Primeira edição: palavras do editor

O problema atual do mundo muçulmano é que ele não está sendo governado adequadamente. O mundo muçulmano não é dinâmico. A principal razão é que a liderança do mundo muçulmano não foi capaz de compreender os problemas fundamentais da Ummah. Ela fracassou em elaborar uma estratégia eficaz e adotar um programa que pudesse tirá-la da atual situação de instabilidade. Essa é a situação geral.

Aqueles que trabalham em Bangladesh em nome da reforma e do renascimento fracassaram em atender às aspirações do povo porque não foram capazes de estabelecer prioridades para seu trabalho. A história recente é um exemplo notável disso. Embora seja lamentável, é verdade que aqueles que atualmente lideram Bangladesh não conseguiram construir a base teórica das prioridades de seu trabalho — qual trabalho deve ser realizado primeiro e por quê?

O Islamic Information Bureau Bangladesh é uma instituição privada, autônoma e sem fins lucrativos. O objetivo do Bureau é construir uma base intelectual para a reforma da sociedade. Para esse fim, o Bureau está publicando para os leitores a tradução bengali da obra escrita pelo professor Dr.. Yusuf Al- Qaradawi intitulada Prioridades da do Islâmico Movimento no do Próximo Período — Prioridades do Movimento Islâmico na Próxima Fase. Acreditamos que esta obra será capaz de despertar do sono profundo aqueles que trabalham pela reforma social em Bangladesh e ajudará a promover dinamismo entre eles. Espera-se que o livro inspire os agentes sociais e, ao infundir-lhes novo ânimo, seja capaz de desempenhar o papel de um catalisador ativo na realização da desejada mudança social.

Este importante livro do Dr. Qaradawi foi traduzido pelo proeminente jornalista Muhammad Sanaullah Akhunji a partir da primeira edição, publicada pela Dar al-Nasr, no Cairo. Quando o trabalho de tradução estava prestes a ser concluído, recebemos uma versão revisada e corrigida do livro, publicada pela Awakening Publications, do Reino Unido. Consequentemente, tornou-se necessário reorganizar a tradução para o bengali. Como o Sr. Sanaullah Akhunji, devido às suas diversas ocupações, não pôde dedicar tempo à sua reorganização, revisão e correção, o editor teve de assumir a difícil tarefa de reorganizar e editar o livro. Fui auxiliado nesse trabalho pelo proeminente jornalista Shafik Chowdhury e pelo poeta Omar Bishwas. É necessário mencionar que, se ainda assim permanecer algum erro ou falha na tradução para o bengali, a responsabilidade caberá inteiramente ao editor e ao publicador do livro. Isso porque a tradução para o bengali foi organizada de modo a manter a correspondência com a tradução inglesa revisada, que o Sr. Sanaullah não pôde revisar devido à sua enfermidade física. No caso da tradução dos versículos do Sagrado Alcorão aqui apresentada, não recorremos a nenhuma tradução publicada do Alcorão para o bengali. Em vez disso, os versículos foram traduzidos para o bengali a partir do livro com a tradução inglesa revisada pelo Dr. Qaradawi. Por essa razão, não usamos sinais de “abertura de citação” e “fechamento de citação”. O mesmo se aplica à tradução dos hadiths. O Sr. Shafik Chowdhury traduziu a nota introdutória do livro, a nota do editor da edição inglesa e o prefácio do autor. O poeta Omar Bishwas traduziu a apresentação do autor e a nota do editor.

O eminente pesquisador Mohammad Abdul Mannan forneceu o livro publicado no Cairo, graças ao que pudemos iniciar o trabalho de tradução. O Sr. Shah Abdul Hannan nos entregou a edição revisada do livro publicada no Reino Unido. Isso facilitou a revisão, correção e reorganização do livro. Somos gratos a ambos. A nosso pedido, [email protected] enviou uma breve apresentação do Dr. Qaradawi. Por isso, também somos gratos a www.islamonline.net. Agradecemos ao Sr. Shafik Chowdhury e ao poeta Omar Bishwas pela assistência voluntária na reorganização e edição do livro. O poeta Omar Bishwas realizou, como prova de seu carinho, a árdua tarefa de revisar as provas do livro. É digno de nota que, salvo uma ou duas exceções, procurou-se seguir, tanto quanto possível, o “Dicionário de Ortografia do Bengali”, da Academia Bengali, quanto às normas ortográficas do livro. O querido Ahmad Hossain Manik dedicou um tempo precioso ao livro. Acima de tudo, o Sr. Sanaullah Akhunji nos presenteou com uma bela tradução do livro. Sou devedor a todos eles.

Em maio de 1995, o Islamic Information Bureau Bangladesh Dr.. Ismail Raji al Faruqi escreveu a obra Conhecimento: formulação islâmica e a publicou. Meu ilustre amigo Mahbubul Haq providenciou, a meu pedido, a tradução deste livro. Sua importante contribuição para a tradução do livro é inegável. Sou especialmente devedor ao Sr. Mahbubul Haq por me dar a oportunidade de publicar esta obra notável do Dr. Ismail Raji al-Faruqi. O querido Ata Sarkar valorizou este livro por meio da supervisão geral da publicação. Embora tardiamente, reconheço minha dívida para com eles.

Shah Abdul Halim

Presidente

Gabinete de Informação Islâmica de Bangladesh

Palavras introdutórias

O jovem e promissor Hasan al-Banna realizou um trabalho importante ao produzir, em sua língua materna, o inglês, uma tradução revisada do livro «As prioridades do movimento islâmico na fase vindoura». A importância da tradução inglesa deste livro deve-se ao seguinte:

1. Contemporânea fiqh

Os jovens muçulmanos instruídos precisam de uma fiqh contemporânea, especialmente aqueles que vivem no Ocidente. Muitos deles estão adotando diversas orientações. Entre elas estão o extremismo, a fitna ou doutrinas equivocadas, a tendência a declarar os outros incrédulos e uma atitude inflexível. Eles tratam os demais muçulmanos com rudeza. Demonstram hostilidade para com as pessoas do país onde vivem, embora ali sejam uma minoria vulnerável. Foram abandonados por sua própria pátria. Muitos foram expulsos de seus países de origem. Além disso, os governos de seus países de origem incitam os governos ocidentais contra eles. Apesar disso, os governos ocidentais, além de lhes oferecerem refúgio, concederam-lhes diversos benefícios sociais. Ali, eles tiveram a oportunidade de estudar, fazer negócios e construir mesquitas, centros comunitários e escolas.

Essas pessoas deveriam ser gratas àqueles que as acolheram. Está mencionado no Alcorão: “Qual pode ser a recompensa do bem, senão a melhor recompensa? ”(Surata Ar Rahman: 60). Esse tipo de afirmação também é mencionado nos hadiths: “Quem não agradece às pessoas não agradece a Deus.” Em vez disso, elas são influenciadas pela literatura produzida nos países muçulmanos onde o Islã está estabelecido há vários séculos. Quando surgem desvios e confusão, os eruditos e pregadores islâmicos se opõem a eles com críticas severas e linguagem condenatória, convocando-os a retornar às raízes puras.

Esse tipo de convocação e esses livros são importados dos países muçulmanos onde os eruditos e pregadores da religião tiveram uma experiência aterrorizante ao se posicionarem contra governantes autocráticos e ditatoriais. Isso deu origem a um pensamento islâmico desequilibrado, cuja base era o isolamento da sociedade e declarar alguém um kafir. Chegava-se até a criar conflitos entre o governante e a sociedade e a suspeitar de qualquer convocação ao diálogo ou à liberdade. Essa literatura foi importada para o Ocidente a partir de seu ambiente original. Nesse caso, o princípio fundamental do fiqh não foi de modo algum considerado: as fatwas variam conforme o lugar, o tempo e as circunstâncias. Também não se levou em consideração a atual situação de fraqueza dos muçulmanos.

Quando o mundo inteiro os rejeitava, que sabedoria e propósito poderiam existir por trás da criação de hostilidade contra os governos que permitiam a realização de atividades de da‘wa e ofereciam aos pregadores da religião diversas oportunidades, liberdade e dignidade? Quando os governos muçulmanos fracassaram na restauração do Estado islâmico, que justificativa poderia haver para impor essa responsabilidade às minorias que vivem no Ocidente e enfrentam a ameaça do racismo? Que benefício haveria em envolver essas minorias nas divisões entre os diversos grupos muçulmanos, quando essas divergências não têm qualquer relação com o Islã? Além disso, nunca houve consenso entre os eruditos da ummah sobre declarar kafir qualquer grupo muçulmano específico.

Não há explicação para as questões originadas da ignorância mencionada acima. O Dr. Qaradawi apresentou em seu livro um relato detalhado delas e traçou as linhas gerais do fiqh das prioridades, do fiqh do equilíbrio e do fiqh da realidade.

2.Fiqh da ação Fiqh

Este livro representa um novo horizonte no campo do pensamento islâmico, embora o Dr. Qaradawi tenha reunido seu material a partir do Alcorão Sagrado, da sunna, da tradição dos califas corretamente guiados, dos eruditos do fiqh e dos reformadores religioso-espirituais.

Ainda assim, é verdade que, antes do Dr. Qaradawi, ninguém havia conseguido relacionar com êxito todos os temas reunidos à realidade, organizando-os. Ele analisou nossos problemas atuais sob diferentes perspectivas e também encontrou suas soluções. Fez isso por meio de explicações precisas e de uma análise lógica e profunda.

Assim como o livro de Shaykh Muhammad al-Ghazali, esta obra é fruto do esforço dedicado do Dr. Qaradawi. Nela, ele avaliou e analisou o movimento islâmico contemporâneo. Expôs as causas fundamentais das enfermidades do movimento e indicou caminhos para solucioná-las. Ele também discutiu essas questões em vários de seus livros, entre os quais estão: “O Fenômeno do Extremismo no Takfir”, “O Despertar Islâmico entre a Rejeição e o Extremismo” e “Onde está o erro”.

Além disso, este livro delineia perspectivas e métodos islâmicos alternativos. Por outro lado, os livros anteriores abordaram amplamente questões de análise, crítica e avaliação. Sua contribuição para desenvolver e introduzir novos usul, ou princípios fundamentais, o ativismo no Islã, o fiqh, o fiqh da realidade vivida, a necessidade do fiqh religioso e os métodos para sua implementação é louvável.

Na verdade, a escassez de literatura islâmica é uma das principais causas da situação atual do Islã. Foram escritas muitas obras sobre a da’wah islâmica, repletas de argumentos irreais e desvinculadas da natureza dos problemas e dos contextos contemporâneos. O que os predecessores nos legaram é tratado como a palavra final, sem qualquer possibilidade de desenvolvimento, inovação ou renovação. Ideias e práticas provenientes de diferentes ambientes islâmicos também geraram debates semelhantes nos círculos islâmicos do Ocidente. Como resultado, surgiu confusão sobre o que é específico e imutável e o que é indefinido e passível de mudança. Essas discussões inúteis não trouxeram benefício algum. O objetivo deste livro é corrigir essas confusões, demonstrando que o Islã e sua tradição enfrentam, compreendem e transformam a realidade de maneira racional, por meio de uma abordagem prática.

3. erudição do autor

Não seria exagero mencionar o Dr. Yusuf al-Qaradawi como uma das principais figuras do pensamento intelectual islâmico e da da’wah na época contemporânea. Isso se deve ao seguinte:

a. Seu método moderado e seu apelo moderno e equilibrado. Ele adotou uma posição intermediária entre a imitação cega de um madhhab específico, rejeitando todos os demais madhhabs, e a rejeição de todos os madhhabs. Da mesma forma, adotou uma posição intermediária entre o sufismo desviado e inovador, por um lado, e os que se opõem ao sufismo dos sufis guiados pelo caminho da verdade; entre os que se opõem à revelação, embora sejam orientados pela razão, e os que se opõem ao papel da razão na compreensão da revelação. Assim, o madhhab da moderação real prevalece sobre a ummah, enquanto todas as formas de extremismo perdem importância.

b. Ele possui um conhecimento amplo e abrangente do Islã. Não limitou suas contribuições intelectuais a um único campo. Escreveu tanto sobre a aqidah quanto sobre o fiqh da adoração e o fiqh da realidade. Não escreve apenas sobre esses campos, mas também sobre muitos outros. Produziu numerosas obras sobre o fiqh do Alcorão e da Sunnah, bem como sobre o fiqh da realidade e de sua aplicação.

Ele não se desviou do caminho dos grandes eruditos mencionados na história do Islã. Avalia e analisa tudo à luz do Alcorão e da Sunnah e rejeita aquilo que lhes é contrário. Não pertence aos imitadores cegos de nenhum madhhab, mas tampouco defende a rejeição da rica tradição islâmica. Suas declarações e orientações são muito claras. Seu coração está repleto do temor e do amor de Allah. É salafi como Ibn al-Qayyim, um grande escritor e poeta como o erudito sufi Imam al-Shafi’i, e um estudioso profundamente versado nas questões contemporâneas como o Imam Ibn Taymiyyah.

c. Sua profunda convicção de que o Islã não é apenas uma crença religiosa, mas também uma estrutura, organização, movimento e luta indispensáveis — convicção que, quando jovem, o ligou à maior e mais antiga organização islâmica contemporânea, a Irmandade Muçulmana. Por causa do movimento, ele foi levado a julgamento e encarcerado. Pela misericórdia de Allah, demonstrou extrema paciência até o término de seu período de prisão.

Apesar disso, ele viajou do Oriente ao Ocidente levando a bandeira de sua missão islâmica, embora já tenha mais de 70 anos. Que Allah derrame Sua misericórdia sobre ele e lhe conceda uma vida longa. Foram justamente essas viagens por todo o mundo que o tornaram conhecido e próximo dos pensadores muçulmanos contemporâneos, dos povos muçulmanos, dos movimentos juvenis muçulmanos e de seus companheiros e aliados.

Ele preside muitos conselhos de fatwas na Europa e na América. Ao mesmo tempo, é fundador de numerosos conselhos de fiqh, universidades e instituições de pesquisa contemporâneos, estando ativamente envolvido em suas atividades. Ele próprio acredita no pensamento livre e convoca à prática do pensamento livre no campo do pensamento islâmico contemporâneo. Participando de debates e diálogos intermazhab em diversos fóruns — islâmicos e seculares, muçulmanos e cristãos, nacionalistas árabes e institutos islâmicos —, tornou-se amplamente conhecido.

De fato, o esforço de tradução do jovem Hasan al-Banna é digno de elogio. Ele apresentou o Dr. Yusuf al-Qaradawi aos leitores de língua inglesa.

Como reconhecimento dessa grande contribuição ao Islã e aos muçulmanos no Ocidente, que Allah recompense o Professor Dr. Yusuf al-Qaradawi e S. M. Hasan al-Banna pela tradução para o inglês. Amém.

Xeique Rachid Ghannouchi

Presidente

Partido Ennahda, Tunísia

Abril de 2000

Edição inglesa do editor — palavras

Infelizmente, o século XX não chegou a testemunhar o restabelecimento do sistema islâmico de califado. Apesar disso, pode-se afirmar inequivocamente que se criaram condições para o surgimento de um renascimento e de uma revitalização islâmicos. Entre muitos, especialmente entre os instruídos e os jovens, despertou-se a consciência de que o Islã é um sistema de vida abrangente, que guiará as pessoas, de fato, pelo caminho da felicidade nesta vida e na vida futura.

A situação atual da ummah muçulmana é tal que ela precisa enfrentar muitos desafios internos e externos. Hoje, a civilização islâmica e outros assuntos intimamente ligados a ela estão diante de um processo de decadência. Como resultado, surgiram muitas doenças e problemas.

O fracasso em compreender que o Islã é um sistema de vida completo tornou-se hoje algo comum no pensamento muçulmano. Pessoas desse tipo pensam que o Islã pode adaptar-se completamente ao secularismo. Por outro lado, há aqueles que são inteiramente sinceros no trabalho da da‘wah islâmica, mas que, ao compreender e aplicar o Islã, são extremistas — ou arrogantes e desdenhosos. Muitos também não compreendem que problemas abrangentes exigem soluções abrangentes. Outros têm grandes esperanças e objetivos elevadíssimos, mas não possuem a capacidade intelectual necessária para concretizar essas esperanças e sonhos.

Além disso, muitos movimentos islâmicos começaram com o objetivo de corrigir as falhas e deficiências da situação atual e restabelecer a sociedade tão desejada e longamente esperada, na qual Allah pudesse ser, de modo abrangente, o único adorado. Observa-se que movimentos desse tipo se desenvolvem inicialmente e conquistam a ampla confiança do povo. Mas, em pouco tempo, caem num estado de estagnação. É justamente esse período que estamos atravessando agora. Porém, embora seja lamentável, é verdade que o movimento islâmico também foi contaminado por todas as falhas e problemas que afligem a ummah muçulmana.

Então, a pergunta é: por onde começaremos? Em que consiste nossa deficiência? O que devemos fazer? Como devemos fazê-lo? Compreendemos claramente a natureza da da‘wah, do movimento (harakah) e da reforma (islah)? Que método devemos aplicar? Como devemos lidar com as diferentes partes da sociedade? Quais são as prioridades do movimento islâmico? Tendo essas perguntas em mente, o professor Dr. Yusuf al-Qaradawi escreveu este livro.

Pela misericórdia de Allah, o Dr. Qaradawi é um dos poucos eruditos vivos versados na ciência do fiqh. Ele conseguiu apresentar decisões e opiniões modernas equilibradas, conciliando aqueles que representam a modernidade com os antigos que representam o tradicionalismo. Sua ampla experiência e seu rico conhecimento trouxeram benefícios à ummah.

O Dr. Qaradawi está sempre refletindo sobre os problemas, as possibilidades e o avanço do movimento islâmico. Quando se considera capaz de oferecer conselho ou orientação sobre qualquer questão do movimento, ele o faz sem hesitação.

Este livro nasceu de sua vasta experiência no campo da da’wah e do movimento islâmico. Dele devem ser extraídos não apenas conselhos, mas também orientações. Pois vivemos em uma época em que todos têm opiniões e perspectivas, mas apenas um pequeno número de pessoas possui a capacidade de oferecer orientação.

O livro original foi escrito em árabe. Dez edições já foram publicadas. Poucos meses após a publicação do livro, foi lançada uma primeira edição em inglês. Contudo, ela era incompleta. Por isso, sentiu-se a necessidade de uma tradução revisada para o inglês, mais próxima do conteúdo subjacente da obra original em árabe.

Expresso minha profunda gratidão ao ilustre professor, Shaykh Rashid Ghannouchi, por ter concordado em escrever a introdução desta nova edição em inglês. O Dr. Kamal Hilbawi ofereceu valiosos conselhos e sugestões — sou-lhe grato. Yusra Ghannouchi ajudou de várias maneiras, inclusive com a tradução da introdução. Que Allah a recompense por essa colaboração. Além disso, foi graças à colaboração de Wali, Umar, Nadim, Bara, Sahera e de muitas outras pessoas que foi possível publicar o livro. Que Allah recompense todos eles.

Por fim, recordo com gratidão meu respeitado pai, Hafiz Abdul Qadir, e os demais professores que me ensinaram a língua do Alcorão. Pude compreender que a verdadeira beleza do Islã só pode ser apreciada por meio da língua árabe.

Que Allah nos mantenha firmes neste mundo no caminho indicado por Allah e por Seu Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), e com o objetivo de restabelecer a soberania de Allah.

S M Hassan al Banna

Londres, Reino Unido.

Abril de 2000

do autor Prefácio

Todo louvor pertence ao Deus Todo-Poderoso, por cuja misericórdia toda boa ação produz frutos; e que a paz seja derramada sobre o Seu Profeta enviado, sua família e seus seguidores.

Foi uma felicidade para mim ter encontrado o autor Muhammad al-Hashimi al-Hamidi, quando participei, no inverno de dezembro de 1989, do congresso anual da Associação da Juventude Árabe Muçulmana da América do Norte. Foi ali que ele me falou do Center for Studies on Islamic Future. Este centro foi fundado por iniciativa de um grupo de pensadores muçulmanos. Ele me pediu que colaborasse com o centro e lhe desse meu apoio.

Ele conversou comigo sobre a organização, por iniciativa do centro, de um simpósio dedicado a questões relacionadas ao bem e ao mal que o futuro do Islã envolve, mencionando também os temas a serem discutidos e os nomes dos participantes. Quando me pediu minha opinião a esse respeito, acolhi a iniciativa do centro e a realização do simpósio, oferecendo os conselhos que estavam ao meu alcance. Ainda assim, ele queria de mim um compromisso claro de participação ativa nessa iniciativa. Para tornar sua proposta mais atraente para mim, disse: “Realizaremos o simpósio em um país de que você gosta — e esse país é a Argélia.” Pediu-me que me concentrasse na redação de um artigo sobre as prioridades do movimento islâmico nas próximas três décadas, para ser apresentado no simpósio. Ao perceber seu interesse por minhas reflexões sobre a definição das prioridades do movimento islâmico, ele determinou esse tema. Concentrei minhas reflexões nesse ramo do fiqh e mantive muitas conversas e discussões a esse respeito. Trata-se de um tema que me interessa, com o objetivo de conduzir o movimento islâmico pelo caminho correto e demonstrar a legitimidade do renascimento islâmico. É um tema tão significativo que peço a ajuda de Allah para poder apresentá-lo devidamente, depois de refletir profundamente sobre ele. As circunstâncias eram tais que eu não tinha alternativa senão aceitar o convite dos organizadores do simpósio. O tema da discussão, a pessoa que me convidou, os participantes e o local do evento — todos esses elementos não apenas me inspiraram, mas também me obrigaram a aceitar o convite.

Naquela época, precisei viajar repetidamente, o que prejudicou minhas reflexões e meu trabalho de pesquisa. Buscando a ajuda de Allah, concentrei-me na redação do artigo.

Este livro é o fruto desse trabalho de pesquisa. Espero que o raio de luz nele contido possa ser tênue, mas que, ainda assim, nos mostre o caminho correto. Já é suficiente, porém, que tenhamos conseguido elevar o tema ao nível da pesquisa e da discussão. Mesmo que isso não aconteça, ao menos servirá de inspiração. Tudo o que escrevi aqui é um acréscimo e uma continuação de minhas obras anteriores — livros, artigos e ensaios, entre outros escritos — sobre o movimento islâmico em particular e o renascimento islâmico em geral.

A diferença entre movimento e renascimento é que um movimento representa um grupo organizado, ou grupos organizados, com metas e objetivos definidos e um plano de ação claro. O renascimento, por sua vez, é uma corrente abrangente que envolve indivíduos e coletividades, tanto organizados quanto não organizados. O renascimento é uma maré que fortalece e aguça o movimento. O movimento, por outro lado, é um viático que orienta o renascimento no caminho correto. Existe entre ambos uma relação de ação e reação. Como dizem os racionalistas, ela se manifesta entre a universalidade absoluta, a absolute generality, e a particularidade absoluta, a absolute particularity. Todo movimento é renascimento, mas nem todo renascimento é movimento. Portanto, em relação aos seus objetivos, o renascimento é mais amplo e abrangente que o movimento.

Neste contexto, quero chamar a atenção para uma questão importante. Sempre que falo de movimento islâmico, refiro-me ao movimento islâmico abrangente, e não a um tipo específico de organização ou movimento. Naturalmente, na maioria dos casos, mencionarei como exemplo a Irmandade Muçulmana. Isso porque foi dentro desse movimento que tive a oportunidade de me formar. Adquiri experiência por meio das diversas vicissitudes desse movimento e testemunhei o curso dos acontecimentos ao longo de quase meio século.

Escolhi para este livro o título “Prioridades do Movimento Islâmico na Próxima Fase”. Conforme solicitado, não limitei o conteúdo da discussão a três décadas. Nesta era de rápidas transformações, não vejo razão para uma discussão limitada a um período tão específico.

Professor Dr.. Yusuf R. Qaradawi

Doha, Catar.

Abril de 1990

 

PrimeiroCapítulo

Movimento Islâmico: Introdução

Definição do Movimento Islâmico

O movimento islâmico significa um esforço coletivo organizado pelo povo que busca restabelecer o Islã como força motriz na liderança da sociedade e em todos os aspectos da vida.

Antes de tudo, o movimento islâmico é uma atividade, um esforço contínuo e árduo. Esse trabalho não consiste apenas em belas palavras, discursos e declarações ou na redação de livros. Tudo isso é certamente necessário, mas constitui apenas uma parte do movimento — não é o movimento em si. O Todo-Poderoso Allah disse: E dize: “Agi, pois Allah, Seu Mensageiro e os crentes observarão as vossas ações.” (Surata At-Tawbah: 105)

O movimento é o esforço do povo em ação

O movimento islâmico consiste nos esforços empreendidos por iniciativa própria pelas grandes massas populares, especialmente pelas pessoas, com base numa fé profunda. A fé é a base desse esforço, e ele é realizado para buscar a satisfação de Allah, na esperança de receber recompensa somente de Allah, e não de qualquer ser humano. Quando um muçulmano se conscientiza do renascimento islâmico, sente dentro de si motivação, entusiasmo e fervor. Quando um muçulmano percebe uma incompatibilidade entre sua fé, por um lado, e a realidade ao seu redor, por outro, isso provoca uma profunda agitação em seu coração. É dessa inquietação interior que nasce nele a iniciativa própria.

Diante dessa compreensão, movido por seu amor à religião, por sua fé em Allah, em Seu Mensageiro e no Alcorão, por sua compaixão pela ummah muçulmana e pela dor causada pela negligência dele próprio e de seu povo no cumprimento dos deveres, ele se lança espontaneamente ao movimento. Assim, é impelido, com profundo interesse, a cumprir os deveres, extirpar as fraquezas, contribuir para o esforço de restabelecer os deveres obrigatórios negligenciados, tendo em vista a implementação da Shariah concedida por Allah, unir a ummah muçulmana sob a sombra do Alcorão, apoiar os amigos de Allah, lutar contra os inimigos de Allah, recuperar os territórios muçulmanos de toda agressão ou controle não muçulmano, restabelecer novamente o sistema do califado conforme as exigências da Shariah, renovar o compromisso de cumprir o dever obrigatório de propagar o chamado do Islã, ordenar o bem e proibir o mal, e prosseguir no jihad no caminho de Allah por meio das palavras, das ações ou, no mínimo, do coração. Ele se dedica a essas lutas para que a Palavra de Allah seja elevada acima de tudo em todos os níveis da vida.

Governamental trabalho insuficiência

Na verdade, o movimento islâmico se estabelece somente por meio de atividades conduzidas com o objetivo exclusivo de alcançar a satisfação de Allah. A formação, sob a supervisão do Ministério do Waqf, de conselhos, altas assembleias, associações ou sindicatos para administrar atividades governamentais ou semigovernamentais, isto é, atividades islâmicas, ou a criação de qualquer órgão governamental para trabalhar vigorosamente em defesa dos interesses do Islã, depende do interesse e do entusiasmo das pessoas nomeadas para esses trabalhos nos órgãos governamentais. O resultado do trabalho islâmico também depende do grau de devoção à religião, em comparação com o apego à vida terrena, tanto dessas pessoas quanto daqueles que as nomeiam para tais cargos.

De qualquer modo, as atividades dessas instituições governamentais e semigovernamentais são sempre insuficientes e deficientes em vários aspectos. Por exemplo:

1. Essas atividades próprias são conduzidas dentro dos limites da política estatal. Isso porque é o próprio governo que as cria e financia. Por serem obrigadas a permanecer fiéis à política em questão, essas instituições não podem trabalhar de acordo com sua vontade e seus planos. Por isso, na medida em que defendem os interesses daquele Estado específico, não representam na mesma proporção os interesses do Islã e da ummah muçulmana em geral.

2. Na maioria dos casos, essas instituições não são dirigidas por pessoas experientes e testadas — pessoas que adquiriram competência no campo em questão por meio da luta e do esforço do movimento e foram testadas diretamente no terreno. Pelo contrário, são dirigidas por pessoas que apoiam o financiamento estatal. Para satisfazer suas próprias cobiças ou por medo, esse tipo de pessoa dedica-se a bajular o aparelho de Estado. Essas pessoas não conseguem desobedecer às ordens do Estado, nem têm capacidade de dizer “por quê” ou “não” em qualquer questão; a maioria delas costuma ter esse caráter. Por outro lado, entre os funcionários públicos, há alguns que, em muitos casos, trabalham melhor do que os militantes do movimento islâmico não governamental. Isso porque se dedicam espontaneamente ao serviço do Islã como parte de seu esforço de toda a vida para obedecer a Allah, por seu apego à religião e para estabelecê-la da maneira correta.

3. Em muitos casos, falta também sinceridade genuína na defesa dos interesses do Islã. Além disso, essas atividades podem ser realizadas inteiramente para alcançar objetivos políticos. Na maioria dos casos, essas atividades são semelhantes à “mesquita da fitna” mencionada no Alcorão, cujo objetivo exterior é a adoração e a prática da piedade. Mas sua intenção oculta é semear a divisão entre os crentes e impedir as atividades dos militantes do movimento islâmico.

4. É por essas razões que os programas do governo relacionados ao Islã enfrentam queixas por parte do povo. Consequentemente, esses programas ficam privados da simpatia e do apoio popular. Até mesmo os eruditos religiosos governamentais que se dedicam à implementação da política estatal ficam privados do apoio do povo. Eles falam conforme as exigências do Estado e permanecem em silêncio por ordem estatal. Por isso, perdem a confiança do povo. O povo os chama de “eruditos religiosos governamentais” ou “agentes da polícia”.

Por essas razões, na ausência de um governo islâmico, os programas islâmicos governamentais e semigovernamentais não podem dar origem a um verdadeiro movimento islâmico. Por outro lado, se esses programas forem utilizados adequadamente, poderão oferecer alguma contribuição nos campos intelectual e prático, além de proporcionar apoio financeiro e moral ao movimento islâmico e às suas instituições. Especialmente se os programas islâmicos governamentais e semigovernamentais forem conduzidos sob a liderança de pessoas crentes e corajosas.

O movimento é um esforço coletivo

Embora o movimento islâmico seja exclusivamente por Allah, ele é um esforço organizado e coletivo. Não basta trabalhar pelo interesse do Islã por iniciativa voluntária individual, separadamente e de forma dispersa em diferentes lugares. Embora seus atos e esforços sejam contabilizados no acerto de contas do Dia da Ressurreição. Pois Allah não anulará a recompensa dos atos de homem ou mulher algum. Cada um será recompensado após ser avaliada sua intenção e a retidão de seus atos. Está declarado no Alcorão: E quem fizer uma boa ação equivalente ao peso de um átomo a verá.(Surata Az-Zilzal: 7)

Nas atuais circunstâncias da Ummah muçulmana, os esforços individuais não serão suficientes para pôr fim às divisões e alcançar o resultado desejado; para isso, é indispensável empreender um esforço coletivo. E esta é precisamente uma obrigação religiosa e uma exigência da realidade.

O Islã incentiva o espírito do esforço organizado e coletivo e se opõe ao isolamento. O auxílio de Allah acompanha o esforço coletivo. E aquele que permanece isolado será lançado no Inferno. É a ovelha desgarrada e isolada que cai nas garras do lobo. Portanto, se alguém, abandonando a jama’ah, rezar sozinho ou quebrar a disciplina da jama’ah, sua oração não será completa. Um crente é para outro crente como uma sólida construção de tijolos interligados. Cooperar nas boas e virtuosas ações é um dos mais importantes deveres religiosos obrigatórios, e aconselhar uns aos outros à verdade e à paciência é um dos principais pré-requisitos para se proteger dos prejuízos mundanos e do Além.

Nessa difícil realidade, é natural que seja necessário trabalhar coletivamente para alcançar o resultado desejado. As palmas ressoam quando batem as duas mãos; a fraqueza está na solidão, e a força, em seguir junto com muitos. Grandes sucessos advêm do esforço coletivo. Certamente, só permanecendo unidos é possível triunfar na batalha final. Está declarado no Alcorão: “Certamente, Allah ama aqueles que combatem em fileiras no Seu caminho, como se fossem uma estrutura compacta e solidamente edificada. ((Surata Sá’: 4))

O esforço coletivo deve ser organizado de modo eficiente. Essa tarefa deve ser conduzida à luz de uma liderança responsável, de uma base sólida e de uma visão clara. É justamente a visão clara que, à luz dos princípios da consulta obrigatória (shura) e da obediência, determina a relação entre a liderança e a base.

O Islã não reconhece nenhum esforço coletivo que não siga regras e procedimentos. Até mesmo a oração realizada em congregação tem como base a organização e a disciplina. Allah não dirigirá Seu olhar para uma fileira que não esteja disciplinada. Além disso, as fileiras devem ser compactas. Não deve haver nenhuma lacuna entre os fiéis nas fileiras, pois Satanás ocupa esses espaços. Por isso, devem permanecer ombro a ombro e pé junto a pé. A inclinação, a prostração e a forma exterior da oração são sinais de consenso no pensamento. “Não vos dividais, para que vossos corações também não sejam atingidos pela divisão”.

Por essa razão, antes do início da oração, o imã deve verificar se as fileiras atrás dele estão alinhadas e exortar os fiéis a serem “colaboradores de seus irmãos”. Pois, em benefício da disciplina geral, durante a oração em congregação é indispensável uma atitude de solidariedade e cooperação.

Em seguida, surge a questão da obediência ao imã. O imã é designado justamente para ser seguido. Quando ele pronuncia “Allahu Akbar”, deve-se dizer o mesmo; quando ele se inclina, deve-se inclinar; quando ele se prostra, deve-se prostrar. E, quando recita, deve-se escutar.

Ninguém pode violar a disciplina, nem se inclinar ou prostrar-se antes do imã, para que ninguém tenha a oportunidade de criar desordem e irregularidade nessa estrutura bem organizada e coordenada, espalhando confusão. Quem agir assim deve temer.

Mas, se o imã cometer um erro, corrigi-lo não é apenas apropriado para os fiéis alinhados atrás dele; é também um dever. Seja esse erro uma ação imprópria, um esquecimento, um erro na recitação do Alcorão ou qualquer outra questão fundamental da oração, os fiéis podem alertar o imã sobre seu erro. Até mesmo as fiéis da fileira de trás podem bater palmas para chamar a atenção do imã para o erro.

A oração em congregação é uma pequena representação do sistema geral de congregação do Islã e de como deve ser a relação mútua entre o comandante e os soldados. Em outras palavras, a liderança nunca pode ser infalível, e tampouco há lugar para uma obediência absoluta e cega.

O objetivo é o reavivamento do Islã

Qual é o objetivo do movimento islâmico? O movimento islâmico foi iniciado com o objetivo de remover todos os obstáculos e promover o reavivamento e o restabelecimento do Islã em todos os aspectos da vida. A expressão “reavivamento do Islã” não é nova. Ela provém do próprio Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), conforme Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele) narrou em um hadith autêntico. O hadith diz: “No início de cada século, Allah Todo-Poderoso enviará alguém que promoverá o reavivamento desta religião” (Abu Dawud e Al-Hakim).

A maioria dos comentaristas deste hadith quis dizer que, aqui, “quem” se refere a uma pessoa específica por meio da qual ocorrerá o reavivamento da religião. A esse respeito, eles também mencionaram os nomes de vários juristas e imãs renomados que faleceram no final de séculos hijri e promoveram o reavivamento da religião. Entre eles estão Hazrat Umar ibn Abd al-Aziz (que Allah esteja satisfeito com ele) (falecido em 101 da Hégira), Al-Shafi‘i (que Allah esteja satisfeito com ele) (falecido em 204 da Hégira), entre outros. Contudo, há divergência entre eles sobre quem poderia ser o mujaddid do terceiro século hijri.

Alguns comentaristas do hadith manifestaram a opinião de que a palavra “quem”, neste hadith, pode ser entendida tanto no singular quanto no plural. Ou seja, por “aquele que promove o reavivamento” não se deve entender necessariamente uma única pessoa; pode-se também entender um grupo. Ibn al-Athir mencionou, em sua obra Al-Jami‘ li-l-Usul, que isso é perfeitamente possível. Al-Hafiz al-Dhahabi e outros também apoiam essa opinião.

Além disso, é preciso dizer que não é necessário que uma pessoa específica ou determinadas pessoas estejam envolvidas no grupo que promove o reavivamento do Islã. Qualquer pessoa que represente uma determinada linha de pensamento e método de ação pode fazer parte desse grupo, desde que esteja disposta a trabalhar conjuntamente pelo reavivamento da religião.

Esta pode ser a interpretação mais provável para a compreensão e a aplicação do hadith mencionado no momento em que um século termina e outro começa. Rogamos a Allah que os dias do novo século sejam melhores do que os dias passados e que Allah torne nossos dias futuros ainda mais luminosos.

Do reavivamento estratégia

O movimento islâmico é capaz de promover o reavivamento por meio de três métodos.

Primeiro meio é, preciso formar um grupo de vanguarda do movimento islâmico. Esse grupo de vanguarda, formado com espírito de solidariedade e cooperação, será capaz de conduzir habilmente a sociedade contemporânea em direção ao Islã. Ao fazê-lo, seus membros não se isolarão nem darão espaço à indiferença. Somente por meio das orientações determinadas pelo Islã serão capazes de remediar a decadência da sociedade muçulmana. Esse grupo de vanguarda deve ser formado por pessoas unidas pelos laços do coração, com base em uma fé firme, profundo conhecimento, discernimento e relações estreitas.

Segundo meio é, preciso formar uma opinião pública entre os muçulmanos. Nela se refletirá a opinião da maioria da população; uma opinião pública que, conhecendo plenamente o objetivo geral do movimento islâmico e confiando na fé e na competência dos seus membros, continuará a amá-los e apoiá-los. Ao mesmo tempo, essa população se manterá livre dos efeitos nocivos da propaganda difamatória contra o Islã, o movimento islâmico e sua liderança.

Terceiro meio é, criar, em todo o mundo, um ambiente em que as pessoas compreendam a verdadeira natureza da mensagem essencial do Islã e de sua civilização e cultura, e reconheçam a existência da Ummah muçulmana. Ao mesmo tempo, permanecerão livres da influência nociva do fanatismo surgido na Idade Média e das mentiras, falsas alegações e propaganda distorcida e fabricada dos círculos contrários ao Islã. Essa opinião pública será tolerante com o surgimento do poder muçulmano, ao lado das demais potências mundiais. Isso porque compreenderá que, sendo os muçulmanos maioria em seus próprios países, eles têm o direito de estabelecer um sistema de governo de acordo com suas crenças religiosas. Essa é uma exigência da forma democrática tão amplamente elogiada e divulgada e, segundo essa forma, eles também têm o direito de difundir o ideal universal e humanista do Islã como um dos mais nobres ideais do mundo. Esse ideal tem passado, presente e futuro; e o mais importante é que, no mundo atual, conta com mais de um bilhão de seguidores.

Islâmico movimento prioridades

Os campos em que será necessário atuar para o movimento islâmico no futuro são amplos e abrangentes. Os líderes ativos e os teóricos do movimento devem analisá-los cuidadosamente. Esse tipo de análise deve necessariamente basear-se em informações comprovadas e corretas, bem como em estatísticas.

Campo educacional

O trabalho nesse campo é importante para formar uma geração que espera a vitória, membros dotados de qualidades humanas e um grupo islâmico de vanguarda. Os membros desse grupo compreenderão plenamente e crerão no Islã por meio do conhecimento, da ação, da da‘wa e da luta. A primeira tarefa dessa geração será levar a da‘wa do Islã ao seu próprio povo. Depois, deverá difundir essa mensagem por todo o mundo. Eles só poderão realizar essa tarefa quando estiverem comprometidos com o Islã, cultivarem no coração uma compreensão clara a seu respeito, tiverem o ideal profundamente arraigado no coração e fizerem da ética islâmica sua força orientadora como código de conduta em todos os campos da vida. Adorarão Allah e tratarão as pessoas de acordo com a sharia, compreendendo que o Islã possui um método e uma civilização capazes de melhorar a atual condição da ummah muçulmana, unir a humanidade com base na Palavra de Allah e orientar a sociedade humana desorientada para o melhor e mais correto caminho.

Político campo

O objetivo das atividades políticas será retirar o poder das mãos de todos os pusilânimes e traidores e confiá-lo a pessoas corajosas e honestas — pessoas que não desejam ocupar altos cargos para ostentar o poder, nem desejam corromper o país. Pelo contrário, quando Allah lhes confia o poder, elas estabelecem a oração e providenciam o pagamento da zakat, ordenam o bem e proíbem o mal.

Social campo

O objetivo do programa social será eliminar a pobreza, o analfabetismo, as doenças e a depravação, bem como enfrentar as instituições suspeitas que se dedicam a atividades sociais e humanitárias como instrumento para enfraquecer a identidade da ummah muçulmana e sua ligação com a religião.

Campo econômico

O programa da área econômica libertará a sociedade das dificuldades financeiras e do peso dos empréstimos baseados em juros, e contribuirá para o desenvolvimento da sociedade, criando as condições para o estabelecimento de um sistema econômico islâmico.

Campo do jihad

O objetivo do jihad será recuperar os territórios muçulmanos, lutar contra as forças contrárias à da‘wah islâmica e à Ummah muçulmana, preservar a liberdade de vontade dos muçulmanos e o direito dos muçulmanos de tomar decisões livremente.

Mídia e propaganda campo

O objetivo deste programa é divulgar o ideal do Islã e explicar seus ensinamentos de tal modo que as características de moderação e abrangência desse ideal se tornem claras. Assim, serão eliminadas todas as formas de ambiguidade e de falsidade capazes de destruir a clareza da verdade. Para isso, devem ser utilizados todos os tipos de mídia, desde as publicações até os meios audiovisuais.

Intelectual campo

O objetivo deste trabalho será corrigir, nas mentes de muçulmanos e não muçulmanos, as concepções errôneas correntes sobre o Islã no que diz respeito ao movimento islâmico, criando uma concepção correta, e corrigir essas concepções errôneas e as fatwas deficientes (opiniões jurídicas). Entre alguns grupos islâmicos, doutrinas errôneas estão amplamente difundidas. Por isso, é necessário pôr fim a elas para que o movimento islâmico seja compreendido corretamente. Essa compreensão será construída sobre uma base legítima, derivada dos princípios fundamentais do Alcorão, da Sunnah e da Shariah, e essa consciência e compreensão devem ser cultivadas especialmente entre os muçulmanos instruídos. Isso porque essa classe realmente não tem oportunidade de conhecer o Islã de maneira correta e precisa.

Distribuição de responsabilidades

É urgente trabalhar em todos os campos, e nenhum deve ser negligenciado ou deixado de lado. Nesse sentido, o indispensável é distribuir, para cada campo, os recursos humanos e as capacidades, levando em consideração, por um lado, quais são as necessidades de cada campo e, por outro, quais recursos humanos e capacidades temos à nossa disposição.

Na época do Mensageiro de Allah, que a paz esteja com ele, o Sagrado Alcorão proibiu que todos os muçulmanos partissem para o jihad. Qual era esse campo sagrado para o qual se dirigia essa proibição? Ele não era de modo algum menos sagrado e importante que o campo do jihad. Pelo contrário, esse campo era, às vezes, mais importante. Isso porque ele, ao lembrar os muçulmanos do jihad, abre caminho para ele e adverte contra negligenciá-lo. E esse campo é o estudo das ciências e do conhecimento com o objetivo de compreender a religião.

Na Surata At-Tawbah, aqueles que se afastam do jihad são censurados e é mencionada uma punição severa para eles. Nesta surata, 122 º versículo, Allah, o Altíssimo, diz: Não é correto que todos os crentes partam juntos para o jihad. Portanto, que um grupo de cada comunidade parta para o jihad, para que os que permanecem possam dedicar-se ao estudo e à pesquisa da religião, e para que, quando os que participarem do jihad retornarem ao seu povo, possam adverti-lo contra as más ações.

Este é o firme apelo à distribuição das responsabilidades da equipe de trabalho envolvida e à especialização.

A importância e das prioridades base

À luz da reflexão sobre as prioridades apresentada anteriormente, o movimento islâmico deverá, daqui em diante, dedicar atenção a alguns temas de especial relevância. Esses temas são:

1. No campo intelectual, deve-se concentrar a atenção na explicação clara de algumas correntes de pensamento e na apresentação dessas explicações de maneira compreensível e profunda para todos. Podemos denominar isso de «novo fiqh».

2. Concentrar a atenção nas classes da sociedade entre as quais o movimento pode ser difundido e em quais classes podem ser incluídas na corrente principal do renascimento islâmico para a divulgação e a expansão do Islã.

3. No campo da educação, especialmente onde está em questão o aperfeiçoamento da fé e da aqida, dedicar atenção a padrões qualitativos específicos na preparação da futura liderança e no desenvolvimento de suas qualidades.

4. Dedicar atenção ao desenvolvimento do pensamento e da consciência no âmbito dos acontecimentos políticos locais e mundiais e das relações internacionais, a fim de assegurar, no campo político, a universalidade e o dinamismo do movimento, rompendo o isolamento e o cerco do mundo muçulmano.

Posteriormente, cada uma dessas quatro áreas de atuação será examinada separadamente.

 

Segundocapítulo

Islâmico Movimento: intelectual e do conhecimento no campo

intelectual e do conhecimento no campo

O campo intelectual é o primeiro e o mais importante de todos. Pois ele constitui a base da difusão dos ensinamentos islâmicos e da da‘wah. Na realidade, a crise intelectual é o principal problema. Assim como muitas pessoas carecem de uma compreensão clara do Islã, também existe uma grave falta de conhecimento sobre os ensinamentos do Islã e a importância relativa desses ensinamentos — isto é, qual é o mais importante, qual tem importância geral e qual não tem importância alguma.

Também se observa uma grave falta de conhecimento sobre a realidade circundante da época em que vivemos atualmente. Nossa ignorância a respeito dos outros é tamanha que ou lhes atribuímos importância excessiva ou os menosprezamos. Entretanto, os outros conhecem todo tipo de informação sobre nós e estão profundamente informados a nosso respeito.

Chega a haver ignorância até mesmo a nosso próprio respeito. Até hoje, não examinamos minuciosamente nossos pontos fortes e fracos. Pelo contrário, frequentemente fazemos de questões insignificantes algo grandioso ou provocamos uma tempestade num copo d’água. Quer consideremos nossa força e capacidade, quer nossos defeitos e falhas, a situação é a mesma em ambos os casos. Essa ignorância não se limita aos muçulmanos comuns. Ela é evidente tanto no grupo de vanguarda de quem depende a responsabilidade de promover os interesses do Islã quanto nas pessoas ligadas às suas tarefas fundamentais, sobre as quais o movimento islâmico será construído.

Novo fiqh

Na verdade, precisamos de um novo fiqh, para que possamos adquirir a capacidade de nos incluirmos entre aqueles a quem Allah descreveu como pessoas sensatas. Aqui, por fiqh não se entende o fiqh usado na terminologia islâmica, isto é, a ciência jurídica que determina normas específicas e detalhadas, como as condições da ablução, da pureza ritual, dos atos de adoração, das transações, do casamento, do divórcio e da criação dos filhos. Por mais importantes que sejam essas normas, não é isso que pretendemos indicar aqui. Tampouco pretendemos indicar o sentido em que a palavra fiqh foi usada no Alcorão e no hadith a esse respeito, pois ela foi pronunciada no contexto de palavras e ideias que se modificaram depois de determinado período. Foi assim que o Imame Al-Ghazali também explicou a questão no capítulo sobre o conhecimento de sua famosa obra ‘Ihya Ulum al-Din’.

Nas suratas de Meca do Alcorão, a menção à palavra original fiqh aparece antes mesmo da instituição das normas detalhadas de mandamentos e proibições no âmbito da Sharia, bem como de todas as obrigações, hudud (leis penais) e leis judiciais.

Revelada em Meca, a surata Al An’ ’Am, 65ª versículo, diz o Todo-Poderoso Allah: “Dize: Ele é tão poderoso que pode enviar sobre vós um castigo vindo do céu e da terra, ou dividir-vos em grupos e lançar-vos na confusão, e fazer-vos experimentar a violência uns dos outros. Observa como explicamos os sinais de diferentes maneiras, para que eles possam compreender.”

Na mesma surata, no 98 º versículo, é mencionado ainda: E Ele é Quem vos criou de um único ser; e vos deu um lugar de permanência (na Terra ou no ventre materno) e um lugar de depósito. Certamente, detalhamos os sinais para aqueles que compreendem.

Nesses dois versículos, o significado da palavra fiqh é compreender profundamente, à luz da alma, do coração e da experiência, as leis imutáveis de Deus, Sua criação e Seu castigo para aqueles que se desviam do caminho correto que Ele determinou.

