Aquele cujo direito é maior depois do de Allah

O principal farḍ, ou dever, do ser humano é crer em Allah e obedecer-Lhe sinceramente, ou seja, servi-Lo. Depois disso começam os deveres familiares. Cumprir todas essas responsabilidades e pensar em corrigir e reconstruir a vida familiar é, por um lado, socialmente necessário e, por outro, também um dever religioso.
Depois da vida familiar começa o âmbito da vida de linhagem. Nesta vida, o lugar mais elevado e o maior direito pertencem aos pais. A elevada posição dos pais e a importância de seus direitos podem ser percebidas pelo próprio modo como são descritos no Sagrado Alcorão. Em várias passagens do Sagrado Alcorão, os direitos dos pais são mencionados juntamente com os direitos de Allah, e dá-se maior ênfase à gratidão para com os pais juntamente com a gratidão para com Allah.
وقضى رَبُّكَ أَلا تَعْبُدُوا إِلَّا إِيَّاهُ وَبِالْوَالِدَيْنِ إِحْسَانًا ، إِمَّا يَبْلُغَنَّ عِنْدَكَ الْكِبَرَ أَحَدُهُمَا أَوْ كِلَهُمَا فَلَا تَقُل لَّهُمَا أفٍّ وَلَا تَنْهَرْهُمَا وَقُل لَّهُمَا قَوْلاً كَرِيمًا وَاخْفِضْ لَهُمَا جَنَاحَ الذُّلِّ مِنَ الرَّحْمَةِ وَقُلْ رَبِّ ارْحَمْهُمَا كَمَا ربيني صغيرا بنی اسرائیل : ٢٣-٢٤“E teu Senhor decretou que não adoreis senão a Ele e que trateis os pais com bondade. Se um deles, ou ambos, chegarem à velhice junto de ti, não lhes digas sequer ‘uff’ e não os repreendas; ao contrário, fala-lhes com palavras honrosas, baixa diante deles a asa da humildade, por misericórdia, e diz: ‘Senhor meu, tem misericórdia deles, assim como eles me criaram quando eu era pequeno.’ — Surata Bani Isra’il: 23–24

Se estes dois versículos do Nobre Alcorão forem recitados repetidamente e sobre eles se refletir, várias coisas se tornarão claramente compreensíveis:

Primeiramente, depois do direito de Allah, o maior direito sobre o crente é o dos pais. No Nobre Alcorão, após a unicidade do Senhor, a primeira ordem é: tratai bem os pais. Depois, esta ênfase é mencionada repetidamente no Alcorão por meio de expressões semelhantes.

Em segundo lugar, quando os pais envelhecem, é natural que surja em seu temperamento certa aspereza e irritabilidade, e, por causa da idade, eles começam também a dizer coisas indesejáveis. Os muçulmanos devem, nessa idade avançada, levar em consideração o temperamento áspero dos pais, suportar cada uma de suas palavras com alegria, não responder sequer com um “uff” quando alguma de suas palavras os incomodar e não responder a nenhuma palavra com repreensão. Os filhos devem lembrar-se de sua infância. Naquela época, sem compreender, faziam aos pais inúmeras perguntas desnecessárias e diziam muitas coisas sem sentido, causando-lhes aflição. Mas o pai e a mãe ouviam-nos sorrindo, alegravam-se, respondiam com voz cheia de carinho e nunca se irritavam.

Em terceiro lugar, deve-se ter o máximo cuidado com a honra e a dignidade dos pais. Ao conversar, é preciso considerar seu respeito. Na fase final da vida, quando perdem as forças, é natural que os pais idosos digam diversas coisas para preservar sua honra e dignidade e afirmar sua própria importância. Insistem desnecessariamente em suas opiniões. Irritam-se repetidas vezes. Manifestam sua insatisfação de várias maneiras. Nessa situação, é preciso compreender as instruções do Sagrado Alcorão. Deve-se suportar sorrindo essas palavras e jamais, por irritação, pronunciar algo contrário à honra e à dignidade deles.

Em quarto lugar, deve-se demonstrar humildade e mansidão no comportamento com eles. Além de ser obediente, é necessário manter a cabeça baixa diante deles. Deve-se ouvir atentamente todas as suas instruções, cumpri-las e sentir satisfação por isso. Quando, na velhice, os pais passam a depender de todo tipo de ajuda dos filhos, é indispensável servi-los como um servidor obediente. Porém, nenhuma palavra ou ação deve revelar arrogância ou fazer parecer que se está concedendo um favor. Pelo contrário, deve-se sentir orgulho de demonstrar respeito filial e agradecer a Allah pela oportunidade de prestar esse serviço.

Em quinto lugar, ao encontrar os pais em uma idade de desamparo e fraqueza, é preciso lembrar aquele período da própria infância, quando a criança é extremamente fraca, desamparada e dependente. Naquela época, os pais criam a criança com tanto carinho, amor e atenção, suportando centenas de tipos de sofrimento e dificuldades. Alegram-se com a alegria da criança e ficam aflitos ao vê-la sofrer. Ao lembrar-se da condição da infância, tomados por sentimentos de amor e misericórdia, devem elevar espontaneamente as mãos repetidas vezes em oração e dizer: “Ó Senhor! Assim como na infância eles nos criaram com carinho e amor, dedicando toda a sua vida a nós, concede também misericórdia a eles e facilita suas dificuldades.”

Aquilo que foi descrito de forma extremamente concisa, porém bela, nestes dois versículos do Alcorão Sábio encontra-se detalhadamente na Sunnah ou nos hadiths do Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz.

A importância dos pais

عن أبي أمامة رضي اللهُ عَنْهُ أَنَّ رَجُلاً قَالَ يَا رَسُولَ اللَّهِ صَلَّى اللَّهُ عَلَيْهِ وَسَلَّمَ مَا
حق الوالدين على ولدهما ؟ قَالَ هما جنتك وبارك ابن ماجه، مشكوة“Hazrat Abu Umamah, que Allah esteja satisfeito com ele, narrou que um homem perguntou ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz: ‘Ó Mensageiro de Allah! Que direito os pais têm sobre os filhos?’ Ele respondeu: ‘Os pais são o vosso Paraíso e o vosso Inferno.’”

O significado desta declaração do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, é que ninguém pode prescindir deles. Além da sua importância na vida social, a importância deles também é imensa no que diz respeito à salvação e ao sucesso na vida futura. O filho pode construir a sua morada no Paraíso tratando-os bem, obedecendo-lhes e mantendo-os satisfeitos. Por outro lado, ao pisotear os seus direitos e provocar o seu descontentamento, pode tornar-se combustível do Inferno.

عنْ عَبْدِ اللهِ بْنِ عَمْرٍ رَضِيَ اللهُ عَنْهُ – وَقَالَ قَالَ رَسُولُ اللَّهِ صَلَّى اللَّهُ عَلَيْهِ وَسَلَّمَ، رِضا اللهِ فِي رِضَا الْوَالِدِ وَسُخْطُ اللَّهِ فِي سُخْطِ الْوَالِدِ“Foi narrado por Hazrat Abdullah ibn Amr, que Allah esteja satisfeito com ele, que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: ‘A satisfação de Allah está na satisfação do pai, e a ira de Allah está na ira do pai.’”

Não se pode alcançar a satisfação de Allah negando os direitos dos pais. Somente aqueles que conseguem mantê-los satisfeitos podem agradar a Allah. Aqueles que provocam a ira deles não podem escapar da ira de Allah, e quem os desagrada também desagradará a Allah.

عن معاوية بن جامعة أن جَاهِمَة جَاءَ إِلى النَّبِيِّ صَلَّى اللهُ عَلَيْهِ وَسَلَّمَ . فَقَالَ يَا رَسُول الله – أردت أَنْ أَغْزُو، وَقَدْ جِئْتُ اسْتَشِيرُكَ ؟ فَقَالَ هَلْ لَّكَ من أم قال نعم، قَالَ فَالْزَمَهَا فَإِنَّ الْجَنَّةَ عند رجلها – ابن ماجه، نسائ“Hazrat Muawiya, filho de Hazrat Jahimah, que Allah esteja satisfeito com ambos, narrou que Hazrat Jahimah, que Allah esteja satisfeito com ele, foi à presença do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e disse: ‘Ó Mensageiro de Allah! Desejo participar do jihad convosco e vim consultar-vos sobre isso. Dizei-me: qual é a vossa orientação a esse respeito?’ O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, perguntou-lhe: ‘A tua mãe está viva?’ Hazrat Jahimah, que Allah esteja satisfeito com ele, respondeu: ‘Sim.’ Graças a Allah, ela está viva. O nobre Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: ‘Volta e permanece dedicado ao serviço dela, pois o Paraíso está sob os seus pés.’”

A expressão “o Paraíso está sob os seus pés” foi proferida com um significado abrangente. Isso significa que se deve honrá-la plenamente e demonstrar extrema humildade no comportamento e nas maneiras. Deve-se considerar o seu serviço, realizado de coração e alma, como o próprio meio da salvação. No hadith acima, é enfatizada a obediência ao pai, enquanto neste hadith é descrita a importância da obediência e do serviço à mãe. Este hadith também foi narrado na versão de Tibrani mencionando tanto a mãe quanto o pai. O próprio Hazrat Jahimah, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: “Fui à presença do nobre Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e disse: ‘Ó Mensageiro de Allah! Desejo participar do jihad. Quero saber a vossa opinião sobre isso.’ Ele disse: ‘Os teus pais estão vivos?’ Respondi: ‘Sim. Graças a Allah, ambos estão vivos.’ Ele disse: ‘Vai e permanece dedicado ao serviço deles, pois o Paraíso está sob os seus pés.’”

عن أبي هريرة عن النبي صلى الله عَلَيْهِ وَسَلَّمَ قَالَ رَغمَ أَنْفُهُ ثُمَّ رَعْمَ أَنْفُهُ ثُمَّ رَغمَ أَنْفُهُ، قَبْلَ مَنْ يَا رَسُولَ اللهِ ؟ قَالَ مَنْ أَدْرَكَ وَالدَيْهِ عِنْدَ الْكَبَرِ أَوْ أَحَدَهُمَا ثُمَّ لَمْ يَدْخُلِ الْجَنَّةَ .
“Foi narrado por Abu Huraira, que Allah esteja satisfeito com ele, que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Que seja humilhado, depois novamente humilhado, e mais uma vez humilhado!” As pessoas perguntaram: “Ó Mensageiro de Allah, quem?” Ele respondeu: “Aquele que alcançar ambos os pais, ou um deles, em idade avançada e, ainda assim, não entrar no Paraíso (por servi-los).”

A recompensa mundana pelo serviço aos pais

A maior recompensa por servir os pais e obedecer-lhes é alcançar, por meio disso, a satisfação de Allah e receber o Paraíso. Essa é a recompensa da Outra Vida. Porém, Allah Todo-Poderoso também recompensa neste mundo aqueles que servem os pais com coração sincero e cuidam dos seus direitos. Certa vez, o nobre Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, contou pessoalmente aos seus companheiros uma história impressionante sobre três homens. Ele disse: certa vez, três homens viajavam por algum lugar. No caminho, foram surpreendidos por uma chuva torrencial. Para se abrigarem, entraram numa caverna e ali se sentaram. Glória a Allah! Uma grande pedra desprendeu-se da montanha, caiu sobre a entrada da caverna e bloqueou-a completamente. Os três amigos ficaram terrivelmente assustados — e não era sem razão. Remover a pedra estava além das suas forças. Também não havia ninguém ali a quem pudessem chamar para pedir ajuda. Desesperados, permaneceram sentados, imaginando que haviam sido enterrados vivos e que aquela caverna seria o seu túmulo. Um deles disse: “Não devemos desesperar da misericórdia de Allah. Vamos cada um de nós suplicar a Allah mencionando a melhor obra que realizou na vida. Espero que Allah, por meio da Sua misericórdia, nos liberte desta aflição.”
Um dos viajantes começou a dizer: “Ó Allah! Meus pais eram idosos e eu tinha filhos pequenos. Durante o dia, eu pastoreava cabras e, ao voltar para casa e ordenhar o leite, fazia meus pais bebê-lo primeiro. Depois dava-o aos meus filhos. Certo dia, afastei-me muito e demorei bastante para voltar. Quando cheguei a casa à noite, meus pais já tinham adormecido. Como de costume, ordenhei o leite das cabras, enchi uma taça e fui colocar-me junto à cabeceira dos meus pais. Fiquei esperando que acordassem para lhes oferecer o leite. A noite avançou bastante. Meus filhos começaram a sofrer de fome. Repetidamente, vinham até os meus pés, prostravam-se e pediam leite. Mas não consegui suportar dar-lhes leite antes dos meus pais. Não podia acontecer que meus pais permanecessem deitados com fome enquanto meus filhos se alimentavam e descansavam satisfeitos. Em suma, passei toda a noite em pé, segurando a taça. Meus pais continuaram dormindo, e meus filhos, chorando de fome, continuaram a prostrar-se. Assim passou toda a noite. Ó Allah! Se fiz isso com meus pais somente para alcançar a Tua satisfação, então, com o auxílio da Tua misericórdia, remove esta pedra da entrada da caverna.”
Assim que ele disse isso, a pedra moveu-se um pouco para fora da entrada da caverna, e o céu tornou-se claramente visível. Depois, os outros dois viajantes também suplicaram por meio das suas respectivas boas obras, e Allah, por Sua misericórdia, abriu a entrada da caverna.

Tratar os pais com bondade

عَنْ عَبْدِ اللهِ بْنِ مَسْعُودٍ رَضِيَ اللهُ عَنْهُ قَالَ سَأَلْتُ رَسُولَ اللَّهِ صَلَّى اللهُ عَلَيْهِ وَسَلَّمَ أَيُّ الْعَمَلِ أَحَبُّ إِلى اللهِ ؟ قَالَ : الصَّلُوةُ عَلَى وَقْتِهَا -قُلْتُ ثُمَّ أَي ؟ قَالَ : بِرُّ الْوَالِدَيْنِ قُلْتُ، ثُمَّ أَيُّ ؟ قَالَ الْجِهَادُ فِي سَبِيلِ اللَّهِ ای
بخاری، مسلم
“Hazrate Abdullah ibn Masud, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: “Perguntei ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz: qual boa ação é mais amada por Allah?” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, respondeu: “A oração realizada no seu horário.” Perguntei novamente: “Depois dela, qual ação é mais amada?” Ele respondeu: “Tratar os pais com bondade.” Perguntei: “E depois?” Ele respondeu: “Lutar no caminho de Allah.” — Bukhari e Muslim

Nenhum muçulmano desconhece a importância e a virtude da oração. Ainda assim, que importância pode ter na religião a boa ação cuja prática o amado Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, enfatizou juntamente com uma adoração tão importante quanto a oração? Entre pais e filhos já existe uma relação. O vínculo de bondade e amor entre eles é algo completamente natural, decorrente do sangue. Todo crente ama os seus pais e, tanto quanto possível, serve-os de coração e com sinceridade. Porém, a ênfase do amado Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, significa que essa relação não é apenas uma relação familiar e mundana; ela também é uma questão religiosa. A exigência da religião de Allah e da obediência a Allah é tratar os pais com bondade. A ordem de Allah e do Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, é obedecer-lhes e servi-los, honrá-los e procurar mantê-los felizes de diversas maneiras. Se um muçulmano não obedecer aos seus pais, também não estará obedecendo a Allah e ao Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Ele não será apenas culpado no âmbito familiar e mundano; será também culpado perante Allah. Terá de prestar contas diante de Allah.

قَالَ عَبْدُ الله بن عمرو بن العاص رض : أَقْبَلَ رَجُلٌ إِلَى رَسُولِ اللهِ صلى الله عَلَيْهِ وَسَلَّمَ فَقَالَ أَبَايِعُكَ عَلى الهِجْرَةِ وَالْجِهَادِ ابْتَغِي الْآخِرَ مِنْ الله، قَالَ فَهَلْ مِنْ والديك أحد حي ؟ قَالَ نَعَمْ، بَلْ كِلَاهُمَا حَيٍّ، قَالَ فتبتغي الأجر من اللهِ ؟ قَالَ نَعَمْ، قَالَ فَارْجِعُ إِلَى وَالِدَيْكَ فَأَحْسِنُ
صحبتهما – مسلم
“Hazrate Abdullah, filho de Amr ibn al-As, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: “Um homem foi até o amado Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e disse: ‘Presto-te juramento de fidelidade para a Hégira e para o jihad, buscando a recompensa disso junto a Allah.’ O Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, perguntou: ‘Algum dos teus pais está vivo?’ Ele respondeu: ‘Sim. Na verdade, ambos estão vivos, graças a Allah.’ Ele perguntou: ‘Desejas realmente a recompensa da Hégira e do jihad junto a Allah?’ O homem respondeu: ‘Sim, desejo a recompensa junto a Allah.’ O nobre Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: ‘Então volta para os teus pais e trata-os com bondade.’” — Muslim

Quem pode negar a importância atribuída na religião à Hégira e ao jihad? Ainda assim, se os pais, devido à velhice, à fraqueza ou a alguma incapacidade, necessitarem da ajuda e do serviço dos filhos, então o filho deve servi-los e proporcionar-lhes conforto, buscando a recompensa de Allah. E é nisso que reside a satisfação de Allah. Em uma situação de desamparo como essa, o Islã classificou permanecer junto dos pais para servi-los como uma obra ainda mais excelente do que obras virtuosas como a Hégira e o jihad.

Hazrat Abdullah ibn Amr, que Allah esteja satisfeito com ele, narrou que um homem se apresentou diante do amado Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, para prestar o juramento de migração. Então, o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Volta para teus pais e deixa-os felizes da mesma forma como os deixaste chorando.” — Abu Dawud

Ele também disse que um homem compareceu diante do Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, com o propósito de participar da jihad. O amado Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, perguntou-lhe: “Teus pais estão vivos?” Ele respondeu: “Sim, graças a Allah, estão vivos.” Então ele disse: “Vai e continua a servi-los. Isso é jihad.” — Muslim, Abu Dawud

Demonstrar respeito aos pais

عن أبي سعيد رض أنَّ رَجُلًا مِنْ أَهْلِ الْيَمَنِ هَاجَرَ إِلَى رَسُولِ اللَّهِ صَلَّى اللهُ عَلَيْهِ وَسَلَّمَ فَقَالَ : هَلْ لكَ أحدٌ بِالْيَمَنِ ؟ قَالَ، أَبُولَى، قَالَ أَدْنَالَكَ ؟ قَالَ لا، قَالَ، ارجع اليهما ، فَاسْتَاذِنَهُمَا، فَإِنْ أَدْنَالَكَ فَجَاهِدُ وَإِلَّا فَبِرَهُما – ابوداودHazrat Abu Sa’id, que Allah esteja satisfeito com ele, narrou que certo iemenita se apresentou diante do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, perguntou-lhe: “Tens alguém no Iêmen?” Ele respondeu: “Sim, tenho meus pais.” Ele perguntou: “Eles te deram permissão?” Ele respondeu: “Não.” Então disse: “Muito bem, volta e pede permissão a ambos. Se eles te derem permissão, participa da jihad; caso contrário, permanece junto deles e continua a tratá-los com bondade.”

Um homem percorreu milhas e mais milhas para chegar até o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Ele veio com uma intenção tão nobre: permanecer com o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e empenhar-se para elevar a honra da religião. Contudo, o Profeta o mandou de volta simplesmente porque ele não havia vindo com a permissão de seus pais; sem a permissão deles, não lhe permitiu participar de um dever tão importante quanto a jihad. Ao refletirmos sobre este hadith, percebemos que tipo de reverência à religião ensina em relação aos pais e quão grande respeito ela ordena que se demonstre a eles.

Conselho de Hazrat Abu Huraira, que Allah esteja satisfeito com ele

Certa vez, Hazrat Abu Huraira, que Allah esteja satisfeito com ele, viu dois homens e perguntou a um deles: “Quem é este homem para ti?” Ele respondeu: “Senhor, este é meu respeitável pai.” Então ele disse: “Escuta: nunca o chames pelo nome; nunca caminhes à frente dele; e, em nenhuma reunião, tentes sentar-te antes dele.” — Al-Adab al-Mufrad

A recompensa de conversar em tom suave.

Hazrat Taylah ibn Miyath, que Allah esteja satisfeito com ele, relatou um episódio de sua vida, dizendo: certa vez fui para a guerra com o exército. Lá me envolvi em alguns atos pecaminosos. Na minha opinião, tratava-se de um pecado grave. Fiquei extremamente aflito e, aproveitando uma oportunidade, mencionei isso a Hazrat Abdullah ibn Umar, que Allah esteja satisfeito com ele. Ele disse: “Diga-me, o que aconteceu?” Contei-lhe tudo exatamente como havia ocorrido. Ao ouvir-me, ele disse: “Isso não é um pecado grave; os pecados graves são apenas nove: associar parceiros a Allah, matar alguém injustamente, voltar as costas ao jihad, acusar falsamente uma mulher honrada, consumir juros, consumir os bens do órfão, falar de incredulidade na mesquita, zombar e escarnecer da religião e fazer os pais chorarem por desobedecê-los ou rebelar-se contra eles.” Depois de dizer isso, perguntou-me: “Irmão, você deseja manter-se afastado do Inferno e entrar no Paraíso?” Respondi: “Hazrat, como eu não desejaria? Juro por Allah que é isso que desejo.” Hazrat perguntou-me: “Então diga-me: seus pais estão vivos?” Respondi: “Sim, minha querida mãe está viva.” Ele continuou: “Juro por Allah! Se você falar com sua mãe com ternura e respeito e cuidar de suas necessidades, certamente entrará no Paraíso. Portanto, apenas mantenha-se afastado dos pecados graves.”

A retribuição aos pais

عن أبي هريرة عن النبي صلى الله عليه وسلَّمَ قَالَ لا يُجْزِى وَلَدٌ وَالدَه إلا أن يجده مملوكا فيشتريه فيعتقه – مسلم، ترمذی، ابو ادود وغیره“Relata-se de Hazrat Abu Hurayra, que Allah esteja satisfeito com ele, que o Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: ‘Um filho não pode retribuir aos pais, a menos que encontre seu pai como escravo ou sua mãe como escrava, então os compre e os liberte.’”

A retribuição à mãe

“Hazrat Abu Hurayra, que Allah esteja satisfeito com ele, relatou que certa vez Hazrat Abdullah ibn Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, viu um iemenita fazendo a circunvolução da Caaba Sagrada com sua mãe sentada às costas. O homem circundava a Caaba e recitava este poema com grande emoção.”

Sou o camelo de montaria que se move ao sinal dela
Quando sua montaria foge assustada, eu não fujo

Ao ver Hazrat Abdullah, que Allah esteja satisfeito com ele, o homem perguntou: “Diga-me, não retribuí eu já à minha mãe?” Hazrat Abdullah respondeu: “Retribuição à mãe? Isso nem sequer retribuiu um único ‘Ah!’ que ela pronunciou.”

O comportamento de Hazrat Abu Hurayra, que Allah esteja satisfeito com ele, para com sua mãe

Certa vez, Marwan nomeou Abu Huraira — que Allah esteja satisfeito com ele — como seu substituto por alguns dias. Naquela ocasião, ele estava em Zul Hulaifa. Sua mãe morava em outra casa, a certa distância. Sempre que pretendia sair, primeiro ia até a porta de sua mãe, parava ali e dizia: “Querida mãe, que a paz, a misericórdia e as bênçãos de Allah estejam sobre você.” De dentro, sua mãe respondia: “Querido filho, que a paz, a misericórdia e as bênçãos de Allah estejam sobre você.” Então Abu Huraira — que Allah esteja satisfeito com ele — dizia: “Mãe, assim como, durante minha infância, a senhora me criou com carinho e ternura, que Allah também derrame Sua misericórdia sobre a senhora.” Ela respondia: “Querido filho, assim como você tem me tratado com bondade e me proporcionado conforto nesta velhice, que Allah também derrame sobre você uma misericórdia semelhante.” Depois, quando ele voltava de fora e entrava em casa, cumprimentava sua mãe da mesma maneira e dizia as mesmas palavras.

A forma suprema da obediência aos pais

عَنِ ابْنِ عَبَّاسٍ رَض قَالَ قَالَ رَسُولُ اللهِ صَلَّى اللَّهُ عَلَيْهِ وَسَلَّمَ مَنْ أَصْبَحَ مطيعا الله في والديه أصبح له بابان مفتوحانِ مِنَ الْجَنَّةِ وَإِنْ كَانَ وَاحِدًا فَوَاحِداً وَمَنْ أمسى عاصيا لله في والديه أَصْبَحَ لَهُ بَابَانَ مَفْتُوحَانِ مِنْ النَّارِ وَإِنْ كَانَ وَاحِدًا فَوَاحِداً قَالَ رَجُلٌ وَإِنْ ظَلَمَاهُ قَالَ وَإِنْ ظَلَمَاهُ وَإِنْ ظلْماهُ وَإِنْ ظَلْماهُ – مشكوة“Abdullah ibn Abbas — que Allah esteja satisfeito com ele — narrou que o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — disse: ‘Quem amanhece obedecendo a Allah no que diz respeito a seus pais, para ele amanhecem abertas duas portas do Paraíso; e, se um deles estiver vivo, uma porta. E quem passa a noite desobedecendo a Allah no que diz respeito a seus pais, para ele amanhecem abertas duas portas do Inferno; e, se um deles estiver vivo, uma porta.’ Um homem perguntou: ‘Mesmo que eles o tratem injustamente?’ Ele respondeu: ‘Mesmo que o tratem injustamente. Mesmo que o tratem injustamente. Mesmo que o tratem injustamente.’” — Mishkat

O Nobre Profeta — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — adotou esse modo de exposição para enfatizar o bom tratamento aos pais. Assim, o crente compreende claramente que a obediência deve ser somente a Allah. Não é permitido obedecer a ninguém além de Allah. A obediência aos pais e o bom tratamento para com eles devem-se ao fato de que Allah estabeleceu os direitos dos pais e ordenou que fossem observados e que eles fossem servidos. O crente jamais obedecerá aos pais em algo que implique desobediência a Allah.
Mesmo quando os pais cometem excessos, o bom tratamento significa que, se, devido ao seu temperamento severo, continuarem fazendo exigências difíceis de cumprir para os filhos, ou os fizerem trabalhar excessivamente sem considerar os limites de sua resistência, ou exigirem deles recursos financeiros além de sua capacidade, ainda assim os filhos devem controlar suas emoções e, com esforço, continuar a servi-los e a tratá-los bem.
Embora, nessa situação, a obediência não seja obrigatória para o filho — pois Allah não impõe a ninguém um fardo maior que sua capacidade —, esta é, apesar disso, a forma suprema da obediência aos pais. O filho dedicará a própria vida ao serviço dos pais, mesmo além de suas possibilidades, e sacrificará tudo para mantê-los satisfeitos e proporcionar-lhes conforto.
Entretanto, se eles fizerem uma exigência que prejudique o direito de outra pessoa, cujo efeito desagradável recaia sobre outra pessoa, ou que contradiga algum mandamento de Allah, então não se deve obedecer. Por exemplo, se impedirem que alguém receba seu direito financeiro, ou, movidos por pura inimizade pessoal ou teimosia, quiserem obrigar a filha, sem motivo, a separar-se de um marido que não negligencia os direitos da esposa estabelecidos pela Shariah, ou se impedirem que ela sirva e obedeça a um marido assim, então a obediência a pais desse tipo certamente não é obrigatória. Isso porque cumprir os direitos financeiros de outra pessoa é obrigatório, e deixar de fazê-lo é um pecado grave. Allah somente perdoa esse tipo de pecado quando aquele que tem direito perdoa.
Também se deve ter em mente, no que diz respeito a servir e obedecer ao marido ou manter o vínculo com ele, o seguinte: estabelecer o vínculo matrimonial, o amor mútuo entre marido e mulher e o bom relacionamento entre ambos são ações extremamente apreciadas por Allah. O Islam enfatiza a manutenção desse vínculo a qualquer custo.
Sem dúvida, obedecer aos pais é obrigatório, mas essa obediência está subordinada à obediência a Allah. Não é uma obediência independente. Obedecer aos pais afastando-se da orientação, dos mandamentos, das exigências e dos interesses benéficos da religião não é obediência a Allah; pelo contrário, é desobediência a Allah. Nenhum crente pode esperar recompensa por uma obediência desse tipo; o castigo torna-se o que ele merece.

O Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — disse: “Se houver obediência a um deles, uma porta do Paraíso permanece aberta.” Isso não significa que, se um dos pais falecer e já não houver oportunidade de obedecer-lhe e servi-lo, para esse filho haverá apenas uma porta aberta. O significado é que, se ele obedece a um dos pais e mantém o outro insatisfeito, uma porta do Paraíso é aberta pela obediência a um deles, enquanto uma porta do Inferno é mantida aberta pela desobediência ao outro. Se um dos dois partir deste mundo e tiver sido obedecido enquanto estava vivo, a porta aberta em recompensa por essa obediência continuará aberta; não será fechada.
O hadith adverte que, se alguém obedece a um dos pais e mantém o outro insatisfeito por meio de suas ações, isso não é correto. Por causa da obediência a um deles, Allah mantém aberta a porta do Paraíso. Porém, por causa da desobediência ao outro, é providenciada a abertura da própria porta do Inferno. Não pode ser uma conduta correta para um crente sentir-se seguro quanto ao serviço e à obediência a um dos pais enquanto obedece ao outro. Ele deseja alcançar a satisfação de Allah servindo e obedecendo a ambos.

A recusa da obediência aos pais

Apesar da ênfase dada à importância dos direitos dos pais na vida social, à obediência a eles e à expressão de gratidão, às vezes surge uma situação em que você pode declarar que não os obedecerá. Pode ser capaz de cumprir as exigências da Shariah deixando de lado suas palavras. No Islã, o direito de receber obediência pertence unicamente a Allah. Você só pode obedecer a outras pessoas além de Allah quando Ele tiver permitido que sejam obedecidas, e só pode obedecê-las naquilo que é permitido ou lícito. Se obedecer a alguém desobedecendo a Allah, você será pecador, e essa obediência constituirá desobediência a Allah. Permanecer obediente aos pais na obediência a Allah é um meio de alcançar a satisfação de Allah; da mesma forma, obedecê-los na desobediência a Allah causa o desagrado de Allah.
A respeito dos direitos dos pais, há um famoso hadith de Hazrat Abdullah ibn Umar, que Allah esteja satisfeito com ele. Esse hadith está relacionado a uma questão extremamente delicada da vida social, e muitas vezes as pessoas acabam formando uma concepção equivocada por causa das palavras aparentes do hadith. É necessário compreender profundamente a verdadeira intenção do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e, levadas por uma concepção errônea, não tomar medidas que possam resultar em desobediência a Allah e ao Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. O hadith é o seguinte:

عن ابن عمر رض قال كان تحتى إمرأة أحبُّهَا وَكَانَ عُمَرُ يَكْرَهُهَا فَقَالَ لِي طلقها فَأَبَيْتُ فَأَتَى عُمَرُ رَسُولَ اللهِ صَلَّى اللَّهُ عَلَيْهِ وَسَلَّمَ فَذَكَرَ ذَالِكَ لَهُ فَقَالَ لِي رَسُولُ الله صلى الله عَلَيْهِ وَسَلَّمَ طَلَّقَها – ابو داود، ترمذی
نسائی، ابن ماجه“Hazrat Abdullah ibn Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, narrou: Eu tinha uma esposa que amava muito, mas Hazrat Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, não gostava dela. Então ele me disse: ‘Divorcie-se dela.’ Eu me recusei. Hazrat Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, foi então até o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e relatou-lhe o ocorrido. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse-me: ‘Abdullah, divorcie-se dela.’” — Abu Dawud, Tirmidhi, Nasa’i e Ibn Majah

Esse hadith parece exigir enfaticamente que você obedeça plenamente aos seus pais e não dê espaço, em seu coração, sequer à ideia de desobedecê-los. Contudo, não é correto concluir, com base nisso, que a obediência aos pais seja incondicional e sem qualquer impedimento. A partir das palavras aparentes do hadith, as pessoas caem no equívoco de pensar que os pais também têm o direito de ordenar ao filho que se divorcie da esposa sempre que quiserem. Mesmo que a esposa seja virtuosa e obediente, eles poderiam ordenar o divórcio. E, quando quisessem, poderiam ordenar à filha que rompesse sua relação com o marido, ainda que ele fosse virtuoso. Mesmo que não houvesse nenhuma razão legítima para romper a relação, isso teria de ser feito simplesmente por ordem dos pais.
Isso é um grave equívoco. Não há verdadeira compatibilidade entre essa ideia e a Shariah, nem qualquer relação entre ela e os ensinamentos fundamentais da Shariah. Para compreender um hadith e conhecer a verdadeira intenção do Santo Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, é necessário entendê-lo e assimilá-lo à luz dos ensinamentos fundamentais do Alcorão e da Sunnah e da natureza geral da religião, de modo que sua compreensão esteja de acordo com a explicação manifesta do Alcorão e da Sunnah e seja compatível com os ensinamentos básicos da religião.
Este caso envolvia o segundo califa, Hazrat Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, que havia assimilado completamente o espírito da religião. Seus olhos haviam visto a religião corpórea em movimento. Ele conhecia plenamente o temperamento da religião. Sabia também que uma boa relação entre marido e mulher é mais importante até mesmo do que a adoração voluntária, e que o Islã insiste em preservar essa relação a qualquer custo. E só permite romper esse vínculo sagrado quando sua continuidade realmente ameaça fazer surgir uma fitnah religiosa e social de maiores proporções. Ele também sabia muito bem que, com o rompimento dessa relação, somente aquele Satanás se alegra sobre quem recai a maldição eterna de Allah. Ele detestava sua nora e não gostava que ela permanecesse com seu filho. Pense nisso. Por que uma pessoa tão conhecedora da religião quanto Hazrat Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, não gostava de sua nora? Pode-se sequer imaginar que tivesse uma inimizade pessoal com ela e que, por algum objetivo mundano, quisesse privá-la da proteção do marido? Ou que, por causa de alguma desobediência da nora, tivesse decidido que não descansaria enquanto não obtivesse o divórcio? Poderia alguma mulher consciente da piedade de um companheiro pensar isso de Hazrat Umar al-Faruq, que Allah esteja satisfeito com ele, o segundo califa? Esse mesmo Hazrat Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, sacrificou tudo o que possuía pela religião.
É mais claro que a luz do dia que ele certamente tinha diante de si um objetivo religioso maior e que insistiu com o filho pelo divórcio por uma razão de benefício moral e social. Não o fez simplesmente por dizer: ‘Eu sou seu pai. Pela dignidade de ser seu pai, posso fazer você se divorciar sem motivo algum; tenha você culpa ou não, é obrigado a permanecer obediente a mim.’
Por outro lado, Hazrat Abdullah, que Allah esteja satisfeito com ele, era ele próprio um jovem virtuoso. Também conhecia plenamente a religião. Observava a Sunnah do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, com o coração e a alma. Seus pensamentos haviam sido cultivados sob a orientação do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Ele conhecia completamente os direitos dos pais e a importância da obediência a eles. Ninguém poderia sequer imaginar que ele fosse capaz de desobedecer aos pais. Quando Hazrat Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, lhe exigiu o divórcio, não disse, em resposta, que ele havia se tornado desobediente ao pai por recusar-se a obedecer. Em vez disso, levou a questão à presença do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. E dessa presença, em diferentes ocasiões e com diferentes palavras, havia sido emitida a ordem de tratar bem as esposas e cumprir durante toda a vida as promessas feitas a elas, mesmo que isso exigisse algum sacrifício da parte de vocês. Depois de refletir sobre o assunto, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, concordou com a opinião de Hazrat Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, e ordenou a Hazrat Abdullah, que Allah esteja satisfeito com ele, que se divorciasse dela.

Quando refletir sobre este hadith à luz da natureza do Din e do Alcorão e da Sunnah, chegará à conclusão de que esse é o verdadeiro significado do hadith. A própria natureza do Din exige isso, e os ensinamentos do Alcorão e da Sunnah também afirmam o mesmo. Poder-se-ia conceder aos pais o direito de ordenar ao filho que se divorcie, apenas por causa das palavras aparentes do hadith, ignorando a orientação clara do Din, exista ou não algum benefício legítimo? Ou poderia uma filha ser obrigada, por ordem dos pais, a pedir khula ao marido?
Se a obediência aos pais fosse livre de tais limites e restrições, milhares de lares seriam destruídos diariamente pelos conflitos futuros entre sogras e noras, e o conforto de milhares de homens e mulheres inocentes se transformaria em sofrimento. A Sharia de Allah não foi estabelecida para ser usada na satisfação de interesses pessoais, na inimizade, na ira ou na obtenção de vantagens individuais. Não foi estabelecida para que, sempre que os pais desejarem, alguém seja privado do amor e da proteção do marido, nem para obrigar um jovem inocente a ser privado do afeto e do amor de uma esposa virtuosa.
Exigir do filho uma obediência desse tipo, além de contrária à razão, seria extremamente cruel e severo. A justiça demonstra que o Din não pode exigir do filho tal obediência. Ao discutir este assunto, Mulla Ali Qari, que Allah tenha misericórdia dele, deu um exemplo claro: se os pais ordenarem ao filho que se divorcie da esposa, não é wajib para o filho cumprir essa ordem. O famoso muhaddith e faqih, Hazrat Izzuddin Shafi’i, que Allah tenha misericórdia dele, afirmou que a obediência aos pais não é wajib para o filho em todos os assuntos. Isto é, não é wajib para o filho cumprir tudo aquilo que os pais ordenarem ou proibirem. Quem pode negar a importância que o Din atribui à obediência aos pais e à gratidão para com eles? Mas isso certamente não significa que seja wajib obedecer-lhes em toda questão lícita ou ilícita. As questões do talaq e do khula são extremamente delicadas e produzem consequências de longo alcance. Seus efeitos não recaem apenas sobre o homem que se divorcia e a mulher que pede khula; muitos inocentes também são atingidos por suas consequências dolorosas. Eles têm de suportar sofrimento durante toda a vida.

Toda esta discussão se aplica somente à situação em que os pais obrigam alguém a divorciar-se ou a pedir khula sem um benefício conforme à Sharia e sem uma razão justificável. Se você perceber que a ordem dos pais não foi dada por animosidade pessoal, teimosia ou motivo mundano, mas por uma razão religiosa ou social, então de modo algum poderá desobedecer-lhes. Nesse caso, cumpri-la de coração e alma torna-se fard para você. Nunca lhe é permitido dar preferência às suas vontades e aversões pessoais sobre a obediência aos pais e apresentar o seu amor como desculpa. Entre os seus importantes direitos e as exigências da obediência está que você sacrifique o seu amor, as suas vontades e aversões e as suas preferências pessoais, encontrando a sua própria felicidade na satisfação deles.

O conselho de Hazrat Abu Darda, que Allah esteja satisfeito com ele

Há outro hadith que apoia este entendimento. «Um homem foi à presença de Hazrat Abu Darda, que Allah esteja satisfeito com ele, e começou a dizer: “Meu pai insistiu muito e arranjou o meu casamento. Mas agora está ordenando que eu me divorcie da minha esposa.” Hazrat Abu Darda, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: “Irmão, não lhe digo para desobedecer aos seus pais. Mas também não lhe digo que se divorcie da sua esposa. Sim, se quiser, posso transmitir-lhe aquilo que ouvi do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Ouvi o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, dizer: ‘O pai é a melhor das portas do Paraíso.’ Se quiserem, preservem essa porta para vocês; e, se quiserem, podem também negligenciá-la.” — Ibn Hibban

Este ponto do hadith merece reflexão. O homem veio e disse claramente: “Meu pai ordenou-me que me divorciasse.” Contudo, Hazrat Abu Darda, que Allah esteja satisfeito com ele, não respondeu explicitamente: “Se o seu pai está dizendo isso, então divorcie-se, pois é wajib obedecer-lhe.” Em vez disso, disse: “Não lhe digo que desobedeça aos seus pais, mas também não lhe digo que se divorcie da sua esposa.” Se, nesse assunto, a obediência fosse obrigatoriamente wajib, Hazrat Abu Darda, que Allah esteja satisfeito com ele, teria dito claramente: “Divorcie-se e obedeça aos seus pais.” Hazrat Abu Darda, que Allah esteja satisfeito com ele, transmitiu com grande sabedoria e habilidade a declaração do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, e incentivou o questionador a refletir pessoalmente sobre o assunto. Naturalmente, ele também deveria ter o cuidado de não cometer injustiça contra os pais, pois a obediência a eles é um meio de alcançar o Paraíso.

O que fazer após o falecimento dos pais

عن أبي أسيد قَالَ كُنَّا عِندَ النَّبِيِّ صَلَّى اللَّهُ عَلَيْهِ وَسَلَّمَ فَقَالَ رَجُلٌ يا رسول الله هل بقى من برابوى شيء بعد موتهما أبرهُمَا قَالَ نَعم . خصال أربع الدعاء لَهُمَا، وَالاسْتِغْفَارُ لَهُمَا وَأَنْفَاذُ عَهْدِهِمَا وَأَكْرِمْ صديقهما وصلة الرحم التي لارحم لك الا من قبلهما .
«Hazrat Abu Usaid, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: Estávamos na presença do Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Um homem perguntou: “Ó Mensageiro de Allah, é possível continuar tratando bem os pais mesmo depois da morte deles?” O Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, respondeu: “Sim. Há quatro formas: (1) fazer du’a e istighfar por eles; (2) cumprir as promessas que fizeram e os legados lícitos; (3) honrar e tratar bem os amigos do pai e as amigas da mãe; e (4) manter os laços de parentesco e tratar bem aqueles que são seus parentes por parte dos pais.”» — Al-Adab al-Mufrad

Os pais suportam dificuldades para criar e educar os filhos e cuidam deles dia e noite. A verdade é que, mesmo que você os servisse durante toda a vida como um escravo ou uma serva, ainda assim não conseguiria cumprir plenamente o direito que eles têm ao serviço. Por isso, o crente trata bem os pais durante toda a vida. Mas, quando os pais partem deste mundo, continua pensando: “Ai de mim, nada pude fazer por eles.” É por isso que, após a morte deles, deseja encontrar uma maneira de alegrar as suas almas. Um homem perguntou ao Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, sobre essa profunda emoção de um crente. Em resposta, ele disse que ainda é possível tratar bem os pais após o falecimento, e explicou os meios para fazê-lo.

Um: fazer du‘a e istighfar: depois da oração e em outros momentos, suplique a Allah com lágrimas: “Ó Allah! Perdoa meus pais. Encobre seus pecados e concede-lhes aquilo que concedes aos Teus servos e servas virtuosos. Ó Allah! Quando dependíamos de sua ajuda, afeição e criação, eles sacrificaram tudo por nós. Renunciaram aos prazeres do dia e ao descanso da noite por nossa causa. Ó Sustentador! Agora eles estão presentes diante de Ti. Na infância, em nossa impotência, dependíamos deles. Agora eles necessitam ainda mais da Tua misericórdia e do Teu olhar benevolente do que naquela época. Ó Sustentador! Concede-lhes a sombra da Tua misericórdia e acolhe-os na morada do Paraíso, a morada da Tua satisfação.”

Hazrat Abu Huraira, que Allah esteja satisfeito com ele, narrou que, quando, após a morte, a posição do falecido é elevada, ele pergunta, admirado: “Como isso aconteceu?” Então lhe é dito da parte de Allah: “Seus filhos continuaram a fazer du‘a por você e a pedir seu perdão, e Allah aceitou isso.” Hazrat Abu Huraira, que Allah esteja satisfeito com ele, também narrou que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Quando uma pessoa morre, cessam as oportunidades de realizar ações. Somente três coisas continuam a beneficiá-la após sua morte: primeiro, a sadaqah jariyah; segundo, o conhecimento amplo que deixou, do qual as pessoas se beneficiam; e terceiro, um filho virtuoso que pede perdão por ela.”

Hazrat Ibn Sirin, que Allah tenha misericórdia dele, era um famoso e virtuoso tabi‘i. Ao narrar uma história, disse: “Certa noite, estávamos na presença de Hazrat Abu Huraira, que Allah esteja satisfeito com ele. Ele levantou as mãos para fazer du‘a e disse humildemente: ‘Ó Sustentador! Perdoa Abu Huraira; ó Sustentador! Perdoa a mãe de Abu Huraira; e ó Sustentador! Perdoa todos aqueles que fazem du‘a pelo perdão de Abu Huraira e de sua mãe.’” Hazrat Ibn Sirin, que Allah tenha misericórdia dele, disse: “Continuamos a pedir perdão por Abu Huraira, que Allah esteja satisfeito com ele, e por sua mãe, para que fôssemos incluídos na du‘a de Abu Huraira, que Allah esteja satisfeito com ele.”

Dois: cumprir as promessas e os legados dos pais: enquanto estão vivos, os pais podem ter feito promessas a muitas pessoas. Podem ter assumido compromissos sobre diversos assuntos. No momento da morte, podem ter deixado alguns legados.
Após o falecimento dos pais, resta ao filho uma forma de tratá-los bem e com virtude: cumprir as promessas que fizeram e seus legados. Assim, deve continuar tentando alegrar suas almas. Contudo, somente os legados permitidos e lícitos devem ser cumpridos. Se também forem cumpridos legados ilícitos, isso não será uma boa ação para com eles; ao contrário, será uma má ação.
Se os pais tiverem prometido auxílio financeiro a alguém ou desejado dar algo a alguém, mas não tiverem tido a oportunidade de fazê-lo em vida; ou se tiverem feito um voto, mas falecido antes de cumpri-lo; ou se um deles estivesse endividado ou não tivesse tido a oportunidade de fazer um legado, embora você saiba que certamente o teria feito se tivesse tido a oportunidade; ou se não tivesse deixado legado algum: se você der sadaqah em nome deles, tudo isso será uma boa ação para com eles. Dessa maneira, mesmo após o falecimento deles, você poderá, durante toda a vida, tratá-los bem e alcançar a satisfação de Allah.
Hazrat Abdullah ibn Abbas, que Allah esteja satisfeito com ele, narrou que um homem perguntou ao Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele: “Ó Mensageiro de Allah! Minha mãe faleceu sem deixar nenhum legado. Se eu der alguma sadaqah em seu nome, isso lhe será útil?” O amado Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, respondeu: “Sim, sim. Por que não?”

Hazrat Abdullah, que Allah esteja satisfeito com ele, também narrou que Hazrat As‘ad ibn ‘Ubadah, que Allah esteja satisfeito com ele, disse ao Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele: “Ó Mensageiro de Allah! Minha mãe havia feito um voto, mas faleceu antes de cumpri-lo. Posso cumprir esse voto em seu nome?” O Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, respondeu: “Por que não? Cumpra o voto em nome dela.”

Três: comportamento para com as amigas da mãe e os amigos do pai: a terceira forma de tratar os pais após seu falecimento é tratar bem e com virtude as amigas da mãe e os amigos do pai. Na vida social, deve-se respeitá-los como pessoas de idade e mérito. Deve-se respeitar suas opiniões. É necessário incluí-los nas consultas sobre diferentes assuntos e tratá-los sempre bem, demonstrando respeito. Certa vez, o Nobre Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Tratar bem os amigos do pai é o mais belo comportamento.”

