Palavras do tradutor

A obra árabe escrita pelo Allama Yusuf al-Qaradawi, ‘Al–Halal wa Haram fi al-Islam’ — tradução bengali intitulada ‘As normas do halal e do haram no Islã’ — aos estimados leitores de língua bengali, sinto-me sinceramente grato ao Deus Altíssimo. Anteriormente, Allah Todo-Poderoso concedeu a este insignificante servo a oportunidade de apresentar a tradução bengali dos dois grandes volumes de ‘Fiqh al-Zakat’, escrito pelo Allama al-Qaradawi. Não conheço palavras suficientes para expressar minha gratidão por isso.

Na verdade, Yusuf al-Qaradawi é um dos maiores juristas islâmicos do século atual — e não sou apenas eu quem afirma isso; muitos célebres sábios de nossa época o reconheceram francamente. Isso é inequivocamente comprovado por todas as suas grandes e importantes obras e também foi confirmado aos leitores pelos dois volumes de ‘As normas do zakat no Islã’, publicados em bengali, e por minha obra ‘O ideal de uma vida elevada’, baseada em sua obra imortal ‘Al Iman wal Hayat’.

A presente obra do autor, além de abordar o tema de forma abrangente, não encontra equivalente em árabe, urdu ou qualquer outra língua do mundo. O próprio autor afirmou: “No tema do halal e do haram, esta obra é a mais importante contribuição da literatura islâmica mundial.” Todos os leitores reconhecerão que essa afirmação do autor é cem por cento verdadeira. Várias partes do tema em questão encontram-se dispersas nos livros de fiqh, mas, como foram escritas segundo métodos antigos, é difícil para as pessoas da época moderna extrair delas o conteúdo pertinente. Pela primeira vez, todos os assuntos relacionados foram reunidos sob um título específico, com plena abrangência, coerência lógica e métodos modernos de pesquisa e análise. Assim, a obra conquistou o status de uma “enciclopédia” dos importantes temas islâmicos. É por isso que recebeu especial apreço dos sábios de todo o mundo. A publicação de numerosas edições da obra original em árabe, bem como de suas traduções para o turco e o inglês, e a enorme procura por elas comprovam isso sem sombra de dúvida.

A importância dos temas discutidos nesta obra é indiscutível. Juntamente com o tawhid e a risala, as questões do halal e do haram também possuem igual importância fundamental. Sem distinguir entre halal e haram, nem a fé nem a aceitação do Islã podem ser válidas, e nenhum ato de adoração pode ser aceito por Allah nem sequer em mínima medida. Creio que, se não se observar a distinção entre halal e haram, a humanidade do ser humano não poderá ser preservada; ao contrário, sua queda ao nível dos animais será inevitável. O autor apresentou uma discussão completa, com plena abrangência, sobre todos os aspectos e ramificações relacionados ao tema, fundamentada em provas e argumentos claros e irrefutáveis.

Os temas discutidos nesta obra são tão importantes que, atualmente, estão sendo realizadas amplas pesquisas sobre eles em quase todos os centros de estudos islâmicos do mundo. Em uma palavra, pode-se dizer que eles constituem as indagações da mente moderna, e que esta obra é uma resposta clara e abrangente precisamente a essas indagações modernas. Muitos outros pensadores islâmicos também pesquisaram esses temas, mas não seria exagero dizer que a maneira científica pela qual o autor desta obra apresentou os resultados de uma pesquisa ampla, de alto nível e fundamentada em teorias e dados é sem precedente. Ele manteve pleno equilíbrio ao pensar, ponderar e estabelecer prioridades, algo que não está ao alcance de muitos.

Foi justamente tendo em vista o alto nível desta obra que a traduzi. Posso afirmar que, entre as etapas do cumprimento da difícil responsabilidade que me foi confiada de apresentar à sociedade instruída, por meio da língua bengali, o ideal completo, abrangente e integral do Dīn do Islã, esta obra representa uma grande contribuição. A Fundação Islâmica de Bangladesh também está cumprindo essa responsabilidade ao publicar esta grandiosa obra. Naturalmente, não é condição necessária que o tradutor concorde plenamente com todas as conclusões adotadas nesta obra.

Muhammad Abdur Rahim

1º de maio de 1984

بِسْمِ اللَّهِ الرَّحْمَٰنِ الرَّحِيمِ

Prefácio do autor

Foi elaborado um plano no Centro de Cultura Islâmica situado na Universidade de Jāmi‘ al-Azhar, no Egito, com o objetivo de compor obras sobre diversos temas do Islã. Esse plano incluía, em particular, a apresentação de uma explicação ampla e integral dos ideais e ensinamentos do Islã aos muçulmanos e não muçulmanos que vivem na Europa e na América. Foram as próprias autoridades de Jāmi‘ al-Azhar que me convidaram a participar efetivamente desse grandioso plano.

Não há dúvida de que esse plano relativo à composição de obras é extremamente valioso e, do ponto de vista ideológico, de importância incomensurável. Já era necessário trabalhar, desde muito tempo, em um plano desse tipo. Com efeito, as populações muçulmanas que vivem na Europa e na América conhecem muito pouco sobre o Islã. E até mesmo esse pouco conhecimento está atormentado por diversas distorções e dúvidas. Por volta dessa mesma época, meu amigo azhari percorreu a América e escreveu-me que um grande número de muçulmanos residentes nesses países administrava negócios de bebidas alcoólicas e bares, obtendo enormes lucros. Contudo, eles não têm a mínima consciência de que esse trabalho é inteiramente haram e constitui um grave pecado para os muçulmanos.

Ele também escreveu que os homens muçulmanos estão tomando como esposas as filhas de cristãos e judeus — e até mesmo de ateus, pagãos e idólatras (Heathen, Idolater) —, mas não estão dispostos a casar-se com mulheres muçulmanas.

E, quando esta é a situação dos muçulmanos, é desnecessário dizer qual pode ser a situação dos não muçulmanos. Eles estão vendo apenas uma forma externa e horrenda do Islã. Não têm oportunidade alguma de conhecer a verdadeira realidade e a beleza interior do Islã. Consequentemente, perderam por completo todo o respeito e devoção pelo Islã e pelos muçulmanos (aqueles que se dizem muçulmanos). Em particular, os missionários cristãos, inimigos do Islã, e as forças imperialistas invejosas vêm apresentando diante deles, desde tempos imemoriais, esta imagem distorcida do Islã. Por isso, vêm tramando dia e noite conspirações extremamente vis contra ele desde tempos imemoriais. Entretanto, os pensadores muçulmanos do mundo permanecem completamente inconscientes e desinformados a esse respeito.

Portanto, se agora a consciência de nossos pensadores estiver desperta e um plano para esta nobre atividade tiver sido elaborado, isso será extremamente auspicioso e oportuno, algo que não precisa ser explicado. Também não há dúvida de que é dever de todo muçulmano oferecer toda espécie de ajuda e cooperação para a execução desse plano e para esta tão valiosa tarefa da da‘wah islâmica. Não considero que essa tarefa deva estar centrada somente na ‘Jami Azhar’ (Universidade de Al-Azhar); creio que é desejável que ela se estenda também a todo o mundo muçulmano além dela.

O referido centro de cultura islâmica pediu ao autor desta obra que escrevesse um livro. Deu-lhe o título: ‘Al-Halal wal-Haram fil-Islam’ — As normas do halal e do haram no Islã.

Ao mesmo tempo, foi-lhe dito que a obra deveria ser escrita em uma linguagem de fácil compreensão e conter uma discussão detalhada, apresentando uma análise comparativa com as perspectivas de outras religiões e culturas do mundo.

À primeira vista, embora o tema do ‘halal e haram’ pareça simples, na realidade é extremamente complexo. Isso se deve especialmente ao fato de que, até agora, nenhuma obra sobre esse tema foi escrita na literatura religiosa, nem nos tempos antigos nem nos modernos. Embora os materiais relacionados ao tema estejam dispersos nos extensos capítulos do tafsir, do hadith e do fiqh islâmico, e os leitores entrem em contato com eles em diferentes momentos durante seus estudos, reunir todos esses materiais em uma única obra não é de modo algum uma tarefa fácil.

Além disso, o tema é tal que o autor precisa chegar a uma decisão final e própria sobre muitas questões a respeito das quais havia considerável divergência entre os sábios dos tempos antigos. Ademais, as opiniões dos especialistas em hadith sobre essas questões tampouco são inteiramente unas e uniformes. E, mesmo quando se precisa dar preferência a uma única opinião entre as várias existentes acerca do halal e do haram, é necessário proceder a uma discussão e análise detalhadas. Não só isso: ao tratar desse nível de questões, o estudioso precisa dedicar-se com absoluta sinceridade à busca da verdade, e, para isso, torna-se indispensável empenhar-se com todas as suas forças.

Os escritores, pesquisadores e autores contemporâneos sobre o Islã podem ser divididos em dois grupos:

Pode-se dizer que, no que diz respeito a uma parte dessas pessoas, seus olhos ficaram ofuscados pelo brilho da civilização e da cultura ocidentais. Não apenas isso: elas consideraram a civilização e a cultura ocidentais como uma grande divindade. Prestaram-lhe plena obediência e entregaram-se à sua adoração, culto e veneração. Diante dessa divindade, oferecem devotadamente objetos de culto, presentes e oferendas. Diante dela, seus olhares permanecem amedrontados, aterrorizados e submissos. Passaram a considerar tudo o que emana da civilização e da cultura ocidentais como verdade última e algo a ser seguido eternamente. Não estão de modo algum dispostas a discordar dela, adotar uma opinião diferente ou refutar uma opinião contrária. Quando encontram alguma concordância entre qualquer assunto e essa civilização, elevam gritos de alegria, como num sonho jubiloso. E sempre que percebem alguma contradição, empenham-se de uma forma ou de outra em estabelecer harmonia ou conciliação; ou começam a falar em tom defensivo em nome do Islã; ou apresentam uma interpretação que distorce a perspectiva islâmica e não tem absolutamente nenhuma relação com o Islã. Com isso, torna-se evidente a ideia de que o Islã nada teria a dizer contra a civilização, a cultura e a filosofia ocidentais. A partir de suas afirmações sobre retratos, imagens, estátuas, esculturas de seres vivos, negócios baseados em juros, encontros privados e íntimos com mulheres não aparentadas, a rebelião das mulheres contra sua feminilidade e o uso de adornos ou joias de ouro e prata pelos homens, pude perceber claramente essa atitude. No caso da permissão existente no Islã para o divórcio e para o casamento simultâneo com mais de uma esposa, sua atitude não é nem um pouco diferente. Parece que acreditam que aquilo que o Ocidente declarou halal deve necessariamente ser halal, e aquilo que declarou haram deve necessariamente ser haram. Entretanto, o Islã é uma visão de vida independente; é a lei revelada pelo Deus Altíssimo, e é desejável que a lei de Deus prevaleça acima de tudo e seja vitoriosa sobre tudo. Eles se esqueceram completamente de que é preciso seguir somente o Islã, e que ele não pode seguir ninguém nem qualquer outra coisa. Somente Deus é o Ma‘bud, e todos os demais são servos. O Ma‘bud jamais pode aceitar seguir o servo ou permanecer subordinado a ele. Por que o Criador se submeteria à criação? O próprio Deus disse:

………… (árabe)…………..

A verdadeira realidade — se o Deus Altíssimo seguisse os caprichos das pessoas, então os céus, a Terra e tudo o que neles existe seriam completamente lançados numa terrível desordem.

………… (árabe)…………..

Dize: entre aqueles que associais a Deus, há alguém que guie para a verdade suprema? E dize: aquele que guia para a verdade suprema tem mais direito de ser seguido, ou aquele que não guia absolutamente para caminho algum e, ao contrário, precisa ser guiado? Qual dos dois tem maior direito a esse respeito?

Isso diz respeito a uma classe de autores e escritores de obras. Quanto à segunda classe, ela permanece firme numa opinião específica acerca do halal e do haram. Talvez essas pessoas tenham se apoiado no texto de algum livro ou tenham imaginado que aquilo fosse o Islã. Por isso, não estão dispostas a afastar-se sequer um pouco de sua convicção arraigada. Recusam-se completamente até mesmo a examinar e avaliar as provas e os argumentos da Sharia sobre essa questão. No entanto, seria possível chegar à verdade por meio do exame comparativo, da discussão e da análise das provas de sua própria opinião e das opiniões divergentes.

Se perguntarem às pessoas dessa classe qual é sua opinião sobre instrumentos musicais, música, o jogo de xadrez, a educação das mulheres, deixar descobertos o rosto e os braços das moças, entre outras coisas, elas responderão ou escreverão: ‘Haram’. Nesse caso, também se esqueceram de que papel os sábios dos tempos antigos desempenhavam e que maneira ou estilo de falar adotavam. Pois, quando não se sabia de maneira definitiva e incontestável que determinada coisa ou ação era haram, eles jamais a chamavam de haram. Pelo contrário, diziam: ‘Eu não gosto disso’ ou ‘Eu detesto isso’, e assim por diante. Diante disso, decidi não me incluir especificamente em nenhuma dessas duas classes. Minha religião não me permite ser servo do Ocidente nem seu seguidor cego. Afinal, reconheci somente o Deus Altíssimo como meu Senhor, aceitei o Islã como o código completo da minha vida e acreditei que Muhammad, que Deus o abençoe e lhe conceda paz, é o último Mensageiro de Deus.

Em segundo lugar, como minha razão e meu discernimento ainda estão despertos e conscientes, não posso reconhecer uma única escola jurídica como definitiva em todas as questões. Pois, assim como ela pode estar correta, também não está completamente livre da possibilidade de erro. O Imam Ibn al-Jawzi disse que o seguidor cego depende de uma base não confiável. Com isso, a razão e o discernimento são mantidos completamente inúteis. A razão, o discernimento e a capacidade de refletir e ponderar são uma nobre qualidade concedida por Deus ao ser humano. Quando se adota o princípio do taqlid, ou seguimento cego, a pessoa priva a si mesma de todos os benefícios dessa nobre qualidade. Se alguém que tem nas mãos uma tocha acesa a apagar e começar a caminhar no escuro, esse comportamento ridículo jamais poderá ser considerado razoável.

Por isso, não me vinculei a nenhum grupo específico de madhhab. Pois, em minha opinião, a verdade real não se limita a uma única opinião de madhhab. Os imames desses madhhabs correntes no mundo jamais reivindicaram ser infalíveis e isentos de pecado. Na realidade, eram mujtahids que se empenhavam ao máximo na busca da verdade. Mesmo que cometessem um erro, receberiam uma recompensa; e, se fossem capazes de expressar uma opinião correta de ijtihad, receberiam o dobro da recompensa. Com efeito, esta é a dignidade reconhecida da busca sincera e desinteressada da verdade nas ciências e no conhecimento islâmicos.

O Imam Malik (que Allah tenha misericórdia dele) disse:

………… (árabe)…………..

A condição de todos os seres humanos, exceto o nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), é que algumas de suas palavras podem ser aceitas e outras, rejeitadas.

O Imam Shafi’i (que Allah tenha misericórdia dele) disse:

………… (árabe)…………..

Minha opinião é correta, mas pode estar errada. E as opiniões dos outros, além da minha, são erradas, mas podem estar corretas.

Para um muçulmano instruído, que possui a capacidade e os meios para comparar e analisar diferentes opiniões no âmbito do conhecimento e dar preferência a uma delas, não pode ser de modo algum recomendável permanecer preso a um madhhab específico entre os madhhabs ou ser um seguidor cego da opinião de algum especialista em fiqh. Pelo contrário, ele deve adotar o princípio de seguir com base nas provas e nos argumentos. Então, deve seguir a prova que for correta e cujo fundamento for incontestável. Já aquela cuja cadeia de transmissão for fraca e cuja força probatória não estiver comprovada será facilmente abandonada. Portanto, se uma opinião desse tipo tiver sido adotada, ela também deverá necessariamente ser abandonada. Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) disse como máxima:

………… (árabe)…………..

Não tente reconhecer e conhecer a verdade observando as pessoas. Ao contrário, esforce-se para conhecer e reconhecer a verdade como verdade e, com base nela, procure as pessoas que a sustentam.

Esforcei-me ao máximo para cumprir as orientações do Conselho Cultural de Jame Azhar. Tentei examinar cada questão com base nas provas e, por meio da comparação, dar preferência a uma opinião considerando a causa fundamental. Nesta etapa, utilizei plenamente as reflexões e os conhecimentos e informações da era moderna. Em todos os aspectos, encontrei a perspectiva do Islã luminosa e fundamentada em argumentos e provas irrefutáveis. E isso é natural, pois o Islã é a religião de toda a humanidade. O próprio Allah disse:

………… (árabe)…………..

A cor de Allah. E que cor poderia ser melhor do que a cor de Allah?

A questão do halal e do haram é eterna. Desde os tempos antigos, essa questão tem se mostrado extremamente importante na vida de todas as nações. Contudo, não se pode negar que existem divergências quanto à extensão e à natureza do haram. Naturalmente, suas causas também são diferentes. A perspectiva sobre essa questão está profundamente relacionada às crenças fundamentais e às tradições culturais e costumes seculares de cada nação.

Mais tarde, as grandes religiões celestiais apresentaram as disposições de suas leis religiosas. E nelas, a questão do halal e do haram certamente estava presente. Depois que se passou a crer na religião, a questão deixou de ser meramente um costume, uma prática de um grupo ou uma tradição. Então, elevou-se ao nível de um ideal humano. Entretanto, em muitos aspectos da determinação do halal e do haram, refletiram-se a visão e as tendências da sociedade contemporânea. Com a mudança das circunstâncias, também ocorreram mudanças no halal e no haram. Não se pôde negar a influência da passagem do tempo. A título de exemplo, pode-se dizer que, na sociedade dos judeus, muitos atos haram eram temporários. Por terem transgredido esses limites do haram, Allah castigou os Filhos de Israel, embora esse haram não fosse uma questão eterna. As palavras que Jesus (que a paz esteja com ele) dirigiu aos Filhos de Israel foram citadas no Alcorão nestes termos:

………… (árabe)…………..

Aquele que confirma a veracidade da Torá anterior a mim e tornarei lícitas para vós algumas coisas que vos haviam sido proibidas.

Depois, quando a religião do Islã foi revelada, a humanidade havia alcançado a perfeição e se tornara apta a receber a última contribuição da profecia e da missão apostólica. Então Allah, o Altíssimo, revelou as normas eternas e permanentes da última sharia do Islã. Surata Al-–Mā’idah Após mencionar vários alimentos proibidos nos versículos, Allah, o Altíssimo, declarou precisamente isto com as seguintes palavras:

………… (árabe)…………..

Hoje, completei para vós a vossa religião, concluí e consumai para convosco a Minha graça, e escolhi para vós o Islã como religião.

Na realidade, a concepção do lícito e do ilícito no Islã é extremamente simples, clara e evidente. Este assunto também faz parte do encargo da confiança que os céus e a Terra declararam ser incapazes de carregar e recusaram receber de Allah. Pois o ser humano o aceitou voluntariamente sobre os próprios ombros. E esse encargo consiste em cumprir as leis e normas concedidas por Allah e carregar a responsabilidade de representar Allah na Terra. Trata-se de uma responsabilidade difícil e pesada. Com base na aceitação dessa responsabilidade, o ser humano receberá recompensa ou libertação no Dia da Ressurreição. Para que o ser humano pudesse carregar devidamente esse encargo e fosse capaz de cumprir as responsabilidades a ele relacionadas, Allah, o Altíssimo, concedeu-lhe consciência, razão e força de vontade, enviou profetas e mensageiros e revelou Seus grandes Livros como sistemas de vida. Nessas circunstâncias, o ser humano não tem o direito de perguntar por que foram estabelecidas para ele normas sobre o lícito e o ilícito, ou por que não é deixado livre e sem rédeas. Na realidade, isto é uma consequência do sistema de prova estabelecido por Allah. Ele foi imposto somente ao ser humano. Entre as inúmeras criaturas de Allah, apenas a humanidade foi escolhida e selecionada para isso. Pois o ser humano não é uma mera ‘alma’, como os anjos, nem é inteiramente constituído de desejos e paixões, como os animais. O ser humano é a combinação dessas duas coisas: uma criação extremamente equilibrada. Ao elevar essa natureza integrada, o ser humano pode alcançar a dignidade dos anjos e tornar-se ainda melhor e mais elevado do que eles. Ao mesmo tempo, pode afundar no mais baixo abismo da decadência e chegar a uma condição igual à dos animais, ou ainda mais baixa e inferior.

Sob outro ponto de vista, a questão do lícito e do ilícito está sempre em movimento no firmamento das normas da sharia islâmica. Ela se fundamenta na promoção do bem-estar humano e na eliminação do dano e da desventura. Seu objetivo é tornar a vida humana correta, bela e mais fácil. Assim como essas normas impedem, por um lado, todas as calamidades, por outro ativam todo o bem. A promoção do bem-estar integral de toda a humanidade é seu objetivo supremo. O bem-estar da alma e do corpo humanos, bem como a saúde da consciência e da razão, reside no cumprimento dessas normas. Embora os seres humanos estejam divididos em diferentes povos, raças, países e épocas, entre outras distinções, ainda são capazes de obter benefício dessas normas.

Estas normas são parte inseparável da religião do Islã. Esta religião foi revelada para toda a humanidade como meio de benefício universal e misericórdia. Allah, o Altíssimo, declarou isso dirigindo-se ao Seu último Mensageiro:

………… (árabe)…………..

Enviei-te como misericórdia para todos os mundos.

O Mensageiro, que a paz esteja com ele, também disse:

………… (আরবী)…………..

Sem dúvida, sou apenas uma misericórdia perfeitamente elaborada.

Como fruto dessa misericórdia, Allah retirou desta Sua última umma todas as formas de sofrimento, rigor e regras de austeridade. Também os libertou da perversidade do princípio segundo o qual “tudo é permitido — nada é proibido”. Os idólatras e alguns grupos que professam religiões do Livro, ao seguirem novamente o princípio da austeridade, do sofrimento e do rigor, declararam ilícitas para si todas as coisas puras e santas, e declararam “lícitas” para si muitas ações ou coisas abomináveis e repugnantes. O próprio Allah disse:

………… (আরবী)…………..

Minha misericórdia abrange todas as coisas. Certamente, destiná-la-ei especificamente àqueles que temem a Allah, dão o zakat e creem em Nossos versículos; são eles que seguem o Profeta iletrado. Encontram-no mencionado na Torá e no Evangelho que têm em sua posse. Esse Profeta ordena-lhes as boas ações, proíbe-lhes a injustiça e o pecado, declara lícitas para eles as coisas boas e puras, declara ilícitas para eles todas as coisas e ações más, abomináveis e repugnantes, e liberta-os dos fardos e grilhões que desde tempos imemoriais pesam sobre eles.

As duas passagens nas quais se baseiam as disposições islâmicas sobre o lícito e o ilícito foram mencionadas no início desta obra.

Em conclusão, acredito que a importância desta pequena obra escrita sobre o halal e o haram deve ser reconhecida. Considero-a uma contribuição significativa para a produção de obras muçulmanas modernas. Esta obra resolverá muitos problemas da vida muçulmana e apresentará ao público as respostas corretas para muitas questões relacionadas a assuntos pessoais e coletivos. Estou firmemente convencido de que, por meio desta obra, será possível conhecer em detalhe o que é halal para os muçulmanos, o que é haram e quais são as verdadeiras razões e fundamentos subjacentes a isso.

Por fim, não terei cumprido meu dever se não expressar minha gratidão ao vice-chanceler de Jame Al-Azhar e ao Conselho de Cultura Islâmica. Pois foi seguindo suas orientações que tomei a iniciativa de escrever esta obra.

 

No Islã halal–do haram disposições

Primeiro capítulo

– Definição

– Todas as coisas originalmente mubá– permitidas

– A determinação do halal ou do haram é unicamente um direito‌de Allah

– Tornar o halal haram e declarar o haram halal é shirk

– haram nas coisas extremamente prejudicial

– As coisas halal libertam as pessoas da dependência do haram, mantendo-as livres.

– O que é causa do haram também é haram.

– O uso de artifícios em relação ao haram também é haram.

– Uma intenção boa não torna uma coisa haram em halal só por isso.।

– As coisas haram, para proteger-se delas, deve-se evitar as coisas duvidosas, mantendo-se afastado .

– haram para todos é haram

– Quando a necessidade é intensa, podem muitas coisas proibidas também tornar-se lícitas e permitidas

 

Definição

Halal: mubāh; aquilo que o Legislador da Sharia permitiu fazer ou cuja prática não proibiu.

Haram: aquilo que o Legislador da Sharia declarou expressamente proibido e que, se praticado, certamente fará com que a pessoa seja lançada no Inferno na vida futura. Muitas vezes, ela também terá de sofrer uma punição neste mundo.

Makruh: aquilo que o Legislador da Sharia proibiu fazer, mas não proibiu de maneira muito rigorosa. Em comparação com o haram, sua proibição é muito menor e mais branda. A punição devida por praticar um ato haram não se aplica a quem pratica um ato makruh. Contudo, se alguém continuar praticando atos makruh, terá de sofrer a punição de um ato haram.

Os povos pré-islâmicos estavam imersos em extrema perdição em muitos aspectos. A questão do halal e do haram era uma delas. Nessa matéria, a forma de sua perdição consistia em considerar halal aquilo que era haram e haram aquilo que era halal. Nesse aspecto, o ponto de vista dos politeístas comuns e de todos os judeus e cristãos do Povo da Escritura era exatamente o mesmo. Essa perdição havia chegado a dois extremos opostos. O bramanismo indiano e o ascetismo cristão haviam alcançado o extremo. Também haviam chegado a esse extremo aquelas religiões que consideravam lícito infligir dor e sofrimento ao corpo e declaravam haram o uso de bons alimentos, roupas e objetos adornados e luxuosos. Para alguns ascetas vaishnavas, por exemplo, até lavar os pés e tomar banho era considerado um ato pecaminoso.

Na Pérsia, a doutrina religiosa de Mazdak ocupava o extremo oposto. Segundo essa doutrina, tudo era considerado “mubāh” — permitido. Nada era proibido. Embora a honra e o pudor humanos fossem assuntos extremamente sagrados e dignos de respeito para as pessoas, violá-los ou destruí-los não era considerado absolutamente nenhuma injustiça segundo essa doutrina.

Na época da Jahiliyyah, os árabes haviam estabelecido um critério completamente errado para o halal e o haram. Segundo eles, não havia a menor culpa ou objeção em atos tão abomináveis como beber álcool, consumir excessivamente juros, manter relações ilícitas com mulheres, tratá-las com violência ou matar os próprios filhos. Um ato tão repugnante e horrendo como matar os filhos era retratado como algo atraente, sedutor e glorioso. Por isso, não havia sequer uma centelha de compaixão no coração dos pais, e nada podia impedi-los de praticar esse ato abominável. Foi justamente nesse contexto que se disse no Nobre Alcorão:

وَكَذَٰلِكَ زَيَّنَ لِكَثِيرٍ مِّنَ الْمُشْرِكِينَ قَتْلَ أَوْلَادِهِمْ شُرَكَاؤُهُمْ لِيُرْدُوهُمْ وَلِيَلْبِسُوا عَلَيْهِمْ دِينَهُمْ

E, assim, seus associados tornaram atraente, para muitos politeístas, o assassinato dos próprios filhos, a fim de lançá-los na destruição e tornar-lhes duvidosa a sua religião. (Surata Al’-An’am: 137)

Naquela época, elaboraram algumas justificativas e tentaram provar a legitimidade desse ato. Entre elas estavam o receio da escassez e da pobreza, a ideia de que ter uma filha era motivo de vergonha, e outras semelhantes. Eles não hesitavam sequer em sacrificar os filhos com o objetivo de aproximar-se de suas divindades. É extremamente surpreendente que, por um lado, considerassem inteiramente lícito matar os filhos, pedaços de seus corações, ou enterrá-los vivos; e, por outro, declarassem ilícito para si o consumo de numerosas espécies de colheitas puras e halal, bem como de animais. E o mais espantoso era que divulgavam essa proibição como sendo um preceito da religião. Alegavam que o próprio Allah havia tornado ilícitas todas essas coisas.

Mas isso era inteiramente falso e infundado. Allah, o Altíssimo, contestou essa alegação deles, dizendo:

وَقَالُوا هَٰذِهِ أَنْعَامٌ وَحَرْثٌ حِجْرٌ لَّا يَطْعَمُهَا إِلَّا مَن نَّشَاءُ بِزَعْمِهِمْ وَأَنْعَامٌ حُرِّمَتْ ظُهُورُهَا وَأَنْعَامٌ لَّا يَذْكُرُونَ اسْمَ اللَّهِ عَلَيْهَا افْتِرَاءً عَلَيْهِ ۚ سَيَجْزِيهِم بِمَا كَانُوا يَفْتَرُونَ

E diziam: “Estes animais quadrúpedes e estas colheitas são ilícitos; ninguém poderá comê-los, exceto aqueles que quisermos que comam.” Isso era uma conjectura inventada por eles. Havia ainda outros animais cujas costas haviam sido declaradas ilícitas. E havia animais sobre os quais não pronunciavam o nome de Allah no momento do abate, atribuindo falsamente isso a Allah. Ele certamente lhes dará a retribuição por essa falsa atribuição. (Surata Al’-An’am: 138)

O Alcorão Sagrado declarou em linguagem clara que se desviaram do caminho verdadeiro aqueles que tornaram halal o que deveria ser ilícito e tornaram ilícito o que deveria ser halal. O Alcorão diz:

……….. (árabe) ……….

Aqueles que, por insensatez, matam os próprios filhos sem qualquer conhecimento ou fundamento, consideram ilícito o sustento que Allah lhes concedeu e mantêm opiniões infundadas sobre Allah sofreram uma perda terrível. Todos eles se desviaram e jamais serão guiados.

Quando o Islã foi revelado, deparou-se justamente com esse tipo de distorção e desvio na determinação do que é halal e haram. Foi necessário estabelecer certos fundamentos sobre os quais a questão do halal e do haram pudesse ser definitivamente resolvida. Para isso, foi preciso estabelecer um critério, à luz do qual cada questão fosse cuidadosamente examinada. Assim, foi necessário apresentar publicamente a balança da justiça e, com base nela, determinar o halal e o haram de maneira extremamente equilibrada. Foi por isso que se tornou apropriado declarar a Ummah muçulmana como “uma comunidade que adota uma posição mediana” — (em árabe). Pois, de um lado, estão as comunidades desviadas e extraviadas; de outro, as comunidades que distorcem — à direita e à esquerda. E, entre ambas, está a comunidade muçulmana. Ela está livre das falhas dos dois lados. Por isso, Allah também a chamou de “a melhor comunidade”. Ele disse que essa comunidade foi criada com o propósito de promover o bem-estar de toda a humanidade.

1. todas as coisas em relação a o princípio fundamental é– que elas são permitidas

O primeiro princípio fundamental do Islã na formulação das normas da Sharia é que tudo aquilo que Allah, o Altíssimo, criou para os seres humanos é halal e mubah. Se algo tiver sido identificado como “haram” por uma declaração categórica, clara e comprovada do Legislador das normas da Sharia, somente isso será haram. Porém, se não houver comprovação de qualquer declaração categórica sobre uma questão, ou se, a partir de alguma prova, não tiver sido comprovada qualquer declaração categórica, ou se, a partir de alguma evidência, não se puder saber inequivocamente que algo é haram, então ele permanecerá em seu estado original: o de ser mubah. Não se poderá declará-lo haram. Um hadith fraco não pode ser aceito como prova nesse caso.

A afirmação de que tudo o que Allah criou é, em princípio, halal não é algo inventado. Ela está inequivocamente comprovada por declarações claras contidas em muitos versículos do Alcorão Majid. Citaremos aqui alguns versículos desse tipo:

هُوَ الَّذِي خَلَقَ لَكُم مَّا فِي الْأَرْضِ جَمِيعًا

Foi Ele, o Deus Majestoso, quem criou para vocês (para desfrutarem e utilizarem) tudo quanto existe na Terra. ((Surata Al-Baqara: 29))

وَسَخَّرَ لَكُم مَّا فِي السَّمَاوَاتِ وَمَا فِي الْأَرْضِ جَمِيعًا مِّنْهُ

Tudo quanto existe nos céus e na Terra, tudo isso Allah colocou à disposição de vocês para que trabalhem com isso. (Surata Al-Jássiya: 13)

أَلَمْ تَرَوْا أَنَّ اللَّهَ سَخَّرَ لَكُم مَّا فِي السَّمَاوَاتِ وَمَا فِي الْأَرْضِ وَأَسْبَغَ عَلَيْكُمْ نِعَمَهُ ظَاهِرَةً وَبَاطِنَةً

Não observaste que tudo quanto existe nos céus e na Terra Allah, o Altíssimo, colocou à disposição dos seres humanos para o seu benefício, e derramou generosamente sobre vocês Suas graças, visíveis e invisíveis, aparentes e ocultas? (Surata Luqman: 20)

Essas declarações comprovam de maneira clara e irrefutável que tudo quanto existe nos céus e na Terra Allah, o Altíssimo, criou para os seres humanos — para seu benefício e uso — e colocou à sua disposição. Com isso, Allah informou aos seres humanos sobre Sua infinita benevolência para com eles. Portanto, tudo quanto existe no universo será necessariamente lícito para os seres humanos. O uso e o desfrute de qualquer coisa não podem ser proibidos aos seres humanos; a permissão de Allah abrange todas as coisas. Tudo isso são dádivas concedidas por Allah. Se fossem proibidas, que sentido teria dizer que foram criadas para todos os seres humanos?

Contudo, se o próprio Allah tornou ilícitas algumas coisas entre tudo o que foi criado, então esse é um caso à parte. Se algumas dessas coisas foram proibidas por razões específicas e com objetivos de benefício específicos, isso deve ser necessariamente respeitado. Trata-se apenas de uma exceção à regra geral de que tudo é lícito, e deve-se considerar que certamente existe uma razão na base dessa exceção.

Nesse contexto, pode-se dizer que, na Sharia islâmica, o âmbito do ilícito é muito restrito. O campo do lícito é vasto e amplamente abrangente. Isso porque são muito poucos, apenas alguns, os versículos que declaram algo ilícito em linguagem clara e inequívoca. Quanto às coisas sobre as quais nada foi dito expressamente — nem que são lícitas nem que são ilícitas —, elas serão consideradas com base nesse princípio fundamental e estarão incluídas nos limites do perdão de Allah.

Nesta etapa, também é pertinente mencionar a declaração do Nobre Mensageiro. Ele disse:

……… (Árabe)……….

O que Allah tornou lícito em Seu Livro é lícito, e o que tornou ilícito é ilícito. Quanto àquilo sobre o qual Ele permaneceu em silêncio, há perdão. Portanto, aceitai o perdão de Allah. Pois Allah não esquece coisa alguma — não poderia deixar de mencionar algo por esquecimento. Como prova disso, Ele recitou: “Vosso Senhor não esquece.” (Parte de um versículo do Alcorão)

Salman al-Fárisi narrou:

………….. (em árabe)………….

Quando perguntaram ao Nobre Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) sobre gordura, manteiga, queijo e roupas feitas de pelos macios de animais, ele respondeu: “O que Allah declarou lícito em Seu Livro é lícito; o que declarou ilícito em Seu Livro é ilícito. E aquilo sobre o qual Ele permaneceu em silêncio está entre as coisas pelas quais Allah perdoará.”

Em resposta à pergunta, o Nobre Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) não disse nada a respeito de cada item em particular. Nessa ocasião, ele anunciou o princípio eterno com base no qual o lícito e o ilícito são determinados — e devem ser determinados. Com base nesse princípio, pode-se determinar com grande facilidade quais coisas Allah tornou ilícitas. Depois disso, tudo aquilo sobre o qual não houver nenhuma declaração de ilicitude será considerado lícito.

O Nobre Profeta (que a paz esteja sobre ele) disse:

………… (em árabe) ………….

Allah, o Altíssimo, tornou obrigatórias algumas coisas; portanto, não as negligencieis. Ele estabeleceu certos limites; portanto, não os transgredais. Tornou ilícitas algumas coisas; portanto, não vos oponhais a isso. E, por misericórdia para convosco — não por esquecimento —, manteve silêncio completo sobre muitas questões. Portanto, não discutais sobre elas. (Tirmidhi, Ibn Majah)

Neste ponto, quero proferir uma advertência sobre uma questão. A afirmação de que «em princípio, tudo é mubāḥ» não se aplica apenas a determinados bens e mercadorias. Este princípio fundamental também se aplica a todas as ações, intervenções, medidas adotadas e semelhantes que não pertencem às questões de adoração. Chamamos a isso costumes, hábitos e relações mútuas. O ponto essencial é que, na realidade, tudo isso é não proibido — lícito sem qualquer condição. Contudo, se o Legislador declarar alguma ação proibida ou estabelecer alguma condição sobre determinada questão, ela será necessariamente proibida, e essa condição deverá ser necessariamente observada. Neste ponto, a declaração de Allah é:

…………. Árabe …………..

Ele vos explicou claramente tudo o que vos foi proibido.

Esta declaração se aplica tanto às coisas quanto às ações. Entretanto, a questão da adoração é distinta e diferente disso. Pois ela é a verdadeira religião — a questão fundamental da religião — e só pode ser conhecida por meio da revelação. Aquilo que não foi conhecido como adoração por meio da revelação jamais poderá, de modo algum, ser considerado parte da adoração. A declaração do nobre Mensageiro (que a paz esteja com ele) sobre isso é:

………… Árabe …………..

Se alguém introduzir nesta nossa religião algo que não faz parte dela, isso será certamente rejeitado. (Bukhari, Muslim)

Pois a verdadeira religião se manifesta por meio de duas coisas. A primeira é que a adoração seja dedicada exclusivamente a Allah — ninguém além de Allah deve ser adorado. A segunda é que Allah seja adorado exclusivamente de acordo com a lei que Ele revelou, e não de qualquer outra maneira. Portanto, se alguém inventar, por iniciativa própria, algum método ou cerimônia de adoração — seja quem for — isso não será nada além de desvio. Os crentes não devem aceitá-lo, mas rejeitá-lo. Pois o Legislador da lei islâmica é exclusivamente Allah. Somente Ele tem o direito de ser adorado; somente Ele pode indicar os métodos e as regras da adoração, e ninguém mais. A adoração só pode ser aceita por Ele quando realizada segundo o caminho, o método e as regras que Ele mostrou; somente por meio dessa adoração se pode alcançar a proximidade de Allah.

Entretanto, nas questões de costumes e hábitos comuns, ou nas formas e métodos de relações mútuas, transações e trocas, o inventor é o próprio ser humano, não o Legislador. Nessa área, o Legislador apenas indicará quais formas, métodos ou regras são corretos e apropriados, e quais não o são. Ele prefere manter em vigor os tipos de ações que estão livres de corrupção e dano.

O Imame Ibn Taymiyyah disse: As atividades dos servos relacionadas às suas palavras e ações são de dois tipos. Algumas são atos de adoração, por meio dos quais se alcança a retificação da condição religiosa das pessoas. Outras são costumes e hábitos, necessários à vida humana para que se possa viver neste mundo. Sob a perspectiva da Sharia, os atos que Allah tornou obrigatórios ou dos quais Ele gosta não podem ser comprovados de nenhuma outra forma senão por meio das disposições da Sharia.

Quanto às questões relacionadas aos costumes e hábitos humanos, elas são diferentes. Pois as pessoas os inventam por si mesmas para atender às suas próprias necessidades. No que diz respeito a essas invenções, a única questão é que elas não sejam contrárias à Sharia. E, se o próprio Allah não fez objeção a algo, a objeção de qualquer outra pessoa a esse respeito não pode ter importância alguma. Tanto as ordens quanto as proibições são disposições da Sharia. A adoração consiste apenas nos atos que foram ordenados; quanto àquilo que não foi ordenado, que direito poderia ter alguém de pronunciar uma proibição a esse respeito?

Por essa razão, o Imame Ahmad ibn Hanbal e outros juristas versados no Hadith costumavam dizer que os atos de adoração são, em sua essência, comprovados pela Revelação. Portanto, uma disposição da Sharia é somente aquilo a respeito do qual existe uma decisão da Sharia. Considerar como parte da Sharia algo sobre o qual não há nenhuma orientação nesse sentido equivale a arrogar-se autoridade sobre Allah. Foi nesse contexto que foi revelado o seguinte versículo de Allah:

أَمْ لَهُمْ شُرَكَاءُ شَرَعُوا لَهُم مِّنَ الدِّينِ مَا لَمْ يَأْذَن بِهِ اللَّهُ

Acaso eles têm divindades associadas(Surata Ax-Xura: 21)

É por isso que a questão dos costumes e hábitos gerais das pessoas é diferente. Na realidade, tudo isso é mubah — isento de culpa e indeterminado. Entre essas coisas, somente aquilo que Allah declarou ilícito será ilícito, e nada mais. Se não aceitarmos essa afirmação como verdadeira, este versículo será aplicável a nós:

قُلْ أَرَأَيْتُم مَّا أَنزَلَ اللَّهُ لَكُم مِّن رِّزْقٍ فَجَعَلْتُم مِّنْهُ حَرَامًا وَحَلَالًا

Acaso tornastes ilícita uma parte da provisão que Allah fez descer para vós e lícita outra parte? … Já refletistes sobre que tipo de ato é esse?(Surata Yunus: 59)

Este é um princípio fundamental de extrema importância e de grande benefício. Com base neste princípio, diremos que a compra e venda, a hiba, a ijara e atividades semelhantes pertencem aos costumes e práticas da vida social das pessoas. Para viver neste mundo, as pessoas precisam observá-las, assim como a alimentação e o vestuário são indispensáveis para elas. Nesses assuntos, a Sharia ensinou regras excelentes e corretas. Por isso, sempre que se verificou algum tipo de prejuízo, a Sharia o proibiu; e aquilo que era absolutamente necessário, declarou-o um dever obrigatório. Depois, tudo o que se revelou indesejável classificou-o como makruh, e tudo aquilo em que se observou um benefício geral classificou-o como mustahabb. Assim, não foi necessário eliminar completamente essas práticas nem remodelá-las desde o princípio.

Depois de se tornar evidente esta verdade, pode-se dizer que as pessoas são completamente livres para realizar transações, negócios e comércio, e para trabalhar em troca de remuneração conforme desejarem, enquanto a Sharia não declarar alguma dessas ações haram. Pode-se mencionar como exemplo a questão da alimentação das pessoas. Nesse caso, basta evitar tudo o que é haram. Fora isso, não se lhes impôs a obrigação de obedecer a qualquer outro controle de regras e proibições. Portanto, em princípio, tudo isso é mubah — não proibido.

………….. Árabe ………….

Com base neste princípio, o discípulo de Ibn Taymiyya, o Imam Ibn al-Qayyim, e todos os juristas da escola hanbalita disseram:

………….. Árabe ………….

Em princípio, todos os contratos e condições são mubah. Todo contrato sobre o qual a Sharia não fez objeção e que não foi declarado haram é halal.

Também se encontra apoio a este princípio fundamental nos hadiths autênticos. Hazrat Jabir ibn Abdullah disse:

……………. Árabe …………….

Nós praticávamos o azl enquanto o Alcorão estava sendo revelado. Se houvesse algo que devesse ser proibido, o Alcorão certamente o teria proibido. [Isso não significa ‘que o azl’ não seja proibido;, tal afirmação não pode ser feita,। pois este hadith é de uma fase inicial;। posteriormente, em outros hadiths, sua proibição também foi mencionada.। –Tradutor]

Com isso, quero apenas provar que aquilo sobre o qual não veio nenhuma proibição por meio da revelação não é proibido, não é haram. Enquanto não for revelada nenhuma declaração proibitiva, isso é inteiramente permitido. Essa era a convicção dos Companheiros acerca da Sharia, e é precisamente por isso que se prova de modo irrefutável que eles compreenderam corretamente os princípios fundamentais da Sharia.

Em suma, todos esses exemplos e argumentos provam que somente é conforme à Sharia a adoração e a forma de adoração que o próprio Allah, o Altíssimo, estabeleceu. E, entre os costumes e hábitos humanos, somente é haram aquilo que o próprio Allah, o Altíssimo, declarou haram. Aquilo que Allah não proibiu jamais pode ser haram.

2.. O halal–e o haram — de declarar é o direito que pertence exclusivamente a Allah‌.

O Islã declarou, como segundo princípio fundamental, que o direito de declarar algo halal ou haram pertence exclusivamente ao Criador, Allah, o Altíssimo. Essa autoridade foi retirada das criaturas. Independentemente de qual seja a posição de alguém aos olhos da religião de Allah ou do mundo material, ninguém possui esse direito. Essa autoridade deve ser reconhecida como pertencente exclusivamente a Allah. Nenhum sábio, pīr ou dervixe, rei ou imperador, líder ou qualquer outra pessoa tem o direito de declarar algo haram para os servos de Allah. Se alguém se atrever a fazê-lo, deve-se compreender que está transgredindo os limites estabelecidos por Allah. Aqueles que, na elaboração das leis e normas religiosas, tentam usurpar o direito absoluto de Allah, e aqueles que aceitam, aprovam e seguem de bom grado tal ato, cometerão um crime gravíssimo, equivalente a associar parceiros a Allah. Allah jamais perdoará esse pecado de shirk.Surata Ash-–Shura— o versículo citado anteriormente também deve ser lido aqui:

أَمْ لَهُمْ شُرَكَاءُ شَرَعُوا لَهُم مِّنَ الدِّينِ مَا لَمْ يَأْذَن بِهِ اللَّهُ.

Acaso eles têm parceiros ou divindades que lhes prescrevem normas religiosas para as quais Allah não concedeu nenhuma autorização? Os judeus e os cristãos haviam concedido aos seus sacerdotes e eruditos autoridade absoluta para determinar o halal e o haram. O Alcorão Sagrado, aludindo precisamente a isso, diz:

اتَّخَذُوا أَحْبَارَهُمْ وَرُهْبَانَهُمْ أَرْبَابًا مِّن دُونِ اللَّهِ وَالْمَسِيحَ ابْنَ مَرْيَمَ وَمَا أُمِرُوا إِلَّا لِيَعْبُدُوا إِلَٰهًا وَاحِدًا ۖ لَّا إِلَٰهَ إِلَّا هُوَ ۚ سُبْحَانَهُ عَمَّا يُشْرِكُونَ

Eles tomaram seus sacerdotes e eruditos como deuses, além de Alá, e também o Messias Jesus. Contudo, haviam recebido a ordem de servir e adorar unicamente a um só Deus. Na verdade, não há divindade além dEle. Ele é absolutamente santíssimo e está muito acima do politeísmo deles. (Surata At-Tawbah: 31)

Ali ibn Hatim havia professado anteriormente o cristianismo. Depois de aceitar o Islã, ao ver o Nobre Profeta recitando o referido versículo, disse:

………… Árabe ……………..

Ó Mensageiro! Eles não adoravam seus sacerdotes e eruditos, adoravam?

O Nobre Mensageiro respondeu: “É mesmo? Não foram esses sacerdotes e eruditos que determinaram para eles o que era lícito e ilícito, e eles não aceitaram isso com grande entusiasmo e absoluta devoção? É justamente isso que o Alcorão chamou de ‘adoração’ deles; isto é, agir dessa maneira é adoração. O que se entende por ‘adoração’, eles fizeram a esses sacerdotes e eruditos. [Tirmidhi e outros]

Em outra narração, relata-se que, ao explicar o versículo acima mencionado, o Nobre Profeta disse:

…………….. Árabe ……………..

Será verdade que eles não adoravam seus sacerdotes e eruditos? A realidade, porém, é que, quando esses sacerdotes e eruditos declaravam lícita alguma coisa para eles, eles a aceitavam como lícita; e, da mesma forma, quando declaravam ilícita alguma coisa para eles, imediatamente a aceitavam como ilícita. Na verdade, conceder a alguém tal autoridade ou status é adorá-lo.

Os cristãos sempre mantiveram a crença de que Hazrat Jesus, o Messias (que a paz esteja com ele), antes de ascender ao mundo celestial, concedeu aos seus discípulos plena autoridade para declarar algo lícito ou ilícito. Eles podem declarar lícito ou ilícito conforme a sua própria vontade. Evangelho de Mateus é citado:

Digo-vos a verdade: tudo quanto ligardes na terra será ligado no céu, e tudo quanto desligardes na terra será desligado no céu.

Sobre os politeístas, foi dito no Alcorão Sagrado: eles determinaram por si mesmos o que é lícito e ilícito, sem a permissão de Allah.

Foi declarado:

قُلْ أَرَأَيْتُم مَّا أَنزَلَ اللَّهُ لَكُم مِّن رِّزْقٍ فَجَعَلْتُم مِّنْهُ حَرَامًا وَحَلَالًا قُلْ آللَّهُ أَذِنَ لَكُمْ ۖ أَمْ عَلَى اللَّهِ تَفْتَرُونَ

Vedes o que fizestes? Determinastes, entre a provisão que Allah vos concedeu, o que é lícito e ilícito? Dize: Allah vos deu permissão para fazerdes isso, ou inventastes mentiras contra Allah? (Surata Yunus: 59)

Allah também disse:

وَلَا تَقُولُوا لِمَا تَصِفُ أَلْسِنَتُكُمُ الْكَذِبَ هَٰذَا حَلَالٌ وَهَٰذَا حَرَامٌ لِّتَفْتَرُوا عَلَى اللَّهِ الْكَذِبَ ۚ إِنَّ الَّذِينَ يَفْتَرُونَ عَلَى اللَّهِ الْكَذِبَ لَا يُفْلِحُونَ

Não digais simplesmente, conforme o que vos vem à boca: “Isto é halal e isto é haram”. Com isso, estaríeis atribuindo a Deus uma mentira completa. E aqueles que divulgam esse tipo de mentira em nome de Deus jamais alcançarão o bem ou o sucesso. (Surata An-Nahl: 116)

A partir de todos esses versículos e hadiths claros e incontestáveis, pode-se saber e compreender, sem dúvida alguma, que o único que possui o direito de determinar e declarar o halal e o haram é o Deus Altíssimo. Ninguém além de Deus possui esse direito, nem pode possuí-lo. Ele próprio realizou esse trabalho e o declarou em Sua própria Palavra, o Alcorão Sagrado, ou fez com que fosse anunciado nas palavras de Seus profetas e mensageiros. Ninguém tem o direito de violar a decisão de Deus no âmbito da determinação do halal e do haram. Os juristas tampouco o fizeram. No Alcorão Sagrado, foi declarado:

وَقَدْ فَصَّلَ لَكُم مَّا حَرَّمَ عَلَيْكُمْ

Tudo aquilo que Deus proibiu para vós, Ele próprio vos declarou de maneira clara e distinta. (Surata Al-’An’am: 119)

Na realidade, os juristas não têm nenhum direito ou autoridade para determinar o halal e o haram, nem para identificar, fundamentalmente e segundo sua própria vontade, o que é permitido e o que é proibido. Isso pertence ao âmbito da elaboração da lei religiosa. Os juristas podem praticar o ijtihad, e sua opinião e liderança em questões da sharia devem ser reconhecidas. Apesar disso, eles tinham verdadeiro receio de emitir uma fatwa sobre qualquer assunto. Quando alguém lhes pedia uma fatwa, esquivavam-se de fazê-lo e mandavam a pessoa procurar outro. Temiam cometer algum erro ao realizar esse trabalho e incorrer no pecado de tornar o halal haram ou o haram halal. E isso jamais poderia ser algo correto.

O Imã Ash-Shafi’i citou, em sua obra (em árabe), as palavras do cádi Abu Yusuf, discípulo do Imã Abu Hanifa. Ele disse:

“Vi muitos, muitos sábios profundamente instruídos e versados na religião. Eles não gostavam de emitir fatwas. Em vez de declarar diretamente que algo era halal ou haram, consideravam suficiente dizer, sem qualquer explicação, aquilo que se encontra no Alcorão. O eminente sábio tabi’i Ibn as-Sa’ib disse: Não sejais como aqueles que dizem: ‘Deus tornou lícita determinada coisa’ ou ‘Isto agrada muito a Deus’. Pois, no Dia da Ressurreição, Deus dirá: ‘Não fui Eu que a tornei lícita, e ela tampouco era do Meu agrado’. Do mesmo modo, não sejais como aquele que diz: ‘Deus proibiu determinada coisa’. No Dia da Ressurreição, porém, Deus dirá: ‘És um mentiroso; Eu não a proibi, nem proibi que se praticasse esse ato’. Sobre Ibrahim an-Nakha’i, célebre jurista tabi’i de Kufa, foi transmitido que, quando seus discípulos emitiam fatwas, diziam coisas como: ‘Isto é makruh’ ou ‘Não há mal nisso’, entre outras expressões semelhantes. Isso porque não há trabalho mais irresponsável do que determinar que algo é halal ou haram.”

O Imã Ibn Taymiyya, xeique do Islã, disse:

…………… Árabe …………..

Os sábios das primeiras gerações jamais aplicavam a palavra haram a qualquer coisa, exceto àquilo cuja proibição estivesse conhecida de maneira certa, específica e incontestável.

Do mesmo modo, quando o imame Ahmad ibn Hanbal — que Allah tenha misericórdia dele — era questionado sobre algum assunto, respondia: “Considero isso makruh” ou “Não o considero bom nem o aprovo”. O mesmo se aplica ao imame Malik, ao imame Abu Hanifa e aos demais imames.

3.. Tornar o halal haram e tornar o haram halal no nível do shir‌k como crime

O Islã condenou severamente aqueles que, por sua própria natureza, se consideram autorizados a declarar algo halal ou haram. Em particular, o ataque do Islã contra aqueles que declaram haram aquilo que é halal é extremamente rigoroso. Isso faz com que as pessoas caiam desnecessariamente na restrição e na austeridade, embora Allah tenha concedido ampla liberdade. Como consequência de tal princípio, fortalece-se no coração das pessoas a tendência a adotar uma austeridade e um escrupulosismo infundados, enquanto o Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, ordenou que se evitasse rigorosamente essa tendência à austeridade e ao excesso de minúcias. Ele expressou intenso desprezo por aqueles que adotam esse princípio. Disse:

……………. Árabe …………..

Atenção! Pereceram os que são rigorosos com as minúcias da religião do Islã; pereceram, pereceram… pereceram.(Muslim, Ahmad, Abu Dawud)

Ao descrever as características da missão profética de Muhammad, ele disse:

……………. Árabe …………..

Fui enviado com uma religião de orientação única, sincera e abrangente.

Na verdade, não há dúvida de que a religião do Islã é singularmente idealista no que diz respeito à crença e à fé, bem como ao reconhecimento do Criador, o Tawhid, como Único e sem associados em todos os aspectos; e é totalmente liberal e abrangente quanto à sharia e às normas de conduta. O shirk e a proibição do que é halal são completamente contrários a ela.

Em um hadith, o nobre Profeta, que a paz esteja com ele, informou que Allah, o Altíssimo, declarou:

………………. Árabe ………………..

Criei os Meus servos segundo um ideal de orientação única e devoção sincera. Porém, os demônios os incitaram e os desviaram. Tornaram-lhes proibidas as coisas que Eu havia tornado lícitas. Ordenaram-lhes que Me atribuíssem associados, sem que Eu jamais tivesse enviado qualquer autoridade que autorizasse tais associados a Mim. (Muslim)

Com isso, ficou claramente provado que declarar proibido aquilo que é halal é um ato do nível do shirk. O Alcorão Majestoso expressou intensa reprovação aos árabes idólatras pelo shirk que praticavam, pela idolatria e por terem declarado proibidas para si coisas puras, como as colheitas e os animais. Isso porque Allah, o Altíssimo, não havia enviado qualquer autoridade ou aprovação a respeito delas. Bahira, Sa’iba, Wasila e Ham eram os nomes dos animais que eles declaravam proibidos. Quando uma camela dava à luz cinco crias e a última era macho, esses idólatras cortavam-lhe a orelha. Declaravam proibido montar nela e soltavam-na em honra de seus deuses e divindades. Depois, declaravam absolutamente proibido abatê-la ou colocar-lhe carga. Também não era permitido expulsá-la de um bebedouro ou pastagem. Chamavam essa camela de “Bahira”, isto é, camela de orelha cortada. “Sa’iba” era a camela que seu dono, ao retornar de uma viagem ao exterior ou ao se recuperar de uma doença, consagrava aos deuses e soltava. Se ela desse à luz uma cria fêmea, ele a considerava sua por direito. Se desse à luz uma cria macho, considerava que o direito dos deuses sobre ela havia sido estabelecido. Se desse à luz crias de ambos os sexos, em vez de sacrificar a cria macho aos deuses, ele a soltava. Então ela era chamada de “Wasila”. E quando a cria da cria de uma camela se tornava apta a carregar cargas, a camela velha deixava de poder ser usada para transportar cargas ou para montaria. Era a isso que se dava o nome de “Ham”.

Assim, o Alcorão Majestoso protestou com veemência contra considerar proibidos esses animais. O Alcorão Majestoso declarou claramente que de modo algum é correto agir dessa forma por seguir cegamente os antepassados. Foi dito:

مَا جَعَلَ اللَّهُ مِن بَحِيرَةٍ وَلَا سَائِبَةٍ وَلَا وَصِيلَةٍ وَلَا حَامٍ ۙ وَلَٰكِنَّ الَّذِينَ كَفَرُوا يَفْتَرُونَ عَلَى اللَّهِ الْكَذِبَ ۖ وَأَكْثَرُهُمْ لَا يَعْقِلُونَ – وَإِذَا قِيلَ لَهُمْ تَعَالَوْا إِلَىٰ مَا أَنزَلَ اللَّهُ وَإِلَى الرَّسُولِ قَالُوا حَسْبُنَا مَا وَجَدْنَا عَلَيْهِ آبَاءَنَا ۚ أَوَلَوْ كَانَ آبَاؤُهُمْ لَا يَعْلَمُونَ شَيْئًا وَلَا يَهْتَدُونَ –

Allah não criou nada como Bahira, Sa’iba, Wasila e Ham. Esses incrédulos estão inventando falsidades contra Allah. A maioria deles é insensata. Sempre que são convocados a aceitar a lei revelada por Allah e a obedecer ao Seu Mensageiro, dizem: «As tradições que recebemos de nossos antepassados são suficientes para nós.» Contudo, seus antepassados nada sabiam e não estavam no caminho certo. Ainda assim, continuarão seguindo o caminho deles? (Surata Al-Ma’idah: 103–104)

Surata Al-–A’‘raf– — nela são mencionadas as coisas verdadeiramente proibidas:

قُلْ مَنْ حَرَّمَ زِينَةَ اللَّهِ الَّتِي أَخْرَجَ لِعِبَادِهِ وَالطَّيِّبَاتِ مِنَ الرِّزْقِ

Dize: Quem proibiu os adornos que Allah criou para Seus servos e as coisas boas que Ele lhes providenciou? (Surata Al-–A’raf: 32)

قُلْ إِنَّمَا حَرَّمَ رَبِّيَ الْفَوَاحِشَ مَا ظَهَرَ مِنْهَا وَمَا بَطَنَ وَالْإِثْمَ وَالْبَغْيَ بِغَيْرِ الْحَقِّ وَأَن تُشْرِكُوا بِاللَّهِ مَا لَمْ يُنَزِّلْ بِهِ سُلْطَانًا وَأَن تَقُولُوا عَلَى اللَّهِ مَا لَا تَعْلَمُونَ

Dize: «Meu Senhor declarou ilícitas estas coisas: os atos de indecência, os pecados manifestos ou ocultos, os excessos injustos e sem razão, e a associação de parceiros a Allah, para a qual Ele não fez descer nenhuma autoridade; e que digais acerca de Allah aquilo que não sabeis.» (Surata Al A’’raf: 33)

Esta controvérsia acerca de declarar algo lícito ou ilícito foi citada nas suratas de Meca. Isso significa que, segundo o Alcorão, este assunto não é pequeno, secundário ou sem importância. Pelo contrário, está relacionado com os princípios fundamentais e o ideal geral do Islã.

Em Medina, manifestou-se intensamente entre os muçulmanos a tendência à austeridade e a declarar ilícitas para si mesmos as coisas puras. Nessa etapa, Allah, o Altíssimo, revelou versículos categóricos e claros, ordenando-lhes que permanecessem dentro dos limites estabelecidos por Allah e seguissem firmemente o caminho reto. Eis o que Ele disse:

يَا أَيُّهَا الَّذِينَ آمَنُوا لَا تُحَرِّمُوا طَيِّبَاتِ مَا أَحَلَّ اللَّهُ لَكُمْ وَلَا تَعْتَدُوا ۚ إِنَّ اللَّهَ لَا يُحِبُّ الْمُعْتَدِينَ – وَكُلُوا مِمَّا رَزَقَكُمُ اللَّهُ حَلَالًا طَيِّبًا ۚ وَاتَّقُوا اللَّهَ الَّذِي أَنتُم بِهِ مُؤْمِنُونَ

Ó vós que credes! Não considereis ilícitas as coisas puras que Allah tornou lícitas para vós, nem transgridais. Sabei que Allah não ama de modo algum os transgressores. Comei do sustento lícito e puro que Allah vos concedeu e temei Allah, em Quem declarais crer. (Surata Al-Mā’idah: 87–-88)

4. Coisas ilícitas são prejudiciais

Allah, o Altíssimo, é o Criador de toda a humanidade. Ele concedeu aos seres humanos tantas bênçãos inestimáveis que é impossível calculá-las. Portanto, é naturalmente Seu direito declarar algo lícito ou ilícito para as pessoas. Ninguém pode ter o direito de questioná-Lo ou apresentar objeções a esse respeito. Ele possui esse direito precisamente por ser o Rabb. O ser humano é Seu servo. Como tal, é obrigado a aceitar esse direito. Assim como, na qualidade de Rabb, Ele fez do ser humano Seu servo e lhe concedeu um código de vida e um sistema para seguir e cumprir. Contudo, como Allah é infinitamente misericordioso para com Seus servos, Ele não os constrange nesse assunto, nem lhes impõe qualquer regra irracional ou contrária à razão e ao bom senso. Ele declarou cada coisa lícita ou ilícita de maneira extremamente racional. Seu objetivo supremo é promover o bem fundamental de toda a humanidade. Por isso, tornou lícitas para as pessoas somente as coisas puras, santas, boas e excelentes, e proibiu todos os produtos vis, corrompidos, ruins e prejudiciais.

A propósito, pode-se dizer que Ele também proibiu aos judeus algumas coisas boas e excelentes. Isso, porém, foi uma punição pela própria conduta de desobediência dos judeus. Com efeito, eles transgrediram deliberadamente os limites estabelecidos por Allah para o lícito e o ilícito. Allah disse exatamente isso no seguinte versículo:

وَعَلَى الَّذِينَ هَادُوا حَرَّمْنَا كُلَّ ذِي ظُفُرٍ ۖ وَمِنَ الْبَقَرِ وَالْغَنَمِ حَرَّمْنَا عَلَيْهِمْ شُحُومَهُمَا إِلَّا مَا حَمَلَتْ ظُهُورُهُمَا أَوِ الْحَوَايَا أَوْ مَا اخْتَلَطَ بِعَظْمٍ ۚ ذَٰلِكَ جَزَيْنَاهُم بِبَغْيِهِمْ ۖ وَإِنَّا لَصَادِقُونَ

Para os que adotaram a religião judaica, havíamos proibido todas as aves dotadas de garras, bem como a gordura dos bovinos e caprinos, exceto a que estivesse aderida às suas costas, às entranhas ou aos ossos. Fizemos isso como retribuição por sua atitude rebelde. Ao fazê-lo, fomos, sem dúvida, justos e verazes. (Surata Al-’An’am: 146)

Em outra surata do Alcorão, foi explicado que tipo de atitude rebelde os judeus haviam adotado. O versículo diz:

فَبِظُلْمٍ مِّنَ الَّذِينَ هَادُوا حَرَّمْنَا عَلَيْهِمْ طَيِّبَاتٍ أُحِلَّتْ لَهُمْ وَبِصَدِّهِمْ عَن سَبِيلِ اللَّهِ كَثِيرًا – وَأَخْذِهِمُ الرِّبَا وَقَدْ نُهُوا عَنْهُ وَأَكْلِهِمْ أَمْوَالَ النَّاسِ بِالْبَاطِلِ

Aos que adotaram a religião judaica e cometeram injustiça, proibimos, por causa dessa injustiça, todas aquelas coisas que lhes haviam sido tornadas lícitas. E também por causa de seu crime: eles impediam demasiadamente as pessoas, praticavam usura, embora isso lhes tivesse sido proibido, e consumiam os bens das pessoas por meios ilícitos. (Surata An-‌Ni‌ ssá: 160–-161)

Posteriormente, Allah, exaltado seja, enviou a todos os seres humanos o Seu último Mensageiro, aquele com quem se encerrou a vinda dos profetas e mensageiros. Nessa época, a humanidade havia alcançado a maturidade plena e o completo desenvolvimento da razão e da inteligência. Então, por Sua graça, Allah, exaltado seja, retirou deles o pesado fardo das proibições que lhes haviam sido impostas temporariamente. Para o povo do Livro, a identidade dessa Mensagem era conhecida; no Alcorão Sagrado, ela foi mencionada nestes termos:

يَجِدُونَهُ مَكْتُوبًا عِندَهُمْ فِي التَّوْرَاةِ وَالْإِنجِيلِ يَأْمُرُهُم بِالْمَعْرُوفِ وَيَنْهَاهُمْ عَنِ الْمُنكَرِ وَيُحِلُّ لَهُمُ الطَّيِّبَاتِ وَيُحَرِّمُ عَلَيْهِمُ الْخَبَائِثَ وَيَضَعُ عَنْهُمْ إِصْرَهُمْ وَالْأَغْلَالَ الَّتِي كَانَتْ عَلَيْهِمْ

Eles o encontram mencionado, por escrito, na Torá e no Evangelho que conservam consigo. Ele lhes ordena as boas ações, proíbe-lhes as más ações, declara lícitas para eles as coisas puras e santas e remove deles os pesados fardos e grilhões que lhes haviam sido impostos. (Surata Al-A‘ráf: 157)

Depois, em vez de proibir as coisas boas, puras e excelentes como expiação pelos crimes, o Islã estabeleceu outros métodos e meios. Para a expiação dos pecados, foi estabelecido o arrependimento sincero. Assim como a água lava e limpa a sujeira e os detritos, o arrependimento também faz perdoar os pecados. Além disso, foram prescritas muitas ações que eliminam as más ações. A caridade também extingue o fogo dos pecados, assim como a água apaga o fogo. Ademais, na vida cotidiana, é preciso suportar muitas tristezas, sofrimentos, aflições e calamidades, que fazem cair os pecados e erros do servo como folhas e folhagens secas. Por isso, esta verdade do Islã tornou-se indiscutível: tudo o que ele proibiu é certamente mau, vil e prejudicial.

Com efeito, Ele proibiu aquilo cujo dano é muito maior e completo em comparação com seu benefício. E tornou lícito tudo aquilo que é puramente útil e benéfico. Sobre o vinho e o jogo de azar, o Alcorão Sagrado diz:

يَسْأَلُونَكَ عَنِ الْخَمْرِ وَالْمَيْسِرِ ۖ قُلْ فِيهِمَا إِثْمٌ كَبِيرٌ وَمَنَافِعُ لِلنَّاسِ وَإِثْمُهُمَا أَكْبَرُ مِن نَّفْعِهِمَا

Ó Profeta! As pessoas perguntam-lhe sobre o vinho e o jogo de azar. Diga: há um grande pecado em ambos, embora também haja algum benefício; contudo, o dano de ambos é muito maior do que o seu benefício. (Surata Al-Baqara: 219)

Neste contexto, pode-se dizer: o que é o halal no Islã? Sempre que essa pergunta for feita, poderá responder-se que halal são as coisas puras=santas e benéficas, isto é, aquelas que uma mente humana sã considera boas e excelentes e que, sem estar sujeita a qualquer hábito ou costume, a generalidade das pessoas aprecia; isso é o halal. No Alcorão Sagrado foi dito:

…………….. Árabe ……………….

Perguntam-lhe o que lhes foi tornado halal. Ó Profeta, diga: foram tornadas halal para vós todas as coisas que são puras, limpas, boas e excelentes.

Em outro lugar foi dito:

………….. Árabe ……………..

Hoje foram tornadas halal para vós todas as coisas puras, santas, limpas, excelentes e boas.

A razão pela qual Allah, o Altíssimo, declarou algo haram é a sua baixeza, maldade e nocividade. Não é necessário que todo muçulmano conheça detalhadamente isso, pois nem todos possuem, de modo igual, conhecimento correto sobre tais assuntos. Talvez alguns venham a saber, enquanto para muitos isso permaneça desconhecido. Muitas vezes, o defeito e a baixeza de algo ainda não se tornaram manifestos; mais tarde, certamente serão conhecidos. Nessa situação, todo crente tem o dever de aceitar a declaração de Allah com coração aberto e sem hesitação, dizendo: “Tomei conhecimento e aceitei.”

Allah, o Altíssimo, proibiu a carne de porco. Os muçulmanos compreenderam apenas que ela havia sido proibida por ser extremamente repugnante e má. Porém, com o progresso dos tempos, também se verificou o progresso do conhecimento e da ciência. Como resultado, descobriu-se que a carne de porco contém um tipo de micróbio venenoso, destrutivo e causador da morte humana. Mas, mesmo que esse conhecimento sobre a carne de porco não tivesse sido adquirido, ou que se tivesse descoberto algo diferente disso, a crença dos muçulmanos jamais teria mudado. Pois, segundo a declaração de Allah, ela é impura e extremamente má.

A título de exemplo, é digno de nota que o nobre Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse:

………………. Árabe ………………

Afastai-vos de três coisas que atraem a maldição: defecar no local onde se bebe água, no meio da estrada e em lugares sombreados. ((Abu Dawud, Ibn Majah, Hakim, Bayhaqi)

Inicialmente, o significado compreendido dessa afirmação era apenas que defecar nesses três lugares é uma ação muito má, contrária à educação, à higiene e à sã razão. Porém, com o desenvolvimento do conhecimento científico, mais tarde viemos a saber que essa ação é extremamente prejudicial do ponto de vista dos princípios gerais de saúde. Isso porque, como consequência dela, doenças infecciosas de natureza grave podem espalhar-se.

Nesse contexto, pode-se dizer que, quanto mais se desenvolverem e progredirem o conhecimento e a ciência, mais serão descobertas as razões e a visão de benefício subjacentes à formulação das normas da Sharia islâmica. Nada mais restará por descobrir sobre a razão fundamental da determinação do halal e do haram. Na realidade, na base da Sharia islâmica encontra-se a genuína consideração do benefício de toda a humanidade por parte de seu Legislador. E por que não seria assim? Ela foi formulada pelo Allah Todo-Sábio, Onisciente e infinitamente Misericordioso. Por isso, foi dito no Alcorão:

وَاللَّهُ يَعْلَمُ الْمُفْسِدَ مِنَ الْمُصْلِحِ ۚ وَلَوْ شَاءَ اللَّهُ لَأَعْنَتَكُمْ ۚ إِنَّ اللَّهَ عَزِيزٌ حَكِيمٌ

Allah, o Altíssimo, sabe com absoluta precisão e correção qual coisa é causadora de corrupção e má, e qual é benéfica e boa. Se Allah quisesse, poderia lançar-vos em grandes dificuldades. (Mas Ele não desejou isso.) Sem dúvida, Allah é Vitorioso, Invencível e Todo-Sábio. (Surata Al-Baqara: 220)

5. Halal é suficiente, Haram é desnecessário

Na verdade, o Islã é um sistema de vida dotado de grande beleza. Ele foi revelado com o propósito de proporcionar conforto à vida humana. Se alguma coisa foi declarada haram nesse sistema, em seu lugar foi tornado halal algo superior. Foi apresentada uma alternativa excelente. Essa alternativa é tal que, por um lado, fecha o caminho para todas as coisas causadoras de corrupção e, por outro, elimina completamente a necessidade ou dependência das coisas haram. O Allama Ibn al-Qayyim, que Allah tenha misericórdia dele, aludindo a isso, disse:

O Islã proibiu tentar conhecer o destino por meio do jogo de dados. Em seu lugar, estabeleceu a súplica da istikhara.[O Islã ensinou aos muçulmanos que antes de, realizar qualquer ação ele deve consultar os outros e fazer a istikhara. Foi declarado que। quem faz a istikhara, ‘não fracassa, e quem consulta não se envergonha. A istikhara significa que, quando a pessoa se encontra em dúvida sobre। ‘qual’das duas questões deve tratar,, ela deve pedir a Allah que lhe mostre qual– delas‌deve escolher,, para que possa encontrar entre as duas aquela que é a melhor. Para encontrá-la, deve pedir a Allah‌por meio de uma súplica’e fazê-la.। Para isso, foram estabelecidas a oração’e a súplica masura, que foram assim providenciadas.।]

O Islã proibiu o consumo de juros. Em seu lugar, tornou lícito o comércio lucrativo.

Proibiu o jogo; em seu lugar, tornou lícita a aceitação dos prêmios obtidos em competições de cavalos, camelos e arco e flecha que não sejam contrárias à Sharia.

O uso da seda foi proibido aos homens. Em seu lugar, tornou lícitas as belas roupas feitas de algodão, lã e linho.

Proibiu a fornicação, o adultério e a homossexualidade masculina. Em seu lugar, tornou lícita a relação sexual com a esposa legítima.

As bebidas intoxicantes foram proibidas. Em seu lugar, tornou halal as bebidas saborosas e benéficas ao corpo e à mente.

Proibiu os alimentos ruins e de qualidade inferior. Em seu lugar, tornou halal os alimentos melhores, excelentes e bons.

Quando se examina dessa forma a legislação completa do Islã, ficará comprovado que, se Allah, o Altíssimo, por um lado tornou algumas coisas proibidas na vida humana e a restringiu, por outro lado tornou lícitas muitas coisas, proporcionando à vida ampla extensão e generosidade. É verdade que fechou a porta de um lado, mas abriu as portas do outro. Isso porque Allah, o Altíssimo, não quis lançar a vida humana em dificuldades árduas e privações. O conforto é o que Ele deseja para as pessoas. Ele quis preencher plenamente a vida humana com benefício, orientação correta e misericórdia. O próprio Allah declarou:

يُرِيدُ اللَّهُ لِيُبَيِّنَ لَكُمْ وَيَهْدِيَكُمْ سُنَنَ الَّذِينَ مِن قَبْلِكُمْ وَيَتُوبَ عَلَيْكُمْ ۗ وَاللَّهُ عَلِيمٌ حَكِيمٌ – وَاللَّهُ يُرِيدُ أَن يَتُوبَ عَلَيْكُمْ وَيُرِيدُ الَّذِينَ يَتَّبِعُونَ الشَّهَوَاتِ أَن تَمِيلُوا مَيْلًا عَظِيمًا – يُرِيدُ اللَّهُ أَن يُخَفِّفَ عَنكُمْ ۚ وَخُلِقَ الْإِنسَانُ ضَعِيفًا

Allah quer esclarecer-vos Suas leis e preceitos, informar-vos sobre as regras e os métodos de orientação dos povos que vos precederam e voltar-Se para vós com Sua misericórdia. Allah é Sapientíssimo e Onisciente. Allah deseja tratar-vos com misericórdia, mas aqueles que seguem seus desejos, paixões e luxúrias querem desviar-vos para muito longe do caminho reto. Allah deseja aliviar-vos o pesado fardo, pois o ser humano foi criado fraco. (Surata An-Nissá: 26–28)

6. O ilícito de uma ação também é ilícito

Um princípio fundamental do Islam é que aquilo que constitui a causa de uma ação ilícita também é ilícito. Assim, o Islam também proibiu as causas que levam à prática de ações ilícitas. Pois, se essas causas não forem impedidas, não haverá qualquer dificuldade para que a própria ação ilícita seja praticada. Por exemplo, o Islam proibiu a zina, ou adultério. Também declarou ilícitas as causas que tornam essa ação proibida fácil, conveniente e inevitável. Entre essas causas estão o comportamento livre, aberto e desregrado das mulheres; o isolamento indevido de homens e mulheres; os encontros e contatos indiscriminados; o convívio; o amor e a amizade secretos; imagens nuas; jornais e revistas obscenos; músicas e canções que provocam excitação sexual, e assim por diante. Por isso, os especialistas na Sharia islâmica formularam o seguinte princípio:

‘Tudo aquilo que provoca a ocorrência de uma ação ilícita também é ilícito.’

Nesse contexto, deve-se considerar também outro princípio fundamental do Islam: não somente aquele que pratica diretamente a ação ilícita é considerado pecador e criminoso por causa dela. Quem quer que tenha prestado qualquer auxílio nessa ação também será considerado pecador e criminoso na mesma medida — seja esse auxílio material ou verbal. Quanto mais alguém ajudar na ação ilícita principal, na mesma proporção será participante do pecado principal. Por isso, o Profeta ﷺ não lançou sua maldição somente sobre o bebedor de álcool, mas também sobre o produtor, o encarregado, o transportador, aquele para quem ele é transportado e até mesmo aquele que recebe o seu preço. Do mesmo modo, são amaldiçoados aquele que consome juros, aquele que os faz serem consumidos, aquele que redige seu documento e aquele que serve de testemunha. Portanto, aquilo que auxilia uma ação ilícita também é ilícito. E não há nada de estranho no fato de que quem quer que ajude numa ação ilícita participe desse pecado na medida de sua ajuda.

7. Haram ao cometer estratagemas também é haram

Assim como são haram todas as causas externas que atraem as pessoas para atos haram, também é haram ocultá-los e realizá-los por meio de artifícios. Todos esses subterfúgios são resultado da instigação de Satanás. Os judeus tornaram lícitos, por meio de artifícios, atos e coisas que Allah havia proibido. Isso é extremamente abominável. O nobre Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse:

………….. Árabe ……………

Não façam o que os judeus fizeram. Não tentem tornar lícito, por meio de pequenos artifícios, aquilo que Allah proibiu.

Allah, o Altíssimo, proibira aos judeus qualquer tipo de caça aos sábados. Mas eles tornaram lícita essa proibição por meio de um artifício. Às sextas-feiras, cavavam buracos; aos sábados, os peixes vinham e ficavam neles; e aos domingos, eles os capturavam. Não consideravam de modo algum injusto usar tal artifício. Contudo, segundo os juristas islâmicos, isso é completamente haram. Pois, na realidade, Allah queria que eles se abstivessem da caça, fosse de maneira direta ou indireta.

Se o nome ou a aparência externa de algo haram for alterado, mas sua essência permanecer inalterada, isso não o tornará lícito; trata-se apenas de um subterfúgio para evitar o haram. Se as pessoas continuarem criando novas formas e empregarem artifícios para praticar um ato ilícito como a usura, ou derem um bom nome ao vinho e começarem a bebê-lo, isso não produzirá qualquer diferença quanto ao seu caráter haram e pecaminoso. O nobre Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, já havia advertido sobre isso, dizendo:

…………….. Árabe ……………….

Entre os membros da minha comunidade, haverá um grupo que tentará tornar o vinho lícito mudando seu nome.(Ahmad)

As pessoas chamam a dança que destrói a moral de “arte” ou “belas-artes”, chamam o vinho de “bebida” e denominam os juros de lucro (interest); isso é apenas o resultado das mudanças e transformações do tempo. Caso contrário, não ocorreu nenhuma alteração no caráter haram do ato em si.

8. Intenção boa: mesmo assim, o haram não se torna halal — .

Não há dúvida de que o Islam atribui grande importância, nas questões regidas pela Sharia, às boas intenções, aos objetivos isentos de culpa e a uma disposição mental altruísta. O próprio Profeta Karim, que a paz esteja com ele, disse:

…………. Árabe ……………..

Todas as ações são avaliadas com base nas intenções. E cada pessoa obtém aquilo que pretende. É por causa da intenção que os atos permissíveis e habituais adquirem a qualidade de se tornarem atos de adoração e meios de alcançar a proximidade de Allah. Aquele que se alimenta para preservar a vida e obter tranquilidade, a fim de poder cumprir seus deveres e responsabilidades para com o povo de Allah, também transforma o ato de comer e beber em adoração e em um meio de alcançar a proximidade de Allah.

Aquele que tiver relações sexuais com sua esposa com a intenção de preservar a castidade dele e dela e de gerar filhos terá esse ato também considerado adoração e será merecedor de recompensa. A esse respeito, o Profeta, que a paz esteja com ele, disse:

…………… Árabe ………………

Até mesmo a relação sexual de um de vocês com sua esposa é uma forma de obter recompensa. Quando os Companheiros perguntaram: “Ó Mensageiro de Allah! Se alguém satisfaz seu desejo sexual, ainda assim receberá recompensa por isso?”, o Mensageiro respondeu: “Se ele tivesse praticado uma relação sexual haram, não teria pecado? Da mesma forma, ele será merecedor de recompensa por praticar uma relação sexual lícita e halal.”(Bukhari, Muslim)

Também é citado no hadith:

…………….. árabe ……………..

Quem buscar adquirir as coisas lícitas deste mundo com o propósito de preservar a própria dignidade, atender às necessidades de sua família e compadecer-se de seu vizinho encontrará Allah em tal estado que seu rosto estará radiante e luminoso como a lua numa noite de lua cheia. (At-Tabarani)

Assim, qualquer ato permitido que o crente pratique tornar-se-á um ato de adoração em razão da boa intenção. Contudo, o haram permanecerá haram em todas as circunstâncias, por mais boa e pura que seja a intenção, e por maior, melhor e mais nobre que seja o objetivo que esteja em sua base. O Islã de modo algum aprova a adoção de meios haram para alcançar um objetivo elevado.

Isso porque o Islã exige tanto que o objetivo seja elevado e nobre quanto que os meios e métodos para alcançá-lo sejam puros. O Islã não está de modo algum disposto a aceitar o princípio oportunista de que o objetivo torna lícitos todos os meios e métodos. Além disso, não considera necessário adotar numerosos meios e métodos incorretos para alcançar um objetivo e uma finalidade corretos. Pelo contrário, considera absolutamente necessário recorrer a meios e métodos corretos, precisos e puros para alcançar um objetivo e uma finalidade corretos e irrepreensíveis. Se alguém ganhar dinheiro por meio de juros, suborno, haram, divertimentos, jogos de azar ou outros meios proibidos com o propósito de construir uma mesquita ou realizar obras de benefício público, essa sua boa intenção não transformará em lícito o caráter haram do ato haram. Isso porque a finalidade, a atitude ou a boa intenção no Islã não pode exercer a menor influência sobre o haram. O Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, ensinando isso, disse:

………….. árabe …………..

Allah é Puro. Ele só aceita coisas puras. Aos crentes, Ele deu a mesma ordem que havia dado a Seus profetas e mensageiros. Disse: (versículo do Alcorão) Ó mensageiros! Comei das coisas puras e praticai boas obras. Tudo quanto fizerdes, Eu tenho pleno conhecimento.(Surata Al-Mu’minun: 51)

Também disse:

يَا أَيُّهَا الَّذِينَ آمَنُوا كُلُوا مِن طَيِّبَاتِ مَا رَزَقْنَاكُمْ

Ó crentes! Comei dos alimentos puros que vos concedemos.  (Surata Al-Baqara: 172)

Então o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse:

…………… árabe ……………..

Um homem empreende uma longa viagem. Seus cabelos estão desgrenhados e empoeirados, e seus pés estão cobertos de poeira. Ele ergue repetidamente as duas mãos para o alto e suplica: “Ó Allah, ó Allah!” Contudo, sua comida é ilícita, sua bebida é ilícita, suas vestes são ilícitas; ele foi criado e alimentado com o que é ilícito. Como poderia a súplica de tal pessoa ser aceita por Allah? (Muslim, Tirmidhi)

Ele também disse:

…………… árabe. ………..

Aquele que acumulou bens ilícitos e depois os doou não receberá recompensa alguma por isso. O pecado de seus ganhos ilícitos certamente permanecerá sobre ele como um fardo.

……………… Árabe. ……………

O servo que adquire riqueza ilícita e dela dá caridade não terá sua caridade aceita. Nem haverá bênção naquilo que gasta dela. E o que deixar para trás servirá apenas como provisão para sua entrada no Inferno. A verdade é que Allah, o Altíssimo, não elimina a injustiça por meio da injustiça; antes, remove a injustiça por meio da justiça. De fato, a sujeira e os detritos não podem remover a sujeira e os detritos.

9.. Haram: para manter-se distante, é preciso evitar atos duvidosos

Uma grande misericórdia de Allah para com as pessoas do mundo é que Ele tornou claro o que é halal, assim como identificou o que é haram.

وَقَدْ فَصَّلَ لَكُم مَّا حَرَّمَ عَلَيْكُمْ

Tudo quanto vos foi proibido, Allah, o Altíssimo, declarou-o claramente. (Al- An-’‘ām: 119)

Consequentemente, não pode haver qualquer impedimento para fazer aquilo que é claramente halal. Quanto ao que é claramente haram, não se pode, em circunstâncias normais, conceder permissão para praticá-lo, salvo em uma situação inevitável. Além disso, entre o halal evidente e o haram manifesto, existe também uma categoria de coisas duvidosas. A respeito delas, as pessoas ficam indecisas e confusas. A razão de serem duvidosas é que, em muitos casos, as provas textuais relacionadas permanecem obscuras; às vezes, as pessoas caem em extrema dúvida porque não conseguem tomar uma decisão definitiva quanto à aplicação da prova categórica disponível. No Islã, evitar essas coisas duvidosas é chamado de temor a Allah, taqwa e adoção de precaução para se manter afastado da injustiça. Isso fecha o caminho para o pecado, proporciona às pessoas um treinamento correto e as conduz pelo caminho certo. Caso contrário, alguém pode envolver-se em atos duvidosos e acabar cometendo atos haram. O Nobre Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, declarou pessoalmente este princípio fundamental:

…………….. Árabe …………………

O halal é claro, e o haram também é claro. Entre ambos há algumas coisas duvidosas. Muitas pessoas não sabem se, na realidade, elas são halal ou haram. Nessa situação, aquele que se mantém afastado delas para proteger sua religião e sua honra certamente encontrará segurança. Mas aquele que se envolver com alguma delas não estará livre de cair no haram. Quem leva seus animais para pastar nas proximidades de uma pastagem proibida corre o risco de entrar nessa área proibida. Ouçam: todo rei tem uma “pastagem protegida”. Ouçam ainda: as coisas que Allah proibiu são a Sua pastagem protegida.(Bukhari, Muslim, Tirmidhi)

10. O haram é para todos

Na sharia islâmica, a regra do haram é geral, sem distinção, e aplica-se a todos. Não pode acontecer no Islã que algo seja haram para os habitantes de um país e halal para os habitantes de outro, ou que seja proibido para os negros e permitido para os brancos. Também é completamente inconcebível no Islã que algo seja halal para uma classe ou grupo específico de pessoas e proibido para os demais. No Islã, não foi reconhecido nenhum status especial para sacerdotes, clérigos, eruditos, reis, governantes, nobres ou pessoas de classes semelhantes. O Islã não lhes concedeu oportunidade alguma de, alegando seu status especial, satisfazerem seus desejos de um lado e, de outro, exercerem sobre o povo uma forma especial de domínio. Sob esse aspecto, os muçulmanos também não possuem status ou direito especial algum. Não há no Islã nenhuma regra segundo a qual algo seria halal para os muçulmanos e esse mesmo algo seria haram para os demais. Pois Allah é o Senhor de todos os seres humanos, sem distinção. Do mesmo modo, a lei de vida que Ele concedeu — a sharia islâmica — é uma orientação para toda a humanidade, sem distinção. Portanto, tudo aquilo que Sua sharia declarou halal é halal para todas as pessoas, sem distinção. Por outro lado, tudo aquilo que Ele declarou haram é haram para todos, até o Dia da Ressurreição.

Pode-se citar como exemplo o roubo. Ele é haram para todos. É igualmente proibido em todos os casos, seja o ladrão muçulmano ou não muçulmano. Seja qual for a identidade do ladrão, seja ele muçulmano ou não muçulmano, o tratamento é igual em todos os casos. Seja qual for a identidade do ladrão, ele inevitavelmente terá de sofrer a punição. O próprio Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos estejam sobre ele, pôs esse princípio em prática. Ele declarou:

……………. Árabe ………………

Juro pelo nome de Allah! Se Fátima, filha de Muhammad, também roubasse, sua mão seria cortada.(Bukhari)

Durante a vida do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos estejam sobre ele, ocorreu um caso de roubo. Suspeitou-se de um muçulmano e de um judeu. Os parentes do muçulmano continuaram atribuindo a culpa ao judeu, embora, na realidade, o muçulmano é que tivesse cometido o roubo. Nessa situação, foi revelada uma revelação por parte de Allah, estabelecendo uma justiça imparcial e declarando o judeu inocente. Foi dito:

إِنَّا أَنزَلْنَا إِلَيْكَ الْكِتَابَ بِالْحَقِّ لِتَحْكُمَ بَيْنَ النَّاسِ بِمَا أَرَاكَ اللَّهُ ۚ وَلَا تَكُن لِّلْخَائِنِينَ خَصِيمًا – وَاسْتَغْفِرِ اللَّهَ ۖ إِنَّ اللَّهَ كَانَ غَفُورًا رَّحِيمًا – وَلَا تُجَادِلْ عَنِ الَّذِينَ يَخْتَانُونَ أَنفُسَهُمْ ۚ إِنَّ اللَّهَ لَا يُحِبُّ مَن كَانَ خَوَّانًا أَثِيمًا –

Nós te revelamos este Livro com a verdade, para que julgues e administres entre as pessoas conforme aquilo que Allah te mostrou. Não sejas um litigante em defesa dos traidores. E não advogues em favor daqueles que traem a si mesmos. Allah não aprecia de modo algum os traidores e os pecadores.(Surata An-Nisā’: 105–107)

Os judeus alteraram deliberadamente muitas coisas no Livro de Allah que lhes havia sido revelado. Eles haviam decidido que os juros seriam proibidos para os judeus quando alguém emprestasse a um de seus irmãos judeus. Porém, não havia proibição de conceder empréstimos a juros a um não judeu; isso não seria haram. Em seu livro está escrito:

Não concedas um empréstimo a juros ao teu irmão, mas podes conceder um empréstimo a juros a alguém de outra nação.

O Alcorão Sagrado também menciona essa má ação dos judeus. Nele é dito:

وَمِنْ أَهْلِ الْكِتَابِ مَنْ إِن تَأْمَنْهُ بِقِنطَارٍ يُؤَدِّهِ إِلَيْكَ وَمِنْهُم مَّنْ إِن تَأْمَنْهُ بِدِينَارٍ لَّا يُؤَدِّهِ إِلَيْكَ إِلَّا مَا دُمْتَ عَلَيْهِ قَائِمًا ۗ ذَٰلِكَ بِأَنَّهُمْ قَالُوا لَيْسَ عَلَيْنَا فِي الْأُمِّيِّينَ سَبِيلٌ وَيَقُولُونَ عَلَى اللَّهِ الْكَذِبَ وَهُمْ يَعْلَمُونَ

Entre eles há também aqueles que, se lhes confiares como depósito uma única moeda, não a devolverão enquanto não te impuseres sobre eles. Isso ocorre porque dizem: “Não temos responsabilidade alguma para com os ummīs (não judeus).” E eles divulgam deliberadamente essa mentira em nome de Allah.(Surata Āl–ʿImrān: 75)

Não há dúvida de que eles propagaram uma mentira em nome de Allah. Pois a lei de Allah e a lei da Sharia não fazem distinção entre diferentes povos. Allah declarou a traição haram pela palavra de todos os profetas e mensageiros. Não há dúvida de que essa argumentação dos judeus é simplesmente resultado de uma mentalidade vil, baixa e estreita. Ela não pode ter lugar, nem mesmo em mínima medida, em nenhuma religião celestial. Pois a moral elevada e a veracidade são sempre humanas e universais. Portanto, algo não pode ser halal para uns e haram para outros. É o caso da preservação dos depósitos confiados. Embora fosse reconhecida entre eles como uma característica do bom caráter, não o era de forma universal. Estava especificamente limitada às relações mútuas entre os membros de sua própria tribo. Mas, em relação a pessoas diferentes, fora da tribo, toda forma de traição não era apenas permitida: era considerada um dever altamente recomendável e estimado.

Assim, existem por toda parte muitas concepções religiosas antigas e científicas modernas que criam divisões entre as pessoas, entre as tribos e entre as nações. Elas são desumanas e também não resistem à prova da verdadeira razão. Portanto, devem ser evitadas.

11. A necessidade torna lícito o proibido

O campo e o âmbito das proibições do Islã são extremamente restritos. Apesar disso, em tudo o que proibiu, adotou-se extrema severidade e inflexibilidade. Também foram bloqueados os caminhos manifestos e ocultos que conduzem aos atos proibidos. Além disso, aquilo que é causa de um ato proibido também foi proibido. Dar oportunidade àquilo que ajuda e auxilia em um ato proibido também foi declarado proibido no Islã. Até mesmo tentar, por meio de artifícios, tornar lícito algo proibido foi proibido. Contudo, o Islã não negou a exigência das necessidades reais do ser humano. Tampouco demonstrou a menor negligência diante da fraqueza humana. Por isso, levando em consideração necessidades de extrema intensidade e a fraqueza natural do ser humano, foi permitido consumir do proibido apenas na medida necessária para satisfazer as necessidades básicas. Mas essa permissão também não é irrestrita nem incondicional. Seu único objetivo fundamental é satisfazer a necessidade e evitar a destruição. Por essa razão, depois de Allah, o Altíssimo, declarar proibido o consumo de animais mortos, sangue e carne de porco, disse:

فَمَنِ اضْطُرَّ غَيْرَ بَاغٍ وَلَا عَادٍ فَلَا إِثْمَ عَلَيْهِ ۚ إِنَّ اللَّهَ غَفُورٌ رَّحِيمٌ

Se alguém, forçado pela necessidade, consumir uma parte dessas coisas, sem desejá-las nem transgredir, não cometerá pecado. Sem dúvida, Allah é Perdoador, Misericordioso. (Surata Al-Baqarah: 173)

No Alcorão, Allah, o Altíssimo, declarou repetidamente essa permissão. E foi a partir disso que os juristas islâmicos extraíram este princípio:

‘A necessidade torna lícito até mesmo o que é proibido.’

Contudo, deve-se observar especialmente que, em cada um desses poucos lugares, foi imposta à pessoa em situação de necessidade a condição de ‘não desejar nem transgredir’. Isso significa que, quando alguém se encontra em necessidade, não encontra alimento halal e, devido à fome, torna-se intenso o temor de perder a vida, então ‘pode comer alimento haram; porém, não pode ter como objetivo cobiçá-lo, desejá-lo, saboreá-lo ou obter satisfação. Em segundo lugar, ao comê-lo, pode consumir apenas a quantidade mínima necessária; não pode comer até encher o estômago’. A partir dessa condição, os juristas estabeleceram outro princípio fundamental. E ele é:

………………. Árabe. ……………

É a necessidade que determina sua medida (ou o limite dessa medida).

É verdade que o ser humano precisa curvar-se diante da necessidade. Mas isso não significa que ele deva submeter-se completamente a ela, entregando-lhe as rédeas de sua própria existência. Ele deve permanecer ligado ao lícito, buscando-o incessantemente, dia e noite. Como, devido à necessidade, foi permitido consumir temporariamente coisas proibidas e apenas na medida mínima necessária, é absolutamente indispensável manter sobre isso um olhar atento e vigilante, para que a pessoa não tente apegar-se a isso para sempre nem se entregue ao prazer de saboreá-las.

Ao permitir o consumo do proibido em situações de necessidade extrema, o Islã demonstrou a realidade de seu espírito fundamental e, em conformidade com seus próprios princípios e ideais, estabeleceu uma disposição de facilidade. Com isso, fica inequivocamente comprovada a veracidade desta declaração de Allah, o Altíssimo:

يُرِيدُ اللَّهُ بِكُمُ الْيُسْرَ وَلَا يُرِيدُ بِكُمُ الْعُسْرَ

Allah deseja facilitar-vos. Ele não deseja impor-vos dificuldade alguma. ((Surata Al-Baqara: 185)

مَا يُرِيدُ اللَّهُ لِيَجْعَلَ عَلَيْكُم مِّنْ حَرَجٍ وَلَٰكِن يُرِيدُ لِيُطَهِّرَكُمْ وَلِيُتِمَّ نِعْمَتَهُ عَلَيْكُمْ لَعَلَّكُمْ تَشْكُرُونَ

Allah não deseja lançar-vos em dificuldade e constrangimento. Pelo contrário, deseja purificar-vos e completar Sua graça sobre vós, para que sejais agradecidos. ((Surata Al-Maida: 6)

يُرِيدُ اللَّهُ أَن يُخَفِّفَ عَنكُمْ ۚ وَخُلِقَ الْإِنسَانُ ضَعِيفًا

Allah deseja aliviar-vos o fardo. Pois o ser humano foi criado fraco e incapaz. (Surata An-Nissá: 28)

 

Segundo capítulo

Na vida pessoal do muçulmano: halal e–haram

– alimentos e bebidas

– vestuário e adornos–— beleza

– casa–e lar

– Rendimentos e profissão

 

Na vida pessoal do muçulmano: halal–e haram

Alimentos e bebidas — especialmente no que diz respeito ao consumo de alimentos provenientes dos animais — têm sido, desde os tempos mais antigos, motivo de divergência ou diferença de opinião entre os povos. A divergência se consolidou justamente em torno de quais coisas são permitidas e lícitas e quais não o são.

No caso de alimentos e bebidas de origem vegetal, não há muita nem ampla divergência. O Islã tornou o consumo de bebidas inebriantes haram, sejam elas feitas de uvas, tâmaras, cevada ou qualquer outra coisa. Do mesmo modo, tudo o que corrompe a razão e a consciência das pessoas, provoca algum tipo de desordem ou é prejudicial à saúde é haram.

Entretanto, no que diz respeito aos alimentos de origem animal, há uma intensa divergência entre os diversos povos do mundo.

Aos olhos dos brâmanes, abater animais , e comer

Na visão dos brâmanes e de outros crentes religiosos, bem como de alguns seguidores de correntes filosóficas, abater e comer animais é haram para eles mesmos. Plantas ou verduras são seu único alimento. Pois, segundo eles, abater animais é um ato extremamente doloroso e cruel. Eles também têm direito à vida, e não se pode privá-los desse direito.