Na surata mecanense Al- A’‘raf, no versículo 179 º , é mencionado que o Deus Altíssimo determinou que certas pessoas irão para o Inferno. Ele diz a respeito delas: Elas têm corações, mas não compreendem com eles. Em seguida, é dito sobre essas pessoas: são como quadrúpedes; na verdade, estão ainda mais desviadas do caminho. Essas pessoas são negligentes.

Em várias suratas, é descrita a atitude dos politeístas em relação ao Alcorão. Sobre isso, Deus Todo-Poderoso diz: “E cobrimos seus corações com véus, para que não compreendam o Alcorão, e colocamos selos em seus ouvidos” (Al- An’‘am: 25, Bani Isra’il: 46, Al- Kah‌f: 57)।

Em várias suratas medinenses do Alcorão, a palavra fiqh foi usada com o sentido de falta de compreensão por parte dos politeístas e hipócritas. Surata Al -An‌fal 65 º versículo Allah, o Altíssimo, dirigindo-se ao Seu Mensageiro e aos crentes, diz: Se houver entre vós vinte homens firmes, eles vencerão duzentos; e, se houver entre vós cem, eles vencerão mil incrédulos, porque estes são pessoas que não compreendem.

Aqui, o significado do alerta sobre a falta de conhecimento dos incrédulos é que eles desconhecem as leis imutáveis de Allah e a maneira como Ele concede, alternadamente, a todas as pessoas dias de misericórdia e prosperidade.

Surata At- Taw ba º versículo 87, Allah censurou os hipócritas, dizendo: Eles se contentaram em permanecer com as mulheres que ficavam reclusas nos aposentos, e seus corações foram selados, para que não compreendessem.

Aqui, compreender significa perceber a necessidade do jihad; e compreender a necessidade de proteger a religião significa reconhecer a necessidade de empenhar-se na proteção da vida, da honra, dos bens e, em sentido amplo, da sociedade. Essas ações terão prioridade sobre qualquer interesse pessoal, por mais urgente que seja.

Na mesma surata 127 ª ayat o Deus Todo-Poderoso, referindo-se a esse tipo de pessoas (que carecem de capacidade de compreensão), diz: E quando uma surata é revelada, eles ficam olhando uns para os outros; (e dizem:) Será que alguém está observando vocês? Então se retiram. Alá desviou seus corações, porque são apenas uma sociedade de tolos.

Essas pessoas tolas esquecem que Alá as vê antes que qualquer ser humano as veja. Na verdade, perderam seu fiqh e sua capacidade de compreensão.

Surata Al -Hashr 13 nº ayat o Deus Todo-Poderoso, dirigindo-se aos crentes, disse a respeito dos hipócritas: Certamente, em seus corações, o medo que têm de vocês é maior do que o medo de Alá; isso porque não compreendem.

Surata Al- Munafiqun, versículo 3º : Allah Todo-Poderoso diz: Isso se deve ao fato de eles terem crido e, depois, se tornado incrédulos. Por isso, um selo foi colocado em seus corações; portanto, eles não compreendem.

No versículo 7 da mesma surata, o Allah Todo-Poderoso também diz: São eles que dizem: “Não gasteis nada com aqueles que estão com o Mensageiro de Allah, até que o abandonem.” Entretanto, a Allah pertencem os tesouros dos céus e da terra, mas os hipócritas não compreendem.

Vê-se, assim, que uma grande parte do Alcorão é dedicada à descrição dos hipócritas — “aqueles que não compreendem”. Isso porque os hipócritas imaginam ser inteligentes. Por isso, sem tomar partido, adotam uma posição oportunista e tentam enganar Allah e os crentes por meio de uma política de duplicidade. Quando se reúnem com os crentes, dizem: “Nós cremos.” Mas, quando se juntam aos seus indivíduos perversos, dizem: “Estamos convosco.”

Contudo, o Allah Todo-Poderoso revelou seus segredos, hesitações e embustes em muitos versículos. Surata Al- Baqara, versículo 9º : Allah Todo-Poderoso diz: Eles pensam que enganam Allah e os crentes, mas, na verdade, enganam apenas a si mesmos, sem se aperceberem disso.

Na realidade, sua hipocrisia foi desmascarada diante de Allah e das pessoas. Eles perderam a vida terrena e a vida futura e, certamente, serão lançados no nível mais inferior do Inferno. Que consequência poderia ser mais trágica do que essa?

Portanto, de acordo com esta descrição, se forem observados em alguém sinais de hipocrisia, deve-se compreender, sem dúvida, que essa pessoa não possui sequer o mínimo de discernimento.

Conclusão

De acordo com o estilo de expressão do Alcorão, a palavra Fiqh não denota, na linguagem atual, o sentido técnico de ciência jurídica. Pelo contrário, significa compreender e adquirir conhecimento da Palavra de Allah e de Suas normas relativas ao mundo criado, à vida e à sociedade.

Até mesmo no surata At-Tawbah 122 º versículo é dito: “Que um grupo de cada uma das suas comunidades saia para o jihad, a fim de que os que permanecerem possam dedicar-se ao estudo e à pesquisa sobre a religião, e, quando os que participaram do jihad retornarem ao seu povo, possam adverti-lo contra as más ações.”

A palavra Fiqh neste versículo não foi usada em seu sentido convencional. Se lhe fosse atribuído um significado relacionado à ciência jurídica, não haveria nele a advertência para que a pessoa em questão se precavesse contra distorcer o significado, negligenciar a própria proteção ou descuidar-se do cumprimento da responsabilidade primordial do trabalho de da‘wah.

Há uma correspondência entre o uso da palavra “Fiqh” no versículo do Alcorão mencionado acima e seu uso em um hadith do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). O hadith diz: “Se Allah deseja o bem para uma pessoa, Ele a torna versada no conhecimento da religião.” Isso significa que Allah iluminará sua visão, para que, em vez de se satisfazer apenas com palavras e significados superficiais, ela possa empenhar-se profundamente em compreender melhor a verdade, os mistérios e os objetivos da religião.

O Fiqh de que necessitamos

Vários dos tipos de Fiqh de que necessitamos foram discutidos em meu livro “O Despertar Islâmico entre a Rejeição e o Extremismo”. Nele, foram abordados o Fiqh das ações e o Fiqh da ordem de realização das ações.

Outra parte da discussão foi incluída em meu livro “O Despertar Islâmico entre as Divergências Permitidas e a Desunião Censurável”. Nele, é discutido um de nossos principais Fiqhs necessários: o “Fiqh das divergências”. Ali se menciona que necessitamos de cinco tipos de Fiqh. Aqui, apenas dois deles são discutidos:

1. Fiqh do equilíbrio (Fiqh ul-Muazanat)

2. Fiqh das prioridades (Fiqh ul-Awlawiyyat)

É necessário explicar cada um desses tipos de fiqh.

Do equilíbrio Fiqh

Por fiqh do equilíbrio entendemos alguns aspectos:

1. Manter o equilíbrio ao determinar qual questão é mais importante do que outra à luz de sua dimensão e capacidade, valor e resultado, e tolerabilidade, para que se possa decidir qual deve receber prioridade e qual deve ser adiada.

2. Assim como se mantém o equilíbrio entre as coisas boas, manter também o equilíbrio entre as coisas más, para que se possa determinar qual deve ser adotada e qual deve ser evitada.

3. Se as coisas boas e más entrarem em conflito, dar prioridade à prevenção das coisas más em vez da obtenção de benefícios, e determinar em que casos e quando o mal pode ser ignorado em prol dos benefícios.

Dois’tipos de fiqh

Neste contexto, precisamos de dois níveis de fiqh:

da sharia fiqh

O primeiro é o fiqh da sharia. Sua base será a compreensão profunda da verdadeira essência da sharia. Seu objetivo é demonstrar a incontestabilidade do “princípio do equilíbrio” mencionado anteriormente e determinar sua autenticidade. Isso deve ficar claro para aqueles que se empenham em compreender as fontes fundamentais da sharia e suas determinações jurídicas, bem como em desvendar suas profundas verdades.

A sharia foi revelada tendo em vista apenas certos desejos inatos do ser humano, visando ao seu bem-estar neste mundo e no Além. Seus níveis de benefício são: o indispensável (al-daruriyyah), o necessário (al-hajiyyah) e o estético (al-tahsiniyyah).

da realidade fiqh

Este fiqh do segundo nível é, na verdade, positivo, e sua base é a pesquisa sobre a realidade contemporânea. Pesquisas amplas, fundamentadas em dados e informações extremamente precisos, devem ser conduzidas com cautela. É preciso ter cuidado com dados propagandísticos e estatísticas enganosas e irreais baseadas em questionários. Isso porque há uma intenção por trás delas. Seu objetivo não é revelar a verdade em sua totalidade.

do fiqh coordenação

É necessário conciliar o fiqh da Shariah e o fiqh da realidade. Assim, poderemos alcançar um processo adequado de equilíbrio teórico, que seja simultaneamente livre do extremismo e da negligência. Em princípio, o assunto do fiqh da Shariah está claro aqui. Esse tema foi discutido nas obras de usul al-fiqh, desde «Al-Mustasfa» (Imam Al-Ghazali) até «Al-Muwafaqat» (Imam Al-Shatibi), bem como em livros sobre regras jurídicas, analogias e diferenças.

Quando há conflito entre interesses diversos, é necessário sacrificar o interesse menor em favor do interesse maior, e o interesse individual em favor do interesse geral. Naturalmente, nesse caso, o detentor do interesse individual deve ser compensado por seu prejuízo. Quando houver interesses conflitantes, é indispensável dar preferência ao interesse de longo prazo ou permanente em lugar do interesse de curto prazo; ao interesse real em lugar do interesse insignificante; e ao interesse certo em lugar do interesse incerto.

Vimos que, no tratado de Hudaybiyyah, o Mensageiro de Allah (s.a.) deu prioridade, em alguns casos, a interesses reais, fundamentais e futuros, aos quais qualquer outra pessoa jamais teria desejado renunciar. Ele aceitou condições que, à primeira vista, pareciam injustas e humilhantes para os muçulmanos. Concordou em retirar a expressão «Em nome de Allah, o Clemente, o Misericordioso». Em seu lugar, foi escrito: «Em teu nome, ó Senhor». Ele também concordou em escrever no tratado apenas o seu nome, «Muhammad ibn Abdullah», sem mencionar a expressão «Mensageiro de Allah». Há muitos exemplos semelhantes.

Quando questões prejudiciais entram em conflito entre si e uma delas é inevitável, deve-se escolher o menor dos dois males, isto é, o mal relativamente menos prejudicial. Os sábios muçulmanos recomendaram eliminar, tanto quanto possível, as questões prejudiciais. Contudo, não se deve eliminar uma questão relativamente menos prejudicial em lugar de uma questão gravemente prejudicial. Deve-se suportar um pequeno prejuízo quando isso possibilitar evitar um grande prejuízo. Do mesmo modo, em benefício de evitar o prejuízo geral, deve-se aceitar o prejuízo individual. Muitos exemplos disso são mencionados nas obras intituladas «Al-Qawa’id al-Fiqhiyyah» e «Al-Ashbah wa al-Naza’ir».

Se surgir um conflito entre benefício e dano, ele deverá ser avaliado quanto à sua magnitude, às consequências e à duração. Pode-se ignorar um pequeno dano para alcançar um interesse maior. Deve-se aceitar algum dano temporário em prol de interesses de longo prazo ou permanentes. Pode-se até aceitar um dano maior se houver a possibilidade de eliminar um dano ainda maior. Em condições normais, deve-se procurar evitar os fatores prejudiciais antes de buscar alcançar os interesses.

Essa forma de pensar não deve ser considerada apenas uma teoria; pelo contrário, devemos aplicá-la na prática. Isso porque, entre os grupos islâmicos ativos, existem muitas divergências justamente em torno desses equilíbrios.

Formar uma aliança com forças hostis

Pode-se aceitar estabelecer um acordo ou uma trégua com governos que não são leais ao Islã?

Deveríamos participar de um governo no poder que não tenha um caráter verdadeiramente islâmico, que seja regido por uma constituição defeituosa ou que não conte com nosso pleno apoio?

Deveríamos aderir a uma frente de oposição formada por diversos partidos políticos para derrubar um governo ímpio, autocrático, opressor e corrupto?

Podemos estabelecer instituições econômicas islâmicas em um ambiente dominado por um sistema econômico criado pelo homem e baseado em juros?

Deveríamos, em geral, permitir que os muçulmanos trabalhem em bancos e instituições baseados em juros, ou impedir que pessoas devotas que seguem os ensinamentos do Islã trabalhem nesse tipo de instituição?

Aplicação na vida prática

É fácil formular princípios, mas difícil segui-los. Para as pessoas comuns e para aqueles que fazem alarde por motivos triviais, não é fácil compreender o fiqh do equilíbrio.

Por terem considerado, à luz do fiqh do equilíbrio, menos prejudicial apoiar Fatima Jinnah em vez de Ayub Khan nas eleições presidenciais do Paquistão, na década de 1960, Mawlana Sayyid Abul A’la Maududi e seu partido, a Jamaat-e-Islami do Paquistão, enfrentaram intensa resistência e perseguição. Foi lançada contra eles uma campanha agressiva baseada no hadith: “Uma nação jamais prosperará se nomear uma mulher como sua líder”. Então, o que acontecerá com uma nação que aceita um autocrata como seu líder? Será que fará um trabalho muito bom? Jamais. É justamente aí que atua o fiqh do equilíbrio: escolher o menor entre dois males para evitar o dano maior.

Quando o Dr. Hassan al-Turabi, líder do movimento islâmico do Sudão, e seus companheiros decidiram ingressar na União Socialista e até aceitaram cargos no governo de Jaafar Nimeiry antes mesmo do anúncio da implantação da sharia islâmica no Sudão, alguns islamistas os criticaram duramente.

Nossos irmãos aliados na Síria também enfrentaram oposição semelhante porque decidiram formar uma aliança com algumas forças não islâmicas para resistir ao regime ditatorial empenhado em destruí-los completamente. Contudo, o próprio nobre Profeta Muhammad (que a paz esteja sobre ele) estabeleceu uma aliança com a tribo politeísta de Khuzāʿah e, em algumas ocasiões, apoiou um grupo de politeístas contra outro grupo de politeístas.

Naturalmente, não estou tomando partido aqui. Estou apenas apresentando um princípio: a jurisprudência do equilíbrio, sobre a qual deveria ser construída a estrutura da “política da sharia”. Há muitas provas, tanto nas posições adotadas pelo Mensageiro de Deus (que a paz esteja sobre ele) e por seus companheiros quanto nas vastas disposições da nossa sharia, que apoiam a afirmação de que é permitido participar de um governo não islâmico ou formar uma aliança com forças não muçulmanas.

Jurisprudência do’equilíbrio: evidências

Se estudarmos cuidadosamente as suratas mecânicas e medinenses do Alcorão, encontraremos muitas evidências da jurisprudência do equilíbrio e meios para avaliar a importância de uma questão em relação a outra.

Vemos um exemplo da consideração dos interesses do equilíbrio na resposta de Aarão à pergunta de Moisés, ao ponderar entre diferentes interesses: “Ó filho de minha mãe! Não me segures pela barba nem pela cabeça. Eu temi que dissesses: ‘Causaste divisão entre os filhos de Israel e não respeitaste a minha palavra’ ( (Surata Tá-Há: 94).)।

Mais uma vez, um exemplo de equilíbrio entre coisas prejudiciais pode ser visto na explicação de Al-Khidr (que a paz esteja com ele) sobre o fato de ter perfurado o barco: Quanto ao barco, pertencia, na realidade, a alguns pobres que buscavam seu sustento no mar; por isso, quis danificá-lo, pois, diante deles, havia um rei que se apoderava à força de toda embarcação perfeita(Surata Al Kah‌f: 79)।

Para o proprietário, conservar o barco danificado é menos prejudicial do que perdê-lo completamente. Em outras palavras, sem dúvida, é muito melhor salvar alguma coisa do que perder tudo.

A Palavra de Allah também deixa clara a questão da jurisprudência do equilíbrio: perguntam-lhe sobre combater no mês sagrado. Diga: combater deliberadamente nesse período é um grave pecado diante de Allah. Impedir as pessoas de seguir o caminho de Allah, descrer de Allah, obstruir o acesso à Mesquita Sagrada e expulsar dela seus habitantes é mais grave, aos olhos de Allah, do que isso. E causar fitna é mais hediondo do que matar (Surata Al Baqarah: 217)।

Allah, o Todo-Poderoso, nos diz: combater no mês sagrado é um grave pecado, mas pode-se lutar para impedir um crime ainda mais grave.

Com o objetivo de comparar os interesses tangíveis e intangíveis, leiamos o versículo em que Deus Todo-Poderoso repreendeu os muçulmanos após a batalha de Badr: Não é apropriado que um profeta tenha prisioneiros de guerra e os liberte mediante resgate sem antes ter causado grande derramamento de sangue dos incrédulos na terra; vós desejais os bens deste mundo, mas Deus deseja a Outra Vida; e Deus é Poderoso, Sábio.(Surata Al- An-‌fal: 67)।

Quanto à questão de manter o equilíbrio entre o bem e o mal, vejamos o que diz Deus, o Altíssimo: Eles te perguntam sobre o vinho e o jogo de azar. Dize: há neles um grande pecado e alguns benefícios para as pessoas. Mas o pecado de ambos é maior que o benefício.(Surata Al- Baqarah: 219)।

Ao comparar diferentes grupos e círculos não muçulmanos entre si, Deus, o Altíssimo, predisse, nos primeiros versículos da Surata Ar-Rum, a vitória dos romanos sobre os persas. Nessa surata, é mencionado que, naquele dia, os crentes se alegrarão. Embora ambos os lados sejam não muçulmanos, os romanos são mais próximos dos muçulmanos do que os persas adoradores do fogo. Por serem Povos do Livro, estão mais próximos dos muçulmanos.

Ibn Taymiyya — sua opinião

O Shaykh al-Islam Ibn Taymiyya expressou firmemente a opinião de que, em um Estado não islâmico, é permitido a um muçulmano aceitar um cargo governamental, caso o ocupante do cargo esteja disposto a remediar algumas injustiças ou a combater más ações e a corrupção (Apêndice–1)।

Ele também escreveu um parágrafo detalhado sobre a aceitação ou rejeição temporária quando há um conflito entre o bem e o mal, ou quando ambos surgem simultaneamente e não é possível conciliá-los nem separá-los (Apêndice–2)।

Num simpósio sobre economia islâmica, [na Argélia 1990 do ano 2–5 de março 6ª Barakat Conferência realizada foi। Nela mais alguns juristas de fiqh com participar a oportunidade tive। Eles são, o Xeique Abdul Hamid al Sayeh, o Xeique Mukhtar al Salami, Dr.. Abdus Sattar Abu Ghuddah, Dr.. Sayyid Darsh e Dr.. Talal Bafaqih।] Vários juristas de fiqh e economistas participantes expressaram a opinião de que, nos países muçulmanos, a compra e venda de ações de empresas e instituições estabelecidas em setores autorizados é permitida segundo a Sharia. Embora haja uma ligeira suspeita de envolvimento com juros em tais transações. Após examinar esta questão à luz do fiqh do equilíbrio, o simpósio opinou que setores tão importantes e produtivos não devem ser deixados nas mãos de não muçulmanos ou de muçulmanos irreligiosos. Pois essa medida criaria um grave perigo, sobretudo em alguns países. Ao contrário, os acionistas podem doar, como sadaqah ou para obras de caridade pública, a parte proporcional dos dividendos que considerem proveniente de transações relacionadas com juros.

De acordo com este fiqh, aconselhou-se aos jovens muçulmanos conscientes que não deixassem seus empregos em empresas como bancos e companhias de seguros. Embora haja certamente algum risco de pecado nisso, eles podem utilizar a experiência que adquirirem ali para o desenvolvimento da economia islâmica. Dessa forma, ao mesmo tempo que rejeitam interiormente o aspecto prejudicial, também participam dos esforços daqueles que se dedicam à islamização de todo o sistema.

Ausência do fiqh do equilíbrio

Se não aplicarmos o fiqh do equilíbrio, nós mesmos fecharemos muitas portas do bem e dos benefícios. Consequentemente, a filosofia da rejeição em todas as questões se tornará uma ferramenta; sob o pretexto de evitar problemas, ficaremos isolados e escolheremos não entrar em conflito com os adversários segundo a própria lógica deles. Então será fácil, para nós, dizer “não” ou “isto é haram” em toda questão sujeita ao ijtihad.

Mas, se aplicarmos o fiqh do equilíbrio, encontraremos meios de comparar uma situação com outra e de avaliar os benefícios em lugar dos prejuízos, tanto a curto quanto a longo prazo, e nos níveis individual e coletivo. Assim, poderemos escolher o caminho de obter o bem e evitar o mal da melhor maneira possível.

Em 1980, recebi um convite para escrever na revista “Doha”, publicada no Catar. Trata-se de uma publicação literária e cultural, cuja equipe editorial é, em sua maioria, secularista. Embora sua orientação básica não seja contrária ao Islã, ela tampouco é islâmica ou favorável ao Islã. Depois de hesitar por muito tempo, considerei a proposta segundo o princípio do equilíbrio e decidi que seria melhor escrever para a revista em vez de boicotá-la. Isso porque seus leitores representam um amplo grupo cultural que normalmente não lê revistas e jornais islâmicos. Como os leitores dessa revista não pertencem à mesma classe de leitores de periódicos como “Al-Ummah”, quando temos a oportunidade, precisamos fazer nossa mensagem chegar até eles. E isso é uma responsabilidade que Allah nos confiou.

Por essa razão, mesmo que a orientação dessas revistas e jornais não seja favorável às nossas ideias, devemos aceitar conceder-lhes entrevistas ou escrever para eles. Ainda hoje, muitos censuram aqueles que escrevem em jornais diários que não seguem claramente uma linha islâmica. Muitos também me censuraram por publicar em série meu livro “O Despertar Islâmico entre as Divergências Permitidas e a Desunião Censurável” no diário saudita “Asharq Al-Awsat”, pois não apoiam algumas das perspectivas desse jornal. Eu, porém, considerei sobretudo os benefícios de publicar o livro nesse jornal de ampla circulação.

Há muitas pessoas que acreditam que, devido às ideias e concepções desviadas, se deve boicotar todos os meios de comunicação, incluindo áudio e vídeo. Elas se esquecem de que boicotar os meios de comunicação fará com que eles assumam uma forma ainda mais deplorável e dará às pessoas de mentalidade secularista e imoral a oportunidade de se infiltrarem amplamente e realizarem atividades destrutivas. E nós seremos privados dessa oportunidade, para a qual não há alternativa.

Se examinarmos a questão à luz do fiqh do equilíbrio, veremos que atuar nesse campo extremamente importante não é apenas permitido e recomendável, mas também indispensável. Isso porque ele pode ser um instrumento legítimo para dar continuidade ao nosso trabalho de da‘wah e combater, tanto quanto possível, as atividades malignas.

Fiqh das prioridades

Por fiqh das prioridades entendemos considerar cada questão em seu contexto real. Nenhuma questão importante deve ser adiada; nenhuma questão pequena deve ser tratada como grande, nem uma questão importante deve ser subestimada. Do mesmo modo, não é correto atribuir importância excessiva a uma questão pequena. Tanto as leis naturais quanto as leis da Shariah oferecem essa orientação. Creio que Allah tornou obrigatório observar esse contexto real em Sua criação e em Suas leis. Surata al A’raf 54 º versículo, está dito: Certamente, a Ele pertencem a criação e a ordem.

Na vida do Profeta: o fiqh das prioridades

Na fase de Meca, a missão do Mensageiro de Allah (s.a.w.) estava limitada a uma única área. O programa dessa missão consistia apenas em convidar as pessoas ao caminho de Allah e formar um grupo de crentes que, posteriormente, difundiria esse convite entre os árabes e, depois, por todo o mundo. Nessa fase, o trabalho do Mensageiro (s.a.w.) estava concentrado no estabelecimento da aqidah religiosa, na prática do tawhid, na eliminação do politeísmo e da idolatria e na prática das boas e retas obras.

O Alcorão apoiava a linha de ação desta etapa. A orientação do Alcorão não ordenou aos muçulmanos que se concentrassem em quaisquer normas secundárias específicas; ao contrário, exortou-os a direcionar todos os esforços para desenvolver a visão islâmica descrita na surata Al-Asr. No versículo 3 desta surata,está dito: «Exceto aqueles que creem, praticam boas ações e exortam uns aos outros à verdade e à paciência.»

Durante o período de Meca, no trabalho de الدعوة, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) não permitiu que os muçulmanos pegassem machados para destruir os ídolos que viam diariamente na Caaba, nem que erguessem espadas para lutar contra eles e contra os inimigos de Allah, embora os incrédulos os perseguissem. Naquele tempo, quando chegavam ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) depois de terem sido espancados e feridos, ele lhes dizia, nas palavras do Alcorão: «Contendei as vossas mãos e estabelecei a oração» (surata An- Nissá: 77)।

Tudo tem um momento apropriado. Se alguém esperar obter algo antes desse momento determinado, poderá sofrer prejuízo em vez de benefício.

das prioridades jurisprudência e do equilíbrio jurisprudência relação mútua

A jurisprudência das prioridades está intimamente relacionada à jurisprudência do equilíbrio. Em alguns casos, ambas se entrelaçam ou se tornam paralelas, e, novamente, o processo de equilíbrio inclina-se para as prioridades. Assim, passa a estar abrangido pela jurisprudência das prioridades.

A necessidade de manter as proporções

De acordo com a jurisprudência das prioridades, é obrigatório manter a proporção adequada nas determinações e obrigações da Sharia (taklif), bem como nas práticas religiosas. Se houver desvio da proporção estabelecida pelo Islã e pela Sharia, haverá grande prejuízo tanto na vida religiosa quanto na vida mundana.

No Islã, a fé ocupa precedência sobre as práticas. Isso porque a fé é a base, enquanto as práticas são a construção. Não há construção sem base. A fé vem antes das práticas. As práticas são multifacetadas. O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse em um hadith autêntico: a fé divide-se em 77 ramos; o mais elevado é declarar que não há divindade além de Allah, e o mais baixo é remover da estrada aquilo que causa dano.

No Alcorão foi declarado que as obras diante de Allah não pertencem a um único nível, mas estão divididas em níveis elevados e inferiores. O Todo-Poderoso Allah diz: «Acaso considerais que dar de beber aos peregrinos e manter a Mesquita Sagrada equivale às obras daquele que crê em Allah e no Dia do Juízo e luta pela causa de Allah? Eles não são iguais perante Allah. E Allah não guia os injustos. Aqueles que creem, emigram e lutam pela causa de Allah com seus bens e suas vidas têm uma posição muito mais elevada diante de Allah. E estes são os bem-sucedidos(Sura At-Tawba: 19–20)।

Por isso, o Xeique do Islã Ibn Taymiyya afirmou que participar da jihad é superior à realização do hajj. Os juristas hambalitas e outros juristas chamaram espontaneamente a jihad de melhor ato físico obrigatório. Muitos hadiths elogiam a jihad. Entre eles está o hadith narrado por Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele). Ele disse: Um companheiro do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe dê paz) estava atravessando um vale estreito onde havia uma fonte de água doce. O vale agradou-lhe, e ele disse: «Como posso afastar-me das outras pessoas para me dedicar à adoração de Allah? Não farei isso sem antes pedir permissão ao Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe dê paz).» Esse homem expôs seu desejo ao Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe dê paz), e o Mensageiro de Allah disse: «Não faças isso. Lutar pela causa de Allah é muito superior a adorar em tua casa durante setenta anos(Tirmidhi e Al Hakim)।

Num hadith narrado por Salman (que Allah esteja satisfeito com ele), é mencionada a importância de proteger os muçulmanos das mãos dos incrédulos (ribat): um dia e uma noite de ribat são superiores a um mês de jejum e adoração noturna; e, se alguém morrer enquanto estiver no ribat, o registro de suas boas obras continuará em seu favor como se estivesse vivo, e, se permanecer vivo, estará protegido das tentações de Satanás(Muslim)।

Um imã como Abdullah ibn al-Mubarak escreveu, durante a jihad, a partir de um acampamento militar, um poema a um amigo seu chamado Al-Fudayl ibn Iyad, que sempre viajava entre os dois lugares sagrados, Meca e Medina. Os versos são:

Ó tu que adoras nos dois lugares sagrados,

Se você nos visse,

então saberia que sua adoração não passa de brincadeira.

Alguns molham as faces com suas lágrimas;

e nós molhamos o peito com nosso próprio sangue…..

[A surata Al Imran, em seu último versículo, na exegese de Ibn Kathir, esta história foi narrada por ele.। Outros historiadores também a mesma história narraram também.।]

Segundo a jurisprudência islâmica tradicional, os atos de adoração voluntários (atos opcionais que não são obrigatórios como os atos de adoração prescritos) não devem receber prioridade sobre os obrigatórios; a obrigação individual (fard al-ayn) é mais importante que a obrigação coletiva (fard al-kifaya); uma obrigação coletiva que não esteja sendo cumprida por ninguém deve ter prioridade sobre uma responsabilidade para cuja execução já haja pessoas suficientes. Além disso, uma responsabilidade relacionada a um grupo ou a uma nação terá precedência sobre o direito de um indivíduo, e uma tarefa cujo prazo para ser cumprida seja limitado deve ser realizada antes de outra para a qual haja tempo suficiente.

A jurisprudência islâmica estabeleceu, quanto à importância dos interesses reconhecidos pela Sharia, qual questão deve receber maior prioridade. Isso porque os interesses essenciais (al-masalih al-daruriyyah) têm precedência sobre os interesses necessários (al-masalih al-hajiyyah) e os interesses relacionados ao aperfeiçoamento (al-masalih al-tahsiniyyah). Do mesmo modo, os interesses necessários recebem maior prioridade que os interesses relacionados ao aperfeiçoamento. Contudo, quando surge um conflito entre os interesses da nação e os do indivíduo, os interesses nacionais devem ter prioridade. Aqui, a jurisprudência do equilíbrio e a jurisprudência das prioridades convergem em um mesmo ponto.

A negligência em relação à jurisprudência das prioridades

O problema de muitos grupos ligados ao renascimento islâmico é que, para eles, a jurisprudência das prioridades não existe, pois frequentemente dão importância às questões secundárias antes das principais. Em vez de compreenderem os interesses gerais, dedicam-se ao estudo de um aspecto específico. E, em vez de se envolverem com as questões estabelecidas, agarram-se às questões controversas. É lamentável que discutamos a questão do derramamento do sangue das formigas, mas não nos preocupemos com o derramamento do sangue do imame Hussein, que Deus esteja satisfeito com ele. Ou que nos tornemos agressivos para proteger atos voluntários enquanto as pessoas negligenciam os atos obrigatórios. Discutimos a casca sem nos importarmos com a essência.

Em termos gerais, esta é a situação dos muçulmanos de hoje. Vejo que, todos os anos, durante o Ramadã ou em outros meses, milhões de pessoas realizam a Umrah, e algumas chegam a realizar o Hajj dez ou até vinte vezes. Se economizassem o dinheiro gasto nessas obras voluntárias, poderiam acumular dezenas de milhões. Passamos anos correndo de um lado para outro para arrecadar um fundo de mil milhões de dólares para instituições de serviço islâmico. Mas não conseguimos arrecadar sequer um décimo, ou mesmo um vigésimo ou um trigésimo dessa quantia. Se pedíssemos a essas pessoas que realizam Hajj e Umrah adicionais que destinassem o dinheiro de suas viagens voluntárias ao combate à conversão ao cristianismo na Ásia e na África ou ao auxílio dos afetados pela fome, elas não dariam nada. Trata-se de uma doença tão antiga que nenhum cardiologista jamais conseguiria tratá-la. [Bashar al Hafi’— um episódio relacionado a este assunto é narrado ‘em Al-Ihya’ na obra, no terceiro volume, na página 409, conforme descrito na obra .।]

Ao aplicar a jurisprudência das prioridades, podemos saber a qual questão devemos dar mais atenção do que às demais, para que possamos dedicar mais esforço e tempo a essa questão. No âmbito da jurisprudência das prioridades, também se pode saber contra qual inimigo devemos empregar mais forças e concentrar nosso ataque, e qual luta é relativamente digna de ser travada. Pois, segundo a perspectiva do Islã, existem vários tipos de pessoas: muçulmanos, incrédulos e hipócritas.

Entre os incrédulos há aqueles que amam a paz e aqueles que têm uma atitude militante. Entre eles não há apenas incrédulos, mas também incrédulos que criam obstáculos no caminho de Allah. Entre os hipócritas há pessoas cuja hipocrisia é menor, e outras profundamente envolvidas na hipocrisia. Então, por onde começaremos? Qual área é mais apropriada para o trabalho? A qual questão devemos dar mais atenção?

A jurisprudência das prioridades nos conscientiza da necessidade de agir conforme as exigências do tempo, para que a tarefa específica seja concluída adequadamente, sem adiá-la para amanhã. Pois, uma vez perdida uma oportunidade, ela pode voltar a surgir ou talvez não. E, mesmo que volte, isso pode levar muito tempo. Um poeta falou sobre o valor do tempo:

Aproveita a oportunidade, pois uma oportunidade

se a deixares escapar, virá transformada em arrependimento.

Um provérbio árabe diz: Não deixes o trabalho de hoje para amanhã.

Quando aconselharam Omar ibn Abd al-Aziz (r.a.) a deixar algumas tarefas para o dia seguinte, ele respondeu: Já estou cansado por ter realizado o trabalho de um único dia; então, como estarei amanhã, se tiver de realizar o trabalho de dois dias?

Uma afirmação sábia de Ibn Ata (r.a.) é: Há muitas tarefas para as quais se dispõe de bastante tempo e que podem ser realizadas dentro desse período. Mas há também tarefas que, se não forem realizadas dentro do prazo determinado, acabam não sendo realizadas. Pois cada novo período traz novas responsabilidades e novas tarefas determinadas por Allah.

Al-Ghazali e das prioridades jurisprudência

O Imam Al-Ghazali (que Allah tenha misericórdia dele) criticou, na obra «Al-Ihya», aqueles que, sem dar atenção às boas ações, se contentam apenas com os atos de adoração. Ele disse: Há um grupo que demonstra tanto interesse pelas práticas facultativas quanto pelas obrigatórias. Vemos que eles ficam muito felizes ao realizar as orações facultativas da manhã, o tahajjud noturno e outras orações, mas não sentem prazer em cumprir os atos obrigatórios. Ou não se empenham em realizar as orações obrigatórias no horário determinado. Eles se esquecem do hadith narrado pelo Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele): Nenhum ato do Meu servo será mais excelente para se aproximar de Mim do que aqueles atos que lhe ordenei cumprir como obrigações(Bukhari). Negligenciar a ordenação das boas ações segundo sua importância está incluído na má conduta. Se uma pessoa se encontra numa situação em que só pode realizar uma de duas obrigações, ou se uma tarefa precisa ser realizada em pouco tempo enquanto há bastante tempo para a outra, então, se ela não respeitar a ordem de prioridade, estará equivocada.

Há muitos exemplos desse tipo, nos quais tanto a obrigatoriedade do mandamento de Allah quanto a desobediência se tornam claras. O que é realmente ambíguo é dar prioridade a certas obrigações em relação a outras. Por exemplo, priorizar os atos obrigatórios em relação aos facultativos, dar prioridade à obrigação individual em relação à obrigação coletiva, dar preferência às tarefas que não podem ser adiadas em relação às tarefas menos necessárias que podem ser adiadas, e priorizar atender às necessidades da mãe em relação às necessidades do pai.

Perguntaram ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele): «Quem tem mais direito ao meu cuidado e atenção?» Ele respondeu: «Tua mãe.» O homem perguntou: «Depois, quem?» O Mensageiro de Allah disse: «Tua mãe.» O homem perguntou novamente: «E depois, quem?» O Mensageiro de Allah disse: «Tua mãe.» O homem perguntou pela quarta vez: «E depois, quem?» O Mensageiro de Allah disse: «Teu pai.» O homem perguntou novamente: «Depois, quem?» E o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) respondeu: «O mais próximo entre teus parentes e, depois dele, o que lhe for mais próximo.» Uma pessoa deve cumprir os direitos de seus parentes de acordo com o grau de proximidade. Se dois de seus parentes tiverem o mesmo grau, deve ajudar aquele que mais necessita de ajuda. E, se as necessidades de ambos forem iguais, deve ajudar aquele que for mais dedicado à religião.

Da mesma forma, se alguém quiser realizar o hajj sem conseguir arcar com as despesas de seu pai, não deverá partir para o hajj. Se partir, estará agindo como um tolo. Isso porque deve dar prioridade à proteção dos interesses de seu pai. Assim, dará preferência a uma obrigação religiosa em relação a outro dever religioso de categoria inferior.

Além disso, se chegar o horário da oração de sexta-feira enquanto alguém estiver no horário de uma tarefa previamente marcada, deverá participar da oração em congregação. Se for cumprir a tarefa previamente marcada, desobedecerá a Allah, embora concluir o trabalho prometido também seja uma obrigação. Se alguém encontrar alguma impureza ritual em sua roupa e tratar mal seus pais, a impureza ritual é de fato inaceitável, mas ferir os pais também não é aceitável. É mais importante ter cuidado para evitar ferir os pais do que ser cuidadoso para evitar a impureza ritual.

Há inúmeros exemplos da relação mútua entre atos proibidos e deveres obrigatórios. Quem ignora a ordem de prioridades em qualquer um desses assuntos está certamente desorientado. [Veja ‘‘Al- Ihya’’, terceiro volume, páginas 400––404, veja também meu livro ‘: ‘Imam al- Ghazali: Between His Praisers and His Critics’’, páginas 87––93]

A opinião de Ibn Qayyem

Qual adoração é melhor — as que são muito difíceis de praticar ou as que são muito benéficas? Sobre essas questões, o Imam Ibn al-Qayyim expressou várias opiniões.

Ele opinou que não existe uma única forma de adoração que seja sempre preferível. Contudo, em determinados momentos, certos atos de adoração podem ser preferíveis. [Madārij al Sālikīn, primeiro volume, páginas 85–90, meu livro ‘Ibādah no Islã’।] Em tempos de fome, fornecer alimentos é a melhor ação; por meio disso, um muçulmano alcança maior proximidade com Allah. Quando forças kufr atacam um país muçulmano, o jihad é a melhor prática. Em seguida vem fornecer armas e recursos financeiros aos mujahidin. Quando um erudito religioso morre sem deixar herdeiros, adquirir conhecimento religioso é a melhor ação. Por isso, um muçulmano pode esperar uma recompensa de Allah, e eles também conquistam o louvor de Allah e dos crentes. Assim, é possível manter um equilíbrio entre as boas ações segundo as características de cada uma.

 

Terceirocapítulo

Islâmico movimento: campanha de propagação e conhecimento campo

Campanha de propagação

O movimento islâmico deve empreender esforços intensos para desenvolver atividades de da’wah entre todos os grupos e classes da sociedade e para despertar, entre o povo de todas as partes, o espírito do reavivamento islâmico. Se trabalhar dessa maneira, nenhum nível da sociedade permanecerá sem a presença e a atividade do movimento islâmico. O chamado do movimento chegará a toda parte. Seu dedicado corpo de trabalhadores também participará desse esforço. Assim, o número de seguidores, apoiadores e defensores do movimento aumentará muitas vezes.

É possível alcançar essa etapa trabalhando no campo da informação e dos meios de comunicação. Para isso, devem ser utilizadas, de forma organizada e bem planejada, as mais recentes inovações da ciência, bem como as tecnologias da informação e da comunicação. Para esse trabalho, devem ser aproveitadas, tanto quanto possível e onde quer que estejam disponíveis, todas as técnicas e capacidades do Ocidente e do Oriente. Esse método deve continuar a ser utilizado enquanto contribuir para alcançarmos nosso objetivo desejado. Um crente sincero deve sempre buscar palavras cheias de sabedoria. Sempre que as encontra, elas são seu legítimo direito.

O movimento deve buscar a ajuda de especialistas experientes em como falar diante de assembleias gerais e de cada grupo específico. Esses especialistas são versados em psicologia, sociologia, política e ciência das relações públicas, e sabem como utilizar esse conhecimento e experiência em benefício máximo do movimento e do Islã.

O movimento deve começar hoje mesmo a planejar a criação de um grupo de da‘wah capaz de falar na linguagem desta época e de enfrentar, com igual competência, as circunstâncias contemporâneas. Seus integrantes estão conscientes da grandeza, amplitude, universalidade e equilíbrio da da‘wah islâmica. É preciso formar, por meio de treinamento de alto nível, um grupo de profissionais da mídia capazes de levar a da‘wah às pessoas, utilizando argumentos na linguagem atual.

Agora discutiremos como ampliar o trabalho do renascimento e do movimento entre as partes mais importantes da sociedade: os instruídos, os trabalhadores, os comerciantes e as demais classes.

Culturais grupos

Primeiramente, é preciso disseminar o movimento islâmico entre os grupos culturais, para que seu pensamento sobre o Islã, sua mensagem essencial, sua lei, sua cultura e sua história possa ser orientado na direção correta, e para que sejam informados sobre o movimento islâmico, suas metas, seus objetivos e seus resultados.

Falsas concepções

Embora o renascimento islâmico tenha se difundido entre muitos jovens cultos, alguns ainda são ignorantes a respeito do Islã, ou seu conhecimento sobre o Islã permanece incompleto, distorcido ou obscuro. Isso se deve às consequências do atraso secular ou dos novos efeitos distorcidos da agressão ideológica estrangeira.

Embora muitos deles tenham estudado em universidades, ainda acreditam em superstições e lendas. Em suas crenças, dão espaço ao politeísmo, misturam costumes e tradições às práticas de adoração e devoção, e sua conduta é marcada pela desordem. Ainda assim, são justamente essas pessoas que se consideram verdadeiramente religiosas. Muitos indivíduos cultos ainda visitam os túmulos e santuários de santos e dervixes, como se esses santuários e mausoléus fossem semelhantes à Caaba. Pedem ajuda aos mortos, usam amuletos e talismãs, acreditam na invocação dos espíritos, fazem juramentos em nome de outros além de Allah e sacrificam animais em homenagem aos mortos.

Embora o número dessas pessoas seja relativamente pequeno devido à maré materialista de longo alcance e à agressão ideológica do Ocidente, sua existência persiste sob a influência do sufismo desviado. Em muitos países muçulmanos, elas ainda exibem seu poder, e as autoridades governamentais as apoiam aberta e secretamente. Não há razão para que uma pessoa inteligente deixe de compreender o significado disso. Essas pessoas cultas deveriam compreender os fundamentos básicos de sua verdadeira fé e crença e adquirir conhecimento sobre a forma de adoração e devoção aprovada por Deus. Muitos indivíduos instruídos ainda ignoram os diversos aspectos da forma eterna, da força e da majestade do Islã. Pode-se dizer que pouco sabem sobre os princípios e as características do Islã. Adquirem seu conhecimento sobre o Islã a partir dos orientalistas, dos missionários e da situação atual dos muçulmanos. Pensam que, considerando a condição dos muçulmanos ao seu redor, o Islã deve ser assim. Portanto, atribuem ao Islã a responsabilidade pelo atraso, pela corrupção e pela ignorância dos muçulmanos. Contudo, nada disso tem qualquer relação com o Islã.

As pessoas cultas deveriam saber onde adquirir conhecimento sobre o Islã e quais fontes podem lhes ensinar os verdadeiros ensinamentos do Islã. Deveriam saber que não se deve compreender o Islã observando os muçulmanos; ao contrário, os muçulmanos devem ser avaliados à luz do Islã. Os muçulmanos desviados não são o padrão do Islã; os verdadeiros muçulmanos é que são o padrão do Islã.

Algumas pessoas cultas ainda pensam que podem ser verdadeiros muçulmanos devotos. No entanto, são elas mesmas que aceitam o governo de leis diferentes da sharia islâmica e vivem em países cujas leis e cujo governo no poder não são islâmicos.

Eles deveriam compreender que o Islã é um sistema de vida e uma legislação, e que Deus não revelou o Alcorão para que fosse recitado em homenagem aos mortos. Pelo contrário, ele se destina a orientar os vivos. O Deus Todo-Poderoso disse: “Certamente, Nós lhe revelamos este Livro verdadeiro, o Alcorão, para que você julgue entre as pessoas conforme aquilo que Deus lhe revelou por meio da revelação (Surata An Nissá: 105)”. Eles também deveriam compreender que aqueles que não julgam à luz do que Deus revelou se enquadram, segundo a descrição do Livro, na incredulidade, na injustiça ou na perversidade, ou acumulam sobre si todas essas faltas.

Algumas pessoas cultas ainda pensam que o Islã é uma forma de cristianismo, e que o cristianismo aceita a divisão de classes entre as pessoas e a separação da vida entre Deus e César. Mateus 22:21— conforme está dito: “Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.” Assim, eles restringem o Islã à relação entre o ser humano e Deus. E o único lugar dessa relação especial é a consciência humana. Se essa relação ultrapassar a consciência, seu único lugar será a mesquita, e nenhum outro. Que papel cabe ao Islã no que diz respeito à vida e ao seu modo de ser, à cultura e ao seu curso, à educação e aos seus currículos, à economia e à sua aplicação, às leis e ao código penal?

Ainda mais lamentável é que alguns deles não apenas se declaram muçulmanos, mas também se orgulham de ser muçulmanos. Fazem a oração e realizam a Umrah ou o Hajj. Ao mesmo tempo, glorificam o secularismo, preferem os laços nacionalistas em vez do Islã e adotam completamente o pensamento ocidental, sem qualquer discernimento ou exame do que estão seguindo.

Eles aceitam a teoria da evolução de Darwin, a teoria da psicanálise de Freud, a interpretação materialista da história de Marx e a teoria de Durkheim sobre a origem da religião. No entanto, não percebem qual é o papel do Islã entre essas teorias. Um deles chegou a declarar certa vez: “Sou um marxista muçulmano”. É incompreensível como essas duas coisas podem coexistir em uma única pessoa. De onde ele recebeu essa inspiração: do Alcorão ou de O Capital e do Manifesto Comunista? Se surgir um conflito, quem será seu exemplo e árbitro: Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) ou Marx?

Se alguém disser: “Sou um muçulmano budista ou um muçulmano cristão”, isso poderá ser aceito? Se a resposta for “não”, como ele pode dizer: “Sou um marxista muçulmano”? Seria isso porque o marxismo não é uma religião, mas luta contra todas as religiões e considera a religião “o ópio do povo”? Se assim for, é mais aconselhável rejeitar o marxismo. Pois o Islã não pode unir-se a outra religião, mesmo que essa religião seja baseada num Livro. Como, então, o Islã poderia associar-se a uma ideologia que se opõe a todas as religiões?

Na realidade, embora o marxismo negue todas as religiões, ele possui um caráter religioso. Isso ocorre porque o marxismo exige de seus seguidores lealdade absoluta; por essa razão, não foi possível ao marxismo fundir-se com qualquer outra religião ou ideologia.

O marxismo é uma filosofia totalitária e autocrática. Não deixa lugar para o Islã nem para qualquer outra religião. Na verdade, a religião não tem função alguma, exceto quando necessária, e na sociedade marxista é vista não como algo fundamental, mas como algo secundário.

Algumas pessoas cultas acreditam que a causa da fraqueza política, da derrota militar, do atraso cultural e da deficiência dos muçulmanos nos campos científico e tecnológico é o Islã. E que a vitória e o progresso do Ocidente só foram possíveis porque ele se libertou do controle da religião e adotou o ideal secularista que separa a religião do Estado.

Esse grupo cultural deve ser instruído sobre a verdadeira natureza da religião à luz das duas fontes fundamentais: o Sagrado Alcorão e a Sunnah do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), tal como a melhor geração da Ummah, os companheiros e seus seguidores, adquiriu conhecimento. Então eles verão que, quando se conhece corretamente a verdadeira doutrina do Islã e se a segue de todo o coração, obtêm-se os melhores resultados.

O verdadeiro ensinamento do Islã não é outra coisa. Ele liberta a mente, purifica o nafs, fortalece a força de vontade e edifica o corpo sobre uma base sólida e firme. Por meio da ciência, da fé, da interdependência mútua e da moralidade, conduz a sociedade rumo ao progresso. Estabelece um governo baseado na justiça e na consulta, governa de acordo com a lei de Allah e mostra a melhor orientação a toda a humanidade.

Ao estudar a história do Islã, eles também deverão conhecer as causas de sua ascensão e queda, vitória e derrota, desenvolvimento e calamidade, força e fraqueza. Ao examinar a história, ficará certamente claro que os muçulmanos só alcançaram vitória, progresso e força quando, sob a liderança de um califa, de um comandante militar ou de um sábio, aderiram ao Islã, aos valores e aos ensinamentos do Islã no âmbito de um movimento. Foi assim durante os Califas Bem-Guiados, Umar ibn Abd al-Aziz, Abu Ja’far al-Mansur, Harun al-Rashid, Nur al-Din Mahmud al-Shahid, Salahuddin al-Ayyubi e outros.

