Eles não sentiam a menor vergonha de oprimir uma mulher. Não possuíam sequer o discernimento necessário para reconhecer a opressão como opressão. Aos seus olhos, não restava qualquer valor ou direito à humanidade. (Sira de Ibn Hisham, volume 2, Asahhus-Siyar)
Agora, ouçam outro acontecimento. Este acontecimento revela a mentalidade extremamente sedenta de sangue dos inimigos do Islã. Como parte do processo que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) havia iniciado de enviar grupos de professores para difundir o ensino do Islã nas regiões próximas a Medina, logo após a Batalha de Uhud (no mês de Safar), ele enviou um grupo de seis homens a pedido das tribos de Adal e Qarah (Banu Hudhayl). Por trás desse pedido havia uma terrível conspiração. Dos seis homens enviados pelo Mensageiro, quatro foram martirizados ao chegarem a um lugar chamado Raji. Os outros dois, Hazrat Khubaib e Zayd bin Dathina, foram capturados e enviados a Meca. (Os demais detalhes do incidente de Raji e os relatos de outros grupos de professores serão apresentados mais adiante.) Os coraixitas tinham dois prisioneiros de Banu Hudhayl. Esses dois foram trocados para libertar os outros dois. Huzair bin Ihab Tamimi levou Hazrat Khubaib para Utba bin Harith bin Amir, para que este pudesse vingar Harith. Hazrat Khubaib havia matado esse Harith na Batalha de Badr. Já Zayd bin Dathina foi comprado por Safwan bin Umayya para que ele pudesse vingar seu pai, Umayya bin Khalaf.
Depois de sofrerem uma derrota vergonhosa no campo de batalha pelas mãos de um pequeno número de muçulmanos sem apoio nem recursos, aqueles que ostentavam arrogantemente sua coragem e virilidade agora queriam matar esses dois prisioneiros indefesos para satisfazer seu desejo de vingança. Embora essas duas figuras valiosas da sociedade islâmica tenham sido martirizadas, a comparação entre o caráter dos dois lados que assim se completou espalhou seu impacto por todas as veias da história.
Safwan entregou Zayd bin Dathina ao seu escravo Fustas e ordenou que o levasse para Tan’im, fora do Haram Sagrado, e o matasse. Para desfrutar do prazer de assistir a esse espetáculo divertido, foi reunida no local uma multidão de coraixitas. O próprio Abu Sufyan estava entre eles. Abu Sufyan aproximou-se e perguntou a Zayd: “Se você fosse libertado agora e pudesse voltar para viver alegremente com seus filhos, e se, em seu lugar, matássemos Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), como você se sentiria?” Naquele momento, a morte sorria diante de Zayd; ainda assim, do nível incomparável de sua fé, ele respondeu:
“Por Allah, não gostaríamos nem um pouco que um espinho sequer ferisse Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) onde quer que ele esteja, em troca de sermos libertados e termos a oportunidade de voltar para viver junto de nossas famílias.”
Ao ouvir essa resposta, Abu Sufyan ficou estupefato. Ele disse: “Em nenhum outro lugar vi um amor como o amor que os companheiros de Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) têm por ele.” Em seguida, esse exemplo vivo de devoção e sinceridade foi entregue à espada. Embora Zayd tenha sido martirizado, quem pode saber em quantas memórias seu caráter permaneceu resplandecente e quantas consciências clamaram contra a opressão e a selvagem brutalidade dos coraixitas? (Sira de Ibn Hisham, Asahhus-Siyar)
Hazrat Khubaib permaneceu cativo ainda por alguns dias. O exemplo de fé e caráter que ele ofereceu durante o cativeiro teve, entre outros, o seguinte resultado: Mabiya, escrava de Huzair bin Ihab, mais tarde passou a fazer parte da sociedade islâmica. Foi por meio dela que se conheceu o relato do cativeiro de Khubaib. Mabiya contou que, quando se aproximou o momento da execução de Khubaib, certo dia ele pediu uma navalha para se barbear. A navalha foi-lhe entregue. Mas então, ao ver uma cena, senti como se o chão desaparecesse sob meus pés. Vi que Khubaib segurava a navalha, enquanto meu filho pequeno estava sentado em seu colo. Não é preciso explicar que perigo poderia surgir se uma criança do lado inimigo chegasse ao alcance de um prisioneiro que estava prestes a ser morto tão injustamente e que ainda tivesse nas mãos uma arma adequada. Percebendo minha apreensão, Khubaib assegurou-me: “Em circunstância alguma matarei esta criança inocente.” Depois, afastou a criança de seu colo. Não brilhou um caráter tão nobre como uma tocha no ambiente sombrio de Meca?
Em seguida, levaram-no para ser crucificado em Tan’im. Ao chegar lá, pediu permissão e realizou, com profunda concentração, a última oração voluntária de sua vida. Assim, estabeleceu um exemplo magnífico e glorioso para aqueles que se dirigem ao local do martírio, exemplo que continua sendo seguido até hoje.
Depois, terminou rapidamente a oração e disse: “Não pensem que estou prolongando a oração por medo da morte.” Em seguida, fez a seguinte súplica:
“Ó Allah! Transmitimos a mensagem do Teu Mensageiro. Informa também ao Teu Mensageiro que tipo de opressão está sendo cometida contra nós. Ó Allah! Reduz o número desses inimigos, destrói-os, lançando-os em conflitos e discórdias, e não deixes vivo nenhum desses animais selvagens e ferozes.”
Khubayb foi crucificado. Por fim, Abu Mughirah apagou a chama de sua vida, golpeando-o com uma lança. Pouco antes de morrer, alguns versos foram pronunciados por seus lábios. Entre eles, o mais famoso é este:
(Árabe********)
“Quando estou sendo morto por ser muçulmano, não me importa a dor que eu venha a sofrer no momento da morte.” (Sira de Ibn Hisham, volume 3)
Ao matar esses dois homens, os coraixitas talvez tenham pensado que haviam enfraquecido consideravelmente a força do Islã. Mas não podiam sequer imaginar o quanto cada gota do sangue derramado no martírio desses oprimidos faria crescer o fruto da fé. Além de todas essas ações repugnantes e vingativas, apresentamos também a traição política dos coraixitas, cometida quando romperam o Tratado de Hudaybiyyah. Nesse acordo histórico, havia sido estabelecido que qualquer tribo árabe que quisesse tornar-se aliada dos coraixitas poderia fazê-lo, e qualquer uma que quisesse tornar-se aliada dos muçulmanos também poderia fazê-lo. As tribos teriam plena liberdade nesse assunto. Ninguém poderia impor qualquer coisa a ninguém. De acordo com essa disposição, Banu Bakr imediatamente formou uma aliança com os coraixitas, e Banu Khuza’ah com os muçulmanos.
Desde a época pré-islâmica, havia entre essas duas tribos um ciclo funesto de vinganças sucessivas, desencadeado por um assassinato. Nesse meio-tempo, vários assassinatos haviam ocorrido entre as duas tribos. A vez mais recente de se vingar cabia a Banu Bakr, e eles estavam se preparando para isso. Nessa época, o movimento islâmico, ao provocar os mais intensos choques e reviravoltas da história, atraiu para si a atenção de todas as tribos. Como resultado, essas tribos suspenderam temporariamente seus conflitos internos e se uniram para resistir a esse novo chamado. A unidade aparente que a oposição e a hostilidade ao movimento islâmico haviam criado entre elas começou a perder força depois do Tratado de Hudaybiyyah. Elas começaram a se lembrar das antigas rivalidades. Banu Wa’il era um ramo de Banu Bakr. Vários filhos de Aswad bin Razan, um homem de Banu Wa’il, haviam sido mortos pela tribo de Banu Khuza’ah. Para vingar esses assassinatos, Nawfal bin Mu’awiyah, chefe de Banu Wa’il, reuniu toda a tribo. Aproveitando a trégua resultante do Tratado de Hudaybiyyah, eles atacaram Banu Khuza’ah. A primeira vítima desse ataque foi um inocente membro de Khuza’ah, que se encontrava perto de um reservatório de água chamado al-Watir. Os demais membros de Khuza’ah, aturdidos ao ver essa inesperada violação do tratado, começaram a fugir. Os atacantes perseguiram-nos e também os mataram.
Os coraixitas, ignorando completamente as obrigações do tratado de Hudaybiyyah, forneceram armas aos Banu Bakr e, além disso, começaram secretamente a negociar um acordo com os khuzaitas. Os Banu Khuza‘ah refugiaram-se no Haram Sagrado e, chamando o chefe dos Banu Bakr, disseram: “Ó Naufal! Vê, agora entramos no Haram Sagrado. Pelo amor de Deus, para o ataque.” Mas eles haviam ficado cegos pela embriaguez da vitória. Naufal disse: “Hoje não há Deus! Ó Banu Bakr, tomem plena vingança. Por respeito à honra do Haram Sagrado, acaso vocês se esquecerão de vingar a humilhação que sofreram?” Finalmente, os Banu Bakr derramaram sangue mesmo depois de entrarem no Haram Sagrado. Alguns khuzaitas, escapando com extrema dificuldade, foram esconder-se na casa de Budail bin Warqa e de seu escravo Rafi‘.
Os coraixitas haviam feito isso movidos pela intensa exaltação surgida da rivalidade tribal. Mas foi tamanha a insensatez deles que logo colheram as consequências nefastas de seu ato. Esse acontecimento ocasionou a conquista de Meca. Os coraixitas não refletiram de modo algum que, diante do poder crescente do movimento islâmico, sua própria força avançava para um declínio extremo, tanto moral quanto político. Por isso, deveriam ter avançado com extrema cautela. Por causa desse acontecimento, na sociedade tribal da Arábia, a violação das promessas pelos coraixitas não poderia deixar de ser amplamente condenada. Sua reputação foi gravemente prejudicada. Além disso, os atos de extrema opressão praticados pelos Banu Bakr, encorajados pelos coraixitas, e os horrores sofridos pelos Banu Khuza‘ah alertaram todas as tribos da Arábia de que a liderança coraixita era incapaz de garantir a paz e a justiça. Ademais, ao macular a face de séculos de tradição e pisotear de maneira tão vergonhosa a majestade do nome de Allah e a santidade do Haram Sagrado, esse acontecimento gerou grande inquietação e desconforto no coração do povo. Nessa desordem e nesses tumultos, os coraixitas, ao apoiarem o lado opressor, lançaram sua própria honra e dignidade ao chão. Talvez os coraixitas tenham pensado que, destruindo os Banu Khuza‘ah, aliados do Estado islâmico, poderiam satisfazer ao menos parcialmente seu desejo de vingança contra Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Mas não refletiram que, com isso, estavam destruindo com as próprias mãos a unidade das tribos protetoras do sistema social jahilita. Estavam até mesmo prestes a enviar algumas tribos vizinhas para buscar refúgio em Medina.
Na realidade, este costuma ser o destino de todo sistema social arcaico e de toda liderança antiga que não possui ideais e objetivos elevados, nem valores morais e uma cultura construtiva, e cujo único recurso é o objetivo negativo de reprimir e destruir toda força construtiva e reformadora: sua própria inteligência os conduz pelo caminho da insensatez; sua própria força os lança no profundo abismo da fraqueza; seu próprio sentimento de nobreza os transforma em vítimas da extrema humilhação e desonra; e seu próprio progresso torna inevitáveis seu atraso, enquanto seu próprio desenvolvimento torna inevitável sua decadência.
Amr bin Salim, da tribo dos Banu Khuza‘ah, partiu para Medina e, ao chegar diante do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), contou-lhe a trágica história da opressão e dos maus-tratos infligidos pelos Banu Bakr e pelos coraixitas. O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) estava sentado em reunião na mesquita. Ali, Amr bin Salim, conforme o costume árabe tradicional, expressou sua dolorosa história por meio de um poema comovente:
(Árabe********)
“Ó Allah! Eu recordarei a Muhammad o pacto que havia sido celebrado entre nós e suas antigas famílias. Ó Profeta, ajude-nos e convoque os servos de Allah para se reunirem em nosso auxílio. Avance para o campo de batalha com um exército imenso, como as ondas do mar que levantam montanhas de espuma. Pois os coraixitas violaram o seu pacto. Eles nos atacaram à noite, junto a Watir. Atacaram-nos enquanto dormíamos. Golpearam-nos quando estávamos em posição de rukū‘ e sujūd.”
Foi respondido: “Ó Amr bin Salim, você será ajudado.”
Então os coraixitas compreenderam que ato destrutivo haviam cometido. Abu Sufyan correu para Medina com o objetivo de reavivar o pacto. Mas o ambiente ali era tal que, quando Abu Sufyan foi à casa de sua filha e se preparava para sentar-se na cama, ela a recolheu e disse: “Esta é a cama do Mensageiro de Allah. Você, sendo um mushrik impuro, não pode sentar-se nela.” Abu Sufyan voltou sem sucesso e, poucos dias depois, viu um enorme exército chegar a Meca. (Sīrat Ibn Hisham, volume 4; Asahhus-Siyar; Sīrat an-Nabi, de Shibli Nomani, volume 1)
Ficou claro, a partir desses acontecimentos, que, nesse conflito histórico, cada passo, cada conspiração, cada atividade retaliatória e cada ação de vingança da força negativa da liderança da Jahiliyyah a tornou progressivamente mais fraca. Em contrapartida, a força positiva e construtiva — o movimento islâmico — foi adquirindo cada vez mais força e avançando.
Por outro lado, observemos a conduta do Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele: havia guerra entre os dois lados. Nessa época, o governante de Yamama aceitou o Islã e interrompeu permanentemente o fornecimento de cereais em direção a Meca. Justamente nesse período, Meca sofria com a fome. Muhammad, o salvador da humanidade, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, pensando nos pobres, pediu pessoalmente que o fornecimento de alimentos de Yamama fosse retomado e enviou, de seus próprios recursos, quinhentas moedas de ouro para os pobres de Meca. Essa magnanimidade comoveu profundamente o povo de Meca. Segundo um relato, os próprios habitantes de Meca escreveram ao Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele: “Você ordena que não rompamos os laços com os parentes, mas rompeu esses laços conosco.” Alguns também escreveram: “Você está matando os pais com a espada e os filhos com a fome.” (Sira de Ibn Hisham, volume 4; Asahhus Siyar; A vida política do Nobre Mensageiro; Dr. Hamidullah)
Capítulo: 5
As atividades militares do Amigo da humanidade: princípios, estratégia, acontecimentos e lições
Quer o movimento islâmico surja do próprio vale do Sinai, quer da base de Paran, seu caminho sempre passa pela luta armada.
O movimento revolucionário do Islã conquistava os corações das pessoas pela força da razão, construía uma sociedade fraterna em oposição à desordem tribal, organizava grupos humanos desorganizados e criava um Estado democrático e constitucional no lugar de uma sociedade anárquica e resistente à obediência às leis. O movimento islâmico reavivava a inspiração dentro das forças cognitivas adormecidas do ser humano.
Acendia a tocha do conhecimento na escuridão da Jahiliyyah, reavivava a força vital perdida da devoção a Allah e reacendia a lâmpada apagada dos valores morais. Mostrava ao mundo, cansado do antigo sistema social da Jahiliyyah, e às classes social e economicamente exploradas e oprimidas, o caminho paradisíaco da justiça social; e, em seu seio, crescia o melhor exemplo da humanidade.
Do lado oposto encontrava-se aquela Jahiliyyah, que não possuía nenhum ideal inspirador, preservava a anarquia e a desordem, administrava a sociedade com base no egoísmo, transformara a religião em motivo de ridículo e, com base nela, mantinha um comércio sagrado. Até os poucos valores morais antigos que ainda restavam na sociedade estavam sendo destruídos pelas mãos dessa Jahiliyyah. Em suma, ela se tornara um obstáculo no caminho da liberdade, da segurança, da justiça e do progresso. Por causa dessa própria fraqueza, recuava cada vez mais, até ficar desorientada. Seus argumentos e provas haviam se esgotado. As armas de sua ferocidade haviam perdido o fio. Suas conspirações estavam fracassando, e seu povo estava se transformando nas piores pessoas.
Os principais líderes da Jahiliyyah haviam desferido um golpe gravíssimo ao expulsar, por iniciativa própria, Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e seus companheiros de Meca. Contudo, não demoraram a compreender que o apoio que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) havia recebido dos Ansar por meio do Juramento de Aqaba significava que Medina se transformaria agora em uma sólida base do movimento islâmico, que ali seria estabelecido um governo e que a sociedade islâmica se converteria em uma força cujo avanço jamais poderia ser impedido.
Além disso, quando, ao chegar a Medina, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) celebrou tratados políticos com os judeus e as demais tribos de Medina, as apreensões dos coraixitas aumentaram ainda mais. Logo depois, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) começou a organizar as forças de defesa. Ao mesmo tempo, passou a enviar destacamentos para patrulhar as fronteiras do Estado de Medina e vigiar os movimentos do inimigo nas áreas vizinhas. Isso fez surgir aos olhos dos coraixitas muitos outros temores assustadores. A rota comercial deles em direção à Síria passava justamente nas proximidades de Medina. Consequentemente, surgiu o receio de que todo o sistema comercial ficasse paralisado. De fato, quando Abu Jahl impediu Sa’d ibn Mu’adh de realizar a umra, ele ameaçou claramente: se isso acontecesse, a rota comercial de vocês seria fechada. Antes, o Mensageiro e seus companheiros estavam presos na rede dos coraixitas. Agora, porém, ele estava livre do domínio deles. Antes, limitava-se a transmitir a mensagem; agora, também estava sentado no trono do poder. Antes, era oprimido, e suportar silenciosamente toda injustiça havia se tornado seu hábito. Agora, contudo, tornara-se capaz de reparar e resistir à injustiça. Na realidade, depois de atravessarem os diversos estágios da oposição ao chamado do Islã, os coraixitas haviam chegado a um ponto cujo passo seguinte não poderia ser outra coisa senão a guerra e o conflito. Depois de infligirem as mais cruéis torturas aos líderes do movimento islâmico e planejarem o assassinato do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), uma mentalidade assassina e sedenta de sangue havia inevitavelmente se formado dentro deles. Por outro lado, se o pequeno capital que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) havia acumulado em Medina com o propósito de inaugurar uma nova era fosse saqueado, isso significaria que todo o sucesso alcançado até então seria destruído e que a esperança de ver o Estado islâmico florescer e frutificar seria completamente anulada. Era extremamente importante levar em conta a passagem do tempo no desenvolvimento e na defesa desse Estado. Se cada ameaça não for percebida no momento adequado e não forem tomadas providências para enfrentá-la em tempo hábil, não se pode imaginar incompetência e incapacidade maiores por parte de uma liderança. Da mesma forma, é igualmente essencial que cada medida seja tomada no melhor momento para ela e, dentro desse melhor momento, o mais cedo possível. Caso contrário, o tempo, que flui com a velocidade de um raio, jamais espera por ninguém. Nenhum chamado ou movimento pode olhar apenas para si mesmo; é preciso também comparar-se com a força do adversário e observar quem está, em cada momento, avançando ou ficando para trás, e em que medida. O nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), o maior benfeitor da humanidade, e seus sábios companheiros sabiam muito bem que, depois da Hégira, o jihad era inevitavelmente a etapa seguinte. Eles compreenderam que, para sobreviver, teriam agora de sobreviver lutando contra os coraixitas. Por isso, imediatamente após o reassentamento dos muhajirun e a consolidação do equilíbrio da nova força de Medina, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), como chefe de Estado, voltou toda a sua atenção para o sistema de defesa.
A perspectiva islâmica sobre a guerra e o jihad
Aqui considero necessário expor brevemente um princípio fundamental. O princípio é este: assim como a existência da polícia e dos tribunais para reprimir os crimes de qualquer Estado constitui um procedimento natural, o jihad também é uma função natural de um Estado. Porém, para um Estado recém-nascido, uma sociedade recém-estabelecida e um governo que inaugura uma era independente, atravessar uma rigorosa era de jihad não é apenas natural, mas também inevitável. Especialmente quando uma nova ordem social é edificada sobre os fundamentos de uma ideologia revolucionária, é inevitável que as antigas forças contrárias à revolução se unam e se levantem contra ela. Contra as forças hostis a esse tipo de revolução, a simples defesa não é suficiente; sem destruí-las, nenhuma revolução pode preservar suas fronteiras e seu padrão atuais. Portanto, a doutrina islâmica do jihad não é uma medida puramente defensiva, que obrigue alguém a enfrentar um adversário apenas quando este iniciar um ataque. Pelo contrário, o Islã também determina que os líderes da revolução islâmica estejam, por um lado, preparados para sacrificar integralmente sua vida e seus bens, se necessário, a fim de proteger cada centímetro de terra de seu Estado, todos os seus recursos e a vida e a honra de seus cidadãos. Por outro lado, devem eliminar as forças contrárias à revolução para completar a revolução, libertando os bilhões de servos de Deus da opressão e da exploração, da ignorância, da miséria econômica e da degradação moral. Um Estado estabelecido sobre os fundamentos de um ideal revolucionário não tem alternativa senão realizar essa tarefa. (A propósito, considero muito importante dizer aqui que, independentemente do estágio em que sejam realizadas obras de reforma e construção, torna-se inevitável empregar a força de alguma maneira. Assim como os pais empregam, para o bem de seus filhos, e o governo emprega, para o bem dos habitantes do país, não apenas a argumentação, os bons conselhos, a educação e o treinamento, mas também a força, da mesma forma os porta-bandeiras de uma revolução construtiva e reformadora são obrigados a empregar algum grau de força. Pode-se perguntar: qualquer que fosse a estrutura e o método do sistema de governo tribal vigente na era de ignorância da Arábia, e qualquer que fosse a condição em que o povo vivesse sob ele, que direito tinham outros de modificá-lo? Pode-se considerar legítimo organizar uma revolução com objetivos reformadores e construtivos, levá-la à sua conclusão e empregar a força nesse processo? Se essa pergunta fosse levada minimamente em consideração, com base em que se poderia conceder a qualquer pai ou mãe o direito de incutir determinada ideia na mente de seus filhos, obrigá-los a aprender determinado tipo de educação moral, comportamento e costumes, ou impor-lhes à força determinada consciência ética? E como se poderia conceder a qualquer governo o direito de empregar a força para impedir os cidadãos de certas ações e obrigá-los a realizar outras? Com que direito ele aplicaria medidas corretivas contra a ignorância, os maus atos, a falta de higiene e a desonestidade de caráter, e removeria os obstáculos daqueles que impedissem a aplicação dessas medidas? Não se pode imaginar, em nenhum campo, que as obras de reforma e construção não encontrem obstáculos e que não seja necessário empregar a força para removê-los. Se forem dadas oportunidades irrestritas às forças que criam obstáculos, nenhuma obra reformadora ou construtiva poderá ser realizada. A própria natureza humana se faz presente com toda a sua força em favor de cada obra de reforma e construção. Quando uma revolução construtiva é organizada para resgatar um país ou uma nação de sua condição decaída e conduzi-la pelo caminho do bem-estar, a natureza humana, isto é, as inclinações inatas, a boa vontade e a consciência, apresentam o testemunho mais importante em seu favor. É esse testemunho que forma a opinião pública em favor da revolução. Surge então a pergunta que exige resposta: visto que as exigências da natureza humana são ambíguas, qual é o critério decisivo para verificar se uma revolução é construtiva e reformadora ou enganosa e destrutiva? A resposta é que esse critério decisivo é o ideal apresentado pelo Grande Profeta (que a paz esteja com ele), a lei de Deus. Entre as inúmeras palavras pomposas dos seres humanos, o caminho infalível para distinguir o que é benéfico do que é prejudicial é o caminho indicado pela revelação. Levar a nação árabe da anarquia ao estágio de um sistema estatal bem organizado, unir uma nação dividida em tribos e transformá-la em uma única entidade nacional, adornar milhões de pessoas com o conhecimento e o bom caráter e oferecer-lhes uma nova era de força, segurança e justiça: esse é um ato tão grandioso e sagrado que, se o emprego da força não for legítimo para realizá-lo, então não restará na história da humanidade nenhum outro lugar justo e legítimo para o emprego da força.) Se Deus conceder a oportunidade, discutiremos esse assunto detalhadamente no volume da obra em que pretendemos analisar minuciosamente as campanhas militares da época do Mensageiro de Deus (que a paz esteja com ele).
A respeito desse assunto, o Ocidente levantou um debate enganoso com uma mentalidade extremamente ardilosa. Por causa disso, a parcela ocidentalizada dos muçulmanos que se esqueceram de si mesma também caiu em um erro deplorável. Os críticos interpretaram as campanhas militares como se os ataques militares tivessem sido utilizados para impor uma religião às pessoas pela força. Contudo, não se tratava simplesmente de uma religião. Tratava-se de um movimento revolucionário abrangente. Essa revolução havia iniciado a reconstrução da humanidade ao preço de muitos sacrifícios valiosos de vidas e bens, e os opositores egoístas da revolução queriam eliminá-la antes que ela alcançasse o pleno êxito. O objetivo aqui era fundar um Estado. Para estabelecer esse Estado, seus fundadores suportaram treze anos de perseguição extrema; depois abandonaram suas casas, terras e propriedades e, tendo se tornado absolutamente despojados de tudo, limitaram-se a um pequeno território onde poderiam viver de acordo com o modo de vida que escolhessem e mostrar a todas as pessoas do mundo o caminho da paz e da segurança.
Estavam sendo feitos preparativos para inaugurar, com grande pompa, este novo capítulo dourado da história. Porém, os judeus de Medina, os hipócritas, os coraixitas de Meca, suas tribos subordinadas e vários grandes governantes de fora, todos juntos, queriam destruir essa iniciativa ainda no nascedouro. Eles não queriam dar aos revolucionários muçulmanos a oportunidade de levar essa revolução ao ápice dourado do sucesso. É verdade que a religião islâmica constituía uma parte importante do movimento islâmico — embora em um sentido diferente daquele significado distorcido que hoje se atribui à religião —, mas o movimento foi formado pela união de muitas outras partes importantes. É por isso que vemos que o Estado islâmico de Medina garantia aos não muçulmanos plena liberdade religiosa dentro dos limites da religião. Ele não empunhou a espada para impor a religião; empunhou-a, antes, em defesa do movimento, do sistema integral de vida e dos interesses do Estado islâmico. Seu verdadeiro problema era assegurar a estabilidade e o desenvolvimento saudável de sua sagrada estrutura política, pois nisso residia o bem-estar de toda a nação árabe e de toda a humanidade. O campo dos conflitos da luta abrangente dos muçulmanos era político. Eles começavam a adquirir uma nova e extraordinária experiência de fazer política sobre as bases morais da honestidade e do temor a Deus. E eram justamente os coraixitas, os judeus e as tribos beduínas que queriam frustrar essa nobre tarefa. Nessas circunstâncias, como poderia sequer surgir a inútil questão de saber se o Mensageiro, que a paz esteja com ele, e seus companheiros haviam usado a espada para pregar a religião? Como poderia surgir a pergunta sobre se as campanhas militares do Mensageiro, que a paz esteja com ele, eram defensivas ou ofensivas? Ainda assim, nossos muçulmanos suscetíveis aceitaram discutir essas questões. Aceitando os argumentos injustos e sem sentido dos ocidentais, imaginaram que assim poderiam apagar das páginas de sua própria história algumas supostas manchas de desonra. Tendo perdido toda a autoconfiança, começaram a apresentar desculpas, de mãos postas, diante dos orientalistas. Fixaram profundamente em seus corações uma concepção completamente equivocada e limitada do Islã e também distorceram a doutrina do jihad. A situação de seus mestres ocidentais é esta: as guerras abomináveis travadas por seus líderes religiosos para satisfazer interesses puramente pessoais e por seus reis para simplesmente expandir seus reinos continuam sendo consideradas até hoje motivo de glória em sua poesia e literatura. As medidas injustas tomadas para escravizar diversos países independentes são sempre vistas por eles como motivo de orgulho. Se os crimes de sua pirataria marítima contribuíram para a construção de colônias, eles transformaram os piratas em heróis. Porém, quando o Estado islâmico de Medina, cercado por ameaças de todos os lados, empenhou-se de maneira completamente altruísta na luta para preservar seu novo sistema de governo e sua nova organização social, resistir a algumas forças destrutivas e adornar-se com bens raros como unidade, disciplina, paz, segurança, justiça, liberdade e democracia, os intelectuais ocidentais de mais alto nível trabalharam incansavelmente para elaborar uma acusação contra ele e provar sua culpa. Aproxima-se o momento de levar a julgamento, no tribunal da história, todos esses pretendentes e seus apoiadores. Chegou o momento de preparar a acusação que desmascarará suas fraudes e falsificações. Para atender a essa necessidade nacional, os jovens estudantes de história e da ciência da Sira devem assumir a responsabilidade e avançar para cumprir esse dever.
A doutrina do jihad no Islã não foi de modo algum construída sobre o conceito convencional de defesa. Contudo, ela é defensiva no sentido de que visa preservar o Estado islâmico e a sociedade islâmica; seu objetivo é preservar o ideal sobre cuja base foi estabelecido o sistema jurídico islâmico. Seu objetivo é resistir a toda força subversiva efetiva que queira destruir as conquistas alcançadas pela revolução islâmica e impedir que ela alcance sua plenitude, bem como derrubar pela raiz todo sistema de governo tirânico que se interponha no caminho do desenvolvimento e do progresso da civilização e da promoção do bem-estar da humanidade.
A visão corânica da guerra
Não há espaço aqui para uma discussão detalhada. Contudo, é necessário voltar a atenção para algumas passagens extremamente importantes do Alcorão:
“Foi concedida autorização para pegar em armas àqueles contra os quais se trava uma guerra, porque foram vítimas de opressão. Deus tem pleno poder para ajudá-los. Eles foram expulsos de suas casas injustamente, apenas porque diziam: ‘Deus é nosso único Senhor’. Se Deus não tivesse, dessa forma, permitido a guerra e expulsado alguns por meio de outros — uns, líderes da corrupção e do desvio, e outros, porta-estandartes da construção e da reforma —, mosteiros, igrejas cristãs, casas de culto judaicas e mesquitas muçulmanas, nas quais o nome de Deus é mencionado abundantemente, teriam sido destruídos devido ao predomínio das forças do mal. Deus certamente ajudará apenas aqueles que colaboram com a causa de Deus. Com certeza, Deus é absolutamente poderoso e vitorioso para ajudá-los. São pessoas que, se lhes dermos autoridade na terra, estabelecerão a oração, pagarão o zakat, ordenarão o bem, impedirão o mal, e a consequência final de todas as coisas está nas mãos de Deus.” (Al-Hajj: 39–41)
“Combatei, pela causa de Deus — para implementar e preservar Suas leis justas — aqueles que vos combatem. Mas não cometais excessos. [Não há espaço aqui para uma discussão detalhada do tafsir. Contudo, é importante esclarecer brevemente que a proibição dos excessos significa que, ao reprimir os que buscam a desordem e os anarquistas, não se deve usar a força também contra os que buscam a paz. Em segundo lugar, a atividade militar não deve ultrapassar os limites da necessidade absoluta. Em terceiro lugar, durante a guerra, devem ser observadas as normas morais e as leis de guerra do Islã].”
Deus não ama os que cometem excessos. Matai-os onde quer que os encontreis e expulsai-os de onde vos expulsaram, pois a fitna — a resistência e a obstrução ao estabelecimento da verdade e da justiça — é pior que o homicídio. Não os combatais nas proximidades da Mesquita Sagrada; mas, se eles vos combaterem ali, então combatei-os. E, se realmente vos combaterem dentro dos limites do Santuário, combatei-os sem hesitação. Assim deve ser aplicada a punição adequada a esses incrédulos, inimigos da revolução islâmica. Porém, se eles desistirem, Deus é certamente perdoador e misericordioso. Caso contrário, combatei-os até que todos os obstáculos ao estabelecimento da lei islâmica sejam removidos e todo o sistema de vida se submeta à lei de Deus. Então, se desistirem de obstruir, nenhuma outra medida será tomada contra eles. Quanto aos opressores, a situação é diferente.” (Surata Al-Baqara: 190–193)
“O que vos acontece, para que não luteis pela causa de Allah e, especialmente, para proteger da opressão aqueles homens, mulheres e crianças indefesos que suplicam: ‘Senhor nosso, tira-nos desta cidade cujos habitantes são opressores. Envia-nos, da Tua parte, alguém que nos proteja e envia-nos, da Tua parte, alguém que nos ajude.’” (Surata An-Nissá: 75)
“Depois, se violarem o pacto e zombarem da vossa religião — demonstrando assim que estão decididos a conspirar —, então combatei os líderes dessas forças contrárias ao Islã. Para eles, seus pactos e compromissos não têm valor. Talvez desistam. Acaso não lutareis contra aqueles que violam seus pactos, tramam expulsar o Mensageiro (de Medina) e foram os primeiros a atacar-vos? (Surata At-Tawbah: 12)
“Se não sairdes (para o jihad), Allah vos castigará com um castigo doloroso e colocará outro povo em vosso lugar, e vós não podereis prejudicá-Lo em nada. Allah é capaz de todas as coisas.” (Surata At-Tawbah: 39)
No Alcorão há muitos outros versículos dignos de estudo sobre a teoria do jihad no Islã e a política militar seguida pelo Mensageiro, que a paz esteja com ele. Contudo, dentre eles, citei apenas aqueles que são extremamente claros e dos quais se podem extrair somente os princípios fundamentais. Os pontos explicados nesses versículos são os seguintes:
1. De modo geral, os muçulmanos vinham sofrendo perseguições havia anos, e o golpe final da opressão coletiva foi desferido quando o Mensageiro, que a paz esteja com ele, e seus Companheiros foram expulsos de Meca. Desde o início, o adversário vinha adotando uma conduta opressiva, pois não lhes permitia sequer estabelecer a sociedade muçulmana. Não queria permitir que pessoas sinceras reconhecessem Allah como Senhor e Sustentador e construíssem suas vidas sob Sua orientação. Havia-lhes privado da liberdade e do direito de professar suas crenças e opiniões, expressar um pensamento independente, convocar as pessoas à verdade e formar uma organização. Durante vários anos seguidos, desferiu ataques bárbaros e violentos contra os muçulmanos revolucionários, inocentes, educados, pacíficos e pacientes, tornando insuportável sua vida na própria terra natal.
2. O Islã concede a seus opositores a máxima oportunidade para compreender sua mensagem e mudar seu comportamento; precisamente com esse objetivo, faz com que seus seguidores atravessem um longo período de paciência e tolerância. Mas jamais pode tolerar que esses seguidores pacientes permaneçam para sempre apenas oprimidos e perseguidos, enquanto aumentam a arrogância e o orgulho dos opressores. Não é propósito do Islã fornecer presas fáceis para alimentar alguns ferozes animais humanos na sociedade. Ele forma os pacientes justamente para que eliminem os opressores e abram para a humanidade o caminho da libertação.
3. Erradicar as forças destrutivas que praticam perseguição, opressão, tirania e exploração é uma tarefa social e cultural de extrema importância e necessidade. Pois, se esses grupos anarquistas não forem removidos do poder e da autoridade pela força e obtiverem liberdade para agir permanentemente, todos os valores de honestidade, justiça, amor à paz e devoção a Allah estarão fadados à destruição.
4. A ideologia revolucionária do Islã deseja, quando necessário, utilizar a força das armas para arrancar o poder das mãos daqueles que patrocinam a desordem, a ignorância, as más ações, a corrupção, a injustiça e a opressão. Em seguida, deseja confiar o poder àqueles que estabelecerão a obediência a Allah, a oração e o sistema do zakat, promoverão e desenvolverão a honestidade e a justiça e resistirão à injustiça e à falsidade.
5. “Lutai com aqueles que lutam contra vocês” — isso não significa que só se devam tomar medidas defensivas depois que os inimigos atacarem vocês. O que se indica aqui é que não há necessidade de perseguir aqueles, entre os inimigos do Islã, que não são ativos na oposição e na resistência. Mas, contra aqueles que constantemente obstruem suas atividades e, por meio de ataques, procuram destruir vocês, sua ordem social e seu sistema de governo, não há alternativa senão pegar em armas. Não é necessário ficar esperando o momento em que eles atacarão efetivamente o Estado islâmico. Pelo contrário, onde quer que possam ser dominados, podem ser eliminados ali mesmo. Também foi apresentada uma justificativa clara e irrefutável para isso: o derramamento de sangue, em si, não é algo bom. Contudo, realizar atividades destrutivas contra o movimento, a organização, a sociedade e o Estado islâmicos, provocar desordem e tumultos e estabelecer bloqueios e focos de resistência são atos de injustiça muitas vezes maiores. Se os inimigos do Islã forem deixados continuar com essas ações, acabarão por extirpar o próprio Islã. Por isso, para evitar uma injustiça maior, é indispensável empreender a jihad armada e tomar medidas ativas. Essa luta armada deve prosseguir empregando todas as forças, até que aqueles que criam resistência e bloqueios no caminho da verdade e da justiça sejam completamente eliminados e a religião plena de Allah seja estabelecida em todos os aspectos da vida.
6. Por um lado, foi dada uma ordem rigorosa para que se demonstrasse o devido respeito pelos lugares, tempos e ritos sagrados da religião; por outro, os muçulmanos também foram protegidos da ideia equivocada de que, mesmo que os inimigos profanassem e pisoteassem a honra e a dignidade de todas essas coisas sagradas e continuassem a massacrar os muçulmanos, eles não deveriam sequer emitir um som e deveriam continuar sendo massacrados, sem resistência, dando prioridade à obrigação de preservar a honra dos lugares proibidos e sagrados e dos meses sagrados. Foi dito que, se eles atacassem profanando a dignidade de algum lugar ou tempo, esse ataque deveria ser repelido com todas as forças.
7. A responsabilidade religiosa e moral dos muçulmanos não foi limitada à proteção de suas próprias vidas, bens e honra. Se, em alguma outra região, pessoas fracas e desamparadas estiverem sendo esmagadas pela opressão e ansiosas por se libertarem das garras dos opressores, é dever do governo islâmico atender ao seu clamor. Em outras palavras, o poder islâmico foi incumbido de ser o libertador e salvador de toda a humanidade. Preservar os melhores valores da religião e da civilização é seu dever mais amplo e fundamental.
8. Celebrar um tratado para eliminar a opressão e a injustiça também é um meio pacífico. O Mensageiro ﷺ aplicou esse meio de todas as formas possíveis. Porém, o Alcorão deu uma ordem severa a respeito daqueles que rompem tratados e promessas: devem ser disciplinados pela força. Especialmente aqueles que, rompendo suas promessas, conspiram para destruir o centro islâmico, derrubar o sistema ou a administração estabelecida, destruir a ordem existente, criar anarquia e dar a primeira provocação — mesmo que não tenham declarado abertamente a guerra — devem ter cada uma dessas ações considerada uma declaração de guerra, e não se pode permitir que continuem agindo sem resistência.
9. Nesse contexto, foi dito ao governo muçulmano que prestasse atenção especial ao seguinte: o verdadeiro objetivo da atividade militar não é matar ou ferir a população civil inocente e desarmada, mas eliminar os principais líderes das forças que se opõem à revolução islâmica e das forças incrédulas.
10. Quanto às terríveis consequências da negligência e da indiferença no cumprimento do dever obrigatório da jihad, advertiu-se que, se forem negligentes na jihad, este Estado, este governo e todo o seu poder serão destruídos. Se não avançarem corajosamente, os opositores se lançarão contra vocês, expulsarão e pisotearão vocês e estabelecerão o próprio governo. Então vocês ficarão olhando, atônitos, sem poder sequer emitir um som. Pensem na dolorosa punição que terão de suportar em uma situação desse tipo.
A natureza das guerras islâmicas
À luz da discussão acima, não é possível compreender a natureza e o caráter das guerras travadas entre os organizadores da revolução islâmica e os inimigos da revolução islâmica sem compreender devidamente a teoria islâmica da jihad. O ponto fundamental a compreender é que duas forças históricas da Arábia haviam entrado em guerra uma contra a outra. Uma delas queria libertar o povo do domínio tirânico e injusto da jahiliyyah e criar uma nova era de paz, segurança e justiça. A outra força, por sua vez, estava empenhada em destruir o movimento islâmico para manter intacta a sociedade jahilí tradicional, tal como era. Não era possível qualquer entendimento ou compromisso duradouro entre seus ideais e objetivos, nem havia espaço para coexistência entre as duas partes por meio de acordos ou concessões. A situação era tal que: “ou vocês permanecerão, ou nós permaneceremos”. Ou, segundo o conhecido provérbio inglês, poderia ser dito assim: “Mate-o primeiro, ou ele matará você”. A situação era, em grande medida, como a de um agricultor diligente que, depois de cultivar com muito esforço um terreno abandonado, criou nele um pomar. Havia uma floresta nas proximidades daquela região, de onde os animais selvagens vinham decididos a destruir o pomar. Nessas circunstâncias, se ele não tomasse medidas contra os animais selvagens, seu pomar seria devastado. E, se quisesse proteger o pomar, teria de ser impiedoso com os animais selvagens. Sempre que ocorreu na história uma revolução total, tornou-se inevitável o surgimento de situações intransigentes desse tipo. Compreendendo bem essa questão, já não há necessidade de entrar no debate sobre se as guerras islâmicas foram ou não defensivas. Também se encerra o caminho para a propaganda insensata de que os muçulmanos obrigaram as pessoas a aceitar o Islã pela espada. Tampouco é necessário analisar separadamente cada batalha, identificar suas causas imediatas e tranquilizar aqueles que deliberadamente se entregam à propaganda, assegurando-lhes que o governo islâmico teve de travar aquela guerra por não ter outra alternativa. Essa responsabilidade fundamental recai sobre a própria parte adversária.
Hoje, quando vemos que alguns de nossos predecessores eruditos se esforçaram enormemente para examinar as causas de várias guerras, especialmente da Batalha de Badr, e traçar um quadro específico da situação, não conseguimos deixar de pensar por que esses analistas tão minuciosos não compreenderam uma verdade tão simples e clara, que, uma vez dita, resolveria tudo e tornaria desnecessária qualquer outra explicação ou análise. Ao ler suas valiosas obras sobre a vida do Profeta, tem-se a impressão de que o direito de dar o veredicto final sobre qual foi, ou não foi, a verdadeira causa pertence aos ocidentais. Como se nós tivéssemos apenas o direito de apresentar nossa defesa diante deles, e nada mais. Queremos mudar esse método de julgamento e avaliação. A autoridade suprema e definitiva para compreender e explicar nossa religião, nossa história e a vida de nosso Profeta pertence a nós, e não a qualquer outra pessoa. Os critérios e padrões de reflexão, pesquisa e julgamento que nossa religião e nosso Mensageiro nos deram constituem o melhor parâmetro para compreendermos tudo. Somos nós que temos o maior direito de avaliar nossa própria condição. Sejam eles ocidentais, setentrionais ou meridionais, ninguém tem o direito de nos ensinar sobre nossa religião e nossa história. Pelo contrário, deveriam aprender conosco qual é o significado de cada elemento de nossa religião e de nossa história. Analisar o significado dos feitos de nosso passado e explicar o sentido de nossa terminologia é responsabilidade nossa, e não de qualquer outra pessoa. Para avaliar nossa religião, nossa história e a história da vida de nosso Profeta, não aceitamos os critérios elaborados pela antiga Igreja cristã nem os criados pela civilização materialista moderna. Não estamos dispostos a submeter nossa história e nossa tradição ao julgamento desses critérios inválidos.
A natureza das atividades militares de Medina
As atividades militares do Estado Islâmico não podem ser consideradas um conflito entre dois impérios nem um confronto entre dois grupos religiosos. Não havia aqui nenhum projeto de conquista mundial, como os de Alexandre e Napoleão; tampouco havia a ambição de conquistar a independência de países independentes e estabelecer colônias, como fizeram Holanda, França e Inglaterra. O conflito ocorria entre pessoas do mesmo país e da mesma nação: de um lado, um grupo trabalhava abnegadamente, empenhando todos os seus esforços para executar um programa específico destinado à reconstrução da nação; do outro, um grupo empenhava-se em eliminar sua existência, com o propósito de fazer esse programa fracassar. Contra essa revolução, a mais pura, imaculada e justa da história, as tribos dos coraixitas, dos judeus e dos beduínos, arrastadas pelo fluxo de uma emoção cega, meramente negativa e irracional, cometeram os mais abomináveis atos, crimes, conspirações e planos de assassinato. Depois de anos de ações obstinadas, restava-lhes apenas um último passo: lançar-se ao campo por meio de uma agressão armada aberta e, se possível, pôr fim definitivamente a esse conflito. Os coraixitas foram à frente, e os demais os seguiram. Mas, no fim, foram eles mesmos que tiveram sua existência eliminada. Embora não sejam inteiramente idênticas, essas guerras apresentam grande semelhança com os conflitos ocorridos na Rússia, desde a Revolução de Fevereiro até antes da Revolução de Outubro, ou entre monarquistas e revolucionários durante a Revolução Francesa. Também podem ser comparadas à Guerra Civil Americana. As guerras de Meca e Medina foram, em essência, uma espécie de guerra civil. A causa primordial dessa guerra civil foi que, de um lado, o Mensageiro, abandonando a imitação cega do sistema pagão ancestral, adotara, por ordem de Deus, um caminho correto de ação. Do outro lado, os coraixitas não queriam permitir que ele agisse segundo sua consciência e exercesse livremente sua opinião. Os líderes da Jahiliyyah queriam privar os jovens, por meio da força e de métodos violentos, de opiniões e crenças independentes, às quais sua consciência desperta os conduzia. E essa consciência desperta estava decidida a conquistar seu direito natural e a concedê-lo também aos outros.
A natureza das atividades militares do Estado Islâmico inicial de Medina ao longo de dez anos fica claramente evidente quando se observam as estatísticas das perdas humanas. Não há como negar que o Mensageiro, que a paz esteja com ele, seguiu uma política de derramamento mínimo de sangue. Com perdas humanas insignificantes, ele demonstrou ser possível estabelecer um Estado sobre um território de dez milhões de quilômetros quadrados. Até se alcançar o estágio do sucesso final da revolução, morreram ao todo 255 muçulmanos como mártires e 759 incrédulos foram mortos. (Rahmatul lil-Alamin, Qazi Sulaiman Mansur Puri, vol. 2, p. 265.) Para abrir o caminho do bem-estar de centenas de milhões de pessoas, foi necessário matar apenas 750 opositores. Os que fabricam calúnias deveriam, à luz dessas estatísticas, situar suas próprias ideias no contexto da história e examiná-las. Se essas guerras tivessem sido travadas com o objetivo de propagar a religião, não apenas teriam sido cometidas atrocidades tão abomináveis quanto as dos judeus e cristãos, como também um número muito maior de pessoas teria sido morto em cada uma das guerras. Se o Mensageiro, que a paz esteja com ele, tivesse entrado na guerra movido pela ambição de conquistar o mundo, poderia também ter feito correr rios de sangue nos desertos da Arábia, tal como os grandes comandantes militares fizeram jorrar sangue sem piedade. Mesmo sendo um conflito entre dois Estados rivais, teriam perecido muito mais pessoas. Do mesmo modo, embora o número de prisioneiros de guerra fosse 6.564, apenas dois deles foram condenados à morte pelos crimes comprovados que haviam cometido. Ao todo, 6.347 prisioneiros foram libertados. O autor da obra Rahmatul lil-Alamin afirmou, após muita pesquisa, que o destino de apenas 215 prisioneiros não foi claramente conhecido. Talvez isso venha a ser descoberto posteriormente. É muito provável que tenham aceitado o Islã e se integrado à sociedade muçulmana. Em Medina, uma sociedade e um Estado Islâmicos em desenvolvimento tiveram, na realidade, de enfrentar obstáculos internos, e eclodiu um conflito entre habitantes aparentados do mesmo território. Em um período extremamente curto, a questão foi resolvida por meio de três ou quatro grandes batalhas, com perdas humanas muito pequenas. Na verdade, essa resolução ocorria dentro de um âmbito cada vez mais amplo da opinião pública.
É algo para se refletir: se, no lugar do Mensageiro, que a paz esteja com ele, estivesse outro comandante militar, seria possível que ele ordenasse aos seus soldados, no campo de Badr, que não matassem os guerreiros de Banu Hashim, porque não haviam vindo voluntariamente, mas por obrigação; que não matassem Abbas ibn Abd al-Muttalib nem Abu al-Bukhtari ibn Hisham? (Abu al-Bukhtari foi morto por engano.) Pode-se imaginar que o governante vitorioso de Medina, perturbado pela agonia dos prisioneiros de Badr, não conseguisse dormir e fosse, durante a escuridão da noite, afrouxar suas amarras? Não é algo desconcertante que, justamente enquanto a guerra estava em curso, ele tenha atendido ao apelo dos habitantes de Meca, liberado de Yamama o carregamento de cereais que estava bloqueado e enviado-o a Meca, além de mandar, de sua própria parte, quinhentas moedas de ouro aos habitantes de Meca atingidos pela fome? Ademais, no dia da conquista de Meca, se aquele cuja bandeira da vitória tremulava no céu fosse qualquer outro além de Muhammad, que a paz esteja com ele, e seu objetivo fosse algo diferente da vitória do Islã, teria ele conseguido esquecer a dolorosa e sombria história de quinze ou vinte anos de perseguição brutal e proclamar: “Hoje não há acusação alguma contra vocês; vão, estão livres”? Nunca. Se fosse outra pessoa, as ruas e vielas de Meca teriam transbordado do sangue dos coraixitas.
Na realidade, apesar de sua relutância, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) teve de entrar no campo de batalha. Isso porque esse caminho passava pelo campo do martírio. Contudo, em vez de conquistar territórios, ele queria conquistar os corações das pessoas. Em vez de tornar os corpos obedientes pela espada, queria submeter as mentes pela razão e os corações por meio de um caráter belo e natural. Sua verdadeira batalha era travada no campo da opinião pública. Nesse campo, seus inimigos eram continuamente derrotados. Na verdade, o conflito em que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) teve de se envolver com os inimigos da revolução islâmica, a guerra armada constituía apenas uma parte muito pequena.
A estratégia militar do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele)
O princípio fundamental da estratégia militar do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) era dar prioridade a tornar o inimigo impotente, em vez de derramar seu sangue, até que ele cooperasse ou abandonasse a resistência. O eminente pesquisador do subcontinente, Dr. Hamidullah Siddiqi, que analisou diversos aspectos da nobre biografia do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele), descreveu assim sua estratégia militar:
“Na realidade, o Mensageiro de Deus (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) preferia obrigar o inimigo, em vez de destruí-lo.” (Ahde Nabawi Ke Maidanhae Jang, p. 44)
Em outra passagem, ele escreveu:
“O objetivo da política do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) não era destruir os coraixitas; seu objetivo era torná-los incapazes e derrotá-los, mantendo-os completamente intactos.” (Ahde Nabawi Me Nizame Hukmuran, p. 249)
O autor demonstrou de maneira precisa essa sua opinião, apresentando em detalhes as táticas adotadas pelo Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) e analisando o curso dos acontecimentos. No âmbito dessa estratégia, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) adotou as seguintes medidas práticas:
“Ele desenvolveu rapidamente suas forças de defesa em termos de efetivo, organização, empenho, preparação militar e formação moral; depois, manteve-as sempre ativas como uma máquina e, por meio delas, manteve seus adversários aterrorizados e intimidados.
Bloqueou as rotas comerciais dos habitantes de Meca, deixando-os exaustos.
Por meio de acordos e tratados, foi progressivamente afastando várias tribos dos inimigos e trazendo-as para o seu lado.
Ele empregou diversas estratégias para as campanhas militares. Às vezes, adotava a estratégia de um ataque surpresa, sem dar ao inimigo oportunidade de se preparar (como na conquista de Meca). Às vezes, confundia os adversários, tomando uma rota inesperada e mantendo em segredo o destino da expedição (como na batalha de Banu Mustaliq). Às vezes, preparava antecipadamente o plano de batalha a seu favor (como na batalha de Badr); outras vezes, adotava uma nova estratégia defensiva, cuja experiência anterior o inimigo não possuía (como na batalha da Trincheira).
Todo o sistema de defesa do Estado de Medina ao longo de dez anos é um exemplo claro dos princípios fundamentais mencionados. Além disso, quando associamos a isso a visão magnânima e generosa do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), que não era movida por um espírito de conquistador, mas por uma inspiração missionária, e que, em vez da ira e do rancor próprios de um comandante militar invasor, era símbolo da profunda benevolência e compaixão próprias de um mestre espiritual, as objeções e acusações levantadas por vários setores parecem completamente infundadas. No entanto, para justificá-las, os ocidentalizados chegaram a distorcer todo o curso dos acontecimentos. Para expressar a atitude de reforma e correção da humanidade que atuava no coração do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), indicaremos alguns acontecimentos.
Quando a opressão e a perseguição em Meca atingiram o auge e a hostilidade dos coraixitas assumiu uma forma extremamente agressiva, os principais responsáveis por aquele terrorismo e violência infernais eram dois: Abu Jahl e Umar ibn al-Khattab. Nenhum político mundano poderia, diante de inimigos tão obstinados, deixar de nutrir extrema indignação e desejar secretamente a sua destruição. Contudo, apesar de arder continuamente no fogo da violência, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) suplicava com voz aflita que Allah concedesse a pelo menos um daqueles dois a graça de aceitar o Islam. Essa súplica prova que este amigo da humanidade dava prioridade à reforma dos inimigos, em vez de à sua destruição, e mantinha boas esperanças a respeito deles até o último momento. Sua súplica foi atendida quando Umar aceitou o Islam.
O segundo acontecimento foi o Mensageiro ser humilhado e ferido pelas mãos dos habitantes de Taife, justamente por lhes desejar o bem. De um porta-bandeira da política mundana, nada mais se poderia esperar, em tal situação, senão que seu coração se fechasse para eles para sempre e, se possível, que destruísse imediatamente a cidade inteira. Caso contrário, permaneceria irado e ressentido com eles por toda a vida e, na primeira oportunidade de obter o poder, destruiria uma cidade tão bárbara. O companheiro do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), profundamente ferido pela perseguição em Taife, pensou exatamente dessa maneira e disse: “Rogue contra esses animais humanos.” Até Jibril, para testar sua atitude oculta, informou-lhe que, caso ele desse o sinal, os anjos das montanhas estavam prontos para esmagar Meca e Taife entre as montanhas. Mas o Mensageiro de Allah respondeu: “Não, eles estão seguindo o caminho errado por causa da ignorância. Mesmo que não tenham fé, seus descendentes aceitarão o chamado da verdade e se tornarão obedientes ao Deus Único.”
O terceiro acontecimento ocorreu no campo de Uhud. Quando, por causa de alguns erros dos muçulmanos, Allah lhes fez sofrer uma derrota como sinal de advertência, e o próprio Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) ficou gravemente ferido, criou-se uma atmosfera de extrema amargura. Nessas circunstâncias, alguns Companheiros, evidentemente abalados e com aparente razão, pediram ao Mensageiro de Allah que rogasse contra os politeístas, para que a maldição de Allah recaísse sobre eles. Ele respondeu: “Não fui enviado como alguém que amaldiçoa. Fui enviado como mensageiro e anunciador de boas-novas.” Então suplicou pelos inimigos: “Ó Allah! Guia para o caminho reto o povo da minha nação, pois eles não sabem.” Isso significa que, mesmo depois de receber golpe após golpe dos coraixitas, nasceu nele o desejo de que eles não fossem destruídos. Pelo contrário, mesmo em estado de guerra, ele proclamava o desejo de que alcançassem a orientação.
Durante a expedição de Khaybar, para conquistar a fortaleza de Qamus, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) entregou uma bandeira especial a Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) e disse:
“Ó Ali, se uma única pessoa encontrar a orientação por teu intermédio, isso será uma dádiva imensa para ti.”
Ou seja, o objetivo principal não é causar danos físicos ao inimigo nem derramar sangue; ao contrário, o mais importante é que, tanto quanto possível, ocorra uma transformação na mente e no coração das pessoas e que elas adotem o novo sistema de vida.
Aceitamos esses poucos acontecimentos apenas como exemplos; do contrário, não faltam provas que esclarecem a perspectiva fundamental do Mensageiro (s.a.a.s.). Os belicistas costumam ser extremamente precipitados e irascíveis. Em contrapartida, vemos no Mensageiro (s.a.a.s.), amigo da humanidade, alguém muito sereno, determinado e ambicioso. Em sua política, em vez do uso da força, atuam a estratégia e a benevolência. Que prova miraculosa maior de habilidade e discernimento político poderia existir do que o fato de ele ter estabelecido os fundamentos do Estado Islâmico imediatamente após chegar a Medina, mantendo conversações com pessoas de diferentes níveis? Provavelmente, não se encontrará em toda a história da humanidade outro exemplo de estabelecimento de um Estado dessa maneira, sem derramar uma única gota de sangue em nome de uma ideologia revolucionária. Esta foi a única revolução verdadeiramente sem derramamento de sangue (Bloodless): em sua origem, não foi derramada uma única gota de sangue humano, nem caiu um único cadáver. Um acontecimento tão desconcertante reflete a extraordinária característica da própria profecia.
Também não se deve esquecer que todas as atividades militares do Estado Islâmico foram dirigidas exclusivamente contra os coraixitas e as tribos judaicas, que o forçaram a entrar no campo de batalha. Todos os demais árabes, exceto os coraixitas e os judeus, estavam ocupados com sua vida normal. Com exceção de algumas pequenas áreas, não houve guerra em nenhum lugar da Arábia. Pelo contrário, o povo árabe em geral observava silenciosamente os objetivos, o caráter e a força política de ambos os poderes. Quando o poder muçulmano comprovou sua superioridade em todos os aspectos, delegações de diversas regiões e tribos vieram e abraçaram o Islã. Tampouco passou despercebida a qualquer pessoa ponderada a verdade de que todas as grandes batalhas — Badr, Uhud e Khandaq — foram travadas pelos próprios inimigos, que, como invasores, chegaram às proximidades de Medina. Assim, foram eles que obrigaram o Mensageiro (s.a.a.s.) a subjugar as fontes do poder inimigo. Por isso, para enfraquecer o poder dos coraixitas e de seus aliados subservientes, foi realizada a partir de Medina apenas uma expedição decisiva; e, após a conquista de Meca, as batalhas de Hunayn e Ta’if eliminaram completamente o poder dos adversários. Por outro lado, os centros de poder dos judeus também foram derrubados com o mínimo de perdas de vidas.
Um grande mal-entendido
Por causa da longa lista de expedições militares chamadas ‘ghazwa’ e ‘sariyya’ que se encontra nos livros de hadith, sira e história, não apenas os não muçulmanos, mas até muitos muçulmanos acabam sofrendo de um grave mal-entendido. No entanto, ‘ghazwa’ e ‘sariyya’ são termos técnicos específicos dos livros de hadith e maghazi (a história militar do Islã). Cada um desses dois termos tem um significado próprio e definido. Sempre que uma tropa era enviada para fins diversos, como uma expedição militar defensiva, patrulhamento ou guarda, repressão de rebeldes e criminosos, disseminação do conhecimento e pregação, ou celebração de acordos — ainda que essa tropa fosse composta por apenas duas pessoas —, ela era chamada de ‘sariyya’. Já a tropa da qual o próprio Mensageiro (s.a.a.s.) participava era chamada de ‘ghazwa’. Independentemente de esse tipo de tropa vir ou não a se envolver efetivamente em algum confronto ou em qualquer outro tipo de atividade, em ambos os casos era chamada de sariyya ou ghazwa. Excluindo as menores, restam apenas algumas grandes expedições militares de destaque, como Badr, Uhud, Ahzab ou Khandaq, Khaybar e Meca (incluindo Hunayn). Deve-se observar que o ‘Jaysh al-Usra’ (‘Expedição Difícil’) enviado a Tabuk e às regiões adjacentes tinha como único motivo o receio de um ataque por parte do governo estrangeiro da Síria, e sua natureza era completamente diferente. Agora discutirei brevemente essas expedições militares.
A primeira questão que chama a atenção é: como começou o conflito? Para responder a isso, examinarei primeiro a posição e o papel de ambas as partes.
A mentalidade agressiva dos coraixitas
A mentalidade dos coraixitas pode ser identificada por si mesma a partir de um acontecimento. Quando conspiraram para matar coletivamente o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, os líderes de Meca expressaram abertamente sua mentalidade durante a discussão. Foi apresentada uma proposta para que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, fosse trancado numa prisão de ferro, com a porta fechada à chave, para que morresse debatendo-se em seu interior. Ao ouvir essa proposta, um ancião vindo de Najd — o xeique Najdi — disse: «Se o prenderem, então o seu chamado se espalhará até os horizontes distantes, atravessando as portas fechadas da prisão de ferro, e exercerá influência sobre seus companheiros. Não seria de modo algum surpreendente que eles o libertassem. Depois, tornando-se mais numerosos que vocês, derrotariam vocês». Outra proposta era: «Expulsaremos Muhammad, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, do país. Depois de expulsá-lo, que nos importa para onde irá ou onde ficará? Basta que ele desapareça de nossa vista; então normalizaremos nossas relações e preservaremos nossa afeição mútua». (Sira de Ibn Hisham, vol. 2, p. 94.) A análise feita pelo xeique Najdi para rejeitar essa proposta foi extremamente importante e foi aceita pela assembleia. O xeique Najdi disse:
«Não, por Allah, isso de modo algum é conveniente para vocês. Vocês não percebem a doçura e a elegância de sua linguagem, por meio das quais ele consolida sua influência no coração do povo? Por Allah, se fizerem isso, jamais conseguirão livrar-se de seu domínio. Ele pode encontrar abrigo em qualquer tribo da Arábia; depois, por meio de suas palavras, pode exercer influência sobre o povo, e as pessoas podem tornar-se seus seguidores. Com esses seguidores, ele pode atacar vocês, entrar em seus povoados, tomar o poder de suas mãos e tratar vocês como bem entender. Portanto, adotem outra estratégia». (Sira de Ibn Hisham, vol. 2, p. 94.)
Ao ler estas palavras do xeique Najdi, pode-se imaginar quão astuto e ardiloso ele era. Ele não se enganou de modo algum ao compreender a personalidade do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Além disso, fica claro, a partir de toda essa discussão, que os líderes de Meca, à luz de treze anos de experiência, haviam começado a considerar a personalidade, o temperamento, as palavras e a nobreza de caráter do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, como um perigo político distinto e uma ameaça gravíssima. Naquele momento, sua arrogância chegou a tal ponto que não estavam dispostos a tolerar que esse libertador da humanidade permanecesse vivo em qualquer parte da Terra e continuasse seu trabalho de chamado em algum lugar. Caso contrário, sabiam que um dia teriam de prestar contas pela opressão que haviam cometido e pelo crime de expulsar os jovens muçulmanos de suas casas. Depois, a maneira como concordaram em assassinar o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, a perseguição empreendida para capturá-lo quando ele escapou com vida e a grande recompensa anunciada demonstram de forma incontestável que, se estivesse ao alcance deles, não queriam permitir que ele vivesse sequer por um instante. Sua própria existência havia se tornado uma ameaça para eles, e sua vida, um desafio. Não havia razão alguma para que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, não tomasse imediatamente conhecimento dessa atitude dos coraixitas.
Voltemos um pouco mais para trás nessa história. Na ocasião da segunda Bai’ah de Aqaba, Abbas havia advertido os ansar com estas palavras: «Se puderem alcançar o objetivo para o qual estão convidando o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, e enfrentar a oposição que será feita a ele, então será correto assumir a difícil responsabilidade que aceitaram.» Além disso, estas palavras introdutórias na linguagem daquela Bai’ah também eram muito significativas: «Vocês me protegerão da mesma forma como protegem seus filhos e seus familiares.» Em seguida, é digno de nota o que responderam os ansar: «Fique certo de que somos um povo guerreiro.» Depois, eles perguntaram: «Por sua causa, muitos de nossos pactos serão anulados. Não acontecerá então que suportaremos todas essas dificuldades por você, você sairá vitorioso e depois nos abandonará e retornará para sua própria família?» A garantia dada pelo Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — «Eu sou de vocês, e vocês são meus» — também foi muito significativa. Em seguida, a advertência feita por Abbas ibn Ubadah Ansari aos seus companheiros foi profundamente significativa: «Vocês estão assumindo o risco de guerrear contra todas as pessoas, brancas e negras, do mundo inteiro. Tenham cuidado para que não aconteça de, ao verem grande parte de seus bens destruída e os líderes de suas tribos mortos, vocês entregarem o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, nas mãos do inimigo. Pensem cuidadosamente em tudo isso e decidam agora mesmo.»
O significado dessas conversas é que, à luz da situação criada pelos coraixitas, não apenas o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, e o honrado Abbas, mas também os ansar vindos de lugares distantes compreenderam inequivocamente que a Bai’ah que prestariam equivaleria a uma declaração de guerra.
Um demônio ouviu secretamente as conversas da reunião da Bai’ah e informou os coraixitas. Então, os principais líderes coraixitas foram às residências dos ansar e começaram a dizer: “Soube que vocês se encontraram com Muhammad, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, e querem levá-lo daqui. Também soube que vocês apertaram a mão dele e fizeram um pacto para lutar contra nós. No entanto, entre todas as tribos árabes, nenhuma guerra nos desagrada tanto quanto uma guerra contra vocês. Em outras palavras, se os ansar tirarem o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, de Meca e lhe derem abrigo seguro entre si, os habitantes de Meca considerarão isso uma declaração de guerra. Se os habitantes de Medina realmente fizerem isso, então, nesse caso, a posição da liderança coraixita será clara. Assim, foi anunciada antecipadamente a declaração de guerra. Contudo, algumas pessoas não sabiam desse acontecimento. As que sabiam mantiveram o assunto em segredo.”
Depois que os ansar que haviam prestado a Bai’ah partiram de Meca, os coraixitas deliberaram sobre o assunto. Por fim, decidiram que era necessário persegui-los. A caravana de peregrinos de Medina partiu sem incidentes. No entanto, os habitantes de Meca capturaram Sa’d ibn Ubadah e Mundhir ibn Amr e os espancaram. Esse acontecimento também mostra quão insuportável era para eles que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, saísse ileso de Meca, e quanta ira sentiam contra aqueles que haviam se comprometido a oferecer-lhe um refúgio seguro.
Além disso, a tentativa dos coraixitas de trazer de volta os emigrantes da Abissínia e de impedir, no início, que os emigrantes destinados a Medina realizassem a Hégira também mostra que não lhes agradava que o movimento islâmico criasse raízes em qualquer outro território. Eles estavam determinados a impedir qualquer possibilidade desse tipo.
Todos esses acontecimentos deixam claro como a luz do dia que, mesmo antes da Hégira, os coraixitas haviam lançado um desafio de guerra contra qualquer força que desse abrigo ao Mensageiro, que a paz esteja sobre ele, e permitisse que os frutos do movimento islâmico fossem plantados em seu território. Os organizadores da revolução islâmica não eram tão tolos a ponto de ignorar esse desafio.
Por fim, a notícia dessa declaração não escrita de guerra chegou por escrito de Meca a Medina, por meio de uma carta conspiratória. Entregue a Abdullah ibn Ubayy, líder dos traidores de Medina, a carta ameaçava todos os ansar e judeus de Medina nos seguintes termos: ou vocês expulsam voluntariamente Muhammad, que a paz esteja sobre ele, de Medina, ou atacaremos Medina, mataremos vocês e transformaremos suas esposas em mulheres de prazer.
Depois, conspirando com os judeus, os coraixitas informaram diretamente aos muçulmanos: “Não se alegrem por terem conseguido sair de Meca em segurança. Iremos a Medina e lhes mostraremos do que somos capazes.”
Foi nessa ocasião que Abu Jahl impediu Sa’d ibn Mu’adh de circundar a Caaba e declarou abertamente: “Não gosto que vocês ponham os pés no recinto da Caaba.”
Apesar disso, naquele período, pequenos destacamentos continuavam saindo de Meca para praticar atos de vandalismo e pilhagem. Assim que tomou conhecimento disso, o Mensageiro, que a paz esteja sobre ele, começou a enviar grupos de patrulha como medida de retaliação. Em várias ocasiões, esses grupos de patrulha de Medina avistaram aqueles destacamentos de Meca. Porém, ao perceberem a presença das forças muçulmanas, eles fugiram.
No décimo terceiro mês após a Hégira, ocorreu um acontecimento alarmante. Kirdh ibn Jabir al-Fihri foi a Medina, praticou um assalto e levou consigo, dos pastos de Medina, os animais domésticos do Mensageiro, que a paz esteja sobre ele, os camelos do Estado e os animais de outras pessoas. O objetivo explícito desse ato era demonstrar: “Mesmo vindo de trezentas milhas de distância, podemos pilhar e levar desse modo os bens do seu Estado.” (Sira de Ibn Hisham, vol. 2, p. 238; Asahhus-Siyar, p. 125; Rahmatul lil-Alamin, vol. 1, p. 140)
O próprio Mensageiro, que a paz esteja sobre ele, perseguiu os assaltantes à frente de um pequeno destacamento e deixou Zayd ibn Harithah como governante interino de Medina. Mesmo tendo avançado até Wadi Safwan (próximo de Badr), não conseguiu alcançá-los. Esse ato foi uma insolência do inimigo que de modo algum poderia ser tolerada. Funcionários de um governo que possuam sequer um pouco de bravura e coragem, e que tenham o mínimo de respeito e amor por sua independência e sua terra natal, não podem tolerar tamanha afronta. Embora tenha sido um assalto, do ponto de vista político equivalia a um ataque. Diante de Medina, então, surgiu a era inevitável da guerra e um futuro banhado em sangue.
Havia uma razão importante para que o ataque de Meca contra Medina tivesse sido adiado até o segundo ano da Hégira. Se não tivessem enfrentado nenhum obstáculo, os coraixitas teriam atacado antes e não teriam dado ao novo Estado islâmico de Medina tempo para se preparar para a defesa. Entre Meca e Medina ficava o território da tribo de Banu Kinana. Os coraixitas mantinham com eles uma inimizade muito antiga. Em primeiro lugar, havia o temor de que Banu Kinana nem sequer permitisse que os coraixitas atravessassem seu território. E, mesmo que permitisse, havia um segundo temor: Banu Kinana poderia atacar Meca ao vê-la desprotegida. No mínimo, existia o risco de que, em um momento delicado, cortasse a comunicação entre Meca e as forças coraixitas que estivessem atacando Medina. Suraqah ibn Malik al-Madlaji al-Kinani era o líder daquela região intermediária. Quando soube que os coraixitas não conseguiam atacar Medina por causa desses temores, foi espontaneamente a Meca e lhes garantiu sua cooperação. Foi como consequência dessa aliança que ocorreu a batalha de Badr.
Portanto, fica claro que os coraixitas não estavam esperando nenhum ataque por parte dos muçulmanos, nem procuravam qualquer brecha para lançar uma agressão militar. Entre eles, a atitude e a determinação agressivas estavam plenamente ativas. (Rahmatul lil-Alamin)
O sistema de defesa de Medina
Examinemos agora a situação da segunda parte.
Quando examinamos a situação do Mensageiro de Deus (que a paz esteja sobre ele) e de sua organização revolucionária, encontramos, sob todos os aspectos, provas de que a guerra era o que eles menos desejavam. Para começar, eram um grupo sem raízes, sem recursos e sem apoio, recém-chegado a uma terra desconhecida; além disso, metade desse grupo estava economicamente arruinada e empenhava-se pessoalmente em sua própria reabilitação. Ademais, os organizadores da revolução islâmica tinham diante de si, ao mesmo tempo, o programa de adaptar um novo ambiente à revolução islâmica, estabelecer laços de fraternidade entre as diversas tribos, oferecer-lhes treinamento moral e psicológico e, acima de tudo, fundar um novo Estado islâmico e estruturar a administração de todos os seus setores. Cada um desses programas exigia atenção integral e trabalho contínuo durante um longo período. Um pequeno grupo cercado por problemas tão difíceis jamais poderia desejar a guerra. Por outro lado, eles tinham uma enorme missão em favor de toda a humanidade. Garantir o bem-estar de todos os seres humanos do mundo era seu objetivo sagrado. Para iluminar toda a civilização com a tocha da maior verdade da vida — isto é, o domínio e a soberania do Deus Único —, haviam sacrificado toda a felicidade e tranquilidade de suas próprias vidas. Avançavam após adquirir as qualidades arriscadas e difíceis da paciência e da preferência pelo próximo. A grande verdade do Islã era o único patrimônio de suas vidas. Eram muito poucos em número, e o Estado de Medina também era inteiramente novo. Todo o seu futuro estava ligado àquele pequeno patrimônio. O interesse natural que cultivavam em preservar aquele Estado era como a ansiedade e o desejo ardente de uma galinha que, ao ver um falcão voando no céu, esquece tudo e cobre seus filhotes com as penas e as asas. Mesmo com seus corpos ressecados e debilitados, estavam prontos para enfrentar montanhas. Esquecendo todos os prazeres, alegrias e interesses, alimentavam intensa paixão e energia para quebrar as asas de toda força que olhasse com hostilidade para a meta e o propósito de suas vidas. Mesmo depois de chegarem ao ar vivificante, aos jardins e ao ambiente incomparável de fraternidade de Medina, jamais, nem por um instante, esqueceram a dor de Meca para dormir despreocupadamente e respirar aliviados. Seu olhar jamais se desviava das espadas dos poderosos de Meca, pois não havia garantia de quando seriam vítimas de um ataque surpresa. Nem o Mensageiro de Deus (que a paz esteja sobre ele) demonstrou qualquer negligência na adoção de medidas defensivas, nem seus companheiros falharam no cumprimento de suas responsabilidades. Eles não eram ascetas nem monges; pelo contrário, eram pessoas extremamente perspicazes e trabalhadoras, que desejavam construir um mundo novo. Entre pessoas que fizeram história como essas, não faltavam inteligência e discernimento para responder à força dos adversários mediante o emprego de uma força equivalente.
A estratégia defensiva do Mensageiro de Deus (que a paz esteja sobre ele)
Vejamos agora quais estratégias defensivas o Mensageiro de Deus (que a paz esteja sobre ele) adotou.
Os emigrantes que chegaram a Medina com o Mensageiro de Deus (que a paz esteja sobre ele) não eram pessoas que buscavam apenas um lugar de paz e segurança para si mesmas. Tampouco haviam deixado sua terra natal para realizar alguma ambição econômica. Pelo contrário, tinham vindo em busca de um objetivo mais elevado e nobre. Sem esquecer esse objetivo, não se dedicaram a garantir seu próprio futuro nem a realizar ambições econômicas. O Mensageiro de Deus (que a paz esteja sobre ele) os reassentou de maneira organizada e estabeleceu uma fraternidade social e econômica entre eles e os Ansar. Em seguida, integrou-os à disciplina organizacional por meio do centro cultural baseado na mesquita. Iniciou imediatamente seu treinamento mental, prático e moral mediante a adoração, a pregação, o ensino do Alcorão e outros métodos, e ampliou e desenvolveu esse trabalho com extrema rapidez e agilidade. Ao mesmo tempo, uniu-os por meio da administração estatal. Assim, aqueles emigrantes sem recursos, unindo-se aos Ansar, transformaram-se em uma força invencível, e essa força foi se tornando cada vez mais sólida. Em outras palavras, eles foram preparados dando prioridade à força humana.
A propósito, é muito importante comunicar aqui uma informação relevante. Medina, assim como Meca, era um lugar extremamente adequado do ponto de vista defensivo. Além disso, a localização geográfica de Medina era tão excelente que ela se encontrava exatamente diante de importantes regiões da Síria e do Iraque. Situava-se junto à melhor rota comercial da Arábia e a apenas 70 ou 75 milhas do mar. Essa cidade era como uma sólida fortaleza de defesa natural. Um pouco de vigilância, a organização de seus habitantes e uma estratégia defensiva apropriada poderiam torná-la ainda mais forte. A cidade de Medina estendia-se por uma planície de aproximadamente dez milhas de comprimento por dez milhas de largura, com pequenos povoados de diferentes tribos espalhados a certa distância uns dos outros. Essa região era chamada de “o ventre de Medina” e de “haram”, ou área proibida. No meio desse terreno irregular havia o monte chamado Sala e vários outros montes pequenos. Os dois montes de Ir e Sur cercavam-no. Nos povoados tribais havia sólidas estruturas naturais de defesa chamadas ajam e atam. Em certa época, havia até cem estruturas desse tipo.
A parte de Medina conhecida como «Madinat an-Nabi» situava-se no centro da cidade. Nessa parte encontravam-se a Mesquita do Profeta, as residências da família do Profeta e a capital. Ao sul havia densos jardins; a sudeste ficavam os povoados de Quba e Awali, juntamente com seus jardins e pomares. A leste, desde Quba até Uhud, estendiam-se de leste a oeste os bairros judeus. Também a sudoeste havia numerosos povoados e jardins. Perto do portão chamado Bab ash-Shami, na antiga muralha de Medina, vivia a tribo Banu Sa’ida (em cujo pátio coberto foi concluída a nomeação do primeiro califa). Mais adiante, sobre o monte Sala, vivia a tribo Banu Haram. A noroeste, junto à margem do Wadi al-Aqiq, até Bir Rumah, havia numerosos jardins; ao sul, elevavam-se altas montanhas, e entre muitas terras altas e planícies passavam caminhos difíceis. A leste e ao sul de Medina havia terrenos pedregosos. Esses terrenos não eram adequados para a instalação de acampamentos militares nem para servirem como campo de batalha. Somente pelo lado norte a cidade permanecia militarmente aberta. Por isso, os coraixitas escolheram esse lado para travar as batalhas de Badr e Uhud. No entanto, atacar Medina pelo norte era militarmente complicado para os soldados de Meca e vantajoso para Medina.
Entretanto, para aproveitar a posição de Medina e suas vantagens ambientais, era indispensável colocar toda a sua população sob uma ordem comum. Para esse fim, a segunda maior realização do Mensageiro (s.a.w.) foi ter colocado, por meio de um tratado, os judeus, os Aws, os Khazraj e as demais tribos sob uma mesma ordem, apesar de suas diferenças religiosas, culturais e econômicas. Transformar, em poucos meses e num ambiente totalmente desconhecido, pessoas que se opunham umas às outras numa mesma unidade política, isto é, em cidadãos de um Estado, foi um brilhante testemunho de sua perspicácia e competência políticas. Um testemunho ainda maior de sua habilidade foi o fato de que, na constituição escrita dessa unidade política ou Estado, todos os poderes de julgamento, elaboração das leis, condução da guerra e crítica foram claramente confiados ao Mensageiro (s.a.w.), refletindo nela o princípio fundamental da soberania de Allah. Todos os participantes desse documento político foram levados a comprometer-se com o seguinte: os politeístas e judeus que se unissem às tribos árabes seriam seguidores dos muçulmanos e seus aliados em tempos de guerra. Eles também não protegeriam as vidas e os bens dos coraixitas de Meca, nem impediriam os muçulmanos quando estes atacassem os coraixitas. Ficou igualmente reconhecido que a guerra e a paz seriam assuntos coletivos. Qualquer guerra seria uma guerra de todos, e a participação nas operações militares seria necessária e obrigatória para todos. Contudo, cada aliado arcaria por si mesmo com os custos da guerra em sua própria área. Com os judeus, ficou estabelecido de maneira inequívoca que, com aqueles com quem os muçulmanos fizessem acordos e tratados de paz, os judeus também fariam acordos e tratados de paz. Eles participariam igualmente da defesa de Medina. Se alguém atacasse os muçulmanos, os judeus os ajudariam. Em contrapartida, se alguém atacasse os judeus, os muçulmanos os ajudariam. (Ahde Nabawi Men Nizame Hukmrani, Dr. Hamidullah Siddiqi)
As cláusulas relacionadas a esse assunto no documento constitucional de Medina mostram que o Mensageiro (s.a.w.) sentia uma clara ameaça de agressão militar por parte dos coraixitas e, para enfrentá-la, tomava politicamente as medidas adequadas de resistência preventiva.
Declarar Medina um haram, isto é, uma cidade segura ou «Cidade da paz», foi uma medida extremamente importante. Essa decisão também foi registrada naquele documento constitucional. Seu significado religioso era que todo o ambiente era sagrado e que respeitá-lo constituía um dever indispensável de seus habitantes. Seu significado político era que, assim como os coraixitas estavam protegidos numa cidade segura, o Mensageiro (s.a.w.) também proporcionou aos cidadãos do Estado de Medina um lugar seguro para viver. Assim, sob esse aspecto, a situação de Meca e Medina tornou-se equivalente. Com isso, lançou-se aos habitantes de Meca um desafio implícito: se violardes a santidade de Medina e cometerdes excessos contra seus habitantes, também não podereis permanecer ilesos dentro do cinturão de segurança e santidade de Meca.
O cinturão de segurança de Medina também demarcava os limites da sede ou capital do governo islâmico. O Mensageiro (s.a.w.) dedicou especial atenção à demarcação permanente desses limites. Ele ordenou a Ka’b ibn Malik que construísse altos minaretes nos quatro limites de Medina. Em cumprimento dessa ordem, ele ergueu pilares simbólicos em vários pontos: sobre a colina de Dhat al-Jaish (que se encontra junto ao monte Hufaira, situado no meio de Bayda, na estrada entre Meca e Medina), em Hushairib (ligado a Dhat al-Jaish), no monte Makhiz (no caminho da Síria), em Hufayya (na floresta ao norte de Medina), no local chamado Dhu Ushair (situado na margem de Hufayya) e no monte Taim (a leste de Medina). Seus restos ainda existem. Esse cinturão demarcado tinha aproximadamente um manzil de comprimento e um manzil de largura. (Ahde Nabawi ke Maidan-haye Jang, Dr. Hamidullah Siddiqi, pp. 11–12)
Depois de estabelecer a ordem interna de Medina, o Mensageiro (s.a.w.) voltou imediatamente sua atenção para as tribos vizinhas. Ele viajou várias vezes pela região sudoeste de Medina e pelas áreas costeiras do mar Vermelho. Primeiro, visitou um lugar chamado Dhu’an. Este ficava a sete milhas de al-Abwa, na estrada para Meca. Ali, estabeleceu uma aliança com os Banu Hamza. Do mesmo modo, concluiu rapidamente tratados com as tribos que viviam nos arredores de Yanbu. Nessa importante região política, obteve, no primeiro ano da Hégira, o apoio da tribo Juhaina; no início do segundo ano da Hégira, o dos Banu Damra, Banu Zur’a e Banu Rabia; e, no final do segundo ano da Hégira, também o dos Banu Mudlij. Com algumas tribos, chegou-se a concluir um tratado de defesa mútua: se elas fossem atacadas, os muçulmanos as ajudariam, e, se os muçulmanos fossem atacados, elas os ajudariam. Em alguns tratados, impôs-se apenas a obrigação de não manter amizade com os inimigos do Mensageiro (s.a.w.). Em outros, obteve-se somente o reconhecimento da neutralidade: se algum inimigo estivesse em guerra com o Estado islâmico, a tribo signatária permaneceria neutra. Isso significa que a visão política do Mensageiro (s.a.w.) possuía considerável flexibilidade. (Ahde Nabawi ke Maidan-haye Jang)
Esse ambiente de amizade abriu o caminho para a expansão do Islã entre todas essas tribos; e não é necessário explicar que, por causa disso, numerosos apoiadores e ativistas do movimento islâmico se formaram nessas tribos.
Mais tarde, essa estratégia política do Mensageiro (s.a.w.) tornou-se um princípio próprio, e ele viajava para cada região com esse objetivo. Fosse para uma expedição militar ou para uma missão de patrulha, sempre que saía de Medina, a expansão das relações de amizade fazia parte de seus objetivos. Não apresentarei aqui os detalhes; haverá oportunidade para isso mais adiante. Em resumo, porém, direi apenas que estabelecer relações de amizade era um meio extremamente eficaz de enfraquecer o inimigo, fazer o movimento islâmico avançar, fortalecer a própria política de defesa e ampliar as fronteiras do Estado.
Paralelamente a todas essas estratégias, o Mensageiro de Deus, que convocava à revolução islâmica, e seus companheiros haviam compreendido devidamente esta realidade: a existência da pequena ilha que haviam encontrado, onde mal conseguiam manter a cabeça acima da água em meio a um mar assolado por tempestades, estava sempre ameaçada. Portanto, ou teriam de inverter o curso da tempestade e acalmar o mar, ou então essa ilha também desapareceria para sempre no oceano como uma bolha. Eles se transformaram com extrema rapidez em uma força militar. Compreendiam tão perfeitamente as novas exigências do movimento islâmico diante das circunstâncias cambiantes que desenvolviam imediatamente em si mesmos a capacidade necessária para avançar às novas etapas. Quando o chamado ao jihad foi feito em Medina, não hesitaram nem por um segundo em passar de sua condição anterior ao novo papel. Nenhum deles jamais pensou: somos pregadores e oradores; o que temos nós a ver com guerras e combates? Isso é tarefa dos políticos mundanos e dos conquistadores de Estados. Será que tais coisas são apropriadas para reformadores como nós? Política e governo, ou guerras e combates, não podem ser tarefas dos pregadores religiosos!
A tarefa dos pregadores seria simplesmente permanecer sofrendo golpes e dar o máximo exemplo de paciência. Se o grupo islâmico de Medina tivesse pensado assim, o movimento islâmico teria sido encerrado ali mesmo. Nenhuma força externa teria sido necessária para destruí-lo.
Esses poucos companheiros eram hábeis tanto na propagação de sua religião quanto na defesa do Estado islâmico fundado sobre essa religião, sendo também os soldados mais devotados e abnegados. Tomaram medidas imediatas para se transformarem em soldados bem organizados. Medina, que era uma cidade segura, uma escola e um centro de prática da civilização islâmica, também se transformou em uma sólida base militar.
Da parte de Deus, recaiu sobre o Mensageiro de Deus, que a paz esteja com ele, a responsabilidade de um comandante militar. Ele desempenhou essa responsabilidade com tamanha excelência que, somente sobre esse tema, poderiam ser escritos inúmeros livros extensos.
A organização das patrulhas e seus objetivos
O grande chefe de Estado do Estado de Medina começou a enviar tropas para patrulhar as áreas circunvizinhas apenas quatro ou seis meses após a Hégira. Antes da Batalha de Badr, foram enviadas as seguintes tropas:
1. Um grupo de 30 soldados, sob o comando do comandante Hamza ibn Abd al-Muttalib, foi enviado em direção ao lugar chamado Saiful Bahr. Seu objetivo era observar os movimentos do inimigo. Abu Jahl havia saído de Medina com trezentos homens, mas, ao ver os muçulmanos em posição de vigilância, voltou. (Isso ocorreu no Ramadã do primeiro ano da Hégira.)
2. Uma tropa de 60 homens, sob o comando de Abu Ubaida ibn al-Harith, foi enviada para obter informações sobre a situação militar dos habitantes de Meca. Duzentos homens do inimigo foram encontrados em um lugar chamado Thanıyat al-Marra, sob o comando de Ikrimah ou de Abu Sufyan. Essa tropa realizou a patrulha e retornou em segurança. (Isso ocorreu em Shawwal do primeiro ano da Hégira.)
3. Um destacamento de 80 homens, sob a liderança de Sa‘d ibn Abi Waqqas, foi enviado até Juhfa para realizar patrulhamento. Eles retornaram sem lançar nenhum ataque. (Dhul-Qi‘dah, 1º ano da Hégira)
4. O próprio Mensageiro (que a paz esteja com ele) dirigiu-se à região de Abwa com 70 homens. A rota comercial dos coraixitas passava justamente por Abwa. O Mensageiro (que a paz esteja com ele) celebrou um acordo com ‘Amr ibn Fahshi al-Damri e retornou sem nenhum confronto. (Safar, 2º ano da Hégira)
5. O próprio Mensageiro (que a paz esteja com ele) dirigiu-se a Bu‘ath com 200 soldados (a região das montanhas de Rajwi, próxima de Yanbu‘). No caminho, encontrou uma caravana coraixita de cem homens, liderada por Umayya ibn Khalaf. Contudo, nenhum desafio foi lançado. (Isso ocorreu em Rabi‘ al-Awwal, 2º ano da Hégira)
6. Quando Kirz ibn Jabir al-Fihri roubou e levou os animais de Medina, o Mensageiro (que a paz esteja com ele) o perseguiu com 70 soldados. Kirz escapou com vida. Essa perseguição, porém, provou que Medina era uma força sempre vigilante e permanentemente ativa. (Rabi‘ al-Awwal, 2º ano da Hégira)
7. O Mensageiro (que a paz esteja com ele) partiu com uma força de 150 homens para Dhu al-‘Ushayra (próxima de Yanbu‘, entre Meca e Medina) e ali celebrou acordos com os Banu Madlaj e os Banu Damra. (Jumada al-Thani, 2º ano da Hégira).
8. Um destacamento de 125 homens, sob a liderança de ‘Abdullah ibn Jahsh, foi enviado para patrulhar em direção a Nakhla. Essa força entrou em confronto com uma força dos coraixitas. (Rajab, 2º ano da Hégira)
Todas essas expedições militares não eram enviadas com o objetivo de provocar confrontos. Pelo contrário, quando ocorreu em Nakhla um confronto contrário à política estabelecida de Medina, sob a influência das circunstâncias imediatas, o Mensageiro (que a paz esteja com ele) expressou seu descontentamento, libertou os prisioneiros e pagou uma compensação pelo homem morto. Essas expedições tinham ainda outros objetivos mais amplos, tais como:
Patrulhar as fronteiras do Estado de Medina, monitorar os movimentos do inimigo e informar aos coraixitas e às demais tribos que, em Medina, um governo estava agora devidamente estabelecido e que Medina era sua capital. Fazer com que os voluntários do grupo revolucionário muçulmano se familiarizassem com as áreas circundantes, os povoados e sua situação interna, as estradas e os reservatórios de água. Treinar o comando militar, o cumprimento das responsabilidades durante o exercício do comando, a distribuição mútua das responsabilidades, a divisão do tempo, a elaboração de estratégias e a tomada rápida de decisões. Pois, sem isso, nenhum sistema de defesa pode funcionar. Além disso, pretendia-se informar aos coraixitas que sua economia havia agora passado ao controle de Medina. Os muçulmanos podiam, quando quisessem, bloquear suas rotas comerciais e interromper a passagem de suas caravanas. Cabe mencionar que o Mensageiro (que a paz esteja com ele) havia viajado a Busra e Medina durante a infância e novamente à Síria na juventude. Nessa época, ele compreendera a importância geográfica e política de Medina e familiarizara-se com as rotas comerciais dos coraixitas. Com base nessa experiência adquirida anteriormente, não encontrou dificuldade em formular uma política de intimidação e pressão. Por outro lado, por ser um dos coraixitas e, especialmente, um comerciante, o Mensageiro (que a paz esteja com ele) conhecia a principal fonte de renda dos coraixitas. Mesmo deixando de lado o comércio de Ta’if, Iêmen e Najran, os coraixitas obtinham anualmente duzentos e cinquenta mil ashrafis somente do comércio com a Síria e o Iraque. (Tafhim al-Qur’an)
Essas tropas eram enviadas sob um plano de treinamento que procurava preparar os soldados para conduzir a guerra, de modo que pudessem atuar e manter-se ativos como uma máquina sob um comando central, recebessem treinamento para marchar em fileiras, aprendessem a utilizar bandeiras e símbolos militares e desenvolvessem a capacidade de cumprir a oração, o jejum e as demais normas da Sharia mesmo em situações difíceis. Além disso, ele estabeleceu um sistema sólido de coleta de informações. Graças a isso, podia acompanhar a situação de Meca, das tribos vizinhas e das áreas fronteiriças. Também organizou a proteção e a vigilância da capital e dos órgãos centrais do governo.
Essa era a situação de ambos os lados, em razão da qual os coraixitas decidiram provocar a Batalha de Badr.
Duas razões concretas
Não há dúvida de que as condições estavam completamente preparadas para uma guerra. O saque cometido por Kirz ibn Jabir al-Fihri foi, sem dúvida, um desafio de guerra para Medina. Afinal, nenhum governo vivo e vigilante pode interpretar, dentro de suas próprias fronteiras, uma intrusão criminosa de estrangeiros de outra forma que não como um ataque. Além disso, ocorreu o incidente de Nakhla. Embora esse incidente tenha sido semelhante a um confronto fronteiriço, do tipo que ocorre entre soldados de dois países sem a autorização dos governos e dos comandantes militares, ele proporcionou aos habitantes de Meca uma oportunidade de ouro para fazer propaganda caluniosa. Eles fizeram grande alarde, dizendo: “Estão vendo? Os porta-estandartes da nova religião chegaram até a violar a santidade dos meses sagrados!” Enquanto isso, o Mensageiro (que a paz esteja com ele) libertou os prisioneiros capturados naquele incidente, pagou o preço de sangue pelo homem morto e, como chefe do governo do Estado Islâmico, eximiu-se da responsabilidade por aquele acontecimento. Ao mesmo tempo, porém, o Alcorão refutou a propaganda dos habitantes de Meca, afirmando que, embora a guerra nos meses sagrados não seja correta, impedir as pessoas de aceitar a religião de Deus, expulsá-las da Mesquita Sagrada e obstruir o trabalho de reforma da humanidade é um ato ainda pior do que a guerra e o assassinato. Se os muçulmanos empunhassem armas para extirpar essas más ações, isso seria uma obra benéfica da parte deles. Um aspecto positivo do incidente de Nakhla foi que os coraixitas recobraram a consciência. Compreenderam que aqueles a quem haviam expulsado, deixando-os sem nada, e que consideravam uma presa fácil, eram capazes de responder a uma pedra com outra ainda maior. Mesmo assim, os propagandistas de Meca extraíram do incidente de Nakhla combustível para alimentar o fogo da ira.
Três necessidades dos coraixitas
Os coraixitas tinham diante de si três grandes problemas para atacar Medina. Primeiro, obter a cooperação dos Banu Kinana. Segundo, conseguir combatentes para a guerra. Terceiro, custear a guerra. Já mencionei anteriormente como o primeiro problema foi resolvido. O segundo foi solucionado por meio de um acordo com os Ahabish. Perto de Meca há uma montanha chamada Hubshi. As tribos Banu Nadir, Banu Malik, Mutayyirin e outras, que viviam nas proximidades dessa montanha, estabeleceram entre si relações de aliança. Elas foram chamadas de Ahabish. Em comparação com os habitantes de Meca, os Ahabish possuíam muito mais capacidade guerreira. Não atuavam apenas com base na aliança, mas também como soldados mercenários. Contudo, devido à pressa, não foi possível levá-los à Batalha de Badr. Ao verem o resultado da Batalha de Badr, os líderes coraixitas tiveram de se arrepender desse erro. Por outro lado, os coraixitas já haviam chegado a um entendimento com a tribo judaica Banu al-Mustaliq, formada por doze ramos. (Rahmatul-lil-Alamin)
O terceiro problema foi resolvido da seguinte maneira: os habitantes de Meca forneceram grande quantidade de capital à caravana comercial dos coraixitas que viajava para a Síria para fins de comércio. Até mesmo as donas de casa trouxeram suas joias e outras economias. Segundo o testemunho de Abu Sufyan, não havia em Meca homem ou mulher que não tivesse participado desse empreendimento. (Sirat-un-Nabi, Shibli, volume 1, p. 292.) O objetivo era investir o máximo de capital, obter o maior lucro possível e usar esses ganhos para conduzir a guerra e destruir o Estado Islâmico de Medina.
A caravana comercial era a força avançada da guerra
Não é preciso dizer que, além dos demais preparativos para a guerra — cujas notícias o Mensageiro de Allah (s.a.) recebia imediatamente —, a adoção dessa estratégia significava que a caravana comercial dos coraixitas era, na realidade, a vanguarda de uma expedição militar. Em outras palavras, essa caravana havia saído para obter espadas de ouro destinadas a cortar a garganta do movimento islâmico. Quando a situação é assim, até hoje nenhum governo civilizado do mundo permitiria que um adversário se deslocasse em segurança por vias terrestres, marítimas ou aéreas próximas às suas fronteiras. Aeronaves são abatidas a tiros, navios são interceptados ou destruídos com torpedos, bens são confiscados, o serviço postal é obstruído e as transações comerciais são interrompidas. Por que somente ao Estado islâmico de Medina se fazia a exigência sem precedentes de que ele deveria conceder ao seu adversário liberdade para cravar uma faca em seu próprio peito? Por que, por não conceder isso, suas ações defensivas eram chamadas de pilhagem? Sendo do conhecimento de todos que, por não haver alianças baseadas em tratados, as rotas comerciais passavam justamente pelas áreas sob a autoridade de Medina, por que razão seria apropriado que o governo islâmico permitisse ao inimigo transitar por seu próprio território?
Não há necessidade alguma de justificar o interesse demonstrado em Medina por atacar essa caravana. Não havia qualquer fundamento para considerar tal ataque, em qualquer medida, um pecado político ou defensivo. Se os muçulmanos tinham a intenção de atacar essa caravana, ela era inteiramente justa. Se Abu Sufyan havia concebido esse tipo de temor, isso era completamente natural. Em um ambiente marcado por semelhante apreensão, devido a alguma iniciativa de Medina, espalhou-se antecipadamente o rumor de que estavam sendo feitos preparativos para atacar a caravana. Por sua vez, Abu Sufyan já havia sondado a situação em Medina quando fora para a Síria e, no caminho de volta, avançava com extrema cautela. Depois de observar a situação, quando percebeu que havia atividades misteriosas em andamento e que o perigo era iminente, enviou um mensageiro a Meca para pedir auxílio militar e mudou a rota da caravana. Ao chegar a Meca, o mensageiro, seguindo o costume particular dos árabes, cortou as orelhas dos camelos, fendeu-lhes os narizes, virou as selas sobre o dorso dos animais, rasgou a própria roupa e, nu como mandava a tradição, começou a gritar: “Ó habitantes de Meca, saiam para salvar sua caravana das mãos de Muhammad (s.a.); não demorem tanto que a caravana seja destruída antes de vocês chegarem.” Esse conhecido método teatral de clamor provocou enorme agitação em toda Meca. Em pouco tempo, formou-se um grande exército. Todos os líderes idosos, exceto Abu Lahab, estavam pessoalmente presentes nessa força, e todos estavam armados. O objetivo dos comandantes do exército não era apenas resgatar a caravana e levá-la de volta; pelo seu comportamento, parecia que queriam, na primeira oportunidade, eliminar o poder muçulmano e livrar-se para sempre daquele incômodo.