Entretanto, ao observar a natureza do universo e examiná-la com uma visão profunda e minuciosa, pode-se compreender claramente que abater animais é uma ação completamente inocente. Pois esses animais do mundo não são criações independentes com um propósito próprio específico. Eles não possuem razão, consciência, vontade própria nem capacidade de escolher. A própria estrutura natural de seus corpos prova que foram criados e destinados sobretudo a cumprir serviços para o ser humano. O ser humano os coloca sob seu controle e realiza muitas tarefas por meio deles. Do mesmo modo, quando são abatidos e consumidos como alimento, não pode haver nisso objeção alguma. A lei dada por Allah, sempre operante no mundo da criação, é que as criaturas inferiores se sacrificam pelas criaturas melhores e superiores. Do mesmo modo, os animais são continuamente utilizados como alimento pelos seres humanos. Do mesmo modo, os animais se transformam em alimento para os seres humanos. Não apenas isso: matar um indivíduo para a segurança da coletividade humana tornou-se algo natural. Se os animais não fossem abatidos para servir ao ser humano, isso não significaria que estariam protegidos da morte e da destruição. É inevitável que sejam despedaçados por outros animais e feras mais fortes e predadores, tornando-se alimento deles. Ou serão obrigados a morrer de morte natural. E isso certamente seria mais doloroso do que abatê-los passando uma arma afiada por suas gargantas.

Judeus e cristãos quanto aos animais haram na visão

Entre os que creem nos Livros Celestiais, muitos animais terrestres e aquáticos foram proibidos aos judeus. No capítulo onze de Levítico, no Antigo Testamento, foi citada uma descrição detalhada disso. Algumas dessas questões também foram mencionadas no Alcorão Sagrado. Por meio dele, sabe-se o que havia sido proibido aos judeus. E foi claramente declarado que essa proibição havia sido imposta unicamente como punição por sua própria opressão e seus atos de rebeldia. Foi dito:

وَعَلَى الَّذِينَ هَادُوا حَرَّمْنَا كُلَّ ذِي ظُفُرٍ ۖ وَمِنَ الْبَقَرِ وَالْغَنَمِ حَرَّمْنَا عَلَيْهِمْ شُحُومَهُمَا إِلَّا مَا حَمَلَتْ ظُهُورُهُمَا أَوِ الْحَوَايَا أَوْ مَا اخْتَلَطَ بِعَظْمٍ ۚ ذَٰلِكَ جَزَيْنَاهُم بِبَغْيِهِمْ ۖ وَإِنَّا لَصَادِقُونَ

E proibimos aos que se tornaram judeus todos os animais que possuem garras. E também a gordura dos bovinos e dos caprinos, exceto a que estivesse ligada às suas costas, aos intestinos ou aos ossos. Isso foi feito como punição por se oporem a Deus. E, ao fazê-lo, somos certamente verazes. (Surata Al-An’‘am: 146)

Este é o caso dos judeus. O caso dos cristãos é bastante semelhante, pois, nesse aspecto, eles estão subordinados aos judeus. Isso porque o Evangelho não revogou essa determinação. Pelo contrário, declarou: “Jesus, o Messias, não veio para revogar a lei anterior, mas para aperfeiçoá-la. Contudo, os próprios cristãos violaram as disposições da lei e tornaram halal tudo aquilo que lhes havia sido proibido na Torá. No que diz respeito a alimentos e bebidas, eles seguem as disposições do santo Paulo e declararam halal tudo, exceto os animais sacrificados aos ídolos. Paulo, explicando a razão disso, disse: ‘Para os santos, tudo é santo. E tudo o que entra pela boca não torna impuro; ao contrário, o que sai da boca é que torna impuro.’ Com base nesse argumento, também tornaram halal a carne de porco, embora, segundo a declaração clara do Livro na Torá, ela continue sendo completamente haram para eles até hoje.

Islã pré- islâmica dos árabes situação

Antes do advento do Islã, na era da jahiliyyah, a sociedade árabe considerava alguns animais impuros e tornava outros haram para si, por buscar proximidade com divindades e seguir superstições. Bahira, Sa’iba, Wasila e Ham, entre outros, eram animais haram nesse período — sua explicação já foi apresentada anteriormente. Em contrapartida, declaravam permitidos e halal muitos itens impuros, como animais mortos e sangue corrente.

O Islã tornou lícitas as coisas puras

Quando o Islã chegou, os habitantes da Arábia estavam afligidos por pensamentos contraditórios e diversos a respeito dos alimentos de origem animal. Por isso, dirigindo-se a toda a humanidade, o Islã declarou:

يَا أَيُّهَا النَّاسُ كُلُوا مِمَّا فِي الْأَرْضِ حَلَالًا طَيِّبًا وَلَا تَتَّبِعُوا خُطُوَاتِ الشَّيْطَانِ ۚ إِنَّهُ لَكُمْ عَدُوٌّ مُّبِينٌ

Ó humanidade, comei de tudo o que é lícito e puro na terra e não sigais os passos de Satanás. Certamente, Satanás é vosso inimigo declarado. (Surata Al-Baqara: 168)

Em outras palavras, o Islã convocou todos, sem exceção, dizendo: ‘Ó pessoas, tomai como alimento as coisas puras e excelentes desta vasta e extensa mesa posta da terra. E jamais sigais o caminho indicado por Satanás’. Isto é, não considereis ilícito aquilo que Allah tornou lícito, precipitando-vos no profundo abismo do desvio. Em seguida, dirigindo-se especificamente aos crentes, foi dito:

……………… Árabe ……………

Ó vós que credes! Comei das coisas puras que vos concedemos como provisão e agradecei a Allah, se estais dispostos a adorá-Lo exclusiva e sinceramente. Ele apenas proibiu-vos a carniça, o sangue, a carne de porco e o animal abatido em nome de alguém que não seja Allah. Porém, quem se vir em extrema necessidade, sem desejá-lo, não cometerá pecado ao comê-lo. Allah é Perdoador, Misericordioso.

Com essas palavras dirigidas especialmente aos crentes, Allah ordenou-lhes que consumissem alimentos puros e excelentes. Ao mesmo tempo, ordenou-lhes que agradecessem ao Generoso Doador, reconhecessem o valor das dádivas de Suas bênçãos e cumprissem devidamente seu dever para com elas. Em seguida, foi dito que, além das quatro categorias de coisas mencionadas no versículo, Allah não proibiu nenhuma outra. Foi dito:

قُل لَّا أَجِدُ فِي مَا أُوحِيَ إِلَيَّ مُحَرَّمًا عَلَىٰ طَاعِمٍ يَطْعَمُهُ إِلَّا أَن يَكُونَ مَيْتَةً أَوْ دَمًا مَّسْفُوحًا أَوْ لَحْمَ خِنزِيرٍ فَإِنَّهُ رِجْسٌ أَوْ فِسْقًا أُهِلَّ لِغَيْرِ اللَّهِ بِهِ ۚ فَمَنِ اضْطُرَّ غَيْرَ بَاغٍ وَلَا عَادٍ فَإِنَّ رَبَّكَ غَفُورٌ رَّحِيمٌ

Dize: na revelação que me foi feita, não encontro nada proibido para quem quer que seja que coma, exceto animal morto, sangue derramado, carne de porco ou um animal sacrificado em nome de outro que não Allah. Mas quem for compelido a comer algo disso, sem desejá-lo nem ultrapassar o limite da necessidade, então teu Senhor é certamente Perdoador, Misericordioso. (Surata Al’-An’am: 145)

Na surata Al–-Ma’ida, após apresentar a descrição dessas coisas proibidas, foi dito:

حُرِّمَتْ عَلَيْكُمُ الْمَيْتَةُ وَالدَّمُ وَلَحْمُ الْخِنزِيرِ وَمَا أُهِلَّ لِغَيْرِ اللَّهِ بِهِ وَالْمُنْخَنِقَةُ وَالْمَوْقُوذَةُ وَالْمُتَرَدِّيَةُ وَالنَّطِيحَةُ وَمَا أَكَلَ السَّبُعُ إِلَّا مَا ذَكَّيْتُمْ وَمَا ذُبِحَ عَلَى النُّصُبِ

São-vos proibidos o animal morto, o sangue, a carne de porco, aquilo que foi consagrado a outros deuses além de Allah, o que morreu estrangulado, o que morreu devido a ferimentos, o que morreu ao cair de um lugar elevado, o que morreu após ser chifrado, o que foi despedaçado por uma fera, exceto aquilo que conseguistes degolar, e aquilo que foi sacrificado em nome de uma divindade.(Surata Al -Ma’ida: 3)

Neste versículo, são mencionados dez tipos de animais proibidos. No versículo anterior, haviam sido mencionadas apenas cinco coisas proibidas. Portanto, não há contradição entre os dois. Pelo contrário, um versículo constitui uma explicação detalhada do outro. Com efeito, os animais que morreram estrangulados, devido a ferimentos, ao cair de um lugar elevado, após serem chifrados ou despedaçados por uma fera são, na realidade, animais mortos; são apenas diferentes formas de animais mortos. O animal sacrificado em nome de uma divindade também é considerado da mesma categoria que o animal degolado em nome de outro que não Allah. Assim, na realidade, apenas quatro tipos de animais são proibidos.

Razões pelas quais o animal morto é considerado haram

Entre os versículos do Alcorão nos quais são mencionados os alimentos haram, em todos eles o primeiro mencionado é al-Maita. Isto é, o animal ou a ave que morreu de morte natural. Em outras palavras, aquele ser vivo ou ave cuja morte não ocorreu em consequência de abate ritual ou caça.

Mas qual poderia ser a razão subjacente à proibição e à declaração de haram do uso desse animal como alimento, bem como ao fato de ele ser deixado sem proveito até se decompor? Esta é a pergunta da mente moderna. Em resposta, diria que, por trás da proibição do animal e da ave mortos e de se permitir que se decomponham, existem diversas razões benéficas:

a. A natureza humana sã sente repulsa pelos seres mortos. A pessoa dotada de consciência considera comer um cadáver algo extremamente repugnante. Crê que isso é uma ação totalmente indecorosa e vil para o ser humano. Por isso, em todos os Livros celestes e religiões, comer cadáveres foi declarado haram, enquanto em toda parte se preferiu comer animais abatidos, por mais diferentes que sejam os métodos e as regras do abate.

b. Não é do agrado de Allah que uma pessoa aceite como alimento algo que não desejou obter e pelo qual não sentiu qualquer desejo. O estado da carniça é precisamente esse. Porém, no animal abatido ou caçado há uma parte da determinação, do esforço e do cuidado humanos; por isso, ele é considerado preferível.

c. Quanto ao animal que morreu de morte natural, há o temor de que possa ter morrido de uma doença crônica, em consequência de algum acidente ou por ter comido ervas ou plantas venenosas. Nesse caso, existe o risco de que seu consumo cause um grande dano. Ou pode ter morrido por estar extremamente fraco ou por sua saúde estar debilitada.

d. Ao declarar o cadáver haram para os seres humanos, Allah, o Altíssimo, providenciou, por especial misericórdia, alimento para os animais e as aves. Pois eles também são criaturas de Allah, assim como nós.

e. Outro aspecto é que o ser humano não deve abandonar os animais sob sua propriedade, deixando-os adoecer, enfraquecer e perecer. Deve, antes, providenciar imediatamente seu tratamento ou abatê-los, concedendo-lhes descanso eterno.

Derramado sangue haram por quê

O segundo item na lista das coisas haram é o sangue derramado. Perguntaram a Hazrat Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) qual era o حکم da Sharia sobre o tilli (baço). Ele respondeu: “Pode-se comer.” As pessoas disseram: “Mas isso não é, na realidade, apenas sangue coagulado?” Em resposta, ele disse: “Allah, o Altíssimo, proibiu somente o sangue derramado, pois ele é impuro, contaminado e repugnante (imundície). A natureza humana limpa, pura e saudável não pode deixar de sentir aversão por ele. Além disso, assim como no animal morto, é muito provável que nele também existam micróbios nocivos.”

Na época da Jahiliyyah, quando alguém sentia uma fome intensa, cravava um osso ou algum objeto afiado no corpo de um camelo ou de outro animal. Bebia avidamente o sangue que jorrava dali. Como consequência desse tipo de prática, os animais eram obrigados a suportar dores e sofrimentos terríveis. Era inevitável que ficassem enfraquecidos devido à perda de sangue. Por todas essas razões, Allah, o Altíssimo, proibiu o sangue corrente.

de porco carne

O terceiro item desta lista é a carne de porco. Toda natureza e disposição saudável sente aversão por ela, pois é impura. Não se pode sequer imaginar que uma pessoa de bom gosto e natureza saudável possa sentir atração pela carne de porco. Isso porque o alimento mais apreciado pelo porco consiste em todo tipo de fezes e lixo. Mesmo do ponto de vista da ciência da saúde moderna, seu consumo é muito prejudicial em toda parte, especialmente nos países de clima predominantemente quente. Experimentos científicos também comprovaram que, quando se come carne de porco, desenvolve-se no corpo um tipo de verme que corrói a saúde pouco a pouco.

{As pesquisas científicas mais recentes revelaram que os seguintes micróbios podem desenvolver-se na carne de porco: Cysticerus teunicallis, Cysticereus cellulosae Spargamune mousoni, Echinococeus podymorphus, paragonimus weater manall — tradutor}

No futuro, muitos outros aspectos — muitas outras causas — de seus danos poderão ser descobertos. Segundo muitos especialistas, o consumo habitual de carne de porco desperta a falta de vergonha no caráter humano e extingue o senso de dignidade própria.

Allah além de outro alguém para consagrado animal

O quarto animal proibido é aquele que é oferecido em sacrifício a alguém que não seja Allah — o consumo de animais assim oferecidos também é proibido. Isto é, se um animal for abatido ou sacrificado em nome de alguém que não seja Allah, ou se o nome de outra pessoa for pronunciado durante o abate, ele se torna proibido para todo muçulmano. Os idólatras ofereciam — e ainda oferecem — animais em sacrifício às suas divindades e ídolos. Eles os sacrificavam ou abatiam. Como esses animais foram oferecidos a divindades que não são Allah, buscando aproximar-se delas e servi-las, isso constitui um ato extremo de shirk. Por essa razão, quem crê no Deus Único não pode comer esses animais. Do ponto de vista da religião do tawhid, comer deles é um shirk evidente. É por isso que são proibidos. O objetivo é preservar a pureza da crença e da doutrina do tawhid, manter as pessoas afastadas do shirk e da idolatria e fazê-las rejeitá-los.

Foi Allah, o Altíssimo, quem criou o ser humano. Ele submeteu a ele tudo o que existe na terra. Os animais também estão sob o domínio do ser humano e foram colocados a seu serviço. Abatê-los para o benefício humano é totalmente permitido. Contudo, a condição é que, no momento do abate, seja pronunciado o nome de Allah, dizendo: “Allahu Akbar”. Assim, fica comprovado que o ato de abater uma criatura viva e tirar-lhe a vida está sendo realizado com a permissão concedida pelo próprio Allah. Mas, se o nome de outra pessoa for pronunciado durante o abate, essa permissão de Allah é, na prática, rejeitada. Por isso, esse animal é declarado proibido, a fim de afastar dele a pessoa que o abateu.

Alguns tipos de carniça

De modo geral, estas quatro coisas são essencialmente proibidas. Contudo, na surata Al-–Ma’idah, à luz do relato um pouco mais detalhado que aparece nela, o número delas chega a dez. As restantes são:

5. Munjâniqah: o animal que morre estrangulado;

6. Mauqudhah: o animal que morre atingido por um bastão ou por algum outro objeto duro;

7. Mutaraddiyah: o animal que morre ao cair de um lugar elevado, ou depois de cair em um poço ou canal;

8. Natihah: o animal que morre atingido pelas chifradas de outro animal;

9. O animal dilacerado por uma fera — aquele do qual ela comeu alguma parte do corpo, causando sua morte; depois de mencionar esses cinco tipos de animais, Allah, o Altíssimo, declarou: se encontrardes vivo algum deles e o abaterdes, isso não será haram; pelo contrário, podereis comê-lo. Para o abate, basta que ainda lhe reste o último sopro de vida. Hadrat Ali, que Allah esteja satisfeito com ele, disse:

………. (árabe)………………..

Estes animais, que morreram por golpe de bastão, por queda de um lugar elevado ou por uma chifrada, se forem abatidos enquanto ainda estiverem vivos — quando moverem a mão ou a pata — podereis comê-los.

‘Dahh‌ak’ disse: Na época da Jahiliyyah, as pessoas comiam esses animais sem abatê-los. Mas Allah, o Altíssimo, proibiu no Islã o consumo deles. Contudo, se algum deles ainda conservar um mínimo de vida e puder ser abatido enquanto move a pata, a cauda ou o olho, ele será halal.

(Segundo alguns juristas, é necessário que ainda haja nele vida estável. Somente se houver fluxo de sangue e ele continuar movendo firmemente as patas e as mãos é que, após o abate, ele será halal.)

A razão pela qual esses cadáveres são proibidos

Na base da proibição desses cadáveres encontram-se justamente as razões e os objetivos que já foram mencionados detalhadamente. Em particular, pode-se dizer que o objetivo da Sharia é fazer com que o ser humano seja compassivo para com os animais e plenamente zeloso de sua responsabilidade pela criação deles. O ser humano não deve abandoná-los indefesos. Que um deles morra estrangulado, outro morra ao cair de um lugar elevado e outro morra depois de envolver-se numa luta com outro animal e receber uma chifrada, sem que o dono do animal sinta qualquer responsabilidade por isso — Allah de modo algum aprova tal atitude. Quando alguém espanca os animais com tamanha crueldade que sua morte se torna inevitável, isso se torna causa do desagrado de Allah. Muitos se divertem provocando lutas entre animais ou determinando o vencedor e o vencido. Nelas, um animal golpeia o outro com os chifres, ferindo-o e ensanguentando-o, e, como resultado, ele não tem outra saída senão morrer. Allah também não aprova esse ato.

Também é haram comer o animal dilacerado por uma fera. O objetivo principal disso é preservar a dignidade humana. Afinal, não é decoroso que o ser humano coma os restos deixados por um animal. Pretendeu-se afastar as pessoas disso. Na época da Jahiliyyah, as pessoas comiam esses animais sem qualquer hesitação. Mas Allah, o Altíssimo, tornou haram para os crentes comer os restos deixados por feras.

Animal destinado ao sacrifício a uma divindade

O décimo entre os animais proibidos é aquele que for morto em um local determinado para ser oferecido em sacrifício a alguma divindade. Seu propósito e objetivo serão adorar alguma força, pessoa ou divindade além de Allah. Na época da Jahiliyyah, muitos desses “altares” foram construídos ao redor da Caaba. Naquela época, as pessoas sacrificavam animais nesses locais com o objetivo de adorar suas divindades e buscar proximidade delas. Em suma, isso também é apenas um sacrifício dedicado a alguém além de Allah. Em ambos os casos, o objetivo supremo é demonstrar devoção e reverência a uma força além de Allah, exaltá-la e manifestar sua grandeza. A única diferença é que a expressão “animal sacrificado em nome de alguém além de Allah” pode ser usada para o animal que foi abatido sem que houvesse um “ídolo” diante dele no momento do abate; basta que tenha sido abatido em nome de algum ídolo. Porém, o animal abatido em um altar será proibido mesmo que não tenha sido sacrificado em nome de alguém além de Allah. Em outras palavras, no primeiro caso, o “local” não é determinado; no segundo, o local é especificamente determinado.

As pessoas acreditavam que, se animais fossem abatidos nos “altares” construídos ao redor da Caaba, isso demonstraria respeito pela Casa de Allah. O Alcorão corrigiu essa concepção equivocada e declarou explicitamente que essa prática é proibida. Caso contrário, a expressão “animal sacrificado para alguém além de Allah” também incluiria o animal abatido em um “altar”.

Peixes e gafanhotos a respeito de uma regulamentação específica

No Islã, foi estabelecida uma regulamentação específica sobre os peixes e animais aquáticos desse tipo. Eles não foram incluídos entre os animais proibidos. Quando o nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) foi perguntado sobre a água do mar, respondeu:

……….. Árabe ……………

A água do mar é pura, e os animais mortos nele são lícitos.

Foi dito no Alcorão Majيد:

……….. Árabe ……………

A caça do mar e o seu alimento foram tornados halal para vós.

Hazrat Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, disse a respeito da interpretação deste trecho do versículo:

Por “caça do mar” entendem-se todos os seres vivos que são caçados no mar. E por alimento do mar entende-se aquilo que o próprio mar lança à superfície.

Hazrat Ibn Abbas, que Allah esteja satisfeito com ele, também disse: por alimento do mar entende-se a “criatura morta” do mar.

Bukhari e Muslim citaram nos seus livros este hadith, narrado por Hazrat Jabir, que Allah esteja satisfeito com ele:

……….. Árabe ……………

O Nobre Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, enviou um grupo de companheiros para uma expedição específica. Eles encontraram um peixe grande. O mar havia lançado o peixe à superfície, ou seja, ele estava morto. Eles continuaram a alimentar-se daquele peixe por mais de vinte dias. Depois, regressaram a Medina e informaram o Nobre Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, sobre o assunto. Ele lhes disse: “Comei da provisão que Allah vos concedeu. Se ainda restar convosco alguma parte daquele peixe, dai-nos também dela para comer.” Então, alguns deles apresentaram uma parte daquele peixe ao Nobre Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Ele comeu dela. (Bukhari)

Esta mesma norma da Shariah aplica-se também aos gafanhotos. O nobre Profeta (que a paz esteja sobre ele) permitiu comer gafanhotos mortos, pois eles não podem ser abatidos. Hazrat Ibn Abi Layla disse:

……….. Árabe ……………

Participamos de sete expedições militares com o Mensageiro de Deus (que a paz esteja sobre ele). Naquela ocasião, comemos gafanhotos junto com ele.

Mortos de animais pele, ossos e lã uso

“O animal morto é haram” significa que é haram comê-lo. No entanto, não há problema em utilizar a pele, os chifres, os ossos e a lã de animais mortos. Além disso, isso é até desejável, pois se trata de um bem que pode ser utilizado e aproveitado. Portanto, não pode ser permitido destruí-lo.

Hazrat Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) disse:

Um escravo de Hazrat Maymuna, Mãe dos Crentes, recebeu uma cabra como presente. Mais tarde, ela morreu. Ao vê-la, o nobre Profeta (que a paz esteja sobre ele) disse: “Por que vocês não retiram a pele dela? Depois de limpá-la e curti-la, poderão utilizá-la.” As pessoas disseram: “Mas ela morreu.” O Mensageiro de Deus (que a paz esteja sobre ele) disse: “Somente comer o animal morto é haram.”

O nobre Profeta (que a paz esteja sobre ele) ensinou o método de purificar e limpar a pele de um animal morto. Ele disse:

……….. Árabe ……………

Purificar e limpar o animal por meio do curtimento da pele equivale ao seu abate ritual. (Abu Dawud, an-Nasa’i)

Em outra narração, é citado:

O ‘curtimento’ remove da pele a sujeira e a impureza. (al-Hakim)

Em obras como ‘Muslim’, é citada esta declaração do nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele):

……….. Árabe …………….

Qualquer pele que seja submetida ao ‘curtimento’ (Tanning) tornar-se-á pura.

Esta é uma regra geral. Ela se aplica às peles de todos os tipos de animais. No caso das peles de cães e porcos, não há qualquer diferença. Esta é a opinião dos juristas.

A Mãe dos Crentes, Hazrat Sawda, que Allah esteja satisfeito com ela, disse:

Uma de nossas cabras morreu. Então curtimos sua pele. Depois, passamos a preparar nela continuamente nabidh (bebida de tâmaras). Desse modo, ela acabou se transformando em um antigo recipiente de odre para nós. (Bukhari)

Uma regra específica para a situação de necessidade

A regra sobre o que é haram que está sendo explicada aqui é, na realidade, um princípio a ser seguido por livre escolha em condições normais e tranquilas. Porém, a situação de necessidade é distinta disso. Esse assunto já foi discutido detalhadamente anteriormente. Allah disse:

وَقَدْ فَصَّلَ لَكُم مَّا حَرَّمَ عَلَيْكُمْ إِلَّا مَا اضْطُرِرْتُمْ إِلَيْهِ

Allah, o Altíssimo, explicou detalhadamente para vós tudo aquilo que Ele vos proibiu. Há, porém, uma exceção: se, por necessidade, fordes obrigados a consumir alguma dessas coisas. (Surata Al’An‘am: 119)

A obrigação de consumir algo por necessidade é uma questão aceita e apoiada por todos. No âmbito da alimentação, essa situação de necessidade pode ser observada muitas vezes. Por exemplo, alguém pode ficar extremamente debilitado pela fome. Segundo alguns juristas, nessa condição de fome, já se passou um dia e uma noite. Entretanto, durante esse período, ele não encontrou nada que pudesse comer para aplacar sua fome. Nesse momento, o único alimento facilmente disponível diante dele é um alimento haram. Então, ele pode consumir a quantidade mínima necessária, satisfazer sua necessidade e conseguir escapar da morte certa. A Shariah lhe concede essa permissão. O Imam Malik, que Allah tenha misericórdia dele, disse:

………… Árabe …………

A quantidade de alimento haram que se pode consumir em uma situação de necessidade é a suficiente para saciar o estômago (Satisfação) e obter dele provisão até que se encontre alimento halal.

Mas outros disseram:

………… Árabe …………

A pessoa nessa situação de necessidade só pode consumir a quantidade de alimento haram suficiente para manter o último sopro de vida.

Talvez esta opinião seja a mais compatível com a declaração do Alcorão — (Árabe) “sem desejar excessivamente nem transgredir”. Para esclarecer a questão da fome, o Alcorão afirma claramente:

………… Árabe …………

Mas quem for compelido pela fome a comer algo haram, sem qualquer inclinação ou desejo pelo pecado, certamente encontrará Allah Perdoador e Misericordioso.

Por necessidade de tratamento

A questão que se coloca no caso de uma necessidade extrema no âmbito do tratamento médico é: qual é a determinação da shariah quando a cura de alguém depende justamente da ingestão de alguma coisa proibida como medicamento? Os juristas expressaram opiniões divergentes sobre este assunto. Alguns juristas não consideram a questão do tratamento médico uma necessidade tão intensa, grave e inevitável quanto a alimentação. Em apoio a essa opinião, eles também citaram uma declaração do nobre Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. O hadith é o seguinte:

………… Árabe …………

Allah não estabeleceu a cura das doenças para vocês naquilo que lhes foi proibido. (Bukhari)

Muitos juristas, por outro lado, consideraram seriamente a necessidade do tratamento e entenderam que os medicamentos ou o tratamento também são tão necessários quanto a alimentação. Com efeito, assim como o alimento é necessário para a vida, de modo algum se pode negar a necessidade dos medicamentos. Portanto, na opinião deles, deve certamente ser permitido utilizar essas substâncias proibidas como medicamentos em caso de necessidade. Como prova, acrescentaram que Abdur-Rahman ibn Awf e Zubayr ibn al-Awwam, que Allah esteja satisfeito com ambos, haviam sido acometidos por uma doença de pele. O Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, permitiu que usassem roupas de seda, embora isso fosse normalmente proibido e ele tivesse amaldiçoado quem as vestisse.

Provavelmente, esta opinião é a que está em harmonia com o espírito fundamental do Islã. Isso porque a adoção de qualquer meio eficaz para preservar a vida humana é o objetivo principal de todo sistema jurídico da shariah.

No entanto, a permissão para utilizar, como tratamento, medicamentos que contenham substâncias proibidas baseia-se em algumas condições. Essas condições são:

1. Deve-se considerar com certeza que, se esse medicamento não for utilizado, um perigo real poderá sobrevir à saúde.

2. Deve ser uma situação em que não se encontre nenhum medicamento que contenha substâncias halal e que possa substituí-lo ou servir como alternativa.

3. A esse respeito, é necessário obter uma autorização clara de um médico muçulmano crente em Deus.

Com base em nosso próprio conhecimento e nas informações e relatos recebidos de médicos confiáveis, queremos acrescentar algo. A saber: na realidade, não se chega a uma situação em que o uso de um medicamento que contenha alguma substância proibida se torne absolutamente indispensável para salvar uma vida. Ainda assim, por princípio e por precaução, não negamos a possibilidade de que o uso desse tipo de medicamento possa tornar-se inevitável. Pois não é correto considerar absolutamente impossível que um muçulmano se veja em um lugar ou situação onde nada além dessas substâncias proibidas esteja disponível.

Em nível coletivo, quando houver meios para atender a–necessidade individual, não resta

Pode acontecer de uma pessoa não encontrar alimentos em seu próprio país ou de não dispor deles. Mas não se pode aceitar que, por isso, ela tenha chegado a uma situação de extrema necessidade em todos os aspectos e que agora não possa salvar a própria vida sem consumir alimento proibido. Pois, no país de que é cidadã e na sociedade da qual faz parte, há enormes reservas de alimentos nas mãos do país, da sociedade ou de seu povo. Em tal situação, a necessidade da pessoa em extrema necessidade deve ser atendida com os excedentes alimentares de outras pessoas. Com a ajuda de tal व्यवस्था, pode-se proteger essa pessoa do consumo de alimentos proibidos, e isso é absolutamente obrigatório. Com efeito, por meio da ajuda mútua, deve-se realizar a plenitude da sociedade islâmica. Cada membro dessa sociedade é responsável por todos os demais. O conjunto de todas as individualidades dessa sociedade transforma-se em uma única individualidade comum. Somente uma sociedade desse tipo pode ser como uma muralha de chumbo fundido. Cada um de seus blocos é protetor dos demais blocos.(Sentido do hadith)

No âmbito do cumprimento da responsabilidade coletiva, uma citação doImã Ibn Hazmtem servido de orientação aos juristas do Islã. Ele escreveu:

Mesmo em uma situação de extrema necessidade, de modo algum pode ser permitido a um muçulmano comer carne de animal morto ou de porco. Isso porque seu vizinho, muçulmano ou não muçulmano, possui alimentos excedentes armazenados. Nessa situação, é dever dele alimentar a pessoa faminta. Portanto, não se pode considerar que a pessoa em necessidade esteja obrigada a comer carne de animal morto ou de porco. É plenamente lícito para ela obter do vizinho o excedente de alimentos e bebidas; ela tem esse direito. Se, para esse fim, tiver de lutar e acabar morrendo, o assassino deverá sofrer qisas. E, mesmo que seja necessário matar aquele que impede o acesso a esses alimentos excedentes, isso poderá ser feito, e a maldição de Alá cairá sobre o morto. Isso porque essa pessoa morta impediu uma pessoa faminta e necessitada de obter seu direito legítimo. Por essa razão, será considerada entre os rebeldes. E Alá, o Altíssimo, ordenou que se lutasse contra ele:

فَإِن بَغَتْ إِحْدَاهُمَا عَلَى الْأُخْرَىٰ فَقَاتِلُوا الَّتِي تَبْغِي حَتَّىٰ تَفِيءَ إِلَىٰ أَمْرِ اللَّهِ

Se uma das duas partes atacar a outra, combatei os transgressores até que, finalmente, retornem à determinação de Alá. (Surata Al-Hujurat: 9)

Na verdade, quem usurpa ou nega o direito de seu irmão, ou cria obstáculos ao seu exercício, é essencialmente um rebelde. Foi por essa razão que o venerável Abu Bakr Siddiq, que Alá esteja satisfeito com ele, combateu aqueles que se recusavam a pagar o zakat.

Método de abate conforme à Sharia

Toda a vida marinha é halal

Os seres vivos e os animais, considerando seu local e ambiente de habitação, dividem-se em duas categorias. Ou são aquáticos, ou são habitantes da terra.

Por seres aquáticos entendem-se os animais que vivem e habitam na água e cuja vida é inconcebível sem ela. Segundo a Sharia, em princípio, todos eles são halal, onde quer que sejam encontrados. Quer sejam capturados vivos na água, quer sejam encontrados mortos, tenham ou não morrido nela. Incluem-se nessa categoria os peixes pequenos e grandes. Também são considerados halal os seres chamados de cães-marinhos ou porcos-marinhos, bem como os demais animais semelhantes a peixes. É completamente irrelevante, nesse caso, se quem os capturou, matou ou caçou é muçulmano ou kafir. Na verdade, ao tornar halal tudo quanto existe no mar, Alá, o Altíssimo, concedeu uma imensa graça a Seus servos. Nenhuma categoria específica de seres aquáticos foi declarada haram, nem foi estabelecida qualquer condição para seu abate. Pelo contrário, foi dada às pessoas plena liberdade nesse assunto: cada uma pode coletar e utilizar quanto desejar para aliviar suas dificuldades e necessidades. Foi justamente ao manifestar Sua especial benevolência para com Seus servos que Alá, o Altíssimo, declarou:

(Árabe***********)

Esse grande Allah submeteu e colocou os rios e os mares a serviço, para que pudésseis deles obter carne fresca.

Disse:

(Árabe*******************)

Foi-vos permitida a caça do mar e o seu alimento. Isso é provisão para vós e para os viajantes. (Surata Al-Maida: 96)

Nesses dois versículos, foi declarado, de modo geral e sem exceção, que todas as criaturas marinhas são halal.

Animais terrestres proibidos

Entre os animais e criaturas terrestres, nada foi declarado haram além da carne de porco, da carniça, do sangue e daquilo que foi dedicado ou abatido em nome de outro que não Allah. Este assunto já foi discutido anteriormente.

Mas foi no próprio Alcorão Sagrado que Allah, o Altíssimo, confiou ao Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele) parte da responsabilidade de declarar o que é halal e haram. Ao descrever essa responsabilidade, foi dito:

 (Árabe*******************)

Ele torna lícitas para as pessoas as coisas puras e excelentes, e declara ilícitas as coisas más, impuras e inferiores. (Surata Al-A‘raf: 157)

Khثبيث significa aquilo que, em geral, é considerado repugnante pelo gosto saudável da humanidade, ainda que algumas pessoas o apreciem.

Um hadith desse tipo é:

(Árabe**********************)

No dia da batalha de Khaybar, o Profeta (que a paz esteja com ele) proibiu comer carne de jumento doméstico. (Bukhari)

Foi citado por Bukhari e Muslim:(Árabe**********************)

O nobre Profeta (que a paz esteja sobre ele) proibiu comer a carne de todos os animais predadores dotados de garras e de todas as aves que rasgam a carne.

O tigre, o chacal, o leopardo e semelhantes pertencem à primeira categoria. Já a pipa, o abutre, o falcão e outras aves dotadas de garras pertencem à segunda categoria.

A opinião de Hazrat Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) é que, além dos quatro animais mencionados como haram no Alcorão Sagrado, nenhum outro é haram. Ao que parece, segundo ele, os animais cuja carne foi proibida nos hadiths não são haram; seu consumo é apenas makruh. Ou também pode ser que ele talvez não tivesse conhecimento desses hadiths.

Ele disse: (Árabe************************)

Na época pré-islâmica, as pessoas comiam muitas coisas e deixavam de comer muitas outras por considerá-las ruins. Depois, Allah enviou Seu Profeta e revelou Seu Livro. Nele, tornou públicas Suas declarações sobre o halal e o haram. Portanto, o que nele é halal é halal, e o que nele é haram é haram. E tudo aquilo sobre o qual se guardou silêncio é isento de culpa e perdoado.

Em seguida, ele recitou o versículo 145 da surata Al-An’am, citado anteriormente. À luz desse versículo, Hazrat Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) considera halal comer a carne do asno doméstico. O Imam Malik (que Allah esteja satisfeito com ele) também adotou essa opinião. Ele disse que não é haram comer a carne dos animais predadores e dos que se alimentam rasgando a carne; no máximo, é makruh.

Contudo, é definitivo que não há fundamento para dizer que os animais haram se tornam halal simplesmente por serem abatidos. Quando abatidos, sua pele pode ser considerada pura sem sequer ser curtida.

O abate é condição para que os animais domésticos sejam halal

Os animais terrestres cuja carne é lícito comer dividem-se em duas categorias.

Há animais que estão sob o controle humano. Os animais domésticos, como camelos, bovinos, cabras e ovelhas, e aves como patos e galinhas, criadas em ambiente doméstico, pertencem a uma categoria. A outra categoria é formada pelos animais que não se submetem ao controle humano ou cujo controle está além da capacidade humana.

É halal comer a carne dos animais e aves da primeira categoria. Contudo, a condição é que sejam abatidos de acordo com o rito da Sharia.

A condição de abater segundo a Sharia

As condições indispensáveis para o abate segundo a Sharia são:

1. O animal deve ser abatido ou submetido ao nahr com um instrumento afiado, para que o sangue possa fluir e as veias sejam devidamente cortadas. O instrumento pode ser de pedra, ferro ou madeira. Ou, como disse Hazrat Adi ibn Hatim at-Ta’i:

(Árabe******************)

Eu disse: “Ó Mensageiro! Caçamos animais, mas, nessas ocasiões, não temos facas; temos apenas uma pedra afiada ou um pedaço de bambu. O que devemos fazer?” O Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: “Faça o sangue fluir com qualquer coisa que possa fazê-lo e pronuncie o nome de Allah sobre ele.” (Musnad Ahmad, Abu Dawud, an-Nasa’i, Ibn Majah)

2. Deve-se passar a faca pelo pescoço ou introduzi-la na parte inferior da garganta — na linguagem corrente, isso é chamado de nahr —, provocando assim a morte do animal.

A forma completa do abate consiste em cortar o esôfago e as duas grandes veias situadas entre a garganta. Porém, quando se torna impossível cravar a faca no local determinado — por exemplo, se uma vaca cair num poço, com a cabeça dentro e as pernas para fora, não sendo possível abatê-la normalmente no local apropriado —, sua situação será semelhante à de um animal caçado. Nesse caso, deve-se usar uma arma afiada, tanto quanto possível, em qualquer parte do corpo, fazendo o sangue fluir. Se isso for feito, o animal se tornará halal.

Um hadith foi narrado no Sahih al-Bukhari e no Sahih Muslim, segundo Rafi‘ ibn Khadija (que Allah esteja satisfeito com ele). Ele disse:

 (Árabe**************)

Certa vez, estávamos com o nobre Profeta (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) numa viagem. De repente, um camelo ficou fora de controle. Como as pessoas não tinham cavalos consigo, não foi possível alcançá-lo correndo. Então, um homem lançou uma flecha e imobilizou o camelo. Ao ver isso, o nobre Profeta (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: Quando esses quadrúpedes escaparem dessa maneira ao vosso controle, procedei com eles da mesma forma.

3. No momento do abate, não se deve pronunciar o nome de ninguém além de Allah. Este é um princípio unanimemente aceito. A razão é que, na época da jahiliyyah, as pessoas abatiam animais para se aproximarem de seus deuses, deusas e ídolos. Durante o abate, pronunciavam os nomes dessas divindades ou ofereciam os animais em sacrifício em locais determinados. O Alcorão Sagrado declarou tudo isso haram. Os versículos relacionados a esse assunto já foram mencionados anteriormente.

4. Deve-se pronunciar o nome de Allah sobre o animal que está sendo abatido. Isso foi afirmado claramente no versículo do Alcorão, nos seguintes termos:(Árabe**********************)

Se sois verdadeiramente crentes nos versículos de Allah, comei os animais sobre os quais o nome de Allah foi pronunciado no momento do abate. (Surata al-An‘am: 118)

Foi declarado: (Árabe******************)

Não comais os animais sobre os quais o nome de Allah não foi pronunciado no momento do abate. Pois comê-los é fisq (um ato que ultrapassa os limites do Islã.

O Nobre Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: (Árabe*************************)

Comei o animal cujo sangue foi derramado e sobre o qual o nome de Allah foi pronunciado nesse momento. (Bukhari)

Os hadiths que mencionam a pronúncia do nome de Allah ao lançar uma flecha com a intenção de caçar e ao enviar um cão treinado para caçar são um apoio à opinião acima. Segundo alguns estudiosos, é obrigatório pronunciar o nome de Allah; contudo, não é necessário pronunciá-lo exatamente no momento do abate. Pronunciá-lo no momento de comer também é suficiente. Pois aquele que pronuncia o nome de Allah ao comer certamente não come algo sobre o qual o nome de Allah não tenha sido pronunciado. Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) narrou: (Árabe***********************)

Algumas pessoas que haviam aceitado o Islã recentemente perguntaram ao Nobre Profeta (que a paz esteja com ele): “As pessoas nos trazem carne, mas não sabemos se pronunciaram ou não o nome de Allah sobre ela. Devemos comê-la ou não?” Em resposta, o Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) disse: “Pronunciai o nome de Allah e comei.” (Bukhari)

A sabedoria desta forma de abater

A razão fundamental para estabelecer esta forma regulamentada de abater os animais é que a vida do animal seja extinta de tal maneira que ele sofra o mínimo possível. É por isso que se exige que o instrumento do abate seja muito afiado e que o animal seja abatido no pescoço. Pois, quando o abate é realizado com esses instrumentos e dessa maneira, a garganta do animal é cortada. O Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) ordenou que a faca fosse afiada ao máximo e que se desse ao animal a oportunidade de se acalmar. Disse: (Árabe************************)

Allah, o Altíssimo, tornou obrigatória a compaixão em todas as situações. Portanto, quando matardes, matai certamente com compaixão. E, quando realizardes o abate ritual, fazei-o também de maneira bela e adequada. Cada um de vós deve afiar bem a sua faca ao realizar o abate e, depois de abatê-lo, dar ao animal a oportunidade de alcançar tranquilamente a paz. (Bukhari)

A esse respeito da compaixão e da benevolência, é mencionada uma hadith narrada por Ibn Umar. Ele disse:

(Árabe**********)

O Profeta ordenou que se afiásse a faca e que ela fosse mantida escondida dos outros animais. Por isso, disse: quando um de vós realizar o abate ritual, que o conclua completamente. (Ibn Majah)

Hazrat Ibn Abbas disse que um homem estava afiando a sua faca enquanto uma cabra estava deitada. Ao ver isso, o Profeta disse: (Árabe***********************)

Queres matar a cabra várias vezes? Por que não afiastes a tua faca antes de deitá-la? (Hakim)

Hazrat Umar viu um homem arrastando a sua cabra, prendendo-a com o pé, com o objetivo de abatê-la. Então, disse ao homem: (Árabe**********************)

Ai de ti! Conduze a cabra à morte da melhor maneira.

É nesse sentido, de modo geral, que encontramos o pensamento islâmico nesta questão. E ele consiste em demonstrar compaixão pelos animais mudos e livrá-los, tanto quanto possível, de toda espécie de sofrimento.

Na época da Jahiliyyah, as pessoas gostavam muito de cortar e comer a corcova dos camelos (hump) enquanto eles ainda estavam vivos. Também cortavam, enquanto vivas, as partes circulares pendentes na traseira dos carneiros. Com isso, causavam-lhes um sofrimento extremo. Por essa razão, o Nobre Profeta (que a paz esteja sobre ele) proibiu cortar partes do corpo de um animal vivo. Ele disse:

(Árabe*******************)

Se uma parte do corpo de um animal for cortada enquanto ele ainda estiver vivo, deve-se considerá-la carniça (e ela é ilícita). (Ahmad, Abu Dawud, Tirmidhi)

A importância de pronunciar o nome de Allah no momento do abate

Há razões profundas e sutis na base da obrigatoriedade de pronunciar o nome de Allah no momento do abate. É especialmente necessário conhecer esse assunto e prestar atenção a ele.

Os idólatras e o povo da Jahiliyyah pronunciavam os nomes de seus deuses no momento do abate. No Islã, foi estabelecida, em seu lugar, a regra de pronunciar o nome de Allah. Pois, quando os politeístas mencionam os nomes de suas divindades no momento do abate, como poderiam os que creem no Deus Único deixar de fazê-lo numa ocasião semelhante?

Em segundo lugar: os animais também são criaturas do Deus Único, assim como os seres humanos. É absolutamente necessário que o ser humano tenha a permissão de Allah para tirar-lhes a vida. Quando o nome de Allah é pronunciado no momento do abate, isso se torna uma declaração de que tal permissão foi obtida. Nesse momento, é como se ele dissesse: não faço isso porque eles são fracos, incapazes e indefesos, nem porque queira cometer injustiça contra eles. Pelo contrário, o abate que estou realizando, faço-o unicamente com a permissão de Allah. Em Seu nome caço e em Seu nome como o que cacei.

Animais abatidos por judeus e cristãos

Já vimos anteriormente quão rigorosas são as medidas adotadas pelo Islã no que diz respeito ao abate de animais. Na verdade, esta questão tem uma importância muito grande no Islã. Os árabes politeístas e os povos da época da Jāhiliyyah consideravam o abate de animais, de acordo com sua crença, uma parte da religião e um ritual indispensável da adoração e do culto. Ao abater os animais, eles desejavam, na realidade, obter a satisfação e a proximidade de seus deuses e divindades adorados. Por isso, abatiam os animais em locais determinados para oferecê-los como sacrifício às suas divindades. E, naquele momento, pronunciavam os nomes de seus deuses e divindades.

O Islã pôs fim a tudo isso e estabeleceu e tornou efetiva, com firmeza, a prática de pronunciar exclusivamente o nome de Allah no momento do abate. Proibiu completamente mencionar o nome de qualquer outro além de Allah. Também declarou haram o abate de animais nesses locais determinados e os animais dedicados a qualquer outro além do Deus Único.

Os Povos do Livro — judeus e cristãos — eram originalmente crentes no Tawhid. Mais tarde, porém, o shirk penetrou em sua crença. Isso ocorreu porque o chamado daquela religião lhes chegou por meio de pessoas que não conseguiram libertar suas crenças e seus corações das impurezas e dos defeitos da crença no shirk. Por isso, havia grande possibilidade de surgir nos corações dos muçulmanos a ideia de que deveriam considerá-los politeístas adoradores de ídolos e tratá-los da mesma forma. Allah, o Altíssimo, porém, ordenou que se adotasse em relação a eles uma conduta diferente da adotada em relação aos idólatras. Foi permitido associar-se a eles nas refeições, assim como foi permitida a constituição de relações matrimoniais. Allah, o Altíssimo, declarou no último versículo revelado do Alcorão:(Árabe********************)

Hoje, foram tornados halal para vós todos os alimentos puros e excelentes; e o alimento daqueles a quem foi dado o Livro é halal para vós, e o vosso alimento é halal para eles. (Surata Al-Mā’idah: 5)

Em suma, o significado deste versículo é que todos os tipos de alimentos puros e excelentes são completamente halal. Portanto, já não existem Bahīrah, Sā’ibah, Waṣīlah ou Ḥām. E os alimentos dos povos judeus e cristãos, os Povos do Livro, são fundamentalmente halal para vós. Allah nunca os declarou haram. O vosso alimento também é halal para eles. Assim, é permitido que comais a carne dos animais abatidos por eles ou dedicados ao shirk. Do mesmo modo, não há proibição de que eles comam aquilo que abateis ou dedicais ao shirk.

Contudo, o Islã adotou grande rigor em relação aos politeístas árabes, enquanto adotou uma conduta moderada para com os Povos do Livro. A razão é que os Povos do Livro reconhecem a revelação, a profecia e, de modo geral, os princípios fundamentais da religião. Por isso, estão muito próximos dos crentes. Foi declarado conforme à Shariah compartilhar refeições com eles, casar-se com suas filhas e conviver com eles. Com isso, foi-lhes dada a oportunidade de observar o Islã em sua forma verdadeira nas casas das pessoas, nas palavras e ações, na moralidade e nas transações. Desse modo, poderão saber que, na realidade, o Islã é uma religião fundamentada em verdades e princípios elevados, regras abrangentes e sistemas de crença da mais alta excelência. Nela não há lugar para o shirk nem para conversas sem sentido.

Declaração do Alcorão:(Árabe*****************)

O alimento das pessoas que receberam o Livro.

A expressão tem um significado muito geral e abrangente. Inclui todos os tipos de alimento. A carne dos animais abatidos por eles e todos os demais alimentos são halal. Portanto, tudo isso permanece halal para nós. Contudo, aquilo que foi declarado haram, como o animal morto, o sangue derramado e a carne de porco, não é permitido comer. Esta é a opinião consensual. Não há diferença se isso ocorrer entre qualquer pessoa do Livro ou entre um muçulmano.

Contudo, há aqui alguns assuntos que os muçulmanos precisam considerar especialmente.

1. Animais abatidos para oferendas em igrejas e feiras

Enquanto não se souber que uma pessoa do Livro pronunciou, no momento do abate, o nome de Jesus Cristo, Uzair ou de qualquer outro que não seja Allah, é halal comer a carne do animal que ela abateu. Porém, quando se souber que ela pronunciou, no momento do abate, o nome de alguém que não seja Allah, os juristas declararam que esse animal específico se torna haram.

Mas alguns disseram: Allah já tornou halal para nós o alimento deles. Quanto ao que dizem ou ao nome que pronunciam durante o abate, Allah sabe melhor. (Não é necessário dar atenção a isso.)

Quando perguntaram ao Imam Malik sobre os animais abatidos por ocasião das festas da Gente do Livro, em igrejas e em celebrações semelhantes, ele disse:(Árabe***********)

Não considero makruh comer isso. [Esta é a fatwa na escola jurídica do Imam Malik. Ele não se apressava em declarar algo haram, como alguns eruditos de sua época, contentando-se em classificá-lo como makruh.]

Considerar isso makruh foi uma questão de sua própria taqwa adicional. Ele suspeitou que o animal tivesse sido abatido em nome de outro que não Allah. Por isso, considerou makruh comer dele. Contudo, não o considerou haram. Pois, segundo sua opinião, no caso do Povo do Livro, abater em nome de outro que não Allah significa que eles não comem o animal que abatem com o propósito de adorar suas divindades e obter proximidade delas. Entretanto, os animais que abatem para seu próprio consumo são considerados parte de sua alimentação, e ele próprio declarou que são halal para nós. [O livro al-Mughni afirma que, se alguém do Povo do Livro, deliberadamente, não pronunciar o nome de Allah no momento do abate, não é halal comer o animal abatido por ele. É isso que foi narrado de Hadrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele).

Essa também é a opinião do Imam al-Shafi’i, de Nakha’i, Hammad, Ishaq e dos seguidores da escola hanafi. O sentido do versículo do Alcorão sobre a licitude da comida do Povo do Livro é que é halal comer os animais abatidos por eles quando as condições estabelecidas para o abate tiverem sido cumpridas, assim como devem ser cumpridas pelos muçulmanos. Sim, se se souber com certeza que o abatedor pronunciou ou não o nome de Allah, ou pronunciou ou não o nome de outro além de Allah, ainda assim é halal comer o animal abatido por ele. Isso porque Allah, o Altíssimo, tornou halal para nós os animais abatidos tanto pelos muçulmanos quanto pelo Povo do Livro. Com efeito, Allah sabe que não podemos conhecer a situação de cada pessoa que realiza um abate. (Al-Mughni, vol. 8, p. 571.)

2. Comer carne abatida por choque elétrico ou carne enlatada

A segunda questão é: o método de abate do Povo do Livro — judeus e cristãos — deve ser semelhante ao nosso? Assim como cortamos a garganta com uma arma afiada, o abate deles também precisa ser feito da mesma maneira?

A maioria dos especialistas impôs essa condição a esse respeito. Contudo, um grupo de eruditos da escola maliquita emitiu uma fatwa afirmando que ela não é uma condição necessária.

O cádi Ibn al-Arabi disse, em seu tafsir do versículo da surata al-Ma’ida:

Isso prova de forma conclusiva que a caça e a comida do Povo do Livro estão entre as coisas declaradas permissíveis por Allah. São halal sem restrição. Isso foi declarado especialmente para que todas as dúvidas e suspeitas sobre o assunto fossem eliminadas, sem deixar o menor vestígio de concepção equivocada. Perguntaram-me: os cristãos matam as galinhas torcendo-lhes o pescoço. Depois, cozinham-nas. Em tal situação, podemos compartilhar sua comida? Pode-se comer a comida deles? Respondi: pode-se comê-la. Pois é a comida dos cristãos e de seus sacerdotes e eruditos. Embora, segundo nossa opinião, esse método de abate não seja correto, Allah tornou a comida deles geralmente halal para nós. E aquilo que eles consideram permitido em sua religião é halal para nós também. Contudo, não se pode comer os alimentos que Allah declarou que eles consideram mentiras. Nossos especialistas disseram: esses membros do Povo do Livro dão suas filhas em casamento a nós, e as relações sexuais com elas são permitidas. Nessas circunstâncias, por que não comeríamos os animais abatidos por eles? Considerando-se sob o aspecto do halal e do haram, comer alimentos é uma questão muito menos importante do que as relações sexuais.

Esse mesmo comentarista escreveu em outro lugar:

Eles não fazem o abate ritual; matam os animais estrangulando-os ou esmagando-lhes a cabeça. Depois, comem-nos. Por isso, para nós, são carniça e ilícitos. Mas não há contradição entre os dois assuntos — o que é ilícito e o que foi mencionado acima como lícito. Com efeito, aquilo que o Povo do Livro considera um abate correto será necessariamente lícito para nós, ainda que, em nossa opinião, o método que utilizam para o abate não seja correto. Porém, aquilo que eles próprios consideram um abate incorreto também não é lícito para nós. O abate ritual significa tirar a vida do animal com a intenção de torná-lo lícito para o consumo.’

Esta é a opinião de um grupo de seguidores da escola maliquita.

À luz desta discussão, podemos compreender a determinação da Shariah acerca da carne de frango ou de bovino enlatada e conservada produzida pelo Povo do Livro. Em seus países, os frangos são abatidos por meio de choque elétrico. Enquanto eles próprios continuarem considerando esses animais alimento lícito, eles continuarão sendo considerados lícitos para nós, de acordo com a declaração geral do versículo. [Contudo, isso não é uma opinião consensual. É geralmente sabido que a carne enlatada não provém de animais abatidos de acordo com a Shariah. O fato de um animal ter sido cortado com um só golpe ou de o nome de Allah não ter sido conscientemente pronunciado no momento do abate não pode torná-lo lícito para nós apenas por aqueles que o abateram serem do Povo do Livro. É necessário emitir o fatwa tendo em vista o que geralmente ocorre. Portanto, não é permitido comer um animal que não tenha sido abatido de acordo com o método prescrito pela Shariah, mesmo que aquele que o abateu fosse muçulmano. — (Tradutor)]

Entretanto, de modo algum pode ser permitido para nós comer carne enlatada produzida em países comunistas, pois eles rejeitaram e negaram tudo o que se chama religião. Portanto, não são considerados parte do Povo do Livro.

Animais abatidos por adoradores do fogo e outros

Os estudiosos expressaram opiniões divergentes sobre comer a carne de animais abatidos por adoradores do fogo ou por seguidores da antiga religião persa. Muitos proibiram seu consumo, pois eles são, na realidade, politeístas. Outros sábios disseram que seu consumo é lícito, pois o Profeta — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — disse: (Árabe******************)

Tratai-os como se trata o Povo do Livro. (Malik, Shafi‘i)’

Por essa razão, foi cobrado o jizya dos adoradores do fogo do lugar chamado Hijr. (Bukhari)

Ibn Hazm escreveu em sua obra Al-Muhalla:(Árabe**********************)

Eles também são do Povo do Livro. Portanto, em todos os assuntos, deve-se tratá-los como se trata o Povo do Livro. [Segundo a maioria dos sábios, não é permitido comer os animais abatidos pelos magos — adoradores do fogo ou persas. Hadrat Ibn Mas‘ud, Hadrat Ibn ‘Abbas, Hadrat ‘Ali, Hadrat Jabir, o imã Malik, o imã Zuhri, o imã Shafi‘i, os juristas hanafitas e o imã Ahmad, entre outros, defenderam essa opinião. Segundo Ibn Qudamah, a declaração anteriormente mencionada do Profeta — que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele — “tratai-os como se trata o Povo do Livro” aplica-se unicamente à imposição da jizya. Essa orientação não diz respeito a comer os animais abatidos por eles nem a casar-se com suas mulheres. (Árabe************************)

‘Allamah Jassas disse que há divergência de opinião acerca dos magos. Segundo a maioria dos juristas, eles não são do Povo do Livro. Muito poucos os consideram parte do Povo do Livro. No Alcorão, somente duas comunidades são chamadas de Povo do Livro. Se os magos também fossem considerados do Povo do Livro, falar-se-ia de três comunidades em vez de duas. O Nobre Profeta — que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele — não disse que eles eram do Povo do Livro; apenas ordenou que fossem tratados como o Povo do Livro. E isso somente no que diz respeito à cobrança da jizya. (Árabe*********)— Tradutor.]

Segundo o imã Abu Hanifa, os sabeus são do Povo do Livro. (Alguns também consideram os brâmanes parte do Povo do Livro. Diz-se que um Livro foi revelado a eles, embora o tenham perdido.)

É desnecessário investigar o que está oculto à vista

Não é responsabilidade do muçulmano perguntar ou tentar investigar aquilo que está oculto à vista — como o animal foi abatido, se todas as condições do abate foram cumpridas, se o nome de Deus foi pronunciado durante o abate — nem tentar descobrir questões desconhecidas desse tipo. Pois, se o animal tiver sido abatido por um muçulmano, é completamente lícito comê-lo, independentemente das demais questões desconhecidas — seja o abatedor ignorante, tolo, pecador ou alguém do Povo do Livro. Já foi mencionado que os Companheiros perguntaram: “Ó Mensageiro de Deus, algumas pessoas nos trazem carne, mas não sabemos se pronunciaram ou não o nome de Deus durante o abate. O que devemos fazer nessa situação?” O Mensageiro respondeu: “Dizei ‘Bismillah’ e comei.”

Os especialistas disseram sobre este hadith:

Este hadith prova que se deve considerar corretos e válidos todos os atos, procedimentos e intervenções, até que se apresente uma prova decisiva de que são maus ou inválidos.

Caça

Um grande número de pessoas entre os árabes e outros povos do mundo vive dependendo da atividade da caça. Por isso, o Alcorão e a Sunnah deram especial importância a este assunto. Os autores de obras de fiqh escreveram capítulos específicos sobre isso em suas respectivas obras. Neles, registraram detalhadamente o que é halal e o que é haram, bem como o que é obrigatório e o que é mustahabb nesta questão. Era necessário apresentar tais detalhes, pois muitos dos animais e aves cuja carne é pura e excelente vivem fora do alcance humano. Capturá-los e dominá-los também não é fácil, pois não estão familiarizados com os seres humanos. Por essa razão, a condição estabelecida pelo Islã para o abate dos animais domesticados — cortar com uma faca a garganta ou a parte inferior do pescoço — não foi estabelecida da mesma forma para que esses animais selvagens se tornassem halal. Em vez disso, foi determinado um método mais fácil para abatê-los. Com isso, o sofrimento das pessoas foi consideravelmente reduzido e houve maior amplitude no que diz respeito à alimentação.

O Islã levou plenamente em consideração as necessidades naturais das pessoas. O objetivo das condições estabelecidas neste assunto é que as pessoas se submetam às crenças fundamentais do Islã e aos seus sistemas legais. Assim como um muçulmano deve observar as normas islâmicas em todos os assuntos e situações, também neste caso ele deve seguir devidamente as regras do Islã.

Algumas das condições neste assunto dizem respeito ao caçador, outras ao animal caçado e outras ainda à própria atividade da caça.

Aqui se trata da caça de animais terrestres. Quanto à caça marítima, ela já foi discutida em detalhes anteriormente. Em resumo, Allah, o Altíssimo, tornou tudo halal sem qualquer restrição. Foi declarado:

(Árabe***************)

A caça do mar e o alimento obtido dele foram tornados halal para vós. (Surata Al-Ma’idah: 96)

Considerações relativas ao caçador

Para o caçador em terra firme, aplica-se a mesma condição estabelecida para quem abate um animal: ele deve ser muçulmano ou pertencer ao Povo do Livro. Também é permitido comer a caça de pessoas consideradas pertencentes ao Povo do Livro, como os sabeus e os magos.

O ensinamento do Islã é que não se deve caçar inutilmente, isto é, sem a intenção de comer ou sem o propósito de realizar alguma outra ação que traga benefício. Isso porque o Islã não permite matar animais sem motivo nem finalidade. Foi dito num hadith: (Árabe********৯৫***********)

Quem matar uma ave sem motivo nem finalidade, no Dia da Ressurreição ela clamará a Allah: “Ó Allah, fulano me matou inutilmente; não me matou para obter qualquer benefício.”

Foi dito em outro hadith: (Árabe***********************)

Quem matar injustamente um pardal ou uma ave maior que ele, no Dia da Ressurreição Allah certamente lhe pedirá contas sobre isso. Um companheiro perguntou: “Ó Mensageiro, que direito eles têm?” Ele respondeu: “O direito deles é que sejam abatidos e comidos, não que se corte a cabeça deles e sejam jogados fora.”

Outra condição para o caçador é que ele não esteja em estado de ihram para o Hajj ou a Umrah. Isso porque, durante o ihram, o muçulmano se encontra em um estado de plena paz, segurança e proteção contra perigos. Nessa condição, a proteção é ampla para ele. Todos os animais e aves ao seu redor também gozam de plena segurança. Mesmo que uma caça se aproxime e fique ao alcance da mão ou da flecha do muçulmano em ihram, ele ainda assim deve abster-se de caçá-la. Essa é uma forma de treinamento da paciência do muçulmano. Por isso, foi dito no Alcorão: (Árabe***********************)

Ó vós que credes, Allah certamente vos testará com algo da caça. Vossas mãos e vossas flechas poderão alcançá-la. Ele quer saber quem O teme, embora não O veja. Ainda assim, quem transgredir terá um castigo doloroso.

(Árabe********************)

Ó crentes! Não caceis enquanto estiverdes em estado de ihram. (Surata Al-Ma’idah: 95)

(Árabe*******************)

Enquanto permanecerdes em estado de ihram, a caça terrestre vos foi proibida. (Surata Al-Ma’idah: 96)

Condições relativas ao animal caçado

A condição relativa ao animal que será caçado é que ele seja um animal que não possa ser capturado e degolado na garganta ou na medula (marrow). Se isso for possível, ele deverá ser degolado de acordo com as regras específicas; caso contrário, não será halal.

Se não tiver sido caçado mediante o disparo de uma flecha ou por meio de um cão adestrado, e for encontrado numa condição em que ainda haja nele sinais de vida, deverá ser degolado de maneira habitual. Porém, se for encontrado numa condição em que já não tenha vida estável, é apropriado não o degolar. E, se nessa condição for deixado para morrer, não haverá pecado. Esta tradição foi narrada por Al-Bukhari e Muslim:

(Árabe*****************)

Quando enviares o teu cão de caça, pronuncia o nome de Allah sobre ele. Depois, se ele retiver a caça para ti e a encontrares ainda viva, degola-a.

Meios de caçar

Os meios pelos quais se pode caçar são de dois tipos:

1. Armas afiadas e bem amoladas, como espadas, lanças, etc. Há uma indicação deste aspecto no versículo do Alcorão:

 (Árabe********)

Isso é atingido pelas vossas mãos e pelas vossas flechas. (Surata Al-Ma’idah: 94)

2. Animais predadores, devidamente adestrados e treinados para caçar, como cães, falcões, etc. No Alcorão foi dito:(Árabe******************)

Foram-vos tornadas lícitas todas as coisas boas e puras, e também os animais predadores que treinastes, ensinando-os com aquilo que Allah vos ensinou……… (Surata Al-Ma’idah: 4)

Caçar com armas afiadas

Há duas condições para caçar com uma arma:

Primeiro: a arma deve penetrar no corpo da caça de tal maneira que seja essa ferida a causa de sua morte, e não que ela morra sob a pressão do impacto da arma. Hadhrat Adi ibn Hatim (que Allah esteja satisfeito com ele) perguntou ao Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele):

(Árabe***************)

Eu caço apenas com uma flecha sem ponta. Ela atinge o alvo; é permitido comer a caça?

O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) respondeu:(Árabe*******************)

Quando disparares uma flecha, se a sua parte afiada penetrar no corpo, come a caça; mas, se ela atingir de lado e a caça morrer pelo impacto, não a comas. (Bukhari, Muslim)

Este hadith mostra que o objetivo principal é que a arma penetre no corpo da caça. Se a caça morrer esmagada sob um peso pesado, não será permitido comê-la. Com base nisso, os animais caçados com balas de espingardas, pistolas ou revólveres serão halal, pois essas balas penetram no interior do corpo de modo ainda mais afiado e profundo do que flechas, lanças e espadas. A este respeito, há um hadith citado pelo Imam Ahmad:(Árabe****************)

Não comais o animal ou a ave caçada com uma espingarda; porém, se for abatida segundo o rito, podeis comê-la. Bukhari também citou uma declaração de Hadhrat Ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ele): a caça feita com uma espingarda é tão haram quanto o animal morto pelo golpe de uma vara de maqsada; nesse caso, “banduka” significa um torrão de terra. O animal caçado ao atirar-lhe isso é certamente haram. Aqui, porém, por “espingarda” entendemos uma arma de fogo moderna, e o animal caçado por meio dela será certamente halal.

As coisas semelhantes à funda são um fragmento de pedra ou um pedaço de tijolo cozido. O Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse:

(Árabe*********98***********)

Não se pode caçar com um fragmento de pedra ou um pedaço de tijolo, nem ferir profundamente um inimigo com eles. No entanto, com eles é possível quebrar dentes e perfurar olhos. (Bukhari, Muslim)

A segunda questão é que, ao lançar a arma ou dispará-la, deve-se pronunciar o nome de Allah. Os hadiths narrados pelo Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) ao ensinar Hazrat Adi ibn Hatim (que Allah esteja satisfeito com ele) sobre esse assunto têm especial importância.

Caça com cães

Quando se pretender caçar com cães, falcões de caça e outros animais ou aves de caça, as seguintes condições deverão ser cumpridas:

A primeira é que o animal ou a ave deve receber treinamento apropriado para caçar.

A segunda é que o animal ou a ave treinado deve caçar para o seu dono, e não para comer por si próprio. Isso pode ser compreendido pela indicação do Alcorão.

E a terceira é que, ao enviá-lo com o propósito de caçar, deve-se pronunciar Bismillah sobre ele.

Todas essas condições foram mencionadas no versículo abaixo:

(Árabe******************)

As pessoas perguntam-te o que lhes foi tornado lícito. Dize: Foram-vos tornadas lícitas todas as coisas boas e puras, e também os animais ou aves de caça que treinastes e adestrastes para caçar. Comei do que eles retiverem para vós e pronunciai sobre isso o nome de Allah.

1. A questão do adestramento do animal ou da ave de caça também é clara. Isso significa exercer pleno controle sobre ele, poder conduzi-lo conforme as próprias ordens, levá-lo para onde se quiser e fazê-lo estar pronto para agir de acordo com elas. Significa acostumá-lo a capturar a caça e levá-la ao dono, bem como a guardar os bens deste na sua ausência. Também significa que ele deve obedecer quando o dono o afugentar. Embora alguns juristas tenham certa divergência quanto à imposição de todas essas condições, em suma, o animal ou a ave de caça deve ser bem treinado segundo os costumes reconhecidos.

2. Preservar a caça para o dono significa que o animal ou a ave de caça não deve comê-la, mas deixá-la para o dono. O Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse:(Árabe*******************)

Quando enviares um cão com o propósito de caçar e ele capturar a caça e comer parte dela, não a comas. Pois ficou comprovado que ele reteve a caça para si mesmo. Mas, se depois de ser enviado ele capturar a caça e não comer dela, poderás comê-la. Pois ficou comprovado que ele reteve a caça para o seu dono. (Ahmad)

Alguns juristas fizeram distinção entre os animais de caça — como o cão — e as aves de caça, como o falcão. Disseram que, mesmo que a ave de caça coma uma parte da presa, é mubáh comer dela. Porém, se o cão comer, não é permitido comê-la.

Essas duas condições têm uma justificativa bastante racional. Treinar o cão para a caça e fazer com que ele capture a presa e a retenha para o seu dono são atitudes compatíveis com a elevada dignidade humana. Essa condição foi imposta justamente para manter as pessoas afastadas dos restos deixados pelo cão. Com efeito, quando o cão é treinado, captura a presa e a retém para o seu dono, ele nada mais é que um instrumento de caça utilizado pelo caçador. Assim como o caçador utiliza uma flecha, uma lança ou uma arma de fogo na caça.

3. Dizer Bismillah ao enviar o cão é como dizer Bismillah ao lançar uma flecha, manejar uma lança ou usar uma faca. É isso que foi ordenado no versículo do Alcorão: (Árabe*******************)

4. Muitos hadiths autênticos também foram narrados sobre este assunto, como os hadiths narrados por Hazrat Adi ibn Hatim (que Allah esteja satisfeito com ele).

Também fica claro, a partir das condições acima mencionadas, que, se outro cão se juntar ao cão enviado, não será lícito comer a presa capturada pelos dois. Hazrat Adi (que Allah esteja satisfeito com ele) perguntou:

(Árabe******************)

Envio o meu cão para caçar e, depois, vejo junto dele um segundo cão desconhecido; o que devo fazer nesse caso?

O nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse:(Árabe***************)

Nesse caso, não comas a presa. Isso porque disseste Bismillah sobre o teu próprio cão enviado, e não sobre o outro. (E não sabes qual dos dois capturou a presa.)

Se esquecer de dizer Bismillah ao lançar a flecha ou ao enviar o animal de caça, basta corrigir esse esquecimento no momento de comer. Por misericórdia, Allah perdoou e continua perdoando muitos erros e lapsos da comunidade muçulmana. Este caso é considerado pertencente a essa categoria.

Encontrar a caça morta depois de lançar a flecha

É bastante comum, e pode acontecer, que o caçador lance uma flecha com a intenção de caçar, que ela atinja a caça e que, depois, ela desapareça de vista e se perca. Algum tempo depois, a caça é encontrada morta — e não é raro que isso aconteça alguns dias mais tarde. Em tal situação, a caça pode ser halal sob algumas condições:

1. Ela não deve ter permanecido na água. Sobre isso, há um hadith: o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse:

(Árabe***********)

Quando lançares tua flecha contra a caça e a encontrares morta, come-a. Porém, se a encontrares caída na água, não a comas, pois não sabes se a caça morreu pelo golpe da tua flecha ou se morreu afogada na água.

2. Não deve haver nela a marca de outra flecha, de modo que se possa saber que nenhuma outra flecha foi a causa de sua morte. Hadrat Adi ibn Hatim (que Allah esteja satisfeito com ele) disse:(Árabe********************)

Ó Mensageiro! Eu lanço flechas para caçar. No dia seguinte, encontro a caça com a minha flecha cravada nela.

O Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) disse: (Árabe****************)

Se tiveres certeza de que foi a tua flecha lançada que o matou e não houver nele qualquer marca de um animal selvagem, podes comê-lo. (Tirmidhi)

3. A caça não deve estar prestes a apodrecer. Pois a natureza humana saudável sente repulsa por comer coisas deterioradas. Além disso, há também o seu aspecto nocivo. Num hadith narrado no Sahih Muslim, é dito: O Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) disse ao honorável Abu Sa‘laba (que Allah esteja satisfeito com ele):

(Árabe*****************)

Se, depois de lançares a flecha, ela permanecer desaparecida por três dias e então encontrares a caça, poderás comê-la, desde que não esteja apodrecida.

Bebidas alcoólicas

Chama-se bebida alcoólica ou sura a uma substância alcoólica que, quando ingerida, provoca embriaguez.

Ao iniciarmos uma discussão detalhada sobre este assunto, queremos dizer, antes de tudo, que o consumo dessa substância causa graves danos à razão e à saúde física da pessoa. Sua religiosidade também se extingue. Do ponto de vista material, ela igualmente cai numa grave calamidade. Sua família também sofre enormes prejuízos. E tal situação inevitavelmente traz extrema desgraça à vida material, moral e espiritual da nação e da sociedade.

Um especialista afirmou, com toda a razão, que nada atingiu o ser humano tão duramente quanto a bebida alcoólica. Se examinarmos os hospitais do mundo, veremos que muitas pessoas enlouqueceram por causa do consumo de álcool e foram acometidas por doenças incuráveis. Depois de perderem a saúde da mente e do cérebro, cometem homicídios; sofrem de doenças nervosas e desenvolvem enfermidades permanentes no estômago. Além disso, muitos dissipam seus próprios bens e acabam completamente empobrecidos. O número dessas pessoas será tão grande que, por mais conselhos que se lhes dê, tudo será em vão. Não será possível produzir qualquer mudança em suas vidas.

Na época da Jahiliyyah, os árabes haviam enlouquecido pelo consumo de bebidas alcoólicas. Sua dependência do álcool também não tinha limite algum. Em sua língua, haviam dado quase cem nomes às bebidas alcoólicas. Em sua prosa e poesia, mencionavam-se vários tipos de bebidas alcoólicas e descreviam-se as características de cada tipo. Seus poemas estavam repletos de descrições da beleza daqueles e daquelas que as bebiam e serviam, bem como de elogios às reuniões para beber.

O Islã veio e os educou e orientou por um caminho definido e saudável. Por isso, foi adotado um método gradual para proibir o consumo de álcool.

Primeiramente, proibiu-se que rezassem estando embriagados. Depois, foi-lhes explicado que o pecado do consumo de álcool era muito maior do que seus benefícios. Por fim, por meio de um versículo de grande significado da surata Al-Ma’idah, o consumo de álcool foi declarado haram, de forma definitiva e para sempre. O versículo é o seguinte: (Árabe*************************)

Ó vós que credes, sabei com certeza que o álcool, os jogos de azar, os altares de sacrifício e os meios de adivinhação são apenas imundície e obra de Satanás. Portanto, evitai-os. Talvez sejais bem-sucedidos. Por meio do álcool e dos jogos de azar, Satanás semeia entre vós a inimizade e o ódio e vos afasta da lembrança de Allah e da oração. Então, não vos abstereis dessas práticas?

Nestes dois versículos, Allah declarou haram, em termos severos, o consumo de álcool e os jogos de azar, e ordenou ou exortou com extrema ênfase que fossem evitados. Neste versículo, o consumo de álcool e os jogos de azar são mencionados juntamente com os altares de sacrifício e os meios de adivinhação para mostrar a vileza e a repugnância dessas duas práticas. Na linguagem corânica, essa prática é chamada deرجسe é considerada uma obra de Satanás. É desnecessário dizer que a obra de Satanás é uma forma extremamente repugnante de despudor. Assim, o versículo ordena que essas duas práticas sejam evitadas. Indicando o dano coletivo causado por ambas, afirma-se que, por causa delas, o alcoólatra não poderá rezar e esquecerá Allah. Entre as pessoas surgirão extrema inveja, ódio e até inimizade mortal. O ser humano perderá a oração e a lembrança de Allah, que são meios de alcançar a elevação espiritual. Depois de tudo isso ser dito, pergunta-se aos crentes, em termos extremamente severos, se eles abandonarão completamente essas duas práticas.

Em resposta a uma ordem e instrução tão rigorosas, os crentes só poderiam dizer uma coisa. E ela é:

Ó Senhor! Nós nos abstivemos.

Ó Deus, nós nos abstivemos disso.

E, de fato, os muçulmanos deram origem a uma cena extraordinária. Alguns muçulmanos estavam reunidos num lugar, bebendo vinho. Um deles segurava um recipiente e havia bebido parte dele, mas ainda não o tinha terminado. Assim que ouviu este versículo, afastou o recipiente da boca e derramou de cabeça para baixo o que restava.

Vários Estados da época moderna também tentaram proibir, por meio da lei e do poder, essa prática nociva do consumo de álcool, cujos efeitos se refletem gravemente na vida do indivíduo, da família, da sociedade, da nação e do Estado. Certa vez, a América tentou acabar com o consumo de álcool pela força da lei. Porém, teve de reconhecer o fracasso absoluto dessa iniciativa. Somente o Islã conseguiu combater o consumo de álcool e alcançar pleno êxito na sua erradicação.

Entre as autoridades eclesiásticas surgiu uma grande divergência na determinação da doutrina cristã sobre o consumo de vinho. Elas formularam opiniões baseando-se, cada uma, em diferentes passagens do Evangelho:

Beber uma pequena quantidade de vinho é bom e benéfico para o estômago.

Se isso estiver correto e o álcool for realmente bom para o estômago, então é inevitável que, começando por beber pequenas quantidades, o alcoólatra passe a beber quantidades cada vez maiores. Um recipiente de álcool apenas desperta o desejo por muitos outros. Como resultado, ele se tornará habituado ao consumo de álcool e não lhe será possível manter qualquer limite quanto à quantidade.

Mas, também neste caso, a posição do Islã é clara e incontestável. Segundo ele, não somente beber álcool é haram, como também toda forma de ajuda e cooperação nesse ato é completamente haram.

Todas as substâncias intoxicantes são haram

Quando o Nobre Profeta (S.A.) proibiu pela primeira vez o consumo de bebidas alcoólicas, ele não deu a menor importância àquilo de que a bebida era feita. Sua atenção estava voltada para seus efeitos e consequências. E isso é a intoxicação. Portanto, qualquer coisa que cause intoxicação será considerada haram, independentemente da substância de que seja feita. Esta é a palavra final do Islã sobre as bebidas alcoólicas. Assim, a cerveja e todos os demais tipos de bebidas intoxicantes, como ela, são completamente haram.

Perguntaram ao Nobre Profeta (S.A.) sobre as bebidas alcoólicas feitas de mel, milho e cevada. Em resposta, ele declarou um princípio fundamental e disse:(Árabe*********************)

Todo tipo de substância intoxicante é khamr, e todo khamr é haram. (Muslim)

Hazrat Umar al-Faruq (R.A.) declarou, de pé sobre o púlpito do Nobre Profeta (S.A.):

(Árabe************)

Qualquer substância que encubra e distorça a consciência e a razão humanas é khamr e proibida. (Bukhari, Muslim)

Toda substância intoxicante é haram — seja em pequena ou grande quantidade

No Islã, toda substância intoxicante foi declarada haram. Nesse assunto, sua quantidade não é absolutamente levada em consideração. Portanto, seja sua quantidade pequena ou grande, ela é haram em ambos os casos. Essa medida foi estabelecida para que, ao pôr os pés nesse caminho escorregadio, a pessoa não seja obrigada a sofrer uma queda após outra. O Nobre Profeta (S.A.) afirmou claramente:

(Árabe****************)

Aquilo que embriaga quando consumido em grande quantidade é haram mesmo em uma quantidade equivalente a um punhado. (Ahmad, Abu Dawud, Tirmidhi)

(Árabe*******************)

Aquilo que embriaga mesmo em uma quantidade de poucos ratis é haram também em uma quantidade equivalente a um punhado.

O comércio de bebidas alcoólicas

O Profeta Karim (que a paz esteja com ele) não se limitou a declarar haram o consumo de bebidas alcoólicas, fosse em pequena ou grande quantidade. Ele também declarou haram o comércio de bebidas alcoólicas. Esse comércio não é permitido nem mesmo com não muçulmanos. Portanto, nenhum muçulmano pode dedicar-se ao comércio de bebidas alcoólicas, seja em nível de importação ou exportação. Não é permitido construir uma fábrica para produzir bebidas alcoólicas nem abrir um bar. Trabalhar em uma loja de bebidas alcoólicas também é igualmente proibido. Por isso, o Profeta Karim (que a paz esteja com ele) lançou uma maldição sobre dez pessoas em relação às bebidas alcoólicas. Elas são:(Árabe**********************)

O produtor de bebidas alcoólicas, aquele que manda produzi-las, o bebedor, o carregador, aquele para quem são levadas, o servidor que as oferece para beber, o vendedor, aquele que recebe e consome o seu preço, o comprador e aquele para quem são compradas: sobre todos eles recai a maldição. (Tirmidhi, Ibn Majah)

(Árabe*******************)

Allah, o Altíssimo, proibiu o consumo de vinho. Portanto, quem tomar conhecimento dessa determinação não poderá beber nem mesmo uma pequena quantidade que tenha em sua posse, nem poderá vendê-la. (Muslim)

O narrador do hadith disse que, naquela ocasião, todos os que tinham vinho armazenado o derramaram nas ruas e caminhos de Medina.

Com o objetivo de fechar todos os meios que levam ao consumo de vinho, foi declarado que nenhum muçulmano deveria vender uvas a alguém sobre quem se soubesse que as utilizaria para produzir vinho.

Foi dito no hadith:(Árabe************************)

Quem colher e armazenar uma safra de uvas com a intenção de vendê-la a um judeu, a um cristão ou a qualquer pessoa que a transformará em vinho, terá deliberadamente se lançado ao fogo. (Al-Tabarani, em Al-Awsat)

Um muçulmano não pode oferecer vinho como presente

Para os muçulmanos, não é apenas proibido vender vinho e consumir o dinheiro obtido com sua venda; também é totalmente proibido oferecê-lo como presente a qualquer não muçulmano. Tampouco se pode receber esse presente. Isso porque o muçulmano é puro: não pode oferecer a ninguém, como presente ou hospitalidade, nada além de coisas puras, nem pode ele próprio aceitar outra coisa. Certa pessoa manifestou a intenção de oferecer vinho como presente ao nobre Mensageiro. Ao saber disso, o Profeta lhe disse que Allah, o Altíssimo, havia proibido o vinho. Então o homem perguntou: “Nesse caso, posso vendê-lo?” O Mensageiro respondeu:(Árabe***********)

Aquele que proibiu seu consumo também proibiu oferecê-lo como presente a um judeu.

Então o homem perguntou: “O que devo fazer com isso?” O nobre Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) respondeu: “Derrama isso pelas ruas e vielas de Medina.”

Evitar as reuniões onde se consome bebida alcoólica

Foi justamente nesse contexto que todo muçulmano recebeu a ordem de evitar as reuniões ou assembleias onde se consome bebida alcoólica. Também lhes é proibido conviver com os que bebem. Hadrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) narrou: Hadrat o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse:(Árabe**********************)

Que aquele que crê em Allah e no Dia do Juízo não se sente junto com outras pessoas em uma reunião ou à mesa onde seja servida bebida alcoólica. (Ahmad)

Por outro lado, é dever de todo muçulmano esforçar-se para impedir a injustiça e os atos pecaminosos. Mas, se isso não for possível, ele deverá ao menos afastar-se daquele lugar.

Hadrat Umar ibn Abd al-Aziz costumava açoitar, juntamente com os que bebiam, também aqueles que se sentavam e conviviam em suas reuniões, mesmo que eles próprios não bebessem. Certa vez, alguns bêbados foram capturados. Ele ordenou que fossem punidos. Alguém disse: “Nesse caso, ele deverá ser o primeiro a ser punido. Acaso não ouvistes o mandamento de Allah:”

(Árabe******)

Foi revelado no vosso Alcorão o mandamento de que, quando ouvirdes pessoas negarem os versículos de Allah e ouvirdes palavras de zombaria e escárnio contra eles, não vos senteis mais com elas. Depois, se elas passarem a prestar atenção a outro assunto, então será diferente. Mas, se ainda permanecerdes sentados com elas naquele momento, também sereis culpados de um pecado semelhante.

O vinho não é doença nem remédio

Com base nestas provas e argumentos incontestáveis, compreende-se que o Islão adotou uma posição extremamente firme e inflexível na luta contra o vinho. Quis manter o muçulmano afastado dele. Quis erguer uma barreira intransponível entre o muçulmano e o consumo de vinho, para que nem a menor brecha ou passagem permanecesse aberta. Nenhuma oportunidade de utilizar o vinho para qualquer finalidade foi deixada aberta aos muçulmanos.

Ao muçulmano não foi permitido consumir vinho, nem sequer em pequena quantidade. Também não é permitido comprá-lo ou vendê-lo. Tampouco pode ser oferecido a alguém como presente ou dádiva. É proibido fabricá-lo, e é totalmente haram mantê-lo na própria loja, no escritório ou na residência. Não pode ser servido em celebrações, convites, banquetes ou receções. Também não se pode oferecer vinho aos convidados não muçulmanos. Do mesmo modo, o Islão não permite misturá-lo com alimentos ou bebidas.

No entanto, tornou-se uma questão para as pessoas de hoje saber se o vinho pode ser usado como medicamento. Também perguntaram isso ao nobre Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Em resposta, ele disse: (Árabe*******************)

Na realidade, o vinho não é medicamento algum; é apenas uma doença. (Muslim, Ahmad, Abu Dawud, Tirmidhi)

O nobre Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: (Árabe*********************)

Allah revelou tanto as doenças como os seus remédios. E providenciou também o tratamento para as vossas doenças. Portanto, tratai-vos, mas não por meio de coisas haram. (Abu Dawud)

(Árabe*******************)

Allah não colocou a cura das vossas doenças nas coisas que vos foram proibidas.

Foi proibido tratar-se com vinho e outras substâncias ilícitas. Isso não é de modo algum surpreendente. Pois declarar algo ilícito significa ordenar que se mantenha distância dele e que seja evitado completa e absolutamente. Ora, se ele for usado como medicamento, será necessário permanecer imerso nessa coisa ilícita e incentivar o seu uso. Nesse caso, declarar essa coisa ilícita perderia todo o sentido. O Imame Ibn al-Qayyim apresentou precisamente este argumento.

Ele também disse: se fosse permitido usar coisas ilícitas como medicamentos, aumentariam o interesse e a atração das pessoas por elas. Isso porque existe uma inclinação natural do coração para elas. Especialmente quando se provasse que são benéficas e parecessem capazes de curar doenças e proporcionar saúde, seria impossível abster-se delas. Se fosse permitido usar o vinho como medicamento, ele se tornaria um meio de satisfazer os desejos. Chamando a atenção, nesse ponto, para um importante aspecto psicológico, o Imame Ibn al-Qayyim escreveu:

Para obter a cura por meio de um medicamento, é necessário usá-lo com interesse e sinceridade. Deve-se considerá-lo benéfico e acreditar que será possível obter a bênção da cura que Allah colocou nele. Mas o muçulmano acredita que o vinho é categoricamente ilícito. Precisamente por causa dessa crença, não lhe será possível obter a cura por meio do vinho. Tal crença não permitirá que se forme uma boa opinião sobre o vinho, e será difícil consumi-lo com interesse. Pelo contrário, quanto mais o servo se aperfeiçoar na fé, mais odiará o vinho. Considerá-lo-á mau e não conseguirá suportá-lo. Em tal situação, não será possível obter a cura mediante o uso do vinho; ao contrário, a sua doença aumentará.(Árabe*******************)

Tudo isso é verdade. Ainda assim, a necessidade e a situação de extrema urgência não são menos importantes aos olhos da Sharia. Por isso, levando-as em consideração, foram estabelecidas as normas da Sharia. Quando uma doença ameaça a vida de uma pessoa e se determina que o vinho ou algum medicamento misturado com vinho é o único tratamento, não havendo nenhum outro medicamento que possa substituí-lo, e um médico muçulmano piedoso, dotado de firmeza na fé, tiver prescrito esse tratamento, somente em tal situação ele poderá ser usado como medicamento. (Contudo, uma situação desse tipo raramente ocorre.) Pois a Sharia traz facilidade à vida das pessoas e remove os obstáculos e as dificuldades. Naturalmente, essa permissão do Islã deve ser utilizada apenas dentro de limites específicos e estreitos, que não podem ser ultrapassados. Allah disse:(Árabe*******************)

Mas, se alguém se encontrar em situação de extrema necessidade, sem desejá-la nem procurá-la, e sem transgredir os limites, então Allah é Indulgente e Misericordioso.

Substâncias entorpecentes

Khamr é aquilo que obscurece a consciência e a razão das pessoas. Este é um princípio fundamental de extrema importância e amplo significado. O honorável Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) declarou isso ao proferir um sermão de pé no púlpito do Mensageiro de Allah. À luz dessas palavras, compreende-se o significado da palavra خمر usada no Alcorão, e não resta lugar para qualquer dúvida ou incerteza a esse respeito. Ficou assim categoricamente estabelecido que toda substância que obscureça a consciência e a razão das pessoas, que prive ou de algum modo afete os sentimentos, o discernimento, a capacidade de compreensão e a capacidade de tomar decisões, é chamada khamr ou vinho (bebida alcoólica). E Allah e Seu Mensageiro proibiram essa coisa para sempre.

Maconha, ópio, cocaína e outras substâncias semelhantes pertencem a esta categoria. Elas obscurecem a razão e o discernimento da pessoa de tal modo que as coisas distantes lhe parecem próximas, e as próximas, distantes. Ela começa a ter ilusões e alucinações sobre aquilo que existe de fato. E passa a imaginar que existe aquilo que, na realidade, não existe. Assim, fica submersa num oceano de erros extremos, equívocos e fantasias sem fundamento. Por fim, esquece completamente a si mesma, sua religião e o mundo, e começa a vagar apenas pelo mundo da imaginação.

Além disso, o consumo desse tipo de droga deteriora a saúde. Os nervos perdem a consciência. O corpo enfraquece. Ademais, surgem uma mentalidade debilitada, falta de coragem, decadência moral, perda da força de vontade e impaciência; como resultado, a pessoa habituada ao consumo dessas substâncias venenosas provoca uma ampla deterioração no corpo social.

Além de todos esses males e desastres, o desperdício dos bens e a desintegração e ruína do lar e da família são consequências inevitáveis. Muitas vezes, a pessoa habituada ao consumo dessas substâncias anestésicas gasta até o dinheiro destinado à alimentação dos próprios filhos para comprá-las. Por isso, não sente qualquer constrangimento ou hesitação em recorrer à corrupção e a meios desonestos.

Como já foi dito, o princípio fundamental do Islã é que todas as coisas haram são causa de toda espécie de vileza, maldade, baixeza e dano. E a realidade revelou que, do ponto de vista da saúde, bem como dos pontos de vista psicológico, social e econômico, essas coisas são extremamente prejudiciais e perigosas — não há dúvida quanto a isso. Todos os juristas em cuja época o uso dessas coisas começou a se disseminar concordaram plenamente sobre sua vileza e baixeza. O xeique do Islã, Ibn Taymiyyah, foi o mais destacado entre eles. Ele escreveu:

O haxixe e a maconha são haram, quer causem inconsciência, quer não. Seu consumo provoca agitação do coração, euforia, exaltação e um estado de êxtase. Por isso, principalmente os rebeldes contra Deus costumam consumi-los. Em seus efeitos e propriedades, são tão estimulantes quanto as bebidas alcoólicas. Levam a pessoa a brigar e discutir. A maconha também provoca distorção da razão e extrema humilhação. Ela corrompe a consciência e o temperamento da pessoa. Estimula perversões sexuais. A pessoa perde também o senso de dignidade. Por essas razões, quanto à intoxicação, a maconha é ainda mais vil e nociva do que as bebidas alcoólicas. Sob a influência da ascensão do povo tártaro, seu uso se disseminou amplamente entre as pessoas. Quem a consumir — em quantidade grande ou pequena — deve receber a pena aplicada ao consumo de bebidas alcoólicas: oitenta ou quarenta chibatadas.

Quando ficar comprovado que alguém consumiu maconha, deve-se considerar que cometeu o crime de consumir bebidas alcoólicas. Em alguns aspectos, esse crime é ainda mais grave do que o consumo de bebidas alcoólicas. Portanto, deve receber a mesma pena aplicada ao consumo de bebidas alcoólicas. A regra da sharia é que, no caso das coisas haram pelas quais se desperta desejo e inclinação, como as bebidas alcoólicas e o adultério, deve ser aplicado o hadd. Mas, no caso das coisas que não despertam desejo, como comer carniça, quem as consumir deve receber ta’zir. Para os consumidores de maconha, porém, ela é tão apreciada e tentadora que eles jamais conseguem abandoná-la; entretanto, as provas categóricas do Alcorão e da Sunna demonstram de modo igualmente decisivo que ela é haram, assim como demonstram que as bebidas alcoólicas e outros tipos de substâncias são haram.

(Árabe**************)

Tudo o que é prejudicial é haram

Segundo a regra geral da Sharia islâmica, não é permitido ao muçulmano comer ou beber qualquer coisa que possa destruí-lo e levá-lo à ruína, de imediato ou gradualmente. É por isso que todo tipo de veneno ou qualquer outra substância nociva é haram. Também não é permitido comer ou beber em excesso, pois é natural que isso cause doenças. O muçulmano não deve limitar-se a satisfazer as exigências do nafs; sua religião, sua comunidade, sua vida, sua saúde, seus bens e as inúmeras dádivas de Allah estão confiados à sua guarda como um depósito. Ele também deve cumprir os direitos de tudo isso. Portanto, não tem o direito de destruir sequer uma dessas coisas. O próprio Allah, o Altíssimo, declarou:(Árabe**********************)

Não vos mateis. Certamente, Allah é extremamente Misericordioso para convosco. (Surata An-Nisā’: 29)

(árabe*********************)

Não vos lanceis, com as próprias mãos, na destruição.

O Nobre Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) disse:(Árabe********************)

Não se deve causar dano a si mesmo nem causar dano a outrem.

Com base nesses princípios fundamentais, podemos dizer que, se o tabaco for prejudicial aos seus usuários, ele será haram. (Não há prova direta para classificá-lo como haram; o máximo que se pode dizer, com base no que existe, é que ele é makruh.) Especialmente se um médico declarar que fumar é prejudicial para determinada pessoa, então isso será proibido pelo versículo acima citado. E mesmo que não seja prejudicial à saúde, não há dúvida de que envolve um desperdício extremo de riqueza, sem qualquer benefício religioso ou mundano. Foi narrado num hadith: (árabe*************************)

O Nobre Profeta (que a paz esteja sobre ele) proibiu o desperdício e a destruição dos bens.

Mas, se alguém for tão pobre que tenha dificuldade até mesmo para obter as despesas necessárias para si e para sua família, então essa proibição é, para ele, ainda mais rigorosa e enfatizada.

Vestuário

O muçulmano deve embelezar sua aparência e sua forma utilizando as vestimentas e os trajes apropriados que Allah criou como beleza; no Islã, isso não é apenas permitido, mas também plenamente desejável.

O Islã deseja alcançar dois objetivos por meio do vestuário. O primeiro é cobrir as partes íntimas, e o segundo é obter beleza. Allah Todo-Poderoso concedeu uma grande graça ao proporcionar à humanidade vestimentas e artigos de adorno. Ele mesmo disse:

(Árabe*********************)

Ó filhos de Adão! Nós vos enviamos vestimentas que cobrem vossas partes íntimas e também vos servem de adorno. Entre esses dois objetivos do vestuário — cobrir as partes íntimas e adornar-se — deve haver, necessariamente, harmonia e equilíbrio, que devem ser estabelecidos e preservados. Se esse equilíbrio for destruído, abandonar-se-á a estrada principal do Islã e seguir-se-á o caminho satânico. Esta é uma questão de extrema importância. No versículo citado a seguir, Allah Todo-Poderoso proibiu claramente que se seguisse o caminho da nudez e da ausência de beleza, seguindo os passos de Satanás:(Árabe*********************)

Ó filhos de Adão! Que Satanás não vos ponha em provação, como fez quando expulsou vossos pais do Paraíso e lhes retirou as vestimentas do corpo, a fim de expor diante deles suas partes íntimas. (Surata Al-A’raf: 27)

Em outro versículo, Ele disse:(Árabe*********************)

Ó filhos de Adão! Adotai os vossos adornos por ocasião de cada oração na mesquita, e comei e bebei, mas não transgredi. (Surata Al-A‘raf: 31)

Assim como uma pessoa civilizada sente vergonha de expor as partes íntimas do seu corpo, o Islã tornou obrigatório para todo muçulmano cobri-las e adotar uma aparência distinta da dos animais nus. A orientação do Islã é que se mantenham as partes íntimas cobertas até mesmo na solidão e no isolamento, para que a modéstia e o pudor se tornem hábitos e adornos naturais do ser humano.

Bahz ibn Hakim narrou, através de seu avô:(Árabe*********************)

Eu disse: Ó Mensageiro! Quanta precaução devemos tomar em relação às nossas partes íntimas? E quanto podemos deixar de fazê-lo? O Mensageiro respondeu: Protege as tuas partes íntimas de todos, exceto da tua esposa e da tua escrava. Eu disse: Ó Mensageiro! E quando as pessoas se reúnem e convivem durante uma viagem ou algo semelhante? Ele respondeu: Mesmo assim, mantém as partes íntimas cobertas tanto quanto possível. Eu disse: E quando algum de nós está sozinho? Ele respondeu: Todos têm o dever de ter ainda mais pudor diante de Allah, o Altíssimo. (Ahmad, Abu Dawud, Ibn Majah, Tirmidhi, Hakim, Bayhaqi)

Uma religião que prescreve a limpeza e a beleza

O Islã deu maior importância à adoção da limpeza antes da beleza, pois a limpeza serve de base para toda forma de beleza, elegância e esplendor. O Mensageiro nobre (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse:

(Árabe*******************)

Adotai todos a limpeza, pois o Islã é uma religião de pureza.

(Árabe*********************)

A limpeza traz a fé, e a fé levará seu companheiro consigo para o Paraíso. (At-Tabarani)

O nobre Profeta (que a paz esteja com ele) incentivou a limpeza e a manutenção da limpeza do corpo, das roupas, das casas e das ruas. Em especial, ordenou que se mantivessem limpos os dentes, as mãos e a cabeça.

A importância da limpeza no din do Islã não é nem um pouco surpreendente. Pois foi este din que declarou a pureza e a limpeza como uma chave para uma adoração fundamental como a oração. Por isso, a oração daquele que ora não é aceita se seu corpo, suas roupas e o local não estiverem limpos. A limpeza e a pureza obtidas por meio do banho e da ablução são algo diferente desta limpeza.

Os árabes viviam em ambientes rurais e desérticos. Por isso, muitas pessoas não consideravam necessário ter muito cuidado com a limpeza e a beleza. Por essa razão, o nobre Profeta (que a paz esteja com ele) sempre procurava despertar neles o sentimento de pureza e limpeza. Por meio de seu treinamento, ele os elevou tanto que se transformaram na nação civilizada mais avançada do mundo. Todos os tipos de inferioridade e silêncio haviam ficado para trás em suas vidas. Como resultado, uma beleza equilibrada floresceu em sua condição.

Certa vez, um homem compareceu perante o nobre Profeta (que a paz esteja com ele). Sua barba e os cabelos de sua cabeça estavam desarrumados. O Mensageiro (que a paz esteja com ele) fez-lhe um gesto de tal modo que pareceu estar ordenando que arrumasse os cabelos e a barba. Ele então fez isso, arrumou os cabelos e a barba e voltou à presença do Mensageiro. Ao vê-lo, o nobre Profeta (que a paz esteja com ele) disse:(Árabe**************)

Isto é melhor, ou é melhor alguém apresentar-se de tal maneira que sua cabeça esteja desgrenhada, como se fosse um demônio?