As práticas dos nobres Companheiros, que Allah esteja satisfeito com eles

Certa vez, Hazrat Abu Darda, que Allah esteja satisfeito com ele, adoeceu, e sua doença continuou a se agravar. Chegou ao ponto de já não haver esperança de que permanecesse vivo. Nessa ocasião, Hazrat Yusuf ibn Abdullah, que Allah esteja satisfeito com ele, viajou de muito longe e veio para servi-lo. Ao vê-lo, Hazrat Abu Darda, que Allah esteja satisfeito com ele, perguntou, admirado: “Como você veio parar aqui?” Yusuf ibn Abdullah, que Allah esteja satisfeito com ele, respondeu: “Hazrat, vim aqui somente para servi-lo, pois havia uma relação profunda entre o respeitado pai e o senhor.”
Certa vez, Hazrat Abdullah ibn Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, estava viajando. Nessa ocasião, encontrou um beduíno de Meca. O beduíno reconheceu Hazrat Ibn Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, e perguntou: “Você é filho de Hazrat Umar?” Hazrat Ibn Umar respondeu: “Sim, sou seu filho.” Então tirou o turbante da cabeça, deu-o a ele e o fez sentar-se honrosamente sobre seu próprio jumento. Hazrat Ibn Dinar disse: “Todos nós observamos aquilo admirados e depois dissemos: ‘Hazrat, ele é apenas um beduíno ou aldeão. Se o senhor lhe tivesse dado dois dirhams, isso teria sido suficiente para deixá-lo satisfeito.’” Hazrat Abdullah, que Allah esteja satisfeito com ele, respondeu: “Irmão, o pai dele era amigo de Hazrat Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, e o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: ‘Honrem os amigos do pai e não permitam que esse vínculo se extinga; caso contrário, Allah, o Altíssimo, apagará a vossa luz.’”

Hazrat Abu Burda (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: quando cheguei a Medina, Hazrat Abdullah ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) veio até mim e disse: “Abu Burda, sabes por que vim até ti?” Abu Burda (que Allah esteja satisfeito com ele) respondeu: “Senhor, não sei.” Hazrat Abdullah (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Ouvi o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) dizer: aquele que deseja tratar bem, no túmulo, o próprio pai, deve tratar bem os amigos de seu pai depois da morte dele.” Em seguida, disse: “Irmão, havia uma relação de fraternidade e amizade entre o meu pai, Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele), e o teu pai. Quero cumprir os direitos dele, honrando essa amizade.” — Ibn Hibban

Quarto: tratar bem os parentes dos pais: a quarta forma de agir após o falecimento dos pais é tratar bem os parentes deles. Do lado materno, incluem-se parentes como tias maternas, tios maternos, avós maternas e avôs maternos; do lado paterno, incluem-se tios paternos, tias paternas, avôs e avós paternas, entre outros. Manter-se indiferente a todos esses parentes e agir com descuido é, na realidade, equivalente a ser indiferente aos pais; e um crente ou uma crente não pode tratar os pais com descuido. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Nunca trateis com descuido os vossos pais e avôs. Tratar os pais com descuido equivale a ser ingrato para com Allah.”

A recompensa por fazer súplicas pelos pais

عن أنس قَالَ قَالَ رَسُولُ اللهِ صلَّى اللهُ عَلَيْهِ وَسَلَّمَ إِنَّ الْعَبْدَ لَيَمُوتُ وَالِدَاهُ أَوْ أَحَدُهُمَا وَإِنَّهُ لَهُمَا لَعَاقَ فَلَا يَزَالُ يَدْعُولَهُمَا وَيَسْتَغْفِرْ لَهُمَا حَتَّى يكتبَهُ اللهُ بَارًا.
“Foi narrado por Hazrat Anas (que Allah esteja satisfeito com ele) que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: se uma pessoa desobedeceu aos pais durante toda a vida e então um dos pais, ou ambos, falecer, ela deve continuar a fazer súplicas e pedir perdão por eles. Como resultado, Allah, por Sua misericórdia, pode registrá-la entre as pessoas virtuosas.”

É necessário continuar, durante toda a vida, a obedecer aos pais, tratá-los bem e esforçar-se para mantê-los satisfeitos. Porém, mesmo depois de todo esse esforço, se eles não ficarem satisfeitos e partirem deste mundo nesse estado de descontentamento, a porta da misericórdia de Allah ainda permanece aberta e a reparação continua possível. Como resultado de continuar a fazer súplicas por eles e pedir o seu perdão, pode-se esperar que Allah Todo-Poderoso perdoe os erros e o inclua entre os melhores servos. Nenhum servo crente deve desesperar da misericórdia de Allah. Sempre que surge no coração do servo o impulso de arrepender-se, Ele Se apressa a aceitá-lo e providencia todos os meios para fortalecer esse impulso e fazer com que ele influencie a vida. Contudo, não é correto tirar deste hadith a ideia equivocada de que, permanecendo desobediente aos pais enquanto estão vivos, será possível obter a misericórdia de Allah fazendo súplicas e istighfar por eles depois da morte. O correto é servi-los enquanto estão vivos, mantê-los satisfeitos e, por meio disso, buscar a satisfação de Allah.

Um olhar de amor para os pais

عَنِ ابْنِ عَبَّاسٍ رَض أَنَّ رَسُولَ اللهِ صلَّى اللهُ عَلَيْهِ وَسَلَّمَ قَالَ مَا مِنْ وَلَدٍ
بار ينظر إلى والديه نظرة رحمة إلا كتب اللهُ لَهُ بِكُلِّ نَظَرَةٍ حَجَّة مبرورة قَالُوا إِنْ نَظَرَ كُلِّ يَوْمٍ مِائَةَ مَرَّةٍ قَالَ نَعَمُ وَاللَّهُ أَكْبَرُ وَأَطيبُ – مسلم“Hazrat Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) narrou que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: sempre que um filho virtuoso olhar uma vez para os pais com um olhar de amor, Allah lhe concederá, por esse olhar, a recompensa de um Hajj aceito. As pessoas perguntaram: “Ó Mensageiro de Allah, e se alguém olhar cem vezes em um dia, com um olhar de misericórdia e amor?” Ele respondeu: “Sim, mesmo que olhe cem vezes. Allah é maior e mais puro do que aquilo que imaginais.””

O sentido é que a misericórdia e a grandeza de Allah são tão vastas que Ele pode conceder ainda mais do que isso. Se um filho olhar cem vezes ao longo do dia para os pais com um olhar de misericórdia e amor, Allah pode conceder também a recompensa de cem Hajjes. Ele é maior e mais nobre do que tudo o que o ser humano pode imaginar sobre Allah. O ser humano pensa levando em consideração a própria capacidade. Por isso, considera impossível receber uma recompensa tão grandiosa e cai numa concepção equivocada. Mas não é correto manter essa concepção equivocada sobre Allah. Ele é puro de toda concepção errônea. Esse Ser Misericordioso pode conceder tanto que a imaginação humana sequer é capaz de alcançar esse limite.

Ajuda financeira aos pais

يسْأَلُونَكَ مَاذَا يُنفِقُونَ ط قُلْ مَا أَنفَقْتُمْ مِنْ خَيْرٍ فَللوالدين .
“As pessoas perguntam-lhe: ‘O que devemos gastar?’ Diga: ‘Qualquer riqueza que gasteis, os primeiros que têm direito a ela são os pais.’ — Surata Al-Baqarah: 215

Assim como o Alcorão e a Sunnah enfatizaram a importância de servir, obedecer e tratar bem os pais, também enfatizaram que não é correto poupar riquezas deixando de gastar com eles. Pelo contrário, deve-se gastar primeiro com eles. E, se estiverem necessitados, podem tomar isso à força. Se alguém, mesmo não sendo negligente no serviço e na obediência aos pais, não quiser gastar dinheiro com eles, isso também não será correto. Assim como os pais têm direitos sobre os filhos, também têm direitos sobre os bens dos filhos.

O direito do pai sobre os bens do filho

Certa vez, um homem foi até o amado Profeta ﷺ e queixou-se de seu pai, dizendo que ele tomava os seus bens sempre que desejava. O Mensageiro de Allah ﷺ chamou o pai daquele homem. Um ancião fraco chegou, apoiando-se numa bengala. Quando começou a perguntar tudo ao ancião, ele disse: “Ó Mensageiro de Allah! Houve um tempo em que este homem era ainda mais fraco e desamparado, enquanto eu era forte. Eu era rico, e ele não possuía sequer um centavo. Nunca o impedi de tomar os meus bens. Hoje eu estou fraco, e ele está saudável e forte. Eu não possuo sequer um centavo, enquanto ele é rico. Agora ele não me dá os seus bens.” Ao ouvir isso, Rahmat-e-‘Alam ﷺ chorou e disse: “Tu e os teus bens pertencem ao teu pai. Tu e os teus bens pertencem ao teu pai.”

A preocupação com as dívidas dos pais

Hazrat Abdullah ibn Zubair رضي الله عنه era um homem extremamente ocupado. Apesar disso, não negligenciava o serviço e os direitos dos pais. Assim como cuidava deles enquanto estavam vivos, também, após a morte deles, manteve plena atenção aos seus direitos. Hazrat Zubair رضي الله عنه era um homem muito próspero. Normalmente, quando uma pessoa rica morre, logo após a sua morte os herdeiros começam a preocupar-se com as suas próprias partes. Mas ele não se preocupou nem um pouco com a sua parte, diferentemente das pessoas mundanas comuns. Embora, segundo as regras da herança, lhe coubesse uma quantia de dezenas de milhões, a sua única preocupação era saber se o pai não teria permanecido endividado com alguém. De fato, ele pagou primeiro as dívidas do pai com os bens deixados por ele. Depois do pagamento das dívidas, os demais herdeiros começaram a insistir na distribuição da herança e a apresentar as suas reivindicações. Porém, Hazrat Abdullah impediu a distribuição da herança. Disse que, durante quatro anos consecutivos, na época do Hajj, continuaria anunciando a respeito das dívidas do pai. Se houvesse algum credor, ele deveria receber o que lhe era devido. Afinal, poderia haver algum credor. Depois de fazer anúncios dessa maneira durante quatro anos, ele distribuiria a herança.

Dessa forma, convenceu os demais a concordarem em adiar por quatro anos a distribuição da herança e, durante a época do Hajj, fazia anúncios, levando milhares de pessoas a fazer súplicas e pedir perdão por seu pai.

As bênçãos de servir aos pais

عن أنس بن مَالِكٍ رَضِيَ اللهُ عَنْهُ قَالَ : قَالَ رَسُولُ اللَّهِ صَلَّى اللَّهُ عَلَيْهِ وَسَلَّمَ مَنْ سَرَّهُ أَن يُعدَّ لَهُ فِي عُمُرِهِ وَيُزَادُ لَهُ فِي رِزْقِهِ فَلْيَبَرُ وَالدَيْهِ وليصل رحمه – احمد، الترهيب والترغيب“Hazrat Anas bin Malik, que Allah esteja satisfeito com ele, narrou que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: ‘Se alguém deseja que sua vida seja prolongada e sua provisão seja ampliada, deve tratar bem seus pais e preservar os laços de parentesco.’”

Este mundo é um campo de trabalho. Aqui, o ser humano tem a oportunidade de realizar muitas obras para alcançar o sucesso na vida do Além. Obter uma vida longa e prosperidade em troca de servir aos pais é uma grande bênção de Allah. Foi dada ao ser humano, neste mundo, a oportunidade de praticar ainda mais boas ações, aumentar suas recompensas e, servindo aos pais, tornar-se merecedor da misericórdia de Allah.

عَنْ مُعَانِبْنِ أَنَسٍ رَض أَنَّ رَسُولَ اللهِ صَلَّى اللَّهُ عَلَيْهِ وَسَلَّمَ قَالَ مَنْ بَرُ وَلِدَيْهِ طُوبَى لَهُ زَادَ اللَّهُ فِي عُمره – ( الترغيب والترهيب ج (۲“Foi narrado por Hazrat Mu’adh bin Anas, que Allah esteja satisfeito com ele, que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: ‘Boas-novas para aquele que trata bem seus pais: Allah prolongará sua vida.’”

Para um crente, alcançar uma vida longa é uma boa-nova no sentido de que ele recebeu a oportunidade de trabalhar para realizar aspirações ainda mais nobres, visando alcançar o sucesso na vida do Além.

Os direitos da mãe são maiores que os do pai

Tanto a mãe quanto o pai participam da criação e educação dos filhos. Ambos sacrificam seu conforto e bem-estar para criar os filhos. O pai gasta com eles o dinheiro que ganha com o suor de seu corpo, enquanto a mãe os cria alimentando-os com o sangue de seu próprio coração. É pelo amor, esforço e carinho reunidos de ambos que os filhos são criados. Por isso, o Alcorão e a Sunnah ordenaram que se trate bem a ambos e instruíram a servir e obedecer aos dois.
Contudo, também é absolutamente claro que é a mãe quem suporta as maiores dificuldades na criação dos filhos. Ela cria a criança sacrificando a própria existência. Não há exemplo igual ao serviço e ao sacrifício daquela que, com ternura e afeto, alimenta a criança com o sangue de seu próprio coração e sacrifica continuamente o descanso do dia e o sono da noite por ela. Por isso, embora o Sagrado Alcorão tenha enfatizado a importância de tratar bem ambos os pais, apresentou de forma muito contundente as dificuldades da mãe e, ao mesmo tempo, indicou este significado: a mãe, que dedica a vida, tem mais direito que o pai ao serviço, à obediência e ao bom tratamento. Foi justamente esse significado que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, declarou abertamente:

ووصينا الْإِنْسَانَ بِوَالِدَيْهِ إِحْسَانًا ، حَمَلَتْهُ أُمَّهُ كُرْهًا وَوَضَعَتْهُ كُرْهًا . وحمله وفصله ثلثون شهراً – – الاحقاف : ١٥“E ordenamos ao ser humano que trate bem seus pais. Sua mãe o carregou com dificuldade e o deu à luz com dificuldade; e o período de sua gestação e de seu desmame é de trinta meses.” — Surata Al-Ahqaf, 15

Em outro lugar, ao insistir na expressão de gratidão para com os pais, o Alcorão Sagrado menciona o sacrifício e o sofrimento incomparáveis da mãe e enfatiza especialmente que o filho seja grato a ela.

ووصينا الإنسان بوالديه ، حملته أمه وهنا عَلَى وَهُن وَفَضْلُهُ فِي عَامَيْنِ أَنِ
اشكر لي ولوالديك – – لقمن : ١٤
“E recomendamos ao ser humano que seja bondoso para com seus pais. Sua mãe o carregou no ventre, suportando sofrimento após sofrimento, e o desmamou após dois anos. Ordenamos: ‘Agradece-Me e agradece a teus pais.’” — Surata Luqman, 14

Este modo de exposição do Alcorão Sagrado deixa claro que a mãe tem maior direito ao serviço, ao amor, à obediência, ao bom tratamento e à gratidão. Isso porque ela suporta sofrimentos extraordinários ao dar à luz e criar o filho. Sem dúvida, o pai também participa da criação. Porém, não há comparação entre o esforço e o sacrifício da mãe e os do pai.

Diálogo instrutivo

Certa vez, um homem foi à presença do Mensageiro de Allah e reclamou: “Ó Mensageiro de Allah! Minha mãe é uma pessoa de mau humor.” O amado Profeta disse: “Quando ela o carregou continuamente no ventre durante nove meses, ela não tinha mau humor.” O homem disse: “Senhor, estou dizendo a verdade: ela tem mau humor.” O Mensageiro de Allah disse: “Quando ela passava noites em claro por sua causa e o amamentava, também não tinha mau humor.” O homem disse: “Já recompensei minha mãe por todos esses atos.” O Mensageiro de Allah perguntou: “Você realmente a recompensou?” Ele respondeu: “Levei minha mãe aos ombros para realizar o Hajj.” O amado Profeta respondeu de modo decisivo: “Você pode retribuir ou recompensar o sofrimento que ela suportou quando você veio ao mundo?”

عن أبي هريرة رض قال جاء رجل إلى رسولِ اللَّهِ صَلَّى اللَّهُ عَلَيْهِ وَسَلَّمَ فقال يا رسول الله مَنْ أَحَقُّ النَّاسِ بِحُسْنِ صَحَابَتِي، قَالَ أُمُّكَ قَالَ ثُمَّ مَنْ ؟
قَالَ أُمُّكَ ! قَالَ : ثُمَّ مَنْ قَالَ : أُمِّكَ – قَالَ ثُمَّ مَنْ قَالَ أَبُوكَ –
“Abu Huraira relatou que um homem foi à presença do Mensageiro de Allah e perguntou: ‘Ó Mensageiro de Allah! Quem tem o maior direito ao meu bom tratamento?’ Ele respondeu: ‘Tua mãe.’ Ele perguntou: ‘Depois, quem?’ Ele respondeu: ‘Tua mãe.’ Ele perguntou: ‘Depois, quem?’ O nobre Profeta respondeu: ‘Tua mãe.’ Ele disse: ‘Depois, quem?’ Ele respondeu: ‘Teu pai.’”

Este hadith afirma claramente que, no que diz respeito a receber bom tratamento, serviço e obediência, a posição da mãe é superior à do pai. O Companheiro repetiu a mesma pergunta várias vezes, e o nobre Profeta continuou dando a mesma resposta: sua mãe é quem mais merece receber seu bom tratamento. Na quarta vez, disse que seu pai merecia seu bom tratamento. O eminente Ibn Battal disse algo muito belo: no serviço e no tratamento, o direito da mãe é três vezes maior que o do pai. Isso porque, em relação ao filho, a mãe realiza três tarefas que nenhum pai sequer consegue imaginar. Durante a gravidez, ela carrega o filho no ventre. Depois, suporta as dores do parto e o amamenta. O Alcorão Sagrado também chama a atenção para esses três importantes serviços e sofrimentos dela. Quanto à educação e à criação, mãe e pai são iguais. Por isso, foi ordenado e ensinado que ambos devem ser tratados com boas maneiras, reverência, serviço, obediência e humildade. A maioria dos sábios, ou a maioria dos ulemás, é unânime em afirmar que o direito da mãe é maior que o do pai. Mas isso não significa que se deva servir e obedecer sempre à mãe e não dar nenhuma atenção ao pai. No que diz respeito às boas maneiras e ao respeito, o pai tem maior direito, e de modo algum é correto romper os laços com ele. Foi ordenado que ambos sejam tratados com bondade. Contudo, na prática, deve-se lembrar que a natureza mais frágil da mãe faz com que ela mereça mais ihsan. E a exigência desse ihsan consiste em proporcionar à mãe o máximo de conforto possível. Nunca se deve negligenciar a obediência à mãe. Jamais se deve ferir seu coração cheio de amor. Assim como a mãe cuida de todos os sentimentos do filho durante sua infância, seus sentimentos nunca devem ser desrespeitados.

Cuidar dos sentimentos da mãe

Na época do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, um companheiro divorciou-se de sua esposa por causa de alguma questão e quis tirar dela o filho pequeno. A situação da mãe tornou-se aflitiva. De um lado, havia a dor da separação do marido; de outro, estavam prestes a lhe arrancar o filho, pedaço de seu coração e fonte de alívio para suas preocupações. Com o coração pesado de tristeza e aflita, ela apresentou-se perante o Mensageiro da misericórdia para os mundos, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e relatou toda a sua história dolorosa com palavras profundamente comoventes. Ela disse: “Ó Mensageiro de Allah! Meu marido divorciou-se de mim. Assim, fui privada de sua tutela. Ó Mensageiro de Allah, agora ele também quer tirar de mim este filho pequeno. Ó Mensageiro de Allah, ó Mensageiro da misericórdia para os mundos! Este é meu filho querido. Meu ventre foi seu lugar de descanso. Meu peito é seu odre para beber, e meu colo é como sua casa. Ele é a fonte do meu conforto. Ele traz água do poço para mim. Ó Mensageiro de Allah, como suportarei esta tristeza?” O amado Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Façam um sorteio.” O pai avançou e disse: “Ó Mensageiro de Allah! Este é meu filho. Quem poderia ter mais direito sobre meu filho do que eu?” O nobre Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, dirigiu-se ao menino e disse: “Este é teu pai e esta é tua mãe. Filho, segura a mão de quem quiseres.” O menino segurou a mão da mãe. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse à mãe do menino: “Vai. Enquanto não te casares novamente, ninguém poderá tirá-lo de ti.”

Observar a ordem da mãe

Durante o governo de Uthman, que Allah esteja satisfeito com ele, o preço das tâmaras havia aumentado. Certo dia, as pessoas viram Usamah ibn Zayd, que Allah esteja satisfeito com ele, cortando uma tamareira para retirar seu broto. Todos ficaram surpresos e perguntaram: “Senhor, neste mercado tão caro, o senhor está destruindo assim uma tamareira? Hoje em dia, as tamareiras são extremamente valiosas.” Ele respondeu: “Meus irmãos, o que posso dizer-vos? Minha mãe ordenou-me que lhe trouxesse o broto da tamareira. Será que a ordem da mãe pode algum dia ser desprezada?”

Demonstrar respeito à mãe

Muhammad ibn Sirin, que Allah tenha misericórdia dele, foi um célebre tabi‘i. Era considerado um imam de fiqh e hadith. Sua mãe era habitante do Hijaz. Ele prestava muita atenção ao respeito, à honra e aos desejos de sua mãe. Quando comprava roupas para ela, cuidava para que fossem macias e bonitas. Para o Eid, tingia pessoalmente as roupas de sua mãe. Demonstrava-lhe tanta devoção e reverência que jamais falava em voz alta diante dela. Falava com sua mãe como se estivesse sussurrando um segredo.

Servir a mãe

Uways al-Qarani, que Allah tenha misericórdia dele, foi um homem piedoso muito célebre. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, concedeu-lhe o título de melhor tabi‘i. Ele disse a Umar, que Allah esteja satisfeito com ele: “Entre os melhores tabi‘in há um homem da tribo de Qaran. Seu nome é Uways. Ele tem uma mãe idosa. Quando jura, cumpre seu juramento. Se puderes pedir-lhe que suplique o perdão, certamente o farás.” Uways, que Allah tenha misericórdia dele, viveu na época do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Contudo, não conseguiu encontrá-lo. Que desejo maior pode haver para um crente do que iluminar os próprios olhos contemplando o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz? Porém, por ter uma mãe idosa e não querer deixá-la sozinha, Uways, que Allah tenha misericórdia dele, não pôde apresentar-se perante o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Ele permanecia dedicado a servi-la dia e noite. Tinha grande desejo de realizar o Hajj. Entretanto, enquanto sua mãe esteve viva, não pôde deixá-la sozinha para partir e realizar o Hajj. Somente após a morte dela realizou esse desejo.

Tratar a mãe

Um homem foi até Hazrat Ibn Abbas, que Allah esteja satisfeito com ele, e disse: “Hazrat, eu havia enviado uma proposta de casamento a uma jovem em certo lugar, mas a noiva rejeitou a proposta. Quando outro homem lhe enviou uma proposta, ela a aceitou. Considerando isso uma questão humilhante e levado pela emoção, matei aquela mulher. Hazrat, diga-me: ainda há algum caminho de arrependimento para mim?” Hazrat Abdullah, que Allah esteja satisfeito com ele, perguntou-lhe: “Diga-me, sua mãe está viva?” Ele respondeu: “Hazrat, minha mãe faleceu.” Ele disse: “Vá, arrependa-se com o coração sincero e pratique ações por meio das quais possa alcançar a proximidade e a satisfação de Allah.”
Hazrat Zaid bin Aslam foi até Hazrat Abdullah e perguntou: “Por que o senhor perguntou àquele homem se a mãe dele estava viva?” Hazrat Abdullah respondeu: “Não conheço nenhuma ação maior do que tratar bem a mãe para alcançar a proximidade e a satisfação de Allah.”
Um acontecimento semelhante ocorreu ainda na época do Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Um homem foi à presença do amado Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e começou a dizer: “Ó Mensageiro de Allah, cometi um grande pecado. Ó Mensageiro de Allah, ainda há algum caminho de arrependimento aberto para mim?” O Misericordioso para os mundos, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, perguntou: “Sua mãe está viva?” O homem respondeu: “Senhor, minha mãe não está mais viva.” Então ele perguntou: “Bem, sua tia materna está viva?” Ele respondeu: “Sim, está viva.” Ele disse: “Trate bem sua tia materna.”

Por esses acontecimentos, pode-se compreender a excelência da mãe e a importância religiosa de servi-la. O Nobre Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, afirmou que, mesmo que uma pessoa cometa um grande pecado, tratar bem a mãe é um meio de escapar de sua punição e alcançar a satisfação de Allah. E é uma misericórdia suprema de Allah que, se a mãe já faleceu, a pessoa ainda possa preparar sua vida futura tratando bem a irmã dela.

Como se deve tratar a mãe de leite

عن أبي الطفيل رض قال : رأيت النبي صلى اللهُ عَلَيْهِ وَسَلَّمَ يُقْسِمُ لَحْمًا بالجعرانة إِذا أَقْبَلَتْ امْرَأَةٌ حَتَّى بنت إلى النَّبِيِّ صَلَّى اللَّهُ عَلَيْهِ وَسَلَّمَ فبسط لها رداءه فجلست عَلَيْهِ فَقُلْتُ من هي ؟ قَالُوا : هِيَ أُمُّهُ الَّتِي أرضعته (ابو داود)
“Foi narrado por Hazrat Abit Tufail, que Allah esteja satisfeito com ele, que ele disse: Vi o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, distribuindo carne em Ji’rana. Nesse momento, uma mulher chegou e aproximou-se bastante do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Ele estendeu seu próprio manto para ela, e a mulher sentou-se sobre ele. Perguntei às pessoas quem era aquela mulher. Elas responderam: ‘Ela é a mãe do Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz; foi ela quem lhe deu de mamar.’”

A mulher cujo leite uma criança bebe, sem ser sua mãe biológica, é chamada de mãe de leite. Uma mulher não se torna a mãe biológica da criança apenas por amamentá-la. Contudo, em alguns aspectos, ela adquire a mesma posição que a mãe biológica. Quanto ao casamento e ao véu, o Islã estabeleceu para a mãe de leite a mesma posição que concedeu à mãe biológica. Este acontecimento envolvendo o amado Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, também deixa claro que a mãe de leite deve ser tratada como a mãe biológica. Deve-se servi-la e demonstrar-lhe toda forma de respeito.

Como tratar pais não muçulmanos

Neste mundo, o conflito entre a verdade e a falsidade, e entre a justiça e a injustiça, continua incessantemente. Embora em menor número, é possível que os pais de um muçulmano permaneçam privados do Islã. Que tipo de tratamento se deve dispensar a eles nessa situação? Esta é uma questão importante da vida social.
A respeito da religião e da fé, o Alcorão Sagrado afirma claramente que, se os pais ordenarem o politeísmo ou o pecado, não se deve obedecê-los de modo algum. O direito de Allah é maior que o dos pais, e os próprios pais também devem cumprir o direito de Allah e obedecer-Lhe. Afinal, é inadmissível não apenas obedecer aos pais desobedecendo ao Criador e Senhor deles, mas até mesmo pensar em fazer isso.

وَإِنْ جَاهَدَكَ عَلَى أَنْ تُشْرِكَ بِي مَا لَيْسَ لَكَ بِهِ عِلْمٌ فَلَا تُطِعْهُمَا ، – لقمن : ١٥“E, se ambos te pressionarem para que associes a Mim aquilo sobre o qual não tens conhecimento, não lhes obedeças.” — Surata Luqman: 15

Não apenas no caso do shirk, mas em todas as situações em que a desobediência a Allah se torna inevitável, a obediência a eles deixa de existir. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, declarou claramente que não se pode obedecer a ninguém desobedecendo a Allah.

A mãe incrédula de Sa’d

Hazrat Sa’d ibn Abi Waqqas, que Allah esteja satisfeito com ele, era um ilustre companheiro. Aos 19 anos, havia acabado de ser agraciado com a aceitação do Islã. Sua mãe recebeu essa notícia e, assim que soube, fez um juramento: ou ele abandonaria o Islã, ou ela morreria de fome. Hazrat Sa’d, que Allah esteja satisfeito com ele, era extremamente obediente à sua mãe. Ela lhe dizia repetidamente: “Veja! Em sua religião, foi dada grande importância à obediência aos pais. Eu sou sua mãe. Ao desobedecer à sua mãe, você está agindo contra a sua própria religião. Ordeno que abandone o Islã.” O próprio Hazrat Sa’d relatou que, durante três dias, não comeu nem bebeu nada. Ficou debilitado pela fome e pela sede. Meu irmão abriu sua boca à força e o alimentou. Nesse momento, Allah Todo-Poderoso revelou este versículo:
“Se os pais vos obrigarem a associar parceiros a Allah, não lhes obedeçais.”

No que diz respeito à religião e à fé, a questão é clara. É preciso recusar resolutamente obedecer-lhes e não se deixar influenciar de modo algum pela dureza e pela pressão deles. Porém, nas questões mundanas, deve-se servi-los e tratá-los bem. Deve-se continuar tentando conduzi-los à fé por meio de um tratamento gentil.

وصاحبهما في الدنيا معروفا ، واتبع سبيل مَنْ آنَابَ إِلَى – لقمن : ١٥“E tratai-os com bondade neste mundo, e segui o caminho daqueles que retornam a Mim.” — Surata Luqman, 15

O Islã atribuiu extrema importância ao serviço e à obediência aos pais, mesmo que eles estejam imersos na sujeira da descrença e do shirk. Ainda que não queiram apenas permanecer assim, mas também obriguem os filhos a mergulhar nisso, é necessário que o filho jamais desconsidere sua honra nas questões mundanas. Afinal, eles são seus pais, o meio pelo qual veio ao mundo. Por isso, apesar de tudo, é obrigatório servi-los de todas as formas e tratá-los bem. Quando necessário, também se deve oferecer-lhes ajuda financeira, e não se deve dar a eles qualquer motivo de queixa quanto aos assuntos mundanos. Contudo, no que diz respeito à religião e à fé, deve-se seguir somente aqueles que retornam a Allah, estão no caminho do Islã e são servos virtuosos, verdadeiramente obedientes a Allah.

A orientação do Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, acerca da mãe politeísta

عَنْ أَسْمَاءَ بِنْتِ أَبِي بَكْرٍ رَض قَالَتْ : قَدِمَتْ عَلَى أُمِّي وَهِيَ مُشْرِكَةً فِي عَهْدِ رسول الله صلَّى اللهُ عَلَيْهِ وَسَلَّمَ فَاسْتَفْتَيْتُ رَسُولَ اللَّهِ صَلَّى اللهُ عَلَيْهِ
وسلم قلت : قدمت على أمي ، وهي راغبةٌ أَفَاصِلُ أُمِّي ؟ قَالَ : نَعَمُ
صلى أمك – بخاریHazrat Asma, filha de Hazrat Abu Bakr, que Allah esteja satisfeito com ambos, disse: “Durante a época abençoada do Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, minha mãe veio até mim enquanto era politeísta. Consultei o amado Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e disse: ‘Minha mãe veio até mim, embora esteja avessa ao Islã. Posso manter com ela os laços de parentesco?’ Ele respondeu: ‘Sim. Podes manter os laços de parentesco com tua mãe.’” — Bukhari

Este hadith deixa claro que se deve manter com os pais politeístas o mesmo vínculo de parentesco que se deve manter com os pais muçulmanos. No que diz respeito às questões mundanas, deve-se necessariamente zelar por sua honra, dignidade e serviço, proporcionando-lhes conforto de todas as maneiras. Contudo, como crente, é preciso ter sempre em mente que o maior desejo de bem e o melhor comportamento para com os pais consistem em empenhar-se continuamente, por meio do próprio caráter, conduta, conversa e serviço, em conduzi-los ao Islam. Deve-se suplicar a Allah por sua orientação, chorando de coração aberto. A mãe de Hazrat Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele) também estava inicialmente privada do Islam. No entanto, ele não deixou de demonstrar respeito e prestar-lhe serviço. Continuou sempre a tratá-la bem e a convidá-la para o Islam. E continuou sempre a suplicar a Allah que a guiasse. Esse acontecimento esclarece perfeitamente como alguém deve viver com os pais, caso Allah não permita que sejam não muçulmanos, como lhes demonstrar respeito, como tratá-los bem e como concretizar seus desejos de bem.

O resultado do bom tratamento para com uma mãe que rejeitava o Islam

Depois que Hazrat Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele) se tornou muçulmano, sua mãe permaneceu imersa no politeísmo durante muito tempo. Ele continuou a convidá-la para o Islam e a adverti-la sobre as consequências do politeísmo. Porém, como seu coração ainda não se abrira para aceitar a orientação, ela continuava a rejeitá-la. Apesar disso, Hazrat Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele) não diminuiu seu respeito, serviço e obediência para com ela. Certo dia, enquanto lhe apresentava o convite à religião, sua mãe comportou-se de maneira ofensiva para com o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). O coração de Hazrat Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele) encheu-se de dor e, chorando, ele foi à presença do amado Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e disse: «Ó Mensageiro de Allah! Estou sempre explicando à minha mãe os ensinamentos da religião, mas ela sempre os rejeita. Hoje, porém, a situação chegou ao extremo. Quando eu lhe apresentava o convite à religião do tawhid, ela se enfureceu, mostrou desrespeito para com o senhor e acabou insultando-o. Ó Mensageiro de Allah! Não consegui suportar isso. Meu coração ficou cheio de tristeza e lágrimas escorreram dos meus olhos. Ó Mensageiro de Allah, suplique para que Allah abra o coração de minha mãe para o Islam.» Rahmat-e Alam (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) levantou imediatamente as mãos para suplicar e disse: «Ó Allah! Guia a mãe de Abu Huraira.»

Ao ver o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) fazer a súplica, todas as minhas preocupações começaram a desaparecer, e voltei de lá alegre. Quando cheguei em casa, vi que a porta estava fechada e ouvi o som de água caindo. Ao ouvir meus passos, minha respeitável mãe disse de dentro: «Filho, espera um pouco lá fora.» Esperei do lado de fora por algum tempo. Ao ouvir o som da água, eu já havia compreendido que minha mãe estava tomando banho. Meu coração então transbordava de alegria. Minha mãe terminou rapidamente o banho, vestiu-se e abriu a porta. Tinha se apressado tanto que até se esquecera de colocar o véu; assim que abriu a porta, disse: «Meu filho Abu Huraira, Allah ouviu tuas palavras. Sê testemunha: estou pronunciando a profissão de fé: “Ashhadu al-la ilaha illallahu wa ashhadu anna Muhammadan abduhu wa rasuluhu.”» Fiquei tão feliz que lágrimas de alegria escorreram dos meus olhos. Naquele mesmo instante, com lágrimas de alegria nos olhos, fui à presença do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e disse: «Ó Mensageiro de Allah! Vim dar-lhe uma boa notícia. Allah aceitou a súplica de Seu amado Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), e minha mãe alcançou a bênção da fé.» Ao ouvir isso, ele também ficou muito feliz. Louvou Allah e deu-me alguns conselhos.

Depois disso, apresentei mais um pedido ao amado Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Disse: «Ó Mensageiro de Allah! Suplique para que Allah faça de mim e de minha mãe pessoas amadas por todos os crentes, e faça com que todos os crentes sejam amados por mim e por minha mãe.» O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) também fez essa súplica: «Ó Senhor! Coloca o amor por Abu Huraira e sua mãe nos corações de todos os crentes e cria, nos corações de ambos, amor por todos os muçulmanos.» Depois dessa súplica aceita do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), todo muçulmano que me viu ou ouviu falar de mim passou a me amar.

Desobediência aos pais

Depois do politeísmo, o maior pecado é a desobediência aos pais. É uma ofensa tão abominável que só de pensar nela o corpo estremece. A gratidão e a prática do ihsan são qualidades fundamentais por meio das quais o ser humano se torna verdadeiramente humano. Quem se priva dessas qualidades fundamentais é desprovido de humanidade. Uma pessoa assim não pode ser agradável a Allah. Não consegue cumprir os direitos de Allah, nem os direitos das pessoas. Depois de Allah, o maior ihsan é o dos pais. É por meio deles que Allah concede a vida e, à sombra de seu carinho e amor, providencia a criação e o cuidado dos filhos. Eles esquecem a própria existência para criar os filhos e sacrificam seu próprio conforto pensando no conforto e no bem-estar deles. Sem dúvida, a maior exigência da nobreza, da benevolência e da expressão de gratidão é demonstrar-lhes gratidão do fundo do coração, reconhecer sua benevolência, permanecer grato a eles por toda a vida e, esquecendo-se de si mesmo, continuar a tratá-los bem. Se alguém é grato a Allah, reconhece a benevolência de Allah e deseja obedecer-Lhe, jamais poderá desobedecer aos pais. Muito menos tornar-se desobediente, não poderá sequer ser indiferente para com eles.

Pecado abominável

عنْ أَبِي بُكْرَةَ رَضِيَ اللهُ عَنْهُ قَالَ : قَالَ رَسُولُ اللَّهِ صَلَّى اللَّهُ عَلَيْهِ وسلم : أَلا أُنَبِّئُكُمْ بِأَكْبَرِ الْكَبَائِرِ ثَلَاثًا قُلْنَا بَلَى يَا رَسُولُ اللَّهِ : قَالَ : الإشراك بِاللهِ وَعُقُوقَ الْوَالِدَيْنِ، وَكَانَ مُتَّكِنَّا فَجَلَسَ فَقَالَ : أَلَا وَقَوْلُ الزورِ ، وَشَهَادَةُ الرُّورِ ، فَمَا زَالَ يُكَبِّرُهَا حَتَّى قُلْنَا لَيْتَهُ سَكَتَ (بخاری
مسلم، ترمذی)
“Hazrat Abu Bakr, que Allah esteja satisfeito com ele, narrou que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: «Não devo advertir-vos sobre os três maiores e mais abomináveis pecados?» Todos nós dissemos: «Sim, certamente, ó Mensageiro de Allah!» Ele disse: «Associar parceiros a Allah e desobedecer aos pais.» Então, ele se levantou da posição reclinada e disse: «Ouçam atentamente: proferir palavras falsas e prestar falso testemunho.» E continuou repetindo essas palavras, até que dissemos: «Ah! Quem dera ele se calasse.»”

No hadith, ao tratar da desobediência aos pais, foi utilizada a palavra “uquq”. É uma palavra de significado extremamente abrangente. No Alcorão Sagrado, chama-se uquq à oposição a tudo aquilo que foi enfatizado ao recomendar o ihsan para com os pais. Demonstrar independência em relação aos pais, tratá-los com dureza, não dar importância às suas instruções, causar-lhes tristeza e desobedecer-lhes: tudo isso está incluído no significado de “uquq”.

Em segundo lugar, a maneira de exposição do amado Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, também merece reflexão. Esse tipo de descrição é muito natural e eficaz para demonstrar a importância do assunto e tocar profundamente o coração. Quando existe o sentimento de obediência, ele desperta no coração do ouvinte tal repulsa contra esse tipo abominável de pecado que, só de pensar nele, sente-se náusea, e só de imaginá-lo o corpo estremece.
No hadith, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, fez primeiro uma pergunta aos Companheiros, que Allah esteja satisfeito com eles. O objetivo da pergunta não era que os Companheiros, que Allah esteja satisfeito com eles, respondessem. Pelo contrário, ele queria dizer que viera para mostrar o caminho da salvação e que, por isso, necessariamente tinha de falar sobre aquilo. Ele disse: “Não devo advertir-vos sobre os três pecados mais abomináveis?” Assim, não fez a pergunta apenas uma vez e revelou imediatamente o assunto principal; em vez disso, chamou a atenção dos Companheiros, que Allah esteja satisfeito com eles, três vezes, dizendo: “Não devo advertir-vos sobre os três maiores pecados?”
Esse método de exposição indica claramente que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, considerava esses pecados destrutivos para as pessoas e desejava também que o ouvinte compreendesse esse significado com os ouvidos do coração. Depois de adverti-los continuamente por três vezes, quando os Companheiros, que Allah esteja satisfeito com eles, ficaram ansiosos para ouvir, ele disse: “Associar alguém a Allah e desobedecer aos pais.” Então, a preocupação com esse pecado abominável também deixou o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, agitado. Ele estava sentado apoiado. Tomado pela emoção e pela preocupação, sentou-se ereto e exclamou: “Ó pessoas! Ouçam atentamente com os vossos ouvidos: proferir palavras falsas e prestar falso testemunho.” Depois, ficou ainda mais preocupado e continuou repetindo essas palavras uma após outra. Ao presenciarem seu estado, os Companheiros, que Allah esteja satisfeito com eles, ficaram aflitos e começaram a desejar: “Ah! Quem dera o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, se calasse!”

A terceira questão importante é que o amado Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, advertiu a ummah contra três grandes pecados. Entre esses pecados, mencionou a desobediência aos pais depois do shirk. Essa mesma ordem também é encontrada no Alcorão Sagrado: “Dize: vinde, recitarei o que o vosso Senhor vos proibiu: não associareis nada a Allah e tratareis os pais com bondade.” Negar os direitos de Allah é shirk, e negligenciar os direitos dos pais é desobediência. Reflitam: o maior direito é o do Allah Criador. Negar a unicidade de Allah e associar alguém a Ele é o maior pecado. É um pecado tão abominável que não tem perdão. No Alcorão Sagrado foi dito: “Na verdade, Allah não perdoará o pecado do shirk.” Depois do direito de Allah, os maiores direitos são os dos pais; e, depois da ingratidão e da desobediência para com Allah, o maior pecado é ser ingrato e desobediente para com os pais. Isso porque, depois de mencionar os Seus próprios direitos, Allah mencionou os direitos deles e ordenou que se Lhe agradecesse juntamente com o agradecimento aos pais. Ou seja: “Sê agradecido a Mim e aos teus próprios pais.” Talvez algumas narrações não tenham sido transmitidas dessa forma por não apresentarem essa ordem. Contudo, em todas as passagens do Alcorão Sagrado e também nos hadiths, essa ordem é mencionada assim.

A carta do Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, aos habitantes do Iêmen

O Mensageiro de Allah, Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, enviou aos habitantes do Iêmen uma memorável carta pelas mãos de Hazrat Amr ibn Hazm, que Allah esteja satisfeito com ele. Nela, também os advertiu, dizendo: “Sabei que, perante Allah, no Dia da Ressurreição, os maiores pecados serão: (1) associar parceiros a Allah; (2) matar injustamente um crente; (3) fugir do combate pela causa de Allah; (4) desobedecer aos pais; (5) acusar mulheres castas e honradas de adultério; (6) aprender magia; (7) consumir juros; e (8) consumir os bens do órfão.”

O testamento do Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz

Hazrat Muaz ibn Jabal, que Allah esteja satisfeito com ele, era um Companheiro de elevadíssima posição. Hazrat Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, costumava dizer: “Se Muaz não existisse, eu certamente estaria perdido.” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, deu-lhe muitos conselhos. Certa vez, ele disse: “O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, recomendou-me: ‘Jamais associes alguém a Allah, ainda que te matem e te queimem com fogo; e jamais desobedeças aos pais, mesmo que eles te ordenem que te afastes dos teus bens e da tua família.’”

Fazer os pais chorarem

Hazrat Abdullah ibn Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, era um Companheiro de elevadíssima posição. Era um grande sábio, devoto e asceta. Em todos os aspectos, seguia rigorosamente a Sunna. Durante sessenta anos, emitiu fatwas. Ele disse que fazer os pais chorarem significa desobedecer-lhes, e que esse é um pecado extremamente grave.

Insultar os pais

عَنْ عَبْدِ اللَّهِ بْنِ عَمْرِ بنِ الْعَاصِ رَضِيَ اللَّهُ عَنْهُمَا أَنَّ رَسُولَ اللَّهِ صَلَّى اللهُ عَلَيْهِ وَسَلَّمَ قَالَ : مِنَ
الكَبَائِرِ شَتُمُ الرَّجُلِ وَالدَيْهِ قَالُوا : يَا رَسُولَ
الله ! وَهَلْ يَسْتمُ الرَّجُلُ وَالدَيْهِ ؟ قَالَ نَعَمْ يَسُبُّ أَبَا الرَّجُلِ فَيَسُبُّ أَبَاهُ يسب أمه فيسب أمه – بخاری، مسلم، ترمذی وغيرهHazrat Abdullah ibn Amr, que Allah esteja satisfeito com ele, narrou que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Insultar os próprios pais está entre os grandes pecados.” As pessoas, admiradas, perguntaram: “Ó Mensageiro de Allah! Alguém chega a insultar os próprios pais?” Ele, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, respondeu: “Sim. Uma pessoa insulta os pais de outra, e esta, em retribuição, insulta os seus pais. Ela fala da mãe de outra pessoa de maneira ofensiva, e esta insulta a sua mãe.”

Aprendemos deste hadith que é obrigatório zelar pela honra e dignidade dos pais. Devemos tomar providências para que eles não sofram qualquer tipo de dano. Mais do que isso, não se deve fazer qualquer comentário sobre os pais de outra pessoa que possa provocá-la a insultar os seus pais.

Amaldiçoar

“Hazrat Abu Tufayl disse: perguntaram a Hazrat Ali, que Allah esteja satisfeito com ele, se o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, lhe havia dito alguma coisa que não tivesse dito a mais ninguém. Ele respondeu: ‘O Mensageiro de Allah não me disse nada que não tivesse dito a outra pessoa. Sim, há uma mensagem escrita na bainha da minha espada.’ Então ele retirou a mensagem da bainha da espada. Nela estava escrito: ‘Que a maldição de Allah recaia sobre aquele que sacrifica em nome de outro que não Allah; que a maldição de Allah recaia sobre aquele que altera os limites da terra; que a maldição de Allah recaia sobre aquele que amaldiçoa os próprios pais; e que a maldição de Allah recaia sobre aquele que introduz alguma novidade na religião.’” Amaldiçoar e insultar os pais é uma das ações mais repugnantes que se pode imaginar; contudo, diversos acontecimentos desse tipo ocorrem neste mundo. Por causa da ira, do desejo de vingança, da ignorância e da insensatez, muitas vezes as pessoas cometem atos que, em condições normais, seriam difíceis até de imaginar.
Os pais também são seres humanos. Eles não estão livres das fraquezas humanas. Também existem neles ódio, amor, ira, desejo de vingança e outras fraquezas. Devido às fraquezas humanas, às vezes eles também podem dizer algo ou agir de uma maneira que não se esperaria deles. Não se deve reagir a isso com exaltação. Não se pode fechar os olhos aos direitos que eles possuem. Os pais são duas personalidades que dedicam toda a sua vida à criação dos filhos e ao seu conforto. Independentemente do tipo de comportamento que tenham, não é apropriado dizer nada contra eles. Tampouco se deve insultá-los e esquecer todos os seus atos de bondade.

Sem dúvida, os próprios pais podem, às vezes, empurrar os filhos para o caminho da desobediência e da rebelião por negligenciarem os direitos dos filhos e por meio de comportamentos inadequados. Isso ocorre especialmente quando o pai se casa novamente e os filhos precisam viver com uma madrasta. Surgem então diversos acontecimentos dolorosos. Em geral, a madrasta tenta de várias maneiras incitar o pai contra os filhos, e seu desejo sincero passa a ser que o pai se volte contra eles. Normalmente, o pai também, para agradar um pouco à nova esposa e por ela insistir repetidamente, começa a tratar os próprios filhos como se fossem enteados. Da mesma forma, se a mãe se casar novamente e os filhos ficarem sob a autoridade do padrasto, geralmente o padrasto não tolera de modo algum que se trate bem os filhos do casamento anterior; mesmo quando não chega a esse ponto, pelo menos deseja amar os próprios filhos mais do que os filhos anteriores. A mãe, para agradar um pouco ao marido e, em grande medida, por se deixar levar pela vontade dele, também pode tratá-los mal. Contudo, isso certamente não é algo que se possa esperar de uma personalidade como a de uma mãe. Do ponto de vista da justiça, nessa situação os pais são considerados, ainda que minimamente, culpados. Em circunstâncias assim, a família e a sociedade têm responsabilidades. Devem conter esse tipo de pai e mãe, lembrá-los de suas responsabilidades e deveres e, por meio da pressão social, obrigá-los a tratar os filhos como filhos. Porém, por causa do vínculo familiar, os filhos devem manter a paciência em todas as circunstâncias. Devem zelar atentamente pela honra e dignidade dos pais e não deixar sair da boca nenhuma palavra que contrarie a honra da mãe. Em todas as circunstâncias, é dever dos filhos demonstrar, tanto quanto possível, gratidão, obediência e bom comportamento. Um certo poeta disse muito belamente:
“Obedece a toda ordem que teu pai der; sabe com certeza que aquele que obedece ao pai jamais é humilhado.”