Por outro lado, o período de derrota, calamidade, fraqueza e declínio só chegou quando os muçulmanos se afastaram da verdade do Islã. Quanto mais se afastaram, mais as calamidades os assolaram.

Algumas pessoas cultas ainda desconhecem muitas questões difundidas em nome do Islã. Por exemplo, vimos um escritor escolher como tema o acontecimento da crucificação, considerando-o verdadeiro. Contudo, o Islã rejeitou inequivocamente o suposto acontecimento da crucificação de Hazrat Isa (que a paz esteja com ele). Alguns também narram a história de como Bibi Hawwa (que a paz esteja com ela) tentou Adão (que a paz esteja com ele) a comer o fruto da árvore proibida e, como consequência, ambos foram expulsos do Paraíso, trazendo sofrimento e desgraça à humanidade na Terra.

Essa doutrina foi extraída da Torá e do Antigo Testamento, mas não tem qualquer fundamento no Islã. Pois foi Adão quem comeu o fruto da árvore proibida e foi Adão quem desobedeceu à ordem de Allah. Surata Taha’ — 115 º versículo, Allah, o Altíssimo, diz: E anteriormente havíamos feito uma aliança com Adão, mas ele se esqueceu, e não encontramos nele firmeza. Na mesma Surata, nos versículos –121 e 122 , Allah diz: E Adão desobedeceu ao seu Senhor, e assim se desviou. Mas seu Senhor o escolheu para Sua misericórdia, voltou-Se para ele e o guiou ao caminho reto.

Vê-se que a verdadeira responsabilidade recai sobre Adão, e sua esposa apenas o seguiu ao comer do fruto proibido.

Muitas pessoas cultas ainda julgam a cultura segundo os padrões ocidentais. Para elas, o principal elemento da cultura é a dança. Portanto, quem não dança não é uma pessoa culta. A dança que temos é com espadas. Digam-lhes também que temos a dança folclórica libanesa darca, além de muitas outras danças folclóricas, como em qualquer país, realizadas em casamentos e outras celebrações. Se lhes disserem isso, vocês se tornarão objeto de sua zombaria. Pois vocês não compreenderam o único significado que atribuem à dança. E esse significado é: dança entre uma mulher e um homem que não é seu marido, e entre um homem e uma mulher que não é sua esposa. Ao dançarem, eles sentem o contato dos corpos uns dos outros e se movimentam ao ritmo da música. Mas cuidado: não tenham deles nenhuma má opinião, pois eles não são pessoas comuns como vocês e eu, dotadas de instintos e desejos. Eles estão acima da dúvida e dos impulsos animalescos; são como anjos que caminham pela Terra.

E o halal e o haram estabelecem para um muçulmano que ele não pode fazer qualquer coisa segundo a sua vontade. Ao contrário, deve agir dentro dos limites invioláveis determinados por Allah. Allah Todo-Poderoso diz, naSurata At-Talaq’, no primeiro versículo: E quem transgredir os limites determinados por Allah, comete injustiça contra si mesmo. Para as pessoas cultas, esta é uma teoria estranha, que elas não estão dispostas a aceitar.

Conduta para com as pessoas cultas

Para atrair o grupo cultural ao renascimento islâmico, devem ser adotados dois métodos: o corretivo e o preventivo.

A abordagem corretiva consiste em medidas para eliminar as concepções equivocadas cultivadas pelas pessoas cultas. É preciso apresentar-lhes as ideias por meio de uma discussão serena, objetiva e teórica; não insultando-as, falando de maneira aleatória ou atingindo-as com uma saraivada de palavras acaloradas. Pelo contrário, é preciso indicar-lhes fontes autorizadas, das quais possam obter conhecimento correto sobre o Islã, o Livro, o Mensageiro, a teologia, a sharia, a história e a cultura.

Essa abordagem é especialmente adequada para os jovens que não caíram nas garras do extremismo, não o adotaram como princípio nem estão tentando construir a vida à sua luz. Ela também pode ser proveitosa para os jovens que buscam a verdade por amor à própria verdade. É inútil discutir com aqueles que se agarraram ao extremismo, ao progressismo, ao liberalismo, à direita, à esquerda e coisas semelhantes. Contudo, talvez isso possa ajudar a explicar ou refutar uma questão específica.

A segunda abordagem é preventiva. O objetivo desse esforço será apresentar a forma pura e autêntica da cultura islâmica, com uma teoria precisa e uma expressão clara. Isso inclui oferecer orientação para a compreensão do Islã, eliminar as diversas concepções equivocadas que se formaram entre as pessoas cultas e, além disso, enfrentar pensamentos e crenças falsos e fantasiosos.

Um dos principais objetivos da abordagem preventiva é proteger a juventude da mordida venenosa das ideologias agressivas. O conhecimento que os jovens adquirirão por meio desse trabalho funcionará como uma vacina para prevenir a epidemia ideológica que se espalha, aberta ou secretamente, em nosso território.

É preciso manter os pregadores comuns ou propagadores da religião afastados dos círculos culturais. Esses pregadores e waizes não sabem falar na linguagem de sua época, nem conseguem apresentar suas ideias aos indivíduos cultos por meio de argumentos compreensíveis e aceitáveis. Esses propagadores da religião conseguem despertar fervor entre os fiéis apenas por meio de sua eloquência emotiva. Mas não conseguem tocar o coração das pessoas de mente liberal. Esses liberais raramente dizem “sim”; pelo contrário, sua pergunta constante é: “Por quê? Como?”

Os pregadores populares são como os escritores populares. Os primeiros despertam fervor por meio de seus sermões melodiosos de exortação, enquanto os segundos despertam emoções e sentimentos por meio de uma escrita fluente. Segundo um antigo provérbio árabe, a pena é uma das duas línguas. A língua é muito mais eficaz para excitar e cativar o ouvinte com a voz e seu som. E, se a isso se acrescenta a imaginação, então nem se fala. O papel e a utilidade desses waizes e escritores são proporcionais ao conhecimento que possuem. Contudo, o dano que causam entre os círculos cultos geralmente supera o benefício que proporcionam.

O povo

Voltar a atenção para os círculos culturais não significa negligenciar as pessoas comuns. O trabalho em ambas as frentes não é mutuamente contraditório. A principal característica do Movimento Islâmico é sua popularidade. O movimento é popular no sentido de que não é um movimento governamental nem elitista. É um movimento que brota do coração do povo e expressa seus sentimentos. Por meio da interação mútua, o movimento reflete a opinião do povo. Fala em seu nome e oferece ajuda para que ele obtenha seus direitos e cumpra suas responsabilidades.

Os inimigos estrangeiros do movimento e seus agentes dentro do país tentam separar o Movimento Islâmico do povo. Às vezes, por meio de propaganda maliciosa e distorção; outras vezes, mediante intimidação ou pressão. Além disso, muitos continuam essa tentativa vã por diversos meios.

Mais perigoso ainda é que o próprio movimento se desligue do povo sob o pretexto de arrogância, queixas, desrespeito, imprudência ou falta de tempo. O verdadeiro perigo surge quando o movimento se esquece de sua relação mútua com o povo, despreza seus problemas e sofrimentos e se ocupa apenas consigo mesmo, ouvindo somente a própria voz. Desse modo, o movimento se separa do povo e se refugia em uma câmara isolada.

O Movimento Islâmico só terá êxito quando for capaz de avançar junto com o povo. Identificando-se com os interesses do movimento, o povo considerará seus problemas ou crises como seus próprios perigos e aflições. As alegrias do movimento serão motivo de alegria para o povo; este elogiará todas as ações, posições e esforços do movimento e amaldiçoará o inimigo. O Movimento Islâmico só terá êxito quando concentrar seus esforços em integrar-se ao povo como o sangue que flui pelas artérias e veias. A relação do movimento com o povo será como a da alma com o corpo e a da visão com o olho. Então, o fluxo das massas e o Movimento Islâmico se tornarão um só, de modo que não será possível separar um do outro.

Isso só será possível quando o Movimento Islâmico assumir os interesses do povo como seus próprios, demonstrar empatia por seus sentimentos e expressões, compartilhar suas dores e tristezas, permanecer ao seu lado nas adversidades e identificar-se completamente com ele.

Sonhos ilusórios

Por confiarmos no povo e depositarmos nossa confiança na força do povo, não devemos afastá-lo do confronto com a dura realidade nem fazê-lo mergulhar em sonhos ilusórios. Os porta-vozes e teóricos do movimento islâmico devem apresentar à nação sua verdadeira doença. A doença não deve ser ocultada, como se faz no caso de um paciente acometido por uma enfermidade incurável. Por mais amarga que seja, a verdade deve ser revelada à nação. Não se deve apresentar um sonho ilusório se esse sonho não puder ser realizado.

Os sábios sufis muçulmanos distinguiram entre esperança e desejo, dizendo que a esperança é acompanhada de esforço e ação; caso contrário, é apenas um desejo. A esperança é o objetivo dos crentes, enquanto, para aqueles que nada querem fazer, o desejo é um artifício. O Alcorão dirige-se àqueles que afirmam que o Paraíso pertence somente a eles, embora não creiam nem pratiquem boas obras. surata Al- Baqara’, 111 º versículo diz: “Isso é apenas o que desejam em seus corações. Dize-lhes: ‘Apresentai a vossa prova, se sois verdadeiros.’”

Ali ibn Abu Talib, que Deus esteja satisfeito com ele, disse a seu filho Hasan, que Deus esteja satisfeito com ele: “Cuidado; não dependas de modo algum dos desejos. O desejo é o apoio dos tolos.” Um poeta árabe disse: “Não sejas escravo do desejo, pois o desejo é o recurso dos desprovidos de recursos.”

Para o movimento que deseja iluminar com uma luz radiante as trevas da noite mais escura, a esperança, a aspiração e o desejo de um futuro belo são a força motriz. A esperança e a aspiração diferem do desejo, pois, quando algo não é obtido conforme o desejo, isso resulta em frustração; já na esperança e na aspiração não há lugar para o desespero nem para a falta de esperança.

Devemos necessariamente apresentar ao povo a dura realidade. Devemos adverti-lo sobre os perigos do futuro, para que possa preparar-se para enfrentar esse sofrimento. Ele não deve permanecer na ilusão de que o caminho do futuro será coberto de flores, sem espinhos, ou de que será possível obter resultados sem esforço.

É preciso corrigir o erro que o movimento islâmico comete ao divulgar ao povo muçulmano slogans islâmicos e declarações que apresentam soluções para os problemas. Quando os slogans dizem: “O Islã é a solução”, “Não há esperança senão no Islã” ou “O Islã é a única solução para nossos problemas socioeconômicos e políticos”, o povo comum imagina que, ao fazer o céu e a terra ressoarem com esses slogans, apoiar seus candidatos nas eleições e enviá-los ao Parlamento com a maioria dos votos, todos os seus problemas serão resolvidos por um toque de varinha mágica ou de forma milagrosa.

Os ativistas do movimento islâmico e os intelectuais do movimento devem explicar direta e claramente ao povo que o Islã deseja resolver os problemas do povo por meio do próprio povo. Deus não enviará anjos à Terra para realizar suas tarefas — cultivar a terra, criar animais, promover a industrialização, expandir o comércio, construir a infraestrutura, reunir a força de trabalho muçulmana para atividades produtivas ou proteger a nação da ociosidade e do desperdício de energia.

Para uma vida bela, é necessária uma sociedade justa. O próprio povo deve trabalhar para estabelecer essa sociedade. A Umar ibn al-Khattab (r.a.), que permanecia na mesquita esperando que Allah enviasse ajuda, alguns homens disseram: “Vocês não devem ficar sentados ociosamente nem tentar obter imediatamente aquilo que Allah determinou para vocês.” Em seguida, disseram: “Ó Allah, envia-me tudo o que está destinado para mim.” No entanto, eles sabiam que ouro e prata não choveriam do céu. Allah diz: “E, quando terminar a oração de sexta-feira, espalhai-vos pela terra e buscai, por meio do trabalho, o sustento que Allah vos concedeu” (Surata Jum’ah: 10). O Alcorão afirma claramente esta regra irrevogável da seguinte maneira: “Por certo, Allah não muda a condição de um povo até que eles mudem o que há em si mesmos” (Surata Ra’d: 11)।

Este é o ponto de partida. Nossas concepções equivocadas, pensamentos ruins, características de caráter desprezíveis e princípios éticos inaceitáveis devem ser transformados em concepções corretas, pensamento claro e honesto, caráter louvável e moralidade elevada. O modo de vida ao qual as pessoas estão acostumadas agora deve necessariamente mudar. A vida deve ser orientada para o trabalho e a produção. Não se pode permanecer ocioso e errante. A vida deve ser encarada como algo sério, não como uma brincadeira. A vida é de austeridade, não de luxo. De justiça, não de injustiça. A vida é de esforço, não de ociosidade.

Correção das concepções equivocadas

É responsabilidade do movimento islâmico e de seus defensores corrigir as concepções equivocadas sobre o Islã que se espalharam entre os muçulmanos. Isso porque o pensamento e a consciência islâmicos podem ser instrumentos para a construção da sociedade e o progresso.

Muitas pessoas religiosas têm concepções equivocadas sobre alguns dos principais valores do Islã. Entre eles estão o iman, a taqwa, a honestidade e a franqueza.

Diz-se no Sagrado Alcorão: E se os habitantes dessas cidades tivessem acreditado e fossem tementes a Deus, teríamos aberto para eles as bênçãos dos céus e da terra (Surata Al A’raf: 96)Também se diz: E quem teme a Deus e cumpre para com Ele o seu dever, Deus lhe abrirá uma saída de todas as dificuldades. E lhe proverá sustento de onde nem imagina (Surata At-Talaq: 2–3)Ou se diz: E, na verdade, escrevemos no Zabur, depois do Lauh al-Mahfuz, a admoestação de que os Meus servos justos herdarão a terra (Surata Al-Anbiya: 105)Noutra surata se diz: E se estes (os não muçulmanos) tivessem acreditado em Deus e seguido o caminho correto do Islã, certamente os teríamos regado com abundante chuva (Surata Al-Jinn: 16)।

Quando as pessoas comuns recitam esses versículos, pensam que eles falam de certos rituais e do cumprimento de obrigações religiosas, como a oração, o jejum, o tasbih, o tahlil, o takbir e outras formas de dhikr e adhkar, além de se manterem afastadas de todas as ações proibidas, como o álcool e os jogos de azar. Sem dúvida, tudo isso é parte inseparável da religião; não há dúvida quanto a isso. Contudo, a religião, a fé e o taqwa não se limitam apenas a isso. Na Surata ad-Dhariyat’, 56 º versículo, o Altíssimo Allah disse: «E criei os jinn e os seres humanos somente para que Me adorem.» Quando Allah criou o ser humano para a Sua adoração, também indicou com isso que o ser humano seria Seu representante ou khalifa na Terra, para cultivá-la e desenvolvê-la por meio do conhecimento e do trabalho. Allah diz: «Certamente, estabelecerei um representante na superfície da terra» ((Surata Al- Baqara: 30)). Ele vos criou da terra e vos fez prosperar nela ((Surata Hud: 61)). Aqui, a palavra «prosperar» significa que Ele quer que a cultiveis e a desenvolvais. Esse trabalho de cultivar e desenvolver também é considerado parte da adoração.

A exigência da fé, do temor de Deus, da honestidade e da franqueza é estabelecer um equilíbrio entre nossa vida material e nossa vida religiosa; adorar a Deus seguindo os preceitos universais do Islã; estar plenamente preparados para enfrentar nossos inimigos; cultivar a terra e trabalhar nas fábricas. Devemos utilizar todos os campos da ciência e da indústria necessários à vida religiosa e material da nação. Pois os juristas muçulmanos consideraram essa tarefa uma responsabilidade coletiva de toda a nação (fard kifaya). Se todos não cumprirem conjuntamente esse dever, isso será um pecado grave.

A desejada devoção religiosa não consiste no rosário na mão de um dervixe, nem no turbante na cabeça de um xeique autoproclamado, tampouco em um lugar isolado ou numa khanqah escolhida pelo fiel para a adoração. Devoção religiosa significa conhecimento e dedicação ao trabalho; equilíbrio entre religião e vida mundana, corpo e alma, planejamento e organização, produção e desenvolvimento; alcançar plenitude e excelência. É mencionado no hadith: Deus se agrada quando uma pessoa realiza uma tarefa exatamente da maneira excelente como ela deve ser realizada (Al-Bayhaqi). Certamente, Deus colocou excelência em todas as coisas (Muslim)।

O Mensageiro de Deus, que a paz esteja com ele, exortou os muçulmanos a serem habilidosos em todas as suas atividades, até mesmo ao matar um pequeno réptil. Foi narrado em um hadith do Mensageiro, que a paz esteja com ele: quem matar uma lagartixa com um só golpe é como se tivesse obtido cem boas ações. Quem a matar com dois golpes também obterá boas ações, embora menos que o primeiro; e quem conseguir matá-la com três golpes também obterá boas ações, embora menos que o segundo (Muslim). Deve-se esforçar para realizar bem todas as tarefas, mesmo que sejam insignificantes.

Os companheiros do Mensageiro de Deus, que a paz esteja com ele, não consideravam o Islã uma religião de pobres e dervixes, nem separavam a fé e a devoção religiosa da vida, tampouco se ocupavam apenas das obrigações religiosas, abandonando o esforço para construir uma vida melhor. Ao receber de Sa‘d ibn al-Rabi‘ a proposta de aceitar uma doação considerável, ‘Abd al-Rahman ibn ‘Awf, que Deus esteja satisfeito com ele, recusou humildemente e disse: “Sou comerciante; onde fica o mercado? Mostre-me.” Ele fez negócios e obteve enormes lucros. Esse comércio não prejudicou nem um pouco sua fé e devoção religiosa; pelo contrário, ele era tão crente e devoto que foi um dos dez a quem foi anunciada a boa-nova do Paraíso. O Mensageiro de Deus, que a paz esteja com ele, havia anunciado antecipadamente sua entrada no Paraíso e, no momento de sua morte, expressou satisfação com ele. ‘Abd al-Rahman ibn ‘Awf, que Deus esteja satisfeito com ele, também foi membro do conselho consultivo de seis integrantes formado por ‘Umar, que Deus esteja satisfeito com ele. ‘Umar formou esse conselho para que, após sua ausência, fosse escolhido dentre eles um califa.

Verdadeiramente tementes a Deus e crentes são aqueles que, apoiados na fé em Deus e na honestidade, além de trabalharem arduamente pelo bem-estar mundano, estão sempre empenhados em praticar boas ações. Por isso, Deus Todo-Poderoso concede bênçãos aos seus esforços neste mundo e não deixará de recompensá-los também na vida futura.

Trabalhadores laboriosos

Por trabalhadores laboriosos, refiro-me aos operários industriais e artesãos de diversos setores. Atualmente, eles constituem uma enorme parcela da população que trabalha nas grandes cidades. Essa classe trabalhadora organizada e unida pode paralisar a vida cotidiana convocando greves para exigir seus direitos e protestar contra a injustiça e a opressão.

Ao observar essa questão, percebe-se que, até hoje, o movimento islâmico conseguiu exercer apenas uma influência limitada sobre a classe trabalhadora. Nesse segmento de nossa sociedade, os esquerdistas continuam sendo mais influentes e tendo uma voz mais ativa. Os esquerdistas exploram amplamente as reivindicações e os desejos dos trabalhadores em benefício próprio. No Egito, a principal organização do movimento islâmico, a Irmandade Muçulmana, liderada pelo imã Hasan al-Banna, começou a trabalhar com um grupo de trabalhadores egípcios. Esses trabalhadores fizeram um juramento de lealdade em Ismailia, declarando seu compromisso de apoiar o objetivo pelo qual o imã trabalhava.

Embora tenha sido possível enraizar profundamente o movimento islâmico entre estudantes e alunos na maioria dos países muçulmanos (Egito, Sudão, Jordânia, Tunísia, Argélia, Paquistão etc.), a presença do movimento entre a classe trabalhadora é insignificante. Apesar da enorme influência do movimento islâmico na sociedade sudanesa, o Dr. Hassan al-Turabi, líder da Frente Islâmica Nacional do Sudão, mencionou esse fato em seu livro intitulado “O movimento islâmico no Sudão”. Em alguns setores, o movimento exerce um domínio exclusivo e, em outros, também consegue exercer uma influência considerável.

Não estou ciente das razões do fracasso na expansão do movimento islâmico entre a classe trabalhadora. Será que a causa é a debilidade da consciência religiosa entre os trabalhadores? Mas, sendo os trabalhadores parte da população em geral, da qual a religião é um componente inseparável, por que seu sentimento religioso se enfraqueceu? Será que a causa é a falta de conhecimento sobre o verdadeiro Islã e seu papel na vida, bem como a influência de ideias estrangeiras importadas? É preciso investigar essa questão.

Ou será que a causa está no fracasso do movimento islâmico em reconhecer os interesses dos trabalhadores, tomar iniciativas para protegê-los e apoiar suas reivindicações justas, ou nas ações dos capitalistas gananciosos e dos governantes opressores? Ou será o sucesso dos esquerdistas, que exercem deliberadamente sua influência sobre os trabalhadores e os apoiam, com o objetivo de utilizá-los para difundir suas políticas destrutivas e sua filosofia materialista? Os esquerdistas são peritos nessas atividades. Também conhecem as técnicas de sedução e são hábeis em espalhar a propaganda de que o movimento islâmico jamais será útil aos trabalhadores.

Seja qual for a causa, é preciso reavaliar a estratégia de atuação do movimento islâmico nesse campo. Afinal, a classe trabalhadora é uma parte importante da sociedade muçulmana. O Islã ainda é uma força motriz sólida na vida dos trabalhadores. Isso porque eles acreditam que o Islã é a única religião que, acima de tudo, confere dignidade ao trabalho e é intransigente na defesa da justiça para com os trabalhadores. As normas econômicas, sociais e jurídicas do Islã protegem os trabalhadores e seus direitos; e, contra aqueles que lhes cometem injustiças e tentam utilizá-los para alcançar seus próprios interesses, o Islã se coloca ao lado dos trabalhadores. O Islã exorta à adoção de medidas sociais para proporcionar emprego a todo trabalhador desempregado e sustento a todas as pessoas aptas para o trabalho na sociedade.

Um novo fator está agora contribuindo para criar uma atitude favorável ao movimento islâmico entre os trabalhadores. Trata-se do colapso da filosofia e dos métodos comunistas. Como consequência, soou o toque de despedida dos governos ditatoriais do Leste Europeu. A classe trabalhadora rebelou-se contra as ditaduras estabelecidas em seu próprio nome, supostamente para proteger seus interesses. Até mesmo a União Soviética, berço do socialismo, iniciou um novo caminho rumo à reconstrução social à luz da filosofia da perestroika. Os governos marxistas e socialistas, estabelecidos pelos trabalhadores e para os trabalhadores, fracassaram em proporcionar-lhes a felicidade e a paz que desejavam — a felicidade pela qual os trabalhadores haviam se rebelado contra os governos feudais e capitalistas. Está comprovado que os trabalhadores vivem muito melhor sob o governo de um Estado livre do que sob as correntes do regime comunista.

Para compreender essa questão em detalhes, as duas partes da Alemanha antes da reunificação constituem um exemplo notável. Como viviam os trabalhadores em ambas as partes? Como eram seus sentimentos? O povo da Alemanha Oriental sentia que vivia em uma enorme prisão. Bastava surgir uma pequena oportunidade para que fugisse em massa para a Alemanha Ocidental. Que prova melhor poderia haver do que essa?

Comerciantes e investidores financeiros

Entre os setores nos quais o movimento islâmico deve ampliar sua influência, também são importantes os grupos de mercadores, comerciantes e investidores financeiros. As pessoas desse grupo vivem no mundo do dinheiro e do capital, dos lucros e prejuízos, dos monopólios e da concorrência. Em geral, esquecem as normas do lícito e do ilícito, e negligenciam a recordação de Allah, a oração e o pagamento do zakat. Por isso, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos estejam sobre ele, estava atento ao orientar e aconselhar os comerciantes sobre os aspectos nocivos e arriscados presentes nas atividades comerciais.

Ele os advertiu contra a fraude, dizendo: “Quem frauda não faz parte de nós.” Ele alertou contra o monopólio, dizendo: “Quem monopoliza uma mercadoria comete uma injustiça, isto é, é pecador.” Ele advertiu os comerciantes contra fazer juramentos excessivos em nome de Allah. Criticando os comerciantes que fazem do Todo-Poderoso Allah uma mercadoria, disse que eles parecem incapazes de comprar ou vender sem jurar por Allah. Ele também alertou contra os juramentos falsos, pelos quais talvez as transações aumentem, mas o vendedor seja privado da misericórdia de Allah. Ele advertiu contra a usura, dizendo: “Allah amaldiçoa aqueles que recebem usura, os que a pagam, os que redigem seu contrato e os que testemunham isso.” Ele também advertiu contra a venda de mercadorias inexistentes (gharar). Isso ocorre porque o comprador é mantido ignorante quanto à mercadoria e, quando ela é apresentada, inevitavelmente surgem disputas.

O Sagrado Alcorão também censura a fraude nas medidas e nos pesos, dizendo: “Ai dos que dão menos nas medidas e nos pesos (que usurpam os direitos alheios): quando medem para as pessoas, exigem a medida completa; mas, quando medem ou pesam para elas, dão menos. Não pensam que serão ressuscitados num Dia grandioso, o dia em que toda a humanidade permanecerá de pé diante do Senhor dos mundos (Surata Al-Muta‌ffifin: 1––6)।

Por outro lado, o Alcorão louva os comerciantes que não se descuidam de seus deveres para com Allah nem do cumprimento das obrigações religiosas. Ao descrever sua assiduidade em frequentar as mesquitas para realizar a oração, o Sagrado Alcorão diz: “(Eles estão) em casas ou mesquitas que Allah ordenou que fossem elevadas em pureza e dignidade; nelas, pela manhã e ao entardecer, homens glorificam a Allah, homens que não se deixam distrair pelo comércio e pelas vendas da lembrança de Allah, da observância da oração e do pagamento do zakat; eles temem o Dia em que muitos corações e olhos se revirarão (Surata An-Nur: 36––37)।

Os comerciantes controlam a maior parte da riqueza da nação. Controlam o fornecimento de mercadorias à população e determinam os preços dos bens de consumo. Dessa forma, exercem influência sobre a economia nacional e a política financeira. Portanto, é preciso advertir os comerciantes para que jamais façam aquilo que não devem fazer, e para que paguem o zakat sobre seus bens e ofereçam, além do zakat, outras formas de caridade e esmola.

A comunidade dos comerciantes não está abrangida pelo movimento de renascimento islâmico e eles estão ocupados apenas com os assuntos mundanos; por isso, não se deve considerar inútil trabalhar entre eles. Eles também são seres humanos como os demais. Conselhos e advertências os sensibilizam, e eles também podem ficar encantados com palavras ponderadas, uma abordagem paciente e uma apresentação correta.

Nos primeiros dias da missão do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, muitos comerciantes creram em Allah e em Seu Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Mesmo sob o risco de seus negócios e capitais serem destruídos ou sofrerem perdas, eles responderam ao chamado do tawhid. Entre os que aceitaram o Islã logo no início estavam Abu Bakr, que Allah esteja satisfeito com ele, Uthman, que Allah esteja satisfeito com ele, e Abd al-Rahman ibn Awf, que Allah esteja satisfeito com ele. Eles estavam entre os dez a quem foi anunciada a boa-nova. Na esperança de obter a satisfação e a misericórdia de Allah, e para oferecer ajuda e apoio a Allah e ao Seu Mensageiro, abandonaram suas casas e seus bens e foram obrigados a emigrar para Medina. Por amor a Allah, aceitaram de coração satisfeito essa mudança em seu destino.

Em nossa época, vemos muitos comerciantes honestos gastarem voluntariamente seu dinheiro em atividades religiosas, dando mais importância à vida futura do que à vida mundana. Eles não se agarram às riquezas que receberam como sinais da misericórdia de Allah. Isso porque consideram suas vidas e seus bens como patrimônio da da’wah e do movimento islâmicos.

Os capitalistas cristãos do Ocidente doam bilhões de dólares às instituições cristãs de todo o mundo para propagar sua religião. O mesmo se aplica aos capitalistas judeus. Apesar de sua avareza e de sua tendência a adorar o dinheiro, eles continuam gastando generosamente em favor dos interesses judaicos, antes e depois da criação do Estado de Israel. Não se pode esperar menos dos muçulmanos ricos. Pois eles sabem que Allah é o Dono das riquezas. Portanto, devem gastar esses bens no caminho de Allah. E, por isso, Allah Todo-Poderoso os recompensará.

Gostaria de chamar a atenção para um aspecto importante das doações materiais. Entre os muçulmanos há muitas pessoas ricas, honestas e sinceras, que desejam gastar suas riquezas para alcançar a satisfação de Allah. Elas fazem doações com mão generosa. Mas precisam saber como e em que causas devem gastar seu dinheiro.

A área adequada para esse gasto são as atividades islâmicas. Portanto, aqueles que têm condições de fazer doações devem compreender que o mais importante não é simplesmente gastar dinheiro, mas gastá-lo no caminho correto. Nesse contexto, é essencial estabelecer prioridades — isto é, determinar qual setor é mais importante agora e qual área será necessária na etapa seguinte — e organizar dessa forma as áreas de aplicação dos recursos. É realmente lamentável que a maioria dos muçulmanos ricos, especialmente os que gastam dinheiro em obras beneficentes, geralmente demonstre maior interesse em fazer doações apenas para a construção de mesquitas ou de instituições religiosas desse tipo. Por isso, há grande descontentamento e muitas queixas entre os membros do movimento islâmico.

A Organização Islâmica da Da’wah, na África, apresentou essa queixa. O Dr. Muhammad Naser e seus colaboradores, ligados ao Conselho Supremo da Da’wah Islâmica da Indonésia, também fizeram a mesma queixa. Queixas semelhantes vêm igualmente daqueles que trabalham na divulgação e propagação dos ideais e ensinamentos islâmicos para enfrentar o secularismo, o marxismo e outras ideologias.

Especialistas e apoiadores sinceros ligados ao movimento islâmico e à da’wah concordaram que existem áreas de atuação mais importantes do que a construção de mesquitas. Uma delas é formar pessoas — pessoas que constroem a civilização, alcançam sucesso no trabalho de da’wah, avançam entre esperanças e desafios, constroem mesquitas e progridem passo a passo no esforço de estabelecer várias instituições segundo o modelo islâmico.

Estabelecer um centro com o objetivo de expandir as atividades de da’wah do Islã e criar consciência entre os muçulmanos é um dos principais programas para alcançar a proximidade de Allah e servir adequadamente ao Islã. Gastar dinheiro nesse caminho merece prioridade, e um muçulmano pode, sem dúvida, obter a satisfação de Allah por meio de uma obra nobre. Esse tipo de centro ajudará a levar aos jovens muçulmanos a mensagem do autêntico ideal islâmico, bem como a purificar seus pensamentos e reformar sua conduta. Por meio de diversos métodos e estratégias, incluindo acampamentos educacionais, oficinas e programas de discussão, esse centro poderá contribuir para despertar nos jovens atração e entusiasmo pelo Islã.

Um corpo de trabalhadores do movimento islâmico, devidamente treinado, altamente competente, instruído e refinado, enriquecido com conhecimentos religiosos e mundanos e com meios adequados de subsistência, será capaz de cumprir suas responsabilidades com plena dedicação e da maneira apropriada. Considerará negligenciar esse dever um pecado e julgará que realizar essa nobre obra merece recompensa de Allah e o reconhecimento do povo. Na realidade, esse programa requer, além de recursos financeiros e tempo, esforços contínuos para sua implementação.

Atividade das mulheres

Desde o início do trabalho de da’wah, o movimento islâmico voltou sua atenção para as mulheres. O Imam Hasan al-Banna fundou uma organização de mulheres chamada ‘Al-Akhawat al-Muslimat’ e atribuiu-lhe a responsabilidade de disseminar a da’wah entre as muçulmanas e formar um grupo de mulheres que, participando dos esforços da Irmandade Muçulmana empenhados em estabelecer a religião de Allah na terra, se tornariam suas colaboradoras. As mulheres dessa organização desempenharam um papel significativo. Apesar de suportarem muitos sofrimentos, desempenharam um papel eficaz no cuidado das famílias dos membros encarcerados da Irmandade Muçulmana e no fornecimento de alimentos e ajuda financeira, algo digno de menção. Elas cumpriram essa responsabilidade arriscada ignorando o risco de serem perseguidas pelos agentes do departamento de inteligência. Várias delas tiveram de suportar sofrimentos extremos. Uma delas foi Zaynab al-Ghazali.

Entre as mulheres, a falta de trabalho islâmico

Mas temos de reconhecer que o trabalho islâmico entre as mulheres ainda não alcançou o nível desejado. Embora a da’wah já tenha chegado às mulheres, especialmente às estudantes universitárias e secundaristas.

Embora tenham se passado sessenta ou setenta anos desde o início do movimento, não surgiu nenhuma líder muçulmana capaz de enfrentar, sozinha e com competência, o secularismo e o marxismo. Essa situação surgiu como resultado dos esforços contínuos dos homens para controlar o movimento das mulheres. Os homens nunca deram às mulheres a oportunidade de manifestar suas qualidades e características nem de demonstrar seu talento e capacidade de liderança. Se tivessem essa oportunidade, as mulheres poderiam provar sua capacidade de assumir a responsabilidade por seu trabalho sem a dominação dos homens.

Condições para o sucesso

Creio que o trabalho islâmico entre as mulheres terá êxito se o movimento islâmico conseguir formar lideranças islâmicas femininas nos campos da pregação, do pensamento, da ciência, da literatura e da educação.

Não considero isso uma tarefa impossível ou difícil. Assim como há homens talentosos, também há mulheres talentosas. A excelência não é monopólio dos homens. O Alcorão Sagrado não nos contou sem motivo a história na qual um povo chegou ao limiar do sucesso sob a liderança prudente e corajosa de uma mulher. Ela é a rainha de Sabá. A história sobre a rainha e o profeta Salomão (que a paz esteja sobre ele) é mencionada nasurata An-Naml.

Na Universidade do Catar, observei que, nos estudos, as moças são muito melhores que os rapazes. Essa também é a opinião dos meus outros colegas na universidade. Isso é especialmente verdadeiro porque as moças têm mais tempo para estudar do que os rapazes. Já os rapazes ficam ocupados com atividades fúteis.

Expansão de uma atitude radical

Quero dizer francamente que, no movimento islâmico, prevalece uma atitude radical no que diz respeito às relações entre homens e mulheres. Sobre essa questão, foram adotadas perspectivas tão rígidas como nunca se havia visto antes. Observei exatamente esse tipo de procedimento em muitas conferências e simpósios, inclusive na Europa e na América. Em meados da década de 1970, participei durante vários anos consecutivos das conferências anuais da Associação de Estudantes Muçulmanos dos Estados Unidos e do Canadá. Tanto mulheres quanto homens participavam ali de palestras e debates. Participavam de comentários, sessões de perguntas e respostas e discussões sobre todas as principais questões islâmicas. Entre elas estavam questões teóricas, sociais, educacionais e políticas. Nas sessões reservadas exclusivamente às mulheres, discutiam-se apenas questões relacionadas às mulheres.

Na década de 1980, ao participar de várias conferências nos Estados Unidos e na Europa, constatei que as mulheres eram mantidas afastadas de grande parte do conteúdo central das palestras e debates importantes. Várias mulheres reclamaram que se sentiam entediadas ao ouvir palestras concentradas no papel, nos direitos, nas responsabilidades e na dignidade das mulheres no Islã. A repetição dessas palestras parecia-lhes uma espécie de punição imposta. Critiquei duramente essa perspectiva em várias conferências e disse que, no culto e na busca do conhecimento religioso, a regra é que todos participem. No Islã, nunca houve uma mesquita reservada exclusivamente às mulheres, da qual os homens não participassem. Quando o Mensageiro de Allah (que a paz esteja sobre ele) aconselhava as pessoas em alguma reunião, as mulheres também estavam presentes. Elas participavam com os homens, ou ao menos estavam presentes, nas orações congregacionais de sexta-feira, nas duas festas do Eid e nas demais orações. As mulheres faziam perguntas sobre seus assuntos particulares. Não se abstinham de conhecer as normas religiosas sob o pretexto de sua timidez natural. Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) afirmou isso pessoalmente.

Nos livros de hadith há muitos exemplos de mulheres fazendo perguntas ao Mensageiro de Allah (que a paz esteja sobre ele). Entre essas perguntas, há aquelas feitas pelas mulheres apenas sobre assuntos relacionados às mulheres; em outras ocasiões, algumas mulheres fizeram perguntas em nome de todas as mulheres. Por exemplo, uma mulher disse: “Ó Mensageiro de Allah (que a paz esteja sobre ele), as mulheres me enviaram até você.”

As mulheres também solicitaram ao Mensageiro de Allah (que a paz esteja sobre ele) que lhes reservasse um dia e um horário separados, para que pudessem conversar francamente e em particular sobre qualquer assunto, sem a presença dos homens. Assim, além da educação geral recebida em conjunto com os homens, foi concedido às mulheres mais esse benefício especial.

Nas atividades problema

O problema das atividades islâmicas das mulheres é que são lideradas por homens, e não por mulheres. Além disso, os homens empenham-se em manter sua autoridade nessa área, pois não querem ver surgir uma liderança feminina. Nos trabalhos islâmicos das mulheres, os homens impõem sua autoridade, até mesmo em suas reuniões e assembleias. Aproveitando-se da timidez delas, nunca lhes dão a oportunidade de assumir a liderança de suas próprias atividades. Consequentemente, no processo do movimento islâmico, as mulheres não têm oportunidade de demonstrar seu talento e sua competência, nem de aperfeiçoar sua experiência e seus esforços. Tampouco têm oportunidade de adquirir conhecimento, perseverança e, por meio disso, aprender algo no amplo campo de educação da vida.

É claro que nossas irmãs muçulmanas também não estão inteiramente isentas de culpa. Elas também se renderam a essa situação lamentável, entregando suas preferências e aversões às mãos dos homens e satisfazendo-se com conforto e comodidade. Este é o momento de abrir as portas do esforço, tomar medidas para expandir o trabalho de da’wah e silenciar aquelas vozes femininas autoproclamadas que afirmam ser especialistas nos princípios, ideais, normas e valores da ummah muçulmana. Por mais elevadas que sejam essas vozes, elas representam apenas um grupo minoritário derrotado e pisoteado. Elas não têm valor algum em qualquer esfera da religião ou do mundo.

Em 1989, fui convidado a proferir uma palestra para as estudantes da universidade da Argélia. Após a palestra, conforme o costume, eu respondia às perguntas escritas e orais das estudantes. Alguns jovens também estavam presentes. Um rapaz, por iniciativa própria, recolhia as perguntas, selecionava por conta própria quais deveriam ser respondidas e quais deveriam ser descartadas, e as encaminhava a mim. Eu me opus a esse papel e disse: por que uma estudante não está fazendo isso em nome de suas colegas?

Eu disse: por que vocês, rapazes, estão se intrometendo nos assuntos das moças? Afastem-se. Deixem que elas façam o trabalho à sua maneira. Que elas mesmas selecionem as perguntas e decidam quais devem ser respondidas, e que uma delas leia as perguntas em voz alta.

Foi como se eu tivesse retirado um enorme peso do coração das moças. Uma estudante aproximou-se rapidamente e desempenhou o papel que, até então, o jovem que me acompanhava estava desempenhando.

Um acontecimento semelhante ocorreu numa convenção de estudantes muçulmanos realizada em Manchester, na Grã-Bretanha, no inverno de 1990. Ali também houve uma sessão de perguntas e respostas depois de eu proferir uma palestra dirigida às mulheres muçulmanas. Mais uma vez, um jovem entusiasmado assumiu a responsabilidade de recolher e selecionar as perguntas. Eu lhe disse claramente: não há razão para você permanecer aqui. Basta que uma das moças faça esse trabalho. Pois as mulheres têm o direito de conduzir suas próprias atividades. Contudo, o jovem gentil em questão me disse que, segundo as regras daquele lugar, essa responsabilidade havia sido atribuída a ele e, portanto, não podia interrompê-la. Ele apresentou sua própria explicação, e eu tive de aceitá-la.

As irmãs do Egito e da Argélia fazem ainda outra reclamação. Quando uma mulher atuante do movimento islâmico, que se tornou conhecida por meio do movimento, casa-se com um homem atuante do movimento, acontece que ele não apenas a proíbe de participar do movimento, mas também a obriga a permanecer em casa. Desse modo, ele apaga uma tocha que certa vez iluminava o caminho de outra mulher muçulmana.

Esses acontecimentos se tornaram tão comuns que certa vez uma moça argelina que trabalhava no movimento islâmico escreveu-me para perguntar se seria haram para ela recusar-se a casar a fim de evitar semelhante situação. Pois muitas irmãs foram vistas escolhendo levar uma vida ociosa, afastando-se do movimento e do trabalho de da‘wah, justamente numa época em que mulheres comunistas, secularistas e liberais continuam trabalhando por seus próprios interesses.

Objeções e refutação

Os extremistas podem perguntar: como podemos confiar às mulheres muçulmanas responsabilidades de liderança para que desempenhem um papel ativo no movimento islâmico e comprovem sua presença nas atividades islâmicas, quando o Sagrado Alcorão lhes ordenou permanecer em suas casas: “E permanecei em vossas casas e não vos exibaís como na época da ignorância” (Surata Al-Ah‌zab: 33)।

Em resposta à pergunta desses irmãos excessivamente zelosos, quero dizer que este versículo se dirige às esposas do Mensageiro de Allah, que possuem uma posição especial que as outras mulheres não possuem. Havia para elas certas restrições que não se aplicavam às demais mulheres. O Todo-Poderoso Allah diz no Sagrado Alcorão, dirigindo-Se a elas: “Ó esposas do Profeta! Vós não sois como as demais mulheres” (Surata Al-Ah‌zab: 32)।

Isso, porém, não impediu que este versículo impedisse Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) de ir à Batalha do Camelo. Segundo sua compreensão, ela participou dessa batalha para cumprir a exigência de honestidade na política. Dois companheiros veteranos do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) deram-lhe seu apoio. Esses dois companheiros haviam sido nomeados para o califado e estavam entre os companheiros que receberam a boa-nova de entrar no Paraíso. Segundo os relatos dos historiadores, o arrependimento posterior de Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) por essa situação não se deveu ao fato de ter sido ilícito sair de sua casa, mas ao fato de sua perspectiva política não ter sido correta. Que Allah a perdoe e derrame paz sobre sua alma.

Mas, ao examinarmos a opinião daqueles que afirmam que todas as mulheres são abrangidas por este versículo, vemos que seu significado não é que as mulheres devam permanecer dentro de casa e sejam proibidas de sair. Isso porque o Alcorão estabeleceu essa permanência dentro de casa como punição para as mulheres cujo adultério tivesse sido comprovado por quatro testemunhas. Essa regra vigorava antes da instituição da punição rigorosa denominada “hadd” (pena capital), descrita no Alcorão e no hadith. O Todo-Poderoso Allah diz: “E, quanto às vossas mulheres que cometerem adultério, convocai quatro testemunhas dentre vós contra elas. Se elas testemunharem, confinai-as em suas casas até que lhes sobrevenha a morte ou até que Allah lhes determine outro caminho”(Surata An- Nissá: 15)।

Além disso, o mandamento de Allah: “E não vos exibaís como na época da ignorância” (Al-‌Ahzab: 33)). Isso indica que é permitido às mulheres sair, vestindo roupas modestas, sem ostentação. Não é proibido que uma mulher se enfeite dentro de casa, pois lhe é permitido adornar-se como quiser dentro de casa. Apenas lhe é ordenado que se abstenha de adotar adornos vistosos quando sair de casa para as ruas, o mercado ou qualquer outro lugar.

 

Quartocapítulo

Islâmico movimento: educação e formação

Formação à luz da fé

Para qualquer movimento islâmico que vise transformar a situação por meio da transformação do povo, a educação e a formação constituem a estratégia fundamental e indispensável. O objetivo fundamental do programa educacional deve ser formar um grupo de vanguarda muçulmano que ajude a levar adiante a obra do Islã. Tal como eram os Companheiros do Profeta na época do Mensageiro de Allah, assim é a importância do grupo de vanguarda para nós nesta época.

A primeira qualificação dos membros desse grupo de vanguarda será o iman. Refiro-me ao iman descrito no Alcorão e na Sunnah, que possui mais de setenta ramificações relacionadas a valores e à moralidade; o iman sobre o qual foram compiladas numerosas obras. Isso porque o iman não nasce de caprichos ou imaginações. O iman emana do coração e é comprovado pelas ações ou obras.

Portanto, iman não significa apenas conhecimento intelectual, que não produz qualquer toque de luz no coração nem agita a força de vontade. Tampouco significa assimilar termos como Allah, Senhor, din e adoração; tawhid, taghut e jahiliyyah. Não significa orgulhar-se de ter adquirido, por manter essas questões na mente, as características que os verdadeiros crentes devem possuir. Na realidade, isso é que constitui a crença suprema e absoluta. Iman não significa envolver-se com os outros em discussões argumentativas e disputas verbais sobre palavras e terminologias.

Nem a argumentação nem a disputa verbal despertarão uma fé como aquela com que os feiticeiros do Faraó creram no Senhor de Moisés e de Aarão, ou como aquela com que os Companheiros do Mensageiro de Allah creram na Palavra de Allah. A fé necessária é a fé de primeira categoria descrita pelo Alcorão e pela Sunna. A esse respeito, basta mencionar o versículo do Sagrado Alcorão em que Allah, o Altíssimo, respondendo aos beduínos árabes que disseram “cremos”, afirma que a fé não entrou em seus corações. Allah, o Altíssimo, na Surata Al-Hujurat versículo 15 diz: Somente são crentes aqueles que creem em Allah e em Seu Mensageiro, depois não duvidam e lutam com suas vidas e seus bens pelo caminho de Allah; esses são os verdadeiros.

Foi narrado por Anas (que Allah esteja satisfeito com ele) que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: aquele que possuir três qualidades poderá experimentar a doçura da fé. Elas são: amar Allah e Seu Mensageiro mais do que qualquer outra coisa; amar alguém exclusivamente por amor a Allah; e odiar retornar à incredulidade da qual Allah o salvou, assim como odiaria ser lançado no Inferno ((Bukhari e Muslim)।

Para as pessoas comuns que seguem um líder, meia obediência ou mesmo um quarto de obediência pode ser suficiente; mas o grupo de vanguarda do movimento islâmico deve necessariamente possuir uma fé pura. Sua fé jamais pode ser reduzida ou deficiente.

O Imam Hasan al-Banna dizia aos seus discípulos: “Dai-me doze mil crentes, e eu atravessarei montanhas, cruzarei mares e conquistarei países.” [Imam Banna r.. parece ter extraído, de Ahmad Abu Dawud, at-Tirmidhi, Ibn Khuzayma, Ibn Hibban e al- Hakim em uma coletânea de hadiths incluída uma hadith do qual esse significado ele teria extraído.। Nesses hadiths Ibn Abbas é citado ao relatar que um grupo de, doze mil crentes é invencível mesmo, que esse número pareça pequeno .। Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). por sua autoridade este hadith foi narrado .।]É esse número suficiente para concretizar as aspirações da Ummah Islâmica? Eu digo: sim, é possível. Com doze mil crentes verdadeiros, poderemos alcançar o objetivo desejado. Mas também digo que não será possível realizar o trabalho com vinte e quatro mil pessoas que tenham meia fé, ou com quarenta e oito mil que tenham um quarto de fé. Tampouco serviria um grupo de crentes cujo enorme número pudesse deixar qualquer pessoa atônita, mas cujo exército não teria utilidade alguma quando necessário.

Queremos crentes como os Ansar de Medina, que se juntavam em grande número durante as guerras, mas dos quais pouquíssimos eram vistos no momento da distribuição dos espólios de guerra.