O nobre Profeta (que a paz esteja com ele) viu outro homem cujo cabelo estava desgrenhado. Ele disse:(Árabe**********)

Esse homem não encontrou nada para arrumar os cabelos da cabeça? Ao ver outro homem usando roupas sujas, ele disse: Esse homem não encontrou nada para limpar e lavar suas roupas? (Abu Dawud)

O nobre Mensageiro (que a paz esteja com ele) viu outro homem vestindo roupas de má qualidade e lhe disse: — Você possui algum bem ou riqueza?

O homem respondeu: — Sim. Ele perguntou: — Que tipo de bens ou riquezas? O homem respondeu:

(Árabe******************)

Allah me concedeu todos os tipos de bens e riquezas.

Então, o nobre Profeta (que a paz esteja com ele) disse:(Árabe**********************)

Quando Allah lhe concedeu bens e riquezas, é conveniente que os sinais da bênção e da graça de Allah permaneçam visíveis em você. (An-Nasa’i)

O nobre Profeta (que a paz esteja com ele) deu ênfase especial à manutenção de boas condições de limpeza e asseio nas reuniões públicas, como a oração de sexta-feira e as duas festas do Eid. Ele disse:(Árabe******************)

Se possível, é recomendável usar, na sexta-feira, duas roupas diferentes além das duas usadas durante o trabalho. (Abu Dawud)

O ouro e as roupas de seda são proibidos aos homens

Embora o Islã tenha declarado a beleza lícita e desejável, proibiu considerá-la ilícita — como foi dito:

(Árabe*******************)

Dize: Quem proibiu os adornos de Allah, que Ele preparou para Seus servos, e as coisas boas da provisão? (Surata Al-A’raf: 32)

Contudo, dois tipos de adornos foram proibidos aos homens, embora tenham sido completamente permitidos às mulheres: primeiro, o uso de joias de ouro.

Segundo, usar roupas de seda pura.

Foi narrado por Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele), que ele disse:(Árabe*******************)

O Nobre Profeta (S.A.) tomou a seda na mão direita e o ouro na mão esquerda, e disse: Estas duas coisas são proibidas aos homens da minha comunidade. (Ahmad, Abu Dawud, An-Nasa’i)

Foi narrado por Hazrat Umar (R.A.), que disse: Ouvi o Nobre Profeta (S.A.) dizer: (Árabe**************)

Não useis roupas de seda, pois quem usar roupas de seda neste mundo não poderá usá-las no Além. (Bukhari, Muslim)

Sobre as roupas de seda, ele disse: (Árabe*****************)

Esta é a roupa daqueles que não terão qualquer recompensa no Além.

O Nobre Profeta (S.A.) viu um anel de ouro na mão de um homem. Então, retirou-o, atirou-o para longe e disse: (Árabe**********************)

Queres segurar uma brasa com a tua própria mão?

Depois que o Nobre Profeta (S.A.) se levantou e partiu, disseram ao homem: Pega no teu anel e aproveita-o. Então ele disse: (Árabe*********************)

Não, por Deus. Não pegarei aquilo que o nobre Mensageiro (S.A.) lançou para longe. (Muslim)

Assim como este anel de ouro, nos tempos modernos vê-se pessoas ricas e luxuosas usarem canetas de ouro, isqueiros de ouro, cigarreiras de ouro, porta-cigarros de ouro e artigos semelhantes. Tudo isso é haram.

Entretanto, o uso de um anel de prata também é halal e permitido para os homens, conforme autorizou o nobre Profeta (S.A.). No Sahih al-Bukhari, é narrado por Hazrat Ibn Umar (R.A.). Ele disse:(Árabe***********************)

O nobre Profeta (S.A.) usava um anel de prata, que adornava sua mão. Depois, ele passou a adornar a mão de Hazrat Abu Bakr. Em seguida, a mão de Hazrat Umar e, depois, a mão de Hazrat Uthman. Por fim, caiu no poço chamado Aris. (Bukhari)

Além disso, não é haram usar anéis feitos de ferro ou de outros materiais. Não se conhece sua proibição por nenhuma prova decisiva, e um hadith narrado no Sahih al-Bukhari afirma que o nobre Profeta (S.A.) disse a um homem, a respeito do mahr: (em árabe****)

Procura e traz alguma coisa, ainda que seja apenas um anel de ferro.

Com base neste hadith, o Imam Bukhari opinou que é permitido usar um anel de ferro.

Contudo, o uso de seda pode ser permitido quando houver uma necessidade real. O nobre Profeta (S.A.) autorizou Hazrat Abdur Rahman ibn Awf (R.A.) e Hazrat Zubair ibn al-Awwam (S.A.) — Hazrat Abdur Rahman ibn Awf (R.A.) e Hazrat Zubair ibn al-Awwam (R.A.) — a usarem seda devido a doenças como sarna e coceira.

A razão pela qual o uso de seda e ouro é haram para os homens

O objetivo fundamental de proibir aos homens o uso de seda e de joias de ouro é proporcionar-lhes uma excelente formação moral. Isso porque a religião do Islã é a religião da jihad e da demonstração de força. Portanto, proteger a masculinidade de toda espécie de fraqueza moral, devassidão e decadência é um dos objetivos do Islã. Allah, o Altíssimo, concedeu ao homem uma constituição física e uma estrutura corporal de tipo especial, diferentes das da mulher. Assim, não convém aos homens, por entrarem em competição com mulheres formosas, começarem a usar joias valiosas e roupas extremamente luxuosas e chamativas. Além disso, há nisso um benefício coletivo e geral.

O Islã combateu o luxo, o conforto excessivo e a ostentação. Proibir aos homens as joias de ouro e as roupas de seda é uma parte especial dessa luta. Isso porque, segundo a perspectiva do Alcorão, o luxo e o conforto excessivo podem tornar-se causas da destruição e da ruína de uma nação. Eles também são frutos da opressão e da exploração coletivas. Pois um pequeno grupo acumula montanhas de luxo e desfruta de conforto ilimitado explorando a maioria das pessoas e os pobres. E são justamente as pessoas dessa classe que, desde sempre, se posicionam como uma força de resistência contra qualquer reforma social e qualquer iniciativa de bem-estar coletivo. Neste ponto, a declaração do Alcorão é:(Árabe************************)

Quando decidimos destruir uma cidade, colocamos à frente dela os seus habitantes abastados, entregues ao luxo e ao conforto; então eles começam a desobedecer a Allah. Em seguida, fazemos recair sobre o seu povo o decreto do castigo e a destruímos completamente. (Surata Bani Isra’il: 16)

(Árabe***********************)

E quando enviamos um advertidor a uma cidade e ele começa a cumprir sua missão, os seus habitantes ricos, felizes e entregues ao luxo dizem: “Negamos a mensagem com a qual fostes enviados.” (Surata As-Saba: 34)

Em consonância com essa orientação e perspectiva do Alcorão, o Profeta ﷺ proibiu na vida muçulmana os artigos de luxo e de conforto excessivo. Por isso, vemos que, assim como proibiu aos homens as joias de ouro e as roupas de seda, também proibiu, tanto aos homens quanto às mulheres, todos os utensílios feitos de ouro e prata.

Além disso, há também uma razão econômica envolvida. O ouro é considerado um capital de reserva, mantido no sistema internacional como riqueza em dinheiro. Portanto, de modo algum é desejável que os homens o utilizem como ornamento ou como recipiente.

Por que isso é lícito para as mulheres

Ao não proibir às mulheres o uso de joias de ouro e roupas de seda, deu-se importância às características específicas das mulheres. A natureza feminina é, por natureza, inclinada à beleza. No caráter feminino existe uma exigência natural pelo cuidado com a aparência, pelos cosméticos e pelo uso de joias e adornos. Contudo, o Islã não permite nem oferece oportunidade para que, por meio disso, mulheres atraiam homens estranhos e despertem neles desejos sexuais ilícitos. Foi dito no hadith:(Árabe****************)

Toda mulher que usa perfume e se aproxima de homens estranhos, fazendo com que eles sintam sua fragrância, é adúltera, e o olhar dirigido a ela torna-se um olhar adúltero. (An-Nasa’i, Ibn Khara, Ibn Harayash)

A respeito da advertência à sociedade feminina, Allah disse:(Árabe*******************)

Que as mulheres não batam os pés com força, para que sua beleza oculta não se revele e se torne evidente. (Surata An-Nur: 31)

A roupa da mulher muçulmana

O Islã proibiu às mulheres vestir roupas através das quais a beleza do corpo possa tornar-se visível externamente. Do mesmo modo, é inteiramente ilícito para as mulheres usar roupas que deixem descobertas partes específicas do corpo e que possam provocar excitação sexual nos homens que as vejam. Não é de modo algum permitido a uma mulher muçulmana vestir-se deixando descobertos os seios, a cintura, as coxas, as costas ou o abdômen.

Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele) narrou que o Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse:(Árabe****************)

Haverá dois tipos de pessoas no Inferno. Um tipo será constituído pelos governantes e administradores injustos, que terão sempre pendurados chicotes semelhantes a caudas de bois e com os quais açoitarão as pessoas. O segundo será constituído por mulheres que, embora vestidas, estarão nuas. Elas tentarão atrair os homens para si e também se inclinarão para os homens. Suas cabeças serão como as corcovas inclinadas dos camelos. Não entrarão no Paraíso, nem sentirão o seu perfume, embora a fragrância do Paraíso se espalhe por grandes distâncias. (Muslim)

Há mulheres que, embora vestidas, permanecem nuas porque suas roupas não cobrem todo o corpo; suas roupas são tão finas que, através delas, transparece o brilho — ou a beleza — do corpo. E também porque, embora vistam roupas, deixam descobertas as partes sexualmente estimulantes do corpo. Em ambas as situações, o objetivo fundamental de vestir-se é frustrado. As mulheres modernas de hoje se acostumaram a usar esse tipo de vestimenta.

As cabeças dessas mulheres foram comparadas às corcovas dos camelos porque elas prendem os cabelos em coques muito altos sobre a cabeça. Parece que o Profeta ﷺ já havia visto claramente, naquela época, o invisível do futuro. Isso porque esse costume de prender os cabelos é moderno. Naquela época, tal situação não existia. Hoje, em cidades específicas, foram estabelecidos salões de estilo moderno para embelezar os cabelos e prendê-los em coques, tornando-os “fashionables”. Esses salões são chamados, em árabe,(Árabe*************) de “kawāfir”. Quase em toda parte, são os homens que assumem a responsabilidade por administrá-los. Em troca desse trabalho, eles exigem e recebem honorários muito elevados. Além disso, as mulheres consideram insuficientes os cabelos naturais concedidos por Allah, compram cabelos artificiais e os juntam aos seus próprios cabelos.

A situação é a seguinte: por um lado, uma parcela dos homens começou a tentar superar as mulheres em graça, delicadeza, suavidade, beleza e aparência. Por outro lado, as mulheres, tornando-se atraentes, empenham-se de todas as formas em atrair os homens.

O hadith acima aponta para uma questão especial. Existe uma relação profunda entre a tirania política — ou o despotismo estatal — e a corrupção moral. A situação dos tempos atuais prova irrefutavelmente a realidade disso. Os políticos despóticos mantêm continuamente a nação ocupada com atividades e atos carregados de desejo sexual e, envolvendo as pessoas em problemas e complicações pessoais, procuram desviar sua atenção das questões nacionais, para que ninguém perceba o seu despotismo.

Criar semelhança entre mulheres e homens

O Profeta ﷺ declarou que é completamente haram para as mulheres usarem roupas masculinas e para os homens usarem roupas femininas. (Ahmad, Abu Dawud, an-Nasa’i, Ibn Majah, Ibn Hibban)

Além disso, ele amaldiçoou aqueles que imitam as mulheres entre os homens e os homens entre as mulheres. (Bukhari)

No que diz respeito à imitação, isso se aplica a todos os aspectos: fala, movimentos, modo de andar, maneira de sentar-se e levantar-se, vestimentas e assim por diante. Negar a própria natureza e não estar disposto a atender às exigências de sua disposição natural — adotando, ao contrário, comportamentos opostos — é a causa fundamental do surgimento da desordem na vida humana e na sociedade. O homem possui uma natureza e uma disposição específicas. A natureza e a disposição das mulheres são completamente distintas. Não há absolutamente nenhuma semelhança ou afinidade entre a natureza de um e a natureza do outro. Porém, quando o homem tenta tornar-se “mulher”, e as mulheres desejam adotar modos de agir e uma natureza masculinos, o resultado inevitável é uma extrema corrupção moral e social.

O Mensageiro Nobre (que a paz esteja sobre ele) amaldiçoou tanto o homem a quem Allah, o Altíssimo, criou como homem, mas que deseja tornar-se mulher e assemelhar-se às mulheres, quanto a mulher a quem Allah, o Altíssimo, criou como mulher, mas que deseja revestir-se de características masculinas. Ambos são amaldiçoados tanto neste mundo quanto no Além. Os anjos de Allah também se unem a essa maldição.

Por essa razão, o Nobre Profeta (que a paz esteja sobre ele) proibiu aos homens usar roupas de cor amarela. Foi narrado por Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele), que disse:(Árabe****************)

O Mensageiro Nobre (que a paz esteja sobre ele) proibiu-me de usar anéis de ouro, roupas de seda e roupas de cor amarela. (Muslim)

Foi narrado por Hazrat Ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ele). Ele disse: O Mensageiro Nobre, ao ver-me usando duas peças de roupa amarela, disse-me:(Árabe****************)

Estas são as roupas dos incrédulos. Portanto, não as uses.

As vestimentas da fama e da arrogância

Todas as coisas puras — bebidas, alimentos e vestimentas — são lícitas para o muçulmano. Contudo, a condição é que não se transgrida ao consumi-las ou usá-las, e que não se manifeste qualquer arrogância ou ostentação.

Na terminologia árabe, “isrāf” significa o uso excessivo e transgressor de coisas lícitas. A atitude mental de orgulho e vaidade também é uma questão interior, cuja manifestação externa raramente ocorre. Considerar-se alguém grandioso e cair na arrogância é orgulho. Exibir-se como superior aos outros é vaidade. Allah, o Altíssimo, declarou no Alcorão Majid:(Árabe****************)

Allah não gosta nem ama pessoa alguma que esteja absorta na vaidade e seja arrogante. (Surata Al-Hadid: 23)

O Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) disse:(Árabe****************)

Aquele que arrastar sua roupa por orgulho, no Dia da Ressurreição, Allah sequer olhará para ele. (Bukhari, Muslim)

Foi precisamente para manter o muçulmano afastado da atitude de orgulho e vaidade que o Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) proibiu o uso de roupas de fama e notoriedade. A roupa que faz alguém parecer distinto do povo em geral e, por causa dela, exibir sua superioridade, é a roupa de fama e notoriedade. O Nobre Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse:(Árabe****************)

Aquele que vestir uma roupa de fama e notoriedade, no Dia da Ressurreição, Allah o fará vestir uma roupa de humilhação e desonra. (Ahmad, Abu Dawud, Nasa’i, Ibn Majah)

Certa pessoa perguntou a Umar (que Allah esteja satisfeito com ele): Que tipo de roupa devo vestir? Ele respondeu:(Árabe****************)

Veste a roupa que não fará com que os ignorantes e tolos te considerem leviano e irrefletido (isto é, não uses roupas vis e inferiores), nem permitirá que os inteligentes encontrem nela qualquer defeito (isto é, não uses roupas que comprometam o equilíbrio). (Tabarani)

A deformação da criação de Allah em busca de uma beleza excessiva:

O Islã de modo algum aprova a prática de realizar, na tentativa de aumentar a beleza, atos que acabam por deformar a própria criação de Allah. O Alcorão chama esse ato de “wahy” ou conselho de Satanás. Segundo a declaração do Alcorão, o próprio Satanás disse sobre sua má indução: (Árabe****************)

Ordenarei aos meus seguidores; e eles deformarão a própria criação de Allah. (Surata An-Nissá: 119)

Tatuar o corpo, afiar os dentes e submeter-se a operações para aumentar a beleza

No Islã, é proibido tatuar o corpo com a ajuda de instrumentos especiais e afiar os dentes. Foi narrado no hadith: (Árabe****************)

O Profeta ﷺ amaldiçoou todas estas categorias de pessoas: a mulher que faz tatuagem no corpo, aquela que pede que lhe façam uma tatuagem, aquela que afia os dentes e aquela que pede que lhe afiem os dentes. (Muslim)

Para fazer tatuagens, geralmente se usa tinta azul, e são desenhadas figuras de aspecto muito desagradável. Como resultado, o rosto e as mãos ficam desfigurados. Os árabes e, especialmente, as mulheres, avançaram muito nessa prática. Elas mandam tatuar todo o corpo. Alguns seguidores de religiões chegam a mandar desenhar imagens e símbolos de suas divindades. Os cristãos mandam desenhar cruzes nas mãos e no peito.

Além desses males, há um grande mal: como o corpo é perfurado com uma agulha durante a tatuagem, sente-se muita dor e sofrimento. Por isso, tanto fazer esse trabalho quanto mandar que o façam são proibidos e amaldiçoados no Islã.

O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) lançou a maldição tanto sobre aquela que afia e aguça os dentes, tornando-os finos, como sobre aquela que manda fazê-lo. Também recai maldição sobre a mulher que faz com que outra realize esse procedimento. Sem dúvida, se um homem fizer isso, também estará incluído nessa maldição.

Assim como isso é verdadeiro no que diz respeito aos dentes, o Nobre Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) também declarou proibido esculpir e abrir espaços entre eles. Foi narrado no hadith: (Árabe****************)

O Nobre Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) também lançou a maldição sobre as mulheres que criam espaços e esculpem os dentes com o objetivo de aumentar a beleza. Isso porque elas alteram o estado natural da criação de Allah.

Entre as mulheres, muitas têm naturalmente espaços entre os dentes da frente, enquanto outras não os têm. As que não os têm fazem-nos artificialmente. Com isso, enganam as pessoas. Recorre-se a essa artificialidade apenas para aumentar a beleza. Consequentemente, do ponto de vista do Islã, a própria natureza e disposição da pessoa também se tornam artificiais. O Islã de modo algum está disposto a tolerar isso.

Os hadiths citados acima são autênticos. Com base nesses hadiths, podemos conhecer a determinação da Sharia sobre a realização de operações (cirurgias) com o objetivo de aumentar a beleza. Foi a civilização contemporânea, adoradora do corpo e do prazer sexual, que difundiu essas cirurgias. Deve-se dizer que esta é uma das principais contribuições da atual civilização materialista ocidental. Sob essa influência, homens e mulheres gastam milhares de takas para tornar, conforme seu desejo e de modo atraente, o formato do nariz, do peito (seios) e de outras partes do corpo. Na realidade, esse tipo de prática atrai a maldição de Allah. Além de ser dolorosa, ela equivale a alterar, sem qualquer necessidade, a forma que Allah criou. E, de fato, a mudança que pode ser obtida por meio de cirurgia é muito pequena; não é possível realizar nenhuma transformação real. No máximo, pode-se produzir uma mudança física, não espiritual.

No entanto, se alguém tiver um defeito que seja uma anomalia em relação à estrutura corporal original e que, por causa dele, sinta dor ou permaneça atormentado por constrangimento psicológico, não há mal em tratá-lo. O objetivo, porém, deve ser somente eliminar essa dificuldade, pois a pessoa sofre com ela e sua vida se torna insuportável. Isso é permitido porque Allah não estabeleceu no din nenhuma causa de sofrimento para nós.(Árabe*****************)

Também se encontra apoio para essa opinião nos hadiths. Nos hadiths, são proibidas as cirurgias realizadas com o objetivo de aumentar a beleza. Portanto, se uma cirurgia for realizada com esse propósito, certamente a pessoa merecerá a maldição. Mas, se for realizada com o objetivo de eliminar um sofrimento ou atender a uma necessidade, não pode haver mal algum nisso.

Afinamento das sobrancelhas

Outro método moderno de alcançar beleza e formosura excessivas é arrancar os cabelos ou pelos. Geralmente, isso consiste em arrancar os pelos das sobrancelhas para torná-las o mais finas possível. Porém, esse ato é proibido no Islã. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) amaldiçoou quem o pratica. Foi citado em um hadith. (Árabe**********************)

O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) amaldiçoou tanto a mulher que arranca cabelos ou pelos quanto aquela que solicita que outra pessoa faça isso por ela. (Abu Dawud)

Arrancar cabelos ou pelos torna-se uma proibição ainda mais grave quando se transforma em um hábito regular de mulheres depravadas e passa a ser uma de suas características. Alguns eruditos da escola hanafita disseram que é permitido às mulheres remover os pelos do rosto, aplicar tintura vermelha, desenhar padrões e pintar as unhas. Contudo, isso deve ser feito com a permissão do marido, pois tais atos são considerados adornos de beleza. O Imam An-Nawawi, porém, opôs-se veementemente à remoção dos cabelos ou pelos do rosto. Com base no hadith citado anteriormente, ele declarou esse ato proibido. Abu Dawud, entretanto, escreveu em seu Sunan que a mulher que desenha padrões e imagens em suas sobrancelhas e as torna finas é chamada, no hadith, deنامصهIsso constitui uma refutação da opinião do Imam An-Nawawi, pois a remoção dos cabelos ou pelos do rosto não é considerada uma das práticas amaldiçoadas.

Foi narrado no livro de At-Tabarani que a esposa de Abu Ishaq era jovem e desejava embelezar-se. Ela foi até Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) e perguntou: a esposa pode remover os pelos do rosto para o marido? Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) respondeu: “Remove, tanto quanto puderes, as coisas que causam incômodo. (Árabe*******************)

Acrescentar cabelo ao cabelo

Também é proibido à mulher aumentar sua beleza unindo ao cabelo de sua própria cabeça o cabelo de outra pessoa (uma peruca), seja ele cabelo verdadeiro ou artificial.

O Imam Al-Bukhari citou hadiths transmitidos por Aisha, Asma, Ibn Masud, Ibn Umar e Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com eles):

(Árabe*********131************)

O Mensageiro Nobre (s.a.w.) lançou a maldição sobre ambas as mulheres: aquela que coloca extensões no cabelo e aquela que pede a outras que o façam por ela.

Se isso se aplica às mulheres, então pode-se afirmar sem dúvida que, se os homens praticarem esse ato, certamente também estarão sujeitos a essa maldição. O Nobre Profeta (s.a.w.) chamou esse ato deتد ليس isto é, fraude. Até mesmo uma mulher cujo cabelo caia devido a alguma doença não está autorizada a colocar no próprio cabelo o cabelo de outra pessoa. Esse ato também é proibido para a noiva que está sendo enviada ao marido.

Foi narrado por Aisha (r.a.) que, depois de uma jovem dos Ansar se casar, seu cabelo caiu devido a uma doença. Ela desejou colocar outro cabelo em sua própria cabeça. Quando perguntaram ao Nobre Profeta (s.a.w.) sobre isso, ele disse:(Árabe*********)

Allah, o Altíssimo, lançou a maldição sobre ambas as mulheres: aquela que coloca extensões no cabelo e aquela que pede a outra pessoa que o faça por ela.

Quando Asma (r.a.) manifestou o desejo de fazer isso depois que seu cabelo caiu devido a uma doença feminina, o Nobre Profeta (s.a.w.) pronunciou exatamente a declaração acima.

Sa’id ibn al-Musayyib disse: Hazrat Mu’awiya veio a Medina — essa foi sua última visita. Então ele nos fez um sermão. Durante o sermão, ele tirou um tufo de cabelo e disse:(Árabe******************)

Não creio que alguém além dos judeus pratique essa moda. O Nobre Profeta (s.a.w.) chamou esse ato de fraude e engano, isto é, juntar ao cabelo o cabelo de outra pessoa.

Segundo outra narração, Hazrat Mu’awiya disse aos habitantes de Medina:(Árabe**********************)

Onde estão agora os vossos sábios? Eu mesmo ouvi o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) proibir tais práticas. Também o ouvi dizer que a destruição das filhas dos israelitas começou justamente quando elas iniciaram essa moda. (Bukhari)

O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) chamou essa prática de falsidade e engano. Isso torna clara a razão pela qual ela foi proibida. Na realidade, essa prática é uma forma de engano e fraude, realizada por meio da mentira. Se tais práticas fossem permitidas, o engano e a fraude também se tornariam lícitos, embora no Islam sejam pecados gravíssimos. O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse:(Árabe************)

Quem nos enganar não faz parte da minha comunidade.

O Imam al-Khattabi disse: Essa prática foi proibida porque nela as pessoas são enganadas e ludibriadas. Além disso, por meio dela altera-se a criação original de Allah, e esse é o maior delito. É a isso que se alude no hadith anteriormente citado, narrado por Ibn Masud. Nos hadiths, unir e misturar cabelo com cabelo — seja natural ou artificial — é, em essência, uma prática de engano e fraude. Contudo, se algo diferente de cabelo, como fio, pedaço de tecido e semelhantes, for unido ao cabelo, isso não será ilícito. Sobre esse assunto, foi narrado de Said ibn Jubayr (que Allah esteja satisfeito com ele) que ele disse:(Árabe************)

Não há problema em unir fios, seda ou lã usada para fazer tranças.

O Imam Ahmad ibn Hanbal também considerou isso permitido.

Aplicação de khizab

Aplicar khizab nos cabelos e na barba é uma forma de embelezamento. Os judeus, os cristãos e outros membros do Povo do Livro não aprovam mudar a cor da barba e dos cabelos aplicando khizab. Isso porque acreditam que o embelezamento e o aprimoramento da aparência são contrários à religiosidade e à devoção a Allah. Entre os que excedem os limites e exageram na religiosidade, como os que renunciam ao mundo, os ascetas e os vaishnavas, essa é a sua postura. Contudo, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) proibiu seguir essas pessoas e adotar práticas semelhantes, para que os muçulmanos pudessem preservar, tanto interior quanto exteriormente, a distinção e as características próprias de sua identidade, princípios e ideais. Foi narrado por Abu Hurayra (que Allah esteja satisfeito com ele) que o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) proibiu seguir essas pessoas e adotar práticas semelhantes, para que os muçulmanos pudessem preservar, tanto interior quanto exteriormente, a distinção e as características próprias de sua identidade, princípios e ideais. Foi narrado por Abu Hurayra (que Allah esteja satisfeito com ele) que o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse:(Árabe************************)

Os judeus e os cristãos não tingem os cabelos. Portanto, contrariem-nos.

Os Companheiros consideraram este preceito como algo recomendável. Pois, apesar da existência dessa ordem, nem todos os Companheiros tingiam os cabelos. Por exemplo, Abu Bakr e Umar (que Allah esteja satisfeito com ambos) o faziam, mas Ali e Ubayy ibn Ka’b (que Allah esteja satisfeito com ambos) não o faziam.(Árabe*****)

Mas com que se deve tingir o cabelo? Pode-se usar preto ou qualquer outra cor? Ou deve-se evitar a tintura preta? A resposta é que não é recomendável que aqueles que atingiram a velhice usem tintura preta. Isso porque, por ocasião da conquista de Meca, Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) levou seu pai, Abu Qahafa, à presença do Mensageiro de Allah. Ele viu que os cabelos de sua cabeça haviam ficado completamente brancos. Então disse:(Árabe*********************)

Mudem a cor destes cabelos, mas evitem a cor preta. (Muslim)

Porém, se alguém cuja condição ou idade ainda não seja semelhante à de Abu Qahafa usar tintura preta, então, de acordo com o hadith mencionado acima, isso não será ilícito. O Imã al-Zuhri também expressou essa opinião. Ele disse:(Árabe*******************)

Quando nossos rostos ainda eram viçosos, cheios de novidade e juventude, usávamos tintura preta. Mas, quando começaram a surgir mudanças em nossos rostos e dentes, abandonamos seu uso. (Fath al-Bari)

Sa’d ibn Abi Waqqas, Uqba ibn Amir, Hasan, Husayn, Jarir e outros Companheiros (que Allah esteja satisfeito com eles) consideraram, de modo geral, permitido usar tintura preta.

Entretanto, segundo alguns outros sábios, não é permitido usar tintura preta. Ainda assim, de acordo com a opinião deles, ela pode ser usada durante a jihad com o objetivo de amedrontar e aterrorizar o inimigo, para que este pense que todos os soldados do exército são jovens. Isso fará com que se sintam bastante apreensivos.(Árabe***********)

No hadith narrado por Hazrat Abu Dharr al-Ghifari (que Allah esteja satisfeito com ele), é dito:(Árabe*********************)

A melhor substância para mudar a cor branca da velhice é a hena e o katam.

O katam é uma erva iemenita. Sua cor é vermelho-sangue, tendendo ao preto. A hena é vermelha. Hazrat Hasan (que Allah esteja satisfeito com ele) relatou: Hazrat Abu Bakr usava ambos os tipos de tintura, hena e katam, enquanto Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) usava apenas hena pura como tintura.

Deixar crescer e alongar a barba

Entre os assuntos que estamos discutindo está o crescimento da barba. Segundo uma narração de Hazrat Ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ele), o Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse:(Árabe**********************)

Oponham-se aos politeístas, deixem crescer a barba e aparem o bigode. (Bukhari)

وفروا deixem crescer a barba’, isto é, mantenham-na, deixem-na e permitam que cresça naturalmente. O hadith também menciona a razão dessa ordem: opor-se aos politeístas. Por politeístas entendem-se os adoradores do fogo, os magos. Isso porque eles cortavam a barba. Muitos deles também raspavam a barba. E o Nobre Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) ordenou que se lhes fizesse oposição. Ele queria formar e educar os muçulmanos de tal modo que sua identidade distintiva permanecesse intacta; que, assim como fossem diferentes dos politeístas em termos de fé e crença, também se tornassem exteriormente dotados de características próprias. Contudo, a questão de raspar a barba é completamente distinta, pois isso tanto contraria a natureza como cria semelhança com as mulheres, ao passo que a barba é um sinal distintivo do homem. Externamente, portanto, ela distingue o homem da mulher.

Contudo, a ordem de deixar a barba crescer não significa que absolutamente nada dela possa ser cortado. Às vezes, a barba cresce excessivamente, a ponto de sua aparência se tornar desagradável. Isso pode causar grande dificuldade e incômodo à pessoa. Portanto, pode-se cortar seu comprimento e sua largura. Um hadith foi citado no Sahih at-Tirmidhi:(Árabe********)

O Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) aparava a barba em seu comprimento e largura.

Muitos dos povos antigos faziam isso. Iyad disse: (árabe************************)

Raspar a barba, apará-la e deixá-la uniforme é makruh. Porém, quando ela cresce demasiadamente, é bom apará-la no comprimento e na largura. (Árabe****************)

Abu Shamah disse: Em nossa época, veem-se pessoas que raspam a barba, embora seja universalmente sabido que os adoradores do fogo costumavam apará-la.

Neste ponto, quero dizer que muitos muçulmanos começaram a raspar a barba por seguirem os imperialistas inimigos do Islã, como os judeus e os cristãos. Ao fazê-lo, estão reconhecendo sua derrota cultural diante deles. Pois são os povos vencidos que imitam e seguem a cultura da nação vencedora, embora tenham esquecido completamente que o Mensageiro Nobre (que a paz esteja com ele) ordenou a oposição aos incrédulos e proibiu a semelhança com eles. Foi dito no hadith:(Árabe***********************)

Quem imitar um povo será considerado parte dele. Muitos juristas, com base nos hadiths do Mensageiro Nobre (que a paz esteja com ele) sobre deixar a barba crescer, declararam que raspar a barba é totalmente haram. Isso porque cumprir essa ordem é obrigatório. Essa ordem específica baseia-se na oposição aos idólatras. E opor-se a eles é obrigatório para os muçulmanos. Não há prova de que alguém das gerações anteriores tenha abandonado essa obrigação.

Contudo, alguns sábios de nossa época, influenciados pelo espírito do tempo e observando o costume corrente, começaram a dizer que não há mal em raspar a barba. Começaram também a dizer que deixar a barba crescer era apenas um hábito pessoal do Mensageiro Nobre (que a paz esteja com ele), que não tinha relação com a Sharia e tampouco pertencia à categoria da adoração. Mas a verdade é que deixar a barba crescer não é comprovado apenas pela prática pessoal do Mensageiro; a isso se acrescenta, como causa, a oposição aos incrédulos. O Imame Ibn Taymiyyah escreveu que, em todos os casos, opor-se aos incrédulos e idólatras está entre os objetivos específicos da Sharia. A semelhança exterior desperta no coração sentimentos de afeição, amor e amizade, assim como o amor interior produz semelhança exterior. Sua veracidade é comprovada pelos sentimentos humanos e pela experiência real. Ele escreveu ainda que a ordem de se opor aos incrédulos e idólatras e a proibição de se assemelhar a eles são estabelecidas de forma decisiva pelo Alcorão, pelos hadiths e pelo ijma. E aquilo em que se encontra a causa de algum mal pode ser declarado haram. A semelhança com os atos e costumes exteriores dos incrédulos conduz à imitação de seu mau caráter e de suas ações. Mais ainda, teme-se que esse processo de imitação possa influenciar até o âmbito da crença e da fé. Essa influência não é percebida, pois o defeito fundamental que ela provoca não se manifesta exteriormente. Mas, uma vez que se estabelece, torna-se muito difícil removê-la. Portanto, sem dúvida, tudo aquilo que conduz a algum mal será haram segundo a Sharia.(Árabe*******************)

Por fim, há três opiniões a mencionar sobre raspar a barba. Uma opinião é que raspar a barba é haram. A segunda é que raspar a barba é makruh.

Esta afirmação foi citada na obra Fath al-Bari em nome de Qadi Iyad. Nela, o nome de nenhuma segunda pessoa foi mencionado. O terceiro ponto é que isso é permitido.

Embora vários estudiosos da época sustentassem essa opinião, a posição intermediária, mais próxima da verdade e mais justa é que raspar a barba é makruh, não haram. Isso porque nenhuma ordem do Nobre Mensageiro se torna automaticamente obrigatória, embora a razão apresentada como fundamento seja a oposição aos descrentes e politeístas. O exemplo mais claro disso é a ordem de usar tintura para alterar a cor branca da velhice, a fim de se opor aos judeus e cristãos. No entanto, alguns Companheiros não fizeram isso ao tentar cumprir essa ordem. Isso demonstra que a ordem desse nível é de caráter mustahabb.

É verdade que não se sabe de nenhum muçulmano dos tempos antigos que tenha raspado a barba. Isso também pode ser porque, naquela época, as pessoas não consideravam necessário raspar a barba; pelo contrário, mantê-la havia se tornado um hábito.

A casa — o lugar de moradia

A casa, ou o local de moradia, é um refúgio seguro para as pessoas. É nessa casa que sua vida familiar e conjugal se desenvolve. Em sua própria casa, a pessoa se sente livre de todos os tipos de restrições sociais. É em sua própria casa que encontra conforto e descanso e sente profunda tranquilidade. Por isso, ao mencionar Suas bênçãos para com Seus servos, Allah, o Altíssimo, disse:(Árabe******************)

Allah, o Altíssimo, fez para vocês as suas casas uma fonte de tranquilidade. (Surata An-Nahl: 80)

O Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) gostava de casas espaçosas. Ele considerava esse tipo de casa um meio de prosperidade material. Ele disse:(Árabe************************)

Quatro coisas são fontes de bênçãos: uma esposa casta e virtuosa, uma casa espaçosa, um bom vizinho e um excelente meio de transporte.

O Nobre Profeta (s.a.w.) costumava fazer frequentemente a seguinte súplica: (Árabe*********************)

Ó Allah! Perdoa os meus pecados, concede-me amplitude em minha casa e abençoa o meu sustento.

Um homem disse: Ó Mensageiro de Allah, por que fazes frequentemente esta súplica? Em resposta, ele disse:

(Árabe****************)

Nesta súplica, ficou de fora alguma coisa?

O Nobre Profeta ordenou que se mantivessem as casas limpas e asseadas, para que essa preocupação com a limpeza se tornasse uma manifestação externa e uma característica da religião do Islam, e para que, com base nisso, o muçulmano pudesse distinguir-se, com uma posição honrosa, daqueles cuja religião considera a sujeira e a falta de higiene o único meio de alcançar a proximidade de Allah. O Nobre Mensageiro declarou:(Árabe************************)

Allah, o Altíssimo, é puro e ama a pureza. Ele é Misericordioso e dotado de graça; ama a misericórdia e a graça. Ele é Generoso e ama a generosidade. Portanto, mantende todos limpo e asseado o pátio de vossas casas e não vos assemelheis aos judeus. (Tirmidhi)

Manifestação do luxo e da idolatria

De modo algum é proibido aos muçulmanos adornarem suas casas com pintura, verniz, brilho e formas lícitas de beleza.

O próprio Deus Altíssimo disse:(Árabe**********************)

Quem pode tornar ilícita a beleza que Deus criou para Seus servos?

Na verdade, não é proibido ao muçulmano manter sua casa, suas roupas e tudo o que a elas estiver relacionado muito bem organizado, belo, adornado e reluzente. Não há nisso mal algum.

O nobre Profeta (S.A.W.) disse:(Árabe****************)

Aquele que tiver no coração sequer um átomo de arrogância não poderá entrar no Paraíso. Então alguém perguntou: “Ó Mensageiro de Deus! Um de nós gosta que suas roupas e seus sapatos sejam muito bonitos; isso também é arrogância?” O Mensageiro respondeu: “De modo algum. Pois Deus é belo e ama a beleza e o que é belo.” (Muslim)

Em outra narração, foi dito:(Árabe****************)

Um homem belo e formoso compareceu à presença do nobre Profeta (S.A.W.) e disse: “Gosto da beleza, e muito dela me foi concedida, como podeis ver. Não gosto sequer que alguém seja superior a mim no que diz respeito ao cadarço do sapato. Ó Mensageiro, isso também será considerado arrogância?” Ele respondeu: “Não. Ao contrário, arrogância é rejeitar a verdade e considerar as pessoas inferiores e insignificantes.” (Abu Dawud)

Contudo, no Islã, o excesso e a transgressão dos limites não são de modo algum apreciados em nenhum aspecto da vida. O Profeta nobre (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) também não aprovou que a casa dos muçulmanos se tornasse um centro de ostentação e luxo. Isso foi proibido no Alcorão, e tampouco é aceitável que se manifeste o politeísmo. Afinal, a religião monoteísta de Allah lutou com toda a força contra o politeísmo.

Recipientes de ouro e prata

É precisamente por essa razão que também foi proibido manter nas casas dos muçulmanos recipientes de ouro e prata e leitos de seda pura. O Profeta nobre (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) advertiu, em termos severos, sobre as graves consequências da oposição a esse princípio. Umm Salama (que Allah esteja satisfeito com ela) narrou que o Profeta nobre (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse:(Árabe****************)

Aquele que comer ou beber em recipientes de ouro e prata terá o fogo do Inferno fervilhando em seu ventre. (Muslim)

(Árabe****************)

O Mensageiro nobre (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) proibiu-nos comer e beber em recipientes de ouro e prata, vestir roupas de seda e brocado e sentar-nos sobre eles. Ele disse: Estas coisas são permitidas aos incrédulos neste mundo e reservadas para nós na Outra Vida. (Bukhari)

Aquilo cujo uso é proibido também é proibido oferecê-lo como presente ou dádiva, bem como utilizá-lo para ornamentação e embelezamento.

Usar recipientes de ouro e prata e deitar-se em leitos de seda é proibido tanto para homens quanto para mulheres. O único objetivo de proibir essas coisas é livrar e purificar as casas dos artigos de luxo. Ibn Qudamah escreveu de maneira muito bela sobre este assunto:

Como estas coisas foram mencionadas nos hadiths de modo geral, elas são igualmente proibidas tanto para homens quanto para mulheres. Pois o objetivo de proibi-las é impedir o desperdício, os gastos inúteis, a ostentação e o orgulho, bem como evitar ferir os sentimentos dos pobres. E isso se aplica igualmente a homens e mulheres. Contudo, o uso de joias e similares é permitido às mulheres somente para que possam se adornar para seus maridos. Alguém poderia perguntar: se essa é a razão da proibição, por que então não foram proibidos os recipientes feitos de rubis, diamantes, joias e outras pedras preciosas? A resposta é que os pobres não estão familiarizados com essas coisas. Portanto, se os ricos as utilizarem, não há razão para que os pobres se sintam magoados. Além disso, como essas pedras preciosas são encontradas em quantidades muito pequenas, não se pode sequer cogitar fabricar recipientes com elas. Por isso, não resta necessidade alguma de proibi-las. Mas o caso do ouro e da prata é diferente.(Árabe****************)

Além dessas razões, também há razões econômicas por trás da proibição desses objetos. Já fizemos alusão a isso anteriormente. Na realidade, o ouro e a prata são considerados capital corrente no contexto internacional. Allah, o Altíssimo, determinou-os como medida do valor dos bens. Neles reside uma espécie de poder aquisitivo. Eles criam e preservam o equilíbrio correto entre os valores, além de servirem para o câmbio de moedas estrangeiras. Ao explicar assim o modo de utilizá-los, Allah, o Altíssimo, agraciou a humanidade com Suas bênçãos. Allah deseja que as pessoas os mantenham em circulação. Ele não aprova de modo algum que sejam trancados em casa como riqueza líquida ou deixados sem utilidade como objetos decorativos e recipientes.

O Imam Al-Ghazali escreveu de maneira muito bela sobre este assunto:

Aquele que fabricar recipientes de ouro e prata com moedas de ouro, como dirhams ou dinares, ou os comprar e guardar, demonstra ingratidão pela bênção de Allah. Comete uma falta ainda maior do que simplesmente entesourar riquezas. É como empregar o administrador de uma cidade em tarefas insignificantes, como tecer tecidos ou varrer, trabalhos que qualquer pessoa comum pode realizar. Seria melhor guardar essas coisas, em vez de utilizá-las dessa maneira. Pois o ouro e a prata substituem a argila cozida, o ferro, o chumbo, o cobre e outros materiais correntes na conservação de objetos. E os utensílios existem precisamente para conservar esses materiais correntes. Porém, não se pode alcançar com argila cozida e ferro o objetivo de obter riqueza líquida. Para aquele que não conhece este princípio, isso deveria ser esclarecido por meio das explicações e análises concedidas por Allah, e deveria ser-lhe transmitido o seguinte hadith:(Árabe****************)

Quem comer e beber em recipientes de ouro e prata enche o próprio ventre com o fogo do Inferno. (Ihya Ulum)

Não se deve pensar que a proibição dessas coisas causará qualquer dificuldade nas atividades domésticas dos muçulmanos. Pois, fora delas, o campo das coisas puras e lícitas é muito amplo. Recipientes de vidro, porcelana, cobre e muitos outros tipos de metal são muito melhores e brilhantes. Camas e travesseiros de algodão, fio e materiais semelhantes são muito confortáveis.

A proibição das estátuas no Islã

O Islã proibiu a conservação de representações de seres vivos (estátuas) nas casas dos muçulmanos. Também estão incluídas as imagens ou representações de pessoas respeitadas. Quando essas coisas se encontram na casa de alguém, os anjos da misericórdia de Allah fogem dela. O Mensageiro nobre (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse:(Árabe****************)

Os anjos da misericórdia de Allah não entram na casa onde há uma imagem ou retrato.

Os especialistas, indicando a razão disso, disseram: aqueles que penduram nas paredes de suas casas imagens de seres vivos agem como os infiéis. Com efeito, geralmente são os infiéis que penduram imagens e retratos nas paredes de suas casas e lhes demonstram respeito, devoção e reverência. Como os anjos não aprovam esse ato, abandonam essas casas e não retornam a elas.

No Islã, a confecção de retratos também foi proibida. Mesmo que sejam feitos para não muçulmanos, não serão permitidos. O nobre Mensageiro (s.a.w.) disse:(Árabe****************)

No Dia da Ressurreição, aqueles que desenham ou confeccionam essas imagens e retratos serão lançados no maior tormento.

Em outra narração, foi dito:(Árabe****************)

Essas são as pessoas que tentam imitar o ato criador de Allah.

O nobre Profeta, advertindo, disse:(Árabe****************)

Quem desenhar a imagem de um ser vivo ou confeccionar seu retrato será obrigado, no Dia da Ressurreição, a insuflar-lhe o espírito. Mas jamais será capaz de fazê-lo. (Bukhari)

Ele será punido por querer realizar essa tarefa impossível: dar-lhe vida por meio de um espírito verdadeiro. Pois jamais será capaz de realizar tal feito.

As razões pelas quais imagens e retratos são proibidos

(a) Há muitas razões pelas quais imagens e retratos são proibidos. A primeira razão importante é preservar a crença no tawhid e evitar práticas semelhantes ao paganismo. Pois os pagãos fabricam com as próprias mãos imagens e retratos, consideram-nos sagrados, adoram-nos e prestam-lhes culto; diante deles, curvam-se humildemente, encostam a cabeça e permanecem de pé.

No que diz respeito à crença no tawhid, o Islã é inflexível e implacável. E é natural que seja assim. Pois os povos que fazem imagens e retratos de seus antepassados ideais e de seus heróis nacionais como memoriais, depois de algum tempo começam a considerá-los “grandiosos, sagrados e dignos de veneração”. Passam a considerá-los divindades dignas de adoração e começam a adorá-los. Secretamente, passam a temê-los, procuram obter sua satisfação e esforçam-se para realizar suas esperanças e desejos. Começam a comparecer diante deles com o objetivo de obter bênçãos. É essa a história que está por trás de ídolos como Wadd, Suwa, Yaghuth, Ya’uq e Nasr.

A vigilância do Islã a esse respeito não é de modo algum surpreendente. Pois o Islã está determinado a bloquear todos os caminhos da corrupção e da ruína. Seu objetivo é fechar para sempre todas as brechas pelas quais o shirk manifesto ou oculto possa entrar na mente das pessoas, ocupar seu lugar e transformá-las em idólatras, bem como todos os caminhos pelos quais o paganismo e os excessos nas questões religiosas possam se disseminar na sociedade. A política e a postura inflexíveis do Islã a esse respeito também se devem ao fato de que a sharia islâmica não se destina às pessoas de uma determinada época, geração, país ou linhagem; ela é um código de vida para todos os seres humanos de todos os tempos. Onde quer que vivam em qualquer parte ou país do mundo, todas as pessoas, até o Dia da Ressurreição, podem cumpri-la devidamente.

(b) Outra razão pela qual a criação de imagens e retratos é proibida é que o fabricante do retrato ou da imagem acaba sendo dominado pela falsa ideia de que talvez tenha sido capaz de fazer algo passar da inexistência à existência, ou de criar um ser vivo com terra, pedra, tinta e pena. Os próprios acontecimentos reais comprovam a veracidade dessa ideia. Pode-se mencionar o caso de um homem que fez um retrato. Depois disso, continuou permanecendo debaixo dele por muito tempo. Quando o retrato ficou completamente pronto, ele ficou diante dele, contemplando o desenho de seu nariz e de suas feições e sua beleza adornada com minuciosos trabalhos ornamentais; tomado de vaidade e inflado de orgulho, começou a dirigir-se à figura, dizendo: “Fale, fale!”, como se ela fosse um ser vivo.

Foi exatamente por essa razão que o nobre Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) disse:(Árabe****************)

As pessoas que fazem esse tipo de retratos e estátuas serão castigadas no Dia da Ressurreição, e lhes será dito: “Dai vida agora a tudo o que criastes.” (Bukhari, Muslim)

Foi dito no hadith que Allah, o Altíssimo, disse:(Árabe****************)

Quem pode ser mais injusto do que aquele que tenta criar algo semelhante à Minha criação? Que eles criem sequer um grão de cevada ou de trigo! (Assim saberemos de que são capazes.) (Bukhari, Muslim)

(c) Aqueles que desejam alcançar seus próprios objetivos por meio dessa atividade não param em ponto algum. Começam a produzir imagens e retratos de corpos femininos nus e seminus. Não demonstram a menor hesitação ou constrangimento sequer ao fabricar estátuas de cruzes, símbolos do politeísmo e da idolatria; contudo, de modo algum é permitido a um muçulmano fabricar esse tipo de coisa.

(d) Não há dúvida de que os retratos são uma expressão de uma vida luxuosa. É um costume antigo dos ricos que vivem no luxo e na ostentação decorar suas casas semelhantes a palácios com retratos e imagens. Eles cobrem as paredes de seus aposentos, colocando imagem após imagem. Fabricam retratos com diversos metais para demonstrar e exibir sua habilidade artística e seu apreço pela arte. O Din do Islã combateu todos os artigos de luxo e ostentação, bem como os símbolos que expressam e demonstram tais práticas. De modo algum o Islã pode tolerar a reunião ou a existência de retratos nas casas dos muçulmanos, e não é de surpreender que isso tenha sido declarado completamente haram.

Meios de preservar a memória dos grandes homens

Alguém poderia perguntar: os grandes homens que deixaram feitos eternamente memoráveis na história nacional não deveriam ter estátuas materiais erguidas em sua homenagem, como reconhecimento de suas contribuições, para manter sempre viva na memória de todos a lembrança de seus feitos e torná-los eternamente luminosos diante das gerações futuras? A memória de uma nação não é muito vigorosa; as pessoas esquecem tudo. O fluxo do tempo os faz desaparecer no ventre do esquecimento. Nessas circunstâncias, que mal haveria em construir estátuas?

A resposta é que o Islã não aprova o respeito ou a devoção excessivos a qualquer personalidade, por maior e mais elevada que seja, esteja ela viva ou morta. O Profeta nobre (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse:

Não exagereis nem ultrapasseis os limites ao elogiar-me, como os cristãos ultrapassaram os limites ao elogiar Jesus, filho de Maria. Em vez disso, dizei de mim: o servo de Allah e Seu Mensageiro.

Os Companheiros quiseram levantar-se em homenagem ao nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Porém, ele próprio os proibiu. Disse: (Árabe****************)

Não vos levanteis como os não árabes costumam levantar-se uns diante dos outros para demonstrar respeito. (Abu Dawud, Ibn Majah)

Depois que o nobre Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) partiu deste mundo, os membros de sua comunidade não deveriam ultrapassar os limites ao demonstrar-lhe reverência, respeito, devoção ou veneração. Ele disse: (Árabe****************)

Não comeceis a celebrar festividades em torno do meu túmulo.

Ele suplicava incessantemente a Allah: (Árabe****************)

Ó Allah! Não permitas que o meu túmulo se torne um ídolo adorado.

Algumas pessoas foram até o nobre Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e começaram a dizer:

Ó Mensageiro de Allah! Ó nossa personalidade mais excelente;

Ó filho digno de nossa melhor personalidade;

Ó nosso líder, ó filho de nosso líder;

Ao ouvir isso, o Nobre Profeta (s.a.) disse: (Árabe****************)

Ó gente! Chamai-me e tratai-me como o fazíeis até hoje! Que Satanás não vos engane. Eu sou Muhammad, servo de Allah e Seu Mensageiro. Não tenteis elevar-me acima da posição e da dignidade que Allah me concedeu. (Nasa’i)

Construir retratos de pessoas, instalá-los como estátuas, prestar-lhes homenagem e gastar milhares e milhares de takas para isso — esse modo de prestar homenagem não é de forma alguma apoiado pelo Islã.

Os falsos pretendentes à superioridade e os criadores de histórias falsas e forjadas vêm, desde tempos imemoriais, enganando as nações do mundo por meio dessas conspirações. E jamais permitiram que os verdadeiros servidores e benfeitores da nação viessem à frente do povo; esconderam-nos à distância. Não lhes deram qualquer oportunidade de se tornarem conhecidos ou de serem reconhecidos.

A permanência eterna que o crente deseja só pode ser obtida junto de Allah. Somente Ele conhece todos os segredos e assuntos ocultos. E Ele jamais se esquece de coisa alguma. Não pode haver nenhum erro ou falha da Sua parte. Centenas de grandes personalidades têm seus nomes registrados permanentemente diante d’Ele, embora as pessoas não as conheçam nem reconheçam. Pois Allah aprecia as pessoas virtuosas, tementes e desconhecidas, anônimas; Allah aprecia as pessoas virtuosas, tementes e desconhecidas, anônimas. Quando se sentam numa assembleia, ninguém as reconhecerá; quando estão ausentes, ninguém sequer as procurará.

Se a permanência eterna é o que se deseja, não será possível alcançá-la erguendo retratos ou estátuas desse tipo. Há apenas um meio, e esse é o meio que o Islã aprova e apoia: é preciso enraizar firmemente na mente e no coração das pessoas a lembrança dessas personalidades. Seus louvores e elogios serão pronunciados e ecoarão de boca em boca. Ao contemplarem as muitas boas e benéficas obras que realizaram e os feitos incomparáveis que deixaram, as gerações futuras continuarão a louvá-las e a exaltar suas virtudes por toda a eternidade — e isso é natural.

A memória do Nobre Mensageiro (que a paz esteja com ele), dos Califas Bem-Guiados, dos líderes históricos do Islã e dos imãs mujtahid não foi preservada e tornada eterna por meio de imagens ou estátuas. Não foram esculpidas estátuas deles em pedra; pelo contrário, os membros de uma geração transmitiram às gerações seguintes, dos filhos, pais, mães, tios e avôs, os relatos de seus feitos imperecíveis e incomparáveis, de boca em boca, de uma memória para outra, até chegarem aos nossos dias. Seus feitos benéficos foram mencionados oralmente, explicados e discutidos em assembleias e conferências. Os corações e as mentes das pessoas estão repletos das narrativas de seus feitos, e isso continuará incessantemente por toda a eternidade. Eles se tornaram e continuarão sendo lembrados para sempre, sem que se tenha criado qualquer imagem ou estátua deles.

[Cito aqui uma parte da palestra proferida pelo antigo chefe do Departamento de Sharia da Universidade de Damasco, al-Ustadh Muhammad al-Mubarak, em um seminário realizado na Universidade de Al-Azhar. Ele disse: Atualmente, estamos diante de novos ambientes e circunstâncias, organizações e costumes sociais. Contudo, muitos deles não têm a menor compatibilidade com nossa correta crença e fé, nem com nossas normas e princípios tradicionais. Entre eles está a prática, seguida na Europa e na América, de construir estátuas com o objetivo de tornar eternos e inesquecíveis os “heróis” nacionais. Quando pensamos com uma visão independente e livre de influências, percebemos que os árabes dos tempos antigos tornavam eternamente memoráveis, de uma maneira especial, as ações extraordinárias e históricas de seus grandes homens — como o sacrifício em prol dos interesses nacionais, a generosidade incomparável, a magnanimidade e a coragem e bravura ilimitadas. Esses feitos eram amplamente mencionados em suas histórias e reuniões, tornando-os inesquecíveis para as gerações sucessivas. Seus elevados louvores eram registrados em sua poesia e versos. Foi assim que se tornaram eternas as histórias da generosidade do histórico Hatim al-Ta’i e da bravura de Unshaja.]

Com a chegada do Islã, esse método foi fortalecido. A melhor criatura de Allah e o último Profeta foram apresentados simplesmente como seres humanos. E foi feito com que ele declarasse com a própria boca:(Árabe****************)

Sou apenas um ser humano como vós. Contudo, recebo revelação.

Como resultado, o valor e o critério para avaliar uma pessoa passaram a ser suas ações, e não seu corpo. O Mensageiro foi estabelecido como um modelo pessoal a ser seguido por todos, para que toda a humanidade pudesse segui-lo sem hesitação. Ao mesmo tempo, evitou-se estabelecer a santidade e a superioridade de uma pessoa, elevando-a a tal ponto que isso chegasse ao nível da adoração. Isso porque, dessa forma, indiretamente se rebaixa o ser humano, considerando-o inferior, insignificante e desprezível.

Foi por essa razão que, quando o Nobre Mensageiro (que a paz esteja com ele) faleceu, o primeiro califa proclamou em voz clara:(Árabe****************)

Quem adorava Muhammad (que a paz esteja com ele) deve saber que Muhammad (que a paz esteja com ele) morreu; e quem adorava Allah deve saber que Allah é eternamente vivo e jamais morrerá.

Em seguida, recitou:(Árabe****************)

Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) não é senão um Mensageiro. Antes dele, muitos Mensageiros já passaram. Se ele morrer ou for morto, então acaso dareis meia-volta?

O Islã torna as pessoas eternamente lembradas por meio de suas boas ações em benefício da humanidade e as perpetua na memória do povo muçulmano. Todos eles, grandes e pequenos, permanecem igualmente lembrados através da memória de suas boas ações. Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) tornou-se inesquecível na mente e no coração das pessoas por sua firme política de Estado baseada na justiça e por sua habilidade na administração do Estado; Abu Bakr, por sua determinação e visão precisa e perspicaz; e Ali, por sua piedade e bravura. Não foi necessário depender de estátuas de pedra para torná-los eternamente lembrados. Foram seus feitos que os tornaram inesquecíveis, assim como seu caráter puro e incomparável.

Na realidade, adotar a prática de tornar os grandes homens eternamente lembrados por meio da construção de estátuas significaria voltar para trás; não seria progresso, mas retrocesso, e representaria uma queda de uma posição elevada para uma inferior. Foram os romanos e os gregos os primeiros a adotar essa prática. Mais tarde, os europeus seguiram-na. Isso porque, por sua natureza, todos eles são idólatras. Não deram o devido valor aos feitos extraordinários dos indivíduos; ao contrário, por isso lhes concederam a condição de deuses. Fizeram deuses dos heróis nacionais.

Não há mal nos brinquedos das crianças

Há também estátuas e representações que não têm por objetivo demonstrar devoção e veneração ilimitadas por alguém, nem ostentar luxo excessivo ou riqueza. Além disso, não há nelas espaço para o perigo mencionado na discussão anterior. Em relação a esse tipo de estátua e representação, o Islã não demonstrou uma mentalidade estreita nem intolerância. Nenhuma culpa foi atribuída a elas.

Incluem-se nesta categoria as estátuas e representações feitas como brinquedos para meninos e meninas pequenos, como bonecas e figuras de animais, tais como gatos, cães e pássaros. Não se cogita demonstrar qualquer devoção ou veneração por elas, nem nutrir tais sentimentos no coração. As crianças, meninos e meninas, apenas brincam com elas; não as adoram. A Mãe dos Crentes, Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela), disse:(Árabe****************)

Eu costumava brincar com bonecas na presença do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Minhas amigas vinham até mim e, por medo do Mensageiro, escondiam-se; contudo, o Mensageiro ficava contente quando elas vinham até mim e brincavam comigo. (Bukhari, Muslim)

Em outra narração, relata-se que certa vez o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) lhe perguntou: “O que são estas coisas?”. Ela respondeu: “São minhas bonecas”. Ele perguntou: “E o que é aquilo entre elas?”. Ela respondeu: “É um cavalo”. Ele perguntou: “E o que há sobre esse cavalo?”. Ela respondeu: “Duas asas”. Ele perguntou: “Por acaso um cavalo tem asas?”

Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: “Você não ouviu dizer que Hazrat Suleiman, filho de Dawud, tinha cavalos alados?” Ao ouvir isso, o nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) riu. Ao rir, seus dentes abençoados ficaram à mostra. (Abu Dawud)

As bonecas mencionadas no hadith são aquelas com que meninos e meninas brincam. Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) era ainda uma menina muito jovem na época de seu casamento.

O Imam Shawkani escreveu:(Árabe****************)

O hadith que contém o diálogo acima prova que é permitido às crianças brincar com esse tipo de representação.

Contudo, foi narrado a respeito do Imam Malik (que Allah tenha misericórdia dele) que ele considerava makruh comprar para as crianças bonecas e brinquedos desse tipo. Já Qadi Iyad disse que é permitido às meninas pequenas brincar com bonecas.

Entre esses brinquedos incluem-se também as bonecas feitas de doces e vendidas em feiras e mercados. As crianças brincam com elas por algum tempo e depois acabam comendo-as.

Representações incompletas e deformadas

Foi citado no hadith que Hazrat Jibril (que a paz esteja sobre ele) certa vez se absteve de entrar na casa do nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), porque havia uma representação junto à porta de sua casa. Mesmo tendo vindo no dia seguinte, não entrou. Então disse ao nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele):(Árabe****************)

Decapitem a cabeça da imagem. Assim, ela assumirá a forma de uma árvore. (E, nesse caso, não haverá qualquer impedimento à sua entrada.) (Abu Dawud, An-Nasa’i, At-Tirmidhi)

Com base neste hadith, alguns especialistas disseram que somente a imagem ou representação completa e íntegra é haram. Porém, é permitida a imagem ou representação à qual falte um órgão sem o qual um corpo vivo não poderia permanecer vivo.

Na realidade, o anjo Jibril (que a paz esteja com ele) ordenou que se decapitasse a imagem para que ela assumisse a forma de uma árvore. Isso mostra que a questão não se limita à ausência de um órgão sem o qual um corpo vivo não pode permanecer vivo. O ponto principal é deformá-la, de modo que não conserve uma forma capaz de despertar no coração sentimentos de veneração e reverência ao ser contemplada.

Se refletirmos um pouco e chegarmos a uma conclusão com base na justiça, poderemos afirmar, sem qualquer dúvida, que as representações completas colocadas para decorar as casas devem ser muito mais haram do que as representações de meio corpo de reis, monarcas, chefes de Estado, soldados, poetas e escritores, instaladas em campos, praças e cruzamentos como monumentos comemorativos.

Imagens de coisas inanimadas

Acabamos de discutir brevemente a perspectiva do Islam sobre as representações. A questão agora é: qual é a perspectiva do Islam acerca das imagens artísticas desenhadas em papel, tecido, cortinas, paredes, pisos, palcos, moedas e outros objetos?

Em resposta, gostaria de dizer que, antes de anunciar a decisão da Sharia sobre uma imagem, é necessário esclarecer do que ela representa, onde será colocada, como será utilizada e com que finalidade o artista a criou.

Se essas imagens artísticas representarem divindades além de Allah, como a imagem de Jesus (que a paz esteja com ele), a quem os cristãos transformaram em sua divindade, ou a imagem de uma vaca ou de um boi, que são divindades dos hindus — uma vez que o criador as fez precisamente com esse propósito e eles são incrédulos —, o objetivo deles é divulgar a incredulidade e o extravio por meio das imagens. Foi a respeito dos que desenham tais imagens que o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) proferiu severas advertências. Nesta passagem, suas palavras são:(Árabe****************)

Os que produzem imagens serão lançados no mais severo castigo no Dia da Ressurreição. (Muslim)

Tabari escreveu:

Aqui se fala do produtor de imagens cujas imagens são adoradas. Produzir conscientemente imagens desse tipo é um ato de kufr. Porém, aquele que tira ou produz uma imagem com outra finalidade, e não com essa, será apenas pecador.

Isto se refere àquele que considera a imagem sagrada e a pendura na parede. Nenhum muçulmano pode fazer isso. Mas, se alguém abandonar o próprio Islã, seu caso é diferente.

O mesmo se aplica à produção de imagens de coisas que, embora não sejam adoradas, tenham como objetivo principal imitar a criação de Allah; em outras palavras, ao produzir imagens, essa pessoa parece reivindicar que também possui, assim como Allah, o poder de criar e inovar.

Tal pessoa é expulsa da religião do Islã por causa de sua intenção e resolução. É a respeito dos produtores de imagens desse tipo que se diz no hadith:(Árabe****************)

Serão lançados no mais severo castigo aqueles que imitam Allah na criação. (Muslim)

A questão está relacionada à intenção do produtor da imagem. O hadith citado a seguir também sustenta isso. Nele são citadas as palavras de Allah:(Árabe****************)

Ninguém pode ser mais injusto do que aquele que começa a criar algo semelhante à Minha criação. Que essas pessoas tentem criar sequer um grão ou uma partícula.

As palavras deste hadith indicam que se alude à intenção de imitar e de igualar-se à prerrogativa da divindade — a criação e a inovação. Allah, o Altíssimo, lançou um desafio quanto a isso. Disse: se realmente desejais imitar, por que não criais então um ser vivo, um grão ou uma partícula? Disso também se sabe que tal pessoa agiu precisamente com esse objetivo. Por isso, no Dia da Ressurreição, Allah lhes imporá este castigo: ordenará que insuflem vida nos corpos que eles próprios criaram, diante de todos. Mas jamais serão capazes de fazê-lo.

É haram fabricar e conservar imagens ou estátuas consideradas extremamente sagradas do ponto de vista religioso ou dignas de veneração do ponto de vista mundano. As imagens e estátuas do primeiro tipo podem representar profetas e mensageiros, anjos e pessoas virtuosas, como o Profeta Ibrahim, o Profeta Ishaq, o Profeta Musa, Maryam e Jibril. Na sociedade cristã, é amplamente costume conservar imagens e estátuas desse tipo. Muitos muçulmanos inovadores também os imitam. Eles fabricam imagens ou estátuas, entre outras, de Ali e Fatimah (que Allah esteja satisfeito com ambos).

Já as imagens ou estátuas do segundo tipo são as de reis, monarcas, governantes, ditadores e artistas e literatos. Fabricá-las é um pecado um pouco menor do que fabricar as imagens e estátuas do primeiro tipo. Contudo, quando se fabricam imagens ou estátuas de grandes incrédulos, tiranos e pessoas devassas e perversas, esse pecado torna-se ainda mais grave. É o caso das imagens ou estátuas de governantes que não governam de acordo com as leis de Allah; das grandes imagens ou estátuas de líderes que, abandonando o modo de vida concedido por Allah, convocam as pessoas para outra direção; e das imagens e estátuas de artistas e literatos que propagam ideologias falsas e disseminam entre as pessoas a falta de pudor, a nudez e a depravação moral.

Na época contemporânea ao Mensageiro, as imagens ou estátuas eram feitas principalmente para expressar santidade e veneração. A maioria delas era obra dos romanos e persas, isto é, dos cristãos e dos adoradores do fogo. Por isso, nelas se manifestava claramente a marca da devoção e veneração religiosa, bem como da sacralização dos governantes. Hazrat Abu’d-Duha disse:(Árabe****************)

Eu estava em um aposento com Masruq. Havia nele muitas estátuas e imagens guardadas. Ao vê-las, Masruq me perguntou: “Estas são estátuas de Kisra?” Respondi: “Não, esta é uma estátua de Maryam.” É provável que Masruq tivesse pensado que aquelas estátuas haviam sido feitas pelos adoradores do fogo, pois eles costumavam fazer imagens de seus reis e monarcas em recipientes e objetos semelhantes. Mas descobriu-se que aquelas estátuas haviam sido feitas pelos cristãos. Então Masruq disse: “Ouvi Abdullah ibn Masud (que Allah esteja satisfeito com ele) dizer que o Mensageiro de Allah afirmou: ‘As pessoas que mais merecem receber o maior castigo de Allah são aquelas que fabricam imagens e estátuas.’”

Além dessas, não há mal algum em fazer e conservar imagens de paisagens naturais sem vida, como plantas e árvores, rios, navios, montanhas, a lua, o sol e as estrelas. Não há espaço para divergência quanto a isso.

Porém, quando se trata da imagem de um ser vivo, se não houver nela o risco das concepções mencionadas anteriormente — isto é, se não for uma imagem que desperte veneração, devoção, respeito ou a ideia de sacralidade, e se não houver a intenção de imitar o poder criador de Allah —, segundo o autor desta obra, não há pecado nisso; ela não é haram. Encontram-se provas disso nos dois hadiths citados a seguir:(Árabe****************)

Foi narrado por Abū Ṭalḥa, o Companheiro, que o Mensageiro Nobre (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) disse: “Os anjos não entram numa casa onde há uma imagem.” O narrador deste hadith, Busr, disse: “Mais tarde, quando Zayd adoeceu, fomos visitá-lo. Vimos que havia uma imagem numa cortina pendurada à porta de sua casa. Perguntamos a ʿUbaydullāh Khawlānī, criado de Maymūna, esposa do Mensageiro: ‘O que Zayd nos disse no primeiro dia a respeito das imagens?’ ʿUbaydullāh respondeu: ‘Quando ele declarou que as imagens eram haram, também mencionou esta exceção: se forem desenhadas em tecido, não há problema.’”

ʿUtba narrou: “Ele foi visitar Abū Ṭalḥa al-Anṣārī e encontrou Sahl ibn Ḥunāyf presente. Abū Ṭalḥa disse a um homem: ‘Retire o tapete que está embaixo.’ Ao ouvir isso, Sahl perguntou: ‘Por que você o está retirando?’ Ele respondeu: ‘Porque há uma imagem nele. E você sabe o que o Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) disse a respeito das imagens.’ Sahl disse: ‘Ele também disse que, se estiver desenhada em tecido, não há problema.’ Abū Ṭalḥa falou: ‘Você tem razão, mas penso que é melhor retirá-lo.’”

Não se comprova, a partir desses dois hadiths, que por imagem haram se entende uma estátua? Contudo, não está comprovado por nenhum hadith autêntico, claro e definitivo que sejam haram as imagens desenhadas em tábuas de madeira, pranchas, papelão ou papel grosso, tecidos, tapetes ou paredes.

Entretanto, está comprovado por hadiths autênticos que o Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) demonstrou aversão a esse tipo de imagem, pois nelas se observa plena semelhança e identificação com o luxo, a ostentação dos ricos e a adoração dos interesses materiais.

Foi narrado por Abū Ṭalḥa (que Deus esteja satisfeito com ele): “Ouvi o Mensageiro Nobre (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) dizer: ”(Árabe****************)

“Os anjos não entram numa casa onde há um cão ou uma estátua.”

Ele disse: “Depois perguntei a ʿĀʾisha (que Deus esteja satisfeito com ela). Esse homem disse que o Mensageiro Nobre (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) teria dito que os anjos não entram numa casa onde haja um cão ou uma estátua. Você ouviu o Mensageiro Nobre dizer isso?” Ela respondeu: “Não. Porém, vou narrar o que eu mesma o vi fazer. O Mensageiro Nobre saiu para uma batalha. Então cobri a porta com uma cortina. Quando ele voltou e viu aquela cortina pendurada na porta, uma expressão de desconforto e desagrado apareceu claramente em seu rosto. Em seguida, puxou a cortina, rasgou-a e disse: ‘Deus não nos ordenou que adornássemos pedras e terra com tecidos.’” ʿĀʾisha (que Deus esteja satisfeito com ela) disse: “Fiz duas almofadas com aquele tecido e enchi-as com fibras de palmeira. No fim, ele não fez nenhuma objeção a isso.”

O máximo que este hadith comprova é que adornar paredes e coisas semelhantes com tecidos que contêm imagens é apenas makruh tanzihi. O imã al-Nawawī escreveu: (Árabe****************)

Não há no hadith nenhuma afirmação que prove que algo é haram. Pois a expressão do hadith, “Allah não nos ordenou isso”, não prova que seja wajib nem mustahabb. Tampouco prova que seja haram.

Isso também se depreende de outro hadith narrado por Hazrat Aisha (ra). O hadith é o seguinte:(Árabe****************)

Eu tinha uma cortina sobre a qual estava desenhada a figura de um pássaro. Quando alguém entrava em casa, seu olhar caía sobre ela. Ao ver isso, o Profeta (sa) disse-me: “Retira-a daí. Pois, quando entro em casa, meu olhar recai sobre ela, e o mundo se apresenta diante dos meus olhos.”

O Profeta (sa) não mandou rasgar a cortina; mandou apenas retirá-la. Por isso, o Profeta (sa) afastava da vista as coisas que lembram o materialismo, o esplendor material e as cenas de conforto e bem-estar, e costumava realizar geralmente as orações sunnah e nafl em sua própria casa. Lençóis e cortinas que contêm imagens e figuras do tipo mencionado continuam atraindo incessantemente as pessoas para si. Sob sua influência, a submissão sincera a Allah e a dedicação exclusiva à oração e à súplica ficam consideravelmente prejudicadas. O coração torna-se negligente. Hazrat Anas (ra) disse:

Hazrat Aisha (ra) tinha uma cortina que mantinha pendurada de um lado da casa. O Profeta (sa) disse-lhe: “Retira-a daí. Pois as imagens desenhadas sobre ela ficam diante de mim durante a oração.”

Isso deixa claro que o Profeta (sa) tolerava a existência da cortina que continha a figura de um pássaro e outras imagens. Ele não ordenou que as duas cortinas fossem rasgadas.

Com base nesses hadiths e em outros semelhantes, a opinião dos antigos era que somente as imagens ou figuras que projetam sombra — em outras palavras, aquelas que possuem uma forma corpórea — são haram. Quanto às que não projetam sombra, não há nelas nenhum problema.

O Imam Nawawi escreveu, ao comentar o Sahih Muslim, refutando essa opinião, que tal opinião é inválida e inaceitável. Mas Hafiz Ibn Hajar al-Asqalani criticou o Imam Nawawi, dizendo que essa opinião foi declarada por Qasim ibn Muhammad, um eminente jurista de Medina daquela época, e foi transmitida com uma cadeia de transmissão autêntica.

O xeique Bakhit citou a declaração do imame al-Khattabi. Ei-la:

Quanto àquele que faz representações de seres vivos e ao artista que desenha árvores e coisas semelhantes, creio que a severa advertência acima não se dirige a eles. Embora todos os trabalhos desse tipo sejam reprováveis e façam com que a atenção das pessoas se volte para atividades desnecessárias.

Citando essa declaração de al-Khattabi, o xeique Bakhit escreveu:

A razão é que aquele que representa a forma de um ser vivo, na realidade, não cria a forma do ser vivo; apenas prepara o contorno de sua aparência. Nas imagens feitas dessa maneira, muitos membros e características permanecem ocultos, embora sem eles nenhum ser vivo pudesse permanecer vivo. Na verdade, o próprio corpo está ausente. Portanto, não se trata da imagem de um ser vivo cujo autor poderia ser considerado merecedor, no Dia da Ressurreição, do castigo de lhe insuflar a alma, embora não seja capaz de fazê-lo. A severa advertência diz respeito à produção de uma representação dotada de corpo e que projeta sombra, na qual nenhum órgão essencial — sem o qual o ser não poderia permanecer vivo — esteja ausente. É somente com uma representação desse tipo que poderia surgir a questão de insuflar-lhe a alma. Contudo, o pintor é incapaz de fazê-lo. Isso não significa que a representação não tenha capacidade de receber vida; significa, antes, a incapacidade do autor da imagem. Assim, a responsabilidade por essa incapacidade recai sobre ele.

Também se encontra apoio, no hadith citado a seguir, para a permissibilidade de fazer imagens sem corpo. Allah, o Altíssimo, disse:

(Árabe******************)

E quem é mais injusto do que aquele que cria como a Minha criação? Que criem, então, uma partícula; que criem, então, um grão de trigo.

Na realidade, a criação de Allah — como a vemos — não consiste apenas em linhas sobre uma superfície plana; trata-se, antes, de uma criação corpórea dotada de comprimento e largura. Como o próprio Allah disse:

(Árabe*****************)

É Ele, Allah, quem vos dá, no ventre materno, a forma e a aparência que deseja.

Contra esta opinião, pode-se apresentar como prova o hadith narrado por Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela). O hadith é o seguinte:

(Árabe****************)

Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) comprou uma almofada que tinha uma imagem. Ao vê-la do lado de fora, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) não entrou na casa, permanecendo à porta. Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) percebeu sinais de desconforto e desagrado no nobre rosto do Mensageiro de Allah e disse: “Ó Mensageiro de Allah! Volto-me para Allah e para o Seu Mensageiro; que falta cometi?” Ele perguntou: “De onde veio esta almofada?” Hazrat Aisha respondeu: “Aqueles que fazem imagens desse tipo serão punidos no Dia da Ressurreição e lhes será dito: ‘Dai agora vida às vossas criações.’” Depois, ele disse: “Os anjos não entram na casa onde há imagens.”

Na narração citada no Sahih Muslim, há ainda estas palavras:

(Árabe****************)

Depois, cortei-a e fiz duas pequenas almofadas. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) passou a usá-las em casa para se apoiar. O sentido das palavras de Hazrat Aisha é que ela transformou a almofada que tinha a imagem em duas almofadas pequenas.

Contudo, os seguintes aspectos contradizem este hadith:

1. Este hadith foi transmitido por diversas cadeias de transmissão. Há contradições entre essas narrações. Em algumas delas, afirma-se que a almofada com imagens foi cortada ao meio, transformando-se em duas almofadas pequenas, que ele usava. Porém, outra narração afirma que ele não a usou.

2. Algumas narrações dão a entender que seu uso era apenas makruh. E isso se refere especificamente à decoração das paredes com tecidos que contêm imagens. Trata-se de uma forma de luxo e ostentação dos ricos. O Mensageiro não apreciava de modo algum esse comportamento. Ele disse:

(Árabe*************)

Allah não nos ordenou de modo algum que vestíssemos as pedras e a terra.

3. No hadith citado no Sahih Muslim, transmitido pela própria Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) acerca de uma cortina com imagens, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Retira-a, pois, quando meu olhar recai sobre ela, o mundo vem à minha lembrança.” Isso não prova de forma definitiva que seja haram.

4. Há outro hadith contrário àquele, segundo o qual o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) ordenou que fosse retirada a cortina que estava na casa de Hazrat Aisha. Isso porque a imagem nela pintada ficava diretamente diante de seus olhos durante a oração. Hafiz Ibn Hajar afirma: é difícil conciliar este hadith com o hadith relativo à almofada de Hazrat Aisha. Pois este hadith mostra que o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) ordenou que a cortina fosse retirada porque, durante a oração, a imagem ficava exatamente diante de seus olhos. Caso contrário, ele não teria dado essa ordem apenas por causa da imagem.

Então, para conciliar os dois hadiths, ele disse: as imagens mencionadas no primeiro hadith eram imagens de seres animados. Já a imagem mencionada neste hadith não era de um ser animado.

Porém, essa tentativa de conciliação não é correta. Isso porque o hadith sobre a cortina menciona a imagem de um pássaro.

5. O hadith narrado por Abu Talha também é contrário ao hadith acima mencionado. Nele, não se declarou ilícita a imagem desenhada sobre um tecido.

O erudito al-Qurtubi escreveu:

Uma forma de conciliar os dois hadiths é dizer que o hadith narrado por Hazrat Aisha apenas declara que isso é makruh, enquanto do hadith narrado por Abu Talha se prova apenas que é permitido. E isso não contradiz o fato de ser makruh.

Segundo Hafiz Ibn Hajar, essa conciliação é a melhor.

6. O narrador do hadith sobre a almofada de Hazrat Aisha era seu sobrinho, Qasim ibn Muhammad ibn Abu Bakr. Segundo ele, era permitido aquilo cuja imagem não projetasse sombra. Ibn Awn disse: “Fui até Qasim. Ele estava em sua casa, na parte alta de Meca. Vi em sua casa um aposento bem decorado. Sobre ele estavam desenhadas imagens de um tipo de animal aquático chamado ‘kundus’ e de um tipo de pássaro chamado ‘umqa’.”

Hafiz Ibn Hajar disse:

Possivelmente, ele entendeu como permitida em sentido geral, a partir do hadith em que (Árabe*********) porém, se desenhada sobre um tecido, ‘não é ilícita’, é o que se diz. E, provavelmente, segundo ele, a explicação do hadith sobre a cortina da casa de Hazrat Aisha era que o tecido de sua cortina também era ornamentado e era usado para cobrir a parede. Foi a esse respeito que o Mensageiro disse: “Não recebemos a ordem de vestir a terra e as pedras.” Qasim ibn Muhammad era um dos sete célebres juristas de Medina de sua época. Foi ele quem narrou o hadith sobre a almofada de encosto. Se não considerasse permitida a presença de imagens em aposentos do tipo “aposento bem decorado”, certamente não as teria usado ali. (Fath al-Bari)

No entanto, dos hadiths mencionados acerca das imagens e de quem as desenha pode-se provavelmente compreender que, no início, o Mensageiro de Deus (que a paz esteja com ele) adotou uma atitude muito severa em relação às imagens, quando ainda não havia passado muito tempo desde a época do shirk, da idolatria e da veneração das imagens. Mais tarde, quando a crença no tawhid se consolidou firmemente nos corações e nas mentes das pessoas, ele permitiu manter imagens sem vida, que na realidade consistem apenas em desenhos e linhas. Se não fosse assim, ele jamais teria tolerado a existência, em sua própria casa, de uma cortina com imagens, nem teria considerado permitidas as imagens desenhadas em tecidos como ornamento. A partir disso, pode-se formar uma opinião sobre as imagens desenhadas em papel e nas paredes.

Tahawi, um dos grandes pensadores e imames da escola hanafita, escreveu: “O Legislador da shariah declarou inicialmente proibidos todos os tipos de imagens e representações. Isso incluía até mesmo as figuras desenhadas em papel ou tecido, pois não havia passado muito tempo desde a época da adoração de estátuas e imagens. Por isso, naquele período, todos os tipos de imagens e figuras foram proibidos. Depois que essa proibição entrou em vigor, ele declarou que os desenhos e padrões feitos em tecido estavam fora do âmbito da proibição, tendo em vista as necessidades comuns. Também foram permitidas as imagens às quais não se demonstra grande respeito ou consideração. Não há receio de que se demonstre respeito ou consideração por imagens que são tratadas com desrespeito. Contudo, aquelas imagens que normalmente não são desrespeitadas continuam sujeitas à proibição anterior.” (Al-Jawab al-Shafi)

É o tratamento desrespeitoso da imagem que a torna permitida

Se uma imagem for modificada de tal modo que deixe de ser digna de respeito e passe a ser desrespeitada, ela entra no âmbito do permitido. É narrado num hadith que, quando o anjo Jibril (Gabriel) pediu permissão para entrar na casa, o Profeta (que a paz esteja com ele) disse:

(Árabe***************)

“Entremos.” Jibril disse: “Como entrarei, se há uma cortina com imagens pendurada em sua casa? Se for necessário mantê-la, corte as cabeças das imagens ou rasgue o tecido da cortina e transforme-o em almofadas ou num colchão.”

Por essa razão, quando Aisha (que Deus esteja satisfeito com ela) percebeu sinais de desconforto no rosto do Profeta (que a paz esteja com ele) por causa da almofada em que ele se apoiava, rasgou-a e fez duas pequenas almofadas. Assim, demonstrou-se indiferença em relação à imagem, não havendo receio de que lhe fosse demonstrado qualquer tipo de respeito.

Foi narrado a respeito das pessoas dos tempos antigos que elas não consideravam errado utilizar imagens sem dignidade ou honra. É narrado de Urwah que ele se apoiava em almofadas com imagens de aves e de pessoas. Ikrimah disse que os sábios não apreciavam colocar as imagens de pé ou elevá-las. Quanto às imagens que normalmente são pisoteadas, ele não considerava haver problema nelas. As imagens desenhadas em almofadas e colchões são naturalmente pisoteadas; por isso, são permitidas.

Fotografias

É evidente que todos os hadiths citados acerca da confecção de imagens e dos que as confeccionam dizem respeito a imagens esculpidas ou desenhadas à mão. Mas a questão das fotografias obtidas por meio da câmera, com o auxílio da reflexão da luz, é inteiramente nova. A fotografia não existia na época do Mensageiro de Deus. Surge então a pergunta: as normas e disposições jurídicas citadas acerca das imagens e dos que as confeccionam aplicam-se também à fotografia?

Esses sábios consideram ilícita apenas a confecção de imagens de seres dotados de corpo; segundo eles, não há problema nas fotografias, especialmente quando estão incompletas.

Segundo a opinião dos demais sábios, a questão, nesse ponto, é saber se essas imagens produzidas por reflexão são equivalentes à imagem que o artista pinta pessoalmente com o seu pincel. Ou, como se afirma em alguns hadiths como a ‘illah’ (razão): o confeccionador de imagens imita a obra criadora de Allah; isso também está presente na fotografia? E, segundo a perspectiva da teoria jurídica islâmica, quando a ‘illah’ (razão) não existe, também deixa de subsistir o juízo jurídico estabelecido com base nela. (Isto é, quando não há, em essência, imitação, ela não pode ser considerada haram.)

Neste ponto, a fatwa emitida pelo falecido mufti do Egito, Shaykh Muhammad Bakhit, é muito clara. Ele escreveu: a imagem obtida por meio da fotografia — possível graças à retenção da reflexão da luz de uma maneira especial — não pertence à categoria das imagens que foram proibidas. Pois o tipo de imagem cuja confecção foi proibida é aquele que consiste em inventar e produzir uma imagem que antes não existia nem havia sido feita, criando, por meio disso, uma semelhança com algum ser vivo criado por Allah. A fotografia obtida com o auxílio da câmera, porém, não se enquadra nessa categoria.

(Árabe*****************)

Em suma, este é o ponto essencial sobre a fotografia e a norma a seu respeito segundo a Sharia. Contudo, muitos sábios adotam uma postura muito rigorosa em relação às imagens — qualquer que seja o seu tipo — e consideram-nas makruh (alguns consideram-nas claramente haram). Consideram a fotografia ilícita. Apesar disso, os próprios sábios permitem tirar fotografias por necessidade e em benefício nacional ou civilizacional, como para carteiras de identidade, passaportes e semelhantes. Especialmente fotografias de pessoas suspeitas e imagens utilizadas para explicação, análise ou esclarecimento. Com esse tipo de imagem, não se pretende demonstrar respeito ou veneração por ninguém, nem há receio de que ela cause corrupção da aqidah. O Mensageiro de Deus não considerou haram a imagem desenhada em tecido. Portanto, imagens desse tipo, que são ainda mais necessárias do que aquelas, certamente estarão fora do âmbito do haram.

A finalidade das imagens

Não há como negar que o propósito para o qual uma imagem é feita tem grande importância na questão de saber se ela é proibida ou não, e que isso pode ser determinado com base nesse propósito. Nenhum muçulmano pode discordar de que são proibidas as imagens cujo objetivo é contrário às crenças do Islã, à sua Sharia, à sua cultura e aos seus costumes. Portanto, é totalmente proibido produzir imagens nuas ou seminuas do corpo feminino, bem como imagens ou desenhos das partes do corpo que exprimem os atributos femininos e cuja visão pode aumentar a excitação sexual. Não pode haver dúvida de que são proibidas e extremamente nocivas as imagens ou esboços publicados em jornais e revistas com o objetivo de despertar o desejo sexual e aumentar sua excitação entre as pessoas, aquecendo a mentalidade baixa como um fogo ardente. A ampla divulgação, impressão e conservação desse tipo de imagem ou desenho; pendurá-los em casas, escritórios e locais públicos; realizar exposições deles; afixá-los nas paredes; e observá-los com desejo e interesse — tudo isso é considerado parte desse grau de proibição.

O mesmo se aplica às imagens de pessoas incrédulas, pecadoras e injustas. Não é digno nem apropriado que qualquer muçulmano produza ou conserve retratos de pessoas desse tipo. Também são totalmente proibidas as imagens de líderes ateus que negam a própria existência de Allah e rejeitam a Sharia de Allah; de idólatras que praticam o shirk associando parceiros a Allah; de judeus e cristãos que negam a profecia de Muhammad (que a paz esteja sobre ele); e daqueles que, embora afirmem ser muçulmanos, governam o Estado, formulam políticas e julgam deixando de lado as normas reveladas por Allah — assim como as imagens de pessoas que espalham a indecência e a corrupção na sociedade, como atores e atrizes, cantores e cantoras, dançarinos e dançarinas, entre outros.

As imagens de símbolos das religiões contrárias ao Islã — como ídolos, retratos e cruzes — daqueles que promovem a idolatria não são de modo algum permitidas. Na época do nobre Mensageiro (que a paz esteja sobre ele), provavelmente a maioria dos lençóis, cortinas e tecidos de almofadas trazia imagens desse tipo. Por isso, foi dito no hadith:

(Árabe*************)

O nobre Profeta (que a paz esteja sobre ele) não mantinha em sua casa nenhum objeto que tivesse sobre si a imagem de uma cruz ou algo semelhante. Quando havia algum objeto assim, ele o rasgava e o despedaçava.

Foi narrado por Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele):

(Árabe***************)

No ano da conquista de Meca, quando o nobre Profeta (que a paz esteja sobre ele) viu imagens dentro do Haram, não entrou. Depois que elas foram apagadas, ele entrou ali.

As imagens que ali havia tornavam evidente apenas a idolatria dos politeístas de Meca e sua antiga perdição.

Narrado por Ali (que Allah esteja satisfeito com ele): certa vez, o Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) participou de um funeral. Então disse:

(Árabe***********)

Quem entre vocês irá a Medina, nivelará cada sepultura e não deixará nenhuma imagem, deformando cada uma delas?

Um homem levantou-se e disse: “Ó Mensageiro, estou pronto para realizar essa tarefa.” Ao ouvirem isso, os habitantes de Medina ficaram assustados e aterrorizados. Depois, aquele homem voltou e apresentou-se, dizendo:

(Árabe****************)

Ó Mensageiro! Não deixei sequer um ídolo; reduzi todos a pedaços. Não deixei nenhuma sepultura de lado; nivelei todas elas, e deformeI cada imagem, sem poupar nenhuma.

Ao ouvir isso, o Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) proclamou:

(Árabe*********)

Assim, todo aquele que praticar qualquer uma dessas ações será desobediente à orientação revelada a Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). (Musnad Ahmad)

Neste hadith, as imagens que o Profeta (que a paz esteja sobre ele) ordenou que fossem desfiguradas e eliminadas não eram senão símbolos e sinais da incredulidade e do shirk da época da jahiliyyah. Foi por isso que o Profeta (que a paz esteja sobre ele) quis libertar e purificar Medina dessas coisas. E foi justamente por isso que declarou que a prática novamente de qualquer uma dessas ações equivaleria à incredulidade e à desobediência à lei revelada por Allah.

Síntese das normas relativas às imagens e aos seus produtores

A síntese das normas da Sharia islâmica relativas às imagens e aos seus produtores, discutidas em detalhe, é a seguinte:

a. As imagens e retratos daqueles que foram tomados como divindades adoradas além de Allah são o haram mais grave, e o seu pecado é o maior de todos. A imagem do Messias, o deus dos cristãos (e de sua mãe, Maria), é um grande exemplo disso. Produzir esse tipo de imagem é kufr manifesto. Se alguém produzir deliberada e conscientemente uma imagem desse tipo, deve-se entender que se tornou um kafir. Produzir imagens desse tipo é um dos pecados mais graves e algo extremamente vil e abominável. E qualquer pessoa que difundir esse tipo de imagem ou, de alguma forma, demonstrar respeito por elas participará do pecado na proporção de sua contribuição.

b. Um pecado menor é produzir retratos de personalidades que, embora não sejam adoradas, recebem demonstrações de respeito. Por exemplo, reis e monarcas de algum país, líderes supremos, administradores, ditadores e outros semelhantes: seus retratos são produzidos como monumentos comemorativos e instalados em espaços públicos. Não há diferença quanto ao pecado pelo fato de o retrato estar incompleto ou completo.

d. Um pecado ainda menor é produzir retratos de pessoas que não são objeto de veneração nem de demonstrações de santidade. Ainda assim, isso também é haram, não havendo divergência quanto a isso. Porém, não se incluem nessa categoria aqueles que são tratados com desprezo e desdém. Por exemplo, retratos feitos para crianças com brinquedos e doces, que depois são comidos.

ঙ. Em seguida, vem a questão das imagens de pessoas falecidas, isto é, imagens artísticas de personalidades às quais se presta respeito, como administradores, líderes populares, fundadores de Estados e semelhantes. Isso é especialmente grave quando tais imagens são colocadas ou penduradas em algum lugar. A gravidade do haram torna-se ainda maior e mais intensa quando se trata de imagens de pessoas injustas, ímpias, libertinas, ateias e semelhantes. Com efeito, demonstrar veneração, respeito e honra a tais pessoas constitui um crime equivalente à eliminação do Islã.

চ. Em termos de pecado, num grau inferior estão as imagens de seres dotados de membros, proporções corporais e corpo completo, mesmo que não se demonstre qualquer respeito por essas criaturas. Ainda assim, elas expressam luxo. Cobrir portas e paredes com tecidos que contenham esse tipo de imagem não é senão makruh.

ছ. Não há pecado em produzir ou conservar imagens de seres inanimados — como palmeiras, rios, navios, montanhas, a lua, o sol e outras paisagens naturais e pitorescas — desde que isso não torne as pessoas negligentes em relação à adoração e ao culto de Allah, nem seja simplesmente um símbolo de luxo. Caso contrário, esse tipo de imagem é makruh.

জ. Depois vêm as imagens produzidas por reflexão, isto é, as fotografias. Em princípio, são mubah, desde que não tenham como objetivo alguma prática haram, como quando a fotografia de uma pessoa se destina a demonstrar sua santidade religiosa ou sua honra mundana. Sobretudo se essa pessoa for um kafir — um idólatra, um comunista ou algum artista desviado —, isso não é permitido.

ঝ. Por fim, se uma representação ou imagem haram for deformada, ou for transformada em algo desprezado e humilhante, ela deixa de fazer parte da categoria do haram e passa a ser considerada halal. É o caso, por exemplo, de imagens desenhadas em colchas ou no chão, que são pisoteadas com os pés ou com os sapatos, e semelhantes.

Criar cães sem necessidade

O Profeta (que a paz esteja com ele) proibiu criar cães em casa sem necessidade.

Não faltam no mundo pessoas de gosto tão baixo que gastam dinheiro às mãos-cheias para criar e cuidar de cães, mas demonstram avareza e relutância até mesmo em gastar um único centavo com os filhos dos seres humanos. Algumas, além de gastar dinheiro para preservar o orgulho e os sentimentos dos cães, ainda associam a eles suas emoções. Isso acontece quando não sentem afeição pelos próprios parentes e familiares e estão prestes a esquecer seus vizinhos e irmãos — embora não suportem nem um pingo de negligência para com os cães.

Teme-se que, se um cão entrar na casa de um muçulmano, possa lamber e contaminar a comida, os recipientes e coisas semelhantes. O Profeta, que a paz esteja com ele, disse:(Árabe**********************)

Se um cão puser o focinho no recipiente de alguém, este deverá ser lavado sete vezes; uma delas deve ser necessariamente esfregada com terra.

Alguns especialistas disseram que é proibido criar cães em casa porque, ao ver convidados e visitantes, eles começam a latir; assustam os mendigos e não deixam de morder os transeuntes.

O Profeta, que a paz esteja com ele, disse:(Árabe**********************)

Hazrat Jibril, que a paz esteja com ele, veio até mim e disse: Eu tinha vindo visitá-lo na noite passada, mas não entrei porque havia uma imagem na porta, uma cortina com imagens dentro da casa e, além disso, havia também um cão. Ordene agora que se corte a cabeça da imagem que está na casa; assim, ela assumirá a forma de uma árvore. Ordene também que se corte o tecido da cortina para fazer duas almofadas, que serão continuamente pisadas dia e noite, e expulse o cão.

A instrução dada aqui diz respeito ao cão mantido sem necessidade.

Manter cães para caça e guarda

O cão criado para alguma necessidade — como o cão de caça e o cão criado para cuidar e guardar plantações, propriedades rurais ou animais domésticos — não está incluído nesta proibição. O nobre Mensageiro, que a paz esteja com ele, disse: (árabe***************)

Aquele que criar e mantiver um cão, exceto com o propósito de caçar ou de guardar campos e propriedades, a casa ou os animais, terá diariamente diminuída em um qirate a recompensa de suas boas ações.

Alguns juristas, com base neste hadith, afirmaram que a proibição de manter cães é apenas makruh, e não haram. Pois, se criar cães fosse haram, seria haram em todas as circunstâncias e sempre seria necessário evitá-lo — diminuíssem ou não as boas ações.

A proibição de criar cães dentro de casa não significa que se deva tratá-los com crueldade, nem que essa ordem tenha por objetivo exterminá-los ou matá-los. Pois o Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) disse:(Árabe********************)

Se o cão não fosse uma espécie criada por Allah, como existem tantas outras espécies, eu ordenaria que fosse morto.

O Nobre Mensageiro (que a paz esteja com ele) apoiou, com estas palavras, a importante opinião mencionada acima. E a verdade mais genuína e grandiosa é que o próprio Nobre Alcorão indica isso ao dizer:(Árabe************************)

Todos os animais que se movem pela terra e todas as aves que voam apoiadas em suas duas asas são espécies distintas, criadas como vós. (Surata Al-An’am: 38)

O Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) contou aos seus companheiros a história de um homem. Esse homem viu um cão no deserto. O cão arfava e, atormentado pela sede, lambia a terra. Ao vê-lo, o homem foi até um poço, tirou água com um balde e deu de beber ao cão até saciá-lo. Allah, o Altíssimo, aceitou essa ação e perdoou os seus pecados.

A criação de cães à luz da ciência e do conhecimento modernos

Vemos pessoas desse tipo, cegas de amor pela civilização ocidental, que se consideram dotadas de coração compassivo, elevado humanismo e bondade para com todos os seres vivos. Elas levantam objeções contra a perspectiva islâmica, perguntando como se pode recomendar que se evite um animal tão inteligente, amistoso e fiel. Para conhecimento dessas pessoas, queremos apresentar um texto escrito por um sábio alemão e publicado em uma revista da Alemanha. Nesse texto, são expostos os diversos problemas inevitáveis decorrentes da criação de cães e do contato com eles. O texto é o seguinte:

Nos últimos anos, aumentou enormemente o interesse das pessoas pela criação de cães. Por isso, parece absolutamente necessário chamar a atenção delas para os perigos que podem resultar dessa prática. Especialmente porque as pessoas não se limitam a criar cães: brincam com eles e os beijam. Além disso, deixam os cães soltos de tal maneira que eles lambem as mãos de todos, adultos e crianças. Muitas vezes, colocam diante deles alimentos excedentes em seus próprios recipientes ou pratos. Ademais, esse hábito é tão repulsivo que uma consciência saudável e o bom gosto não estão dispostos a aceitá-lo. Ele também é contrário às normas de higiene.

Do ponto de vista da ciência da saúde, não se pode de modo algum considerar insignificante ou desprezível o perigo que pode se concentrar sobre a saúde e a vida humanas em razão da criação de cães e das brincadeiras com eles. Muitas pessoas são obrigadas a pagar um preço altíssimo por sua própria ignorância. Isso acontece porque há no corpo dos cães germes capazes de causar doenças permanentes e incuráveis. É impossível contar quantas pessoas são obrigadas a perder a vida depois de contraírem essas doenças.

A forma desses germes é semelhante à de uma fita. Eles causam no corpo humano doenças semelhantes a furúnculos e erupções cutâneas. Germes desse tipo também são encontrados no corpo de animais domésticos, especialmente nos porcos; mas somente os germes presentes no corpo dos cães possuem a capacidade de se desenvolver depois de serem acolhidos e alimentados.