O castigo pela desobediência é recebido ainda neste mundo

عن أَبِي بَكْرَةَ رَض عَنِ النَّبِيِّ صَلَّى اللهُ عَلَيْهِ وَسَلَّمَ قَالَ : كُلُّ الذُّنُوبِ يُؤَخِّرُ اللَّهُ مِنْهَا مَا شَاءَ إِلَى يَوْمِ الْقِيَامَةِ إِلَّا عُقُوقُ الْوَالِدَيْنِ فَإِنَّ اللَّهَ يعجلة بصاحبه في الحيوة قَبْلَ الْمَمَاتِ – رواه الحاكم
“Hazrat Abu Bakra, que Allah esteja satisfeito com ele, narrou que o amado Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: Allah adia até o Dia da Ressurreição o castigo dos pecados que deseja. Porém, o castigo pela desobediência aos pais é aplicado rapidamente, ainda durante a vida, antes da morte.” — Narrado por al-Hakim

O significado é que Allah, o Altíssimo, adia até o Dia da Ressurreição a aplicação do castigo pelos outros pecados, e essa pessoa fica protegida de seu castigo neste mundo. Mas a desobediência aos pais é um pecado cujo castigo se sofre ainda neste mundo, e o castigo da Outra Vida certamente também existe.

As boas ações do desobediente são infrutíferas

Foi narrado por Hazrat Thawban, que Allah esteja satisfeito com ele, que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: Há três pecados cujas boas ações não têm efeito junto deles. Primeiro, o politeísmo; segundo, a desobediência aos pais; e terceiro, fugir do jihad.
Outro companheiro, Amr ibn Murrah, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: Um homem foi até o amado Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e começou a dizer: “Testemunho que Allah é Único, que não há divindade além d’Ele e que você é o Mensageiro de Allah. Faço as cinco orações diárias, pago o zakat de meus bens e jejuo no Ramadã.” Ao ouvir isso, o nobre Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Aquele que concluiu essas palavras estará, no Dia da Ressurreição, junto com os profetas, os veracíssimos e os mártires” — e levantou dois dedos da mão —, “com a condição de que não seja desobediente nem rebelde contra seus pais.”

A desobediência à mãe

وَعَنْ أَبِي عِيسَى الْمُغِيرَةِ بْنِ شُعْبَةَ رَضِيَ اللَّهُ عَنْهُ عَنِ النَّبِيِّ صَلَّى اللَّهُ عَلَيْهِ وَسَلَّمَ قَالَ : إِنَّ اللهَ تَعَالَى حَرَّمَ عَلَيْكُمْ عُقُوقَ الْأُمَّهَاتِ، وَمَنْعًا وَهُتِ، وَدَاد البنات وكره لكم قيل وقال، وكثرة السؤال، وإضاعَةَ الْمَال – متفق عليه
“Hazrat Abu Isa al-Mughirah ibn Shu’bah, que Allah esteja satisfeito com ele, narrou que o Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: Sabei que Allah proibiu-vos a desobediência às mães, a avareza, a cobiça e enterrar vivas as meninas; e desaprovou em vós as conversas fúteis, fazer perguntas excessivas e desperdiçar a riqueza.” — Bukhari e Muslim

Este hadith foi empregado com um significado muito abrangente. O nobre Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, apontou, por meio de breves palavras, para um vasto tema de orientação. Todo crente, homem ou mulher, deve recordar orientações tão abrangentes para seu próprio aperfeiçoamento e purificação, e mantê-las sempre em mente. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, transmitiu seis orientações especiais nessas poucas palavras. Três coisas Allah proibiu para nós, e envolver-se nas outras três também é algo que Allah desaprova. Nenhuma pessoa verdadeiramente crente pode sequer imaginar praticar as três coisas que Allah, o Altíssimo, proibiu claramente. Restam as outras três questões, que Allah desaprovou. Elas também não devem ser encaradas levianamente.
As três coisas que Allah proibiu são: a desobediência à mãe, a avareza e a cobiça, e enterrar vivas as meninas.

Primeiro: neste hadith, ao enfatizar especialmente o afastamento da desobediência à mãe, indica-se que a pessoa se ocupa mais em servir a mãe do que o pai e que se deve ter mais cuidado no trato com a mãe do que com o pai. Do mesmo modo, é necessário prestar mais atenção e ser mais sensível para não desobedecer à mãe. Os sentimentos da mãe são delicados. Elas são extremamente frágeis. Seu coração pode ser ferido por uma palavra insignificante. Pode acontecer que, por descuido, alguém considere algo levianamente, embora isso magoe o coração da mãe. Seu coração fica ferido. A orientação do Mensageiro — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — significa manter plenamente em consideração os sentimentos e as emoções da mãe, seus hábitos, temperamento, preferências e aversões, e cuidar para que sequer surja no coração a intenção de entristecê-la, desobedecer-lhe ou despedaçar seu coração. A mãe é aquela personalidade cujo serviço é recompensado com o jardim da eterna primavera do Paraíso, e a recompensa por sua satisfação é a morada da satisfação de Allah. Se alguém deseja a morada da satisfação de Allah, o Paraíso, deve dedicar-se inteiramente ao serviço e à obediência da mãe.

Segundo: no hadith foram usadas duas palavras: a primeira, “man‘yan”, e a segunda, “hā-ti”. A palavra “man‘yan” significa que a pessoa hesita em entregar os bens e direitos devidos aos outros. Ela cria obstáculos de várias maneiras para não cumprir essas obrigações. Não se dispõe a oferecer ajuda financeira ou moral a ninguém. A palavra “hā-ti” significa: “toma”. Ou seja, estar sempre pronta para receber dos outros. Não se trata apenas de exigir os próprios direitos dos outros, mas também de empenhar-se em encher a própria sacola, sem considerar se algo é devido ou indevido. Essa mentalidade de avareza e ganância jamais pode condizer com o temperamento de um crente ou de uma crente. Seus critérios para dar e receber são iguais. Os direitos que exige dos outros e o tratamento que espera deles, ela mesma oferece aos outros e cumpre todos os seus direitos com grande generosidade. Na verdade, demonstra tanta liberalidade e amplitude de coração nesse aspecto que, mesmo quando alguém deixa de cumprir seus direitos ou a trata mal, ainda assim ela o trata com benevolência e bondade.

Terceiro: enterrar as filhas vivas. Na Arábia pré-islâmica existia o costume cruel de enterrar as filhas vivas. Havia ainda dois outros métodos de matar os filhos. Muitos politeístas, tomados pelo medo dos ídolos e desejando agradá-los, matavam os próprios filhos. Muitos ignorantes e tolos, dominados pela ideia imaginária de pobreza e necessidade, matavam seus filhos queridos. Contudo, o hadith menciona especificamente as filhas porque esse costume era extremamente cruel. Só de imaginar tamanha injustiça e crueldade, os pelos do corpo se arrepiam. Com a chegada do Islam, essa mentalidade opressora mudou. As meninas foram salvas dessa humilhação e injustiça, e em todos os lares passou-se a tratá-las com carinho e amor.
Atualmente, embora nossa sociedade, graças ao Islam, esteja livre da maldição de enterrar as filhas vivas, em muitos lares, por falta de vínculo com a religião e por ignorância dos ensinamentos islâmicos, o amor demonstrado aos meninos não é demonstrado às meninas. Quando nasce uma filha, não se manifesta a mesma alegria que se manifesta quando nasce um filho. Muitos ignorantes privam as filhas do amor e do carinho que demonstram aos filhos. Especialmente depois que se casam, é como se elas se tornassem estranhas. Esses opressores nem sequer estão dispostos a conceder-lhes a parte que o Islam lhes determinou. Essa mentalidade corrompida não tem qualquer relação com o Islam.

Depois, o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — mencionou três coisas que Allah não aprova para nós.
Primeiro: falar inutilmente.
Segundo: fazer perguntas em excesso.
Terceiro: desperdiçar bens.
Falar inutilmente significa não sentir nenhuma responsabilidade pelo próprio falar. Dizer tudo o que vem à mente. Repetir aos outros tudo o que se ouve. Falar incessantemente sem ponderar as palavras e sem refletir se elas correspondem ou não à realidade. “Tal mulher disse isto”, “tal senhora pensa assim”, “tal mulher tinha esta opinião” — e coisas desse tipo, conversas sem proveito. Há um conhecido provérbio: “Quem fala muito erra muito.” O amado Profeta — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — disse: “Quem crê em Allah e no Último Dia deve falar o bem; caso contrário, deve permanecer em silêncio.” — Muslim

Fazer perguntas excessivas. Há pessoas que, assim que se reúnem em algum lugar, importunam umas às outras com pergunta após pergunta. Em especial, há mulheres que, tão logo se reúnem, fazem inúmeras perguntas sobre a família. “Minha irmã, o que aconteceu com sua cunhada? Por que você e sua sogra brigaram? O que aconteceu com seu cunhado? Seu marido ama as crianças, não é? Você manda alguma coisa para a casa dos vizinhos? De onde veio o pedido de casamento para sua filha?” Elas ficam extremamente ansiosas para saber tudo: os assuntos internos da família, os acontecimentos externos, os negócios — em suma, qualquer coisa. Não se pode esconder nada delas. Para responder a essas perguntas indesejadas, às vezes é preciso dar uma informação incorreta. Muitas vezes, ao evitar o assunto, acaba-se sofrendo seu descontentamento. Há muitas coisas que não podem ser contadas aos outros, especialmente assuntos de família. Mas essa classe particular de mulheres insiste, de qualquer maneira, em tentar arrancar as informações. Se nada lhes é dito, comentam: “Parece que ela é muito orgulhosa.” Se alguém lhes conta algo, elas o divulgam imediatamente a outras pessoas. Andam expressando suas opiniões em toda parte. Do mesmo modo, tornam-se desesperadas para narrar a situação dos outros. A verdade é que esse tipo de mulher, por negligência e ignorância acerca do valor da vida, comete crimes sociais que desnecessariamente destroem a paz da sociedade, a união das famílias e a tranquilidade do lar. Levar conversas de um lado para outro sem motivo provoca na sociedade vários mal-entendidos e numerosas complicações.
Da mesma forma, algumas pessoas criam complicações desnecessárias também em questões religiosas. Sua ocupação é fazer perguntas novas e novas. Assim, exibem a suposta fertilidade de sua mente. Geralmente ficam para trás no campo das boas ações. Porém, para demonstrar seu conhecimento e capacidade, apresentam-se como oniscientes e são grandes especialistas em fazer perguntas extremamente minuciosas e extrair treze questões de uma só. A tarefa dos homens e mulheres crentes é reconhecer o valor da própria vida, empregá-la em boas obras, refletir a cada momento sobre aquilo que agrada a Allah e esforçar-se para abster-se de perguntas inúteis. O nobre Profeta — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — disse: “A beleza do Islam de uma pessoa consiste em abandonar aquilo que não lhe diz respeito.” — Tirmidhi

Desperdiçar bens significa não tomar as medidas adequadas para conservá-los. Não gastá-los nas necessidades da religião. Gastá-los, por desejo de ostentação e fama, em costumes inúteis, atos vergonhosos e práticas contrárias à religião. Os bens são uma confiança de Allah. Devem ser gastos de acordo com a vontade de Allah. Os adornos e utensílios da casa, pratos e vasilhas, camas, móveis, relógios, canetas, livros, papel — em suma, todas as coisas são dádivas de Allah e, ao mesmo tempo, depósitos confiados por Ele. Tudo deve ser usado e conservado adequadamente. Não se pode destruí-lo por negligência. Allah também não aprova que Suas dádivas e depósitos sejam desperdiçados sem que se reconheça seu valor.

A maldição da mãe

A satisfação da mãe e a súplica de seu coração cheio de ternura são a maior felicidade da religião e deste mundo. Em contrapartida, a mais terrível humilhação da religião e deste mundo é a maldição lançada pelo coração angustiado da mãe contra o filho.
O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Há três súplicas que certamente são aceitas.
Primeira: a súplica do oprimido.
Segunda: a súplica do viajante; e
terceira: a súplica dos pais em favor do filho.”
Nos primeiros tempos, havia um venerável homem chamado Jarij. Hazrat Jarij, que Allah tenha misericórdia dele, era um homem virtuoso e dedicado à adoração. Passava sempre seu tempo em adoração em sua própria khanqah, distante da cidade. Um pastor passava o dia pastoreando cabras e dormia à noite em sua khanqah.
Certo dia, a mãe de Hazrat Jarij, que Allah tenha misericórdia dele, veio visitá-lo. Hazrat Jarij, que Allah tenha misericórdia dele, estava rezando. Sua mãe chamou-o, dizendo: “Jarij!” Ele considerou melhor permanecer em silêncio e continuar a oração. No segundo dia, aconteceu o mesmo. A mãe veio e começou a chamá-lo. Pensando da mesma maneira, ele permaneceu em silêncio, continuou a oração e não respondeu ao chamado da mãe. No terceiro dia, a mãe foi novamente até o filho e começou a chamá-lo. Pensando: “Como posso responder durante a oração?”, ele permaneceu em silêncio. Ao ver isso, a mãe ficou muito triste e, tomada pela ira, lançou uma maldição. Suplicou a Allah, dizendo: “Ó Allah! Que Jarij não morra até cair nas mãos de mulheres más.”

Dizendo isso, a mãe partiu dali desesperançada. Poucos dias depois, certo dia, o povo dos Filhos de Israel conversava sobre as boas ações e a devoção de Hazrat Jarij. Nesse momento, uma mulher de beleza indescritível exclamou: “Se vocês quiserem, eu o farei cair no pecado.” Depois, a mulher foi à khanqah de Hazrat Jarij e começou a convidá-lo para uma conduta pecaminosa. Allah, o Todo-Poderoso, fez descer Sua misericórdia sobre Hazrat Jarij, e ele foi completamente salvo da conspiração daquela mulher perversa. Desesperada por não conseguir nada com ele, a mulher foi até o pastor que estava hospedado na khanqah de Hazrat Jarij. O pastor caiu vítima da conspiração e acabou manchando sua própria reputação. Então, quando a mulher teve um filho, espalhou que ele era filho de Jarij. Quando essa notícia chegou ao rei, ele ordenou que a khanqah fosse demolida e que Jarij fosse levado à sua presença.
As pessoas chegaram à khanqah de Hazrat Jarij, demoliram-na e espancaram-no impiedosamente. Depois, amarraram-lhe os braços atrás das costas e levaram-no ao rei. Enquanto era conduzido nessa condição, algumas mulheres perversas que o viram na estrada começaram a rir. Ao vê-las rindo, Hazrat Jarij também sorriu discretamente.
O rei disse a Hazrat Jarij: “O que diz esta mulher?” Ele respondeu: “Diga-me o que ela diz.” O rei disse: “Ela diz que a criança é de Jarij.” Jarij, que Allah tenha misericórdia dele, disse: “Que tragam a criança.” Quando a criança foi trazida, ele disse: “Deixem-me rezar.” Ele rezou. Quando terminou a oração, tocou a barriga da criança com o dedo e disse: “Diga: quem é seu pai?” Pela ordem de Allah, a língua da criança se soltou, e ela disse: “Aquele pastor é meu pai.” Então as pessoas começaram a beijar as mãos e os pés de Hazrat Jarij e a pedir-lhe perdão. O rei também ficou profundamente impressionado e disse a Hazrat Jarij: “Senhor, quer que eu construa sua khanqah em ouro?” Ele respondeu: “Não. Mas reconstrua-a exatamente como era, de barro.”
O rei disse: “Está bem, senhor. Pode responder a uma pergunta? Quando algumas mulheres perversas riam zombeteiramente de você na estrada, por que você sorria discretamente?” Ele respondeu: “É um segredo que somente eu conheço. Tudo o que aconteceu foi o resultado da maldição de minha mãe. A maldição de minha mãe recaiu sobre mim.” E contou em detalhes toda a história da maldição de sua mãe.

O castigo instrutivo pela desobediência à mãe

Na época do Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, ocorreu um acontecimento assustador. Ao ouvir esse acontecimento, o coração parece sair pela boca. Alguns Companheiros, que Allah esteja satisfeito com eles, estavam na presença do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Nesse momento, um homem chegou dizendo: “Ó Mensageiro de Allah! Um jovem está em estado terminal. As pessoas estão aconselhando-o a recitar a profissão de fé, mas sua boca não se abre.” O Nobre Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, perguntou: “Esse homem costumava rezar?” O homem respondeu: “Sim, rezava.” Ao ouvir isso, o Nobre Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, levantou-se e foi com ele. Nós também o seguimos. O amado Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, chegou até o jovem. Ele estava em seus momentos finais, antes da morte. O Profeta instruiu-o a recitar a profissão de fé. Ele disse: “Ó Mensageiro de Allah, não consigo recitá-la.” O Profeta perguntou: “Por quê? O que aconteceu?” Descobriu-se que ele desobedecia à mãe. O Profeta perguntou às pessoas se a mãe dele ainda estava viva. Todos responderam: “Sim, está viva.” O amado Profeta ordenou que chamassem sua mãe. Quando sua mãe idosa chegou, disse-lhe: “Boa senhora, este é seu filho?” Ela respondeu: “Sim, é meu filho.” Ele disse: “Boa senhora, diga-me: se um fogo terrível fosse aceso e lhe dissessem que, se você intercedesse, ele seria salvo, mas, caso contrário, seria lançado nele, você intercederia nessa situação?” A idosa respondeu: “Sim. Nessa ocasião, eu certamente intercederia.” Ao ouvir isso, o Profeta da misericórdia, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Então, tomando Allah e a mim como testemunhas, diga que está satisfeita com ele.” A idosa disse: “Ó Allah! Tomando a Ti e ao Teu Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, como testemunhas, declaro que estou satisfeita com este pedaço do meu coração.”

Então o Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, voltou o olhar para o jovem e disse: “Diga: ‘La ilaha illallahu wahdahu la sharika lahu wa ashhadu anna Muhammadan abduhu wa rasuluhu.’” Pela bênção da satisfação da mãe, a boca do jovem se abriu, e ele imediatamente recitou a profissão de fé. Ao ver isso, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, louvou Allah e disse: “Louvado seja Allah, que, por meu intermédio, salvou este jovem do terrível castigo do Inferno.” — Tabrani, Ahmad

Os benefícios de tratar bem os pais, em resumo

Primeiro: Entre as bênçãos de Allah, a maior bênção são os pais. Depois de Allah, os pais têm a maior contribuição no nascimento e na criação da pessoa. Se você reconhecer a bondade que lhes deve, terá reconhecido a bondade de Allah. E, se for grato a eles, será grato a Allah.

Segundo: Mantenha seus pais satisfeitos — então Allah ficará satisfeito com você. Se eles ficarem descontentes com você por causa de alguma negligência ou desobediência sua, Allah ficará descontento com você. A satisfação dos pais traz a satisfação de Allah; a insatisfação dos pais traz a insatisfação de Allah.

Três: Tratar bem os pais e servi-los equivale a fazer jihad; na verdade, em algumas ocasiões, é uma obra ainda maior do que isso. Se você permanecer dedicado a servi-los, assim como os mujahidin, também será contado entre aqueles que estabelecem a religião. Aos olhos de Allah, você também terá uma posição equivalente à daqueles que participam da jihad no campo de batalha.

Quatro: A satisfação dos pais é a chave do Paraíso. Enquanto você continuar fazendo aquilo que agrada aos seus pais, alcançará a satisfação de Allah.

Cinco: Àquele a quem Allah, o Altíssimo, concedeu a oportunidade de servir os pais, Ele, na realidade, concedeu a oportunidade de trilhar o caminho do Paraíso. Quem aproveitar essa oportunidade, Allah lhe concederá o Paraíso. E quem não aceitar essa oportunidade estará perdido.

Seis: Circundar a Casa de Allah, realizar o Hajj e a Umrah são atos importantes de adoração. Se alguém continuar servindo os pais, Allah lhe concederá uma recompensa equivalente à de quem realiza o Hajj e a Umrah.

Sete: Se você tratar seus pais com respeito e honra, seus filhos também o respeitarão. Se você fizer o bem aos seus pais, Allah, o Altíssimo, ensinará essa mesma lição aos seus filhos.

Oito: Ao servir os pais, a pessoa se livra de todas as aflições e preocupações.

Nove: Nunca se afastem da obediência aos pais, do respeito e da honra para com eles. Com isso, haverá bênção na vida e os caminhos do sustento e dos ganhos serão ampliados.

Os direitos dos filhos

A dignidade dos filhos
Criação e educação
Bom comportamento
Dar um bom nome
Carinho e amor
Educação e treinamento
Casamento

O desejo de ter filhos

Quem não deseja ter filhos? Não há lar onde não exista o desejo de ter filhos. O fato é que, com a presença dos filhos, chegam as bênçãos ao lar, e são eles que aumentam a beleza da casa. É um lar desprovido de esplendor e beleza aquele em que não se ouvem as vozes alegres de crianças inocentes. Especialmente as mulheres consideram assustador o lar onde não há o balbucio das crianças. Elas passam cada momento da vida na esperança de um filho. No mundo da imaginação, permanecem à espera de quando iluminarão o colo com a chegada auspiciosa de uma criança. Ficam ansiosas pelo momento em que a criança as chamará de “mamãe, mamãe”. Ocupam-se em contemplar as alegrias e felicidades das diferentes etapas da vida da criança. Contam os dias por causa dessa felicidade e, graças à alegria espiritual, sentem bem-estar interior. Às vezes, no mundo da imaginação, pensam no belo futuro, repleto de êxitos extraordinários e de alegrias primaveris, de seu filho amado e descobrem em si a existência de uma personalidade digna. Depois, tomadas pela gratidão, inclinam a cabeça diante de Allah. Pensam no quanto Allah lhes concedeu de grande favor, apesar de sua existência frágil, e em como sua existência foi considerada tão preciosa e necessária para a sociedade humana. Allah criou a natureza das mulheres de tal modo que elas consideram a própria vida dedicada aos filhos e, ao sacrificá-la por eles, sentem imensa paz e felicidade. Durante muito tempo, contando os dias um a um, mantêm o pedaço de seu coração como parte de seu corpo e de sua mente; então, quando Allah, por Sua graça, enche seu colo com uma criança, ela olha para o recém-nascido com ternura. Nesse momento, apaga de sua mente todas as imagens das dores e sofrimentos que suportou até o nascimento da criança. Depois começa a segunda etapa. Essa é a etapa de fazer sacrifícios para criar e educar a criança. Na realidade, Allah lhe confiou a grandiosa responsabilidade de servi-la. Por isso, Allah generosamente concedeu às mulheres emoções extraordinárias, coragem e paciência incomparáveis para suportar dores e sofrimentos, além de elevadas qualidades morais para criar e educar os filhos. As mulheres não suportam todas essas dores e sofrimentos apenas por necessidade; ao contrário, de acordo com a exigência natural, sentem alegria e orgulho em suportá-los. Possuem uma coragem incomparável para enfrentar repetidamente a morte a fim de dar à luz. Ao sacrificar seus desejos, prazeres, beleza e juventude pela criação e cuidado dos filhos, sentem profunda paz e felicidade.

A singularidade das mulheres muçulmanas

Se a maneira de pensar das mulheres for islâmica, elas consideram que, em cada etapa de suportar dores e sofrimentos, estão empenhadas no jihad pelo caminho de Allah. Acima de tudo, consideram que estão ocupadas na adoração. O Islam cria no coração de cada mulher a convicção de que o trabalho físico e natural das mulheres, sua recompensa e seus benefícios não estão limitados apenas a este mundo, e que cada ato de sofrimento, sacrifício e dedicação delas equivale, aos olhos de Allah, à adoração e ao jihad. Toda mulher que suporta essas adversidades e se sacrifica pelos filhos está, na realidade, empenhada no jihad e ocupada na adoração de Allah. Esse jihad e essa adoração também têm benefícios mundanos. Porém, o olhar das mulheres muçulmanas permanece voltado também para as bênçãos eternas, que serão obtidas na vida futura. A singularidade da mulher muçulmana é que, ao suportar diversos sofrimentos pelos filhos e sacrificar seus desejos, emoções, beleza e juventude, ela não obtém em troca apenas benefícios mundanos — esse ganho mundano às vezes ocorre e às vezes não —, mas também alcançará a satisfação de Allah e o Paraíso na vida eterna da outra vida. E que Paraíso será esse: nele, todos os seus desejos serão realizados. Serão fornecidos os meios para satisfazer cada emoção, e ela receberá uma beleza e uma juventude que jamais se deteriorarão. Essa beleza e juventude estarão livres do temor da velhice.
Um aspecto excelente da concepção islâmica é que, mesmo que a mulher muçulmana, após cumprir devidamente suas responsabilidades, seja infelizmente privada do bem-estar mundano, ainda assim não se desespera nem hesita em cumprir seu dever. Ela continua a cumprir sua responsabilidade com o coração muito alegre, em paz e com sincera emoção. Mesmo depois de suportar todo tipo de sofrimento e fazer sacrifícios pelos filhos, se não receber deles nenhuma felicidade e eles chegarem a despedaçar completamente suas esperanças, aspirações e sonhos, ela ainda assim não se torna vítima do desespero nem se envergonha de seu trabalho. Também não alimenta pensamentos equivocados sobre o futuro por causa disso. Pois sabe que o verdadeiro e autêntico sucesso da mulher crente é o sucesso na outra vida. Ao pensar nisso, sempre encontra consolo no fato de que Allah lhe dará, na vida futura, a recompensa por suas ações. E essa recompensa será tão grande que não haverá qualquer questão de arrependimento. Tampouco haverá o temor de que a recompensa recebida ali lhe seja tomada. Por isso, durante toda a vida, permanece ativa, considerando todas essas ações como adoração e jihad pelo caminho de Allah.
O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse:

المرأةُ إِذَا حَمِلَتْ كَانَ لَهَا أَجْرُ الصَّائِمِ الْقَائِمِ الْمُخْبِتِ الْمُجَاهِدِ فِي سبيل الله وَإِذا ضربها الطلق فَلا تَدرِى الْخَلَائِقُ مَا لَهَا مِنَ الْأَجْرِ وَإِذَا وضعت كَانَ لَها بِكُلِّ مَضَةٍ أو رضعة أجرُ نَفْسٍ تُحْيِيهَا وَإِذَا أَفْطَمَت ضَرَبَ الْمَلِكِ عَلَى مَنْكَبِهَا وَقَالَ اسْتَائِفِي الْحَمَلَ – كنز العمال“Quando uma mulher engravida, recebe durante todo o período da gestação uma recompensa como a recompensa recebida por uma pessoa que jejua, passa a noite em adoração, é obediente e luta no caminho de Allah. E pela dor do momento do parto, as criaturas não conseguem avaliar a recompensa que ela recebe; não se pode sequer imaginar qual é essa recompensa e quão grande ela é. Depois dos gritos da mulher, quando a criança nasce — e ela a cria alimentando-a com o próprio leite —, por cada gole de leite ela recebe a recompensa concedida por dar vida a uma pessoa. E quando chega o momento do desmame, o anjo de Allah põe a mão sobre seu ombro, com honra e amor, e continua dizendo-lhe: ‘Ó serva de Allah, prepara-te agora para uma segunda gravidez.’”

As esperanças e aspirações da mãe

A mulher que repetidamente põe a própria vida em perigo, desgasta o corpo e as forças vitais para dar à luz e criar os filhos naturalmente espera algo deles. Ela deseja sinceramente que o futuro de seus filhos seja brilhante, que tenham boa sorte, que sejam dedicados ao serviço, que construam um futuro excelente de acordo com os pensamentos e ideais da mãe, que sejam guardiões da religião e da civilização dos pais e que sejam incomparavelmente obedientes. Quando observa que os filhos estão transformando seus sonhos e aspirações em realidade, sendo criados de acordo com seus desejos, e que Allah os elevou ao mais alto grau de excelência, sua alegria e seu orgulho não têm limites.

Queixas comuns a respeito dos filhos

Mas, se aqueles filhos por cujo serviço uma mãe debilitada permanece ocupada dia e noite, gastando as forças do corpo e da vida e erguendo as mãos continuamente em oração, destruírem os sonhos, desejos e esperanças da mãe e se tornarem desobedientes e rebeldes, qual será a situação dessa mãe? A angústia e a dor de sua mente e de seu coração não podem ser expressas em palavras.
Nos tempos atuais, exceto por algumas famílias afortunadas, ouvem-se os mesmos lamentos e suspiros em todas as famílias. Todos dizem a mesma coisa: a situação dos filhos é indescritível. Sejam filhos ou filhas, eles estão desatentos aos direitos dos pais. Demonstrar respeito e reverência aos pais e expressar obediência não faz parte de seu temperamento. Parece que o modo de tratar os pais, buscar sua satisfação, servi-los, demonstrar-lhes respeito e dar atenção a seus sentimentos e emoções são palavras sem sentido.
Uma queixa comum é que os filhos estão se tornando ingratos e rebeldes. Sente-se em qualquer reunião ou visite qualquer casa, e ouvirá a mesma coisa, vendo os pais chorarem pelo mesmo motivo. Então algumas senhoras idosas começarão a chamar atenção para si mesmas, dizendo: “Minha filha, em nosso tempo, será que os filhos podiam falar em voz alta diante dos pais?” Depois começa uma longa história sobre o mau ambiente, os tempos decadentes, a disseminação de pensamentos errados e nocivos, a literatura obscena, a educação desprovida de moralidade e assim por diante. Cada mulher sente uma espécie de alívio e começa a pensar: o que mais poderia acontecer em tal situação? O que mais poderiam fazer os pais? Esta situação é extremamente triste.

Uma questão que preocupa os pais

Sem dúvida, os pais não têm capacidade para controlar tudo. Mas têm, sim, capacidade para refletir sobre seu próprio papel. À luz da religião de Allah, devem revisar suas ações e verificar se há alguma falha no cumprimento da responsabilidade que Allah confiou à mãe quanto à educação, formação e criação dos filhos. Não há alguma complicação em suas esperanças e aspirações relativas à vida futura dos filhos? Não estão deixando de conceder algum dos direitos que Allah lhes deu? Os filhos só podem realizar suas esperanças e aspirações quando vocês também não forem negligentes em relação aos direitos deles.
Vocês podem ver cumprida a esperança de que o filho seja dotado de bom caráter moral, seja afortunado, prestativo, obediente e de belo comportamento, se reconhecerem essas responsabilidades e as cumprirem com corpo, mente e riqueza. A desobediência e a rebeldia dos filhos são, sem dúvida, coisas dolorosas. Mas também é motivo de reflexão saber se essa situação deles é resultado da negligência dos pais e da falta de consciência de suas responsabilidades.
Como poderá pensar em seus direitos o filho a quem vocês nunca ensinaram a ter consciência deles? Como poderá pensar em servir e respeitar os pais o filho a quem nunca foi dito que servir e honrar os pais é obrigatório para os filhos? Se vocês não prestarem atenção às emoções e aos sentimentos deles, com quem aprenderão eles a considerar as emoções e os sentimentos de vocês? Se vocês não os amarem e, por seu comportamento, lhes tiverem dado a entender que preferem a morte deles ao sofrimento de criá-los, como pensarão eles em amá-los e servi-los?
Se vocês só compreenderem o que diz respeito ao próprio conforto e luxo e esquecerem as necessidades deles, de onde virá a consciência que terão das necessidades de vocês? Se vocês forem portadores e propagadores de um ideal específico na reforma da sociedade e na formação da civilização e da cultura, como poderão exigir que eles sejam portadores desse ideal sem estabelecer seu valor no coração deles? Esperem dos filhos somente aquilo para que os prepararam e esperem deles apenas o tipo de comportamento que tiveram com eles.
“Hazrat Nu‘man, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: meu pai, Hazrat Bashir, que Allah esteja satisfeito com ele, levou-me à presença do Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e disse: ‘Ó Mensageiro de Allah! Seja testemunha de que dei a Nu‘man isto e aquilo.’ Então o Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, perguntou-lhe: ‘Você deu esse tipo de presente a todos os seus filhos?’ Ele respondeu: ‘Não. Não dei a todos.’ O Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: ‘Então faça outra pessoa testemunhar.’ Em seguida, disse: ‘Você não gostaria que todos os filhos tratassem você igualmente com bondade?’ Bashir, que Allah esteja satisfeito com ele, respondeu: ‘Por que não?’ Ele disse: ‘Então não faça isso.’” — Al-Adab al-Mufrad

Esta parte do hadith merece reflexão especial: “Você não gostaria que todos os filhos tratassem você igualmente com bondade?” Ou seja, é pelo comportamento de vocês que a criança aprende como deve tratar os pais.
Além dos pais, outros fatores também atuam na formação do caráter e do comportamento da criança. A educação, o ambiente, os amigos, os parentes e o sistema de governo — todos são responsáveis, dentro de seus próprios limites, pelo processo de construir e destruir. Mas aqui se discutem apenas os pais. Serão abordadas as responsabilidades deles em relação aos filhos e os direitos que os filhos têm em relação a eles.

Uma compreensão clara sobre os direitos dos filhos

Toda mãe deseja que seu filho seja a paz de seu coração e o refrigério de seus olhos, que seja para ela um meio de honra e conforto neste mundo e no Além, e que seja benéfico para sua família e sua sociedade. Sem dúvida, esse desejo merece respeito. Mas nenhum desejo se realiza apenas por meio de orações. Suas orações são puras, e suas aspirações também são puras, mas nenhum objetivo pode ser alcançado apenas com orações e desejos. Se não se fizer o esforço devido de modo correto, de acordo com as próprias orações e aspirações, isso jamais assumirá a forma do sucesso.
Quem não deseja um futuro bom e próspero para os filhos? Que mãe deseja que seu filho siga o caminho do desvio? A quem não dói no coração a má conduta e o desvio do filho? Se o filho se envergonhar e fracassar, de que mãe não correrão lágrimas de sangue pelos olhos? E qual mãe não ficará radiante de alegria ao ver o futuro bem-sucedido do filho?
Mas o objetivo não pode ser alcançado apenas por bons sentimentos e emoções. Para um futuro brilhante dos filhos, é necessário dar-lhes uma compreensão clara de seus direitos e esforçar-se plenamente para que esses direitos sejam cumpridos. Só depois de cumprir de modo belo e correto as próprias responsabilidades vocês poderão ensinar os filhos a cumprir seus direitos. Se vocês mesmos não tiverem uma compreensão clara dos direitos deles, como irão cumpri-los?
Vocês também devem empenhar-se no cumprimento dos direitos dos filhos porque isso é uma responsabilidade religiosa. Allah determinou os direitos deles e, um dia, Ele os questionará a esse respeito.
A declaração do Nobre Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, é:

والمرأة راعية على بيت زوجها وولده فَكُلُّكُمْ رَاعٍ وَكُلُّكُمْ مَسْئُولٌ عَنْ
رعيته – متفق عليه“A mulher é responsável pela casa de seu marido e por seus filhos. Todos vocês são responsáveis, cada um de acordo com sua situação, e todos serão questionados a respeito daqueles sob sua responsabilidade.” — Bukhari e Muslim

Sem dúvida, o pai também é o protetor dos próprios filhos e o responsável por seus direitos. Mas é uma realidade que a responsabilidade da mãe é um pouco maior. Devido à sua correria para ganhar o sustento, o pai passa a maior parte do tempo fora de casa. É sempre a mãe que permanece em casa com as crianças, e a criança também é mais apegada à mãe. Por natureza, a mãe dedica mais tempo a cuidar das crianças, e estas também recebem um pouco mais da influência da mãe.

Os direitos dos filhos

Também é uma realidade que as mulheres, pela sabedoria de Allah, receberam em certa medida mais do que os homens os elevados caráteres morais e qualidades necessários para cumprir de modo belo e adequado as responsabilidades para com as crianças e assegurar devidamente seus direitos. As qualidades fundamentais da paciência, do sacrifício e da abnegação, da misericórdia e da gentileza, e do amor foram concedidas às mulheres em maior medida do que aos homens. É justamente por isso que elas necessitam mais dessas qualidades para cumprir as responsabilidades que Allah lhes confiou.

Os 7 direitos dos filhos

Primeiro: reconhecer o valor e a importância do filho
Segundo: criação e cuidado
Terceiro: bom tratamento
Quarto: dar um bom nome
Quinto: carinho e amor
Sexto: educação e formação, e
Sétimo: casamento.
A seguir, discutiremos detalhadamente esses sete direitos. Além de fazer uma súplica sincera pelo filho, é a compreensão profunda desses direitos e a organização completa para cumpri-los que podem fazer com que seu filho seja uma fonte de alegria para você.

O valor e a importância do filho

O primeiro e mais importante direito do filho é que você tenha consciência de sua dignidade e de seu valor. Você não deve se irritar, considerando a existência dele uma aflição na vida. Pelo contrário, é necessário considerar o filho uma misericórdia e uma recompensa de Allah para você. Se você não conseguir reconhecer o valor de sua existência, jamais poderá cumprir seus outros direitos; ou não lhe dará a oportunidade de cumprir esses outros direitos; ou, mesmo que essa oportunidade surja, não conseguirá cumprir seus direitos.
Para tratar corretamente o filho, é absolutamente necessário conhecer sua verdadeira dignidade e seu valor. O filho é uma grande bênção de Allah. O filho é o adorno da casa, o equivalente ao bem, à bênção e ao benefício na religião e neste mundo. O filho aumenta sua honra e dignidade neste mundo e é considerado um apoio ou ajudante na vida. Ele realiza suas esperanças e aspirações. Torna-se um meio de preservar e propagar seus pensamentos ou ideais mais queridos. Ele dá continuidade às regras e aos costumes que você estabeleceu e, tornando-se seu herdeiro, mantém viva posteriormente a sua obra.
Também do ponto de vista religioso, o filho é uma recompensa incomparável de Allah. Nas obras religiosas, ele é seu melhor ajudante e herdeiro. Na prestação de contas pelas obras religiosas, ele é uma fonte de alegria para seus olhos e de tranquilidade para seu coração. É o preservador e herdeiro de suas tradições e ideais religiosos. Por isso, o Profeta de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, suplicou a Allah:

رب هَبْ لِي مِنْ لَّدُنْكَ ذُرِّيَّةً طَيِّبَةً .
“Ó meu Deus! Concede-me, da Tua parte, uma descendência pura.”

Esta súplica tinha um objetivo. Isto é, que o filho se tornasse, depois dele, o herdeiro religioso e cumprisse a missão do pai.

فَهَبْ لِي مِن لَّدُنكَ وَلِيًّا – يَرِثُنِي وَيَرِثُ مِنْ آلِ يَعْقُوب –
“Ó meu Senhor, concede-me, por Tua graça, um herdeiro. Ele será meu herdeiro e herdará também a herança da família de Jacó.”

Isto é, ele seria o herdeiro da luz da religião que se havia espalhado a partir da família de Jacó, que a paz esteja com ele, e jamais permitiria que essa luz se extinguisse. A verdade é que um filho virtuoso é, neste mundo, um meio de grande honra e respeito, e, na Outra Vida, um meio de recompensa e galardão inesgotáveis.

Um palácio especial no Paraíso

Se um filho morrer durante a sua vida e você suportar a dor dessa morte com paciência e perseverança, então o filho será, para você, uma provisão para a Outra Vida, um meio de alcançar o Paraíso e um meio de grande honra e respeito. Em recompensa por essa paciência, Allah lhe concederá o Paraíso e construirá ali para você um palácio especial. O nome desse palácio será “Palácio da Gratidão”. Abu Musa al-Ashari, que Allah esteja satisfeito com ele, narrou que o Nobre Profeta, que as bênçãos e a paz de Allah estejam sobre ele, disse:

إِذا مَاتَ وَلَدُ الْعَبْدِ قَالَ اللهُ تَعَالَى لِمَلَائِكَتِهِ قَبَضْتُمْ وَلَدَ عَبدِي فَيَقُولُونَ نعم فَيَقُولُ قَبَضْتُم ثمرة فؤاده فيقولون نعم فَيَقُولُ فَمَاذَا قَالَ عَبْدِى فيقولون حمدك واسترجع فَيَقُولُ الله تعالى ابْنُوا لِعَبْدِي بَيْتًا فِي الْجَنَّةِ وسموه بيت الحمد – جامع ترمذى
“Quando morre o filho de um servo, Allah, o Altíssimo, pergunta aos anjos: ‘Tomastes a alma do filho do Meu servo?’ Os anjos respondem: ‘Sim, tomamos.’ Então Allah pergunta: ‘Tomastes a alma do fruto do seu coração?’ Os anjos respondem: ‘Sim, tomamos.’ Nesse momento, Allah pergunta: ‘E o que disse o Meu servo?’ Os anjos respondem: ‘Ó Senhor, o Teu servo louvou-Te e recitou, diante dessa calamidade: “Inna lillahi wa inna ilayhi raji’un”.’ Ao ouvir isso, Allah, o Altíssimo, ordena aos anjos que construam para o Seu servo um palácio no Paraíso e que o chamem de “Palácio da Gratidão”.”

“Umm Habiba, que Allah esteja satisfeito com ela, narrou: Eu estava sentada junto de Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela. Nesse momento, o Mensageiro de Allah, que as bênçãos e a paz de Allah estejam sobre ele, chegou. Ele, que as bênçãos e a paz de Allah estejam sobre ele, disse: ‘Se morrerem três filhos menores de qualquer casal muçulmano, essas crianças ficarão de pé junto à porta do Paraíso no Dia da Ressurreição. Quando lhes for dito que entrem no Paraíso, essas crianças inocentes responderão: “Não podemos entrar no Paraíso enquanto os nossos pais não entrarem.” Então Allah ordenará: “Ide, vós e os vossos pais, entrai todos no Paraíso.”’ — At-Tabarani

O filho como sadaqa jariya

Se você partir deste mundo enquanto seu filho ainda estiver vivo, o filho será considerado uma caridade contínua para você, cuja recompensa continuará sendo registrada em seu registro de obras enquanto o mundo existir. Com o abraço da morte, cessam as oportunidades de ação do ser humano. Mas, se ele deixar um filho virtuoso, isso será uma boa obra cuja recompensa continuará sendo registrada. Abu Huraira, que Allah esteja satisfeito com ele, narrou que o Nobre Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse:

إِذَا مَاتَ الْإِنسان انقطع عمله إلا من ثلاث صدقة جارية أو علم ينتفع به أو ولد صالح يدعوله – صحيح مسلم“Quando o ser humano morre, cessam suas oportunidades de realizar obras, exceto em três casos (cujas recompensas ele continuará recebendo após a morte). Esses três casos são: uma caridade contínua, que permaneça depois dele; um conhecimento que ele tenha deixado e do qual as pessoas continuem se beneficiando; ou um filho virtuoso que continue fazendo súplicas por ele após sua morte.”

“Abu Huraira, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: quando a posição de um falecido é elevada, ele pergunta, surpreso: ‘Como isso aconteceu?’ Então lhe é dito da parte de Allah: ‘Seu filho está fazendo súplicas por perdão em seu favor, e Allah aceitou essa súplica.’”

“Ibn Sirin, que Allah tenha misericórdia dele, disse: certa noite, estávamos sentados na companhia de Abu Huraira, que Allah esteja satisfeito com ele. Nesse momento, ele ergueu as mãos para fazer uma súplica e disse humildemente: ‘Ó meu Senhor, perdoa Abu Huraira. Ó meu Senhor, perdoa a mãe de Abu Huraira. Ó meu Senhor, perdoa também todas as pessoas que fazem súplicas pedindo perdão por Abu Huraira e por sua mãe.’ Por isso, continuamos sempre fazendo súplicas pedindo perdão por Abu Huraira, que Allah esteja satisfeito com ele, e por sua mãe, para que sejamos incluídos na súplica de Abu Huraira, que Allah esteja satisfeito com ele.”

Matar os filhos é o mais hediondo dos pecados

Embora a sociedade muçulmana esteja atualmente dilacerada por um lamentável retrocesso e por um declínio instrutivo, tenha perdido a coragem de avançar e alcançar o progresso no mundo e também tenha esquecido o ensinamento de conquistar uma posição elevada na Outra Vida, as mulheres muçulmanas, graças à manutenção de sua relação com o monoteísmo e com os ensinamentos fundamentais da religião, possuem ainda esta distinção especial: elas sequer conseguem imaginar certos pecados nos quais outras mulheres estão envolvidas ou nos quais poderiam envolver-se facilmente.

Uma mulher muçulmana sequer consegue imaginar que mataria com as próprias mãos seu filho inocente. Para eliminar esse pecado terrível, o Islã, por um lado, criou no coração dos pais um profundo sentimento pela dignidade da vida humana e pelo valor e importância dos filhos. Por outro lado, qualificou o assassinato de filhos como um pecado tão grave que o descreveu como um pecado hediondo semelhante ao politeísmo. O Sagrado Alcorão declara:

قُلْ تَعَالَوْا أَتْلُ مَا حَرَّمَ رَبُّكُمْ عَلَيْكُمْ أَلَّا تُشْرِكُوا بِهِ شَيْئًا وَبِالْوَالِدَيْنِ إِحْسَانًا وَلَا تَقْتُلُوا أَوْلَادَكُمْ مِّنْ إِمْلَاقٍ – – الانعام : ١٥١“Ó Mensageiro, diga-lhes: ‘Vinde, eu vos recitarei o que vosso Senhor vos proibiu: que nada associeis a Ele; que trateis os pais com bondade; e que não mateis vossos filhos por medo da pobreza.’” — Surata Al-An’am: 152

O Nobre Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, deu tanta importância à purificação da sociedade dessa terrível opressão que, entre os assuntos essenciais sobre os quais tomou primeiro o compromisso dos Ansar durante o Juramento de Aqaba, estava o de que eles não matariam seus filhos. Ele também exigia das mulheres que compareciam à presença do Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, o compromisso de não matar os filhos. Entre os termos do compromisso assumido pelas mulheres que aceitaram o Islã após o Tratado de Hudaybiyyah, incluía-se o compromisso de não matar os filhos. Nas reuniões gerais do Eid, ele visitava a área das mulheres e, juntamente com outros assuntos, tomava delas também esse compromisso.

“Hadrat Ubaydah, que Allah esteja satisfeito com ele, filho de Samit, narrou: certa vez, estávamos na presença do amado Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Ele nos disse: “Prestem-me o juramento de fidelidade de que não associareis ninguém a Allah, não roubareis, abstervos-eis das más ações e não matareis os vossos próprios filhos. Quem cumprir esta promessa terá a sua recompensa sob a responsabilidade de Allah. E quem cometer alguma má ação dentre essas e for punido legalmente, isso será uma expiação pelo seu pecado. Quanto àquele cujo pecado não se tornar conhecido por ninguém neste mundo, Allah tem o poder de perdoá-lo, se quiser, e de puni-lo, se quiser.””

Causas do assassinato de filhos

Na era pré-islâmica, o assassinato de filhos era praticado em muitos países. Em Roma, essa prática era mais difundida. Os filhos eram mortos abertamente, sem que houvesse qualquer investigação ou julgamento. Entre os rajputs da Índia, esse terrível costume também estava em vigor, e as histórias da crueldade e da brutalidade dos árabes tornaram-se lendárias.

Geralmente, havia três razões para o assassinato de filhos. Alguns ignorantes ou tolos consideravam isso um ato religioso e, com o intuito de agradar aos deuses e deusas, ofereciam-lhes o próprio filho em sacrifício. Faziam um voto, dizendo: “Se determinada tarefa minha for realizada, sacrificarei o meu filho.” Essa obra de opressão e barbárie não era praticada apenas pelos homens; as mulheres também participavam dela com crueldade. Certa vez, uma mulher foi até Hadrat Abdullah ibn Abbas, que Allah esteja satisfeito com ele, e disse: “Eu havia feito o voto de sacrificar o meu próprio filho.” Ele respondeu: “Nunca faças isso. Cumpre a expiação do voto.” — Muwatta do Imam Malik

Esse costume de ignorância e crueldade não é apenas uma lembrança do passado; algumas pessoas deste subcontinente ainda hoje vagueiam nas trevas da ignorância. Há pouco tempo, num lugar chamado Ojaran, uma menina inocente de nove anos foi morta em nome de uma deusa. O Alcorão Sagrado também retratou a ignorância e a opressão dessas pessoas e declarou que elas se encontram em evidente perdição.

