Duas palavras
O presente livro é apenas uma compilação de minhas três palestras. Anteriormente, as três palestras sobre os meios de alcançar a proximidade de Allah, os meios de purificar a alma e o zikr e a du’a haviam sido publicadas na forma de três livretos separados. Como o conteúdo dos três livretos era bastante semelhante e um complementava o outro, a Editora Al-Hera publicou-os juntos, em forma compilada. Foi dada à Editora Moderna autorização para publicar o livro por necessidade prática e de forma revisada, e ela o está publicando. Se este livro for proveitoso e útil para as pessoas que desejam purificar a alma e alcançar a proximidade de Allah, meu esforço terá valido a pena.
Matiur Rahman Nizami
11-2-97
Considerações iniciais
O ser humano não é um ser constituído apenas de corpo. Juntamente com uma bela forma física, o Deus Altíssimo também concedeu à Sua melhor criação uma bela alma. Portanto, o progresso e o desenvolvimento do ser humano, seu sucesso e seu fracasso, não podem limitar-se apenas à satisfação das exigências ou necessidades do corpo. Ao analisar a história da humanidade, percebe-se que, às vezes, ao inclinarem-se cada vez mais para uma civilização materialista ou mecanicista, as pessoas negligenciaram as necessidades da alma. Mas suas consequências jamais foram boas. A análise das causas da destruição das civilizações de diferentes povos do passado também comprova essa verdade. No mundo moderno, a civilização mecanicista está prestes a ser conhecida como uma civilização destruidora da humanidade. O deslocamento dos hippies do cenário dessa civilização em direção ao Oriente é, essencialmente, outra forma de denominar uma rebelião silenciosa contra a civilização mecanicista.
Assim como as necessidades físicas do ser humano são contínuas e inatas, suas necessidades espirituais também o são; portanto, em nenhuma época foi possível que algum povo, coletivamente, negasse a necessidade da alma. Pelo contrário, em todos os tempos e épocas, sempre houve entre as pessoas algumas que se empenharam, de uma forma ou de outra, pelo desenvolvimento espiritual, pelo aperfeiçoamento religioso e pela purificação da alma. Atualmente, tendo como pano de fundo o fracasso da civilização mecanicista, observa-se entre as pessoas uma inclinação espontânea para a moralidade e a espiritualidade. Contudo, na raiz dessa inclinação encontra-se a extrema frustração e desesperança de uma mente desgastada pelos golpes da dura realidade da vida. No passado, aqueles que tentaram alcançar a espiritualidade e o desenvolvimento da alma — fora do Islã — também se voltaram para essa direção em um contexto semelhante de frustração e desesperança. Por isso, essa inclinação levou-os a negar ou negligenciar as necessidades do corpo. Consequentemente, sua prática do espiritualismo, além de criar um punhado de santos e ascetas que renunciaram ao mundo, não pôde oferecer qualquer contribuição benéfica à grande massa da humanidade. Na realidade, assim como o ser humano não é constituído apenas de corpo, tampouco é constituído apenas de alma. Portanto, assim como as ações unilaterais destinadas a satisfazer as necessidades do corpo, negligenciando a alma, são prejudiciais à humanidade e ao caráter humano, também é extremamente prejudicial à humanidade negligenciar as necessidades do corpo ao tentar satisfazer as necessidades da alma e promover seu desenvolvimento, ou adotar um processo de punir o corpo.
Nesses casos, os processos e métodos inventados que são adotados para estabelecer a supremacia da alma punindo o corpo só podem ser praticados por uma ou duas pessoas escolhidas entre milhões. Por meio de certas práticas de ioga e ascetismo desse tipo, essas poucas pessoas, aumentando sua força de vontade, realizam algumas coisas impossíveis, deixando e influenciando as pessoas comuns atônitas de espanto. Por fim, essas pessoas influenciadas passam a considerar sobrenatural aquele que realiza feitos impossíveis, voltam-se para ele e passam a vê-lo como um apoio celestial para satisfazer suas necessidades e queixas. Finalmente, a devoção e a reverência desses fiéis começam a manifestar-se concretamente por meio de nazr-niyaz, oferendas e shirni, entre outras coisas. Como consequência, a prática do espiritualismo retorna novamente ao culto do corpo. Em todas as épocas e em todos os tempos, foi esse o início e o resultado das tentativas e práticas de promover o desenvolvimento espiritual sem seguir o caminho concedido por Allah e mostrado pelos profetas e mensageiros (que a paz esteja com eles). No mundo moderno, à medida que as pessoas voltam a inclinar-se para o espiritualismo por causa da frustração, se essa inclinação não puder ser conduzida pelo conhecimento revelado, os esforços e práticas das pessoas nessa área fracassarão mais uma vez de forma extrema.
É motivo de tristeza e pesar que o caminho concedido por Allah e mostrado pelo último Profeta, Muhammad (que a paz esteja com ele), pelo qual as pessoas do mundo são capazes de satisfazer simultaneamente as necessidades do corpo e da alma, um caminho fácil de seguir para pessoas de todos os níveis e classes do mundo e compatível com a natureza humana, hoje seja desconhecido até mesmo pelos muçulmanos, por estar encoberto por processos e métodos inventados pelas pessoas. Pelas mesmas razões, as práticas e exercícios de espiritualidade existentes na sociedade muçulmana também não conseguem oferecer qualquer contribuição significativa para o bem da humanidade em geral e da coletividade humana. Como resultado da incorporação de métodos e processos inventados pelas pessoas ao método fácil, simples e natural que o Islã havia instituído para promover o desenvolvimento espiritual e moral, mantendo o equilíbrio entre o corpo e a alma, foi amplamente obstruída a capacidade do Islã de formar pessoas aptas a desenvolver a humanidade e o caráter humano, estabelecer a justiça e resistir à injustiça.
Na sociedade muçulmana, a prática e o cultivo desse espiritualismo são conhecidos como ʿilm al-taṣawwuf. Fundamentalmente, o Alcorão chama esse trabalho de “tazkiyat al-nafs”. Nos hadiths, ele é chamado de “ihsan”. O imã Shah Waliullah Dehlawi (que Allah tenha misericórdia dele) chamou-o de meio para criar “akhlaq al-ihsan”. À luz dos processos e métodos adotados no campo da espiritualidade na sociedade muçulmana, desde a época do Mensageiro Nobre (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) até hoje, podemos dividir o “ʿilm al-taṣawwuf”, segundo a terminologia atual, em três categorias.
Primeira: taṣawwuf puramente islâmico; segunda: taṣawwuf parcialmente islâmico; terceira: taṣawwuf não islâmico.
Por taṣawwuf puramente islâmico entende-se aquilo que, de acordo com o método de Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), é praticado de maneira simples e direta — isto é, sem qualquer técnica especial de exercícios — por meio das formas fundamentais de adoração do Islã: fazer o dhikr e o tasbih de Allah no curso das atividades normais, conforme o método ensinado pelo Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), realizar a oração, a recitação, as súplicas, distinguir entre o lícito e o ilícito, e assim por diante; por meio disso, purificando o nafs, os Companheiros Nobres (que Allah esteja satisfeito com eles) alcançavam “akhlaq al-ihsan”. Os Califas Bem-Guiados, os Companheiros Nobres, os tabiʿin, os tabiʿ al-tabiʿin e, em suma, todos os imãs mujtahidun foram seguidores desse taṣawwuf puramente islâmico. Esse é o taṣawwuf correto, o caminho infalível da purificação interior, que o Alcorão chama de “tazkiyat al-nafs”. É uma exigência da nossa fé e uma exigência da humanidade mundial na conjuntura atual que, no campo da purificação interior, ressuscitemos esse taṣawwuf islâmico puro e autêntico, seguindo o “uswah hasanah” do Último Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele).
Por taṣawwuf parcialmente islâmico entende-se a adoção, dentro dos limites da sharia islâmica e com o objetivo de promover o desenvolvimento espiritual, de certos processos e métodos baseados nas posturas da ioga dos yogues e sábios indianos, bem como na filosofia grega. Neste caso, somente o taṣawwuf daqueles que não abandonaram o tawhid nem adotaram o shirk, mas que, por meio desses processos, assumiram como objetivo principal desenvolver o temor de Allah, o amor pelo Mensageiro e a preocupação com a Vida Futura, pode ser chamado de taṣawwuf parcialmente islâmico. Embora o temor de Allah, o amor pelo Mensageiro e a preocupação com a Vida Futura sejam seus objetivos, a razão para chamar sua prática do taṣawwuf de parcialmente islâmica é que não há espaço, nesse campo, para acrescentar ou subtrair qualquer coisa aos ensinamentos do Mensageiro. Além disso, acrescentar ou subtrair não pode ser benéfico. Ninguém entende melhor a questão de alcançar a proximidade de Allah do que Allah e o Mensageiro. Portanto, mesmo que haja sinceridade na intenção, uma medida desse tipo, por constituir uma transgressão dos limites, não pode ser benéfica nem produzir frutos. Os promotores desse taṣawwuf não obtiveram, na realidade, aquilo que desejavam. Embora algumas poucas pessoas tenham alcançado excelência e reconhecimento no mundo espiritual, seu esforço — ainda que tenha formado algumas pessoas e prestado algum serviço à religião — não chegou nem perto de produzir pessoas como o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) produziu com o objetivo de tornar a religião vitoriosa. É possível retirar desse taṣawwuf os processos acrescentados de fora, corrigi-lo e transformá-lo em taṣawwuf islâmico puro. Pode-se tentar verificar, por meio de conversas abertas com aqueles que se dedicam a esse campo com sinceridade e que estão avançando nele, e com base no Alcorão e na Sunnah, se é possível realizar sua correção e reforma mediante o diálogo sobre a verdadeira forma, natureza, objetivo e método da “tazkiyat al-nafs”. Se esse esforço fracassar, alguns servos virtuosos de Allah, alguns homens de fé e alguns homens de luta deverão apresentar exemplos reais e vivos do “taṣawwuf islâmico”.
Quanto àqueles que, em nome da purificação interior e do desenvolvimento espiritual, adotam práticas não islâmicas, transgridem os limites da sharia islâmica, dão origem ao shirk e à bidʿah e chegam a transformar o Islã e os muçulmanos em objeto de escárnio diante do mundo; que transformaram os mausoléus de alguns servos queridos de Allah — os quais, enquanto vivos, combateram o shirk e a bidʿah — em locais de consumo de maconha e arenas de danças despidas sob o nome de qawwali; e que, explorando a fragilidade dos sentimentos religiosos das pessoas, fazem fortuna em nome da religião: o taṣawwuf deles é inteiramente não islâmico, e sua erradicação é indispensável.
Na verdade, a sharia islâmica não deixa muito espaço para questionar qual é o “taṣawwuf islâmico puro”. Como mencionamos, a prática espiritual que hoje é chamada de “ʿilm al-taṣawwuf” entre os muçulmanos é chamada no Alcorão de “tazkiyat al-nafs”. Não apenas isso: o Alcorão a apresenta como o único meio para o sucesso humano. Foi dito:
ونفس وما سوها فألهمها فجورها وتقويها3قَد أَفْلَحَ مَنْ زَكَهَا . وقد خاب من دسها (الشمس : ۸-۹)
“Pelo nafs humano e por Aquele que o aperfeiçoou, depois lhe concedeu a percepção e a capacidade de discernir entre a piedade e a perversidade. Entre os seres humanos, somente prosperam aqueles que purificam esse nafs, ou alma, por meio da tazkiyah. E aqueles que reprimem a capacidade de discernimento concedida por Allah a essa alma são os que sofrem perda e fracassam.”
Allah apresentou no Alcorão a “tazkiyat an-nafs” como uma tarefa fundamental. Não apenas isso: Ele a qualificou como uma das principais tarefas de Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Em vários trechos, a tarefa do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) é descrita da seguinte forma:
هُوَ الَّذي بعث في الأمين رسولاً منهم يتلوا عليهم ايته ويُزَكِّيهِم ويعلمهم الكتب والحكمة .
“E Ele é Allah, que enviou entre os iletrados um Mensageiro dentre eles, para recitar-lhes Seus versículos, purificá-los e ensinar-lhes o Livro e a Sabedoria.” (Surata Al-Jumu‘ah: 2)
Aqui são mencionadas, como tarefas do Mensageiro: * recitação dos versículos * tazkiyat an-nafs e ensino do Livro e da Sabedoria. Essas afirmações foram mencionadas em três lugares.
O Alcorão de Allah é testemunha, milhões de Companheiros veneráveis são testemunhas, e a história do mundo é testemunha de que o último Profeta, Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), cumpriu devidamente todas as responsabilidades que lhe foram confiadas. Por meio do sermão da Peregrinação de Despedida, ele também obteve o reconhecimento disso de mais de cem mil Companheiros veneráveis. Portanto, no que diz respeito à tazkiyat an-nafs, ele cumpriu sua responsabilidade de modo perfeito; nenhum muçulmano pode ter dúvida ou hesitação quanto a isso. Em outras palavras, não se pode permanecer muçulmano enquanto se alimentam dúvidas. Assim, tanto a fé quanto a inteligência exigem que se procure conhecer e compreender de que maneira e por qual método o Mensageiro Sagrado (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) realizou essa importante tarefa fundamental da tazkiyat an-nafs; que tipo de pessoas foi formado por esse método e processo; e, depois de serem formadas dessa maneira, em que serviços ao Islã e à humanidade elas foram úteis. Exigem também que, como um membro dedicado da comunidade do Profeta, se aceite neste assunto, com plena sinceridade de coração, unicamente o método demonstrado pelo Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), considerando-o verdadeiro, correto e absolutamente preciso.
Assim como os demais ensinamentos do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) são claros como a luz do dia, também é claro o assunto da tazkiyat an-nafs. Apesar disso, é difícil compreender por que, nesse campo, os ensinamentos do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) foram ignorados, dando início a acréscimos e permitindo a infiltração de processos não islâmicos. Não desejo criticar inutilmente ninguém neste assunto, nem quero humilhar pessoa alguma. Com intenção sincera, pela necessidade de minhas próprias ações e com o propósito de informar as pessoas comuns sobre esse método simples concedido por Allah e demonstrado pelo Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), fui obrigado a escrever sobre o tema. Que Allah, o Altíssimo, me ajude concedendo-me o conhecimento verdadeiro de Seu Livro e da Sunnah de Seu Profeta. Com o coração profundamente angustiado e ansioso, desejo iniciar esta jornada neste campo por meio desta súplica.
A importância da purificação da alma na vida humana
Para avaliar a importância da purificação da alma na vida humana, é indispensável, antes de tudo, conhecer a identidade do ser humano e avaliar corretamente a essência humana. Em resumo, ao falar da identidade do ser humano, deve-se dizer que ele é o califa ou representante de Allah neste mundo. Ele permanecerá no mundo por algum tempo, desfrutará de algumas dádivas e, depois, terá de retornar ao seu Grande Senhor. Ao retornar, terá de prestar contas de quanto foi bem-sucedido ou fracassou, durante a vida terrena, em cumprir a vontade de Allah como Seu califa.
É importante lembrar que, no mundo da criação de Allah, tudo, exceto o ser humano, segue — e é obrigado a seguir — o mandamento de Allah. A exceção está na responsabilidade atribuída ao ser humano de promulgar e fazer cumprir, em sua vida e na sociedade, a lei de Allah e as determinações e mandamentos de Allah. O ser humano é o khalifa de Allah precisamente neste sentido: Deus concedeu-lhe essa liberdade e também o informou sobre a recompensa, os efeitos e as consequências do uso correto ou incorreto dessa liberdade. Ao apresentar a identidade do ser humano, Allah disse:
إِنَّا هَدَيْنَهُ السَّبِيلَ إِمَّا شَاكِرًا وَإِمَّا كَفُورًا
“Apresentei ao ser humano dois caminhos: um é o caminho de expressar gratidão a Allah e de obedecer-Lhe; o outro é o caminho da kufr e da desobediência.” — (Surata Al-Insan: 3)
Em seguida, falou sobre as consequências da kufr:
إِنَّا أَعْتَدْنَا لِلكفرين سلسلاً وأغللاً وسَعِيرًا إِنَّ الأبرار يشربون من كاس كانَ مِزَاجُهَا كَافُوران عينا يُشرَبُ بِهَا عِبَادُ اللهِ يُفَجِّرُونَهَا تفجيران
“Preparei para os incrédulos correntes de ferro, grilhões e o fogo do Inferno. E os virtuosos serão recebidos no Paraíso com uma bebida deliciosa, misturada com cânfora perfumada. Será uma fonte corrente, da qual os servos de Allah beberão; eles poderão fazer seus cursos e ramificações fluírem para onde quer que desejem.” — (Surata Al-Insan: 4–6)
Na verdade, a capacidade de autodeterminação concedida ao ser humano, decorrente da oportunidade de exercer o livre-arbítrio entre seguir o caminho de Allah e seguir caminhos inventados por ele mesmo, é uma grande confiança depositada por Allah, o Altíssimo, no ser humano. Sobre essa confiança, o Alcorão diz:
إِنَّا عَرَضْنَا الْأَمَانَةَ عَلَى السَّمَوتِ وَالْأَرْضِ وَالْجِبَالِ فَأَبَيْنَ أَنْ يُحْمِلْنَهَا وَأَشْفَقْنَ مِنْهَا وَحَمَلَهَا الْإِنْسَانُ إِنَّهُ كَانَ ظَلُومًا جَهُولاهُ لِيُعَذِّبُ اللهُ الْمُنْفِقِينَ وَالْمُنْفِقْتِ وَالْمُشْرِكِينَ وَالْمُشْرِكْتِ وَيَتُوبُ اللَّهُ عَلَى الْمُؤْمِنِينَ وَالْمُؤْمِنَتِ ،
وَكَانَ اللَّهُ غَفُورٌ رَحِيمًا
“Eu apresentei esta amanah aos céus, à terra e às montanhas; mas eles se recusaram a carregar o peso desta amanah e estremeceram de medo. O ser humano carregou o peso desta amanah. Agora, tendo esquecido completamente essa responsabilidade, encontra-se imerso na injustiça. Allah fez isso para punir os homens e as mulheres hipócritas e politeístas, e para aceitar o arrependimento dos homens e das mulheres crentes. Allah é perdoador e misericordioso.” — (Surata Al-Ahzab: 72-73)
O próprio espírito humano é testemunha de que o ser humano aceitou voluntariamente esta difícil amanah de Allah Ta’ala. Allah criou o espírito humano com a capacidade de fazer o uso correto desta amanah. Allah concedeu ao espírito humano, desde o nascimento, a força para discernir entre o bem e o mal, a verdade e a falsidade, a justiça e a injustiça. É por isso que o Alcorão afirma que Allah Ta’ala deu ao espírito humano uma forma perfeita. O Alcorão diz:
وَنَفْسٍ وَمَا سَوهَا : فَأَلْهَمَهَا فُجُورَهَا وَتَقْوْهَا وَ قَدْ أَفْلَحَ مَنْ زَكَّهَاهُ وَقَدْ خَابَ مَنْ دَسْهَا
“Juro pelo espírito humano e por Aquele que o aperfeiçoou, e que depois lhe concedeu a percepção e a capacidade de discernir entre o taqwa e o fisq e o fujur. Aqueles dentre os seres humanos que fazem a tazkiya deste nafs, ou espírito, são os bem-sucedidos. (E aqueles que reprimem a capacidade de discernimento concedida por Allah a este espírito) são os que sofrem perda e fracassam.” — (Surata Ash-Shams: 7-10)
O Alcorão também diz:
فطْرَتَ اللَّهِ الَّتِي فَطَرَ النَّاسَ عَلَيْهَا ، لَا تَبْدِيلَ لِخَلْقِ اللَّهِ .
“Segue, pois, a religião natural sobre a qual a humanidade foi criada.” — (Surata Ar-Rum: 30)
Foi dito no hadith do Mensageiro: todo ser humano nasce sobre a religião natural. Depois, por causa de seus pais, torna-se judeu, cristão ou adorador do fogo.
A identidade da alma humana
A partir da discussão acima, podemos conhecer a verdadeira identidade do ser humano. Já discutimos anteriormente que o ser humano não é apenas um ser constituído de corpo. Tampouco é constituído apenas de alma. Portanto, o ser humano verdadeiro é o ser que se desenvolve da combinação do corpo e da alma. Assim, para compreender devidamente a identidade humana, é absolutamente indispensável avaliar esse ser humano em sua plenitude, equilíbrio e harmonia. Podemos dividir em duas partes o ser humano formado com base nas necessidades físicas e espirituais. Um aspecto de seu ser é biológico, e o outro é moral. Desse modo, também podemos descrevê-lo como possuidor de uma natureza dual. Por natureza biológica entendemos que, assim como os outros animais possuem certas necessidades animalescas e sentem determinadas necessidades biológicas, o ser humano não é exceção nesse aspecto. Pelo contrário, em alguns casos, suas necessidades e tendências chegam a superar a força animal. O ser humano é diferente porque também possui uma dimensão capaz de controlar essas necessidades biológicas ou animalescas e empregá-las em atividades construtivas. Essa dimensão significa a consciência e a razão inatas concedidas por Allah, por meio das quais o ser humano pode discernir e analisar o bem e o mal, a justiça e a injustiça, a verdade e a falsidade, rejeitando o mal e aceitando o bem. Pode abandonar a injustiça e aceitar a verdade. É precisamente esse aspecto do ser humano que chamamos de natureza moral.
Se, por meio de seu próprio esforço, o ser humano puder desenvolver sua natureza moral e, assim, prevalecer sobre sua natureza biológica e animalesca, tornar-se-á a melhor das criaturas de Allah. Por meio dele se comprova a realização de «Ahsan-e Taqwim». Por meio dele se manifesta concretamente «Laqad karramna bani Adama». Por outro lado, se, em consequência das ações de alguém, essa natureza moral concedida por Allah ao ser humano for reprimida e vencida pela natureza animalesca, então essa pessoa se tornará igual a um animal, ou até inferior e mais vil do que ele. Ela passará a pertencer ao grau de «Asfala Safilin».
Por meio desta breve discussão, queremos explicar o seguinte: para o desenvolvimento da humanidade e do caráter humano, e para estabelecer o ser humano na dignidade de Ashraful Makhluqat, é necessário desenvolver sua natureza moral. Em outras palavras, a prática espiritual ou o esforço de purificação da alma é absolutamente indispensável. Isso é indispensável tanto à luz da consciência e da razão naturais do ser humano quanto porque o próprio Criador do ser humano o tornou indispensável.
Surge agora a pergunta: de onde serão obtidos os elementos para o desenvolvimento e o aperfeiçoamento da natureza moral humana? Nesse caso, também é indispensável que fique claro para nós de quem devemos aceitar as regras, os princípios e os métodos adotados no esforço de purificação da alma, ou «Tazkiya-e Nafs», e de quem não será apropriado aceitá-los.
A esse respeito, quero dizer que, embora Allah tenha enviado o ser humano ao mundo dotado, desde o nascimento, da capacidade de discernir entre o bem e o mal e entre a justiça e a injustiça, não lhe é possível alcançar o sucesso utilizando somente essa capacidade de discernimento. Isso porque, assim como os meios e elementos para satisfazer as necessidades biológicas do ser humano estão espalhados por toda esta Terra, os elementos para satisfazer suas necessidades morais não se encontram disponíveis da mesma maneira. Allah submeteu ao ser humano todos os elementos materiais.
وَسَخَّرَ لَكُمْ مَا فِي السَّمَوتِ وَمَا فِي الْأَرْضِ جَمِيعًا –
“(Ó seres humanos!) Ele submeteu e tornou obediente a vós tudo o que há na terra.” — (Surata Al-Jássia: 13)
Assim, utilizando as forças materiais da Terra, o ser humano pode, por meio de seu próprio esforço e empenho, satisfazer as necessidades de sua natureza biológica e animalesca e aperfeiçoá-la conforme sua vontade. Por exemplo, pode extrair desta terra os meios para saciar a fome de seu estômago. Os meios para livrar-se de doenças, construir moradia, satisfazer o desejo sexual e outros semelhantes não estão fora do alcance humano; por isso, ele pode obtê-los mediante seu próprio esforço e empenho. E, de fato, os obtém.
Desse modo, o conhecimento para utilizar as coisas também é concedido por Deus. Com a ajuda desse conhecimento concedido por Deus, o ser humano descobre as propriedades das coisas e avança rapidamente na busca científica. Ele viaja para outros planetas. Dessa forma, a expedição humana por esse caminho pode avançar muitas vezes mais. Porém, viver como ser humano e estabelecer-se na dignidade de “Ashraful Makhluqat” não é de modo algum possível seguindo apenas seu próprio caminho. Por isso, vê-se que, à medida que o conhecimento e a ciência avançam, a humanidade e o caráter humano desaparecem da sociedade, enquanto a maldição da animalidade e da desumanidade devora o mundo inteiro. Somente o Criador deste mundo e da outra vida pode libertar a Terra e seus habitantes das garras terríveis dessa maldição. A salvação reside unicamente na lei que Ele concedeu e no caminho dos profetas e mensageiros. Allah não espalhou pela Terra os meios para desenvolver a natureza moral humana, para que as pessoas os adquirissem mediante seus próprios esforços e alcançassem o sucesso. Ele certamente concedeu ao ser humano os meios para o desenvolvimento dessa natureza, mas não da mesma forma que os elementos do mundo material estão espalhados pelo mundo material. Allah, o Altíssimo, concedeu esses meios à humanidade, em todas as épocas, por intermédio dos profetas e mensageiros. Ele disse:
فَإِمَّا يَاتِيَنَّكُمْ مِّنَى هُدًى فَمَنْ تَبِعَ هُدَايَ فَلَا خَوْفٌ عَلَيْهِمْ وَلَا هُمْ يَحْزَنُونَ
“Então virá a vós uma orientação da Minha parte; aqueles que a seguirem não terão motivo para temer, nem ficarão aflitos.” — (Surata Al-Bácara: 38)
Allah, o Senhor dos mundos, enviou, por intermédio de Seu último Profeta (s.a.), os meios necessários para o aperfeiçoamento de nossa natureza moral. Portanto, o Profeta (s.a.) é o único mestre digno de ser seguido para o aperfeiçoamento moral e espiritual de todas as pessoas que vieram desde sua época até o Dia da Ressurreição. O progresso espiritual ou o esforço de purificação da alma só pode ser bem-sucedido pelo caminho e método que ele demonstrou e seguiu.