Também há germes no corpo dos abutres e dos chacais. No corpo dos gatos, porém, eles raramente são encontrados. Esses germes diferem, por sua natureza, dos demais germes de formato semelhante ao de uma fita. São tão minúsculos e finos que não podem ser vistos. Algumas informações a esse respeito foram descobertas nos últimos meses.

O autor do artigo escreveu posteriormente:

Esses germes penetram no fígado humano e ali se manifestam de diversas maneiras. Muitas vezes, penetram nos pulmões, nos ovários, no baço, nos rins e no interior do cérebro. Então sua forma sofre mudanças consideráveis. Chega-se a uma situação em que até mesmo os especialistas se tornam incapazes de detectá-los e reconhecê-los.

Seja como for, a lesão causada por esses germes, qualquer que seja a parte do corpo em que se encontre, é extremamente prejudicial e perigosa para a saúde. Até hoje, não se conhece nenhum tratamento para esses germes. Por isso, devemos empenhar todas as nossas forças para enfrentar doenças que não podem ser tratadas. É preciso salvar as pessoas desse perigo.

O médico alemão Nullar afirmou: de modo algum é inferior a um por cento o número de lesões causadas no corpo humano pelos germes dos cães. E, em alguns países, até doze por cento das pessoas são acometidas por essa doença. O melhor método para prevenir essa doença é manter esses germes confinados ao corpo do cão, não permitindo que se espalhem…..

Se uma pessoa deseja preservar a própria saúde e salvar a própria vida, deve evitar abraçar e beijar cães. Não se deve permitir que eles se aproximem; é preciso manter as crianças afastadas deles. Também não se deve permitir que os cães lambam as mãos das pessoas. Não se deve permitir que cães permaneçam nos lugares onde as crianças brincam, passeiam e se divertem, nem que tenham a oportunidade de espalhar sujeira nesses locais. Mas é muito lamentável que se veja um número tão grande de cães justamente nos lugares onde meninos e meninas brincam.

Os recipientes destinados à comida dos cães devem ser completamente diferentes e separados. É muito impróprio dar aos cães, para que lambam, os recipientes que as pessoas usam para sua própria comida. Não se deve permitir que eles entrem em mercados, feiras, hotéis ou cozinhas. Em suma, é preciso, adotando cautela em relação aos cães, mantê-los afastados de tudo o que se usa para comer e beber.

À luz dessa descrição ponderada de um pensador não muçulmano, é necessário refletir sobre quão realista e absolutamente científica foi a proibição feita por Hazrat Muhammad (s.a.) de manter relações estreitas com cães. Ele também ordenou que se tomassem precauções especiais para impedir que os cães pusessem a boca nos recipientes usados para comida e bebida. Além disso, proibiu criar cães sem necessidade. Refletindo à luz da descrição acima, pode-se compreender claramente o imenso benefício para toda a humanidade contido nas normas estabelecidas pelo Nobre Mensageiro (s.a.).

Na verdade, o Nobre Profeta (s.a.) era um ummi. Apesar disso, basta observar quão plenamente os ensinamentos por ele apresentados estão em harmonia com as teorias e os fatos científicos mais modernos desta época, quatorze séculos depois, para ficarmos profundamente maravilhados. Ao contemplarmos essa verdade, ressoa espontaneamente em nossas vozes a seguinte declaração do Sagrado Alcorão:(Árabe***************)

O Profeta nada diz por sua própria vontade; tudo o que diz não é senão revelação.

Ganhos e profissão

(Árabe****************)

Foi esse Allah quem tornou a terra dócil, suave e submissa para vocês. Portanto, caminhem por seus ombros e alimentem-se da provisão de Allah.

Esta é a orientação fundamental de Allah quanto à obtenção do sustento. Para isso, Allah, o Altíssimo, colocou a terra a serviço da humanidade. Portanto, é preciso aproveitar plenamente essa bênção e empenhar esforço e dedicação em cada uma de suas partes, na busca dos dons da graça de Allah.

É haram que uma pessoa capaz de trabalhar permaneça ociosa

De modo algum é possível que um muçulmano se abstenha de buscar o sustento ou se torne negligente nisso sob o pretexto de estar imerso na adoração e no serviço religioso, ou de confiar em Allah. Pois não choverá ouro e prata do céu.

Do mesmo modo, não é de maneira alguma permitido permanecer sentado, dependendo das doações e caridades das pessoas, nem deixar de se dedicar à obtenção do sustento, apesar de possuir os meios e recursos para isso, e, por esse caminho, não se esforçar para atender às necessidades próprias e de seus familiares. A esse respeito, o nobre Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) disse:

(Árabe*********************)

Não é permitido aceitar caridade a nenhuma pessoa rica, nem a uma pessoa forte e saudável.

O Nobre Profeta (que a paz esteja sobre ele) pronunciou palavras severas e rigorosas a respeito de qualquer muçulmano que estenda a mão para pedir diante de outra pessoa, fazendo desaparecer o brilho de seu rosto e prejudicando, sem motivo, a dignidade e a honra de sua humanidade. Ele disse:(Árabe*****************)

Aquele que pede esmola sem necessidade comete um ato tão terrível quanto recolher brasas com as próprias mãos. (Al-Bayhaqi, Ibn Khuzaymah)

Ele também disse:(Árabe***************************)

Aquele que pedir esmola às pessoas com o objetivo de enriquecer terá deixado o próprio rosto marcado com feridas até o Dia da Ressurreição e será obrigado a comer as pedras quentes do Inferno. Que quem quiser acumule para si uma grande quantidade dessas coisas, e que quem quiser acumule pouca. (At-Tirmidhi)

Outra de suas palavras:(Árabe******************)

Aquele que se acostumar a pedir esmola encontrará Allah sem que reste sequer um pedaço de carne em seu rosto. (Al-Bukhari, Muslim)

Para proteger os muçulmanos desse terrível destino, o Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) preservou sua honra e tomou medidas para cultivar entre eles o senso de dignidade, o afastamento das ações injustas e as virtudes de abster-se da mendicância.

Quando é permitida a mendicância

Contudo, apesar disso, o Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) levou plenamente em consideração as necessidades prementes das pessoas. Se alguém for realmente obrigado a pedir esmola e a solicitar ajuda ao governo ou a particulares, certamente não haverá pecado. O Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) declarou:

(Árabe********************)

Pedir esmolas equivale a ferir-se. Quem pede esmolas desfigura o próprio rosto. Portanto, quem quiser que conserve seu rosto nessa condição, e quem quiser que abandone essa prática. Contudo, se alguém pedir a uma pessoa investida de autoridade ou precisar pedir para atender a uma necessidade absolutamente indispensável, essa situação é diferente. (Abu Dawud, Nasai)

Abu Bashar Qabisa ibn al-Mukhariq (que Allah esteja satisfeito com ele) disse:

(Árabe*************************)

Eu assumi a responsabilidade de garantir uma obrigação. Por isso, fui à presença do nobre Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e pedi esmolas. Ele disse: “Aguarde até que chegue o dinheiro da caridade; então lhe darei dele.” Depois disse: “Ó Qabisa, não é permitido pedir esmolas a ninguém, exceto a três pessoas. A primeira é aquela que assumiu a responsabilidade de garantir uma obrigação para alguém. É permitido que peça esmolas até receber a quantia necessária; depois disso, deve parar. A segunda é aquela cuja riqueza foi destruída por alguma calamidade. Essa pessoa pode pedir esmolas até conseguir prover seu sustento. E a terceira é aquela que se encontra em extrema necessidade, até que três pessoas sensatas de sua comunidade testemunhem que ela está passando por essa necessidade. Em tal situação, é permitido que peça esmolas até conseguir prover seu sustento.”

Fora essas situações, para qualquer pessoa que peça esmolas, é ilícito o dinheiro que ela consome.

O trabalho é honroso

As pessoas consideram certos trabalhos inferiores. Porém, o nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) não aprovou isso. Ele ensinou aos seus Companheiros que, seja qual for o trabalho, nele estão a honra e a plena dignidade, enquanto aceitar a ajuda das pessoas e depender delas contém toda forma de humilhação e desonra. Ele disse:(Árabe*********************)

É muito melhor e mais benéfico ir à floresta com uma corda, trazer sobre a própria cabeça um feixe de lenha e ganhar dinheiro vendendo-o — preservando assim a dignidade que Allah lhe concedeu — do que pedir esmolas às pessoas, quando nem sequer há garantia de que elas lhe darão algo.

Portanto, o muçulmano deve ganhar seu sustento por meio da agricultura, do comércio, da indústria ou de qualquer trabalho ou emprego semelhante, desde que isso não o envolva em atividades proibidas.

Ganhos por meio da agricultura

Ao mencionar Seus favores e bênçãos para com os seres humanos, Allah Ta‘ala apresentou no Alcorão Majid muitas orientações de importância fundamental relativas à agricultura.

Allah Ta‘ala tornou o solo e a terra do mundo adequados para a produção e o cultivo. Fez dela um leito e um chão, e isso é uma grande bênção de Allah para Suas criaturas. É absolutamente necessário lembrar-se dessa bênção e compreender o seu valor.

Foi dito:(Árabe***********)

Allah Ta‘ala fez a terra para vós como um leito e um chão, para que pudésseis transitar por caminhos abertos sobre ela. (Surata Nuh: 19–20

Ele fez a terra para as criaturas. Nela há frutos, tamareiras com cachos cobertos, grãos com palha e flores perfumadas. Então, quais das dádivas do poder de vosso Senhor negareis?

Ele fez descer a água em forma de chuva, fez com que ela fluísse pelos canais e nascentes e, por meio dela, dá vida à terra morta.

 (Árabe************)

Ele fez descer água do alto. Depois, por meio dela, produzimos toda espécie de plantas, árvores e semelhantes; em seguida, fizemos surgir nelas ramos verdes e viçosos, dos quais extraímos grãos dispostos em camadas.

 (Árabe **************

É dever do ser humano observar o seu alimento e refletir. Nós é que fazemos descer a água na medida necessária. Depois, fendemos a terra de modo admirável e nela produzimos cereais, uvas e hortaliças.

Allah envia os ventos como portadores de boas-novas. Por meio deles, as nuvens se deslocam e as plantas se tornam fecundas.

 (Árabe***************)

E estendemos a terra, nela fixamos altas e firmes montanhas e nela produzimos cada coisa de forma bem planejada e equilibrada. E nela estabelecemos o sustento para vós e também para aqueles dos quais não sois provedores. E os tesouros de todas as coisas estão guardados conosco, e deles concedemos apenas uma medida conhecida. Enviamos os ventos carregados de frutos. Depois fazemos descer água do alto e vos damos de beber dela. Mas vós não sois capazes de armazená-la. (Surata Al-Hijr: 19–22)

Em todos estes versículos, Allah, o Altíssimo, chamou a atenção das pessoas para as bênçãos da agricultura e para os meios que tornam sua prática fácil. O Nobre Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse:(Árabe**********)

Todo muçulmano que planta uma árvore ou cultiva um campo, e do qual comem aves ou pessoas, recebe isso como uma caridade. (Bukhari e Muslim)

Isto é, a recompensa por esse ato continuará a ser registrada para ele enquanto houver pessoas comendo dos frutos daquela árvore ou daquela plantação, mesmo que o proprietário da terra ou aquele que plantou a árvore já tenha morrido, ou que a propriedade tenha sido transferida.

Segundo os especialistas, não é impossível, diante da misericórdia e da generosidade de Allah, que Ele continue concedendo recompensa a essa pessoa mesmo depois de sua morte, assim como lhe concedia durante sua vida. A caridade contínua, um conhecimento do qual as pessoas se beneficiem, um filho virtuoso que continue fazendo súplicas por ele, ou uma árvore plantada, a agricultura e a vigilância das fronteiras: o que foi mencionado acima se aplica a essas seis ações.

É narrado em um hadith que um homem foi até Abu al-Darda (que Allah esteja satisfeito com ele), que estava plantando uma muda de nogueira. O homem disse: “Ela levará muitos anos para dar frutos, não é?” Abu al-Darda (que Allah esteja satisfeito com ele) respondeu: “Que mal há nisso? Outros comerão dela, e eu obterei a recompensa por isso.”

Foi narrado por outro companheiro do Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Ele disse: “Ouvi com meus próprios ouvidos o Nobre Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) dizer:”(Árabe ***************)

Quem planta uma árvore e depois continua cuidando e zelando por ela até que dê frutos receberá de Allah a recompensa por qualquer prejuízo causado aos frutos durante esse período.

Com base nesses hadiths e em muitos outros semelhantes, os especialistas disseram que a agricultura é muito superior aos demais meios de obter sustento. Contudo, segundo outros especialistas, a indústria e o trabalho manual são muito melhores. Alguns outros consideram o comércio o melhor meio.

Alguns outros especialistas disseram que, em diferentes circunstâncias, diferentes atividades podem ser consideradas superiores. Por exemplo, quando há uma grave escassez de alimentos, a agricultura é superior, pois seus benefícios são geralmente acessíveis a todos. E quando, devido à ação de bandidos, há pouca entrada de mercadorias nos mercados, o comércio é uma boa atividade; para atender às necessidades de produtos manufaturados, o trabalho industrial será considerado superior.(Árabe******************)

A descrição mencionada por último está plenamente de acordo com o conhecimento e a ciência econômica modernos.

A agricultura ilícita

O cultivo das plantas cujo consumo o Islam declarou ilícito ou cujo uso é prejudicial também é ilícito. Por exemplo, maconha, ópio e semelhantes.

O mesmo se aplica ao tabaco. Contudo, segundo aqueles que consideram ilícito o seu consumo, o cultivo do tabaco também é ilícito. Muitos deram preferência a essa opinião. Já aqueles que consideram o consumo do tabaco makruh entendem que o seu cultivo também é makruh.

Não é permitido ao muçulmano cultivar qualquer coisa ilícita com o objetivo de vendê-la a não muçulmanos e obter dinheiro. Um muçulmano jamais pode contribuir para a disseminação de coisas ilícitas. Portanto, não é permitido aos muçulmanos criar porcos com o objetivo de vendê-los a não muçulmanos, cristãos e outros. Já dissemos anteriormente que, segundo a perspectiva do Islam, não é permitido vender uvas halal a alguém que se saiba que irá usá-las para fabricar sura (bebida alcoólica).

A indústria etc.

O Islam incentivou a agricultura. Descreveu detalhadamente as suas virtudes. Também declarou que essa atividade proporciona uma grande recompensa. Mas não é de modo algum desejável que os membros da comunidade muçulmana se dediquem exclusivamente à agricultura — assim como um molusco (sea sell) permanece preso dentro da própria concha. O Islam não aprova que os muçulmanos considerem apenas a agricultura suficiente e continuem seguindo atrás dos bois de arado. Pois, se assim for, eles não poderão enfrentar possíveis calamidades e perigos nacionais. Por isso, se o Nobre Profeta (s) chamou a agricultura de uma atividade humilhante, não há motivo para admiração. Com efeito, a realidade dos tempos tornou evidente a veracidade dessas palavras. Ele disse:(Árabe***********************)

Se vocês se dedicarem a transações baseadas em juros, ficarem agarrados às caudas de vacas e búfalos e, negligenciando o jihad, permanecerem ocupados com a agricultura, Allah lhes imporá humilhação. Ela não será removida até que vocês retornem à sua religião. (Abu Dawud) Por isso, é igualmente necessário dedicar-se às atividades industriais e profissionais juntamente com a agricultura. Somente com a ajuda dessas atividades poderão ser satisfeitas as necessidades de uma vida próspera e confortável, bem como as exigências de uma ummah independente e poderosa e de um sistema de governo e Estado sólido e autossuficiente. Na perspectiva do Islã, as atividades industriais e profissionais não são apenas lícitas — como alguns sábios afirmaram —, mas também constituem um fard kifaya, isto é, é indispensável que existam na sociedade muçulmana pessoas suficientemente qualificadas em todos os tipos de indústria e comércio, para que não haja qualquer dificuldade em atender às necessidades nacionais e para que seja possível realizar devidamente todas as tarefas necessárias. Se surgir uma carência tão grave em qualquer área industrial ou profissional que não se encontrem pessoas para realizar esse trabalho, toda a sociedade e a nação serão culpadas e pecadoras por isso; especialmente os líderes e os responsáveis pela administração do Estado serão responsabilizados.

O Imã al-Ghazali (que Allah tenha misericórdia dele) disse:

É um fard kifaya adquirir os conhecimentos sem os quais a vida material das pessoas não pode prosseguir. Por exemplo, a medicina é absolutamente necessária para preservar a saúde do corpo. A aritmética ou a contabilidade é indispensável para todas as atividades, incluindo as transações mútuas, os testamentos e a distribuição das heranças. Há conhecimentos cuja ausência de pessoas que os dominem sujeita a população a grandes dificuldades. Quando alguém se ocupa desse tipo de atividade, os demais ficam isentos da responsabilidade por ela. Por isso, em nossa opinião, a medicina e a contabilidade são fard kifaya. Os ofícios básicos e as atividades industriais também não são outra coisa senão fard kifaya, como o cultivo da terra, a aradura, a tecelagem e a criação de animais. O trabalho agrícola e a alfaiataria também são fard kifaya. Se não houver esses recursos em algum país, não é de modo algum permitido deixá-lo ser conduzido à destruição.Árabe****************)

No Alcorão Sagrado são dadas indicações sobre muitos tipos de atividades industriais, e é claramente afirmado que elas são grandes bênçãos de Allah para as pessoas do mundo. Por exemplo, a respeito do profeta Davi (que a paz esteja com ele), foi dito: As disposições do lícito e do ilícito no Islã(Árabe*******************)

E amolecemos o ferro para ele e ordenamos: “Fabrica couraças e faze os seus elos na medida adequada.” (Surata Saba, 10–11)

E ensinamos-lhe a arte de fabricar couraças, para que elas vos protegessem na guerra. Então, sereis agradecidos? (Surata al-Anbiya, 80)

A respeito do profeta Salomão (que a paz esteja com ele), foi dito:

E fizemos correr para ele uma fonte de cobre fundido e submetemos a ele gênios que trabalhavam diante dele, com a permissão de Allah.

E fizemos fluir para ele uma fonte de cobre e submetemos a ele certos gênios que trabalhavam diante dele, por ordem de Allah. E a quem quer que, entre eles, desobedecesse à Minha ordem, faríamos provar o castigo da fornalha de fogo ardente! Eles construíam para ele (Sulayman) tudo o que desejava: altos palácios e edifícios, e caldeirões firmemente estabelecidos. Ó descendentes de Dawud! Trabalhai como forma de agradecimento.

No Alcorão também é mencionada a construção do elevado e sólido muro de Dhul-Qarnayn. Foi dito:(Árabe *********************)

Tudo quanto o meu Senhor me concedeu é abundante. Ajudai-me somente com trabalho e esforço, e eu erguerei uma barreira entre vós e eles. Trazei-me placas de ferro. Quando finalmente preencheu o espaço entre as duas montanhas, disse ao povo: «Soprai o fogo!» Quando aquela barreira de fogo ficou completamente vermelha como o fogo, disse: «Trazei-me cobre derretido, para que eu o despeje sobre ela.» Essa barreira foi construída tão solidamente que Yajuj e Majuj não podiam escalá-la, e abrir nela um túnel era ainda mais difícil para eles. (Surata Al-Kahf: 95–97)

A história da construção da arca do Profeta Nuh também foi citada no Alcorão. Nela está contida a indicação da construção de uma embarcação sólida, que se erguia como uma montanha sobre rios e mares e era capaz de navegar. Foi dito:(Árabe*************)

Os navios que avançam sobre os rios e mares, elevando-se como montanhas, são especialmente um dos sinais de Allah. (Surata Ash-Shura: 32)

Em numerosas suratas do Alcorão são mencionados todos os tipos de conhecimentos e atividades de caça****, tais como a pesca, a caça de animais marinhos, a caça de animais terrestres e o mergulho para obter pérolas e pedras preciosas, entre outros.

Acima de tudo, o Nobre Alcorão mencionou o verdadeiro valor e a utilidade do ferro.

Isso não é encontrado em nenhum dos livros religiosos anteriores nem em qualquer livro escrito por seres humanos. Depois de mencionar no Alcorão o envio dos mensageiros e a revelação dos Livros, foi dito:(Árabe************************)

E criamos o ferro, no qual há uma força poderosa e inúmeros benefícios para a humanidade.

Este versículo pertence à surata Al-Hadid (O Ferro). Fica claro, por ele, que o Islã atribuiu especial importância à indústria do ferro.

Na verdade, segundo a perspectiva do Islã, qualquer atividade industrial realizada com o objetivo de satisfazer as necessidades da sociedade humana e promover seu verdadeiro bem-estar será considerada um “ʿamal ṣāliḥ” — uma boa ação. Isso ocorre se houver verdadeira sinceridade nesse trabalho e se forem plenamente empregadas a perícia e a competência que o Islã ordenou que fossem adotadas.

O Islã conferiu grande dignidade a muitas profissões consideradas extremamente humildes e insignificantes pela sociedade humana. Por exemplo, as pessoas não olhavam com respeito para o pastor de cabras. Porém, o Nobre Profeta (S) disse:(Árabe**************)

Todos os profetas enviados por Allah pastorearam cabras. Os Companheiros perguntaram:(Árabe***********)

Ó Mensageiro! O senhor também pastoreou cabras?

Os Companheiros perguntaram:(Árabe**************)

Ó Mensageiro! O senhor também pastoreou cabras?

Em resposta, ele disse:(Árabe***************)

Sim, eu pastoreei as cabras dos habitantes de Meca em troca de uma remuneração. (Al-Bukhari)

O Selo dos Profetas, Hazrat Muhammad (que a paz esteja com ele), pastoreou cabras. O mais importante é que essas cabras não eram dele. Pelo contrário, pertenciam aos habitantes de Meca, e ele as pastoreava em troca de uma remuneração determinada. Ao mencionar isso, o Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) ensinava aos seus companheiros que a honra pertence àqueles que trabalham — que trabalham e ganham seu sustento. Aqueles que ficam ociosos, sem trabalhar nem obter renda, e vivem às custas dos outros não têm honra nem dignidade.

No Alcorão Majid, é narrada a história de Hazrat Isa (que a paz esteja com ele). É dito que ele trabalhou continuamente durante oito anos como trabalhador para um ancião. A remuneração por seu trabalho foi o casamento com uma das filhas do ancião. Hazrat Isa (que a paz esteja com ele) era considerado um trabalhador muito bom e era um empregado extremamente confiável. Uma das filhas do ancião disse com grande inteligência:

Ó meu pai, contrata-o como trabalhador em troca de uma remuneração. O melhor empregado que se pode contratar é aquele que é forte e confiável.

Hazrat Ibn Abbas (que Deus esteja satisfeito com ele) narrou que Hazrat Daud era fabricante de armaduras e utensílios. Hazrat Adam era agricultor. Hazrat Nuh (que a paz esteja com ele) era pedreiro, Hazrat Idris (que a paz esteja com ele) era alfaiate, e Hazrat Musa (que a paz esteja com ele) era pastor de cabras.

Portanto, um muçulmano pode escolher qualquer profissão halal e viver satisfeito. Todo profeta necessariamente exercia algum tipo de profissão. Foi dito em um hadith autêntico.(Árabe*****************)

Ninguém pode comer alimento melhor do que aquele que ganhou por meio do próprio trabalho. E o Profeta de Allah, Daud (que a paz esteja com ele), ganhava seu sustento e obtinha seu alimento trabalhando. (Al-Bukhari)

Trabalhos e profissões proibidos

Contudo, o Islã declarou algumas atividades e profissões ilícitas para os muçulmanos, pois essas atividades e profissões destroem e prejudicam gravemente a crença, a fé, o caráter, a honra e os valores culturais das pessoas.

Prostituição

A prostituição, como profissão, é reconhecida e apoiada no Ocidente e em muitos países que seguem o Ocidente. Por isso, concede-se devidamente permissão e licença, além de oportunidades e facilidades irrestritas e sem oposição. Essa atividade também recebe o status de profissão, como as demais profissões correntes no país, e são concedidos todos os direitos relacionados a ela.

Mas o Islã desferiu um golpe devastador contra essa profissão e não permitiu que nenhuma mulher, livre ou escrava, obtivesse qualquer rendimento por meio de seus órgãos sexuais.

Na época da Jahiliyya, alguns impunham à sua escrava um “imposto” diário. Elas eram obrigadas a entregar regularmente esse “imposto” aos seus proprietários. Por isso, tinham de ganhar dinheiro de qualquer maneira. Consequentemente, muitas escravas eram obrigadas a se prostituir para pagar o “imposto” estabelecido. Muitos proprietários de escravas também as empregavam diretamente nesse ofício e, em troca, obtinham grandes ganhos. Mais tarde, o Islã veio libertar as mulheres dessa extrema miséria e da obrigação de praticar atos tão abomináveis. Foi então que a ordem de Allah foi revelada: (Árabe)

Não obrigueis vossas escravas ou filhas à prostituição — elas desejam preservar a pureza e a castidade — apenas para obterdes ganhos materiais por meio delas. (Surata An-Nur: 33)

Hazrat Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) narrou: Abdullah ibn Ubayy, o líder dos hipócritas, compareceu perante o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Com ele estava uma escrava de beleza incomparável chamada Mu‘adhat. Ele disse: “Ó Mensageiro de Allah! Esta moça é escrava pertencente a certos órfãos. Permitirias que ela se prostituísse? Assim, esses órfãos poderiam obter grandes lucros.” O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) respondeu claramente: “Não”.

O Nobre Profeta (S) encerrou para sempre o caminho dessa profissão repugnante; qualquer que fosse o benefício obtido com seus ganhos, qualquer grande necessidade que fosse satisfeita ou mesmo que servisse a um propósito muito nobre, o objetivo do Islã é manter a sociedade islâmica livre e purificada da imundície de todo tipo de ação pecaminosa.

Dança e arte sexual

O Islã de modo algum aprova a adoção da dança sexualmente provocante como profissão. Do mesmo modo, o Islã não permite qualquer atividade que aumente a excitação sexual na mente e no temperamento. Canções obscenas, atuações indecentes e outras atividades fúteis desse tipo estão incluídas nessa categoria. Embora, nos tempos atuais, isso seja chamado pelo nome sedutor de Art ou arte e seja considerado indispensável para alcançar desenvolvimento e progresso, na perspectiva do Islã não é senão extrema perdição.

Com efeito, o Islã declarou completamente ilícita a relação sexual entre homem e mulher de qualquer forma que não seja a relação matrimonial. Todas as palavras e ações que abrem esse caminho são, na perspectiva do Islã, inteiramente ilícitas. Esse princípio está contido no método miraculoso que o Alcorão adotou ao declarar ilícita a fornicação e o adultério.

A declaração do Alcorão é:(Árabe*****************)

Não vos aproximeis sequer da fornicação e do adultério. Isso é, certamente, uma ação extremamente indecente e um caminho e meio muito repugnante. (Surata Bani-Israil: 320)

Além de tudo o que dissemos acima, todas as palavras que as pessoas consideram sexualmente provocantes são meios de aproximar desse adultério. Pelo contrário, são precisamente elas que incitam a pessoa nessa direção e tornam mais intensa sua atração por ele. Portanto, não há dúvida de que aqueles que praticam qualquer atividade dessa categoria cometem um ato muito grave.

Escultura, retratos e fabricação de cruzes

No Islã, as imagens são haram. Sua análise detalhada foi apresentada anteriormente. A fabricação de imagens é ainda mais estritamente haram. Está registrado no Sahih al-Bukhari que Sa’id ibn al-Hasan disse:(Árabe****************)

Eu estava na presença de Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele). Nesse momento, chegou um homem e disse: “Ó Ibn Abbas! O artesanato manual é o meio pelo qual ganho meu sustento. Faço esse tipo de imagem.” Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Vou transmitir-te exatamente o que ouvi do próprio Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Eu o ouvi dizer: ‘Allah castigará aquele que fabricar uma imagem ou uma figura, exigindo que lhe dê vida; contudo, ele jamais poderá dar-lhe vida.’” Ao ouvir isso, o rosto do homem se desfigurou e empalideceu. Ibn Abbas disse-lhe: “Se estás determinado a fazer imagens ou figuras, então faz imagens de árvores e de outras coisas inanimadas.” (Bukhari)

A mesma regra se aplica a estátuas, cruzes e todos os objetos desse tipo.

Quanto às fotografias, já dissemos anteriormente que, do ponto de vista compatível com a Sharia, elas são permitidas. No máximo, podem ser consideradas makruh. A condição, porém, é que essa atividade não tenha originalmente nenhum objetivo haram. Por exemplo, é haram fotografar despida uma mulher mostrando as partes sexualmente atraentes de seu corpo, fotografar um homem e uma mulher beijando-se, ou fotografar aqueles cuja grandeza ou santidade é afirmada, como anjos, profetas e mensageiros.

Os intoxicantes e as substâncias que destroem o conhecimento e a razão

Como já foi dito, o Islã declarou haram qualquer participação, ajuda ou cooperação na produção e circulação de intoxicantes e bebidas alcoólicas. Fabricá-los e prepará-los, distribuí-los, bebê-los ou fazê-los beber: tudo isso é completamente proibido. Todo aquele que praticar qualquer dessas ações é amaldiçoado, nas palavras do Mensageiro.

A haxixe, assim como o ópio, e todas as substâncias que eliminam a consciência e a razão são igualmente haram como os intoxicantes. O comércio, a compra e venda, a distribuição e a indústria de produção dessas coisas são todos haram. Para um muçulmano, adotar qualquer atividade industrial ou profissão fundamentada em uma ação haram, ou por meio da qual se difunda qualquer ação haram, é, do ponto de vista islâmico, totalmente desagradável e indesejável.

Ganhar a vida por meio do comércio

O Islã deu grande importância ao comércio por meio das declarações corânicas e da Sunnah do Mensageiro, e fez um forte apelo para que ele fosse praticado. Para esse fim, também incentivou as viagens ao exterior e chamou isso de busca da graça de Allah. Além disso, aqueles que viajam ao exterior para negociar foram mencionados juntamente com os que combatem no caminho de Allah. Foi dito:(Árabe********************)

Alguns viajarão ao exterior em busca da graça de Allah, enquanto outros combaterão e lutarão no caminho de Allah. (Surata al-Muzzammil, 20)

As vias marítimas de comunicação e transporte são extremamente importantes para o comércio internacional. Foram elas que proporcionaram às pessoas e às nações amplas oportunidades para o comércio interno e externo. Allah, o Altíssimo, mencionou isso como uma manifestação de Sua graça especial para com a humanidade. Ao mencionar a graça de controlar o mar, torná-lo favorável e possibilitar a navegação dos navios, o próprio Allah, o Altíssimo, disse:(Árabe******************)

E vês os barcos e navios sulcando o peito das águas nos rios e nos mares, para que possais buscar Sua graça e serdes gratos. (Surata Fátir, 12)

Em alguns versículos, também é mencionado o envio dos ventos:(Árabe*******************)

E entre os Seus sinais está o fato de Ele enviar os ventos como anunciadores de boas-novas e para vos fazer conhecer a Sua misericórdia, e também para que os barcos e navios naveguem por Sua ordem, e para que possais buscar Sua graça e serdes gratos a Ele.

Allah, o Altíssimo, concedeu aos habitantes de Meca tal graça e estabeleceu para eles condições tão favoráveis que sua cidade se tornou um centro comercial especial e proeminente em toda a Península Arábica. O profeta Abraão (que a paz esteja com ele) suplicou:(Árabe*******************)

Então, ó Allah, torna os corações das pessoas inclinados para eles e provê-lhes frutos de diversas espécies, para que possam agradecer.

Esta súplica também se mostrou muito benéfica para os habitantes de Meca. Da mesma forma, Allah havia favorecido os coraixitas, proporcionando-lhes segurança e tranquilidade nas viagens comerciais de inverno em direção ao Iêmen e nas viagens comerciais de verão em direção à Síria. A segurança que desfrutavam durante essas viagens era uma graça especial de Allah, concedida porque eles prestavam serviço à Casa da Caaba. Portanto, deveriam adorar somente Allah e agradecer-Lhe por essa graça. Pois somente Ele é o Senhor da Casa da Caaba e o único Allah que concede graças.(Árabe******************)

Visto que os coraixitas haviam se acostumado, isto é, tinham o hábito de viajar para o exterior no inverno e no verão, era seu dever adorar Allah nesta Casa, Aquele que lhes deu alimento para saciar a fome e lhes concedeu segurança contra todos os tipos de medo. (Surata Coraix)

O Islã proporcionou aos muçulmanos uma grande oportunidade de realizar transações comerciais internacionais, bem como de viajar e manter comunicações. Essa oportunidade surge todos os anos durante o Hajj. Allah, o Altíssimo, mencionou claramente essas viagens durante o Hajj, dizendo:(Árabe***************)

Entre as disposições benéficas mencionadas no versículo, a mais importante é o comércio. No entanto, os muçulmanos tinham receio de comerciar durante o Hajj. Pensavam que, se negociassem durante o Hajj, a intenção sincera do Hajj seria corrompida e a pureza e a integridade de sua adoração seriam prejudicadas. Nessa ocasião, foi claramente declarado no Alcorão Majid:(Árabe****************)

Não haverá pecado para vós se procurardes uma graça de vosso Senhor durante o Hajj. (Surata Al-Baqara: 198)

A respeito daqueles que se sentam nas mesquitas, recitando o tasbih de Allah de manhã e à noite, o Alcorão Majid declarou:(Árabe********************)

Há muitos homens a quem o comércio ou as transações à vista não conseguem afastar das atividades religiosas de recordar Allah, estabelecer a oração e pagar o zakat. (Surata An-Nur: 37)

Isso significa que, segundo o Alcorão, o muçulmano não pode ser alguém confinado dentro da mesquita. Tampouco é um dervixe, alguém dependente dos outros, um asceta que renunciou ao mundo, um monge ou um eremita. Do mesmo modo, também não é alguém que se encontra completamente absorvido pelos assuntos mundanos. Na realidade, é uma pessoa de ação. E sua particularidade é que seu trabalho material é religioso; de modo semelhante, também não é alguém que se encontra completamente absorvido pelos assuntos mundanos. Na realidade, é uma pessoa de ação. E sua particularidade é que seu trabalho material não consegue impedi-lo nem fazê-lo esquecer o cumprimento de suas responsabilidades religiosas.

Acima, apresentamos uma parte do que o Alcorão Sagrado diz sobre os negócios.

Agora, passemos à Sunnah e aos hadiths. O nobre Profeta (S) incentivou grandemente, por palavras e ações, a atividade comercial. Esse assunto era muito importante para ele. Por meio de suas palavras e ações, ele próprio fortaleceu os alicerces dessa atividade.

Neste ponto, mencionamos aqui algumas máximas dentre os ensinamentos importantes deles:(Árabe**************)

O comerciante honesto e veraz estará junto dos mártires no Dia da Ressurreição.(Árabe***********)

O comerciante honesto e confiável será companheiro dos profetas, dos verazes e dos mártires.

Não ficamos surpresos ao ver que o nobre Profeta (S) mencionou os comerciantes como tendo o mesmo grau dos mujahidin e daqueles que sacrificaram a vida no caminho de Allah. Pois a experiência da vida comprovou diante de nós que a jihad não ocorre somente no campo de batalha. Essa jihad também é inevitável no campo econômico.

O nobre Mensageiro (S) prometeu que os comerciantes alcançarão essa elevada posição junto de Allah e que, na Outra Vida, receberão essa recompensa ilimitada. Isso porque, no comércio, frequentemente se observa a submissão à cobiça e à avidez. Nesse campo, é muito evidente a tendência de obter lucro por qualquer meio. Além disso, a riqueza gera riqueza, e o lucro instiga as pessoas a buscarem lucros cada vez maiores. Mas o comerciante que preserva a honestidade, a justiça e a confiabilidade é, de fato, um combatente pela causa de Allah. Ele enfrenta continuamente a cobiça e a avidez. Portanto, o grau de um mujahid é muito apropriado e desejável para ele.

A natureza do comércio é mergulhar a pessoa em montanhas de riquezas. Ela permanece ocupada, dia e noite, calculando o capital e os lucros. Tanto que vemos o nobre Profeta (S) de pé sobre o púlpito, proferindo o sermão, quando uma caravana comercial chega ao local carregada de mercadorias. Assim que as pessoas souberam da chegada da caravana, correram em sua direção, sem dar atenção ao sermão do Mensageiro. Foi nesse contexto que foi revelado o seguinte versículo do Alcorão Sagrado.(Árabe***************)

Quando veem algum comércio ou entretenimento, correm para ele e deixam-te, ó Profeta, de pé. O que está junto de Allah é muito melhor e mais benéfico do que esse entretenimento e esse comércio, e Allah é o melhor dos provedores. (Surata Al-Jumu‘ah: 11)

Assim, aquele que, mesmo envolvido nesse turbilhão, permanece firme na fé e convicto, com o coração repleto do temor de Allah e banhado pela lembrança de Allah, sem dúvida será contado entre os profetas, os veracíssimos e os mártires agraciados por Allah.

Para nos orientar nos assuntos comerciais, basta o modo de agir do Mensageiro Nobre (S). Assim como deu plena importância ao aspecto espiritual, também estabeleceu em Medina uma mesquita sobre os fundamentos do temor de Allah e da satisfação de Allah, para que, além de ser um centro de adoração a Allah, de conhecimento islâmico, ensino e estudo, e de propagação do convite religioso, fosse também o centro do Estado e do governo (quartel-general). Ele também deu a devida importância ao aspecto econômico das pessoas. Criou um mercado genuinamente islâmico, sobre o qual os judeus não podiam exercer autoridade nem domínio. O mercado de Banu Qaynuqa, que já existia, estava sob o domínio dos judeus. O próprio Profeta (S) estabeleceu as normas e a administração do mercado que fundara, e ele mesmo supervisionava tudo. A característica desse mercado era que ali não havia qualquer oportunidade para fraude, engano ou trapaça, nem para diminuir ou aumentar indevidamente pesos e medidas, tampouco para reter mercadorias e causar dificuldades às pessoas.

Além de tudo isso, observamos que entre os companheiros do Mensageiro Nobre havia comerciantes experientes, artesãos habilidosos, agricultores e pessoas que exerciam profissões e dominavam todas as atividades e conhecimentos necessários à vida social.

O Mensageiro Nobre (S) vivia entre as pessoas. Os mandamentos de Allah — os versículos do Alcorão — eram revelados a ele. Ele os recitava para as pessoas. Jibril (A) vinha até ele todas as manhãs e tardes trazendo a revelação.

A situação dos companheiros era tal que não gostavam de se afastar do Mensageiro Nobre (S) nem por um instante. Apesar disso, vemos que todos os companheiros estavam ocupados com seus próprios trabalhos e profissões. Alguns talvez tivessem saído em viagem comercial; outros estavam ocupados com suas plantações de tamareiras. E alguns, por estarem ocupados com suas profissões e trabalhos artesanais, ficavam impedidos de comparecer perante o Mensageiro Nobre para aprender a religião. Então aprendiam tudo com outro irmão que conseguira estar presente na assembleia do Mensageiro. Isso também era dever deles, pois o Mensageiro Nobre (S) havia declarado como princípio permanente:(Árabe*****************)

Que o presente transmita tudo ao ausente.

A maioria dos Ansar dedicava-se à agricultura, enquanto os Muhajirun eram geralmente comerciantes. Abd al-Rahman ibn Awf (R) era um Muhajir. Seu modo de agir permanece para sempre resplandecente diante de nós. Seu irmão na fé, Sa‘d ibn Ansari, propôs-lhe dar metade de seus bens, uma de suas duas casas e divorciar-se de uma de suas duas esposas para que ele se casasse com ela.

Ele disse a Sa‘d (que Allah esteja satisfeito com ele): (Árabe*****************)

Que Allah abençoe seus bens e sua família. Não precisarei de nada disso. Agora, se houver algum mercado onde se possa fazer comércio, mostre-o a mim; eu comerciarei.

Sa‘d disse: “Sim, há o mercado dos Banū Qaynuqā‘!” No dia seguinte, ele foi ao mercado levando queijo e manteiga clarificada, e vendeu-os. Prosseguiu com esse comércio e acumulou grande riqueza. Quando morreu, deixou uma vasta fortuna.

O exemplo de Abū Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) é ainda mais evidente. Ele sempre se dedicou ao comércio e, por isso, trabalhava arduamente. Até mesmo no dia em que foi escolhido como califa, desejou ir ao mercado.

‘Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) disse a respeito de si mesmo: (Árabe*******************)

As compras e vendas no mercado mantinham-me tão ocupado que acabei privado de ouvir os hadiths do nobre Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele).

O mesmo se aplica a ‘Uthmān (que Allah esteja satisfeito com ele) e aos demais Companheiros.

O papel da Igreja em relação ao comércio

Dessa forma, permanecendo sob a sombra da religião do Islã, eles continuaram sua grande jornada no mundo. Os que criam no Islã dedicaram-se aos negócios e à compra e venda; contudo, a ocupação e a imersão nessas atividades não os tornaram negligentes em relação à lembrança de Allah, nem os desviaram sequer um pouco do caminho da obediência a Allah. Entretanto, nesse período, os povos dos grandes países medievais e dos Estados da Europa cristã estavam divididos entre opiniões contraditórias acerca do comércio. De um lado, havia a opinião da “redenção”. Quando alguém se ocupasse com atividades comerciais, seu ego ficaria maculado pela impureza de muitos tipos de pecado; portanto, deveria proteger-se disso e, para esse fim, manter-se afastado de tais atividades. De outro lado, acreditava-se que, se uma pessoa se dedicasse ao comércio e à indústria contra os ensinamentos e as opiniões dos líderes religiosos, seria amaldiçoada. Isso porque esse pecado não era apenas uma ação má: era um pecado eterno e uma maldição de todos os tempos, tanto na Terra quanto no mundo celestial, tanto nesta vida quanto na vida futura.

Santo Agostinho disse: “O comércio (Business) é essencialmente pecado, pois, por sua influência, o ego ou a mente se afasta da Verdade Suprema, Allah.”

Outro disse: “Aquele que compra alguma coisa com o propósito de revendê-la tal como está, sem fazer qualquer alteração nela, passa a integrar o grupo dos compradores e vendedores que se afastou das elevadas condições e do ambiente da verdadeira adoração.”

Na realidade, essas afirmações não passam de uma extensão dos ensinamentos apresentados por São Rols. Ele disse que, como nenhum cristão deveria envolver-se em brigas e conflitos com seu irmão cristão, também não era desejável que houvesse qualquer atividade comercial entre os cristãos.

Comércio haram

Entretanto, no Islã, o comércio não é haram. Mas qualquer comércio que envolva opressão, fraude, engano, logro, exploração do lucro ou a compra, venda ou produção de algo proibido é certamente haram.

Por exemplo, o comércio de bebidas alcoólicas, a compra e venda de substâncias que obscurecem a consciência e a razão, o comércio de suínos ou o comércio de ídolos, imagens ou coisas semelhantes são certamente proibidos. Isso porque o Islã declarou completamente haram consumir, beber, utilizar ou obter qualquer benefício dessas coisas. O Islã de modo algum está disposto a dar qualquer apoio a tais atividades. Tudo o que é obtido por esses meios é haram e abjeto. Para a pessoa cujo corpo se desenvolve com a carne resultante de consumir isso, o Inferno é certamente o lugar apropriado. Não há razão alguma para acreditar que aqueles que se dedicam ao comércio dessas coisas proibidas sejam verdadeiros, justos e dignos de confiança. Isso porque a própria base desses negócios é abominável e haram. O Islã declarou guerra contra eles e de modo algum está disposto a permitir que esse comércio continue.

Contudo, não é haram comercializar ouro ou seda — tecidos de seda. Embora essas duas coisas não sejam permitidas aos homens, são halal para as mulheres. Entretanto, não é permitido comercializar artigos feitos desses materiais destinados exclusivamente ao uso dos homens.

Há certos deveres que o comerciante deve cumprir no comércio halal e permitido. Se não cumprir esses deveres, no Dia do Juízo o comerciante será incluído entre os pecadores. E esses pecadores certamente irão para o Inferno.

Certo dia, o Nobre Profeta (s.a.) saiu para a oração. Ele viu que as pessoas estavam comprando e vendendo. Ele viu que as pessoas estavam comprando e vendendo. Então lhes disse:

Ó comerciantes! As pessoas responderam ao chamado do Mensageiro. Olharam naquela direção. Então o Nobre Profeta (s.a.) disse:(Árabe**********************)

No Dia do Juízo, os comerciantes serão ressuscitados como grandes pecadores. Exceto aqueles que temem Allah e realizam seus negócios com retidão, honestidade e civilidade. (Tirmidhi, Ibn Majah)

Wasila ibn al-Asqa (r.a.) disse: o Mensageiro de Allah (s.a.) costumava vir até nós — nós éramos comerciantes — e dizia:(Árabe*****************)

Ó comerciantes, afastai-vos completamente das palavras falsas e dos negócios fraudulentos.

Portanto, é dever dos comerciantes evitar completamente a mentira. Pois ela constitui um perigo muito grande para os comerciantes. É a mentira que arrasta as pessoas para o caminho do pecado. E o destino do caminho do pecado é o Inferno. Também é dever deles evitar fazer juramentos em excesso. Em particular, fazer um juramento falso é algo muito grave. Pois o Nobre Profeta (s.a.) disse:

(Árabe*****************)

No Dia do Juízo, Allah não olhará para três pessoas, nem as purificará, e elas terão um castigo doloroso. Uma delas é aquele que vende a sua mercadoria fazendo falsos juramentos.

Foi narrado por Abu Sa‘id (que Allah esteja satisfeito com ele) que ele disse: um beduíno levava uma cabra. Perguntei-lhe: “Venderias essa cabra por três dirhams?” O homem respondeu: “Não, por Allah.” Mas depois vendeu a cabra exatamente por esse preço. Mencionei esse fato ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Ao ouvir isso, ele disse:(Árabe************)

Esse homem vendeu a sua vida futura em troca deste mundo.

O comerciante deve manter-se afastado da fraude e do engano, pois aquele que frauda e engana sai da comunidade islâmica.

Alterar para menos ou para mais os pesos e as medidas é uma prática extremamente má. Ele deve evitar a busca de lucros abusivos e o açambarcamento, pois, se agir assim, Allah e o Mensageiro romperão as relações com ele.

Não é permitido realizar transações com juros, pois Allah, o Altíssimo, elimina e aniquila o lucro obtido por meio dos juros. Foi dito no hadith:(Árabe****************)

Se alguém consumir conscientemente sequer um dirham de juros, isso será um pecado maior do que cometer zina trinta e seis vezes. (Ahmad)

Esses assuntos serão discutidos detalhadamente mais adiante.

Emprego

Ganhar o sustento por meio de um emprego é permitido a todo muçulmano. Seja um emprego público, em alguma instituição ou junto de uma pessoa particular. Enquanto ele for capaz de cumprir todas as responsabilidades relacionadas ao emprego, exercer esse trabalho será lícito para ele. Porém, quem não possui aptidão para determinada função não pode solicitar sua nomeação para ela. Essa condição é especialmente importante no que diz respeito aos cargos administrativos e judiciais de maior relevância. Foi narrado por Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele) que o Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse:(Árabe****************)

A ruína será para os administradores, a ruína será para os líderes e a ruína será para os tesoureiros. Quantas pessoas desejarão, no Dia da Ressurreição, que seus cabelos tivessem sido amarrados à estrela Thurayya e que tivessem sido suspensas entre o céu e a terra; como isso teria sido melhor!

Foi narrado por Abu Dharr (que Allah esteja satisfeito com ele): (Árabe***********************)

Eu disse: Ó Mensageiro! O senhor não me nomeará para algum cargo de responsabilidade? Ao ouvir isso, ele colocou a mão sobre o meu ombro e disse: Ó Abu Dharr, você é uma pessoa muito fraca. Esse cargo é uma pesada responsabilidade confiada. No Dia da Ressurreição, ele será causa de vergonha e humilhação, exceto para aquele que o aceitar com plena honestidade e cumprir devidamente as responsabilidades e os deveres que recaem sobre ele em razão desse cargo.

O Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) também disse: (Árabe******************)

Há três tipos de juízes. Um deles entrará no Paraíso, enquanto os outros dois entrarão no Inferno. Entrará no Paraíso o juiz que conhecer a verdade genuína e julgar de acordo com ela. Porém, o juiz que, depois de conhecer a verdade genuína, cometer injustiça entrará no Inferno. Também entrará no Inferno aquele que julgar com base na ignorância e na falta de conhecimento.

Portanto, nenhum muçulmano deve desejar, solicitar ou esforçar-se para obter esses grandes cargos de responsabilidade, ainda que possua qualificação para algum deles. Isso porque aquele que fizer de um cargo o seu senhor será transformado pelo próprio cargo em seu escravo. E aquele que considerar como tudo aquilo que importa apenas os resultados aparentemente manifestos neste mundo será privado do tawfiq celestial.

Hazrat Abdur-Rahman ibn Samura (que Allah esteja satisfeito com ele) disse:(Árabe****************)

O nobre Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse-me: “Ó Abdur-Rahman! Não busques qualquer cargo de liderança. Pois, se o obtiveres sem o pedir, serás ajudado a cumprir essa responsabilidade. Mas, se o obtiveres por meio de pedido e esforço, serás deixado entregue a ti mesmo para cumpri-la.”

Segundo Anas (que Allah esteja satisfeito com ele), ele disse:(Árabe*******************)

Aquele que desejar obter o cargo de juiz, o solicitar e interceder por ele será entregue a si mesmo; mas, se alguém for obrigado a aceitar esse cargo (sem o ter desejado), Allah fará descer um anjo para ajudá-lo. (Abu Dawud, Tirmidhi)

Essas palavras aplicam-se quando há outras pessoas disponíveis para preencher o cargo vago. Porém, se a situação for tal que não haja ninguém além dele para preencher o cargo e ficar evidente que, caso não se apresente para esse trabalho, o bem-estar geral ficará paralisado e os assuntos nacionais entrarão em desordem, então não há culpa em apresentar-se para esse trabalho. O Alcorão Sagrado narrou-nos a história de Hazrat José. Nela é mencionado que ele próprio disse ao rei:(Árabe********************)

Ele disse: “Nomeia-me como responsável pelos tesouros do reino e do Estado. Sou, sem dúvida, um guardião zeloso e conhecedor de todas as coisas.”

Esse é também o ensinamento do Islam quanto a solicitar um cargo político.

Emprego ilícito

Tudo o que dissemos até aqui sobre a permissibilidade de aceitar um emprego aplica-se somente aos empregos cujo trabalho não envolva qualquer prejuízo para a população muçulmana. Portanto, nenhum muçulmano pode aceitar um cargo em qualquer posto de um exército que esteja em guerra contra os muçulmanos. Da mesma forma, não é permitido aos muçulmanos trabalhar em qualquer instituição ou fábrica envolvida na produção de armas para combater os muçulmanos. O mesmo se aplica às instituições que realizam campanhas de propaganda contra o Islã e os muçulmanos.

Da mesma maneira, é proibido ao muçulmano aceitar um emprego em qualquer instituição ou organização que auxilie ou apoie a opressão ou uma atividade ilícita. Por exemplo, não é permitido aceitar emprego em uma instituição que pratique usura, em uma fábrica de bebidas alcoólicas ou loja que as venda, em uma casa de dança, teatro, produção cinematográfica ou em atividades semelhantes.

Aqueles que aceitam empregos nesses setores não podem se desculpar dizendo que eles próprios não estão praticando uma atividade ilícita. Como já disse, o princípio fundamental do Islã é que auxiliar uma atividade pecaminosa também é pecado — independentemente da forma ou do grau desse auxílio. Por isso, o Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) amaldiçoou tanto os que registram os contratos ou as contas das transações usurárias e suas testemunhas quanto os que praticam usura. Ele amaldiçoou os que destilam e servem bebidas alcoólicas, assim como amaldiçoou os que as consomem.

Essa norma e instrução aplicam-se à situação em que uma pessoa se vê em extrema dificuldade e é obrigada a aceitar esse tipo de emprego ou trabalho. Porém, se um muçulmano realmente se encontrar em tal dificuldade e não conseguir encontrar nenhum outro emprego de natureza lícita além desse, poderá aceitá-lo, mantendo interiormente aversão por esse trabalho. Ainda assim, deverá continuar esforçando-se incansavelmente para descobrir se existe algum outro emprego lícito, para que, pela graça de Allah, possa deixar esse trabalho, encontrar uma profissão ou emprego inteiramente lícito e evitar os ganhos ilícitos.

O muçulmano deve sempre procurar afastar-se de atividades duvidosas ou suspeitas, pois elas causam fraqueza na observância da religião e na crença. Assim, mesmo que seja possível obter grandes rendimentos e acumular muita riqueza com esse trabalho, o muçulmano deve evitá-lo. O Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) disse: (Árabe*****************)

“Abandona aquilo que te causa dúvida e adota aquilo que te parece claro e livre de dúvidas.” (Ahmad, Tirmidhi, Nasa’i)

Ele também disse: (Árabe******************)

“A pessoa não pode alcançar a posição dos piedosos até abandonar aquilo que contém dúvida e aceitar aquilo que não contém dúvida alguma.” (Tirmidhi)

(Em outras palavras, em muitos casos, abandonar até mesmo aquilo que é isento de culpa para evitar a culpa é atitude dos piedosos.)

Regra geral na etapa da obtenção de ganhos

A regra geral na etapa da obtenção de ganhos é que o Islã não permitiu aos muçulmanos tentar obter ganhos por qualquer meio, caminho ou método que desejarem. Pelo contrário, o Islã ordenou que se faça distinção, na obtenção de ganhos, entre os métodos conformes à Sharia e os métodos não reconhecidos por ela. O fundamento dessa norma é o bem-estar social e coletivo. E o princípio básico dessa distinção é que os meios pelos quais a obtenção de ganhos ou lucros implica necessariamente prejuízo para outros não são métodos conformes à Sharia; já os meios pelos quais os lucros são distribuídos entre as pessoas com base na satisfação e na autorização mútuas, e essa distribuição é justa, são certamente métodos reconhecidos pela Sharia.

O próprio Allah, o Altíssimo, declarou esse princípio fundamental no seguinte versículo do Alcorão: (Árabe****************)

Ó vós que credes! Não consumais os bens uns dos outros por meios ilícitos. Mas podeis realizar comércio com base no consentimento mútuo. E não vos mateis uns aos outros. Certamente, Allah é Misericordioso para convosco. E quem fizer isso por transgressão e injustiça, Nós o lançaremos no Fogo.

Neste versículo, o comércio foi declarado permitido com base em duas condições:

Primeiro, o comércio deve ser realizado com plena satisfação e consentimento de ambas as partes; segundo, o lucro de uma parte não pode resultar do prejuízo da outra. Isso fica comprovado pela parte do versículo que diz: “E não vos mateis uns aos outros”.

As duas interpretações apresentadas pelos exegetas para o versículo citado acima aplicam-se neste caso. A primeira significa que as pessoas não devem matar umas às outras. A segunda significa que não deveis matar-vos com as próprias mãos. Considerando ambos os aspectos, o sentido essencial do versículo é que quem quer que prejudique outra pessoa para obter lucro pessoal é como se estivesse sugando o sangue dessa outra pessoa. E, como consequência, abre para si mesmo o caminho da própria destruição. Portanto, em todos esses tipos de atividade — furto, suborno, jogo de azar e fraude ou engano, receber o preço de um bem bom em troca de um bem ruim e transações com juros — essas duas causas estão claramente presentes. É por isso que tais atividades não são reconhecidas pela Sharia. Em algumas situações, embora se encontre a condição do consentimento mútuo, está ausente a outra condição importante — “não vos mateis uns aos outros” —, isto é, a condição de não causar prejuízo a outrem. Por isso, tais atividades não são permitidas.

Fundamentos da economia, escritos por Maulana Maududi

Terceiro capítulo

O lícito e o ilícito no casamento e na vida familiar

Limites para a satisfação dos desejos naturais

Casamento

As relações mútuas entre marido e esposa

Controle de natalidade

Divórcio

As relações mútuas entre pais e filhos

Os limites do campo para a satisfação do desejo natural

Allah, o Altíssimo, criou o ser humano neste mundo com o propósito de que ele cumprisse aqui a responsabilidade de ser o representante de Allah e o dever de desenvolver a terra. Para que essa tarefa seja realizada plenamente, é absolutamente necessário que a existência da espécie humana seja preservada e que o curso de sua vida continue ininterruptamente neste mundo. Somente assim o ser humano poderá dedicar-se à agricultura, estabelecer indústrias e produzir os bens necessários, que estão em constante mudança. Em suma, será possível desenvolver a terra, estabelecer a sociedade humana e cumprir as responsabilidades confiadas por Allah, dando assim a Allah o que Lhe é devido. Foi precisamente para concretizar esse propósito que Allah, o Altíssimo, colocou, desde o nascimento, na natureza humana certas exigências, desejos, anseios e inclinações fundamentais, harmoniosamente integrados. É isso que serve de base à estabilidade e ao progresso contínuo de toda a espécie humana, tanto individual quanto coletivamente. O ser humano foi compelido a realizar essa tarefa.

Uma delas é o desejo de alimentar-se. O ser humano empenha-se em comer até saciar-se por causa de seu desejo natural, e é graças a isso que lhe é possível continuar vivo.

A segunda é o desejo, o anseio e a inclinação sexual. A preservação da espécie humana e a continuidade da linhagem dependem disso. Esse anseio, inerente à natureza humana, é extremamente intenso, poderoso e difícil de controlar. Sua particularidade é obrigar insistentemente cada indivíduo a satisfazê-lo como expressão de seus próprios desejos e vontades:

A postura do ser humano diante do desejo sexual

1. A pessoa pode soltar as rédeas desse desejo. Não observará qualquer controle ou moderação no caminho de satisfazê-lo arbitrária e indiscriminadamente. Por isso, não dará a menor importância a nenhum obstáculo ou controle religioso, moral ou social, e continuará violando tudo. Uma posição nesse caso é que tudo é permitido e nada é proibido. Os adeptos dessa posição não seguem nenhuma religião nem acreditam em qualquer pureza moral. É essa a postura que adotam para satisfazer o desejo sexual. Mas essa postura reduz o ser humano ao nível dos animais e das feras. E provoca uma devastação total no indivíduo, na família, na sociedade e, consequentemente, no Estado.

2. A segunda postura possível é enfrentar esse desejo, reprimi-lo com grande força e destruí-lo pela raiz, para que essa vontade jamais possa levantar a cabeça. Aqueles que praticam o ascetismo, adotam o monasticismo e tendem a privar-se de tudo são os que assumem, neste caso, a postura acima mencionada. Com essa postura, a própria inclinação natural é eliminada. Ela é completamente contrária à disposição estabelecida desde o nascimento para a satisfação desse desejo. Essa postura é inteiramente contrária à contribuição que esse desejo é capaz de oferecer à preservação da linhagem humana.

3. O terceiro papel pode ser este: estabelecer regras e controles para a satisfação desse desejo. Ele será livre e aberto dentro dos limites dessas regras e controles; não será eliminado, nem se permitirá que transgrida os limites como um louco. As religiões celestiais adotaram precisamente esse princípio. Por isso, em quase todas as religiões, a fornicação foi declarada haram e foi instituído um sistema adequado de casamento. Em particular, o Islã reconheceu o desejo humano como uma força natural e concebeu meios para satisfazê-lo por vias halal. Condenou e proibiu a tendência ao celibato e a evitar o contato com mulheres. Por outro lado, a zina e a fornicação, bem como todas as ações relacionadas que conduzem as pessoas nessa direção, foram declaradas proibidas.

Basta refletir para reconhecer que a política e a postura adotadas pelo Islã constituem uma orientação moderada, justa e equilibrada. Pois, se o casamento não fosse instituído, essa força natural seria incapaz de cumprir sua função de garantir a continuidade da linhagem humana. Por outro lado, se a zina e a fornicação não fossem proibidas e não fosse estabelecido para a mulher o vínculo de casamento exclusivo com um homem, não poderia formar-se a estrutura familiar, que é o centro das manifestações de afeição, romance e amor. Sem a formação de tal instituição familiar, a sociedade não poderia ser construída. Tampouco haveria oportunidade para o desenvolvimento e o progresso da sociedade.

Não vos aproximeis da zina

Quando vemos que todas as religiões celestiais, em uníssono, declararam a zina e a fornicação completamente haram e lhes declararam guerra, isso não desperta em nós a menor surpresa. O Islã é a última religião revelada do céu. Nesse assunto, adotou extrema severidade: proibiu-o, declarou-o haram e pronunciou advertências especiais sobre todas as causas que levam à mistura das linhagens, à destruição da descendência, ao surgimento da desintegração e da calamidade familiar, à ruptura das boas relações mútuas, à propagação de doenças contagiosas, ao aumento da intensidade da luxúria e à destruição do caráter. Por isso, Allah Ta’ala não se limitou a proibir a zina; Ele disse:(Árabe****************)

Não vos aproximeis da zina. Pois ela é uma indecência extrema e um caminho muito mau. (Surata Al-Isrá: 32)

Vemos que, quando o Islã declara algo haram, ele fecha todos os caminhos que levam a esse ato haram — todas as ações que conduzem as pessoas até ele — e também as declara haram.

Assim, o Islã declarou proibidas e completamente haram todas as ações que aumentam a excitação sexual, levam homens ou mulheres à beira da decadência moral, os incentivam à indecência, os conduzem até ela ou facilitam esse caminho. Pois, se o caminho para o haram permanecer aberto e fácil, ninguém poderá proteger-se do próprio haram. Torna-se completamente impossível impedir a corrupção.

É haram encontrar-se a sós com uma mulher estranha

Neste ponto, há uma questão importante: reunir-se em reclusão e isolamento com uma mulher estranha, quando essa mulher não é sua esposa, nem é uma mahram, como sua mãe, irmã, tia paterna ou tia materna. Isso não é simplesmente uma questão de desconfiança; em tal situação, ambos podem, sob os sussurros de Satanás, envolver-se em atos que prejudiquem o caráter. Esta é uma medida para protegê-los disso. Quando se põe fogo num fio de cera, é natural que a cera comece a derreter com o calor. Antes, é anormal que dois jovens, um homem e uma mulher estranhos, possam reunir-se em reclusão sem que surja a situação inevitável de ambos se fundirem em atração mútua. Pois não há ali uma terceira pessoa. Neste ponto, são memoráveis as palavras do Nobre Mensageiro (s.a.). Foi declarado: (Árabe****************)

Quem crê em Allah e no Dia do Juízo não deve encontrar-se a sós com uma mulher dessa maneira, sem que esteja presente ali uma pessoa mahram, homem ou mulher. Pois, em tal momento, Satanás estará presente entre os dois como uma terceira pessoa. E todos conhecem bem as artimanhas de Satanás. (Musnad Ahmad)

Versículo do Alcorão Sagrado sobre as esposas do Profeta: (Árabe****************)

Se pedirdes alguma coisa às esposas do Profeta, pedi-a de trás de uma cortina. Isso é uma medida melhor para manter puros os vossos corações e os delas. (Surata Al-Ahzab: 53)

A propósito da exegese deste versículo, o Imam Qurtubi escreveu:

Neste versículo, faz-se alusão aos sentimentos que naturalmente despertam no coração dos homens em relação às mulheres e no das mulheres em relação aos homens; isto é, se for seguido o princípio de pedir as coisas de trás de uma cortina, não surgirá qualquer suspeita. Ninguém poderá fazer uma falsa acusação. E, para preservar a honra, esta medida também é mais preventiva. Daqui também se compreende que, ao encontrar-se a sós em reclusão com uma mulher não-mahram, é maior o risco de não conseguir controlar-se. Portanto, é melhor evitar isso. Nessa situação, também é mais fácil preservar a própria pureza moral.

Neste ponto, o Nobre Mensageiro (s.a.) também proferiu uma advertência sobre a convivência íntima da esposa com os parentes próximos do marido. O irmão do marido, o primo paterno e outros semelhantes são parentes próximos do marido, e não é anormal que haja convivência íntima com eles. Neste caso, frequentemente se vê que se adota uma atitude de negligência e quase não se pensa nas consequências; contudo, a intimidade e o isolamento profundo com alguém próximo são ainda mais perigosos. Em tal situação, não é anormal nem raro que ocorra um desvio moral.

Pois, quanto mais facilmente um “próximo” pode entrar na casa de uma mulher — e, quando entra, ninguém tem nada a dizer —, tanto menos isso é possível para alguém completamente sem parentesco e desconhecido.

O mesmo se aplica aos parentes homens próximos da própria esposa que não sejam mahram. Primos paternos, maternos e por parte da tia estão incluídos nessa categoria. Portanto, não é permitido ficar a sós com qualquer um deles. O nobre Profeta (que a paz esteja com ele) disse:(Árabe****************)

Não entreis em reclusão íntima com mulheres estranhas. Um companheiro ansarita perguntou: Ó Mensageiro! O que dizeis sobre os parentes próximos do marido? O nobre Mensageiro respondeu: Os parentes próximos do marido são equivalentes à morte.

Isto é, essa reclusão íntima traz perigo e destruição. Se o pecado chegar a ser cometido, então haverá destruição no aspecto religioso; e, se o marido descobrir isso e se divorciar dela, terá início a ruína da vida conjugal. Além disso, quando surgem suspeitas, más opiniões e desconfiança entre parentes próximos, os laços das relações sociais e coletivas se rompem completamente. Sem dúvida, isso constitui uma catástrofe abrangente.

A verdade é que o efeito de um homem e uma mulher estranhos ficarem a sós em isolamento não recai apenas sobre as emoções e os pensamentos das pessoas; é inevitável que sua intensa reação se reflita sobre toda a família, sobre a estabilidade da vida conjugal entre marido e mulher e sobre tudo o que diz respeito às conversas secretas entre eles. Além disso, isso oferece aos difamadores mentirosos e aos tagarelas uma grande oportunidade de espalhar afirmações infundadas. O objetivo dessas pessoas não é restaurar a estabilidade da vida conjugal, mas tão somente provocar ruptura e desastre.

Ibn Amir disse: assim como os árabes dizem(Árabe****************)(o leão é a morte), dizem também:(Árabe****************)(o administrador é o fogo), isto é, encontrar essas duas coisas equivale, para uma pessoa, a encontrar a morte e o fogo; da mesma forma, dizem:(Árabe****************)(os parentes próximos do marido são equivalentes à morte), isto é, ficar a sós com os parentes próximos do marido é muito mais grave e perigoso do que ficar a sós com um homem totalmente estranho e sem parentesco. Isso ocorre porque, muitas vezes, eles despertam no coração da esposa desejos cuja satisfação é extremamente difícil e penosa para o pobre marido. Muitas vezes, também, eles se mostram inclinados a adotar uma conduta inadequada. Além disso, o marido de modo algum gostaria que seus parentes entrassem no interior de sua casa durante sua ausência e descobrissem detalhes de sua situação privada.

Olhar para o sexo oposto com lascívia

O Islã declarou ilícito que um homem olhe para uma mulher estranha ou que uma mulher olhe para um homem estranho. Isso porque os olhos são a janela do coração. O olhar é uma força que anuncia antecipadamente a desgraça e, portanto, leva a mensagem da fornicação. Um antigo poeta árabe disse:(Árabe****************)

O início de todo tipo de acidente está no olhar. De uma simples faísca pode erguer-se um incêndio devorador.

Um poeta contemporâneo disse:(Árabe****************)

Primeiro, um olhar; depois, um doce e discreto sorriso; em seguida, a troca de cumprimentos. Depois, a conversa; depois, promessas e compromissos; e, por fim, o encontro.

Por essa razão, Allah ordenou a todos os homens e mulheres crentes que baixassem reciprocamente o olhar e, juntamente com isso, determinou que preservassem a castidade. Disse:(Árabe****************)

Dize aos homens crentes que baixem o olhar e preservem a castidade. Isso é mais puro para eles. Allah está bem informado sobre o que fazem. Do mesmo modo, dize às mulheres crentes que baixem o olhar e preservem a castidade.

Nestes dois versículos, tanto às mulheres quanto aos homens foi ordenado que baixassem o olhar e preservassem a castidade. A expressão usada no Alcorão para a ordem de baixar o olhar é:(Árabe****************)Isto é, não se ordenou que se baixasse todo e qualquer olhar, mas apenas alguns olhares. Contudo, no que diz respeito à preservação da castidade, não se especificou nenhuma parte; ordenou-se que ela fosse preservada completa e integralmente. Pois é isso que a Shariah exige. A questão do olhar, porém, é diferente. Para atender às necessidades, afastar perigos e encontrar o caminho do bem, Allah demonstrou nisso especial indulgência e liberalidade. Mas não é assim no caso da castidade.

Portanto, baixar o olhar não significa que a pessoa deva fechar os olhos ou inclinar a cabeça em direção ao chão de tal maneira que nada veja além da terra. Tampouco é isso que o versículo afirma. E isso nem sequer seria possível. No versículo 19 da Surata Luqman, foi dito:(Árabe****************)— e modera algumas de tuas vozes.’ Nesse versículo, não se ordenou que se mantivesse a boca fechada, nem que todo tipo de voz tivesse de ser reduzido a um sussurro.(Árabe****************)— significa não permitir que o olhar vagueie sem restrições; não é desejável lançar os olhos sobre tudo o que está por perto. Assim, quando o olhar recair sobre alguém do sexo oposto, não se deve fixá-lo para embriagar-se com o néctar de sua beleza, nem voltar-se repetidamente para observá-lo. Esse é o verdadeiro sentido do versículo.

O nobre Mensageiro disse a Ali:(Árabe****************)

Ó Ali, não lance um olhar depois de outro. Podes olhar na primeira vez, mas não na segunda. (Ahmad, Abu Dawud, Tirmidhi)

Chamou de zina dos olhos o olhar cobiçoso e lascivo dirigido ao sexo oposto. Nas palavras do hadith:(Árabe****************)

Os dois olhos também cometem zina. E isso consiste no olhar. (Bukhari)

O olhar foi chamado de zina porque, por meio dele, também se tem a oportunidade de experimentar uma espécie de prazer. E, dessa maneira, o desejo sexual é satisfeito por um meio contrário à sharia. Há uma declaração semelhante atribuída a Jesus, que a paz esteja sobre ele, no Evangelho:

Já vos era dito anteriormente: não cometereis zina; mas eu vos digo que aquele que olhou com os próprios olhos cometeu zina.

Esse olhar cobiçoso e lascivo não é perigoso apenas para a pureza moral e a castidade; também é muito prejudicial à concentração da mente e à paz e tranquilidade do coração. Pois é inevitável que ele produza na mente extremo desconforto e inquietação.

É haram lançar o olhar sobre as partes íntimas

A ordem de baixar o olhar no Islã é uma ordem geral. Portanto, ao olhar para as partes íntimas, é um dever importante desviar imediatamente os olhos. Pois o nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) proibiu olhar para as partes íntimas, sejam elas de um homem ou de uma mulher, com desejo sexual ou sem ele; e essa determinação se aplica igualmente a homens e mulheres. O nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse:(Árabe****************)

Nenhum homem deve olhar para as partes íntimas de outro homem, e nenhuma mulher deve olhar para as partes íntimas de outra mulher. E nenhum homem deve ficar junto de outro homem sob uma única roupa, nem uma mulher junto de outra mulher sob uma única roupa.

Por partes íntimas do homem entende-se a parte do corpo situada entre o umbigo e os joelhos. Não é permitido a nenhum homem ou mulher olhar para essa parte. Contudo, segundo alguns imames, como Ibn Hazm, as coxas não estão incluídas nela.

Quanto às partes íntimas da mulher diante de homens estranhos, todo o seu corpo, exceto o rosto e as palmas das duas mãos, é considerado parte íntima. Quanto aos homens mahram — como o pai e o irmão — trataremos mais adiante das partes íntimas da mulher.

Além disso, a parte do corpo considerada íntima, para a qual não é permitido que outra pessoa olhe, também não pode ser tocada por outra pessoa com a mão ou com qualquer parte do corpo.

Tudo o que foi dito sobre ver ou tocar as partes íntimas refere-se à situação normal, quando não existe realmente nenhuma necessidade. Porém, se surgir uma necessidade verdadeira, isso não será proibido; por exemplo, quando essa necessidade surge durante um tratamento médico ou ao prestar socorro. E o que foi dito sobre a permissibilidade de olhar está condicionado a que esse olhar não cause nenhum tipo de perigo. Caso contrário, a permissão para olhar será anulada, pois impedir o caminho que conduz ao pecado original é um princípio fundamental da Sharia.

Olhar para homens ou mulheres

Do que foi dito acima fica claro que é permitido à mulher olhar para as partes do corpo do homem que não sejam as suas partes íntimas — isto é, exceto a região entre o umbigo e os joelhos — enquanto esse olhar não despertar qualquer desejo sexual nem houver receio de algum tipo de perigo. O Mensageiro de Deus (que a paz esteja sobre ele) permitiu que Aisha (que Deus esteja satisfeito com ela) olhasse para os abissínios, que apresentavam uma exibição com suas armas na própria Mesquita do Profeta. Assim, ela os observava por detrás de uma cortina. Mais tarde, quando ela própria se cansou, retirou-se dali. (Bukhari, Muslim)

É permitido ao homem olhar para as partes do corpo da mulher que não sejam íntimas — o rosto e as palmas das duas mãos — desde que esse olhar não esteja acompanhado de qualquer desejo sexual nem haja receio de que um pecado seja cometido.

É narrado por Aisha (que Deus esteja satisfeito com ela) que Asma, filha de Abu Bakr (que Deus esteja satisfeito com ele) — sua irmã — compareceu diante do Profeta (que a paz esteja sobre ele). Ela usava uma roupa tão fina que através dela se tornava visível o contorno de seu corpo. Ao vê-la, o Profeta (que a paz esteja sobre ele) desviou o olhar e disse:(Árabe****************)

Ó Asma, quando uma mulher atinge a maturidade, não é apropriado que qualquer parte do seu corpo, exceto o rosto e as palmas das mãos, fique visível. (Abu Dawud)

Embora este hadith seja fraco quanto à sua cadeia de transmissão, essa fraqueza foi superada, pois, neste assunto, diversos hadiths autênticos relatam que é permitido olhar para o rosto e as palmas das mãos, desde que não haja receio de tentação.

Em suma, é permitido e lícito olhar inocentemente para as partes do corpo do homem ou da mulher que não constituem as partes íntimas. Contudo, não é permitido olhar repetidamente nem fixar o olhar com atenção e prazer, pois é justamente daí que pode resultar o perigo.

Entretanto, não haverá culpa se o olhar cair subitamente sobre uma parte que não é lícito ver. Isso faz parte da liberalidade do Islã. Foi narrado por Jarir ibn Abdullah (que Allah esteja satisfeito com ele), que disse:(Árabe****************)

Quando perguntaram ao Nobre Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) sobre o olhar involuntário, ele respondeu: Desvia o teu olhar para outra direção.

Ou seja, não deve olhar uma segunda vez depois da primeira.

O problema da exposição da beleza da mulher

Acima, falou-se sobre desviar o olhar. Em dois versículos, foram estabelecidas, nesse assunto, normas tanto para as mulheres quanto para os homens. No terceiro versículo, menciona-se especificamente uma instrução dirigida às mulheres. A instrução é a seguinte:(Árabe****************)

Elas não devem exibir seus adornos. Exceto aquilo que aparece naturalmente; sobre isso há uma disposição distinta. (Surata An-Nur: 31)

Por “adornos” da mulher entendem-se todas as coisas que a tornam adornada e bela. Isso inclui a beleza natural, como o rosto, os cabelos e o rubor do corpo. Inclui também a beleza e o encanto adquiridos por meio de roupas, joias, cosméticos e semelhantes. No versículo anteriormente citado, Allah, o Altíssimo, ordenou às mulheres que ocultassem seus adornos e não os exibissem. Fica excluído disso apenas aquilo que aparece naturalmente.

Diferentes exegetas chegaram a conclusões diversas ao determinar o que se entende por “aquilo que aparece naturalmente”.

Foi levantada a questão: “Aquilo que aparece naturalmente” significa somente o que se torna visível por necessidade, sem qualquer intenção, como quando algo é descoberto por uma rajada de vento? Ou significa aquilo que normalmente e habitualmente fica visível? ….. A questão fundamental aqui é que se torne visível.

Foi relatado que a maioria dos sábios das gerações anteriores sustentava precisamente esta última opinião.

Foi relatado que Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele), ao comentar a parte “aquilo que aparece naturalmente”, disse que se trata do surma para os olhos, do kajal, do pó, dos anéis e semelhantes. Uma opinião semelhante também foi relatada de Anas (que Allah esteja satisfeito com ele).

É permitido aplicar surma nos olhos e usar anéis nos dedos. Por isso, é inevitável que essas duas partes fiquem visíveis. Elas são o rosto e as duas mãos. Uma opinião semelhante também foi relatada de Sa‘id ibn Jubayr, Ata, Awzai e outros.

Aisha, Qatada e outros também incluíram nisso as pulseiras usadas nos dois braços. A parte do braço correspondente a elas fica excluída da beleza cuja exibição é proibida. Há divergência quanto ao limite: se vai do punho até a metade do antebraço.

Em contraste com essa interpretação abrangente, outros adotaram uma interpretação restritiva. Hazrate Abdullah ibn Mas‘ud, An-Nakha‘i e outros disseram, ao explicar a expressão “aquilo que aparece espontaneamente”, que ela se refere ao manto e às roupas usadas sobre o corpo. Isso porque não é possível escondê-los e cobri-los.

No entanto, muitos Companheiros e Tabi‘in afirmaram claramente, com base na expressão “aquilo que aparece espontaneamente”, que ela se refere ao rosto e às duas mãos, bem como àquilo que, além disso, não puder ser ocultado. Considero que esta interpretação merece preferência. Os anéis nas mãos, o kohl nos olhos e coisas semelhantes estão incluídos nisso.

O caso do sindoor, do esmalte e do pó é diferente. As mulheres de hoje usam essas coisas nas faces, nos lábios e nas unhas. Mas isso constitui um excesso muito indesejável. Esses produtos só podem ser usados dentro de casa. Contudo, atualmente as mulheres os usam ao sair de casa com o objetivo de atrair os olhares dos homens. Essa prática é totalmente haram. Não é correto pensar que, na expressão “aquilo que aparece espontaneamente”, se tenha querido dizer apenas coisas externas, como o manto ou o véu. Isso porque é perfeitamente natural que essas roupas sejam visíveis; elas não podem deixar de aparecer. Portanto, não pode haver qualquer ordem para escondê-las. Também não é aceitável entender que se trata apenas “daquilo que aparece por causa do impacto do vento”, pois nisso a pessoa não tem qualquer controle. Assim, dizer algo ou nada sobre isso seria a mesma coisa. O que se entende facilmente por essa expressão é que, entre aquilo que pode ser escondido, esses elementos ficam excluídos no que diz respeito à sua exposição. Isso constitui uma concessão para as mulheres crentes. E é certamente razoável que essa concessão se aplique ao rosto e às duas mãos.

É preciso compreender a razão dessa concessão no caso do rosto e das duas mãos. Isso porque é muito difícil para as mulheres manter essas duas partes sempre escondidas. Especialmente quando precisam sair de casa por uma necessidade legítima, não se pode negar que se torna necessário expor essas duas partes. Por exemplo, uma viúva precisa sair para adquirir os artigos de necessidade diária para os seus filhos órfãos; e, quando mulheres de famílias pobres precisam sair para ajudar os seus maridos, torna-se indispensável deixar o rosto e as mãos descobertos. Em situações assim, se o rosto e as duas mãos estiverem cobertos, a locomoção se tornará extremamente difícil e penosa.

O Imam Qurtubi disse:

O rosto e as duas mãos geralmente ficam descobertos, especialmente durante a realização de atos de adoração como a oração, o Hajj e a Umrah. Portanto, é mais correto considerar que esses membros foram excluídos da ordem de mantê-los cobertos pela expressão “porém, aquilo que aparece espontaneamente”. O hadith narrado por Hazrate Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) indica exatamente isso. O hadith é o seguinte (já foi citado anteriormente):(Árabe****************)

Quando Asma, filha de Hazrate Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele), compareceu perante o Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), usava uma roupa fina. O Mensageiro de Allah desviou o olhar dela e disse: “Ó Asma! Quando uma mulher atingir a maturidade, não deve ficar visível do seu corpo nada além do rosto e das duas mãos.”

As palavras seguintes de Allah, o Altíssimo, também corroboram o que foi dito acima:(Árabe****************)

Dize aos crentes que baixem o olhar. (Surata An-Nur: 30)

Disso se entende que, precisamente porque o rosto das mulheres não está coberto, mas descoberto, foi ordenado aos homens que baixem o olhar, isto é, que não olhem para esse rosto.

Pois, se o rosto também estivesse coberto, juntamente com todo o corpo, não haveria sentido em ordenar que baixassem o olhar. Afinal, não haveria nada ali para ser visto.

Apesar disso, é dever da mulher muçulmana esforçar-se ao máximo para ocultar toda a sua beleza e os seus adornos. Ela não deve sequer deixar o rosto descoberto, pois é ao vê-lo que começa a corrupção moral. A ampla disseminação da rebeldia contra Deus nesta época tornou essa necessidade ainda mais urgente. Se a mulher for bela e formosa, não se pode sequer pensar em outra coisa senão cobrir-lhe o rosto. Isso porque é a beleza e o encanto do rosto da mulher que mais atraem o homem.

(Árabe****************)

E que apertem a extremidade dos seus dupattas sobre o peito.

A mulher muçulmana deve cobrir a cabeça com o seu dupatta, mantendo uma cobertura sobre a cabeça, e deve cobrir o peito, com qualquer tipo de tecido que seja possível. Assim, esses membros que podem causar perigos não ficarão descobertos, nem os olhares perscrutadores dos homens perversos e os olhos cobiçosos das abelhas poderão pousar sobre eles.

(Árabe****************)

E não exibirão sua beleza diante de ninguém além de seus maridos e pais. (Surata An-Nur: 31)

Esta ordem determina às mulheres crentes que não exibam sua beleza oculta diante de homens não mahram, mas que a mantenham escondida. Por beleza oculta entendem-se as orelhas, os cabelos, a garganta, o pescoço, o peito, as canelas e outras partes semelhantes. Embora lhes seja permitido expor o rosto e ambas as mãos diante de homens não mahram, a prolação desta proibição é muito significativa.

Doze categorias de pessoas foram excluídas desta proibição:

1. Seus maridos. Portanto, é plenamente permitido ao marido ver qualquer parte do corpo de sua esposa. No hadith, é dito:(Árabe****************)

Protege e mantém cobertas as tuas partes íntimas diante de todos, exceto do teu marido.

2. O pai, incluindo o avô e o bisavô, seja pelo lado paterno ou pelo lado materno.

3. O pai do marido, que é como o próprio pai.

4. Seus filhos; também estão incluídos os filhos de seus filhos — inclusive as filhas.

5. O filho do marido — isso é inevitável. Além disso, nessa casa, ela é como uma mãe para eles.

6. Seus irmãos, tanto germanos quanto consanguíneos ou uterinos — isto é, filhos do mesmo pai ou da mesma mãe.

7. O filho do irmão, pois o casamento entre a tia paterna e o sobrinho é totalmente proibido.

8. O filho da irmã, pois o casamento entre a tia materna e o filho da irmã é permanentemente proibido.

9. As mulheres pertencentes a elas. É permitido encontrar-se livremente com todas as mulheres que sejam suas parentes por linhagem ou que compartilhem a mesma religião. Contudo, não é permitido às mulheres não muçulmanas verem a beleza das mulheres muçulmanas. Só se pode mostrar a elas aquilo que se pode mostrar a homens estranhos.

10. Os escravos e as escravas, pois o Islã os tornou membros da família. Segundo alguns imames, essa permissão se aplica apenas às escravas, e não aos escravos.

11. Homens subordinados e sem desejo sexual. Em primeiro lugar, eles são subordinados; em segundo, não sentem nenhuma atração especial pelas mulheres — seja por causa de incapacidade física, seja por imaturidade intelectual e mental. Isso inclui os empregados assalariados comuns que realizam as tarefas domésticas e são obrigados a entrar e sair da casa, sem que haja qualquer receio de perigo devido à ausência de atração sexual.

12. Os meninos que ainda não sentem nenhuma atração pelas partes íntimas das mulheres. Eles são pequenos, menores de idade, e sua consciência sexual ainda não despertou. Quando se perceber que essa consciência despertou, não será permitido expor diante deles a beleza oculta das mulheres, mesmo que ainda não tenham atingido a maioridade.

No versículo do Alcorão, o tio paterno e o tio materno não foram mencionados, pois são equivalentes ao pai. No hadith, foi dito:(Árabe****************)

O tio paterno equivale ao pai

A ‘awrah das mulheres

Com base na discussão anterior, sabemos que as partes do corpo feminino cuja exposição não é permitida constituem a sua ‘awrah; é obrigatório cobri-las, e deixá-las descobertas é absolutamente haram.

Portanto, diante de homens estranhos e também perante mulheres não muçulmanas, todo o corpo da mulher, exceto o rosto e as duas mãos, deve ser necessariamente coberto, pois constitui a sua ‘awrah. Como o rosto e as mãos precisam permanecer descobertos para atividades como realizar e receber transações e outras tarefas, é permitido deixá-los descobertos, como escreveu o imã Razi. Além disso, foi ordenado cobrir as partes do corpo que não é necessário manter ou tornar expostas. Foi permitido descobrir aquilo que normalmente fica exposto por natureza e cuja exposição se torna necessária. Isso porque as normas da sharia islâmica são equilibradas e voltadas para o bem-estar humano. O imã Razi escreveu:

Todos concordaram que, como é necessário expor o rosto e as palmas das mãos, eles não são considerados partes íntimas das mulheres. Contudo, não é necessário manter os pés descobertos. Por isso, surgiu divergência quanto a saber se eles devem ser considerados parte da ‘awrah da mulher.(Árabe****************)

Como foi mencionado no versículo da surata An-Nur, diante das doze categorias de homens acima mencionadas, todos os membros do corpo devem ser cobertos, exceto as orelhas, o pescoço, os cabelos, o peito, os dois braços e as duas canelas. A sharia permitiu que essas partes fossem expostas diante deles. Além disso, é absolutamente inadmissível expor outras partes do corpo, como as costas, o abdômen, os órgãos genitais e as coxas, diante de qualquer homem ou mulher que não seja o marido.

Esse significado do versículo está muito próximo da opinião de alguns imãs. Para os homens mahram, a ‘awrah da mulher limita-se à área entre o umbigo e os joelhos. Para as outras mulheres, esse também é o limite. Segundo alguns especialistas, para os homens mahram, a ‘awrah da mulher compreende apenas aquilo que nem sequer fica exposto durante as relações sexuais. As partes do corpo feminino que normalmente ficam descobertas enquanto a mulher realiza as tarefas domésticas não são proibidas ao olhar dos homens mahram.

A ordem de Allah às mulheres crentes é que, quando saírem de casa para realizar seus afazeres, cubram todo o corpo com um grande manto. Assim, sua distinção em relação às demais mulheres descrentes e de mau caráter ficará evidente diante de todos. Allah, o Altíssimo, ordenou ao Seu Profeta que transmitisse isso a toda a comunidade. Foi dito:(Árabe****************)

Ó Profeta! Dize a tuas esposas, a tuas filhas e às mulheres crentes que cubram seus corpos com seus mantos. Isso é o modo mais adequado. Assim, serão reconhecidas e não serão importunadas por ninguém.

(Árabe****************)É uma palavra no plural. No singular, (Árabe****************)significa uma vestimenta ampla. O véu usado nos dias atuais se enquadra nessa categoria.

Na época da Jahiliyyah, quando as mulheres saíam de casa, deixavam expostas algumas de suas belezas — o peito, o pescoço, os cabelos e outras partes. Homens de mau caráter passavam a persegui-las. Foi nessa situação que este versículo foi revelado. Nele, ordenou-se às mulheres crentes que colocassem uma parte de seus mantos sobre a cabeça, para que essas partes do corpo permanecessem cobertas. E, pela aparência externa, fossem reconhecidas como mulheres de caráter casto. Assim, nenhum homem hipócrita e desavergonhado as importunaria, nem ousaria fazê-lo.

O versículo menciona explicitamente uma razão: a importunação e o assédio das mulheres por homens depravados e mal-intencionados. Não há nisso motivo para infundir medo nas mulheres, nem se atribuiu a elas qualquer desconfiança. Se alguém pensar assim, não terá qualquer argumento. Pois uma mulher despida e adornada, ou que caminhe de maneira sedutora e graciosa, sempre desperta nos homens excitação sexual, cobiça e desejo. Aqueles que se envolvem em contato físico ou dão as mãos às mulheres acabam tornando-se gananciosos e dominados pelo desejo. Por isso, o Alcorão diz:(Árabe****************)

Não faleis com voz suave, para que o homem cujo coração está enfermo não se deixe dominar pelo desejo.

O Islam adotou grande rigor na preservação do recato e da castidade das mulheres muçulmanas. Nesse assunto, mostrou pouquíssima tolerância. Por exemplo, ao conceder certa indulgência quanto ao recato das mulheres idosas, Allah, o Altíssimo, declarou:(Árabe****************)

As mulheres idosas — que não esperam casar-se — não cometerão pecado se deixarem de lado seus mantos. Contudo, a condição é que não exibam sua beleza e seus adornos. Mas, se forem cautelosas quanto a isso, será muito melhor para elas. E Allah ouve tudo e sabe tudo.

No versículo (Árabe****************)a expressão refere-se às mulheres que, devido à velhice, já se retiraram da vida ativa, não menstruam e não têm esperança de ter filhos. Por isso, não são desejadas para um novo casamento. Elas também não têm desejo, paixão ou interesse pelos homens, e os homens tampouco sentem qualquer atração por elas. Assim, Ele tornou menos rigorosa a regra relativa ao véu e à cobertura das partes íntimas dessas mulheres. Foi-lhes permitido retirar as vestes externas e visíveis, como o manto ou a burca.

Essa concessão também foi dada sob certas condições. A condição é que elas não podem tirar as roupas com o propósito de se exibirem às pessoas. Quando houver necessidade, poderão aproveitar-se dessa concessão.

Apesar dessa concessão, é melhor para elas adotarem a conduta mais virtuosa e tomarem precauções para se manterem livres de toda dúvida ou suspeita.

A entrada das mulheres em banhos públicos

Para proteger o recato e a honra das mulheres, o Islã adotou uma política rigorosa; por isso, o nobre Mensageiro (S.A.) pronunciou uma severa proibição contra a entrada das mulheres em banhos públicos e contra a retirada das roupas diante de outras mulheres. Isso porque essas mulheres comuns estão acostumadas a descrever, em suas reuniões e encontros, os atributos físicos de outras mulheres e a deleitar-se com isso.

O nobre Profeta (S.A.) também proibiu os homens de entrarem em banhos públicos sem usar um lungi ou um gamcha. Isso porque ficar nu diante de outras pessoas não é de modo algum uma prática apreciada no Islã. É narrado por Hadrat Jabir que o nobre Profeta (S.A.) disse: (Árabe****************)

Quem crê em Allah e no Último Dia não deve entrar em um banho público sem um lungi. E quem crê em Allah e no Último Dia não deve permitir que sua esposa entre em um banho público.

É narrado por Hadrat Aisha: (Árabe****************)

O nobre Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) inicialmente proibiu, de modo geral, a entrada nos banhos públicos. Mais tarde, permitiu aos homens entrar usando um lungi.

Às mulheres foi concedida a facilidade de poderem entrar nos banhos públicos para tratar alguma doença ou para se purificarem do nifas e de condições semelhantes.

Foi narrado por Abdullah ibn Amr (que Allah esteja satisfeito com ele):(Árabe****************)

O nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), referindo-se aos banhos públicos, disse que os homens não deveriam entrar neles sem usar um lungi. E proibiu as mulheres de entrar neles. Contudo, mulheres doentes ou em nifas podem entrar. (Ibn Majah, Abu Dawud)

A cadeia de transmissão deste hadith apresenta certa fraqueza. Contudo, considerando que as disposições gerais da sharia concedem muitas facilidades aos doentes e os isentam de várias formas de adoração e atos obrigatórios, o conteúdo deste hadith torna-se, sob esse aspecto, bastante sólido. Como famoso princípio fundamental da lei islâmica, foi dito:(Árabe****************)

Se a causa ou o meio de impedir um ato haram também tiver sido declarado haram, então, em caso de necessidade e por uma questão de benefício público geral, ele se torna permitido.

A veracidade do que foi dito acima também pode ser compreendida sob esse aspecto.

O hadith narrado por Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) também corrobora esta afirmação. O hadith é o seguinte:(Árabe****************)

O nobre Profeta (que a paz esteja com ele) disse: “Afastai-vos do lugar chamado ‘hammam’.” Os Companheiros disseram: “Ó Mensageiro de Deus! O hammam remove a sujeira e beneficia os enfermos, não é?” Então ele disse: “Nesse caso, quem quer que entre nele deve manter cobertas as suas partes íntimas.” (Al-Hakim)

Nessas circunstâncias, se uma mulher entrar nele sem qualquer desculpa ou necessidade, terá cometido um ato ilícito e merecerá a severa advertência proferida pelo nobre Mensageiro de Deus (que a paz esteja com ele). Abu Mulayth al-Hudhali (que Deus esteja satisfeito com ele) narrou:(Árabe****************)

Algumas mulheres de Hims ou da Síria foram à presença de Aisha (que Deus esteja satisfeito com ela). Ela lhes perguntou: “Vós entrais em banhos públicos?” Ouvi o nobre Mensageiro de Deus (que a paz esteja com ele) dizer: “A mulher que tira suas roupas em qualquer lugar que não seja a casa de seu marido rasga o véu entre ela e seu Senhor.”

Foi narrado por Umm Salama (que Deus esteja satisfeito com ela) que o nobre Profeta (que a paz esteja com ele) disse:(Árabe****************)

“A mulher que tira suas roupas em qualquer lugar que não seja sua própria casa, Deus rasga o seu véu.” (Ahmad, at-Tirmidhi, al-Hakim)

Quando o Islã é tão rigoroso quanto à entrada de mulheres em banhos públicos, embora estes sejam cercados por quatro paredes e neles entrem somente mulheres, o que dizer então dessas mulheres despudoradas e errantes que andam pelas ruas expondo suas partes íntimas, despertando a luxúria dos que desejam usufruir delas, exibindo seus corpos à beira-mar, oferecendo um espetáculo para os olhares ávidos e lascivos e permanecendo sempre ocupadas em despertar os desejos sexuais?……. Na realidade, elas rasgaram todos os véus e barreiras de pudor e modéstia mantidos entre elas e o Deus Altíssimo. Os homens também participam igualmente desse pecado, pois foram designados responsáveis e protetores das mulheres……… Ai de nós! Será que o bom senso dos homens jamais retornará?

É ilícita a nudez e a libertinagem das mulheres

A mulher muçulmana possui um caráter distinto e diferente do das mulheres não muçulmanas ou das mulheres da época da Jahiliyyah. A observância do caráter moral, da pureza, da castidade e do decoro e pudor é a característica especial das mulheres muçulmanas.

Por outro lado, o caráter da mulher da jahiliah consiste em nudez, licenciosidade e na demonstração de habilidade para despertar a excitação sexual entre os homens. A palavra usada no Alcorão(Árabe****************) significa: abrir-se, tornar-se aberto, aparecer, tornar-se manifesto; estar ao alcance da visão das pessoas em geral. Por essa semelhança, em árabe usa-se a expressão:(Árabe****************)

Isso porque o firmamento está situado bem alto e exposto diante de quem o contempla.

O erudito Al-Zamakhshari disse(Árabe****************) que o sentido profundo da palavra é revelar, com especial cuidado e preparação, aquilo que deveria ser mantido oculto. Em árabe, diz-se:(Árabe****************) “um barco visível”, pois não há qualquer cobertura sobre ele. Em razão da correspondência desse significado, a palavra é usada para designar a mulher que se descobre e se desnuda diante dos homens. Ao fazer isso, ela expõe diante deles toda a sua beleza, o encanto e o esplendor do seu corpo. O Imam Al-Zamakhshari apontou ainda um novo aspecto desse significado: revelar deliberadamente e com preparação aquilo que deveria ser mantido oculto. Expor diante de homens estranhos partes específicas do corpo, os movimentos e balanços dos membros, modos e maneiras particulares de falar e caminhar, ou adornos — tudo isso é tabarruj.

O tabarruj possui várias formas e maneiras, tão bem conhecidas pelas pessoas de hoje quanto eram pelas pessoas dos tempos antigos. Os exegetas mencionaram-nas ao comentar o seguinte versículo do Alcorão:(Árabe****************)

Ó mulheres! Permanecei em vossas casas e não vos exibais como se exibiam no tempo da jahiliah antiga.

Mujahid disse: Naquela época, as mulheres caminhavam de maneira afetada e sedutora.

Muqatil disse: As mulheres colocavam seus véus sobre a cabeça, mas não os prendiam firmemente. Assim, ficavam expostos o colar do pescoço, os brincos e o pescoço.

Esse era o tabarruj da antiga era da jahiliah: havia ampla intimidade com os homens. Havia especial languidez nos modos de caminhar e falar. O véu das mulheres era usado de tal maneira que a beleza de seus corpos e adornos ficava exposta. Porém, a jahiliah moderna alcançou formas e variedades tão numerosas que deixou a jahiliah antiga muito para trás.

Em que situação não há ‘tabarruj’

Se a mulher muçulmana observar as regras abaixo, poderá ultrapassar os limites do ‘tabarruj’ e ingressar no ambiente da civilização islâmica:

(a) Baixar o olhar — pois a modéstia e o recato constituem a beleza mais valiosa da mulher. E a maior manifestação da modéstia e do recato ocorre por meio de baixar o olhar. Por isso, Allah disse nestes termos: (Árabe****************)

E dize às mulheres crentes que baixem parte de seus olhares.

(b) Deve-se evitar a estreita intimidade com os homens — essa mistura é plenamente observável hoje em cinemas, reuniões e assembleias públicas, hotéis e restaurantes, bem como na multidão das salas de aula, corredores e cantinas de colégios e universidades. Hazrat Ma‘qal ibn Yasar (que Allah esteja satisfeito com ele) narrou a palavra do Mensageiro honorável (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele): (Árabe****************)

É muito melhor cravar uma haste de ferro na própria cabeça do que tocar uma mulher que não é lícita. (At-Tabarani, Al-Bayhaqi)

(c) Seu vestuário deve estar de acordo com a etiqueta, as normas e os princípios da Chariá islâmica — e por vestuário conforme à Chariá entende-se aquele que possui as seguintes características:

1. Cobre todo o corpo; o próprio Alcorão excluiu(Árabe****************) ‘aquilo que aparece naturalmente’, exceto isso — isto é, deve-se cobrir todo o corpo, salvo o rosto e as mãos.

