Prefácio

O Islã é, em sua essência, um sistema estatal autossuficiente. O próprio grande Profeta do Islã, Hazrat Muhammad (que a paz esteja com ele), assumiu a nobre responsabilidade de transformar esse sistema estatal em realidade. Ao longo dos extensos vinte e três anos de sua missão profética, ele implementou, sob uma estrutura estatal plenamente constituída, todas as leis e normas reveladas acerca da vida coletiva das pessoas. Governança e administração, elaboração de leis, manutenção da ordem social, realização da justiça, defesa do Estado e todas as demais tarefas importantes foram por ele executadas à luz dessas mesmas leis e normas. Assim, durante os vinte e três anos de sua missão profética, ele estabeleceu uma base permanente para o sistema estatal islâmico.

Após o falecimento do Grande Profeta (que a paz esteja com ele), sobre essa mesma base permanente ergueu-se o Estado ideal do Islã — o Califado Rashidun. Hazrat Abu Bakr, Hazrat Umar, Hazrat Uthman e Hazrat Ali (que Deus esteja satisfeito com eles), esses quatro companheiros próximos do Grande Profeta (que a paz esteja com ele), organizaram e desenvolveram com extremo cuidado e dedicação esse sistema estatal da tradição profética. Não apenas isso: eles ampliaram seu alcance para além dos limites da Península Arábica, abrangendo vastas regiões de todo o Irã e do Império Romano. Com efeito, ficou irrefutavelmente demonstrado que, na história da humanidade, somente esse sistema estatal conseguiu escrever um capítulo de esplendor dourado. Por mais surpreendentes que sejam os sistemas e métodos inventados pelos modernos cientistas políticos, nenhum método conseguiu alcançar, para o bem da humanidade, um sucesso tão grandioso quanto esse Califado da tradição profética; isso é uma verdade histórica.

Infelizmente, esse Califado da tradição profética permaneceu sobre a Terra por apenas trinta anos. Depois disso, a maldição da monarquia e da autocracia recaiu sobre toda a nação muçulmana. A cortina de escuridão da Jahiliyyah encobriu seu futuro dourado. Atualmente, suas consequências continuam presentes nos diversos países do mundo muçulmano. Além disso, recentemente juntou-se a isso uma nova Jahiliyyah chamada democracia, inventada pelos judeus e cristãos do Ocidente. Seu resultado venenoso lançou hoje todo o mundo muçulmano no turbilhão de uma crise política. Longe de resolver qualquer um de seus problemas, os sistemas e métodos da era moderna, ao contrário, estão criando problemas novos e novos, tornando enferma toda a sociedade muçulmana.

Nessa situação, tornou-se hoje extremamente urgente uma ampla discussão, na sociedade muçulmana, sobre o sistema estatal ideal do Islã — o Califado Rashidun. Tornou-se absolutamente necessário fazer compreender à sociedade muçulmana que o único remédio para todas as enfermidades políticas dos muçulmanos é o Califado da tradição profética, e não qualquer outro sistema ou método. Foi precisamente movido por essa necessidade que o grande pensador e filósofo islâmico, Hazrat Maulana Muhammad Abdur Rahim (que Deus tenha misericórdia dele), escreveu a presente obra intitulada “Califado Rashidun”. Nesta obra, ele não lançou grande luz, seguindo a abordagem tradicional, sobre as biografias dos quatro califas do Islã; antes, esforçou-se por apresentar, com a maior amplitude possível, as características de seu governo e administração, bem como os aspectos dignos de imitação. Sob esse aspecto, esta é uma obra original em língua bengali sobre o Califado Rashidun.

Depois que duas edições da obra foram publicadas entre 1975 e 1980, o próprio autor revisou amplamente várias de suas partes. Além da correção dos erros de impressão, muitos dados relevantes foram acrescentados à presente edição. Com isso, a qualidade da obra foi ainda mais aprimorada. Temos a firme convicção de que a presente edição será mais apreciada pelos leitores de língua bengali e dará uma grande contribuição para orientar corretamente as pessoas desencaminhadas deste país.

Esta é a nossa humilde súplica: que o Deus Altíssimo aceite este serviço religioso do autor e, em recompensa por ele, lhe conceda um lugar no Jannatul Firdaus.

Muhammad Habibur Rahman

Presidente

Fundação Maulana Abdur Rahim

Daca, julho de 1995

Palavras iniciais

Naturalmente surgiu em meu coração o estímulo para dedicar-me à tarefa de dar forma prática ao sistema integral de vida do Islã, no curso de um amplo estudo, reflexão, pesquisa, análise e elaboração de uma obra a seu respeito. Em especial, o princípio orientador apresentado pelo Nobre Mensageiro (que a paz esteja com ele), como o último Profeta e Mensageiro de Allah, não era simplesmente uma questão de idealismo; ao contrário, era, em toda a sua extensão, um programa bem-sucedido para a formação de um sistema de vida prático e de uma sociedade. Tudo quanto recebeu de Allah, o Altíssimo, ele pôs em prática. Essa era a sua maneira natural de agir. Quando partiu definitivamente deste mundo, deixou, de um lado, a Palavra de Allah — o Alcorão Majid — compilada por suas próprias mãos com o máximo cuidado, e, de outro, um Estado e uma sociedade, fruto de toda a sua luta e empenho ao longo da vida. O Alcorão e a Sunna permanecem eternamente resplandecentes diante de nós, e assim permanecerão para sempre. Também se encontra nas páginas da história um retrato fiel do Estado e da sociedade que ele estabeleceu. Todavia, pode-se dizer que, na prática, sua existência já não se encontra atualmente. Apesar disso, para as pessoas de consciência sã e pensamento perspicaz em geral, e especialmente para aqueles que creem no Islã e no Mensageiro, o Estado e a sociedade estabelecidos pelo Nobre Mensageiro (que a paz esteja com ele) continuam sendo, ainda hoje, uma das principais fontes de inspiração. Para elas, isso ainda se tornou um objetivo ideal e assim permanecerá para sempre; não há dúvida quanto a isso.

O Estado estabelecido pelo Nobre Profeta (que a paz esteja com ele), após o seu falecimento, recebeu, conforme sua própria declaração, uma nova denominação: “Khilafate Rashida”, o Califado Bem-Guiado. O Califado Bem-Guiado é, na realidade, aquilo que foi estabelecido idealmente pelo Alcorão e pela Sunna; é a continuação — o segundo capítulo — do Estado e da sociedade que o Nobre Mensageiro (que a paz esteja com ele) construiu e conduziu, como resultado de vinte e três anos de vida profética de incessante empenho e luta. Se o Alcorão e a Sunna são a semente, então o “Califado Bem-Guiado” é a árvore completa, adornada com seus ramos, folhas, flores e frutos. E a época do Nobre Mensageiro (que a paz esteja com ele) constitui precisamente o tronco dessa árvore. Foi nessa fase que decidi empreender um amplo estudo, reflexão e pesquisa, e fazer resplandecer em língua bengali o retrato correto dessa realidade — isso foi há vinte anos. Depois, à medida que, em diferentes momentos, certas questões e aspectos se tornavam claros para mim, escrevi e publiquei cada parte em forma de artigo. Mesmo depois de se organizar sua publicação em forma de livro, tive de continuar escrevendo sobre alguns aspectos para completá-lo. Assim, “Califado Bem-Guiado” não é uma obra escrita de uma só vez e de maneira contínua; é uma composição de escritos redigidos e publicados — ou não publicados — em diferentes épocas e fases. Ainda assim, ao ver que finalmente se tornou possível apresentá-la aos leitores em forma de livro, ofereço milhões de agradecimentos a Allah, o Altíssimo.

Esta obra foi publicada pela primeira vez em janeiro de 1975. Depois de se esgotar em pouco tempo, sua segunda edição foi publicada em julho de 1980. Isso se deve à infinita benevolência de Allah.

Espero que, assim como minhas outras obras, este livro também seja acolhido pela sociedade erudita e dê início a uma nova fonte de inspiração no campo do idealismo.

-Muhammad Abdur Rahim

 

(a)

O Nobre Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse:

**********(árabe)

Depois de mim, todos vós que permanecerdes vivos vereis muitas divergências. Em tal situação, será vosso dever seguir o meu exemplo e o exemplo dos califas bem guiados e retos. Devereis apegar-vos firmemente a isso — jamais o abandonareis. (Musnad Ahmad, Tirmidhi, Ibn Majah)

(b)

Após mencionar a identidade e os louvores ao Nobre Mensageiro (que a paz esteja com ele) em um longo hadith qudsi, estas palavras de Allah, o Altíssimo, foram citadas como descrição de seus Companheiros:

*******(árabe)

A ummah de Hazrat Muhammad, após o seu desaparecimento, convocará para a grande verdade e administrará justiça e equidade mediante o Din verdadeiro. Honrarei aqueles que a ajudarem. Ajudarei aqueles que orarem por ela. Cercarei de extrema desventura aqueles que se lhe opuserem, se rebelarem contra ela ou desejarem arrancar qualquer coisa das suas mãos. Farei dos primeiros os herdeiros dos seus profetas e os tornarei convocadores para Allah. Eles ordenarão a verdade e a justiça e proibirão a injustiça e a falsidade. Estabelecerão a oração, pagarão o zakat e cumprirão as promessas. Por meio dos últimos deles, completarei o bem que iniciei por meio dos primeiros. Isso é exclusivamente uma questão da Minha graça. Concedo essa graça a quem quero. E, na verdade, sou o Grandioso Concedente de graça. (Ibn Abi Hatim, transmitido por Wahb ibn Munabbih, em Ibn Kathir, no seu tafsir.)

Estabelecimento dos fundamentos do Estado Islâmico

O Profeta Universal, Hazrat Muhammad (s), foi enviado ao mundo como o último Profeta e Mensageiro de Allah Ta’ala. A responsabilidade que lhe foi confiada no mundo pode ser expressa, na terminologia islâmica, em uma só palavra: “Iqamat-e Din”. Estabelecer plenamente o Din de Allah era a responsabilidade fundamental do último Profeta. Esta afirmação deixa claro, por si mesma, que ele não criou o “Din” por conta própria, mas o recebeu de Allah. Esse “Din” foi-lhe revelado por Allah por meio da revelação. Por isso, ele é o Mensageiro de Allah. Além de transmitir fundamentalmente a “revelação” recebida de Allah, também fazia parte da sua responsabilidade, como Profeta e Mensageiro, explicá-la corretamente e torná-la manifesta mediante a sua observância prática na própria vida. Contudo, para o “Iqamat-e Din”, isso não era suficiente: também era seu dever, como Profeta e Mensageiro, implementar plenamente as leis e normas reveladas por Allah na vida individual e em todos os âmbitos da sociedade. Por essa razão, o esforço de pregação religiosa que ele empreendeu assumiu forma concreta e manifestou-se como um Estado plenamente constituído. Nesse sentido, ele foi o primeiro fundador do Estado Islâmico e o líder absoluto e chefe de Estado do seu povo.

À luz da ciência política moderna, aquilo que se entende por Estado encontra-se plenamente refletido como resultado dos esforços e da luta do Profeta Nobre (s). O “Estado” é uma organização política. Essa organização é formada com o objetivo de satisfazer as necessidades da vida humana, e a sua existência é preservada e mantida permanente para tornar a vida próspera e melhor. O “Estado” é o produto superior da força humana. Onde uma grande coletividade da humanidade é geralmente ocupante de uma determinada região geográfica e, devido à força conjunta de determinado número de classes pertencentes a um grande número de pessoas, a vontade destas pode efetivar-se com o objetivo de subjugar os seus opositores, aí o Estado existe. Em termos sucintos, chama-se Estado, ou State, à entidade nacional constituída como organização política de determinado território.

Das definições apresentadas pela ciência política, comprovou-se que os quatro elementos seguintes são os componentes fundamentais de um Estado: (1) povo (population), (2) território determinado (Territory), (3) soberania (Sovereignty) e (4) aparelho administrativo ou governo (Government).

Até à chegada do Mensageiro Nobre (s) a Medina, o fruto produzido pelos seus esforços para cumprir a sua missão continha plenamente esses quatro elementos fundamentais, mesmo sob a análise mais minuciosa à luz da ciência política — embora, quanto à perspectiva e à concepção fundamental, a sua natureza fosse completamente diferente da de todos os demais Estados.

O primeiro estabelecimento dos fundamentos do Estado

Depois que o nobre Profeta (que a paz esteja com ele) foi escolhido como Mensageiro e Profeta de Allah, começou a propagar o ideal revolucionário do dīn do Islã, primeiro secretamente e depois publicamente. Isso provocou uma forte reação na concepção religiosa, no caráter moral, no sistema econômico e na vida social e política dos coraixitas daquele tempo. A verdade é que, por causa disso, todos os seus interesses, esperanças e aspirações se viram diante de um sério desafio. Por essa razão, os coraixitas submeteram o nobre Profeta (que a paz esteja com ele) e os muçulmanos que nele criam a intoleráveis perseguições e opressões. Por fim, seguindo a ordem de Allah, o Altíssimo, ele decidiu deixar Meca e partir para Medina. Nessa ocasião, o nobre Profeta (que a paz esteja com ele) recebeu por duas vezes dos muçulmanos de Medina que haviam vindo para cumprir o hajj o juramento de lealdade, a “bay‘ah”1{O significado prático e terminológico da palavra é “juramento de lealdade”.} Na história, essas duas “bay‘ah” são conhecidas como a “Primeira Bay‘ah de Aqabah” e a “Segunda Bay‘ah de Aqabah”2{O relato completo da Bay‘ah de ‘Aqabah é o seguinte: o povo de Medina reuniu-se na terceira vigília da noite no lugar chamado ‘Aqabah, ansioso pela chegada do Mensageiro nobre (que a paz esteja com ele). Pouco depois, o nobre Profeta (que a paz esteja com ele) chegou acompanhado de seu tio ‘Abbas (que naquele momento ainda não havia aceitado o Islã). Primeiro, ‘Abbas disse: “Ó homens da tribo de Khazraj! Sabeis muito bem que Muhammad (que a paz esteja com ele) é uma pessoa extremamente respeitada e honrada entre nós. Somos nós que o protegemos de seus inimigos. Contudo, agora ele próprio decidiu deixar esta cidade (Meca) e juntar-se a vós, pois o estais convidando para vossa cidade. Se sois capazes de lhe oferecer plena proteção e tendes coragem para defendê-lo das mãos de seus inimigos, então fazei isso. Caso contrário, deveis dizer ‘não’ imediatamente, pois Muhammad ainda está sob nossa proteção. Não aconteça que o leveis convosco e depois o entregueis nas mãos de seus inimigos.” Eles responderam: “Ouvimos o que dissestes. Agora, ó Mensageiro, apresentai vossa palavra. Se precisais obter de nós algum compromisso quanto à lei de Allah ou quanto a vós mesmo, aceitai-o.” Então o nobre Profeta (que a paz esteja com ele) recitou primeiro alguns versículos do Nobre Alcorão. Apresentou a condição de aceitar a servidão a Allah e de não associar parceiros a Ele. Depois disse: “Peço-vos o compromisso de que me ajudareis, apoiareis e defendereis da mesma maneira como protegeis vossas mulheres e vossos filhos.” Imediatamente, segurando a mão do nobre Mensageiro (que a paz esteja com ele), eles exclamaram: “Sim, pelo Ser Majestoso que vos enviou com a verdadeira e correta religião, nós vos ajudaremos e protegeremos exatamente como protegemos nossas famílias.” Em seguida, todos disseram em conjunto: “Prometemos que, em todas as circunstâncias, ouviremos vossa palavra e reconheceremos vossa autoridade, seja em sofrimento e adversidade, seja em conforto e prosperidade, seja em necessidade e privação; e, onde quer que estejamos, diremos sempre a verdade, em todas as situações; não temeremos ninguém nem daremos importância a qualquer opressão.”}

Depois, disseram-lhe: “Uma pergunta surgiu em nossas mentes. Não acontecerá que, quando Allah, o Altíssimo, vos conceder a vitória, abandoneis-nos e vos junteis ao vosso próprio povo?” Ao ouvir isso, o Profeta (que a paz esteja com ele) sorriu suavemente e disse:

******* (Árabe)

Não, ficai tranquilos quanto a isso. Lutarei contra aqueles contra quem lutardes. Farei trégua com aqueles com quem fizerdes trégua. Vossas responsabilidades serão minhas responsabilidades. Vossa honra e dignidade serão consideradas minha honra e dignidade. E minha vida e minha morte serão convosco.

Na realidade, por meio dessa conversa em ‘Aqabah, havia sido celebrado, de forma indireta, um pacto social e coletivo. Por meio dele, os habitantes de Medina aceitaram simultaneamente o nobre Mensageiro (que a paz esteja com ele) como seu líder religioso e político e como autoridade do Estado, e, atendendo ao convite deles, ele partiu para Medina. O nobre Profeta (que a paz esteja com ele) tornou-se seu líder absoluto.} está escrito em letras douradas sob esse nome. Naquela ocasião, cerca de 75 muçulmanos, incluindo duas mulheres, pertencentes às duas principais tribos rivais de Medina, Aws e Khazraj, uniram-se e prestaram a bay‘ah às mãos do nobre Mensageiro (que a paz esteja com ele). Nessa bay‘ah, além de se comprometerem a aceitar e seguir plenamente o dīn do Islã, comprometeram-se a reconhecer a liderança integral do nobre Profeta (que a paz esteja com ele), a estabelecer plena segurança para ele e a estar preparados para lutar até a morte contra o lado adversário sob sua liderança. E não apenas isso: convidaram o nobre Profeta (que a paz esteja com ele) a ir para Medina com seus companheiros e reiteraram a promessa de lhes conceder ali um lugar para morar. Os habitantes de Medina não convidaram o nobre Profeta (que a paz esteja com ele) como um “colono em busca de asilo” (Settler-Asylum), mas como Mensageiro e representante de Allah, e como seu líder e administrador supremo. O nobre Profeta (que a paz esteja com ele) aceitou esse convite e anunciou ali mesmo sua decisão de emigrar para Medina acompanhado de seus companheiros. Na verdade, o pacto social e coletivo, cuja existência é a primeira condição para o surgimento de um Estado, encontrou sua forma concreta nessa bay‘ah de ‘Aqabah prestada pelo nobre Profeta (que a paz esteja com ele) aos habitantes representativos de Medina. Na realidade, foi por meio dessa bay‘ah que se lançou o primeiro fundamento do Estado Islâmico. Embora essa bay‘ah tenha ocorrido numa caverna montanhosa isolada de Meca, o território destinado a ela era Medina. A partir desse momento, Medina começou a ser chamada de “Medinat al-Rasul” — a Medina do Mensageiro — ou “Medinat al-Islam” — Medina, o centro do Islã. Na ciência política ocidental, todas as condições essenciais mencionadas na definição mais recente de um Estado estão plenamente presentes aqui. A bay‘ah prestada pelos muçulmanos de Medina e a conversa ocorrida entre as duas partes nesse contexto demonstram claramente que, ao convidarem o nobre Profeta (que a paz esteja com ele) a ir para Medina, eles assumiram o risco de um grande perigo. Estavam completamente preparados para suportá-lo sem hesitação. Em outras palavras, um pequeno subúrbio parecia estar lançando a si próprio contra a hostilidade extrema de todo o país e contra um boicote econômico e social. E, naturalmente, foi exatamente esse o resultado.

Por outro lado, esta bay‘ah também se tornou especialmente significativa e perigosa para os habitantes de Meca. Pois, embora os muçulmanos se tivessem reunido em outro lugar fora de Meca, por meio dela passaram a constituir uma força, um Estado, e a representar um desafio mortal ao kufr e ao shirk, à anarquia e à desordem dos habitantes de Meca. Em outras palavras, para os habitantes de Meca, isso não se apresentava apenas como um perigo religioso; era também um claro “perigo político”. Como Medina se situava num ponto importante da rota comercial que ia do Iêmen à Síria, surgiu o temor de que, com a transformação dos muçulmanos numa força estatal ali, essa rota lhes fosse fechada para sempre ou, pelo menos, se tornasse perigosa. Ora, essa rota era o principal elo da vida econômica dos coraixitas e dos habitantes de muitas outras grandes tribos. Os coraixitas haviam compreendido profundamente as consequências disso. Por essa razão, já haviam tomado coletivamente a decisão de extinguir para sempre a luz da vida do Profeta da humanidade.

Em uma palavra, esta “bay‘ah”, por um lado, foi a pedra fundamental da primeira organização estatal islâmica; por outro, por meio dela também se estabeleceu a base de uma organização social ideológica. Na verdade, na História Conhecida (Known History), quando se fala de um Estado plenamente fundamentado num ideal, é a este que se faz referência.

O Estado islâmico em Medina

De acordo com a bay‘ah de Aqabah, juntamente com a Hégira do Mensageiro de Deus para Medina, o Islã transferiu-se para Medina. O que antes era uma semente tornou-se então uma árvore. O que era teoria (Theory) tornou-se então realidade (Practical). O que inicialmente estava limitado a uma simples obediência verbal passou então a ser seguido nas atividades cotidianas e nas questões sociais e coletivas, ganhando forma concreta. O que em Meca era apenas um começo, em Medina começou a avançar gradualmente, atravessando as etapas do progresso, rumo à perfeição.

Ao chegar a Medina, o Profeta realizou, logo na primeira etapa, duas tarefas importantes. A primeira foi lançar os fundamentos de uma mesquita. Essa mesquita não era apenas um lugar para realizar as cinco orações diárias; tornou-se também o centro de reunião do povo muçulmano. Tendo este lugar como centro, o Profeta começou a empenhar-se no cultivo e desenvolvimento de uma força social e coletiva fundamentada num ideal, reunindo pessoas dedicadas ao sacrifício por causa do Islã. Tendo esta mesquita como centro, ele se entregou inteiramente ao esforço de formar cidadãos aptos a administrar um Estado completo, bem como um corpo de trabalhadores e líderes, com base no grandioso ideal do Islã. Essa mesquita era o edifício do chefe de Estado, o quartel-general do comandante supremo (Supreme Commander) e o escritório central da mais alta autoridade administrativa.

A segunda tarefa foi estabelecer uma relação de fraternidade mútua entre os Muhajirun e os Ansar. Isso foi a aplicação prática de uma instrução clara do Alcorão. A instrução era a seguinte:

*******(Árabe)

Os crentes são irmãos uns dos outros; portanto, estabelecei a paz e o bem entre esses irmãos. E temei a Deus todos juntos; espera-se que Ele vos conceda misericórdia.

O Islã é uma grandiosa legislação dinâmica e adequada à época, que trouxe a mensagem da fraternidade comum de toda a humanidade. Ao estabelecer essa fraternidade, o nobre Mensageiro (que a paz esteja com ele) lançou as bases dessa grande humanidade universal e deu início à sua concretização. Por meio dela, eliminou completamente os limites de lugar, tempo e geografia, as diferenças linguísticas e as distinções de linhagem, sangue e tribo. Em razão dessa relação fraterna, também foram destruídas as diferenças entre os habitantes locais e os estrangeiros. Eliminando todas as diferenças e distinções materiais e mundanas, o nobre Profeta (que a paz esteja com ele) começou a construir uma Sociedade da Fraternidade Universal.

A concepção dessa sociedade fraterna era a seguinte: aqui, ninguém é inferior, ninguém é superior. Ninguém é desprezível, ninguém é nobre. Ninguém é ashraf, ninguém é atraf. Ninguém é de linhagem distinta, ninguém é sem linhagem. Cada pessoa dessa sociedade é simplesmente um irmão, dotado de igual dignidade e direitos, segundo o grandioso ideal do Islã. “Muçulmano” era a única identidade deles. Fora isso, não tinham qualquer outra identidade.

Na segunda etapa, o nobre Profeta (que a paz esteja com ele) transformou esse espírito de fraternidade em um instrumento eficaz para a reconstrução e o reassentamento da sociedade. Cada irmão da sociedade que ele formou estava plenamente preparado para fazer todos os sacrifícios necessários em favor de seu outro irmão. Quem possuía algo daria tudo isso àquele que nada possuía. Mas isso não seria uma “doação”, nem uma “benevolência”. Ao recebê-lo, o beneficiário não se tornaria objeto da benevolência do doador, nem um alvo de compaixão, humilhado e desonrado. Isso era seu dever. Um daria algo ao irmão porque dar era seu dever. O irmão receberia, com a disposição de colaborar para que seu irmão cumprisse o próprio dever. Como resultado, em um período inimaginavelmente curto, foi facilmente resolvido o difícil e complexo problema de reassentar o grande número de pessoas que haviam chegado de Meca despojadas de tudo. E não foi só isso: de modo geral, a recém-estabelecida sociedade e o Estado islâmicos prosperaram com grande afluência e adquiriram novas forças. Cada cidadão recebeu a motivação e a oportunidade de obter seu próprio sustento. Assim, ninguém permaneceu como “fardo” ou dependente de outra pessoa.

Na terceira etapa, apresentou-se diante do nobre Mensageiro (que a paz esteja com ele) a difícil responsabilidade de construir unidade, coesão e disciplina a partir do seccionamento e da desordem. Na prática, tratava-se de um problema gigantesco, semelhante a uma montanha. Os profetas e mensageiros do passado também não haviam conseguido resolver esse problema. Mas o nobre Mensageiro (que a paz esteja com ele) teve de fazê-lo, e o fez com extraordinário sucesso e competência. Sua missão era fazer brotar, do seio da fraqueza, incapacidade e impotência, uma enorme árvore de força e capacidade. Seu objetivo era eliminar os conflitos e as desigualdades mútuas e criar uma unidade e uma coesão sem brechas. Seu dever era afastar o frio gélido da morte, instaurar o calor, a vivacidade e a atividade da vida e construir um novo mundo. Foi indicando isso que o Deus Altíssimo disse:

********(árabe)

E nós retiramos de sobre você o fardo pesado que lhe curvava as costas.

Na quarta etapa, seu dever era “cuidar do exterior”. Tudo o que ele havia feito até então pode ser chamado de trabalho de cuidar da casa. Mas cumprir a responsabilidade não se completa apenas cuidando da casa. Depois de assegurar a unidade interna e a segurança da sociedade islâmica, duas tarefas se apresentaram diante dele para preservá-la permanentemente. Uma era garantir a segurança da sociedade islâmica contra os ataques cotidianos — isto é, a hostilidade a cada momento — da sociedade judaica não muçulmana que vivia no entorno adjacente à casa. A segunda era adotar medidas adequadas e confiáveis para a restauração integral desse recém-construído palácio do Estado islâmico contra o ataque total dos inimigos externos e, ao mesmo tempo, abrir a grande estrada para a ampla propagação do Islã por todo o mundo.

Naquela época, reinavam na cidade de Medina uma espécie de anarquia e desordem. As duas grandes e principais tribos locais, Aws e Khazraj, estavam divididas em cerca de quatro facções. Por outro lado, havia dez tribos judaicas independentes delas. Séculos de inimizade haviam feito delas inimigas mortais umas das outras. Em geral, algumas tribos árabes obtinham a ajuda dos judeus para lutar contra seus inimigos. Outras tribos árabes recebiam o apoio de algumas tribos rivais. Então começava uma guerra sangrenta, que continuava por gerações e durante séculos. Como consequência, extrema tristeza e sofrimento recaíam sobre a vida das pessoas comuns da Arábia. Elas empreendiam esforços máximos para se libertar dessa situação dolorosa. Por isso, pouco antes da chegada do nobre Profeta (que a paz esteja com ele) a Medina, uma grande parte dos habitantes de Medina havia decidido nomear Abdullah ibn Ubayy ibn Salul como seu rei e governante. O nobre Profeta (que a paz esteja com ele) estava informado sobre a situação do povo de Medina. Para mudar essa situação, logo após receber o juramento de Al-‘Aqabah, ele nomeou doze membros das diversas tribos de Medina como naquibs e, desse modo, esforçou-se para criar reconciliação e unidade entre as tribos envolvidas em conflitos mútuos e em disputa. Contudo, cada tribo dessa sociedade tribal era completamente independente, possuía o direito de autoadministração e seguia inteiramente sua própria vontade em seus assuntos internos. Além disso, não havia ali qualquer sistema administrativo ou instituição executiva eficaz que mantivesse essas tribos relacionadas e unidas umas às outras. Apesar disso, graças aos esforços dos pregadores do Islã enviados pelo nobre Profeta (que a paz esteja com ele), muitas pessoas entre os habitantes de Medina aceitaram o Islã e ingressaram na sociedade muçulmana, embora, até então, o Islã ainda não tivesse alcançado em Medina o status de uma força política.

O Nobre Profeta (que a paz esteja com ele), ao chegar a Medina, elaborou uma proclamação com o objetivo de pôr fim àquela situação de anarquia.1 {Na história, esta proclamação ficou registrada sob o nome de “Carta de Medina”.} Por meio desta proclamação, Medina recebeu o status de “cidade-Estado”. Com base nela, foram feitos os maiores esforços para criar, especialmente entre todas as tribos dispersas e desunidas, unidade e coesão.

É universalmente reconhecido que essas pessoas jamais haviam curvado a cabeça diante de qualquer poder estatal (poder estatal/poder coercitivo). Nunca estiveram submetidas às regras, à disciplina e ao domínio de um poder central. Por meio desta proclamação, o Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) organizou e unificou todos eles sob uma única lei, isto é, um só Deus, uma só liderança e uma mesma qibla. Do ponto de vista dos direitos individuais, a Declaração de Medina (Declaração de Medina) foi uma medida revolucionária. Os direitos que antes eram desfrutados por uma pessoa, uma família ou uma tribo passaram, após a entrada em vigor desta proclamação, a ser reconhecidos como direitos de todos. Assim, de um lado, chegou ao fim a anarquia baseada no tribalismo e, de outro, foram lançadas as bases do Estado islâmico em seu verdadeiro sentido.

De acordo com as disposições do Pacto de Medina (Pacto de Medina), todos os poderes administrativos (Administrativo), legais (Legal) e criminais ou judiciais (Judicial) foram confiados a Hazrat Muhammad (que a paz esteja com ele). Contudo, existe uma enorme diferença entre o Profeta Universal e os demais governantes do mundo a esse respeito. Ele não assumiu esse poder amplo e absoluto como um governante arbitrário e insolente. De modo algum se poderia atribuir a ele sequer a menor concepção de interesse pessoal, soberania pessoal ou domínio pessoal; pelo contrário, sua política de Estado estava fundamentada em elevados ideais morais e humanitários. Ele jamais se considerou, nem por um instante, um soberano (Soberano), tampouco se apresentou assim em público. A lei que aplicava aos outros, considerava aplicável também a si próprio, tal como aos demais. Na verdade, não se pode apontar qualquer exemplo disso na história política do mundo.

O Pacto de Medina está dividido em duas partes. A primeira parte é composta por 23 cláusulas. Ela diz respeito inteiramente aos muhajirun e aos ansar. A segunda parte trata dos direitos, deveres e responsabilidades dos judeus de Medina.

Segundo este pacto, em todos os assuntos da sociedade e do Estado, a decisão e o julgamento do Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) eram definitivos. A mais alta autoridade judicial também lhe pertencia. Ao aceitar o din do Islã, o povo dos muhajirun e dos ansar havia reconhecido o Mensageiro Nobre (que a paz esteja com ele) não apenas como líder religioso, mas também como a autoridade máxima da sociedade e do Estado. Portanto, não se poderia sequer cogitar qualquer objeção da parte deles a um pacto desse tipo. Mas a sociedade judaica reivindicava para si a supremacia cultural sobre toda a Arábia. Ainda assim, o fato de eles terem concordado com um pacto que continha cláusulas desse tipo foi um grande milagre da política de Estado do Profeta Universal.

Cláusulas importantes do Pacto de Medina

Não é possível citar aqui detalhadamente as cláusulas do Pacto de Medina. Apresentam-se a seguir, em resumo, algumas de suas cláusulas importantes e uma análise geral relacionada a elas.

O Estado que se constituiu a partir da primeira parte da proclamação era formado pelos muhajirun, pelos ansar, por outras tribos vinculadas por pactos e por outros indivíduos. Todas essas pessoas haviam se comprometido, em termos explícitos, a seguir a liderança do Nobre Profeta (que a paz esteja com ele), unir-se a ele e combater os inimigos. Apesar de estarem internamente divididos e separados de cem maneiras, construíram uma unidade (Unidade) distinta de toda a sociedade mundial. Todo o povo muçulmano recebeu status plenamente igual em direitos e deveres. A guerra e a paz passaram a ser consideradas assuntos estatais e coletivos. O dever militar tornou-se obrigatório para todos. O direito de oferecer garantia de segurança foi estabelecido para cada indivíduo. Todos passaram a ter o direito de firmar pactos, e o pacto de uma única pessoa tornou-se obrigatório para todos. Como resultado, teve início, na organização estatal, uma idade de ouro de plena fraternidade, igualdade e liberdade individual.

De acordo com este tratado, ninguém tinha o direito de tomar o partido dos coraixitas de Meca, nem de lhes prestar qualquer tipo de ajuda ou oferecer-lhes abrigo. Além disso, ninguém poderia criar qualquer obstáculo ou opor-se ao avanço dos muçulmanos contra os coraixitas.

O próprio Hazrat Muhammad (que a paz esteja com ele) recebeu a posição de mais alta e última instância judicial em todos os assuntos.

A partir de então, o sistema judicial deixou de ser assunto de uma pessoa ou de uma tribo; ao contrário, adquiriu um caráter coletivo e social. Todo o poder judiciário passou a ter caráter central. Essa também foi uma decisão revolucionária. Como resultado dessa decisão, a absoluta imparcialidade e a justiça pura e imparcial passaram a prevalecer em toda parte. Não restou o menor espaço para qualquer parcialidade, favoritismo pelos próprios ou favorecimento de parentes. Todos os muçulmanos tornaram-se coletivamente responsáveis por garantir que ninguém oprimisse outra pessoa e que ninguém usurpasse os direitos de outra pessoa.

A segunda parte do Pacto de Medina relacionava-se inteiramente com os judeus. Toda a comunidade judaica, como um conjunto, foi incorporada ao “Estado-cidade de Medina” pelo sistema federal. A primeira cláusula estabelecia que, se judeus e muçulmanos travassem uma guerra conjuntamente, cada parte arcaria com as suas próprias despesas. Ambos gozariam de plena liberdade para praticar as suas respectivas religiões. Assim, nas questões sociais e culturais, os judeus obtiveram direitos iguais aos dos muçulmanos. Na responsabilidade pela defesa do país, tornaram-se mutuamente auxiliares. Isto é, os judeus seriam obrigados a combater aqueles contra quem os muçulmanos lutassem. E aqueles com quem os muçulmanos celebrassem um tratado de paz também seriam aqueles com quem os judeus teriam de celebrar a paz. Nessa ocasião, prestar ajuda mútua eficaz na defesa do país — isto é, na defesa do Estado-cidade de Medina — seria dever de ambas as partes. Em consequência desse tipo de tratado, a defesa também passou a ser considerada uma questão central. A partir de então, o Mensageiro de Deus (que a paz esteja com ele) tornou-se o comandante supremo do exército conjunto formado por muçulmanos e judeus. Essa foi outra grande realização política do Mensageiro de Deus (que a paz esteja com ele).

O Mensageiro de Deus (que a paz esteja com ele) não interferia nem um pouco nos assuntos estritamente internos dos judeus. Como resultado, as nuvens negras de ressentimento e apreensão que se haviam acumulado em seus corações dissiparam-se muito facilmente. Por iniciativa própria e com entusiasmo, eles aceitaram o Mensageiro de Deus (que a paz esteja com ele) como juiz supremo em todos os seus assuntos. Tornou-se totalmente proibido exercer sobre ele qualquer influência com base em laços de parentesco. Dessa forma, todos os vestígios dos princípios inválidos da época da jahiliyyah foram completamente eliminados. A situação chegou a tal ponto que os judeus não se limitaram a aceitar o Profeta (que a paz esteja com ele) apenas como seu administrador; também fizeram de toda Medina um “haram” (área protegida e preservada). Isso também foi uma enorme demonstração da sabedoria política e da inteligência do Mensageiro de Deus (que a paz esteja com ele). (Mais tarde, naturalmente, por se envolverem abertamente em conspirações contra o Estado, os judeus acabaram sendo obrigados a exilar-se de Medina.)

Para a defesa e a preservação do Estado-cidade de Medina, além de estabelecer uma firmeza interna, era também indispensável construir relações de aliança com as tribos que viviam nos arredores da cidade. Com esse objetivo, o Profeta (que a paz esteja com ele) percorreu e inspecionou as regiões ocidentais e os distritos fronteiriços, assinando vários tratados com as tribos locais. Como resultado, essas tribos tornaram-se forças aliadas dos muçulmanos na questão da defesa. Depois disso, as tribos de todos os arredores de Medina, em vez de hostilizarem os muçulmanos, passaram a oferecer-lhes um apoio especial.

O passo final

Depois de obter plena segurança e tranquilidade tanto no interior de Medina quanto em seus arredores, o Profeta (que a paz esteja com ele) assinou com os coraixitas de Meca um tratado de paz por dez anos. Como esse tratado foi concluído no lugar chamado Hudaybiyyah, ficou conhecido na história como o “Tratado de Hudaybiyyah”. Na realidade, o próprio Alcorão Sagrado chamou esse tratado, para os muçulmanos, de “Fath al-Mubin” — “uma vitória clara e radiante” —, nas palavras de Deus. Após a assinatura desse tratado de paz, o Profeta (que a paz esteja com ele) obteve uma oportunidade livre e desimpedida para pregar o Islã de forma ampla e abrangente por toda a Arábia. Ao mesmo tempo, abriu-se o caminho para expulsar os judeus de Khaybar, centro de seu poder, de maneira definitiva e completa. Depois de conquistar as inexpugnáveis fortalezas de Khaybar, o Profeta (que a paz esteja com ele) conseguiu conquistar Meca Sharif de modo inteiramente pacífico e sem derramamento de sangue. Após a conquista de Meca, no oitavo ano da Hégira, o Profeta (que a paz esteja com ele) conseguiu unificar toda a Península Arábica sob o domínio único e absoluto do Islã. Assim, ainda durante a sua própria vida, estabeleceu o Estado islâmico sobre uma base sólida.

É desnecessário dizer que o Estado estabelecido pelo Mensageiro de Deus (S) não era simplesmente um Estado. Tratava-se, na realidade, da plena concretização de um idealismo que antes não existia. A semente que, vinte e um anos antes, fora plantada em absoluto segredo num lugar isolado da própria Península Arábica transformou-se posteriormente numa árvore gigantesca, acolhendo toda a Arábia sob a sua sombra refrescante e estabelecendo, para a humanidade inteira, um centro permanente de luz (Farol). Até a eternidade, torrentes de raios de luz continuarão a irradiar desse centro luminoso sobre a vida dos seres humanos no mundo, e as pessoas desorientadas, dilaceradas pela opressão e pela perseguição, continuarão a encontrar nele o caminho seguro da libertação e do bem-estar.

Características do Estado estabelecido pelo Profeta

É necessário mencionar aqui as particularidades e características do sistema estatal estabelecido pelo Nobre Profeta (S). Apresentamo-las brevemente a seguir.

(1) O Estado estabelecido pelo Profeta foi o primeiro sistema estatal do mundo construído com base num pacto e compromisso social e coletivo (Contrato Social). Não se encontra, em toda a história humana, nenhum exemplo da fundação de um Estado desse tipo. No décimo terceiro ano da Profecia, os habitantes de Medina, voluntária e entusiasticamente, prestaram bay‘ah ao Nobre Profeta (S), aceitaram-no não apenas como seu líder religioso, mas também como líder político e governante; posteriormente, isso alcançou a sua plena maturidade num sistema estatal completo e abrangente.

(2) A fonte da soberania deste sistema estatal era, de forma absoluta e sem qualquer restrição, o Ser do Deus Altíssimo. Naquilo que se entende por soberania, não havia participação de ninguém — nem mesmo do próprio Nobre Profeta (S). Muhammad (S), como Mensageiro de Deus, promulgava leis e dirigia a administração do Estado com base nas disposições corânicas. É precisamente esta questão da soberania que constitui a pedra fundamental da diferença abissal entre o Estado islâmico e as demais concepções de Estado do mundo. O Nobre Mensageiro (S) recebia a revelação de Deus. Essa revelação era a fonte primordial da lei. Contudo, jamais se apresentou como detentor do direito de soberania. Era ele quem interpretava a revelação, mas nunca se isentava da sua aplicação. Pelo contrário, por meio da revelação, até os seus próprios ‘erros’ eram expostos perante o povo. Ele próprio se apresentava repetidamente às pessoas para que os seus ‘delitos’ fossem julgados. Em consequência, todas as concepções e doutrinas que colocavam o ‘rei’ ou o ‘administrador supremo’ no lugar de Deus — tais como ‘o rei nunca pode errar’ e ‘o rei jamais pode ser acusado’ — foram inteiramente provadas falsas. Com isso, estabeleceu-se também a verdade de que, num Estado fundado na soberania absoluta de Deus, nenhuma pessoa pode tornar-se ‘rei’ ou déspota. Isso também não é possível a nenhum partido ou grupo. Ninguém pode ter o direito de escravizar os seres humanos.

(3) Este era um Estado plenamente baseado num ideal (Estado Ideológico). O Nobre Profeta (S) foi o primeiro na história a começar a governar um Estado com base numa constituição escrita (Constituição Escrita). Não era um Estado baseado na linhagem, na pátria, na raça, na língua ou numa mera unidade econômica. Era o primeiro Estado portador e transmissor do ideal de vida islâmico, que convidava toda a humanidade do mundo ao Islã, sem distinção de nação ou religião. A plena implementação do ideal islâmico, a conquista da sua vitória total e, por seu intermédio, a promoção do bem-estar integral do povo constituíam o único objetivo desse Estado.

Convém observar que o Estado islâmico, à semelhança dos Estados fascistas ou dos chamados Estados democráticos do Ocidente, não é um objetivo em si mesmo — isto é, não existe um Estado pelo Estado; antes, o seu propósito é alcançar um objetivo mais elevado e nobre mediante a concretização de um ideal. E esse objetivo é a obediência plena a Deus e ao Seu Mensageiro, bem como a obtenção da suprema satisfação de Deus. Um Estado democrático ou nacional secular não se submete a nenhuma norma moral superior. O Estado islâmico, porém, é exatamente o oposto. Nele, todas as questões religiosas e científicas são conduzidas com base nas determinações de Deus.

(4) No Islã, a religião e o Estado são apenas dois aspectos inseparáveis de uma mesma coisa. A diferença existe apenas nas palavras; quanto à essência ou à concepção fundamental, não há qualquer diferença entre eles. Aqui, aquilo que é religião é também política, e naquilo que é política está contida a religião. O Islã é, por sua própria natureza, um din completo. Não há nenhum aspecto da vida humana ou da natureza do universo sobre o qual não exista uma disposição islâmica. O Nobre Mensageiro (S), simultaneamente como representante de Deus, era o líder incontestável em todos os aspectos e campos da vida. A fragmentação e a dualidade da vida são contrárias ao Islã. Na realidade, a ausência de religião no Estado, ou secularismo, é fruto da reação ao papado do século XIX. Atualmente, do ponto de vista histórico, isso pertence inteiramente ao passado. Na época atual, é impossível a existência de qualquer Estado baseado nisso, pois, além do ceticismo, da instabilidade mental e do utilitarismo, não pôde oferecer nenhuma outra contribuição à humanidade mundial.

(5) O Estado islâmico é, em seu verdadeiro sentido, um sistema estatal efetivo, baseado nos direitos do povo e na opinião pública. Como todos os assuntos do Estado são conduzidos com base no apoio e na aprovação do povo, a implementação dos princípios fundamentais do Estado não pode ser efetiva sem consulta aos responsáveis por sua execução. Esse princípio foi plenamente seguido pelo nobre Mensageiro.

A liberdade individual, a igualdade e a justiça são os fundamentos essenciais de um sistema estatal baseado nos direitos do povo. Sem sua implementação adequada, é inconcebível transformar em realidade as aspirações populares. Foi no primeiro sistema estatal islâmico estabelecido pelo nobre Mensageiro que a verdadeira liberdade humana foi efetivada pela primeira vez. A proclamação do kalima do Islã — “Não há divindade além de Allah; Muhammad é o Mensageiro de Allah” — encerra, com uma consciência extraordinária, o espírito revolucionário da liberdade individual. Ela não é senão uma declaração revolucionária de que ninguém está disposto a submeter-se, nem sequer por um instante, à servidão de qualquer pessoa ou coisa além de Allah.

Dentro dos limites estabelecidos por Allah, o ser humano é completamente livre e independente no Estado islâmico. Aqui, os direitos de cada pessoa são claramente definidos. Em nenhuma circunstância alguém tem o direito de privar outra pessoa de seus direitos. Na era dourada do Islã, ninguém era privado de seus direitos fundamentais em circunstância alguma. Sem uma razão baseada na sharia, jamais se impunha qualquer tipo de impedimento ou obrigação à expressão e divulgação das opiniões pessoais, à escolha de uma profissão, à realização de reuniões e conferências ou à livre circulação de qualquer pessoa. Pois, na perspectiva do Islã, agir assim não é senão uma injustiça manifesta. Por essa razão, cada indivíduo também tinha o direito de expressar uma opinião divergente, mesmo discordando do chefe de Estado, o nobre Mensageiro.

A igualdade e a integridade deste Estado estão estabelecidas sobre duas bases. A primeira é o fato de todos serem filhos de Adão; por isso, todos os seres humanos são fundamentalmente iguais. A segunda base é a fraternidade. Todos os muçulmanos são irmãos entre si e iguais em todos os aspectos.

A justiça é a principal característica deste Estado. A igualdade de tratamento e a imparcialidade são seus princípios permanentes. O próprio nobre Mensageiro sempre julgava fundamentando suas decisões no princípio da justiça. No Estado que estabeleceu, a aplicação da lei era indistinta. Certa vez, durante um julgamento, declarou: “Se Fátima roubasse, sua mão também seria cortada como punição”, eliminando assim, no campo da justiça e da aplicação da lei, toda corrupção e favoritismo.

(6) O Estado islâmico era, em seu verdadeiro sentido, um Estado servidor do povo e voltado ao bem-estar público (Estado de bem-estar social). No Estado estabelecido pelo nobre Mensageiro, não se oferecia ao povo apenas apoio financeiro; também se empreendiam esforços para garantir efetivamente os direitos populares e eliminar a pobreza. Ao contrário de um Estado capitalista, não era de modo algum possível deixar completamente desamparados os “derrotados na competição pela obtenção de riqueza”. Mesmo depois de abrir igualmente diante de todos as portas das oportunidades e facilidades econômicas, assumir plena responsabilidade pela segurança financeira daqueles que permanecessem para trás era uma característica exclusiva deste Estado. Não se limitava à segurança econômica: também se realizavam esforços contínuos e sérios para elevar o padrão moral do povo, despertar em seus corações o temor de Allah e educá-lo adequadamente sobre o din e a sharia.

(7) A característica mais importante deste Estado era a consciência extremamente intensa da responsabilidade perante Allah. Qualquer que fosse a ação realizada — uma tarefa pessoal ou o cumprimento de uma responsabilidade nacional e estatal —, fosse praticada secretamente em casa ou em público, essa consciência permanecia forte na base de tudo. E era justamente por isso que nenhum ato de desobediência a Allah, de usurpação dos direitos do povo ou de opressão e perseguição podia ocorrer em qualquer esfera deste Estado. Dava-se tanta importância a esse aspecto que, desde o chefe de Estado até o funcionário auxiliar de mais baixo nível, dava-se prioridade à nomeação das pessoas mais tementes a Allah. ******(árabe) “O mais temente a Allah entre vós é o mais honrado de vós perante Allah”; esse princípio era a base desse procedimento. Pois, se os líderes do Estado ou os responsáveis governamentais não fossem tementes a Allah, toda a nação se tornaria extremamente desobediente. Se não fossem íntegros, seria natural que toda a nação se tornasse corrupta. Se os líderes do Estado, os demais dirigentes e os funcionários públicos não fossem corruptos, jamais seria possível que as pessoas comuns se tornassem corruptas; sequer se poderia imaginar isso. Assim como essa afirmação é verdadeira, também é verdadeira a afirmação oposta. Essas características do Estado ideal estabelecido pelo Profeta Universal são históricas. Não se encontra na história o nome de nenhum outro Estado dotado de características semelhantes.