Tentamos explicar no início que os métodos inventados pelo ser humano são essencialmente anormais e artificiais. Neste capítulo, fica comprovado que o método seguido pelos profetas e mensageiros à luz do conhecimento concedido por Allah é simples, natural e compatível com a natureza humana. Portanto, ele é aceitável e deve ser seguido por pessoas de todos os níveis e classes. Também é necessário esclarecer outra questão: nas práticas espirituais realizadas segundo métodos inventados pelo ser humano, o objetivo da prática costuma ser a aquisição, por algumas pessoas, de certas habilidades sobre-humanas, e não a humanidade ou o caráter humano. Em contrapartida, no método concedido por Deus e demonstrado pelo Mensageiro (s.a.), o objetivo dos esforços voltados ao aperfeiçoamento espiritual e da alma é adquirir a capacidade de servir ao Criador, obedecer-Lhe e servir à criação. Como resultado da prática nesse caminho, quanto mais alguém se torna capaz de obedecer às ordens de Allah e abandonar aquilo que Ele proibiu, tanto mais verdadeiramente é considerado bem-sucedido. Aqui, nenhum acontecimento extraordinário recebe qualquer importância como objeto de consideração. Isso não significa, porém, que se neguem os milagres. Um acontecimento extraordinário pode ocorrer com qualquer pessoa, e o mérito de tal pessoa de modo algum é digno de ser considerado o tema da discussão. Se algo assim ocorrer, ocorrerá pela vontade de Allah. Na vida de uma pessoa que alcançou o mais elevado grau, pode não se manifestar nada de extraordinário. Por outro lado, se Allah quiser, algo incomum pode manifestar-se até na vida de uma pessoa comum. Do ponto de vista do tasawwuf islâmico autêntico, isso não é uma questão tão importante. Pelo contrário, segundo o ilm al-kalam, exibir deliberadamente uma karamat é chamado istidraj, e aqueles que fazem isso são chamados fasiq.
Os níveis qualitativos da natureza humana
Antes de discutir os métodos de purificação da alma e da tazkiya do nafs, considero necessário lançar alguma luz sobre os níveis qualitativos da alma humana. Isso pode ajudar na avaliação do desenvolvimento e do aperfeiçoamento da alma. Segundo o Alcorão, a alma humana encontra-se, em diferentes momentos, em diferentes níveis, com base em suas ações. À luz do Alcorão, podemos chamar de “nafs-e mulhama” a condição em que a alma humana vem a este mundo por natureza.
وَنَفْسٍ وَمَا سَوْهَا فَالْهَمَهَا فُجُورَهَا وَتَقُوْبَهَا :
“Juro pela alma humana, e juro ainda por Aquele Ser Majestoso que aperfeiçoou a alma humana e lhe deu conhecimento da perversidade e da piedade.” — (Surata Ash-Shams: 7–8)
Aqui, “alhamaha” vem de ilham. Àquele que recebeu ilham podemos chamar de “malhama”. À luz deste versículo, um hadith sobre a descrição da Sirat al-Mustaqim menciona esta condição da alma da seguinte maneira: “Nas duas laterais abertas de uma estrada há portas, com cortinas penduradas. No momento em que uma pessoa começa a percorrer essa estrada, um admoestador a alerta, dizendo: ‘Siga em linha reta; não tente entrar à direita nem à esquerda.’ Então, enquanto o viajante continua caminhando pela estrada, olha furtivamente para a direita e para a esquerda e, tocando as cortinas penduradas, tenta entrar. Nesse momento, outro admoestador o impede.” Em seguida, o Mensageiro de Deus (que a paz esteja com ele) explicou um pouco mais: a estrada é o Islã; as portas abertas são as coisas que Allah declarou haram; as cortinas são os limites estabelecidos por Allah. O viajante é a pessoa, ou o muçulmano; o primeiro admoestador é o Alcorão; e o segundo admoestador é o wa’iz situado no coração humano. Isto é, a consciência e a razão concedidas por Deus, às quais Allah deu a capacidade de aceitar o bem e rejeitar as más ações.
O nafs-e malhama é o estado fundamental da alma humana. Depois da prática espiritual, ele pode elevar-se a tal nível que a pessoa, ao seguir os mandamentos e as prescrições de Allah, alcança extrema e suprema satisfação. Ela cumpre os mandamentos e as prescrições de Allah com plena paz e satisfação. Nenhuma dúvida ou incerteza encontrará lugar em seu coração.
Cumprir os mandamentos de Allah, evitar o castigo de Allah e desejar receber Sua recompensa, o temor de Deus, o amor pelo Mensageiro e a obediência ao Mensageiro, juntamente com a preocupação com a Outra Vida: estes são os únicos recursos para sua jornada. Fora disso, nada mais desejam ou esperam. O Alcorão chamou este nível supremo da alma de “nafs-e mutmarillah”. Foi proclamado:
بِأَيْتُهَا النَّفْسُ الْمُطْمَئِنَّةُ فِي ارْجِعِي إِلَى رَبِّكِ رَاضِيَةً مَرْضِيَّةً ، فَادْخُلِي في عِبَادِي وَادْخُلِي جَنَّتِي
“Ó alma satisfeita. Retorna ao teu Senhor, feliz e contente. Então, entra entre os Meus servos e entre os Meus servos obedientes, e entra no Paraíso.” (Surata Al-Fajr: 27–30)
Este é o nível mais elevado no processo de aperfeiçoamento da alma. Segundo muitos, o nafs dos veneráveis profetas é precisamente o nafs al-mutma’inna, pois eles são ma’sum. Para nós, não é possível alcançar plenamente este nível. Na minha opinião, é certamente correto dizer que outros não podem alcançar o mesmo grau em que os veneráveis profetas se elevaram ao nível de “mutma’inna”. Isso porque os sinais de Allah Ta’ala que eles testemunharam ou que Allah lhes fez testemunhar estão além do alcance das pessoas comuns. Foi dito a respeito de alguns membros da ummah do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) que, entre eles e os profetas (que a paz esteja sobre eles), não haverá diferença além da posição ou do grau da profecia; e a dignidade de alguns membros da ummah será motivo de inveja até mesmo para outros profetas. À luz dessas afirmações, não há justificativa lógica para considerar impossível que algumas pessoas comuns se elevem ao nível do nafs al-mutma’inna. É inteiramente natural que exista uma enorme diferença entre os profetas e os não profetas que alcançaram esse nível. O objetivo do esforço espiritual do ser humano deve ser elevar a alma a esse nível.
Abaixo do nível do “nafs al-mulhama”, existem dois estados da alma. Um deles é chamado de “nafs al-lawwama”, a alma que censura. Quando, por causa da fraqueza humana, uma pessoa comete por engano algum ato mau, começa a sentir a dor da consciência. Sua consciência desperta nela um sentimento de arrependimento e remorso. No caso do “nafs al-mulhama”, quando surge no íntimo da pessoa o desejo de praticar uma ação má ou no momento em que ela se prepara para cometê-la, ela é interiormente impedida. É claro que pensamentos de praticar o mal surgem às vezes em sua mente, mas, no momento de se envolver nesse ato mau, ela sempre se depara com um forte obstáculo. O hadith mencionado acima, relacionado ao exemplo do Sirat al-Mustaqim, também aponta para esse aspecto. Por isso, entre os veneráveis sufis, estabeleceu-se a expressão: “Os veneráveis profetas são ma’sum, e os veneráveis awliya são mahfuz.” Contudo, no caso do nafs al-lawwama, o ato mau é cometido pela pessoa. O pesar, o arrependimento e o remorso vêm depois.
O nível abaixo do nafs al-lawwama é chamado de nafs al-ammara. Ao descer a esse nível, a alma humana perde até mesmo o sentimento de consciência. O ato mau passa então a fazer parte de sua natureza, e a pessoa nunca sente qualquer arrependimento ou remorso por isso. Ao chegar a esse nível, o ser humano torna-se igual a um animal, ou melhor, ainda mais inferior do que ele.
Quais eram as funções fundamentais do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele)?
De acordo com a declaração do Alcorão, as funções fundamentais do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) eram três:
1. Ele apresentou o Livro de Allah à humanidade e ensinou-lhes o Livro de Allah.
2. Ele ensinou e instruiu quanto aos caminhos, métodos e estratégias de ação — isto é, a sabedoria prática — para realizar todas as atividades à luz desse Livro.
3. Ele formou indivíduos aptos para a sociedade islâmica, empenhou-se na formação do caráter das pessoas e em seu aperfeiçoamento espiritual. Ao mesmo tempo, esforçou-se para purificar e santificar o ambiente coletivo da sociedade e elevá-lo a um nível refinado e civilizado.
Em quatro passagens do Sagrado Alcorão, Allah, o Altíssimo, mencionou desta forma essas três tarefas fundamentais acima citadas: no versículo a seguir, Allah, o Altíssimo, citando a súplica de Hazrat Ibrahim (a.s.) a respeito do Profeta Muhammad (s.a.w.), diz: recordai o momento em que Ibrahim (a.s.) suplicou com estas palavras:
ربَّنَا وَابْعَثَ فِيهِم رَسُولاً مِّنْهُم يَتْلُوا عَلَيْهِمْ آيَتِكَ وَيُعَلِّمُهُمُ الْكِتَبَ والحكمة ويزكيهم ،
“Ó nosso Senhor! Envia entre eles um Mensageiro que lhes recite os Teus versículos, lhes ensine o Livro e a Sabedoria e os purifique.” (Surata Al-Baqara: 129)
كما أرسَلَنَا فِيكُمْ رَسُولاً مِّنْكُمْ يَتْلُوا عَلَيْكُمْ ابْتِنَا وَيُزَكِّيكُمْ وَيُعَلِّمُكُمُ الْكِتٰبَ وَالْحِكْمَةَ وَيُعَلِّمُكُم مَّا لَمْ تَكُونُوا تَعْلَمُونَ
“Assim como enviámos para vós, dentre vós mesmos, um Mensageiro que vos recita os Nossos versículos, trabalha pela vossa purificação e desenvolvimento espiritual, vos instrui no Livro e na Sabedoria e vos ensina também aquilo que não sabíeis.” (Surata Al-Baqara: 151)
Por meio do primeiro versículo, Allah, o Altíssimo, informou-nos, através de uma súplica de Hazrat Ibrahim (a.s.), quais seriam as tarefas fundamentais do último Profeta. O presente versículo menciona justamente as tarefas fundamentais que o Mensageiro (s.a.w.) realizou na prática:
لَقَدْ مَنَّ اللَّهُ عَلَى الْمُؤْمِنِينَ إِذْ بَعَثَ فِيهِمْ رَسُولًا مِّنْ أَنْفُسِهِمْ يَتْلُوا عَلَيْهِمْ أَيْتِهِ وَيُزَكِّيهِمْ وَيُعَلِّمُهُمُ الْكِتٰبَ وَالْحِكْمَةَ :
“Allah, o Altíssimo, concedeu uma grande graça aos crentes, enviando-lhes, dentre eles mesmos, um Mensageiro que lhes recita os versículos de Allah, os purifica e lhes ensina o Livro e a Sabedoria.” (Surata Al Imran: 164)
Também nesse versículo, as três tarefas fundamentais do Mensageiro são apresentadas de tal modo que, na realidade, ele cumpriu precisamente as tarefas mencionadas.
هُوَ الَّذِي بَعَثَ فِي الأمينَ رَسُولاً مِّنْهُم يَتْلُوا عَلَيْهِمْ أَيْتِهِ وَيُزَكِّيهِمْ وَيُعَلِّمُهُمُ الْكِتٰبَ وَالْحِكْمَةَ ، وَإِنْ كَانُوا مِنْ قَبْلُ لَفِي ضَلْلٍ مُّبِينٌ :
“Ele é Aquele, o Ser Supremo, que enviou entre os iletrados um Mensageiro, o qual recita para eles os versículos de Allah, purifica-os e lhes ensina o Livro e a Sabedoria. Antes disso, porém, estavam imersos em evidente extravio.” (Surata Al-Jumu‘ah: 2)
Também por meio deste versículo, Allah, o Altíssimo, descreveu as três tarefas fundamentais de Seu último Profeta de tal modo que, na realidade, ele cumpriu essas tarefas.
Por meio dos quatro versículos mencionados, encontramos, essencialmente, a menção às três tarefas fundamentais do Mensageiro de Allah de maneira quase igual e uniforme. A única diferença é que, no primeiro versículo mencionado, a tarefa da tazkiya é descrita por último. Nos outros três versículos, a questão da tazkiya é mencionada em segundo lugar. A propósito, é preciso dizer que justamente a palavra tazkiya, mencionada nesses quatro versículos, constitui a base da atividade de purificação e aperfeiçoamento espiritual, a qual está incluída entre as tarefas fundamentais do Mensageiro. O Mensageiro cumpriu clara e plenamente essa sua responsabilidade fundamental; isso é uma exigência inevitável e indispensável da fé em sua missão profética. Foi dito:
يأَيُّهَا الرَّسُولُ بَلِّغْ مَا أُنْزِلَ إِلَيْكَ مِنْ رَّبِّكَ ، وَإِنْ لَّمْ تَفْعَلْ فَمَا بَلَّغْتَ رِسُلَتَهُ ، وَاللَّهُ يَعْصِمُكَ مِنَ النَّاسِ إِنَّ اللَّهَ لَا يَهْدِي الْقَوْمُ الْكَفِرِينَ
“Ó Mensageiro! Transmite devidamente tudo o que foi revelado a ti por parte do teu Senhor. Se não fizeres isso, será considerado que não cumpriste a responsabilidade da missão profética que te foi confiada. Allah te protegerá contra os males das pessoas. Crê: Allah jamais mostrará aos incrédulos o caminho do sucesso contra vós.” (Surata Al-Ma’idah: 67)
Portanto, uma das tarefas fundamentais da missão profética confiada por Allah, a tazkiyat an-nafs — ou seja, a purificação da alma e o aperfeiçoamento moral — foi cumprida diretamente pelo Mensageiro, com suas próprias mãos. (Caso contrário, a responsabilidade de sua missão profética teria permanecido incompleta, algo que nenhum crente poderia sequer imaginar.) Assim, para conhecer os meios e métodos dessa tarefa fundamental de purificação da alma, ou tazkiyat an-nafs, é preciso aprendê-los do próprio Mensageiro de Allah. Pois, tal como ocorre com as demais questões fundamentais do Islã, também neste assunto o método adotado e ensinado por ele é o único método correto e preciso — não o de qualquer outra pessoa.
Os Companheiros (que Allah esteja satisfeito com eles) empenharam-se e esforçaram-se com êxito na tazkiyat an-nafs, de acordo com o método adotado pelo Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Depois vieram os Tabi‘in e os Tabi‘ at-Tabi‘in. Na prática de purificação interior que realizaram, tendo diante de si o exemplo do Mensageiro, não havia lugar para o pessimismo; tampouco se encontra qualquer menção a acréscimos ou reduções em relação aos ensinamentos fundamentais do Alcorão e da Sunnah.
Objetivo da purificação interior
A concepção corrente e estabelecida em nossa sociedade é que aqueles que pertencem ao mundo espiritual serão dotados de certos poderes sobrenaturais, de algumas qualidades e forças sobre-humanas, serão capazes de realizar o impossível e estarão acima de todos os desejos e realizações materiais. Por isso, diante das pessoas comuns, eles não podem deixar de adotar a estratégia de manter sempre uma distância segura, ocultos por trás de algum mistério.
Na realidade, essa concepção é fruto de uma extrema ignorância acerca do Islam. Eles não têm uma compreensão correta nem da identidade fundamental do ser humano, que é a humanidade, nem do verdadeiro mistério do ser humano e do significado real de Ashraful Makhluqat, isto é, da verdadeira exigência da espiritualidade. Também não têm uma compreensão correta sobre por que os profetas e mensageiros vieram, que trabalho realizaram, que tipo de pessoas formaram e, em particular, qual era o objetivo principal da vinda do último Profeta, Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), e qual foi a sua tarefa mais importante. Portanto, para conhecer o verdadeiro propósito e objetivo da purificação interior e da espiritualidade, é indispensável adquirir uma concepção correta, precisa, clara e inequívoca acerca do Islam; do mesmo modo, é absolutamente necessário conhecer a verdadeira identidade do ser humano. Não há alternativa à aquisição de um conhecimento preciso, baseado em fontes confiáveis do Alcorão e da Sunnah, sobre as atividades dos nobres profetas, especialmente as do último Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele).
O Alcorão declarou claramente que o ser humano veio a este mundo como califa de Allah. É sua responsabilidade estabelecer, nesta terra de Allah e na vida das pessoas, as leis, normas e regulamentos de Allah. Adorar e servir exclusivamente a Allah e proporcionar às outras pessoas a oportunidade de adorarem e servirem a Allah. Também faz parte de sua responsabilidade remover todos os obstáculos e impedimentos do caminho da adoração e do serviço a Allah. A declaração clara do Alcorão é:
فَمَنْ يَكْفُرْ بِالطَّاغُوتِ وَيُؤْمِنُ بِاللَّهِ فَقَدِ اسْتَمْسَكَ بِالْعُرْوَةِ الْوُثْقَى و لا انفِصَامَ لَهَا ،
“Aqueles que rejeitam o Taghut e professam a fé em Allah, na verdade, agarram-se a uma corda firme, que jamais se romperá, com extrema firmeza.” (Surata Al-Baqarah: 256)
Na verdade, foi precisamente para ajudar a humanidade nessa tarefa que Allah enviou profetas e mensageiros ao longo dos tempos. O último Profeta também veio ao mundo com esse mesmo propósito. Em particular, ele deixou uma orientação definitiva para todas as pessoas que viriam a este mundo até o Dia da Ressurreição. Apresentou ao mundo inteiro um exemplo vivo de como colocar isso em prática. Allah, o Altíssimo, declarou-o modelo para toda a humanidade. Apresentou somente a ele como a personalidade digna de ser seguida e imitada. Também fez dele o exemplo vivo e a encarnação da humanidade, da condição humana e, portanto, da espiritualidade. A declaração de Allah, o Altíssimo, sobre isso é extremamente clara:
وَإِنَّكَ لَعَلَى خُلُقٍ عَظِيمٍ
“(Ó Profeta,) certamente estás estabelecido sobre um caráter elevado e sublime.” — (Surata Al-Qalam: 4)
لَقَدْ كَانَ لَكُمْ فِي رَسُولِ اللَّهِ أَسْوَةٌ حَسَنَةٌ
“No Mensageiro de Allah há, para vós, o melhor modelo, digno de ser imitado e seguido.” (Surata Al-Ahzab: 21)
قُلْ إِنْ كُنْتُمْ تُحِبُّونَ اللَّهَ فَاتَّبِعُونِي يُحْبِبْكُمُ اللَّهُ
“Dize: Se realmente amais Allah, então segui-me (ao Profeta Muhammad). Assim, Allah vos amará.” — (Surata آل Imran: 31)
Muhammad (que a paz esteja com ele) e seus seguidores bem-sucedidos, sobre os quais Allah declarou — “Allah está satisfeito com eles, e eles estão satisfeitos com Allah” — eram dotados de que tipo de caráter? O próprio Allah falou sobre isso:
مُحَمَّدٌ رَسُولُ اللهِ ، وَالَّذِينَ مَعَهُ أَشِدَّاءُ عَلَى الْكُفَّارِ رُحَمَاءُ بَيْنَهُمْ تَرَبَّهُم رَكعًا سُجَّدًا يُبْتَغُونَ فَضْلاً مِّنَ اللَّهِ وَرِضْوَانًا .
“A característica de Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e de seus companheiros era serem firmes como um trovão contra as forças da incredulidade. Eram misericordiosos uns com os outros; tu os verás curvando-se e prostrando-se, sempre empenhados em buscar a misericórdia e a satisfação de Allah.” (Surata Al-Fath: 29),
O Mensageiro de Allah disse sobre sua própria missão: “Fui enviado para aperfeiçoar o nobre caráter.”
Assim, o próprio Allah Todo-Poderoso mencionou no Alcorão a descrição do pleno desenvolvimento da elevada moralidade que ocorreu na vida dos nobres Companheiros por meio das ações do Mensageiro de Allah. A seguir, encontra-se a descrição das características morais mencionadas nos dez primeiros versículos da Surata Al-Mu’minun:
قد أفلح الْمُؤْمِنُونَ وَالَّذِينَ هُمْ فِي صَلَاتِهِمْ خَشِعُونَ وَالَّذِينَ هُمْ عنِ اللَّغْوِ مُعْرِضُونَ ، والذين هم للزكوة فَعِلُونَ ، وَالَّذِينَ هُمْ لفروجهم حفظون إلا على أزواجهم أو ما مَلَكَتْ أَيْمَانُهُمْ فَإِنَّهُمْ غَيْرُ مَلُومِينَ، فَمَنِ ابْتَغَى وَرَاء
ذَلِكَ فَأُولَئِكَ هُمُ الْعُبُونَ وَالَّذِينَ هُمُ لامُنَتِهِمْ وَعَهْدِهِمْ رَعُونَ وَالَّذِينَ هُمْ عَلَى صَلَاتِهِمْ يُحَافِظُونَ وَ أُولَئِكَ هُمُ الْوَريون:
“Certamente serão bem-sucedidos os crentes que são humildes em suas orações, que se mantêm afastados das atividades vãs, que se empenham no cumprimento da zakat e que protegem suas partes íntimas, exceto com suas esposas e com as escravas que possuem, pois nisso não serão censurados. Mas aqueles que buscarem algo além disso serão transgressores. (Outra característica dos servos bem-sucedidos:) eles protegem os depósitos que lhes são confiados, cumprem as promessas e zelam por suas orações. Esses serão os herdeiros dela (do Jannat al-Firdaus).” (Surata Al-Mu’minun: 1–10)
No último rukū’ da Surata Al-Furqan, as características daqueles que foram formados pelas mãos do Mensageiro são apresentadas da seguinte maneira:
وعباد الرحمنِ الَّذِينَ يَمْشُونَ عَلَى الْأَرْضِ هَوْنًا وَإِذَا خَاطَبَهُمُ الْجَهِلُونَ قَالُوا سَلمان والذين يبيتون لربهم سجدًا وَقِيمَانَ وَالَّذِينَ يَقُولُونَ ربَّنَا اصْرِفْ عَنَّا عَذَابَ جَهَنَّمَ وَ إِنَّ عَذَابَهَا كَانَ غَرَامًا وَ إِنَّهَا سَاءَتْ مستقراً ومُقَامًا
وَالَّذِينَ إِذَا أَنْفَقُوا لَمْ يُسْرِفُوا وَلَمْ يَقْتُرُوا وَكَانَ بَيْنَ ذلِكَ قَوَامًا وَالَّذِينَ لَايَدْعُونَ مَعَ اللهِ إِنَّهَا أَخَرَ وَلَا يَقْتُلُونَ النَّفْسَ الَّتِي حَرَّمَ اللهُ إِلَّا بِالْحَقِّ وَلَا يَزْنُونَ ، وَمَنْ يَفْعَلُ ذَلِكَ يَلْقَ أَثَامًاه يُضْعَفُ لَهُ الْعَذَابُ يَوْمَ الْقِيمَةِ وَيَخْلُدْ فِيهِ مُهَانًا
وَ إِلَّا مَنْ تَابَ وَآمَنَ وَعَمِلَ عَمَلاً صَالِحًا فَأُولَئِكَ يُبَدِّلُ اللَّهُ سَيِّاتِهِمْ حَسَنَتٍ ، وَكَانَ اللَّهُ غَفُورًا رَّحِيمًا وَمَنْ تَابَ وَعَمِلَ صَالِحًا فَإِنَّهُ يَتُوبُ إِلَى اللَّهِ مَتَابًاه وَالَّذِينَ لايَشْهَدُونَ الزُّورَ ، وَإِذَا مَرُوا بِالتَّعْوِ مَرُّوا كِرَامًا وَالَّذِينَ إِذَا ذكَرُوا بِآيَتِ
رَبِّهِمْ لَمْ يَخِرُّوا عَلَيْهَا صُمَّا وَعُمْيَانًا وَالَّذِينَ يَقُولُونَ رَبَّنَا هَبْ لَنَا مِنْ أَزْوَاجِنَا وَذُرِّيَّتِنَا قُرَّةَ أَعْيُنٍ وَاجْعَلْنَا لِلْمُتَّقِينَ إِمَامًاه أولئِكَ يُجْزَوْنَ الْغُرْفَةَ بِمَا صَبَرُو وَيُلَقَّوْنَ فِيهَا تَحِيَّةً وَسَلْمًا خُلِبِينَ فِيهَا ، حَسُنَتْ مُسْتَقَرٌّ وَمُقَامًا .
“Os servos amados do Misericordioso são aqueles que caminham sobre a terra com humildade e mansidão. E, quando os ignorantes tentam envolvê-los em discussões vãs, eles se afastam deles habilmente, dizendo: ‘Paz’. Aqueles que passam a noite prostrados e de pé diante do seu Senhor. Aqueles que suplicam, dizendo: ‘Ó nosso Senhor, salva-nos do castigo do Inferno, pois esse castigo é uma penalidade e uma humilhação para nós. Que péssimo lugar ele é como morada e refúgio!’ Aqueles que mantêm equilíbrio na vida econômica e adotam o caminho do meio: ao gastar, não são extravagantes nem recorrem à avareza. Aqueles que não invocam outra divindade juntamente com Allah; que não matam injustamente nenhuma vida que Allah proibiu matar, sem julgamento; e que não cometem fornicação e adultério. Quem praticar tais atos sofrerá as consequências e a retribuição de suas próprias ações. No Dia da Ressurreição, receberá castigo após castigo e permanecerá sofrendo esse castigo para sempre, acompanhado de humilhação e desonra. Porém, sim, aqueles que se arrependerem desses pecados, crerem e praticarem boas ações, Allah transformará suas más ações em boas ações. E Ele é, por certo, o Perdoador, o Misericordioso. Aquele que se arrepende e pratica boas ações arrepende-se verdadeiramente e retorna para Allah. (Outra descrição dos servos do Misericordioso:) Eles não prestam falso testemunho. E, quando se deparam com algo ou alguma ação sem sentido e vã, afastam-se disso com extrema dignidade. Quando são admoestados por meio de algum versículo de Allah — e ouvem sinceramente essa admoestação — não se comportam como cegos e surdos. Aqueles que suplicam a Allah nestes termos: ‘Ó nosso Senhor, faze de nossos cônjuges e filhos uma fonte de alegria para os nossos olhos, e faze de nós imames ou pioneiros dos tementes a Deus’. Eles são os afortunados que desfrutarão o fruto de sua paciência na mais elevada morada. Ali serão recebidos com honras e saudações de boas-vindas. E ali permanecerão para sempre. Quão excelente é essa morada e quão excelente é esse lugar de repouso!” — (Surata Al-Furqan: 63–76)
As declarações dos inimigos ferrenhos do Islã sobre essas pessoas formadas pelas mãos do Mensageiro de Allah são as seguintes: “À noite, são ascetas; durante o dia, são bravos guerreiros montados e soldados cheios de vigor.” “Eles não enganam ninguém, e ninguém consegue enganá-los.”