Aqueles que são numerosos, mas inúteis na prática, não são melhores do que a espuma formada por uma torrente impetuosa [Thawban relatado pelo Mensageiro de Allah s.a.. em seu um hadith foi mencionado : Haverá um tempo em que virá quando de todos os lados de diversas nações vos cercarão e e vos derrotarão ,। exatamente como pessoas famintas se lançam sobre a comida no recipiente e se precipitam sobre ela em grande número.। Ao Mensageiro de Allah s.a.. foi perguntado se isso aconteceu, porque, em comparação com os inimigos, em relação aos muçulmanos o número é pequeno por ser justamente a razão de isso acontecer ?? Ele respondeu, que não;; os muçulmanos naquele tempo serão como a torrente impetuosa que cria espuma , fracos ficarão। Vossos corações fracos se tornarão , e vossos inimigos já não vos temerão nem ficarão aterrorizados por vossa causa .। A razão disso é que tereis em vós apego ao mundo e paixão pelo mundo e ódio à morte .।] Não há nada melhor do que isso. Mesmo que sejam milhões em número, jamais serão dignos de fazer parte da vanguarda do movimento. A educação e o treinamento baseados na fé ou inspirados na palavra de Allah constituem a condição prévia para formar uma geração que proteja os interesses do Islã. Allah, o Altíssimo, descreveu no Alcorão esse grupo: “Ó crentes! Se alguém dentre vós abandonar sua religião, Allah logo fará surgir um povo que Ele amará e que O amará; será humilde e bondoso para com os crentes, firme para com os incrédulos; lutará pela causa de Allah e não temerá a censura de nenhum censurador. Essa é a graça de Allah, que Ele concede a quem deseja; e Allah é Inesgotável, Onisciente (Surata Al-Ma’idah: 54)।

Genuína educação sufista

Há necessidade de uma educação sufista genuína baseada no Alcorão e na Sunna. Esse tipo de educação contribui para formar um caráter sufista, que dará prioridade a Allah em vez de Sua criação, à vida futura em vez deste mundo e à consecução dos objetivos religiosos em vez da satisfação dos próprios desejos.

Embora alguns pensem assim, nem todo tasawwuf (sufismo) é mau. Nem todos os sufistas estão desviados, embora muitos afirmem isso por falta de conhecimento ou de uma compreensão correta. Os sufistas são um grupo como os demais grupos. A esse respeito, o Shaykh al-Islam Ibn Taymiyyah escreveu num de seus tratados, intitulado “Al-Fuqara”: entre os sufistas, você encontrará pessoas virtuosas e pessoas desviadas. Alguns deles corrompem o próprio nafs, alguns seguem o caminho do equilíbrio e há também aqueles que, pela graça de Allah, são extremamente virtuosos.

Rejeitamos certamente todas as doutrinas equivocadas do sufismo filosófico, como o hulul (a doutrina da encarnação divina) e o ittihad (no sentido de união espiritual com Allah), as várias declarações dos sufistas desviados sobre supostas conquistas espirituais e o sufismo oportunista cujo objetivo é ganhar dinheiro. Queremos um sufismo puro, cujos melhores exemplos são os veneráveis sufistas, como Al-Hasan al-Basri, Al-Fudayl ibn Iyad, Ibrahim ibn Adham, Abu Sulayman al-Darani, Abul-Qasim, Al-Junayd e outros.

Queremos um sufismo que siga a via moderada do Alcorão e da Sunna — um sufismo que dê importância à purificação do coração, sem lugar para vários exercícios dos membros do corpo. O tasawwuf observa a realidade interior antes da aparência externa. Está claramente afirmado num hadith autêntico: Allah não olhará para os vossos corpos nem para as vossas faces, mas olhará para os vossos corações (Muslim)।

Queremos um sufismo que elimine as doenças da mente, feche as vias de entrada de Satanás no coração e impeça a tendência do coração humano de satisfazer suas paixões, para que a pessoa abandone os atos pecaminosos e adquira verdadeiros valores morais e virtude.

Um sábio descreveu o sufismo da seguinte maneira: o sufismo consiste em ser sincero com Allah e benéfico para as pessoas. O Todo-Poderoso Allah diz: Certamente, Allah está com aqueles que O temem e fazem o bem (Surata an-Nahl‌: 128)।

Allama Ibn al-Qayyim, citando os sufis dos primeiros tempos, disse: O sufismo é boa conduta; se alguém o superar em boa conduta, será melhor do que você. Comentando isso, Ibn al-Qayyim disse: Não; a religião é boa conduta, e se alguém o superar em taqwa e piedade, então, do ponto de vista religioso, será uma pessoa de melhor conduta do que você. Neste caso, basta lembrar um hadith do Mensageiro: Fui enviado como mensageiro para aperfeiçoar a moralidade (Bukhari)।

Importantes quatro assuntos

No campo da educação, devemos concentrar nossa atenção em quatro assuntos:

a.. Sincera intenção

O primeiro assunto importante é purificar a própria intenção. Devemos agir unicamente para obter a satisfação de Allah, e não para alcançar riqueza, poder, o favor das pessoas ou qualquer outro objetivo oculto no íntimo do coração.

A tarefa do Islã consiste em adoração e jihad. A adoração só é benéfica quando realizada exclusivamente para Allah, com uma intenção sincera. Allah, o Altíssimo, diz: E não lhes foi ordenado senão adorar a Allah, e não adorar ninguém além d’Ele (Surata Al-Bayyinah: 5)।

O jihad no caminho de Allah só é verdadeiro quando, com uma intenção pura, é empreendido exclusivamente com o objetivo de elevar a palavra de Allah. Ele não aceita uma ação realizada com qualquer objetivo além de Allah, nem uma ação baseada em uma crença que associe qualquer outra pessoa a Ele. Por isso, o Imam Hassan al-Banna escolheu como seu primeiro lema: Allah é nosso objetivo. Para enfatizar que a satisfação e a recompensa de Allah são nosso objetivo supremo e mais desejado.

Podemos dizer que queremos estabelecer uma sociedade islâmica. Queremos um Estado islâmico ou um sistema de governo islâmico, ou estamos trabalhando para restaurar um sistema de vida islâmico integrado, ou para alcançar algum outro objetivo de curto ou longo prazo. Mas nosso objetivo geral deve ser alcançar a satisfação de Allah, para que Ele nos inclua entre Seus servos virtuosos. Todo ativista islâmico deve se lembrar destes dois versículos: Dize: «Certamente, minha oração, meu sacrifício, minha vida e minha morte pertencem a Allah, Senhor dos mundos. Ele não tem parceiro algum. Assim me foi ordenado, e sou o primeiro entre os submissos»(Surata Al-An’‘am: 162–-163)।

Os esforços daqueles que buscam fama e renome para alcançar qualquer objetivo não são bem-sucedidos. Segundo a narração de um hadith, a vitória é alcançada pelos esforços daqueles que são benevolentes, honestos e educados; quando estão presentes, não se percebe sua presença, mas, quando estão ausentes, sente-se sua falta, e cujos corações são lâmpadas luminosas do caminho de Allah (Al Hakim)।

b. A presença de Allah presença sentir

O segundo assunto no qual se deve concentrar a atenção é sentir a presença de Allah em qualquer ação, para que nela se manifeste devidamente a verdadeira excelência. Por isso, quando Jibril perguntou ao Mensageiro de Allah (que a paz esteja sobre ele) sobre a excelência, ele respondeu: O nível máximo da excelência é adorar Allah como se você O visse. E, embora você não O veja, Ele certamente o vê.

Esta é uma condição prévia para qualquer obra religiosa ou mundana. Pois a excelência na realização das obras é uma obrigação que todo muçulmano deve esforçar-se para alcançar. Allah exortou à excelência em todas as coisas. Ao buscar a excelência, a pessoa não deve ter outra percepção senão a de que Allah a vê, ouve o que diz e conhece tudo o que faz.

A excelência é ainda mais necessária quando a obra está relacionada à religião, especialmente quando se trata da da‘wah islâmica e do movimento islâmico — seja esse tipo de obra uma obrigação individual ou uma obrigação coletiva. Na da‘wah islâmica e no movimento islâmico, os ativistas cumprem a responsabilidade em nome dos demais muçulmanos, que apenas passam o tempo ociosamente e observam. Além disso, quando têm oportunidade, eles atacam os ativistas islâmicos e incitam-nos a abandonar essa obra religiosa.

Não há falta de supervisão dos ativistas islâmicos. Também não é necessária uma inspeção administrativa de seu trabalho, pois eles estão submetidos à auto-supervisão e são os primeiros inspetores de seu próprio trabalho. Em seus corações permanece sempre desperta esta palavra de Allah: “Ele está convosco onde quer que estejais, e Allah vê tudo o que fazeis.”(Surata Al-Hadid: 4)।

c.. Autocrítica

O terceiro tema central é fazer a autocrítica (ihtisab). Se, antes de iniciar o trabalho, nossa intenção estiver clara e, durante sua realização, surgir em nós a consciência de que Allah está presente, isso será autocrítica. E isso é precisamente a prestação de contas. Foi narrado no hadith: “Inteligente é aquele que faz as contas de seu nafs e se prepara para o que virá após a morte; e incapaz é aquele que age conforme os desejos de seu nafs e depois deposita sua confiança em Allah.”(Tirmidhi)।

Também foi narrado que Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Fazei vós mesmos a vossa prestação de contas antes que ela vos seja exigida. Pesai as vossas ações antes que elas sejam pesadas contra vós.” Uma declaração de Maymun ibn Mahran diz: “Aquele que é consciente de Allah é quem toma sua própria alma em conta com mais rigor do que um governante tirânico e um avarento.” A origem disso é a Palavra do Altíssimo: “E juro pela alma que se censura a si mesma” (Surata Al-Qiyamah: 2)।

O ihtisab intensifica continuamente o esforço para corrigir erros e eliminar fraquezas. Assim, a pessoa se empenha sempre em alcançar a excelência e abandona o hábito de se elogiar, de ser arrogante e de censurar os outros.

No Islã, este princípio de prestar contas a si mesmo é um dos princípios fundamentais nos campos da moral e da educação. Por isso, todos os sufis e estudiosos o consideraram indispensável.

Hoje em dia, as pessoas frequentemente pronunciam a expressão “autocrítica”. Não há problema em usar essa expressão. O verdadeiro problema, porém, está em aceitá-la em seu sentido convencional e considerá-la algo tomado de outros. Pois a autocrítica nada mais é do que prestar contas a si mesmo. E ela é, em essência, orientada pelo Alcorão, pela Sunna e pela nossa cultura.

d.. Tawakkul em Allah

O quarto tema central é depositar confiança em Allah (tawakkul). Trata-se de uma arma espiritual que transforma a fraqueza em força. É a arma com a qual o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) enfrentou os governantes tirânicos de diversos povos. A tirania deles jamais o intimidou, nem suas conspirações conseguiram enfraquecê-lo. O Altíssimo Allah diz: “E por que não haveríamos de confiar em Allah, quando Ele nos mostrou o caminho que seguimos? E certamente suportaremos com paciência o sofrimento que nos infligistes. E é somente em Allah que os pacientes devem depositar sua confiança” (Surata Ibrahim: 12)।

Confiar em Allah significa aceitá-Lo como Guia, seguir Suas instruções e depender somente d’Ele. A esse respeito, Allah, o Altíssimo, diz: Ele é o Senhor do Oriente e do Ocidente. Não há divindade além d’Ele. Portanto, tome-O como Aquele que conduz todos os seus assuntos (Surata Al-Mu‌zzam‌mil: 9)।

Naturalmente, deve-se aceitar Allah como Aquele que conduz todos os assuntos somente depois de preparar-se e tomar todas as precauções; então, deve-se avançar confiando que Allah não o abandonará. Confiar em Allah não deve, de modo algum, ser entendido como negligenciar o próprio trabalho, abandonar os métodos determinados para alcançar o objetivo, demonstrar indiferença às regras permitidas ou esperar colher sem semear nem cuidar do campo. Tawakkul significa aquilo que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, e os profetas e mensageiros anteriores a ele praticaram. Significa esforçar-se ao máximo, confiando em Allah, acreditando firmemente em Sua promessa e esperando Seu apoio, e então deixar o resultado nas mãos de Allah.

O Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, tomou as melhores medidas para a Hégira. Ainda assim, os incrédulos chegaram à caverna onde ele se havia escondido. Quando Abu Bakr, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: “Se algum deles olhar para baixo, aos seus pés, certamente nos verá”, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Ó Abu Bakr, o que pensas de dois homens acompanhados por um terceiro, que é Allah? Surata At-Tawbah 40 º versículo é dito: “Não fiques triste nem tenhas medo; certamente Allah está conosco.”

Moisés (que a paz esteja sobre ele) também disse isso ao seu povo quando o Faraó, com seu exército, os perseguia. O povo de Moisés ficou encurralado entre o mar à frente e o exército do Faraó atrás. Allah diz: Então, quando os dois grupos se avistaram, os companheiros de Moisés disseram: “Certamente seremos alcançados por eles.” Moisés disse: “De modo algum! Pois meu Senhor está comigo. Ele certamente nos guiará(Surata Ash Shu’‘ara: 61–62)।

O que realmente precisamos é de uma fé firme desse tipo. Fortalecidos pela convicção de que Allah está conosco, devemos enfrentar os descendentes do Faraó e de Abu Jahl. Aqueles com quem Allah está não podem fracassar. Está declarado no Alcorão: “Se Allah vos ajudar, ninguém poderá vencer-vos; mas, se Ele não vos ajudar, quem, depois d’Ele, poderá socorrer-vos? E somente em Allah os crentes devem confiar(Surata Āl ʿImrān: 160)।

A importância da ação correta

Ao formar a equipe de vanguarda necessária, é preciso assegurar a combinação de duas coisas: sinceridade na intenção e ação correta.

Em toda ação islâmica, são indispensáveis uma intenção pura e boa vontade. Pois toda ação islâmica significa adoração e jihad. Já dissemos que nenhuma adoração ou jihad será aceita se não houver nela um método correto. Por isso, nossos sábios atribuíram grande importância ao hadith de Rasulullah (que a paz esteja com ele): “As ações são avaliadas ou medidas de acordo com as intenções”. Os sábios consideram, de modo geral, a intenção como um quarto, um terço e até mesmo metade do Islã.

Mas, para levar o movimento islâmico adiante em meio a fortes tempestades, somente a intenção não é suficiente. Além de uma intenção sincera, deve-se ter a capacidade de distinguir o certo do errado, e até mesmo qual das duas opiniões é mais correta, bem como escolher o menor dos dois males ou o melhor entre duas coisas boas. Diz-se que essa pessoa é inteligente aquela que o mal do bem sabe distinguir , enquanto, a outra pessoa é sábia porque entre’dois males é capaz de identificar o menos mau e reconhecê-lo .।

De fato, um muçulmano deve esforçar-se para saber o que é correto. Mesmo que alguém erre após ter feito um esforço, será perdoado e até recompensado. A esse respeito, foi relatado em um hadith que, se alguém, depois de tentar conhecer a verdade, chegar a uma decisão errada, ainda assim receberá uma recompensa; e, se alguém encontrar o caminho correto após empenhar-se e esforçar-se, receberá uma recompensa dupla. Uma recompensa será pelo esforço e a segunda, pela decisão correta. A promessa de uma recompensa dupla pela decisão correta existe porque o objetivo constante daqueles que se empenham deve ser conhecer a “verdade real”, e para que todos os crentes sábios possam concentrar sua atenção, em seus esforços, precisamente no conhecimento da verdade real. Neste ponto, lançarei luz sobre duas questões.

Em primeiro lugar, aqueles que serão recompensados por seu empenho devem, antes de tudo, ser aptos a realizar esse esforço; isto é, devem possuir a qualificação mínima para exercer seu discernimento pessoal (ijtihad). Com ijtihad, não me refiro aqui ao sentido jurídico e técnico descrito nos livros de fiqh a respeito desse tipo de esforço, mas ao esforço intelectual realizado em determinado campo, para o qual são necessários conhecimentos especializados. O ijtihad em assuntos políticos é certamente de natureza diferente do ijtihad em assuntos militares, econômicos e educacionais. Isso porque conhecimentos especializados são indispensáveis em cada área.

Mas, se alguém começa a pesquisar um assunto sobre o qual não possui bons conhecimentos e emite uma opinião sem conhecimento adequado, terá cometido uma injustiça contra si mesmo, terá sido injusto com sua pesquisa e terá causado prejuízo à sua nação. Não receberá recompensa; ao contrário, merecerá ser punido por um pecado inegável. Pois emite uma opinião apesar de ser ignorante, como alguém que, sem saber nadar, entra na água e finge nadar. Por isso, o Mensageiro de Allah, que a paz esteja com ele, disse: “Há três tipos de juízes: um irá para o Paraíso, e os outros dois irão para o Inferno. O primeiro é o juiz que conhece a verdade e julga à luz dela; por isso, irá para o Paraíso. O segundo juiz é ignorante, mas ainda assim profere um julgamento; irá para o Inferno. O terceiro juiz conhece a verdade, mas profere um julgamento injusto; ele também estará entre os habitantes do Inferno” ((Abu Dawud, Tirmidhi, Ibn Majah, al-Nasa’i e al- Hakim)।

Neste hadith, o juiz que profere um julgamento apesar de sua ignorância e o juiz que profere um julgamento injusto apesar de conhecer a verdade são colocados no mesmo nível. Isso porque ele se envolveu em uma área na qual não é experiente. Nesse caso, seria melhor afastar-se dela e deixá-la nas mãos de alguém qualificado para esse cargo.

Mesmo que esse tipo de juiz faça a coisa certa, ainda assim não será recompensado. Isso porque a afirmação correta foi feita a partir de uma posição equivocada. Como essas ações não se baseiam em um método apropriado, não têm valor algum. Foi narrado em um hadith: quem emite uma opinião sobre o Alcorão sem conhecimento, mesmo que ela pareça correta, está errado. [Abu Dawud e Tirmidhi disseram que este hadith foi transmitido por um narrador e o descreveram como ‘ «garib»’ ; e An- Nasai e outros consideraram o hadith fraco ou da’if e o qualificaram como tal।] É como atirar com uma arma nas mãos de um inábil.

Mesmo que a opinião de tal juiz esteja correta, ela será considerada errada. Isso porque seu ijtihad foi elaborado segundo seus caprichos, e não mediante a estrita observância de regras e métodos apropriados. Portanto, não se pode confiar em decisões tomadas por meio de esforços tão aleatórios.

Em segundo lugar, somente aqueles que se esforçam intensamente na busca da verdade e concentram plenamente sua atenção em compreendê-la de modo correto e seguro serão recompensados, ainda que recebam uma única recompensa, pelo esforço de ijtihad. Para isso, devem compreender e utilizar todos os meios e recursos obtidos para descobrir a verdade, bem como todos os dados e informações disponíveis. Devem também consultar pessoas sábias, enriquecendo-se com opiniões corretas e experiências valiosas. Tudo isso os ajudará a tomar decisões acertadas.

Futura liderança

O problema do movimento islâmico em muitos países é que suas bases se tornaram tão amplas que faltam líderes capazes de administrá-las. Não há motivo para hesitar em reconhecer isso.

A causa dessa situação é que o movimento islâmico contemporâneo se expandiu por todo o mundo. Suas raízes se aprofundaram em todos os países. Consequentemente, sua expansão continua a se ampliar gradualmente. Contudo, paralelamente a esse desenvolvimento, não estão surgindo líderes adequados nos campos ideológico, educacional e político. A liderança atual deve preparar-se para a próxima etapa tendo essa situação em mente.

A primeira questão a considerar aqui é ser fiel às atividades de da‘wah. Por isso, fazer sacrifícios ou estar entre os primeiros participantes do movimento não constitui, por si só, as qualidades necessárias à liderança do movimento islâmico, embora essas qualidades tenham valor próprio aos olhos de Allah e das pessoas. O tipo de liderança necessário exige que os responsáveis pela liderança possuam capacidades intelectuais, psicológicas e práticas especiais. Essas características serão adicionais aos requisitos prévios convencionais de caráter moral, comportamento e crença.

Quando falo de liderança, não me refiro aos cargos mais elevados do movimento. Refiro-me, antes, ao grupo responsável pelo planejamento, pela execução, pela orientação e pelo controle das atividades, que obtém de seus subordinados o máximo de trabalho possível. Esse grupo conduz os trabalhadores envolvidos de atividades prejudiciais para processos construtivos, de debates para uma ocupação diligente e da ociosidade para o trabalho árduo.

A liderança não é um direito vitalício, e aqueles que estão à frente desde o início não devem obstruir o caminho de novos líderes, pensando que somente a morte pode privá-los desse direito. Do contrário, estarão impedindo que pessoas talentosas, capazes e cheias de juventude cheguem à liderança. Fomos exortados a seguir como modelo os Califas Bem-Guiados, que foram nomeados por período indeterminado. Na situação atual, devemos abandonar a atitude de escolher alguém como líder para toda a vida.

Na verdade, esses precedentes históricos não constituem uma lei que a Ummah tenha de seguir até o Dia da Ressurreição. Já discutimos esse assunto em outro lugar. Aqui, devemos enfatizar sobretudo a necessidade de preparar uma liderança para a próxima etapa, de modo que líderes firmes, honestos, confiáveis e inteligentes possam seguramente assumir o comando do movimento. Devemos formar lideranças nos campos ideológico, educacional e político.

Devemos refletir seriamente sobre essa questão, tomar medidas realistas e eficazes e transformar a teoria em prática.

Formação da liderança por meio de um instituto especial

Tendo esse objetivo em vista, proponho a criação de um instituto para formar a liderança islâmica. Como estudantes desse instituto, devem ser selecionados indivíduos talentosos, convictos e dotados das qualidades intelectuais, psicológicas, comportamentais e espirituais necessárias. Esses estudantes devem ser escolhidos à luz das recomendações de pessoas sábias, capazes de avaliar as qualidades e características humanas. Antes de serem recrutados para treinamento no instituto, eles também devem ser submetidos a exames escritos e básicos. É preferível que o instituto seja residencial, onde os estudantes vivam como uma comunidade. Os elementos fundamentais da vida ali serão a religião, o conhecimento, as atividades de da‘wah, a fraternidade e o jihad.

O currículo desse instituto deve ser abrangente, profundo e diversificado. Deve integrar a tradição com os conhecimentos e as ciências contemporâneas, bem como combinar a religião e as ciências humanas no contexto islâmico. Ao mesmo tempo, deve dar a devida atenção às questões locais, árabes, islâmicas e internacionais. Nesse contexto, o currículo deve enfatizar o estudo e a análise dos círculos que se opõem à nossa religião, à Ummah e ao avanço do movimento. Essa instituição deve promover a integração do conhecimento com a ação e da teoria com a prática.

Para ministrar esse currículo, devem ser nomeados professores confiáveis, altamente instruídos e dotados de pensamento e fé maduros. Esses professores devem manter-se muito distantes tanto da brandura quanto da severidade. Devem possuir um pensamento integrado e equilibrado. Nenhum deles deve considerar indignas de consideração as opiniões dos demais; tampouco devem ser especialistas do Ocidente ou do Oriente, nem de esquerda ou de direita. Se forem assim, criarão contradições e confusão no campo do pensamento, o que prejudicará o processo de formação do caráter dos estudantes.

Com isso, não quero dizer que esses professores esclarecidos devam ser réplicas exatas uns dos outros. Quero apenas dizer que, nas questões principais, deve haver concordância entre sua visão geral e a filosofia fundamental adotada pelo instituto.

Agora discutirei algumas características do ideal que desejamos estabelecer por meio dessa iniciativa ambiciosa.

Características do ideal desejado

Sem qualquer dúvida ou ambiguidade, quero afirmar enfaticamente uma coisa: para os futuros líderes do movimento islâmico, além da educação baseada na fé, também deve ser providenciado um treinamento ideológico sólido, que é a chave principal para o desenvolvimento moral. Este será o ensino e treinamento baseados no fiqh anteriormente descritos, necessários para o movimento dos dias vindouros.

Para nós, a fé não é contrária à razão ou ao intelecto. Pelo contrário, a fé baseia-se na razão e é orientada por ela, e o Alcorão descreve os crentes como pessoas inteligentes. O Alcorão é uma orientação para aqueles que são inteligentes e refletem profundamente. Para os intelectuais proeminentes da Ummah, a base da razão é o conhecimento herdado de todas as revelações. Pois, sem o conhecimento da revelação, não é possível provar a existência de Allah nem a validade da Risalah.

As instruções apresentadas no Alcorão constroem uma mentalidade racional, que estabelece a base da adoração e rejeita todas as superstições e a imitação dos antepassados ou de pessoas ilustres. [meu livro ‘O Profeta e o Conhecimento’, páginas 38–a 40)]

científico ideal

O ideal com base no qual queremos organizar a educação e o treinamento desejados possui certas características. Os professores devem compreender e implementar essas características. E elas devem ser apresentadas no currículo educacional.

Em sentido plenamente literal, esta educação será baseada na ciência. Ao dizer baseada na ciência, não quero dizer ciência relacionada às ciências teóricas e práticas. Embora os muçulmanos devam estudar esses campos da ciência. Mas trata-se de um ideal no qual nenhuma afirmação será aceita sem prova, nenhuma conclusão sem proposição, nenhum testemunho sem documentação, nem qualquer proposição que não esteja completamente livre de dúvida.

Queremos uma linha de pensamento orientada pela ciência e uma consciência científica em todos os aspectos da vida, que nos guiem para que possamos considerar qualquer assunto, questão, situação e pessoa de maneira científica e, livres da influência das emoções, do imediatismo, do egocentrismo, dos interesses de grupo e de várias desculpas cotidianas, tomar decisões prudentes e estratégicas, com uma mentalidade científica, na economia, na política, na educação e em todas as outras áreas. Os aspectos adversos mencionados acima controlam em grande medida nosso comportamento. Quando uma pessoa responsável pela tomada de decisões é conduzida pelos caprichos dela própria ou de seu grupo, procurará agradar as pessoas fazendo tudo o que elas apreciam; não se concentrará no que é benéfico para o povo, para a pátria e, de modo geral, para o futuro da nação.

Na minha obra «‘A Solução Islâmica: Uma Obrigação e uma Necessidade’», ao discutir a autocrítica no movimento islâmico, destaquei algumas características principais da consciência científica. Considero necessário reiterar aqui essas características, enfatizando as necessidades da Ummah, e não em favor do secularismo importado.

É necessária uma consciência científica

As características importantes da consciência científica são:

1. Adotar uma perspectiva objetiva em relação a diversos assuntos, situações e contextos, sem levar em consideração de que fonte provêm. Hazrat Ali, que Deus esteja satisfeito com ele, disse: «Não tente conhecer a verdade por meio das pessoas; em vez disso, conheça primeiro o que é a verdade, e então poderá reconhecer facilmente as pessoas relacionadas a ela.»

2. Dar importância à especialização. No Alcorão é dito: Portanto, perguntai aos que têm conhecimento do Livro (surata Nahl‌: 43), perguntai àquele que tem conhecimento sobre Ele (surata Furqan: ‍59), e ninguém poderá informar-te como o Deus Onisciente (surata Fátir: 14)।

A religião tem seus próprios especialistas, assim como a economia, a defesa e os demais ramos do conhecimento, especialmente em nossa época. Aquele que possui conhecimento sobre religião, política, economia e defesa e dá sua opinião sobre todos os assuntos, na realidade não sabe nada.

3. Deve haver disposição para a autocrítica, admitir os erros, aprender com eles e revisar claramente as experiências do passado. É preciso manter-se afastado de uma perspectiva de autosatisfação. Pois ela vê o passado apenas repleto de glória e vitórias.

4. Aplicar as estratégias mais modernas e melhores para garantir o sucesso e aprender com a experiência de todos, inclusive dos inimigos. O conhecimento é um bem perdido dos crentes; onde quer que seja encontrado, o crente é mais digno dele do que qualquer outra pessoa.

Submeter todas as questões a exame e experimentação, exceto as doutrinas religiosas e ideológicas incontestáveis, e aceitar seus resultados sem considerar se favorecem ou desfavorecem alguém.

Não se deve ter pressa ao emitir decisões e opiniões. Somente mediante uma análise cuidadosa, baseada em exame, experimentação e verificação, seguida de um diálogo construtivo com a outra parte, deve-se formar uma perspectiva; assim, todos os aspectos positivos e negativos da questão em discussão virão à luz.

As opiniões daqueles que sustentam concepções contrárias nas diversas questões do fiqh e em todos os ramos do conhecimento devem ser avaliadas com a devida importância, desde que haja argumentos e provas em seus respectivos campos. Enquanto houver argumentos e provas, a questão deve ser resolvida à luz do Alcorão e da Sunna de modo a evitar conflitos. Os nossos sábios decidiram que não há restrição às opiniões baseadas no ijtihad. Portanto, quem apresentar uma opinião baseada no ijtihad não deve ser considerado superior aos outros. Contudo, por meio do ijtihad, não se devem interromper o diálogo construtivo nem a análise teórica e imparcial em um ambiente tolerante e sincero.

Método contrário às teorias científicas

Simplificar excessivamente questões complexas, subestimar questões graves, tratar problemas difíceis com leviandade ou enfrentar questões fundamentais como pessoas ignorantes, com comportamentos de dervixes, é contrário ao pensamento científico.

Uma mão invisível e potências estrangeiras malignas elaboram planos como criminosos para nos lançar no sofrimento e esperam pacientemente até que nós mesmos caiamos na armadilha. Nessa situação, encontramos o cheiro de conspiração em tudo e pensamos que não temos força para enfrentar esses círculos malignos. Portanto, seria melhor cruzar os braços. Esse tipo de mentalidade é prejudicial para nós. Em alguns casos, isso pode ser verdade, mas é errado considerá-lo uma regra geral. Tal interpretação do curso dos acontecimentos históricos é, na realidade, resultado de conspirações e planos secretos. Sejam esses acontecimentos políticos, econômicos, sociais ou culturais, julgá-los segundo a perspectiva acima tem duas consequências negativas:

Primeiro, se esse tipo de atitude se fortalecer, dará origem a uma espécie de fatalismo, como se nada pudéssemos fazer contra essas conspirações diabólicas. Isso porque somos extremamente fracos e de pouca inteligência diante do enorme poder financeiro e intelectual desses círculos malignos. Assim, transformamo-nos em peças de xadrez. Esse modo de pensar só produzirá um estado destrutivo de desespero e derrota.

Em segundo lugar, essa mentalidade nos torna avessos à autocrítica e não desperta em nós qualquer interesse em compreender as falhas, remediar os problemas ou investigar sinceramente os fracassos e os crimes. Consequentemente, também fica prejudicada a tentativa de identificar a causa da doença e buscar sua cura. Enquanto considerarmos que a causa de nossa fraqueza, indiferença, corrupção ou destruição é uma perversa conspiração estrangeira, e não o resultado de nosso próprio comportamento, essa situação perdurará.

Frequentemente cultivamos esse tipo de mentalidade, embora o Alcorão nos ensine que, sempre que enfrentarmos infortúnio, calamidade e derrota, devemos considerar somente a nós mesmos culpados. Allah Todo-Poderoso diz: Qualquer calamidade que vos atinge é consequência do que vossas próprias mãos fizeram. E Ele perdoa muitas coisas (Surata Ash-Shura: 30)।

Na batalha de Uhud, os muçulmanos sofreram uma calamidade extrema ao perder setenta de seus bravos guerreiros. No entanto, esse mesmo exército muçulmano havia conquistado uma vitória gloriosa na batalha de Badr. Quando questionaram a si mesmos sobre a causa disso, Allah Todo-Poderoso enviou-lhes a resposta da seguinte forma: Que vos sucede quando uma calamidade vos aflige, embora vós mesmos já tivésseis infligido aos vossos inimigos um golpe duas vezes maior? Dissestes: De onde veio isto? Dize-lhes: Esta calamidade veio por causa de vós mesmos (Surata Al Imran: 165)।

Ideal realista

As características do ideal científico que esperamos ver futuramente no movimento islâmico serão realistas, e não ilusórias nem baseadas em sonhos.

Das ambições com as capacidades equilíbrio

Devemos gravar em nossa mente uma verdade concreta: nosso programa ambicioso deve ser equilibrado na proporção de nossas capacidades. Além disso, devemos verificar o que desejamos obter e quanto podemos realmente alcançar. Não devemos esperar obter algo para o qual não estamos preparados ou para cuja realização não dispomos dos meios e recursos necessários. O Alcorão permitiu que um combatente recuasse ao tentar executar uma estratégia de guerra ou com o objetivo de se reunir ao seu próprio exército.

Foi permitido a um mujahid retirar-se do campo de batalha somente quando a situação não lhe é favorável devido à presença de um número de soldados inimigos superior ao dobro do efetivo do exército muçulmano. O Todo-Poderoso Allah disse: “Agora Allah aliviou o vosso fardo e sabe que há fraqueza entre vós. Portanto, se houver entre vós cem perseverantes, eles vencerão duzentos; e, se houver entre vós mil, vencerão dois mil, com a permissão de Allah. E Allah está com os perseverantes” ((Surata Al-‌Anfal: 66)।

Na batalha de Mu’tah, o exército romano era muitas vezes mais numeroso que o exército muçulmano. Diante de cento e cinquenta mil soldados romanos, os muçulmanos eram apenas três mil. Devido a essa proporção entre os efetivos de ambos os lados, o estrategista Khalid ibn al-Walid decidiu retirar o exército muçulmano para um local seguro, em vez de lançá-lo contra uma batalha que poderia ser suicida.

Quando ele retornou a Medina com seu exército, os jovens enfurecidos da cidade os receberam atirando pedras contra eles e chamando-os de fugitivos. Mas o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse em seu apoio: “Não; eles é que serão os atacantes, se Allah quiser.”

É sábio o comandante que cuida de seus soldados. Por essa razão, Umar ibn al-Khattab (que Allah esteja satisfeito com ele) não se interessou pelas campanhas contra os bizantinos no início de seu governo. Àqueles que o exortavam a isso, ele disse: “Juro por Allah, um muçulmano é mais querido para mim do que o Império Bizantino e todos os seus tesouros.”

O muçulmano sábio não se envolve em um trabalho que não é capaz de realizar. A esse respeito, o Todo-Poderoso Allah diz: Portanto, obedecei a Allah e temei-O tanto quanto puderdes (Surata At-Taghabun: 16)।

Foi relatado no hadith: Não foi permitido a um muçulmano humilhar-se. Foi dito ao Mensageiro, que a paz esteja com ele: Como uma pessoa se humilha, ó Mensageiro de Allah? O Mensageiro de Allah, que a paz esteja com ele, respondeu: Carregando sobre os ombros um fardo que não é capaz de suportar.

O movimento islâmico pode facilmente cometer um erro. Trata-se de tomar decisões importantes levado pelas emoções do povo em geral. Em alguns países, a população muçulmana lança alguns líderes do movimento na luta política. Eles se lançam nela sem terem adquirido plenamente as capacidades mentais, políticas e especializadas necessárias para isso. Ao fazê-lo, colocam sobre os próprios ombros um fardo maior do que podem suportar. O fracasso dessa iniciativa é certo.

É por causa da pressa, de concepções equivocadas, da superestimação da competência de alguém e da subestimação da capacidade dos outros que se enfrenta esse tipo de fracasso. Temos diante de nós o exemplo do Mensageiro de Allah, que a paz esteja com ele, quando não permitiu que seus companheiros travassem luta armada contra os politeístas, mesmo quando estavam sendo perseguidos e prejudicados. Ele dizia: Retirai vossas mãos da luta e estabelecei a salat.

O Mensageiro de Allah, que a paz esteja com ele, seguiu essa prática até encontrar um território livre e uma base sólida para iniciar o jihad e conduzir campanhas militares em nome de Allah. A esse respeito, o Todo-Poderoso Allah disse: Foi concedida permissão para combater àqueles contra os quais se combate, porque foram injustiçados; e, certamente, Allah tem pleno poder para lhes conceder a vitória (Surata Al-Hajj: 39)।

Problemas antigos a resolver

Queremos resolver, mediante a adoção de um novo ideal, aqueles antigos problemas que têm pesado sobre nossa mente e que há muito tempo vêm frustrando numerosos esforços dos muçulmanos. Entre esses problemas estão a existência e os atributos de Allah. Os atributos de Allah são a natureza essencial de Allah ou algo diferente? Ou essas qualidades não são nem a natureza essencial nem outra coisa?

Entre esses problemas estava a questão de saber se o Alcorão foi criado ou não, o que posteriormente fez cair a espada sobre alguns dos mais ilustres imames do Islã. Ao interpretar os versículos do Alcorão sobre essas questões, buscava-se o sentido oculto (ta’wil), suscitavam-se debates desnecessariamente exagerados entre as gerações anteriores e posteriores e tentava-se refutar, entre os estudiosos das universidades do mundo muçulmano — Al-Azhar, Al-Zaytuna, Al-Qarawiyyin, Deoband e outras —, as doutrinas dos asharitas, dos maturiditas e de seus defensores.

Não devemos nos preocupar com nenhum desses problemas. Devemos preparar nossa mente para, na próxima etapa, enfrentar o judaísmo, os cruzados, o marxismo e os defensores das filosofias destrutivas do Oriente e do Ocidente.

desnecessário debate

O ideal realista de que necessitamos consiste em concentrar nossa atenção em ações construtivas, e não em negociações e debates. Pois, quando Allah deseja punir uma nação, Ele a mergulha em debates e inatividade. Por debate, refiro-me à discussão de problemas históricos, inteiramente baseados em conjecturas ou naturalmente controversos.

Um debate frequentemente levantado, que não é necessário ou que não nos trará nenhum benefício hoje, é o debate sobre a natureza do jihad armado no Islã: será um jihad defensivo para proteger a fé islâmica, os lugares sagrados e os territórios, ou um jihad ofensivo para promover o Islã em todo o mundo?

Muitos estudiosos contemporâneos escreveram sobre esse tema e acabaram divididos em dois grupos. Em defesa da opinião de que o jihad deve ser defensivo estão Sayyid Muhammad Rashid Rida, Shaykh Mahmud Shaltut, Shaykh Muhammad Abu Zahra, Shaykh Muhammad al-Ghazali, Shaykh Abdullah ibn Zayd Al-Mahmud, entre outros.

A base de seu argumento são numerosos versículos do Alcorão: “E combatei, pela causa de Deus, aqueles que vos combatem, mas não transgridais os limites. Certamente, Deus não ama os transgressores(Surata Al Baqara: 190).)Em outro lugar, diz-se: “Se eles se mantiverem afastados de vós, não vos combaterem e vos oferecerem a paz, então Deus não vos concedeu nenhum meio de agir contra eles(Surata An Nissá: 90).)।

Entre os defensores da opinião contrária estão o Maulana Sayyid Abul A’la Maududi, o mártir Sayyid Qutb e outros.

A base de seu argumento é o versículo da espada (Ayat as-Saif). Segundo sua alegação, esse versículo revogou todos os versículos anteriores, e a situação em que eles foram revelados chegou ao fim. No entanto, eles também divergiram quanto ao próprio versículo da espada, pois não conseguiram determinar por consenso qual versículo do Alcorão deveria ser aplicado nesse caso.

Atualmente, não há mais necessidade de debater esta questão pelas três razões seguintes:

Primeiramente,Nós, muçulmanos, não cumprimos a responsabilidade da jihad, que é obrigatória para cada um dos países islâmicos, especialmente a recuperação dos territórios muçulmanos das mãos dos ocupantes e agressores. E esses territórios muçulmanos são a Palestina, a Eritreia, as Filipinas, o Afeganistão, Tashkent, Bucara, Samarcanda, o Uzbequistão, o Azerbaijão, da União Soviética[1991 No ano de Soviético da união da queda Anterior Estado। Agora seis Muçulmano República Independente No estado Maduro Concluído। Estes Acontecendo: Azerbaijão, Uzbequistão, Tajiquistão, Quirguistão, Cazaquistão e Turquemenistão।]outras repúblicas muçulmanas e outros lugares de países como a China, a Etiópia, a Tailândia etc. Nenhum muçulmano pode apresentar argumentos contra a necessidade de libertar esses países das mãos das forças contrárias ao Islã. E a decisão de Allah aplicável a eles é este versículo do Alcorão: E o que vos sucede, para que não luteis no caminho de Allah e em favor daqueles homens, mulheres e crianças fracos, perseguidos e oprimidos, que suplicam: Ó nosso Senhor! Livra-nos desta cidade cujos habitantes são opressores, designa-nos, da Tua parte, um protetor que nos proteja e envia-nos, da Tua parte, alguém que nos ajude.(Surata Traga As mulheres: 75)।

Se a umma muçulmana não cumpriu esse dever obrigatório de autodefesa, como se pode agora falar em jihad ofensivo?

Em segundo lugar,, o jihad ofensivo consiste, segundo seus defensores, em remover aqueles que criam obstáculos no caminho dos servos de Allah e tentam impedir que os muçulmanos transmitam a palavra de Allah às pessoas. Contudo, hoje ninguém pode obstruir nosso caminho se nos esforçarmos para continuar levando nossa da‘wa ao mundo inteiro com dedicação e sinceridade. A da‘wa pode ser difundida em todos os lugares do mundo, em todas as línguas, por meios básicos, escritos e audiovisuais. Atualmente, a mensagem da da‘wa pode ser transmitida pelo rádio, pela televisão, por livros, jornais e pelas comunidades muçulmanas de todos os países do mundo.

Entretanto, a negligência de nosso povo nesse aspecto é interminável. Se compararmos nosso trabalho com o dos missionários cristãos, veremos que eles traduzem a Bíblia para pelo menos mil línguas e dialetos, enviando milhares de missionários, homens e mulheres, para todos os cantos da Terra a fim de propagar sua religião. Sua campanha de proselitismo chegou a tal ponto que agora desejam até mesmo converter-nos ao cristianismo, para que sigamos seus passos.

Em terceiro lugar,, somos dependentes de outros no que diz respeito ao poderio militar. Aqueles contra os quais queremos iniciar um jihad ofensivo são justamente os que fabricam todo tipo de armas e as vendem para nós. Se eles não fizessem isso, estaríamos desarmados, sem defesa e incapazes de fazer qualquer coisa para enfrentá-los. Se essa é a situação, como podemos falar em jihad ofensivo para colocar o mundo inteiro sob o alcance de nossa da‘wa? Afinal, só podemos adquirir as armas que eles nos fornecem, e só podem chegar às nossas mãos aquelas armas que eles se dispõem a vender-nos.

Tradicional Ideário

Uma das principais características deste ideário é ser um ideário tradicional (salafista). Aqui, por tradicional, queremos dizer um método intelectual fundamentado nos princípios do Alcorão e da Sunna, cuja aplicação correta foi realizada primeiro pela umma dos Companheiros da primeira geração e, depois, por aqueles que seguiram corretamente o caminho deles.

Salafista método princípios fundamentais

De modo geral, a base deste método é a seguinte:

1. Analisar não à luz das declarações de qualquer pessoa, mas à luz do Livro original infalível.

2. Para determinar o significado das declarações obscuras (mutashabihat) do Livro original, recorrer às declarações expressas ou claras (muhkamat) e, no caso de questões indeterminadas (zanniyat), às declarações definitivas (qat’iyat).

3. Compreender os conceitos secundários (furu) e as conclusões complementares (juz’iyat) à luz dos princípios fundamentais e das regras gerais.

4. Incentivar a pesquisa (ijtihad) e a renovação (tajdid) em nível individual, e desencorajar a rigidez e a imitação (taqlid).

5. No campo da moralidade, incentivar a perseverança na prática correta, e não a permissividade.

6. Promover a simplicidade no campo do fiqh, e não a complexidade.

7. Na orientação e na condução, incentivar a aplicação do princípio de tratar as pessoas com bondade e de apresentar diante delas um belo exemplo bem organizado (tabshir), em vez de aterrorizá-las por meio de uma conduta áspera (tanfir).

8. Não debater sobre a questão da fé (iman), mas concentrar-se na formação de uma fé pura e firme.

9. Na adoração, concentrar-se na satisfação, e não no método.

10. Dar atenção ao cumprimento das normas religiosas e empenhar-se em formular os costumes relativos às questões mundanas.

Este é o cerne do método seguido pelos crentes das primeiras gerações, e esse método foi aplicado nos ensinamentos teóricos e práticos dos sábios daquela geração da Ummah. O Deus Todo-Poderoso e o Mensageiro de Deus, que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele, elogiaram os seguidores desse método. A história também nos mostra que esse método é verdadeiramente digno de louvor.

Isso porque os sábios das primeiras gerações legaram aos seus sucessores os ensinamentos do Sagrado Alcorão e, à luz dele, moldaram suas vidas, preservaram os modos de vida aprovados, alcançaram vitórias, promoveram a justiça e o bem-estar e estabeleceram firmemente a tradição do conhecimento e da fé. Assim, lançaram as bases de uma civilização universal, moralista, humanista e religiosa, cuja memória imperecível ainda permanece viva nas páginas da história.

Salafismo do ideal interpretação equivocada

Tanto os seguidores quanto os opositores interpretaram equivocadamente o termo tradicionalista (salafismo).

Muitos proponentes do ideal salafista e seus apoiadores limitaram a teologia racional (ilm al-kalam fiqh) ou as questões dos sufis a uma estrutura formal e a debates argumentativos. Aqueles que se opõem à visão salafista sobre essas questões ou refutam a visão salafista em assuntos minuciosos dedicam-se dia e noite a criticar duramente os salafistas.

A visão deles é tão irracional que alguns consideram o ideal salafista um método de argumentação que não é construtivo nem orientado para a ação, ou que dá mais importância às interpretações minuciosas do que aos princípios universais, às ideias controversas em vez das ideias aprovadas e à aparência em vez do significado profundo.

Os opositores do método salafista consideram-no um pensamento retrógrado. Esse método olha sempre para trás, não avança e jamais se preocupa com o presente ou o futuro. Eles qualificam os salafistas como fanáticos, que, para além de não darem importância às opiniões alheias, recusam-se até mesmo a ouvi-las. Os opositores consideram essa mentalidade dos salafistas contrária à renovação (tajdid), à inovação (ibda) e ao ijtihad, não havendo nela qualquer sinal de flexibilidade. Na realidade, isso constitui uma injustiça contra o verdadeiro ideal salafista e seus autênticos defensores.

Talvez os mais célebres defensores do ideal salafista nas épocas passadas tenham sido o Shaykh al-Islam Ibn Taymiyya e seu discípulo Ibn al-Qayyim. Eles foram, em verdadeiro sentido, os representantes mais qualificados do movimento de renascimento islâmico de seu tempo. Opuseram-se à imitação cega (taqlid), que havia dominado o pensamento islâmico durante vários séculos, bem como ao fanatismo ideológico, teológico e centrado no fiqh. Todo o seu movimento se destinava ao renascimento das ciências e do conhecimento islâmicos.

Embora se opusessem ao método fanático do taqlid, eles concederam aos imames das escolas jurídicas o devido respeito. Há provas disso na obra de Ibn Taymiyya intitulada “A Remoção da Culpa dos Grandes Imames”.

Além disso, embora tenham conduzido um movimento contra os desvios ideológicos e teóricos — especialmente o desvio dos princípios dos defensores do hulul e do ijtihad — e contra os desvios comportamentais introduzidos no sufismo por meio de ignorantes, impostores e mercenários, Ibn Taymiyya e Ibn al-Qayyim trataram com justiça e demonstraram respeito pelo verdadeiro sufismo e por seus defensores. Eles escreveram muitas obras sobre esse tema. Entre elas está a obra de Ibn Taymiyya, em dois volumes, contendo suas fatwas, intitulada “Majmu‘ Fatawa”; entre os vários livros de Ibn al-Qayyim, destacam-se “Madarij al-Salikin” e “Sharh Manazil al-Sa’irin”, em três volumes.

método adoção

Quero enfatizar que é necessário adotar não apenas as conclusões dos muçulmanos das primeiras gerações sobre uma questão específica, mas também o método que eles seguiam. Pois alguém pode aplicar suas conclusões sobre determinado assunto, sem nada saber sobre seu método equilibrado e coerente.

Alguém pode empenhar-se em aplicar o significado desse método e compreender seu objetivo, ao mesmo tempo que pode discordar de algumas conclusões dos muçulmanos das primeiras gerações.

Esta é a minha posição a respeito do Imam Ibn Taymiyya e do Imam Ibn al-Qayyim. Respeito seu método geral e o avalio corretamente. Mas isso não significa que aceite todas as suas opiniões. Se eu aceitasse todas as suas afirmações, estaria apenas imitando-os. E, desse modo, violaria justamente o método que eles defendiam. Ao seguir esse método, eles tiveram de enfrentar intensa oposição e grandes sofrimentos. Pois seu método não se baseia na pessoa que formula decisões fundamentadas em reflexão profunda e provas. Toda decisão deve ser examinada à luz dos argumentos a seu favor e de sua importância.

Como pode alguém que segue cegamente Ibn Taymiyyah e Ibn al-Qayyim criticar os seguidores do taqlid do Imam Abu Hanifa e do Imam Malik?