2. O corpo ou a sua forma não devem ficar visíveis através do tecido. O Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) declarou:(Árabe****************)

As mulheres que, embora vestidas, estão nuas, atraem os homens e também são atraídas por eles estarão no Inferno; não entrarão no Paraíso nem sentirão sequer o seu perfume.

Se, apesar de vestir-se, o objetivo da vestimenta — cobrir o corpo — não for alcançado, e, por ser o tecido muito fino, tudo do corpo ficar claramente visível do exterior, então a pessoa estará nua apesar de vestida.

Algumas mulheres da tribo Banu Tamim compareceram diante de Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela). Elas vestiam roupas muito finas. Ao ver isso, Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse:(Árabe****************)

Se sois verdadeiramente crentes, sabei que esta não é a roupa das mulheres crentes, que estais vestindo.

Uma noiva compareceu diante de Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela). Ela vestia uma roupa muito transparente e fina. Então, Aisha disse:(Árabe****************)

Quem veste esse tipo de roupa não crê nas disposições estabelecidas na surata An-Nur.

3. A roupa não deve ser tão justa a ponto de tornar visíveis, do exterior, todas as partes salientes e rebaixadas do corpo, ainda que não seja transparente nem fina. As roupas introduzidas pela civilização ocidental são um grande exemplo disso. Essa civilização adora o corpo e a sexualidade; sob sua influência, os estilistas cortam o tecido de tal maneira que os seios, as nádegas, as coxas e outras partes íntimas se destacam claramente diante dos espectadores. Essas roupas são confeccionadas de modo a provocar agitação e excitação sexual. A mulher que veste esse tipo de roupa também é considerada “nua apesar de vestida”; tais roupas representam um perigo muito maior do que os tecidos transparentes e finos.

4. As mulheres não usarão roupas específicas dos homens, como, por exemplo, calças. Estas são, em nossa época, uma peça de vestuário especialmente característica dos homens. Com efeito, o Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) amaldiçoou as mulheres que imitam os homens, assim como amaldiçoou os homens que imitam as mulheres. Por isso, o Nobre Profeta proibiu as mulheres de usar roupas masculinas e proibiu os homens de usar roupas femininas.

5. Elas também não usarão roupas particularmente características das mulheres judias, cristãs, adoradoras do fogo e incrédulas. Isso porque o Islã proibiu a imitação dessas pessoas. Assim como o Islã deseja estabelecer uma distinção entre homens e mulheres, também busca libertar-se, exterior e interiormente, da imitação cega das nações incrédulas. É por isso que, em muitas questões, o Islã ordenou claramente que se fizesse oposição aos incrédulos. A palavra abaixo do Nobre Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) refere-se a este assunto: (Árabe****************)

Quem imitar um determinado povo será considerado parte dele.

(d) Ao andar e falar, ela deve adotar seriedade e firmeza. Deve abster-se completamente de estimular desejos sexuais por meio de todos os movimentos de seu corpo e de seu rosto, de seus gestos e meneios. Com efeito, a sensualidade e a coqueteria ao andar e falar são características das mulheres incrédulas e sem moral, não das mulheres muçulmanas. A palavra de Allah sobre este assunto merece ser lida novamente: (Árabe****************)

Não fale com voz baixa e suave, pois, se o fizer, aquele cujo coração está enfermo ficará cobiçoso. (Surata Al-Ahzab: 32)

(e) Não poderá despertar, por meio de perfumes, attar, pó de neve e coisas semelhantes, a atração dos homens por sua beleza oculta. Allah disse:(Árabe****************)

Não caminhem batendo os pés firmemente no chão, pois, ao fazê-lo, eles ficarão sabendo quais belezas e adornos elas ocultaram.

Na época da Jahiliyyah, quando as mulheres caminhavam entre as pessoas, batiam os pés no chão fazendo-os tilintar. Assim, os adornos dos pés ressoavam, e as pessoas podiam ouvir esse som. Por isso, o Alcorão proibiu que fizessem tal coisa. Pois, se isso fosse feito, pensamentos e desejos sexuais despertariam intensamente na mente dos homens dominados pela luxúria. Ele começaria a pensar, a respeito daquela mulher, que ela deseja atrair os homens para si.

O mesmo se aplica às mulheres que, usando diversos perfumes, impregnam o ambiente, excitam os desejos sexuais e tentam atrair os homens para si. Foi dito num hadith:(Árabe****************)

Quando uma mulher se perfuma com fragrância e comparece a uma reunião, ela é isto — isto é, adúltera. (Abu Dawud, Tirmidhi)

A partir desta discussão detalhada, ficamos sabendo sem dúvida que o Islã não impôs de modo algum que as mulheres permanecessem confinadas na “prisão” (?) de suas casas e não saíssem para lugar algum, exceto para o cemitério. Pelo contrário, sair de casa para participar da oração em congregação, adquirir conhecimento e atender a outras necessidades biológicas e familiares é inteiramente permitido às mulheres muçulmanas. As mulheres Companheiras e as muçulmanas das gerações posteriores faziam exatamente isso. Muitas delas também saíram para participar das guerras. Saíram igualmente com o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Depois dele, saíram com os califas e os comandantes dos exércitos islâmicos. O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse à sua esposa, Hazrat Sawda (que Allah esteja satisfeito com ela):(Árabe****************)

Allah vos deu permissão: podeis sair de casa para atender às vossas necessidades. (Bukhari)

Ele também disse:(Árabe****************)

Se alguma de vossas esposas vos pedir permissão para ir à mesquita rezar, não a impeçais. (Bukhari)

Foi dito ainda em outro hadith:(Árabe****************)

Não impeçais as servas de Allah de irem às mesquitas. (Muslim)

Alguns eruditos adotam grande rigor neste ponto. Segundo eles, é proibido às mulheres sequer olhar para qualquer parte do corpo de um homem estranho. Como prova, citam um hadith narrado por Narhan, escravo de Umm Salama. O hadith é o seguinte: (Árabe****************)

Quando Abdullah ibn Umm Maktum entrou na casa de Hazrat Umm Salama e Maymuna, o nobre Profeta disse às duas: “Cubram-se com o véu.” Elas responderam: “Mas ele é cego.” O nobre Profeta disse: “Vocês duas também são cegas? Vocês duas também não veem?”

Contudo, segundo os especialistas, este hadith não é autêntico. Isso porque Narhan, o narrador deste hadith, era escravo de Umm Salama, e seu hadith não é aceitável como prova.

E mesmo que o hadith seja autêntico, deve-se dizer que se trata de um rigor adicional do nobre Profeta para com suas esposas, em consideração à posição e à dignidade delas. O Mensageiro adotava esse rigor com elas no que dizia respeito ao véu. Abu Dawud e outros especialistas em hadith também indicaram isso. Assim, resta como prova apenas o hadith cuja autenticidade foi estabelecida. E ele é o seguinte: (Árabe****************)

O nobre Profeta ordenou a Fátima bint Qays que cumprisse o período de iddah na casa de Umm Shurayk, mas depois corrigiu essa ordem, dizendo: “Os meus companheiros temem aquela mulher. Em vez disso, cumpre o período de iddah na casa de Ibn Umm Maktum, pois ele é cego. Tu poderás tirar as roupas, mas ele não te verá.” (Qurtubi)

A esposa servir os convidados do marido

Também fica claro, a partir da discussão feita até aqui, que, na presença do marido, a esposa pode servir os seus convidados. A condição, porém, é que suas roupas, seus adornos e sua beleza, sua fala, seu comportamento e tudo o mais estejam de acordo com as normas, a civilidade e a decência islâmicas. Em tal situação, é perfeitamente natural que os convidados homens a vejam e que ela também os veja. Não há, contudo, qualquer problema nisso, pois neste caso não há receio de que qualquer das partes ultrapasse os limites ou que ocorra algum perigo.

Hazrat Sahl ibn Sa’d al-Ansari narrou: (Árabe****************)

Abu Usaid as-Sa’idi convidou o Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) e seus companheiros para a celebração do casamento. Nessa ocasião, sua esposa, Umm Usaid, encarregou-se de preparar e servir a comida. Ela deixou algumas tâmaras de molho, desde a noite anterior, em um recipiente de pedra. Depois que o Nobre Profeta terminou de comer, ela mesma o abriu e ofereceu a bebida ao Nobre Profeta como presente. (Bukhari, Muslim)

Como disse Ibn Hajar al-Asqalani, este hadith prova categoricamente que é completamente permitido à esposa adiantar-se para servir os convidados e as pessoas convidadas pelo marido, isto é, apresentar-se diante deles. Contudo, é evidente que isso só pode ser feito quando não houver receio de qualquer perigo moral. Nessa ocasião, o corpo deve permanecer totalmente coberto. Em tal situação, é permitido ao marido encarregar a esposa de servir os convidados e distribuir a comida. Porém, se a esposa não observar, ao cobrir o corpo, as restrições e obrigações estabelecidas pelo Islã — como frequentemente se vê atualmente —, então não lhe é permitido apresentar-se diante dos homens.

O ato contrário à natureza é um pecado grave

No âmbito do método adotado pelo Islã para controlar e organizar os desejos sexuais, é importante observar que, assim como a zina e seus meios e causas são proibidos no Islã, também foi totalmente proibido o “liwat”, ou seja, o ato contrário à natureza praticado pelo povo de Lot.

Além de ser contrário à natureza, de macular e desonrar e de degradar a masculinidade, esse ato abjeto e repugnante constitui também um crime de usurpação dos direitos das mulheres e, por isso, é uma grande injustiça.

Em qualquer sociedade onde esse ato abjeto se disseminar, a vida de sua população mergulhará em extrema calamidade. Seus membros se acostumarão a essa prática repulsiva e se tornarão seus escravos. Além disso, perderão tudo: o caráter, o bom gosto e a pureza. Para obter o conhecimento correto sobre esse assunto, basta o relato do povo de Lot narrado no Alcorão. Esse povo iniciou uma prática tão abjeta e repugnante e a disseminou amplamente. Abandonou as esposas legítimas e castas e adotou esse ato proibido. Por isso, o Profeta de Deus, o venerável Lot (que a paz esteja com ele), disse-lhes:(Árabe****************)

“Somente vós, entre todas as criaturas do mundo, vos aproximais dos homens e abandonais as esposas que Deus criou para vós? Na verdade, sois um povo transgressor.” (Surata Ash-Shu’ara: 165–166)

O Nobre Alcorão rejeitou esse ato e declarou que ele é injustiça, transgressão, ignorância, corrupção e crime. Trata-se da extrema perversão da natureza humana e do extremo desvio do caminho da orientação. É o extremo colapso da moralidade e uma grave doença do bom gosto. Para pôr essas pessoas à prova, Deus, o Altíssimo, enviou anjos sob forma humana. Como retribuição pelo tratamento que os membros daquele povo lhes dispensaram, Deus fez descer sobre eles um severo castigo. Por isso, o Alcorão diz:(Árabe****************)

Quando os Nossos anjos chegaram até Lut, ele ficou atemorizado e sentiu-se angustiado com a chegada deles. Disse: “Hoje é um dia de grande aflição.” Com a chegada desses hóspedes, o povo dele correu espontaneamente para sua casa. Já estavam habituados a tais atos perversos e abomináveis. Lut disse-lhes: “Meus irmãos, aqui estão minhas filhas; elas são mais puras para vocês. Temam certamente a Allah e não me envergonhem por causa dos meus hóspedes. Não há entre vocês nenhum homem sensato?” Eles responderam: “Bem sabes que não temos qualquer direito sobre tuas filhas. E sabes também que eu poderia castigá-los, ou então poderia contar com um forte apoio ao qual pudesse recorrer.” Então os anjos disseram-lhe: “Ó Lut! Somos os anjos enviados pelo teu Senhor. Essas pessoas jamais poderão causar-te qualquer dano.” (Surata Hud: 77–81)

Há diferentes opiniões entre os juristas sobre qual punição pode ser aplicada a quem comete esse ato perverso e abominável. A questão é: deve-se aplicar ao praticante de sodomia a pena do adúltero, ou tanto o praticante quanto aquele com quem o ato foi cometido devem ser condenados à morte — devem ser executados? E, caso sejam mortos, por qual meio: pela espada, queimados no fogo ou lançados do alto de uma parede elevada?

A severidade do Islã em relação a crimes desse tipo pode ser considerada crueldade. Contudo, preservar a sociedade islâmica dessas práticas imundas e repugnantes é absolutamente impossível sem a aplicação de uma punição tão severa. Isso porque esse pecado é contagioso e nocivo. Quando esse pecado se dissemina na sociedade, não pode haver outro resultado além da destruição, apenas destruição.

Masturbação

Muitos jovens recorrem às próprias mãos com o objetivo de controlar a excitação sexual. Por meio da masturbação com as próprias mãos, eles expelem o sêmen e acalmam o sistema nervoso. Atualmente, isso é chamado de “hábito secreto”.

Muitos especialistas consideraram esse ato haram. O Imã Malik tomou como prova, a esse respeito, o seguinte versículo do Alcorão Sagrado:(Árabe****************)

E aqueles que protegem suas partes íntimas — exceto com suas esposas e com aquelas que suas mãos direitas possuem — não serão censurados. Mas os que buscarem qualquer outro meio além disso serão transgressores. (Surata Al-Mu’minun: 4–7)

Segundo o Imã Malik, aqueles que se masturbam recorrem a um meio diferente, abandonando o meio lícito declarado pelo Alcorão. Portanto, isso é haram.

É narrado que o Imam Ahmad ibn Hanbal considerava o sêmen uma espécie de resíduo, tal como os demais resíduos do corpo, e considerava lícita a sua expulsão pelo método mencionado acima, como o uso de uma cinta. O Imam Ibn Hazm também apoiou essa opinião. Os sábios da escola hanbalita consideraram essa prática lícita sob duas condições: a primeira é haver o temor de que, caso não a pratique, a pessoa venha a cometer zina; e a segunda é ser incapaz de se casar.

Nesse contexto, podemos adotar a opinião do Imam Ahmad somente quando a excitação sexual se tornar incontrolável e se intensificar o temor de que, por causa dela, a pessoa possa cometer zina e adultério, como no caso de um estudante e de uma pessoa solitária que trabalha no exterior, quando houver diante dela inúmeras causas de excitação sexual. Em tal situação, torna-se extremamente difícil e árduo para qualquer pessoa manter o autocontrole. Para esse tipo de pessoa, torna-se extremamente difícil e árduo manter o autocontrole. Para ela, não será excessivamente condenável recorrer a esse meio para controlar sua excitação sexual. Contudo, a condição é que não seja de modo algum lícito ultrapassar os limites nessa prática nem adotá-la permanentemente.

No entanto, o Profeta (que a paz esteja com ele) indicou aos jovens muçulmanos incapazes de se casar o caminho que é, portanto, o melhor método. Eles devem jejuar com frequência. Isso porque o jejum disciplina e fortalece grandemente a força de vontade da pessoa. Ensina a paciência e a acostuma a perseverar. O jejum aumenta a força do taqwa na pessoa e intensifica a consciência de que Allah está presente e observa. A esse respeito, as palavras do Profeta (que a paz esteja com ele) são:(Árabe****************)

Ó jovens! Aqueles dentre vós que forem capazes de ter relações sexuais devem se casar, pois o casamento os acostumará a baixar o olhar e manterá seus órgãos sexuais puros e protegidos. E aquele que for incapaz de se casar deve jejuar, pois esse jejum será para ele como um escudo.

Não há monasticismo no Islã

No Islã, a excitação sexual não é deixada sem rédeas nem liberada sem restrições. Pois, se fosse assim, ela não estaria disposta a obedecer a qualquer limite, contenção, condição ou impedimento. Por isso, a zina, o adultério e todas as atividades relacionadas a eles ou que conduzem a eles também foram declarados haram. Por outro lado, o Islã tampouco apoiou minimamente ideias que entram em conflito com essa tendência natural e procuram eliminá-la pela raiz. Por isso, o Islã incentivou o casamento e se opõe veementemente a permanecer solteiro ou celibatário, ou a tornar-se impotente. Portanto, não é de modo algum lícito que um homem ou uma mulher muçulmana, apesar de ter condições para se casar, permaneça sem se casar com o propósito de romper as relações com o mundo e dedicar-se a Allah, ou de ocupar-se da adoração de Allah com dedicação completa e sem qualquer perturbação. O Islã não oferece o mínimo apoio a tal atitude ou linha de conduta.

Entre alguns Companheiros do Mensageiro (que a paz esteja com ele), surgiu a tendência de renunciar ao mundo. Porém, assim que o Profeta (que a paz esteja com ele) percebeu isso, declarou que renunciar ao mundo equivalia a abandonar o modo de vida islâmico e rejeitar a Sunnah do Mensageiro. Na verdade, essa é uma tendência semelhante à dos cristãos. O Mensageiro (que a paz esteja com ele) declarou que essa tendência era totalmente contrária ao Islã. É narrado por Abu Qilabah:(Árabe****************)

Alguns Companheiros decidiram renunciar ao mundo, abster-se da convivência com as esposas e adotar o monasticismo. Mas o Profeta (que a paz esteja com ele) tratou desse assunto com grande firmeza. Disse: “Vossos predecessores adotaram extremo rigor e austeridade na prática da religião, e então Allah também foi rigoroso com eles. Os que hoje permanecem nas igrejas, mosteiros e khanqahs são seus herdeiros. Portanto, adorai Allah e não associeis ninguém a Ele. Realizai o hajj, a umra e segui o caminho reto e equilibrado; então sereis tratados devidamente.” (Abd al-Razzaq, Ibn Jarir e Ibn al-Mundhir)

O narrador deste hadith disse: Foi sobre essas pessoas que foi revelado o seguinte versículo:(Árabe****************)

Ó vós que credes! Não proíbais as coisas puras que Allah vos tornou lícitas e não transgredais, pois Allah não ama de modo algum os transgressores. (Surata Al-Ma’idah: 87)

Mujahid disse: Alguns Companheiros, como Uthman ibn Maz’un e Abdullah ibn Amr, decidiram viver afastados das mulheres, castrar-se e vestir roupas de saco. O versículo mencionado anteriormente e os que o sucederam foram revelados nesse contexto.

Um grupo de Companheiros foi à casa do nobre Profeta e tentou saber, por meio de suas esposas, como eram sua adoração e devoção. Depois de saberem o que queriam, isso lhes pareceu muito pouco e insuficiente. Então começaram a dizer entre si:(Árabe****************)

Que comparação pode haver entre nós e o nobre Mensageiro? Allah perdoou todos os seus pecados passados e futuros. Então um deles disse: Jejuarei durante toda a minha vida e nunca quebrarei o jejum. O segundo disse: Permanecerei acordado a noite inteira em adoração e não dormirei nem um pouco. O terceiro disse: Evitarei as mulheres e jamais me casarei. Mais tarde, quando o nobre Profeta soube disso, explicou-lhes e esclareceu seu equívoco e o desvio do princípio que haviam adotado. Disse: Conheço Allah melhor do que vós e temo-O mais do que vós. Apesar disso, assim como passo parte da noite em adoração, também durmo. Jejuo e também interrompo o jejum, e tomo esposas e vivo a vida conjugal. Esta é a minha conduta e o meu modelo. Portanto, quem se afastar disso não pertence à minha comunidade.

O venerável Sa’d ibn Abi Waqqas disse:(Árabe****************)

Quando Uthman ibn Maz’un quis adotar uma vida sem relações com sua esposa, o nobre Mensageiro rejeitou isso. Se ele lhe tivesse dado permissão, nós nos teríamos castrado e tornado eunucos.

Foi nesse contexto que os especialistas deram a opinião de que o casamento é obrigatório para todo muçulmano. Não é permitido abandoná-lo enquanto houver capacidade e condições para casar. Segundo outros, quem deseja casar-se e teme não conseguir preservar seu caráter se não o fizer deve necessariamente casar-se.

Não é apropriado a nenhum muçulmano deixar de se casar por causa da pobreza, da insuficiência do sustento ou da falta de coragem para assumir o peso das responsabilidades. Pelo contrário, deve empenhar-se ao máximo para obter a ajuda e a graça de Allah. Pois Allah prometeu conceder Sua graça àqueles que se casarem com o propósito de preservar a pureza de seu caráter. Allah, o Altíssimo, declarou:(Árabe****************)

Casai os solteiros dentre vós e os virtuosos dentre vossos escravos e escravas. Se forem pobres, Allah os enriquecerá com Sua graça. (Surata An-Nur: 32)

O nobre Mensageiro disse:(Árabe****************)

É responsabilidade de Allah ajudar três pessoas: aquele que se casa com o propósito de preservar a pureza de seu caráter; aquele que celebra com seu senhor um contrato de alforria mediante uma quantia determinada, se realmente estiver disposto a pagar essa quantia; e o combatente no caminho de Allah.

Ver a noiva pretendida

Quando um muçulmano decide casar-se e pede uma moça específica em casamento, é permitido pela Sharia que o pretendente a veja antes da cerimônia matrimonial. Ao fazê-lo, ele pode prosseguir conscientemente e com pleno entendimento. De modo algum é correto avançar em algo desse tipo de olhos fechados. Isso pode posteriormente causar arrependimento e também despertar frustração em seu coração. Quando essa orientação é aplicada, não há motivo para que ele tenha qualquer receio.

Na verdade, os olhos ou o olhar representam o coração. Portanto, quando os olhos de duas pessoas se encontram, é muito provável que seus corações também se unam. Pode-se esperar que, antes do casamento, surjam entre o marido e a mulher (o noivo e a noiva) harmonia e sinceridade mútuas, algo absolutamente essencial para a estabilidade da vida conjugal.

Relatado por Abu Huraira, que disse:(Árabe****************)

Eu estava na presença do nobre Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele). Nesse momento, chegou um homem. Ele havia decidido casar-se com uma mulher da tribo dos Ansar. Então, o nobre Profeta (que a paz esteja com ele) perguntou: “Você já a viu?” O homem respondeu: “Não.” Então, o nobre Profeta (que a paz esteja com ele) perguntou: “Você já a viu?” O homem respondeu: “Não.” Então, o nobre Profeta (que a paz esteja com ele) disse: “Vá agora mesmo e olhe para ela. Pois há algo (um defeito) nos olhos das moças dos Ansar.”

Foi narrado por Hazrat Mughira ibn Shu’ba (que Allah esteja satisfeito com ele). Ele fez uma proposta de casamento a uma moça. Então, o nobre Profeta (que a paz esteja com ele) disse:(Árabe****************)

“Veja-a primeiro. Pois, ao vê-la antes do casamento, há uma probabilidade muito maior de se estabelecer harmonia entre vocês.” Mughira foi até os pais da moça e informou-lhes o que o nobre Mensageiro (que a paz esteja com ele) havia dito. Eles não consideraram o assunto muito apropriado. Porém, quando a própria moça ouviu isso por trás da cortina, disse: “Se foi o próprio nobre Mensageiro (que a paz esteja com ele) quem disse que ele pode me ver, então que me veja.” Mughira disse: “Ao ouvir essas palavras da moça, eu a vi e me casei com ela.” (Ahmad, Ibn Majah, Tirmidhi, Darimi, Ibn Hibban)

Até que ponto se pode ver a noiva pretendida, o nobre Profeta (que a paz esteja com ele) não especificou claramente nenhum limite, nenhum limite. Alguns especialistas disseram: pode-se ver apenas o rosto e as mãos. Mas isso não é uma disposição especial aplicável à noiva pretendida; também se aplica ao ato de olhar para uma mulher que não foi pedida em casamento. É permitido vê-la mesmo sem lhe fazer uma proposta de casamento. Quando se faz uma proposta de casamento, a própria permissão para ver a moça em questão prova que, nessa situação, deve ser permitido e lícito vê-la muito mais do que é permitido ver em circunstâncias normais.

No hadith, foi dito: (Árabe****************)

Quando um de vocês fizer uma proposta de casamento a uma moça, deverá, se possível, ver alguma parte dela que o incentive a casar-se com ela.

Por um lado, alguns especialistas consideram permitido ver bem a noiva pretendida; por outro, alguns eruditos adotam uma posição muito restritiva a esse respeito. O meio-termo entre essas posições é o melhor e mais equilibrado. Alguns especialistas sustentam que o homem que faz a proposta de casamento deve ter permissão para ver a noiva pretendida exatamente com a roupa que ela usa ao circular diante de seu pai, de seus irmãos e dos homens que são seus mahram. Além disso, para observar ou avaliar o discernimento e as qualidades particulares da noiva pretendida, eles devem sentar-se, acompanhados por um homem mahram da moça, em um lugar onde ela normalmente circule. A condição, porém, é que esse lugar seja de natureza lícita e que a noiva pretendida esteja usando vestimenta conforme a Sharia. A base dessa opinião é o trecho do hadith citado acima, no qual se diz: deve ver alguma parte dela que o incentive a casar-se com ela. (Árabe****************)

O homem que faz a proposta pode ver a moça pretendida de maneira formal, informando a ela e aos membros de sua família; também pode vê-la sem informar ninguém. Contudo, é especialmente indispensável que tenha uma intenção real e firme de fazer a proposta formal e casar-se. O honorável Jabir ibn Abdullah disse sobre sua esposa: Eu me escondi sob uma árvore para vê-la.

Do hadith anteriormente citado, narrado por Hazrat Mughira (que Allah esteja satisfeito com ele), soube-se que, se pais muçulmanos, em nome de algum costume ou tradição, impedirem que um homem que realmente deseja casar-se com sua filha a veja, ou se recusarem a mostrá-la a ele, tais costumes e tradições devem necessariamente estar em conformidade com a Sharia, e não em oposição a ela. Submeter a Sharia aos costumes, tradições ou práticas correntes equivale a violar a Sharia. Contudo, não é permitido aos pais, sob o pretexto da permissão de vê-la, deixar que um rapaz ponha a mão no pescoço de uma jovem, vá com ela ao teatro, ao cinema, a campos de jogos ou a mercados, passeie com ela sem a companhia de um homem mahram; tampouco é de modo algum permitido que o pretendente ou a noiva pretendida se comportem de maneira tão desenfreada. Entretanto, os escravos mais submissos da civilização ocidental contemporânea fazem tudo isso sob o pretexto de ver a moça.

A verdade é que o extremismo, seja de direita ou de esquerda, não tem absolutamente nenhuma compatibilidade com o sistema de vida islâmico.

Formas ilícitas de fazer uma proposta de casamento

Não é permitido a nenhum muçulmano fazer uma nova proposta de casamento a uma mulher divorciada ou viúva durante o seu período de idda, isto é, antes do término da idda. Isso porque a idda é cumprida com o objetivo de demonstrar respeito pelo casamento anterior. Portanto, ninguém está autorizado a cometer qualquer excesso nesse assunto. Contudo, durante o período de idda, a viúva pode tentar indicar, por sinais e alusões, se estaria interessada em casar-se com ele após o término da idda, mas não o pode fazer aberta e explicitamente. Allah, o Altíssimo, disse:(Árabe****************)

Não haverá pecado sobre vós se fizerdes alusão a uma proposta de casamento.

Não é permitido fazer uma segunda proposta de casamento enquanto não se tiver tomado uma decisão sobre a primeira, se as negociações da primeira proposta estiverem avançando rumo ao sucesso. Isso porque é direito do primeiro pretendente que se tome uma decisão sobre a sua proposta. Esse direito deve ser necessariamente respeitado. Isso é necessário para preservar as relações mútuas entre as pessoas e evitar comportamentos indelicados. Caso contrário, o direito do primeiro pretendente será usurpado, o que certamente constitui uma atitude excessiva. Porém, se o primeiro pretendente abandonar a intenção ou retirar a proposta por vontade própria, ou se ele mesmo der permissão para que outra pessoa faça uma proposta, então não haverá culpa em que uma segunda pessoa faça a proposta. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse:(Árabe****************)

Um crente é irmão de outro crente. Portanto, não é permitido fazer uma compra sobre a compra do outro irmão, nem apresentar uma proposta sobre a proposta de casamento do outro irmão.

O nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) também disse:(Árabe****************)

Não é permitido fazer uma proposta de casamento a outra pessoa antes que a proposta de alguém tenha sido rejeitada ou que não lhe tenha sido dada permissão para fazer a proposta. (Bukhari)

O consentimento da filha virgem; não se deve forçá-la

A jovem virgem tem o maior direito de ser consultada sobre o seu casamento. Não é de modo algum permitido ao pai ou tutor ignorar a sua opinião ou não levar em consideração o seu consentimento e autorização. O Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse:(Árabe****************)

A mulher que já teve marido tem mais autoridade sobre si mesma do que o seu tutor. Quanto à filha virgem, deve-se necessariamente pedir-lhe autorização a respeito de si mesma.

Uma jovem foi até o Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e informou-lhe que o pai a havia casado com o filho do irmão de seu pai. Contudo, ela não aprovava esse casamento. Então, o Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) deu-lhe autoridade para decidir sobre o assunto. A jovem disse: Meu pai realizou o vínculo de parentesco que havia estabelecido, mas decidi informar às mulheres que:(Árabe****************)

Os pais não têm autoridade para decidir nada a respeito das filhas.

Quando chega para uma filha uma proposta de casamento de um jovem religioso, de bom caráter e de condição equivalente, o pai não tem o direito de adiar o seu casamento. O Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse:(Árabe****************)

Não é permitido adiar três coisas: a oração, quando chega o seu horário; o funeral, quando o corpo está presente; e o casamento de uma jovem em idade de casar, quando é recebida uma proposta de alguém de condição equivalente.

Ele também disse:(Árabe****************)

Dai em casamento aquelas cuja religiosidade e caráter sejam do vosso agrado. Se não fizerdes isso, haverá na Terra grande corrupção e uma enorme desordem.

Mulheres proibidas para o casamento

É totalmente haram para todo homem muçulmano casar-se com as seguintes mulheres.

1. A esposa do pai — quer tenha sido divorciada pelo pai, quer tenha ficado viúva após a morte dele, a regra é a mesma em ambos os casos. Na época da Jahiliyyah, antes do Islã, era costume casar-se com a esposa do pai. O Islã declarou isso haram. Com efeito, a esposa do pai é equivalente à mãe; o fato de ela ter se casado uma vez com o pai já é suficiente para que isso seja haram. Isso porque a posição do pai aos olhos do filho é muito elevada e digna de respeito. Como a esposa do pai se tornou para sempre haram para o filho, o desejo e a cobiça do filho por ela também se tornaram definitivamente haram. Assim, a relação de respeito e dignidade entre o filho e a esposa do pai permaneceu para sempre estabelecida, firme e inalterável.

2. A mãe — a mãe biológica; a avó paterna e a avó materna também são igualmente haram.

3. A filha — incluem-se também a filha do filho e a filha da filha, e assim por diante, por mais extensa que seja essa lista.

4. A irmã — seja irmã de pai e mãe, por parte de mãe ou por parte de pai.

5. Fufá — irmã do pai, seja irmã legítima ou de qualquer outro tipo.

6. Khalá — irmã da mãe.

7. Filha do irmão.

8. Filha da irmã.

No Islã, essas mulheres são chamadas de “mahārim” ou “muharramāt”, pois são permanentemente haram para o muçulmano. Em nenhum momento e sob nenhuma circunstância elas são halal; não é permitido casar-se com elas. Quanto a essa relação, o homem também é chamado de “mahram”.

Razões pelas quais é haram casar-se com essas mulheres

a. A natureza de uma pessoa civilizada e de bons costumes jamais pode aceitar ou estar disposta a usar a própria mãe, irmã ou filha para satisfazer sua luxúria sexual. E, para não falar dos seres humanos, nem mesmo alguns animais estão dispostos a fazê-lo. Em relação à tia materna e à tia paterna, sente-se a mesma consideração que se sente pela própria mãe biológica, bem como o mesmo respeito e reverência. Do mesmo modo, o tio paterno e o tio materno são dignos, para qualquer mulher, do mesmo respeito e reverência que um pai.

b. Se a Sharia islâmica não tivesse estabelecido uma decisão semelhante acerca dessas “muharramāt”, tornando para sempre haram o desejo sexual por elas, não seria impossível que surgissem relações sexuais entre elas, pois, devido à vida familiar normal, convivem muito umas com as outras em privacidade e isolamento.

g. Entre essas pessoas unidas por laços de parentesco próximo existe uma relação profundamente afetiva; por isso, todos sentem respeito e reverência por elas, bem como profunda e intensa compaixão e emoção. Por essa razão, é recomendável estabelecer relações matrimoniais, com amor e afeto, com mulheres de fora desse círculo. Assim, por meio dos novos laços de parentesco, o círculo de pessoas próximas e parentes se amplia e se expande consideravelmente na sociedade, e também se alarga o campo das relações de amor e compaixão. É fazendo alusão a isso que o Alcorão afirma:(Árabe****************)

e criou entre vós relações de amizade e amor.

h. É absolutamente necessário e indispensável que permaneça o afeto natural existente entre essas pessoas unidas por laços de parentesco próximo. Só assim a relação duradoura entre elas pode permanecer firme e indestrutível, amadurecer e servir de base sólida para o amor, o apoio e outras formas de assistência entre elas. Porém, se houvesse a possibilidade de estabelecer relações matrimoniais entre essas pessoas, seria inevitável que as divergências entre elas se transformassem em inveja, hostilidade, brigas e conflitos. Como consequência, a vida familiar sofreria uma profunda ruptura e uma enorme catástrofe. A separação mútua e a inimizade tornar-se-iam um resultado inevitável.

i. Se fossem estabelecidas relações matrimoniais entre homens e mulheres unidos por esses laços de parentesco próximo, seria muito natural que a descendência deles se tornasse fraca e incapaz em todos os aspectos. Se houvesse em alguma família uma fraqueza ou defeito físico, moral ou intelectual, isso seria transmitido hereditariamente e permaneceria restrito àquela linhagem.

j. Toda mulher depende de um homem que a apoie e se esforce em seu favor, e está em grande medida dependente dele. Quando sua relação com o marido se deteriora, a necessidade de uma pessoa assim se torna intensa. Então, se não houver ninguém para proteger seus interesses e apoiá-la, a situação de desamparo da mulher torna-se dolorosa. Mas, se ela se casar com alguém entre esses parentes muito próximos, não encontrará em lugar algum quem fale em sua defesa. Isso porque, nesse caso, seus próprios parentes se tornarão seus concorrentes ou inimigos.

A proibição do casamento por causa da amamentação

9. É absolutamente proibido ao menino que mamou no peito de uma mulher durante a infância casar-se com essa mulher. Isso porque, por tê-lo amamentado, ela se tornou equivalente à sua mãe. O leite materno tornou-se uma parte importante da formação dos músculos e da medula óssea que se desenvolveram em seu corpo. Em razão dessa amamentação, surgiu entre os dois uma nova relação afetiva de mãe e filho. É verdade que, muitas vezes, essa relação permanece oculta. Contudo, ela continua presente no subconsciente da pessoa por muito tempo e manifesta-se claramente quando necessário.

A disposição da Shariah decorrente da amamentação só se aplica se o leite for ingerido durante a infância, isto é, antes de a criança completar dois anos de idade. Somente quando a criança mama o leite do peito da mulher nessa idade a norma da Shariah se torna aplicável. O sinal disso é que, ao mamar até se saciar, a criança deixará de mamar por si mesma, e o mamilo cairá espontaneamente de sua boca.

Esta condição de cinco mamadas é digna de preferência com base nas diversas narrações dos hadiths.

Também é proibido casar-se com uma irmã de leite. Assim como uma mulher se torna mãe de leite de um menino, as filhas nascidas dessa mulher também se tornam suas irmãs de leite. As irmãs dessa mulher serão suas tias maternas de leite. Os demais parentes também se tornarão seus parentes por vínculo de amamentação.

Neste ponto, o hadith do Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) diz:(Árabe****************)

Tudo aquilo que é proibido devido ao parentesco de sangue também se torna proibido devido ao parentesco de amamentação.

Assim como é proibido casar-se com a tia paterna, a tia materna, a sobrinha filha do irmão e a sobrinha filha da irmã por causa do parentesco de sangue, também será proibido casar-se com essas parentes por causa da amamentação.

Proibição do casamento devido ao vínculo matrimonial

11. A mãe da esposa — isto é, a sogra. Também é proibido casar-se com ela. Ao casar-se com a filha de uma mulher, essa mulher se torna proibida para ele, tenha ou não sido consumada a relação conjugal com a filha, pois a sogra é como uma mãe.

12. A enteada — isto é, a filha da esposa com quem o vínculo conjugal foi consumado — é proibida para o marido. Se essa relação não tiver sido consumada na prática, não há impedimento em casar-se com a filha dela.

13. A esposa do filho biológico. A esposa do filho adotivo não é proibida. Pois, no Islã, mesmo que alguém crie um menino, ele não se torna seu filho biológico. Na época da Jāhiliyya, essa prática estava em vigor, mas o Islã a aboliu. Isso porque ela nega a realidade e a verdadeira natureza das coisas. Assim, o lícito é considerado ilícito e o ilícito, lícito. Allah, o Altíssimo, disse:(Árabe****************)

Ele não fez dos vossos filhos adotivos vossos filhos verdadeiros. Isso é apenas o que dizeis com a boca. (Surata al-Ahzab: 4)

E a realidade e a verdadeira natureza das coisas jamais se alteram apenas por palavras. O estranho não se torna parente.

É proibido estabelecer uma relação matrimonial com essas três pessoas devido à afinidade. Como o parentesco criado pelo casamento faz com que sejam parentes, é plenamente apropriado que esse casamento seja proibido.

Tornar duas irmãs esposas ao mesmo tempo

14. É proibido tomar duas irmãs simultaneamente como esposas. Na época da Jāhiliyya, essa prática era muito difundida. Mas o Islã proibiu-a. A razão é que, em tal situação, o vínculo de afeto e parentesco entre as duas irmãs não pode sobreviver. O objetivo do Islã, porém, é manter esse vínculo intacto e inalterado. Quando duas irmãs se tornam coesposas, esse vínculo termina e, muito naturalmente, ambas se transformam em inimigas uma da outra.

No Alcorão Sagrado, tomar duas irmãs simultaneamente como esposas foi declarado explicitamente proibido. O Mensageiro Sagrado, que a paz esteja com ele, também determinou:(Árabe****************)

Não se pode tomar simultaneamente como esposas uma mulher e sua tia paterna, nem uma mulher e sua tia materna.

Ele também disse:(Árabe****************)

Se fizerdes tal coisa, cometereis o pecado de romper os laços de parentesco.

Entretanto, o Islã está firmemente empenhado em preservar intacta essa relação de parentesco(Árabe****************). Como poderia, então, ser lícito algo que produz tal consequência?

A esposa de outro homem

15. É completamente ilícito para as mulheres que já são esposas de algum homem aceitar outro marido enquanto permanecerem nessa condição.

Uma mulher nessa condição só pode ser legitimamente desposada por outro homem em duas circunstâncias:

a. Seu marido atual morrerá ou se divorciará dela, e assim sua condição de esposa terminará pela morte ou será completamente dissolvida.

b. Depois disso, será cumprido o período de iddah que Allah, o Altíssimo, determinou para essa mulher, seus deveres para com o marido anterior terão sido cumpridos e será estabelecida para ela a medida de resguardo necessária. Se a mulher estiver grávida, esse período terminará com o parto. Seja esse período curto ou longo.

Para a mulher cujo marido morreu, o período de sua iddah é de quatro meses e dez dias.

Quanto à divorciada, o período de sua iddah é de três menstruações. Esse período é absolutamente necessário para ter certeza de que não há filho em seu ventre. Pois existe, de fato, a possibilidade de que ela esteja grávida de um filho do ex-marido. Portanto, é indispensável observar essa iddah para impedir a mistura de duas linhagens. Porém, se a esposa for muito jovem ou uma idosa cuja menstruação tenha cessado, sua iddah será de apenas três meses. Allah, o Altíssimo, disse:(Árabe****************)

As mulheres divorciadas deverão esperar até completarem três períodos menstruais. Não lhes é permitido ocultar o que Allah criou em seus ventres, se creem em Allah e no Dia do Juízo. (Surata Al-Baqarah: 228)

Disse:(Árabe****************)

Se tiverdes dúvidas acerca daquelas entre vossas mulheres que já não esperam menstruar, elas deverão observar uma iddah de três meses. Esse também é o período de iddah das que tiveram a menstruação cessada; e a iddah das mulheres grávidas termina com o parto.

Também disse:(Árabe****************)

Aquelas dentre vós que morrerem e deixarem esposas, estas deverão observar uma iddah de quatro meses e dez dias. (Surata Al-Baqarah: 234)

É proibido no Islã casar-se com as quinze categorias de mulheres mencionadas acima. Isso foi declarado conjuntamente em três versículos da Surata An-Nisā do Alcorão Sagrado. Esses três versículos são:(Árabe****************)

Não vos caseis com as mulheres com quem vossos pais se casaram. Exceto pelo que já aconteceu anteriormente, isso é, sem dúvida, uma indecência manifesta, um pecado gravíssimo e um péssimo caminho. Foram-vos proibidas vossas mães, vossas filhas, vossas irmãs, vossas tias paternas, vossas tias maternas, as filhas de vossos irmãos, as filhas de vossas irmãs, vossas mães de leite que vos amamentaram, vossas irmãs de leite, as mães de vossas esposas (vossas sogras) e as filhas de vossas esposas que estão sob vossa tutela, nascidas de esposas com as quais consumastes o matrimônio. Mas, se não tiverdes consumado o matrimônio, não haverá culpa em vos casardes com suas filhas; e também vos foram proibidas as esposas de vossos filhos biológicos. E não tomeis duas irmãs simultaneamente como esposas; exceto pelo que já aconteceu anteriormente. Certamente, Allah é Perdoador, Misericordioso. Também vos são proibidas as mulheres que já estejam casadas……… (Surata An-Nisá: 22–24)

Mulheres politeístas

16. Também é proibido casar-se com mulheres politeístas. Mulheres politeístas são aquelas que adoram ídolos. Os antigos politeístas árabes e os hindus politeístas da Índia são incluídos nessa categoria.

Allah, o Altíssimo, disse em termos claros: (Árabe****************)

Não vos caseis com mulheres politeístas até que elas adotem a fé monoteísta. Sabei que uma escrava crente é muito melhor do que uma mulher politeísta, ainda que esta vos agrade e vos encante. E não deis vossas filhas em casamento a homens politeístas até que eles creiam. Pois um escravo crente é muito melhor do que um politeísta, ainda que este vos agrade. Eles convocam para o Inferno, enquanto Allah convoca, com Sua permissão, para o Paraíso e para o perdão.

Este versículo declarou em termos claros que não é permitido a nenhum muçulmano casar-se com uma mulher politeísta. Também não é permitido a uma mulher muçulmana casar-se com um homem politeísta. Isso porque existe uma diferença fundamental entre a religião monoteísta e a religião politeísta. O crente conduz as pessoas ao Paraíso, enquanto os politeístas as conduzem ao Inferno. Os primeiros creem em Allah, o Único, no Mensageiro, na profecia e na Vida Futura. Já estes associam parceiros a Allah, negam a profecia e descrêem da Vida Futura.

Entretanto, o casamento diz respeito à paz de espírito, à estabilidade, à amizade e à harmonia. Portanto, é impossível reunir nele essas duas correntes de pensamento opostas.

Mulheres do Povo do Livro

O Alcorão Majid permitiu aos muçulmanos casar-se com mulheres das duas comunidades do Povo do Livro, os judeus e os cristãos. Também ordenou que se adotasse um tratamento especial para com elas. Embora tenham alterado e modificado muitas coisas de sua própria religião, deve-se reconhecer que são, sem dúvida, seguidoras de uma religião celestial. Por isso, assim como tornou lícito comer os animais abatidos por elas, também declarou lícito casar-se com suas mulheres. Allah, o Altíssimo, disse:(Árabe****************)

O alimento do Povo do Livro é lícito para vós, e vosso alimento é lícito para eles. E também são lícitas para vós as mulheres crentes de caráter puro e castas, bem como as mulheres de caráter puro e castas dentre aqueles que receberam o Livro antes de vós, desde que lhes deis seus dotes, preservando a castidade, não como fornicadores nem como aqueles que tomam amantes.

Certamente, este é um aspecto especial dos princípios liberais do Islã. É raro encontrar um exemplo semelhante entre as demais nações e religiões do mundo. Embora esses Povos do Livro sejam chamados de incrédulos e desviados, o Islã declarou que as mulheres pertencentes a essas religiões podem, permanecendo firmes em sua própria religião, tornar-se esposas de muçulmanos e rainhas de seus lares. Elas podem ser o consolo do coração de um muçulmano, testemunhas de sua intimidade e mães de seus filhos. O Islã permitiu isso mesmo quando, ao tratar da relação conjugal e de seus mistérios íntimos, o Alcorão disse:(Árabe****************)

E entre Seus sinais está o fato de Ele ter criado para vós esposas de vós mesmos, para que encontreis tranquilidade junto delas, e ter estabelecido entre vós afeição, amor e misericórdia.

Neste ponto, é absolutamente necessário advertir sobre uma questão. Uma mulher muçulmana devota, dotada de sincera dedicação e atração pela religião, é muito superior a uma mulher muçulmana apenas por herança familiar. O Mensageiro Nobre (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) ensinou-nos isso. Ele disse:(Árabe****************)

Casa-te com uma mulher devota; ela será a causa do teu sucesso. Caso contrário, que tuas mãos se cubram de terra.

Disso se conclui que qualquer mulher muçulmana pode ser uma esposa melhor para um homem muçulmano do que qualquer mulher do Povo do Livro.

Além disso, se tal esposa for aceita, há o receio de que suas crenças e convicções influenciem os filhos e também os desviem; quando esse receio é intenso e certo, é aconselhável, com o objetivo de preservar a religião, evitar esses perigos e não aceitar uma esposa desse tipo.

Além disso, se em algum país o número de muçulmanos for reduzido, então, em tal situação, deveria ser completamente haram que os homens muçulmanos tomassem esposas pertencentes aos ahl al-kitāb. Pois, se nessa circunstância os homens muçulmanos, deixando de lado as mulheres muçulmanas, se casarem com mulheres dos ahl al-kitāb, as mulheres muçulmanas não conseguirão se casar e, consequentemente, ficarão em extrema dificuldade. Isso porque elas não podem se casar com homens não muçulmanos, uma vez que tal casamento não é permitido. Então não haverá ninguém para se casar com elas. Uma situação assim se tornará extremamente grave para a sociedade muçulmana. Portanto, embora seja permitido ao homem muçulmano casar-se com uma mulher dos ahl al-kitāb, considera-se que, em tal situação, não deixar essa possibilidade aberta é o único meio de escapar do referido perigo.

O casamento de uma mulher muçulmana com um homem não muçulmano

É completamente haram casar uma mulher muçulmana com um homem não muçulmano, seja ele um não muçulmano dos ahl al-kitāb ou qualquer outra pessoa. Para uma mulher muçulmana, isso não é permitido em nenhuma circunstância. A injunção corânica sobre esse assunto já foi citada anteriormente. A injunção é a seguinte: (Árabe****************)

Não casem suas filhas com os mushrikūn enquanto eles não aceitarem a fé.

Sobre as mulheres crentes que vieram como emigrantes, foi dito: (Árabe****************)

Se considerardes crentes as mulheres que vieram como emigrantes, não as devolvais aos incrédulos. Elas não lhes são halal, nem eles lhes são halal.

Aqui não se afirmou isso excluindo os ahl al-kitāb. Portanto, não há margem para divergência quanto ao fato de ser haram casar mulheres muçulmanas com homens incrédulos, mushrikūn e não muçulmanos.

No Islã, foi permitido casar-se com uma mulher judia ou cristã, mas foi proibido casar uma mulher muçulmana com eles; há uma razão lógica para isso. Pois o homem é o chefe da família e exerce autoridade sobre a mulher. É ele quem assume diretamente a responsabilidade por todas as questões. Além disso, o Islã concedeu à esposa dos ahl al-kitāb plena liberdade em sua crença e convicções. Também preservou seus direitos por meio das leis e normas da Sharia e adotou medidas eficazes para proteger sua honra e dignidade. Contudo, as religiões judaica, cristã ou hindu não garantiram qualquer direito, dignidade ou liberdade a uma esposa pertencente a outra religião. Tampouco se encontrou qualquer promessa de que seus direitos seriam protegidos. Em tal situação, como poderia o Islã permitir que uma mulher muçulmana fosse dada em casamento a um homem não muçulmano e, assim, lançá-la nesse grave perigo? De modo algum é possível adotar a política de entregá-las a um homem que não oferece garantia alguma para a preservação da crença religiosa e do caráter dessa mulher muçulmana.

Na verdade, o marido deve respeitar e honrar a fé religiosa e o caráter de sua esposa. Somente assim será possível preservar uma excelente relação entre os dois. Os muçulmanos consideram os judeus e os cristãos — apesar das muitas alterações fundamentais feitas em suas crenças — seguidores de uma religião celestial. Reconhecem a Torá e o Evangelho como Livros de Allah. Também creem que Moisés e Jesus foram grandes profetas e mensageiros de Allah. Por essa razão, é perfeitamente possível que uma mulher do Povo do Livro, como esposa de um muçulmano, permaneça fiel à sua própria religião e viva em paz e felicidade. Isso porque esse marido reconhece a religião, o Livro e o profeta dela. Além disso, sabe que a fé de um muçulmano não é válida nem correta se ele não os reconhecer como verdadeiros. Já o comportamento dos judeus e dos cristãos é completamente oposto. Eles não reconhecem o Islã de modo algum. Tampouco reconhecem o Livro do Islã e seu Mensageiro. Como, então, uma mulher crente no Islã poderia viver feliz e em paz como esposa de um marido assim? Ela praticaria sua religião e os atos de adoração islâmicos, e se empenharia em preservar a honra e a dignidade do Islã, bem como a realidade de seus princípios e normas. Procuraria proteger-se do que a shariah proibiu e cumprir seus deveres. Contudo, isso não seria praticamente possível sob a autoridade de um marido assim, pois ela teria de submeter-se à autoridade de seu marido não muçulmano.

À luz disso, pode-se compreender a razão pela qual o Islã declarou ilícito que um homem muçulmano se case com uma mulher politeísta adoradora de ídolos. O Islã se opõe totalmente ao shirk e à adoração de ídolos, rejeitando-os por completo. Consequentemente, não é possível que entre esse marido e essa esposa se desenvolvam e se mantenham o profundo afeto, a amizade e o amor desejáveis.

A mulher habituada ao adultério

Não é permitido a nenhum muçulmano de fé casar-se com uma mulher habituada ao adultério, envolvida na prostituição e que adota abertamente essa profissão. Hadrat Mursad ibn Abi Mursad — que Allah esteja satisfeito com ele — pediu ao Nobre Profeta — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — permissão para casar-se com uma prostituta com quem tivera uma relação durante a época da Jahiliyyah. O nome dessa mulher era ‘Inaq’. Ao ouvir isso, o Nobre Profeta desviou o rosto dele. Nesse momento, foi revelado um versículo do Alcorão:(Árabe****************)

O adúltero não se casará senão com uma adúltera ou uma politeísta, e a adúltera não será desposada senão por um adúltero ou um politeísta; isso é proibido aos crentes.

O Nobre Profeta recitou imediatamente o versículo para ele e lhe disse:(Árabe****************) Não, não te casarás com ela.

A razão é que Allah, o Altíssimo, permitiu aos homens crentes casarem-se com mulheres crentes, castas, e com mulheres do Povo do Livro que tenham a mesma condição. Essa permissão foi concedida sob a condição de que elas sejam(Árabe****************) mulheres aceitas em casamento, e não adúlteras.

Portanto, aquele que desobedecer a essa determinação do Livro de Allah e não estiver disposto a cumpri-la é um politeísta. Somente outro homem politeísta semelhante a ele poderia aceitar casar-se com ela; nenhum crente poderia fazê-lo. E aquele que aceitar e reconhecer essa determinação, mas, apesar disso, contrariá-la na prática e se dispuser a realizar o casamento que foi proibido, tornou-se um adúltero.

O versículo acima mencionado da Surata An-Nur foi citado depois de outro versículo da mesma surata. Nesse versículo anterior, após mencionar a punição pelo adultério, foi dito:(Árabe****************)

Açoitai com cem chicotadas tanto a mulher adúltera quanto o homem adúltero, cada um deles.

Esta é a punição física pelo adultério. Já o que foi mencionado acima é a punição moral e educativa pelo adultério. Com efeito, o objetivo principal de proibir o casamento com uma mulher ou um homem adúltero é impedir que essas pessoas ocupem posições importantes e honrosas, negando-lhes esse status. Em termos correntes atualmente, significa privá-las de seus direitos e mantê-las afastadas deles.

Após explicar o versículo anteriormente mencionado, o Imam Ibn al-Qayyim escreveu:

Assim como este mandamento do Alcorão é claro e obrigatório, também é conforme à razão, à inteligência e à natureza humana. Allah proibiu completamente que Seus servos fossem maridos, dayyuth ou amigos e companheiros de uma mulher de caráter imoral. A própria natureza na qual Allah criou o ser humano considera tal conduta extremamente repugnante, censurável e abominável. Por isso, quando se pretende insultar alguém gravemente, diz-se: “marido de uma mulher devassa”. Assim, Allah realmente proibiu que um muçulmano assumisse tal condição. Essa proibição também deixa claro que o pecado da esposa arruinaria gravemente o leito conjugal e a linhagem do marido, embora Allah queira estabelecer a descendência sobre uma base absolutamente pura e benéfica. Ele também declarou isso como uma de Suas leis especiais. Contudo, a zina abre caminho para a mistura dos espermatozoides, tornando a linhagem duvidosa. Por isso, uma característica da Sharia é ter proibido o casamento com uma mulher adúltera. Se, porém, ela se arrepender e purificar sua matriz — aguardando ao menos um período menstrual —, a situação é diferente, isto é, nesse caso o casamento se torna permitido.(Árabe****************)

Outra razão pela qual é proibido casar-se com uma adúltera é que a mulher adúltera é extremamente “khabith”. Entretanto, Allah fez do casamento um vínculo sagrado de amizade, amor e harmonia. Amizade é amor verdadeiro. Uma mulher “khabith” não pode ser a esposa amada de um homem de caráter puro. Em árabe, o marido é chamado de (Árabe****************)“zawjun”. Essa palavra (Árabe****************)deriva de “izdiwaj”. Seu significado é possuir semelhança e harmonia em todos os aspectos. Porém, entre o “khabith” e o “puro” manifesta-se inevitavelmente uma repulsa e uma aversão completas. Tanto segundo a Sharia quanto à luz dos valores comuns, não é possível que entre essas duas pessoas se estabeleçam a sinceridade mútua, o amor profundo, o afeto e a harmonia desejáveis. Por isso, Allah verdadeiramente disse:(Árabe****************)

As mulheres impuras são para os homens impuros, e os homens impuros são para as mulheres impuras. E as mulheres de caráter puro são para os homens de caráter puro, e os homens de caráter puro são para as mulheres de caráter puro. (Surata An-Nur: 26)

Casamento temporário

No Islã, o casamento é um vínculo sólido; uma promessa inquebrantável. É o resultado do imenso desejo e entusiasmo, de ambas as partes, por uma vida conjunta para sempre. Seu objetivo é estabelecer, entre marido e mulher, a tranquilidade mental e a estabilidade dos sentimentos de amizade, amor, misericórdia e compaixão. Seu objetivo supremo é dar estabilidade ao progresso da humanidade, perpetuando a continuidade da linhagem. Allah, o Altíssimo, disse no Alcorão Sagrado:(Árabe****************)

Allah, o Altíssimo, criou para vós cônjuges dentre vós mesmos e, a partir desses cônjuges, estabeleceu para vós filhos, descendentes e netos.

Por essa razão, o casamento deve sempre ser contraído em bases permanentes. O casamento temporário ou provisório, porém, não é assim. Ele é contraído por um período determinado, em troca de uma remuneração determinada. Portanto, o significado do casamento exposto acima à luz do Alcorão está inteiramente ausente nesse caso. O Nobre Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) havia permitido esse tipo de casamento antes que as disposições da Shariah alcançassem sua plenitude e estabilidade. Mesmo no caso dessa permissão, tratava-se de períodos de longas viagens e expedições militares; porém, mais tarde, ele próprio o proibiu definitivamente.

Havia uma razão para a permissão inicial desse tipo de casamento. Naquela época, as pessoas atravessavam um momento decisivo ou de transição, abandonando a jahiliyyah e dirigindo-se ao Islã. Na era da jahiliyyah, a zina — o adultério e a fornicação — era fácil, livre e sem qualquer tipo de impedimento.

Após a chegada do Islã, quando essas mesmas pessoas tiveram de partir para terras distantes por longos períodos, em razão do jihad, tornou-se muito difícil permanecer tanto tempo separadas e sem contato com suas esposas. Por outro lado, entre os novos muçulmanos havia tanto pessoas de fé muito forte quanto pessoas de fé fraca. Especialmente no caso dos que tinham fé fraca, o risco de se envolverem em zina tornou-se intenso, embora isso seja o pecado da mais extrema indecência e um ato abominável.

Por outro lado, os homens de fé forte decidiram tornar-se ‘eunucos’ e reprimir sua potência sexual! Nesse contexto, Ibn Mas‘ud (que Allah esteja satisfeito com ele) disse:(Árabe****************)

Partíamos em expedições militares com o Nobre Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Naquela época, nossas esposas não nos acompanhavam. Então dissemos: “Devemos tornar-nos ‘eunucos’?” Porém, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) proibiu-nos de fazer isso e permitiu-nos contrair casamento por um período determinado, em troca de roupas e coisas semelhantes.

Assim, foi concedida a permissão para esse casamento temporário, chamado, na língua (árabe), de casamento mut‘ah. Isso ocorreu com o objetivo de eliminar as dificuldades e os problemas temporários dos muçulmanos de ambas as classes: os de fé fraca e os de fé forte. Essa foi uma etapa no caminho da legislação que o Islã pretendia instituir para a vida conjugal e matrimonial dos muçulmanos. O objetivo do Islã era apresentar um sistema matrimonial e de vida conjugal que concretizasse todos os objetivos do casamento. Esses objetivos são a pureza do caráter, a preservação da castidade, a estabilidade da vida conjugal, a continuidade da linhagem, e a ampliação do âmbito da vida familiar por meio das relações matrimoniais, com amor, afeição e carinho.

Assim como o Alcorão adotou um método gradual ao proibir o consumo de bebidas alcoólicas e a usura — pois ambos estavam amplamente disseminados em toda parte na época da Jahiliyyah —, também adotou um método gradual semelhante ao proibir a fornicação e preservar a honra das partes íntimas. Por isso, inicialmente, permitiu o casamento mutʿa em razão da necessidade. Mais tarde, o Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) declarou esse tipo de casamento completamente proibido. Hadiths foram transmitidos nesta questão por meio de Hazrat Ali e de muitos Companheiros. Foi narrado por Hazrat Maʿbūrata al-Juhanī:(Árabe****************)

Ele havia acompanhado o Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) na expedição para a conquista de Meca. Naquela ocasião, ele lhes havia permitido tomar esposas segundo o método mutʿa. Ele ainda disse: porém, antes de sair de Meca, o Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) proibiu-o.

A formulação de outro hadith narrado por ele é:(Árabe****************)

E Allah, o Altíssimo, proibiu esse casamento até o Dia da Ressurreição.

Agora surge a questão: essa declaração de proibição continua vigente e permanece em efeito, como a proibição permanente de casar-se com a mãe ou a filha, ou essa proibição é semelhante à proibição de animais mortos, sangue e carne de porco?…… Então, mesmo que surgisse uma necessidade e o risco de cair em fornicação se tornasse intenso, esse tipo de casamento se tornaria permitido?

Em geral, toda a comunidade dos Companheiros concordava plenamente que o casamento mutʿa é proibido para sempre e de forma definitiva; aquela declaração anterior de proibição continua plenamente vigente, em efeito e inalterada. Como a Shariah alcançou sua forma definitiva, não pode haver nela, agora, qualquer possibilidade desse tipo de casamento.

Entretanto, Hazrat Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) manifestou uma opinião diferente. Ele disse que, em tempos posteriores, isso continuava lícito e permitido por necessidade. Quando um homem lhe perguntou sobre tomar uma esposa segundo o método mutʿa, ele lhe deu permissão. Seu escravo perguntou-lhe: isso só é permitido em circunstâncias extremamente difíceis e insuportáveis? Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) respondeu: sim.

Mais tarde, quando ele próprio soube que as pessoas haviam começado a exagerar bastante nesse assunto e estavam adotando esse método sem que houvesse necessidade, retirou sua opinião e também deixou de emitir fatwas em seu apoio.(Árabe****************)

Aceitar várias esposas simultaneamente

O Islã é uma religião plenamente compatível com a natureza. É um sistema de vida completo, apto a lidar com a realidade. Assim como impede as pessoas de cometerem excessos, também não contém qualquer deficiência ou incapacidade diante das necessidades. Temos uma prova concreta disso no fato de ele permitir que um homem tenha várias esposas simultaneamente. Com efeito, ele permitiu ao muçulmano ter várias esposas ao mesmo tempo por muitas e graves necessidades humanas, pessoais e sociais.

Antes do Islã, era amplamente difundido entre diferentes povos e comunidades religiosas tomar um grande número de mulheres como esposas de um único homem. Às vezes, o número ultrapassava dez e chegava a cem, duzentas ou trezentas, sem que qualquer condição fosse imposta nem houvesse qualquer restrição ou limitação. Porém, quando surgiu a religião do Islã, estabeleceu regras, condições e controles específicos para a aceitação de várias esposas.

A primeira restrição é que o Islã estabeleceu como limite máximo a aceitação de quatro esposas simultaneamente e ao mesmo tempo. Um homem chamado Gailan As Makafi abraçou o Islã. Naquela época, ele tinha dez mulheres como esposas. O Profeta (que a paz esteja com ele) disse-lhe:(Árabe****************)

Escolhe quatro delas e separa-te das restantes.

Da mesma forma, àquele que, ao abraçar o Islã, tivesse oito ou cinco esposas, o Mensageiro (que a paz esteja com ele) proibiu manter mais de quatro.

Contudo, o fato de o próprio Profeta (que a paz esteja com ele) ter mantido nove esposas simultaneamente é de natureza inteiramente distinta. Deus, o Altíssimo, concedeu-lhe uma permissão especial para isso, tendo em vista as necessidades do trabalho de الدعوة e as necessidades da comunidade muçulmana após o seu falecimento.

Condição para aceitar várias esposas simultaneamente — justiça

O Islã permitiu a um homem ter várias esposas simultaneamente, sob a condição de que ele tenha firme convicção de que poderá manter plena justiça entre suas esposas, no que diz respeito à alimentação, ao vestuário, às noites passadas com cada uma e ao custeio das despesas.

Para aquele que não possui firme convicção de que será capaz de cumprir devidamente todos esses direitos com plena justiça, equilíbrio e igualdade, foi declarado completamente haram ter várias esposas. Eis as palavras de Allah, o Altíssimo:(Árabe****************)

Se temeis não ser capazes de fazer essa justiça, então desposai apenas uma esposa.

E o nobre Profeta (que a paz esteja sobre ele) disse:(Árabe****************)

Aquele que tiver duas esposas e der preferência a uma delas em detrimento da outra comparecerá no Dia da Ressurreição arrastando um de seus lados caído ou inclinado.

Neste hadith, advertiu-se contra inclinar-se para uma das duas. Essa inclinação significa privar a outra de seu direito legítimo e cometer injustiça contra ela. O mero pendor do coração não é pecado, pois a inclinação ou atração do coração é algo sobre o qual ninguém tem poder voluntário. Por isso, Allah, o Altíssimo, não responsabiliza ninguém por isso, e essa falha não será considerada. O próprio Allah disse:(Árabe****************)

Mesmo que desejeis ardentemente, não sereis capazes de manter entre vossas esposas a justiça e o equilíbrio (em sua forma ideal e plena). Portanto, evitai inclinar-vos completamente para uma delas.

Por essa razão, o nobre Profeta (que a paz esteja sobre ele) fazia toda a distribuição entre suas esposas e mantinha a justiça entre elas, dizendo ao mesmo tempo:(Árabe****************)

Ó Allah, distribuí de forma justa tanto quanto estava ao meu alcance. Portanto, não me responsabilizes por não conseguir praticar a justiça que está além da minha capacidade e sob o Teu poder.

Com a expressão “além da capacidade”, ele explicou: não é de modo algum anormal que a inclinação e a atração do coração, bem como o apego, o amor e o afeto excessivos, se dirijam especialmente a uma única pessoa. Quanto a isso, muitas vezes o ser humano fica incapaz, tornando-se completamente impotente.

Quando o Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) pretendia fazer uma viagem ao estrangeiro, partia levando consigo aquela entre suas esposas cujo nome era conhecido por meio do Alcorão.

A razoabilidade da permissão para ter mais de uma esposa

Na verdade, o Islão é o modo de vida revelado por Allah, o Altíssimo, por meio do último Profeta e Mensageiro. Ele apresentou uma Sharia eterna e aplicável a toda a humanidade. Nela existem leis e normas relativas a todos os aspectos e âmbitos da vida humana. Ela é aplicável e certamente eficaz em todos os tempos, épocas e países. Cada pessoa pode encontrar nela a solução para os problemas de sua vida. Ela não é uma Sharia que contenha normas para os habitantes das cidades, mas não para os habitantes das aldeias ou das regiões desérticas; nem normas para os habitantes dos países frios, ignorando as necessidades dos habitantes dos países quentes. Tampouco é uma Sharia que satisfaça as necessidades de pessoas de uma determinada linhagem em uma época, sem que as pessoas de outra época ou linhagem possam dela obter normas.

Com efeito, ela atende tanto às necessidades dos indivíduos quanto às da sociedade e da coletividade. Nela existe uma organização adequada para o bem-estar de toda a humanidade, sem exceção.

É notável a diversidade das situações humanas. Há quem deseje dar continuidade à sua linhagem, mas, apesar de ter uma esposa, não tem sequer um filho. Seja isso causado por esterilidade ou por qualquer outro motivo, nessa situação não seria mais honroso para a esposa e melhor para o homem que ele mantivesse a primeira esposa consigo, continuasse a cumprir devidamente todos os direitos que lhe são devidos e tomasse outra esposa, para que pudesse realizar seu desejo natural de ter filhos?

A força sexual de algumas pessoas pode ser muito intensa e vigorosa. Para elas, o impulso e a excitação sexual podem ser irresistíveis. Mas a esposa pode ser, nesse aspecto, indiferente, desinteressada ou incapaz; ou pode ser cronicamente doente e incapaz de atender às necessidades do marido. O período menstrual da esposa pode ser prolongado, e o marido pode ser incapaz de exercer paciência durante tantos dias por causa disso. Em tal situação, em vez de aceitar uma amiga (girl friend), não seria mais apropriado para ele contrair outro casamento de acordo com a Sharia?

Muitas vezes, em um país, o número de mulheres é muito maior que o de homens. Especialmente quando, em uma guerra nacional, os jovens sacrificam a vida em massa, muitas mulheres são obrigadas a passar a vida viúvas, pois não encontram homens com quem possam se casar. Em tal situação, o bem-estar geral da sociedade, e especialmente o bem-estar das mulheres, pode ser alcançado quando elas preferem tornar-se coesposas, em vez de permanecerem privadas da vida conjugal e envelhecerem solteiras. Assim, poderão viver com a dignidade de esposas, o amor e o afeto do marido, tranquilidade mental e pureza moral. Poderão tornar-se mães. Na verdade, esse modo de vida é o verdadeiro reflexo de sua natureza.

É inevitável que as mulheres em idade núbil, cujo número excede o de homens, se encontrem em uma das três situações seguintes:

— ou continuarão a beber, durante toda a vida, o amargo veneno da privação e passarão assim a vida inteira;

— ou, tornando-se livres, independentes e libertinas, consumirão a vida como brinquedos dos homens e combustível de suas paixões;

— ou será considerado lícito que se casem com homens casados capazes de assumir as despesas e dispostos a adotar um bom comportamento.

Ao julgar com imparcialidade e bom senso, ficará sem dúvida claro que esta última situação é uma solução justa e equilibrada. Também do ponto de vista da ordem social e da saúde moral, esse sistema é o melhor. E foi precisamente essa solução que o Islã apresentou para esse complexo problema humano. Allah realmente disse:(Árabe****************)

Quem pode oferecer uma disposição melhor que a disposição de Allah para aqueles que têm firme convicção em Allah? (Surata Al-Ma’idah: 50)

Este é o princípio fundamental e o contexto da permissão, no Islã, para tomar mais de uma esposa ao mesmo tempo. No entanto, os sacerdotes cristãos do Ocidente espalharam calúnias contra os muçulmanos por causa disso, levantando uma tempestade em todo o mundo. Mas a situação deles é que concederam aos homens liberdade e permissão irrestritas para manter inúmeras amantes, companheiras e concubinas, sem aplicar qualquer controle legal ou moral sobre isso. Como resultado dessas atividades desprovidas de moralidade e religião, colhem inúmeros filhos ilegítimos e órfãos. A corrupção social produzida por isso é indescritível e extremamente difícil de eliminar. À luz desta grande verdade, deve-se considerar seriamente qual disposição é mais humana e benéfica: a ocidental ou a islâmica.

A relação mútua entre marido e mulher

O Alcorão Sagrado descreveu com grande ênfase e clareza o propósito e o objetivo do casamento. É sobre essa base que se ergue o edifício da vida conjugal. Em vez da promiscuidade sexual, o verdadeiro objetivo do vínculo matrimonial é o amor e o afeto entre marido e mulher; a paz, o conforto e a satisfação mental; uma relação profunda de amor e harmonia entre os parentes e as famílias de ambos os cônjuges; a plena manifestação da solidariedade humana, da bondade e da sensibilidade emocional; e o estabelecimento de uma relação sincera com os filhos na qualidade de pai e mãe, entre outras coisas. Um versículo da surata Ar-Rum aponta para esse aspecto. Foi dito:(Árabe****************)

E entre Seus sinais está o fato de Ele ter criado para vós esposas da vossa própria espécie, para que encontreis junto delas tranquilidade e conforto, e ter estabelecido entre vós amor e bondade. Nisso há muitos ensinamentos e assuntos dignos de reflexão para as pessoas ponderadas.

A relação sensível entre marido e mulher

Além desses objetivos e finalidades, o Alcorão Sagrado também lançou luz sobre a relação sensível e física ou sexual entre marido e mulher. Também nesse campo, o Alcorão mostrou à humanidade um caminho simples, direto e reto. Seguindo-o, a pessoa pode satisfazer seus desejos e impulsos naturais, evitando os caminhos desviados, impuros e abomináveis.

Foi relatado nos hadiths que, quando suas esposas menstruavam, os judeus e os adoradores do fogo se afastavam muito delas e exageravam enormemente nesse assunto. Já os cristãos mantinham relações sexuais com as esposas mesmo nessa condição. Não demonstravam a menor preocupação nem aversão à menstruação. Quanto aos povos da jahiliyyah, quando suas esposas menstruavam, evitavam comer e beber juntos, sentar-se e levantar-se juntos, dormir no mesmo leito e até mesmo morar na mesma casa. Exatamente como os judeus e os adoradores do fogo.

Ao observar tudo isso, surgiu uma dúvida na mente de alguns muçulmanos. Eles perguntaram ao Mensageiro de Deus (que a paz esteja com ele) o que era lícito e o que era ilícito nas relações com as esposas em tal situação. Então foi revelado o seguinte versículo:(Árabe****************)

Perguntam-te sobre a menstruação. Dize: é uma impureza repugnante. Afastai-vos das esposas durante esse período e não vos aproximeis fisicamente delas até que estejam purificadas. Quando estiverem purificadas, aproximai-vos delas como Deus vos determinou. Deus ama os que se arrependem e os que se purificam.

A partir da ordem contida neste versículo para se manterem afastados das esposas, os árabes haviam concluído que também não era permitido conviver com elas. Então, ao explicar corretamente o versículo, o nobre Profeta (que a paz esteja com ele) disse:(Árabe****************)

Eu apenas vos ordenei que evitásseis relações sexuais com as esposas durante a menstruação. Não vos ordenei que as expulsásseis de suas casas, como fazem os não árabes.

Quando os judeus souberam disso, disseram: “Este homem decidiu opor-se a nós em todas as questões.”

Portanto, exceto pela relação sexual com a esposa durante a menstruação — evitando o local de impureza —, não há culpa para o muçulmano em buscar prazer com ela em todos os outros aspectos. Vê-se, assim, que foi estabelecida uma norma equilibrada e harmoniosa entre os dois extremos: de um lado, expulsar as esposas de casa durante a menstruação e, de outro, manter com elas relações tão íntimas a ponto de chegar à relação sexual.

A medicina moderna descobriu que o sangue eliminado durante a menstruação contém uma substância tóxica que, se permanecer no corpo, pode tornar-se muito prejudicial. Foi descoberta a razão pela qual se deve evitar a relação sexual durante a menstruação. Sabe-se que, durante esse período, a vagina fica contraída devido à coagulação do sangue. Como as veias e os vasos internos ficam congestionados, o conjunto dos nervos permanece em estado muito instável e anormal. Por isso, a relação sexual nessa situação torna-se prejudicial para a mulher. Às vezes, a menstruação pode cessar, causando doenças nervosas. Em muitos casos, também pode surgir ardor nos órgãos sexuais. (Consulte a obra do Dr. Abdul Aziz Ismail intitulada (Árabe****************).)

Evitar o coito anal

No contexto das relações sexuais com as esposas, foi revelado este versículo da surata Al-Baqara:(Árabe****************)

Vossas esposas são para vós uma lavoura. Ide, pois, à vossa lavoura como quiserdes. E preparai provisões para o vosso futuro. Temei a Deus e sabei que haveis de encontrá-Lo. E anuncia as boas-novas aos crentes.

Esta ayah teve uma causa específica e uma razão para ser revelada. Shah Waliullah Dehlavi mencionou isso. Ele disse:

Os judeus criaram restrições nas relações conjugais sem qualquer orientação dada por Allah. E os membros da comunidade dos Ansar, que viviam próximos deles, seguiam o seu método. Eles diziam: se um homem mantiver relações com sua esposa vindo por trás e penetrando pela frente, em seu órgão sexual, o filho nascerá vesgo. Então, esta ayah do Alcorão foi revelada:(Árabe****************)

Ide à vossa seara como quiserdes.

Isto é, a relação sexual deve ocorrer no órgão sexual da esposa — seja pela frente, seja pela direção externa, isto é, por trás. Nenhum modo ou método específico de relação sexual tem qualquer relação com questões sociais, civilizacionais ou nacionais. Quanto às conveniências e inconveniências pessoais, cada pessoa sabe disso por si mesma. A estreiteza de visão dos judeus nesse assunto foi fruto de seu excessivo preciosismo. Por isso, é melhor rejeitá-la.(Árabe****************)

Na realidade, determinar o método e a posição da relação sexual não é uma questão da religião. A pessoa deve temer Allah e saber bem que certamente encontrará Allah. Por isso, deve evitar o ânus, pois este é o caminho das fezes. Tal ato faz parte do impuro liwat. Por essa razão, a Shariah considerou necessário declará-lo proibido. O nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse:(Árabe****************)

Não tenhais relações com vossas esposas pelo ânus.

Ao homem que mantém relações com sua esposa pelo ânus, o nobre Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse:(Árabe****************)

Pequeno praticante de liwat.

Quando uma mulher dos Ansar perguntou sobre ter relações com a esposa por trás, na vagina, o Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) recitou-lhe este versículo:(Árabe****************)

Vossas esposas são vosso campo de cultivo. Portanto, aproximai-vos de vosso campo como e pela direção que quiserdes.

Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) perguntou:(Árabe****************)

Ó Mensageiro! Estou perdido. Ele perguntou: O que te levou à perdição? Respondeu: Na noite passada, minha montaria havia mudado de direção. (Isto é, tive relações com minha esposa por trás.)

Ao ouvir isso, o Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) não deu nenhuma resposta. Mais tarde, foi revelado o versículo acima. Depois disso, o Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) disse:(Árabe****************)

Pode fazê-lo pela frente e também por trás. Porém, evite fazê-lo durante a menstruação e pelo ânus. (Ahmad, Tirmidhi)

Preservação dos segredos íntimos entre marido e mulher

No Alcorão Sagrado, ao descrever as virtudes das mulheres virtuosas e piedosas, é dito:(Árabe****************)

As mulheres devotas são guardiãs do que é oculto, sob a proteção e o favor de Allah. (Surata An-Nissá: 34)

Entre as coisas invisíveis e secretas cuja preservação é mencionada neste versículo estão também os assuntos relativos à intimidade entre marido e mulher. É proibido mencionar esses segredos em reuniões e encontros com amigos e amigas.

Foi dito no hadith:(Árabe****************)

No Dia da Ressurreição, terá a posição mais desprezível perante Allah a pessoa que satisfaz sua necessidade com sua esposa e depois divulga esse segredo.

Hazrat Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: o Profeta (que a paz esteja com ele) conduziu nossa oração e, depois de proferir a saudação final, voltou-se para nós e disse: “Ficai todos sentados e escutai. Há entre vós alguém que, ao ir ter com sua esposa, fecha a porta da casa e baixa as cortinas? Depois, ao sair, começa a dizer às pessoas: ‘Fiz isto e aquilo com minha esposa’?”

Ninguém respondeu à pergunta do Mensageiro (que a paz esteja com ele). Então ele se dirigiu às mulheres que haviam rezado e disse: “Há entre vós também alguém que fale desse modo?” Uma jovem, apoiada sobre os joelhos, tentava ver o Profeta (que a paz esteja com ele) e ouvir suas palavras. Ela disse: “Juro por Allah, os homens também falam desse modo.” Ao ouvir isso, o Profeta (que a paz esteja com ele) disse:(Árabe****************)

“Sabeis qual é o exemplo daquele que faz isso? Seu exemplo é como o de um demônio macho e uma demônia: ele se une à sua esposa em plena via pública e satisfaz sua necessidade, enquanto todas as pessoas, de olhos abertos, contemplam aquela cena indecente.”

Para suscitar num muçulmano extrema repulsa por esse ato insensato, basta o exemplo apresentado. Pois é uma ação extremamente abominável. Nenhum muçulmano pode desejar tornar-se um demônio macho ou uma demônia.

Planejamento familiar

A preservação da humanidade e da descendência humana é o objetivo supremo do casamento e da vida conjugal. E essa preservação depende da continuidade ininterrupta da linhagem. Por isso, o Islã atribuiu grande importância à procriação e declarou-a altamente desejável. Na perspectiva islâmica, os filhos — sejam meninos ou meninas — são fonte de imensa bênção e prosperidade. Ao mesmo tempo, o Islã reconheceu que, por razões justificáveis e necessidades importantes, pode-se adotar um método de planejamento familiar. Na época do Nobre Mensageiro (que a paz esteja com ele), era praticado o ‘azl — a emissão do sêmen para fora do órgão feminino no momento da ejaculação — com o objetivo de impedir ou reduzir a natalidade. Durante a época da missão profética, os Companheiros adotavam esse método. Foi narrado por Jābir (que Deus esteja satisfeito com ele):(Árabe****************)

Praticávamos o ‘azl durante a vida do Nobre Mensageiro (que a paz esteja com ele), enquanto o Alcorão ainda estava sendo revelado. Outro hadith diz:(Árabe****************)

Praticávamos o ‘azl durante a vida do Nobre Mensageiro (que a paz esteja com ele). Quando essa notícia chegou até ele, não nos proibiu de fazê-lo.

E outro hadith afirma:(Árabe****************)

Um homem foi até o Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) e disse: “Ó Mensageiro! Tenho cem escravas; pratico o ‘azl’ com elas e não desejo que engravidem. Também desejo o que os homens geralmente desejam. Enquanto isso, os judeus ficam dizendo que o ‘azl’ é um pequeno infanticídio secreto.” Então o Nobre Profeta disse: “Os judeus mentem. Se Deus quiser que uma criança nasça, você não poderá impedi-lo.”

O significado das palavras do Nobre Mensageiro é que, mesmo praticando o ‘azl’, os espermatozoides podem alcançar o útero, e a concepção pode ocorrer sem que se perceba.

Durante uma reunião de Omar al-Faruq (que Deus esteja satisfeito com ele), discutia-se o ‘azl’. Alguém disse: “As pessoas o consideram um pequeno infanticídio secreto.” Ao ouvir isso, Ali (que Deus esteja satisfeito com ele) disse: “Pode-se chamar de ‘wa’d’ — enterrar uma menina viva, isto é, matar um filho — somente quando o embrião já tiver passado por sete estágios: o extrato da terra transforma-se em espermatozoide; depois adquire a forma de sangue coagulado; depois torna-se uma massa de carne; em seguida, formam-se os ossos, e sobre eles se deposita a carne. Somente depois de passar por esses estágios ele adquire forma e aparência humanas.” Omar (que Deus esteja satisfeito com ele) disse: “Você falou corretamente. Que Deus lhe conceda longa vida.”

Em que circunstâncias o planejamento familiar é permitido

Somente em algumas necessidades especiais pode ser permitido adotar métodos de planejamento familiar. Uma dessas necessidades ocorre quando a vida ou a saúde da mãe fica ameaçada devido a uma doença ou a complicações durante o parto; nesse caso, esse método pode ser adotado. A existência dessa complicação ou ameaça será conhecida com base na experiência, ou será informada por um médico confiável e digno de confiança. O próprio Allah disse:(Árabe****************)

Não vos lanceis, com as próprias mãos, na destruição.

Disse:(Árabe****************)

Não mateis a vós mesmos. Certamente, Allah é muito misericordioso para convosco.

A segunda base é o receio de cair em dificuldades, problemas e incertezas materiais, ou em uma situação de desamparo, em razão da qual se possa considerar que surgirão problemas religiosos. Como consequência, por causa dos filhos, a pessoa poderá acabar consumindo coisas proibidas e envolvendo-se em atos ilícitos. Allah disse:(Árabe****************)

Allah deseja estabelecer facilidade para vós e não deseja colocar-vos em dificuldade. (Surata Al-Baqara: 185)

(Árabe****************)

Deus não quer impor-vos constrangimento nem dificuldade.

A terceira é o receio de que a saúde dos filhos seja prejudicada ou de que se fracasse em proporcionar-lhes uma criação e educação adequadas. Neste ponto, é pertinente mencionar o seguinte hadith: (Árabe****************)

Foi narrado por Usama ibn Zayd que um homem foi ter com o Mensageiro de Deus e disse: “Ó Mensageiro de Deus! Pratico o coito interrompido com a minha esposa.” Ele perguntou: “Por que fazes isso?” O homem respondeu: “Temo pela sua amamentação.” Então o Profeta disse: “Se o receio de causar dano fosse realmente válido, os persas e os romanos teriam sofrido dano.”

O significado disso é que, segundo o Profeta, se as pessoas praticassem esse ato individualmente, isso não seria coletivamente prejudicial para toda a ummah. E a maior prova de que isso não é prejudicial é que, naquela época, os persas e os romanos possuíam governos e sistemas estatais muito poderosos; no entanto, não sofreram nenhum dano por causa dessa prática.

Do ponto de vista da Sharia, pode-se mencionar ainda outra necessidade: se a mãe de uma criança lactente engravidar novamente, isso poderá ser prejudicial para a criança. Isso porque o leite da mãe pode secar, fazendo com que a criança fique debilitada.

O Profeta orientava a ummah a realizar ações que fossem coletivamente benéficas para ela. E ordenava que se evitassem todas as ações que pudessem causar dano à ummah. As seguintes palavras do Profeta pertencem a essa categoria: (Árabe****************)

Não destruam secretamente os vossos filhos. Pois manter relações sexuais com a esposa enquanto há uma criança lactente pode causar dano à criança.

Contudo, o Profeta não proibiu essa prática considerando-a haram. Isso porque, em sua época, pessoas de outras nações adotavam esse método. Mas isso não lhes causava nenhum dano. Se as relações sexuais com a esposa durante o período de amamentação da criança tivessem sido proibidas de modo absoluto, seus maridos teriam sofrido com isso. O período de amamentação pode estender-se por até dois anos. Considerando todas essas questões, o Profeta disse: (Árabe****************)

Eu quis proibir as relações sexuais com a mãe de uma criança que ainda mamava. Porém, soube que os persas e os romanos faziam isso, sem que seus filhos sofressem qualquer dano.

O erudito Ibn al-Qayyim apresentou uma análise para conciliar os dois hadiths anteriormente citados. Ele disse:

Diante do Profeta (que a paz esteja com ele), havia dois aspectos. Um deles era o receio de que a criança lactente sofresse dano caso se mantivessem relações sexuais com sua mãe enquanto ela a amamentava. Embora esse dano não chegasse ao nível de matá-la ou destruí-la, ele proibiu o ato por receio de dano. Contudo, não o declarou haram; posteriormente, quis impedir que as pessoas o praticassem como medida preventiva. Mas outro aspecto também se revelou diante dele: se as relações sexuais com mulheres que amamentavam fossem proibidas, a proibição não conseguiria evitar as dificuldades e consequências negativas que poderiam resultar disso, especialmente o forte risco de jovens e pessoas sexualmente excitadas caírem em extrema perdição. Por essa razão, ele concluiu que a prevenção desse benefício perdido era muito mais importante e prioritária do que evitar o dano decorrente da medida preventiva. Também se apresentava diante dele o modo de agir de duas grandes e estabelecidas nações daquela época. Como elas não abandonavam essa prática, por todas essas razões ele não a proibiu.

Na época moderna, foram inventados novos métodos e meios de contracepção. [É necessário lembrar que o autor trata aqui do planejamento familiar, e não da prevenção dos nascimentos ou da esterilização. Portanto, não se pode afirmar que o planejamento familiar baseado em métodos modernos, nem a esterilização, sejam permitidos. A esterilização é, em sua essência, o crime de alterar a criação de Alá. Não há dúvida de que ela é um pecado, haram, e constitui o ato de matar filhos claramente proibido por Alá. No entanto, o caso de alguém que se encontre em extrema necessidade é uma questão à parte. — Tradutor]

Com sua aplicação e uso, é possível preservar o aspecto benéfico, que era o que o Mensageiro (que a paz esteja com ele) desejava: proteger a criança lactente do dano. E ele também desejava proteger a comunidade contra o desastre que poderia resultar da proibição das relações sexuais com a esposa durante a amamentação.

À luz desta discussão, segundo Ibn Hanbal, o coito interrompido é permitido. A condição, porém, é que seja praticado com o consentimento da esposa. Isso porque ela tem direito tanto ao prazer e à satisfação da relação sexual quanto aos filhos. Omar (que Alá esteja satisfeito com ele) proibiu a prática do coito interrompido sem o consentimento da esposa.

Isso torna evidente a perspectiva característica do Islã. O Profeta (que a paz esteja com ele) atribuiu tamanha importância aos direitos das mulheres numa época em que as pessoas do mundo eram completamente alheias à própria ideia de direitos das mulheres.

Aborto

O Islã permitiu recorrer a métodos contraceptivos somente quando a necessidade deles se torna premente. Contudo, uma vez ocorrida a concepção, em circunstância alguma é permitido causar dano ao feto.

Os juristas são unânimes em afirmar que, depois que a vida é insuflada no feto, provocar um aborto é completamente haram e constitui um crime. Tal ato não pode ser permitido a nenhum muçulmano, pois representa uma ظلم desumana contra um ser vivo e completo. Por isso, os juristas disseram que, se durante o aborto o feto nascer vivo e depois morrer, será necessário pagar a diyah — a compensação de sangue. Se o feto já estiver morto, deverá ser paga uma multa, cujo valor será inferior ao da diyah. Entretanto, afirmam que, se for comprovado por meios confiáveis que, para salvar o feto, a vida da mãe se extinguirá e que não há outro meio de salvar sua vida senão provocando o aborto, então este se torna obrigatório. A regra geral da Shariah é que, diante de dois males, não se pode colocar em risco a vida da mãe para salvar a vida do feto, pois a vida da mãe é a essencial e seus direitos têm precedência. Portanto, sacrificar a vida da mãe para preservar a vida do feto de modo algum pode ser considerado desejável.

O Imam al-Ghazali disse:

É preciso distinguir entre contracepção e aborto. A contracepção não equivale a matar um filho, pois só se pode falar em matar um filho quando ele já tiver passado a existir no útero. A existência do filho no útero ocorre em várias etapas. A primeira é a fixação do espermatozoide no útero e sua aquisição da capacidade de receber vida. Destruí-lo nessa condição é um pecado. Quando o espírito é insuflado nele e ele se torna saudável e plenamente formado, destruí-lo constitui um pecado ainda maior. O pecado em seu grau máximo é matar a criança depois de seu nascimento.

(Mas como pôde o Imam al-Ghazali esquecer que a destruição do espermatozoide também é certamente um pecado? Se ela fosse permitida, poderia frustrar completamente a vontade de Allah de criar seres humanos no mundo, e isso jamais pode ser permitido. Atualmente, esse método foi inventado e é amplamente praticado. Na realidade, o espermatozoide que sai do corpo masculino é o filho do homem, e o Sagrado Alcorão proibiu repetidamente matá-lo. Se isso ocorrer por medo da escassez de alimentos, então esse haram se torna ainda mais grave.) — O tradutor.

Os direitos sociais entre marido e mulher

O casamento é um vínculo bem estruturado, um compromisso firme. Allah, o Altíssimo, instituiu esse sistema precisamente para estabelecer um vínculo sólido entre o homem e a mulher. Depois do casamento, cada um é o par do outro. Embora sejam distintos quanto à personalidade, na realidade são o par um do outro. Cada um é representante do outro. Os desejos, aspirações, esperanças e anseios próprios de cada um estão mutuamente ligados e integrados.

Foi precisamente para explicar a extrema firmeza e continuidade da relação entre marido e mulher que se diz no Sagrado Alcorão:(Árabe****************)

As esposas são vossas vestes, e vós sois vestes para elas.

O verdadeiro sentido deste versículo é que marido e mulher devem estar estreitamente ligados um ao outro, encobrir as intimidades um do outro, apoiar-se e ajudar-se mutuamente e ser fonte de beleza um para o outro. Em outras palavras, cada um tem direitos sobre o outro. Esses direitos devem ser plenamente cumpridos. Eles são absolutamente iguais, exceto pelos direitos especiais concedidos aos homens de acordo com sua natureza; isso fica claro nas próprias palavras de Allah. Ele diz:(Árabe****************)

As mulheres têm direitos equivalentes às suas obrigações, de acordo com o que é reconhecido e habitual. Contudo, os homens têm um grau de precedência sobre elas.

Esse grau de precedência consiste em dirigir, governar, assumir responsabilidade e prestar contas. Um homem perguntou ao nobre Profeta (que a paz esteja com ele): “Quais são os direitos de nossas esposas sobre nós?” Ele respondeu:(Árabe****************)

Que as alimenteis com o que comeis e as vistais como vos vestis. Não golpeeis seus rostos, não as insulteis com palavras más e obscenas e não as abandoneis senão dentro de casa. (Abu Dawud, Ibn Hibban)

Portanto, nenhum muçulmano pode negligenciar ou tratar com indiferença o sustento e a manutenção de sua esposa. Foi dito no hadith:(Árabe****************)

Para que um homem seja considerado pecador, basta que demonstre extrema negligência para com aqueles cujo sustento e manutenção lhe foram confiados. (Abu Dawud, Nasa’i, Hafem)

O Islã não concedeu permissão para golpear a esposa no rosto, pois esse ato é contrário à honra e à dignidade humanas. Com isso, é ferida e atingida a parte mais honrada e digna do corpo — aquela em que se concentra toda a beleza do corpo. No caso de uma esposa desobediente e rebelde, em certas circunstâncias, pode-se golpeá-la levemente, quando necessário, com o propósito de educá-la adequadamente e corrigi-la. Mas de modo algum é permitido golpeá-la de forma que lhe cause sofrimento ou desfigure seu rosto. Também não é permitido insultar a esposa. Causar-lhe sofrimento, dirigir-lhe palavras insuportáveis ou até mesmo fazer súplicas contra ela são igualmente atos totalmente ilícitos.

É digno de menção o seguinte hadith sobre os direitos do marido sobre a esposa. O nobre Profeta (que a paz esteja com ele) disse:(Árabe****************)

Não é lícito à mulher que crê em Allah permitir que entre na casa de seu marido alguém de quem ele não goste. Também não lhe é permitido sair de casa sem a permissão do marido. Nesse assunto, ela não deve obedecer às instruções de nenhuma outra pessoa, nem é aconselhável que se afaste do leito do marido. Se o marido for injusto, ela deverá esforçar-se ao máximo para mantê-lo satisfeito. Se ele aceitar esse serviço prestado por ela, tanto melhor. Allah aceitará sua justificativa e tornará manifesta a sua sinceridade. Mas, se o marido não ficar satisfeito, sua justificativa de incapacidade chegará a Allah.

A paciência mútua entre marido e esposa

É dever de todo marido muçulmano ter paciência com sua esposa, especialmente quando observa nela algo de que não gosta. É dever absoluto do marido acostumar-se a tolerar as falhas que naturalmente existem nos seres humanos por serem humanos, bem como as fraquezas próprias da feminilidade observadas nas mulheres. Da mesma forma, é recomendável manter o olhar voltado sobretudo para as qualidades dela e para seus aspectos positivos, em vez de se concentrar em seus defeitos e falhas. Foi dito no hadith:(Árabe****************)

Nenhum homem crente deve odiar uma mulher crente. Pois, se houver nela uma característica que lhe desagrade, certamente encontrará outras qualidades que lhe agradarão. (Muslim)

E Allah, o Altíssimo, disse:(Árabe****************)

Convivei e vivei com as esposas de maneira honrosa (adotai um bom comportamento). Se não gostardes delas, é possível que Allah tenha depositado nelas muito bem e benefício.

Assim como o Islã ordenou ao marido que tivesse paciência e demonstrasse extrema tolerância diante das coisas desagradáveis em suas esposas, também instruiu as esposas a se esforçarem, tanto quanto possível, para manter seus próprios maridos satisfeitos e a não passarem a noite enquanto eles estiverem descontentes com elas. Foi dito no hadith:(Árabe****************)

A oração de três pessoas não se eleva sequer um palmo acima de suas cabeças: uma é a pessoa que lidera as pessoas em oração, embora elas não gostem dela; a segunda é a mulher que passa a noite enquanto o marido está descontente com ela; e a terceira são dois irmãos que estão envolvidos em brigas e discussões entre si. (Ibn Majah, Ibn Hibban).

Quando surge um conflito entre marido e mulher

O homem é o chefe, administrador e responsável pelo lar e pela família. Ele foi criado precisamente para esse propósito e, como possui as qualidades necessárias para isso, sua posição na luta pela vida é igualmente elevada; além disso, foi investido nessa posição porque a responsabilidade pelo pagamento do dote e pelas despesas cabe a ele. Portanto, a esposa não pode ter o direito de desobedecê-lo, realizar atos contrários à obediência, rebelar-se contra ele ou passar por cima dele. Se isso acontecer, é inevitável que as relações mútuas se deteriorem gravemente. A embarcação da vida familiar ficará à deriva e não é impossível que, na ausência de um verdadeiro timoneiro, acabe completamente submersa.

Quando o marido perceber que a esposa está desobedecendo-lhe e se mostrando insolente diante dele, deverá esforçar-se tanto quanto possível para corrigi-la por meio de bons conselhos e de palavras sensatas, tocantes e convincentes. Porém, se os conselhos não surtirem efeito, deverá afastar-se dela no leito e rejeitá-la, para que nela desperte o sentimento próprio de uma mulher e, por fim, ela se renda e se torne obediente e submissa.

Se essa medida não produzir efeito, pode-se levantar a mão contra ela. Mas isso não significa que sejam permitidas agressões extremas, opressão ou golpes no rosto; tudo isso deve ser completamente evitado. Para algumas mulheres, uma forma leve de castigo físico pode revelar-se bastante benéfica e revitalizadora. Castigar fisicamente não significa bater com chicote, vara ou bastão. Uma declaração do Profeta, que a paz esteja com ele, oferece uma orientação clara sobre esse assunto. Certa vez, um de seus servos o irritou por causa de determinada ação. Então ele disse:(Árabe****************)

Se não houvesse a possibilidade de retribuição no Dia da Ressurreição, eu teria batido em você com este miswak. (Tabaqat de Ibn Sa’d)

O Mensageiro, que a paz esteja com ele, de modo algum apreciava bater. Ele disse:(Árabe****************)

Por que alguns de vocês batem em sua própria esposa como um senhor bate em seu escravo? E depois, talvez ainda durante a mesma noite, ele terá relações sexuais com ela. (Musnad Ahmad)

Sobre aqueles que agridem as mulheres, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: (Árabe****************)

Uma pessoa desse tipo jamais pode ser considerada uma boa pessoa entre vós.

Hafiz Ibn Hajar escreveu:

Os melhores entre vós jamais espancarão suas esposas. Das palavras do Nobre Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), compreende-se que, em certa medida, é permitido bater nas esposas. Contudo, o momento apropriado para isso é quando o marido percebe desobediência por parte da esposa justamente em algo em que ela deve obedecê-lo. Em tal situação, ele pode bater nela com o objetivo de obrigá-la à obediência e fazê-la cumprir suas ordens. Porém, se a situação puder ser resolvida por meio de repreensão, ameaça ou intimidação, a agressão deve ser necessariamente evitada. Isso porque faz crescer intensamente no coração da esposa o ódio pelo marido, o que é contrário a uma vida conjugal harmoniosa, embora esse seja precisamente o objetivo principal da vida matrimonial. Mas, se for necessário bater-lhe por alguma questão relacionada à desobediência a Allah, esse é um caso distinto.