Se, naquele momento, o poder muçulmano demonstrasse a menor fraqueza, permanecesse inerte e não empreendesse nenhuma ação militar, isso não apenas daria à caravana a oportunidade de chegar em segurança a Meca, como também permitiria que o exército coraixita entrasse no território de Medina, exibisse sua bravura e retornasse em segurança. O resultado seria o desaparecimento completo da influência e do prestígio daquele jovem Estado islâmico. A arrogância e o orgulho dos hipócritas e das forças judaicas de Medina aumentariam ainda mais; aos olhos das tribos vizinhas, o Estado islâmico deixaria de ter qualquer importância e, longe de poder ampliar alianças, teria dificuldade até para proteger a vida, os bens e a honra de seus poucos cidadãos. Uma força envolvida em conflitos e confrontos precisa atravessar muitas etapas: apesar da escassez de sua população e de seus recursos e de enfrentar problemas difíceis, deve aceitar com extrema coragem o desafio da situação. Oportunidades desse tipo surgem muito raramente. Quando surgem, se não forem aproveitadas devidamente e se a responsabilidade do momento não for cumprida com coragem, pode-se ser obrigado a recuar de maneira tão desastrosa que, mesmo depois de muitos anos, já não será possível reparar o dano. Às vezes, ao ficar para trás em relação ao tempo, todo o empreendimento pode ser arruinado para sempre. Quando chega um momento de conflito histórico desse tipo, não se tomam decisões nem se planeja uma campanha apenas com base no número de soldados e na quantidade de armas, munição e suprimentos. Considera-se também que, se ficar para trás no curso do tempo, o fluxo da história não passe por cima de nós. Na realidade, é em situações assim que a qualidade da liderança é testada e a capacidade dos seguidores é avaliada. Um momento histórico desse tipo havia chegado a Medina. Se o pequeno Estado islâmico tivesse força suficiente, não deveria permitir que a caravana seguisse em segurança, nem deveria deixar de dar ao exército coraixita uma lição adequada. Mas realizar as duas coisas ao mesmo tempo estava além de sua capacidade. Por isso, a decisão de Allah era que um dos dois deveria ser derrotado. Allah queria que, caso houvesse uma guerra, ela ocorresse de tal modo que demonstrasse a verdade como verdade e a falsidade como falsidade, arrancando pela raiz o kufr.
O Mensageiro (s.a.) era informado, por meio de seu próprio sistema de espionagem, sobre os movimentos tanto da caravana quanto do exército. Finalmente, convocou uma assembleia consultiva em Wadi Safran. Apresentou diante da assembleia um panorama de toda a situação e perguntou se o exército muçulmano tinha força e coragem para assumir um risco considerável. [Entre os autores de biografias do Mensageiro de nossa época, surgiu uma acirrada divergência a esse respeito: o Mensageiro (s.a.) teria convocado em Medina uma reunião especial dos Muhajirun e dos Ansar e partido para combater o exército coraixita, deixando de lado a caravana; ou teria saído de Medina com a intenção de atacar a caravana e, depois, ao chegar a Wadi Safran e descobrir que ela havia seguido por outro caminho, convocado ali mesmo uma reunião de emergência e decidido lutar contra o exército coraixita? A razão dessa controvérsia é a acusação abominável, feita por orientalistas, de que o governo de Medina — que Deus nos livre — procurava resolver a crise econômica por meio de saques. Por isso, contrariando inteiramente as obras de exegese, hadith e história, tentou-se provar que o Mensageiro (s.a.) não havia saído com um exército para atacar a caravana, mas que, permanecendo em Medina, havia deliberado e decidido lutar contra o exército coraixita. O principal defensor dessa perspectiva foi o Maulana Shibli Nu’mani. Ele considerava que o Alcorão também apoiava sua opinião. Contudo, nem o Alcorão, nem as narrativas confiáveis, nem o curso dos acontecimentos apoiam sua opinião, e a acusação que deu origem a essa controvérsia também não é correta. Trataremos dessa discussão detalhadamente no lugar apropriado, se Deus quiser. Na realidade, a segunda perspectiva é a correta.] Ele próprio tinha a coragem e a determinação de empregar, numa luta de vida ou morte, toda a força e capacidade de que dispunha. Apresentou diante da assembleia consultiva as duas possibilidades: de um lado, o exército coraixita; de outro, a caravana comercial. Deveria ser atacado um deles. Um grande número de Companheiros apoiou a proposta de atacar a caravana. Conforme a indicação do Alcorão, entre eles havia pessoas inclinadas a seguir o caminho relativamente mais fácil, para as quais o interesse financeiro tinha grande importância. O Mensageiro (s.a.) voltou a fazer a pergunta. Isso significava que ele não era favorável ao ataque à caravana. Compreendendo essa indicação, Abu Bakr, Umar e Miqdad ibn Amr, entre os Muhajirun, asseguraram sua cooperação incondicional e disseram: “Para onde quer que você avance seguindo a ordem de Allah, nós estaremos com você. Não ficaremos sentados, como os Filhos de Israel, dizendo: ‘Vá você e seu Deus lutar; nós ficaremos sentados aqui.’” O Mensageiro (s.a.) repetiu novamente sua pergunta. Isso significava que ele queria conhecer a opinião dos Ansar. No Pacto de Aqaba, eles haviam se comprometido apenas a repelir um ataque contra Medina. Haviam saído com o Mensageiro (s.a.) somente para atacar a caravana. Contudo, as circunstâncias posteriores tornaram inevitável uma guerra completa. Por isso, era necessário que ele conhecesse a atitude deles. Compreendendo sua intenção, Sa’d ibn Mu’adh, em nome dos Ansar e tomado de plena emoção de fé, disse: “Aja conforme sua vontade. Estamos prontos até mesmo para mergulhar no mar com você.”
Por fim, no dia 12 de Ramadan do segundo ano da Hégira, o governante do Estado de Medina (s.a.) saiu da cidade pessoalmente, acompanhado de mais de trezentos soldados combatentes — 86 Muhajirun, 170 da tribo Khazraj e 61 da tribo Aws, totalizando 317 homens, embora o número geralmente divulgado seja 313. O Mensageiro (s.a.) partiu com tamanha prudência que parecia demonstrar a intenção de atacar em ambas as direções. Mantinha um olhar voltado para a caravana, para que Abu Sufyan compreendesse que o caminho era perigoso, e outro voltado para o exército coraixita. Contudo, era necessário saber em que direção estava a caravana, em que direção estava o exército e qual era a distância entre ambos. Também não se sabia se havia possibilidade de os dois se reunirem, nem se a caravana havia parado atrás ou seguido em direção à costa marítima. Finalmente, ao chegar a Safra, enviou Bishbish ibn Amr al-Juhani e Adi ibn ar-Ragba em direção a Badr para procurar a caravana. Ele próprio chegou a Wadi Safran. Soube-se que a caravana havia abandonado o caminho de Badr e avançado pela longa rota costeira, já tendo percorrido uma grande distância. Assim, o Mensageiro (s.a.) dirigiu-se para Badr.
Enquanto isso, depois de chegar à região costeira e sentir-se em segurança, Abu Sufyan enviou uma mensagem ao exército coraixita: “Eu e minha caravana estamos agora fora de perigo. Portanto, retornem.” Abu Jahl, porém, estava entregue a um sonho diferente. Estava determinado a ir a Badr e atacar os muçulmanos. Os chefes das tribos de Makhzum e Adi haviam sido trazidos para proteger a caravana de um possível ataque muçulmano. Por isso, começaram a pressionar para que retornassem. Quando não foram ouvidos, voltaram com seus próprios homens. Hakim ibn Hizam e Utba tentaram convencer Abu Jahl a desistir da guerra. Mas Abu Jahl ficou furioso ao ouvir o pedido deles. Insultou violentamente os que defendiam a paz e, ao mesmo tempo, instigou as emoções de Amir, irmão de Hazrami, morto no incidente de Nakhla. Amir provocou grande tumulto com seus gritos e alvoroço. Por fim, o exército coraixita, equipado com vastos preparativos de guerra, chegou ao campo de Badr.
Seguindo o conselho dos Companheiros, o Mensageiro (s.a.) ocupou uma posição relativamente mais vantajosa e, elaborando um plano de batalha adequado, decidiu como dispor o exército. Reuniu informações secretas sobre o número de soldados inimigos e suas figuras importantes. Quando conseguiu conhecer a identidade de cada guerreiro do exército coraixita, disse aos companheiros: “Meca apresentou diante de vocês o seu próprio coração e suas entranhas.” O exército inimigo contava com mil guerreiros. Entre eles, seiscentos usavam armaduras e cem eram cavaleiros. Tinham consigo inúmeros camelos, grande quantidade de armas e provisões. Para entreter os guerreiros, havia numerosos jarros de vinho e grupos de cantoras. Colocar no campo de batalha, para enfrentá-los, pouco mais de trezentos homens sem recursos nem equipamentos foi uma ousadia inconcebível. Um exército é composto de muitos outros elementos além de soldados e armas. O Mensageiro (s.a.) sabia muito bem que, entre os soldados que lançava ao campo na proporção de “um contra três”, estavam ativos o ardor e a energia próprios dos oprimidos; eles possuíam uma confiança inabalável na verdade e na pureza de suas respectivas ideologias e eram superiores em firmeza organizacional e caráter. Estava difundida entre eles a consciência de que a questão não era apenas vencer ou perder uma batalha, mas saber se todo o movimento sobreviveria ou seria destruído. Todo o seu passado, presente e futuro haviam se concentrado no campo de Badr. Acima de tudo, tinham fé absoluta no auxílio de Allah. Esse auxílio de Allah era, a seus olhos, a verdadeira força decisiva. Então, o auxílio de Allah talvez tenha se tornado completamente iminente quando o Mensageiro (s.a.), com os olhos cheios de lágrimas, a voz suplicante e palavras dolorosamente comoventes, fez uma oração:
“Ó Allah, estes são os coraixitas, que vêm correndo, embriagados pelo orgulho de sua nobreza, com o único objetivo de impedir que Teus servos obedeçam a Ti e de desmentir Teu Mensageiro. Ó Allah, envia agora a ajuda que me prometeste. Ó Allah, destrói-os já amanhã.” Depois, ele também disse: “Ó Allah, se hoje estas poucas vidas forem exterminadas, não haverá mais ninguém para Te adorar até o Dia da Ressurreição.” Quando uma personalidade como o Mensageiro (que a paz esteja com ele) coloca no campo todo o patrimônio de seu movimento e bate à porta do Trono de Allah com uma súplica tão comovente, como poderia o exército dos anjos deixar de descer? Assim, nesse momento, chegou verdadeiramente a boa notícia da vitória.
Os resultados da Batalha de Badr
Toda a história dos tempos parecia ter se concentrado no pequeno campo de Badr. As duas forças que moviam essa história, completamente animadas por sua própria consciência e inspiração, assumiram posições frente a frente. De um lado, o sangue fervia em suas cabeças para defender a religião herdada dos antepassados, os antigos costumes e tradições, a liderança e os interesses econômicos. Do outro lado, havia uma inundação de luz que se estendia até o horizonte, desejosa de espalhar por todos os campos da vida humana a nova aurora que resplandecia no céu de Medina e que considerava uma sagrada obrigação rasgar o peito das trevas da jahiliyyah. Nessa batalha, pais e filhos, tios e sobrinhos, irmãos, sogros e genros — todos esqueceram os laços de sangue e se posicionaram frente a frente para defender seu próprio ideal de vida. Nesse contexto, os ansares apoiaram integralmente o Mensageiro (que a paz esteja com ele), de corpo e alma, embora soubessem que poderiam tornar-se alvo das flechas e espadas de toda a Arábia. Foi uma prova extremamente difícil. Os amados companheiros do Mensageiro foram aprovados nessa prova e demonstraram ser os porta-estandartes sinceros e abnegados do movimento islâmico. Pelos resultados inimagináveis, essa batalha não tem paralelo na história da humanidade. Pode-se dizer que, na história, foi mais um exemplo da destruição de um exército de elefantes pelas mãos de um bando de pássaros ababil. A batalha ocorreu no dia 17 de Ramadan. Vinte e dois bravos guerreiros do exército islâmico deram a vida por seu ideal, demonstrando que eram testemunhas fiéis da mais sublime verdade. Por outro lado, mataram setenta guerreiros inimigos e, sem permitir que nenhum dos seus fosse capturado, fizeram mais setenta prisioneiros de guerra. Além disso, apoderaram-se de uma grande quantidade de espólio. Utba, Shaiba, Abu Jahl, Abul-Bukhtari, Zam’a ibn al-Aswad, As ibn Hisham, Umayya ibn Khalaf, Munabbih ibn al-Hajjaj e muitos outros renomados chefes coraixitas tornaram-se vítimas das espadas dos mujahidin muçulmanos. As fileiras dos soldados inimigos que lutavam sob sua liderança foram completamente desbaratadas. Na realidade, já nessa primeira batalha, a espinha dorsal dos coraixitas foi quebrada e seu orgulho de poder foi esmagado. Como resultado dessa batalha, o movimento islâmico subitamente adquiriu a capacidade de erguer a cabeça e lançar o olhar para o novo mundo do futuro. Por isso, o Alcorão chamou o dia da Batalha de Badr de ‘Yawm al-Furqan’, isto é, a pedra de toque que separa e distingue a verdade da falsidade. Na realidade, foi essa batalha que decidiu se o sistema jahilita amado pelos coraixitas permaneceria e seria digno de permanecer, ou se o Islã apresentado por Muhammad (que a paz esteja com ele) era o que tinha direito a permanecer. Por isso, o Alcorão declarou em sua análise que, entre esses dois ideais, agora somente aquele que possui uma prova irrefutável da legitimidade de sua própria permanência tem o direito de sobreviver. E o povo também aceitará, com base em provas, qualquer um dos dois ideais que desejar adotar. Depois, se quiser, será lançado no profundo abismo da destruição; e, se quiser, elevar-se-á às sublimes alturas do Islã.
Os prisioneiros foram libertados mediante um resgate de quatro mil dirhams por pessoa. (De alguns chefes foi cobrado um resgate ainda maior.)
Assim, os coraixitas tiveram de pagar uma multa superior a duzentos e cinquenta mil dirhams. Esse golpe econômico debilitou ainda mais seu poder. Politicamente, a repercussão desse resultado inesperado de Badr — segundo a perspectiva dos coraixitas — foi que a importância e o prestígio do movimento islâmico e do Estado Islâmico de Medina aumentaram muito aos olhos das tribos árabes. Essa força tornou-se digna de ser considerada o centro das esperanças para o futuro. (Segundo um relato,) algumas tribos judaicas de Medina só aderiram ao pacto constitucional de Medina depois da Batalha de Badr, e não antes. Um grande número de habitantes de Medina abraçou o Islã depois dessa batalha. Foi somente após a Batalha de Badr que o Islã se transformou, em sentido pleno, em um Estado Islâmico amplamente reconhecido e amado pelo povo. O Altíssimo Allah diz: “Lembrai-vos do tempo em que éreis muito poucos em número. Éreis considerados fracos na terra e temíeis que as pessoas vos exterminassem. Então Allah vos proporcionou um refúgio, fortaleceu-vos com Sua ajuda e concedeu-vos boas provisões, para que fôsseis agradecidos.” (Surata Al-Anfal, 26)
Este versículo esclarece, na realidade, as duas principais fases do movimento islâmico em todas as épocas. Uma é a fase de escassez numérica, fraqueza e medo. A outra é a fase de força, poder, vitória, sucesso e prosperidade econômica. No Islã, assim como a primeira fase é natural e inevitável, a segunda também é natural e inevitável. Esse é o resultado lógico de um começo desse tipo. Porém, a concepção do Islã que mantém indivíduos e povos permanentemente na primeira condição, satisfazendo-os e acomodando-os nela, sem abrir caminho para avançarem rumo à brilhante era futura, não é o Islã ensinado pelo Mensageiro (que a paz esteja com ele); tal concepção surge, ao contrário, do afastamento e da distorção desse ensinamento.
Nesse momento, os incrédulos foram desafiados com uma exortação: “Se desejais uma decisão clara, eis que a decisão chegou diante de vós. Agora, recuai. Isso será melhor para vós. Mas, se voltardes a cometer essa tolice, também voltaremos a ensinar-vos uma lição.” ………..” (Surata Al-Anfal, 19.) Em seguida, dirigindo-se à nação muçulmana, foi dito: vede, nem sequer se trata de soltar o cinturão do inimigo. Ao contrário, não deveis cessar enquanto não deixardes impotentes e incapazes aqueles que iniciaram a guerra contra vós: “Continuai a combatê-los até que a perseguição, a corrupção e a desordem desapareçam e todos se submetam unicamente a Allah.” (Al-Anfal, 39.) Em outras palavras, o trabalho de estabelecer a religião não pode alcançar sua plenitude sem apagar completamente o fogo da guerra que os coraixitas acenderam.
A diferença entre as duas forças
A razão pela qual Allah, o Altíssimo, chamou a Batalha de Badr de “Yawm al-Furqan”, isto é, “o dia da distinção e da separação entre a verdade e a falsidade”, e pela qual foi dito: “Eis que a decisão chegou”; a razão pela qual se afirmou na Surata آل عمران que há uma lição para vós no confronto entre os dois exércitos, e pela qual foi dito que nisso há uma lição para os que possuem discernimento, é, na verdade, que o confronto entre esses dois exércitos tornou evidente uma enorme diferença ideológica e moral. Um dos exércitos, esquecendo os interesses e objetivos mundanos, bem como as distinções tribais e genealógicas, lançou-se numa luta de vida ou morte unicamente no caminho de Allah, para promover o verdadeiro bem-estar da humanidade; enquanto o outro avançou movido pela liderança, pelo domínio, pela nobreza de linhagem, pelos interesses políticos e pelo fanatismo cego. O primeiro exército entrou no campo humildemente diante de Allah, ocupado com a oração, o rukūʿ e o sujūd, tendo como objetivo a satisfação de Allah. Um exército avançou desfrutando de grandes banquetes, reuniões regadas a vinho, sessões de música e dança, e apresentações de dançarinas. O outro exército chegou ao campo, apesar de sua inferioridade numérica e da escassez de armas e equipamentos, numa posição muito mais firme e forte em termos de fé, união, disciplina e caráter. Um exército era numeroso e poderoso em equipamentos, mas extremamente fraco e incapaz em força moral. Então Allah estabeleceu entre os dois um veredito tão claro de vitória e derrota que até os cegos podiam ver qual lado merecia ser aniquilado e qual lado merecia permanecer, florescendo e frutificando. Ao observar alguns acontecimentos, essa diferença se torna ainda mais clara.
Naquele momento, dois jovens muçulmanos chamados Abu Hudhayfa ibn al-Yaman e Abu Hiyal estavam indo de Meca para Medina. No caminho, os incrédulos bloquearam sua passagem e disseram: “Não permitiremos que vades ajudar Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz.” Eles foram liberados depois de se comprometerem a não participar da batalha. Ao chegarem até o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, relataram todo o ocorrido. Como os muçulmanos eram tão poucos, a situação naquele momento era tão delicada que até mesmo receber a ajuda de uma formiga teria sido considerado valioso. Ainda assim, o Mensageiro de Allah decidiu: “Deveis cumprir plenamente a promessa que fizestes. Allah, o Altíssimo, nos ajudará por Si mesmo.” Quantos exemplos tão gloriosos podem ser encontrados na história?
O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, cavou uma cova e nela sepultou os cadáveres dos líderes coraixitas mortos na Batalha de Badr. Ele não permitiu que nenhum cadáver fosse profanado.
Quanto aos despojos de guerra, era costume que aquilo que caísse nas mãos de alguém passasse a pertencer a essa pessoa. Por causa desse costume, assim que surgiam sinais de vitória, instalavam-se a desordem, a pilhagem e as brigas. Mas o Alcorão estabeleceu uma nova regra sobre os despojos. O princípio fundamental dessa regra era que todos os despojos pertenciam a Allah e ao Seu Mensageiro. Portanto, distribuí-los era responsabilidade do governo islâmico. Segundo essa nova regra, todos os despojos eram amontoados diante do comandante. Depois, um quinto era reservado para atender às necessidades coletivas do Estado islâmico, e o restante era distribuído entre os soldados.
No sistema da جاهلية, os prisioneiros de guerra eram deixados à mercê do lado vencedor. Geralmente eram submetidos à opressão, à tortura e aos maus-tratos, e transformados em escravos e escravas. Mesmo na atual era civilizada, os prisioneiros de guerra ainda são tratados de forma brutal. Contudo, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, conferiu aos prisioneiros de guerra uma nova dignidade. Ordenou que fossem tratados com conforto. Alguns Companheiros, ao cumprir essa ordem, comiam apenas tâmaras enquanto ofereciam aos prisioneiros alimentos de boa qualidade até que estivessem plenamente satisfeitos. Abu Umair, irmão de Musʿab ibn ʿUmair e prisioneiro de guerra em Badr, relatou que os Ansarianos com quem fora colocado comiam tâmaras e lhe davam alimentos excelentes. Esse tratamento fazia com que ele sentisse muita vergonha. Aos prisioneiros que tinham poucas roupas eram fornecidas vestimentas. Como ʿAbbas era um homem relativamente alto, nenhuma das camisas disponíveis lhe servia. Por isso, o líder dos hipócritas, ʿAbdullah ibn Ubayy, enviou-lhe sua própria camisa. Como retribuição por esse favor, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, deu sua própria camisa para servir de mortalha a ʿAbdullah. Entre os prisioneiros estava também Suhayl ibn ʿAmr. Ele costumava proferir discursos inflamados contra o Mensageiro de Allah. ʿUmar, que Allah esteja satisfeito com ele, sugeriu que seus dentes da frente fossem quebrados, para que no futuro não tivesse força para fazer discursos. Qualquer outra pessoa talvez não hesitasse em tratar da pior maneira possível um prisioneiro indefeso sob sua custódia. Mas o Mensageiro de Allah disse: “Se eu mutilar qualquer parte do corpo de alguém, então, embora eu seja um profeta, Allah me castigará mutilando essa mesma parte do meu corpo.”
A força vencedora geralmente se embriaga de orgulho e se torna extremamente indecente e grosseira. Mas não se encontra nenhum comportamento desse tipo, vergonhoso ou repulsivo, entre o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e seus Companheiros. Quando o Mensageiro de Allah recebeu a notícia da morte de Abu Jahl e sua cabeça foi trazida diante dele, ele louvou a Allah.
Quando a força vencedora marchou em direção a Medina, não se organizaram músicas nem celebrações, tampouco houve qualquer festividade ao chegarem à cidade. Apenas os corações de todos se encheram de gratidão. Todos expressaram sua gratidão com base no sentimento de que aquela vitória era uma recompensa de Allah.
Para que os soldados muçulmanos, em vez de se embriagarem com o poder, se esforçassem para eliminar suas próprias fraquezas mentais e morais, o comandante deles, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, chamou sua atenção à luz dos versículos do Alcorão. Ele realizou uma análise crítica de suas atividades militares e destacou seus aspectos indesejáveis. Desse modo, criou-se entre eles o estímulo para trabalhos mais construtivos e reformadores.
Embora saiba que não é possível discutir aqui detalhadamente todas as operações militares, dei um pouco mais de atenção à primeira batalha. O objetivo é que, por meio dela, o leitor adquira a perspectiva sem a qual não será possível compreender as batalhas posteriores. (Fontes: Tafhimul Qur’an — Sayyid Abul A’la Maududi, introdução e notas da Surata Al-Anfal; Siratun Nabi, de Shibli Nomani; Asahus Siyar; Maidanahaye Jang na Era Profética; Hadith-e Difa).
Após a Batalha de Badr
Embora na Batalha de Badr uma pequena força do Estado Islâmico, sob a liderança do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), tenha derrotado os coraixitas e lhes dado uma lição apropriada, ao mesmo tempo tornou-se inevitável uma série contínua de conflitos e confrontos no futuro. Depois que a espada de Meca foi retirada da bainha, restou apenas um meio de estabelecer a paz: era preciso despedaçar essa espada e paralisar também a mão que a empunhava. Um inimigo ferido costuma tornar-se vingativo como uma serpente sem cauda. Embora já tivesse ficado claro como a luz do dia que a liderança coraixita havia caído quase a zero com a perda de seus chefes sempre ativos, inteligentes e prudentes, que seu futuro econômico estava ameaçado e que sua influência e prestígio, acumulados ao longo de muitos anos, começavam a ser derrubados pela primeira vez, também é um princípio evidente da história que quem detém poder e domínio religioso, político ou econômico luta com todas as suas forças para preservá-los até o último momento. Especialmente as pessoas ou classes que conquistam domínio hereditário sobre a sociedade não desejam, enquanto tiverem vida, permitir que nela se estabeleça qualquer força cujo crescimento torne inevitável o fim de sua liderança. Elas travam uma luta total pela sobrevivência até o último instante da vida. Por isso, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) compreendeu perfeitamente quão grande responsabilidade a vitória de Badr havia trazido para a defesa do Estado Islâmico. Ele sabia que os coraixitas tentariam manter erguida sua bandeira militar, utilizando toda a sua influência e prestígio religiosos e políticos, seus antigos laços de amizade e todo o seu poder econômico. Não poderiam retornar a Meca e permanecer tranquilos deixando prostrada a bandeira sob a qual haviam saído pela primeira vez para além de Meca. Nessa situação, o pregador da obra construtiva e reformadora e porta-estandarte da verdade e da justiça foi obrigado, além de realizar um trabalho construtivo, a manter seu pequeno grupo constantemente alerta e preparado para guerras sempre novas. Foi por isso que, depois da Batalha de Badr, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) teve de conduzir continuamente operações militares. Apenas sete dias depois de retornar da Batalha de Badr, ele precisou partir para uma expedição militar a um lugar chamado Maul Kabar, pois havia chegado a notícia de que alguns membros das tribos Banu Sulaym e Banu Ghatafan haviam reunido forças com o objetivo de guerrear. Entretanto, o adversário não apareceu. Depois de manter o cerco por três dias, ele retornou. Mais tarde, chegou novamente a notícia de que aquelas pessoas estavam se reunindo. Para reprimi-las, Ghalib ibn Abdullah partiu com uma força militar. Houve um pequeno confronto, e os anarquistas fugiram. Enquanto o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) estava fora de Medina por ocasião da Batalha de Badr, os Banu Qaynuqa quebraram o tratado e provocaram uma grande confusão. Ainda assim, não era possível ignorar um acontecimento tão grave. Ignorá-lo significaria expor Medina à destruição no futuro. Por isso, no mês de Shawwal do segundo ano da Hégira, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) realizou contra eles uma espécie de operação policial com força militar, e foi feita a arbitragem conforme o desejo deles. De acordo com essa arbitragem, esse grupo foi enviado para fora de Medina.
Dois meses depois da Batalha de Badr, no mês de Dhu al-Hijjah, Abu Sufyan chegou à região de Medina com duzentos homens. Ele encontrou-se secretamente com Salam ibn Mishkam e quis conspirar para iniciar uma guerra. Como não encontrou meios de obter sucesso, destruiu algumas árvores num lugar chamado Arid e matou um homem dos Ansar antes de fugir. O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) perseguiu-o até Qarquarat al-Kadr. Contudo, o grupo de saqueadores conseguiu escapar. Durante a fuga, abandonaram alguns sacos de sawiq para aliviar a carga, e eles caíram nas mãos do exército muçulmano. Por isso, essa expedição ficou conhecida como Ghazwat al-Sawiq. Os dias restantes de Dhu al-Hijjah foram passados em Medina. Porém, no mês de Muharram do terceiro ano da Hégira, soube-se que os Banu Tha’laba e os Banu Muharib estavam se reunindo para atacar. No fim do mês, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) foi a Najd e permaneceu naquela região durante quase todo o mês de Safar. Os inimigos não vieram enfrentá-los, e eles retornaram sem qualquer confronto. O objetivo de permanecer ali por tanto tempo era ampliar as relações de aliança naquela região, para que os coraixitas não pudessem utilizar aquela rota para o comércio. Essa expedição também é chamada de Ghazwat Dhu Amar e Ghazwat Anmar.
No mês de Rabi al-Thani, surgiu o temor de um ataque por parte dos coraixitas. Assim, deixando Ibn Umm Maktum (que Allah esteja satisfeito com ele) como seu substituto em Medina, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) avançou até Buhran para repelir um possível ataque e estabeleceu um acampamento militar para proteger a fronteira até Jumada al-Awwal. Também retornou dali sem qualquer confronto. No terceiro ano da Hégira, outra caravana comercial dos coraixitas partiu. Foram realizadas operações militares preventivas em sua possível rota. Zayd ibn Harithah chegou ao local no mês de Jumada al-Thaniyah com cem soldados. O guia da caravana, Qurat ibn Hayyan, foi capturado e juntou-se ao grupo muçulmano. Prata no valor de cem mil dirhams foi tomada da caravana.
Assim, a situação foi gradualmente conduzida à Batalha de Uhud.
A segunda maior batalha: Uhud
Sempre que, na história da humanidade, ocorre um conflito entre duas forças ideológicas, uma positiva e outra negativa, em que uma deseja conduzir a humanidade ao bem-estar e ao progresso, enquanto a outra quer manter o sistema seguido pelos antepassados, observa-se grande entusiasmo e fervor em ambos os lados. O mesmo entusiasmo e fervor foram vistos no conflito entre o Islã e a jahiliyyah na Batalha de Uhud. Entre as perdas irreparáveis sofridas pelos coraixitas na Batalha de Badr, o prejuízo econômico foi um dos mais graves. Eles tiveram de pagar mais de duzentos e cinquenta mil dirhams apenas em resgates pelos prisioneiros. Além disso, o custo de percorrer a longa rota da caravana havia aumentado, e o volume dos lucros diminuíra em relação ao passado. Ademais, o comércio permaneceu permanentemente ameaçado para o futuro. Os muçulmanos haviam confiscado prata no valor de cem mil dirhams da caravana comercial dos coraixitas. Todo o comércio internacional e o transporte de mercadorias entre a Índia e a Europa passavam pelas rotas do Iêmen e de Meca, especialmente pela rota dos coraixitas de Meca. E os coraixitas de Meca obtinham enormes somas impondo uma taxa de proteção por meio de seu sistema de conduta baseado em tratados. Mesmo deixando de lado as receitas comerciais de Ta’if e de outras regiões, os coraixitas obtinham anualmente duzentos e cinquenta mil ashrafis somente pela rota da Síria. Então nuvens de uma terrível paralisação econômica começaram a se acumular sobre o céu de Meca. Em tal situação, o desejo de vingança por Badr começou a amadurecer interiormente.
Os preparativos para uma nova guerra começaram muito rapidamente. O lucro obtido com a caravana síria foi inteiramente retirado dele e depositado no tesouro militar. Poetas famosos como Amr Jamhi e Musafe utilizaram plenamente seu talento poético para atiçar o fogo da guerra. As mulheres de Meca, desorientadas pela dor de terem perdido seus irmãos e filhos, começaram a fazer promessas estranhas. Algumas, por exemplo, prometeram beber o sangue dos mártires muçulmanos na próxima batalha, e assim por diante. Na prática, mulheres proeminentes das grandes famílias aristocráticas começaram a marchar com o exército coraixita em direção ao campo de batalha. Entre as mais notáveis estavam Hind (filha de Utba, esposa de Abu Sufyan e mãe do emir Muawiya), Umm Hakim (esposa de Ikrima, filho de Abu Jahl), Fátima (irmã de Hazrat Khalid), Barza (filha de Masud Saqafi, líder de Taife), Rita (esposa de Amr ibn al-As) e Hannas (mãe de Hazrat Musab ibn Umair), entre outras.
Além de preparar seus voluntários, os coraixitas também não se esqueceram de levar consigo os Ahabish. Além disso, enviaram Amr ibn al-As, Abdullah ibn Zabyarli, Hira ibn Abi Wahab, Mosef ibn Abd Manaf e Amr ibn Abdullah Jahmi para incentivar e estimular várias tribos árabes a lutar contra Medina. Assim, obtiveram uma força imensa. Um exército de três mil soldados, incluindo setecentos homens usando armaduras e duzentos cavaleiros, já era, por si só, aterrorizante. Depois de um ano inteiro de preparativos, essa enorme força militar partiu de Meca. Ao chegar às pastagens de Medina, alimentou sem impedimento seus animais com a vegetação, engordando-os, e, depois de passar alguns dias pelo caminho, acampou em Uhud na quarta-feira. O tio do Mensageiro, Hazrat Abbas, era sinceramente leal a ele, devotado e apoiador do movimento islâmico. Com permissão especial, permanecia em Meca para observar a situação interna dos inimigos. Enviando mensageiros velozes, informou o Mensageiro sobre aqueles preparativos dos coraixitas. Além disso, por meio de sua própria rede especial de inteligência, o Mensageiro soube, no dia 5 de Shawwal, que o exército coraixita havia chegado perto de Medina. Soube também que os animais deles haviam devorado completamente as pastagens de Arid. Recebeu ainda relatórios que lhe permitiram ter uma ideia precisa do número de soldados do exército coraixita e de sua força e capacidade. Imediatamente, foram organizadas guardas noturnas em Medina. Pela manhã, ele pediu o conselho dos Companheiros. A maioria dos líderes dos Muhajirun e dos Ansar propôs enfrentar o inimigo permanecendo na cidade. Mas os jovens que não haviam podido participar da batalha de Badr, tomados por excesso de entusiasmo e fervor, mostraram-se mais ansiosos para sair da cidade e lutar. Depois de ouvir os dois pontos de vista, o Mensageiro foi para casa e voltou vestindo uma armadura. Com isso, ficou claro que havia aceitado a proposta de sair de Medina para lutar. Abdullah ibn Ubay também era favorável a combater dentro de Medina. Todos sabiam que ele mantinha um conluio com os coraixitas. Ainda antes desta segunda grande batalha, a de Uhud, os coraixitas haviam estabelecido relações estreitas com ele. Como o Mensageiro sabia disso, aceitou silenciosamente o segundo ponto de vista, sem discutir. Depois da oração de sexta-feira, mil soldados muçulmanos partiram sob sua liderança. Abdullah ibn Ubay também os acompanhou. Depois que sua primeira proposta foi rejeitada, ele fez uma proposta mal-intencionada: que se abrisse uma frente de batalha independente. Quando o Mensageiro também rejeitou essa proposta, o intrigante ficou desanimado. A partir de um lugar chamado Shawt, fez trezentos soldados desertarem e voltou com eles. Sua alegação era: “Quando nossas opiniões nunca são aceitas e não temos nenhuma participação no poder de governar o Estado, por que deveríamos travar guerras e combates?” Esse ato de traição também afetou os demais. Por exemplo, as tribos Banu Salama e Banu Haritha, abatidas, chegaram a se preparar para voltar. Mas os sábios líderes muçulmanos as convenceram, acalmaram-nas e fortaleceram seu moral.
Antes de sair de Medina e entrar no campo de batalha, o Mensageiro examinou a condição dos soldados. Vários adolescentes, animados pelo espírito do jihad, também partiram para a guerra. O Mensageiro ordenou que voltassem. Ainda assim, não mediram esforços para participar daquela batalha. O jovem Rafi ibn Khadij tentou provar que era capaz de lutar ficando na ponta dos pés para parecer mais alto. Outro jovem, Samura, derrotou Rafi na luta corporal e provou sua própria força. Por terem sido criadas em um ambiente puro e honesto, a nova geração havia desenvolvido tamanha firmeza de caráter e disposição para sacrificar a própria vida. Embora o jihad não fosse obrigatório para as mulheres muçulmanas, diante da situação extremamente delicada do movimento, uma onda de emoção espontânea também surgiu entre elas. Por fim, Hazrat Aisha, Umm Salit (mãe de Hazrat Abu Said al-Khudri), Umm Sulaym (mãe de Hazrat Anas) e Umm Ammara, juntamente com várias outras mulheres, partiram com o exército muçulmano. Elas deram uma contribuição significativa no campo de batalha. O exército muçulmano tinha um total de setecentos soldados, dos quais cem usavam armaduras. Eles se preparavam para enfrentar um exército doze vezes maior e bem equipado, fortalecidos unicamente pelo poder da fé.
Deixando o monte Uhud às suas costas, o Mensageiro elaborou um plano de batalha extremamente hábil. Entregou a bandeira islâmica a Musab ibn Umair. Zubair ibn Awwam foi nomeado comandante de uma unidade militar, e Hazrat Hamza, comandante dos soldados sem armadura. Cinquenta arqueiros foram posicionados atrás, no desfiladeiro do monte Aynayn (Jabal al-Rumat). Abdullah ibn Zubair foi nomeado líder desses soldados. Os coraixitas também, à luz da experiência de Badr, adotaram os princípios de guerra organizados seguidos pelos muçulmanos. O grupo de combatentes da direita (Maymana), o grupo de combatentes da esquerda (Maysara), a unidade de cavalaria e a unidade de arqueiros foram organizados separadamente, cada qual sob o comando de um comandante próprio.
Como início da batalha, quatorze mulheres coraixitas, sob a liderança de Hind, começaram a tocar tambores e a cantar canções militares. Pode-se perceber, pelo poema abaixo, quão vigorosa era a melodia dessas canções para despertar o entusiasmo pela batalha:
(Árabe******)
(Árabe******)
“Somos filhas das estrelas, de passos graciosos; se avançarem, abraçaremos vocês contra o peito; mas, se recuarem, separar-nos-emos de vocês para sempre.” De um lado, prosseguia esse tipo de provocação poética, amorosa, sensual e espirituosa; do outro, não havia nada além do desejo de obter a satisfação de Allah.
De repente, entrou no campo de batalha um falso santão chamado Abu Amir. Os Ansar conheciam bem sua hipocrisia. Ele se assemelhava à cultura jahilita, pagã e profundamente degenerada dos coraixitas. Assim que o viram, os muçulmanos exclamaram: “Ó pecador! Nós te conhecemos!” É algo muito raro na história da humanidade que o filho desse Abu Amir, Hazrat Hanzala, tenha pedido ao Mensageiro (que a paz esteja com ele) permissão para atacar o próprio pai. Porém, a misericórdia e a compaixão do Mensageiro não lhe concederam essa permissão. Ele não considerou justo que um pai fosse morto pelas mãos do próprio filho. Em seguida, Talha começou a desafiar os muçulmanos aos gritos. Hazrat Ali avançou imediatamente e apagou a chama de sua vida. Depois, seu filho Uthman veio recitando poemas sobre a própria bravura. Atrás dele, um grupo de cantoras entoava canções. A espada de Hazrat Ali também o matou num instante. Então começou uma batalha furiosa.
Todo o exército muçulmano compensava sua inferioridade numérica e a falta de equipamentos com fervor e entusiasmo na fé. Os portadores da mensagem de um futuro luminoso continuavam assim lutando contra as trevas da jahiliyyah. Entre eles, a luta desesperada de Hazrat Hamza, Hazrat Ali e Hazrat Abu Dujana era a mais impressionante. Por fim, os adoradores da jahiliyyah foram derrotados, e suas cantoras fugiram. O exército muçulmano compreendeu que havia vencido. Por isso, começou a tomar os equipamentos de guerra, os mantimentos e os demais bens dos inimigos, a fim de deixá-los sem recursos para o futuro. A disciplina no campo de batalha se desfez, e a anarquia se espalhou. Os soldados passaram a ignorar as instruções da liderança central. O mais perigoso foi que os arqueiros abandonaram até mesmo a passagem montanhosa mais vulnerável. No entanto, haviam recebido ordens rigorosas: acontecesse o que acontecesse, vitória ou derrota, não deveriam deixar aquele lugar em hipótese alguma. As palavras do Mensageiro (que a paz esteja com ele) foram: “Mesmo que vejais os pecadores arrancando e comendo a carne de nossos corpos, ainda assim não vos movais daqui.”
Mas os muçulmanos esqueceram todas essas instruções e se ocuparam em recolher os frutos da vitória. Tiveram de suportar consequências extremamente terríveis dessa preocupação. A vitória que haviam conquistado transformou-se em derrota. No exército dos coraixitas ainda havia guerreiros prudentes e destemidos como Khalid ibn al-Walid. Ao perceber de longe a desordem no campo de batalha, ele tomou alguns cavaleiros e lançou um ataque surpresa por trás da montanha, através daquela passagem montanhosa que havia ficado sem guardas. Depois, mais guerreiros do exército coraixita se juntaram ao ataque. De repente, ao verem espadas sobre suas cabeças em meio à alegria da vitória, os muçulmanos despertaram para o perigo. Enquanto isso, os inimigos reuniram tropas para atacar pessoalmente o Mensageiro (que a paz esteja com ele). Ele começou a chamar os muçulmanos, correndo de um lado para o outro: “Ó servos de Allah! Vinde até mim.” Mas os soldados muçulmanos não conseguiam ouvir nada. Em certo momento, restaram apenas onze companheiros ao seu redor. Aproveitando a oportunidade, Abdullah ibn Qumayya golpeou seu rosto sagrado com uma espada. O golpe quebrou seu elmo, e alguns fragmentos penetraram em sua mandíbula. Em outro ataque dos inimigos, ele caiu numa depressão e também sofreu alguns ferimentos. É raro encontrar na história exemplo de tão poucos companheiros lutando de forma tão destemida para salvar a vida do líder central do movimento islâmico. Em meio àquele confronto devastador, o fato de o Mensageiro (que a paz esteja com ele) permanecer firmemente de pé, defender-se com destreza e ferir Ubay ibn Khalaf no pescoço com uma lança foi um sinal de extraordinária bravura. Ainda assim, como o Mensageiro ficou ferido, caiu numa depressão e desapareceu de vista, e como o companheiro Jumaia ibn Umayr, semelhante a ele no rosto, foi martirizado, os adversários encontraram a oportunidade de espalhar o boato de sua morte. Isso lançou ainda mais agitação e desespero entre os muçulmanos. Esse boato produziu dois tipos de efeitos. Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) largou as armas e disse: “Se o Mensageiro foi martirizado, de que adianta continuar lutando?” O amor pelo Mensageiro era tão intenso nele que, a seus olhos, depois da perda de uma joia tão inestimável, por maior que fosse a vitória alcançada, ela já não parecia uma vitória. Ao ouvir suas palavras, Ibn an-Nadr, pai de Hazrat Anas al-Ansari, disse: “O que faremos vivendo depois do Mensageiro?” Então lutou com tamanha ferocidade que foi martirizado depois de receber cerca de oitenta ferimentos. Devido àquela situação caótica, alguns muçulmanos foram feridos ou mortos até mesmo pelas mãos de seus próprios irmãos. O pai de Hazrat Hudhayfa foi martirizado pelas mãos dos próprios muçulmanos.
Depois disso, a situação começou a mudar. Cada soldado muçulmano estava cercado por espadas em seu próprio posto e ansioso para ver o Mensageiro (que a paz esteja com ele). Hazrat Ka’b ibn Malik foi o primeiro a avistá-lo. Ele chamou todos e anunciou a notícia de que o Mensageiro estava vivo. Quando essa boa notícia chegou a todos, começaram a correr em direção ao centro. Quando a multidão de inimigos diminuiu, o Mensageiro subiu ao topo da montanha. Quando Abu Sufyan avançou naquela direção, os companheiros o repeliram atirando pedras. Então os inimigos ficaram apreensivos, temendo que a vitória obtida de surpresa lhes escapasse novamente. Por isso, o exército de Meca começou a recuar rapidamente.
Abu Sufyan subiu uma montanha próxima e tentou obter informações seguras sobre o Mensageiro (que a paz esteja com ele). Em voz alta, chamou pelo nome do Mensageiro, de Abu Bakr e de Umar, perguntando se algum deles ainda estava vivo.
Por razões estratégicas, não houve resposta do outro lado. Então ele exclamou: “Todos estão mortos.”
Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) já não conseguiu permanecer em silêncio. Ele disse: “Ó inimigo de Allah! Estamos todos vivos.” Abu Sufyan entoou um grito de guerra:
“Ó Hubal, mantém tua cabeça erguida.”
Do outro lado, foi lançado um contra-slogan:
“Allah é o Todo-Poderoso, o Supremo!”
Abu Sufyan bradou novamente:
“Nós temos al-‘Uzzá conosco; vocês não têm al-‘Uzzá.”
Do outro lado, veio a resposta:
“Allah é nosso Senhor; vocês não têm senhor.”
Na verdade, por meio desses pequenos slogans, aquelas duas ideologias haviam erguido suas vozes — as mesmas ideologias cujo choque provocara tamanha convulsão na história. Nesta batalha, 70 muçulmanos foram martirizados e 40 ficaram feridos. Por outro lado, foi possível matar apenas 30 homens do exército inimigo. O tio do Mensageiro de Allah, o valente guerreiro Hamza; seu primo Abdullah ibn Jahsh; entre os Companheiros famosos, Mus‘ab ibn ‘Umair, Hanzala ibn Abi ‘Amir e Rafi‘ ibn Malik ibn ‘Ajlan — os três últimos participaram de ambos os juramentos de Aqaba —, Abdullah ibn ‘Amr al-Khazraji, ‘Amr ibn Jamuh e vários Companheiros veteranos de Badr regaram com o próprio sangue a árvore da mais sublime verdade do mundo.
Por fim, assim que o exército muçulmano recuperou o controle de si mesmo e restabeleceu firmemente sua comunicação com o alto comando, os soldados inimigos recuaram rapidamente e deixaram o campo de batalha. Assim, a máscara da fraqueza escondida por trás da vitória repentina caiu, e o exército muçulmano recuperou a confiança.
Os muçulmanos haviam sido prejudicados por um deslize cometido por eles mesmos, mas não tinham sido derrotados, nem sua força havia sido quebrada. Por isso, sob as ordens do Mensageiro, que a paz esteja com ele, uma força de setenta mujahideen perseguiu o exército coraixita. Enquanto isso, quando Abu Sufyan chegou a Rauha e avaliou a situação, ficou profundamente arrependido. Percebeu que, ao se apressar, havia deixado no próprio campo de batalha os frutos da vitória obtida em Uhud. O objetivo de destruir o poder de Medina permanecera incompleto. Então começou a pensar em recuperar o objetivo perdido. Mas era tarde demais! A oportunidade já lhe havia escapado. Era o tipo de situação em que a pessoa só tem uma boa ideia depois que o ladrão já foi embora! O Mensageiro, que a paz esteja com ele, já havia nutrido esse temor. Em vez de retornar a Medina, avançou com todo o seu exército até Hamra al-Asad, a oito milhas de Medina. Nesse meio-tempo, Ma’bad, líder da tribo Khuzā’a (que, embora não tivesse abraçado o Islã, era uma defensora leal do governo islâmico), foi pessoalmente assustar Abu Sufyan, dizendo: “Muhammad, que a paz esteja com ele, está vindo com um enorme exército.” Ao ouvir essa notícia, Abu Sufyan ficou aterrorizado e partiu rapidamente.
Alguns aspectos significativos da batalha de Uhud
Agora examinaremos os aspectos especialmente dignos de atenção desta batalha:
(1) A disciplina é a verdadeira força de qualquer movimento. Sua importância é maior e mais fundamental em todos os tipos de guerra e conflito. A qualidade moral sobre a qual se fundamenta a disciplina chama-se paciência. Isto é, a capacidade de permanecer firme e inabalável, sem se importar com o medo ou com ganhos e perdas. Naquele momento, a organização islâmica ainda estava em treinamento e, especialmente para fortalecer seu caráter islâmico no campo de batalha, ainda não havia adquirido experiência suficiente. Afinal, antes de Uhud, havia ocorrido apenas uma batalha. Nenhuma organização humana, ao construir uma nova sociedade com base em um ideal, consegue alcançar pleno êxito e maturidade sem jamais cometer deslizes. Contudo, por meio desse pequeno deslize, Allah deu aos muçulmanos uma lição prática que não poderia ser gravada profundamente apenas por meio de conselhos. Por meio dessa lição, também ficou claro que a lei natural de Allah funciona de maneira absolutamente imparcial e inexorável. Quem viola essa lei não escapa da punição, mesmo sendo uma pessoa extremamente virtuosa.
Ao analisar essa batalha, o Alcorão faz uma crítica severa aos erros e às fraquezas que ainda existiam entre os muçulmanos. Ordena-lhes que tenham paciência. (Al Imran, 125.) Ordena-lhes que abandonem a cobiça desmedida pelas riquezas, que incentiva as transações com juros e provoca inquietação pela obtenção de espólios no campo de batalha. Indiretamente, mostra-lhes que, com uma mentalidade usurária e gananciosa, não é possível ter paciência, manter a disciplina e travar uma luta histórica para alcançar um objetivo elevado. Aproveitando esse contexto psicológico, os juros foram proibidos completamente. (Al Imran, 130.) Foi-lhes dito que somente aqueles que não se deixam cegar pelos juros e pelo fascínio das riquezas, mas gastam seus bens por objetivos nobres e controlam suas emoções em vez de serem arrastados por elas, podem carregar a bandeira da revolução islâmica. (Al Imran, 134.) Também foi esclarecido que quem trabalhar para alcançar interesses mundanos receberá neste mundo tudo o que lhe couber, e isso será sua recompensa final. Na Vida Futura, nada lhe será devido. Já aquele que desejar alcançar o bem da Vida Futura, mesmo prejudicando seus interesses mundanos, receberá a justa recompensa por seu trabalho. (Al Imran, 145.) Também lhes foi explicado: não permaneçais abatidos e preocupados por terdes sofrido um único golpe. Se hoje sofrestes um golpe, ontem os inimigos também sofreram um golpe pelas vossas mãos. Em todo conflito e confronto haverá altos e baixos, vitórias e derrotas. Mas tende certeza de que a vitória final será vossa. (Al Imran, 139–140.) Em seguida, foram advertidos em termos inequívocos de que a satisfação de Allah e o Paraíso não são mercadorias baratas. Essa felicidade só pode ser alcançada por aqueles que conseguem sacrificar sua vida e seus bens no caminho de Allah e demonstrar paciência e firmeza. Somente por meio dessas provas difíceis é possível separar e identificar os verdadeiros crentes e aqueles dignos de testemunhar a verdade. (Al Imran, 140–142.) Criticando a reação de extremo desespero causada pelo rumor do martírio do Mensageiro, que a paz esteja com ele, no campo de Uhud, foi declarado claramente que Muhammad, que a paz esteja com ele, não é Allah; ele é apenas um Mensageiro. Assim como os profetas e mensageiros anteriores morreram, Muhammad, que a paz esteja com ele, também terá de partir de vós um dia. Portanto, como poderia ser legítimo que, após sua partida, suspendêsseis todos os programas da luta e do movimento islâmicos e ficásseis sentados de braços cruzados? (Al Imran, 144.) Na realidade, aquele desespero surgiu justamente por causa do amor dedicado e sincero pelo Mensageiro, que a paz esteja com ele. Também foi dito que deveríeis vos formar seguindo o exemplo daqueles que, juntamente com os profetas anteriores, lutaram e sacrificaram a vida, recusando-se a curvar a cabeça diante da falsidade. Afinal, Allah ama precisamente os pacientes desse tipo. (Al Imran, 146.) Depois de transmitir esses ensinamentos fundamentais, o Alcorão retratou a situação trágica que o exército muçulmano teve de enfrentar por haver violado a disciplina:
“Allah cumpriu a promessa de auxílio que vos havia feito. No início, por ordem de Allah, éreis vós que os matáveis. Mas depois, quando demonstrastes fraqueza e divergistes entre vós, assim que Ele vos mostrou aquilo que desejáveis, desobedecestes à ordem do vosso líder. Isso aconteceu porque alguns de vós desejavam os bens deste mundo, enquanto outros ansiavam pela Vida Futura. Então Ele vos fez recuar diante dos incrédulos, a fim de vos testar. Mesmo assim, Allah vos perdoou, pois Allah é muito Clemente para com os crentes.”
Lembrai-vos de quando fugíeis, sem sequer terdes consciência para olhar para trás ou para qualquer outra direção, enquanto o Mensageiro, que a paz esteja com ele, vos chamava por trás. Então Allah vos retribuiu por esse comportamento, fazendo-vos sofrer tristeza após tristeza, para que aprendêsseis uma lição para o futuro e não ficásseis angustiados pelo que perdêsseis ou pelas calamidades que vos atingissem. Allah está bem informado de tudo o que fazeis.” (Al Imran, 152–153.)
Observai esta crítica e análise, transmitida pela boca do Mensageiro, que a paz esteja com ele, sobre a atuação e o papel do exército muçulmano na batalha de Uhud, e refletí sobre quão diferente são a natureza e o tom dessa crítica daqueles feitos pelos governantes e comandantes militares mundanos, ávidos por impérios. Nela não foi dada aos soldados liberdade irrestrita para fazerem o que bem entendessem; tampouco houve qualquer tentativa de lançá-los no autoengano, nem qualquer esforço para interpretar os acontecimentos de maneira equivocada. Foi uma crítica severa e destemida. O temor de Allah era seu princípio central, e seu objetivo era o treinamento moral.
(2) Nesta batalha, a forma como os poucos companheiros do Rasul (S.A.) demonstraram disposição para arriscar a vida, amor e sincero espírito de sacrifício continuará a inspirar a Ummah muçulmana, até o Dia da Ressurreição, a sacrificar a vida e os bens no caminho de Allah. Na verdade, seja qual for o movimento, a personalidade de seu primeiro convocador e líder supremo constitui sua principal força. Porém, no movimento islâmico, exige-se profundo amor pelo convocador e pelo líder. Sobretudo quando a personalidade de um profeta e mensageiro ocupa essa posição, é extremamente necessário demonstrar o mais elevado espírito de autossacrifício por ele. O movimento islâmico jamais pode avançar deixando de lado seu convocador e seu líder. A força, o poder, a influência e a autoridade do movimento e de seu convocador tornam-se completamente unos e inseparáveis. O grupo que ignora seu convocador e seu líder, que os torna sem influência ou que, chamando-os simplesmente de “um dos nossos”, deseja levar à vitória apenas os princípios do movimento, é um grupo absolutamente cego e irrefletido. Para um movimento, tanto os princípios quanto a liderança são elementos inseparáveis e indispensáveis. A fé e a convicção inabaláveis nos princípios e ideais, assim como o profundo amor e o espírito de autossacrifício pelo líder, dependem um do outro e se complementam. Os companheiros do Rasul (S.A.) estavam sempre prontos a sacrificar por sua pessoa e personalidade a vida, os bens e tudo quanto fosse possível. A primeira razão era que ele era o Rasul (S.A.). A segunda era que eles sabiam e compreendiam que sua existência era a alma de todo o movimento. Por isso, sacrificavam a vida para protegê-lo, elevar sua honra e dignidade e ampliar sua influência e autoridade. No campo de batalha de Uhud, deram uma prova irrefutável de seu amor puro e dedicado pelo Rasul (S.A.).
Quando os inimigos começaram a atacar em grupos sucessivos, o Rasul (S.A.) gritou em voz alta: “Quem está disposto a sacrificar a vida por mim?” Ao ouvir essa voz, Ziyad bin Sakan avançou com alguns Ansar, e, um após outro, sete apaixonados pelo Rasul sacrificaram a vida. Quando Ziyad foi levado ao Rasul (S.A.) em estado agonizante, estendeu a cabeça com grande esforço e tocou os pés do Rasul (S.A.). Quando Abdullah bin Qumaiya golpeou o Rasul (S.A.) com a espada, a companheira Umm Ammara saltou e se colocou diante do Rasul, recebendo um ferimento profundo no pescoço. Foi justamente porque ela se interpôs que o golpe não conseguiu matar o Rasul (S.A.). Abu Dujana cobriu o Rasul (S.A.) com o próprio corpo, como um escudo. Inúmeras flechas cravaram-se em seu corpo. Talha aparou com a mão a espada do inimigo, e uma de suas mãos foi cortada e caiu ao chão. Abu Talha posicionou-se diante do Rasul (S.A.) com um escudo e golpeou com tanta força que quebrou dois ou três arcos. Um muçulmano simples e ingênuo apareceu por acaso enquanto comia tâmaras. Ao ver aquela situação, também sentiu o ímpeto de lutar. Perguntou ao Rasul (S.A.): “Se eu morrer lutando, qual será o meu destino?” O Rasul (S.A.) respondeu: “O Paraíso.” Ele disse: “Então, continuar comendo estas tâmaras fará com que eu me atrase demais.” Dito isso, atirou as tâmaras ao chão, iniciou uma luta feroz e, pouco depois, juntou-se à caravana dos mártires. Quando um movimento é animado por um amor tão intenso pelo líder, ninguém possui força capaz de paralisá-lo. Sa’d bin Rabi também ofereceu um exemplo raro. Como o próprio Rasul (S.A.) nutria profundo afeto por seus companheiros e mantinha atenção e cuidado com cada um deles, ao fim da batalha quis saber, um por um, como estavam. Perguntou: “Onde está Sa’d bin Rabi?” Ao procurarem por ele, descobriram que jazia agonizante, gemendo de dor. Em seus últimos momentos, ofereceu ao Rasul (S.A.) uma saudação, uma demonstração de amor e o presente de uma súplica, e recomendou aos companheiros: “Se, enquanto todos vocês estiverem vivos, os inimigos tiverem a oportunidade sequer de tocar no Rasul (S.A.), Allah não aceitará de vocês nenhuma desculpa ou justificativa.” Não se preocupava com suas próprias dores e sofrimentos, nem pensava nos entes queridos, nem no futuro de seus bens; todos os seus pensamentos estavam voltados apenas para o movimento islâmico e seu convocador.
(3) Para manifestar sua mentalidade abominável, as forças de Meca contrárias ao Islã profanaram os corpos dos mártires muçulmanos. Particularmente, suas mulheres, para cumprir seus votos, abriram os ventres dos cadáveres, cortaram seus narizes e orelhas, fizeram colares com eles e os colocaram no pescoço. Hind, esposa de Abu Sufyan e comandante das forças femininas, ofereceu o pior exemplo de selvageria. Ela desfigurou o rosto de Hamza e, abrindo-lhe o peito, retirou e mastigou seu fígado. O rosto de Abdullah ibn Jahsh também foi desfigurado. O próprio Abu Sufyan golpeava com o arco o rosto de Hamza, dizendo: “Tome, desfrute agora.” Por outro lado, o Rasul (S.A.) advertiu severamente o exército muçulmano para não profanar os cadáveres dos inimigos nem desfigurar seus rostos. Nos princípios do movimento islâmico, o ensinamento de preservar a dignidade humana ocupa um lugar de especial importância. O Islã não permite a seus seguidores que, se outra pessoa agir de maneira vil, eles possam responder fazendo o mesmo.
Quando Abu Sufyan ouviu falar dessas ações de seus homens, congratulou-os alegremente. Porém, quando um de seus companheiros as criticou, ele se deu conta da situação. Pensou que, ao praticarem tais atos, talvez acabassem recebendo pedras em vez de tijolos e perdessem sua influência e autoridade perante a opinião pública. Quando Abu Sufyan chegou ao topo da montanha ao fim da batalha, foi por causa desse sentimento que disse: “Esses acontecimentos não ocorreram com minha autorização. Contudo, também não estou entristecido por eles.”
Hoje não é fácil determinar se esse comportamento bestial das forças contrárias ao Islã prejudicou ou não sua imagem perante a opinião pública. Entretanto, conhece-se um episódio: ao ver Abu Sufyan golpeando com o arco o rosto do corpo martirizado de Hamza, um politeísta chamado Jalis bin Yuban Kinani disse aos membros de sua própria tribo: “Ó Banu Kinana, estão vendo o que o grande chefe dos Coraixitas está fazendo com seu primo?” Ao ouvir isso, Abu Sufyan ficou atento.
(4) Um vislumbre do comportamento refinado e civilizado no campo de batalha que o Rasul (S.A.) ensinava aos muçulmanos pode ser observado no episódio de Abu Dujana. Quando Abu Dujana avançava, destruindo fileira após fileira dos soldados inimigos, Hind, que havia mastigado o fígado de Hamza, apareceu diante dele. Hind participava da batalha e nutria sentimentos extremamente venenosos contra os muçulmanos. Portanto, não teria sido errado matá-la. Abu Dujana também levantou a espada, apontando-a para a cabeça dela. Porém, imediatamente, alarmado com a ideia, baixou a espada, pensando que não era apropriado tirar a vida de uma mulher com a espada que o Rasul (S.A.) lhe havia dado.
(5) A maneira como as mulheres muçulmanas demonstraram fé, coragem, paciência e lealdade ao movimento islâmico durante a batalha de Uhud mostra que o movimento liderado pelo Rasul (S.A.) não manteve as mulheres inativas; pelo contrário, tornou-as ativas, treinou-as e utilizou suas capacidades. Vejamos alguns exemplos.
Já mencionamos, pouco antes, o caso de Umm Ammara: embora fosse uma mulher, ela se colocou como um escudo diante do Rasul (S.A.).
Quando Safia, irmã de Hazrat Hamza, chegou de Medina ao campo de batalha de Uhud após ouvir os acontecimentos dilacerantes, o Mensageiro de Allah (S.A.) disse a Jubair, filho de Hamza: “Não a deixes aproximar-se do corpo do teu pai, pois ela não conseguirá suportar aquela visão.” Safia disse: “Ouvi tudo. Este sacrifício não é grande quando feito pelo caminho da verdade e da justiça.” Foi-lhe dada permissão. Safia contemplou o corpo com extrema paciência, suplicou pelo perdão e partiu.
Para Hind Ansari, esposa de Amr ibn Jamuh e mãe de Khallad Badri, aquilo foi uma prova de fogo. Tanto o seu pai como o seu marido alcançaram o martírio. Mas, suportando com enorme dificuldade todos esses golpes, ela perguntava repetidamente apenas isto: “O Mensageiro de Allah (S.A.) está seguro?” Quando se certificou de que ele estava bem, exclamou involuntariamente: “Ó Mensageiro, se o senhor está são e salvo, nenhuma outra aflição é insuportável.”
Mulheres nobres e recatadas, como Hazrat Aisha, Umm Sulaym e Umm Salit, também correram durante a calamidade, trazendo água em odres e dando-a de beber aos soldados feridos. Ao ouvir a falsa notícia de que os muçulmanos haviam sido derrotados e de que o Mensageiro de Allah (S.A.) havia alcançado o martírio, Hazrat Fatima também chegou a Uhud. Ela lavou os ferimentos do Mensageiro de Allah (S.A.) e os enfaixou.
(6) Quando o Mensageiro (S.A.), amigo da humanidade, entregou a sua própria espada a Abu Dujana, Abu Dujana amarrou um lenço vermelho à cabeça e avançou em direção às fileiras inimigas, balançando a espada e caminhando com um gingado. Ao ver isso, o Mensageiro de Allah (S.A.) disse: “Allah detesta muito esse tipo de maneira de andar. Mas, em circunstâncias como esta, Ele a aprecia.” Assim, explicou algo importante. Na vida cotidiana, demonstrar arrogância de qualquer maneira é muito indesejável do ponto de vista do Islã. Porém, durante o confronto com os inimigos, demonstrar altivez e orgulho é extremamente recomendável. A humildade é algo muito bom. Mas até no campo de batalha demonstrar humildade diante do inimigo, aplicando inadequadamente uma excelente norma moral, é uma atitude extremamente tola. É uma mentalidade religiosa insensata que, em nome do amor à bondade, utiliza de forma descabida certos valores morais para objetivos opostos. Com essa única frase, o Mensageiro (S.A.) eliminou tal mentalidade. Não apenas no campo de batalha: a poesia e a oratória também eram consideradas um dos principais meios de propaganda política daquela época. Ele fazia com que os poetas e oradores muçulmanos expressassem orgulho e altivez. Do mesmo modo, por ocasião da Umrat al-Qada, o Mensageiro (S.A.) ordenou aos companheiros que demonstrassem força mantendo-se espalhados; e, ao correr entre Safa e Marwa, ordenou que erguessem as pernas e corressem depois de caminhar com o peito projetado para a frente. Mais tarde, isso se tornou uma sunnah, isto é, uma tradição. Nessa ocasião, ele suplicou: “Que Allah favoreça aquele que hoje demonstrar força diante dos incrédulos.” Na realidade, demonstrar humildade em qualquer etapa de um conflito pode trazer consequências destrutivas. Aquele que não consegue aplicar corretamente os valores e princípios morais, compreendendo as diferenças de lugar, tempo e situação, sofre de uma espécie de loucura. Com esse tipo de loucura, qualquer coisa pode funcionar, mas o movimento islâmico não pode avançar.
(7) A honestidade e a sinceridade são forças que atraem intensamente as pessoas. Em Medina vivia um jovem honesto chamado Umar ibn Thabit. O seu comportamento para com os muçulmanos era de apoio e simpatia. Contudo, ele ainda não havia aceitado o Islã. A batalha de Uhud despertou a sua consciência adormecida. Ele abraçou a fé e, sem dizer nada a ninguém, juntou-se à batalha com uma espada e alcançou o martírio. Pouco antes da sua morte, pessoas da tribo Banu Abd al-Ashhal o reconheceram. Quando lhe perguntaram notícias sobre ele, respondeu: “Estou lutando pela verdade e pela justiça, por amor a Allah e ao Seu Mensageiro.” O Mensageiro de Allah (S.A.) deu-lhe a boa-nova de que entraria no Paraíso, embora não tivesse rezado sequer uma oração durante a vida. Outro exemplo é o de Mukhayriq, membro da tribo judaica de Banu Tha‘laba. Ao seguir a verdadeira religião judaica, ele decidiu lutar ao lado do Mensageiro de Allah (S.A.). Não se limitou a decidir lutar pessoalmente: também convocou os demais judeus para a batalha. Os judeus da sua própria tribo alegaram uma justificativa religiosa, dizendo que era proibido ir à guerra naquele sábado. Mas Mukhayriq disse: “Hoje não há sábado.” Por fim, chegou sozinho ao campo de batalha, lutou e sacrificou a vida. Um exemplo completamente diferente é o de Qizman. O Mensageiro de Allah (S.A.) havia anunciado antecipadamente que ele seria um habitante do Inferno. Ele juntou-se aos muçulmanos e envolveu-se numa intensa batalha contra o exército coraixita. Depois da batalha, quando o encontraram ferido, as pessoas o elogiaram, dizendo: “Você demonstrou uma coragem extraordinária.” Ele respondeu: “Eu apenas lutei para preservar a honra da nossa nação.” O infeliz soldado, incapaz de suportar a dor dos ferimentos, suicidou-se. Allah fez com que ele lutasse contra os incrédulos, permitiu que fosse morto, e o seu destino acabou sendo o Inferno. Que Allah proteja os crentes de um destino tão lamentável.
(8) Já indicamos anteriormente que, naquela época, as forças negativas da jahiliyyah estavam tomadas de enorme arrogância e excessivamente animadas pelo impulso de manter o sistema de incredulidade. Embora os porta-estandartes dos coraixitas fossem mortos um após outro, e ninguém conseguisse permanecer firme, novos homens avançavam para ocupar os seus lugares. Por fim, quando um homem chamado Sawar ergueu o estandarte, recebeu um golpe de espada tão forte que ambas as suas mãos foram decepadas. Assim que o estandarte caiu, ele se lançou de bruços sobre ele e morreu dizendo: “Cumpri o meu dever.” Durante algum tempo, o estandarte permaneceu caído no chão. Por fim, uma mulher chamada Umra bint Alqama avançou heroicamente e levantou o estandarte. Isso mostra que, com o surgimento de uma força revolucionária positiva, até o campo conservador permanece animado por algum tempo. Foi isso que aconteceu em Uhud. Ali, a força conservadora e permanente da incredulidade de Meca exibiu o seu último ímpeto e poder.
(9) Nesta batalha, testemunharam-se muitas cenas dilacerantes da pobreza material e da carência do campo muçulmano. Havia ao todo setenta corpos de mártires. Mas era difícil até mesmo providenciar mortalhas para eles. Sobre o corpo de Musab ibn Umair só foi possível colocar um pano na parte da cabeça; os pés foram cobertos com capim azkhar. Mais tarde, sempre que os muçulmanos se lembravam dessa situação, os seus olhos se enchiam de lágrimas. A partir desse estado, pode-se avaliar quão difícil, involuntário, embora inevitável, foi para o Estado Islâmico de Medina participar da guerra, e que, sem serem forçados pela pressão das circunstâncias, de modo algum lhes teria sido possível tomar parte nela. Mas, quando foram obrigados a fazê-lo, compensaram todas as carências com a firme convicção na sua visão de vida, o profundo amor pelo seu grande objetivo e a companhia sincera do Mensageiro de Allah (S.A.).
(10) O Alcorão, ao advertir e conscientizar os muçulmanos sobre todos os seus erros e fraquezas e aconselhá-los a se concentrarem em corrigi-los, também desenvolve neles qualidades próprias de soldados. Ensina-lhes que, no campo de batalha, a força moral é a verdadeira força decisiva. A parte mais importante dessa força moral é a paciência. Ensina-lhes também que, na luta entre a verdade e a falsidade, devem deixar completamente de lado os sentimentos de linhagem, tribo e nacionalidade, bem como os interesses mundanos, e dar prioridade exclusivamente à satisfação de Allah, à vitória da verdade e da justiça e ao sucesso na vida futura. O Alcorão também fixa em seus corações a convicção de que a decisão sobre vitória e derrota está, em todas as circunstâncias, absolutamente nas mãos de Allah. Somente a Sua ajuda pode levar uma força à vitória. Portanto, Sua lei e Sua satisfação devem sempre receber a máxima importância. Esse mesmo ensinamento foi apresentado sob a forma de uma súplica nos versículos 27 e 28 da surata آل عمران:
“Dize: Ó Allah, Soberano de toda a soberania, concedes o domínio a quem queres e retiras o domínio de quem queres; honras a quem queres e humilhas a quem queres. Todo o bem está em Tuas mãos. Certamente, Tu és Onipotente. Fazes a noite penetrar no dia e o dia penetrar na noite; tiras o vivo do morto e tiras o morto do vivo, e concedes provisão sem conta a quem queres.”
O medo da morte foi removido de seus corações com o ensinamento de que a morte certamente chegará, no tempo determinado, com a permissão de Allah. Portanto, deixar de cumprir o dever para salvar a própria vida não prolongará a existência. Assim, é preciso continuar agindo, encarando a morte nos olhos. Além desses valiosos ensinamentos, foi-lhes dado ainda este: aqueles que sacrificam a vida no caminho de Allah ao testemunhar a verdade não têm uma morte como a das pessoas comuns. Sua morte é extremamente honrosa. Portanto, não os considereis nem os chameis de mortos como os demais mortos. Eles recebem nova vida de seu Senhor; suas almas recebem uma provisão luminosa; alegram-se com os valiosos dons e recompensas de Allah e estão seguros e satisfeitos quanto à situação de seus companheiros que compartilham seus ideais. Assim, revelou-se o elevado significado do martírio. Consequentemente, o sentido da morte ocorrida no caminho de Allah mudou tanto que, em vez de temê-la, as pessoas começaram a pedir por ela em suas súplicas. Nesse contexto, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, proibiu que se chorasse a morte dos mártires entoando lamentos, gritando ou batendo no peito. Quando um movimento revolucionário fiel à verdade se forma, ele introduz uma terminologia especial, adequada ao próprio movimento revolucionário, incorpora nela significados específicos e transforma o sentido das concepções correntes. Todos esses ensinamentos mostram que, no Islã, a guerra não é uma atividade mundana ou material. Pelo contrário, é pura adoração a Allah e uma exigência religiosa genuína.
(11) Alguns hipócritas permaneceram sentados no campo de batalha. Assim como, antes da guerra, haviam tido grande participação em criar desordem entre os muçulmanos e provocar uma ruptura na unidade da organização num momento extremamente delicado, depois da guerra também espalharam muitos comentários maliciosos, dizendo que tal ou tal ação teria evitado aquele desastre. Também diziam entre si que, se tivéssemos tido alguma influência na liderança, a batalha de Uhud não teria terminado daquele modo. O grupo de arqueiros que estava no túnel atrás deles também não tinha intenções claras. Quando, em Medina, lhes perguntaram por que haviam mudado de posição, apresentaram várias desculpas frágeis. Ao ouvir essas desculpas, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: ‘Nada disso. Na verdade, vocês alimentavam uma falsa suspeita a meu respeito, pensando que eu trairia vocês e não lhes entregaria o que lhes era devido’. Para eliminar essa falsa suspeita, o Alcorão disse: “Não é próprio de nenhum profeta que ele traia”. (Al Imran, 161)
(12) Quando os inimigos feriram o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, um companheiro aconselhou-o: “Invoca uma maldição contra esses bárbaros, para que Allah os destrua”. O Mensageiro de Allah respondeu: “Não fui enviado como uma maldição para os mundos, mas como uma misericórdia”. Em seguida, suplicou: “Ó Allah, guia meu povo; eles não sabem” — não conhecem a mim, meu objetivo e minha missão, nem os fatos relativos à vida e ao mundo. Já dissemos que essa resposta e essa súplica revelam a perspectiva com que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, considerava seus opositores. É evidente que ele não nutria qualquer desejo de vingança pessoal. Não queria destruí-los, mas corrigi-los. Se tomou armas em resposta às ações militares deles, foi apenas por absoluta necessidade, pois não tinha outra alternativa.
Depois de Uhud
Embora os muçulmanos tenham sido inicialmente vitoriosos na batalha de Uhud e depois sofrido um revés temporário, ao final a vantagem começou a se inclinar para o lado deles. Em especial, o fato de os coraixitas terem partido sem completar a vitória, de o exército muçulmano tê-los perseguido e de Abu Sufyan ter ido para Meca, mesmo depois de considerar retornar mais uma vez, ajudou a elevar o ânimo do exército muçulmano. Na realidade, o exército coraixita partiu deixando a batalha suspensa, sem chegar a uma decisão final. Nenhum dos dois lados conseguiu derrotar claramente o outro. O significado de uma situação desse tipo é: “O restante ficará para depois”. Abu Sufyan, em nome dos coraixitas, lançou claramente o desafio de que voltaria no ano seguinte para se confrontar novamente no campo de Badr. Assim como a batalha de Badr havia produzido uma decisão definitiva, a batalha de Uhud não teve uma conclusão final. A decisão definitiva foi adiada para um momento posterior.
Embora o exército muçulmano não tenha saído vitorioso, isso também não constituiu uma derrota. Ainda assim, a influência que a batalha de Badr havia exercido nas regiões vizinhas havia diminuído em certa medida, e as esperanças e aspirações das tribos politeístas conservadoras começaram novamente a girar em torno das forças da جاهلية. Alguns elementos criminosos e maléficos começaram mais uma vez a levantar a cabeça em atitude rebelde. As tribos desordeiras ao redor de Medina passaram a conduzir novamente atividades rebeldes com arrogância. Contudo, a organização dos muçulmanos era tão coesa e eficiente, e a liderança tão firme, que repelia imediatamente cada atividade nociva e conduzia gradualmente a situação para o rumo correto. Desse modo, ficou claro para o povo que o governo islâmico era suficientemente vigoroso e que não negligenciaria a manutenção da lei e da ordem, a proteção da vida e dos bens dos cidadãos e a preservação da integridade do Estado. Ainda assim, foram necessários alguns dias para restaurar a autoridade do Estado islâmico.
Entre as forças rebeldes que começaram a se insurgir depois da batalha de Uhud, Talha bin Khuwailid e Salma bin Khuwailid, de Qutun, foram os primeiros a iniciar atividades hostis. Eles instigaram a tribo de Banu Asad a empreender atividades rebeldes contra Medina. A opinião provavelmente mais correta é que havia sido planejado um tipo de banditismo armado. A notícia desse plano veio à tona assim que surgiu a lua do mês de Muharram do quarto ano da Hégira. Imediatamente, foi enviada uma força de cento e cinquenta guerreiros, sob o comando de Abu Salama al-Makhzumi, para impedir esse perigo. Assim que chegaram a Qutun, o grupo de salteadores se dispersou. O governo islâmico confiscou os rebanhos que eles haviam abandonado e os distribuiu entre os voluntários. No dia 5 de Muharram, chegou, de outra direção, a notícia de que Khalid bin Sufyan, da tribo de Banu Khuzail, havia reunido uma força para atacar Medina. Abdullah bin Anis al-Juhani al-Ansari foi enviado para enfrentá-los. Abdullah pôs fim à rebelião e trouxe consigo a cabeça de Khalid. Como recompensa por esse feito heroico realizado inteiramente sozinho, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) presenteou-o com seu próprio bastão.
Duas ou três semanas depois, ocorreu novamente um incidente. No início do mês de Safar, pessoas das tribos de Uzal e Qara foram a Medina após tramarem uma conspiração. Elas solicitaram ao Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele): “Algumas pessoas entre nós se tornaram muçulmanas. Envie alguns homens para ensiná-las e educá-las”. O Mensageiro enviou dez homens instruídos e virtuosos (esse número é apresentado segundo o relato de Sahih al-Bukhari; de acordo com os relatos dos historiadores e biógrafos, eram sete). O comandante deles era Murshed bin Abu Murshed. Assim que chegaram a Raji, local habitado por Banu Hudhail, mataram todos, exceto Khubaib e Zaid. Venderam Khubaib e Zaid aos coraixitas de Meca. Os coraixitas mataram ambos por crucificação. Já discutimos esse acontecimento anteriormente. Esse episódio mostra claramente quanto haviam aumentado, depois da batalha de Uhud, a audácia e a insolência dos adversários. Vários homens valiosos de um pequeno grupo viajaram como professores e foram martirizados cruelmente no caminho. É impossível descrever em palavras a intensidade do golpe que isso representou para o coração do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Aqueles a quem foram ensinar os conhecimentos do Islã — esses monstros desumanos —, longe de aprenderem qualquer coisa com eles, assassinaram-nos cruelmente sem que tivessem cometido crime algum. Mas isso não foi tudo. No mesmo mês, ocorreu o maior desastre em Bir Mauna. Abu Bara Amir bin Malik veio da região de Najd e encontrou-se com o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). O Mensageiro convidou-o ao Islã. Ele não aceitou nem rejeitou o convite. Contudo, aconselhou-o com grande sinceridade: “Envie um grupo de seus companheiros a Najd. É possível que as pessoas aceitem o Islã”. O Mensageiro expressou preocupação em relação a Najd. O incidente de Raji havia ocorrido apenas alguns dias antes. Abu Bara assumiu a responsabilidade pela proteção deles. Como a expansão da influência e da autoridade do governo islâmico na região de Najd havia se tornado necessária por razões de maior interesse político, o Mensageiro, confiando nas palavras de Abu Bara, enviou um grupo de setenta homens (esse é o número citado em Bukhari; segundo Ibn Ishaq, eram quarenta). Entre eles estavam hafizes, recitadores do Alcorão e pregadores de primeira categoria. O líder deles era Mundhir bin Amr. Quando essa delegação de pregadores chegou ao local chamado Bir Mauna, Haram bin Milhan levou de lá a carta do Mensageiro ao chefe da tribo de Banu Amir, Amir bin Tufail. Antes mesmo que Amir bin Tufail lesse a carta, fez um sinal para seus homens, que o assassinaram. Em seguida, anunciou à tribo de Banu Amir: “Onde quer que estejam, venham atacar a delegação que chegou de Medina”. Entretanto, Banu Amir não quis quebrar a promessa feita a Abu Bara. Então ele convocou os ramos anárquicos da tribo de Banu Sulaym: Ri’lan, Dhakwan, Usayya e Banu Lihyan. Eles se prepararam e cercaram a delegação de pregadores vinda de Medina. Os membros da delegação disseram: “Não viemos para lutar. Também não queremos permanecer aqui. Desejamos continuar avançando. Portanto, não nos ataquem”. Mas os assassinos não deram ouvidos a palavra alguma. Mataram sessenta e nove homens, que receberam o martírio. O septuagésimo membro, Ka’b bin Zaid, escondeu-se entre a pilha de cadáveres com o corpo ensanguentado e, sobrevivendo por pouco, chegou a Medina e informou ao Mensageiro todos os acontecimentos. Imaginem quão dolorosa foi essa provação para um grupo jovem cercado pelos inimigos. Sessenta e nove de seus homens bem instruídos e capazes alcançaram o martírio ao mesmo tempo, de maneira extremamente cruel. Depois desse acontecimento tão comovente, o Mensageiro ficou profundamente afligido e enlutado. Durante um mês, na oração do fajr, suplicou contra os assassinos de seus queridos companheiros por causa desse acontecimento dilacerante. O termo técnico para essa súplica é qunut an-nazila.
Observem também a conduta do grandioso Profeta, o salvador da humanidade inteira — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — em contraste com as ações bestiais desses monstros humanos. Amr bin Umayya, o único sobrevivente entre os 70 representantes, ao retornar para Medina, viu certa vez dois homens dormindo sob a sombra de uma árvore. Como lhe pareceram cúmplices dos assassinos, ele os matou. Sua suposição estava errada: ambos eram membros de uma tribo aliada. O Mensageiro — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — pagou o preço de seu ato mediante o pagamento de sangue. Pois foi justamente para pôr fim ao reinado da opressão vigente e estabelecer o reinado da justiça que o Mensageiro — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — suportou tantos sacrifícios.
Se Medina não permanecesse internamente estável, seria impossível resolver todas essas complicações externas. No entanto, havia aqui algumas forças maléficas e conspiradoras, muito influentes graças às suas terras, riquezas e grandes fortalezas. Instaladas no interior do Estado Islâmico, tramavam conspirações extremamente traiçoeiras e obstruíam todas as iniciativas dos muçulmanos. Em particular, embora as tribos judaicas tivessem assinado o pacto referente à unidade de Medina, realizavam diariamente atividades rebeldes. Entre elas, a tribo dos Banu Nadir possuía a base mais poderosa. Entregues à imprudência e à obstinação, avançavam temerariamente. Após os acontecimentos de Uhud, Raji e Bi’r Ma’una, sua insolência havia aumentado tanto que chegaram a tentar abertamente assassinar o Mensageiro (que a paz esteja com ele) naquele momento tão delicado. (Já mencionei esse assunto anteriormente.) Quando os judeus não hesitaram em empreender novamente essa tentativa pública, depois de seus crimes anteriores, tornou-se inevitável tomar uma medida definitiva contra eles. O Mensageiro (que a paz esteja com ele) fez todo o possível para evitar declarar guerra contra eles e derramar sangue. [Isso porque, em primeiro lugar, o movimento islâmico, por sua própria natureza, não é violento nem militante. Além disso, a questão envolvia pessoas pertencentes a um grupo distinto do mundo. O movimento islâmico precisava atuar justamente na área sob a influência desse grupo. Caso contrário, seus crimes eram tão hediondos que eles nem sequer teriam direito de continuar vivos.] Por isso, limitou-se a enviar-lhes um aviso de revogação da cidadania, ordenando-lhes que deixassem Medina no prazo de dez dias. Também os informou de que, se não partissem, seriam tratados como inimigos. O líder dos hipócritas, Abdullah ibn Ubayy, prometeu fornecer-lhes ajuda suficiente e instigou-os a lutar contra o Mensageiro (que a paz esteja com ele). Influenciados por sua instigação, os Banu Nadir desafiaram o governo islâmico, dizendo: “Não nos importamos com o vosso ultimato. Fazei o que quiserdes.” Diante disso, no mês de Rabi al-Awwal do quarto ano da Hégira, o Mensageiro (que a paz esteja com ele) saiu em campanha à frente do exército muçulmano e sitiou os Banu Nadir. Abdullah ibn Ubayy não cumpriu sua promessa, e ninguém veio em seu auxílio. Impotentes, abandonaram sua localidade. Pela benevolência do Mensageiro (que a paz esteja com ele), não apenas salvaram a vida, como também puderam levar seus bens valiosos sobre camelos. Mesmo nesse ambiente de extrema tensão, dois homens afortunados saíram do meio dos Banu Nadir; perceberam, juntamente com a injustiça e a irracionalidade do comportamento de sua própria tribo, a verdade e a justeza da mensagem do Mensageiro (que a paz esteja com ele), e abraçaram o Islã. Eram Yamin ibn Umayr e Abu Sa’d ibn Wahb.
Naquela ocasião, o exército muçulmano foi obrigado a cortar algumas árvores. Não era algo particularmente grave. Contudo, os propagandistas ocidentais também encontraram nisso material para difamação. Tratava-se de uma atividade militar inevitável. Ainda hoje, alguns exércitos precisam realizar ações desse tipo em determinadas circunstâncias, para construir estradas, destruir bases secretas do inimigo e atender a outras necessidades. Até mesmo a polícia, muitas vezes, precisa recorrer a medidas semelhantes para capturar criminosos. É necessário demolir edifícios e intervir, quando necessário, em campos, plantações e jardins.
Mesmo em circunstâncias extremamente perigosas, ao conter os malfeitores, o Mensageiro (que a paz esteja com ele) não apenas reduziu seus próprios problemas, como também preservou intactos seu prestígio e sua imagem perante os povos vizinhos. Eles compreenderam que o poder e a autoridade do governo islâmico permaneciam plenamente estabelecidos.
Abu Sufyan saiu para atacar com um exército poderoso, de acordo com a demonstração de força que havia feito no campo de Uhud. Dessa vez, seu exército contava com dois mil soldados de infantaria e cinquenta cavaleiros. Assim que recebeu a notícia, o Mensageiro (que a paz esteja com ele) também chegou ao campo de Badr com mil e quinhentos soldados de infantaria e dez cavaleiros. Acampou ali e esperou ininterruptamente durante oito dias pelo exército coraixita. Mas Abu Sufyan chegou a um lugar chamado Dahran ou Usfan, a apenas uma jornada de Meca, e voltou. Isso porque, devido à falta de chuva, aquele ano não lhe pareceu adequado para a guerra. Ao ouvir a notícia do retorno de Abu Sufyan, o Mensageiro (que a paz esteja com ele) finalmente voltou para Medina.
Assim que soube que dois ramos da tribo Banu Ghatafan, os Banu Muharib e os Banu Tha’laba, estavam se preparando para atacar Medina no mês de Muharram do quarto ano da Hégira (segundo outra opinião, em Jumada al-Awwal), o Mensageiro (que a paz esteja com ele) partiu à frente de um contingente de quatrocentos (segundo outra opinião, setecentos) voluntários. É verdade que havia um exército preparado para enfrentar as forças muçulmanas. Contudo, eles não foram efetivamente capazes de combater. Foi nesse período que ocorreu o seguinte episódio. Um idólatra chamado Ghurth saiu de casa depois de declarar à sua própria tribo: “Só voltarei para casa depois de matar Muhammad (que a paz esteja com ele).” Quando chegou, o Mensageiro (que a paz esteja com ele) descansava sozinho sob uma árvore. Sua espada estava pendurada num galho. Ghurth tomou aquela espada nas mãos, ergueu-a e disse: “Dize-me agora: quem pode salvar-te?” O Mensageiro (que a paz esteja com ele) respondeu com total serenidade: “Allah pode salvar-me.”
Dumat al-Jandal era um ponto de encontro de caravanas comerciais; além disso, pregadores cristãos e judeus, bem como agentes de inteligência política, atuavam ali. Por outro lado, como os Banu Nadir haviam buscado refúgio em lugares como Khaybar, esses locais haviam se transformado em centros de diversas conspirações contra Medina. Foi especialmente importante do ponto de vista político o fato de Ukaidar, um líder cristão ligado à conspiração entre os coraixitas de Meca e os judeus de Khaybar, ter começado a hostilizar as caravanas que transportavam cereais para Medina. O Mensageiro (que a paz esteja com ele) soube que os inimigos queriam reunir suas forças em Dumat al-Jandal e atacar Medina. No mês de Rabi al-Awwal do quinto ano da Hégira, o Mensageiro (que a paz esteja com ele) partiu imediatamente para esse lugar com mil soldados. Assim que chegou aos inimigos a notícia da marcha do exército muçulmano rumo a Dumat al-Jandal, eles se dispersaram. O Mensageiro (que a paz esteja com ele) não sentiu necessidade de avançar mais. Durante o caminho, trabalhou para conquistar aliados. Nessa etapa, foi celebrado um pacto com Uyayna ibn Hisn. Mais tarde, no sétimo ano da Hégira, Hazrat Abd al-Rahman ibn Awf partiu em uma missão política de convocação, e a tribo de Kalb passou a nutrir uma atitude positiva em relação ao Estado Islâmico de Medina. Depois, durante a expedição de Tabuk, no nono ano da Hégira, a bandeira da vitória do Estado Islâmico foi hasteada sobre essa região.
Desta vez, chegaram notícias de que os Banu al-Mustaliq estavam se preparando para atacar. Embora Buraida al-Aslami tenha sido enviado para investigar, o fato acabou sendo confirmado como verdadeiro. Diante disso, o Mensageiro (que a paz esteja com ele) tomou medidas militares no dia 3 de Sha’ban. Com extrema rapidez, chegou a Muraisi, um local com água. Harith ibn Dirar, chefe dos Banu al-Mustaliq, estava disposto a lutar. Porém, como o Mensageiro (que a paz esteja com ele) apareceu ali de surpresa, seus soldados se dispersaram. Restaram apenas os membros de sua própria tribo. No primeiro ataque, o exército de Harith foi completamente derrotado. Um grande número de animais foi capturado como espólio, e todos os homens e mulheres da tribo tornaram-se prisioneiros de guerra. Entre esses prisioneiros estava uma mulher chamada Juwayriya. Ela recitou diante do Mensageiro (que a paz esteja com ele) o testemunho de fé e disse: “Compareci como muçulmana.” O Mensageiro (que a paz esteja com ele) casou-se com ela, com o seu consentimento. Como resultado, o exército muçulmano libertou todos os prisioneiros dos Banu al-Mustaliq, dizendo: “Não podemos manter cativos os parentes do Mensageiro (que a paz esteja com ele).”
Foi nesta batalha que os hipócritas, ao presenciarem a vitória do Islã, ficaram enfurecidos. Primeiro, provocaram uma discussão por causa da água e tentaram criar desordem entre os Muhajirun e os Ansar. No caminho de volta, continuaram a incitar os Ansar a expulsar os Muhajirun de Medina. Foi também durante essa viagem que Hazrat Aisha foi vítima de calúnia, pois se separou da caravana. Já relatei anteriormente todos esses acontecimentos.
Todos esses pequenos acontecimentos ocorreram depois da Batalha de Uhud e antes da Batalha da Trincheira. Essas medidas tiveram de ser tomadas para que o Estado Islâmico preservasse a própria existência, mantivesse a lei e a ordem e desse continuidade ao processo constitucional. Com exceção apenas dos acontecimentos relacionados aos representantes dos professores, em todos os demais casos às vezes eram enviados apenas soldados para a fronteira, e às vezes eram adotadas medidas puramente policiais. Confrontos militares genuínos ocorreram muito raramente e foram de dimensões muito pequenas. Se lhes fosse dada uma importância desnecessária e fossem descritos em detalhes, isso poderia criar uma impressão equivocada na mente do leitor. A situação real era que a sociedade árabe estava dividida em diversas tribos, grandes e pequenas. Cada tribo, e até mesmo os ramos das tribos, constituía uma unidade administrativa e política independente dentro de sua própria esfera. Às vezes uma tribo se rebelava, enquanto outra se preparava para atacar ou saquear. Quando se punha fim aos atos nocivos de uma, outra se levantava. Nessas circunstâncias, sempre que se tentava estabelecer uma administração central, não havia possibilidade alguma de sucesso sem correr o risco de conflitos e confrontos com as tribos grandes e pequenas, dispersas por toda parte.
Terceira grande guerra — a Trincheira
Embora, na Batalha de Uhud, os coraixitas tivessem tido, por uma circunstância fortuita, a oportunidade de mostrar sua força aos muçulmanos e, aparentemente, tivessem assim se vingado da derrota de Badr, eles compreenderam muito bem que, na realidade, não haviam retornado do campo de Uhud com a aparência de vencedores. Também entenderam que, com seu poder atual, não eram capazes de derrotar o Estado Islâmico de Medina. Por isso, partiram de Uhud decididos a travar uma nova batalha após um intervalo de um ano, quando tivessem feito preparativos maiores e reunido mais soldados. Abu Sufyan chegou a declarar essa intenção. Contudo, depois que um ano se passou, eles saíram de Meca com tropas e, devido às circunstâncias adversas, acabaram retornando. Havia uma grande diferença entre os coraixitas e o Estado Islâmico. Essa diferença era que o campo jahilita dos coraixitas estava estagnado e enfraquecido em termos de sua força vital; não possuía capacidade alguma de se desenvolver e crescer. Pelo contrário, algumas de suas forças se separavam continuamente dele e passavam para o lado do Estado Islâmico. A força islâmica de Medina era uma força idealista, dedicada à da‘wah e voltada para o povo. Por isso, era sempre ativa, ocupada, em desenvolvimento e em expansão. Em razão dessa diferença fundamental, a passagem do tempo estava se mostrando favorável a Medina. Em todos os aspectos — formação moral e purificação do caráter, relações de aliança baseadas em tratados, força defensiva, crescimento do número de pessoas e expansão da posse territorial — Medina tornava-se progressivamente maior, mais extensa e mais poderosa. O Estado Islâmico havia conseguido, na prática, fechar as rotas comerciais dos coraixitas. Como resultado, Meca estava sendo lançada em uma crise econômica. Apesar de ter enfrentado muitas complicações durante os dois anos após a Batalha de Uhud, o Estado Islâmico havia progredido consideravelmente. Por outro lado, como a batalha que os coraixitas haviam adiado por um ano fora postergada, agora ela lhes exigia o acúmulo de uma força agressiva ainda maior. Não era fácil para os coraixitas, sozinhos, fornecer toda a força necessária. Contudo, os vários inimigos do Estado Islâmico, compelidos pelas circunstâncias, encontraram o caminho da união mútua. Os judeus expulsos de Medina que haviam se estabelecido em Khaybar e Wadi al-Qura esforçavam-se muito para incitar os coraixitas a atacar Medina. Começaram suas atividades hostis criando obstáculos de várias maneiras no caminho das caravanas que transportavam cereais para Medina. Quando esses judeus exilados souberam do resultado da Batalha de Uhud e ouviram falar da intenção de Abu Sufyan de lançar um novo ataque, seu entusiasmo e sua energia não conheceram limites. Eles incitaram os Banu Ghatafan, detentores de grande força humana, a atacar Medina, prometendo-lhes toda a produção de tâmaras de Khaybar durante um ano inteiro e uma parcela determinada também no futuro. Depois de concluir esse trabalho, enviaram uma delegação a Meca. Faziam parte dela importantes líderes judeus, como Salam ibn Abi al-Huqayq, Salam ibn Mishkam, Huyayy ibn Akhtab, Kinana ibn al-Rabi (Banu Nadir), Hawdha ibn Qays e Abu Ammara (Banu Wa’il). Eles asseguraram aos coraixitas: “Se vocês lançarem o ataque, nós continuaremos a oferecer-lhes plena ajuda e cooperação até que Muhammad (que a paz esteja com ele) seja completamente destruído.” Essa delegação retornou de Meca tendo alcançado pleno êxito e, no caminho de volta, também se encontrou com os Banu Ghatafan e outras tribos. Os coraixitas igualmente mantiveram consultas com seus aliados e apoiadores e convocaram também os Ahābīsh para ajudá-los. Em suma, dessa vez as forças jahilitas reuniram apoiadores de toda a Arábia.
Quatro mil soldados partiram de Meca sob o comando de Abu Sufyan. Entre eles havia três mil cavalos e mil camelos. Quando esse exército chegou a Marr al-Zahran, algumas das principais tribos aliadas dos coraixitas — Banu Sulaym, Banu Asad, Fazara, Ashja e Banu Murra, entre outras — saíram de suas respectivas regiões e se juntaram ao exército coraixita. Os Banu Ghatafan partiram sob a liderança de Uyayna ibn Hisn. Há divergências quanto ao número total de homens que compunham o exército coraixita. Segundo alguns, eram de seis a sete mil; segundo outros, dez mil; e, segundo outros ainda, vinte e quatro mil. Contudo, a maioria considera que o número era de dez mil, e essa é a opinião predominante.
Quando o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) estava em viagem a Dumat al-Jandal, já havia tomado conhecimento desses preparativos. Por isso, ele retornou rapidamente. Reuniu-se um conselho consultivo. Decidiu-se que o ataque seria repelido a partir de Medina. Para a defesa da cidade, aceitou-se a sugestão de Salman al-Farisi sobre a escavação de um fosso, ou trincheira, segundo o método iraniano. Uma vantagem disso era que essa inovadora estratégia defensiva seria capaz de colocar os invasores árabes em dificuldade. Além disso, o trabalho que poderia ser realizado por meio de um muro alto e resistente podia ser realizado apenas com esforço físico. Com esse método, era possível conter um grande número de soldados inimigos com um pequeno número de soldados. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) saiu montado a cavalo para determinar pessoalmente o traçado da trincheira. A cidade de Medina era cercada, em três de seus lados, por casas e jardins delimitados por muros. Portanto, não havia necessidade alguma de escavar uma trincheira nesses três lados; ela era necessária apenas no lado norte, que era aberto. Decidiu-se que seria preciso construir uma trincheira semicircular, ligando Harrah Sharqiyyah e Harrah Gharbiyyah (a planície pedregosa do leste e a planície pedregosa do oeste), até a extremidade ocidental do monte Sila. A escavação dessa parte foi realizada sob administração militar. No entanto, algumas tribos, para proteger suas próprias casas, ampliaram a trincheira por iniciativa própria. Assim, ela foi estendida para o sul, passando pelo lado oeste do local de oração do Eid (a Mesquita de Ghamamah), e prolongada por uma grande distância na direção de Quba. Os três mil mujahideen muçulmanos aos quais mais tarde seria confiada a responsabilidade de combater diretamente desempenharam o papel de trabalhadores voluntários na escavação da trincheira. Formaram-se grupos de dez homens, e a cada grupo foi atribuída a escavação de dez côvados da trincheira. A trincheira tinha aproximadamente dez côvados de largura, pois alguns cavaleiros inimigos morreram ao cair dentro dela quando tentaram saltá-la com seus cavalos. Sua profundidade também provavelmente não era inferior a cinco côvados. Seu comprimento era de três milhas e meia. É espantoso até imaginar como os voluntários muçulmanos conseguiram concluir uma obra tão grande em apenas três semanas. Foi necessário escavar e transportar cerca de trezentos e oito mil jardas cúbicas de terra. Quanto aos equipamentos, a situação era a seguinte: alguns instrumentos para cortar e escavar a terra foram emprestados dos Banu Qurayzah mediante um acordo. Por falta de cestos e recipientes, não apenas os muçulmanos comuns, mas também homens como Abu Bakr e Umar (que Allah esteja satisfeito com ambos) carregavam a terra repetidamente em suas capas e nas abas de suas vestes. Em vários pontos junto à trincheira foram construídas altas plataformas de observação. A partir dessas plataformas, era possível supervisionar simultaneamente todas as partes da trincheira.
Assim que o trabalho de escavação da trincheira foi concluído, no mês de Shawwal do quinto ano da Hégira, o exército inimigo aliado chegou aos arredores de Medina. Os soldados dos coraixitas, de Kinana e dos Ahაბish acamparam junto ao poço de R uma, nas proximidades do vale de al-Aqiq. Os Ghatafan e os Banu Asad acamparam a leste, espalhando-se desde o local chamado Yanbu‘ Naqma, perto de Wadi al-Nu‘man, até o monte Uhud. Por outro lado, o exército muçulmano estabeleceu seu acampamento central mantendo o monte Sila às costas. No local onde havia sido instalada a tenda do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), existe ainda hoje a Mesquita de al-Fath, como lembrança desse acontecimento.