وَكَذلِكَ زَيَّنَ لِكَثِيرٍ مِّنَ الْمُشْرِكِينَ قَتْلَ أَوْلَادِهِمْ شُرَكَاؤُهُمْ لِيُرْدُوهُمْ
وليلْبِسُوا عَلَيْهِم بَيْنَهُمْ ، وَلَوْ شَاءَ اللهُ مَا فَعَلُوهُ فَذَرْهُمْ وَمَا يَفْتَرُونَ“E, assim, os seus associados tornaram atraente, para muitos dos politeístas, o assassinato dos próprios filhos, a fim de arruiná-los e confundir-lhes a religião. Se Allah quisesse, eles não o fariam; portanto, deixa-os com aquilo que inventam.” — Surata Al-An’am: 137

قد خَسِرَ الَّذِينَ قَتَلُوا أَوْلادَهُم سَفَها بغير علم – الانعام : ١٤٠“Certamente, estão em perdição aqueles que mataram os próprios filhos por insensatez e ignorância.” — Surata Al-An’am: 140

Algumas pessoas de pouca inteligência matavam o próprio filho amado por medo de que, ao participar do seu sustento, ele as lançasse na pobreza e na preocupação. Esses ignorantes foram impedidos de praticar essa opressão e lhes foi dito: sois vós que produzis o vosso próprio sustento? O mesmo Allah que vos provê o sustento proverá o sustento deles. Quando Allah decide enviar uma vida ao mundo, envia com ela os meios do seu sustento. As chaves dos tesouros da provisão estão somente nas mãos de Allah.

ولا تَقْتُلُوا أَوْلَادَكُمْ خَشْيَةَ إِمْلَاقٍ ، نَحْنُ نَرْزُقُهُمْ وَإِيَّاكُمْ ، إِنَّ قَتَلَهُمْ كَانَ خِطْأُ كبيران (بنی اسراء يل : (۳۱“Não mateis os vossos filhos por medo da pobreza. Nós lhes damos provisão, assim como a vós. Na verdade, matá-los é um grande pecado.” — Surata Bani Isra’il: 31

O Nobre Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, classificou esse crime como o maior dos pecados:

عن عبد اللهِ قَالَ سَأَلْتُ النَّبِيُّ صَلَّى اللهُ عَلَيْهِ وَسَلَّمَ أَيُّ الذَّنْبِ أَعْظَمُ عِندَ اللهِ قَالَ أَنْ تَجْعَلَ الله ندا وَهُوَ خَلَقَكَ قُلْتُ إِنْ ذَالِكَ لَعَظِيمٌ قُلْتُ ثُمَّ أَيُّ قَالَ أَنْ تَقْتُلَ وَلَدَكَ تَخَافُ أَنْ يُطْعَمَ مَعَكَ قُلْتُ ثُمَّ أَي قَالَ أَنْ تُزَانِي حَلِيلَةً جارك – صحيح بخاري كتاب التفسير”Hadrat Abdullah ibn Masud, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: perguntei ao Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz: ‘Qual é o maior pecado perante Allah?’ Ele respondeu: ‘Que associeis alguém a Allah, quando foi Ele quem vos criou.’ Eu disse: ‘De fato, isso é um grande pecado.’ Então perguntei: ‘Depois desse, qual é o maior pecado?’ Ele respondeu: ‘Que mateis vosso filho por medo de que ele participe do vosso sustento.’ Perguntei: ‘E depois, qual pecado?’ Ele respondeu: ‘Praticar uma relação ilícita com a esposa do vosso vizinho.’”

O terceiro método de matar os filhos era extremamente terrível e doloroso. Só de pensar nesse método, o coração estremece. Alguns indivíduos de coração endurecido e cruéis enterravam vivas, com as próprias mãos, suas queridas filhas inocentes. Nem aquela cena terrível nem os lamentos lancinantes da filha inocente e pura causavam neles o menor efeito. Para eles, a existência de uma filha era considerada um símbolo de humilhação e desonra. Que uma mulher se tornasse esposa de outro homem e o chamasse de pai era, para eles, uma desonra inimaginável. Também consideravam extremamente vergonhoso que alguém se tornasse seu genro e que seus genros os chamassem de sogros. De fato, sempre que eram informados de que havia nascido uma filha em sua casa, ficavam agitados pela preocupação. Tentavam imediatamente lançar algumas pás de terra sobre aquele objeto de humilhação. Detestavam terrivelmente tornar-se sogros de alguém e pais da esposa de um homem. O Sagrado Alcorão retratou assim esse pensamento condenável deles:

وإذا بشر أحدهم بالأنثى ظل وجهه مسوداً وَهُوَ كَظِيمٌ يَتَوَارَى مِنَ الْقَوْمِ مِنْ سُوءِ مَا بُشِرَبِهِ ، أَيُمْسِكُهُ عَلَى هُونٍ أَمْ يَدُسُهُ فِي التَّرَابِ —
“Quando algum deles recebe a boa-nova do nascimento de uma filha, seu rosto se torna sombrio e ele se enche de ira. Esconde-se das pessoas por causa da má notícia que recebeu, pensando: deverá conservá-la, suportando a humilhação, ou enterrá-la na terra?” — Surata An-Nahl: 58-59

Algumas tribos e indivíduos árabes eram famosos por essa crueldade e dureza de coração. Esses opressores consideravam uma grande façanha enterrar vivas as filhas indefesas e inocentes. Esses desalmados também se orgulhavam de sua crueldade. Um homem compareceu perante o Nobre Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e, descrevendo sua façanha, disse que havia enterrado vivas, com as próprias mãos, oito filhas.

O doloroso episódio da filha inocente

Na tribo de Banu Tamim, o costume cruel de enterrar vivas as meninas era particularmente difundido. Quando o chefe dessa tribo, Qays ibn Asim, aceitou o Islã, contou o doloroso episódio de ter enterrado com as próprias mãos a sua filha inocente, dizendo:
“Ó Mensageiro de Allah! Eu estava viajando. Naquela ocasião, nasceu uma filha minha. Se eu estivesse em casa, assim que ouvisse o seu choro, tê-la-ia enterrado na terra e silenciado para sempre. A mãe conseguiu criá-la como pôde durante alguns dias. Com o passar do tempo, o amor materno por ela tornou-se intenso. A mãe tremia diante da ideia de que o pai a enterrasse viva. Na verdade, com medo de mim, ela enviou a sua querida filha para a casa da tia materna. Pensava que, depois de ser criada ali e crescer, talvez surgisse compaixão também no coração do pai. Quando voltei da viagem, soube que havia nascido uma criança morta em minha casa. Assim, o assunto foi encerrado. A menina continuou sendo criada pela tia materna, até crescer bastante. Pela vontade de Allah, certo dia saí de casa por alguma necessidade. A mãe pensou: ‘Hoje o pai da menina não está em casa; que problema haveria em trazê-la para cá?’ Então levou a menina para casa. Infelizmente, alguns dias depois, também voltei. Ao chegar, vi uma menina belíssima correndo e brincando de um lado para o outro da casa. Um amor desconhecido também transbordou em meu coração. Minha esposa percebeu, pela expressão do meu rosto, que o amor paterno adormecido havia despertado e que o efeito do sangue se manifestara. Perguntei à minha esposa: ‘Minha querida, de quem é esta criança? Que menina bonita!’
Em resposta, minha esposa contou-me toda a história. Abracei a menina naturalmente. A mãe disse-lhe: ‘Este é o teu pai.’ A menina agarrou-se a mim. Ficou tão feliz ao receber o carinho paterno que, dizendo ‘papai, papai’, encostava o rosto no meu; e, quando corria até mim chamando ‘papai, papai’, eu a abraçava e sentia uma paz extraordinária.
Assim os dias foram passando, e a menina continuou sendo criada despreocupadamente, cercada de carinho e amor. Mas, ao observá-la, às vezes eu pensava: ‘Por causa dela, terei de me tornar sogro. Terei de suportar a humilhação de que minha filha se torne esposa de alguém. Como poderei mostrar o rosto em público? Minha honra será reduzida a pó.’ Por fim, o meu sentimento de dignidade inflamou-se. O dique da minha paciência rompeu-se, e decidi que enterraria aquela fonte de humilhação de uma vez por todas. Disse à minha esposa: ‘Prepare a menina. Vou levá-la comigo a um banquete.’ Minha esposa deu-lhe banho, vestiu-lhe roupas limpas e arrumou-a cuidadosamente. A pequena menina também estava transbordando de alegria por sair para passear com o pai. Levei-a em direção a uma floresta isolada. Ela caminhava comigo, dançando de felicidade, enquanto em meu coração empedernido havia apenas um pensamento: como enterraria o mais rapidamente possível aquele fardo vergonhoso. Ela não sabia de nada. A menina inocente ora segurava a minha mão, ora corria à minha frente, ora caminhava falando, tomada de alegria. Finalmente, parei em certo lugar. Então comecei a cavar um buraco. A menina ficou perplexa: por que o papai estava cavando um buraco numa floresta isolada? E perguntou: ‘Papai, por que estás cavando um buraco?’ Ela não sabia que o pai cruel estava cavando uma sepultura para ela, para silenciá-la para sempre. Enquanto eu cavava, quando a terra caiu sobre os meus pés e as minhas roupas, a menina inocente limpou-a com as suas mãozinhas delicadas e queridas e, com sua fala infantil, disse: ‘Papai, as tuas roupas estão ficando sujas.’ Quando terminei de cavar um buraco profundo, levantei aquela menina pura, inocente e alegre, atirei-a no buraco e comecei a jogar terra sobre ela com toda a rapidez. A menina olhou para mim, angustiada, e começou a gritar: ‘Papai, meu papai, o que estás fazendo? Papai, o que estás fazendo? Papai, eu não fiz nada. Papai, por que estás me enterrando na terra?’ E eu continuei o meu ato como se fosse mudo, cego e surdo. Ó Mensageiro de Allah! Nenhuma compaixão ou misericórdia surgiu em meu coração opressor e empedernido, e, depois de enterrar a menina viva, voltei respirando aliviado.
Ao ouvir a história dolorosa da opressão infligida à menina inocente e do seu desamparo, o coração do Mensageiro da Misericórdia para os mundos, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, encheu-se de tristeza e dor. Lágrimas começaram a cair copiosamente dos seus olhos puros. Chorando, ele dizia: ‘Isso é obra de um coração extremamente empedernido. Como Allah terá misericórdia daquele que não consegue demonstrar misericórdia para com os outros?’

História instrutiva

Diante do amado Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, um homem contou uma história da sua época de ignorância e apresentou-a de tal maneira que o Nobre Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, ficou profundamente dolorido. “Ó Mensageiro de Allah! Éramos ignorantes. Não sabíamos de nada. Adorávamos ídolos de pedra e, com as próprias mãos, lançávamos os nossos queridos filhos nos braços da morte. Ó Mensageiro de Allah, eu tinha uma filha a quem amava muito. Sempre que eu a chamava, ela corria até mim. Certo dia, chamei-a. Ela veio correndo alegremente até mim. Levei-a comigo. Eu caminhava à frente, e ela vinha correndo atrás de mim. Havia um poço profundo a pouca distância da minha casa. Cheguei junto ao poço e parei. A menina também chegou até mim. Então, ó Mensageiro de Allah, segurei a mão da menina, levantei-a e lancei-a naquele poço. A menina inocente começou a gritar lá dentro e a chamar-me, com uma voz extremamente comovente: ‘Papai, papai!’ Ó Mensageiro de Allah! Essa foi a sua última voz em vida.”
Ao ouvir essa história cheia de dor, o coração do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, ficou tomado de sofrimento, e lágrimas começaram a rolar dos seus olhos. Um dos Companheiros repreendeu o homem e disse: “Tu feriste o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, contando-lhe sem necessidade essa história dolorosa.” Ao ouvir isso, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Não lhe digas nada. Não lhe digas nada. Ele veio ouvir o meio de reparar a desgraça que lhe foi imposta.” Então dirigiu-se ao homem e disse: “Conta novamente a tua história.” O Companheiro contou pela segunda vez aquela história cheia de tristeza. Ao ouvi-la, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, ficou numa situação extraordinária. Ao chorar, a sua barba abençoada ficou encharcada de lágrimas. Então disse-lhe: “Como vocês aceitaram o Islã, todos os pecados da época da ignorância foram perdoados. Vai agora e pratica boas ações.” — Musnad al-Darimi

Somente Allah sabe quantas meninas inocentes e indefesas foram vítimas dessa opressão e durante quantos anos as meninas foram enterradas vivas pelas próprias mãos dos pais. Embora também houvesse, naquela época, algumas pessoas misericordiosas e amantes de Allah. Elas tentaram salvar as meninas das mãos dessa opressão e barbárie. Contudo, esses esforços individuais não conseguiram pôr fim àquele terrível costume.

Bons esforços para salvar as meninas de serem enterradas vivas

Farazdaq era um famoso poeta árabe. Ele se orgulhava muito de uma coisa: seu avô, Hazrat Sa’sa’, havia salvado muitas meninas de serem enterradas vivas. O próprio Hazrat Sa’sa’ narra seu episódio: “Certa vez, saí à procura dos meus dois camelos desaparecidos. Ao longe, avistei um fogo. Às vezes, as chamas se elevavam ardentemente; outras vezes, apagavam-se. Pensei: por que não vou ver o que está acontecendo? Talvez alguém atingido por alguma calamidade tenha acendido aquele fogo. Parti e decidi que, se encontrasse alguém em dificuldade e pudesse ajudá-lo, certamente tentaria afastar seu sofrimento. Conduzi rapidamente os camelos e, pouco depois, cheguei ao bairro de Banu Anmar. Ao chegar, vi um ancião de cabelos compridos sentado diante de sua casa, lamentando-se, enquanto muitas mulheres estavam sentadas ao redor de uma delas. Essa mulher sofria com as dores do parto. Depois de trocar saudações e fazer súplicas, perguntei sobre a situação, e elas me informaram que a mulher sofria com as dores do parto havia três dias. Enquanto eu conversava com o ancião, as mulheres exclamaram que o bebê havia nascido. O velho gritou: ‘Se for um menino, ótimo. Mas, se for uma menina, não quero ouvir sua voz. Vou matá-la imediatamente.’ Eu disse com muita suavidade: ‘Sheikh, não faça isso. Ela é sua própria filha. Não se preocupe com o sustento; quem provê o sustento é Allah.’ O ancião rugiu novamente: ‘Não, não a deixarei viva. Vou matá-la de qualquer maneira.’ Como continuei a insistir humildemente, ele mudou um pouco e disse: ‘Se você é tão misericordioso, pague por ela e leve-a para criá-la.’ Respondi sem hesitar: ‘Estou disposto a comprá-la.’ Comprei a recém-nascida e voltei feliz, comprometendo-me diante de Allah a criar aquela menina com carinho e amor. Também prometi a Allah que, sempre que algum coração de pedra quisesse matar uma menina inocente, eu jamais permitiria. Eu a resgataria pagando seu preço e a criaria com extremo carinho e amor. Depois disso, essa prática continuou. Por fim, Allah Todo-Poderoso enviou Hazrat Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Até então, eu havia salvado 94 meninas das garras de pais e mães opressores. Então, o Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, pôs fim para sempre a essa maldição.”

O Islã purifica a sociedade de todas as práticas opressivas de matar os filhos e menciona, como característica do servo amado de Allah, que ele suplica a Allah para que seus filhos sejam uma fonte de conforto e alegria para seus olhos:

والَّذِينَ يَقُولُونَ رَبَّنَا هَبْ لَنَا مِنْ أَزْوَاجِنَا وَذُرِّيَّتِنَا قُرَّةَ أَعْيُن – الفرقان : ٧٤”E aqueles que dizem: ‘Ó nosso Senhor! Concede-nos, de nossas esposas e de nossa descendência, aquilo que seja um conforto para os nossos olhos.’ — Surata Al-Furqan: 74

O nascimento de uma filha

Quer nasça uma filha, quer um filho em sua casa, você demonstra alegria. É natural que fique feliz com isso. Você não apenas deseja expressar sua alegria, mas também quer que amigos e parentes compartilhem dela. E é isso que costuma acontecer. Tendo diante de si a luz orientadora que o Islã lhe mostrou e o exemplo do Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, você sequer pode pensar em fazer distinção entre filho e filha: demonstrar alegria com o nascimento de um filho e não fazê-lo com o nascimento de uma filha. Considerar desonrosa a existência de uma filha e dar preferência ao filho em relação à filha são consequências de pensamentos contrários ao Islã. A sociedade islâmica deve estar absolutamente purificada dessas concepções. Na verdade, a sociedade islâmica já está livre delas.\nContudo, ainda existem algumas famílias nas quais não se encontra o mesmo ambiente por ocasião do nascimento de um filho e de uma filha. A alegria demonstrada com sinceridade pelo nascimento de um filho não é demonstrada da mesma forma quando nasce uma filha. A boa notícia do nascimento de um filho é comunicada a parentes e amigos com uma emoção e um entusiasmo que não acompanham a notícia do nascimento de uma filha. Os parabéns pelo nascimento de uma filha parecem mais um conselho para ter paciência.\nDiga você mesmo: que significado terão frases como estas? ‘Minha coluna foi quebrada. Fiquei completamente abatido. O desejo do meu coração permaneceu apenas no meu coração. Também a tomo no colo, mas com um filho é diferente. Minha cabeça se curvou de vergonha. Os que têm filhas nem conseguem levantar a cabeça. Está bem, irmão; quem pode interferir na vontade de Allah? Que Allah melhore o destino. Allah nos pôs à prova; Ele mesmo dará coragem. Também amo a filha, mas sinto uma grande falta de alegria. Se fosse um filho, meu desejo teria sido realizado de outra maneira. Não lhe dei a notícia, porque que notícia haveria para dar? Aconteceu o que sempre acontece. O que devo escrever por isso?’ Que Allah perdoe! Diga você: que relação essas frases podem ter com os ensinamentos islâmicos? Entretanto, consciente ou inconscientemente, algumas famílias muçulmanas repetem tais palavras. Tanto homens quanto mulheres as repetem.\nA questão dos filhos está diretamente sob a autoridade de Allah. Ninguém tem qualquer influência sobre ela por meio de sua vontade ou desejo. E Allah sabe melhor para quem uma filha é melhor e para quem um filho é melhor. Você pode certamente fazer a súplica e desejar que tenha uma filha e não um filho, ou um filho e não uma filha. Mas não é necessário que seu desejo seja realizado e sua súplica, aceita. O único Senhor dessa decisão é Allah, o Altíssimo. Ninguém tem poder para mudar Sua decisão ou influenciá-Lo. Ninguém compartilha de Seu poder nem de Sua autoridade.

يخلق ما يشاء ، يهب لمن يشاء انانا ويهب لمن يشاء الذكور أو يزوجهم ذكرانا وإناثًا ، ويجعل من يشاءُ عَقِيمًا ، إِنَّهُ عَلِيمٌ قدير – شوری : ٥٠٤٩”Ele cria o que quer. Concede filhas a quem quer; concede filhos a quem quer; concede a alguns uma combinação de filhos e filhas; e torna estéril quem quer. Sem dúvida, Ele é Onisciente e Todo-Poderoso.”

A verdade é que, no que diz respeito aos filhos, o ser humano é completamente impotente. Se refletir sobre isso, perceberá que, em toda a criação, somente a ordem de Allah prevalece e que ninguém compartilha de Sua divindade. No assunto dos filhos, a grandeza e os milagres de quem quer que seja não têm efeito. Amuletos, talismãs e tratamentos também não produzem resultado algum. Muito menos conceder filhos a outros ou fazer nascer um filho homem em vez de uma filha: até mesmo muitas pessoas dotadas de poderes espirituais não conseguem gerar, em sua própria casa, um filho conforme o seu desejo. E, se for privado de filhos, tampouco poderá obter um filho por seus próprios esforços.

Por meio de qualquer conhecimento, também não lhe é possível saber se uma filha será melhor para você ou um filho. Às vezes, vê-se uma casa onde há apenas filhas, e nela abundam tanto as bênçãos quanto as provações. Em outra casa, há apenas filhos homens, mas cada um deles se tornou causa de preocupação para os pais. Também acontece de, após o nascimento de vários filhos homens, a mãe rezar dia e noite por uma filha; porém, assim que Allah lhe concede uma filha, dizem que ela arruinou a vida dos pais, e a mãe é levada a fazer esta súplica contra ela: “Ai! Como teria sido melhor se eu tivesse morrido no momento do nascimento!” Há ainda casos em que os pais não conseguem sequer suportar a presença de um filho homem, enquanto amam tanto a filha que estão sempre elogiando suas qualidades. A verdade é que somente Allah conhece o invisível e somente Ele sabe em que reside a felicidade e o bem-estar do ser humano.

As filhas são causa de felicidade

A esposa de Imran suplicou a Allah: “Ó meu Senhor! Consagrei a Ti o filho que está para nascer. Aceita de mim essa promessa.” Porém, quando deu à luz uma menina, ficou muito preocupada e disse: “Ó meu Senhor! Uma menina! Ai, Allah! Como este objetivo será alcançado por meio desta menina? Um filho homem não é como uma filha. O filho homem estaria livre das fraquezas naturais e das limitações sociais.” Mas Allah sabia muito bem para que a esposa de Imran havia feito essa promessa. Ela estava extremamente angustiada por considerar a criança uma menina e pensava: como alcançaria o objetivo pelo qual desejara consagrar o filho? Ela sabia que essa menina seria a causa de sua felicidade e que, por meio dela, seu nome permaneceria iluminado até o Dia da Ressurreição? Graças a ela, o nome da esposa de Imran seria preservado no último Livro celestial, e milhões e milhões de pessoas se lembrariam dela até o Dia da Ressurreição. Graças a ela, tornar-se-ia avó de um profeta ilustre, sobre quem Allah faria descer o Livro do Injil.

Na verdade, Allah, o Altíssimo, não deixou fracassar a promessa da esposa de Imran. Pelo contrário, aceitou aquela menina de uma maneira tão bela que isso será lembrado até o Dia da Ressurreição. Seu nome foi preservado nas páginas sagradas. Lê-las é uma recompensa; ouvi-las é uma recompensa, e fazê-las ouvir também é uma recompensa. O Sagrado Alcorão também narra essa história da seguinte maneira:

متقبلها ربها بقبول حسن وأنبتها نباتا حسنَا ، وَكَفَلَهَا زَكَرِيَّا ، كُلَّمَا دَخَلَ عليها زكريا المحراب ، وجد عندها رزقا ، قال يمريمُ أَنِّي لَكَ هَذَا ، قَالَتْ
هُوَ مِنْ عِندِ اللهِ ، إِنَّ اللهَ يَرْزُقُ مَنْ يَشَاء بغير حساب ال عمران : ۲۷“Por fim, Allah aceitou aquela menina com benevolência, educou-a da melhor maneira e colocou Zacarias sob sua tutela. Sempre que Zacarias entrava no mihrab onde ela estava, encontrava junto dela algum alimento ou bebida. Ele perguntava: ‘Ó Maria, de onde veio isto para você?’ Ela respondia: ‘Veio de Allah.’ Na verdade, Allah concede provisão abundante a quem deseja.”

Um filho é uma dádiva de Allah. A filha também é uma dádiva Sua, assim como o filho homem. Cabe à pessoa agraciada reconhecer o valor dessa dádiva e expressar gratidão ao Doador. Não reconhecer o valor da dádiva de Allah e ser ingrato jamais é digno de um crente. Somente Allah sabe a quem deve conceder cada bênção, e somente Ele toma decisões sábias, de acordo com Seu conhecimento e poder. É dever do crente estar satisfeito com Sua decisão e considerá-la benéfica para si.

Sobre o amado Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, a crença de todo homem e toda mulher crentes é que ninguém foi criado, nem poderia ser criado, superior ou mais excelente do que ele. Ele, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, foi pai de quatro filhas. A respeito de Khadija, que Allah esteja satisfeito com ela, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Não há mulher na terra nem no céu superior a ela.” Foi por meio dela que Allah, o Altíssimo, concedeu ao amado Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, essas quatro filhas, e Khadija, que Allah esteja satisfeito com ela, foi a mãe das quatro. O Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, orientou a comunidade:

لا تَكْرِهُو الْبَنَاتِ فَإِنِّي أَبُو الْبَنَاتِ“Não detesteis as filhas, pois eu sou, eu mesmo, pai de filhas.”

Além disso, ele disse que as filhas são muito afetuosas e trazem bondade, bem e bênçãos. Em Kanz al-Ummal, Ibn Shurayh relata:

سبعة رَسُولَ اللهِ صلَّى اللهُ عَلَيْهِ وَسَلَّمَ يَقُولُ إِذَا وُلِدَ لِلرَّجُلُ ابْنَةُ بَعَثَ اللهُ عَزَّ وَجَلَّ مَلَئِكَةٌ يَقُولُونَ السَّلامُ عَلَيْكُمْ يَا أَهْلَ الْبَيْتِ يَكْتَنفُونَهَا
بأجنحتهم ويمسحون بأيديهم على رأسها ويَقُولُونَ ضَعِيفَةٌ خَرَجَتْ مِنْ ضعيفة القيم عليها معان إلى يوم القيمة – المعجم الصغير اللطبراني“Ouvi o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, dizer: quando nasce uma filha na casa de alguém, Allah, o Poderoso e Majestoso, envia anjos para lá. Eles chegam dizendo: ‘A paz esteja convosco, ó habitantes da casa!’ Eles cobrem a menina recém-nascida com suas asas, passam as mãos sobre sua cabeça e dizem: ‘Este é um corpo frágil, nascido de uma vida frágil. Quem assumir a responsabilidade de cuidar dessa vida frágil terá consigo a ajuda de Allah até o Dia da Ressurreição.’” — Al-Mu’jam al-Saghir de Al-Tabarani

Um homem estava sentado na presença de Hazrat Abdullah ibn Umar, que Allah esteja satisfeito com ele. O homem tinha várias filhas. Ele disse: “Ai! Como seria bom se todas essas meninas morressem.” Ao ouvir isso, Abdullah ibn Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, explodiu de raiva e perguntou-lhe: “És tu quem lhes fornece o sustento?”

Pode haver apenas duas razões fundamentais para franzir a testa e ficar triste com o nascimento de uma filha: primeiro, considerar a própria existência de uma filha motivo de vergonha; segundo, ficar angustiado com as despesas relacionadas a ela.

Ao analisar a primeira razão, percebe-se que ela é extremamente vergonhosa. Pois, para uma mulher que deseja viver à luz do Islã e considera a vida pura do Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, como seu modelo, como isso poderia ser motivo de vergonha, quando o amado Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, era ele próprio pai de filhas e descreveu a existência de uma filha como um escudo contra o Inferno e um meio de alcançar o Paraíso?

Ao examinar a segunda razão, percebe-se que tais concepções de ignorância jamais podem sequer passar pela mente de um muçulmano, nem por um instante. Como pode alguém que crê em Allah como o Provedor e o Doador do sustento imaginar que é ele quem provê o sustento da filha? A crença de quem tem fé nos atributos de Allah é que o Provedor e Aquele que satisfaz as necessidades é somente Allah, e que é Allah quem fornece o sustento a toda criatura. Cada pessoa traz consigo a parte do sustento que lhe foi destinada. Que direito tem alguém de pensar que fornece o sustento de outra pessoa, quando ele próprio recebe seu sustento de Allah e depende de Allah para satisfazer as suas necessidades?

Nada se pode dizer sobre o destino de cada pessoa. É possível que a frágil menina que nasceu tenha vindo com grande força e um destino grandioso. Também não está fora do poder de Allah que a frágil menina nascida em sua casa não tenha trazido apenas o seu próprio sustento, mas que, por meio da sua sorte, possa transformar a sua situação para melhor.

Allah lhe concedeu uma enorme benevolência ao torná-lo responsável por uma filha frágil. E que benevolência extraordinária é essa! Se refletir sobre ela, ficará inundado de gratidão. O Paraíso, que Allah cercou de um caminho repleto de grandes dificuldades e provações, teve o seu caminho facilitado para você pelo fato de ser pai ou mãe de uma filha.

A criação e educação dos filhos

O segundo direito importante dos filhos é receberem criação e educação. Assim como dependem dos pais para existir, também dependem deles para crescer, ser criados, educados e supervisionados. A infância é um período de extrema fragilidade. Se, nesse período, a criança não tiver a proteção e os cuidados dos pais, não poderá crescer adequadamente. Por isso, depois de explicar o valor e a importância dos filhos, o Islã apresentou como seu segundo direito a boa criação e educação.

A benevolência de Allah para com os pais

Criar e educar os filhos é uma tarefa extremamente difícil. Para isso, são necessários paciência ilimitada, sacrifício e abnegação, além de sincero carinho e amor. Allah Todo-Poderoso criou no coração dos pais um amor infinito pelos filhos e concedeu-lhes um forte desejo de criá-los, tornando-os aptos a cumprir essa difícil responsabilidade. Ao suportarem sofrimentos de várias naturezas durante a criação dos filhos, os pais jamais se deixam dominar pela aversão; pelo contrário, mesmo em meio a essas dores e dificuldades, sentem paz no íntimo. Depois de suportarem dores e dificuldades de diversos tipos, quando lançam um olhar carinhoso para a criança, uma onda de orgulho e alegria os invade. Surge no coração dos pais uma alegria espiritual tão grande que já não resta qualquer sensação das centenas de sofrimentos e dificuldades da criação. Ao conceder aos pais esse extraordinário carinho sincero pela criança, Allah Todo-Poderoso lhes fez uma enorme benevolência. Se não existissem essa emoção e esse entusiasmo, provavelmente cumprir o dever de criar os filhos seria para os pais uma grande provação, e pouquíssimas pessoas seriam capazes de cumprir esse dever repleto de sofrimento e dificuldade.

Pense na mãe frágil e exausta que, durante vários meses, transforma o próprio corpo e a própria força vital para dar existência e força a uma criança e, depois, arriscando a própria vida, dá à luz um recém-nascido. Pense nesse recém-nascido: um pedaço indefeso de carne, sem sequer a capacidade de falar. E essa mãe doente, sem se importar com a própria vida, aceita sorrindo as dificuldades de criá-lo, com sacrifício e perseverança.

Ela não sente o menor incômodo com o choro contínuo da criança. A criança urina e defeca repetidamente, não apenas na cama, mas muitas vezes também sobre o corpo e as roupas dela. Ainda assim, ela não se importa. Além disso, se a criança sofre algum incômodo, a mãe frágil passa a noite inteira em vigília, carregando-a nos braços. Nem sequer sente o menor sofrimento com isso. Pelo contrário, ao ver o bebê sofrendo, fica tão aflita que, se fosse possível, estaria disposta a assumir o sofrimento sobre si para proporcionar conforto à criança. A situação do pai também é essa. O pai não hesita nem um pouco em gastar os ganhos do seu suor com esse bebê delicado. Seja a alegria do nascimento, seja a alegria da aqiqah, ele gasta continuamente os seus bens com alegria. Suportando o calor que queima o corpo, enfrentando as rajadas do vento escaldante, trabalhando intensamente sob o sol abrasador e correndo de um lado para o outro, em horários adequados ou não, no frio que faz o sangue congelar, tudo o que ganha com enorme esforço, ganha para os filhos. Depois, gasta isso com eles sem sentir pesar no coração; pelo contrário, sente uma imensa paz espiritual. Se não houvesse no coração dos pais um amor e carinho ilimitados por aquela criança, bem como um intenso desejo de criá-la, como tudo isso seria possível?

A criação dos filhos é uma tendência natural

O amor pelos filhos e o impulso de criá-los são instintos inatos. Allah Todo-Poderoso criou esse instinto no coração de todos os pais. Não há diferença se os pais são muçulmanos ou não, se creem em alguma religião ou em Allah, ou se não creem. Por causa da extrema necessidade de preservar a humanidade e manter este mundo habitado, Allah, o Altíssimo, criou em cada ser humano o instinto e o desejo de criar os filhos. Por isso, Allah Todo-Poderoso concedeu a todos os pais, sem qualquer distinção, essa emoção inata. Naturalmente, todo ser humano deseja que, depois dele, o seu filho ocupe o seu lugar, mantenha vivo o seu nome, herde os seus bens e recursos e também seja herdeiro da sua história, cultura, costumes e tradições. O filho é uma parte do próprio corpo e da própria alma. Por isso, é natural que a sua vida seja querida aos pais. Mesmo as pessoas que têm uma compreensão clara da criação dos filhos e dos sentimentos relacionados a isso consideram a criação dos filhos sob a influência do carinho e do amor inatos como um excelente dever e uma boa ação. Para que uma mulher suporte todo tipo de dificuldade e ofereça sacrifícios e abnegação continuamente pelo bem da criança, basta-lhe o vínculo de ser a mãe daquela criança. Quer ela tenha fé no Islã, quer creia em outra religião que não o Islã, quer não siga religião alguma, isso não faz diferença.

A diferença da mãe muçulmana na questão da criação dos filhos

Alá, o Altíssimo, concedeu a todas as mães o sentimento de amor pelos filhos e o desejo de criá-los. Tanto a mãe muçulmana quanto a mãe ignorante acerca do Islã criam os filhos sob o impulso do instinto natural. Contudo, há uma grande diferença entre ambas quanto às suas concepções, às razões pelas quais se esforçam, aos seus métodos de ação e aos efeitos e consequências de seus esforços.
Aquilo que a mãe privada do Islã pensa, ou pode pensar, sobre a criação dos filhos limita-se a este mundo. Seu olhar não se estende ao mundo eterno depois de ultrapassar os limites da morte. Ela cria o filho por ser seu próprio filho. Em seu coração há um sentimento ilimitado de amor por ele. Ela o cria porque considera a criação dos filhos uma boa ação neste mundo e porque é movida por esse sentimento natural.
Ela pensa que, por meio do filho, sua linhagem continuará, ou que, quando crescer, ele lhe proporcionará conforto e paz e será seu ajudante. Sob a influência dessas concepções, cria o próprio filho de modo que ele possa levar uma vida bem-sucedida do ponto de vista mundano.
A mãe muçulmana também cria o filho movida por um amor ilimitado por ele. Ela também considera que o filho é um meio de preservar a continuidade de sua linhagem. Ele é seu ajudante na vida e seu apoio na velhice. A diferença, porém, é que ela considera a criação dos filhos uma responsabilidade religiosa e um meio de alcançar a salvação na Outra Vida e a satisfação de Alá. Além disso, os pais muçulmanos submetem-se às ordens e preceitos islâmicos ao criarem os filhos. Eles não criam os filhos apenas para que passem a vida mundana em prosperidade e conforto; pelo contrário, sob sua tutela, formam combatentes da fé cuja visão é ampla, que vivem e morrem neste mundo para viver de acordo com a vontade de Alá e alcançar Sua satisfação na Outra Vida.
Para a mãe muçulmana, a questão da criação dos filhos não diz respeito apenas à vida material deste mundo; seus efeitos bons ou maus também se manifestarão naquela vida que é chamada de vida futura. E ela crê nessa vida futura. Seu modo de pensar é o seguinte: se educar o filho segundo as concepções islâmicas e o criar de acordo com as orientações islâmicas, sua vida futura será bela. Alá ficará satisfeito com ela, conceder-lhe-á o Paraíso e derramará sobre ela chuvas de recompensa. Mas, se demonstrar negligência no cumprimento dessa responsabilidade ou não educar os filhos de acordo com as orientações de Alá, ficará envergonhada na Outra Vida e arruinará sua vida futura. Alá ficará descontente com ela e a punirá.
Mesmo compelida pelo amor materno, a mãe muçulmana cria os filhos e espera uma boa recompensa por isso ainda neste mundo. Ao mesmo tempo, espera sua retribuição e recompensa naquele Dia em que estará mais necessitada de recompensa do que neste mundo. Essa recompensa será eterna.
A mãe privada da bênção do Islã jamais pode sentir pelos filhos uma emoção amorosa como a mãe muçulmana. Quando, além do sentimento natural, se acrescenta o sentimento da fé, cria-se uma profundidade de ternura e sinceridade que não pode surgir no coração da mãe não muçulmana. Além disso, a alegria e a força que surgem no coração da mãe muçulmana em razão de concepções fundamentais e distintivas não podem surgir no coração da mãe não muçulmana.
O maior benefício desse tipo de pensamento e ação é que, mesmo que, apesar de todos os esforços e sacrifícios, o filho seja incapaz de satisfazer as aspirações da mãe, ela não se envergonha. Tampouco se desespera, nem seu empenho diminui. Pelo contrário, permanece sempre fortalecida pela convicção de que, mesmo que neste mundo o filho fracasse em satisfazer suas aspirações, Alá cumprirá a retribuição e a recompensa que ela espera d’Ele. Isso porque Alá jamais desperdiça a recompensa das ações de Seus servos. Ele é Todo-Poderoso. Concede integralmente aos Seus servos a recompensa por suas boas ações e jamais os priva de sua recompensa.

إِنَّ هَذَا كَانَ لَكُمْ جَزَاء وَكَانَ سَعيكم مشكورا الدهر : ٢٢“Isso é uma recompensa para vós por vossos esforços, e vosso esforço é aceito (não é desperdiçado).” — Surata Al-Insan, 22

É da majestade do poder de Alá que Ele aumenta ainda mais, por Sua graça, as boas ações de Seus servos e lhes concede recompensas e prêmios multiplicados. Mesmo que haja algumas falhas e deficiências nas ações do servo, Ele não diminui a recompensa; perdoa suas falhas e, por Sua graça, aumenta a recompensa.

ومن يُقْتَرِفْ حَسَنَةً نَزِدْلَهُ فِيهَا حُسْنًا ، إِنَّ اللهَ غَفُورٌ شَكُور – الشورى : ۲۳“A quem praticar uma boa ação, acrescentaremos beleza a essa boa ação. Por certo, Alá é Perdoador e Apreciador.” — Surata Ax-Xura, 23

O significado da criação dos filhos — duas responsabilidades

A responsabilidade dos pais na criação dos filhos é igual, e ambos cumprem essa responsabilidade juntos. Criar os filhos significa cumprir dois tipos de responsabilidade.
Primeira: prestar o serviço de criar e cuidar da criança.
Segunda: fornecer os recursos necessários para as despesas da criação da criança.
A primeira responsabilidade significa cuidar do crescimento das crianças, protegê-las e supervisioná-las. Deve-se garantir sua saúde e seu conforto. Esse cuidado deve ser prestado enquanto elas ainda não tiverem condições de se alimentar sozinhas. A mãe amamentará a criança e cuidará dela. Mesmo depois do desmame, será necessário supervisioná-la até atingir a maturidade e cuidar de suas necessidades físicas e morais, para que, ao ser criada, seja capaz de adquirir senso de responsabilidade humana e se torne apta a cuidar de outros.
A segunda responsabilidade significa arcar com todas as despesas do filho desde o nascimento até atingir a maturidade. Devem ser custeados todos os gastos com sua alimentação, vestuário e moradia, bem como com seus cuidados, sua saúde física, sua educação e sua formação.

Distribuição das responsabilidades

Embora a primeira responsabilidade, isto é, o cuidado e a criação da criança, pertença a ambos os pais, naturalmente a maior parte do peso recai sobre a mãe. O Islã também concedeu esse direito à mãe. É igualmente responsabilidade da mãe amamentar seu filho, em circunstâncias normais, durante dois anos.
A segunda responsabilidade, isto é, a responsabilidade de custear as despesas, cabe exclusivamente ao pai. Alá isentou a mãe dessa responsabilidade, para que ela possa permanecer sempre com os filhos e cumprir, com concentração, sua parte da responsabilidade de maneira bela e adequada.

O verdadeiro mérito no cuidado dos filhos é o serviço prestado pela mãe

O verdadeiro campo dos esforços da mãe é o seu lar, e o seu verdadeiro mérito consiste em cuidar da criança e prestar um belo serviço na sua criação. O Islã confiou precisamente esse serviço à sua responsabilidade. Este é o verdadeiro campo do seu sucesso e este é o seu verdadeiro mérito. A respeito disso, ela terá de prestar contas no Dia da Ressurreição. O nobre Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse:

والمرأة راعية في بيت زوجها ومسئولة عن رعيتها – بخاری، مسلم”A mulher é responsável pela casa do seu marido e será questionada sobre aqueles sob sua responsabilidade.” — Bukhari e Muslim

Sempre que, em qualquer lugar, a mulher foi afastada do seu verdadeiro campo e arrastada para o ambiente externo, sendo-lhe imposto o peso de responsabilidades exteriores além de suas responsabilidades naturais, sob a ilusão de um progresso anormal, a vida familiar foi destruída. Também se produziram desastres semelhantes aos do Dia da Ressurreição na vida exterior, e a vida dos filhos tornou-se desolada e arruinada. No entanto, Allah Todo-Poderoso não lhes havia confiado essa responsabilidade. Movida pelo desejo ilusório de progresso, a mulher aceitou uma dupla responsabilidade.

Nos países onde essa experimentação ainda não terminou, as mulheres se esforçam intensamente para satisfazer os desejos do coração, e a sociedade corre cegamente por esse caminho. Porém, aqueles que concluíram essa terrível experiência da civilização estão sofrendo seus amargos frutos. Envergonhados do que fizeram, estão pensando em voltar atrás. O grande pensador ocidental da era moderna, Arnold Toynbee, escreveu:
“As épocas da história humana que sofreram declínio foram precisamente aquelas em que a mulher levou seus passos para além das quatro paredes do lar.”

O Dr. Judd escreveu: “Se as mulheres se contentarem em cuidar do próprio lar e em criar os filhos, tenho plena confiança de que este mundo se transformará num símbolo do Paraíso.”

O maior dos guias, Hazrat Muhammad Mustafa, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, havia advertido sua comunidade muito tempo antes de que chegaria uma época muito má para vocês: a época em que vocês ficariam sob o domínio das esposas e as rédeas dos seus assuntos coletivos seriam colocadas em suas mãos. Além disso, ele disse:

إِذَا كَانَ أَمَرَ أَنكُم شراركُمْ وَأَغْنِيَاءكُم بِخَلاتُكُمْ وَأَمركم إلى نساءكم
فَبَطْنُ الأَرْضِ خَيرٌ لكم من ظهرها – مشكوة باب تغير الناس”Quando os seus governantes e responsáveis forem pessoas más, os seus ricos forem avarentos e os seus assuntos forem confiados às mulheres, então o ventre da terra será melhor para vocês do que a sua superfície.” — Mishkat

O amado Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse às mulheres da sua comunidade: se vocês cumprirem de maneira bela e adequada as suas responsabilidades naturais, estarão comigo no Paraíso. Isso significa que as suas responsabilidades naturais e domésticas são, aos olhos de Allah, extremamente importantes e valiosas. De modo algum se deve menosprezar essa responsabilidade. Somente são bem-sucedidas as mulheres que cumprem com dedicação essa sua verdadeira responsabilidade. Jamais podem ser bem-sucedidas aquelas que, carregando sobre os ombros o peso de responsabilidades externas, desejam estar ao lado dos homens em todos os campos. O amado Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse:

أيما امرأة قعدت على بيت أولادها فهي مَعِي فِي الْجَنَّةِ – كنز العمال”A mulher que permanece em casa para cuidar dos próprios filhos estará comigo no Paraíso.” — Kanz al-‘Ummal

Que maior fortuna e sucesso poderiam existir para as mulheres do que estarem com o Mensageiro de Allah no Paraíso? Toda mulher pode alcançar essa fortuna se cuidar dos filhos, realizar as tarefas domésticas e cumprir a sua verdadeira responsabilidade.

Na realidade, Allah Todo-Poderoso criou a constituição física da mulher, suas especiais emoções e sentimentos puros, suas qualidades morais particulares e seu temperamento específico precisamente adequados a esse trabalho. Afastá-la desse trabalho natural e encarregá-la de outro trabalho não é senão uma injustiça.

A obra de maior dignidade para as mulheres

Considerar o trabalho doméstico algo inferior, considerar indigno criar os filhos e considerar progresso participar de atividades coletivas fora de casa não passa de um conceito equivocado. O Islã certamente lhe concedeu o direito de participar de atividades coletivas, estabelecendo alguns limites. Mas não lhe concedeu esse direito para que você considere indigna sua responsabilidade natural, abandone-a e considere progresso cumprir responsabilidades externas. O verdadeiro desenvolvimento da civilização e da cultura humana significa construir uma sociedade humana desenvolvida. E, para construir uma sociedade humana desenvolvida, é essencial que você cumpra a responsabilidade de criar os filhos e forme pessoas de caráter elevado e natureza pura. Pois uma sociedade pura só pode ser construída por pessoas boas. Ninguém, exceto as mulheres, pode realizar esse trabalho. Pessoas boas são criadas em bons colos. Por isso, o Islã classificou esse seu trabalho como o mais digno de todos. Esse seu trabalho é jihad aos olhos do Islã, e o Nobre Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, descreveu a jihad como o ápice da religião. O amado Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse a Hazrat Mu‘adh, que Allah esteja satisfeito com ele:

ألا أدلك برأس الأمر وعموده وذروة سنامه ؟ قُلْتُ بَلَى يَا رَسُولَ الله ! قَالَ رَأس الأمر الإسلام وعموده الصلوة وذروة سنامه الجهاد – ترمذى“Devo informar-vos sobre a cabeça da religião, seu pilar e seu ápice? Eu disse: ‘Sim, ó Mensageiro de Allah!’ Ele disse: ‘A cabeça da religião é a submissão, seu pilar é a oração e seu ápice é a jihad.’”

À luz desse ensinamento, se você se dedicar a cuidar da casa e criar os filhos, estará no campo da jihad, e aos olhos de Allah sua posição será igual à de um mujahid. Foi narrado por Hazrat Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela, que o Nobre Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse:

عَلَيْكُنَّ بِالْبَيْتِ فَإِنَّهُ جِهَادُكُن – مسند احمد ج ۲“É vossa responsabilidade cuidar da casa. E essa é a vossa obra de jihad.”

Não se casar novamente em consideração aos filhos

Se o marido de uma mulher falecer, casar-se novamente não será apenas lícito para ela, mas também recomendável. Porém, se uma mulher não se casar novamente por consideração ao próprio filho e sacrificar sua beleza e juventude pelos filhos órfãos de seu falecido marido, sua ação será tão apreciada e aceita que, no Dia da Ressurreição, ela estará junto do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele.

قَالَ رَسُولُ اللهِ صلَّى اللهُ عَلَيْهِ وَسَلَّمَ أَنَا وَامْرَأَةُ سَفَعَاءُ الخَدِّينِ كَهَاتَيْنِ يوم القيمة وأوما يزيد بن زريع إلى الوسطى والسبابة امرأة أمت من زوجها ذات منصب وجمال حبست نفسها علَى يَتَامَاهَا حَتَّى بَانُوا أَوْ مَاتُوا— O Nobre Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “No Dia da Ressurreição, eu e a mulher de faces marcadas pela aflição estaremos juntos como estes dois dedos.” (Yazid ibn Zurai‘ apontou para os dedos médio e indicador.) Isto é, a mulher cujo marido morreu, sendo ela uma mulher de elevada linhagem, nobre e bela, mas que, por consideração aos seus filhos órfãos, se abstém de se casar novamente, até que essas crianças deixem sua tutela ou faleçam.”