No livro de Nasa’i, Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) narrou:(Árabe****************)

O Nobre Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) jamais bateu em nenhuma de suas esposas ou servos. Nunca levantou a mão para bater em qualquer outra pessoa. Contudo, se alguma vez puniu alguém pela causa de Allah ou por ter desonrado a santidade de Allah, isso é uma questão completamente distinta. (Fath al-Bari, vol. 9, p. 249)

Mas, se essas medidas também fracassarem e se mostrarem ineficazes, e surgir o temor de que o conflito e a discórdia entre ambos se ampliem e se aprofundem, então pessoas influentes, dotadas de autoridade e interessadas no bem da sociedade islâmica deverão intervir e tentar promover a reconciliação. O procedimento consiste em nomear um árbitro da parte do marido e outro da parte da esposa, sendo ambos verdadeiramente interessados no bem dos dois. Eles tentarão reconciliar o marido e a esposa e eliminar o conflito surgido; então Allah certamente estabelecerá a concórdia entre ambos. Sobre essa questão, o anúncio do Altíssimo Allah é:(Árabe****************)

Quanto àquelas esposas de cuja rebeldia e desobediência temeis, admoestai-as, abandonai-as nos leitos e batei-lhes. Depois, se elas vos obedecerem, não procureis pretexto para acusá-las. Sabei com certeza que Allah é Altíssimo e Grandioso. E, se temerdes uma ruptura entre ambos, nomeai um árbitro da família do marido e outro da família da esposa. Se ambos desejarem verdadeiramente promover a reconciliação, Allah estabelecerá a harmonia entre eles. Sem dúvida, Allah é Onisciente e plenamente informado de todas as coisas.

O divórcio só pode ser concedido em tais circunstâncias

Somente depois de fracassarem todas as tentativas e esforços mencionados e analisados acima é que pode ser permitido ao marido, por necessidade, adotar como último recurso o procedimento estabelecido pela Sharia islâmica, para que todos os problemas e complicações sejam eliminados; e esse procedimento é o divórcio. O Islã permitiu esse recurso com grande relutância e desagrado. Ele não é uma ação preferível nem obrigatória ou compulsória. O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse:(Árabe****************)

Entre as ações lícitas, o divórcio é a mais detestável e desagradável aos olhos de Allah.

(Árabe****************)

Allah não tornou lícita nenhuma ação mais desagradável do que o divórcio.

Que o divórcio é uma ação lícita, porém desagradável, torna-se claro pelo fato de que o divórcio é uma permissão, cujo uso só é lícito em caso de extrema necessidade e quando não há outra saída. Quando a vida familiar se torna inviável e desestruturada, quando o ódio e a hostilidade entre marido e mulher se intensificam e já não é possível permanecer dentro dos limites estabelecidos por Allah, nem cumprir os direitos conjugais mútuos, então não resta outra alternativa senão recorrer a esse procedimento. Quando não há qualquer meio de reconciliação, a separação é melhor: este é um princípio comum. Allah disse:(Árabe****************)

Se os dois se separarem, Allah tornará ambos independentes um do outro por meio de Sua generosidade.

A prática do divórcio antes do Islã

O divórcio não é uma instituição introduzida apenas pelo Islã. Antes do Islã, a prática do divórcio era amplamente difundida em todo o mundo. Naturalmente, havia exceções no caso de uma ou duas nações. Quando o marido se irritava com a esposa — por uma razão legítima ou mesmo sem razão — expulsava-a de casa. A esposa, então, nada podia dizer ou fazer em sua própria defesa ou em apoio à sua causa. Também lhe era impossível receber qualquer compensação do marido. Nenhum outro tipo de direito lhe era reconhecido. Na época da glória e do predomínio dos gregos, quando a bandeira vitoriosa de sua civilização tremulava ao vento, o divórcio também vigorava em sua sociedade sem qualquer condição, restrição ou impedimento. Na sociedade romana, o divórcio era considerado efetivado assim que o casamento era celebrado. Mesmo que o marido e a esposa impusessem a condição de não se divorciarem, o juiz proferia uma sentença anulando o casamento.

Segundo as antigas tribos romanas, o divórcio era proibido no casamento religioso. Entretanto, o marido obtinha autoridade ilimitada sobre sua esposa. Em algumas circunstâncias, chegava a ser lícito para ele até mesmo matá-la. Mais tarde, em sua religião, o divórcio foi declarado lícito, tal como no direito civil.

O divórcio no judaísmo

Embora a religião judaica tenha procurado elevar a honra e a dignidade das esposas, declarou o divórcio lícito e ampliou enormemente sua permissibilidade. Depois que a culpa pelo pecado da esposa era comprovada, o marido ficava religiosamente obrigado a divorciar-se dela. Mesmo que o marido perdoasse seu pecado, divorciar-se dela tornava-se para ele um dever indispensável. Se, depois de transcorridos dez anos, a esposa ainda não desse à luz um filho, o divórcio era considerado necessário também aos olhos da lei.

O divórcio no cristianismo

O cristianismo opôs-se completamente ao divórcio. Por um lado, opôs-se à religião judaica. O Evangelho, em nome de Jesus, declarou inteiramente proibido o ato de divorciar-se. Além disso, tornou ilícito o casamento tanto do homem que se divorcia quanto da esposa divorciada. No relato de Mateus do Evangelho, está dito:

E foi dito: «Quem quer que abandone sua esposa, dê-lhe uma carta de repúdio (certidão de divórcio). Mas eu vos digo: quem quer que abandone sua esposa por qualquer motivo que não seja adultério, faz dela uma adúltera; e quem se casa com essa mulher abandonada comete adultério. (Mateus, capítulo 5, versículos 31–32)»

No Evangelho segundo Marcos, está dito:

Quem repudiar sua esposa e se casar com outra comete adultério contra ela; e, se uma mulher repudiar seu marido e se casar com outro, também comete adultério.

Na Bíblia, a razão apresentada para essa proibição é:

Portanto, o que Deus uniu, ninguém o separe. (Mateus, capítulo 19, versículo 6)

Essa afirmação é, por si mesma, verdadeira e correta. Mas sua aplicação para declarar o divórcio proibido é deveras surpreendente. O significado simples e direto de Deus unir o marido e a esposa é que Ele permitiu o casamento. Se Ele permitiu que o casamento fosse dissolvido pelo divórcio, então essa separação também deve ser considerada proveniente de Deus, embora o ato de separar tenha sido realizado por seres humanos. Disso fica claro que Aquele que separa os que Deus uniu não é o ser humano, mas o próprio Deus.

Quando ocorre adultério, não é Deus quem separa os dois? Além do adultério, existem outras razões para a separação?

A divergência do cristianismo a respeito do divórcio

Embora o Evangelho não declare proibido o divórcio da esposa quando ocorre adultério, ele o isenta da proibição e o estabelece como exceção; a doutrina católica, porém, explicou essa exceção. Seus seguidores dizem que, na realidade, não há aqui exceção alguma. Em lugar nenhum existe qualquer possibilidade de divórcio. No cristianismo, a própria existência do divórcio não é reconhecida. Entretanto, o verdadeiro significado do divórcio em razão do adultério é que o próprio adultério rompe o vínculo matrimonial. Por isso, quando ocorre adultério, é dever do marido abandonar a esposa.

A doutrina protestante proferiu uma decisão completamente oposta. Seus seguidores consideram permitido o divórcio em circunstâncias específicas, como o adultério da esposa ou a quebra da confiança pelo marido, entre outras. Essa opinião, contudo, vai além do princípio declarado no Evangelho de Mateus. Entretanto, em tais circunstâncias, o Evangelho declarou proibido que o homem que se divorciou e a mulher divorciada se casem novamente.

Os seguidores da doutrina ortodoxa declararam lícito, em seu sínodo realizado no Egito, divorciar-se da esposa por adultério e por outros motivos. Entre esses motivos incluíam-se a esterilidade da esposa durante três anos consecutivos, doenças contagiosas e a prolongada persistência de brigas e disputas sem esperança de reconciliação. Contudo, esses motivos constituíam acréscimos ao que fora declarado no Evangelho. Por isso, os guardiões dessa doutrina não puderam aceitar que fosse lícito divorciar-se de outras pessoas por tais motivos. E foi por essa razão que um tribunal cristão do Egito rejeitou o pedido de divórcio apresentado por uma cristã devido à pobreza de seu marido. Ao mesmo tempo, comentou que era realmente surpreendente que alguns líderes religiosos e membros desse conselho tivessem declarado lícito o divórcio com base em motivos que não possuíam qualquer respaldo no Evangelho.

As consequências dos princípios seguidos pelo cristianismo a respeito do divórcio

As consequências dessas restrições e obrigações introduzidas pelo cristianismo a respeito do divórcio revelaram-se muito ruins. Os seguidores do cristianismo começaram a negar a própria religião. Separaram aquilo que Deus havia unido. O Ocidente cristão elaborou códigos civis que tornaram plenamente legal escapar dessas obrigações. Na América e em alguns outros países, o divórcio foi transformado em um ato livre e inteiramente facultativo. Na prática, eles acabaram desafiando o próprio Evangelho. Como resultado, as pessoas começaram a usar a arma do divórcio por motivos banais. Quando, como consequência final, a vida conjugal e a estrutura familiar mergulharam em uma calamidade extrema, surgiu entre os sábios daquela sociedade a pergunta: para onde estamos indo? Um juiz renomado de processos de divórcio foi obrigado a dizer que não demoraria muito para que a vida conjugal e familiar desaparecesse de seu país. Depois disso, estabelecer-se-iam entre homens e mulheres a anarquia extrema e relações sexuais sem restrições. A essa altura, a vida conjugal havia assumido a condição de uma empresa comercial. Seus dois sócios poderiam romper o acordo mútuo e separar-se por qualquer motivo muito comum e insignificante. Essa situação não é compatível nem favorável a nenhuma religião do mundo, pois nenhuma crença religiosa consegue mais mantê-los unidos. O mero prazer e deleite sexual tornou-se a única base das relações entre homens e mulheres.

O papel singular do cristianismo na questão do divórcio

Não se encontrará em nenhum outro lugar, além do Ocidente cristão, o exemplo de transformar a lei da família em legislação civil, excluindo os ensinamentos da religião. Somente os cristãos fizeram com que, nesse assunto, os ensinamentos da religião se revelassem impraticáveis. Na base disso, também se impôs uma razão poderosa. Eles próprios haviam chegado à conclusão de que, no tocante ao divórcio, as normas de sua religião eram contrárias à realidade. A natureza humana não se harmoniza com elas. Portanto, sua aplicação na vida humana não é correta.(Árabe****************)

A natureza temporária dos ensinamentos do cristianismo

Mesmo que tudo o que foi dito no Evangelho a respeito do divórcio seja correto e verdadeiro, e mesmo que nenhuma alteração tenha sido introduzida nele nos primeiros tempos, ainda assim é claro que Jesus Cristo (que a paz esteja sobre ele) não deixou nenhuma norma permanente, eterna e imutável. Ela não é obrigatória nem aceitável para todas as pessoas de todos os tempos. Os judeus haviam ultrapassado os limites no uso das facilidades e permissões concedidas por Deus. No caso do divórcio, essa transgressão de seus limites era extremamente evidente. Jesus Cristo queria apenas opor-se a isso. Está citado no Evangelho segundo Mateus: quando os fariseus quiseram pôr Jesus Cristo à prova, perguntaram-lhe:

«É lícito abandonar a própria esposa por qualquer motivo?» Ele respondeu: «Não lestes que o Criador, no princípio, os fez homem e mulher, e disse: “Por isso o homem deixará o pai e a mãe, unir-se-á à sua esposa, e os dois serão uma só carne”? Assim, já não são dois, mas uma só carne. Portanto, aquilo que Deus uniu, que o homem não separe.» Eles lhe disseram: «Então por que Moisés ordenou dar carta de divórcio e abandoná-la?» Ele lhes disse: «Foi por causa da dureza do vosso coração que Moisés vos permitiu abandonar vossas esposas, mas não foi assim desde o princípio. E eu vos digo que qualquer pessoa que abandone sua esposa e se case com outra, exceto por motivo de adultério, comete adultério; e quem se casar com a mulher abandonada também comete adultério.» (Evangelho segundo Mateus, capítulo 19, versículos 3–9)

Disso fica claro que, quando os judeus cometeram excessos em relação ao divórcio que Hazrat Musa havia permitido, Hazrat Masih proibiu o divórcio para eles como punição. Somente o divórcio da adúltera continuou permitido. E isso era uma medida temporária. Sua duração estender-se-ia apenas até a vinda de Hazrat Muhammad (s.a.w.) e a instituição da sharia abrangente, eterna e perpétua.

Não é razoável afirmar que Hazrat Isa Masih pretendesse apresentar essa norma sobre o divórcio como uma sharia eterna. Pois seus próprios companheiros, apóstolos e discípulos declararam essa norma inaplicável. Eles disseram: “Se a relação de um homem com sua própria esposa for assim, então é melhor não se casar.” (Evangelho de Mateus, capítulo 19, versículo 10)

Pois, em tal situação, casar-se significa amarrar ao próprio pescoço uma corda da qual jamais será possível libertar-se. Ainda que o coração do homem esteja cheio de repulsa e hostilidade em relação à esposa, ainda que ele esteja profundamente desgostoso com ela, e ainda que haja a maior diferença entre o temperamento, o caráter, as inclinações e as tendências de ambos.

As restrições do Islã em relação ao divórcio

No que diz respeito ao divórcio, o Islã impôs diversas condições e restrições. Como resultado, esse campo tornou-se extremamente limitado. Sem utilizar os meios mencionados acima e sem uma razão, divorciar-se é completamente haram e proibido no Islã. Pois, se isso for feito, será inevitável que não apenas a esposa, mas também o marido, sofram grande prejuízo e dificuldade. Isso também é contrário ao seu próprio bem. Portanto, em tal situação, divorciar-se da esposa é tão haram quanto destruir riquezas e bens. O nobre Profeta (s.a.w.) disse:(Árabe****************)

“Não causará dano a si mesmo, nem causará dano a outra pessoa, nem permitirá que isso aconteça.”

À luz desse hadith, também não é permitido divorciar-se sem razão e inutilmente.

Allah não aprova, e tampouco o Mensageiro, o comportamento daqueles que dão divórcios em excesso por mero prazer. O nobre Profeta (s.a.w.) declarou:(Árabe****************)

Não aprovo homens ou mulheres que andam por aí em busca de prazeres.

Hazrat Abdullah ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) disse:(Árabe****************)

O divórcio foi instituído apenas por necessidade.

É proibido divorciar-se durante a menstruação

Quando surge a necessidade de divorciar-se, não é permitido fazê-lo em qualquer momento. É necessário esperar o momento apropriado. Segundo a Lei Islâmica, o momento apropriado é quando a esposa está em estado de pureza, isto é, quando não se encontra menstruada nem em estado de nifas, e quando está nesse estado de pureza sem que o marido tenha tido relações sexuais com ela. Contudo, se a esposa estiver grávida e a gravidez já for evidente, a situação é diferente.

Essa condição foi estabelecida porque, durante a menstruação ou o nifas, o marido permanece separado da esposa. Ela é obrigada a abster-se de relações sexuais. Em tal situação, o marido pode estar ressentido ou irado com ela. E por essa razão pode estar disposto a divorciar-se dela. Devido a essa possibilidade, foi determinado que o marido espere até que a esposa esteja completamente purificada para divorciar-se. E, depois que ela estiver purificada, deve divorciar-se antes de ter relações sexuais com ela.

Assim como é proibido divorciar-se da esposa durante a menstruação, também é proibido divorciar-se dela durante um período de pureza em que tenha tido relações sexuais com ela. Pois, se o marido soubesse que a esposa estava grávida, talvez não se divorciasse dela. Não é de modo algum estranho que ele decida não se divorciar dela por causa da gravidez.

Mas, quando a esposa está em estado de pureza e o marido não teve relações sexuais com ela, ou quando ela está grávida e a gravidez já se tornou evidente, divorciar-se em tal situação significa que o ódio pela esposa atingiu uma intensidade extrema. Portanto, é permitido divorciar-se em tal situação.

Hazrat Abdullah ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) divorciou sua esposa durante a menstruação, ainda em vida do nobre Profeta. Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) perguntou ao nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) sobre isso, e ele disse:(Árabe****************)

Dize-lhe que retome a esposa. Depois, quando ela estiver em estado de pureza ritual, se desejar, que se divorcie dela antes de ter relações.

Este é o divórcio conforme a iddah. Allah, o Altíssimo, disse isso no versículo citado a seguir:(Árabe****************)

Ó Profeta! Quando vos divorciardes de vossas esposas, divorciai-vos delas visando ao cumprimento da iddah.

Isso significa o ‘tuhr’: divorciar-se da esposa enquanto ela estiver em estado de pureza ritual.

Em outro hadith, as palavras do Mensageiro foram citadas com esta formulação:(Árabe****************)

Dize-lhe que retome a esposa. Depois, que se divorcie dela quando ela estiver em estado de pureza ritual ou grávida.

Surge, porém, a questão: se o divórcio for pronunciado durante a menstruação, ele será efetivado? É geralmente sabido por todos que, seja qual for o momento em que o talaq for pronunciado, ele será efetivado. Contudo, aquele que pronunciar o talaq em momento inadequado será pecador.

Alguns juristas disseram que o divórcio pronunciado em momento inadequado não se efetiva, pois Allah, o Altíssimo, não legislou esse tipo de divórcio nem o autorizou. Por isso, esse divórcio não está de acordo com a Sharia. Como, então, poderia ser considerado válido e como poderia produzir efeitos?

Foi perguntado a Ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ele): (Árabe****************)

“Qual é a sua opinião sobre o homem que se divorcia de sua esposa enquanto ela está menstruada?” Em resposta, ele contou ao questionador o episódio de ter se divorciado da própria esposa enquanto ela estava menstruada e disse que o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) anulou aquele divórcio e não o considerou como tal.

É proibido jurar pelo divórcio

Não é permitido transformar o “divórcio” em juramento, isto é, dizer que, se determinada ação for feita ou deixada de fazer, “o divórcio acontecerá”. É completamente ilícito intimidar a própria esposa, dizendo: “Se você fizer isso, estará divorciada”. Isso porque, no Islã, o juramento possui uma fórmula e palavras específicas; ele não se realiza por meio de qualquer outra fórmula ou palavra, e o Islã não autorizou isso.

Isso consiste em jurar pelo nome de Allah. O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: (Árabe****************)

Quem jurar por algo que não seja o nome de Allah cometerá shirk.

(Árabe****************)

Quem fizer um juramento, que jure pelo nome de Allah; caso contrário, que permaneça em silêncio.

A mulher divorciada observará a iddah na casa do marido

Segundo a Sharia islâmica, é dever da esposa divorciada observar a iddah — cumprir o período de iddah — na casa do marido. É haram abandonar essa casa e sair para o exterior. Também é haram que o marido expulse a esposa de sua casa durante o período de iddah. Isso porque, durante a iddah, existe a possibilidade de o marido aceitar novamente a esposa, caso tenha pronunciado um ou dois divórcios. Em tal situação, se ela permanecer em casa, próxima do marido, terá a oportunidade de afastar a ira ou o descontentamento dele. E o marido também terá a oportunidade de reconsiderar sua decisão a respeito dela.

A determinação da iddah foi estabelecida para assegurar a pureza do útero — para certificar-se de que não há um filho no ventre —, dar importância aos direitos do marido e preservar a dignidade de sua condição de esposa. O estado da mente humana é mutável. Quando as circunstâncias mudam, também muda o estado mental da pessoa, que passa a pensar sob uma nova perspectiva. Não é de modo algum anormal que a ira e o descontentamento desapareçam e que surjam satisfação e harmonia em seu lugar. A pessoa dominada pelas emoções começa a pensar com a mente e o temperamento serenos. Como resultado, pode até passar a gostar daquela de quem não gostava. O significado dessa obrigação de observar a iddah na casa do marido é muito amplo e profundo.

Sobre as esposas divorciadas, Allah, o Altíssimo, disse: (Árabe****************)

Temei a Allah, que é vosso Senhor. Não as expulseis de suas casas, nem permitais que elas saiam. Contudo, quem transgredir claramente os limites estabelecidos por Allah estará sendo injusto consigo mesmo. Vós não sabeis; talvez Allah faça surgir, depois disso, uma nova situação.

Mas, se a separação entre marido e mulher se tornar realmente inevitável, ambos deverão separar-se de maneira digna e conforme os costumes estabelecidos.

Não se deve causar qualquer sofrimento à esposa, nem levantar contra ela acusações falsas ou censurá-la; tampouco se deve usurpar o direito de quem quer que seja. Allah disse: (Árabe****************)

Então, conservai-as de maneira honrosa ou separai-vos delas de maneira honrosa.

Disse:(Árabe****************)

Às mulheres divorciadas deve ser concedida alguma provisão, conforme o costume. Isso é um direito delas e um dever dos piedosos.

Um divórcio após outro

O Islã estabeleceu para o muçulmano que ele não deve divorciar-se da esposa três vezes de uma só vez, mas deve pronunciar os três divórcios separadamente. A regra é que ele pronuncie um divórcio durante um período de pureza — no qual não tenha tido relação sexual com a esposa — e depois a deixe permanecer nessa condição. Permanecendo assim, o seu período de iddat chegará ao fim. Se, durante o período de iddat, o marido decidir conservá-la, poderá facilmente retomá-la. Mas, se não a retomar e o período de iddat terminar nessa situação, ainda poderá recuperá-la posteriormente mediante um novo casamento. E, se o marido não sentir necessidade alguma de conservá-la, então a esposa poderá aceitar outro homem como marido.

Se, depois de pronunciar o primeiro divórcio, o marido a retomar como sua esposa, mas posteriormente a relação entre ambos voltar a deteriorar-se e todos os caminhos para a reconciliação forem bloqueados, ele poderá divorciar-se dela pela segunda vez. Segundo o procedimento mencionado, o marido ainda conservará o direito de retomá-la durante o período de iddat ou, depois de terminado esse período, de recebê-la novamente como esposa mediante um novo contrato de casamento.

Mas, se depois de retomá-la pela segunda vez ele também se divorciar dela pela terceira vez, ficará inequivocamente provado que o ódio e a aversão entre os dois se tornaram tão intensos que não resta qualquer esperança de reconciliação entre eles. Nessa situação, depois desse terceiro divórcio, o marido não poderá retomar a esposa. A partir de então, ela não lhe será lícita até que aceite outro marido e viva com ele como esposa. Esse casamento deve ser válido e estar de acordo com a Sharia. O objetivo deve ser o casamento; não será permitido que ela se case apenas com a finalidade de tornar-se lícita ao antigo marido.

Esta é a forma e o procedimento de pronunciar o divórcio conforme a Sharia. Se alguém, em vez desse método, pronunciar três divórcios um após o outro ao mesmo tempo ou três divórcios numa única frase, isso será completamente contrário à forma e ao procedimento estabelecidos pela Sharia. Essa pessoa abandonou o caminho da orientação e segue o caminho do desvio; perdeu a Siraṭ al-Mustaqīm. Foi relatado num hadith autêntico que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) soube que um homem havia pronunciado três divórcios contra a esposa de uma só vez. Ele levantou-se irado e disse:( Árabe******************)

Enquanto vocês ainda estão entre nós, este homem está zombando do Livro de Allah? Então, um homem se levantou e disse: “Ó Mensageiro! Não devo matar uma pessoa assim?” (An-Nasa’i)

Quando o marido se divorcia da esposa e termina o período determinado de ‘idda, ele tem o dever de fazer uma destas duas coisas:

ou mantê-la de maneira digna e conforme o costume, isto é, retomá-la como esposa com bom comportamento e boa convivência, com a intenção de corrigi-la, sem qualquer propósito de brigar, discutir ou causar-lhe sofrimento sem motivo.

Ou adotará a separação de maneira digna e conforme o costume, isto é, deixá-la até que termine o período de ‘idda. Depois, sem lhe causar qualquer dano e cumprindo todos os seus direitos, sem qualquer avareza nisso, deixá-la partir.

Não é de modo algum permitido ao marido retomá-la, quando terminar o período de ‘idda, com o objetivo de causar sofrimento e prolongar o período de ‘idda, privando-a por muito tempo de contrair um segundo casamento.

Na época da Jahiliyya, as pessoas adotavam esse tipo de comportamento. Mas Allah, o Altíssimo, tornou ilícito causar sofrimento à esposa dessa maneira. Ele expressou essa proibição de modo muito comovente:( Árabe******************)

Quando vos divorciardes das mulheres e elas tiverem completado o seu período de ‘idda, então retende-as dignamente ou deixai-as partir dignamente. Não as retenhais com o propósito de causar-lhes sofrimento; nesse caso, estaríeis transgredindo. E quem fizer isso estará sendo injusto consigo mesmo. Não tomeis os versículos de Allah como objeto de zombaria e escárnio. E recordai a graça de Allah, que Ele vos concedeu, e recordai o Livro e a Sabedoria que Ele revelou para vós. Ele vos exorta por meio disso. Temei a Allah e sabei que Allah tem pleno conhecimento de todas as coisas. (Surata Al-Baqara: 231)

Ao lermos estes versículos com profunda atenção, podemos compreender que contêm sete expressões: advertência após advertência, alerta após alerta. Há exortação e também admoestação. As bênçãos de Allah são relembradas. Ao mesmo tempo, repetem-se neles as mensagens de temor. Na verdade, estes versículos são extremamente valiosos para aquele que tem coração, está disposto a prestar atenção com a mente e possui um olhar vigilante.

Não impeçais a divorciada de casar-se com quem quiser.

Quando terminar o período de ‘iddah da divorciada, não se poderá impedi-la de casar-se com quem ela quiser e escolher. Nem seu ex-marido, nem seu tutor, nem qualquer outra pessoa tem o direito de fazê-lo. Se o casamento estiver sendo realizado de acordo com a Sharia e os costumes vigentes, com uma proposta e com a aprovação de seus familiares, ninguém tem o direito de se opor a ele. Alguns homens, mesmo depois de divorciarem suas esposas, continuam tentando manter sua autoridade sobre elas e exercer influência. Ameaçam-nas em relação a outros homens e intimidam-nas, dizendo que não será bom se elas se casarem com eles. Isso não é senão extrema ignorância, barbárie e o caráter da jahiliyyah.

Da mesma forma, se a esposa desejar casar-se novamente com seu ex-marido e aceitá-lo como marido, e ambos concordarem e tomarem essa decisão de maneira correta e segundo os costumes vigentes, não será permitido ao tutor nem a qualquer outra pessoa da família criar obstáculos. Allah disse: A reconciliação é melhor.

Disse:( Árabe******************)

Quando vos divorciardes de vossas esposas e elas completarem o período de ‘iddah, não as impeçais de se casarem com seus futuros maridos, se ambos concordarem em casar-se de acordo com os costumes vigentes; não crieis obstáculos nem dificuldades. Com isso, admoestam-se aqueles que creem em Allah e no Dia Derradeiro. Esse é, para vós, o caminho mais puro, limpo e íntegro. Allah sabe, e vós não sabeis. (Surata Al-Baqara: 232)

O direito da esposa que sente aversão pelo marido

Se uma esposa sente aversão pelo marido, não gosta dele e não consegue imaginar que possa viver com ele em harmonia e manter uma vida conjugal, ela pode comprar sua liberdade e libertação mediante uma compensação. Ela tem o direito de devolver todo o dote e os presentes que o marido lhe deu — ou a quantia com a qual ambos concordarem — e libertar-se do vínculo conjugal. Contudo, não deve aceitar dele mais do que aquilo que o marido gastou com ela. O próprio Allah disse:( Árabe******************)

Se temeis que ambos, marido e esposa, não possam observar os limites estabelecidos por Allah, não haverá pecado sobre nenhum dos dois se ela se separar mediante qualquer compensação. (Surata Al-Baqara: 229)

A esposa de Hazrat Sabit ibn Qays foi até o nobre Mensageiro (que a paz e as bênçãos estejam sobre ele) e disse: “Ó Mensageiro! Não faço nenhuma acusação nem reclamação contra meu marido, Sabit ibn Qays, quanto ao seu caráter e à sua religiosidade. Porém, na realidade, não gosto dele.” O nobre Profeta (que a paz e as bênçãos estejam sobre ele) perguntou: “O que ele te deu?” Ela respondeu: “Um jardim.” Quando ele perguntou se ela estava disposta a devolver o jardim em troca do divórcio, ela respondeu: “Sim.” Então o nobre Profeta (que a paz e as bênçãos estejam sobre ele) disse a Sabit:( Árabe******************)

“Retoma o jardim e divorcia-te dela.”

Neste ponto, é necessário lembrar que, se da parte do marido não houver realmente nenhuma razão, a esposa não deve apressar-se a pedir o divórcio. O nobre Profeta (que a paz e as bênçãos estejam sobre ele) disse:( Árabe******************)

Para a mulher que pedir o divórcio ao marido sem qualquer motivo, até mesmo o perfume do Paraíso lhe será proibido.

É proibido atormentar a esposa

É completamente proibido ao marido causar sofrimento à esposa com o objetivo de fazê-la devolver tudo o que ele lhe deu e atormentá-la por esse motivo. Porém, se ela cometer algum ato de manifesta indecência, então é uma questão à parte. Sobre isso, Allah, o Altíssimo, declarou:( Árabe******************)

Não as façais sofrer com o objetivo de recuperar alguma parte do que lhes destes. Porém, se cometerem algum ato de manifesta indecência, então é uma questão à parte. (Surata An-Nissá: 19)

E, se o marido simplesmente não gostar da esposa e ele mesmo quiser divorciar-se dela para casar-se com outra, não é permitido tomar de volta absolutamente nada da esposa. Allah, o Altíssimo, disse:( Árabe******************)

Se desejardes substituir uma esposa por outra e tiverdes dado a uma delas uma grande quantidade de bens, não podereis tomar de volta nada disso. Quereis acaso tomá-lo mediante acusações e uma clara usurpação de direitos? E como poderíeis tomá-lo, quando já tivestes obtido um do outro a satisfação de vossos direitos, e elas já firmaram convosco um pacto solene e rigoroso?

É proibido jurar abandonar a esposa

O Islã deu especial importância à garantia dos direitos das mulheres. Uma prova contundente disso é que declarou inteiramente ilícito para o marido jurar, tomado pela ira, abandonar a esposa no leito por um período tão longo que seria extremamente difícil para ela suportá-lo. Se o marido jurar solenemente permanecer separado da esposa, ser-lhe-á concedido um prazo de apenas quatro meses. Espera-se que, durante esse período, sua ira esfrie. Então ele poderá mudar de decisão. Se restabelecer relações com a esposa antes de transcorridos esses quatro meses, Allah perdoará o pecado que tenha cometido por causa disso e abrirá para ele amplas portas de misericórdia. Nesse caso, será obrigatório oferecer a expiação por esse juramento. Porém, se, mesmo transcorrido esse período, ele não mudar de decisão nem romper o juramento, sua esposa ficará separada dele. Sem dúvida, essa é a punição apropriada por negligenciar os direitos da esposa.

Segundo alguns juristas, o divórcio ocorrerá assim que transcorrer o período mencionado. Não será necessário aguardar qualquer decisão de um cádi ou administrador.

Por outro lado, alguns juristas consideram necessário apresentar o caso ao administrador depois de expirado o prazo. O administrador lhe dará a oportunidade de escolher uma das duas opções: ou reconsiderará voluntariamente sua decisão e retomará a esposa, ou se divorciará dela. Poderá escolher qualquer das duas que considerar melhor.

Na terminologia da Sharia, esse juramento de não se aproximar da esposa é chamado de ‘īlā’. Sobre isso, Allah, o Altíssimo, declarou:( Árabe******************)

Àqueles que juram abster-se de suas esposas será concedido um prazo de quatro meses. Se retomarem a convivência com elas, Allah será Indulgente e Misericordioso. Mas, se decidirem pelo divórcio, saibam que Allah ouve tudo e conhece tudo! (Surata Al-Baqara: 226–227)

Concederam-se quatro meses para que o marido tivesse plena oportunidade de reconsiderar e agir com reflexão e bom senso. Por outro lado, uma esposa privada do marido dificilmente conseguiria permanecer paciente por mais tempo do que esse período.

Os exegetas mencionaram, neste ponto, um episódio envolvendo Hazrat Umar.

Certa noite, enquanto percorria as ruelas de Medina para observar a situação, ele ouviu a voz de uma mulher. Seu marido havia partido para uma terra distante para participar da jihad. Angustiada pela ausência do marido, a mulher cantava com voz triste.

A noite se prolongou, e a escuridão cobriu todos os lados.

E o que me faz chorar é que

meu companheiro não está comigo, com quem eu

brincaria.

Juro pelo nome de Allah: se não fosse o temor do castigo de Allah

não houvesse,

Então, imediatamente, os braços desta cama

começariam a se mover.

Ao ouvir o lamento da mulher, Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) perguntou à sua filha, Hazrat Hafsa (que Allah esteja satisfeito com ela): “Por quanto tempo uma mulher consegue suportar a separação do marido?” Ela respondeu: “Quatro meses.” Então, o Amir al-Mu’minin ordenou que ninguém fosse mantido separado da própria esposa por mais de quatro meses.

A relação entre pais e filhos

Preservação da linhagem

O filho é a essência íntima do pai. É o portador e transmissor de suas características. Em vida, é o frescor de seus olhos; após sua morte, o preservador da continuidade de sua existência. É o símbolo de sua memória. É o herdeiro de suas qualidades, boas e más, e de suas características; é um pedaço de seu fígado, uma beleza que habita as profundezas de seu coração.

Por essa razão, Allah proibiu a zina e o adultério. Tornou o casamento obrigatório, para que a linhagem fosse preservada e o sêmen de pessoas diferentes não se misturasse. Para que o filho pudesse reconhecer o pai, e o pai pudesse reconhecer os filhos. Pelo casamento, a mulher fica destinada e protegida para um determinado homem. Torna-se ilícito para ela trair o marido. O filho que nasce na casa de um marido e sua esposa, após o casamento, é reconhecido como descendente do marido. Para estabelecer essa relação, não é necessária nenhuma prova específica. O pai também não precisa fazer uma declaração, nem a mãe precisa reivindicar, dizendo: “Este é o pai do meu filho.” Pois o Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse:( Árabe******************)

“O filho pertence àquele em cuja cama nasceu.”

Não é permitido negar a paternidade do próprio filho

Por essas razões, o marido não pode negar a paternidade do filho que sua esposa, estando devidamente casada com ele, deu à luz em seu leito. Isso não lhe é permitido. Essa negativa é extremamente vergonhosa e prejudicial tanto para a esposa quanto para o filho. Portanto, se, com base apenas em suspeitas infundadas, dúvidas ou indícios incontestáveis provenientes de rumores, o marido adquirir a firme convicção de que sua esposa o traiu, a lei islâmica não deseja impor a responsabilidade de criar o filho aos ombros de alguém que não o reconhece como seu descendente biológico; tampouco é conforme às normas da Shariah obrigá-lo a fazer desse filho seu herdeiro.

Em uma palavra, pode-se dizer que a lei islâmica não é favorável a deixar qualquer marido, durante toda a vida, em meio a dúvidas e suspeitas. O método que o Islã apresentou para libertar-se dessa complicação é denominado, em termos técnicos, ‘li’an’ ( Árabe******************). Assim, se alguém tiver, a respeito da própria esposa, a firme convicção ou a forte suspeita de que ela maculou seu leito ao receber o sêmen de outro homem e concebeu em seu ventre um filho gerado por outro homem, mas não puder apresentar testemunhas da veracidade desse assunto, o juiz fará com que ambos realizem o ‘li’an’. Isso foi mencionado na Surata An-Nur com as seguintes palavras:( Árabe******************)

Aqueles que acusarem falsamente suas esposas e não tiverem outra testemunha além de si mesmos deverão testemunhar da seguinte maneira: quatro vezes jurarão em nome de Allah, declarando que dizem a verdade em sua acusação. Na quinta vez, dirão que, se forem mentirosos, recaia sobre eles a maldição de Allah. E a mulher poderá evitar a punição jurando repetidamente em nome de Allah e testemunhando que aquele homem é mentiroso. Na quinta vez, dirá que recaia sobre ela a maldição se o homem estiver dizendo a verdade em sua acusação.

Depois disso, os dois serão separados para sempre, e o filho será ligado à mãe.

É proibido adotar um filho como filho legítimo

Assim como o pai não tem o direito de negar a paternidade de seu filho biológico, também não tem o direito de fazer de um filho que não é de sua própria descendência um filho seu, nem de apresentá-lo ou reivindicá-lo como tal. Na época da Jahiliyyah, os árabes, como os povos de outras nações, mantinham filhos adotivos e estabeleciam com quem quisessem uma relação de parentesco. Faziam de quem desejassem seu próprio filho. Os deveres e direitos desse filho adotivo eram exatamente iguais aos dos filhos biológicos. Mesmo quando o pai e a linhagem do filho adotivo eram conhecidos, ainda assim costumavam adotá-lo dessa maneira.

Mesmo na época do advento do Islã, era costume na sociedade árabe daquele tempo adotar filhos dessa maneira. Antes de receber a missão profética, o nobre Profeta (que a paz esteja com ele) havia adotado Zayd ibn Harithah como filho, ainda na época da Jahiliyyah. Contudo, o Islã considerou essa prática um fato absurdo e falso. Na perspectiva islâmica, fazer de uma pessoa estranha e sem parentesco alguém de sua própria linhagem e permitir que ela permaneça a sós com as mulheres da casa, exatamente como um homem mahram, embora na realidade não possua essa condição e essas mulheres não sejam mahram para ela,

Aquele que transforma alguém em filho adotivo também o torna seu herdeiro. Nessa situação, os verdadeiros parentes próximos, embora tenham direito a uma parte da herança, acabam privados dela. Por isso, é muito natural que surjam no coração dos parentes legítimos um ressentimento oculto e sentimentos de ciúme e vingança contra esse filho assim chamado. Como consequência, as disputas, os conflitos e a deterioração das relações começam a se manifestar. Foi por essas razões que o Alcorão Majestoso anulou esse sistema da época da ignorância e o declarou categoricamente haram. Allah, o Altíssimo, disse:( Árabe******************)

Ele — Allah — não transformou em vossos filhos verdadeiros aqueles que chamais de filhos. Isso não passa de palavras que saem de vossas bocas. Mas Allah diz a verdade e guia para o caminho correto e infalível. Chamai-os pelos nomes de seus pais; isso é mais justo perante Allah. Mas, se não conheceis seus pais, eles são apenas vossos irmãos na religião e vossos amigos aliados.

As palavras do Alcorão deixam claro: “Isso é apenas uma declaração saída de vossas bocas, mostrando que o filho assim chamado ou filho adotivo é uma afirmação completamente desprovida de conteúdo e que não possui qualquer base verdadeira.”

Com efeito, palavras proferidas pela boca não podem mudar a verdade real, nem podem alterar a realidade. Por meio delas, uma pessoa sem parentesco não se torna parente. Um filho assim chamado jamais pode tornar-se um filho verdadeiro, gerado pelo próprio sangue. Palavras proferidas pela boca não podem fazer correr pelas veias e artérias do filho adotivo o sangue da pessoa que o criou, nem podem criar no coração daquele que o cria o amor paternal, o afeto e a ternura de um pai verdadeiro por seu filho. Do mesmo modo, não podem criar no coração do filho adotivo o sentimento de devoção filial. São completamente incapazes de produzir nele as características e particularidades físicas, intelectuais e psicológicas dessa família.

Todos os aspectos desse sistema de adoção — a lei da herança, a proibição de casar-se com a esposa divorciada do filho adotivo e outros semelhantes — também foram completamente anulados. A lei da herança apresentada no Alcorão Majestoso não atribui qualquer importância a relações que não sejam baseadas no sangue ou em um verdadeiro parentesco próximo. A essas pessoas também não foi concedida nenhuma parte da herança.

( Árabe******************)Os parentes unidos por laços de sangue têm, segundo a lei de Allah, maiores direitos uns sobre os outros.

A respeito do casamento, o Alcorão declarou que somente as esposas dos filhos gerados pelo próprio sangue são haram — proibidas —, e não as esposas dos filhos assim chamados.

( Árabe******************)Somente as esposas de vossos filhos gerados pelo próprio sangue são proibidas para vós.

Portanto, não é proibido casar-se com a esposa de um filho adotivo; pelo contrário, é plenamente permitido. Isso porque, na realidade, ela é a esposa de uma pessoa sem parentesco. Assim, quando ele se divorciar de sua esposa (ou morrer), não pode haver nenhum impedimento para casar-se com ela.

A revogação prática do sistema de filhos adotivos

A questão não era nada simples. O sistema de filhos adotivos da sociedade árabe estava estabelecido sobre bases extremamente sólidas. Suas raízes estavam profundamente fincadas na sociedade e ele estava profundamente ligado à vida das pessoas. Por isso, Allah, o Altíssimo, não considerou possível nem suficiente eliminar esse sistema apenas por meio de uma ordem verbal. Assim, juntamente com a instrução verbal, tomou medidas para fazê-lo vigorar também na prática.

Para concretizar esse objetivo, Allah decidiu fazer do próprio Mensageiro nobre, que a paz esteja sobre ele, o instrumento dessa ação. Para que, depois disso, não restasse qualquer dúvida nesse assunto, não havia outro meio, nem seria adequado ou suficiente, para eliminar a hesitação e o constrangimento existentes desde tempos imemoriais acerca da permissibilidade de casar-se com a esposa de um filho adotivo. Esse era um passo indispensável para criar uma fé e uma convicção firmes: considerar definitivamente lícito aquilo que Allah tornou lícito e definitivamente proibido aquilo que Allah proibiu.

Zayd ibn Haritha era o filho adotivo do nobre Mensageiro. Por isso, era amplamente conhecido na sociedade pelo nome de Zayd ibn Muhammad, que a paz esteja sobre ele. Ele havia se casado com uma mulher chamada Zaynab bint Jahan. Ela era prima paterna do nobre Profeta, que a paz esteja sobre ele. A relação conjugal de Zaynab com Zayd se deteriorou. Zayd apresentou muitas queixas sobre o assunto ao nobre Profeta, que a paz esteja sobre ele. O nobre Profeta começou a aconselhá-lo e instruí-lo de várias maneiras. Embora soubesse, por meio da revelação de Allah, que Zayd se divorciaria dela e que depois ele próprio se casaria com ela, em alguns momentos surgia a fraqueza humana, e ele temia as palavras maldosas e as críticas censuráveis das pessoas. Por isso, sempre que o nobre Zayd se queixava, ele lhe dizia:( Árabe******************)

Ó Zayd, conserva tua esposa contigo e teme a Allah.

Nesse momento, foi revelado um versículo do Alcorão que repreendia o nobre Mensageiro, que a paz esteja sobre ele; mais precisamente, ele o encorajava a enfrentar a sociedade para eliminar a concepção equivocada e a superstição que há muito prevaleciam sobre casar-se com a esposa abandonada por um filho adotivo. Foi dito:( Árabe******************)

Quando dizias àquele a quem Allah concedeu uma graça (dando-lhe a oportunidade de abraçar a fé) e a quem tu também concedeste uma graça (libertando-o dos grilhões da escravidão), isto é, a Zayd: “Conserva tua esposa para ti e teme a Allah”, ocultavas em teu íntimo aquilo que Allah tornaria público. E temias as pessoas, embora Allah seja quem mais deveria ser temido. Depois, quando Zayd satisfez sua necessidade em relação a ela (sua esposa), Nós a casamos contigo (a própria Zaynab, esposa de Zayd), para que não restasse nos corações dos crentes qualquer constrangimento ou impedimento quanto a casar-se com as esposas de seus filhos adotivos, quando estes tiverem satisfeito sua necessidade em relação a elas e as tiverem deixado. E a ordem de Allah será cumprida. (Surata Al-Ahzab: 37)

No versículo seguinte, é refutada a censura dirigida ao Mensageiro por esse ato, e afirma-se vigorosamente que ele é inteiramente lícito e que não há absolutamente nada de errado nele. Foi dito:( Árabe******************)

O Profeta não cometeu falta alguma ao fazer aquilo que Allah havia tornado obrigatório. Esta é a lei de Allah desde os tempos antigos. E a decisão de Allah é sempre conforme a medida estabelecida. Aqueles que transmitem devidamente as mensagens de Allah, temem somente a Ele e não temem ninguém além de Allah; e Allah é suficiente para prestar contas. Muhammad não é pai de nenhum dos vossos homens; ao contrário, é o Mensageiro de Allah e o Selo dos profetas. E Allah tem pleno conhecimento de todas as coisas.

Tornar alguém filho apenas para criá-lo O Islã declarou inválida e proibida a forma de adoção como filho discutida até aqui. Nela, uma pessoa sabe que o menino não é seu filho, mas de outro homem; ainda assim, integra-o à sua própria linhagem e família, tratando-o como um dos seus, e aplica a ele todas as regras e direitos concedidos aos seus filhos biológicos. Com isso, ocorre mistura de linhagens, torna-se proibido casar-se com a esposa dele e ele recebe uma parte da herança.

Existe também outro tipo de costume de acolher alguém como filho. O Islã não proibiu esse tipo de acolhimento. Ele ocorre quando alguém leva para sua casa um menino encontrado ou um órfão e lhe oferece afeição, carinho, cuidados, educação e formação como faria com o próprio filho; alimenta-o, veste-o, cria-o e o educa exatamente como a seu próprio filho. Contudo, mesmo depois de fazer tudo isso, não o declara seu “próprio filho”, nem lhe impõe as regras e os direitos reservados aos filhos biológicos. Esse tipo de serviço e obra de benevolência é muito louvável e apreciado no Islã. Quem praticá-lo certamente receberá de Allah uma recompensa imensa e entrará no Paraíso. A esse respeito, o nobre Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse:( Árabe******************)

“Eu e aquele que assume a responsabilidade por um órfão—aquele que o cria—estaremos assim no Paraíso”; dizendo isso, ele indicou com o dedo indicador e o dedo médio, deixando entre eles um espaço.

Se alguém encontrar um menino perdido, deve considerá-lo órfão. Em sentido amplo, essa palavra também se aplica às relações terrenas. O Islã deu grande ênfase à necessidade de cuidar dele.

Se alguém não tiver filhos e desejar proporcionar algum benefício financeiro a um menino assim, poderá, enquanto estiver vivo, doar-lhe quanto quiser de seus bens e riquezas; e, antes de morrer, também poderá deixar uma disposição testamentária para lhe conceder algo dentro do limite de um terço do total de seus bens e propriedades.

Concepção por meios artificiais

Ao proibir o zina — o adultério — e declarar ilícito fazer de um filho adotivo um filho legítimo, o Islã protegeu a honra da linhagem. Manteve a linhagem pura de concepções corrompidas.

Por essa razão, o Islã declarou ilícita a inseminação artificial quando realizada com o sêmen de alguém que não seja o marido. Em tal situação, não há dúvida de que se trata de um pecado imperdoável e de um ato abominável. O xeique Shaltut emitiu esta fatwa. Na realidade, isso não é senão uma nova forma de zina, pois a natureza essencial dos dois atos é inteiramente idêntica. O resultado também é o mesmo: receber no útero o sêmen de um homem que não é o marido. Tanto à luz das leis naturais quanto das disposições da sharia, esse ato é extremamente repugnante.

A realização da inseminação artificial talvez não constitua, aparentemente, uma violação de qualquer lei. Mas isso se deve à fraqueza e à deficiência da lei. Na realidade, trata-se de zina — um crime que, segundo a sharia islâmica, exige que ao criminoso seja aplicada a hadd, uma punição severa.

Não há dúvida de que esse método inovador de gerar uma criança constitui um crime extremamente grave e abominável, ainda mais grave do que o crime de chamar de próprio o filho de outro homem. Isso porque a criança que nascer por esse método carregará dois tipos de abominação. A primeira é a abominação de chamar de próprio o filho de outro homem, isto é, considerar como pertencente à linhagem alguém que está fora dela. A segunda é a depravação moral, assumindo a forma de zina. Nem a sharia islâmica nem qualquer lei pode apoiar esse ato. A pessoa perde a dignidade humana e desce ao nível dos animais. Torna-se absolutamente incapaz de desenvolver consciência de sua dignidade social.

Chamar de pai alguém que não seja o pai biológico

Assim como é ilícito no Islã negar a paternidade de seu próprio filho biológico, também é ilícito chamar de pai alguém que não seja seu pai biológico — declarar-se filho de outra pessoa. O nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) classificou esse ato entre as ações mais abomináveis. Como consequência, a pessoa cai sob a maldição tanto do Criador quanto das criaturas. O venerável Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) narrou que o nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse:( Árabe******************)

Sobre aquele que se proclama filho de alguém que não seja seu verdadeiro pai, ou que afirma ser escravo de alguém que não seja seu senhor, recaem a maldição de Allah, dos anjos e de toda a humanidade. No Dia da Ressurreição, Allah não aceitará dele nem arrependimento nem qualquer compensação. (Bukhari e Muslim)

O venerável Sa’d ibn Abi Waqqas (que Allah esteja satisfeito com ele) narrou que o nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse:( Árabe******************)

Quem reivindicar ser filho de alguém que não seja seu próprio pai, sabendo que ele não é seu pai, terá o Paraíso proibido.

Não mateis os vossos filhos

Assim, o Islã procura proteger a linhagem humana e fazê-la avançar em continuidade. Por isso, tornou obrigatório que cada filho e cada pai e mãe cumpram reciprocamente os seus direitos, na medida adequada e recomendável à condição de filho ou de pai, e proibiu a ambos certas coisas, a fim de preservar plenamente esses direitos.

A criança tem o direito de viver. Portanto, os pais não têm o direito de destruir a vida de seus filhos, seja matando-os, seja impedindo secretamente que sua existência venha a ocorrer. Os pais da época da ignorância faziam isso. Faziam-no tanto com as meninas quanto com os meninos. Por isso, Allah, o Altíssimo, ordenou:( Árabe******************)

Não mateis vossos filhos por medo da pobreza. Nós lhes damos o sustento, e a vós também. Matá-los é um pecado gravíssimo e um erro funesto.

( Árabe******************)Quando, no Dia da Ressurreição, for perguntado à menina enterrada viva por que crime ela foi morta? (Surata At-Takwir: 8-9)

Seja qual for a causa inicial desse ato abominável e horrendo, seja econômica — o medo da pobreza e da falta de alimento — ou, por exemplo, o medo da vergonha social. Quando nascia uma menina, ela era morta por vergonha na Arábia daquela época. O Islã proibiu completamente esse ato bárbaro e bestial, pois, por meio dele, uma vida é destruída, os direitos do vínculo de sangue são violados e se pratica opressão e injustiça contra um ser humano frágil. Por isso, perguntaram ao nobre Profeta (que a paz esteja com ele):( Árabe******************)Qual é o pecado maior e mais terrível?

Em resposta, ele disse:( Árabe******************)

Associar alguém a Allah como Seu rival, embora somente Ele, Allah, tenha criado você. Então, quando lhe perguntaram qual era o maior pecado, ele respondeu: “Matar seu filho por medo de que ele compartilhe sua alimentação com você.”

O nobre Profeta (que a paz esteja com ele) também tomou das mulheres, assim como dos homens, o compromisso de que isso é um crime terrível e totalmente proibido. Portanto, deve ser evitado. No Alcorão Sagrado, é citado:( Árabe******************)

Que elas não associarão absolutamente nada a Allah, não roubarão, não cometerão zina e adultério, e não matarão seus filhos. (Surata Al-Mumtahanah: 12)

O segundo direito do filho para com o pai é que este lhe dê um nome bonito. Portanto, é dever do pai não dar ao filho um nome que possa lhe causar vergonha ou sofrimento quando crescer. Em segundo lugar, também é proibido dar nomes que expressem ser servo ou escravo de alguém que não seja Allah, como Abdun Nabi — servo do Profeta — e Abdul Masih — servo de Jesus, o Messias —, entre outros.

O terceiro direito do filho é receber pleno carinho e cuidado, boa criação e sustento. Portanto, não é permitido demonstrar a menor negligência ou descaso nessas questões. O nobre Profeta (que a paz esteja com ele) disse a esse respeito:( Árabe******************)

Cada um de vocês é responsável, e cada um de vocês será questionado sobre sua responsabilidade.

Ele disse:( Árabe******************)

É suficiente para que uma pessoa seja considerada pecadora negligenciar e descuidar-se daqueles cujo sustento e alimentação estão sob sua responsabilidade. (Abu Dawud, An-Nasa’i, Al-Hakim)

( Árabe******************)Allah, o Altíssimo, perguntará a cada responsável sobre sua responsabilidade: se a cumpriu ou se a negligenciou, permitindo que fosse arruinada. Até mesmo cada pessoa será questionada acerca de sua família.

Manter a igualdade entre os filhos

É dever do pai adotar, nas dádivas e presentes, uma atitude equilibrada e imparcial entre os filhos, demonstrar-lhes igual afeto e carinho e desejar igualmente o bem-estar de todos.

Dar, sem motivo, preferência a um em relação aos outros no afeto, no carinho, nos cuidados e nas dádivas — praticando qualquer tipo de desigualdade ou favoritismo — é totalmente haram. Isso faz despertar o ressentimento no coração dos filhos privados ou deixados para trás. O fogo da inimizade e da vingança pode começar a arder intensamente em seus corações. Nesse assunto, tanto o pai quanto a mãe têm igual responsabilidade. O Profeta nobre (que a paz esteja com ele) disse:( Árabe******************)

Sede plenamente justos entre vossos filhos, mantende plena igualdade entre vossos filhos e distribuí equitativamente tudo entre vossos filhos. (Ahmad, Nisai, Abu Dawud)

Há um acontecimento relacionado ao contexto deste hadith. A esposa de Bashir ibn Sa’d al-Ansari pediu-lhe que desse ao seu filho Nu’man ibn Bashir uma riqueza especial, como um jardim e um escravo, e desejou que essa doação fosse formalmente confirmada. Por isso, apresentou-se diante do Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) a respeito dessa doação e disse:( Árabe******************)

Ó Mensageiro! A filha de fulano — isto é, sua esposa — está me pedindo que eu dê meu escravo ao filho dela, isto é, ao meu filho. O Profeta nobre (que a paz esteja com ele) perguntou: “Ele tem outros irmãos e irmãs?” Ele respondeu: “Sim.” Então o Profeta perguntou: “Darás a cada um deles algo semelhante?” Ele respondeu: “Não.” Então o Profeta nobre (que a paz esteja com ele) disse: “Nesse caso, isso de modo algum será bom. E eu só posso testemunhar a verdade e a justiça.” (Muslim, Ahmad, Abu Dawud)

Em outra narração, a parte final das palavras do Mensageiro é a seguinte:( Árabe******************)

Não me tomes como testemunha de uma injustiça e de uma decisão injusta. Entre os direitos que tens sobre os teus filhos está também o de distribuíres entre eles de maneira justa. Assim como tens direitos sobre eles e eles devem servir-te, temeis a Allah e sede justos e equitativos entre os vossos filhos. (Bukhari, Muslim, Abu Dawud)

É narrado que o Imam Ahmad ibn Hanbal disse: É permitido fazer diferenças na distribuição de bens entre os filhos quando há uma razão realmente válida para isso, por exemplo, quando um deles está em dificuldade e, por necessidade, se encontra em situação mais difícil que os demais.

[Na obra Al-Mughni, afirma-se que, se a alguém for dada uma determinada quantia ou algum objeto específico devido a uma doença, necessidade, cegueira, ao fato de ter muitos filhos ou de estar ocupado com a aquisição de conhecimento, ou se nada for dado a um filho por este ter se tornado mau, isso será permitido segundo o Imam Ahmad. Ele diz que é permitido dedicar especialmente uma waqf a alguns filhos por necessidade, e não haverá nisso qualquer culpa. Contudo, dar a alguém algo a mais ou algo especial sem motivo e sem necessidade será makruh. A mesma regra se aplica às doações.]

Observar a lei de Allah na distribuição da herança

Também na distribuição da herança deve-se adotar um princípio igualmente justo. Portanto, não é permitido ao pai privar qualquer filho da herança. Tentar, por meio de artifícios, impedir que um parente herdeiro receba a herança é igualmente uma prática completamente haram. Isso porque a herança é uma lei e um sistema instituídos por Allah. Ele próprio estabeleceu esse sistema, consciente e deliberadamente, de acordo com o Seu princípio de justiça e a Sua sabedoria. Nele, concedeu a cada credor a sua parte conforme o que lhe é devido e ordenou às pessoas que permanecessem firmes nessa lei e agissem de acordo com ela; quem desobedecer e transgredir essa lei estará acusando o seu Allah.

Allah, Exaltado seja, expôs tudo o que diz respeito à herança em três versículos do Alcorão Majid. No final do primeiro versículo, Ele disse: ( Árabe******************)

Vós não sabeis qual deles, entre os vossos pais e os vossos filhos, vos é mais próximo em benefício e proveito. Esta é a distribuição das partes e a determinação das quotas feita pelo próprio Allah. E Allah é Onisciente e o mais sábio.

No final do segundo versículo, Ele disse: ( Árabe******************)

Sem causar dano a ninguém — isto é uma recomendação de Allah. E Allah sabe todas as coisas e é extremamente tolerante. Estes são os limites estabelecidos por Allah. E quem obedecer e seguir Allah e Seu Mensageiro, Ele o fará entrar no Paraíso, sob o qual correm rios; nele permanecerão eternamente. E esse é o grande sucesso. Mas quem desobedecer a Allah e a Seu Mensageiro e transgredir os limites por Ele estabelecidos, Ele o fará entrar no Inferno, onde permanecerá eternamente. E para ele haverá um castigo humilhante e vergonhoso.

Ao final do terceiro versículo referente à herança, Allah, o Altíssimo, disse:( Árabe******************)

Allah esclarece tudo para o vosso bem, para que não vos percais. E Allah está plenamente informado sobre todas as coisas.

Portanto, quem se opuser à legislação sobre a herança estabelecida por Allah, o Altíssimo, terá se desviado da verdade que Allah explicou detalhadamente. Também terá transgredido os limites estabelecidos por Allah. Assim, deverá aguardar o castigo de Allah. E este é:( Árabe******************)

o Inferno, no qual permanecerá eternamente, e para ele haverá ainda um castigo mais humilhante.

Rompimento dos laços com os pais

Os pais têm muitos direitos sobre os filhos. Obedecer-lhes, falar-lhes com bondade e demonstrar-lhes respeito e consideração, entre outras coisas, fazem parte dos deveres dos filhos. A própria natureza humana impele a isso e inspira as pessoas a realizar todas essas ações de maneira nobre. No caso da mãe, esse dever é ainda mais enfatizado. Pois foi ela quem o carregou em seu ventre; carregou-o continuamente durante dez meses; suportou as dores terríveis e lancinantes do parto; fez-lhe mamar em seu próprio seio; deu-lhe de beber o leite produzido à custa de seu próprio sangue; e, desde a infância, cuidou dele e o criou. Nenhuma linguagem pode descrever o sofrimento que ela suportou com isso. O próprio Allah disse:( Árabe******************)

Exortamos o ser humano a tratar bem seus pais. Sua mãe o carregou com sofrimento e suportou as dores do parto. E o carregou e o amamentou durante trinta meses.

Um homem veio e perguntou ao Mensageiro Nobre (s.a.): ( Árabe******************)

Quem, entre todas as pessoas, tem o maior direito à minha melhor ajuda, serviço e cuidado?

Em resposta, ele disse: “A tua mãe.” Quando lhe perguntaram quem vinha depois, depois desse, e depois desse, tinha mais direito, o Mensageiro Nobre (s.a.) respondeu todas as vezes: ( Árabe******************) a tua mãe, a tua mãe, a tua mãe. Depois, quem tem direito é ( Árabe******************)o teu pai. (Bukhari, Muslim)

O Profeta Nobre (s.a.) declarou que romper os laços com os pais e causar-lhes sofrimento é um dos maiores pecados graves. Segundo sua declaração, esse pecado é o maior depois do shirk. O Profeta Nobre (s.a.) disse: ( Árabe******************)

“Não devo informar-vos qual é o maior dos pecados graves?” O Profeta Nobre (s.a.) fez essa pergunta três vezes. Os Companheiros disseram: “Sim, sim, certamente nos informarás.” Então ele disse: “É associar parceiros a Allah e romper os laços com os pais.”

O Mensageiro Nobre (s.a.) também disse: ( Árabe******************)

Três pessoas jamais entrarão no Paraíso: aquele que rompe os laços com os pais; aquele que os trata mal; o homem que faz sua própria esposa praticar atos imorais; e a mulher que adota modos e conduta masculinos.

Em outro hadith, ele disse: ( Árabe******************)

Entre os pecados, Allah adiará até o Dia da Ressurreição o castigo daqueles que Ele quiser. Porém, Ele transformará o pecado de romper os laços com os pais e tratá-los mal em um castigo imediato ainda nesta vida, antes da morte.

Em particular, quando os pais alcançam a velhice, é dada uma ênfase ainda maior à busca do seu bem-estar. Isso porque, nessa fase, suas forças e capacidades se esgotam. Então surge a necessidade de prestar maior atenção aos seus assuntos cotidianos, e torna-se indispensável cuidar deles cada vez mais. Nesse período, torna-se urgente cuidar deles com grande carinho, compaixão, devoção e respeito. Foi isso que Allah disse no versículo abaixo:( Árabe******************)

O teu Senhor decretou que não adoreis ninguém além d’Ele e que trateis bem os pais. Se um deles ou ambos alcançarem a velhice em tua presença, não lhes digas sequer uma palavra que lhes cause sofrimento, nem os repreendas ou censures; ao contrário, fala-lhes com palavras honrosas. Estende para servi-los os braços da humildade e do carinho, e diz: “Ó Allah! Tem misericórdia de ambos, assim como eles me criaram quando eu era pequeno.”

Em apoio a este versículo, foi dito no hadith:( Árabe******************)

Se Allah, o Altíssimo, soubesse que poderia haver algum tratamento para com os pais inferior até mesmo a dizer-lhes “uff”, que estivesse no nível de romper os laços com eles e tratá-los mal, também o teria declarado ilícito.

Também é um pecado grave dar causa a que os pais sejam insultados

Mais grave ainda é que o nobre Profeta (s.a.w.) declarou ilícito até mesmo dar causa a que os pais sejam insultados. Na verdade, isso é um pecado grave.

Ele disse:( Árabe******************)

Amaldiçoar os pais também é um dos maiores pecados graves. As pessoas não conseguiam compreender como um crente sensato poderia amaldiçoar os próprios pais, quando foi justamente por causa deles que ele pôde receber a vida e existir. Admiradas, perguntaram: como pode alguém amaldiçoar os próprios pais? Em resposta, o Mensageiro Nobre (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: quando alguém insulta o pai de outro, este também insulta o pai daquele; quando alguém insulta a mãe de outro, este também insulta a mãe daquele. É assim que se completa o ato de amaldiçoar.

Então, o que se pode dizer daquele que ele próprio insulta os pais na presença deles?

Partir para o jihad sem a permissão dos pais

Também foi proibido partir para o jihad sem a permissão dos pais. Isso porque, na visão do Islam, a satisfação dos pais é mais importante e mais desejável. Comparado a ela, o jihad é uma ação menos meritória, embora contenha uma recompensa muito maior, que não se obtém nem mesmo passando a noite inteira em oração e jejuando durante todo o ano.

Hazrat Abdullah ibn Umar ibn al-As (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: um homem foi até o Mensageiro Nobre (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e pediu-lhe permissão para partir para o jihad. Ele perguntou: teus pais estão vivos? O homem respondeu: sim. Então o Profeta Nobre (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse:( Árabe******************)

Então dedica-te inteiramente ao serviço deles. Em outra narração, conta-se que um homem foi até o Mensageiro Nobre (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e disse:( Árabe******************)

Prestarei diante de ti o juramento de compromisso para a hijra e o jihad; com isso, desejo obter recompensa de Allah.

O Profeta Nobre (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) perguntou: algum dos teus pais ainda está vivo? Ele respondeu: sim, ambos estão vivos. O Profeta Nobre (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) perguntou: desejas realmente obter recompensa de Allah? Ele respondeu: sim, desejo. Então o Profeta Nobre (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse:( Árabe******************)

Então, volta para junto de teus pais e trata-os com a melhor companhia.

Em outro hadith, a formulação é a seguinte:( Árabe******************)

Um homem foi até o Mensageiro de Deus (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) e disse: “Vim prestar-te o juramento de aliança para a Hégira, mas deixei meus pais chorando.” Ao ouvir isso, o Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) disse: “Volta para junto de teus pais e faze-os sorrir, assim como os fizeste chorar.”

Foi narrado por Abu Sa’id (que Deus esteja satisfeito com ele) que um homem iemenita emigrou e se apresentou ao Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele). Ele lhe perguntou: “Tens alguém no Iêmen?” Respondeu: “Tenho meus pais.” O Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) perguntou: “Eles te deram permissão?” Respondeu: “Não.” Então, o Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) ordenou:( Árabe******************)

“Volta para junto de teus pais e pede-lhes permissão. Se eles te derem permissão, parte para o jihad; caso contrário, dedica-te a servi-los.”

A conduta para com os pais idólatras

Como o Islã atribui grande importância aos pais, declarou ilícito até mesmo romper relações com eles e tratá-los mal quando são idólatras. Mesmo que excedam sobremaneira na prática do shirk, convidem a ele, sejam seus propagadores e queiram levar seu filho muçulmano a essa prática, ainda assim não se pode tratá-los mal de forma alguma nem romper relações com eles. No Alcorão Sagrado, é dito:( Árabe******************)

“Agradece a Mim e a teus pais. O retorno será para Mim. E, se ambos te pressionarem para que Me associes aquilo de que não tens conhecimento, não lhes obedeças. Mas acompanha-os e trata-os bem nesta vida terrena. E segue o caminho daquele que se volta inteiramente para Mim. Depois, todos retornareis para Mim, e então vos informarei sobre tudo o que fazíeis. (Surata Luqman: 14–15)”

Este versículo declara claramente que, se os pais idólatras ordenarem que se pratique o shirk e exercerem pressão para isso, não se deve obedecer-lhes nem cumprir suas ordens. Pois jamais se pode obedecer a alguém quando isso implica desobedecer a Allah. Que pecado poderia ser maior do que associar parceiros a Allah? Apesar disso, foi ordenado que se trate bem os pais idólatras durante a vida terrena. Não se deve dar atenção à sua condição de fé; pelo contrário, deve-se continuar seguindo somente o caminho dos piedosos que obedecem às ordens de Allah. Pois Allah é o maior Legislador e o maior Juiz — naquele Dia em que os pais não servirão de nada aos filhos, nem qualquer filho poderá beneficiar seus pais.

Com efeito, este é um exemplo tão elevado de generosidade, perdão e justiça que nenhuma outra religião ou ideologia do mundo pode apresentar algo que se compare a ele.

Quarto capítulo

Crença e imitação cega religiosa

Atividades e transações mútuas

Jogos, diversões e eventos recreativos

Relações sociais e comunitárias

Relações com os não muçulmanos

Crença doutrinária e seguimento religioso cego

Uma crença sã, correta e irrepreensível é a base da organização social. E o tawhid — a crença de que Allah é absolutamente Um, Único e sem igual — é a essência dessa crença e a força vital da religião completa do Islã. A preservação da crença correta e do tawhid puro foi estabelecida pelo Islã como objetivo supremo na formulação da sua sharia e na construção das bases do seu ensinamento. Ao mesmo tempo, ele também teve de se opor e extirpar as crenças da jahiliyyah que os idólatras haviam amplamente difundido. Isso era absolutamente indispensável para proteger a comunidade muçulmana dos vestígios da impureza, da abominação e do desvio do shirk.

Estabelecimento da dignidade da Sunnah de Allah

O Islã consolidou, antes de tudo, na mente e no entendimento de seus seguidores, esta visão relativa ao universo. O Islã declarou que o ser humano vive sobre a Terra e sob o firmamento, submetido à grandiosa ordem deste universo. Este vasto universo não é uma terra sem lei nem um brinquedo de crianças. Ele não funciona senão segundo as leis da orientação, nem vagueia ao acaso conforme a vontade de quem quer que seja. Tampouco é conduzido de acordo com os desejos de qualquer criatura. Pois os desejos das criaturas não são unos nem idênticos, não são mutuamente harmoniosos; ao contrário, entram em conflito uns com os outros. E é indubitável que eles próprios são confusos e desorientados. O Alcorão Sagrado diz:( Árabe******************)

Se a Verdade absoluta seguisse os desejos deles, os céus, a Terra e tudo quanto existe entre ambos seriam destruídos e reduzidos a pedaços. (Surata Al-Mu’minun: 71)

Na realidade, este universo está preso pelos fortes laços das leis naturais e da Sunnah concedida por Allah. Não há mudança nessas leis e na Sunnah concedida por Allah, nem há nelas qualquer exceção. Essa verdade foi declarada enfaticamente em vários trechos do Alcorão Sagrado. Na Surata Fatir, diz-se:( Árabe******************)

Não encontrarás qualquer mudança ou exceção na Sunnah de Allah — Suas leis e normas.

O Alcorão e a Sunnah ensinaram ao muçulmano que é seu dever respeitar essas leis naturais e preservar sua dignidade. Deve empenhar-se e esforçar-se para alcançar resultados mediante a aplicação das relações de causa e efeito. Pois Allah estabeleceu uma “causa” na base de cada ação e instituiu uma relação profunda entre ambas. Nenhum muçulmano pode dar sequer a menor atenção nem reconhecer a importância das supostas causas ocultas e imaginárias que os administradores dos locais de culto, os profissionais da fraude e os comerciantes da religião adotaram como meio de ganhar dinheiro, visando satisfazer seus próprios interesses.

Luta contra as superstições e as crenças infundadas

Quando o Profeta Universal Hazrat Muhammad (s.a.) veio ao mundo, encontrou na sociedade grupos e mais grupos de enganadores. Eles eram conhecidos como adivinhos ou astrólogos. Alegavam poder conhecer, por meio dos jinns, os acontecimentos e assuntos do invisível, passados ou futuros. Como esse engano e essa fraude eram totalmente contrários ao Alcorão e à Sunnah, o Profeta (s.a.) declarou guerra contra eles. Ele recitou a todos as palavras de Allah:( Árabe******************)

Nenhum dos que estão nos céus e na Terra conhece o invisível; somente Allah conhece todas as coisas. (Surata An-Naml: 65)

Portanto, nenhum anjo, jinn ou ser humano pode conhecer o invisível.

O nobre Mensageiro (s.a.) também recitou esta declaração de Allah:( Árabe******************)

Se eu conhecesse o invisível, teria obtido para mim mesmo muitos benefícios e prosperidade, e nenhum mal poderia sequer tocar-me. Sou apenas um admoestador e anunciador de boas-novas para os crentes.

Sobre os jinns encarregados de servir ao Hazrat Sulaiman, Allah, o Altíssimo, declarou:( Árabe******************)

Se eles conhecessem o invisível, não teriam permanecido por tanto tempo presos naquele castigo humilhante. (Surata Saba: 14)

Portanto, quem afirma conhecer verdadeiramente o invisível atribui uma mentira completa e manifesta a Allah, à própria realidade e a todas as pessoas.

Várias delegações foram ao encontro do Nobre Profeta (que a paz esteja com ele). Elas pensavam que o Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) também afirmava conhecer o invisível. Para testá-lo a esse respeito, esconderam algo na mão fechada e perguntaram: “Diga-nos, o que há em nossa mão fechada?” O Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) disse-lhes claramente:( Árabe******************)

“Eu não sou um adivinho. Sabei que o adivinho, a adivinha e o grupo de adivinhos serão todos lançados no Inferno.”

Crer no adivinho é kufr

O Islã não se limitou a falar contra os adivinhos e os enganadores fraudulentos. Também incluiu entre eles aqueles que, por serem supersticiosos e terem ideias falsas, vão até eles, fazem perguntas, procuram obter informações e acreditam que eles dizem a verdade; e declarou que ambas as classes terão o mesmo destino. O Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) disse:( Árabe******************)

Quem for a um astrólogo, fizer-lhe uma pergunta sobre algo e acreditar que ele diz a verdade, não terá nenhuma oração aceita durante quarenta dias.

Em outro hadith, foi dito:( Árabe******************)

Quem for a um adivinho e acreditar que é verdade o que ele disser, descrê da religião revelada a Muhammad e torna-se um kafir. (Al-Bazzar)

Isso porque foi revelado a Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) que somente Allah conhece o invisível; Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) não conhece o invisível, muito menos os demais. No Alcorão Sagrado, foi dito:( Árabe******************)

Dize: Não vos digo que possuo os tesouros de Allah, nem conheço o invisível, nem vos digo que sou um anjo. Sigo apenas aquilo que me é revelado.

Quando um muçulmano sabe, de modo claro e incontestável, pelo Alcorão Sagrado, que somente Allah conhece o invisível, mas ainda assim acredita que algumas criaturas — seres humanos ou jinn — são capazes de desvendar os mistérios ocultos do destino e possuem conhecimento do mundo invisível, então ele rejeitou completamente a religião do Islã revelada a Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e demonstrou incredulidade em relação a ela.

Consultar a sorte por meio de flechas

Com base no argumento mencionado anteriormente, o Islã proibiu completamente a consulta da sorte por meio de flechas.

Por “flechas” entende-se aqui um conjunto de flechas. Na época da jahiliyyah, os árabes tentavam descobrir a sorte por meio delas e, para isso, utilizavam-nas. Em uma delas estava escrito: “Meu Senhor ordenou-me”. Na segunda estava escrito: “Meu Senhor proibiu-me”. A terceira era completamente vazia; nada estava escrito nela. Quando pretendiam viajar para o estrangeiro ou realizar algo como um casamento, dirigiam-se à casa dos ídolos. Era ali que essas flechas eram guardadas. Queriam então saber o que estava escrito em seu destino. Se saísse a primeira flecha — aquela em que estava escrito “ordenou” —, prosseguiam. Se saísse a flecha em que estava escrito “proibiu”, abstinham-se da ação planejada. E, se saísse a flecha vazia, repetiam o sorteio várias vezes, até obterem uma orientação clara.

Embora em nossa sociedade não esteja difundida exatamente essa forma da jahiliyyah, há várias práticas semelhantes que são comuns. Por exemplo, lançar as moedas “raman”, abrir um livro para tirar um presságio, ler as cartas de baralho ou a borra da xícara, e tudo o que se faz nesse âmbito é completamente proibido no Islã.

Depois de mencionar os alimentos que Allah proibiu a Seus servos, Ele disse:( Árabe******************)

Quereis conhecer o destino por meio de flechas? Isso é haram, uma transgressão da lei de Allah. (Surata Al-Ma’idah: 3)

E o nobre Profeta (s.a.) disse:( Árabe******************)

Aquele que praticar adivinhação, tentar conhecer o destino por meio de flechas ou retornar de uma viagem por causa de um mau presságio jamais poderá alcançar uma posição elevada. (Bukhari, Muslim)

Magia

Da mesma forma, o Islã combateu a magia e os feiticeiros. Sobre aqueles que aprendem magia, o Alcorão Sagrado diz:( Árabe******************)

Eles aprendem aquilo que lhes causa dano e não lhes traz benefício algum.

O nobre Profeta (s.a.) incluiu a prática da magia entre os pecados maiores e destrutivos. Ela destrói a sociedade antes do indivíduo. Antes de lançar o homem na desgraça na Outra Vida, os feiticeiros conduzem este mundo à extrema calamidade. O nobre Profeta (s.a.) disse:( Árabe******************)

Afastai-vos das sete ações destrutivas. Os Companheiros perguntaram: Ó Mensageiro, quais são elas? Ele respondeu: Associar parceiros a Allah; a magia; matar a pessoa cuja morte Allah proibiu, exceto com base na justiça; consumir usura; consumir e usurpar os bens do órfão; fugir do campo de batalha; e acusar falsamente de fornicação as mulheres crentes, castas e incautas. (Bukhari, Muslim)

Alguns juristas consideraram a magia ou a prática de magia como kufr, ou disseram que ela conduz a pessoa ao kufr. Outros juristas sustentaram que é obrigatório matá-lo, a fim de manter a sociedade livre dos malefícios do feiticeiro.

O Alcorão Sagrado nos ensinou a buscar refúgio em Allah contra o mal e o dano dos feiticeiros:( Árabe******************)

Busco refúgio em Ti, ó Allah, contra o mal e o dano das mulheres que sopram sobre os nós e os apertam.

Soprar sobre os nós é um método de praticar magia e uma prática específica dos feiticeiros. Foi dito no hadith:( Árabe******************)

Quem soprou sobre um nó praticou magia; e quem praticou magia cometeu shirk.

Assim como o Islã declarou ilícito consultar adivinhos e tentar conhecer assuntos ocultos e misteriosos, também declarou absolutamente ilícito recorrer à magia ou aos feiticeiros para tratar uma doença ou resolver qualquer problema. O Profeta Sagrado declarou estar completamente desvinculado dessa prática. Disse:( Árabe******************)

Aquele que praticou adivinhação ou para quem ela foi praticada, que buscou um presságio ou para quem um presságio foi buscado, que praticou magia ou para quem a magia foi praticada, não faz parte da minha ummah.

Hazrat Ibn Mas’ud disse:( Árabe******************)

Quem quer que vá a um adivinho, feiticeiro ou alguém que alegue falar do oculto, faça-lhe perguntas e acredite que o que ele disse é verdade, renegou e rejeitou a religião do Islã revelada a Muhammad (que a paz esteja com ele).

O nobre Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse ainda:( Árabe******************)

O alcoólatra, aquele que acredita em magia e aquele que rompe os laços de parentesco jamais entrarão no Paraíso.

À luz desses hadiths, fica claro que não é somente o trabalho do feiticeiro que é ilícito; também é completamente ilícito o ato de quem acredita em magia e considera verdadeiro alguém por ser um adivinho.

Se essa magia for usada primordialmente com o objetivo de realizar atos ilícitos, como causar separação entre marido e mulher, provocar danos físicos e coisas semelhantes, ela se torna um ilícito ainda mais grave; e todos sabem que os feiticeiros normalmente praticam essas coisas.

O uso de amuletos

O uso de amuletos e talismãs também pertence a essa mesma categoria. Nele está arraigada a crença de que, bastando amarrar um amuleto, a doença será curada ou a pessoa será protegida contra seu ataque. Mesmo nesta iluminada era do século XX, ainda há muitas pessoas que amarram uma ferradura de cavalo à porta de suas casas. No mundo de hoje, também não faltam pessoas que, aproveitando-se da ignorância e da falta de instrução do povo, permanecem ocupadas dia e noite em obter vantagens econômicas materiais. Elas escrevem amuletos para essas pessoas. Nesses amuletos há linhas e enigmas desenhados. Diante delas, fazem juramentos solenes, manifestando sua veracidade e firme determinação. Recitam encantamentos e sopram sobre os amuletos. Afirmam que, quando se amarram amuletos e talismãs, a influência maléfica dos jinn não pode atingir a pessoa, e que fantasmas, espíritos, mau-olhado, inveja ou qualquer coisa semelhante não poderá causar-lhe dano. Mas esses não são métodos de tratamento aprovados pelo Islã.

Para a cura, a prevenção e a proteção contra o ataque das doenças, o Islã estabeleceu métodos reconhecidos. E repreendeu aqueles que, abandonando e rejeitando esses métodos, adotam o caminho do desvio.

O nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse:( Árabe******************)

Utilizai medicamentos para tratar as doenças, pois Aquele que criou a doença também criou o seu remédio. (Bukhari)

Ele também disse:( Árabe******************)

Entre todos esses medicamentos, há três que são muito benéficos: beber mel, usar uma faca para a sangria ou realizar a cauterização. (Bukhari, Muslim)

Basta refletir um pouco para perceber que esses três tratamentos, considerados especialmente benéficos pelo nobre Mensageiro, estão incluídos nos métodos da medicina moderna. O tratamento com medicamentos ingeridos por via oral, a cura por meio de cirurgia e a recuperação por cauterização. O tratamento por calor elétrico ou por queimadura está incluído nessa terceira categoria e constitui um método extremamente moderno. Portanto, todos esses tratamentos são lícitos.

Usar talismãs ou recitar encantamentos com o objetivo de prevenir ou tratar doenças é uma manifesta tolice e desvio, além de contrariar a Sunnah e a crença no Tawhid estabelecidas por Allah. Hadrat Uqbah ibn Amir (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: uma delegação completa, composta por dez pessoas, compareceu perante o nobre Profeta. Ele aceitou a bay’ah de nove delas, mas não aceitou a bay’ah de uma. Em resposta à pergunta dos companheiros, ele disse:( Árabe******************)

Esse homem tem um talismã preso ao braço. Ao ouvir isso, o homem rasgou o talismã. Então o nobre Profeta aceitou também a sua bay’ah e depois disse: quem usa um talismã comete shirk. (Ahmad, Hakim)

Em outro hadith, foi dito:( Árabe******************)

Allah não concederá sucesso àquele que usar um talismã. E àquele que usar um amuleto, Allah não concederá sequer um mínimo de paz e tranquilidade. (Ahmad)

Imran ibn Husayn (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: O Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) viu um homem usando no braço um amuleto ou bracelete de latão. Disse: “Ai de ti! O que estás usando?” Ele respondeu: “Usei-o com o propósito de afastar a fraqueza.” Então o Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse:( Árabe******************)

“Isso aumentará ainda mais a tua fraqueza; joga-o fora. Caso contrário, se morreres enquanto o usas, jamais alcançarás o bem.” (Ahmad, Ibn Hibban)

Esses ensinamentos exerceram uma influência tão profunda sobre os Companheiros que eles próprios se recusaram a adotar tais meios, instrumentos e práticas inválidas.

Isa ibn Hamza disse: Fui à casa de Abdullah ibn Hakim; ele sofria de erisipela (Erysipelas — uma inflamação da pele acompanhada de vermelhidão). Perguntei-lhe: “Por que não usas nenhum talismã ou amuleto para essa doença?” Em resposta, ele disse:

( Árabe******************)“Peço refúgio a Allah contra isso.”

Em outra narração, suas palavras são as seguintes:( Árabe******************)

A morte está mais próxima daquele que pendurar ou amarrar alguma coisa; ele será deixado à mercê daquilo.

Hazrat Abdullah ibn Mas’ud (que Allah esteja satisfeito com ele) foi até sua esposa e viu que havia algo amarrado em seu pescoço. Ele puxou aquilo e o arrancou. Depois disse: ( Árabe******************)

Os membros da família de Abdullah afastaram-se do shirk, sobre o qual Allah não revelou nenhuma prova.

Depois ele disse: Ouvi o Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) dizer: ( Árabe******************)

Talismãs, amuletos, pulseiras e tawla: tudo isso é shirk. As pessoas perguntaram: “O que é tawla?” Ele respondeu: É um método ou prática que as mulheres usam para obter mais amor de seus maridos.

Em palavras simples, tawla também é uma espécie de magia.

A opinião dos sábios é que, no caso dos talismãs que não estão escritos em árabe, não se pode saber nem compreender o que está escrito neles; podem conter magia ou palavras de incredulidade. Por isso, são proibidos. Porém, se seu significado e conteúdo puderem ser compreendidos e neles houver a menção do dhikr ou do nome de Allah, então não são proibidos nem haram. Nesse caso, o talismã é considerado uma súplica; não é tratamento nem medicamento, mas apenas uma esperança na ajuda de Allah. Os talismãs usados na época da Jahiliyyah continham magia, shirk ou palavras misteriosas cujo significado não podia ser compreendido. Por isso, foram declarados haram.

Hazrat Ibn Mas’ud (que Allah esteja satisfeito com ele) proibira sua esposa de usar essas fórmulas mágicas e talismãs da Jahiliyyah. Em resposta, ela contou um acontecimento. Disse: Certo dia, saí de casa, e fulano me viu. Então, lágrimas começaram a escorrer dos meus dois olhos.

Depois, quando recitei a fórmula, as lágrimas pararam. Quando parei de recitá-la, elas começaram novamente a cair em abundância. Ibn Mas’ud disse: ( Árabe******************)

Este é Satanás. Quando você o obedece, ele o deixa em paz. Mas, quando você o desobedece, ele fura seus olhos com o dedo. No entanto, se você fizer o que o nobre Profeta (que a paz esteja com ele) fazia, isso será muito melhor para você e talvez você também alcance a cura. Isto é: coloque água nos próprios olhos e faça uma súplica. (Ibn Majah, Abu Dawud)

Adoção de maus presságios

Tomar maus presságios de qualquer coisa — seja de um lugar, de uma pessoa ou de qualquer outra coisa — não é senão uma superstição infundada. Isso existe na sociedade humana desde os tempos mais remotos e talvez continue existindo por muitos e muitos anos. É possível ver muitas pessoas e muitos grupos humanos completamente imersos nisso. As pessoas do tempo do Profeta Salih disseram:( Árabe******************)

Para nós, você e seus companheiros são, sem dúvida, um mau presságio.

Quando alguma calamidade se abatia sobre o Faraó e seu povo:( Árabe******************)

eles começavam a considerar Moisés e seus companheiros um mau presságio.

Quando, naquela época, alguma calamidade atingia os numerosos incrédulos imersos no mais extremo desvio, por terem rejeitado o chamado dos profetas e mensageiros, eles diziam:

( Árabe******************)Consideramos vocês um mau presságio.

Em resposta, os profetas e mensageiros diziam:

( Árabe******************)— O vosso mau agouro está convosco.

Ou seja, a causa da vossa desgraça está convosco. E ela é a vossa descrença, a vossa inimizade para com Allah e a vossa rebelião contra Allah e o Mensageiro.

Os árabes da época da Jahiliyyah tinham uma crença diferente a respeito de tirar maus presságios. Mas o Islão veio, declarou tudo isso inválido e conduziu-os por um caminho firme e racional.

O nobre Profeta (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) associou o ato de tirar maus presságios à adivinhação e à prática da magia. Ele disse:( Árabe******************)

Quem tirar maus presságios, ou para quem forem tirados ou calculados maus presságios, ou praticar adivinhação, ou para quem ela for praticada, ou praticar magia, ou para quem ela for praticada, não faz parte da minha ummah. (At-Tabarani)

Ele também disse:( Árabe******************)

A adivinhação por meio da areia, tirar maus presságios pelo voo das aves e tirar maus presságios lançando pedrinhas — tudo isso faz parte das crenças supersticiosas.

A adoção desse presságio funesto não se baseia em nenhum conhecimento ou raciocínio, nem tem qualquer relação com a realidade. É fruto da consciência, da capacidade de pensar e da fragilidade mental do ser humano. É devido à mentalidade supersticiosa que as pessoas se deixam conduzir por presságios, sejam eles maus ou bons. Caso contrário, que sentido poderia haver em considerar determinada pessoa, determinado lugar ou a entrada de um planeta ou estrela em alguma posição como símbolo de um presságio funesto? Poderia haver alguma relação com o bom senso considerar que a viagem se tornará desafortunada simplesmente ao ouvir o canto de um pássaro, que o movimento das pálpebras contém algo bom ou mau, ou que ouvir determinada palavra abalará todos os propósitos? Não há qualquer relação entre tais ideias e uma consciência sã.

Na realidade, é devido à fragilidade naturalmente presente no ser humano que ele busca presságios em certas coisas. Portanto, é dever da pessoa inteligente e consciente não se submeter a nenhum tipo de fraqueza.

Foi narrado em um hadith marfu‘:( Árabe******************)

Há três coisas das quais muito poucas pessoas conseguem se proteger: o mau pensamento, a adoção de presságios funestos e a inveja. Portanto, se surgir em sua mente um mau pensamento, não acredite nele; se um presságio funesto lhe causar hesitação, não volte no meio do caminho; e, se surgir inveja, não deseje agir de acordo com ela. (At-Tabarani)

Quando se segue o método ensinado pelo Mensageiro, essas três coisas parecerão apenas pensamentos e imaginações infundados que surgem na mente, além dos sussurros de Satanás, e não terão qualquer efeito sobre as ações concretas. Nessa situação, Allah, o Altíssimo, perdoará tudo isso. Foi narrado por Ibn Mas‘ud que o Nobre Profeta disse:( Árabe******************)

A adoção de presságios funestos é shirk; a adoção de presságios funestos é shirk; a adoção de presságios funestos é shirk.

Ibn Mas‘ud disse: Não há ninguém entre nós em cujo coração não surjam pensamentos relacionados a presságios funestos. Porém, quando se deposita confiança em Allah, todas essas ideias desaparecem por completo. (Abu Dawud, At-Tirmidhi)

Jihad contra a imitação cega da جاهلية

Assim como o Islã combateu as crenças da Jahiliyyah e as superstições — pois são contrárias à razão, à moralidade e aos bons costumes —, também travou uma luta contra a imitação e o seguimento cegos da Jahiliyyah. Isso porque se baseiam no ódio, na arrogância, no orgulho e no sentimento de superioridade tribal.

A mentalidade de hostilidade é contrária ao Islã

Nesse contexto, o Islã desferiu primeiramente um golpe decisivo contra a mentalidade de hostilidade e sepultou sob a terra todas as suas formas e manifestações. Além disso, declarou haram criar uma mentalidade hostil e convocar as pessoas para ela. O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) declarou em tom solene:( Árabe******************)

Quem convoca as pessoas para uma mentalidade de hostilidade, quem luta em nome de uma mentalidade de hostilidade e quem morre defendendo uma mentalidade de hostilidade não faz parte da minha ummah. (Abu Dawud)

Portanto, na perspectiva do Islã, nenhuma cor específica da pele tem importância ou distinção, e não é reconhecida a primazia de nenhum grupo específico de pessoas. Nenhuma região da Terra possui superioridade sobre as demais. Não é halal que os muçulmanos cultivem hostilidade de uma cor contra outra. Nenhuma nação tem o direito de estabelecer sua superioridade sobre outra. O mesmo se aplica, segundo o Islã, a regiões específicas, reinos ou impérios. O Islã de modo algum está disposto a fazer distinções entre as pessoas com base em diferenças de cor, linhagem, nacionalidade ou região. Portanto, um muçulmano não pode agir com base no ódio e na hostilidade fundados na cor, na nacionalidade ou no país. Também não é próprio de um muçulmano apoiar sempre sua própria nação, seja ela justa ou injusta, esteja ela com a verdade ou com a falsidade, pratique ela opressão ou justiça. Wasila ibn al-Asqa (que Allah esteja satisfeito com ele) disse:( Árabe******************)

Perguntei: “Ó Mensageiro de Allah, o que é ‘asabiyyah?” Ele respondeu: “Que apoies e auxilies tua nação mesmo quando ela estiver cometendo injustiça; isso é ‘asabiyyah (uma mentalidade de hostilidade contra outra nação.”}]},{

A declaração de Allah, o Altíssimo, é:( Árabe******************)

Ó crentes! Mantende-vos firmes pela justiça e sede testemunhas de Allah, ainda que isso seja contra vós mesmos, contra vossos pais ou contra os vossos parentes próximos. (Surata An-Nisa: 135)

( Árabe******************)Que a inimizade contra um determinado povo não te leve a cometer injustiça.

O princípio de justiça do Nobre Profeta era, nesse sentido, amplamente praticado em toda parte na época da jahiliyyah, sendo tomado em seu sentido aparente. Ele disse:( Árabe******************)

Ajuda teu irmão, seja ele opressor ou oprimido.

Mais tarde, quando a fé islâmica se firmou solidamente entre os Companheiros, o mau sentido da afirmação acima veio à tona diante das pessoas, provocando-lhes temor e espanto. Eles perguntaram:( Árabe******************)

Ó Mensageiro! De acordo com suas palavras, se meu irmão for oprimido, posso ajudá-lo e compreendo o significado de suas palavras nesse caso. Mas, se ele for opressor, como podemos ajudá-lo? — Não consegui compreender o significado dessas palavras. Em resposta, ele disse:( Árabe******************)

Tu o impedirás de cometer injustiça, e esse é o significado de dizer que deves ajudá-lo.

Com isso, podemos saber claramente que, na sociedade muçulmana, não se pode sustentar nenhuma reivindicação de superioridade regional ou nacional. Invocar a pátria, ou o nacionalismo e a arrogância baseados na região, na classe, na linhagem, na raça ou na língua, é uma reivindicação da jahiliyyah. Isso não pode ter qualquer relação com o Islã, com o Mensageiro ou com o Livro de Allah.

Na verdade, o Islã não apoia nenhuma associação de amizade contrária à sua crença, nem qualquer relação de fraternidade fora da fraternidade islâmica. O Islã não reconhece nenhum outro fundamento para distinguir as pessoas umas das outras além da fé e da descrença. Portanto, o inimigo do Islã — o kafir — também é inimigo do muçulmano, ainda que seja seu compatriota, membro de sua mesma nação ou vizinho. E não apenas isso: seja ele seu próprio irmão, pai ou mãe, também não lhe pertence se for inimigo do Islã. Allah, o Altíssimo, disse exatamente isso no seguinte versículo:( Árabe******************)

Não encontrarás um povo que creia em Allah e no Último Dia mantendo amizade com os inimigos de Allah e do Mensageiro, ainda que estes sejam seus pais, filhos, irmãos ou parentes. (Surata Al-Mujadalah: 22)

Ele disse: ( Árabe******************)

Ó crentes! Não tomeis como amigos e protetores aqueles que ocupam o lugar de vossos pais ou que são como vossos irmãos, se eles preferem a incredulidade à fé. (Surata At-Tawbah: 23)

Não há orgulho na linhagem nem na cor

Foi narrado no Sahih al-Bukhari que Hazrat Bilal al-Habashi e Abu Dharr al-Ghifari (que Allah esteja satisfeito com ambos) eram ambos Companheiros dos primeiros tempos. Cegos pela ira um contra o outro, começaram a trocar insultos. No auge da cólera, Hazrat Abu Dharr (que Allah esteja satisfeito com ele), dirigindo-se a Hazrat Bilal (que Allah esteja satisfeito com ele), disse: ( Árabe******************)— “Ó filho de uma negra.” Hazrat Bilal queixou-se dessa declaração ao Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Ele disse a Hazrat Abu Dharr: ( Árabe******************)

Insultaste a mãe dele? Vê-se que ainda permanecem em ti os costumes e o caráter da época da ignorância.

É narrado pelo próprio Hazrat Abu Dharr (que Allah esteja satisfeito com ele) que o Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) lhe disse: ( Árabe******************)

Reflete sobre ti mesmo. Em nenhum aspecto és superior às pessoas de pele vermelha ou negra. Só podes alcançar superioridade sobre ele com base na taqwa. (Ahmad)

O nobre Profeta (que a paz esteja com ele) disse: ( Árabe******************)

Todos vós sois descendentes de Adão. E Adão foi criado do barro.

O Islã proibiu completamente que os muçulmanos se vangloriem de sua linhagem, raça ou da excelência e honra de seus antepassados, tentando demonstrar sua superioridade em relação aos outros. Pois essas são precisamente as características da jahiliyyah. O ser humano só pode agir assim por se tornar escravo de desejos mesquinhos. Portanto, não há lugar no Islã para que as pessoas troquem entre si palavras hostis e odiosas do tipo: “Eu sou filho de fulano”, “sou descendente de fulano”, “tu és de uma linhagem inferior”, “eu sou branco e tu és negro”, “eu sou árabe e tu não és árabe”, e semelhantes.

Na verdade, quando toda a humanidade provém de uma única e mesma origem, não faz sentido, nem pode haver direito, para as gerações posteriores se vangloriarem de sua linhagem, tribo ou sangue, ou demonstrarem sua superioridade em relação aos outros. Mesmo que se admita alguma importância à linhagem, que superioridade própria pode ter uma pessoa por ter nascido nela, ou que culpa lhe pode ser atribuída? O nobre Profeta (que a paz esteja com ele) declarou com voz vigorosa: ( Árabe******************)

Não podeis reivindicar superioridade sobre os outros por causa dessas vossas linhagens. Pois todos vós, seres humanos, sois filhos e descendentes de Adão. Nenhum de vós tem superioridade sobre os outros, exceto pela piedade e pelo temor de Allah. (Ahmad)

Ele também disse: ( Árabe******************)

Toda a humanidade é descendente de Adão e Eva. No Dia da Ressurreição, Allah não vos perguntará sobre vossa linhagem ou nobreza. Na verdade, o mais honrado de vós diante de Allah é aquele que, entre vós, mais O teme.

Advertindo severamente aqueles que se vangloriam da nobreza de seus antepassados ou de sua linhagem, o nobre Profeta (que a paz esteja com ele) disse:

Ó gente! Abandonai o orgulho pelos vossos pais e antepassados — aqueles antepassados que morreram e se tornaram carvão do Inferno. Caso contrário, serão ainda mais desprezíveis e humilhados do que os insetos. Allah, o Altíssimo, eliminou a arrogância e o orgulho de linhagem da Jahiliyyah. Agora, a pessoa será ou um crente temente a Allah, ou um pecador de caráter perverso. Todos os seres humanos são filhos de Adão, e Adão foi criado do barro. (Abu Dawud, Tirmidhi, Bayhaqi)

Este hadith contém uma lição muito importante para aqueles que se orgulham dos seus antigos pais e antepassados, da sua linhagem ancestral e dos líderes da Jahiliyyah árabe e persa, como Faraó, César e Kisra, embora, à luz da declaração do Nobre Profeta, eles não sejam nada além de carvão do Inferno.

Durante a Peregrinação de Despedida, no mês do Hajj, mais de cem mil muçulmanos estavam reunidos na venerável cidade de Meca, ouvindo o eloquente sermão do Nobre Mensageiro. Ele começou anunciando:( Árabe******************)

Ó povo! O vosso Deus é Um. Nenhum árabe tem superioridade sobre um não árabe, e nenhum não árabe tem superioridade sobre um árabe. Nenhuma pessoa de pele clara tem superioridade sobre uma pessoa de pele negra, nem uma pessoa de pele negra tem superioridade sobre uma pessoa de pele clara, exceto pela taqwa. A declaração de Allah é que, entre vós, o mais honrado perante Allah é aquele que mais O teme. (Bayhaqi)

Lamentação pelos mortos

Entre os costumes e práticas da era da Jahiliyyah contra cuja imitação o Islam lutou está o comportamento da Jahiliyyah em relação aos mortos.

Entre eles está a lamentação pelos mortos e o exagero na demonstração de intenso pesar e sofrimento.

O Islam ensinou aos seus seguidores que a morte nada mais é do que uma viagem ou uma transferência de um mundo para outro. Ela não é destruição, aniquilação ou extinção definitiva. Além disso, lamentar-se não fará o morto voltar à vida. O decreto de Allah não será alterado por causa de qualquer outro decreto. Portanto, é dever do crente enfrentar cada calamidade com paciência; e, no caso da morte, deve igualmente adotar paciência e perseverança. Ao contrário, deve tirar uma lição dela. Deve manter no coração a esperança de repetir as palavras ensinadas por Allah: Inna lillahi wa inna ilayhi raji’un — “Pertencemos a Allah e a Ele retornaremos.”