Embora os inimigos do Islã estivessem alinhados em número imenso, essa trincheira, ou fosso, apresentou-se como um novo problema para eles. Nunca haviam visto um sistema defensivo desse tipo. Eram completamente ignorantes quanto a essa estratégia. Seus cavalos e camelos só podiam ser utilizados até a margem externa da trincheira. Um ou dois cavaleiros, tomados por grande entusiasmo, tentaram saltar a trincheira e morreram ao cair nela. Eles avançavam de várias direções. Mas os soldados do exército muçulmano, sem demonstrar qualquer negligência, posicionavam-se imediatamente diante deles e repeliam os inimigos que lançavam flechas. Espadas e lanças eram completamente inúteis. Todos os dias, ambos os lados trocavam algumas flechas. Cansado do cerco de vários dias, o exército inimigo lançou um forte ataque certo dia. Atacaram ora de um ponto, ora de outro, mas não obtiveram resultado algum. Por fim, o famoso e veterano cavaleiro guerreiro do exército coraixita, Amr ibn Abd Wudd, avançou tomado pela exaltação. Ele instigou Ikrimah, filho de Abu Jahl, Hubayrah ibn Abu Wahb e Dirar ibn al-Khattab, e levou consigo alguns homens de Banu Kinana. Finalmente, encontrou um local conveniente e saltou a trincheira com seu cavalo. Um ou dois de seus companheiros também atravessaram a trincheira atrás dele. Todos os demais permaneceram junto à margem. Depois de entrar, desafiou os muçulmanos para um combate. Ali avançou para enfrentá-lo e, após feri-lo levemente, enviou-o para o Inferno. Aquele dia foi tão difícil para o exército muçulmano que, ao repelir os inimigos vindos de várias direções, quatro orações foram perdidas.
A longa duração do cerco era motivo de preocupação para os muçulmanos. Mas os inimigos também estavam perturbados com isso. Depois de muitas consultas, decidiu-se, para realizar um ataque final, que a tribo judaica Banu Qurayzah deveria ser induzida a romper o tratado firmado com o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e lançar um ataque a partir de dentro. A pedido de Abu Sufyan, Huyayy ibn Akhtab assumiu essa tarefa. Ele encontrou-se com Ka‘b ibn Asad, chefe dos Banu Qurayzah, e apresentou sua proposta. A princípio, Ka‘b recusou. Disse: “Sempre vi Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) cumprir suas promessas. Portanto, romper a promessa feita a ele seria uma atitude extremamente desumana.” Mas Huyayy ibn Akhtab insistiu repetidamente com toda a força e disse: “Viemos com incontáveis soldados. Toda a nação árabe veio conosco. Todo o exército está embriagado pela ânsia do sangue de Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Não se deve deixar escapar esta oportunidade. Agora chegou o momento final do Islã.” Em suma, a estratégia de provocação foi bem-sucedida. E a notícia chegou imediatamente aos ouvidos dos muçulmanos. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) investigou a veracidade do assunto. A investigação confirmou que era verdadeiro. Quando um grupo de Companheiros testemunhou que o fato era verdadeiro, as únicas palavras pronunciadas pelo Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) foram: “Allahu Akbar! Hasbunallahu wa ni‘mal-wakil.” (“Allah é o Maior. Allah nos basta; Ele é o melhor Guardião.”)
A extensão do campo de batalha, a longa duração do cerco, a escassez de soldados, a falta de equipamentos e provisões, a intensidade da fome, juntamente com a privação de sono, a fuga dos hipócritas do campo de batalha sob vários pretextos frágeis e até mesmo a perda das orações devido ao excesso de ocupações — nada disso era uma provação comum. Além disso, quando o temor de uma traição se espalhou dentro de Medina e surgiu uma situação em que os Banu Qurayzah, capazes de fornecer mais de mil e quinhentos guerreiros, passaram subitamente a desempenhar o papel de um inimigo interno assustador, é difícil hoje imaginar o estado mental dos três mil mujahideen dispostos a lutar até a morte. Abu Bakr as-Siddiq (que Allah esteja satisfeito com ele) relatou que, depois de recebermos essa notícia, espalhou-se entre nós o temor de que nossas casas pudessem ser atacadas e nossas mulheres e crianças fossem vitimadas. Por causa desse temor, subíamos repetidamente à montanha para verificar se algo havia acontecido. Quando víamos nossas casas tranquilas, agradecíamos a Allah. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) enviou uma força de trezentos mujahideen para garantir a segurança de Medina. A imagem da situação daquele momento, apresentada pelo Alcorão, é a seguinte:
“Lembrai-vos de quando os inimigos avançaram contra vós, por cima e por baixo, quando vossos olhos ficaram imóveis e vossos corações chegaram às gargantas, enquanto abrigáveis toda espécie de pensamentos sobre Allah.”
(Al-Ahzab-10)
De fato, a espécie de dura provação que os muçulmanos enfrentaram neste acontecimento não ocorreu em nenhuma das duas grandes batalhas anteriores. É verdade que houve sofrimentos indescritíveis na batalha de Uhud, mas tudo aconteceu em um único dia. Desta vez, porém, as dificuldades foram prolongadas, e os invasores não eram apenas os coraixitas: havia muitos outros. Ao ver o sofrimento dos muçulmanos, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, concebeu a estratégia de retirar do campo de batalha alguma parte das forças inimigas por meio de esforços e negociações conciliatórias. Ele mandou chamar os dois chefes dos extremamente gananciosos Banu Ghatafan e conversou com eles. Propôs-lhes um acordo, oferecendo-lhes um terço da produção total de Medina, e chegou-se a um entendimento; chegou-se até a preparar o rascunho do tratado. Porém, antes de assiná-lo, ele considerou necessário consultar Sa’d ibn Mu’adh e Sa’d ibn ‘Ubadah, chefes de Aws e Khazraj. Explicou a ambos: “Vocês estão cercados por um número tão grande de inimigos que não é fácil repeli-los. Portanto, não há outra alternativa senão enfraquecer as forças inimigas.” O orgulho de ambos despertou. Eles disseram: “Ó Mensageiro de Allah, quando ainda éramos descrentes, essas tribos jamais puderam tomar nossas riquezas dessa maneira. E agora que aceitamos o Islã e nos tornamos mais fortes do que antes, entregaremos nossos bens a eles dessa forma? Por Allah, isso jamais poderá acontecer. Não precisamos de tal acordo.” O Mensageiro de Allah ficou extremamente feliz ao ouvir essa resposta. Quando entregou o rascunho do tratado a Sa’d, este o rasgou.
Ainda assim, a complexidade da situação permanecia inalterada. Allah Todo-Poderoso providenciou subitamente uma solução. Foi um acontecimento extraordinário e o mais luminoso testemunho da integridade moral e intelectual do movimento islâmico. Em um momento tão devastador, Nu’aym ibn Mas’ud avançou subitamente. Ele foi até o Mensageiro de Allah e disse: “Ó Mensageiro de Allah, tornei-me muçulmano.” Dizendo isso, recitou publicamente a profissão de fé e declarou a pureza de sua crença. Depois disse: “Como os inimigos ainda não sabem que aceitei o Islã, se me der permissão, posso fazer algo para romper a unidade entre os coraixitas e os Banu Qurayza.” O Mensageiro de Allah deu-lhe permissão. Nu’aym foi até os Banu Qurayza. Após uma conversa inicial com eles, disse-lhes: “Se a vitória for alcançada, muito bem. Mas pensem no que acontecerá se a derrota lhes couber. Se forem derrotados, os coraixitas e Ghatafan irão todos embora, e vocês serão os únicos alvos do ataque de Muhammad, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Portanto, digam aos coraixitas e a Ghatafan que deixem alguns de seus homens com vocês como reféns. Se cumprirem essa condição, cooperem com eles; caso contrário, separem-se deles.” Em seguida, Nu’aym foi até os líderes coraixitas. Disse-lhes: “Tenho algumas informações que considero necessário transmitir-lhes. Os Banu Qurayza mudaram agora de posição. Em breve vocês terão provas disso. Eles lhes pedirão alguns homens como reféns.” Então os coraixitas comunicaram aos Banu Qurayza: “Não conseguimos mais suportar este longo cerco. Se cooperarem conosco, lançaremos um ataque final.” Os Banu Qurayza exigiram que alguns homens fossem deixados como reféns. Dessa vez, os coraixitas acreditaram nas palavras de Nu’aym. Perderam a confiança nos Banu Qurayza. Como resultado dessa estratégia, o cenário da guerra mudou completamente.
Devido à ruptura na unidade dos inimigos do Islã, eles começaram a sentir um enorme cansaço. Já fazia quase um mês que haviam deixado suas casas. Seus negócios tinham sofrido grandes prejuízos, e muito dinheiro já havia sido gasto. No entanto, nada disso lhes trouxera benefício. Além disso, o problema do abastecimento de um exército tão grande e de seus animais tornou-se crítico. Uma grande parte dos suprimentos dos coraixitas foi capturada no caminho por uma força muçulmana. Ademais, o clima tornou-se desfavorável. O frio ultrapassou os limites da resistência. Em acontecimentos históricos desse tipo, a influência dos elementos naturais costuma ser extremamente grave. Um simples sinal da vontade de Allah pode resolver definitivamente um problema. O testemunho da história mostra que, muitas vezes, os elementos naturais se unem para inclinar a balança da verdade em situações extremamente delicadas. Certa noite, surgiu subitamente uma tempestade tão forte que as tendas dos invasores foram arrancadas, os fogões se apagaram, as panelas e utensílios ficaram completamente espalhados, e os animais se assustaram. Em suma, seu entusiasmo e ardor congelaram por completo. Tomados de intenso pavor, começaram a pensar em abandonar a guerra e fugir. Sobre essa ajuda do invisível, Allah diz:
“E recordai o favor de Allah para convosco, quando exércitos se reuniram contra vós; então enviamos contra eles um vento e exércitos que não pudestes ver.” (Surata Al-Ahzab-9)
Ao ver o pavor e o desespero generalizados entre os soldados, Abu Sufyan compreendeu que já não lhes era possível resistir por muito mais tempo. Assim, partiram subitamente de Medina e foram embora. O Mensageiro de Allah disse: “Agora terminou a era dos ataques dos coraixitas.” Ou seja, eles haviam testado em Badr e Uhud a força de seu próprio poder isolado. Em Al-Khandaq, lançaram um ataque conjunto, trazendo aliados de toda a Arábia. Esse ataque também fracassou. Como no futuro já não lhes seria possível reunir uma força tão grande, de que maneira os coraixitas poderiam voltar a guerrear? As batalhas posteriores exigiriam uma força ainda maior.
Nesta guerra, houve pouquíssimas baixas de ambos os lados. Entre as forças muçulmanas, foram ainda menos. Ao todo, seis pessoas foram martirizadas. Entre elas estava uma figura extraordinária como Sa’d ibn Mu’adh. Ele foi ferido por uma flecha e faleceu alguns dias depois.
Algumas lições importantes da batalha de Al-Khandaq
As lições educativas desta batalha são as seguintes:
1- O fator que mais aumentava a fé era o entusiasmo e o ardor dos voluntários muçulmanos, dispostos a sacrificar a própria vida. Eles não apenas demonstraram, em conjunto, extrema paciência e firmeza inabalável diante daquela situação terrível, como também concluíram a escavação da trincheira de tal maneira que parecia que um exército de gênios havia agarrado a Terra e a virado de cabeça para baixo. Eles realizaram esse trabalho cantando cânticos islâmicos.
(Árabe********)
“Somos aqueles que, tendo dado as mãos a Muhammad, prometeram continuar fazendo jihad por toda a vida.”
Outro grupo começou a cantar:
(Árabe********)
“Os inimigos nos atacaram para nos afastar do caminho da verdade. Mas nós não aceitamos isso.” Em especial, “‘não aceitamos’, ‘não aceitamos’”. Quando essa expressão era cantada em uníssono, com vozes fortes, o ar e o céu ressoavam com uma determinação inexpugnável.”
Uma das razões para esse entusiasmo e ardor era que tudo o que haviam conquistado até então, após uma vida inteira de luta, estava ameaçado. O movimento islâmico e o Estado islâmico de Medina eram as coisas mais queridas para eles. Consideravam uma ventura sacrificar por isso tudo o que possuíam, suas vidas e seus bens. A luta e o esforço sagrados para alcançar o bem supremo da humanidade, neste mundo e no Além, eram a atividade mais querida de suas vidas. A segunda razão principal era que seu amado líder não estava apenas fisicamente presente com eles no local de trabalho, mas também participava ativamente de cada tarefa. Assim que o trabalho de escavação começou, o Mensageiro de Allah saiu de sua casa para o local de trabalho, e uma tenda foi armada numa montanha próxima para sua estadia. Atualmente, a Mesquita de Zubab está estabelecida nesse local. O próprio Mensageiro de Allah era membro de um dos grupos formados por dez pessoas cada. É bem conhecido que Hazrat Salman al-Farisi era capaz de trabalhar dez vezes mais do que qualquer outra pessoa. Por isso, cada grupo tentava incluí-lo entre seus membros. O Mensageiro de Allah resolveu essa disputa dizendo: “Salman é membro do grupo de nossa família.” Assim, Hazrat Salman foi honrado e também foi eliminada a possibilidade de conflito entre os diferentes grupos. O Mensageiro de Allah realizou tanto o trabalho de cavar a terra quanto o de transportá-la. Além disso, sempre que uma pedra dura ficava presa na enxada, ele próprio se apresentava para quebrá-la. Relata-se que ele quebrou com as próprias mãos duas pedras desse tipo.
2 — Já mencionei anteriormente quão intensas eram as privações, as queixas e a situação de penúria dos muçulmanos durante essa guerra. As ferramentas para a escavação foram tomadas emprestadas dos Banu Qurayza. Não havia sequer cestos para transportar a terra. Por isso, cada um usava as próprias roupas. Além disso, havia uma grave escassez de alimentos. Como três mil homens estiveram continuamente ocupados por duas ou três semanas na escavação e por outras duas ou três semanas na guerra, enquanto todas as atividades agrícolas e comerciais estavam paralisadas, era inevitável que surgisse uma crise econômica. Mesmo trabalhando arduamente, até o suor lhes escorrer da cabeça aos pés, os mujahidin muçulmanos jejuaram durante três dias consecutivos. Todos suportaram isso com um sorriso. Pois o líder dos muçulmanos, o Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele), também participou desse jejum. Na verdade, suportou uma fome maior que a dos outros. Certa vez, alguém veio mostrar que, atormentado pela fome, havia amarrado uma pedra ao ventre. Então o Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) afastou a roupa e mostrou que havia amarrado duas pedras. A qualidade do sacrifício e da abnegação só permanece enquanto todos os membros do grupo participam dela. Mas, se algumas pessoas se colocam acima do sacrifício e tentam impor exclusivamente aos outros a responsabilidade da abnegação e do sacrifício, essa qualidade começa a desaparecer de todo o grupo. Sobretudo, o líder e os responsáveis por um grupo islâmico devem procurar estar à frente de todos os demais nessa qualidade.
3 — De modo geral, manter a disciplina na sociedade já é uma exigência indispensável do movimento islâmico. No campo de batalha, porém, sem disciplina absoluta não é possível enfrentar o inimigo de maneira eficaz. Desde a primeira batalha, o Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) ensinou a disciplina militar. Quando se chegou à Batalha da Trincheira, a experiência já havia se ampliado consideravelmente. Por isso, o aspecto disciplinar estava bastante fortalecido nessa batalha. A escavação da trincheira foi concluída com plena disciplina e divisão de tarefas. Além disso, foram construídas plataformas de observação em vários pontos para supervisionar o trabalho e manter o controle do campo de batalha, e também foi organizada uma guarda em turnos. Até mesmo foram estabelecidos sinais para o reconhecimento mútuo entre os mujahidin muçulmanos. Quando o grupo encarregado de investigar a traição dos Banu Qurayza voltou e apresentou um relatório confirmando a acusação, também o fez por meio de um código. Os membros da equipe de investigação limitaram-se a dizer: “Adal e Qara”. Isso significava que, assim como o povo de Adal e Qara havia traído o grupo de professores, os Banu Qurayza também haviam feito o mesmo. Apesar disso, numa ocasião, por engano e na escuridão da noite, dois grupos de mujahidin muçulmanos entraram em confronto, e um homem alcançou o martírio. Desde o início até o fim da escavação, nenhum dos muçulmanos sinceros abandonou o local de trabalho sem pedir autorização ao Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele).
4 — O caminho que o Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) encontrou para fazer um acordo conciliatório com os Banu Ghatafan mostra que, para proteger o movimento islâmico de uma oposição perigosa e enfraquecer a força do inimigo, se às vezes for necessário recuar um pouco ou mostrar certa flexibilidade, isso não será algo tão inimaginável. Após envolver-se em conflitos prolongados, pode ser necessário, de tempos em tempos, realizar acordos conciliatórios com as diversas pessoas com quem se estabelecem relações. Podem surgir muitas necessidades complexas para o movimento islâmico, e, para atendê-las, ele precisa necessariamente demonstrar discernimento e sabedoria. A capacidade de compreender a situação e encontrar nela o melhor caminho deve ser uma qualidade indispensável de qualquer liderança competente e perspicaz. Princípios e métodos de ação são coisas diferentes. No campo dos princípios e ideais, não há espaço algum para flexibilidade ou compromisso. No campo dos métodos de ação, porém, há. Aqueles que querem aplicar a mesma fórmula em todas as situações aos métodos de ação, assim como aos princípios, quase nunca conseguem realizar feitos notáveis na história.
É preciso observar que o Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) procurou antecipadamente uma solução para o problema dos Ansar de Medina, temendo que eles pudessem entrar em pânico ao pensar que uma calamidade insuportável havia caído sobre seus ombros; foi por isso que ele quis chegar a um entendimento com os Ghatafan. Entretanto, quando os dois líderes de Aws e Khazraj demonstraram firmeza, ele se sentiu tranquilizado.
5 — Antes de dar forma final à proposta de entendimento, o Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) fortaleceu o sistema de consulta ao consultar os líderes dos Ansar. Mesmo no campo de batalha, não tomou sozinho nenhuma decisão importante.
6 — O papel desempenhado por Nu’aym ibn Mas’ud para provocar a desunião entre os inimigos foi realizado com a autorização do Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele). Ele autorizou essa ação com base no princípio de que “a guerra é um tipo de engano”. Disso se sabe que, (sempre dentro dos limites éticos invioláveis,) podem ser adotadas diversas estratégias em conflitos ou guerras. Pelo contrário, em certas circunstâncias, elas podem tornar-se inevitáveis. Em situações extremamente perigosas e arriscadas, se alguém simplesmente permanecer olhando, com ingenuidade, como um espectador silencioso e passivo, sem recorrer a uma estratégia, pode ocorrer uma grande catástrofe. A menos que se considere um relato fraco de Ibn Ishaq, Nu’aym ibn Mas’ud realizou uma tarefa extraordinária com enorme êxito, sem dizer uma única mentira e sem transgredir qualquer limite moral.
7 — O companheiro Salman al-Farisi, integrante do grupo do Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele), narra: durante a escavação, encontramos uma enorme pedra que eu não conseguia quebrar de modo algum. O Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) estava perto. Ele tomou de mim a picareta e começou a golpeá-la repetidamente. Após o primeiro golpe, disse: “O Iêmen foi conquistado para mim.” Depois de desferir o segundo golpe, disse: “A Síria e o Marrocos inclinaram a cabeça diante de mim.” Na terceira vez, disse: “A região oriental (o Irã) caiu sob meu domínio.” Essa profecia é muito importante por dois aspectos. Primeiro, ela mostra que o Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) tinha, desde o início até o fim, uma compreensão clara das etapas do sucesso do movimento islâmico. E, em apoio a essa compreensão, também lhe chegava revelação de Allah. Segundo, mesmo em um ambiente extremamente adverso, quando a força estava em seu nível mais baixo e as calamidades e perigos haviam atingido o nível mais grave, ele ainda mantinha a convicção absoluta de que a vitória do Islã era inevitável.
Além disso, não podemos deixar de dizer que, desde o período de Meca até o período de Medina, a afirmação proferida repetidamente pelo Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) de que o mundo árabe e o mundo não árabe seriam miseravelmente derrotados pelas mãos do Islã foi tão frequentemente pronunciada e comentada por todos que assumiu a forma de um slogan permanente do movimento islâmico. Tratarei desse assunto em detalhes em outro lugar. Em momentos de diversas calamidades, ao zombar e ridicularizar essa profecia, um hipócrita chamado Mu’attab ibn Qushayr disse: “Por um lado, Muhammad (que a paz esteja com ele) nos entrega as chaves dos impérios Romano e Persa; por outro, a nossa realidade é que nenhum de nós consegue sequer sair de casa para ir ao banheiro, de tanto medo.”
8— Embora, devido às circunstâncias especiais desta batalha, as mulheres e as crianças tenham sido enviadas para dentro da fortaleza, mesmo nessa ocasião as mulheres muçulmanas desempenharam um papel notável. Uma mulher chamada Rashida foi ao campo de batalha levando alguns medicamentos e materiais para curativos, e prestou muitos cuidados aos feridos. Ela também enfaixou o ferimento de Hazrat Sa‘d ibn Mu‘adh. Um jovem judeu foi visto rondando os arredores de um acampamento de mulheres. A tia paterna do Mensageiro, Hazrat Safiyya, estava ali. Hazrat Hassan ibn Thabit havia sido deixado naquele local por estar doente. Hazrat Safiyya disse a Hassan que agarrasse e espancasse aquele homem. Quando o enfermo Hassan declarou-se incapaz de fazê-lo, a corajosa Hazrat Safiyya pegou ela mesma um pedaço de madeira, espancou-o e matou-o. Depois, cortou-lhe também a cabeça e lançou-a para fora da fortaleza, para que os demais malfeitores ficassem prevenidos. Depois desse incidente, nenhum outro inimigo ousou aproximar-se daquele lado. A mãe de Hazrat Sa‘d ibn Mu‘adh também estava na fortaleza onde Hazrat Aisha se encontrava. Hazrat Aisha, que Deus esteja satisfeito com ela, saiu da fortaleza e, ao ouvir passos, olhou e viu Sa‘d ibn Mu‘adh avançando orgulhosamente em direção ao campo de batalha, com uma lança na mão. Enquanto caminhava, recitava concentradamente estes versos:
‘Esperem um pouco; que mais um jovem participe da batalha,
quando a morte é inevitável, por que
temê-la?’
Quando a mãe de Sa‘d ouviu o poema do filho, disse em voz alta: “Vá depressa, Sa‘d. Você já está muito atrasado.” Pouco depois, quando Sa‘d foi atingido por uma flecha e alcançou o martírio devido a esse ferimento, o sentido do poema de Sa‘d tornou-se realidade.
Viram a emoção de uma mãe muçulmana?
9 — Quando os muçulmanos devotos, mergulhados na terrível situação da Batalha da Trincheira, viram aquele tumulto de perigos e calamidades, em vez de sentirem o menor medo ou pavor, exclamaram espontaneamente: “Esta é exatamente a situação que Deus e Seu Mensageiro já nos haviam anunciado que teríamos de enfrentar.” Na verdade, assim como não é possível alcançar a vitória da verdade neste mundo sem atravessar situações tão perigosas, também não se pode alcançar o Paraíso na outra vida. Na Surata Al-Ahzab, tais crentes consagrados são elogiados. Eles são a verdadeira força vital e o verdadeiro capital do movimento.
10 — É do conhecimento de todos, a respeito do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele), que, para estabelecer os muçulmanos em uma civilização distinta, ele gravou profundamente em suas mentes este princípio: a imitação de povos estrangeiros nos campos social e cultural é indesejável. Em seu lugar, novos valores culturais devem ser formados à luz dos próprios ideais. Cada corrente cultural deve ser reconstruída de acordo com as próprias preferências islâmicas. Contudo, quando vemos o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) aceitar de coração aberto a estratégia defensiva iraniana de construir uma trincheira, compreendemos que o intercâmbio de recursos materiais, tecnologia, engenharia e informações técnicas deve permanecer aberto a toda a humanidade. Não é necessário considerar que os recursos, tecnologias, conhecimentos de engenharia, informações técnicas e métodos que sejam eficazes em determinada época devam ser aplicados exatamente da mesma forma em todas as épocas, culturas e circunstâncias. Tampouco é necessário denominar essas coisas de sharia ou sunna. Nesses assuntos, deve-se adotar dos demais povos e culturas os elementos necessários. É dever indispensável, segundo a perspectiva do próprio Islã, de um Estado islâmico e de sua liderança utilizar os recursos mais influentes de seu tempo, promover o avanço de seu povo nas ciências técnicas e na tecnologia, aprender também com outros as tecnologias mais bem-sucedidas e criar suas próprias inovações.
Da Batalha da Trincheira à conquista de Meca
Durante esses dois anos entre a Batalha da Trincheira e a conquista de Meca, ocorreram algumas importantes iniciativas políticas e pequenas campanhas militares. É muito importante dar atenção a elas para acompanhar a continuidade dos acontecimentos.
A tribo dos Banu Qurayza foi o pior exemplo da degeneração moral e mental do povo judeu. Os maus costumes e as más ações eram parte de sua natureza e de seu caráter generalizado. Embora estivessem vinculados por um pacto constitucional ao Estado Islâmico e fossem seus cidadãos, continuavam a conspirar de todas as formas e a provocar desordens. Contudo, violar abertamente o pacto durante a Batalha da Trincheira e aliar-se aos inimigos invasores foi seu ato de extrema traição. Em nenhuma época e em nenhum país a pena de morte para os envolvidos nesse crime poderia ser considerada injustiça ou opressão. Eles não deixaram de fazer qualquer tentativa para destruir o Mensageiro (s.a.), o grupo islâmico, o movimento islâmico e o Estado Islâmico de Medina. Portanto, não havia justificativa alguma para não lhes aplicar a punição merecida. Depois que os exércitos dos coraixitas invasores e de seus aliados partiram, o Mensageiro (s.a.) e os voluntários muçulmanos deixaram pela manhã as posições da trincheira e retornaram às suas respectivas casas. O Mensageiro (s.a.) depôs as armas e tomou banho. Exatamente nesse momento, recebeu a revelação: “Partam em direção aos Banu Qurayza.” Os mujahidin ainda nem haviam tirado as roupas de guerra quando foram chamados para uma nova campanha. O exército muçulmano sitiou aquela tribo traidora. O cerco durou ininterruptamente vinte e cinco dias. Mesmo naquele momento delicado, eles insultaram o Mensageiro (s.a.) do alto da fortaleza. Por fim, os Banu Qurayza ficaram perturbados. Seu chefe, Ka‘b bin Asad, apresentou aos muçulmanos algumas propostas para se livrar da angústia. Mas o exército muçulmano não aceitou nenhuma delas. Finalmente, obrigados pelas circunstâncias, eles se renderam incondicionalmente ao Estado Islâmico. Após conversar com eles, o Mensageiro (s.a.), com o consentimento deles, nomeou Sa‘d bin Mu‘adh como árbitro. Ambas as partes concederam a Sa‘d autoridade para tomar a decisão. Sa‘d decidiu, de acordo com as disposições da Torá, o livro dos judeus, que todos os homens jovens dos Banu Qurayza fossem mortos. Assim, o poder militar e político de um grupo conspirador foi eliminado. É digno de nota que, mesmo num momento de tamanha amargura, um membro dos Banu Qurayza, ‘Umar bin Sa‘d, aceitou o Islã. Esse homem virtuoso havia advertido repetidamente os Banu Qurayza a não violarem o pacto, mas eles não deram ouvidos às suas palavras.
Depois desse acontecimento, Abu Rafi‘ ‘Abdullah bin Abu al-Huqayq — também chamado Sallam —, um dos mais ferozes e ardilosos inimigos do Islã, foi morto pelas mãos de alguns jovens khazrajitas da Síria. Ele havia se esforçado muito para recrutar soldados para os incrédulos na Batalha da Trincheira.
Quando Muhammad bin Muslimah al-Ansari estava encarregado de patrulhar a fronteira com trinta cavaleiros, entrou em confronto com Thumamah bin Uthal, chefe da região de Najd. Ao ver Thumamah dirigindo-se para Medina, aquele comandante o prendeu e o levou até o Mensageiro (s.a.). Ele disse ao Mensageiro (s.a.): “Ó Muhammad, se me matares, saberás que mataste alguém que merecia ser morto. Mas, se me libertares, saberás que libertaste alguém que sabe reconhecer um favor. E, se desejares riqueza e bens, será dada a quantia que disseres.” O Mensageiro (s.a.) libertou-o honrosamente. Impressionado com esse favor, ele aceitou o Islã. Depois de aceitar o Islã, confessou francamente: “Antes de hoje, para mim não havia rosto mais odiado que o rosto de Muhammad (s.a.), e hoje não há rosto mais amado para mim que o dele.” Assim, abriu-se caminho para o Islã numa região política tão importante quanto Najd. Foi esse mesmo Thumamah que, ao ir a Meca, desafiou os coraixitas, dizendo: “A partir de agora, não recebereis nem um único grão de alimento.”
Para punir os membros de Raji‘ que haviam assassinado o grupo de sete instrutores, incluindo Khubayb, o Mensageiro (s.a.) chegou com duzentos cavaleiros. Porém, eles fugiram, e ele retornou sem qualquer confronto. Como estratégia política, o Mensageiro (s.a.) enviou dez homens até Qur‘an Na‘im para patrulhar a região, a fim de que os coraixitas compreendessem que Medina estava extremamente vigilante.
A um manzil de Medina, na direção da região dos Banu Ghatafan, havia um reservatório chamado Dhu Qarad. Perto dali ficava a área de pastagem dos camelos e do gado pertencentes ao governo de Medina. Um homem de ‘Usfan estava encarregado de pastoreá-los. O Mensageiro (s.a.) enviou um servo chamado Rabah para investigar a situação. Salamah ibn al-Akwa‘ era o responsável pela supervisão militar. Ele também estava se dirigindo ao centro. Pela manhã, enquanto estavam a caminho, ‘Uyaynah bin Hisn al-Fazari — ou ‘Abdur-Rahman bin ‘Uyaynah — e um grupo de bandidos que o acompanhava saquearam os camelos e começaram a conduzi-los. Os bandidos mataram o pastor do governo e também sequestraram sua esposa. Ao ver aquela cena de assassinato brutal e pilhagem, Salamah bin al-Akwa‘ voltou-se para Medina e gritou em voz alta “Ó companheiros!”, enviando Rabah em busca de ajuda. Enquanto isso, ele próprio saiu sozinho em perseguição aos bandidos. Avançou atrás deles, gritando e disparando flechas, derrubando um bandido após outro. Sempre que um bandido era derrubado por uma flecha, ele gritava: “Eu sou Ibn al-Akwa‘. Hoje é o dia de provar quem bebeu quanto leite do seio da sua mãe.” O caminho era montanhoso e havia árvores ao redor. Sempre que os bandidos olhavam para trás, ele se escondia e lançava flechas. Em outras palavras, estava empregando táticas de guerrilha. Certa vez, apedrejou os bandidos com tanta força que os deixou completamente desorientados: primeiro, eles abandonaram os camelos roubados; depois, começaram a jogar fora mantos e armas para diminuir o peso que carregavam. Enquanto isso, um homem chamado Miqdad bin ‘Amr foi imediatamente enviado de Medina para ajudar Salamah; em seguida, o próprio Mensageiro (s.a.) partiu com um grupo de soldados. Quando alguns soldados muçulmanos se aproximaram bastante dos bandidos, estes começaram a correr ainda mais depressa. Entre esses soldados muçulmanos, Mihraj bin Nadhlah, conhecido como Akhram, talvez estivesse tomado pelo desejo do martírio. Quando perseguiu sozinho os bandidos e se afastou bastante, eles começaram a lutar contra ele. Akhram foi martirizado. Depois, Abu Qatadah matou um dos grandes bandidos. Hazrat Salamah bin al-Akwa‘ continuou a perseguição e voltou levando os cavalos. Ao encontrar o Mensageiro (s.a.), disse-lhe: “Se me tivesses dado cem soldados, eu teria acabado com todos eles.” O Mensageiro (s.a.) respondeu: “Já que Allah te concedeu a vitória, agora sê indulgente.” Observem a bravura e a coragem desses companheiros. Era como se houvesse eletricidade fluindo dentro de cada um deles. Seu papel e seu caráter eram completamente diferentes dos de simples arruaceiros. Eles lutavam com todas as forças por um objetivo claro. Seu amor por esse objetivo era tão grande que podiam arriscar a vida sem a promessa de qualquer recompensa e, em qualquer batalha em que entrassem, não deixavam de enfrentar o adversário cara a cara.
Uma patrulha saiu para vigiar a fronteira sob a liderança de ‘Ukkashah bin Hisn al-Asadi. Espalhara-se o rumor de que a tribo Banu Asad estava se reunindo para atacar Medina. Quando o exército muçulmano chegou à região em questão, os conspiradores abandonaram suas casas e desapareceram. Os soldados muçulmanos apreenderam duzentos camelos deles nas pastagens e os levaram consigo.
No mês de Rabi al-Awwal do sexto ano da Hégira, foi enviado um grupo educativo e de pregação, sob a liderança de Muhammad ibn Maslama, à tribo dos Banu Tha’laba. Quando chegaram a um lugar chamado Dhu’l-Qussa, foram mortos durante a noite, enquanto dormiam. Somente o líder do grupo, Muhammad ibn Maslama, sobreviveu, embora gravemente ferido. Um muçulmano o levou nos ombros até Medina. No mês de Rabi al-Thani, Abu Ubaida partiu à noite com vinte e quatro soldados para punir os criminosos e lançou um ataque bem cedo, ao amanhecer. Os anarquistas fugiram, e todos os seus bens e recursos foram confiscados.
Zayd ibn Haritha dirigiu-se com uma patrulha para Jamuh, situada perto de Batn Nakhlah. Ali vivia uma comunidade dos Banu Sulaym. Eram dois grupos em guerra entre si, e nenhum deles deixava passar qualquer oportunidade de causar dano ao outro. Além disso, uma mulher chamada Halima também havia espionado a respeito deles. A patrulha realizou um ataque de pequena escala, capturou algumas pessoas e apreendeu parte do gado. Mais tarde, o Mensageiro, que a paz esteja com ele, libertou todos os detidos, pois Halima havia fornecido informações falsas.
Zayd ibn Haritha partiu com um pequeno destacamento de catorze homens, sem contar a si próprio, em direção ao reservatório dos Banu Salma, para punir os criminosos de Dhu’l-Qussa. Os criminosos fugiram, e vinte de seus camelos foram confiscados. Já discutimos anteriormente a importância política, econômica e militar de Dumat al-Jandal. Esse lugar, de importância extremamente central, ainda se encontrava em situação de risco. O Mensageiro, que a paz esteja com ele, havia inicialmente voltado sua atenção para lá, mas retornara sem alcançar o objetivo desejado. Dessa vez, Abd al-Rahman ibn Awf foi enviado a Dumat al-Jandal para realizar trabalho de pregação. Graças aos seus esforços sinceros, primeiro se converteu ao Islã o líder cristão local da grande tribo, Asm ibn Amr al-Kalbi, e, em seguida, toda a tribo cristã. O líder da tribo casou sua própria filha, Tamadur, com Abd al-Rahman ibn Awf. Dessa maneira, fortaleceu seus vínculos políticos com o Estado Islâmico.
Chegou a Medina, vindo de Fadak, a notícia de que a tribo dos Banu Sa’d ibn Bakr havia reunido força militar para ajudar os judeus de Khaybar a prejudicar o governo islâmico. Ali partiu cautelosamente com duzentos soldados. Viajava à noite e escondia-se durante o dia. No caminho, um mensageiro dos Banu Sa’d foi capturado enquanto se dirigia a Khaybar. Ele levava aos judeus de Khaybar a mensagem de que só receberiam ajuda se entregassem todas as tamareiras de Khaybar aos Banu Sa’d. Ali lançou um ataque surpresa e desbaratou o inimigo. Eles fugiram. O exército muçulmano não sofreu nenhuma perda. Além disso, seus animais foram capturados e levados pelos muçulmanos. Ocorreu também um incidente: Zayd ibn Haritha viajou à Síria em uma missão comercial, levando seu próprio capital e o de outros Companheiros. No caminho de volta, os Banu Badr assaltaram sua caravana em Wadi al-Qura. Como o número de pessoas na caravana era pequeno, os assaltantes mataram nove delas, feriram uma e levaram todas as mercadorias. Por fim, dois meses depois, foi enviado um destacamento sob a liderança de Abu Bakr para punir os criminosos. Alguns dos assaltantes foram mortos, e os demais fugiram.
Algumas pessoas das duas tribos chamadas Aqal e Urayna chegaram a Medina e aceitaram o Islã. Entretanto, adoeceram devido ao novo clima. Foram mantidas sob tratamento, por determinação do governo, nos arredores de Medina. Quando se recuperaram, sequestraram o pastor do governo, introduziram hastes de ferro incandescente em seus olhos e depois o mataram cruelmente, fugindo com os animais. O Mensageiro, que a paz esteja com ele, enviou um grupo de vinte cavaleiros, sob a liderança de Qaraz ibn Khalid al-Fihri, para capturá-los e trazê-los de volta. Eles foram presos e receberam uma punição exemplar por terem abandonado o Islã, cometido roubo, assassinato e atos de guerra e crueldade. A retaliação contra eles foi justa. Caso contrário, se qualquer pessoa se atrevesse a cometer atos semelhantes contra um governo bem organizado e apoiado pelo povo, tudo inevitavelmente se transformaria em uma farsa, e nenhuma administração poderia funcionar sequer por um dia.
O maior acontecimento daquele período, e o que exerceu a influência mais abrangente sobre a situação política e defensiva, foi o Tratado de Hudaybiyyah. No mês de Dhu’l-Qadah do sexto ano da Hégira, o Mensageiro, que a paz esteja com ele, estabeleceu-se no lugar chamado Hudaybiyyah. Ali celebrou um tratado de paz com os coraixitas, ficando seguro quanto ao maior de seus inimigos e criando amplas oportunidades para realizar o trabalho de pregação e construção. Além disso, tornou-se mais fácil eliminar os anarquistas das regiões adjacentes a Medina.
O Mensageiro (S.A.) retornou de Hudaybiyyah a Medina no mês de Dhul-Hijjah e, poucos dias depois, no dia 7 de Muharram, partiu para Khaybar. Khaybar era uma base política extremamente ativa contra o Estado Islâmico e também um centro de conspirações militares. Os judeus de Khaybar não apenas haviam adotado uma atitude hostil contra o Estado Islâmico durante a batalha de Uhud, como também desempenharam um papel de oposição muito ativo na batalha da Trincheira. A batalha de Khaybar foi realmente uma guerra extraordinária e de grande proporção. Contudo, considerei-a uma expedição comum, pois não foi uma guerra do nível de Badr, Uhud e da Trincheira, nem uma continuação delas. Tratou-se de uma atividade militar de natureza diferente. Como o chamado do movimento islâmico ainda não havia entrado na era internacional, e outros grupos étnicos e pessoas de outras religiões, como os coraixitas e os povos árabes, ainda não haviam sido convocados nessa primeira fase do chamado, não houve conflito com os judeus de Khaybar por eles não aceitarem o chamado; o conflito ocorreu por causa de seus crimes políticos. Por isso, foram tratados como adversários numa guerra política. Quando foram derrotados na guerra, sua região foi declarada território conquistado e eles receberam o status de súditos. O Mensageiro (S.A.) adotou esse tipo de tratamento somente em Khaybar, e em nenhum outro lugar. De qualquer modo, depois que a ameaça dos coraixitas deixou de existir, não restou nenhum obstáculo ao ataque a Khaybar. Foi permitido participar apenas àqueles que agiriam movidos pelo entusiasmo do jihad, exclusivamente em busca da satisfação de Allah. É importante mencionar que mulheres muçulmanas também se juntaram à expedição sem informar o Mensageiro (S.A.). Mais tarde, quando ele soube disso, demonstrou desagrado e perguntou-lhes: “Por que vocês vieram?”. Quando informaram que haviam vindo para servir os guerreiros muçulmanos, ele consentiu. Mais tarde, chegou a dar-lhes também uma parte dos espólios de guerra. O Mensageiro (S.A.) nomeou Siba ibn Arāfata governador interino de Medina e partiu acompanhado de mil e quatrocentos soldados. Ao chegar a um lugar chamado Raji, estabeleceu seu acampamento. Quando os soldados muçulmanos apareceram subitamente diante dos judeus de Khaybar, estes fugiram e buscaram refúgio dentro das fortalezas. Então a batalha começou. O combate prosseguiu com o lançamento de flechas de ambos os lados. Por fim, os muçulmanos venceram. A batalha começou com o ataque à fortaleza de Nātāt. Em seguida, a fortaleza de Sa‘b foi sitiada. Um judeu chamado Marhab desafiou os muçulmanos. Āmir ibn al-Akwa‘ foi martirizado no combate corpo a corpo contra ele. Ainda assim, o cerco foi bem-sucedido. A fortaleza mais resistente era a de Qamūs. Devido a uma forte dor de cabeça, o Mensageiro (S.A.) absteve-se de participar da batalha. Por meio de um anúncio especial, enviou o honorável Ali (R.A.) para essa expedição. O herói judeu Marhab avançou cantando versos de guerra. Muhammad ibn Maslamah avançou desejando vingar a morte de seu irmão e cortou a perna de Marhab. Então a espada do honorável Ali (R.A.) enviou-o ao Inferno. Depois de Marhab veio seu irmão Yasir. Zubayr ibn al-Awwam enfrentou-o em combate e o matou. Após vinte dias de cerco, essa fortaleza de máxima importância caiu nas mãos dos muçulmanos. Como a fortaleza foi conquistada sob a liderança do honorável Ali, ele passou a ser chamado de “Conquistador de Khaybar”. Quando os judeus fugiram dessa fortaleza, Safiyyah, filha de Huyayy ibn Akhtab, o célebre líder judeu inimigo do Islã, foi capturada juntamente com duas primas. Como era filha de um chefe tribal respeitado, o Mensageiro (S.A.), após consultar os Companheiros, manteve-a sob sua proteção familiar. Depois disso, os judeus reuniram-se na fortaleza de al-Zubayr. Após permanecerem sitiados por três dias, saíram e envolveram-se numa batalha feroz. Dez judeus foram mortos e alguns muçulmanos foram martirizados. Por fim, essa fortaleza também foi conquistada. Restavam então três fortalezas: al-Qutaybah, al-Watih e al-Salim. Toda a força humana e financeira dos judeus concentrou-se nessas três fortalezas. O exército muçulmano manteve o cerco por catorze dias. Finalmente, decidiu-se lançar pedras com o uso de catapultas. Quando os sitiados souberam disso, não lhes restou outra alternativa. Iniciaram negociações. Após as conversações, decidiu-se que poderiam partir levando apenas a vida. Porém, quando pediram que lhes fosse permitido trabalhar nos campos e pomares e permanecer ali, o Mensageiro (S.A.) demonstrou magnanimidade e consentiu. Foi feito um acordo com eles em troca da metade da produção agrícola. Quando os habitantes de Fadak souberam desse acordo, também fizeram o mesmo pedido. Foi-lhes concedido um acordo semelhante. Durante esse processo, dois jovens judeus, Huwaysah e Muhaysah, aceitaram o Islã.
Durante o cerco à fortaleza de Nātāt, um pastor negro chamado Aswad, pertencente aos habitantes de Khaybar, passou por uma transformação interior. Ele perguntou aos judeus: “Contra quem se está lutando?”. Eles responderam: “Contra aquele que afirma ser profeta”. Ao ouvir isso, sua curiosidade foi despertada, e ele foi até o Mensageiro (S.A.) para perguntar: “Qual é o seu chamado?”. O Mensageiro (S.A.) explicou-lhe detalhadamente o tawhid do Islã. O coração e a mente de Aswad abriram-se para o Islã. Ele perguntou: “Tenho sob minha responsabilidade os rebanhos de cabras e ovelhas dos judeus. O que devo fazer com eles?”. O Mensageiro (S.A.) poderia, se quisesse, tomar posse dos rebanhos dos judeus e incluí-los nos suprimentos dos soldados muçulmanos. Porém, naquela situação, ordenou ao pastor Aswad que preservasse a confiança que lhe havia sido depositada. Seguindo as instruções do Mensageiro, ele levou as cabras e as ovelhas para perto da fortaleza e, apedrejando-as, fez com que entrassem nela. Depois, voltou ao Mensageiro (S.A.) e perguntou: “Se eu morrer lutando, o que acontecerá comigo na vida futura?”. O Mensageiro (S.A.) respondeu-lhe: “Você obterá o Paraíso”. Ele lutou com sinceridade e alcançou o martírio.
Um beduíno recém-convertido ao Islã participou da batalha de Khaybar. Quando uma parte dos espólios foi determinada para ele, disse: “Ó Mensageiro, não o segui por cobiça dessas coisas; vim para dar a vida no caminho da verdade e alcançar o Paraíso”. O Mensageiro (S.A.) deu-lhe a boa notícia de que também alcançaria esse objetivo. Em seguida, ele entrou na batalha e alcançou o martírio.
Pouco depois da conquista de Khaybar, quando o honorável Ja‘far ibn Abi Talib (irmão do honorável Ali) retornou inesperadamente da Abissínia acompanhado de muitos companheiros e se reuniu ao Mensageiro (S.A.) e aos demais irmãos muçulmanos, a alegria pela conquista de Khaybar aumentou muitas vezes.
Hujjaj ibn ‘Alat al-Sulami, proprietário das minas da região habitada pelos Banu Sulaym, havia aceitado o Islã durante o cerco de Khaybar. Antes da conclusão da conquista de Khaybar, pediu permissão ao Mensageiro (S.A.), foi rapidamente a Meca e informou ao honorável Abbas, que se encontrava ali, a boa notícia antecipada da conquista de Khaybar.
Depois que a questão de Khaybar foi resolvida, os soldados muçulmanos partiram em direção a Wadi al-Qura. Aquele também era um terrível reduto dos inimigos do Islã. Além dos judeus, alguns árabes também viviam ali. Assim que os soldados muçulmanos chegaram, pedras foram lançadas contra eles pela frente, e um escravo chamado Mudayim ficou ferido. O Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) continuou transmitindo repetidamente o convite ao Islã. Porém, do outro lado, um após outro saíam para desafiar os muçulmanos para o combate e acabavam mortos em confronto direto com os soldados muçulmanos. Dessa forma, onze homens vieram sucessivamente. Essa situação continuou até a noite. Na manhã seguinte, ao amanhecer, foi alcançada a vitória definitiva. Em seguida, seguindo os exemplos anteriores, os habitantes de Wadi al-Qura também foram encarregados das lavouras e das atividades agrícolas, e um governador foi nomeado entre eles. Quando os judeus de Tayma souberam do acordo estabelecido ali, manifestaram espontaneamente o desejo de firmar um tratado, e também foram encarregados de trabalhar na agricultura em suas próprias terras.
Como resultado dessa campanha vitoriosa, entre as vastas e férteis terras que passaram ao controle dos muçulmanos, as terras de Fadak e Khaybar foram transformadas em terras públicas do Estado (State Land). Os governantes do Estado sustentavam, com os rendimentos obtidos dessas terras, as pessoas que dependiam deles e os pobres da sociedade. Após a morte do Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), surgiram algumas divergências a respeito dessas terras públicas. Contudo, o califa Abu Bakr as-Siddiq e os Companheiros de visão esclarecida mantiveram essas terras, como antes, na condição de terras públicas do Estado. As demais terras foram entregues à propriedade dos muçulmanos, e suas colheitas foram distribuídas entre eles.
Uma unidade de patrulha, sob a liderança de Umar, foi enviada para advertir os Banu Hawazin. Como resultado, os Banu Hawazin dispersaram-se.
Recebeu-se a notícia de que um judeu chamado Bashir ibn Wariq — ou Usayr ibn Rizam — estava instigando os Banu Ghatafan a entrarem em guerra. Abdullah ibn Rawaha foi com uma unidade militar e, depois de conversar persuasivamente com Bashir, conseguiu convencê-lo a ir a Medina para conversar com o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). Como os muçulmanos eram trinta, ele também levou, por precaução, trinta homens, e em cada camelo montaram juntos um judeu e um muçulmano. Assim que Bashir, na escuridão da noite, tocou na espada de Abdullah, este se assustou, saltou do camelo, desembainhou a espada e enfrentou-o. Ao verem os dois líderes naquela situação, seus respectivos companheiros também começaram a lutar e, por fim, todos os trinta e um judeus foram mortos, um após o outro.
Era o mês de Muharram do sétimo ano da Hégira. Ouviu-se dizer que quatro tribos — os Banu Ghatafan, os Banu Muharib, os Banu Tha’laba e os Banu Anmar — estavam se preparando para atacar Medina. O Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) partiu em campanha acompanhado de quatrocentos muçulmanos combatentes. Os inimigos envolvidos na conspiração para o ataque dispersaram-se. Essa campanha ficou conhecida como a Expedição de Dhat ar-Riqa.
Após o tratado de Hudaybiyyah, a rota comercial ficou aberta aos muçulmanos. Porém, quando Abu Jandal escapou de Meca depois de se libertar da detenção dos coraixitas, não pôde ir para Medina devido a uma cláusula rigorosa daquele tratado e passou a viver numa montanha síria situada junto ao litoral. Mais tarde, Abu Basir e outros muçulmanos também começaram a juntar-se a ele. Assim, uma verdadeira unidade militar de muçulmanos se formou em território sírio. Eles atacaram uma caravana dos coraixitas e confiscaram seus bens. Contudo, quando o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) ordenou que devolvessem os bens, eles obedeceram imediatamente. Então os coraixitas compreenderam e se arrependeram de que haviam sido prejudicados por incluir uma cláusula tão rigorosa no tratado. Mais tarde, o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) convocou Abu Jandal para Medina.
Quando os Banu Maluh mataram os companheiros de Bashir ibn Suwaid, Abdullah al-Laythi partiu com uma unidade militar para adverti-los. Houve um breve confronto, e alguns bens dos inimigos foram confiscados.
O emissário do Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), Dihya al-Kalbi, retornava a Medina vindo da corte do imperador romano Heráclio, trazendo presentes. Hunayd ibn Iyad al-Ja’fari assaltou-o e tomou-lhe todos os presentes. Para punir Hunayd por realizar semelhante ataque abominável contra o Estado Islâmico, foi enviada uma unidade militar sob a liderança de Zayd ibn Haritha. Hunayd foi morto no confronto. Seus companheiros, porém, arrependeram-se e aceitaram o Islã.
Banu Kilab estava se preparando para uma rebelião. Hazrat Abu Bakr as-Siddiq (que Allah esteja satisfeito com ele) partiu com tropas para sufocar a rebelião. Após o confronto, as tropas inimigas foram derrotadas e fugiram.
Quando surgiu o temor de uma rebelião na região de Juhayna, Usama ibn Zayd foi enviado com um destacamento para controlar a situação. Primeiro, ele tentou convencê-los. Porém, por fim, houve um confronto. Naquela ocasião, quando Hazrat Usama perseguiu Suhayk ibn Mirdas, este recitou a kalima tayyiba. Mas Usama pensou que ele estivesse fingindo para salvar a vida depois de ser derrotado. Por isso, matou-o. Mais tarde, ao ouvir o ocorrido, o Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) ficou profundamente triste, pois seu verdadeiro objetivo era reformar as pessoas, não matá-las.
Bashir ibn Sa’d al-Khazraji foi enviado com um pequeno destacamento para castigar os habitantes de Fazara e Adhra, que haviam ajudado os judeus de Khaybar. O adversário foi derrotado após um breve confronto.
Depois de serem informados de que Banu Sulaym estava se preparando para atacar Medina, Ibn Abi al-Awja foi enviado com cinquenta soldados. Ainda assim, o número de inimigos era maior.
Eles atacaram e martirizaram todo o destacamento muçulmano. Somente o comandante conseguiu chegar a Medina, ferido. Quando Ka’b ibn Umair al-Ansari também foi enviado com um destacamento extremamente pequeno para sufocar a rebelião de Banu Quzaya, eles martirizaram todo o grupo muçulmano. Nenhum dos Companheiros conseguiu retornar com vida.
Banu Hawazin havia ajudado várias forças contrárias ao Islã. Soube-se que eles estavam se preparando para um ataque a cinco manzils de Medina. Um pequeno grupo foi enviado sob o comando de Shuja ibn Wahb al-Asadi. Contudo, eles não precisaram entrar em nenhum confronto.
A grande batalha ocorrida nesse período foi a batalha de Mu’ta. Ela ocorreu no mês de Jumada al-Awwal do oitavo ano da Hégira. Entretanto, como essa batalha foi travada inteiramente contra uma potência estrangeira, tratarei dela separadamente junto com a expedição de Tabuk.
Soube-se que Qays ibn Rifa’a estava reunindo tropas para um ataque. Abu Hadraya al-Aslami foi enviado com um grupo de apenas dois homens para observar a situação. Por meio de uma estratégia extremamente sutil, ele aterrorizou e dispersou as tropas inimigas, trazendo também seus animais como despojo. Não houve nenhum confronto.
Chegou a notícia de que os Banu Qudama estavam se preparando para atacar Medina, aliados a outros grupos. Amr ibn al-As partiu com trezentos soldados para enfrentá-los. Esse lugar, chamado Dhat as-Salasil, fica logo depois de Wadi al-Qura. Durante muitos anos, essa região foi perigosa para o Estado Islâmico. Ao chegar ao local, soube-se que o contingente inimigo era muito maior. Amr ibn al-As pediu o envio de mais soldados por meio de um mensageiro. Imediatamente, chegaram mais duzentos soldados sob o comando de Abu Ubaida ibn al-Jarrah. Assim que o ataque começou, os soldados inimigos fugiram. Alguns animais deixados para trás foram capturados.
Certa vez, durante uma patrulha, Abu Qatada e Muhallam ibn Juthama encontraram-se por acaso com Amir ibn al-Asbat al-Ashjai, que estava acompanhado de algumas pessoas. Eles os cumprimentaram com a saudação dos muçulmanos. Porém, Muhallam considerou a saudação uma estratégia de autodefesa e, pensando que eram inimigos, matou todos eles. Sobre esse acontecimento, o Alcorão os repreendeu da seguinte maneira:
Foi dito: quando saíres para patrulhar, identifica as pessoas e, se alguém te saudar, não o consideres injustamente um não muçulmano. O Mensageiro de Allah advertiu severamente. Mais tarde, o chefe da tribo de Nihte veio exigir o pagamento de uma indenização pelo assassinato. O Mensageiro de Allah entregou imediatamente cinquenta camelos e, depois de explicar-lhe longamente a situação, conseguiu que aceitasse receber os cinquenta restantes mais tarde.
No mês de Rajab do oitavo ano da Hégira, por ordem do Mensageiro de Allah, Abu Ubaida ibn al-Jarrah partiu para Saiful Bahr com três soldados. Eles patrulharam apenas até a costa marítima, permaneceram alguns dias na região costeira e depois retornaram. É provável que o objetivo fosse observar a rota e fazer os coraixitas entenderem que, naquele momento, Medina estava concentrando sua atenção naquela direção. É importante mencionar que, depois de os coraixitas violarem o tratado de Hudaybiyyah, essas atividades dos muçulmanos abriram o caminho para a conquista de Meca.
Quarta grande expedição — a conquista de Meca
Até aqui, descrevi os grandes ataques dos coraixitas e de outras forças contrárias ao Islã. Dessa descrição ficou claro que, nas batalhas de Badr, Uhud e da Trincheira, foram as forças da jahiliyyah que vieram a Medina para lançar a agressão, e que todos esses confrontos ocorreram nas proximidades do Estado Islâmico de Medina. Em todos esses conflitos, o governo de Medina adotou um papel puramente defensivo. Depois da Batalha da Trincheira, o Mensageiro de Allah, à luz de sua visão política e sabedoria, previu com extrema precisão que as campanhas agressivas dos coraixitas haviam chegado ao fim. Ele também deu a entender que, daquele momento em diante, se Allah quisesse, seríamos nós a atacar os coraixitas. Durante o intervalo em que foi firmado o tratado de Hudaybiyyah e os coraixitas deixaram de atacar os muçulmanos, o Mensageiro de Allah aproveitou a oportunidade para, por um lado, reprimir severamente os rebeldes e traidores de Medina e, por outro, eliminar os sólidos centros de poder que os judeus haviam estabelecido ao norte e transformado em focos de conspirações militares. Além disso, repeliu com tamanha rapidez e firmeza cada pequena rebelião, preparação militar e conspiração das diversas tribos que o ambiente de Medina se tornou, em grande medida, seguro e livre de ameaças. Durante esse intervalo entre a Batalha da Trincheira e a conquista de Meca, a grande autoridade do Estado Islâmico espalhou-se por toda parte, e o Islã obrigou todos a reconhecerem sua existência política. Todos começaram a sentir que ninguém tinha capacidade de eliminar ou deter essa força emergente da verdade, da justiça e da equidade. Pessoas de todas as classes compreenderam que a liderança e a autoridade do futuro já não estavam nas mãos dos coraixitas; haviam passado para as mãos de Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz.
Agora restava apenas um meio de alcançar a libertação completa e permanente das mãos do inimigo: eliminar o verdadeiro centro de suas atividades e apagar a chama da liderança da jahiliyyah em sua própria casa. Por isso, para levar a luta defensiva à sua conclusão, era inevitável e indispensável que, mais cedo ou mais tarde, fosse lançada uma campanha ofensiva. Foi consequência dos próprios atos dos coraixitas terem eles mesmos violado o tratado de Hudaybiyyah e destruído o muro de paz e segurança entre os dois lados.
Já mencionamos que havia uma antiga inimizade entre os Banu Bakr e os Banu Khuza’a, com uma interminável sequência de vinganças e represálias mútuas. Entretanto, nesse ínterim, o movimento islâmico surgiu repentinamente como um problema preocupante. Os coraixitas e outras tribos pagãs foram obrigados a unir-se simplesmente para se opor ao movimento islâmico. O fogo de sua inimizade mútua ficou temporariamente abafado. Finalmente, quando foi firmado o tratado de Hudaybiyyah, os Banu Khuza’a aproveitaram uma de suas cláusulas para estabelecer uma aliança com o Mensageiro de Allah. Os Banu Bakr, por sua vez, estabeleceram uma aliança com os coraixitas. Alguns dias transcorreram em silêncio. Mas, por fim, a pólvora da antiga inimizade explodiu. Os Banu Bakr consideraram aquele período de trégua uma oportunidade de ouro, pois não havia risco de conflito vindo de qualquer outra direção. Eles mataram um membro da tribo dos Banu Khuza’a. Depois, lançaram um forte ataque e praticaram intensa violência e opressão. Nem sequer pouparam os membros dos Banu Khuza’a que haviam buscado refúgio no Santuário Sagrado, nem os perdoaram enquanto estavam ocupados em adoração. Os coraixitas deram apoio total aos Banu Bakr nesse derramamento de sangue. Com esse ato insensato, pisotearam o tratado de Hudaybiyyah. Em nome dos Banu Khuza’a, Amr ibn Salim foi até o Mensageiro de Allah para queixar-se da opressão dos Banu Bakr. Em seguida, Budail ibn Warqa levou uma delegação e relatou os detalhes da agressão. À luz do pacto de aliança, tornou-se indispensável que o Mensageiro de Allah ajudasse os Banu Khuza’a. O Mensageiro de Allah apresentou aos coraixitas três exigências para normalizar a situação: primeiro, pagar aos Banu Khuza’a uma compensação financeira pelo homem morto; segundo, abandonar o apoio aos Banu Bakr; terceiro, como alternativa às duas primeiras exigências, declarar anulado o tratado de Hudaybiyyah. Os coraixitas já haviam perdido o equilíbrio. Por isso, informaram que aceitavam anular o tratado de Hudaybiyyah. Mais tarde, porém, arrependeram-se disso.
Dessa vez, os líderes dos coraixitas ficaram preocupados. Eles já haviam perdido a capacidade de lutar. Em várias batalhas, seus valiosos guerreiros tinham sido mortos, e sua força militar havia sofrido danos irreparáveis — danos irreparáveis que se repetiram. Sua economia também estava completamente arruinada. Os judeus que os apoiavam estavam quase à beira da destruição. Em contrapartida, por meio de suas atividades de pregação, o Estado Islâmico de Medina havia ampliado tanto sua influência que, inclusive nos arredores de Meca, formara-se um círculo de tribos apoiadoras do Estado Islâmico. O alcance das alianças também havia sido ampliado. Além disso, uma nova estrutura administrativa estava sendo estabelecida para impor rigorosamente a ordem às forças anarquistas e rebeldes e instaurar paz e segurança em uma vasta região. Assim, os coraixitas não apenas eram incapazes de tomar medidas ofensivas, como também tinham dificuldade para se defender. O tratado de Hudaibiyah era sua única proteção. Eles próprios cancelaram essa proteção, como se tivessem convidado Medina, dizendo: “Venham, castiguem-nos pelo que fizemos.”
Por fim, Abu Sufyan, o maior líder incrédulo de Meca, partiu desesperado para Medina com o objetivo de renovar o tratado. Ali, deparou-se com uma situação tão adversa que provavelmente jamais a havia imaginado. Assim que foi à casa de sua filha, Umm al-Mu’minin Umm Habiba, e se preparava para sentar-se em sua cama, ela correu, retirou a cama e disse: “Enquanto você permanecer politeísta, não pode sentar-se na cama sagrada do Mensageiro (que a paz esteja sobre ele).” Depois, foi visitar sucessivamente os principais líderes muçulmanos, como Abu Bakr, Umar e Ali, pedindo ajuda a cada um deles. Chegou até a pedir a Fátima que intercedesse junto ao Mensageiro (que a paz esteja sobre ele). Quando também não obteve êxito, pediu a Fátima que lhe permitisse solicitar a intercessão do pequeno Hasan. Como nada funcionou, sem alternativa, seguindo o conselho de Ali, declarou unilateralmente, em uma assembleia geral dos muçulmanos, a coexistência pacífica em seu próprio nome e voltou para Meca sem esperar qualquer resposta do Mensageiro (que a paz esteja sobre ele). Quando os habitantes de Meca lhe perguntaram sobre sua viagem e ouviram falar da declaração unilateral de coexistência pacífica, todos disseram: “Ali zombou de você.” Observem como até a razão e o discernimento de pessoas negativas e decadentes acabam se deteriorando.
Sem demora, o Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) anunciou que fosse formado um grupo de voluntários muçulmanos. Também ordenou que armas fossem fabricadas em sua própria casa. Contudo, não permitiu que ninguém soubesse para onde e em que direção seria empreendida a campanha daquela vez. Nem mesmo Aisha ficou sabendo. E, no entanto, ela própria havia fabricado com as mãos armas para o Mensageiro (que a paz esteja sobre ele). A maioria das pessoas, porém, talvez tivesse imaginado que Meca seria atacada dessa vez, pois não havia motivo para levar uma quantidade tão grande de soldados a qualquer outro lugar.
A família de Hatib ibn Abi Balta’a, veterano de Badr, ainda estava cercada pelos incrédulos em Meca, e nenhuma tribo havia assumido a responsabilidade por sua proteção. Por isso, para garantir a segurança deles, ele enviou aos coraixitas uma carta secreta contendo todos os detalhes dos preparativos de Medina, para que, em retribuição a esse favor, se abstivessem de causar qualquer dano à sua família durante a conquista de Meca. Ao mesmo tempo, ele estava certo de que, apesar do fornecimento dessas informações secretas, a vitória do exército muçulmano era garantida e que sua carta não poderia causar nenhum grande prejuízo ao Islã. Esse episódio mostra que, sob a pressão das circunstâncias externas e do estado psicológico, até uma pessoa extremamente honesta pode, às vezes, cometer um grave deslize. O Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) soube da carta por meio da revelação. Seus agentes enviados interceptaram, no lugar chamado Rawdat Khakh, uma mulher que viajava para Meca e recuperaram a carta que ela levava. O Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) perdoou um erro tão grave somente porque Hatib era um companheiro sincero, crente, honesto e veterano de Badr, e porque esse deslize resultara de sua fraqueza humana.
O Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) partiu de Medina no dia 10 de Ramadan à frente de um enorme exército de dez mil soldados. Como um comandante militar extraordinariamente habilidoso, avançou por um caminho tão tortuoso que a patrulha dos coraixitas enviada para observar não encontrou o exército muçulmano em lugar algum, nem de relance. Enquanto isso, eles continuavam vagando de um lado para outro, e o exército muçulmano chegou aos arredores de Meca, deixando todos atônitos.
Quando o Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) chegou a Juhfa, seu tio Abbas veio encontrar-se com ele acompanhado de toda a família. Depois, quando chegaram a Abwa, Abu Sufyan ibn al-Harith ibn Abd al-Muttalib — primo legítimo do Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) e seu irmão de leite por meio de Halima — e Abdullah ibn Umayya — primo do lado paterno do Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) e meio-irmão de Umm al-Mu’minin Umm Salama — apresentaram-se e pediram permissão para visitá-lo. Por serem parentes próximos, haviam causado tanto sofrimento ao Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) ao se oporem ao Islã que ele se recusou a recebê-los. Abu Sufyan, desesperado, disse: “Se eu não obtiver perdão, levarei meus filhos e filhas para o deserto escaldante da Arábia, e todos morreremos de fome e sede.” Umm Salama intercedeu por seu irmão. Então Ali aconselhou os dois: “Peçam perdão usando as palavras dos irmãos de José.” Assim, foram até ele e disseram:
“Por Allah, Allah concedeu-lhe superioridade sobre nós, e nós fomos culpados.” Ao ouvir isso, o coração do Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) abrandou-se. Ele também repetiu a resposta de José:
“Hoje não haverá censura contra vocês. Que Allah os perdoe. Ele é o mais misericordioso dos misericordiosos.”
Quando o acampamento do exército foi montado após chegarem a Maruz az-Zahran, o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, ordenou, visando um bem maior, que cada soldado acendesse à noite uma fogueira separada para si. Quando líderes proeminentes como Abu Sufyan ibn Harb, Hakim ibn Hizam e Budayl ibn Warqa saíram para observar a situação, ficaram estupefatos ao ver, do alto da montanha, dez mil fogueiras acesas. Pensaram: “Que desastre! Um exército tão grande chegou às portas de Meca.” Hazrat Abbas passava perto deles. Ao reconhecer a voz, chamou Abu Sufyan para perto e conversou com ele. Hazrat Abbas disse: “Muhammad, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, chegou hoje com todo o seu exército. Hoje os coraixitas não têm saída.” Abu Sufyan perguntou: “Qual é agora a maneira de escapar?” Abbas, que Allah esteja satisfeito com ele, respondeu: “Sente-se comigo na minha mula. Você irá falar com o Mensageiro.” Enquanto a mula avançava, os soldados perguntavam a cada passo: “Quem está passando?” Assim que Hazrat Abbas se identificava, abriam passagem. Quando se aproximaram, Hazrat Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, os viu e, reconhecendo Abu Sufyan, gritou: “Ó Abu Sufyan, hoje você caiu em minhas mãos!” Dito isso, correu ao Mensageiro para pedir autorização para matá-lo. Hazrat Abbas também fez sua mula correr a toda velocidade. Hazrat Umar chegou primeiro e apresentou sua posição, enquanto Hazrat Abbas disse: “Trouxe Abu Sufyan sob minha proteção”.
Nesse momento, ocorreu a seguinte conversa entre o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, e Abu Sufyan:
Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele: “Diga-me, Abu Sufyan, você ainda não acredita que não há outra divindade além de Allah?”
Abu Sufyan: “Se houvesse outra divindade, ela nos teria salvado hoje.”
Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele: “Há alguma dúvida de que sou o Mensageiro de Allah?”
Abu Sufyan: “Quanto a isso, ainda tenho alguma dúvida.”
Percebendo a fraqueza psicológica de Abu Sufyan, Hazrat Abbas disse: “Ah, deixe tudo isso de lado e aceite diretamente o Islã.” Até a manhã, o principal líder de Meca foi obrigado pelas circunstâncias a tornar-se muçulmano. Enquanto isso, antes de o exército chegar a Meca, o acampamento islâmico reteve Abu Sufyan com tamanha astúcia que ele nem percebeu quando, pela manhã, o exército muçulmano marchou pela rota de Kadaa para entrar na cidade. Por ordem do Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, Hazrat Abbas levou Abu Sufyan ao topo de uma montanha e o fez ficar de pé ali, para que pudesse ver o exército muçulmano de uma só vez. Primeiro, os Banu Ghifar; depois, um após o outro, os Juhayna, os Buzayem, os Sulaym e, por fim, as tropas dos Ansar avançaram, cada uma levando sua própria bandeira. Abu Sufyan perguntava a identidade de cada tropa. Quando Sa‘d ibn ‘Ubadah passou à frente, tomado por um entusiasmo de soldado, exclamou: “Hoje é o dia da batalha feroz”… “Hoje é o dia de abrir o pátio da Caaba.” Por trás de sua emoção particular e de seu slogan especial havia uma longa história de conflitos e confrontos. Por último, o animal que transportava o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, avançou de maneira extremamente simples e natural. À sua frente, Zubayr ibn al-Awwam levava a bandeira. Quando o Mensageiro soube do slogan de Sa‘d ibn ‘Ubadah, sem demora alguma tomou dele a bandeira e a entregou a seu filho. Em seguida, disse: “Hoje é o dia da honra da Caaba, e o dia da benevolência e do cumprimento das promessas.” Com essas palavras, o Mensageiro deixou clara a política de sua celebração da vitória. Anunciou que sua celebração da vitória seria, do princípio ao fim, resplandecente com a glória da misericórdia e do perdão. Então foi proclamado: “A vida de quem entrar na Mesquita Sagrada, de quem se refugiar na casa de Abu Sufyan e de quem não portar armas estará segura. Contudo, se alguém cometer um crime punível, será punido.” O próprio Abu Sufyan avançou por Meca proclamando isso em voz alta. Ao ouvir da boca dele o anúncio do Mensageiro, sua esposa, Hind bint ‘Utbah, puxou seu bigode e começou a gritar: “Ó Banu Kinana, matem este desgraçado! O que ele está dizendo?” Hind começou a insultar Abu Sufyan.
Ao ouvirem isso, as pessoas se reuniram. Abu Sufyan explicou-lhe que não adiantava mais dizer aquelas coisas, pois ninguém tinha agora poder para deter o avanço de Muhammad, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Depois, quando o Mensageiro entrou na cidade, entrou com a cabeça humildemente inclinada, exatamente o oposto dos conquistadores de todo o mundo. Sua testa parecia tocar o dorso do animal que o transportava. Naquele momento, recitava com os lábios a Surata Al-Fath.
Enquanto isso, Ikrima ibn Abu Jahl, Safwan ibn Umayya e Suhail ibn Amr reuniram alguns dos brutamontes insensatos dos coraixitas no monte chamado Khandama e os incitaram a cometer vários atos de maldade. Himas ibn Qays ibn Khalid também se juntou a eles. Dois companheiros, Qarz ibn Jabir al-Fihri e Khunays ibn Khalid ibn Rabi, haviam se separado do exército e seguiam por um caminho diferente. Esses brutamontes martirizaram ambos. Ao saber do ocorrido, Hazrat Khalid imediatamente os expulsou. Ao todo, doze foram mortos. Alguns, incluindo Himas, fugiram. Outro pequeno grupo de resistência desse tipo surgiu na cidade. Ao tomar conhecimento, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, convocou as tropas dos Ansar por meio de Hazrat Abu Huraira. Mostrando-lhes aquela cena, disse: “Estão vendo a insolência deles?” Ou seja, de um lado, uma torrente de misericórdia e perdão estava fluindo, e a força vitoriosa não queria derramar sequer uma gota de sangue. De outro, aquelas pessoas de natureza perversa estavam forçando o exército vitorioso a tomar armas. Sem outra alternativa, o Mensageiro de Allah ordenou: “Se tentarem oferecer resistência, que sejam completamente eliminados”. Ao saber dessa ordem do Mensageiro de Allah, Abu Sufyan correu até ele e disse com voz suplicante: “Ó Mensageiro de Allah! O poder dos coraixitas já foi destruído. Não permita que aconteça algo que apague completamente seu nome e seus vestígios da face da Terra”. Em seguida, foi realizado um ataque moderado, e somente com isso os malfeitores foram derrotados e dispersos.
Ao ver essa compaixão do Mensageiro de Allah, alguns dos Ansar começaram a cochichar: “Vejam, afinal, o amor pelo seu clã acabou prevalecendo sobre o Mensageiro de Allah!”. Na realidade, por causa da intensidade de seu amor pelo Mensageiro de Allah, eles viviam sempre aflitos, temendo que, depois da conquista de Meca, ele os deixasse e começasse a viver com os habitantes de Meca, privando-os da companhia de sua personalidade mais querida. Ao tomar conhecimento dessa preocupação dos Ansar, o Mensageiro de Allah dirigiu-se a eles, dizendo: “Por Allah, aquilo que vocês temem não é verdade. Sou servo e Mensageiro de Allah. Emigrei por Allah e para junto de vocês. Agora, vocês são meus companheiros na vida e na morte”. Ao ouvirem isso, os corações dos Ansar encheram-se de emoção. Eles lamentaram sua suposição, e o Mensageiro de Allah a aceitou.
As pessoas perguntaram: “Onde o senhor ficará na cidade? Ou ficará na casa ancestral?”. O Mensageiro de Allah respondeu com voz profundamente dolorida: “Onde é que Aqil deixou alguma casa para nós, para que pudéssemos ficar nela?”. A bandeira do Mensageiro de Allah foi colocada em Hujun (Jannatul Mualla), e decidiu-se que ele permaneceria ali. Primeiro, ele foi àquele local histórico, Khaif, onde havia passado os dias do cerco junto com todo o seu clã. Depois, chegou ao Haram Sagrado. Alguns dos companheiros mais próximos estavam com ele. Beijou a Pedra Negra. Com um arco na mão, aproximou-se de cada ídolo instalado no Haram Sagrado e começou a dizer em voz alta: “A verdade chegou, e a falsidade desapareceu. A falsidade certamente haveria de desaparecer”. Ao sinal de seu arco, os ídolos começaram a cair, um após o outro. Depois, mandou trazer a chave da Caaba e abriu a porta. Dentro, havia imagens de Hazrat Ibrahim e Hazrat Ismail, que a paz esteja sobre ambos. Nas mãos dos dois havia flechas usadas em jogos de azar. Ordenando que tudo aquilo fosse apagado, disse: “Que Allah destrua os incrédulos!”. Ambos eram profetas de Allah. Jamais haviam jogado jogos de azar. Em seguida, por ordem do Mensageiro de Allah, os demais ídolos que haviam permanecido instalados ao redor durante longo tempo também foram quebrados. Depois, ele se ocupou por algum tempo com a oração e o dhikr. Naquele momento, uma grande multidão havia se reunido diante da Mesquita Sagrada. O povo aguardava ansiosamente ouvir a decisão sobre seu destino. O Mensageiro de Allah dirigiu-se a eles em um discurso:
“Não há outra divindade além de Allah. Ele não tem associado algum. Ele demonstrou a veracidade de Sua promessa. Ajudou Seu servo. Sozinho, derrotou todos os exércitos dos incrédulos. Hoje, todo orgulho, nobreza, reivindicação de sangue e toda reivindicação financeira estão sob meus pés. Contudo, os cargos de administração da Caaba Sagrada e de fornecimento de água aos peregrinos permanecerão vigentes”.
“Ó coraixitas! Agora Allah destruiu toda a arrogância da ignorância e todo o orgulho da nobreza de linhagem de vocês. Pois todos os seres humanos são descendentes de Adão, e Adão foi criado do barro”. Em seguida, recitou um versículo do Alcorão:
“Ó humanidade, Nós criamos vocês de um homem e de uma mulher. Dividimos vocês em povos e tribos somente para que se conheçam uns aos outros. Mas, diante de Allah, o mais honrado é apenas aquele que é mais piedoso e mais comedido. Certamente, Allah é Onisciente e plenamente informado de todas as coisas”.
Depois, fez uma proclamação legal:
“Allah proibiu a compra e venda de bebidas alcoólicas”.
Então, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) perguntou:
“Vocês sabem como tratarei vocês hoje?”
Assim que ouviram essa frase, provavelmente a história sombria de duas décadas de opressão, perseguição, violência e barbárie cometidas pelos coraixitas passou diante de seus olhos como as imagens de um filme. Talvez suas consciências estivessem prestes a ser despedaçadas pelo remorso. Talvez, tomados por um sentimento de extrema impotência e arrependimento, tenham exclamado:
“Como um irmão nobre e um sobrinho nobre.” Em resposta, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) declarou:
“Hoje não haverá censura contra vocês. Vão, vocês estão livres.”
Mantendo diante dos olhos a história da opressão, da perseguição e das guerras de agressão dos coraixitas, alguém poderia esperar uma resposta como essa? Contudo, quem conhecesse a misericórdia e a compaixão do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) esperaria dele precisamente uma resposta assim. Qualquer outra pessoa teria entrado em Meca com arrogância, vingado cada incidente, matado seletivamente aqueles entre os adversários que tivessem cometido a menor transgressão no passado, perpetrado massacres na cidade conquistada e saqueado indiscriminadamente os bens das pessoas e a honra de suas mulheres. Mas, como o conquistador era o maior amigo e salvador da humanidade, tentou conquistar também os corações das pessoas, juntamente com a conquista da terra. Chegou até a pedir aos emigrantes que renunciassem à posse de suas próprias casas e riquezas. Quando, no início do movimento islâmico, ele pedira a Uthman bin Talha que abrisse a porta da Caaba, este recusara firmemente. Mesmo depois da conquista de Meca, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) confiou a chave da Caaba às mãos do mesmo Uthman, para todo o sempre. Em seguida, voltando sua atenção ao passado, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) recordou a Uthman uma conversa que haviam tido: “Um dia esta chave estará sob meu controle. Eu a darei a quem eu quiser”. Como Uthman poderia ter a visão necessária para compreender o significado dessas palavras? Por isso, ele disse: “Antes que esse dia chegue, provavelmente todos os coraixitas terão morrido”. O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) respondeu: “Não, esse dia será um verdadeiro dia de honra para os coraixitas”. Considerando essa conversa, fica-se com a impressão de que, se fosse outra pessoa no lugar do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), certamente teria tomado a chave da Caaba de Uthman e a entregado a outra pessoa para demonstrar o poder de sua autoridade. Mas o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) rejeitou até mesmo o pedido de uma das pessoas mais próximas, o honorável Ali, em nome dos Banu Hashim, para obter a chave da Caaba, e permitiu que ela permanecesse para sempre nas mãos dos antigos responsáveis. Quando, ao entregar a chave, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) recordou em tom de brincadeira a Uthman bin Talha aquela conversa de muitos anos antes, ele disse: “Sem dúvida, você é o Mensageiro de Allah”. O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) respondeu: “Hoje é o dia da bondade e do cumprimento das promessas”.
Depois, por ordem do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), Bilal subiu à Caaba e fez o chamado para a oração. Esse chamado foi como a proclamação do sucesso da revolução islâmica. Naquela Caaba onde pronunciar o nome de Allah em favor dos servos de Allah era considerado um crime, e em defesa dessa injustiça o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e seus companheiros haviam suportado perseguições e sofrimentos sem limites, naquele mesmo teto da Caaba o chamado para a oração ressoava naquele dia. E nenhuma força na Terra era capaz de impedi-lo. Naquele momento, líderes importantes como Abu Sufyan bin Harb, Itab bin Usaid e Harith bin Hisham estavam sentados num canto próximo à Caaba, refletindo sobre a própria derrota. Itab disse, ressentido: ‘Ainda bem que meu pai, Usaid, não viveu para ouvir o som desse chamado para a oração’. Logo depois, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) foi até eles e repetiu diante deles, palavra por palavra, tudo o que haviam dito. Com isso, esses líderes proeminentes dos coraixitas ficaram envergonhados.
Depois, para agradecer a Allah pela conquista de Meca, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) foi à casa de Umm Hani, tomou banho e rezou oito rakʿat.
No dia seguinte à vitória, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) proferiu outro sermão do alto do monte Safa. Primeiro, louvou Allah. Depois, descreveu brevemente a dignidade do Santuário Sagrado, confirmou essa dignidade para sempre e explicou suas regras e disposições. É pertinente mencionar que, mesmo por ocasião de uma vitória revolucionária tão grandiosa, a eterna lei de proteção à vida e aos bens em Meca foi violada por apenas um dia, e isso teve de ser feito por absoluta necessidade. Isso porque alguns arruaceiros insensatos de Meca, sem o consentimento do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), mataram dois soldados muçulmanos e obrigaram as autoridades a eliminá-los. Depois de encerrada essa obrigação extremamente breve, a partir do segundo dia o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) anunciou a restauração da dignidade e da santidade do Santuário Sagrado.
A declaração de anistia geral já havia sido feita. Essa declaração deixou o povo tão impressionado e encantado que ninguém mais conservou qualquer desejo de resistência. Contudo, a respeito de certos crimes específicos, ele anunciou nominalmente que seus autores deveriam ser mortos onde quer que fossem encontrados. Deve-se mencionar que, para conquistar Meca e restabelecer a ordem e a lei, a lei marcial vigorou por alguns dias. Ou seja, todos os poderes estavam concentrados nas mãos das autoridades militares. [Nas áreas onde havia combates, antes que a ordem e a disciplina civis comuns fossem plenamente restabelecidas, segundo a lei islâmica estabelecia-se uma administração temporária relativamente rigorosa nas mãos das autoridades militares. Nesse tipo de administração, algumas leis e disposições diferem um pouco da administração civil comum. Na minha opinião, é esse tipo de administração que, na terminologia moderna, se chama lei marcial. Em geral, a lei marcial é instituída por qualquer governo civilizado e, especificamente segundo a perspectiva islâmica, em regiões em guerra, apenas por um curto período e dentro dos limites da necessidade inevitável, e ainda assim sobre inimigos não muçulmanos derrotados. Atualmente, governar por um período longo e indefinido, em nome da lei marcial, privando os próprios cidadãos de um país de seus direitos civis, constitui um sistema de governo completamente diferente. A medida que chamamos de “lei marcial” no momento da conquista de Meca não tem qualquer semelhança com a lei marcial dos dias atuais. A lei marcial e o governo militar correntes nesta época são totalmente indesejáveis do ponto de vista do Islã.] E o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), na qualidade de comandante, emitiu a ordem de que determinados criminosos fossem mortos onde quer que fossem encontrados. Na terminologia moderna, isso equivale a uma ordem de “atirar ao avistar”. A lista de criminosos incluía os nomes de alguns homens e mulheres. Contudo, a anistia geral do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) salvou a vida da maioria deles. No máximo, quatro criminosos foram condenados à morte. Uma opinião bem fundamentada é que apenas um criminoso foi executado. Seu nome era Abd al-Uzza ibn Hanzal. Esse homem havia sido muçulmano inicialmente. Foi enviado, junto com outro companheiro muçulmano, para recolher o zakat e a caridade. No caminho, discutiu com o companheiro, matou-o e fugiu levando os animais destinados à caridade. Além disso, estava envolvido em muitos outros crimes.
Safwan ibn Umayya era outro criminoso grave desse tipo. Era um inimigo ferrenho do movimento islâmico. A princípio, fugiu e chegou a Jeddah a caminho do Iêmen. Umayr ibn Wahb al-Jumahi obteve do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) o perdão para ele e trouxe-o de volta de Jeddah. Mais tarde, ele aceitou o Islã.
Ikrima ibn Abu Jahl também havia fugido para o Iêmen. Sua esposa, Umm Hakim bint al-Harith (filha do irmão de Abu Jahl), tornou-se muçulmana e obteve do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) a concessão de perdão para seu marido. Depois, foi pessoalmente ao Iêmen e trouxe-o consigo. Quando Ikrima soube que havia recebido o perdão, ficou atônito ao saber que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) havia perdoado até mesmo um inimigo tão ferrenho como ele! Ele compareceu diante dele e aceitou o Islã.
Abdullah ibn Sa’d ibn Abi Sarh havia sido muçulmano e tivera a oportunidade de ser escriba da revelação. Porém, tornou-se apóstata e passou a colaborar com os inimigos. Chegou até a espalhar que, na verdade, a revelação lhe chegava; Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) ouvia dele e mandava escrevê-la. O crime era gravíssimo. Contudo, devido às repetidas intercessões de Uthman, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), como autoridade suprema, concedeu-lhe o perdão. Depois do perdão, ele permaneceu muçulmano.
Muqays ibn Sababa infiltrou-se no grupo islâmico fingindo ser um delator. Mais tarde, matou traiçoeiramente um Companheiro e fugiu. A razão desse assassinato era que o irmão de Muqays havia sido morto acidentalmente pelas mãos desse Companheiro ansarita. Por isso, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) pagou a diya, isto é, uma compensação financeira. Apesar disso, ele matou o Companheiro ansarita. Além de ter se tornado apóstata e agido com traição, poderia também ter sido condenado à morte simplesmente por esse assassinato.
Habbar ibn al-Aswad foi o homem que, além de outras atividades contrárias ao Islã, atacou Zaynab, filha do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), no dia da Hégira e causou-lhe tanto sofrimento que ela sofreu um aborto. A princípio, ele permaneceu fugitivo. Mais tarde, apresentou-se por iniciativa própria, confessou humildemente o crime e demonstrou intenso arrependimento ao Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Ao mesmo tempo, aceitou o Islã. O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) anunciou: “Perdoei Habbar.”
Wahshi, o assassino de Hamza, foi até o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e aceitou o Islã. Ele ouviu de Wahshi o relato do assassinato de Hamza e perdoou-o. No entanto, aconselhou-o: “Não apareças diante de mim, pois isso reaviva as lembranças.” Mesmo depois de aceitar o Islã, esse homem não conseguiu livrar-se de vários tipos de pecado, especialmente do consumo de bebidas alcoólicas.
O renomado poeta jahilita Abdullah ibn Zibyar certa vez se opunha ao Islã e incitava as pessoas usando a arma da poesia. Quando encontrou o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, e aceitou o Islã, foi perdoado.
O poeta Ka’b ibn Zuhayr também havia escrito muitos poemas satíricos contra o Islã e o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. No nono ano da Hégira, veio com seu irmão e encontrou-se com o Mensageiro de Allah. Mais tarde, aceitou o Islã e, como reparação, compôs em defesa do Islã um extraordinário poema histórico intitulado “Banat Su’ad”. O Mensageiro de Allah não apenas o perdoou, como também lhe presenteou com seu próprio manto.
Certa vez, durante sua permanência em Meca, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, estava circundando a Caaba. Nesse momento, Fudala ibn Umair aproximou-se furtivamente com a intenção de matá-lo. O próprio Mensageiro de Allah avançou em sua direção e revelou-lhe o que ele pretendia em seu coração. Fudala ficou extremamente envergonhado ao ser descoberto dessa maneira. Ele lhe pediu que buscasse o perdão e passou a mão sobre seu peito. Imediatamente, sua vida mudou completamente. Não se encontra em nenhum outro lugar exemplo semelhante de perdoar dessa forma um criminoso que alimentava a intenção de matar.
Entre as mulheres, a maior criminosa era Hind bint Utba. Ela não apenas se opôs ativamente ao Islã, como também mutilou o corpo de Hamza e chegou a mastigar seu fígado. Para esconder o rosto, apresentou-se diante do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, usando um niqab. Sob a pressão das circunstâncias, ela havia vindo para aceitar o Islã. Mesmo assim, perguntou ao Mensageiro de Allah, com grande atrevimento, coisas muito estranhas. O diálogo entre ela e o Mensageiro de Allah foi o seguinte:
Hind: Ó Mensageiro de Allah, quais compromissos o senhor exigiu de nós?
O Mensageiro de Allah: Não associar ninguém a Allah.
Hind: O senhor não exigiu esse compromisso dos homens. Ainda assim, eu o aceito.
O Mensageiro de Allah: Não roubar.
Hind: Às vezes, pego dois ou quatro dirrãs dos bens do meu marido, Abu Sufyan. Não sei se isso também é lícito ou ilícito.
O Rasul (S.A.) não matará os próprios filhos.
Hind: Nós os criamos durante a infância. Quando cresceram, vocês mesmos os mataram no campo de Badr. Agora, o que será deles, isso vocês é que sabem.
Não é preciso dizer que tipo de conversão ao Islam foi essa. Se fosse qualquer outra pessoa, não teria suportado tamanha arrogância e desrespeito em uma conversa. Ela simplesmente havia abusado da paciência ilimitada do Rasul (S.A.).
Qartana era uma escrava de Ibn Hanzal. Ela costumava cantar canções insultuosas contra o Rasul (S.A.). Fugiu durante a conquista de Meca. Mais tarde, arrependeu-se e aceitou o Islam.
Há consideráveis divergências nas narrações de hadith e da Sirah a respeito de algumas mulheres e homens. Contudo, não há nenhuma informação certa de que algum deles tenha recebido a pena de morte.
No entanto, na história não se encontra, na vida de nenhum outro conquistador, um exemplo de proclamação de anistia geral, em um momento de vitória tão completa, para inimigos tão ferrenhos.
Uma vitória maior do que conquistar o território de Meca foi o fato de o Rasul (S.A.) estar sentado em um lugar elevado do monte Safa, enquanto as pessoas aceitavam o Islam em grupos. Além de aceitarem os princípios fundamentais do tawhid e da risalat, elas assumiam o compromisso de se abster especialmente de certas más ações e práticas nocivas então comuns. Os compromissos específicos da bay’ah eram os seguintes:
* Não associarei ninguém a Allah, nem em Sua essência, nem em Seus atributos, nem na adoração, nem em Seus direitos.
* Não roubarei, não cometerei adultério, não matarei ninguém injustamente, não matarei meninas crianças e não levantarei falsas acusações contra ninguém.
* Obedecerei, tanto quanto puder, às ordens do Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) nas boas ações.
Depois de permanecer em Meca por quinze dias, ou um ou dois dias a menos ou a mais, quando o Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) partiu, deixou Hadrat Mu’adh ibn Jabal encarregado de ensinar ao povo o modo de vida islâmico, a crença islâmica, o caráter islâmico, a lei islâmica e a cultura islâmica. Nesse curto período, ele estabeleceu o sistema judicial islâmico por meio da aplicação pessoal das punições islâmicas. Quando foi comprovado que uma mulher chamada Fatimah bint Abu al-Asad havia cometido um roubo, ele rejeitou as recomendações de muitas pessoas e realizou aquele ato histórico de amputar-lhe a mão. Depois de vencer as batalhas de Hunayn e Ta’if, o Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) retornou a Meca, nomeou Itab ibn Usaid como governador assistente e estabeleceu para ele uma remuneração diária de um dirham.
Lições importantes da conquista de Meca
1. A conquista de Meca foi o acontecimento mais importante da história do movimento islâmico. Depois dessa vitória, todos os obstáculos à consolidação do Islã foram removidos. Meca era o centro da antiga liderança da jahiliyyah na Arábia. Enquanto esse centro não caísse, não havia como a revolução islâmica avançar. Quando a bandeira da liderança da jahiliyyah foi baixada, o sistema social da jahiliyyah já não teve condições de sobreviver, e também desapareceu a possibilidade de o povo se reunir em torno da jahiliyyah.
A conquista de Meca removeu muitas complicações que afligiam o povo. Muitas tribos não haviam podido avançar em direção ao Islã apenas porque tinham relações de aliança com os coraixitas, ou porque eram economicamente dependentes deles ou lhes deviam dinheiro. Algumas eram impotentes diante de seu domínio social e de sua autoridade religiosa. Quando esse poder dos coraixitas chegou ao fim, quem poderia bloquear o caminho dessas tribos? Seu caminho ficou aberto.
Em alguns setores da sociedade da jahiliyyah havia se difundido a ideia de que somente aquele a quem Allah ajudasse poderia permanecer vitorioso em Meca. Quem não estivesse estabelecido no caminho da verdade não receberia a ajuda de Allah, nem faria soar seu clamor de vitória em Meca. Essa crença tornou-se especialmente mais forte depois do ataque de Abraha. As pessoas começaram a pensar que os coraixitas eram o povo amado por Allah. Sem intervir no conflito entre o Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) e os coraixitas, diziam:
“Deixem Muhammad (s.a.) e seu povo em sua própria situação. Se ele triunfar sobre eles, então será preciso reconhecer que ele é verdadeiramente um profeta.” Foi com base nessa convicção que, após a conquista de Meca, o fluxo das pessoas em direção ao Islã começou a avançar como uma maré que rompe suas barreiras. Não apenas os habitantes de Meca, mas também pessoas das tribos das regiões vizinhas afluíam em grupos e aceitavam o Islã com alegria. Começaram a considerar a condição de servos do movimento islâmico e de seguidores de Muhammad (s.a.) como sua maior felicidade.
Depois disso, o campo ficou completamente livre e desimpedido para a propagação do chamado e dos ensinamentos do Islã. Então, todo muçulmano pôde dedicar-se à tarefa de divulgar o Islã. Não restou ninguém para criar obstáculos.
2. Quando o Mensageiro (s.a.) partiu para a expedição contra Meca, desde o início adotou uma estratégia que impedisse completamente qualquer derramamento de sangue. Ele continuou sua marcha sem revelar a ninguém sequer o seu objetivo. Sem dar aos coraixitas a mínima oportunidade de se prepararem ou de receberem ajuda de qualquer direção, chegou subitamente aos arredores de Meca. Assim, a força opositora, que já havia sido enfraquecida, ficou totalmente atônita com essa surpresa. A derrota psicológica de Abu Sufyan, na verdade, já havia começado muito antes. Com uma estratégia adequada, ele foi o primeiro a ser tomado pelo medo e pelo terror. Como Abu Sufyan se submeteu, não restou a ninguém qualquer possibilidade de oferecer resistência. O fato de o Mensageiro (s.a.) ter destituído um comandante apenas por proferir um slogan ligeiramente provocador e inflamado também teve esse objetivo. Ele queria convencer os habitantes de Meca de que aquele dia era o dia da restauração da dignidade da Caaba, ou seja, um dia de paz e segurança completas.
3. Ele esqueceu completamente todos os crimes bárbaros dos inimigos obstinados do Islã: aqueles que, durante mais de duas décadas, haviam infligido as piores torturas ao Mensageiro (s.a.), a seus queridos companheiros e familiares; que zombavam deles, lançavam sobre eles detritos imundos, espalhavam espinhos em seu caminho, prendiam-nos, conspiravam para matá-los, expulsavam-nos de sua terra e os atacavam sem provocação; e proclamou uma anistia geral. Não é difícil compreender o propósito de substituir a severidade por uma conduta flexível e gentil. Ele não era um conquistador mundano para quem bastaria subjugar algumas pessoas pela força e pela coerção, tornando-as escravas de suas ordens por meio de ameaças e intimidações. Ele era um chamado, uma missão, um movimento moral e o porta-estandarte de um sistema puro e sagrado de governo e de uma sociedade pura. Se tivesse simplesmente capturado as pessoas, amarrando-as e obrigando-as a obedecer-lhe, seu objetivo não teria sido alcançado. Ele precisava de um grupo de pessoas cuja mente e cujo coração tivessem mudado. E a mudança da mente e do coração só é possível por meio do perdão, da misericórdia, da benevolência e da gentileza. Seu objetivo só poderia ser alcançado quando os habitantes de Meca, envergonhados e arrependidos de seu passado, estivessem dispostos a começar uma nova vida. Para aquele cujo objetivo e lema eram realizar uma verdadeira transformação ideal e construtiva, nenhuma outra política própria de um conquistador seria adequada.
O Mensageiro (s.a.) também dava importância a outra realidade. Qualquer que fosse o comportamento dos coraixitas no passado, eles eram o povo mais experiente e mais apto para liderar a nação árabe. Entre as tribos dispersas por toda a Arábia, constituíam uma espécie de elo sólido; se fossem destruídos, não seria fácil encontrar uma alternativa para eles. Em princípio, é uma verdade incontestável do Islã, que deve ser aceita, que quanto mais uma pessoa se destaca na fé e na honestidade, mais apta ela é para a liderança. Mas, além da fé e da honestidade, também são claramente necessárias as aptidões mentais e práticas para liderar. Para essa tarefa são necessários influência e prestígio, experiência na administração e no comando militar, conhecimento estratégico, consciência do bem comum e sabedoria, capacidade de utilizar a língua e outras aptidões, além de conhecimento da psicologia geral das pessoas. Acima de tudo, os líderes só podem alcançar o sucesso quando sua superioridade já é reconhecida pelo povo e suas raízes estão profundamente fincadas na opinião pública. Nenhuma liderança pode permanecer suspensa no vazio. A aptidão dos coraixitas para a liderança havia sido rejeitada na perspectiva islâmica porque eles eram seguidores da Jahiliyyah. Contudo, quando essa liderança se tornasse seguidora do Islã e adquirisse as qualidades da fé e da honestidade, transformar-se-ia em um patrimônio de imenso valor. A política que o Mensageiro (s.a.) estabeleceu para lidar com os coraixitas após a vitória foi definida justamente com o objetivo de permitir que o Estado islâmico e o movimento islâmico obtivessem deles líderes e administradores competentes e experientes. Se eles tivessem sido subjugados e esmagados pela força e por um tratamento humilhante, não poderiam atender a essa necessidade.
4. Ao entrar em Meca como um vitorioso, o Mensageiro (s.a.) deu um exemplo de temor a Allah que não se pode esperar de nenhum estadista mundano. Ele entrou com a aparência de um vencedor, mas não houve tambores nem fanfarras, nenhuma demonstração de orgulho ou arrogância, nem discursos exaltados reivindicando grandes feitos; pelo contrário, o povo viu exatamente a cena oposta. Cumprindo a ordem de entrar “em estado de prostração”, inclinou a cabeça diante de Allah. Entoaram-se cânticos acompanhados de louvores a Allah. Se algum slogan foi pronunciado, era um slogan sobre a grandeza e a supremacia de Allah. O chamado à oração, a oração e as súplicas fizeram fluir uma inundação de luz sobre a atmosfera de Meca. Nenhum interesse mundano próprio foi buscado; pelo contrário, até mesmo as propriedades dos emigrantes que os coraixitas haviam confiscado à força e por meio de opressão e perseguição foram deixadas nas mãos dos coraixitas. É lamentável que alguns críticos sem consciência tenham classificado os aspectos de temor a Allah do movimento islâmico do Mensageiro (s.a.) como mero egoísmo e algo deliberadamente calculado. Alguns chegaram a tentar provar abertamente que tudo não passava de uma encenação para obter aprovação pública. (Que Allah nos proteja!) Eles não refletiram que, quando aqueles que fazem uma encenação para obter aprovação pública alcançam o sucesso total, sua máscara cai e sua verdadeira natureza se revela. Que Allah não permita, se isso tivesse sido uma artimanha política, a conquista de Meca teria criado uma oportunidade para que o gato saísse do saco; aqueles que gritavam “Allah é o Maior, Allah é o Maior” logo teriam começado a exibir sua própria grandeza. Entretanto, a situação aqui era tal que, em seu primeiro discurso após a vitória, o Mensageiro (s.a.) declarou que todo o mérito do sucesso pertencia a Allah. Ele disse que Allah havia ajudado e concedido a vitória a Seu servo.
5. Na época da conquista de Meca, o Mensageiro (s.a.) não perdoou apenas crimes políticos; também perdoou os crimes comuns de algumas pessoas, crimes pelos quais seria obrigatório condená-las à morte. À luz desses exemplos, é preciso considerar, do ponto de vista jurídico e diante das circunstâncias da era moderna, até que ponto se pode conceder ao chefe de Estado de um Estado islâmico o poder de reduzir penas ou conceder perdão.