A expressão “mulher privada do marido” pode ter dois significados. Primeiro, aquela cujo marido morreu. Segundo, aquela de quem o marido se divorciou. Do ponto de vista linguístico, chama-se ayyim a pessoa privada do vínculo matrimonial. Um homem pode estar privado desse vínculo, assim como uma mulher. Aqui, o nobre Profeta ﷺ elogiou a ação de homens e mulheres privados do cônjuge. Ou seja, a mulher não se casa novamente por consideração às crianças órfãs. Por isso, naturalmente, foi mencionada aqui a viúva. Contudo, se uma mulher for divorciada pelo marido e, por alguma razão, uma criança ficar sob sua responsabilidade, e ela não se casar novamente por consideração ao filho, espera-se que também seja merecedora dessa recompensa.

A criação dos filhos e as Companheiras

As Companheiras que creram no Mensageiro ﷺ e mergulharam em sua orientação amavam profundamente, com a vida e o coração, cada instrução e ensinamento do amado Profeta ﷺ, e cumpriam o dever de agir de acordo com eles unicamente para obter a satisfação de Allah. Essas Companheiras de espírito elevado, que Allah esteja satisfeito com elas, também assumiram a responsabilidade de criar os filhos. Por consideração aos filhos, sacrificaram todo conforto, esperança, aspiração, beleza e juventude. Na verdade, elas conseguiram assimilar corretamente os ensinamentos do Mensageiro ﷺ.

Uma mãe que cumpriu a responsabilidade de criar

“Que Allah conceda uma excelente recompensa à minha mãe. Ela cumpriu a responsabilidade de me criar e cuidar de mim.” O ilustre Anas, que Allah esteja satisfeito com ele, servo especial do amado Profeta ﷺ, disse estas palavras a respeito de sua mãe.

A mãe de Anas, Umm Sulaym, era mais conhecida por sua kunya. Seu nome verdadeiro era Ramila ou Sahla, e seu título era Ramisa. Seu pai chamava-se Malhan. Ela pertencia à tribo Najjar dos Ansar.

Ela se casou com um jovem de sua própria tribo, Malik ibn Nadr. Foi desse casamento que nasceu Anas, que Allah esteja satisfeito com ele. Quando Anas ainda era criança, Umm Sulaym tornou-se muçulmana.

Umm Sulaym amava profundamente seu filho. Quando ela lhe ensinava a profissão de fé, Malik ibn Nadr ficava muito irritado. Por fim, aborrecido, partiu para a Síria.

Na Síria, um de seus inimigos aproveitou uma oportunidade e o matou, e Umm Sulaym ficou viúva ainda na juventude. Então começaram a chegar propostas de casamento. Mas ela rejeitou todas, dizendo: “Não me casarei enquanto meu filho não tiver alcançado a capacidade de participar de uma reunião e conversar. Depois, quando Anas consentir com meu casamento, então me casarei.”

Umm Sulaym era uma mulher jovem. Anas era uma criança. Umm Sulaym estava aflita. Porém, para ela era insuportável que o mau tratamento de um padrasto causasse qualquer ferida no coração da criança.

Mais tarde, quando Anas se tornou jovem, Abu Talha enviou uma proposta. Mas como ela poderia aceitá-la? Abu Talha ainda não era muçulmano. Por isso, ela rejeitou a proposta. Contudo, essa rejeição foi uma rejeição extremamente sábia, para que os olhos de Abu Talha se abrissem. Umm Sulaym disse:

يا أبا طلحة الست تعلم أن الهك الذي تعيد نبت مِنَ الْأَرْضِ قَالَ بَلَى قَالَت
أفلا تستحيي تعبد شجرة – اصابه ج دوم و مسند احمد“Abu Talha, você não sabe que aquilo que adora como seu deus brota da terra?” Ele respondeu: “Sim, sei.” Então Umm Sulaym continuou: “Nesse caso, você não sente vergonha de adorar uma árvore?” — Al-Isabah e Musnad Ahmad

Ao ouvir isso, Abu Talha ficou pensativo. Naquele momento, foi embora. Porém, o mal que havia em seu coração começou a desaparecer. Alguns dias depois, ele foi até Umm Sulaym e foi honrado com a aceitação do Islã.

Quando Umm Sulaym viu que Allah havia agraciado Abu Talha com a riqueza do Islã, disse, sem se importar com sua impotência ou pobreza: “Abu Talha, aceito sua proposta. Meu dote é o seu Islã.” O casamento de Umm Sulaym ocorreu justamente para assegurar a boa criação daquele filho, por consideração à qual ela havia recusado o casamento até então. Anas, que Allah esteja satisfeito com ele, dizia: “O dote de minha mãe também foi de uma natureza extraordinária.”

Pode-se avaliar quão estimada era essa esposa virtuosa aos olhos de Allah pela seguinte descrição do amado Profeta ﷺ:

دخلت الجنَّةَ فَسَمِعتُ خَشَفَةً فَقُلْتُ مَا هذَا فَقِيلَ الرميصاء بنت ملحان –
صحيح مسلم ج دوم وطبقات ابن سعد ج هشتم“Entrei no Paraíso e ouvi um ruído. Perguntei: ‘O que é esse som?’ Foi-me dito: ‘É o som de Rumaysa, filha de Malhan.’” — Muslim e Tabaqat de Ibn Sa’d

Sacrifício sem precedentes para a criação dos filhos

Quem era mais querido pelas companheiras do Profeta, que Allah esteja satisfeito com elas, do que o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz? Contudo, quando o amado Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, pediu em casamento Umm Hani, filha de seu tio paterno Abu Talib, ela pediu desculpas, pois havia assimilado muito bem o ensinamento que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, havia transmitido às companheiras sobre a importância de criar os filhos. Reflitam sobre as palavras que Umm Hani disse ao amado Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, ao pedir desculpas. Então ficará claro quão importante era, para as companheiras, a criação dos filhos. Umm Hani disse:
“Ó Mensageiro de Allah! O senhor é mais querido para mim do que estes meus dois olhos. Porém, os direitos do marido são muito grandes. Tenho medo de que, ao me casar, se eu cumprir os direitos de servir ao marido, não consiga cumprir os direitos destas joias do meu coração (os filhos). E, se eu me dedicar ao serviço dos filhos, não conseguirei cumprir os direitos do marido.” — Tabaqat de Ibn Sa’d: relato sobre Umm Hani
Esta era a afortunada Umm Hani, em cuja casa o Nobre Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, tomou banho e realizou a oração de Duha no dia da conquista de Meca. Por causa dos laços de parentesco, Umm Hani havia concedido abrigo em sua casa a dois politeístas, e o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, também lhes concedeu proteção. — Musnad Ahmad

O leite materno sob a perspectiva islâmica

Na criação dos filhos, a mãe amamenta a criança por uma razão natural. Isso é uma prática ou costume bem conhecido! É um direito do filho amado sobre a mãe. E também é uma exigência da maternidade. Amamentar a criança com o leite materno é uma prática bem conhecida e algo comum na sociedade. Por outro lado, toda mãe considera natural e instintivo amamentar o próprio filho. Acolher o filho no ventre, dar-lhe à luz e amamentá-lo para seu crescimento são instintos naturais de toda mãe. O Sagrado Alcorão diz:

والوالدت يرضعن أولادهن حولين كاملين لِمَنْ أَرَادَ أَن يَتِمَّ الرَّضَاعَةَ.
“As mães amamentarão seus filhos por dois anos completos, para quem desejar completar a amamentação.” Surata Al-Baqarah: 233

Este versículo, na realidade, ordena que amamentem aquelas mães cujos maridos se divorciaram delas ou que se separaram dos maridos por meio do divórcio khulʿ. A criança tem um direito natural ao leite materno, e o filho não é apenas do pai; é também um pedaço do coração da mãe. Por isso, a mãe não deve descarregar sobre o filho a raiva que sente contra o pai da criança nem violar o direito do filho. Quando o Sagrado Alcorão ordena às mulheres separadas dos maridos que não se recusem a amamentar o filho, fica claro que amamentar é um direito e uma responsabilidade legal da mãe. Como poderia ser que se ordenasse à mulher separada do marido que amamentasse, mas não se desse essa ordem à mulher que permanece com o marido? Por serem mães da criança, a orientação é a mesma em ambas as situações. Essa orientação foi dada no Sagrado Alcorão para que, por estar separada do marido, a criança não fosse privada do direito de ser amamentada. A razão pela qual o Sagrado Alcorão não deu uma ordem específica a respeito das mães que vivem com os maridos é que amamentar o próprio filho é uma prática comum, e toda mãe, movida por seu sentimento natural, amamenta o próprio filho e sente paz de espírito e alegria interior. Por isso, essa orientação também é claramente conhecida a partir deste versículo do Sagrado Alcorão. Portanto, o Alcorão não descreveu esta questão como uma obrigação legal permanente. Em vez disso, descreveu-a como uma responsabilidade concedida pela natureza e como uma prática comum, adotando o princípio de que, assim como toda mãe suporta o peso do filho e assume o ato de dar à luz, também o amamenta com o sangue de seu próprio coração durante dois anos.

حملته أنه كرها ووضعته كرها ، وحمله وفصله ثلثون شهراً- –
“Sua mãe o carregou com dificuldade e o deu à luz com dificuldade; desde a gravidez até o desmame transcorreram trinta meses.” — Surata Al-Ahqaf: 15

Este versículo reconhece três grandes favores da mãe.
Primeiro: ela o acolheu em seu ventre, suportando dificuldades.
Segundo: deu-lhe à luz, suportando dificuldades.
Terceiro: a mãe o amamentou.
A exigência desses três favores sem precedentes é que a mãe tenha direitos três vezes maiores que os do pai. O que foi mencionado de forma alusiva no Sagrado Alcorão, o Nobre Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, explicou como seu intérprete:
“Um companheiro perguntou: ‘Ó Mensageiro de Allah! Quem tem o maior direito ao meu bom tratamento?’ Ele respondeu: ‘Tua mãe.’ Ele perguntou: ‘E depois de minha mãe, quem?’ Respondeu: ‘Tua mãe.’ O companheiro perguntou: ‘E depois?’ Foi dito: ‘Tua mãe.’ Ele perguntou novamente: ‘E depois?’ Respondeu: ‘Teu pai.'” Bukhari e Muslim
A partir deste relato do Alcorão e da Sunnah, sabe-se que toda mãe tem direitos três vezes maiores sobre cada filho. Isso porque, por natureza, a mãe realiza três atos em relação ao próprio filho. Durante nove meses, suporta sucessivas fraquezas enquanto o carrega no ventre. Depois, arrisca a própria vida para dar à luz o filho e, em seguida, alimenta-o durante dois anos com o sangue de seu próprio coração. Isso é o instinto natural e a prática conhecida de toda mãe. Por meio desses atos, o Sagrado Alcorão, com grande sabedoria, esclareceu o afeto e os favores da mãe para com o filho, afirmando que a mãe tem três vezes mais direitos do que o pai.
O Islam é uma religião natural. Por isso, não lança ninguém em dificuldades desnecessárias. Normalmente, a mãe deve amamentar durante dois anos. Contudo, se por alguma razão for necessário desmamar a criança antes de completar dois anos, o Islam não torna obrigatório amamentá-la por todo esse período. Da mesma forma, se uma mulher estiver doente ou fraca e houver receio de que sua saúde se deteriore ainda mais, ela pode deixar de amamentar conforme as circunstâncias. Porém, deixar de amamentar apenas por vaidade, sem qualquer dificuldade real ou necessidade, é considerado uma interferência no direito da criança e um ato de coração endurecido.
As mulheres que, influenciadas pelo brilho da civilização moderna, não amamentam os filhos, ou que, temendo perder a beleza, a juventude e a delicadeza por amamentar, privam a criança do próprio leite e receiam que sua juventude seja destruída, embora sejam mães, ficam privadas da ternura, dos sentimentos e do coração maternos. Isso porque nenhum leite pode substituir o leite materno para a criança. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, fez uma severa advertência contra as mulheres motivadas por essas ideias. O Nobre Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, advertiu as mulheres que, em consequência dessas práticas reprováveis, privam os próprios filhos de serem amamentados, sobre consequências extremamente graves. Ao narrar o acontecimento da noite do Miraj, o Nobre Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse:

ثم انطلق بي فَإِذَا بِنِسَاء تَنهش تديَهُنَّ الْحَيَّاتُ قُلْتُ مَا بَالُ هَؤُلَاءِ قَبْلَ هُؤُلاء
يمنعن أولادهن البانهن – ترغيب وترهيب“Depois fui levado ainda mais adiante. Nesse momento, vi algumas mulheres cujos peitos eram mordidos por serpentes. Perguntei: ‘Quem são essas mulheres?’ Foi-me dito: ‘São as mulheres que não amamentavam os próprios filhos.’” — At-Targhib wa At-Tarhib

A importância legal e moral do leite materno

O leite materno é o alimento natural da criança. Esse alimento proporciona-lhe plena saúde e vigor. Contudo, não é apenas alimento físico; é também alimento espiritual e moral. O leite materno exerce profunda influência sobre o coração, as emoções, o caráter e as ações da criança. Ao amamentar o filho, a mãe não lhe fornece somente alimento nutritivo; com cada gota de leite, ela também transmite ao seu corpo e à sua alma os próprios pensamentos puros, nobres sentimentos, elevadas esperanças e aspirações, e o caráter louvável. Naturalmente, a criança absorve tudo isso juntamente com o leite materno. Do ponto de vista moral, o leite materno é extremamente importante. Afinal, todo alimento necessariamente influencia o caráter e as ações da pessoa. Mas, como o leite é o alimento inicial do ser humano, a sua importância é ainda maior.

Se, por alguma razão, uma criança não receber o leite da própria mãe e for necessário alimentá-la com o leite de uma mulher estranha, deve-se cuidar para que o corpo da mulher que a amamentará seja saudável. Ela também deve ser satisfatória quanto à pureza e à higiene. Deve ser recomendável em seus sentimentos, emoções e pensamentos. Deve ser confiável em caráter e ações, e boa em hábitos e qualidades. Assim, a criança poderá adquirir dela um belo caráter.

A principal razão do extraordinário vínculo e do profundo amor que se formam entre a mãe e a criança é o leite. As mães que não amamentam os filhos não sentem por eles a atração que se forma justamente por meio da amamentação. Se depois se queixarem de afastamento e frieza na relação com os filhos, elas próprias serão responsáveis por isso. Pois, quando não os aconchegaram ao peito durante os dois primeiros anos de vida, não revigorando o afeto, o amor e o vínculo espiritual, era natural que esse fosse o resultado.

Na Sharia islâmica, não apenas se reconheceu a importância do aleitamento; foi-lhe conferida tamanha importância que, com base nele, foram estabelecidas as leis do lícito e do ilícito.

Em árabe, o aleitamento é chamado rada‘ah. O Islã considera essa relação de aleitamento digna de quase a mesma honra que o parentesco de sangue. Se, por alguma razão, uma criança beber o leite de uma mulher desconhecida, estabelece-se entre ela e essa mulher uma relação de aleitamento. A mulher que amamenta torna-se sua mãe de leite. A posição da mãe de leite é quase como a da mãe biológica. Por causa desse aleitamento, não apenas a mulher se torna mãe de leite: o marido dela torna-se o pai de leite da criança, e os filhos dela tornam-se irmãos e irmãs de leite da criança. Na Sharia, o parentesco de leite possui quase a mesma posição que o parentesco de sangue. De fato, o casamento entre esses parentes torna-se proibido da mesma forma que é proibido entre parentes consanguíneos. No Alcorão Sagrado foi declarado:

وأُمَّهَاتُكُمُ الَّتِي أَرضَعْنَكُم وَأَخَوَاتُكُم من الرضاعة – النساء : ٢٣“E vossas mães que vos amamentaram e vossas irmãs de leite.” — An-Nissá: 23

Ou seja, os parentes que se tornam proibidos por causa da relação com os pais biológicos tornam-se proibidos por causa da relação com os pais de leite. Como seu intérprete, o Nobre Mensageiro de Deus, que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele, explicou a norma, dizendo:

إِنَّ اللَّهَ حَرَّمَ مِنَ الرَّضَاعَةِ مَا حَرَّمَ مِنَ النَّسب – صحيح مسلم“De fato, Deus tornou proibidos, por causa do aleitamento, aqueles parentes que tornou proibidos por causa do parentesco.” — Sahih Muslim

Na Sharia, foi dada tamanha importância ao aleitamento que, se um homem e uma mulher se casarem sem saber que existe entre eles uma relação de aleitamento, esse casamento será dissolvido apenas pelo testemunho de uma mulher; e, depois de se tomar conhecimento da relação de aleitamento, não será lícito que essas duas pessoas permaneçam como marido e mulher nem por um instante.

Uqbah bin Harith, que Deus esteja satisfeito com ele, casou-se com uma mulher. Depois do casamento, uma mulher veio e disse: “Eu amamentei a ambos.” Uqbah perguntou aos parentes da esposa sobre o ocorrido, mas eles declararam desconhecê-lo. Por fim, Uqbah, que Deus esteja satisfeito com ele, compareceu perante o amado Profeta, que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele, e contou-lhe todo o caso. Ao ouvir o relato, o Nobre Profeta, que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele, disse: “Como vocês podem permanecer juntos agora?” Uqbah, que Deus esteja satisfeito com ele, divorciou-se daquela mulher, e ela se casou com outro homem. — Sahih Al-Bukhari

O valor incomparável do aleitamento

Diante da extraordinária importância de amamentar o próprio filho e de seus enormes benefícios morais e espirituais, o Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, além de proferir uma severa advertência contra aquelas que não amamentam, também as incentivou. Dirigindo-se às mulheres muçulmanas, disse: “Ao amamentarem o fruto de seus corações, vocês não receberão sua recompensa apenas neste mundo; também receberão, na vida futura, recompensa e galardão imensuráveis.” O amado Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse:

وإِن لها من أول رضعة ترضعه أجر حياة نسمة – كنز العمال“A mulher muçulmana que dá ao próprio filho o primeiro gole de leite receberá uma recompensa equivalente à de quem dá vida a uma pessoa.” — Kanz al-‘Ummal

Além disso, o amado Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, descreveu a mulher que amamenta como um combatente que permanece continuamente de guarda no caminho de Allah. Se essa mulher morrer durante esse período, receberá a recompensa do martírio.

O leite materno sob os aspectos médico e psicológico

O leite materno também é extraordinariamente benéfico do ponto de vista médico e psicológico. Especialistas em medicina e psicologia escreveram detalhadamente sobre esse assunto. Apresentaremos aqui alguns trechos de um artigo de pesquisa de uma instituição de pesquisa em saúde e medicina. Por meio desta citação, será possível compreender o que os especialistas em medicina e psicologia pensam sobre o assunto e quais benefícios você e seus descendentes obtêm do direito cuja reivindicação o Islam os incentiva a fazer.
“Diversas exigências da civilização moderna estão nos afastando de muitas leis naturais. Muitas mulheres grávidas se perguntam se devem alimentar o próprio filho com seu leite ou com leite de vaca. É necessário informar-lhes que o leite de vaca jamais pode substituir o leite materno. Se você deseja livrar a criança de todos os tipos de alergia, dores abdominais e indigestão, amamente-a com seu próprio leite.
Depois do nascimento da criança, o corpo da mãe retorna rapidamente ao estado saudável justamente após ela começar a amamentá-la. Além disso, a fraqueza dos bebês nascidos prematuramente também é eliminada pelo leite materno.”

O caso de uma mãe

O filho de uma mulher nasceu seis semanas antes do tempo previsto. A enfermeira apertou uma faixa ao redor do corpo dela. A mulher perguntou à enfermeira: “Por que você colocou esta faixa?”
A enfermeira respondeu: “A faixa foi colocada para impedir que seu leite descesse.”
“Mas eu quero amamentar meu filho.”
“Você não poderá amamentá-lo. Seu filho nasceu antes do tempo previsto e, por isso, está fraco. Você terá de ficar separada dele por algumas semanas”, disse a enfermeira.
“Doutora!”, disse a mulher, decepcionada com a enfermeira, “a senhora pode me ajudar? Quero amamentar meu filho.”
A médica respondeu em tom de repreensão: “Você sabe que seu filho nasceu alguns dias antes do tempo?”
“É justamente por isso que quero amamentá-lo. Quero que esse corpo fraco adquira força imediatamente e que ele sobreviva.”
“Essa questão nem sequer se coloca.”
“Se você deseja amamentá-lo, teremos de extrair seu leite por algum meio. Está preparada para isso?”
Por amor, a mãe estava preparada. Seu leite foi extraído por meio de um aparelho elétrico. Às vezes, extraíam-se até 11 onças de leite. Outros bebês do hospital também bebiam esse leite. Quando a mãe recebeu alta do hospital, o bebê permaneceu ali, pois pesava menos de seis libras. Em casa, a mãe começou a extrair o próprio leite com uma bomba e enviá-lo ao hospital para o bebê. Nesse meio-tempo, ele completou cinco semanas de idade e foi levado para casa.
Em nossa classe amante da moda, serão poucas as mulheres que insistiriam, como a mulher mencionada, em amamentar o próprio filho. Essa mulher havia visto com os próprios olhos a situação de suas amigas. Ela sabia que os bebês alimentados com mamadeira sofrem constantemente de dores abdominais. Embora seu filho tivesse nascido prematuramente, logo voltou ao estado normal, e a fraqueza que havia sido inicialmente sentida desapareceu imediatamente.

O leite materno e a saúde

Nos países onde, sob a influência das exigências modernas da civilização, as mães demonstram relutância em amamentar os próprios filhos, os padrões de saúde estão em declínio, e as crianças ficam privadas do caráter dos pais.
Nos primeiros dias, o leite materno contém uma substância chamada colostro. Esse colostro confere à criança uma forte vitalidade. A quantidade de vitamina A que ele fornece não é obtida posteriormente. Sua quantidade vai diminuindo gradualmente. Por isso, no início, a mãe deve necessariamente amamentar o próprio filho. A criança não recebe essa vitamina no ventre materno. Portanto, deve obtê-la obrigatoriamente no começo da vida. O colostro também protege os recém-nascidos contra ataques de microrganismos externos.
Os recém-nascidos correm o risco de sofrer de tosse e pneumonia. Se receberem colostro, diminui a possibilidade de contraírem essas doenças. A maioria das crianças que morrem no primeiro mês após o nascimento morre devido à deficiência de colostro.

Pesquisas modernas

Os pesquisadores concordam que a melhor maneira de proteger os recém-nascidos de todo tipo de sofrimento é amamentá-los. Esse alimento supre, para eles, a necessidade de remédios. A maioria das doenças que acometem as crianças no início da vida ocorre por causa da alimentação.
Ao refletirmos, veremos que a situação dos animais é completamente diferente da dos seres humanos. O leite de vaca é extremamente adequado para o bezerro, pois ele precisa ficar de pé muito rapidamente. Em comparação com a capacidade cerebral, ele necessita um pouco mais de força física. O bebê humano não precisa andar imediatamente após nascer. Ele precisa desenvolver sua capacidade cerebral. O leite materno funciona como o meio ideal para adquirir essas capacidades.
O leite materno contém 4% de gordura. Já o leite da foca contém 40% de gordura. A razão é clara: o corpo da foca precisa rapidamente de uma camada de gordura. Com a ajuda dessa gordura, ela sobrevive enfrentando o frio do gelo e da água gelada. Por outro lado, o leite de coelha contém uma proporção um pouco maior de proteínas: dez vezes mais do que o leite humano. É por isso que o filhote de coelho cresce rapidamente. Em apenas 6 dias, seu peso dobra em relação ao dia do nascimento. O bebê humano leva seis meses para dobrar de peso. Essa é a lei da natureza.

Malefícios de alimentar a criança com leite que não seja o materno

Segundo a concepção moderna, a hipertensão não surge apenas em idade avançada; ao contrário, começa ainda na infância. Sua principal causa é o excesso de sódio do leite de vaca. Uma das causas do aumento das doenças cardíacas entre as nações amantes da moda é o consumo de leite que não seja o materno. Segundo uma pesquisa, soube-se que, na América, o número de mães que amamentam os próprios filhos caiu pela metade. Em uma cidade da Grã-Bretanha, esse número caiu de 77% para 36%, e, em cinco anos, na França, o número de crianças que não haviam sido amamentadas aumentou de 31% para 51%. A verdade é que a natureza tornou o leite de cada mamífero adequado somente para seus próprios filhotes.

Afeto

A criança que é amamentada no colo da própria mãe, além de receber leite, obtém junto à mãe uma sensação de proteção. Essa sensação permanece desperta por toda a vida e, psicologicamente, contribui para que ela se torne uma pessoa melhor. Essa relação criada pela amamentação estabelece um vínculo indissolúvel entre a mãe e a criança. Esse vínculo e essa relação de amor e carinho não podem ser comprados no mercado.
Os especialistas em doenças mentais afirmam que uma das principais causas do aumento dessas doenças é o fato de que, hoje em dia, as pessoas estão privadas do afeto materno. A civilização moderna está erguendo uma parede artificial entre a mãe e a criança. Uma garrafa inanimada de vidro ou plástico, cheia de leite animal, não pode substituir os braços suaves da mãe nem o leite completo em todos os aspectos. Além disso, nada se compara à tranquilidade que a mãe sente enquanto amamenta.

Arcar com as despesas da criação dos filhos

A segunda parte da criação dos filhos é arcar com as despesas. O Islã atribuiu exclusivamente ao pai a responsabilidade por essas despesas. Isso porque Allah Altíssimo incumbiu os homens de buscar o sustento e fornecer os bens necessários à vida. Para isso, Ele também lhes concedeu força física, mental e moral. Em comparação com as mulheres, os homens receberam maior saúde física, capacidade para o trabalho árduo, coragem, firmeza, reflexão e força física e moral, pois necessitavam mais dessas forças e aptidões para cumprir responsabilidades específicas. Allah Altíssimo isentou as mulheres da responsabilidade de buscar o sustento e lhes confiou as responsabilidades do lar. Para isso, concedeu-lhes as qualidades apropriadas. Em suma, homens e mulheres receberam aptidões diferentes e foram incumbidos de desempenhar devidamente as responsabilidades de seus respectivos campos.

O significado de arcar com as despesas

A responsabilidade de arcar com as despesas significa que o pai deverá cobrir todos os gastos do filho desde o nascimento até a puberdade. Isso inclui as despesas do nascimento, alimentação e bebida, roupas e véu, cuidados e supervisão, saúde e conforto, o pagamento a outra mulher caso seja necessário que ela amamente a criança e, se a mãe da criança for divorciada e amamentá-la, o pagamento devido a ela. Em suma, arcar com todas as despesas da criação e do desenvolvimento do filho é uma responsabilidade sharia do pai. Se o pai for abastado, também será obrigatório para ele pagar a sadaqa e o fitra do filho, e será mustahabb oferecer a aqiqah.

As despesas e o afeto paterno

O pai cumpre esse direito do filho com extrema generosidade. Quando, depois de gastar sem hesitação os bens adquiridos com o suor de seu corpo, ele vê o filho alegre e feliz, todo o seu cansaço desaparece. A emoção de sua ternura paterna se acalma e ele se enche de alegria. Allah Altíssimo concedeu uma grande graça a ele e ao filho ao criar no coração do pai uma emoção ilimitada de amor paterno. Sem esse afeto e carinho naturais, arcar com as despesas do filho apenas como um dever seria uma tarefa muito difícil, e pouquíssimas pessoas seriam capazes de cumprir essa responsabilidade. Consequentemente, a criação dos filhos se tornaria um problema difícil na sociedade humana, e eles geralmente seriam privados de uma criação adequada. É também uma grande graça de Allah para o filho que Ele criou ternura, afeto e carinho no coração dos pais, confiando-lhes uma responsabilidade tão bela para sua criação.

As despesas e a responsabilidade religiosa

O pai muçulmano arca com as despesas do filho por causa do amor natural. Ao mesmo tempo, porém, ele também entende que arcar com as despesas da criação do filho é uma responsabilidade religiosa. Allah confiou a ele a responsabilidade de cuidar do filho. Ao arcar com as despesas do filho, ele, por um lado, satisfaz o sentimento paterno e, por outro, expressa a Allah seu desejo de receber, na outra vida, a recompensa abundante por essa boa ação. Quando esse forte fator se une ao amor natural pelo filho, arcar com as despesas de sua criação torna-se um meio de alcançar o sucesso na outra vida. Assim, quando o significado de arcar com as despesas da criação do filho se harmoniza com esse belo objetivo, cumprir essa responsabilidade torna-se muito fácil. O pai muçulmano cumpre essa responsabilidade considerando-a fard, a fim de alcançar a salvação na outra vida e a satisfação de Allah. Ele suporta o trabalho mais árduo e faz grandes sacrifícios para criar o filho, sentindo alegria por não ter sido desperdiçada a confiança que Allah lhe havia confiado. Ao gastar dinheiro na criação do filho, considera que, por ordem de Allah, gastou no caminho de Allah. Hazrat Abu Masud-ul-Badri, que Allah esteja satisfeito com ele, narrou que o Nobre Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse:

إذا أنفق الرَّجُلُ عَلَى أَهْلِهِ نَفَقَةً يَحْسِبُهَا فَهِي لَهُ صَدَقَةٌ – متفق عليه، رياض
الصالحين ص ١٥٢“Quando uma pessoa gasta com sua família, buscando recompensa por isso, essa despesa é considerada sadaqa para ela.” — Bukhari e Muslim

Agir com ihtisab significa realizar uma ação unicamente para buscar a satisfação de Allah e a recompensa na Vida Futura, e não fazê-la por qualquer outro propósito.

O melhor exemplo

Quando, na casa do amado Profeta — que Allah o abençoe e lhe conceda paz —, nasceu Ibrahim, seu filho mais novo, seu escravo Abu Rafi levou-lhe essa boa notícia. Ele, cheio de alegria, imediatamente libertou um escravo. No sétimo dia, realizou a aqiqah e mandou cortar o cabelo da criança. Doou no caminho de Allah uma quantidade de prata equivalente ao peso do cabelo. Muitas mulheres dos Ansar se ofereceram para amamentá-lo. Entre elas, escolheu Khawla bint Zayd al-Ansariyya para esse serviço e confiou-lhe Ibrahim. Como pagamento por esse serviço, foram dadas a ela algumas tamareiras.

Aqiqah

Realizar a aqiqah da criança é uma sunna. O amado Profeta — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — realizou a aqiqah de seus filhos e incentivou os outros a realizá-la. Contudo, deve-se ter em mente, necessariamente, que a aqiqah é simplesmente uma sadaqa mustahabb. Ela não é um fard obrigatório. Se alguém não realizar a aqiqah, não haverá pecado sobre ele. Se o pai for abastado, é melhor que realize a aqiqah. A aqiqah é uma sadaqa pela vida da criança. Com a aqiqah, as calamidades são afastadas e a criança é protegida das adversidades e dos perigos. O nobre Profeta — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — disse:

رَأْسَهُ . بح عنه يوم سابعه ويُسمّى فِيهِ وَيُخلق كل غلام رهين بحقيقته تذبح عنه يوم .
جامع ترمذی“Toda criança está empenhada em troca da aqiqah. No sétimo dia, deve-se abater um animal em seu nome. Nesse mesmo dia, deve-se dar-lhe um nome e cortar-lhe o cabelo.” — Tirmidhi

Aqiqah é, na realidade, o animal que é abatido como sadaqa no sétimo dia após o nascimento do recém-nascido. Se possível, devem-se abater dois caprinos em nome do menino e um em nome da menina. Contudo, não é obrigatório abater dois caprinos para a aqiqah do menino. Pode-se abater um caprino ou uma cabra. Na verdade, ela é uma sadaqa pela vida da criança, e a vida da criança permanece empenhada em troca dela. Por isso, realizar a aqiqah é uma boa ação. Mas a condição é que a situação financeira seja confortável.

عن على بن أبي طَالِبٍ قَالَ عَى رَسُولُ اللَّهِ صَلَّى اللَّهُ عَلَيْهِ وَسَلَّمَ عَنِ الحسن بشَاةٍ وقال يا فاطمة : اخْلِقى رأسه وتصدقي بِزَنَةِ شَعْرِه فِضة فوزناه فكان وزنه برهما أو بعض درهم – جامع ترمذی“Foi narrado por Ali ibn Abi Talib — que Allah esteja satisfeito com ele — que ele disse: o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — abateu uma cabra como aqiqah em nome de Hasan — que Allah esteja satisfeito com ele — e disse: ‘Fátima! Corta o cabelo dele e doa em prata um peso equivalente ao de seu cabelo.’ Pesamos o cabelo dele, e seu peso era de um dirham ou um pouco menos.” — Tirmidhi

Este hadith nos ensina que também é permitido sacrificar uma cabra em nome de um menino. Se Allah conceder riqueza a alguém e ele quiser sacrificar dois animais, poderá fazê-lo com alegria. Contudo, deve-se lembrar que sacrificar dois animais em nome do menino não é obrigatório. Também se pode sacrificar apenas um.

A aqiqah deve ser realizada no sétimo dia após o nascimento. Se, por algum motivo, não puder ser realizada no sétimo dia, poderá ser feita no décimo quarto ou no vigésimo primeiro dia, ou mesmo depois disso.

A aqiqah é uma celebração da Sunnah. Ela deve ser realizada de maneira extremamente simples, com a intenção de seguir a Sunnah. Deve-se ter especial cuidado para que a prática dessa Sunnah não seja maculada por ostentação, orgulho, arrogância, costumes e tradições. Aqueles que, nessa celebração da Sunnah, cometem vários tipos de desperdício e organizam música e entretenimento enganam a si mesmos e desejam enganar também o seu Senhor. Eliminar a Sunnah em nome da Sunnah é o mais abominável dos crimes. Numa aqiqah desse tipo, esperar obter recompensa é algo muito difícil. Pelo contrário, essa prática causa sofrimento ao coração do Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e Allah fica descontente.

Circuncisão

A circuncisão é a Sunnah de todos os profetas, que a paz esteja com eles, e um costume islâmico. Foi narrado por Abu Huraira, que Allah esteja satisfeito com ele, que o Nobre Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse:

الفطرة خمس الختان والاستحداد، ونتف الابط، وقص الشارب وتعليم الأظفار – الادب المفرد ص ۱۸۸“Cinco práticas fazem parte da natureza sadia: circuncidar-se, remover os pelos abaixo do umbigo, arrancar os pelos das axilas, aparar o bigode e cortar as unhas.”

Al-fitrah significa natureza ou disposição nobre. Ou seja, essas cinco coisas são sinais de pureza. Desde os tempos antigos, essas cinco práticas são consideradas a Sunnah dos profetas. Todos os profetas as observaram, e elas foram praticadas consensualmente nas leis religiosas de todos eles.

Se a criança não for muito fraca, deve ser circuncidada no próprio sétimo dia após o nascimento. Isso traz dois benefícios. Primeiro, nessa época a pele da criança é macia e fina, e cicatriza rapidamente. Segundo, cumpre-se a indicação, presente no hadith do Nobre Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, sobre a circuncisão no sétimo dia. Salman bin Amir, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: “Ouvi o Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, dizer:”

معَ الغُلَامِ عَقِيقَةُ فَأَهْرٍ قُوا عَنْهُ دما وأميطُوا عنه الأذى – بخاري“Com o nascimento de um menino há uma aqiqah. Portanto, derramai sangue em seu nome e afastai dele a sujeira e coisas semelhantes.” — Bukhari

Remover a sujeira e coisas semelhantes significa cortar o cabelo, dar banho e assim por diante. Segundo alguns sábios, a circuncisão também está incluída nessa instrução, pois ela igualmente remove a sujeira e serve para alcançar a pureza.

Por isso, é necessário realizar a circuncisão no sétimo dia. Se, por algum motivo, isso não ocorrer, deve ser feita dentro de quarenta dias. Ou poderá ser realizada em qualquer outro momento; não há problema nisso. Contudo, devem-se observar duas coisas.

Primeiro: não se deve adiá-la excessivamente. É melhor circuncidar a criança antes dos sete anos, pois depois a pele se torna mais espessa e, consequentemente, a dor é maior. Segundo: esta Sunnah deve ser cumprida de maneira extremamente simples, sem grande pompa. Se as condições forem favoráveis, pode-se convidar amigos e oferecer-lhes uma refeição, por alegria de cumprir esta Sunnah. Mas transformar isso numa celebração permanente e considerar necessário gastar dinheiro para ostentação não condiz com a natureza do Islã. Impor desnecessariamente algo a si mesmo, depois ficar exausto e criar dificuldades para si equivale a desobedecer à Sharia.

Certa pessoa convidou Uthman bin Abil As, que Allah esteja satisfeito com ele, para participar de uma celebração de circuncisão em sua casa. Porém, ele não compareceu. Quando lhe perguntaram por que não tinha ido, respondeu: “Na época do Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, não participávamos de celebrações de circuncisão, nem éramos convidados para elas.”

É melhor cumprir esta Sunnah de maneira extremamente simples, para que ela não se transforme inutilmente num fardo para as pessoas. Naturalmente, se o pai da criança for abastado e quiser oferecer comida e bebida a algumas pessoas, ou distribuir alguns doces, pensando que Allah lhe concedeu a capacidade de cumprir esta Sunnah, não há mal nisso. Contudo, deve-se ter o máximo cuidado para que isso não se transforme num costume.

A remuneração pelo aleitamento pela ama de leite

A responsabilidade pelo pagamento da mulher que amamenta é do pai. Se o pai tiver se divorciado da mãe da criança, ou se ela tiver obtido o khula, é melhor que a criança seja amamentada pela própria mãe, e a mãe não deve privá-la do seu leite. Nessa situação, é obrigação do pai da criança arcar com as despesas da mãe e providenciar sua alimentação e vestuário. Se a mãe não existir ou, por algum motivo, for necessário que outra mulher amamente a criança, ainda assim o pagamento correspondente será uma responsabilidade do pai segundo a sharia. Se o pai morrer, caberá ao avô da criança ou a qualquer de seus responsáveis pagar pela amamentação. No Sagrado Alcorão foi dito:

والوالدت يرضعن أولادهن حولين كاملين لمَنْ أَرَادَ أَنْ يُتِمَّ الرَّضَاعَةَ . وعلى المولودله رزقهن وكسوتهن بالمعروف ، لا تُكَلِّفُ نَفْس إلا وسعها : لا تضار والدة بولدها ولا مولود له بولده وعلى الوارث مثلُ ذَلِكَ ، فَإِنْ أراد فصالاً عن تراض منهما وتشاور فَلا جُنَاحَ عَلَيْهِمَا ، وَإِنْ أَرَدتُّمْ أَن تسترضعوا أولادكم فلا جناح عليكم إِذا سلمتم ما أتيتُم بالمعروف . واتَّقُوا الله واعلموا أن الله بما تعملون بصير البقرة : ٢٣٣”E as mães amamentarão seus filhos por dois anos completos, para quem desejar completar o período de amamentação. E cabe ao pai da criança prover-lhes o sustento e o vestuário de modo adequado. Nenhuma alma será encarregada além de sua capacidade. Não se deve causar dano à mãe por causa de seu filho, nem ao pai por causa de seu filho. E ao herdeiro cabe o mesmo. Se ambos desejarem desmamar a criança mediante consentimento mútuo e consulta, não haverá culpa sobre eles. E, se desejardes contratar outra mulher para amamentar vossos filhos, não haverá culpa sobre vós, desde que pagueis devidamente o que tiverdes combinado. E temei a Allah e sabei que Allah vê tudo quanto fazeis.” — Surata Al-Baqara, 233

Deste versículo são obtidas sete instruções fundamentais relacionadas à amamentação:

Uma: em geral, as mães amamentarão seus próprios filhos durante dois anos.

Duas: as mães que, por alguma razão, tiverem se separado do pai também amamentarão seu filho durante o período completo. Sim, se o pai da criança desejar que ela seja amamentada durante o período completo, isso deverá ser feito.

Três: durante o período de amamentação, o pai da criança deverá arcar com as despesas de alimentação e vestuário da mãe.

Quatro: se o pai da criança não estiver presente, será responsabilidade do avô ou de quem quer que seja o wali da criança pagar pela amamentação.

Cinco: ninguém deve ser sobrecarregado além de sua capacidade. Por um lado, não se deve pressionar a mãe, obrigando-a a amamentar por causa do amor ao filho; portanto, não se pode oferecer-lhe uma remuneração inferior. Por outro lado, ela também não deve ser afligida exigindo do pai uma remuneração excessiva.

Seis: se os pais da criança desejarem desmamá-la antes de completar dois anos, com consentimento mútuo e mediante consulta, não haverá problema.

Sete: se, por alguma razão, a mãe não quiser amamentar a criança com seu próprio leite, é permitido que outra mulher a amamente. Naturalmente, deve-se estabelecer a remuneração e pagá-la devidamente.

Essas sete instruções fundamentais não foram dadas apenas para serem recitadas, mas para serem praticadas. E somente aqueles que conseguem desenvolver em si duas qualidades fundamentais podem praticá-las corretamente. Isto é, somente aqueles que possuem temor de Allah e conhecimento e convicção de que Allah vê tudo são capazes de cumprir as sete instruções fundamentais.

Taqwa, ou temor de Allah, significa evitar o desagrado de Allah e ter o desejo de alcançar Sua satisfação. Significa não fazer, por temor a Allah, algo que cause Sua ira, e realizar sinceramente, movido pelo amor a Allah, cada ato que conduza à Sua satisfação. A certeza e a convicção de que Allah observa tudo constituem uma grande força da fé. Por um lado, essa força protege a pessoa da negligência, da imprudência e de seguir o caminho errado. Por outro, mantém-na constantemente ativa para obter recompensa e galardão de Allah.

A ordem de arcar com as despesas dos filhos no Alcorão

No Sagrado Alcorão, naturalmente, a ordem de arcar com as despesas da criação dos filhos não é mencionada em termos explícitos. No Alcorão não foi dito: “Arca com as despesas dos filhos”, nem: “É obrigatório arcar com as despesas dos filhos”. Isso tampouco significa que o Alcorão não contenha a ordem de arcar com as despesas dos filhos e que sua ênfase tenha vindo apenas nos hadiths.

Na realidade, o Alcorão é uma Palavra ou discurso de nível elevadíssimo. Ao expor mandamentos, disposições e leis, adota um estilo de exposição extremamente sábio. Nessa exposição, leva plenamente em consideração a natureza, as emoções e os aspectos psicológicos das pessoas.

Arcar com as despesas de criar os filhos é, na sociedade humana, uma ação tão bela, natural, instintiva e querida que o Sagrado Alcorão nem sequer sentiu necessidade de apresentá-la sob o título de um mandamento; ao mesmo tempo, com grande sabedoria, deixou claro que o pai é responsável por arcar com as despesas da criação dos filhos.

No versículo mencionado acima, foi dito que, qualquer que seja a mulher com quem o pai queira que seu filho seja amamentado, ele será obrigado a fornecer-lhe alimentação, vestuário ou o pagamento pela amamentação. Se o pai não estiver presente, essa responsabilidade será atribuída àquele que for o responsável pela criança. O Alcorão atribuiu a você a responsabilidade pelas despesas de uma mulher desconhecida precisamente porque ela amamentou seu filho. Se uma mulher desconhecida amamentar sua criança, torna-se sua responsabilidade arcar devidamente com suas despesas. E isso se deve ao fato de ela ter amamentado seu filho.

Se a responsabilidade de arcar com as despesas de uma mulher desconhecida por amamentar seu filho é colocada sobre seus ombros, como seria possível que a responsabilidade pelas despesas do próprio filho não recaísse sobre você? Tudo o que você dá à mulher que amamenta é dado em troca da alimentação e do serviço prestados à sua criança. Ao atribuir ao pai a responsabilidade de oferecer esse pagamento, o Alcorão deixou clara esta realidade: o único responsável por arcar com as despesas da criação do filho é o pai, e o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, explicou essa mesma realidade com suas próprias palavras.

Arcar com as despesas dos filhos à luz dos hadiths

Nos nobres hadiths, a questão de arcar com as despesas da criação dos filhos foi discutida sob diversos pontos de vista. Tendo todos esses aspectos em consideração, um muçulmano pode criar os filhos de acordo com as exigências da religião e assegurar seu próprio sucesso.

As primeiras despesas devem ser destinadas aos filhos

A primeira pessoa com direito à riqueza que Allah lhe concedeu é o seu filho. Gastar com os filhos não é uma mera questão mundana ou material; é também uma exigência direta do Din. A orientação do Din é que, antes de tudo, se atendam às necessidades dos filhos. Atender às necessidades deles não é mundanismo, mas religiosidade.
Não é uma atitude apreciável dar caridade e esmolas depois de privá-los de seus direitos, usurpar o que lhes pertence ou deixá-los à mercê da compaixão de alguém. Na verdade, a caridade apreciável é aquela que ainda deixa prosperidade e não faz com que os filhos sofram qualquer dificuldade. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, não apreciava uma caridade ou esmola após a qual fosse necessário pedir ajuda a outros para atender às necessidades dos filhos. À luz do Din, também não é uma boa ação que seus filhos fiquem olhando para o rosto de várias pessoas enquanto você gasta em outras causas nobres. Do mesmo modo, é sinal de ignorância a respeito do Din que os próprios filhos de uma pessoa permaneçam famintos e malvestidos, recebendo apenas o mínimo para comer, enquanto ela gasta generosamente para divulgar seu nome e alcançar fama ou para seu conforto e luxo pessoal. O primeiro titular do direito sobre sua riqueza é o seu amado filho — mesmo que esse filho seja de sua esposa divorciada. Em suma, eles são seus filhos. Deixá-los desamparados ou na pobreza para viver no conforto e no luxo, ou para proporcionar conforto a outros, equivale a usurpar seus direitos. Essa generosidade ao dar aos outros precisa ser corrigida. A orientação do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, para você é que, antes de tudo, atenda às necessidades dos filhos:

قَالَ رَسُولُ اللهِ صلَّى اللهُ عَلَيْهِ وَسَلَّمَ خَيْرُ الصَّدَقَةِ مَا كَانَ عَنْ ظَهْرٍ غَنِيٌّ وابدأ بمن تعول – بخاري، مشكوة باب فضل الصدقة عن أبي هريرة
وحكيم بن حزام ص ۱۷۰O Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “A melhor caridade é aquela que deixa prosperidade depois dela, e começa por aqueles cujo sustento foi colocado sob sua responsabilidade.” — Bukhari

Neste hadith, os pais muçulmanos encontram uma regra equilibrada e natural. O desejo natural de toda pessoa é que sua riqueza seja útil aos seus filhos e que eles levem uma vida confortável e próspera. Essa é a maior razão para adquirir riqueza e também a primeira e mais apreciável categoria de gasto. O Islam atribui especial importância à caridade e às esmolas. Mais que isso, considera-as uma exigência da fé e descreve a avareza e a falta de generosidade como sinais de hipocrisia. Ao mesmo tempo, foi ordenado que, antes de tudo, sejam atendidas as necessidades daqueles que foram colocados sob sua responsabilidade. No Islam, não é apreciável dar caridade ignorando as necessidades dos filhos. A melhor caridade é aquela depois da qual os filhos não sofrem.

Negligenciar o sustento dos filhos é um grave pecado

قَالَ رَسُولُ اللهِ صَلَّى اللهُ عَلَيْهِ وَسَلَّمَ كَفَى بِالْمَرْءِ إِنَّمَا أَنْ يُضِيعَ مَنْ يقوت – رياض الصالحين، ابوداود عن عبد الله بن عمر وبن العاص“O Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: ‘Para que uma pessoa seja considerada pecadora, basta que prejudique aqueles que estão sob seu sustento.’”