Por isso, no Islã, é proibido e deve ser abandonado o lamento que se fazia pelos mortos na época da Jahiliyyah. O Mensageiro Nobre (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) declarou que não tinha qualquer vínculo com isso. Ele disse: ( Árabe******************)

Aquele que, ao lamentar um morto, fere o próprio rosto, rasga as roupas que veste e grita e clama como na época da Jahiliyyah não faz parte da minha comunidade. (Al-Bayhaqi)

Não é halal nem permitido a nenhum muçulmano, ao lamentar um morto, vestir roupas de luto, deixar de usar adornos e abandonar as roupas habituais, nem alterar sua aparência e forma. Contudo, a esposa deve observar o que lhe é obrigatório quando o marido morre. Por exemplo, é seu dever cumprir a iddah de quatro meses e dez dias. O período de luto prescrito para a esposa pelo marido é obrigatório devido ao fim da vida conjugal. Como o vínculo de amor e afeição que existia entre os dois foi rompido pela morte do marido, ela deve expressar ao menos esse pesar. Isso demonstra respeito por essa relação sagrada. Portanto, durante esse período, ela não deve usar adornos, para que não se torne atraente aos olhos de muitos homens que desejem casar-se enquanto ela cumpre a iddah.

Mas, se o falecido for alguém que não seja o marido — como o pai, irmão, filho, mãe ou outro parente — não é permitido às mulheres guardar luto por mais de três dias. Foi relatado por Zaynab bint Abi Salama, que narrou de Umm Habiba (que Allah esteja satisfeito com ela), esposa do Nobre Profeta, que, quando seu pai, Abu Sufyan ibn Harb, morreu, e quando morreu o irmão de Zaynab bint Jahsh, ambas usaram perfume e disseram: “Não havia necessidade de usar perfume agora.” Mas o Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: ( Árabe******************)

Não é permitido à mulher que crê em Allah e no Dia do Juízo guardar luto por um morto por mais de três noites. Porém, pelo marido, deve guardar luto durante quatro meses e dez dias. (Al-Bukhari)

Esse luto pelo marido é obrigatório. Não se pode demonstrar desprezo por ele. Uma mulher foi à presença do Nobre Profeta e disse: “O marido de minha filha morreu. Posso aplicar kohl nos olhos dela?” O Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) respondeu: “Não”, repetindo a mesma resposta duas ou três vezes. Isso deixa claro que, quando o marido morre, é haram para a esposa usar produtos de embelezamento e adornos até o fim do período da iddah.

Contudo, sentir apenas pesar ou tristeza, sem demonstrar agitação, e chorar sem gritar é algo natural. Por isso, não haverá pecado. Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) ouviu que as mulheres choravam por Khalid ibn al-Walid. Então, alguns homens quiseram proibi-las. Ao ver isso, Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: ( Árabe******************)

Deixem-nas. Que chorem por Abu Sulayman — Khalid — até colocarem terra sobre a cabeça ou gritarem em voz alta.

Transações mútuas

Allah, o Altíssimo, criou os seres humanos com uma natureza tal que eles necessitam uns dos outros e dependem inteiramente da ajuda mútua. De modo algum é possível a uma pessoa obter sozinha tudo aquilo de que necessita. Talvez alguém possua algo que satisfaça a necessidade de outra pessoa, enquanto outra pessoa talvez precise de algo que se encontre em posse de alguém. Por isso, Allah, o Altíssimo, despertou entre eles a disposição de adotar um sistema de troca de bens e benefícios por meio da compra e venda. É assim que todas as necessidades humanas são satisfeitas e que a vida humana adquire estabilidade. Isso não diz respeito apenas às relações mútuas entre indivíduos; nações e Estados também podem trocar entre si os frutos do benefício mútuo e da produção.

Quando o nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) foi enviado, na sociedade árabe já se praticavam diversos tipos de compra, venda e transações mútuas. Foram então mantidos os sistemas e práticas compatíveis com a Sharia islâmica, que foram declarados permitidos, enquanto tudo aquilo que contrariava a Sharia foi declarado haram e proibido. Essa proibição divide-se em várias categorias, como ajudar e cooperar em atos pecaminosos, em práticas de fraude e engano, na exploração por meio de preços e lucros excessivos e em atos que resultem na opressão de uma das partes do contrato.

É haram vender coisas haram

a. Utilizar bens declarados proibidos e haram e obter benefício deles também é haram e constitui um ato de grande pecado. Por isso, comprá-los, vendê-los ou comerciar com eles é haram. O porco, as bebidas alcoólicas, os alimentos e bebidas haram, os ídolos, as cruzes, as estátuas (Statue) e outros semelhantes incluem-se nessa categoria. Se a compra, a venda e o comércio desses bens fossem permitidos, tais atos pecaminosos se espalhariam amplamente. As pessoas seriam incentivadas a praticá-los, facilidades seriam criadas para isso e elas seriam conduzidas até esses bens. Por essa razão, seriam estimuladas a adquiri-los. Mas, uma vez que a compra, a venda e a obtenção desses bens foram declaradas haram, as pessoas podem manter-se afastadas deles. Assim, as pessoas não voltarão os olhos para essas coisas nem terão motivo para se lembrar delas. Pretendeu-se manter as pessoas afastadas até mesmo do contato com esses bens. Por isso, o nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse:( Árabe******************)

Allah e Seu Mensageiro proibiram a venda de bebidas alcoólicas, animais mortos, porcos e ídolos. (Bukhari e Muslim)

Foi dito em um hadith:( Árabe******************)

Quando Allah proíbe algo, Ele também proíbe o valor obtido com a venda dessa coisa. (Ahmad e Abu Dawud)

A venda fraudulenta é proibida

b. É proibida, segundo o princípio de “bloqueio dos meios”, qualquer modalidade de venda em que a mercadoria seja desconhecida, esteja sujeita a fraude ou haja possibilidade de uma das partes prejudicar a outra, levando ao risco de conflitos entre ambas. Por exemplo, vender algo que esteja sobre o dorso de um camelo macho ou o filhote que ainda se encontre no ventre de uma camela, ou comprar e vender uma ave voando, um peixe dentro da água ou qualquer mercadoria desconhecida desse tipo.

Na época do Nobre Profeta (que a paz esteja com ele), costumava-se vender a colheita dos campos ou os frutos dos pomares antes de amadurecerem. Depois que a venda era concluída, muitas vezes os frutos eram destruídos por causas naturais e as colheitas eram perdidas, o que provocava conflitos entre comprador e vendedor. O vendedor dizia: “Eu já a vendi”. O comprador dizia: “O fruto que você vendeu já não existe”. Por isso, o Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) proibiu expressamente a venda de frutos e colheitas antes de amadurecerem. Contudo, ela pode ser permitida quando se estipula que os frutos sejam colhidos imediatamente. Também foi proibida a venda dos grãos antes que suas espigas ou panículas se tornassem brancas e estivessem livres de riscos. Ele disse:( Árabe******************)

Já refletistes: quando Deus fez os frutos desaparecerem, como poderia ser lícito para vós tomardes o dinheiro de vosso irmão?

Não significa que toda mercadoria desconhecida esteja necessariamente proibida para compra e venda. Em alguns casos, uma grande parte da mercadoria permanece desconhecida. Por exemplo, se alguém comprar uma casa construída, a condição de suas fundações e do interior de suas paredes permanece desconhecida para o comprador. Não lhe é possível saber algo sobre isso. Contudo, ele pode examinar bem todos os seus demais aspectos. Portanto, é proibido somente aquilo que é completamente desconhecido, que pode causar disputas e conflitos entre as partes ou que permite consumir os bens das pessoas por meios inválidos.

Se algo for desconhecido apenas em pequena medida, e houver o costume de comprar e vender esse tipo de coisa parcialmente desconhecida, então sua compra e venda são permitidas, como no caso da venda de rabanetes, cenouras, cebolas e semelhantes, ou da venda de campos de pepinos e melões. Segundo o Imam Malik, isso é permitido por necessidade, pois o grau de desconhecimento não é amplo, mas comum e insignificante.

O Imam Ibn Taymiyyah disse que, no que diz respeito à compra e venda, o princípio do Imam Malik é melhor que os princípios dos demais, pois se baseia na opinião de Sa’id ibn al-Musayyib. Ele é reconhecido como um grande jurista nas questões relacionadas à compra e venda.( Árabe******************)

A opinião do Imam Ahmad ibn Hanbal também se aproxima dessa.

Brincar com os preços das mercadorias

O Islã deseja permitir que o mercado e os preços das mercadorias sigam seu curso natural. Quando os mercados funcionam normalmente, os preços das mercadorias tendem a se regular por si mesmos; conforme a oferta de produtos no mercado e a demanda por eles, os preços continuam subindo e descendo. Foi isso que vimos na época do Profeta Nobre (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Quando os preços subiram, as pessoas foram até ele e disseram: “Ó Mensageiro, fixe os preços das mercadorias para nós.” Então o Profeta Nobre (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: ( Árabe******************)

Na realidade, quem fixa os preços é o próprio Allah, o Altíssimo. Ele é quem eleva os preços e quem os reduz. Ele é o Provedor. Desejo encontrar Allah em uma condição na qual ninguém tenha qualquer reivindicação contra mim por causa de alguma injustiça, derramamento de sangue, apropriação de bens ou algo semelhante. (Ahmad, Abu Dawud, At-Tirmidhi, Ibn Majah)

Por meio deste hadith, o Profeta Nobre (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) declarou que interferir na liberdade individual ou impor-lhe controle sem qualquer necessidade constitui injustiça, e que ele deseja encontrar Allah livre e purificado dessa injustiça.

Porém, se surgir uma pressão anormal sobre os preços de mercado, como o início do armazenamento de mercadorias essenciais e o começo da manipulação dos preços pelos armazenadores, será necessário fixar os preços das mercadorias em benefício do bem coletivo. Assim, será possível proteger o povo da exploração daqueles que cobram preços excessivos.

Portanto, o significado do hadith mencionado acima não é que a fixação dos preços seja injustiça e proibida em qualquer circunstância, mesmo quando se destina a aliviar o sofrimento das pessoas ou a protegê-las de uma injustiça manifesta. Pelo contrário, os especialistas do Islã disseram que há dois tipos de fixação de preços. Em um tipo, ela constitui injustiça contra as pessoas e é haram. Em outra situação, a fixação dos preços é exigida pela equidade e pela justiça; nesse caso, é certamente permitida e necessária.

Assim, se injustamente for imposto às pessoas um preço com o qual elas não concordam, impedindo-as de obter bens lícitos, isso será haram. Por outro lado, se os preços forem fixados com o objetivo de aplicar equidade e justiça entre as pessoas — obrigando-as a vender pelo preço corrente (preço padrão) ou impedindo-as de cobrar mais do que o valor de troca corrente —, isso não é apenas permitido, mas também obrigatório.

O hadith mencionado anteriormente foi citado no contexto da primeira situação. Portanto, quando as pessoas vendem as mercadorias de acordo com a prática corrente, sem qualquer injustiça ou abuso, e os preços sobem devido à escassez de produtos ou ao crescimento populacional, deve-se confiar todo o assunto a Allah. Em tal situação, obrigá-las a vender pelos preços fixados pelo governo não passa de um abuso desnecessário.

E, na segunda situação, se, apesar de as pessoas necessitarem dos produtos, os comerciantes não os venderem ou exigirem um preço superior ao preço corrente, então também é obrigatório vender as mercadorias pelo preço vigente. Nessa circunstância, fixar os preços significa tornar o preço corrente obrigatório para as pessoas. Nesse caso, a fixação dos preços significa obrigar os comerciantes a cumprir a justiça que Allah, o Altíssimo, tornou necessária e obrigatória.

( Árabe******************)

O armazenador de mercadorias é amaldiçoado

Embora o Islã tenha concedido plena liberdade à compra e venda e à competição natural, de modo algum está disposto a tolerar que as pessoas, movidas pelo egoísmo e pela ganância, continuem a aumentar sua riqueza vencendo os outros. Essa severidade do Islã se aplica a todos os assuntos, incluindo alimentos e os bens de necessidade geral e diária da população. Por isso, o Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) proferiu, de várias maneiras, advertências severas e rigorosas contra o armazenamento especulativo de mercadorias. Em um hadith, ele disse:( Árabe******************)

Quem armazenar alimentos durante quarenta noites se desligará de Allah, e Allah se desligará dele. (Ahmad, al-Hakim)

O Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) também disse:( Árabe******************)

Ninguém, exceto um criminoso, armazena mercadorias. (Muslim)

A palavra “criminoso” aqui não deve ser entendida em um sentido simples. A afirmação “todo aquele que armazena mercadorias é um criminoso” é correta. No Alcorão Sagrado, observa-se o uso dessa palavra em relação a grandes incrédulos e rebeldes contra Deus, como o Faraó e Hamã. Assim, foi dito:( Árabe******************)

Na verdade, o Faraó, Hamã e os exércitos de ambos eram grandes criminosos.

Explicando a psicologia e a atitude horrenda de quem entesoura mercadorias, o Nobre Profeta (s.a.w.) disse:( Árabe******************)

Aquele que entesoura mercadorias é uma pessoa extremamente má. Se ouve que os preços das mercadorias baixaram, fica muito aflito. Mas, se ouve que os preços subiram, fica extremamente jubiloso. (Razin)

Ele também disse:( Árabe******************)

Quem traz mercadorias ao mercado recebe sustento; já o entesourador é amaldiçoado.

Isso ocorre porque o comerciante pode obter lucro de uma de duas maneiras. Uma delas é armazenar as mercadorias na esperança de vendê-las por um preço mais elevado; isto é, se ele retiver as mercadorias, sua escassez se tornará intensa no mercado e as pessoas ficarão em grande dificuldade. Então, qualquer preço que ele exigir, por mais elevado e exorbitante que seja, será aquele pelo qual as pessoas serão obrigadas a comprá-las.

A segunda é o comerciante levar as mercadorias ao mercado e vendê-las obtendo apenas um pequeno lucro. Depois, com esse capital, ele trará outras mercadorias. Também obterá lucro com elas. Assim, enquanto seu negócio prossegue e as mercadorias têm maior procura e são mais vendidas, ele continuará obtendo pequenos lucros. Esta política e este método de obter lucro são benéficos para a sociedade como um todo. Com isso, a bênção aumenta. E, como disse o Nobre Profeta (s.a.w.), é este comerciante que recebe sustento.

A gravidade do crime de entesourar mercadorias e especular com elas torna-se clara a partir de outro dito do Nobre Mensageiro. Hazrat Maqal ibn Yamar (r.a.) narrou que, quando adoeceu, o administrador omíada Ubaidullah ibn Ziyad foi visitá-lo. Dirigindo-se a ele, disse: “Ó Maqal, sabes que derramamento ilícito de sangue cometi?” Ele respondeu: “Não sei.” Perguntou: “Sabes que interferência cometi nas mercadorias dos muçulmanos?” Ele respondeu: “Também não sei.” Depois, Maqal disse às pessoas: “Ajudem-me a sentar.” Elas o fizeram sentar, e ele disse: “Ó Ubaidullah! Escuta, vou contar-te um hadith que ouvi do Nobre Mensageiro não apenas uma ou duas vezes. Ele disse:( Árabe******************)

Se alguém interferir de alguma forma com o objetivo de elevar os preços das mercadorias para o povo muçulmano, Allah, o Altíssimo, tem o direito de colocá-lo sobre o fogo no Dia da Ressurreição. (Ahmad, Tabarani)

Ao ouvir isso, o governante omíada disse: «Você mesmo ouviu este hadith da boca do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele)?» Ele respondeu: «Sim, não apenas uma ou duas vezes.»

Com base nesses hadiths e em suas indicações, os ulama concluíram esta questão jurídica: o açambarcamento de mercadorias é haram sob duas condições. Uma delas é a seguinte:

As mercadorias serão açambarcadas em tal lugar e em tal momento que, por causa disso, o povo enfrentará grandes dificuldades.

A segunda é que seu propósito e objetivo sejam obter um preço mais alto, fazendo com que o montante do lucro aumente consideravelmente.

Interferência artificial na liberdade do mercado

O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) também proibiu outra prática semelhante ao açambarcamento de mercadorias: os habitantes da cidade comprarem os produtos dos habitantes do campo. A forma disso é a seguinte: uma pessoa de fora da cidade chega ao mercado da cidade com mercadorias, com a intenção de vendê-las pelo preço corrente. Então, um habitante da cidade diz: «Deixe essas mercadorias comigo; mais tarde, vendê-las-ei por um preço mais alto e devolver-lhe-ei o valor.» Nessa situação, se a pessoa que veio do campo vendesse ela mesma as mercadorias, elas seriam vendidas mais barato. Assim, ela própria obteria lucro, e os outros — os compradores da cidade — também seriam beneficiados.

Na sociedade daquela época, esse tipo de compra e venda era muito comum e amplamente praticado. Hadrat Anas disse:( Árabe******************)

Fomos proibidos de que qualquer habitante da cidade venda as mercadorias dos habitantes do campo, seja essa pessoa seu próprio irmão, pai ou mãe.

Disso se sabe que, no Islã, o bem coletivo tem muito mais importância do que as relações pessoais e familiares.

O Nobre Profeta (que a paz esteja sobre ele) disse:( Árabe******************)

Nenhum habitante da cidade deve vender as mercadorias dos habitantes do campo. Deixai as pessoas; Allah proverá o sustento de umas delas por meio de outras.

Esta afirmação do Nobre Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) é importante. Dela se extrai um grande princípio no âmbito dos negócios: deve-se permitir livremente que o mecanismo de troca de mercadorias no mercado e os meios naturais funcionem por si mesmos. Se não houver qualquer intervenção nesse assunto, as pessoas poderão obter naturalmente o seu próprio sustento.

Perguntaram a Hazrat Ibn Abbas qual era o verdadeiro significado do hadith mencionado acima. Em resposta, ele disse:( Árabe******************)

Não haverá nenhum intermediário entre o vendedor e o comprador. (Bukhari)

Isso significa que, quando alguém lhe informa o preço, o aconselha e o familiariza com as condições do mercado, sem receber qualquer remuneração por isso, não há nada de errado. Isso porque o seu aconselhamento é exclusivamente por Allah. Dar conselhos é parte da religião; na verdade, é a religião inteira e completa. Foi citado em um hadith autêntico:( Árabe******************)A religião é conselho, ou o conselho é a religião.

Em outro hadith, foi dito:( Árabe******************)

Se algum de vocês pedir conselho, é seu dever aconselhar seu irmão.

O “corretor” geralmente anseia apenas por receber sua remuneração. E, nesses assuntos, frequentemente se esquece do bem-estar das pessoas comuns.

A corretagem é permitida

Quando a corretagem é exercida em outras atividades, não há nisso nenhuma falta. Pois ela consiste numa espécie de orientação, no estabelecimento de contato entre comprador e vendedor e na atuação como intermediário. Graças a isso, ambas as partes se beneficiam. Sem ela, ambas enfrentariam muitas dificuldades em seus próprios negócios. Nos dias atuais, há grande necessidade de intermediários no comércio de importação e exportação e entre comerciantes varejistas e atacadistas. Em comparação com qualquer período ou época do passado, essa necessidade é hoje mais intensa. E não há como negar o importante papel desempenhado pelo corretor nisso.

Portanto, se o corretor receber em dinheiro sua remuneração fixa, ou uma comissão proporcional ao lucro, ou se ambas as partes concordarem com qualquer outra forma, não há nisso nenhuma falta. O Imame Bukhari escreveu que Ibn Sirin, Ata, Ibrahim, Hasan e outros renomados juristas não viam problema em receber remuneração pela corretagem. Hadrat Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: se alguém disser a outro: “Venda este tecido. O que for obtido além disso será seu”, então isso é inteiramente permitido. Ibn Sirin disse: “Venda este artigo por este preço. O que obtiver a mais será seu, ou dividiremos isso entre você e eu”; e, se a venda for realizada com base nisso, não há nisso nenhuma falta. Essa atividade de corretagem comercial, do tipo agência comissionada, é inteiramente permitida. O Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse:( Árabe******************)

Os muçulmanos são obrigados a cumprir as condições que estabelecem entre si. (Bukhari)

A exploração lucrativa e a fraude são proibidas

Ao mesmo tempo que proibiu a intervenção artificial no mercado ou nos preços normais das mercadorias, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) também proibiu claramente a especulação e a fraude. No hadith, foi utilizada uma palavra para expressar esse significado. Hadrat Ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) explicou-a da seguinte maneira: fazer um lance superior ao preço justo da mercadoria, embora não tenhas a intenção de comprá-la. Fazes isso para que, ao ouvirem o teu lance, outras pessoas te sigam. Geralmente, isso é feito com o objetivo de enganar os outros.

Com o objetivo de manter as transações comerciais livres e puras da especulação, e os preços das mercadorias livres e puros da fraude, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) proibiu a compra de mercadorias antes que chegassem ao mercado — isto é, fora do mercado —, pois, do contrário, o fornecimento de mercadorias ao próprio mercado seria prejudicado. Consequentemente, também não seria possível determinar o preço correto. Isso porque a determinação do preço justo se torna possível conforme a proporção entre a oferta de mercadorias no mercado e a sua procura (demand). Na situação mencionada, porém, o vendedor não tem qualquer conhecimento dos preços praticados no mercado. Por essa razão, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) declarou que, depois de as mercadorias chegarem ao mercado, o vendedor tem o direito de anular a transação anterior.( Árabe******************)

Quem trapaceia não é dos nossos

O Islã declarou haram todas as formas e métodos de fraude e engano. Seja nas relações de compra e venda, seja nas demais relações humanas, o muçulmano deve adotar a honestidade e a justiça. Na perspectiva do Islã, em comparação com todos os tipos de ganhos e meios materiais de subsistência, a “sinceridade na religião” é muito mais valiosa e da máxima importância.

O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse:( Árabe******************)

Enquanto o comprador e o vendedor não se separarem, ambos terão a opção de anular o contrato. Se ambos forem honestos e revelarem os defeitos da mercadoria, haverá bênção para os dois nessa compra e venda. Mas, se recorrerem à mentira e ocultarem os defeitos, a bênção dessa compra e venda será eliminada. (Bukhari)

Ele também disse:( Árabe******************)

Ninguém terá como halal a venda de qualquer mercadoria se não declarar os seus defeitos. E aquele que conhece os seus defeitos, mas, mesmo sabendo deles, não os declarar, também não terá essa venda como halal. (Al-Hakim, Bayhaqi)

O Nobre Mensageiro (s.a.w.) foi ao mercado e viu um homem vendendo grãos. Aquilo lhe pareceu muito bom. Em seguida, introduziu a mão no monte de grãos. Viu que sua mão ficou molhada. Então perguntou ao vendedor: “Ó comerciante de grãos, o que é isto?” Ele respondeu: “Ficou molhado com a água da chuva.” Então o Nobre Profeta (s.a.w.) disse: ( Árabe******************)

Então, por que não colocaste esses grãos molhados na parte superior do monte, para que os compradores pudessem vê-los?… Isto é fraude. E quem nos fraudar não pertence ao nosso grupo. (Muslim)

Noutra narração, relata-se: o Nobre Profeta (s.a.w.) foi até outro vendedor de alimentos. Ele estava sentado com mercadoria muito boa. O Profeta introduziu a mão no interior dela e viu que havia alimentos de qualidade muito inferior na parte de baixo. Então lhe disse: ( Árabe******************)

Venderás este alimento separadamente e venderás aquele alimento separadamente. Fica sabendo que quem nos fraudar não é dos nossos. (Ahmad)

Os muçulmanos dos tempos antigos seguiam este princípio. Informavam claramente quaisquer defeitos existentes nas mercadorias. Não ocultavam absolutamente nada. Além disso, falavam sempre a verdade nas compras e vendas e não davam espaço à mentira. Desejavam o bem das pessoas e não enganavam ninguém.

O famoso jurista Ibn Sirin vendeu uma cabra. Ele disse ao comprador: “Quero isentar-me da responsabilidade informando-te que a cabra tem um defeito. Ela espalha a erva para todos os lados com a pata.”

Hasan ibn Salih vendeu uma escrava. Disse ao comprador que a moça havia cuspido sangue uma vez. Isso aconteceu apenas uma vez. Apesar disso, seu coração temente a Deus não conseguiu permanecer calado sem mencionar o fato, embora houvesse o risco de isso reduzir o preço.

Fazer juramentos repetidamente

Quando os juramentos falsos são acrescentados à fraude, esse ato se torna ainda mais ilícito. O Profeta Nobre (que a paz esteja com ele) proibiu claramente os comerciantes de fazer juramentos em geral e, em particular, de fazer juramentos falsos. Disse:( Árabe******************)

Por meio de juramentos, é possível vender os produtos; porém, não se obtém bênção.

O Profeta Nobre de modo algum aprovava o uso frequente de juramentos nas vendas. Primeiro, porque isso poderia fazer com que ambas as partes do contrato incorressem em fraude. Segundo, porque havia o temor de que a honra do santo nome de Allah fosse desrespeitada.

Fraudar nas medidas e nos pesos

Dar menos ao medir os produtos com recipientes ou ao pesá-los com balanças também é uma forma de fraude. O Nobre Alcorão atribuiu grande importância a esse assunto e o incluiu entre os dez mandamentos apresentados no final da Surata Al-An’am. O versículo é o seguinte:( Árabe******************)

Enchei completamente os recipientes de medir e as balanças de pesar, com justiça. Não impomos a ninguém responsabilidade além de sua capacidade.

Disse:( Árabe******************)

E, quando medirdes, dai a medida completa. E pesai com uma balança firme e correta. Essa conduta é muito benéfica e, quanto ao resultado, é muito boa e excelente. (Surata Bani Isra’il: 35)

Disse: ( Árabe******************)

Grande será o infortúnio daqueles que diminuem a medida e o peso. Quando recebem algo das pessoas por medida, tomam-no por completo. Mas, quando medem ou pesam para elas, diminuem. Não refletem que serão ressuscitados naquele Dia terrível, no qual toda a humanidade permanecerá diante do Senhor dos mundos. (Surata Al-Mutaffifin: 1-6)

É dever de todo muçulmano adotar, nesta questão, na medida de suas possibilidades, o princípio da plena justiça e da equidade. Pois talvez seja difícil imaginar uma justiça e uma equidade absolutamente completas e genuínas. Por isso, juntamente com a ordem de medir plenamente, o Alcorão diz: Não impomos a ninguém uma responsabilidade além de sua capacidade.

A história dos povos que praticaram injustiça em suas relações mútuas e em suas transações, especialmente os que violaram o princípio da justiça na medida e no peso e enganaram as pessoas na venda de mercadorias, foi mencionada no Sagrado Alcorão. Allah, o Altíssimo, enviou profetas e mensageiros a esses povos. Eles procuraram reformá-los e conduzi-los ao princípio da justiça, assim como procuraram torná-los crentes no tawhid.

Entre eles, também é mencionado o povo do profeta Shu‘ayb. Ele os convocou publicamente e os advertiu sobre as consequências da desobediência. Dirigindo-se a eles, disse: ( Árabe******************)

Completai a medida e não sejais prejudiciais às pessoas. Pesai com uma balança firme, não diminuais os bens das pessoas e não causeis corrupção na Terra, transgredindo os limites. (Surata Ash-Shu‘ara: 181-183)

Esta orientação é obrigatória para a sociedade muçulmana. Em sua vida, em suas relações com as pessoas e em todos os seus assuntos mútuos, ela deve seguir este princípio. Portanto, não é permitido que seus membros façam negócios usando duas medidas e dois tipos de balança: um padrão para si mesmos e outro padrão geral para as demais pessoas; um tipo de conduta para si próprios e para seus entes queridos e outro padrão para as pessoas comuns. No Islã, isso é completamente inadmissível. Pois, nesse caso, a pessoa dará a si mesma e aos seus seguidores o que lhes é devido por inteiro, chegando até a tomar mais, enquanto dará menos às outras pessoas e lhes causará prejuízo. Mas não pode haver injustiça maior do que essa.

Compra de mercadoria roubada

O Islã declarou guerra contra o crime e a tendência criminosa. E confinou os criminosos dentro de limites estreitos. Portanto, não é permitido ao muçulmano comprar, sabendo disso, bens que tenham sido sequestrados ou roubados, ou que tenham sido tomados injustamente de seu proprietário, pois, ao fazê-lo, estaria ajudando o sequestrador, o ladrão e o assaltante em suas ações. O Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) disse:( Árabe******************)

Quem comprar conscientemente bens roubados tornar-se-á cúmplice de seu pecado e de sua ação injusta. (Al-Bayhaqi)

Mesmo que passe muito tempo após o roubo dos bens, seu pecado não desaparece. Pois, no Islã, a passagem do tempo não torna o que é haram halal. Ela não anula o direito do verdadeiro proprietário. Até mesmo as leis elaboradas pelos seres humanos adotam esse princípio.

A usura é haram

No Islã, obter lucro sobre o capital por meio do comércio é plenamente permitido. Allah, o Altíssimo, disse:( Árabe******************)

Ó vós que credes! Não consumais injustamente os bens uns dos outros. Mas não há pecado se houver comércio realizado com o consentimento de todos os envolvidos.

Ao elogiar aqueles que se dedicam ao comércio no mundo e viajam por diferentes países, o Alcorão diz:( Árabe******************)

E outros que percorrem a terra, buscando a graça de Allah. (Surata Al-Muzzammil: 20)

Mas o Islã fechou e proibiu completamente o poderoso caminho de obter “lucro” por meio de juros. Seja seu montante pequeno ou grande, tudo isso foi declarado proibido no Islã.

Seja seu montante pequeno ou grande — tudo é proibido. Os judeus haviam sido proibidos de realizar esse negócio usurário, mas, apesar disso, continuaram a fazê-lo. Por isso, foram censurados. Entre os últimos versículos revelados do Alcorão, encontra-se este:( Árabe******************)

Ó vós que credes, temei a Deus e abandonai o que ainda vos resta dos juros, se sois crentes. Mas, se não o fizerdes, preparai-vos para uma guerra da parte de Deus e de Seu Mensageiro. E, se vos arrependerdes, tereis direito ao vosso capital. Não cometereis injustiça, nem sofrereis injustiça. (Surata Al-Baqara: 278-279)

O nobre Mensageiro declarou guerra aos juros, aos usurários e aos que realizam negócios baseados em juros. Ele explicou claramente o perigo que se abate sobre a vida social como consequência desses juros. Disse:( Árabe******************)

Quando os juros e a fornicação se tornam generalizados em um país ou cidade, é inevitável que o castigo de Deus recaia sobre seus habitantes. (Hakam)

Entre as religiões celestiais, esta não é uma declaração exclusiva do Islã. Na escritura religiosa dos judeus, no Antigo Testamento, está escrito:

Se emprestares dinheiro a algum dos meus compatriotas pobres que pertencem ao meu povo, não serás para ele como um usurário; não lhe cobrarás juros. (Livro do Êxodo, capítulo 22, versículo 25)

E está escrito na escritura religiosa dos cristãos:

Amai os vossos inimigos, fazei-lhes o bem e emprestai sem jamais perder a esperança; fazendo isso, tereis uma grande recompensa. (Novo Testamento — Lucas, versículo 35, capítulo 6)

É muito lamentável que, no livro do ‘Antigo Testamento’, a proibição de emprestar dinheiro a juros tenha sido alterada e limitada apenas aos judeus. Considerou-se que ‘irmãos’ se referia somente a eles, concedendo-se ampla liberdade para realizar negócios de empréstimos a juros com as demais pessoas.

A lógica da proibição dos juros

O Islã adotou uma posição muito rigorosa em relação aos juros e os declarou haram em termos enfáticos. Com isso, promoveu de modo geral o bem-estar da humanidade e estabeleceu medidas para proteger sua moralidade, sua sociedade e sua economia da destruição.

Ao tratar da lógica da proibição dos juros, os sábios mencionaram várias razões graves, que se tornaram evidentes em consequência das análises e reflexões modernas.

Consideramos suficiente mencionar aqui o que o Imã Razi escreveu em seu tafsir sobre este assunto. Ele escreveu:

A primeira questão é que os juros retiram dinheiro das pessoas sem qualquer contrapartida. Pois aquele que vende uma unidade monetária por duas recebe uma unidade adicional, mas não precisa dar nada em troca. O dinheiro das pessoas é necessário para satisfazer suas necessidades e possui também uma honra especial e grandiosa. No hadith é dito:( Árabe******************)

O dinheiro e os bens das pessoas têm exatamente a mesma dignidade que o sangue humano.

Por isso, é plenamente desejável que seja totalmente haram aceitar algo sem oferecer qualquer contrapartida.

Em segundo lugar, a dependência da obtenção de renda por meio de juros torna as pessoas avessas e desmotivadas a trabalhar para ganhar seu sustento. Quando, por meio da prática de juros ou de investimentos baseados em juros, já se obtém dinheiro adicional, seja à vista ou a prazo, não surgirá nas pessoas qualquer necessidade de trabalhar e de se esforçar no comércio e na produção industrial; e, em consequência disso, o sistema de bem-estar coletivo será desfeito. Além disso, se atividades como comércio, indústria, agricultura e construção não forem realizadas, não se poderá esperar nem mesmo pensar em qualquer benefício para a humanidade.

Em nossa opinião, esta é a razão pela qual os juros são haram do ponto de vista econômico.

Terceiro, por causa disso, desfaz-se o sistema habitual de concessão e obtenção de empréstimos entre os membros da sociedade. Pois, quando os juros forem considerados haram, as pessoas estarão dispostas a devolver exatamente uma unidade monetária se tiverem recebido uma unidade monetária como empréstimo. Mas, se os juros forem halal ou predominantes, a necessidade obrigará as pessoas a dar e receber duas unidades monetárias em vez de uma. Como resultado, não restará qualquer vestígio de benevolência mútua, desejo de bem e compaixão entre as pessoas.

E esta é a razão moral pela qual os juros são haram.

Quarto, geralmente o credor é rico e o tomador do empréstimo é pobre. Assim, se o sistema de empréstimos baseados em juros continuar em vigor, o rico será autorizado a receber dinheiro adicional do pobre e vulnerável. Porém, no sistema de benevolência do Deus Todo-Misericordioso, isso de modo algum pode ser permitido.

Esta é a razão pela qual os juros são haram do ponto de vista social, e isso significa que o sistema de juros proporciona uma oportunidade irrestrita para os fortes explorarem os fracos em seu próprio benefício. Como resultado, os ricos tornam-se ainda mais ricos, enquanto os pobres são lançados numa pobreza cada vez maior; uma classe da sociedade engorda dia após dia, explorando e destruindo muitas outras classes. Em consequência, a inveja e a hostilidade entre as diversas classes da sociedade tornam-se cada vez mais intensas. O fogo do conflito e da luta mútua continua a arder ruidosamente dentro da sociedade. Por fim, o resultado manifesta-se em destruição extrema e calamidade coletiva. A história social da era moderna também comprova a verdade e a validade disso. Vê-se que os juros e os usurários se tornaram uma enorme ameaça à política, ao Estado, à administração e à paz e à segurança.

O pagador de juros e o redator do documento de juros

Somente os ricos tomam juros e concedem empréstimos com base em juros. Dar dinheiro ao devedor dessa maneira significa que ele deverá devolver uma quantia adicional sobre o capital. Tal pessoa é amaldiçoada tanto por Allah quanto pelo povo. Contudo, na perspectiva islâmica, não são apenas os que recebem juros que são culpados; aqueles que pagam juros e aqueles que fazem outros pagá-los também participam desse pecado. Os que redigem os contratos de juros e os que testemunham neles tampouco são menos culpados. Foi dito no hadith:( Árabe******************)

Allah amaldiçoou todos aqueles que recebem juros, fazem outros pagá-los, testemunham a sua transação e redigem o seu contrato. (Musnad Ahmad, Abu Dawud, al-Nasa’i, Ibn Majah)

Entretanto, se surgir uma necessidade extrema de tomar um empréstimo com base em juros, somente aquele que recebe os juros será pecador. Porém:

1. Se a sua necessidade for realmente premente. Não se deve tomar como objetivo a mera satisfação das próprias necessidades ou a ampliação de atividades de desenvolvimento. Necessidade significa aquilo de que a pessoa não consegue escapar, mesmo tentando fazê-lo, salvo estando disposta a destruir a si mesma. Por exemplo, muitas vezes a pessoa é forçada a tomar um empréstimo baseado em juros para satisfazer necessidades indispensáveis, como alimentação, vestuário e tratamento médico.

2. Deve limitar-se exclusivamente à satisfação da própria necessidade. Assim, se forem necessários dez taka, não se devem aceitar onze.

3. Deve-se empreender um esforço extremo para libertar-se dos juros. É dever da comunidade muçulmana ajudar a pessoa que se encontra em tal dificuldade. Mas, se a pessoa em dificuldade não encontrar nenhuma outra alternativa além de tomar um empréstimo baseado em juros, poderá fazê-lo, sob a condição de que não desenvolva em seu coração desejo ou inclinação por isso, nem ultrapasse os limites nessa questão. Em tal situação, talvez Allah a perdoe.

4. E, se for obrigada pelas circunstâncias a fazê-lo, deverá fazê-lo com extrema repulsa. Não ficará satisfeita com isso; pelo contrário, manifestará o seu descontentamento. Só poderá fazê-lo enquanto Allah não lhe providenciar outro meio.

O Profeta buscava refúgio contra contrair dívidas

Todo muçulmano deve saber que o Islã orientou à criação de equilíbrio na vida e à adoção de um caminho moderado na economia. Allah, o Altíssimo, disse:( Árabe******************)

Não transgridais os limites, pois Allah não ama os transgressores.

( Árabe******************)Não gasteis de maneira fútil, pois os que desperdiçam seus bens são irmãos e aliados de Satanás. (Surata Bani Isra’il: 26–27)

O Sagrado Alcorão ordenou aos muçulmanos que gastassem seus bens no caminho de Allah. Porém, não ordenou que gastassem toda a riqueza que Allah lhes concedeu; ordenou apenas que gastassem uma parte dela. E aquele que gasta no caminho de Allah uma parte de seus próprios ganhos provavelmente jamais se tornará pobre ou necessitado. A exigência inevitável da adoção desse princípio moderado e equilibrado é que nenhum muçulmano seja jamais obrigado a contrair dívidas. Em particular, o nobre Profeta (que a paz esteja com ele) jamais aprovou que os muçulmanos contraíssem dívidas. Isso porque, para uma pessoa livre e digna, a dívida se torna causa de preocupação durante a noite e de humilhação durante o dia. O nobre Profeta (que a paz esteja com ele) sempre buscava refúgio em Allah contra contrair dívidas. Ele fazia esta súplica:( Árabe******************)

Ó Allah! Busco refúgio em Ti contra o aumento do peso das dívidas e contra a Tua ira severa.

Ele dizia:( Árabe******************)

Busco refúgio em Allah contra a incredulidade e as dívidas.

Um homem perguntou: Ó Mensageiro! Na sua opinião, a incredulidade e as dívidas são a mesma coisa? Ele respondeu: Sim.

Ele costumava recitar frequentemente esta súplica durante a oração: ( Árabe******************)

Ó Allah, busco refúgio junto a Ti do pecado e da dívida.

Certa vez, perguntaram-lhe: ( Árabe******************)

Ó Mensageiro! Por que pedis tão frequentemente proteção contra a dívida? Ele respondeu: Quando uma pessoa se torna endividada, mente ao falar e quebra as promessas que faz. (Nasa’i, Hakim)

A partir desses hadiths, fica demonstrado de modo irrefutável e evidente como a dívida é grave do ponto de vista da moralidade.

Quando o corpo de algum morto era levado ao Profeta (que a paz esteja com ele) para que se realizasse a oração fúnebre, se ele soubesse que a pessoa havia morrido endividada e não deixara nada com que pudesse quitar a dívida, não realizava a oração fúnebre por ela. Ao não realizar a oração fúnebre, ele queria apenas advertir as pessoas sobre as graves consequências da dívida. Mais tarde, quando grandes riquezas provenientes dos espólios de guerra se acumularam nas mãos do Mensageiro (que a paz esteja com ele), ele providenciava o pagamento das dívidas dos mortos com esses recursos. Ele disse: ( Árabe******************)

Todos os pecados do mártir são perdoados. Mas a dívida não é perdoada. (Muslim)

À luz dessas palavras, deve-se dizer que o muçulmano nunca deveria contrair dívidas. Contudo, se enfrentar uma necessidade extrema e difícil, a situação é diferente. E, se nessa circunstância tornar-se endividado, deverá manter sempre firme a intenção de quitar a dívida. Foi dito num hadith: ( Árabe******************)

Quem contrai um empréstimo de outras pessoas com a intenção de quitá-lo, Allah, o Altíssimo, providenciará os meios para que ele o pague. Mas quem contrai um empréstimo com a intenção de não pagá-lo ou de desperdiçá-lo, Allah também o destruirá. (Bukhari)

De fato, quando um muçulmano não se dispõe a contrair um empréstimo a menos que esteja em extrema necessidade, como se pode obrigá-lo a contrair um empréstimo baseado em juros?

Compra a prazo por preço mais elevado

Aqui parece necessário esclarecer mais um ponto. Assim como é permitido comprar mercadorias pelo preço à vista, também não é proibido comprá-las a prazo, com base no consentimento mútuo. Contudo, deve haver um prazo determinado. O próprio Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, comprou alimentos a prazo de um judeu para os membros de sua família. Para isso, deixou sua armadura de ferro como penhor.

Mas, se o vendedor fixar um preço mais alto para a mercadoria por ela não ser paga à vista e ser comprada a prazo — muitos grandes comerciantes vendem mercadorias aumentando o preço e sob a condição de recebê-lo em parcelas —, muitos juristas consideram ilícita esse tipo de venda. Isso porque o preço mais elevado é estabelecido justamente em troca do adiamento da sua quitação. E isso é, de fato, uma forma de juros. Contudo, os eruditos e juristas em geral consideram esse tipo de venda permitido. Eles dizem que a compra e venda, em princípio, é lícita e permitida. Não se pode encontrar nenhuma prova que a torne ilícita. Além disso, esse tipo de compra e venda não é semelhante, em todos os aspectos, às transações baseadas em juros. Eles consideram que, por diversas razões, o vendedor tem o direito de fixar um preço adicional para a mercadoria por vendê-la a prazo. Contudo, esse preço não deve ser excessivamente elevado, nem se pode admitir qualquer situação que implique injustiça para o comprador. Caso contrário, isso também será ilícito.

O Imame Ash-Shawkani escreveu: aparentemente, esse tipo de compra e venda é permitido. Isso porque existem várias provas gerais aplicáveis a esse caso. Também é permitido segundo a opinião de juristas como Ash-Shafi‘i, Abu Hanifa e Zayd ibn ‘Ali.( Árabe******************)

Pagamento antecipado e recebimento posterior da mercadoria

Entregar antecipadamente ao vendedor uma quantia determinada e receber, em troca, a mercadoria após o decurso de um prazo determinado é chamado, na terminologia islâmica, de venda salam, e é permitido. Era uma prática amplamente difundida em Medina. Contudo, o Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, estabeleceu algumas condições para isso; quando elas são observadas, mantém-se plena conformidade com a Shariah.

Hazrat Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) chegou a Medina e viu que o povo de Medina pagava o preço adiantado, para receber em troca uma colheita depois de um ou dois anos.

Então o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse:( Árabe******************)

Quem decidir comprar algo pagando o preço adiantado deve especificar devidamente seu peso, sua quantidade e seu prazo.

Quando a quantidade, o peso e o prazo são previamente especificados dessa maneira, não há receio de que surjam disputas e conflitos entre as partes. A possibilidade de fraude também diminui consideravelmente. Foi justamente por isso que o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) proibiu a negociação antecipada dos frutos de uma árvore específica. Isso porque há nela o risco de engano e fraude. Muitas vezes, devido a calamidades naturais, a árvore nem sequer produz frutos. Então surge uma situação extremamente grave.

A maneira correta de realizar esse tipo de negócio pode ser não estipular que a produção de uma árvore ou de uma terra específica seja a condição. Pode-se negociar determinando apenas o peso e a quantidade. Porém, se for obtido ilegalmente algum benefício do proprietário da árvore ou da terra — isto é, se ele for obrigado a realizar essa negociação —, então há a possibilidade de que ela seja haram.

Cooperação mútua entre o trabalho e o capital

Alguns dizem que Allah, o Altíssimo, agraciou os seres humanos com Suas bênçãos ilimitadas, de acordo com Sua própria maneira de criar. Há muitas pessoas dotadas de conhecimento, talento e capacidade de trabalho ilimitados, mas que não possuem dinheiro. Por outro lado, também existem muitas pessoas cuja riqueza não tem limite, mas que são privadas de capacidade e competência. Surge então a pergunta: por que aqueles que possuem riqueza não confiam seus bens a pessoas dotadas de capacidade de trabalho? Se receberem esses bens, elas poderão trabalhar arduamente para torná-los mais proveitosos. E os proprietários da riqueza também poderão tornar-se parceiros de uma grande parcela dos lucros em troca de seu capital.

Em resposta a essa pergunta, diremos que a Shariah islâmica não criou qualquer obstáculo à cooperação e à coordenação entre o capital e a capacidade de trabalho, ou entre o capital e o trabalho. Pelo contrário, estabeleceu uma forma de cooperação baseada na justiça, na equidade e numa gestão correta e precisa. Portanto, se uma pessoa rica quiser realizar um negócio lucrativo com seu parceiro com base numa sociedade, deverá assumir responsavelmente todos os resultados dessa sociedade. Na terminologia da Shariah islâmica, isso é chamado de ‘mudaraba’ ou ‘qirad’. Os juristas estabeleceram como condição para esse empreendimento que ambas as partes participem de tudo, tanto do lucro quanto do prejuízo, dividindo entre si suas respectivas proporções. Uma parte poderá receber cinquenta por cento, um terço ou um quarto, e o restante caberá à outra parte. Depois de o negócio ser estabelecido dessa maneira, se houver lucro, ele será distribuído entre as duas partes de acordo com o contrato. Se houver prejuízo, este deverá ser deduzido do lucro, e o restante será dividido conforme as proporções acordadas. Se o prejuízo for maior que o lucro, o prejuízo excedente será retirado do capital. Não há nada de surpreendente no dever de descontar do capital do proprietário a parte correspondente ao prejuízo. Afinal, seu parceiro também tem de suportar a perda de seu trabalho e esforço.

Esta é, nesse assunto, a disposição do Islã. Determinar um limite para o lucro do proprietário do capital e garantir esse lucro — quer haja ganho, quer haja perda, ele receber sempre um lucro — é totalmente contrário aos princípios da justiça e da equidade. Isso dá ao capital uma prioridade muito maior e sem justificativa sobre a capacidade e o trabalho. Além disso, é contrário àquele sistema de vida que proporciona às pessoas tanto benefícios quanto prejuízos. Não só isso: favorece também a tendência de garantir os ganhos. Assim, não há necessidade de trabalhar nem motivo para assumir o risco de sofrer perdas. Consequentemente, na realidade, isso se torna semelhante aos juros e às transações baseadas em juros.

O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) proibiu entregar terras para cultivo em um sistema no qual uma parte receberia a colheita de uma determinada área da terra e a outra parte receberia a colheita de outra área determinada. Também proibiu a parceria agrícola baseada em uma quantidade fixa da colheita. Isso porque tal prática é exatamente semelhante aos juros ou ao jogo. Pode acontecer de não haver colheita alguma naquela área determinada da terra, ou de a colheita não alcançar a quantidade estipulada. Assim, uma das partes pode acabar completamente privada de sua participação, enquanto a outra se beneficiará plenamente. E tal situação jamais pode ser justa.

A mudaraba é permitida no Islã. Mas a condição é que não se possa garantir lucro para uma das partes sem levar em conta os lucros e as perdas sucessivos do capital. Há consenso sobre essa opinião. Se essa condição for estabelecida, a mudaraba não será permitida, pela mesma razão pela qual a parceria agrícola não é permitida. A parceria no cultivo da terra também se torna ilícita por razão semelhante. Os juristas dizem que, se uma das partes estabelecer como condição receber como lucro uma quantia determinada, e o negócio gerar exatamente essa quantia de lucro, isso significará que toda a margem de lucro foi recebida por uma só parte; além disso, existe a possibilidade de não haver lucro algum. E, se o negócio tiver sido realizado sob a condição de obter um lucro maior, essa parte necessariamente sofrerá prejuízo.( Árabe******************)

A razão mencionada acima está plenamente de acordo com o espírito fundamental do Islã. Na verdade, todos os princípios e disposições do Islã estão fundamentados em uma justiça firme, clara e absoluta.

Participação mútua no capital

Assim como é permitido investir pessoalmente o próprio capital, conforme a própria vontade, em qualquer atividade lícita e obter lucro com isso, bem como entregá-lo a uma pessoa experiente e qualificada para realizar negócios de acordo com as disposições da mudaraba, também é plenamente permitido que pessoas que investem capital se reúnam e, de comum acordo, estabeleçam uma indústria, uma empresa comercial ou uma organização, ou atuem em qualquer outro negócio com base na parceria mútua. Isso porque existem muitos tipos de negócios para os quais é absolutamente indispensável reunir a inteligência e o trabalho de muitas pessoas, além de uma grande quantidade de capital. E isso só pode ser alcançado por meio da cooperação mútua e da parceria. Allah, o Altíssimo, disse:( Árabe******************)

E cooperai uns com os outros nas boas obras, na piedade e no temor de Allah.

E não há dúvida de que toda ação realizada com o objetivo de promover o bem-estar do indivíduo ou da sociedade, ou de prevenir o mal, é uma boa obra e um ato de temor a Allah. A condição, porém, é que seja realizada com boa intenção e uma disposição interior correta.

O Islã não apenas declarou que a sociedade mútua é permitida e legítima; afirmou também que nela reside a bênção. Nela há, neste mundo, a promessa de receber a ajuda de Allah e, na outra vida, a esperança de obter uma abundante recompensa. Contudo, os negócios em sociedade devem ser conduzidos dentro dos limites permitidos, mantendo-se cuidadosamente afastados dos juros, do engano, da fraude, da opressão, da cobiça, da avidez e da traição. O Nobre Profeta (que a paz esteja sobre ele) disse a respeito de tais comerciantes associados:( Árabe******************)

A ajuda de Allah acompanha os dois sócios enquanto nenhum deles agir de forma desleal para com o outro. Se um deles trair o outro, Allah retira e encerra essa ajuda.

O Nobre Mensageiro citou as palavras de Allah nestes termos:( Árabe******************)

Eu sou o terceiro entre dois sócios em um negócio, enquanto nenhum deles trair o outro. Mas, se um deles trair o outro, retiro-me do meio dos dois, e então Satanás toma o meu lugar.

Companhia de seguros

Uma forma extremamente moderna de negócio é a companhia de seguros. Existem vários tipos de seguros. Entre os mais conhecidos estão o seguro de vida, o seguro contra acidentes e o seguro contra incêndio. Entretanto, o que se discute é qual é a determinação da Sharia islâmica a esse respeito. Será permitido no Islã esse tipo de negócio? Antes de responder a essa pergunta, é necessário conhecer a natureza das companhias de seguros. Também é indispensável saber que tipo de relação existe entre aquele que contrata o seguro e a companhia de seguros. Em outras palavras, o segurado é considerado um sócio da estrutura principal da companhia? Se assim fosse, o segurado teria de participar igualmente dos lucros e prejuízos do negócio principal. No seguro contra acidentes, o segurado deve pagar anualmente à companhia uma quantia determinada. Se o negócio segurado não sofrer nenhum acidente, a companhia ficará com todo o dinheiro pago pelo proprietário desse negócio e o consumirá, sem devolver nada. Naturalmente, se ocorrer um acidente, será recebida, como indenização, a quantia determinada. Porém, esse sistema não é compatível com a natureza da sociedade ou do negócio em parceria.

A regra do seguro de vida é que, se for contratado um seguro de dois mil takas e ocorrer a morte depois do pagamento da primeira prestação, o segurado terá direito a receber os dois mil takas completos. Mas, se ele fosse como um sócio do negócio principal, deveria receber apenas o valor das prestações pagas e o lucro correspondente a essa proporção. Em segundo lugar, se o segurado violar as regras da companhia e ficar impossibilitado de pagar as prestações, terá de ser privado de todo o dinheiro pago ou de parte dele. É evidente que essa regra é injusta, opressiva e baseada em uma condição falsa.

Mesmo que ambas as partes aceitem essa condição de comum acordo e se vinculem a tal contrato — ainda que o façam depois de compreenderem plenamente os próprios interesses —, ele não será permitido. Isso porque os que cobram juros e os que os pagam também celebram esse contrato por consentimento mútuo. Os que jogam também dão seu consentimento mútuo; isso jamais pode tornar o que é ilícito permitido. Esse tipo de consentimento não é aceitável. Não se trata de algo que esteja livre até mesmo de uma pequena parcela de fraude e transgressão. Nele, o lucro de uma parte é garantido, enquanto o benefício da outra é completamente incerto. Nesses casos, a base deve ser a justiça e a equidade absolutamente puras. Em todos os aspectos, isso deve ser assegurado de tal modo que nem uma pessoa seja prejudicada, nem outras sejam colocadas em situação de prejuízo.

A companhia de seguros é uma instituição de ajuda mútua?

A relação entre o segurado e a companhia de seguros não é semelhante a uma sociedade comercial. Então, qual é a natureza dessa relação? Será que existe entre eles uma relação de ajuda mútua? Essas instituições são organizações de ajuda mútua administradas com a cooperação ou a participação dos doadores? E a participação financeira ocorre com o objetivo de ajudarem uns aos outros?… É evidente que não.

É necessário adotar um procedimento correto para a ajuda mútua. Seu objetivo deve ser ajudar as pessoas em dificuldades, e o dinheiro deve ser arrecadado precisamente para esse fim. Para isso, é preciso observar os seguintes pontos:

1. Cada pessoa deve doar uma quantia determinada como contribuição mensal, em espírito de fraternidade, e os necessitados devem ser ajudados exclusivamente com esse fundo.

2. Para beneficiar-se do fundo, devem ser adotados exclusivamente meios lícitos.

3. Ninguém deve fazer uma doação com o propósito de receber uma quantia determinada caso ocorra um acidente. Pelo contrário, deve haver uma disposição para conceder, a partir do fundo da instituição, uma quantia conforme as possibilidades, de modo que a indenização seja total ou suficiente.( Árabe******************)

4. Doação é doação. Retomá-la é absolutamente haram. Portanto, quando ocorrer um acidente, o caso deve ser analisado e julgado de acordo com as disposições da Sharia.

Essas condições só podem aplicar-se a determinadas organizações e instituições que tenham sido estabelecidas precisamente para esse fim. Nelas, as pessoas pagarão suas contribuições mensais como doação, sem ter qualquer direito de reavê-las. Não se estipula que, em caso de calamidade, elas devam receber uma quantia determinada.

Contudo, essas condições não são de modo algum impostas pelas companhias de seguros, especialmente no seguro de vida. A situação deste é completamente diferente.

1. Os segurados (policy holders) não pagam as prestações como doação. Tampouco lhes passa pela mente tal ideia.

2. As companhias de seguros investem o seu capital em negócios de juros proibidos e obtêm lucro. Mas nenhum muçulmano pode participar de negócios baseados em juros. Tanto os flexíveis quanto os rigoristas concordam neste assunto.

3. Depois de terminado o prazo do contrato, o segurado recebe de volta todo o dinheiro das prestações. Além disso, recebe ainda uma quantia adicional. Então, como se pode considerar essa quantia adicional senão juros?

Do mesmo modo, pagar mais dinheiro a uma pessoa rica e capaz do que a uma pessoa pobre e necessitada é completamente contrário ao espírito de ajuda mútua. Isso porque se verifica que a pessoa rica faz um seguro de grande valor. Por isso, em caso de morte ou acidente, é-lhe paga uma quantia muito maior, na mesma proporção. Mas, segundo o espírito de ajuda, o dinheiro deveria ser dado.

4. A pessoa que deseja rescindir o contrato de seguro tem de aceitar uma grande perda no dinheiro que lhe é devolvido. Porém, do ponto de vista da sharia, não há razão legítima para aceitar uma perda desse tipo.

Alterações e correções

Apesar de tudo isso, é possível reformar o sistema de seguros contra acidentes atualmente em vigor e aproximá-lo bastante das normas islâmicas. Para isso, deve-se adotar o princípio de aceitar doações com base na condição de uma contrapartida. O segurado prestará assistência financeira à companhia, sob a condição de que, se ocorrer um acidente, a companhia lhe pagará uma indenização; assim, ele será ajudado e a gravidade do perigo será atenuada. Segundo algumas opiniões jurídicas islâmicas, tal contrato é permitido. Se forem implementadas alterações e correções desse tipo no campo dos seguros, e as atividades das companhias de seguros forem livres de juros, pode-se considerar que serão permitidas. Mas toda a questão do seguro de vida está muito, muito distante das disposições da sharia.

O sistema de seguros no Islã

Vimos que atualmente as companhias de seguros não funcionam de acordo com os preceitos islâmicos. Mas isso não significa que o próprio conceito de seguro seja contrário ao Islã. Na realidade, não é assim. O que é incompatível com o Islã são apenas os princípios atualmente praticados por essas companhias; essa é a verdadeira questão. Se forem adotadas regras e princípios compatíveis com o Islã, eles serão certamente aceitáveis à luz do Islã.

A verdade é que o sistema de vida islâmico estabeleceu, para a população muçulmana e para as pessoas que vivem sob a autoridade do Estado Islâmico, um sistema coletivo de sustento e manutenção — isto é, um sistema de segurança semelhante ao seguro, com o auxílio do tesouro público, ou Bayt al-Mal. Na realidade, o Bayt al-Mal do Islã é uma companhia de seguros para o povo. Ele será útil a todos os que viverem sob sua autoridade.

O Islã assumiu a responsabilidade de ajudar e prestar assistência às pessoas em momentos de acidentes e calamidades. Se alguém se encontrar em dificuldade, poderá apresentar seu problema à autoridade governamental responsável. O governo providenciará então sua indenização de acordo com a situação. Também foi garantida segurança aos herdeiros desamparados após a morte.

O nobre Profeta (que a paz esteja com ele) disse:( Árabe******************)

Minha relação com cada muçulmano é mais próxima do que a relação dele consigo mesmo. Os bens que um muçulmano deixar serão recebidos por seus herdeiros. Mas, se alguém deixar dívidas ou filhos pequenos incapazes de se sustentarem, caberá a mim a responsabilidade de quitar essas dívidas e cuidar da manutenção dessas crianças.

Uma importante medida de segurança que o Islã adotou para a população muçulmana é a categoria especificada para a distribuição do zakat obrigatório ( Árabe******************) as pessoas endividadas. Alguns exegetas dos primeiros tempos disseram, ao explicar este termo:( Árabe******************)

Aquele cuja casa tenha sido totalmente destruída pelo fogo, ou cuja riqueza tenha sido toda levada pelas enchentes e tempestades, é considerado um desses endividados.

Produção agrícola em terras cultiváveis

Quando um muçulmano adquire a propriedade de uma terra agrícola de acordo com a Sharia, torna-se seu dever absoluto cultivá-la para obter colheitas ou plantar árvores para colher seus frutos. Deixar a terra ociosa, sem cultivá-la, é ilícito no Islã. Pois, ao fazer isso, demonstrar-se-ia desprezo pela bênção concedida por Allah. Também se pode chamar isso de desperdício de riqueza e propriedade. Entretanto, o Nobre Mensageiro (s.a.w.) proibiu expressamente a destruição de riquezas e propriedades. O proprietário da terra pode adotar diversos meios e métodos para dela obter benefício.

Várias formas de utilizar a terra

O proprietário cultivará ele próprio a terra. Plantará árvores e adotará medidas adequadas para irrigá-las. Como resultado, a terra produzirá colheitas ou as árvores darão frutos. Isso é, de fato, uma ação muito apreciada. O proprietário receberá a recompensa por todas as pessoas, aves e animais que se beneficiarem dessas plantações e jardins. É do conhecimento de todos que os grandes Companheiros do Nobre Mensageiro (s.a.w.) se dedicaram à agricultura e à criação de jardins.

Segundo método

O proprietário não consegue cultivar a própria terra. Então, deverá cedê-la gratuitamente a uma pessoa que realizará o cultivo utilizando seus próprios equipamentos, trabalhadores, sementes e animais. Porém, o proprietário da terra não tomará para si nada dela. Ceder a terra gratuitamente dessa maneira é desejável e louvável no Islã. Foi narrado por Hazrat Abu Huraira (r.a.). O Nobre Mensageiro (s.a.w.) disse:( Árabe******************)

Quem possui uma terra deve cultivá-la por si mesmo; caso contrário, deve entregá-la a seu irmão para que a cultive.

Foi narrado por Hazrat Jabir (r.a.), que disse:( Árabe******************)

Na época do Nobre Profeta (que a paz esteja com ele), cultivávamos a terra segundo o sistema de ‘mujabirat’. Assim, depois da ceifa, encontrávamos aqui e ali os grãos que restavam nas espigas. Então, o Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) disse: “Quem possui uma terra deve cultivá-la ele próprio ou entregá-la a seu irmão para que a cultive sem qualquer pagamento. E, se não fizer isso, deve deixá-la.”

‘Mujabirat’ significa cultivar a terra com base em uma parte dela.

Com base no sentido aparente deste hadith, algumas pessoas disseram que estas são as duas únicas formas permitidas pela Shariah de tirar proveito da terra: ou o proprietário a cultiva ele próprio, ou permite que alguém a cultive sem qualquer preço ou pagamento. Isso pode ocorrer da seguinte maneira: a terra pertencerá àquele que é seu proprietário, enquanto a colheita pertencerá àquele que a cultivar.

( Árabe******************)

Não é correto arrendar a terra em troca de dinheiro. Também não se pode entregá-la mediante qualquer outro tipo de contrato. Há apenas uma forma: ou o proprietário a cultiva ele próprio, ou a entrega a outra pessoa sem qualquer pagamento.

Hazrat Abdullah ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) disse que, nos hadiths em que se ordena entregar a terra, isso não significa que entregá-la seja obrigatório. Na realidade, é apenas mustahabb. Entregá-la dessa maneira é uma ação muito recomendável. Foi-me narrado por Ibn Dinar que ele disse: “Perguntei a Tawus, o renomado discípulo de Hazrat Ibn Abbas: ‘Que acha se eu evitar a mujabirat (cultivo da terra em sistema de partilha)?’ Tawus respondeu: ‘O maior dos eruditos, Hazrat Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele), disse-me que o Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) não a proibiu. Ele disse isso da seguinte forma:”( Árabe******************)

“É melhor entregardes a terra ao vosso irmão sem qualquer pagamento do que cobrardes dele um tributo.” (Bukhari)

Cultivo da terra em sistema de partilha

O terceiro método consiste em que aquele que realizar o cultivo com os seus próprios instrumentos, sementes e animais receberá do proprietário da terra uma parte da colheita, na proporção acordada por ambos, como metade ou um terço. Também será permitido que o proprietário forneça ao agricultor as sementes, os instrumentos e os animais. Quando a terra é cultivada segundo este acordo, isso é chamado de cultivo mútuo, cultivo por partilha, mukhabara, musaqat, entre outros termos.

O próprio Profeta (s.a.w.) permitiu que as terras de Khaybar fossem cultivadas sob a condição de que metade da colheita lhe coubesse. (Bukhari, Muslim.) Os juristas que consideram permitido esse tipo de cultivo mútuo baseiam-se nessa ação acima mencionada do Mensageiro de Deus (s.a.w.). Eles dizem: trata-se de uma prática famosa, universalmente conhecida e autêntica. O Mensageiro de Deus (s.a.w.) praticou esse método durante toda a sua vida, até à morte. As pessoas que vieram depois dele também fizeram o mesmo. Depois, os califas bem guiados seguiram igualmente os seus passos até ao fim. Não havia em Medina uma única casa cujos membros não cultivassem dessa maneira. As esposas do Profeta (s.a.w.) também seguiram esse princípio. É algo que não pode ser rejeitado ou revogado, pois a revogação ou mudança de princípio só poderia ocorrer durante a vida do Profeta (s.a.w.). Mas como poderia ser abandonada e rejeitada uma prática que ele manteve até à morte, que os califas mantiveram depois dele e que os Companheiros praticaram por consenso completo e unânime, sem que sequer um deles se opusesse ou protestasse contra esse princípio? E, se ela tivesse sido abandonada ainda durante a vida do Mensageiro de Deus (s.a.w.), como poderiam os seus seguidores ter continuado a cultivar dessa maneira depois dele? Como poderia ter permanecido oculto a ponto de nem mesmo os califas bem guiados saberem disso? Ora, o caso de Khaybar era amplamente conhecido. E onde estava, naquele momento, aquele que relata que essa prática havia sido abandonada, para que não tivesse informado ninguém?( Árabe******************)

O cultivo mútuo segundo um princípio incorreto

Na época do Profeta (s.a.w.), também era praticado outro tipo de cultivo. Porém, nele havia espaço para engano, fraude, trapaça e desconhecimento, o que provocava discussões e disputas entre as duas partes. Por isso, o Profeta (s.a.w.) declarou proibido esse método de cultivo. Em segundo lugar, o Islã deseja estabelecer claramente a justiça e a equidade; como esse método de cultivo contrariava a justiça e a equidade mencionadas acima, ele foi obrigado a proibi-lo.

Esse método consistia em o proprietário da terra impor ao agricultor a condição de que um quarto de uma determinada área fosse reservado para ele e delimitado. De toda a colheita, ele receberia apenas o produto daquela área específica, fosse qual fosse a quantidade. Ou então receberia uma quantidade determinada de colheita, medida ou pesada. O restante da colheita ficaria exclusivamente para o agricultor, ou seria dividido igualmente entre os dois.

Mas o Profeta (s.a.w.) percebeu que a exigência da justiça e da equidade era que ambas as partes participassem da totalidade da colheita — fosse ela pouca ou muita. Não era correto que uma determinada área ou quantidade de colheita fosse previamente fixada para um dos dois. Isso porque muitas vezes aquela parte da terra poderia não produzir colheita alguma. Nesse caso, apenas uma pessoa receberia o que lhe caberia, enquanto a outra seria enganada e privada do seu direito. Com efeito, talvez não nascesse nenhuma colheita no lote de terra determinado; então, uma parte não receberia nada, enquanto a outra receberia tudo. Em tal situação, o método plenamente justo seria que, de acordo com o contrato mútuo, cada parte recebesse a sua proporção de toda a colheita de toda a terra. Se a terra produzisse uma grande colheita, ambas as partes se beneficiariam. Se produzisse pouco, ambas receberiam pouco. E, se não houvesse colheita alguma, ambas partilhariam também essa privação. Não há dúvida de que este método é o melhor para as duas partes.

É narrado por Rafi ibn Khadij; ele disse:( Árabe******************)

Entre nós, aqueles que possuíam terras, em sua maioria, praticavam o cultivo mútuo. Eles arrendavam as terras sob a condição de que a colheita de um dos cantos da terra fosse reservada ao proprietário. Porém, acontecia que não havia colheita naquela parte específica, mas sim na outra; e, por vezes, havia colheita naquela parte específica, mas não na outra. Por isso, fomos proibidos de realizar esse tipo de cultivo.

Hazrat Rafi disse:( Árabe******************)

Os homens do Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) costumavam celebrar contratos de cultivo nas margens dos canais e nos locais por onde corria a água, estipulando uma parte da produção, ou em troca da entrega de uma parte da colheita. Depois, acontecia de a colheita de uma parte ser destruída, enquanto a da outra era preservada, ou ocorria o contrário. E não havia para as pessoas nenhuma outra forma de cultivar a terra além dessa. Por isso, isso foi proibido. (Muslim)

O Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) perguntou:( Árabe******************)

Como vocês realizam o plantio e o cultivo de suas terras agrícolas?

As pessoas responderam:( Árabe******************)

Celebramos contratos de cultivo compartilhado em troca de um quarto da produção e de uma certa quantidade de tâmaras e trigo.

Ao ouvir isso, ele disse: Não façam isso. Isso significa que, naquela época, fixavam uma quantidade determinada e a retiravam da colheita. Depois, a produção restante era dividida entre os cultivadores: um ficava com um quarto e outro com três quartos.

Esses acontecimentos deixam claro que o Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) estava especialmente empenhado em estabelecer justiça e equidade plenas e abrangentes na sociedade que fundara. E estava determinado a eliminar da sociedade dos crentes tudo aquilo que pudesse, segundo seu temor, dar origem a disputas e conflitos entre as pessoas.

Hazrat Zaid ibn Thabit (r.a.) relatou: Dois homens discutiram sobre uma terra diante do Profeta (s.a.w.). Então ele disse: ( Árabe******************)

Se é isso que acontece convosco, não arrendeis terras agrícolas.

Portanto, todo proprietário de terras deve ser compassivo e respeitoso para com o seu companheiro e parceiro. Por isso, o proprietário não deve reivindicar a maior parte da colheita. Por outro lado, o agricultor também não deve causar prejuízo ao proprietário no que diz respeito à sua terra. Nesse contexto, foi narrado por Hazrat Ibn Abbas:( Árabe******************)

O Profeta (s.a.w.) não proibiu o cultivo da terra em regime de parceria. Pelo contrário, ordenou que cada uma das duas partes tratasse a outra com compaixão. (Tirmidhi)

Por isso, quando disseram a Tawus: “Ó Abu Abdur-Rahman! Seria melhor abandonarmos esta ‘mukhābara’, pois as pessoas pensam que o Profeta (s.a.w.) proibiu as pessoas de praticá-la”, ele respondeu:

Eu os ajudarei; eu lhes darei.

Eles nem sequer pensavam em obter o máximo de lucro possível de suas próprias terras. Não queriam que aqueles que trabalhavam arduamente na terra permanecessem afligidos pela fome. Pelo contrário, ajudavam-nos e davam-lhes. E, de fato, esta é uma característica da sociedade muçulmana.

Muitas vezes, o proprietário deixa a terra ociosa. Não a cultiva nem planta nela árvores ou outras plantas. Mas também não está disposto a cedê-la a nenhum agricultor por uma pequena contrapartida. Por essa razão, Hazrat Umar ibn Abdul Aziz instruiu os diversos responsáveis de seu califado: permitam que as pessoas cultivem as terras em troca de um quarto, um terço ou um quinto da colheita; ordenou até mesmo que lhes fosse dado um décimo e proibiu que as terras fossem deixadas incultas.

Arrendamento de terras mediante pagamento em dinheiro

A quarta modalidade poderia ser aquela em que se entrega a terra ao agricultor para que a cultive, sob a condição de que ele pague o valor em dinheiro.

Muitos ilustres juristas consideraram lícita essa modalidade. Contudo, alguns outros juristas a proibiram. A prova apresentada por eles é que o Nobre Profeta (sa) proibiu arrendar terras — e esta é uma narração autêntica. Hazrat Abu Bakr, Hazrat Umar, Hazrat Rafi ibn Khadij, Hazrat Jabir, Abu Sa‘id, Abu Huraira e Ibn Umar (ra) narraram este hadith. Todos eles afirmam que o Nobre Profeta (sa) proibiu categoricamente o arrendamento de terras.

( Árabe******************)

Uma modalidade diferente de arrendamento de terras é cultivá-las em troca de uma parte da produção. Durante sua vida, o Nobre Profeta (sa) celebrou precisamente esse acordo com os habitantes de Khaibar e permaneceu fiel a ele até o fim. Também durante o período dos Califas Bem-Guiados nada diferente foi feito.

Para aqueles que observaram a evolução gradual da lei islâmica, a veracidade das palavras de Ibn Hazm nesta questão terá ficado muito clara. Ele escreveu que, quando o Nobre Profeta (sa) chegou entre eles, eles arrendavam suas terras agrícolas. Uma narração semelhante também foi transmitida por Rafi ibn Khadij (ra). O arrendamento de terras era praticado antes da chegada do Mensageiro Nobre (sa), e não sofreu mudança depois dela. Nenhuma pessoa sensata pode ter a menor dúvida a esse respeito. Em seguida, foi narrado por uma cadeia autêntica, sob a autoridade de Hazrat Jabir, Abu Huraira, Abu Sa‘id, Rafi, Zuhair (ra), dos Companheiros que participaram da Batalha de Badr e de Hazrat Ibn Umar (ra):( Árabe******************)

O Nobre Profeta (sa) proibiu de modo geral o arrendamento de terras.

Também não há dúvida de que, por meio deste hadith, a regra anteriormente permitida foi revogada. Portanto, aqueles que consideram lícito arrendar terras mediante pagamento em dinheiro estão errados. Suas palavras jamais podem ser comprovadas como autênticas. Contudo, pode ser lícito arrendar a terra em troca da entrega de uma parte determinada da produção obtida. Com efeito, está comprovado que, depois de proibir o arrendamento de terras, o Nobre Profeta (sa) celebrou em Khaibar um acordo para que as terras fossem cultivadas com base na divisão da produção, e esse sistema permaneceu inteiramente inalterado até sua morte.( Árabe******************)

Muitos juristas dos primeiros tempos sustentavam esta opinião. Tâwus, famoso jurista do Iêmen e eminente tabi‘i, considerava makruh entregar terras para cultivo em troca de ouro ou prata. Contudo, não via problema em entregá-las mediante uma divisão da colheita — fosse um terço ou um quarto. Quando alguns levantaram objeções a esse respeito, dizendo que o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) havia proibido arrendar terras, ele respondeu: “Mu‘adh veio até nós — o próprio Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) o havia enviado ao Iêmen — e ele entregava terras para cultivo sob a condição de receber um terço ou um quarto da colheita. E nós continuamos fazendo isso até hoje.”

Disso se entende que, segundo Tâwus, o que é proibido é arrendar terras por um valor em dinheiro. Não há, porém, dificuldade em entregá-las para cultivo sob a condição de dividir a colheita.

O mesmo foi relatado sobre Muhammad ibn Sirin e Qasim ibn Muhammad ibn Abi Bakr as-Siddiq. Entretanto, alguns dos tabi‘in consideravam proibido arrendar terras de qualquer maneira, fosse por um valor em dinheiro ou com base na divisão da colheita. Mas essa opinião não é muito sólida. Isso porque o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), os Califas Bem-Guiados e o próprio Mu‘adh (que Allah esteja satisfeito com ele) cultivaram terras, ou fizeram com que fossem cultivadas, sob a condição de dividir a colheita. Assim, fica indubitavelmente comprovada a permissibilidade desse método. Nos tempos antigos, as leis eram efetivamente formuladas para os muçulmanos de acordo com esse princípio. Contudo, a proibição de arrendar terras em troca de um valor em dinheiro é comprovada pelos hadiths. E que ela é racional também é indubitável.

A racionalidade da proibição de entregar terras em troca de um valor em dinheiro

Ao refletirmos sobre isso à luz dos princípios e ideais fundamentais do Islã, parece preferível considerar ilícito entregar terras não cultivadas em troca de dinheiro à vista.

a. O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) proibiu arrendar terras em troca de uma parte determinada da colheita produzida. É permitido entregá-las somente com base na proporção da colheita; isto é, a terra pode ser entregue sob a condição de receber um terço ou um quarto da produção. Consideramos muito melhor estabelecer a divisão em termos percentuais. Assim, ambas as partes se beneficiarão igualmente ao receber sua parcela da produção. Se a colheita sofrer algum dano devido a uma calamidade, ambas as partes participarão igualmente dessa perda. Mas, se o direito de uma das partes for fixado, ela ficará protegida contra a perda, enquanto a outra parte inevitavelmente cairá numa situação incerta. Da sua parcela, não receberá nada além de erva seca. Isso é plenamente semelhante à usura e ao jogo de azar. Não há diferença fundamental entre essas coisas.

Quando se considera sob essa perspectiva a questão de entregar terras em troca de dinheiro à vista, não se percebe qualquer diferença entre isso e o tipo de cultivo mútuo proibido mencionado acima. O proprietário da terra recebe com certeza o que lhe é devido em dinheiro. Mas aquele que tomou a terra para cultivá-la com esse dinheiro coloca todo o seu trabalho, esforço e capital em grave risco. Não tem nenhuma garantia de que receberá algo da terra. Nada se sabe sobre se nela crescerá uma colheita. Mas aquele que tomou a terra para cultivá-la com esse dinheiro coloca todo o seu trabalho, esforço e capital em grave risco. Não tem nenhuma garantia de que receberá algo da terra. Nada se sabe sobre se nela crescerá uma colheita.

b. Além disso, quando alguém entrega uma coisa a outra pessoa com base em um arrendamento, é seu proprietário. Ele tem direito de receber o aluguel porque entrega essa coisa ao arrendatário depois de torná-la adequada para ser utilizada e proporcionar benefício. Tem direito de receber uma compensação pelo desgaste que nela ocorre em razão do uso. Mas não é necessário nenhum tipo de preparação para entregar uma terra em arrendamento. O proprietário da terra não cria sua capacidade produtiva; ela é inteiramente uma dádiva de Allah. Em segundo lugar, quando a terra é cultivada, ela não sofre qualquer “desgaste”; não acumula sujeira como os equipamentos, nem envelhece como os edifícios.

g. Também é verdade que, quando alguém arrenda uma casa, permanece e vive nela, obtendo dela benefício direto. Não há nenhum obstáculo intermediário. Do mesmo modo, quando se aluga uma ferramenta, pode-se beneficiar diretamente do próprio objeto. Contudo, não é possível obter benefício direto da terra, e tampouco há qualquer garantia de que se obterá proveito dela. A situação da terra não é como a de uma casa alugada; obter benefício dela é algo incerto. Na verdade, quando alguém arrenda uma terra, faz isso na esperança de obter proveito dela. É com essa esperança que nela emprega trabalho, dinheiro e tempo; ainda assim, às vezes obtém proveito e, às vezes, não. Portanto, não é correto considerar o arrendamento de terras semelhante ao arrendamento de casas e coisas do gênero.

d. Foi citado em um hadith autêntico:

O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) proibiu comprar e vender frutos antes de amadurecerem, enquanto ainda se encontram nos campos e pomares. Como razão, disse: “Vede: se Allah privar os frutos de vós, como poderá ser lícito para vós o dinheiro que tomastes de vosso irmão? Os frutos começaram a amadurecer, mas ainda não há garantia alguma de que os obtereis em segurança. Pois podem não amadurecer devido a algum infortúnio. Sendo essa a situação, por que não seria proibido arrendar uma terra vazia — na qual nem sequer foi usada uma enxada, nem foram lançadas sementes? Na verdade, o método correto e justo é o cultivo mútuo com base na partilha proporcional da colheita. Assim, ambas as partes envolvidas no trabalho participam igualmente tanto do lucro quanto do benefício; e, mesmo havendo prejuízo, ele recai sobre ambas.”

( Árabe******************)

O Imame Ibn Taymiyyah disse que fazer cultivar a terra com base na partilha proporcional da colheita é o método compatível com os princípios fundamentais da Sharia islâmica e com o sistema de justiça. E o contrato baseado na partilha da colheita é mais justo e equitativo do que o arrendamento. Isso porque, nesse método, ambas as partes participam tanto do lucro quanto da perda. O arrendamento da terra é diferente. Nele, o proprietário recebe o aluguel, mas o arrendatário às vezes obtém uma colheita e, outras vezes, fica privado dela.

( Árabe******************)

O Imame Ibn al-Qayyim escreveu:

Os muçulmanos têm praticado, desde a época do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e dos Califas Bem-Guiados, o tipo de cultivo mútuo que é justo. Os descendentes de Abu Bakr, Umar, Uthman e Ali (que Allah esteja satisfeito com eles) também fizeram o mesmo. Os grandes Companheiros consideravam esse método lícito. Entre os Companheiros, o Senhor Ibn Masud, Ubayy ibn Kab, Zayd ibn Thabit e outros sustentavam essa opinião. Os imames especialistas em hadith e jurisprudência — Ahmad ibn Hanbal, Ishaq ibn Rahwayh, o Imame al-Bukhari, Dawud ibn Ali, Ibn Khuzaymah, Abu Bakr Ibn al-Mundhir, Muhammad ibn Nasr al-Marwazi e outros — também declararam correta essa opinião. E os renomados juristas muçulmanos al-Layth ibn Sad, Ibn Abi Layla, Abu Yusuf, Muhammad e outros também expressaram essa mesma opinião.

Durante a época de Ibn al-Qayyim, ele protestou veementemente contra a opressão e a tirania exercidas pelos administradores e pelos soldados contra os agricultores. Ele disse: Se esses administradores e soldados tratassem os camponeses de acordo com as normas da Shariah estabelecidas por Allah e pelo Seu Mensageiro, todos poderiam receber as infinitas dádivas de Allah, concedidas do alto e de baixo. As portas das bênçãos dos céus e da terra seriam abertas para eles. Mesmo que recebessem apenas um quarto do que obtêm por meio da opressão e da perseguição, isso ainda seria muito mais do que obtêm atualmente. Mas eles são ignorantes; são opressores. Por isso, além da opressão e do pecado, nada mais sabem fazer. Consequentemente, foram privados da abundância das bênçãos e da provisão. E, por causa disso, para eles se acumula apenas o castigo da Outra Vida. Nenhuma bênção deste mundo lhes caberá.

Se alguém perguntar: que norma estabeleceram Allah e o Seu Mensageiro sobre esta questão, e que princípio seguiram os Companheiros?

Pode-se responder: deve-se adotar precisamente o método que seja mutuamente justo, pelo qual o proprietário da terra e o agricultor possam alcançar um padrão único e igual de justiça; não se deve, como ocorre segundo o costume vigente, garantir o destino de uma das partes e lançar a outra ao risco da incerteza. Os costumes geralmente praticados no mundo baseiam-se em princípios infundados. É isso que trouxe tantas calamidades à Terra e lançou o povo em graves dificuldades. A chuva deixou de cair, as bênçãos desapareceram e a maioria dos administradores e soldados começou a consumir o que é haram. E, quanto à carne que se acumulou em seus corpos por causa do alimento haram, o Inferno é certamente o lugar apropriado para ela.

Este sistema agrícola justo era o princípio seguido pelos muçulmanos, tanto na época do Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) como na época dos Califas Bem-Guiados e nos períodos posteriores. O próprio Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) celebrou com os habitantes de Khaybar um acordo para cultivar a terra com base nesse princípio. Isso continuou até que Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) os exilou. O acordo estabelecia que eles cultivariam a terra às suas próprias custas e também forneceriam as sementes.

Por isso, embora os eruditos considerem que o agricultor deveria fornecer as sementes, é permitido que qualquer um dos dois as forneça. Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) celebrou um acordo segundo o qual, se ele fornecesse as sementes, receberia metade da colheita. E, se o agricultor as fornecesse, também receberia sua parte, isto é, mais da metade.

Em todos os relatos de hadith encontrados sobre o cultivo da terra em parceria, não há menção de que o agricultor receberia menos da metade; ao contrário, alguns relatos afirmam que ele receberia mais do que isso.

Neste contexto, parece razoável que a parte do agricultor não seja inferior à metade. Foi assim que o Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e os Califas Bem-Guiados procederam com os judeus de Khaybar. Portanto, no momento da distribuição da colheita, não é desejável que a parte da terra — a parte das pedras — seja maior do que a parte da pessoa, isto é, do agricultor.

Sociedade na criação de animais

Em nosso país, especialmente nas regiões rurais, é comum outro tipo de atividade: a parceria na criação de animais. Uma parte fornece todo ou parte do capital, enquanto a outra assume a responsabilidade de cuidar deles. Depois, ambas dividem entre si o resultado ou o lucro.

Antes de conhecer a decisão da Sharia sobre isso, é necessário analisar as diferentes formas dessa atividade.

1. Uma forma é aquela em que ambas as partes se associam com um objetivo puramente comercial: criar bezerros para engordá-los ou criar vacas e búfalas para obter leite.

Nesse caso, uma parte fornece o capital, enquanto a outra fornece o trabalho e assume a responsabilidade pelos cuidados. As duas arcarão com as despesas de fornecer alimento e água aos animais. Quando eles forem vendidos, as despesas serão deduzidas do valor recebido. Depois, o lucro resultante será dividido entre ambas conforme o acordo firmado.

Se apenas uma parte for obrigada a arcar com todas as despesas, sem receber nada em troca, enquanto o lucro for dividido igualmente entre as duas, isso não poderá ser considerado um negócio justo.

2. A segunda forma é aquela em que uma parte fornece o valor, enquanto a outra assume as despesas e a responsabilidade pelos cuidados. Esta última se beneficiará do leite do animal ou de sua utilização em trabalhos agrícolas ou no transporte de água.

Sim, não há nada de errado em proceder assim, desde que o animal seja de grande porte, forneça leite ou possa ser utilizado para realizar algum trabalho. É verdade que o leite e outras coisas recebidos pela segunda parte não parecem equivaler a todas as despesas que ela suporta, havendo também o risco de prejuízo; contudo, consideramos isso permitido por ser razoável e não demos grande importância a esse pequeno risco de prejuízo. Isso porque a Sharia não vê dificuldade em tolerar coisas desse tipo. O Mensageiro de Deus (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) disse:( Árabe******************)

Em troca das despesas de um animal dado em penhor, pode-se montá-lo e beber seu leite. Quem o monta e quem bebe seu leite deve arcar com as despesas. (Bukhari)

Neste hadith, o Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) considerou como compensação equivalente às despesas com a alimentação do animal e outras coisas o uso dele como montaria e o consumo de seu leite.

As despesas com o animal podem ser muito maiores ou menores do que o benefício de montá-lo e beber seu leite. Contudo, quando, segundo o costume, tal situação foi considerada permitida no caso de um animal dado em penhor, não há motivo para hesitar em considerar permitida, por necessidade, a sociedade comercial em questão na criação de animais.

A conclusão que extraímos do hadith citado acima é exclusivamente a opinião do autor desta obra. Que Allah a torne correta.

Porém, na criação de animais do tipo bezerro pequeno — que não podem ser montados nem fornecem leite para consumo — se uma das partes pagar o preço e a outra arcar com as despesas, isso não pode ser considerado mubáh à luz dos princípios fundamentais do Islã. Pois a parte que deverá arcar com as despesas será prejudicada, enquanto a outra obterá apenas benefícios e lucros. Portanto, é evidente que isso não se baseia na justiça, ao passo que o Islã deseja que a equidade e a justiça sejam aplicadas em todos os assuntos. Entretanto, se, até chegar o momento de a parte que arca com as despesas receber seu benefício, todas as despesas forem assumidas por ambas as partes mediante divisão mútua, então consideramos que isso será permitido.

Esporte e diversão

O Islã é um sistema de vida realista. Ele não deseja manter o ser humano confinado em meio a fantasias irreais e a um emaranhado de pensamentos e preocupações. Ao contrário, ensina ao ser humano os princípios e métodos para viver adequadamente neste mundo real, em meio ao curso e à sucessão dos acontecimentos. Não estabeleceu normas de conduta considerando o ser humano como um anjo que percorre os céus. As normas foram estabelecidas para ele considerando-o um ser humano que come e bebe e circula pelos mercados.

Por essa razão, não se pode imaginar que cada palavra do ser humano se torne dhikr, que ele tenha de permanecer imerso em profunda reflexão mesmo quando estiver calado, que somente os sons do Alcorão entrem em seus ouvidos e que todo o seu tempo livre seja passado na mesquita; tampouco se pode esperar isso. O Islã não impôs esse dever ao ser humano nem estabeleceu tal obrigação. A verdade é que o Islã voltou plenamente sua atenção para a natureza humana e suas disposições inatas. Allah, o Altíssimo, criou o ser humano de tal modo que, assim como comer e beber são necessidades de sua natureza, também a alegria, o entusiasmo, a satisfação e o bom humor, bem como o riso, as brincadeiras e os jogos, fazem parte de sua disposição natural. Essa verdade não pode ser negada de modo algum.

A condição não permanece a mesma a cada momento

Alguns Companheiros, em razão da predominância da espiritualidade e do mais elevado progresso nela, começaram a pensar que era seu dever permanecer sempre imersos na adoração e que era recomendável abster-se dos interesses, prazeres e alegrias mundanos. Não deveriam participar de jogos, diversões e entretenimentos. Era absolutamente necessário permanecer inteiramente voltados para a vida futura, entregues às reflexões, preocupações e responsabilidades referentes à vida futura.

Neste ponto, é oportuno mencionar um relato sobre o ilustre Companheiro Hanzala Usaydi (que Allah esteja satisfeito com ele). Ele era um escriba especialmente designado pelo Nobre Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Ele próprio contou sobre si:

Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) encontrou-se comigo e perguntou: “Como você está, ó Hanzala?” Respondi: “Hanzala tornou-se um hipócrita.” Ele disse: “Glorificado seja Allah! O que você está dizendo?” Então respondi: “Sim, é exatamente isso. Quando estamos sentados na presença do Nobre Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e ele nos recorda o Paraíso e o Inferno, ficamos como se os estivéssemos vendo com os próprios olhos. Mas, quando saímos daquela presença, ocupamo-nos com nossas esposas, filhos, familiares e negócios, e então esquecemos em grande parte o Paraíso e o Inferno.” Ao ouvir isso, Abu Bakr também disse: “Juro por Allah que minha situação é exatamente a mesma.” Hanzala relatou: “Depois, nós dois — eu e Abu Bakr — fomos à presença do Nobre Profeta e dissemos: ‘Ó Mensageiro de Allah! Hanzala tornou-se um hipócrita!’ O Nobre Mensageiro perguntou: ‘Como assim?’ Respondi: ‘Ó Mensageiro de Allah! Quando estamos com você e você fala do Paraíso e do Inferno, ficamos como se os víssemos claramente. Mas, quando saímos daqui, ficamos tão ocupados com nossas esposas, filhos, familiares e negócios que esquecemos muitas coisas.”

Ao ouvir essas palavras, o Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse:( Árabe******************)

“Juro por Aquele em cuja mão está a minha vida: se vocês permanecessem sempre no estado e na disposição espiritual que experimentam quando estão comigo e em recordação de Allah, os anjos viriam apertar-lhes as mãos em suas camas e pelas estradas. Porém, ó Hanzala, há variações de estado. Não é possível permanecer sempre na mesma condição.” Ele repetiu essas palavras três vezes. (Muslim)

O Mensageiro era humano

O Nobre Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) era humano, e sua vida sublime constitui um modelo luminoso e radiante, completo e do mais elevado padrão, para a vida humana, devendo ser seguido. Ele rezava em profunda solidão e passava longos períodos em humildade, temor e pranto. Como permanecia de pé por muito tempo durante a oração, seus dois pés ficavam inchados. Ele estava inteiramente firme na verdade e não tinha o menor temor de ninguém por causa de Allah; ainda assim, vivia uma vida humana. Como as pessoas comuns, apreciava as coisas boas e os aromas agradáveis, ria, brincava, gracejava e fazia humor; isso era uma característica de sua nobre natureza. Contudo, jamais dizia algo contrário à verdade.

O Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) gostava muito de alegria, animação e bom humor, e não apreciava o sofrimento e a tristeza. Ele buscava refúgio em Allah contra todo mal. Dizia:( Árabe******************)

Ó Allah! Busco refúgio em Ti contra a preocupação e a tristeza.

Ele também fazia brincadeiras e gracejos. Certa idosa foi até ele e disse: “Ó Mensageiro! Suplique a Allah para que Ele me faça entrar no Paraíso.” Então o Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Ó mãe de fulano, a questão é que pessoas idosas não entrarão no Paraíso.” Ao ouvir isso, a idosa estremeceu e começou a chorar. Pensando que não poderia entrar no Paraíso, ficou completamente desolada. Vendo o estado da idosa, o Nobre Profeta explicou que isso significava que os idosos não entrariam no Paraíso nessa condição. Pelo contrário, Allah os honrará com uma nova criação, e eles entrarão no Paraíso em pleno vigor da juventude. Então ele recitou para ela este versículo:( Árabe******************)

Nós as criaremos com uma criação especial e as faremos virgens. Elas serão amantes de seus maridos e da mesma idade que eles. (Surata Al-Wáqi‘a: 35–38)

A mente se cansa

Os Companheiros, de coração puro e grande caráter, do Nobre Profeta também faziam brincadeiras, gracejos e participavam de jogos e diversões. Eles respondiam ao chamado de sua natureza interior. Alegravam a mente, buscavam proporcionar tranquilidade e felicidade ao coração e, por meio disso, adquiriam novo entusiasmo, capacidade e disposição para o trabalho, renovavam-se e lançavam-se às atividades.

Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) disse:( Árabe******************)

Assim como o corpo, a mente também fica cansada e fatigada. Portanto, para afastar esse cansaço e essa fadiga, diga coisas extraordinárias e sábias.

Ele também disse:( Árabe******************)

Concede ao coração momentos de tranquilidade, felicidade e alegria, pois a inquietação do coração o torna cego.

Hazrat Abu Darda (que Allah esteja satisfeito com ele) disse:( Árabe******************)

Permito que minha alma tenha algum divertimento com o que é fútil, para que isso me ajude a percorrer o árduo caminho da verdade.

Portanto, não há mal algum se o coração se sentir aliviado ao contar histórias divertidas e fazer gracejos. Tampouco haverá pecado em proporcionar a si mesmo e aos companheiros consolo e tranquilidade por meio de jogos e divertimentos permitidos, desde que isso não se transforme em um hábito permanente nem desperte a tendência de permanecer ocupado somente com isso o tempo todo. Caso contrário, a pessoa passaria a manhã e a noite nisso, e, como resultado, surgiria relutância em cumprir suas responsabilidades. Chegaria até a começar a fazer gracejos mesmo onde é necessário manter a seriedade. É por isso que foi dito:( Árabe******************)

Mistura nas conversas exatamente tanta graça quanto a quantidade de sal necessária na comida.

Pois não pode ser atitude de um muçulmano ridicularizar as pessoas sem levar em consideração sua honra, dignidade e inviolabilidade. Por isso, Allah, o Altíssimo, declarou:( Árabe******************)

Ó vós que credes, que um povo não ridicularize outro povo; talvez estes sejam melhores do que aqueles. (Surata Al-Hujurat: 11)

Também não é correto nem permitido recorrer a mentiras com o objetivo de fazer as pessoas rir. Advertindo contra isso, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse:( Árabe******************)

Ai daquele que conta mentiras para fazer as pessoas rir. Ai dele; ai dele. (Tirmidhi)

Tipos permitidos de jogos

Há muitos tipos e formas de entretenimento e jogos que o nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) declarou permitidos para os muçulmanos. Com a ajuda deles, os muçulmanos podem aliviar o peso da mente e obter alegria. Esses jogos incentivam as pessoas a cumprir a adoração e os deveres — a participar ativamente dessas atividades. Por meio desses exercícios físicos, podem receber treinamento para fortalecer o corpo. Assim, as pessoas também podem preparar-se para participar do jihad. Os jogos mencionados a seguir pertencem a esta categoria:

Corridas de velocidade

Os nobres Companheiros costumavam competir em corridas. O nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) permitiu que o fizessem. Foi relatado que Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) era muito veloz nas corridas.

O próprio nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) participava de corridas com sua honrada esposa, Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela), para agradá-la e para ensinar os nobres Companheiros (que Allah esteja satisfeito com eles). A própria Hazrat Aisha disse:( Árabe******************)

O nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) competiu comigo numa corrida. Naquela ocasião, cheguei à frente. Mais tarde, quando meu corpo ficou mais pesado, ele também correu comigo, venceu-me e disse: “Desta vez, venci para compensar aquela vez.” (Ahmad, Abu Dawud)

Luta livre

O nobre Profeta (que a paz esteja com ele) lutou com um famoso lutador chamado Rukana. Nessa luta, derrubou-o ao chão várias vezes. (Abu Dawud)

Em outra narração, diz-se: aquele que o nobre Profeta (que a paz esteja com ele) derrubou era extremamente forte. Ele o lançou ao chão três vezes consecutivas. Com base nesses hadiths, os juristas opinaram que competir em corridas é plenamente permitido, e que os homens podem correr juntos. Homens e mulheres mahram podem competir juntos, assim como marido e mulher. Competir em corridas e lutar não é contrário à honra, à dignidade, ao conhecimento, à erudição nem à idade avançada. Pois, quando o nobre Profeta (que a paz esteja com ele) competiu numa corrida com Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela), já tinha mais de cinquenta anos.

Lançamento de flechas

O tiro com arco e o lançamento de lanças também são exercícios permitidos pela Sharia.

Quando o nobre Profeta (que a paz esteja com ele) via os nobres Companheiros ocupados em lançar flechas, incentivava-os de todas as formas. Dizia:( Árabe******************)

Atirai flechas, pois estou convosco.

Na verdade, aos olhos do nobre Profeta (que a paz esteja com ele), o lançamento de flechas não era apenas uma brincadeira ou um divertimento. Era uma força — aquisição de força e demonstração de força. O próprio Allah, o Altíssimo, ordenou:

Adquiri e reuni, contra os vossos inimigos, toda a força que puderdes.

Nesta ocasião, o nobre Mensageiro (S.A.W.) disse:

Sabei que o tiro com arco é uma força. O lançamento de flechas é uma força; o lançamento de flechas é uma força.

Ele também disse:

É vosso dever aprender a atirar com arco, pois isso também é um excelente esporte para vós.

Contudo, ele proibiu fazer de um animal doméstico um alvo. Na época da ignorância, os árabes costumavam fazer isso. Ao ver algumas pessoas fazendo o mesmo, o venerável Ibn Umar (R.A.) disse:

O nobre Profeta (S.A.W.) amaldiçoou aquele que toma qualquer criatura viva e animada como alvo para o lançamento de flechas.

A razão dessa maldição é que, com isso, desperdiça-se riqueza, causa-se sofrimento aos seres vivos e também se provoca a própria destruição. Na verdade, jamais é digno do ser humano realizar suas festividades e divertimentos causando sofrimento a qualquer criatura viva do mundo.

Precisamente por essa razão, o nobre Profeta (S.A.W.) proibiu expressamente provocar os animais e fazê-los lutar entre si. (Abu Dawud, Tirmidhi.) Naquela época, os árabes faziam dois bodes ou dois bois (touros) lutar entre si de tal maneira que, depois de lutarem repetidamente, os dois acabavam destruídos e à beira da morte. Ao verem isso, eles se regozijavam e explodiam em gargalhadas. Ao explicar a razão pela qual essa prática foi proibida, os especialistas disseram:( Árabe******************)

Nesse ato, os animais são submetidos a sofrimento e tortura dolorosos. Eles são deixados em uma situação extremamente penosa. Além disso, isso não passa de uma ação inútil.