Esses companheiros do Mensageiro de Allah eram seus verdadeiros seguidores. Ao seguir o Mensageiro de Allah, os nobres Companheiros não gostavam de acrescentar ou diminuir nada em relação aos princípios do Mensageiro ou a qualquer prática que ele tivesse adotado, e o Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) tampouco lhes permitia fazê-lo. Como o Mensageiro (que a paz esteja com ele) não se apresentou como um ser sobre-humano, os nobres Companheiros também, ao buscar a purificação da alma e a prática espiritual, não tentaram tornar-se seres sobre-humanos. Encontramos o exemplo da vida simples, fácil e natural do Mensageiro (que a paz esteja com ele) no seguinte hadith:
“É narrado por Anas (que Allah esteja satisfeito com ele). Ele disse: Uma delegação de três pessoas foi até as esposas do Mensageiro (que a paz esteja com ele). Eles perguntaram sobre a adoração e a devoção do Mensageiro de Allah. Depois de saberem o que puderam sobre isso, pareceu-lhes que era muito pouco. Entretanto, também comentaram: ‘Onde está o Profeta e onde estamos nós? Todos os seus pecados anteriores e posteriores já foram perdoados por Allah, o Altíssimo.’ Então, um deles disse: ‘Passarei todas as noites regularmente em oração.’ Outro disse: ‘Jejuarei regularmente todos os dias.’ E outro disse: ‘Manter-me-ei afastado das mulheres e jamais me casarei novamente.’ Nesse momento, o Profeta (que a paz esteja com ele) chegou até eles e disse: ‘Vocês estavam conversando sobre essas coisas?’ Por Allah, eu sou o que mais teme Allah entre todos vocês e o que mais se esforça para evitar a desobediência a Ele. No entanto, às vezes jejuo voluntariamente e às vezes não jejuo; às vezes rezo durante a noite e também durmo; e também me caso e mantenho uma vida familiar. Quem rejeita o meu modo, a minha Sunnah, não faz parte da minha comunidade.’” (Bukhari e Muslim)
À luz do hadith mencionado, o aspecto verdadeiro e prático do ideal e da Sunnah do Mensageiro (que a paz esteja com ele) tornou-se extremamente claro. O próprio Mensageiro (que a paz esteja com ele) foi um exemplo vivo desse ideal realista. Esse ideal realista é a Sirat al-Mustaqim. Por isso, Allah dirigiu-se ao Seu Mensageiro dizendo: “Ó Profeta, estás certamente estabelecido sobre a Sirat al-Mustaqim.” Esse é o caminho que pode ser seguido por todas as pessoas. Por isso, ele foi mencionado como o caminho do meio. O Mensageiro não foi o único a seguir esse caminho; ele também fez de seus companheiros seguidores desse caminho. Allah, o Altíssimo, descreveu a comunidade formada pelas mãos dele como “Khayra Ummatin” (a melhor comunidade) e como “Ummah Wasat”, ou seja, uma comunidade moderada. Na verdade, o caminho do meio é o melhor caminho. Portanto, a comunidade formada pelas mãos do Mensageiro é uma comunidade ou nação exemplar para todos, independentemente de povo, religião ou raça no mundo. Ela é moderada para que todos possam imitá-la e segui-la. Eis a declaração de Allah, o Altíssimo:
كُنتُم خير أمة أخرجَتْ لِلنَّاسِ تَأْمُرُونَ بِالْمَعْرُوفِ وَتَنْهَوْنَ عَنِ الْمُنْكَرِ وَتُؤْمِنُونَ بِاللهِ .
“Vós sois a melhor comunidade. Fostes criados para o benefício de toda a humanidade. É vossa responsabilidade e dever conduzir a humanidade ao caminho reto e impedi-la de seguir o caminho do erro. Acima de tudo, deveis ter fé em Allah.” (Surata آل عمران: 110)
وكَذَلِكَ جَعَلْنَكُمْ أُمَّةً وَسَطًا لَتَكُونُوا شُهَدَاءَ عَلَى النَّاسِ وَيَكُونَ الرَّسُولُ عَلَيْكُمْ شَهِيدٌ
“Assim, fizemos de vós uma comunidade moderada, para que pudésseis ser testemunhas da verdade perante todas as pessoas do mundo, e para que o Mensageiro fosse testemunha da verdade perante vós.” — (Surata البقرة: 143)
Aqui, no sentido de ser testemunha da verdade, é dada maior ênfase a servir de exemplo às pessoas na prática da verdade. O caminho moderado é realisticamente possível de ser seguido por todos; por isso, a ummah foi formada como uma comunidade moderada, digna de ser seguida e imitada por toda a humanidade. Eles não são, nem serão, seguidores desse caminho segundo suas próprias invenções. Só poderão tornar-se assim como seguidores verdadeiramente bem-sucedidos de Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Isso porque o caminho que ele seguiu era o verdadeiro caminho moderado e realista. No Islã, o objetivo da tazkiyah an-nafs, ou purificação da alma e disciplina espiritual, é essencialmente criar, de modo semelhante, um grupo de pessoas digno de ser seguido e imitado por pessoas de todos os níveis da humanidade, formando uma ummah. Allah os chamou de “khayr ummah” e “ummah wasat”, isto é, a melhor comunidade, seguidora de um ideal moderado e realista.
O método correto e preciso para a purificação da alma
O Alcorão declarou o seguinte sobre a tazkiyah an-nafs:
قَدْ أَفْلَحَ مَنْ تَزَكَّى وَذَكَرَ اسْمَ رَبِّهِ فَصَلَّى هُ
“Bem-sucedido é aquele que se esforça pela tazkiyah de seu nafs. Para isso, menciona o nome de seu Rabb ou Senhor e oferece a salat.” — (Surata Al-A‘la: 14–15)
Aqui encontramos dois meios de realizar a tazkiyah: um é o zikrullah e o outro é a salat. Também encontramos a menção de que o zikrullah não é diferente da salat. O objetivo da salat é precisamente o zikrullah.
وَأَقِمِ الصَّلوةَ لِذِكْرِي
“Estabelece a salat para a Minha lembrança.” — (Surata Ta-Ha: 14)
Também se percebe, em todo o ensinamento do Mensageiro de Allah (que a paz esteja sobre ele), que ele formou seus companheiros por meio de métodos simples e diretos e das práticas comuns de adoração. Nesse processo, tiveram papel destacado a adoração, a salat e a recitação durante a noite, e as atividades de jihad durante o dia, juntamente com a lembrança constante de Allah, ou zikr, no decorrer dessas atividades. O próprio Alcorão de Allah é testemunha disso. Se examinarmos atentamente as qualidades dos companheiros de Muhammad (que a paz esteja sobre ele), isto é, dos crentes, mencionadas na Surata Al-Mu’minun, na Surata Al-Furqan, em várias passagens da Surata آل عمران, na Surata Al-Ma’idah e no último ruku‘ da Surata Al-Fath, poderemos compreender facilmente esta verdade: adquirir essas características morais era o objetivo dos ensinamentos do Mensageiro (que a paz esteja sobre ele). E esse objetivo foi alcançado de maneira inteiramente natural, por meio da salat, isto é, da adoração formal, da recitação, do zikr e dos tasbihat conforme a maneira prescrita pela Sunnah, e das lutas e confrontos no campo real de ação. Para isso, o Mensageiro de Allah não praticou pessoalmente nenhum processo separado, nem fez com que outros o praticassem. Por meio do processo acima mencionado, as pessoas que possuíam essas características morais ficaram conhecidas na história do mundo, até mesmo aos olhos de seus inimigos, como “guerreiros valentes durante o dia” e “dervixes à noite”.
À luz do Alcorão e da Sunnah, o método que deve ser adotado para a tazkiyah do nafs, seguindo o caminho demonstrado e seguido pelo Mensageiro de Allah (que a paz esteja sobre ele), é, em linhas gerais, o seguinte:
(1) Al-Imaniyat
(2) At-Taharat
(3) Al-Ikhbat
(4) As-Samahat e
(5) Adalat.
(1) Imaniyat: devemos ter fé em sete coisas, a saber: Allah, os anjos, os Livros, os profetas e mensageiros, a vida após a morte, o destino e a ressurreição, entre outras. Dentre elas, Allah, o Mensageiro e a vida após a morte são os mais importantes. O primeiro trabalho e passo da tazkiyah do nafs pelo caminho concedido por Allah e demonstrado pelo Mensageiro é crer, em seu verdadeiro sentido, em Allah, na vida após a morte, no Mensageiro e no Livro. Aqui, a essência da fé é seguir a orientação trazida pelo Mensageiro de Allah (que a paz esteja sobre ele) e fazer com que os desejos se submetam a essa orientação. A fé também significa alcançar a ma‘rifah de Allah. Ter uma concepção correta sobre a essência de Allah, Seus atributos, os direitos de Allah e Sua autoridade é chamado de ma‘rifah. Nessa etapa, é igualmente indispensável contemplar o poder e as bênçãos de Allah e reconhecê-los devidamente. O Alcorão diz:
يَتَفَكَّرُونَ فِي خَلْقِ السَّمَوتِ وَالْأَرْضِ :
“Eles refletem e pesquisam sobre os mistérios da criação dos céus e da terra.” — (Surata Aal Imran: 191)
Assim, conhecer e compreender a dignidade do Mensageiro é também uma das principais exigências da fé. Junto a isso, é indispensável adquirir uma compreensão correta sobre a vida da Outra Vida, bem como sobre seus resultados e consequências. Na realidade, o significado da fé é criar ou fazer surgir no coração de uma pessoa o estado de temor a Deus, amor pelo Mensageiro, seguimento do Mensageiro e reflexão sobre a Outra Vida. Essa foi a primeira e mais importante tarefa do Profeta de Allah.
(2) Taharat: O Alcorão convocou à fé e ordenou que se aceitasse a servidão a Allah. E convocou à prática aqueles que creram e reconheceram a servidão a Allah. Também ordenou algumas formas formais e fundamentais de adoração. E fez da taharat uma condição prévia para essa adoração. A taharat recebeu extrema importância nos ensinamentos do Mensageiro de Deus. Foi dito: “At-tahuru shatrul iman” — a pureza é parte da fé. Portanto, o Profeta de Allah providenciou a pureza tanto do nosso aspecto físico quanto do espiritual ou mental. Para a pureza física e externa, estabeleceu o wudu e o ghusl. Considerando isso uma ação apreciada por Allah e pelo Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), podemos alcançar a pureza do corpo e da mente realizando-a de maneira bela e adequada. O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) também ensinou a manter puros o próprio corpo, as roupas e os demais vestuários. Desse modo, quanto mais pureza uma pessoa conseguir alcançar, mais puros também poderão tornar-se sua mente e seu intelecto. Além da pureza do corpo e das roupas, foi dada importância à pureza da língua e à pureza do sangue e da carne do próprio corpo. Para a pureza da língua, é indispensável adquirir o hábito do “sidq-e kalam”, isto é, falar sempre a verdade, e abandonar a mentira. Para a pureza do sangue e da carne do corpo, é indispensável consumir “rizq halal” e abandonar o “rizq haram”. Pois o corpo formado com rizq haram arderá no fogo do Inferno. Além disso, na vida mundana, esse corpo inevitavelmente perderá a capacidade de dedicar-se à adoração e ao serviço de Allah.
(3) Al-ikhbat, ou tornar-se humildemente submisso: “Allah ama os servos que se submetem humildemente diante d’Ele”.
وَعِبَادُ الرَّحْمَنِ الَّذِينَ يَمْشُونَ عَلَى الْأَرْضِ هَوْنًا
“Os servos amados do Misericordioso caminham pela terra com humildade e mansidão.”
É a salat, o dhikr e a dua que ensinam esse “ikhbat”, ou seja, a entrega humilde do servo diante de Allah. Para criar esse hábito em si mesmo, é preciso, portanto, habituar-se a realizar as orações fard em congregação com verdadeira dedicação. Também se deve empenhar-se, tanto quanto possível, nas orações sunnah e nafl. Manter essas práticas de adoração na discrição para se proteger da maldição da riya (arrogância) é outra questão. Mas é lamentável a tendência de negligenciá-las. Nenhuma pessoa sensata pode negar a contribuição delas para desenvolver verdadeira devoção, reverência e sinceridade na adoração.
A própria oração é um zikr vivo. Mesmo assim, é necessário cultivar o hábito do zikr, conforme a Sunnah, fora da oração. Nesse sentido, deve-se atribuir ao recitar o Alcorão a posição de melhor zikr e, ao mesmo tempo, desenvolver o hábito do zikr e do fikr. Além disso, em diferentes momentos — como antes e depois das refeições, antes e depois de dormir, antes e depois de ir ao banheiro e no momento de viajar em algum meio de transporte — podemos manter-nos constantemente ocupados na adoração aprendendo, com seus significados, as súplicas que o nobre Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) costumava recitar e ensinava os Sahabah a recitar, e praticando-as. Ademais, é necessário cultivar o hábito dos tasbihat que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) recitava em diferentes momentos ou constantemente. A saber:
سُبْحَانَ اللهِ وَالْحَمْدُ لِلَّهِ لَا إِلهَ إِلَّا اللهُ اللَّهُ أَكْبَرُ
É tão necessário quanto benéfico praticar essas e outras coisas semelhantes. Uma das melhores formas de se entregar humildemente a Allah é por meio da súplica e da munajat. Apresentar todas as próprias necessidades somente a Allah — até mesmo pedir-Lhe uma pequena falta, como a de um cadarço — produz, na realidade, no ser humano o verdadeiro sentimento de ubudiyyah. Allah disse: “Invocai-Me, e Eu vos responderei.”
إِذا سَأَلَكَ عِبَادِي عَنِّى فَإِنِّي قَرِيبٌ أُجِيبُ دَعْوَةَ الدَّاعِ إِذَا دَعَانِ . فليَسْتَجِيبُوا لِي وَلْيُؤْمِنُوا بِي –
“Quando Meus servos perguntarem a teu respeito, digo-lhes, em resposta: Estou muito próximo. Respondo imediatamente à súplica de quem Me invoca. Portanto, que eles respondam ao Meu chamado e creiam em Mim.” (Surata Al-Baqarah: 186)
Ninguém deve sentir hesitação, constrangimento ou dúvida ao levantar as mãos e pedir algo a esse Deus. Pelo contrário, que a pessoa, com uma convicção firme no fundo do coração, se poste à porta de Allah e Lhe exponha, suplicando e implorando, todas as suas necessidades; é isso que Allah aprecia. No momento da súplica, deve-se preparar mentalmente para entregar-se completamente à vontade de Allah. Assim como o cadáver fica nas mãos de quem lhe dá o banho ritual, somente quando, durante a munajat, a pessoa se apresenta diante de Allah em uma condição igualmente impotente é que pode avançar muito mais em direção à proximidade de Allah por meio da súplica.
(4) Samāhat: Ao avançar no caminho de Allah, a pessoa que se humilhou diante d’Ele deve enfrentar, com um sorriso e extrema firmeza, as provações e testes que encontrar, bem como os perigos e calamidades que tiver de enfrentar. Deve adquirir a capacidade de lidar com tais estados, ambientes e circunstâncias. Assim como essas calamidades e provações acompanham a fé, superar essas provas com êxito é também uma exigência da fé. Quando perguntaram ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele): “Ó Mensageiro de Allah, o que é a fé?”, ele respondeu: “Paciência e samāhat.” Samāhat significa gastar generosamente em favor dos servos de Allah, buscando a satisfação de Allah. A gentileza, a cortesia e a generosidade também são chamadas de samāhat. Contudo, geralmente ela é mais conhecida como uma qualidade complementar à paciência. Em resposta ao tipo de pergunta nos hadiths em que a paciência e a samāhat foram chamadas de fé, ou considerando a atitude de quem fazia a pergunta, o Profeta de Allah respondeu: “Dize: creio em Allah; depois, mantém-te firme nisso.” Assim como essa istiqāmah é complementar à paciência — na verdade, uma forma de paciência de nível um pouco mais elevado também é chamada de istiqāmah — a samāhat também é o nome de uma paciência de nível elevado, ligada ao sacrifício financeiro e à generosidade e amplitude do coração.
Por meio do jejum, do zakat e do hajj, essa qualidade pode desenvolver-se plenamente no crente. Na verdade, essa característica deve ser necessariamente adquirida por meio dessas três formas fundamentais de adoração. O jejum desenvolve no crente um caráter baseado na taqwa. Aumenta a capacidade de paciência e autocontrole. Ao mesmo tempo, ajuda a demonstrar compaixão e solidariedade para com os servos de Allah. Além disso, proporciona a inspiração para gastar generosamente em favor dos servos de Allah. Portanto, o viajante no caminho de Allah deve, juntamente com a observância cuidadosa do jejum obrigatório do mês de Ramadã, cultivar também o hábito de jejuar ocasionalmente jejuns voluntários.
A zakat é um meio científico de entregar aos pobres, unicamente na esperança de obter a satisfação de Allah, o direito que Allah determinou para eles a partir do sustento concedido por Allah. Se aquele que paga a zakat, ao entregar seu valor, esperar alguma retribuição em troca, a zakat não terá sido cumprida. Por isso, a Sharia islâmica estabeleceu regras e um sistema para depositar os fundos da zakat no Bayt al-Mal, tendo em vista impedir que, ao gastar esses fundos, surja uma mentalidade dessa natureza. Além desse sistema de zakat, Allah também ordenou aos servos que gastem com seus parentes próximos, isto é, com os necessitados e carentes; esse gasto deve ser feito unicamente com o objetivo de obter a satisfação e o amor de Allah. Por meio do gasto dos fundos da zakat de forma conforme à Sharia, os servos virtuosos e crentes recebem assim o incentivo para gastar no caminho de Allah com sinceridade e altruísmo, tornando-se também capazes de oferecer sem hesitação sacrifícios financeiros.
Dessa forma, por meio do Hajj, suportando as indescritíveis dificuldades e sofrimentos da viagem e arcando com suas despesas, os servos de Allah podem adquirir as qualidades mencionadas acima. Portanto, aqueles sobre quem o Hajj é obrigatório devem certamente aproveitar, ao cumprir essa obrigação, a oportunidade de adquirir essas características morais indispensáveis. Aqueles que tiverem condições devem, após o Hajj obrigatório, aproveitar essa oportunidade de alcançar a proximidade de Allah por meio da Umrah ou da realização do Hajj várias vezes e da contemplação dos sinais de Allah, esforçando-se para desenvolver em seu caráter o nível desejado de sabr e istiqamat (sabr e samahah).
(5) Adalat: por meio das quatro práticas mencionadas acima, isto é, iman, taharat, ikhabat e samahah, uma pessoa pode esforçar-se para cultivar em si as qualidades apreciadas por Allah. Contudo, Allah não deseja ver em Seus servos apenas o desenvolvimento de qualidades individuais. Pelo contrário, Ele deseja que aqueles que possuem essas qualidades apreciadas e essas características morais tornem plenamente vitoriosa a religião de Allah na terra de Allah e estabeleçam justiça e equidade na sociedade humana. O próprio Allah tornou diretamente efetivas Suas leis em toda a criação; por isso, nela prevalecem a paz e a ordem. É vontade de Allah que Suas leis também se tornem efetivas na sociedade humana, estabelecendo paz, bem-estar, justiça e equidade. Porém, aqui Allah deseja realizar Sua vontade por meio dos seres humanos. É por isso que o ser humano é o khalifa de Allah na terra de Allah.
Portanto, o objetivo dos crentes — os servos amados de Allah — deve ser empenhar-se e lutar com todas as forças para estabelecer, na vida humana e na terra de Allah, uma sociedade de justiça e equidade conforme a vontade e o desejo de Allah. E, em troca desse trabalho, a salvação na Outra Vida e a satisfação de Allah devem constituir o objetivo supremo e mais elevado de suas vidas. Os quatro processos ou atividades mencionados acima devem ser conduzidos tendo como centro esse último trabalho, isto é, o estabelecimento do nizam de adalat, ou de uma sociedade de justiça e equidade, concedido por Allah e demonstrado pelo Rasul (s.a.w.). Não será suficiente realizar esse trabalho de maneira dispersa e ocasional; por isso, esse último trabalho, juntamente com os quatro anteriores, deve ser concretizado por meio de um esforço organizado. Assim, Allah ama aqueles que, organizados, se dedicam a uma luta incansável pelo estabelecimento da religião de Allah na terra de Allah. Ele os aceita como servos amados.
إِنَّ اللهَ يُحِبُّ الَّذِينَ يُقَاتِلُونَ فِي سَبِيلِهِ صَفًّا كَأَنَّهُمْ بُنْيَانُ مُرْصَوصُ .
“Allah ama aqueles que lutam em Seu caminho, unidos como uma sólida muralha de chumbo.” (Surata As-Saff: 4)
Uma vez que o estabelecimento, na sociedade, da paz, da ordem, da justiça e da equidade com base na religião de Allah é a própria vontade de Allah, aqueles que se empenham nessa tarefa, na realidade, declaram sua união com a vontade de Allah. Portanto, ajudá-los torna-se uma responsabilidade do próprio Allah. O Alcorão chamou essa tarefa de “jihad fi سبيلillah”. Nessa tarefa, Allah deseja o sacrifício dos bens e o sacrifício da vida. Em troca, a recompensa que Allah lhes concederá será de dois tipos. A melhor recompensa é a salvação do severo e terrível castigo do Inferno, o perdão da parte de Allah e o Paraíso onde permanecerá a felicidade eterna. A outra, que, segundo as palavras de Allah, será atraente para as pessoas, é a vitória terrena com a ajuda de Allah. Para receber ambos os tipos de recompensa prometidos por Allah, será necessário passar no teste que verifica quão sinceros são na declaração de sua fé, na declaração de que estabelecerão a religião de Allah e na declaração de que sacrificarão a vida e os bens por Allah. Portanto, a ajuda de Allah nessa tarefa é inevitável, e a vitória com a ajuda de Allah também é certa. Apesar disso, a vitória não chega imediatamente. Pelo contrário, assim que se inicia a jornada por esse caminho, começam a surgir obstáculos e impedimentos por parte dos interesses estabelecidos. À medida que aumenta a atividade dos crentes, também aumenta o grau de oposição e das dificuldades por parte dos interesses estabelecidos. E essa oposição certamente virá; é inevitável. Allah diz:
وَلَنَبْلُوَنَّكُمْ حَتَّى نَعْلَمُ المجهدين منكم والصبرين .
“Certamente, certamente, porei vocês à prova, para que Eu saiba quem luta no caminho de Allah e quem persevera.” — (Surata Muhammad: 31)
أحسبَ النَّاسُ أَنْ يُشْرَكُوا أَن يَقُولُوا آمَنَّا وَهُمْ لَا يُفْتَنُونَ وَلَقَدْ فَتَنَّا الَّذِينَ مِنْ قَبْلِهِمْ فَلَيَعْلَمَنَّ اللَّهُ الَّذِينَ صَدَقُوا وَلَيَعْلَمَنَّ الْكَذِبِينَ
“As pessoas pensam que serão deixadas em paz apenas por terem declarado sua fé? Não serão postas à prova? Ora, Nós já pusemos à prova aqueles que viveram antes delas. Assim, Allah deseja distinguir os verdadeiros dos falsos em sua alegação de fé.” — (Surata Al-Ankabut: 2–3)
أم حسبتم أن تدخُلُوا الْجَنَّةَ وَلَمَّا يَاتِكُم مثلُ الَّذِينَ خَلَوْا مِنْ قَبْلِكُمْ . مَسَّتْهُمُ البَاسَاءُ وَالضَّرَاءُ وَزُلْزِلُوا حَتَّى يَقُولَ الرَّسُولُ وَالَّذِينَ آمَنُوا مَعَهُ مَتَى نَصْرُ اللهِ ، أَلَا إِنَّ نَصْرُ اللَّهِ قَرِيبٌ .
“Pensais que entrareis no Paraíso sem mais? Ainda não vos sobreveio uma situação semelhante à que sobreveio aos que vos precederam: eles foram atingidos por sofrimento após sofrimento e por calamidades. Até que o próprio Mensageiro e seus companheiros crentes clamaram: ‘Quando virá o socorro de Allah?’ Sabei que o socorro de Allah está próximo.” (Surata Al-Baqarah: 214)
Assim, em inúmeros versículos do Alcorão de Allah, foi feita uma declaração clara de que Ele nos porá à prova tanto para o sucesso na Outra Vida quanto para o sucesso neste mundo. As pessoas de visão curta perdem a paciência diante dos obstáculos ou das calamidades temporárias que surgem como provas, perdem a confiança interior e tornam-se vítimas de várias dúvidas e incertezas quanto à correção, à racionalidade e à necessidade indispensável desta obra. Por isso, o Alcorão faz uma declaração ainda mais clara sobre os profundos mistérios dessas calamidades temporárias.