Negligenciar o sustento daqueles que foram colocados sob a responsabilidade de uma pessoa e prejudicá-los é um pecado tão grave que, por si só, basta para qualificá-la como desobediente a Allah e pecadora. Essa negligência pode manifestar-se de várias formas:

Ele gasta muito para obter fama e ostentar, mas é negligente quanto aos direitos dos filhos. Vive no maior conforto e luxo, enquanto os filhos sofrem com a fome e a sede.
Por não possuir uma compreensão correta do Din, gasta sua riqueza em outras boas causas e negligencia o atendimento das necessidades dos filhos.
O filho vive entre a vida e a morte. Mesmo nesse momento, ele permanece insensível, sem se dispor a mover as mãos e os pés nem a fazer coisa alguma. Sustentar os filhos é responsabilidade de todo pai. Não ter consciência dessa responsabilidade e negligenciar o cumprimento de suas exigências é um grave pecado.

O gasto que proporciona a maior recompensa

عن أبي هُرَيْرَةَ رَضِيَ اللهُ عَنْهُ قَالَ : قَالَ رَسُولُ اللَّهِ صَلَّى اللَّهُ عَلَيْهِ وسلم دينار أنفقته في سبيل الله ودينار أنفَقْتُهُ فِي رقبة ودينار تصدقت بِهِ على مسكين ودينار أنفقته على أهلك أعظمها أَجْرًا الَّذِي أَنفَقْتَهُ عَلَى أَهْلِكَ
– صحيح مسلم”Hadrat Abu Huraira, que Allah esteja satisfeito com ele, relatou que o Nobre Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: uma moeda de ouro que gastas no caminho de Allah, uma moeda de ouro que gastas para libertar um escravo, uma moeda de ouro que ofereces como caridade a um pobre e uma moeda de ouro que gastas com a tua família; entre todas essas, a maior recompensa é a da moeda de ouro que gastas com a tua família.”

Esta narração também pode ser mais esclarecida pelo hadith de Hadrat Thauban, que Allah esteja satisfeito com ele. Ele disse que o Nobre Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, afirmou: “A melhor moeda de ouro é aquela que uma pessoa gasta com os próprios filhos, depois aquela que gasta com a montaria no caminho de Allah e depois aquela que gasta com os companheiros no caminho de Allah. Abu Qilaba, um narrador intermediário, diz que ele começou mencionando os gastos com os filhos e afirmou: quem poderia receber maior recompensa e prémio do que aquele que gasta com os seus filhos pequenos, preservando-os de terem de mendigar e mantendo-os em prosperidade?” — Jami’ at-Tirmidhi

O pai cujo rosto brilhará como a lua cheia

عن أبي هريرة قَالَ : قَالَ رَسُولُ الله صلَّى اللَّهُ عَلَيْهِ وَسَلَّمَ مَنْ طَلَبَ الدنيا خلالاً اسْتِعْفَافًا عَنِ المسئلة وسعيا عَلَى أَهْلِهِ وَتَعَطَّفًا عَلَى جَارِهِ لقى الله تعالى يوم القيمة ووجهه مثل القمَرَ لَيْلَةَ الْبَدْرِ وَمَنْ طَلَبَ الدُّنْيَا حلالاً مكاثراً مُفَاخِرًا مُرَائِيًا لقى الله تَعَالَى وَهُوَ عَلَيْهِ غَضْبَانُ – بهقى في شعب الايمان”Foi relatado por Hadrat Abu Huraira, que Allah esteja satisfeito com ele, que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: aquele que busca os bens deste mundo por meios lícitos, para se preservar de pedir aos outros, prover o sustento da sua família e tratar bem o seu vizinho, encontrará Allah no Dia da Ressurreição com o rosto brilhando como a lua cheia; e aquele que busca os bens deste mundo de modo lícito apenas para acumular mais riqueza que os outros e estabelecer a sua superioridade sobre eles encontrará Allah enquanto Ele estiver irado com ele.”

A recompensa da mãe que gasta com os filhos

O Islam declarou o pai como o único responsável por arcar com as despesas da criação dos filhos e libertou a mãe da luta pela obtenção do sustento, para que ela pudesse cumprir a sua parte da responsabilidade com plena concentração e dedicação. Mas isso não significa que, se uma mãe gastar com os próprios filhos, será privada de recompensa e prémio. Se o marido tiver falecido, ou se tiver ficado incapaz e enfermo, e a mãe prover as despesas dos seus filhos, ela certamente receberá a recompensa e o prémio por essa sua boa ação.

عن أم سلمةَ قَالَتْ قُلْتُ يَا رَسُولَ الله هَلْ لِي فِي بَنِي أَبِي سَلَّمَةَ أَجْرٌ أَنْ أنفق عليهم ولست بتاركتهم هكذا وهكذا إِنَّمَا هُمْ بَنِي ؟ فَقَالَ نَعَمْ لَكَ أَجْرُ ما أنفقت عليهم – متفق عليه رياض الصالحين ص ١٥٢”Foi relatado por Hadrat Umm Salama, que Allah esteja satisfeito com ela: perguntei ao Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz: ‘Receberei recompensa por gastar com os filhos de Abu Salama, que Allah esteja satisfeito com ele? Não posso deixá-los assim, vagando pelas estradas e lugares como necessitados. Eles também são meus filhos.’ Ele respondeu: ‘Sim, receberás a recompensa por tudo o que gastares com eles.’” — Bukhari e Muslim

A primeira esposa de Umm al-Mu’minin Hadrat Umm Salama, que Allah esteja satisfeito com ela, Hadrat Abu Salama, que Allah esteja satisfeito com ele, deixou dois filhos e duas filhas. Foi a respeito deles que ela perguntou ao Nobre Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Deste hadith podem ser extraídas duas indicações. Primeiro: embora a mãe não seja obrigada a gastar com os próprios filhos, certamente receberá recompensa e prémio por tudo o que gastar.
Também se pode compreender deste hadith como deve ser o pensamento de uma mãe crente. Hadrat Umm Salama, que Allah esteja satisfeito com ela, tinha um amor natural pelos seus filhos. Por isso, sentia-se compelida a assumir a sua tutela. Ela própria disse: ‘Não posso deixá-los de tal maneira que vagueiem de um lado para outro como necessitados.’
Ao mesmo tempo, ela também considerou a questão de que deveria receber recompensa na Vida Futura por essa boa ação. Isso porque a base de toda ação do crente é a Vida Futura. Ele não pode fazer nada despreocupado com o sucesso na Vida Futura.

Criar uma filha

Além da orientação geral sobre a criação dos filhos, o Islã atribuiu especial importância à criação das filhas e incentivou particularmente essa tarefa, afirmando que nela há uma grande recompensa e prêmio.

Na verdade, a filha é uma criatura frágil. Mesmo depois de anos de criação e de sustento, não se pode esperar que os pais recebam dela qualquer compensação. Tampouco se pode esperar receber dela algum serviço, pois, justamente quando a filha se torna capaz de servir, é preciso confiá-la ao serviço de outros. Nessas circunstâncias, se os ensinamentos do Islã não estiverem diante das pessoas, não lhes será possível cumprir o direito de criar uma filha, nem oferecer-lhe o amor, o afeto, o carinho e o respeito a que ela tem direito. Por isso, essas orientações devem ser lembradas repetidamente. Em especial, é necessário compreender com seriedade os ensinamentos que o Islã ofereceu sobre a criação das filhas.

A bênção de criar uma filha

Foi narrado por Anas, que Deus esteja satisfeito com ele, que o nobre Profeta, que Deus o abençoe e lhe conceda paz, disse:

من عَالَ جَارِيَتَيْنِ حَتَّى تَبْلُغَا جَاءَ يَوْمَ الْقِيمَةِ أَنَا وَهُوَ كَهَاتَينِ وَضَمَّ أَصَابِعِهِ
رياض الصالحين، صحيح مسلم“Aquele que criar duas filhas até que ambas atinjam a maturidade e se tornem jovens chegará no Dia da Ressurreição de modo que ele e eu estaremos juntos como estes dois dedos”—e ele, que Deus o abençoe e lhe conceda paz, juntou os dedos. —Riyad as-Salihin, Sahih Muslim

Que maior bênção poderia haver para uma mãe e um pai crentes do que o fato de o Mensageiro de Deus, que Deus o abençoe e lhe conceda paz, encontrá-los no Dia da Ressurreição como seus companheiros? Neste hadith, o Mensageiro de Deus, que Deus o abençoe e lhe conceda paz, usou a palavra “tablughā”. Essa palavra tem um significado muito amplo. Um de seus significados é que aquelas duas meninas se tornaram jovens. Também pode significar que chegaram ao seu destino ou objetivo, isto é, que chegaram à própria casa, sob a tutela de seus maridos.

A mãe para quem o Paraíso se tornou obrigatório

عَنْ عَائِشَةَ رضى اللهُ عَنْهَا قَالَتْ جَاءَ تَنِي مِسْكِينَةٌ تَحْمِلُ ابْنَتَيْنِ لَهَا فاطعمتها ثلاث تمرات فأعطت كل واحدة منهما تمرة ورفعت إلى فيها تمرة لتأكلها فاستطعمتها ابنتاها فَشَقَتِ الثمرة الَّتِي كَانَتْ تُرِيدُ أَنْ تَأْكُلَهَا بَيْنَهُمَا فَأَعْجَبَنِي شَأْنُهَا فَذَكَرْتُ الَّذِي صَنَعَت لِرَسُولِ الله صَلَّى اللهُ عَلَيْهِ وَسَلَّمَ فَقَالَ : إِنَّ اللَّهَ قَدْ أَوْجَبَ لَهَا بِهَا الْجَنَّةَ أَوْ اعْتَقَهَا بِهَا مِنَ النَّارِ –
رياض الصالحين، صحيح مسلم“Aisha, que Deus esteja satisfeito com ela, narrou: ‘Uma mulher pobre veio até mim carregando suas duas filhas. Dei-lhe três tâmaras. Ela deu duas tâmaras às duas filhas e dividiu a tâmara restante em duas partes, dando-as às duas filhas. Isso me impressionou, e relatei ao nobre Profeta, que Deus o abençoe e lhe conceda paz, o que ela havia feito. O nobre Profeta, que Deus o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Por causa disso, Deus tornou o Paraíso obrigatório para ela e a salvou do Fogo do Inferno.”’

A filha é o paraíso dos pais

Se Allah fez de você mãe ou pai de uma filha, então você é extremamente afortunado. Allah, o Altíssimo, colocou o seu paraíso sob os seus cuidados. Agora cabe a você protegê-lo ou destruí-lo. O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, anunciou com plena certeza esta boa-nova: se você cumprir o direito de criar uma filha, o Paraíso se tornará obrigatório para você.
Hazrat Jabir ibn Abdullah, que Allah esteja satisfeito com ele, disse que o Nobre Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse:

منْ كَانَ لَهُ ثَلاث بنات يرويهن ويكفيهن ويرحمهن فقد وجب له الجنة البتة
فقَالَ رَجُلٌ مِنْ بَعْضِ الْقَوْمِ وَثِنْتَيْنِ يَا رَسُولَ اللهِ : قَالَ وَثِنْتَيْنِ –
الادب المفرد ص ١٥“Aquele que tiver três filhas, mantê-las sob sua tutela, prover as suas necessidades e ser misericordioso com elas, terá certamente o Paraíso garantido.” Um homem de uma das tribos perguntou: “Ó Mensageiro de Allah, e se forem duas?” Ele respondeu: “Mesmo que sejam duas, receberá essa recompensa.” — Al-Adab al-Mufrad

Há outros hadiths com este mesmo significado em Mishkat Sharif. O narrador desse hadith é Abdullah ibn Abbas, que Allah esteja satisfeito com ele. Ele disse que, se as pessoas perguntassem sobre uma única filha, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, também anunciaria essa boa-nova em relação a uma só.

Assumir as despesas de uma filha desamparada

إن النبي صلى اللهُ عَلَيْهِ وَسَلَّمَ قَالَ أَلا أدلُّكُمْ عَلَى أَفْضَلِ الصَّدَقَةِ ابْنَتُكَ
مردودة إِلَيْكَ لَيْسَ لَهَا كَاسب غيرك –
ابن ماجه، جمع الفوائد باب بر الاولاد“O Nobre Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: ‘Não devo indicar-vos a melhor caridade? É a vossa filha que foi devolvida a vós e que não tem outro provedor além de vós.’”

Isso se refere, na realidade, à filha que, depois de se casar, é enviada novamente para junto dos pais. Isso pode acontecer devido à morte do marido. Após a morte dele, pode não haver ninguém na casa dos sogros para arcar com as suas despesas; ou o marido pode tê-la divorciado por algum motivo, e ela pode ter retornado para junto dos pais. Esse hadith também pode se referir à filha que não se casou ou que não está em condições de se casar.

Uma revolução iluminada pela fé

Graças a todos esses ensinamentos revolucionários do Islã, a revolução que, em poucos anos, surgiu nas terras árabes e fortaleceu a fé é considerada um capítulo dourado da história. A verdadeira imagem das bênçãos dessa extraordinária revolução foi testemunhada apenas pelos afortunados que estavam vivos naquela época. Somente aqueles cujos olhos e cujo mundo das ideias haviam contemplado tanto o quadro doloroso anterior à revolução quanto a cena de fortalecimento da fé posterior a ela sabem o que é uma revolução. Mas, ainda hoje, quando algum vislumbre daquele capítulo dourado surge nas páginas da história, os olhos se iluminam e a fé revive.
Antes da época do Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, no mundo árabe, a dureza de coração e a crueldade do pai em relação à filha eram consideradas a maior honra. Ele preferia a morte à vida de sua própria filha inocente e indefesa. Um poeta daquela época disse:

تهوى حياتي وأهوى موتها شفقا – والْمَوْتُ أكرم نزال على الحرم—
“Ela deseja a minha vida, e eu, por compaixão por ela, desejo a sua morte. Pois, para as mulheres, o hóspede mais honrado é a morte.”

Outro poeta disse:

إِنَّ النِّسَاءَ شَيَاطِينُ خُلِقْنَ لَنَا – فَوُذْ بِاللَّهِ مِنْ شَرِّ الشَّيَاطِينِ .
“Na verdade, as mulheres são demônios; foram criadas para nós. Que Allah nos livre do mal desses demônios.”

Por ocasião da morte da filha do chefe de Bahra, Abu Bakr al-Khwarizmi pediu que fosse escrito um texto de condolências:
“Se você tivesse mencionado o recato da falecida ou recordado sua beleza, ainda assim, para você, uma congratulação teria sido melhor do que um texto de condolências. Pois é melhor que aquilo que não deve ser exposto permaneça oculto, e sepultar meninas pequenas era considerado um grande ato de honra. Estamos atravessando uma época em que, se a esposa de um homem morre durante sua vida, é como se ele se tornasse dono de todas as bênçãos. E, se ele enterra a própria filha com as próprias mãos, considera ter obtido plena vingança contra o genro.”
Qays ibn Asim, chefe dos Banu Tamim, declarou pessoalmente diante do Mensageiro da Misericórdia, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, que havia enterrado vivas, com as próprias mãos, dez de suas filhas inocentes. Outro homem relatou diante do Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, o episódio doloroso de tal maneira que o Mensageiro de Allah ficou aflito e chorou tanto que sua nobre barba ficou molhada de lágrimas.
Quando aquela sociedade árabe aceitou o Islã e assimilou os ensinamentos islâmicos, sua aparência mudou completamente em poucos anos. As mesmas meninas cuja existência era, para eles, motivo de vergonha tornaram-se para eles um meio de salvação. Aqueles que arrancavam as filhas dos braços de suas mães e as enterravam vivas passaram a disputar entre si a criação das filhas dos pobres.

Uma cena extraordinária

Depois da Umrah, quando o Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, se preparava para retornar de Meca, uma menina órfã veio correndo, chamando: “Tio, tio!” A menina era filha de Hamza e estava em Meca. Ali avançou, tomou a menina nos braços e, enquanto a colocava no colo de Fátima, disse: “Ela é filha do seu tio.” Então Ali, Ja‘far e Zayd começaram a discutir entre si para ficar com a menina.
Ja‘far al-Tayyar disse: “Ó Mensageiro de Allah! Esta menina deve ficar comigo, pois é filha do meu tio, e eu tenho mais direito a ela, porque a tia materna dela está em minha casa.” Zayd disse: “Ó Mensageiro de Allah, entregue esta menina aos meus cuidados. O pai dela era meu irmão na fé.”
Ali já a segurava nos braços desde o início. Ele disse: “Senhor, ela é minha irmã e foi a primeira a vir para o meu colo. Portanto, eu tenho mais direito a ela.” Essa disputa pelo cuidado da menina era verdadeiramente uma cena extraordinária e encantadora. O amado Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, considerou atentamente as palavras dos três e confiou a menina à tia materna, dizendo: “Isto é porque a tia materna ocupa o lugar da mãe.” — Bukhari

Bom comportamento

O terceiro direito dos filhos é que sejam tratados com bondade: que se lhes demonstre benevolência, que se conviva com eles com carinho, que se cuide do seu conforto e bem-estar, que se atente aos seus sentimentos e emoções, que se procure mantê-los felizes e que não se aja de modo a ferir seus sentimentos, quebrantar-lhes o coração, fazê-los perder a esperança ou atingir seu senso de dignidade e autoestima.

O seu amado filho, que está sob sua responsabilidade, olha para você esperando receber carinho. Isso é uma recompensa de Allah para você. Agradeça a Allah por essa recompensa e não a desonre. Honre os filhos e trate-os como eles merecem.

Os filhos são uma confiança depositada por Allah. Proteja e preserve essa confiança, e não a destrua por sua própria ignorância e mau comportamento. Trate os filhos de modo que se tornem pessoas dignas, uma bênção para o mundo e um meio para preservar sua honra, reputação e salvação na Outra Vida.

As terríveis consequências do mau comportamento

Se o seu comportamento com os filhos não for bom, isso não poderá ser outra coisa senão uma transgressão contra si mesmo, contra os filhos e contra a sociedade.

Irritar-se por qualquer coisa, gritar, ameaçar, insultar, usar palavras como “abóbora” e outras semelhantes, demonstrar descontentamento por se impacientar com a falta de inteligência deles, xingá-los, tratá-los com dureza e privá-los sem motivo da oportunidade de brincar e rir: tudo isso é mau comportamento para com os filhos. As consequências desse mau comportamento são muito ruins e terríveis. Essas consequências terríveis são extremamente prejudiciais para os filhos, os pais e a sociedade.

Na primeira infância, quando o filho é ingênuo, fraco e indefeso, ele tem direito ao seu amor e à sua benevolência. Nessa fase, ele busca seu carinho, sua compaixão, sua ajuda e sua orientação. Mas, se sob sua responsabilidade ele não receber essas três bênçãos e encontrar apenas ira e dureza, por natureza perderá a esperança em você. Tentará manter-se longe de você e fugir de casa; e, onde quer que veja a manifestação dessas três bênçãos, avançará espontaneamente para lá.

As crianças não conseguem distinguir entre o amor verdadeiro e o amor falso. Pessoas de má índole da sociedade encontram, assim, a oportunidade de desencaminhar essas crianças e prendê-las em suas redes de intrigas. E esses filhos ingênuos pouco a pouco se tornam uma ameaça para a sociedade e passam a cometer crimes cada vez maiores.

Mesmo que, por sorte, essas crianças escapem de se tornar vítimas das pessoas más, ainda assim permanecem como uma preocupação constante para os pais. Não desenvolvem qualquer vínculo com eles. Como consequência do mau comportamento e dos maus-tratos dos pais, não nasce no coração das crianças aquele sentimento puro pelos pais que nasce no coração dos filhos afortunados.

Os pais passam a vida inteira lamentando a desobediência e a incapacidade dos filhos. Na verdade, o fator que exerce a influência mais profunda para torná-los rebeldes é o mau comportamento e os maus-tratos dos próprios pais. Contudo, os pais atribuem toda a culpa aos filhos. Mas é importante saber que, nessa situação, a culpa dos pais não é de modo algum menor que a dos filhos.

Um acontecimento instrutivo

Perguntei a um jovem inteligente: “Parece que não existe em você o tipo de relação com os pais que se esperaria de alguém como você. Qual é a razão?” O jovem suspirou e contou sua história. Seu relato sobre a infância era o seguinte:

“Que Allah mantenha meu pai em paz. Ele é um homem de natureza extremamente severa, como um carrasco. Durante a infância, eu tremia constantemente diante de sua irritação e ira. À noite, ao me deitar, não sentia muita vontade de acordar pela manhã. E, quando acordava, tinha grande constrangimento de me apresentar diante de meu pai e desejava secretamente: ‘Ah, se ao menos o dia de hoje passasse em paz! Se ao menos passasse um dia sem insultos nem pancadaria!’ Se algum dia passasse a maior parte do tempo sendo castigado, eu ficava muito feliz e dizia: ‘Hoje é um dia muito abençoado. Eu sobrevivi.’ Mas, assim que chegava a noite, minha alegria se dissipava.

Meu pai também viajava. Quando eu descobria que ele voltaria muito em breve, ficava muito triste. Sim, às vezes aguardava seu retorno com alegria, esperando que ele certamente trouxesse alguma coisa para comer e beber.

Ao ver a severidade e o coração de pedra de meu pai, eu pensava que todo pai fosse assim. Sempre que via alguém mais saudável e forte que meu pai e sabia também que era muito corajoso e irascível, minha tristeza não tinha limites. Pensava: ‘Então, como devem estar os filhos dele? Eles devem ter perdido a esperança na vida. Suportam constantemente insultos, ameaças e pancadas.’ Às vezes eu realmente chorava.

Quando considerava o pai de alguém muito fraco, doente ou incapaz, de natureza muito gentil e de temperamento humilde, invejava a felicidade de seus filhos e pensava: ‘Ah, como seria bom se meu pai também fosse fraco, humilde e de natureza gentil como ele!’”

Depois de dizer isso, o jovem permaneceu em silêncio por bastante tempo. Fiquei pensando em quão grande é a responsabilidade de ser pai. Se os pais querem ver seus filhos em boas condições, precisam refletir sobre o próprio comportamento. Pois os filhos não aprendem tanto dos conselhos dos pais quanto aprendem de suas ações e comportamento.

A terceira consequência negativa do mau comportamento ou dos maus-tratos dos pais diz respeito à moralidade. Os filhos de pais desse tipo tornam-se pessoas de nível moral extremamente baixo. Se alguém no mundo quer realizar algo grandioso, precisa ser muito elevado em termos de moralidade. Contudo, os filhos que recebem maus-tratos dos pais ficam sempre privados das virtudes morais. Permanecem privados de qualidades como autoconfiança, coragem, dignidade, autoestima, iniciativa própria, bom caráter, bom humor e boa maneira de falar. Pelo contrário, tornam-se vítimas de más características como aspereza, falta de visão, insensibilidade, avareza, baixeza, orgulho e arrogância.

Na maior parte do tempo, consideram sua própria existência inferior e inútil. Para compensar ou esconder todos esses defeitos, vangloriam-se de várias maneiras. Se você realmente deseja o bem dos seus filhos, cumpra os direitos deles e trate-os da maneira como espera que eles o tratem. Só então poderá ver e sentir a bênção de ter filhos e, do fundo do coração deles, sairá esta súplica por você:

رب ارحمهما كما ربيني صغيراً – بني اسرئيل : ٢٤“Senhor nosso! Tem misericórdia de nossos pais, assim como eles nos criaram com bondade e carinho na infância.” — Surata Banī Isrā’īl, 24

A ênfase do Alcorão Sagrado no bom comportamento

O Alcorão enfatiza que se deve tratar os filhos com suavidade e indulgência. Castigá-los por seus erros e faltas, buscar vingança e tratá-los com dureza para descarregar a raiva são atitudes reprováveis. Àqueles que tratam os membros de sua família com indulgência, Allah Todo-Poderoso perdoa suas faltas e concede-lhes misericórdia.

وَإِنْ تَعْفُوا وَتَصْفَحُوا وَتَغْفِرُوا فَإِنَّ اللَّهَ غَفُورٌ رَّحِيمٌ التغابن : ١٤“E se perdoardes, fordes indulgentes e perdoardes, então, em verdade, Allah é Perdoador, Misericordioso.”

Mesmo depois de aceitar o Islã, algumas pessoas foram privadas da bênção da hijra. O que aconteceu foi que, quando se prepararam para migrar para Medina, os membros de suas famílias as impediram. Disseram: “Toleramos o fato de vocês terem se tornado muçulmanos, mas não podemos tolerar que vocês se separem de nós.” As esposas e os filhos despertaram nelas sentimentos de amor e exerceram pressão sobre seus corações, fazendo com que desistissem da hijra. Mais tarde, quando chegaram a Medina e viram que aqueles que haviam migrado naquela época e alcançado a presença do Nobre Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, haviam se tornado superiores a eles no conhecimento da religião, ficaram tristes. Pensaram que a causa dessa enorme perda eram suas esposas e filhos. Assim, o fogo de sua ira se acendeu contra eles. Desejaram vingar-se de suas esposas e filhos e puni-los. Nesse momento, o Alcorão os orientou de que, devido à ignorância dos membros de suas famílias, haviam sido privados da virtude da hijra. Entretanto, foram eles mesmos que lhes deram preferência em relação às exigências da religião. Portanto, no futuro, deveriam precaver-se deles. Ao mesmo tempo, porém, deveriam lembrar-se de que Allah jamais aprovaria que tratassem os membros de suas famílias com dureza e se vingassem deles. Tratar bem a família é uma exigência da religião. Allah é, por Si mesmo, muito Perdoador e favorece os que perdoam. Ele é, por Si mesmo, Misericordioso e favorece os misericordiosos.

Se desejais o perdão e a misericórdia de Allah, tratai vossos filhos com carinho e benevolência. Perdoai-os. Sede tolerantes com seus erros e falhas e perdoai-os.

O conselho de Ahnaf ibn Qays

Ahnaf era um famoso líder árabe. Era muito conhecido na Arábia por sua honra, sabedoria, paciência e serenidade. Hazrat Muawiya, que Allah esteja satisfeito com ele, tinha grande respeito por ele e dizia: “Se este homem se corromper, saberás que cem mil árabes se corromperam.”

Certa vez, Hazrat Muawiya, que Allah esteja satisfeito com ele, mandou chamá-lo. Quando ele chegou, perguntou: “Abu Bahar, qual é a sua opinião sobre a maneira de tratar os filhos?”

Ahnaf ibn Qays respondeu: “O filho é fruto do desejo de nosso coração e a força de nossa cintura. Para ele, somos como a terra: extremamente suave e completamente livre de danos. Nossa existência é para ele como o céu que o cobre com sua sombra. É com sua ajuda que ousamos realizar grandes feitos. Portanto, se o filho lhe pedir alguma coisa, satisfaça-o de coração alegre. Se estiver preocupado, afaste sua preocupação. Verá que ele o amará e apreciará seus esforços paternos. Nunca se torne para ele um fardo insuportável. Caso contrário, ele se irritará com você, desejará sua morte e terá aversão a aproximar-se de você.”

A importância do bom tratamento nos hadiths

A questão do bom tratamento dos filhos também foi discutida detalhadamente nos hadiths. O Nobre Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, descreveu também os benefícios mundanos e lançou ampla luz sobre as recompensas e os galardões da Outra Vida. Além disso, nesse contexto, chamou com grande sabedoria a atenção para os erros de pensamento ou de prática cometidos pela sociedade humana em diversos pontos, para que o direito ao bom tratamento pudesse ser cumprido e ninguém cometesse qualquer excesso contra outrem.

Igualdade no tratamento

عَنِ النُّعْمَانِ بْنِ بَشِيرٍ قَالَ أَعْطَانِي أَبِي عَطِيَّةً فَقَالَتْ عُمْرَةُ بِنْتُ رَوَاحَةَ لا أرضى حتى تُشَهِدَ رَسُولَ اللهِ صلَّى اللَّهُ عَلَيْهِ وَسَلَّمَ فَأَتَى رَسُولَ الله صلى اللهُ عَلَيْهِ وَسَلَّمَ فَقَالَ إِنِّي أَعْطَيتُ ابْنِي مِنْ عمرة عطية فأمرتني أن أشهدك يا رسول الله : قَالَ أَعطيت سائِرُ ولِدَكَ مِثْلَ هَذَا قَالَ لَا، قَالَ فَاتَّقُوا اللهَ وَاعْدِلُوا بَيْنَ أَوْلادِكُمْ قَالَ فَرَجَعَ ورَدَّ عَطِيَّتَهُ وَفِي رِوَايَةٍ قَالَ اني لا أشهد على جور – بخاری، مسلم، مشكوة باب العطايا”Foi narrado por No’man bin Bashir, que Allah esteja satisfeito com ele: meu pai me deu um presente. Então Umrah bint Rawaha disse: ‘Só ficarei satisfeita se você fizer o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, testemunhar isso.’ Então meu pai foi até o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e disse: ‘Dei um presente ao meu filho, que é filho de Umrah bint Rawaha, e ela me pediu que o senhor testemunhasse isso.’ Ao ouvir isso, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, perguntou: ‘Você deu um presente semelhante a todos os seus filhos?’ Ele respondeu: ‘Não, não dei a todos.’ Então o Nobre Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: ‘Temei a Allah e sede justos entre vossos filhos.’ Ele disse: então voltou e retomou o presente que havia dado. Em outra narração, consta que ele disse: ‘Não testemunho a injustiça.’ Em outra narração, consta que o Nobre Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse a Bashir, que Allah esteja satisfeito com ele:

اليك في البر سواء ؟”Você gostaria que todos os seus filhos tratassem você da mesma maneira?” Hazrat Bashir, que Allah esteja satisfeito com ele, respondeu: “É claro que sim.” O Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Então não faça isso.” — Bukhari e Muslim

Está além da capacidade humana demonstrar o mesmo tipo de amor a todos os seus filhos. Por razões naturais, às vezes sente-se maior atração por um dos filhos. Nenhum ser humano é capaz de demonstrar igualdade no amor, e isso tampouco foi exigido de ninguém. O que o hadith enfatiza é a questão do comportamento. Todos os seus filhos são iguais por serem seus filhos, e todos têm direitos iguais sobre você. Portanto, você deve tratar todos com a mesma bondade e, nesse aspecto, não dar preferência a um sobre outro. Também não é correto dar preferência a um filho sobre outro, pois isso viola o direito de um e, por outro lado, afeta negativamente a moral dos filhos. Aquele que recebe tratamento especial desenvolve orgulho e começa a considerar os demais irmãos inferiores a si. Os filhos que são maltratados desenvolvem um sentimento de inferioridade e começam a se considerar mentalmente desprezíveis. Como resultado, seu desenvolvimento moral e físico é prejudicado. Ao mesmo tempo, são afetados os sentimentos de amor, afeição, abnegação e sacrifício que, por natureza, cada um possui pelos próprios irmãos. Dessa forma, é ferido o sentimento de respeito e honra que os filhos têm pelos pais.

Às vezes também acontece que não se consegue tratar igualmente os filhos da primeira esposa ou do primeiro marido e os filhos da esposa atual. Os filhos da nova esposa ou do novo marido são mais valorizados do que os filhos do cônjuge de quem se está separado, e os direitos dos filhos do primeiro companheiro ou companheira de vida não recebem a devida importância. Se seu coração não estiver aberto para esses filhos, se o comportamento deles não lhe agradar e seu coração não se inclinar para eles, você se sente constrangido. Mas o Islam exige necessariamente de você que, apesar de tudo, trate todos de maneira igual. Se você reunir todos os meios de conforto e luxo para um deles e privar os outros deles, será culpado aos olhos da Shariah.

Você pode enganar o próprio coração dando explicações para suas ações. Pode lançar poeira aos olhos do mundo, mas não pode ocultar sua culpa do olhar de Allah, nem pode enganá-Lo. O Nobre Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, classificou esse tipo de ação como injustiça e não aprovou testemunhar a injustiça. O obediente Companheiro imediatamente retomou o presente que havia dado. Esse tipo de falta também estava sendo cometido por Hazrat Bashir, que Allah esteja satisfeito com ele. Ele dava um presente ao filho de Umrah bint Rawaha, mas privava os filhos de sua outra esposa dele. Contudo, quando tomou conhecimento da conduta correta, imediatamente corrigiu sua ação e abandonou o tratamento especial.

Tratamento diferente entre filhos e filhas

عن ابن عباس رض قَالَ : قَالَ رَسُولُ اللهِ صَلَّى اللَّهُ عَلَيْهِ وَسَلَّمَ مَنْ كَانَتْ لهُ أنثَى فَلَم يندها ولم يهنها ولم يوثر ولدَهُ عَلَيْهَا يعني الذِّكُورَ أَدْخَلَهُ الله الجنة – ابو داود”Foi narrado por Hazrat Ibn Abbas, que Allah esteja satisfeito com ele, que disse: o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: ‘Quem tiver uma filha, não a enterrar viva, como na época da ignorância, não a considerar desprezível e não preferir os filhos homens a ela, Allah Todo-Poderoso o fará entrar no Paraíso.’”

A ação pela qual o Nobre Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, deu aos pais as boas-novas do Paraíso neste hadith possui três partes:
Uma: não enterrar a filha viva e conceder-lhe o direito de viver.
Duas: não desonrar nem humilhar a filha.
Três: não dar preferência ao filho sobre a filha.
Quanto à primeira parte, isto é, conceder à filha o direito de viver, a sociedade muçulmana está obrigada a isso. Depois de receber a luz do Islam, nenhum muçulmano pode sequer imaginar enterrar uma filha viva ou privá-la, de qualquer forma, do direito de viver. Contudo, em algumas famílias muçulmanas ainda há deficiências no pensamento e na prática quanto a considerar a filha inferior e dar preferência ao filho sobre ela. É absolutamente necessário corrigir esse pensamento e essa prática, e é precisamente para esse objetivo que se dirigem as advertências e os incentivos do Nobre Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz.

Em muitas famílias, a importância e a honra concedidas ao filho dentro de casa e da família não são concedidas à filha. O bom tratamento dado ao filho, à nora e aos seus filhos não é dado à filha, ao genro e aos seus filhos. Na realidade, a base do tratamento discriminatório entre filhos e filhas é a ideia de que a filha é criada para outra família, enquanto o filho é criado para si mesmo. Nada se pode esperar da filha, ao passo que tudo se pode esperar do filho. A filha é o ornamento da casa alheia e um meio de sua prosperidade. Já o filho é o ornamento da própria casa e um meio de sua prosperidade. O resultado inevitável desse tipo de pensamento é que as filhas são privadas da sinceridade e da emoção presentes na criação dos filhos. Na criação da filha e no tratamento dado a ela, permanece o sentimento de apenas cumprir uma obrigação, mas não estão presentes as esperanças, as aspirações e a alegria exuberante. Entretanto, tudo isso se encontra na criação e educação do filho.

A filha é considerada inferior dentro de sua própria casa e também na sociedade. No lar, o filho recebe preferência em relação à filha, e, na sociedade, os filhos desfrutam de maior prestígio. Os pais também não dão à filha as roupas, joias e presentes que dão à nora. Tudo o que dão à nora, dão com sincera afeição, pois ela é a beleza de seu próprio lar; já aquilo que dão à filha, dão apenas para cumprir uma obrigação ou para aumentar sua própria honra na sociedade. Quando dão algo à nora, nunca ficam se lembrando disso. Ao contrário, quando dão algo à filha, lembram-se disso e sempre mencionam o assunto, chegando até a censurá-la por isso. Em famílias desse tipo, as filhas não recebem o mesmo cuidado, carinho e amor que recebem os filhos. Os filhos dos filhos são considerados membros da própria casa, enquanto os filhos das filhas são considerados membros da casa de outros. Perante a linhagem, a sociedade e pessoas de renome, os filhos dos filhos são apresentados como membros e descendentes da própria família. Espera-se que a sociedade os trate dessa maneira, mas nem a própria família trata os filhos das filhas assim, nem espera que a sociedade lhes conceda o mesmo respeito. Além disso, a sociedade trata os filhos dos filhos dessas pessoas de modo diferente de como trata os filhos de suas filhas. O Nobre Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, advertiu os pais muçulmanos neste hadith, dizendo que esse modo de agir não é recomendável. O caminho para alcançar a satisfação de Allah e entrar no Paraíso é que os pais muçulmanos deem a mesma importância aos filhos e às filhas e tratem ambos igualmente. Devem dar à filha, em casa e na sociedade, o mesmo prestígio e respeito que dão ao filho. Além disso, em nenhum assunto se deve dar preferência ao filho em relação à filha; deve-se sempre dar prioridade às exigências da religião, acima das preferências pessoais e dos costumes sociais.

A filha como proteção contra o fogo do Inferno

عن عائشة رضى اللهُ عَنْهَا قَالَتْ : دَخَلَتْ عَلَى امْرَأَةٌ وَمَعَهَا ابْنَتَانِ لَهَا تَسأَلُ فَلَمْ تَجِدُ عِندى شيئًا غير تمرة واحدة فأعْطَيْتُهَا إِيَّاهَا فَقَسَمْتُهَا بَيْنَ ابنتيها ولم تَأْكُلُ مِنْهَا ثُمَّ قَامَتْ فَخَرَجَتْ فَدَخَلَ النَّبِيِّ صَلَّى اللَّهُ عَلَيْهِ
وسلم علينا فأخبرته فقال : من ابتلي من هذهِ الْبَنَاتِ بِشَيْ فَأَحْسَنَ إِلَيْهِنَّ كُن لَه ستراً من النار – متفق عليه، رياض الصالحين ص ١٤٤
“‘Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela, disse: uma mulher veio até mim para pedir esmola, acompanhada de suas duas filhas. Naquele momento, eu não tinha nada além de uma única tâmara. Dei-lhe a tâmara, e ela a dividiu ao meio entre suas duas filhas; ela mesma sequer provou um pedaço. Em seguida, levantou-se e foi embora. Depois, quando o Nobre Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, entrou em nossa casa, contei-lhe o ocorrido. Ele disse: ‘Aquele que for posto à prova por meio dessas filhas e as tratar bem, elas serão para ele uma proteção contra o fogo do Inferno.’” — Bukhari e Muslim

Ainda que não se espere nenhum benefício material da filha neste mundo, que força maior poderia haver para os pais que acreditam na veracidade do Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, e têm confiança na Outra Vida, do que saber que essas frágeis filhas se colocarão, no Dia da Ressurreição, como uma proteção contra o fogo ardente do Inferno para eles?
“Um homem veio até o amado Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Trazia seu filho pequeno no colo e começou a acariciá-lo com ternura. Ao ver aquela cena, o Profeta perguntou: ‘Sentes compaixão por ele?’ Ele respondeu: ‘Como não sentiria?’ O Profeta disse: ‘Allah tem mais compaixão de ti do que tu tens desta criança, pois Ele é o mais misericordioso de todos os misericordiosos.’” — Al-Adab al-Mufrad

A maneira como o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, tratava os filhos

Não há sequer os menores acontecimentos da vida do Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, que suas esposas, seus filhos e seus nobres Companheiros não tenham preservado na memória. Tudo isso foi conservado nos livros de biografia e de hadith. Até mesmo os pequenos acontecimentos de sua vida estritamente familiar e inteiramente pessoal foram lembrados pelas pessoas, transmitidos umas às outras e preservados nos livros de hadith e de sira.
Entretanto, é surpreendente pensar que, em toda a vida pura do amado Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, não se encontra um único episódio em que ele tenha batido ou agredido algum de seus filhos, dito palavras duras ou adotado qualquer tipo de comportamento severo. Há inúmeros relatos de amor, carinho, bondade, gentileza, misericórdia e belo tratamento; mas é extraordinário que não exista sequer um episódio de severidade para com algum de seus filhos. As pessoas têm um amor extraordinário por seus filhos e toleram muitas coisas neles que contrariam seu temperamento. Mas aqui a situação era diferente. Um servo permaneceu dez anos junto dele, e ele jamais lhe disse sequer uma vez: ‘Uf! O que está acontecendo?’ Anas, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: ‘Permaneci aproximadamente dez anos a serviço do Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, em Medina, e naquela época eu era adolescente. Por isso, nem todas as minhas ações estavam de acordo com a vontade do Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — e nem poderiam estar, pois que entendimento pode ter um menino de dez ou doze anos? —, mas durante todo aquele período de dez anos ele nunca me disse sequer “uf”, nem jamais me perguntou: “Por que fizeste isso?” ou “Por que não fizeste aquilo?”’
‘A’isha, que Allah esteja satisfeito com ela, retratou assim o belo caráter e comportamento do Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele: ‘Ele jamais bateu com a própria mão em um servo, uma serva, uma mulher ou um animal. E, sempre que entrava em casa, vinha extremamente alegre, sorridente e com um sorriso gentil.’

Bom tratamento para com a filha

O Nobre Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, dizia a respeito de sua filha: “Fátima, que Allah esteja satisfeito com ela, é uma parte de mim. Quem a desagrada, desagrada a mim.” — Bukhari

Depois do casamento, sempre que a senhora Fátima, que Allah esteja satisfeito com ela, vinha visitar o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, ele se levantava de seu lugar e a recebia. Beijava-lhe a testa e fazia-a sentar em seu próprio lugar. — Abu Dawud

Sempre que via a senhora Fátima, que Allah esteja satisfeito com ela, triste, ele também ficava triste. Certa vez, o amado Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, entrou muito preocupado na casa da senhora Fátima, que Allah esteja satisfeito com ela. Pouco depois, saiu de lá extremamente alegre e sorridente. Os Companheiros perguntaram: “Ó Mensageiro de Allah, quando entrou na casa de sua filha, estava preocupado; e quando saiu, estava alegre e sorridente. O que aconteceu?” O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, respondeu: “Resolvi o desentendimento entre as duas. Ambas são muito queridas para mim.”

Em Medina, o Nobre Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, estava hospedado na casa de Abu Ayyub Ansari, que Allah esteja satisfeito com ele. A casa da senhora Fátima, que Allah esteja satisfeito com ela, ficava bastante distante da casa do Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Certa vez, o Nobre Profeta foi à casa de sua filha e disse durante a conversa: “Minha filha, estás muito distante de mim. Quero levar-te para alguma casa próxima de mim.”

A senhora Fátima, que Allah esteja satisfeito com ela, respondeu: “Meu querido pai, Harith ibn Nu’man possui várias casas. Se o senhor lhe pedir, ele certamente lhe dará uma delas. Meu querido pai, peça-lhe!” O amado Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Minha filha, tenho vergonha de lhe pedir.”

De algum modo, Harith ibn Nu’man ficou sabendo disso. Ele próprio foi à presença do Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, e disse: “Ó Mensageiro de Allah! Soube que desejas trazer tua filha, a senhora Fátima, que Allah esteja satisfeito com ela, para alguma casa próxima de ti. Ó Mensageiro de Allah, que meus pais sejam sacrificados por ti! Coloco todas as minhas casas à tua disposição. Leva-a, com toda a satisfação, para a casa que desejares. Por Allah, qualquer coisa que aceitares de mim me agrada mais do que eu permanecer com ela enquanto ela estiver contigo.”

O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Disseste a verdade. Que Allah te abençoe e faça descer Sua misericórdia sobre ti.” Em seguida, levou sua amada filha, a senhora Fátima, que Allah esteja satisfeito com ela, para uma das casas de Harith ibn Nu’man, aproximando-a de si. Sempre que o amado Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, viajava, fazia sua última visita à casa da senhora Fátima, que Allah esteja satisfeito com ela; depois de encontrá-la, partia para a viagem. Da mesma forma, quando retornava de uma viagem, depois de concluir a oração voluntária na mesquita, ia primeiro à presença da senhora Fátima, que Allah esteja satisfeito com ela.

Ele também amava profundamente os netos. Sempre que ia à casa da senhora Fátima, que Allah esteja satisfeito com ela, dizia: “Fátima! Traz meus filhos.” A senhora Fátima trazia seus filhos à presença dele. Ele os cheirava e os apertava contra o peito.

Uma das filhas do Nobre Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, chamava-se senhora Zaynab, que Allah esteja satisfeito com ela. Ela era a mais velha de todas. Casou-se com seu primo materno, Abu al-As. A senhora Khadijah, que Allah esteja satisfeito com ela, dera-lhe, por ocasião do casamento, um valioso colar de ágata iemenita. Quando o amado Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, migrou para Medina, a senhora Zaynab, que Allah esteja satisfeito com ela, permanecia na casa de seus sogros. Seu marido ainda não havia abraçado a fé. Pelo contrário, havia participado da batalha de Badr ao lado dos descrentes e fora capturado. Ele enviou uma mensagem à sua casa, pedindo que lhe mandassem dinheiro para o resgate. Na verdade, a senhora Zaynab, que Allah esteja satisfeito com ela, enviou o colar que sua mãe lhe dera por ocasião do casamento. Quando o Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, viu aquele colar de sua filha, ficou profundamente comovido. Lágrimas rolaram de seus olhos. Então disse aos Companheiros: “Se concordardes, podeis devolver este colar a Zaynab, que Allah esteja satisfeito com ela, e também libertar seu marido.” Os Companheiros aceitaram de bom grado esse pedido do Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Abu al-As foi libertado, e o colar de sua esposa também lhe foi devolvido. Contudo, foi estabelecida a condição de que ele fosse a Meca e enviasse a senhora Zaynab, que Allah esteja satisfeito com ela, ao Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele.

Assim, a senhora Zaynab, que Allah esteja satisfeito com ela, foi para junto de seu pai.

Depois de alguns dias, Abu al-As também foi a Medina e abraçou o Islã. Após a conversão de Abu al-As ao Islã, a senhora Zaynab, que Allah esteja satisfeito com ela, viveu por um ano e três meses e, no oitavo ano da Hégira, partiu deste mundo mortal.

O Nobre Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, desceu-a pessoalmente à sepultura com suas próprias mãos puras. No momento de colocá-la na sepultura, estava extremamente entristecido e preocupado. Então suplicou a Allah: “Ó Senhor! Ela era muito fraca. Ó Senhor, facilita sua dificuldade e amplia sua sepultura.” — Usud al-Ghabah

Dar bons nomes

O nome também expressa a personalidade de uma pessoa e exerce grande influência do ponto de vista psicológico. Todos querem acariciar as crianças rechonchudas e bonitas. Porém, quando perguntam o nome delas e ouvem algum nome sem significado e desagradável, naturalmente ficam desanimados. Nesse momento, desejam: “Ah! Se ao menos o nome dela fosse tão bonito quanto sua aparência!” Na realidade, um nome bonito exerce enorme influência sobre os sentimentos e as emoções. Por isso, quando uma mulher é tratada por um nome feio e desagradável, também se observa uma reação de ira. Ao ser chamada por um nome ruim, ela expressa emoções negativas. Por outro lado, quando uma mulher é chamada por um nome bonito, responde com profunda gratidão e afeto. Ao ouvir seu bom nome, considera-se honrada.
As mães e os pais naturalmente desejam que as pessoas chamem seus filhos por bons nomes. Quando uma criança é chamada por um bom nome, ela fica feliz, e, por outro lado, no coração de quem a chama também se forma uma boa impressão a seu respeito. Mas isso só pode acontecer quando você dá um bom nome ao seu filho. O direito que seu amado filho tem sobre você é que você lhe dê um nome bonito e puro.
O Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) ordenou à sua comunidade que desse nomes bons e puros. Sempre que os Companheiros e as Companheiras pediam ao Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) que desse um nome a seus filhos, ele sugeria nomes extremamente puros e significativos. Quando perguntava o nome de alguém e essa pessoa dizia um nome sem significado e desagradável, o Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) o desaprovava e não lhe permitia realizar nenhuma tarefa. Em contrapartida, quando pronunciava um nome bonito e puro, ele o aprovava, fazia súplicas por essa pessoa e permitia que realizasse seu trabalho. Quando o amado Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) saía para atender a alguma necessidade, gostava de ouvir expressões como “Wa Najih” ou “Ya Rashid”. Quando enviava alguém para assumir a responsabilidade por algum lugar, perguntava seu nome. Se a resposta lhe agradava, ficava muito feliz, e os sinais dessa alegria brilhavam em seu rosto. Se não gostava do nome, isso também se refletia em seu rosto. Quando entrava em alguma aldeia, perguntava o nome dela. Se gostava do nome, ficava muito alegre. Muitas vezes, também mudava nomes desagradáveis. Não conseguia tolerar um nome ruim para qualquer coisa. As pessoas chamavam um lugar de Hujrah, isto é, estéril ou improdutivo. Ele mudou o nome daquele lugar para Khudrah, isto é, sempre verde e fértil. Uma fortaleza era chamada de Fortaleza do Desvio. Ele deu-lhe o nome de Fortaleza da Orientação. Da mesma forma, mudou os nomes de muitos homens e mulheres. Aquele que insistia no antigo nome em vez do nome que ele havia mudado sentia sobre a própria personalidade a má influência de seu antigo nome, e essa má influência permanecia sobre seus descendentes.