Ao realizar uma análise comparativa tendo diante de nós essas características do sistema estatal estabelecido pelo Profeta Universal, ficará comprovado que ele não se compara a nenhum dos outros Estados do mundo — sejam eles políticos, as chamadas democracias sem religião, capitalistas, socialistas ou comunistas. Nenhum tipo de Estado da época atual pode igualar-se a esse Estado estabelecido pelo Profeta Universal no que diz respeito ao bem-estar humano integral. A falta de cientificidade, a irracionalidade, a desumanidade e o vazio dos sistemas estatais do mundo, fundados nos princípios que os sustentam e nas grandes reivindicações que fazem em favor do bem-estar humano, já foram comprovados há muito tempo. Seu fracasso é universalmente reconhecido. Porém, os princípios fundamentais do Estado islâmico estabelecido pelo Profeta Universal são tão naturais quanto eternos e imutáveis. O verdadeiro bem-estar do indivíduo e da coletividade humana só pode ser alcançado por meio de um sistema estatal desse tipo. Não pode ser alcançado por nenhum outro tipo de Estado.

Até o último dia de sua vida, o Profeta Universal, Hazrat Muhammad (S), dirigiu este Estado ideal. “Califado Rashidun” é o nome posterior deste mesmo Estado, seu verdadeiro sucessor.

 

Califado Rashidun

Após o falecimento do Profeta Universal, Hazrat Muhammad (S), os quatro principais Companheiros que assumiram a responsabilidade de administrar o Estado islâmico são chamados na história de “Khulafa-e-Rashidun”, e o sistema estatal por eles administrado é denominado “Califado Rashidun”. Embora o governo dos “Khulafa-e-Rashidun” não tenha durado por muito tempo, conseguiu alcançar a mais elevada honra na história do mundo. Não somente os historiadores muçulmanos, mas também historiadores não muçulmanos — inclusive historiadores inimigos dos muçulmanos — foram obrigados a prestar homenagem ao período do governo dos Khulafa-e-Rashidun, chamando-o de “a idade de ouro” da história humana. Nesta etapa, discutiremos o significado científico e as características do “Califado Rashidun”.

Califado

O significado lexicográfico da palavra “califado” é “representação”. Seu significado prático é “ocupar o lugar de alguém depois que este tenha se retirado”. A própria palavra prova que ele não é a coisa original, mas apenas o símbolo do original; não é o corpo, mas a sombra; não é a realidade, mas o reflexo no espelho. Em outras palavras, ocupar o lugar do titular original é o que se chama califado. A palavra “imame” também é usada nesse sentido, e as palavras “califa” e “imame” expressam dois aspectos distintos da mesma pessoa. Por ser representante e sucessor do responsável anterior, ele é califa; e, por ser alguém a quem o povo da época deve seguir e que desfruta da maior consideração, ele é “imame” e “líder”. Na realidade, suceder o Profeta e, após seu desaparecimento, liderar toda a umma é o que se chama “califado” e “imamat”. O Nobre Profeta (S) disse: “Antes de vós, eram os profetas e mensageiros da tribo dos Filhos de Israel que exerciam a liderança e administravam o Estado; após o desaparecimento de um profeta, outro profeta vinha e ocupava o seu lugar. Mas agora, depois de mim, a sucessão da profecia foi concluída (agora ninguém mais será profeta ou mensageiro). Depois disso, os califas dentre vós serão os líderes”.

Este hadith torna claro que representar o profeta é o que se chama califado e que, no Islã, depois da profecia, este é o cargo de maior honra, veneração e responsabilidade sagrada. Por isso, os “califas” do Islã devem ser universalmente aceitos nas disposições e instruções que emitirem, com base nos princípios do Alcorão e da Sunna, para administrar o Estado e resolver os problemas humanos. O Nobre Mensageiro (S) já havia declarado: “Depois de mim, segui os meus califas bem guiados”. Por essa razão, ao escolher um califa, embora se deva atentar para a perspicácia política e a competência administrativa da pessoa em questão, deve-se dar atenção ainda maior ao quanto ela conseguiu purificar-se por meio da companhia do Profeta (ou, na ausência do Profeta, seguindo seu modelo), bem como ao grau de seus conhecimentos espirituais e de suas qualidades morais. A eleição sucessiva de Hazrat Abu Bakr Siddiq, Hazrat Umar Faruq, Hazrat Uthman Ghani e Hazrat Ali Murtaza (R) para o cargo de califa revelou claramente o profundo significado e a justeza do princípio acima.

Na realidade, no Islã, as responsabilidades e deveres do califado são extremamente amplos e abrangentes. Todos os objetivos materiais, religiosos e civilizacionais são alcançados por seu intermédio. Manter ativas e estabelecidas as obras iniciadas pelo Profeta, preservá-las de toda espécie de mistura e promovê-las e aperfeiçoá-las — essa breve frase pode explicar, de modo geral, a responsabilidade do califado. Se fosse preciso expressá-la por uma única palavra composta, poder-se-ia dizer: “Iqamat-e Din”. Esta expressão também tem um significado tão amplo que todos os tipos de atividades da religião e do mundo estão incluídos nela. Estabelecer e pôr em prática a oração e o jejum, o hajj e o zakat, as leis e normas, a administração e a ordem, e o sistema judicial — em suma, realizar todas as atividades civilizacionais e espirituais faz parte da responsabilidade do califado. A vida sagrada do Nobre Profeta (S) foi passada na realização de todas essas grandes responsabilidades. Depois dele, aqueles que se tornaram seus representantes e sucessores dedicaram completamente toda a sua vida à concretização desse objetivo. Desde o tempo de vida do Nobre Profeta (S), várias pessoas haviam sido designadas como responsáveis por essas atividades. Pessoas foram nomeadas separadamente para dirigir as orações e para recolher a sadaqa e o zakat. A prevenção das ações injustas, a promoção e difusão das ações justas e o julgamento imparcial e a resolução das disputas e divergências mútuas do povo eram realizados por pessoas qualificadas. O confronto com o inimigo também ocorria. A responsabilidade pelo confronto com o inimigo, pelo comando dos soldados e pelo ensino do Nobre Alcorão era confiada a pessoas distintas. Mas, como todas essas atividades estavam incluídas na responsabilidade fundamental do califado, era absolutamente necessário que todas as qualificações e características adequadas ao cumprimento independente dessas responsabilidades estivessem reunidas individualmente em um único califa. Além disso, no aspecto das qualidades espirituais, era necessário que o califa possuísse de forma vigorosa educação e sabedoria de caráter profético; e o Profeta, ainda em vida, indicava por sinais e alusões que faria seus sucessores justamente aqueles em quem reconhecesse esse tipo de capacidade espiritual. É preciso, contudo, admitir que a desordem indesejada, o derramamento de sangue e a mudança das circunstâncias fizeram fracassar, após apenas quarenta anos, o objetivo fundamental do califado, e que sua autoridade foi entregue a pessoas que não eram dignas desse importante cargo sob aspecto algum. Não há dúvida de que, se os califas e governantes posteriores tivessem sido escolhidos de acordo com a orientação do Profeta Universal, a sociedade humana teria assumido uma forma completamente diferente.

Ao verificar, à luz do que se conhece no Alcorão e no hadith sobre as qualificações e características de um califa, fica indubitavelmente provado que os “Khulafa-e-Rashidun” eram os mais aptos para se tornarem califas do mundo muçulmano. Eles possuíam plenamente as qualidades e características descritas no Alcorão e no hadith e, por isso, o povo depositava plena confiança em que seriam capazes de administrar o califado segundo princípios corretos. Para o cumprimento das responsabilidades do Califado Rashidun, as seguintes qualidades e características são consideradas indispensáveis à luz do Alcorão. Portanto, depois do Nobre Profeta (S), serão considerados os melhores aqueles em quem essas qualidades se manifestarem.

(1) O califa deverá ser um muhajir da primeira geração e deverá ter estado presente no tratado de Hudaybiyyah, nas batalhas de Badr e Tabuk e no momento da revelação da Surata An-Nur;

(2) Deverá estar entre aqueles a quem foi dada a boa-nova de entrar no Paraíso;

(3) Deverá ser contado entre as pessoas de alto nível da sociedade islâmica, como os siddiq e os mártires.

(4) Deverá haver, em alguma conduta, ação ou palavra do Nobre Profeta (que a paz esteja com ele), prova de que, se ele próprio tivesse nomeado alguém como califa, teria nomeado essa pessoa.

(5) Deverá ser possível que as promessas feitas por Allah, o Altíssimo, ao Mensageiro sejam realizadas por intermédio de sua pessoa.

(6) Sua palavra deverá estar comprovada na Sharia islâmica.

Essas qualidades estavam presentes separadamente em inúmeros Companheiros, mas sua plena combinação ocorreu somente em quatro deles. Eles eram muhajir da primeira geração e estavam presentes quando o tratado de Hudaybiyyah foi assinado; nas batalhas de Badr, Uhud, Tabuk e em outras importantes lutas de jihad, estiveram na vanguarda. Assim, não lhes faltava nenhuma das qualidades indispensáveis à elegibilidade para o califado. Além disso, a respeito de cada um deles, foram narradas por fontes confiáveis profecias claras e honrosas do Nobre Mensageiro (que a paz esteja com ele). Sobre Abu Bakr Siddiq (que Allah esteja satisfeito com ele), o Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) disse: “Entre os membros da minha ummah, tu serás o primeiro a entrar no Paraíso. No Hawd al-Kawthar, serás meu companheiro, pois foste meu companheiro na caverna da montanha”. A respeito de Umar (que Allah esteja satisfeito com ele), foi narrada esta declaração do Nobre Profeta (que a paz esteja com ele): “Inúmeros versículos foram revelados em concordância com o desejo de Umar”. Sobre Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele), o Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: “Como poderia eu deixar de honrar aquele a quem até os anjos prestam honra e respeito?” E disse ainda: “Todo profeta tem um amigo; no Paraíso, Uthman será meu amigo”. Sobre Ali (que Allah esteja satisfeito com ele), o Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) declarou: “Não desejas que minha relação contigo seja como a relação de Harun com Musa? Amanhã entregarei o estandarte nas mãos daquele que é amado por Allah e pelo Mensageiro”. Além disso, o Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) proferiu muitas outras palavras valiosas sobre as qualidades e características deles. Essas palavras provam, sem dúvida, que, aos olhos do Profeta, após seu desaparecimento, eles eram os mais aptos e os mais dignos de serem escolhidos para o cargo de califa.

O ideal fundamental do califado

Para compreender profunda e amplamente a discussão relacionada ao califado, é extremamente necessário examinar sua forma de Estado. A esse respeito, essa promessa foi declarada, antes de tudo, em favor das pessoas de bom caráter. Portanto, todo cidadão (muçulmano) do Estado possui a dignidade de califa e tem direito a iguais oportunidades e benefícios para cumprir as responsabilidades do califado. Nesse caso, só será possível estabelecer diferenças entre as pessoas com base no caráter pessoal, nas qualidades e virtudes humanas e na taqwa — piedade e temor a Deus.

Em terceiro lugar: sempre que, na história da humanidade, um califado foi estabelecido com base na soberania de Allah, somente as pessoas mais virtuosas, piedosas e dotadas de caráter elevado e exemplar, provenientes da sociedade, tiveram a oportunidade de se tornar califas e governar o Estado. E o povo em geral pôde desfrutar, com plena justiça e imparcialidade, dos direitos fundamentais concedidos por Allah. Em nenhum caso esses direitos foram subtraídos ou restringidos sequer no mínimo, nem se criou o menor obstáculo ao curso natural da atividade de ninguém; ao contrário, foi dada a cada pessoa a oportunidade de aperfeiçoar e desenvolver progressivamente suas capacidades e talentos naturais por meios conformes à lei de Allah.

De acordo com os preceitos do Islã, toda pessoa é obrigada a prestar contas perante Allah. Nesse assunto, ninguém pode ser colocado na posição de um ser sobre-humano e associado a Allah. Todo cidadão muçulmano possui igual direito de ser eleito para o cargo de chefe de Estado islâmico, califa ou ‘Amir al-Mu’minin’. Nesse caso, ninguém tem o direito de apresentar-se como candidato ou de tentar obter o cargo; do mesmo modo, se for eleito pelo livre consentimento dos cidadãos, todos são obrigados a cumprir a responsabilidade. Depois de eleito califa, a única diferença em sua condição é que o povo lhe confiou a dignidade e os direitos de seu próprio califado. Do ponto de vista do idealismo islâmico, não é de modo algum verdade que somente ele seja califa e mais ninguém seja califa. A autoridade do califado é inteiramente dedicada à preservação da ordem social e geral dos cidadãos e ao cumprimento da responsabilidade de promulgar as leis e regulamentos indispensáveis. Para consolidar essa autoridade e mantê-la sob controle rigoroso, é necessário que ela se concentre na pessoa eleita pelo povo e mais qualificada.

Ao eleger o califa ou o chefe de Estado islâmico, não basta considerar apenas o conhecimento e a inteligência da pessoa, sua educação e formação, sua disposição mental, seu discernimento e sua capacidade organizacional; deve-se também observar, com especial atenção, quão puro, confiável e digno de confiança é seu caráter.

O sistema de vida islâmico não declarou o califa “infalível” ou sem pecado. Tampouco há qualquer razão para considerar o califa infalível e irrepreensível. Todo muçulmano pode criticar o califa não apenas no que diz respeito ao cumprimento de suas responsabilidades oficiais e à execução de suas funções, mas também quanto à sua vida familiar e pessoal. Aos olhos da lei, sua posição será igual à de um cidadão comum. Pode ser instaurado um processo contra ele no tribunal, e ele será obrigado a comparecer perante o juiz tal como qualquer cidadão comum. Ali, não lhe será concedido nenhum tratamento especial.

Nenhuma revelação de Allah é enviada ao califa; portanto, ele não pode reivindicar qualquer posição especial no que diz respeito à interpretação e à aplicação do Alcorão e da Sunnah.

O califa não pode agir apenas de acordo com sua própria opinião; ele deve executar todas as tarefas somente após consultar a Majlis al-Shura (Parlamento), formada por pessoas qualificadas e competentes, apoiadas pelo povo. É verdade que as decisões devem ser tomadas de acordo com a opinião da maioria da Majlis al-Shura; contudo, mesmo assim, a maioria não constitui um critério permanente para determinar o que é bom ou mau, nem o que deve ou não deve ser feito, no sistema de governo do califado. Assim, o califa pode discordar da decisão da maioria com base no Alcorão e na Sunnah, e pode agir de acordo com aquilo que, com base no Alcorão e na Sunnah, considerar verdadeiro. Naturalmente, em todo esse âmbito, o povo muçulmano observará atentamente se o califa age, em geral, de acordo com o Alcorão e a Sunnah, ou se exerce o poder estatal segundo seus próprios caprichos. O califa que se encontra na segunda situação não tem direito a receber sequer um mínimo de obediência do povo islâmico; pelo contrário, torna-se dever deste providenciar sua destituição. Também sob esse aspecto, é evidente a diferença entre a filosofia política e o sistema de governo ocidentais, de um lado, e a filosofia política islâmica e a doutrina islâmica dos direitos populares no califado, de outro: é uma diferença entre o céu e a terra.

Os Califas Bem-Guiados

O período da história que se estende desde o califado de Hazrat Abu Bakr Siddiq (que Allah esteja satisfeito com ele) até Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) é conhecido na história como a era do “Califado Rashidah”. E aqueles que foram os líderes do mundo muçulmano de 632 d.C. (11 H.) a 661 d.C. (40 H.) são chamados de “Califas Rashidun”. Seu número total é quatro, e a duração total de seus califados foi de apenas trinta anos. (Naturalmente, como Umar ibn Abd al-Aziz (que Allah esteja satisfeito com ele) também foi escolhido de acordo com as regras do califado islâmico e foi capaz de cumprir suas responsabilidades, ele também é considerado um dos “Califas Rashid”.)

Enquanto o Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) esteve vivo, a profecia, a elaboração das leis, a liderança em todos os campos, o poder judiciário, o comando das forças militares e todos os cargos importantes do governo civil estavam concentrados em sua única pessoa; ele sozinho exercia a autoridade e a liderança sobre todas essas funções. Após sua morte, a questão de quem seria seu sucessor surgiu de maneira extremamente evidente diante da comunidade islâmica. Como a profecia havia chegado ao fim — depois disso, ninguém seria profeta —, aquele que sucedesse o Mensageiro teria de desempenhar, exceto a profecia e tudo o que a ela dizia respeito, todas as demais responsabilidades como antes. Por essa razão, essa questão também preocupou e deixou profundamente perplexas as pessoas proeminentes. Ninguém poderia ser herdeiro da profecia do Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) nem de sua liderança natural. Por outro lado, nenhum de seus filhos estava vivo. Mesmo que algum estivesse, isso não teria resolvido de modo algum o problema da escolha do califa. Assim, duas questões surgiram de forma complexa:

1 — De que família ou tribo deveria ser o califa?

2 — Qual deveria ser o método de nomeação do califa?

Em nenhum lugar do Sagrado Alcorão o califado foi especialmente reservado a uma determinada linhagem ou tribo. Mesmo no hadith em que se encontra a afirmação ***** (em árabe): “O líder ou califa deve ser nomeado entre os coraixitas”, há uma instrução clara:

“Mesmo que um escravo abissínio seja nomeado governante sobre vocês, vocês deverão obedecer-lhe necessariamente.” Portanto, é necessário buscar uma maneira de harmonizar essas duas afirmações. Basta refletir com um olhar um pouco mais profundo e sutil para compreender que, em essência, ambos os hadiths são declarações baseadas em uma verdade real e objetiva. É uma verdade eterna que, no Islã, o califado não foi especialmente reservado a nenhuma linhagem, tribo, família, indivíduo ou classe. Não há dúvida de que, no sistema estatal islâmico, esse princípio deve ser seguido em todos os tempos e circunstâncias; mas também é uma verdade histórica inegável que, imediatamente após o Estado estabelecido pelo Nobre Profeta (que a paz esteja com ele), nenhum povo de outra linhagem possuía sequer de longe a competência ou a capacidade dos coraixitas para assumir suas responsabilidades. A história do Califado Rashidah e dos períodos posteriores comprova indubitavelmente a veracidade disso. Portanto, foi inteiramente razoável que os quatro califas do Califado Rashidah fossem escolhidos entre os coraixitas. Pois, caso contrário, ninguém da sociedade árabe daquele tempo teria sido capaz de cumprir as responsabilidades do califado com especial competência e habilidade. Contudo, isso não é uma regra eterna e imutável; mesmo depois do “Califado Rashidah”, nenhuma condição que exigisse que o califa fosse descendente dos coraixitas foi reconhecida no sistema estatal islâmico.1{É desnecessário dizer que os estudiosos da ciência política islâmica também não mencionaram nenhuma condição desse tipo.}

Nenhum método prático e explícito para a escolha do califa foi mencionado no Alcorão e nos hadiths. Parece que o objetivo da lei eterna do Islã não é reconhecer permanentemente um método específico e impor a toda a ummah a obrigação de segui-lo em todos os lugares, épocas e circunstâncias. Por isso, em vez de um método específico de eleição (Forma ou Processo), foi apresentado um princípio eterno. Foi dito: ***** (em árabe): “Os idealistas islâmicos conduzem seus assuntos importantes por meio de consulta mútua.” E ninguém pode discordar de que a escolha do chefe de Estado ou do califa é o mais importante assunto nacional e coletivo da sociedade muçulmana, e de que deve ser realizada com base na opinião livre e na consulta do povo muçulmano. Portanto, o princípio de que o califa deve ser escolhido com base na opinião pública é o único princípio fundamental da eleição islâmica. Cabe-nos agora examinar como a ummah muçulmana aplicou esse princípio em diferentes épocas e circunstâncias e resolveu o problema da escolha.

A escolha dos Califas Rashidun

Os princípios fundamentais acima mencionados para a eleição do califa foram aplicados da seguinte forma no caso da eleição dos Califas Rashidun:

(1) Após o falecimento do Nobre Profeta (que a paz esteja com ele), os cidadãos responsáveis da ummah muçulmana reuniram-se num local chamado Saqifa Banu Sa’ida (equivalente a uma prefeitura ou edifício do conselho) e, depois de uma longa e detalhada discussão pública, elegeram por consenso Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) como califa. O povo presente imediatamente prestou-lhe, sem reservas, o juramento de lealdade (bay’a); e, logo após ser eleito califa, ele proferiu formalmente um discurso sobre as responsabilidades, os deveres e as diretrizes políticas do chefe de Estado.

(2) Na eleição de Hazrat Umar Faruq (que Allah esteja satisfeito com ele), foi adotado um método distinto. O primeiro califa, Hazrat Abu Bakr Siddiq (que Allah esteja satisfeito com ele), compreendeu, por meio de toda a sua vida islâmica, dos acontecimentos importantes de sua vida como califa e de sua experiência prática, que, entre toda a nação, não havia ninguém mais digno de sucedê-lo como califa do que Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele). Durante todo o seu califado, Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) participou intimamente de todos os acontecimentos e dos assuntos governamentais e particulares importantes; e a compilação e organização do Nobre Qur’an em forma de livro também foram concluídas unicamente graças ao seu profundo interesse, esforço e conselho. Com base em sua própria experiência e após consultar os principais Companheiros, Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) recomendou Hazrat Umar Faruq (que Allah esteja satisfeito com ele) ao povo muçulmano para a eleição do califa seguinte. O povo muçulmano, com base na recomendação do primeiro califa e em sua própria opinião imparcial e livre, elegeu justamente Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) como califa e prestou-lhe o juramento de lealdade. Assim que foi eleito califa, Umar (que Allah esteja satisfeito com ele), à semelhança de seu predecessor, dirigiu-se ao povo muçulmano e proferiu um discurso de orientação política.

(3) Quando o segundo califa, Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele), compreendeu que o cálice de sua vida estava prestes a se completar e que não poderia viver por muito mais tempo, sentiu a necessidade de escolher seu sucessor e o califa seguinte. Para isso, adotou um método inteiramente distinto. Nomeou um “conselho eleitoral” composto por seis dos mais eminentes e destacados Companheiros — na terminologia moderna, uma “comissão eleitoral”. Entre outros, Hazrat Uthman e Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) também faziam parte desse conselho. Em sua opinião, os seis eram pessoas qualificadas para o califado. Ordenou que, no prazo de três dias após seu falecimento, o conselho elegesse entre seus próprios membros a pessoa mais qualificada para ser califa. O conselho esforçou-se para cumprir devidamente sua responsabilidade e, para isso, recolheu as opiniões dos cidadãos muçulmanos próximos e distantes. Foram visitadas todas as casas de Medina, onde se perguntava a opinião não apenas dos homens, mas também das mulheres. Tampouco se deixou de consultar os comerciantes e viajantes que chegavam de lugares distantes. Assim, após recolher a opinião da maioria dos cidadãos muçulmanos e realizar consultas, Hazrat Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele) foi eleito para o cargo de terceiro califa.

(4) Após o martírio do terceiro califa, Hazrat Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele), o ambiente de Medina ficou obscurecido pela intensa sucessão de conflitos e desordens. Os rebeldes do Egito, de Kufa e de Basra provocaram grande tumulto em Medina. Naquele momento, a maioria dos principais Companheiros encontrava-se fora da capital, encarregada de responsabilidades militares e organizacionais. Nessas circunstâncias, após o martírio de Hazrat Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele), o cargo de califa permaneceu vago durante três dias consecutivos. Finalmente, depois de longas consultas, Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) foi eleito califa.

Esta análise prova que, embora não tenha sido seguido um mesmo método externo de nomeação e eleição dos Califas Rashidun (Forma de eleição), em todos os métodos a opinião pública foi reconhecida como base da eleição, e em nenhum caso foi ignorada. Na realidade, esta é a ideia fundamental do verdadeiro califado; e, para preservar os direitos do povo e estabelecer a ordem do Estado, é absolutamente indispensável aplicá-la em todas as épocas e circunstâncias. Além disso, desde que essa ideia fundamental seja preservada com o devido respeito e importância, pode-se adotar qualquer método externo para eleger o chefe de Estado. Pois, no Islam, a forma e a aparência externas não têm importância especial; ao contrário, nas questões nacionais e civilizacionais, a sua ideia fundamental é o único objetivo a ser considerado.

Características do Califado Rashidun

Quando se analisa, sob a perspectiva da filosofia da história, o sistema de governo durante os trinta anos do Califado Rashidun, as seguintes características atraem e maravilham toda a humanidade:

(1) Durante a época dos Califas Rashidun, o sagrado exemplo do Profeta Universal havia se transformado numa luminosa lâmpada, brilhante e imperecível, mantendo todo o ambiente iluminado com seus raios puros e ocultos. Sua profunda influência estava presente em cada ação e pensamento dos califas. Os quatro califas eram os favoritos, amigos e distintos colaboradores do Profeta Universal. Em comparação com os demais companheiros, foram eles que mais desfrutaram da companhia do Mensageiro. Eram homens fiéis, provados e consagrados ao propósito de Sua Santidade. Com exceção de Hadrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele), os outros três califas administraram o Califado mantendo sua capital em Medina, o segundo centro de atividades e o local do último repouso do Nobre Profeta (que a paz esteja com ele).

(2) No Califado Rashidun, não havia qualquer possibilidade de direito, sucessão ou preeminência baseada em linhagem, tribo ou família para nenhum califa. Os quatro califas provinham de três famílias distintas. Na realidade, eram eles os mais confiáveis entre todo o povo islâmico. Na sucessiva eleição deles, a essência fundamental da verdadeira representação popular não sofreu a menor diminuição; ao contrário, foi plenamente preservada. Mesmo que eleições gerais imparciais tivessem sido realizadas segundo o método moderno, não poderia haver dúvida de que somente eles teriam sido eleitos com a maior quantidade de votos.

(3) Durante o Califado Rashidun, a base da elaboração das leis era o Alcorão e a Sunna. Quando não se encontrava neles nenhuma instrução clara sobre determinado assunto, sua solução era buscada pelo método do ijtihad, levando em consideração a correspondência entre os exemplos práticos da época do Mensageiro e acontecimentos semelhantes; e, nesse assunto, era reconhecido a todo cidadão versado no Alcorão e no hadith o igual direito de expressar sua opinião. Quando se alcançava consenso sobre qualquer questão, adotava-se uma decisão unânime a seu respeito. Na terminologia da ciência do fiqh, isso é chamado ijma. Na sharia islâmica, trata-se de um princípio especialmente reconhecido por todos. Quando surgia divergência sobre algum assunto, o califa expressava livremente sua própria opinião com base no Alcorão e na Sunna e agia de acordo com ela.

(4) Na maioria dos assuntos, os Califas Rashidun consultavam os Companheiros responsáveis. Em questões gerais, eles eram nomeados, conforme a designação, como membros do Majlis al-Shura. Contudo, o direito de emitir opinião não era reservado apenas aos membros nomeados.

(5) Durante a época dos Califas Rashidun, não havia lugar para pompa, esplendor ou ostentação régia. A vida cotidiana dos califas era extremamente simples, como a dos cidadãos comuns. Eles caminhavam sozinhos pelas vias públicas; quanto a guarda-costas, não havia sequer um, nem mesmo um simples vigilante de nome. Qualquer pessoa podia comparecer livremente diante do califa. Suas casas e seus móveis e utensílios eram de um nível simples.

(6) Os Califas Rashidun consideravam o Bayt al-Mal, ou tesouro financeiro do Estado, um patrimônio nacional e um depósito confiado. Sem autorização estatal, ninguém podia gastar consigo sequer uma única moeda. Além disso, eles não gastavam nada do Bayt al-Mal com sua própria família ou parentes, valendo-se de sua autoridade e do cargo que ocupavam.

(7) Eles se consideravam servidores do povo. Em nenhuma circunstância se julgavam superiores às pessoas comuns. Não eram líderes do povo apenas no âmbito estatal; também lideravam devidamente, nas questões religiosas, a oração, o hajj e outras práticas semelhantes.

Durante a época do Califado Rashidun, a liderança dos assuntos religiosos e a autoridade sobre os assuntos estatais não estavam separadas nem divididas; ao contrário, ambos os tipos de liderança e autoridade estavam concentrados e harmonizados na pessoa de um único califa. Com efeito, assim como a separação entre religião e política e o dualismo entre as atividades religiosas e os assuntos de Estado são características da democracia ocidental moderna, do mesmo modo a união desses dois aspectos e sua completa orientação numa única direção constituíam a característica do Califado Rashidun.

 

A forma estatal do Califado Rashidun Rashidun

Depois que Hazrat Abu Bakr Siddiq (que Deus esteja satisfeito com ele) foi eleito califa, quando certa pessoa se dirigiu a ele dizendo — “Ó califa de Deus” —, ele imediatamente exclamou: “Eu não sou o califa de Deus; sou o califa do Mensageiro de Deus”.

Os historiadores consideraram esta declaração do califa uma prova irrefutável de sua incomparável humildade natural e de sua consciência da própria insignificância. Contudo, analisando-a sob a perspectiva da ciência política, torna-se evidente o profundo significado do “Califado”. Na verdade, esta declaração de Hazrat Abu Bakr expressa justamente a forma de Estado do Califado que havia despontado no coração dos muçulmanos nos primeiros tempos.

Antes e depois do Profeta Universal, Hazrat Muhammad (que a paz esteja com ele), centenas de anos se passaram no curso do tempo. Durante esse longo período, centenas e milhares de reis, imperadores e governantes de países surgiram e desapareceram do palco do mundo. A reivindicação dos contemporâneos e do povo em geral a respeito deles era que eram os sucessores de Deus sobre a Terra. Por essa razão, afirmava-se que possuíam uma honra, dignidade e santidade que ninguém mais poderia ter sobre a face da Terra. O orgulho e a arrogância dos reis e imperadores faraônicos do Egito tornaram-se fatos históricos. O Alcorão Sagrado também menciona a reivindicação de um faraó que declarou: ***** (em árabe) “Eu sou vosso senhor supremo e maior”. Desde a mais remota antiguidade até os tempos atuais, a maioria dos governantes de Estado vem demonstrando essa mesma mentalidade. Mesmo nos dias de hoje, exemplos disso não são de modo algum raros. Tudo o que faltava nesse aspecto, os sacerdotes e clérigos bajuladores de cada época não deixaram de completar, sem a menor falha. Eles transformaram reis, imperadores e governantes em objetos de veneração e adoração, ao longo dos tempos e em todos os países. O Egito, a Babilônia, a Pérsia, a Índia e muitos outros países encontravam-se nessa mesma situação. A maioria dos reis e imperadores desses países, bem como as pessoas investidas do mais alto poder, considerava-se, sobre a Terra, “representante de Deus” ou “sombra de Deus”. E o povo pobre e indefeso, seus súditos, também não deixava de lhes conceder semelhante dignidade.

Também na Europa medieval, os padres, seguindo as indicações e ordens dos reis e imperadores, não sentiam o menor constrangimento em conferir-lhes a mais elevada dignidade, proclamando-os grandiosos, dignos de honra e sagrados. Os padres propagavam que eles haviam recebido essa dignidade de Deus. Como resultado, seu poder tornava-se incontestável — muito acima de qualquer pergunta, objeção ou crítica e fora do alcance do povo; eram considerados “representantes diretos de Deus”. Cada palavra saída de seus lábios era tida como uma “revelação descida de Deus”. Suas ordens e proibições eram consideradas equivalentes às ordens e proibições diretas de Deus e, portanto, obrigatórias. Por isso, desobedecê-las, rejeitá-las ou demonstrar por elas o menor desprezo passou a ser considerado um pecado gravíssimo, algo na prática impossível. Essa situação prevaleceu até o século XV — e, entre algumas nações, até o século XVII. Embora a Europa daquele período tivesse alcançado grande progresso nas ciências, na civilização, na cultura e nas artes, a venda da fé cega que haviam colocado sobre seus olhos ainda não havia sido removida. Mais tarde, os pioneiros da liberdade individual e mental e da igualdade ergueram uma voz de veemente protesto contra esses costumes destruidores do ser humano e usurpadores da dignidade humana, fazendo estremecer céu e terra, e foram obrigados a se rebelar abertamente contra eles. Naturalmente, nessa campanha, milhares de pessoas também tiveram de sacrificar suas preciosíssimas vidas.

Essa ideia da santidade do cargo e da grande honra dos reis e imperadores permaneceu entre as nações do mundo durante centenas de anos. Não faz muito tempo que a Europa atual se libertou dessa concepção. É nesse contexto que deve ser considerada a humildade e a ausência de interesse pessoal contidas na breve declaração acima do primeiro califa, Hazrat Abu Bakr Siddiq (que Deus esteja satisfeito com ele). Quando alguém se dirigiu a ele chamando-o de “Khalifatullah” — califa de Deus ou representante de Deus —, ele recusou-se explicitamente a aceitar o título e disse: “Eu não sou o califa de Deus. Podeis chamar-me de califa do Mensageiro”.

A expressão “califa do Mensageiro” tampouco expressa qualquer ostentação ou poder pessoal, pompa e esplendor, superioridade ou grandeza, nem autoridade absoluta. Seu significado fundamental é apenas que ele se torna o sucessor ou representante do Nobre Mensageiro (que a paz esteja com ele) na liderança dos muçulmanos e na administração do Estado, permanecendo dentro dos limites e fronteiras determinados com base na lei de Deus. Entretanto, no que diz respeito às questões reservadas exclusivamente ao Mensageiro, não poderia haver qualquer questão de ele ser seu “sucessor”; tal pensamento ou conceito não encontra lugar nisso. A veracidade de suas palavras torna-se evidente em um trecho do primeiro discurso de princípios que proferiu após ser eleito primeiro califa. Esse trecho do discurso é o seguinte:

“É verdade que me foi confiada esta responsabilidade do Califado; mas não me considero minimamente digno de cumprir tão pesada responsabilidade. Juro por Deus! Meu desejo sincero era que outra pessoa dentre vós assumisse esta responsabilidade. Agora, se algum de vós pensa que também farei tudo aquilo que o Nobre Mensageiro (que a paz esteja com ele) fez, saiba que tal ideia ou esperança não tem fundamento. Não há dúvida de que o Nobre Mensageiro (que a paz esteja com ele) era servo de Deus. Mas, além disso, Deus, o Altíssimo, havia-o honrado com a dádiva da grandiosa profecia e da missão apostólica, e declarou-o livre e puro de toda espécie de pecado e falta”.

«Eu também sou servo de Allah. Mas não sou melhor do que qualquer um de vós. Mantende os olhos atentamente fixos em mim. Se virdes que sigo o caminho mostrado por Allah e pelo Seu Mensageiro, continuai a seguir-me também. Mas, se me virdes desviado e extraviado da ‘Sırat al-Mustaqim’, apontai o meu erro e conduzi-me ao caminho correto, verdadeiro e reto.»

Não é necessário dizer que, após o falecimento do nobre Mensageiro de Allah, Abu Bakr al-Siddiq não assumiu por iniciativa própria a liderança do povo muçulmano nem a responsabilidade de administrar a estrutura do Estado islâmico. Só se dedicou a essa tarefa depois de uma eleição pública, realizada num ambiente aberto e livre, e de obter a satisfação e o apoio do povo. Assim como Allah Todo-Poderoso, por Sua própria escolha e nomeação, fez de Muhammad um profeta e mensageiro, Abu Bakr al-Siddiq e os três califas que o sucederam não foram nomeados por Allah. Tampouco foram enviados por Allah. Sua superioridade e distinção ideais em relação às demais pessoas eram universalmente conhecidas e deviam ser reconhecidas; contudo, essa superioridade e distinção não foram declaradas por Allah. Em segundo lugar, eram apenas o resultado inevitável de sua taqwa, piedade e boas qualidades. Essa distinção tampouco foi adquirida por causa do califado, como o Mensageiro se distinguiu por causa da profecia e da missão apostólica. Na verdade, o cargo de califa é puramente temporal, não divino. Ele não conferia autoridade sobrenatural ou divina para emitir ordens e instruções; estas deviam basear-se na lei revelada por Allah e estar de acordo com os ensinamentos e as explicações apresentados pelo Mensageiro. Assim como eles não tinham qualquer direito de dar uma ordem contrária à lei de Allah ou incompatível com os ensinamentos e as explicações do Mensageiro, o povo muçulmano também não era de modo algum obrigado a obedecer a semelhante ordem. O primeiro califa esclareceu isso perfeitamente em seu primeiro discurso, dizendo:

Obedecei-me enquanto eu continuar obedecendo a Allah e ao Seu Mensageiro. Mas, se eu próprio desobedecer a Allah e ao Seu Mensageiro, não é vosso dever obedecer-me.

Os títulos dos califas posteriores

Após Abu Bakr, Umar al-Faruq foi nomeado califa. Contudo, ele próprio não consentiu em ser chamado de ‘Califa do Mensageiro’. Consultou-se o povo da sociedade sobre esse assunto. Por fim, ele concordou em ser tratado por ‘Amir al-Mu’minin’ — ‘líder e administrador do Estado do povo muçulmano’. Os dois califas seguintes também receberam esse tratamento. Eles não aceitaram ser chamados pela palavra ‘califa’ porque, se o tivessem feito, teriam de ser tratados como ‘Califa do Mensageiro’. Como resultado, na forma de se dirigir ao califa seguinte, essa palavra teria sido repetida três vezes ou mais, tornando-se extremamente estranha, desagradável ao ouvido, deselegante e absolutamente imprópria.

Havia ainda outra razão por trás da decisão de Umar de ser tratado pelo título ‘Amir al-Mu’minin’, em vez de receber o título ‘Califa do Mensageiro’. Quando Abu Bakr al-Siddiq dissera: ‘Não sou o califa de Allah, mas o califa do Mensageiro de Allah’, a palavra fora usada em seu sentido etimológico — ‘sucessor’ —, e fora claramente explicado ao povo que sua única posição de honra consistia em suceder o nobre Mensageiro no cumprimento das responsabilidades de Estado. Se, naquela ocasião, essa palavra tivesse sido usada em qualquer outro sentido além do etimológico, não haveria razão alguma para Umar concordar em usar a expressão ‘Amir al-Mu’minin’ em seu lugar.

Havia outra razão por trás da adoção do termo ‘Amir al-Mu’minin’. Naquela época, o sistema de governo islâmico havia provocado uma ampla revolução em toda a Península Arábica e em outras vastíssimas regiões. O movimento dessa revolução era tão intenso quanto amplo e abrangente. As pessoas de todo o mundo ficaram maravilhadas, atônitas e estupefatas ao contemplar seu aspecto. Contudo, o Livro de Allah e a Sunna do Mensageiro, nessa matéria, forneciam apenas alguns princípios fundamentais; não continham normas detalhadas e minuciosas. Naturalmente, o Alcorão declarou a shura — a adoção de consultas mútuas — como fundamento básico do sistema de governo e como método prático de atuação. Allah Todo-Poderoso disse ao nobre Mensageiro: «Ó Profeta, consulta o povo sobre todos os assuntos nacionais e estatais.» Ao explicar o modo de agir dos muçulmanos, também se diz em outro lugar: «Todos os seus assuntos nacionais e estatais são realizados com base na consulta mútua.»

Desse ponto de vista, cada califa do Califado Bem-Guiado tinha de realizar todos os assuntos importantes, nacionais e estatais, por meio de consultas mútuas, à luz e com base no Alcorão e na Sunna. Por isso, sua posição não diferia essencialmente da de um comandante militar. O comandante militar recebe da autoridade suprema todas as orientações e instruções fundamentais relativas aos assuntos de guerra. Contudo, durante a guerra, a condução das tropas (operação), as atividades no campo de batalha e tudo o mais têm de ser executados pelo próprio comandante, sob sua responsabilidade exclusiva. Também no Califado Bem-Guiado, todos os assuntos relacionados ao Estado e ao país tinham de ser realizados pelo próprio califa, de acordo com as circunstâncias do momento, dentro dos limites da sharia, mantendo diante de si o modelo do nobre Mensageiro e seguindo as consultas dos líderes idealistas do povo. Se o primeiro califa tivesse adotado determinada política à luz das circunstâncias então existentes, não havia obrigação alguma de que o segundo, o terceiro ou o quarto califa adotasse exatamente a mesma política, por mais que as condições, o ambiente e as circunstâncias tivessem mudado. Por essa razão, o segundo califa considerou apropriado adotar, em vez de títulos como ‘Califa do Mensageiro’, um título inteiramente novo e plenamente compatível com sua responsabilidade e posição: ‘Amir al-Mu’minin’.

O fato de que Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) criou, em pouquíssimo tempo durante seu califado, uma revolução em toda a Arábia torna-se claro ao olhar atento do observador: os campos da brandura, da suavidade e da capacidade de perdoar são diferentes dos da severidade e da inflexibilidade; e, se não se adotar severidade no lugar da severidade e inflexibilidade no campo da inflexibilidade, bem como brandura e flexibilidade no lugar da brandura e da flexibilidade, nenhuma tarefa em nível estatal ou nacional poderá ser realizada de maneira correta e adequada. Não foi apenas Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele): por trás do êxito e da extraordinária força dos três califas seguintes também estava esta profunda verdade, isto é, que eles eram plenamente capazes de tomar medidas corretas e precisas conforme as circunstâncias.

O sistema político da Arábia contemporânea

Na época do Mensageiro Nobre (que a paz esteja com ele), a Arábia havia-se convertido num campo de manifestações de inúmeras crenças religiosas. Suas partes norte e sul estavam completamente separadas uma da outra. Os habitantes de uma parte não tinham qualquer relação com o povo da outra. A situação geral dos habitantes de ambas as partes também não era de modo algum semelhante. O Iêmen estava sob o domínio dos persas. O cristianismo e a religião da idolatria existiam lado a lado naquela região. A língua hamyarita deles era inteiramente diferente da língua dos coraixitas. Além disso, o Iêmen fora, durante vários séculos, o berço da civilização e da cultura. Em contrapartida, os habitantes do Hijaz eram símbolos de selvageria e nomadismo. Nessa região, apenas Meca, Yathrib (Medina) e Taife eram dignas de ser chamadas de “cidades”. E, além de estarem situadas na vasta região do Hijaz, essas três cidades não tinham entre si qualquer relação ou semelhança. Naturalmente, havia relações de parentesco entre os habitantes das três cidades. Contudo, o sistema administrativo dessas três cidades baseava-se inteiramente no tribalismo e elas eram separadas umas das outras. Em Meca, juntamente com a força e a expansão da idolatria, também havia favorecimento ao cristianismo. Embora as tribos judaicas fossem aparentemente poderosas em Medina, os idólatras constituíam a maioria. Quando, nessa vasta Península Arábica, ressoou a mensagem do tawhid e Allah, o Altíssimo, desejou expandir o Din do Islã por toda a Arábia, Ele também completou as providências necessárias para isso. O Iêmen libertou-se da escravidão dos persas e, com isso, seu povo também se livrou completamente de toda influência e domínio estrangeiros. Após a conquista de Meca, o Islã começou a propagar-se rapidamente por toda a Arábia. Depois do Hijaz, o Islã também se espalhou pelas demais regiões árabes como uma inundação. Assim, em pouquíssimo tempo, toda a Península Arábica teve a honra de encontrar abrigo sob a sombra refrescante do Islã. Todos os habitantes dessa vasta região foram instruídos no mesmo ideal. Embora toda a Arábia se tivesse tornado unida e unificada na fé no Mensageiro Nobre (que a paz esteja com ele) e na aceitação do Din do Islã por ele propagado como um sistema integral de vida, cada tribo permanecia, em seu próprio território, plenamente independente e soberana. Naturalmente, todos os habitantes das regiões eram igualmente obrigados a enviar à capital, Medina, o zakat, um dos importantes “pilares” do Islã.

A unidade e a unicidade do Din e da religião serviram como fator de uma revolução no sistema estatal dos árabes. As tribos que viviam ao redor de Medina haviam celebrado tratados de aliança com o Mensageiro Nobre (que a paz esteja com ele). Quando ele partiu para a campanha da conquista de Meca, essas tribos juntaram-se à caravana conforme o tratado. Depois da conquista de Meca, as tribos dali aceitaram o Islã com entusiasmo. Em seguida, também manifestaram o desejo de participar das campanhas vitoriosas do Islã. Participaram devidamente das batalhas de Hunayn e Taife. Quando, desse modo, o Islã se expandiu em todas as direções, o Profeta Nobre (que a paz esteja com ele) nomeou pessoas e enviou-as por toda parte para ensinar o Alcorão Majid e os assuntos do Din aos membros das tribos árabes. Junto com o ensino do Alcorão Sagrado e do Din do Islã, também foi confiada aos funcionários a responsabilidade de recolher o zakat. Era perfeitamente natural que a revolução política em toda a região também surgisse sob o efeito dessa revolução religiosa criada em tão pouco tempo. Depois que toda a Arábia se tornou una e homogênea no aspecto religioso, era igualmente natural que, nos aspectos político e administrativo, se transformasse numa entidade e organização unificadas. Contudo, os beduínos árabes não tinham a menor familiaridade com esse tipo de revolução política. A ideia de que, após o desaparecimento do Mensageiro Nobre (que a paz esteja com ele), também teriam de prestar obediência de modo semelhante ao seu sucessor estava além de sua compreensão. Eles pensavam que os ensinamentos, o Din e o ideal apresentados pelo Mensageiro Nobre (que a paz esteja com ele) já estavam firmemente arraigados em sua mente, coração e vida. Continuariam, certamente, a cumprir o sistema integral do Islã. Apesar disso, no aspecto político, seriam completamente independentes. Cada tribo continuaria, como antes, totalmente livre e sem vínculos, isenta de qualquer espécie de influência do Estado e do governo externos.

De fato, a base das revoltas cujas bandeiras foram erguidas em várias partes da Península Arábica após o desaparecimento do Mensageiro Nobre (que a paz esteja com ele) foi justamente a força dessa atitude inflexível de independência e liberdade. Essa era a situação da maioria das tribos árabes. Contudo, o primeiro califa, Hazrat Abu Bakr Siddiq (que Allah esteja satisfeito com ele), desejava que não se permitisse a mínima alteração na condição em que as tribos árabes haviam ficado sob o Estado Islâmico durante a vida do Mensageiro Nobre (que a paz esteja com ele). As tribos árabes, porém, esperavam de todo o coração recuperar a liberdade política que haviam perdido. Fortalecido pelo poder de sua fé sincera, Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) permaneceu firme em sua resolução. Seu desejo sincero era que cada muçulmano cumprisse sua própria responsabilidade e que todos seguissem plenamente o ideal de unidade e solidariedade apresentado pelo Islã. Ele declarou claramente que os bens enviados a Medina, durante a vida do Mensageiro, como zakat, ushr e kharaj, teriam necessariamente de continuar sendo pagos. Mas as tribos árabes não conseguiam preparar-se para isso. Começaram a dizer abertamente que a situação relativa ao Mensageiro Nobre (que a paz esteja com ele) era completamente diferente. Ele era o Mensageiro de Allah. A revelação descia sobre ele. Era dever de todo muçulmano reconhecer sua obediência plena. Mas agora a situação havia mudado. Por isso, também era necessário modificar o sistema estatal. Contudo, esse pensamento e essa mentalidade de modo algum favoreciam a formação de uma organização estatal islâmica. Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) eliminou com grande força essa mentalidade anárquica. O método profundamente prudente e sensato que adotou nessa fase fez com que toda a Arábia se organizasse e se consolidasse sob uma única organização estatal. Ele uniu todas as tribos nas questões de governar o país, administrar o Estado e conduzir a guerra e a paz. Instituiu o princípio de consultar pessoas de todos os níveis em assuntos importantes. Como resultado, todas as tribos começaram a considerar-se participantes iguais na administração do Estado Islâmico. Cada indivíduo e cada tribo, ao receber igual importância, dignidade e direitos em todos os aspectos, entregou-se à obediência à organização estatal com enorme entusiasmo e empenho. O califa era a pessoa central dessa obediência. Não restava entre eles qualquer divergência quanto ao fato de ser absolutamente obrigatório cumprir todas as suas ordens e proibições.

A forma estatal do Califado

Qual é a identidade ideológica do sistema estatal islâmico? Que tipo de sistema de governo é ele? Seria uma teocracia pura, na qual uma pessoa temente a Allah ou uma classe sacerdotal dirige os assuntos do governo? Ou, segundo a terminologia moderna, seria um governo democrático ou autocrático? Ou seria uma espécie de monarquia? Essa questão chegou a confundir muitos pensadores de nossa época. Contudo, aqueles que possuem sequer um conhecimento elementar de história e ciência política não podem ficar nem um pouco perturbados por esse tipo de pergunta. Pois não é necessário possuir erudição especial para compreender que o Califado não é, de modo algum, um sistema de governo papista ou teocrático. Não se encontrará a mais remota relação nem a menor semelhança entre o sistema de governo do Califado e os sistemas governados no passado e no presente pelos faraós da Antiguidade ou pelos reis e monarcas do mundo, incluindo a Europa moderna. Tampouco se pode chamar o Califado de um sistema estatal democrático moderno — embora nele estivessem plenamente em vigor os valores universais, os direitos do povo e as oportunidades e facilidades da liberdade individual, coisas que não se encontram nas democracias irreligiosas do Ocidente.