إِنْ يَمْسَسْكُمْ قَرْحٌ فَقَدْ مَسَّ الْقَوْمَ قَرْحٌ مَثْلُهُ ، وَتِلْكَ الْأَيَّامُ نُدَاوِلُهَا بَيْنَ النَّاسِ ، وَلِيَعْلَمَ اللهُ الَّذِينَ آمَنُوا وَيَتَّخِذَ مِنْكُم شُهَدَاءَ ، وَاللَّهُ يُحِبُّ الظَّلِمِينَ، وَلِيُمَحِّصَ اللهُ الَّذِينَ آمَنُوا وَيَمْحَقَ الْكَفِرِينَ أَمْ حَسِبْتُم أَنْ تَدْخُلُوا الْجَنَّةَ
وَلَمَّا يَعْلَمَ اللهُ الَّذِينَ جَهَدُوا مِنْكُمْ وَيَعْلَمَ الصبرين
“Embora tenhais sofrido algum dano, outros também sofreram dano semelhante. Assim, faço alternar os dias — de prosperidade ou de adversidade — entre as pessoas. Desse modo, Allah deseja distinguir os verdadeiros crentes e escolher alguns como mártires. Allah não ama os injustos. Allah deseja purificar e selecionar os crentes sinceros e exterminar os incrédulos. Pensais que entrareis no Paraíso antes que se verifique quem são os verdadeiros combatentes e perseverantes no caminho de Allah?” — (Surata آل Imran: 140–142)
De acordo com a promessa de Allah Ta’ala e com a Sunnah por Ele estabelecida, somente depois de atravessarem os estágios dessas provações, obstáculos e calamidades é que Seus servos amados conseguem estabelecer uma sociedade que assegure a paz neste mundo e a salvação no Além.
Apesar da luta e do esforço extremos de um grupo de servos de Allah, o sucesso pode não chegar. Nesse caso, se os servos de Allah forem capazes de demonstrar iman e istiqamat, certamente alcançarão o sucesso no Além. Portanto, nenhum passo nesse caminho será em vão. Para os viajantes desse caminho, não existe algo conhecido como fracasso. Nesse caminho há apenas sucesso, sucesso e mais sucesso. Eis a declaração de Allah sobre a identidade e as obras dos crentes:
إِنَّ اللهَ اشْتَرَى مِنَ الْمُؤْمِنِينَ أَنْفُسَهُمْ وَأَمْوَالَهُمْ بِأَنَّ لَهُمُ الْجَنَّةَيُقَاتِلُونَ فِي سَبِيلِ اللهِ فَيَقْتُلُونَ وَيُقْتَلُونَ لـ
“Allah Ta’ala comprou dos crentes suas vidas e seus bens em troca do Paraíso. Eles lutarão e morrerão somente no caminho de Allah, e matarão.” (Surata At-Tawbah: 111)
Ou seja, o significado inerente da exigência inevitável da declaração de iman é entregar a vida e os bens a Allah e utilizá-los exclusivamente na luta pela vitória da religião de Allah. Isso se chama bay’ah. A essência da bay’ah é que, onde a religião de Allah não estiver estabelecida, os crentes entregarão suas vidas e seus bens a Allah por meio da jamaat empenhada na luta para estabelecer a religião de Allah. E, onde a religião já estiver estabelecida, a promessa de obedecer a todos os atos lícitos para preservá-la, bem como a promessa de seguir as determinações e proibições de Allah e do Mensageiro, também pode ser chamada de bay’ah.
Essa bay’ah é obrigatória segundo a Sharia islâmica. E, nos hadiths do Mensageiro, morrer sem uma bay’ah semelhante foi denominado morte da jahiliyyah. A prática da bay’ah atualmente difundida entre os seguidores do tasawwuf começou justamente com um espírito e uma consciência combativos desse tipo. Por uma cruel ironia da história, atualmente até aqueles que recebem a bay’ah (os pirs) estão indiferentes ao seu profundo significado. E aqueles que prestam a bay’ah (os murids) nem sequer tiveram a oportunidade de saber algo sobre o assunto.
A verdadeira forma da bay’ah é: “Allah é o verdadeiro dono da minha vida e dos meus bens — juntamente com a declaração do kalima ‘la ilaha’, reconheço esta verdade; portanto, a partir de agora, não poderei utilizar esta vida e estes bens conforme minha vontade. Deverei utilizá-los conforme a vontade de Allah.” Ao utilizar sua vida e seus bens conforme a vontade de Allah, os nobres sahaba primeiro entregavam suas vidas e seus bens ao Profeta (que a paz esteja com ele). O Profeta (que a paz esteja com ele) utilizou adequadamente sua força humana coletiva e sua força financeira pelo caminho indicado por Allah e tornou vitoriosa a religião de Allah. Também na época dos Califas Rashidun, os nobres sahaba se apresentaram aos califas como representantes do Mensageiro. Os califas prometeram governar o Estado de acordo com as ordens de Allah e do Mensageiro, enquanto os sahaba prometeram apoiá-los e obedecer-lhes.
Atualmente, em nosso país, não existe um califado ou governo islâmico estabelecido. Portanto, no nível estatal, não há nenhuma pessoa local que, como representante do Mensageiro, prometa governar-nos segundo as determinações de Allah e do Mensageiro; igualmente, não há ninguém que exija de nós cooperação ou obediência na implementação do Alcorão de Allah e da Sunnah do Mensageiro. Nessas circunstâncias, a maneira de escapar da morte da jahiliyyah é que pessoas de uma mesma disposição e de um mesmo pensamento se organizem ou se unam em uma jamaat, como preparação prévia para governar os servos de Allah com base no ideal concedido por Allah e apresentado pelo Mensageiro; por meio dessa jamaat, devem oferecer o sacrifício de suas vidas e de seus bens e dedicar-se a uma luta extrema com o objetivo de tornar vitoriosa a religião de Allah. Nesse caso, para os membros de uma jamaat semelhante, a liderança da jamaat será uma alternativa ao chefe de um Estado islâmico.
Até a Revolução Islâmica completa, pode haver, em um país, mais de um grupo islâmico semelhante, devido a divergências metodológicas. Nesse caso, a pessoa que considerar determinado grupo mais seguidor da Tariqa Muhammadiya poderá filiar-se a ele.
Mu‘jiza e karamat
Ao falar sobre o objetivo da tazkiya, mencionamos que, atualmente, certa classe de pessoas reduziu os objetivos e as finalidades da espiritualidade e do esforço de purificação da alma exclusivamente a atividades do tipo karamat e feitiçaria. Que ninguém entenda, por causa desse nosso comentário, que de modo algum reconhecemos a mu‘jiza e a karamat.
As mu‘jizat dos profetas e mensageiros (que a paz esteja com eles) e as karamat dos awliya de Allah são verdadeiras. Também cremos nessa concepção e crença universalmente reconhecida de Ahl al-Sunna wa’l-Jama‘a. Nos livros de aqida, ao mencionar-se, a respeito da mu‘jiza e da karamat, que as mu‘jizat dos profetas e as karamat dos awliya de Allah são verdadeiras, menciona-se também que elas ocorrem inteiramente pela vontade de Allah e provêm de Allah. Nem mesmo os profetas e mensageiros têm qualquer autoridade própria sobre isso. Quanto aos awliya de Allah, nem sequer se coloca essa questão.
Tanto a mu‘jiza quanto a karamat consistem, essencialmente, na ocorrência de acontecimentos extraordinários e sobrenaturais. São acontecimentos que, do ponto de vista materialista ou segundo as leis naturais, não deveriam ocorrer. Os acontecimentos desse tipo que ocorreram na vida dos profetas e mensageiros (que a paz esteja com eles) são chamados de mu‘jiza ou bayyina. Na realidade, ocorreram exclusivamente da parte de Allah, como prova da profecia e para completar a prova.
Prova da profecia, isto é, como evidência da profecia. Completar a prova, isto é, fechar todos os caminhos para que as pessoas apresentassem desculpas antes de receberem o castigo, em razão de terem rejeitado, da parte de Allah, o chamado dos profetas e mensageiros. Além disso, em momentos específicos, Allah, o Altíssimo, ajudou milagrosamente Seus profetas e mensageiros. Ele frustrou as táticas e as conspirações de seus adversários de uma maneira que, do ponto de vista humano ou segundo a concepção materialista, seria absolutamente impossível imaginar. Contudo, Allah, o Altíssimo, declarou claramente que, nesse assunto, não havia lugar algum para qualquer desejo pessoal ou autoridade própria de nenhum dos profetas e mensageiros. Allah, o Altíssimo, diz:
وَمَا رَمَيْتَ إِذْ رَمَيْتَ وَلَكِنَّ اللَّهَ رَمَى :
“(Ó Profeta,) não foste tu que lançaste contra eles; na realidade, foi o próprio Allah que lançou.” (Surata al-Anfal: 17)
Além dos profetas e mensageiros, algo extraordinário e sobrenatural também pode ocorrer na vida dos crentes, até mesmo na vida de crentes comuns. Segundo a própria declaração de Allah Ta’ala, Ele é o wali de todos os Seus servos crentes.
اللهُ وَلِيُّ الَّذِينَ آمَنُوا يُخْرِجُهُم مِّنَ الظُّلُمتِ إِلَى النُّورِي
“Allah é o wali e Protetor daqueles que creem. Ele os conduz das trevas para a luz.” (Surata Al-Baqara: 257)
Nos livros de aqida, além dos milagres dos profetas, também se menciona:
“As karamat dos awliya de Allah são verdadeiras. Junto a isso, também foi claramente declarado que a pessoa não tem qualquer vontade ou controle sobre elas. Elas ocorrem inteiramente por parte de Allah. Aqueles que mais avançaram no campo do ilm at-tasawwuf também concordam que a karamat não é prova nem condição de kamal. Pode acontecer que, na vida de uma pessoa muito venerável e perfeita, não ocorra absolutamente nada que possa ser chamado de karamat. Por outro lado, um grande acontecimento pode ocorrer na vida de um crente comum.”
Nos livros de aqida, juntamente com a karamat, também se discute o “istidraj”. Chama-se istidraj à tentativa deliberada, por parte de uma pessoa, de produzir certos acontecimentos sobrenaturais. Longe de serem chamados awliya de Allah, aqueles que fazem isso são, ao contrário, descritos como fasiq e zindiq. Aqueles que praticam o tasawwuf dentro dos limites da sharia — em outras palavras, que se dedicam à tazkiya an-nafs à luz do Alcorão e se esforçam para adquirir o caráter do ihsan à luz dos hadiths — nunca dão, nem podem dar, prioridade à prática de karamat. Pelo contrário, aos seus olhos, o principal êxito de sua disciplina consiste em adquirir a capacidade e a força para cumprir os mandamentos e as determinações de Allah, bem como obter o tawfiq para se proteger de toda desobediência a Allah.
Há pouco tempo, ao ler a biografia de um influente pir e shaikh sufi de Bengala e Assam, Hazrat Abu Bakr (que Allah tenha misericórdia dele), soube-se que, certa vez, um homem, depois de permanecer cerca de seis meses em sua corte, estava indo embora sem lhe dizer nada. Então Hazrat Pir Sahib (que Allah tenha misericórdia dele) perguntou-lhe: “Meu filho, você ficou aqui por tanto tempo; por que, afinal, não me perguntou nada?” O homem respondeu: “Huzur, vim com grandes esperanças, mas estou voltando decepcionado.” Então Hazrat Pir Sahib perguntou mais: “Meu filho, com que esperança você veio e por que ficou decepcionado?” O homem disse: “Eu tinha ouvido que o senhor era um pir famoso de Bengala e Assam. Mas passei seis meses aqui e não tive a oportunidade de ver nenhuma karamat com meus próprios olhos; por isso estou voltando decepcionado.” Então Pir Sahib perguntou-lhe: “Meu filho, durante o tempo em que esteve aqui, você me viu abandonar alguma obrigação fard?” O pobre homem respondeu: “Não.” “Você me viu abandonar alguma obrigação wajib?” O homem disse: “Não.” Desse modo, Pir Sahib perguntou-lhe sobre as práticas sunnah e mustahabb, e recebeu a mesma resposta. Depois, perguntou novamente: “Nestes seis meses, você me viu praticar algum ato haram?” O homem respondeu: “Não.” “Você me viu praticar algum ato makruh?” O homem respondeu: “Não.” Então o falecido Pir Sahib disse-lhe: “Meu filho, na vida de um mu’min, isto é a maior karamat.” Todos os antigos mestres sufis mantinham uma visão semelhante sobre a karamat, isto é, sobre o êxito da disciplina espiritual. Que Allah conceda também aos que hoje são conhecidos como seus seguidores e sucessores o tawfiq para manter uma visão correta sobre essa questão. Amin.
Meios de alcançar a proximidade de Allah
Allah, o Senhor dos mundos, Criador dos céus e da terra, enviou o ser humano a este mundo como Seu califa ou representante. Por cumprir a responsabilidade dessa representação, o ser humano é a melhor das criaturas de Allah — essa é a sua condição de Ashraful Makhluqat. Allah é o Rabb ou Senhor, e o ser humano é Seu califa e servo. O ser humano veio a este mundo assumindo o compromisso de cumprir sua responsabilidade como califa de Allah, obedecendo-Lhe e reconhecendo-O como Rabb ou Senhor. Porém, Iblis, o eterno inimigo do ser humano, não pôde suportar essa dignidade e essa honra. Ele jurou criar obstáculos e impedimentos, até o Dia da Ressurreição, para que a humanidade não cumpra essa responsabilidade de representar Allah. Desde tempos imemoriais, ele vem criando redes de confusão em cada curva do caminho da vida humana, em cada encruzilhada de sua jornada. Consequentemente, às vezes o ser humano não consegue manter a relação com Allah que deveria estabelecer — em outras palavras, a relação que deveria preservar e manter da sua parte com Allah.
Allah, o Senhor dos mundos, não ignora que Iblis tem desafiado o ser humano, a quem Ele enviou a este mundo terreno com uma responsabilidade extremamente árdua, criando obstáculos no caminho do cumprimento dessa responsabilidade. Para proteger o ser humano dos ataques do amaldiçoado Iblis e guiá-lo pelo caminho da orientação, Ele mesmo proferiu estas palavras tranquilizadoras:
فَإِمَّا يَأْتِيَنَّكُمْ مِنِّي هُدًى فَمَنْ تَبِعَ هُدَايَ فَلَا خَوْفٌ عَلَيْهِمْ وَلَا هُمْ يحْزَنُونَه
«Então virá de Minha parte uma orientação; aqueles que seguirem essa orientação não terão nada a temer.» — (Surata Al-Baqara: 38)
Assim, Allah Todo-Poderoso providenciou que as pessoas fossem lembradas do compromisso com o qual vieram a este mundo — o compromisso de manter uma relação com Allah — e também lhes indicou, ao longo dos tempos, os meios de cumprir essa responsabilidade, fazendo descer o conhecimento da revelação e transmitindo, por meio dos profetas e mensageiros, ensinamentos práticos para o cumprimento dessa responsabilidade. Portanto, a relação do servo com Allah
definir corretamente essa relação, estabelecê-la e fortalecê-la não é algo novo nem incompreensível. A questão foi tornada incompreensível justamente pela adoção de meios inventados. No entanto, neste assunto, não há absolutamente espaço para seguir qualquer meio ou caminho inventado. A relação correta entre o servo e Allah só pode ser estabelecida pelo caminho mostrado pelos profetas e mensageiros, especialmente pelo último profeta, Hazrat Muhammadur Rasulullah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele); e ela também pode ser fortalecida permanecendo empenhado no esforço e na prática pelo caminho que ele mostrou.
Recebemos, por meio de Seu último Mensageiro, Muhammadur Rasulullah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), a última orientação ou o último Livro de Allah Todo-Poderoso para a humanidade: o Alcorão. É à luz desse Livro e seguindo os passos do último Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) que podemos estabelecer uma relação correta com Allah Todo-Poderoso. À luz dos ensinamentos do último Profeta, Hazrat Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), é indispensável adquirir três coisas para estabelecer uma relação com Allah: (1) a correta ma’rifat ou compreensão de Allah Todo-Poderoso; (2) cumprir, no sentido correto, a ubudiyyah ou servidão a Allah Todo-Poderoso; (3) seguir o caminho escolhido por Allah e abandonar o caminho por Ele não escolhido. Tentaremos abordar brevemente esses três assuntos.
A ma’rifat de Allah
Como será minha relação com Allah depende inteiramente de Seu ma‘rifat, ou conhecimento. Na origem de todas as calamidades, desordens e inquietações existentes no mundo está a difusão de um conhecimento incorreto de Allah. De outro modo, o ser humano jamais negou completamente Allah. Mesmo aqueles conhecidos como ateus radicais têm reconhecido a existência de Allah, se não diretamente, ao menos indiretamente, em quase todos os períodos da história humana. Por isso, Allah, o Altíssimo, enviou profetas e mensageiros em todas as épocas para apresentar às pessoas o correto ma‘rifat, ou conhecimento, acerca d’Ele. Não há, na história, evidência de que algum profeta ou mensageiro tenha vindo simplesmente para provar ou fazer as pessoas aceitarem Sua existência. Aqueles entre os quais surgiu o último Profeta, Muhammad (que a paz esteja sobre ele), acreditavam na existência de Allah. Contudo, eram ignorantes quanto à Sua correta dignidade e ao conhecimento correto sobre Ele. Eles adoravam ídolos e divindades, acreditando, ainda assim, que estes os ajudariam a alcançar a proximidade de Allah. Eles até chamavam os anjos de filhas de Allah.
Da mesma forma, os Povos do Livro, isto é, os seguidores da Torá e do Evangelho, também não eram descrentes na existência de Allah. Por meio de Moisés (que a paz esteja sobre ele) e Jesus (que a paz esteja sobre ele), eles haviam recebido o conhecimento correto acerca de Allah. Porém, ao se entregarem à servidão das paixões, os eruditos cristãos e judeus, apoiando-se em Iblis, introduziram alterações inventadas no Livro de Allah. Como resultado, os seguidores posteriores da Torá e do Evangelho fracassaram em alcançar o correto ma‘rifat de Allah e, ao mesmo tempo, fracassaram em alcançar a proximidade de Allah, o Altíssimo. O Grande Profeta (que a paz esteja sobre ele) convidou precisamente essas pessoas, na Arábia de então, a ter fé em Allah. Disso se obtém uma prova clara de que o Grande Profeta (que a paz esteja sobre ele), ao apresentar diante deles o verdadeiro conhecimento de Allah, os convocou a crer verdadeiramente n’Ele — em outras palavras, a aceitar Sua servidão, submissão e adoração. Portanto, nós que desejamos alcançar a proximidade de Allah, o Altíssimo, também devemos, antes de tudo, obter o correto ma‘rifat e o conhecimento correto acerca de Allah, o Altíssimo.
Os meios para obter esse ma‘rifat, ou conhecimento
Para alcançar o ma‘rifat de Allah, o Altíssimo, é absolutamente indispensável obter uma compreensão correta de cinco questões.
(1) A compreensão correta da Essência de Allah, o Altíssimo
(2) A compreensão correta dos sifat, ou atributos, de Allah, o Altíssimo
(3) A compreensão correta dos af‘al-e-qudrat, ou atos e atividades, de Allah, o Altíssimo
(4) A compreensão dos favores de Allah, o Altíssimo
(5) O estudo dos dias históricos chamados Ayyamullah, nos quais Allah, o Altíssimo, infligiu no passado punições exemplares aos desobedientes, bem como a compreensão do último Dia, o Yaumuddin.
A Essência de Allah
O Grande Profeta (que a paz esteja sobre ele) proibiu que se refletisse e especulasse sobre a ‘Essência’ de Allah para alcançar o ma‘rifat de Allah. Isso porque a razão e o intelecto humanos não são capazes de compreender coisa alguma por meio da reflexão e da especulação sobre Sua ‘Essência’. O próprio Allah, o Altíssimo, convidou-nos a dirigir o olhar para o universo criado, a fim de conhecermos Sua identidade. Portanto, a concepção correta sobre a ‘Essência’ de Allah é aquela que Allah e Seu Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) nos transmitiram acerca da ‘Essência’ de Allah. Quando o Grande Profeta (que a paz esteja sobre ele) apresentou o convite à fé, os politeístas do mundo contemporâneo daquela época consideravam inúmeras divindades associadas à Essência de Allah e chamavam os anjos de filhas de Allah. Os judeus consideravam Uzair (que a paz esteja sobre ele) filho de Allah e afirmavam que ele compartilhava da Essência de Allah. Os cristãos chamavam Jesus (que a paz esteja sobre ele) de filho de Allah e também o consideravam participante da Essência de Allah. Eles afirmavam a existência de criadores distintos para as boas e as más ações e os designavam por nomes diferentes. Chamavam o criador das boas ações de Yazdan e o criador das más ações de Ahriman. Rejeitando todas essas concepções distorcidas relativas à Essência de Allah, o Alcorão declarou, na surata Al-Ikhlas, em linguagem clara e inequívoca:
قُلْ هُوَ اللهُ أَحَدَّ اللهُ الصَّمَدُ، لَمْ يَلِدْ وَلَمْ يُولَدْ وَلَمْ يَكُنْ لَهُ كُفُوًا أَحَده
“Ó Profeta, proclame: Allah é Único e Incomparável; Ele não depende de ninguém da criação. Não é pai de nenhum filho ou descendente, nem nasceu do ventre de alguém. Ninguém pode ser Seu equivalente.”
Na verdade, esta é a descrição mais excelente da Essência de Allah. Nenhuma explicação ou análise disso é possível na linguagem humana. Quanto aos quatro temas restantes, podemos refletir e pesquisar tanto quanto desejarmos sobre os meios de alcançar a proximidade de Allah. E Allah, o Altíssimo, atribuiu grande importância à reflexão e à pesquisa sobre esse assunto. O Alcorão de Allah diz:
إِنَّ فِي خَلْقِ السَّمَوتِ وَالْأَرْضِ وَاخْتِلاف اليْلِ وَالنَّهَارِ لآيات لا ولِي الْأَلْبَابِ8
“Na criação dos céus e da terra, e na alternância e sucessão da noite e do dia, há sinais para os dotados de inteligência.” — (Surata آل عمران, 190)
Os atributos de Allah
Allah, o Altíssimo, apresentou Sua própria identificação por meio de Seu Livro. Nessa apresentação, além da descrição de Seus diversos poderes, capacidade e autoridade, também são mencionados alguns de Seus nomes atributivos. Ao refletirmos e pesquisarmos sobre esses nomes atributivos, podemos alcançar a marifat de Allah, o Altíssimo. Em diversos lugares do Alcorão são mencionados inúmeros nomes atributivos de Allah. Logo no início da Surata Al-Fátiha, juntamente com a proclamação do louvor a Allah, a menção, ao lado deste nome essencial — “Allah” — de Rabbul-Alamin, Ar-Rahman, Ar-Rahim e Maliki Yawmid-Din constitui uma apresentação incomparável da identificação de Allah.
Allah, Rabbul-Alamin: isto é, Ele é o Único Criador de todo o universo; é também Ele, sozinho, quem provê as necessidades de cada criatura deste mundo, e a propriedade exclusiva de tudo isso pertence a Ele. Em toda parte, somente Seus mandamentos e determinações vigoram. Em todo este universo, somente Sua autoridade e soberania estão estabelecidas.
Ar-Rahman, Ar-Rahim: Ele, somente Ele, é misericordioso e bondoso com toda a criação, especialmente com a humanidade. Em todos os céus e na terra manifesta-se somente a abundância de Sua misericórdia. Essa bondade e essa misericórdia não têm fim nem limite. O ser humano, a melhor das criaturas, depende de Sua misericórdia a cada passo tanto neste mundo quanto na vida futura.
Maliki Yaumiddin: Assim como Allah, o Criador, Sustentador e Soberano único de todo o universo, é Doador, Misericordioso e Benevolente, também é severo e Todo-Poderoso. Um dia, todas as ações da vida terrena dos seres humanos serão julgadas. Ele é o único Soberano daquele Dia do Juízo. Em Seu tribunal, não existe nenhuma outra entidade capaz de demonstrar a coragem e a disposição necessárias para interceder.
Assim, no versículo da Surata Al-Baqarah conhecido e denominado Ayat al-Kursi, são descritos alguns atributos de Allah, o Altíssimo:
الله لا إله إلا هُوَ الْحَيُّ الْقَيُّومُ لاَ تَأْخُذُهُ سِنَةٌ وَلَا نَوْمٌ ، لَهُ مَا فِي السموت وما في الأَرْضِ مَنْ ذَالَّذِي يَشْفَعُ عِنْدَهُ إِلَّا بِإِذْنِهِ يَعْلَمُ مَا بَيْنَ أَيْدِيهِمْ وَمَا خَلْفَهُمْ ، وَلَا يُحِيطُونَ بِشَيْءٍ مِّنْ عِلْمِهِ إِلَّا بِمَا شَاءَ : وسِعَ كُرْسِيُّهُ
السَّمَوتِ وَالْأَرْضِ ، وَلا يَئُودُهُ حِفْظُهُمَا ، وَهُوَ العَلِيُّ العظيم .
“Allah é essa grandiosa Entidade; não há ninguém além d’Ele que possua a soberania. Ele é o Vivente, o Eterno e o Sustentador de tudo; nem a sonolência nem o sono O alcançam. Ele é o único Soberano de tudo quanto existe nos céus e na terra. Quem é aquele que pode interceder perante Ele sem a Sua permissão? Ele está plenamente ciente de tudo o que diz respeito aos seres humanos, antes e depois deles; ninguém pode dominar sequer uma gota do oceano de Seu conhecimento. Contudo, as pessoas só podem dominar aquilo que Ele lhes concede a capacidade de apreender. Seu poder, influência, autoridade e soberania estão estabelecidos em todos os céus e na terra. E Ele não sente a menor fadiga ou exaustão ao protegê-los. Na verdade, Ele é a grandiosa e suprema Entidade.” (Surata Al-Baqarah: 255)
Em verdade, a essência da identificação de Allah apresentada nesse famoso versículo é que ninguém mais pode ser detentor da soberania. Visto que somente a Sua soberania vigora em todo o universo criado, também é necessário estabelecer somente a Sua soberania na sociedade humana. As qualidades indispensáveis para ser o verdadeiro detentor da soberania não podem ser encontradas em ninguém além de Allah — nem em qualquer indivíduo, nem em qualquer grupo, nem em qualquer nação.
Na realidade, ao convocarem as pessoas à fé em Allah, os profetas e mensageiros conclamaram-nas a reconhecer a soberania de Allah e a rejeitar a soberania de qualquer outro além d’Ele. Esse é também o segredo intrínseco da Kalima Tayyibah. E esse é o principal segredo por trás da postura agressiva assumida, ao longo das eras, pelas forças estatais contemporâneas e pelos grupos de interesses estabelecidos em oposição à convocação dos profetas e mensageiros.