Nomes recomendáveis para a criança

Por nomes recomendáveis para sua criança entendem-se aqueles em cuja escolha se levou em consideração certos aspectos e se procurou manter distância de outros. Primeiro: nomes formados pela combinação da palavra Abd ou Amatuhu com um dos nomes da Essência ou dos atributos de Allah. Por exemplo: Abdullah, Abdur-Rahman, Abdul-Ghaffar, Amatullah, Amatur-Rahman, entre outros. Ou nomes que expressem louvor a Allah.

Segundo: dar à criança o nome de algum profeta. Por exemplo: Jacó, José, Idris, Ahmad, Abraão, Ismael e outros.

Terceiro: dar à criança o nome de algum combatente pela fé, santo ou servidor da religião, como Umar Faruq, Khalid, Abdul-Qadir, Hajar, Maryam, Umm Salamah, Sumayyah e outras.

Quarto: o nome deve ser um reflexo de seus sentimentos religiosos e de suas belas esperanças e aspirações. Por exemplo, ao observar a atual situação deplorável da comunidade, você pode dar à sua criança nomes como Umar e Salahuddin e nutrir a esperança de que, ao crescer, ela conduza à margem o barco afundando da comunidade e revitalize a religião.

Quinto: sugerir um nome tendo em mente algum êxito religioso. Por exemplo, enquanto recitava o Sagrado Alcorão, surgiu o seguinte versículo:

يوم يأْتِ لا تكلم نفس الا باذنه ، فمنهم شقى وسعيد-
“Quando chegar aquele Dia em que não terás poder para falar com ninguém. Sim, as pessoas poderão falar somente com a permissão de Allah. Então, nesse Dia, algumas pessoas serão desventuradas e outras serão afortunadas.”

Isto é, no Dia da Ressurreição, toda a humanidade será dividida em dois grupos. Um grupo será o dos desafortunados e o outro, o dos afortunados. Ao ler este versículo, espontaneamente, você suplicou do fundo do coração: “Ó meu Senhor, inclui a mim e aos meus filhos no grupo dos afortunados”; e, depois que seu filho nasceu, deu-lhe o nome de Saíde.
Na realidade, consciente ou inconscientemente, você sugere nomes de acordo com sua vontade, suas emoções, esperanças e aspirações; e é com base nessas esperanças e aspirações que a criança cresce e, normalmente, por sua própria natureza, acaba realizando seus sonhos. Recomenda-se ter esses aspectos em mente ao sugerir um nome. Por outro lado, há certos aspectos que exigem cautela ao sugerir um nome.

1. Pensamentos e sentimentos contrários à crença e aos princípios islâmicos, especialmente nomes que ferem a concepção monoteísta. Por exemplo, Nabi Bakhsh, Abdur-Rasul etc.

2. Qualquer palavra que expresse orgulho, arrogância, pretensa pureza ou vanglória.

3. Nomes que reflitam esperanças e aspirações não islâmicas e nos quais não haja qualquer esperança de obter a misericórdia de Allah.

Orientação e sabedoria quanto à escolha de bons nomes

قَالَ رَسُولُ اللهِ صَلَّى اللهُ عَلَيْهِ وَسَلَّمَ إِنَّكُمْ تَدْعُونَ يَوْمَ الْقِيَامَةِ بِأَسْمَائِكُمْ ، وَأَسْمَاءِ آبَاءِ كُمْ فَأَحْسِنُوا أَسْمَائِكُم – ابو داود عن أبي الدردا“O nobre Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: ‘No Dia da Ressurreição, sereis chamados por vosso próprio nome e pelo nome de vosso pai. Portanto, escolhei bons nomes.’”

Nomes mais apreciados por Allah

عن أبي وهب رض عَنِ النَّبِيِّ صَلَّى اللهُ عَلَيْهِ وَسَلَّمَ قَالَ : تُسَمُوا بِأَسْمَاءِ الأنبياء وأحبُّ الْأَسْمَاءِ إِلى اللهِ عَزَّ وَجَلَّ عبدُ اللَّهِ وَعَبْدُ الرَّحْمَنِ وَأَصْدَقَهَا حارث وهمام وأقبحها حرب ومرة – الادب المفرد وجمع الفوائد ج ۲ ص ٤٠٦ بحو اله ابوا داود ونسائي“Hazrat Abu Wahab narrou, transmitindo do nobre Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, que ele disse: ‘Dai nomes segundo os nomes dos profetas. Os nomes mais apreciados por Allah, Majestoso e Sublime, são Abdullah e Abdur-Rahman. Os nomes mais verídicos são Harith e Hammam, e os mais detestáveis são Harb e Murrah.’”

A palavra “Allah” é um nome próprio de Allah. Rahman não é um nome próprio de Allah no Islã. Contudo, antes do Islã, era usada como nome próprio de Allah entre alguns povos. Por isso, também possui importância em comparação com Seus outros atributos ou qualidades. A menção, no hadith, apenas desses dois nomes não significa que somente esses dois nomes possam ser dados ou que somente eles sejam apreciados por Allah. Pelo contrário, eles foram mencionados como exemplos. Quando a palavra Abd é acrescentada a qualquer atributo de Allah para formar um nome, esse é um nome apreciado por Allah. É possível que o Nobre Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, tenha mencionado somente esses dois nomes também porque, no Sagrado Alcorão, eles são mencionados juntamente com a palavra Abd. Harith é aquele que se dedica à agricultura e às atividades de obtenção de renda; mesmo que ganhe o sustento neste mundo por meios lícitos, isso já é algo bom, mas, se ele se dedica a conquistar o sustento da Outra Vida, o que poderia ser melhor do que isso? Hammam designa a pessoa de firme determinação, que, depois de concluir uma tarefa, passa a outra. Harb significa guerra; é evidente que a guerra não é uma atividade apreciada. Murrah significa algo amargo, e certamente algo amargo é detestado por todos.

Um bom começo com um bom nome

Hazrat Yahya ibn Sa’id, que Allah esteja satisfeito com ele, disse que o Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, perguntou às pessoas quem iria ordenhar uma camela:

مَنْ يُحْلبُ هَذِهِ ؟ فَقَامَ رَجُلٌ فَقَالَ لَهُ صَلَّى اللهُ عَلَيْهِ وَسَلَّمَ مَا اسْمُكَ ؟ قَالَ : مُرَّة، فَقَالَ لَهُ : اجْلِسُ ثُمَّ قَالَ : مَنْ يُحْلَبُ هَذِهِ ؟ فَقَامَ رَجُلٌ ، فَقَالَ له صلى الله عَلَيْهِ وَسَلَّمَ مَا اسْمُكَ ؟ قَالَ حَرْبٌ ، فَقَالَ لَهُ اجْلِسُ ثُمَّ قَالَ من يحلب هذه ؟ فَقَامَ رَجُلٌ ، فَقَالَ لَهُ صَلَّى اللَّهُ عَلَيْهِ وَسَلَّمَ مَا اسْمُكَ ؟ قَالَ : يَعِيشُ فَقَالَ لَهُ أحلب – جمع الفوائد بحوا الله مؤطا امام مالك رح“Quem ordenhará esta camela?” Um homem se levantou, e ele lhe perguntou: “Qual é o seu nome?” Ele respondeu que seu nome era Murrah. Ele lhe disse: “Sente-se.” Em seguida, perguntou: “Quem ordenhará esta camela?” Um homem se levantou. Ele lhe perguntou: “Qual é o seu nome?” Ele respondeu que seu nome era Harb. Ele lhe disse: “Sente-se.” Depois, perguntou: “Quem ordenhará esta camela?” Um homem se levantou. Ele lhe perguntou: “Qual é o seu nome?” Ele respondeu que seu nome era Ya’ish. Ele lhe disse: “Está bem, ordenhe você o leite.” — Jam’ al-Fawa’id, com referência ao Muwatta do Imam Malik

O significado dos dois primeiros nomes era desagradável, enquanto o significado do último nome era agradável. A palavra Ya’ish transmite o sentido de permanecer vivo.

Da mesma forma, o Imam Bukhari também registrou um hadith:

“O Nobre Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, perguntou às pessoas: ‘Quem conduzirá o nosso camelo?’, ou teria dito: ‘Quem o levará até o destino?’ Um homem disse: ‘Eu.’ Ele lhe perguntou: ‘Qual é o seu nome?’ Ele respondeu: ‘Meu nome é Este.’ Ele disse: ‘Sente-se.’ Então, um segundo homem se levantou com esse propósito. Ele lhe perguntou: ‘Qual é o seu nome?’ Ele também respondeu: ‘Meu nome é Este.’ Ele disse: ‘Sente-se.’ Em seguida, um terceiro homem se levantou. Ele também lhe perguntou: ‘Qual é o seu nome?’ Ele respondeu que seu nome era Najiyah. Então ele disse: ‘Você é adequado para esta tarefa. Conduza-o.’”

Uma anedota de Hazrat Umar, que Allah esteja satisfeito com ele

Hazrat Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, perguntou a um homem: “Qual é o seu nome?” Ele respondeu: “Brasa.” Ele perguntou: “Qual é o nome do seu pai?” Ele respondeu: “Chama de fogo.” Ele perguntou: “De qual tribo você é?” Ele respondeu: “Da tribo Combustão.” Ele perguntou: “Onde fica a sua casa?” Ele respondeu: “Sobre a colina quente do fogo.” Ele perguntou: “Sobre qual colina do fogo?” Ele respondeu: “Sobre a colina em chamas.” Ao ouvir isso, Hazrat Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: “Vá depressa e avise as pessoas de sua casa. Todos eles foram queimados.” Aconteceu exatamente como Hazrat Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, havia dito. — Jam’ al-Fawa’id

Demonstrar respeito pelo nome

Hazrat Abu Rafi‘, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: o Nobre Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse:

إذا سميتم محمدًا فَلَا تَضْرِبُوهُ وَلَا تَحْرِمُوهُ .
“Quando derem a alguém o nome Muhammad, não o agridam nem o privem de seus direitos.” — Jam‘ul-Fawā’id

Hazrat Anas, que Allah esteja satisfeito com ele, relatou que o Nobre Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse:تسمونهم محمدًا ثُمَّ تَلْعَنُونَهم .
“Vocês darão às crianças o nome Muhammad e depois as amaldiçoarão e insultarão.”

Ou seja, por respeito a esse nome, não tratem mal as crianças. De qualquer modo, comportar-se mal com as crianças é algo reprovável. E, se o nome da criança for Muhammad, será preciso ter ainda mais cuidado, pois também é obrigatório honrar esse nome.

Alguns nomes propostos pelo Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz

Primeiro: Hazrat Yusuf, filho de Hazrat Abdullah ibn Salam, disse que o Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, deu-lhe o nome Yusuf. Colocou-o no colo e passou a mão sobre sua cabeça.

Segundo: Hazrat Abu Musa, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: quando nasceu meu primeiro filho, levei-o à presença do Nobre Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Ele lhe deu o nome Ibrahim. Mastigou uma tâmara e colocou-a em sua boca; depois devolveu-o a mim, fazendo uma súplica por bondade e bênção.

Terceiro: Hazrat Ali, que Allah esteja satisfeito com ele, havia dado a seus três filhos o nome Harb. O Amado Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, mudou seus nomes para Hasan, Husayn e Muhsin.

Mudança de nome

O nobre Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, era extremamente cuidadoso quanto aos nomes. Se o nome de alguém lhe parecesse ruim sob algum aspecto, ele o mudava e sugeria um nome melhor. Se um nome expressasse algum significado contrário à concepção do tawhid, fosse sem sentido, designasse algo desagradável e ruim, tivesse um significado indesejável, estivesse pessoalmente relacionado a algum pecado, expressasse ostentação e orgulho, ou tivesse qualquer outro aspecto negativo, ele o mudava e, em seu lugar, sugeria um nome bom e puro.
Hadrat Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela, narrou que o nobre Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, mudava os nomes ruins. — Jami’ at-Tirmidhi

1. Hani ibn Zayd apresentou-se perante o amado Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, junto com uma delegação. Nessa ocasião, ouviu que sua kunya era Abu al-Hakam. O nobre Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, chamou-o e disse: “Al-Hakam é Allah, e julgar está sob Sua autoridade. Como você adotou a kunya de ‘Al-Hakam’?” Ibn Zayd respondeu: “Não é essa a questão. (Não quero compartilhar desse direito de Allah.) O fato é que, quando surge uma divergência entre os membros do meu povo sobre algum assunto, eles vêm até mim. Eu julgo corretamente entre eles, e ambas as partes aceitam a decisão com satisfação.” O nobre Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Que bela coisa você descreveu.” Em seguida, perguntou: “Você não tem filhos?” Ibn Zayd respondeu que tinha três filhos. Seus nomes eram Shurayh, Abdullah e Muslim. Ele perguntou: “Qual deles é o mais velho?” Ibn Zayd respondeu: “Shurayh é o mais velho de todos.” Ele disse: “Então sua kunya será Abu Shurayh”, e fez súplicas por ele e por seus filhos. Além disso, soube que o nome de um dos membros da delegação era Abd al-Hajar. Perguntou-lhe: “Qual é o seu nome?” Ele respondeu: “Abd al-Hajar.” Ele disse: “Não; seu nome será Abdullah.”
Shurayh disse: quando Hani ibn Zayd estava prestes a retornar à sua terra natal, apresentou-se perante o nobre Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e perguntou: “Ó Mensageiro de Allah, diga-me que ação me garantirá inevitavelmente o Paraíso.” Ele respondeu: “Providencie duas coisas: fale bem com as pessoas e distribua bastante alimento.” — Al-Adab al-Mufrad

2. Hadrat Abd al-Rahman disse: apresentei-me perante o Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Ele me perguntou: “Qual é o seu nome?” Respondi: “Meu nome é Abd al-Uzza.” Ele disse: “Não; seu nome é Abd al-Rahman.” Em outra narração, consta que respondi: “Meu nome é Aziz.” Então ele disse: “Aziz é Allah.” — Al-Adab al-Mufrad

3. Hadrat Ibn Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, narrou que o Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, mudou o nome de Asiya e disse: “Seu nome é Jamila.” — Al-Adab al-Mufrad

Na narração de Sahih Muslim, consta que o nome da filha de Hadrat Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, era Asiyah, e que o nobre Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, mudou-o para Jamila.

4. Hadrat Muhammad ibn Amr, que Allah esteja satisfeito com ele, narrou que certa vez foi visitar Zaynab, filha de Abu Salama (ela era filha de Umm Salama, esposa do Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz; era filha de seu primeiro marido, Abu Salama). Nessa ocasião, Zaynab perguntou o nome da irmã de uma pessoa que estava comigo. Respondi que o nome dela era Barrah. Ela disse: “Mude o nome dela, pois, quando o nobre Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, se casou com Zaynab bint Jahsh, o nome dela era Barrah. O nobre Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, mudou seu nome para Zaynab.” Naquela ocasião, sua mãe a chamava repetidamente de Barrah. Então o Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Não proclameis a vossa própria pureza. Allah sabe melhor quem, entre vós, é piedoso e quem é ímpio”, e disse: “Chamem-na de Zaynab.” Minha mãe, Umm Salama, disse: “Está bem; então seu nome será Zaynab.”

5. Hadrat Rayta bint Muslim disse: meu pai, Muslim, contou-me: “Eu estava com o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, na batalha de Hunayn. Ele me perguntou: ‘Qual é o seu nome?’ Respondi: ‘Meu nome é Ghurab (corvo).’ Ele disse: ‘Não; seu nome é Muslim.’”
Hadrat Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela, narrou que um homem mencionou numa reunião do Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, que era chamado Shihab. Ao ouvir isso, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Não; você é Hisham.”

Seis: Antes do Islã, o nome do filho de Abdur-Rahman ibn Sa’id al-Makhzumi era “As-Sarm”. Então, o nobre Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, mudou-o para “Sa’id”. O Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, perguntou a Sa’id: “Quem é mais velho entre nós dois: eu ou você?” Sa’id, que Allah esteja satisfeito com ele, respondeu: “O senhor é mais velho do que eu, mas eu nasci antes do senhor.”
Quando ele estava ficando cego, Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, foi visitá-lo para cuidar dele e disse-lhe: “Você deve comparecer à oração de sexta-feira e à oração em congregação.” Ele respondeu: “Quem me levará até lá?” Então Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, enviou um escravo para guiá-lo e servi-lo.

Sete: O nobre Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Não dê a seu filho o nome Hubab, pois Hubab é o nome de Satanás. O nome de um filho não deve ser Hubab; ao contrário, o nome do filho deve ser Abdur-Rahman.
A serpente é chamada de Hubab, e o mundo é chamado de Umm Hubab. Por isso, ele proibiu dar o nome Hubab.”

Os maus efeitos dos nomes ruins

O famoso muhadith tabi’i de Medina, Sa’id ibn al-Musayyib, relatou o episódio de seu avô Huron. Certa vez, ele se apresentou perante o Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Naquela ocasião, o Profeta perguntou-lhe: “Qual é o seu nome?” Ele respondeu: “Meu nome é Hayn.” O Profeta disse: “Não, seu nome não é Hayn; seu nome é Sahalah.” Hayn disse: “Não mudarei o nome que meu pai me deu para dar a mim mesmo outro nome.”
Sa’id ibn al-Musayyib disse: “Por essa razão, a tristeza continua a atingir nossa descendência desde então até hoje.”

O pior nome perante Allah

عن أبي هريرةَ قَالَ قَالَ رَسُولُ اللهِ صلَّى اللهُ عَلَيْهِ وَسَلَّمَ أَخْنَى الْأَسْمَاءِ عند الله رجلٌ تُسمى ملك الأملاك – الادب المفرد“Abu Huraira, que Allah esteja satisfeito com ele, relatou que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: ‘O nome mais detestável e que provoca a maior ira perante Allah é chamar alguém de Malik al-Amlak.’”

A expressão Malik al-Amlak significa “rei dos reis”. Em persa, seu significado é Shahanshah. Quanto ao significado, é um nome extremamente ruim, pois contém uma indicação de shirk. O poder e a realeza pertencem exclusivamente a Allah. Ninguém compartilha com Ele esse direito. Essa expressão também aparece no Sahih Muslim. Seu significado é que a realeza e o poder pertencem somente a Allah.

Chamar a pessoa pelo nome de que ela gosta

Quando você chama alguém pelo nome, também pode chamá-lo pelo nome de que ele gosta. Portanto, sempre chame os outros pelo nome que lhes é mais agradável. Com isso, a pessoa chamada sentirá que sua honra aumentou. O Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, gostava muito que cada pessoa fosse chamada pelo nome e pela kunya de que mais gostava.

O nome preferido de Ali, que Allah esteja satisfeito com ele

Certo dia, o nobre Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, foi à casa de seu genro, Ali, que Allah esteja satisfeito com ele. Fátima, que Allah esteja satisfeito com ela, estava sozinha em casa. Ali, que Allah esteja satisfeito com ele, não estava. Ele perguntou à filha: “Onde está o filho de seu tio?” Ela respondeu: “Houve uma discussão entre nós. Ele ficou zangado comigo e saiu irritado, não sei para onde. Depois do almoço, ele nem sequer descansou aqui.” O nobre Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse a alguém: “Vá ver onde Ali está.” O homem respondeu: “Ele está deitado, encostado à parede da mesquita.” O nobre Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, foi atrás dele. Viu que ele estava deitado de costas. Seu manto não estava bem arrumado e havia terra em seu corpo. O nobre Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, sacudia a terra de suas costas e dizia: “Abu Turab, levante-se.”

Pronunciar o nome abreviado com carinho

Às vezes, o amado Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, por carinho, usava uma forma abreviada do nome em vez de pronunciá-lo por completo. Por exemplo, dizia Aisha em vez de Aisha e Uthman em vez de Uthman. Naturalmente, às vezes você também faz isso para demonstrar afeição e amor. Não há nada de censurável nisso, pois isso não é feito para deturpar o nome, mas para expressar sentimentos de amor. Abu Salama, que Allah esteja satisfeito com ele, relatou:

أن عَائِشَةَ رَضِيَ اللهُ عَنْهَا قَالَتْ : قَالَ رَسُولُ اللَّهِ صَلَّى اللَّهُ عَلَيْهِ وسلَّم يَا عَائِشَ : هَذَا جِبْرِيلُ يُقْرِئُ عَلَيْكَ السَّلام قَالَتْ : وَعَلَيْهِ السَّلام ورحمة الله قَالَتْ وَهُوَ يُرَى مَالَا أَرَى-
“Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela, disse: O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: ‘Ó Aisha! Este é Gabriel, que está lhe transmitindo a saudação de paz.’ Ela respondeu: ‘Que a paz e a misericórdia de Allah estejam também sobre ele.’ E disse: ‘O nobre Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, via aquilo que eu não via.’ Al-Adab al-Mufrad

Mesmo que às vezes você não se lembre do nome de alguém e precise chamá-lo, não se dirija a ele por um nome feio ou desagradável. Use alguma expressão boa para chamá-lo. Quando o amado Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, às vezes não se lembrava do nome de alguém, dirigia-se a essa pessoa dizendo: “Ó filho de Abdullah!”

Carinho e amor pelos filhos

Demonstrar ternura e amor pelos filhos também é um de seus direitos. Mostrar ternura e amor pelos filhos é algo natural. Allah, o Altíssimo, criou essa disposição natural no coração de cada pai e mãe. Ao criar no coração dos pais uma afeição ilimitada pelos filhos, Allah também lhes concedeu uma benevolência extraordinária. Por outro lado, isso também é uma benevolência para com os filhos. É uma benevolência para com os filhos porque, sem isso, sua criação e educação seriam simplesmente impossíveis. Na verdade, em sua maior parte, seriam impossíveis. Em comparação com os filhotes de todos os outros animais, a criança humana é a mais indefesa, necessitada, fraca e dependente de ajuda. Se não houvesse no coração dos pais uma afeição e um amor ilimitados por ela, sua criação e educação não seriam possíveis. É graças à ternura e ao amor incomparáveis dos pais, bem como ao seu extraordinário sacrifício e abnegação, que ela cresce e se torna capaz. Por outro lado, isso é uma benevolência para com os pais porque Allah, o Altíssimo, lhes confiou a grande responsabilidade de criar os filhos. Os pais jamais poderiam cumprir esse direito se não fosse criada neles uma enorme afeição pelos filhos. O amor pelos filhos é um sinal da misericórdia e da sabedoria de Allah, e uma prova manifesta de que Ele é o Senhor e o Criador. Allah criou essa afeição no coração de todo ser humano, sem qualquer discriminação. E não somente nos seres humanos: Allah também concedeu essa afeição aos animais, que, por natureza, amam seus descendentes.

A diferença no amor da mãe muçulmana

O amor pelos filhos é um sentimento natural. Por isso, independentemente de religião e ideologia, todos os pais amam seus próprios filhos. Mesmo que algum pai ou mãe não tenha religião nem creia no Criador, ainda assim ama seu filho. Entretanto, nesse aspecto, os pais muçulmanos possuem uma característica especial. E os pais privados do Islam jamais podem alcançar essa característica. Ao amar seu filho, uma mãe não muçulmana também satisfaz seu sentimento natural. Da mesma forma, uma mãe muçulmana também satisfaz esse sentimento. Porém, a característica distintiva da mãe muçulmana é que ela ama o filho com a consciência de que isso é um direito da criança, uma exigência da religião e a Sunnah do Nobre Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e dos nobres Companheiros. Demonstrar ternura pelos filhos não serve apenas para satisfazer o sentimento natural; é também tomado como meio de alcançar a satisfação de Allah e de Seu Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, obter recompensa na Outra Vida e alcançar a salvação no Além. Devido a esse sentimento intenso, uma grande afeição e uma força extraordinária são despertadas no coração da mãe muçulmana. O amor dotado desse sentimento é completamente diferente do amor meramente natural. O amor da mãe que ama movida por um sentimento religioso não pode ser um amor cego. Ela ama o filho de acordo com a orientação da religião e jamais, por causa da emoção, adota um método que possa se tornar causa de sua destruição e da destruição do filho.

Os filhos como meio de provação

Demonstrar amor pelos filhos é um direito deles, mas também é um meio de provação para os pais. Allah concedeu o sentimento natural de amor pelos filhos, protegeu esse sentimento e, ao mesmo tempo, advertiu, dizendo que se deve ter cautela em relação aos filhos. Isso porque, às vezes, os próprios filhos se tornam inimigos da pessoa. Ao ficar preso na rede do amor excessivo por eles, o ser humano perde o equilíbrio e se afasta muito da religião. Por causa deles, apodera-se dos direitos alheios. Perde a capacidade de distinguir entre o lícito e o ilícito. Torna-se negligente na adoração e na obediência a Allah. Esquece as exigências da fé e do Islam. Deixa de realizar grandes boas obras e, ao seguir o caminho errado, destrói sua vida futura. Por isso, Allah, o Altíssimo, disse para se ter cautela em relação aos filhos. Alguns filhos tornam-se, nesse sentido, inimigos do ser humano.

يأَيُّهَا الَّذِينَ آمَنُوا إِنَّ مِنْ أَزْوَاجِكُمْ وَأَوْلَادِكُمْ عَدُوا لَّكُمْ فَاحْذَرُوهُمْ :
“Ó crentes, alguns de vossos cônjuges e de vossos filhos são vossos inimigos. Portanto, acautelai-vos deles.” — Surata At-Taghabun: 14

Ter cautela em relação aos filhos significa que a pessoa não deve ficar tão presa ao amor por eles a ponto de se tornar negligente quanto às exigências da religião e da fé. Se o amor pelos filhos impede alguém de avançar no caminho da religião e de sacrificar-se por ela, então isso será inimizade; por isso, é preciso estar alerta. O amor por eles jamais deve prevalecer sobre o amor à religião, nem deve fazer a pessoa recuar no campo religioso. Antes da Hégira, algumas pessoas haviam abraçado a fé em Meca. Apesar de terem aceitado o Islam, não puderam emigrar para Medina com os muçulmanos que fizeram a Hégira. Embora fossem crentes, foram privadas da bênção da Hégira somente porque haviam ficado presas ao amor excessivo pelas esposas e pelos filhos, que as impediram de partir para Medina. Esses muçulmanos foram privados de uma bênção como a Hégira porque não tiveram cautela quanto ao amor pelos filhos e ficaram tão absorvidos por esse amor que não conseguiram responder ao chamado da religião. O Sagrado Alcorão também chamou os filhos de fitnah e provação nesse sentido. De um lado, há o sentimento natural de amor por eles; de outro, as exigências da religião e da fé. Foi ordenado demonstrar amor por eles e dar cumprimento aos seus direitos. Ao mesmo tempo, foi proferida esta advertência: os filhos são um meio de provação. Portanto, não vos absorvais tanto no amor por eles a ponto de esquecerdes as exigências da religião e da fé:

إِنَّمَا أَمْوَالُكُمْ وَأَولادكم فنتة ، التغابن : ١٥
“A realidade é que vossas riquezas e vossos filhos são uma provação para vós.” — Surata At-Taghabun: 15

Em outro lugar, foi declarado:يأَيُّهَا الَّذِينَ آمَنُوا لا تُلْهِكُمْ أَمْوَالُكُمْ وَلَا أَوْلَادُكُمْ عَنْ ذِكْرِ اللَّهِ ، وَمَنْ يَفْعَلُ
ذالِكَ فَأُولَئِكَ هُمُ الْخَسِرُونَ المنافقون : ٩“Ó crentes! Que vossos bens e vossos filhos não vos distraiam da recordação de Allah; e quem fizer isso será grandemente prejudicado.” — Surata Al-Munafiqun: 9

O significado deste versículo é que os hipócritas haviam ficado presos ao amor pelos bens e pelos filhos. Estavam absortos nos desejos materiais e haviam esquecido a Vida Futura em troca deste mundo. E esta é a maior perda: que o ser humano seja privado, por causa do mundo perecível, das infinitas bênçãos da vida eterna. Por isso, os muçulmanos devem permanecer atentos a esse respeito.
Certa vez, o nobre Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, estava proferindo um sermão na Mesquita do Profeta. Nesse momento, Hasan, que Allah esteja satisfeito com ele, e Husain, que Allah esteja satisfeito com ele, chegaram à mesquita usando roupas vermelhas. Eles eram muito pequenos. Vinham avançando com dificuldade, tropeçando sobre os próprios pés. O nobre Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, não conseguiu suportar aquilo. Desceu do púlpito, tomou os dois netos no colo, trouxe-os para perto de si e sentou-os junto dele. Em seguida, disse: “Allah disse a verdade:”

إِنَّمَا أَمْوَالُكُمْ وَأَوْلَادُكُمْ فِتْنَةٌ – التغابن : ١٥“A verdade é que vossos bens e vossos filhos são uma provação para vós.” — Surata At-Taghabun: 15

Khawla bint Hakim, que Allah esteja satisfeito com ela, era uma mulher muito piedosa. Ela narrou que, certo dia, o nobre Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, saiu. Ele havia tomado um de seus netos no colo e dizia-lhe: “Vós tornais as pessoas avarentas, vós tornais as pessoas covardes e vós lançais as pessoas na ignorância e na tolice.” — Jami’ At-Tirmidhi

A verdade é que, por causa dos filhos, surgem diversos tipos de fraqueza nas pessoas; por causa deles, sua bravura se extingue e elas se tornam covardes. Em muitos casos, ficam atemorizadas e recuam diante do avanço. Que Allah não permita que o desfecho seja ruim; nesse caso, o que acontecerá com os filhos? Gastam com muito cuidado, levando em consideração as necessidades deles, e, por causa deles, às vezes, levadas pela emoção, acabam agindo como tolas e ignorantes.
O Islam não menospreza a emoção do amor pelos filhos nem a impede; pelo contrário, considera-a querida e dotada de propósito, e incentiva-a. Naturalmente, o Islam enfatiza que o muçulmano deve amar seus filhos à luz da religião. Deve manter constantemente diante de si as orientações da religião a esse respeito e jamais adotar uma atitude que Allah desaprova.

عَنْ أَنَسٍ قَالَ دَخَلْنَا مَعَ رَسُولِ الله صلَّى اللهُ عَلَيْهِ وَسَلَّمَ عَلَى أَبي سيف القَيْنِ وَكَانَ ظَرًا لإبراهيم فَأَخَذَ رَسُولُ اللهِ صَلَّى اللَّهُ عَلَيْهِ وَسَلَّمَ فَقَبْلَهُ وشمه ثُمَّ دَخَلْنَا عَلَيْه بعد ذالك وإبراهيم يجودُ بِنَفْسِهِ فَجَعَلْتُ عَيْنَا رَسُول الله صَلَّى اللهُ عَلَيْهِ وَسَلَّمَ تَنْرَفَانِ فَقَالَ لَهُ عَبْدُ الرَّحْمَنِ بْنِ عَوْفِ وَأَنْتَ يا رَسُولَ اللهِ فَقَالَ يَا ابْنَ عَوْفِ إِنَّهَا رَحْمَةٌ ثُمَّ اتَّبَعَهَا بِأُخْرِى فَقَالَ إِنَّ الْعَيْنَ تدمع والقلب يَحْزُنُ وَلَا نَقُولُ إِلا ما يرضى رَبُّنَا وَإِنَّا بِفِرَاقِكَ يَا إِبْرَاهِيمُ لمحزونون – بخاری، مسلم“Hazrat Anas, que Allah esteja satisfeito com ele, narrou: Fomos com o nobre Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, à casa de Abu Saif, o ferreiro. Abu Saif era o marido da ama de leite do filho do Profeta, Ibrahim. O amado Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, tomou seu filho no colo, acariciou-o e cheirou-o — isto é, colocou o nariz e a boca sobre o rosto dele de tal maneira que parecia cheirá-lo. Depois, quando voltamos àquele lugar, Ibrahim estava dando seus últimos suspiros, e as lágrimas escorriam dos dois olhos do Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Ao ver isso, Abd al-Rahman ibn Awf, que Allah esteja satisfeito com ele, disse ao amado Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele: “Ó Mensageiro de Allah, o senhor também chora?” Ele respondeu: “Ibn Awf, estas lágrimas são um sinal de misericórdia.” E as lágrimas continuaram a escorrer. Ele disse: “Os olhos derramam lágrimas e o coração sente tristeza. Com a língua, dizemos somente aquilo que agrada ao nosso Senhor. Ó Ibrahim, estamos entristecidos pela tua separação.” — Bukhari e Muslim

Tratamento áspero para com os filhos

Algumas pessoas consideram contrário à devoção religiosa rir e brincar com os filhos, ocupar-se com eles, alimentá-los no colo, beijá-los e acariciá-los. Para elas, a exigência da devoção e da seriedade é abster-se de falar alegremente com os filhos. É preciso manter-se separado e afastado deles. Em vez de conviver com eles, deve-se demonstrar indiferença e, em vez de expressar amor, demonstrar dureza e aspereza. O Islam jamais apoia esse tipo de concepção. Isso é consequência de uma concepção religiosa e de uma compreensão correta insuficientes acerca da religião. Ao contrário, fica claro, pelas orientações e pela prática do nobre Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, que demonstrar afeto e amor pelos filhos é uma ação louvável. O coração de quem não ama os próprios filhos está certamente vazio de misericórdia e ternura. Os filhos são uma fonte de conforto para os olhos. Demonstrar-lhes afeto e amor será um meio de alcançar o sucesso na Vida Futura. E ser privado disso significa ser privado da misericórdia de Allah.

Beijar os filhos é causa da misericórdia de Allah

عَنْ أَبِي هُرَيْرَةَ قَالَ قَبْلَ رَسُولُ اللهِ صلَّى اللَّهُ عَلَيْهِ وَسَلَّمَ الْحَسَنَ بْنَ عَلِي رضي الله عَنْهُ وَعِندَهُ الأقرع بن حابس التَّمِعِي جَالِسٌ فَقَالَ الْأَقْرَعُ إِنْ لي عشرَةً مِّنَ الْوَلَدِ مَا قَبلْتُ مِنْهُمْ أَحَدًا فَنَظَرَ إِلَيْهِ رَسُولُ اللَّهِ صَلَّى اللهُ عَلَيْهِ وَسَلَّمَ ثُمَّ قَالَ مَنْ لا يرحم لا يرحم .
“Foi narrado por Abu Huraira, que Allah esteja satisfeito com ele, que ele disse: o nobre Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, beijou e acariciou seu neto, Hasan ibn Ali, que Allah esteja satisfeito com ele. Naquele momento, Aqra ibn Habis também estava sentado ali. Ele disse: “Tenho dez filhos, mas nunca acariciei sequer um deles.” O nobre Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, olhou para ele e disse: “Quem não tem misericórdia não receberá misericórdia de Allah.”

Ou seja, beijar e acariciar os próprios filhos é um sinal de misericórdia e bondade. Somente aqueles em cujo coração Allah colocou misericórdia beijam e acariciam seus filhos, e Allah concede misericórdia àqueles que têm misericórdia dos outros. Aqueles que não têm misericórdia dos outros também são privados da misericórdia.

عنْ أَسَامَةَ بْنِ زَيْدٍ قَالَ أَرْسَلَتِ ابْنَةُ النَّبِيُّ صَلَّى اللَّهُ عَلَيْهِ وَسَلَّمَ إِلَيْهِ إِنْ ابنا لي قبض فَاتِنَا فَارْسل يُقْرِئُ السَّلام وَيَقُولُ إِنَّ لِلَّهِ مَا أَخَذَ وَلَهُ مَا أعطى وكُلَّ عِندَه بَأجَلٍ مُسَمًّى فَلْتَصْبِرُ وَلتَحْتَسِبْ فَأَرْسَلَتْ إِلَيْهِ تُقْسِمُ عَلَيْهِ ليَأْتِيَنَّهَا فَقَامَ وَمَعه سعد بن عبادة ومعاذ بن جبل وأبي بن كعب وزيد بن ثَابِتٍ وَرِجَالٌ فَرُفِعَ إِلَى رَسُولِ اللهِ صلَّى اللهُ عَلَيْهِ وَسَلَّمَ الصَّبِيُّ وَنَفْسَهُ تتقعقع ففاضت عيناهُ فَقَالَ سَعد يا رَسُولَ اللَّهِ مَا هُذَا ؟ فَقَالَ هَذِهِ رَحْمَةٌ جَعَلَهَا اللهُ فِي قُلُوبِ عِبَادِهِ فَإِنَّمَا يَرْحَمُ اللَّهُ مِنْ عِبَادِهِ الرَّحَمَاء – بخاری مسلم
“Usama ibn Zayd, que Allah esteja satisfeito com ele, narrou: a filha do amado Profeta, Zaynab, que Allah esteja satisfeito com ela, enviou um mensageiro para chamá-lo e mandou dizer: “A hora final do meu filho se aproxima; venha até nós para permanecer conosco por algum tempo.” O Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse ao mensageiro: “Vá e transmita minha saudação, e diga: ‘O que Ele tomou pertence a Allah, e o que Ele concedeu também pertence a Allah, e tudo tem um prazo determinado para permanecer aqui. Portanto, que ela tenha paciência e espere a recompensa junto a Ele.’” — Bukhari e Muslim

Zaynab, que Allah esteja satisfeito com ela, chamou-o novamente e insistiu: “Venha sem falta.” Então ele se levantou para ir até sua filha. Com ele estavam Saad ibn Ubada, que Allah esteja satisfeito com ele, Muadh ibn Jabal, que Allah esteja satisfeito com ele, Ubayy ibn Kaab, que Allah esteja satisfeito com ele, Zayd ibn Thabit, que Allah esteja satisfeito com ele, e outras pessoas. Quando ele chegou à casa de Zaynab, que Allah esteja satisfeito com ela, colocaram a criança em seu colo. Naquele momento, a alma da criança estava sendo retirada. Ao ver isso, lágrimas correram de seus olhos. Saad, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: “Ó Mensageiro de Allah, o que é isso? O senhor também está chorando.” Ele respondeu: “Isto é misericórdia, que Allah criou nos corações de Seus servos, que têm misericórdia uns dos outros.”

Não demonstrar afeto pelos filhos é o mesmo que crueldade

عنْ عَائِشَةَ رَض قَالَتْ جَاءَ أَعْرَابِيُّ إِلَى النَّبِيِّ صَلَّى اللَّهُ عَلَيْهِ وَسَلَّمَ فَقَالَ اتقبلون الصبيانَ فَمَا نُقَبِلُهُمْ فَقَالَ النَّبِيِّ صَلَّى اللَّهُ عَلَيْهِ وَسَلَّمَ أَوَ أَمْلِكُ لَكَ أَنْ نَزَعَ اللهُ مِنْ قَلْبِكَ الرحمة – بخاری، مسلم
“Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela, disse: um beduíno foi até o nobre Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e disse: “Vocês beijam as crianças e lhes demonstram carinho? Nós não beijamos as crianças.” Ao ouvir isso, o Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Que posso fazer se Allah retirou a misericórdia de seus corações?” — Bukhari e Muslim

Não beijar nem acariciar as crianças não é algo bom. Pelo contrário, é um sinal de crueldade. Não acariciar as crianças significa que Allah retirou dos corações a fonte da misericórdia. Se a fonte da misericórdia ainda existir, a pessoa certamente acariciará seus próprios filhos.

Colocar a criança no colo

عَنْ عَدِي بْنِ ثَابِت قَالَ سَمِعْتُ الْبَرَاء يَقُولُ رَأَيْتُ النَّبِيُّ صَلَّى اللَّهُ عَلَيْهِ وسَلَّمَ وَالْحَسَنُ صَلوتُ اللهِ عَلَيْهِ عَلَى عَاتِقِهِ وَهُوَ يَقُولُ اللَّهُمَّ إِنِّي أَحِبُّهُ فاحبهO venerável Adi ibn Thabit, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: ouvi o venerável Bara, que Allah esteja satisfeito com ele, dizer: “Vi o Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, levando o venerável Hasan, que Allah esteja satisfeito com ele, sobre os ombros, e dizendo: ‘Ó Allah! Eu o amo; ama-o também.’”

Certa vez, o venerável Hasan, que Allah esteja satisfeito com ele, ou o venerável Husayn, que Allah esteja satisfeito com ele, estava montado sobre seu pescoço. Ao ver isso, um homem disse: “Que bela montaria ele encontrou!” Ao ouvir isso, o nobre Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “E o cavaleiro também é um excelente cavaleiro.” — Sirat an-Nabi, segundo volume

O venerável Usama ibn Zayd, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: “O nobre Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, sentava-me em uma coxa e o venerável Hasan, que Allah esteja satisfeito com ele, na outra; depois, apertava nós dois contra o peito e dizia: ‘Ó Allah, tem misericórdia destes dois. Eu tenho compaixão por eles.’” — Bukhari

Ele amava profundamente o venerável Hasan e o venerável Husayn, que Allah esteja satisfeito com ambos. Dizia: “Eles são as joias do meu pescoço.” Quando ia à casa de sua filha, dizia: “Tragam meus filhos.” Quando os traziam, ele os pegava no colo, beijava-os e apertava-os contra o peito. — Sirat an-Nabi, segundo volume

Ele frequentemente pegava o venerável Husayn, que Allah esteja satisfeito com ele, no colo e, encostando seu rosto ao dele, fazia-lhe carinho. Dizia: “Ó Allah, eu o amo e amo também aquele que o ama.” — Sirat an-Nabi, segundo volume

O amor do Mensageiro pelos filhos

O venerável Anas, que Allah esteja satisfeito com ele, era o servo especial do amado Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Permanecia a seu serviço dia e noite. Ele disse: “Não vi o nobre Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, amar alguém tanto quanto amava seus parentes.” — Sirat an-Nabi, segundo volume

Era um hábito constante do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele: sempre que viajava, visitava por último a casa de sua amada filha, Hazrat Fátima, que Allah esteja satisfeito com ela; e, ao retornar da viagem, primeiro rezava duas rak’ahs na mesquita e depois dirigia-se à casa de Hazrat Fátima, que Allah esteja satisfeito com ela.

Certa vez, Hazrat Fátima, que Allah esteja satisfeito com ela, e Hazrat Ali, que Allah esteja satisfeito com ele, tiveram um desentendimento por causa de algo. Ao saber disso, o amado Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, foi à casa deles e reconciliou os dois. Depois, quando saiu, estava muito alegre. As pessoas perguntaram: “Ó Mensageiro de Allah! Quando o senhor entrou na casa, estava muito preocupado; mas, quando saiu, estava muito feliz.” O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, respondeu: “Sim, reconciliei aquelas duas pessoas. Eu as amo muito.” — Sira do Profeta, segundo volume

Certa vez, Hazrat Ali, que Allah esteja satisfeito com ele, expressou a intenção de se casar novamente. Ao saber disso, o amado Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, ficou muito triste. Foi imediatamente à mesquita e proferiu um sermão. Nele, mencionou seu desagrado e disse: “Fátima é minha amada filha e um pedaço do meu coração. Quem a fizer sofrer, fará a mim sofrer.” — Bukhari

O marido de Hazrat Zainab, que Allah esteja satisfeito com ela, Abu al-As, foi capturado na Batalha de Badr. Decidiu-se que esses prisioneiros seriam libertados mediante resgate. Abu al-As não tinha dinheiro para pagar o resgate. Enviou então uma mensagem à sua casa, pedindo que lhe mandassem o valor do resgate para sua libertação. Sua esposa dedicada enviou imediatamente o colar que havia recebido de sua mãe, Hazrat Khadija, que Allah esteja satisfeito com ela. Abu al-As apresentou esse colar como resgate. Quando o colar foi levado diante do amado Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, ele ficou profundamente comovido. Lágrimas começaram a escorrer de seus olhos. Dirigindo-se aos Companheiros, disse: “Se vocês concordarem, seria possível devolver este colar a Zainab?” Os Companheiros responderam: “Certamente, devolva-o.” Então ele devolveu o colar a Hazrat Zainab, que Allah esteja satisfeito com ela.

Hazrat Ibrahim, que Allah esteja satisfeito com ele, o filho mais novo do amado Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, estava sendo criado por Abu Yusuf, um ferreiro de uma área suburbana de Medina. Ele costumava ir até lá a pé. Abu Yusuf era ferreiro; por isso, a casa permanecia coberta de fuligem. Ele sentava-se em meio àquela fuligem, pegava a criança no colo e lhe fazia carinho. Depois, retornava a Medina. — Sira do Profeta, segundo volume

Certa vez, o amado Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, estava indo a algum lugar. Hazrat Husayn, que Allah esteja satisfeito com ele, brincava na estrada. Ele estendeu os dois braços com sincero carinho, para que Hazrat Husayn, que Allah esteja satisfeito com ele, viesse até ele. Hazrat Husayn aproximava-se dele rindo e, brincando, afastava-se novamente. Por fim, ele o alcançou, colocou uma mão sob seu queixo e a outra sobre sua cabeça, e abraçou-o contra o peito. Então disse: “Husayn é meu, e eu sou de Husayn.” — Sira do Profeta, segundo volume, com citação de Bukhari

Hazrat Zainab, que Allah esteja satisfeito com ela, tinha uma querida filha pequena. Seu nome era Umamah. O amado Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, amava muito Umamah. Quase sempre, nos momentos de oração, ela ficava com o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Quando ele se levantava para a oração, ela montava sobre seus ombros. Durante o rukū’, ele a colocava no chão. Quando se levantava novamente, ela voltava a montar sobre ele.

Certa vez, um homem enviou algumas coisas ao serviço do Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, como presente. Entre elas havia também um colar de ouro. Naquele momento, ela estava brincando ali. O Nobre Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Darei este colar àquela que é a mais querida para mim na casa.” As mulheres da casa pensaram que ele daria o colar a Hazrat Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela. Mas ele chamou Umamah para junto de si e, com sua própria mão pura, colocou o colar em seu pescoço. — Sira do Profeta, segundo volume

O amor materno e a decisão do Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele

Na época do Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, um homem divorciou-se de sua esposa e quis manter consigo o filho pequeno. A situação da mãe era inimaginável: de um lado, a dor da separação do marido; de outro, o sofrimento de lhe tirarem o filho. Nessa situação dolorosa, a mulher compareceu diante do Misericordioso para os mundos, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, em busca de ajuda, e apresentou seu caso ao Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, com palavras profundamente comoventes:
“Ó Mensageiro de Allah! Meu marido divorciou-se de mim, separou-me dele e agora quer tirar de mim este meu querido bonequinho. Ó Mensageiro de Allah! Ele é um pedaço do meu coração. Meu ventre foi seu lugar de descanso. Meu peito é semelhante ao seu odre, e meu colo é como sua casa. Ó Mensageiro de Allah, como poderei suportar esta dor?”