Nenhum califa jamais alegou ter sido nomeado por Allah, possuir uma relação especial com Allah ou receber diretamente d’Ele alguma norma ou revelação. Eles consideravam absolutamente ilícita a apresentação de tal alegação. Pois, na realidade, ela era completamente infundada. Com a morte do Mensageiro Nobre (que a paz esteja com ele), o fluxo da revelação foi encerrado para sempre. Depois disso, restaram aos seres humanos do mundo apenas duas bases para conduzir a vida, a sociedade e o Estado: uma é o Livro de Allah e a segunda é a Sunna do Mensageiro. Allah, o Altíssimo, revelou o Nobre Alcorão por meio do último Profeta como um código abrangente e completo para toda a humanidade. E o Mensageiro Nobre (que a paz esteja com ele) concretizou essa norma de Allah por meio de suas atividades diárias. Segundo o Alcorão, as ações do Mensageiro Nobre (que a paz esteja com ele) são a explicação prática do próprio Alcorão. Essa explicação é eterna e deve ser seguida para sempre, tal como o Alcorão. O califa ou governante do Estado é obrigado a seguir essas duas normas. Ninguém tem o direito de transgredir nem por um ponto os limites por elas estabelecidos. O povo comum é obrigado a obedecer ao governante do Estado somente porque essa obediência não se deve às qualidades ou aos direitos pessoais do governante. Ninguém é obrigado a obedecer a alguém por causa de suas qualidades, posição ou direitos pessoais. Se ele governar o Estado de acordo com a norma de Allah e a Sunna do Mensageiro — elaborando e fazendo cumprir as leis —, todos são obrigados a obedecer-lhe somente por isso. Pois essa obediência é, em essência, obediência a Allah, mediante o cumprimento da norma de Allah. Convém recordar, a propósito, que ninguém possui o direito exclusivo de interpretar a norma de Allah e a Sunna do Mensageiro — nem mesmo o califa. Qualquer pessoa versada no Alcorão e na Sunna tem o direito de interpretá-las. Não se pode aceitar uma interpretação do califa que até hoje não tenha sido reconhecida por nenhum outro especialista. Portanto, é de modo algum possível ao governante de um Estado islâmico impor uma norma inventada por ele próprio em nome do Alcorão e da Sunna. Pois ninguém é capaz de ocultar sua inconsistência e falta de fundamento. Ninguém é obrigado a cumprir uma ordem do califa contrária ao Alcorão e à Sunna. Foi precisamente isso que foi proclamado em voz alta nos discursos anteriormente citados de Abu Bakr, o Verídico (que Allah esteja satisfeito com ele). Os califas posteriores também repetiram muitas vezes essa mesma ideia, cada um em suas próprias palavras.

Esse código de conduta e método de governo estatal determinado pelo Islã não é papismo; tampouco é democracia, monarquia ou autocracia. Pois, no papismo, padres e sacerdotes impõem seu governo inventado em nome de Allah. Ninguém mais tem o direito de fazer qualquer comentário a esse respeito. Na monarquia e na autocracia, o povo é obrigado a permanecer completamente privado de todos os direitos humanos e fundamentais. Já na chamada democracia, graças à força da maioria, prevalece a arbitrariedade extrema dos líderes partidários, das pessoas influentes do partido ou de um pequeno grupo de usurpadores do poder. No Califado islâmico, governantes e governados, califa e povo, são igualmente obrigados a seguir a norma de Allah e a Sunna do Mensageiro; na verdade, aquele que mais se adianta aos demais no cumprimento dessa obediência torna-se o califa desse Estado. Depois de ser nomeado para o cargo de califa, ninguém pode aplicar sequer as normas do Alcorão e da Sunna conforme sua própria vontade. Por isso, é obrigado a consultar os especialistas no Alcorão e na Sunna. No papismo, porém, os clérigos são os donos do poder absoluto. Não são obrigados a consultar ninguém sobre assunto algum. Ninguém pode questionar qualquer decisão deles; ao contrário, criticar negativamente suas atividades tem como consequência nada além de uma morte acidental. Ali, o povo comum é obrigado a viver a vida do mais desprezível dos escravos. No Califado islâmico, em contrapartida, toda pessoa é livre. Ali, não apenas é concedido o direito de criticar, como isso também foi declarado um dever religioso de cada cidadão.

Deve-se recordar que o Alcorão e a Sunna são, de fato, a base do Califado islâmico; contudo, neles foram apresentados somente os princípios fundamentais. Deliberadamente, evitou-se mencionar questões detalhadas e minuciosas. Mesmo quando algo desse tipo foi mencionado em algum lugar, isso ocorreu apenas porque era indispensável. Se não tivesse sido mencionado, a implementação do Alcorão e da Sunna não teria sido possível. Todos os assuntos do Califado islâmico são conduzidos adequadamente com base nesses princípios fundamentais. Determinar, com base nesses princípios, as questões detalhadas e minuciosas é responsabilidade de todo o povo, e ninguém possui direito exclusivo nesse assunto. Na realidade, foi precisamente por essa razão que o ideal islâmico de vida e de Estado pôde alcançar um valor eterno e perene.

Os princípios fundamentais estabelecidos pelo Alcorão e pela Sunna são atemporais. Em todas as épocas, em todas as circunstâncias e em todos os países, não apenas é possível formar uma sociedade humana ideal com base neles, como isso é também um dever obrigatório. Sem esses princípios, o sonho de construir uma sociedade ideal jamais poderá ser realizado. Enquanto os muçulmanos formaram o indivíduo e a sociedade com base nesses princípios e os seguiram na prática, a história é a prova irrefutável de que avançaram gradualmente, passo a passo, rumo ao progresso. Mas, assim que esses princípios foram abandonados nos níveis individual e nacional, e começaram a seguir princípios e ideais contrários a eles, sua queda teve início. A situação real dos muçulmanos no mundo atual é uma testemunha viva disso.

Se o direito exclusivo de interpretar o Livro de Allah e a Sunna do Mensageiro fosse concedido a uma classe específica, o sistema estatal islâmico também se tornaria “teocrático ou sacerdotal”; contudo, é de conhecimento geral que não existe sacerdotalismo no Islã, nem é reconhecida nele qualquer autoridade exclusiva de uma classe específica. Aqui, cada pessoa, de acordo com sua própria capacidade, tem o direito de estudar o Alcorão e a Sunna, refletir e pesquisar, ponderar e julgar, e chegar a resultados e conclusões. Nesse assunto, todos, sem distinção, possuem direitos iguais. Não somente isso: o povo em geral também recebeu instruções claras para exercer esse direito. Portanto, é desnecessário dizer que não existe entre ele e o papismo a mais remota relação ou semelhança.

No Califado Islâmico, foi concedido a todo cidadão o direito de criticar publicamente as autoridades governamentais. Foi declarado dever de cada cidadão manter uma vigilância atenta sobre suas ações e, caso viesse a perceber qualquer erro ou desvio à luz do Alcorão e da Sunnah, protestar imediatamente contra ele e adotar medidas práticas para corrigi-lo. Nesse sistema de governo, os dirigentes do Estado não podem elaborar leis especiais para si mesmos nem obter a oportunidade de usufruir direitos especiais. Durante o Califado Rashidun, em consequência da observância rigorosa das normas do Alcorão e da Sunnah, a sociedade islâmica permaneceu inteiramente livre e purificada de toda essa espécie de práticas indesejáveis e vergonhosas. Naquela época, a liderança e a autoridade nacional e estatal, bem como todos os recursos financeiros, eram uma grande amanah. A convicção de que até mesmo a menor traição dessa amanah acarretaria um castigo severo no Dia da Ressurreição estava firmemente arraigada no coração de todos, como aço.

Os quatro califas do Califado Rashidun preservaram com extremo cuidado as amanah confiadas pela nação e pelo Estado, asseguraram sua correta distribuição e aplicação e ofereceram exemplos concretos de dedicação irrepreensível, sinceridade absoluta, altruísmo e elevado nível de taqwa e piedade. Embora, aos olhos das pessoas de hoje, isso possa parecer fantasioso, anormal e inimaginável, essa era a realidade do Califado Rashidun. Na verdade, o califado e a liderança não puderam produzir a menor deformação em sua mente e caráter; pelo contrário, elevaram ainda mais o nível e a intensidade de sua taqwa em comparação com o passado. A ideia de obter benefícios ilícitos dos bens do povo, abusar do poder ou conceder privilégios especiais à própria linhagem e aos parentes jamais encontrou lugar, nem por um instante, em suas mentes. Desde o momento em que lhes foi confiada a difícil responsabilidade do califado, esqueceram completamente a própria pessoa e a família, e dedicaram todas as suas forças à preservação da dignidade da religião de Allah e ao cumprimento adequado dos assuntos estatais e nacionais. Estabelecer a justiça e a equidade perfeitas em todos os campos e em todos os assuntos era o objetivo supremo de suas ocupações. Nada lhes era mais querido do que ajudar os fracos e necessitados.

Onde existe um sistema de Estado dessa natureza, não pode haver sequer vestígio de despotismo, opressão ou tirania. O Estado cujos dirigentes e funcionários responsáveis não se consideram superiores ao povo comum, mas servidores de toda a população, não pode ser chamado nem de papismo nem de autocracia. Tampouco se pode encontrar qualquer semelhança entre ele e o caráter dos chamados Estados democráticos dos tempos modernos. É verdade que, naquela época, os quatro califas não foram eleitos, como hoje, com base no sufrágio universal adulto (Adult suffrage). Nas circunstâncias instáveis e turbulentas em que cada um deles foi elevado ao cargo de califa, nem sequer era possível imaginar uma eleição desse tipo. Ainda assim, não há a menor dúvida de que eles eram as pessoas que gozavam da maior confiança na sociedade daquele tempo e de que teriam sido eleitos caso uma eleição desse tipo tivesse sido realizada. Em geral, participavam da eleição do califa os membros das tribos dos Muhajirun e dos Ansar. Dadas as circunstâncias então prevalecentes na Arábia, não se considerava necessário consultar, sobre esse assunto, os membros das demais tribos; contudo, essa eleição também não era resultado de conspirações tribais secretas. Os Ansar e os Muhajirun eram, na prática, representantes da população muçulmana de quase todas as tribos da Arábia daquela época. A opinião deles era, em termos gerais, a opinião de toda a população muçulmana árabe. Após o desaparecimento repentino do Mensageiro de Allah ou de cada um dos califas posteriores, surgiu um vazio; diante da nação muçulmana, o preenchimento imediato desse vazio, por meio da eleição de cada califa, nas urgentes circunstâncias daquele tempo, tornou-se uma tarefa indispensável e da máxima urgência.

Apesar disso, cada califa governou o Estado somente após consultar as pessoas de confiança da sociedade. Em questões importantes para a nação e o Estado, nenhum deles tomou qualquer medida com base unicamente em sua própria opinião sem fundamento. O parentesco ou a nobreza de linhagem não podia constituir fator algum nas eleições dos califas. Nenhum deles se candidatou a esse cargo. Nenhum deles se empenhou em campanha para conquistar a opinião pública com o objetivo de ser nomeado para essa posição; ao contrário, cada um se esforçou para que, em seu lugar, fosse eleita outra pessoa mais qualificada. As conversas ocorridas durante a eleição do primeiro califa merecem permanecer para sempre brilhantes nas páginas da história. Embora, no início da eleição de alguns califas, tenha surgido certa divergência de opiniões, posteriormente não restou qualquer sinal dessa divergência ou oposição; pelo contrário, todos aceitaram a eleição de coração e cooperaram sinceramente com o califa eleito. Essa característica do princípio eleitoral islâmico é incomparável. Nessa sociedade, não existiam governo permanente e partido permanente de oposição. Todos eram conjuntamente apoiadores e colaboradores da justiça e da verdade, e todos se opunham e protestavam contra a injustiça e as políticas errôneas. Quanto à grande importância que os califas reconheciam na consulta mútua para a defesa dos direitos do povo e do bem-estar do Estado, isso se torna claro pelas palavras abaixo, extraídas do discurso inicial do primeiro califa:

Fui nomeado governante de vocês, mas não sou melhor do que vocês. Se eu seguir o caminho da justiça, então me obedeçam e sigam. Porém, se eu me desviar do caminho da justiça e começar a seguir o caminho da injustiça, corrijam-me e conduzam-me ao caminho correto. Enquanto eu obedecer a Allah e a Seu Mensageiro, vocês também deverão obedecer-me; mas, se eu desobedecer a Allah e a Seu Mensageiro, então não é dever de vocês obedecer-me.

Pode-se encontrar, em algum dos chamados Estados da atual era democrática, um exemplo dessa relação profunda e estreita entre o governante e o povo e desse reconhecimento generoso e elevado do direito de orientar e criticar o governante? Todo o período de governo do Califado Rashidun foi, para usar a linguagem moderna, nada menos que uma época de estado de emergência (Emergency Period). Entretanto, durante todo esse longo período, os direitos fundamentais do povo jamais foram usurpados. O sistema de shura — a consulta — permaneceu sempre funcionando de maneira adequada. A base do califado — o Alcorão e a Sunnah — não concedia a ninguém, em circunstância alguma, o direito de dissolver a shura, o parlamento, e tomar para si poderes especiais (Special power).

Aos olhos dos califas, todos os muçulmanos tinham direitos e dignidade iguais; ninguém podia obter predominância ou prioridade sobre os demais por causa de sua posição ou status material. A respeito dos antigos apóstatas, o primeiro califa havia inicialmente emitido a ordem de que não lhes fosse permitido participar das expedições militares, pois ainda não se havia alcançado plena confiança e tranquilidade quanto a eles. Porém, assim que as dúvidas e suspeitas a seu respeito foram dissipadas, permitiu-se que se incorporassem às forças islâmicas dos mujahidin. Foi dada a Hazrat Umar Faruq (que Allah esteja satisfeito com ele) a ordem de empregá-los na campanha contra o Irã. Isso não é senão um exemplo brilhante da perspectiva liberal, orientada por princípios e livre de hostilidade do Califado Rashidun.

A unidade política da Arábia

O primeiro califa, Hazrat Abu Bakr Siddiq (que Allah esteja satisfeito com ele), com sua prudência e visão de futuro, além de outras qualidades, fortaleceu os fundamentos do sistema estatal islâmico. Como resultado, tornou-se muito fácil para os califas posteriores construir, sobre essa base, um vasto edifício estatal e transformar toda a Península Arábica em uma única unidade política (Unit). A política de perdão, tolerância, sacrifício e abnegação de Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) facilitou o caminho para a unificação de toda a Península Arábica. Depois de ser apaziguada a desordem temporária dos primeiros tempos, os rebeldes e criminosos obtiveram dele o perdão e, sinceramente, reconheceram a obediência ao Califado. O sistema da shura fortaleceu e consolidou ainda mais a unidade e a coesão políticas de todo o país. Foi precisamente isso que tornou mais fáceis as conquistas do Iraque e da Síria.

A mentalidade, a consciência e a capacidade de reflexão do povo árabe daquela época eram favoráveis a um sistema estatal baseado na shura e nos direitos populares. O surgimento e a manifestação do Islã ocorreram na Arábia. A Sharia islâmica — o Alcorão e a Sunnah — estava registrada em língua árabe. O último Mensageiro foi enviado à Arábia. As tribos árabes, fossem beduínas ou urbanas, ansiavam intensamente pela liberdade e pelo autogoverno. Nada lhes era mais querido e atraente do que isso. Entre os habitantes do deserto, o espírito de igualdade e equidade estava completamente difundido. A educação e a formação islâmicas deram a esse espírito maior clareza e maturidade, pois o Islã apresentou o ideal completo da verdadeira igualdade e equidade. O Nobre Alcorão proclamou em voz elevada a mensagem dessa igualdade e equidade. Segundo a declaração corânica, não é a nobreza de linhagem nem a abundância e a riqueza dos bens que constituem o critério de dignidade e honra; é o temor a Allah (taqwa) e a observância da religião de Allah. Na época atual, em toda parte se ouvem aclamações em favor da democracia. Contudo, os verdadeiros valores e ideais humanos manifestaram-se com esplendor justamente na época do Califado Bem-Guiado. Humanidade, fraternidade, amor e afeição, liberdade e igualdade são proclamados em voz inflada pelas democracias atuais. Mas sua verdadeira realização pode ser observada em todos os campos somente na época do Califado Bem-Guiado. Os ensinamentos sagrados do Islã transformaram cada crente em um irmão sincero do outro crente e em alguém verdadeiramente empenhado em seu bem-estar. A declaração do Nobre Mensageiro (que a paz esteja com ele) — de que ninguém pode ser verdadeiramente crente enquanto não desejar para seu irmão aquilo que deseja para si mesmo — não era uma simples voz sem valor. Era uma declaração histórica em defesa dos direitos humanos. Nenhum Estado pode adquirir um caráter verdadeiramente orientado ao bem-estar público sem concretizar essa declaração profunda e sensata; e, enquanto não aceitar essa declaração como uma tocha luminosa e não formar o povo comum como pessoas empenhadas no bem-estar e compassivas umas com as outras, será impossível a qualquer Estado voltado ao bem-estar geral alcançar sequer o menor sucesso. Na realidade, é precisamente esse princípio que está na raiz do fracasso extremo e ridículo dos atuais Estados democráticos e do pleno êxito do Califado Bem-Guiado. É desnecessário dizer que foi com base nessas preciosas palavras do Nobre Mensageiro (que a paz esteja com ele) que Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) pôde erguer o grandioso edifício do Estado islâmico. E foi por governarem o Estado mediante a plena observância dessas palavras, conduzindo o grande sistema do Califado Bem-Guiado, completamente oposto à filosofia estatal do mundo contemporâneo, que os três califas seguintes puderam maravilhar e fascinar o mundo inteiro.

A força intrínseca da política estatal islâmica

O sistema estatal do Califado Bem-Guiado não permaneceu limitado ao território chamado Península Arábica. Ultrapassando os limites desse território, em pouquíssimo tempo ele se expandiu e se estendeu, como uma inundação que rompeu as barragens, até regiões distantes em todas as direções. Mas a expansão de um Estado árabe por vastas áreas não árabes foi simplesmente o resultado de algumas campanhas militares? Essa é uma questão complexa da história. É absolutamente necessário analisar a resposta a essa questão.

Na realidade, o Islã surgiu no mundo portando uma mensagem revolucionária universal. A ampla divulgação e expansão dessa mensagem, e a formação de uma opinião pública silenciosa favorável a ela, criaram a admirável história do triunfo do Islã e de país após país buscar abrigo sob sua bandeira. Essas vitórias podem ser comparadas a colher de um só golpe um fruto maduro ainda preso ao ramo, ou a cortar o cordão umbilical de uma criança recém-nascida. O idealismo islâmico preparou primeiro o terreno, abriu o caminho e, por fim, removeu todos os obstáculos e impedimentos à criação da revolução islâmica. Foi assim que os muçulmanos puderam construir o Estado islâmico sobre bases sólidas em vastas regiões do mundo.

Para ninguém familiarizado com o período inicial da história islâmica pode permanecer oculto que o sucesso dos mujahidin do Islã não foi algo temporário ou acidental. Essa vitória foi uma parte inseparável de uma longa continuidade no curso dos acontecimentos. Na verdade, a revolução que o Islã criou no mundo era inevitável, pois o próprio ideal fundamental do Islã continha o vapor ardente da revolução. A explosão dessa força invencível era algo inteiramente natural.

A crença fundamental do Islã — não reconhecemos nem tememos ninguém além de Allah, não nos curvamos nem um pouco diante de qualquer outro, e o Nobre Mensageiro (que a paz esteja com ele) é o Mensageiro enviado por Allah e nosso único guia — foi essa convicção firme que concedeu ao Islã sua força conquistadora do mundo. Foi justamente essa firmeza da crença que transformou o povo comum em revolucionário. Na realidade, a liberdade da mente e do espírito é uma grande contribuição do Islã. Ao mesmo tempo, qualquer tipo de coerção em matéria de religião e ideologia era totalmente contrário à política do Califado Bem-Guiado. É verdade que todas as pessoas do mundo foram convidadas a aceitar o Islã; porém, o Islã não obriga ninguém a mudar sua crença religiosa. O Islã também espera firmemente que as pessoas reflitam seriamente sobre seu ideal, comparem-no e estudem-no em relação às outras religiões e ideologias do mundo e reconheçam imparcialmente suas características. Pois o Islã não tem dúvida de que, depois disso, ninguém poderá deixar de aceitá-lo. Na realidade, o Islã é um sistema de vida completo, inteiramente compatível com a natureza humana. O Islã não tem dúvida de que a razão e o bom senso sãos só podem aceitar o próprio Islã como um ideal de vida completo.

Esta mensagem revolucionária do Islã sobre libertação e liberdade apresentou-se como um grande desafio para as demais religiões e ideologias do mundo. Pois é uma verdade comprovada da pregação e do movimento islâmicos que, se for concedida liberdade para adotar crenças e convicções e princípios de ação, o modelo correto e completo do Islã atrairá intensamente pessoas de todas as classes, e elas abandonarão espontaneamente suas religiões e ideologias equivocadas. Depois disso, a morte inglória das demais religiões e ideologias do mundo será incontestável. A única razão por trás dos obstáculos criados em diversos países do mundo à divulgação do modelo completo do Islã é precisamente essa.

O ideal revolucionário de liberdade de consciência (Freedom of mind) que o Islã apresentou ao mundo foi plenamente aplicado e concretizado durante o Califado Rashidun. Nesse período, muitos países foram conquistados e numerosas regiões aceitaram a soberania do Islã; contudo, ninguém foi obrigado à força a abandonar sua religião. Ninguém foi sequer seduzido para fazê-lo. Quem aceitou o Islã voluntária e entusiasticamente recebeu, como todos os outros muçulmanos, igual dignidade e direitos. Por outro lado, àquele que desejava permanecer fiel à sua religião e ideologia anteriores também foi concedido pleno direito de assim permanecer. O Califado Islâmico assumiu plena responsabilidade para que pudesse viver praticando sua própria religião e, ao mesmo tempo, desfrutando da segurança de seus bens, honra e vida. Em contrapartida, foi cobrado deles um imposto especial, conforme suas possibilidades. Esse imposto não era de modo algum uma multa. Tratava-se de uma contribuição especial destinada às medidas que o Estado precisava adotar para garantir sua segurança geral. Em terminologia árabe, ele é chamado de jizya. Essa palavra significa compensação ou contrapartida. Na realidade, era apenas o valor da contrapartida pelas medidas tomadas pelo Califado para garantir a segurança de sua religião, bens, honra e vida. Onde o Califado se mostrou incapaz de cumprir a responsabilidade de garantir essa segurança, não apenas a cobrança foi suspensa, como também os impostos anteriormente arrecadados foram devolvidos. Isso está claramente registrado, em letras douradas, nas páginas da história islâmica.

O fundamento deste sistema estatal, estabelecido pelas mãos de pessoas que criam no Profeta Universal Muhammad (que a paz esteja com ele) e lhe devotavam suas vidas, assentava-se nos elevados princípios e ideais da liberdade individual, dos direitos humanos fundamentais, da igualdade sem distinção e do amor e afeição fraternais. Era um sistema estatal inteiramente oposto à monarquia romana. Por outro lado, até mesmo o mais moderno dos chamados sistemas estatais democráticos é, comparado a ele, extremamente pobre e inferior sob o ponto de vista do bem-estar humano geral. Na realidade, transformar os não árabes em subordinados e súditos dos árabes não era objetivo algum do Califado Rashidun. Tampouco seu propósito era libertar os árabes da pior escravidão dos romanos e persas da época para aprisioná-los nos grilhões da escravidão; pelo contrário, seu objetivo supremo, ao concentrar todos os seus esforços, empenho, devoção e luta, era libertar plenamente o ser humano de toda escravidão humana e material, oferecer-lhe oportunidade ampla, generosa e aberta de viver e desenvolver-se em um ambiente de completa liberdade, segundo as sublimes normas do Islã, reconhecendo a servidão ao único Criador e a liderança do Mensageiro. Seu único meio era a fé sincera no sublime ideal do Islã e a união pelos laços da profunda fraternidade e do amor e afeição genuínos entre todos. Durante o Califado Rashidun, não havia distinção de classe entre vencedores e vencidos. Pessoas de todas as classes, níveis e condições eram plenamente agraciadas com iguais direitos e dignidade. Não havia entre elas diferença ou desigualdade com base na língua, na tribo ou na região. Nem sequer se permitiu qualquer distinção entre os não muçulmanos do Iraque e da Síria e os cristãos de Najran e de outras regiões da Arábia. Os muçulmanos de fato pregavam o Islã entre eles; apesar disso, àqueles que desejavam permanecer firmes em sua religião ancestral foi concedida plena liberdade para assim permanecer. Durante o Califado Rashidun, as duas declarações do Alcorão abaixo citadas sobre a adoção da religião eram plenamente aplicadas:

******(árabe)

Não há lugar para qualquer coerção ou imposição em matéria de religião e fé.

Quem aceita a orientação, dela se beneficia por si mesmo. E quem deseja permanecer desviado terá de suportar ele próprio seu dano e sua desventura. Ó Mensageiro, diga às pessoas: minha tarefa é apenas transmitir a vocês a mensagem da verdade; aceitá-la ou não é responsabilidade de vocês mesmos. Não me cabe responsabilidade alguma por sua orientação ou por seu desvio.

 

A administração interna do Califado Rashidun

No sistema estatal do Califado Rashidun, a plena implementação da sociedade, civilização, cultura e modo de vida islâmicos havia sido concluída. Era, ao mesmo tempo, o único Estado regulador baseado na religião e do desenvolvimento material. Seu fundamento estava assentado na religião do Islã, e seu único objetivo em todos os esforços e empreendimentos era promover o bem-estar integral da humanidade, de acordo com os princípios irrefutáveis do Alcorão e a Sunna do nobre Mensageiro (que a paz esteja com ele).

Durante o período do Califado Rashidun, todas as leis e normas eram elaboradas de acordo com o Nobre Alcorão e a Sunna do Mensageiro. Quando os califas rashidun se deparavam com algum problema ou questão cuja solução direta não podiam encontrar no Alcorão e no hadith, resolviam-na da melhor maneira, tendo diante dos olhos os brilhantes exemplos das ações do Nobre Profeta, e não permitiam, sob aspecto algum, que os princípios fundamentais do Alcorão e da Sunna do Mensageiro fossem transgredidos.

De acordo com os princípios fundamentais do Islã, toda a ummah muçulmana era obrigada a reconhecer e obedecer aos califas. Ao mesmo tempo, porém, este princípio era amplamente reconhecido: não se podia obedecer a nenhum califa ou autoridade estatal quando isso implicasse contrariar as ordens e normas de Allah e do Mensageiro. No que dizia respeito ao direito de formular, a partir das fontes fundamentais do Alcorão e do hadith, as leis minuciosas da vida prática e cotidiana, não se reconhecia ao califa qualquer autoridade, distinção ou precedência. Em muitos casos, pelo contrário, o califa consultava outros companheiros, pedindo-lhes pareceres ou conselhos fundamentados no Alcorão e no hadith. Também havia pleno direito de discordar dos califas nesse assunto. Mais que isso, o direito geral de apontar os erros e equívocos dos pareceres dos califas e de criticá-los publicamente era plenamente reconhecido.

O califa era eleito de acordo com a opinião ou o consentimento espontâneo do povo. Tomar o cargo de califa pela força ou segundo uma sucessão hereditária não era apenas contrário ao sistema estatal islâmico; à luz da lei islâmica, era também um grave crime. Entre os califas rashidun não existiam o esplendor e a pompa da monarquia, nem qualquer forma de autocracia ditatorial. Eles se consideravam iguais aos cidadãos. Fora a função do califado, não havia sequer a mínima diferença entre eles e o povo em geral. Funcionários do governo e cidadãos tinham livre acesso à corte do califa, sem qualquer possibilidade de impedimento nesse aspecto. Por isso, era extremamente fácil para eles conhecer diretamente a situação geral do povo, suas necessidades e queixas, e remediá-las sem qualquer demora. Por essa razão, pode-se proclamar em alta voz que o Califado Rashidun foi o primeiro e único Estado na história mundial em que os verdadeiros direitos populares foram plenamente preservados.

Poder Judiciário

Durante o período dos califas rashidun, garantir a justiça entre as duas partes em conflito era considerado uma das responsabilidades do califa. Por isso, no início, eles próprios realizavam quase todos os atos judiciais. Para as regiões distantes, naturalmente, nomeavam representantes em seu nome. Durante o governo do primeiro califa, o próprio governador nomeado para cada cidade desempenhava as funções judiciais. Contudo, durante o seu califado, o segundo califa tornou o Poder Judiciário completamente independente e autônomo. Por isso, em cada cidade foram nomeados juízes ou cádis com posição própria e distinta. O Poder Judiciário era inteiramente independente da autoridade da administração e gozava de status autônomo. Os juízes eram completamente livres para proferir sentenças. O califa lhes dava a seguinte instrução: qualquer sentença que proferissem deveria basear-se integralmente no Alcorão e na Sunna do Mensageiro; ela não deveria, sob aspecto algum, violá-los. O governador da região em questão não podia exercer qualquer influência ou autoridade sobre o juiz. O cádi ou juiz era nomeado diretamente pela autoridade do califa. Muitas vezes também se concedia ao governador da cidade correspondente o poder de nomear o juiz; fora isso, porém, observavam-se cuidados especiais na nomeação dos juízes. Encontra-se uma prova concreta disso no trecho abaixo transcrito de uma carta de nomeação emitida pelo quarto califa: “Nomeai, para resolver os processos e litígios do povo, pessoas honradas cujas sentenças sejam aceitas pelo povo de coração aberto, sem que ninguém ouse ou veja necessidade de protestar contra elas. Que sejam puras de toda cobiça, paixão e inveja. Que não se deixem intimidar nem influenciar pelo status especial de ninguém. Em todos os assuntos, devem possuir profunda e sutil capacidade de discernimento, além de agudeza de espírito. Nos casos duvidosos e incertos, devem agir com extrema cautela. Ao examinarem as provas e testemunhos racionais apresentados pelas duas partes, não devem deixar-se perturbar nem um pouco; para alcançar o âmago de cada questão, devem agir com plena cautela, reflexão e investigação. Assim, depois de chegarem a uma decisão final, não devem hesitar minimamente em aplicá-la com total firmeza. Não devem permitir que qualquer recomendação ou qualquer cargo ou posição social se torne obstáculo à execução da sentença. Embora pessoas desse tipo nunca sejam numerosas, ainda assim o juiz deve necessariamente ser dotado das qualidades mencionadas. Quando nomeardes alguém como juiz, fixai-lhe um salário suficientemente elevado; assim, as necessidades de sua subsistência não o obrigarão a aceitar subornos. Além disso, é desejável que sua posição seja elevada em vossa consideração e na estima da sociedade, para que ninguém ouse fazer campanha contra ele.”

Além dos juízes, em cada cidade havia sempre um grupo de pessoas especialmente versadas na lei islâmica. Quando os juízes enfrentavam alguma dificuldade ou problema em determinado assunto, recebiam ajuda desse grupo.

Naquele período, os hadiths do Nobre Profeta ainda não estavam reunidos em livros; eram preservados na memória das pessoas. Uma pessoa conhecia um hadith, enquanto outra se lembrava de um hadith diferente. Ninguém guardava sozinho na memória todos os hadiths, e essa era uma dificuldade grave daquela época. Quando precisavam de algum hadith para resolver uma questão apresentada diante dos juízes, estes perguntavam a várias pessoas e procuravam conhecer a orientação ou o método de ação do Nobre Mensageiro a respeito do assunto em questão. Assim, julgavam e decidiam de acordo com o hadith do Mensageiro que encontrassem; mas, quando não encontravam um hadith específico, praticavam o ijtihad tendo diante dos olhos o sistema geral do Islã e seu espírito. Por isso, muitas vezes os juízes chegavam a conclusões diferentes sobre uma questão específica. Naquela época, ainda não havia começado o registro escrito das decisões dos juízes. Consequentemente, as gerações posteriores não tinham qualquer oportunidade de tirar proveito delas.

Alguns podem perguntar se todas as decisões judiciais daquela época dependiam unicamente do ijtihad; mas não era esse o verdadeiro estado das coisas. O princípio do ijtihad era aplicado apenas para conhecer os pormenores da lei da sharia e aplicá-la às condições e aos acontecimentos específicos de cada época. Deve-se lembrar que as leis islâmicas consistiam em um conjunto de princípios fundamentais; suas disposições minuciosas ainda não haviam sido formuladas. Na verdade, é natural que as leis e normas destinadas a todos os tempos e à humanidade inteira sejam assim. Somente desse modo sua aplicação prática pode ser possível e fácil em cada período da história e em todas as regiões do mundo.

Mesmo após a nomeação dos juízes, não havia qualquer impedimento à participação direta dos califas na resolução das disputas e conflitos do povo; pelo contrário, em muitos casos, eles próprios resolviam numerosas disputas e conflitos. Nesses casos, os juízes nomeados atuavam apenas como representantes dos califas.

Departamento de Defesa Nacional

Durante o período do califado, a autoridade suprema para conduzir as guerras ou comandar o exército estava investida nas mãos do califa. Isso porque, também na época do Nobre Profeta (que a paz esteja com ele), essa era a prática vigente. Ele próprio liderava o exército. Mais tarde, porém, quando o território sob governo começou a se expandir consideravelmente, os califas, embora fossem os maiores heróis e guerreiros, começaram a nomear separadamente comandantes militares. Obedecer a eles era, necessariamente, considerado um dever tão obrigatório quanto obedecer ao próprio califa. Quando a guerra terminava, a única tarefa dos comandantes militares era supervisionar os assuntos militares e treiná-los para o futuro.

Durante o califado de Hazrat Abu Bakr al-Siddiq (que Allah esteja satisfeito com ele), todo o exército era voluntário e não remunerado. Seus nomes não estavam registrados em nenhum livro de registro. Foi durante o califado de Hazrat Umar al-Faruq (que Allah esteja satisfeito com ele) que o departamento militar foi organizado de forma adequada e sistemática, e o nome de cada soldado foi inscrito no registro. Como resultado, a disciplina foi estabelecida no exército. Se algum soldado desertasse ou ficasse para trás, era facilmente descoberto. Naquela época, havia uma punição especial para os soldados desertores. O nome do desertor era divulgado e anunciado na mesquita de seu próprio bairro, declarando-se que aquela pessoa havia fugido do campo de batalha do jihad e demonstrara hesitação em sacrificar a própria vida no caminho de Allah. Na verdade, uma censura desse tipo era, para um árabe, mais terrível que a pena de morte. Isso porque, entre todas as nações do mundo, os árabes haviam estabelecido um exemplo incomparável de bravura e uma demonstração extraordinária de coragem; acusar alguém de falta de virilidade e covardia e anunciar isso publicamente era muito mais difícil que a morte. Depois disso, já não restava ao indivíduo envolvido lugar algum na sociedade onde pudesse mostrar o rosto.

Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) fixou um salário, proveniente do Bayt al-Mal, para todos os soldados. Esse salário não tinha uma taxa fixa. A excelência e a precedência na observância dos ideais islâmicos eram o único critério para determinar o pagamento dos mujahidin. Contudo, no fim, Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) eliminou também essa diferença e instituiu salários de igual valor para todos.

No exército islâmico, um “chefe” era nomeado para cada grupo de dez soldados. Na terminologia militar árabe, ele era chamado de “arif”. Os salários de todos os soldados eram confiados a esses arifes; eles os distribuíam entre os soldados sob sua autoridade.

Houve um progresso considerável na organização do exército durante a época dos Califas Bem-Guiados. No período pré-islâmico, os árabes avançavam para enfrentar o inimigo ora em formação, ora dispersos. Primeiro, um ou dois heróis de cada lado se envolviam em combate individual; depois, era realizado um ataque geral e, por fim, os ataques e o uso das armas ocorriam de maneira desordenada. Os muçulmanos também seguiram esse método na primeira fase do jihad islâmico. Mais tarde, porém, quando começaram a enfrentar os exércitos bem organizados dos persas e dos romanos, compreenderam claramente que, para combater, segundo métodos modernos, esses exércitos organizados e suas táticas de guerra, era indispensável abandonar o método antigo. Em seguida, reorganizaram seus próprios exércitos e começaram a utilizar armas completamente modernas. No campo de batalha, o exército passou a ser alinhado de maneira ordenada, sem que ninguém ficasse à frente ou atrás. O exército inteiro era, em linhas gerais, dividido em cinco partes. A força que ficava na vanguarda era chamada de “muqaddimah”, e sua responsabilidade era iniciar a batalha. A força central era chamada de “qalb”, e o comandante supremo ficava cercado por ela. A força posicionada no flanco direito era chamada de “maymanah”, e a situada no flanco esquerdo, de “maysarah”. A força localizada na retaguarda recebia o nome de “saqah”.

O exército dividido nessas cinco subforças era chamado de “khamis”. Cada uma de suas partes tinha um “amir”, que comandava sua própria força conforme as ordens do comandante supremo. O comandante da cavalaria era nomeado separadamente. Para proteger a retaguarda, os soldados muçulmanos adotavam medidas especiais, de modo que as tropas inimigas não pudessem atacá-los pela retaguarda em nenhuma circunstância. Para proteger todo o exército contra ataques noturnos, adotavam medidas e procedimentos especiais. O serviço de inteligência militar dos muçulmanos atuava de forma extremamente organizada e sistemática. Por essa razão, eles conseguiam conhecer antecipadamente a maioria das intenções ou planos secretos dos inimigos.

Departamento de receitas

Desde o califado de Hazrat Umar (r.a.), eram designadas pessoas independentes e locais para a arrecadação das receitas. Em geral, essa responsabilidade não era atribuída aos governadores provinciais. As receitas arrecadadas eram gastas, conforme as instruções do califa, com os salários e subsídios dos soldados e com outras obras públicas voltadas ao bem-estar da população. Os valores arrecadados eram enviados à capital central.

Durante o período do califado, eram cobrados dois tipos de receitas: (1) permanentes e (2) temporárias. Entre as receitas permanentes, destacavam-se o zakat, o ushr e a jizya. Por outro lado, os bens obtidos como espólio de guerra constituíam uma receita temporária ou renda estatal.

Kharaj

Em geral, como resultado das conquistas militares, todas as terras cultiváveis dos países conquistados eram deixadas nas mãos de seus antigos proprietários. Contudo, uma parte determinada da produção agrícola era recolhida como receita. É isso que, na terminologia islâmica, se chama “kharaj”. Pode ser considerado um imposto sobre as terras cultivadas. Em alguns casos, também era fixado um imposto monetário determinado de acordo com a extensão da terra.

Ushr

As terras cujos proprietários aceitavam o Islã, ou cujos proprietários não eram obrigados pelos muçulmanos vitoriosos a pagar jizya, eram chamadas terras ushrī; sob administração estatal, arrecadava-se um décimo ou um vigésimo de sua produção. As terras que os muçulmanos tomavam pela força ou como resultado de uma guerra eram chamadas terras “ushrī” e eram distribuídas exclusivamente entre os muçulmanos. Assim, permaneciam sob a posse dos próprios muçulmanos.

Durante o califado de Hazrat Umar (r.a.), quando a Síria e o Iraque foram conquistados, ele perguntou aos seus conselheiros como deveria ser feita a distribuição das terras conquistadas. A maioria aconselhou que as terras fossem distribuídas entre os muçulmanos.

Hazrat Umar (r.a.) disse: «Nesse caso, o direito das gerações futuras será lesado. Pois, se as terras forem distribuídas atualmente, nada restará para as pessoas que virão». Então Hazrat Abder-Rahman ibn Awf (r.a.) disse: «Somente aqueles que conquistaram o país pela força de seus próprios braços têm direito às terras e aos escravos; que direito poderiam ter os demais sobre elas?» Em resposta, o califa Umar Faruq (r.a.) disse: «Isso está correto, mas lembrai-vos de que, como depois de mim não haverá muita possibilidade de novas conquistas, os muçulmanos não poderão obter grande quantidade de riquezas e terras. No futuro, muitas conquistas, em vez de trazer benefício, tornar-se-ão sobretudo um fardo insuportável. Se as terras do Iraque e da Síria forem tomadas de seus proprietários, seus habitantes conquistados forem transformados em escravos e tudo for distribuído entre os muçulmanos vitoriosos, como funcionará o sistema de proteção das fronteiras? Pois os muçulmanos se ocuparão da agricultura. Além disso, o sustento dos órfãos e das viúvas desamparadas permanecerá por cumprir».

Depois de ouvirem esse discurso do califa Umar Faruq (r.a.), todos disseram em uníssono: «A vossa opinião é realmente correta e exata, não há dúvida quanto a isso. Se não houver tropas estacionadas nas fronteiras e nas cidades, não haverá qualquer meio de proteger essas regiões, e os inimigos do Islã voltarão a dominar essas cidades». Hazrat Umar disse: «Essa questão ficou esclarecida. Agora preciso de alguém que aceite a responsabilidade de realizar o levantamento de todo o Iraque para determinar o kharaj». Em seguida, Imran ibn Hanif foi designado para essa tarefa. Ele a concluiu com grande esforço, e, um ano antes do martírio de Hazrat Umar (r.a.), o kharaj arrecadado no Sawad de Kufa já havia alcançado o montante de dez milhões de moedas.

Mesmo após a conquista da Síria, os soldados exigiram que as terras ocupadas fossem distribuídas entre eles. Mas, também naquela ocasião, Hazrat al-Faruq al-A’zam (r.a.) dissuadiu todos, dando a mesma resposta. Assim, tal como no Iraque, uma grande quantidade de kharaj das terras da Síria continuou a ser acumulada no tesouro do Estado.

Na verdade, a opinião de Hazrat Umar Faruq (r.a.) — deixar as terras agrícolas das áreas conquistadas nas mãos de seus antigos habitantes, em vez de distribuí-las entre os conquistadores, permitir-lhes cultivá-las e cobrar deles o kharaj — demonstrava uma extraordinária visão de futuro. Se naquela época não tivesse sido tomada uma decisão desse tipo, a nação muçulmana teria esquecido sua verdadeira responsabilidade, ocupado-se com campos e fazendas e perdido sua capacidade militar. Em segundo lugar, não teria sido possível prover as despesas necessárias dos soldados islâmicos encarregados de proteger aquela região e envolvidos em guerras em outros países e territórios. E essa teria sido a perda mais grave e irreparável de todas. Pois, aproveitando essa oportunidade, os chefes persas e romanos que, após o domínio muçulmano sobre seus países, haviam abandonado suas terras e buscado refúgio em outros lugares poderiam retomar seus próprios países e lançar poderosos ataques contra os muçulmanos.

Jizya

No califado islâmico, o dinheiro recebido dos dhimmis (cidadãos não muçulmanos leais) em troca da proteção e segurança de suas vidas, bens, honra e dignidade era chamado, na terminologia islâmica, de «jizya». Ela era cobrada somente dos homens adultos, saudáveis e robustos. Não era imposta às mulheres, crianças, pobres e deficientes. Hazrat Umar (r.a.) concedeu do tesouro público pensões a muitos dhimmis pobres. A «jizya» era fixada de acordo com a situação financeira de cada pessoa, e seu valor não era inferior a 12 dirhams nem superior a 28 dirhams. Hazrat Umar (r.a.) recomendou especialmente a seus califas sucessores que demonstrassem benevolência para com os dhimmis, os tratassem com gentileza, cumprissem os compromissos, lutassem para proteger suas vidas e bens e não lhes impusessem encargos superiores à sua capacidade.

Zakat

Durante o período do califado, a zakat era imposta, de acordo com o Alcorão e a Sunna, sobre todos os tipos de riqueza acumulada dos muçulmanos, os animais domésticos, os bens em dinheiro e as colheitas das terras. Essa zakat era regularmente arrecadada e distribuída entre as oito categorias de seus beneficiários.

Imposto

Quando os comerciantes muçulmanos exportavam suas mercadorias para o estrangeiro, o país em questão cobrava deles um décimo como imposto. Quando Hazrat Umar (ra) tomou conhecimento disso, também ordenou que fosse cobrado um imposto de igual proporção sobre as mercadorias importadas para o Estado islâmico. Além disso, dos comerciantes dhimmis cobrava-se um vigésimo, e dos comerciantes muçulmanos, um quadragésimo do total de seus bens. Contudo, nada era cobrado sobre bens cujo valor fosse inferior a duzentos dirhams.

Moeda

Antes do Islã, circulavam na Arábia moedas iranianas e romanas de ouro e prata. Essas mesmas moedas continuaram em circulação durante o período do califado do Nobre Profeta (s) e de Hazrat Abu Bakr (ra). Após a conquista do Irã, Hazrat Umar (ra) manifestou o desejo de padronizar o peso do dirham, pois as moedas iranianas tinham pesos variados. Em suma, durante o Califado dos Rashidun, o sistema estatal moderno existia em sua forma completa e estava em pleno funcionamento, não sendo inferior a ele em nenhum aspecto.

 

Hazrat Abu Bakr Siddiq (ra)

O primeiro califa do Estado popular islâmico foi Hazrat Abu Bakr Siddiq (ra). Na história do Islã, depois do Nobre Mensageiro de Allah, Hazrat Muhammad (s), vem Hazrat Abu Bakr (ra). Também do ponto de vista da tradição islâmica, depois do Mensageiro, ele foi a primeira personalidade de grande destaque. Ao longo dos vinte e três anos de sua missão profética, o Nobre Profeta (s) apresentou o ideal completo de vida do Islã e, ao mesmo tempo, destruiu o palácio da extrema jahiliyyah árabe, estabelecendo sobre suas ruínas o luminoso Estado ideal do Islã; imediatamente após o falecimento de Hazrat, porém, Hazrat Abu Bakr Siddiq (ra) esmagou a cabeça erguida das forças contrarrevolucionárias da jahiliyyah e salvaguardou a existência do Estado islâmico. Por isso, juntamente com o estudo e a análise da vida do Profeta, é necessário discutir com ainda maior importância a vida do primeiro califa, Hazrat Abu Bakr Siddiq (ra). No presente artigo, não discutirei a biografia completa de Hazrat Abu Bakr Siddiq (ra). O único objetivo deste artigo é apresentar uma breve discussão sobre suas qualidades e características.

No fluxo do tempo, passado, presente e futuro estão tão intimamente interligados que não é possível considerar qualquer uma dessas etapas como minimamente separada das demais. Para orientar o caminho futuro de qualquer povo, o melhor método é examinar seu passado com olhar profundo e perspicaz. Para libertar uma nação dos erros e desvios observados em sua vida coletiva, é igualmente necessário apresentar diante do povo seu passado glorioso. Assim como, para diagnosticar e determinar a doença de uma pessoa enferma e prescrever seu tratamento, é indispensável examinar minuciosamente seu estado anterior à doença, do mesmo modo, para diagnosticar e tratar as enfermidades nacionais, é inegável a importância de estudar a história passada e examinar a vida de personagens históricos. Atualmente, a nação muçulmana do mundo chegou ao limite extremo do declínio. Neste momento, o ideal de vida de Hazrat Abu Bakr (ra) certamente será reconhecido como guia para o caminho da vida da nação muçulmana.

Hazrat Abu Bakr Siddiq (ra) foi o primeiro entre os homens a acreditar verdadeiramente que Hazrat Muhammad (s) era um profeta autêntico. Foi justamente essa sua fé que mais tarde lhe concedeu a honra de receber o título de “Siddiq”, ou “aquele que reconhece a verdade”. Durante os longos vinte e três anos da missão profética, ele não hesitou nem por um instante em sacrificar sua vida, seus bens e sua honra na tentativa de estabelecer a religião do Islã; pelo contrário, nesse aspecto, estava mais à frente que os demais companheiros e todos os muçulmanos. Desde que aceitou o Islã até o falecimento do Nobre Mensageiro (s), durante longos anos esteve constantemente ocupado em ajudar e apoiar Hazrat, divulgar a religião do Islã e proteger os muçulmanos da opressão e da perseguição dos incrédulos. Ele dava precedência a cada instrução do Mensageiro sobre todos os seus próprios afazeres. Pelo Mensageiro, não se importou sequer com a própria vida. Em cada confronto direto com os incrédulos, lutou lado a lado com o Mensageiro. Além de uma firmeza de fé extraordinária e de uma inflexibilidade semelhante ao aço, seu elevado caráter constitui um modelo incomparável para o mundo muçulmano. Por isso, era uma pessoa extremamente popular; o amor de toda a comunidade muçulmana por ele era extraordinário.

Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) — precisamente por sua posição religiosa e pela infinita devoção e reverência que o povo lhe dedicava, quando o Nobre Mensageiro estava enfermo, foi o próprio Mensageiro quem lhe ordenou que conduzisse a oração. Este foi um acontecimento de enorme importância. Depois do falecimento do Mensageiro, foi ele quem foi escolhido como o primeiro califa do Estado Islâmico. Após amplas discussões na assembleia geral dos muçulmanos, somente ele foi escolhido califa por consenso. O valioso discurso que proferiu assim que foi escolhido califa é, para o mundo muçulmano, um acontecimento histórico e, no campo da teoria do Estado Islâmico, um guia eterno. Apresenta-se aqui o texto completo de seu discurso. Dirigindo-se à multidão reunida, disse em tom solene:

০Ó povo! Jamais surgiu em meu coração o desejo de me tornar chefe de Estado; eu próprio nunca aspirei a este cargo. Para obtê-lo, jamais supliquei a Allah, em segredo ou abertamente.

০Aceitei esta responsabilidade unicamente para que nenhum tipo de calamidade pudesse surgir no país.

০No poder governamental, não tenho em meu coração a mínima paz ou tranquilidade.

০Foi colocada sobre mim uma responsabilidade tão grande que, sem a ajuda de Allah, não poderei cumpri-la devidamente.

০Fui nomeado vosso dirigente, embora não seja o melhor entre vós.

০Se eu seguir o caminho reto e correto, ajudai-me e apoiai-me. Mas, se eu abandonar o caminho da justiça, conduzi-me ao caminho correto.

০A veracidade é uma confiança, e a mentira é uma traição.

Aos meus olhos, aquele que não tem influência entre vocês será influente; farei valer todos os seus direitos.

E aquele que é muito influente não terá influência alguma diante de mim; se uma pessoa fraca tiver algum “direito” sobre ele, não descansarei até que esse direito seja inteiramente assegurado.

Quando a injustiça, o pecado e a falta de vergonha se espalham entre um povo, o castigo de Allah desce sobre esse povo.

Enquanto eu obedecer a Allah e ao Seu Mensageiro, vocês também deverão obedecer-me.

Mas, se eu desobedecer a Allah e ao Seu Mensageiro, não será dever de vocês obedecer-me.

O audacioso esforço empreendido por Hazrat Abu Bakr Siddiq (que Allah esteja satisfeito com ele), durante seu breve califado, para estabelecer a supremacia do Islã não tem paralelo na história dos muçulmanos do mundo. Na verdade, foi durante seu califado que os alicerces do sistema estatal islâmico se consolidaram e ele se expandiu por uma vasta parte do mundo. Esse grande Estado estendeu-se, na Ásia, até a Índia e a China, e, na África, até o Egito, a Tunísia e o Marrocos. Em suma, esse Estado realizou um trabalho de extrema importância para o progresso da civilização e da cultura humanas, cujo efeito direto continuará até o último momento do mundo.

Hazrat Abu Bakr Siddiq (que Allah esteja satisfeito com ele) foi o companheiro eterno, o amigo que dedicou a própria vida e o seguidor sincero e leal do Nobre Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Seu coração era extremamente compassivo. Ele era dotado de qualidades e características incomparáveis.

Após ser eleito o primeiro califa, veio sobre o Islã o golpe extremo das atividades contrarrevolucionárias dos apóstatas, isto é, daqueles que haviam abandonado o Islã. Na verdade, naquele momento surgiu uma situação delicada diante do Estado islâmico. Contudo, foi unicamente a personalidade incomparável de Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) que protegeu o embrião do Estado islâmico dos golpes dessas atividades contrarrevolucionárias e salvou o povo muçulmano das garras da destruição e da calamidade. Ele conduziu tropas contra os Estados persa e romano e eliminou pela raiz todos os inimigos do Islã; e o Estado que surgiu depois disso não perdeu até hoje sua influência do panorama mental das nações do mundo, nem poderá jamais perdê-la.

A história do período do califado de Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) é extremamente maravilhosa e inspiradora. É por meio dessa história que os aspectos surpreendentes de sua grandiosa personalidade se tornam luminosos diante de nós. Esse grande combatente da verdade estava continuamente ocupado em ajudar os pobres e necessitados. Ao observar os exemplos de seu serviço aos pobres, percebe-se que não havia na face da Terra ninguém tão compassivo para com os pobres quanto ele. Por outro lado, seus passos heroicos com o objetivo de propagar o Islã e estabelecer sua superioridade também despertavam o pulsar de uma nova vida no coração de uma nação decadente. Diante da coragem, do ânimo, da firmeza e do valor de Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele), até mesmo as forças combinadas do mundo daquela época eram baixas e insignificantes como um fragmento de palha. Esse grande símbolo de determinação e firmeza não conhecia, de modo algum, a hesitação, o constrangimento ou a indecisão. Sua capacidade e visão de longo alcance para formar uma compreensão precisa dos talentos, da força e das aptidões latentes das pessoas, designar diferentes indivíduos para diferentes tarefas conforme suas capacidades e talentos, e obter deles o trabalho de acordo com isso, eram sem dúvida incomparáveis.

Durante a vida do Nobre Mensageiro, Hazrat Abu Bakr Siddiq (que Allah esteja satisfeito com ele) viveu como um devotado amante do Mensageiro. Quando os ferozes coraixitas infligiam ao Nobre Mensageiro toda espécie de torturas e perseguições desumanas, era Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) quem se colocava diante deles, oferecendo o próprio peito. Foi ele o primeiro a aceitar o chamado islâmico do Mensageiro de Allah e, durante as difíceis e delicadas circunstâncias da Hégira, permaneceu como companheiro fiel do Mensageiro de Allah, entregando-se plenamente pelo caminho árido, acidentado e repleto de desertos e montanhas, desde a caverna da montanha de Sawr até Medina. Em Medina, o Nobre Mensageiro teve de enfrentar as conspirações dos judeus e a astúcia dos hipócritas; e, em consequência das sucessivas atividades hostis dos coraixitas de Meca e dos judeus de Medina, todo o território árabe se tornou adversário do Mensageiro. Nesse período complexo, Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele), como companheiro especial e conselheiro do Nobre Profeta, realizou importantes tarefas. De fato, o papel que Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) desempenhou para estabelecer a grandeza do Islã e o imenso serviço que prestou nesse sentido durante a vida do Mensageiro não são apenas dignos de ser registrados em letras de ouro; cada um de seus aspectos seria suficiente, por si só, para manter sua vida viva para sempre. Na realidade, é extremamente difícil descrever em palavras a grandeza e a dignidade de Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele). Pois os sacrifícios e a devoção que ofereceu pela propagação e pelo estabelecimento do Islã eram essencialmente questões do coração e da fé. Somente Allah, o Altíssimo, conhece plenamente o profundo amor que havia em seu coração pelo Islã e pelo Nobre Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Os acontecimentos ocorridos durante o califado de Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele), após o falecimento do Mensageiro, e as políticas e medidas que ele adotou nesses acontecimentos revelam a aguda perspicácia, a visão de longo alcance e o conhecimento profundo e sutil do primeiro califa. Logo após sua escolha como califa, quando os apóstatas começaram a se levantar, ele os enfrentou com extrema firmeza e esmagou impiedosamente as cabeças dos rebeldes. Depois, voltou sua atenção para os impérios da Pérsia e de Roma. Contra esses dois Estados, não havia para eles nenhuma arma capaz de protegê-los da arma da igualdade que ele empregava. Os povos dos impérios persa e romano estavam sendo esmagados pela cruel opressão das monarquias autocráticas. Os súditos de ambos os impérios haviam sido divididos em diferentes classes. A maldição da discriminação e das diferenças de linhagem e tribo pesava sobre ambos os povos como uma enorme pedra. Os governantes consideravam o povo inferior e julgavam ser seu dever privá-lo de toda honra, dignidade e direito. Foi precisamente nesse momento que Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) ergueu a bandeira da justiça, da equidade e da igualdade do Islã. Ele deu instruções especiais aos comandantes que atacavam a Pérsia e Roma para que jamais deixassem escapar de suas mãos, nem por um instante, os critérios de justiça, equidade e igualdade, e ordenou claramente que tratassem com igualdade todos os habitantes dos países conquistados, sem distinção de nação, religião ou linhagem. Assim, as massas afligidas durante séculos pela opressão, pela perseguição, pela tirania, pela exploração e pela desigualdade ficaram encantadas com a luz dos princípios de igualdade generosa e justiça do Islã, e irromperam como uma enchente que rompe suas barreiras; apesar da existência do imenso poder militar e das invencíveis forças armadas desses dois Estados, foram obrigadas a aceitar a derrota diante dos poucos e desprovidos de armas, porém heroicos mujahidins muçulmanos.

Entre o período da vida do Nobre Mensageiro e a segunda fase do califado, isto é, o período do califado de Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele), o califado de Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) possui uma grande distinção e uma dignidade especial. A época do Mensageiro foi essencialmente uma fase de orientação, correção e reforma. Nela foram reveladas as sagradas disposições da Sharia. Da parte de Allah, leis e regulamentos eram continuamente revelados por intermédio do Mensageiro para a orientação eterna da humanidade. Em contrapartida, a época de Hazrat Umar Faruq (que Allah esteja satisfeito com ele) foi uma fase organizacional. Naquele período, elaboravam-se regras e regulamentos para a administração do Estado recém-estabelecido e para a execução de todas as suas atividades; formavam-se diversos departamentos para estabelecer a disciplina na administração do califado. Embora o califado do primeiro califa, Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele), tenha ocorrido entre essas duas fases mencionadas, ele se distingue por uma característica própria, resplandecente em razão das circunstâncias extraordinárias e anormais que surgiram naquele período.

Durante o califado de Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele), os desastres e as calamidades que surgiram colocaram todo o Islã diante de um grave perigo. A nação unida formada pelos vinte e três anos de esforço e luta do Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) esteve prestes a ser despedaçada pelo golpe de uma desordem devastadora. Na realidade, os primeiros sinais da desordem política surgiram já no final da vida do Mensageiro. Um impostor chamado Musailama ibn Habib, partindo de Iamama e alegando ser profeta, enviou por meio de um mensageiro a proposta de que metade da Arábia o seguisse. Depois, outro impostor, chamado Aswad Ansi, tentou atrair para si o povo do Iêmen exibindo truques de magia. Após reunir forças, chegou mesmo a expulsar da parte meridional do Iêmen os funcionários nomeados pelo Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e a submetê-la ao seu próprio governo. Nessa ocasião, o Nobre Mensageiro viu-se obrigado a enviar tropas ao Iêmen para providenciar a destruição de sua cabeça. Com efeito, embora o povo da Arábia tivesse acreditado no tawhid e abandonado a idolatria, muitos não compreendiam plenamente a relação inseparável entre a unidade religiosa do Islã e a instituição do governo político. Os árabes eram, por natureza, amantes da liberdade; não lhes era próprio aceitar a sujeição a qualquer Estado organizado e obedecer-lhe de corpo e alma. Por isso, imediatamente após a morte do Mensageiro, várias tribos da Arábia começaram a declarar rebelião contra o governo de Medina. O fogo da revolta espalhou-se rapidamente de uma extremidade da Arábia à outra. Além dos apóstatas, muitos outros também se recusaram a pagar o zakat ao Bayt al-Mal. Quando essa notícia chegou a Medina, surgiu entre o povo uma terrível preocupação e agitação. Eles não conseguiam compreender o que deveria ser feito naquela situação delicada. Alguns Companheiros — inclusive Umar al-Faruq (que Allah esteja satisfeito com ele) — sustentavam que, naquele momento crítico, não se deveria tomar qualquer medida armada contra os que recusavam o zakat; enquanto continuassem a recitar a profissão de fé, «não há divindade senão Allah», seria mais apropriado não declarar guerra contra eles. Consideravam que, se se tentasse subjugar, juntamente com os rebeldes, também os que recusavam o zakat, o campo de batalha se tornaria muito mais amplo, e não se poderia esperar um bom resultado. Mas o valoroso califa Abu Bakr as-Siddiq (que Allah esteja satisfeito com ele), ignorando todo temor de perigo, declarou sua intenção de proclamar guerra aberta também contra os rebeldes do zakat, tal como contra os rebeldes apóstatas, e nenhuma força conseguiu impedi-lo de tomar essa medida.

Na história do Islã, a importância desta guerra travada contra os apóstatas é imensa. Na verdade, não seria exagero dizer que esta guerra salvou o Islã e o Estado islâmico da destruição eterna. Pois é evidente que, se Abu Bakr as-Siddiq (que Allah esteja satisfeito com ele), conforme a opinião da maioria do povo de Medina, não tivesse empreendido este jihad contra os apóstatas, a sedição e a desordem não teriam sido de modo algum apaziguadas. E, se o exército islâmico não tivesse vencido essa guerra, a situação teria piorado de maneira indescritível, e, em consequência, tanto o Islã quanto os muçulmanos teriam ficado completamente diante da destruição.

Diante dessa situação, pode-se afirmar sem dúvida que Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele), ao erguer uma poderosa resistência contra os apóstatas, demonstrou uma extraordinária prudência. Na realidade, por meio disso ele mudou o curso da própria história mundial e lançou novamente os alicerces da civilização e da cultura humanas.

Se Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) não tivesse vencido este jihad contra os apóstatas, nem sequer teria sido possível aos muçulmanos avançar em direção ao Iraque e à Síria, quanto mais obter sucesso contra os impérios persa e romano. Naquela ocasião, sobre as ruínas desses dois vastos Estados contrários ao Islã, jamais teria sido possível estabelecer a civilização e a cultura islâmicas em lugar da civilização e da cultura cristãs.

Se este grande jihad não tivesse sido organizado, provavelmente Umar al-Faruq (que Allah esteja satisfeito com ele) nem sequer teria sentido necessidade de aconselhar Abu Bakr as-Siddiq (que Allah esteja satisfeito com ele) a reunir o Nobre Alcorão em forma de livro.

Além disso, se não tivesse sido possível destruir ainda no início a rebelião dos apóstatas, Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) não teria conseguido governar em Medina qualquer Estado organizado e firme; e jamais teria sido possível a Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) construir um palácio altíssimo sobre os sólidos alicerces do Estado islâmico dirigido por ele.

Na realidade, esses grandes acontecimentos revolucionários ocorreram no breve período de apenas vinte e sete meses. Certas pessoas não desejam atribuir especial importância a esse curto califado; ao contrário, quando falam dos Califas Bem-Guiados e até mesmo do Estado islâmico, referem-se apenas ao califado do segundo califa, Umar al-Faruq (que Allah esteja satisfeito com ele), e apresentam-no publicamente. Pensam que Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) não pôde realizar nenhuma grande obra revolucionária nesse período tão curto, e que seu breve mandato tampouco era suficiente para tal feito. Mas, na realidade, isso não é absolutamente verdade. A maioria das revoluções da história mundial que abriram diante da humanidade as portas de um progresso cada vez maior foi realizada em períodos muito breves. Não faltam exemplos disso na história. A primeira base da revolução do Estado islâmico surgida na história mundial foi lançada pelo Nobre Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Abu Bakr as-Siddiq (que Allah esteja satisfeito com ele) protegeu-a dos golpes dos ataques contrarrevolucionários, e Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) elevou-a ao mais alto nível de progresso. Portanto, para compreender devidamente o desenvolvido Estado do califado de Umar al-Faruq (que Allah esteja satisfeito com ele), é absolutamente necessário examinar em detalhe o período do califado de Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele), que veio antes dele e depois do Nobre Profeta. Chamaremos a atenção dos leitores para este aspecto.

 

As características de Abu Bakr as-Siddiq (que Allah esteja satisfeito com ele)

A sociedade islâmica que se formou como resultado da pregação e do movimento islâmicos do Profeta universal Hazrat Muhammad (que a paz esteja com ele) tinha, depois de Hazrat Muhammad (que a paz esteja com ele), em Hazrat Abu Bakr Siddiq (que Deus esteja satisfeito com ele) o seu homem mais eminente. Essa superioridade não era reconhecida unanimemente por toda a sociedade muçulmana apenas durante a vida do Profeta universal; mesmo após o seu desaparecimento, ele continuou sendo, em todo o mundo muçulmano, o homem superior incontestado. De fato, em nenhuma época passada e em nenhum centro da sociedade islâmica se observou sequer a menor divergência de opinião sobre esse assunto. Tampouco havia qualquer margem para divergência a esse respeito.

Apesar disso, não há como negar que pouquíssimas pessoas conheciam a razão fundamental dessa incontestável superioridade de Hazrat Abu Bakr Siddiq (que Deus esteja satisfeito com ele), bem como suas qualidades e características especiais. Qual era a verdadeira razão pela qual, durante a vida do Nobre Profeta (que a paz esteja com ele), a atenção de todos os muçulmanos se voltava para ele? Essa é uma questão extremamente importante para a consciência muçulmana. É universalmente sabido, porém, que, entre os critérios de superioridade geralmente reconhecidos na Arábia antes do Islã, Hazrat Abu Bakr (que Deus esteja satisfeito com ele) não possuía destaque especial em nenhum deles. Ele nascera na nobre e altamente respeitada tribo de Taim, dos coraixitas. Contudo, na época da jahiliyyah, sua tribo gozava do mesmo grau de honra e respeito alcançado pelos demais ramos da linhagem coraixita em toda a sociedade árabe; além disso, como comerciante experiente, ele possuía considerável prosperidade financeira, mas ainda viviam, entre os coraixitas, pessoas mais ricas do que ele. Era digno da confiança e do respeito dos membros de sua família e de sua tribo. No sistema social jahilí dos coraixitas, Hazrat Abu Bakr (que Deus esteja satisfeito com ele), assim como os membros de sua família e de sua tribo, jamais pôde alcançar superioridade e preeminência iguais às de outras pessoas. Na era pré-islâmica, por não se destacar particularmente em eloquência, poesia, adivinhação, disputa pela liderança e outros aspectos semelhantes, Hazrat Abu Bakr (que Deus esteja satisfeito com ele) não pôde obter o mesmo respeito que os demais membros da sociedade de seu tempo. Apesar disso, por quais qualidades, características e obras benéficas à sociedade a melhor e mais pura sociedade da história da humanidade o escolheu como seu líder e primeiro califa, depositando nele confiança irrestrita em todos os assuntos da religião e do mundo? Sem dúvida, essa questão é extremamente importante para todo estudante de história e todo muçulmano em geral; mas, para aqueles que hoje desejam informar os muçulmanos e os habitantes do mundo moderno sobre as características da sociedade islâmica e que se esforçam para educar e conscientizar o povo muçulmano sobre o caráter ideal da liderança, a importância dessa questão é imensa. Na verdade, foi porque o belo e abrangente ideal e critério de formação da sociedade e do indivíduo apresentado pelo Islã um dia se tornou efetivo e foi posto em prática que os muçulmanos puderam ter em seu destino grandes líderes como Hazrat Abu Bakr (que Deus esteja satisfeito com ele) e Hazrat Umar (que Deus esteja satisfeito com ele).

O presente artigo procura responder à questão em discussão. Nele, são apresentados o caráter e as qualidades de Hazrat Abu Bakr (que Deus esteja satisfeito com ele), bem como suas incomparáveis obras em benefício da sociedade. Ao observar a excelência e a elevada posição na liderança que Hazrat Abu Bakr Siddiq (que Deus esteja satisfeito com ele) alcançou na sociedade islâmica plenamente constituída, Hazrat Umar Faruq (que Deus esteja satisfeito com ele) disse, com voz profundamente desalentada:

Se este é o verdadeiro critério de superioridade e do califado, então os califas que vierem depois de você enfrentarão grandes dificuldades, pois ninguém será capaz de igualá-lo.

Pureza de caráter

Ao estudar a vida de Hazrat Abu Bakr (que Deus esteja satisfeito com ele), o que primeiro se manifesta diante de nós é a pureza, a depuração e a limpidez de seu coração e de sua mente. Por isso, ele não teve qualquer dificuldade ou demora especial para reconhecer corretamente o Islã e o Nobre Profeta (que a paz esteja com ele). Assim que a mensagem do Islã e a profecia do Hazrat lhe foram apresentadas, ele as aceitou de coração aberto. Nenhuma dúvida, hesitação ou resquício da jahiliyyah associado ao sentimento de superioridade pôde criar sequer o menor obstáculo em seu caminho. Hazrat Abu Bakr (que Deus esteja satisfeito com ele) era um homem honrado e respeitado na sociedade de seu tempo, e é uma verdade psicológica que uma pessoa honrada e proeminente enfrenta obstáculos imensos quando precisa reconhecer a liderança de outra pessoa. Contudo, Hazrat Abu Bakr (que Deus esteja satisfeito com ele) não teve de enfrentar nenhum obstáculo desse tipo. Isso demonstra claramente que, apesar de ser um homem honrado e proeminente, seu coração e sua mente eram extremamente puros, livres do orgulho da liderança e da vaidade da honra.

Por natureza, ele era um homem sábio, extremamente perspicaz e dotado de olhar crítico. Sua vida na época da jahiliyyah testemunha que nunca estava disposto a aceitar qualquer assunto sem antes examiná-lo e avaliá-lo na pedra de toque da crítica. Portanto, de modo algum lhe seria possível crer cegamente no Islã e na profecia do Hazrat. Apesar disso, a única razão pela qual aceitou o Islã sem demora foi que, graças à sua extraordinária pureza mental e à limpidez de sua natureza, sua mente estava tão clara e radiante quanto a luz do dia quanto à veracidade do Hazrat e à correção de suas palavras. Foi por isso que ele aceitou o Islã como se fosse o eco de seu próprio coração. Ibn al-Daghina, uma figura influente da sociedade jahilí, declarou espontaneamente a respeito de Hazrat Abu Bakr (que Deus esteja satisfeito com ele): “Tu manténs os direitos dos parentes próximos, dizes sempre a verdade, satisfazes as necessidades dos necessitados e ajudas os feridos, os oprimidos e os aflitos.” É evidente que nenhuma espécie de mácula pode se acumular no coração límpido de uma pessoa assim e que ela não poderia tardar nem um instante em reconhecer a veracidade do Mensageiro e aceitar o Islã. Para alguém dotado de uma alma tão pura e de uma mente tão límpida, a mensagem do Profeta e seu rosto resplandecente são quase equivalentes a um milagre. Assim que ouve a voz da verdade, sua consciência desperta e seu coração se submete. O próprio Profeta universal, ao testemunhar claramente essa qualidade de Hazrat Abu Bakr (que Deus esteja satisfeito com ele), disse:

A todos aqueles a quem convidei para o Islã, sem exceção, alguma hesitação, dúvida ou constrangimento os acometeu ao aceitá-lo. Abu Bakr ibn Abu Quhafa, porém, foi uma exceção. Quando lhe apresentei essa mensagem, ele não enfrentou qualquer obstáculo para aceitá-la, nem sentiu a menor hesitação a esse respeito.

Hazrat Abu Bakr (que Deus esteja satisfeito com ele), graças à sua natureza excepcionalmente pura, havia reunido ao seu redor numerosos homens de caráter puro e virtuosos. Eles sentiam-se especialmente atraídos por ele devido às qualidades de seu caráter e à sua nobreza. Em todos os assuntos importantes da vida, aceitavam suas decisões de coração aberto. Quando viram que Hazrat Abu Bakr (que Deus esteja satisfeito com ele) havia aceitado o Islã, não puderam deixar de se inspirar na decisão desse companheiro perspicaz e líder digno de confiança. Consequentemente, não demoraram muito para também aceitar o Islã. Grandes personalidades como Hazrat Uthman ibn Affan, Abdur-Rahman ibn Awf, Talha ibn Ubaydullah, Sa’d ibn Abi Waqqas, Zubayr ibn al-Awwam e Abu Ubaydah ibn al-Jarrah aceitaram o Islã por meio do convite de Hazrat Abu Bakr (que Deus esteja satisfeito com ele); e, graças a esses grandes homens, o movimento islâmico tornou-se extremamente forte já em sua primeira fase. Cada um deles era, por sua capacidade e competência, um tesouro extraordinário do Islã; e a grandeza e a excelência daquele que introduziu homens desse tipo no Islã não podem ser expressas completamente em palavras.

Força moral e coragem incomparável

A força moral e a coragem incomparável de Hazrat Abu Bakr (que Deus esteja satisfeito com ele) para proclamar no mundo a palavra de Allah e erguer a bandeira da religião do Islã são algo sem paralelo. É universalmente conhecido que ele era uma personalidade proeminente e um comerciante. Para um líder, é extremamente difícil reconhecer a liderança de outra pessoa e, com isso, colocar em risco a própria liderança. Além disso, aceitar um movimento cuja adesão faz com que alguém seja desprezado e censurado pelo povo e que pode resultar na ruína de seus negócios exige uma coragem e uma determinação extraordinárias. Isso porque os interesses materiais, isto é, os meios de subsistência, podem ser gravemente prejudicados. Pelo menos, comerciantes comuns e de mentalidade estreita jamais conseguiriam realizar tal feito. Mesmo que algum comerciante demonstrasse grande audácia nesse assunto, só se poderia esperar dele que apoiasse sinceramente um movimento de sua preferência e lhe oferecesse ajuda financeira na medida do possível; mas pouquíssimas pessoas são capazes de aceitar um movimento de todo o coração e com toda a mente, lutar integralmente contra as poderosas forças adversárias para estabelecer seus ideais na prática e, além disso, lançar seus negócios e meios de subsistência em grave perigo. Hazrat Abu Bakr Siddiq (que Deus esteja satisfeito com ele), porém, demonstrou plenamente uma audácia desse tipo. Depois disso, para todos os ousados aventureiros que avançaram por esse caminho cheio de perigos, o único modelo diante deles foi o extraordinário papel revolucionário de Hazrat Abu Bakr (que Deus esteja satisfeito com ele).1 {Um exemplo incomparável de sacrifício financeiro: Hazrat Abu Bakr (que Deus esteja satisfeito com ele) era extremamente generoso ao gastar dinheiro tanto para o estabelecimento quanto para a defesa do Islã. Nesse aspecto, seu papel em toda a comunidade dos Companheiros era incomparável e digno de imitação. Sempre que o Mensageiro de Deus (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) convocava os Companheiros a fazerem um sacrifício financeiro por alguma causa, Hazrat Abu Bakr (que Deus esteja satisfeito com ele) apresentava-se com a disposição de realizar o maior sacrifício. Durante a expedição de Tabuk, quando o Mensageiro de Deus (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) convocou os Companheiros ao maior sacrifício, somente Abu Bakr (que Deus esteja satisfeito com ele) manifestou a intenção de doar toda a sua riqueza no caminho de Allah. Perguntaram-lhe como sua família seria sustentada caso ele doasse todos os seus bens. Ele respondeu: “Para eles, Allah e Seu Mensageiro são suficientes”. Quão profundamente Hazrat Abu Bakr (que Deus esteja satisfeito com ele) estava dedicado no caminho de Allah pode ser compreendido a partir desse exemplo incomparável de seu sacrifício financeiro. — Editor}

Ajudar e apoiar os oprimidos

Na fase inicial do movimento islâmico, durante sua rigorosa prova de fogo, o papel desempenhado pela riqueza de Hazrat Abu Bakr (que Deus esteja satisfeito com ele) na proteção dos oprimidos do caminho da verdade contra a perseguição dos inimigos do Islã é um exemplo raro na história. Pessoas da classe dos escravos, como Bilal, o Abissínio (que Deus esteja satisfeito com ele), e Ibn Fuhayra (que Deus esteja satisfeito com ele), eram esmagadas como completamente indefesas pela opressão e pelos maus-tratos de seus proprietários e senhores, por terem cometido o “crime” de aceitar o Islã. Graças à benevolência e à generosidade de Hazrat Abu Bakr (que Deus esteja satisfeito com ele), eles foram libertados desse tormento insuportável. Para isso, ele teve de gastar uma grande soma de dinheiro. Pode-se ter uma ideia da quantia que gastou nessa causa por meio de um único fato. Quando Hazrat Abu Bakr Siddiq (que Deus esteja satisfeito com ele) aceitou o Islã, possuía quarenta mil dirhams em dinheiro; mas, doze ou treze anos depois, quando migrou para Medina, restavam-lhe apenas cinco mil dirhams. E, durante esse longo período, seus negócios haviam prosperado enormemente e gerado grandes lucros.2 {Fidelidade aos fundos públicos: Hazrat Abu Bakr (que Deus esteja satisfeito com ele) considerava os recursos financeiros do Estado uma grande responsabilidade, assim como o poder administrativo do califado. Como comerciava para garantir seu sustento, no início não recebia salário ou subsídio algum dos fundos públicos. Mais tarde, porém, como seus negócios ficaram paralisados devido à sua ocupação permanente com os assuntos do califado, começou a receber dos fundos públicos um subsídio simbólico, como um cidadão comum. Com isso, conseguia de algum modo sustentar sua família. Nessa situação, certo dia sua esposa economizou pequenas quantidades de alimentos e preparou um doce. Quando o califa, surpreso, perguntou-lhe a respeito, ela explicou que havia guardado pequenas porções da provisão regular. Ao ouvir isso, o califa comentou: “A quantidade de alimento economizada para preparar esse doce não é necessária para nós. Portanto, no futuro, será retirada do Tesouro Público uma quantidade equivalente a menos de alimento”. Esse episódio prova quão cauteloso ele era no cumprimento de sua responsabilidade para com os fundos públicos. — Editor}

Sacrifício pessoal pelo Mensageiro

Desde os primeiros tempos da missão e do movimento islâmicos do Profeta de toda a humanidade até a fase final das severas provações e calamidades, Hazrat Abu Bakr Siddiq (ra) permaneceu inteiramente dedicado e disposto a sacrificar-se por ele. Sempre que os coraixitas tentavam causar qualquer espécie de sofrimento ao Profeta de toda a humanidade, Hazrat Abu Bakr Siddiq (ra) arriscava a própria vida e honra, avançava para ajudá-lo e apoiá-lo e colocava-se à frente para enfrentar o perigo iminente. Os líderes cuja autoridade e liderança estavam ameaçadas pelo impacto direto da crescente popularidade e do progresso da missão islâmica reuniram-se certo dia em um lugar, consultando-se mutuamente e empenhando-se em determinar os meios para tomar as medidas necessárias à sua própria proteção contra o perigo iminente. Todos estavam terrivelmente furiosos, irritados e cegos pelo rancor. Exatamente nesse momento, o Nobre Profeta (s) chegou ao local. Aqueles inimigos do Islã lançaram-se subitamente contra ele. Disseram: “Não és tu que insultas e censuras a nossa religião e os nossos deuses adorados?” O Nobre Profeta (s) respondeu: “Sim, sou eu quem faz isso.” De repente, um homem agarrou o manto do Profeta e estendeu a mão com a intenção de desferir-lhe um golpe violento. Imediatamente, Hazrat Abu Bakr Siddiq (ra) chegou ao local. Ele compreendeu as más intenções daqueles homens. Assumindo sobre si todo o risco do perigo, avançou e exclamou com voz irada: “Quereis matar um homem somente porque ele declara que adora unicamente a Allah como seu Rabb?”

No momento difícil da Hégira, o Nobre Profeta (s) escolheu precisamente Hazrat Abu Bakr Siddiq (ra) como companheiro de viagem. Essa viagem do Profeta estava repleta de perigos, e a sua vida podia ser posta em risco a qualquer momento — Hazrat Abu Bakr (ra) sabia disso muito bem. Ele também sabia que, nessa viagem, a possibilidade de o seu companheiro ser atingido por perigos não era menor do que a possibilidade de o próprio Profeta enfrentar perigos. Contudo, mesmo sabendo e compreendendo claramente tudo isso, considerou uma grande fortuna para si e agradeceu a Allah pela oportunidade de acompanhar o Profeta nessa viagem e enfrentar com ele toda espécie de perigo.

No caminho de Meca para Medina, essa pequena caravana refugiou-se primeiro numa caverna da montanha chamada “Thawr”. Ao entrar nessa caverna, Hazrat Abu Bakr Siddiq (ra) apresentou uma prova concreta de sua devoção ao Profeta. Na caverna montanhosa, desabitada e infestada de animais selvagens, Hazrat Abu Bakr (ra) entrou primeiro e limpou-a. Tapou as inúmeras aberturas existentes nela. O Nobre Profeta (s) repousava nessa caverna, com a cabeça apoiada sobre o joelho de Abu Bakr Siddiq (ra). Nesse momento, uma serpente venenosa saiu de uma abertura descoberta e mordeu o pé de Hazrat Abu Bakr (ra). Abu Bakr (ra) ficou atormentado pelo veneno; mas, temendo despertar o Profeta e perturbar o seu repouso, não moveu sequer um pouco o corpo. Contudo, a insuportável dor do veneno deixou-o tão angustiado que duas lágrimas se desprenderam de seus olhos e caíram sobre a face do Mensageiro. É difícil para nós imaginar quão imenso amor e sincera devoção e reverência ao Mensageiro (s) permitiram a Hazrat Abu Bakr Siddiq (ra) agir dessa maneira.

A extraordinária combinação de firmeza e ternura

No caráter de Hazrat Abu Bakr Siddiq (ra) havia uma extraordinária combinação de firmeza e ternura. Essa era uma de suas principais características e, por isso, estava profundamente em harmonia com a natureza do Profeta. Quando era necessário adotar firmeza, ele se tornava duro como o aço, exatamente na medida exigida. Por outro lado, quando era necessário demonstrar suavidade, não dava lugar algum à ira sem motivo nem a um vazio sentimento de honra pessoal. Nessas situações, era como metal derretido e liquefeito. Certa vez, um judeu chamado Fakhach zombava invocando o nome de Allah; diante disso, um intenso fogo de ira inflamou-se no corpo de Hazrat Abu Bakr (ra). Ele desferiu no homem uma bofetada com toda a sua força e disse: “Se não tivesse sido assinado entre vós e nós um pacto de ‘não guerra’, eu teria decepado agora mesmo a tua cabeça.” Quando o tratado de Hudaybiyyah foi assinado, os representantes dos coraixitas disseram ao Nobre Profeta (s), com sarcasmo e zombaria, que os seus companheiros o abandonariam em tempos de grave perigo. Então Hazrat Abu Bakr (ra) ficou extremamente furioso e respondeu com palavras tão duras que normalmente nem se poderia esperar tal declaração de alguém tão paciente quanto ele. Contudo, seu senso de honra e dignidade era tão aguçado que aquela resposta brotou espontaneamente de seus lábios. Além disso, aquele a quem ele respondeu com palavras tão duras havia sido, na época da Jahiliyyah, alguém beneficiado pela generosidade de Hazrat Abu Bakr (ra). Por essa razão, o homem foi obrigado a suportar e engolir aquilo.

Por outro lado, durante a batalha de Badr, quando Allah coroou os muçulmanos com a vitória e numerosos chefes dos kafir chegaram como prisioneiros, ele se revelou um oceano insondável de afeto e benevolência para com eles; contudo, não pôde esquecer por um único instante que aqueles chefes coraixitas haviam submetido muçulmanos inocentes e indefesos a cruéis perseguições e opressão, passado um rolo compressor de torturas desumanas sobre o Profeta de toda a humanidade, Hazrat Muhammad (s), e seus companheiros, e os tinham obrigado a abandonar a sua terra. O próprio Hazrat Abu Bakr (ra) também havia sido torturado e oprimido por eles de várias maneiras. Mas suportou tudo isso serenamente por causa do Islã. Ainda assim, não conseguiu sequer pensar em buscar a menor vingança contra aqueles prisioneiros sob seu poder. Por isso, tal como os demais companheiros, em vez de aconselhar o Profeta de toda a humanidade a matar os prisioneiros, aconselhou que fossem libertados mediante o pagamento de resgate. Era crença e esperança de Hazrat Abu Bakr (ra) que, ao receberem essa inesperada benevolência da parte dos muçulmanos, talvez os chefes kafir se sentissem atraídos pelo Islã e se empenhassem em obter a satisfação de Allah.

Visão ampla e discernimento

O tratado de Hudaybiyyah constitui um capítulo importante da história islâmica. As circunstâncias e as condições sob as quais esse acordo foi celebrado pareciam extremamente desalentadoras e dolorosas para os muçulmanos. Contudo, o resultado que finalmente se revelou não foi apenas grandemente estimulante para o Islã e os muçulmanos; na realidade, foi para eles uma “vitória manifesta” — Fath Mubīn. No momento da assinatura desse tratado, o papel de Hazrat Abu Bakr Siddiq (que Allah esteja satisfeito com ele) revelou inequivocamente sua sutil visão de longo alcance, seu agudo discernimento e sua extraordinária presença de espírito. Nenhum dos Companheiros estava disposto a aceitar as condições desse tratado. Hazrat Umar Faruq (que Allah esteja satisfeito com ele) opunha-se tanto às condições em questão que se apresentou diante do Mensageiro e falou com ele em termos extremamente severos. (Por isso, naturalmente, arrependeu-se durante toda a vida.) Somente Hazrat Abu Bakr Siddiq (que Allah esteja satisfeito com ele) apoiou o Mensageiro do princípio ao fim nesse assunto. Ele não apenas apoiou vigorosamente o tratado, como também, usando sua influência, tranquilizou os demais muçulmanos. Foi graças a todos esses esforços que, por fim, o descontentamento de Hazrat Umar Faruq (que Allah esteja satisfeito com ele) se acalmou.

Na realidade, embora esse tratado parecesse publicamente e à primeira vista prejudicial aos muçulmanos, lesivo à sua dignidade e indicativo de um futuro sombrio, e embora, por essa razão, não houvesse uma única pessoa em toda a sociedade muçulmana que o apoiasse e estivesse livre de dúvidas a seu respeito, Hazrat Abu Bakr Siddiq (que Allah esteja satisfeito com ele), vários anos antes de seus benefícios se manifestarem, já havia percebido, com os olhos do conhecimento, suas vantagens de longo alcance. O próprio Nobre Profeta (que a paz esteja com ele), por meio da revelação e da inspiração divina, estava plenamente informado sobre os benefícios ocultos e os enormes frutos do tratado de Hudaybiyyah e, por isso, permanecia firme, resoluto e inabalável. Mas o apoio e a firmeza demonstrados por Hazrat Abu Bakr Siddiq (que Allah esteja satisfeito com ele) a esse respeito, sem tal auxílio, foram realmente extraordinários. Se isso foi o resultado da influência luminosa e espontânea da fé, então deve-se admitir que uma fé dessa natureza — o mais elevado grau de fé — só havia sido alcançada por Abu Bakr Siddiq (que Allah esteja satisfeito com ele). E, graças à sua visão política e prudência, não se encontrará realmente paralelo para isso na história subjacente ao tratado.

Igualmente amado por Allah, pelo Mensageiro e pelos muçulmanos

Devido ao seu serviço dedicado e sincero, Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) era igualmente amado por Allah, pelo Mensageiro e pelo povo muçulmano. Na realidade, o grau dessa popularidade era tão elevado que, depois do Profeta do mundo, é duvidoso que alguém pudesse ser igual a ele nesse aspecto. Não se encontra exemplo semelhante em toda a história do Islã. Mencionaremos aqui algumas de suas razões.

Quando o Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) estava deitado em seu leito de morte, confiou a Hazrat Abu Bakr Siddiq (que Allah esteja satisfeito com ele) a responsabilidade de conduzir a oração das pessoas. Quanto a outros, ele rejeitou com grande firmeza todos os conselhos que lhe foram dados. Consequentemente, confiou-a a Hazrat Abu Bakr Siddiq (que Allah esteja satisfeito com ele). Sobre esse assunto, rejeitou com grande firmeza todos os conselhos que lhe foram dados acerca de outros. Assim, Hazrat Abu Bakr Siddiq (que Allah esteja satisfeito com ele) continuou regularmente a conduzir a oração. Certa vez, como ele não conseguiu chegar à mesquita no horário exato, Hazrat Bilal (que Allah esteja satisfeito com ele) pediu a Hazrat Umar Faruq (que Allah esteja satisfeito com ele) que conduzisse a oração. Temendo que a oração se atrasasse, Hazrat Umar Faruq (que Allah esteja satisfeito com ele) começou a conduzi-la. Sua voz era extremamente alta e alcançava longe. Assim que seu chamado de takbīr chegou aos ouvidos do Profeta do mundo, que estava deitado na abençoada câmara adjacente à mesquita, ele despertou sobressaltado e perguntou: “Onde está Abu Bakr hoje?”… Isso não agradará nem a Allah nem ao povo muçulmano.

Além disso, a extraordinária posição e a confiança de que Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) gozava aos olhos do Profeta do mundo eram igualmente incomparáveis. O Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) expressou isso claramente, com suas próprias palavras, em uma de suas declarações:

Entre todos os Companheiros, ninguém é mais benévolo do que ele. Se eu tivesse de escolher alguém da sociedade humana como amigo íntimo, faria de Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) meu amigo. Naturalmente, entre nós existem — e continuarão a existir — amizade, companheirismo, fraternidade e o firme vínculo da fé, até que Allah nos reúna novamente. (Bukhari)

A grande posição que Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) ocupava na presença do Profeta do mundo pode ser claramente compreendida pelas ações do Mensageiro ao longo de sua vida. Em Meca, o Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) costumava visitar com frequência a casa de Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele). Também em Medina, sua presença era indispensável na maioria dos assuntos importantes. Certo dia, ele havia convidado três Companheiros pobres para comer em sua casa; porém, ficou retido na presença do Mensageiro até tarde da noite, de tal modo, por causa de um assunto especialmente urgente, que não pôde voltar para casa a tempo de recebê-los. O próprio Hazrat Umar Faruq (que Allah esteja satisfeito com ele) disse que Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) era o companheiro constante do Profeta do mundo. Seu auxílio e conselho eram extremamente necessários em todos os assuntos gerais e civis dos muçulmanos. Ele era informado sobre muitas questões secretas. Antes do falecimento do Profeta, entre todas as portas existentes no recinto da mesquita, todas foram fechadas, exceto a porta de Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele). Quando os Nobres Companheiros viam o Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) anormalmente irado, era por intermédio de Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) que tomavam conhecimento do verdadeiro assunto e, quando necessário, pediam perdão.

Características do caráter

Hazrat Abu Bakr Siddiq (que Allah esteja satisfeito com ele) era, por natureza, dotado de um caráter elevado e nobre. Mesmo na época da Jahiliyyah, era agraciado com as virtudes da pureza, honestidade, bondade, benevolência, justiça e lealdade. Na sociedade daquele tempo, era um homem digno de confiança. Embora fosse uma pessoa respeitada numa sociedade em que o consumo de álcool, o adultério e a libertinagem haviam assumido proporções avassaladoras, Abu Bakr Siddiq (que Allah esteja satisfeito com ele) permanecia completamente puro de toda a sua corrupção e imundície. Na realidade, essas qualidades já estavam naturalmente presentes nele. Mais tarde, graças aos ensinamentos morais do Alcorão e à sua estreita companhia com o Hazrat, essas qualidades passaram a brilhar ainda mais intensamente em seu caráter.

A piedade — taqwa — alcança sua plena maturidade numa pessoa quando, por um lado, sua mente e seu coração estão livres de todo pensamento e ideologia falsos e, por outro, seus membros se abstêm de toda injustiça e pecado. Depois do Profeta do Universo, essa forma de taqwa foi observada no caráter de Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) de maneira tão manifesta que não se encontra igual em ninguém mais.

Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) sentia, por natureza, aversão à liderança, autoridade, preeminência, amor pelo mundo e desejo de honra. Gastou sua riqueza generosa e livremente no caminho de Allah. Chegou até mesmo a contrair uma dívida de seis mil dirhams durante o período do Califado. Ainda assim, não estava disposto a gastar consigo sequer a menor quantia do dinheiro do povo. Por isso, antes de falecer, deixou como testamento que seu jardim particular fosse vendido para quitar sua dívida com o Bayt al-Mal e que qualquer excedente fosse enviado ao califa seguinte.

Firmeza e estabilidade

A provação e a calamidade mais difíceis da vida de Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) surgiram por ocasião do falecimento do Profeta do Universo. O afeto e a atração que sentia pelo Hazrat podiam ser considerados uma forma de “amor”. Apesar disso, a paciência e a serenidade que demonstrou ao ouvir a notícia do falecimento do Profeta do Universo encontram poucos paralelos na história. Não apenas isso: se, naquele momento difícil do Islã, a firmeza inabalável e a extraordinária estabilidade de Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) não tivessem guiado os muçulmanos pelo caminho correto, não há a menor dúvida de que toda a comunidade muçulmana teria enfrentado uma calamidade terrível e total. Com efeito, ao receberem a notícia do falecimento do Hazrat, os muçulmanos em geral ficaram profundamente aflitos, e muitos perderam completamente a noção de direção. Até mesmo um homem de vigor e mente lúcida como Hazrat Umar al-Faruq (que Allah esteja satisfeito com ele) ficou tão perturbado que, de pé na Mesquita do Profeta, começou a discursar para o povo muçulmano, dizendo que o Hazrat não havia falecido; pelo contrário, assim como Hazrat Musa havia ido para junto de Allah por quarenta dias e depois retornado, Hazrat Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) também havia ido para junto d’Ele da mesma maneira e voltaria novamente. Chegava até a ameaçar de fato matar quem dissesse que o Hazrat havia falecido, afirmando que, depois que o Profeta Honorável (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) retornasse, tais pessoas seriam severamente punidas.

Na verdade, não é possível imaginar corretamente quão insuportável foi para os demais Companheiros o difícil acontecimento que provocara uma reação tão intensa na mente e no coração de Hazrat Umar al-Faruq (que Allah esteja satisfeito com ele). Além disso, pode-se ter uma vaga ideia de quão terrível poderia ser o efeito da notícia do falecimento do Hazrat sobre Hazrat Abu Bakr Siddiq (que Allah esteja satisfeito com ele), o companheiro inseparável do Profeta do Universo. Sobretudo quando se sabe que Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) ficava profundamente agitado até mesmo diante do menor sofrimento do Profeta Honorável (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), o corpo estremece só de pensar em quão dolorosa deve ter sido para ele a notícia de sua morte. Apesar disso, é verdadeiramente surpreendente como Hazrat Abu Bakr Siddiq (que Allah esteja satisfeito com ele) demonstrou paciência ao ouvir a notícia da morte do Profeta do Universo, como enfrentou esse acontecimento dilacerante e como, à luz do Alcorão, protegeu o povo muçulmano da escuridão absoluta. No momento do falecimento do Hazrat, Abu Bakr Siddiq (que Allah esteja satisfeito com ele) não estava presente na cidade de Medina. Encontrava-se num lugar chamado Sanah, nas proximidades de Medina. Ao receber a notícia do falecimento, chegou rapidamente à cidade. Viu todas as pessoas dominadas pela tristeza e consumidas pela preocupação. Viu também Hazrat Umar al-Faruq (que Allah esteja satisfeito com ele) discursando de pé na Mesquita do Profeta. Não parou em lugar algum nem por um instante: foi diretamente à casa de Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela), afastou o véu do rosto do Hazrat e beijou seu rosto abençoado. Dirigindo-se ao Hazrat, disse: “Quão grandiosamente puro foste em vida, e quão puro estás hoje, depois da morte!” Então apresentou-se diante da multidão reunida e disse:

Aqueles que adoravam Hazrat Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) devem saber que Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) faleceu. E aqueles que adoravam e veneravam Allah devem lembrar-se de que Allah está vivo e vivente para sempre; Sua morte não existe.

Em seguida, ele recitou este versículo do Alcorão Majid:

*******(árabe)

Muhammad era um Mensageiro, nada mais. Antes dele, muitos outros mensageiros já haviam passado. Se ele também morrer ou for morto, acaso vocês voltarão atrás?

Ao ouvir esse versículo, Hazrat Umar (r.a.) compreendeu que o falecimento do Mensageiro era incontestável. Assim que essa percepção despertou intensamente em sua mente, ele, tomado pela dor, caiu desfalecido ao chão. Depois disso, ele e os demais muçulmanos começaram a refletir profundamente sobre a gravidade e a amplitude da questão, bem como sobre suas consequências de longo alcance. Na verdade, o impacto causado no coração do povo pelo falecimento do Profeta havia privado quase todos da capacidade de pensar e discernir. Sob o golpe do discurso de Hazrat Abu Bakr (r.a.), as trevas espessas logo se dissiparam no vazio. Que grande e terrível calamidade a nação muçulmana foi poupada por meio disso pode ser percebido até por quem possua o mínimo conhecimento de ciência social.

Visão política e sabedoria

Para provar a superioridade de Hazrat Abu Bakr (r.a.) em visão política e sabedoria, basta um acontecimento ocorrido imediatamente após o falecimento do Profeta. O Profeta havia falecido, e os trabalhos de seu sepultamento ainda não estavam concluídos. Enquanto isso, os Ansar de Medina já haviam se reunido na Saqifah Banu Sa’idah e começado a analisar e discutir a organização do Estado e o califado após o Mensageiro. No curso dessa discussão, também surgiu a questão: quem teria, dali em diante, o direito ao califado, os Ansar ou os Muhajirun? Os Ansar estavam extremamente conscientes de seus direitos, e os Muhajirun tampouco estavam em posição inferior. Assim, chegou-se a um ponto em que alguns disseram: *******(árabe) “Haverá um emir entre nós e um emir entre vocês”. A situação tornou-se tão confusa e tensa que, a qualquer momento, inúmeras espadas afiadas poderiam ser desembainhadas.