Assim, somente quando pudermos discutir, um por um, todos os demais nomes atributivos mencionados nas diferentes suratas do Alcorão, uma concepção correta sobre Allah poderá consolidar-se em nossa mente. Todos esses nomes atributivos de Allah, o Altíssimo, são importantes e significativos. Entre eles, Rabb, Ilah e Malik possuem um significado particularmente abrangente. Além disso, observa-se que exercem uma influência e produzem efeitos de longo alcance em nossa vida prática. Ao mencionar a relação de Allah, o Altíssimo, com os seres humanos na Surata An-Nas, Allah, o Altíssimo, diz:
قُلْ أَعُوذُ بِرَبِّ النَّاسِ لا مَلِكِ النَّاسِ إِلهِ النَّاسِ مِنْ شَرِّ الْوَسْوَاسِ لَا الْخَنَّاسِ وَ الَّذِي يُوَسْوِسُ فِي صُدُورِ النَّاسِ وَ مِنَ الْجِنَّةِ والناس
“Dize: busco refúgio junto ao Senhor dos seres humanos, ao Soberano dos seres humanos e ao Deus dos seres humanos, contra o mal daqueles que semeiam repetidamente a confusão, que lançam confusão nos corações das pessoas, sejam eles dos gênios ou dos seres humanos.” (Surata An-Nas: 1–6)
Ao seguirem leis, códigos e regulamentos inventados pelos próprios homens, eles dividiram a vida em três partes. Para satisfazer as necessidades do estômago, seguem um tipo de normas ou dominação; para satisfazer a fome do coração, isto é, as necessidades espirituais, seguem normas completamente opostas. E, na vida do Estado e da sociedade, seguem ideais ou costumes exatamente contrários a estes. Assim, na sociedade humana, surgiram interesses estabelecidos de três classes. Em praticamente todas as épocas da história do mundo, as pessoas comuns vêm sendo esmagadas entre as engrenagens desses interesses estabelecidos das três classes.
(1) os detentores do poder e da influência política
(2) os detentores da supremacia e da influência econômica
(3) os detentores da liderança religiosa e do sacerdócio. Reconhecer Allah simultaneamente como o Rabb, o Ilah e o Malik dos seres humanos significa negar e eliminar, da vida humana, a autoridade e o domínio dos interesses estabelecidos dessas três classes, considerando somente Allah o único Regulador de todas as coisas. Significa considerar, também na vida econômica, somente a lei de Allah como benéfica; considerar que, na vida política, a paz e o bem-estar residem unicamente na Sua soberania; e acreditar firmemente que o aperfeiçoamento espiritual, isto é, a felicidade na Outra Vida, somente pode ser alcançado por meio das leis de Allah. Ter essa firme convicção é crer no Tauhid. Por outro lado, qualquer pequeno acréscimo ou diminuição nisso está incluído no shirk.
Na discussão abrangente sobre todos os atributos de Allah, encontramos, por um lado, a descrição da misericórdia, compaixão, benevolência e perdão de Allah e, ao lado disso, menções ao Seu poder, autoridade e suprema força. A discussão, reflexão e investigação sobre esse conjunto equilibrado de atributos cria simultaneamente na mente humana duas atitudes opostas em relação a Allah. Ao ouvirem nomes como Rahman, Rahim, Gafur, Afuw e Karim, seus corações se enchem de esperança de receber a misericórdia, a benevolência e o perdão de Allah; da mesma forma, ao refletirem sobre nomes como Jabbar, Qahhar, Malik, Aziz e Dhu Intiqam, surge um medo extremo. Na realidade, a presença simultânea dessas duas concepções opostas é precisamente o significado de iman, ou da verdadeira ma’rifat de Allah. “Al-iman bayna al-khawf wa-r-raja.”
Descrição do poder de Allah
O segundo assunto para o qual se deve utilizar o poder de reflexão a fim de alcançar a ma’rifat de Allah é estudar e investigar o funcionamento do poder criador de Allah Todo-Poderoso. Entre a criação dos céus e da terra, em cada átomo do universo criado, estão espalhados inúmeros elementos capazes de fazer o coração crer no Tauhid de Allah. Ao demonstrar a verdade do Tauhid e da Outra Vida, o Alcorão de Allah Todo-Poderoso convocou à reflexão sobre os mistérios da natureza universal. Para aqueles que não conseguem ocupar-se de uma criação tão grandiosa, também há matéria para reflexão nos mistérios da sua própria criação. Por isso, o Alcorão indicou que as provas e os sinais do Tauhid e da Outra Vida devem ser extraídos dos “afaq”, isto é, do mundo criado, e dos “anfus”, isto é, da vida humana.
A revolução regular e ordenada de cada planeta e satélite do sistema solar em sua própria órbita; a chegada da noite depois do dia e do dia depois da noite segundo uma regra eterna; a mudança das estações segundo essa mesma regra eterna; e a atuação dessa mesma lei eterna e imutável nos animais, aves, insetos, plantas, árvores e trepadeiras despertam espontaneamente no coração humano o sentimento do Tauhid. Seu coração exclama:
رَبَّنَا مَا خَلَقْتَ هُذَا بَاطِلاً سُبْحَنَكَ فَقِنَا عَذَابَ النَّارِه
“Ó nosso Senhor. Tu não criaste nenhuma das criaturas sem propósito. Portanto (cremos que a vida após a morte é verdadeira), livra-nos do severo e terrível castigo do Inferno.” — (Surata Al Imran: 191)
Dirigindo-se àquele que não tem capacidade nem oportunidade de refletir sobre tantos mistérios da criação, o Alcorão diz:
فَلْيَنْظُرِ الْإِنْسَانُ مِمَّ خُلِقَهُ خُلِقَ مِنْ مَاءٍ دَافِقَ يَخْرُجُ مِنْ بَيْنِ الصلب والتَّرَائِبِ إِنَّهُ عَلَى رَجْعِهِ لَقَادِرٌ
“O ser humano deveria refletir sobre de que foi criado. Ele foi criado de uma gota de água emitida entre a espinha dorsal e as costelas. Aquele que o criou dessa maneira é certamente capaz de ressuscitá-lo após a morte.” — (Surata At-Tariq: 5–8)
Por isso, para alcançar a verdadeira ma’rifat de Allah, o próprio Allah, o Altíssimo, associou o fikr ao zikr. Foi dito:
إِنَّ فِي خَلْقِ السَّمَوتِ وَالْأَرْضِ وَاخْتِلَافِ الَّيْلِ وَالنَّهَارِ لَآيَاتِ لِأُولى الْأَلْبَابِ الَّذِينَ يَذْكُرُونَ اللَّهَ قِيمًا وَقُعُودًا وَعَلَى جُنُوبِهِمْ وَيَتَفَكَّرُونَ فِي خَلْقِ السَّمَوتِ وَالْأَرْضِ :
“Na criação dos céus e da terra, e na alternância e no prolongamento da noite e do dia, há sinais da unicidade de Allah para os dotados de entendimento: aqueles que se lembram de Allah em todos os estados, durante o sono e nos sonhos, e refletem sobre os mistérios da criação dos céus e da terra.” (Surata Al Imran: 190–191)
A investigação das bênçãos de Allah
O terceiro meio eficaz e prático para alcançar o conhecimento de Allah são as bênçãos de Allah, isto é, refletir e investigar Suas incontáveis e inesgotáveis bênçãos. Por isso, ao mesmo tempo que Allah conclamou as pessoas à Sua adoração e devoção, também lhes recordou Suas inúmeras bênçãos. Allah disse:
يأَيُّهَا النَّاسُ اعْبُدُوا رَبَّكُمُ الَّذِي خَلَقَكُمْ وَالَّذِينَ مِنْ قَبْلِكُمْ لَعَلَّكُمْ تَتَّقُونَ الَّذِي جَعَلَ لَكُمُ الْأَرْضَ فِرَاشًا وَالسَّمَاءَ بِنَاءَ من وَأَنْزَلَ مِنَ السَّمَاءِ مَاءً فَأَخْرَجَ بِهِ مِنَ الثَّمَرَتِ رِزْقًا لَّكُمْ فَلَا تَجْعَلُوا لِلَّهِ أَنْدَادُ وَأَنتُمْ تَعْلَمُونَ .
“Ó humanidade, adorai e servi ao vosso Senhor, que criou a vós e aos que vos precederam; assim, podereis esperar alcançar a salvação. Ele fez do céu uma cobertura e da terra um leito, e fez descer água do céu, com a qual produziu diversos frutos da terra para vosso sustento. Portanto, não associeis ninguém a Allah, embora saibais que isso é injusto.” — (Surata Al-Baqarah: 21–22)
Nesta terra, estamos desfrutando das incontáveis e inesgotáveis bênçãos de Allah. Cada uma delas testemunha a unicidade de Allah e o tawhid. Cada órgão do corpo humano é uma bênção extraordinária, e todos eles são testemunhas do tawhid de Allah. Meus olhos: são apenas uma dádiva de Allah. Nenhuma força do mundo, nem toda a criação reunida, poderia conceder-me uma bênção alternativa equivalente. Da mesma forma, meus ouvidos, minha língua, meu nariz, minhas mãos, meus pés, minha cabeça, minha mente e meu cérebro, enfim, cada célula do meu corpo, são dádivas exclusivas de Allah; se qualquer uma delas deixar de funcionar, ninguém terá capacidade de criar uma alternativa para ela.
O carinho e o cuidado de minha mãe e de meu pai, graças aos quais cresci pouco a pouco sob a luz e o ar deste mundo e me tornei uma pessoa, também são uma bênção extraordinária, cuja descrição é impossível na linguagem humana. O próprio Allah apresentou isso como um de Seus sinais. Do mesmo modo, quando percebemos verdadeiramente todas as bênçãos que desfrutamos nesta terra — incluindo as partículas de radiação do sistema solar e tudo o que elas fornecem — o coração humano se enche de gratidão. O próprio Allah disse: se quiserdes calcular as bênçãos de Allah, podeis tentar fazê-lo; no fim, fracassareis. As bênçãos que desfrutamos no mundo, segundo as palavras de Allah, são extremamente insignificantes. Além de insignificantes, são também passageiras. E aquilo que Allah reservou Consigo é melhor e permanente. Basta refletir sobre essas bênçãos passageiras e insignificantes para que nossa capacidade de pensar se esgote. A razão e a inteligência ficam atônitas. Quanto às bênçãos permanentes e melhores que Allah reservou para a vida do Além, somente Ele, o Criador único dessas bênçãos, sabe quão belas, agradáveis e maravilhosas elas são.
Lancemos um breve olhar sobre a maravilhosa elaboração das insignificantes e passageiras bênçãos deste mundo, para perceber quão grandioso é Allah, o Magnífico Criador, e quão impotentes são aqueles seres criados aos quais as pessoas servem e se submetem, abandonando Allah. Antes de limpar e comer um prato com várias frutas de Bangladesh, pense um pouco no Criador delas. Em seu prato há manga, jaca, mamão, banana e também algumas goiabas. Pergunte agora aos que estudam essas frutas deliciosas e doces: alguém pode criar o sabor da manga dentro da jaca? Algum especialista em botânica já conseguiu descobrir um processo capaz de produzir o sabor do abacaxi no mamão ou o sabor do mamão na manga? Por mais que o progresso da ciência futura avance, será que eles poderão contribuir em algo na criação original? O que poderão fazer será apenas reconhecer a técnica criadora do Magnífico Criador, e nada mais.
Além dessas bênçãos materiais deste mundo, a maior bênção de Allah, o Altíssimo, é o Alcorão. Allah, o Misericordioso, Doador das bênçãos, ensinou o Alcorão à humanidade por Sua compaixão e bondade. Na lista de Suas inesgotáveis bênçãos, o Alcorão ocupa o lugar mais elevado. Nenhum olho humano neste mundo jamais contemplou uma bênção semelhante àquela reservada aos amados servos de Allah que seguem este Alcorão. Nenhum ouvido humano neste mundo jamais ouviu a descrição de uma bênção semelhante. A mente imaginativa de milhões e milhões de pessoas jamais conseguiu sequer conceber algo semelhante. Somente aqueles que, agradecendo pelas bênçãos materiais concedidas por Allah neste mundo e utilizando e aplicando corretamente a maior bênção, o Alcorão, conseguirem tornar-se Seus amados servos terão a felicidade de desfrutar, no Além, das inesgotáveis bênçãos de Allah.
Ayyāmullāh
Um dos meios mais importantes para alcançar a verdadeira ma‘rifah de Allah é estudar os Dias de Allah e tirar deles ensinamentos. As nações que, no passado, foram destruídas pela ira de Allah por terem negado o chamado de Seus profetas são chamadas Ayyāmullāh, porque, nos dias de sua destruição, ocorreram acontecimentos significativos na história da humanidade. Esses dias também são chamados de a Pequena Ressurreição. O último dos Dias de Allah é conhecido como “Yawm ad-Dīn”. As histórias da destruição daqueles que foram destruídos no passado por desobedecerem a Allah despertam em nosso coração uma verdadeira percepção do poder de Allah. Também podemos obter delas ensinamentos verdadeiros. Por que o povo de Noé foi destruído? Qual foi o destino de Nimrod? Que punição exemplar o Faraó recebeu? Como o povo de Ló foi completamente destruído? Que punição sofreram o povo de ‘Ād e o povo de Thamūd? O Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) ordenou que tirássemos ensinamentos desses acontecimentos. Além disso, há a descrição das cenas terríveis da Ressurreição; a manifestação, no Dia do Juízo, da majestade irresistível e subjugadora de Allah; a cena indescritível das pessoas correndo para ver seus registros de obras; e as cenas difíceis e severíssimas do julgamento no tribunal da Outra Vida, conduzido sob a autoridade exclusiva de Allah. Refletindo e pesquisando sobre tudo isso, o ser humano pode alcançar, em sentido pleno, a verdadeira ma‘rifah de Allah.
A ‘ubūdiyyah para com Allah
Assim que a verdadeira ma‘rifah de Allah, ou seja, o verdadeiro conhecimento de Allah, se revela ao ser humano, seu coração espontaneamente aceitará a ‘ubūdiyyah para com Allah. Depois de apresentar o conhecimento de Allah nos três primeiros versículos da Sūrat al-Fātiḥah, faz-se com que o ser humano declare com a própria língua:
إِيَّاكَ نَعْبُدُ وَإِيَّاكَ نَسْتَعِينُ .
“Ó Senhor, somente a Ti adoramos e somente de Ti pedimos ajuda.” O que isso indica? Se você refletir um pouco mais profundamente, a resposta a essa pergunta lhe dirá que, depois de conhecer verdadeiramente Allah, o ser humano não tem outra opção senão submeter-se completamente a Allah. Isso foi apresentado de diferentes maneiras em vários trechos do Alcorão Sagrado. O Profeta Ibrāhīm (que a paz esteja sobre ele) estudou as estrelas e refletiu sobre a lua e o sol; ficou claro para ele que nenhum deles poderia ser um Senhor ou uma divindade. Por isso, declarou claramente à sua comunidade:
يُقَوْمِ إِنِّي بَرِئُ مِّمَّا تُشْرِكُونَ إِنِّي وَجَهْتُ وَجْهِي لِلَّذِي فَطَرَ السَّمَوتِ وَالْأَرْضَ حَنِيفًا وَمَا أَنَا مِنَ الْمُشْرِكِينَ
“Ó meu povo, declaro-me livre de tudo aquilo que vós associais a Allah. Rompi minha relação com tudo e dirijo-me exclusivamente para Aquele que criou os céus e a terra; e jamais farei parte dos idólatras.” (Sūrat al-An‘ām: 78–79)
Assim, Allah, o Altíssimo, informou ao profeta Moisés (que a paz esteja sobre ele) sobre Sua ma‘rifa, ou seja, sobre Seu conhecimento e reconhecimento, concedeu-lhe a responsabilidade da profecia e, imediatamente, ordenou-lhe que adorasse somente a Ele.
إِنَّنِي أَنَا اللَّهُ لَا إِلَهَ إِلَّا أَنَا فَاعْبُدُنِي ، وَأَقِمِ الصَّلوةَ لِذِكْرِي .
“Sabei com certeza que Eu sou Allah; não há divindade além de Mim. Portanto, adorai somente a Mim e estabelecei a oração para que vos lembreis de Mim.” (Surata Ta-Ha: 14)
Com base nesta breve discussão, podemos facilmente chegar à conclusão de que, conforme a exigência inevitável do correto conhecimento de Allah, o ser humano deve aceitar somente Allah como seu único Munib e considerar-se um servo devotado ou escravo desse Munib. Reconhecer Allah como o único Munib e considerar-se exclusivamente Seu servo não pode limitar-se a uma concepção mental, a uma crença ou a uma declaração verbal. Na prática, é preciso remover da própria vida todas as atividades de servidão e escravidão a outros além de Allah. É preciso dedicar-se a erradicar atividades semelhantes da vida humana e estabelecer em toda parte, em seu verdadeiro sentido, a servidão e a adoração a Allah.
Sobre como cumprir a verdadeira servidão e adoração a Allah, podemos obter orientação prática da ordem que Allah, o Altíssimo, deu ao profeta Moisés (que a paz esteja sobre ele) ao conceder-lhe o conhecimento de Allah e a profecia. Primeiro, Allah, o Altíssimo, informou ao profeta Moisés: “Não existe nenhuma divindade nem ser detentor de soberania além de Allah.” Ao mesmo tempo, informou-lhe: “É preciso adorar e servir somente a Ele.” Para prestar essa servidão, ou para manter sempre presentes as ordens e instruções de Allah, é preciso estabelecer a salat. Foi justamente no âmbito dessa ordem de obedecer a Allah e servir e submeter-se exclusivamente a Ele que o profeta Moisés (que a paz esteja sobre ele) recebeu a ordem de dirigir-se à corte do governante tirânico da época, o Faraó. Foi dito: “Ele declarou rebelião em Meu reino.” A partir da discussão desta passagem do Alcorão Sagrado, fica claramente comprovado que a verdadeira adoração consiste em obedecer aos mandamentos e às determinações de Allah em cada aspecto, direção e esfera da vida humana, e em abandonar as leis, normas e regulamentos de outros além de Allah. O poder estatal sem Deus ou rebelde contra Deus é, assim, um obstáculo e uma barreira no caminho da adoração a Allah. Portanto, empenhar-se na luta e no esforço genuínos para tornar esse poder estatal obediente a Allah ou derrotá-lo e fazer triunfar a religião de Allah é, em sentido verdadeiro, aceitar a ubudiyyah de Allah. A oração e os demais atos formais de adoração foram, na realidade, tornados indispensáveis precisamente para auxiliar no cumprimento da responsabilidade da ubudiyyah e criar a capacidade para isso. Somente aqueles que iniciam a caminhada no verdadeiro caminho da ubudiyyah e buscam o auxílio desses atos formais de adoração conseguem obter seus frutos genuínos. Foi dito: “Buscai ajuda por meio da paciência e da salat.” Para que serve essa ajuda? Não se indicou nada além do cumprimento da responsabilidade da ubudiyyah.
Ao entrar no décimo segundo ano de sua vida profética, o profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) recebeu a ordem de cumprir as cinco orações diárias. A ordem relativa ao jejum e ao zakat veio posteriormente. Então, qual foi o trabalho que ele realizou até aquele momento? A responsabilidade ou tarefa do Mensageiro eleito (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), do início ao fim, foi uma só: fazer triunfar a religião de Allah. O Alcorão diz:
هُوَ الَّذِي أَرْسَلَ رَسُولَهُ بِالْهُدَى وَدِينِ الْحَقِّ لِيُظْهِرَهُ عَلَى الدِّينِ كُلِّهِ –
“Ele é Allah, o Ser Majestoso que enviou o Mensageiro com a orientação e a religião da verdade, para estabelecê-la vitoriosa sobre todas as religiões criadas pelos seres humanos.” (Surata At-Tawbah: 33)
Depois de receber a profecia, o profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e seus seguidores iniciaram uma luta extenuante com o objetivo de fazer triunfar a religião de Allah. Ao longo do caminho, em diferentes etapas e fases, esses atos formais de adoração, especialmente a oração e o jejum, foram tornados obrigatórios. Portanto, não há possibilidade de considerar os atos formais de adoração separadamente da responsabilidade fundamental da ubudiyyah. Da mesma forma, não é possível separar essa responsabilidade fundamental da ubudiyyah dos atos formais de adoração. Isso porque aquele que foi o verdadeiro mestre e guia no cumprimento dessa responsabilidade fundamental jamais os considerou separados. Assim como ele próprio lhes atribuiu a devida importância, seus companheiros, os nobres sahabah (que Allah esteja satisfeito com eles), também lhes deram a devida importância. Por isso, foi dito a respeito dos companheiros do Mensageiro puro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele): “À noite, são ascetas; durante o dia, são guerreiros cavaleiros.” Esta é a verdadeira característica do verdadeiro servo de Allah, do verdadeiro ‘abd. Portanto, não pode haver sequer a menor dúvida de que ubudiyyah é precisamente este trabalho.
Os profetas e mensageiros cumpriram, geração após geração, a difícil responsabilidade da ‘ubudiyyah, a fim de estabelecer a relação correta entre Allah, o Altíssimo, e Seus servos. E aqueles que, como seguidores dos profetas e mensageiros, assumiram essa responsabilidade são conhecidos no Alcorão como siddiqin, mártires e صالحين (justos). Ao cumprir essa responsabilidade, os profetas e mensageiros dependeram, a cada passo, da ajuda de Allah. Também as pessoas conhecidas como servos amados de Allah, servos agraciados, siddiqin, mártires e صالحين, seguidores dos profetas, esperaram a cada passo o socorro e a misericórdia de Allah. E foi precisamente para receber essa ajuda que Allah, o Altíssimo, ordenou que se buscasse apoio na paciência e na oração.
Na realidade, só se pode compreender o significado de buscar ajuda por meio da paciência e da oração quando, seguindo os passos dos profetas e mensageiros (que a paz esteja com eles) e dos demais servos amados de Allah, se entra em confronto direto com os servos amaldiçoados de Allah e os desviados. Não é necessário ir muito longe para compreender que reconhecer Allah como Senhor e Munib, tornar-se exclusivamente Seu servo ou escravo, é precisamente o verdadeiro significado e a exigência inevitável disso. Essa declaração clara está contida na palavra de fé: “la ilaha illallah”. Aqui não se afirmou apenas que Allah deve ser reconhecido como a única divindade; antes disso, foi declarado o repúdio e a eliminação da divindade de tudo o que não seja Allah:
فَمَنْ يُكْفُرْ بِالطَّاغُوتِ وَيُؤْمِنُ بِاللَّهِ فَقَدِ اسْتَمْسَكَ بِالْعُرْوَةِ الْوُثْقَى لا انفِصَامَ لَهَا .
Assim, “aqueles que rejeitam as forças rebeldes contra Deus e professam a fé em Allah agarram-se ao firme sustentáculo, que jamais se romperá”. (Surata Al-Baqarah: 256)
Agarrar-se a esse firme sustentáculo é, na realidade, estabelecer uma relação correta com Allah — aquilo que temos chamado de ubudiyyah.
Como preservar a relação de ubudiyyah
Ao aceitar Allah, o Altíssimo, como Senhor e única divindade, prometemos servir exclusivamente a Ele, submetendo-nos a Ele e devotando-Lhe nossa adoração. Desse modo, Allah, o Altíssimo, comparou a declaração de fé a uma compra e venda. Ele disse:
إِنَّ اللهَ اشْتَرَى مِنَ الْمُؤْمِنِينَ أَنْفُسَهُمْ وَأَمْوَالَهُمْ بِأَنَّ لَهُمُ الْجَنَّةَ . يُقَاتِلُونَ فِي سَبِيلِ اللَّهِ فَيَقْتُلُونَ وَيُقْتَلُونَ * وَعْدًا عَلَيْهِ حَقًّا فِي الثورية وَالْإِنْجِيلِ وَالْقُرْآنِ ، وَمَن أَوْفَى بِعَهْدِهِ مِنَ اللَّهِ فَاسْتَبْشِرُوا بِبَيْعِكُمُ الَّذِي بَايَعْتُمْ بِهِ ،
وَذَلِكَ هُوَ الْفَوْزُ الْعَظِيمُ
“Allah comprou dos que declararam sua fé suas vidas e seus bens em troca do Paraíso. (Agora, sua única tarefa é) seu
lutar no caminho de Allah, dando a vida e tirando vidas. A promessa feita por Allah a esse respeito na Torá, no Evangelho e no Alcorão é igualmente verdadeira e irrevogável. E quem é mais fiel ao cumprimento das promessas do que Allah? Portanto, recebei as boas-novas referentes a este vosso pacto (da parte de Allah). Este é o grande sucesso.” (Surata At-Tawbah: 111)
As características morais dessas pessoas pactuadas são:
التَّائِبُونَ الْعَبدُونَ الْحَمِدُونَ السَّائِحُونَ الرَّكْعُونَ السَّجِدُونَ الأمرون بالمعروفِ وَالنَّاهُونَ عَنِ الْمُنْكَرِ وَالْحَفِظُونَ لِحُدُودِ اللهِ ، وَبَشِّرِ الْمُؤْمِنِينَ ( التويه : (۱۱۲)
“Eles são os que se arrependem, os que adoram, os que louvam Allah, os que viajam pelo caminho de Allah, os que se inclinam e se prostram, os que ordenam o bem e proíbem o mal; sobretudo, os que guardam os limites estabelecidos por Allah. E anuncia as boas-novas aos crentes.” (Surata At-Tawbah: 112) Do mesmo modo, ao falar da chegada do Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), o guia desse caminho e o único mestre exemplar a ser seguido, foi dito:
هُوَ الَّذي أرسل رسوله بالهدى ودين الحقِّ لِيُظْهِرَهُ عَلَى الدِّينِ كُلِّهِ . وَكَفَى بِاللهِ شَهِيدًا وَ مُحَمَّدٌ رَسُولُ اللَّهِ وَالَّذِينَ مَعَهُ أَشِدَّهُ عَلَى الْكُفَّارِ رُحَمَاءُ بَيْنَهُمْ تَرْبَهُمْ رَكَعًا سُجَّدًا يُبْتَغُونَ فَضْلًا مِّنَ اللَّهِ ورضواناً : (الفتح : ۲۸ – (۲۹)
“Allah é Aquele que enviou o Mensageiro com a orientação correta e a verdadeira religião, para que pudesse estabelecê-la vitoriosa sobre todas as religiões. E basta o testemunho de Allah acerca desta grande verdade. Muhammad é o Mensageiro de Allah, e a característica de seus companheiros é que são firmes como um raio diante da descrença e compassivos entre si. Tu os verás inclinando-se e prostrando-se perante Allah. Eles se dedicam a buscar e esforçar-se pela misericórdia e pela satisfação de Allah.” (Surata Al-Fath: 28–29)
À luz das duas passagens mencionadas do Alcorão, podemos determinar tanto a relação correta do servo com Allah quanto encontrar os meios para fortalecer essa relação.