Ao ouvir o apelo daquela mulher, o Misericordioso para os mundos, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Enquanto você não se casar novamente, ninguém poderá tirar seu filho de você.” — Abu Dawud: Livro do Divórcio

O desejo de Hazrat Yaqub, que a paz esteja sobre ele

Hazrat Anas, que Allah esteja satisfeito com ele, relata que certa vez o nobre Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, contou um acontecimento. Ele disse que, certa vez, alguém perguntou a Hazrat Yaqub, que a paz esteja sobre ele: “Senhor, por que sua visão está enfraquecendo e por que sua cintura está se curvando?” Hazrat Yaqub, que a paz esteja sobre ele, respondeu: “Minha visão está enfraquecendo de tanto pensar em Yusuf, que a paz esteja sobre ele, e minha cintura se curvou de tanto pensar em seu irmão Binyamin.” Nesse exato momento, Hazrat Jibril, que a paz esteja sobre ele, foi até Hazrat Yaqub, que a paz esteja sobre ele, e disse: “Você está se queixando contra Allah?” Hazrat Yaqub, que a paz esteja sobre ele, respondeu: “Não; pelo contrário, estou apresentando diante de Allah meu apelo sobre minhas dores e sofrimentos.” Hazrat Jibril, que a paz esteja sobre ele, disse: “Allah conhece muito bem a dor que você descreveu.” Então Jibril, que a paz esteja sobre ele, partiu. Hazrat Yaqub, que a paz esteja sobre ele, entrou em seu quarto e começou a dizer: “Ó meu Senhor! Não tens misericórdia de um homem idoso? Tu também tiraste minha visão e curvastes minha cintura. Meu Senhor, devolve-me minhas duas flores, para que eu possa apenas sentir seu perfume. Depois, faze comigo o que quiseres.” Então Hazrat Jibril, que a paz esteja sobre ele, voltou e disse: “Ó Yaqub, Allah Todo-Poderoso enviou-te saudações e disse: ‘Yaqub, alegra-te! Mesmo que teus dois filhos tivessem morrido, eu os faria reviver por tua causa, para que pudesses vê-los e refrescar teus olhos.’” — Targib e Tarhib: terceiro volume

O apelo de uma mãe diante do Mensageiro

Uma mulher foi até o serviço do Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, e começou a suplicar: “Ó Mensageiro de Allah! Tenho um filho. Ele me ajuda em muitas tarefas. Por ser mulher, não posso trabalhar fora. Ele traz água do poço para mim e também realiza os outros trabalhos externos. Ó Mensageiro de Allah! Meu marido, que está separado de mim, quer tirar de mim também esta criança.”

Depois de ouvir o apelo da mulher, o amado Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, decidiu: “Está bem, façam um sorteio. Aquele cujo nome sair no sorteio levará consigo o filho pequeno.” O pai do menino disse: “Ó Mensageiro de Allah! Ele é meu filho. Como outra pessoa pode reivindicar levá-lo consigo? E, enquanto eu estiver presente, como outra pessoa poderá levá-lo?”

O nobre Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, depois de ouvir ambos os pais, voltou-se para o filho e disse: “Meu filho! Este é o teu pai e esta é a tua mãe. Vai com quem quiseres, segurando-lhe a mão. Tens essa liberdade.” O filho levantou-se do seu lugar. Em seguida, aproximou-se da mãe e segurou-lhe a mão.

A educação e a formação dos filhos

O crescimento físico e corporal, bem como a manutenção, também constituem um direito importante dos filhos. Contudo, mesmo cumprindo esse direito, se você permanecer negligente quanto à sua educação, formação, boas maneiras e civilidade, estará cometendo uma grande injustiça. Sem educação e formação, seu filho não pode tornar-se verdadeiramente um filho. As aspirações puras que o levam a desejar filhos e as boas esperanças em cuja realização você dedica dia e noite à sua criação só podem ser cumpridas quando você cumprir o direito dos filhos à educação religiosa e à formação moral.
Formar os filhos para que sejam virtuosos e afortunados é, por um lado, uma responsabilidade religiosa sua. Do mesmo modo, demonstrar amor pelos filhos também faz parte dos seus direitos. Na realidade, entre os direitos dos filhos, o mais importante é que você providencie a sua formação com extrema sabedoria, reflexão, paciência, consciência do dever, generosidade, bom gosto, incentivo, entusiasmo e dedicação. Somente depois de cumprir esse direito dos filhos você poderá esperar que eles se tornem uma causa de paz para você, um meio de misericórdia para a sociedade, uma fonte de orgulho para a comunidade e um patrimônio da religião. Mesmo depois de gastar grande parte da sua energia vital e dos seus bens na criação dos filhos, se demonstrar negligência quanto à sua formação, estará cometendo um grave crime social. As consequências desse crime serão extremamente amargas.

A participação especial da mãe na educação e na formação

Sem dúvida, a responsabilidade pela educação e formação dos filhos não é somente sua. Ambos os pais têm responsabilidades. Assim como a formação pela mãe é necessária, a educação pelo pai também é especialmente necessária. Além disso, no que diz respeito às despesas, o Islã atribuiu toda essa responsabilidade ao pai. A mãe foi dispensada desse dever. Mas também é verdade que a dedicação da mãe à criação dos filhos merece especial importância. A maior parte do esforço cabe a ela. Assim como é necessária a dedicação exclusiva da mãe aos cuidados físicos e à criação dos filhos, ela também tem uma participação especial na sua educação e instrução; é pela formação dada pela mãe que a criança se torna capaz de elevar a honra do país e da nação. Ao mesmo tempo, os pais também alcançam felicidade e boa fortuna.

O pai passa a maior parte do tempo ocupado com o objetivo de ganhar a vida e satisfazer as necessidades da vida. Por isso, passa a maior parte do tempo afastado dos filhos. Mesmo desejando fazê-lo, não encontra oportunidade de dar a devida atenção à educação e à formação deles. Por natureza, a mãe dispõe de muito mais oportunidades nesse aspecto. Geralmente, ela está sempre com os filhos. Toda a vida deles e cada aspecto da sua personalidade estão diante dela. Por estarem sempre com ela, as crianças não vivem com medo da mãe. Graças ao seu extraordinário temperamento brando, à paciência e ao incomparável amor materno, as crianças não sentem medo da mãe e permanecem obedientes a ela. Sem temor e livremente, fazem junto dela todo tipo de exigência, protesto e travessura. Assim, todas as suas capacidades e forças, boas ou más, vêm à luz. Isso torna possível realizar facilmente o trabalho de corrigi-las e educá-las. Ainda assim, a paciência, o sacrifício, a generosidade, o carinho, o amor e as qualidades morais necessários à educação e à correção foram concedidos por Allah, o Altíssimo, mais à mãe do que ao pai. O pai começa muito rapidamente a demonstrar impaciência e ira. A mãe, porém, conserva até o fim a paciência, a compaixão, o carinho e o bom comportamento, sendo mais bem-sucedida em despertar os sentimentos interiores das crianças. Irritado com os erros dos filhos, o pai declara que está descontente e rompe a relação com eles. A mãe, por outro lado, abraça o filho e, até o último momento, continua esforçando-se de coração e com total dedicação para corrigi-lo e torná-lo digno e honrado.

A mudança do destino pela formação de uma grande mãe

Uma caravana de comerciantes dirigia-se para Bagdá. Com eles viajava também um jovem rapaz. Haviam-no enviado com a caravana, juntamente com algumas orientações, para que chegasse são e salvo ao destino, adquirisse conhecimento da religião e pudesse transmitir os mandamentos de Allah aos servos de Allah e mostrar-lhes a luz.
A caravana avançava tranquilamente. No caminho, um grupo de bandidos atacou-a. Os integrantes da caravana fizeram muitos esforços para proteger os seus bens e pertences. Mas os seus estratagemas não surtiram efeito contra os bandidos. Estes também não deram ouvidos aos seus vários apelos por misericórdia. Roubaram tudo o que cada pessoa da caravana possuía. Depois de terminarem o trabalho, um deles perguntou ao jovem rapaz, que estava preocupado:
Bandido: Rapaz, tens alguma coisa contigo?
Jovem: Sim. Tenho quarenta dinares comigo.
Bandido: Tens quarenta dinares contigo? (O bandido não conseguia acreditar. De onde teriam vindo quarenta dinares para aquele pobre miserável? E, mesmo que os tivesse, por que os estaria revelando a nós? O bandido pensou por bastante tempo e levou aquele jovem extraordinário ao chefe.)
Bandido: Chefe, veja este rapaz. Ele diz que tem quarenta ashrafis consigo.
Chefe: Meu rapaz, tens realmente dinares contigo?
Jovem: Sim. Tenho quarenta dinares comigo.
Chefe: Está bem, onde guardaste os teus dinares? O chefe começou a olhar para o pobre rapaz com espanto.
Jovem: Sim, tenho uma bolsa amarrada à cintura. Os dinares estão dentro dela.
Chefe: Tirou a bolsa da cintura do jovem e contou o dinheiro; havia realmente quarenta dinares. O chefe ficou olhando para o jovem, atônito, durante algum tempo. Depois disse: Meu rapaz, para onde estás indo?
Jovem: Estou indo para Bagdá a fim de adquirir conhecimento da religião.
Chefe: Tens algum conhecido lá?
Jovem: Não. É uma cidade desconhecida. Minha mãe deu-me quarenta dinares para que eu pudesse adquirir tranquilamente conhecimento da religião. Quem cuidará das minhas necessidades naquela cidade desconhecida? E por que eu deveria depender de outra pessoa? O chefe ouvia as palavras do jovem com grande interesse e espanto. A sua inquietação aumentava, e ele pensava por que o jovem não havia escondido os dinares. Se ele não tivesse contado, nenhum dos meus companheiros teria sequer imaginado que aquele jovem pobre e preocupado pudesse ter mais alguma coisa consigo.
Por que o jovem não pensou que estava indo para um lugar desconhecido? O seu futuro e os seus estudos dependiam daquele dinheiro. Afinal, por que não o escondeu? A simplicidade e a honestidade do jovem despertavam muitas perguntas no coração do chefe. Ele perguntou: Meu rapaz, por que não escondeste esse dinheiro? Se não tivesses contado e tivesses negado, nem sequer suspeitaríamos que pudesses ter mais algum dinheiro contigo.

Jovem: Quando eu estava saindo de casa, minha mãe me aconselhou: “Meu filho, aconteça o que acontecer, nunca minta.” Como eu poderia desobedecer à ordem de minha mãe?

A consciência do chefe despertou. Ele começou a pensar: “Esse jovem, mesmo vendo diante de si a inevitável ruína de seu futuro, não está disposto a desobedecer à ordem de sua mãe; enquanto eu, há muito tempo, venho pisoteando as ordens do meu Senhor.” Ele abraçou o jovem e devolveu-lhe seus dinares. Restituiu os pertences dos integrantes da caravana e começou a chorar, prostrado diante de Allah. Arrependeu-se sinceramente, e a misericórdia de Allah o envolveu. Esse ladrão tornou-se um grande wali de Allah em sua época e, de saqueador dos servos de Allah, transformou-se em alguém que distribuía entre eles as riquezas da religião. A educação da grande mãe não apenas elevou o jovem a uma posição honrada, mas também mudou o destino dos ladrões. Esse era o jovem promissor que se tornou célebre em todo o mundo islâmico como Abdul Qadir Jilani, que Allah tenha misericórdia dele, e, sempre que seu nome é mencionado, os corações se inclinam reverentemente.

O futuro brilhante dos filhos

Desejar um futuro brilhante para os filhos é um anseio natural. Allah colocou uma força e uma atração intensas dentro dessa esperança e desse desejo. Os pais, especialmente nesse assunto, costumam ser mais reflexivos, sensíveis e diligentes. Apesar das diversas ocupações mundanas, os pais nunca se libertam da preocupação com isso; pelo contrário, a maior parte de seus pensamentos e esforços é direcionada ao objetivo de que o futuro de seus filhos seja grandioso. E provavelmente são poucos os pais que não se preocupam com o futuro dos filhos.

O desejo de um futuro brilhante para os filhos é um anseio muito louvável. Do ponto de vista do conhecimento e da razão, da sociedade e da religião, ele é considerado um anseio muito elevado. Na verdade, o Islã incentiva essa atitude. Ele exorta os pais crentes a construir um futuro belo e brilhante para seus filhos. Mas a questão é: na perspectiva do Islã, o que significa um futuro brilhante para os filhos?

O futuro brilhante na perspectiva do Islã

O que é o futuro brilhante dos filhos na perspectiva do Islã? Para encontrar a resposta correta a essa pergunta, é preciso refletir sobre uma questão relacionada. A pergunta é: por que os pais muçulmanos desejam ter filhos? Em que se diferencia o desejo deles do desejo dos demais pais? Para compreender esse significado, devemos entender os versículos do Sagrado Alcorão relacionados a Hazrat Zakariya (que a paz esteja com ele):

قَالَ رَبِّ إِنِّي وَهَنَ الْعَظمُ مِنّى وَاشْتَعَلَ الرَّأْسُ شَيْبًا وَلَمْ أَكُنُ بِدُعَائِكَ رَبِّ شقيا واني خفت المولى من ورائي وكانت امرأتِي عَاقِرًا فَهَبْ لِي مِنْ لدنك وليا يرثني ويَرِثُ مِنْ آل يعقوب ، وَاجْعَلْهُ رَبِّ رَضِيا مريم : ٦٤“Hazrat Zakariya (que a paz esteja com ele) disse: Ó meu Senhor! Meus ossos se derreteram até a medula, e minha cabeça se iluminou com os sinais da velhice. Ó Allah! Nunca fui frustrado ao suplicar a Ti. Temo, depois de mim, a perversidade dos meus irmãos e amigos. Minha esposa é estéril. Concede-me, por Tua graça especial, um herdeiro que também seja meu herdeiro e receba a herança da família de Yakub. Ó meu Senhor! Faze dele um homem agradável.” — Surata Maryam: 4–6

Hazrat Zakariya (que a paz esteja com ele) e sua esposa, Al-Yashba, haviam chegado ambos ao fim da vida, e suas forças já os haviam abandonado. Nessa situação, Hazrat Zakariya (que a paz esteja com ele) sofria ao pensar: quem carregaria o estandarte de sua missão depois dele? Quem assumiria a responsabilidade de proteger e propagar a religião de Allah? Ele via que os jovens da linhagem dos profetas eram apóstatas e irresponsáveis. Não havia sequer um que pudesse ser herdeiro de Hazrat Zakariya (que a paz esteja com ele). Ao testemunhar essa situação, ele suplicava a Allah de cabeça inclinada:

“Ó Senhor! Concede-me um herdeiro que possa assumir a responsabilidade pela herança que pertence a mim e à família de Yakub (que a paz esteja com ele). Ó meu Senhor! Faze dele um servo de Tua preferência.” Hazrat Zakariya (que a paz esteja com ele) não desejou um filho para perpetuar sua linhagem. Tampouco o desejou para administrar sua riqueza e seus negócios. Pelo contrário, desejou um filho para que assumisse depois dele a responsabilidade pela religião, fosse seu verdadeiro herdeiro e se tornasse um servo querido por Allah.

Allah Todo-Poderoso aceitou essa súplica, surgida do mais profundo do coração de um pai crente, e concedeu-lhe um filho virtuoso, cujo futuro grandioso é testemunhado pelo próprio Livro de Allah:

وَآتَيْنَهُ الْحُكْمَ صَبِيًّا ، وَحَنَانًا مِّنْ لَّدُنَّا وَزَكُوةً ، وَكَانَ تَقِيًّا وَبَرَا بِوَالِدَيْهِ ولم يكن جباراً عصيان مريم : ١٢-١٤”Nós o agraciamos com a sabedoria desde a infância, concedemos-lhe, de Nossa parte, um coração compassivo e pureza, e ele era muito temente a Deus e preservava os direitos de seus pais. Não era arrogante nem opressor, tampouco desobediente.”

Traçando o quadro de um futuro bem-sucedido, o Sagrado Alcorão destaca aqui algumas qualidades especiais do caráter de Yahya, que a paz esteja sobre ele: sabedoria, coração compassivo, pureza, uma vida de taqwa, preservação dos direitos dos pais e uma vida livre de rebeldia e desobediência. Sabedoria significa a capacidade de tomar decisões corretas. A aptidão para refletir profundamente sobre as questões da religião e do mundo e chegar à decisão correta é uma qualidade muito apreciável e excelente. Um coração compassivo não é apenas uma qualidade; é também a base de muitas virtudes morais. Pureza significa que sua alma estava livre do pecado, da impudência, do desvio e da opressão e perseguição. A pureza da alma é uma elevada dignidade moral. Uma vida de taqwa, temor a Allah e piedade é a vida bem-sucedida. Somente uma pessoa muttaqi pode ser digna de honra e estima aos olhos de Allah. A preservação dos direitos dos pais é um patrimônio que prepara a pessoa para cumprir com êxito os direitos na vida social. Somente o filho obediente, prestativo e zeloso na preservação dos direitos dos pais pode ser a luz dos olhos e a paz do coração deles. Ele não é rebelde nem desobediente.

Tendo diante de si esta descrição do Sagrado Alcorão, examine-a e veja o que você deseja. Qual é a sua aspiração? O que você espera e pede em súplica ao seu Senhor? Qual é, em sua visão, o projeto para o futuro brilhante de seu filho? Quanto esse projeto se assemelha ao projeto apresentado pelo Alcorão? E quais esforços você faz para alcançá-lo? Alcançar um futuro brilhante não significa apenas que seu filho será próspero, obterá diplomas elevados e ocupará grandes cargos. Que terá consigo todos os bens do conforto e do luxo, prestígio, honra, poder e influência mundanos. Que possuirá mansões semelhantes a palácios e carros de alto padrão. O Islã não o impede de desejar essas coisas para seu filho ou de ajudá-lo a obtê-las. Contudo, o Islã deseja educar sua mente para que sua visão não se limite somente a essas coisas e para que você não continue considerando apenas essas coisas como a conquista de um futuro brilhante.

Não é censurável esperar que seu filho receba educação superior, alcance um alto cargo, obtenha honra e conforto e seja bem-sucedido materialmente. Tampouco é censurável que você se esforce por tudo isso. O censurável é transformar este mundo ou o sucesso material no objetivo de sua vida e tornar-se negligente quanto à religião e ao caráter de seu filho. A mãe muçulmana jamais deve retirar da mente esta verdade: a verdadeira vida é a vida da Outra Vida, e jamais é possível alcançá-la permanecendo negligente em relação à fé. O futuro grandioso de seu filho consiste em que ele seja adornado com a educação religiosa, adquira profundidade na religião, seja representante do caráter puro e da civilização islâmica e se destaque no cumprimento das responsabilidades sociais. Que sua vida seja um exemplo de pureza, temor a Allah e piedade; que seja obediente e prestativo para com os pais. Mesmo ocupando altos cargos na vida material, que seja um verdadeiro representante da religião da verdade e um servidor sincero dela.

O lugar da educação e formação religiosa dos filhos

Para tornar a vida do filho bem-sucedida sob essa perspectiva, é necessário dedicar atenção extraordinária à sua educação e formação. Fazê-lo com extrema sabedoria, esforço sincero, paciência e perseverança é algo honroso tanto aos olhos da sociedade quanto sob todos os aspectos. Graças a isso, você obterá honra, estima e boa reputação neste mundo, e também será digno de honra e estima na Outra Vida. Na visão do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, o melhor presente para um filho é adorná-lo com boa educação e formação. O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse:

مَا تَحِلَّ وَالِدٌ وَلَدَهُ مِنْ نَحْلٍ أَفْضَلَ مِنْ أَدب حسن— “Entre tudo o que um pai oferece a seu filho, o melhor é uma boa educação e formação.”

Uma boa educação e formação do filho são uma sadaqa jariya. Seu tempo e suas oportunidades de agir chegarão ao fim, mas as recompensas e o sawab continuarão a aumentar em seu registro de ações. O amado Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse:

إِذا مَاتَ الإِنسان انقطع عمله إلا من ثلاث صدقة جارية أو علم ينتفع به، أو ولد صالح يدعوله— “Quando uma pessoa morre, suas ações chegam ao fim, exceto em três casos: primeiro, se tiver deixado uma sadaqa jariya; segundo, um conhecimento do qual as pessoas continuem a beneficiar-se; terceiro, um filho virtuoso que faça súplicas por ela.”

Certa vez, o Nobre Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse que, no Dia da Ressurreição, os pais de um conhecedor do Alcorão receberão gorros. Ele disse:

من قرء الْقُرْآنَ وَعَمِلَ بِهِ اليس والده تاجًا يَوْمَ الْقِيمَةِ ضَوْءَهُ أَحْسَنُ مِنْ ضوء الشمس في بيوت الدنيا فما ظَنَّكُم بِالَّذِي عَمِلَ بِهذا – ابو داود، حاكم”Aquele que adquiriu o conhecimento do Alcorão e agiu de acordo com ele terá seus pais coroados com turbantes no Dia da Ressurreição. A luz deles será ainda mais radiante do que a luz do sol que ilumina as casas deste mundo. Dizei-me, então, o que pensais daqueles que agiram de acordo com ele.” — Abu Dawud, Hakim

Na narração de Hadrat Buraida, que Allah esteja satisfeito com ele, em vez do turbante, é mencionada uma vestimenta do Paraíso. O nobre Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Aquele que ler o Alcorão, aprendê-lo e agir de acordo com ele terá seus pais vestidos com turbantes luminosos no Dia da Ressurreição.

Sua luz será como a luz do sol, e seus pais serão vestidos com duas vestimentas tão preciosas que nem o mundo inteiro poderia igualar seu valor. Então, os pais perguntarão, admirados, em troca de que lhes estão sendo dadas aquelas vestimentas. Será dito a eles: ‘Isso lhes foi dado em troca de seu filho ter adquirido o conhecimento do Alcorão.’”
Nessas narrações, o nobre Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, descreveu a recompensa e o prêmio imensuráveis pela educação dos filhos, incentivando a comunidade a assumir essa responsabilidade. O objetivo desse incentivo é que nenhum lar da comunidade negligencie a educação e a formação dos filhos. Ao mesmo tempo que incentivou essa responsabilidade, ele também esclareceu que os pais que a negligenciarem serão rigorosamente interrogados no Dia da Ressurreição.

Atenção à dignidade dos filhos

عَنِ ابْنِ عَبَّاسٍ رَضِيَ اللَّهُ عَنْهُمَا عَنِ النَّبِيِّ صَلَّى اللَّهُ عَلَيْهِ وَسَلَّمَ : أَكْرِمُوا أولادكم وأحسنوا أدبهم – ترغيب وترهيب بحو الله ابن ماجه”Foi narrado por Hadrat Abdullah ibn Abbas, que Allah esteja satisfeito com ele, que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: ‘Tratai os filhos com respeito e dignidade e dai-lhes boa educação e formação.’” — Targhib wa Tarhib

Neste hadith, além de enfatizar a necessidade de oferecer boa educação e formação, o nobre Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, também enfatizou que se deve tratar os filhos com bondade e consideração. Mais precisamente, a primeira ênfase foi tratar os filhos com honra e dignidade; depois, foi enfatizada a necessidade de lhes proporcionar excelente educação e formação. Isso é muito importante para os pais. Tratar os filhos com bondade e consideração é tão importante que o nobre Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, chamou primeiro a atenção para esse aspecto e, em seguida, falou sobre a boa educação e formação. Tratar os filhos com bondade e consideração significa prestar extrema atenção à sua honra e dignidade. Não se deve agir nem falar com eles de maneira que fira seu senso de dignidade e os faça sentir-se inferiores. Normalmente, é justamente durante o período da educação e formação inicial que esse tipo de negligência ocorre, sem que se dê atenção à dignidade e ao senso de valor da criança. Na realidade, a infância é o melhor período, pois é quando se pode gravar, no cérebro e no coração ainda puros da criança, a imagem correspondente ao tipo de intenção que se deseja. Essa imagem ou concepção continua influenciando o caráter e as ações por toda a vida. A educação e a formação inicial têm importância fundamental na construção do caráter da criança.

Pensem vocês mesmos: se, por causa dos métodos equivocados dos pais ou dos professores, ficar profundamente arraigada na mente da criança a ideia de que ela é fraca, inútil e inferior; de que não é digna de que se fale com ela de modo gentil; de que não merece ser tratada com respeito; de que não é alguém em quem se possa confiar e a quem se possa atribuir uma tarefa — então digam vocês mesmos: como poderão surgir nela qualidades como grandes aspirações, senso de dignidade, coragem e autoconfiança? E como uma criança assim poderá realizar grandes feitos pela religião e pela comunidade?
Os pais devem observar atentamente suas próprias palavras e ações, e também devem estar seguros quanto àqueles sob cuja supervisão confiam a educação dos filhos. O senso de dignidade e de valor próprio da criança é uma força fundamental. Se essa força for ferida, surgirão nela os defeitos morais da falta de coragem, timidez, inferioridade e ausência de autoconfiança; e não se pode esperar nenhum grande feito de crianças assim no futuro.
À luz desta declaração do nobre Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, examinem e avaliem o próprio lar, bem como as instituições de educação e formação. O princípio fundamental para uma boa educação e formação é que os pais e os professores tratem as crianças com bondade e consideração e não digam nada que destrua a dignidade delas ou fira seu senso de valor próprio.

Prestação de contas pela educação dos filhos

O amado Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, também chamou a atenção para este assunto, enfatizando a importância da educação dos filhos. Ele disse que, no Dia do Juízo, Allah Todo-Poderoso perguntará se você providenciou a educação e a formação de seus filhos. Oferecer educação religiosa e moral aos membros da família é uma das responsabilidades religiosas fundamentais. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse:

لا يسترعى اللهُ تَبَارَكَ وَتَعَالَى عَبْدًا رَعِيَّةً قَلَّتْ أَوْ كَثْرَتْ إِلَّا سَأَوْلَهُ اللَّهُ تبارك وتعالى عنها يَوْمَ القِيمة أقام فيها أمرَ اللَّهِ تَبَارَكَ وَتَعَالَى أَمْ أَضَاعَهُ حتَّى يَسْأَلُهُ عَنْ أَهْلِ بَيْتِهِ خَاصَّةً .
“A quem quer que Allah confie a responsabilidade por um grupo maior ou menor de pessoas, no Dia do Juízo Allah, Bendito e Exaltado seja, certamente lhe perguntará se ele fez com que seus subordinados seguissem a religião ou os levou à perdição. Em particular, também lhe pedirá contas a respeito dos membros de sua própria casa.”

Quando começar a educação e a formação

O renomado educador de Chicago, Francis Willinder Parker, certa vez proferia uma palestra sobre a educação das crianças. Ao terminar a palestra, uma mulher lhe perguntou:
“Quando devo começar a educação do meu filho?”
Willinder Parker disse: “Quando seu filho vai nascer?”
“Vai nascer?” — perguntou a mulher, surpresa. — “Senhor, ele já tem cinco anos.”
“Que desastre! Você está aqui parada, conversando, enquanto esses cinco anos preciosos já se foram.”
Isso não é uma história, mas um fato real. Deve-se pensar na educação e na formação da criança desde o momento de seu nascimento. Os primeiros anos são muito importantes para a educação e a formação, mas geralmente esses anos iniciais são desperdiçados despreocupadamente. A sabedoria de recitar o adhan e a iqamah no ouvido da criança assim que ela nasce é que, desde o princípio, a majestade e a grandeza de Allah penetrem em seus ouvidos. O erudito Qawem, que Allah tenha misericórdia dele, afirmou em seu livro intitulado “Tohfatul Wadud”:
“Isso significa que o primeiro som a chegar aos ouvidos de uma pessoa seja o da majestade e da grandeza de Allah. A proclamação de fé pela qual ela entrará no Islã ao atingir a maturidade deve ser inculcada nela desde o dia do nascimento, assim como, no momento da morte, lhe é inculcada a kalima do tawhid. O segundo benefício do adhan e da iqamah é que Satanás, escondido, deseja lançar a pessoa em provação desde o nascimento. Ao ouvir o adhan nesse momento, ele foge, e a criança é convidada ao Islã e à adoração de Allah antes que receba o convite de Satanás.
Embora a criança não consiga falar nos primeiros dias de sua vida, ela consegue sentir e é influenciada pelas palavras. Aprende muitas coisas com o comportamento da mãe. Por isso, mesmo nessa fase, não se deve falar palavras más nem ter comportamentos grosseiros diante da criança. Ela deve ser educada com palavras boas e expressões agradáveis. Deve-se recitar o Sagrado Alcorão ao seu lado.
Quando a criança começa a falar, é preciso ensiná-la a kalima e, desde o início, incutir em sua mente o ensinamento do tawhid e a compreensão correta dos atributos de Allah. Consta no hadith que, sempre que uma criança da família do Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, aprendia a falar, ele lhe ensinava este versículo da Surata Al-Furqan:

الَّذِي لَهُ مُلْكُ السَّمَوتِ وَالْأَرْضِ وَلَمْ يَتَّخِذُ وَلَدًا وَلَمْ يَكُن لَّهُ شَرِيكَ في الْمُلْكِ وَخَلَقَ كُلَّ شَيْءٍ فَقَدَّرَهُ تقديرا – الفرقان : ٢
“Aquele a Quem pertence o reino dos céus e da terra, que não tomou filho algum, que não tem parceiro algum em Seu reino, que criou todas as coisas e determinou para cada uma delas uma medida.” — Surata Al-Furqan, 2

Outro hadith afirma: quando a criança começa a falar, ensinem-lhe a kalima:إِذَا أَفْصَحَ أَوْلَادُكُمْ فَعَلِمُوهُمْ لَا إِلَهَ إِلَّا الله – ابن سنى
“Quando seus filhos aprenderem a falar, ensinem-lhes a kalima ‘La ilaha illallah’.”

O significado do hadith não é que se lhes ensine apenas ‘La ilaha illallah’. Com isso, na verdade, faz-se referência à kalima do tawhid. O sentido é: ensinem-lhes a kalima completa, ‘La ilaha illallah Muhammadur Rasulullah’.

Ensino do Alcorão, das súplicas e da oração

Quando a criança começa a desenvolver um pouco o discernimento e se torna consciente, deve-se ensiná-la os assuntos relacionados à oração. Desde cedo, deve-se ensinar a recitação da oração e prestar especial atenção para que ela seja correta e precisa. Pois, se a criança aprender uma recitação errada na infância, continuará recitando incorretamente por toda a vida. É nessa idade que se deve providenciar o ensino da leitura do Sagrado Alcorão. Deve-se fazê-la memorizar ou aprender de cor algumas partes do Sagrado Alcorão e explicar-lhe de maneira simples o significado e o sentido de outras partes. Assim, desde o início, formar-se-á nela a compreensão de que o Sagrado Alcorão deve ser lido com entendimento adequado.

Além disso, deve-se ensiná-las também as súplicas da Sunnah recitadas em diferentes ocasiões. Sem dúvida, você permanece ocupado dia e noite com os afazeres familiares. Mas essa sua responsabilidade não é, de modo algum, menos importante que as responsabilidades dos outros. Faça da educação e do treinamento das crianças uma bela ocupação e cumpra essa responsabilidade de coração. Levando em consideração a idade e a capacidade intelectual das crianças, você deve ensiná-las algumas súplicas. Como, por exemplo, a súplica ao dormir e ao acordar, as súplicas para comer e beber, a súplica ao vestir roupas novas e ao comer frutas novas, a súplica ao espirrar e sua resposta, e a súplica ao ver a lua nova, entre outras. Essas súplicas são extremamente eficazes para desenvolver a mente e criar amor pelo Din. As crianças recitam palavras rimadas e poesias com grande entusiasmo e memorizam-nas muito rapidamente. Ajude-as nesse aspecto e, para satisfazer esse interesse, selecione para elas trechos de poesia belos e apropriados. Por exemplo:

مَا فِي قَلْبِي غَيْرَ اللَّهِ لَآإِلَهَ إِلَّا اللهُ
حسبي ربي جَلَّ اللَّهُ نور محمد صَلَّى اللهُSe você não satisfizer esse entusiasmo das crianças, elas memorizarão poesias indesejáveis e continuarão a recitá-las repetidamente. E você sabe quão necessária é a preservação da linguagem para a proteção da moralidade.

Ensino do adab islâmico

Esta também é a idade para ensinar o adab, a civilidade e as boas maneiras da vida. Não dar importância às crianças sob o pretexto de que não compreendem é uma enorme tolice. Os modos que você lhes ensinar e os hábitos que formar durante a infância influenciarão toda a sua vida. Os bons ou maus hábitos adquiridos na infância raramente desaparecem. Nessa idade, é muito necessário prestar bastante atenção às crianças. A responsabilidade da mãe é muito grande. Uma pequena negligência no início da vida pode tornar-se causa de vergonha e aflição para sempre.
Ensine as crianças as boas maneiras com sabedoria, perseverança e paciência, seguindo um plano. Ensine-lhes o adab de comer e beber, de levantar-se e sentar-se, de dormir e acordar. Fale-lhes sobre o adab em relação ao conhecimento e ao professor, e sobre o adab da mesquita e da madrassa. Ensine-lhes o adab da pureza e da limpeza, o adab da saúde e da higiene, o adab de andar e de conviver com companheiros e amigos, bem como as regras para usar de modo belo e organizado os objetos da casa e os seus próprios pertences; e continue a orientá-las para que levem uma vida civilizada e pura. Não basta chamar a atenção uma única vez para algo bom; a exigência do treinamento é que você continue observando esse assunto e não se irrite apesar dos erros repetidos. Continue corrigindo-as com paciência, serenidade e de coração, e não considere insignificante nem mesmo o menor erro. Hazrat Abu Huraira, que Allah esteja satisfeito com ele, narrou que certa vez Hazrat Hasan ibn Ali, que Allah esteja satisfeito com ele, pegou uma tâmara da caridade e a colocou na boca. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Eia, cuspa-a e jogue-a fora! Você não sabe que não nos é permitido comer da caridade?”
Hazrat Umar ibn Abi Salama, que Allah esteja satisfeito com ele, era filho de Hazrat Umm Sulaym, que Allah esteja satisfeito com ela, esposa do amado Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. O Nobre Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, cuidava de sua criação. Ele narrou sua própria história:

كُنتُ غُلامًا فِي حِجْرٍ رَسُولِ اللهِ صلَّى اللَّهُ عَلَيْهِ وَسَلَّمَ وَكَانَتْ يَدِى تَطِيشُ في الصحفَةِ فَقَالَ لِي رَسُولُ اللهِ صلَّى اللَّهُ عَلَيْهِ وَسَلَّمَ يَا غُلَامُ : سَمَ اللَّهَ
تعالى وكل بيمينك وكل مما يليكَ فَمَا زَالَتْ تِلْكَ طُعْمَتِي بَعْد – متفق عليه“Eu era então pequeno. Permanecia sob os cuidados do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Durante a refeição, minha mão circulava ao redor do prato. Nesse momento, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse-me: ‘Filho, pronuncia Bismillah, come com a mão direita e come do que está diante de ti.’ Depois disso, esse se tornou o meu hábito.”

Providenciar a narração de histórias sagradas

Durante a infância, as crianças demonstram grande interesse em ouvir histórias. Elas ouvem histórias com muita alegria e também são influenciadas por elas. Na verdade, alguns personagens das histórias as influenciam a tal ponto que elas próprias começam a tentar tornar-se como eles. Aproveite essa característica psicológica das crianças e conte-lhes histórias do tipo de pessoa que você deseja que elas se tornem. Não conte histórias apenas para satisfazer o interesse delas. Ao contrário, providencie isso considerando as histórias um excelente meio de educação. Conte-lhes as histórias sagradas dos profetas. Conte-lhes os acontecimentos cheios de entusiasmo dos nobres Companheiros. Conte-lhes as narrativas heroicas dos mujahidin do Islã. Mencione os feitos realizados nos campos de batalha. Desse modo, crie nelas entusiasmo pelo Islã.
Histórias de gênios e fadas, relatos de fantasmas e espíritos, histórias de magia e feitiçaria e narrativas de ogros e demônios são muito prejudiciais às crianças. Sob sua má influência, um medo desconhecido se espalha de maneira nociva pela mente das crianças e toma seus corações e pensamentos. Mesmo depois de receberem a mais elevada educação, elas sofrem de vários tipos de dúvidas.
O interesse em ouvir histórias é um interesse natural das crianças. Não é correto impedi-las disso, mas também é errado deixá-las completamente livres nesse assunto. Ajude-as nesse aspecto com grande habilidade e sabedoria, e satisfaça essa necessidade e esse interesse de tal maneira que você consiga proporcionar-lhes a melhor educação possível.

A exortação à oração

A oração é uma عبادah muito importante que mantém a pessoa ligada à religião. Ela também preserva a religião e desperta o interesse por ela. Além disso, prepara a pessoa para levar uma vida religiosa. Desde o início, deve-se criar nas crianças o hábito de realizar regularmente as orações. Nesse aspecto, o afeto e a indulgência desnecessários, bem como mostrar uma suavidade excessiva, são muito prejudiciais.
Não permitam que as crianças se deitem sem realizar a oração de ‘Ishā’. Mesmo que já tenham se deitado, levantem-nas e façam-nas realizar a oração. Para a oração de Fajr, acordem-nas no primeiro horário e acostumem-nas a levantar-se pela manhã. A ordem de Allah é:

وأمر أهلك بالصلوةِ وَاصْطَبِرْ عَلَيْها – – طه : ۱۳۲
“Exorta tua família à oração e persevera tu mesmo nela.” — Surata Tā-Hā, 132

O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse:مروا أولادَكُمْ بِالصَّلوةِ وَهُمْ أَبْنَاء سَبْع وَاضْرِبُوهُمْ عَلَيْهَا وَهُمْ أَبْنَاءُ عَشْرٍ وَفَرِّقُوا بَيْنَهُمْ فِي الْمَضَاجِعِ .
“Quando a criança completar sete anos, ordenai-lhe que faça a oração. Quando completar dez anos, sede rigorosos com ela para que faça a oração e, ao atingir essa idade, separai suas camas.”
O significado de todas essas instruções é que vocês próprios devem ser assíduos na oração e criar o ambiente do lar de tal modo que as crianças também realizem a oração com interesse. Suas ações devem provar que vocês jamais tolerarão, de forma alguma, negligência em relação à oração.

O casamento dos filhos

Quando a criança entra na juventude, passa a ser acometida por novos tipos de pensamentos, aspirações e preocupações. Quando o filho chega a essa fase da vida, os pais são tomados por novas emoções. Ao pensarem sobre a situação futura, o medo, a apreensão e a dúvida perturbam sua tranquilidade. Às vezes, ao pensarem nas belas esperanças e aspirações para o futuro, sua alegria não tem limites. Outras vezes, preocupações infundadas e complicações imaginárias angustiam seus corações. Por vezes, o senso de responsabilidade os agita e eles ficam impacientes para se livrar imediatamente dessa responsabilidade para com o filho. Às vezes, seus corações ficam extasiados com a alegria de trazer para casa uma nora bela e bem-educada. Outras vezes, chorando e suplicando, fazem du‘ā a Allah para que sua filha encontre um companheiro de vida afortunado e de bom caráter.
Casar os filhos é, por um lado, um dever social. Do mesmo modo, é um desejo sincero dos pais, e o Islam também incentiva e orienta a esse respeito.

A orientação do Islam

O Islam é uma religião natural. Essa religião satisfaz as exigências da natureza. Assim que o filho chega à juventude e se encontra uma união adequada, você deseja casá-lo. O Islam respeita esse seu desejo. A orientação do Islam também é não atrasar o casamento do filho assim que ele atingir a juventude. É claro que é necessário tempo para encontrar uma união adequada. Contudo, à luz da orientação do Islam, depois de encontrada uma união adequada, não é correto, de modo algum, protelar ou criar pretextos desnecessariamente. Muitas vezes, essa demora e essas evasivas desnecessárias produzem maus resultados. Em suma, os pais não podem escapar da responsabilidade por esses maus resultados.

As más consequências do atraso no casamento

Quando um filho ou uma filha chega à juventude, pensar em estabelecer para ele ou ela uma relação adequada é um dos deveres mais importantes dos pais. E, assim que uma relação desse tipo for encontrada, deve-se imediatamente conduzi-lo ou conduzi-la ao casamento. Atrasar desnecessariamente o casamento muitas vezes provoca consequências muito vergonhosas. A pessoa deixa de ser digna de mostrar o rosto na sociedade. Essa vergonha torna-se uma desonra na vida dos pais. Contudo, a responsabilidade por isso também recai sobre os pais, pois eles demonstram negligência em casar os filhos ou adiam o casamento sem qualquer motivo legítimo segundo a Sharia ou racional. Se as emoções ou a excitação da juventude não encontrarem o meio adequado para serem aplacadas, há grande risco de os jovens serem conduzidos ao desvio. Portanto, não é aceitável que você tente provar sua inocência alegando o ambiente inadequado, nem que tente inutilmente aliviar sua própria culpa insultando os jovens. O tratamento correto dessa doença é que você reconheça suas responsabilidades e deveres e cumpra, com extrema importância e atenção, a orientação que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, transmitiu nesta questão. As consequências do atraso no casamento não consistem apenas nas más situações que surgem; considerando as consequências do ponto de vista islâmico, você será considerado pecador. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse:

من ولد لَهُ وَلَدٌ فَلْيُحْسِنَ اسْمُهُ وَالبُهُ فَإِذَا بَلَغَ فَلْيُزَوجَهُ وَإِنْ بَلَغَ وَلَمْ
يُزَوجَهُ فَأَصَابَ إِثْمًا فَإِنَّمَا اثْعَهُ عَلَى أَبِيهِ – بيهقى“Aquele a quem Allah conceder um filho deve dar-lhe um bom nome, educá-lo bem e, quando ele atingir a maturidade, casá-lo. Se, depois de ele atingir a maturidade, não o casar e ele cometer algum pecado, o castigo por isso recairá sobre o pai.” — Bayhaqi

Em outro lugar, o nobre Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse que está escrito na Torá: “Se a filha de um homem completar doze anos e ele não a casar, e ela cometer alguma má ação, o castigo por essa má ação recairá sobre o pai.”

A busca por uma relação adequada

Geralmente, o casamento é adiado por não se encontrar um noivo ou uma noiva adequado. É perfeitamente natural desejar e esforçar-se para encontrar um cônjuge adequado para o filho ou a filha. Mais do que isso, essa preocupação e esse esforço são uma obrigação para você. A exigência dos ensinamentos islâmicos também é que você se esforce plenamente para encontrar uma relação apropriada.
O Islam nunca exige que você aceite de olhos fechados qualquer noivo ou noiva inadequado que encontre. Isso não significa que você não deva fazer qualquer esforço ou investigação a esse respeito. O casamento é um assunto extremamente importante. É uma questão para toda a vida. Seus efeitos não se limitam às vicissitudes deste mundo; eles também podem repercutir na vida do Além. É um assunto extremamente sério. É indispensável refletir ao escolher um cônjuge.
A única questão a considerar é se seus esforços e sua conduta estão sendo orientados pela luz do Islam. Você deve adotar os critérios que o Islam estabeleceu para a escolha de um cônjuge. Ao escolher o cônjuge de seu filho, mantenha esses princípios fundamentais diante dos olhos. Reflita e veja se você está atrasando a escolha do noivo ou da noiva ao dar prioridade a assuntos aos quais a religião não atribui importância.

Critérios para escolher um cônjuge

Normalmente, cinco coisas são consideradas na escolha de um cônjuge.
Primeiro: riqueza.
Segundo: nobreza de linhagem.
Terceiro: boa aparência e beleza.
Quarto: religião e caráter.
Quinto: educação.
Sem dúvida, pode-se dizer que essas cinco coisas são importantes, cada uma em seu devido lugar. Quem pode negar a importância da riqueza nos dias de hoje? A nobreza de linhagem também não é algo que possa ser ignorado em muitos casos.
Na escolha de uma companheira de vida, a beleza e a boa aparência também merecem importância fundamental. Especialmente na escolha da noiva, esse aspecto costuma ser decisivo. Também não há como negar que foi Allah quem concedeu às pessoas o gosto e a beleza, e que a aparência é naturalmente algo que se aprecia.
A importância e a necessidade da educação são fatos reconhecidos. Nos dias atuais, ao estabelecer uma relação matrimonial, dá-se especial atenção à educação e aos diplomas. Também é verdade que o ensino superior aumenta o entusiasmo e o incentivo e adorna a pessoa com civilidade. O ensino superior é considerado um meio de elevar a dignidade e o respeito. Ele proporciona uma vida confortável e torna-se motivo de prestígio e honra na sociedade.
Quanto à religião e ao caráter, é evidente que eles sempre terão importância e valor para um muçulmano. Não é possível que os pais muçulmanos observem tudo em uma pessoa proposta para o casamento, mas ignorem a religião e o caráter ou não lhes deem importância alguma.
Se sua esperança, aspiração e esforço consistem em proporcionar à sua filha ou ao seu filho um cônjuge dotado dessas cinco qualidades, sua aspiração é boa. Sua esperança é correta e seu esforço também é correto. Que pai ou mãe não deseja que seu filho querido obtenha um cônjuge dotado dessas qualidades?
O Islam jamais desvaloriza essa esperança, aspiração e consciência. O Islam respeita esse seu sentimento.
Se você encontrar um casal dotado de todas as qualidades, isso será uma dádiva especial de Allah. Geralmente, é muito difícil encontrar todas as qualidades juntas em cada relação matrimonial. Quando algumas qualidades são encontradas em alguém, também podem ser encontradas algumas deficiências. Na realidade, sua prova nesta questão consiste em manter a perspectiva islâmica diante dos olhos ao escolher e dar prioridade à qualidade à qual o Islam deu prioridade.

A orientação do Mensageiro ﷺ

A orientação do Mensageiro ﷺ é que, ao escolher um noivo ou uma noiva, você deve dar, antes de tudo, importância à religião e ao caráter moral. Se, além da religião e do caráter moral, você encontrar qualquer uma das outras quatro qualidades, deverá agradecer a Allah. Depois disso, não deverá mais adiar o casamento sem motivo. Sim, não se pode aceitar um parentesco ou uma união na qual estejam presentes todas as qualidades, mas faltem a religião e o caráter moral. A primeira coisa que os pais muçulmanos devem observar é a religião e o caráter moral. Quem não possui essas qualidades, ainda que seja exemplar em outros aspectos, não pode tornar-se o cônjuge de sua amada filha ou de seu amado filho. Você não deve pensar em fazê-lo sua nora ou seu genro. As deficiências nas outras coisas podem ser compensadas pela religião e pelo caráter moral; ou pode-se dizer que, por causa da religião e do caráter moral, é possível tolerar outras fraquezas, mas nem mesmo em consideração a grandes virtudes se pode suportar a ausência da religião e do caráter moral. A deficiência na religião e no caráter moral não pode ser compensada por nenhuma outra qualidade. A orientação do Mensageiro de Allah:

“Geralmente, ao considerar uma mulher para o casamento, observam-se quatro coisas. Essas quatro coisas são: riqueza, nobreza de linhagem, beleza e juventude, e religião e caráter moral. Casem-se com uma mulher religiosa. Nisso está o vosso bem.”

Este hadith orienta precisamente que você escolha para seu filho uma esposa religiosa e adornada com o caráter islâmico. Somente por meio de uma esposa assim o seu lar pode tornar-se uma fortaleza do Islam. E somente de uma esposa assim se pode esperar que em seu ventre nasça um filho forte na religião e na fé, e plenamente dedicado ao Islam.

Da mesma forma, há a orientação do Mensageiro ﷺ também quanto à escolha do genro e da nora. Nessa orientação, igualmente, é dada importância fundamental à religião e ao caráter moral.

Hazrat Abu Huraira, que Allah esteja satisfeito com ele, narrou que o Mensageiro de Allah ﷺ disse: “Quando alguém vos enviar uma proposta de casamento, e estiverdes satisfeitos e contentes com a sua religião e o seu caráter moral, casai com ele a vossa amada filha. Se não fizerdes isso, haverá uma grave corrupção na Terra.”

Este hadith ordena decisivamente que, quando chegar até você uma proposta de um noivo cuja religião e caráter moral lhe satisfaçam, e você tiver informações confiáveis de que ele teme a Allah, é religioso, assíduo nas orações e no jejum, e adornado com a moral islâmica, de modo algum é correto adiar sem motivo. Confie em Allah, case sua filha com ele e espere o bem. Pois, para a união matrimonial de um muçulmano, a primeira coisa importante é a religião e a fé. Quando, numa sociedade, outras coisas recebem importância enquanto a religião e a fé são ignoradas, ou quando a riqueza, a beleza e a juventude são priorizadas em detrimento da religião e do caráter moral, então nela surgem tempestades de fitnah e corrupção, e nenhum poder do mundo poderá proteger tal sociedade da destruição.

— Fim —