A conquista de Meca alcança sua plenitude
Se as tribos que viviam nos arredores de Meca — antigas apoiadoras e aliadas dos coraixitas, detentoras de influência, prestígio e poderio semelhantes — não fossem subjugadas juntamente com a conquista de Meca, essa conquista não seria considerada uma vitória em sentido pleno e, mesmo que fosse, não seria duradoura. Banu Hawazin, os habitantes de Taife e Banu Thaqif haviam contribuído enormemente para fortalecer o poder e a autoridade próprios da liderança jahilita de Meca. Pode-se dizer que eram diferentes ramos da mesma árvore. No confronto com os árabes comuns, essas tribos vizinhas de Meca também desfrutavam do status de liderança. Naturalmente, diante dos coraixitas, ocupavam uma posição de liderança de segundo nível. Suas relações políticas de aliança com Meca eram bastante antigas, e suas relações econômicas eram estreitas e profundas. Eram também aliados uns dos outros nas necessidades militares e, culturalmente, pertenciam a um nível elevado. O fato de a conquista de Meca ter sido concluída sem derramamento de sangue ocorreu quase como um milagre. Do contrário, Banu Hawazin, Banu Thaqif e os habitantes de Taife deveriam ter avançado conjuntamente para defender os coraixitas. Se isso tivesse realmente acontecido, uma guerra extremamente sangrenta teria ocorrido na história de Meca. Mas o plano do Mensageiro (s.a.) foi tão hábil e meticuloso que os habitantes de Meca não receberam ajuda alguma das regiões vizinhas. Encontraram-se completamente isolados e de surpresa diante do exército muçulmano.
Os líderes da tribo de Hawazin já haviam previsto o que estava prestes a acontecer. Compreenderam que o conflito iniciado em Badr ainda não havia chegado à sua conclusão final. A ruptura, por parte dos coraixitas, do tratado de Hudaybiyyah; as novas condições enviadas pelo Mensageiro (s.a.); o reenvio do emissário que levava a proposta; e, depois, o fracasso de Abu Sufyan em sua tentativa de renovar o tratado — a sequência desses acontecimentos não era um bom sinal. Por isso, os líderes da tribo de Hawazin passaram o ano inteiro empenhados em reunir forças. Entraram em contato com várias tribos e criaram um ambiente de agitação contra o Islã. Entretanto, quando chegou o momento, interpretaram mal as atividades misteriosas do Mensageiro (s.a.). Banu Hawazin pensou que o Mensageiro (s.a.) estivesse realizando todos os preparativos de guerra tendo-os como alvo. Assim, reuniu tropas em seu próprio território e começou os preparativos com grande alarde.
Mas o curso dos acontecimentos tomou uma forma diferente, contrária às suas suposições. Eles concluíram seus preparativos de guerra e permaneceram em seu próprio território. Enquanto isso, um acontecimento histórico grandioso como a queda de Meca ocorreu com extrema facilidade. A reação das demais tribos à conquista de Meca foi que seus membros começaram a ir, em grupos sucessivos, até o Mensageiro (s.a.) para aceitar o Islã. Mas a reação de Banu Hawazin e Banu Thaqif foi diferente. Por um lado, estavam organizados, dispondo de grande número de homens, força econômica e habilidade militar. Por outro, sua atitude imprudente, formada por um comportamento continuamente hostil contra o movimento islâmico, obrigou-os a levar seu programa até as últimas consequências. Para travar sua batalha final, reuniram tropas em Awtas, ou Hunayn, entre Taife e Meca. Somente Banu Kaab e Banu Kilab adotaram uma postura completamente neutra.
Ao ouvir sobre os preparativos de Banu Hawazin, o Mensageiro (s.a.) enviou Abdullah ibn Abi Hadrad como espião e obteve informações precisas. Chegara então o momento dos preparativos de guerra. Para atender às necessidades militares, o Mensageiro (s.a.) tomou emprestados três mil dirrãs de Abdullah ibn Rabi’a e, de Safwan ibn Umayya, um destacado líder de Meca, equipamento militar, especialmente cem armaduras. Isso indica que o Mensageiro (s.a.) não partiu com nenhum preparativo militar extraordinário. Desde o início, não tinha em mente qualquer derramamento de sangue. Foi necessário preparar-se novamente apenas no próprio local dos acontecimentos. Que fato sem precedentes! O conquistador que havia subjugado completamente os coraixitas poderia ter-lhes exigido dinheiro e armas à força. Apesar de ocupar uma posição tão elevada, ele dava tanta importância à moralidade que tudo o que tomou, tomou apenas como empréstimo. Esta consciência moral é precisamente uma característica do movimento islâmico.
No mês de Shawwal do 8º ano da Hégira, doze mil soldados muçulmanos partiram de Meca. Dessa vez, surgiu no coração desses soldados muçulmanos a seguinte atitude: agora somos o exército que conquistou Meca. Nosso efetivo é enorme. E nosso armamento também é superior ao de qualquer época anterior. Não é preciso dizer que uma atitude arrogante desse tipo é capaz de enfraquecer as pessoas. Essa era a fraqueza humana deles. Não percebiam que eram soldados daquele Soberano do Universo que não tolera nem mesmo a menor parcela de arrogância. A arrogância e a presunção são como uma muralha de ferro entre o ser humano e Allah. Por causa delas, não há possibilidade de receber a ajuda de Allah. Contudo, a ajuda de Allah é a própria essência de qualquer luta islâmica. Por algum tempo, foi aplicado a essa presunção um castigo tão severo que ela se transformou em uma memória histórica. O Alcorão transformou esse acontecimento em uma fonte permanente de ensinamento.
O fato foi que, dessa vez, um grupo de soldados de um novo tipo havia se juntado ao exército muçulmano vindo de Meca. Até na vanguarda comandada por Khalid ibn al-Walid haviam sido incorporados jovens recém-convertidos ao Islã. Estavam tão exaltados pela emoção que nem sequer haviam conseguido se equipar com as armas necessárias. Além disso, havia dois mil homens de Meca, os tulaqa, que haviam sido libertados, os quais eram, de fato, leais ao governo islâmico, mas cujo caráter islâmico ainda não havia sido devidamente formado. Do outro lado, os homens do adversário eram extremamente peritos na arte da guerra; especialmente no lançamento de flechas, ninguém em toda a Arábia se igualava a eles. Eles já haviam tomado as melhores posições do campo de batalha e tinham escondido arqueiros em cada montanha, nas cavidades das montanhas e nas passagens estreitas.
Logo no início do ataque, quando começaram a chover flechas de todas as direções, a vanguarda se dispersou. Ao mesmo tempo, os soldados muçulmanos, tomados pelo pânico, espalharam-se. Chegou-se a um ponto em que não havia ninguém ao lado do Mensageiro (s.a.); ele permanecia completamente sozinho. Esse foi um dos raros e delicados momentos da vida militar do Mensageiro (s.a.), quando a firmeza de sua determinação, sua bravura, sua autoconfiança e sua confiança em Allah se manifestaram novamente. Com extraordinária coragem, chamou seus companheiros e, descendo do dorso de seu animal de montaria, começou a dizer em tom solene:
“Sou um verdadeiro profeta; não há o menor traço de mentira em mim.[Árabe*********]
Eu sou, saibam bem, o neto de Abdul Muttalib.”[Árabe*********]
Hazrat Abbas chamou de perto: “Ó ansáres! Ó vós que prestastes o juramento sentados sob a árvore!” Ao ouvirem essa voz, os muçulmanos dispersos correram de todos os lados e se reuniram ao redor do valente líder, o Mensageiro de Allah (que a paz esteja sobre ele). Então lutaram com tal heroísmo que, em poucos instantes, o curso da batalha mudou. Setenta inimigos foram mortos. Quando o porta-estandarte deles morreu, o moral de todo o exército se desintegrou. Uma parte do exército pagão derrotado refugiou-se na fortaleza de Awtas. Abu Amir al-Ash‘ari foi até lá com um pequeno grupo. Os inimigos eram milhares. O próprio Abu Amir al-Ash‘ari foi martirizado, mas seu grupo saiu vitorioso.
Taife era um lugar extremamente fortificado, pois era cercado por muralhas. Essas muralhas haviam sido reparadas, e os suprimentos necessários para todo o ano tinham sido armazenados ali antecipadamente. Havia também uma grande quantidade de armas. O verdadeiro objetivo do Mensageiro de Allah (que a paz esteja sobre ele) era tomar esse centro estratégico. Contudo, adotou uma estratégia que primeiro privou o povo de Taife da ajuda dos Banu Hawazin. Mas os derrotados haviam se reunido justamente ali. O ataque a Taife foi lançado por uma direção que seus habitantes jamais poderiam imaginar que seria usada para um ataque. Primeiro, Hazrat Khalid partiu com uma unidade militar. Depois, o próprio Mensageiro de Allah (que a paz esteja sobre ele) chegou com todo o exército. Foi a primeira ocasião em que canhões e tanques foram usados para romper uma fortaleza. (Vale mencionar que o Mensageiro de Allah (que a paz esteja sobre ele) havia enviado alguns outros guerreiros muçulmanos a Juras para receber treinamento no uso de armas pesadas destinadas à destruição de fortalezas. Juras era um centro de fabricação desse tipo de armamento. É possível que esse centro estivesse sob o controle dos judeus.) Entretanto, juntamente com uma intensa chuva de flechas contra os soldados a partir do interior, começaram a lançar barras de ferro incandescentes para danificar as armas usadas contra a fortaleza. Muitos guerreiros muçulmanos ficaram feridos e tiveram de recuar.
Diante dessa situação, o Mensageiro de Allah (que a paz esteja sobre ele) pediu a opinião de Nawfal ibn Muawiya. Ele deu uma resposta engenhosa: “A raposa entrou na toca. Se continuarmos tentando, certamente a controlaremos. E, se a deixarmos entregue à própria situação, também não haverá grande risco de dano.” Com base nesse sábio conselho, o Mensageiro de Allah (que a paz esteja sobre ele) considerou que, tendo toda a Arábia entrado sob o domínio do Islã, Taife não poderia permanecer divergente. Se fosse forçada a se submeter imediatamente, haveria dois prejuízos. Mas, se fosse deixada em paz, a situação despertaria entre o povo de Taife o impulso de prestar lealdade voluntariamente. As portas de seus corações se abririam à ideologia revolucionária do Islã. Por isso, visando o maior bem tanto do Islã quanto do povo de Taife, ele levantou o cerco. Isso constitui uma prova eloquente de quanto o Mensageiro de Allah (que a paz esteja sobre ele) se esforçava para evitar derramamento de sangue. Seus companheiros disseram: “Ó Mensageiro, peça uma maldição contra o povo de Taife.” O Mensageiro de Allah (que a paz esteja sobre ele) suplicou: “Ó Allah, guia os Thaqif ao caminho correto e une-os a nós.” Foi por aqueles habitantes de Taife que um dia o haviam apedrejado e ensanguentado que ele fez essa súplica. Essa súplica também é um testemunho de seu coração compassivo, um coração que não favorecia o uso da força em lugar algum, a menos que fosse absolutamente necessário. No entanto, esse coração jamais foi mesquinho ao distribuir perdão e misericórdia.
Em Jirana, foram obtidos como espólio 24 mil camelos, 40 mil cabras e 4 mil uqiyas de prata. Conforme a determinação do Alcorão, um quinto disso foi depositado no Bayt al-Mal para as classes necessitadas da sociedade e para as necessidades coletivas. O restante foi distribuído entre todos os soldados. Assim, a obtenção do espólio era, por um lado, um excelente meio de reduzir o poder econômico e militar do inimigo; por outro, ofereceu, pela primeira vez, a oportunidade de distribuir livremente riquezas acumuladas durante centenas de anos e criou condições para eliminar a antiga desigualdade econômica entre as tribos ricas e pobres.
O Alcorão destinou uma categoria chamada “conquista dos corações”, ou “Ta’lif al-Qulub”, para a distribuição dos recursos da zakat. (Seu significado técnico é alcançar o objetivo fornecendo os recursos necessários às pessoas que, para o maior benefício do Islã e dos muçulmanos, precisam ser tornadas tolerantes ou simpáticas ao Islã e aos muçulmanos — o tradutor.) Sob essa categoria, o Mensageiro de Allah (que a paz esteja sobre ele) concedeu generosamente grandes riquezas aos habitantes de Meca e aos seus líderes. O objetivo era apaziguar a angústia de seus corações. Eles haviam sido lançados do céu do poder político ao abismo, e todo o ambiente social havia mudado completamente para eles. Nessas circunstâncias, não havia no mundo ninguém tão desamparado e indefeso quanto eles. Embora fossem próximos do Mensageiro de Allah (que a paz esteja sobre ele), permaneciam nas últimas fileiras, enquanto os ansáres e os muhajirun ocupavam as posições de sua mão direita e esquerda; por isso, é fácil compreender como deviam se sentir. O tribunal de Allah proferiu a sentença de um processo instaurado havia duas longas décadas. Nesse processo, os coraixitas, apesar de terem feito todos os esforços, foram derrotados. Por isso, naquele dia, ninguém era mais desventurado do que eles. Se não fossem tomadas medidas para fazê-los esquecer a vergonha e a frustração da derrota, de sua desesperança surgiria repetidamente um desejo reprimido de vingança, e, embora contra a vontade, continuariam sabotando secretamente os objetivos e propósitos do Estado islâmico sob o disfarce de uma lealdade ostensiva. Abu Sufyan, Hakim ibn Hizam, Nadr ibn Harith, Safwan ibn Umayya, Aqra ibn Umayya e Akara ibn Harith — líderes coraixitas de destaque — recebiam naquele dia dádivas justamente daquele a quem haviam insultado durante muitos anos, chamado de mentiroso, ridicularizado e difamado, infligido sofrimento físico, submetido a um boicote, tentado matar, forçado a abandonar seu lar e, mesmo depois de ele ter emigrado, atacado agressivamente, não lhe permitindo viver sequer um momento em paz e segurança. Onde e quando alguém já viu uma cena tão extraordinária? Quantos exemplos de serviço à humanidade como este podem ser encontrados na história?
Ao verem esse mar impetuoso de generosidade e magnanimidade desabar sobre os líderes coraixitas, alguns ansáres tiveram uma reação um tanto negativa. Alguns sentimentos de inferioridade começaram a se manifestar entre eles. Pensaram que talvez o Mensageiro de Allah (que a paz esteja sobre ele) os estivesse tratando com tanta consideração por causa do favoritismo pelos parentes de sua linhagem e do apego à sua terra natal, enquanto negligenciava a nós. Alguns chegaram a dizer abertamente: “Quando se trata de lutar arriscando a vida pela proteção do Islã, somos nós que estamos na linha de frente, e nossas espadas ainda pingam gotas de sangue. Mas, quando se trata de doações e presentes, os coraixitas tiveram prioridade sobre nós.”
Aqueles em cujas mentes fervilhavam pensamentos desse tipo não sentiram necessidade de refletir que o Mensageiro de Allah (que a paz esteja sobre ele) não estava dando essas doações e presentes aos membros de sua própria família. Tampouco os dava aos muhajirun que eram seus parentes próximos, e ele mesmo não estava recebendo nada. Nessas circunstâncias, se os coraixitas haviam recebido um tratamento um pouco especial, certamente havia por trás disso algum benefício maior.
Quando o assunto chegou aos ouvidos do Mensageiro de Deus (que a paz esteja com ele), foi armada uma tenda, e os ansar foram chamados para lá. O Mensageiro de Deus (que a paz esteja com ele) fez diante deles um breve discurso comovente. (Esse discurso já foi citado anteriormente.) A última frase do discurso foi: “Ó ansar! Não vos agrada que os outros levem camelos e cabras, enquanto vós levais convosco Muhammad (que a paz esteja com ele)?” Enquanto ouviam o discurso, as lágrimas dos ansar molhavam suas barbas. Ao ouvirem a frase final, gritaram: “Para nós, somente Muhammad (que a paz esteja com ele) é suficiente.” Depois, ele explicou-lhes com palavras brandas por que era necessário conquistar a benevolência dos coraixitas.
Enquanto isso, seis mil prisioneiros de guerra aguardavam a decisão sobre seu destino. O Mensageiro de Deus (que a paz esteja com ele) esperou duas semanas inteiras, para ver se alguém viria apresentar alguma reivindicação a respeito deles. Por isso, também adiou a distribuição dos espólios. Porém, como ninguém veio, a distribuição foi realizada. Depois da distribuição, um grupo de pessoas importantes da tribo da ama de leite do Mensageiro de Deus (que a paz esteja com ele), Halima Sa’dia, veio encontrar-se com ele. O líder do grupo, Zuhair, falou com grande emoção sobre os prisioneiros de guerra de sua tribo:
“Entre as mulheres que estão detidas nas cabanas aqui há também suas tias paternas e maternas. Juro por Deus: se algum rei da Arábia tivesse mamado do leite de uma mulher de nossa tribo, esperaríamos muito dele. Porém, esperamos ainda mais de vós.”
O Mensageiro de Deus (que a paz esteja com ele) explicou-lhes: “Eu mesmo esperei por muito tempo para ver se algum reivindicante apareceria. Como ninguém veio até o fim, fui obrigado a distribuí-los. Agora, os prisioneiros que foram distribuídos entre os membros de Banu Hashim, entrego-os imediatamente em vossas mãos. Quanto aos demais, fareis um discurso diante da maior reunião dos muçulmanos depois da oração.” Depois da oração, Zuhair fez seu discurso. O Mensageiro de Deus (que a paz esteja com ele) disse: “Posso assumir responsabilidade apenas por minha tribo, Banu Hashim. Porém, intercedo por todos os muçulmanos.” Imediatamente, todos os ansar e os muhajirun exclamaram: “Também libertamos nossa parte.” Somente Banu Sulaym e Banu Fazara acharam inusitada a ideia de libertar gratuitamente os prisioneiros de guerra capturados entre os inimigos derrotados e começaram a hesitar. Por fim, o Mensageiro de Deus (que a paz esteja com ele) conseguiu libertar também os demais prisioneiros, pagando seis camelos por cada prisioneiro. Assim, todos os seis mil prisioneiros de guerra foram libertados. O Mensageiro de Deus (que a paz esteja com ele) também deu roupas a muitos prisioneiros. Ali aconteceu algo que está além da imaginação dos conquistadores comuns: os prisioneiros foram libertados sem resgate. Isso porque seu objetivo principal não era matar as pessoas nem escravizá-las. Seu verdadeiro objetivo era estabelecer a religião verdadeira e preparar os corações das pessoas para ela.
Depois de concluir essa tarefa, ele realizou a umra e partiu para Medina, nomeando Itab ibn Usayd governador de Meca.
Após a conquista de Meca
Na minha opinião, na batalha de Hunayn, que ocorreu após a conquista de Meca, as forças subversivas contrárias ao Islã foram completamente eliminadas internamente. Depois dessa batalha, o destino da Arábia foi definitivamente determinado pelas normas islâmicas. Não restou a ninguém qualquer oportunidade de avançar. Ainda assim, foi necessário realizar algumas pequenas operações militares para reprimir criminosos dispersos e restaurar a ordem e a segurança. Contudo, não foram acontecimentos particularmente importantes.
A tribo Banu Tamim instigou várias outras tribos a interromper a arrecadação de impostos para o governo islâmico. Isso foi um ato contra o Estado. Uyayna ibn Hisn foi enviado com cinquenta cavaleiros. Assim que o ataque começou, Banu Tamim fugiu. Alguns foram capturados e levados a Medina, sendo libertados posteriormente.
A tribo de Khath’am, habitantes da região de Tabala, preparou-se para uma rebelião. Um destacamento de vinte soldados, sob o comando de Qataba ibn Amir, foi enviado para reprimi-los. Os rebeldes fugiram. Algumas pessoas foram feitas prisioneiras, mas o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, posteriormente as libertou. Hadrat Dahhak foi enviado aos Banu Kilab. Com ele estava também Asid ibn Salama, da mesma tribo. Esse grupo era principalmente uma equipe de pregação e ensino. Os membros da tribo pegaram em armas contra eles. O pai de Asid foi morto. Não se conhecem outros detalhes sobre esse acontecimento.
Certa vez, soube-se que alguns piratas abissínios haviam se reunido em Jidá. Assim que Abdullah ibn Hudhafa Quraishi (ou Alqama ibn Mujazzaz) partiu à frente de uma força de trezentos soldados, os piratas fugiram.
No mês de Rabi al-Thani do nono ano da Hégira, Hadrat Ali, que Allah esteja satisfeito com ele, foi enviado à tribo Banu Tayy com cento e cinquenta cavaleiros, e recebeu a ordem de destruir o grande templo que havia ali. É necessário fazer aqui uma breve análise da questão. O Estado islâmico de Medina era um Estado idealista. Embora esse Estado pudesse tolerar, em nível individual, que alguém professasse uma crença contrária aos princípios fundamentais sobre os quais ele fora estabelecido, como poderia permitir a existência de uma instituição social contrária a esses princípios fundamentais — isto é, à crença no tawhid, na missão profética e na vida futura? Também é preciso lembrar que, no sistema religioso e cultural da Arábia pré-histórica, os ídolos locais eram fontes de inspiração viva. Só a ideia da existência desses ídolos despertava uma agitação emocional e um entusiasmo que incitavam repetidamente os membros da sociedade da jahiliyyah a lutar contra o governo islâmico. Grandes guerras haviam sido travadas em nome desses ídolos. Nesse contexto excepcional, manter os templos da era da jahiliyyah como instituições coletivas e permitir que o pensamento pagão tivesse repetidas oportunidades de criar instabilidade e tensão não seria de modo algum razoável. Esses ídolos eram, na realidade, símbolos de um tipo específico de mentalidade e sinais de um sistema de vida inválido. Portanto, a destruição do templo da tribo Banu Tayy não podia ser considerada uma interferência na liberdade religiosa de uma minoria religiosa reconhecida; antes, era uma medida inevitável para libertar o ambiente de uma tendência que criava ameaças contra a existência do Estado islâmico. A questão, na prática, não se limitava apenas ao nível ideológico. Impulsionada por crenças pagãs, a tribo também começara a nutrir certas atitudes rebeldes. A ideia de confrontar Medina havia amadurecido consideravelmente entre eles. A prova irrefutável disso é que Adi ibn Hatim, filho de Hatim al-Tai, de uma família célebre daquela tribo, havia reunido pessoalmente grande quantidade de animais de carga e armas com esse objetivo. Não era surpreendente que muitos outros membros da tribo, como Adi, também tivessem feito preparativos semelhantes.
De qualquer modo, Hadrat Ali, que Allah esteja satisfeito com ele, chegou a um lugar chamado Quls e lançou um ataque logo pela manhã. Adi ibn Hatim fugiu para a Síria com o objetivo de reunir forças e trazê-las consigo. Os membros da tribo ofereceram uma resistência limitada. Seu templo foi destruído. A irmã de Adi e várias outras pessoas foram feitas prisioneiras e levadas para Medina; alguns animais e armas também foram apreendidos. A irmã de Adi contou ao Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, a história de seu sofrimento extremo. Ela disse: “Meu pai morreu. Meu protetor fugiu, abandonando-me. Sou idosa e fraca, e não tenho capacidade para fazer nada. Tenha misericórdia de mim; Allah terá misericórdia de você.” O Mensageiro de Allah providenciou, conforme o desejo daquela mulher, um animal de carga para ela e mandou libertá-la. Ao voltar para casa, a mulher contou ao irmão sobre a bondade e o comportamento afável do Mensageiro de Allah. Ela disse: “Vi-o comportar-se exatamente como nosso pai: quando alguém chegava, ele lhe demonstrava tal bondade; quando outro chegava, mostrava-lhe tal generosidade, e assim por diante. Abandone a ideia de lutar contra o Mensageiro de Allah. Vá pessoalmente; verá quanto benefício obterá.” Pouco tempo depois, Adi ibn Hatim foi a Medina e aceitou o Islam.
Duas guerras internacionais
A principal tarefa concluída durante a vida do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, foi consolidar a unidade interna do país e completar a revolução islâmica. Contudo, ao convidar os governantes dos países vizinhos para o Islam, ele deu início à fase internacional do movimento. Enviou emissários a vários países. Um desses emissários chamava-se Harith ibn Umayr al-Azdi. Ele foi enviado ao governante cristão da Síria. Porém, o governante cristão Shurahbil ibn Amr al-Ghassani matou esse emissário do Mensageiro de Allah no caminho. Esse ato foi uma violação tão abominável dos princípios humanos fundamentais e do direito internacional vigente naquela época que, se qualquer governo o tolerasse em silêncio, não lhe restaria dignidade nem honra. Por isso, no oitavo ano da Hégira, o Mensageiro de Allah enviou à Síria uma força de três mil soldados sob o comando de seu liberto, Zayd ibn Haritha. Esse acontecimento demonstrou claramente como uma pessoa que havia ascendido da condição de escravo podia tornar-se comandante e como a revolução islâmica estabelecia um exemplo. Usama, filho de Zayd ibn Haritha, também foi nomeado pelo Mensageiro de Allah comandante de sua última expedição. Para se despedir dessa força, o próprio Mensageiro de Allah foi até Saniyyat al-Wada. Quando o exército chegou a Mu’ta, soube-se que o imperador romano Heráclio havia ido à Síria e que cerca de cem mil soldados cristãos daquela região estavam com ele. Até então, estava sendo considerada a proposta de o exército muçulmano retornar a Medina; depois de analisar a situação mais recente, essa proposta foi rejeitada e decidiu-se lutar confiando em Allah. Assim que avançaram, encontraram uma enorme força inimiga em um lugar chamado Masharif, e travou-se uma batalha feroz. Zayd ibn Haritha foi martirizado. Em seguida, Hadrat Jafar carregou a bandeira. Quando sua mão direita foi cortada, segurou-a com a esquerda; quando a esquerda também foi cortada, apertou-a contra o peito. Por fim, alcançou o martírio após sofrer noventa ferimentos. Depois, conforme a ordem de sucessão indicada pelo Mensageiro de Allah, Abdullah ibn Rawaha tornou-se o porta-bandeira. Quando ele também foi martirizado, Khalid ibn al-Walid foi nomeado comandante por decisão unânime. Ele lutou com tal bravura que nove espadas se quebraram, uma após outra, em suas mãos. Por fim, o exército inimigo foi obrigado a recuar. Hadrat Khalid trouxe o exército de volta em segurança. Ao todo, doze pessoas foram martirizadas nessa batalha, entre elas figuras de grande valor.
Os muçulmanos consideraram temporariamente essa vitória suficiente, pois o número de soldados inimigos era muito maior, o local era estrangeiro e a situação lhes era totalmente desconhecida. Era difícil providenciar suprimentos, e não havia esperança de trazer soldados adicionais. Por isso, essa força retornou a Medina. O Mensageiro de Allah e os muçulmanos saíram de Medina para recebê-la. Quando alguns, em tom de brincadeira, chamaram essa força de “fugitivos”, o Mensageiro de Allah disse: “Não são ‘fugitivos’; são ‘retornantes’, isto é, voltarão a combater.” Em reconhecimento à bravura demonstrada por Hadrat Khalid, que Allah esteja satisfeito com ele, nessa batalha, ele recebeu o título de Saifullah, ou seja, “A Espada de Allah”.
A segunda expedição nessa fase foi a expedição de Tabuk.
Após a conquista de Meca, transcorria o mês de Rajab do nono ano da Hégira. Uma caravana vinda da Síria informou que os soldados do imperador romano estavam se preparando para atacar Medina. O Império Romano se estendia então por quase metade do mundo. Pouco antes, esse império também havia derrotado o Irã. O Mensageiro de Allah, que a paz esteja com ele, e os muçulmanos haviam transformado o Estado Islâmico de Medina em um farol de luz, para espalhar pelo mundo inteiro a luz da fé e da honestidade. Eles não podiam permitir que esse Estado Islâmico, construído com tanto esforço, fosse destruído. Afinal, esse Estado era sua religião e sua vida mundana, seus bens, riquezas, parentes e tudo o mais. Por isso, os preparativos foram feitos imediatamente. Decidiu-se que, antes que os soldados de César entrassem em território árabe, seria lançado um ataque surpresa, para que eles não pudessem causar destruição naquela terra. Era uma época de calor intenso, fome terrível e pobreza deplorável. O Mensageiro de Allah, que a paz esteja com ele, pediu contribuições para a guerra. Os muçulmanos deram a esse pedido uma resposta tão memorável que continuará a inspirar valiosamente toda a humanidade para sempre. Uthman, que Allah esteja satisfeito com ele, doou 900 camelos, 100 cavalos e mil dinares. Abd al-Rahman ibn Awf, que Allah esteja satisfeito com ele, deu 40 mil dirrãs. Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, apresentou mais da metade de seus bens. Abu Bakr al-Siddiq, que Allah esteja satisfeito com ele, esvaziou completamente sua casa e entregou tudo o que possuía. Na competição de doações, sua balança tornou-se a mais pesada de todas. Contudo, talvez o maior sacrifício tenha sido feito por um pobre trabalhador diarista ansari, que dividiu em duas partes o salário que recebera carregando água durante todo o dia: deixou metade para sua família e levou a outra metade ao Mensageiro de Allah, que a paz esteja com ele. O Mensageiro de Allah, que a paz esteja com ele, ordenou que os bens trazidos por ele fossem distribuídos entre os demais bens valiosos doados. As mulheres muçulmanas chegaram a entregar até mesmo suas joias para o fundo da jihad.
Trinta mil soldados, acompanhados de dez mil cavalos, partiram para a expedição de Tabuk. Ainda no local chamado Thaniyat al-Wada, nos arredores de Medina, foram concluídos o agrupamento dos soldados, a nomeação dos comandantes e a distribuição das bandeiras. Ao chegarem a Tabuk, soube-se que os inimigos haviam abandonado a intenção de atacar a Arábia. Na verdade, alguém lhes dera a falsa notícia de que o Profeta de Medina, que a paz esteja com ele, havia morrido — que Allah nos proteja! Por isso, pensaram que surgira uma oportunidade de ouro para atacar. Mais tarde, quando souberam que o Profeta ainda estava vivo e que Medina também continuava viva, sua ambição agressiva foi silenciada. De qualquer modo, o resultado político dessa expedição militar foi muito satisfatório. O Mensageiro de Allah, que a paz esteja com ele, manteve o acampamento militar em Tabuk durante um mês. Nesse período, o trabalho de ampliar com êxito a influência política em todas as direções continuou. O governante de Aylah veio visitá-lo e, concordando em pagar a jizya, iniciou relações conciliatórias. Os habitantes de Jaraba e Adhruh também vieram, pagaram a jizya e reconheceram sua submissão. O problema de Dumat al-Jandal vinha sendo importante para o Mensageiro de Allah, que a paz esteja com ele, há muito tempo. Khalid ibn al-Walid, que Allah esteja satisfeito com ele, foi enviado com mais de quatrocentos soldados ao governante de Dumat al-Jandal, Ukaidir. Ele e seu irmão estavam caçando. Seu irmão morreu, e Ukaidir foi capturado. Foi estabelecida com ele uma trégua com base no pagamento da jizya. O Mensageiro de Allah, que a paz esteja com ele, nomeou-o, em nome do governo de Medina, governador de Dumat al-Jandal, Aylah, Tayma e Tabuk, e entregou-lhe um documento escrito para esse efeito. Alguns relatos informam que Khalid, por meio de uma estratégia hábil e sem combate, tomou a fortaleza de Dumat al-Jandal e obteve valiosos despojos. Quando o Mensageiro de Allah, que a paz esteja com ele, voltou de Tabuk, foi recebido em Medina com uma recepção grandiosa. As conspirações tramadas pelos hipócritas a respeito dessa expedição já foram mencionadas por mim em um capítulo anterior. Um grande número de hipócritas — cerca de oitenta — havia permanecido em Medina. Quando lhes perguntaram por que não tinham ido a Tabuk, inventaram todo tipo de desculpas. O Mensageiro de Allah, que a paz esteja com ele, perdoou-os. Contudo, alguns crentes sinceros também haviam ficado para trás. Abu Khaythama foi contado entre eles. Embora tivesse permanecido em Medina, logo recuperou a consciência. Alguns dias depois da partida do Mensageiro de Allah, que a paz esteja com ele, num dia de calor intenso, ele foi descansar com sua esposa sob a sombra fresca das árvores. Ali havia providenciado água para ser aspergida e preparado uma refeição. De repente, percebeu a situação e disse à esposa: “Ai de mim! O Mensageiro de Allah, que a paz esteja com ele, está sofrendo sob o sol, na poeira e no calor, enquanto eu, Abu Khaythama, estou comendo comida deliciosa à sombra fresca, junto de uma bela esposa! Isso de modo algum é justo.” Por Allah, juro que não entrarei nos aposentos de minhas esposas. Que preparem minha viagem.” Mandou trazer um camelo, montou nele e partiu; depois de percorrer uma longa distância, alcançou o exército. Entretanto, três crentes — Ka‘b ibn Malik, Hilal ibn Umayya e Murara ibn al-Rabi —, apesar de todos os esforços, não conseguiram partir. Quando o Mensageiro de Allah, que a paz esteja com ele, lhes perguntou por que não tinham ido, responderam claramente: “Cometemos um erro.” O Mensageiro de Allah, que a paz esteja com ele, ordenou que permanecessem separados da sociedade e afastados de suas esposas até que chegasse a orientação posterior de Allah. Era uma forma de punição semelhante ao confinamento solitário. Não lhes puseram correntes nas mãos nem nos pés, nem os prenderam em celas separadas. Ser repentinamente afastado da vida coletiva e ficar sozinho é uma punição muito severa — ainda mais quando todas as restrições devem ser impostas pelo próprio acusado a si mesmo. Contudo, eles deram um exemplo tão raro de obediência que será escrito em letras douradas na história. Quando o governante cristão de Ghassan soube do caso, considerou-o uma excelente oportunidade psicológica e escreveu a Ka‘b ibn Malik: “Vosso profeta vos oprimiu. No entanto, sois pessoas muito valiosas. Se vierdes para junto de nós, aumentaremos vossa dignidade.” Foi uma prova difícil. Mas Ka‘b lançou a carta no fogo. Finalmente, após cinquenta dias completos, foi revelada a wahy, anunciando que, devido à sinceridade e devoção deles, seu arrependimento havia sido aceito. Medina encheu-se de alegria. Pessoas vieram correndo de todos os lados para dar a boa notícia aos três, felicitando-os. Ka‘b, tomado pela alegria de ter seu arrependimento aceito, doou como sadaqa a maior parte de seus bens. Assim era o caráter das pessoas formadas pelo movimento islâmico.
Durante a viagem a Tabuk, Abdullah Dhu al-Bijadayn faleceu. Esse jovem era muito querido pelo Mensageiro de Allah, que a paz esteja com ele. Ele havia aceitado o Islã com um fervor muito revolucionário. A mensagem do Islã chegara até ele ainda na juventude, e seu coração fora profundamente influenciado. Porém, por medo do tio, ocultou seus sentimentos. Finalmente, quando o Mensageiro de Allah, que a paz esteja com ele, voltou após conquistar Meca, ele disse ao tio: “Querido tio, há muitos anos espero que a consciência islâmica desperte em seu coração. Mas o senhor continuou exatamente como era. Agora, permita-me tornar-me muçulmano.”
O tio de coração pétreo respondeu: “Se você aceitar o convite de Muhammad, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, eu o privarei de todos os meus bens e propriedades. Até mesmo tirarei as roupas que você veste.” Abdullah disse: “Tio, você pode fazer o que quiser. A idolatria já não me agrada. Portanto, agora me tornarei muçulmano, sem dúvida. Fique com todos os seus bens e propriedades.” Dizendo isso, tirou até as roupas que vestia. Sua mãe lhe deu um cobertor para cobrir o corpo. Ele dividiu o cobertor em duas partes: com uma metade fez um lungi e com a outra cobriu a parte superior do corpo. Nessa condição, apresentou-se diante do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, em Medina e juntou-se ao grupo dos Ahl al-Suffa. Cheio do ardor do jihad, esse jovem revolucionário partiu com o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, para Tabuk. Lá, adoeceu de febre e faleceu. Seu sepultamento e sua mortalha foram preparados na escuridão da noite. Bilal, que Allah esteja satisfeito com ele, ergueu uma lâmpada. O próprio Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, Abu Bakr e Umar, que Allah esteja satisfeito com ambos, desceram à sepultura. O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse-lhes: “Levai em consideração a honra de vosso irmão.” Com as próprias mãos, colocou tijolos em sua sepultura. Em seguida, suplicou: “Ó Allah, até esta noite eu estava satisfeito com ele. Sê também satisfeito com ele.”
Ao ver tamanha consideração por Abdullah, Ibn Mas’ud, que Allah esteja satisfeito com ele, lamentou e disse: “Ah, se eu pudesse estar nesta sepultura!”
Avaliação
Neste capítulo, descrevi todas as medidas militares tomadas pelo governo islâmico de Medina. Ao recordar essas guerras e conflitos, bem como as circunstâncias que tornaram inevitável empreendê-los, não há como negar que, embora o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, estivesse decidido a evitar confrontos e realizar obras construtivas, os inimigos do Islã o arrastaram ao campo de batalha à força. Aquele que, em vez de buscar o trono do poder, desejava somente estabelecer a verdade e a justiça; que, em vez de criar influência e prestígio pela força da espada, queria conquistar o mundo inteiro por meio da razão e do caráter; que, em vez de vingança, adotava o caminho do perdão, e, em vez de violência e coerção, o da justiça e da benevolência; e que, em vez da espada que derrama sangue, introduziu o princípio da resolução por meio da pena que registra tratados — a esse grande homem eles não permitiram viver sequer um momento em paz durante oito ou nove anos. Mesmo em tais circunstâncias, é espantoso pensar como o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, conseguiu realizar aquela extraordinária obra construtiva que transformou o curso da história. Inshallah, apresentarei em um capítulo separado deste livro uma descrição detalhada das obras construtivas do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele.
Na verdade, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, foi, nesse aspecto, o maior amigo benfeitor da humanidade, pois encontrou, mesmo em meio à espada, um caminho próprio e distinto para levar a mensagem de paz e segurança primeiro a toda a Arábia e depois ao mundo inteiro. Rompeu as linhas de defesa dos inimigos extremamente sediciosos e estabeleceu e aperfeiçoou os preceitos da justiça e da verdade. Se fosse outra pessoa, ao ouvir o desafio de guerra do inimigo, teria se desviado de seu caminho reto. Nesse caso, mesmo que a lembrança do sistema de vida islâmico não tivesse sido apagada da história, no máximo poderíamos tê-lo visto presente na vida pessoal das pessoas; não seríamos capazes de concebê-lo como um sistema social e estatal. Nesse caso, o Islã teria sobrevivido, como as demais religiões do mundo, apenas como uma religião espiritual e moral limitada à vida pessoal. Não teria qualquer relação com a sociedade e o Estado. Sob um Islã desse tipo, por mais santos e virtuosos que fossem formados, todos se tornariam colaboradores extremamente obedientes e submissos de qualquer sistema estatal descrente, falso, opressor e explorador. Nesse caso, a sociedade humana não teria recebido do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, qualquer inspiração para eliminar a opressão social, a exploração e a corrupção.
É digno de nota quanto sofrimento, dor, opressão e perseguição o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, suportou para assegurar o bem-estar e a prosperidade dos habitantes do mundo e da ummah muçulmana; com quanta bravura e coragem aceitou os desafios dos inimigos e subjugou as forças opressoras e corruptas; uniu as tribos dispersas; libertou-as da liderança da jahiliyyah; instruiu-as e purificou-as. Criou um ambiente de paz; estabeleceu o Estado de direito; edificou a sociedade sobre as bases da fraternidade e da justiça; e inaugurou a era democrática ao tornar o sistema estatal baseado na consulta.
Também é uma demonstração da mais elevada prudência e competência administrativa do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, o fato de ele ter travado tantas guerras e enviado tantos exércitos, mas com a menor quantidade possível de derramamento de sangue e de perdas de vidas. Estabelecer, com tão pouco derramamento de sangue, o primeiro Estado unitário e idealista em uma vasta região como a Arábia é um acontecimento extraordinário na história da humanidade.
A verdade é que hoje cada um de nós, saiba ou não disso, está em dívida para com a sua benevolência. Se ele não tivesse se levantado contra a opressão acompanhado por um pequeno grupo, jamais teríamos recebido os princípios do sucesso na vida, os valores culturais e a herança moral que recebemos dele; o exemplo de humanidade que foi estabelecido diante de nós por seu intermédio; e a melhor estrutura equilibrada de civilização e cultura que ele construiu e nos mostrou — todos esses tesouros inestimáveis jamais teriam chegado até nós. O novo amanhecer no mundo surgiu em troca do sangue dos melhores e mais queridos companheiros que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, sacrificou para alcançar o objetivo sagrado. Que Allah derrame Sua misericórdia sobre Muhammad, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, e sobre seus seguidores!
Capítulo: 6
A luz se espalhou por toda parte
A força vital do avanço do movimento islâmico
Neste mundo, muitos se tornaram donos de vastos territórios pela força da espada. Muitos reinos e regimes ditatoriais foram estabelecidos unicamente pelo poder das armas e da força física. Muitas disputas relacionadas a interesses também foram resolvidas no campo de batalha. Contudo, qualquer movimento revolucionário do mundo precisa sempre decidir o seu destino permanecendo dentro do âmbito da opinião pública. Enquanto o coração das pessoas não estiver interiormente disposto a apoiar espontaneamente um chamado, nem aceitar moldar seu caráter e sua mentalidade à luz dele, não é proveitoso obter apoio simplesmente pela força. Pelo contrário, isso se torna a causa de sua destruição fatal. Por isso, a verdadeira natureza e o espírito de todo movimento ideológico são apelativos e educativos. Entre seus dirigentes, atuam o afeto, a ternura e a inspiração próprios de mentores e anciãos. Do ponto de vista de um movimento ideológico, a vida é semelhante a uma instituição de ensino, e todas as pessoas da sociedade são como alunos dessa instituição. Para assegurar o bem-estar integral desses alunos, corrigir os malfeitores e manter a classe honrada e moderada da sociedade protegida das más influências, às vezes também é necessário adotar medidas punitivas. Mas o ambiente geral é sempre um ambiente de afeto, ternura e compaixão para com os alunos, e mesmo nas medidas punitivas do mestre predomina uma atitude própria de um mentor. Os servos puros de Deus que surgiram no mundo em diferentes épocas da história, trazendo a palavra da verdade e o chamado à retidão, embora contra a própria vontade, foram ao campo de batalha para eliminar a maldade, a corrupção e a desonestidade, usando também parcialmente a espada como instrumento de ensino. Contudo, seu trabalho como um todo sempre prosseguiu exatamente com a atitude de mentores e professores afetuosos, no espírito de uma educação genuína. A verdadeira batalha que travaram foi travada com as armas da razão, no vasto e amplo campo de batalha da opinião pública. Seu princípio sempre foi que, se alguém desejasse alcançar uma nova vida, deveria alcançá-la por meio da razão; e, se alguém, privado da vida, preferisse a morte para si, deveria morrer também à luz da razão.
Ao analisar as ações militares do Rasul (S.A.), veremos que, desde Badr até a conquista de Meca, incluindo a conquista de Khaybar, ocorreram ao todo cinco grandes batalhas. Na realidade, todas essas batalhas foram defensivas. As três primeiras ocorreram porque os inimigos lançaram uma agressão e atacaram Medina. Levando tropas de Medina e tomando a iniciativa, o Rasul (S.A.) realizou no máximo duas expedições: uma foi a expedição da conquista de Meca, incluindo a batalha de Hunayn, e a outra foi a expedição da conquista de Khaybar.
E nessas duas expedições a questão foi definitivamente resolvida. Considerando o tempo, houve um intervalo total de seis anos entre a batalha de Badr e a conquista de Meca. O Rasul (S.A.) dedicou ao todo 23 anos ao seu grandioso trabalho educativo, de divulgação, construtivo e reformador. Desses, apenas seis anos foram aqueles em que, além do trabalho educativo, ele também teve de enfrentar a atitude e a conduta belicosas dos opositores. Mesmo fazendo a estimativa mais exagerada, parece que, em todas as batalhas juntas, não mais de 15 mil pessoas foram ao encontro do Rasul (S.A.), e, mediante a retirada de apenas 759 vidas do caminho, várias centenas de milhares de pessoas da Arábia foram completamente reformadas. Dez anos são um período extremamente curto na história. Em tão pouco tempo, transformar o deserto semelhante à Arábia numa instituição de ensino voltada para o verdadeiro bem-estar da vida humana; incluir em seu âmbito tribos e indivíduos dispersos, extremamente indisciplinados, violentos e briguentos; depois obter êxito ao proporcionar-lhes uma sublime educação moral; e não apenas educá-los, mas transformá-los em professores e mestres para toda a humanidade — isso é provavelmente a maior prova prática, perceptível aos sentidos e miraculosa da profecia do Rasul (S.A.).
Portanto, está acima de toda dúvida e controvérsia que, qualquer que tenha sido a contribuição da guerra e do conflito armado para resolver o confronto entre o movimento revolucionário do Islã e a jahiliyyah, a contribuição da opinião pública foi a maior, e o campo da opinião pública foi o verdadeiro campo da decisão. Se o dissermos em linguagem um tanto espiritual, podemos afirmar que conquistar os corações das pessoas foi a verdadeira vitória e o verdadeiro sucesso do Rasul (S.A.). Se ele conquistou milhões de homens e mulheres da Arábia, conquistou seus corações, e o fez com as armas da razão e do caráter. Como foi possível que, em pouco tempo e apesar de novos obstáculos surgirem continuamente de todos os lados, um grande número de descendentes de Adão, espalhados por uma área de dez a doze centenas de milhares de milhas quadradas, se tornasse seguidor do Islã? A questão essencial é que, se o chamado for verdadeiro e correto, se o movimento for conduzido visando ao bem-estar da humanidade e se os porta-bandeiras forem sacrificados e sinceros, então a oposição e a resistência se tornam uma ajuda ainda maior para a caravana revolucionária. Cada obstáculo surge como um guia do caminho.
É por isso que, embora a verdade comece com uma minoria, ela conquista a maioria. Vejamos agora quais forças o movimento islâmico utilizou para alcançar rapidamente o sucesso em obter aceitação e popularidade junto à opinião pública.
A força da argumentação
A maior força do movimento islâmico era a força da argumentação. Se, em vez do movimento islâmico, o Mensageiro (que a paz esteja com ele) tivesse instituído algum sistema de pīr-murīd, teria entorpecido a consciência e a razão dos ouvintes. Se tivesse estabelecido, como as demais religiões vigentes, uma religião limitada exclusivamente à vida individual, teria aumentado a inclinação e o interesse das pessoas por imaginações ilusórias e concepções sem fundamento; e, se tivesse instituído algum sistema de ensino de uma espiritualidade ascética, teria fechado completamente seus olhos, ouvidos e bocas. Mas o movimento islâmico instituído pelo Mensageiro (que a paz esteja com ele) precisava de pessoas conscientes, capazes de construir e administrar adequadamente toda uma civilização com base na obediência a Allah. Por isso, enquanto o movimento islâmico se encontrava apenas na etapa da da’wah, despertou a consciência e a razão adormecidas das pessoas. Incentivou-as a abrir os olhos para ver e os ouvidos para ouvir. Estimulou-as a refletir e pesquisar sobre o universo. Ensinou-as a examinar minuciosamente as condições existentes no interior do ser humano e no mundo que o cerca. Aguçou e dinamizou o pensamento ao levantar continuamente novas questões. Rompeu os grilhões da imitação cega. Fez desaparecer costumes e práticas sem sentido. Eliminou a veneração do passado e a obediência cega às tradições e costumes herdados dos antepassados. Desenvolveu o método de criar, do meio de pessoas irracionais como animais, seres humanos conscientes e pensantes. Despertou, com estímulos, as pessoas cegas, mudas e surdas, tornando-as conscientes, e removeu a ferrugem de sua consciência e razão. Em uma palavra, o maior mérito do movimento islâmico é ter posto fim à estagnação intelectual imposta pela jahiliyyah às pessoas. Como resultado, apresenta as verdades fundamentais da vida àqueles cuja consciência e razão despertam e se tornam conscientes, influencia-os por meio de seus argumentos afiados e estabelece neles uma fé inabalável nessas verdades.
Quando o movimento islâmico apresentou Allah como o único Criador, Senhor, Sustentador, Legislador e Guia, apresentou-o com argumentos tão vigorosos que as armas das imaginações infundadas e ilusórias contrárias a isso se tornaram obtusas e ineficazes. Ele convocou as pessoas, despertando seu poder de discernimento, a observar e tirar lições da criação diversificada dos céus e da terra, da rotação dos planetas e das estrelas, das transformações das estações e do clima, das leis da chuva e do vento, do nascimento, desenvolvimento e crescimento das plantas, da reprodução e criação dos animais e das aves, da diversidade dos grupos humanos, da ascensão e queda das civilizações e das profundezas de seu próprio ser. Verão que leis firmes estão em vigor em toda parte. Em cada parte do universo criado existe um governo organizado e bem ordenado em funcionamento. Cada acontecimento, pequeno ou grande, tem algum objetivo, propósito e resultado determinado. Todas as coisas diversas e aparentemente contraditórias trabalham umas com as outras como elementos cooperantes e complementares. Em toda a fábrica da criação prevalecem certa coordenação e unidade. Muitos estão ligados dentro de um só. Cada coisa está em movimento e em desenvolvimento. Em parte alguma há estagnação ou imobilidade. Cada coisa avança rumo à excelência. Cada meio e cada relação de causa e efeito está dando origem a algum resultado importante. Depois, cada resultado se transforma novamente em um meio para outro resultado. As leis, a ordem, a coordenação, a cooperação, a harmonia e o processo de desenvolvimento e evolução do mundo natural não surgiram espontaneamente, sob a forma de um acidente fortuito. As coisas não elaboram sozinhas seus próprios planos, não criam a si mesmas nem cooperam umas com as outras por meio de consultas mútuas. Ao contrário, Allah, o Criador Supremo, sempre ativo, autoexistente, soberano, onisciente e sapientíssimo, continua atuando como seu único diretor, administrador, governante e legislador. Todas as forças e matérias do universo estão ocupadas em glorificá-Lo. Todas as coisas estão prostradas diante Dele. Toda a criação obedece às Suas leis naturais. Desde o gigantesco sol até as menores partículas e átomos, cada coisa mantém a cabeça inclinada diante de Sua presença. O Islã também afirmou que, se houvesse vários senhores e administradores nessa imensa fábrica de uma criação tão grandiosa, surgiria conflito entre eles, e a cooperação mútua, a unidade e a harmonia que vocês veem prevalecer em todo o universo jamais poderiam permanecer estabelecidas. Nas páginas desse imenso livro da natureza, estão registrados, folha após folha, testemunhos irrefutáveis não apenas da existência Dele, mas também de Sua unicidade e de Seus atributos.
O movimento islâmico também deixou claro, por meio da argumentação, que este universo está inteiramente submetido aos grilhões da obediência à lei e às determinações de Allah, e que cada uma de suas partículas e átomos é, diante Dele, um “muçulmano”, ou seja, um servo submisso. Nenhuma criatura tem possibilidade de assumir, diante de Allah, qualquer papel que não seja o de obediência, servidão ou submissão. Se o ser humano obedecer a Allah, tornar-se-á uno com todo o universo. Sua sociedade e sua civilização se transformarão igualmente em símbolos de segurança e cooperação, como ocorre no mundo material. Mas, se desobedecer a Allah, isto é, se for um kafir, sua sociedade e sua civilização ficarão desajustadas, incompatíveis e desconectadas da natureza do universo, e a harmonia, o equilíbrio e a cooperação que prevalecem nos céus e na terra não existirão na sociedade humana. No entanto, foi justamente por causa disso que toda a criação alcançou progresso, excelência e desenvolvimento em meio à paz e à segurança. Neste mundo, o único caminho de paz e segurança para o ser humano é permanecer obediente à dīn de Allah e à lei de Allah. O ser humano é criação de Allah, é criado e sustentado pelo sustento que Ele lhe concede; cada órgão de seu corpo, e cada partícula e átomo de seus órgãos, está, como muçulmano, preso por um vínculo indissolúvel à obediência à lei natural de Allah. Portanto, se existe para o ser humano algum caminho simples e correto para viver, esse é o caminho da servidão e da obediência a Allah. O ser humano é, desde o nascimento, servo e escravo de Allah, e o sentimento e a consciência da servidão são cultivados em sua mente desde o início de sua vida.
Com a mesma força e vigor, o movimento islâmico também estabeleceu, mediante argumentos irrefutáveis, que toda criatura necessita receber orientação ou direção da parte de Allah. Pois Ele é o determinador do destino de todas as coisas e Aquele que determina a órbita e o movimento de cada objeto que percorre o espaço. É Ele quem concede características diferentes às diversas coisas. Emprega cada força na tarefa que lhe é apropriada. Estabelece o modo de agir de cada criatura. Assim como as demais criaturas, o ser humano também depende da orientação de Allah exatamente como depende da luz, do ar e da água. Allah instituiu a revelação para orientar Sua criação em Seu caminho. Essa revelação é, para a matéria inanimada, uma obrigação natural; para as plantas, a capacidade de crescimento espontâneo; e, para os seres vivos, um processo instintivo. Mas, como o ser humano é uma criatura dotada de consciência, discernimento e razão, para ele foi determinada a forma completa da revelação, por meio da qual sua razão e sua consciência são interpeladas.
O movimento islâmico também tornou aceitável, pela força da argumentação, esta parte de seu chamado ideológico: quando a lei de causa e efeito está em vigor neste universo, é inevitável que as ações morais humanas também tenham uma consequência e um resultado dentro do alcance dessa lei universal. Ao demonstrar a lei de retribuição que vigora na história, ele provou que as atividades sociais humanas também estão necessariamente sujeitas a essa lei. Ao mesmo tempo, mostrou que, na limitada vida terrena do ser humano, dentro do âmbito restrito da lei de retribuição, o resultado completo das ações não se manifesta. Muitas vezes, nem sequer uma única linha de ação chega à sua plena realização. Além disso, frequentemente o ser humano é obrigado a sofrer resultados completamente opostos. Portanto, deve-se esperar do sistema perfeitamente justo de Allah que, depois da vida terrena, surja uma nova vida, na qual o ser humano terá de experimentar o resultado completo de suas ações. A exigência lógica da justiça de Allah, atuante em toda parte, é que cada um colha exatamente o resultado daquilo que fizer. Assim, ele apresentou os conceitos da vida após a morte, do julgamento no Além e da punição e recompensa.
Para provar de modo irrefutável todas essas verdades fundamentais, o Islã apresentou toda a história passada da humanidade. Narrou a história de cada povo e mostrou que os povos e grupos que aceitaram essas verdades e construíram suas vidas com base nelas alcançaram o sucesso. Já aqueles que as rejeitaram partiram deste mundo humilhados e desonrados. As mentes e os corações daqueles que aceitaram essas verdades foram iluminados, e seu caráter resplandeceu. Quanto aos que se opuseram a elas, sofreram decadência. Ele mostrou que aqueles que, em todas as épocas, apresentaram o chamado dessa grande verdade a cada povo possuíam, em essência, o mesmo tipo de disposição e caráter. Eles não se limitaram a apresentá-la; pelo contrário, empenharam-se em torná-la vitoriosa e estabelecê-la com plena devoção e sinceridade, sacrificando ao máximo suas vidas e seus bens.
Este chamado fundamental do movimento islâmico foi exposto detalhadamente no Alcorão, com todas as suas provas e argumentos irrefutáveis. Foi apresentado repetidas vezes, com uma forma de exposição extraordinária. Ao mesmo tempo, as objeções, as zombarias e os escárnios dos opositores foram respondidos em linguagem serena e natural. Em alguns lugares, foram dados conselhos; em outros, advertências; em outros, ameaças; em outros, foram repreendidos; em outros, lançados desafios; e, em outros ainda, os corações das pessoas foram enternecidos pela suavidade e pela humildade. Em suma, por meio de diferentes abordagens, as mentes e os corações foram cercados de tal maneira que não restou caminho de fuga para as pessoas inteligentes e conscientes.
Na verdade, se a vitória tivesse de ser alcançada apenas pela força da espada, que necessidade havia de dar tanta importância à apresentação de argumentos, a ponto de ela ocupar mais de dois terços do Alcorão?
A verdade é que se tornou difícil para os ouvintes resistirem diante da lógica afiada do movimento islâmico. Os afortunados aceitaram-na de coração aberto. Já aqueles que não a aceitaram por causa da distorção de sua razão, derrotados na disputa de argumentos, partiram para uma resistência violenta. O movimento que conduz os ouvintes a esse estágio não deixa de triunfar no final.
A força do apelo benevolente
Os argumentos do Alcorão não são apenas argumentos; juntamente com eles, há apelos que enternecem o coração, atraem os que fogem e os chamam para perto, e abrem os corações fechados. Esse tipo de apelo do movimento islâmico derretia até mesmo as pessoas de coração pétreo como cera. Basta abrir o Alcorão para ver como, em cada uma de suas frases, o calor da emoção se mistura à luz da razão. É por isso que até os mais ferrenhos inimigos do Islã, de coração pétreo, se tornaram servidores da verdade. Além disso, sua qualidade literária é tão elevada e dotada de um poder tão mágico que deixou atônitos até mesmo os maiores poetas e literatos árabes da época. Citamos aqui alguns de seus apelos mais eloquentes, compreensíveis e capazes de conquistar os corações:
“(Ó Profeta, dize-lhes da Minha parte): Ó Meus servos que transgredistes contra vós mesmos, não desespereis da misericórdia de Allah. Certamente, Allah perdoa todos os pecados. Ele é, de fato, Perdoador e Misericordioso. Voltai-vos para o vosso Senhor e submetei-vos a Ele antes que vos chegue o castigo e não encontreis socorro algum. E segui a melhor orientação que vos foi enviada por vosso Senhor, antes que vos chegue subitamente o castigo, sem que sequer o percebais. Então, alguém dirá, arrependido: ‘Ai de mim, por minha negligência para com aquilo que fiz diante de Allah, pois eu estava entre os que zombavam!’ Ou dirá: ‘Se Allah me tivesse guiado, eu teria sido um dos piedosos.’ Ou, ao ver o castigo, dirá: ‘Se eu tivesse outra oportunidade, certamente seria um dos virtuosos.’” (Surata Az-Zumar, 50–58)
Nestes poucos versículos foram apresentados, em resumo, aqueles princípios fundamentais que faziam parte da mensagem do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Neles também se apresentam argumentos, juntamente com um apelo capaz de enternecer o coração. Neles há boas-novas e também advertências. Há muitos apelos variados desse tipo no Alcorão. O ser humano, feito de barro, não conseguia resistir ao poder de uma linguagem tão revolucionária, especialmente quando apelos desse tipo chegavam todas as manhãs, ao meio-dia e ao entardecer. Durante vinte e três anos, a torrente da revelação continuou a chegar dessa maneira. Vejam mais alguns desses apelos:
“Ó filhos de Adão! Acaso não vos adverti para que não servísseis a Satanás? Ele é, de fato, vosso inimigo declarado. Acaso não vos disse que servissem somente a Mim? Pois este é o caminho reto. Mesmo assim, ele desviou muitos de vós. Ainda assim, não usareis o vosso discernimento?” (Surata Yá-Sin: 60-62)
“(Ó Profeta,) dize: Ó humanidade! A verdade veio até vós da parte do vosso Senhor. Portanto, quem seguir o caminho reto o fará para o seu próprio bem; e quem se desviar apenas abrirá o caminho para a sua própria perdição. Não sou responsável por vós quanto ao bem e ao mal.” (Surata Yunus: 108)
Também se apelou aos melhores sentimentos daqueles que haviam aberto uma frente de oposição. Fossem eles politeístas ou pertencentes ao Povo do Livro, os melhores entre cada grupo foram chamados da melhor maneira, e tentou-se despertar neles os melhores sentimentos. Até mesmo os hipócritas foram chamados à reforma. Os exemplos dessa etapa são apresentados separadamente.
Discurso dirigido aos politeístas de Meca
“Allah apresenta o exemplo de uma cidade. Seus habitantes viviam em segurança e tranquilidade, e sua subsistência lhes chegava em abundância de todos os lados. Então seus habitantes foram ingratos pelas bênçãos de Allah. Por isso, Allah os fez provar a fome e a insegurança como consequência do que haviam feito. Um Mensageiro veio dentre eles, mas eles o declararam mentiroso. Então o castigo os alcançou. Na verdade, eram injustos.” (Surata An-Nahl: 112-113)
Discurso dirigido ao Povo do Livro
“Ó Povo do Livro! Meu Mensageiro chegou até vós, esclarecendo muitas das coisas que ocultais e isentando-vos de muitas outras. Chegaram até vós, da parte de Allah, uma luz e um Livro claro. Por meio dele, Allah guia para os caminhos da paz aqueles que seguem a Sua vontade, tira-os das trevas para a luz, por Sua permissão, e os guia para o caminho reto.” (Surata Al-Ma’idah: 16)
“Ó Profeta! Dize: Ó Povos do Livro, não cometais excessos injustos em vossa religião. Não sigais os desejos daqueles que se desviaram, que desviaram outros e se afastaram do caminho reto.” (Surata Al-Ma’idah: 77)
“Ó Povos do Livro! Meu Mensageiro veio até vós após um longo intervalo na sucessão da vinda dos profetas e mensageiros. Ele esclarece a verdade genuína, para que não possais dizer: ‘Nenhum admoestador nem portador de boas-novas veio até nós.’ Agora chegou até vós um admoestador e portador de boas-novas.” (Surata Al-Ma’idah: 19)
“E decretamos no Livro, acerca dos Filhos de Israel, que certamente causaríeis corrupção na terra por duas vezes e vos ensoberbeceríeis com grande arrogância. Assim, quando chegou o momento da primeira promessa, enviamos contra vós servos Nossos, dotados de grande poder de combate. Eles penetraram nas cidades. E a promessa tinha de se cumprir. Depois, concedemo-vos outra oportunidade contra eles, fortalecemo-vos com riquezas e filhos e aumentamos vosso número. (Concedemo-vos novamente essa oportunidade para que) se fizerdes o bem, será para vós mesmos; e se fizerdes o mal, será igualmente contra vós mesmos. Então, quando chegou o momento da segunda promessa, (enviamos-lhes poder) para que desfigurassem vossos rostos (com a marca da tristeza e da humilhação), entrassem na mesquita (de Bayt al-Maqdis) como haviam entrado na primeira vez e destruíssem tudo por onde sua autoridade se estendesse. (E então provastes plenamente o resultado disso.) (Agora, com o surgimento do movimento da missão de Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, surgiu diante de vós uma última oportunidade; por isso) vosso Senhor deseja ter misericórdia de vós. Porém, se voltardes a agir como antes, Nós também voltaremos a punir-vos como antes. E (na Outra Vida) fizemos do Inferno a morada dos desobedientes.” (Surata Bani Isra’il: 4–8)
“(Ó Profeta,) dize: Ó Povos do Livro, vinde e aceitemos aquilo que é indiscutível entre nós e vós. Isto é: não adoraremos nem obedeceremos às ordens de ninguém além de Allah, não Lhe associaremos ninguém e não tomaremos uns aos outros como senhores em lugar de Allah.” (Al Imran: 64)
Discurso dirigido aos cristãos
“E encontrarás aqueles que dizem: ‘Somos cristãos’ mais próximos dos muçulmanos em afeição do que os judeus. Isso porque há entre eles muitos eruditos e monges que não são arrogantes. Quando ouvem a revelação enviada ao Mensageiro, vês seus olhos transbordarem de lágrimas. Eles dizem: ‘Ó nosso Senhor, cremos; inscreve-nos, pois, entre as testemunhas da verdade.’” (Al-Ma’idah)
Discurso dirigido aos hipócritas
“Não veem eles (os hipócritas) que são submetidos a uma provação uma ou duas vezes por ano? Mesmo assim, não se arrependem nem extraem uma lição. E, sempre que uma surata é revelada, olham uns para os outros e perguntam: ‘Alguém está observando você?’ Então se retiram. Allah desviou seus corações, porque não usam o discernimento. Sabei que chegou até vós um Mensageiro vindo de vós mesmos. Qualquer sofrimento que vos atinja lhe causa aflição. Ele se preocupa profundamente convosco e é extremamente compassivo e misericordioso para com os crentes.” (Surata At-Tawbah: 126–128)
O Alcorão está repleto de muitas outras afirmações comoventes desse tipo. É difícil dizer até o fim quantas palavras surpreendentes desse gênero, capazes de se fixar profundamente no coração, despertar a consciência e estimular e aguçar o entendimento, estão espalhadas por todas as páginas do Alcorão. Na verdade, é possível perceber, a partir dos versículos acima, quão poderoso é o Alcorão e quão majestosa é a proclamação da verdade. Quando esses intensos raios de luz da verdade foram revelados um após o outro, era absolutamente impossível para as pessoas sensatas continuarem agarradas às trevas do pensamento e da ação. Quando o argumento se une ao apelo emocional, a combinação dessas forças produz uma espada de dois gumes capaz de cortar até mesmo a pedra. Além disso, juntamente com o Alcorão, as palavras do Mensageiro (S.A.) também provocaram continuamente grande agitação, sob a forma de diversos sermões ou discursos em reuniões. Essas palavras foram preservadas nas coletâneas de hadith. Ninguém mais na Terra foi capaz de proferir, em frases curtas, palavras de significado tão amplo, tão influentes e tão capazes de despertar as pessoas. As declarações revolucionárias dos poetas, escritores e oradores do movimento islâmico também provocaram intensa agitação no coração do povo. Ainda hoje, basta ler os poemas islâmicos de Hassan ibn Thabit e Ka’b ibn Malik, daquela época, para compreender as ondas terríveis que eles levantaram no oceano das emoções populares! Em suma, a palavra da verdade era a verdadeira força irresistível, diante da qual a falsidade não tinha qualquer possibilidade de subsistir. É precisamente aí que reside o verdadeiro significado da mensagem eterna do Alcorão: “A erradicação da falsidade é inevitável”.
A força da crítica
A da‘wah do movimento islâmico não se limitou a combinar o apelo com o argumento; junto com o apelo, também fez uma crítica contundente. Na ideologia sufista, há apenas um método de da‘wah: o método do pedido, do apelo, da bajulação e da súplica. Quando a da‘wah se limita à purificação da estreita vida individual da pessoa, sem que se levante qualquer questão de reforma e reconstrução da vida coletiva, que necessidade haveria de outro método além do apelo humilde? Nas ideologias sufistas e nas religiões centradas no indivíduo, procura-se apenas ensinar aos discípulos algumas crenças de aqidah e certas qualidades pessoais, além de aconselhá-los a se protegerem das forças do mal. Contudo, não nasce neles qualquer impulso para lutar contra as forças malignas e os malfeitores coletivos organizados, nem para enfrentar o ambiente corrompido. Que os opressores, sentados nos tronos da liderança e da autoridade, continuem exercendo exploração e terror com poder desmedido; e que a humanidade continue sendo sacrificada em seus altares. O que têm a fazer os dervixes sufistas, loucos por Allah, com todos esses problemas mundanos? Em um sistema espiritual tão estreito, considera-se a maior virtude do ser humano manter-se afastado das atividades mundanas e dos problemas da política. Ele deve tratar todos com igual humildade e bajulação. Deve continuar recitando “Allah, Allah” com os muçulmanos e “Ram Ram” com os brâmanes. Deve tratar todos com gentileza e não ser severo com ninguém. Como tais ideologias não têm qualquer plano para levar as pessoas ao conflito e ao confronto, mas visam retirá-las das atividades voltadas à sociedade e à civilização e instalá-las em lugares isolados e em khanqahs, a questão da crítica nem sequer se coloca. Afinal, a crítica cria conflito e tensão no mundo mental. Por isso, do ponto de vista da espiritualidade estreita e da religiosidade limitada ao âmbito pessoal, criticar alguém é considerado uma ação relativamente condenável. É vista quase como uma ação contrária à taqwa, capaz de perturbar a paz da alma.
Mas, na fábrica de pensamento dos portadores de uma ideologia e de uma da‘wah que empreendem uma revolução da civilização, a crítica é tão importante quanto o argumento e o apelo. Não basta estabelecer a verdade; é também necessário eliminar a falsidade. Pois, sem a eliminação da falsidade, o estabelecimento da verdade tampouco se torna plenamente possível. Aqui, crer em Allah e rejeitar o taghut são interdependentes. Não é possível fazer um sem fazer o outro. Da mesma forma, ordenar o bem não produz resultados se o mal não for impedido. Aqui, antes de dizer “illallah”, é preciso dizer “la ilaha”.
Sempre que surge o movimento islâmico, ele critica severamente a civilização e a cultura vigentes, o ambiente social e os sistemas político e econômico, especialmente as ideias, as crenças de aqidah e os valores predominantes, com o objetivo de transformar a maneira de pensar do povo. Ele não pode deixar de desmascarar as classes dominantes nos âmbitos religioso, político e econômico, que, mantendo o povo preso nas redes da servidão, levam uma vida de conforto. Não lhe resta alternativa senão revelar ao povo comum a verdadeira identidade daqueles em cujas mãos estão concentradas a liderança e a autoridade da vida coletiva. Enquanto a injustiça não for chamada de injustiça, a falsidade de falsidade e o erro de erro, não surgem nem a necessidade da verdade e da justiça, nem o desejo de mudança. Examine a da‘wah e a atuação de qualquer profeta. Verá que elas não apenas criticavam as más ideias e as condições da sociedade, mas que cada profeta também ia pessoalmente aos palácios dos governantes poderosos de sua época e os declarava desviados. No movimento islâmico, afirmou-se, a respeito da estrutura vigente do sistema social, que em todo país e em toda nação existem alguns “grandes criminosos”, que realizam seus objetivos por meio da política da fraude. (Surata Al-An’am, 124.) Não é possível reformá-los enquanto forem mantidos em seus cargos.
Quando o Islã surgiu na Arábia com o objetivo de abolir o sistema social jahiliya e inaugurar um novo capítulo dourado na história, ele criticou impiedosamente toda forma de falsidade, opressão e desonestidade. Naquela época, todos os tipos de pessoas que, como protetores, apoiadores e colaboradores do sistema social jahiliya e do ambiente do taghut, haviam se imposto sobre a sociedade, bem como aqueles que, para proteger sua posição e seus interesses estabelecidos, estavam determinados a silenciar a da‘wah que promovia o bem-estar da humanidade, foram desmascarados pelo Islã com uma audácia inimaginável, e suas más ações, escondidas sob vestes deslumbrantes, foram expostas completamente. Assim, a verdadeira identidade das forças kufr contrárias à humanidade começou a se tornar clara para a sociedade, e a conscientização espalhou-se na opinião pública. Ao mesmo tempo, o desejo de mudança tornou-se cada vez mais intenso. A crítica do movimento islâmico cria e desenvolve, entre o povo mobilizado, a capacidade de pensar corretamente, compreender, examinar e avaliar, fazer análises comparativas e observar. É esse aspecto da da‘wah que distingue o haqq da falsidade, o bem do mal e a justiça da injustiça. É por meio dele que se estabelece a diferença entre a orientação correta e o desvio. Os membros do movimento islâmico suportavam silenciosamente a opressão e a perseguição das forças da falsidade. Porém, não deixavam de retirar o belo revestimento que encobria o caráter abominável dos opressores. Suas atividades não eram conduzidas à margem das ações sociais e políticas. Eles jamais deram à liderança social e religiosa do sistema jahiliya a garantia de que ela poderia permanecer tranquilamente em seus cargos e continuar trabalhando conforme seus planos: “Somos pessoas devotas de Allah. Não interferiremos em suas atividades nem prejudicaremos seus interesses. Apenas recitaremos o nome de Allah e ensinaremos às pessoas o Seu kalimah.” Se tivessem primeiro garantido sua segurança contra a opressão dos líderes contrários ao Islã, dirigindo-lhes humildemente algumas palavras aduladoras, jamais lhes teria sido possível proclamar esse kalimah revolucionário, destinado a estabelecer a justiça social.
O movimento islâmico cumpriu pela primeira vez esse amargo dever pela boca sagrada de seu principal pregador. Foi com as armas da linguagem da revelação que realizou uma operação nos órgãos enfermos da sociedade. Essa crítica não se limitou apenas à ideologia e aos princípios fundamentais; pelo contrário, as forças influentes que ofereciam resistência e todos os lados adversários também foram abrangidos por ela. Essa crítica era feita no contexto dos acontecimentos cotidianos, e a análise das ações praticadas pelo lado inimigo era realizada imediatamente. Foi assim que se criou a consciência popular. Se esse trabalho não tivesse sido realizado, talvez fosse possível formar algumas pessoas virtuosas, encantadoras e honestas; talvez o mundo contemporâneo as enchesse de elogios, e talvez sua memória continuasse a impressionar as pessoas no futuro. Mas o ambiente social teria permanecido tão envolto nas trevas da jahiliyyah quanto antes. Jamais se teria criado entre o povo muçulmano uma consciência revolucionária e uma tendência à luta. O Islã teria permanecido limitado à caverna de Hira. E jamais lhe teria sido possível conquistar a Arábia e voltar a entrar em Meca.
O Mensageiro, libertador da humanidade, ao criticar os líderes sociais contemporâneos na linguagem do Alcorão, não apenas os demonstrou falidos em termos de argumentos e provas, mas também revelou diante de todos os habitantes do mundo que pessoas poderosas, sentadas em grandes posições de autoridade e liderança, continuavam a exercer domínio sobre a sociedade apesar de possuírem um caráter extremamente sujo e desprezível. Foi como resultado dessa crítica que o povo compreendeu que não havia qualquer possibilidade de beleza, ordem e harmonia retornarem à vida pública enquanto essas forças malignas e desprezíveis não fossem removidas da liderança ativa e da autoridade, mediante a cooperação com o movimento islâmico.
Quando o Islã criticou os coraixitas e os politeístas, desmascarou tudo: sua cultura pagã, suas superstições e concepções ilusórias, seus ridículos ritos e costumes religiosos, seu caráter vil e desprezível e a arrogância e a ostentação de sua liderança. Para evidenciar a impotência de suas divindades prediletas, deu o exemplo de que, mesmo reunidas, elas não poderiam criar sequer uma mosca. Além disso, se uma mosca lhes arrebatasse alguma coisa, seriam incapazes de recuperá-la. O Alcorão destruiu a pretensão que tinham de ser herdeiros de Abraão, expondo repetidamente diante deles toda a história da vida de Abraão e revelando sua verdadeira identidade. O Alcorão declarou que, sem sequer se aproximarem da grande obra à qual ele dedicara toda a sua vida, pela qual abandonara sua casa, chutara o trono sacerdotal reservado para si, fora acusado de rebelião diante de Nimrod e recebera a terrível sentença de morrer queimado no fogo, e depois, pela imensa graça de Allah, fora salvo do fogo e partira para o exílio como emigrante por Allah, estabelecendo então, num deserto desabitado, um centro para sua pregação e para a adoração de Allah — centro que vós transformastes em meio de obter ganhos materiais e de exercer o sacerdócio religioso —, era totalmente inadequado que os coraixitas fizessem a pomposa reivindicação de serem seus herdeiros. Afundados da cabeça aos pés no politeísmo e na jahiliyyah, com que direito eles se apresentam como herdeiros daquele grande pregador do tawhid e pronunciam seu nome? O Alcorão mostrou como eles haviam inventado uma sharia própria sobre o que era lícito e ilícito; como haviam criado regras absurdas para oferecer diferentes coisas nos altares de adoração; como haviam conferido até aos jogos de dados e de azar o status de santidade religiosa; como fugiam envergonhados quando lhes nascia uma filha; como, com crueldade ilimitada, enterravam vivas as filhas; e como não sentiam a menor vergonha ao chamar os anjos de filhas de Allah. Assim, apresentando diante deles cada uma de suas ações sem sentido e ridículas, o Alcorão declarou: vós vos orgulhais de guardar a Mesquita Sagrada e a Casa da Caaba. No entanto, por causa de vossa incredulidade e de vosso politeísmo, não sois dignos disso. Impedis as pessoas de seguir o caminho de Allah e de chegar à Caaba Sagrada, expulsais vossos próprios irmãos de sua pátria e criastes obstáculos no caminho do Islã.
Quando o Alcorão criticou o Povo do Livro, apresentou um inventário das ações deles ao longo de centenas de anos e disse: vós causastes sofrimento ao profeta Moisés (que a paz esteja com ele) a cada passo, desobedecestes-lhe repetidamente, várias vezes enveredastes pelo caminho do desvio e da deturpação, permanecestes envolvidos em conflitos e contendas, provocastes tumultos, adorastes o bezerro, fugistes do jihad, derramastes o sangue uns dos outros, expulsastes vossos parentes de suas terras, cometestes injustiça e agressão contra eles, deturpastes o Livro de Allah, ocultastes a verdade, colocastes dervixes e eruditos no lugar de Deus e chegastes ao ponto de escreverdes com vossas próprias mãos palavras inventadas, dizendo que eram a palavra de Allah; obtivestes riquezas ilícitas enganando as pessoas; vós mesmos não seguis o caminho de Allah e tampouco deixais os outros segui-lo; e, se alguém deseja trabalhar pelo bem da humanidade, em vez de ajudá-lo, vós o impedis. Antes da chegada de Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), com base na promessa escrita no Livro de Allah, anunciáveis a todos a boa-nova de que se aproximava o tempo da chegada do último profeta. Mas, quando esse profeta realmente chegou, todos vós vos alinhastes contra ele. Os muçulmanos são mais próximos de vós em muitos aspectos: eles reconhecem vossos profetas e todos os Livros anteriores. Ainda assim, vós mantendes relações íntimas com os politeístas. Embora tivésseis convosco o Livro de Allah, permanecestes envolvidos em todas essas más ações.
Mesmo que houvesse um amontoado do Livro de Allah sobre o dorso de um jumento, ele não se importaria absolutamente com isso; vós também agis da mesma maneira. Se fôsseis sinceros em vossas afirmações, estabeleceríeis em vossa vida o Livro de Allah, a Torá. Enquanto continuardes a desprezar o Livro de Allah, não terá valor algum vossa afirmação de que sois servos amados de Allah. Vosso caráter decaiu tanto que, se até mesmo uma única moeda vos fosse confiada, seria muito difícil recebê-la de volta. Por causa dessa conduta, fostes atingidos pela ira de Allah, e para vós foram destinadas a humilhação e a pobreza.
Quando os hipócritas foram criticados, fez-se então uma análise psicológica abrangente deles. Ao mostrar-lhes suas falhas, foi-lhes dito: vocês veem tudo de maneira distorcida; quando se reúnem em segredo, fazem críticas desfavoráveis à situação e aos acontecimentos do Movimento Islâmico; quando aparecem em público, mudam de atitude; conversam entre si por sinais e gestos; às vezes ficam em silêncio; às vezes, ao ouvirem notícias de guerras e batalhas, seus olhos se arregalam de medo. Às vezes, escapam sorrateiramente. Quando estão com os muçulmanos, falam de uma maneira, e quando estão com os incrédulos, falam de outra. Em todos os assuntos, sua postura é diferente da postura coletiva dos muçulmanos. Se outros extraem da mensagem da revelação ensinamentos e consolo para a vida, vocês ficam muito incomodados com isso. Para os outros, a pessoa do Mensageiro (S.A.) é objeto da mais profunda devoção, reverência e amor. Vocês, porém, preferem manter-se afastados dele. Outros fazem a oração com entusiasmo, enquanto vocês vêm para a oração com tal aversão, como se tivessem sido trazidos à força, amarrados. Os demais muçulmanos anseiam por sacrificar tudo o que possuem pelo Islã. Vocês, ao contrário, não gastam no caminho de Allah e ainda impedem os outros de fazê-lo. Outros partem para o jihad movidos por espontânea emoção de fé. Vocês estão sempre preocupados apenas em salvar a própria vida e tentam fugir com toda espécie de desculpas esfarrapadas. Aquilo que alegra os outros lhes causa descontentamento; aquilo que aflige os outros lhes causa alegria. Vocês não têm qualquer semelhança com os muçulmanos comuns. Assim, o Movimento Islâmico identificou os hipócritas.
Sobre os poetas da jahiliyyah que escreviam poemas contendo propaganda caluniosa e difamação contra o Islã, e que espalhavam ofensas contra o próprio Mensageiro (S.A.), foi apresentada, em poucas palavras, uma descrição plenamente verdadeira e realista a seu respeito; ao ouvi-la, até um árabe comum poderia compreender imediatamente o grau de sua decadência moral. Sobre os poetas da jahiliyyah, foi dito que somente os desviados os seguem. Por causa de sua falta de princípios, eles vagam por toda parte e não agem de acordo com as boas palavras que proferem.
O Movimento Islâmico também identificou pessoas de caráter especialmente abjeto de sua época por meio de descrições literárias de altíssimo nível, e procurou, através delas, criar consciência pública na sociedade, para que qualquer pessoa pudesse vê-las, compreendê-las e reconhecê-las por si mesma no mundo real. Em alguns casos, mostrou uma pessoa que deixa os outros atônitos com sua excessiva loquacidade, mas que, no campo das ações, esquece completamente suas próprias belas palavras e espalha continuamente novos distúrbios na sociedade humana, causando destruição. Em outros, mostrou alguém embriagado pelo orgulho de sua nobreza tribal e de líder, extremamente consciente de sua dignidade. No Dia da Ressurreição, receberá um castigo severo. Em outro lugar, foi retratado aquele caráter humano que, pelo excesso de ganância, tornou-se como um cão: quer seja enxotado, quer não, mantém a língua para fora. Todos esses tipos de caráter estavam amplamente presentes na sociedade. Por causa dessas críticas, não foi nada difícil para o povo formar uma ideia sobre sua baixeza e vileza.
Essa crítica não era meramente teórica; estava ligada a conflitos e confrontos reais. Nela, falava-se às forças opositoras a partir da tribuna do Movimento Islâmico. O orador sabia a quem se dirigia, e os ouvintes também sabiam de quem se falava. Essa crítica não era feita por meio de um microfone vindo do céu; era divulgada pela boca do Mensageiro (S.A.). Os muçulmanos a espalhavam por todos os cantos da sociedade. Por isso, suas emoções e sentimentos também eram envolvidos, e sua alma se fundia completamente com ela. Essa crítica era feita em plena consonância com o curso dos acontecimentos reais, e os ouvintes a relacionavam com a história em andamento. O povo compreendia que aquela era a mensagem do movimento revolucionário construtivo que acabara de surgir entre eles. Essa crítica desafiava o antigo sistema social e golpeava justamente os opositores da revolução. O povo tinha a oportunidade de ouvir as declarações de ambos os lados e fazer uma análise comparativa de ambos. Foi assim que sua consciência se formou.
Os argumentos e as provas podem ajudar na compreensão, mas não despertam as emoções. O apelo toca as emoções e cria calor na da’wa. Contudo, o apelo não produz uma luta eficaz na história. Somente a crítica possui a força que, ao atuar em conjunto com os argumentos e o apelo, faz com que todos os elementos da civilização se tornem ativos ao mesmo tempo. Somente a crítica provoca agitação na vida social.
Em suma, o Movimento Islâmico, por meio de Muhammad (S.A.), utilizou esses três tipos de instrumentos — argumentos, apelo e crítica — e os utilizou incessantemente durante vinte e três anos. Essas três forças mostraram aos opositores que eles eram fracos no campo dos argumentos, atrasados na criação de entusiasmo pela causa e muito baixos em termos de caráter. Por isso, entre os opositores, cresceram inconscientemente o reconhecimento da superioridade dos muçulmanos e o sentimento de sua própria inferioridade. Por outro lado, o povo também examinou os dois lados sob todos os aspectos e compreendeu a diferença entre eles. Essa era a verdadeira força do Movimento Islâmico, e foi ela que conquistou o coração de milhões de habitantes da Arábia. Se o chamado e o movimento islâmicos não fossem centrados na verdade, se não pudessem atrair o coração do povo, se não pudessem estimular os líderes e militantes do movimento a entrar na luta entre a verdade e a falsidade, e se não pudessem obter, por meio dos argumentos, do apelo e da crítica, o reconhecimento de sua força e poder, então os muçulmanos não teriam triunfado no campo da estratégia política nem alcançado a vitória no campo de batalha. A vitória alcançada nesses campos também ocorreu porque, na vasta arena da opinião pública, o avanço do Islã estava orientado de maneira extremamente vitoriosa.
A força moral dos muçulmanos
Qualquer da’wa que seja apenas verbal e não possua força moral, por mais cativante que seja e por mais que produza temporariamente um efeito mágico, no fim desaparece no ar como uma espiral de fumaça. Não se pode influenciar a história apenas com palavras. Em tempo algum uma revolução foi realizada somente por palavras. As palavras só produzem algum efeito quando as ações lhes conferem algum significado. A magia da linguagem pode criar uma bela espuma e bolhas coloridas como o sabão, mas nenhuma dessas bolhas é capaz de mover sequer uma partícula de terra de seu lugar. Pelo contrário, desaparece imediatamente.
Quando o argumento surge sem comportamento correspondente, quando o apelo carece de sinceridade e quando a crítica é moralmente vazia, ela não consegue influenciar as pessoas. É a força moral que torna um movimento influente e eficaz. O testemunho das palavras, sem o testemunho das ações, permanece infrutífero. Na verdade, “quando alguém diz aquilo que não faz, isso se torna causa de intensa repulsa diante de Allah”.
O apelo do movimento islâmico não era meramente teórico nem baseado apenas em argumentos. O apelo do Islam era inteiramente um chamado à ação. Esse apelo veio para formar um novo tipo específico de ser humano. Desde o primeiro dia, começou a trabalhar na formação desse ser humano desejado. O pensamento, as qualidades de caráter e o comportamento cativante dessas pessoas é que davam ao seu argumento a devida importância, tornavam seu apelo verdadeiramente atraente e faziam sua crítica ser eficaz. Essas novas pessoas criadas pelo movimento islâmico eram, por si mesmas, um argumento irrefutável. Elas próprias eram o apelo mais poderoso. Toda a existência dessas pessoas constituía uma crítica personificada e abrangente contra o antigo sistema social, as pessoas de natureza animalesca, o ambiente jahilí degenerado, a sociedade estagnada e sua liderança incompetente. A jahiliyyah não tinha resposta para esse argumento vivo, esse apelo vivo e essa crítica viva. Diante desses argumentos vivos, a jahiliyyah era completamente impotente. Esse novo ser humano, cujo exemplo mais completo era o próprio Mensageiro (que a paz esteja com ele) e sob cuja inspiração muitas outras pessoas estavam sendo formadas, era uma verdade real e irrefutável. Até fechar os olhos diante dessa verdade constituía uma prova da intensidade de sua luz. Aqueles que negavam essa verdade, a rejeitavam e entravam em conflito com ela também proclamavam, por meio de seu comportamento, sua superioridade. Em Meca, esse novo ser humano desenvolveu sua forma individual; ao chegar a Medina, revelou sua forma coletiva.
O movimento islâmico e o Mensageiro (que a paz esteja com ele) jamais se descuidaram da tarefa principal de formar esse novo ser humano; o Islam não se esqueceu dessa tarefa em seu entusiasmo por corrigir os outros. Aqui, a purificação de si mesmo era mais importante do que a correção dos outros. A autocrítica era mais importante do que criticar os outros. Antes de provocar uma mudança exterior, era muito mais urgente, para ele, provocar uma mudança dentro de si mesmo.
Era uma sociedade cuja visão não reconhecia nenhum objetivo mais elevado ou nobre do que ganhar dinheiro e comer e beber. Cada uma de suas assembleias era uma taverna, um antro de jogos de azar e um clube de dança. Ali, a bravura era empregada apenas em tumultos, assassinatos, saques e vinganças. Onde a sociedade havia se transformado numa selva, nessa selva feras com aparência humana perambulavam rugindo, e as pessoas educadas e frágeis se tornavam suas presas fáceis, o Mensageiro (que a paz esteja com ele) surgiu acompanhado de um grupo de pessoas honestas, puras e civilizadas. Desde o primeiro dia, esse grupo se tornou muito notável na sociedade e atraiu a atenção de todos. As pessoas contemplavam, maravilhadas, esses novos exemplos de humanidade e percebiam que eles eram, sob todos os aspectos, diferentes e distintos de todos os demais membros da sociedade. O surgimento, o desenvolvimento e o crescimento desse grupo ocorreram inteiramente diante dos olhos delas. O povo observou muito bem sua formação e educação desde o início até o fim.
Pessoas de todas as classes viam, todas as manhãs e tardes, o kalima do Islam continuar atraindo, um após outro, homens de bem. De repente, cada pessoa, pressionada pela própria consciência, via-se obrigada a render-se diante desse movimento revolucionário. Aquele que, poucos dias antes, havia travado uma guerra total contra Muhammad (que a paz esteja com ele), de repente baixava a cabeça, como se alguém tivesse lançado um feitiço. E qualquer pessoa que aceitava o Islam começava imediatamente a sofrer uma transformação benéfica. Suas amizades e inimizades mudavam. Seus hábitos, costumes e gostos passavam por uma revolução. Suas ocupações assumiam uma forma diferente. Os assuntos que antes lhe despertavam interesse mudavam, e surgia interesse por novos assuntos. Ao mesmo tempo, ela se transformava numa pessoa extremamente ativa. Uma nova força começava a surgir dentro dela. Suas capacidades e talentos adormecidos despertavam. Sua consciência era animada por uma nova inspiração. Um caráter excelente começava a se desenvolver nela. Quando alguém passava de kafir a muçulmano, era como se um ser humano completamente novo surgisse de dentro dele. Ele próprio sentia: “Sou completamente diferente e novo em relação ao ambiente.” E o ambiente também percebia, ao vê-lo, que ele havia mudado. O assassino terrorista que aceitava o Islam tornava-se um protetor da vida. O ladrão que aceitava o Islam tornava-se guardião dos depósitos confiados. O adúltero que aceitava o Islam tornava-se protetor da honra das mulheres. O bandido que aceitava o Islam tornava-se a personificação da paz e da conciliação. O indivíduo mal-humorado e de natureza tortuosa, ao chegar à sombra do Islam, tornava-se uma pessoa tolerante, humilde e afável. O usurário tornava-se generoso. O tolo e intelectualmente incapaz começava a demonstrar grande talento e competência. Aquele que vinha das camadas sociais inferiores elevava-se às alturas da nobreza, como se fosse uma criatura de outro mundo. Parecia não ser feito de barro, mas constituído de algum outro elemento.
Inteiramente dedicados à adoração de Allah, loucos de amor pelo Mensageiro, servidores sinceros da verdade, promotores das boas ações, convocadores para o bem, inimigos da injustiça e da falsidade, opositores ferrenhos da opressão, humildes no rukūʿ e no sujūd, recitadores do Alcorão com profunda concentração, empenhados na luta durante o dia, envolvidos à noite em diálogo sincero com Allah, alimentadores dos necessitados, anfitriões dos viajantes, servidores dos órfãos e das viúvas, abstinentes de reuniões fúteis e diversões ilícitas, que se protegiam do luxo e das frivolidades, contidos nas discussões inúteis, símbolos de uma vida organizada e limpa, animada pela gravidade e pelo senso de dignidade, solitários no meio da multidão e expatriados em sua própria terra: como poderiam os detentores de todas essas extraordinárias qualidades e características não se tornar o centro da atenção de todo o povo da Arábia?
Esses soldados altruístas, portadores da bandeira do Islam e empenhados na realização do grande compromisso de estabelecer o Islam, eram trabalhadores voluntários em tempo integral do movimento. Estavam acostumados a ignorar completamente seus interesses mundanos, tendo em vista o bem-estar na Vida Futura. Pelo bem de seu objetivo sagrado, não hesitavam em sacrificar todas as capacidades de sua mente, todas as forças de seu corpo, todo o dinheiro de seus bolsos e, quando necessário, até mesmo a própria vida e a vida de seus filhos. Não se preocupavam com o sustento, não davam atenção à segurança física, não se preocupavam com o sono noturno, não tinham tempo para dedicar-se às esposas e aos filhos, nem oportunidade para jogos e entretenimento. Sua única profissão, sua única ocupação, seu único entretenimento e sua única fonte de diversão eram a luta para tornar o Islam vitorioso e estabelecê-lo. Ouviam sorrindo os insultos dos inimigos, suportavam com bravura os ataques fascistas, jejuavam com alegria e partiam para o exílio sorrindo. Quando era necessário ter paciência, demonstravam o mais alto grau de paciência; quando surgia a necessidade de entrar em conflito, enfrentavam-no com espírito resoluto; deitavam-se na areia escaldante repetindo “Ahad, Ahad”; subiam à forca recitando poemas emocionados; e, mesmo caindo ferida, sua alma alada pronunciava pela última vez:
*****Árabe*****
“Juro pelo Senhor da Caaba: fui bem-sucedido.”
Seus caracteres morais e sua conduta são assim; por que sua marcha irresistível não haveria de avançar? Por que o mundo não haveria de se curvar diante deles?
Esse caráter muçulmano estabeleceu, em todos os campos, exemplos tão inesquecíveis que permanecerão escritos em letras de ouro na história da nação muçulmana até o Dia da Ressurreição. Ao deixar o local de execução, o mestre que ensinou esse caráter providenciou a devolução dos depósitos confiados a ele pelos próprios assassinos. Aqueles que adquiriram esse caráter, depois de cometerem o crime de adultério, confessaram espontaneamente sua culpa e fizeram com que o tribunal islâmico lhes aplicasse a pena de morte, para que pudessem comparecer diante de Allah em estado de pureza. Poucos minutos depois de aceitar o Islã, quando uma bela jovem o convidou para ser seu companheiro de diversão, ele rejeitou o convite com repulsa, dizendo: “Não posso desobedecer a Allah e a Seu Mensageiro.” Durante uma expedição de jihad, quando o exército muçulmano passou perto dos alojamentos da tribo Uzd, um soldado muçulmano, por necessidade urgente, havia levado de lá um recipiente. Mas o caráter muçulmano o obrigou a devolvê-lo. Numa sociedade em que centenas de exemplos desse tipo ocorriam diariamente, certamente terremotos aconteciam todos os dias.
Ao ver o exemplo de sacrifício estabelecido pelos ansar, que dividiram igualmente suas casas e seus bens, conservaram metade para si e deram a outra metade a seus irmãos emigrantes, será que as pessoas comuns daquela sociedade não ficaram atônitas? Será que uma igualdade tão extraordinária não conseguiu atrair o coração do povo, manifestada pelo fato de um escravo insignificante permanecer na mesma fileira que pessoas nobres, os pobres junto com os ricos e os deslocados junto com os habitantes locais de Medina? Todos receberam importância; todos obtiveram honra e dignidade; a opinião de todos foi valorizada; e todos receberam a oportunidade de assumir responsabilidades e demonstrar sua capacidade. Era como uma família cujos membros compartilham igualmente a felicidade e a tristeza e participam de modo igual nos pensamentos, na consciência e nas ações. Quando chegava a fome, o líder do grupo era quem mais participava dela. Quando chegava a prosperidade, o líder era quem menos participava dela. A sociedade ficou maravilhada ao ver casamentos entre aqueles que, segundo a perspectiva jahili, eram considerados superiores e inferiores. O coração das pessoas comuns da sociedade jahili não podia deixar de se sentir atraído pelo caminho simples e descomplicado que o Islã havia criado para aliviar o pesado fardo dos costumes e tradições. Que vida amorosa, leve, simples e pacífica era aquela! Na verdade, era uma “hayatan tayyiba”, uma vida pura e boa.
A sociedade também testemunhou o tipo de aptidões e talentos que floresciam entre os muçulmanos. Viu que, na mente dos que aceitavam o Islã, a inteligência se desenvolvia com extraordinária rapidez. Toda a Arábia observou, maravilhada, que alguns deles se destacavam na jurisprudência, outros na agricultura, outros no comércio, outros na arte da guerra, outros na administração e outros na diplomacia; em suma, cada um adquiria uma nova personalidade ao alcançar excelência em alguma área.
Ao retratar esse caráter, o Alcorão repetidamente mostrou aos inimigos do Islã e ao povo: “Vede como é belo e superior o modelo de humanidade produzido pelo ideal da verdade. É assim que se pode alcançar paz e segurança.” O Islã apresentou esse caráter como prova de sua própria veracidade. Depois, comparou-o repetidamente com o caráter jahili, bem como com o caráter do Povo do Livro e dos hipócritas. Colocando os dois lado a lado, mostrou: “Vós mesmos dizei qual é melhor.” Assim, a comparação ocorria no campo da realidade. Além disso, a observação comparativa desenvolvia-se espontaneamente em todos os âmbitos da vida.
As situações de conflito e confronto produzem simultaneamente dois resultados significativos. Quando submetidos a conflitos, o caráter de algumas pessoas se forma, enquanto o de outras se rompe e afunda. O movimento islâmico fez todos os esforços para que, ao passar por conflitos e confrontos, o caráter dos muçulmanos se tornasse mais belo, equilibrado e refinado. Graças ao rigoroso sistema de treinamento, purificação e educação, o caráter muçulmano melhorou progressivamente. Por outro lado, o caráter jahili foi gradualmente levado à decadência pelos conflitos e confrontos e, por fim, afundou e foi destruído. O caráter muçulmano foi repetidamente instruído a ter paciência. Nele foram desenvolvidas a força da tolerância e a capacidade de permanecer firme nos princípios. Às vezes eram dadas instruções severas: “Não vos exalteis quando provocados.” Às vezes eram dados conselhos: “Não vos envolvais com os porta-estandartes das forças jahili; não vos desespereis; respondei ao mau comportamento com bom comportamento; considerai a opressão e os excessos com espírito de perdão; não sejais injustos com ninguém por causa de inimizade; não alimenteis a esperança de reformar os mundanos nem desperdiceis vosso tempo atrás deles; não vos assusteis diante da abundância e do esplendor dos inimigos; não tomeis decisões precipitadas.” Cada ascensão e queda psicológica deles era observada, e imediatamente lhes era explicado o que lhes seria benéfico. O Mensageiro (que a paz esteja com ele) deu pessoalmente atenção a cada membro de sua comunidade e, aproveitando a ocasião apropriada, desenvolveu o caráter muçulmano às vezes aconselhando, às vezes repreendendo, às vezes demonstrando desagrado e às vezes demonstrando satisfação. Conforme a aptidão que identificava em cada pessoa e a disposição que percebia nela, dava-lhe conselhos de acordo com suas necessidades. E, conforme a fraqueza que observava em cada um, apresentava-lhe exatamente a exigência correspondente do Islã. Além disso, criticava severamente, após cada acontecimento importante, o tipo de comportamento demonstrado pela comunidade muçulmana em suas atividades coletivas. Fosse a batalha de Badr ou de Uhud, o tratado de Hudaybiyyah, o acontecimento da mudança da qibla ou o episódio da calúnia, depois de cada acontecimento histórico importante ele, por um lado, expunha ao povo os relatos das atividades dos inimigos e, por outro, criticava sem reservas sua própria comunidade, apontava seus erros e falhas e indicava os meios para corrigi-los. Quando seus companheiros cometiam alguma injustiça contra seus inimigos, ele não tentava ocultá-la nem provar que ela era correta. Pelo contrário, reconhecia o erro diante do inimigo e, quando alguém havia sido morto injustamente, pagava sua compensação. Repreendeu os companheiros por causa do incidente de Nakhlah. Quando o Profeta Khalid matou, por suspeita, um homem que recitava em voz alta a kalima, pensando que ele a havia recitado não com sinceridade, mas para salvar a própria vida, o Mensageiro (que a paz esteja com ele) desaprovou seu ato e recusou-se a assumir sua responsabilidade. O Islã não declarou que, excetuando-se o Mensageiro, os demais companheiros fossem infalíveis e incapazes de errar. Apenas os qualificou, de modo geral, como puros, honestos e passíveis de correção. Declarou que, em termos gerais, o caráter muçulmano era claramente superior, mais nobre e mais desenvolvido que o caráter jahili.