Síntese da primeira passagem
Ao declarar sua fé e aceitar a ubudiyyah de Allah, o ser humano, na realidade, vende a Allah sua vida e seus bens — em outras palavras, entrega-os a Ele. Portanto, segundo as condições dessa venda, para receber de Allah, na Outra Vida, o Paraíso como recompensa, ele não poderá usar sua própria vida, seus próprios bens ou sua própria vontade como bem entender. O verdadeiro dono desta vida e destes bens é Allah. Na realidade, esta vida e estes bens foram dados por Ele. Ao entregá-los a Allah mediante a declaração de fé, eles são devolvidos ao seu verdadeiro Proprietário. Portanto, a partir de agora, ambos só poderão ser usados nas ações que Allah, o Altíssimo, aprova. Allah também explicou com extrema clareza em que ações deseja que sejam usados. Aqueles que, dessa forma, declararam sua fé e venderam a Allah sua vida e seus bens em troca do Paraíso só poderão usá-los de uma única maneira: iniciando a marcha pelo caminho da luta extrema e abnegada pela causa de Allah, sem possibilidade de parar ou retornar. O objetivo final da luta definitiva nesse caminho é extirpar as forças da incredulidade ou perecer.
Síntese da segunda passagem
A verdadeira missão do último Profeta, enviado para cumprir a difícil responsabilidade de libertar as pessoas, de fato, da servidão e da escravidão a outro que não Allah e torná-las servas e escravas de Allah, era estabelecer vitoriosamente a religião de Allah. Na primeira das duas passagens que estamos analisando, depois de definir os crentes, foram descritas suas características e virtudes; da mesma forma, depois de declarar o verdadeiro propósito da vinda do Grande Profeta (que a paz esteja sobre ele), o Alcorão testemunha que o Mensageiro e seus companheiros possuíam as qualidades e virtudes indispensáveis para alcançar esse objetivo.
Nós que desejamos estabelecer uma relação correta com Allah, o Altíssimo e Soberano Proprietário, e desejamos alcançar Sua proximidade, devemos necessariamente adquirir essas qualidades. Assim, à luz das duas passagens, as ações que somos obrigados a realizar para fortalecer nossa relação com Allah ou alcançar Sua proximidade são as seguintes:
Um: devemos tomar medidas práticas para concretizar a declaração do kalimah La ilaha illallah, ou seja, para estabelecer a soberania de Allah. Devemos oferecer o sacrifício de nossas vidas e de nossos bens na luta para tornar vitoriosa a religião de Allah, com o propósito de aplicar as leis, normas e regulamentos de Allah na terra de Allah e na vida das pessoas. Para libertar a sociedade humana da fitnah, devemos empreender simultaneamente o esforço de estabelecer plenamente a religião de Allah e o esforço para eliminar as forças da incredulidade e do taghut.
Dois: aqueles que realizarem esse trabalho deverão possuir simultaneamente duas qualidades opostas ou, em outras palavras, essas características de caráter. Deverão ser firmes e intransigentes diante das forças da incredulidade e do taghut. Mas, uns com os outros e com seus companheiros e amigos, deverão ser compassivos, ternos de coração e sensíveis.
Três: A oração — uma oração excelente — ajudará a estabelecer equilíbrio entre essa firmeza e essa suavidade. Uma atitude humilde perante Allah, que é alcançada por meio da reverência e da prostração sinceras diante de Allah.
Quatro: A motivação para essa reverência, essa prostração e todas as suas atividades e esforços deve ser unicamente alcançar a satisfação de Allah e tornar-se digno de receber somente a misericórdia e a benevolência de Allah.
Cinco: As características desses soldados no caminho de Allah, dessas pessoas dedicadas a uma luta incansável para fazer prevalecer a religião de Allah, manifestar-se-ão por meio de todas as suas atividades. Como alcançar a satisfação e a misericórdia de Allah será o centro de tudo em sua conduta e comportamento, suas mentes e corações estarão sempre ocupados com a lembrança de Allah; eles serão a personificação da verdadeira recordação de Allah. A pureza de suas mentes e corações deixará sua marca em seus rostos e em seu caráter. Por isso, os rostos dessas pessoas de excelente caráter também resplandecerão com a luz da fé e se tornarão radiantes pelo efeito da prostração.
Seis: Aqueles que desejam a satisfação de Allah também devem necessariamente proteger-se da insatisfação de Allah. Ao mesmo tempo que realizam as ações que agradam a Allah, devem esforçar-se para abandonar aquelas que provocam Sua insatisfação. Porém, o ser humano fraco só pode empenhar-se nesse sentido; alcançar o sucesso completo é extremamente difícil. Cometer erros é algo inteiramente natural. Allah é perdoador, Gafur, e misericordioso, Rahim. Ele manteve aberta a porta do arrependimento para que as pessoas se livrassem desses erros. Arrependimento significa retornar. Quando alguém comete um erro num momento de fraqueza, pedir perdão a Allah por esse erro, com remorso e pesar, e retornar ao caminho correto é o que se chama arrependimento verdadeiro. Desfrutar dos frutos do arrependimento dessa maneira só é possível àqueles que se esforçam sinceramente para alcançar a satisfação de Allah e evitar Sua insatisfação, e que examinam a si mesmos para verificar se houve alguma falha ou deficiência nesse esforço. Nas palavras de Hazrat Ali: “Hasebu qabla antuhasebu” — antes de prestarem contas perante Allah, prestem contas a si mesmos. Assim, o arrependimento foi mencionado como a primeira e principal característica daqueles que venderam sua vida e seus bens a Allah e assumiram o compromisso de lutar no caminho de Allah; isso significa que, à luz desse compromisso, eles estão habituados à autocrítica no cumprimento de suas responsabilidades e deveres.
Sete: Aqueles que desejam estabelecer, na vida das pessoas e em toda a terra de Allah, a adoração e a servidão somente a Allah — e desejam eliminar o domínio e a autoridade de outros além de Allah — devem fazer de sua vida pessoal uma personificação da adoração de Allah. Para adquirir a capacidade de adorar continuamente, devem cumprir plenamente os direitos dos atos formais de adoração. Com absoluta sinceridade, realizarão a oração, o zakat, o jejum, o hajj e outras práticas semelhantes, com todo o sentimento, devoção e reverência de seus corações e mentes. Em especial, considerarão a oração como o meio do Miraj, ou de alcançar a proximidade de Allah.
Oito: Eles não se curvarão diante de ninguém da criação; portanto, não darão importância a louvores, elogios ou homenagens de ninguém. Louvarão somente Allah. “Allahu Akbar wa lillahil hamd” será seu refrão diário. Suas mentes e suas línguas estarão ocupadas declarando a santidade de Allah, louvando Allah e proclamando Sua grandeza e soberania. Seus lábios pronunciarão constantemente: “Subhanallahi wal hamdu lillahi la ilaha illallahu Allahu Akbar”; “Allahu Akbar kabira, alhamdu lillahi kathira, subhanallahi bukratan wa asila”; “Subhanallahi wa bihamdihi subhanallahil azim wa bihamdihi astaghfiru”; e outras fórmulas de tasbih.
Nove: Com plena satisfação, farão a reverência e a prostração diante de Allah. O próprio Allah ordenou que se prostrassem diante d’Ele, prostrando-se completamente, para alcançar Sua proximidade. Ele disse: “Prostra-te e alcança a proximidade.”
Dez: Depois de reverenciarem-se e prostrarem-se de todo o coração diante de Allah e alcançarem plena satisfação e paz, essas pessoas não ficam simplesmente sentadas em casa. Não permanecem confinadas entre as quatro paredes da mesquita. Tampouco abandonam a sociedade humana para adotar uma vida de ascetismo em algum ambiente isolado e solitário; pelo contrário, circulam entre as pessoas, na terra de Allah, esforçando-se para estabelecer Sua soberania. Percorrem a terra de Allah para divulgar, expandir e estabelecer a religião de Allah. Ao seguir esse caminho, o apego à vida material não consegue bloquear-lhes o caminho.
Décimo primeiro: assim, eles ordenam aos servos de Allah que cumpram os mandamentos de Allah e os impedem de seguir as forças que se rebelam contra Deus e tudo o que não é Allah. Eles cumprem rigorosamente a difícil responsabilidade de conduzir as pessoas ao caminho reto e de impedi-las de seguir o caminho do erro.
Décimo segundo: a verdadeira identidade deles é a de soldados de Allah. Por isso, no papel de soldados, guardarão os limites estabelecidos por Allah. Para que as pessoas não transgridam os limites que Allah estabeleceu entre o justo e o injusto, entre a verdade e a falsidade, nem os limites do lícito e do ilícito que Allah determinou, aqueles que aceitaram a servidão a Allah deverão desempenhar constantemente o papel de sentinelas vigilantes e incansáveis. Esse trabalho de fiscalização e de guarda, por mais difícil que seja, deve ser necessariamente realizado. Se necessário, será preciso arriscar a própria vida.
Ao cumprirem as responsabilidades difíceis e árduas mencionadas acima, alguns servos de Allah por vezes ficam cansados e exaustos, às vezes encontram obstáculos, às vezes desanimam e, em certos momentos, o desespero e a frustração quase os dominam. É então que, para eles, a palavra de Allah — “Buscai a ajuda de Allah por meio da paciência e da oração” — surge como um néctar de imortalidade. Quão delicioso é, então, ouvir essa palavra e colocá-la em prática; isso não pode ser expresso em palavras. Somente aquele que vive essa experiência pode compreendê-la verdadeiramente.
Os servos de Allah que, por meio de suas obras e de sua atividade prática, alcançam esse nível devem, em determinado momento, abandonar a dependência de tudo o que existe na criação e confiar exclusivamente em Allah. Nesse momento, devem invocar Allah de todo o coração; assim como há prazer nessa invocação, o Grandioso Senhor, Allah, também responde a ela com extrema rapidez. É precisamente ao chegar a um momento e a um nível como esse que vem uma ordem da parte de Allah:
يأَيُّهَا الَّذِينَ آمَنُوا اذْكُرُوا اللهَ ذِكْرًا كَثِيرًا ، وَسَبِّحُوهُ بُكْرَةً وَأَصِيلا هُوَ الَّذِي يُصَلِّي عَلَيْكُمْ وَمَلْئِكَتُهُ لِيُخْرِجَكُمْ مِّنَ الظُّلُمَتِ إِلَى النُّورِ وَكَانَ بِالْمُؤْمِنِينَ رَحِيمًا تَحِيَّتُهُمْ يَوْمَ يَلْقُونَهُ سَلْمٌ ، وَأَعَدَّ لَهُمْ أَجْرًا كَرِيمًا
“Ó vós que credes, lembrai-vos muito de Allah. E glorificai Sua santidade de manhã e ao entardecer, isto é, o tempo todo. Ele derrama misericórdia sobre vós, e Seus anjos suplicam a Allah que derrame misericórdia sobre vós. Assim, Allah deseja conduzir-vos das trevas para a luz. Ele é, sem dúvida, muito Misericordioso para com os crentes.” (Surata Al-Ahzab: 41–44)
Aqui, Allah dirige o olhar de Seus servos acima deste mundo, em direção à Vida Futura. A melhor recompensa por seu esforço e sua luta extenuantes nesta vida é a recompensa da Vida Futura. Portanto, se, devido às adversidades do mundo, alguém não alcançar sucesso material em sua vida, isso não importa. No dia em que obtiverem a proximidade de Allah, contemplarem Allah e comparecerem diante d’Ele, o Proprietário dos céus e da terra, o Senhor do Trono Majestoso, os saudará cordialmente e lhes dará as boas-vindas por meio da saudação de paz. Ali, Ele preparou uma recompensa honrosa para os crentes e para aqueles que preservaram corretamente o padrão da servidão a Allah. Quanto mais intenso for, no coração de uma pessoa, o desejo de obter essa melhor recompensa prometida por Allah para a vida futura — a recompensa da grande honra —, mais fácil se torna para ela cumprir os direitos da servidão a Allah, manter uma relação verdadeira com Allah ignorando todos os tipos de obstáculos, impedimentos e olhares de reprovação do mundo, e fortalecer cada vez mais essa relação.
Dhikr e súplica
O meio mais importante e eficaz de alcançar a proximidade de Allah é o dhikr e a súplica. Allah, o Altíssimo, disse:
فَاذْكُرُونِي أَذْكُرُكُمْ – (البقرة : ١٥٢)
“Lembrai-vos de Mim, e Eu Me lembrarei de vós.”
ادْعُونِي أَسْتَجِبْ لَكُمْ .
“Suplicai a Mim, e Eu responderei à vossa súplica.” (Surata Al-Mu’min: 60)
Na verdade, é quando o servo invoca Allah e obtém a certeza de que receberá uma resposta, e quando Allah também Se lembra de algum de Seus servos, que esse servo se torna capaz de alcançar a proximidade de Allah. Embora o dhikr e a súplica possam parecer, à primeira vista, distintos, na realidade a súplica é apenas uma forma de dhikr. Nesta obra, discutiremos brevemente a importância do dhikr, seu significado e seu método. Além disso, tentaremos discutir, em um capítulo separado, o que é a súplica, seus elementos necessários e seu método, insha’Allah.
A importância do dhikr
1
يأَيُّهَا الَّذِينَ آمَنُوا اذْكُرُوا اللهَ ذِكْرًا كَثِيرًا لَا وَسَبِّحُوهُ بُكْرَةً وأصيلا ا ( الاحزاب : ٤١-٤٢)
“Ó crentes, lembrai-vos muito de Allah. E proclamai Sua santidade pela manhã e ao entardecer.”
2
فَاذْكُرُونِي أَذْكُرْكُمْ وَاشْكُرُولِي وَلَا تَكْفُرُونَ (البقر : ١٥٢)
“Lembrai-vos de Mim, e Eu Me lembrarei de vós. Agradecei-Me e não sejais ingratos.” (Surata Al-Baqarah: 152)
3
واذكر ربك كثيراً وسَبِّحُ بِالْعَشِي وَالإِبكار .
“Lembra-te muito do teu Senhor e proclama Sua santidade pela manhã e ao entardecer.” (Surata Aal Imran: 41)
4
وَاذْكُر ربيكَ فِي نَفْسِكَ تَضَرُّعًا وخيفة ودون الْجَهْرِ مِنَ الْقَوْلِ بِالْغُدُو والا صال ولا تَكُن مِّنَ الفعلين (الاعراف : (٢٠٥)
5
“Lembra-te do teu Senhor interiormente, com fervor e temor, não em voz alta. Faz dhikr dessa forma pela manhã e à tarde. E nunca sejas negligente a esse respeito. (Surata Al-A’raf: 205)
6
واذكر اسم ربك وتبتل إليه تبتيلا (المزمل : (۸)
“Lembra-te do nome do teu Senhor e rompe os vínculos com tudo, estabelecendo vínculo com Ele.” (Surata Al-Muzzammil: 8)
7
وَاذْكُرِ اسْمَ رَبِّكَ بكرة وأصيلام ( الدهر : (٢٥)
“Lembra-te do nome do teu Senhor pela manhã e ao entardecer.”
فَإِذَا قَضَيْتُمُ الصَّلوةَ فَاذْكُرُوا الله قِيَامًا وَقُعُودًا وَعَلَى جُنُوبِكُمْ ،
“Depois, quando tiverdes terminado a oração, lembrai-vos de Allah de pé, sentados e também deitados.” (Surata An-Nisā’: 103)
8
فَاذْكُرُوا أَلَاءَ اللَّهِ وَلَا تَعْثَوْ فِي الْأَرْضِ مُفْسِدِينَ (الاعراف : ٧٤)
“Depois, recordai as bênçãos de Allah. Não causeis corrupção na Terra.” (Surata Al-A‘rāf: 74)
9
خُنُوا مَا أَتَيْنُكُم بِقُوَّةٍ وَذْكُرُوا مَا فِيهِ لَعَلَّكُمْ تَتَّقُونَ (الاعراف : (۱۷۱)
“Apegai-vos firmemente ao que vos trouxemos e recordai tudo o que há nele, para que possais alcançar a salvação.” (Surata Al-A‘raf: 171)
Assim, encontramos mandamentos para fazer dhikr em inúmeras ayat do Alcorão. O Alcorão apresenta a questão do dhikr de tal maneira que parece que o dhikr de Allah é a essência de toda adoração. Allah, o Altíssimo, disse:
أقم الصلوةَ لِذِكْرِى .
“Estabelece a oração para a Minha lembrança.” (Surata Taha: 14)
أقم الصلوة ، إِنَّ الصَّلوةَ تَنْهَى عَنِ الْفَحْشَاءِ وَالْمُنْكَرِ ، وَلَذِكْرُ اللَّهِ أكبر
“Estabelece a oração; certamente, a oração afasta as pessoas da indecência e da maldade, e, sem dúvida, o dhikr de Allah é o assunto mais importante.” (Surata Al-‘Ankabut: 45)
قَدْ أَفْلَحَ مَنْ تَزَكَّى وَذَكَرَ اسْمَ رَبِّهِ فَصَلَّى
“Será bem-sucedido aquele que se empenhar em purificar-se, fizer dhikr do nome de Allah e realizar a oração.” (Surata Al-A‘la: 14–15)
فَإِذَا قُضِيَت الصلوة فَانتَشيرُوا فِي الْأَرْضِ وَابْتَغُوا مِنْ فَضْلِ اللَّهِ وَاذْكُرُوا اللهَ كَثِيرًا –
«Depois da oração, espalhai-vos pela terra de Allah. Buscai a graça de Allah, isto é, o sustento lícito, e mencionai muito Allah.» (Surata al-Jumu‘ah: 10)
Assim, para cumprir devidamente o direito do zikr ao qual Allah Ta‘ala deu tanta importância, é absolutamente indispensável saber bem o que é o zikr e quais são os seus meios e métodos.
O significado do zikr
Literalmente, zikr significa lembrar-se de algo, mas também pode significar descrevê-lo. Podemos chamar de zikr do coração o ato de guardar algo na mente ou lembrar-se disso. E podemos chamar de zikr verbal o ato de falar sobre algo. Ao ordenar a oração de sexta-feira, Allah Ta‘ala diz:
إِذَا نُودِي الصَّلوةِ مِن يَوْمِ الْجُمُعَةِ فَاسْعَوْا إِلَى ذِكْرِ اللهِ .
«Quando, na sexta-feira, se chamar para a oração, acorrei rapidamente para o zikr de Allah.» (Surata al-Jumu‘ah: 9)
Aqui, por zikr entende-se a khutba da sexta-feira, por meio da qual se fazem os fiéis ouvir as palavras de Allah e os Seus mandamentos e preceitos. A khutba é inteiramente um discurso. Allah Ta‘ala também a chamou de zikr.
O zikr de Allah é um termo especial do Alcorão. O Alcorão empregou-o num sentido especial próprio. Se observarmos com profunda atenção os versículos do Alcorão nos quais aparece a palavra zikr, poderemos facilmente compreender esse significado especial.
A primeira exigência do dhikrullah é que o conceito correto sobre a essência, os atributos e os mandamentos e preceitos de Allah se estabeleça profundamente no coração do crente.
A segunda exigência do dhikrullah é que ele discuta verbalmente o conceito correto sobre a essência, os atributos e os mandamentos e preceitos de Allah, já estabelecido em seu coração e em sua mente, para mantê-lo ainda mais firmemente arraigado. Ele também conversará sobre esse assunto para transmitir esse conceito a outras pessoas. A terceira exigência do dhikrullah é que ele conduza sua vida prática à luz desse conceito estabelecido em seu coração e em sua mente.
Dhikr qalbi
Ao declarar nossa fé em Allah no Iman Mujmal, comprometemo-nos a crer em Allah e a obedecer aos Seus mandamentos e preceitos; em essência, isso é uma promessa feita a Allah. Manter sempre presente no coração e na mente essa promessa ou compromisso é chamado de dhikr qalbi, ou dhikr do coração.
No Iman Mujmal, fazemos essencialmente três compromissos.
Primeiro: não sustentamos nenhum conceito diferente daquele que Allah apresentou sobre Sua essência por meio dos profetas e mensageiros, especialmente por meio do último Profeta e do último Livro. Tendo diante de nós a descrição que Ele deu de Sua essência no Alcorão, especialmente na Surata al-Ikhlas, consideramos Sua essência única e incomparável. Cremos também que Ele não depende de ninguém. Ele não nasceu de ninguém, e ninguém nasceu dEle. Ninguém pode ser Seu semelhante.
Segundo: cremos exatamente na descrição que Allah Ta’ala deu de Seus atributos. Cremos também que, assim como não há associado algum em Sua essência, ninguém compartilha de Seus atributos.
Terceiro: como exigência inevitável de uma fé pura e verdadeira na essência e nos atributos de Allah Ta’ala, o compromisso de obedecer a todos os Seus mandamentos e preceitos, às Suas ordens e proibições, exige que mantenhamos a mente e o coração alertas e conscientes sobre o que é uma ordem de Allah e o que é uma proibição. Por isso, assim como devemos suplicar a Allah: “Ó Allah! Concede-nos a capacidade de compreender o que é verdadeiro como verdadeiro e de segui-lo, e concede-nos a capacidade de reconhecer o falso como falso e de rejeitá-lo”, também devemos tomar medidas práticas para conhecer a verdade e a falsidade, e para aceitar ou rejeitar. Desse modo, devemos manter firmemente arraigado e conscientemente presente no coração e na mente o conceito dos mandamentos e preceitos de Allah, isto é, da verdade e da falsidade. Podemos chamar de dhikr do coração, ou dhikr qalbi, o processo e o esforço de manter esses três assuntos despertos dessa maneira no coração e na mente.
Zikr da língua
Para fixar profundamente na mente esses três assuntos ou para ensiná-los a outros servos de Allah, é necessário pronunciá-los, discuti-los e praticá-los. A isso chamaremos de zikr verbal ou zikr da língua.
Zikr prático
Se alguém fixar firmemente no coração, com sinceridade, os assuntos mencionados acima e discuti-los sinceramente com a língua, sua vida prática não poderá seguir o caminho oposto. Mais do que isso, assim como a expressão e a representação positiva da fé do coração se manifestarão em suas palavras, também se manifestarão por meio de todas as atividades, transações, ações e caráter de sua vida prática. A isso podemos chamar de zikr prático ou zikr das ações.
Em outras palavras, podemos também chamar o zikr da língua de testemunho verbal da verdade, e o zikr prático de testemunho real da verdade.
Exemplos dos três níveis do zikr
Manter no coração e na mente a convicção correta sobre a Essência de Allah é o zikr do coração. Declarar essa convicção, isto é, declarar: “Não considero ninguém associado à Essência de Allah”, é o zikr da língua. Na prática, não associar ninguém à Essência de Allah é o zikr prático. Manter a convicção correta sobre os atributos de Allah e não considerar ninguém associado aos Seus atributos é o zikr do coração. Declarar e divulgar verbalmente essa fé e essas convicções é o zikr verbal ou zikr da língua. Viver na prática como seguidor do tawhid puro, sem atribuir participação a ninguém nos atributos de Allah, chama-se zikr prático.
Do mesmo modo, fixar no coração como obedecer a cada mandamento de Allah, quais ações Allah ordenou e quais proibiu, é o zikr do coração. Por exemplo, Allah ordenou que se estabeleça a oração, que se jejue, que se pague a zakat e que se faça o hajj; ordenou que se abandone o álcool, o jogo e os juros; proibiu dar menos no peso; e ordenou que se trate bem os parentes próximos e os vizinhos. Esforçar-se para manter firmemente essas orientações de Allah no coração e na mente é o zikr do coração. Discuti-las verbalmente — para ampliar o próprio conhecimento e entendimento ou para que outros as ouçam e aprendam — chama-se zikr verbal ou zikr da língua. E realizar essas ações na prática chama-se zikr prático ou zikr das ações.
Meios e métodos do dhikr
Há três meios de dhikr de acordo com o método da Sunnah.
(1) Salat
(2) Recitação do Alcorão
(3) Os diversos dhikrs prescritos pela Sunnah e as súplicas ensinadas pelo Profeta (que a paz esteja com ele).
Salat
Na realidade, é a salat que nos incentiva continuamente a cumprir, a todo momento, os três níveis mencionados acima. Sobre o propósito da salat, foi dito na Surata Taha:
أَقِمِ الصَّلوةَ لِذِكْرِي .
“Estabelece a salat para a Minha recordação.” (Surata Taha: 14)
Foi dito na Surata Al-Ankabut:
أقم الصلوةَ إِنَّ الصَّلوةَ تَنْهَى عَنِ الْفَحْشَاءِ وَالْمُنْكَرِ وَلَذِكْرُ اللَّهِ أكبر
“Estabelece a salat; certamente, a salat impede as pessoas de atos obscenos e reprováveis. E, de fato, o dhikr de Allah é o que há de mais grandioso.” (Surata Al-Ankabut: 45)
Na realidade, a salat nos proporciona treinamento nos três tipos de dhikr. Na salat, recitamos algumas súplicas e palavras apenas mentalmente. Com isso, recebemos treinamento no dhikr do coração. Algumas súplicas e palavras pronunciamos em voz audível. Com isso, recebemos treinamento no dhikr da língua, ou dhikr-e-lisani. E, na prática, por meio da salat, sabendo que Allah está presente e nos vê, permanecer diante dEle com reverência, submeter-nos verdadeiramente a Ele por meio do rukū‘ e da prostração, e outras ações semelhantes, tudo isso nos proporciona treinamento no dhikr prático, ou dhikr-e-amali.
Recitação do Alcorão
Depois da salat, o melhor dhikr conforme a Sunnah é a recitação do Alcorão. Um dos nomes do Alcorão é Dhikr. Allah, o Altíssimo, declarou:
إِنَّا نَحْنُ نَزَّلْنَا الذِّكْرَ وَإِنَّا لَهُ لَحَفِظُونَ .