Seria igualmente injusto lançar luz apenas sobre os aspectos teóricos e intelectuais da vida desses dois imames e ignorar os demais aspectos luminosos de suas vidas. Não devemos ignorar a nobreza de caráter de Ibn Taymiyyah, refletida nesta sua declaração: “Costumo dizer que, se os habitantes do Paraíso viveram como eu, então certamente viveram uma vida excelente.” Mesmo durante os períodos de sofrimento e cativeiro, ele pôde dizer: “Que mal meus inimigos podem me causar? Meu encarceramento é um retiro para a adoração. Meu exílio é uma viagem religiosa, essencialmente em busca do conhecimento. E minha morte é martírio.”

Ele era um homem de temperamento espiritual, e seu discípulo Ibn al-Qayyim também era assim. Aqueles que estudarem suas obras com atenção e boa intenção certamente poderão perceber isso. Além disso, não devemos ignorar o papel desempenhado na vida desses dois imames em favor da da‘wah e do jihad. O próprio Ibn Taymiyyah participou de várias batalhas militares. Além de combater pessoalmente, ele também acendeu, com as palavras de sua voz, a chama da inspiração nos corações dos demais mujahidin. Esses dois imames lutaram incansavelmente pelo renascimento do Islã. E, por causa de sua luta dedicada, foram presos várias vezes. O Shaykh al-Islam Ibn Taymiyyah morreu na prisão no ano 728 da Hégira. Este é o exemplo singular do tradicionalismo genuíno.

Se examinarmos nossa história contemporânea, veremos que a personalidade mais proeminente, Sayyid Muhammad Rashid Rida, desempenhou um papel pioneiro, por meio de seus escritos, livros e de sua própria revista, na promoção do porta-estandarte do tradicionalismo moderno e do método salafi. Ele foi o editor fundador da revista Al-Manar. Foi nessa revista que publicou o Tafsir al-Manar, que foi amplamente aclamado em todo o mundo muçulmano.

O Imam Muhammad Rashid Rida foi, em sua época, um verdadeiro revitalizador do Islã. Qualquer pessoa que leia seu tafsir, suas fatwas ou seus livros A Inspiração de Muhammad, A Facilidade do Islã, Um Apelo ao Belo Sexo, O Califado, Os Argumentos do Reformador e do Imitador, além de muitas outras obras e escritos, certamente perceberá que seu pensamento era realmente um farol (manar). Esse manar guiou os seguidores do Islã pelo caminho da luz; sua vida também foi um exemplo concreto do ideal salafi.

O Imam Rida foi o formulador de um princípio de ouro, seguido posteriormente pelo Imam Hassan al-Banna. O princípio é: devemos cooperar em tudo aquilo em que concordamos. Quanto àquilo em que há divergência, é melhor que evitemos uns aos outros.

Que princípio magnífico! [Eu demonstrei a validade deste princípio e citei , em seu apoio, as evidências da Shariah, testemunhos e provas que mencionei ‘ no livro Fatawa’ Contemporâneas.।] Se os defensores do tradicionalismo apenas compreendessem e seguissem corretamente este princípio, como seria bom.

Ideal revivalista

Outra característica do ideal que desejamos é ser revivalista. Ele não se limita à tradição antiga, não é herdado nem segue costumes ou práticas correntes. É um ideal que acredita no ijtihad e recorre à criatividade, pois rejeita a imitação cega (taqlid) e a obediência indiscriminada, considerando a estagnação equivalente à morte. Acredita na renovação do fiqh, da educação, da política e de todos os demais campos.

O revivalismo não é contrário ao tradicionalismo .

Expliquei essa questão em meu livro “The Islamic Awakening and the Use of the Arab Muslim World”. Não há qualquer incompatibilidade ou oposição entre o ideal revivalista e o ideal tradicionalista. Pelo contrário, são os dois lados da mesma moeda. O verdadeiro renascimento só é possível quando se orienta pela tradição, e a tradição só pode ser preservada quando acredita no ideal de renovação.

A legitimação do revivalismo

Nunca devemos dizer que, quanto à sua fonte, orientação, objetivos e princípios, o movimento islâmico é algo rígido e que nele não há espaço para renovação.

O próprio Islã reconhece a legitimidade da renovação. Nos hadiths autênticos, foi dito: Allah, o Altíssimo, enviará, no início de cada século, alguém que renovará esta religião (Abu Dawud e al- Hakim)।

O renovacionismo (tajdid) é legítimo e comprovado pelos hadiths. O que poderia ser melhor do que aquilo que o Mensageiro de Allah, que a paz esteja com ele, disse? Portanto, não há motivo para nos alarmarmos ao ouvir falar da renovação da religião, comprovada por hadiths autênticos. O que devemos fazer é compreender o significado da renovação, para que nenhum grupo interessado em seus próprios benefícios possa usar a religião em nome de sua assim chamada renovação. Pois essas pessoas estão muito distantes da renovação.

Expliquei, em um artigo que escrevi após pesquisar este hadith, o significado da renovação, seus vários aspectos e quem pode promovê-la. Em resumo, renovação não significa levar algo ao seu ápice e colocá-lo no lugar de outra coisa. Pelo contrário, significa restaurá-lo, tanto quanto possível, à forma que tinha quando passou a existir, preservando minuciosamente sua natureza essencial, suas características e sua configuração, sem a mínima alteração. Isso se aplica tanto no sentido teórico quanto no prático. Reconstruir um edifício antigo, como um palácio, um monumento ou uma mesquita, não significa demoli-lo e construir outro edifício no mesmo lugar segundo o estilo de construção mais moderno, mas tomar todos os cuidados para restaurá-lo, tanto quanto possível, à sua forma original. E isso é a verdadeira renovação.

A renovação da religião significa a renovação de sua fiqh, ou compreensão. E isso é uma renovação ideológica. A renovação da fé na religião é um sentimento espiritual. A verdadeira renovação consiste em avançar em apoio à religião e empreender esforços renovados para disseminar a da‘wah. Em cada época é necessária uma renovação adequada ao seu tempo, que elimine as falhas e os desvios contemporâneos e cure as enfermidades daquela época.

Mas há uma área na qual o reavivamento não poderá interferir em circunstância alguma. Trata-se da área específica sobre a qual o Islã proferiu uma decisão definitiva. Ela abrange os diversos aspectos da aqida, da adoração e das leis (ahkam), por meio dos quais se refletiu a unidade espiritual, intelectual e comportamental da ummah muçulmana. Discuti esse tema em detalhes em outras obras. [No meu ‘Ijtihad na Sharia Islâmica livro’ intitulado ‘Diretrizes e controles para um ijtihad contemporâneo adequado intitulado’ seção na obra। do Ustadh Umar Abed Hasana escrita a obra ‘A Fiqh da Da’wa: suas características e horizontes intitulada’ na seção ‘Ijtihad e renovação entre os controles legais e as necessidades contemporâneas’ intitulada seção, páginas 147–188।]

Estratégia reorganização

Embora o movimento seja islâmico em sua origem, contexto, princípios e objetivos, é necessário adotar estratégias e métodos que, considerando o tempo, o lugar e as circunstâncias, favoreçam a prática do dīn e sejam adequados para estabelecer o dīn na Terra.

As estratégias, os métodos e os sistemas não são eternos como o Islã. Tampouco são tão coerentes quanto os princípios e as doutrinas fundamentais do Islã. Isso porque as estratégias e os métodos são formulados como resultado dos esforços humanos para alcançar o reavivamento e o restabelecimento do Islã nos corações e na vida real.

O Imam Hasan al-Banna elaborou diretrizes para o trabalho organizado do movimento islâmico, com o objetivo do reavivamento islâmico. Ele não afirmou que a estratégia que havia elaborado, por si mesmo ou pela graça de Allah, fosse infalível. Contudo, sua estratégia era tão poderosa que Sayyid Qutb, o mártir, a descreveu como uma engenhosa estratégia de organização. O Murshid al-Am dos Irmãos Muçulmanos, Omar al-Tilmisani, descreveu-o como um líder inspirado e talentoso. Já o Shaykh Muhammad al-Ghazali afirmou que o Imam Hasan al-Banna foi o mujaddid do décimo quarto século hijri. Esses métodos e estratégias devem ser periodicamente revisados, assim como os educadores revisam todos os anos os currículos e os livros de referência, acrescentando, removendo ou corrigindo elementos. Isso é necessário em qualquer atividade humana, quer o esforço se aproxime ou não da exatidão ou da excelência.

Hasan al Banna era flexível .

O próprio Imam Hasan al-Banna era flexível. Ele sempre reavaliava e desenvolvia a estrutura, as instituições e os métodos operacionais do movimento. Não ficava irritado quando algum de seus devotados seguidores sustentava uma opinião contrária à posição que ele havia expressado anteriormente sobre determinada questão. Em um dos meus escritos sobre o sistema multipartidário no Estado islâmico, manifestei minha discordância em relação à sua opinião.

Ninguém se incomodava quando algo complementar era acrescentado aos seus princípios fundamentais. Foi o que fez, por exemplo, o xeique Muhammad al-Ghazali ao explicar os vinte princípios fundamentais de Hasan al-Banna em sua obra «A Constituição da Unidade Cultural dos Muçulmanos». No que dizia respeito à reconsideração dos métodos de ensino da Usra e da Katiba da Irmandade Muçulmana, [A Katiba é da Irmandade um espiritual de treinamento método.। Os membros em treinamento dedicam-se toda semana ou a cada duas’semanas à adoração e à devoção e passam a noite em retiro.।] não havia qualquer impedimento legal, tradicional ou psicológico que impedisse a introdução de algo novo na estratégia de ação.

Não há mal em revisar a estratégia política à luz das mudanças e dos acontecimentos locais, regionais e internacionais. Diante das circunstâncias em curso, pode-se participar de uma frente ou aliança, ou aderir a um acordo ou coalizão, visando aos interesses mais amplos do Islã, da ummah e do movimento. Cada país tem um ambiente específico, cada época tem regras próprias, e cada grupo possui capacidades, motivações e posições particulares, das quais o grupo em questão está mais bem informado do que qualquer outro grupo.

O movimento islâmico não pode existir, prosperar e desenvolver-se sem um pensamento diligente e criativo, tal como ocorre com o fiqh e outras disciplinas relacionadas à sharia. Se cair nas garras da mentalidade dos imitadores cegos, o movimento corre o risco de tornar-se apenas estagnado, restrito e impotente. Isso ocorre porque o pensamento criativo não é cultivado nas ideias e na consciência produzidas pelas mentes férteis dos imitadores cegos.

A inflexibilidade é uma doença

A inflexibilidade é uma doença que prejudica o método sólido do movimento islâmico e também se torna, a partir de dentro, um dos principais obstáculos em seu caminho. Expliquei-a detalhadamente em meu livro «A Solução Islâmica: uma obrigação e uma necessidade».

A inflexibilidade consiste, na organização, em uma tendência obstinada; na educação, em um processo estagnado; no trabalho de da’wah, em uma estratégia unilateral; e, para alcançar os objetivos, em um método rígido. Quando alguém tenta mudar ou corrigir a estratégia, seu esforço não é apenas rejeitado com inveja, mas essa pessoa também se vê diante de várias calúnias e acusações.

Quero enfatizar novamente que o tajdid que desejamos não significa o abandono dos caminhos antigos, mas sim a modernização, o aperfeiçoamento, a elevação da qualidade e a realização de novas adições às práticas antigas, especialmente no que diz respeito às técnicas e aos métodos, que serão naturalmente flexíveis e mutáveis. Assim, poderemos utilizar essas técnicas contemporâneas que estão ao nosso alcance, tal como os outros.

Aquilo que mais temo

O que mais temo no movimento islâmico é que ele se oponha ao pensamento livre, feche as portas do tajdid e do ijtihad e se confine a um único modo de pensar, que não leve em consideração nenhuma outra perspectiva ou opinião. Essas opiniões recomendam a definição de objetivos, estratégias e etapas diferentes para o movimento. Apresentam análises diferentes dos acontecimentos, das circunstâncias e das pessoas, ou divergem do pensamento unilateral em questões abrangidas pelo ijtihad humano. Isso porque o ijtihad humano está sempre sujeito a mudanças à luz das circunstâncias mutáveis. Nossos faqihs já disseram há muito tempo que a fatwa deve necessariamente mudar com a mudança do lugar, do tempo, dos costumes e das circunstâncias.

Se o meu temor se concretizar, pessoas de mente reflexiva, capazes de novos pensamentos e inovações, serão excluídas da estrutura do movimento, assim como a água escorre por entre os dedos. Restarão aqueles conservadores que são versados apenas na imitação cega e que querem manter tudo como está, por mais antigo que seja. Eles acreditam que aquilo que sabemos é melhor do que aquilo que não sabemos, e que tudo o que fizemos até agora é melhor do que aquilo que ainda não conseguimos fazer.

A consequência disso será que o movimento perderá, de sua estrutura organizacional, as pessoas dotadas de talento criativo e inevitavelmente será vítima da estagnação ou da inércia, tal como ocorreu com o triste destino da jurisprudência islâmica e da literatura na era do taqlid. Os demais membros do movimento, ao verem que não há esperança de uma iniciativa proveitosa em auxílio do Islã, retirar-se-ão discretamente, ou trabalharão individualmente, ou ainda se envolverão em alguma outra iniciativa conjunta, cujo resultado ninguém conhece.

Ao longo dos tempos, este provérbio causou o dano mais grave à mentalidade muçulmana: os predecessores não deixaram nada para que os sucessores acrescentassem algo novo. Ou, em outras palavras, nada pode ser melhor do que isto.

Atualmente, nada pode ser mais benéfico para a mente muçulmana do que adotar este provérbio, a saber: os antecessores deixaram muitos dos seus trabalhos inacabados para os sucessores . Ou, em outras palavras, algo melhor sempre pode existir. O Deus Todo-Poderoso diz: E Ele também cria muitas coisas sobre as quais vocês não sabem ((Surata An-‌Nahl: 8))।

Ideal equilibrado

Outra característica do ideal que buscamos é que ele seja equilibrado em relação aos objetivos e às circunstâncias circundantes. Pois é um ideal equilibrado que reflete uma visão moderada, integrada e abrangente do ser humano e da vida. Esta é a visão equilibrada de uma ummah coesa e equilibrada, livre do extremismo e da indiferença.

Um ideal equilibrado nas principais questões

O equilíbrio da perspectiva deste ideal nas diversas questões principais é evidente:

1. Este ideal mantém uma posição equilibrada entre aqueles que defendem a adesão rigorosa a um madhhab específico nos campos da teologia, do fiqh e outros, e aqueles que não seguem nenhum madhhab.

2. Este ideal adota uma perspectiva equilibrada entre aqueles que apoiam o Sufismo, considerando-o desviado ou fraudulento no campo da adoração, seja qual for o caso, e aqueles que se opõem ao Sufismo, por mais correto e conforme à sharia que ele seja.

3. Este ideal mantém uma posição equilibrada entre os defensores de uma política de portas abertas sem controle e os defensores de uma política de portas fechadas irracional.

4. Este ideal adota uma perspectiva equilibrada entre aqueles que recorrem à razão quando algo contradiz o Alcorão e a Sunnah e aqueles que jamais recorrem à razão para compreender o Alcorão e a Sunnah.

5. Este ideal mantém o equilíbrio entre aqueles que consideram a tradição sagrada apesar das falhas humanas e aqueles que a rejeitam embora nela esteja contida uma inspiração divina.

6. Este ideal é equilibrado entre aqueles que se dedicam à política deixando de lado a educação e aqueles que negligenciam completamente a política sob o pretexto de se dedicarem à educação.

7. Este ideal mantém o equilíbrio entre aqueles que querem obter benefícios antes de o fruto amadurecer e aqueles que não conseguem sequer ver o fruto até que amadureça e caia nas mãos de outros.

8. Este ideal é equilibrado tanto para aqueles que se ocupam apenas do presente e não pensam no futuro quanto para aqueles que exageram excessivamente ao pensar no futuro.

9. Este ideal é equilibrado entre aqueles que consideram trabalhar sob uma estrutura organizacional equivalente a um ato de adoração e aqueles que preferem trabalhar fora de qualquer estrutura organizacional.

10. Este ideal mantém o equilíbrio entre os dois grupos: aqueles que, ao obedecerem ao líder da organização, chegam ao nível da devoção excessiva, e aqueles que agem de forma independente e arbitrária, como se nem fossem membros da organização.

11. Este ideal mantém o equilíbrio entre aqueles que defendem ações globais sem considerar as condições locais e aqueles que acreditam em ações regionais estreitas, sem qualquer relação com o movimento mundial.

12. Este ideal mantém o equilíbrio entre os excessivamente otimistas, que não dão importância aos obstáculos e às adversidades, e os excessivamente pessimistas, que não veem nada além da escuridão.

13. Este ideal mantém o equilíbrio entre aqueles que, ao proibir, chegam ao extremo de considerar que nada no mundo é halal e aqueles que, ao conceder permissões, exageram como se nada fosse haram.

É justamente esse ideal equilibrado que queremos. Embora a norma da nossa sociedade atual seja apegar-se a alguma postura extremista, seja ela de excessivo rigor ou de extrema indiferença. As exceções são muito raras.

Declínio da perspectiva equilibrada

Alguns islamistas veem apenas duas cores: branco e preto. Não reconhecem nem enxergam nenhuma outra cor, nem distinguem quais são as cores puras e quais são as cores mistas que outras pessoas conseguem ver. Alguns deles, excluindo todas as cores, limitam sua visão e até mesmo sua vida a uma única cor preta. Veem as pessoas e as coisas através de olhos cobertos por um filme negro.

É com esse olhar negro e pessimista que eles deixam pronta a resposta para cada questão e a lançam como um míssil, sem se importar contra quem ou onde ela irá atingir. Para eles, toda a sociedade é ignorante, tal como na época pré-islâmica. Tudo na vida é pecado. Todas as pessoas são ou descrentes ou hipócritas. O mundo está cheio de forças do mal; o universo inteiro está cheio de males.

Aos olhos deles, tudo o que as pessoas fazem na época contemporânea não passa de haram. Toda música, representação, peça teatral e forma de arte é haram.

Os pessimistas proclamam com ousadia a decisão mencionada. No entanto, nossos predecessores eram extremamente cautelosos ao usar a palavra haram, até terem certeza inequívoca de que algo era haram. Em dois versículos, o Alcorão condena o vinho, dizendo: “Perguntam-lhe sobre o vinho e o jogo de azar. Diga: há neles grave pecado e alguns benefícios para as pessoas. Mas o pecado de ambos é maior que o benefício” ((surata Al Bácara: 219)।

Em outro lugar, foi dito: e não vos aproximeis da oração enquanto estiverdes embriagados ((Surata An- Nissá’: 43)). Contudo, alguns companheiros do Mensageiro de Allah continuaram a consumir bebidas alcoólicas, e alguns disseram: “Ó Allah, envia-nos uma decisão definitiva sobre as bebidas alcoólicas”; e a decisão definitiva foi revelada na Surata Al-Má’ida, 90 º versículo: Afastai-vos completamente disso, para que prospereis.

Devemos admitir que, na década de 1950, surgiram várias correntes de pensamento jahilí. Essas correntes difundiram-se na sociedade islâmica a tal ponto que a rejeição de tudo, o desespero, a dúvida e a tendência de acusar outros, inclusive muçulmanos, tornaram-se a corrente principal do pensamento.

Naquela época, criou-se um terreno propício à tendência de declarar os outros pecadores, incrédulos e até mesmo kafir, e esse pensamento desenvolveu-se em tal ambiente opressivo. Foi nesse mesmo ambiente que o movimento islâmico e seus seguidores tiveram de enfrentar aquele período. Naquela época, os seguidores do movimento islâmico eram enforcados publicamente. Secretamente, eram torturados e empurrados às portas da morte. Também eram praticadas contra eles todas as demais formas de opressão. Por outro lado, todas as portas eram abertas para os comunistas, os secularistas e os inimigos do Islã.

Foi nesse período que foram publicados os livros do mártir Sayyid Qutb, nos quais se refletia o seu pensamento final. Essas obras identificavam a sociedade como uma comunidade incrédula e exortavam à suspensão do trabalho da da‘wa islâmica. Ridicularizavam a nova iniciativa de revitalizar e desenvolver o fiqh islâmico e de reavivar o ijtihad. Convocavam ao início de uma jihad agressiva contra todas as pessoas em geral, após o isolamento da sociedade. Os defensores da tolerância e da flexibilidade eram classificados como imaturos e como pessoas que haviam sofrido uma derrota psicológica diante da civilização ocidental.

Esse pensamento do mártir Sayyid Qutb reflete-se claramente em seu célebre tafsir ‘À Sombra do Alcorão’, em ‘O Curso da Revolução da Sociedade Islâmica’, em ‘O Islã e os Problemas da Civilização’, entre outras obras. Embora esses escritos tenham exercido uma ampla influência positiva, também é perceptível sua influência negativa.

Além disso, o xeique Sayyid Hawwa apresentou vigorosamente ideias semelhantes em seus livros e escritos.

Enquanto isso, surgiu diante de nós um novo tipo de fiqh, elaborado pelos neo-zahiristas, que interpretam o Alcorão à luz do sentido literal. Embora afirmem seguir o pensamento do imã Ibn Taymiyya, não se encontra a mais remota relação entre Ibn Taymiyya e seus seguidores e a interpretação literal do Alcorão Sagrado. Eles jamais se limitaram às estruturas e disposições externas, tema ao qual os neo-zahiristas atribuem grande importância.

Assim, a rigidez e a obstinação passaram a predominar no pensamento islâmico, e, durante algum tempo, o espírito tolerante do pensamento correto e equilibrado permaneceu reprimido. Creio que o movimento islâmico deve afastar-se desse tipo de método anormal de pensamento, para que possa avançar pelo caminho de um ideal flexível e equilibrado, expressando uma ummah muçulmana equilibrada e um sistema de pensamento plenamente equilibrado. Esse é o ideal por meio do qual Allah deseja facilidade para Seus servos, não dificuldade.

Moderação e facilidade

A meu ver, para garantir a facilidade, a moderação ou o equilíbrio caminham lado a lado. No âmbito da religião, esse método representa uma perspectiva equilibrada entre, de um lado, a rigidez e os excessos desnecessários e, de outro, a negligência e a permissividade sem limites.

O caminho mais fácil

O movimento islâmico deve avançar pelo caminho mais fácil, não pelo da complicação. Esse princípio da facilidade deve ser adotado nas opiniões dos juristas islâmicos sobre a sociedade, bem como nos campos da economia, do direito, da conduta e do direito internacional. Digo isso por várias razões.

Primeiramente, nossa sharia está fundamentada na facilidade, no perdão e na tolerância. Ela busca eliminar a dificuldade e o sofrimento. Essa consciência se reflete nas fontes fundamentais da sharia.

O Deus Todo-Poderoso, Allah, diz: Allah deseja facilitar as coisas para vocês e não deseja dificuldade para vocês (Surata Al- Baqarah: 185). Em outro lugar, Allah, o Altíssimo, diz: E Allah não deseja impor-lhes nenhuma dificuldade (Surata Al-Ma’idah: 6). O Deus Majestoso diz: Allah deseja aliviar-lhes o fardo, pois o ser humano foi criado fraco (Surata An- Nisa: 28). Allah, o Altíssimo, diz: Isto é uma facilitação e uma graça da parte de vosso Senhor (Surata Al- Baqarah: 178)।

O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: Tornai as coisas fáceis, não difíceis (Al-Bukhari e Muslim). Em outro hadith, foi dito: Fostes enviados para tornar as coisas fáceis para as pessoas; portanto, não as torneis difíceis (At-Tirmidhi)।

Amr ibn al-As (que Allah esteja satisfeito com ele), numa noite fria, realizou a oração sem fazer o banho ritual obrigatório, apesar de estar em estado de impureza ritual. Quando seus companheiros apresentaram uma queixa ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), Amr defendeu-se, dizendo: Lembrei-me daquele versículo do Alcorão no qual Allah, o Altíssimo, diz: E não vos mateis; certamente, Allah é Misericordioso para convosco (Surata An- Nisá: 29) ; e o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) sorriu discretamente.

O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos estejam sobre ele) também condenou severamente a atitude de algumas pessoas que insistiram que um homem ferido deveria necessariamente tomar banho por causa da impureza ritual; o homem tomou banho e morreu em consequência da decisão cruel deles. A esse respeito, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos estejam sobre ele) disse: “Eles o mataram. Por que não perguntaram quando não sabiam? O remédio para a ignorância é perguntar. Bastava cobrir a ferida com uma bandagem e fazer tayammum.” (Ahmad,, Abu Dawud e al- Hakim, e em Sahih al- Jami al- Saghir, este hadith também foi narrado)।

Em segundo lugar, em nossa época, a necessidade de facilitar as coisas em benefício das pessoas é muito maior do que em qualquer outro período. Isso porque, atualmente, a força de vontade das pessoas se deteriorou de tal maneira que seu interesse por ações justas e benéficas diminuiu, enquanto sua atração pelas más ações aumentou.

Portanto, em vez de insistir na adoção das normas mais rigorosas no cumprimento das determinações religiosas, é preferível incentivar as pessoas a optar pelo que é mais fácil. Foi assim que o Mensageiro de Allah tratou, nos primeiros tempos, aqueles que aceitavam o Islam e os beduínos do deserto. Eles não se comprometiam a realizar outras devoções voluntárias além do cumprimento das obrigações religiosas. O Mensageiro de Allah também os aceitava e, a respeito de alguns deles, dizia: “Se ele praticar boas ações de acordo com o que disse, será um homem virtuoso; ou, se cumprir sua promessa, entrará no Paraíso. E se algum de vocês quiser ver uma pessoa destinada ao Paraíso, que olhe para este homem.”

O Mensageiro de Allah agia assim somente por compaixão por eles e por levar em consideração suas difíceis condições.

Terceiro, qualquer pessoa pode, pessoalmente, impor rigor a si mesma e testar os limites da própria força de vontade. Contudo, a moderação é o melhor e mais adequado caminho. Pois o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: Allah aprecia as pessoas que aceitam as facilidades que Ele lhes concedeu, pois detesta que cometam pecados(Ahmad, Ibn Hibban e Bayhaqi e Sahih al Jami al Saghir neste hadith também foi incluído .)।

Portanto, no caso da grande maioria da população muçulmana, um faqih não deve impor condições rigorosas. Ele deve ter em consideração que, entre o povo em geral, além dos fracos e dos idosos, há também pessoas em relação às quais existem razões legítimas para se demonstrar indulgência. Sobre a liderança da oração congregacional, um hadith relata: aquele que exerce a função de imame na oração deve abreviá-la, pois entre as pessoas que oram atrás do imame pode haver idosos, doentes e viajantes ocupados. A salat é um símbolo no qual se refletem os diversos aspectos da vida.

Portanto, os fuqaha do movimento islâmico não podem tomar decisões que ergam muros de restrições, não indiquem o caminho da facilidade, apenas proíbam e não permitam. Especialmente nas questões relacionadas às mulheres, à família, às artes, ao entretenimento e assim por diante.

Outras questões desse tipo também se aplicam às transações, nas quais conceder permissão deve ser a regra normal, enquanto impor proibições deve ser considerado uma exceção. Isso também se aplica ao direito penal. Deve-se aplicar a pena mínima. Deve-se levar em consideração aqui a opinião de que o arrependimento anula a pena. Por exemplo, a punição por beber álcool está sujeita ao taʿzir [meu artigo ‘Os Fatores da Flexibilidade na Lei Islâmica Sharia’।] cuja medida não foi especificada no Alcorão e na Sunnah e é determinada pelos tribunais ou pelo legislativo, etc.

Nesta etapa, quero apresentar nosso objetivo à luz da declaração do imã Sufyan al-Thawri: somente os faqihs confiáveis podem emitir pareceres sobre a facilitação; como impor proibições, isso todos sabem.

Voltado para o futuro ideal

Uma das principais características do ideal que desejamos para o movimento islâmico é ser um ideal voltado para o futuro; isto é, sem se limitar ao presente, mantém sempre o olhar fixo no futuro. Não há nada de surpreendente nisso. O movimento islâmico preocupa-se com o futuro, pois isso faz parte da própria lógica do Islã, e essa lógica se reflete claramente no Alcorão e na Sunnah.

O–Alcorão e o futuro

Um estudo atento do Sagrado Alcorão revelará que, desde o período de Meca, o Alcorão atrai os muçulmanos para um futuro promissor, afirmando que o mundo está mudando e que as circunstâncias também são mutáveis. Os vencedores do presente estão sendo derrotados, e os fracos estão se tornando fortes. Tanto no âmbito regional quanto no internacional, todos têm sua vez de assumir o poder.

Os muçulmanos também precisam pôr sua casa em ordem e preparar-se para acolher a vez da mudança, que certamente virá, hoje ou amanhã; virá inevitavelmente, se Deus quiser.

A sura mequense Al- Qamar — versículos 45– e 46 — Allah, o Altíssimo, diz a respeito dos idólatras poderosos, bem armados e numerosos: «Em breve, eles fugirão em maior número e darão as costas. Mas a Hora é o tempo que lhes foi prometido para sua plena retribuição, e a Hora será mais terrível e mais amarga.»

Ibn Kathir, citando Ikrimah em seu famoso tafsir, disse: “Quando foi revelado o versículo ‘Em breve, eles serão derrotados e fugirão em maior número’, Umar ibn al-Khattab (que Allah esteja satisfeito com ele) perguntou: ‘Que grande exército fugirá?’ No dia de Badr, vi o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) avançando, revestido de uma armadura. Ele disse: ‘Em breve, eles serão derrotados e fugirão em maior número.’ Naquele mesmo instante, compreendi o significado desse versículo.

Citando Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela, o Imam Bukhari diz: Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela, disse: Este versículo foi revelado quando Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, estava em Meca, e naquela época eu era apenas uma menina. O versículo é: «Na verdade, a Hora é o tempo prometido a eles para sua plena retribuição, e a Hora é muito mais aterradora e muito mais amarga.»

O objetivo de tais versículos é preparar a mente muçulmana para a mudança inevitável e o futuro iminente.

No plano internacional, no Sagrado Alcorão encontramos a menção ao conflito histórico entre duas superpotências contemporâneas — os romanos e os persas — e, em Meca, entre os muçulmanos e os descrentes; ambos os grupos estavam preocupados com o confronto. Nesse contexto, o Alcorão prometeu aos muçulmanos que se aproximava o dia em que a supremacia pertenceria aos romanos, o Povo do Livro, e os persas adoradores do fogo seriam derrotados. Embora hoje sejam vencedores, em poucos anos serão derrotados. A esse respeito, nos versículos da Surata ar-Rum 1–a 5 é dito: Alif Lam Mim. Os romanos foram derrotados numa terra próxima, mas, depois de sua derrota, em breve serão vencedores. A Allah pertence a decisão antes e depois. Nesse dia, os crentes se alegrarão com a ajuda de Allah, o Altíssimo. Ele ajuda a quem quer. Ele é Poderosíssimo, Misericordiosíssimo.

Os versículos mencionados indicam-nos dois aspectos:

1. Embora fossem poucos em número e em recursos, os muçulmanos estavam bastante conscientes dos acontecimentos mundiais, dos conflitos entre as grandes potências ao seu redor e dos efeitos desses conflitos sobre eles.

2. Ao mencionar esses acontecimentos, o Sagrado Alcorão chamou a atenção dos muçulmanos para os elementos da mudança e para a transição do presente para o futuro.

Surata Muz‌zam‌mil último versículo, Allah, o Altíssimo, mencionou a flexibilização das exigências impostas ao Mensageiro de Allah, que a paz esteja com ele, e aos muçulmanos quanto à oração do tahajjud e à recitação do Alcorão. Isso porque eles tinham de enfrentar o inimigo. Esses inimigos combatiam os muçulmanos e impediam seu avanço no caminho de Allah. Portanto, era necessário que acumulassem forças para enfrentar esse conflito que lhes havia sido imposto.

O Deus Todo-Poderoso diz: Seu Senhor sabe que você e alguns dos seus companheiros permanecem de pé em oração durante quase dois terços da noite, às vezes metade da noite e, outras vezes, um terço da noite. E somente Deus pode calcular plenamente a duração da noite e do dia. Ele sabe que vocês não são capazes de passar a noite inteira em oração. Por isso, Ele foi benevolente para com vocês. Portanto, recitem do Alcorão o que lhes for fácil. Ele sabe que haverá entre vocês alguns enfermos, outros viajarão por diferentes terras em busca do sustento, e outros combaterão no caminho de Deus. Portanto, recitem do Alcorão o que lhes for fácil de recitar (Surata Muz‌zamm‌il: 20)।

ampla visão

Um estudo atento da Sira do Mensageiro de Deus, que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele, revela que o Mensageiro de Deus, que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele, não era negligente quanto ao futuro de sua missão de dawah. Pelo contrário, à luz de todas as oportunidades, facilidades, meios e recursos concedidos por Deus, ele sempre refletia e planejava para o futuro.

Basta estudar os esforços e as atividades do Mensageiro de Deus, que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele, durante a temporada do Hajj para compreender isso: nessa época, todas as tribos da Arábia se reuniam, e o Mensageiro de Deus, que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele, apresentava-lhes sua dawah e pedia seu apoio, prometendo-lhes acesso às riquezas dos impérios Romano e Persa. Isso demonstra quão ampla era sua visão do futuro.

O Mensageiro de Deus, que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele, acreditava em dois princípios fundamentais:

Primeiro, a mudança da situação era inevitável, pois já existiam as causas da mudança. O Islã era a alternativa à situação vigente. A luz da alvorada certamente surgiria, rompendo a escuridão da ignorância. Portanto, os muçulmanos deveriam manter-se firmes e perseverantes, e não era correto esperar resultados antes do momento apropriado.

Em Meca, a perseguição dos incrédulos contra os companheiros do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), especialmente contra os mais fracos, tornou-se tão intensa que Khabbab ibn Aratt (que Allah esteja satisfeito com ele) foi ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), queixou-se e pediu ajuda. Naquele momento, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) estava deitado à sombra da Caaba. Khabbab disse: “Ó Mensageiro de Allah, não pedirás ajuda a Allah em nosso favor? Não rogarás a Allah por nós?” O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Entre os que vos precederam, houve pessoas que foram capturadas, enterradas em covas abertas no chão e tiveram os crânios serrados ao meio; outras tiveram a carne separada dos ossos com pentes de ferro. Mesmo assim, não puderam desviá-las da religião. Por Allah, Ele certamente fará prevalecer a religião islâmica, a tal ponto que uma caravana viajará de Sana até Hadramaut (Iêmen) sem temer ninguém além de Allah. Naturalmente, também haverá quem vigie a caravana, para que os lobos não ataquem o rebanho de ovelhas. Porém, vós não tendes paciência para esperar até testemunhar essa verdade na realidade”(Bukhari)।

Em segundo lugar, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) acreditava que esse futuro desejado só se concretizaria quando as pessoas cumprissem seus deveres de acordo com a legislação aprovada por Allah e se preparassem tanto quanto possível; quando se empenhassem em remover todos os obstáculos do caminho e deixassem o restante nas mãos do Criador. Pois nada do que o ser humano é capaz de fazer é difícil para Allah.

A migração do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) para Medina estabeleceu essa verdade. Ele escolheu como local da migração um lugar que considerava apropriado dentro da própria Península Arábica, e não um lugar como a Abissínia. Considerava os Ansar árabes genuínos. Eles haviam se comprometido a protegê-lo como protegiam suas próprias famílias. Ele deu prioridade à migração de seus companheiros para que lhes fosse mais fácil deixar Meca. Na realidade, a chegada do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) a Medina depois deles tornaria o acontecimento ainda mais significativo.

Depois de receber a permissão de Allah, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) providenciou os animais para a viagem. Também decidiu quem seria seu companheiro e quem seria o guia do caminho. Até mesmo determinou antecipadamente em qual caverna se esconderia, até que os incrédulos desistissem de procurá-lo.

Ele tomou todas as medidas possíveis, mantendo o máximo de sigilo ao alcance dos seres humanos, e confiou a Allah os assuntos sobre os quais não tinha controle. Não tinha dúvida alguma de que Allah o ajudaria. Quando Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) lhe disse na caverna: “Ó Mensageiro de Allah, se algum deles olhar para baixo, sob seus pés, certamente nos verá”, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) respondeu: “Ó Abu Bakr, que pensas de dois homens cujo terceiro é Allah?” No Alcorão está dito: “Se não o ajudardes, Allah já o ajudou, quando os incrédulos o expulsaram, quando ele era um dos dois; quando ambos estavam na caverna e ele dizia ao seu companheiro: ‘Não te entristeças nem temas; certamente Allah está conosco.’ Então Allah fez descer sobre ele Sua tranquilidade e o fortaleceu com tropas de anjos que não podíeis ver; e tornou inferior a palavra dos incrédulos, enquanto a Palavra de Allah permaneceu suprema. E Allah é Poderoso, Prudentíssimo(Surata At-Tawbah: 40)।

 

Quintocapítulo

Islâmico movimento: político e internacional níveis

Racional político fiqh

situação ideológica adversa

No caso do movimento islâmico, especialmente no âmbito político, prevalece uma situação ideológica adversa que não pode escapar à atenção de nenhum observador cauteloso.

No campo da ideologia, existem várias correntes de pensamento nocivas que ainda exercem, de uma forma ou de outra, influência sobre o fluxo do pensamento político, incluindo os líderes e os grupos de escritores do movimento islâmico, bem como os livros escritos para as atividades de divulgação ou educativas. O movimento deve libertar-se da influência dessas correntes e conduzir suas atividades, de maneira abrangente, em relação ao povo, à vida e ao mundo, à luz de uma ideologia benéfica.

A ideologia zahirita limita-se a aceitar o sentido literal dos textos fundamentais e, além disso, não se dedica ao estudo dos verdadeiros objetivos da sharia. Consequentemente, não dá qualquer atenção aos interesses das pessoas. Eminentes eruditos enfatizaram que o objetivo da sharia é promover o bem-estar das pessoas neste mundo e no Além. Nas palavras do Imam Ibn al-Qayyim: qualquer norma que abandone o bem em favor do mal e dê lugar à insensatez em detrimento da prudência não tem relação alguma com a sharia, ainda que, por equívoco, seja considerada parte dela.

Tal ideologia pode ser aceitável no caso de algum costume ou norma aplicável a indivíduos específicos, mas esse método jamais pode ser aceitável no âmbito da política baseada na sharia. Isso porque a base da política baseada na sharia deve ser a flexibilidade, a tolerância e a consideração pelas mudanças de lugar, época, circunstâncias e pessoas.

Embora os defensores da ideologia kharijita pareçam caracterizar-se pela honestidade e pela coragem, são estreitos de espírito e têm uma visão míope sobre a religião e o mundo. Além disso, são violentos no trato com os outros e sofrem constantemente da obsessão de rejeitar, acusar e suspeitar de todos, inclusive dos membros do movimento islâmico. Só sabem elogiar suas próprias opiniões. E essa autossatisfação é extremamente perigosa.

Depois vem a ideologia taqlidista, que nada mais é que a imitação cega. Os seguidores desse método procuram as respostas para suas questões ideológicas, políticas e jurídicas nos livros escritos pelos antigos imames e juristas de seus respectivos madhhabs. Jamais desejam ultrapassar os limites de seu próprio círculo. Os seguidores dos madhhabs não veem a sharia sob uma perspectiva ampla. Julgam e avaliam tudo à luz de seus próprios caminhos e métodos, e tampouco demonstram interesse pela época atual, pelos acontecimentos contemporâneos ou pela solução dos problemas surgidos. Esse tipo de perspectiva estreita aquilo que Deus tornou amplo e torna difícil aquilo que o Islã tornou fácil.

Se o movimento islâmico não conseguir libertar seus seguidores dessas ideologias anormais e de seus efeitos negativos, e se não cultivar nem praticar a nova corrente de fiqh na qual desejamos concentrar nossa atenção — composta pelo fiqh das práticas autorizadas, ou fiqh al-sunan, pelo fiqh dos objetivos da sharia, pelo fiqh do equilíbrio e pelo fiqh das prioridades —, o movimento islâmico não poderá construir uma ideologia política racional.

político do fiqh incompletude

É necessário corrigir as concepções e decisões defeituosas e anormais do movimento islâmico, bem como seus métodos anormais de dissociação.

No campo do fiqh político, essas ideias, regras e métodos estranhos são, em grande medida, evidentes. No passado, eles não receberam tanta importância nem mesmo nos campos da adoração, das transações, do casamento e de outros assuntos.

Hoje, o fiqh político foi infiltrado por diversos conceitos equivocados e decisões frágeis. Eles criaram raízes de maneiras tão diferentes na mentalidade dos islamistas que, quando alguém aplica uma regra, ela fica tão distante das normas e prescrições aplicadas por outro quanto o Oriente está do Ocidente.

Alguns consideram a consulta, ou shura, não um dever obrigatório, mas simplesmente uma questão de troca de informações. Outros conferem ao chefe de Estado o poder de declarar guerra e concluir tratados sem consultar os representantes da nação. E outro grupo considera a democracia uma doutrina de kufr.

Há também aqueles que acreditam que as mulheres não têm lugar na política islâmica e que seu único lugar é a casa paterna. De lá, elas podem seguir para dois destinos: a casa do marido ou o túmulo. Segundo esse grupo, está fora de questão que elas se candidatem às eleições do governo local ou do Parlamento; elas nem sequer têm o direito de votar nas eleições.

Há ainda outra categoria de pessoas que considera que o Islã rejeitou o sistema democrático multipartidário. Acreditam que, em um Estado muçulmano, não pode existir nenhum partido ou grupo que siga qualquer orientação ou corrente política.

Quando alguns irmãos religiosos me mostraram um artigo de um certo autor entusiasta, intitulado “Entrar no Parlamento é contra o tawhid”, fiquei estarrecido. Isso porque o artigo afirmava que tornar-se membro do Parlamento era contrário ao tawhid. Percebi nele uma estranha confusão entre prática e aqida. A prática está relacionada ao certo e ao errado, não à crença e à descrença. Essas questões fazem parte da política da sharia, na qual foi estabelecido que a recompensa do ijtihad é dupla quando a conclusão é correta e, mesmo quando é errada, há uma recompensa.

Os kharიჯitas daquela época também cometeram o mesmo erro, declarando o Imam Ali, que Allah esteja satisfeito com ele, incrédulo por meio de uma fatwa, por causa de uma questão mundana relacionada à política. O assunto que eles incorporaram às crenças religiosas fundamentais era o seguinte: ele estabeleceu o domínio dos seres humanos sobre a religião de Allah, embora ninguém, exceto Allah, tenha o direito de julgar. O Imam respondeu à acusação deles em linguagem extremamente clara, dizendo: “Para estabelecer um erro, recorreu-se a uma afirmação correta.”

Político do fiqh aplicação

Os ulemás do Afeganistão lideraram a jihad com bravura e coragem. Contudo, fiquei surpreso ao saber que alguns deles consideram ilícita a educação das mulheres e, da mesma forma, sustentam a mesma opinião quanto ao uso de eleições como método para escolher representantes do povo ou para o cargo de presidente do Estado. Eles acreditam que estabelecer o mandato do presidente e tornar a shura obrigatória é ilícito.

Alguns irmãos religiosos que acreditam nessas ideias disseram-me, ao conversarmos sobre essas questões, que a razão do fracasso do movimento islâmico na era atual é a crença em ideias que eles consideram não islâmicas, e que nós, muçulmanos, não poderemos ter êxito enquanto não utilizarmos estratégias islâmicas para alcançar os objetivos do Islã.

Perguntei-lhes: se os muçulmanos estabelecerem o mandato do presidente tendo em vista os seus próprios interesses, que razão poderia haver para isso ser ilícito?

Eles responderam: isso contraria a tradição muçulmana que existe desde a época do primeiro califa, Abu Bakr al-Siddiq, que Allah esteja satisfeito com ele. Nenhum califa foi eleito para um mandato determinado. Em particular, os califas bem guiados permaneceram no poder pelo resto de suas vidas, e o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, ordenou-nos que seguíssemos rigorosamente cada uma das práticas dos califas bem guiados. Foi narrado no hadith que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, advertiu-nos acerca das questões recém-inventadas, ou bid‘ah, dizendo: toda inovação ou bid‘ah na religião é um desvio do caminho reto. E isto é uma questão nova inventada pelos seres humanos ((Abu Dawud e Tirmidhi)।

Em resposta, eu disse que, antes de nos ser ordenado seguir a prática dos califas bem guiados, foi-nos ordenado seguir a sunnah do Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Isso porque a sunnah é a segunda fonte da lei islâmica; portanto, sempre que houver divergência sobre qualquer questão, devemos recorrer tanto ao Alcorão quanto à sunnah. O hadith narrado por al-Irbad diz: “Segui a minha sunnah e a prática dos califas bem guiados.” Assim, primeiro é necessário recorrer à sunnah do Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz.

Todos sabem que a sunnah do Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, consiste em suas palavras, ações ou aprovação de uma ação. Sua ação pode não ser obrigatória em determinado caso; pode simplesmente indicar aprovação ou autorização, a menos que haja evidência associada a ela que eleve sua aprovação ao nível de uma obrigação.

Por essa razão, quando os Califas Bem-Guiados perceberam que, em circunstâncias alteradas, a ação ou medida tomada pelo Mensageiro de Deus (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) para determinado propósito já não favoreceria os interesses dos muçulmanos, decidiram em sentido contrário àquela ação do Mensageiro.

Um exemplo disso é que, após a conquista de Khaybar, o Mensageiro de Deus (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) distribuiu os espólios de guerra entre os soldados. Mas Umar (que Deus esteja satisfeito com ele) não fez isso após conquistar as áreas rurais do Iraque. Pois, considerando o contexto daquele tempo, não o considerou apropriado. Muitos Companheiros do Mensageiro apresentaram argumentos contra essa opinião de Umar, especialmente porque sua decisão era, em sentido literal, contrária àSurata Al-‌Anfal, no versículo 41, do conjunto de normas gerais ali descrito. Este versículo diz: “E sabei que, de tudo quanto obtiverdes como espólio, um quinto pertence a Deus.”

Umar (que Deus esteja satisfeito com ele) comentou: “Considero os recursos suficientes para as pessoas do presente e do futuro. Acaso quereis que a próxima geração se encontre em uma situação em que nada tenha sido deixado para ela?”

Isso significa que Umar (que Deus esteja satisfeito com ele) fez a consideração acima pensando na próxima geração, uma medida surpreendente com vista à interdependência da Ummah muçulmana de geração em geração. Assim, a geração atual não poderia levar uma vida luxuosa ignorando os interesses da próxima geração. A base lógica por trás dessa medida de Umar foi aSurata Al- Hashr, versículo 10 º. Ali, ao mencionar a norma de distribuição dos espólios entre os Muhajirun e os Ansar, diz-se: “E aqueles que vieram depois deles.” O Imame Ibn Qudama, explicando a diferença entre as medidas tomadas pelo Mensageiro de Deus (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) e por Umar, disse: “Ambos fizeram aquilo que consideraram mais apropriado para o seu tempo.”

Embora algumas ações do Mensageiro de Allah — que a paz esteja com ele — sejam parte inseparável da Sunnah, elas não são obrigatórias para as gerações posteriores. Seus Companheiros, às vezes, agiram de modo contrário levando em consideração determinados fatores. Então, por que as medidas dos muçulmanos posteriores seriam obrigatórias para aqueles que vierem depois deles?

Nenhum precedente pode constituir uma razão válida para uma obrigação legal. Um precedente só é adequado ao lugar, ao tempo e às circunstâncias a que se refere. Se esses elementos mudarem, será necessário agir com base nessa mudança.

O ponto principal aqui é que, entre as disposições e normas que herdamos do passado, devemos escolher aquelas adequadas ao nosso tempo, ambiente e circunstâncias, sempre dentro do âmbito do Livro fundamental e dos objetivos da nossa generosa Shariah.

O debate sobre o suposto consenso dos estudiosos muçulmanos contra a limitação do mandato dos governantes é bastante confuso. Não há dúvida quanto ao consenso de que um governante pode reinar por toda a vida. Contudo, a questão da limitação do mandato nunca foi discutida nem estudada. Tratava-se de um assunto completamente silencioso. Diz-se que não se deve fazer comentário algum sobre uma pessoa silenciosa. Do mesmo modo, não se deve atribuir aos estudiosos uma questão sobre a qual sua decisão não foi nem negativa nem positiva.

Por outro lado, diz-se que determinar o mandato do chefe de Estado é algo recém-inventado no Islã, ou uma bid’a, e que há consenso de que toda bid’a é desvio. Aceitamos a segunda parte dessa afirmação, isto é, que toda bid’a significa desvio; porém, não há prova da primeira parte, ou seja, de que uma decisão desse tipo se enquadre, segundo a Shariah, na categoria de bid’a.