Lutar contra a liderança estabelecida, a autoridade e o ambiente predominante não é uma brincadeira. É uma tarefa que exige muito tempo. Nela é preciso enfrentar muitas perdas e danos, trabalhando com a mente muito fria e sem agitação. As forças do ambiente adverso continuam puxando os que avançam pela cintura para trás e tentando corromper novamente aqueles que buscam a reforma. Continuam procurando brechas para exercer influência sobre suas mentes, a fim de reintroduzir, de algum modo, suas próprias crenças falsas, costumes, tradições e hábitos, e encontrar um caminho de escravidão mental e conciliação que lhes permita avançar. Quando, lutando mesmo em um ambiente adverso, a força e a coragem dos homens poderosos se debilitam e até os sinceros começam a recuar, o ser humano se prepara para abandonar as ideias revolucionárias e adotar as antigas. Mesmo que não aceite a influência estrangeira nos princípios e nas crenças, torna-se disposto a aceitá-la nos costumes culturais, no comportamento, na maneira de vestir e na aparência. Basta que esse caminho se abra um pouco para que o ambiente existente continue alargando-o gradualmente e, por fim, introduza nele tudo o que possui. Se não conseguir concluir isso na era de uma geração, conclui-o na era da geração seguinte. No entanto, o movimento islâmico levou plenamente em consideração esse perigo ao formar o caráter muçulmano. Por isso, deu a esse caráter uma dureza de aço e tomou todas as medidas possíveis para preservá-lo. De um lado, ensinou-lhe a formar uma força invencível para enfrentar os opositores do Islã, tornando-se ‘ashiddā’u ‘alal-kuffār’, isto é, severo contra os incrédulos; de outro, ensinou-lhe a ser ‘ruhamā’u baynahum’, isto é, compassivo e misericordioso uns com os outros. Proibiu rigorosamente a imitação dos estrangeiros, a escravidão mental aos estrangeiros e a manutenção de relações secretas de intimidade com eles. Foi justamente com o objetivo de criar essa estabilidade e firmeza mental entre os muçulmanos que os novos muçulmanos foram chamados a emigrar para Medina. Quando, em algum lugar, um número significativo de pessoas se reunia e delas era tomado um juramento de lealdade ‘à maneira dos beduínos’ — isto é, um juramento no qual não se impunha a condição da emigração —, recebiam a instrução de manter-se afastadas dos politeístas e de não estabelecer com eles relações de amizade ou matrimoniais. Deviam formar sua própria sociedade. Ao mesmo tempo que se ordenava obedecer aos pais não muçulmanos, também se dizia que, se os pais ordenassem abandonar o Islã, jamais se deveria obedecer. Não se deve obedecer a ninguém contra o Islã. A firmeza desse caráter era tão grande que ele não se deixou influenciar nem mesmo ao contemplar a esplêndida civilização do Irã, nem foi acometido de inferioridade ao ver a vida luxuosa de Roma. Os muçulmanos compareciam às grandes cortes reais mantendo seu comportamento beduíno, pisando em preciosos tapetes sem inclinar a cabeça, e apresentavam suas palavras com plena coragem. Quando esse caráter foi fortalecido e estabilizado mentalmente por completo e elevado acima de todo sentimento de inferioridade, eles também estabeleceram no campo de batalha exemplos inesquecíveis de bravura e firmeza. O mundo viu, admirado, que, embora esse caráter fosse numericamente inferior e dispusesse de equipamento insuficiente, não era possível destruí-lo nem impedir seu avanço.
Apesar de inúmeros inimigos ferrenhos lançarem contra eles, publicamente, sarcasmo, zombaria, insultos, censuras, difamação e coisas semelhantes, no íntimo certamente invejavam esse caráter muçulmano e consideravam os muçulmanos melhores do que eles próprios. Lamentavam não poder também fazer parte desse grupo. Em diversas ocasiões, os opositores chegaram a reconhecê-lo. Após a batalha de Uhud, quando Abu Sufyan, de pé sobre a montanha, perguntou a Omar: “Muhammad foi morto?”, Omar respondeu: “Por Deus, ele está vivo e está ouvindo o que dizeis.” Então Abu Sufyan disse: “Embora Abu Qayma tenha afirmado que Muhammad foi morto, nós vos consideramos mais verazes do que ele.” Do mesmo modo, após o tratado de Hudaybiyyah, o enviado coraixita Urwah ibn Masud viu uma cena no meio dos muçulmanos e relatou-a aos líderes coraixitas de tal maneira que ficou comprovado que os não muçulmanos sempre reconheciam a superioridade moral dos muçulmanos. Embora fosse um opositor ferrenho do Islã, a descrição que Abu Sufyan fez de Muhammad e de seu movimento diante do imperador romano também testemunha que, apesar da hostilidade, os inimigos reconheciam abertamente a superioridade de Muhammad e do Islã. Quando o coletor de impostos de Medina foi cobrar tributos dos judeus de Khaybar, eles, ao constatarem a exatidão de sua distribuição, testemunharam que aquela era a verdadeira justiça sobre a qual se sustentam o céu e a terra.
Constantemente, em todos os recantos da Arábia, discutia-se a extraordinária situação da recém-formada sociedade muçulmana. Falava-se sobre o líder do movimento e seus companheiros. Em suma, sempre que duas pessoas se reuniam, a boa reputação e a fama de Muhammad, da sociedade islâmica, do movimento islâmico e do governo de Medina eram o primeiro e principal assunto da conversa.
Era justamente essa força moral do movimento islâmico que tornava eficazes e proveitosos seus argumentos e seu apelo. Isso constituía o reconhecimento geral da superioridade do caráter muçulmano, e esse reconhecimento geral fazia pessoas de todas as camadas se submeterem ao Islã. Apresentarei alguns exemplos de como a irresistível atração do Islã atraía as pessoas de todas as direções.
Primeiro, tratemos do período de Meca. Quando o famoso poeta Tufail al-Dawsi chegou a Meca, os coraixitas o proibiram de se encontrar com o Mensageiro, que a paz esteja sobre ele. Por fim, ele próprio se encontrou com ele e, depois de ouvir apenas alguns versículos, abraçou o Islã. Amr ibn Abasa veio encontrar-se com o Mensageiro, que a paz esteja sobre ele, após ouvir sua fama, e aceitou o Islã. Damad ibn Tha’laba, amigo de infância do Mensageiro, veio como conselheiro e abraçou o Islã depois de ouvir algumas palavras de sua boca. Abu Dharr, um jovem de uma tribo nômade de salteadores, veio a Meca ao ouvir a fama do Islã e, escapando por pouco do ambiente hostil, encontrou-se com o Mensageiro, que a paz esteja sobre ele, ouviu sua mensagem e aceitou a verdade. De repente, uma emoção despertou dentro dele, e ele foi até a Caaba e proclamou a mensagem da verdade. Depois, sofreu a punição por esse crime de amar a verdade. Assim, cada um daqueles que passavam a integrar o movimento islâmico tornava-se um pregador em sua própria esfera de influência. Pela pregação de alguns, toda a sua tribo abraçava o Islã. Suwaid ibn Samit encontrou-se com o Mensageiro, que a paz esteja sobre ele, e foi profundamente influenciado. Iyas ibn Mu’adh também veio de Medina, tornou-se apoiador da pregação do Mensageiro, que a paz esteja sobre ele, e criou em Medina uma opinião pública favorável ao Islã. Uma delegação de vinte cristãos veio de Najran, adquiriu conhecimento do Islã junto ao Mensageiro, que a paz esteja sobre ele, e, apesar das muitas tentativas dos coraixitas de impedi-los, partiu levando no coração a luz do Islã. Alguns iemenitas aceitaram o Islã por intermédio daqueles que haviam migrado para a Abissínia, e, por meio deles, o próprio coração do rei Negus foi iluminado pela luz da fé. Em Medina, as pessoas das tribos Aws e Khazraj já vinham aceitando o Islã rapidamente antes da chegada do Mensageiro, que a paz esteja sobre ele. Depois que o Mensageiro, que a paz esteja sobre ele, migrou para lá, não restou sequer uma casa onde a luz do Islã não tivesse chegado. O surpreendente é que o renomado sábio judeu Abdullah ibn Salam ficou tão impressionado ao ouvir um breve e simples sermão do Mensageiro, que a paz esteja sobre ele, que acabou abraçando o Islã. O sermão foi este: “Ó seres humanos, difundam a paz na sociedade, alimentem as pessoas, mantenham boas relações com os parentes consanguíneos e rezem durante a noite, quando as pessoas estiverem dormindo.” Da mesma forma, o monge cristão Abu Qays Sarma ibn Abi Anas respondeu ao chamado do movimento islâmico. Jubayr ibn Mut’im veio para libertar os prisioneiros de guerra de Badr. Nessa ocasião, ao ouvir alguns versículos da boca do Mensageiro, que a paz esteja sobre ele, encontrou a orientação e aceitou o Islã. Abu Rafi, escravo dos coraixitas, veio a Medina como mensageiro e abraçou o Islã. Ele não queria voltar. O Mensageiro, que a paz esteja sobre ele, explicou-lhe que não se podia reter um mensageiro: “Volta primeiro a Meca; depois, se quiseres, vem para Medina.” Abu Rafi foi a Meca e mais tarde migrou novamente para Medina. Quando os Banu Qurayza foram atacados por causa de seus crimes, Amr ibn Sa’d, um dos seus membros, abraçou o Islã.
Thumama ibn Uthal al-Hanafi, líder de Yamama, foi trazido como prisioneiro e, impressionado com o comportamento do Mensageiro, que a paz esteja sobre ele, abraçou o Islã. A batalha de Uhud estava em andamento. Exatamente naquele momento, Amr ibn Thabit, da tribo Banu Abd al-Ashhal, abraçou o Islã e imediatamente foi ao campo de batalha, onde lutou e alcançou o martírio. Nas difíceis circunstâncias da batalha da Trincheira, Nu’aym ibn Mas’ud passou a integrar o movimento islâmico. Abu al-As veio a Medina e, de maneira totalmente inesperada, anunciou que havia abraçado o Islã. Ao ver os preparativos de guerra dos judeus de Khaybar, um de seus pastores, chamado Aswad, perguntou contra quem e onde seria a batalha. Quando soube que estavam se preparando para lutar contra Muhammad, que a paz esteja sobre ele, abraçou o Islã. Khalid e Amr ibn al-As abandonaram o grupo dos coraixitas e abraçaram o Islã no período entre o tratado de Hudaybiyyah e a batalha de Mu’tah. Eles haviam se cansado de lutar a partir da fortaleza da jahiliyyah. Por isso, o movimento islâmico os atraiu imediatamente. Fudalah veio durante a conquista de Meca, e Shaybah durante a batalha de Hunayn, com a intenção de matar o Mensageiro, que a paz esteja sobre ele. Mas eles próprios foram feridos pela espada da verdade. Quando pessoas das tribos Hawazin e Banu Sa’d vieram e abraçaram o Islã, o Mensageiro, que a paz esteja sobre ele, lembrou-se de Malik ibn Awf e expressou a esperança de que ele também aceitasse o Islã. Ao saber da atitude do Mensageiro, que a paz esteja sobre ele, Malik ibn Awf veio secretamente e abraçou o Islã. Quando o exército muçulmano venceu a tribo Tayy, a filha de Hatim al-Tai chegou a Medina como prisioneira. Ela pediu ao Mensageiro, que a paz esteja sobre ele, que a tratasse com bondade. O Mensageiro atendeu ao pedido, providenciou uma montaria para ela e a enviou embora. Ela contou todo o ocorrido a seu irmão Adi ibn Hatim, que estava furiosamente irado contra o Islã, e aconselhou-o a ir a Medina. Adi foi e, depois de verificar pessoalmente a situação e compreender que o Mensageiro, que a paz esteja sobre ele, era realmente o Mensageiro de Allah, abraçou o Islã. O poeta Ka’b ibn Zuhayr, que havia combatido por meio de poemas contra o Islã e contra o Mensageiro, que a paz esteja sobre ele, veio voluntariamente a Medina e abraçou o Islã. Depois, compôs e recitou o célebre poema histórico “Banat Su’ad”. Vejamos o caso de Abdullah Dhul-Bijadayn. Embora esse jovem tivesse sido influenciado pelo Islã, ocultou isso durante algum tempo por medo do tio. Quando percebeu que não havia esperança de obter a permissão dele, despediu-se do tio, de seus bens, das roupas que ele lhe dera e do ambiente doméstico, vestiu um cobertor, foi a Medina e abraçou o Islã. Um comerciante chamado al-Munqadh ibn Hayyan, da tribo Abd al-Qays, no Bahrein, veio em uma viagem comercial e permaneceu alguns dias em Medina. O Mensageiro, que a paz esteja sobre ele, tinha o plano de expandir o movimento islâmico no exterior. De acordo com esse plano, foi pessoalmente ao encontro de al-Munqadh e o convidou ao Islã. Al-Munqadh abraçou o Islã. Ao voltar para casa, convidou seu pai, que também aceitou o Islã. Mais tarde, as pessoas comuns de sua tribo também abraçaram o Islã. Havia também muitas pessoas que abandonaram o poder, a liderança e os altos cargos e adotaram a servidão a Allah.
Esses exemplos mostram como o campo se tornou gradualmente favorável e fértil para o Islã. Primeiro uma pessoa, depois duas ou quatro, em seguida centenas e, depois, milhares de pessoas foram abraçando o Islã, até que um mundo inteiro se formou.
Em determinado estágio, surgiu uma onda rápida e generalizada de conversões ao Islã, em grupos sucessivos. Aqui menciono apenas as personalidades ilustres que haviam se tornado líderes em seus respectivos ambientes. Quando uma delas aceitava o Islã, tornava-se também pregadora em sua própria tribo e região. Por meio de suas palavras e ações, atraíam muitas outras pessoas, até mesmo tribos inteiras. Além disso, as atividades do próprio centro de pregação de Medina e dos agentes internacionais levavam muitas pessoas a aceitar imediatamente o Islã ou a tornar-se suas apoiadoras e simpatizantes. Esse tipo de simpatia também se mostrou extremamente útil para o movimento islâmico. Esses apoiadores e simpatizantes podiam falar em favor do Islã mesmo estando entre seus opositores, e nenhum tipo de hostilidade ou estreiteza de espírito impedia as pessoas de ouvi-los. Havia apoiadores e simpatizantes desse tipo também entre os coraixitas, os judeus e os beduínos, e foram sobretudo eles que, na época da trégua de Hudaibiyah, incentivaram os coraixitas a assinar o tratado. Foi uma pessoa desse tipo que, depois da batalha de Uhud, proibiu Abu Sufyan de retornar e atacar novamente os muçulmanos. Foi também uma pessoa desse tipo que se opôs à proibição de enviar uma remessa de alimentos a eles enquanto o Mensageiro de Deus, que a paz esteja sobre ele, estava detido no vale de Abu Talib (Shi’b Abu Talib). Foram pessoas desse tipo que puseram fim a esse injusto tratado de boicote. Mukhayriq, que, embora judeu, deu a vida pelos interesses do movimento islâmico, também foi uma pessoa desse tipo. Em suma, além dos que aceitavam o Islã, começou a formar-se igualmente um grupo de apoiadores e simpatizantes desse tipo. Esse grupo também contribuiu, em certa medida, para abrir o caminho do sucesso da revolução islâmica. A maioria deles teve posteriormente a felicidade de aceitar o Islã. Em resumo, grupos de propagadores diretos e indiretos da revolução islâmica haviam se espalhado por toda a Arábia. Medina era a fonte de inspiração de todos eles. Reunindo forças dela, os buscadores da verdade espalhados por toda parte levavam o brilho da palavra do Islã a seus próprios círculos. Medina era como o sol, e os diversos planetas e satélites espalhados ao seu redor por grandes distâncias recebiam dela a luz que iluminava o ambiente.
Apresentei aqui, brevemente, alguns exemplos que mostram como uma ou poucas pessoas influenciaram tribos ou regiões inteiras. Um exemplo, talvez o maior e mais brilhante, é o do jovem medinense Suwaid ibn Samit, que foi a Meca, recebeu do Mensageiro de Deus, que a paz esteja sobre ele, a luz da palavra da fé e, depois disso, influenciou muitas pessoas em Medina. Assim, em determinado momento, Medina transformou-se no centro do movimento islâmico. Embora Tufayl al-Dawsi, devido ao seu temperamento, não tenha conseguido influenciar rapidamente toda a sua tribo, por causa dele o movimento islâmico tornou-se conhecido no Iêmen. Influenciada e incentivada pelos emigrantes para a Abissínia, a tribo de Ash’ar aceitou o Islã sem a inspiração de qualquer outra pessoa. Por meio da pregação de Dิมad ibn Tha’laba, toda a sua tribo aceitou o Islã. Quando o venerável Abu Dharr al-Ghifari retornou de Meca, tendo sido instruído na ideologia revolucionária do Islã, metade dos membros de sua tribo aceitou o Islã através de sua pregação. A outra metade, depois que o Mensageiro de Deus, que a paz esteja sobre ele, foi para Medina
tornou-se muçulmana. Depois, partindo da tribo de Ghifar, o Islã também penetrou na tribo de Aslam, até que gradualmente toda a tribo foi instruída no Islã. Por meio de Munqidh ibn Hayyan, o Islã se espalhou no Bahrein. Algum tempo depois, Munqidh foi a Medina acompanhado de catorze companheiros. Em suma, a situação parece exatamente com a afirmação do Evangelho: “O Reino de Deus (a pregação da verdade) é como o fermento. Quando uma mulher mistura um pouco de fermento à farinha, toda a farinha se transforma em massa fermentada.”
Onde quer que o Islã chegasse e algumas pessoas o aceitassem, ali inevitavelmente se formava uma comunidade. A mesquita não era apenas um local de oração; era também o centro de todas as atividades culturais do Islã. Servia simultaneamente como instituição de ensino, local de consultas, ponto de reunião social e hospedaria. A mesquita era, na realidade, um símbolo do movimento islâmico, e sua existência em toda a região equivalia a anunciar que aquele lugar era agora uma “fortaleza do Islã”. Por isso, o Mensageiro de Deus, que a paz esteja sobre ele, ordenava às tribos recém-convertidas que construíssem mesquitas. Também ordenava aos soldados que cessassem o uso das armas em qualquer região onde se ouvisse o chamado à oração. Essa ordem equivalia, na verdade, a incentivar a construção de mais mesquitas. Nas comunidades muçulmanas, as pessoas construíam mesquitas como um meio apropriado de propagar sua nova ideologia revolucionária. A partir dali, a doutrina islâmica era proclamada na forma do chamado à oração, e o treinamento na organização islâmica era ministrado por meio da oração congregacional. Foi graças ao incentivo do Mensageiro de Deus, que a paz esteja sobre ele, que as mesquitas começaram a ser construídas ainda durante sua vida. Uma mesquita foi construída no Bahrein logo no início. Foi ali que se realizou a primeira oração de sexta-feira depois da Mesquita do Profeta. As mesquitas eram instituições da comunidade e funcionavam sob tutela governamental. Aqueles que eram enviados de Medina para ocupar cargos administrativos em alguma região tornavam-se os imames das mesquitas locais. As tribos que permaneciam fora da administração de Medina consultavam o Mensageiro de Deus, que a paz esteja sobre ele, sobre a nomeação do imam de sua mesquita. Depois, nomeavam o imam segundo os critérios especificados pelo Mensageiro. Em todos os lugares onde o Mensageiro de Deus, que a paz esteja sobre ele, havia permanecido durante alguma guerra ou viagem, realizado orações ou onde ocorrera algum acontecimento importante, foram construídas muitas mesquitas.
A força dos tratados e do entendimento
Juntamente com o amplo trabalho de pregação e divulgação realizado entre o povo pelos métodos diretos mencionados acima, foram adotadas também várias outras medidas importantes de apoio. Uma medida particularmente significativa foi a expansão da influência política de Medina. Essa expansão da influência foi realizada em grande parte por meio de tratados e relações de aliança. A ampliação, pelo Mensageiro de Deus, que a paz esteja sobre ele, da esfera de influência do governo por meio de tratados e entendimentos, bem como a atenção extraordinária que dedicou a esse assunto, mostram claramente que ele desejava evitar, tanto quanto possível, as guerras e criar em toda parte um ambiente de paz e segurança, para que o trabalho de pregação pudesse ser realizado adequadamente nesse ambiente pacífico e a tensão militar não se tornasse um obstáculo. Quando se tornou inevitável adotar medidas militares para proteger o Islã, o Estado islâmico e a paz, ele não hesitou de modo algum. Porém, sempre que fosse possível evitar a guerra e, por meio da paz e do entendimento, garantir a proteção política e a estabilidade do Estado, bem como um ambiente livre de obstáculos para a pregação do Islã, ele jamais abandonava o caminho da trégua e do entendimento. A própria fundação do Estado islâmico não foi realizada pela força da espada, mas pela força de um pacto constitucional. Depois, para a defesa do Estado e a expansão de sua influência, ele utilizou as relações de aliança em tal escala que, em comparação, a proporção das medidas militares foi extremamente pequena.
Construir relações baseadas em tratados e alianças não é uma tarefa fácil. Especialmente quando existem divergências religiosas e hostilidade política, forças antagônicas intervêm no meio e, quando o assunto envolve, em geral, tribos e indivíduos sem qualquer conhecimento prévio entre si, essa tarefa exige uma habilidade política extraordinária. É necessário conhecer a situação, a mentalidade e a força dos interlocutores; compreender o equilíbrio de forças existente, em determinado momento, entre as diversas partes da sociedade; observar a influência e o prestígio dos grupos rivais; identificar condições aceitáveis para cada uma das partes; e tornar as negociações psicologicamente eficazes, entre muitas outras exigências indispensáveis. Na verdade, em nenhum outro lugar se encontra um exemplo do nível de discernimento político, capacidade de liderança e competência diplomática demonstrado pelo Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) nesse campo. Isso não tem paralelo porque, ao construir relações de alcance tão amplo, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) não permitiu que se causasse sequer o menor dano aos ideais islâmicos, aos seus próprios princípios morais ou à sua dignidade política. Caso contrário, a morte brutal da moralidade no campo diplomático teria feito com que a palavra “diplomacia” adquirisse má reputação. A própria política tornou-se hoje algo indesejado. Costuma-se dizer que a política não tem caráter nem palavra final. A política seria como um tanque que, por onde passa, avança pisoteando todos os valores humanos. Mas o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) transformou completamente o significado da diplomacia e da política. Ele não apenas libertou e purificou essas duas atividades da imundície, como também lhes infundiu a força vital da honestidade e da adoração. Hoje, ao ler nos livros sobre conduzir atividades políticas e diplomáticas segundo os princípios islâmicos, alcançar extraordinário sucesso nelas e, por meio disso, unir tribos dispersas e reuni-las ao seu redor, tudo parece uma tarefa fácil. Mas somente aquele que realizava concretamente essas atividades no deserto da Arábia sabia quão difícil era esse trabalho.
Nesse processo de alianças baseadas em tratados, não apenas se abriu o caminho para uma maior expansão do Islã, graças à circulação dos pregadores muçulmanos, ao livre convívio com o povo e à criação de oportunidades irrestritas para o contato direto dos membros das tribos aliadas com Medina; ele também contribuiu para ampliar a influência do movimento islâmico de outra maneira: a perspicácia política e a visão de futuro da liderança islâmica conquistaram a confiança do povo. Por mais devoto e afeiçoado que o povo seja às pessoas virtuosas formadas por concepções religiosas e espirituais limitadas, e por mais confiança que deposite em sua santidade, jamais lhes confia as chaves da liderança e da autoridade na vida coletiva. Desde sempre, a liderança e a autoridade na vida coletiva foram confiadas àqueles que, segundo a percepção do povo, possuem capacidade e competência para cumprir responsabilidades coletivas. Muitas vezes acontece também de o povo elogiar entusiasticamente determinado grupo, dizendo que seus membros são pessoas muito boas, fazem muitas coisas boas, prestam serviços à comunidade e assim por diante. Porém, por meio desse elogio, quer dizer que essas boas pessoas são completamente incapazes de lidar com os assuntos do mundo. Ao ouvir os elogios do povo, esse tipo de pessoa frequentemente cai no equívoco de imaginar que a opinião pública lhe é muito favorável. Se a organização muçulmana daquele tempo tivesse formado pessoas de caráter que fossem extremamente virtuosas e piedosas do ponto de vista religioso, mas incapazes de demonstrar qualquer competência diante dos problemas políticos e sociais do mundo, a reação do povo teria sido: “Eles são boas pessoas, dizem coisas boas e tratam bem as pessoas.” Mas o povo jamais poderia esperar que elas fossem capazes de estabelecer uma nova ordem, administrar o Estado e liderar a sociedade. O movimento islâmico não veio para formar pessoas devotadas a Allah que, como indivíduos, fossem apenas piedosas, boas e ingênuas, mas não possuíssem a habilidade política necessária para exercer autoridade na vida coletiva; pessoas que o povo não aceitasse como capazes de oferecer uma liderança alternativa e superior, nem das quais esperasse a construção de um futuro mais brilhante. Quanto mais os líderes e ativistas muçulmanos formados pelo movimento islâmico eram devotos e tementes a Allah, mais também possuíam discernimento e competência política. Eles deixaram a marca de sua excelência por meio de suas próprias ações. Assim, o povo contemporâneo foi sendo gradualmente influenciado pela capacidade de liderança do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e das forças muçulmanas que atuavam sob sua liderança; Medina continuou a ser o centro de suas esperanças e, como resultado, seus corações foram se abrindo cada vez mais ao Islã. Em suma, a propagação do chamado à religião e a expansão da influência política — essas duas tarefas dependem uma da outra, e foi a força vital combinada de ambas que impulsionou o movimento islâmico rumo a um avanço irresistível. Tendo em mente essa verdade fundamental, examinemos as relações baseadas em tratados e de amplo alcance estabelecidas pelo Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Ele estabeleceu essas relações com extrema rapidez, embora os meios de comunicação daquela época fossem extremamente precários.
1. O Tratado de Aqaba
No âmbito das relações baseadas em pactos, deve-se mencionar em primeiro lugar o Pacto de Aqaba. Esse pacto foi simultaneamente um compromisso religioso e uma promessa política. No primeiro encontro de Aqaba, um grupo de jovens vigorosos de Medina reconheceu, apertando a mão do Mensageiro (s.a.w.), sua fé na missão profética do Mensageiro (s.a.w.). No segundo encontro, foi incluída também a promessa de obediência à liderança política do Mensageiro (s.a.w.). No caminho de Meca para Mina, há altas paredes paralelas às montanhas, em ambos os lados da estrada. A cerca de um furlong de Mina, pode-se ver, na montanha à esquerda, um pequeno vale semicircular. Esse era o local protegido onde o Pacto de Aqaba foi celebrado, na silenciosa escuridão da noite. Devido à presença dos judeus em Medina, os Ansar estavam razoavelmente familiarizados com as religiões reveladas e com a sucessão da profecia. Eles conheciam as profecias sobre o último Profeta prometido. Também se lembravam de que os judeus costumavam ameaçá-los, dizendo: “Quando chegar esse último Profeta prometido, nós o acompanharemos e derrotaremos vocês.” Assim, por um lado, surgiu entre os Ansar o desejo pela orientação divina; por outro, nasceu inconscientemente o sentimento de que, quando esse Profeta prometido chegasse, eles seriam os primeiros a crer nele. Além disso, estavam cansados da contínua série de conflitos entre Aws e Khazraj e aguardavam uma oportunidade de paz e segurança. O problema, porém, era que, devido ao antigo ambiente de rivalidade, as duas tribos não estavam dispostas a aceitar a liderança uma da outra. Era indispensável uma terceira força. Por todas essas razões, quando as pessoas sensatas e amantes da paz de Medina conheceram diretamente o Mensageiro (s.a.w.) e tiveram a oportunidade de ouvir seu chamado, seus corações imediatamente se tornaram ansiosos e ávidos por aceitá-lo. As notícias sobre a profecia já haviam chegado até eles. Nas conversas diretas, chegaram a uma decisão definitiva. A influência do belo rosto e da personalidade do Mensageiro (s.a.w.), unida ao impacto de seu discurso de دعوت, deu forma final àquela revolução mental. Aquele foi um momento histórico: alguns Ansar, por ocasião da primeira bay‘ah, haviam partido de Medina com o objetivo de estabelecer relações de amizade com os coraixitas. Se esse objetivo tivesse sido alcançado, a história do movimento islâmico teria sido completamente diferente. Mas, no último momento, mudaram de ideia. Decidiram afastar de seus corações o pensamento dos coraixitas e estabelecer contato com aquele sol nascente de Meca, que lançava novos raios de luz desde o horizonte do alvorecer da história, iluminando o horizonte.
Na primeira bay‘ah, o Mensageiro (s.a.w.) obteve deles compromissos relativos a algumas questões de fé e moral. Eles se comprometeram a não associar ninguém a Allah, não roubar, não cometer adultério, não matar os filhos, não caluniar ninguém e não desobedecer às ordens do Mensageiro (s.a.w.) no que diz respeito às boas ações.
Na segunda bay‘ah, os Ansar acrescentaram algumas declarações: “Em todas as circunstâncias, ouviremos e obedeceremos às ordens do Mensageiro (s.a.w.), seja a situação favorável ou repleta de dificuldades, quer uma ordem nos agrade ou desagrade, ou ainda que uma ordem seja contrária à nossa opinião. Não entraremos em conflito com nosso líder e não temeremos a censura de nenhum censurador.”
Por meio desse breve compromisso, estabeleceu-se uma relação política entre Muhammad (s.a.w.) e os Ansar, e esse grupo tornou-se abertamente um partido político. Eles aceitaram a liderança do Mensageiro (s.a.w.) como algo a ser seguido e imitado em todos os aspectos. Também prometeram que não entrariam em conflito com os líderes nem tomariam qualquer medida para usurpar suas posições. Estabeleceu-se o princípio da consulta: em cada questão, seria apresentado aquilo que fosse correto e justo. No que dizia respeito à luta para estabelecer a religião de Allah, comprometeram-se a cumprir todas as responsabilidades e deveres que lhes fossem impostos, mesmo ignorando as críticas do mundo inteiro. Era um compromisso tal que, depois disso, qualquer território que passasse ao controle desse grupo, se não estivesse sob a autoridade de outro poder político e se a liderança e a autoridade estivessem totalmente concentradas em suas mãos, faria com que o grupo se transformasse imediatamente em um Estado.
Além dessas questões, também ficou estabelecido que, depois da Hégira do Mensageiro (s.a.w.) para Medina, os Ansar que haviam firmado o pacto o protegeriam exatamente como protegiam suas próprias esposas e filhos. Em outras palavras, estabeleceu-se também um pacto de unidade defensiva entre o Mensageiro (s.a.w.) e o grupo islâmico de Medina. Sob esse aspecto, o valor político do Pacto de Aqaba aumentou ainda mais, tornando-se “revolucionário”.
Depois disso, por ordem do Mensageiro (s.a.w.), foram nomeados, em nome da organização islâmica dos Ansar de Medina, doze representantes ou naqibs, que seriam responsáveis perante o Mensageiro (s.a.w.). Além da difusão e expansão do chamado islâmico, também lhes foram atribuídas responsabilidades políticas. Segundo o relato de Abdullah ibn Abu Bakr, o Mensageiro (s.a.w.) disse a esses naqibs: “Vocês serão responsáveis por seu povo exatamente como os discípulos dos apóstolos de Jesus eram responsáveis diante de Jesus. E eu também sou responsável pelo meu povo, isto é, pelos habitantes de Meca.” (Sirat Ibn Hisham, vol. 2, pp. 36–57; Ahd-e Nabawi ke Maidan-e Jang, Dr. Hamidullah Siddiqi, pp. 7–10.)
A estrutura administrativa criada em Medina após a nomeação dos naqibs não era apenas religiosa; havia se tornado também política e revolucionária. A exigência espontânea e natural de uma estrutura desse tipo era que ela se transformasse em um Estado o quanto antes, ou melhor, na primeira oportunidade. E foi exatamente isso que aconteceu: poucos meses após a Hégira do Mensageiro (s.a.w.), foram lançadas as bases do Estado islâmico.
Compreende-se, portanto, que o movimento islâmico, depois de completar a etapa do chamado inicial, entrou na etapa estatal por meio de um pacto, e não mediante o uso da força militar.
2. O pacto constitucional
O segundo maior pacto na história do movimento islâmico conduzido sob a liderança do Mensageiro (S.A.A.S.) foi o pacto que lançou as bases do Estado Islâmico de Medina. Provavelmente, na história do mundo inteiro, nenhum Estado foi estabelecido sem o uso, em maior ou menor grau, da força; e a fundação de um Estado ideológico é ainda mais difícil. Isso porque seu ideal fundamental costuma provocar uma agitação extraordinária em todo o ambiente e, quando se tenta estabelecê-lo em um ambiente desconhecido, contando com a cooperação de pessoas de diferentes tipos, torna-se inevitável o surgimento de uma situação de intenso conflito. Esse pacto constitucional de Medina apresenta um exemplo da sabedoria política, da prudência e da capacidade de liderança do Mensageiro (S.A.A.S.) sem paralelo em qualquer lugar. Entre as partes desse pacto estavam os muhajirun, os muçulmanos, politeístas e judeus pertencentes às duas principais tribos dos ansar, Aws e Khazraj, além das tribos judaicas consumidas por conflitos e confrontos mútuos.
Na realidade, o Mensageiro (S.A.A.S.) conhecia Medina desde a infância, por ser a terra de sua família materna. Visitou-a e permaneceu ali quando criança. Depois, como pregador do Islã, nos dois ou três últimos anos de sua vida em Meca, após estabelecer contato com Medina, investigou, de uma perspectiva política, sua situação peculiar. Em seguida, depois de emigrar para Medina, também se eliminou a pouca falta de informações diretas que ainda existia sobre as relações entre seus habitantes e outras questões. A população de toda Medina era então estimada em cinco mil pessoas, das quais quase metade era judia. Entre esses habitantes, o número de muçulmanos, incluindo os ansar e os muhajirun, não passava de quinhentos. Foi com o apoio dessa minoria ativa, sempre vigilante, consciente e bem organizada que o Mensageiro (S.A.A.S.) colocou sob sua liderança os cinco mil habitantes. As duas principais tribos dos ansar estavam divididas em doze subtribos e havia entre elas um longo conflito histórico. Os habitantes comuns também estavam atormentados por conflitos e confrontos. Isso porque tanto os árabes quanto os judeus viviam divididos em dois grupos, e sempre havia algum conflito entre as duas partes por uma razão ou outra. Assim, todas as comunidades estavam exaustas pelas guerras, hostilidades e disputas, e ansiavam pela paz. Para satisfazer essa sede universal de paz, tornou-se intensa a necessidade de uma liderança construtiva. Pouco tempo antes, preparava-se a coroação de Abdullah ibn Ubayy para preencher o vazio de liderança. Porém, ao ouvirem subitamente falar do Mensageiro (S.A.A.S.) e de seu chamado, a atenção dos ansar voltou-se para ele.
A situação dos judeus também havia chegado a tal ponto que seus dois grandes grupos estavam internamente divididos em dez subtribos e eram rivais entre si.
Esses judeus, distantes da terra natal de seu povo, estavam atormentados pelo temor de que sua existência fosse destruída. Então, quando o Mensageiro (S.A.A.S.) subitamente incorporou os ansar ao seu lado e a antiga relação de aliança entre eles e os judeus começou a se romper, os judeus sentiram como se o chão lhes estivesse desaparecendo sob os pés. Nessa situação, o Mensageiro (S.A.A.S.), sob a orientação da revelação de Allah, fez todo o possível para conquistar os corações dos judeus e atrair seus bons sentimentos. Como resultado desse esforço, o ambiente tornou-se favorável ao estabelecimento de um consenso político. O fato de conhecer os habitantes de todas as classes de Medina, estar informado sobre seus interesses, problemas e psicologia, e conduzir todos na direção de um mesmo objetivo — uma grandiosa realização política concluída em tão pouco tempo — elevou o Mensageiro (S.A.A.S.) a uma posição política tão elevada que ficamos atônitos só de pensar nisso. O grupo muçulmano já possuía, por si só, sob a liderança de Muhammad (S.A.A.S.), uma organização extremamente firme e sólida em termos de crença e moralidade. Além disso, o juramento de aliança de Aqaba havia-o transformado em um grupo político revolucionário. E, por ser um grupo idealista, também possuía naturalmente a capacidade de se desenvolver e evoluir; por isso, esse grupo adquiriu facilmente a máxima importância em Medina. As tribos dos ansar não tinham nenhum ideal alternativo, nem liderança. Isso porque a maioria de seus chefes já havia aderido ao movimento islâmico. Embora os politeístas ou judeus presentes nessas tribos não fossem tão poucos em número, não se envolviam em nenhuma atividade de oposição. Eram silenciosos e seguidores dos muçulmanos em posição de liderança. Uma ou duas tribos árabes ou judaicas não tinham grande importância diante dos muçulmanos. Essa composição dos habitantes de Medina estava inteiramente de acordo com o plano de ação do Mensageiro (S.A.A.S.). Assim, depois de resolver os problemas iniciais, ele construiu a estrutura política em poucos meses. Segundo a análise dos orientalistas europeus, o pacto em questão continha cinquenta e três cláusulas. À luz dos registros históricos, surgiu uma divergência sobre um ponto relativo a esse pacto. Alguns dizem que ele foi registrado integralmente no primeiro ano da Hégira. Segundo outros, uma parte foi registrada no primeiro ano e a outra parte depois da Batalha de Badr. Ou seja, na perspectiva dos historiadores ocidentais, ele tinha duas partes distintas: as cláusulas 1 a 23 e as cláusulas 24 a 47. Se aceitarmos essa segunda opinião, também encontraremos nisso um sinal da sabedoria e da prudência políticas do Mensageiro (S.A.A.S.). Primeiro, o Mensageiro (S.A.A.S.) construiu a estrutura política com os muhajirun e todos os ansar, incluindo os não muçulmanos. Depois, as tribos judaicas talvez tenham se sentido isoladas, fracas e ameaçadas. Politicamente, porém, haviam caído numa situação de não pertencer nem a este nem àquele lado. Quando então viram os muçulmanos retornarem vitoriosos do campo de Badr — algo que jamais haviam imaginado —, talvez tenham pensado que ainda deveriam, enquanto havia tempo, ocupar um lugar apropriado na estrutura de Medina.
O comentário do Dr. Hamidullah Siddiqi sobre esse pacto constitucional é que não há exemplo semelhante em toda a história. Ele foi redigido com altíssimo nível de habilidade política e em uma linguagem documental extremamente cuidadosa. Por meio dele, o Mensageiro (S.A.A.S.) obteve de pessoas de todas as classes e comunidades o reconhecimento dos valores ideológicos e políticos que desejava. Parece pertinente discutir aqui os pontos importantes desse documento, para que se possa avaliar corretamente seu valor e sua importância política.
Este documento começa com “Bismillahir-Rahmanir-Rahim”. Seu título é: “Este documento escrito foi emitido pelo Profeta Muhammad, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele.”
Assim, já no início foi estabelecido o fundamento da ideologia política básica do Islã. Os muçulmanos foram colocados como elemento central da estrutura política formada com base nesse documento. Como se afirma logo no início:
“Os coraixitas e os habitantes de Yathrib são crentes e muçulmanos, assim como aqueles que os seguem, os que se juntam a eles e os que participam da jihad com eles (para determinar as relações entre todos eles)”
Nele, os crentes vindos de Meca e os crentes de Medina são mencionados como os elementos centrais do Estado. Os demais obterão a cidadania como seus seguidores. Ao fazer das tribos judaicas partes do pacto e empregar a expressão “junto com os crentes”, elas foram politicamente incluídas na mesma umma (do artigo 25 ao 35).
Nele também se afirma que “os crentes são irmãos uns dos outros” (artigo 15). Todos os muçulmanos foram declarados participantes em igualdade tanto na guerra quanto na paz (artigo 17). Os muçulmanos receberam ordens rigorosas para permanecerem unidos na aplicação do qisas (execução do assassino) e jamais darem abrigo ao homicida. Isso, porém, não significa que alguém deva cometer excessos; quem os cometer deve ser punido (artigos 19, 21 e 32). Nenhum crente pode matar um crente em retaliação por um infiel, nem qualquer crente pode ajudar um infiel contra outro crente (artigo 14). Qualquer muçulmano, mesmo o mais humilde, pode conceder proteção a qualquer pessoa, e todos devem assumir essa responsabilidade como um encargo confiado por Allah (artigo 15). Quando surgir uma divergência, deve-se buscar a decisão de Allah e de Muhammad, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele (artigo 23). É dever dos crentes tementes a Allah unirem-se para combater todo pecado, crime e opressão (artigo 13). Na parte inicial, para revigorar a inspiração ideológica da Constituição, afirma-se repetidamente que esta ou aquela tribo (muçulmana) deve observar a “justiça” e a “equidade” no pagamento do resgate e em assuntos semelhantes. E isso deve ser feito “no sentido geralmente adotado entre os muçulmanos” (artigos 3 a 12). O importantíssimo termo islâmico ‘fi سبيل الله’ foi incluído nesta Constituição (artigo 19). Do mesmo modo, os três termos ‘opressão’, ‘pecado’ e ‘boa ação’ também foram incluídos (artigo 36). A Constituição também afirma que os crentes tementes a Allah e moderados estão no caminho mais correto (artigo 20). A afirmação “é direito do oprimido receber ajuda” apresenta um princípio islâmico autêntico, que também é um princípio universalmente humano. Todas as partes reconheceram esse princípio, e também se declarou que Allah apoiará aquele que cumprir as disposições desta Constituição com a máxima sinceridade e lealdade (artigos 42, 46 e 47).
Vejam também com que clareza as questões políticas foram resolvidas neste documento. A área residencial dos signatários do documento, isto é, a região central da cidade de Medina, com cerca de cem milhas quadradas (a descrição geográfica de Medina já foi apresentada anteriormente), foi mencionada como o território inicial do Estado Islâmico e também declarada área sagrada (artigo 39). Foi anunciado previamente que, entre a comunidade judaica, aqueles que se tornassem nossos seguidores receberiam ajuda e direitos iguais, com todos os direitos civis. A disposição que afirma isso reflete sabedoria e discernimento político. Por meio dela, ao mesmo tempo em que se incentiva a aceitação do Islã, também se oferece uma solução para qualquer crise política (artigo 16). Todos os signatários deste pacto foram declarados uma única unidade política: *********** (artigo 1). O maior exemplo de sabedoria e discernimento político é o artigo 23, que concede exclusivamente a Allah e ao Seu Mensageiro Muhammad, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, o direito de resolver qualquer divergência; e, se ocorrer qualquer conflito, disputa ou homicídio, isso também deverá ser apresentado a Allah e ao Mensageiro de Allah, Muhammad, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele (artigo 42). Não se pode impedir a retaliação por uma agressão ou homicídio (artigo 36). A responsabilidade pela opressão do opressor e pelo crime do homicida recairá somente sobre o próprio criminoso ou sua família (antes, toda a tribo e o clã do criminoso eram responsabilizados), e não sobre qualquer outra pessoa (artigos 25 e 26). Cada tribo foi considerada a unidade básica da estrutura política e, partindo desse reconhecimento, estabeleceu-se sobre ela a base do governo central.
Quanto à política de defesa, ficou estabelecido que, se Yathrib fosse atacada, seria obrigatório que as partes signatárias prestassem ajuda mútua (artigo 44). Se alguém entrasse em guerra contra qualquer uma das partes signatárias do pacto, seria dever de todos os signatários ajudá-la sinceramente contra ele (artigo 37). Por meio de uma disposição, este documento também confiou ao Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, a autoridade sobre a defesa. Estabeleceu-se que ninguém poderia empreender qualquer ação militar sem a permissão do Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele (artigo 36). Nenhuma das partes teria responsabilidade pelos combates religiosos próprios de outra parte (artigo 45). Quando os aliados fossem convocados para um tratado de paz, também fariam a paz junto com todos os demais (artigo 45). Para impedir definitivamente qualquer possibilidade de aliança com os coraixitas, todos também foram levados a reconhecer que nenhum politeísta — cidadão não muçulmano de Medina — daria proteção à vida ou aos bens dos coraixitas, nem impediria qualquer crente de agir nesse assunto (artigo 20). Não se daria proteção aos coraixitas nem àquele que lhes oferecesse proteção (artigo 43). Quanto ao custeio militar, o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, acrescentou com grande sabedoria a disposição de que cada parte arcaria sozinha com as despesas de sua própria guerra (artigos 37–44). Pois ele sabia que os judeus seriam avarentos quanto à sua contribuição e, se um fundo comum ficasse em suas mãos, eles o desviariam.
No campo econômico, por um lado, a responsabilidade pelo pagamento da indenização por homicídio e do resgate dos prisioneiros de guerra foi atribuída, segundo o costume vigente na Arábia, à tribo da pessoa envolvida. Do mesmo modo, o peso da dívida de uma pessoa endividada que tivesse perdido a capacidade de pagá-la também passou a ser assumido coletivamente.
No que diz respeito à liberdade religiosa, estabeleceu-se que os muçulmanos teriam a religião dos muçulmanos, e os judeus, a religião dos judeus (artigo 25). Na realidade, a nação muçulmana constituía uma única unidade tanto no aspecto religioso quanto no político, e sobre ela recaía uma responsabilidade dupla. Contudo, nas relações estritamente políticas, concedeu-se a todas as partes aliadas a liberdade de seguir suas próprias religiões. (Sīrat Ibn Hisham, volume 2, pp. 119–123; Ahde Nabavi Ka Nezame Hukmrani, Dr. Hamidullah Siddiqi, pp. 76–111.)
Agora examinem as disposições mencionadas, artigo por artigo, como um resumo do documento, e reflitam sobre cada parte: com quanta habilidade e discernimento o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, estabeleceu seu ideal como fundamento da Constituição do Estado Islâmico multinacional de Medina, consolidando sua liderança e autoridade em todos os aspectos militares e judiciais. Ele estabeleceu como responsabilidade coletiva de todos enfrentar os coraixitas e fez com que todos concordassem em aceitá-la. Além disso, impediu antecipadamente numerosos caminhos de possíveis ameaças. Deve-se observar que este pacto tinha a dignidade de um documento constitucional. Nenhum de seus signatários tinha o direito de se desligar dele ou rompê-lo quando quisesse. Se o fizesse, perderia os direitos civis que haviam surgido, dentro dos limites deste Estado Islâmico, justamente como resultado do pacto. Por isso, contra as tribos judaicas que posteriormente violaram completamente esse pacto foram tomadas exatamente as medidas que cabiam aos rebeldes e traidores.
Neste contexto, é necessário compreender, à luz deste documento, o significado da obrigatoriedade da Hégira. Um dos objetivos da obrigatoriedade da Hégira era fortalecer ainda mais a nação muçulmana sobre a qual se fundamentava o Estado Islâmico de Medina. É verdade que, se os muçulmanos permanecessem dispersos, um ou dois aqui e ali, sob o sistema tribal árabe, seu destino poderia ser que, após alguma resistência e conflitos, acabassem um dia absorvidos pela sociedade jahilí ou morressem vítimas da opressão e da perseguição. Por essa razão, era indispensável reunir e organizar todos os muçulmanos. Além disso, para a estabilidade do Estado Islâmico de Medina, era necessário que todos os muçulmanos dispersos viessem de todos os lugares e se reunissem em Medina. Mais tarde, quando nenhuma dessas duas necessidades continuou existindo, foi proclamado: “Com a conquista completa alcançada, já não há necessidade de Hégira.” Ou seja, quando toda a Península Arábica se tornou a “terra do Islã” (Dar al-Islam), ficou sob a autoridade de Medina e deixou de haver, em qualquer região, bloqueios ou obstáculos para os que aceitassem o Islã, a obrigação de emigrar para Medina foi suspensa.
Com base nesse pacto, o Estado Islâmico de Medina foi estabelecido, assim como a liderança de Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Pela primeira vez, os muçulmanos tiveram a oportunidade de pregar livremente o Islã numa área de cem milhas quadradas, habitada por cinco mil pessoas. Ali, o poder político do Islã também contribuía naturalmente para o trabalho de pregação. Além disso, a presença do governo islâmico ajudou os muçulmanos a difundir a pregação nas proximidades de Medina.
3. Pactos com diferentes tribos
Ao mesmo tempo que se empenhava em transformar Medina numa unidade política e em estabelecer as bases do Estado Islâmico, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) também se esforçava para organizar as tribos vizinhas. Em duas ou três ocasiões, enviou delegações compostas por nobres Companheiros. No décimo segundo mês após a Hégira, isto é, no mês de Safar, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) foi pessoalmente a Waddan (um lugar no caminho de Medina para Meca). Ali, celebrou um pacto com a tribo de Banu Hamza, ou Banu Damra. Amr ibn Fahshi al-Damri assinou o pacto em nome daquela tribo. (Ibn Hisham, vol. 2, pp. 4–223; Zad al-Ma’ad, vol. 1, p. 334; Rahmat lil-‘Alamin, vol. 1, p. 138).
Antes disso, um grupo de emigrantes havia chegado até o lugar vizinho de ‘Is, criando condições favoráveis para o estabelecimento de relações de amizade. (Rasul-e Akram ki Siyasi Zindagi, Dr. Hamidullah Siddiqi, p. 359.) Depois, no mês de Rabi al-Awwal do segundo ano da Hégira (o décimo terceiro mês após a Hégira), o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) visitou novamente a região de Bu’at (uma das montanhas de Juhayna, na área de Yanbu). Também foram realizadas conversações bem-sucedidas com a população local e estabeleceram-se relações de amizade. (Rahmat lil-‘Alamin, vol. 1, p. 139; Zad al-Ma’ad, mesma página.) Em seguida, no mês de Jumada al-Thani, visitou Dhu al-‘Ushayra (na região de Yanbu). Ali, manteve longas conversações com Banu Mudlij e seus aliados, Banu Damra, e também celebrou um pacto com eles. (Ibn Hisham, vol. 2, p. 239; Rahmat lil-‘Alamin, vol. 1, p. 139).
Alguns historiadores antigos opinam que, como resultado desses pactos, essas tribos e regiões haviam de fato se tornado partes da estrutura estatal de Medina. A prova disso é que alguns trechos e termos desses pactos são semelhantes aos do pacto constitucional, isto é, o pacto de Medina. Mesmo que essa opinião não seja aceita quanto ao período mais inicial da história, não há dúvida de que, posteriormente, a tribo de Juhayna foi uma das primeiras a aceitar o Islã. Uma grande delegação de mil pessoas veio a Medina, encontrou-se com o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e ofereceu garantias de cooperação. Seus membros também participaram de várias guerras. Os registros dos contatos do Estado Islâmico com os vários ramos dessa tribo comprovam isso. Por exemplo, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) concedeu por escrito a Banu Jurmuz, um ramo de Juhayna, um certificado de paz e segurança. A outro ramo de Juhayna, Banu Shamak ou Shak, concedeu toda a sua região como feudo permanente. Do mesmo modo, concedeu a Awsaja ibn Harmal al-Juhani um feudo perto de sua residência, em Dhu al-Mirrara. Quando, devido ao pacto de Hudaybiyyah, Abu Basir e seus companheiros já não puderam ir a Medina, emigraram de Meca e vieram para essa região costeira. Não é de admirar que chefes como Azusar os ajudassem e que, com o auxílio dos habitantes locais, resistissem às caravanas coraixitas. (Siyasi Zindagi, Dr. Hamidullah Siddiqi).
As relações avançaram ainda mais e, graças ao convívio mútuo, o trabalho de pregação prosseguiu. O resultado foi que as tribos, em conjunto, se tornaram portadoras da bandeira do movimento islâmico. Conhecemos o relato da conversão de Uqba al-Juhani ao Islã. No final da vida do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), foi assinado um novo tratado de paz com Banu Jurmuz, Banu al-Harqa e Amr ibn Ma’bad. Nele, assim como no caso de outras tribos muçulmanas, foram estabelecidas as condições de que a oração e o zakat deveriam ser cumpridos corretamente; um quinto dos espólios deveria ser entregue conforme prescrito; as relações com os opositores do Islã deveriam ser rompidas; e os juros das dívidas deveriam ser abandonados. Ainda durante a época da profecia, uma mesquita foi construída em Medina em nome da tribo de Juhayna. Isso mostra que um grande número de membros da tribo de Juhayna havia se tornado muçulmano e vindo para Medina.
Entre as tribos cujos numerosos membros haviam aceitado o Islã muito tempo antes estava Banu Ghifar. Essa tribo foi influenciada por um de seus membros e jovem exemplar, Abu Dharr al-Ghifari. Por volta da Batalha de Badr, eles assinaram um pacto com o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). O ponto central do pacto era: “Eles são muçulmanos, e suas responsabilidades e obrigações são iguais às dos muçulmanos.” Embora uma parte desse pacto tivesse em vista os membros não muçulmanos da tribo, na minha opinião, essa tribo havia de fato se tornado parte da estrutura social de Medina. Portanto, não há razão para não considerar seu território como estando sob a jurisdição de Medina.
Um ramo dos Banu Damra era o dos Banu Ghifar, e outro era o dos Banu Abd ibn Adi. Esta última tribo vivia dentro dos limites do Santuário Sagrado. Embora esse ramo mantivesse, por obrigação, relações de conciliação com os coraixitas, estabeleceu relações de aliança com o governo muçulmano. Exceto em um assunto, estabeleceu relações de aliança com o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) em todos os demais assuntos. O assunto excluído era combater os coraixitas.
A tribo Banu Ashja era um ramo da tribo Banu Ghatafan. Eles também viviam nas proximidades da grande rota comercial. Quando o comércio dos coraixitas parou devido ao bloqueio da grande rota, sua economia foi prejudicada, pois essas tribos ganhavam a vida prestando serviços às caravanas comerciais. Obrigados pela crise econômica, enviaram uma delegação a Medina. Depois, antes da Batalha da Trincheira, aceitaram o Islã e assinaram um tratado. Em nome deles, Na’im ibn Mas’ud assinou o tratado. Na’im ibn Mas’ud passou a fazer parte do movimento islâmico justamente durante a Batalha da Trincheira. Por isso, no momento do tratado, a tribo inteira não havia aceitado o Islã. Ainda assim, a natureza da base do tratado pode ser compreendida a partir de uma única frase. A frase era:
*********** “Foi estabelecida uma relação ampla e abrangente de auxílio e busca do bem.” Um ramo dessa tribo, os Banu Amir, obteve do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) uma licença de direito exclusivo para prestar assistência às caravanas durante suas paradas. Um dos chefes da tribo Banu Amir também recebeu uma concessão de terras antes da Batalha da Trincheira.
Agora mencionarei as alianças estabelecidas depois da Batalha da Trincheira. A tribo Khuzā’a era descendente de Qahtan, do Iêmen, e possuía muitos ramos. Viviam dispersos nas proximidades de Meca. Com exceção dos Banu Mustaliq, a maioria dos ramos dessa tribo mantinha boas relações com os muçulmanos. Uma das razões principais era que Abd al-Muttalib mantinha relações amistosas com eles. Aproveitando a oportunidade oferecida pelo Tratado de Hudaybiyyah, essa tribo abandonou publicamente os coraixitas e estabeleceu uma aliança com o governo islâmico de Medina. Graças a essa aliança, por um lado, a tribo informou o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) sobre os preparativos dos coraixitas para a Batalha dos Confederados, isto é, a Batalha da Trincheira. Por outro lado, antes da conquista de Meca, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) enviou-lhes uma carta assegurando que não sofreriam qualquer dificuldade. Ele também informou que os Banu Kilab e os Banu Hawazin haviam aceitado o Islã. Porém, antes que chegasse o momento oportuno, essas duas tribos foram vítimas da opressão e perseguição dos Banu Bakr, e foi justamente essa opressão e perseguição que acabou levando à conquista de Meca.
Os Banu Aslam eram um ramo da própria tribo Khuzā’a. Pelo salvo-conduto concedido pelo Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) em nome deles, entende-se que haviam aceitado o Islã relativamente cedo e se tornado súditos do Estado Islâmico. Uma parte deles migrou para Medina e ali se estabeleceu. O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) também concedeu uma concessão de terras ao seu chefe, al-Husayn ibn Aws. Isso constitui uma prova da força da relação de aliança e também demonstra a integração das áreas ligadas a Medina.
As tribos Juzam, Quda’a e Adhra viviam ao norte de Tabuk e, com suas atividades hostis, haviam criado problemas consideráveis para o governo islâmico. Elas haviam saqueado todos os bens do mensageiro de Medina. Depois, foram tomadas medidas punitivas contra elas. Por engano, algumas pessoas inocentes também foram atingidas por essa medida. Elas foram a Medina para apresentar sua queixa, e receberam indenização. Assim, abriu-se também o caminho para as relações. Entre as cartas do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) que foram preservadas, há uma dirigida a Rifa’a ibn Zayd al-Judhami. Nela, foi emitido um ultimato extremamente severo. Na carta dirigida a esse chefe, toda a sua tribo foi advertida: ou aceitariam o convite ao Islã e se juntariam ao grupo de Allah e de Seu Mensageiro, ou, caso rejeitassem o convite, poderiam viver em segurança por dois meses. A situação evoluiu finalmente da seguinte maneira: depois que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) retornou de Tabuk, no nono ano da Hégira, Malik ibn Amir al-Judhami foi a Medina, encontrou-se com o Mensageiro e obteve um salvo-conduto. Esse salvo-conduto menciona apenas condições aplicáveis às tribos muçulmanas; isto é, eles haviam aceitado o Islã. Do mesmo modo, durante uma expedição, um chefe da tribo Quda’a, Barida ibn al-Hasir, encontrou-se com o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) fora de Medina e obteve um salvo-conduto, prometendo ao Mensageiro que sua tribo aceitaria o Islã.
No sexto ano da Hégira, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) enviou Abd al-Rahman ibn Awf em uma missão de convite à tribo Kalb. O resultado foi exatamente o que ele esperava. O chefe daquela tribo, com o propósito de manifestar sua lealdade e consolidar as relações, casou sua filha com Abd al-Rahman ibn Awf. Da mesma forma, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) emitiu um salvo-conduto em nome de Haritha ibn Butun, o chefe recém-convertido da tribo Malb, situada nos arredores de Dumat al-Jandal. Também foi firmado um tratado de paz com Ukaidir, governante de Dumat al-Jandal. Há, porém, divergência sobre se ele havia aceitado o Islã ou se conseguira permanecer no cargo de chefe ao concordar em pagar a jizya sem aceitar o Islã. Mais tarde, contudo, rebelou-se e foi morto pelas mãos de Khalid. Depois, sua fortaleza e suas terras foram entregues à autoridade do chefe kalbi Haritha ibn Qutun.
Antes da aceitação geral do Islã pelos habitantes de Ta’if, Sard ibn Abd Allah al-Yamani juntou-se ao movimento islâmico. O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) nomeou-o comandante para conduzir operações militares naquela região. Com a autorização do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), ele sitiou a fortaleza de Juras. Como resultado desse cerco, foi firmado um tratado de paz, e Abu Sufyan foi nomeado governador de Ta’if.
No oitavo ano da Hégira, Amr ibn al-As foi até a tribo de Banu Izd, residente na cidade de Omã, levando uma carta de pregação do Mensageiro. Dois homens chamados Ubaid e Jafar eram seus chefes. Banu Izd abraçou o Islã.
Mais adiante, trataremos das tribos que, no Ano das Delegações, enviaram voluntariamente delegações, abraçaram o Islã ou, pelo menos, prestaram obediência ao governo de Medina.
Além disso, sempre que, como resultado de uma expedição militar, algum grupo manifestou o desejo de prestar lealdade ou firmar um tratado, essa oportunidade lhe foi concedida imediatamente. A política permanente do Estado de Medina era que, sempre que qualquer pessoa em guerra expressasse o desejo de firmar um tratado, sua vontade seria respeitada. Depois de entrarem no campo de batalha, várias tribos aceitaram a submissão e a sujeição políticas ou abraçaram o Islã. O caso dos judeus de Khaibar e das áreas vizinhas é digno de menção nesse contexto. Depois de serem derrotados, quando quiseram permanecer ali mesmo, foi-lhes permitido ficar, sob condições estabelecidas.
Ao analisar todos esses acontecimentos, não há como deixar de reconhecer que evitar conflitos e estabelecer relações de amizade era a política mais importante das atividades do governo de Medina. Havia uma seção dedicada a isso. O Mensageiro e seus companheiros realizaram muitas atividades e viagens em prol desse objetivo. Essas atividades constituem uma prova eloquente da perspectiva pacífica do Estado islâmico. Além disso, embora conhecesse as exigências e necessidades de um Estado ideológico nesse assunto, o Mensageiro demonstrou tamanha liberalidade na definição de suas políticas que aceitou até mesmo relações de amizade meramente políticas por parte das tribos que não haviam abraçado o Islã. Em vários casos, também nomeou governantes ou chefes não muçulmanos por sua própria iniciativa, ou os manteve em seus cargos. O objetivo era justamente reduzir ao nível mais baixo possível a possibilidade de conflito. Mais tarde, porém, à luz de muitas experiências amargas, foi necessário decidir que, para manter sagrado e pacífico pelo menos o território que constituía a principal base do movimento islâmico, era preciso libertar seus arredores de pessoas hostis. Caso contrário, sua traição acabaria causando uma catástrofe.
Ao examinar as relações de amizade descritas, percebe-se que, onde quer que o Islã tenha chegado, o Estado de Medina obteve espontaneamente a lealdade política daquele lugar. Do mesmo modo, onde quer que se estabelecesse uma relação de amizade política, a bandeira do Islã era hasteada pouco depois. A razão é clara. Quando as tribos tiveram mais oportunidades de conviver com os muçulmanos de Medina, ficaram maravilhadas ao testemunhar com os próprios olhos as características extraordinárias do sistema de vida islâmico, enquanto os integrantes do movimento islâmico encontraram entre elas um ambiente pacífico para realizar seu trabalho de pregação. Foi graças a essa união entre religião e política que uma área de dez a doze milhões de quilômetros quadrados pôde ser tingida com as cores do Islã em apenas alguns anos.
O Tratado de Hudaibiyah
Na história do movimento islâmico dirigido pelo Mensageiro, o Tratado de Hudaibiyah foi um acontecimento que introduziu a mudança mais importante no curso dos eventos. Como resultado, o movimento islâmico teve a oportunidade de se expandir de um salto até alcançar uma dimensão universal. Esse acontecimento comprovou a mais elevada visão política e prudência do Mensageiro: ele conseguiu induzir com facilidade o pior e mais cruel dos inimigos em guerra a chegar a um acordo e, por vários anos, atou-lhe as mãos.
Quando os judeus exilados por rebelião e traição foram para Khaibar, Tayma e Wadi al-Qura e estabeleceram ali suas bases, Medina viu-se diante de dois inimigos ao mesmo tempo. A aliança entre os coraixitas e os judeus havia levado um grande número de soldados invasores a se posicionar diante de Medina. Depois de sair em segurança da Batalha da Trincheira, o Mensageiro deparou-se com um problema complexo: como romper a aliança entre esses dois inimigos. Na situação atual, se lançasse um ataque contra Meca, os judeus de Khaibar e Banu Ghatafan poderiam atacar Medina. O Mensageiro conseguiu avaliar com extrema precisão que, entre esses dois inimigos, era possível destruir de um só golpe a base judaica de Khaibar. Ao mesmo tempo, seria fácil induzir os coraixitas de Meca a firmar um tratado. Na realidade, a força dos coraixitas já estava oca por dentro. Por mais que se vangloriassem externamente, sua capacidade de resistência não era grande. Além disso, o Mensageiro tinha alguns apoiadores em Meca e seus arredores. Algumas de suas medidas haviam fortalecido ainda mais esses apoiadores. Durante os dias de fome, o Mensageiro enviara cereais e dinheiro para Meca, conquistando grande popularidade entre a população pobre dali. Por isso, Abu Sufyan dissera: “Agora Muhammad quer desviar nosso povo dessa maneira.” O Mensageiro também havia tomado outra medida: casara-se com Umm Habiba, filha de Abu Sufyan, o maior líder de Meca. Esse casamento trouxe benefícios políticos extremamente importantes. De todo modo, fosse como fosse, ainda era necessário tomar outra medida, e o Mensageiro estava fazendo o máximo para isso.
Por outro lado, havia também um problema muito sério: os muçulmanos haviam deixado Meca há quase seis anos. A questão não se limitava apenas ao amor pela terra natal; estava também ligada à Caaba Sagrada, centro da missão do profeta Ibrahim (que a paz esteja sobre ele). Os muçulmanos estavam renovando justamente essa missão abraâmica. Portanto, não lhes era possível permanecer para sempre separados desse centro ideológico. Até então, os coraixitas não permitiam que fossem a Meca e, aparentemente, seria necessário muito tempo para resolver esse conflito. Por isso, as emoções dos muçulmanos tornavam-se cada vez mais inquietas e exaltadas. Tornara-se urgente declarar que a comunidade islâmica tinha direito ao Haram Sagrado.
Enquanto isso, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) recebeu, em sonho, uma indicação de que realizaria o hajj. Assim que recebeu essa indicação, com sua incomparável sabedoria, adotou o melhor programa no momento mais adequado e o executou da melhor maneira. Decidiu realizar a umra no mês sagrado do hajj, levando consigo uma grande comitiva. Levou apenas aqueles que desejaram acompanhá-lo voluntariamente. Cerca de mil e quatrocentos muçulmanos tornaram-se seus companheiros. Nomeou Numayla ibn Abdullah al-Laythi governador interino de Medina e deixou uma grande parte dos muçulmanos para proteger a cidade. Levou consigo setenta camelos destinados ao sacrifício. Nenhuma arma foi levada. A viagem começou em absoluto silêncio. Ao chegarem a Dhul-Hulayfa, os animais destinados ao sacrifício foram marcados.
Por um lado, essa viagem era religiosa. Por outro, incluía naturalmente um importante aspecto político. Essa combinação e integração entre religião e política pode ser observada ao longo de toda a vida do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Além disso, é plenamente legítimo incluir atividades mundanas ou iniciativas políticas numa viagem de hajj. Por isso, essa peregrinação tornou-se um enorme desafio para os coraixitas. Se esses peregrinos do Haram Sagrado não fossem impedidos, isso significaria que Meca se tornaria definitivamente aberta aos muçulmanos. Além disso, era provável que a chegada do Mensageiro e de seus companheiros ao Haram Sagrado causasse um impacto muito profundo nos habitantes da cidade. Com a chegada desses convocadores da revolução islâmica, o movimento islâmico seria revitalizado na mente dos habitantes de Meca. O povo também diria que o antigo poderio esmagador dos coraixitas havia chegado ao fim. Isso ficou ainda mais claro posteriormente, nas discussões sobre o tratado de paz, pelas palavras do representante de Meca, Suhayl ibn Amr. Ele disse: “Se permitirmos que vocês entrem na Caaba Sagrada, todos os árabes dirão que abrimos o caminho por medo do poder de vocês.”
O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) já havia descoberto tudo enquanto estava a caminho. Um espião khuzaita chamado Bashir ibn Sufyan chegou ao local chamado Usfan e informou que os coraixitas estavam organizando uma resistência. Eles haviam prometido que jamais permitiriam que Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) entrasse em Meca. Para impedi-lo, Khalid havia chegado até Kura al-Ghamim com uma tropa de cavalaria. Ao ouvir isso, o Mensageiro disse: “Este é o infortúnio dos coraixitas. Lutando continuamente, sua força se esgotou. Que dificuldade haveria se eles se afastassem e me deixassem sozinho para chegar a um entendimento com todos os árabes? Se os árabes me eliminassem, sua esperança se realizaria. E, se eu triunfasse, eles poderiam aceitar o Islã todos juntos, se quisessem. Caso contrário, teriam sua força e poderiam então lutar. Se não me derem essa oportunidade, juro por Allah que lutarei até o último momento, com a grande verdade com a qual Ele me enviou, até que essa grande verdade triunfe ou minha cabeça seja cortada.” Com essas palavras, ele deu a entender a possibilidade de um acordo, apresentou também um ultimato e indicou a situação decadente dos coraixitas.
Por outro lado, mesmo que conseguissem impedir a caravana dos peregrinos, a imagem dos coraixitas ficaria prejudicada. Espalhar-se-ia a má reputação de que haviam impedido o exercício de um direito religioso. E, se eles conduzissem o primeiro ataque, seriam acusados de violar as regras do mês sagrado. Todos já sabiam que, da parte do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), havia sido demonstrado pleno respeito pela santidade do Haram Sagrado e que eles viajavam desarmados apenas para realizar a umra. O fato de não portarem armas e os animais marcados para o sacrifício testemunhavam a natureza de sua viagem. Pode-se dizer que os coraixitas estavam cercados por uma situação extremamente complexa. Nesse momento delicado, seu líder máximo, Abu Sufyan, encontrava-se ausente. Por mais que os coraixitas fizessem ameaças, somente o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) possuía a perspicácia necessária para perceber que não lhes restava alternativa senão fazer um acordo. É justamente a sabedoria de uma avaliação precisa que pode mudar uma situação. Assim se reconhece o verdadeiro valor da sabedoria e da visão interior de um homem de ação.
Movidos pela antiga teimosia e obstinação, os coraixitas reuniram rapidamente as tribos aliadas, especialmente os ahabish, no local chamado Baldah.
Imediatamente começaram as atividades diplomáticas. Primeiro, o chefe da tribo dos Khuzā‘a, Budail ibn Warqā — que era simpatizante do Islã — veio encontrar-se com o Mensageiro de Allah, acompanhado de alguns companheiros importantes. O Mensageiro de Allah informou-lhe: “Viemos apenas para visitar a Caaba Sagrada. Não temos a intenção de lutar. Os coraixitas estão embriagados pelo desejo de guerrear, embora a guerra não lhes traga nada além de prejuízo. Que mal haveria se os coraixitas fizessem uma trégua conosco por alguns anos?” Assim, o Mensageiro de Allah apresentou desde o início sua verdadeira posição. Budail foi falar com os coraixitas. Disse-lhes: “Não se precipitem. Muhammad, que a paz esteja com ele, não veio para lutar; veio somente para realizar a visita. Os jovens de temperamento agressivo não estavam dispostos a ouvir qualquer argumento. Os mais velhos, porém, ouviram tudo. Então enviaram o líder dos Ahābīsh, Ulays ibn Alqama. Quando ele viu o rebanho de animais destinados ao sacrifício pastando no campo, mudou de atitude. Foi aos coraixitas e disse abertamente que não era correto impedir aqueles peregrinos. Nós também não viemos com esse objetivo. Acalmaram o líder dos Ahābīsh, dizendo-lhe: “Ao menos, dê-nos a oportunidade de fazê-los aceitar nossas condições.” Depois disso, os coraixitas enviaram Urwa ibn Mas‘ud Thaqafī como representante. Urwa veio e disse: “Ó Muhammad! Se você destruir os membros de sua própria tribo, isso não será algo digno de louvor. Você reuniu e trouxe consigo todos esses arruaceiros; quando eles o abandonarem depois de alguns dias, você ficará sozinho.” Ao ouvir isso, Hazrat Abu Bakr Siddiq ficou irado e repreendeu Urwa com palavras um tanto severas. Segundo o costume árabe, Urwa falava de maneira íntima e, sempre que levava a mão à barba do Mensageiro de Allah, Hazrat Mughira ibn Shu‘ba imediatamente afastava sua mão, empurrando-a com a ponta afiada da espada. O Mensageiro de Allah também apresentou sua posição diante de Urwa. Profundamente impressionado com o ambiente que encontrou, Urwa voltou. Ao retornar, disse: “Nunca vi, nem mesmo na corte de qualquer rei ou soberano, uma demonstração de amor e lealdade ao líder como a que presenciei. Os companheiros de Muhammad, que a paz esteja com ele, não hesitam em dar a vida por ele. Ao menor gesto de sua mão, estão prontos para morrer. Ninguém sequer fala em voz alta diante dele.” A reação de Urwa mostra que a verdadeira fonte da força do movimento islâmico é o profundo amor e a lealdade que o grupo nutre por seu líder. O amor e a lealdade são a verdadeira fonte da força do movimento islâmico. Quando amor e lealdade se unem, nasce uma força invencível. Quando existe um ambiente assim dentro de um grupo, ele enfraquece e aterroriza seus adversários. Não vigora aqui um ambiente semelhante ao de uma simples instituição democrática, na qual todos se ocupam em refutar os argumentos uns dos outros. O presidente não mantém uma relação sincera com os membros, e os membros tampouco sentem qualquer vínculo afetivo com o presidente. Considera-se suficiente obedecer exteriormente à constituição e aos regulamentos. Nos grupos em que ocorrem ataques contra o líder, maledicência, censura, murmúrios e novas conspirações todos os dias, o ambiente é tão imundo que chega a ser repulsivo pensar nele. O ambiente interno da organização islâmica é de benevolência, lealdade, dedicação e amor. A personalidade de cada membro é valorizada. No entanto, o líder permanece como o centro do amor de todos. Caso contrário, não se criaria entre eles um ambiente de misericórdia e amor, nem a organização islâmica se transformaria numa muralha de aço. No campo de Hudaybiyyah, essa característica da organização islâmica manifestou-se plenamente. Por isso, essa cena impressionou profundamente Urwa, e foi justamente essa reação que ele transmitiu às principais personalidades de Meca.
Com o objetivo de dar continuidade a esse processo de diálogo, o Mensageiro de Allah enviou Kharash ibn Umayya aos coraixitas. O ambiente anárquico e desregrado de Meca já era uma realidade. Os desordeiros mataram o camelo em que Kharash havia ido a Meca, pertencente ao Mensageiro de Allah. Ele próprio retornou com muita dificuldade, conseguindo salvar a vida. Depois, Hazrat Uthman, que Allah esteja satisfeito com ele, foi enviado. Um grupo de desordeiros saiu para observar a situação. Eles provocaram os muçulmanos em vários lugares e lançaram flechas e pedras contra eles. Foram presos. Contudo, visando um bem maior, o Mensageiro de Allah os libertou. Em suma, os homens belicosos entre os coraixitas tentavam provocar uma guerra de uma forma ou de outra. Mas Allah “conteve as mãos de ambas as partes”. Assim, o ambiente de paz permaneceu intacto, e o esforço para preservá-la foi vitorioso. Os coraixitas mantiveram Hazrat Uthman, que Allah esteja satisfeito com ele, detido, e sua volta demorou muito. Por causa dos acontecimentos funestos e indesejáveis, espalhou-se o rumor de que Hazrat Uthman, que Allah esteja satisfeito com ele, havia sido martirizado. O Mensageiro de Allah reuniu imediatamente os muçulmanos e obteve deles o compromisso de lutar até a morte, se necessário. Disse: “Se o acontecimento for verdadeiro, não voltaremos para casa sem lutar contra eles.” Naquele dia, a vida de Hazrat Uthman tornou-se extremamente valiosa. Pois, nas palavras do Mensageiro de Allah, a situação era esta: “Uthman foi cumprir a responsabilidade que Allah e Seu Mensageiro lhe confiaram.” Ele declarou uma de suas mãos como sendo a mão de Uthman, colocou sobre ela a outra mão em seu nome e disse: “Comprometam-se.” Seus companheiros já estavam tomados pela emoção. Com sinceridade, aproximaram-se ansiosamente, um após outro, para prestar o juramento de lealdade e assumir o compromisso. Aquele momento repentino era apropriado para aumentar a fé e formar o caráter; nesse momento, os muçulmanos elevaram-se a um nível tão alto que o Mensageiro de Allah disse: “Hoje vocês são os melhores entre todos os povos do mundo.” Graças ao fervor da fé e à sinceridade daquele momento, alcançaram o agrado de Allah. Somente um hipócrita, Jif ibn Qays, foi privado da felicidade daquele momento. Muitos momentos semelhantes surgem na vida dos soldados da verdade, e as almas dos sinceros extraem deles força. Os mil e quatrocentos muçulmanos receberam imediatamente, sem derramar uma gota de sangue, a recompensa por seu compromisso de lutar até a morte. Ao receberem a notícia, os coraixitas enviaram imediatamente Hazrat Uthman de volta, pois, na realidade, eles também queriam evitar a luta.
De Meca veio Mikraz ibn Hafs. Vejam como o Mensageiro de Allah era hábil em reconhecer as pessoas. Bastou vê-lo de longe para dizer: “Eis que vem um impostor.” Ou seja, ele informou que não seria possível resolver nada de maneira adequada por meio daquele homem.
Por fim, os coraixitas enviaram Suhayl ibn Amr. Ao vê-lo, o Mensageiro de Allah compreendeu que eles estavam preparados para a trégua. Houve conversas urgentes sobre as condições. Finalmente, Hazrat Ali, que Allah esteja satisfeito com ele, foi chamado para redigir o tratado.
O tratado estava sendo redigido num momento tão delicado que qualquer palavra poderia provocar uma explosão de tensão. No início do tratado, quando o Mensageiro de Allah ordenou que se escrevesse “Em nome de Allah, o Misericordioso, o Misericordiador”, Suhayl disse: “O que é isso de ‘o Misericordioso, o Misericordiador’? Conforme nossa prática, escreva-se apenas ‘Em Teu nome, ó Allah’.” O Mensageiro de Allah aceitou também essa exigência. Em seguida, disse: “Escreva: ‘O seguinte tratado foi celebrado entre Muhammad, o Mensageiro de Allah, e Suhayl ibn Amr’.” Suhayl objetou: “Se eu reconhecesse você como Mensageiro de Allah, acaso teria lutado contra você? Escreva apenas seu nome e o nome de seu pai.” Hazrat Ali já havia escrito “Muhammad, o Mensageiro de Allah”. Agora, pensando que apagar as palavras “o Mensageiro de Allah” seria uma grave falta de respeito, não conseguiu apagá-las. O Mensageiro de Allah pegou o documento e apagou pessoalmente aquelas palavras, substituindo-as por “Muhammad ibn Abdullah”.
Ao ver toda essa insolência de Suhail, os companheiros do Mensageiro (que a paz esteja com ele) estavam ficando extremamente agitados. Porém, por respeito ao Mensageiro (que a paz esteja com ele), mantinham a compostura. Então começaram a ser registrados os seguintes termos:
– Ambas as partes observarão uma trégua e um tratado de paz por dez anos.
– Os muçulmanos retornarão este ano e virão visitar a Caaba no ano seguinte. Nessa ocasião, permanecerão no Santuário Sagrado por apenas três dias, levando somente espadas embainhadas.
– As tribos árabes poderão estabelecer uma aliança com qualquer uma das duas partes, conforme desejarem.
– As caravanas comerciais dos coraixitas desfrutarão de plena segurança ao atravessarem os limites de Medina.
– Se algum coraixita for para Medina sem autorização, será devolvido. Porém, se algum muçulmano vier a Meca, não será devolvido.
Esta última condição provocou uma profunda inquietação entre os muçulmanos. Ao observar todo o ambiente psicológico, pode-se compreender que era natural que surgissem entre os muçulmanos esse tipo de inquietação e agitação. Primeiro, nessa fase, um tratado de compromisso desse tipo já era um acontecimento extremamente raro. Os coraixitas haviam expulsado tantas pessoas de suas casas, haviam imposto a guerra aos muçulmanos, ainda não lhes permitiam entrar no Santuário Sagrado e devolviam os animais destinados ao sacrifício; por isso, estabelecer tão repentinamente uma trégua e um acordo com esses politeístas opressores e agressivos era algo muito difícil para os muçulmanos. Até então, eles haviam aprendido um princípio sobre os incrédulos: “Surgiu uma inimizade e um ódio permanentes entre nós e vós, e isso continuará até que creiais no Deus Único”, e também: “Combatei-os até que a intriga e a desordem sejam eliminadas e que a obediência seja inteiramente dedicada a Allah.” Eles conheciam apenas esta fórmula direta: a palavra de Allah deveria permanecer acima, e a palavra dos incrédulos, abaixo. Não sabiam que poderia haver espaço para um compromisso entre a verdade e a falsidade. Na realidade, se um ideal for aceito de maneira puramente teórica e filosófica, a situação será diferente. Mas, quando é preciso trazê-lo ao mundo da realidade e lutar por ele, torna-se necessário adotar medidas diversas à luz do tempo, das oportunidades e da situação das forças de ambos os lados. Não é possível continuar avançando de olhos fechados, sempre no mesmo ritmo e em linha reta. Em certos lugares é preciso parar; em outros, desviar-se alguns passos; e, em outros ainda, recuar alguns passos para encontrar um novo caminho. Para derrotar gradualmente diferentes tipos de inimigos, às vezes torna-se inevitável chegar a um compromisso temporário com um deles. Essa ampla realidade histórica era visível apenas diante do Mensageiro (que a paz esteja com ele); a visão da organização muçulmana não era capaz de alcançar tão longe. Além disso, quando as palavras “Bismillāhir-Raḥmānir-Raḥīm” e “Mensageiro de Allah” foram riscadas diante deles, era inevitável que uma tempestade se levantasse em suas emoções. E, quando foram impostas aquelas condições desiguais e injustas, tornou-se difícil manter a paciência e a contenção. Nem os coraixitas sabiam quais eram os grandes problemas para os quais o Mensageiro (que a paz esteja com ele) buscava uma solução por meio daquele tratado, nem os muçulmanos conseguiam compreendê-lo. Durante a atividade de grandes movimentos, às vezes chegam momentos delicados em que aumenta a distância mental entre o grupo e o líder quanto à percepção dos problemas futuros. A visão do líder alcança muito mais longe, enquanto o grupo pensa sobretudo nas questões mais próximas. Esses são precisamente os campos de crise, e é nesses raros casos que a democracia excessivamente regulamentista se torna perigosa. Em tais situações, somente uma liderança que desfrute da máxima confiança e cooperação da opinião pública e que não tenha alternativa poderá cumprir adequadamente sua responsabilidade e seu dever. Uma liderança sincera e firme desse tipo conduz o grupo a grandes êxitos apenas pela força de sua própria autoridade moral. E o grupo só pode certificar-se da lógica das decisões e medidas tomadas pelo líder ao observar o desenrolar posterior dos acontecimentos e das circunstâncias.
O problema surgiu quando, justamente naquela situação complexa, Abu Jundal, filho do representante coraixita Suhail, chegou de Meca acorrentado. Ele havia sido espancado e torturado. Apresentou-se diante do Mensageiro (que a paz esteja com ele) e dos companheiros. Suhail ibn Amr disse: “De acordo com as condições propostas, Abu Jundal é a primeira pessoa que o senhor terá de devolver.” O Mensageiro (que a paz esteja com ele) respondeu: “O tratado ainda não foi assinado. Portanto, deixe o caso de Abu Jundal fora do seu alcance.” Suhail disse: “Nesse caso, não pode haver acordo.” Então o Mensageiro (que a paz esteja com ele) explicou em tom brando: “Está bem, permita que ele vá comigo para Medina por minha causa.” Suhail não concordou. Sem alternativa, o Mensageiro (que a paz esteja com ele), visando um interesse maior, aceitou aquela exigência injusta. Então Abu Jundal dirigiu-se aos muçulmanos reunidos e disse: “Meus irmãos muçulmanos, vocês estão me devolvendo aos politeístas, mas eles me torturarão para me fazer renunciar à fé.” O apelo de Abu Jundal era extremamente capaz de provocar agitação naquele ambiente. Porém, naquele momento, o Mensageiro (que a paz esteja com ele) deu um exemplo incomparável de serenidade. Explicou suavemente a Abu Jundal: “Aceitamos uma condição no tratado. Agora não podemos romper o tratado. Allah abrirá um caminho de libertação para você e para os demais oprimidos. Tenha um pouco de paciência.” A inquietação e a agitação dos muçulmanos aumentavam progressivamente, chegando ao extremo. Toda a agitação contra os coraixitas que estava acumulada no coração de todos os muçulmanos parecia ter se concentrado apenas em Hazrat Umar, deixando-o desnorteado. Não se tratava de uma questão que envolvesse qualquer interesse pessoal de Hazrat Umar. Era o amor pela verdade e o orgulho islâmico que o deixavam inquieto. Nesse estado de agitação, ele primeiro conversou com Hazrat Abu Bakr e depois com o Mensageiro (que a paz esteja com ele), da seguinte maneira:
Hazrat Umar (r.a.): «Ó Mensageiro de Allah, não sois vós o Mensageiro de Allah?»
Rasulullah (s.a.w.): «Certamente. Eu sou o Mensageiro de Allah.»
Hazrat Umar: «Então, não somos muçulmanos?»
Rasul (s.a.w.): «Por que não seríeis?»
Hazrat Umar: «Então, eles não são politeístas?»
Rasulullah (s.a.w.): «Por que não?»
Hazrat Umar: «Então, por que faremos um tratado cedendo em relação ao Islã?»
Rasul (s.a.w.): «Eu sou servo de Allah e Seu Mensageiro. Não desobedeci a nenhum de Seus mandamentos. Allah também não me privará de Sua ajuda.»
Hazrat Umar ficou calado nesse momento, é verdade. Mas sua agitação emocional não se acalmou por muito tempo. O tratado foi escrito, e Hazrat Umar assinou-o como testemunha, estabelecendo um exemplo inesquecível de lealdade. Embora seu coração não estivesse satisfeito com as condições, por meio de sua assinatura ele demonstrou sua atitude de que, uma vez que o Mensageiro de Allah havia tomado uma decisão, não se podia rebelar contra ela.
Depois da assinatura do tratado de Hudaybiyyah, o Mensageiro ordenou aos Companheiros que realizassem o sacrifício e raspassem a cabeça. Contudo, devido à inquietação, à tristeza e à dor, ninguém se moveu. Ele deu a ordem pela segunda vez, mas também não surtiu efeito. Deu a ordem pela terceira vez, e ainda assim a situação permaneceu a mesma. Isso permite compreender a crise psicológica e o impasse que haviam surgido no grupo treinado pelo próprio Mensageiro. Esse acontecimento também mostra quantas situações variadas podem surgir no curso da atividade humana. Ao ver aquela situação, o Mensageiro, profundamente entristecido, retirou-se para sua tenda. Queixou-se à Mãe dos Crentes, Hazrat Umm Salama: “O que aconteceu com as pessoas, para que a ordem que dei não fosse cumprida?” Hazrat Umm Salama, que Allah esteja satisfeito com ela, consolou-o, dizendo: “Eles estão profundamente entristecidos por terem de cumprir as condições do tratado. Saia, faça pessoalmente o seu sacrifício e raspe o cabelo.” O Mensageiro levantou-se, saiu, realizou o sacrifício e raspou o cabelo. Essa ação prática restabeleceu a obediência de todos os membros da comunidade. Ainda assim, a situação parecia tão tensa que eles poderiam se devorar uns aos outros. De qualquer modo, foi algo temporário e passageiro, e logo desapareceu.
Isso mostra que, para fazer a guerra avançar e criar um ambiente de entendimento e conciliação, o Mensageiro não hesitou em enfrentar situações extremamente difíceis e chegou a sacrificar, para esse objetivo, até os sentimentos mais profundos, puros e sinceros de seu grupo tão amado.
Por meio desse tratado, ele obteve vários benefícios muito importantes. Primeiro: criou-se a oportunidade de livre convivência entre muçulmanos, idólatras e os árabes em geral. As pessoas começaram a ir e vir. Parentes que, durante muitos anos, não haviam tido a oportunidade de se encontrar puderam reunir-se e conviver. Os muçulmanos passaram a ter a oportunidade de conhecer e desfazer as confusões que os idólatras haviam espalhado em Meca sobre o Mensageiro e os muçulmanos. Começaram a responder às perguntas das pessoas. Passaram a ter a oportunidade de informar o povo em geral sobre seu desenvolvimento espiritual, psicológico, moral, material e intelectual. Discussões abertas sobre o convite ao Islã começaram a ocorrer de casa em casa. Durante esse período de paz após o tratado, o Islã se expandiu tão rapidamente que, em apenas dois anos depois do tratado de Hudaybiyyah, muito mais pessoas aceitaram voluntária e alegremente o Islã do que o número total daqueles que haviam abraçado a fé ao longo dos dezoito ou dezenove anos anteriores. Até mesmo jovens dinâmicos como Khalid ibn al-Walid e Amr ibn al-As passaram a integrar o grupo islâmico somente depois desse tratado.
O segundo benefício obtido foi que, livres das guerras e dos conflitos, os muçulmanos puderam concentrar-se na reforma psicológica e moral e na reorganização administrativa do Estado. Depois de alcançar segurança no âmbito interno, também surgiu a oportunidade de convidar os governos estrangeiros ao Islã.
O terceiro benefício foi que o governo de Medina ficou livre da preocupação com os coraixitas para eliminar a rebelião dos judeus de Khaybar. Imediatamente após o tratado de Hudaybiyyah, o governo islâmico conseguiu resolver esse problema.
O quarto benefício foi que todas as tribos da Arábia se tornaram livres. Qualquer tribo que quisesse poderia oferecer apoio e cooperação ao governo de Medina. Era uma porta recém-aberta, pela qual muitas pessoas novas poderiam entrar no Islã ou prestar ajuda e cooperação aos muçulmanos. Os coraixitas, porém, não eram capazes de impedir isso. A tribo dos Banu Khuza’a aproveitou essa oportunidade para estabelecer relações com o governo islâmico.
Também se inclui no âmbito do quarto benefício o fato de que, apenas um ano depois, os muçulmanos foram a Meca com grande pompa para visitar a Caaba; e, de acordo com a profecia do Alcorão, fizeram isso em um ambiente de total segurança e destemor.
Portanto, pode-se afirmar sem hesitação que induzir inimigos tão ferrenhos quanto os coraixitas a firmarem um tratado foi o mais notável milagre da política do Mensageiro (que a paz esteja com ele). Ao aparentemente ceder um pouco em uma condição, o Mensageiro (que a paz esteja com ele) obteve êxito, oportunidades e vantagens que os coraixitas nem sequer poderiam imaginar naquele momento. Poderiam eles ter imaginado que Khaybar, a base militar dos judeus que os apoiavam, cairia em breve e que os coraixitas ficariam isolados? Por outro lado, quem poderia prever que o Islã atrairia um número tão grande de pessoas, que sua influência se espalharia tanto até na própria cidade de Meca e que a força dos coraixitas cairia abaixo do nível em que então se encontrava? Na realidade, esse tratado conferiu ao Islã a capacidade revolucionária de conquistar Meca em apenas alguns anos.
Durante o retorno a Medina, a Surata Al-Fath foi revelada no caminho. Nela, ao revisar os acontecimentos passados e dar indícios das oportunidades futuras, Allah anunciou aos muçulmanos a boa-nova de que em breve venceriam uma guerra — a batalha de Khaybar — na qual obteriam muitos espólios; depois alcançariam êxitos e vitórias inimagináveis, que até então estavam completamente fora de seu alcance. Também foi dito que, embora naquele momento eles fossem capazes de derrotar os politeístas de Meca e estes certamente fugissem, entre eles havia muitos homens e mulheres que haviam aceitado o Islã sem o conhecimento dos coraixitas e que, em segredo, eram seus apoiadores. Se a guerra tivesse começado, eles seriam obrigados a enfrentá-los, e os muçulmanos os feririam por não os reconhecerem. Portanto, foi uma graça especial de Allah ter protegido os dois grupos do confronto. Isso foi especialmente importante porque, da parte dos incrédulos, havia ocorrido uma demonstração extremamente insolente de orgulho ignorante; eles não haviam sequer tolerado as palavras “O Misericordioso, o Misericordiador” e “Mensageiro de Allah”, além de terem demonstrado extrema obstinação no caso de Abu Jundal. Quando uma das partes adota um caminho tão tortuoso, a outra também não consegue manter uma atitude branda e tranquila. Mas foi uma graça de Allah o fato de Ele ter feito descer firmeza sobre o Mensageiro (que a paz esteja com ele) e os muçulmanos, ter-lhes dado controle sobre suas emoções e mantido-os firmes no temor a Allah e na moderação. Diante dos politeístas, vocês eram dignos de agir dessa maneira. Caso também tivessem se exaltado, o confronto teria começado, e a oportunidade e o êxito que estavam sendo alcançados facilmente teriam sido perdidos.
A Surata Al-Fath começa com as palavras: “Inna fatahna laka fathan mubina”, isto é, “Concedemos-te uma vitória manifesta”. Umar perguntou, surpreso: “Isso é realmente uma vitória manifesta?” O Mensageiro (que a paz esteja com ele) respondeu: “Sim, é uma vitória manifesta.” Na verdade, à luz do desenrolar dos acontecimentos, a tranquilidade e a satisfação da razão e da consciência só vieram muito mais tarde. Naquela ocasião, por causa da expressão de emoção que Umar demonstrou ao apoiar sinceramente o Islã, ele passou muito tempo praticando atos devocionais voluntários e pedindo perdão a Allah. Esse é um sinal de sinceridade. Já Abu Bakr permanecia firme e sereno mesmo em meio à inquietação generalizada. Essa diversidade de temperamentos entre os membros de uma organização humana confere à organização uma disposição e um equilíbrio especiais. Numa extremidade está a gravidade siddiqiana; na outra, o vigor e a severidade faruqianos.
Ouçam agora como a própria cláusula que eles acrescentaram ao tratado e com a qual quase tocaram tambores de alegria pela vitória acabou sendo a causa de sua ruína. Primeiro, por causa dela, começou a aumentar em Meca o número dos que aceitavam o Islã secretamente, pois, segundo o tratado, o caminho para Medina lhes estava fechado. Assim, a força dos coraixitas começou a se enfraquecer internamente. Por outro lado, ocorreu um acontecimento grave. Abu Basir, que havia aceitado o Islã, conseguiu fugir de Meca e chegar a Medina. Os coraixitas enviaram dois homens para trazê-lo de volta. Mantendo-se firme no princípio de cumprir o tratado, o Mensageiro (que a paz esteja com ele) devolveu Abu Basir. Ele também consolou Abu Basir, dizendo que Allah abriria para ele algum caminho. Sem outra opção, Abu Basir retornou. No caminho, conseguiu dominar um dos dois homens enviados pelos coraixitas, matou-o com a própria espada dele e voltou novamente a Medina. O segundo homem também foi a Medina para apresentar uma queixa. Abu Basir explicou ao Mensageiro (que a paz esteja com ele): “O senhor cumpriu sua promessa e me entregou ao inimigo. Mas eu não queria colocar minha fé em perigo, entregando-me às garras dos politeístas. Por isso, fiz isso por minha própria conta e responsabilidade. O senhor não tem nenhuma responsabilidade por isso. Allah me salvou.” O Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: “Se esse homem conseguir reunir algumas pessoas, provocará uma guerra.” Abu Basir pensou que talvez fosse novamente enviado a Meca. Por isso, saiu secretamente de Medina, chegou a um lugar chamado Is, na costa marítima, e ali se estabeleceu. Mais tarde, Abu Jundal também foi para lá. Depois, outros começaram a sair de Meca e dirigir-se para a costa. Aos poucos, formou-se ali um grupo de setenta homens. Eles tinham divergências ideológicas com os habitantes de Meca e, por terem sofrido pessoalmente opressão e perseguição, também desejavam vingança. Tampouco eram cidadãos do Estado de Medina, de modo que não estavam sujeitos à obrigação de cumprir o tratado. Aquilo era uma “frente islâmica independente”. Eles começaram a realizar ataques de guerrilha contra as caravanas comerciais dos coraixitas. Com isso, os coraixitas ficaram numa situação difícil. Por fim, eles próprios fizeram um pedido para que a cláusula que tanto prezavam fosse retirada do tratado. Depois, o Mensageiro (que a paz esteja com ele) convocou esses jovens para Medina. Ao mesmo tempo, abriu-se o caminho para a Hégira dos novos muçulmanos de Meca.
Um problema grave surgiu quando Umm Kulthum, filha do eminente líder de Meca Uqbah ibn Abi Muait, migrou para Medina. Seus dois irmãos, Ammarah e Walid, compareceram para levá-la de volta. O assunto foi levado ao Mensageiro (que a paz esteja com ele). Por ordem de Allah, ele se recusou a devolver Umm Kulthum. Entregar uma mulher muçulmana ao inimigo não é o mesmo que entregar um homem muçulmano. A recusa do Mensageiro (que a paz esteja com ele) tinha um valor moral. Por isso, quando os dois irmãos retornaram sem êxito, os coraixitas aceitaram a situação. Como, sob as instruções da Surata Al-Mumtahanah, o Mensageiro (que a paz esteja com ele) havia tomado, juntamente com essa decisão, algumas outras medidas — como exigir que cada muçulmano se divorciasse de sua esposa incrédula que permanecera em Meca e que o dote fosse pago por ambas as partes —, os coraixitas, de modo geral, ficaram satisfeitos com essa decisão.
Este foi o histórico tratado de Hudaybiyyah, que, em termos de resultados, constituiu uma grande vitória. Induzir os coraixitas a firmá-lo e superar todas as suas etapas complexas foi uma demonstração da perspicácia política e da sabedoria de líder do Mensageiro (que a paz esteja com ele). Por meio dele, os muçulmanos das gerações posteriores continuarão aprendendo até o Dia do Juízo. Esse tratado é um exemplo incomparável da habilidade política do Mensageiro (que a paz esteja com ele) e uma de suas realizações extraordinárias.
A Umrah da Compensação
No tratado de Hudaybiyyah havia sido estabelecido que, naquele ano, os muçulmanos retornariam e que, no ano seguinte, voltariam para realizar a visita. Assim, no sétimo ano da Hégira, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, partiu em direção a Meca com seus companheiros. Embora, em sua fase inicial, essa viagem também fosse religiosa, em sua segunda fase ela se tornou política. Como resultado, exerceu profunda influência sobre o ambiente; por isso, a influência do Islã não apenas aumentou em Meca, mas, devido à entrada livre dos muçulmanos em Meca, também se espalhou por toda a Arábia um impacto psicológico extraordinário.
Partiram duas mil pessoas, acompanhadas de cem cavalos e sessenta camelos — segundo outra versão, oitenta. As armas foram levadas guardadas em seus estojos. De acordo com o tratado, os coraixitas foram obrigados a deixar o Santuário Sagrado completamente aberto durante três dias. Alguns opositores ferrenhos deixaram a cidade e se dirigiram para montanhas distantes, para não terem de presenciar aquela cena. Mas os habitantes comuns de Meca, mulheres e crianças, permaneciam enfileirados, observando a realização da umra pela força revolucionária islâmica.