“Eu revelei o Dhikr e Eu mesmo o preservarei.” — (Surata Al-Hijr: 9)
Aqui, por Dhikr entende-se o próprio Alcorão. Junto a isso, a declaração de Allah:
لقَد يَسَّرْنَا الْقُرْآنَ لِلذِّكْرِ فَهَلْ مِنْ مُّدَّكِرٍه
“Certamente, facilitamos o Alcorão para o dhikr (aqui, dhikr significa aceitar a exortação). Portanto, há alguém que possa aceitar a exortação dele?” (Surata Al-Qamar: 22)
A recitação do Alcorão pode ocorrer durante a salat e também fora dela. O Nobre Mensageiro (que a paz esteja com ele) geralmente recitava as suratas mais longas do Alcorão durante a salat at-Tahajjud, no final da noite, e, antes de se deitar, recitava várias suratas curtas, como as incluídas nos juz 27, 28 e 29.
Podemos estabelecer alguma rotina específica para a recitação, conforme nossa conveniência. Também podemos desenvolver o hábito de recitar o Alcorão de Allah a qualquer momento, com ou sem olhar para o texto, durante a salat ou fora dela, sem seguir qualquer rotina específica.
No caso da recitação, assim como é indispensável adquirir a capacidade de recitar corretamente, também é indispensável adquirir a capacidade de compreender seu significado. Na realidade, se recitarmos sem compreender o significado, não será possível obter, por meio dessa recitação, o benefício do dhikr. O Alcorão é dhikr neste sentido: por meio dele, podemos conhecer os mandamentos e proibições de Allah, bem como suas ordens e determinações. Além disso, aprendemos as consequências e os resultados de obedecer ou não a esses mandamentos e proibições. Como poderemos saber disso sem compreender o significado?
Súplica
O terceiro meio de praticar o dhikr é a súplica. O próprio Allah ensinou inúmeras súplicas a Seus servos em Seu Livro, o Alcorão Sagrado, para que Lhe supliquemos usando essa linguagem. Não apenas isso: Ele também nos ordenou que Lhe suplicássemos. Visto que adoração é o cumprimento de Sua ordem, a súplica também é adoração; na verdade, a súplica é consideradaمخ العبادة a essência da adoração.
Assim como Allah ordenou que fizéssemos súplicas e ensinou a linguagem das súplicas, Seu amado Profeta também exortou sua comunidade a suplicar a Allah por qualquer necessidade, juntamente com a salat e a recitação do Alcorão, a fim de alcançar a proximidade de Allah. No que diz respeito à súplica, ele deu importância a suplicar na linguagem do Alcorão e, por ordem do próprio Allah (por meio da revelação não recitada), também ensinou algumas fórmulas de súplica. Além disso, ensinou súplicas e tasbihat específicos para diferentes momentos do dia e da noite e para as diversas atividades, para que pudéssemos permanecer ocupados com o dhikr de Allah em todos os momentos. Se praticarmos essas orientações, poderemos permanecer constantemente ocupados com o dhikr, conforme o desejo de Allah. Poderemos praticar o dhikr de Allah por meio de todas as nossas atividades. Ele expressou o desejo de Allah da seguinte maneira:
الَّذِينَ يَذْكُرُونَ اللَّهَ قِيَامًا وَقُعُودًا وَعَلَى جُنُوبِهِمْ وَيَتَفَكَّرُونَ فِي خَلْقِ السموت والأَرْضِ ، رَبَّنَا مَا خَلَقْتَ هُذَا بَاطِلاً سُبْحَانَكَ فَقِنَا عَذَابٌ النَّارِه
“(Sábios são) aqueles que praticam o dhikr de Allah de pé, sentados e deitados, e refletem sobre os mistérios da criação dos céus e da Terra. (Assim, encontram a prova e a realidade do tawhid e da Vida Futura, e declaram:) Ó nosso Senhor, não criaste nada neste universo sem propósito. Portanto, salva-nos do fogo do Inferno.”
—(Surata Al Imran: 191)
No caso da súplica, três coisas devem ficar claras para aquele que suplica, antes de tudo.
Primeiro: a quem está fazendo a súplica? Ele conhece corretamente Sua identidade, Sua posição e Sua verdadeira capacidade?
Segundo: aquele que suplica tem alguma relação com Aquele a quem dirige sua súplica? Se tem, que tipo de relação é essa?
Terceiro: para que fará a súplica e o que pedirá nela?
Convém observar que, no início desta obra, já apresentamos alguma indicação * sobre este assunto. Na verdade, este mesmo assunto tem sido discutido como o tema central desta obra. Além dos três assuntos mencionados, é preciso conhecer mais três aspectos no caso da súplica. A súplica não é um encantamento que, uma vez recitado, fará com que o objetivo seja alcançado. Pelo contrário, a súplica é uma de nossas principais formas de adoração. Se cumprirmos devidamente o direito que ela possui, não será apenas importante obter aquilo que foi pedido; também será possível agradar a Allah. Por cada palavra da súplica, certamente devem ser registradas recompensas em nosso registro de obras.
No caso da súplica, o primeiro dos três aspectos que desejamos mencionar é que, para obter aquilo pelo qual deseja suplicar a Allah, aquele que suplica deve primeiro tomar uma decisão. Deve fazer um firme propósito em seu coração. O segundo é que deve tomar medidas práticas de acordo com essa decisão e esse propósito. O terceiro é que deve empenhar-se, dentro de suas possibilidades, com o máximo de esforço e dedicação para alcançar aquilo que deseja ou realizar o que pretende. Contudo, para alcançar o sucesso, não confiará em seu próprio esforço, mas na ajuda de Allah. E, ao mesmo tempo que cumpre devidamente seu dever de esforçar-se e empenhar-se, deverá suplicar humildemente a Allah. Com voz profundamente aflita, pedirá a ajuda de Allah e expressará seus desejos e anseios íntimos. Allah declarou ser Sua responsabilidade conduzir à meta aqueles que, desse modo, tomam a decisão e fazem o propósito de realizar uma boa obra, dedicam-se diligentemente a ela e imploram pela ajuda de Allah. A declaração de Allah, o Altíssimo:
وَالَّذِينَ جَاهَدُوا فِينَا لَنَهْدِيَنَّهُمْ سُبُلَنَا .
“Aqueles que se esforçam e lutam em Meu caminho, certamente os guiarei ao Meu caminho.” (Surata Al-Ankabut: 69)
Um dos adab da súplica é que aquele que suplica, tendo diante de si o conhecimento correto de Allah, se entregue a Ele com extrema humildade, temendo o castigo de Allah e esperando Sua misericórdia. Assim como o morto se encontra nas mãos de quem lhe dá o banho fúnebre — sem poder fazer nada por si mesmo, enquanto aquele que lhe dá o banho pode virá-lo e movê-lo para qualquer lado que desejar — o servo deve expor sua impotência diante de Allah da mesma forma e pedir Sua ajuda de todo o coração.
Allah Todo-Poderoso conhece até os desejos secretos de nossos corações. Portanto, não é necessário fazer a súplica em voz muito alta. Não há absolutamente necessidade de gritar repetidamente dessa maneira, pelo menos para fazer Allah ouvir. Contudo, pode-se usar uma voz controlada, audível para si mesmo, a fim de despertar no coração o temor do castigo de Allah e a emoção da esperança em Sua misericórdia. Desse modo, ao menos o significado e a importância das palavras da súplica podem influenciar e produzir efeitos sobre a mente, o coração e até mesmo sobre a vida prática.
Allah, o Senhor dos mundos, é o Criador de todos os seres humanos. Foi Ele quem ensinou a linguagem a todas as pessoas. Portanto, podemos expressar diante dEle o que temos no coração em qualquer idioma. Ele conhece e compreende até mesmo os desejos e anseios não expressos do coração, sem o uso da linguagem falada. Assim, cada pessoa pode suplicar a Allah como quiser e no idioma que quiser. Porém, como não temos conhecimento correto sobre o que será benéfico ou prejudicial para nós, aquilo que consideramos benéfico pode, na realidade, ser prejudicial, e aquilo que consideramos prejudicial pode ser benéfico. Por isso, é absolutamente essencial compreender o que foi dito nas súplicas que Allah e Seu Mensageiro nos ensinaram. Se alguém não conseguir memorizar as súplicas em árabe, certamente também obterá benefício se, mantendo em mente o significado bengali dessas súplicas, pedir a Allah todas essas coisas em seu próprio idioma.
A importância da súplica
Nesta obra, tentaremos mencionar, se Allah quiser, algumas das súplicas ensinadas no Alcorão de Allah e por Seu Mensageiro, juntamente com seus significados. Antes disso, a seguir são mencionados alguns versículos e hadiths sobre a importância da súplica.
Versículos
1
وَقَالَ رَبُّكُمُ ادْعُونِي أَسْتَجِبْ لَكُمْ ، إِنَّ الَّذِينَ يَسْتَكْبِرُونَ عَنْ عِبَادَتِي سَيَدْخُلُونَ جَهَنَّمَ دَاخِرِينَ (المؤمن : (٦٠)
“Vosso Senhor disse: Invocai-Me, e Eu vos responderei. Aqueles que, por orgulho e arrogância, se afastam da Minha adoração, em breve entrarão, com toda certeza, no Inferno, humilhados.”
2
ادْعُوا رَبَّكُمْ تَضَرُّعًا وَخَفِيَةً إِنَّهُ لَا يُحِبُّ الْمُعْتَدِينَ
“Invocai vosso Senhor com humildade e em segredo. Ele não gosta dos transgressores.” (Surata Al-A’raf: 55)
3
وَإِذَا سَأَلَكَ عِبَادِي عَنِّي فَإِنِّي قَرِيبٌ أُجِيبُ دَعْوَةَ الدَّعِ إِذَا دَعَانِ لا فَلْيَسْتَجِيبُوا لِي وَلِيُؤْمِنُوا بِي لَعَلَّهُمْ يَرْشُدُونَ
“Quando Meus servos perguntarem a teu respeito, dize-lhes que, com toda certeza, estou muito próximo deles. Sempre que alguém Me suplica, respondo imediatamente. Portanto, que eles também respondam ao Meu chamado e creiam devidamente em Mim. Dize-lhes isso, para que possam alcançar o destino desejado da orientação.” (Surata Al-Baqarah: 186)
8
وَمَنْ يَعْمَلْ سُوءًا أَوْ يَظْلِمُ نَفْسَهُ ثُمَّ يَسْتَغْفِرِ اللَّهِ يَجِدِ اللَّهَ غَفُورُ رحيمان
“Aqueles que cometem uma má ação ou são injustos consigo mesmos e, depois, pedem perdão a Allah, encontrarão Allah como Perdoador.” (Surata An-Nissá: 110)
Hadith
1
تَضَرَّعُوا إِلَى رَبِّكُمْ وَادْعُوهُ فِي الرِّخَاءِ فَإِنَّ اللَّهَ قَالَ مَنْ دَعَانِي فِي
الرِّخَاءِ أَجَبْتُهُ فِي الشَّدَّةِ وَمَنْ سَأَلَنِي أَعْطَيْتُهُ وَمَنْ تَوَضَعَ لِي رَفْعَتُهُ وَمَنْ تَضَرعَ إِلَى رَحْمَتِهِ وَمَنِ اسْتَغْفَرَ لِي غَفَرْتُ لَهُ (الحديث الربيع)
“Suplicai humildemente ao vosso Senhor; invocai-O nos vossos momentos de prosperidade, pois Allah disse: quem Me invocar em seus momentos de prosperidade, Eu responderei à sua súplica em seus momentos de adversidade. Quem Me pedir, Eu lhe darei. Quem se humilhar diante de Mim, Eu lhe concederei uma posição elevada. E quem Me suplicar humildemente, terei misericórdia dele. E quem Me pedir perdão, Eu o perdoarei.” — (Minhajus Salihin)
2
خَيْرُ الدُّعَاءِ الاسْتِغْفَارُ
“A melhor súplica é o istighfar.” (Bukhari)
3
مَا مِنْ رَجُلٍ يَذْنِبُ ذَنْبًا ثُمَّ يَقُومُ فَيَتَطَهُرُ ثُمَّ يُصَلَّى فَيَسْتَغْفِرُ اللهَ الا غَفَرَ اللهُ ثُمَّ قَرَأَ وَالَّذِينَ إِذَا فَعَلُوا فَاحِشَةً أَوْ ظَلَمُوا أَنْفُسَهُمْ ذَكَرُوا اللَّهَ فَاسْتَغْفَرُوا لِذُنُوا بِهِمْ وَمَن يَغْفِرُ الذُّنُوبَ إِلَّا اللَّهُ وَلَمْ يُصْبَرُوا عَلَى مَا فَعَلُوا وَهُمْ
يَعْلَمُونَ (بخاری)
“Se uma pessoa, depois de cometer um pecado, fizer a ablução, rezar e pedir perdão somente a Allah, então Allah certamente a perdoará. Em seguida, o Mensageiro de Allah recitou do Alcorão este trecho: ‘(Descrição dos habitantes do Paraíso) Quando cometem um ato indecente ou são injustos consigo mesmos, imediatamente se lembram de Allah e pedem-Lhe perdão pelos seus pecados; depois, não repetem conscientemente tais pecados. Pois quem, além de Allah, pode perdoar pecados?'” — (Bukhari)
8
وَعَنْ أَبِي هُرَيْرَةَ رَضِيَ اللهُ عَنْهُ قَالَ سَمِعْتُ رَسُولُ اللَّهِ صَلَّى اللهُ عَلَيْهِ وَسَلَّمَ يَقُولُ : وَاللهِ أَنِّي لا يَسْتَغْفِرُ اللَّهَ وَأَتُوبُ إِلَيْهِ فِي الْيَوْمِ أَكْثَرُ مِنْ سَبْعِينَ مَرَّةً (بخاری)
“Hazrat Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: Ouvi o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) dizer: Juro por Deus que me arrependo e peço perdão a Deus mais de setenta vezes por dia.” (Bukhari)
Súplicas do Alcorão
ربَّنَا آتِنَا فِي الدُّنْيَا حَسَنَةً وَفِي الْآخِرَةِ حَسَنَةً وَقِنَا عَذَابَ النَّارِ
“Ó nosso Senhor, concede-nos o bem nesta vida e o bem na Outra Vida, e salva-nos do fogo do Inferno.” — (Surata Al-Baqara: 201)
رَبَّنَا أَفْرِغْ عَلَيْنَا صَبْرًا وَثَبِّتْ أَقْدَامَنَا وَانْصُرْنَا عَلَى الْقَوْمِ الْكَافِرِينَ *
“Ó nosso Senhor, concede-nos a capacidade de perseverar. Firma os nossos passos e concede-nos a vitória sobre os incrédulos.” — (Surata Al-Baqara: 250)
رَبَّنَا لَا تُؤَاخِذْنَا إِن نَّسِينَا أَوْ أَخْطَانًا ، رَبَّنَا وَلَا تَحْمِلْ عَلَيْنَا إِصْرًا كَمَا حَمَلْتَهُ عَلَى الَّذِينَ مِنْ قَبْلِنَا ، رَبَّنَا وَلَا تُحَمِّلْنَا مَالَا طَاقَةَ لَنَا بِهِ E وَاعْفُ عَنَّا الله وَاغْفِرْ لَنَا الله وَارْحَمْنَا اللهُ أَنْتَ مَوْلُنَا فَانْصُرْنَا عَلَى الْقَوْمِ الْكَفِرِينَ
Ó nosso Senhor, se nos esquecermos ou cometermos algum erro, não nos responsabilizes por isso. Não nos imponhas um fardo pesado (de provação ou castigo), como o que impuseste aos nossos predecessores. E não nos imponhas um fardo que não tenhamos forças para suportar. Perdoa as nossas falhas e erros. Perdoa os nossos pecados. Tem misericórdia de nós. Tu és o nosso Senhor. Concede-nos, portanto, a vitória sobre os incrédulos.” (Surata Al-Baqara: 286)
رَبَّنَا لا تُزِغْ قُلُوبَنَا بَعْدَ إِذْ هَدَيْتَنَا وَهَبْ لَنَا مِنْ لَدُنْكَ رَحْمَةً ، إِنَّكَ أَنْتَ الوهاب
“Ó Senhor, uma vez que nos concedeste a orientação por Tua graça, jamais permitas que nossos corações se desviem do Teu caminho. Derrama sobre nós a Tua misericórdia. Tu és, certamente, o Grandíssimo Doador.”
— (Surata Al Imran: 8)
ربَّنَا اغْفِرْ لَنَا ذُنُوبَنَا وَإِسْرَافَنَا فِي أَمْرِنَا وَثَبِّتْ أَقْدَامَنَا وَانْصُرْنَا عَلَى الْقَوْمِ الْكَفِرِينَ
“Ó nosso Senhor, perdoa os nossos pecados e perdoa também qualquer excesso que tenha ocorrido em nossas ações. Firma os nossos passos e concede-nos a vitória sobre os incrédulos.” (Surata Al Imran: 147)
رَبَّنَا مَا خَلَقْتَ هُذَا بَاطِلاً سُبْحْنَكَ فَقِنَا عَذَابَ النَّارِهِ رَبَّنَا إِنَّكَ مَنْ تُدْخِلِ النَّارَ فَقَدْ أَخْزَيْتَهُ ، وَمَا لِلظَّلِمِينَ مِنْ أَنصَارِهِ رَبَّنَا إِنَّنَا سَمِعْنَا مُنَادِيًا يُنَادِي لِلْإِيمَانِ أَنْ أَمِنُوا بِرَبِّكُمْ فَأَمَنَّا وَرَبَّنَا فَاغْفِرْ لَنَا ذُنُوبَنَا وَكَفَرْعَنا سَيَاتِنَا وَتَوَفَّنَا مَعَ
الأبْرَارِ – رَبَّنَا وَأَتِنَا مَا وَعَدْ تَنَا عَلَى رُسُلِكَ وَلَا تُخْدَنَا يَوْمَ القِيمة ، إِنَّكَ لَا تُخْلِفُ الْمِيعَادَة
“Ó nosso Senhor, não criaste nada deste universo sem propósito. Tu és Sublime e Santíssimo. Portanto, salva-nos do fogo do Inferno. Ó Senhor, aqueles que lançares no Inferno serão certamente humilhados, e naquele dia não haverá qualquer ajudador para os injustos. Ó Senhor, ouvimos um convocador convocar-nos, dizendo: ‘Crede no caminho do vosso Senhor.’ Então cremos. Portanto, ó nosso Senhor, perdoa os nossos pecados, perdoa as nossas falhas e concede-nos a graça de permanecer junto aos Teus servos virtuosos. Ó Senhor, concede-nos aquilo que prometeste dar-nos por meio do Teu Mensageiro e não nos humilhes naquele Dia da Ressurreição. Tu jamais quebras a promessa.” (Surata Al Imran: 191–194)
رَبَّنَا ظَلَمُنَا أَنْفُسَنَا وَإِنْ لَّمْ تَغْفِرْ لَنَا وَتَرْحَمْنَا لَنَكُونَنَّ مِنَ الْخُسِرِينَ
“Ó nosso Senhor, nós realmente cometemos injustiça contra nossos nafs. Se não nos perdoares e não tiveres misericórdia de nós, certamente seremos destruídos.” (Surata Al-A‘raf: 23)
رَبَّنَا اغْفِرْ لَنَا وَلَا خَوَانِنَا الَّذِينَ سَبَقُونَا بِالْإِيْمَانِ وَلَا تَجْعَلْ فِي قُلُوبِنَا غلا لِلَّذِينَ آمَنُوا رَبَّنَا إِنَّكَ رَءُوفٌ رَحِيمٌ
“Ó nosso Senhor, perdoa-nos e perdoa também nossos irmãos que nos precederam na fé. Não permitas que surja em nossos corações qualquer ressentimento ou inveja contra qualquer crente. Tu és, em verdade, o Misericordioso, o Compassivo.” (Surata Al-Hashr: 10)
فاطر السموتِ وَالْأَرْضِ قد أنْتَ وَلِي فِي الدُّنْيَا وَالْآخِرَةِ ، تَوَفَّنِي مُسْلِمًا وَالْحِقْنِي بِالصَّلِحِينَ
“Ó Criador dos céus, da terra e de toda a criação, Tu és meu Senhor nesta vida e na Outra Vida. Concede-me a graça de morrer como muçulmano e inclui-me entre os Teus servos virtuosos.” (Surata Yusuf: 101)
رَبِّ اجْعَلْنِي مُقِيمَ الصَّلوةِ وَمِنْ ذُرِّيَّتِي وَ رَبَّنَا وَتَقَبَّلْ دُعَاءِ
“Ó meu Munīb, faze de mim e de meus filhos pessoas que estabeleçam a oração. Ó Senhor, aceita minha súplica.” — (Surata Ibrahim: 40)
رَبَّنَا اغْفِرْ لِي وَلِوَالِدَى وَلِلْمُؤْمِنِينَ يَوْمَ يَقُومُ الْحِسَابُ
“Ó nosso Senhor, protege-me, aos meus pais e a todos os muçulmanos naquele dia em que todos nós seremos julgados.” (Surata Ibrahim: 41)
رب ارحمهُمَا كَمَا رَبَّيْنِي صَغِيرًا
“Ó Senhor nosso, tem misericórdia dos nossos pais, assim como eles nos criaram com carinho e compaixão quando éramos pequenos.” — (Bani Isra’il: 24)
رَبَّنَا هَبْ لَنَا مِنْ أَزْوَاجِنَا وَذُرِّيَّتِنَا قُرَّةَ أَعْيُنٍ وَاجْعَلْنَا لِلْمُتَّقِينَ إِمَامًا
“Ó nosso Senhor, concede-nos cônjuges e filhos que sejam motivo de alegria para os nossos olhos. E concede a todos nós a capacidade de nos tornarmos exemplos dignos de serem seguidos pelos tementes a Deus.” — (Surata Al-Furqan: 74)
As súplicas do Mensageiro de Allah (que a paz esteja sobre ele)
اللَّهُمَّ لَكَ الْحَمْدُ كُلُّهُ وَلَكَ الْمُلْكُ كُلُّهُ وَلَكَ الْخَلْقُ كُلُّهُ وَإِلَيْكَ يُرْجَعُ الْأَمْرُ كُلُّهُ وَأَعُوذُ بِكَ مِنَ الشَّرِ كُلَّهُ (البيهقي)
“Ó Allah, todos os louvores pertencem a Ti. Toda a soberania pertence a Ti. Tudo retornará novamente a Ti. Busco refúgio em Ti contra a maldade de todas as coisas.” (Al-Bayhaqi)
“Ó Allah, entrego-me a Ti. Creio em Ti e confio somente em Ti. Em todos os assuntos, recorro somente a Ti; em Teu nome luto contra os Teus inimigos. Aceito todas as decisões com base no Livro que Tu revelaste. Portanto, perdoa-me por tudo o que fiz e também por tudo o que não pude fazer. [Ou: perdoa os meus pecados anteriores e posteriores.] Perdoa tudo o que fiz em segredo e tudo o que fiz abertamente. Tu és Aquele que faz avançar e Tu és Aquele que faz recuar. Tu és o meu Deus; não há divindade além de Ti.” Em outra narração, foi relatado: “La hawla wa la quwwata illa billah”. — (Al-Bukhari, Muslim)
اللَّهُمَّ إِنِّي أَسْأَلُكَ الْهُدَى وَالتَّقَى وَالْعَفَافَ وَالْغِنَى (مسلم)
“Ó Allah, peço-Te orientação, taqwa, pureza e autossuficiência.” (Muslim)
-اللَّهُمَّ إِنِّي أَعُوذُبِكَ مِنَ الْعَجْزِ وَالْكَسْلِ وَالْبُخْلِ وَالْهَرَمِ وَعَذَابِ الْقَبْرِ -اللَّهُمَّ آتِ نَفْسِي تَقْوَاهَا وَزَكَهَا أَنْتَ خَيْرُ مَنْ زَكَّهَا أَنْتَ وَلِيُّهَا وَمَوْلاهَا . اللَّهُمَّ إِنِّي أَعُوذُبِكَ مِنْ عِلْمٍ لَا يَنْفَعُ وَمِنْ قَلْبِ لَا يَخْشَعُ وَمِنْ نَفْسٍ لا تَشبَعُ
وَمِنْ دَعْوهِ لَا يَسْتَجَابُ لَهَا – (مسلم)
“Ó Allah, busco refúgio em Ti contra toda incapacidade, preguiça e covardia, contra a avareza e a velhice, e contra o tormento da sepultura. Ó Allah, concede taqwa à minha nafs e purifica-a e aperfeiçoa-a. Certamente, somente Tu podes purificá-la e aperfeiçoá-la da melhor maneira. Ó Allah, busco refúgio em Ti contra o conhecimento que não traz nenhum benefício. Busco refúgio em Ti contra o coração que não Te teme. Busco refúgio em Ti contra a nafs que não se satisfaz. E busco refúgio em Ti contra a súplica que não é aceita diante de Ti.” (Muslim)
اللَّهُمَّ إِنِّي أَسْأَلُكَ عِلْمًا نَافِعًا وَعَمَلاً مُتَقَبِّلاً وَرِزْقًا طَيِّبًا – (احمد)
“Ó Allah, peço-Te conhecimento benéfico, ações aceitas e sustento puro.” (Ahmad)
اللَّهُمَّ انْفَعْنِي بِمَا عَلَّمْتَنِي وَعَلَّمْنِي مَا يَنْفَعْنِي
“Ó Allah, torna benéfico para mim o conhecimento que me concedeste e concede-me o conhecimento que me será benéfico.” — (Tabarani e Tirmizi)
اللَّهُمَّ إِنِّي أَعُوذُبِكَ مِنَ الشَّقَاقِ وَالنِّفَاقِ وَسُوءِ الْأَخْلَاقِ –
“Ó Allah, certamente busco refúgio em Ti contra as calamidades do destino, a hipocrisia e a imoralidade.”
اللَّهُمَّ إِنِّي أَعُوذُبِكَ مِنْ زَوَالِ نِعْمَتِكَ وَتَحْوِلِ عَافِيَتِكَ وَفَجَاءَتْ نِعْمَتُكَ وَجَمِيعُ سَخَطِكَ
“Ó Allah, busco refúgio em Ti contra ser privado das Tuas bênçãos depois de tê-las recebido, contra a perda da segurança e contra toda forma da Tua ira e cólera.”