É errado pensar que o Islã se opõe, sob o nome de bid’a, a qualquer coisa nova ou invenção. Na realidade, a bid’a só pode ocorrer quando algo é introduzido em questões religiosas puras, como a fé, a adoração e seus ramos. Já os assuntos mutáveis da vida, como costumes, tradições, práticas e métodos administrativos, sociais, culturais e políticos, enquadram-se, na linguagem dos estudiosos, no âmbito dos “assuntos mundanos”, cuja explicação encontramos na obra Al-I’tisam, do Imã al-Shatibi. Foi por isso que os Companheiros do Mensageiro fizeram muitas coisas que o próprio Mensageiro de Allah — que a paz esteja com ele — não fez, como registrar exemplares do Alcorão, usar registros e livros contábeis, instituir o imposto territorial e construir prisões. Depois dos Companheiros do Mensageiro, os muçulmanos da geração dos tabi’un fizeram, em seu tempo, coisas que os Companheiros anteriores não haviam feito, como cunhar moedas e criar um serviço postal, entre outras.

Os muçulmanos também inventaram muitas outras coisas que nem sequer eram conhecidas na época do Mensageiro de Allah — que a paz esteja com ele — ou de seus Companheiros, como o desenvolvimento de diversos ramos do conhecimento, incluindo as ciências religiosas, a linguística e as ciências humanas.

Uso incorreto da Sira

Uma das principais causas de equívocos e decisões erradas no fiqh político é a confusão entre a Sunna e a sira do Mensageiro. No Islã, além do Alcorão Sagrado, a Sunna é uma fonte da lei. O Alcorão é a base e o fundamento da lei, enquanto a Sunna é sua explicação e aplicação.

Contudo, alguns cometem o erro de colocar a sira no lugar da Sunna e mencionam os acontecimentos da sira como se fossem igualmente obrigatórios, tal como o Alcorão e a Sunna.

A sira não é sinônimo de Sunna. Isso porque a sira contém detalhes que não têm qualquer relevância no âmbito da lei. Por isso, os faqih não incluíram a sira na definição de Sunna. Eles disseram apenas: Sunna é tudo aquilo que o Mensageiro de Allah disse, fez ou aprovou. Eles não incluíram a sira nesse conceito.

Entretanto, os muhaddith acrescentaram aos atos, palavras e aprovações do Mensageiro detalhes sobre sua aparência, seu comportamento e seu modo de vida. Sem se preocupar em saber se estavam relacionados às leis, eles geralmente reuniram todos os pormenores referentes ao Mensageiro de Allah. Descreveram detalhadamente tudo da vida do Mensageiro: seu nascimento, seus cuidados, sua criação, seu casamento, seu comportamento, suas características físicas e todos os demais pormenores relacionados ao seu nascimento e à sua morte.

O motivo de nossa preocupação aqui é que alguns grupos islâmicos consideram a sira uma prova definitiva em apoio a determinada decisão. Eles acreditam que ela é obrigatória para todos os muçulmanos. Gostaria de mencionar aqui duas questões.

Em primeiro lugar, a sira inclui acontecimentos transmitidos de um narrador a outro sem provas conclusivas. Isso ocorre porque esses narradores relataram a sira de maneira tão informal que, ao apresentar as normas da sharia e os relatos sobre o lícito e o ilícito, não utilizaram referências a hadith.

Em segundo lugar, a sira é uma representação do aspecto prático do modo de vida do Mensageiro. Nenhuma ação do Mensageiro impõe uma obrigação; ela apenas indica aprovação. Para que uma obrigação se torne efetiva, é necessária outra prova.

É verdade que devemos seguir o exemplo do Mensageiro de Allah. Foi declarado no Alcorão Sagrado: “Certamente, no Mensageiro de Allah há um excelente modelo para vós seguirdes (Surata Al-Ah‌zab: 21)”. É obrigatório seguir o exemplo do Mensageiro de Allah em matéria de conduta moral, valores e questões gerais, mas não nos detalhes.

Se for possível e permitido propagar a da‘wah publicamente, não há necessidade de realizar atividades secretas para imitar o exemplo do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Se não houver necessidade, não precisamos deixar nossa terra natal e emigrar para um lugar seguro com o objetivo de disseminar a da‘wah da religião apenas para seguir o exemplo do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele).

Por essa razão, depois da conquista de Meca, a emigração para Medina já não é obrigatória para todo muçulmano. Isso porque o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Não há mais emigração depois da conquista de Meca, exceto o jihad e o ardente desejo de participar dele; quando forem convocados, então devem partir (Bukhari e Muslim). Isso significa que já não é necessário emigrar para Medina. Contudo, se os muçulmanos não conseguirem estabelecer a religião em algum país, é permitido emigrar de lá.

O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) pediu ajuda às tribos poderosas, e as tribos de Aws e Khazraj responderam ao seu chamado. Hoje, não precisamos mais fazer isso, pois esse método já não é suficiente nesta época.

O fato de o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) ter realizado atividades de da‘wah em Meca durante treze anos não significa que também precisemos praticar a fé e continuar as atividades de da‘wah por treze anos. Isso porque o povo muçulmano entre o qual vivemos hoje acredita que não há outra divindade além de Allah e que Muhammad (que a paz esteja sobre ele) é o Mensageiro de Allah. Portanto, não precisamos de tanto tempo para aprender nossa fé e nossa ‘aqidah.

Se hoje prestarmos atenção a questões como justiça social, shura, liberdade, a Intifada palestina e o jihad afegão, isso não será contrário à orientação do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Em Medina, ele estava ocupado justamente com esse tipo de atividade. Pois, antes da Hégira, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) vivia em Meca numa sociedade ignorante e politeísta que rejeitava a da‘wah com arrogância. Assim, sua primeira luta contra aquela sociedade foi centrada no tawhid e na da‘wah. Nossa sociedade não é semelhante àquela. Esta sociedade crê em Allah, em Sua religião e em Seu Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), embora nela possam existir falhas e desvios do caminho de Allah.

Recuperação dos territórios muçulmanos

Desde o início, o movimento islâmico adotou a recuperação de todos os territórios muçulmanos e a garantia de sua libertação e independência como um de seus mais importantes programas. Nenhuma pessoa sensata pode negar isso.

O Imam Hasan al-Banna disse em um de seus discursos: “Nossos esforços e nosso jihad estão concentrados em dois objetivos principais: o ideal islâmico e os territórios muçulmanos.”

Ele conciliou esses dois objetivos porque o ideal só pode ser estabelecido em uma terra livre e independente, onde seus valores possam ser preservados e as disposições da lei, implementadas. Nisso reside o significado do Estado Islâmico, ou Dar al-Islam. É em um território assim que o Islã perdura; é a partir dele que suas atividades são conduzidas e que a nação recebe orientação.

Por isso, os juristas do Islã concordaram que é dever recuperar e proteger todos os territórios muçulmanos ocupados pelos não muçulmanos. Declararam também que, para os muçulmanos desses territórios, o jihad é uma obrigação individual e que, coletivamente, todos os muçulmanos devem ajudar nesse jihad com suas vidas, bens e armas, até que seus territórios sejam libertados das mãos dos agressores.

Portanto, se mesmo uma parte do território muçulmano cair sob o domínio de invasores estrangeiros, o movimento islâmico não pode assistir a isso como um espectador silencioso. Não há nada de surpreendente nisso. A sede da Irmandade no Cairo também foi um centro de atividades dos mujahidin e revolucionários que participavam da luta contra os ocupantes em todas as partes do mundo árabe e muçulmano, da Indonésia ao Marrocos.

Certa vez, Hasan al-Banna apresentou as reivindicações nacionais da Irmandade em uma conferência nacional. Ele falou da construção de uma pátria muçulmana: uma pequena pátria formada pelo Egito e pelo Sudão; uma grande pátria abrangendo o mundo árabe, que se estenderia do Golfo ao Oceano Atlântico; e uma pátria ainda maior abrangendo o mundo muçulmano, cujas fronteiras se estenderiam do Oceano Atlântico ao Oceano Índico. Ele enfatizou que libertar a maior pátria muçulmana de toda forma de influência estrangeira imposta aos muçulmanos é uma obrigação religiosa para cada muçulmano e um dos principais objetivos da Irmandade.

Hasan al-Banna colocou a Palestina no topo da lista como uma das questões mais importantes. Conferindo-lhe especial importância, exortou as massas muçulmanas a voltar sua atenção para a terra sagrada dos profetas e mensageiros, de Isra e Mi‘raj, e a permanecerem alertas quanto à ameaça judaica. Pois os judeus estão à espreita, esperando cravar suas garras ferozes nessa terra. Os líderes árabes e muçulmanos permanecem alheios à rede de conspirações tramada contra a Mesquita de Al-Aqsa, a primeira das duas qiblas, embora Al-Aqsa esteja envolta na misericórdia de Allah.

Hasan al-Banna escreveu muitos artigos para defender os interesses palestinos, liderou numerosas marchas, organizou muitas reuniões, recrutou incontáveis pessoas e reuniu grandes quantidades de dinheiro e armas. Basta mencionar, como prova de seu mérito nesse campo, que a luta heroica travada em 1948 no território palestino por seus seguidores espirituais e combatentes está registrada em letras de ouro na história. Sua veracidade foi reconhecida pelo major-general egípcio Al-Mawabi e por outros comandantes, e até pelos próprios judeus. O livro ‘Al-Ikhwan al-Muslimun and the Palestine War’, de autoria de Kamal al-Sharif, apresenta muitos dados sobre esse glorioso jihad.

O movimento islâmico desempenhou seu papel na defesa de todos os interesses de todas as nações muçulmanas e no enfrentamento do imperialismo de todas as raças.

Por essa razão, o movimento islâmico avançou para defender os interesses do Afeganistão, símbolo da primeira linha de defesa contra a agressão comunista. Esse interesse era tão profundo que alguns pensaram que o movimento islâmico talvez tivesse esquecido os interesses palestinos. Na realidade, o movimento islâmico jamais esqueceu a Palestina e jamais a esquecerá. Pois a Palestina é o primeiro e supremo interesse islâmico; sua libertação é o primeiro e supremo dever, algo em que os mujahidin afegãos também acreditam de todo o coração.

Agora, na luta palestina, é necessária uma bandeira islâmica que reúna as pessoas ao seu redor e as una como uma só entidade. Foi isso que ocorreu com a expansão da revolução nas mesquitas e por meio da revolta popular, ou Intifada, cujo principal slogan é: não há divindade além de Deus (La ilaha illallah) e Deus é o maior (Allahu Akbar). O firme, corajoso e vigilante movimento de resistência islâmica Hamas transformou essa revolta em uma força organizada.

Hamas é uma instituição simbólica da fé do povo palestino, criado nas antigas tradições muçulmanas e árabes. Esse povo ainda está vigoroso. Com a ajuda de Deus, jamais definhará até alcançar a vitória. O povo de corpo e espírito puros levará adiante a bandeira do jihad.

O movimento deve estar na vanguarda de toda atividade relacionada aos interesses islâmicos. De onde quer que venha o chamado, deve responder a todo apelo de ajuda. O movimento islâmico deve participar do jihad contra o despotismo cristão marxista na Eritreia. A junta local quer dominar a Eritreia, mantê-la sob seu controle como uma colônia e transformar seu povo em uma classe de escravos sob um sistema feudal.

O movimento islâmico deve ficar ao lado do Sudão contra a rebelião cristã racista e traiçoeira. Os cristãos querem impor seu fanatismo religioso racista a todo o território sudanês e separar o país da umma muçulmana e do mundo árabe.

Nas Filipinas, deve-se apoiar os muçulmanos contra os governantes cristãos parciais. Pois a junta cristã quer exterminar os muçulmanos dali e dar lugar apenas àqueles que aceitarem uma vida de escravidão. Pessoas que não serão úteis nem para si mesmas nem para os outros.

Deve-se estender uma mão de ajuda à luta dos muçulmanos da Caxemira pelo direito à autodeterminação, até que a Caxemira se torne parte do Paquistão ou seja independente, para que todas as conspirações dos imperialistas indianos possam ser frustradas. A fim de transformar a Caxemira em uma base de conspirações contra o Paquistão e, de modo geral, contra o mundo muçulmano, o imperialismo indiano tenta apagar a identidade muçulmana da região espalhando educação irreligiosa, imoralidade e dependência de drogas.

O movimento islâmico deve apoiar os muçulmanos contra o ditador da Somália. A junta despótica do país está matando eruditos muçulmanos e submetendo a abusos e perseguições toda pessoa de caráter religioso ou intelectual.

O movimento islâmico deve dispor de informações corretas sobre esses movimentos de libertação. É desejável que o movimento islâmico esteja presente, em algum nível, na liderança e na estrutura organizacional desses movimentos de libertação. É indispensável trabalhar continuamente pela unidade, eliminando as distâncias entre os diversos níveis da organização, e esforçar-se para eliminar pequenas divergências em benefício da consecução do objetivo maior. O sintoma mais grave capaz de prejudicar o jihad é a desunião entre os grupos. O Deus Todo-Poderoso diz: Certamente, Deus ama aqueles que lutam em fileiras pelo Seu caminho, como se fossem uma estrutura de construção sólida(Surata as-Saff’: 4)।

O movimento islâmico também deve assumir a responsabilidade de organizar os muçulmanos do mundo em defesa dos interesses palestinos. Isso porque o movimento sionista organizou os judeus do mundo em defesa dos interesses de Israel. O movimento islâmico deve empenhar-se em obter o apoio de pessoas conscientes em todo o mundo para a defesa de nossos interesses legítimos.

Atualmente, é absolutamente necessário empreender tal esforço a partir da plataforma do movimento islâmico. Pois a luta palestina chegou agora a uma fase grave. Pisoteando os interesses palestinos, tramou-se o assentamento de judeus soviéticos nos territórios ocupados. O objetivo dessa conspiração é realizar o sonho de um Israel Maior, cujas fronteiras se estenderiam do Nilo ao Eufrates; depois, seu desejo é expandir-se até o Hijaz, Medina e Khaybar.

Movimento de libertação

O movimento islâmico não deve limitar sua atenção apenas aos territórios muçulmanos. Certamente, de acordo com os princípios do Islã, os territórios muçulmanos podem receber especial importância no interesse da interdependência e da solidariedade mútuas. Mas o movimento islâmico deve estender uma mão de ajuda a todos, muçulmanos e não muçulmanos, que em qualquer parte do mundo lutam pela libertação da ocupação territorial, do imperialismo, da opressão e da injustiça.

O Islã surgiu com um apelo universal à libertação da humanidade. Allah honrou o ser humano ao enviá-lo à Terra como Seu representante e, por isso, submeteu ao seu domínio tudo o que existe nos céus e na Terra.

O Islã veio com o objetivo de libertar o ser humano da servidão a qualquer força taghut rebelde contra Deus e de prepará-lo adequadamente para se levantar contra o taghut.

O cerne da missão do profeta Moisés (que a paz esteja com ele) era libertar os Filhos de Israel da opressão do Faraó, de Qarun e de Haman. O objetivo da missão do profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) era libertar toda a humanidade das garras de todos os Faraós, Qaruns e Hamans, que acorrentam as pessoas à servidão e se impõem como governantes extremamente poderosos, sem terem qualquer direito a isso. Esses governantes tratam os servos de Allah com tal arrogância, como se compartilhassem da grandeza e da supremacia de Allah. Apresentam-se como deuses e transformam as pessoas em seus escravos.

Por intermédio do Mensageiro, o Alcorão, dirigindo-se aos governantes e reis, proclamou em tom claro e elevado a mensagem da liberdade: Vinde a uma palavra justa entre nós e vós: não adoraremos senão a Allah, não associaremos ninguém a Allah e nenhum de nós tomará outros, além de Allah, como senhor(Surata Al Imran: 64)।

Rabi ibn Amir declarou diante de Rustam, comandante do exército persa: “Allah nos enviou para libertar as pessoas da servidão a outras pessoas, para que sirvam somente a Ele, e para conduzi-las da injustiça e da opressão de várias religiões à justiça do Islã.”

O Todo-Poderoso Allah enviou Seu Livro e Seus mensageiros ao mundo com a missão exclusiva de estabelecer a justiça. A esse respeito, o Sagrado Alcorão declara: “Certamente, enviamos Meus mensageiros com instruções claras e, com eles, fizemos descer o Livro e a balança, para que as pessoas se mantenham firmes na justiça ”(Surata Al-Hadid: 25)।

Portanto, toda opressão e injustiça de uma pessoa contra outra, de um grupo contra outro ou de um povo contra outro — especialmente a opressão e a injustiça dos tiranos e poderosos contra as pessoas fracas e oprimidas — constitui, em essência, uma violação de todas as mensagens divinas. Por isso, o Alcorão critica severamente os tiranos e profere uma grave advertência: “Mas eles (os mensageiros) começaram a pedir vitória e auxílio, e todo tirano desobediente e obstinado fracassou completamente e foi destruído. Diante dele (de todo tirano desobediente e obstinado) está o Inferno, e ele será forçado a beber água fervente misturada com pus e sangue ”(Surata Ibrahim: 15–16)।

Assim, Allah Todo-Poderoso sela o coração de todo tirano arrogante (Surata Al-Mu’’min: 35)।

Entrai, pois, pelas portas do Inferno e permanecei nele eternamente; de fato, quão péssima é a morada dos arrogantes (Surata An-Na‌hl: 29)।

Nas suratas mecânicas e medinenses do Alcorão, os malfeitores são severamente condenados: certamente, Allah Todo-Poderoso não guia aquelas pessoas que são injustas (Surata Al-Ma’ida: 51)।

Certamente, aqueles que são injustos jamais alcançarão sucesso (Surata Yusuf: 23)।

E destruímos estas cidades quando praticaram injustiça (Al -Kah‌f: 59)।

Estas são as suas casas, completamente em ruínas por causa da sua injustiça (Surata An- Naml‌ : 52)।

E assim é o castigo de seu Senhor: Ele castiga os habitantes das cidades quando cometem injustiça; sem dúvida, Seu castigo é doloroso e extremamente severo (Surata Hud: 102)।

Então, as raízes dos injustos foram cortadas. E a Deus pertencem todos os louvores e agradecimentos, o Senhor dos mundos (Surata Al-’An’am: 45)।

E não vos inclineis para os injustos, para que o fogo não vos alcance. E não tendes, além de Deus, nenhum protetor. Portanto, não encontrareis ajuda em parte alguma (Surata Hud: 113)।

O Islam não se limitou a declarar a opressão e a injustiça estritamente ilícitas e proibidas; também ordenou que se lutasse contra elas por todos os meios. E aqueles que nada fizerem para erradicar a injustiça serão considerados, na Terra, cúmplices dos pecadores e, na outra vida, terão de sofrer punição.

Mesmo a nação que, sem hesitação e livremente, persiste em praticar injustiças e atos perversos, e ninguém protesta contra nem impede suas más ações, o Islã considera esse povo merecedor de punição divina, e sua destruição é inevitável. E, quando o castigo de Allah desce sobre tal povo, ninguém escapará dele. Os pecadores serão submetidos ao castigo por seus pecados, e os espectadores silenciosos, por seu silêncio. Allah, o Altíssimo, diz: “E temei uma provação que não atingirá somente os injustos; e sabei que Allah é severo no castigo (Sura Al- An-‌Fal: 25)।

O Mensageiro de Allah (s.a.) disse: Se as pessoas virem o transgressor cometendo uma injustiça e, ainda assim, não o impedirem, aproximar-se-ão de um castigo da parte de Allah; esse castigo recairá sobre todos eles. (Abu Dawud, Tirmidhi, Ibn Majah, Ibn Hibban e Sahih al Jami al Saghir). Outro hadith relata: Quando vires a minha comunidade dominada pelo medo e pelo terror, sem dizer a nenhum transgressor: «Estás a cometer uma injustiça», então podes perder a esperança nela. (Al Hakim)।

Todos os pecadores estão abrangidos pela declaração mencionada. Quer a sua injustiça seja contra os muçulmanos ou contra outros, pois toda injustiça e todo ato ilícito são pecado.

Também não há motivo para se admirar com isso: o Islã incentiva todas as medidas positivas para combater os injustos e proteger os oprimidos e os fracos. Além disso, considera a resistência e a defesa como adoração e jihad no caminho de Allah. O Sagrado Alcorão, exortando à luta contra os malfeitores e à proteção dos oprimidos, diz: “E o que vos acontece, que não combateis no caminho de Allah e em favor daqueles homens, mulheres e crianças fracos, oprimidos e maltratados, que suplicam: ‘Ó nosso Senhor! Retira-nos desta cidade cujos habitantes são injustos, designa-nos, da Tua parte, um protetor que nos defenda e envia-nos, da Tua parte, alguém que nos auxilie?’”(Surata An- Nissá: 75)।

Aqui, a referência à classe dos fracos diz respeito principalmente aos crentes. Por isso, neste versículo, é mencionada apenas a súplica deles. Contudo, o Islã não apoia a injustiça contra ninguém, mesmo que seja incrédulo. Foi narrado num hadith: “Cuidado com a súplica e a queixa do oprimido, mesmo que ele seja incrédulo, pois não há obstáculo entre a sua súplica e Allah.”(Ahmad e Sahih al- Jami al- Saghir)।

Certa vez, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), ao ouvir o relato da opressão de uma mulher fraca por um homem poderoso e cruel da Abissínia, comentou: “Como Allah considerará pura uma nação em que os direitos dos fracos não são resgatados das mãos dos poderosos?(Ibn Majah, Ibn Hibban e Sahih al Jami al Saghir). Observe-se que, naquela época, havia um reino cristão na Abissínia.

Na realidade, o objetivo das campanhas de conquista do Islã era resgatar as pessoas oprimidas e perseguidas da tirania dos autocratas e da opressão dos opressores, e libertar esses povos do domínio dos imperadores persas e romanos. Foi por essa razão que essas pessoas acolheram o Islã e o abraçaram voluntariamente.

Na verdade, é dever daqueles que possuem fé e coragem moral encorajar-se mutuamente a resistir à opressão dos fracos e ajudá-los até que seus direitos sejam plenamente restituídos pelo opressor. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) nos relatou uma experiência desse tipo. Durante a Era da Ignorância, quando ainda era jovem, ele testemunhou um acontecimento semelhante e envolveu-se nele por meio de uma instituição de bem-estar social chamada Hilf al-Fudul. Essa organização foi formada por um grupo de pessoas honestas, benevolentes e sinceras, com o objetivo de apoiar os fracos contra os fortes, para que os direitos e a dignidade dos fracos fossem restaurados.

Se o Islã se manifesta com veemência na defesa dos interesses dos animais inocentes e indefesos, por que não apoiaria as pessoas oprimidas, perseguidas e injustiçadas na reivindicação de seus direitos?

Muçulmanos minoritários

O movimento islâmico deve manter uma atenção vigilante aos interesses das minorias muçulmanas espalhadas por todo o mundo.

Informações importantes

A esse respeito, devemos considerar vários fatores, incluindo os seguintes aspectos:

1. As minorias constituem aproximadamente um quarto, ou até mais, da população muçulmana total do mundo. Essa informação foi obtida em um estudo realizado, cerca de vinte e sete anos atrás, pela Universidade Islâmica Imam Muhammad ibn Saud, em Riade.

2. Entre essas minorias muçulmanas, a comunidade muçulmana da Índia, devido ao seu enorme contingente populacional, é a segunda maior comunidade muçulmana do mundo. Mais de duzentos milhões de muçulmanos vivem na Índia. Essa comunidade muçulmana exerceu influência histórica, científica e cultural sobre o subcontinente indiano e, de modo geral, sobre a cultura islâmica.

3. Algumas comunidades chamadas minoritárias são, na verdade, populações de países genuinamente muçulmanos. Esses países foram incorporados à força a alguns grandes países vizinhos, para que as comunidades muçulmanas se dissolvessem entre eles e se transformassem em minorias oprimidas dentro de populações majoritárias mais amplas. Exemplos disso são as repúblicas muçulmanas da antiga União Soviética: Uzbequistão, Turcomenistão e Azerbaijão. Estudos comprovaram que esses países são partes integrantes do mundo muçulmano.

4. Algumas comunidades muçulmanas foram apresentadas como minorias em estatísticas mundiais tendenciosas. A realidade é completamente oposta. As estatísticas verdadeiras mostram que, nos países em questão, os muçulmanos são amplamente majoritários, embora estatísticas falsas mencionem deliberadamente uma população muçulmana menor; especialmente os inimigos do Islã apresentam os muçulmanos de algumas regiões como minorias para alcançar objetivos políticos. Os muçulmanos da Etiópia são um dos exemplos mais evidentes disso. Apesar de serem majoritários naquele país, foram privados da maioria dos direitos humanos fundamentais e mantidos sob opressão.

O que as minorias necessitam

Essas minorias têm muito a receber do mundo muçulmano mais amplo:

1. É necessário prestar auxílio às suas instituições religiosas, especialmente às instituições educacionais, para que seu caráter muçulmano possa ser preservado. Diante da terrível campanha iniciada pelos defensores e pelas instituições da cristianização com o objetivo de erradicar o Islã, esse auxílio é extremamente urgente.

2. É necessário fornecer a essas minorias muçulmanas livros e obras islâmicos fundamentais, como fonte correta de conhecimento para apresentar, em sua própria língua, as crenças fundamentais do Islã, a adoração, os valores morais e as normas e leis. Elas necessitam especialmente de uma exegese do Alcorão Sagrado e de várias coletâneas de hadiths autênticos e confiáveis.

3. É urgente proporcionar a alguns estudantes das comunidades muçulmanas minoritárias a oportunidade de estudar nas universidades islâmicas dos países árabes, para que adquiram conhecimento ali, retornem aos seus respectivos países e se dediquem à divulgação e à expansão dos ensinamentos do Islã. Como é dito no Alcorão: para que, ao retornarem ao seu povo, possam adverti-lo contra as más ações ((surata At-Tawbah: 122).)।

Mas é lamentável que essas universidades tenham recentemente fechado suas portas aos estudantes das minorias muçulmanas de vários países. No entanto, essa decisão é perigosa para as minorias muçulmanas, para a الدعوة islâmica nos países envolvidos e até mesmo para a própria ummah muçulmana.

4. É urgente oferecer ensino da língua árabe nos países onde vivem minorias, bem como apoio financeiro às escolas árabes e outras formas de assistência e cooperação; contudo, nesse aspecto, o fracasso dos árabes não tem limites. Os países desenvolvidos gastam bilhões de dólares para ensinar suas línguas e, por meio delas, também divulgam sua civilização e cultura. Mas os árabes permanecem inativos nesse campo. Quando se fala na divulgação e expansão da língua árabe, eles se agarram aos seus tesouros. Se as minorias muçulmanas, movidas pelo amor e pela devoção à sua religião, ao Mensageiro (que a paz esteja com ele) e ao seu Livro, não tivessem criado, por iniciativa própria, escolas e faculdades para aprender a língua árabe — como base do Alcorão, dos hadiths, da adoração, da cultura islâmica e da amizade e compreensão entre a ummah muçulmana —, não veríamos uma única pessoa que soubesse árabe fora do mundo árabe.

Sob a liderança do Príncipe Muhammad al-Faisal Al Saud e sob a direção do Dr. Tawfiq al-Shabi, a Associação de Escolas Árabes organiza diversos cursos úteis para o ensino e a expansão da língua árabe em muitos países da África e da Ásia, além de oferecer apoio e assistência às instituições educacionais para esse fim. Essa iniciativa é digna de elogio.

5. Os muçulmanos das minorias precisam de pregadores ou mubaligh e professores proficientes nas línguas dessas minorias. Vivendo entre elas, eles ensinarão os ignorantes, aconselharão os desviados, responderão a diversas perguntas e emitirão fatwas, unindo as pessoas pelos laços da unidade com base na devoção religiosa, no taqwa, na harmonia e na boa vontade.

É claro que devemos estar atentos aos mubalighs destrutivos. Eles não apenas prejudicam a sociedade, mas também, ao acenderem o fogo de debates e discussões inúteis, dão origem à inveja e à hostilidade. Alguns desses mubalighs podem ter boas intenções, mas, se a ignorância acompanhar essa intenção, ela causará mais prejuízos do que benefícios. Um antigo provérbio diz: um inimigo instruído é menos perigoso do que um amigo ignorante.

6. É necessário organizar reuniões, encontros e discussões entre os membros das minorias e intelectuais, educadores e mubalighs destacados. Assim, novos horizontes de pensamento se abrirão diante deles e seu ânimo será revigorado. Esses encontros, reuniões e simpósios devem ser organizados com a maior frequência possível, para que os irmãos das minorias que vivem em diversos países, longe do centro vital da Ummah, não se sintam negligenciados pelo corpo principal da Ummah nem isolados do centro do pensamento do movimento islâmico e da solidariedade de seus líderes.

7. Talvez, antes de tudo, eles precisem unir-se numa frente comum, para que possam preservar sua existência e sua identidade religiosa. É lamentável que, enquanto as minorias de todo o mundo se unem, deixando de lado todas as diferenças, para fortalecer sua existência diante das maiorias, as minorias muçulmanas estejam sempre em conflito umas com as outras e desperdicem seu tempo e esforço em disputas desnecessárias e sem sentido, especialmente em debates religiosos sobre questões de fiqh e aqidah.

É dever de todos os muçulmanos apoiar uns aos outros de acordo com a ordem de Allah. Para os muçulmanos, isso é suficiente: eles possuem entre si um senso de unidade a partir do qual podem começar. Essa unidade baseia-se na fé em Allah, no Mensageiro e no sagrado Alcorão. Digo isso embora saiba que os próprios muçulmanos que vivem no coração do mundo muçulmano enfrentam muitas aflições e dificuldades. Então, como seria possível que os muçulmanos das minorias que vivem fora do mundo muçulmano não tivessem queixas e necessidades? Se os muçulmanos dos países muçulmanos sofrem opressão e injustiça nas mãos de governantes que se dizem muçulmanos, como podemos esperar que os muçulmanos que vivem em países não muçulmanos, sob governantes não muçulmanos — sejam eles cristãos, comunistas ou idólatras — não tenham qualquer queixa?

Sem liderança nação

O problema mais grave dos muçulmanos e dos muçulmanos pertencentes a minorias espalhados por todo o mundo é que essa enorme e crescente população não possui uma liderança capaz de orientá-la em todos os assuntos.

Certa vez tivemos o sistema do Califado, que unia a nação muçulmana sob uma única bandeira. Tínhamos um califa, que era a personificação da liderança central da Ummah unida. Os inimigos do sistema do Califado conspiraram contra ele e despedaçaram essa grandiosa instituição, símbolo da unidade da nação muçulmana. Já não tínhamos uma existência comum, nem uma bandeira sob a qual pudéssemos reunir-nos.

Perdemos o sistema do califado. Contudo, não conseguimos criar nenhum sistema alternativo. Assim, temos de seguir adiante sem qualquer tipo de liderança.

O cristianismo possui uma liderança própria, reconhecida por seus seguidores. Trata-se de uma liderança religiosa bem organizada, com instituições, tradições e pessoal próprios. Seus recursos de apoio financeiro ocupam o terceiro lugar, depois dos Estados Unidos e da Rússia. Os missionários cristãos estão espalhados por todo o mundo, inclusive nos países muçulmanos. Mas nós, muçulmanos, não temos nem um ilustre califa, nem um papa. Somos como aquele órfão que, qualquer que seja a porta em que bata, ela se fecha diante de seu rosto.

Houve um tempo em que existia um cargo conhecido como Shaykh al-Islam. Embora não houvesse no Islã nenhum cargo oficial com esse nome, alguns eruditos eram tão sábios, virtuosos, respeitados e honrados que o povo muçulmano os tratava reverentemente por esse título. Hoje, a classe dos ulemás não apenas se abstém de dizer a verdade por acompanhar os governantes, como também profere declarações enganosas. Consequentemente, o povo perdeu a confiança em muitos dos grandes shaykhs. Por isso, nenhum erudito é mais chamado de Shaykh al-Islam. Esses eruditos, seguindo as instruções de seus senhores e apropriando-se de vastos recursos e meios, empenham-se em cercar ou menosprezar os ulemás verdadeiros, que rejeitam as tentações, até que a resistência desses ulemás verdadeiros seja interrompida e eles se afastem do povo.

A missão do movimento

O movimento islâmico deve assumir a condução dessa liderança perdida da nação muçulmana, com todas as suas correntes de pensamento e grupos. Até que surja entre eles um verdadeiro Shaykh al-Islam, digno de obediência e apoio, o movimento continuará a desempenhar o papel de liderança com a ajuda de verdadeiros estudiosos. E o Shaykh al-Islam que surgir no futuro deverá ter a capacidade de convocar a ummah muçulmana maior no momento necessário e deverá obter resposta a esse chamado.

Muçulmanos na diáspora

Além das minorias muçulmanas que vivem no Extremo Oriente, na Europa, na América e na Austrália, o movimento islâmico também deve voltar especial atenção para os imigrantes que partiram dos países muçulmanos.

Razões da importância

Os imigrantes muçulmanos já não são poucos. Seu número chega agora a centenas de milhares. Particularmente na França, há um grande número de norte-africanos. Na Grã-Bretanha, há bangladeshianos, indianos e paquistaneses. A presença dos turcos na Alemanha é notável. Nos Estados Unidos, o número de muçulmanos é significativo devido à presença de americanos de ascendência muçulmana; seus antepassados foram sequestrados da África há muito tempo. Além disso, seu número também aumentou devido à imigração em massa. Não há país ocidental onde não existam imigrantes temporários que tenham ido para lá estudar ou trabalhar. Muitos outros também vão para esses países para ali se estabelecer permanentemente.

Há muitas recomendações da Organização da Conferência Islâmica para conceder bolsas de estudo exclusivamente com o objetivo de estudar ciência e tecnologia, áreas nas quais não há oportunidades de formação nos países muçulmanos. Além disso, todos os dias muitos estudantes vão estudar no exterior, às suas próprias custas ou às custas de seus países. Outros deixam os países muçulmanos e partem para os países ocidentais em busca de emprego, segurança ou liberdade.Na Surata Al-Ankabut 56 º versículo, o Todo-Poderoso Allah diz: Ó Meus servos crentes! Certamente, Minha terra é ampla; portanto, adorai somente a Mim. Nos países ocidentais, o movimento islâmico surgiu inicialmente sob a orientação de Allah, e não de acordo com o planejamento de alguma organização islâmica. Jovens homens e mulheres partiram para o mundo ocidental na esperança de preservar sua religião em meio aos conflitos e às disputas de sua terra natal, e de alcançar conhecimento, liberdade e segurança. Ali encontraram uma excelente oportunidade para trabalhar e difundir atividades de da‘wah entre os imigrantes orientais, os estudiosos e outros.

Presença do Islã no Ocidente

Na era atual, é necessário que haja uma presença de grupos islâmicos nas sociedades que exercem influência na política mundial. É indispensável a presença de grupos islâmicos na Europa, na América do Sul e do Norte e na Austrália. Porque:

1. A presença de grupos islâmicos é necessária para difundir a mensagem do Islã entre os não muçulmanos por meio de palavras bondosas, conversas racionais e sensatas e conduta exemplar.

2. A existência de uma comunidade islâmica é indispensável para supervisionar a conduta dos novos muçulmanos e cultivar sua fé em um ambiente islâmico que favoreça uma vida islâmica saudável.

3. É necessário acolher os recém-chegados nos países ocidentais, especialmente os estudiosos e os imigrantes, pois esses novos muçulmanos entrarão em contato com os Ansar, que os receberão em seus países e se empenharão em ajudar os novos Muhajirun a criar uma atmosfera islâmica.

4. A presença de grupos islâmicos é indispensável para proteger os interesses da Ummah muçulmana e das terras muçulmanas contra a oposição ativa e a propaganda enganosa das forças hostis ao Islã.

Não é correto que o cristianismo continue a exercer um domínio exclusivo e irrestrito nesses países, ou que apenas o judaísmo, como adversário, se una a eles para se opor aos muçulmanos. Apresentei essa questão, há vários anos, aos nossos irmãos muçulmanos na América, no Canadá, na Austrália e em outros países. Naturalmente, esse trabalho deve ser realizado à luz de um planejamento sólido, de uma organização adequada e da jurisprudência das prioridades. Por isso, devemos empenhar-nos em adotar os locais mais apropriados, os melhores programas e as estratégias mais eficazes. Nos países e cidades conhecidos, os muçulmanos precisam ter suas próprias instituições sociais e organizações religiosas, educacionais e recreativas. Também é indispensável que haja eruditos e líderes religiosos entre os muçulmanos expatriados, para que estes possam fazer perguntas e obter respostas, e para que os eruditos possam oferecer a orientação correta quando surgir alguma divergência ou disputa.

Conservadorismo e liberalismo

Digo aos irmãos que vivem no exterior: procurem preservar sua pequena comunidade dentro da sociedade maior. Caso contrário, não serão capazes de preservar sua existência e desaparecerão. Durante vários séculos, os judeus preservaram suas características próprias por meio de seu pensamento e de seus costumes e cerimônias. Os muçulmanos também devem preservar sua identidade própria.

Não estou dizendo que devemos fechar nossas portas para as pessoas ao nosso redor. Isso seria equivalente à morte. O necessário é manter contato com as pessoas de mente aberta, a fim de transmitir a mensagem de um ideal unificador. Essa abertura não significa imitar os outros nem seguir cada passo alheio.

Há muito tempo ouvimos a queixa de que, devido à emigração de muitos cientistas e especialistas por não encontrarem condições adequadas em sua terra natal, está ocorrendo uma fuga de cérebros árabes e muçulmanos.

Se essa queixa for verdadeira, de modo algum eles devem perder a lealdade à sua própria religião, nação, cultura e pátria. Devemos continuar empregando todos os esforços para assegurar sua lealdade e seu sentimento para com o povo e a terra onde vivem. E isso só será possível quando forem leais a Deus, ao Mensageiro — que Deus o abençoe e lhe conceda paz — e aos interesses dos muçulmanos. Essa lealdade também pode ser esperada se, além de seus próprios interesses, tiverem compaixão pelo sofrimento e pelas dificuldades de sua nação.

É também dever do movimento islâmico cuidar para que os imigrantes não se dissolvam na vida materialista do Ocidente. Os expatriados devem igualmente ser conscientizados sobre o lugar de onde vieram.

Diversas organizações estudantis islâmicas desempenharam um papel louvável nesse campo nas últimas três décadas. Antes disso, organizações de esquerda, nacionalistas e secularistas haviam tomado o controle dessas organizações, e suas atividades eram conduzidas sob a orientação deles. Para aqueles que conhecem a atividade islâmica no hemisfério ocidental, é impossível negar a contribuição da Muslim Students Association (MSA) nos Estados Unidos e no Canadá. Eles estabeleceram filiais em vários locais e organizaram diversas conferências. Foi da organização-mãe, a MSA, que surgiram a Union of Islamic Sociologists, a Society of Muslim Scientists and Engineers, a Islamic Medical Society, a Islamic Society of North America e outras organizações. Decidiu-se manter nos Estados Unidos o centro do movimento, para facilitar seu trabalho a partir de uma posição normal na sociedade.

Dos expatriados deveres

Participei durante vários anos das conferências organizadas pela União dos Estudantes Muçulmanos. Encontro nessas ocasiões uma fonte de alegria. O mesmo se aplica à Sociedade de Estudantes Muçulmanos da Grã-Bretanha, à Federação das Sociedades Islâmicas de Estudantes e a outras organizações da Europa.

Em minhas conversas com os expatriados, sempre lhes recordei cinco deveres:

1.. Responsabilidade do expatriado para consigo mesmo: Proteger-se e aumentar as próprias habilidades.

2.. Dever para com a família: Proteger a família da desintegração e conduzi-la com base no Islã.

3.. Dever para com a comunidade muçulmana: a saber, o dever deuni-los numa única plataforma.

4.. Dever para com a comunidade não muçulmana vizinha : Convocá-la ao caminho de Allah por meio da prudência e de bons conselhos.

5.. Proteção dos interesses da Ummah muçulmana — dever do expatriado: cuidar de seus interesses e estender a mão para ajudar.

Questão de cautela

Quero advertir contra duas questões: a mentalidade racista e nacionalista, e o extremismo e a divergência de opiniões. É lamentável que vejamos manifestações de mentalidade racista e nacionalista entre alguns grupos muçulmanos. Cada grupo desse tipo mantém seus próprios membros separados uns dos outros. A única exceção são aqueles que, pela misericórdia de Allah, são protegidos dessa injustiça.

Até mesmo as mesquitas são identificadas como pertencentes a diferentes grupos. Não há nada de surpreendente nisso. Se você for a alguma cidade, pode ser informado de que esta é a mesquita dos turcos, aquela é a dos marroquinos, a terceira, a dos iugoslavos, a quarta, a dos indianos, a quinta, a dos paquistaneses, a sexta, a dos árabes ou de algum outro grupo árabe. E, nos Estados Unidos, existem também mesquitas especiais para os muçulmanos negros.

O Islã veio para eliminar as diversas divergências entre as pessoas e colocá-las em condição de igualdade. A mesquita é o meio indicado por Allah para alcançar esse objetivo. Então, como poderia ela ser um meio de divisão?

É verdade que, no início, essa separação era necessária porque a primeira geração de expatriados não conhecia a língua local. Mas, até que uma língua comum e compreensível fosse praticada entre as diferentes comunidades muçulmanas de cada país ou cidade, essa situação poderia ter sido remediada organizando-se, na mesma mesquita, sermões separados para cada grupo. Embora, na maioria dos casos, essa organização separada tenha se tornado desnecessária, algumas mesquitas ainda permanecem identificadas pelo nome de determinados grupos ou comunidades étnicas. Uma mesquita deveria ser exclusivamente para todos os muçulmanos. E a bandeira sob a qual todos os expatriados deveriam se reunir deve ser, certamente, a bandeira do Islã.

Os muçulmanos expatriados só serão fortes quando se unirem e se ajudarem mutuamente. Pois a união é força, e a desunião é fraqueza. Embora a solidariedade seja sempre desejável, ela é ainda mais necessária em terras estrangeiras, onde, para superar a solidão, todos precisam da companhia de alguém semelhante a si mesmos.

Em segundo lugar, quero advertir contra o extremismo e a preocupação com minúcias insignificantes. Embora esse fenômeno anormal venha sendo observado há algum tempo nos países ocidentais, ainda se encontra em seu estágio inicial.

Os irmãos muçulmanos do Oriente devem evitar importar para o Ocidente suas divergências e problemas. Caso contrário, esses aspectos negativos ganharão força em sua nova terra de residência. Isso porque mudaram as circunstâncias de tempo, lugar e contexto. Os muçulmanos expatriados aprenderam com seus mestres religiosos que as fatwas também mudam conforme mudam o tempo, o lugar e o contexto. Portanto, por que não agirão de acordo com o que aprenderam?

Cerca de dez anos atrás, visitei o Centro Islâmico de Los Angeles. Ali, algumas pessoas de atitude negativa me perguntaram: mesmo sendo educativos, deve-se exibir filmes na mesquita? Respondi: que mal há nisso? Se esses filmes ensinam boas ações, assisti-los é um ato de adoração. Afinal, a mesquita é um lugar de adoração e um fórum para adquirir conhecimento e educação.

Eu também disse que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, permitiu que os abissínios dançassem com lanças em sua mesquita e incentivou sua esposa, Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela, a assistir à dança deles e a incentivá-los a continuar.

Outros perguntaram: deve-se permitir que mulheres que não estejam vestidas com roupas islâmicas entrem na mesquita para ouvir sermões e exortações? Respondi: sim. Se as proibirmos de ir à mesquita, onde mais ouvirão a mensagem do Islã e a palavra de Allah? Se as proibirmos de entrar na mesquita e as impedirmos de ouvir sermões e exortações, nós as perderemos para sempre. A mensagem da religião não chegará até elas. Mas, se tiverem a oportunidade de ir à mesquita, espera-se que Allah as guie a seguir o caminho do Islã.

Enquanto preparava este manuscrito para enviá-lo à gráfica, recebi uma carta de meu estimado irmão, cientista, poeta e pregador do Islã, Dr. Hasan. Na carta, ele descreveu várias atividades do Centro Islâmico de Los Angeles e o trabalho realizado no centro para ajudar a todos, muçulmanos e não muçulmanos. Qualquer muçulmano se alegrará ao ler esta carta, pois ela evidencia esta verdade: se as pessoas perseverarem em seus esforços, combinando a compreensão correta com uma intenção sincera, o Islã jamais desaparecerá.

Liberdade política e democracia

Na próxima etapa, é dever do movimento islâmico erguer-se contra os regimes autoritários e ditatoriais, o arbítrio político e a usurpação dos direitos do povo. O movimento deve levantar sua voz em favor da liberdade política que representa a democracia verdadeira, não uma democracia falsa. Deve declarar claramente que não reconhece governantes opressores e que não mantém qualquer relação com ditadores, mesmo que algum governante opressor demonstre aparentemente boa vontade para com o movimento, ainda que temporariamente e com o objetivo de alcançar algum interesse.

O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: Quando vires que minha comunidade está tomada pelo medo e pelo terror e não diz a nenhum transgressor: “Estás cometendo uma injustiça”, então podes abandonar a esperança neles (Al Hakim). Então, o que se deve fazer diante de governantes opressores e arrogantes que obrigam o povo a dizer-lhes: “Quão justo e quão grandioso sois, ó nosso herói, nosso salvador, nosso libertador”?

O Alcorão não condenou apenas Nimrod, Faraó, Hamã e outros governantes tirânicos e injustos, mas também repreendeu todas as pessoas que os seguem e obedecem às suas ordens. O Deus Todo-Poderoso, ao condenar o povo de Noé, disse: “E eles seguiram pessoas cujas riquezas e filhos não lhes trouxeram prosperidade, mas foram causa de perda para eles. (Surata Noé: 21)।

Allah, o Altíssimo, também diz sobre o povo de Hud: “E eles seguiram a ordem de todo tirano arrogante (Surata Hud: 59)।

Sobre o povo do Faraó, foi relatado: eles seguiram as ordens do Faraó, e as ordens do Faraó não eram de modo algum corretas (Surata Hud: 97). Em outra passagem, o Alcorão declara: e eles lhe obedeceram. Certamente, eram inteiramente rebeldes contra Allah (Surata Az-Zukhruf: 54)।

Ao observar atentamente a história da ummah muçulmana e do movimento islâmico na era moderna, torna-se claro que o pensamento islâmico, o movimento islâmico e o despertar islâmico não se desenvolveram nem se tornaram eficazes sem um ambiente democrático e livre. Como o desejo do povo de se apegar ao Islã foi reprimido durante os governos de governantes tirânicos e opressores, o movimento e o despertar foram impedidos. Além da tortura secreta e dos assassinatos públicos, os governantes despóticos impuseram à força o socialismo, o comunismo e o secularismo ao povo, utilizando outros métodos cruéis.

Em diferentes momentos, testemunhamos esse comportamento cruel em muitos Estados muçulmanos, incluindo Turquia, Egito, Síria, Iraque, Iêmen do Sul, Somália e os países do Norte da África, durante os regimes ditatoriais.

Por outro lado, durante a liberdade e o governo democrático, o movimento islâmico torna-se eficaz e se desenvolve. Após a queda dos governos que haviam estabelecido um reinado de terror e opressão sobre o povo, vê-se o movimento islâmico recobrar vida. Portanto, não consigo sequer imaginar que o movimento islâmico possa apoiar qualquer coisa que não sejam a liberdade política e a democracia; que os governantes despóticos permitam que todas as vozes, exceto a voz do Islã, se façam ouvir; ou que permitam que todos os pensamentos e ideologias, exceto o pensamento islâmico, se expressem política ou de qualquer outra forma. E, no entanto, é o pensamento islâmico que expressa a voz da alma desta ummah e manifesta sua fé, seus valores, sua consciência e sua existência.

É claro que alguns islamistas discordam a respeito da democracia. Eles não são tolerantes nem mesmo com a palavra “democracia”. Aqui quero afirmar enfaticamente: o Islã não é democracia, e a democracia também não é o Islã. Pelo contrário, diria que o Islã não tem relação com nenhum outro princípio ou método. Em todos os aspectos — objetivo, caminho e método — o Islã é incomparável. Não quero que a democracia ocidental, com seus aspectos negativos, encontre lugar no Islã. Somente acrescentando nossos próprios valores e ideais podemos integrar a democracia ocidental à nossa ampla estrutura.

Entretanto, as diretrizes políticas que o Islã implementa no mundo para conter os desejos e caprichos dos governantes aproximam-se bastante dos mecanismos e salvaguardas criados pela democracia. Esses princípios são: a assembleia consultiva ou shura; o bom aconselhamento; ordenar o bem e proibir o mal; desobedecer às ordens injustas; resistir à incredulidade; e reparar a injustiça e a opressão, empregando a força tanto quanto possível. É somente na democracia que o poder do Parlamento se manifesta claramente no âmbito da liberdade política. Quando a Constituição é violada, os representantes do povo podem apresentar uma moção de desconfiança contra qualquer governo. Somente em tal ambiente se sente ao máximo a presença de uma imprensa livre, de um Parlamento livre, da oposição e da força do povo.