Ao entrarem, Abdullah ibn Rawaha avançava segurando as rédeas da montaria do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, enquanto entoava uma canção revolucionária. As palavras da canção eram as seguintes:
“Em nome d’Aquele cuja religião é a única religião, estamos entrando. Em nome d’Aquele cujo Mensageiro é Muhammad, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, estamos entrando.”
“Ó filhos dos incrédulos, afastem-se do caminho dele. O Misericordioso Allah ensinou em Seu Livro:
A luta travada em Seu caminho é a melhor das lutas. Ó meu Senhor, creio na Tua palavra.”
Por meio da canção, o convite ao Islã estava sendo proclamado. No entanto, durante muitos anos, Meca havia sido privada do som desse convite. Nela também se falava do jihad. O nome tão amado de Allah, “Ar-Rahman”, também era pronunciado, algo que os coraixitas de modo algum conseguiam suportar. Nela também era proclamada a missão profética de Muhammad, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Às forças contrárias ao Islã dizia-se, em linguagem significativa: “Afastem-se do caminho do Mensageiro e parem de obstruí-lo.” Naquele dia, não havia ninguém em Meca capaz de oferecer resistência. O tratado de Hudaybiyyah havia amarrado suas mãos e selado suas bocas.
O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, ordenou aos membros de seu grupo que caminhassem com o peito projetado para a frente e o pescoço erguido, e que realizassem o tawaf espaçados, para desmentir a propaganda de que os emigrantes haviam se enfraquecido por causa da fome e da febre. Pois era necessário intimidar o inimigo naquele dia. O Mensageiro de Allah disse: “Que Allah tenha misericórdia daquele que hoje demonstrar força diante dos incrédulos.” Com esse objetivo, ele caminhava de modo humilde e lento, a pé, desde o Rukn al-Yamani até segurar e beijar o Rukn al-Aswad; enquanto permaneciam nesse trecho, os espectadores não conseguiam ver os que realizavam o tawaf. Depois, no trecho seguinte, ele fazia uma leve corrida, e era justamente ali que os que realizavam o tawaf podiam ser vistos. Com isso, compreende-se que se deve procurar impedir que qualquer espécie de fraqueza dos combatentes do Islã se manifeste diante dos adversários, ainda que seja apenas física; ao contrário, deve-se intimidar os opositores por meio da ostentação e da demonstração de força. Essa é uma importante estratégia da política islâmica. É uma estratégia tão importante que se atentou para ela até mesmo no Santuário Sagrado e durante o tawaf. Essa demonstração de força não deve ser definida como arrogância ou presunção. Pelo contrário, é uma obra meritória. Em circunstâncias assim, se alguém demonstrar humildade, o resultado será justamente o oposto. Essas pequenas evidências demonstram quão profundamente o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, observava as exigências políticas de seu tempo e quanta importância dava ao seu atendimento. Essa política não era necessária para promover sua posição pessoal, mas para estabelecer a justiça islâmica. Por isso, era uma atividade inteiramente religiosa, e cada uma de suas ações era adoração.
Imaginem que tipo de pensamentos e ideias circulavam na mente dos homens, das mulheres e das crianças de Meca quando contemplavam aquela reunião dos convocadores da verdadeira religião. Certamente pensavam que o fruto do Islã, cujo início se dera em Meca, estava agora diante deles. Então, lugares históricos como a caverna de Hira, a caverna de Sawr, a casa de Arqam, o desfiladeiro de Abu Talib e An-Nadwa pareciam erguer a cabeça diante deles e dizer: “Vejam como é grande e nobre este grupo de virtuosos. Em comparação com eles, como vocês permaneceram inferiores e desprezíveis!”
Cada grão de poeira das ruelas de Meca dizia: “Este é o grupo dos perseverantes, a quem vocês atormentaram durante anos, sem que tivessem cometido crime algum. Vejam aonde eles chegaram hoje, partindo de onde estavam”. O pátio da Caaba parecia reavivar, uma após outra, as lembranças da primeira proclamação pública da profissão de fé por Hazrat Abu Dharr al-Ghifari e do espancamento coletivo; da proclamação de “Ahad, Ahad” por Hazrat Bilal nos desertos de Meca e das torturas lancinantes; e da conspiração de Dar an-Nadwa para assassinar o Mensageiro (que a paz esteja com ele), dizendo: “Olhem e vejam quantas mudanças a mensagem daquele grande homem, vítima de suas perseguições e conspirações, trouxe hoje a todos os lugares!” Treze anos de história faziam descer torrentes de lembranças de todas as direções. Talvez as almas dos parentes perdidos em Badr e Uhud surgissem diante deles, vestidas com mantos rubros, suplicando-lhes: “Ó habitantes de Meca, despertem também! Transformem-se também, avancem e deixem-se levar por esta correnteza contínua de bênçãos”.
Por um lado, o povo ficou maravilhado ao observar a adoração dos muçulmanos. Por outro, também ficou impressionado ao ver seu padrão moral. Afinal, um número tão grande de pessoas permaneceu por três dias na cidade de Meca. Apesar da hostilidade extrema, nenhum habitante de Meca sofreu o menor dano à vida ou aos bens. As casas que os politeístas haviam trancado e deixado vazias permaneceram exatamente como estavam: intactas e seguras.
Entre os apoiadores do Islã que permaneciam em Meca ocultando sua fé, certamente os olhos se iluminaram ao ver aquela cena, e suas emoções foram tocadas por uma nova força. Uma nova esperança despertou neles. Já os opositores sentiram-se completamente encurralados. Um futuro sombrio surgiu diante de seus olhos.
A reunião dos virtuosos permaneceu na cidade de Meca durante três dias. No quarto dia, Suhail ibn Amr e Khuwaytib ibn Uzza foram até o Mensageiro (que a paz esteja com ele) e disseram: “Já se passaram três dias. Agora deixe o meu território e vá embora”. O Mensageiro (que a paz esteja com ele) conversava então com alguns Ansar. Saad ibn Ubadah não conseguiu suportar o modo como Suhail falava. Ele disse: “Desgraçado, esta terra não é tua, nem de teu pai. Nós jamais iremos embora”. Para acalmar o ambiente tenso, o Mensageiro (que a paz esteja com ele) adotou naquele momento um tom espirituoso. Ele havia se casado naquela época com a Mãe dos Crentes, Hazrat Maymuna. Fazendo alusão a isso, disse: “Vejam, casei-me aqui. Que mal há em organizar um banquete por essa ocasião? Nós comeremos, e vocês também participarão”. Mas isso não mudou em nada a aspereza de seu humor. Eles disseram: “Não precisamos de banquete algum. Vão embora”. O que mais poderiam dizer? Ele viu que todo o ambiente estava se deteriorando. Por causa de sua obstinação, o Mensageiro (que a paz esteja com ele) ordenou que seu grupo partisse. No momento da partida, de repente a filha pequena de Hazrat Hamza ibn Abd al-Muttalib veio correndo, abraçou o Mensageiro (que a paz esteja com ele) e gritou: “Ya amim, ya amim” (tio, tio). Que cena comovente! O Mensageiro (que a paz esteja com ele) levou a criança consigo e confiou-a à sua tia materna. Essa tia era a esposa de Zayd ibn Haritha.
Pode-se recordar que, durante o retorno de Hudaybiyyah, perguntaram ao Mensageiro (que a paz esteja com ele): “Você não havia dito que iríamos ao Santuário Sagrado e realizaríamos o tawaf? Isso não aconteceu”. O Mensageiro (que a paz esteja com ele) respondeu: “Quando foi que eu disse que faria o tawaf justamente este ano?” Na realidade, embora tivesse sido possível ir ao Santuário Sagrado e realizar o tawaf no ano do tratado de Hudaybiyyah, isto é, no sexto ano da Hégira, isso não teria ocorrido com a pompa deste ano, mas em meio a derramamento de sangue. Realizar a umra com pompa, em um ambiente normal, é uma obra extremamente abençoada.
Mais tarde, quando esse acontecimento foi discutido entre as outras tribos da Arábia, pode-se afirmar sem dúvida que a opinião pública havia mudado em relação ao passado. As pessoas certamente compreenderam que os muçulmanos haviam entrado de cabeça erguida e peito aberto justamente em Meca, de onde tinham sido expulsos. Os coraixitas, que haviam eliminado os muçulmanos da face da terra, provaram sua própria incapacidade ao fazer um tratado com eles. Assim, o povo certamente chegou à conclusão de que o futuro do país permaneceria sob o controle do Estado de Medina. Com isso, a aceitação do Islã perante a opinião pública aumentou ainda mais. Em suma, pode-se dizer que a Umrat al-Qada também contribuiu para o desenvolvimento e a expansão do Islã.
O impacto do jihad sobre a opinião pública
Já demonstramos de maneira extremamente contundente que o verdadeiro confronto entre o movimento islâmico e a Jahiliyyah não ocorreu no campo de batalha, mas no campo mais amplo da opinião pública. Esse confronto prolongou-se por dezoito ou vinte anos, e foi nesse campo mais amplo que também se deu a decisão final. Contudo, isso não significa que o jihad armado não tenha desempenhado nenhum papel nessa decisão final.
Uma forte mensagem de da’wah é, sem dúvida, uma necessidade importante para a reforma, a correção e a reconstrução. Porém, até hoje, nenhuma revolução foi organizada na vida coletiva cujos promotores não fossem capazes de demonstrar, também no campo prático, sua força, superioridade e vitória, nem de empregar com êxito a força no momento necessário para remover os obstáculos do caminho e eliminar a resistência motivada por más intenções. A religião está relacionada apenas a uma pequena área da vida humana. Se alguém deseja viver exclusivamente segundo essa concepção de religião, não precisa de nenhuma atividade além de sermões, exortações e educação espiritual. Independentemente do tipo de sistema estatal e social que exista acima das pessoas, e de como funcionem as atividades sociais e econômicas, ainda pode haver espaço para introduzir na mente das pessoas algumas boas crenças e convicções. Pode-se ensiná-las a recitar fórmulas, mantras, práticas devocionais, wazifas e súplicas, além de adorná-las, em certa medida, com virtudes como humildade, modéstia, compaixão e solidariedade. As instituições da reforma individual e da correção centradas no sufismo, bem como as instituições de relação entre pires e discípulos por ele criadas, aplicam diversos tipos de bálsamo à ferida produzida na consciência quando alguém atua sob um sistema social e estatal baseado na falsidade e na exploração e, para obter seu sustento e satisfazer seus interesses, percorre os caminhos extremamente desumanos criados por esse sistema. As religiões que constroem pequenas moradas de paz e segurança dentro dos piores sistemas sociais são, na realidade, criações da tendência humana à fuga. Depois de cometer grandes crimes na vida coletiva e praticar torturas arrepiantes, a pessoa satisfaz seu deus e sua consciência perturbada por meio da religião individual e da espiritualidade. Mas a religião que não se contenta em acrescentar o dhikr e a meditação de Allah às leis elaboradas pelos seres humanos, e que deseja, ao contrário, controlar e conduzir toda a vida, não pode cumprir sua tarefa por meio de simples sermões e exortações centrados em apelos e súplicas, de práticas espirituais realizadas num canto isolado ou de atividades limitadas de serviço público. Para ela, é indispensável quebrar a jaula da falsidade, resistir à tirania e lançar os fundamentos de uma nova civilização baseada na paz e na justiça. É impossível introduzir mudanças na vida coletiva sem enfrentar obstáculos. E, para remover esses obstáculos, simples sermões e exortações não são suficientes. Aqueles cujos interesses estabelecidos são derrubados e cuja estrutura social consolidada é modificada empregam todas as suas forças em atividades destrutivas. O sonho da reforma social jamais pode ser realizado enquanto algum movimento não os afastar do caminho mediante o uso da força.
Quando o Islã surgiu e golpeou as próprias bases do sistema social jahili da Arábia, que era dirigido segundo uma determinada concepção fundamental de vida, os defensores e sustentáculos desse sistema compreenderam desde o início que se tratava de um ataque total. O golpe fora desferido para demolir todo o edifício e construir um novo. Foi por isso que o movimento islâmico enfrentou uma oposição total e que obstáculos foram criados em seu caminho. Sempre que surge uma da’wah e um movimento desse tipo, voltados para uma revolução fundamental e uma transformação abrangente, a sociedade geralmente se divide em três partes. Uma delas avança muito mais rapidamente que o seu tempo e consegue enxergar um futuro muito distante. É formada pelas pessoas mais inteligentes e mais dinâmicas da sociedade. Seu número costuma ser o menor, e elas vão aceitando gradualmente a da’wah revolucionária. Em oposição a elas encontra-se a classe que lidera o sistema antigo e representa grandes interesses. Essa classe se torna ativa sem demora. Ela recruta numerosos apoiadores entre os grupos sob sua influência. Entre essas duas classes, a primeira é a minoria em expansão, enquanto a última é a maioria em retração e fragmentação. Um conflito prolongado se estabelece entre ambas. As duas classes ativas chegam às arenas ideológica e política e iniciam um combate corpo a corpo. Enquanto isso, o povo comum permanece do lado de fora como espectador silencioso, observando para ver quem vencerá, quem será derrotado e qual será o resultado final do jogo. Entre os membros mais inteligentes e ativos dessa terceira classe, alguns também vão aderindo gradualmente à luta. A grande maioria, porém, aguarda o resultado final. Muitos deles são adoradores cegos do sistema antigo. Não conseguem sequer imaginar que o velho sistema que tanto amam possa ser derrotado. Enquanto não veem os sinais de sua destruição, não pode ocorrer neles nenhuma mudança mental. Há também, nessa classe, muitas pessoas que se deixam influenciar pelos argumentos e pelas qualidades de caráter da nova força. Algumas chegam a desejar que a nova força vença, mas permanecem amedrontadas diante da força antiga estabelecida. Outras, influenciadas pela convocação revolucionária, desejam avançar, mas a antiga liderança as mantém tão firmemente amarradas que elas não ousam sequer se mover. Também não são poucas as pessoas que pensam: que vença qualquer uma das duas ideologias, e que a derrotada seja considerada inválida. Especialmente quando a da’wah é a do Islã, essa mentalidade se espalha ainda mais amplamente entre o povo. É justamente esse estado mental da população que se torna um obstáculo à aceitação de uma da’wah reformadora e organizadora. À medida que a intensidade do conflito aumenta ou diminui e esse estado mental se transforma, o avanço da da’wah é dificultado ou facilitado na mesma proporção. Portanto, o caminho só se abre aos porta-estandartes de qualquer nova da’wah quando eles demonstram firmeza suficiente no conflito e conseguem desferir golpes fortes, decisivos e eficazes contra os que resistem. Assim, por um lado, o povo passa a considerar que não é impossível derrubar a antiga liderança e romper as velhas correntes; por outro, pode esperar da nova força que ela tenha capacidade para golpear as forças tirânicas e jahilis. Quando uma ideologia desse tipo se espalha no campo da opinião pública, a mente do povo se abre plenamente à da’wah reformadora e construtiva.
O objetivo da coragem e firmeza com que o governo islâmico de Medina respondeu às ameaças militares dos judeus e dos coraixitas não era converter algumas pessoas ao Islã pela força da espada no campo de batalha. Pelo contrário, seu objetivo era que, além de se defender da resistência belicosa, a coragem do povo comum aumentasse e ele passasse a confiar na força revolucionária de Medina. Esse era o seu único objetivo. Pretendia-se criar na mente do povo a esperança de obter um futuro brilhante por meio do ideal islâmico e a convicção de que a instabilidade duradoura do sistema jahili não era inevitável.
Quando ocorreu pela primeira vez a Batalha de Badr, os olhares de todos, vindos de todas as direções, estavam concentrados sobre aquele pequeno pedaço de terra do mundo, para ver quem perderia e quem venceria. Quando todos viram que um punhado de soldados muçulmanos, que não possuíam sequer o mínimo de equipamento militar, derrotou vergonhosamente um enorme exército três vezes maior que o seu e eliminou os grandes líderes de Meca, incluindo Abu Jahl, não poderia deixar de haver comoção em toda a Arábia diante desse acontecimento desconcertante. Falou-se sobre isso em todas as casas, e o fato exerceu profunda influência sobre a opinião pública. Pela primeira vez, esse acontecimento fez nascer a esperança de que a força islâmica de Medina não era formada apenas por pessoas que, depois de sofrerem golpes durante toda a vida, haviam se tornado ascetas e monges em busca da satisfação de Allah e da paz da alma; pelo contrário, um dia essa força transformaria completamente a fisionomia do país.
Depois, como a Batalha de Uhud permaneceu num nível de “ninguém consegue derrotar o outro, em igualdade de condições”, a repercussão a seu respeito foi moderada. Em seguida ocorreu a Batalha da Trincheira. A sociedade árabe viu enormes exércitos avançando de todas as direções como uma inundação devastadora. Depois de manterem Medina sitiada por cerca de um mês, eles se dispersaram de tal maneira que pareciam um monte de terra que alguém tivesse espalhado soprando. Esse acontecimento fez nascer na opinião pública a convicção de que as raízes do poder muçulmano eram tão firmes que nem mesmo um ataque conjunto dos inimigos poderia prejudicá-lo.
Paralelamente a todas essas grandes batalhas, Medina também deu a devida atenção às pequenas lideranças tribais. Essas lideranças locais eram apêndices da liderança jahiliana que se estendia por todo o país, e não era possível libertar o povo dessa liderança sem cortar, uma a uma, todas essas ramificações. Algumas dessas ramificações foram arrastadas pelo próprio ímpeto da الدعوة. As restantes foram isoladas por meio de relações baseadas em tratados e alianças. Sempre que as demais ramificações levantavam a cabeça em qualquer direção, o governo islâmico imediatamente voltava sua atenção para esse ponto e as esmagava. Foram tomadas contra rebeldes, ladrões, bandidos e conspiradores sabotadores medidas tão oportunas quanto o lançamento de flechas de fogo para recepcionar o demônio que tenta espionar às portas do céu. A lei e a ordem foram plenamente mantidas ao redor de Medina, e criou-se um ambiente de paz completamente seguro. Caso contrário, se as tribos beduínas espalhadas por toda parte encontrassem a menor brecha, a experiência do governo bem organizado de Medina teria sido destruída ainda no início. Ao consultar os registros da história, pode-se compreender que todo o período desde o primeiro ano da Hégira até a conquista de Meca esteve repleto de novas rebeliões, anarquia e sabotagem. Num dia ocorria uma concentração militar numa direção, e no seguinte um bando de assaltantes levantava a cabeça em outra. Num dia um grupo realizava saques aqui; no dia seguinte, em algum outro ponto de Medina, um grupo desconhecido de assassinos atacava e desaparecia depois de causar danos à vida e aos bens de cidadãos inocentes. Numa direção tramava-se o início de uma guerra, enquanto noutra se elaborava um plano rebelde. Mas Medina estava muito vigilante. Em algum lugar, guardas patrulhavam; em outro, tropas eram enviadas; e, em outro ainda, grupos policiais partiam para manter normalizada a lei e a ordem.
De modo geral, essa situação fez nascer entre os árabes a ideia de que o poder muçulmano não era uma força muda, surda e cega, mas sim um governo vivo, desperto e ativo. Esse governo travava uma luta em todas as frentes, combatendo simultaneamente numerosos inimigos, e um dia certamente sairia vitorioso.
Depois, quando o poder dos judeus em Medina foi esmagado e, no momento adequado, também foram destruídas as fortalezas dos inimigos de Khaybar, não é difícil imaginar como a opinião pública, por meio desses acontecimentos, avançou gradualmente rumo à aceitação da الدعوة.
Depois, o acontecimento retumbante da conquista de Meca sacudiu a nação árabe de uma extremidade à outra, despertando-a do sono da jahiliah; e o movimento islâmico, chamando-a com o azan do renascimento, proclamou: “Levantem-se, tudo se tornou claro ao redor”. Então, não restava a nenhum cego compreender que a jahiliah estava à beira da destruição. De fato, a jahiliah foi destruída diante dos olhos de todos. Ao mesmo tempo, todos compreenderam que a era da antiga liderança jahiliana dos coraixitas também havia chegado ao fim. Até mesmo um beduíno ignorante percebeu que o sistema trazido por Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) era o único sistema que garantia conhecimento, caráter, vitalidade, força, progresso, reconstrução, paz, ordem e justiça. O povo abriu as janelas de suas mentes e corações para que a luz do movimento islâmico pudesse entrar.
Essas atividades militares não eram atividades puramente militares; por meio delas, a الدعوة do Islã também era difundida. As lutas não eram meramente combates de flechas e espadas; eram também lutas de crença, ideais e caráter. Nessas lutas, os muçulmanos introduziram um novo slogan: “Allahu Akbar”. Mesmo no campo de batalha, eles realizavam reuniões de inclinação e prostração. Embora conduzissem ataques contra o inimigo com todas as suas forças, não deixavam de baixar a cabeça diante dele como sinal de obediência exclusiva a Allah. Além disso, as regras e a disciplina dessas guerras também eram de um tipo inédito. No campo de batalha, eles traziam consigo a crença no martírio, no Paraíso, na satisfação de Allah e na vida eterna. Movido pelo desejo dessas coisas, cada soldado muçulmano avançava fitando a morte nos olhos e sacrificava a vida, sorrindo, para alcançar seu objetivo. Eles também possuíam um notável caráter militar. Outros lutavam ao ritmo de músicas e instrumentos; os soldados destemidos do movimento islâmico marchavam ao som do slogan do tawhid. Outros exibiam bravura depois de beber vinho; os soldados muçulmanos eram inspirados para a luta ao beber o puro elixir do senso de dever. Outros demonstravam heroísmo por cobiça dos espólios de guerra; os seguidores do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) rolavam pelos campos ensanguentados unicamente na esperança da satisfação de Allah. Outros atacavam movidos pelo orgulho de sua nação, tribo e linhagem; os soldados de Allah lutavam apenas pela verdade, pela justiça e pelo Islã. Outros, durante as lutas, praticavam destruição extrema, bestial e cruel. Queimar o inimigo no fogo, matá-lo amarrado, profanar cadáveres, beber vinho nos crânios dos mortos, mastigar seus fígados, degolar mulheres e crianças, abrir o ventre de mulheres grávidas e outras ações bárbaras eram seus hábitos cotidianos. Mas o poder islâmico levou ao campo uma força sem precedentes, que respeitava os limites morais da humanidade mesmo durante o combate. Nunca matava ninguém de maneira desumana. Não profanava cadáveres. Não demonstrava bravura contra mulheres e crianças. Pelo contrário, suportava a conduta injusta dos inimigos desprovidos de moralidade nesses assuntos e, da sua parte, estabelecia exemplos de comportamento superior. Outros tratavam os prisioneiros como animais; o exército muçulmano, porém, fazia deles irmãos junto com seus próprios cidadãos. Outros celebravam tratados e depois os violavam; o poder muçulmano cumpria os tratados mesmo nos momentos mais delicados e apesar de sofrer os maiores prejuízos. Quando concedia proteção a alguém ou assumia a responsabilidade por alguém, cumpria devidamente essa responsabilidade. Outros entravam nas cidades conquistadas e infligiam opressão e tormentos à população civil; mas o poder muçulmano declarou ilícito para seus soldados entrar nas casas e matar qualquer cidadão, saquear ou apropriar-se dos bens pessoais de alguém, ou até mesmo cobrar tributos à força dos civis inimigos. Para os outros, a guerra era uma atividade mundana; o Islã, porém, declarou essa atividade uma forma elevada de adoração.
Por ordem do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), a دعوت ao Islã também era apresentada aos inimigos no campo de batalha. Diante do inimigo, eram deixadas três alternativas: aceitar o Islã e tornar-se irmãos; aceitar a submissão política; ou enfrentar-nos no campo de batalha. Entre os outros, porém, não havia uma دعوت ideológica desse tipo. Da parte deles, apenas dois caminhos eram deixados abertos: ou submeter-se a nós, ou vir ao campo de batalha.
A enorme diferença entre os dois lados tornava-se muito clara no campo de batalha. Ao compreender essa diferença, toda a nação árabe ficava fascinada e profundamente influenciada. Em outras palavras, o rápido desenvolvimento da organização islâmica de Medina, por um lado, e, por outro, a prova da veracidade e superioridade de seus ideais por meio de seu próprio caráter — esses dois tipos de êxito refletiam-se, através das campanhas militares, na opinião pública da Arábia. Quanto mais esses dois tipos de êxito facilitavam o caminho para o دعوت da verdade, mais as pessoas continuavam a aceitar o Islã. Esse êxito intensificou-se após o tratado de Hudaibiyah. Por isso, nesse período, o povo avançou em direção ao Islã com velocidade ainda maior. Após a conquista de Meca, esse êxito assumiu plenamente a aparência de uma vitória. Assim, toda a Arábia foi abrangida de uma só vez por esse movimento reformador. A rapidez com que as pessoas aceitaram o Islã nesses dois períodos mostra quão grande era o obstáculo representado pela liderança coraixita no caminho do povo. Assim que esse obstáculo foi removido, ocorreu uma revolução mental. Onde quer que uma classe dominante, beneficiária de interesses estabelecidos, se coloque dessa maneira como obstáculo, a influência dos sermões, da exortação, do دعوت e da تبلیغ entre o povo não consegue adquirir grande alcance. Para transformar o ambiente geral, é necessário remover esse tipo de barreira. E, para isso, é preciso prosseguir com uma luta política total. A concretização plena do دعوت e da divulgação do Islã depende da luta política.
O próprio governo ensinava a revolução
Depois, as regiões que haviam passado ao controle do governo islâmico de Medina por meio da aceitação do Islã pelas tribos correspondentes, do estabelecimento de relações baseadas em tratados ou do reconhecimento da submissão política não eram deixadas no estado em que se encontravam. Pelo contrário, o دعوت e os ensinamentos detalhados do Islã eram levados até elas, e eram adotadas medidas eficazes para treiná-las. Não se tratava de conquistar uma região brandindo um bastão e exibindo força e, depois, conduzir as pessoas como gado, sem transformá-las nem corrigi-las interiormente. Se tudo fosse feito por meio de golpes de espada e se todas as mudanças fossem impostas pela força do bastão, essa tirania duraria apenas alguns dias. Depois, o povo se rebelaria. E, se a explosão do descontentamento e dos protestos populares ocorresse uma vez, todo o sucesso alcançado seria destruído. Na realidade, no movimento islâmico, o uso da força era menor que em qualquer outro sistema, enquanto a parte dedicada ao دعوت, à educação e ao treinamento era a maior.
Todo governo ideológico é centrado na divulgação, e em todas as suas atividades tem prioridade o objetivo de fazer com que o povo compreenda de coração e aceite de coração a crença e o ideal sobre os quais se fundamenta seu sistema de vida. Todos os departamentos desse governo, além de suas funções específicas, também precisam cumprir essa responsabilidade central. Um governo desse tipo rejeitará tudo aquilo que prejudique seu ideal fundamental. Também aceitará coisas que não lhe tragam lucro, mas que consolidem sua ideologia fundamental na mente e no coração do povo. Seu objetivo mais importante é que o povo se una ao novo ideal e permaneça sinceramente unido a ele; que faça o que deve ser feito e elimine aquilo que precisa ser eliminado.
Por um lado, o governo islâmico de Medina continuou enviando grupos de دعوت e divulgação às regiões vizinhas mesmo nas mais difíceis situações de guerra. Em pelo menos quatro ocasiões, aqueles que partiram de Medina para realizar o دعوت foram mortos pelos assassinos, tornando-se mártires. Não foi pequeno o número de Companheiros que, ao saírem para realizar o دعوت, sofreram terríveis torturas e morreram como mártires. Pelo contrário, esse número foi maior que o total dos mártires muçulmanos das batalhas de Badr, Uhud e da Trincheira juntos. Mesmo nas situações mais delicadas e conflituosas, não houve negligência no cumprimento desse dever fundamental. Pelo contrário, ele foi mantido apesar de muitos sacrifícios e abnegação. Alguns Companheiros receberam treinamento em Medina durante certo período e depois foram designados para realizar o دعوت entre suas próprias tribos. Alguns desses Companheiros foram: (1) Tufail ibn Amr al-Dawsi (tribo de Daws); (2) Amura ibn Masud (tribo de Saqif); (3) Amir ibn Shahr (Hamdan); (4) Dimam ibn Tha’laba (Banu Sa’d); (5) Munqidh ibn Hubban (Bahrein); (6) Thumama ibn Uthal (Najd). Além disso, pregadores específicos eram enviados para determinadas tribos ou pessoas. Assim, Ali foi enviado a Hamdan, Huzaima e Madhhaj; al-Mughira ibn Shu’ba, a Najran; Dhabar ibn Nathnis, aos persas residentes no Iêmen; Mahisa ibn Masud, a Fadak; Ahnaf, à tribo de Sulaym; Khalid ibn al-Walid, a Meca; Amr ibn al-As, a Omã; e Muhajir ibn Abi Umayya, a Harith ibn Filal, príncipe do Iêmen.
Entretanto, o governo islâmico obteve dos funcionários civis muito mais trabalho de دعوت e divulgação. Os funcionários do governo islâmico não se consideravam profissionais assalariados, nem aceitavam seus cargos com o objetivo de ganhar dinheiro. Seu único objetivo era elevar a palavra e os mandamentos de Allah e conduzir as pessoas pelo caminho do bem. Esse trabalho não poderia ser realizado por pessoas movidas apenas pelo salário. Somente os servidores altruístas da revolução islâmica eram capazes de realizá-lo. Eles não ambicionavam cargos nem ficavam obcecados com graus e promoções. Eram os próprios cargos e responsabilidades que os chamavam, e eles desempenhavam funções superiores recebendo o salário mínimo. Um único exemplo será suficiente. Attab ibn Usaid foi nomeado governador de Meca com um salário de um dirham por dia. Ele próprio disse em um discurso: “Que Allah mantenha com fome aquele que, mesmo recebendo um dirham por dia, continua com fome.” (Ibn Hisham.) Antes de tudo, eles eram os convocadores de sua amada crença e de seu ideal. Aqueles que o governo de Medina nomeava em diferentes lugares como governadores, juízes, cobradores de impostos ou funcionários do departamento financeiro tornavam-se, em seus respectivos campos de trabalho, pregadores do tawhid, mestres dos ensinamentos do Islã e instrutores de moralidade. Quando lhes eram confiadas as responsabilidades de seus departamentos, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) também lhes recordava essa responsabilidade fundamental. Quando Mu’adh ibn Jabal foi enviado ao Iêmen com responsabilidades financeiras, administrativas e judiciais, também lhe foi dito: “Ensina o Alcorão ao povo e ensina-lhe as normas do Islã.” Depois, explicaram-lhe especialmente o método de دعوت conforme as necessidades do Povo do Livro. Disseram-lhe: “Primeiro convoca-os ao tawhid. Se aceitarem isso, ensina-lhes a oração. Depois, ensina-lhes o zakat.” Na maioria dos casos, todos esses funcionários eram imames da oração em suas respectivas sedes. Contudo, nas grandes localidades onde era impossível não dividir as responsabilidades, além dos administradores também eram nomeados imames separados para a oração. Assim, Attab ibn Usaid foi nomeado em Meca, Uthman ibn Abi al-As em Taife e Abu Zayd al-Ansari em Omã.
Havia um grande número de funcionários civis. Por isso, sua lista não é apresentada. Mas, ao observar esse número e as regiões para as quais foram nomeados, pode-se compreender o papel extremamente importante que o setor civil do governo islâmico — o serviço civil — desempenhou na propagação do convite ao Islã. Além disso, enquanto cumpriam suas responsabilidades, esses propagadores não eram apenas funcionários no sentido convencional. Eles mantinham-se a uma distância imensa de tudo aquilo que caracterizava os governantes comuns: não temer a Deus, ostentação, opressão e excessos, afastamento do povo, indiferença às necessidades das pessoas, expulsar os demais para longe aos gritos quando saíam às ruas, reunir multidões excessivas de porteiros, guardas e auxiliares, construir grandes palácios, saquear, aceitar subornos, viver cercados de bajuladores, distribuir recompensas conforme desejassem desperdiçando o dinheiro público, organizar rodas de bebida e promover festas de música e dança. Esses funcionários civis eram funcionários de um tipo inteiramente diferente. Seu governo era, para o povo, uma experiência completamente nova. Esses funcionários e servidores, que recebiam salários modestos, levavam uma vida simples, cumpriam seus deveres com honestidade, eram bondosos para com os súditos, defensores da justiça e da equidade e tementes a Deus, conquistavam o coração do povo por meio de seu próprio caráter. Quando convidavam as pessoas para a religião, esse convite penetrava no mais profundo do coração dos ouvintes. Hazrat Abu Musa al-Ashari foi nomeado administrador das regiões de Zobayde e Aden. Todos os habitantes dali aceitaram o Islã muito rapidamente em resposta ao seu convite. Do mesmo modo, Jarir ibn Abdullah al-Bajali foi nomeado responsável pela dinastia do Iêmen. Ele exerceu uma influência tão grande que todos se juntaram ao movimento islâmico. E, por essa alegria, libertou quatro mil escravos.
Em suma, os setores civis do governo prosseguiam incansavelmente com o trabalho de convite e divulgação, com extrema concentração e dedicação; e o resultado desse amplo trabalho de convite e educação foi que, mesmo entre as populações das regiões mais remotas da Arábia, ocorreu não apenas uma revolução política, mas também uma revolução mental, acompanhada de uma transformação radical no aspecto moral. Por fim, toda a estrutura social da Arábia assumiu uma forma completamente nova.
A prosperidade econômica do povo
Um grande número dos habitantes beduínos da Arábia era, em geral, pobre. A maioria das tribos do deserto era nômade. Além do pouco sustento obtido dos animais que criavam, o roubo armado e a pilhagem eram seus principais meios de subsistência. Havia também algumas tribos beduínas que possuíam residência permanente muito distante das cidades. Contudo, elas também eram extremamente pobres. Os xeques e chefes dessas tribos monopolizavam a maior parte dos benefícios dos esforços econômicos e privavam deles o povo comum. Por cidades entendiam-se Meca, Medina, Taife, Saná, Hadramaut e outras semelhantes. Elas não eram cidades grandes, e o número de seus habitantes era muito pequeno. No conjunto, porém, eram prósperas e abastadas. Também entre seus habitantes havia classes superiores e inferiores. A classe superior explorava a inferior. Em Medina, além de dominarem o comércio e a cultura, os judeus haviam espalhado uma rede de negócios baseados em juros. Da mesma forma, os grandes ricos de Meca e Taife, além de outras formas de ganhar dinheiro, também praticavam negócios com juros. Algumas famílias de alto nível levavam uma vida de extremo luxo. Música, bebida, relacionamentos amorosos e adultério eram algumas das principais características de sua cultura. Entretanto, a carência do povo comum da Arábia não tinha limites.
Impulsionados pela necessidade, chegavam a comer a carne de animais mortos. Não faziam absolutamente nenhuma distinção entre puro e impuro, nem entre lícito e ilícito. Quando nem sequer conseguiam resolver os problemas de alimentação, vestuário e moradia, a questão da educação, da saúde e de outras necessidades superiores estava naturalmente fora de cogitação. Para se tratar, rezava-se aos deuses e deusas, recorria-se à magia e procurava-se a ajuda de astrólogos e faquires. As oportunidades de educação eram extremamente limitadas. As atividades educacionais restringiam-se a um punhado de pessoas das famílias urbanas de classe alta. Um problema fundamental e concreto daquela sociedade era o problema da alimentação. Não se pode transmitir conhecimento sobre assuntos elevados e nobres a um povo cuja maioria esmagadora vive constantemente atormentada pela pergunta “o que vou comer?”, nem ele consegue realizar algum feito memorável em prol de um objetivo elevado. Ninguém pode mobilizar amplamente para um movimento aqueles que sofrem privação econômica apenas com sermões, exortações e bons conselhos, sem remediar sua privação. Se uma ideologia conquistar o poder pela força das armas, mas não puder resolver os problemas econômicos básicos das pessoas, o povo comum jamais estará disposto a aceitar meros conselhos de reforma e reconstrução moral. Pelo contrário, considerará tais esforços de reforma, correção e reconstrução um tormento e ficará ansioso por livrar-se deles. O sistema de vida islâmico só poderá conquistar a humanidade quando assegurar felicidade e prosperidade tanto neste mundo quanto na vida futura, e quando, além da reforma e correção moral, também puder resolver os problemas econômicos. Promover um movimento voltado apenas para problemas econômicos equivale a empurrar a humanidade para a destruição moral; do mesmo modo, separar a reforma moral das exigências e necessidades econômicas da vida significa condenar ao fracasso o esforço de reforma moral. O Islã satisfaz ambas as necessidades ao mesmo tempo. O movimento conduzido pelo Mensageiro (que a paz esteja com ele), por um lado, ilumina o coração com a luz da fé e enriquece a alma com valores morais; por outro, também providencia da melhor maneira o alimento para o sustento do corpo. Desde o início, a mais concisa legislação moral do Islã já incluía a ordem de “It’am al-masakin”, isto é, alimentar os pobres. Além disso, ajudar órfãos, viúvas e viajantes também era obrigatório para todo muçulmano.
A Arábia era um país de baixa produtividade. Todos os tipos de recursos — minerais, industriais e pecuários — estavam limitados e concentrados nas mãos de determinadas classes. Levar essas fontes de riqueza ao alcance do povo comum era um problema extremamente complexo. Sem resolver esse problema, não era possível resolver os demais grandes problemas da vida. As normas econômicas do Islã, que foram reveladas gradualmente, eram suficientes para manter a riqueza circulando entre todas as classes da sociedade em condições moderadas. Contudo, antes mesmo da implementação dessas normas, essas fontes de riqueza constituíam o problema mais complexo. Somente por meio da atividade de jihad foi possível encontrar para esse problema uma solução tão adequada que nenhum outro meio alternativo poderia ter alcançado um êxito semelhante.
Desde os tempos antigos até a era moderna, apoderar-se das armas e dos equipamentos dos inimigos derrotados como espólio de guerra tem sido considerado um direito universalmente reconhecido. Para pôr fim à guerra, privar o adversário de armas, equipamentos e provisões é uma estratégia mais eficaz e infalível do que matar pessoas. Além disso, enfraquecer a economia militar do adversário também é uma das medidas mais bem-sucedidas. O Islã também manteve o direito ao espólio de guerra e, por isso, impôs restrições morais específicas. Aqui não nos é possível iniciar uma discussão teórica. Contudo, aplicando este princípio na prática, as forças islâmicas libertaram e colocaram em circulação as riquezas acumuladas em vários lugares. As riquezas dos judeus e usurários, extorquidas do povo, entraram em circulação de acordo com as normas do espólio de guerra. As riquezas acumuladas da tribo de Saqif foram retiradas do âmbito de sua propriedade e espalhadas por toda a Arábia. Do mesmo modo, uma grande parte das riquezas dos líderes e chefes abastados das tribos rebeldes próximas a Medina, que tramavam criar anarquia, foi tomada pelas forças muçulmanas e retirada de seu controle, sendo colocada em circulação por meio de uma distribuição justa.
A prática da era da ignorância em relação aos espólios de guerra era que cada um levava consigo tudo o que encontrasse no campo de batalha. Alguns roubavam, outros se apropriavam das coisas por meio de fraude; e quanto maior e mais poderoso alguém fosse, maior e melhor era a parte que abocanhava, exibindo o poder de sua autoridade. A estratégia militar islâmica deu origem a uma ética completamente nova. Segundo esse princípio, todos os espólios de guerra eram primeiro reunidos meticulosamente, centavo por centavo. Nem sequer uma agulha era deixada para trás. Depois, eram distribuídos por ordem do comandante. Vinte por cento desses bens iam para o tesouro islâmico, isto é, para o Bayt al-Mal. A maior parte era entregue aos pobres e necessitados. Assim, começou uma livre circulação da riqueza do país. Posteriormente, à medida que as normas financeiras foram sendo instituídas, seu fluxo foi colocado sob controle.
Depois, o Estado islâmico arrecadou dos proprietários de terras, de animais e de capital comercial receitas sob a forma de zakat, quando eram muçulmanos, e de kharaj e jizya, quando eram não muçulmanos. Uma grande parte dessas receitas, especialmente da zakat, foi destinada às classes pobres. Todos os anos, uma grande parte dos cereais, das tâmaras e dos animais criados era transferida dos ricos para os pobres.
Além disso, a solução dos problemas econômicos não foi buscada apenas pela força da lei. Também foram adotados meios morais para resolvê-los. O Mensageiro (S.A.) apresentou ao mundo, na sociedade central de Medina, uma experiência extremamente bem-sucedida de fraternidade econômica (Fraternidade Econômica), juntamente com a igualdade social. Todo o povo da Arábia podia ver que, depois que pessoas expulsas de seus lares, escravos privados de tudo, beduínos atormentados pela fome e um grupo de jovens embriagados pelo amor de Allah abraçavam o Islã, uma transformação extraordinária ocorria da noite para o dia. Por um lado, eles passavam a se posicionar lado a lado com grandes líderes da sociedade aristocrática e, com uma audácia inimaginável, desafiavam adversários extremamente arrogantes e orgulhosos. Por outro lado, todos os seus sofrimentos, necessidades e queixas desapareciam. Eles encontravam abrigo, trabalho, armas, animais para transporte e também se casavam e constituíam família. E a influência benéfica dessa fraternidade islâmica não ficou limitada a Medina; ao contrário, espalhou-se gradualmente por toda parte, até que um dia toda a população da Arábia desfrutou de seus benefícios.
O povo da Arábia via e sentia, à distância, esse novo sistema incomparável de igualdade social e fraternidade econômica como o próprio paraíso na Terra. E também sabia que bastava a chave do tawhid para entrar nesse paraíso. Nessas circunstâncias, se surgisse no coração de pessoas esmagadas durante séculos sob o moinho da pior exploração social e econômica o desejo de entrar nesse paraíso, haveria algo de surpreendente nisso?
O Mensageiro (S.A.), atento aos problemas do povo comum da Arábia, demonstrou pessoalmente a mais elevada generosidade e caridade. Também como chefe de Estado, adotou uma política de extrema liberalidade e magnanimidade. Nunca permitiu que qualquer riqueza permanecesse acumulada em sua posse pessoal. Pelo contrário, distribuía-a o mais rapidamente possível entre os necessitados locais e os que vinham de fora. Nunca permitiu que dinheiro permanecesse no Bayt al-Mal; sempre que algum necessitado aparecia, dava-lhe tudo o que podia. Para o Mensageiro (S.A.), as pessoas eram o que realmente importava. Ele considerava a riqueza serva da humanidade. Certa vez, chegou até a tomar um empréstimo para dar a um solicitante de ajuda, pois não havia nada no Bayt al-Mal nem consigo mesmo. (Shamā’il al-Tirmidhi)
Ao ouvirem falar de sua generosidade, moradores necessitados das aldeias e beduínos do deserto vinham correndo de lugares distantes para Medina e retornavam satisfeitos com suas doações inesgotáveis. É bem conhecido o episódio em que um beduíno chegou certa vez, puxou o manto do Mensageiro (S.A.) e disse insolentemente: “Ó Muhammad, S.A., todas estas riquezas pertencem a Allah. Não precisas dar nada dos bens de teus pais. Dá-me o suficiente para carregar a corcova do meu camelo.” O Mensageiro (S.A.), oceano de misericórdia, ficou calado por um instante e então disse calmamente: “Tu tens razão; todas estas riquezas pertencem a Allah, e eu sou Seu servo.” Depois, ordenou que dessem àquele beduíno um camelo carregado de cevada e outro camelo carregado de tâmaras. Ele partiu muito feliz. Em outra ocasião, chegou do Bahrein uma quantidade de receitas tão grande que jamais havia chegado antes a Medina. O Mensageiro (S.A.) empilhou-a no pátio da Mesquita do Profeta. Então, continuou entregando-a, um por um, aos que chegavam. Depois, sacudiu suas roupas, levantou-se e foi para casa. Esse tipo de doação ocorria com frequência em Medina, e pessoas vindas de várias regiões vinham beneficiar-se dela. Essas pessoas retornavam às suas próprias localidades e contavam as histórias da generosidade do governo islâmico; e, dominadas por essas histórias, quantas pessoas abraçavam o Islã — quem poderia contá-las?
Darei mais um exemplo da generosidade do Grande Profeta (S.A.). Um homem veio, descreveu sua difícil situação financeira, começou a chorar e pediu ajuda. O Mensageiro (S.A.) deu-lhe um rebanho de cabras que pastava na montanha próxima. Ao receber essa doação inimaginável, o homem ficou radiante de alegria e, ao voltar para sua tribo, começou a dizer: “Tornai-vos muçulmanos. Muhammad (S.A.) faz doações tão generosas que nenhum sofrimento permanece para o pobre.” (Al-Mawāhib al-Ladunniyya). Safwan ibn Umayya disse: “O Mensageiro (S.A.) presenteou-me com trezentas cabras. Como resultado, meu estado de espírito mudou de tal maneira que antes não havia ninguém que me fosse mais detestável do que ele; agora, não há ninguém que me seja mais querido.” A propósito disso, recita-se o seguinte verso:(*****Árabe******)
“Ele é aquele que, ao dar
não teme ficar desprovido,
por mais pessoas que venham até ele
e continuem vindo.”
O resultado dessa fama universal de generosidade foi que, quando ele voltava após distribuir os espólios de guerra de Hunayn, um beduíno foi até ele, abraçou-o e disse: “Dê-me algo também.” O Mensageiro (s.a.) ficou perturbado e permaneceu encostado a uma árvore. Depois, declarou sua incapacidade, dizendo: “Se eu tivesse tantos camelos quanto o número de árvores nesta floresta, distribuiria todos eles entre vocês. Vocês não me veriam sendo avarento, nem veriam em mim disposição ou coragem para dizer coisas irreais.” (Sahih Bukhari)
Pessoas mesquinhas podem classificar essa generosidade como uma tentativa de conquistar corações com o poder do dinheiro e de transformar pessoas em apoiadores por meio de subornos. Mas a realidade não é absolutamente essa. Resgatar as pessoas que caíram em dificuldades econômicas e libertá-las do sentimento de inferioridade é uma das exigências fundamentais e ideológicas do Islã. As classes da sociedade humana que, devido à opressão e à exploração das classes superiores, são afligidas por uma privação tão terrível que nem sequer têm a oportunidade de dedicar atenção às necessidades ideológicas mais elevadas e nobres da vida — as pessoas que caíram em uma crise tão lamentável também recebem a misericórdia de Allah. A maioria dos árabes era vítima desse tipo de situação. Eles precisavam não apenas da Kalima Tayyiba, mas também de alimento e vestuário. Graças à fraternidade econômica do Islã, os habitantes de Medina provavelmente tiveram, pela primeira vez, a oportunidade de elevar-se acima das necessidades básicas do corpo, pensar nas necessidades espirituais da vida e cultivar nobres valores morais. A reforma econômica facilitou a expansão do Islã. O pleno desenvolvimento do sistema econômico islâmico foi alcançado mais tarde, quando todas as suas leis, normas e princípios foram implementados. Mas, apenas ao ver seus sinais iniciais, o povo passou a olhar para Medina com esperança. Eles compreenderam que, dali, receberiam não apenas a luz da verdade, mas também a solução para os problemas econômicos.
As relações amplas do estadista
Quaisquer que sejam os objetivos e as metas de uma pessoa, e por mais elevado que seja o trabalho ideológico que ela realize, a amplitude de suas relações pessoais pode ajudá-la consideravelmente a alcançar o sucesso. Desde as atividades comuns até as revoluções idealistas, nos diversos trabalhos coletivos de diferentes níveis, poucas pessoas conseguem ter sucesso quando seu alcance nas relações humanas comuns é muito limitado, quando são caseiras e antissociais. Os laços de parentesco e de sangue, as relações matrimoniais, a amizade e a camaradagem, a companhia nos momentos de alegria e tristeza, os encontros mútuos, as saudações e as conversas, entre outras coisas, ampliam a capacidade de uma pessoa de exercer influência. As relações pessoais alteram inconscientemente o curso de muitos grandes trabalhos ideológicos, e, por causa delas, até numerosas decisões políticas acabam sendo tomadas. Em suma, pode-se dizer que, de modo geral, é bem-sucedida na liderança das pessoas aquela pessoa cujo círculo de relações é amplo, que amplia e alarga ainda mais essas relações e atende às exigências de cada uma delas.
Quando, sob esta perspectiva, observamos a grandiosa personalidade do Mensageiro (que a paz esteja com ele), vemos que o alcance de todos os seus tipos de relacionamento era extremamente amplo. Ao mesmo tempo, vemos que suas amizades e relações pessoais comuns também se expandiam continuamente. Não se vê nele qualquer desejo de se despedir, em algum momento, de nenhuma dessas relações, nem se percebe qualquer relutância ou desprezo em manter relações com as pessoas comuns, como teria um indivíduo de elevada estatura espiritual. Pelo contrário, ele mantinha todos os relacionamentos de maneira extraordinária, cumpria seus direitos e reivindicações e os mantinha estáveis. Ele demonstrava tanto respeito até mesmo pelos laços de parentesco muito distantes que, quando o exército muçulmano conquistou o Egito, ordenou-lhe tratar bem os habitantes daquele país. Ele disse: “Hagar, a mãe de Ismael (que a paz esteja com ele), era egípcia. Portanto, incumbe-vos a responsabilidade de proteger os laços de parentesco sanguíneo.” Essas relações pessoais extremamente amplas do Mensageiro (que a paz esteja com ele) contribuíram para o desenvolvimento do movimento islâmico e para o aumento da influência do chamado islâmico.
É necessário apresentar uma breve descrição dessas relações. Isso permitirá compreender como elas contribuíram para o movimento islâmico e como facilitaram a revolução islâmica. Dividiremos suas relações em diversas categorias:
1. Relações genealógicas
A linhagem genealógica do Mensageiro (que a paz esteja com ele) é a seguinte:
Muhammad (1), ibn Abdullah (2), ibn Abd al-Muttalib (3), ibn Hashim (4), ibn Abd Manaf (5), ibn Qusayy (6), ibn Kilab (7), ibn Murrah (8), ibn Ka’b (9), ibn Lu’ayy (10), ibn Ghalib (11), ibn Fihr (12), ibn Malik (13), ibn al-Nadr (14), ibn Kinanah (15), ibn Khuzaymah (16), ibn Mudrikah (17), ibn Ilyas (18), ibn Mudar (19), ibn Nizar (20), ibn Mu’ad (21), ibn Adnan (22), ibn Udd (23), ibn Muqawwam (24), ibn Nahur, ibn Tayrah, ibn Yarub, ibn Yashjur, ibn Nabit, ibn Ismail, ibn Ibrahim.
O Mensageiro (que a paz esteja com ele) informou que os nomes depois de Adnan até Ismael (que a paz esteja com ele) não são muito confiáveis. Os historiadores expressaram opiniões divergentes sobre esses nomes. A relação do Mensageiro (que a paz esteja com ele) com Adnan encontra-se no vigésimo primeiro nível genealógico. O intervalo de tempo é de 1.158 anos. A relação do Mensageiro (que a paz esteja com ele) com as tribos árabes converge em algum nível.
Udd, filho de Adnan e irmão de Mu’ad, foi para uma região do Iêmen chamada Ghassan, estabeleceu ali um reino e casou-se com uma mulher da tribo dos Ash’aritas. O Islã se difundiu muito rapidamente nessa região. Numerosas delegações de várias áreas do Iêmen foram até o Mensageiro (que a paz esteja com ele) e aceitaram o Islã. Entre elas estava também uma delegação dos Ash’aritas. Nizar, o vigésimo antepassado, tinha quatro filhos. Entre eles, os descendentes de Anmar estabeleceram-se no Najd e no Hijaz. Os descendentes de Ayad viveram em Shughr e seus arredores. Já Mudar e Rabi’a estabeleceram-se na região central da Arábia.
Vejamos agora a identidade das tribos famosas que pertencem à mesma linhagem do Mensageiro (que a paz esteja com ele) e cujos nomes estão registrados nas obras de biografia profética, história e hadith:
Banu Tamim — descendentes de Tamim ibn Mard, ibn Udd, ibn Tanja, ibn Elias (18).
Banu Ghatafan — descendentes de Ghatafan ibn Ghatafan, ibn Sa’d, ibn Elias (18).
Banu Dhubyan — descendentes de Dhubyan ibn Bu’aidh, ibn Rayesh, ibn Ghatafan — Elias.
Banu Hawazin — descendentes de Hawazin ibn Mansur, ibn Ikrama, ibn Hasfan, ibn Qays Aylan, ibn Elias.
Banu Sa’d — descendentes de Sa’d ibn Bakr, ibn Hawazin…….. Elias.
Banu Thaqif — descendentes de Thaqif ibn Hawazin……… Elias.
Banu Sulaym — descendentes de Sulaym ibn Mansur…….. Elias.
Banu Hudhayl — Hudhayl ibn Mudrika — (17).
Banu Hawun — Hawun bin Khuzaima (nº 16).
Waishi — Waish bin Karah bin Hawun bin Khuzaima.
Azali — Azal bin Kara……………… até Khuzaima.
Banu Asad — Asad bin Khuzaima……………. até Khuzaima.
Banu Nadhar — Nadhar bin Kinana (nº 15).
Banu Kinana — o mesmo.
Banu Mustaliq — Mustaliq (Khuzaima) bin Abd Manat bin Kinana (nº 15).
Al-Ahabish — Ahabish bin Kinana.
Banu Malik — Malik (13º) ibn Nadhar ibn Kinana.
Quraysh — Fehr ou Quraysh (12º) ibn Malik.
Banu Muharib — Muharib ibn Fehr.
Banu Taym — Taym ibn Ghalib (11º) ibn Fehr.
Banu Awf — Awf ibn Lu’ay (10º) ibn Ghalib.
Banu Amir — Amir ibn Lu’ay.
Banu Harith — Harith ibn Lu’ay.
Banu Hasīs — Hasīs ibn Ka’b (9º) ibn Lu’ay.
Banu Sahm — Sahm ibn Ka’b.
Banu Jumah — Jumah ibn Ka’b.
Banu Adi — Adi ibn Ka’b.
Banu Kilab — Kilab (nº 7) ibn Murra (nº 8).
Banu Taym — Taym ibn Murra (nº 8)
Banu Makhzum — Makhzum ibn Murra.
Banu Qusay — Qusay (nº 6) ibn Kilab.
Banu Zuhra — Zuhra ibn Kilab.
Asadi — Asad ibn Abd al-Uzza ibn Qusay (nº 6).
Mutalibi — Mutalib ibn Abd Manaf (nº 5).
Banu Umayya — Umayya ibn Abd al-Shams ibn Abd Manaf.
Nawfiliún — Nawfal ibn Abd Manaf.
Banu Hashim — Hashim ibn Abd Manaf.
Essa longa linhagem se estende a tal ponto que muitos companheiros próximos e de elevada posição do Mensageiro (que a paz esteja com ele) estão ligados a ela. Por exemplo, a linhagem de Hazrat Umar (que Deus esteja satisfeito com ele) remonta a Jarráh ibn Adi ibn Kaab (nº 9), e Hazrat Abu Ubaida está ligado por ascendência a Jarráh ibn Adi. A mãe do Mensageiro (que a paz esteja com ele), Hazrat Amina, era descendente de Wahb ibn Abd Manaf ibn Zuhra ibn Kilab (nº 7). Hazrat Abu Bakr era descendente de Taym, irmão de Kilab ibn Murra. Saad ibn Abi Waqqas, um dos Ashara Mubashshara, isto é, os dez companheiros a quem foi anunciada a boa-nova do Paraíso ainda em vida, estava ligado ao Mensageiro (que a paz esteja com ele) por meio de Malik ibn Uhaib ibn Manaf. Uthman ibn Talha, guardião das chaves da Caaba Sagrada, era descendente de Abdud-Dar ibn Qusay (nº 6). Outro integrante dos Ashara Mubashshara, Hazrat Zubair ibn Awwam, era descendente de Khuwailed ibn Asad ibn Abd al-Uzza ibn Qusay (nº 6). Da mesma forma, Hazrat Khadija Tahira era filha de Khuwailed ibn Asad ibn Abd al-Uzza ibn Qusay. Waraqa ibn Nawfal ibn Khuwailed era seu irmão. Os três filhos de Harith ibn Mutalib ibn Abd Manaf (nº 5) — Abu Ubaida, mártir de Badr, Tufail e Hadis — foram companheiros ilustres. A linhagem do Imam Shafii também está ligada a Mutalib. Hazrat Uthman era descendente de Umayya ibn Abd al-Shams ibn Abd Manaf.
Há divergência quanto ao número de tios do Mensageiro (que a paz esteja com ele). Não se conhecem os relatos sobre dois deles. Um tio morreu muito antes. Entre seus tios, as pessoas mencionadas abaixo são muito notáveis. Elas estão ligadas à história do Islã, e seus relatos também foram preservados.
Um tio, Harith, morreu antes do surgimento do Islã. Seus quatro filhos — Nawfal, Abdullah, Rabia e Abu Sufyan — aceitaram o Islã e desempenharam papéis importantes na história islâmica. Foi precisamente ao renunciar à reivindicação de vingança ou indenização pelo assassinato de Rabia ibn Harith que o Mensageiro (que a paz esteja com ele), por ocasião da conquista de Meca, anunciou pela primeira vez: “A partir de hoje, ficam abolidas todas as reivindicações de vingança ou indenização pelos homicídios cometidos na época da ignorância.”
Um dos tios era Abu Talib, que cumpriu plenamente a responsabilidade de cuidar do Mensageiro de Deus (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele). Embora permanecesse fora do movimento islâmico, ajudou-o de todo o coração e com todos os meios. Hoje, não se encontrará ninguém que desconheça os nomes dos dignos filhos de Abu Talib: Hazrat Ali, Jafar e Aqil. As duas filhas de Abu Talib, Umm Hani e Jumana, também aceitaram o Islã. Hazrat Umm Hani alcançou especial notoriedade por ocasião do episódio do Mi‘raj.
Um dos tios era Hazrat Hamza, que alcançou o martírio na batalha de Uhud. Hind tratou seu cadáver de maneira extremamente cruel. Foi esse tio quem protestou veementemente contra a conduta perversa de Abu Jahl para com o Mensageiro de Deus (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) e aceitou o Islã correndo enormes riscos.
Um dos tios era Hazrat Abbas. Desde o início, desempenhou um papel semelhante ao de um tutor. Em particular, desempenhou um papel importante nas conversações sobre o juramento de lealdade de Aqaba. Alertou os ansar sobre sua grande responsabilidade. Além disso, permanecendo em Meca, mantinha o Mensageiro de Deus (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) informado sobre a situação. Quando passou o período delicado de conflitos e confrontos, anunciou sua aceitação do Islã e partiu para Medina.
Um dos tios, Zubair, faleceu antes do surgimento do Islã. Era um homem extremamente bondoso e participou ativamente da fundação de Hilf al-Fudul.
Um dos tios era Abu Lahab. Esse tio não era apenas um opositor ferrenho do Islã, mas também um comandante ativo do campo adversário. Sua esposa também era uma grande inimiga do Islã e, pessoalmente, estava sempre na vanguarda quando se tratava de causar sofrimento ao Mensageiro de Deus (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele). Abu Lahab teve um fim extremamente exemplar. Morreu de peste. Seu cadáver permaneceu abandonado por três dias, apodrecendo. Ninguém se aproximou dele. Por fim, atiraram pedras por cima do muro para cobrir o cadáver, e o próprio amontoado de pedras foi transformado em sepultura. A esposa de Abu Lahab morreu miseravelmente quando a corda se apertou em torno de seu pescoço. Os dois filhos de Abu Lahab morreram como incrédulos, enquanto outros dois se submeteram à autoridade do Mensageiro de Deus (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) durante a batalha de Hunain. Sua filha Dira teve a ventura de aceitar o Islã.
Entre as tias paternas do Mensageiro de Deus (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele), uma era Umm Hakim Raida, esposa de Kusayr ibn Rabia (descendente de Abd Manaf). Seu filho Amir aceitou o Islã no dia da conquista de Meca. O filho de Amir, Abdullah ibn Amir, também se tornou um sahabi e foi nomeado governador do Khurasan durante o califado de Hazrat Uthman. Arwa, filha dessa mesma Umm Hakim, era a mãe de Hazrat Uthman. Outra tia paterna era Umaima. Ela se casou com Jahsh ibn Rubab. Uma de suas filhas, Umm Habiba, foi esposa de Abd al-Rahman ibn Awf. A outra filha, Hamna, casou-se primeiro com Musab ibn Umair e depois com Talha ibn Abdullah. Os dois filhos nascidos do segundo casamento, Muhammad e Imran, tornaram-se bravos soldados do movimento islâmico. Abdullah ibn Jahsh alcançou o martírio na batalha de Uhud e foi sepultado junto de seu tio materno, Hazrat Hamza. A terceira tia paterna era Atika, que teve um sonho antes da batalha de Badr. Por causa desse sonho, ela foi muito ridicularizada e insultada entre os coraixitas, que diziam: “Agora até as filhas de Banu Hashim começaram a reivindicar a profecia.” A quarta tia paterna era Hazrat Safia. Seu primeiro casamento foi com Harith ibn Harb ibn Umaia, e o segundo, com Awwam ibn Khuwaylid. Desse casamento nasceu Zubair, um dos membros dos Dez a Quem Foi Prometido o Paraíso. Saib ibn al-Awwam também era seu filho. Saib participou de muitas guerras santas. Ao ver o cadáver de Hazrat Hamza abandonado e testemunhar o tratamento desumano que lhe foi dado, deu um raro exemplo de paciência. A quinta tia paterna, Barra, era esposa de Abd al-Asad ibn Hilal. Abu Salama era seu filho. Esse Abu Salama foi o primeiro marido de Umm Salama, uma das Mães dos Crentes. Outra tia paterna, Arwa, era esposa de Umair Uhaib. Quando seu filho Tulaib lhe comunicou que havia aceitado o Islã, ela, tomada por intensa emoção, disse: “Teu primo materno é a pessoa mais digna de teu serviço e de tua ajuda. Por Deus, se nós, mulheres, tivéssemos tanto poder quanto os homens, nós o protegeríamos e daríamos a seus inimigos a resposta que merecem.”
Por trás dessas palavras também atuava o fervor da fé, assim como o afeto sincero de uma tia paterna. Há ainda outros aspectos das relações genealógicas do Mensageiro de Deus (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele). Aqui, porém, apresentamos apenas os vínculos de parentesco que, de uma forma ou de outra, estavam relacionados ao movimento islâmico. É verdade que, por serem fundamentais e ideológicos, os conflitos e confrontos eram extremamente difíceis e complexos. Os coraixitas haviam estabelecido, nesse sentido, um sólido campo de oposição que perdurou por muito tempo. Contudo, esses vínculos de parentesco começaram a exercer influência internamente. De modo geral, Banu Hashim demonstrou maior simpatia do que os demais. Foi por causa do parentesco que, ao ver a tirania de Abu Jahl, o sangue subiu à cabeça de Hazrat Hamza; ele abandonou a Jahiliyyah e tornou-se companheiro do Mensageiro de Deus (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele). Durante o bloqueio, quando Abu Jahl impediu que alimentos fossem enviados a Abu Talib, em Shiab de Abu Talib, Abu al-Bukhtari protestou. Hazrat Abbas permaneceu silenciosamente em Meca e prestou ajuda. Até nas assembleias dos coraixitas, às vezes, alguns começavam a demonstrar parcialidade em favor do Mensageiro de Deus (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) por causa dos laços de parentesco. Alguns opinavam que talvez ele tivesse sucesso ao sair de Meca e trabalhar entre os árabes. Comentava-se também que, nesse caso, seu sucesso seria o próprio sucesso dos coraixitas. Depois de muitos anos de obstinação, quando Meca foi conquistada, as pessoas chamaram o Mensageiro de Deus (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) de “um irmão nobre e filho de um irmão nobre”. Esse parentesco também exerceu influência de outras maneiras. Quando um de seus parentes era feito prisioneiro de guerra e, durante a noite, começava a gemer e suspirar por causa das amarras, ele perdia o sono. Quando houve fome em Meca, seu coração se enterneceu, e ele enviou alimentos e ajuda em dinheiro. Depois da conquista de Meca, fez doações generosas a seus habitantes.
2. Relações maternas em Medina
A mãe do pai do Mensageiro, o senhor Abdullah, Fátima bint Umar, era descendente da famosa tribo medinense Banu Najjar. Antes dela, seu bisavô Hashim também havia se casado com uma mulher da tribo Khazraj, Hind bint Amr bin Sa’laba. Por isso, Abdullah, pai do Mensageiro, mantinha relações muito próximas em Medina. Por acaso, durante uma viagem comercial, seu pai faleceu em Medina e foi enterrado ali mesmo. A mãe do Mensageiro, Amina, levou-o consigo a Medina quando ele tinha apenas cinco anos, com o objetivo de visitar os parentes e o túmulo do marido. Eles permaneceram ali por um mês. Ficaram em Darun Nabigha. Quando ele foi para Medina após a Hégira, essa lembrança de 47 anos antes voltou à sua memória. Às vezes, durante as reuniões, dizia: “Na casa dos meus tios maternos havia uma menina chamada Anissa que era minha companheira de brincadeiras. Um pássaro pousava na fortaleza, e os meninos e meninas o espantavam. Minha mãe sentava-se naquele quarto, em tal lugar, e o túmulo de meu pai ficava em tal lugar.” O Mensageiro também informou que havia aprendido a nadar muito bem em um lago de Banu Najjar. No caminho de volta a Meca, durante essa viagem, sua mãe faleceu em um lugar chamado Abwa.
É desnecessário dizer que, mais tarde, quando começaram a se estabelecer relações entre Medina e o movimento islâmico, esse vínculo certamente exerceu influência sobre elas. Os habitantes de Medina, especialmente os de Banu Najjar, consideravam-no um parente próximo, e Banu Najjar estava ainda mais entusiasmada para recebê-lo. As meninas daquela tribo deram-lhe as boas-vindas cantando.
3. A relação de amamentação
Após seu nascimento, o Mensageiro mamou durante alguns dias da escrava de Abu Lahab, Soubia. Halima Sa’dia, de Banu Hawazin, teve a honra de tornar-se sua ama de leite permanente. A filha mais velha de Halima, Hadhafa (apelidada Ax-Xammá), cuidou do Mensageiro durante sua infância. Quando Hadhafa foi trazida como prisioneira após a batalha de Hunayn, disse aos guardas: “Eu sou irmã do seu líder.” Quando a levaram até o Mensageiro, ele a recebeu com alegria. Estendeu uma capa diante dela. Profundamente emocionado, disse: “Se quiseres, podes ficar aqui comigo; e, se quiseres, serás levada de volta à tua tribo.” Quando ela expressou o desejo de ir para sua tribo, o Mensageiro despediu-se dela, dando-lhe muitos presentes. Ela também aceitou o Islã.
Foi invocando esse vínculo de amamentação que a tribo Banu Hawazin pediu a libertação de seus prisioneiros após a batalha de Hunayn. Ele libertou imediatamente todos os prisioneiros de Banu Hashim e, seguindo seu exemplo, os Companheiros também libertaram seus próprios prisioneiros.
4. O casamento de suas próprias filhas
O casamento de Zaynab com Abul-As foi realizado em Meca. A mãe de Abul-As era meia-irmã de Khadija. Ou seja, ele era tio materno do Mensageiro. Zaynab aceitou o Islã e emigrou para Medina. Depois disso, seu marido Abul-As também aceitou o Islã e foi para Medina. O vínculo anterior entre eles foi mantido. Havia uma profunda afeição entre marido e mulher. Mesmo apesar da pressão dos habitantes de Meca para que se divorciasse, Abul-As não se divorciou de Zaynab. Por isso, enquanto ainda era descrente, Abul-As foi libertado sem resgate, com a permissão dos muçulmanos, e os bens comerciais que lhe haviam sido confiscados foram devolvidos.
O casamento de Ruqayya com Uthman também foi realizado em Meca. Esse casal foi o primeiro a emigrar junto. Quando Ruqayya faleceu no segundo ano da Hégira, no terceiro ano da Hégira o Mensageiro, por ordem de Allah, também casou Umm Kulthum com Uthman. Por ter se casado sucessivamente com duas filhas, ele foi chamado de “Dhu’n-Nurayn”. O Mensageiro casou Fátima com Ali. Com exceção de Abul-As, esses dois líderes proeminentes do movimento islâmico eram companheiros próximos do Mensageiro e, além do parentesco por linhagem, também eram seus parentes próximos por vínculo matrimonial. Esse parentesco contribuiu para a condução da grandiosa tarefa do movimento islâmico.
5. As relações matrimoniais do Mensageiro (que a paz esteja sobre ele)
Como os filósofos ocidentais ferozmente hostis ao Islã levantaram muitas objeções às relações matrimoniais do Mensageiro (que a paz esteja sobre ele), uma parcela de nosso próprio meio se sente envergonhada e baixa a cabeça diante dessa realidade. Pensam: o Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) casou-se tantas vezes, e o Islã permitiu a poligamia; onde esconder essa vergonha? Por isso, desejo oferecer algumas explicações sobre o assunto por meio de uma breve discussão.
Antes de tudo, é necessário fixar firmemente na mente que o primeiro período da história humana foi uma era de expansão populacional. Vemos essa era estender-se até o tempo do Mensageiro (que a paz esteja sobre ele). Naquela época, vastas extensões de terra permaneciam desabitadas e incultas. Também havia amplo espaço para a produção dos meios de subsistência. Consequentemente, era perfeitamente natural que o impulso de aumentar a população fosse muito forte entre os seres humanos. Por isso, qualquer que seja a civilização ou religião daquele período que se examine, a poligamia era amplamente praticada. As leis da Sharia reveladas por Allah também a permitiram. Muitos profetas tiveram mais de uma esposa; apenas um ou dois abandonaram a vida doméstica para dedicar-se integralmente à pregação da religião. A maioria dos profetas, porém, levou uma vida familiar, e o fez de maneira plena. O Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) viveu na fase final dessa era de crescimento populacional e poligamia. Foi em seu tempo que, pela primeira vez, veio da parte de Allah a ordem para limitar o número de casamentos plurais. [Por essa ordem de limitação, o número máximo de esposas foi fixado em quatro, ao mesmo tempo em que se impôs a rigorosa condição da justiça e se incentivou o casamento com uma só esposa. Mas há, e continuará havendo, várias razões para a poligamia. Por exemplo, a primeira razão é que o Islã deseja impedir completamente a libertinagem sexual e o adultério e, para isso, estabeleceu punições severas. Em tal sistema, era necessário manter a possibilidade de casamentos plurais para aqueles que possuíam maior capacidade sexual. O resultado de ignorar essa necessidade real nos países ocidentais foi a criação da possibilidade de manter muitas amantes ao lado de uma única esposa. Além disso, a prostituição também se tornou uma prática estabelecida e se espalhou de tal forma que agora é difícil escapar dela. Até mesmo sob o nome de “amor livre”, está ocorrendo um caos de adultério consentido que, em comparação, faz o sistema islâmico de poligamia parecer certamente muito superior. A segunda razão é que, em certos casos, o desejo de ter filhos obriga alguém a contrair mais de um casamento. A terceira razão pode ser uma doença crônica da esposa. Em tal situação, em vez de divorciar-se da esposa enferma e lançá-la na adversidade, o marido pode satisfazer suas necessidades naturais. A quarta razão é que, muitas vezes, questões de política tribal e familiar, fortalecimento do poder, continuidade das vinganças, problemas de herança e a reintegração de órfãos e viúvas podem ser resolvidos por meio do casamento. Há muitos exemplos de que, tanto nos tempos antigos quanto nos modernos, a poligamia muitas vezes se mostrou eficaz como único meio de alcançar a estabilidade do Estado.] Os casamentos contraídos pelo Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) foram realizados com base em uma permissão especial da parte de Allah.
Em segundo lugar, a maioria dos casamentos do Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) não foi contraída para satisfazer desejos sexuais, mas pelo bem do movimento islâmico, do país e da nação. Esses casamentos eram, sobretudo, políticos. O próprio Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) disse: “Não preciso de mulher alguma.” (Darimi) Ou seja, não era um simples impulso sexual que o levava a tomar uma esposa. Na realidade, em sentido estrito, o Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) teve apenas dois casamentos: um com Khadija e o segundo com Aisha. Por trás dos demais casamentos havia certas necessidades sociais imperiosas. Para atender a essas necessidades, o Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) impôs um enorme fardo à sua vida extremamente ocupada e à sua economia muito pobre, fazendo um sacrifício pela humanidade.
É importante observar que um jovem que, até os 25 anos, deu um exemplo incomparável de autocontrole, decoro e modéstia — e isso em uma sociedade na qual o álcool e o adultério haviam se tornado características da cultura —, um jovem que, ao chegar aos 25 anos, em vez de escolher uma jovem em ascensão, conforme as preferências hedonistas comuns, escolheu uma viúva de 40 anos apenas porque isso o ajudaria mais a alcançar o objetivo de sua vida, e depois passou os 25 melhores anos de sua vida com essa mesma mulher, completando 50 anos: pode-se alimentar a respeito dele uma opinião tão baixa quanto aquela sustentada pelos que levantam objeções? Também é importante notar que o período de maior número de casamentos ocorreu em sua vida entre os 55 e os 59 anos, e, em um país quente como a Arábia, nessa idade o ardor sexual começa a arrefecer. Observe-se, por outro lado, a idade das esposas: exceto duas, todas tinham mais de 20 anos na época do casamento. E cinco delas tinham entre 36 e 50 anos. A questão é: faltavam ao Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) moças jovens e bonitas?
Os que levantam objeções desse tipo deveriam ter considerado o enorme peso de responsabilidade que ele assumira sobre os próprios ombros. Não tinha sequer um momento de tranquilidade durante o dia, nem um momento de descanso à noite. Ele ofereceu às pessoas a grandiosa e benéfica norma do hijab (norma que também faz os europeus torcerem o nariz) e ensinou-as a controlar o olhar e o coração. A maior parte de seu tempo passava-se refletindo sobre os problemas da sociedade e do Estado, e, durante as horas de recolhimento à noite, seus pés inchavam enquanto permanecia em oração. Como se podem imaginar todas aquelas tolices a respeito de uma pessoa assim?
Além disso, nele não se via nenhuma das características dos reis, monarcas e conquistadores hedonistas. Ele não era opressor nem tirano. Também não tinha interesse em álcool, música ou roupas caras. Pelo contrário, purificou a sociedade humana de todas essas diversões hedonistas. Não forneceu às esposas meios de conforto e luxo, nem as adornou com seda e joias de ouro. Pelo contrário, transmitiu também a elas todas as características de sua própria vida de asceta. Nunca lhes demonstrou tanto carinho e afeto que obter sua satisfação tivesse prioridade sobre os interesses do movimento, ou que fosse necessário abandonar até mesmo o menor princípio. Pelo contrário, em situações desse tipo, repreendia-as severamente. Certa vez, quando elas reivindicaram uma melhoria em seu padrão de sustento, disse-lhes abertamente: se puderem permanecer comigo nesta pobreza, permaneçam; caso contrário, estou pronto para deixá-las partir. O conjunto de todas essas circunstâncias não refuta essa objeção sem fundamento?
As necessidades especiais que estiveram por trás dos casamentos plurais do Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) foram as seguintes: uma característica do sistema social tribal é que o círculo da nobreza de linhagem é muito limitado e suas fronteiras são mantidas muito firmes. A mentalidade tribal estabelece uma distinção extremamente intensa entre os seus e os outros. Em tal situação, para unir numerosas tribos dispersas umas às outras, era necessário um ideário de alcance universal; e a personalidade do líder também deveria ser querida e considerada próxima, ainda que não por todos, pelo menos pela maioria das tribos importantes. Na Arábia, era absolutamente impossível realizar efetivamente qualquer trabalho reformador e construtivo para alguém que não pertencesse a uma tribo própria de prestígio. Contudo, para levar esse trabalho ao êxito, eram necessárias relações intertribais, e, em certos casos, as relações matrimoniais foram bem-sucedidas em atender a essa necessidade política.
Tomemos, por exemplo, o caso de Umm al-Mu’minin Hazrat Juwayriya. Ela pertencia à tribo dos Banu al-Mustaliq. Toda a tribo era extremamente poderosa e famosa por banditismo e pilhagem. O próprio pai de Hazrat Juwayriya era um chefe de bandidos que espalhava terror. Desde o primeiro dia, essa tribo iniciou uma hostilidade ferrenha contra o governo islâmico. Não estava disposta a respeitar qualquer disciplina nem a aceitar qualquer tratado de conciliação. Pelo contrário, estava sempre pronta a opor-se ferozmente ao governo islâmico em todas as questões. Por fim, essa força foi subjugada por meios militares. Hazrat Juwayriya foi trazida como prisioneira. Depois, quando se casou com o Mensageiro (que a paz esteja com ele), todos os prisioneiros daquela tribo foram libertados. Os soldados muçulmanos pensaram que eles agora eram parentes da família do sogro do Mensageiro (que a paz esteja com ele) e que não podiam continuar presos. Vejam a bênção desse casamento: cada membro da tribo abandonou o banditismo e tornou-se pacífico e obediente à lei e à ordem. Afinal, o governante de Medina era agora seu parente próximo. Nessas circunstâncias, já não era possível continuar praticando tais atos.
Consideremos, de modo semelhante, o caso de Umm al-Mu’minin Hazrat Maymunah. A região de Najd era extremamente importante do ponto de vista político, pois uma rota comercial utilizada pelos coraixitas para viajar até o Iraque passava por Najd. Entretanto, a mensagem do Islã estava se mostrando completamente ineficaz naquela região. Seus habitantes haviam martirizado um grupo de pregação composto por setenta membros. Além disso, o povo de Najd havia conspirado várias vezes contra o Islã. Hazrat Maymunah era irmã da esposa do chefe de Najd. Assim que ela se casou com o Mensageiro (que a paz esteja com ele), a situação mudou, e Najd começou a ficar sob a influência de Medina. Além disso, várias de suas irmãs se casaram com chefes altamente respeitados.
O caso de Umm al-Mu’minin Umm Habibah foi semelhante. Ela era filha de Abu Sufyan, o principal chefe dos coraixitas. Depois desse casamento, Abu Sufyan não voltou a ir ao campo de batalha para combater os muçulmanos. Esse casamento não apenas reduziu o ardor da hostilidade de Abu Sufyan, como também facilitou consideravelmente o caminho para a conquista de Meca.
Considerem, de modo semelhante, o caso de Hazrat Safiyyah. Ela era filha de Huyayy ibn Akhtab, um dos principais chefes judeus. Depois que ela se casou com o Mensageiro (que a paz esteja com ele), a intensidade da oposição dos judeus se acalmou de tal maneira que eles já não ousaram voltar a levantar a cabeça. Com a permissão do Mensageiro (que a paz esteja com ele), Hazrat Safiyyah também prestava ajuda financeira aos seus parentes judeus.
Além de outras razões relacionadas ao contexto do casamento de Hazrat Hafsah, uma das principais era que, entre os poucos companheiros ilustres que o Mensageiro (que a paz esteja com ele) havia escolhido como seus conselheiros mais próximos para a formação da sociedade islâmica, quatro se destacavam. O Mensageiro (que a paz esteja com ele) casou-se com Hazrat Aishah, filha de Abu Bakr; casou sua própria filha Fatimah com Hazrat Ali; casou duas de suas filhas, uma após outra, com Hazrat Uthman; e ele próprio casou-se com Hafsah, filha de Hazrat Umar. Não era possível deixar Hazrat Umar fora desse círculo de parentesco. Assim, ele estreitou firmemente os laços com os futuros líderes.
Hazrat Sawdah bint Zam’ah era filha dos Banu Najjar, de Medina. Seu primeiro casamento foi com Sakran ibn Amr. O irmão de Sakran era Suhayl ibn Amr, representante dos coraixitas no tratado de Hudaybiyyah. Quando Sakran morreu, o Mensageiro (que a paz esteja com ele) casou-se com sua cunhada viúva, Sawdah, então com cinquenta anos, a fim de estreitar sua relação com Suhayl. Depois do falecimento de Hazrat Khadijah, o Mensageiro (que a paz esteja com ele) também encontrou alívio para sua solidão por meio desse casamento.
Ao estabelecer relações matrimoniais, o Mensageiro (que a paz esteja com ele) também tinha em vista atender a outra necessidade inevitável: promover, entre as mulheres, ao lado dos homens, o trabalho de pregação realizado pelas próprias mulheres e, para isso, formar algumas líderes e ativistas. Para atender a essa necessidade mantendo o sistema islâmico de segregação e recato, era necessário que ele contraísse vários casamentos, e era indispensável encarregar suas esposas de difundir entre as mulheres a pregação e os ensinamentos do Islã. Foi em vista dessa necessidade que o Alcorão deu atenção especial às esposas e às filhas do Mensageiro (que a paz esteja com ele). Hazrat Aishah, Hazrat Hafsah e Hazrat Umm Salamah adquiriram a capacidade de liderar a difusão da pregação e da educação religiosa entre as mulheres. As demais esposas apresentaram-se à sociedade feminina como modelos exemplares do ponto de vista moral.
Em algumas ocasiões, o Mensageiro (que a paz esteja com ele) também precisou casar-se para preservar os sentimentos da outra parte. Por exemplo, depois de muito insistir, ele casou sua prima Hazrat Zaynab bint Jahsh com Zayd ibn Harithah. Com isso, pretendia romper as estreitas barreiras do privilégio baseado na linhagem. Infelizmente, porém, esse casamento fracassou e terminou em divórcio. Assim, o sofrimento de Hazrat Zaynab é evidente, e o Mensageiro (que a paz esteja com ele) sentiu-se, em certa medida, responsável por isso. A melhor solução para esse problema era que o Mensageiro (que a paz esteja com ele) se casasse com Zaynab. Mas havia um obstáculo: uma superstição ignorante e equivocada. Na sociedade daquela época, o filho adotivo era tratado exatamente como um filho biológico. O Mensageiro (que a paz esteja com ele) havia concedido a Zayd ibn Harithah o status de seu próprio filho. Por isso, considerava-se ilegal e contrário aos costumes casar-se com sua ex-esposa. Allah aboliu esse costume e fez com que Zaynab se casasse com o Mensageiro (que a paz esteja com ele).
Há pouco descrevi a importância política do casamento com Umm Habiba bint Abu Sufyan. Mas, por trás desse casamento, também havia o desejo de confortar um coração despedaçado. Ela era casada com Ubaydullah e emigrou com ele para a Abissínia. Lá, o marido tornou-se cristão e morreu viciado em álcool. Umm Habiba permaneceu firme no Islã. Contudo, a apostasia e a morte do marido durante o exílio foram uma experiência dolorosa para ela. Por isso, o Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) enviou Amr ibn Umayya ad-Damri como enviado especial ao Negus e, por seu intermédio, enviou-lhe uma proposta de casamento. Umm Habiba ficou tão feliz que presenteou com suas joias a escrava real que lhe transmitiu a boa-nova. O próprio rei Negus celebrou o casamento. Umm Habiba nomeou seu primo materno, Khalid ibn Sa’id, como seu representante. O próprio Negus pagou um dote de quatrocentos dinares e ofereceu um banquete. Alguns relatos indicam que o casamento foi celebrado novamente em Medina e que foi realizado um walima.
Da mesma forma, Zaynab bint Khuzayma ibn al-Harith al-Hilaliyya (Banu Bakr), conhecida como Umm al-Masakin, era esposa de Abdullah ibn Jahsh, primo do Mensageiro (que a paz esteja sobre ele). Depois que ele foi martirizado na batalha de Uhud, o Mensageiro casou-se com ela. Foi um acontecimento inteiramente familiar; além de confortar um coração despedaçado, também se levou em consideração o aspecto familiar.
O Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) contraiu ao todo onze casamentos. Os relatos que mencionam mais casamentos que esse número não são confiáveis. Entre essas esposas, Khadija faleceu antes da Hégira (no décimo ano da missão profética), e Zaynab bint Khuzayma faleceu apenas três meses depois, no terceiro ano da Hégira. Na fase final da vida do Mensageiro, nove esposas ainda estavam vivas simultaneamente. Uma delas, Sawda, devido à extrema velhice, já havia ultrapassado o desejo físico e sexual. Depois disso, por causa da proibição enviada por Allah, o Mensageiro não se casou mais. Em relação aos muçulmanos comuns, ele constituía uma exceção legal em um aspecto. A instrução dada aos muçulmanos comuns era que, se tivessem mais de quatro esposas, deveriam divorciar-se delas. Porém, foi permitido ao Mensageiro manter consigo as esposas adicionais. A razão dessa exceção era que suas esposas, por necessidade religiosa, haviam sido designadas como Mães dos Crentes e incluídas na categoria das mulheres interditadas para casamento. Se o Mensageiro se divorciasse de alguma delas, elas ficariam completamente desamparadas.
Agora observem a importância política dos casamentos do Mensageiro (que a paz esteja sobre ele). Graças a esses casamentos, ele estabeleceu laços de amizade, por um lado, com as tribos de Meca e os emigrantes e, por outro, com as tribos em geral. Para demonstrar a extensão dessas relações, mencionarei os nomes das tribos envolvidas:
(1) Banu Asad ibn Abd al-Uzza (2) Banu Amir (3) Banu Tamim (4) Banu Adi (5) Banu Makhzum (6) Banu Umayya (7) Banu Asad ibn Khuzayma (8) Banu Mustaliq (9) a comunidade dos judeus árabes (10) Banu Kilab (11) Banu Kinda.
Se as áreas dessas tribos forem analisadas sob uma perspectiva geográfica, ficará evidente que a personalidade do Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) havia, na realidade, se tornado uma personalidade intertribal. Ele assumiu a forma de uma personalidade central para as grandes tribos e tornou-se capaz de satisfazer a necessidade de uma unidade abrangente que havia surgido para o movimento islâmico. Essas relações matrimoniais destruíram as tendências rebeldes ainda no início. Até muitas inimizades que vinham de gerações foram eliminadas por meio delas. Agora devemos refletir: se a poligamia, no ambiente tribal árabe, contribui para alcançar o sistema de justiça, o sistema de segurança e a fraternidade mundial desejados por toda a humanidade, por que não deveria ser praticada? E por que se faz tanto alarde a respeito dela?
Na realidade, um exame cuidadoso mostrará que foi um enorme sacrifício e uma grande abnegação do Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) assumir, no final da vida, tamanha carga conjugal sobre os próprios ombros, além de suas inúmeras ocupações em prol do bem-estar das pessoas, e cumprir com tanta dificuldade, em meio à pobreza, as responsabilidades de sustentar a família. Nenhuma pessoa dotada de bom senso pode sequer imaginar que, nas circunstâncias gerais mencionadas, depois de se casar alguém pudesse passar o tempo em diversão e prazer; muito menos seria possível viver sequer um momento de descanso. É por isso que digo que, ao contrair tantos casamentos em razão de seu nobre objetivo e propósito, o Mensageiro demonstrou, na verdade, um sacrifício e uma abnegação extraordinariamente grandes.
Pode-se dizer que, por meio disso, os amplos vínculos pessoais estabelecidos pelo Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) facilitaram e aceleraram o caminho do sucesso e da vitória política do movimento islâmico, além de tornarem mais fácil o avanço do povo em direção ao Islã.
O avanço espontâneo do povo
Como qualquer movimento revolucionário e idealista, o movimento conduzido pelo Rassul (S.A.) pode ser dividido em duas grandes fases. Na primeira fase, o movimento islâmico ia de porta em porta, convocando o povo. Na segunda, o povo avançou por iniciativa própria e espontaneamente, bateu à porta do Islã e disse: “Queremos entrar”. Esta última foi a fase da expansão. Quando ela chegou, toda resistência cessou e todas as atitudes negativas abandonaram o campo. Porém, até alcançar essa fase, o Rassul (S.A.) e seus companheiros sofreram muitas dificuldades e trabalharam incansavelmente. Por um lado, no campo da da‘wa teórica, provaram que a força dos argumentos e das evidências estava do nosso lado. Por outro, no campo da moralidade, estabeleceram de modo irrefutável, na prática, que o modelo de humanidade e de caráter humano formado pelo Islã era o modelo supremo. Em terceiro lugar, também demonstraram, em termos de competência, discernimento e habilidade política, que sabíamos como lidar com a sociedade de seu tempo. Em quarto lugar, demonstraram no campo de batalha que sabíamos como romper as muralhas da resistência e derrubar os opressores. O Rassul (S.A.) e seus companheiros golpearam, abalaram e comoveram profundamente os corações das pessoas; atraíram suas emoções para o seu lado; instruíram as almas afortunadas em sua orientação e as acolheram junto ao peito; incluíram as tribos pacíficas no âmbito de tratados de conciliação e paz; e, destruindo o poder dos inimigos que desejavam a guerra, abriram o caminho. Somente depois de tudo isso chegou o momento em que o povo, vindo de todas as direções, correu para Medina, o centro de uma nova esperança.
Esta fase, ou era, começa com o “Ano das Delegações”, isto é, com o ano em que delegações vieram de diferentes regiões e tribos da Arábia para aceitar o Islã, prestar juramento de lealdade política ou simplesmente investigar e compreender a situação. Naquele período, em toda parte surgiu uma sede pelo Islã, e instalou-se uma onda de entusiasmo e agitação. Esse período estendeu-se por três anos a partir da conquista de Meca, abrangendo os anos 9 e 10 da Hégira. Pode-se dizer que foi a estação da colheita da safra plantada pelo Mensageiro (S.A.), o libertador da humanidade inteira. Embora desejemos ser breves, este capítulo da vida do Profeta é tão importante que não podemos deixar de discutir as delegações. A chegada, as conversas e as reações das delegações continham ensinamentos muito importantes. Este relato também mostrará como uma multidão afluía ao Rassul (S.A.). Diferentes livros de Sira mencionam que o número de delegações que chegaram a Medina variava de pelo menos 15 até no máximo 104. Entre todas essas delegações, relataremos algumas das mais importantes e, dentre elas, apresentaremos detalhes sobre apenas algumas. É importante observar que, embora a chegada das delegações tenha começado em grande escala no oitavo ano da Hégira, após a conquista de Meca, a chegada de uma ou duas delegações já havia começado no quinto ano da Hégira. Por isso, começaremos por esse período:
1. A delegação da tribo Muzaina
Esta era uma tribo muito numerosa. Depois de algumas gerações, sua linhagem se unia à dos coraixitas. O ilustre Companheiro Nu‘man ibn Muqarrin pertencia a essa tribo. No quinto ano da Hégira, cerca de quatrocentos membros dessa tribo compareceram à presença do Rassul (S.A.) e aceitaram o Islã. É provável que esta tenha sido a primeira delegação a chegar a Medina. Ao retornarem de Medina, receberam muitas tâmaras como provisão para a viagem.
2. A delegação da tribo Banu Tamim
Esta delegação também chegou, nos primeiros tempos, com grande pompa. Os principais líderes da tribo, Aqra‘ ibn Habis, Zabarqan, Amr ibn al-Ahtam, Nu‘aym ibn Yazid e Uyayna ibn Hisn al-Fazari, faziam parte dela. A chegada da delegação criou em Medina um clima festivo e muita agitação. Ao entrarem na mesquita, dirigiram-se de maneira bastante grosseira aos aposentos do Rassul (S.A.) e gritavam: “Ó Muhammad, Muhammad! Saia!” Por ocasião desse acontecimento, foi revelada a Surata Al-Hujurat, e os muçulmanos foram ensinados a comportar-se com educação e civilidade. Embora tivessem saído de suas casas com a intenção de aceitar o Islã, o sentimento de orgulho aristocrático árabe ainda permanecia em seu caráter. Eles expressaram o desejo de que se realizasse uma competição aberta entre os oradores e poetas dos dois lados. Na verdade, era próprio das tribos da classe nobre árabe não aceitar a liderança de alguém sem antes reconhecer que ele era superior a si mesmas em inteligência, capacidade e talento. Por isso, o Rassul (S.A.) aceitou a proposta de uma competição intelectual, considerando que ela poderia trazer bons resultados.
O famoso orador da tribo Banu Tamim era Atarid ibn Hajir. Ele proferiu um discurso eloquente, elogiando a superioridade, a posição, a riqueza e o poderio humano de sua própria tribo. Ao final do discurso, disse: “Aqueles que afirmam ser nossos iguais que demonstrem qualidades e talentos desse tipo.”
Ao sinal do Mensageiro de Allah (s.a.), o orador do movimento islâmico, Thabet bin Qays, levantou-se para fazer o discurso de réplica. Em um discurso inspirador, ele destacou a superioridade qualitativa do movimento islâmico, apresentou com ênfase o aspecto de seu chamado e declarou que este era a principal fonte da glória da sociedade islâmica.
Em seguida, o famoso poeta de Banu Tamim, Zibarkan bin Badr, recitou um poema. Um de seus versos dizia:
“Somos os melhores. Ninguém se iguala a nós. Entre nós há reis. Construímos templos.”
Naquele momento, o poeta revolucionário do movimento islâmico, Hassan bin Thabit, não estava presente. Foram chamá-lo. O Mensageiro de Allah (s.a.) disse: “Levante-se, Hassan, e responda ao poema desse poeta.” O poema que Hassan recitou em resposta foi citado por Ibn Hisham. A delegação reconheceu que o poema e o orador do Mensageiro de Allah (s.a.) eram superiores aos seus orador e poeta. Depois disso, toda a delegação aceitou o Islã.
3. A delegação de Banu Abd al-Qays
A propagação do Islã no Bahrein já havia começado por meio de Munqidh ibn Hayyan. Gradualmente, o Islã começou a se expandir. No quinto ano da Hégira, uma delegação de treze pessoas chegou a Medina. Quando, em resposta à pergunta do Mensageiro de Allah (s.a.), disseram que eram membros da tribo de Rabi’a, ele os recebeu com alegria. Eles disseram: “Vivemos numa região muito distante. No caminho, vivem os pagãos de Mudar. Não é seguro para nós viajar, exceto durante os quatro meses sagrados. Portanto, diga-nos algumas instruções precisas que nós e todos os membros de nossa tribo possamos cumprir.” O Mensageiro de Allah (s.a.) ordenou-lhes o monoteísmo, a oração, o jejum e a entrega de um quinto dos espólios no caminho de Allah; proibiu-os de fabricar bebidas alcoólicas e, mencionando os quatro tipos de recipientes usados para isso no Bahrein, proibiu-os de utilizá-los. A delegação ficou profundamente impressionada com o conhecimento exato que o Mensageiro de Allah (s.a.) tinha dos costumes sociais não islâmicos do Bahrein. O líder de um movimento que promove uma transformação radical não pode desempenhar sua tarefa se não tiver conhecimento detalhado da região abrangida pelo chamado. O Mensageiro de Allah (s.a.) havia adquirido esse conhecimento por meio de suas viagens pessoais e das pessoas que chegavam a Meca e Medina vindas de regiões remotas.
Havia também nessa delegação um cristão chamado Jarud ibn al-Ala. Ele disse: “Sou adepto de uma religião diferente. Se eu a abandonar e aceitar a sua religião, você poderá me garantir segurança? (Ou seja, não haverá nenhum perigo para mim na vida futura?)” O Mensageiro de Allah (s.a.) respondeu: “Sim, garanto-lhe segurança, pois a religião para a qual os convido é melhor do que a sua.” Jarud tornou-se muçulmano imediatamente. Seus companheiros da mesma religião também aceitaram o Islã.
4. A delegação da tribo de Banu Sa’d
Esse clã enviou a Medina Zimâm ibn Tha‘laba como seu representante. Esse representante, montado em um camelo e com o jeito dos beduínos, entrou na Mesquita do Profeta e perguntou aos Companheiros: “Quem entre vocês é descendente de Abdul Mutalibe?” Todos apontaram para o Mensageiro, que a paz esteja com ele. Ele se aproximou e disse: “Ó descendente de Abdul Mutalibe, farei algumas perguntas francamente. Não se ofenda.” O Mensageiro permitiu-lhe. Repetindo juramentos, perguntou sobre o monoteísmo, a missão profética, a oração, o jejum e outras coisas: “Você ensina tudo isso?” O Mensageiro respondeu uma por uma. Depois de obter todas as respostas, ele disse: “Meu nome é Zimâm ibn Tha‘laba. Meu clã me enviou. Estou indo embora. Aceitei exatamente tudo o que você me disse, sem diminuir nem acrescentar nada. Também transmitirei ao meu clã somente isso.” Depois, montou em seu camelo e partiu. Após sua partida, o Mensageiro disse: “Se esse homem tiver falado a verdade, entrará no Paraíso.”
Ao retornar ao seu clã, ele começou a fazer o chamado em voz alta e disse: “Ó povo! Eu creio em Allah e em Seu Mensageiro. Al-Lat e Al-Uzza não têm valor algum.” As pessoas o ameaçaram, dizendo: “Cuidado, por causa de palavras desse tipo a maldição dos deuses pode recair sobre você, e você pode enlouquecer ou contrair lepra.” Zimâm respondeu: “Juro por Allah, eles não podem trazer benefício nem causar dano.” Antes do anoitecer, todo o clã havia aceitado o Islã.
5. Delegação do clã Axarita (Iêmen)
Os Axaritas eram um clã nobre do Iêmen. Abu Musa Al-Axari, que Allah esteja satisfeito com ele, pertencia a esse clã. Durante o período de Meca, o chamado já havia chegado até eles por meio de Tufail ibn Amr Ad-Dausi e dos emigrantes da Abissínia. Influenciados por esse chamado, três homens partiram para Medina, decididos a emigrar, com o objetivo de aprender a religião com o Mensageiro e apoiar o movimento islâmico.
A viagem foi por mar. No caminho, o navio foi surpreendido por ventos contrários e atracou no litoral da Abissínia. Ali encontraram o primeiro grupo de emigrantes. Depois de permanecerem ali por alguns dias, partiram para Medina com o honorável Jafar e alguns abissínios recém-convertidos ao Islã. Chegaram à presença do Mensageiro durante a conquista de Khaybar, no sétimo ano da Hégira. Estavam tão emocionados que, assim que chegaram aos arredores de Medina, começaram a cantar:—
“Já amanhã nos encontraremos com nosso amado Muhammad, que a paz esteja com ele, e seus companheiros.”
Ao receber a notícia, o Mensageiro disse aos seus companheiros: “Estão vindo até vocês algumas pessoas do Iêmen; talvez sejam pessoas extremamente compassivas. Os iemenitas são firmes na fé e habilidosos nas estratégias.”
Depois, encontraram-se com eles, conversaram e realizaram perguntas e respostas. A conversão deles ao Islã provocou uma nova comoção em Medina.
6. A delegação da tribo de Daws (Iêmen)
Como já dissemos, Tufail ad-Dawsi havia aceitado o Islã ainda nos primeiros tempos em Meca. Ao retornar à sua tribo, começou a realizar intensamente o trabalho de pregação; seu pai e sua esposa aceitaram imediatamente o Islã. Os demais membros da tribo também foram parcialmente influenciados. Contudo, a decadência moral e a fornicação haviam se espalhado amplamente pela tribo. Devido ao excessivo fervor e entusiasmo de Tufail, seu trabalho de pregação não progrediu muito. Por isso, ele foi ao encontro do Mensageiro (que a paz esteja com ele), apresentou várias queixas contra a tribo e pediu que ele suplicasse por ela. O Mensageiro (que a paz esteja com ele) aconselhou-o a pregar de modo gentil e amável, e suplicou a Allah pela reforma da tribo de Daws. Quando Tufail retornou e começou novamente a pregar, abriu-se um novo caminho. No quinto ano da Hégira, a luz do Islã entrou em muitos lares. No sétimo ano da Hégira, oitenta famílias dessa tribo emigraram e chegaram a Medina. Entre esses emigrantes encontrava-se também uma personalidade como Abu Huraira.