De um lado, estava essa situação difícil. De outro, os principais Muhajirun, como Hazrat Umar e Hazrat Abu Ubaidah (r.a.), estavam profundamente envolvidos, na Mesquita do Profeta, em discussões sobre a situação após o falecimento do Profeta. Nesse momento, Hazrat Abu Bakr (r.a.), acompanhado de Hazrat Ali (r.a.), estava ocupado com os preparativos para o amortalhamento e o sepultamento do Profeta. Entretanto, alguém levou a Hazrat Umar Faruq (r.a.) a notícia da reunião realizada na Saqifah Banu Sa’idah. Junto com isso, também lhe foram relatadas as palavras proferidas pelos líderes dos Ansar. Ao receber essa notícia, ele mandou chamar Hazrat Abu Bakr (r.a.) para fora. Hazrat Abu Bakr (r.a.) explicou que estava ocupado. Mas, quando foi informado da gravidade da situação, compreendeu claramente que, se ela não fosse controlada imediatamente, havia grande risco de a Ummah muçulmana se fragmentar completamente. Pensando no futuro do Islã e da nação muçulmana, adiou uma tarefa tão importante quanto o amortalhamento e o sepultamento do Mensageiro. Depois, com o propósito de tentar salvar a nação muçulmana da destruição iminente, foi à Saqifah Banu Sa’idah acompanhado de Hazrat Umar e Abu Ubaidah (r.a.).

Ao chegar à Saqifah Banu Sa’idah, ele primeiro procurou avaliar toda a situação e compreender sua verdadeira natureza. Percebeu claramente que a veemência dos discursos de algumas pessoas havia ferido profundamente o ânimo dos presentes. O temperamento de muitos havia se tornado extremamente irritado. Mesmo vendo essa situação, ele não se desanimou de modo algum. Começou a controlar a situação e a remover os mal-entendidos entre as pessoas. Quando Hazrat Umar Faruq (r.a.) quis fazer o primeiro discurso, Abu Bakr Siddiq (r.a.) o impediu, pois compreendeu que, naquela situação tensa, um discurso de Hazrat Umar Faruq (r.a.) poderia tornar a situação ainda mais confusa. Em seguida, ele próprio se levantou e começou a discursar. Seu discurso era extremamente solene, cativante, comovente e adornado com uma linguagem elevada. Sua argumentação era, sob todos os aspectos, baseada na justiça, na ciência e na razão. Ela tocou profundamente a assembleia presente e enterneceu seus corações. Alguns dos Ansar quiseram responder ao discurso, mas, para manter a situação pacífica, isso não era de modo algum viável. Tudo o que era possível dizer em louvor aos Ansar, ele o disse da melhor maneira, apresentando ao mesmo tempo seu próprio ponto de vista sobre a situação existente com argumentos extremamente irrefutáveis. Assim, num instante, desapareceram toda a névoa, todos os receios e todo o labirinto das dúvidas. Quando viu que a situação havia se acalmado e que todo o tumulto da discórdia e do conflito havia desaparecido no vazio, ele, como um estadista da mais alta competência, propôs: “Hazrat Umar e Hazrat Abu Ubaidah ibn al-Jarrah (r.a.) estão entre os melhores homens entre vocês; deem o bay’ah a qualquer um dos dois, àquele cuja mão desejarem”.

Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele), assim que ouviu essa proposta, determinou seu próprio dever. Antes que o nome de qualquer outra pessoa fosse apresentado para discussão, ele, com extrema presença de espírito, estendeu a mão na direção de Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) e disse:

Estenda a mão, e nós lhe prestaremos bay‘ah. O Nobre Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) havia nomeado justamente você como seu substituto na oração. Por isso, você é a pessoa mais digna de se tornar o khalifa da comunidade muçulmana. Ao prestarmos bay‘ah a você, teremos, na verdade, a oportunidade de prestar bay‘ah ao melhor entre os mais queridos do Mensageiro.

Hazrat Abu Ubaydah (que Allah esteja satisfeito com ele) avançou e, dirigindo-se a Hazrat Abu Bakr as-Siddiq (que Allah esteja satisfeito com ele), disse:

Entre todos os mujahidin, você é o melhor. Na caverna de Thawr, você foi o único companheiro do Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). A oração é o mais importante dever obrigatório dos muçulmanos, e nela você é o representante e substituto do Nobre Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Portanto, enquanto você estiver presente, ninguém além de você pode ocupar o cargo de khalifa.

Na verdade, ao expressarem seus pensamentos nas palavras mencionadas, os dois líderes mais proeminentes dos mujahidin representaram toda a ummah muçulmana. Eles propuseram e apoiaram a escolha como khalifa de uma pessoa que, na sociedade contemporânea, era verdadeiramente a mais digna de confiança, mais qualificada e melhor de todas. Por fim, Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) concordou em assumir a importante responsabilidade da nação. Assim que a multidão presente compreendeu seu consentimento, ficou ansiosa para prestar-lhe bay‘ah. Na verdade, na história do Islã, essa assembleia de Saqifah Banu Sa‘idah foi extremamente importante. Não há a menor dúvida de que, se nessa ocasião Hazrat Abu Bakr as-Siddiq (que Allah esteja satisfeito com ele) não tivesse demonstrado extraordinária inteligência, presença de espírito, discernimento, firmeza inabalável e uma inflexibilidade tão dura quanto o aço, a ummah islâmica teria sido despedaçada naquele mesmo instante.

A aptidão para suceder o Profeta do mundo

Aquele a quem Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) sucedeu não era um homem comum; era o último Profeta, agraciado com a mais elevada honra pelo Allah Todo-Poderoso. O próprio Allah o guiava diretamente, enviando-lhe a revelação. Ele o auxiliava constantemente por meio dos anjos. Estabelecia sua autoridade por meio de milagres. Seu caráter e todas as suas qualidades haviam se desenvolvido diretamente sob a influência da instrução e da criação de Allah. Por isso, não havia nele, sob aspecto algum, a menor imperfeição ou falha; pelo contrário, ele era um homem que havia alcançado o estágio final da perfeição plenamente desenvolvida. Cumprir devidamente a responsabilidade de suceder um líder tão grandioso e de tão elevada dignidade não é uma tarefa nem um pouco fácil. Por mais baixo que seja o padrão da balança com a qual o olhar deslumbrado pela beleza e majestade universais do Profeta pese a pessoa responsável pelos deveres das gerações posteriores, esse padrão ainda será tão elevado e superior que pouquíssimas pessoas terão coragem de se pesar nele, e ser plenamente aprovadas será igualmente extremamente difícil. Especialmente quando os próprios avaliadores são dignos de ser avaliados segundo padrões ainda mais elevados, essa tarefa se torna mais difícil. Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) sucedeu esse líder máximo da humanidade e de grandeza incomparável somente depois de ser aprovado em um padrão tão difícil, e declarou isso claramente em seu primeiro discurso de formulação de princípios. Apresentamos aqui a parte principal do discurso que ele proferiu imediatamente após ser eleito khalifa:

Ó povo, fui nomeado vosso khalifa, embora não seja melhor do que vós. Portanto, se eu agir corretamente, ajudai-me e cooperai comigo. Mas, se eu errar, corrigi-me e conduzi-me pelo caminho correto. ………… Entre vós, o homem sem influência será influente diante de mim. Recuperarei seus direitos daqueles que os usurparam. Por outro lado, o homem influente será sem influência diante de mim. Recuperarei dele os bens alheios (que ele tomou por meio de pilhagem) e os devolverei aos seus donos. ……… Enquanto eu obedecer a Allah e ao Seu Mensageiro, vós também me obedecereis. Mas, se eu desobedecer a Allah e ao Seu Mensageiro, não será vosso dever obedecer-me.

Nesse discurso, Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) descreveu claramente as metas e os objetivos de seu governo. Nele, também estabeleceu os limites do exercício do poder. E indicou como se deveria proceder com ele caso transgredisse, ainda que minimamente, esses limites. Ao mesmo tempo, destacou esta grande verdade: como chefe de um Estado islâmico, ele era inteiramente responsável por seguir o caminho mostrado pelo Nobre Mensageiro (que a paz esteja com ele), e o povo muçulmano seria obrigado a obedecê-lo exatamente enquanto ele próprio continuasse obedecendo ao Mensageiro de Allah; porém, se se desviasse disso num mínimo que fosse, o povo islâmico não apenas poderia recusar-se a obedecer-lhe, como também teria o direito de declarar abertamente rebelião contra ele. Na verdade, não era algo comum convocar publicamente todos a prestar contas de suas próprias palavras e ações à luz das palavras e ações do Profeta, ao assumir devidamente a responsabilidade de suceder ao melhor dos profetas, Hazrat Muhammad (que a paz esteja com ele). Especialmente diante daqueles que conheciam plenamente, por experiência direta, as palavras e ações do Nobre Mensageiro (que a paz esteja com ele) e possuíam em grau máximo a coragem e a capacidade de criticar até mesmo uma personalidade de grande estatura, apresentar tal desafio era, sem dúvida, um ato de extrema audácia. Contudo, Hazrat Abu Bakr Siddiq (que Allah esteja satisfeito com ele) realmente demonstrou essa audácia, e a própria história é testemunha irrefutável de que ele cumpriu, tanto quanto era possível, a responsabilidade de suceder ao Profeta universal. Para comprovar essa verdade, é significativo mencionar uma frase de Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele), o melhor dos homens depois de Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele). Ao contemplar, maravilhado e atônito, os feitos extraordinários dele (de Abu Bakr Siddiq), disse, com a voz carregada de profundo pesar:

Se este é o exemplo prático e o padrão de servir ao Islã e aos muçulmanos que o senhor estabeleceu, então ninguém entre os que vierem depois do senhor terá coragem de alcançar uma posição igual à sua.

Quando Hazrat Abu Bakr Siddiq (que Allah esteja satisfeito com ele) foi nomeado califa, não recebeu a responsabilidade de governar um Estado bem organizado e consolidado. A verdade é que, depois da era profética, coube a ele próprio lançar novamente os alicerces do governo islâmico. Por isso, todos os problemas, complexidades e obstáculos que podem surgir diante de um Estado recém-estabelecido se ergueram diante dele como montanhas. Nem todo governante é capaz de resolver adequadamente essas complexidades. Somente aqueles a quem Allah concedeu especial aptidão para governar um Estado podem solucioná-las corretamente. O primeiro califa, Hazrat Abu Bakr Siddiq (que Allah esteja satisfeito com ele), por natureza possuía tal aptidão. Por essa razão, imediatamente após a morte do Profeta universal, quando a comunidade muçulmana se viu diante de graves problemas, Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele), graças à sua incomparável competência e habilidade, resolveu adequadamente todos eles. A maneira como, em pouquíssimo tempo, conseguiu enfrentar todas as ameaças e desafios internos e externos do Estado islâmico, bem como a extraordinária habilidade que demonstrou nos assuntos administrativos, constitui, sem dúvida, um exemplo raro na história da administração estatal. Não é possível detalhar aqui este assunto; contudo, podem ser apontados resumidamente alguns aspectos.

(1) Já discutimos anteriormente a reação provocada entre os Ansar pela morte do Profeta universal e a maneira como Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele), por meio de profunda inteligência e presença de espírito, conseguiu controlar toda aquela situação adversa e caótica. Após o juramento de fidelidade ao califado prestado a Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) em Saqifa Banu Saida, embora não houvesse receio de qualquer medida rebelde por parte dos Ansar, acreditava-se que a recusa de Sa’d ibn Ubadah, líder dos Ansar, em prestar o juramento poderia ter consequências graves. Algumas pessoas chegaram a aconselhar que se adotasse imediatamente uma política repressiva contra ele. Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele), porém, considerando aquilo uma manifestação passageira de emoção e entusiasmo, adotou a política de ignorá-la. Desde então, ele compreendera que, se fosse tomada qualquer medida de resistência contra Sa’d, toda a tribo dos Ansar poderia se revoltar; mas, se nada fosse feito, além de uma sombra, ninguém mais permaneceria ao lado dele. Na situação daquele momento, esse raciocínio de Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) pareceu exteriormente equivocado; porém, o curso posterior dos acontecimentos provou que sua opinião era correta e infalível. Além disso, se naquela situação tivesse sido tomada qualquer medida contrária à sua decisão, as consequências teriam sido extremamente graves.

(2) Após a morte do Profeta (que a paz esteja com ele), surgiram na família do Nobre Mensageiro muitas concepções equivocadas sobre Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) e seu governo. Em consequência, também começaram a surgir várias complicações políticas. A relação entre os membros da família do Mensageiro e o povo muçulmano era extremamente delicada, emocional e sensível. Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) tampouco era, nesse aspecto, de modo algum insensível. Contudo, acima de todas essas relações estava seu enorme senso de dever, cuja preservação o tornava responsável tanto perante Allah quanto perante o povo. A angústia mental que se intensificou em Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) devido ao conflito entre essas duas tendências pode ser claramente compreendida a partir de alguns de seus discursos daquele período. Ele não podia adotar com Hazrat Fatimah (que Allah esteja satisfeito com ela), Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) e Hazrat Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) os métodos políticos usuais. Isso teria sido completamente contrário à emoção e ao entusiasmo dos muçulmanos e, do ponto de vista político, teria assumido uma dimensão extremamente perigosa. Além disso, como homem prudente e previdente, ele próprio não poderia desejar tal coisa. Por outro lado, também não lhe era possível apoiar a perspectiva deles sobre o califado e questões semelhantes. Pois acreditava que, se o fizesse, estaria agindo contra a Shariah. Acima de tudo, o fato de alguns membros da família do Mensageiro ainda não terem prestado juramento de fidelidade às mãos de Hazrat Abu Bakr Siddiq (que Allah esteja satisfeito com ele) estava prejudicando consideravelmente a dignidade do califado. Ademais, em tal situação, não era de modo algum pequeno o receio de que os inimigos do Islã provocassem, a qualquer momento, uma grave calamidade. Tudo isso era tão claro quanto a luz do dia; contudo, assim como Hazrat Abu Bakr Siddiq (que Allah esteja satisfeito com ele) nada fez contra a emoção popular, também adotou exatamente a política que, segundo a Shariah, deveria ser seguida. Sob esse aspecto, o maior motivo de consolo era que o líder da tribo dos Banu Hashim nesse conflito era Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele). Ele podia, naturalmente, divergir em alguma questão; mas era indiscutível que não lhe seria possível provocar qualquer tipo de calamidade. Foi precisamente por isso que Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) adotou uma política de infinita generosidade. E a história é testemunha de que a política por ele adotada era plenamente fundamentada na razão e na verdade.

(3) Quando Hazrat Abu Bakr (ra) foi nomeado califa, a situação geral do país era extremamente ruim. A todo momento havia o temor de um ataque dos romanos vindo do exterior; internamente, porém, com exceção de Meca, Medina e Taife, quase toda a Arábia estava tomada por uma onda de apostasia do Islã e de recusa em pagar o zakat. Além disso, em vários lugares, pretendentes à falsa profecia e indivíduos ávidos por riqueza também começaram a levantar a cabeça. Em pouco tempo, o número de seus apoiadores continuou a crescer. Por outro lado, as batalhas de Tabuk e Mu’ta deram início a um conflito interminável entre os muçulmanos e os romanos. Os romanos estavam prontos para atacar os muçulmanos a qualquer momento; e, devido à retirada dos muçulmanos na batalha de Mu’ta, sua coragem aumentou ainda mais. Nessas circunstâncias, quando se espalhou a notícia da desordem interna do califado e da eclosão de rebeliões nas principais regiões do país, era evidente que eles poderiam atacar Medina a qualquer instante. Na verdade, esses dois perigos já existiam anteriormente, e, assim que Hazrat Abu Bakr (ra) foi nomeado califa, teve de enfrentá-los ambos. É fácil compreender com que extraordinária coragem e que admirável discernimento ele enfrentou os dois perigos nessa situação e obteve uma vitória retumbante.

Assim que foi nomeado califa, ele enviou primeiro o exército preparado para atacar os romanos. Com efeito, ainda durante a vida de Hazrat Nabi Karim (s), fora tomada a decisão de enviar esse exército sob o comando de Hazrat Usama ibn Zayd; mas, devido ao adoecimento repentino do Profeta, a partida foi adiada por algum tempo. Após o falecimento do Profeta, um grande número de Companheiros começou a opor-se ao envio desse exército. Alguns argumentaram que, numa situação extremamente perigosa tanto no âmbito interno quanto no externo, enviar tal exército para fora da capital seria um ato de imprudência. Da parte de alguns, levantou-se também objeção ao comando de Hazrat Usama, que era de origem escrava. Hazrat Abu Bakr Siddiq (ra), porém, permaneceu firmemente fiel à sua política, apesar de todos esses obstáculos e circunstâncias adversas. Declarou claramente: “Não posso rebaixar a bandeira que o próprio Rasul Karim ergueu”. Em resposta às propostas dos que se opunham, disse: “Mesmo que cães e chacais me dilacerem, ainda assim não poderei cancelar o plano e a decisão do Rasul. Como poderia eu destituir aquele que o Rasul nomeou?”

Em suma, apesar de todos esses obstáculos e circunstâncias adversas, Hazrat Abu Bakr (ra) fez questão de enviar o exército sob a liderança de Hazrat Usama. Na realidade, foi graças à firmeza incomparável e à força de vontade do Khalifat al-Mu’minin que a infinita misericórdia de Allah desceu. O exército enviado sob o comando de Usama retornou a Medina após alcançar uma vitória grandiosa e gloriosa. Como resultado, os inimigos internos ficaram extremamente surpresos e aterrorizados, enquanto os inimigos externos também ficaram profundamente amedrontados e apreensivos. Quando as tribos rebeldes da Arábia ouviram a notícia do envio desse exército contra os romanos, não puderam deixar de tremer ao perceber a imensa força interior do Estado centrado em Medina. Por outro lado, Heráclio ficou extremamente ocupado em proteger as fronteiras de seu império. Em uma palavra, Hazrat Abu Bakr (ra) matou dois coelhos com uma só pedrada; e é inegável que seu plano foi plenamente bem-sucedido.

Depois de afastar o perigo da invasão externa, Hazrat Abu Bakr Siddiq (ra), empregando as forças restantes, esmagou com extrema firmeza a rebelião e a contrarrevolta internas — embora alguns membros de um influente grupo de Companheiros defendessem uma política de tolerância e a não adoção de medidas severas nesse assunto. Eles diziam: aqueles que se identificam como muçulmanos não deveriam ser atacados nem privados da proteção de suas vidas e bens apenas por se recusarem a pagar o zakat. Hazrat Abu Bakr (ra), porém, não pôde de modo algum apoiar esse ponto de vista. Declarou claramente: a oração e o zakat são atos de adoração equivalentes no Islã; portanto, se se pode lutar para estabelecer a oração, por que não se pode lutar contra aqueles que não pagam o zakat? Declarou: “Juro por Allah que combaterei todos os que criarem distinção entre a oração e o zakat — rezando, mas não pagando o zakat — e todos os que hoje se recusarem a entregar nem sequer uma corda entre os bens cujo zakat era pago na época do Rasul”. E acrescentou: “Mesmo que ninguém me acompanhe nesta jihad, lutarei sozinho”.

Foi como resultado dessa atitude inflexível e intransigente de Hazrat Abu Bakr (ra) que surgiu no coração de todos os muçulmanos um novo impulso e entusiasmo para agir, e, em pouquíssimo tempo, toda espécie de rebelião e contrarrevolta foi extirpada do reino do califado. O aspecto mais memorável a esse respeito é que, apesar de a rebelião ter assumido proporções extremamente amplas, de o governo de Medina estar cercado por inúmeros problemas complexos e, acima de tudo, de um grande número de seus próprios homens favorecer uma política de tolerância para com os rebeldes, Hazrat Abu Bakr (ra) não cedeu nem um pouco; pelo contrário, rejeitou todas as propostas de compromisso e de adoção de uma política liberal. Somente os mais sábios podem sentir quanta autoconfiança e quanta confiança destemida em Allah são necessárias para tomar uma medida tão terrível. Com efeito, se, num momento tão crítico, Hazrat Abu Bakr (ra) não tivesse demonstrado essa firmeza, mas, amedrontado e apreensivo diante da rebelião e da contrarrevolta crescentes, tivesse deposto as armas perante os rebeldes e os apóstatas, não poderia haver a menor dúvida de que até o nome do sistema estatal islâmico teria sido apagado das páginas da história. E, se isso tivesse acontecido, a história da civilização mundial teria sido escrita de maneira completamente diferente; mais ainda, o próprio curso da civilização mundial teria necessariamente estagnado — disso não há dúvida. Como resultado da postura rigorosa e da medida idealista e intransigente de Hazrat Abu Bakr (ra), a poderosa maré que irrompera na civilização islâmica, durante seus apenas dois anos e três meses de governo, inundou toda a Arábia, irrigou o vizinho reino do Iraque e começou a fluir sobre os demais países. Não se encontra em toda a história mundial nenhum exemplo de uma nova civilização alcançar, de forma tão repentina e em tão curto espaço de tempo, tamanha amplitude, expansão e progresso.

Na verdade, somente quando uma pessoa de caráter tão grandioso quanto o de Hazrat Abu Bakr (ra) dirige um Estado é possível alcançar não apenas o progresso e o bem-estar geral dos milhões de habitantes desse Estado, mas também a prosperidade e o prestígio do Islã.

 

O califado de Hazrat Abu Bakr Siddiq (ra)

A grandiosa vida do primeiro califa, Hazrat Abu Bakr Siddiq (ra), foi repleta de muitos feitos luminosos. Em especial, a pirâmide de esforços e realizações erguida durante o breve período de pouco mais de dois anos de seu califado permanecerá imperecível e imaculada até o Dia da Ressurreição. Imediatamente após o falecimento do Profeta do Universo, todo o país árabe — e, com ele, o mundo islâmico — esteve prestes a ser envolvido pela escuridão impenetrável da jahiliyyah. Muitas tribos importantes e influentes declararam rebelião contra o governo islâmico. Os falsos pretendentes à profecia hastearam as bandeiras da revolta em várias regiões. Aqueles que se recusavam a pagar o zakat não apenas deixaram de pagá-lo, mas também lançaram ameaças de saquear Medina Munawwara, a sede do califado. Em suma, pode-se dizer que, assim que o poderoso sol do Islã começou a declinar, sua chama radiante subitamente se aproximou da extinção, como uma lâmpada sem óleo no fim da noite. Contudo, graças à visão, à coragem, à perspicácia política e à extraordinária paciência e firmeza do grande califa que sucedeu ao Mensageiro, a luz do Islã não apenas foi salva da ameaça da extinção eterna, como também iluminou toda a Arábia com aquela brilhante tocha da orientação. Por isso, deve-se dizer que, após o desaparecimento do Profeta do Universo, o grande homem que salvou o estabelecimento do sistema de vida islâmico da destruição e perante quem o mundo muçulmano possui uma dívida impagável foi o primeiro califa, Hazrat Abu Bakr Siddiq (ra).

Durante o califado do segundo califa, Hazrat Umar Faruq (ra), foram realizados muitos feitos grandiosos e solucionadas inúmeras questões difíceis e complexas. Até mesmo os vastos impérios romano e persa foram despedaçados sob o impacto da inundação islâmica. Esta é uma verdade histórica absoluta, que ninguém pode negar. Mas por meio de quem foi possível preservar os fundamentos do califado islâmico, despertar no coração e na mente de toda a ummah islâmica a irresistível corrente revolucionária de dedicação e autossacrifício, e organizar e disciplinar o Califado Divino? Acima de tudo, quem salvou a sociedade e o Estado islâmicos da tempestade devastadora? Em resposta a todas essas perguntas, somente o nome de Abu Bakr Siddiq (ra) pode ser pronunciado. Neste artigo, tentaremos apresentar uma análise e uma avaliação das atividades realizadas durante o califado de Abu Bakr Siddiq (ra) e da expansão do Islã até os céus.

O caráter consultivo do califado

É indiscutível que Hazrat Abu Bakr Siddiq (ra) lançou, segundo o modelo da profecia, os primeiros fundamentos do califado islâmico. Antes de tudo, sua eleição realizou-se com base na opinião pública expressa. Além disso, por trás de cada uma das muitas obras importantes que realizou estava o parecer espontâneo dos mais ilustres Companheiros, homens respeitados pela população civil islâmica e dignos da posição de seus representantes naturais. Por essa razão, ele jamais permitiu que os Companheiros dessa categoria se afastassem da sede do califado. O Mensageiro Nobre (s) havia incluído Hazrat Umar Faruq (ra) na lista daqueles que acompanhariam o exército de Usama. Contudo, o primeiro califa não lhe permitiu sair de Medina para uma tarefa ainda mais importante; ele próprio obteve essa autorização junto a Usama.

Quando surgiu a necessidade de atacar a Síria, ele primeiro apresentou a questão à distinta assembleia dos Companheiros para consulta. Após uma discussão detalhada, uma proposta de Hazrat Ali (ra) foi aceita por unanimidade. De modo semelhante, também se buscou conselho quanto à declaração de jihad contra aqueles que se recusavam a pagar o zakat. É verdade, naturalmente, que naquela época o conselho da shura não estava constituído de maneira tão adequada como durante o califado de Umar Faruq (ra); ainda assim, jamais se negligenciou a obtenção da opinião e do parecer dos ilustres Companheiros em qualquer questão nacional, estatal ou religiosa de importância.

O sistema de disciplina interna

Depois de definir a natureza e o caráter do Estado, era extremamente necessário melhorar a administração e a disciplina internas do país, distribuir os cargos importantes e selecionar adequadamente seus ocupantes. Durante o califado de Hazrat Abu Bakr (ra), a conquista de territórios e a expansão do Estado estavam apenas começando; portanto, seu califado deve ser considerado limitado à Península Arábica. Ele dividiu a Península Arábica em várias províncias e distritos. Medina, Meca, Taif, Sanaá, Najran, Hadramaut, Bahrein e Dumat al-Jandal, entre outras, eram províncias autônomas. Em cada província era nomeado um administrador — na linguagem atual, um governador. Fazia parte de suas atribuições desempenhar todas as responsabilidades estatais. Na sede do califado, também era nomeado um chefe para cada departamento. Como exemplo, pode-se mencionar que Hazrat Abu Ubaidah (ra), antes de ser nomeado comandante do exército na Síria, havia sido investido no cargo de ministro das Finanças; Hazrat Umar (ra) era juiz, enquanto Hazrat Uthman e Hazrat Zayd ibn Thabit (ra) ocupavam funções equivalentes às de secretários da corte do califado.

Ao selecionar governadores e oficiais, Hazrat Abu Bakr (ra) sempre dava preferência a pessoas que haviam ocupado cargos semelhantes na época do Nobre Profeta (s), procurando confiar cada tarefa àquele que já a havia desempenhado anteriormente. Por isso, em quase nenhum departamento teve de enfrentar dificuldades decorrentes da nomeação de pessoas incompetentes e inexperientes.

Quando nomeava alguém para um cargo de responsabilidade, Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) geralmente o fazia comparecer diante de si, explicava-lhe detalhadamente suas responsabilidades e deveres e, com palavras extremamente influentes e comoventes, exortava-o a observar a taqwa, a justiça e a equidade em todas as circunstâncias. Aqui se menciona uma parte da exortação que ele proferiu ao nomear Amr bin al-As e Walid bin Uqba (que Allah esteja satisfeito com ele) como coletores de zakat:

Temei a Allah em público e na solidão. Àquele que teme a Allah, Allah cria um caminho e um meio de obter sustento que ninguém poderia imaginar. Àquele que teme a Allah, Allah perdoa os seus pecados e concede-lhe o dobro, ou ainda mais, da recompensa por suas boas ações. Buscar o bem-estar do povo e servi-lo é, sem dúvida, uma das melhores obras de taqwa.

Vocês estão avançando por um caminho tão importante que não há nele o menor espaço para negligência, excesso ou descuido no estabelecimento da religião e no fortalecimento do califado. Portanto, abandonem o hábito repugnante da apatia e da indiferença.

Ao nomear Yazid bin Sufyan governador da Síria, dirigiu-se a ele, dizendo:

Ó Yazid! Tens muitos parentes próximos; por meio do teu poder estatal, podes proporcionar-lhes muitas oportunidades de obter benefícios. Mas deves saber que esse é o meu maior temor. O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse:

Se o governante dos muçulmanos nomear alguém, sem que este tenha o direito, para um cargo de autoridade sobre os muçulmanos, apenas por afeição, a maldição de Allah recairá sobre ele. Allah não aceitará nenhuma justificativa nem expiação da parte dele. Além disso, no fim, Ele o lançará no Inferno.

Vigilância rigorosa sobre os governantes

Por melhores que sejam redigidas e estabelecidas as leis e normas do governo, se não houver vigilância rigorosa sobre os governantes responsáveis e não existir um sistema adequado e livre para a crítica incisiva do povo, todo o sistema administrativo estará fadado a desmoronar, e as esperanças e aspirações naturais do povo em relação às autoridades estarão destinadas ao fracasso. Foi por essa razão que, apesar das nobres qualidades naturais do primeiro califa — humildade, modéstia, indulgência e tolerância —, em certas ocasiões ele teve de realizar a difícil tarefa de distinguir o genuíno do adulterado e o certo do errado por meio de rigor especial, exame minucioso e crítica severa. Nas questões pessoais, extrema gentileza e amizade eram suas características naturais; contudo, no que dizia respeito à religião, à administração e ao califado, ele não tolerava a menor falha ou negligência. Por isso, sempre que observava alguma falha indesejável entre os governantes, determinava sua punição com extrema severidade.

Brandura na aplicação das penas

Hazrat Abu Bakr (r.a.) tratava pessoalmente os criminosos com extrema brandura e compaixão. Durante a vida do Nobre Profeta (s.a.), um homem confessou-lhe ter cometido adultério. Com compaixão, ele aconselhou-o a arrepender-se e a não divulgar esse delito; mas, como o criminoso não se dispôs a escapar à pena prescrita pela Sharia, apresentou-se diante do Nobre Profeta (s.a.), confessou voluntariamente o crime e aceitou essa pena.

Durante o califado, essa mesma natureza de Hazrat Abu Bakr (r.a.) também se manifestava. Ashayás bin Qays, um falso pretendente à profecia, foi preso e levado à sua presença. Por fim, arrependeu-se e pediu que lhe fosse poupada a vida. Hazrat Abu Bakr (r.a.) não apenas o libertou, como também realizou seu casamento com sua própria irmã. Na verdade, do ponto de vista político, a principal responsabilidade do califa era proteger o caráter moral, as vidas e os bens do povo. Embora até então não houvesse um departamento policial estabelecido permanentemente, esse setor continuava sendo administrado de acordo com o sistema instituído pelo Nobre Profeta (s.a.). Naturalmente, Hazrat Abdullah bin Masud (r.a.) foi nomeado responsável pelos departamentos de vigilância e segurança, e também foram estabelecidas penas para alguns delitos específicos. Nesse assunto, ele teve de buscar conselho e praticar o ijtihad, com base no Alcorão e no Hadith, na respeitável assembleia de Companheiros do Parlamento Islâmico.

Em suma, o primeiro califa dava especial atenção à manutenção da paz e da segurança na vida pública e à preservação das estradas contra todo tipo de perigo, mantendo-as seguras. Se alguém criasse o menor obstáculo ou impedimento a esse trabalho, ele lhe aplicava uma punição severa e exemplar. Contudo, em lugar algum transgredia os limites das penas prescritas pela Sharia.

O departamento financeiro do Califado

Na época do Nobre Profeta (s.a.), não havia um sistema claro e bem organizado para administrar o departamento financeiro. Assim que recebia riquezas de diversas fontes, ele ordenava que fossem distribuídas entre as pessoas necessitadas. Durante o governo de Hazrat Abu Bakr (r.a.), não foi feita nenhuma alteração nesse sistema. Já no primeiro ano de seu califado, ele concedeu vinte dirhams per capita a todos, incluindo escravos libertos, mulheres e homens, e pessoas de todas as classes, altas ou baixas. Quando um Companheiro apresentou uma objeção à manutenção dessa igualdade na distribuição da riqueza, ele respondeu: ‘A diferença entre a dignidade e os méritos das pessoas é inegável; mas que relação pode haver entre isso e dar mais ou menos na distribuição da riqueza?’ No final de seu califado, foi formalmente estabelecida uma Bayt al-Mal; contudo, nela jamais se acumulou uma grande quantidade de bens ou dinheiro. Por isso, não surgiu necessidade de tomar qualquer providência para sua conservação ou vigilância. Certa vez, quando um Companheiro lhe perguntou sobre isso, ele respondeu: ‘Para protegê-la, basta um cadeado’. Após sua morte, a Bayt al-Mal situada no local chamado Sanai foi inspecionada sob a liderança de Hazrat Umar Faruq (r.a.), e constatou-se que restava nela apenas um dirham. Ao ver isso, o povo exclamou: ‘Que Allah tenha misericórdia de Abu Bakr’.

Organização militar

Na época do Nobre Profeta (s.a.), não havia um exército bem organizado e disciplinado. Assim que se ouvia o chamado à guerra, toda a população muçulmana reunia-se diante do Nobre Profeta (s.a.), com grande entusiasmo, para participar dela. Durante o governo de Hazrat Abu Bakr (r.a.), esse costume continuou, de modo geral. Contudo, ele introduziu uma nova medida: quando enviava um exército para alguma expedição específica, dividia todos os soldados em várias subunidades e nomeava um comandante para cada uma delas. Foi também durante o governo do primeiro califa que teve início o costume de nomear um Amir al-Umara, ou ‘Comandante-em-Chefe’; e Hazrat Khalid bin al-Walid foi o primeiro a ser nomeado para esse cargo importante e extremamente honroso.

Com efeito, graças à organização e à disposição ordenada do exército dessa maneira, tornou-se extremamente fácil para os mujahidins muçulmanos enfrentar o exército organizado dos romanos.

Formação do caráter e sistema de treinamento dos soldados

Todas as guerras e batalhas travadas durante a época do Nobre Profeta (s.) e do Califado Rashidun foram conduzidas com o objetivo de obter a satisfação de Allah e defender o Estado Islâmico. Por essa razão, dava-se então especial atenção ao aprimoramento do caráter moral das pessoas que se haviam dedicado ao sacrifício por esse objetivo. Como resultado, o exército islâmico alcançou superioridade sobre todo o mundo no aspecto do caráter moral. Depois do Nobre Profeta (s.), Hazrat Abu Bakr (r.a.) também deu atenção especial a esse aspecto no treinamento militar. Quando enviava tropas para expedições específicas, avançava por uma longa distância com o comandante e, ao despedir-se dele, dava-lhe valiosos conselhos. Ao enviar um comandante para a expedição à Síria, aconselhou-o da seguinte maneira:

Encontrarás pessoas que se dedicaram à adoração de Allah. Não as atacarás. Além disso, dou-vos ainda dez conselhos: não matareis nenhuma mulher, criança ou idoso; não cortareis árvores frutíferas; não despovoareis nenhuma aldeia ou lugar habitado. Nunca abatereis cabras ou camelos, exceto por necessidade de alimento. Não ateareis fogo aos palmeirais. Não vos apropriareis de forma alguma dos bens do espólio, e não sereis covardes nem desprovidos de coragem.

Aquisição de equipamento de guerra

Hazrat Abu Bakr (r.a.) pôs em prática um plano específico para adquirir equipamento de guerra. De tudo o que era depositado no fundo governamental por diversas fontes, destinava uma parte considerável ao transporte e à compra de armas. A parcela dos bens do espólio que o Alcorão Sagrado destinara a Allah, ao Mensageiro e aos parentes próximos era toda gasta para atender a essas necessidades militares. Depois de outras tarefas urgentes, o Nobre Profeta (s.) também gastava os recursos restantes nessa área.

O primeiro califa designou, num lugar chamado ‘Baqi’, uma pastagem especial para a criação de camelos e cavalos. Ali foram tomadas providências para a criação de milhares de animais do Estado. Os animais do Estado arrecadados como sadaqa e zakat eram mantidos nesse local.

Inspeção dos centros militares

Apesar de estar sobrecarregado por diversas preocupações e sofrimentos devido à debilidade causada pela velhice, Hazrat Abu Bakr Siddiq (que Allah esteja satisfeito com ele) visitava e inspecionava pessoalmente os acampamentos militares; e, sempre que percebia entre os soldados alguma deficiência ou desvio, tanto no aspecto material quanto no espiritual, tratava imediatamente de corrigi-los. Por ocasião de uma expedição especial, reuniu-se um grande número de soldados num lugar chamado Jurf. Hazrat Abu Bakr Siddiq (que Allah esteja satisfeito com ele) foi inspecioná-los. Quando ele chegou à tenda situada num lugar chamado Banufjārah, os mujahidins levantaram-se e prestaram-lhe honras. Ali, observou entre os soldados provenientes de diferentes tribos um sentimento de orgulho pela nobreza e superioridade mútuas. Por meio de exortações, esforçou-se para refrear a nobreza de linhagem e tribal, bem como a inveja e a animosidade recíprocas, e despertar em todos a tolerância islâmica e o espírito de fraternidade.

Resistência às práticas não islâmicas

A maior causa da posterior distorção das doutrinas religiosas e dos modos de vida propagados pelos profetas foi a progressiva disseminação e aceitação das inovações entre as pessoas. Como consequência, os sistemas baseados nas inovações ocuparam o lugar da religião original, e a verdadeira religião desapareceu. Durante o período de Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele), não se observou qualquer início significativo de inovações na sociedade islâmica. Apesar disso, sempre que algo semelhante aparecia em algum lugar e em algum momento, ele procurava eliminá-lo sem demora.

O papel de Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) em relação ao Alcorão e ao Hadith

Nas batalhas travadas contra os falsos pretendentes à profecia, numerosos mujahidins que haviam memorizado o Alcorão foram martirizados. Particularmente na sangrenta batalha de Yamama, um número tão elevado de memorizadores do Alcorão alcançou o martírio que os Companheiros responsáveis começaram a temer que o Alcorão Majid pudesse desaparecer. Por isso, surgiu com extrema urgência a necessidade de reunir, compilar e organizar imediatamente o Alcorão Majid.

De fato, os versículos e as suratas do Alcorão Majid foram revelados em ocasiões específicas e em resposta a acontecimentos determinados, e, por ordem do nobre Profeta (que a paz esteja com ele), eram imediatamente escritos por Companheiros designados. Eram escritos claramente em folhas de palmeira, pele de camelo, ossos, pedras e madeira. Por ordem de Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele), foram reunidos e organizados, recebendo a forma de um livro completo e bem estruturado. Do ponto de vista islâmico, é fácil compreender quão grandiosa foi essa realização.

O papel de Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) em relação ao Hadith era extremamente cauteloso. Ele declarou claramente que não era correto transmitir um hadith sem estar firmemente convencido de sua autenticidade e livre de qualquer tipo de dúvida. Ele próprio jamais aceitava um hadith sem encontrar vários apoiadores e testemunhas de sua autenticidade.

Estabelecimento do departamento de direito islâmico

Para realizar as importantes tarefas de pesquisa, investigação e exame analítico sobre a lei islâmica, Hazrat Abu Bakr (ra) estabeleceu um departamento especial. Hazrat Umar, Hazrat Uthman, Hazrat Ali, Hazrat Abdur Rahman ibn Awf, Hazrat Muaz ibn Jabal, Hazrat Ubay ibn Kaab, Hazrat Zayd ibn Thabit (ra) e outros eminentes sábios e pensadores foram encarregados desse trabalho. Também era responsabilidade deles responder às perguntas jurídicas apresentadas pelo povo.

Propagação do Islã

Uma das responsabilidades extremamente importantes do califa, digno representante do Mensageiro, era propagar os ideais islâmicos. Desde o início, Hazrat Abu Bakr (ra) dedicou especial atenção e empenho a esse propósito. Na verdade, as brilhantes estrelas do firmamento islâmico foram fruto dos esforços incansáveis de Hazrat Abu Bakr (ra), que dedicou a vida à verdade. Contudo, depois de lhe ser confiado o pesado encargo do califado, naturalmente manifestou ainda maior inclinação e atividade nesse sentido. Assim, toda a Arábia ressoou com o poderoso chamado à propagação do Islã. Hazrat Abu Bakr (ra) instruiu os mujahidins enviados por todas as partes a propagarem o Islã. Enviou delegações especiais para levar o convite ao Islã às tribos árabes dispersas pelas diversas regiões. Eles cumpriam essa tarefa com plena concentração e sincera dedicação. Como resultado, todos os idólatras e cristãos das regiões próximas e distantes abraçaram o Islã. As tribos árabes das fronteiras do Iraque, da Arábia e da Síria responderam ao convite islâmico de Hazrat Khalid (ra).

Cumprimento das promessas do Nobre Profeta (sa)

Qalifado também tinha entre suas responsabilidades pagar as dívidas contraídas durante a época do Nobre Profeta (sa) e cumprir devidamente as promessas e compromissos que ele havia feito. Hazrat Abu Bakr (ra) realizou essas tarefas logo no início de seu califado. Em particular, depois de obter grandes riquezas com a conquista do Bahrein, anunciou publicamente: se alguém tivesse um crédito contra o Nobre Profeta (sa), ou se alguma de suas promessas permanecesse por cumprir, isso poderia ser pago por mim.

Tratamento dispensado à família e aos parentes do Nobre Profeta (sa)

Embora inicialmente tenha surgido algum mal-entendido entre Hazrat Abu Bakr (ra) e a família e os parentes próximos do Nobre Profeta (sa) em torno do jardim de Fidak, ele sempre os tratou com grande afabilidade, compaixão e respeito. Manteve vigilância cuidadosa sobre o bem-estar e a tranquilidade das Mães dos Crentes e sobre o atendimento de todas as suas necessidades. Além disso, cumpriu, com pleno respeito e reverência, todos os legados que o Nobre Mensageiro (sa) havia deixado a respeito das demais pessoas.

Proteção dos direitos dos súditos dhimmis

Durante a era da Profecia, Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) protegeu devidamente todos os direitos dos não muçulmanos que haviam recebido abrigo no Estado Islâmico e com os quais haviam sido celebrados tratados especiais por meio de acordos escritos. Do mesmo modo, durante seu califado, concedeu aos súditos não muçulmanos dhimmis dos países conquistados direitos quase iguais aos dos súditos muçulmanos. O acordo firmado com os habitantes cristãos de Hira era o seguinte:

Seus mosteiros e igrejas não seriam destruídos, nem seria demolido qualquer palácio construído com o objetivo de servir de abrigo em momentos de necessidade. Não seriam impedidos de tocar seus sinos nem de soprar suas trombetas. Durante suas celebrações especiais, não seriam proibidos de realizar procissões com a cruz.

Do longo tratado, mencionamos aqui apenas alguns pontos. Nele se encontra um luminoso exemplo da tolerância para com outras religiões no sistema estatal islâmico.

Durante o governo do primeiro califa, o valor da jizya e dos impostos gerais era extremamente baixo. Além disso, eles eram cobrados apenas dos que tinham capacidade para pagá-los. Entre os sete mil habitantes da região de Hira, mil foram isentos de todos os tipos de jizya, enquanto dos restantes era cobrado um imposto anual de apenas dez dirrãs por pessoa. O acordo mencionado também estabelecia que, se algum dhimmi envelhecesse, se tornasse incapaz ou empobrecesse, nenhum imposto lhe seria cobrado; além disso, seu sustento seria provido pelo Bayt al-Mal. Pode-se encontrar, em toda a história do mundo, algum exemplo de administração tão imparcial dos súditos e de conduta tão generosa?

 

Características do caráter de Umar al-Faruq (que Allah esteja satisfeito com ele)

O Profeta do mundo, Hazrat Muhammad (que a paz esteja com ele), como resultado de sua sincera dedicação ao longo da vida, formou uma sociedade plenamente idealista e dotada de caráter elevado. Cada indivíduo da sociedade que ele formou era, em termos de idealismo e caráter moral, elevado como o cume de uma montanha, inflexível diante da injustiça e da falsidade, e, aos olhos dos adversários, extremamente invencível e inexpugnável. Isso era plenamente verdadeiro e aplicável a quase todos os Companheiros. Ainda assim, é inegável que havia entre eles diferenças consideráveis quanto à suavidade, à severidade, à humildade, à modéstia e à tolerância. Essa diferença é reconhecida como uma realidade decorrente das variações de temperamento. Nesse contexto, quando examinamos o caráter pessoal de Hazrat Umar al-Faruq (que Allah esteja satisfeito com ele), surge diante de nós a imagem surpreendente de um extraordinário homem de ferro. Na verdade, Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) estabeleceu na sociedade islâmica um modelo extremamente luminoso de personalidade vigorosa, radiante, destemida e inflexível. No vasto firmamento do califado islâmico, ele era como uma lua resplandecente. Seu papel no campo do califado era extremamente vigoroso e elevado.

Essa força de caráter de Umar já se manifestava desde o início de sua vida. Na sociedade da era pré-islâmica, ele era conhecido como um guerreiro extraordinário. Quando era um jovem guerreiro promissor de vinte e sete anos, justamente naquele momento surgiu o sol do Islã no deserto da Arábia. Do alto das montanhas de Meca ressoou a mensagem do tawhid, fazendo estremecer todas as direções. Para Umar al-Faruq, essa mensagem era completamente nova e desconhecida. Ao ouvi-la, ele ficou extremamente furioso e agitado. Assim, sempre que recebia a notícia de que alguém havia aceitado o Islã, tornava-se seu feroz inimigo. Quando uma escrava de sua própria linhagem aceitou o Islã, ele a espancou de maneira inacreditável. Além disso, sempre que ouvia falar de alguém que havia aceitado o Islã, avançava com passos resolutos para destruí-lo. Mas é realmente surpreendente que, apesar de todos esses golpes, ele não tenha conseguido levar sequer uma pessoa a abandonar o Islã. Por fim, decidiu matar pessoalmente o Profeta do mundo. Certo dia, pendurou no ombro uma espada afiada e partiu com passos resolutos para esse objetivo. Porém, no caminho, ao ouvir que sua própria irmã e seu cunhado haviam aceitado o Islã, foi como se um raio tivesse caído sobre ele. Correu imediatamente até eles e espancou sua irmã e seu cunhado com tanta violência que o sangue começou a escorrer abundantemente de seus corpos. Apesar disso, não surgiu em seus corações nem o menor sinal de fraqueza na fé no Islã. Pelo contrário, dirigindo-se a Umar al-Faruq, disseram: “Faz o que quiseres. Mas apagar de nossos corações a tocha resplandecente da fé no Islã está além do teu poder”.

Ao ver a inflexibilidade dos novos muçulmanos, Umar al-Faruq (que Allah esteja satisfeito com ele) ficou tomado de admiração. Perdeu-se em pensamentos, tentando compreender por que eles se tornavam tão completamente devotados e sacrificados pelo Islã, e pelo toque de que pedra filosofal um homem bárbaro e desobediente se elevava à condição de ser humano. Por fim, também ele foi obrigado a inclinar a cabeça diante dos sólidos princípios e da visão do Islã. A conversão ao Islã de um guerreiro extraordinário como ele causou grande agitação nas duas sociedades opostas da Arábia daquele tempo. A sociedade dos incrédulos ficou tão surpresa quanto desesperada; por outro lado, na pequena sociedade islâmica observou-se uma onda juvenil de entusiasmo e estímulo. Naquela época, os muçulmanos eram extremamente fracos, impotentes e desamparados. Viver publicamente uma vida islâmica e cumprir os ritos necessários era algo distante de suas possibilidades; até declarar-se muçulmano se tornara para eles uma causa de grave perigo. Em especial, era absolutamente impossível para eles adorar Allah na Casa de Allah. Com a conversão ao Islã de um guerreiro destemido como Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele), a situação mudou repentinamente. Quando ele próprio declarou publicamente que havia se tornado muçulmano, a sociedade dos incrédulos se voltou contra ele com extrema hostilidade e fúria. Quando seu tio materno, o influente líder incrédulo As ibn Wa’il, quis oferecer-lhe proteção, ele, devido à sua habitual bravura e vigor, recusou-se a aceitar seu abrigo. Pois, depois de acreditar na revolucionária kalima do Islã, “Lā ilāha illā Allāh”, aceitar a proteção de qualquer pessoa ou poder incrédulo não é de modo algum digno de alguém que possui amor-próprio. Além disso, ele foi à Kaaba acompanhado pelos muçulmanos e realizou a oração ali. Na verdade, isso só foi possível graças à coragem do valente Umar. Por isso, na corte da Profecia, recebeu o título de al-Faruq — aquele que distingue entre a verdade e a falsidade.