اللَّهُمَّ الْهِمَنِي رُشْدِي وَأَعِذْنِي مِنْ شَرِّ نَفْسِي – (ترمذی)
“Ó Allah, concede ao meu coração, da Tua parte, conhecimento correto e baseado na orientação, e protege-me do mal do meu nafs.” (Tirmizi)
اللَّهُمْ أَقْسِمْ لَنَا مِنْ خَشْيَتِكَ مَا يَحُول بَينَنَا وَبَيْنَ مَعَاصِيكَ وَمِنْ طَاعَتِكَ مَا تَبْلُغْنَا بِهِ جَنَّتَكَ وَمِنَ الْيَقِينِ مَا تُهَونَ بِهِ عَلَيْنَا مَصَابِبُ الدُّنْيَا وَمَتِّعْنَا بِأَسْمَاعِنَا وَأَبْصَارِنَا وَقُوَّتِنَا مَا أَحْيَيْتَنَا وَاجْعَلْهُ الْوَارِثَ مِنَّا وَاجْعَلْ ثَارَنَا عَلَى مَنْ
ظَلَمَنَا وَانْصُرْنَا عَلَى مَنْ عَادَانَا وَلَا تَجْعَلْ مُصِيبَتَنَا فِي دِينِنَا وَلَا تَجْعَلِ الدُّنْيَا أَكْبَرُ هَمِّنَا وَلَا مَبْلَغَ حِلْمِنَا وَلَا تُسَلِّطْ عَلَيْنَا مَنْ لا يرحمنا – (ترمذی و نسائ)
«Ó Allah, concede-nos um temor de Ti que seja uma barreira entre nós e a desobediência a Ti. Concede-nos uma obediência que nos permita alcançar o Teu Paraíso. Concede-nos uma convicção por meio da qual todas as calamidades se tornem fáceis. Enquanto nos mantiveres vivos, abençoa a força dos nossos olhos, dos nossos ouvidos e dos nossos corpos, e faze disso o nosso legado. Repara aqueles que nos oprimem. Concede-nos vitória sobre aqueles que nos hostilizam. Não nos submetas a nenhuma calamidade no que diz respeito à nossa religião. Não faças do mundo o nosso maior objeto de desejo, nem o objetivo máximo do nosso conhecimento. E não coloques sobre nós uma autoridade que não tenha misericórdia de nós.» (Tirmidhi, Nasa’i)
اللَّهُمَّ أَصْلِحْ لِي دِينِي الَّذِي هُوَ عَصَمْتُ أَمْرِي وَأَصْلِحْ لِي دُنْيَايَ الَّتِي فِيهَا مَعَاشِي وَأَصْلِحْ لِى أُخِرَتِي الَّتِي فِيهَا مَعَادِي وَاجْعَلِ الْحَيَوَاتِي زيادَةُ لِي فِي كُلِّ خَيْرٍ وَاجْعَلِ الْمُوَاشرَاحَةَ لِي مِنْ كُلِّ شَر – (مسلم)
«Ó Allah, aperfeiçoa a minha religião, da qual depende a retidão de todas as minhas ações. Purifica o meu mundo, no qual se encontra o meu sustento e a minha subsistência. E torna segura a minha vida futura, para onde terei de retornar.» (Muslim)
اللَّهُمَّ أَكْفَنِي بِحَلَالِكَ عَنْ حَرَامِكَ وَاغْنَنِي بِفَضْلِكَ عَمَّنْ سَوَاكٍ –
«Ó Allah, faze com que aceitar o que é lícito, abandonando o que declaraste ilícito, seja suficiente para satisfazer as minhas necessidades. E não me faças depender de nada além de Ti.»
اللَّهُمَّ إِنَّا نَجْعَلُكَ فِي نُحُورِهِمْ وَنَعُوذُ بِكَ مِنْ شُرُورِهِمْ .
«Ó Allah, colocamos-Te diante deles e buscamos refúgio em Ti contra o mal deles.»
Algumas súplicas práticas
Súplica antes de dormir:
بِاسْمِكَ اللَّهُمَّ أَحْيَا وَآمُوتُ — “Ó Allah, em Teu nome é minha vida e minha morte.”
Súplica ao deixar o leito:
الْحَمْدُ لِلَّهِ الَّذِي أَحْيَانًا بَعْدَ مَا أَمَاتَنَا وَإِلَيْهِ النُّشُورِ –
“Todo louvor pertence a Allah, que nos dará vida depois da morte. Assim, depois de ressuscitarmos após a morte, teremos de ir até Ele.”
Súplica para urinar e defecar:
اللَّهُمَّ إِنِّي أَعُوذُبِكَ مِنَ الْخُبْثِ وَالْخَبَائِثِ .
“Ó Allah, busco refúgio em Ti contra todo tipo de impureza.”
Súplica antes da refeição:
بسْمِ اللهِ وَعَلَى بَرَاكَاتِ اللهِ .
“Em nome de Allah, buscando a bênção de Allah.”
Súplica após a refeição:
الْحَمْدُ لِلَّهِ الَّذِي أَطْعَمَنَا وَسَقَانَا وَجَعَلْنَا مِنَ الْمُسْلِمِينَ
“Louvado seja Allah, que nos alimentou, nos deu de beber e, acima de tudo, nos incluiu entre os muçulmanos.”
Súplica para viajar em um veículo:
سُبْحَانَ الَّذِي سَخَّرَ لَنَا هُذَا وَمَا كُنَّا لَهُ مُقْرِنِينَ وَإِنَّا إِلَى رَبِّنَا لَمُنْقَلِبُونَ
“Glorificado seja Aquele que submeteu todas essas coisas ao nosso controle. Caso contrário, não teríamos sido capazes de dominá-las. E assim, todos nós somos obrigados a retornar a Ele.”
— (Surata Az-Zukhruf: 13–14)
Súplica para viajar em embarcação:
بِسْمِ اللهِ مَجْرِهَا وَمُرْسَهَا إِنَّ رَبِّي لَغَفُورٌ رَّحِيمٌ
“Em nome de Allah, por cuja ordem ela navega e para. Certamente, meu Senhor é Perdoador.” (Surata Hud: 41)
Assim, todas essas súplicas são significativas e repletas de sentido. Seus efeitos e repercussões na vida prática são de longo alcance. Se forem praticadas e seus significados e implicações interiores forem compreendidos com o coração e a mente, sem dúvida, seremos beneficiados por suas bênçãos.
Purificação da alma e autocrítica
A autocrítica desempenha um papel eficaz e significativo na purificação da alma. Aqueles que seguem o caminho de Allah e do Mensageiro devem cultivar regularmente o hábito da autocrítica, desejando a purificação e o aperfeiçoamento de si mesmos. A autocrítica é, essencialmente, uma preparação antecipada para a prestação de contas e a responsabilidade que teremos diante de Allah no tribunal da Outra Vida. Hadrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) disse:
“Faze tu mesmo a tua prestação de contas antes de prestá-la diante de Allah.” Na vida prática, vemos que, antes de apresentar as contas de uma instituição às autoridades superiores para auditoria, as pessoas sensatas as examinam cuidadosamente por conta própria, para que nenhum erro ou falha seja detectado pelas autoridades superiores. No tribunal da Outra Vida, teremos de apresentar nossas contas diante de um Ser Todo-Poderoso, em cujo tribunal ninguém poderá sequer emitir um som sem a Sua permissão. Para não ficarmos retidos ali por causa das nossas contas, é sinal de sabedoria examinarmos as contas de nossas ações com essa atitude e, na medida de nossas capacidades, remover constantemente nossas falhas e deficiências, esforçando-nos passo a passo para nos tornarmos pessoas dotadas de ações cada vez melhores. Foi dito em um hadith.
الْكَيْسُ مَنْ دَانَ نَفْسَهُ وَعَمِلَ لَمَّا بَعْدَ الْمَوْتِ
“Inteligente é aquele que controla o nafs e age visando o sucesso na vida após a morte.”
Métodos de autocrítica
Podemos avaliar corretamente nossas ações diárias refletindo e fazendo uma revisão, em um determinado momento ao final do dia, sobre as atividades realizadas ao longo das vinte e quatro horas do dia e da noite. Assim, se algum erro ou falha vier à nossa atenção, não devemos nos limitar a sentir arrependimento e remorso por isso; ao contrário, devemos tomar a decisão de evitar erros, falhas ou negligências semelhantes no futuro. Esse é o método regular ou formal da autocrítica.
Além disso, sempre que ocorrer algum erro ou falha em nossas atividades práticas, devemos imediatamente nos arrepender e tomar medidas para corrigi-lo. Podemos considerar isso a forma prática da autocrítica. Além disso, durante o estudo do Alcorão e dos hadiths, podemos fazer uma autocrítica à luz dos trechos lidos. Qual é a minha posição à luz do trecho lido? Quanto estou atrasado no cumprimento de suas exigências? Avaliar isso corretamente e decidir corrigir-me ou aprimorar-me é o que esse tipo de autocrítica exige.
Por exemplo, ao estudar a passagem da Surata Al-Hujurat que proíbe fazer conjecturas, falar mal dos outros ou praticar a maledicência e procurar os defeitos alheios, posso examinar meu próprio registro para verificar se essas falhas existem ou não em mim. Se não existirem, louvado seja Allah. No entanto, é impossível que qualquer ser humano esteja completamente livre de falhas. Se, por enquanto, me parecer que, pelo que sei, não possuo essas falhas, ainda assim devo exercer um pouco mais de pressão sobre mim mesmo, por precaução, para que, caso exista alguma falha da qual eu não tenha consciência, eu possa livrar-me dela.
Da mesma forma, se durante o estudo dos hadiths surgir a discussão sobre os sinais da hipocrisia, devo colocar a mão sobre o peito e interrogar a mim mesmo, consciente de que Allah está presente e testemunha, para que essa falha destruidora nem sequer se aproxime de mim. Da mesma forma, quando vier à tona a discussão sobre os grandes pecados, devemos perguntar ao nosso coração quais deles ainda não conseguimos abandonar. Devemos adotar precauções para o futuro, para que nenhum desses grandes pecados possa nos atingir.
As passagens do Alcorão nas quais são mencionados o Além, o Paraíso e o Inferno, bem como a advertência e o temor provenientes de Allah, podem também influenciar profundamente nossa mente, nosso pensamento e nossa vida prática quando recitamos esses versículos ou suratas durante a oração voluntária nas horas silenciosas da noite.
Para alcançar aquilo que buscamos por meio da autoavaliação, são necessárias a tawba e a muraqaba. Por isso, ao tratar da autoavaliação, queremos também lançar uma breve luz sobre esses dois assuntos.
Tawba
Depois de cometer uma injustiça, arrepender-se, pedir perdão por esse ato, abandoná-lo e retornar às boas ações: isso é chamado de tawba. Allah, o Altíssimo, diz:
إِلَّا مَنْ تَابَ وَآمَنَ وَعَمِلَ عَمَلاً صَالِحًا فَأُولَئِكَ يُبَدِّلُ اللَّهُ سَيِّاتِهِمْ حَسَنَت وَكَانَ اللهُ غَفُورٌ رَحِيمًا ، وَمَنْ تَابَ وَعَمِلَ صَالِحًا فَإِنَّهُ يَتُوبُ إِلَى اللهِ مَتَابًاه ( الفرقان : ۷۰ – ۷۱)
“Mas aqueles que se arrependerem, crerem e praticarem boas ações terão suas más ações transformadas por Allah em boas ações. E o arrependimento daqueles que se arrependem e praticam boas ações perante Allah é o verdadeiro arrependimento.” (Surata Al-Furqan: 70-71)
Aqui, juntamente com a tawba, são mencionados a fé e as boas ações. Disso se compreende que aquele que se arrepende deve renovar sua declaração de fé. E o sinal da autenticidade da tawba é receber a capacidade de praticar boas ações. Na realidade, quando uma pessoa comete um pecado grave, a força da fé nela fica praticamente inoperante. É por isso que aquele que se arrepende deve renovar sua declaração de fé. Está mencionado nos hadiths do Mensageiro: quando o ladrão rouba, ele não permanece crente; quando o adúltero comete adultério, ele não permanece crente. Ou seja, nesse momento, a consciência da fé não permanece ativa nele. No versículo 71 da Surata Al-Furqan, encontramos duas coisas a respeito da tawba. Primeiro, a tawba de uma pessoa é verdadeira quando, depois de se arrepender, ela de fato abandona as más ações e se dedica às boas ações. Segundo, esse comportamento não prova apenas a autenticidade da tawba; é também um sinal de que a tawba foi aceita perante Allah.
Na realidade, é exatamente isso que também buscamos por meio da autoavaliação. Assim, podemos expressar a ideia desta forma: quando alguém faz tawba com uma atitude de autoavaliação e com a determinação de corrigir a si mesmo, essa tawba se torna verdadeira e eficaz. Por outro lado, quando alguém faz autoavaliação com o espírito da tawba, essa autoavaliação se torna verdadeira e capaz de desempenhar um papel eficaz no processo de purificação interior.
Para compreendermos devidamente a importância da tawba, mencionaremos aqui alguns versículos do Alcorão e alguns hadiths do Mensageiro de Allah.
وَتُوبُوا إِلَى اللهِ جَمِيعًا أَيُّهَ الْمُؤْمِنُونَ لَعَلَّكُمْ تُفْلِحُونَ
“Ó crentes, arrependei-vos todos e voltai-vos para Allah, para que possais prosperar.” (Surata An-Nur: 31)
أَفَلا يَتُوبُونَ إِلَى اللهِ وَيَسْتَغْفِرُونَهُ ، وَاللَّهُ غَفُورٌ رَّحِيمٌ
“Por acaso não se voltarão para Allah em arrependimento e não Lhe pedirão perdão por seus pecados? E Allah é Indulgente, Misericordioso.” (Surata Al-Ma’idah: 74)
يكُمْ أَنْ يُكَفِّرَ يَأَيُّهَا الَّذِينَ آمَنُوا تُوبُوا إِلَى اللهِ تَوْبَةً نَصُوحًا ، عَسَى رَبُّكُم ) عَنْكُمْ سَيَأْتِكُمْ وَيُدْخِلَكُمْ جَنَّتِ تَجْرِي مِنْ تَحْتِهَا الْأَنْهُرُ يَوْمَ لا يُخْزِى اللهُ النَّبِي وَالَّذِينَ آمَنُوا مَعَهُ ، نُورَ هُمْ يَسْعَى بَيْنَ أَيْدِيهِمْ وبِأَيْمَانِهِمْ يَقُولُونَ رَبَّنَا
أَتْمِمْ لَنَا نُورَنَا وَاغْفِرْ لَنَا إِنَّكَ عَلَى كُلِّ شي قديره
“Ó crentes, arrependei-vos sinceramente e voltai-vos para Allah. É possível que Allah perdoe vossos pequenos erros e faltas e vos introduza em jardins sob os quais correm rios. Naquele Dia do Juízo, Allah não humilhará o Seu Profeta nem os que creram com ele. Naquele dia, a luz deles se estenderá à sua frente e à sua direita. Eles dirão: Ó nosso Senhor, aperfeiçoa a nossa luz para nós. Certamente, Tu és Onipotente.” — (Surata At-Tahrim: 8)
إِنَّمَا التَّوْبَةُ عَلَى اللَّهِ لِلَّذِينَ يَعْمَلُونَ السُّوءُ بِجَهَالَةٍ ثُمَّ يَتُوبُونَ مِنْ قرِيبٍ فَأَوْلَئِكَ يَتُوبُ اللَّهُ عَلَيْهِمْ ، وَكَانَ اللَّهُ عَلِيمًا حَكِيمًا وَلَيْسَتِ الثوية لِلَّذِينَ يَعْمَلُونَ السَّيَاتِ ، حَتَّى إِذَا حَضَرَ أَحَدَهُمُ الْمَوْتُ قَالَ
إِنِّي تُبْتُ النَّنَ وَلَا الَّذِينَ يَمُوتُونَ وَهُمْ كُفَّارٌ، أَوْلَئِكَ أَعْتَدْنَا لَهُمْ عَذَابًا أَلِيمًا
“Verdadeiro arrependimento perante Allah é o daqueles que, ao cometerem uma má ação por ignorância, arrependem-se imediatamente; Allah aceita o arrependimento deles. Allah é Onisciente e Sapientíssimo. Não há arrependimento para aqueles que continuam praticando más ações incessantemente e, quando a morte chega à sua porta, dizem: ‘Agora me arrependo’. Tampouco se pode chamar de arrependimento o arrependimento daqueles que morrem enquanto estão envolvidos em atos de incredulidade. Para essas pessoas, preparei um castigo severo e doloroso.” (Surata An-Nissá: 17–18)
عَنْ أَسْرَارِ بْنِ يَسَارِ الْمَنَنِي قَالَ قَالَ رَسُولُ اللَّهِ صَلَّى اللَّهُ عَلَيْهِ وَسَلَّمَ يَأَيُّهَا النَّاسُ تُوبُوا إِلى اللهِ وَاسْتَغْفِرُوهُ فَإِنِّي أَتُوبُ الْيَوْمَ مِائَةَ مرة – (مسلم)
Hazrat Asrar ibn Yasar al-Mazani (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “O Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: Ó pessoas, arrependei-vos perante Allah e pedi-Lhe perdão. Certamente, eu me arrependo perante Allah cem vezes por dia.” (Muslim)
عَنْ أَبِي مُوسَى عَبْدِ اللَّهِ بْنِ قَيْسِ الْأَشْعَرِي رَضِيَ اللَّهُ عَنْهُ عَنِ النَّبِيِّ صلَّى اللهُ عَلَيْهِ وَسَلَّمَ قَالَ إِنَّ اللهَ تَعَالَى يَبْسُطُ يَدَهُ بِاللَّيْلِ يَتُوبُ سي النَّهَارِ وَيَبْسُطُ يَدَهُ بِالنَّهَارِ لِيَتُوبَ سِيِّ النَّهَارِ حَتَّى تَطْلَعَ الشَّمْسُ مِنْ
مَغْرِبِها – (مسلم)
“Foi narrado por Hazrat Abu Musa Abdullah ibn Qays al-Ash’ari. O Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: Allah mantém estendida, durante a noite, a mão do perdão para perdoar os pecadores do dia, e durante o dia, a mão do perdão para perdoar os pecadores da noite, até que o sol nasça no Ocidente.” (Muslim)
عَنْ أَبِي عَبْدِ الرَّحْمَنِ عَبْدِ اللَّهِ ابْنِ عُمَرَ بْنِ الخَطَابِ رَض عَنِ النَّبِيِّ صلَّى اللهُ عَلَيْهِ وَسَلَّمَ قَالَ إِنَّ اللَّهَ عَزَّ وَجَلٌ يَقْبُلُ تَوْبَةُ الْعَبْدِ مَالَمُ يُغَرغِرْ – (مسلم)
“Hazrat Abu Abdur-Rahman, Abdullah ibn Umar ibn Khattab, narrou: Ele relatou do Mensageiro (que a paz esteja com ele), dizendo: “Allah, o Altíssimo, aceita o arrependimento de Seu servo até que comece a agonia da morte.” — (Tirmidhi)
Muraqabah
Ar-Raqib é um dos nomes que expressam um dos atributos de Allah. Seu significado é “Aquele que observa”. Ele observa diretamente as ações de cada um de nós. Além disso, Allah, o Altíssimo, designou alguns dos anjos encarregados de registrar nossas obras com o nome de Raqib. Allah, o Altíssimo, diz na Surata Qaf:
إِذْ يَتَلَقَّى الْمُتَلَقِّيْنِ عَنِ الْيَمِينِ وَعَنِ الشَّمَالِ قَعِيدَهُ مَا يَلْفِظُ مِنْ قَوْلِ إِلَّا لَدَيْهِ رَقِيبٌ عَتِيدٌه
“Dois escribas, sentados à sua direita e à sua esquerda, registram tudo. Nenhuma palavra sai de sua boca sem que haja um vigilante atento e consciente presente para registrá-la.” — (Qaf: 17-18)
Aqui, Allah mencionou que anjos foram designados para a vigilância e a observação. Porém, na Surata An-Nissá, Allah, o Altíssimo, referiu-Se a Si mesmo como Raqib, ou seja, Aquele que está sempre observando. Allah, o Altíssimo, diz:
يأَيُّهَا النَّاسُ اتَّقُوا رَبَّكُمُ الَّذِي خَلَقَكُمْ مِنْ نَّفْسٍ وَاحِدَةٍ وَخَلَقَ مِنْهَا زَوْجَهَا وَبَثَّ مِنْهُمَا رِجَالاً كَثِيرًا وَنِسَاءً وَاتَّقُوا اللَّهَ الَّذِي تَسَاءَلُونَ بِهِ وَالْأَرْحَامَ إِنَّ اللَّهَ كَانَ عَلَيْكُمْ رَقِيبًا
“Ó humanidade, temei vosso Senhor, que vos criou de uma única alma. E dela criou, primeiro, sua companheira. Depois, por meio de ambos, espalhou pela terra inúmeros homens e mulheres. Temei Allah, em cujo nome exigis uns dos outros os vossos direitos; e temei romper os laços de parentesco. Certamente, Allah, o Altíssimo, está observando todas as vossas ações.” (Surata An-Nissá: 1)
No árabe moderno, os supervisores de tarefas são chamados muraqib. Podemos dar a este muraqaba o seguinte significado simples e direto: “Allah observa e supervisiona diretamente todas as nossas atividades e também faz com que sejam supervisionadas por anjos. Manter este sentimento desperto e consciente na mente e no coração enquanto realizamos nossas tarefas é a verdadeira muraqaba. Quando essa atitude se estabelece em nós no momento da autocrítica, podemos transformar nossa autocrítica em muraqaba. Em outras palavras, muraqaba não pode ser o nome de uma meditação ou ascese sem sentido, em vez de uma autocrítica feita com o propósito de prestar contas e avaliar nossas ações.”
Ou seja, a verdadeira muraqaba consiste em tentar viver cada momento considerando Allah o supervisor e observador direto de cada ação, de modo que se crie na pessoa a convicção de que Allah Ta’ala está plenamente ciente de tudo o que lhe diz respeito. Ele conhece também todos os seus segredos ocultos e observa todas as suas atividades. Esse estado se estabelece na pessoa por meio da reflexão sobre o poder de Allah e da recordação de Allah com sinceridade e devoção. Contudo, essa recordação não é uma forma inventada pelas pessoas, mas a recordação ensinada pelo Mensageiro de Allah.
O primeiro meio de praticar a recordação ensinada pelo Mensageiro é estabelecer a oração. O segundo é recitar o Alcorão compreendendo-o. O terceiro é criar o hábito de recitar adhkar masnuna e ad’iya ma’thura enquanto se está ocupado com diversas atividades.
Por adhkar masnuna entendem-se as recordações que o Mensageiro de Allah ensinou. Por exemplo, após a oração obrigatória, recitar “Subhanallahi wal amanillahi” e “Allahu Akbar”. Além disso, recitar frequentemente “Subhanallahi wal hamdulillahi la ilaha illallahu Allahu Akbar”. Esses tasbih e tahlil desse tipo são chamados adhkar masnuna.
Ad’iya ma’thura significa as súplicas ensinadas pelo Mensageiro de Allah. “Ad’iya” é o plural de súplica. “Ma’thura” significa aquilo que foi transmitido ou estabelecido por hadith. Por exemplo, o Mensageiro de Allah ensinou súplicas específicas para momentos como antes e depois de comer, antes de dormir, depois de acordar e antes e depois de ir ao banheiro. Além disso, há inúmeras súplicas ensinadas pelo Mensageiro sobre em que língua, quando e como suplicar a Allah para Lhe agradar mais.
Assim, é preciso estabelecer corretamente a oração, recitar devidamente o Alcorão e praticar os adhkar masnuna e as ad’iya ma’thura, criando no coração um estado no qual se sinta Allah sempre como seu raqib, ou observador. Allah diz:
وَمَا تَكُونَ فِي شَانٍ وَمَا تَتْلُومِنْهُ مِنْ قُرْآنٍ وَلَا تَعْمَلُونَ مِنْ عَمَلٍ إِلَّا كُنَّا عَلَيْكُمْ شُهُودًا إِذْ تُفِيضُونَ فِيهِ
“Ó Profeta, qualquer que seja a situação em que estejas e tudo o que recites do Alcorão — e, ó pessoas, tudo o que façais — em todas essas situações Nós vos vemos e observamos. (Surata Yunus: 61)
A declaração do Mensageiro:
أَنْ تَعْبُدُ اللَّهَ كَأَنَّكَ تَرَاهُ فَإِنْ لَّمْ تَكُنْ تَرَاهُ فَإِنَّهُ يَرَاكَ .
“Adora a Allah como se O estivesses a ver, embora não O possas ver. Ele certamente te vê.” (Bukhari e Muslim)
Hazrat Sufyan Thawri disse: “Deves praticar a murāqabah Daquele para Quem nada é oculto. É somente n’Ele que deves depositar as tuas esperanças e expectativas. Ele é o Senhor de toda a realização de esperanças. É somente a Ele que deves temer, pois Ele é o Senhor da punição.”
Hazrat Abdullah ibn Mubarak (que Allah tenha misericórdia dele) disse a um homem: “Pratica a murāqabah de Allah.” Ao ouvir essa instrução, o homem perguntou: “O que é murāqabah?” Em resposta, Hazrat Ibn Mubarak disse: “Vive sempre com o estado interior de quem vê Allah.”
É narrado por Hazrat Abdullah ibn Dinar. Ele disse: “Certo dia, quando parti em direção a Meca com o Amir al-Mu’minin, Hazrat Umar ibn al-Khattab (que Allah esteja satisfeito com ele), encontrámos um pastor de cabras enquanto descansávamos no caminho. O pastor estava a apascentar as cabras na montanha. Hazrat Umar disse ao pastor: ‘Vende-nos uma cabra.’ O pastor respondeu: ‘Sou apenas um servo do proprietário; como poderia vendê-la?’ Então Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: ‘Diz ao teu proprietário que um lobo a comeu.’ O servo respondeu: ‘E onde está Allah?’ Imediatamente, Hazrat Umar começou a chorar. Depois, foi ter com o proprietário daquele servo, comprou-o dele e concedeu-lhe a liberdade.” (Minhaj al-Muslim)
Fim