7. A delegação da tribo de Sudá
Zaid bin Harith as-Sudai foi o primeiro membro dessa tribo a aceitar o Islã e, ao retornar à sua tribo, realizou um trabalho de pregação considerável. No oitavo ano da Hégira, uma delegação de quinze pessoas foi encontrar-se com o Mensageiro (que a paz esteja com ele) em nome de toda a tribo. Sa’d bin Ubadah hospedou-os. Ele não apenas providenciou sua alimentação, como também suas roupas. Eles prometeram ao Mensageiro (que a paz esteja com ele) aderir ao movimento islâmico e declararam estar prontos para oferecer apoio também em nome da tribo. Depois que essa delegação retornou, o trabalho de pregação prosseguiu rapidamente. Na ocasião da Peregrinação de Despedida, cerca de cem membros dessa tribo foram a Meca.
Esse foi o relato das delegações que chegaram antes da conquista de Meca. Depois da conquista de Meca, multidões começaram a afluir de todas as direções. Apresenta-se agora um breve relato das delegações que chegaram a Meca nos anos 9 e 10 da Hégira:
8. A delegação de Saqif (Taife)
Quando o Mensageiro (que a paz esteja com ele) retornou a Medina de sua viagem da conquista, Urwah bin Mas’ud as-Saqafi apresentou-se, aceitou o Islã e declarou sua intenção de disseminá-lo entre a tribo de Banu Saqif. O Mensageiro (que a paz esteja com ele), considerando a arrogância natural da tribo de Saqif, aconselhou-o a agir com cautela e expressou o receio de que eles pudessem tentar matá-lo. Urwah tinha grande confiança em sua própria influência e prestígio. Por isso, depois de muito implorar e insistir, obteve do Mensageiro (que a paz esteja com ele) permissão para realizar o trabalho de pregação. Logo após retornar de Medina, anunciou sua conversão ao Islã, de pé sobre o terraço de sua casa. Entretanto, ao contrário do que imaginava, viu flechas sendo disparadas contra ele de todas as direções. Atingido por uma delas, morreu como mártir. Banu Saqif cometeu, de fato, esse ato cruel e tirânico, mas isso também provocou um forte abalo em sua consciência. Foram obrigados a analisar a situação com calma. Cerca de um mês depois, convocaram uma reunião. Após uma avaliação realista da situação, refletiram sobre a seguinte questão: seríamos capazes de enfrentar sozinhos toda a nação árabe, que já havia se submetido ao Islã? Por fim, decidiram enviar um emissário a Medina. Contudo, em vez de um único emissário, enviaram uma delegação inteira. Uthman bin Abil As, As bin Auf, Bahaz bin Khafsha (representante de Banu Malik), Hakam ibn Umar e Shurahbil ibn Gailan (representante das tribos aliadas) fizeram parte da delegação. Abd Yalil, o chefe de Taife, foi a Medina como líder do grupo. Vale lembrar que, doze anos antes, o homem que não quis sequer ouvir a pregação do Mensageiro (que a paz esteja com ele) e instigou os jovens arruaceiros da cidade contra ele, fazendo-o ser ferido, era justamente esse mesmo Abd Yalil.
Depois que o Mensageiro (que a paz esteja com ele) retornou de Tabuk a Medina, essa delegação chegou à cidade. Foi montado para eles um acampamento bem próximo à Mesquita do Profeta. Khalid bin Sa’id foi designado mediador entre as duas partes.
Esse interlocutor apresentou condições verdadeiramente estranhas. Uma delas era que o ídolo deles, Lat, não poderia ser destruído durante três anos. Depois, foram reduzindo esse prazo gradualmente até chegar a um mês. Naquele momento, seus corações não queriam aceitar que aquilo não passava de uma pedra inerte. Eles chegaram a expressar o temor de que, se o ídolo soubesse que seria destruído, poderia matar toda a população do país. Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) permanecera calado até então, ouvindo a conversa. Mas, nesse ponto, já não conseguiu permanecer em silêncio. Ele disse a Abd Yalil: “Que espécie de palavras absurdas são essas que estás dizendo? Esses vossos deuses não são nada além de pedras.” Abd Yalil, exaltado, respondeu: “Ó filho de Khattab, não viemos falar contigo. Estamos falando com o Mensageiro de Allah.” Quando o Mensageiro (que a paz esteja com ele) não aceitou nenhuma daquelas condições, eles, sem alternativa, impuseram a condição de que, se o ídolo tivesse de ser destruído, não fossem eles a fazê-lo. O Mensageiro (que a paz esteja com ele) aceitou essa condição. Em seguida, Abu Sufyan ibn Harb e al-Mughira ibn Shu’ba foram encarregados de destruir o ídolo. Depois, eles impuseram a condição de serem dispensados da obrigação de realizar as orações. O Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: “Não há bem algum numa religião em que não há oração.”
Um dos membros da delegação também pediu: “Ó Mensageiro de Allah, permiti-nos cometer adultério. Não temos outra alternativa senão cometê-lo.” Depois, começaram a dizer: “Que nos seja mantida aberta a possibilidade de praticar usura e que também nos seja permitido beber vinho.”
A impressão era de que o Mensageiro (que a paz esteja com ele) havia aberto uma loja: cada um compraria aquilo de que necessitasse e deixaria de comprar o restante. Em resposta a essas exigências, o Mensageiro (que a paz esteja com ele) passou a recitar versículos do Alcorão, esclarecendo que se tratava das determinações do próprio Allah Todo-Poderoso, e não de regras inventadas por alguém. Quando essas condições injustas foram rejeitadas, a delegação, após consultar-se, chegou à conclusão de que, se não obedecesse à lei islâmica, seu destino um dia seria como o dos habitantes de Meca. Assim, resignaram-se e foi redigido um acordo. O Mensageiro (que a paz esteja com ele) concedeu-lhes alguma concessão apenas em dois assuntos: primeiro, por algum tempo, não lhes seria cobrado zakat; segundo, não seriam obrigados a participar da jihad. Contudo, à medida que o Islã se firmou em seus corações, eles começaram espontaneamente a cumprir, uma após outra, todas as exigências. Desnecessário dizer que era justamente isso que o Mensageiro (que a paz esteja com ele) esperava.
Uthman ibn Abi al-As, um dos membros da delegação, era um jovem dedicado. Em seu tempo livre, estudava e adquiria conhecimento detalhado sobre o Islã e as leis islâmicas. Foi ele quem foi nomeado comandante. Ao retornarem a Taife, começaram teatralmente a demonstrar uma atitude de extrema oposição, dizendo: “Muhammad (que a paz esteja com ele) impôs-nos condições totalmente inaceitáveis. Portanto, preparem-se para a guerra.” Durante dois dias, prevaleceu uma atmosfera de terrível tensão. Por fim, os habitantes de Taife começaram espontaneamente a dizer: “Como lutaremos contra Muhammad (que a paz esteja com ele)? Toda a Arábia agora funciona sob suas ordens. Ide e aceitai tudo o que ele disser.” Depois de criar esse ambiente, a delegação revelou a verdade. Disseram: “Na realidade, encontramos Muhammad (que a paz esteja com ele) elevado a um nível muito alto de temor a Deus, honestidade, veracidade e compaixão. Nossa viagem foi extremamente proveitosa.”
Abu Sufyan e al-Mughira foram enviados a Taife juntamente com a delegação para destruir o ídolo. Quando começaram a destruí-lo, homens e mulheres, jovens e idosos, aguardavam, prendendo a respiração, para ver o que aconteceria àqueles envolvidos na destruição. Algumas mulheres chegaram a chorar de medo. Pensavam que talvez o céu fosse desabar sobre a terra. Algumas delas recitaram versos, dizendo: “Chorai por aqueles covardes que entregaram seus próprios deuses às mãos dos inimigos e não conseguiram oferecer resistência alguma.”
Na mesma Taife que um dia havia apedrejado e ensanguentado o Mensageiro (que a paz esteja com ele), naquele dia, por sua indicação, seu sistema de ignorância pré-islâmica estava sendo despedaçado diante de seus próprios olhos.
É digno de nota que Taife, assim como Meca, era um antigo reduto do sistema de ignorância pré-islâmica. Depois de impor o cerco, o Mensageiro (que a paz esteja com ele) decidiu suspendê-lo apenas por pensar que, em meio ao ambiente islâmico que abrangia todo o país, os Banu Thaqif não poderiam sobreviver criando para si uma ilha separada. Portanto, para que derramar sangue? Se Meca se curvara diante da verdade, por quanto tempo Taife, subordinada a Meca, poderia permanecer sem se curvar? Se, em lugar do Mensageiro (que a paz esteja com ele), houvesse outro conquistador belicoso, ele teria recrutado tropas e, ao menos para preservar sua honra, levado a vitória militar até o fim, fazendo correr uma torrente de sangue em Taife. Mas, como o Mensageiro (que a paz esteja com ele) não apreciava o derramamento de sangue exceto em caso de necessidade inevitável, suspendeu o cerco e deixou a campanha incompleta. O objetivo era que, mais tarde, quando os Thaqif observassem a situação com a cabeça fria, escolhessem voluntariamente o caminho da submissão; e isso poderia ser mais eficaz para uma revolução construtiva e reformadora. Foi exatamente isso que aconteceu depois.
9. A delegação dos Banu Hanifa
Eles eram habitantes da região de Yamama. A mensagem havia chegado até eles por meio de Tsumama ibn Ussal. Depois, foram a Medina, encontraram-se com o Mensageiro e aceitaram o Islã.
O notório falso profeta Musailima, o Mentiroso, também veio com esse grupo. Ele começou a dizer muitas coisas absurdas. Em certo momento, disse: “Se Muhammad decidir nomear-me seu sucessor, aceitarei o Islã.” Na realidade, aquele homem havia se tornado ganancioso ao ver o extraordinário sucesso da missão profética de Muhammad. Ele pensava que algumas declarações literárias poderiam ser apresentadas como revelação e que, depois, se reivindicasse a profecia, isso seria considerado crível. Mas não compreendia de onde obteria aquela força de caráter que, durante vinte anos, havia superado montanhas de oposição de todos os tipos. Foi justamente por causa desses pensamentos que lhe surgiu uma ideia comercial. Sua posição era: “Façam um acordo comercial comigo; caso contrário, eu mesmo abrirei uma loja de profecia.”
O Mensageiro percebeu sua mentalidade. Tinha na mão uma espiga de tamareira. Mostrando-a, disse: “Nem mesmo sob a condição de receber esta espiga quero aceitar o compromisso de fidelidade de alguém.” Ou seja, o Islã não é uma loja por meio da qual alguém possa obter uma oportunidade de ganho pessoal. Quem vier, deve vir aceitando a verdade como verdade. Não se pode impor condição alguma.
A delegação voltou sem sucesso. Ao retornar, Musailima realmente reivindicou a profecia. Em sua religião, a oração era dispensada, e o consumo de álcool e a fornicação eram considerados lícitos.
10. A delegação da tribo Banu Tai
A delegação da tribo Tai compareceu sob a liderança de Zaid al-Khail. O Mensageiro apresentou-lhes o convite ao Islã. Toda a delegação, incluindo seu chefe, aceitou esse convite de todo o coração. Zaid al-Khail era simultaneamente poeta e orador. Além disso, era também um guerreiro valente. Ao elogiá-lo, o Mensageiro disse: “De todos aqueles cuja excelência foi mencionada diante de mim entre os árabes, quando os conheci pessoalmente, encontrei-os inferiores ao que se havia dito sobre eles. Zaid al-Khail, porém, é uma exceção. Pois encontrei nele mais virtudes do que aquelas que ouvi serem atribuídas a ele.”
Adi ibn Hatim também era chefe dessa tribo. Quanto à religião, era cristão. Em seu coração havia se acumulado intensa aversão e hostilidade contra o Mensageiro. Ele estava se preparando para a guerra. Porém, quando repentinamente o exército muçulmano chegou à região do Iêmen, fugiu para a Síria. Quando sua irmã foi capturada e levada para Medina, ficou profundamente impressionada com o comportamento do Mensageiro e com a integridade geral do caráter dos demais. Ela insistiu com Adi para que fosse a Medina e se encontrasse com o Mensageiro. Segundo alguns, Adi foi a Medina junto com os representantes da tribo Tai. Ao chegar a Medina, buscava esclarecer uma questão: Muhammad era um rei ou um profeta? Em Medina, encontrou o Mensageiro na própria mesquita. Depois, o Mensageiro saiu da mesquita e conduziu Adi em direção à sua casa. No caminho, uma idosa quis falar com o Mensageiro. Ele lhe concedeu bastante tempo e ouviu atentamente o que ela tinha a dizer. Ao chegar em casa, sentou-se no chão e fez Adi sentar-se sobre uma almofada. Ao observar essas duas coisas, Adi teve certeza de que ele era o Mensageiro de Deus, e não simplesmente um rei mundano. Depois, as palavras do Mensageiro o convenceram ainda mais.
Por meio da conversa, o Mensageiro compreendeu que outras dificuldades ainda havia na mente de Adi. Em seguida, esclareceu-as uma a uma. Há no mundo um tipo de pessoa que percebe rapidamente a verdade, mas deseja assegurar-se de que existem possibilidades reais suficientes de sucesso e de que algum resultado pode ser alcançado em pouco tempo. Adi era desse tipo. Percebendo esse estado de espírito, o Mensageiro disse-lhe: “Talvez estejas hesitando em aceitar o Islã por veres que, atualmente, os seguidores do Islã são pobres. Juro por Deus que não está longe o dia em que jorrarão fontes de riqueza entre os muçulmanos e haverá tamanha abundância que não se encontrará ninguém disposto a receber riquezas. E, se estás hesitante por veres que os muçulmanos são poucos e seus inimigos, numerosos, sabe que, juro por Deus, está próximo o dia em que uma mulher viajará sozinha, montada num camelo, de Cadesia até esta mesquita, e chegará em completa segurança. Talvez não te sintas inclinado a aceitar o Islã por veres o grande poder e prestígio dos não muçulmanos. Mas, juro por Deus, em breve ouvirás pessoalmente que os muçulmanos tomaram os palácios da Babilônia.” Quando as dúvidas de Adi foram dissipadas nesse aspecto, ele imediatamente se entregou ao movimento islâmico. As informações importantes obtidas da conversa acima são as seguintes:
– O Islã não conclama apenas à correção e à reforma moral; seu programa inclui tanto a prosperidade econômica quanto a revolução política. Ele não considera o bem-estar da vida futura de forma separada da felicidade e da prosperidade terrenas.
– O Mensageiro, que a paz esteja com ele, tinha uma visão antecipada do futuro mais distante do movimento islâmico. Desde o início, estava claro diante dele por quais etapas seria necessário passar e aonde se deveria chegar.
– É extremamente importante que o movimento islâmico assegure ao povo que há uma possibilidade considerável de sucesso real do movimento e que a desejada revolução islâmica não é uma fantasia impossível, mas uma realidade inevitável, tal como o nascer do sol da religião que está por vir. Se isso não for feito, uma grande parte do povo permanecerá de fora, mesmo sabendo que o chamado do Islã é uma verdade absoluta.
– Se o movimento islâmico alcançar o estágio final de sucesso e perfeição, seu resultado inevitável será o seguinte: (1) devido ao enorme desenvolvimento dos meios e recursos econômicos e à garantia da distribuição justa de seus benefícios, não haverá nenhum necessitado ou dependente dos outros; (2) no aspecto político, será estabelecido um governo tão forte, digno e estável que os inimigos não o considerarão facilmente dominável. Pelo contrário, esse governo será capaz de esmagar todo o orgulho de seus opositores; (3) a paz e a segurança internas serão elevadas a tal nível que, mesmo que uma mulher viaje sozinha de uma extremidade do país à outra e passe perto de áreas habitadas, sua vida, seus bens e sua honra não estarão ameaçados de forma alguma. Essas são as características fundamentais de um sistema estatal islâmico.
11. A delegação de Banu al-Harith
Essa delegação era da região de Najran. Nessas áreas, Hazrat Khalid ibn al-Walid foi pessoalmente, no décimo ano da Hégira, para transmitir o chamado ao Islã. Ele lhes disse: “Se aceitarem o Islã, terão segurança”. Eles aceitaram o chamado. Hazrat Khalid permaneceu ali por alguns dias para ensinar-lhes as crenças e os preceitos do Islã e informou o Mensageiro, que a paz esteja com ele, por carta, sobre o sucesso obtido. Em resposta à carta, foi dito de Medina: “Agora, volte e traga consigo alguns dos líderes respeitados dessa tribo”. Essa ordem foi imediatamente cumprida. [Ibn Hisham reproduziu integralmente essa carta de Hazrat Khalid. Nela, Hazrat Khalid explica o motivo de sua permanência e cita a ordem do Mensageiro, que a paz esteja com ele. Em certo momento, ele diz: “Estou ensinando-lhes o Livro de Deus e a Sunna do Mensageiro de Deus”. Em seguida, afirma novamente: “Estou fazendo isso seguindo a ordem do Mensageiro de Deus”. Depois, escreve outra vez: “Estou ensinando-lhes os ensinamentos do Islã, o Livro de Deus e a Sunna do Mensageiro de Deus”. Ao ler essa carta, pareceu-me que cada uma das provas desse tipo encontradas na época dos nobres Companheiros estabelece a Sunna do Mensageiro de Deus como uma fonte fundamental do Islã e considera indispensável segui-la.]
Esse grupo mantinha alguns bons valores morais mesmo na época da ignorância. Quando a delegação chegou, o Mensageiro, que a paz esteja com ele, perguntou-lhes casualmente: “Vocês sempre vencem as batalhas contra os inimigos e nunca são derrotados. Qual é a razão disso?” Eles responderam: “Não tomamos voluntariamente medidas agressivas contra ninguém e não iniciamos nenhuma injustiça por nossa própria parte. Quando tomamos uma decisão coletiva de lutar, ninguém se retira dela nem provoca desunião. Pelo contrário, mantemos a unidade”. O Mensageiro, que a paz esteja com ele, aprovou essa estratégia deles.
Qays ibn Husayn, uma personalidade ilustre da delegação, foi nomeado comandante da tribo.
12. A delegação de Najran
O grande benfeitor da humanidade, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), realizou muitas atividades de divulgação islâmica também por meio da escrita. Ele convidava pessoas ou grupos específicos por meio de cartas, e enviou uma carta desse tipo também aos cristãos de Najran. Nessa carta, apresentou o seguinte convite, em palavras concisas:
“Começo em nome de Allah, o Deus de Ibrahim, Ishaq e Yaqub. Convido-vos a abandonar a servidão aos servos de Allah e a adotar a servidão a Allah, e a abandonar o domínio dos servos de Allah e a submeter-vos ao domínio de Allah. Se não quiserdes aceitar este convite, então será vosso dever pagar a jizya (isto é, prestar submissão política). Se também recusardes isso, a guerra está declarada.” O bispo começou a tremer de medo assim que leu a carta. Primeiro, consultou alguns líderes importantes. Depois, convocou toda a população da região. Havia setenta e três povoados na área, e a população era tão numerosa que cem mil combatentes poderiam sair a qualquer momento. Os principais líderes cristãos acreditavam que talvez ele fosse o último profeta cuja vinda havia sido anunciada entre os descendentes de Ismail, que a paz esteja sobre ele. Depois da consulta geral, decidiu-se que uma delegação dos principais líderes cristãos iria a Medina, conversaria com o autor da carta e avaliaria a situação. Shurahbil, Abdullah e Habbar foram designados para essa delegação. Esta foi a primeira delegação a declarar submissão política, prometer o pagamento de tributos e retornar, em troca, com um decreto ou proclamação garantindo segurança e direitos.
Quando a delegação retornou levando o certificado de segurança, o bispo e os principais chefes avançaram uma longa distância para recebê-la. No caminho, eles entregaram o certificado ao bispo, que começou a lê-lo enquanto caminhava. Seu primo, Bashir ibn Muawiya, também começou a ler o certificado tão absorto que caiu do camelo. Ao cair, deixou escapar involuntariamente: “Que pereça aquele por causa de quem caímos em tantos problemas”. Ficou claro que ele se referia ao Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Por isso, o bispo lhe disse severamente: “O que estás dizendo? Por Allah, ele é o profeta enviado por Allah”. E então, o que aconteceu? Assim que ouviu essas palavras, Bashir sofreu uma transformação. Disse: “Então, por Allah, irei imediatamente à sua presença”. O bispo começou a persegui-lo, conduzindo sua camela, e dizia-lhe: “Escuta-me! Compreende o que quis dizer. Eu disse aquilo com um propósito especial”. Bashir não deu ouvidos a nada. Disse: “Tu és um bispo. O que disseste não pode estar errado”. Firme em sua decisão, Bashir chegou até o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), abraçou o Islam e só então se deu por satisfeito; passou a residir em Medina. Mais tarde, Allah lhe concedeu a honra do martírio.
Um acontecimento quase semelhante também é relatado a respeito de Karz ibn Alqama.
Quando a delegação retornou a Najran com o chefe local, outro dervixe cristão asceta daquela região ficou profundamente comovido ao ouvir todo o acontecimento. Ao ouvir sobre a vinda do novo profeta, ele também, tomado pela emoção, foi para Medina. Ofereceu ao Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) uma taça, um manto e um cajado seus, expressando assim sua devoção, reverência e amor. Depois, foi para Najran, prometendo retornar com a permissão do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Contudo, não conseguiu voltar durante a vida do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele).
O bispo de Najran, Abu al-Harith Panuray, favorecido pelo rei de Constantinopla e amplamente famoso entre os cristãos, foi a Medina com uma delegação. O mufti e juiz cristão Ayham, Abd al-Masih Aqer e 24 líderes ilustres faziam parte dessa delegação. Deve-se mencionar que esse bispo era originalmente um árabe descendente de Banu Bakr ibn Wa’il. Porém, depois de se tornar cristão, progrediu tanto em conhecimento religioso e devoção que se tornou o líder mais confiável dos próprios cristãos.
Eles passaram alguns dias em Medina. Quando quiseram orar na Mesquita do Profeta segundo a prática cristã, alguns Companheiros se opuseram, mas o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) lhes deu permissão.
Com a chegada deles, os judeus locais ficaram extremamente ativos e, intrometendo-se desnecessariamente no assunto, levantaram diversos argumentos sofísticos. Discutiu-se sobre a Trindade e a posição de Jesus (que a paz esteja com ele). Em todos os assuntos, foram-lhes dadas respostas com versículos do Alcorão. Ao mesmo tempo, eles também instigaram a dúvida de que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele), assumindo o lugar de Jesus (que a paz esteja com ele), desejava fazer com que as pessoas o adorassem. Como resposta, e da parte de Allah, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) recitou-lhes versículos do Alcorão, esclarecendo que jamais foi concedida permissão àquele a quem Allah concedeu o Livro, a autoridade e a profecia para dizer ao povo: “Tornai-vos meus servos em vez de servos de Allah.” Depois, entre os membros da delegação judaica, surgiu também o debate sobre a religião seguida pelo Profeta Abraão (que a paz esteja com ele). Os judeus afirmavam que ele era judeu, enquanto os cristãos afirmavam que era cristão (Allah nos livre disso). O Alcorão resolveu esse debate com linguagem extremamente simples e de modo irrefutável: “Ó Povo do Livro, por que discutis inutilmente sobre Abraão (que a paz esteja com ele), quando a Torá e o Evangelho só foram revelados depois dele? (Foi a partir desses dois Livros que surgiram as duas nações, a judaica e a cristã.) Ele não era judeu nem cristão; ao contrário, era um muçulmano sincero. Jamais foi um idólatra. Os verdadeiros seguidores dos princípios de Abraão são somente o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) e aqueles que creram nele!” O próprio Alcorão elevou a posição de Jesus (que a paz esteja com ele), dizendo: “Para Allah, o exemplo de Jesus é como o de Adão (que a paz esteja com ele).”
Talvez houvesse entre os membros da delegação de Najran certa inflexibilidade em relação às suas crenças religiosas. Muitas vezes, mesmo com boas intenções, as pessoas permanecem fiéis a antigas concepções. Contudo, a conspiração mal-intencionada dos judeus tornou a situação ainda mais complexa. Discussões sofísticas desnecessárias e a obstinação delas decorrente criavam obstáculos à aceitação da verdade. Por isso, o Alcorão apresentou-lhes uma medida extrema para solucionar a questão: a mubáhala. Quando o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) recebeu a ordem, foi-lhe dito que lhes dissesse: “Vinde, chamemos nossas mulheres e nossos filhos, e nós mesmos iremos ao campo. Então, peçamos a Allah que decida entre nós e lancemos a maldição sobre os mentirosos.” De fato, quando um homem veraz é acusado de mentir, nada pode ser mais doloroso para ele. Foi em uma situação como essa que Allah, o Altíssimo, determinou esse método de decisão: ambas as partes pediriam publicamente a decisão de Allah diante do povo. No dia seguinte, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) saiu de sua casa levando sua querida filha Fátima, seu genro Ali e seus netos inocentes. Para os habitantes de Medina, foi uma experiência sem precedentes e um acontecimento extraordinário: um pregador da verdade havia levado toda a sua família ao campo da mubáhala. Quão firme era a sua fé! Os membros da delegação cristã ficaram atemorizados, pensando: se ele for realmente um profeta, então, nesta mubáhala, nem mesmo nossos nomes deixarão vestígios. Sem prosseguir no debate, propuseram a submissão política e deixaram também ao próprio Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) a tarefa de determinar o valor da jizia. No dia seguinte, foi redigido um decreto estabelecendo que os cristãos gozariam de plena liberdade religiosa e de autonomia social. Seus habitantes e seus bens permaneceriam como estavam. Nenhuma alteração seria feita em seus direitos vigentes. Não haveria mudança entre seus sacerdotes religiosos (bispos e monges). Ninguém seria privado da propriedade ou dos direitos sobre os bens religiosos. Não seriam mais responsabilizados pelos crimes cometidos na época da ignorância. O exército muçulmano não entraria em suas terras. Seus habitantes não seriam obrigados a trabalhar, como ocorria sob os reis e soberanos mundanos. Dever-se-ia fazer justiça entre o opressor e o oprimido. Quem consumisse juros seria o único responsável por isso. Ninguém sofreria as consequências do pecado de outro. Sobre uma população tão numerosa, foi estabelecido como imposto anual apenas o valor de dois mil uquias em roupas e tecidos.
Os relatos referentes a essas duas delegações de Najran ficaram um tanto misturados. Era de se esperar que a chegada da segunda delegação tivesse provocado maior agitação. Contudo, é provável que o primeiro grupo tenha recebido o documento de garantia de segurança emitido pelo Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele). Isso porque, no segundo documento, os assuntos religiosos aparecem com mais destaque do que os políticos. Ele se dirigia principalmente aos sacerdotes religiosos. Nesse documento, foi assegurada aos habitantes de Najran a máxima liberdade religiosa e a garantia de que não haveria interferência no sistema cristão. Esse documento prova que, no âmbito político, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) desejava apenas a submissão à autoridade governamental e se satisfazia quando a obtinha. Ele não impedia comunidade alguma de praticar sua religião, nem impunha à força as crenças da doutrina islâmica a ninguém. Pelo contrário, concedia às minorias o mais alto grau de liberdade religiosa. No âmbito individual, o movimento islâmico promovia a mudança da fé e das opiniões somente pela força dos argumentos; porém, aplicava suas normas coletivas por meio do poder político. Observai que, no primeiro documento, a prática da usura foi excluída da proteção, por ser um ato ilegal e criminoso. A religião nem sequer era o tema principal da discussão, pois a questão era algo ainda maior do que a religião. O documento emitido pelo Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) conserva para sempre o status de lei obrigatória para a Ummah. Esse documento também prova quão generoso é o Islã para com as minorias que seguem outras religiões. Não é possível apresentar exemplo de qualquer outra lei, sistema ou civilização no mundo que tenha demonstrado tamanha generosidade para com as minorias.
Quando a segunda delegação estava deixando Medina, pediu ao Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) que enviasse com eles algum funcionário de confiança para receber a jizia. O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) enviou Ubaida ibn al-Jarrah e conferiu-lhe o título de “Amin al-Ummah”, isto é, “o digno de confiança da Ummah”. O nobre Abu Ubaida, além de recolher o imposto, empenhou-se ao máximo na expansão do convite islâmico naquela região. Como resultado, muitas pessoas aceitaram o Islã.
É importante mencionar que os habitantes de Najran estavam divididos em dois grupos principais:
cristãos e ummiyyun (iletrados). Os cristãos resolveram a questão comprometendo-se com a submissão política. Já os ummiyyun aceitaram o Islã. É provável que a primeira delegação tenha chegado no final do nono ano da Hégira, e a segunda, no início do décimo ano da Hégira.
13. A delegação dos Banu Asad
A tribo chamada Banu Asad era aliada dos coraixitas em todas as atividades militares. No 9º ano da Hégira, uma delegação dessa tribo foi ao Mensageiro (s.a.w.) e informou-o de que havia abraçado o Islã. Contudo, na maneira como fizeram esse anúncio, havia ainda alguns vestígios da arrogância natural dos árabes. Num tom que denotava certa presunção, disseram ao Mensageiro (s.a.w.): “Você não enviou nenhum grupo de pregadores até nós. Nós abraçamos o Islã por iniciativa própria.” Para refutar essa atitude, foi revelado ao Mensageiro (s.a.w.): “Não apresenteis o vosso abraçar do Islã como um favor a Mim. Ao contrário, é um favor de Allah que Ele vos tenha guiado para o caminho do Islã.” Depois, essa delegação perguntou sobre a posição do Islã quanto à tentativa de conhecer o destino e fazer previsões por meio de pássaros, e quanto à identificação de mercadorias pelo lançamento de pedras (isto é, depois de determinar o preço, o chefe lançava de longe uma pedra contra a mercadoria ou objeto; o item atingido pela pedra era escolhido para si). O Mensageiro (s.a.w.) condenou essas práticas. Por fim, perguntaram se era permitido escrever cartas. O Mensageiro (s.a.w.) respondeu: “Foi um profeta que instituiu isso. Que conhecimento poderia ser melhor do que este?”
Durante o califado de Hazrat Abu Bakr Siddiq, um homem dessa tribo chamado Talha ibn Khuwailid reivindicou falsamente a profecia.
14. A delegação dos Banu Fazara
Os Banu Fazara eram uma tribo poderosa e arrogante. Uyayna ibn Hisn, um membro dessa mesma tribo, encontrou-se com o Mensageiro (s.a.w.) no caminho de seu retorno de Tabuk, acompanhado de uma delegação, e abraçou o Islã. O Mensageiro (s.a.w.) perguntou-lhes sobre a situação geral da região. Eles informaram que o país estava sofrendo com a fome. Por causa da fome, as colheitas, o gado e os pomares haviam sido destruídos, e as crianças estavam debilitadas e emaciadas pela desnutrição. Pediram ao Mensageiro (s.a.w.) que fizesse uma súplica. O Mensageiro (s.a.w.) suplicou por chuva, e sua súplica foi aceita.
15. A delegação dos Banu Amir
Era um ramo da famosa tribo árabe Qays Aylan. Tinha três chefes renomados: Amir ibn Tufayl, Irbad ibn Qays e Jabbar ibn Salama. Os dois primeiros desses três chefes eram ávidos por posições de autoridade. Amir, em particular, já havia deixado um histórico de diversas más ações. Dessa vez, eles também vieram tramando uma terrível conspiração para assassinar o Mensageiro (s.a.w.). A delegação apresentou-se diante do Mensageiro (s.a.w.) e dirigiu-se a ele como “Sayyiduna” (meu senhor). O Mensageiro (s.a.w.) desaprovou essa forma de tratamento e disse: “Senhor ou mestre é somente Allah, e ninguém mais.” Depois, quando proferiram outras palavras lisonjeiras, o Mensageiro (s.a.w.) advertiu-os novamente, dizendo: “Ao falar, devemos ter cuidado para que Satanás não nos desencaminhe.” Que esforço cuidadoso para se proteger da lisonja! Amir ibn Tufayl considerava o movimento do Mensageiro (s.a.w.) mera política para obter poder e uma tentativa de construir um império. Por isso, como era de esperar, estabeleceram condições para negociar:
1. Você governará os beduínos e me permitirá governar a cidade.
2. Caso contrário, nomeie-me governante depois de você.
3. Ou atacarei Medina levando os Gatafan comigo.
Amir havia combinado com Irbad que manteria o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) ocupado conversando, enquanto ele aproveitaria a oportunidade para concluir a missão. Porém, sob o efeito da solenidade e imponência do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), ficou atônito e permaneceu imóvel. Ambos retornaram após fracassarem. Compreendendo suas intenções, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) suplicou: “Ó Allah! Protege-nos do mal deles.” Pouco tempo depois, Amir morreu vítima da peste, e Irbad ibn Qays foi atingido por um raio e reduzido a cinzas.
16. Delegação da tribo Banu Adhra
No mês de Safar do nono ano da Hégira, doze homens dessa tribo compareceram perante o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Hamza ibn Nu’man estava entre eles. Ao se apresentarem, disseram: “Somos descendentes de Adhra.” Pelo lado materno, Adhra era irmão de Qusayy. O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) os recebeu com grande alegria, dizendo: “Ahlan wa sahlan”. Todos aceitaram o Islã de todo o coração. O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) anunciou-lhes a boa-nova de que o domínio do Império Romano na Síria seria abolido e que Heráclio fugiria. Proibiu-os de consultar astrólogos para saber notícias do futuro e ordenou-lhes abandonar todos os sacrifícios, exceto o sacrifício ensinado por Hazrat Ibrahim. Ao partirem, concedeu à delegação provisões, como era costume.
17. Delegação da tribo Bali
A área onde essa tribo estava estabelecida era muito importante. No mês de Rabi al-Awwal do nono ano da Hégira, os representantes dessa tribo foram até o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), acompanhados de seu líder, Ruwayfi ibn Thabit, e aceitaram o Islã. Permaneceram três dias em Medina. Depois, ao partirem, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) deu-lhes tâmaras e dinheiro para a viagem.
18. Delegação da tribo Kinda
Era uma tribo importante da região do Iêmen. Sessenta ou oitenta homens dessa tribo chegaram a Medina sob a liderança de Hazrat Ash’ath ibn Qays, vestidos com valiosas roupas de seda. O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) perguntou-lhes: “Vocês se tornaram muçulmanos?” Eles responderam: “Sim.” O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) perguntou, admirado: “Então por que vieram usando essa seda?” A delegação imediatamente tirou as roupas de seda, rasgou-as em pedaços e ofereceu um raro exemplo de firmeza na fé.
19. A delegação da tribo de Azd
A tribo Banu Azd era habitante do Iêmen. Sob a liderança de Sa‘d bin Abdullah al-Azdi, sua delegação compareceu à presença do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e aceitou o Islã. Hazrat Sard foi nomeado emir da tribo.
20. A delegação de Jarash
Naquela época, a maior parte do Iêmen já havia sido incorporada ao Estado Islâmico. Contudo, ainda havia pessoas rebeldes agindo secretamente. A cidade de Jahash também estava sob o controle dos rebeldes. Sob a liderança de Hazrat Sard al-Azdi, um grupo de forças muçulmanas impôs um longo cerco e derrotou os rebeldes. Depois que Jarash caiu sob o controle das forças muçulmanas, sua delegação foi a Medina.
21. A delegação de Hamadan
Essa delegação era composta por cento e vinte pessoas. Entre seus integrantes estavam importantes líderes locais, como Malik bin Namit, Abu Sawr, Malik bin Anfa al-Salmani, Umair bin Malik al-Khareqi (ou Amr ibn Malik) e Zimama bin Malik. Malik bin Namit louvou o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) recitando poemas em sua presença. O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) nomeou-o emir dos muçulmanos da tribo. Primeiro, Hazrat Khalid foi enviado à região de Hamadan em uma missão de pregação. Porém, durante seis meses, não houve nenhum resultado. Depois, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) enviou Hazrat Ali com uma carta. Ao chegar ali, Hazrat Ali leu a carta para a multidão. As pessoas aceitaram imediatamente o Islã. Quando Hazrat Ali informou o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), por meio de uma carta, sobre o ocorrido, ele prostrou-se em gratidão a Allah e, ao erguer a cabeça, disse: “A paz esteja sobre Hamadan.” (Que a paz seja derramada sobre Hamadan.)
22. A chegada do enviado de Farwa al-Juzami
Farwa era o governador nomeado pelo Império Romano para a região de Mu‘an. Essa região incluía partes tanto da Síria quanto da Arábia. Quando o convite ao Islã chegou até ele, abraçou o Islã, colocando em risco tanto seu cargo quanto sua vida. Ele também enviou um mensageiro para informar o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) de sua conversão ao Islã e mandou-lhe de presente uma mula branca. Quando o governo romano soube disso, prendeu-o e matou-o por crucificação em um lugar chamado Afra. Allah concedera a esse Seu servo uma fé tão firme que ele se levantou do assento de governador e, sorrindo, dirigiu-se ao madeiro da crucificação.
23. A delegação da tribo Tujib
[Um dos criminosos dessa mesma tribo, Kinana bin Bishr, foi o assassino de Hazrat Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele). Há outra tribo cujo nome é semelhante a esse, Tajwab, descendente da dinastia real de Himyar. Ibn Bilham, o assassino de Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele), pertencia a esta última tribo.]
Esta é uma ramificação da tribo Kinda, do Iêmen. Eles haviam aceitado o Islã anteriormente e moldado suas vidas de acordo com as exigências do Islã. Uma delegação de treze pessoas chegou a Medina levando consigo os bens e os animais destinados ao zakat. Ao chegar, disseram: “Trouxemos a parte de Allah que existe em nossos bens.” O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Levem esses bens de volta e distribuam-nos entre as pessoas da região.” Eles responderam: “Trouxemos apenas o que restou depois de dar aos habitantes locais.” Ao ouvir isso, Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) exclamou espontaneamente: “Ó Mensageiro de Allah, nenhuma outra delegação árabe veio como a delegação de Tujib.” O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “A orientação está nas mãos de Allah, o Altíssimo. Ele enche de fé o coração daquele para quem deseja o bem.”
Eles fizeram algumas perguntas ao Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e voltaram para seu povo levando as respostas por escrito.
Havia nesse grupo um jovem dos Banu Ubaydi. A delegação o havia deixado encarregado de cuidar de seus pertences e animais. O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) chamou-o especialmente. Ele disse: “Tenho apenas um pedido: ore para que meus pecados sejam perdoados.” O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) orou especialmente por ele. Mais tarde, quando uma onda de apostasia do Islã se espalhou no Iêmen, esse jovem manteve toda a sua tribo firme no Islã.
O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) também deu a essa delegação as despesas da viagem de retorno como presente.
24. A delegação dos Banu Sa’d Hudhaym (Quda’a)
Algumas pessoas dessa tribo foram até o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) como uma delegação e aceitaram o Islã. O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele).
Por ordem dele, Hazrat Bilal (que Allah esteja satisfeito com ele) presenteou essa delegação com algumas moedas de prata para as despesas da viagem. Depois que retornaram, toda a tribo abraçou o Islã.
25. A conversão ao Islã da delegação da tribo de Bahra
Esta também é uma tribo especial da região do Iêmen. Um grupo de treze pessoas chegou a Medina e abraçou o Islã. Depois de permanecerem alguns dias e adquirirem o conhecimento necessário sobre os preceitos do Islã, retornaram. A eles também foram dadas, conforme o costume, as despesas da viagem.
26. A delegação da tribo de Dhu Marra
Treze membros dessa tribo chegaram a Medina sob a liderança do chefe Harith ibn Awf. Ao se apresentarem, informaram ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele): “Somos descendentes de Lu’ay ibn Ghalib e temos com você um vínculo de parentesco.” O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) perguntou-lhes sobre sua região. Eles descreveram o quadro doloroso da seca que assolava a região e pediram-lhe que fizesse uma súplica. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) fez imediatamente a súplica. Ao retornarem à sua tribo, souberam que, exatamente no dia em que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) havia feito a súplica, havia chovido, e a terra havia se tornado verdejante e fértil. Permaneceram alguns dias em Medina para adquirir o conhecimento necessário sobre o Islã e depois partiram. Foram-lhes dadas as despesas da viagem.
27. A delegação da tribo de Khawlan
Essa delegação, composta por dez pessoas, já havia abraçado a fé e apresentou-se diante do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) com grande devoção e sinceridade. Na época da ignorância, adoravam uma divindade chamada “Amma Uns”. Informaram que, naquele momento, somente os anciãos ainda adoravam essa divindade. Disseram que iriam quebrar aquele ídolo assim que retornassem. Também relataram quantos sacrifícios grandiosos eram oferecidos em nome dessa divindade no passado e que cerimônias eram realizadas. Durante sua permanência, adquiriram o conhecimento necessário sobre a vida islâmica. Ao partirem, receberam as despesas da viagem.
28. A delegação da tribo de Mohareb
Antes de aceitar o Islã, esta tribo era extremamente temperamental e imoral. Nos primeiros tempos, quando o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) ia de tribo em tribo convidando as pessoas ao Islã, ele também levou o convite a esta tribo. Mas eles se comportaram de maneira extremamente indelicada. Um grupo de dez pessoas se arrependeu e compareceu à presença do Mensageiro. Certa vez, em uma reunião, o Mensageiro reconheceu um homem e olhou atentamente para ele. O homem percebeu e, tomando a iniciativa, disse: “Ó Mensageiro, provavelmente você me reconheceu. Certa vez, encontrei você no mercado de Ukkaz. Naquela ocasião, tratei você com extrema injustiça e rejeitei seu convite de maneira muito indelicada. Ó Mensageiro de Allah! Entre meus companheiros, ninguém era um inimigo mais ferrenho seu do que eu. Mas graças a Allah, que me concedeu a capacidade de ter fé e obedecer.” Em seguida, pediu ao Mensageiro que suplicasse a Allah para perdoar os erros e falhas de sua vida anterior. O Mensageiro disse-lhe: “Ao aceitar o Islã, todos os pecados cometidos durante o estado de incredulidade são perdoados.”
29. A delegação da tribo de Ghassan
Embora Ghassan fosse, por linhagem, uma tribo árabe, por ter adotado o cristianismo governava a região árabe em nome do imperador romano. No décimo ano da Hégira, três homens dessa tribo foram a Medina e aceitaram o Islã pelas mãos do Mensageiro. Eles disseram que o povo de sua tribo não abandonaria os cargos e os privilégios que atualmente desfrutava para aceitar o Islã. O Mensageiro despediu-os, dando-lhes provisões para a viagem. Eles voltaram e fizeram novamente o convite, mas isso também foi inútil. Sob a pressão das circunstâncias, os três mantiveram em segredo sua conversão ao Islã. Durante a batalha de Yarmuk, um deles encontrou-se com Abu Ubaidah e declarou sua firme fé no Islã. Os outros dois haviam morrido antes disso.
30. A delegação da tribo de Salman
Uma delegação composta por sete homens dessa tribo, entre eles Habib ibn Umar, chegou a Medina. Em resposta às perguntas deles, o Mensageiro disse que realizar a oração no horário é a melhor das boas ações. Eles também descreveram a situação de fome e pediram uma súplica. O Mensageiro suplicou. Mais tarde, soube-se que naquele mesmo dia havia chovido na região deles.
31. A delegação da tribo de Banu Isa
Eles também eram habitantes da região do Iêmen. A delegação de sua tribo também veio no décimo ano da Hégira. Eles perguntaram: “Ouvimos dos pregadores do Islã que o Islã de quem não faz a Hégira não é aceito. Nossa situação é que os animais domésticos são nossa única fonte de sustento. É difícil fazer a Hégira levando-os conosco. Portanto, se for realmente necessário fazê-la, venderemos esses animais e viremos.” Vejam o fervor e a inspiração da fé: bastava um sinal para que estivessem prontos a abandonar sua terra natal e seus bens de apoio e partir. O Mensageiro disse: “Permaneçam onde estão e continuem temendo a Allah.” Nos primeiros tempos, quando era necessário fortalecer o centro do Islã e preparar pessoas para realizar o trabalho de دعوت em todo o país, foi tornada obrigatória a Hégira para o centro. Essa fase já havia passado. Agora era desejável que a força do movimento se espalhasse por todo o país e que o convite ao Islã se expandisse em cada região; por isso, a Hégira já não era necessária. É a essa segunda fase que está ligada a orientação: “Depois da vitória, não há mais necessidade da Hégira.”
32. A delegação da tribo de Ghamid
No décimo ano da Hégira, uma delegação composta por dez pessoas da tribo de Gâmide chegou a Medina. Todos aceitaram o Islã. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) instruiu Ubayy ibn Ka‘b a ensinar-lhes o Alcorão. Depois, despediu-os, fornecendo-lhes as despesas da viagem.
33. A delegação da tribo Banu al-Muntafiq
Dessa tribo, dois representantes, chamados Nahiq bin Asim e Laqit bin Amir, chegaram a Medina. Quando foram à Mesquita do Profeta, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) estava proferindo um sermão. Quando o sermão terminou, Laqit levantou-se e fez algumas perguntas sobre a Ressurreição, o Paraíso e o Inferno. O Mensageiro de Allah deu-lhe respostas detalhadas. Depois, ele também fez algumas perguntas sobre os profetas e os povos anteriores. Em resposta à pergunta sobre se o Mensageiro de Allah possuía conhecimento do invisível ou do oculto, ele afirmou diretamente que somente Allah possui o conhecimento do invisível.
34. A delegação da tribo de Abd al-Qays
Já mencionei a delegação da tribo de Abd al-Qays, que veio no quinto ano da Hégira. A segunda delegação dessa tribo chegou a Medina no décimo ano da Hégira. O número de membros dessa delegação era de quarenta.
35. Tariq bin Abdullah e seu companheiro
Anteriormente, Tariq bin Abdullah havia visto o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) convidando as pessoas ao Islã no mercado de Al-Majaz. Naquela ocasião, seu próprio tio, Abu Lahab, corria atrás dele e dizia às pessoas: “Não o escutem; ele é um mentiroso” (que Allah nos proteja). Mais tarde, esse mesmo Tariq bin Abdullah veio de Rabdha a Medina com alguns companheiros para comprar tâmaras. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) passou perto do acampamento de Tariq. Perguntou-lhe quem era e qual era o objetivo de sua vinda. Em seguida, comprou dele um camelo em troca de tâmaras. Prometeu e partiu, dizendo: “Estou enviando imediatamente as tâmaras correspondentes ao preço do camelo”. Depois, Tariq e seus companheiros ficaram preocupados, pensando: “Entregamos o camelo fiado sem saber nada sobre ele. Quem sabe se receberemos o pagamento?”. Uma nobre mulher que viajava com a caravana de Tariq disse: “Vi o rosto radiante desse homem. Ele jamais poderia ser um enganador. Se ele não pagar o preço do camelo, eu pagarei por ele”. Pouco depois, um homem chegou trazendo tâmaras. Separou a quantidade determinada de tâmaras como pagamento pelo camelo e entregou separadamente mais algumas como presente. Assim, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) conquistou o coração da caravana. Mais tarde, quando chegaram à cidade, o Mensageiro de Allah estava proferindo um sermão na mesquita e aconselhando as pessoas a oferecerem caridade. Desse modo, abriu-se o caminho para convidá-los ao Islã.
36. Amr bin Ma‘dikarib, representante da tribo Banu Zubayd
Quando a tribo de Banu Zubaiade ouviu a pregação sobre o Islã, foi até seu chefe, Amr ibn Ma’di Karib, e disse: “Estamos ouvindo que surgiu no Hijaz um profeta chamado Muhammad (S.A.W.). Vá e investigue um pouco. Veja se essa notícia é verdadeira ou falsa. Se, na sua opinião, ele for realmente um profeta, todos nós creremos nele.” Amr ibn Ma’di Karib foi e aceitou o Islã. Contudo, após o falecimento do Mensageiro (S.A.W.), tornou-se apóstata.
37. O enviado da dinastia real de Himyar
Himyar era uma família real. Um enviado seu chegou trazendo uma carta. Nessa carta estava registrada a notícia de que Harith ibn Abd Kilal, Nu’aym ibn Abn Kilal, Numān Dhu Ru’ayn, Ma’afir e Hamdan haviam aceitado o Islã. O Mensageiro (S.A.W.) escreveu uma resposta detalhada a essa carta e enviou outra em nome da família real de Himyar. Nela, registrou os ensinamentos e as normas fundamentais do Islã. Escreveu as instruções para cobrar o zakat dos muçulmanos e a jizya dos não muçulmanos. Além disso, apoiando a liberdade religiosa do povo, escreveu que aqueles que desejassem permanecer judeus ou cristãos não poderiam ser obrigados a mudar de religião. Também escreveu na carta: “Estamos enviando nossos representantes a Zur’a Dhi Yazan: Mu’adh ibn Jabal, Abdullah ibn Zayd, Malik ibn Ubadah, Uqbah ibn Namir, Malik ibn Murrah e algumas outras pessoas. O líder deste grupo é Mu’adh ibn Jabal. Este grupo transmitirá minhas instruções e retornará trazendo o zakat e a jizya.”
38. A delegação da tribo de Nikhā
Nikhā também era uma tribo do Iêmen. Segundo a maioria dos relatos, foi a última delegação, chegando a Medina no mês de Muharram do décimo primeiro ano da Hégira. Essa delegação era composta por duzentas pessoas. Na verdade, todos eles haviam aceitado o Islã pelas mãos de Hazrat Mu’adh ibn Jabal. Depois de aceitar o Islã, vieram a Medina movidos por um desejo irresistível de encontrar o Mensageiro (S.A.W.). Ao chegar, apresentaram-lhe o relato de sua conversão ao Islã. Um dos membros da delegação perguntou sobre a interpretação de um sonho seu e, após uma breve permanência, eles retornaram.
As delegações mencionadas continuaram chegando de modo tão sucessivo e em número tão grande que o verdadeiro significado do trecho da Surata An-Nasr — “as pessoas entram em grupos na religião de Allah” — tornou-se evidente. O fato é que todo ser humano sente uma inclinação natural e espontânea para o Islã. Além disso, o Mensageiro (S.A.W.) apresentou o Islã por meio dos argumentos incomparáveis e irrefutáveis do Alcorão e de um estilo de discurso capaz de conquistar as mentes. Paralelamente, através de sua vida pura e de seu caráter concreto, apresentou uma imagem tão completa da veracidade do Islã que as pessoas não podiam deixar de ser instruídas e influenciadas por ele. Restava apenas um obstáculo no caminho da aceitação do Islã pelo povo em geral: a antiga liderança da jahiliyyah. Depois que esse obstáculo foi removido e ficou definitivamente claro que a força islâmica de Medina era invencível e que dela não havia motivo para temer qualquer mal à humanidade; pelo contrário, dela resultava continuamente um bem absoluto, seus corações se abriram para a verdade e a justiça. No íntimo, sentiram uma sede intensa de mergulhar nessa luz da verdade. E, agitadas por essa sede, correram para Medina, onde finalmente a saciaram.
Assim, uma inundação de luz se espalhou por todos os lados, e a escuridão desapareceu.
O início do chamado internacional
O grupo formado pelas mãos do Mensageiro (que a paz esteja com ele), que teve a felicidade de conduzir o movimento islâmico, não limitava seu campo de ação aos níveis nacional e doméstico; ao contrário, era uma “khayra ummah”, ou seja, a melhor comunidade, que havia surgido para o “bem da humanidade” de todo o mundo e de todos os tempos. Em outras palavras, fora enviado para guiar toda a humanidade no caminho da implementação dos princípios da verdade, honestidade, justiça, equidade e fraternidade. Seu objetivo final e supremo não era apenas reformar os árabes, organizá-los e unificá-los no nível estatal; seu objetivo era formar um Estado islâmico e, utilizando todos os meios e recursos disponíveis, convocar todas as nações e países do mundo a implementar os princípios islâmicos. Naquela era monárquica, milhões de servos de Allah eram esmagados sob o jugo da escravidão a pequenas classes e famílias; não tinham liberdade de julgamento, nem prosperidade econômica, nem qualquer direito político. Como poderia um movimento reformador fechar os olhos diante da situação oprimida e esmagada dessas pessoas? Na carta escrita ao imperador persa, o próprio Mensageiro (que a paz esteja com ele) esclareceu o alcance internacional de sua da‘wah, dizendo: “Sou o mensageiro ou enviado de Allah para todas as pessoas do mundo.”
Na realidade, foi o próprio Mensageiro (que a paz esteja com ele), pelas mãos de quem Allah inaugurou a era internacional para a humanidade, dividida em inúmeras identidades nacionais regionais e submetida aos reis e sacerdotes religiosos. Uma única palavra de verdade e justiça, ignorando todas as divisões geográficas, genealógicas, linguísticas e políticas, espalhou-se rapidamente pelos três continentes do mundo então civilizado e interligado. O último Profeta, Muhammad (que a paz esteja com ele), foi encarregado dessa da‘wah internacional precisamente quando não estava muito distante o surgimento da pólvora, da imprensa e da energia a vapor. O mundo inteiro estava prestes a transformar-se numa única cidade graças aos novos meios e recursos. Cinco ou sete séculos não representam um período tão importante no vasto palco da história mundial. O Mensageiro (que a paz esteja com ele) surgiu numa época após a qual, em apenas alguns séculos, as fronteiras do mundo começariam a se unir materialmente. Antes da chegada desse período, foi iniciada a da‘wah internacional para estabelecer os verdadeiros princípios do Islã. Seu objetivo era que, à medida que a humanidade se aproximasse cada vez mais materialmente, também se unisse cada vez mais por um mesmo vínculo nos aspectos mental, ideológico e moral. Esse período intermediário não seria suficiente para expandir a da‘wah e preparar as nações do mundo para a nova era. É verdade que, naquela época, o curso da era internacional escapou ao controle das forças revolucionárias muçulmanas e caiu nas mãos das forças materialistas. Isso ocorreu porque, embora a força islâmica ainda mantivesse na história uma imagem influente, já não conseguia conservar o vigor e o entusiasmo de sua da‘wah revolucionária. Apesar disso, a nova era recebeu do movimento islâmico o respeito pela humanidade, a igualdade humana, a consciência democrática, o devido reconhecimento do conhecimento científico intelectual e experimental, o desejo de conquistar a natureza, o respeito pelos tratados e direitos internacionais, a liberdade de expressar opiniões e de falar, a consciência dos direitos das minorias, os princípios fundamentais da justiça e outros valores elevados. Essas coisas sofreram distorção e obscuridade ao serem submetidas à mentalidade materialista. Contudo, tudo de bom e benéfico que se encontra na civilização moderna é uma contribuição do Mensageiro (que a paz esteja com ele) à humanidade mundial. Alguns escritores orientalistas sinceros também reconheceram isso.
Portanto, por sua própria natureza fundamental, o movimento islâmico exige que sua da‘wah não permaneça confinada aos limites da Arábia, mas se espalhe por todo o mundo. Ao mesmo tempo, era também uma necessidade prática que o Islã se expandisse para além da Arábia. Caso contrário, não seria possível manter na Arábia um governo baseado no ideal islâmico, pois, nesse caso, um Estado islâmico teria de permanecer cercado por todos os lados por Estados não islâmicos. Em especial, os impérios romano e persa mantinham constantemente olhos cobiçosos sobre o território árabe. Eles controlavam algumas regiões árabes e também compravam certas tribos árabes para utilizá-las. Além disso, o conflito entre Medina e o governo romano já havia começado.
É admirável para nós a rapidez com que o Mensageiro (que a paz esteja com ele) conduziu o movimento islâmico. Em apenas 13 anos, concluiu a tarefa de formar, por meio da da‘wah inicial, os quadros que conduziriam o movimento. Depois, em oito anos, concluiu efetivamente a स्थापनाção do Estado islâmico. Em seguida, durante os dois anos restantes de sua vida, levou a da‘wah aos Estados e impérios vizinhos.
O Tratado de Hudaybiyyah, firmado no sexto ano da Hégira, proporcionou-lhe descanso dos conflitos e confrontos internos e a oportunidade de expandir o trabalho da da‘wah para além da Arábia. Logo após concluir a Umrat al-Qada, no primeiro Muharram do sétimo ano da Hégira, o Mensageiro (que a paz esteja com ele) enviou emissários para apresentar a da‘wah do Islã aos governantes dos Estados vizinhos. Parece especialmente digno de consideração, nos dias de hoje, o fato de o Mensageiro (que a paz esteja com ele) ter dirigido a da‘wah do Islã aos governantes, e não aos povos de outros países. A razão é clara. Naquela época, os súditos não tinham absolutamente nenhum direito diante dos reis. Não possuíam nenhuma liberdade fundamental que pudessem utilizar para tomar decisões por si mesmos sobre seus próprios assuntos. Além disso, aqueles reis não estavam de modo algum dispostos a permitir que pessoas de outros países viessem encontrar-se com seus súditos e os afastassem de sua religião atual. A base de seu poder político estava estabelecida em sua doutrina religiosa. Eles governavam seus países com o auxílio dos líderes religiosos. Ademais, quando não se pretendia apenas mudar a religião, mas transformar integralmente o ser humano — quando se esperava mudar seus gostos, padrões e valores, e quando se despertava nos que aceitavam a da‘wah do Islã uma atitude rebelde contra o sistema vigente e um desejo revolucionário de estabelecer uma nova ordem —, como seria possível que os reis permitissem que o Islã se espalhasse silenciosamente entre seus súditos? Os governantes monárquicos daquela época haviam se estabelecido como senhores dotados de autoridade absoluta sobre a Terra; sem sua permissão, nem sequer uma folha de árvore podia se mover. Por isso, o Mensageiro (que a paz esteja com ele) apresentava diretamente a da‘wah do Islã aos governantes e, em suas cartas de da‘wah, chamava-os de representantes de seus povos, atribuindo-lhes a responsabilidade pelo bem e pelo mal de sua gente. Ao dirigir-se aos vários reis e grandes reis, o Mensageiro (que a paz esteja com ele) os tratava como “líderes” das respectivas nações. Ao imperador persa e a Muqawqis, disse claramente: “Se não aceitares o Islã, terás de arcar com o resultado dos pecados de toda a tua nação.”
Ao escrever cartas aos reis e soberanos, por um lado ele seguia os costumes vigentes: mandou fazer um anel para usar como selo e gravou nele as palavras “Muhammad, Mensageiro de Allah”. Por outro lado, estabeleceu um método e um procedimento próprios. Começava cada carta com “Bismillahir-Rahmanir-Rahim”. Escrevia seu próprio nome como remetente e o nome daquele a quem a carta era enviada. Em seguida, apresentava a mensagem com palavras mínimas, extremamente ponderadas e cautelosas. A linguagem diplomática que adotava nas cartas, considerando o contexto daquela época, revela diante de nós, de tal maneira, a superioridade intelectual do Mensageiro (que a paz esteja sobre ele), que ficamos estupefatos. Por exemplo, em todas essas cartas ele usava, de forma muito concisa, a frase: “Aceita o Islam e terás paz”. Isso também pode significar: “Obedece e terás paz”. O significado de “terás paz” é que esse é o único caminho ou meio para a paz. Outro significado é que há nela uma ameaça velada: se não aceitares o Islam ou não obedeceres, estarás em perigo. Apenas duas palavras, mas de significado abrangente. Do mesmo modo: “Se não aceitares o Islam, terás de suportar o resultado dos pecados de toda a nação”. Essa frase também tem duplo sentido. Um é religioso: tu serás responsabilizado perante Allah. O outro é político: sofrerás suas consequências políticas ainda nesta vida. O Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) não usava frases ambíguas desse tipo para que a mensagem permanecesse obscura e desse margem a interpretações distorcidas — que Allah nos livre. Pelo contrário, os dois sentidos eram transmitidos simultaneamente na mesma frase. Expressar um significado tão amplo com tão poucas palavras é uma demonstração da “balagha”, ou excelência retórica e linguística, do Mensageiro (que a paz esteja sobre ele). Além disso, ao escrever a cada governante, empregava uma linguagem adequada à sua religião e às suas circunstâncias e condições particulares. Ou seja, não usava uma linguagem padronizada em todos os casos. Também enviava a cada governante um mensageiro que conhecesse a língua daquele país. [Alguns dos Companheiros haviam viajado por vários países a negócios e aprendido diversas línguas. A alguns outros, o Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) ordenava especialmente que aprendessem línguas estrangeiras.]
O principal objetivo do envio dessas cartas era transmitir o convite ao Islam. Mas, além disso, por meio dessas cartas ele também fazia os governantes dos países vizinhos compreenderem que a Arábia já não era uma região desprotegida e aberta à livre incursão como antes. Pelo contrário, era um país governado por um governo bem organizado, capaz de oferecer e enfrentar todo tipo de desafio. Esse governo não temia as ameaças nem as demonstrações de arrogância de ninguém. Ali atuava um governo poderoso, competente e sempre vigilante.
Agora descreverei brevemente como foram enviadas as cartas de convite aos diversos governantes estrangeiros e quais foram os resultados.
1 — Por intermédio de Amr ibn Umayya al-Damri (que Allah esteja satisfeito com ele), o Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) enviou uma carta de convite escrita ao rei da Abissínia, Ashama (ou As-hama) ibn Abjar, o Negus. Na carta, mencionava-se especialmente os emigrantes que anteriormente haviam ido para a Abissínia, sobretudo Ja’far al-Tayyar. Foi dada a ordem de mantê-los em segurança. Em seguida, o próprio rei e, por meio dele, os membros de sua corte também foram convidados ao Islam.
O Negus já era anteriormente influenciado pelo Islam. Ele aceitou publicamente o Islam pelas mãos de Ja’far e enviou ao Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) uma carta contendo um relato detalhado disso. Enviou seu próprio filho, Arha, como mensageiro. Informou também que, se o Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) lhe ordenasse comparecer pessoalmente, estaria pronto para fazê-lo. [Provavelmente, este não era o mesmo Negus diante de quem os emigrantes haviam comparecido, que havia se tornado muçulmano e por quem o Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) realizou em Medina a oração fúnebre à distância. Ashama subiu ao trono depois dele. De qualquer modo, há divergências quanto à identidade dessa pessoa.]
2 — Por intermédio de Alá ibn Hadrami, o Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) enviou uma carta de convite a Mundhir ibn Sawa, o governante do Bahrein e tributário do imperador do Irã. Mundhir aceitou o Islam, e, ao mesmo tempo, uma grande parte de seus súditos também o aceitou. Em sua carta de resposta, informou que ele próprio havia aceitado o Islam e mencionou que uma parte de seus súditos estava pronta para aceitá-lo. Informou também que alguns súditos não queriam aceitar o Islam, mas desejavam permanecer judeus ou cristãos. De Medina foi enviada outra carta informando que aqueles que desejassem permanecer judeus ou cristãos poderiam continuar em sua própria religião. Contudo, teriam de pagar a jizya.
3 — Ja’far e Abd eram os dois filhos de Jifar, rei de Omã. A carta de convite foi enviada por intermédio de Amr ibn al-As. Amr ibn al-As encontrou-se primeiro com o irmão mais novo, Abd. Abd manteve uma longa discussão sobre o assunto. Soube por ele que o Negus havia se tornado muçulmano; ainda assim, seu povo não o havia deposto do trono, e os bispos e sacerdotes também não haviam conseguido impedi-lo. Nem mesmo o imperador romano tomou qualquer medida depois de saber do acontecimento. Pelo contrário, depois de aceitar o Islam, o Negus deixou de pagar tributo a Heráclio. Ele também tomou conhecimento dos principais ensinamentos do Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) por meio de Amr ibn al-As. Depois dessa conversa, nasceu no coração de Abd o desejo de aceitar o Islam. Mas ele começou a lamentar: “Seria bom se meu irmão mais velho também concordasse em aceitar o Islam e nós dois pudéssemos ir juntos a Medina e aceitá-lo.” Em seguida, realizou-se uma audiência. Na presença dos dois irmãos, o mensageiro de Medina abriu a carta selada. Ambos os irmãos abriram-na e leram-na; depois, foram feitas algumas perguntas. Em resposta, Amr disse: “Os coraixitas aceitaram a obediência ao Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) por necessidade. E o grupo do Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) é formado por pessoas que se reuniram ao seu lado depois de refletir e compreender devidamente.” Mesmo assim, o rei Jifar permaneceu hesitante. Mas seus dois filhos aceitaram o Islam, assim como um grande número de súditos daquele reino.
4 — Mundhir ibn al-Harith ibn Abu Shimar era o governante cristão de Damasco. Da Medina, Silat ibn Amr levou uma carta de convite. Ele também considerou o movimento do Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) uma questão de política mundana e impôs a condição de que metade do governo islâmico lhe pertenceria. Depois disso, sua vida rapidamente chegou ao fim. Quando o Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) recebeu informações a seu respeito, disse: “Mesmo que ele pedisse um palmo de terra ou o equivalente ao espaço de uma tamareira, eu não estaria disposto a conceder-lho.” Cada palmo da terra sobre a qual se estabelece o Estado Islâmico é um depósito sagrado.
5 — Jarih bin Mitta Mukawqis era o rei cristão de todo o Egito, incluindo Alexandria. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) enviou Hatib ibn Abi Balta’a como emissário à sua corte. Ele entregou a carta e também falou. O discurso que proferiu oralmente foi tão destemido e audacioso que permite compreender que tipo de personalidade de caráter firme o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) havia formado no molde do Islam. Para advertir Mukawqis, Hatib disse: “Nesta terra nasceu anteriormente um homem que bradou: ‘Eu sou o vosso supremo senhor’. Por fim, ele foi destruído, vítima da ira de Allah. Como governante posterior desta terra, deveis aprender com o destino dos que vos precederam. Não deveis permitir que outros aprendam com o vosso destino”. Em seguida, depois de demonstrar, com argumentos e provas, a superioridade do Islam, disse: “Estamos convidando-vos a aceitar a religião correta e original de Jesus, que a paz esteja sobre ele. Esta não é uma religião nova”. Embora Muqawqis não estivesse preparado para aceitar o Islam, demonstrou grande respeito pela carta do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), guardou-a numa caixa de marfim e preservou-a no tesouro. Depois, enviou ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) diversos presentes, entre eles a famosa mula chamada Duldul. Em resposta à carta, escreveu: “Sei que ainda está por vir o último Profeta. Contudo, suponho que ele nascerá na Síria”.
6 — Heráclio era o imperador da parte oriental do Império Romano. Sua capital era Constantinopla. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) enviou-lhe uma carta de convite ao Islam por meio de Dihya ibn Khalifa al-Kalbi. Dihya encontrou-se com ele em Bayt al-Maqdis. Heráclio realizou uma cerimônia grandiosa em honra do emissário de Medina e fez-lhe muitas perguntas detalhadas sobre o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Além disso, ordenou que qualquer pessoa de Meca que estivesse naquela região fosse levada à sua presença. Por acaso, Abu Sufyan, líder do campo opositor ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), encontrava-se ali em uma viagem comercial. Ele foi chamado à corte junto com todos os seus companheiros de comércio. Heráclio disse-lhes: “Farei algumas perguntas a Abu Sufyan; se ele der uma resposta errada a alguma pergunta, informai-me”. Abu Sufyan disse: “Se eu não temesse que meus companheiros desmascarassem minhas mentiras, eu aproveitaria esta oportunidade para inventar algumas declarações”. Mas Allah criou uma situação tal que, mesmo pela boca do mais ferrenho inimigo do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), foram proferidas apenas palavras verdadeiras sobre ele. Heráclio perguntou sobre o nascimento do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), sua família, seu caráter, a situação de seus companheiros próximos, a rapidez de seu progresso, a situação dos muçulmanos nas guerras, os ensinamentos do Islam e vários outros assuntos. Depois de ouvir as informações fornecidas por Abu Sufyan em resposta a todas as perguntas, Heráclio disse: “Abu Sufyan, se o que disseste for verdade, este homem um dia será o senhor até mesmo do lugar onde estou sentado. Ah! Se eu pudesse apresentar-me diante desse Profeta e lavar seus pés!”. Depois, a carta do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) foi lida. Os membros da corte demonstraram grande irritação com isso, pois já haviam ficado alarmados ao perceber o estado mental de Heráclio. Eles expulsaram rapidamente os representantes de Meca.
Como resultado da conversa com Heráclio, o próprio Abu Sufyan ficou profundamente impressionado com a superioridade do Islam.
7 — Khosrow Parviz era o imperador do Irã e adorador do fogo. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) enviou-lhe uma carta de convite ao Islam por meio de Abdullah ibn Rawaha, que Allah esteja satisfeito com ele. Khosrow Parviz, tomado por extrema arrogância, rasgou a carta do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) em pedaços, dizendo: “Como ousa um dos nossos súditos tamanha audácia?”. O infeliz Khosrow não sabia que o mundo árabe estava às portas de uma grande revolução e que ali se desenvolvia uma poderosa força ideológica. Khosrow Parviz ordenou a Bazan, seu governador no Iêmen: “Prende imediatamente o autor da carta e traz-mo”. Bazan enviou um destacamento para prender o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e trazê-lo. Quando o destacamento chegou a Taif, os principais líderes locais ficaram muito felizes. Pensaram que, dessa vez, o inimigo de seu querido sistema social da jahiliyyah seria erradicado (Muhammad, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). O destacamento chegou a Medina, e seu líder informou a Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) que eles tinham vindo para prendê-lo por ordem do imperador persa. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse-lhes que voltassem para encontrá-lo na manhã seguinte. Quando retornaram na manhã seguinte, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) informou-lhes: “Esta noite, Allah fez com que o vosso imperador fosse morto pelas mãos do próprio filho. Ide verificar se a notícia é verdadeira”. Depois de conhecerem a veracidade da notícia e a grandeza dos ensinamentos e do caráter do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), Bazan ingressou na fraternidade islâmica. Seguindo seu exemplo, muitos outros da corte e da região abraçaram a fé.
Ao ouvir que o imperador persa havia rasgado sua carta, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Na verdade, ele rasgou em pedaços o próprio império”. Parece que o decreto de Allah Todo-Poderoso foi proferido pela boca do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Pois, em apenas dez a quinze anos, um império antigo, sólido, vasto e extremamente luxuoso, com quatro ou cinco mil anos de existência, foi derrotado pelo Islam. Na realidade, foram os conflitos internos que acabaram destruindo esse império.
Além disso, entre os governantes de outros pequenos reinos aos quais foi levado o convite ao Islam estava Farwa ibn Umar, governador do Império Romano, que, como consequência de aceitar o Islam, perdeu tanto o cargo quanto a vida. O segundo foi Thumama, governante de Najd, que aceitou o Islam no sexto ano da Hégira. O terceiro foi Jabala al-Ghassani, que aceitou o Islam no sétimo ano da Hégira. O quarto foi Ukaidar, governante de Dumat al-Jandal, que aceitou o Islam. O quinto, Dhul-Kila al-Himyari, era rei da tribo de Himyar. Ele afirmava ser Deus e ordenava que seus súditos se prostrassem diante dele. Por fim, também aceitou o Islam. Durante o governo de Umar al-Faruq, abandonou o reino e veio para Medina a fim de viver como um dervixe. Feliz por ter aceitado o Islam, libertou dezoito mil escravos e escravas.
Dos acontecimentos acima, sabe-se que essa luta escrita pela divulgação do chamado islâmico produziu resultados muito importantes e foi extremamente útil para a expansão e o desenvolvimento do Islã. Primeiro, por meio dela, o chamado do Islã tornou-se um assunto de discussão e consideração nos estados vizinhos. Segundo, um número significativo de governantes no poder aceitou o Islã graças a essas cartas, numa época em que os muçulmanos estavam muito atrasados culturalmente. Isso comprova que o Islã é uma religião verdadeira e natural. Juntamente com esses governantes que aceitaram o Islã, seus súditos também se inclinaram para o Islã. Mesmo aqueles que não aceitaram o Islã após receberem as cartas do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) foram profundamente influenciados por elas. Além disso, o início de uma era internacional por meio do envio dessas cartas também contribuiu bastante para criar um ambiente favorável dentro do país. O maior benefício dessa campanha foi que, desde o início, um amplo campo de atuação se abriu diante dos muçulmanos, e lhes foi estabelecido um objetivo grandioso e de longo alcance, tanto em nível nacional quanto internacional. O resultado foi que, mesmo depois da formação do Estado islâmico em toda a Arábia, os combatentes muçulmanos não pararam, não se entregaram ao luxo e ao prazer, nem pensaram que já haviam feito tudo o que era necessário. Pelo contrário, suas aspirações e desejos aumentaram ainda mais. Ao confiar a seus companheiros atividades diplomáticas, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) proporcionou-lhes um excelente treinamento para assumirem as responsabilidades dos dias vindouros. Eles compareciam a ambientes desconhecidos, a círculos sociais e culturais grandiosos e às solenes cortes reais, adquirindo experiência em conversar, discutir e discursar em assembleias públicas. Tiveram uma oportunidade de ouro para compreender a psicologia dos governantes e administradores de seu tempo. Além disso, a lealdade, firmeza, força de caráter, compreensão da superioridade de seu ideal, simplicidade, coragem e audácia com que proclamaram a verdade aguçaram ainda mais suas capacidades e talentos, tornando seu caráter mais vigoroso e radiante.
Tiveram a honra de concluir, em nível internacional, essa campanha inacabada de divulgação iniciada pelo Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) seus companheiros que o sucederam e o grupo por ele treinado.
A reação rebelde final
Quando uma revolução atravessa todos os estágios de conflito e confronto, destrói o orgulho da antiga liderança e chega à era dourada do sucesso definitivo, algumas pessoas mesquinhas, tomadas de inveja por esse sucesso, começam a se revoltar interiormente. Então, assim que têm oportunidade, manifestam sua última insolência e fazem uma tentativa fracassada de erguer uma barreira de areia diante da inundação da revolução. A revolução islâmica também enfrentou uma situação indesejável desse tipo. Quando o poder dos coraixitas, dos judeus e das lideranças locais desapareceu, e o povo começou a avançar em direção ao Islã, uma última reação rebelde surgiu sob uma forma completamente nova. Algumas pessoas pensaram: “Como pode ser que um homem tenha surgido alegando ser profeta, que apenas algumas pessoas o tenham apoiado, que ele tenha travado conflitos e, depois, esse mesmo homem tenha se tornado governante de toda a Arábia? Que mal haveria em testarmos também esse método?” Sobretudo quando essas pessoas viam a enorme riqueza proveniente do zakat seguir em direção a Medina, seus corações se enchiam de cobiça. Elas conheciam aqueles que, entre os muçulmanos, não haviam abraçado o Islã sinceramente, mas apenas por terem sido compelidos pelas circunstâncias, e em cujos corações ainda ardia uma atitude de oposição. Decidiram uni-los e jogar sua última cartada. Sabiam muito bem que já não era possível iniciar qualquer movimento apoiando-se em ideias da era da ignorância ou em doutrinas pagãs. Afinal, as crenças relativas à unicidade de Allah, à revelação, à profecia e à vida após a morte haviam envolvido completamente todo o ambiente. Por isso, também tentaram abrir uma loja para enganar as pessoas, adornando suas mercadorias falsas com todos esses rótulos. Mas esses tolos não sabiam que, para colocar uma nova moeda em circulação no mercado, não bastava imprimir apenas um desenho falso; era necessário também metal genuíno. O metal utilizado na moeda do Islã — isto é, a força humana formada pelo Islã — era, por sua própria natureza, absolutamente puro e genuíno (o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Os melhores entre vocês na era da ignorância são também os melhores no Islã”). Além disso, durante dez ou vinte anos, ele havia sido purificado da ferrugem ao ser queimado repetidamente na fornalha. Contudo, as pessoas egoístas geralmente não são perspicazes. Veem apenas os interesses que lhes agradam e não dão a menor atenção aos sacrifícios e às renúncias feitos para alcançar qualquer coisa. Em suma, essa verdade eterna da história voltou a manifestar-se como verdadeira também no movimento islâmico: para fazer fracassar todo movimento popular e voltado ao bem-estar público, e toda grande personalidade, são precisamente as pessoas da classe mais vil da sociedade que se mantêm ativas. É necessário fazer uma breve discussão sobre esses conspiradores ardilosos que se levantaram contra o movimento islâmico conduzido pelo Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele).
1 — Já discutimos anteriormente que certo Musailima ibn Habib, conhecido como Musailima, o Mentiroso — isto é, o falso Musailima — veio a Medina com uma delegação. Ao ver o esplendor da capital do Estado islâmico, despertou nele uma intensa obsessão pelo poder. Ele escreveu uma carta ao Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), exigindo uma participação no poder do governo islâmico e fazendo ameaças. O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) rejeitou firmemente sua exigência. Impaciente com isso, ele passou a alegar ser profeta. Ele já era um literato. Imitando o estilo dos versículos do Alcorão, compunha frases com palavras rimadas e as recitava para os beduínos ignorantes. Como algumas pessoas ainda mantinham vínculos com a era da ignorância e ainda não haviam amadurecido suficientemente nos ensinamentos islâmicos, além de ainda restarem alguns ressentimentos e sentimentos de orgulho regionais e tribais, ele acabou conquistando alguns seguidores. Além disso, como sua revelação inventada declarava que a oração estava dispensada e que o adultério e os jogos de azar eram lícitos, pessoas pecadoras se aglomeraram ao seu redor. A força que ele criou contra o movimento islâmico foi completamente destruída durante o governo de Abu Bakr.
2 — Uma mulher vizinha de Musailima também alegou ser profetisa. Musailima encontrou essa mulher, chamada Sajah, e, por meio de conversas secretas, os dois estabeleceram uma conspiração conjunta. Em determinado momento, sua existência acabou dissolvendo-se na própria pessoa de Musailima. A literatura obscena de Musailima arrastou Sajah para uma onda de sensualidade. Mais tarde, quando Musailima foi morto lutando contra os muçulmanos, Sajah arrependeu-se e permaneceu no Islã até o fim da vida.
3- Após o Hajj de Despedida, Aswad Ansi rebelou-se na fértil e politicamente importante região do Iêmen, reivindicando a profecia. Seu verdadeiro nome era Dhu’l-Khimar Abhala bin Ka’b. Ele conseguiu alguns seguidores entre a tribo de Madhhaj. Sua influência também se espalhou pela região de Najran. A principal razão de seu crescente poder eram suas práticas de magia e semelhantes. Ele mandou matar alguns funcionários não militares do governo islâmico e trabalhadores da pregação, além de expulsar algumas pessoas de sua própria região. O Mensageiro (s.a.w.) enviou instruções aos funcionários das regiões vizinhas para que reunissem forças e reprimissem a rebelião. Ele mandou assassinar um muçulmano de origem iraniana e tomou à força sua bela esposa. Essa mulher era uma crente de fé madura. Com a ajuda dela, o governo islâmico conseguiu derrotar Aswad. Esse conspirador foi eliminado apenas dois ou três dias antes do falecimento do Mensageiro (s.a.w.), e seus colaboradores também foram exterminados. Contudo, a influência da desorientação que ele espalhara estendeu-se de Hadramaut a Taife, e sua completa erradicação só foi possível na primeira parte do califado de Abu Bakr (r.a.).
5- Na cabeça de Laqit bin Malik al-Azdi, sucessor de Hawdha bin Ali, governante de Omã, também começaram a se agitar vários tipos de ideias de desorientação.
Todas essas forças malignas conseguiram levantar a cabeça em diferentes regiões graças exclusivamente ao apoio dos antigos adoradores da ignorância circundantes, dos hipócritas, dos propensos ao crime, dos antigos devotos do adultério, do álcool, do jogo e da usura, dos que desejavam retornar ao antigo tribalismo em vez da força unificada do Islã, dos que relutavam em pagar o zakat, dos que se ressentiam interiormente ao ver os bens do zakat serem enviados a Medina e de pessoas fascinadas por pequenas lideranças. Essas forças malignas organizaram esses antigos pecadores egoístas, e as forças moribundas da ignorância fizeram sua última tentativa de restabelecer seu domínio.
Mas a liderança formada pelo Mensageiro (s.a.w.), mesmo em uma situação extremamente perigosa, reprimiu firmemente todas essas forças malignas e uniu todo o povo da Arábia pelos laços de uma disciplina inquebrantável.
A maior conferência do movimento islâmico
O Hajj é um ato de adoração de elevado nível no Islã. A Kaaba Sagrada e seu pátio santificado, que eram o centro da pregação de Abraão; o Santuário Sagrado, em cada átomo do qual estão gravadas memórias extremamente valiosas da história do Islã; sob cujo céu e em cujo ar ressoam as súplicas de Abraão e Ismael (a.s.); e em todo o ambiente do qual estão espalhadas as lembranças da vida e das obras do próprio Mensageiro (s.a.w.) — essa Kaaba Sagrada, por meio do Hajj, tornou-se para sempre o centro mundial da pregação e do movimento islâmicos. É obrigatório para todo muçulmano capaz comparecer a esse centro pelo menos uma vez na vida, nos dias determinados do Hajj; cumprir os ritos necessários do Hajj; reviver a sunnah do sacrifício de Abraão; discutir as histórias de vida dos profetas anteriores e aprender com elas; estabelecer contato com os irmãos e irmãs islâmicos vindos de todo o mundo; e, voltando-se para longe de todas as demais coisas, entregar-se completamente a Allah com a máxima humildade. A ordem que tornou o Hajj obrigatório foi promulgada no nono ano da Hégira.
Nesse mesmo ano, o Mensageiro (s.a.w.) nomeou Abu Bakr Siddiq (r.a.) como Amir al-Hajj, isto é, líder da delegação do Hajj, e enviou-o a Meca com trezentos Companheiros, para que realizasse o Hajj sob sua liderança. A propósito, mencionarei alguns pontos importantes sobre esse Hajj, pois esse acontecimento é extremamente importante na história do movimento islâmico, tanto do ponto de vista religioso quanto político.
Além de nomear Abu Bakr Siddiq (r.a.) como líder, uma outra responsabilidade foi confiada a Ali (r.a.). Ele deveria recitar na assembleia do Hajj os primeiros quarenta versículos da surata At-Tawbah e transmitir às pessoas as proclamações importantes reveladas por Allah. A primeira proclamação foi que aqueles que, permanecendo sob o antigo sistema de ignorância e idolatria, haviam protegido seus interesses por meio de tratados com o Mensageiro (s.a.w.) ou com o Estado Islâmico receberiam mais quatro meses. Após esses quatro meses, todos os tratados desse tipo seriam anulados por ordem de Allah.
Durante esses quatro meses, eles deveriam decidir seu curso de ação: abandonariam a cidadania do Estado Islâmico, combateriam ou viveriam como muçulmanos no Estado Islâmico. Em outras palavras, também era necessária uma declaração pública para cancelar os tratados desse tipo, pelos quais alguém, mantendo uma entidade independente dentro do Estado Islâmico, não era capaz de cumprir suas próprias exigências e reivindicações. Além disso, os quatro meses concedidos aos adversários eram um prazo suficiente. Também lhes foi dada a oportunidade de que, se algum politeísta quisesse compreender o Islã em Medina durante esse período, pudesse ir e voltar em segurança. Ademais, entre os politeístas, aqueles que haviam cumprido honestamente os tratados receberam este benefício adicional: seus tratados não seriam anulados depois de quatro meses, mas permaneceriam válidos até o prazo estipulado. A pressão recaía sobre os politeístas que haviam travado extrema hostilidade e guerra contra o Islã, violado todas as normas morais ao participar dos conflitos, quebrado repetidamente suas promessas e transgredido todas as regras de humanidade, civilidade e decoro. Eram os politeístas que haviam impedido as pessoas de seguir o caminho da verdade, tentado apontar falhas na religião de Allah, procurado expulsar o Mensageiro de sua casa e sempre iniciado os ataques, provocando guerras e conflitos.
A segunda declaração foi que, no futuro, nenhum politeísta seria nomeado administrador da Caaba Sagrada. A terceira declaração foi que, no futuro, nenhum politeísta poderia entrar nos limites do Santuário Sagrado. A esse respeito, Hazrat Ali (r.a.) também anunciou, em nome do Mensageiro (s.a.w.), que, a partir daquele momento, ninguém poderia realizar a circunambulação da Caaba despido. A quarta declaração foi que os quatro meses sagrados estabelecidos por Allah permaneceriam em vigor, e ninguém recebera o direito de fazer neles a menor alteração. Aproveitou-se a ocasião para informar também que, por mais que os politeístas detestassem isso, Allah havia enviado Seu Mensageiro ao mundo precisamente para estabelecer plenamente e tornar vitoriosa a Sua religião.
Alguns dizem todo tipo de coisas fantasiosas e absurdas a respeito de Hazrat Ali (r.a.) ter recebido essa responsabilidade adicional. A realidade, porém, era simplesmente que o Mensageiro (s.a.w.) havia nomeado Hazrat Abu Bakr (r.a.) como comandante e seu sucessor, enquanto enviara Hazrat Ali como representante pessoal, secretário pessoal ou emissário, para transmitir uma importante declaração religiosa e política. Aqueles que têm uma compreensão correta da administração governamental sabem que, em certos casos, não há alternativa senão adotar tal procedimento. Mesmo quando há um governador do governo, é necessário enviar um emissário separado para alguma necessidade especial.
Agora descreveremos aquela enorme assembleia do Hajj, da qual o Mensageiro (s.a.w.) participou pessoalmente e onde um mar de membros do movimento islâmico permaneceu olhando para seu rosto e ouvindo suas palavras. Quando, no décimo ano da Hégira, o Mensageiro (s.a.w.) decidiu realizar o Hajj, a notícia foi divulgada por todas as regiões. As caravanas dos valorosos combatentes da revolução islâmica começaram a reunir-se em Medina, vindas de todas as direções. Nessa viagem, todas as Mães dos Crentes acompanharam o Mensageiro (s.a.w.). Ele entrou no estado de ihram em Zul-Hulayfa e foi dali que proferiu aquela histórica talbiyah, que brota do íntimo de todos os peregrinos que comparecem perante Allah. Essa talbiyah era: “Labbaika Allahumma labbaik…” Isto é: “Aqui estamos, ó Allah, aqui estamos. Todo louvor é Teu, toda bênção é Tua, todo o reino é Teu; não tens parceiro algum”.
Sempre que, pelo caminho, era necessário subir ou descer alguma montanha, todos entoavam em uníssono: “Labbaika, labbaik”.
Ao aproximar-se de Meca, fez uma breve parada em Zu Tuwá. Depois, entrou em Meca levando consigo aquele imenso mar de muçulmanos. Primeiro realizou a circunambulação. Em seguida, foi a Safa e Marwa. Dali, voltou-se para a Caaba e proclamou a unicidade de Allah. No dia 9 de Zul-Hijjah, chegou a Wadi Namirah. Depois do meio-dia, alcançou a planície de Arafat. Ali subiu a uma colina e, sentado sobre o dorso da camela chamada Qaswa, proferiu o sermão. Ao redor estavam os repetidores, que repetiam cada frase. Assim, cada palavra pronunciada pelo Mensageiro (s.a.w.) chegava aos ouvidos de todos os presentes.
Naquele dia, um sentimento extraordinário dominava o coração do Mensageiro (s.a.w.). Diante dele estavam os frutos de todo o trabalho de sua vida: cento e quarenta e quatro mil muçulmanos — segundo outra opinião, cento e vinte e quatro mil.
O manifesto internacional do movimento islâmico
Nesse período, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) proferiu dois sermões. O primeiro foi no dia 9 de Zul-Hijjah, do alto do monte de Arafat. O segundo foi no dia 10 de Zul-Hijjah, em Mina. Em alguns relatos, o conteúdo desses dois sermões acabou se misturando.
Esses dois sermões possuem uma importância extraordinária por várias razões. Primeiro, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) discursou na maior assembleia islâmica, num momento em que a muda da palavra da verdade que ele havia plantado se transformara numa enorme árvore e começava a dar frutos. Alcançar um sucesso tão grandioso depois de atravessar uma era de oposição intensa constitui, por si só, uma enorme prova de vida e caráter. Se, em tal situação, ele fosse um homem mundano, um conquistador que tivesse alcançado apenas sucesso e vitória política, teria se entregado a todos os prazeres e, tomado pela ostentação e pela arrogância, teria acabado por se colocar no lugar de Deus. Qualquer outro indivíduo egoísta, ao chegar a esse estágio, teria lançado para longe todo o manto da religiosidade e se apresentado sob uma forma diferente. Contudo, vemos no Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) ainda mais humildade do que antes e uma gratidão a Allah ainda maior do que antes. Segundo, como o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), por meio de sua sabedoria e percepção interior, compreendera que aquela era a última oportunidade de discursar diante de uma assembleia muçulmana tão grandiosa, apresentou nesse sermão um testamento contendo instruções de despedida, cada palavra das quais era preciosa. Terceiro, depois de o Estado ter alcançado esse estágio de plenitude em suas atividades, aquele era o momento apropriado para o movimento islâmico transmitir uma mensagem ou um manifesto em nome de toda a humanidade. Por isso, ele cumpriu essa responsabilidade de maneira extremamente adequada. Quarto, esses dois sermões são uma prova da suprema eloquência do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e estão entre seus discursos mais sublimes e ricamente ornamentados. Por meio deles, torna-se fácil compreender a excelência e a grandeza dessa personalidade nobre e sagrada.
Cabe mencionar que uma parte desses dois sermões está relacionada a situações e problemas internos específicos, enquanto outra parte contém um manifesto internacional. O próprio discurso principal deixa clara essa divisão.
O sermão de Arafat
— Todo louvor pertence somente a Allah. Nós O louvamos somente a Ele. Somente a Ele pedimos ajuda. Somente a Ele pedimos perdão por nossos pecados e faltas. Somente a Ele apresentamos nosso arrependimento. Buscamos refúgio Nele contra as atividades nocivas de nossos desejos e contra nossas próprias ações injustas. Aquele a quem Allah ajuda a seguir o caminho correto, ninguém pode desviá-lo. E aquele a quem Allah não concede a oportunidade de receber orientação, ninguém pode conduzi-lo pelo caminho reto e correto.
— Declaro que não há outra divindade além de Allah. Ele é Um e Único. Não possui parceiro algum. Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) é Seu servo e Mensageiro.
— Ó servos de Allah, aconselho-vos e incentivo-vos a adorar e obedecer somente a Allah.
— Inicio meu discurso com palavras benéficas.
-Ó povo, escutai atentamente as minhas palavras. Eu vos explicarei tudo, pois não creio que voltarei a encontrar-me convosco neste lugar depois deste ano.
-Ó povo, a vida e os bens de cada um de vós são invioláveis para os demais. Cumpri esta determinação até chegardes à presença do vosso Senhor. Este vosso mês, esta vossa cidade e este vosso dia são tão sagrados quanto isto.
-Sabei que vos transmiti a mensagem. Ó Allah, sê testemunha.
-Aquele que tiver em sua posse algo confiado por outra pessoa deve entregá-lo ao seu proprietário.
-Todos os juros da época da Jahiliyyah foram abolidos. E fui o primeiro a abolir os juros do meu tio Abbas.
-Todas as reivindicações de vingança por assassinatos da época da Jahiliyyah foram abolidas. E fui o primeiro a renunciar à reivindicação pelo assassinato de Amir ibn Rabi’a. Todos os cargos, títulos e honras da época da Jahiliyyah foram abolidos. Somente o cargo de guardião da Caaba e o de fornecer água aos peregrinos permanecerão.
-A pena para o homicídio intencional é a morte. A compensação pelo homicídio involuntário é de cem camelos. Exigir mais de cem camelos nesse caso será um costume da Jahiliyyah.
-Ó povo, depois que o Islã foi estabelecido, Satanás já não espera ser obedecido nesta terra. Porém, se obedecerdes a Satanás nos pecados que considerais leves, ele ficará satisfeito também com isso.
—Ó gente, alterar a ordem dos meses sagrados é um ato ainda maior de incredulidade. Ao considerar um mês sagrado em um ano e lícito no ano seguinte, adiantando-o ou adiando-o para completar de algum modo a contagem, os incrédulos se aprofundam ainda mais no desvio.
—Certamente, o tempo, seguindo seu ciclo, retornou hoje ao seu ponto inicial, tal como era no dia em que Allah criou os céus e a terra. Ou seja, para Allah, os meses são certamente doze. Desde o dia em que Allah criou os céus e a terra, o número de meses está assim registrado em Seu decreto oculto. Quatro deles são sagrados. Três são consecutivos: Dhu al-Qa’dah, Dhu al-Hijjah e Muharram. E um é isolado: o mês de Rajab, situado entre Jumada al-Thaniyah e Sha’ban.
—Sabei que transmiti a mensagem. Ó Allah, sê testemunha.
—Ó gente, vossas mulheres têm certos direitos sobre vós.
Vós também tendes certos direitos sobre elas. É vosso dever não permitir que ninguém, além de vós, entre nos aposentos de vossos maridos. Não é apropriado que vossas esposas permitam a entrada em casa, sem vossa autorização, de qualquer pessoa de quem não gostais. As esposas não devem cometer atos indecentes e obscenos. Se o fizerem, Allah vos permitiu afastar-vos temporariamente delas, a fim de corrigi-las. Depois, se passarem a obedecer, é vossa responsabilidade prover-lhes o sustento de acordo com as normas. Certamente, as mulheres estão sob vossa responsabilidade. Elas não podem, por si mesmas, fazer algo em benefício próprio. Vós as tomastes como companheiras sob a confiança de Allah e desfrutais de seus corpos segundo a lei de Allah. Portanto, temei a Allah no que diz respeito às mulheres e educai-as e instruí-as da melhor maneira.
—Sabei que transmiti a minha mensagem. Ó Allah, sê também testemunha.
—Ó gente, os muçulmanos são irmãos uns dos outros. Não é lícito que um irmão tome os bens de outro irmão sem o seu consentimento.
—Atenção: transmiti a mensagem. Ó Allah, sê também testemunha.
-Depois de mim, não abandonem esta fraternidade islâmica para adotar uma vida à maneira dos incrédulos e começar a degolar uns aos outros.
-Estou deixando para vocês algo que, se seguirem, não se desviarão. É o Livro de Allah.
-Atenção, transmiti a mensagem. Ó Allah, sê também testemunha.
-Vocês serão questionados a meu respeito. Digam: o que dirão? As pessoas exclamaram em uníssono: “Damos testemunho de que você transmitiu a mensagem e fez tudo o que devia ser feito pelo bem da ummah. Levantou todos os véus que cobriam a verdade e nos transmitiu o depósito de Allah.”
-Ó Allah, sê testemunha. Ó Allah, sê testemunha. Ó Allah, sê testemunha.
-Que os que estão presentes transmitam estas palavras aos que estão ausentes. Talvez alguns dos ausentes as memorizem e preservem melhor do que alguns dos presentes.
-Ó povo, Allah, o Altíssimo, determinou para cada herdeiro a sua parte fixa da herança. Não é permitido legar mais de um terço dos bens.
-Aquele em cujo leito nascer um filho, o filho é dele. E para o adúltero, as pedras.”
-Sobre aquele que aceitar alguém que não seja seu próprio pai como pai, ou sobre o escravo que reconhecer alguém que não seja seu senhor como senhor, recaia a maldição de Allah, dos anjos e de todas as pessoas! No Dia da Ressurreição, nenhum resgate será aceito dele.
-Que a misericórdia e a paz de Allah desçam sobre vós.
O sermão de Mina
-Ó povo, depois de mim não virá nenhum novo profeta, nem surgirá nenhuma nova ummah depois de vós. Portanto, escutai com atenção e adorai vosso Senhor. Fazei as cinco orações diárias. Observai o jejum do Ramadã. Dai com satisfação o zakat de vossas riquezas. Cumpri o Hajj e obedecei a vossos líderes e responsáveis, para que possais entrar no Paraíso de Allah.’
Como um manifesto internacional, tudo o que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) expôs nesses dois sermões está além do pensamento e da imaginação humanos. Na verdade, nenhum outro manifesto conseguiu efetivamente formar seres humanos de tão elevado nível como este. Nele foi proclamada a crença revolucionária na unicidade de Allah. A servidão a Allah e a adoração foram apresentadas como a força motriz fundamental do sistema de vida islâmico. Nele, foi declarado ilícito para os muçulmanos atentarem contra a vida e os bens uns dos outros, e a pena de morte foi estabelecida como punição indispensável para o homicídio. Foi anunciada a decisão de abolir a prática jahiliana da usura. Foi revogada a cadeia contínua de vingança e contravingança da época pré-islâmica. Foram abolidos os cargos e títulos da época da jahiliyyah. Nele foram definidos os direitos dos cônjuges. A base do sistema familiar foi fortalecida. As mulheres foram qualificadas como uma confiança de Allah, e foi ordenado que fossem tratadas com bondade. Nele, a relação de fraternidade entre os seguidores do Islã foi declarada obrigatória. O Livro de Allah foi designado como a base do sistema de vida islâmico. Foi apresentada a ideia da unidade humana com base na unicidade de Allah e na unicidade do pai da humanidade. As diferenças geográficas e de linhagem foram identificadas como destituídas de valor, e a honestidade e o temor a Allah foram estabelecidos como critérios de honra e nobreza.
Sempre que e onde quer que o movimento islâmico se desenvolva no mundo e o sistema islâmico seja estabelecido, sua base será edificada sobre essas ideologias firmes e inabaláveis. Este manifesto é o manifesto fundamental do Islã, e a humanidade pode ser convidada a segui-lo. Qualquer estrutura de vida que seja construída em oposição a este manifesto será anti-islâmica, e nenhum muçulmano genuíno pode aceitá-la. Podemos fazer deste manifesto o critério para avaliar as atividades de qualquer uma de nossas lideranças e avaliar, à sua luz, cada medida de cada um de nossos governos. No espelho deste manifesto, podemos ver nosso próprio rosto e também os demais sistemas sociais não islâmicos.
Este é o último sermão de nosso amado Profeta. Ele proferiu este sermão especialmente para nós. Este sermão é como o testamento do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Depois de apresentar cada uma de suas partes importantes, o Mensageiro disse com voz comovida: “Transmiti a mensagem de Allah.” Depois de ler estas palavras, deveríamos tornar-nos cautelosos e conscientes. Deveríamos arrepender-nos de nossa conduta até agora, lançar fora as correntes da servidão ao sistema anti-islâmico e seguir o modelo de vida do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Também deveríamos avançar para realizar a missão pela qual o Mensageiro suportou tantas dificuldades e perseguições, demonstrando uma paciência e uma perseverança incomparáveis.
O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) realizou o Hajj de maneira correta e tranquila. Encontrou-se com todos os muçulmanos que estavam realizando o Hajj. As pessoas fizeram muitas perguntas. Depois, concluiu essa viagem sagrada por meio do tawaf de despedida.
Esta foi a cena da plena realização do Islã. A reunião entusiasmada e espontânea de cento e cinquenta mil pessoas testemunhou que o movimento islâmico havia alcançado a verdadeira vitória na batalha da opinião pública e na luta pela transformação do interior dos corações. E foi justamente essa transformação interior que trouxe uma revolução a todo o mundo exterior.