Nesse caso, muitos temem que a democracia considere o povo a fonte do poder, inclusive no campo da legislação, embora a lei pertença somente a Allah. Esse temor é infundado, pois o povo de que falamos é, em sua maioria, muçulmano e aceitou Allah como Senhor, Muhammad, que a paz esteja com ele, como Mensageiro, e o Islã como religião. Não se pode esperar que esse povo promulgue qualquer lei contrária ao Islã, aos princípios invioláveis do Islã e às suas disposições definitivas.

Todavia, esse receio pode ser eliminado mediante a inclusão de um artigo que estabeleça que qualquer lei contrária às disposições invioláveis do Islã será considerada nula. Pois o Islã é a religião do Estado e, sendo o Estado a fonte da legitimidade de todas as instituições e costumes, suas disposições não podem ser violadas.

É preciso saber que a lei pertence a Deus; aceitar esse princípio não priva a nação do direito de elaborar as leis necessárias para a vida e os assuntos mundanos, que estão em constante mudança.

Queremos formular leis e regulamentos dentro dos limites do Alcorão, a fonte original, dos objetivos gerais da Sharia e da mensagem essencial do Islã. O número de mandamentos e proibições obrigatórios é muito pequeno; por outro lado, o campo aberto ao arbítrio ou à formulação de leis é muito amplo. Os mandamentos e preceitos do Alcorão são tão flexíveis e abrangentes que permitem múltiplas compreensões e a adoção de mais de uma interpretação. Foi assim que, no amplo quadro do Islã, surgiram várias escolas jurídicas e correntes de pensamento.

Recentemente, examinamos algumas leis introduzidas no Catar e constatamos que elas incluíam numerosos artigos baseados na promoção do bem-estar e na rejeição do mal. Contudo, salvo uma ou duas exceções, esses temas não são mencionados diretamente no Alcorão.

A maior ameaça à Ummah muçulmana e ao movimento islâmico é a lei faraônica. Os faraós consideravam que suas opiniões eram infalíveis e corretas, incapazes de estar erradas. Governantes desse tipo adotam o raciocínio do faraó: “Eu mostro apenas o caminho que considero correto e vos mostro somente o caminho do bem ”(Sura Al-Mu’’min: 29)।

Esses governantes rejeitam e até condenam qualquer opinião contrária, exatamente como o faraó disse a respeito de Moisés (que a paz esteja com ele): “Temo que ele mude a vossa religião ou cause corrupção no reino ”(Sura Al-Mu’’min: 26)।

Minorias étnicas e religiosas

O movimento islâmico deve adotar uma posição definitiva em relação às minorias étnicas ou nacionais e religiosas do mundo muçulmano e árabe.

Minorias étnicas: solução para o problema

No sistema islâmico, as minorias étnicas ou raciais não constituem um problema. Isso porque o Islã reúne todos os grupos raciais numa única plataforma, com base numa só fé, numa só qibla e numa estreita fraternidade.

Na perspectiva do Islã, todos os muçulmanos constituem uma única nação, independentemente de raça, língua e pátria. O Islã considera igualmente todos os muçulmanos, sejam árabes, persas, berberes, curdos, turcos, indianos ou pertencentes a qualquer outro grupo étnico. Entre eles, até mesmo a pessoa de posição mais baixa tem, por sua própria identidade, o direito de falar tal como a pessoa de posição mais elevada, e eles se erguem como um só corpo e uma só alma contra o inimigo. O Todo-Poderoso Allah diz a respeito deles: «Os crentes são todos irmãos uns dos outros» ((Surata Al-Hujurat: 10)।

Nenhum árabe é superior a um não árabe, nenhum não árabe é superior a um árabe, nenhum branco é superior a um negro e nenhum negro é superior a um branco, salvo pela taqwa. O Deus Altíssimo disse: Certamente, o mais nobre de vós perante Allah é aquele que possui mais taqwa (Surata Al-Hujurat: 13)।

É amplamente conhecido por todos qual era a posição honrosa de Sulaiman, da Pérsia, Bilal, da Abissínia, e Suhayb, o romano, aos olhos de todos os muçulmanos de todas as épocas.

Nenhum estudioso do Islã pode negar a contribuição dos sábios não árabes para o Islã e para a língua árabe. A história do Islã está repleta de exemplos de estudiosos ilustres e personalidades talentosas como Al-Hasan Al-Basri, Ibn Sirin, Ata, Said Ibn Jubair, Abu Hanifa, Al-Bukhari, Muslim, Abu Dawud, Al-Tirmidhi, Al-Nasa’i, Ibn Majah e outros.

Embora fossem originalmente não árabes, todos eles passaram a ser conhecidos como árabes graças ao Islã. O árabe tornou-se sua língua, para que pudessem falar, escrever e pesquisar na língua do Alcorão. Um hadith narrado por Ibn Asakir afirma: para ser árabe, não são necessários pais árabes; a língua é suficiente. Aquele que fala árabe é árabe.

Os corações e as mentes daqueles que, como os curdos, berberes, persas, malaios e outros não árabes, não adotaram o árabe como língua materna ao aceitar o Islã, tornam-se arabizados sob a influência da cultura islâmica, isto é, do Islã. Isso ocorre porque, há muitos séculos, foram os árabes que, inspirados por Allah, chegaram às suas terras levando a mensagem do Islã para guiá-los ao caminho reto.

Todo muçulmano ama a língua árabe, pois ela é a língua do Alcorão, da Sunnah e da adoração. Todo muçulmano ama as terras árabes, pois nelas estão localizados a Caaba, a Mesquita do Profeta e o túmulo abençoado do Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Todo muçulmano ama os árabes, pois eles são os vigilantes incansáveis do Mensageiro e do Islã, e difundiram o Islã por todo o mundo. Um antigo provérbio diz: quando os árabes são fortes, o Islã também será forte; quando são fracos, o Islã também será fraco.

Do ponto de vista do Islã, não existe nenhum problema étnico ou racial; ao contrário, a perspectiva islâmica pode oferecer uma solução infalível para os problemas étnicos ou raciais. Porém, se os árabes convocarem ao nacionalismo árabe, que não tem relação com o Islã, os curdos reivindicarão o nacionalismo curdo, os berberes levantarão o slogan do nacionalismo berbere e, se isso continuar, uma única Ummah será inevitavelmente despedaçada. Mesmo nos diferentes países, sentimentos étnicos semelhantes aos da Era da Ignorância começarão a se manifestar, um sectarismo que havia sido vencido somente pelo Islã e pela fraternidade islâmica. Nosso Grande Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, rompeu relações com qualquer pessoa que levantasse a bandeira do nacionalismo cego ou do tribalismo, lutasse por isso ou morresse por isso.

das minorias do problema solução

Deve-se prestar a devida atenção à solução do problema das minorias religiosas. Em um artigo, denominei-as comunidades não muçulmanas dentro da sociedade muçulmana. O problema das comunidades não muçulmanas deve ser enfrentado abertamente e com espírito livre, e não por meio de intrigas políticas e hipocrisia.

Abordei a perspectiva islâmica em relação a essas minorias em meu livro de pesquisa “A Inevitabilidade da Solução Islâmica”. Sem repetir o que já foi dito, apresento brevemente alguns de seus pontos:

Primeiramente, os secularistas, que geralmente não têm lealdade nem ao Islã nem ao cristianismo, alegam que a solução islâmica e a lei islâmica são contrárias à liberdade dos não muçulmanos. Essas alegações não têm fundamento. Pois eles ou esquecem, ou ignoram, outro aspecto importante e ainda mais significativo. Trata-se do fato de que abandonar a lei islâmica e a solução islâmica em benefício das minorias não muçulmanas é contrário ao princípio da liberdade da maioria muçulmana de cumprir as ordens religiosas. Quando os direitos da minoria entram em conflito com os direitos da maioria, qual direito terá maior importância?

A democracia, cuja defesa os secularistas fazem com veemência, baseia-se no argumento de que os direitos da maioria devem ter prioridade sobre os direitos da minoria. Essa regra tem sido aplicada em todos os países do mundo. Ainda não foi inventado um sistema que conte com o apoio de todos, pois os seres humanos foram criados com tendências diversas. Todos jamais conseguem aceitar a mesma coisa. Para que um sistema seja estabelecido, basta que a maioria das pessoas o aceite e que ele não cometa injustiça ou opressão contra as minorias, nem viole as normas religiosas destas. Se os cristãos e as demais comunidades religiosas abrirem mão de seus direitos para que os muçulmanos possam governar de acordo com sua religião e aplicar a lei de Alá na esperança de Sua misericórdia, isso não lhes causará nenhum prejuízo.

Se as minorias religiosas não fizerem isso e pressionarem a maioria a abrir mão de seus direitos, isso equivalerá a impor a ditadura das minorias sobre a maioria. Por exemplo, seria como o governo de três milhões de pessoas pertencentes à minoria sobre quarenta milhões pertencentes à maioria. Uma situação desse tipo não é aceitável sob nenhum argumento, religioso ou secular. Além disso, não se pode cogitar que a maioria muçulmana renuncie a seus direitos, pois isso equivaleria à apostasia, cuja punição determinada por Alá é o Inferno.

Em segundo lugar, a alegação mencionada pelos secularistas baseia-se na ideia de que há uma contradição entre os direitos da maioria muçulmana e os direitos da minoria não muçulmana. Na realidade, não há conflito entre os dois. Se um cristão pode ser cidadão sob um governo secular, e não religioso, não há razão para que se oponha a viver sob um governo islâmico.

Além disso, o cristão que compreende corretamente sua religião deveria acolher o governo islâmico. Isso porque a base de tal governo é o Deus Altíssimo, Sua revelação e a recompensa na vida futura. Esse governo deseja estabelecer os valores da fé e da moralidade pelos quais todos os profetas e mensageiros conclamaram. O Islã considera Jesus, Maria e o Evangelho com respeito e concede especial dignidade ao Povo do Livro. Portanto, como poderiam os seguidores de uma religião que reconhece Alá, Seus profetas e mensageiros e a vida futura temer um governo inspirado pela lei divina e pelos valores morais e humanos? No entanto, os que creem no cristianismo não temem nem se angustiam diante de um governo secular sem religião, que odeia todas as religiões e, mesmo quando permite a prática religiosa, a confina a uma esfera limitada da vida?

É melhor que os cristãos sinceramente crentes aceitem o sistema de governo islâmico, considerando-o como considerariam qualquer outro sistema de governo. Já os muçulmanos consideram esse sistema de governo seu método religioso, por meio do qual esperam alcançar a satisfação de Alá e aproximar-se d’Ele.

Isso é certamente melhor para os cristãos. Pois, nas palavras de Hasan al-Hudaybi, essa crença fará com que os muçulmanos permaneçam vigilantes para que não haja nenhum erro ou engano ao fazer cumprir a lei islâmica. Neles atuará a sensação de estarem sob o olhar vigilante de Allah, o Altíssimo; nesse caso, o temor de qualquer governante não encontrará lugar em seus corações — temor que geralmente pode ser superado. [da Irmandade Muçulmana, ex- Guia Geral Hasan al Hudaybi, ‘Nossa Constituição,’ livro de।]

Assim, os prudentes e de mente aberta acolheram o governo islâmico como um obstáculo intransponível ao avanço do materialismo. Pois o materialismo, sob o patrocínio do comunismo mundial, colocou todas as religiões sob ameaça. Foi isso que afirmou o célebre pensador Fāris al-Khūrī.

Quero corrigir aqui um equívoco. Muitos pensam que as leis elaboradas pelo homem, importadas do Ocidente cristão, têm relação com o cristianismo. Sem dúvida, essa é uma concepção equivocada. Aqueles que estudam a origem das leis e suas fontes históricas sabem disso muito bem. A verdade é que o cristianismo e os seguidores da religião cristã estão mais próximos do fiqh islâmico do que essas leis ocidentais: por um lado, por razões religiosas e, por outro, pela influência do ambiente circundante.

Em terceiro lugar, também é falsa a alegação de que, na prática, o governo muçulmano obrigará os não muçulmanos a realizar atos contrários às suas crenças religiosas. Os quatro ramos do Islã são: fé, culto, valores morais e Sharia. O Islã de modo algum impõe suas crenças religiosas ou seu culto aos não muçulmanos.

A esse respeito, há dois versículos claros no Alcorão. Um é mecano e o outro, medinense. No primeiro versículo, Deus Todo-Poderoso dirige-se ao Seu Mensageiro e diz: «Por acaso obrigarás as pessoas até que creiam ((Sura Yunus: 99)?)?

No segundo versículo, Deus Todo-Poderoso declarou ainda mais claramente: «Não há compulsão na religião ((Sura Al Bacara: 256).)।

Os Companheiros do Mensageiro (que a paz esteja com ele) diziam sobre os Ahl al-Dhimma [Ahl al-Dhimma são súditos não muçulmanos que vivem no Estado muçulmano।] e, a respeito deles, diziam: deixem-nos seguir sua religião.

Desde a época dos Califas Rashidun, judeus e cristãos desfrutaram tranquilamente de seus direitos, inclusive o direito de adorar. Os acordos celebrados entre os muçulmanos e eles durante os governos de Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) e Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) são prova disso. Entre esses acordos, destaca-se o celebrado entre Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) e o povo de Jerusalém.

As normas do Islã são tão ponderadas que não se cobra zakat dos não muçulmanos, nem eles são obrigados a participar do jihad. Isso porque ambos são um dos principais atos de adoração do Islã. A zakat é uma espécie de imposto financeiro, e o jihad é um serviço militar. Em seu lugar, o Islã impõe aos não muçulmanos outro tipo de imposto, chamado, na terminologia islâmica, jizya. No entanto, mulheres, crianças, pobres e pessoas incapacitadas estão isentos desse imposto.

Se alguém não estiver disposto a aceitar a palavra jizya, que a chame como quiser. Os membros da tribo árabe cristã Banu Taghlib pediram a Umar ibn al-Khattab autorização para pagar o dobro da zakat em vez da jizya. Hazrat Umar concordou e assinou com eles um acordo nesse sentido. A esse respeito, comentou: “Essas pessoas são tolas; aceitam o significado, mas rejeitam o nome.”

A respeito dos valores morais do Islã, pode-se dizer que ele não difere de outras religiões nesse aspecto. Isso porque, do ponto de vista de todas as religiões, a moralidade é igual.

No Islã, ahkam ou shariah têm um significado específico. Ou seja, são as leis que regulam as relações mútuas entre as pessoas. Essas leis determinam as relações do indivíduo com a nação, sua comunidade e seu Estado, e também regulam as relações do Estado com seus cidadãos e com outros Estados.

No que diz respeito às relações familiares e às questões conjugais, como casamento, divórcio e outras, os não muçulmanos podem escolher entre a sua religião e a nossa. Eles não são obrigados a aceitar as normas da shariah. Por exemplo, no caso da distribuição de bens, podem, se quiserem, adotar a lei islâmica. Em alguns países árabes, por exemplo, os cristãos a adotaram voluntariamente. Se não quiserem aplicar a lei islâmica em seu modo de vida, ela não se aplicará a eles.

Por essa razão, é desejável que os ahl al-dhimma tenham seus próprios tribunais, aos quais possam recorrer em busca de justiça. Eles também podem recorrer aos tribunais islâmicos. Há precedentes disso na história.

Em outros campos, como o direito civil, comercial ou administrativo, os não muçulmanos estão, assim como os demais, sujeitos a qualquer lei originária do Oriente ou do Ocidente e reconhecida pela maioria.

Portanto, vemos que o Islã não obrigou os não muçulmanos a abandonar qualquer aspecto essencial de sua religião. Tampouco lhes ordenou que fizessem algo proibido por suas crenças religiosas. E também não os forçou a acreditar em nada contrário à sua religião.

Há apenas algumas coisas que são proibidas no Islã, mas que os não muçulmanos consideram lícitas, como o vinho e a carne de porco. Mesmo as coisas lícitas podem ser evitadas por uma pessoa ou por várias pessoas segundo sua livre vontade. Portanto, se os cristãos abandonarem o consumo de vinho, não serão considerados culpados segundo sua religião. Não consigo sequer imaginar que alguma religião incentivasse o consumo de vinho e visse com bons olhos embriagar-se por causa da dependência do álcool. O que a Bíblia diz sobre o vinho é que seu consumo em pequena quantidade é bom para o estômago. Por essa razão, os próprios cristãos estão divididos quanto ao consumo de vinho.

Um cristão pode passar a vida inteira sem dar sequer uma mordida em carne de porco. Isso porque comê-la não é uma prática religiosa, nem uma regra transmitida ao longo dos séculos pelos profetas e mensageiros. A carne de porco também era proibida na religião judaica antes do Islã.

No entanto, muitos ulemás sustentaram que os cristãos podem comer carne de porco e consumir bebidas alcoólicas em suas próprias áreas, podendo até mesmo comerciar entre si ambos os produtos. Contudo, isso não deve ser disseminado entre a comunidade muçulmana, nem se deve, por meio dessas práticas, menosprezar os sentimentos dos muçulmanos. Esta é uma tolerância incomparável. [meu escrito ‘As evidências da As solução islâmica e as ambiguidades dos secularistas e ocidentalistas’ livro ‘religiosas minorias e a solução islâmica’ intitulado capítulo।]

Movimento e diálogo

No próximo estágio, o movimento islâmico não poderá limitar-se apenas à solução de seus próprios problemas. Seu alcance deve necessariamente ser ampliado, para que também possa voltar sua atenção aos problemas dos outros.

Muitos escritores e pensadores islâmicos escrevem apenas para si mesmos. Isto é, escrevem para aqueles que seguem seus passos e se dedicam a divulgar suas opiniões. Eles parecem incapazes de ultrapassar esse círculo de conversar apenas entre si, como se não existisse no mundo ninguém além deles. Quando saem desse círculo, escrevem somente para outros grupos islâmicos que compartilham suas opiniões sobre o Islã e a da‘wa, embora empreguem estratégias e correntes de pensamento diferentes.

Quando abandonam o segundo círculo, escrevem apenas para pessoas religiosas em geral, sejam elas membros ou não de algum grupo ou movimento.

Agora que o movimento islâmico alcançou um estágio desejável e sua base se ampliou, é necessário voltar a atenção para aqueles que divergem quanto aos ideais e às correntes de pensamento. Não se deve deixá-los nas mãos da ignorância herdada do passado, dos que não creem no Islã e dos propagandistas, sem tentar orientá-los corretamente ou mostrar-lhes o caminho da luz.

Portanto, este é o momento adequado para pôr fim ao isolamento autoimposto do movimento islâmico, para que ele possa considerar todos os muçulmanos parte de si e iniciar primeiro um diálogo com eles. Depois, é necessário iniciar um diálogo entre, de um lado, o movimento e esses muçulmanos que compartilham suas ideias e, de outro, seus opositores, ou até mesmo seus concorrentes. Num diálogo racional, sereno e teórico, aqueles que demonstram desprezo pela religião se interessarão; os apreensivos se tranquilizarão; e os que se debatem na incerteza recuperarão a confiança. Até mesmo a atitude daqueles que alimentam uma hostilidade rancorosa pode chegar ao fim. O Deus Todo-Poderoso diz: É possível que Deus estabeleça amizade entre vós e aqueles contra os quais nutris inimizade; e Deus é Todo-Poderoso, além de perdoador e misericordioso(Surata Al-Mumtahanah: 7)।

Quero mencionar um simpósio realizado em Amã, na Jordânia, para o qual fui convidado. O tema da discussão era ‘O Despertar Islâmico e o Uso do Mundo Árabe’.

Muçulmanos, cristãos, comunistas e nacionalistas de todas as correntes participaram do simpósio. Quando consultei alguns irmãos religiosos sobre esse simpósio, eles opinaram que eu não deveria ir, pois minha presença em simpósios organizados sem seguir uma orientação islâmica genuína poderia conferir-lhes legitimidade. Mas não dei atenção a esse tipo de receio nem a questões puramente imaginárias, pois uma imaginação desse tipo é como enxergar um fantasma num grão de mostarda. Aceitei o convite e enviei um artigo ao simpósio. Mais tarde, ele foi publicado como um livro separado.

Ali, na presença do Dr. Hassan al-Turabi, Fahmi Huwaydi, Kamal al-Sharif e vários outros pensadores islâmicos, as opiniões dos islamistas, apresentadas por meio da corrente islâmica moderada, exerceram uma influência extremamente significativa. Cabe mencionar que acredito na corrente islâmica moderada e me manifesto vigorosamente em seu favor. Embora fossem poucos os islamistas no simpósio, sua influência foi a maior de todas, e suas intervenções atraíram mais atenção.

Nunca esquecerei as palavras de um orador cristão nacionalista. Ele me disse à mesa de jantar: “Nossa opinião a seu respeito mudou completamente.” Perguntei: “Que opinião vocês tinham?” Ele respondeu: “A de que você era um extremista, um fanático.” Perguntei: “De onde tiraram essa impressão?” Ele respondeu: “Não sei, mas, falando francamente, era essa a nossa opinião a seu respeito.” Perguntei: “E agora?” Ele disse: “Agora, depois de observar, conversar e manter contato direto, o que descobrimos mudou completamente a opinião equivocada que tínhamos sobre você. Agora vemos que você respeita a razão. Seu pensamento é baseado na razão. Você sabe ouvir as opiniões dos outros, porque não é uma pessoa teimosa ou obstinada; pelo contrário, é extremamente flexível e tolerante.”

Ao relatar este episódio, quero dizer precisamente que o contato direto e um diálogo racional e sereno, conduzido em condições de igualdade, são necessários aos interesses do movimento islâmico. O movimento se beneficiará disso; não há absolutamente nada a perder.

Com base na minha experiência em todas as reuniões e assembleias realizadas com a participação de islamistas e de pessoas que não são islamistas, eu mesmo dou este testemunho. O mais recente simpósio desse tipo realizou-se na Argélia. O tema em discussão era “Questões do Futuro Islâmico”.

Portanto, podemos dizer que, na próxima etapa, o lema do movimento islâmico deveria ser: «O diálogo com os outros é bem-vindo». Por “outros”, entendo aqueles que divergem do movimento islâmico quanto aos seus objetivos, métodos de ação, visão, ideais e até mesmo crenças religiosas. O movimento deveria acolher o diálogo com todos os que têm opiniões divergentes. E as discussões que já foram iniciadas devem ser mantidas.

Também se deve empenhar na conquista do apoio de todas as forças islâmicas que compartilham os pontos de vista do movimento. O movimento deve conquistar igualmente o apoio dos grupos ou indivíduos que exercem influência intelectual e teórica. O Alcorão ordenou que dialogássemos com aqueles que divergem de nós. Também nos exortou a não considerar que não há esperança alguma para eles nem a imaginar que estamos separados deles. No Alcorão, está escrito: Convide para o caminho de seu Senhor com sabedoria e boa exortação, e discuta com eles da melhor maneira ((Sura Nahl‌: 125)।

O que o Alcorão determina é que o debate e o diálogo sejam conduzidos da melhor maneira e com a melhor estratégia, para que se assegurem a fé na mente e o despertar no coração. Neste versículo, reflete-se um exemplo surpreendente da expressão do sentido corânico. Na perspectiva do Alcorão, o trabalho de pregação deve ser realizado da melhor forma, mas somente podem ser aceitos os argumentos e discussões apresentados da melhor maneira. Isso porque a pregação geralmente é dirigida àquele que já concordou, enquanto o argumento deve ser apresentado àquele que não concorda. Portanto, em qualquer circunstância, é apropriado apresentar a pregação ou o argumento da melhor maneira.

secularistas com diálogo

O diálogo com os secularistas também está incluído no diálogo necessário: com aqueles secularistas que são racionalistas, pessoas razoavelmente boas, dispostas a ouvir os islamistas e que procuram compreender seus objetivos e programas.

Esses secularistas são, em sua maioria, muçulmanos. Muitos chegam a sentir orgulho de se identificarem como muçulmanos. Alguns observam os ritos islâmicos, fazem a oração, jejuam e, possivelmente, realizam o hajj e a umra. Mas o problema deles é que, como muitas pessoas cultas, nunca tentam compreender corretamente o Islã. Isso ocorre porque jamais tiveram a oportunidade de aprender os ensinamentos do Islã a partir de fontes fundamentais ou autênticas, nem de se encontrar com algum erudito ou pensador confiável. Pelo contrário, formaram sua concepção da religião com orientalistas ou missionários cristãos, seus discípulos e auxiliares. Ou então construíram uma ideia sobre o Islã ouvindo ou lendo sobre a extrema situação de miséria atual dos muçulmanos, ou sobre pessoas extremistas e desviadas que se apresentam como seguidoras do Islã.

De qualquer modo, sua criação, educação e modo de vida nunca lhes deram a oportunidade de conhecer o Islã genuíno e autêntico. Esse passado e presente dolorosos, com suas concepções equivocadas, aplicações errôneas e abusos, prejudicaram o Islã.

Juntamente com o esplendor da civilização ocidental, que alcançou seu ápice, a situação sombria existente no mundo muçulmano tornou-se, para os secularistas, uma desculpa para compreender erroneamente o Islã, a sharia islâmica e o modo de vida islâmico. Consequentemente, acreditam que a maneira de escapar da atual dupla crise é seguir o caminho do Ocidente para alcançar o progresso. Pois, libertando-se da religião, dos ritos religiosos e do clero, o Ocidente iniciou, guiado exclusivamente pela ciência, o caminho das descobertas, invenções, produção, construção e criação, e dominou as forças da natureza para proporcionar felicidade e prosperidade à humanidade.

No verão de 1985, no Cairo, iniciamos na Dar al-Hikma um diálogo histórico com os secularistas, a convite da Associação dos Médicos. Os islamistas foram representados por mim e pelo xeque Mohammad al-Ghazali. Seu único representante foi o Dr. Fuad Zakaria.

Os círculos jornalísticos e intelectuais saudaram calorosamente o simpósio. Isso ocorreu porque ele refletiu a importância do diálogo entre as diferentes partes na mesma pátria.

Muitos escritores, entre eles Fahmi Huwaydi, destacaram alguns aspectos positivos dessa reunião. O aspecto mais significativo foi que cada parte ouviu diretamente a posição da outra. Contudo, observei uma falha nessa reunião: em vez de um diálogo entre o Islã e os secularistas, o simpósio transformou-se em uma sessão de debate.

O debate provoca tensão, especialmente quando há um grande número de ouvintes. Além disso, o representante dos secularistas nesse diálogo era uma pessoa obstinada, que não possuía o mínimo de flexibilidade, tolerância ou civilidade. Consequentemente, não tinha a disposição mental necessária para ouvir a posição do adversário — uma posição que poderia tê-lo ajudado a aprender algo sobre o Islã. Devo dizer, com pesar, que sua ignorância sobre o Islã era profunda.

Na verdade, ao compreender a fraqueza de sua declaração e a inconsistência de seus argumentos, ele começou a publicar, nos jornais que o apoiavam, artigos contendo críticas extremamente odiosas contra todos os ouvintes em geral, especialmente os islamistas, mencionando também o meu nome. Em resposta a essas críticas, expliquei a questão em seu conjunto no meu livro «Islamismo e Secularismo: Face a Face».

Volto a solicitar a realização de um diálogo, não de um debate. A própria palavra «debate» contém um tom de desafio e uma mentalidade de vencer. Consequentemente, cada lado tenta derrotar violentamente o adversário.

Não creio que haja grande benefício nesse tipo de debate. Pois, num debate, provavelmente nenhum dos lados desejará ceder ou abandonar sua própria posição; ao contrário, poderá tornar-se ainda mais obstinado e intolerante.

O debate só pode parecer aceitável aos islamistas quando o lado islâmico se sente constrangido diante do desafio do adversário. Nesse caso, para se livrarem da acusação de fugir do confronto e abandonar a batalha por medo do conflito, os islamistas não têm outra alternativa senão aceitar o desafio. Mas o princípio do diálogo é observar a devida cortesia e argumentar da melhor maneira, como diz o Alcorão.

Diálogo com os governantes

É necessário outro tipo de diálogo: o diálogo com governantes prudentes e racionalistas, que não assumem uma postura agressiva contra o Islã por apoiarem opiniões divergentes. O diálogo com governantes que adotam opiniões divergentes e se colocam contra o Islã é inútil, pois eles não desejam nada de bom além da extinção e da destruição completa do Islã. Mas Allah diz: «Eles desejam extinguir a luz de Allah com suas bocas, mas Allah não permitirá isso, senão que completará a Sua luz, embora os incrédulos o odeiem» ((surata At-Taubah: 32)।

Há, porém, outro tipo de governantes que não odeiam o Islã, mas o temem. Na maioria dos casos, esse medo decorre de sua ignorância acerca da realidade do Islã, da xaria islâmica e das características da da’wah. Muitos deles podem ser vistos com indulgência, porque não tiveram a oportunidade de saber o que o Islã realmente é nem de adquirir conhecimento por meio de fontes puras e estudiosos confiáveis. Em razão dessa ignorância, podem ser incluídos na categoria das personalidades cultas e distintas anteriormente mencionadas. Diversas concepções emaranharam-se em suas mentes, e fatos reais e histórias imaginárias parecem-lhes a mesma coisa.

Se, pela vontade do Todo-Poderoso Allah, pudermos apresentar a esses governantes o verdadeiro Islã, expondo seus aspectos benéficos como um todo, sem divisões, como uma doutrina pura, sem distorções, e como algo fácil, não difícil, eles compreenderão que o Islã é benéfico para a vida individual, familiar e social, e que deseja eliminar toda atividade maléfica para preservar a força moral e a prosperidade material da nação. Se aceitarem essa explicação com a mente aberta, certamente ocorrerá uma mudança neles, e passarão a ter uma perspectiva diferente, parcial ou integral, em relação ao Islã e à da’wah. Pois os governantes são seres humanos como nós. Portanto, também neles pode ocorrer mudança, pode surgir influência e pode acontecer compreensão, de tal modo que, por fim, isso poderá mudar seus ideais e seu comportamento.

A história está repleta de exemplos de governantes cuja mentalidade mudou sob a influência de verdadeiros ulemás e eruditos. Muitos governantes mantêm uma atitude apreensiva em relação ao Islã, influenciados pelos falsos alertas de seus conselheiros manipuladores ou vítimas das conspirações de «demônios» estrangeiros.

É preciso aproximar-se desses governantes, partindo do bom senso que ainda resta em seus corações e reavivando o sangue muçulmano que ainda corre em suas veias. Deve-se assegurar-lhes que, ainda que temporariamente, serão mantidos no trono ou no poder se concederem liberdade para a realização das atividades de da‘wa do Islã — atividades cuja missão é formar os jovens à luz de valores morais, consciência e caráter puro, protegê-los das bebidas intoxicantes, das drogas e das prostitutas, e enfrentar políticas destrutivas prejudiciais tanto aos governantes quanto aos governados.

Não há nada de errado em celebrar tal pacto ou entendimento com os governantes, mesmo que o movimento não aprove o comportamento deles nem o fato de manterem relações com outros. Pois o movimento, orientado pelo fiqh do equilíbrio, acredita que essa política é melhor do que desprezar os governantes ou manter uma hostilidade contínua contra eles.

A esse respeito, gostaria de fazer uma advertência. Esse tipo de atitude não deve, de modo algum, ser bajulação dirigida a esses governantes nem meras «palavras vazias» desprovidas de sinceridade. Há uma enorme diferença entre entendimento e hipocrisia.

pró-ocidentais com os diálogo

É indispensável o diálogo do movimento islâmico com o Ocidente, embora haja muitos obstáculos e dificuldades no caminho desse diálogo.

Há várias diferenças entre nós e o Ocidente. Há uma diferença religiosa. O Ocidente é essencialmente cristão, enquanto nós somos muçulmanos. Há uma diferença no modo de pensar. O Ocidente é materialista e pragmático, enquanto nós somos espiritualistas e idealistas. Também há diferenças no campo político. O Ocidente geralmente está ao lado de Israel e contra nós, embora essa perspectiva possa variar de um país ocidental para outro, conforme suas capacidades e posições.

Apesar disso, não podemos evitar o diálogo com o Ocidente. Gostemos ou não, é fato que o Ocidente vem governando o mundo há séculos. É a sua civilização que prevalece no mundo atual. Eles governaram vários de nossos países e ocuparam nossos territórios durante diferentes períodos. Mais tarde, deixaram os países ocupados voluntariamente ou contra a própria vontade, mas ainda exercem influência direta ou indireta sobre nós. De uma forma ou de outra, exercem influência sobre nossos formuladores de decisões. Sua influência sobre a mentalidade e a vontade de nossos governantes também não pode ser negada.

Além disso, nenhum povo pode desligar-se do mundo ao seu redor e viver em um mundo imaginário, apegado apenas às suas próprias crenças religiosas e princípios. As contínuas transformações tecnológicas no campo das comunicações, nas palavras de um escritor, transformaram o mundo em uma aldeia global.

Portanto, o diálogo com o Ocidente é um dever indispensável para nós, para que possamos explicar aos ocidentais o que desejamos para nós mesmos e para os outros. Pois somos propagadores de um ideal, não saqueadores. Somos mensageiros do bem-estar, não portadores do mal. Somos defensores da paz, não belicistas. Somos apoiadores da justiça e da equidade, não patrocinadores da injustiça e da opressão.

Nosso objetivo é guiar a humanidade desorientada para o caminho de Allah e conectar a vida terrena à vida futura, a terra ao céu e as pessoas umas às outras, para que cada pessoa deseje para os outros aquilo que deseja para si mesma e faça aos outros aquilo que detesta para si, de modo que a humanidade possa libertar-se da doença comum a todas as nações: a inveja e o ódio. Essa doença despoja a humanidade da religião.

Sabemos que o Ocidente ainda nos olha através de um contexto sombrio, um contexto que vem obscurecendo sua visão de nós desde a época das Cruzadas e que ainda hoje se instalou no coração da maioria dos ocidentais.

Muitos pensadores imparciais do Ocidente, entre eles o filósofo e sociólogo francês Gustave Le Bon, reconheceram isso. Ele declarou abertamente esse fato em várias notas de rodapé de sua obra “A Civilização dos Árabes”. Quando um estudioso ocidental se dedica a assuntos islâmicos, perde seu caráter natural e imparcial e torna-se tendencioso e hostil ao Islã. Ele sequer percebe isso, embora esses mesmos estudiosos julguem outras questões com espírito natural e imparcial. Recentemente, o orientalista Montgomery Watt afirmou a mesma coisa em sua obra “O Que É o Islã”.

Também vemos esse espírito das Cruzadas ressurgir em diversas ocasiões e áreas. Sua influência é perceptível na atitude do Ocidente em relação a Israel, o agressor, e ao povo palestino, vítima da agressão. Essa influência também se manifesta na atitude ocidental em relação à Lituânia cristã e ao Azerbaijão muçulmano da União Soviética.

Esse sinal também é visível nas atividades de autoridades francesas, espanholas e italianas. Temendo o avanço da consciência islâmica na Argélia, elas empreendem ações deliberadas. A mesma atitude ocidental pode ser observada no Sudão do Sul, na Eritreia, na Caxemira, nas Filipinas e em outras questões políticas.

Também observamos essa influência em algumas questões sociais. A mais importante delas é Salman Rushdie, que, ao mudar de pele, traiu sua própria crença religiosa e seu próprio povo. Essa influência também é evidente na questão do hijab na França. Como pode um país afirmar ser o “berço da liberdade” quando não conseguiu tolerar que algumas estudantes muçulmanas observassem o preceito religioso sobre o vestuário por razões de modéstia, para obter a satisfação de Allah e salvar-se do Inferno? O país alardeado como terra da liberdade e dos direitos humanos não concedeu às meninas sequer o direito de buscar a satisfação de Allah em uma questão absolutamente pessoal.

É lamentável que o espírito, a visão e as circunstâncias das Cruzadas ainda estejam presentes de tal maneira que é difícil avaliar sua extensão. Até mesmo a Turquia, país que, durante quase três quartos de século, imitou avidamente o Ocidente, derramando sangue por meio da espada, impondo aos muçulmanos o secularismo importado do Ocidente e expulsando por toda parte a sharia islâmica, não recebeu o apoio ocidental ao candidatar-se à adesão ao Mercado Comum Europeu. O chanceler da Alemanha Ocidental, ao explicar o motivo da rejeição da candidatura da Turquia, disse que a Turquia possui uma cultura diferente da ocidental. Eles são portadores da cultura muçulmana, enquanto nós somos portadores da cultura judaica e cristã.

Apesar de tudo isso, não podemos ficar desapontados ou desesperados em relação ao Ocidente. Tampouco podemos abandoná-los pensando que talvez jamais seja possível trazê-los ao diálogo. Embora nossa civilização seja diferente da civilização deles, pode haver diálogo sem duas partes? Portanto, o diálogo pode ocorrer justamente sobre a civilização. O famoso pensador Roger Garaudy mencionou a questão dessa maneira. Não queremos um choque de civilizações, mas um diálogo entre civilizações.

Então, por que não manteríamos um diálogo com o Ocidente, quando o Alcorão nos exortou ao diálogo com aqueles que sustentam opiniões diferentes? Dessa forma, o diálogo foi transformado em um meio de convidar ao caminho de Allah.

Além disso, o Alcorão menciona um diálogo entre o Todo-Poderoso Allah e Iblis, Sua pior criação. O Todo-Poderoso Allah não fechou as portas do diálogo nem mesmo diante do Satanás amaldiçoado.Surata Sad–de 71–a 85  versículos é relatado: Lembre-se de quando seu Senhor disse aos anjos: «De fato, criarei um ser humano de barro. Quando tiver concluído sua criação e soprado nele um espírito proveniente de Mim, prostrai-vos todos diante dele.» Então, todos os anjos se prostraram diante de Adão, exceto Iblis. Ele se ensoberbeceu e tornou-se um dos incrédulos. Allah disse: «Ó Iblis! O que te impediu de prostrar-te diante daquele que criei com Minhas próprias mãos? Estás sendo arrogante ou fazes parte dos elevados?» Iblis disse: «Sou melhor do que ele. Tu me criaste do fogo, enquanto a ele criaste do barro.» Allah disse: «Então, sai daqui, pois certamente és expulso. E certamente haverá sobre ti Minha maldição até o Dia da Ressurreição.» Ele disse: «Ó meu Senhor! Concede-me prazo até o dia em que os mortos forem ressuscitados.» Allah disse: «Certamente estás entre aqueles aos quais foi concedido prazo até o dia do tempo determinado.» Ele disse: «Então, por Tua glória, certamente desencaminharei todos eles, exceto os Teus servos escolhidos.» Allah disse: «A verdade é — e Eu digo somente a verdade —: certamente encherei o Inferno contigo e com todos aqueles dentre eles que te seguirem.»

O diálogo com o Ocidente deveria ocorrer em vários níveis. Esse diálogo pode ocorrer nos níveis religioso, intelectual e político.

Diálogo religioso

Pode haver um diálogo religioso entre o Islã e o Cristianismo tendo em vista diversos objetivos. Entre os mais importantes estão:

1. Enfrentar as correntes de pensamento ateísta e materialista. Correntes que se opõem ferozmente à revelação divina, ridicularizam a crença no invisível, negam Allah, Seus profetas e mensageiros, Seu castigo e os valores morais. Esse diálogo também enfrentará a promiscuidade e a degradação moral, que destruíram quase completamente as nobres características humanas concedidas pela revelação.

2. Identificar os pontos de união entre as duas religiões. Ao esclarecer como se deve falar com o Povo do Livro, o Alcorão orienta: Cremos também no Livro que foi revelado a nós e no que foi revelado a vós; nosso Deus e o vosso Deus é um só, e a Ele nos submetemos como muçulmanos (Surata Al-Ankabut: 46)।

3. Iniciar um novo capítulo de relações mais belas e sinceras, normalizando as relações hostis criadas pelas Cruzadas do passado e pelo imperialismo atual, e promovendo a fraternidade, a humanidade e uma atitude benéfica. Isso inclui o fim do apoio da Igreja ao lado cristão nos conflitos entre muçulmanos e cristãos. Esse tipo de conflito ocorre no Sudão do Sul, nas Filipinas e em outras regiões. A Igreja chega a apoiar comunistas e idólatras contra os muçulmanos.

Sei que muitos islamistas tendem a suspeitar desse tipo de diálogo. Eles acreditam que uma mão invisível atuante nos bastidores do diálogo, movida por objetivos específicos, utiliza-o para seus próprios fins. Pois creem que, como os muçulmanos são sem dúvida a parte mais fraca no diálogo, um adversário poderoso os utiliza sem que percebam. Por isso, quando alguém participa de um diálogo desse tipo, é acusado de ser um tolo ou um agente.

Considero infundadas essas suspeitas. Em alguns casos, a suspeita deles pode estar correta. Mas não em todos os casos, nem sempre. Por que perderíamos tanta confiança em nós mesmos? Por que nos consideraríamos a parte fraca? Com tudo o que possuímos, somos fortes. Por que pensaríamos que, só por participar de um diálogo, alguém perdeu o direito à sua fé e se rendeu à outra parte? O que realmente importa é que participemos do diálogo depois de nos certificarmos de que aqueles que nos representarão estarão apoiados em uma base sólida, e com a convicção de que o diálogo é preferível ao confronto ou à mentalidade de fuga.

Na verdade, o diálogo é uma das estratégias da campanha de pregação, iniciada pelo Mensageiro de Allah (S.A.W.) por meio de suas cartas históricas enviadas a Heráclio, a Al-Muqawqis, o principal cristão do Egito, ao Negus da Abissínia e a outros governantes do Povo do Livro. Ele concluiu essas cartas com o seguinte versículo: Ó Povo do Livro! Vinde a uma palavra comum entre nós e vós: que não adoremos senão a Allah, que não associemos ninguém a Allah e que nenhum de nós tome outros como senhores além de Allah. Mas, se se afastarem, dizei: Testemunhai que somos muçulmanos (Surata Al Imran: 64)।

Recentemente, realizou-se um diálogo desse tipo, cujo resultado foi positivo. O ustadh Mohammad al-Mubarak (que Deus tenha misericórdia dele) informou-nos disso. Esse diálogo ocorreu em Roma, entre a Liga do Mundo Islâmico e uma delegação do Vaticano. A delegação da Liga foi chefiada pelo secretário-geral, xeique Muhammad al-Harqan. Com ele estavam Maruf al-Dawalibi e Muhammad al-Mubarak.

Como resultado desse diálogo, a imagem de cada uma das partes se tornou mais favorável aos olhos da outra. Isso se aplica especialmente à imagem do Islã, a respeito do qual eram alimentadas atitudes injustas e hostis. Às vezes, isso também se refletiu nas relações entre muçulmanos e cristãos.

Outro diálogo foi realizado na Líbia entre alguns intelectuais muçulmanos e membros de alto escalão da Igreja. O Dr. Izz al-Din Ibrahim informou que esse diálogo também produziu bons resultados. Ele também participou dele. Li o artigo que ele apresentou no diálogo. O conteúdo do artigo era muito fundamentado na argumentação e equilibrado. Não havia nele qualquer traço de extremismo ou arrogância.

Intelectual diálogo

Além do diálogo religioso com o Ocidente, é necessário outro diálogo complementar. Trata-se do diálogo entre ocidentalistas e orientalistas interessados em estudar questões relacionadas ao Islã, ao Alcorão, ao Mensageiro, à fé religiosa, à história, à cultura, ao conhecimento, aos povos, ao presente e ao futuro. É especialmente urgente dialogar com os estudiosos interessados nas correntes intelectuais, nos movimentos modernos de revitalização e nos ressurgimentos contemporâneos.

Esse diálogo é necessário para purificar as correntes de pensamento, conhecer mais de perto todas as perspectivas e abrir caminho para melhorar ainda mais o ambiente e as relações entre as duas partes. Se é possível dialogar com o clero e os representantes da Igreja — que sustentam suas posições e suas convicções profundas, cultivadas ao longo de séculos —, então o diálogo com os orientalistas deveria ser ainda mais fácil e benéfico. Embora muitos considerem que não há diferença entre o clero ocidental e os pensadores ocidentais, ou entre os missionários e os orientalistas. Segundo eles, a diferença está apenas em suas roupas. Os sacerdotes vestem-se como sacerdotes, enquanto os ocidentalistas e orientalistas vestem-se como estudiosos; na realidade, são duas faces da mesma moeda.

Contudo, se houver vontade firme, consciência dos objetivos e um caminho claro, o diálogo não deveria ser impossível. Universidades e fóruns intelectuais podem tomar a iniciativa de promover o diálogo, reunindo representantes das duas partes para iniciar pesquisas sobre determinados temas, livres de preconceitos e incitamentos.

Devemos estar conscientes de que a visão dos orientalistas em relação ao Islã, à ummah muçulmana e ao renascimento islâmico não é uniforme. Muito foi escrito sobre os estudiosos orientais, como o livro de al-Aqiqi. Também foram produzidos muitos textos em resposta às suas acusações ou em sua defesa. Foram escritos artigos e ensaios que classificam essas obras. É o caso do artigo do Dr. Muhammad al-Bahai. Ele deu ao tema discutido o título “Os orientalistas e suas atitudes em relação ao Islã”.

Devo dizer que a maioria dos orientalistas apresenta várias fraquezas em comum.

Em primeiro lugar, os orientalistas não são suficientemente versados na língua árabe para compreender plenamente suas diversas nuances. Consequentemente, é natural que encontrem dificuldades ao compreender as fontes islâmicas fundamentais, especialmente o Alcorão e a Sunna. Assim, sua compreensão do Islã e de sua mensagem torna-se obscura e incompleta.

Em segundo lugar, os orientalistas sofrem de uma espécie de arrogância em relação ao pensamento, ao povo e à civilização ocidentais. Consideram o Ocidente o senhor do mundo e a Europa a mãe de todos os países. Em sua opinião, a história começou no Ocidente e terminará ali.

Em terceiro lugar, começam a pesquisar questões que não podem ser submetidas a uma verificação adequada. Isso porque acreditam que o Alcorão não foi enviado por Deus e que Muhammad não é Seu Mensageiro. Desse modo, formam uma ideia antes mesmo de iniciar a pesquisa, conduzem-na com base nela e tentam, de qualquer maneira, provar suas próprias ideias. Ao fazê-lo, aceitam relatos baseados em fontes frágeis, acreditam em mentiras, fazem de um grão uma montanha, transformam um pequeno montículo de cupins em uma montanha, aceitam a suspeita como prova e rejeitam tudo o que contradiz suas ideias — mesmo quando suas próprias concepções inventadas lhes desferem um golpe no rosto.

Em quarto lugar, em muitos casos os orientalistas realizam suas pesquisas conforme as encomendas de determinados círculos, com o objetivo de alcançar fins políticos. Na maioria das vezes, grandes quantias são gastas nesse trabalho de pesquisa. Por isso, essas pesquisas não são inteiramente imparciais nem desprovidas de objetivos ocultos.

Apesar disso, em muitos casos o diálogo ainda é necessário. Ele pode ser mantido com pessoas de pensamento livre, cujo número cresce dia após dia. Isso porque muitas pessoas estão abandonando a mentalidade antiga e sendo influenciadas por ideias novas.

Ao tomarmos a iniciativa de iniciar esse diálogo, devemos escolher os orientalistas que sejam bastante imparciais e flexíveis em relação a todas as nações. Entre eles, destaca-se o professor Jacques Berque. Ele foi convidado várias vezes para a Universidade do Catar.

Entretanto, pelas obras traduzidas dos orientalistas contemporâneos, parece que os orientalistas de hoje estão muito mais próximos da imparcialidade do que os de antigamente e se mantêm ainda mais distantes do exagero e do extremismo. Em particular, os muçulmanos agora leem seus livros, discutem suas opiniões ou as refutam quando as consideram inaceitáveis. Já os orientalistas do passado escreviam para si mesmos, isto é, uns para os outros. Por essa razão, na maioria dos casos, seus escritos pareciam relatórios especializados, em vez de tratarem de temas de interesse geral.

Político Diálogo

Depois de concluir os diálogos religioso e intelectual, o movimento islâmico deverá manter outro diálogo com o Ocidente: com os formuladores de decisões políticas — aqueles políticos que desempenham um papel público ou nos bastidores da arena política.

Creio que os dois diálogos mencionados anteriormente abrirão caminho para este importante diálogo. Embora a Igreja se mantenha oficialmente afastada da política, ainda exerce influência considerável sobre os dirigentes do Estado e, no âmbito da política externa, especialmente nas questões relacionadas ao Islã e aos muçulmanos, move os cordões nos bastidores.