Após abraçar o Islã, Hazrat Umar (r.a.) permaneceu em Meca por cerca de seis ou sete anos, até a Hégira. Durante esse período, ele, juntamente com os demais, suportou com serenidade as desumanas perseguições, opressões e torturas infligidas pelos incrédulos aos muçulmanos. Na verdade, sem uma devoção incomparável e abnegada ao Islã, uma extraordinária firmeza moral e uma inflexibilidade de caráter, teria sido extremamente difícil para os muçulmanos daquela época preservar a fé mesmo depois de serem esmagados pelo moinho das cruéis torturas dos incrédulos.

A primeira batalha do Islã ocorreu no campo de Badr. A perspicácia de julgamento, o espírito abnegado e a firmeza inflexível demonstrados por Hazrat Umar (r.a.) nessa batalha estão registrados em letras luminosas na história do Islã. Pelo Islã, ele não se mostrou disposto a perdoar nem mesmo o mais próximo dos seus parentes. No campo de batalha, seu tio materno, ‘As, foi morto pelo golpe de sua própria espada. Ele não sentiu a menor hesitação ao cravar uma arma no peito desse parente tão próximo. Esse sacrifício pela causa do Islã foi verdadeiramente incomparável.

Na batalha de Badr, os muçulmanos alcançaram uma gloriosa vitória, e cerca de setenta chefes incrédulos foram feitos prisioneiros pelos muçulmanos. Quando começou a discussão sobre como deveriam ser tratados, Hazrat Umar Faruq (r.a.) expressou claramente sua opinião, dizendo: “O melhor é matá-los, e cada um de nós deve sacrificar com as próprias mãos o seu respectivo parente”.

No sexto ano da Hégira, o Nobre Profeta (s.a.w.) partiu para Meca com mil e quatrocentos muçulmanos, com o propósito de realizar o Hajj. Ao chegar a um lugar chamado Zul-Hulaifa, soube que os coraixitas de Meca não permitiriam de modo algum que os muçulmanos entrassem na cidade naquele ano. Nesse contexto, espalhou-se a notícia de que Hazrat Uthman (r.a.) havia sido martirizado. Foi então que o Nobre Profeta (s.a.w.) recebeu dos companheiros o juramento de autossacrifício, a bay‘ah. Hazrat Umar (r.a.) estava entre os primeiros a prestá-lo. Por fim, quando foi assinado o tratado de paz com os coraixitas, uma de suas condições pareceu claramente inaceitável a Umar Faruq (r.a.) e atingiu profundamente seu aguçado senso de honra e sua natureza corajosa. Ele foi imediatamente à presença do Mensageiro e apresentou sua súplica: “Quando estamos de fato estabelecidos sobre a verdade, que necessidade há de fazer uma trégua com a falsidade, com tamanha submissão e humildade?”

No mesmo ano da conquista de Meca ocorreu a batalha de Hunain. Hazrat Umar (r.a.) lutou nessa batalha com extrema firmeza. No nono ano da Hégira, quando se espalhou a notícia de que o imperador romano pretendia atacar Medina, a pedido do Nobre Profeta (s.a.w.), Hazrat Umar Faruq (r.a.) trouxe metade de todos os seus bens e a ofereceu ao serviço do Mensageiro.

Ao receber a notícia do falecimento do Profeta Universal, toda a comunidade muçulmana quase desmoronou, consumida por uma dor devastadora. Enquanto isso, pensando que os hipócritas de caráter astuto poderiam aproveitar a oportunidade para tentar provocar alguma calamidade grave, Hazrat Umar Faruq (r.a.) começou a discursar com voz poderosa, de pé na Mesquita do Profeta: “Quem disser que o Profeta Universal faleceu terá a cabeça decepada”. Na realidade, isso foi apenas a manifestação concreta da coragem ardente que era inata em Hazrat Umar (r.a.).

A atitude ardente e inflexível que sempre se observava no caráter de Hazrat Umar (r.a.) produzia certa reação desfavorável em alguns companheiros. Por exemplo, quando Hazrat Abu Bakr Siddiq (r.a.) chegou ao fim da vida e ficou ansioso, pensando na nomeação do califa seguinte, manifestou pessoalmente sua opinião favorável à investidura de Hazrat Umar (r.a.) nesse cargo. Graças à longa experiência de sua vida, ele havia percebido sem dúvida que, após seu desaparecimento, Umar Faruq (r.a.) seria a pessoa mais apta para o califado. Quando expressou essa opinião a Hazrat Abdur Rahman bin Auf (r.a.), este disse: “Juro por Allah que Umar Faruq é ainda melhor do que a opinião que o senhor tem a respeito dele. Mas o motivo de preocupação é que sua natureza possui intensidade e severidade em excesso”. (Tabari) Em resposta, Hazrat Abu Bakr (r.a.) disse: “Isso se deve ao fato de que em mim havia excessiva brandura e humildade. Mas, quando a responsabilidade for confiada a ele, abandonará muitos de seus hábitos e disposições. Ó Abu Muhammad! Minha experiência é que, quando eu me irava com alguém, era Umar quem se esforçava para apagar o fogo da minha ira e me aconselhava a adotar uma atitude de brandura”. (Al-Islam wal-Hadaratul-Arabia).

Sobre a natureza severa de Hazrat Umar Faruq (r.a.), Hazrat Abu Bakr (r.a.) também teve de prestar contas perante o povo. Quando sua opinião sobre o califa seguinte se tornou conhecida entre as pessoas, algumas vieram perguntar-lhe: “Que resposta dará, ao chegar à presença de Allah, se deixar como seu sucessor alguém de natureza tão severa quanto Umar?” Hazrat Abu Bakr (r.a.) refutou com grande sutileza a opinião equivocada deles e disse: “Permanecerei diante de Allah e direi que escolhi como califa o melhor e o mais virtuoso homem da comunidade que virá depois”.

Na verdade, a posição que Hazrat Abu Bakr (ra) ocupava na presença do nobre Profeta (s) era semelhante à posição que Hazrat Umar Faruq (ra) ocupava na presença de Hazrat Abu Bakr (ra). (Muqaddima Ibn Khaldun, p. 206.) Por isso, a afirmação acima mencionada de Hazrat Abu Bakr (ra) é inteiramente verdadeira.

Depois de Hazrat Umar (ra) ser investido no cargo de califa, as primeiras palavras que saíram de seus lábios e chegaram aos ouvidos do povo muçulmano foram estas: “Ó árabes, seguir atrás do condutor, como camelos amarrados por uma corda, é a vossa maneira de proceder. Mas é preciso observar para onde e como o condutor vos leva. Quanto a mim, posso dizer — juro por Allah, Senhor da Caaba, que certamente vos conduzirei pelo caminho reto.”

Imediatamente após concluído o sepultamento de Hazrat Abu Bakr Siddiq (ra), ele sacudiu a terra de suas próprias mãos e levantou-se para proferir um discurso. Dirigindo-se ao povo muçulmano reunido, disse:

Ó povo muçulmano! Allah reuniu a vós e a mim. E, depois dos meus dois companheiros anteriores, Ele me manteve vivo e me deixou como remanescente. Juro por Allah: todos os assuntos que forem apresentados diante de mim, eu os resolverei. E, quanto àquilo que permanecer oculto para mim, esforçar-me-ei a respeito com pleno senso de responsabilidade e devoção a Allah. Na verdade, se as pessoas me tratarem com bondade e benevolência, eu também as tratarei da mesma maneira. Mas, se alguém adotar uma conduta má e indesejável, então eu também lhe aplicarei um castigo severo.”

Esse discurso de definição de princípios de Hazrat Umar (ra) foi o guia para a execução das responsabilidades de seu califado. A opinião clara dos homens experientes é que ele agiu do começo ao fim de acordo com essas palavras. Não fez nem um pouco menos, nem um pouco mais.

O próprio Hazrat Umar (ra) costumava suplicar a Allah:

********(árabe)

Ó Allah, sou naturalmente uma pessoa de temperamento severo; torna-me brando e compassivo. Sou fraco; concede-me força. Sou avarento; torna-me generoso. (Al-Islam wa al-Hadarah al-Arabiyyah)

Depois que Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) foi nomeado califa, tomou a iniciativa de enviar um grande número de soldados para fortalecer a campanha do Iraque. Embora tivesse feito apelos durante vários dias consecutivos em assembleias públicas com esse propósito, acabou proferindo um discurso comovente e inspirador. Como resultado, o povo muçulmano preparou-se, em grupos sucessivos, para aderir ao jihad. Na etapa final dessa luta contínua, os muçulmanos entraram em confronto aberto com o Irã. Contudo, foram derrotados, e dos nove mil soldados restaram apenas três mil. Ao receber a notícia dessa derrota, Hazrat Umar Faruq ficou extremamente descontente e irado. Então, ao convocar as pessoas a sacrificarem suas vidas pelo Islã, proferiu um discurso inflamado que provocou uma erupção de entusiasmo entre as tribos árabes. Até mesmo numerosos cidadãos cristãos se prepararam para lançar-se ao campo de batalha e lutar ao lado dos muçulmanos.

Durante o califado de Hazrat Umar Faruq (que Allah esteja satisfeito com ele), o Islã alcançou vitórias extraordinárias. Nessa época, a bandeira do Islã foi hasteada no Egito, na Síria, no Iraque, na Armênia, no Irã, na Palestina, no Azerbaijão, na Argélia e em Trípoli. Na verdade, antes dele não se conhecia exemplo semelhante de conquista de terras, nem depois dele. Nenhuma flecha que lançou deixou de atingir o alvo. Nenhum estandarte que ergueu foi jamais baixado.

A vida dos muçulmanos era, para ele, o bem mais precioso. Nomeava como comandantes pessoas cuja inteligência, conhecimento e discernimento lhes haviam assegurado especial prestígio na sociedade de seu tempo. Na batalha de Nahaوند, escreveu a Nu’man bin Muqarrin:

Fui informado de que, na cidade de Nahavand, os inimigos não muçulmanos estão se reunindo em grupos para iniciar um confronto com vocês. Assim que receber esta minha carta, marche com os muçulmanos que estiverem próximos de você, sob a sombra da ordem, do auxílio e da misericórdia de Allah. Não os conduza por caminhos acidentados e difíceis, pois isso lhes causará grande sofrimento. Não interfira em nenhum de seus direitos legítimos; caso contrário, ficarão descontentes e revoltados. Também não os conduza por florestas densas. Saiba que, para mim, um único muçulmano é mais querido e valioso do que cem mil moedas de ouro.

Ele enviou inúmeros soldados a diversas batalhas para assegurar o êxito dessas campanhas sem precedentes de conquista de terras; mas, quando recebia a notícia do martírio de qualquer soldado ou comandante, lágrimas ardentes de dor escorriam incessantemente de seus dois olhos e fluíam em abundância. Nem mesmo a notícia auspiciosa da conquista de um vasto país conseguia fazê-las parar.

Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele), tal como os dois grandes homens que o precederam — o Mensageiro Nobre e Abu Bakr Siddiq —, era um defensor da justiça e da honestidade. As palavras que saíam de seus lábios também eram semelhantes às deles. Quando enviou Muslimah Ashja’i com o objetivo de subjugar a rebelde tribo curda, disse-lhe:

Partam invocando o nome de Allah e lutem com todas as forças, no caminho de Allah, contra os que se rebelam contra Ele. Quando ocorrer um combate frontal com seus irmãos politeístas, apresentem-lhes primeiro três propostas. Convidem-nos a aceitar o Islã. Se aceitarem o Islã, depuserem as armas e estiverem dispostos a permanecer em suas casas, será dever de vocês arrecadar o zakat de seus bens. Se estiverem dispostos a unir-se a vocês para lutar contra os incrédulos, seus direitos e sua dignidade serão iguais aos de vocês. Mas, se recusarem aceitar o Islã, exijam deles submissão e o pagamento do kharaj. Contudo, não lhes imponham nenhum encargo que exceda suas forças e capacidades. Se não estiverem dispostos a pagar o kharaj, lutem contra eles. Allah os ajudará contra eles.

Hazrat Umar Faruq (que Allah esteja satisfeito com ele) não estava disposto a tolerar o menor sinal de comodidade, luxo ou ostentação entre os governadores provinciais e os funcionários públicos dos diversos departamentos. Esforçava-se de todo o coração para preservar plena unidade e igualdade entre governantes e governados. Seus esforços de proteção eram incansáveis, para que a civilização luxuosa e o caráter desregrado dos não árabes não os influenciassem. Ele escreveu em termos claros ao governador Hazrat Utba bin Farqad (que Allah esteja satisfeito com ele): Abstenha-se do luxo, da ostentação, da busca de prazeres, dos costumes e práticas politeístas e das vestes de seda.

Ele exigia dos governadores recém-nomeados a promessa de que não montariam cavalos turcos (pois estes eram então considerados o máximo do luxo), não nomeariam porteiros e manteriam as portas sempre abertas e acessíveis aos necessitados e às pessoas carentes. Se alguém contrariasse isso, ele o destituía imediatamente.

Hazrat Saad construiu um enorme palácio na cidade de Kufa. Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) mandou incendiá-lo e reduzi-lo a cinzas. No Egito, Hazrat Kharija ibn Hudhafa construiu um pavimento superior. Ao receber a notícia, Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) enviou ordens para destruí-lo, pois, além de outras irregularidades, havia o risco de que isso violasse a privacidade do vizinho. (Kitab al-Kharaj)

Durante o Hajj, ao chegar à Meca, Umar Faruq (que Allah esteja satisfeito com ele) fazia um anúncio público, convidando qualquer pessoa que tivesse alguma queixa contra os governadores a apresentá-la diretamente a ele. Um homem acusou um governador de tê-lo golpeado cem vezes com um chicote sem motivo. Em resposta, ele disse: “Você aplicará cem chibatadas no governador em questão”. É fácil imaginar quão severa era essa decisão. O governador envolvido ficou horrorizado. Levantou-se e disse: “Se isso for feito, a dignidade do governador será destruída e a administração ficará paralisada”. Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) respondeu: “Apesar disso, é indispensável estabelecer esse exemplo de justiça, pois o próprio Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) fez exatamente isso”.

Ao saber que Hazrat Khalid ibn al-Walid (que Allah esteja satisfeito com ele) havia gastado uma grande quantia sem qualquer necessidade pública ou geral, Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) enviou uma ordem para destituí-lo. Ele disse: “Se Khalid gastou esse dinheiro de seus próprios recursos, então certamente o desperdiçou; e, se gastou o dinheiro do tesouro público, então cometeu abuso de autoridade e traiu a confiança”.

Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) conduziu os assuntos do califado seguindo os passos dos grandes homens que o precederam. Ele disse: “Meus dois companheiros já partiram antes de mim. Eles seguiram o mesmo caminho e método. Se eu agir de modo contrário ao que fizeram, estarei adotando um caminho completamente diferente”. Na verdade, isso parece ser um eco das palavras do Profeta do Universo: “Se houvesse um profeta depois de mim, Umar seria esse profeta”.

A própria Nobreza Profética explicou corretamente a dureza e a atitude inflexível observadas no caráter de Umar Faruq (que Allah esteja satisfeito com ele). Ele disse: “Entre os membros da minha comunidade, ninguém é tão firme e rigoroso quanto Umar nos assuntos de Allah”.

Outra pessoa disse: “Umar é generoso em favor da verdade, mas, em relação à injustiça e à falsidade, é avarento até a medula”.

Na verdade, Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) não era um escravo cego da própria natureza; não é de modo algum verdade que ele adotasse a dureza em qualquer questão simplesmente por causa de uma inclinação natural à severidade. Pelo contrário, sua compreensão da dureza e da ternura era extremamente clara, e sua mente permanecia sempre alerta nesse aspecto. Por isso, ele próprio declarou claramente:

Os assuntos do califado não podem ser devidamente conduzidos enquanto não se adotar uma severidade que não chegue ao nível da opressão. Tampouco se deve demonstrar indulgência em questões cuja base esteja assentada sobre a fraqueza. (Kitabul Kharaj)

E essa severidade também se limitava inteiramente às questões da Sharia — aos direitos de Allah e aos direitos dos servos. Porém, em assuntos pessoais, Hazrat Umar (RA) jamais demonstrou sequer um mínimo de severidade. Pelo contrário, nesse aspecto, era mais derretido e gentil que a cera. É exatamente isso que se depreende de um de seus próprios discursos. A esse respeito, ele disse:

******(árabe)

Juro por Allah: quando meu coração se enternece em relação a Allah, torna-se mais brando e delicado do que a espuma da água. E quando, no que diz respeito à religião de Allah e à Sharia, conforme a necessidade, se torna firme e severo, então se torna mais duro e inexpugnável do que uma pedra.

Com efeito, a rigorosa política adotada por Hazrat Umar Faruq (RA) no cumprimento das responsabilidades do califado era absolutamente indispensável do ponto de vista da administração estatal. A destituição de Hazrat Khalid ibn al-Walid, a adoção de rigor para com os governadores e a extrema severidade na aplicação das normas islâmicas, entre outras medidas, faziam parte das enormes responsabilidades inerentes ao califado de Hazrat Umar (RA). Tudo o que ele fez, fê-lo precisamente para cumprir as difíceis responsabilidades do cargo de califa. Pois, sem isso, uma responsabilidade tão delicada e importante como a do califado não poderia de modo algum ter sido cumprida. E, que Allah nos livre, se Hazrat Umar também não tivesse cumprido as responsabilidades do califado e estabelecido o exemplo concreto de um sistema estatal islâmico, o desaparecimento do modo de vida islâmico teria sido inevitável.

Contudo, o rigor, a inflexibilidade e a ausência de clemência de Umar no cumprimento das responsabilidades do califado eram apenas um aspecto de seu caráter. O outro aspecto consistia em sua contribuição sem igual no exercício da misericórdia, da compaixão e do perdão. Na sociedade daquele tempo, entre todas as criaturas conscientes de Allah, ninguém tinha mais direito à misericórdia e à compaixão do que os escravos. Assim que Hazrat Umar Faruq (RA) assumiu as responsabilidades do califado, libertou completamente todos os escravos árabes. Ao mesmo tempo, promulgou uma disposição constitucional nos seguintes termos: ‘Um árabe jamais pode tornar-se escravo ou servo de alguém’. De acordo com a organização social e econômica daquela época, libertar todos os escravos não árabes era uma tarefa extremamente difícil. Ainda assim, ele implementou muitas leis e disposições benéficas para eles. Além disso, instituiu para eles, assim como para seus senhores e proprietários, subsídios ou pensões pagos pelo Estado.

Hazrat Umar (RA) adotava para com os dhimmis e os não muçulmanos um tratamento tão cordial e respeitoso que nem mesmo os muçulmanos de hoje dispensam aos próprios muçulmanos. Ele permaneceu especialmente atento a esse assunto até o último momento de sua vida. Ao mesmo tempo, de modo geral, jamais economizava na demonstração de perdão e benevolência.

O segundo califa não realizava obras de benefício público apenas no âmbito governamental. Também se mantinha constantemente dedicado, em âmbito pessoal, ao bem da humanidade. Ia de casa em casa visitar as famílias dos mujahidin que partiam para o campo do jihad e perguntava por suas condições. Quando surgia alguma necessidade para alguém, providenciava imediatamente sua satisfação. Sempre que encontrava pessoas famintas em algum lugar, providenciava sem demora alimento para elas. Durante o califado de Umar Faruq (RA), estabeleceu-se plena igualdade entre ricos e pobres, indigentes e abastados. Ele havia dado instruções rigorosas aos funcionários responsáveis para que não demonstrassem a menor atitude discriminatória entre as pessoas. Pessoalmente, não gostava de qualquer forma de bajulação, elogio ou louvor. Quando compareceu como réu ao tribunal de Medina, o juiz levantou-se em consideração ao califa dos muçulmanos. Ao ver isso, ele disse imediatamente: ‘Foi essa a primeira injustiça que cometeste neste processo’. Naquela época, o mundo inteiro tremia diante do poder e da autoridade do califa; contudo, como resultado da política de igualdade que ele adotava, os embaixadores estrangeiros não conseguiam reconhecer prontamente o Amir al-Mu’minin. Ele era uma pessoa dotada de um agudo senso de decoro. Antes da revelação dos versículos relativos ao véu, não só as mulheres muçulmanas comuns, mas também as esposas do Nobre Profeta (S) não observavam o véu. Ainda assim, mesmo naquela época, ele não conseguia aprovar essa ausência de véu nem a circulação irrestrita das mulheres.

Fundamentos essenciais do caráter faruquiano

As grandiosas virtudes morais de Hazrat Umar Faruq (que Allah esteja satisfeito com ele) estavam firmemente estabelecidas sobre uma base extremamente sólida. Foi na estreita e íntima companhia de Hazrat Muhammad (que a paz esteja com ele), o fundador dos mais elevados padrões morais, que ele adquiriu essa base. Pessoalmente, era adornado de nobres virtudes, uma personificação viva do caráter profético. No espelho de seu caráter refletiam-se em grau máximo a sinceridade, a submissão a Allah, a aversão aos prazeres materiais, o autocontrole da língua e do coração, a justiça, a veracidade, a humildade e um modo de vida simples e despretensioso. Essas nobres qualidades estavam tão firmemente arraigadas em seu caráter que, quando alguém entrava em contato com ele, elas deixavam uma profunda marca também no caráter dessa pessoa. Muitos companheiros procuravam, com grande entusiasmo, sua companhia para aprender com ele a verdadeira taqwa e a piedade. O próprio Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) disse a respeito dele:

*******(em árabe)

Allah, o Altíssimo, estabeleceu firmemente a verdade sobre a língua e no coração de Umar. Ele foi aquele que distinguiu claramente entre a verdade e a falsidade.

Essa influência também se refletiu plenamente no caráter dos funcionários públicos durante o califado faruquiano.

A intensidade do temor a Allah

A principal fonte da firmeza de caráter de Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) era sua convicção inabalável no poder e na força de Allah. Com extrema humildade e o coração tomado de temor, ele permanecia dedicado à oração até altas horas da noite. Ao recitar os versículos do Alcorão que descrevem a grandeza e a majestade de Allah, ficava profundamente tomado pela emoção e irrompia em pranto inconsolável. Seu coração era tão terno e sensível que, certa vez, ao começar a recitar a surata Yussuf na oração do fajr, seu coração se comoveu intensamente e, chorando continuamente, foi obrigado a concluir todo o Alcorão antes de se inclinar para o rukū‘.

Ele temia intensamente o acerto de contas do Dia da Ressurreição. Costumava dizer: “No Dia da Ressurreição, mesmo que eu consiga de algum modo escapar do tormento do Inferno, se minhas boas e más ações forem iguais, considerar-me-ei extremamente afortunado.” Certa vez, segurando um pedaço de palha na mão, começou a dizer com voz carregada de tristeza: “Ah, se eu estivesse livre de responsabilidades como este pedaço de palha! Ah, se eu nem sequer tivesse nascido!” Por temor a Allah, seu coração e sua mente permaneciam sempre apreensivos e angustiados. Por isso, dizia frequentemente: “Mesmo que se proclame do mundo celestial que todas as pessoas do mundo serão habitantes do Paraíso, exceto uma, meu coração ainda permanecerá aflito e cheio de apreensão, pensando: quem sabe se esse desafortunado não serei eu?”

Amor e obediência ao Mensageiro

Para a limpeza e purificação da mente e do coração, bem como para adquirir excelentes e sinceras qualidades e virtudes de caráter, é absolutamente indispensável alcançar um amor sincero pelo Profeta do mundo, Hazrat Muhammad (s), a fonte primordial do caráter nobre, e uma devoção genuína em seguir a sua Sunnah. Com efeito, o coração que não está cheio de amor pelo Mensageiro e o passo que não segue o excelente exemplo do Nobre Mensageiro (s) não podem ser agraciados com as bênçãos deste mundo e do Além. Hazrat Umar Faruq (ra) era um verdadeiro e dedicado amante do Mensageiro. Ele amava o Nobre Mensageiro (s) mais do que a própria vida, os bens, os filhos e os parentes. Por essa razão, não foi capaz de aceitar imediata e facilmente a morte do Nobre Profeta (s).

O aspecto mais luminoso do caráter de Hazrat Umar (ra) era a imitação literal do Nobre Mensageiro (ra) em cada passo. Em todas as atividades, como comer e beber, vestir-se, sentar-se e levantar-se, andar e movimentar-se, falar e conversar, ele seguia fielmente o modelo do Profeta. O Nobre Mensageiro (s) passou a vida em necessidade, fome e pobreza. Por isso, embora fosse senhor dos vastos impérios de Roma e da Pérsia, Hazrat Umar (ra) vivia como um homem extremamente pobre. Certa vez, sua filha, a Mãe dos Crentes, Hazrat Hafsa (ra), disse-lhe: “Agora Allah, o Altíssimo, concedeu conforto e abundância. Portanto, já não deveria abster-se de usar roupas melhores e consumir alimentos de qualidade.” Ele respondeu: “Esqueceste a vida de sofrimento e pobreza do Nobre Mensageiro? Por Allah, continuarei seguindo o meu ‘líder’… Continuarei com a esperança de que, no Além, Allah me conceda felicidade e conforto”.

Sempre se esforçava para realizar exatamente da mesma maneira qualquer tarefa que tivesse visto o Nobre Mensageiro (s) realizar. Quando lhe perguntavam a razão de agir daquela forma, ao observarem seu modo de proceder, ele respondia francamente: “Foi porque vi o Nobre Mensageiro (s) realizar esta tarefa exatamente assim que a fiz desta maneira”.

Intenso senso de responsabilidade

Hazrat Umar (ra) possuía um senso extremamente intenso de suas responsabilidades e deveres. Ele se considerava responsável por tudo o que dizia respeito ao povo e, por mais difícil que fosse cumprir essa responsabilidade, suportava tudo de bom grado. Quanto às riquezas e aos bens do povo muçulmano ou do Estado cuja guarda lhe era confiada, suportava por eles dificuldades e esforços no mais alto grau. Se algum dano fosse causado ao Bayt al-Mal, ele o reparava; e, se alguma coisa se perdesse, não hesitava nem por um instante em assumir pessoalmente todo o esforço necessário para encontrá-la.

Hazrat Ali (ra) conta: Certo dia, ao ver Hazrat Umar (ra) cavalgando um camelo e seguindo rapidamente, perguntei-lhe: “Amir al-Mu’minin, aonde vai?” Ele respondeu: “Perdeu-se um camelo arrecadado como zakat; saí para procurá-lo”. Eu disse: “Agindo assim, o senhor está tornando extremamente difícil o cumprimento das responsabilidades para os califas que virão depois de si; isto é, se o senhor suporta tamanhas dificuldades no cumprimento das responsabilidades do califado, aqueles que forem califas depois de si também terão de enfrentar dificuldades semelhantes”. Ao ouvir isso, ele disse:

*******(em árabe)

Ó pai de Hasan! Não me repreendas. Juro por Aquele que enviou Muhammad (S) como profeta: se até mesmo um camelo morrer às margens do rio Eufrates, no Dia do Juízo este próprio Umar será responsabilizado por isso.

Na verdade, somente quem possui um senso ilimitado de responsabilidade e uma crença sincera e inabalável na prestação de contas no Dia do Juízo pode falar dessa maneira; não há dúvida de que somente assim é possível empreender esforços semelhantes e suportar dificuldades para proteger os bens do Estado.

Hazrat Umar (RA) percorria os bairros à noite para conhecer a verdadeira situação do povo. Durante três noites consecutivas, ouviu sons de choro vindos da mesma casa. Depois, chamou as pessoas daquela casa e quis saber a razão do choro da criança. A mãe da criança disse: “Como não se destinava nenhum auxílio à criança proveniente do Bait al-Mal enquanto ela não fosse desmamada, estamos tentando desmamar imediatamente o bebê. Essa é a verdadeira razão do choro da criança”.

Ao tomar conhecimento disso, ele imediatamente fez anunciar:

********(Árabe)

Não vos apresseis em desmamar as crianças. A partir de agora, estamos destinando alimento a cada criança muçulmana.

Ao mesmo tempo, enviou instruções claras para que essa determinação fosse imediatamente posta em vigor em todo o Estado Islâmico.1 {Um exemplo extraordinário de senso de responsabilidade: neste contexto, é digno de menção outro acontecimento histórico. Certa vez, em uma noite profundamente escura, o califa Umar (RA), acompanhado de Ibn Abbas (RA), foi visitar uma região rural distante de Medina. Ao passarem por dentro de um bairro, ouviram o choro de crianças vindo de uma cabana em ruínas próxima. Espiando para dentro da cabana, viram uma senhora idosa acendendo o fogo sob uma panela cheia de água colocada sobre o fogão, enquanto, sentadas ao redor dela, as crianças choravam atormentadas pela fome. A mulher, interrompendo-se de tempos em tempos, consolava as crianças: “Tenham só mais um pouco de paciência; a comida ficará pronta imediatamente”. Mas, no fim, a comida não ficou pronta. Depois de chorarem por muito tempo, as crianças finalmente adormeceram, exaustas. A mulher também suspirou profundamente e murmurou para si mesma: “Enfim, pelo menos conseguimos sobreviver a esta noite”. Ao verem aquela situação dolorosa, o califa Umar (RA) e seu companheiro se aproximaram da mulher. Em resposta às perguntas deles, a mulher disse: “Não há nenhum homem capaz de trabalhar em sua família; ela própria também não consegue trabalhar para pôr alimento na boca das crianças. Por isso, há vários dias vem colocando apenas uma panela cheia de água sobre o fogão, consolando assim as crianças famintas”. Ao interrogá-la, souberam ainda que, até então, nenhuma ajuda alimentar do Bait al-Mal do Estado havia chegado até elas. Ao ouvirem essa história comovente, o califa e seu companheiro chegaram rapidamente a Medina e abriram a porta do armazém do Bait al-Mal. Em seguida, ele próprio colocou sobre os ombros um saco de farinha e um saco de açúcar e partiu em direção à pobre mulher. Nesse momento, Ibn Abbas (RA) pediu ao califa que lhe permitisse colocar ao menos um dos sacos sobre seus ombros. O califa recusou categoricamente e disse: “Ibn Abbas! Hoje vieste para aliviar minha carga; mas, no Dia do Juízo, quando eu for acusado por essa falha no cumprimento da responsabilidade, tu não virás aliviar o peso dos meus pecados”. Este acontecimento é uma prova evidente de quão intenso era o senso de responsabilidade do segundo califa. – Editor}

É desejável que essa humanidade, compaixão e preocupação com o sofrimento alheio se manifestem intensamente no caráter dos governantes de Estados baseados nos ideais islâmicos.

Hazrat Umar (r.a.) era, de fato, como um pai afetuoso para cada pessoa fraca e órfã da sociedade. A justiça e a equidade eram suas principais características. Ele reconhecia igual importância à liberdade e à igualdade. 1 {Intransigência na questão da liberdade: Na questão da liberdade humana, isto é, dos direitos humanos fundamentais, a atitude de Hazrat Umar (r.a.) era intransigente. Ele não era favorável a restringir, nem que fosse minimamente, a liberdade de alguém sem uma razão justificável e legal. A esse respeito, suas instruções aos governantes também eram rigorosas. Apesar disso, certa vez chegou ao califa uma denúncia contra o governador do Egito, segundo a qual ele mantinha algumas pessoas presas, movido por mera suspeita e sem qualquer razão justificável ou legal. O califa mandou imediatamente chamar o governador e perguntou-lhe o motivo. O governador não conseguiu dar uma resposta satisfatória. Então o califa o repreendeu, dizendo: “Essas pessoas foram trazidas ao mundo livres por suas mães. Onde encontraste o direito de mantê-las escravizadas?” Na verdade, até o último momento de sua vida, o califa Umar (r.a.) permaneceu firme nesse vigoroso princípio. Ninguém conseguiu desviá-lo dele nem um pouco. — Editor}

Colocando-se ao lado dos fracos e necessitados da sociedade, ele trabalhava pelo bem-estar geral da humanidade. Essa sua atitude não se aplicava apenas aos muçulmanos. Ele não fazia a menor distinção em relação aos cidadãos não muçulmanos leais ao Estado Islâmico. Ordenara aos administradores de todos os níveis que os tratassem com justiça e seguissem os princípios da equidade. Insistia para que todo tipo de injustiça e opressão contra eles fosse evitado. Nesse contexto, merece especial menção uma declaração histórica do próprio Umar. Ele disse:

********(árabe)

O bem da responsabilidade que Allah, o Altíssimo, me confiou depende principalmente de três coisas: preservar devidamente a amanah, ou confiança; assumir essa responsabilidade com firmeza; e administrar e julgar de acordo com as leis reveladas por Allah.

A respeito dos bens públicos, ele disse:

*******(árabe)

Sabei que o bem desses bens públicos reside apenas em três formas de utilização: eles devem ser recebidos de maneira legítima, de acordo com o que é devido; devem ser distribuídos de maneira legítima, como cumprimento do que é devido; e devem ser impedidos tanto o recebimento quanto a distribuição por meios ilícitos. Para o crente de fé fraca, basta estabelecer a justiça na administração e no julgamento.

No exercício da justiça, ele se preparava de corpo e alma para estabelecer a equidade. Quando duas partes em conflito compareciam diante dele para obter justiça, ele se ajoelhava e suplicava ao Deus Todo-Poderoso, dizendo:

Ó Allah, ajuda-me nesta tarefa, pois cada uma das duas partes pode desviar-me da minha religião — se eu não fizer justiça.

Aversão ao luxo e satisfação com pouco

Na realidade, a cobiça e o desejo pelos prazeres mundanos são a principal causa da criação da imoralidade, da falta de caráter e da corrupção. Por isso, Hazrat Umar Faruq (r.a.) naturalmente os detestava. Seus contemporâneos reconheciam unanimemente que, em aversão ao luxo e satisfação com pouco, ele superava a todos. Quando o Nobre Mensageiro (s.a.w.) desejava dar-lhe alguma coisa, ele dizia: “Ó Mensageiro! Há muitas pessoas mais necessitadas do que eu. Elas são mais dignas de receber isto”. O corpo de Hazrat Umar (r.a.) jamais tocou roupas macias e lisas. Uma túnica remendada em vários pontos, um turbante de tecido velho e gasto e sapatos rasgados e despedaçados — era esse o seu traje durante toda a vida. Vestido assim, ele recebia os embaixadores de César e de Kisra, bem como representantes de dentro e de fora do país. Ao verem a qualidade inferior de sua comida, as pessoas ficavam espantadas e perplexas. Ele dizia: “Vocês pensam que sou incapaz ou relutante em comer alimentos excelentes e saborosos? Juro por Allah: se não fosse o temor do Dia da Ressurreição, eu também me entregaria ao luxo e aos prazeres dos sentidos como vocês”. Ele também dava ordens rigorosas aos funcionários encarregados dos deveres do governo para que se abstivessem de semelhante luxo e indulgência.

A satisfação com pouco era uma qualidade inata dele. Depois de ser nomeado califa, durante vários anos consecutivos, ele não recebeu sequer uma moeda do Bayt al-Mal. Enquanto isso, toda a sua família estava sendo devastada pelos golpes da necessidade, da escassez e da pobreza. Ao verem sua situação, os Sahaba al-Kiram providenciaram que lhe fosse concedida, do Bayt al-Mal, uma mesada suficiente para adquirir alimentos e roupas muito simples. Contudo, Hazrat Umar (r.a.) concordou em aceitá-la sob a condição de que: “Continuarei recebendo a mesada exatamente pelo tempo necessário. Assim que minha situação financeira melhorar, deixarei de recebê-la”. Então Rubai ibn Ziyad Harimi disse: “Amir al-Mu’minin! Pela posição que Allah, o Altíssimo, lhe concedeu, o senhor tem mais direito do que qualquer pessoa no mundo de viver uma vida de luxo, conforto e alegria”. Hazrat Umar (r.a.) respondeu com voz irada: “Sou apenas o depositário da confiança do povo. Poderia ser permitido algum dia trair um depósito de confiança?”. Certo dia, ao ver Hazrat Utba (r.a.) comendo alimento de qualidade inferior, disse-lhe: “Amir al-Mu’minin! Se o senhor gastar um pouco mais com alimentação e vestuário, isso não reduzirá os bens dos muçulmanos”. Hazrat Umar (r.a.) respondeu: “É realmente lamentável que você esteja me tentando com conforto material e luxo”.

De fato, depois de lhe ser confiada a responsabilidade do Califado, Hazrat Umar (r.a.) passou a exercer extrema cautela quanto ao modo de vida. Pois, naquele momento, mesmo que o menor de seus erros ou falhas viesse a público, isso poderia tornar-se causa para que a corrupção encontrasse incentivo no caráter de toda a comunidade muçulmana.

 

O Califado de Hazrat Umar Faruq (r.a.)

Durante os dez anos do governo de Hazrat Umar Faruq (r.a.), o Califado Islâmico alcançou o mais elevado esplendor e um progresso sem precedentes. Foi nesse período que os dois poderosos Estados, Roma e Pérsia, passaram para o domínio dos muçulmanos. Na realidade, a história é incapaz de apresentar um exemplo da revolução que um punhado de habitantes do deserto criou em tão pouco tempo. Alexandre, o Grande, Gengis Khan e Timur Lang haviam se lançado a conquistar o mundo inteiro e devastaram a face da Terra; contudo, suas conquistas e domínio territorial não podem ser comparados às conquistas e à expansão territorial durante o governo do segundo califa. Os primeiros mencionados surgiram de uma direção como uma tempestade inteiramente destruidora, criaram uma inundação de opressão, esmagamento e derramamento de sangue e depois partiram para outra direção. Alexandre conquistou a cidade de “Sur”, no reino sírio, e matou cruelmente mil cidadãos. Além disso, não hesitou em transformar trinta mil cidadãos em escravos e escravas e vendê-los.

Entretanto, durante o governo de Hazrat Umar Faruq (r.a.), não se pode encontrar um único exemplo de opressão, esmagamento ou perseguição nos países, cidades e localidades sobre os quais foi hasteada a bandeira do Califado Islâmico. O exército islâmico havia recebido ordens específicas para não interferir de modo algum com crianças, idosos e mulheres. Longe de permitir massacres amplos e gerais, era estritamente proibido aos soldados islâmicos até mesmo cortar as árvores verdes e frondosas. Todos ficavam maravilhados e atraídos ao testemunhar os extraordinários exemplos de equidade, justiça e cortesia que os governantes muçulmanos estabeleciam nas regiões conquistadas. Por isso, consideravam o governo do Califado Islâmico uma extraordinária misericórdia e oravam sinceramente para que essa misericórdia fosse imediatamente derramada sobre seus países e povos. Mais ainda: no excesso de sua gratidão, não hesitavam em prestar ajuda e cooperação especiais aos muçulmanos vitoriosos. Na conquista da Síria, a própria população não muçulmana da Síria, espontaneamente, forneceu informações e realizou trabalhos de reconhecimento em favor dos muçulmanos. Durante a conquista do Iraque, a população não árabe da região construiu espontaneamente pontes para os soldados islâmicos, reuniu informações secretas sobre o adversário e deu-lhes a oportunidade de se preparar para enfrentar a situação. Diante de todas essas circunstâncias, é evidente que não pode haver qualquer comparação entre Hazrat Umar Faruq (r.a.) e derramadores de sangue como Alexandre, o Grande, e Gengis Khan.

O derramamento de sangue de Alexandre e Gengis talvez tenha produzido algum resultado temporário na sociedade de então; mas é indubitável que um Estado cuja própria fundação se assenta na opressão, na tirania e em lutas sangrentas não pode trazer nenhum benefício duradouro para a sociedade humana em geral. Especialmente à luz dos acontecimentos mencionados, esta afirmação se aplica plenamente. Atualmente, não se encontra em parte alguma sequer o nome ou o vestígio desses heróis conquistadores do mundo. Contudo, no vasto Estado islâmico fundado por Umar Faruq (ra), floresceram plenamente as nobres qualidades da justiça, equidade, tolerância, igualdade, fraternidade, generosidade e compaixão. Por essa razão, na história mundial, o Califado Faruquí é justamente chamado de uma era dourada e de uma era de verdadeiro bem-estar da humanidade.

A forma estatal do Califado

Embora o sistema de governo califal do Islã tenha se iniciado desde a época de Abu Bakr Siddiq (ra), e seus fundamentos tenham sido lançados durante seu breve governo, na realidade foi no período do segundo califa, Umar Faruq (ra), que começou a formação de um sistema estatal sólido e bem organizado. Foi nesse período que a forma desenvolvida do Califado encantou e atraiu o mundo. Durante seu governo, não apenas os dois vastos Estados de César e Cosroes passaram ao domínio dos muçulmanos, como também o Estado e o governo do Califado islâmico tiveram a oportunidade de cumprir plenamente suas funções, cada qual com sua dignidade e responsabilidade. Com efeito, quase todos os aspectos e departamentos que podem existir em um Estado moderno e desenvolvido estavam devidamente presentes no Califado Faruquí.

Durante o Califado de Umar (ra), a bandeira islâmica tremulava sobre toda a região que se estendia das fronteiras do subcontinente indo-paquistanês até o Egito e a Síria. Nessa vasta região viviam pessoas de diferentes povos e falantes de diferentes línguas. O empenho sincero de Umar (ra) estava voltado para formar os muçulmanos árabes e não árabes, em todos os aspectos, como uma só nação e unidos em um só espírito. É verdade que a visão de vida islâmica e a mentalidade baseada na fé haviam unido os habitantes dessa vasta região por um mesmo vínculo; contudo, o curso de sua vida tribal ainda fluía com o mesmo ímpeto de antes. Em alguns casos, a mentalidade jahilí de ódio e hostilidade também tentava ressurgir. Mas a adesão rigorosa de Umar Faruq (ra) aos ideais e seus princípios firmes esforçavam-se a cada instante para remover os amontoados de lixo da jahiliyyah. Umar (ra) desejava formar os habitantes de todo o Estado islâmico como uma nação unida de coração, mente e objetivo, e organizá-los e prepará-los para a luta contra os inimigos do Islã. Além disso, mantinha um olhar extremamente atento para que os muçulmanos que fossem viver entre outros países e povos do mundo por diversos motivos não perdessem suas características e sua identidade, fundindo-se completamente com povos estrangeiros. Ele purificou todo o território árabe da impureza dos inimigos do Islã. Graças à sua extraordinária visão, promoveu a reforma e o desenvolvimento da agricultura, a fim de fortalecer os fundamentos do sistema estatal islâmico e melhorar a situação econômica dos muçulmanos. Por isso, proibiu no Estado islâmico a compra e venda e a distribuição de terras agrícolas. Além disso, advertiu os muçulmanos contra a adoção dos costumes, normas, hábitos, civilização e cultura de povos estrangeiros. De modo geral, aconselhava e instruía todos a moldar suas vidas segundo a vida do Mensageiro Excelso (s).

A estrutura do Califado Faruquí

O Califado de Umar Faruq (ra) era, em plena medida, um Estado baseado nos direitos do povo. Durante seu governo, todos os problemas do país eram apresentados perante a Assembleia da Shura. Cada questão era decidida definitivamente tendo diante de si o Alcorão, a Sunnah e os costumes seguidos pelo primeiro califa. Na Assembleia da Shura, as decisões eram tomadas ora por consenso geral, ora com base na opinião da maioria. Os seguintes companheiros eram os principais membros de sua Assembleia da Shura: Uthman (ra), Ali (ra), Abd al-Rahman ibn Awf (ra), Muadh ibn Jabal (ra), Ubayy ibn Ka’b (ra) e Zayd ibn Thabit (ra).

Além dessa Assembleia da Shura, existia também uma assembleia geral para aconselhá-lo e deliberar sobre assuntos importantes do Estado. Além de todos os companheiros emigrados e auxiliares, os chefes tribais também participavam dela. As sessões dessa assembleia geral eram convocadas em momentos de especial importância e crise. Em outras ocasiões, para a condução dos assuntos cotidianos, ele precisava confiar apenas nas decisões da Assembleia da Shura, e suas decisões eram consideradas finais. Além dessas duas assembleias, havia então outra assembleia em funcionamento, que poderia ser chamada de “Assembleia Especial”. Somente os companheiros emigrados participavam dela.

Por Estado baseado nos direitos do povo entende-se aquele Estado e governo em que cada cidadão tem a oportunidade de usufruir de todos os seus direitos; em que cada pessoa pode expressar sua própria opinião e comunicá-la aos demais. No Califado de Umar (ra), todas essas características estavam plenamente em vigor. Ali, cada indivíduo podia reivindicar seus próprios direitos com plena liberdade.

Após ser escolhido como califa, Hazrat Umar Faruq (que Allah esteja satisfeito com ele) proferiu um importante discurso no qual anunciou os princípios fundamentais de seu califado e declarou claramente:

*********(árabe)

Meu direito sobre os vossos bens é apenas aquele que é reconhecido para o administrador dos bens de um órfão. Se eu estiver em situação abastada e próspera, nada tomarei; mas, se for pobre, tomarei somente a quantia necessária, conforme o costume vigente. 1 {Outra narração apresenta estas palavras: ****(árabe) “Tomarei apenas o mínimo necessário para mim”}

Ó povo, tendes certos direitos sobre mim, e é vosso dever exigir que eu os cumpra. Primeiro: é meu dever impedir que as receitas do país e os bens provenientes dos espólios de guerra sejam gastos inutilmente; segundo: é meu dever melhorar o padrão de vida e proteger as fronteiras. Também tendes o direito de exigir de mim que jamais vos lance em perigo.

Em outro discurso, ele declarou: “Quem quer que veja em mim um desvio dos princípios deve tentar conduzir-me ao caminho correto”. Então, um dos ouvintes presentes levantou-se e disse: “Juro por Allah que, se perceber em ti qualquer desvio dos princípios, corrigi-lo-ei com esta espada de lâmina afiada”.

Ao ouvir essa resposta, Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) deu graças e disse: “Allah criou, nesta nação, pessoas capazes de corrigir os desvios de Seus princípios. Por isso, dou graças a Allah”.

Esse discurso não é simplesmente um conjunto de slogans atraentes e palavras vigorosas; na realidade, ele é o manifesto, ou os princípios, do califado islâmico. O grande califa Faruq (que Allah esteja satisfeito com ele) observava esses princípios com grande firmeza. Assim, certa vez o Amir al-Mu’minin adoeceu; contudo, recusou-se a tomar sequer uma pequena quantidade de mel do tesouro público como medicamento, unicamente porque não havia obtido previamente a autorização do povo. Somente depois de comparecer à Mesquita do Profeta e obter publicamente a autorização da multidão reunida é que consentiu em tomá-lo. Poderá a história dos grandes governantes do mundo apresentar algum exemplo semelhante?

Hazrat Umar Faruq (que Allah esteja satisfeito com ele) concedera ao povo plena liberdade para criticá-lo. Assim, até mesmo um cidadão comum não hesitava nem por um instante em criticar o califa. Esse direito não era desfrutado apenas pelos cidadãos homens; as mulheres também não ficavam de modo algum atrás nesse aspecto. Quando, ao contestar a opinião do califa sobre a fixação do dote das esposas, uma mulher exclamou: “Ó Umar! Teme a Allah”, Umar Faruq (que Allah esteja satisfeito com ele) compreendeu o próprio erro, abandonou aquela posição e, de acordo com o Alcorão e a Sunna, aceitou sem qualquer constrangimento a opinião daquela mulher. Na verdade, foi precisamente esse tipo de justiça e retidão que esteve na base do êxito extraordinário do califado de Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele).

A organização interna do Califado Faruqui

Hazrat Umar (r.a.) dividiu todo o Estado Islâmico em oito províncias. Meca, Medina, Síria, Basra, Kufa, Egito e Palestina. Essas áreas eram então consideradas regiões independentes e distintas. Além dessas, as três províncias de Coração, Azerbaijão e Pérsia também foram incluídas no seu califado. Para cada província foram nomeados separadamente um governador, secretários-chefes dos departamentos civil e militar, um coletor-chefe, um diretor do departamento de polícia, um tesoureiro-chefe, um juiz-chefe e outros funcionários de alta patente.

Em geral, as pessoas eram nomeadas para esses cargos de responsabilidade mediante consulta à assembleia da Shura. A principal tarefa do califa era manter um olhar atento e vigilante sobre os governadores das províncias e formar o caráter, a natureza e os hábitos deles com base nos ideais islâmicos. O califa Umar (r.a.) desempenhou essa tarefa com especial competência. Ele era um guardião incansável do Estado Islâmico. Não estava de modo algum disposto a tolerar o menor desvio dos ideais islâmicos na administração. Ao nomear governadores e ocupantes de cargos de responsabilidade, exigia deles o compromisso de seguir rigorosamente os ideais islâmicos e de não aceitar qualquer influência do luxo ou da civilização da Jahiliyyah. Ao mesmo tempo, fazia elaborar uma lista completa de todos os seus bens; posteriormente, quando se observava um aumento anormal no patrimônio de alguém, comparava-o e verificava-o com a lista previamente elaborada. Se constatasse que os bens de alguém haviam aumentado sem motivo, confiscava metade deles para o Bayt al-Mal.