Após o falecimento do Rasul (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele)
Até aqui, apresentamos os resultados do movimento conduzido pelo Rasul (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Não muito tempo depois, ele faleceu. Porém, os muçulmanos por ele treinados e educados deram continuidade a esse trabalho, e o movimento islâmico se espalhou por uma vasta região em apenas dez ou quinze anos.
Pela maneira como o Rasul (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) participou do Hajj de Despedida, como se dirigiu aos seus companheiros e com que linguagem fez suas recomendações e apelos, podia-se compreender que ele havia se despedido coletivamente de todos. Durante o retorno, enquanto fazia uma parada junto ao lago chamado Ghadir Khumm, proferiu outro discurso aos seus companheiros mais destacados. Nesse discurso, seu sentimento de despedida tornou-se ainda mais evidente. Suas palavras eram de tal natureza que, ao ouvi-las, as lágrimas afloravam. Primeiro, louvou Allah conforme o costume. Depois disse:
“Ó povo, sou um ser humano. Talvez muito em breve venha até mim o mensageiro de Allah e eu atenda ao seu chamado. Estou deixando entre vocês dois encargos. Um deles é o Livro de Allah. Nele estão a orientação para o caminho correto, a luz e a sabedoria.” Em seguida, proferiu várias palavras de estímulo e advertência sobre o Alcorão. Depois disse: “O segundo encargo são os membros da minha família. Com relação aos membros da minha família, exorto-vos a lembrar-vos de Allah.”
Para eliminar os diversos desvios daqueles que, qualificando os profetas como sobre-humanos e não humanos, haviam aberto caminhos para diferentes formas de desvio, ele se descreveu como um ser humano. Os profetas que passaram a vida lutando para extirpar o politeísmo e estabelecer a unicidade de Allah — por uma cruel ironia do destino, os exageradores qualificaram justamente esses profetas como filhos de Allah e consideraram-nos partes de Allah e seres eternos. Antes que se aproximasse o momento de sua partida, o Rasul (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) advertiu seus companheiros, dizendo: “Sou um ser humano. Portanto, assim como sobre os demais seres humanos, a lei de Allah também se aplica a mim.” Em seguida, ordenou-lhes firmemente que seguissem o Alcorão e chamou isso de um encargo. Isso porque os parentes próximos do Rasul (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) foram testemunhas diretas de sua vida e depositários de seus valiosos ensinamentos. Desse ponto de vista, são uma fonte dos ensinamentos islâmicos para a ummah. Por outro lado, ele não deixou riquezas para eles e confiou seu futuro às mãos de Allah. Portanto, é evidente que, depois do Rasul (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), recaiu sobre os muçulmanos uma enorme responsabilidade em relação a eles. Porém, devido ao seu intenso senso de dignidade, ele não fez nenhuma declaração explícita sobre o assunto, limitando-se a insinuá-lo.
Nesse mesmo discurso, ou em algum outro posterior, o Rasul (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse mais uma coisa aos muçulmanos em geral e aos nobres Companheiros, em vista de uma necessidade extraordinária. O fato era que alguns Companheiros enviados ao Iêmen com Ali haviam tido certa divergência com ele em relação a um assunto. Na realidade, durante a realização de grandes tarefas, às vezes surgem situações tão difíceis que, junto com as diferenças de temperamento, surgem também divergências de opinião. Às vezes, devido à troca de palavras amargas ou acaloradas, mesmo que temporariamente, ressentimento ou descontentamento se acumulam no coração. É absolutamente impossível que uma organização criada por seres humanos — quer seja organizada exclusivamente para um trabalho islâmico genuíno, quer seja dirigida por uma pessoa irrepreensível como os profetas — esteja livre de todas as fraquezas próprias da natureza humana. Divergências de opinião e conflitos emocionais podem surgir até mesmo numa sociedade inteiramente honesta, sincera, pura e perfeita. Por isso, para realizar grandes tarefas, são necessários homens magnânimos, tolerantes, pacientes e generosos, capazes de manter relações harmoniosas mesmo quando surgem divergências. Na organização dos nobres Companheiros também surgiam, ocasionalmente, conflitos. Porém, graças à sua extraordinária tolerância, a cooperação continuava apesar dessas divergências. Mesmo quando surgiam amargura e tensão, elas eram temporárias. Também nesse caso surgiu uma situação desse tipo. Particularmente, o efeito da divergência no coração de Buraida tornou-se tão intenso que ele apresentou uma queixa contra Ali ao Rasul (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Contudo, o surgimento de uma queixa contra uma personalidade de primeira categoria como Ali, sua longa duração, sua transformação em sofrimento pessoal e, depois, sua apresentação ao Rasul (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) constituíam uma questão um tanto complexa. Ao ouvir a queixa, o Rasul (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) ficou entristecido, e a cor de seu rosto mudou. Nesse contexto, seguindo seu costume habitual e sem mencionar o nome de ninguém, disse: “Sou amigo daquele de quem Ali é amigo. Ó Allah, sê amigo daquele que é amigo de Ali e sê inimigo daquele que é inimigo de Ali.”
Todos sabem que, no movimento ao qual o Rasul (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) havia dedicado tudo o que possuía, Ali também havia sacrificado tudo. Ambos eram convocadores para o mesmo da‘wah, porta-estandartes da mesma missão, seguidores da mesma linha de pensamento e caminhantes pelo mesmo caminho; além disso, eram parentes tão próximos que era impossível criar entre eles a menor separação. Como seria possível amar um dos dois e permanecer ressentido com o outro? Era esse o tipo de relação existente entre o Rasul (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e seus companheiros mais próximos. Toda a organização estava profundamente unida pelo vínculo da fraternidade na fé, nos ideais e nos objetivos. Especialmente entre as pessoas da primeira fileira, que haviam sido treinadas particularmente pelo Rasul (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), não havia nenhuma possibilidade de fazer distinções entre elas, amar uma e guardar ressentimento contra outra. O Rasul (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) havia ficado angustiado porque, se na comunidade que ele treinara durante anos o vínculo da fraternidade fosse tão frágil, se houvesse descontentamento e ressentimento contra suas figuras de destaque e se divergências de opinião gerassem ressentimentos pessoais duradouros, como os muçulmanos poderiam avançar em direção a um objetivo tão grandioso?
Nesse momento, o Mensageiro (que a paz esteja com ele) percebia que se aproximava a hora de sua partida. Estava absorto no pensamento de que, a partir de então, todo o peso das responsabilidades seria colocado sobre os ombros desta organização. No futuro, os muçulmanos teriam de seguir, em vez do Mensageiro (que a paz esteja com ele), atrás desta cadeia de liderança, na qual ele havia incluído seus companheiros mais fiéis e submetido cada um deles a um longo treinamento, amando profundamente cada indivíduo. Por isso, ele havia dito aquelas palavras com o objetivo de advertir em termos extremamente rigorosos. É surpreendente que algumas pessoas tenham encontrado, justamente dentro dessas palavras, uma justificativa para a nomeação do califa posterior ao Mensageiro (que a paz esteja com ele). Não consigo entender como chegaram a essa conclusão.
Esta discussão surgiu apenas de maneira incidental. Do contrário, nosso objetivo principal era deixar claro que, durante toda a viagem da Peregrinação de Despedida, o Mensageiro (que a paz esteja com ele) sentia que sua viagem para a Outra Vida estava muito próxima. À luz desse sentimento, ele continuou dando diversas instruções e recomendações importantes.
Desde o início do mês de Safar do décimo primeiro ano da Hégira, a alma sagrada do Mensageiro (que a paz esteja com ele) começou a preparar-se para a viagem à Outra Vida. Certo dia, ele foi a Uhud e prostrou-se para suplicar pelos mártires de Uhud. Ao retornar, proferiu novamente o seguinte discurso:
“Ó povo! Eu partirei antes de vocês e testemunharei diante de Allah a respeito de vocês. Por Allah, juro que, enquanto estou sentado aqui, consigo ver o Lago de Kawthar; foram-me dadas as chaves da conquista de vários impérios. (Isto é, como resultado do chamamento, vários reinos serão conquistados.) Não temo que, depois de mim, vocês se tornem politeístas. Temo apenas que se envolvam em conflitos e disputas por interesses mundanos.”
Depois, no meio da noite, foi ao cemitério de Baqi, pediu o perdão para os habitantes das sepulturas e disse: “Em breve também me reunirei a vocês.” Então, certo dia, reuni especialmente seus companheiros mais ilustres e proferiu o seguinte discurso:
“Ó muçulmanos! Que vocês sejam felicitados! Que Allah os cubra com Sua própria misericórdia. Que Ele remova a angústia de seus corações. Que lhes conceda sustento, os ajude, lhes dê prosperidade, paz e segurança. Ordeno-lhes que temam a Allah, confio-os aos cuidados de Allah e exorto-os a manterem-se atentos em relação a Ele. Pois sou um admoestador explícito. Vejam: não ajam com arrogância e altivez entre os servos de Allah nas terras de Allah. Allah, o Altíssimo, disse a mim e a vocês: ‘Reservei a morada da Outra Vida para aqueles que não desejam agir com arrogância nem espalhar a desordem na Terra. E o sucesso na Outra Vida pertence somente aos tementes.’ Que a paz esteja sobre todos vocês e sobre todos aqueles que, depois de aceitar o Islã, foram incluídos em meu pacto de lealdade.”
Depois de retornar do cemitério de Baqi, começou a sentir uma leve dor de cabeça. No dia 29 de Safar, a dor de cabeça piorou depois de ir e voltar do funeral de uma pessoa falecida. Durante os primeiros onze dias, enquanto a doença ainda era leve, ele continuou a ir à Mesquita do Profeta e a liderar pessoalmente as orações. Quando a doença se agravou, permaneceu deitado numa cama dentro de casa durante uma semana. Depois, quando a doença se intensificou ainda mais, pediu permissão às demais esposas e mudou-se para o aposento de Aisha.
Mesmo enquanto, por causa da doença, avançava pouco a pouco em direção à morte, não se esqueceu das responsabilidades do movimento islâmico. Ainda faltava realizar os objetivos das batalhas de Tabuk e Mu’tah. Havia o risco de que o inimigo ganhasse confiança ao menor sinal de negligência. Por isso, nessa mesma situação, no dia 26 de Safar, ordenou aos muçulmanos que se preparassem para a expedição contra Roma. No dia seguinte, nomeou o nobre Usama ibn Zayd comandante do exército para essa expedição. Disse-lhe: “Vai, em nome de Allah, alcança o local onde teu pai foi martirizado e investe contra aqueles que desobedecem a Allah.” Com as próprias mãos, confeccionou uma bandeira e entregou-a ao nobre Baridah ibn al-Khusayb al-Aslami. Por ser jovem e, além disso, filho de Zayd, o escravo liberto e filho adotivo do Mensageiro (que a paz esteja com ele), algumas pessoas começaram a cochichar sobre a nomeação do nobre Usama, dizendo: “Por que nomear este rapaz como comandante enquanto há grandes Ansar e Muhajirun?” Quando isso chegou aos ouvidos do Mensageiro (que a paz esteja com ele), ele ficou profundamente entristecido e, apesar da intensa dor, amarrou uma faixa em torno da cabeça e foi à mesquita. Em seguida, proferiu um discurso semelhante ao de Ghadir Khumm e disse:
“Soube que vocês disseram várias coisas a respeito de Usama. Anteriormente, vocês também haviam objetado à nomeação de seu pai como comandante. Contudo, por Deus, ele era digno disso. E seu filho também é digno dessa função. Zayd ibn Harithah também era o mais querido de todos para nós. E agora seu filho Usama é o mais querido de todos para nós.”
Anteriormente (cinco dias antes de seu falecimento), ele tomou banho derramando sobre a cabeça sete mashks de água. Quando seu corpo se sentiu um pouco mais leve após esse banho, levaram-no à mesquita, amparando-o. Ali, proferiu seu último sermão diante da assembleia dos Companheiros. Disse:
“Os povos que vieram antes de vocês adoravam os túmulos dos profetas e dos homens piedosos. Não façam isso. Depois da minha morte, não transformem meu túmulo em um lugar de adoração. É inevitável que a ira terrível de Deus recaia sobre aqueles que adorarem os túmulos dos profetas. Eu os proíbo de fazer isso. Transmiti a vocês a mensagem verdadeira. Ó Deus! Tu mesmo és testemunha disso.”
Depois, conduziu a oração e, após a oração, disse novamente:
“Recomendo-vos que cuideis dos Ansar. Eles eram para mim como uma veste junto ao corpo e como provisão no meu caminho. Cumpriram sua responsabilidade. Agora resta a vocês cumprir os direitos que eles têm sobre vocês. Outros prosperarão. Mas os Ansar permanecerão onde estavam. Entre os Ansar, honrem os que são justos e dignos. E perdoem aqueles que cometerem erros. Deus, o Altíssimo, deu a Seu servo a escolha: se quisesse, poderia aceitar este mundo e seus prazeres, ou aceitar o que há para ele junto a Deus. Mas o servo escolheu aquilo que lhe estava destinado junto a Deus.”
Tudo o que o Mensageiro de Deus dizia durante sua enfermidade geralmente expressava uma atitude de despedida. Mas as últimas frases do sermão acima continham uma indicação muito clara. Abu Bakr compreendeu isso imediatamente e começou a chorar inconsolavelmente.
Em certo momento, ele também ficou incapaz de comparecer à oração em congregação. Então ordenou a Abu Bakr que conduzisse a oração em seu lugar. À medida que a doença se agravava, aumentava a inquietação entre os muçulmanos. Quando as pessoas, ansiosas, continuaram a circular repetidamente ao redor da Mesquita do Profeta, o Mensageiro de Deus foi à mesquita apoiado nos ombros de Ali e de Fadl ibn Abbas e, sentado no degrau mais baixo do púlpito, proferiu seu último sermão, dizendo:
“Ó povo, soube que vocês estão assustados por causa do meu falecimento. Entre todos os profetas que vieram ao mundo, algum deles viveu para sempre? Eu também terei de ir para junto de Deus, e vocês também terão de ir. Recomendo que tratem bem os primeiros que emigraram, e que os Muhajirun também tratem bem uns aos outros.” Em seguida, recitou a surata Al-Asr e disse: “Todas as coisas acontecem de acordo com a vontade de Deus. Não se apressem naquilo que requer demora. Se alguém gostar de se apressar, Deus não se apressa por isso. Recomendo que tratem bem os Ansar. Antes de vocês, eles fizeram de Medina sua pátria e consideraram crer uma responsabilidade sua. Acaso eles não compartilharam com vocês suas colheitas? Acaso não ampliaram suas casas para lhes dar espaço? Mesmo negligenciando suas próprias necessidades, não deixem de lhes dar prioridade. Eu partirei antes. Vocês virão depois e se juntarão a mim. Prometo encontrá-los no Lago de Kawthar.””}]}],
Esses discursos foram associados a diferentes momentos em diferentes narrações. Contudo, há uma opinião segundo a qual todas essas declarações fazem parte de um único discurso. É provável que essa opinião esteja correta.
Na segunda-feira [há ampla divergência quanto à data do falecimento. Em algumas narrações é mencionado o dia 1º, em outras o dia 2, em outras o dia 12 e, em outras ainda, o dia 13 de Rabi al-Awwal. Contudo, a data mais conhecida é 12 de Rabi al-Awwal], a saúde do Mensageiro (que a paz esteja com ele) voltou a melhorar um pouco pela última vez. Ele usou o miswak. Ergueu a cortina, olhou uma vez para os Companheiros reunidos e sorriu levemente. Poucos instantes depois, disse três vezes:
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Em seguida, partiu para junto do Altíssimo Allah, com a cabeça apoiada no colo de Hazrat Aisha. “Inna lillahi wa inna ilayhi raji’un.”
Hoje partiu deste mundo aquela grande personalidade que havia concedido uma nova vida à humanidade e que suportara sofrimentos terríveis para libertar a caravana da humanidade das garras dos salteadores e mantê-la no caminho correto, sem jamais exigir qualquer recompensa por isso durante a vida terrena.
É difícil até imaginar quão doloroso foi esse acontecimento trágico para os companheiros mais próximos do Mensageiro (que a paz esteja com ele) e que estiveram ao seu lado durante toda a vida. Aos olhos daqueles que obtinham nova força e inspiração apenas ao vê-lo uma vez, certamente o céu e a terra pareciam girar. Talvez lhes parecesse que toda a história da humanidade havia sido virada de cabeça para baixo. Hazrat Uthman ficou sem palavras, e Hazrat Ali ficou em silêncio. Hazrat Umar perdeu o equilíbrio mental. E Hazrat Abdullah ibn Unays chegou a morrer de tristeza.
Esse terrível acontecimento, por si só, já era uma montanha de luto. Além disso, ocorreu em uma situação extremamente perigosa. Por um lado, havia o temor de uma agressão por parte do Império Romano, e era justamente por isso que o exército de Usama estava partindo. Por outro lado, espalhava-se uma onda de apostasia e de recusa em pagar o zakat. Em terceiro lugar, o movimento islâmico, ao convidar os reinos vizinhos para o Islam, também lhes havia feito certa ameaça. No âmbito interno, havia ainda o problema de que a questão reprimida da hipocrisia poderia novamente levantar a cabeça. Contudo, o Mensageiro (que a paz esteja com ele) havia treinado os muçulmanos de maneira tão correta e perfeita que eles imediatamente controlaram suas emoções e acalmaram seus corações inquietos. Superaram e afastaram o desespero e a agitação, concentrando-se no cumprimento de suas grandes responsabilidades. Para os seguidores do Mensageiro (que a paz esteja com ele), muito mais importante do que lamentar a morte de uma personalidade como ele era assegurar a estabilidade e a segurança desse movimento e desse sistema estatal, que, em uma situação assim, poderia desintegrar-se com a menor demonstração de negligência. A morte súbita daquele que, durante muitos anos, se tornara a força vital de todo o movimento e era objeto da plena confiança e do profundo amor de todos os Companheiros poderia criar, de imediato, um vazio extremamente perigoso. Se esse vazio não fosse preenchido no momento oportuno, poderiam surgir consequências terríveis. A organização muçulmana formada pelas mãos do Mensageiro (que a paz esteja com ele) deu, dessa forma, uma prova sem precedentes de consciência de responsabilidade e firmeza de caráter: preencheu imediatamente esse vazio e não permitiu que os laços da disciplina se enfraquecessem nem um pouco. Não houve conflito nem disputa sobre quem sucederia o Mensageiro (que a paz esteja com ele), não houve combate de espadas, nem tumulto algum. Na praça de Saqifa Banu Saida, as principais personalidades da comunidade muçulmana reuniram-se para consultar-se e, após uma breve discussão, Hazrat Abu Bakr as-Siddiq foi eleito primeiro califa, no âmbito da shura do Islam, isto é, de sua democracia baseada na consulta. Mais tarde, em uma assembleia geral dos muçulmanos realizada na Mesquita do Profeta, essa decisão foi aprovada por unanimidade.
Após o falecimento do Mensageiro (que a paz esteja com ele), são raros os exemplos na história da humanidade comparáveis à firmeza, à visão e à competência demonstradas por Hazrat Abu Bakr para ampliar o grandioso trabalho de دعوت do Mensageiro e completar a obra inacabada iniciada por ele, bem como à maneira como Hazrat Umar, Uthman, Ali e os demais Companheiros de destaque o apoiaram. Esse homem formado pelas mãos do Mensageiro (que a paz esteja com ele) provou ser o exemplo máximo da humanidade. Em altruísmo, competência e visão, ele não tinha igual. Mesmo nas situações mais difíceis, jamais esquecia sua responsabilidade e seu dever.
A história testemunha que o grupo formado pelo Mensageiro, que a paz esteja sobre ele, e seus líderes levaram o movimento islâmico aos mais remotos cantos do mundo em poucos anos, e que não se observou diferença significativa no ritmo dessa obra durante a vida do Mensageiro, que a paz esteja sobre ele, e depois dela.
Ó Allah, envia bênçãos e paz sobre Muhammad!
Se hoje a existência dos muçulmanos permanece no mundo, isso é fruto do esforço incansável dessa grande personalidade. Se a mensagem da verdade e da justiça está viva em nossas mentes e corações, isso também é fruto do esforço dessa alma sagrada. Se ele deixou algum ideal e programa para o bem-estar e a prosperidade da humanidade, isso é o resultado da devoção e da luta de Muhammad, que a paz esteja sobre ele. Se hoje nasce em nosso peito o desejo de revitalizar o movimento islâmico, ele nascerá graças à memória sagrada dos sacrifícios e da perseverança desse amado Profeta. Só é possível conhecer o método do movimento islâmico e a orientação prática desse guia enviado pelo Grande Allah por meio de seu exemplo. Se alguém hoje quiser ensinar à humanidade os valores morais e os princípios eternos do sucesso, terá de aprendê-los do próprio Muhammad, que a paz esteja sobre ele. Se um pregador, professor, formador e líder como o Mensageiro, que a paz esteja sobre ele, não tivesse vindo ao mundo, não teria sido possível libertar a Terra da profunda escuridão da ignorância e da insensatez. Portanto, pode-se dizer que o Mensageiro, que a paz esteja sobre ele, foi a força vital fundamental de toda a revolução islâmica.
Por essa extraordinária e incomparável realização — ter-se colocado como alvo de uma hostilidade terrível pelo bem de nós e de toda a humanidade; ter suportado sofrimentos extremos na luta contra a falsidade; ter sacrificado tudo o que possuía nesse caminho sem aceitar qualquer recompensa; e, depois, ter criado uma nova era na história, uma civilização sagrada e uma grande comunidade internacional, ou Ummah, além de ter construído novos mundos de conhecimento, ciência e pensamento — toda a humanidade lhe é devedora, a esse grande amigo e benfeitor. Somos incapazes de oferecer sequer uma pequena retribuição por tão imenso benefício. Por isso, ó Grande Allah, pedimos somente a Ti: aceita nossa atitude de gratidão e, dos tesouros ilimitados da Tua misericórdia, concede-lhe, em nosso nome, uma recompensa digna dessa contribuição incomparável. Faz descer misericórdia, bênção e paz sobre a alma do Mensageiro, que a paz esteja sobre ele; eleva sua posição; concede novamente vitória e expansão à sua da‘wah e ao seu movimento; e permite que um número ainda maior de Teus servos se beneficie e prospere com as bênçãos e os frutos da legislação islâmica. Também Te suplicamos que concedas ao autor e a cada servo muçulmano a capacidade de carregar o sagrado depósito da da‘wah do Mensageiro, que a paz esteja sobre ele, e a honra de transmiti-la a toda a humanidade. Torna novamente vivo e concretamente real o movimento islâmico iniciado pelo Mensageiro, que a paz esteja sobre ele. Concede a todos nós a honra de desempenhar um papel adequado na luta para completar a obra iniciada pelo Mensageiro, que a paz esteja sobre ele, mediante a implementação na Terra do sistema de justiça que ele apresentou. Pois essa é a melhor maneira de expressar gratidão por seu benefício.
(*******)
A obra ainda está incompleta
É uma graça de Allah que Ele tenha concedido a um servo insignificante como eu a oportunidade de realizar esta grande obra, permitindo-me apresentar um vislumbre da vida e dos feitos desse Seu servo mais eminente. Nesta obra, sou profundamente devedor aos meus dignos predecessores, que escreveram livros muito valiosos sobre o tema. Além disso, sou profundamente devedor a dois pesquisadores de nossa época: Maulana Sayyid Abul A‘la Maududi e o Doutor Hamidullah Siddiqi, M.A., P.H.D. Foi com esses dois que adquiri uma perspectiva voltada para o movimento, a qual revelou diante de mim muitos novos aspectos da biografia do Profeta. Espero que, ao ler este livro, o leitor encontre alimento para alguns pensamentos novos. Também sou grato ao respeitado editor por ter proporcionado especial inspiração e incentivo para esta obra. Que Allah recompense da melhor maneira todos esses amigos que inspiraram e estimularam este trabalho.
As circunstâncias pelas quais esta obra passou até agora foram muito lamentáveis. Muitas vezes comecei o trabalho, mas longos intervalos criaram obstáculos no caminho. Houve períodos em que, durante meses e meses, não escrevi sequer uma letra. No entanto, alguma força invisível continuou a me conceder força e incentivo repetidamente. Certo dia, de repente, ocorreu-me a ideia de que talvez fosse essa a vontade de Allah: se eu desejava apresentar ao povo do mundo a biografia dessa grande personalidade, precisava adquirir ao menos uma centésima, ou uma milésima, parte de suas experiências. Caso contrário, de onde viria a pulsação vital do texto? Depois que essa ideia me ocorreu, minha força de vontade se tornou tão firme que, sempre que podia, fazia a obra avançar. A maior parte da segunda metade do livro teve de ser escrita deitado na cama. Por isso espero que Allah aceite esta obra e faça dela um meio para minha salvação e meu bem-estar.
De acordo com o plano geral proposto, ainda resta realizar uma grande parte do trabalho no presente livro, em comparação com o que desejo fazer. Provavelmente, ele chegará a dois ou três volumes. Na verdade, por enquanto apresentei apenas uma longa discussão. Ela é relativamente detalhada no sentido de que inclui, em grande parte, um relato da vida de luta do Mensageiro (que a paz e as bênçãos estejam sobre ele). Contudo, em alguns aspectos, é concisa, pois também foram apenas indicados alguns temas importantes da vida do Profeta. Por isso, receio que algumas pessoas possam vir a entendê-la de maneira equivocada. É necessário informar qual é o trabalho que ainda resta realizar.
O trabalho restante é o seguinte:
– Um relato do ambiente geográfico e cultural em que nasceu o Mensageiro (que a paz e as bênçãos estejam sobre ele).
– Uma análise da pregação do Mensageiro (que a paz e as bênçãos estejam sobre ele) e de seu objetivo: que mudanças fundamentais ele desejava introduzir na vida humana, a natureza de sua pregação e a extensão de seu campo de atuação.
– A sabedoria de liderança, a visão interior e a perspicácia política do Mensageiro (que a paz e as bênçãos estejam sobre ele).
– Que tipo de pessoas surgiu como resultado da pregação do Mensageiro (que a paz e as bênçãos estejam sobre ele)?
– Como as mulheres colaboraram com a luta do Mensageiro (que a paz e as bênçãos estejam sobre ele)?
– Pretendo apresentar, em um volume independente, um relato de todo o trabalho reformador do Mensageiro (que a paz e as bênçãos estejam sobre ele), de modo que ele possa ser útil na era moderna. Será necessário expor, por meio de diversos artigos, os novos princípios, a competência prática e a organização gradual com que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos estejam sobre ele) estruturou os diferentes aspectos da vida. Entre esses temas estarão a manifestação da estratégia divina, o estabelecimento das bases de um sistema educacional para os jovens e os idosos da sociedade, a formação do caráter coletivo, o desenvolvimento e a reforma econômica, o sistema de defesa, sua estabilidade e solidez, a reconstrução da infraestrutura política, a reestruturação da sociedade e da cultura, a implementação de um sistema islâmico de justiça, a formação de lideranças, o estabelecimento de relações internacionais e a análise teórica e prática de outras medidas reformadoras.
-Uma descrição detalhada da defesa e das atividades militares do governo islâmico do Mensageiro (que a paz esteja com ele).
-Há também a possibilidade de escrever um volume separado em resposta às objeções dos que levantam objeções. Uma abordagem própria de pesquisador para resolver as divergências relativas aos acontecimentos, às personalidades e às datas importantes.
-As fontes para a redação da biografia do Profeta e uma análise crítica dos trabalhos realizados até o momento sobre esse tema.
-Além disso, há a intenção de preparar alguns mapas importantes, cuja consulta facilitará a compreensão dos acontecimentos. Nesse campo, já foram realizados vários trabalhos valiosos no país. Há a intenção de levá-los ainda mais adiante. É possível também que seja elaborado um mapa separado sobre a biografia do Mensageiro (que a paz esteja com ele) e o movimento islâmico. Pretende-se reunir as diversas informações registradas no livro em um mapa mural.
-Há a intenção de fazer traduzir este livro pelo menos para o inglês, o bengali, o árabe e o hindi. Espera-se que, dessa forma, sua utilidade aumente ainda mais. Que Allah conceda a capacidade de concretizar este plano e, por Sua misericórdia especial, providencie os recursos necessários e crie um ambiente favorável para isso.
Na’im Siddiqi
Março de 1960
Apêndice 1
Eventos da vida do Profeta: ordenação cronológica
Os temas tratados no livro foram, de modo geral, organizados em ordem cronológica. Contudo, nos detalhes, sem dar atenção a essa ordem, foram reunidos acontecimentos de diferentes períodos com base nos temas. Entretanto, na historiografia e na biografia, a sequência cronológica dos acontecimentos é de grande importância. Para atender a essa necessidade, o quadro abaixo está sendo incluído no livro como apêndice, para que, de relance, todos os acontecimentos importantes da vida do Profeta possam ser visualizados.
As razões pelas quais surgem divergências quanto aos dias e às datas de vários acontecimentos importantes são as seguintes:
Os acontecimentos anteriores à missão profética do Mensageiro (que a paz esteja com ele) costumam ser datados segundo o “Ano do Elefante”, isto é, o “ano do ataque do exército dos elefantes à Caaba”, ou segundo o ano do nascimento do Mensageiro (que a paz esteja com ele), e esses anos são correlacionados com o calendário cristão. Embora o primeiro ano do Ano do Elefante e o primeiro ano do nascimento do Mensageiro (que a paz esteja com ele) sejam, aproximadamente, o mesmo ano, o primeiro dia do Ano do Elefante foi o dia do ataque do exército dos elefantes (isto é, uma quinta-feira, 17 de Muharram). Por outro lado, o ano do nascimento do Mensageiro (que a paz esteja com ele) começa 50 ou 55 dias, ou seja, cerca de dois meses, após o início do Ano do Elefante. Historiadores e narradores ou ignoraram completamente essa diferença entre os dois sistemas de contagem, ou não especificaram a qual ano se referiam. Como resultado, um ano começa em Rabi al-Awwal, enquanto o ano lunar convencional começa em Muharram. Assim, a confusão nos cálculos aumenta. Por exemplo, se o início do ano do nascimento for considerado a partir do mês de Muharram, a Hégira ocorreu no décimo quarto ano do nascimento. Mas, se o início do ano for considerado a partir de Rabi al-Awwal, a Hégira ocorreu no décimo terceiro ano do nascimento. Os historiadores registraram ambos os sistemas de contagem.
O honorável Omar (que Allah esteja satisfeito com ele) instituiu formalmente o calendário islâmico da Hégira durante seu califado, numa quinta-feira, no dia 20 de Jumada al-Thani do ano 17 da Hégira. Antes disso, o calendário da Hégira não estava formalmente em uso, nem era costume determinar a época dos acontecimentos segundo esse calendário. Por isso, nas coletâneas de hadith autênticos não se encontra a indicação de em qual ano da Hégira ocorreu determinado acontecimento. Depois da adoção do calendário da Hégira, a sequência cronológica dos acontecimentos anteriores passou a ser organizada segundo esse calendário.
Além disso, o ano lunar cuja contagem começou com a Hégira também pode ser contado de duas maneiras. Uma consiste em iniciar a contagem do ano a partir de Rabi al-Awwal, o mês da Hégira. A outra consiste em contar o ano da Hégira começando por Muharram, o primeiro mês convencional do ano lunar. Isso significa que o primeiro ano da Hégira seria contado durante dez meses, de Rabi al-Awwal até Dhu al-Hijjah. Especialistas em hadith, autores de biografias e historiadores contaram o ano da Hégira dessas duas maneiras. Contudo, raramente especificaram claramente como o ano havia sido contado.
Além disso, nas diversas narrações, o dia mencionado junto com a data muitas vezes não coincide com ela. Com base no elemento entre os dois cuja confiabilidade esteja comprovada ou sobre o qual haja concordância nas narrações, calcula-se e determina-se o outro.
O problema mais complexo surge ao tentar conciliar os calendários e os diferentes sistemas de contagem dos anos. Isso ocorre porque as obras históricas não mencionam nenhum calendário ou sistema de contagem específico. Essa variação dos calendários se amplia ainda mais porque, além dos diferentes anos solares, o próprio calendário cristão às vezes tinha simultaneamente mais de um sistema em uso: um calendário solar e outro lunar. Além disso, as regras do calendário cristão e de outros calendários sofriam alterações. Assim, ao tentar, vários séculos depois, conciliar os cálculos dos dias e das datas, surgem possibilidades de divergência por diversos motivos.
Alguns acontecimentos e atividades não foram registrados nem mesmo nos hadiths importantes com seus dias e datas exatos. À luz do Alcorão e dos hadiths, sabe-se com certeza apenas que determinado acontecimento ocorreu antes ou depois de outro. Contudo, a respeito de alguns acontecimentos — como a permissão do tayammum, a declaração da proibição do casamento por prazo determinado, isto é, do casamento mut‘a, a implementação da norma do hijab e vários tratados, guerras e expedições militares —, as narrativas dos hadiths são contraditórias até mesmo quanto ao estabelecimento de uma sequência cronológica meramente aproximada, sem determinar as datas.
Pode-se considerar, de modo geral, que é difícil apresentar todos os acontecimentos importantes da vida do Mensageiro, que a paz esteja com ele, com datas exatas determinadas em detalhes. Mesmo entre os grandes autores de obras de sira, exegetas, especialistas em hadith e juristas — acostumados a investigar informações de reconhecida autoridade — encontram-se amplas divergências quanto às datas, e há longos debates a favor e contra a perspectiva de cada um.
Ao escrever esta obra de sira, depois de estudar tanto quanto possível essas divergências e os cálculos do calendário, pesquisar as fontes e refletir sobre o assunto, estabeleci uma posição definida na “cronologia dos acontecimentos em discussão” e mencionei resumidamente as divergências mais importantes. Não seria apropriado, nem haveria espaço aqui, para deixar o leitor confuso mencionando detalhadamente todas as opiniões divergentes. Se esse trabalho vier a ser realizado, deverá ser feito separadamente. Em nossa “cronologia dos acontecimentos”, os acontecimentos anteriores à Hégira foram indicados segundo o “Ano do Elefante” (o ano da invasão do exército dos elefantes) ou segundo o ano do nascimento do Mensageiro, que a paz esteja com ele; em outros casos, no cálculo dos anos da missão profética, a idade do Mensageiro, que a paz esteja com ele, foi tomada como medida para determinar o tempo.
(1) Data do nascimento do Mensageiro, que a paz esteja com ele —
(segunda-feira da primavera — há consenso quanto ao dia), 9 de Rabi al-Awwal, Ano do Elefante 1 (correspondente a 50 dias após o ataque do exército dos elefantes), equivalente a 22 de abril de 571 d.C., 1.º de Jaistha de 628 do calendário Vikram, ao subh al-sadiq (após o nascer do sol). Segundo a opinião mais célebre, 12 de Rabi al-Awwal.)
(At-Tabari e Ibn Khaldun mencionaram 12 de Rabi al-Awwal, e Abu al-Miqdad mencionou o dia 10 de Rabi al-Awwal. Contudo, como há consenso quanto à segunda-feira, e a segunda-feira cai justamente no dia 9 de Rabi al-Awwal, Muhammad Talat Beg (historiador árabe) e o qadi Sulaiman Mansur Puri, após uma investigação minuciosa dos cálculos do calendário, deram seu parecer em favor do dia 9 de Rabi al-Awwal. O célebre astrônomo egípcio Mahmud Pasha afirmou, com argumentos e provas científicas, que a data do nascimento do Mensageiro, que a paz esteja com ele, foi 9 de Rabi al-Awwal, correspondente a 20 de abril de 571 d.C. O erudito Shibli Nomani também apoiou essa opinião. Contudo, segundo o sistema gregoriano, o dia torna-se 22 de abril. Sob esse sistema, o novo calendário cristão entrou em vigor a partir de setembro de 1752. Segundo as regras do calendário antigo, esse dia foi determinado como 19 de abril do ano juliano 5284. Também há divergência sobre se o Mensageiro, que a paz esteja com ele, nasceu 55 ou 50 dias após o ataque do exército dos elefantes; aparentemente, a opinião dos 50 dias parece ser a correta.)
O مولانا Abdul Rauf Danapuri, autor de Asahhus Siyar, mencionou os dias 8 ou 12 de Rabi al-Awwal, mas não apresentou os argumentos. Alguns mencionaram o dia 1.º de Muharram e, como data cristã, 12 ou 15 de fevereiro. Segundo Ibn Ishaq, o Mensageiro, que a paz esteja com ele, nasceu depois de transcorrida a noite do dia 12 de Rabi al-Awwal. Na minha opinião, a posição do dia 9 de Rabi al-Awwal parece ser a mais preponderante.)
(2) Início do período de amamentação — aos 4 meses de idade (dois ou três dias após o nascimento, bebeu durante alguns dias o leite de Thuwaybah, escrava liberta de Abu Lahab. Ele passou o período regular de amamentação na casa de sua ama de leite, Halimah. Essa casa ficava localizada no interior do deserto.
(3) Falecimento da mãe do Mensageiro (que a paz esteja com ele) — aos 6 anos de idade
(4) Falecimento do avô do Mensageiro (que a paz esteja com ele) — aos 8 anos, 2 meses e 10 dias de idade
(5) Primeira viagem à Síria (com seu tio Abu Talib) — aos 12 anos e 2 meses de idade (foi durante essa viagem que encontrou o monge cristão Buhaira)
(6) Primeira participação na Guerra de Fijar — aos 15 anos ou pouco mais
(7) Segunda participação na Guerra de Fijar — algum tempo depois da primeira. Época desconhecida
(8) Adesão à organização reformista Hilful Fudul — aos 16 anos de idade
(9) Segunda viagem à Síria, como comerciante — aos 22 ou 25 anos de idade
(10) Casamento com Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) — aos 25 anos, 2 meses e 10 dias de idade
(11) Início dos acontecimentos misteriosos — 7 anos antes da missão profética
(12) Escolhido como árbitro — aos 35 anos de idade
(13) Recebimento da missão profética — aos 40 anos e 11 dias de idade. 9 de Rabi al-Awwal do ano 41 após o nascimento, correspondente a 12 de fevereiro de 610 d.C., segunda-feira.
Durante a reforma da Caaba Sagrada, surgiu uma disputa sobre a recolocação da Pedra Negra. Todos o consideravam digno de confiança e aceitaram-no como árbitro. Ele resolveu a disputa de maneira excelente. Também há grande divergência quanto a essa data. Segundo uma opinião, ele tinha 40 anos, 6 meses e 16 dias pelo calendário lunar, e 39 anos, 3 meses e 16 dias pelo calendário solar. A proclamação divina da missão profética foi revelada na caverna do monte Hira. Segundo alguns, a data foi 25 de Ramadã; segundo outros, 13 de Rabi al-Awwal. Pelo calendário cristão, também são mencionadas as datas de 12 de fevereiro e 6 de agosto de 610 d.C. Contudo, todas essas divergências surgiram da complexidade dos cálculos dos calendários. Outra razão para a incerteza é que os relatos dos hadiths apresentam duas versões diferentes sobre o momento da proclamação da missão profética e da revelação do Alcorão. No Zad al-Ma’ad, está registrada a data 8; porém, segundo o cálculo do calendário, a segunda-feira caiu no dia 9. A proclamação da missão profética ocorreu da seguinte forma: Hazrat Jibril veio até ele dentro da caverna e disse: “Receba as boas-novas. Você é o Mensageiro de Allah, e eu sou Jibril.” Ao ver Hazrat Jibril manifestar-se abertamente dessa maneira, ele ficou um tanto assustado, e Hazrat Khadija o consolou.
(14) Tornou-se obrigatória a oração (duas rak’ahs cada para a oração farḍ e a oração do asr) — no dia do recebimento da missão profética, 9 de Rabi al-Awwal.
(15) Início da revelação do Alcorão — 18 de Ramadã, primeiro ano da missão profética, sexta-feira (à noite)
Correspondente a 17 de agosto de 610 d.C.
(16) Início da pregação secreta — do primeiro ao terceiro ano da missão profética.
Nesta fase, foi revelada a surata Al-Alaq. Tabari registrou ambas as datas, 17 e 18. Contudo, segundo o cálculo do calendário, o dia 18 de Ramadã caiu numa sexta-feira. A casa de Akram Makhzumi, situada no monte Safa, transformou-se no centro do movimento islâmico. Nessa época, cerca de 40 pessoas aceitaram o Islã. As orações eram realizadas secretamente fora da cidade.
(17) Proclamação da profecia (primeiro sermão) — final do 3º ano da profecia
(18) Primeiro período de oposição (zombaria, difamação e pequenas perseguições) — estendeu-se do 1º ao 5º ano da profecia.
(As discussões da delegação dos coraixitas para pressionar Abu Talib continuaram. Foram elaboradas diversas estratégias para se opor.)
(19) Segundo período de intensa oposição (perseguição e opressão generalizadas) — do 5º ao 7º ano da profecia
(20) Hégira para a Abissínia — mês de Rajab do 45º ano após o nascimento, 5º e 6º anos da profecia
(21) Aceitação do Islã por Hazrat Hamza e Hazrat Umar — 6º ano da profecia
(Hazrat Umar (r.a.) aceitou o Islã três dias depois de Hamza. Segundo alguns, Hazrat Hamza aceitou o Islã no segundo ano da profecia.)
(22) O confinamento e o cerco do clã do Mensageiro (S.A.), Banu Hashim, no vale montanhoso chamado “Shiab Abu Talib” — 1º de Muharram, 7º ano da missão profética, 47º ano de nascimento, terça-feira.
(23) Fim do confinamento e do cerco — final do 9º ano da missão profética ou início do 10º ano da missão profética.
(24) O “Ano da Tristeza”: falecimento de Abu Talib e de Hadhrat Khadija — 10º ano da missão profética
(25) Viagem a Taife — Jumada al-Thani, 50º ano de nascimento, 10º ano da missão profética
(Três ou cinco dias após o falecimento de Abu Talib, Hadhrat Khadija faleceu no mês de Ramadan.
Segundo outra versão, em 26 ou 27 de Shawwal, 10º ano da missão profética.)
(26) Mi’raj — 27 de Rajab, 50º ano de nascimento, 10º ano da missão profética, segunda-feira (à noite)
(27) As cinco orações diárias tornaram-se obrigatórias — 27 de Rajab, 50º ano de nascimento, 10º ano da missão profética, segunda-feira (à noite)
(28) Início do Islã em Medina — Dhu al-Hijjah, 50º ano de nascimento, 10º ano da profecia
(Iyas ibn Muadh foi o primeiro a aceitar o Islã.)
(29) Seis habitantes de Medina aceitam o Islã — Dhu al-Hijjah, 51º ano de nascimento, 11º ano da profecia
(30) Primeiro juramento de aliança de Aqabah (12 pessoas) — Dhu al-Hijjah, 52º ano de nascimento, 12º ano da profecia
(31) Segundo juramento de aliança de Aqabah (75 pessoas) — Dhu al-Hijjah, 53º ano de nascimento, 13º ano da profecia
(32) Hégira — noite de 26 de Safar
(Na época desse acontecimento, a idade do Mensageiro (que a paz esteja com ele) havia ultrapassado 53 anos e entrado no 54º, e haviam transcorrido 13 anos da profecia, entrando no 14º.)
a. De Meca à caverna do monte Thawr — 53º ano de nascimento, 13º ano da profecia
b. Início da viagem da caverna do monte Thawr — segunda-feira, 1º de Rabi al-Awwal, correspondente a 15 de setembro de 621 d.C.
c. Chegada a Quba — 8 de Rabi al-Awwal, ano de nascimento 53, 13º ano da missão profética, correspondente a segunda-feira, 23 de setembro de 622 d.C.
d. Viagem de Quba a Medina e entrada em Medina — 12 de Rabi al-Awwal, 1º ano da Hégira, 14º ano da missão profética, sexta-feira.
(Realizou a oração de sexta-feira na área da tribo Banu Salim. Segundo alguns, permaneceu 14 dias em Quba.)
(33) Lançamento dos alicerces da Mesquita do Profeta — Rabi al-Awwal, 1º ano da Hégira
(34) Aumento do número de rak‘ahs das orações obrigatórias — Rabi al-Awwal, 1º ano da Hégira
(As orações obrigatórias do meio-dia, da tarde e da noite passaram a ser de quatro rak‘ahs.
Realizou-se uma reunião de fraternidade na casa de Anas. Estavam presentes diante do Mensageiro, que a paz esteja com ele, 90 ansar e muhajirun.)
(35) Fraternidade formal entre os Muhajirun e os Ansar — nos três primeiros meses do 1º ano hijri.
(36) Fundação do Estado Islâmico e conclusão de um pacto constitucional mútuo entre os habitantes de Medina — em meados do 1º ano hijri.
(37) Início da implementação do sistema de defesa — no começo do 7º mês após a Hégira.
(Para exercícios militares e patrulhamento, foram enviados sucessivamente três destacamentos: (1) no 7º mês, um destacamento de 30 homens, sob a liderança de Hazrat Hamza, avançou até Saiful Bahr. (2) No 8º mês, Shawwal, uma força de 60 ou 80 homens, sob a liderança de Ubayda ibn al-Harith, marchou até Rabigh. (3) No 9º mês, Dhu al-Qi’dah, um destacamento de 20 homens, sob a liderança de Sa’d ibn Waqqas, foi até Khaybar. Depois disso, o próprio Mensageiro (que a paz esteja com ele) foi até Waddan com um grupo. Não pude concordar com a afirmação de que, devido a essa situação real, o famoso versículo que permitia o jihad foi revelado no 2º ano hijri. Na realidade, no 2º ano hijri foi tomada a decisão de empreender o jihad armado. Antes disso, evitava-se entrar em confrontos. Contudo, para implementar o sistema de defesa, algum versículo certamente precisava ter sido revelado. Por isso, creio que o versículo que permitia o jihad foi revelado antes da Hégira. Seu objetivo era transferir a disposição da comunidade muçulmana da era da paciência na da’wah para a era vindoura do jihad, para que, assim que chegassem a Medina, começassem a organizar e implementar o sistema de defesa.)
(38) Chegada de Hazrat Aisha ao harém do Mensageiro — Shawwal, 1º ano hijri.
(39) Conversão ao Islã de duas personalidades proeminentes: o antigo erudito judeu Abdullah ibn Salam e o monge cristão Abu Qays Sarha — 1º ano hijri.
(40) Permissão para o jihad (permissão para adotar medidas militares ativas) — 12 de Safar, 2º ano hijri, ou 1 ano, 2 meses e 1 dia após a Hégira.
(41) Primeira viagem militar e política presencial do Mensageiro (que a paz esteja com ele): a expedição de Waddan — no 12º mês após a Hégira.
(42) Alianças por tratado com tribos externas — Banu Zamra, os habitantes de Buat e Banu Mudlij — de Safar a Jumada al-Thani, no 2º ano da Hégira.
(Também se sabe, pelos relatos dos historiadores, que Majdi Juhaini, líder da tribo Juhaina, mantinha relações de aliança com Medina mesmo antes da expedição contra a tribo Banu Zamra.)
(43) O ataque de Qaraz ibn Jabir al-Fihri (a primeira atividade ofensiva do inimigo) — Rabi al-Awwal, 2º ano da Hégira.
(44) O incidente de Nakhla (o primeiro confronto fronteiriço com uma tropa muçulmana) — final de Rajab, 2º ano da Hégira.
(Um incrédulo chamado Amr ibn Hazrami foi morto. Dois prisioneiros, juntamente com camelos e mercadorias, foram levados a Medina. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, expressou descontentamento com esse confronto.)
(45) A aceitação do Islã por Salman al-Farisi — 2º ano da Hégira.
(46) A instituição do adhan — 2º ano da Hégira.
(47) A zakat tornou-se obrigatória — 2º ano da Hégira.
(48) Mudança da qibla — 15 de Shaaban, ano 2 da Hégira, segunda-feira.
(49) O jejum do mês de Ramadã tornou-se obrigatório — 1º de Ramadã, ano 2 da Hégira, quarta-feira.
(Como, segundo a maioria dos relatos, o dia da Batalha de Badr, isto é, 17 de Ramadã, foi uma sexta-feira, de acordo com o cálculo, o 1º de Ramadã deveria necessariamente ter sido uma quarta-feira.
Por isso, descartamos o relato que afirma que o 1º de Ramadã foi um domingo.)
(50) Instituição da oração do Eid al-Fitr em congregação e da obrigação de dar a fitra — 1º de Shawwal, ano 2 da Hégira
(51) Batalha de Badr (a primeira batalha regular) — 8 de Ramadã, ano 2 da Hégira, quarta-feira, ou 12 de Ramadã
— viagem a Medina
— batalha
(O problema complexo é que, embora haja amplo consenso quanto ao dia e à data da batalha, alguns afirmam que a data da partida de Medina foi o dia 12, enquanto outros dizem que foi o dia 8 de Ramadã. Os que registram o dia 8 mencionam que esse dia era segunda-feira. No entanto, se o dia 17 foi uma sexta-feira, o dia 8 de modo algum poderia ter sido uma segunda-feira. Por isso, na narrativa referente ao dia 8 de Ramadã, mencionamos quarta-feira, e, na narrativa referente ao dia 12 de Ramadã, sábado. Contudo, se aceitarmos como correta a narrativa que afirma que o dia 17 de Ramadã foi uma terça-feira, então os dias 1 e 8 de Ramadã necessariamente teriam sido domingo.)
-Retorno triunfal a Medina
(52) Casamento de Hazrat Ali e Fátima – após a Batalha de Badr, no 2º ano da Hégira.
(53) Cerco de Banu Qaynuqa – do meio de Shawwal até o início de Dhu al-Qa’da, no 2º ano da Hégira.
(54) Casamento do Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) com Hafsa, filha de Hazrat Umar – no 3º ano da Hégira.
(55) Casamento de Hazrat Uthman com Umm Kulthum (filha do Mensageiro, que a paz esteja sobre ele) – no 3º ano da Hégira.
(56) Primeira proibição do álcool – no 3º ano da Hégira.
(57) Morte de Ka’b ibn Ashraf – no 3º ano da Hégira.
(58) Nascimento do imã Haçane — ano 3 da Hégira.
(59) Batalha de Uude: partida de Medina — 5 de Shawwal, ano 3 da Hégira, após a oração de sexta-feira. 6 de Shawwal — sábado.
— batalha
— perseguição das forças de Abu Sufiane até Hamra al-Asad — 7 de Shawwal — domingo.
(60) Primeira orientação para abandonar a usura — imediatamente após a batalha de Uude.
(Consulte a Surata Al Imran, versículo 130.)
(61) Orientações relativas aos bens dos órfãos — imediatamente após a batalha de Uude.
(62) Leis relativas à herança — ano 3 da Hégira, após a batalha de Uude.
(63) Leis do casamento, direitos do marido e da esposa, proibição de casar com mulheres politeístas — 3.º ano da Hégira.
(64) O casamento do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) com Zaynab bint Khuzayma (que Allah esteja satisfeito com ela) — final do 3.º ano da Hégira.
(Ficou viúva na Batalha de Uhud.)
(65) O incidente de Raji’ (o martírio de um grupo de da‘wah composto por dez membros) — Safar, 4.º ano da Hégira.
(66) A Batalha contra os Banu Nadir — Rabi al-Awwal, 4.º ano da Hégira.
(67) O falecimento da Mãe dos Crentes, Zaynab bint Khuzayma — primeira parte do 4.º ano da Hégira.
(Faleceu apenas dois ou três meses depois do casamento.)
(68) A determinação do hijab entra em vigor — 1.º de Dhu al-Qi‘dah, 4.º ano da Hégira, sexta-feira.
(69) Entrada em vigor da proibição definitiva das bebidas alcoólicas — ano 4 da Hégira.
(70) Segunda expedição de Badr — Dhu’l-Qa‘da, ano 4 da Hégira.
(Abu Sufyan não veio lutar conforme o desafio que havia lançado; não houve batalha.)
(71) Expedição de Dumat al-Jandal — Rabi al-Awwal, ano 5 da Hégira.
(72) Expedição contra os Banu al-Mustaliq — 3 de Sha‘ban, ano 5 da Hégira.
(73) Regulamentação do tayammum — durante a viagem aos Banu al-Mustaliq.
(74) O casamento do Mensageiro, que a paz esteja com ele, com Hazrat Juwayriya — Sha‘ban, ano 5 da Hégira.
(75) O incidente da acusação contra Hazrat Aisha — Sha‘ban, ano 5 da Hégira.
(76) Instituição das disposições relativas ao adultério, à acusação de adultério e às acusações mútuas de adultério entre os cônjuges, bem como das disposições detalhadas sobre o véu — Hijri 5, (após o incidente da acusação contra Hazrat Aisha)
(77) A batalha de Ahzab ou da Trincheira — Shawwal ou Dhu al-Qi’dah, Hijri 5.
(Um grande grupo de 70 a 80 famílias muçulmanas havia chegado a Medina.)
(78) Chegada a Medina da delegação da tribo de Daws — Hijri 5.
(79) Expulsão dos Banu Qurayza — Dhu al-Hijjah, Hijri 5.
(80) Casamento do Mensageiro (s.a.) com Hazrat Zaynab bint Jahsh — Hijri 5.
(81) Conversão ao Islam de Thumama ibn Uthal al-Hanafi, chefe de Najd — Hijri 6.
(82) O tratado de Hudaybiyyah — Dhu al-Qi’dah, Hijri 6.
(83) Retorno de Hudaybiyyah a Medina — Dhul-Hijjah, 6 AH.
(84) Conversão de Khalid ibn al-Walid e Amr ibn al-As ao Islã — Dhul-Hijjah, 6 AH.
(85) Início do convite islâmico internacional (envio de cartas aos chefes de Estado e de governo) — quarta-feira, 1º de Muharram, 7 AH.
(86) Batalha de Khaybar — Muharram, 7 AH.
(87) Casamento do Mensageiro com Safiyya — Muharram, 7 AH.
(88) Retorno dos emigrantes da Abissínia — durante a conquista de Khaybar, 7 AH.
(89) Estabelecimento de um acampamento muçulmano independente em um local chamado Saiful-Bahr — início de 7 AH.
(De acordo com os termos do Tratado de Hudaybiyyah, o Mensageiro não podia conceder refúgio em Medina aos muçulmanos perseguidos de Meca. Por isso, Abu Jandal, Abu Basir e vários outros muçulmanos perseguidos fugiram de Meca e reuniram-se em Saiful-Bahr.)
(90) Ataque de guerrilha à caravana dos coraixitas, a partir da rota dos jovens de Saiful Bahar — Safar, ano 7 da Hégira.
(91) Umrat al-Qada — Dhu al-Qi’dah, ano 7 da Hégira.
(92) Foram instituídas as disposições sobre casamento e divórcio — ano 7 da Hégira.
(93) O casamento do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, com Hazrat Maimuna, em Meca — ano 7 da Hégira.
(94) Jabala al-Ghassani aceita o Islã — ano 7 da Hégira.
(95) A Batalha de Mu’tah — Jumada al-Ula, ano 7 da Hégira.
(96) Violação do Tratado de Hudaybiyyah pelos politeístas de Meca — Rajab, ano 8 da Hégira.
(97) Campanha de Meca:
-Partida de Medina — 10 de Ramadã, quarta-feira, 8.º ano da Hégira.
-Entrada triunfal em Meca — 20 de Ramadã
(Também se sabe, por fontes confiáveis, que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) permaneceu em Medina até 18 de Ramadã. De acordo com esse cálculo, a data de entrada em Meca teria sido 29 ou 30 de Ramadã.)
-Envio de uma tropa, sob o comando de Khalid, para destruir o templo de Uzza, situado em Nakhla — 25 de Ramadã, 8.º ano da Hégira.
-Envio de uma tropa, sob o comando de Amr ibn al-As, para destruir o templo de Suwa — Ramadã, 8.º ano da Hégira.
-Envio de uma tropa, sob o comando de Sa’d al-Ashhali, para destruir o templo de Manat — Ramadã, 8.º ano da Hégira
-Permanência em Meca — até 9 de Shawwal.
(Segundo outro relato, até 18 de Shawwal.)
-Batalha de Hunayn – Shawwal, ano 8 da Hégira.
-Cerco de Taif – de Shawwal a Dhu al-Qi’dah, de 18 a 20 dias.
(Segundo o relato de Maklul, o cerco durou 40 dias.)
-A Umrah de Ji’ranah, após a distribuição dos espólios em Ji’ranah – Dhu al-Qi’dah, ano 8 da Hégira.
(98) Lei da abolição definitiva da usura – por ocasião da conquista de Meca, ano 8 da Hégira.
(Todas as reivindicações de usura foram anuladas – Al-Baqarah: 278)
(99) Chegada a Medina da delegação de Sadar – ano 8 da Hégira.
(100) Falecimento de Zaynab, filha do Mensageiro, que a paz e as bênçãos estejam sobre ele – ano 8 da Hégira.
-Falecimento de Hazrat Ibrahim, filho do Mensageiro (que a paz esteja com ele) -Ano 8 da Hégira.
(101) Sistema do zakat. Primeira nomeação de coletores do zakat -Muharram, ano 9 da Hégira.
(102) Batalha de Tabuk -Rajab, ano 9 da Hégira, correspondente a novembro de 635 d.C.
-Início da marcha de Medina -quinta-feira.
(103) Disposição sobre a jizya -durante a expedição de Tabuk.
(Segundo um relato, foi instituída no oitavo ano da Hégira, antes de Tabuk.)
(104) Incêndio da Mesquita de Dirar -após o retorno da batalha de Tabuk.
(105) Conversão ao Islã de Ukaidir, governante de Dumat al-Jandal -ano 9 da Hégira.
(106) O pedido de perdão de Ka’b ibn Zuhair e sua aceitação do Islã — ano 9 da Hégira.
(Apresentação do poema intitulado «Banat, Suad»)
(107) Algumas delegações que chegaram a Medina neste ano:
— Delegação de Azrar — Safar, ano 9 da Hégira.
— Delegação de Balli — Rabi al-Awwal, ano 9 da Hégira.
— Delegação de Khaulan — Sha’ban, ano 9 da Hégira.
— Delegação de Saqif — ano 9 da Hégira.
(108) O hajj tornou-se obrigatório — 9 de Dhul-Hijjah, ano 9 da Hégira.
O primeiro Hajj sob a liderança de Hazrat Abu Bakr al-Siddiq.
(É mencionado em diversos hadiths que o Hajj se tornou obrigatório nos anos 6, 7, 8, 9 ou 10 da Hégira. Contudo, em minha opinião, a data do nono ano da Hégira é a mais provável. Alguns afirmam que esse Hajj foi realizado no mês de Dhu al-Qa’dah devido ao uso do calendário dos incrédulos. Porém, essa opinião é fraca.)
(109) Declaração, por intermédio de Hazrat Ali, do rompimento das relações com os politeístas e da anulação de todos os tratados sem prazo — 10 de Rabi al-Thani. Dhu al-Hijjah, Hégira 10. (Também há divergência quanto à declaração do rompimento: se ocorreu no Dia de Arafat ou no Dia do Sacrifício (9 ou 10 de Dhu al-Hijjah). À luz do Alcorão e dos hadiths, considero mais provável a opinião de que ocorreu no dia 10 de Dhu al-Hijjah.)
(110) A delegação de Moharib — Hégira 10.
(A maioria das outras delegações também chegou a Medina nos anos 9 e 10 da Hégira. Contudo, é difícil determinar com precisão o momento de sua chegada.)
A delegação de Mohamed — Sha’ban, Hégira 10.
A delegação de Khawlan — Sha’ban, Hégira 10.
A delegação de Naysan — Ramadã, Hégira 10.
Delegação de Banu Harith ibn Ka‘b — Shawwal, ano 10 da Hégira.
Delegação de Salam — Shawwal, ano 10 da Hégira.
(111) Durante o último Ramadan, o Mensageiro, que a paz esteja com ele, realizou i‘tikaf durante vinte dias — Ramadan, ano 10 da Hégira.
(112) Correspondência de Musaylima al-Kadhdhab com o Mensageiro, que a paz esteja com ele — ano 10 da Hégira.
(113) A Peregrinação de Despedida:
— Partida de Medina — 26 de Dhu al-Qi‘dah, ano 10 da Hégira, sábado, entre o meio-dia e a oração da tarde.
(Também há divergência quanto à data. Contudo, a que aceitei é a mais confiável.)
— Permanência em Dhu al-Hulayfah — a noite entre sábado e domingo.
-Vestir o ihram – domingo (ao meio-dia).
-Permanência em Dhu Tuwa – noite de domingo, 4 de Dhu al-Hijjah, ano 10 da Hégira.
-Partida de Dhu Tuwa para Meca – 5 de Dhu al-Hijjah, após a oração do fajr.
(Entrada do Mensageiro, que a paz esteja sobre ele, em Meca pelo lado de Thaniyyat al-‘Ulyā.)
-Entrada na Mesquita Sagrada – 5 de Dhu al-Hijjah, ao meio-dia.
(Entrada do Mensageiro, que a paz esteja sobre ele, pelo portão de Banū ‘Abd Manāf.)
-Permanência fora de Meca até 8 de Dhu al-Hijjah
(Todos os companheiros permaneceram com o Mensageiro, que a paz esteja sobre ele, e passaram a noite em Mina.)
-Partida para Mina — quinta-feira, 8 de Zul-Hijjah, ao meio-dia.
-Partida de Mina para Arafat — sexta-feira, 9 de Zul-Hijjah, após o nascer do sol.
(Entrada pelo caminho de Namira, no lado oriental de Arafat.)
-Proferimento do sermão ou discurso do Hajj — sexta-feira, 9 de Zul-Hijjah, após o meio-dia.
(O discurso foi proferido do dorso da camela chamada Qaswa.)
-Permanência em Arafat — sexta-feira, 9 de Zul-Hijjah, após as orações do zuhr e do asr.
(Ali, o Mensageiro, que a paz esteja com ele, suplicou a Allah, chorando, até o maghrib.)
-Partida de Arafat em direção a Muzdalifa — 9 de Zul-Hijjah, após o maghrib.
(Retorno pela estrada de Mazbīn.)
-De Muzdalifah
viagem para al-Mash’ar al-Haram – no dia 10 de Zul-Hijjah, após a oração do fajr.
(Ali, o Mensageiro, que a paz esteja com ele, fez dhikr e súplicas entre lágrimas.)
-Viagem de al-Mash’ar al-Haram em direção a Mina – no dia 10 de Zul-Hijjah, antes do nascer do sol.
-Apedrejamento – no dia 10 de Zul-Hijjah, após o nascer do sol até o meio-dia.
(Nessa ocasião, o calor do sol havia se tornado intenso.)
-Sermão em Mina (no dia do sacrifício) – no dia 10 de Zul-Hijjah, antes do meio-dia.
-Sacrifício – após o sermão.
(Dos cem camelos destinados ao sacrifício, abateu pessoalmente sessenta e um. Entregou os restantes a Ali. Em seguida, raspou a cabeça.)
-Viagem de Mina a Meca – após raspar a cabeça, no dia 10 de Dhu al-Hijjah.
(Ao chegar a Meca, realizou o tawaf da Caaba antes da oração do meio-dia.)
-Retorno de Meca a Mina – último dia.
(Passou a noite em Mina.)
-Segundo sermão em Mina – 11 de Dhu al-Hijjah.
(O conteúdo deste sermão é mencionado em Abu Dawud.)
-Viagem de Mina para Muhassab ou Abtah — terça-feira, 13 de Dhul-Hijjah.
(À noite, foi de Meca e realizou o tawaf de despedida.)
-Retorno de Meca — na noite entre os dias 13 e 14 de Dhul-Hijjah.
(114) Chegada da delegação de Nakhā’ — em meados de Muharram, no ano 11 da Hégira.
(A última delegação a chegar durante a vida do Mensageiro (que a paz esteja com ele).)
(115) Ordem para que o exército de Usama partisse — 26 de Safar, ano 11 da Hégira.
(A última expedição militar sob as ordens do Mensageiro (que a paz esteja com ele).)
(116) Início da doença terminal do Mensageiro (que a paz esteja com ele) — final de Safar, ano 11 da Hégira. (Provavelmente, 29 de Safar.)
(Segundo a opinião mais confiável, a duração da doença foi de 13 dias.)
(117) Agravamento extremo da doença (permaneceu sete dias no quarto de Hazrat Aisha, até o falecimento).
(118) A última oração em congregação e o último sermão na Mesquita do Profeta — a oração do meio-dia de quinta-feira, cinco dias antes do falecimento.
(Há menções a vários sermões em diferentes hadiths. Contudo, provavelmente ele proferiu todas essas palavras nesse mesmo sermão.)
(119) Falecimento — na segunda-feira, antes do meio-dia, em 12 de Rabi al-Awwal.)
(Todos concordam quanto à segunda-feira. Contudo, há divergência sobre a data. Alguns dizem que foi no dia 1, outros no dia 2, e outros ainda no dia 13.)
(120) Sepultamento (a sepultura foi preparada no quarto de Hazrat Aisha) — na noite entre 13 e 14 de Rabi al-Awwal.
(O problema principal é que está inequivocamente comprovado que o dia 9 de Dhu al-Hijjah foi uma sexta-feira. Com base nesse cálculo, é muito improvável que o dia 12 de Rabi al-Awwal tenha caído em outro dia que não uma segunda-feira. Isso só seria possível se três meses lunares consecutivos tivessem trinta dias. Contudo, alguns dizem que, embora raro, isso é possível. Além disso, devido às condições climáticas, também é possível que tenha havido uma diferença de um dia na observação da lua entre Meca e Medina.)
Apêndice 2
Os acontecimentos que ocorreram pela primeira vez e antes de todos os outros
– Início da profecia: 9 de Rabi al-Awwal; ano de nascimento ou idade: 41.
– Início da revelação do Alcorão: surata Al-Alaq, 18 de Ramadan, primeiro ano da profecia.
– A primeira pessoa a aceitar o Islã e juntar-se ao Mensageiro como companheiro de missão.
1. Entre homens e mulheres conjuntamente, e também exclusivamente entre as mulheres, a primeira foi Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela).
2. Entre os homens adultos, conscientes e livres, Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele).
3. Entre os jovens, Ali (que Allah esteja satisfeito com ele).
4. Entre os escravos, Hazrat Zayd ibn Harithah (que Allah esteja satisfeito com ele) (escravo do Mensageiro, posteriormente liberto)
— A primeira mulher a aceitar o Islã depois de Hazrat Khadijah: Lubabah bint al-Harith. Ela era esposa de Hazrat Abbas.
— O primeiro a aceitar o Islã durante o período da pregação centrada na casa de Hazrat al-Arqam: Aqil ibn Bukayr (que Allah esteja satisfeito com ele).
— O primeiro centro do movimento islâmico: Dar al-Arqam, situado no monte Safa (a casa de Hazrat al-Arqam).
— O primeiro discurso público: no monte Safa, no terceiro ano da missão profética.
A primeira revelação que enfureceu os incrédulos —
(*******)
— O primeiro companheiro, depois do Mensageiro, a declarar publicamente a própria aceitação do Islã foi Hazrat Khabbab ibn al-Aratt al-Tamimi.
– A primeira família islâmica completa: a família de Abu Bakr Siddiq.
– A primeira mulher a crescer, desde a infância, no colo de pais muçulmanos: Aisha.
– O primeiro assassinato involuntário motivado pelo fervor islâmico: um incrédulo foi morto pelas mãos de Sa’d ibn Abi Waqqas. O que aconteceu foi o seguinte: os muçulmanos tinham saído para fora de Meca para realizar a oração. Quando os incrédulos começaram a importuná-los, Sa’d atirou um osso na direção deles. O osso atingiu um incrédulo, que morreu imediatamente.
– Segundo as palavras do Mensageiro, o primeiro casal muçulmano a emigrar pelo caminho de Allah depois de Abraão e Lot foram sua filha Ruqayya e seu genro Uthman, que emigraram para a Abissínia.
– A primeira bandeira erguida na história do movimento islâmico: a bandeira erguida por Barida al-Aslami. Naquele momento, ele estava partindo para a Hégira.
– O companheiro que primeiro declarou em voz alta e publicamente sua profissão de fé diante da Caaba, aceitou o Islã e foi vítima de uma surra coletiva dos incrédulos foi Abu Dharr al-Ghifari.
– Aquele que primeiro declarou de forma vigorosa a própria conversão ao Islã foi Umar. – Aquele cuja conversão ao Islã fez com que as orações começassem a ser realizadas pela primeira vez na Caaba: Umar.
– Aquele cuja conversão ao Islã fez os incrédulos perceberem pela primeira vez que o movimento islâmico havia se fortalecido foi Hamza.
– Primeiro líder muçulmano de Medina a ser espancado pelos incrédulos de Meca: Hazrat Sa’d ibn Mu’adh, que Allah esteja satisfeito com ele.
– Primeiro muçulmano a alcançar o martírio no Santuário Sagrado: Hazrat Harith ibn Abi Hala.
– Primeira muçulmana a alcançar o martírio sob tortura extrema: Hazrat Sumayya, esposa de Hazrat Yasir e mãe de Hazrat Ammar, que Allah esteja satisfeito com ela.
– A primeira pessoa a tentar anular o pacto de boicote dos incrédulos contra os Banu Hashim: Hisham ibn Amr ibn Rabi’a.
– Primeiro muçulmano a perder um olho no caminho do Islã: Hazrat Uthman ibn Maz’un, que Allah esteja satisfeito com ele. Quando ele protestou contra um poema anti-islâmico de Labid numa assembleia dos coraixitas, seu olho foi perfurado.
– Primeiro muçulmano a emigrar para Medina: Hazrat Abu Musa, que Allah esteja satisfeito com ele.
– Primeiro apóstata, ou seja, a primeira pessoa a abandonar o Islã: Ubayd ibn Jahsh, que havia emigrado para a Abissínia. Lá, ele se tornou cristão.
– Primeiro a lançar uma flecha em defesa do Islã: Hazrat Sa’d ibn Abi Waqqas, que Allah esteja satisfeito com ele. No exército comandado por Abd al-Harith, ele lançou flechas contra o inimigo. Contudo, ninguém foi morto ou ferido.
– O primeiro a empunhar a espada em defesa do Islã: Hazrat Zubair ibn al-Awwam.
– O primeiro muhajir na segunda migração para a Abissínia: Hazrat Jafar ibn Abu Talib.
– O primeiro jovem de Medina influenciado pelo convite do Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele: Suwaid ibn Samit.
– O primeiro companheiro ansari a falecer em Medina após a Hégira: Kulthum ibn al-Hadam, em cuja casa em Quba o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, permaneceu por alguns dias após a Hégira.
– O primeiro homicídio individual, de uma mulher, cometido com base no senso islâmico de honra: Asma bint Marwan al-Khatamiyya. Essa mulher incitava constantemente os membros de sua tribo contra o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, e espalhava calúnias. Em determinado momento, seu irmão, Hazrat Umayr ibn Adi al-Khatami, que havia aceitado o Islã, enfureceu-se e a matou. (Ramadã, ano 2 da Hégira)
– O primeiro homicídio individual, de um homem, cometido com base no senso islâmico de honra: o judeu Abu Gafla. Ele se ocupava de uma campanha de difamação extremamente falsa contra o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, e os muçulmanos. Hazrat Alim ibn Umayr al-Ansari, enfurecido, matou-o.
– A primeira nomeação de um professor islâmico em Medina: o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, enviou Hazrat Musab ibn Umayr (com a assistência de Ibn Umm Maktum) a Medina junto com a delegação dos Ansar. (14º ano da profecia)
O primeiro companheiro ansari a prestar juramento na segunda aliança de Aqaba: Bara ibn Marur.
– Primeiro círculo coletivo de ensino do Alcorão em Medina: realizado na Mesquita de Banu Rizi. (Provavelmente não era uma mesquita completa; era apenas um local para realizar as orações.
– Primeira construção de uma mesquita completa: a Mesquita de Quba, construída entre os dias 8 e 11 de Rabi al-Awwal do ano 1 da Hégira.
– Primeira oração de sexta-feira realizada sob a liderança do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele): realizada na área da tribo Banu Salim, no dia 12 de Rabi al-Awwal do ano 1 da Hégira. O número de fiéis presentes era de cem.
– Primeiro caso em Medina de uma tribo inteira aceitar o Islã ao mesmo tempo: Banu Abd al-Ashhal. Apenas uma pessoa dessa tribo aceitou o Islã algum tempo depois.
– Primeiro destacamento militar a sair para patrulhar em nome do Estado Islâmico: o destacamento formado sob a liderança de Hazrat Hamza patrulhou até Saiful Bahr no sétimo mês após a Hégira.
– Primeiro porta-estandarte no âmbito do sistema de defesa islâmico: Abu Mursad al-Ghanawi.
– Primeira ação militar e política direta do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele): a expedição de Waddan ou Abwa. Ocorreu no décimo segundo mês após a Hégira.
– Primeiro governante interino nomeado pelo Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) em Medina: Sa’d ibn Ubadah (durante a expedição de Waddan).
– O primeiro a ter a honra de içar uma bandeira na montaria do Mensageiro: Hazrat Hamza, na expedição de Waddan.
– O primeiro a conduzir uma ação agressiva dos coraixitas contra o Estado Islâmico: a incursão predatória de Karz ibn Jabir al-Fihri (Rabi al-Awwal, 2 AH).
– O primeiro confronto fronteiriço no qual um inimigo foi morto: um incrédulo foi morto pela flecha de Waqid ibn Abdullah al-Tamimi, membro da tropa que patrulhava a região de Nakhla. (Rajab, 2 AH)
– O primeiro caso em que tanto os despojos de guerra quanto os prisioneiros foram levados para Medina: o referido incidente de Nakhla.
– Início do adhan: no ano 2 AH.
– Primeiro adhan na Caaba Sagrada: proferido por Hazrat Bilal durante a conquista de Meca.
– Primeiro pretendente à falsa profecia: Musailama, o Mentiroso.
– Primeiro salvo-conduto escrito concedido pelo Mensageiro: para Suraqa ibn Ja’sham (durante a viagem da Hégira).
– A primeira constituição estatal formal e escrita do mundo: redigida e promulgada pelo Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) em Medina, no ano 1 da Hégira.
– O primeiro tratado de amizade do Estado Islâmico fora de Medina: com Amr ibn Fahshi Zamri, líder dos Banu Zamra, ou com a tribo dos Banu Zamra.
– Os primeiros a serem crucificados e martirizados por terem aceitado o Islam: Hazrat Khubaib ibn Adi e Zayd ibn Dasna, em Tan’im (próximo a Meca).
– A primeira atividade rebelde e traiçoeira dos judeus em Medina: o conflito entre judeus e muçulmanos provocado pelos Banu Qaynuqa, que despiram publicamente uma mulher muçulmana no mercado.
– O primeiro acampamento islâmico de libertação: o acampamento estabelecido por Hazrat Abu Basir e Abu Jandal em Saiful Bahr.
– A primeira pessoa a aceitar o Islam durante a conquista de Meca: Abu Sufyan ibn al-Harith ibn Abd al-Muttalib.
– A primeira batalha formal: a batalha de Badr (Ramadã, 2 da Hégira).
– A primeira batalha na qual os Ansar e os Muhajirun participaram juntos: a batalha de Badr.
– Os três primeiros combatentes mujahideen do exército muçulmano no campo de batalha de Badr: Hazrat Ali, Hazrat Hamza e Hazrat Ubaida bin Haris bin Abdulmutalibe.
– O primeiro inimigo morto na batalha de Badr: Aswad bin Abdulassad.
– O primeiro mártir na batalha de Badr: Mihja, liberto de Hazrat Omar ibn al-Khattab.
– O primeiro mensageiro a levar a Medina a boa notícia da vitória em Badr: Zaid bin Haritha, que Deus esteja satisfeito com ele.
– A primeira oração do Eid al-Fitr: 1º de Shawwal, ano 2 da Hégira.
– O primeiro emissário do Estado Islâmico a ser assassinado no caminho: Haris bin Umair al-Azdi. Shurahbil bin Amr al-Ghassani, governador da Síria, assassinou-o.
– O primeiro título de bravura concedido pelo Mensageiro: o título “Espada de Deus”, concedido a Hazrat Khalid bin Walid (batalha de Mu’ta, ano 8 da Hégira).
– O primeiro uso de um selo em cartas e documentos oficiais: 1º de Muharram, ano 7 da Hégira.
– O primeiro caso de arbitragem política sob a lei islâmica: ocorreu no quinto ano da Hégira, entre o Estado Islâmico e os Banu Qurayza.
– O primeiro Companheiro a ser nomeado árbitro na era islâmica: Hazrat Sa’d ibn Mu’adh.
– O primeiro presente real enviado ao Mensageiro (S.A.W.): o presente enviado pelo rei Najashi.
– O primeiro presente oferecido por um politeísta árabe que o Mensageiro (S.A.W.) aceitou: o de Abu Sufyan (na época do tratado de Hudaybiyyah).
– O primeiro ex-escravo a ser nomeado comandante: Zayd ibn Harithah (na batalha de Mu’tah).
– A primeira batalha na qual um quinto foi separado para o Bayt al-Mal: a batalha de Banu Qaynuqa ou de Banu Qurayza.
– O primeiro caso de um incrédulo que proferiu a kalima tayyiba ser morto: Nahiq ibn Mardus foi morto pelas mãos de Usama ibn Zayd durante a expedição contra os Juhayna. (Ramadã: 7 H.).
– A primeira vez que a grande maioria dos muçulmanos foi temporariamente acometida pela indecisão: na época do tratado de Hudaybiyyah.
– A primeira pessoa morta pelas mãos do Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz): Harith ibn az-Zamma (na Batalha de Uhud).
– O primeiro mártir destinado ao Paraíso que não teve a oportunidade de realizar sequer uma oração ou jejuar uma vez: Hazrat Usairim (que Allah esteja satisfeito com ele). Esse homem da tribo de Banu Abd al-Ashhal aceitou o Islã no dia da Batalha de Uhud, participou imediatamente do jihad e alcançou o martírio.
– O primeiro mártir que estabeleceu a prática da oração antes de sua morte: Hazrat Khubaib (que Allah esteja satisfeito com ele).
– O primeiro mártir do incidente de Bir Ma’una: Haram ibn Milhan (que Allah esteja satisfeito com ele; tio materno de Hazrat Anas).
– A primeira “Salat al-Khawf” (oração do medo) foi realizada: na Batalha de Usfan ou de Zat ar-Riqa.
– O primeiro muçulmano que, apesar de ter sido atingido por três flechas no corpo, não abandonou a oração: Abbad ibn Bishr (na Batalha de Zat ar-Riqa).
– O primeiro apóstata em Medina: Harith ibn Suwaid ibn Samit. Embora tenha participado da Batalha de Uhud como muçulmano, tornou-se apóstata. Depois de matar Mujazzir ibn Ziyad Balawi, fugiu para Meca. Mais tarde, quando voltou a Medina, foi preso e morto.
– O primeiro muçulmano morto acidentalmente pelas mãos de outro muçulmano no campo de batalha: Hisham ibn Isaba (pelas mãos de Ubada ibn Samit).
– A primeira captura e morte de um espião do lado inimigo ocorreu: na batalha de Banu Mustaliq.
– O primeiro jovem muçulmano que pediu ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) permissão para matar o próprio pai hipócrita: Talha ibn Abdullah ibn Ubayy.
– A primeira pessoa a transmitir informações sobre o incidente da calúnia contra Aisha: a mãe de Mistah ibn Athatha.
– As primeiras testemunhas em defesa da castidade de Aisha: entre os homens, Usama ibn Zayd; entre as mulheres, Barira; e entre as esposas do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), Zaynab bint Jahsh.
– A primeira aplicação da punição prescrita pela Sharia por acusação de adultério: contra Hassan ibn Thabit, Mistah ibn Athatha e Himna bint Jahsh.
– A primeira batalha na qual os muçulmanos perderam consecutivamente várias orações: a batalha de Khandaq.
– O primeiro esforço diplomático bem-sucedido para enfraquecer o poder do inimigo: esse esforço foi realizado na batalha de Khandaq por meio de Nuaim ibn Masud.
– O primeiro arqueiro muçulmano que derrotou sozinho um grupo de salteadores: Salama ibn al-Akwa.
– O primeiro episódio em que o Mensageiro recitou espontaneamente uma poesia: quando o exército muçulmano se dispersou na batalha de Hunayn, o Mensageiro ficou sozinho. Então, montado em sua mula branca, começou a recitar em voz alta:
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Isto é: “Sem dúvida, sou um profeta. Sou descendente de Abdul-Muttalib.”
– A primeira nomeação de funcionários para o departamento do zakat: Muharram do 9º ano da Hégira.
– O primeiro exército muçulmano a usar canhões para destruir uma fortaleza: durante a expedição a Ta’if.
– A primeira troca de prisioneiros de guerra entre o governo islâmico de Medina e os habitantes de Meca: em troca dos dois prisioneiros capturados na expedição de Nakhla, Attab ibn Abdullah e Hakam ibn Qays, foram libertados Sa’d ibn Abi Waqqas e Utbah ibn Ghazwan.
– A primeira batalha em que aos emigrantes foi atribuída uma parte dos cavalos: a batalha de Banu Qurayza.
– A primeira ordem para cobrar a jizya: foi revelada pouco antes da batalha de Tabuk.
– Primeiro acordo sobre o pagamento da jizya: com o governante de Dumat al-Jandal, durante a expedição de Tabuk.
– Primeiro acordo para o pagamento de uma grande quantia de jizya: os cristãos de Najran comprometeram-se a entregar anualmente ao governo islâmico duas mil vestimentas e a emprestar equipamento militar quando necessário.
– A primeira e única pessoa que não teve absolutamente nenhuma hesitação ou dúvida durante o tratado de Hudaybiyyah: Abu Bakr as-Siddiq, que Allah esteja satisfeito com ele.
– A primeira pessoa a consolar o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, quando os muçulmanos hesitaram em oferecer o sacrifício e raspar os cabelos após o tratado de Hudaybiyyah: a Mãe dos Crentes, Umm Salama, que Allah esteja satisfeito com ela.
– O primeiro poeta a receber uma recompensa do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele: após a conquista de Meca, Ka’b ibn Zuhayr compareceu e recitou, para pedir perdão, um poema intitulado “Banat Su’ad”; então o Mensageiro de Allah deu-lhe seu próprio manto como recompensa.
– A primeira recitação do “qunut an-nazila” pelo Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele: após os acontecimentos dolorosos de Raji’ e Bi’r Ma’una. Nesses dois acontecimentos, os inimigos mataram os membros mais capacitados das delegações missionárias e educacionais. (Ano 4 da Hégira)
– A primeira chegada de mulheres muçulmanas ao campo de batalha: na batalha de Uhud. (Ano 3 da Hégira)
– O primeiro governante a aceitar o Islã: Ashama ibn Abjar, o rei da Abissínia.
– A primeira pessoa que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) elogiou, dizendo que ela era mais nobre do que a reputação que ouvira a seu respeito, foi Zayd al-Khayr, chefe da tribo de Tayy, anteriormente chamado Zayd al-Khayl.
– O primeiro neoconvertido não árabe a ser crucificado e morto por ter abraçado o Islã foi Farwa al-Judhami, governador romano do norte da Arábia, que estava servindo em Muzan.
– O primeiro politeísta a desafiar para um combate corpo a corpo na Batalha de Uhud foi Talha.
– O primeiro muçulmano a aceitar o desafio para um combate corpo a corpo na Batalha de Uhud foi Ali.
– O primeiro inimigo morto na Batalha de Uhud foi Talha.
– A primeira demonstração de orgulho que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) apreciou foi a maneira orgulhosa como Abu Dujana caminhou, de peito estufado, depois de receber a espada do Mensageiro de Allah na Batalha de Uhud.
– A primeira peregrinação do Hajj no Islã foi realizada no nono ano da Hégira, sob a liderança de Abu Bakr al-Siddiq.
– A primeira guerra no exterior foi a Batalha de Mu’tah (Jumada al-Thani, 8 AH).
– O primeiro homem que veio de Medina, da tribo Saqif de Taife, com o propósito de aprender os ensinamentos do Islã: Urwa ibn Masud al-Thaqafi.
Apêndice 3
Crescimento progressivo da força humana no movimento islâmico
– Os primeiros colaboradores do movimento islâmico do Mensageiro (s.a.w.): (1) Hazrat Khadija, (2) Hazrat Abu Bakr, (3) Hazrat Ali, (4) Hazrat Zayd ibn Haritha (r.a.).
– As cinco primeiras pessoas que aceitaram o Islã como resultado dos esforços de pregação de Hazrat Abu Bakr: (1) Hazrat Zubayr ibn al-Awwam, (2) Hazrat Uthman ibn Affan, (3) Hazrat Abd al-Rahman ibn Awf, (4) Hazrat Talha ibn Ubaydullah, (5) Hazrat Sa’d ibn Abi Waqqas.
– As primeiras 46 pessoas que aceitaram o Islã durante os três primeiros anos da pregação: (1) Khabbab ibn al-Aratt al-Tamimi, (2) Sa’id ibn Zayd (aceitou o Islã antes mesmo do movimento centrado em Dar al-Arqam), (3) Fatima bint al-Khattab, (4) Lubaba bint al-Harith (a primeira mulher a aceitar o Islã depois de Hazrat Khadija), esposa de Hazrat Abbas, (5) Abdullah ibn Mas’ud (segundo alguns, foi a sexta pessoa a aceitar o Islã), (6) Uthman ibn Maz’un (a décima quarta pessoa a aceitar o Islã), (7) al-Arqam ibn Abi al-Arqam al-Makhzumi (a décima primeira ou décima segunda pessoa a aceitar o Islã; segundo outra opinião, a sétima; de acordo com Ibn Hajar, aceitou o Islã em Dar al-Arqam juntamente com Uthman ibn Maz’un, Ubayda ibn al-Harith, Abd al-Rahman ibn Awf e Abu Salama), (8) Abu Salama ibn Abd al-Asad al-Makhzumi, (9) Abu Ubayda ibn Amir al-Jarrah (aceitou o Islã antes de Hazrat Umar), (10) Qudama ibn Maz’un, (11) Ubayda ibn al-Harith ibn Abd al-Muttalib, (12) Ja’far ibn Abi Talib, (13) Asma bint Umais, (14) Abdullah ibn Jahsh, (15) Abu Ahmad ibn Jahsh, (16) Sa’ib ibn Uthman ibn Maz’un, (17) al-Muttalib ibn Azhar, (18) Ramla bint Abi Awf, esposa de al-Muttalib ibn Azhar, (19) Umayr ibn Abi Waqqas (irmão de Sa’d ibn Abi Waqqas), (20) Asma bint Abi Bakr, (21) Aisha bint Abi Bakr, (22) Hazrat Ayyash ibn Abi Rabi’a (irmão de Abu Jahl), (23) Asma (esposa de Ayyash), (24) Sulayt ibn Amr (segundo o relato de Hazrat Abu Bakr, era muçulmano antes da época de Dar al-Arqam), (25) Mas’ud ibn Rabi’a (aceitou o Islã antes da época de Dar al-Arqam), (26) Khunays ibn Hudhafa, (27) Amir ibn Rabi’a, (28) Hatib ibn al-Harith al-Jumahi, (29) Fatima bint Muhallal, esposa de Hatib, (30) Khattab ibn al-Harith, (31) Fukayha, esposa de Khattab, (32) Mu’ammar ibn al-Harith (aceitou o Islã antes de Hazrat Umar e foi ele quem ensinou o Alcorão à irmã deste; segundo al-Waqidi, ocupava a posição posterior às dez primeiras pessoas; segundo Ibn Khuzayma, posterior às 38 pessoas), (33) Nu’aym ibn Abdullah, membro dos Banu Adi (a quarta ou quinta pessoa a aceitar o Islã, mas ocultou sua fé por medo do pai), (34) Khalid ibn Sa’id ibn al-As (segundo o Imam al-Zuhri, ocupava a 44.ª posição), (35) Amina (ou Hamina) bint Khalaf, esposa de Khalid ibn Sa’id, (36) Hatib ibn Amr, (37) Waqid ibn Abdullah, aliado dos Banu Adi, (39) Khalid ibn Hizam (sobrinho de Hazrat Khadija), (40) Amir ibn Malik (foi o primeiro a prestar juramento de fidelidade em Dar al-Arqam), (41) Aqil ibn Bukayr (ocupava a 35.ª ou 36.ª posição), (42) Khalid ibn Bukayr, (43) Amir ibn Bukayr, (44) Ammar ibn Yasir (aceitou o Islã juntamente com seu pai, Yasir), (45) Sumayya (mãe de Ammar), (46) Suhayb ibn Sinan al-Rumi, escravo liberto de Ibn Jad’an.
– Número dos primeiros emigrantes para a Abissínia: 12 homens e 4 mulheres (16 ao todo).
– Número total durante a segunda emigração para a Abissínia: 83 pessoas. Naquela ocasião, o número dos que permaneceram em Meca seria, no mínimo, igual ao dos que partiram para a Abissínia. Portanto, o total teria sido superior a 150.
– O número total dos primeiros porta-estandartes da الدعوة islâmica em Medina era de 8 pessoas. Foram os primeiros a prestar o juramento de fidelidade ao Mensageiro (s.a.w.): (1) Bara ibn Ma’rur (2) Ka’b ibn Malik (3) Abd al-Haytham Malik ibn al-Tayyihan (4) As’ad ibn Zurarah (5) Rafi’ ibn Malik (6) Qutbah ibn Amir (7) Uqbah ibn Amir (8) Jabir ibn Abdullah. (Segundo o relato mais conhecido, 6 pessoas prestaram o primeiro juramento de fidelidade em Aqabah. Segundo al-Waqidi, As’ad ibn Zurarah e Dhakwan ibn Abd al-Qays haviam aceitado o Islã antes do primeiro juramento de fidelidade de Aqabah.)
– Participantes do segundo juramento de fidelidade de Aqabah: participaram ao todo 12 pessoas. Com exceção de Jabir ibn Abdullah, os ansar mencionados acima vieram novamente e trouxeram consigo outras 5 pessoas. Os recém-chegados foram: (1) Mu’adh ibn al-Harith (2) Awf ibn al-Harith (3) Dhakwan ibn Abd al-Qays (4) Yazid ibn Tha’laba (5) Uwaymir ibn Malik.
– Participantes do segundo juramento de fidelidade de Aqabah: desta vez, ao todo, 73 homens e mulheres aceitaram o Islã.
– (Na época do terceiro juramento de fidelidade de Aqabah) Número total de muçulmanos no período final em Meca: além dos 83 emigrantes da Abissínia e dos 73 ansar que prestaram o juramento de fidelidade em Aqabah, havia alguns muçulmanos em Meca. Do mesmo modo, pode ter havido em Medina alguns muçulmanos que talvez não tenham comparecido à peregrinação do 13.º ano da missão profética. Assim, o número total estimado poderia chegar a cerca de 250. Se também forem incluídos os novos muçulmanos de Najran, de Ghifar (aproximadamente metade da tribo de Ghifar havia aceitado o Islã em pouco tempo) e do Iêmen, o número total de muçulmanos na Arábia não seria inferior a 300.
– Número estimado de muçulmanos em Medina logo após a Hégira: é bem conhecido que cem muçulmanos participaram da primeira oração de sexta-feira realizada na área da tribo Banu Salim. Se forem contabilizadas as mulheres e os doentes que não puderam participar, a população muçulmana de Medina deveria ser de pelo menos 300 pessoas. Também é bem conhecido que 90 pessoas participaram da reunião que o Mensageiro (s.a.w.) convocou logo no início para estabelecer a fraternidade entre os ansar e os emigrantes. Metade dos participantes pertencia a cada um dos dois grupos. É provável que, entre os ansar, tenham sido incluídas nessa reunião apenas pessoas abastadas, capazes de acomodar, de acordo com suas condições financeiras, pelo menos um emigrante cada. As mulheres não participaram dela. Portanto, essa reunião também leva à conclusão de que a estimativa acima está correta.
– Número estimado de muçulmanos em Medina na época da Batalha de Badr: todos sabem que o Islã se espalhou muito rapidamente entre os ansar de Medina e que não houve qualquer obstáculo nesse sentido nas tribos Aws e Khazraj. Também é bem conhecido que, durante o período entre a Hégira e a Batalha de Badr, os emigrantes continuaram chegando, alguns de cada vez, e que seu número total não era de modo algum pequeno. Na expedição de Bu’ath, havia duzentos emigrantes com o Mensageiro (s.a.w.). Do mesmo modo, na expedição de Dhu al-Ushayrah, seu número estava próximo de 150 a 200. Nessas primeiras expedições, o Mensageiro (s.a.w.) utilizava apenas os emigrantes.
Pois, de acordo com o juramento de fidelidade de Aqabah, os ansar eram obrigados a participar apenas de ações defensivas dentro de Medina. É desnecessário dizer que, se o número de emigrantes que participaram da guerra era de 200, o total deveria ser um pouco maior. Pode-se estimá-lo em pelo menos 250. [Em geral, em qualquer população, a proporção de homens em idade militar deveria ser de um quarto a um quinto. Contudo, a situação dos emigrantes em Medina era diferente por duas razões. Primeiro, na sociedade tribal árabe, normalmente todo homem era combatente, e eram muito raras as exceções. Além disso, devido à sua fé e ao seu ímpeto revolucionário, os emigrantes viviam constantemente em meio ao confronto entre a vida e a morte. Praticamente não havia exceção a isso. Ademais, nem todos os emigrantes vieram com suas famílias. A presença de mulheres também era reduzida, e a maioria dos idosos havia permanecido em Meca. Foi por essas duas razões que fizemos essa estimativa.] O número dos ansar deveria ser o dobro disso. Ou seja, o total poderia estar entre 700 e 800. [De vários relatos históricos, sabe-se que o Mensageiro (s.a.w.) realizou três censos em Medina. Na primeira vez, a população era de 500 pessoas; na segunda, de 700 a 800; e na terceira, de pouco mais de 1.000. Acreditamos que o primeiro censo possa ter sido realizado durante o reassentamento dos emigrantes ou no início da adoção de medidas defensivas. Depois, no momento de alguma iniciativa importante — como a interceptação da caravana comercial dos coraixitas que retornava da Síria —, a força humana pode ter sido novamente avaliada. O terceiro censo provavelmente foi realizado um ano depois, diante da ameaça de retaliação feita por Abu Sufyan.]
Muitos podem ficar confusos ao ver o número de combatentes muçulmanos na Batalha de Badr. Contudo, segundo nossa pesquisa, quando o Mensageiro (s.a.w.) saiu de Medina com 314 companheiros, ele não esperava nenhum confronto militar formal. Seu objetivo principal era interceptar a caravana comercial. Além disso, como foi necessário organizar tudo às pressas, a quantidade de montarias e armas era muito pequena. Entretanto, os habitantes muçulmanos de Medina poderiam ter providenciado várias vezes mais montarias e armas. Também era possível reunir mais combatentes do que o número mobilizado. A prova disso é que, na Batalha de Badr, participaram ao todo 86 emigrantes, embora em algumas expedições de patrulha anteriores o número total de emigrantes tivesse chegado a 200. Portanto, nossa estimativa é que, próximo à época da Batalha de Badr, a população muçulmana total de Medina estivesse próxima de 700 ou 800 pessoas. Dela poderiam ser recrutados de 400 a 500 combatentes. Contudo, toda a força militar não pôde participar da Batalha de Badr, porque não foi dada ordem para que toda a força militar se juntasse à expedição. Apenas uma força foi imediatamente com o Mensageiro (s.a.w.) para alcançar um objetivo limitado.
A veracidade de nossa suposição também é comprovada pela campanha contra os Banu Qainuqa. Imediatamente após a Batalha de Badr, essa tribo judaica ímpia e bárbara foi cercada e, depois de ser derrotada, concordou em deixar Medina. Sabe-se que a força combatente dessa tribo era composta por 600 jovens. Pode-se supor que, para mantê-los sitiados durante 15 dias e derrotá-los, o exército muçulmano precisou de pelo menos 400 ou 500 guerreiros.
– População muçulmana total em todo o mundo na época da Batalha de Badr: (aproximadamente) se somarmos aos setecentos ou oitocentos habitantes de Medina os emigrantes que se encontravam na Abissínia, bem como os muçulmanos dispersos existentes em Najran, no Iêmen, entre a tribo de Ghifar, no Bahrein e em outras regiões e tribos, provavelmente a força total será de mil pessoas ou um pouco mais.
– Número das forças muçulmanas em diversas batalhas e campanhas: [Para calcular o efetivo dos movimentos islâmicos de épocas posteriores, isso será conhecido à luz do número de participantes nas guerras e campanhas.]
– Batalha de Uhud — 650, ou, segundo outra opinião, 700 [depois que partiram os trezentos companheiros hipócritas de Abdullah ibn Ubay…..].
– Segunda campanha de Badr — (não houve batalha) 1510.
– Campanha de Dumatul Jandal (não houve batalha) 1000.
– Batalha da Trincheira — 3000.
– Viagem a Hudaybiyyah — 1400.
– Batalha de Khaybar — 1.420 (incluindo 20 mulheres).
– Batalha de Mu’ta — 3.000.
– Expedição a Meca — 10.000.
– Batalha de Hunayn e cerco de Taife — 12.000.
– Expedição de Tabuk — 30.000.
– Companheiros da Peregrinação de Despedida — 124.000; segundo outra opinião, 144.000. [Em algumas narrações, esse número é apresentado como ainda maior.]
– Ao analisar a força crescente do movimento islâmico, também se deve ter em mente que as mulheres estiveram incluídas desde o início na luta revolucionária do Mensageiro, que a paz esteja sobre ele. Elas também cumpriram seus próprios deveres para mudar o curso da história. Também estiveram incluídas na provação ardente de Meca. Durante a Hégira, muitas delas foram companheiras de viagem. Até mesmo no jihad que se avizinhava, elas prestaram auxílio. Mais do que isso, é motivo de grande honra para as mulheres que a primeira pessoa a crer no Mensageiro, que a paz esteja sobre ele, a consolá-lo e a oferecer-lhe apoio integral tenha sido também uma mulher, isto é, Hazrat Khadija. Na realidade, a transformação fundamental e abrangente que o Mensageiro, que a paz esteja sobre ele, tomou a iniciativa de realizar não poderia ter sido efetivada sem a cooperação das mulheres. Se o âmbito familiar permanecer separado de qualquer luta, o ritmo do trabalho torna-se extremamente lento. O movimento islâmico dirigido pelo Mensageiro, que a paz esteja sobre ele, recebeu dos homens e das mulheres, em igual medida, inspiração, recursos, trabalho e sacrifício. Na verdade, este assunto requer um artigo independente. Contudo, por enquanto, deixo-o de lado. Aqui, quero apenas mostrar brevemente qual era a proporção das mulheres no movimento islâmico. Entre as primeiras 56 pessoas que aceitaram o Islã durante os três primeiros anos, 12 eram mulheres. Na primeira e na segunda Hégira para a Abissínia, seus números foram respectivamente 5 e 17; na assembleia do juramento de Aqaba, também havia duas mulheres ansari. Entre os que migraram para Medina antes do Mensageiro, que a paz esteja sobre ele, havia pelo menos dez mulheres.
[Fim]