Embora os orientalistas sejam aparentemente conhecidos como teóricos, é inegável que mantêm vínculos com os serviços de inteligência, as agências de segurança nacional e os departamentos de relações exteriores.

Alguns tentam semear dúvidas sobre qualquer iniciativa de diálogo político com o Ocidente. Outros citam um antigo poeta ocidental e dizem: “O Oriente é o Oriente, o Ocidente é o Ocidente, eles nunca se encontram” (o Oriente é o Oriente, o Ocidente é o Ocidente, eles nunca se encontram). Mas vimos o Ocidente encontrar-se com a Índia, o Japão e, mais recentemente, também com a China.

Outros dizem que o Ocidente pode encontrar-se com a Índia, o Japão, a China ou com hindus, budistas e comunistas, mas não com os muçulmanos. A esse respeito, também citam declarações extremamente hostis ao Islã feitas por missionários, orientalistas e políticos ocidentais.

Há ainda pessoas que veem com desconfiança quem quer que tente estabelecer contato ou organizar algum diálogo com o Ocidente. Para difamar esses promotores, mantêm sempre prontas contra eles acusações de rebelião, colaboração, traição e coisas semelhantes. Ninguém pode esquecer o sofrimento que nosso fiel irmão, o segundo Murshid Geral da Irmandade Muçulmana, Hassan al-Hudaybi, teve de suportar por estabelecer contato com o sr. Evans. Os líderes da revolução egípcia sabiam desse contato e até o haviam apoiado. Contudo, no fim, usaram esse contato como uma arma contra Hudaybi. Valendo-se de seu contato com Evans, lançaram uma mancha sobre a reputação de Hudaybi, do movimento islâmico, dos membros do movimento e dos princípios do movimento.

Devemos permanecer atentos a essas questões, para que os inimigos do movimento não possam usar esse tipo de contato para prejudicá-lo. Devo dizer aqui que um medo e uma hostilidade anormais em relação ao Islã ainda influenciam geralmente o comportamento dos políticos ocidentais. As batalhas de Yarmuk e Ajnadayn, as Cruzadas e as conquistas árabes e otomanas ainda são pesadelos para eles. Nomes como Khalid ibn al-Walid, Tariq ibn Ziyad, Salahuddin Ayyubi e Muhammad al-Fatih, o conquistador de Constantinopla, ainda lhes tiram o sono.

Mas não devemos ser vítimas dos medos decorrentes de uma mentalidade tão anormal. Devemos romper todas as nossas barreiras psicológicas e livrar-nos de todas as complicações mentais, novas e antigas.

Embora a Europa tenha sido dilacerada por guerras, conflitos e derramamento de sangue ao longo dos últimos séculos, os países desse continente estão se unindo e, em um futuro próximo, transformar-se-ão em um só país.

Os americanos e os soviéticos puseram fim à sua guerra quente e fria, eliminando a distância entre ambos. Então, por que não pode haver um entendimento com os muçulmanos?

A lógica do Ocidente a esse respeito é bem conhecida. Não existem amizade permanente nem inimizade permanente. Existem apenas interesses permanentes.

Não temos objeção a iniciar um diálogo com eles à luz do princípio da proteção dos interesses mútuos. Creio que o interesse do Ocidente reside em evitar a hostilidade de centenas de milhões de muçulmanos e conquistar sua confiança, amizade e respeito. Em contrapartida, procuraremos melhorar nossa imagem aos olhos do Ocidente, para que possam ser modificadas as ideias acumuladas ao longo de séculos de conflitos amargos — ideias que não estavam isentas de exageros e ficções.

Não negamos que existam entre nós algumas pessoas que, por meio de suas ideias ou conduta, não apresentam a melhor imagem do Islã. Elas apresentam o Islã como se ele incentivasse a violência, o fanatismo, o conflito com os outros e o desprezo pela liberdade e pelos direitos humanos, especialmente os direitos das minorias e das mulheres. As condições reais existentes em muitos países muçulmanos contribuíram para formar esse tipo de imagem, que é considerada consequência do Islã e da lei islâmica.

Esse tipo de grave equívoco não pode desaparecer por si só nem ser eliminado da noite para o dia. Pelo contrário, só pode ser afastado por meio de boa vontade e de um diálogo duradouro. Um diálogo baseado em mente aberta e franqueza, não em intrigas e enganos. Evidentemente, não se pode esperar um diálogo desse tipo na política, mas ele não é impossível. Pois, atualmente, nada é impossível na política.

Se pudermos convencer com segurança os líderes ocidentais e aqueles que exercem influência na política de que temos o direito de viver segundo a aqida, as crenças, a sharia, os valores e os padrões morais do Islã, sem nutrir qualquer intenção maliciosa em relação ao Ocidente nem qualquer desejo de prejudicá-lo, avançaremos muito no caminho para alcançar o objetivo de estabelecer a sociedade muçulmana desejada em nossas terras de residência.

Não há dúvida de que o primeiro obstáculo à realização deste objetivo são os nossos governantes, que nos mantêm sob vigilância constante, monitoram cada um de nossos passos e impedem qualquer tentativa de estabelecer o Islã como sistema para a vida social, política e cultural.

Não há dúvida de que o poderoso Ocidente e seus líderes exercem influência sobre os nossos governantes e os alertam contra o Islã. Incutem neles o medo dos islamistas. Por meio de estratégias diretas e indiretas, de discursos e declarações públicos e privados, fazem com que se tornem desconfiados do movimento islâmico.

Portanto, se conseguirmos explicar ao Ocidente a necessidade do surgimento do Islã como força orientadora e potência mundial, talvez também seja possível convencer os líderes árabes e muçulmanos. E isso será uma grande conquista.

Instituições religiosas governamentais

O movimento islâmico deve empreender esforços rigorosos para conquistar o apoio das instituições religiosas. Entre as mais importantes estão Al-Azhar, no Egito, Zaytuna, na Tunísia, Al-Qarawiyyin, no Marrocos, e Deoband, no subcontinente.

Em seu plano essencial, o movimento deve concentrar-se na realização de um grande objetivo: penetrar nas instituições religiosas governamentais com sua ideologia e seus quadros, e exercer influência sobre elas. Se o movimento for bem-sucedido nessa iniciativa, poderá alcançar resultados significativos, entre os quais os seguintes:

1. O movimento poderá evitar conflitos com os membros dessas instituições que ainda contam com apoio entre as massas muçulmanas. Esses membros, especialmente os servos dos governantes, ainda são capazes de prejudicar a imagem do movimento aos olhos dos iletrados ou semiletrados, apresentando diversas acusações, verdadeiras ou falsas.

Essas acusações obstruem o avanço do movimento, que precisa gastar muito tempo defendendo-se e refutando acusações falsas. Portanto, se puder evitar conflitos com eles, o movimento será capaz de prosseguir sem obstáculos em seus esforços contra aqueles verdadeiros inimigos do Islã que desejam apagar, com o sopro de suas bocas, a luz da religião de Allah.

2. Será criada a oportunidade de reformar essas importantes instituições, para que, por meio da reforma, elas possam cumprir sua responsabilidade fundamental e indispensável de difundir os verdadeiros ensinamentos do Islã. Essas instituições apresentarão o Islã em sua forma abrangente, verdadeira e não adulterada, de modo que as instituições em questão se libertem do domínio dos governantes tirânicos, do comunismo e dos cristãos. Assim, a instituição se tornará uma fortaleza inexpugnável da dawa islâmica contra as conspirações dos inimigos do Islã. Se essas instituições religiosas oficiais puderem ser reformadas, serão formadas pessoas que se dedicarão não apenas ao cumprimento de funções oficiais, mas também à dawa e ao serviço da religião.

3. Será possível utilizar os meios e recursos dessas instituições religiosas oficiais para disseminar entre o povo a consciência dos principais interesses do Islã e influenciá-lo. Entre os principais interesses do Islã estão os problemas dos muçulmanos em todo o mundo, o dever do povo muçulmano para com a ideologia islâmica e os territórios muçulmanos. Incluem-se também as atividades do movimento para concretizar o renascimento cultural islâmico nos campos do conhecimento, da ação, da educação e da formação da personalidade muçulmana.

Também será possível utilizar os meios e recursos das instituições oficiais para enfrentar a corrente perniciosa que, com o apoio das conspirações dos inimigos do Islã e dos hipócritas internos, tenta penetrar secreta e abertamente na Ummah.

Como resultado dessa cooperação e solidariedade entre o movimento islâmico popular e as instituições oficiais, o apoio popular à dawa islâmica e ao seu grandioso esforço cultural se ampliará ainda mais.

4. Será possível refutar as justificativas que alguns governos tentam apresentar para rejeitar as leis islâmicas como força motriz da vida e da sociedade. Esses governos adotam como base de sua visão algumas fatwas frágeis e enganosas emitidas pelos dirigentes dessas instituições religiosas oficiais.

Outro objetivo é estabelecer a legitimidade das reivindicações e dos esforços do movimento para fundar um Estado islâmico, um Estado governado pela lei enviada por Allah e que adota o Islã como uma crença fundamental, um modo de vida e uma mensagem, com o objetivo de proporcionar orientação e desenvolvimento a todas as pessoas.

O Imam Hassan al-Banna sempre demonstrava interesse em continuar dialogando com os estudiosos de Al-Azhar. Muitos deles eram seus amigos. Certa vez, em uma conferência realizada em Tanta, estavam presentes muitos eruditos da Universidade de Al-Azhar, e ouvi o Imam Hassan al-Banna dizer: “Vocês, os ulama, são o exército regular do Islã, e nós estamos atrás de vocês como uma força de reserva.”

Naturalmente, isso não se aplica às instituições que venderam a religião em troca dos prazeres e benefícios deste mundo, que se tornaram porta-vozes dos governantes autocráticos e espadas nas mãos dos governantes opressores — espadas usadas para golpear os verdadeiros islamistas. Não se deve ignorar nem poupar essas instituições; ao contrário, é preciso desmascará-las diante do povo, para que este possa manter-se alerta contra suas atividades perniciosas e saber quem elas são.

Devemos distinguir entre aqueles que se tornaram marionetes nas mãos dos déspotas e aqueles que odeiam os déspotas, mas, devido à fraqueza e ao medo, não têm coragem de enfrentá-los. Pois os fracos estão tão amedrontados que consideram melhor permanecer em silêncio e temem até pronunciar palavras justas. Contudo, não se envolvem em discursos injustos. Portanto, considerando essa situação anormal, devemos ajudá-los a superar a fraqueza e o medo.

No Irã, as instituições religiosas atuaram como força motriz na revolução contra o xá. De acordo com a exigência de obediência absoluta do povo, conforme a orientação da ideologia jaafarita, a revolução recebeu enorme apoio e cooperação. Além disso, o povo estava sempre disposto a sacrificar a vida e os bens pela revolução, atendendo ao apelo dos xeques e aiatolás.

Os fundos voluntariamente oferecidos pelo povo também contribuíram para essa revolução. Segundo a jurisprudência jaafarita, a contribuição é o khums, isto é, um quinto, calculado sobre a renda total. Essas contribuições eram entregues aos eruditos que representavam o “Imam ausente”.

Assim, os líderes religiosos do Irã não eram dependentes da benevolência do governo. Se fossem, seria o governo que lhes pagaria os salários e benefícios, controlaria o destino deles e de suas famílias e teria em suas mãos o poder de nomeá-los e demiti-los conforme desejasse.

Portanto, um dos princípios indispensáveis da reforma das instituições religiosas é que essas instituições desfrutem de independência teórica, administrativa e financeira, bem como da liberdade de recuperar as propriedades de waqf usurpadas e utilizá-las em finalidades adequadas, para que as instituições religiosas recuperem sua autoridade específica. Sobre o segredo desse poder do Imam Hasan al-Basri, um governante certa vez disse: “A religião dele é o nosso governo, mas ele não precisa do nosso dinheiro”.

Esse é o verdadeiro problema: os líderes religiosos tornam-se funcionários do Estado, embora o Estado não precise da religião deles, enquanto eles precisam do dinheiro do Estado.

Renascimento islâmico

Com o objetivo de estabelecer o Islã no mundo e enfrentar todas as forças agressoras que se opõem ao chamado islâmico, o movimento islâmico deve fazer todo o possível para unir numa única frente todos os grupos islâmicos e todos os grupos do renascimento islâmico. Essa frente deve desempenhar um papel necessariamente ativo na definição dos métodos adequados de diálogo e no enfrentamento correto da perspectiva do lado contrário, para que possamos lançar as bases da cooperação naquilo em que concordamos e da tolerância naquilo em que divergimos.

O Imam Hassan al-Banna envidou todos os esforços possíveis para pôr fim às divergências entre os grupos islâmicos do Egito e elaborou os famosos Vinte Princípios como um programa mínimo sobre o qual se poderia chegar a um consenso.

É isso que o movimento islâmico deve fazer sempre para alcançar seus principais objetivos. Pois somente a força conjunta de todos os grupos que atuam no campo islâmico pode fortalecer o movimento islâmico. Refiro-me aqui aos grupos islâmicos que atuam com seriedade e dedicação, não aos grupos insignificantes ou desviados, nem aos grupos que fraudam em nome do Islã.

Se algum grupo islâmico pensar que, sozinho, é capaz, neste momento, de estabelecer o governo islâmico e enfrentar os problemas internos e as conspirações estrangeiras, cometerá um erro grave.

O que todos os grupos e movimentos islâmicos realmente deveriam fazer é unir todos os seus esforços com o objetivo de formar uma aliança islâmica forte e pôr fim às divergências, para que essa aliança possa apoiar os aliados do Islã e resistir aos seus inimigos.

O que mais temo é que o egoísmo prejudique o espírito da fraternidade islâmica. Cada grupo exalta a si mesmo e se empenha em provar a incapacidade dos outros, a tal ponto que, em vez de tentar transformar seu próprio grupo em uma parte forte de toda a aliança, concentra todas as suas atividades na destruição dos demais.

Também temo o sectarismo estreito que domina os grupos islâmicos e controla seus pensamentos e sua consciência. Ele faz com que seus conflitos e confrontos pareçam maiores, transforma montículos de cupins em montanhas, transforma questões secundárias em princípios fundamentais e inclui questões de ijtihad nos princípios fundamentais da sharia, como fez o autor do artigo intitulado “A Opinião Correta sobre a Contradição entre a Filiação ao Parlamento e o Tawhid”.

Para estabelecer um governo islâmico forte, capaz de promover o renascimento religioso da Ummah e melhorar nossa vida terrena, é necessário o esforço conjunto de todos os grupos e forças islâmicos, independentemente de suas diferentes opiniões, caminhos e princípios. Além disso, devem ser incluídas nesse esforço as pessoas religiosas e entusiastas que não pertencem a nenhum grupo ou organização.

Creio que o sucesso do movimento estará assegurado se o movimento islâmico conseguir, para alcançar esse objetivo, coordenar em uma única plataforma os esforços de todas as forças islâmicas, onde todos considerem que este Estado é o seu Estado, este governo é o seu governo, sua vitória é a vitória deles e sua derrota é a derrota deles.

 

Sextocapítulo

Conclusão

O que não pode deixar de ser dito

Ao chegar ao final do livro, quero mencionar com especial ênfase que o movimento islâmico deve manter uma perspectiva clara sobre o futuro, nos níveis regional e internacional. À luz dessa perspectiva, o movimento adotará um plano claro e detalhado para alcançar objetivos específicos por meios legítimos. Tal plano deve ser elaborado com base em conceitos modernos, numa divisão em etapas determinadas e por meio de um processo teórico. Esse plano deve ser flexível, fácil de executar e implementar. Todas as suas responsabilidades devem ser distribuídas equitativamente entre instituições e organizações adequadas, e não deve depender de nenhuma pessoa. Pois, se a implementação do plano depender de uma pessoa ou de algumas pessoas, ele durará apenas enquanto elas permanecerem ativas.

O plano deve ser elaborado com base em uma pesquisa abrangente, sem subestimar nem exagerar os dados autênticos, as estatísticas reais, a revisão ampla, a análise científica, a perspectiva objetiva, todos os recursos materiais e humanos disponíveis e possíveis, nem todos os obstáculos psicológicos e materiais, internos e externos. [Para conhecer as características do plano em questão, leia meu livro intitulado ‘ A Solução Islâmica: uma obrigação religiosa e uma necessidade.’। No contexto teórico, esta discussão foi realizada.।]

Esse tipo de plano deve ser elaborado por uma equipe composta por especialistas qualificados em diversas áreas do conhecimento. Cada especialista deve contribuir com sua competência e inteligência para a equipe. A equipe também poderá, conforme considerar apropriado, obter opiniões ou informações de qualquer outra pessoa qualificada.

Antes e depois da elaboração do plano, é indispensável prestar atenção a três aspectos: o trabalho em tempo integral, a qualificação dos especialistas e as informações e pesquisas. Discutiremos detalhadamente esses três aspectos na conclusão.

Trabalho em tempo integral

No planejamento futuro do movimento, algumas pessoas qualificadas devem ser necessariamente empregadas em tempo integral em todos os campos estratégicos e outros campos importantes, especialmente nas áreas do conhecimento e da ciência, educação, informação, meios de comunicação, política e planejamento.

O movimento não deve depender apenas do trabalho de voluntários em tempo parcial. Como essas pessoas precisam dedicar a maior parte do tempo às suas atividades pessoais, não se pode esperar que, com o pouco tempo que oferecem ao movimento, consigam desempenhar responsabilidades de grande porte. Naturalmente, não há razão para menosprezar os voluntários que dedicam sequer uma pequena parte do seu tempo pela causa de Allah. Pelo contrário, sua contribuição é extremamente importante e amplamente frutífera. Isso porque são os voluntários que constroem a base expansiva do movimento. Com exceção de algumas pessoas empregadas em tempo integral no interesse das atividades de da’wah, todos os membros do movimento trabalham como voluntários sem remuneração.

O Imam Hasan al-Banna continuou trabalhando como professor por vários anos, mesmo permanecendo no movimento, até que, sob a pressão das atividades de da’wah e do ímpeto do movimento, foi obrigado a dedicar todo o seu tempo e esforço ao trabalho do movimento.

Em vários países, muitos membros e líderes do movimento foram, em certa época, professores universitários, altos funcionários do governo ou empresários e comerciantes independentes. Contudo, o melhor esforço possível é aquele em que a pessoa se dedica em tempo integral ao serviço do movimento e à realização de seu objetivo.

Naturalmente, ao contratar trabalhadores em tempo integral, deve-se assegurar que especialistas em diferentes áreas recebam as responsabilidades. Eles serão complementares uns aos outros. Desse modo, a competência dos especialistas deve ser aproveitada em todos os campos de trabalho. Assim, será fechado o caminho para a especialização apenas em alguns campos, deixando outros de lado. Como resultado, nenhuma despesa será feita fora dos campos apropriados.

Neste caso, o dinheiro não deve constituir problema. Pois gastar recursos nessa área é uma das melhores formas de obter a satisfação de Allah. Os fundos necessários podem ser arrecadados por meio do zakat, da sadaqa, do waqf e de outras fontes semelhantes.

Também se podem gastar, para esse propósito, os juros obtidos do capital depositado em bancos locais e estrangeiros. Não devemos hesitar em utilizar esse dinheiro por os juros serem provenientes de uma fonte haram. Isso é haram apenas para o depositante do capital. Contudo, gastá-lo em prol do Islã é halal. E, prioritariamente, esse dinheiro pode ser gasto com os trabalhadores em tempo integral do movimento islâmico.

Os trabalhadores dedicados não devem relutar em receber um salário adequado, equivalente ao de um trabalho do mesmo nível em outros lugares, para que possam continuar realizando o trabalho do movimento com satisfação. Além disso, não devem sentir descontentamento por causa de um salário baixo. Nem uma remuneração muito alta nem uma muito baixa pode ser considerada um salário justo.

Todavia, é necessário colocar a pessoa certa no lugar certo, verificando suas qualidades e características adequadas, sem qualquer tipo de favoritismo. Competência e honestidade devem ser os únicos critérios para a seleção de pessoas. Sobre isso, foi dito no Alcorão: “Certamente, o melhor que podeis contratar como empregado é aquele que é forte e digno de confiança (Surata Al-Qasas: 26)।

dos especialistas Competência

Devem ser intensificados os esforços para formar especialistas com as qualificações necessárias em todos os campos da vida. Vivemos agora na era da especialização, cujos especialistas são verdadeiramente especialistas. Não vivemos na época em que eruditos talentosos expressavam opiniões sobre todos os ramos do conhecimento e da ciência. Apenas a inteligência não é suficiente, nem o brilho intelectual, nem o talento.

É necessária uma qualificação educacional especializada que seja capaz de acompanhar o ritmo dos tempos, atender às necessidades e demonstrar excelência na execução de tarefas específicas. Nos hadiths autênticos, foi narrado: Certamente, Allah colocou excelência em todas as coisas. [Relatado sob a autoridade de An-Nawwas ibn Sam’an , no Muslim–, conforme narrado।] E Allah fica satisfeito quando qualquer um entre vocês conclui perfeitamente qualquer trabalho. [Sob a autoridade de Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela). , em al- Bayhaqi , é relatado।]

Em nossa época, a excelência só é possível por meio da especialização. Qualquer medida adotada para completar uma obrigação (wajib) também é uma obrigação (wajib).

Tomemos, por exemplo, a comunicação de massa e a ampla especialização a ela relacionada. Elaborar um manuscrito é uma ciência; transformá-lo em roteiro também é uma ciência, assim como dirigi-lo. Da mesma forma, atuar nele e comercializá-lo também são ciências. Desse modo, é possível elaborar uma longa lista de conhecimentos especializados, até os níveis mais elementares.

A direção de programas para o rádio é um tipo de trabalho. A direção de programas de televisão é outro. Já a direção teatral e a direção cinematográfica são duas coisas completamente diferentes. Hoje, o trabalho dos meios de comunicação é um campo no qual se combinam todas as artes. Existem muitos institutos e faculdades onde os estudantes recebem formação em nível superior e de pós-graduação para aprender essas áreas com competência.

A islamização desses ramos do conhecimento jamais será possível se não buscarmos a ajuda de especialistas. Somente eles podem oferecer alternativas islâmicas para esse campo.

O movimento islâmico é rico em talento. Contudo, seus quadros talentosos não são devidamente alocados nos campos e posições apropriados. Frequentemente vemos uma concentração de especialistas em alguns campos, como medicina, farmacologia ou engenharia. Entretanto, é muito pequeno o número de especialistas ligados ao movimento islâmico nos ramos menos comuns da ciência.

Essa situação também se aplica aos campos das ciências humanas e sociais, como psicologia, sociologia, economia, ciência política e comunicação de massa. Em geral, os jovens desprezam essas áreas e se voltam para as ciências aplicadas. No entanto, essas ciências são mais necessárias à sociedade e exercem influência sobre ela. É por isso que os judeus dos Estados Unidos e de outros países estabeleceram um controle monopolista nessa área e ocuparam a maioria dos cargos importantes, para poder conduzi-la segundo sua vontade e em benefício de seus próprios interesses.

Embora muitos jovens brilhantes tenham aptidão e interesse pelo estudo das ciências humanas e da literatura, a pressão social os obriga a estudar ciências aplicadas; contudo, se seu talento pudesse ser utilizado na área para a qual têm capacidade e interesse, seria possível obter resultados muito melhores no campo correspondente.

Na realidade, apesar da importância das ciências humanas e de seu grave impacto, a escassez de muçulmanos nesse ramo é extremamente evidente. A carência também é significativa no campo da literatura, isto é, em áreas como contos e crítica literária. Pode-se dizer que praticamente não existe nenhum jovem brilhante nessa área. Embora alguns deles pratiquem a literatura, não recebem as necessárias oportunidades de divulgação como os demais, enquanto os esquerdistas e outros se ajudam e cooperam mutuamente nesse campo.

Informação e pesquisa

Uma necessidade extremamente urgente do movimento islâmico na época contemporânea é estabelecer um banco de dados, ou um centro de informação e pesquisa, capaz de atender às exigências da revolução da informação de nosso tempo. Especialistas devidamente qualificados e treinados deverão ser nomeados para esse centro. A orientação de Allah, o Altíssimo, a esse respeito é: E ninguém poderá informar-te como Allah, o Onisciente (Surata Fátir: 14). Além disso, esse centro deverá ser equipado com os mais modernos equipamentos e recursos humanos, de acordo com as exigências do século XXI.

As fontes e os métodos de coleta de informações, bem como os métodos de armazenamento, classificação e recuperação de dados, também se diversificaram. Tomamos alguma iniciativa para utilizar esses métodos e recursos?

Mesmo deixando de lado os assuntos alheios, sejam eles de amigos ou inimigos, não conhecemos sequer metade das informações a nosso próprio respeito. Entretanto, os inimigos mantêm-se informados sobre tudo a nosso respeito.

Fui a Istambul com alguns irmãos árabes que trabalhavam com banca islâmica. Encontramo-nos com alguns irmãos provenientes da República Turcomena da antiga União Soviética. Eles nos perguntaram: onde está agora a ajuda de vocês para os irmãos de vocês no Turcomenistão e nas outras repúblicas, presos atrás da Cortina de Ferro, que são capazes de trabalhar e agir livremente? Eles agora precisam de todo tipo de ajuda e conhecimento especializado nos campos religioso, cultural, educacional e econômico. Onde estão essa ajuda e esses especialistas? Quem os ajudará?

Assim que os efeitos da glasnost e da perestroika começaram a ser sentidos, as autoridades religiosas cristãs tornaram-se ativas. Elas já haviam preparado todas as informações, dados, estatísticas e mapas assinalados. Consequentemente, começaram imediatamente a distribuir Bíblias e outros livros, além de enviar missionários para todos os lugares. Desde então, nesse curto período, cerca de 2.000 igrejas foram construídas em novos locais, reconstruídas ou reformadas, incluindo igrejas que estavam prestes a ruir. As igrejas e seu pessoal continuam realizando esse trabalho ali. Então, onde está o trabalho islâmico nos territórios muçulmanos?

Perguntei-lhes: o que vocês sabem sobre nossos irmãos que vivem lá? Qual é o número deles, seus países, sua história, seu contexto material e cultural e suas necessidades? Descobri que sabemos muito pouco sobre eles e que nem sequer conhecemos uma instituição islâmica que possua informações suficientes e confiáveis sobre eles, capazes de ser utilizadas.

O movimento islâmico deve ser estruturado em uma linha adequada à época, nos níveis regional e internacional. Para isso, devemos empreender esforços abrangentes e reunir todas as forças dos muçulmanos ao redor do movimento para alcançar o objetivo. Tendo esse objetivo diante de nós, façamos esta oração:

Ó Allah, torna o nosso dia de hoje melhor do que o de ontem e faze com que o dia de amanhã seja melhor do que o de hoje. Derrama a Tua misericórdia sobre todas as nossas ações. Amém!

 

Apêndice: Ibn Taymiyya fatwa

1. injustiça e opressão e dos malfeitores reprimir governamental cargo assumir

Perguntaram ao Shaykh al-Islam Ibn Taymiyya — que Allah tenha misericórdia dele — sobre um homem que havia assumido um cargo público e recebido a responsabilidade por vários feudos, cujos súditos eram obrigados a pagar os impostos estabelecidos segundo as normas do governo. Esse homem empenhava todos os seus esforços para remover dos ombros do povo todo o peso da injustiça e da opressão, considerando que, mesmo que renunciasse, a injustiça permaneceria, se é que não se tornaria ainda pior. Se ele pudesse perdoar metade dos impostos, aliviando o fardo dos súditos, e arrecadar a outra metade para gastá-la exclusivamente no benefício do povo, deveria permanecer no cargo público com a intenção de reduzir a injustiça tanto quanto possível? Ou deveria renunciar, entregando o feudo a outra pessoa, mesmo sabendo que a injustiça não desapareceria e poderia aumentar por causa de sua renúncia? Se ele permanecesse apegado ao cargo público, cometeria pecado? Se não, seria correto dizer-lhe que permanecesse em seu posto? O que seria melhor para ele: permanecer no cargo, tentando eliminar a injustiça, ou renunciar, deixando que a injustiça continuasse e aumentasse? Se os súditos preferissem que esse homem permanecesse no poder por se beneficiarem do fim da opressão que recaía sobre eles, ele deveria permanecer?

O Imam Ibn Taymiyya respondeu: “Todo louvor pertence a Allah. Sim, ele deve permanecer no poder se for um homem justo e continuar tentando remover, tanto quanto possível, o peso da injustiça. Se sua permanência for melhor do que a de qualquer outra pessoa e se for mais benéfico que o feudo permaneça sob seu controle do que seja entregue a outro, ele pode permanecer no cargo público e não cometerá pecado por isso. Se não houver para ele nenhum dever melhor do que esse, permanecer no cargo será preferível a abandoná-lo.”

Se não houver outra pessoa, será dever de alguém assim permanecer nesse cargo. Isso porque estabelecer a justiça por todos os meios possíveis e erradicar essa injustiça é uma obrigação coletiva. Se qualquer pessoa se considerar capaz e não houver outra, deverá cumprir esse dever. Contudo, não se deve exigir daquele que assumir a responsabilidade que elimine uma injustiça que esteja fora de seu alcance.

Não se deve exigir desse homem que revogue os impostos cobrados pelos governantes aos súditos do feudo, pois isso pode estar além de seu poder. Além disso, os fundos exigidos pelos governantes e seus representantes não poderão ser pagos se os impostos não forem arrecadados. Se esse homem não atender a essa exigência, eles entregarão a responsabilidade pelo feudo a outra pessoa. Então essa pessoa continuará praticando injustiça e opressão, ou aumentará sua intensidade. Portanto, é muito melhor pagar parte dos impostos do que permitir que os governantes tenham a oportunidade de arrecadá-los integralmente. Se esse homem se esforçar para ser tão justo quanto possível, será melhor do que os outros, mesmo que cumpra algumas exigências dos perversos para proteger as pessoas de suas injustiças. Se ele arrecadar impostos dos muçulmanos sem cometer ele próprio opressão, será recompensado; e, na situação mencionada acima, mesmo que arrecade impostos, não será punido. Se fizer todo o possível para garantir a justiça, não será castigado nem neste mundo nem na Outra Vida.

Esse homem é como o tutor dos órfãos, o administrador de um waqf, o sócio de um empreendimento comercial ou aquele que assume uma responsabilidade em nome de outros ou em seu lugar. É como alguém que, em nome de seus clientes, entrega parte do capital deles a um governante opressor, se essa for a única maneira de proteger os interesses dos clientes. Nesse caso, ele estará fazendo o que é correto, e não o que é errado. O que ele entrega aos governantes é semelhante aos impostos imobiliários e sobre vendas que se exigem dos coletores de impostos. Com efeito, qualquer pessoa que realize essas transações nesses países, para si mesma ou em nome de outros, deve arrecadar esses impostos e entregá-los às autoridades. Se não os arrecadar, não poderá proteger os interesses daqueles sob sua responsabilidade sem pagar esses impostos. Consequentemente, os interesses daqueles sob sua responsabilidade, e até mesmo os seus próprios, serão prejudicados.

Muitos pensam que não se deve permitir uma situação desse tipo para que os súditos não tenham de suportar nem mesmo uma pequena injustiça. Se o povo aceitar essa opinião, a injustiça e a corrupção certamente aumentarão. Sua situação será como a de viajantes atacados por bandidos. Se os viajantes não acalmarem os bandidos entregando-lhes algum dinheiro, os bandidos os matarão e roubarão todo o seu dinheiro e seus bens. Se alguém disser aos viajantes que é injusto dar dinheiro aos bandidos, estará aconselhando-os a não entregar essa pequena quantia aos ladrões. Porém, se seguirem esse conselho, perderão não apenas essa pequena quantia, mas todo o seu dinheiro e seus bens. Nenhuma pessoa dotada de bom senso poderia dar tal conselho, quanto mais alguém que se preocupe com a religião. O Todo-Poderoso Allah enviou Seu Mensageiro — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — para promover, tanto quanto possível, o bem-estar das pessoas, conter os perversos e erradicar o mal.

Se um homem justo que assume um cargo público sob um governante opressor conseguir proteger as pessoas de um grande dano arrecadando o mínimo possível de impostos, mas, caso abandone o cargo, não puder fazer mais nada e outra pessoa vier em seu lugar para arrecadar do povo todos os impostos, sem poder protegê-lo de qualquer dano, então esse homem que assumiu o cargo público com uma boa intenção será recompensado por seu trabalho e não será punido por isso nem neste mundo nem na Outra Vida.

Esse tipo de homem é como o tutor de um órfão e o administrador de um waqf, que cumprem seus deveres mesmo pagando os impostos injustamente impostos pelo governo. Se não o fizerem e abandonarem sua responsabilidade, alguém poderá ocupar seu lugar e aumentar a intensidade da injustiça. Portanto, é permitido que homens justos permaneçam em cargos públicos, e não cometerão pecado ao pagar esse tipo de imposto ao governante opressor. Pelo contrário, permanecer em seus cargos é um dever que devem cumprir.

Este princípio também se aplica ao soldado encarregado de cobrar impostos de um jagir. Embora cobre menos impostos do povo, ele não entrega tudo ao governo. Isso porque lhe foi ordenado comprar, com esse dinheiro, armas, cavalos e outros equipamentos. Um soldado bem equipado também tem uma boa oportunidade de servir aos muçulmanos na guerra. Se alguém lhe disser que ele não tem o direito de cobrar impostos e que deveria abandonar esse jagir, estará falando por ignorância acerca da religião. Pois, se ele abandonar a administração do seu jagir, poderá ser substituído por alguém que aumentará o grau de opressão e nada fará pelo bem-estar dos muçulmanos. Até mesmo a presença de soldados turcos, em vez de soldados árabes, é preferível, pois eles são melhores que os demais soldados: interessam-se pela justiça para com o povo e empenham-se em eliminar, tanto quanto possível, a injustiça e a corrupção. Esse soldado é benéfico para os muçulmanos. Portanto, entregar o jagir a outra pessoa em seu lugar pode ser menos útil e mais injusto.

Qualquer funcionário ou servidor desse tipo, justo e empenhado no bem-estar público, será recompensado por suas boas ações e não será punido por não poder realizar alguma boa ação que esteja além de sua capacidade. Portanto, não lhes será exigida prestação de contas pelo que arrecadam e gastam, caso não possam fazer mais nada. Pois, se não arrecadarem os impostos e não os empregarem no bem-estar público, isso poderá causar um prejuízo maior. [Shaykh al- Islam Ibn Taymiyya ‘ Fatwas’, 3º volume, páginas 356––360।]

2. na mesma situação: conflito entre o bem e o mal

Em um capítulo sobre o conflito entre o bem e o mal, Shaykh al-Islam Ibn Taymiyya diz: uma vez que está comprovado que o bem traz benefício, não praticar uma boa ação é considerado injustiça, e a injustiça é prejudicial. Mesmo em algo indesejável pode haver algum benefício. Além disso, quando não for possível realizar conjuntamente duas boas ações, deve-se dar prioridade à melhor delas. Se não for possível evitar duas coisas más, pode-se escolher a menos prejudicial. Do mesmo modo, quando houver uma situação em que seja necessário aceitar ou rejeitar conjuntamente uma coisa boa e uma coisa má, deve-se aceitar ou rejeitar levando em consideração o benefício maior. Ou seja, deve-se aceitar a coisa boa se ela trouxer maior benefício; ou deve-se aceitar a coisa má se isso permitir evitar um dano maior.

O primeiro tipo de conflito é semelhante à oposição entre uma ação obrigatória (wajib) e uma ação recomendável (mustahabb), como dar prioridade ao pagamento de uma dívida em vez da sadaqa. Ou ainda, entre uma obrigação fard obrigatória para todos os muçulmanos e uma obrigação fard que cabe a qualquer muçulmano cumprir em nome de todos os muçulmanos: qual delas merece prioridade?

A segunda categoria de conflito é semelhante à situação em que se dá prioridade ao gasto com a esposa e a família de alguém em vez de gastar recursos com o jihad. Aqui, o jihad não é uma obrigação individual. Por outro lado, deve-se dar prioridade à ajuda financeira aos pais em vez do jihad. A esse respeito, um hadith autêntico relata que perguntaram ao Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, qual ação era superior. Ele respondeu: realizar a oração no horário, depois tratar bem os pais e, em seguida, o jihad no caminho de Allah.

Além disso, o jihad terá prioridade sobre o hajj quando estiver no nível de uma obrigação individual, embora o hajj seja uma ação fard. Da mesma forma, entre duas ações permitidas, a prioridade deve ser determinada de acordo com o Alcorão e a Sunnah.

A recitação do Alcorão merece prioridade sobre o dhikr de Allah quando, em ambos, houver uso igual do coração e da língua. Por outro lado, a oração terá prioridade sobre os dois se nela houver a participação do coração. Caso contrário, deve-se dar preferência ao dhikr em vez da recitação do Alcorão se essa recitação não envolver a mente. Naturalmente, este é um assunto que requer uma discussão ampla de fiqh.

O terceiro tipo de conflito é aquele entre viajar sem um mahram, no caso de uma mulher, e permanecer em Dar al-Harb. Por exemplo, Hazrat Umm Kulthum permaneceu em Dar al-Harb. Sobre isso, foi revelado: Ó crentes! Quando as mulheres muçulmanas emigrarem para vós, ponde-as à prova (Surata Al-Mumtahanah: 10)।

Na jurisprudência do jihad, embora seja haram matar mulheres e crianças civis, elas podem ser mortas quando necessário se estiverem envolvidas em algum tipo de combate, por exemplo, mediante o uso de armas semelhantes a mísseis ou em incursões noturnas. A Sunnah menciona, a esse respeito, ataques durante o cerco de Taife e o lançamento de pedras com armas semelhantes a mísseis. Também foram narradas incursões noturnas contra os incrédulos que vivem em países muçulmanos. O objetivo desta decisão é matar os envolvidos para evitar a fitna; de outro modo, eles não poderiam ser mortos.

da questão do tatarrus descrita pelos faqihs [Tatarrus é a situação em que os inimigos seus próprios mulheres e crianças ou muçulmanos prisioneiros de guerra humanos como escudos a título de utilizá-los fazem। Seu objetivo é as forças muçulmanas do ataque a partir de impedir de serem obrigadas a fazê-lo।]; essa questão também é semelhante. A luta contra a semente de rebelião que os incrédulos semeiam é o jihad. Essa guerra deve ser travada mesmo aceitando o aspecto relativamente menos maléfico. Portanto, os faqihs concordam que, se for possível evitar o dano aos muçulmanos apenas matando os participantes utilizados como escudos, eles podem ser mortos. Naturalmente, também há divergência quanto a isso.

Outro tipo de conflito ocorre quando um muçulmano, em estado de extrema fome, é obrigado a comer a carne de um animal morto. Nesse caso, somente por meio desse ato mau pode ser praticado um ato bom, como salvar a vida. De modo semelhante, surge a questão de saber se é permitido tomar um medicamento nocivo quando seu dano é maior que seu benefício na cura da doença, sobretudo quando, embora existam outros medicamentos como alternativa, a cura com eles seja incerta. O mesmo se aplica ao consumo de álcool como medicamento.

Um mal pode ser tolerado em dois casos: se, por meio disso, for possível evitar um mal mais grave que não pode ser afastado de outra maneira, e se disso resultar um benefício que não pode ser deixado de lado nem alcançado de outra forma. Um interesse ou benefício pode ser abandonado em dois casos: se isso puder causar dano a um interesse maior ou se houver o risco de um dano mais amplo. Essa questão está relacionada ao equilíbrio religioso.

A dispensa de um dever por causa de algum dano na vida mundana, ou a aceitação de algo ilícito na esperança de um benefício na vida terrena — como a dispensa do jejum por causa de uma viagem, a permissão, durante o hajj, de algumas ações proibidas devido a uma doença e a dispensa de algumas condições fundamentais da oração por motivo de enfermidade — está abrangida pela flexibilização religiosa e pela redução da severidade. Pode haver divergências entre as diferentes escolas jurídicas a esse respeito. Mas não pode haver motivo para divergência nos casos mencionados anteriormente, pelo menos quanto aos detalhes segundo o juízo comum. Isso também deve ser determinado à luz da razão. A propósito, pode-se mencionar um provérbio: sábio não é aquele que consegue distinguir o bem do mal, mas aquele que consegue dizer qual das duas coisas boas é melhor e qual dos dois males é menos grave.

Por exemplo, para o povo é uma verdade certa que a chuva, durante a seca, é uma misericórdia, embora seja o governante tirânico quem obtenha a maior parte da colheita com ela. Mas, se não chover, todos serão prejudicados. O povo prefere ter um governante tirânico a não ter governante algum. Um sábio disse: é melhor viver sessenta anos sob o governo de um governante tirânico do que passar uma noite sem governo.

Além disso, um governante pode ser responsabilizado pela tirania e pela opressão que pratica, bem como pela violação dos direitos das pessoas. Porém, se um governante ou funcionário for incapaz de cumprir seus deveres, mas se mantiver afastado de todas as ações ilícitas e tentar evitar qualquer ato errado — enquanto outros praticam deliberadamente tais atos —, ele deve receber uma função governamental. Isso porque, entre as funções governamentais, pode haver deveres que precisam ser cumpridos, como o jihad contra o inimigo, a distribuição do fay (bens obtidos sem guerra), a aplicação dos hudud (penas capitais) e a garantia da segurança. Essa função precisa ser preenchida. Caso contrário, ela será confiada a alguém que não é qualificado para ela, e o referido funcionário não poderá impedir isso. Nesse caso, sua ação para cumprir o dever será considerada necessária. Portanto, o dano que dela resultar será aceitável se for menor que o benefício desse dever. Além disso, se uma pessoa desonesta tiver ocupado um cargo governamental e outra pessoa assumir esse cargo para reduzir a injustiça e a opressão, aliviando a maior parte do fardo e aceitando uma pequena parcela dele, então, em razão de sua intenção, a ação dessa pessoa será considerada boa; e, se ao realizar seu trabalho ela acabar praticando algumas ações más para evitar um mal maior, isso também será considerado uma boa ação.

Este é um caso em que a intenção é o fator determinante. Se um governante tirânico exigir que uma pessoa entregue determinada quantia em dinheiro, e um intermediário, com o objetivo de protegê-la da injustiça, cobrar dela uma parte da quantia e entregá-la ao governante cruel, salvando-a assim de sua ira, esse intermediário terá praticado uma boa ação. Mas, se fizer algo para apoiar o tirano, cometerá uma ação má.

Entretanto, na maioria dos casos, observam-se falhas na relação entre a intenção e a ação. Se alguém agir deliberadamente com a intenção de cometer uma injustiça ou abandonar um dever, deve-se considerar que há uma falha em sua intenção.

Além disso, embora assumir um cargo governamental possa ser permitido, recomendável ou obrigatório, a pessoa nomeada para esse cargo pode ter outras considerações ainda mais necessárias ou recomendáveis. Isso significa que, às vezes por obrigação e outras vezes por escolha, ela terá de dar prioridade à melhor entre duas coisas boas.

O assunto de Hazrat Yusuf (a.s.) ter pedido ao rei do Egito que lhe confiasse a administração dos celeiros do país enquadra-se nesta classificação. Entretanto, o rei e seu povo eram incrédulos. Está mencionado no Alcorão: “E, certamente, Yusuf já havia chegado a vós, anteriormente, com evidências claras; mas permanecestes sempre em dúvida acerca daquilo que ele vos havia trazido(Surata Al Mu’’min: 34).” Sobre o papel de Hazrat Yusuf (a.s.) durante seu período de encarceramento, está mencionado no Alcorão: “Ó vós dois companheiros de prisão! São melhores muitos deuses diversos ou Allah, o Único, o Todo-Poderoso? Vós não adorais, além de Allah, senão alguns nomes irreais que vós e vossos antepassados haveis estabelecido(Surata Yusuf: 39–-40)।

Como eles eram incrédulos, havia um método e uma tradição estabelecidos para arrecadar dinheiro deles e gastá-lo com a corte real, os soldados e os súditos. Esse método e essa tradição não tinham qualquer compatibilidade com as leis e a justiça dos profetas e mensageiros. Portanto, Yusuf (que a paz esteja com ele) não pôde fazer tudo o que desejava em conformidade com a lei de Allah. Mas o que ele pôde fazer foi estabelecer a justiça e as ações virtuosas, além de obter, por meio de sua autoridade, benefícios para os crentes de sua família, algo que ele não poderia ter conseguido de outra maneira. Tudo isso está abrangido pelas palavras de Allah: “Obedecei, portanto, a Allah e temei-O tanto quanto puderdes” ((Surata At-Taghabun: 16)।

Se dois deveres surgirem ao mesmo tempo, mas apenas um puder ser cumprido, e for necessário escolher o dever mais importante, nesse caso o outro deixa de ser um dever. A pessoa que abandona essa tarefa e cumpre a mais importante não pode ser acusada de negligenciar suas responsabilidades.

Da mesma forma, se duas ações proibidas se apresentarem, deve-se praticar a menos grave para evitar a mais grave. Nesse caso, essa ação, na realidade, já não será considerada proibida.

Contudo, se a ação não for realizada em nenhum dos dois casos, no primeiro ela será considerada negligência do dever, e no segundo se entenderá que uma ação proibida foi cometida. A esse respeito, diz-se que há uma justificativa para deixar de cumprir um dever, enquanto a ação má é praticada em benefício de um bem maior, por necessidade ou para evitar um dano mais grave.

O campo dos conflitos de interesses é extremamente amplo, especialmente porque seus exemplos são raros nos períodos da Sunna e do Califado. Por isso, as questões conflitantes assumem grandes proporções. Quanto mais raros são os exemplos tradicionais, mais amplo se torna o conflito, dando origem a divergências dentro da Ummah. Quando o bem e o mal ficam presos em um enigma, surge uma tamanha dificuldade de compreensão que algumas pessoas escolhem algo extremamente mau, julgando-o bom. Outros consideram uma coisa prejudicial e escolhem outra da qual não se pode esperar o bem desejado. Naturalmente, há também muitas pessoas que refletem profundamente sobre ambas.

Uma pessoa sábia deve considerar essas questões com cautela. Pois, como já disse anteriormente, em vez de permitir ou proibir algo de maneira categórica, talvez tenha de ser flexível ao tomar decisões sobre determinadas questões. Por exemplo, talvez tenha de ordenar uma ação que envolva o risco de um dano grave; contudo, não se deve ordenar essa ação com o objetivo de evitar um dano menor. Por exemplo, ninguém pode entregar um culpado às mãos de um governante tirano que lhe imponha uma punição mais severa do que o seu crime, nem proibir uma ação má à qual também esteja associado um aspecto positivo, quando o bem supera o mal. Nesse caso, ninguém deve emitir uma proibição que exija abandonar aquilo que Allah, o Altíssimo, e Seu Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) ordenaram. A ação ordenada por Allah e por Seu Mensageiro é mais benéfica do que evitar esses males. [Xeique do Islã Ibn Taymiyyah ‘Fatawa’, 20 º volume, páginas 48–a।]

Terminologia

Ahl al- Dhimma: literalmente, povo sob um pacto de proteção. Cidadãos não muçulmanos, como judeus, cristãos e sabeus, sob um governo muçulmano, que desfrutam de segurança para suas vidas e seus bens em um país muçulmano mediante o pagamento do imposto jizya.

Ahl al- Kitāb: literalmente, povo que segue uma Escritura — judeus e cristãos.

Awqāf: trust religioso ou instituição de serviço público.

Dār al- Ḥarb: território em guerra. O país onde a paz não foi estabelecida entre muçulmanos e infiéis.

Dār al- Islām: Estado islâmico. O território onde o Islã e a lei islâmica estão estabelecidos.

Farḍ: dever obrigatório. Adoração e devoção obrigatórias.

Fatwā:opinião jurídica islâmica.

Fiqh: Em sentido literal, o esboço do conhecimento. Em sentido técnico, as disposições da lei islâmica.

Halal e haram: respectivamente, as coisas lícitas e ilícitas no Islã.

Hijra: migração dos muçulmanos para Medina.

Jahiliyya: era pré-islâmica e os costumes pagãos daquela era.

Janabah: impureza que torna obrigatório o ghusl.

Jihad: luta no caminho de Allah.

Masale Mussala: interesse público.

Nafila: nafl, adoração voluntária.

Ribat: proteção dos muçulmanos contra os incrédulos.

Sadaqa: esmola além do zakat.

Tahlil: pronúncia da fórmula «La ilaha illallah». Ou seja, não há divindade além de Allah.

Takbir: pronúncia da expressão «Allahu akbar». Ou seja, Allah é o Maior.

Takfir: considerar alguém um incrédulo.

Tasbih: pronúncia de «Subhanallah». Ou seja, Allah é o detentor de toda a glória.

Usul al- fiqh: princípios da ciência jurídica.

………. Fim ……….