O califa Umar (r.a.) prestava especial atenção para que os governantes e altos funcionários não ultrapassassem seus limites em lugar algum. Por isso, durante cada Hajj, anunciava publicamente que qualquer pessoa que tivesse uma queixa contra algum funcionário do governo deveria levá-la imediatamente ao conhecimento do califa. Além disso, estabelecera um sistema adequado para a devida reparação de todas as queixas, para que nenhuma permanecesse apenas no estágio de uma reclamação, mas que se tomassem prontamente medidas corretivas em cada caso.

O califa dos muçulmanos fazia questão de manter sempre abertas ao povo as portas dos governantes. Ao perceber que surgia o menor obstáculo no caminho para que as queixas do povo chegassem aos ouvidos dos governantes, removia-o imediatamente. Exortava continuamente os funcionários públicos responsáveis a permanecerem sempre diligentes no cumprimento de seus deveres diários. Nesse contexto, o conselho que enviou a Hazrat Abu Musa Ashari (r.a.) deve ser considerado uma orientação de imenso valor para os funcionários públicos de todos os tempos e países. Ele escreveu:

*******(árabe)

Saiba, então, que o procedimento correto é não deixar para amanhã o trabalho de hoje. Se fizer isso, muitos trabalhos se acumularão diante de você. Como resultado, sob a pressão do trabalho, ficará desorientado. Não saberá o que fazer, qual tarefa realizar e qual não realizar. No fim, arruinará todos os trabalhos.

Preservação do padrão moral do povo

Além de supervisionar os governantes, o califa trabalhava incessantemente, com especial responsabilidade, para preservar o caráter moral e a dignidade religiosa da população em geral, os habitantes do Estado Islâmico. Na verdade, assim como ele próprio era um exemplo vivo da moralidade islâmica, esforçava-se ao máximo para formar, coletivamente, toda a nação muçulmana e, individualmente, cada muçulmano segundo esse mesmo modelo. Naquela época, o orgulho tradicional da nobreza de linhagem e a arrogância pessoal estavam entranhados nos ossos e na medula dos árabes; entre senhores e servos havia uma diferença entre humanos e não humanos. Contudo, o segundo califa havia lavado e eliminado completamente toda essa desonra e esse acúmulo de imundície por meio do fluxo do ensino islâmico e da orientação moral. Ao fazer suas refeições, ele fazia questão de sentar à sua mesa os pobres, os necessitados e os escravos. Ele disse: “Que a maldição de Allah recaia sobre aqueles que consideram vergonhoso e indigno comer juntamente com escravos e pobres necessitados.” Com efeito, em toda a história do mundo, até hoje não se pode encontrar outro exemplo de um governante tão igualitário.

Na sociedade daquele tempo, os poetas e a poesia exerciam grande influência sobre as pessoas. Quando certos poetas compunham poemas de insultos obscenos contra o povo, o califa Umar (ra) fazia-os cessar mediante a promulgação de decretos do Estado. Ele mantinha especial vigilância para que o fogo da inveja e da hostilidade entre as pessoas não se inflamasse e reduzisse a cinzas o sólido edifício da fraternidade muçulmana, e para que o povo, esquecendo os objetivos e ideais nacionais, não se entregasse ao conforto, ao esplendor, ao luxo e aos prazeres.

Em suma, ele tomou especial cuidado para proteger os muçulmanos de toda forma de decadência moral e adorná-los com um caráter moral elevado. Para estabelecer plena igualdade e fraternidade entre os membros da sociedade e despertar neles o senso de dignidade e de responsabilidade, jamais deixou de fazer qualquer esforço. Também procurava manter constantemente alertados os governadores provinciais a esse respeito.

Organização da administração e da ordem internas

Logo após a conquista da Síria e do Irã, quando surgiu a exigência de que as terras agrícolas das regiões conquistadas fossem distribuídas entre os soldados vitoriosos, o califa recusou-a. Após uma discussão detalhada na sessão do Majlis al-Shura, foi adotada uma decisão favorável à opinião de Umar Faruq (ra).

Durante o califado de Faruq, foi realizado um levantamento de uma vasta área do Iraque, e todas as terras cultiváveis daquela região foram distribuídas entre o povo. Foi adotado um sistema para cobrar deles o ushr e o kharaj. Começou-se a arrecadar impostos na Síria e no Egito. A cobrança de taxas alfandegárias sobre o comércio foi uma decisão de ijtihad do califa Umar Faruq (ra), tendo sido iniciada pela primeira vez, no sistema estatal islâmico, durante seu governo. Desnecessário dizer que isso estava plenamente em consonância com a economia islâmica.

O segundo califa realizou um censo de todo o mundo muçulmano. Durante seu governo, foram estabelecidos nos distritos tribunais regulares e tribunais criminais. Foram estabelecidas as normas e regras necessárias para o sistema judiciário. Fixaram-se salários elevados para os juízes, para que não houvesse o menor motivo para tolerar subornos ou propinas. Além disso, foi então aberto um departamento de fatwas para resolver diversas questões complexas.

Para garantir a paz e a segurança internas do país, ele estabeleceu um departamento de polícia. Ao nomear e enviar Hazrat Abu Bakr (ra) como o mais alto funcionário da polícia no Bahrein, deu-lhe instruções especiais para, juntamente com a manutenção da paz e da segurança, manter rigorosa vigilância sobre o caráter moral do povo. A força policial recebeu ordens para vigiar especialmente a fim de que os comerciantes não enganassem minimamente os compradores nas medidas e nos pesos, de que ninguém construísse casas à beira das estradas públicas, de que nenhuma carga excessivamente pesada fosse colocada sobre animais de carga e de que não se produzissem nem se comprassem ou vendessem bebidas alcoólicas. Em verdade, a responsabilidade fundamental da polícia era manter rigorosa vigilância para que o interesse público e as determinações da sharia não fossem de modo algum prejudicados, mas, ao contrário, a dignidade de ambos fosse plenamente preservada.

Antes de Faruq al-A‘zam (que Allah esteja satisfeito com ele), não existia nenhuma prisão nas terras árabes. Foi ele quem, pela primeira vez, estabeleceu uma prisão em Meca Sharif. Mais tarde, prisões semelhantes foram estabelecidas também nos centros dos distritos.

Estabelecimento do Bayt al-Mal

Antes do califado faruquiano, não havia nenhuma instituição permanente para guardar os bens públicos. Tudo o que era arrecadado era imediatamente gasto em obras necessárias ou em auxílio aos necessitados. Embora o venerável Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) tivesse destinado uma casa para estabelecer o Bayt al-Mal, ela permanecia quase sempre fechada; naquela época, não havia nela nenhum patrimônio que pudesse ser acumulado. Quando ele faleceu, ao se fazer uma busca no Bayt al-Mal, encontrou-se ali apenas uma moeda restante. O venerável Umar (que Allah esteja satisfeito com ele), provavelmente no ano 15 da Hégira, percebeu pela primeira vez a necessidade de estabelecer o Bayt al-Mal e, com a aprovação do Majlis al-Shura, construiu em grande escala, em Medina Sharif, um palácio para o Bayt al-Mal. Depois que o Bayt al-Mal foi estabelecido na capital, instituições semelhantes foram estabelecidas também nos centros distritais. Em cada local, foi designado um oficial específico para esse departamento. Após cobrir as despesas locais com a receita anual dos Bayt al-Mal regionais, tudo o que sobrava era enviado ao Bayt al-Mal central, em Medina Tayyiba. Para se ter uma ideia correta das responsabilidades e dos encargos do Bayt al-Mal, basta dizer que os salários e as pensões fixados para os habitantes da capital somavam trinta milhões de dirhams. Para manter a contabilidade do Bayt al-Mal, também foram devidamente instituídos um departamento específico e os diversos livros de registro necessários. Na Arábia, ainda não havia um sistema organizado de contagem dos anos; o venerável Umar Faruq (que Allah esteja satisfeito com ele) corrigiu essa deficiência ao instituir o calendário da Hégira no ano 16 da Hégira.

Construção de edifícios e obras do departamento de obras públicas

À medida que a extensão do Estado Islâmico se tornava cada vez maior, aumentava também o trabalho de construção de diversos edifícios. Durante o governo do venerável Umar (que Allah esteja satisfeito com ele), não havia nenhum departamento independente para executar essa tarefa. Ainda assim, sob a responsabilidade dos governadores provinciais e dos funcionários de alto escalão, esse trabalho avançava de maneira organizada. Em cada local, eram construídos edifícios públicos para a residência dos oficiais, bem como pontes, estradas e mesquitas para o conforto e a conveniência do povo. Da mesma forma, construíam-se fortalezas, acampamentos e quartéis para fins militares, e edifícios do Bayt al-Mal, ou tesourarias, para a proteção do tesouro público. A política de contenção de despesas do venerável Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) nas atividades do Estado merece especial destaque. Apesar disso, os palácios do Bayt al-Mal eram geralmente construídos de forma mais sólida e suntuosa.

Devido à relação especial entre Meca e Medina, era indispensável que as comunicações e os meios de transporte entre as duas cidades fossem extremamente fáceis e seguros. O venerável Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) construiu numerosos postos de guarda policial, hospedarias e fontes ao longo da extensa estrada de Medina a Meca.

Para desenvolver a agricultura e aumentar o volume da produção, o califa mandou cavar poços e canais por todo o país, estabelecendo um sistema eficiente de irrigação. Em Basra, foi cavado um canal a partir do rio Tigre com o objetivo de fornecer água doce. Esse canal tinha aproximadamente nove milhas de extensão. Nesse contexto, merecem especial menção o Nahr Ma‘qal, o Nahr Mayad e o Nahr Amir al-Mu’minin.

Construção de cidades

Quando os muçulmanos, como uma força conquistadora do mundo, saíram do seio dos áridos e poeirentos desertos da Arábia e avançaram pelo mundo exterior, as paisagens verdes, luxuriantes e encantadoras de outros países os maravilharam. Para cumprir a responsabilidade de propagar e estabelecer os ideais islâmicos, foram obrigados, em nome do Estado islâmico e com o objetivo de desempenhar diversas funções oficiais, a estabelecer residência em regiões muito distantes de Medina, a capital. Como consequência, sob sua iniciativa, várias cidades e centros urbanos foram fundados nos países vizinhos. Durante o califado de Hazrat Umar Faruq (que Allah esteja satisfeito com ele), foram fundadas cidades historicamente famosas como Basra, Kufa, Fustat e Mosul. Inicialmente, apenas oitocentas pessoas começaram a viver na cidade de Basra; porém, em pouco tempo, o número de habitantes chegou a aproximadamente cento e vinte mil. Como centro do conhecimento e das ciências islâmicas, essa cidade permaneceu durante um século como motivo de orgulho para os muçulmanos. A cidade de Kufa surgiu quando um certo governador árabe do Iraque reconstruiu a capital. Nessa cidade foram construídas casas capazes de acomodar quarenta mil pessoas. Por ordem de Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele), suas estradas foram construídas com quarenta côvados de largura. A mesquita congregacional construída ali podia receber, ao mesmo tempo, quarenta mil muçulmanos para a oração. A importância histórica dessa cidade como centro do conhecimento e das ciências é universalmente reconhecida.

A história da construção da cidade de Fustat é extremamente comovente. Hazrat Amr ibn al-As (que Allah esteja satisfeito com ele), o conquistador do Egito, estabeleceu uma base militar entre o rio Nilo e o monte Muqattam. Nessa época, por acaso, uma pomba fez seu ninho em sua tenda. Quando Hazrat Amr (que Allah esteja satisfeito com ele) estava deixando aquele lugar, preocupado em não causar qualquer perturbação à vida tranquila desse hóspede celestial em seu ninho, ele deixou a tenda devidamente montada. Mais tarde, a cidade de Fustat foi construída ao redor dessa tenda. Um certo viajante do século IV escreveu sobre essa cidade:

Esta cidade é o centro do Ocidente que rivaliza com Bagdá e é motivo de orgulho para o Islã. Em nenhuma outra mesquita do mundo muçulmano se realizam tantas reuniões para discutir conhecimento e ciências quanto em sua mesquita congregacional. Em seu porto marítimo permanecem ancorados mais navios do que em qualquer outro lugar do mundo.

A cidade de Mosul está situada no ponto de encontro entre o Oriente e o Ocidente; foi justamente por essa razão que essa cidade, construída em um ambiente inteiramente rural, recebeu esse nome. Ela é um exemplo concreto da transformação de uma aldeia remota em uma grande cidade. Por ordem de Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele), foi construída ali uma enorme mesquita congregacional. Após a conquista de Alexandria, Hazrat Amr ibn al-As (que Allah esteja satisfeito com ele) deixou alguns soldados na costa marítima, pois havia o temor de ataques dos inimigos romanos por via marítima. Mais tarde, ali se desenvolveu uma grande colônia.

Administração militar

Quando o Islã se tornou senhor de um reino ainda mais vasto que o Império Romano, e os enormes e extensos reinos de César e Kisra passaram a estar sob seu domínio, tornou-se indispensável estabelecer uma administração militar bem organizada. No ano 15 da Hégira, Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) adotou políticas eficazes a esse respeito e começou a tentar transformar todo o mundo muçulmano em uma nação militar. Na primeira etapa, o trabalho foi iniciado com os muçulmanos Ansar e Muhajirun. Para cada um deles foi fixado um salário de acordo com sua posição. Um aspecto especialmente importante era que, para os escravos daqueles a quem se atribuía determinado salário, também se estabelecia uma pensão de igual valor.

Depois de algum tempo, essa política assumiu uma dimensão ainda mais ampla. Pessoas de todas as tribos e clãs da Arábia também foram incluídas nela. Por fim, até mesmo para os bebês de colo foi fixada uma pensão. Isso significava que toda criança do mundo árabe era considerada, desde o dia de seu nascimento, um soldado do exército islâmico.

Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) mantinha uma atenção vigilante voltada ao treinamento especial dos soldados; chegou-se até a emitir decretos rigorosos para impedir que qualquer pessoa das áreas conquistadas abandonasse a vida militar e se dedicasse à agricultura, aos negócios e ao comércio. Pois, se isso acontecesse, haveria grande risco de desaparecerem a aptidão militar, o talento, a bravura e a coragem dos mujahidin muçulmanos.

Durante o governo do segundo califa, dispensavam-se cuidados especiais à saúde dos soldados; ao preparar os acampamentos militares, dava-se atenção especial às condições climáticas. Na primavera, os soldados eram enviados para regiões verdes e vicejantes. Centros militares haviam sido estabelecidos nos arredores de quase todas as grandes cidades. O departamento de inteligência militar foi especialmente mobilizado para coletar informações secretas dos acampamentos inimigos. Na verdade, os princípios e métodos militares estabelecidos por Hazrat Umar Faruq (r.a.) há mil e trezentos anos não apenas permaneceram praticamente inalterados em seus fundamentos mesmo depois de quase mil e quinhentos anos, como também não foi possível, até hoje, acrescentar-lhes qualquer aperfeiçoamento. As afiadas espadas dos árabes jamais estiveram dispostas a depender do favor de outrem para alcançar a vitória; contudo, apesar disso, Hazrat Umar (r.a.) conseguiu aplicar com especial mérito a estratégia de envolver o lado inimigo em combate com povos pertencentes à sua própria linhagem, uma importante regra da arte da guerra. Consequentemente, incontáveis guerreiros heroicos de povos não árabes, romanos e gregos ingressaram no exército islâmico e combateram contra seus próprios compatriotas; isso permanecerá para sempre na memória da história.

O trabalho de propagação do Islã

Hazrat Umar Faruq (r.a.) realizava com especial atenção o trabalho de pregar e estabelecer a religião. Ao introduzir as pessoas no Islã, jamais empregou a espada ou o poder do Estado; ao contrário, procurava torná-las muçulmanas, cativando-as e atraindo-as pelas características do modo de vida islâmico, por sua beleza incomparável e por sua profunda sensibilidade interior. Quando convidou seu escravo a aceitar o Islã, este recusou-se claramente a aceitá-lo. Então ele disse: “Não há compulsão na religião” — “Não se pode exercer qualquer coerção para que alguém aceite a religião do Islã”.

Ao estar diante do campo de batalha contra os incrédulos, ele lhes apresentava o convite para aceitar o Islã pela última vez, como a derradeira oportunidade. Isso porque, mesmo naquele exato momento, se alguém aceitasse o Islã, seria proibido lutar contra essa pessoa. Essa era a última tentativa dos muçulmanos de evitar a guerra e o derramamento de sangue. Hazrat Umar (r.a.) formara todos os muçulmanos como símbolos vivos da moralidade islâmica. Assim, por onde quer que avançassem, a influência de seu caráter moral e de seu trato afável se refletia nos caminhos e povoados, e as pessoas que buscavam a verdade ficavam maravilhadas e encantadas, abraçando o Islã. Quando o embaixador do imperador romano chegou ao centro militar islâmico, viu o modo de vida simples, a franqueza e o tratamento generoso do comandante e aceitou espontaneamente o Islã. Ao ouvir dos próprios habitantes sobre as características dos muçulmanos, uma pessoa influente do Egito ficou tão profundamente impressionada que aceitou o Islã imediatamente, acompanhado por duas mil pessoas.

Depois da propagação do Islã, a tarefa mais importante era educar os próprios muçulmanos nos ensinamentos islâmicos e estabelecer concretamente a civilização e a cultura islâmicas. Nesse campo, os esforços de Hazrat Umar (r.a.) haviam começado de modo especial desde o governo do primeiro califa. É universalmente conhecida a contribuição de Umar Faruq (r.a.) para a publicação do Alcorão Majid em forma de livro, como fonte do Islã e seu único fundamento. Depois de tornar-se califa, ele organizou com toda a energia o ensino amplo do Livro. Para os professores nomeados com esse propósito, foram fixados salários honrosos. Alguns ilustres Companheiros na Síria foram enviados com o objetivo de ensinar o Alcorão. Para que o Alcorão Majid fosse estudado com plena pureza e precisão, iniciou-se por toda parte um amplo estudo do Alcorão.

No sistema de vida islâmico, depois do Alcorão vem o Hadith. Também no serviço ao Hadith, os esforços sinceros de Hazrat Umar Faruq (r.a.) não conheceram limites. Ele registrou numerosos hadiths do Nobre Profeta (s.a.w.) e os enviou aos governadores das províncias, ordenando que fossem divulgados entre o povo. Além disso, enviou vários Companheiros a regiões como Kufa, Basra e a Síria para ensinar o Hadith.

Hazrat Umar Faruq (r.a.), contudo, adotava precauções especiais ao aceitar hadiths. Ele sabia muito bem que, embora, segundo os muhaddithun, todos os Companheiros fossem dignos de confiança e confiáveis, nenhum deles estava acima das características e qualidades humanas. Por essa razão, advertiu especialmente as pessoas contra a narração excessiva de hadiths e advertiu todos os envolvidos para que as pessoas se voltassem primeiro para o Alcorão e só depois aceitassem os hadiths.

Depois do Hadith vem o fiqh. O califa Umar (r.a.) costumava explicar pessoalmente questões de fiqh em vários sermões e, de tempos em tempos, enviava por escrito questões essenciais de fiqh aos governadores de lugares distantes. Quando surgiam divergências de opinião, apresentava-as à assembleia pública dos Companheiros e procurava resolvê-las, tanto quanto possível, por consenso. Ao nomear altos funcionários distritais, prestava especial atenção ao conhecimento e à experiência das pessoas em matéria de normas e leis islâmicas, e nomeava juristas com salários elevados para promover amplamente a lei islâmica em todo o mundo muçulmano. Em resumo, durante o governo do segundo califa, foi estabelecido um sistema adequado para o amplo ensino e a divulgação dos conhecimentos islâmicos. Durante o governo do segundo califa, foram construídas mesquitas em toda a região e nelas foram nomeados imames e muezins. Para a conveniência do povo, o Haram Sagrado foi ampliado consideravelmente. A Mesquita do Profeta também foi ampliada bastante. Todos os anos, ele próprio ia realizar o Hajj e cuidava pessoalmente de proporcionar todo conforto e comodidade aos peregrinos.

Obras gerais de bem-estar público

Quando, no ano 18 da Hégira, uma fome devastadora assolou a Arábia, Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) ficou profundamente preocupado, angustiado e perturbado. Durante esse período, ele próprio renunciou a todo tipo de prazer, conforto, luxo e às iguarias de comer, beber e saborear. Ao ver seu próprio filho comendo frutas, o califa disse, irado: “Todo o povo está faminto e se contorcendo com as dores da fome, e você está saboreando frutas doces e nutritivas?” Os esforços incansáveis que ele empreendeu naquele período para aliviar o sofrimento do povo permanecerão eternamente memoráveis na história. Nessa época, gastou liberalmente todas as riquezas do Bayt al-Mal e importou alimentos de todas as direções, distribuindo-os entre os atingidos pela fome. Organizou adequadamente a amamentação e a criação dos órfãos, além de assegurar meios de subsistência para os pobres e necessitados. Contudo, essa medida não se destinava indistintamente a todos os pobres e necessitados; destinava-se especialmente àqueles que eram incapazes de ganhar o próprio sustento.

A política administrativa surpreendente de Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) consistia em cobrar um imposto mais elevado sobre a produção de uvas, pois naquela época elas eram o alimento exclusivo dos ricos, e um imposto relativamente menor sobre as tâmaras, pois estas eram o alimento dos pobres e do povo comum.

Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) mantinha-se especialmente informado até mesmo sobre os detalhes internos da situação nas regiões remotas do país, e nada podia permanecer desconhecido para ele ou fora de sua vista. Assim, se qualquer transgressão contrária à sharia surgisse mesmo no ambiente reservado da vida familiar das pessoas, ou se alguém estivesse sendo afligido pelos golpes cruéis da necessidade e da pobreza, isso também não permanecia desconhecido do califa Umar al-Faruq (que Allah esteja satisfeito com ele). Por isso, ele nomeou repórteres e relatores em todo o país. O historiador Tabari escreveu:

****** (árabe)

Umar al-Faruq (que Allah esteja satisfeito com ele) não permanecia desinformado sobre assunto algum. Enviavam-lhe relatos detalhados sobre aqueles que haviam se rebelado no Iraque e sobre aqueles que haviam sido recompensados na Síria.

O serviço de inteligência de Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) tomou conhecimento, por meio de uma carta, dos detalhes da vida luxuosa e secreta de um governador. Ao ser informado disso, o califa destituiu-o do cargo e escreveu-lhe: “Não posso tolerar o modo como você vive atualmente.”

Justiça e equidade

O aspecto mais notável do califado de Faruq foi sua imparcialidade, sua justiça equilibrada e sua equidade sem qualquer favoritismo. Durante seu governo, não era possível que ocorresse sequer um mínimo de injustiça.

Essa justiça histórica de Faruq, o Grandioso (ra), não se limitava apenas aos muçulmanos; as portas de sua justiça estavam abertas e permanentemente acessíveis também aos cidadãos não muçulmanos, como judeus, cristãos e magos. Certa vez, ao ver um idoso não muçulmano mendigando, Umar (ra) perguntou-lhe a razão. Ele respondeu: “Foi imposto sobre mim o jizya, embora eu seja um homem pobre”. Umar (ra) levou-o para sua própria casa, deu-lhe alguma ajuda em dinheiro e escreveu ao responsável pelo Bayt al-Mal: “Concede uma pensão a todos os pobres dhimmis desse tipo que existam. Juro por Allah: depois de terem trabalhado durante a juventude, não garantir sua segurança na velhice de modo algum pode ser considerado justiça”. Na verdade, para a remoção do sofrimento das pessoas do mundo, o califado de Umar Faruq (ra) permanece para sempre como um exemplo luminoso.

 

Características do caráter de Uthman (ra)

Uthman (ra) foi o terceiro califa do Califado Rashida. Em seu caráter pessoal estavam plenamente presentes todas as qualidades de um califa rashid. Por natureza, era puro de caráter, fiel, veraz, justo, paciente e auxiliador dos pobres. Embora vivesse numa sociedade de grandes bebedores da época da jahiliyyah, o álcool jamais havia sido provado por ele. A sagrada companhia do Mensageiro Nobre (s) tornou seu caráter moral ainda mais puro, limpo e radiante.

Na verdade, o temor a Allah é a fonte fundamental do caráter moral. Não se pode mencionar pecado algum que aquele cujo coração não trema de temor a Allah não seja capaz de cometer. Uthman (r) vivia sempre trêmulo e com os olhos cheios de lágrimas por temor a Allah. Ao ver uma sepultura, ficava perturbado. Ele frequentemente citava o Mensageiro Nobre (s), dizendo: “A sepultura é a primeira etapa da vida após a morte. Se essa etapa for atravessada com facilidade e segurança, espera-se que todas as etapas seguintes também sejam atravessadas facilmente. Porém, se nela surgir uma dificuldade, todas as etapas seguintes se tornarão difíceis”.

Uthman (ra) acompanhou o Mensageiro Nobre (s) em quase todas as guerras do Islã e, em todas as circunstâncias, estava disposto a sacrificar-se por ele. Mesmo na vida cotidiana, permanecia sempre atento e diligente para aliviar as tristezas e dificuldades do Mensageiro Nobre (s). Era extremamente cuidadoso ao demonstrar respeito, devoção e honra pessoais ao Mensageiro Nobre (s). A mão com a qual tocara a mão do Mensageiro Nobre (s) ao prestar o pacto de fidelidade ao Islã jamais permitiu que fosse maculada, nem mesmo pelo menor vestígio, durante toda a sua vida. Durante seu califado, providenciou devidamente o atendimento das necessidades da família do Mensageiro Nobre (s), para que eles não tivessem de enfrentar qualquer privação ou dificuldade.

A consequência inevitável de sua devoção e reverência genuínas e profundas, de seu amor dedicado e de sua sinceridade para com o Mensageiro Nobre (s) era que ele se esforçava com toda a sua força para segui-lo em todos os assuntos, grandes e pequenos. Não deixava faltar esforço algum para imitar exatamente o Mensageiro Nobre (s) até mesmo em suas palavras, ações e movimentos cotidianos. Assim como havia visto o Profeta Nobre (s) realizar a ablução, rezar e tratar os mortos, também realizava essas ações exatamente da mesma maneira. Se visse alguém fazer algo contrariando a sunnah do Mensageiro Nobre (ra) ou de modo diferente, imediatamente fazia objeção e perguntava à pessoa envolvida: “Acaso não viste com teus próprios olhos o Mensageiro Nobre (s) fazer isso?”. Na verdade, essa imitação literal do Mensageiro Nobre (s) era uma das características marcantes de Uthman como um companheiro idealista.

A modéstia e a humildade eram uma qualidade particularmente distinta de Uthman (ra). Historiadores e biógrafos mencionaram sua modéstia com especial ênfase. Também foi registrado que o próprio Mensageiro Nobre (s) concedia especial estima a essa modéstia.

Hazrat Uthman (r.a.), devido à sua timidez natural, à fraqueza decorrente da idade avançada e ao fato de ter sido criado em meio a ilimitado conforto e bem-estar familiar, estava acostumado a usar roupas refinadas e a consumir alimentos de qualidade. Não possuía, como Hazrat Umar Faruq (r.a.), a resistência às dificuldades nem a dureza de caráter naturais. Mas não há razão alguma para imaginar que, por isso, levasse uma vida de pompa e luxo. A verdade é que, embora fosse possuidor de imensa riqueza, ele jamais adotou, nem minimamente, um padrão de vida ostentatório. Por essa razão, um modo de vida luxuoso e pomposo lhe era extremamente desagradável.

Por natureza, ele era extremamente humilde e desprovido de arrogância. Embora tivesse muitas pessoas empregadas para cuidar dos afazeres de sua família, realizava pessoalmente todas as suas tarefas e não sentia nisso qualquer vergonha ou humilhação. Em sua vida pessoal, desconhecia o significado da avareza. Era o homem mais rico da Arábia de seu tempo. Por isso, a generosidade era o principal ornamento de seu caráter. Ele gastava sua riqueza não para proporcionar a si próprio conforto e bem-estar, mas exclusivamente para o bem-estar geral do povo. Quanto de sua riqueza foi gasto pela causa do Islã, ninguém na sociedade de então poderia se igualar a ele nesse aspecto.

Todos os poços de água de Medina eram salgados. Somente do poço chamado “Ruma” se obtinha água doce; porém, seu proprietário era um judeu. Com o objetivo de atender às necessidades da população, Hazrat Uthman (r.a.) comprou esse poço por vinte mil dirrãs e o tornou waqf para o público. Quando, devido ao rápido crescimento do número de muçulmanos na cidade, tornou-se indispensável ampliar a Mesquita do Profeta, ele concluiu essa obra essencial gastando uma grande soma de dinheiro. Da mesma forma, durante a batalha de Tabuk, gastou recursos de seu próprio tesouro para equipar e organizar mil mujahidin. Naquela época, porém, a miséria e a pobreza afligiam e preocupavam cruelmente os muçulmanos. Em suma, pode-se dizer que Uthman (r.a.) foi uma pessoa de generosidade incomparável. Embora fossem riquezas de propriedade privada, por suas mãos elas foram amplamente gastas para o bem-estar do povo em geral. A mácula do luxo capitalista, da exploração e da opressão não pôde contaminar minimamente sua propriedade privada.1O homem lendário da generosidade: no que dizia respeito à magnanimidade ou à generosidade, Hazrat Uthman (r.a.) tinha uma mão aberta de maneira inacreditável. Cada um dos episódios de suas esmolas e donativos parecia saído de um conto de fadas. Certa vez, um homem necessitado procurou Hazrat Uthman (r.a.), esperando receber ajuda. Quando o homem se aproximou da casa de Hazrat Uthman (r.a.), viu que ele (Uthman) estava concentrado, recolhendo grão por grão de mostarda do chão. Ao observar aquela cena, o visitante ficou profundamente desanimado. Pensando que Uthman (r.a.) fosse um avarento desprezível, preparou-se para ir embora. De repente, Uthman (r.a.) avistou o visitante. Chamou-o para perto e perguntou por que ele estava partindo daquela maneira. O homem contou-lhe tudo, do princípio ao fim. Ao ouvir suas palavras, Uthman (r.a.) sorriu discretamente. Nesse momento, por coincidência, chegaram ali sete camelos carregados de mercadorias e pararam. Uthman (r.a.) doou ao visitante todos os bens, juntamente com os camelos. O homem ficou completamente atônito com o acontecimento e passou a lamentar repetidamente seu conceito desfavorável a respeito de Uthman (r.a.). — Editor

Hazrat Uthman (r.a.) era a personificação da paciência e da tolerância. Por maiores e mais graves que fossem as dores, dificuldades e calamidades, ele despedaçava tudo isso com a afiada arma da paciência, da perseverança e da tolerância, permanecendo firme como uma montanha diante de todas as adversidades.

Seu modo de vida era extremamente organizado, moderado e disciplinado. Embora durante o dia estivesse profundamente ocupado com as responsabilidades do califado, passava a maior parte da noite absorto na oração e na devoção espiritual. Muitas vezes permanecia acordado durante toda a noite e recitava o Alcorão completo em uma única rak‘ah. Esse tipo de acontecimento ocorreu muitas vezes em sua vida. Entre os poucos companheiros que haviam aprendido a ler e escrever durante a época da jahiliyyah, antes do Islã, Hazrat Uthman (r.a.) era um deles. Sua capacidade e competência nesse campo foram reconhecidas e elogiadas pelo próprio Nobre Profeta (s.a.w.). Por isso, ele foi incumbido, juntamente com outros, de registrar a revelação. Sempre que a revelação descia ao Nobre Mensageiro de Allah (s.a.w.), eram tomadas providências adequadas e confiáveis para registrá-la por escrito. Hazrat Uthman (r.a.) era especialmente habilidoso nesse trabalho.

Embora fosse habilidoso na escrita, não era tão competente em discursos e oratória. Depois de ser escolhido califa, subiu pela primeira vez ao minbar e, em vez de proferir um discurso formal, disse apenas:

Meus dois predecessores no califado, Abu Bakr e Umar (r.a.), vinham previamente preparados. Eu também passarei a vir preparado no futuro. Mas creio que vocês precisam mais de um imã eficiente na ação do que de um imã (líder) habilidoso em discursos e oratória.

Depois de dizer essas poucas palavras, ele desceu do minbar. Naturalmente, depois disso, proferiu discursos em diferentes ocasiões, conforme a necessidade, e neles demonstrou amplamente sua capacidade. Seus discursos eram muito breves, repletos de conhecimento e de alto nível.

Em um hadith narrado por Hazrat Uthman (r.a.), foi dito: “Ler e ensinar o Alcorão Majid é uma obra de recompensa extremamente meritória.” De acordo com esse hadith, ele próprio praticou isso até o último momento de sua vida. Talvez por essa razão passasse a maior parte do tempo recitando o Alcorão Majid. Ele era também um hafiz de todo o Alcorão. Existia uma profunda relação entre seu coração e o Alcorão. No último momento de sua vida, quando os rebeldes armados o haviam cercado por todos os lados, ele ainda se recolheu de tudo ao seu redor e permaneceu profundamente absorto na recitação do Alcorão.

Por ter sido escriba da revelação, possuía uma habilidade incomparável no conhecimento relacionado ao Alcorão. Ao apresentar provas extraídas do Alcorão sobre diversos assuntos complexos e ao descobrir nele as determinações da Sharia, demonstrou especial competência e presença de espírito. Sua contribuição para proteger o Alcorão Majid das conspirações dos opositores do Alcorão permanecerá para sempre indelével. Ao narrar hadiths, tomava mais precauções do que os demais companheiros. Por isso, narrou apenas 146 hadiths provenientes do Nobre Mensageiro (s.a.w.). Naturalmente, essa cautela era em grande parte uma questão pessoal. Ela provinha de seu gosto e de sua perspectiva pessoais. Por essa razão, embora fossem companheiros do mesmo Profeta, houve enorme diferença entre os companheiros quanto ao número de hadiths narrados, e isso era perfeitamente natural.

Embora Hazrat Uthman (r.a.) não fosse contado entre os grandes mujtahids, como Hazrat Abu Bakr (r.a.), Hazrat Umar Faruq (r.a.) e Hazrat Ali (r.a.), ele praticou ijtihad em muitas questões da Sharia. Esses ijtihads, bem como diversas conciliações e decisões, foram mencionados nas obras islâmicas. Seu conhecimento em vários assuntos era incomparável. Ele próprio realizava o Hajj todos os anos e desempenhava a responsabilidade de Amir al-Hajj. Mesmo depois de assumir a responsabilidade do Califado, nunca deixou de realizar o Hajj sequer uma vez. Os pareceres que em diferentes ocasiões emitiu sobre questões da Sharia, bem como os julgamentos e decisões que proferiu, permanecerão para sempre como um patrimônio extremamente valioso para a interpretação prática da Sharia islâmica. Em diversas questões de ijtihad, divergiu dos demais companheiros. Contudo, permanecia firme nos pareceres que emitia com base no Alcorão, no hadith e na razão, graças à sua sólida confiança. Como Hazrat Uthman (r.a.) era um comerciante bem-sucedido e próspero, possuía especial domínio da aritmética. Por isso, seu conhecimento de ‘Ilm al-Fara’id, ou ciência da distribuição das heranças, era universalmente reconhecido. Sua contribuição, juntamente com a de Hazrat Zayd ibn Thabit (r.a.), para a formulação dos princípios fundamentais dessa ciência deve ser necessariamente reconhecida. Os companheiros consideravam que, se a correta sistematização da ciência das fara’id não fosse realizada antes do desaparecimento desses dois especialistas, essa ciência acabaria desaparecendo.

 

O Califado de Hazrat Uthman (r.a.)

Quando Hazrat Uthman (r.a.) tinha trinta e quatro anos, teve início na cidade de Meca o convite à religião do Islã. À luz das normas e costumes sociais, dos hábitos e condutas vigentes naquela época e da visão religiosa dos árabes, o convite ao tawhid permaneceu, em seu primeiro momento, inteiramente desconhecido para Hazrat Uthman (r.a.). Apesar disso, por causa de sua pureza pessoal, de sua busca pela verdade e de sua justiça, ele se preparou para aceitar o convite à religião do Islã.

A aceitação do Islã

Hazrat Abu Bakr (r.a.) aceitou o Islã já na primeira fase da missão profética. Logo depois, dedicou-se ao trabalho de divulgar o Islã. Primeiro, começou a propagar o convite islâmico entre seus amigos e conhecidos. Ele tinha uma relação profunda e familiaridade com Hazrat Uthman (r.a.). Certo dia, apresentou-lhe uma explicação do convite islâmico. Depois de ouvir tudo, Hazrat Uthman (r.a.) sentiu uma intensa atração por essa grande verdade e preparou-se para comparecer perante o Nobre Profeta (s.a.w.) e aceitar o Islã. No caminho, ao encontrar-se com o Nobre Profeta (s.a.w.), este também convidou Uthman, em linguagem comovente, a aceitar o Islã. A respeito desse acontecimento, Hazrat Uthman (r.a.) disse: “Assim que ouvi aquelas poucas palavras proferidas pelos lábios do Nobre Mensageiro (s.a.w.), meu coração foi tomado por uma intensa comoção. Então, espontaneamente, comecei a recitar a fórmula da shahada e, colocando minha mão na mão do Nobre Mensageiro (s.a.w.), aceitei o Islã”.

Hazrat Uthman (r.a.) pertencia à poderosa família omíada de Meca. Toda essa família era a rival ferrenha e opositora da família Banu Hashim, à qual pertencia o Nobre Mensageiro (s.a.w.). Os membros da família omíada estavam especialmente temerosos diante dos sucessivos êxitos e vitórias do Nobre Mensageiro (s.a.w.). Isso porque havia o forte receio de que, como consequência, toda a liderança e predominância escapassem das mãos dos omíadas e passassem às mãos dos Banu Hashim. Quanto esse fato era terrível na sociedade tribal daquela época, somente as pessoas familiarizadas com a natureza e o caráter do tribalismo podem compreender facilmente. Contudo, como o espelho do coração de Hazrat Uthman (r.a.) estava livre e límpido da mácula dos ódios e rancores familiares e tribais, apesar de todos os obstáculos e adversidades, não lhe foi impossível aceitar o Islã. Quando ele aceitou o Islã, o número total de muçulmanos era de apenas trinta e cinco ou trinta e seis.

Depois de sua conversão ao Islã, o nobre Profeta (S), por iniciativa própria e com grande interesse, celebrou o casamento de Hazrat Uthman (RA) com sua filha, Hazrat Ruqayya (RA).

Hégira

Ao ver a expansão progressiva do Islã e o aumento de sua força na cidade de Meca, a sociedade politeísta ficou muito preocupada e perturbada. Sua ira e seu descontentamento foram se tornando cada vez mais intensos. Como resultado, Hazrat Uthman (RA), apesar de suas qualidades pessoais e de sua honra e prestígio de linhagem, foi obrigado a suportar torturas desumanas por causa do Islã. Para obrigá-lo a abandonar o Islã, seu tio amarrava-o pessoalmente e espancava-o cruelmente. Nenhum de seus parentes se mostrou disposto a avançar para libertá-lo daquela situação. A intensidade da opressão contra ele continuou aumentando. Por fim, isso se tornou insuportável para Hazrat Uthman (RA). Finalmente, seguindo a orientação do nobre Profeta (S), ele partiu com uma caravana, emigrando com toda a sua família para a Abissínia (Etiópia). Somente por causa da verdadeira religião e do verdadeiro ideal, aquela caravana abandonou seus conterrâneos e partiu por um caminho desconhecido.

Depois de partirem rumo à Abissínia, o nobre Profeta (S) não conseguiu receber durante muito tempo nenhuma notícia a respeito deles. Por isso, ficou muito preocupado e inquieto. Alguns dias depois, quando soube que haviam chegado ao seu destino, exclamou espontaneamente:

*******(Árabe)

‘Entre este povo, Uthman foi a primeira pessoa a emigrar com toda a sua família’.

Hazrat Uthman (RA) permaneceu vários anos na Abissínia. Pouco depois de seu retorno de lá, foram concluídos os preparativos para a emigração para Medina. Então Uthman (RA) também partiu com toda a sua família para Medina. Hazrat Uthman (RA) foi obrigado a não participar, por circunstâncias alheias à sua vontade, do primeiro confronto direto entre o Islã e a descrença, isto é, da batalha de Badr. Na época dessa batalha, sua esposa, Ruqayya (RA), filha do nobre Profeta, foi acometida por uma doença grave. Por isso, o nobre Profeta (S) não lhe deu permissão para ir à batalha e ordenou-lhe que cumprisse o dever de cuidar e tratar da enferma. Contudo, ele passou toda a vida oprimido por essa tristeza. Jamais conseguiu esquecer, nem por um instante, a dor de não ter podido participar da primeira batalha do Islã.

Porém, em todas as guerras que ocorreram depois disso, ele acompanhou o nobre Mensageiro (S) com plena coragem e bravura. No sexto ano da Hégira, o nobre Profeta (S) partiu com seus companheiros rumo a Meca, com o objetivo de visitar a Caaba. Quando a caravana foi detida no caminho, no local chamado Hudaybiyyah, o nobre Profeta (S) enviou Uthman (RA) a Meca como embaixador, encarregando-o de conversar com os descrentes politeístas. Em Meca, os descrentes politeístas mantiveram-no sob sua custódia. Como durante vários dias não receberam nenhuma notícia sobre ele, o nobre Profeta (S) e os muçulmanos ficaram especialmente preocupados. Naquele momento, espalhou-se por toda parte o rumor de que Hazrat Uthman (RA) havia sido martirizado. Assim que ouviu essa notícia, o nobre Profeta (S) tomou o juramento de lealdade dos mil e quatrocentos Companheiros que o acompanhavam, para vingar esse ato. Na história do Islã, isso ficou registrado em letras douradas sob o nome de ‘Bay’at al-Ridwan’ — o compromisso de extremo autossacrifício para alcançar a satisfação de Allah.

Eleição como califa

Depois de Hazrat Abu Bakr Siddiq (r.a.), Hazrat Umar Faruq (r.a.) desempenhou durante longos dez anos a responsabilidade do Califado Islâmico. Quando foi ferido pela facada de um assassino desconhecido, ao aproximar-se do fim da vida, constituiu um conselho de seis membros para a eleição do califa seguinte. Hazrat Ali, Hazrat Uthman, Hazrat Zubair, Hazrat Talha, Hazrat Saad, Hazrat Saad ibn Abi Waqqas e Hazrat Abdur Rahman ibn Auf (r.a.) eram os honrados membros desse conselho. O conselho também recebeu instruções para concluir a eleição do califa no prazo de três dias. Depois de concluídos o amortalhamento e o sepultamento de Hazrat Umar Faruq (r.a.), voltou-se a atenção para a eleição do califa. Durante dois dias, foram realizadas discussões, troca de opiniões, consulta à opinião pública e outras atividades relacionadas ao assunto. No terceiro dia, por proposta de Hazrat Abdur Rahman ibn Auf (r.a.), Hazrat Uthman (r.a.) foi eleito califa. Entre os Companheiros reunidos, Hazrat Ali (r.a.) foi o primeiro a prestar-lhe o bay‘ah, segurando sua mão. Depois disso, o povo presente precipitou-se para prestar o bay‘ah. Assim, no dia 4 do mês de Muharram do ano 24 da Hégira, por consenso unânime, Hazrat Uthman (r.a.) foi investido no cargo de califa e assumiu a administração do Califado Bem-Guiado.

Desempenho da responsabilidade do Califado

Durante seu califado, Hazrat Umar Faruq (r.a.) conquistou a Síria, o Egito e a Pérsia e os incorporou ao Estado Islâmico organizado. Além disso, introduziu um código administrativo para a ordem governamental e o sistema de administração. Por essa razão, foi relativamente fácil para Hazrat Uthman (r.a.) desempenhar a responsabilidade do califado. Nessa tarefa, ele seguia simultaneamente a flexibilidade, a gentileza e a compaixão de Hazrat Siddiq, bem como a competência administrativa, a prudência e a firmeza de Hazrat Umar Faruq (r.a.). Durante um ano, manteve inalterado o sistema administrativo anterior. De acordo com a decisão do califa anterior, nomeou Hazrat Saad ibn Abi Waqqas (r.a.) governador de Kufa. Essa foi a primeira nomeação efetuada pelo califa Hazrat Uthman (r.a.). Mais tarde, porém, no ano 26 da Hégira, também o destituiu do cargo.

No primeiro ano do Califado de Uthman, Trípoli, a Argélia e o Marrocos foram conquistados. Como resultado, abriu-se o caminho para o avanço dos muçulmanos em direção à Espanha. Durante o califado de Hazrat Umar Faruq (r.a.), foram realizadas várias expedições militares contra Chipre. No ano 28 da Hégira, sob a liderança de Hazrat Amir Muawiya, a bandeira da vitória muçulmana foi hasteada sobre essa importante ilha situada no mar Mediterrâneo. Assim, durante o califado de Hazrat Uthman (r.a.), os limites do Estado Islâmico foram grandemente ampliados e expandidos. Foi nesse período que o domínio do Califado Islâmico foi estabelecido em Cabul, Hira, Sijistão e Nishapur.

Os primeiros seis anos do décimo segundo ano do califado de Hazrat Uthman (r.a.) transcorreram em plena paz, ordem e regularidade. Uma vasta área, formada por numerosos países, foi incorporada ao Califado Islâmico. As receitas do Bayt al-Mal aumentaram enormemente. O extraordinário desenvolvimento nos campos da agricultura, do comércio e da administração trouxe uma prosperidade sem precedentes à vida do povo. Uma contribuição notável do califado de Hazrat Uthman (r.a.) foi fortalecer progressivamente o sistema administrativo do vasto império do Islã e, com a ajuda de inteligência aguçada, gestão impecável e boas políticas, reprimir a postura e as atividades rebeldes dos povos conquistados, estabelecendo uma vida pacífica.

Como califa, Hazrat Uthman (r.a.) teve de reprimir numerosas rebeliões. Durante seu governo, a bandeira da revolta foi erguida no Egito; os habitantes das regiões da Armênia e do Azerbaijão deixaram de pagar o kharaj, e os habitantes do Khurasan também levantaram a cabeça em rebelião. Todas essas rebeliões foram consequência da explosão do veneno de ódio e vingança que ardia no coração dos povos conquistados. Entretanto, Hazrat Uthman (r.a.) conseguiu reprimi-las com especial cautela e prudência. Como resultado de uma política que combinava firmeza e suavidade, os habitantes de todas essas regiões aceitaram a lealdade ao Califado Islâmico.

As campanhas navais de conquista foram uma contribuição especial do califado de Hazrat Uthman (r.a.). Devido à política cautelosa de Hazrat Umar (r.a.), durante seu governo não foi possível começar a enviar os muçulmanos em expedições pelas perigosas rotas marítimas. Contudo, a audácia de Hazrat Uthman (r.a.) tornou facilmente possível superar o temor dos perigos. Graças ao seu impecável plano militar, a enorme frota naval do imperador romano, composta por quinhentos navios de guerra, foi obrigada a sofrer uma derrota completa.

Método de governo no Califado

O método de governo do Califado Rashidun começou como um sistema estatal baseado na consulta. Hazrat Umar Faruq (que Allah esteja satisfeito com ele) tornou esse sistema ainda mais sólido e organizado. Hazrat Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele) também o manteve durante o início de seu califado. Contudo, na fase final, a revolta dos Banu Umayya provocou nele muitos transtornos. Hazrat Uthman empenhou-se com todas as suas forças para impedir isso e, com esse objetivo, aceitava sem hesitação qualquer conselho benéfico que lhe fosse dado por pessoas responsáveis.

A propósito, deve-se mencionar que, no sistema estatal do Califado, cada indivíduo gozava do direito absoluto de proteger seus direitos fundamentais e de criticar publicamente as políticas e as ações dos governantes. Nem mesmo ao próprio califa fora concedida autoridade para privar alguém desse direito, ainda que minimamente. É inegável que, na fase final do governo de Hazrat Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele), o sistema baseado na consulta começara a sofrer algumas fissuras. Apesar disso, não se permitiu que os direitos do povo fossem de modo algum prejudicados.

No que diz respeito à administração interna, as pessoas responsáveis investidas do poder governamental geralmente são mais capazes de expressar opiniões melhores e mais corretas do que as pessoas sem responsabilidades. Por essa razão, ainda hoje são formados órgãos consultivos desse tipo em vários países civilizados e desenvolvidos. Hazrat Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele), tendo percebido essa necessidade há mil e quatrocentos anos, formou um conselho consultivo desse tipo com funcionários governamentais responsáveis. Geralmente, solicitavam-se propostas escritas aos membros desse órgão. Quando surgiram pela primeira vez desordem e perturbação na disciplina administrativa da região de Kufa, foram solicitadas propostas escritas aos membros do conselho com o objetivo de eliminá-las. De tempos em tempos, também eram convocadas sessões desse tipo de conselho na capital principal. No ano 24 da Hégira, realizou-se na capital uma sessão desse conselho com o objetivo de reformar e desenvolver a situação geral de todo o país; nela participaram a maioria dos funcionários responsáveis capazes de oferecer opiniões nesse nível.

Para tornar o sistema administrativo mais ativo e sólido, era extremamente necessário dividir e reorganizar todo o país com base em províncias e distritos. Hazrat Umar Faruq (que Allah esteja satisfeito com ele) havia dividido toda a região da Síria em três províncias distintas: Damasco, Jordânia e Palestina. Hazrat Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele) colocou todas essas regiões sob a autoridade de um único governador, transformando-as em uma vasta e extensa província. Essa reorganização provincial foi muito proveitosa do ponto de vista da ordem e da disciplina administrativas. Quando, por fim, todo o país se transformou num cenário de desordem e anarquia, os distritos ligados à Síria permaneceram completamente livres dessa calamidade.

Hazrat Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele) criou um novo cargo de comandante militar. Até então, o governador provincial também desempenhava a função de comandante do exército estacionado na região correspondente. Era inevitável que isso causasse grandes dificuldades no trabalho.

No método de governo do Califado Rashidun, o califa é o chefe de Estado. Ele ocupa a autoridade máxima no setor administrativo. Uma das principais e mais importantes funções do califa é manter vigilância rigorosa sobre todos os governantes e funcionários administrativos subordinados. Hazrat Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele) era, por natureza, um homem compassivo e de temperamento afável. No âmbito pessoal, era a personificação da paciência, tolerância, clemência e perseverança. Contudo, no governo do país e na execução adequada dos assuntos de Estado, era extremamente rigoroso e inflexível. Interrogar os funcionários, investigar sua conduta e, quando fossem constatadas falhas ou erros, corrigi-los com mão firme constituíam sua política permanente. Nesse aspecto, mesmo quando alguma falta era constatada em um funcionário de elevada posição, ele não hesitava nem por um instante em destituí-lo do cargo. Aos seus olhos, o desperdício e a apropriação indevida dos recursos do Bayt al-Mal, bem como a vida luxuosa dos governantes, eram crimes imperdoáveis.

Com o objetivo de controlar a máquina administrativa do país e corrigir suas falhas, Hazrat Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele) criou um “Comitê Central de Investigação” e o enviava a todas as partes fora da capital. O comitê percorria toda a região, observando diretamente o trabalho dos funcionários administrativos e a situação do povo. Além disso, com o objetivo de obter conhecimento direto sobre a situação geral do país, Hazrat Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele), às sextas-feiras, antes de iniciar o sermão no púlpito, perguntava à multidão presente sobre a situação das diversas regiões do país. Ele ouvia com especial atenção o que as pessoas presentes tinham a dizer. Ademais, fora anunciado publicamente a todos os habitantes do país que, caso alguém tivesse qualquer queixa contra algum administrador, deveria apresentá-la ao califa durante o Hajj. Isso porque, nessa ocasião, todos os funcionários responsáveis do Califado Islâmico eram obrigados a estar presentes em Meca. Assim, durante o governo de Hazrat Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele), estava em vigor um sistema adequado para ouvir diretamente as queixas do povo e providenciar sua solução.

É digno de nota que Hazrat Umar Faruq (r.a.) não introduziu qualquer alteração na administração geral, no sistema de ordem e disciplina governamental nem nas instituições dos diversos departamentos administrativos por ele estabelecidas. Hazrat Uthman (r.a.), pelo contrário, tornou-as ainda mais organizadas e fortes. Como consequência, houve um progresso significativo na arrecadação de impostos. Além disso, a arrecadação de impostos nas novas áreas conquistadas aumentou muitas vezes. Assim, as receitas do Bayt al-Mal destinadas às despesas tornaram-se muito mais abundantes do que antes, e grandes quantias foram distribuídas entre o povo sob a forma de bolsas e subsídios. Durante o califado de Hazrat Uthman (r.a.), quanto mais se expandia o território do califado, maior amplitude adquiriam as obras de desenvolvimento e reconstrução. Nesse período, foram construídos numerosos edifícios para os diversos escritórios dos governos provinciais. Paralelamente, prosseguiram em larga escala as obras de construção de estradas, pontes e mesquitas. Foram estabelecidas numerosas hospedarias públicas para os viajantes de longa distância.

Era absolutamente necessário tornar mais acessíveis e confortáveis todas as estradas de acesso à capital, a fim de assegurar o bom funcionamento da administração e facilitar a circulação do povo. Hazrat Uthman (r.a.) tomou as medidas apropriadas para isso. Além disso, por sua iniciativa, foram instalados postos policiais nas estradas entre Medina e Najd, e foram cavados poços para fornecer água potável. Por vezes, as águas das enchentes vindas da direção de Khaybar chegavam a inundar e submergir Medina. Como resultado, os habitantes da cidade sofriam especialmente. Chegou-se até a temer que, por causa disso, a Mesquita do Profeta desabasse. Por essa razão, Hazrat Uthman (r.a.) mandou construir uma enorme barragem nas proximidades de Medina. Do ponto de vista do bem-estar público, essa barragem de Mahzur, construída por Hazrat Uthman (r.a.), constitui uma de suas contribuições notáveis.

Hazrat Uthman (r.a.) teve uma participação muito ampla e competente na ampliação e reconstrução da Mesquita do Profeta. No tempo do Nobre Profeta (s.a.w.), ele comprou terrenos adjacentes para esse fim e os doou como waqf à mesquita; além disso, esse trabalho foi realizado novamente durante o seu próprio califado. Nessa época, surgiu uma necessidade especial de ampliar a mesquita; contudo, os proprietários e moradores das casas vizinhas não estavam de modo algum dispostos a isso, temendo ser privados da proximidade da mesquita. Hazrat Uthman (r.a.) continuou empenhando-se incansavelmente para convencê-los e obter o seu consentimento. Desse modo, transcorreram cinco longos anos. Ele não estava disposto a realizar a aquisição dos terrenos por meio de qualquer uso da força ou com o auxílio do aparato administrativo. No ano 29 da Hégira, os Companheiros foram especialmente consultados sobre essa questão. Em seguida, Hazrat Uthman (r.a.) proferiu, na sexta-feira, um discurso diante do povo, com voz profundamente comovida. No discurso, explicou especialmente o problema causado pelo aumento do número de fiéis e pela falta de espaço na mesquita. Depois de ouvirem o discurso, as pessoas, alegres e espontaneamente, prepararam-se para ceder suas casas.

Hazrat Uthman (r.a.) aperfeiçoou e ampliou a organização que Hazrat Umar Faruq (r.a.) havia estabelecido para o departamento militar. Foi ele o primeiro a separar o departamento militar do departamento administrativo, constituindo-o como uma estrutura independente. Por sua iniciativa, em cada centro importante, a organização militar foi colocada sob a autoridade de um oficial militar especial. Assim, foi estabelecido um sistema eficiente para atender com extrema rapidez à necessidade de enviar forças militares a qualquer lugar distante. Nesse período, também foram instaladas bases militares nas regiões de Trípoli, Chipre, Tabaristão e Armênia.

Durante o califado de Hazrat Uthman (r.a.), foi dada especial importância à criação e à preservação de cavalos e camelos. Para esse fim, foram estabelecidas vastas pastagens em todo o território sob seu governo. Também foram preparadas numerosas pastagens nos arredores da capital, com abastecimento de água nas proximidades.

A divulgação da religião

O califa é, essencialmente, o sucessor e representante do Nobre Profeta (s.a.w.), responsável pelo cumprimento de todas as responsabilidades coletivas. Seu principal dever é servir devidamente à religião e promover amplamente a sua divulgação. Hazrat Uthman (r.a.) permanecia sempre consciente dessa responsabilidade e especialmente dedicado ao cumprimento de seu dever. Aos não muçulmanos que eram capturados durante o jihad direto, ele próprio explicava e analisava a religião diante deles, manifestava a sua beleza e os convidava a aceitar o Islã. Como resultado, centenas de pessoas tiveram a grande oportunidade de aceitar o Islã e integrar a sociedade muçulmana.

Além de divulgar o Islã entre os não muçulmanos, ele também tomou amplas medidas para a educação e formação religiosa do próprio povo muçulmano. Ele mesmo informava o povo sobre as questões urgentes da religião. Quando alguma determinação religiosa lhe era pouco clara, consultava outros Companheiros especialistas, agia de acordo com o que aprendia e instruía o povo a segui-lo. Nesse assunto, não permitia qualquer hesitação ou reserva.

Quando necessário, Hazrat Uthman (ra) não hesitava em introduzir novas medidas baseadas nos princípios fundamentais do Islã. Quando a população de Medina aumentou enormemente, pareceu que um único azan para a oração de sexta-feira, feito no interior da mesquita diante do imame, já não era suficiente. Por isso, ele instituiu a prática de realizar, antes dele, outro azan para a oração de sexta-feira, estando o encarregado em um lugar elevado.

Neste período, a maior contribuição de Hazrat Uthman (ra) foi o empreendimento incomparável de proteger para sempre o Alcorão Majid de toda espécie de divergência e distorção. Nas campanhas da Armênia e do Azerbaijão, mujahideen de regiões como o Egito, a Síria e o Iraque haviam se reunido. A maioria deles era de novos muçulmanos, de origem não árabe e inexperiente na língua árabe. Hazrat Hudhayfa ibn al-Yaman (ra) também participou dessa jihad. Ele próprio observou diferenças e discrepâncias extremamente graves na maneira e no modo de recitação do Alcorão pelos mujahideen muçulmanos que haviam participado dessas duas jihads. Constatou-se que os habitantes de cada região recitavam o Alcorão segundo sua própria preferência e consideravam essa maneira como a única forma correta de recitá-lo. Depois da guerra, ele foi a Medina e apresentou detalhadamente toda a questão ao califa, Hazrat Uthman (ra). Expressando profunda preocupação, disse que, se não se providenciasse imediatamente a eliminação completa dessas divergências e diferenças e não se estabelecesse uma forma única de recitação do Alcorão, a sociedade muçulmana acabaria criando, a respeito do Livro de Allah, várias divisões e disputas, tal como os romanos cristãos. Alertado por Hazrat Hudhayfa (ra), Hazrat Uthman (ra) compreendeu profundamente a necessidade da medida. Ele mandou trazer o manuscrito original do Alcorão Majid de junto de Umm al-Mu’minin, Hazrat Hafsa (ra), fez com que Hazrat Zayd ibn Thabit (ra), Hazrat Abdullah ibn al-Zubayr (ra) e Hazrat Sa’d ibn al-‘As (ra) preparassem numerosas cópias e enviou-as para diferentes regiões muçulmanas, ordenando a todos que aceitassem e seguissem aquele texto como a versão definitiva do Alcorão Majid. Ao mesmo tempo, destruiu todas as cópias do Alcorão que as pessoas haviam escrito para uso pessoal.

Na verdade, se Hazrat Uthman (ra) não tivesse tomado essa medida, os seguidores da Torá, do Evangelho e de outros Livros celestiais, que haviam mergulhado em divergências e discrepâncias extremamente graves a respeito deles, teriam feito com que a comunidade do Último Profeta também caísse em divisões e discrepâncias semelhantes, e o Alcorão Majid teria sofrido destino semelhante; não há a menor dúvida quanto a isso. Por isso, essa grande realização de Hazrat Uthman (ra) permanecerá para sempre inscrita em letras de ouro na história do Islã.

 

A vida e as características do caráter de Hazrat Ali (ra)

Primeiros anos de vida

Hazrat Ali (ra) era primo paterno do Profeta do Universo, Hazrat Muhammad (s). No ano em que o Profeta Muhammad (s) recebeu a profecia, Hazrat Ali tinha apenas dez anos de idade. Seu pai, Abu Talib, era pai de muitos filhos. Devido às dificuldades financeiras e às condições provocadas pela fome, ele havia sido curvado sob o pesado fardo da pobreza. Ao ver essa situação, o Profeta Muhammad (s) consultou seu outro tio, Hazrat Abbas (ra), sobre como aliviar o peso da pobreza de Abu Talib. O Profeta Muhammad (s) disse-lhe: “Devemos repartir igualmente entre nós a pobreza e as dificuldades de nosso tio”. De acordo com esse conselho, Hazrat Abbas (ra) assumiu sobre si toda a responsabilidade pela criação de Ja’far, filho de Abu Talib, e o próprio Profeta Muhammad (s) assumiu a responsabilidade pela criação de Hazrat Ali.

Na verdade, a contribuição de Abu Talib para o Profeta Muhammad (s) foi incomparável. Ele era o chefe dos Banu Hashim, e a preeminência, a influência e o prestígio dos Banu Hashim sobre todas as tribos dos Quraysh eram extraordinários. O serviço e a manutenção da Caaba, bem como todas as responsabilidades relacionadas a ela, estavam confiados aos Banu Hashim. Por essa razão, a preeminência e a liderança de Abu Talib na sociedade árabe daquela época estavam estabelecidas como uma instituição permanente. A liderança religiosa de toda a Arábia estava ligada a essa família. O Profeta Muhammad (s) havia ficado órfão antes mesmo de nascer. Assim, desde muito pouco tempo depois de seu nascimento, foi criado no afetuoso colo de seu tio Abu Talib e chegou à juventude. Depois de receber a profecia, foi sob o forte apoio e a proteção dele que se dedicou à divulgação do convite ao tawhid. Então, diante de cada golpe de opressão e perseguição vindo das forças da incredulidade, Abu Talib ofereceu o próprio peito e, desse modo, protegeu o sobrinho contra os ataques dos incrédulos. Por causa de seu apoio e patrocínio, os Quraysh politeístas se inflamaram de extrema hostilidade contra toda a família de Abu Talib e passaram a atormentá-la com injustiça, tortura e perseguição por todos os meios possíveis. Uma forma extrema de sua opressão e violência manifestou-se quando todos os politeístas de Meca decidiram conjuntamente romper todo tipo de relação com essa família e, por fim, ela foi obrigada a refugiar-se em uma caverna nas montanhas. Contudo, Abu Talib, líder e chefe dessa família, defensora da verdade, sem se deixar abater nem um pouco, suportou silenciosamente toda forma de oposição e perseguição.

Aceitação do Islã

Este Ali, filho de Abu Talib, desde a infância tornou-se conhecido como companheiro e associado do Nobre Profeta (que a paz esteja com ele). Por isso, após o recebimento da missão profética, ele teve a oportunidade de testemunhar com os próprios olhos as cenas maravilhosas das transformações que ocorreram na vida do Nobre Mensageiro (que a paz esteja com ele). Quando o Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) lhe explicou a religião do Tawhid, em resposta à pergunta feita pelo próprio Hazrat Ali (que Deus esteja satisfeito com ele) sobre essa transformação, e o convidou a crer nela, ele imediatamente abraçou a fé na religião do Islã com coração resoluto e cheio de entusiasmo.

Muitos nomes são mencionados nas coleções de hadith a respeito de quem foi o primeiro a crer no Nobre Mensageiro (que a paz esteja com ele). A conclusão final dos sábios muçulmanos é que, entre os que abraçaram primeiro a fé ainda na infância, Hazrat Ali (que Deus esteja satisfeito com ele) foi o primeiro.

Após aceitar o Islã, os treze anos da vida de Hazrat Ali (que Deus esteja satisfeito com ele) foram passados em Meca, na íntima companhia do Nobre Mensageiro (que a paz esteja com ele). Como permanecia constantemente com o Nobre Mensageiro (que a paz esteja com ele), teve amplas oportunidades de participar com ele de tudo: reuniões de consulta, encontros de ensino e formação, debates com os incrédulos e politeístas e cerimônias de adoração ao Deus Único — em suma, de todas as atividades. Na fase inicial da missão profética, quando o Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) se dedicava à devoção ao Deus Único com extremo sigilo e longe dos olhares do público, Hazrat Ali (que Deus esteja satisfeito com ele) também tinha a oportunidade de estar presente. Apesar desse sigilo, certa vez Abu Talib viu o filho e o sobrinho ocupados em um tipo especial de adoração e perguntou: “O que vocês dois estão fazendo?”. Então o Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) explicou o significado da religião do Tawhid e da adoração a Deus. Depois de ouvir tudo, Abu Talib disse: “Está bem, não há nada de errado nisso. Vocês podem fazê-lo; mas isso não será possível para mim”.

Durante três anos consecutivos após receber a missão profética, o Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) absteve-se de apresentar publicamente o chamado à religião do Islã. Nesse período, conduziu todo o trabalho de propagação da religião com grande sigilo. Ao mesmo tempo que apresentava o chamado religioso a pessoas escolhidas, também cumpria a responsabilidade de formar suas mentes, sua disposição e seu caráter de acordo com os ideais religiosos. No quarto ano, foi revelada a ele uma ordem de Allah, o Altíssimo:

******(Árabe)

Adverte e previne o número completo de parentes mais próximos da tua linhagem sobre o castigo na vida futura decorrente da incredulidade e do politeísmo.

Ao receber essa ordem de Allah, o Altíssimo, o Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) subiu ao topo da montanha ‘Safa’ e, diante de uma grande multidão de pessoas de sua própria linhagem, apresentou pela primeira vez, em voz alta, o chamado à religião do Tawhid. Mesmo depois disso, o Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) continuou a fazer esforços de várias maneiras para convidar sua família e os membros de sua linhagem a abraçar a fé na religião verdadeira. Certa vez, inclusive, ordenou a Hazrat Ali (que Deus esteja satisfeito com ele) que organizasse um banquete para essa finalidade.

Cooperação na propagação da religião

A idade de Hazrat Ali (r.a.) naquele tempo, embora não fosse muito avançada, não deveria ultrapassar os quatorze ou quinze anos. Apesar de sua pouca idade, porém, ele organizou com grande competência um magnífico banquete para os membros de sua tribo e de sua família. Todas as pessoas envolvidas compareceram ao banquete. Cerca de quarenta pessoas dele participaram. Quase todos os chefes influentes da tribo dos coraixitas se reuniram ali. Depois que terminou a refeição, o nobre Profeta (s) levantou-se e, por meio de um breve discurso, convidou os presentes a aceitar a religião do Islã. Ele também procurou, nessa ocasião, estimular todos a cooperarem com ele na grandiosa missão de propagar a religião que o Altíssimo Allah lhe havia confiado. Ao término do discurso do nobre Profeta (s), a voz de Hazrat Ali (r.a.) foi a primeira a ressoar no local da reunião. Ele exclamou com voz destemida: “Sou jovem em idade. Minha incapacidade física também é indescritível. Apesar disso, nesta grandiosa missão serei seu companheiro, seu eterno auxiliar e seu dedicado ajudante, até o sacrifício da própria vida.” Ao ouvir suas palavras, o nobre Profeta (s) disse: “Tu és meu irmão e meu herdeiro”.

Depois de transcorridos cerca de treze anos da missão profética em Meca, o Altíssimo Allah ordenou ao nobre Profeta (s) que migrasse para Medina acompanhado de todos os muçulmanos. Em conformidade com isso, o nobre Profeta (s) ordenou aos muçulmanos de Meca que partissem, um após outro, para Medina. Com isso, surgiu o temor de que a cidade de Meca ficasse sem muçulmanos. Ao verem essa situação, os incrédulos e politeístas ficaram especialmente apreensivos e amedrontados, pensando que os muçulmanos poderiam reunir-se em algum lugar fora dali, fortalecer-se com grande poder e lançar um ataque contra eles. Movidos por esse temor, decidiram exterminar antecipadamente o “inimigo”. O Altíssimo Allah informou oportunamente o nobre Profeta (s) sobre esse assunto por meio da revelação e ordenou-lhe que migrasse sem demora. Ele saiu de casa depois de deixar Hazrat Ali (r.a.) deitado em seu leito e partiu em direção a Medina acompanhado de Hazrat Abu Bakr Siddiq (r.a.).

Os incrédulos e politeístas mantiveram a casa do nobre Profeta (s) cercada e sitiada durante toda a noite, a fim de assassiná-lo e assegurar o eterno ocaso do sol resplandecente do Islã. Hazrat Ali (r.a.) era então apenas um jovem de vinte e dois ou vinte e três anos. Embora estivesse ciente da terrível conspiração dos incrédulos, dormiu tranquilamente no leito do Mensageiro, com infinita coragem. Pela manhã, as forças inimigas entraram na casa e descobriram que o nobre Profeta (s) estava ausente e que, em seu lugar, jazia inconsciente em seu próprio leito um jovem disposto a oferecer a vida por ele, decidido ao autossacrifício. Então, ao compreenderem o fracasso total de sua ação conjunta e o sucesso inevitável do nobre Profeta (s), ficaram profundamente desolados, envergonhados e desesperados.

Vida de atividade em Medina

Depois disso, Hazrat Ali (r.a.) permaneceu em Meca por dois ou três dias. Após devolver devidamente os depósitos que lhe haviam sido confiados pelo povo, conforme a instrução do nobre Mensageiro (s), ele também deixou Meca e partiu em direção a Medina.

Ao chegar a Medina, Hazrat Ali (r.a.) participou diretamente, antes de tudo, da construção da Mesquita do Profeta. Sob as instruções do nobre Mensageiro (s), lançou seus alicerces e, juntamente com os demais companheiros, levou a cabo sua construção.

Quando começou a árdua vida de atividades do Profeta do mundo, Hazrat Muhammad (s), Hazrat Ali (r.a.) permaneceu ao seu lado como uma sombra, com devoção total e coragem indomável. Ele participou, assumindo plena responsabilidade, de quase todas as guerras e jihads do nobre Profeta (s). Nesses episódios, demonstrou tal bravura que ninguém poderia igualá-lo. Na batalha de Badr, o nobre Profeta (s) partiu de Medina acompanhado de trezentos e treze companheiros dispostos a sacrificar a vida. À frente da caravana tremulavam duas bandeiras negras, como sinal do avanço do exército muçulmano. Uma delas era carregada por Hazrat Ali (r.a.). Depois de chegar ao lugar chamado Badr, o nobre Profeta (s) enviou uma audaciosa força de reconhecimento sob a liderança de Hazrat Ali (r.a.), com o objetivo de observar os movimentos do inimigo. Na batalha de Uhud, quando o nobre Profeta (s) foi ferido e caiu em uma depressão, os homens do exército inimigo avançaram velozmente em sua direção. Nesse momento, Hazrat Mus’ab ibn Umair (r.a.) foi o primeiro a lutar contra eles até alcançar o martírio. Logo depois, Hazrat Ali (r.a.) avançou, tomou a bandeira e, demonstrando o mais alto grau de bravura na luta defensiva, mudou o curso da batalha.

Também na expedição contra Banu Qurayza a bandeira tremulava nas mãos de Hazrat Ali (r.a.) e, depois de conquistar a fortaleza dos judeus conforme as instruções do nobre Mensageiro (s), ele realizou a oração da tarde em seu pátio. Depois de receber, em Hudaybiyyah, a notícia do martírio de Hazrat Uthman (r.a.), foi tomado dos companheiros o juramento de oferecer a própria vida, e Hazrat Ali (r.a.) também participou desse juramento. Mais tarde, quando foi redigido e assinado o tratado de paz com os politeístas de Meca, o nobre Profeta (s) ordenou justamente a ele que o escrevesse. Nas duas primeiras expedições da batalha de Khaybar, a liderança foi confiada a Hazrat Abu Bakr (r.a.) e Hazrat Umar (r.a.). Contudo, nenhuma delas conseguiu alcançar a vitória. Finalmente, o nobre Profeta (s) confiou a Hazrat Ali (r.a.) a responsabilidade de conquistar as inexpugnáveis fortalezas de Khaybar. Ele combateu com ímpeto irresistível e desfraldou a bandeira da vitória do Islã sobre as fortalezas de Khaybar. Também na expedição da conquista de Meca, entrou na cidade com ar vitorioso, levando a bandeira das forças avançadas. Depois de retornar da batalha de Tabuk, o nobre Profeta (s) nomeou Hazrat Abu Bakr Siddiq (r.a.) como “Amir do Hajj” daquele ano e enviou-o a Meca. Após sua partida, foi revelada a surata “Bara’at” (At-Tawbah). Depois de ouvirem essa surata do início ao fim, os companheiros presentes em Medina opinaram que seria muito bom recitá-la diante dos muçulmanos reunidos durante o Hajj. O nobre Profeta (s), compreendendo também sua importância, enviou Hazrat Ali (r.a.) a Meca, confiando-lhe essa responsabilidade.

Entre as várias delegações que o nobre Profeta (s.a.w.) enviou a diferentes regiões com o objetivo de propagar o Islã, o envio de uma delegação ao Iêmen ocupa uma posição especialmente importante. Hazrat Khalid ibn al-Walid (r.a.) tentou de diversas maneiras durante seis longos meses, mas não conseguiu obter êxito. Finalmente, no décimo ano da Hégira, o nobre Profeta (s.a.w.) decidiu enviar Hazrat Ali (r.a.) com essa responsabilidade. Assim que Hazrat Ali (r.a.) chegou ao Iêmen, começou uma transformação completa da situação naquela região. Ele explicou ao povo local os ensinamentos, a excelência e as características do Islã e, como resultado, milhares de pessoas abraçaram o Islã.

No mês de Rabi al-Awwal do décimo primeiro ano da Hégira, o nobre Profeta (s.a.w.) faleceu. Essa dor trágica deixou todo o mundo muçulmano profundamente aflito. Os membros da família do Profeta ficaram ainda mais angustiados e mergulhados na tristeza. O coração de cada um foi dilacerado, e seus olhos transformaram-se para sempre em fontes de lágrimas. Hazrat Ali (r.a.) era uma personalidade importante entre os membros da família do Profeta. Tanto pela proximidade de sua relação pessoal quanto pelos laços familiares e de parentesco, essa dor foi insuportável para ele. Além disso, a viuvez da filha do Profeta, Hazrat Fatima (r.a.), causou-lhe uma ferida dolorosa no coração. Ele ficou terrivelmente abatido e, durante muito tempo, rompeu todas as relações com a sociedade e o Estado, permanecendo inteiramente recluso em casa. Naquele período, tornou-se completamente incapaz de demonstrar o mínimo interesse ou curiosidade por qualquer atividade além de controlar sua própria dor, consolar Hazrat Fatima (r.a.) e compilar de forma organizada o Alcorão Sagrado. Pouco tempo depois, quando Hazrat Fatima (r.a.) também faleceu, ele como que se despertou e foi até o primeiro califa, Abu Bakr Siddiq (r.a.), prestando-lhe o juramento de lealdade ao califado.

Depois de Hazrat Abu Bakr (r.a.), durante o califado de Hazrat Umar al-Faruq (r.a.), ele consultava Hazrat Ali (r.a.) sobre todos os assuntos complexos e importantes. Hazrat Ali (r.a.), por sua vez, aconselhava-o em cada questão com extrema dedicação e sinceridade. Durante a campanha de Nihawand, foi-lhe proposto assumir o comando do exército, mas ele recusou-se a aceitar. Mais tarde, quando Umar (r.a.) foi a Bayt al-Maqdis, deixou Hazrat Ali (r.a.) como seu substituto interino na capital e confiou-lhe todas as responsabilidades do califado. Depois de Hazrat Umar (r.a.), quando, no final do califado de Hazrat Uthman (r.a.), surgiram agitação e desordem em todo o país, Hazrat Ali (r.a.) ofereceu conselhos especiais e eficazes para contê-las, apontando as causas fundamentais da perturbação e mostrando os meios para corrigi-las e eliminá-las.

O califado de Hazrat Ali (r.a.)

A eleição do califa

Após o martírio de Hazrat Uthman (r.a.), o assento do califado permaneceu vago durante três dias. Nesse período, a atenção do povo voltou-se para Hazrat Ali (r.a.) como próximo califa. Muitas pessoas pediram-lhe que assumisse essa responsabilidade. Embora inicialmente tenha recusado expressamente, por fim, diante dos repetidos pedidos dos Companheiros Muhajirun e Ansar, concordou em assumir essa responsabilidade.

O relato da eleição de Hazrat Ali (r.a.) como califa foi registrado detalhadamente na história da ciência política islâmica. O povo foi até Hazrat Ali (r.a.) e disse:

*******(árabe)

Prestaremos o juramento de lealdade em suas mãos; estenda a mão. Pois agora é absolutamente indispensável nomearmos entre nós um emir — um governante do Estado. E o senhor é o mais qualificado e digno para esse cargo.

Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) respondeu-lhe:

*******(Árabe)

Vocês não têm nenhum direito de dizer ou fazer coisa alguma nesse assunto. Trata-se de uma decisão conjunta dos primeiros muçulmanos, aptos a prestar conselho e participantes da Batalha de Badr. Aquele que eles aceitarem como califa será o califa. Portanto, vamos reunir todos nós e deliberar sobre a questão.

Ao ouvirem essas palavras, as pessoas afastaram-se dele. Contudo, pouco depois, voltaram a procurá-lo e começaram a pressioná-lo para que aceitasse o juramento de lealdade. Então Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) disse:

******(Árabe)

Se é isso que vocês desejam — que eu me torne califa e receba de vocês o juramento de lealdade —, então vamos à Mesquita do Profeta; será ali que se tomará a decisão final sobre o assunto.

É evidente que a minha eleição como califa e a prestação do juramento de lealdade para esse fim não podem ocorrer secretamente. Isso só pode acontecer com base na satisfação espontânea e na aprovação do povo muçulmano.

Depois disso, após a proposta, o apoio espontâneo e a aprovação dos muçulmanos em geral reunidos na Mesquita do Profeta, Hazrat Ali (r.a.) foi eleito o califa seguinte, e na segunda-feira, dia 21 de Dhu al-Hijjah, na Mesquita do Profeta, na presença de uma grande multidão islâmica, foi prestado em sua mão o juramento geral de lealdade ao califado. Ele foi declarado o quarto califa do Califado Bem-Guiado.

Quando Hazrat Ali (r.a.) assumiu sobre os próprios ombros a responsabilidade do califado, todo o mundo muçulmano havia-se transformado num cenário de extrema anarquia, rebelião e revolta. É verdade que o primeiro califa, Hazrat Abu Bakr al-Siddiq (r.a.), também tivera de enfrentar uma agitação e uma rebelião semelhantes; porém, havia uma enorme diferença entre essas duas situações. O perigo que Hazrat Abu Bakr al-Siddiq (r.a.) enfrentara era um conflito entre a incredulidade, a apostasia e o Islã. Toda a comunidade islâmica apoiava e sustentava o califa nesse conflito. Os opositores eram seguidores da falsidade, da cobiça e das más inclinações. Suas opiniões não tinham estabilidade nem firmeza. Em contrapartida, aqueles cuja oposição Hazrat Ali (r.a.) teve de enfrentar não eram apenas muçulmanos: entre eles estavam numerosos Companheiros e até Hazrat Aisha as-Siddiqa (r.a.), esposa do Mensageiro Nobre (s.a.w.). O que se poderia chamar a isso, senão a extrema ironia do destino?

Mas, apesar de todos esses perigos e calamidades, agitações e perturbações, rebeliões e revoltas, Hazrat Ali (r.a.) manteve firmemente as rédeas do califado, com extrema determinação e audácia. Nesse período, demonstrou o mais alto grau de paciência, tolerância e ponderação sã, e, embora observasse sinais de fracasso em vários campos, não se dispôs a tolerar o menor desvio da absoluta fidelidade, do idealismo inabalável e dos princípios fundamentais da Sharia islâmica e da política de Estado. Se tivesse estado disposto a tolerar sequer o menor desvio dos princípios e do idealismo, talvez fosse considerado bem-sucedido do ponto de vista da política de Estado; mas não há dúvida alguma de que o grande ideal da religião do Islã teria sido prejudicado, abandonado e rejeitado. Ora, protegê-lo era a primeira e mais importante responsabilidade do califa bem-guiado e do sucessor do Mensageiro Nobre (s.a.w.).

Hazrat Ali (r.a.) como Califa

Na administração do governo do Califado, Hazrat Ali (r.a.) estava firmemente decidido a seguir os passos de Hazrat Umar al-Faruq (r.a.) e não estava de modo algum disposto a introduzir qualquer mudança fundamental no sistema então estabelecido. Os judeus que Hazrat Umar al-Faruq (r.a.) havia exilado de todo o Hijaz e reassentado num lugar chamado Najran compareceram perante Hazrat Ali (r.a.) e, com voz extremamente aflita e humilde, pediram permissão para retornar às suas antigas moradias. Hazrat Ali (r.a.), porém, recusou-se expressamente, dizendo: “Quem poderia ser mais ponderado, prudente e correto nas decisões do que Hazrat Umar (r.a.)?”

Na administração interna do país, a tarefa mais importante era controlar os funcionários responsáveis e observar atentamente suas atividades, conduta e comportamento. Hazrat Ali (r.a.) mantinha sempre sua atenção voltada para esse assunto específico. Ao nomear alguém para qualquer cargo de responsabilidade, ele lhe oferecia conselhos extremamente valiosos e benéficos. Além disso, em diversas ocasiões, mandava investigar especialmente as atividades, a conduta e o comportamento desses funcionários. Certa vez, para esse importante trabalho, nomeou Hazrat Kayab ibn Malik (r.a.) e deu-lhe as seguintes instruções:

********(Árabe)

Parte com um grupo de teus companheiros e percorre todos os distritos do Iraque, observando atentamente o trabalho dos funcionários, bem como seu caráter, temperamento e conduta. Ele reprimia com mão firme o desperdício e a extravagância dos funcionários do governo, assim como suas irregularidades no manejo dos recursos do Estado. Exigia rigorosamente que os empréstimos retirados do Bayt al-Mal fossem cobrados dos funcionários no prazo devido. Nesse assunto, não estava disposto a demonstrar a menor indulgência ou preferência sequer por seus parentes próximos.

Hazrat Ali (r.a.) empreendeu reformas especiais no departamento de receitas e introduziu políticas voltadas ao desenvolvimento. Apesar de sua plena severidade na arrecadação das receitas, ele se mantinha constantemente empenhado no bem-estar geral da população e na melhoria das condições gerais. Para com as pessoas incapazes e pobres, adotava sempre uma política de compaixão.

Na verdade, Hazrat Ali (r.a.) era, para o povo, uma manifestação concreta e um símbolo ardente da infinita misericórdia de Allah. Durante seu califado, as portas do Bayt al-Mal estatal permaneciam sempre abertas para os pobres e necessitados da sociedade. Tudo quanto era armazenado e arrecadado no Bayt al-Mal era distribuído por ele imediatamente e com mão generosa entre os necessitados e aqueles que tinham direito a recebê-lo. Ele tratava os cidadãos não muçulmanos do país com extrema bondade e compaixão. Até mesmo as atividades dos inclinados à rebelião e dos conspiradores eram toleradas com grande paciência. Na região da Pérsia, observou-se uma excelente reação favorável a essa política generosa seguida pelo califa.

O próprio Hazrat Ali (r.a.) era um comandante militar altamente habilidoso e experiente. Sua visão estratégica e prudência em assuntos e questões militares eram incomparáveis. Por isso, foi-lhe possível introduzir muitas novas medidas na administração militar do Estado Islâmico.

A grandeza intelectual de Hazrat Ali (r.a.)

Hazrat Ali (r.a.) teve, desde a infância, a oportunidade de adquirir diretamente conhecimento e receber formação no ambiente de ensino da profecia. Graças à relação profunda e à intimidade que mantinha com o Rasul-e-Karim (s.a.w.), ele teve mais oportunidades do que todos os demais dessa categoria. Em casa, fora dela e durante as viagens ao exterior, pôde desfrutar da estreitíssima proximidade do Profeta Karim (s.a.w.); por isso, foi-lhe muito fácil adquirir conhecimento detalhado sobre os diversos aspectos do Din do Islã. O próprio Profeta Karim (s.a.w.) também deu importância a transmitir-lhe esse conhecimento especial. Ele mesmo ensinou-lhe o Alcorão Majid e explicou-lhe o significado correto de vários versículos do Alcorão. Por essa razão, em comparação com os demais companheiros ilustres, sua inteligência era extraordinariamente abrangente e profunda. Aludindo a essa inteligência, o Rasul-e-Karim (s.a.w.) disse:

******(árabe)

“Eu sou a cidade do conhecimento, e Ali é a sua porta.”

Embora, como hadith, essa afirmação não seja aceitável à luz da cadeia de transmissão e de outros critérios, sua realidade deve, sem dúvida, ser reconhecida. Hazrat Ali (r.a.) aprendeu a ler e escrever ainda na infância, e seu nome também figurava entre os escribas da revelação. Conforme as instruções do Rasul-e-Karim (s.a.w.), o tratado de Hudaybiyyah, juntamente com muitos decretos estatais, foi redigido pela mão de Hazrat Ali (r.a.).

A principal fonte do conhecimento e das ciências islâmicas é o Alcorão Majid. Hazrat Ali (r.a.) teve a felicidade de mergulhar no grande oceano deste Alcorão. Entre os poucos Companheiros que memorizaram completamente o Alcorão Majid durante a vida do Nobre Profeta (s.a.w.), Hazrat Ali (r.a.) era um deles. Ele possuía especial domínio sobre em que contexto e em que momento cada surata ou versículo do Alcorão havia sido revelado. Ele próprio afirmou isso. Por essa razão, é considerado pertencente ao mais alto nível dos mufassirun do Alcorão. Nas grandes obras de tafsir compostas posteriormente, suas explicações são citadas de modo especial. Organizar o Alcorão Majid segundo a ordem de sua revelação foi uma de suas contribuições especiais. Além disso, sua extraordinária capacidade e talento para extrair do Alcorão Majid as leis e normas necessárias à vida prática, bem como para exercer ijtihad a fim de conhecer as orientações e decisões do Islã sobre diversas questões complexas, são universalmente reconhecidos. Quando os membros da seita kharijita, tomando a questão em sentido estritamente literal, recusaram-se a aceitar qualquer pessoa como árbitro para resolver uma disputa mútua e apresentaram como prova o versículo do Alcorão ****(árabe): “Ninguém pode ser árbitro senão Allah”, ele provou a irracionalidade e a irrelevância de tal argumento e disse: “Que dúvida pode haver de que Allah é o Juiz Supremo? Mas, para resolver a disputa entre marido e mulher, quando o próprio Allah, o Altíssimo, ordenou que se aceitasse como árbitro alguém dentre as pessoas da comunidade, dizendo:

*******(árabe)

Quando houver receio de que surja uma disputa entre o marido e a mulher, enviai um árbitro da parte do marido e um árbitro da parte da mulher.

Então, se para resolver as disputas mútuas da nação e do povo muçulmano for nomeada e aceita alguma pessoa dentre a comunidade, por que isso seria uma injustiça ou um ato contrário ao Alcorão? A soberania de Allah e Seu poder supremo sobre todas as coisas serão necessariamente exercidos e concretizados por intermédio de algum ser humano. Será por acaso a questão das disputas e divergências mútuas de toda a nação muçulmana menos importante do que a de um homem e uma mulher? De fato, foram citadas tantas valiosas narrações de Hazrat Ali (r.a.) no campo da exegese do Alcorão e da explicação e análise do significado de seus versículos que, se fossem reunidas, poderiam constituir um enorme livro.

Certa classe de propagandistas enganadores do tasawwuf divulga que, além dos conhecimentos e ensinamentos fundamentais relativos à religião do Islã, o Nobre Profeta (s.a.w.) teria ensinado a Hazrat Ali (r.a.) algum outro conhecimento que hoje é chamado de “tasawwuf”. Eles também propagam que Hazrat Ali (r.a.) foi o “pai fundador” da ciência do tasawwuf. Porém, o quanto isso é uma falsa e grave calúnia e uma afirmação sem qualquer fundamento fica irrefutavelmente provado pelas próprias palavras de Hazrat Ali (r.a.), citadas em um hadith autêntico. As pessoas lhe perguntaram: “Além do Alcorão, você possui algum outro conhecimento?” Ele respondeu: “Juro por aquele Ser Majestoso que faz a semente e o caroço se fenderem, produzindo a árvore, e que infunde a vida no interior dos corpos: não possuo nada além do Alcorão. Contudo, Allah concede a quem deseja a capacidade, a força, o mérito e o talento para compreender o Alcorão. Além disso, possuo alguns hadiths”. (Bukhari, Musnad de Ahmad)

O juramento feito por Hazrat Ali (r.a.) no início de suas palavras possui um significado especial. Por suas palavras, compreende-se que os versículos do Alcorão são como o caroço e o corpo. Já seus significados, implicações e verdades são como a árvore que deles brota, do caroço e da semente. E são como a vida que permanece oculta no corpo. Isto é: assim como de uma pequena semente ou caroço pode brotar uma enorme árvore com numerosos ramos — embora ela estivesse originalmente escondida naquela mesma semente e naquele mesmo caroço — e assim como, a partir da força vital oculta no corpo, manifestam-se todas as ações e realizações humanas, também das palavras do Alcorão, que são como o corpo, podem surgir vastos significados e profundas implicações.

Na verdade, o fato de Hazrat Ali (r.a.) possuir especial domínio sobre as verdades e a filosofia do Alcorão fica provado por essas suas próprias palavras.

Também no campo dos hadiths, a erudição e a excelência intelectual de Hazrat Ali (r.a.) eram extraordinárias, vastas e profundas como um grande oceano. Desde a infância, ele passou trinta anos completos na companhia e na estreita convivência do Nobre Profeta (s.a.w.). Por isso, no que dizia respeito à totalidade das leis e normas do Islã e às palavras do Mensageiro, depois de Hazrat Abu Bakr (r.a.), ele era o maior especialista. Além disso, após o falecimento do Nobre Profeta (s.a.w.), entre todos os grandes Companheiros, ele foi quem viveu até a idade mais avançada. Durante cerca de trinta anos depois do Mensageiro de Allah (s.a.w.), permaneceu incessantemente ocupado na divulgação do Alcorão, dos hadiths, da religião e da sharia. Essa responsabilidade também lhe foi confiada durante os governos dos três primeiros califas. Mesmo durante seu próprio califado, apesar das várias sedições, desordens e guerras sangrentas, esse fluxo de disseminação do conhecimento jamais cessou; ao contrário, continuou a correr sem interrupção. Por essa razão, em comparação com os três primeiros califas, foi ele quem teve maiores oportunidades de transmitir hadiths. Apesar de tudo isso, era extremamente cauteloso e rigoroso por natureza na transmissão de hadiths. Por isso, o número de hadiths narrados por ele não foi muito elevado. Apenas 586 hadiths foram citados nas obras por sua autoridade. Entre os Companheiros que, na época da profecia, tinham o hábito de registrar os hadiths por escrito, Hazrat Ali (r.a.) também era um deles. Ele chamava o conjunto de hadiths que havia escrito de “Sahifa” e guardava essa “Sahifa” dentro da bainha de sua espada. Desses hadiths podem ser conhecidas muitas questões importantes da vida prática.

Sua competência e talento nos campos do fiqh e do ijtihad são reconhecidos por todos. Os grandes Companheiros — inclusive aqueles que se opunham a ele — sentiam necessidade de consultar-lhe sobre as decisões da Sharia em diversas questões. A principal razão de sua grande especialização nesse campo era que ele próprio costumava perguntar ao honrado Mensageiro (s.a.w.) e obter dele esclarecimentos sobre muitos assuntos.

Hazrat Ali (r.a.) como juiz

Embora Hazrat Ali (r.a.) tenha passado a maior parte de sua vida em Medina, durante todo o período de seu califado permaneceu em Kufa. Por essa razão, suas opiniões sobre o fiqh e seu ijtihad ganharam maior divulgação no Iraque. Depois de Hazrat Abdullah ibn Masud (r.a.), a base da escola Hanafi foi estabelecida principalmente sobre as opiniões de Hazrat Ali (r.a.) e as decisões que ele adotou. Devido a essa competência de Hazrat Ali (r.a.), seu domínio sobre o julgamento de processos e a tomada de decisões de acordo com a Sharia também era universalmente reconhecido. Hazrat Umar Faruq (r.a.) disse:

********(árabe)

Entre nós, o mais competente como juiz é Hazrat Ali, e o maior conhecedor do Alcorão é Hazrat Ubayy ibn Ka’b.

Hazrat Abdullah ibn Masud (r.a.) disse: “Costumávamos dizer uns aos outros que, em Medina, a pessoa com maior capacidade para julgar era Hazrat Ali (r.a.).

O próprio nobre Profeta (s.a.w.) frequentemente confiava a Hazrat Ali (r.a.) a responsabilidade de administrar a justiça. Quando o nobre Profeta (s.a.w.) o nomeou juiz do Iêmen, ele tentou ser dispensado de aceitar essa responsabilidade, alegando sua própria falta de qualificação e incapacidade. Então o nobre Profeta (s.a.w.) disse:

O próprio Allah Todo-Poderoso manterá tua língua no caminho correto e teu coração firme e paciente.

O próprio Hazrat Ali (r.a.) também disse:

Depois disso, jamais tive qualquer dúvida ou hesitação ao administrar a justiça.

O Nobre Profeta (s.a.w.) ensinou-lhe muitos princípios e procedimentos para administrar a justiça. Certa vez, disse-lhe:

Ó Ali! Quando te sentares para resolver a disputa entre duas pessoas, não tomes uma decisão ouvindo apenas uma delas; aguarda para decidir até ouvires também o depoimento da segunda.

Para alcançar uma convicção firme e livre de dúvidas ao julgar um caso, interrogar ambas as partes e as testemunhas, sem deixar de questioná-las sobre o assunto, era considerado parte indispensável dos princípios de justiça de Hazrat Ali (r.a.). Se o confessor, mesmo após ser repetidamente questionado e interrogado, não permanecesse firme em sua confissão, ele não o punia com base nessa confissão. Se, depois de intimidar as testemunhas de várias maneiras, não as encontrasse firmes em seus depoimentos, não proferia decisão alguma com base nesse testemunho. Ao julgar casos relacionados a homicídio, distinguia entre acidente e intenção de matar (Motive). 1 {1. Consciência para estabelecer a justiça: Hazrat Ali (r.a.) permanecia sempre vigilante com o objetivo de assegurar o estabelecimento da justiça na sociedade. Considerava um crime abominável o abuso do poder estatal para influenciar o sistema judiciário. Ao estabelecer a justiça, não tolerava qualquer discriminação entre muçulmanos e não muçulmanos. Um acontecimento histórico a esse respeito merece ser mencionado. Certa vez, um judeu roubou a couraça de ferro de Hazrat Ali (r.a.), o Amir al-Mu’minin. Embora ocupasse o mais alto cargo de poder no país, ele não tomou diretamente nenhuma medida policial sobre o caso; ao contrário, conforme o procedimento vigente, foi ao tribunal e apresentou uma queixa. O juiz ordenou-lhe que apresentasse duas testemunhas em apoio à acusação. Hazrat Ali (r.a.) apresentou como testemunhas seus dois filhos, Imam Hasan e Imam Husayn (r.a.). Contudo, por serem parentes próximos do queixoso, o juiz não aceitou o testemunho deles e, em vez disso, arquivou o próprio processo. Comovido por esse acontecimento, o judeu acusado confessou ele mesmo o seu crime e, recitando a sagrada Kalima, ingressou na comunidade do Islã. – Editor}

As decisões judiciais de Hazrat Ali (r.a.) eram consideradas precedentes legais. Por isso, os sábios registraram-nas por escrito. Porém, em épocas posteriores, pessoas mal-intencionadas introduziram nelas várias distorções. Como resultado, tornaram-se completamente inúteis no mundo do direito e da justiça.

A austeridade na vida pessoal

Hazrat Ali (r.a.) passou sua vida pessoal por uma austeridade extremamente rigorosa. Embora estivesse dilacerado pelos cruéis golpes da pobreza, jamais se deixou abater, nem por um instante. Não sentia a menor vergonha de ganhar o próprio sustento trabalhando e realizando serviços diários, conforme o tempo e as oportunidades permitiam. Mesmo depois de assumir o trono do califado, não houve a menor mudança em sua austeridade. As pessoas ficavam atônitas e estupefatas ao verem sua comida extremamente simples. Ele dizia ao povo: ‘O califa dos muçulmanos tem direito a receber apenas dois recipientes do tesouro público (Bait al-Mal). Em um deles, ele e sua família comerão juntos. O outro será apresentado ao povo’.

Não havia ninguém contratado para realizar as tarefas domésticas. A filha do Profeta, filha do imperador, realizava pessoalmente todo o trabalho. No que dizia respeito às riquezas e aos bens materiais, Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) era um homem desprovido de recursos. Porém, em termos espirituais, era possuidor de uma imensa riqueza. Nenhum suplicante podia sair de sua porta de mãos vazias. Ele não hesitava nem por um instante em entregar tranquilamente nas mãos de um mendigo faminto até mesmo a comida preparada para si próprio.

— Fim —