Manejo de lanças

Assim como o tiro com arco, o manejo de lanças também é uma modalidade de esporte lícita. O Profeta (que a paz esteja com ele) permitiu que os abissínios praticassem o jogo de lanças dentro da mesquita. E permitiu que sua esposa, a venerável Aisha (que Deus esteja satisfeito com ela), o assistisse de dentro da casa. Para incentivá-los, ele dizia: “Ó Banu Arfada, ataquem! Ataquem com força; seu adversário está diante de vocês.”

Como Umar (que Deus esteja satisfeito com ele) era um homem de temperamento severo, não gostou daquele jogo. Ele quis impedi-los, mas o Profeta (que a paz esteja com ele) o deteve. Abu Huraira (que Deus esteja satisfeito com ele) narrou: “Os abissínios brincavam com lanças diante do Profeta (que a paz esteja com ele). Nesse momento, Umar chegou. Com o intuito de fazê-los parar e proibi-los de praticar aquele jogo, ele atirou-lhes pedrinhas. O Profeta (que a paz esteja com ele) disse: ‘Deixe-os brincar, ó Umar.’”

Ao permitir que esse jogo fosse praticado em sua sagrada mesquita, o Profeta (que a paz esteja com ele) demonstrou grande liberalidade e tolerância. Assim, tanto a religião quanto a vida mundana se unificaram e se harmonizaram na mesquita. Dessa forma, quando os muçulmanos brincam e se divertem, devem lembrar que isso não é apenas um jogo. Embora seja um meio de recreação e entretenimento, também constitui exercício físico e prática de treinamento corporal! À luz deste hadith, os especialistas opinaram que:( Árabe*******************)

A mesquita é o centro de todas as atividades da sociedade muçulmana. Portanto, tudo aquilo em que reside o benefício da religião e das pessoas religiosas pode, sem dúvida, ser realizado nela.

Diante disso, os muçulmanos de hoje deveriam refletir sobre como, naquela época, suas mesquitas haviam sido transformadas em fontes de vida e força. Atualmente, porém, elas foram convertidas em centros de ócio para os inativos. Nelas não se percebe o pulsar da vida, nem se encontra qualquer meio de obter força. Além disso, por meio da manutenção de relações e da convivência com as esposas, bem como do estímulo ao ânimo e ao coração mediante jogos e diversões permitidos desse tipo, também se encontra a orientação do Mensageiro de Deus. A esposa do Profeta, Aisha (que Deus esteja satisfeito com ela), disse:( Árabe*******************)

Eu estava observando enquanto o Mensageiro de Deus (que a paz esteja com ele) me cobria com seu manto. E eu observava os abissínios brincando na mesquita. Enquanto os observava, fiquei cansada. Portanto, podeis ocupar meninas pequenas, entusiasmadas com jogos, em suas brincadeiras. (Bukhari, Muslim)

Ela também disse: Eu costumava brincar com as meninas na casa do Mensageiro de Deus. Tinha algumas amigas, e elas brincavam comigo. Quando o Mensageiro de Deus (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) entrava em casa, elas se escondiam. Então o Profeta (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) brincava com elas junto comigo. Assim, elas tinham coragem de brincar comigo. (Bukhari, Muslim)

Equitação

Allah, o Altíssimo, disse:( Árabe*******************)

Criamos os cavalos, as mulas e os jumentos para que servissem de montaria para vós, e também para vosso embelezamento. (Surata An-Nahl: 8)

O Mensageiro de Deus (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) disse:( Árabe*******************)

O bem está preso às testas dos cavalos. (Bukhari)

Ele também disse: Atirai flechas e praticai a equitação.

Toda atividade que não contém a recordação de Allah é apenas divertimento e futilidade. Quatro atividades são exceção: correr entre dois alvos, treinar cavalos, brincar com a própria esposa e a família, e ensinar a nadar. Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) disse:( Árabe*******************)

Ensinai vossos filhos a nadar e a atirar flechas. Habituai-os também a montar no dorso dos cavalos, saltando para a sela e sentando-se firmemente. (Muslim)

Hazrat Ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) relatou: o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) organizou uma corrida de cavalos e concedeu um prêmio ao cavalo vencedor.

Tudo isso são atividades pelas quais o Mensageiro Nobre incentivava a superação nas corridas. São, ao mesmo tempo, jogos, prática e exercício físico.

Perguntaram a Hazrat Anas (que Allah esteja satisfeito com ele): «Vós apostáveis nas corridas no tempo do Mensageiro Nobre?» Ele respondeu: «Sim. Ele próprio apostou no cavalo chamado Sarḥah. Este chegou à frente de todos, e ele ficou muito feliz e entusiasmado ao vê-lo.»( Árabe*******************)

A forma de fazer uma aposta permitida é que o prêmio não seja oferecido pelas duas partes participantes. Ele deve ser oferecido por outra pessoa ou por apenas uma das partes. Se for oferecido por ambas as partes, com a condição de que o vencedor receba o prêmio, isso será jogo de azar. E o jogo de azar é proibido. Os cavalos usados em jogos de azar foram chamados pelo Mensageiro Nobre de cavalos satânicos. Ele declarou pecaminosos o recebimento de seu preço, alimentá-los com capim e montá-los. (Ahmad)

Ele disse: «Há três tipos de cavalos: o cavalo de Allah, o cavalo dos homens e o cavalo de Satanás. O cavalo empregado no jihad pelo caminho de Allah é o cavalo de Allah. Alimentá-lo com capim — até mesmo em suas fezes e urina há benefício. O cavalo usado em jogos de azar, apostas ou corridas é o cavalo de Satanás! E os cavalos que as pessoas criam com o propósito de aumentar a descendência são os cavalos dos homens. Eles servem para afastar a pobreza.»

A caça

A caça é um jogo muito útil e benéfico. O Islã deu grande importância a essa atividade. Com efeito, além de proporcionar recursos e ganhos, ela também constitui exercício físico. Seja realizada com instrumentos, como arco e lança, ou por meio de cães ou aves de caça, ambos os tipos de caça são permitidos. Já discutimos anteriormente, em detalhes, as condições e regras necessárias para essa atividade.

O Islam proibiu a caça apenas em duas situações. Fora delas, ela é permitida em todos os momentos. Essas duas situações são: quando se está em estado de ihram para o Hajj e a Umrah. Pois esse é um período de paz absoluta e segurança plena. Nesse período, não se pode matar nem derramar sangue. Assim Allah mesmo disse:

Ó crentes! Não mateis animais de caça enquanto estiverdes em estado de ihram. E, enquanto permanecerdes em estado de ihram, a caça terrestre também vos foi proibida.

A segunda situação é quando se está dentro do Santuário Sagrado de Meca. Pois Allah, o Altíssimo, fez do Santuário Sagrado um centro de paz e segurança em todos os aspectos. Ali há paz e segurança para todos. Mesmo que um animal de caça vivo se refugie ali, ou que alguém consiga capturá-lo enquanto ele voa, isso não é permitido. O Nobre Profeta disse:

Não se pode caçar os animais de caça dali, nem cortar as árvores dali, nem arrancar qualquer de suas ervas.

Jogo de dados

Todo jogo que contenha apostas, cada um deles, é haram. E todo jogo no qual haja ganho ou perda financeira é jogo de azar. O Alcorão Sagrado mencionou esse jogo de azar juntamente com atos haram como o consumo de álcool, os sacrifícios sobre altares e a busca do conhecimento do destino por meio de flechas, entre outros.

O Nobre Profeta disse: se alguém disser: “Vinde, joguemos”, deverá dar caridade pela falta cometida com isso. Pois até mesmo o convite para jogar é um pecado, e é necessário oferecer expiação por esse pecado.

O jogo de dados é um jogo desse tipo. Se houver apostas associadas a ele, é haram por consenso. Alguns, porém, disseram que é makruh, e não haram. Aqueles que o consideram haram citaram como prova o hadith narrado por Buraida (que Allah esteja satisfeito com ele). O Nobre Mensageiro disse:( Árabe*******************)

Quem joga dados mancha as próprias mãos com o sangue e a carne de um porco.

O hadith narrado por Abu Musa diz:( Árabe*******************)

Quem joga dados desobedece a Allah e ao Mensageiro.

Nestes dois hadiths, o jogo de dados é explicitamente declarado haram, tenha ele apostas ou não.

O Imame al-Shawkani escreveu: Segundo Ibn Mughaffal e Ibn al-Musayyib, não há problema em jogar dados quando não há apostas. Esses dois consideraram os hadiths citados acima como referentes ao jogo de dados acompanhado de apostas.

Jogo de xadrez

O xadrez é um jogo muito famoso. Em árabe, é chamado shatranj. Os juristas chegaram a conclusões diferentes a respeito desse jogo. Alguns disseram que ele é mubāh, outros que é makruh, e outros ainda consideraram-no haram.

A prova daqueles que o declararam haram são alguns hadiths narrados do Profeta (que a paz esteja com ele). Contudo, os críticos e especialistas na cadeia de transmissão dos hadiths negaram a autenticidade desses hadiths. Eles disseram que o jogo de xadrez só se difundiu e se tornou conhecido na época dos Companheiros. Antes disso, esse jogo não existia. Portanto, não se reconhece a existência de qualquer hadith sobre o assunto. Todos são inválidos. Qual era, então, a opinião dos Companheiros a esse respeito? Sabe-se que eles não tinham uma opinião unânime. Ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) disse:( Árabe*******************) «Jogar xadrez é pior do que jogar dados». Hadrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) disse:( Árabe*******************) Este jogo também é uma forma de jogo de azar. Segundo alguns Companheiros, ele é apenas makruh.

Por outro lado, segundo alguns Companheiros e tabi‘in, isso é permitido, um jogo inocente. Hazrat Ibn Abbas, Abu Huraira, Ibn Sirin, Hisham ibn Urwa, Zaid ibn al-Musayyib e Zaid ibn Jureira, entre outros, expressaram esta opinião.

Segundo o autor desta obra, a opinião desses últimos grandes especialistas é a correta. Pois, na verdade, não foi apresentada nenhuma prova decisiva de que este jogo seja haram. Além disso, ele envolve considerável exercício mental e treinamento do raciocínio. Por isso, é necessário considerá-lo diferente do jogo de gamão. Por essa razão, eles disseram que no gamão se obtém apenas diversão e entretenimento; essa é a sua característica. Já a particularidade do xadrez é que nele existe, e é necessária, a predominância da inteligência e da capacidade de raciocínio. Portanto, deve ser considerado semelhante ao tiro com arco.

Aqueles que consideraram este jogo permitido estabeleceram, neste ponto, três condições: (1) que ele não cause perturbação na oração, pois há nele um grande risco de a oração não ser realizada no horário; (2) que não envolva jogo de azar; e (3) que, durante o jogo, os jogadores mantenham suas bocas livres e purificadas de insultos, palavras feias e obscenas. Se essas condições forem violadas, ou mesmo se qualquer parte delas for transgredida, esse jogo também se tornará haram.

Canto e instrumentos musicais

[Aqui, o digno autor não mencionou o hadith sobre instrumentos musicais no qual o querido Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) declarou: “Fui enviado para eliminar os instrumentos musicais.” Por instrumentos musicais entendem-se aqueles instrumentos que despertam o desejo sexual latente do ser humano. — Tradutor]

Aquilo que normalmente atrai a mente das pessoas, proporciona satisfação e tranquilidade ao coração e derrama mel nos ouvidos é o canto ou a música. Do ponto de vista do Islã, não há problema no uso de instrumentos musicais juntamente com isso, desde que não haja uma combinação de impudência, linguagem feia e obscena, ou incentivo e estímulo para práticas pecaminosas.

Nas ocasiões festivas, para expressar alegria e satisfação, essas coisas não são apenas permitidas, mas também recomendáveis. Assim, podem ser usadas sem hesitação no Eid, em casamentos, por ocasião do retorno de um parente desaparecido, nas cerimônias de walima e aqiqah e no nascimento de um filho.

Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse que estava sendo realizado o casamento de uma moça com um homem da tribo dos Ansar. Então o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Ó Aisha! Não há alguma forma de alegria e entretenimento para elas? Pois os Ansar gostam muito dessas coisas.” (Bukhari)

Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) casou uma de suas parentes próximas com um jovem da tribo dos Ansar. Então o Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) veio e perguntou: “Vocês já enviaram a noiva?” Responderam: “Sim.” Ele perguntou: “Vocês enviaram com ela uma moça cantora?” Responderam: “Não.” Então ele disse:

As pessoas dos Ansar gostam muito de canções. Por isso, teria sido muito bom se vocês tivessem enviado com a noiva uma moça que cantasse: “Viemos até vocês, viemos à sua casa; que Allah nos conserve vivos, a nós e a vocês.” (Ibn Majah)

Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: duas meninas estavam em sua presença, cantando e tocando instrumentos no dia do Eid al-Adha. O Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) estava deitado, coberto com um pano. Nesse momento, Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) chegou. Ao ver aquilo, repreendeu as duas meninas. O Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) ouviu, descobriu o rosto e disse: “Ó Abu Bakr, deixe-as continuar. Agora é o momento da celebração do Eid.” (Bukhari, Muslim)

O Imam Ghazali mencionou, em sua obra ‘Ihya ul-Ulum’, muitos hadiths relacionados ao canto de duas meninas. Também mencionou os jogos dos abissínios na Mesquita do Profeta e o encorajamento que o Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) lhes ofereceu. Nessa ocasião, o Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) perguntou a Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela): “Você quer assistir a esse jogo?” Depois, permaneceu junto dela e mostrou-lhe o espetáculo. Todos esses hadiths foram citados em Bukhari e Muslim. Isso prova categoricamente que o canto e os jogos não são inteiramente haram. Há também provas da concessão prevista pela Shariah a esse respeito.

Primeiramente, deve-se considerar a questão do jogo. A dança e o gosto dos abissínios pelos exercícios e divertimentos são amplamente conhecidos. Em segundo lugar, o fato de isso ter ocorrido na Mesquita do Profeta; e, em terceiro, os elogios, o incentivo e o encorajamento oferecidos pelo Nobre Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) constituem provas de que essas coisas são mubah. Quando tudo isso está presente, como se pode dizer que são haram?

A quarta questão é que Hazrat Abu Bakr e Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ambos) haviam proibido aquilo. Mas o Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) impediu que ambos interferissem, deixou que continuasse e explicou a razão, dizendo que era a celebração do Eid. Era o momento de alegria e diversão. Essas são precisamente as ocasiões para desfrutar de alegria e diversão.

A quinta questão é que o Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) esperou durante bastante tempo para assistir àquilo e, para acompanhar Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela), também o escutou. Isso prova que proporcionar alegria a mulheres e crianças, mostrando-lhes jogos, é uma atitude de bom caráter. É muito melhor agir assim do que, adotando a secura e a severidade do ascetismo e da piedade, abster-se disso ou impedir que o façam, e impedir que outros participem.

A sexta questão é que, logo no início, ele disse a Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela):

Você quer ver?

E a sétima é permitir que duas meninas cantem e toquem instrumentos musicais.

Foi citado em fontes confiáveis que numerosos Companheiros e tabi‘in ouviam isso e não consideravam que houvesse qualquer problema. Os hadiths proibitivos relatados sobre esse assunto foram completamente abalados pelas críticas. Não há sequer um deles sobre o qual os especialistas em hadith e os juristas não tenham levantado objeções. O cádi Abu Bakr Ibn al-Arabi disse: “Nenhum hadith sobre a proibição do canto é autêntico.” Ibn Hazm disse: “Todas as narrações sobre este assunto são falsas e forjadas.”

O canto e os instrumentos musicais são geralmente usados em eventos de luxo e grande pompa, em reuniões de consumo de bebidas alcoólicas e em assembleias de vigílias noturnas. Por essa razão, muitos sábios os consideraram haram ou makruh. Outros sábios consideram que, na linguagem do Alcorão, esse canto e essa música são o “Lahw al-Hadith” mencionado neste versículo:( Árabe*******************)

Entre as pessoas há quem compre o “Lahw al-Hadith”, para, sem conhecimento algum, desviar as pessoas do caminho de Allah e para fazer desse caminho objeto de zombaria e escárnio. Para essas pessoas haverá um castigo humilhante.

Ibn Hazm disse que este versículo, ao mencionar como característica aquele que adota o “Lahw al-Hadith”, declara que tal pessoa é, sem dúvida, um kafir, pois zomba e escarnece do caminho de Allah. Se alguém compra um livro para desviar as pessoas e zombar e escarnecer do caminho de Allah, então é, sem dúvida, um kafir. Allah, o Altíssimo, mencionou no versículo acima a culpa dessa pessoa. Ele não mencionou nem censurou a culpa daquele que compra o “Lahw al-Hadith” não com o propósito de desviar as pessoas, mas somente com o propósito de brincar, divertir-se e entreter-se, buscando por meio dele o equilíbrio e a satisfação de seu temperamento e disposição.

Respondendo àqueles que dizem que o canto não é correto e que é necessariamente desvio, Ibn Hazm escreveu: o Mensageiro de Allah disse que o mérito ou demérito das ações depende das intenções. Portanto, quem ouve canto com a intenção de ser incentivado a cometer pecados é um fasiq. Por outro lado, quem o ouve com o propósito de alcançar equilíbrio em seu temperamento e disposição, obter força e coragem para atos de obediência a Allah e aumentar o interesse e o incentivo para boas e virtuosas ações, certamente não pratica algo injusto ou inválido. E aquele que não o ouve nem com a intenção de obedecer a Allah nem com a intenção de desobedecer-Lhe, sua ação é considerada uma atividade fútil; Allah poderá perdoá-lo. É como sair para caminhar no jardim de alguém, em campo aberto ou à margem de um rio; sentar-se à porta de sua própria casa apenas para fazer um passeio matinal ou vespertino, divertir-se e relaxar; ou tingir as próprias roupas de amarelo, verde ou qualquer outra cor, e coisas semelhantes.

Contudo, no que diz respeito ao canto, é necessário prestar atenção a alguns aspectos:

1. A letra ou o tema da canção não pode ser contrário aos ensinamentos e à ideologia islâmicos. Uma canção que descreva as virtudes do vinho ou convide ao consumo de álcool é certamente haram, pois inspira a prática de atos haram.

2. Muitas vezes, verifica-se que a canção talvez não seja contrária à ideologia islâmica, mas a musicalidade e a maneira de apresentação do cantor ultrapassam os limites do halal e chegam ao nível do haram. Isso ocorre, por exemplo, quando ela é apresentada com gestos muito alegres, sedutores e vergonhosos, com movimentos de balanço, imitando formas de indecência, provocando, por meio da emoção, a excitação e a agitação de uma tempestade, e sendo apresentada de modo a despertar a luxúria e provocar desastres.

3. A religião do Islã se opõe, em todos os assuntos, ao exagero e às condutas que ultrapassam os limites. O mesmo se aplica à adoração. Também não se pode tolerar qualquer transgressão dos limites no que diz respeito ao lahw. Nunca se deve dedicar tempo excessivo a isso, pois o tempo é o capital fundamental da vida.

Não há dúvida de que, quando se ultrapassam os limites e se exagera em atividades lícitas, é muito natural que haja negligência no cumprimento dos deveres verdadeiramente essenciais. Por isso, foi dito com toda propriedade:( Árabe*******************)

Vi o exagero chegar a tal ponto que, diante dele, a verdadeira realidade acaba sendo derrotada e destruída.

4. Ao ouvir certas canções, a própria pessoa pode emitir uma fatwa contra si mesma. Se, ao ouvi-las, suas emoções se exaltarem e ela for incentivada a causar danos, e se, em vez da espiritualidade, passar a predominar a bestialidade, então essas canções devem ser evitadas, e é desejável fechar a porta por onde sopra o vento do perigo.

5. Todos concordam que a canção que contém algo haram, como o consumo de álcool, a libertinagem e a depravação, é haram. Sobre isso, o nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) anunciou um severo castigo. Ele disse:( Árabe*******************)

Algumas pessoas da minha ummah beberão álcool e lhe darão um nome novo e diferente, em vez de seu nome verdadeiro. Instrumentos musicais serão tocados sobre suas cabeças, e cantoras cantarão. Allah fará a terra engoli-los e transformará alguns deles em macacos e porcos. (Ibn Majah)

De acordo com isso, não é necessário que a deformação se manifeste na forma e na aparência. Essa deformação também pode ocorrer na mentalidade e na visão de mundo; isto é, o corpo humano pode abrigar a alma e a mentalidade de um macaco e o espírito de um porco. Em outras palavras, humano na aparência, mas macaco e porco por natureza. [É preciso lembrar que, ao apresentar aqui o que escreveu em favor da permissibilidade da música, o autor mencionou condições cuja observância é muito difícil. Ora, as músicas que geralmente são ouvidas ou transmitidas em nosso país e em nossa sociedade, bem como as músicas de filmes que são divulgadas, não podem satisfazer essas condições. Portanto, não pode haver qualquer questão de que sejam lícitas. Pois elas constituem um dos principais meios de promover e disseminar a indecência e a sexualidade. São extremamente nocivas à moralidade. Cantores e cantoras, ao cantarem, encantam e fascinam homens e mulheres. Entretanto, o Islã atribuiu enorme importância à pureza moral e à castidade. Nem sequer foi permitida a uma mulher falar com um homem que não lhe seja maḥram, ou a um homem falar com uma mulher que não lhe seja maḥram, com voz suave e melosa. Isso foi declarado claramente no Alcorão Sagrado. No Islã, o prazer de um homem estranho em ouvir a voz doce de uma mulher é denominado adultério. Portanto, não pode haver dúvida alguma de que essas músicas são haram. Contudo, é universalmente reconhecida a permissibilidade das músicas que criam um autêntico espírito islâmico e despertam o ardor e a coragem para o jihād. —Tradutor]

Jogo, bebida alcoólica e companheiros

No Islã, muitos tipos de jogos e atividades de alegria e diversão foram declarados lícitos. Ao mesmo tempo, todos os jogos que envolvem apostas, bem como aqueles nos quais o ganho ou a perda financeira é parte inseparável, foram declarados haram. Nesse contexto, é memorável a palavra do nobre Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), na qual ele disse: se alguém disser: “Venha, vamos jogar apostando”, será obrigatório oferecer caridade como expiação (kaffāra) por esse pecado.

Portanto, assim como não é lícito ao muçulmano adotar o jogo de azar como meio de ganhar dinheiro, também não lhe é permitido adotá-lo como jogo, como meio de tranquilizar e satisfazer a mente ou como forma de recreação no tempo livre.

Por trás da proibição do jogo de azar há argumentos extremamente irrefutáveis e objetivos elevados.

1. É absolutamente obrigatório ao muçulmano seguir, para ganhar dinheiro, as regras e o caminho estabelecidos por Allah. Deve-se buscar alcançar os resultados por meio das causas. É preciso entrar em casa pela sua porta e buscar o resultado do meio adotado ou da ação realizada — esse é o objetivo do Islã.

O jogo de azar e a loteria também despertam nas pessoas a tendência de confiar no destino e em esperanças e aspirações infundadas. Allah deu importância e ordenou os esforços, o trabalho e

a adoção dos meios e das causas para ganhar dinheiro; o jogo de azar não incentiva as pessoas a adotá-los.

2. O Islã declarou ilícita para o muçulmano a propriedade alheia; portanto, ela só pode ser tomada mediante uma troca conforme à Sharia, ou quando o proprietário a dá voluntariamente como doação ou presente. Fora isso, tomá-la por qualquer outro meio é completamente haram. Sob esse ponto de vista, pode-se dizer que o jogo de azar é um método inválido e haram de usurpar a riqueza alheia.

3. O jogo de azar, por sua própria natureza, cria profunda inimizade, inveja e desejo de vingança entre os próprios jogadores, e isso não é de modo algum surpreendente. Pelas palavras e exteriormente, pode parecer que são amigos uns dos outros, mas, na realidade, o conflito entre vencedor e vencido e o fogo da inveja e da vingança ardem intensamente entre eles a todo momento. Mesmo que o vencido permaneça calado, ele continua ardendo de raiva, rancor e desejo de vingança pelo fracasso. Afinal, ele foi derrotado e perdeu tudo o que possuía. E, se começar a discutir e trocar palavras ásperas, esse ressentimento reprimido em seu coração o impele a buscar vingança.

4. Quando perde a aposta, o derrotado volta a jogar. Então começa a esperar que recuperará o que perdeu. Fica absorto nessa expectativa. Por outro lado, o vencedor se torna ávido; a cobiça lhe aguça o apetite. Por isso, é obrigado a jogar repetidamente. A ganância de pilhar cada vez mais dinheiro o torna cego e imprudente.

A continuidade do jogo prossegue assim, ininterruptamente. Nem o vencedor nem o vencido está disposto a deixar o outro.

5. Por isso, assim como o vício do jogo de azar traz perigo ao indivíduo, também provoca uma grave calamidade na sociedade. Esse vício não apenas rouba os bens e as riquezas das pessoas, mas também arruína suas vidas.

Esse jogo torna os jogadores completamente improdutivos. Eles recebem muitas coisas da vida, mas nada lhe oferecem. Eles consomem, mas não produzem. O jogador de azar fica tão absorto no jogo que se esquece completamente de suas próprias responsabilidades e deveres. Torna-se incapaz de cumprir as responsabilidades e os deveres que Allah lhe impôs para com Seus servos. Fica impossível para ele sequer se lembrar de sua família, da sociedade e do povo. Uma pessoa desse tipo não hesita em vender, em troca de seus próprios interesses, sua religião, sua fé, sua honra e dignidade e seu país. Isso ocorre porque a atração do jogo é tão intensa, e o amor e o apego ao jogo se tornam tão grandes e fortes diante dele, que começa a jogar em todos os assuntos e em todas as situações. Até mesmo, ao entregar-se à esperança de um ganho indefinido e incerto, começa a jogar com sua própria honra e dignidade, bem como com a fé e as crenças dele próprio e de toda a nação; esse é o desfecho natural.

Não é necessário analisar quão elevada é a prova de realismo que o Alcorão Sagrado apresentou ao reunir o vinho e o jogo de azar em um de seus versículos e mandamentos e declará-los haram da mesma maneira. Isso porque os danos e os efeitos nocivos de ambos recaem igualmente sobre o indivíduo, a família, o país e o caráter, sobre todas as coisas. O vício do jogo de azar é tão abrangente e perigoso quanto o vício do vinho. Além disso, onde um deles está presente, a presença do outro é inevitável.

O Alcorão disse que esses dois são obras de Satanás e mencionou-os juntamente com os altares de sacrifício e a adivinhação por meio de flechas, ordenando que todas essas práticas, como grandes fontes de pecado, fossem evitadas e abandonadas. Nesse contexto, o versículo do Alcorão é:( Árabe*******************)

Ó vós que credes! O vinho, o jogo de azar, os locais de sacrifício e os dados são impurezas, imundícies e obras satânicas. Afastai-vos delas, para que prospereis. Satanás só deseja lançar-vos na embriaguez e no jogo de azar, para criar entre vós inimizade e ódio, e afastar-vos da lembrança de Allah e da oração. Então, acaso não vos abstereis dessas coisas?

A loteria também é uma forma de jogo de azar

A loteria também é uma forma de jogo de azar! Considerá-la algo comum e julgá-la permitida em nome de instituições de benefício público e dos interesses humanos não pode, de modo algum, ser correto. Aqueles que consideram a loteria permitida para esse tipo de finalidade também não hesitam em arrecadar dinheiro para tais objetivos por meio de danças ilícitas, arte ilícita e coisas semelhantes. Mas isso não pode ser aceitável para nenhuma pessoa dotada de consciência sã. Queremos lembrá-los de que:( Árabe*******************)

Allah, o Altíssimo, é Puro e Santíssimo. Ele só aceita coisas puras. (Hadith)

Essas pessoas pensam que não há, entre o povo, qualquer desejo ou disposição para a compaixão humana e as boas ações. Elas não compreendem absolutamente nenhum significado das boas obras. Nada lhes resta sequer do senso de dever. Possuem apenas desejos, paixões e cobiças bestiais. Por isso, pensam que nada pode ser feito sem transformar em meio os espetáculos do jogo de azar, dos jogos proibidos e coisas semelhantes. Mas o Islã não apoia essa atitude e perspectiva em relação à sociedade muçulmana, nem permite recorrer a esses meios para qualquer boa ação. O Islã exorta à adoção de métodos e meios puros para um objetivo nobre e puro (Noble cause). E esse meio consiste em convocar às boas ações, despertar sentimentos humanos puros e convidar às obras benéficas com base na fé em Allah e na Vida Futura.

Assistir a filmes

Muitas pessoas desejam saber qual é a perspectiva do Islã sobre os cinemas e teatros da atualidade, e se é permitido aos muçulmanos entrar neles e assistir às suas apresentações.

Não se pode negar que os cinemas, teatros e outras coisas semelhantes constituem grandes meios de entretenimento e recreação. Ao mesmo tempo, não há dúvida de que esses meios modernos podem ser usados tanto para fins bons quanto para fins maus.

Do ponto de vista do Islã, pode-se dizer que, em sua essência e por si só, não há nenhum defeito ou mal no cinema ou nos filmes. A verdadeira questão é para que estão sendo utilizados e que objetivo se pretende alcançar por meio deles. Por isso, na opinião do autor desta obra, o cinema ou o filme é algo bom e excelente. Se for utilizado sob as condições abaixo mencionadas, pode ser muito benéfico.

Em primeiro lugar, o propósito e o objetivo refletidos e expressos por seu intermédio devem estar completamente livres de indecência, nudez, obscenidade e libertinagem. Esse propósito e objetivo também não devem ser contrários à crença islâmica, à sharia e às suas normas e leis. Se a história apresentada despertar nos espectadores baixos impulsos sexuais, criar inclinação para atos pecaminosos, incitar a atividades criminosas ou disseminar pensamentos e crenças errôneos, então esse tipo de filme é, sem dúvida, haram. Vê-lo não é halal nem permitido para nenhum muçulmano, e tampouco se pode incentivar alguém a assisti-lo.

[Não se pode imaginar que, em nossos países, algum dos filmes exibidos esteja livre desses propósitos errôneos e perniciosos. Geralmente, o amor entre jovens e os conflitos relacionados às mulheres constituem o tema principal dos filmes. A exibição da beleza e da juventude de homens e mulheres é o seu principal atrativo, brilho e fascínio. Além disso, há danças e músicas cativantes. Os diálogos amorosos dos filmes, que destroem a vergonha e a modéstia e prejudicam o caráter, contribuem enormemente para a decadência moral de nossa época. Portanto, isso não pode ser permitido de modo algum. Contudo, se algum filme estiver realmente livre dessas obscenidades e possuir uma orientação benéfica, não deve haver objeção a ele. — Tradutor]

Em segundo lugar, não se deve demonstrar negligência para com nenhum tipo de responsabilidade religiosa ou material. Em especial, não deve haver nenhum impedimento ao cumprimento das cinco orações diárias — obrigatórias para todo muçulmano. Por causa de assistir a um filme, não se deve perder a oração, especialmente a oração do maghrib. Nesse caso, assisti-lo não será permitido de modo algum. Então, isso estará incluído no seguinte versículo do Alcorão:( Árabe*******************)

Ai daqueles que oram, mas são negligentes e descuidados em relação à sua oração. (Surata Al-Ma’un)

Na explicação da( Árabe*******************) palavra deste versículo, afirma-se que a pessoa demonstra negligência em relação à oração quando não a realiza no horário. E no versículo citado anteriormente, foi dito que uma das principais razões pelas quais o vinho e o jogo são haram é que essas duas práticas impedem a pessoa de se lembrar de Allah e de realizar a oração, entre outras coisas, e não lhe permitem dedicar atenção a isso.

Em terceiro lugar, é dever dos espectadores de cinema evitar todo tipo de mistura e intimidade com homens e mulheres que não sejam seus mahram, bem como evitar lugares ou situações desse tipo. Isso pode colocar a moral das pessoas em perigo e despertar suspeitas na mente delas, especialmente porque os filmes geralmente são assistidos no escuro. Embora este hadith já tenha sido citado anteriormente em outro lugar, vale lembrá-lo também aqui:( Árabe*******************)

Para qualquer um de vocês, é muito melhor que uma agulha seja cravada em sua cabeça do que tocar uma mulher que não lhe é halal. (Bayhaqi, Tabarani)

Relações sociais

O Islã estabeleceu as relações mútuas entre os membros da sociedade sobre duas bases.

Uma delas é a relação de fraternidade mútua. Essa relação constitui um vínculo extremamente forte e indissolúvel entre as diferentes pessoas. A segunda é a preservação dos direitos, da honra e da dignidade: a segurança e a inviolabilidade do sangue, da honra e dos bens de cada pessoa. Tudo o que, por meio de palavras, comportamentos ou ações, enfraqueça, prejudique ou influencie negativamente essas duas bases é haram à luz do Islã. Não faz diferença se o dano é material ou cultural. Seja qual for sua natureza e sua intensidade, será haram na mesma proporção. O versículo abaixo menciona as coisas haram que são prejudiciais à fraternidade mútua e à dignidade humana:( Árabe*******************)

Os crentes são irmãos uns dos outros. Portanto, reconciliai vossos irmãos. E temei a Allah, para que vos seja concedida misericórdia. Ó vós que credes! Que nenhum homem zombe de outros homens com desprezo, pois estes podem ser melhores do que ele! Não vos causeis sofrimento ou tristeza uns aos outros, nem vos chameis por apelidos ofensivos. Depois da fé, a perversidade é um nome extremamente abominável. E aqueles que não se arrependem e não abandonam isso são os injustos.

Ó vós que credes! Afastai-vos de muitas conjecturas infundadas. Algumas conjecturas são pecados manifestos. E não fiqueis procurando os defeitos das pessoas; que ninguém divulgue os defeitos de outro em sua ausência. Por acaso algum de vós gostaria de comer a carne de seu irmão morto? Vós certamente detestaríeis isso. E adotai a taqwa de Allah. Sabei, com certeza, que Allah é Grandíssimo em aceitar o arrependimento e Misericordioso. (Surata Al-Hujurat: 10–12)

No primeiro versículo, Allah disse que os crentes são irmãos uns dos outros. Aqui estão presentes tanto a fraternidade humana quanto a fraternidade religiosa. Ambas estão reunidas e integradas. A exigência dessa fraternidade é que eles não permaneçam estranhos ou desconhecidos uns dos outros. É absolutamente desejável que exista entre eles uma profunda união. Não permanecerão separados uns dos outros, mas estreitamente unidos. Não haverá entre eles inimizade, inveja ou rancor; haverá amor sincero, misericórdia e compaixão. Não haverá entre eles conflito nem divergência de opinião; trabalharão em total acordo. Por isso, foi dito no hadith:( Árabe*******************)

Não vos entregueis à inveja e ao rancor uns contra os outros; não vos volteis as costas nem vos afasteis uns dos outros. Não deis espaço à ira e ao descontentamento mútuos; ao contrário, sede servos de Allah e irmãos uns dos outros.

Não romperá as relações com seu irmão muçulmano

Por essa razão, é proibido e considerado haram tratar qualquer irmão muçulmano com crueldade e dureza, boicotá-lo ou manter-se afastado dele. Quando surge ódio e hostilidade entre dois muçulmanos, são concedidos apenas três dias para controlar a ira. Depois disso, é obrigatório esforçar-se para promover a reconciliação, o entendimento e a harmonia mútuos, bem como eliminar as causas que deram origem à ira e à hostilidade. No Alcorão Sagrado, foi dito sobre as qualidades dos muçulmanos crentes:( Árabe*******************)

Extremamente afáveis, humildes e compassivos para com os crentes. (Surata Al-Ma’idah: 54)

O Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse:( Árabe*******************)

Não é lícito nem permitido a um muçulmano romper relações com seu irmão por mais de três dias. Depois de transcorridos três dias, ele deve encontrá-lo e saudá-lo com o salam. Se este responder à saudação, ambos compartilharão da recompensa. Mas, se não responder, será ele o pecador, enquanto aquele que o saudou ficará livre do pecado de romper relações. (Abu Dawud)

O Islam declarou obrigatória a manutenção dos laços de parentesco com os parentes consanguíneos. Quanto mais estreito for esse vínculo, maior e mais forte será a exigência de preservá-lo. Romper esse vínculo é severamente haram. Allah, o Altíssimo, disse:( Árabe*******************)E temei Allah, em cujo nome exigis uns dos outros os vossos direitos. E respeitai e preservai os laços de parentesco. Certamente, Allah está sempre vigilante sobre vós. (An-Nisa: 1)

Para explicar, de forma metafórica, a importância desses laços de parentesco e seu valor e dignidade perante Allah, foi dito:( Árabe*******************)O rahim — o parentesco consanguíneo — ficará suspenso junto ao Trono e dirá: “Quem me preservar, Allah o preservará; e quem me romper, Allah romperá com ele.” (Bukhari, Muslim)

Disse:( Árabe*******************)

Aquele que rompe os laços de parentesco jamais entrará no Paraíso. (Bukhari, Muslim)

Ao explicar este hadith, os eruditos apresentaram duas opiniões. Uma é que se trata daquele que rompe os laços de sangue; a outra, daquele que é assaltante, ladrão e assassino nas estradas — isto é, ambos são criminosos do mesmo nível.

A questão dos laços de parentesco não significa que um parente próximo só deva manter relações com outro parente próximo quando este também as mantiver; que só deva tratá-lo bem quando este também o tratar bem. Essa atitude de insistir em reciprocidade é indesejável. Isso é algo natural. O obrigatório é que, mesmo que alguém rompa os laços, a pessoa continue a preservá-los. O Profeta (s.a.w.) disse:(Árabe*******************)Não é aquele que mantém os laços de parentesco quem retribui na mesma medida. Pelo contrário, aquele que mantém esses laços é quem os preserva com quem os rompe. (Bukhari)

Isto se aplica quando o rompimento dos laços e o boicote não são por Allah, no caminho de Allah e pela verdadeira justiça. Caso contrário, um dos maiores meios de fortalecer a fé é amar por Allah e romper por Allah devido à inimizade.

O Profeta (s.a.w.) e seus Companheiros romperam as relações durante cinquenta dias com aqueles que haviam ficado para trás na expedição de Tabuk. Por fim, a vida destes últimos tornou-se insuportável e chegaram a uma situação angustiante. Ninguém se sentava com eles, falava com eles nem lhes dava a saudação. Então Allah revelou versículos anunciando que aceitara o seu arrependimento.

O Profeta (s.a.w.) chegou a romper as relações com algumas de suas esposas por até quarenta dias. Abdullah ibn Umar (r.a.) rompeu as relações com seu filho. Por fim, ele morreu. A razão foi que não praticou de modo algum um hadith do Mensageiro (s.a.w.), que ele havia transmitido do Mensageiro. Nesse hadith, o Mensageiro (s.a.w.) proibira as mulheres de ir à mesquita.( Árabe*******************)

Mas, se este conflito mútuo e rompimento das relações ocorrerem por alguma questão material mundana, simplesmente devido a um conflito de interesses, isso será algo muito insignificante. Como pode um muçulmano entrar em conflito com seu irmão muçulmano quando há o risco de, por causa disso, ser privado do perdão e da misericórdia de Allah? Foi dito em um hadith autêntico:( Árabe*******************)

As portas do Paraíso são abertas às segundas e quintas-feiras. Então Allah perdoa todo servo que não associa absolutamente nada a Ele. Contudo, não perdoa aquele entre quem e seu irmão há inimizade, ódio e ressentimento. Então Allah diz: “Deixai-os de lado até que se reconciliem; abandonai-os até que façam as pazes; deixai-os até que estabeleçam a harmonia entre si.” (Muslim)

E aquele que tiver um direito legítimo e for até seu irmão pedir perdão deve ser perdoado por ele e deve abster-se da disputa e da contenda. É haram rejeitar um pedido de perdão acompanhado de uma justificativa. O Profeta (s.a.w.) advertiu tal pessoa, dizendo que, no Dia da Ressurreição, ela não poderá comparecer diante dele junto ao Hawd al-Kawthar.( Árabe*******************)

Promover a reconciliação e o entendimento mútuo

É dever das duas pessoas em conflito, em consideração aos laços de fraternidade, eliminar suas divergências e desavenças mútuas e chegar à reconciliação e ao entendimento. Assim como isso é verdade, a sociedade também tem responsabilidade nessa questão. Pois a sociedade islâmica significa uma coletividade humana cujos membros se ajudam e se complementam mutuamente. Portanto, é inconcebível que a sociedade veja dois de seus membros em conflito e envolvidos em agressões físicas e, ainda assim, desempenhe o papel de espectadora silenciosa, mantendo-se a uma distância segura. Isso não pode ser permitido de modo algum. Caso contrário, os dois continuarão sendo consumidos pelo fogo da disputa e da discórdia, e esse fogo se expandirá gradualmente até incendiar e reduzir a cinzas toda a sociedade.

Ao contrário, é dever das pessoas sensatas, influentes e respeitadas intervir e empenhar-se em reconciliar essas duas pessoas em conflito, com o único objetivo de defender a verdade e a justiça, mantendo-se afastadas de se tornarem escravas de suas paixões. Allah, o Altíssimo, ordenou:( Árabe*******************)

Reconciliai vossos dois irmãos e temei a Allah. Talvez vos seja concedida misericórdia. (Surata Al-Hujurat: 10)

O próprio Profeta (s.a.) explicou a elevada importância da reconciliação e do estabelecimento da harmonia, bem como as más consequências das disputas e desavenças mútuas, dizendo:( Árabe*******************)

Quereis que vos fale de uma ação melhor até mesmo do que as orações voluntárias, o jejum e a caridade? Os Companheiros disseram: Sim, Mensageiro de Allah, diga-nos. Ele disse: É a reconciliação e o estabelecimento da harmonia entre as pessoas. Pois as disputas e desavenças mútuas são algo que raspa. Não digo que raspam os cabelos; digo, antes, que eliminam a própria religião.

Não é correto zombar dos outros

No versículo citado anteriormente, Allah, o Altíssimo, declarou ilícitas todas as ações que destroem os laços de fraternidade mútua e que prejudicam a dignidade humana.

A primeira coisa nesta categoria é ridicularizar e humilhar as pessoas, tentar rebaixar alguém. Portanto, para qualquer crente que conhece Allah e busca a salvação na vida futura, não pode ser de modo algum permitido querer ou chegar a ridicularizar, humilhar e desonrar qualquer pessoa, transformá-la em alvo de repreensões e palavras ofensivas, e atormentá-la dia e noite. Pois pode-se considerar que aquele que pratica esse ato possui uma arrogância oculta — uma mentalidade mesquinha de se considerar superior aos outros. Essa pessoa não sabe absolutamente qual é o critério de bondade perante Allah. É por isso que Allah, o Altíssimo, disse:( Árabe*******************)

Nenhum homem deve ridicularizar ou humilhar outro homem, pois este pode ser melhor do que ele. Da mesma forma, nenhuma mulher deve ridicularizar ou humilhar outras mulheres, pois elas também podem ser melhores do que ela.

Na verdade, o critério de bondade perante Allah é constituído pela fé, pela sinceridade e por uma boa relação com Allah. Ele não se baseia na aparência, no aspecto físico, na honra e no prestígio, nem na riqueza e nos bens. Foi dito no hadith:( Árabe*******************)

Allah não olha para a aparência nem para os bens de vocês, e não lhes atribui importância. Ele olha para os seus corações e para as suas ações; é isso que tem importância perante Ele.

Nessas circunstâncias, poderia algum homem ridicularizar, humilhar e insultar outro homem, ou alguma mulher outra mulher, por causa da constituição física, de alguma deficiência ou imperfeição corporal, ou da pobreza e da falta de recursos? Poderia isso ser permitido de algum modo?

Foi narrado no hadith que, quando a roupa que cobria a canela de Abdullah ibn Masud (que Allah esteja satisfeito com ele) se soltou, viu-se que ela era muito fina e estreita. Alguns dos presentes, ao verem isso, começaram a rir com escárnio. Então o Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse:( Árabe*******************)

Vocês estão rindo das suas pernas leves, finas e estreitas? Juro, em nome d’Aquele em cuja mão está a minha vida, que essas duas pernas pesarão mais na balança de Allah do que o monte Uhud.

O Alcorão Sagrado apresentou como os criminosos idólatras ridicularizavam, humilhavam e insultavam os crentes muçulmanos, especialmente os mais fracos entre eles, como Bilal e Ammar. Também declarou como, no Dia da Ressurreição, a balança se inverterá e aqueles que hoje ridicularizam, humilham e insultam serão então objeto de escárnio. Foi dito:( Árabe*******************)

Os criminosos costumavam rir com escárnio dos crentes. Quando passavam por eles, faziam sinais uns aos outros. E, quando retornavam para junto de suas famílias, demonstravam grande satisfação e triunfo. Ao vê-los, diziam: “Estes são todos desviados.” No entanto, não foram enviados como guardiões deles. Por isso, hoje os crentes rirão com escárnio dos incrédulos.

As palavras iniciais deste versículo já incluem a proibição de as mulheres ridicularizarem e humilharem umas às outras. Apesar disso, considerou-se necessário falar delas separadamente e em termos claros, afirmando que nenhuma mulher deve ridicularizar ou humilhar outras mulheres. Isso se deve ao fato de que esse comportamento entre mulheres revela um caráter e uma disposição extremamente abomináveis e repulsivos, sendo algo que se observa entre elas de forma ampla e evidente.

Difamar e acusar

O segundo ato proibido desta categoria é difamar e acusar outras pessoas. Quem difama e acusa os outros é como se os ferisse e os deixasse mutilados com golpes de flechas ou espadas. Mas a ferida causada pelas palavras é ainda mais grave. Na poesia árabe, diz-se:( Árabe*******************)

As feridas de lanças cicatrizam e saram, mas a ferida causada pelas palavras jamais se cura.

A maneira como a palavra foi empregada no versículo é uma manifestação da singularidade da revelação de Allah. Diz-se:( Árabe*******************)— Não vos firais nem vos mutileis uns aos outros.

Isto é, não vos firais nem vos mutileis uns aos outros. Disso se entende claramente que o Alcorão considera a sociedade muçulmana “uma personalidade indivisível”. Pois todos são responsáveis uns pelos outros e complementam-se mutuamente. Assim, se uma pessoa fere seu irmão, na realidade ela fere e mutila a si mesma.

Chamar por epítetos ofensivos

Assim como é haram ferir os outros, também é haram chamar uns aos outros por apelidos ofensivos. É proibido chamar alguém por uma palavra ou nome que lhe cause desconforto e que ele deteste. Isso o humilha, ridiculariza e fere, causando dor em seu coração. Ninguém deve, porém, magoar dessa forma seu irmão. Isso deteriora o estado de espírito das pessoas e transgride os limites da fraternidade. É uma atitude contrária à cortesia e ao bom gosto comuns.

Má opinião

O Islã deseja que os membros da sociedade muçulmana convivam uns com os outros com uma disposição interior pura, limpa e livre de culpa. Deseja que se estabeleçam entre eles plena confiança e mútua dependência, e que não alimentem qualquer suspeita, desconfiança ou incredulidade uns em relação aos outros. Ninguém deve nutrir má opinião sobre outra pessoa nem acusá-la falsamente. Por essa razão, isso foi mencionado no versículo anteriormente citado como o quarto ato proibido e haram. Pois o Islã jamais está disposto a tolerar, em qualquer circunstância, a violação da honra e da dignidade das pessoas. Foi dito:( Árabe*******************)

Ó vós que credes, evitai muitas suposições acerca das pessoas; por certo, algumas suposições são pecado. (Surata Al-Hujurat: 12)

É evidente que, neste contexto, por “suposições” se entende nutrir más opiniões.

Portanto, nenhum muçulmano deve nutrir má opinião sobre seu irmão muçulmano enquanto não houver uma prova incontestável.

Deve-se presumir, como princípio, que as pessoas são inocentes. De modo algum é correto que os sussurros da má opinião condenem pessoas inocentes como culpadas. Por isso, o Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) disse:( Árabe*******************)

Mantende-vos afastados das más opiniões acerca das pessoas, pois a má opinião é a fala mais falsa.

É verdade que, devido à fraqueza humana, muitas vezes as pessoas não conseguem manter-se afastadas de suspeitas infundadas e coisas semelhantes. Surgem-lhes dúvidas a respeito de algumas pessoas, especialmente daqueles com quem as relações se deterioraram. Contudo, é dever de todo muçulmano não se submeter a essa suspeita infundada, isto é, não lhe dar espaço nem ficar correndo atrás dela. Também foi narrado um hadith sobre este assunto:( Árabe*******************)

Quando surgir em teu coração uma suspeita infundada, não a consideres verdadeira.

Ficar procurando defeitos

A desconfiança em relação às outras pessoas empurra o ser humano para um estado psicológico oculto. E isso consiste em alimentar suspeitas infundadas. Então ele se envolve numa atividade física externa: ficar procurando defeitos. No entanto, o Islam está firmemente empenhado em manter a sociedade humana num ambiente puro e imaculado, tanto interior quanto exteriormente.

Por isso, ao mesmo tempo que proibiu alimentar suspeitas infundadas, também proibiu ficar procurando os defeitos alheios. Pois essa suspeita infundada é a principal causa de se procurar defeitos.

Na verdade, toda pessoa possui honra e dignidade. Procurar seus defeitos, violar o tratamento que preserva sua honra e dignidade e expor publicamente, deixando a descoberto e desnudando, aquilo que ela mantém oculto não pode de modo algum ser permitido. Não importa que alguém esteja pessoalmente envolvido em algum defeito ou pecado. Enquanto isso permanecer oculto, tomar a iniciativa de revelá-lo é uma atitude totalmente imprópria e indesejável.

Abu al-Haytham, escriba de Hazrat Uqba ibn Amir (que Allah esteja satisfeito com ele), disse: Eu disse a Uqba ibn Amir: Tenho alguns vizinhos que bebem álcool e quero chamar a polícia para entregá-los. Então ele disse: Não faças isso. Instrui-os, aconselha-os e exorta-os. Eu disse: Já os proibi muitas vezes, mas eles não me escutam. Nessa situação, o que se pode fazer além de chamar a polícia para entregá-los? Ele disse: Não, ai de ti! Não faças isso. Ouvi o Nobre Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) dizer:( Árabe*******************)

Quem ocultar o segredo de alguém e não o revelar será como aquele que devolveu a vida a uma pessoa enterrada viva em seu túmulo. (Abu Dawud, Nisai, Ibn Majah)

O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) classificou a busca pelos defeitos ocultos das pessoas entre as características dos hipócritas. E os hipócritas são aqueles que dizem com a boca: “Cremos”, mas, na realidade, seus corações não creram. O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) criticou severamente essas pessoas diante de todos. Segundo Ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ele), ele disse: O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) levantou-se sobre o púlpito e, chamando em voz alta, disse:( Árabe*******************)

Ó vós que aceitastes a fé e o Islam apenas com a boca, mas cuja fé ainda não alcançou o coração! Não causeis sofrimento aos muçulmanos e não procureis seus defeitos ocultos. Pois quem procura os defeitos ocultos de seu irmão muçulmano terá seus próprios defeitos procurados por Allah. E aquele cujos defeitos ocultos Allah procurar será exposto e humilhado por Ele, mesmo que esteja sentado num canto de sua casa. (At-Tirmidhi, Ibn Majah)

Com o objetivo de preservar plenamente a honra e garantir a segurança das pessoas, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) proibiu rigorosamente entrar na casa de alguém sem a permissão de seus moradores. Por isso, informou que, se houvesse alguma reação por parte dos moradores da casa, não haveria pecado. Disse:( Árabe*******************)

Se alguém espiar dentro da casa de outra pessoa sem a permissão de seus moradores, tornou-se plenamente lícito para os moradores furar-lhe o olho.

Foi declarado ilícito que outras pessoas escutem as conversas daqueles que estão falando dentro de uma casa, sem que eles saibam e deem permissão. O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse:( Árabe*******************)

Quem escutar secretamente a conversa de outras pessoas — embora elas não queiram que alguém as escute às escondidas — terá chumbo derretido derramado em ambos os ouvidos no Dia da Ressurreição. (Al-Bukhari)

Se alguém for à casa de outra pessoa para visitá-la, é totalmente ilícito entrar nela sem sua permissão e sem saudá-la. Portanto, deve primeiro cumprimentá-la com a saudação de paz e pedir permissão para entrar. Isso é obrigatório. Foi declarado:( Árabe*******************)

Ó vós que credes! Não entreis em casas alheias sem antes pedir permissão e saudar seus moradores. Isso é melhor para vós; talvez vos lembreis. Se não encontrardes ninguém na casa, não entreis nela até que vos seja dada uma conduta mais pura. Allah está plenamente ciente de tudo quanto fazeis. (Surata An-Nur, 27–28)

É mencionado no hadith: ( Árabe*******************)

Quem quer que revele algo oculto e lance o olhar antes de receber permissão, entrou numa esfera na qual não lhe é lícito entrar. (Ahmad, Tirmidhi)

Investigar os defeitos alheios — procurar minuciosamente e descobrir falhas ocultas — é, em geral, haram para todos. Esta proibição vale para governantes e administradores, bem como para o povo governado. Ninguém está isento disso; não é permitido a ninguém. Hazrat Mu‘awiya (r.a.) narrou do Mensageiro Nobre (s.a.w.); ele disse: ( Árabe*******************)

Se você passar a procurar os defeitos ocultos das pessoas, irá arruiná-las ou levá-las à beira da ruína. (Abu Dawud, Ibn Majah)

Ele também disse: ( Árabe*******************)

Quando o governante ou administrador começa a procurar entre as pessoas conversas que suscitem suspeitas e dúvidas, ele as corrompe. (Abu Dawud)

Ghibah

A sexta coisa proibida pelo versículo acima é a ghibah. O trecho do versículo é: ( Árabe*******************)

Não façam ghibah uns dos outros. (Surata al-Hujurat: 21)

O Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) explicou aos seus Companheiros, por meio de perguntas e respostas, a definição da palavra “ghibah”. Dirigindo-se a eles, disse: ( Árabe*******************)— Vocês sabem o que é ghibah?

Os Companheiros disseram: Allah e Seu Mensageiro sabem melhor. Então ele disse: ( Árabe*******************)

Mencionar o seu irmão de uma maneira que ele próprio não aprova: isso é ghibah. Perguntaram: Ó Mensageiro de Allah, e se aquilo que digo realmente existir nesse meu irmão; ainda assim será ghibah? Ele respondeu: Se aquilo que dizes realmente existir nele, então isso é ghibah. Mas, se não existir, será então buhtan — uma falsa acusação. (Muslim, Abu Dawud, Tirmidhi, Nasa’i)

Dizer, na ausência de uma pessoa, algo sobre ela que ela não gosta: isso inclui sua constituição física, aparência, caráter, ações, linhagem e tudo o que estiver relacionado a ela. A Senhora Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: ( Árabe*******************)

Eu disse ao Mensageiro Nobre (que a paz esteja com ele): “Já basta mencionar que sua esposa Safiyya é baixa.” Então o Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) disse: “Você proferiu uma palavra que, se fosse misturada à água do mar, mudaria a cor dela.” (Abu Dawud, Tirmidhi, Bayhaqi)

Na realidade, a ghibah revela a manifestação de uma disposição perversa ao rebaixar os outros. Aproveitar a ausência deles para ferir sua honra, respeito e dignidade é um forte desejo que atua no interior. Isso revela a mentalidade inferior, a baixeza e a disposição perversa de quem pratica ghibah. Pois equivale a atacar pelas costas. Isso prova que quem pratica ghibah não tem nada próprio para fazer. É justamente ele que demonstra habilidade na prática da ghibah. A tendência à ghibah é uma atividade destrutiva para a sociedade, pois pouquíssimas pessoas conseguem escapar dos golpes da espada da língua daqueles que estão acostumados a praticá-la.

Nessas circunstâncias, se o Alcorão Majيد revelou sua forma horrível e repugnante e a apresentou de maneira a despertar intensa aversão no coração das pessoas, não há motivo para espanto. A imagem é esta: ( Árabe*******************)

Que nenhum de vós faça maledicência contra outro. Acaso algum de vós gostaria de comer a carne de seu irmão morto? Isso certamente vos causa repulsa.

Na verdade, uma pessoa jamais pode gostar de comer a carne de outra pessoa. Então, como poderia ser possível para alguém comer a carne de seu próprio irmão — comer a carne de um irmão morto?

Sempre que encontrava oportunidade, ocasião e ambiente propícios, o Nobre Profeta (s.a.w.) revelava essa imagem da ghibah, pois queria que esse quadro horrendo permanecesse sempre vivo na mente das pessoas.

Hazrat Ibn Mas’ud (r.a.) disse:( Árabe*******************)

Estávamos na presença do Mensageiro Nobre (s.a.w.). Então, um homem saiu da reunião. Nesse momento, outro homem disse algo insultuoso a respeito dele. O Nobre Profeta (s.a.w.) disse a esse homem: “Faça khilal.” O homem perguntou: “Por que devo fazer khilal? Eu não comi carne alguma!” O Nobre Profeta (s.a.w.) respondeu: “Acabas de comer a carne de teu irmão.”

Foi narrado por Hazrat Jabir (r.a.), que disse:( Árabe*******************)

Estávamos na presença do Nobre Profeta (s.a.w.) quando soprou um vento muito fétido. O Nobre Profeta (s.a.w.) perguntou: “Sabeis de que é este vento?… É o vento dos crentes que praticam a ghibah.” (Ahmad)

Limites da permissão da ghibah

Todos os versículos do Alcorão e hadiths citados acima provam inequivocamente que, no Islã, a dignidade do indivíduo é extremamente sagrada e protegida.

Contudo, segundo os especialistas em questões islâmicas, há alguns aspectos da ghibah que constituem exceções à proibição. Quando, por necessidade, não há outra maneira senão praticar a ghibah, trata-se de uma dessas exceções, e essa concessão só pode ser utilizada em razão da necessidade.

Quando o oprimido apresenta uma queixa contra o opressor, ele revela coisas sobre este que, embora desagradem ao opressor, são todas verdadeiras, e o oprimido também tem esse direito. Quando, num caso de opressão, surge a necessidade de falar contra alguém para apresentar uma queixa, isso deve ser dito. Allah, o Altíssimo, disse:( Árabe*******************)

Allah, o Altíssimo, não gosta de modo algum que palavras más sejam divulgadas e propagadas; porém, a situação daquele que foi oprimido é uma exceção. E Allah é Oniouvinte, Onisciente. (Surata An-Nissá, 148)

Uma pessoa pergunta sobre outra pessoa específica com o propósito de, caso descubra que ela tem bom caráter, associar-se a ela em um negócio; ou alguém pergunta sobre um rapaz que pretende pedir sua filha em casamento. Em todos esses casos, de um lado está o dever de informar às pessoas a verdade e a situação real, e, de outro, o dever de preservar a honra e a reputação da pessoa ausente. Há uma forte oposição e conflito entre essa responsabilidade e esse dever. Mas, como o primeiro dever é o mais importante e sagrado, sua prioridade deve necessariamente ser reconhecida. Fátima bint Qays informou ao Profeta ﷺ sobre as duas propostas de casamento que recebera e pediu-lhe conselho sobre qual deveria aceitar. Então, referindo-se a um deles, ele disse: “Esse homem bate muito na esposa. Nunca tira o bastão do ombro.”

Entre essas exceções também está falar com o objetivo de corrigir a injustiça e o pecado. Segundo os hadiths, isso é um dever.

Se a única forma de identificar uma pessoa for por um nome de que ela não gosta, mas sem mencioná-lo não for possível reconhecê-la — como al-A’raj, “o Coxo”, al-A’mash, “o de visão fraca”, ou “filho de tal mulher”, por exemplo —, então esse nome deve ser mencionado apenas com o propósito de identificá-la. Interrogar testemunhas, narradores de hadith e informantes, bem como discutir suas qualidades e defeitos de caráter, também se inclui nessa categoria.

Nesta categoria, há duas bases para a permissibilidade da “ghibah”:

Primeiro, a necessidade; segundo, a intenção — o estado de espírito. Ninguém deve aventurar-se neste campo proibido até que se torne premente a necessidade de mencionar algo que desagrada à pessoa ausente. Se a necessidade puder ser satisfeita por meio de alusões e insinuações, deve-se evitar falar de modo explícito. Ou pode-se falar de maneira geral, sem mencionar uma pessoa específica. Por exemplo, uma forma de perguntar seria: “Qual é a sua opinião sobre alguém que faz isto e aquilo?” Não se deve dizer: “Fulano, filho de fulano”. Ao falar de algo que realmente existe na pessoa em questão, há condições a observar. Porém, se for dito algo que não existe nela, isso será uma acusação inteiramente falsa e completamente ilícita.

A intenção: este é o fator decisivo de todas as questões nesta etapa. Somente ele sabe melhor do que os outros por que está dizendo aquilo. É com base nessa intenção que se pode distinguir entre ghibah, crítica, conselho e divulgação de defeitos, entre outras coisas. Também é verdade que o crente é capaz de examinar a si mesmo com grande rigor quanto às suas próprias atitudes, e assim o faz.

Do ponto de vista do Islã, também é certo que aquele que ouve ghibah deve ser considerado participante desse ato. E é dever de cada pessoa ajudar seu irmão em sua ausência e falar em sua defesa. Foi dito no hadith: ( Árabe*******************)

Quem protegeu a honra de seu irmão na sua ausência e afastou dele uma acusação, tem o direito de que Allah o salve do Inferno. (Ahmad)

( Árabe*******************)

Quem protegeu a honra de seu irmão neste mundo, Allah afastará dele o Inferno no Dia da Ressurreição. (At-Tirmidhi)

Aquele que não tem semelhante coragem, que não consegue proteger seu irmão do golpe contra sua honra, tem pelo menos o dever de deixar aquela reunião e afastar-se daquelas pessoas, até que elas se ocupem de outro assunto. Se nem isso fizer, estará abrangido por esta palavra de Allah: ( Árabe*******************)— Então vocês também se tornaram como eles. (Surata An-Nisā’, 140)

Delação maliciosa

Sempre que se menciona a maledicência, menciona-se também outra conduta que, na perspectiva do Islã, é tão rigorosamente proibida quanto a maledicência. Trata-se da intriga: ouvir da boca de alguém algo contra outra pessoa e transmiti-lo a esta de tal maneira que surja uma briga entre as duas, desapareça a pureza mútua de seus corações e se produzam mácula e impureza. Ou então, que a mácula e a impureza já existentes se agravem ainda mais.

Foi ainda nas suratas makki que Allah revelou Suas palavras em reprovação a esse tipo vil e perigoso de conduta. Nelas, é dito:( Árabe*******************)

Não deis ouvidos a tal pessoa: alguém que jura excessivamente e é desprezível, que causa sofrimento às pessoas, espalha maldições e anda praticando intrigas. (Surata Al-Qalam: 10–11)

O nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse:( Árabe*******************)

O intrigante não entrará no Paraíso. (Bukhari, Muslim)

Aqui, a palavra “qattāt” significa intrigante. Alguns dizem que, na realidade, o intrigante é aquele que se junta a um grupo de pessoas envolvidas numa conversa e depois se volta contra elas, praticando intrigas. Já “qattāt” seria aquele que, sem o conhecimento das pessoas, escuta sua conversa e começa a falar contra elas.

O nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse:( Árabe*******************)

Os piores servos de Allah são aqueles que praticam intrigas, provocam discórdia e divisão entre amigos e continuam procurando defeitos em pessoas inocentes. (Ahmad)

O Islã declarou lícito, para aqueles que se esforçam por eliminar as disputas mútuas e promover a reconciliação e a harmonia, que não revelem, apesar de conhecerem as piores coisas a respeito de uma pessoa. Além disso, poderão acrescentar, por iniciativa própria, algumas palavras muito boas, ainda que não as tenham ouvido de uma pessoa sobre a outra.

Sobre aqueles que ouvem alguma palavra má em algum lugar e imediatamente vão transmiti-la a outros com intuito conspiratório ou para provocar inimizade, recaem a intensa ira e o furor do Islã. Isso porque agem com a má intenção de causar destruição e desordem na sociedade.

Esse tipo de pessoa não se limita ao que ouviu; movido por uma mentalidade destrutiva para a sociedade, não hesita em acrescentar muito por iniciativa própria ao que ouviu e até em inventar coisas segundo a sua imaginação. Quando ouve algo bom, mantém-no em segredo. Quando ouve algo mau, divulga-o amplamente. E, quando não ouve nada, mente.

Um homem transmitiu ao venerável Umar ibn Abd al-Aziz, em nome de outra pessoa, algo de que ele não gostou. Então o califa Umar II disse: “Se quiser, examinarei o seu caso. Mas, se você for mentiroso, estará incluído no teor deste versículo do Alcorão: ”( Árabe*******************)

Se um perverso vier até vocês com alguma notícia, verifiquem cuidadosamente a sua veracidade e exatidão.

E, se você for veraz, estará incluído no âmbito deste versículo: ( Árabe*******************) E, se quiser, nós o perdoaremos.” O homem disse: “Ó Amir al-Mu’minin, perdoe-me. Não voltarei a fazer algo assim.”

Preservação da honra e da dignidade

Já vimos quanta importância o Islã, por meio de seus ensinamentos elevados, atribui à preservação da honra, da dignidade e do respeito das pessoas. Também é digno de nota que a preservação da dignidade humana chegou até os limites das normas relativas à sua santidade. Certa vez, o venerável Abdullah ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) começou a olhar para a Caaba e a dizer: ( Árabe*******************)

Ó Caaba! A tua dignidade é imensa; que mais poderia dizer sobre a grandeza da tua dignidade? Mas a dignidade do crente é muito mais elevada e grandiosa do que a tua. E a dignidade do crente se reflete em sua honra, em seu sangue e em seus bens.

No sermão da Peregrinação de Despedida, o nobre Profeta (que a paz esteja com ele) dirigiu-se à grande multidão muçulmana e disse:( Árabe*******************)

Sabei que os vossos bens, a vossa honra e o vosso sangue são sagrados e invioláveis uns para os outros, assim como é sagrado o dia de hoje, neste mês e nesta cidade.

O Islã também protegeu a honra e a dignidade do indivíduo ao proibir que, em sua ausência, se diga a seu respeito algo que seja verdadeiro, mas de que ele não goste. Como poderia, então, haver espaço para dizer algo inventado e sem fundamento? Se isso for dito, será um crime e um pecado gravíssimo. Foi narrado num hadith:( Árabe*******************)

Quem disser a respeito de alguém algo que não existe nele, com o único objetivo de incriminá-lo, será mantido por Allah no Inferno no Dia da Ressurreição, até que prove a veracidade do que disse. (At-Tabarani)

Foi narrado por Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) que o nobre Profeta (que a paz esteja com ele) disse aos seus companheiros:( Árabe*******************)

Sabeis qual é a maior usura perante Allah? Os companheiros responderam: Allah e o Seu Mensageiro sabem melhor. Ele disse: A maior usura perante Allah é querer destruir a honra dos muçulmanos. Em seguida, recitou um versículo do Alcorão, cujo significado é: Aqueles que molestam e afligem os homens e as mulheres crentes, apesar de serem inocentes, carregam sobre si a maldição da calúnia e um pecado manifesto. (Surata Al-Ahzab: 58)

Neste contexto, o maior pecado é atacar a honra e a dignidade das pessoas, como acusar mulheres crentes, castas e virtuosas de atos imorais. Isso pode prejudicar sua reputação e bom nome, bem como a honra e o prestígio de sua linhagem e família, além de trazer perigos para o seu futuro. Ademais, por meio de tais atos, também se observa a tendência de promover amplamente a indecência e a imoralidade na sociedade dos crentes.

Por essa razão, o Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) incluiu esse ato entre os sete grandes pecados destrutivos, e o Alcorão Sagrado prometeu, em termos severos, um terrível desfecho por causa desse ato. Foi dito:( Árabe*******************)

Aqueles que acusam mulheres crentes, castas e inocentes de imoralidade terão maldição neste mundo e no Além, e haverá para elas um grande castigo. Naquele Dia, suas bocas, suas mãos e seus pés testemunharão contra elas pelo que faziam. Nesse dia, Allah lhes dará plenamente a verdadeira recompensa, e elas saberão que Allah é a Verdade manifesta.

Também foi dito:( Árabe*******************)

Aqueles que desejam que a indecência e os atos pecaminosos se espalhem amplamente entre a sociedade dos crentes terão castigo neste mundo e no Além, em toda parte. Allah sabe, e vós não sabeis. (Surata An-Nur: 19)

A dignidade do sangue

O Islam tornou a vida humana a mais digna de respeito e honra. Proclamou a santidade da alma humana. E considerou, perante Allah, atentar contra ela o maior pecado depois do kufr. O Alcorão Sagrado declarou:( Árabe*******************)

Quem matar uma pessoa, sem que esta tenha cometido homicídio ou causado corrupção na terra, será como se tivesse cometido o crime de matar toda a humanidade. Isso porque, segundo a perspectiva do Islam, toda a humanidade pertence à mesma família. Assim, quando uma pessoa é morta — quando ocorre uma transgressão —, seu impacto recai sobre toda a espécie humana. Suas consequências nefastas atingem a todos.

Mas, se a pessoa assassinada for um crente, a proibição torna-se ainda mais grave e severa. Por isso, o Alcorão Sagrado declarou:( Árabe*******************)

Quem matar intencionalmente um crente terá como retribuição o Inferno, onde permanecerá eternamente. Allah ficará irado com ele, lançará sobre ele a maldição e preparará para ele um grande castigo.

O Nobre Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse:( Árabe*******************)

Para Allah, a destruição do mundo inteiro é algo muito mais leve do que o assassinato de um muçulmano. (Muslim, Nisai, Tirmizi)

Disse:( Árabe*******************)

O crente permanece em uma situação de amplitude quanto à sua religião enquanto não cometer o crime de derramar sangue ilicitamente.

Disse:( Árabe*******************)

Allah, o Altíssimo, talvez perdoe todos os pecados. Contudo, não perdoará aquele que morrer como politeísta nem aquele que matar intencionalmente um crente.

Com base nesses versículos e hadiths, o nobre Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) considerou que o arrependimento do assassino não seria aceito. Em outras palavras, ele considerou que a condição para a aceitação do arrependimento é devolver os direitos das pessoas envolvidas ou satisfazê-las. Mas como se pode devolver o direito de uma pessoa, ou como se pode satisfazê-la?

Outros disseram que o arrependimento sincero será certamente aceito. Esse tipo de arrependimento chega a obter o perdão até mesmo do pecado do shirk. Então, por que pecados de menor gravidade não seriam perdoados mediante o arrependimento?

Allah, o Altíssimo, disse:( Árabe*******************)

Aqueles que não invocam outra divindade juntamente com Allah, não matam nenhuma pessoa sem justa causa e não cometem zina — quem praticar essas coisas receberá a retribuição por seus pecados. No Dia da Ressurreição, seu castigo será duplicado, e permanecerá nele, humilhado, para sempre. Exceto aquele que se arrepender, crer e praticar boas ações; Allah transformará suas más ações em boas ações. E Allah é Perdoador, Misericordioso. (Surata Al-Furqan: 68–70)

Tanto o homicida quanto o morto estão destinados ao Inferno

O Profeta, que a paz esteja com ele, declarou que envolver-se numa guerra sangrenta contra muçulmanos é uma das portas do kufr. Ele classificou isso como uma prática da época da jahiliyyah. Naquela época, as pessoas estavam constantemente envolvidas em guerras e, por causa de uma camela ou de um cavalo, não hesitavam em fazer correr rios de sangue. O Profeta, que a paz esteja com ele, disse:( Árabe*******************)

Insultar um muçulmano é um ato de fusuq, e envolver-se numa guerra sangrenta contra ele é kufr manifesto. (Bukhari, Muslim)

Há também outra declaração do Profeta, que a paz esteja com ele:( Árabe*******************)

Depois da minha partida, não volteis à incredulidade nem comeceis a cortar os pescoços uns dos outros. (Bukhari, Muslim)

Em outro hadith, foi dito: Quando um dos dois muçulmanos aponta uma arma contra seu irmão, ambos se colocam à beira do Inferno. Então, quando um deles mata o outro, ambos vão para o Inferno. Perguntaram: Ó Mensageiro, é compreensível que o assassino vá para o Inferno, mas por que o assassinado irá para o Inferno? Ele respondeu: ( Árabe*******************)

Ele também queria matar seu companheiro. (Bukhari, Muslim)

Por isso, o Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) proibiu todos os atos que possam resultar em assassinato ou derramamento de sangue. Fazer gestos com uma arma também se enquadra nisso. Ele disse: ( Árabe*******************)

Que nenhum de vocês aponte uma arma contra seu irmão, pois talvez não perceba quando Satanás lhe arrancar a arma da mão e ele cair no abismo do Inferno. (Bukhari, Muslim)

Ele disse: ( Árabe*******************)

Quando alguém aponta qualquer arma contra seu irmão, os anjos o amaldiçoam até que ele cesse isso, mesmo que se trate de seu próprio irmão. (Muslim)

Ele também disse: ( Árabe*******************)

Não é permitido a nenhum muçulmano assustar outro muçulmano.

O pecado não se limita apenas ao assassino. Pelo contrário, aquele que participa disso de alguma forma, por meio de palavras ou ações, também se torna cúmplice do pecado desse assassinato. Conforme o grau de sua participação, recaem sobre ele a ira, a cólera e o desagrado de Allah. Até mesmo aquele que, estando presente no próprio local do assassinato, permanecer inativo, também compartilhará desse pecado. Foi dito em um hadith:( Árabe*******************)

Quando alguém for morto injustamente e sem motivo, ninguém deve permanecer ali. Pois também recairá uma maldição sobre aquele que estiver presente nesse assassinato e não tentar protegê-lo.

A inviolabilidade do sangue das pessoas sob pacto e dos dhimmis

Nestes versículos e hadiths, adverte-se o muçulmano contra matar outro muçulmano e envolver-se em uma guerra sangrenta com ele. Esta é a determinação da Sharia e esta é a orientação para os muçulmanos que vivem em uma sociedade muçulmana. Mas isso não significa que o sangue de um não muçulmano seja halal! Na verdade, o sangue de todo ser humano deve ser protegido. Ele deve ser preservado por ser um ser humano; enquanto um não muçulmano não se envolver em guerra contra os muçulmanos, não pode ser morto. Sim, se um não muçulmano declarar guerra contra os muçulmanos, então seu sangue poderá ser derramado. Porém, se esse não muçulmano tiver um pacto com o Estado muçulmano ou for um dhimmi, a proteção de seu sangue será obrigatória. De modo algum será halal para um muçulmano ultrapassar os limites. A respeito disso, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse:( Árabe*******************)

Aquele que matar uma pessoa sob pacto não sentirá sequer o aroma do Paraíso, embora a fragrância do Paraíso possa ser sentida à distância de quarenta anos de viagem.

Em outra narração, foi dito:( Árabe*******************)

Aquele que matar um dhimmi não sentirá a fragrância do Paraíso.

Quando a inviolabilidade do sangue deixa de existir

Allah, o Altíssimo, declarou:( Árabe*******************)

Não mateis a pessoa que Allah proibiu matar, salvo com justa causa. (Surata Al-An’am: 151)

A justa causa mencionada aqui, pela qual uma pessoa pode ser morta, é matá-la como punição por um crime. E esses crimes são três:

1. Matar injustamente. Quando ficar comprovado o crime de homicídio de alguém, torna-se obrigatório aplicar-lhe o qisas; e o qisas consiste em matar o assassino como punição pelo homicídio. Isto é: vida por vida. No Alcorão, foi dito:( Árabe*******************)

E no qisas por homicídio há vida para vós.

2. Cometer zina publicamente, de modo que quatro homens íntegros testemunhem, como testemunhas oculares, que o viram com os próprios olhos. A condição, porém, é que esse homem esteja ciente do casamento realizado segundo o método halal. Mesmo que não se encontrem testemunhas, se o próprio criminoso confessar repetidamente o seu crime diante do juiz, pelo menos várias vezes, o crime também ficará comprovado e a punição será aplicada de acordo com isso.

3. Mesmo que, após aceitar o Islã, ele declare rebelião contra a religião do Islã, poderá ser morto como punição. Isso ocorrerá quando a sua rebelião contra a comunidade muçulmana se tornar um desafio. O Islã não obriga ninguém a aceitá-lo. Porém, se alguém brincar com a religião do Islã — aceitá-la e depois rebelar-se contra ela —, o Islã não pode tolerar isso. Os judeus começaram a fazer isso. No Alcorão Sagrado, foi dito que eles diziam ao seu povo:( Árabe*******************)

Crede pela manhã na religião que foi revelada aos muçulmanos e, no fim do dia, descrêde dela. Talvez, ao verem isso, essas pessoas abandonem a sua religião. (Surata آل عمران: 72)

O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) limitou a estas três bases as circunstâncias em que o derramamento do sangue de alguém se torna lícito e permitido. Ele disse:( Árabe*******************)

Não é lícito derramar o sangue de um muçulmano, exceto por estas três razões: (1) tirar uma vida em retaliação por outra vida; (2) quando uma pessoa casada comete adultério; e (3) quando alguém abandona a religião do Islã e se separa da comunidade muçulmana.

Contudo, como punição por esses três crimes, o derramamento do sangue de um muçulmano só é lícito e permitido ao governante ou à autoridade administrativa. Não é de modo algum lícito aos indivíduos aplicar essa punição por iniciativa própria. Caso contrário, não restaria nada que se pudesse chamar de governo e disciplina, e surgiria uma anarquia extrema. Cada indivíduo na sociedade passaria então a ser, por iniciativa própria, juiz e senhor da vida e da morte. No caso de homicídio intencional, o qisās é obrigatório. Entretanto, o Islã concedeu aos herdeiros da vítima o direito de exigir o qisās com as próprias mãos, mesmo quando as autoridades administrativas estão presentes. Com isso, sua tristeza, indignação e ressentimento serão aplacados, seu desejo de vingança será satisfeito e também se concretizará a palavra de Allah:( Árabe*******************)

Concedemos aos herdeiros daquele que foi morto injustamente e sem motivo a autoridade para exigir o qisās, mas eles não devem transgredir no ato da execução. Certamente, receberão auxílio.

Suicídio

A regra estabelecida para o homicídio como crime aplica-se integralmente ao suicídio de uma pessoa, assim como se aplica ao assassinato de outra pessoa. Portanto, quem cometer suicídio, independentemente do meio ou da ajuda com que o faça, terá cometido um homicídio que Allah, o Altíssimo, proibiu: matar injustamente e sem motivo.

Na verdade, a vida de nenhum ser humano lhe pertence. Pois ele não criou a si mesmo. Não foi ele quem fez sequer um dos membros de seu corpo ou uma única célula viva. Sua vida e sua alma são um depósito confiado a ele; foi Allah quem lhe confiou esse depósito. Portanto, ele não pode ter direito algum de interferir nela de qualquer maneira. Como poderia, então, destruí-la? Qualquer iniciativa própria para livrar-se desta vida certamente será um crime. Allah, o Altíssimo, disse:( Árabe*******************)

Não vos mateis uns aos outros. Certamente, Allah é Compassivo para convosco. (Surata An-Nissá: 29)

O Islã deseja que os muçulmanos sejam extremamente corajosos, destemidos e inabaláveis ao enfrentar as duras e difíceis realidades da vida. A ninguém foi concedido, em circunstância alguma, o direito de fugir da vida. Ninguém pode, ao deparar-se com um perigo ou ao surgir qualquer crise ou problema, tentar escapar virando esta página da vida, nem, frustrado em suas esperanças, negar a própria vida. O crente foi criado para o jihad, para o esforço e a luta com todas as suas forças, e não para permanecer sentado, inativo. É seu dever entrar no combate frente a frente; fugir ou recuar é indigno dele. Sua fé e seu caráter recusam-se a permitir que fuja do campo da vida e se afaste dele. Ele possui uma arma que jamais envelhece e um tesouro inesgotável de recursos que nunca se esgota. Essa arma é a fé, muito firme e sólida, e esse tesouro é o tesouro de uma moralidade inabalável.

O Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) já havia advertido que aquele que se aventurar a cometer o hediondo crime do suicídio será privado da misericórdia de Allah, cairá no Inferno e será vítima da intensa ira e do desagrado de Allah. Ele disse:( Árabe*******************)

Entre os povos que viveram antes de vós havia um homem que ficou ferido e, por causa disso, começou a se contorcer de agonia. Nessa situação, tomou uma faca e cortou a própria mão. Sangrou tanto que acabou morrendo. Allah, o Altíssimo, disse a respeito desse homem: «Meu servo apressou-se demasiadamente em relação a si mesmo. Por isso, proibi-lhe o Paraíso.» (Bukhari, Muslim)

Como ele não conseguiu suportar a dor do ferimento e provocou a própria morte, o Paraíso lhe foi proibido. Sendo essa a situação, é fácil compreender quão grave e imperdoável diante de Allah será o caso daqueles que cometem suicídio por sofrerem uma pequena perda nos negócios, por não obterem promoção no emprego, por não conseguirem passar nos exames ou por terem suas esperanças frustradas. As pessoas de espírito fraco devem ouvir este aviso, mencionado no hadith do Nobre Profeta (que a paz esteja com ele):( Árabe*******************)

Aquele que se suicidar atirando-se do alto de uma montanha permanecerá para sempre no fogo do Inferno e jamais escapará dele. Aquele que se suicidar bebendo veneno continuará bebendo veneno com as próprias mãos no fogo do Inferno por toda a eternidade. E aquele que se suicidar com uma arma de ferro continuará golpeando a si mesmo, para todo o sempre no Inferno, com esse objeto de ferro. (Bukhari, Muslim)

A dignidade da riqueza

Para o muçulmano, não é censurável adquirir e guardar riqueza por meios lícitos, nem aumentar sua quantidade de maneira conforme à Sharia. Enquanto outras escrituras religiosas afirmam que o rico não poderá entrar no reino celestial até que o camelo passe pelo buraco de uma agulha, o Islã declarou:( Árabe*******************)

O Islã declarou lícita a propriedade pessoal da riqueza lícita. Assim, com o apoio da lei da Sharia e mediante a orientação de um caminho moral, impediu a interferência dos transgressores nessa propriedade e proibiu o sequestro, o roubo e o assalto.

O Profeta (que a paz e as bênçãos estejam com ele) mencionou conjuntamente a inviolabilidade dos bens, do sangue e da honra, e declarou o furto contrário à fé. Disse:( Árabe*******************)

Quando o ladrão rouba, ele não permanece em estado de fé.

Allah, o Altíssimo, disse:( Árabe*******************)

Cortai as mãos do ladrão e da ladra, como retribuição pelo que fizeram e como castigo prescrito por Allah. E Allah é Poderoso, Sapientíssimo. (Surata Al-Ma’idah: 38)

O Profeta (que a paz e as bênçãos estejam com ele) disse:( Árabe*******************)

Não é permitido ao muçulmano sequer tomar o bastão de alguém sem a permissão e o consentimento dessa pessoa.

Os bens de um muçulmano são extremamente dignos de respeito para outro muçulmano, e apropriar-se deles injustamente é completamente haram; foi para enfatizar essa gravidade que o Profeta (que a paz e as bênçãos estejam com ele) disse isso. Allah, o Altíssimo, também disse:( Árabe*******************)

Ó crentes, não consumais os bens uns dos outros injustamente. Contudo, se houver lucro comercial com base no consentimento mútuo, não há culpa nisso. (Surata An-Nissá: 29)

O suborno é ilícito

Uma das formas de se apropriar dos bens das pessoas por meios inválidos e injustos é o “suborno”. Isso ocorre quando se dá dinheiro a uma pessoa influente, dotada de autoridade ou responsável por alguma função, com o objetivo de que ela decida em seu favor, faça com que ele prevaleça sobre seu adversário, lhe conceda algum cargo ou atrase o trabalho de seu inimigo, entre outros propósitos semelhantes.

O Islã proibiu para sempre que governantes, administradores ou seus auxiliares recorram ao suborno. Se este lhes for oferecido, é ilícito aceitá-lo ou atuar como intermediário entre o doador e o receptor. Allah, o Altíssimo, disse:( Árabe*******************)

Não consumais os vossos bens entre vós por meios inválidos, nem os apresenteis às autoridades com o propósito de consumir uma parte dos bens alheios, injustamente e conscientemente.

O nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse:( Árabe*******************)

Sobre aquele que oferece suborno e aquele que o aceita em assuntos governamentais e estatais recai a maldição de Allah. (Ahmad)

Hazrat Thawban (que Allah esteja satisfeito com ele) disse:( Árabe*******************)

O nobre Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) lançou sua maldição sobre o doador do suborno, o receptor do suborno e aquele que estabelece a comunicação entre ambos. (Ahmad, Hakim)

Se aquele que aceita suborno o faz com a intenção de cometer injustiça contra alguém, a gravidade de seu pecado aumenta muitas vezes. E, se o aceita com a intenção de fazer justiça, fazer justiça é seu dever; portanto, não tem direito algum de receber qualquer tipo de riqueza por isso.

O Nobre Mensageiro (que a paz esteja com ele) enviou o honorável Abdullah ibn Rawaha (que Allah esteja satisfeito com ele) aos judeus, encarregando-o de determinar quanto deveriam pagar pelo kharaj de sua colheita de tâmaras. Então, eles lhe ofereceram certa riqueza como suborno. Ao ver isso, Ibn Rawaha lhes disse: “Esse suborno que vocês ofereceram é ilícito. De modo algum o aceitaremos.” (Imam Malik)

Não é de surpreender que o Islã tenha declarado ilícito o suborno, nem que tenha sido rigoroso com todos os que dele participam. Pois a sociedade em que isso se dissemina está fadada a ser assolada pela injustiça, e sua destruição é inevitável. Aquele que administra injustamente ou profere veredictos judiciais, ou aquele que se recusa a administrar com base na verdade e na justiça; aquele que coloca à frente quem deveria estar atrás e põe atrás quem deveria estar à frente: nessa sociedade, em vez do espírito de cumprimento do dever, prevalece e se manifesta fortemente o espírito do egoísmo.

Presentes para governantes e administradores

O suborno — qualquer que seja sua forma ou seu nome — foi declarado ilícito pelo Islã. Mesmo que seja chamado de dádiva, presente ou oferta, não sairá dos limites do ilícito para entrar no âmbito do lícito.

Foi narrado em um hadith que o Nobre Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse:( Árabe*******************)

“Aquele a quem encarregamos de uma função e cujo salário fixamos e determinamos, se ainda assim tomar algo além disso, terá cometido uma traição.” (Abu Dawud)

Alguns presentes foram oferecidos ao califa Umar ibn Abd al-Aziz, mas ele os recusou. Então lhe disseram: “O próprio Nobre Mensageiro (que a paz esteja com ele) aceitava presentes, mas você não os aceita?” Ele respondeu: “Sim, para ele eram de fato presentes; mas, para nós, não são nada além de suborno.”

O Nobre Mensageiro (que a paz esteja com ele) enviou um homem à tribo de Azd, encarregando-o de coletar sadaqa e zakat. Quando ele voltou à sua presença, reteve em suas próprias mãos parte dos bens e disse: “Esta parte é sua, e estas coisas me foram dadas como presentes.” Ao ouvir isso, o Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) ficou muito irado e disse: ( Árabe*******************)

“Se o que você diz é verdade, então teria ficado sentado na casa de seus pais; assim se veria quem lhe daria presentes.” Depois, disse: ( Árabe*******************)

“O que está acontecendo? Eu nomeio alguém dentre vocês como funcionário do governo, e depois ele diz: ‘Esta parte dos bens recebidos é sua, e esta parte me foi dada como presente’? Por que ele não ficou sentado na casa de sua mãe? Se então lhe tivessem dado um presente, sua afirmação poderia ser considerada verdadeira. Por Aquele em cuja mão está a minha vida, se algum de vocês adquirir injustamente qualquer bem, no Dia da Ressurreição terá de levá-lo e comparecer com ele diante de Allah. Portanto, que nenhum de vocês seja obrigado, no Dia da Ressurreição, a carregar sobre os próprios ombros camelos, vacas, bois ou cabras, enquanto o animal estiver berrando. Depois, ele levantou ambas as mãos tão alto que a parte branca de suas axilas ficou visível. Em seguida, disse: ‘Ó Allah! Transmiti a mensagem?’

O Imam Ghazali disse: Diante de tamanha severidade, intensidade e veemência em relação ao suborno, deve-se dizer que juízes, administradores e pessoas encarregadas de responsabilidades semelhantes deveriam permanecer sentados na casa de seus pais. Depois de serem destituídos de seus cargos, se, enquanto estivessem na casa de suas mães, lhes fossem oferecidos presentes, poderia ser permitido que os aceitassem, mesmo enquanto estivessem investidos no cargo. Mas qualquer presente que se saiba ter sido oferecido por causa do cargo que ocupam é inteiramente haram. Quanto aos presentes oferecidos por amigos e companheiros, se não se souber que eles também os dariam depois da destituição do cargo, há dúvida a respeito deles. Portanto, é obrigatório evitá-los. ( Árabe*******************)

Dar suborno para impedir a opressão

Se a situação chegar ao ponto de não haver qualquer maneira de obter seu direito legítimo sem dar suborno, ou se alguém cair em uma opressão da qual de modo algum possa escapar sem suborno, então deve exercer paciência e perseverança, até que o próprio Allah lhe proporcione um caminho e um meio melhor para obter seu direito e livrar-se da opressão.

Por essa razão, quando se recorre ao suborno, somente quem o recebe será pecador. Em tal situação, aquele que oferece o suborno não será pecador se, depois de verificar todos os outros meios lícitos e não obter resultado, recorrer a ele como último recurso, desde que, ao mesmo tempo, consiga apenas afastar de si a opressão, obter seu direito legítimo e não interferir nos direitos dos demais.

Alguns sábios citaram, como prova em apoio a essa opinião, aqueles hadiths nos quais se menciona que um grupo de pessoas se agarrava ao Nobre Mensageiro (que a paz esteja com ele) para obter sadaqa. Embora não tivessem direito legítimo a receber nada, ele lhes dava alguma coisa. Foi narrado por Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) que o Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) disse: ( Árabe*******************)

Alguns de vocês saem levando, apertados sob o braço, bens da caridade que receberam de mim, embora isso seja fogo para eles. Hazrat Umar disse: “Se você mesmo sabe que isso é fogo para eles, por que lho dá?”

Ele respondeu: “O que posso fazer? Eles continuam pedindo e insistindo de tal maneira que não há como livrar-me deles. E Allah, o Altíssimo, não quer que eu seja avarento.”

Se o Nobre Mensageiro (que a paz esteja com ele), por causa da insistência e da pressão repetida, dava ao solicitante alguma riqueza, mesmo sabendo que isso seria fogo para ele, então por que não seria permitido dar suborno para impedir a opressão e obter o próprio direito legítimo e o que é devido?

Desperdiçar os próprios bens

Assim como os bens alheios têm dignidade e qualquer intervenção transgressora neles, secreta ou pública, é haram, da mesma forma os próprios bens de cada pessoa também têm dignidade. Por isso, desperdiçar ou esbanjar esses bens, danificá-los, destruí-los ou espalhá-los de uma mão para outra é inteiramente proibido.

Isso se deve ao fato de que os bens dos indivíduos contêm um direito da nação e da coletividade social. O direito de propriedade da coletividade deve ser necessariamente reconhecido acima do de todos os proprietários. Por essa razão, quando um proprietário insensato destrói os próprios bens, a sociedade tem o direito e a autoridade de estabelecer controle sobre ele. Isso porque esses bens também contêm uma parcela pertencente à coletividade social. Sobre este assunto, o Nobre Alcorão diz:( Árabe*******************)

Não confieis vossos bens aos insensatos, bens que Allah, o Altíssimo, vos concedeu como meio de subsistência e de estabilidade; dai-lhes sustento a partir deles e falai-lhes palavras boas e apropriadas.

Neste versículo, Allah, o Altíssimo, dirige-se fundamentalmente à coletividade social: “Não deis vossos bens”. Embora, aparentemente, esses bens sejam propriedade particular dos indivíduos, na realidade os bens de cada pessoa são patrimônio nacional de toda a coletividade social.

Na verdade, o Islã é a religião da equidade, da justiça e do equilíbrio. E a ummah muçulmana é uma comunidade intermediária, isto é, estabelecida sobre princípios de moderação. O ideal do muçulmano é estabelecer a equidade e a justiça em todos os aspectos. Por isso, Allah, o Altíssimo, proibiu os crentes, em termos claros e severos, de esbanjar e desperdiçar riquezas, assim como proibiu a avareza e a mesquinhez. Ele disse:( Árabe*******************)

Ó filhos de Adão! A cada vez que comparecerdes à mesquita, usai vossos adornos. Comei e bebei, mas não esbanjeis nem desperdiceis. Por certo, Allah não ama os que esbanjam e desperdiçam.

Mesmo quando se gastam riquezas em coisas que Allah tornou ilícitas, isso continua sendo desperdício e esbanjamento, como o consumo de bebidas alcoólicas, a aquisição de substâncias que entorpecem a razão e a compra de recipientes de ouro e prata, entre outras coisas. Nesse caso, é proibido todo gasto de riqueza, seja ele pequeno ou grande.

No Islã, não há permissão para esbanjar riquezas consigo mesmo ou com outras pessoas. O Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, proibiu claramente a destruição das riquezas. (Bukhari)

Gastar excessivamente e desperdiçar dinheiro em coisas desnecessárias não é senão esbanjamento e desperdício. Esse esbanjamento e desperdício levam a pessoa à ruína completa. Por fim, ela já não conserva consigo riqueza suficiente para satisfazer sequer as próprias necessidades básicas.

O versículo do Alcorão Sagrado:( Árabe*******************)

As pessoas perguntam-te — ó Profeta — o que devem gastar. Dize: o excedente. (Surata Al-Baqarah: 219)

Na exegese deste versículo, o Imam Fakhruddin al-Razi escreveu:

Allah, o Altíssimo, ensinou às pessoas as regras e os métodos para gastar seus bens. No versículo mencionado, dirigindo-se ao nobre Profeta (que a paz esteja com ele), disse: “Dá aos parentes o que lhes é de direito, e também ao necessitado e ao viajante, e não gastes inutilmente. Os que gastam inutilmente são considerados irmãos de Satanás.” (Al-Imran, 26). E disse: “Não mantenhas a tua mão acorrentada ao pescoço, nem a estendas completamente.” (Al-Imran, 29). Disse também: “E aqueles que, ao gastar, não cometem desperdício nem são avaros.” (Al-Furqan, 67). O nobre Profeta (que a paz esteja com ele) disse: “Quando algum de vós possuir riqueza, deve começar gastando consigo mesmo. Depois, deve gastar com aqueles cuja manutenção está sob sua responsabilidade e, depois deles, com os demais.” (Muslim). Disse ainda: “A melhor caridade é aquela que, depois de praticada, permite à pessoa permanecer abastada.” (Tabarani). Jabir ibn Abdullah (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Estávamos na presença do Mensageiro Nobre (que a paz esteja com ele). Um homem apareceu trazendo uma quantidade de ouro do tamanho de um ovo e disse: ‘Aceita isto como doação. Juro por Allah que não possuo nada além disso.’ O nobre Profeta desviou o rosto dele. Mas o homem voltou a aproximar-se. Então ele disse: ‘Dá.’ Aceitou-o com grande desagrado e ira e lançou-o em sua direção de tal modo que, se atingisse o corpo de alguém, poderia feri-lo. Depois disse: ‘Cada um de vós traz toda a sua riqueza e então, diante das pessoas, estende a mão e senta-se para mendigar. A caridade é aquilo que se oferece preservando a suficiência de quem está em condições de suficiência. Toma isto; não tenho necessidade dele.’” (Abu Dawud, Hakim). O nobre Profeta (que a paz esteja com ele) costumava armazenar o alimento de um ano para as pessoas de sua casa. (Bukhari). Os sábios dizem que o melhor é a política intermediária entre os dois extremos: o excesso e a insuficiência em relação às necessidades. Gastar além do necessário é despesa inútil; gastar menos é avareza e mesquinhez. A política equilibrada é a melhor, e é isso que Allah, o Altíssimo, declarou como “o que é excedente”. A sharia de Muhammad depende da compreensão e da preservação dessa verdade sutil e profunda. Isso porque a sharia judaica está fundada na austeridade e na severidade, enquanto a legislação religiosa dos cristãos segue a extrema generosidade e a permissividade. Em todas essas questões, é a sharia de Muhammad que sustenta e institui o princípio intermediário. Por isso, em comparação com as demais legislações religiosas, ela é uma norma extremamente completa e plenamente aperfeiçoada. (Tafsir, Fakhr al-Din al-Razi, volume 6)

Relações com os não muçulmanos

Para resumir a política e o ideal do Islã quanto à conduta para com os opositores da religião do Islã, basta mencionar dois versículos do Alcorão Sagrado. Esses dois versículos são adequados para constituir uma ampla carta constitucional nesta questão. São eles: Allah, o Altíssimo, declarou:( Árabe*******************)

Allah, o Altíssimo, não vos proíbe tratar com bondade e justiça aqueles que não vos combateram por causa da religião nem vos expulsaram de vossas casas. Na verdade, Allah ama os que são justos. Ele apenas vos proíbe fazer amizade com aqueles que vos combateram por causa da religião, vos expulsaram de vossas casas e se ajudaram mutuamente na vossa expulsão. E aqueles que fizerem amizade com eles são os injustos.

Quanto àqueles com quem os muçulmanos não estão em guerra nem têm qualquer inimizade, que não combateram os muçulmanos por causa da religião nem os expulsaram de suas casas, o primeiro versículo não apenas incentiva que se adote para com eles a justiça e a equidade; antes, incentiva também a bondade, o bom tratamento e a promoção de seu bem-estar. A palavra ( Árabe*******************) exprime um sentido amplo de benefício e bondade, superior até mesmo à justiça e à equidade; dela, os muçulmanos compreendem o mais elevado grau dos direitos humanos. Do mesmo modo, ( Árabe*******************) significa praticar plenamente o bem ao cumprir os direitos dos pais. Neste ponto, o Alcorão diz: “Certamente, Allah ama os que praticam a justiça e a equidade.” E todo crente ama e se empenha sempre mais em praticar aquilo que Allah aprecia e ama. Isso é universalmente conhecido.

A expressão “Allah não vos proíbe” não significa o contrário do desejo de que se adote um bom tratamento. Essa forma de expressão foi usada porque os muçulmanos talvez pudessem pensar que os opositores da religião não teriam direito a bom tratamento e justiça. Para eliminar esse equívoco, foi declarado claramente que Allah não impede nem proíbe que se trate bem os opositores, se estabeleça amizade com eles e se aja com justiça para com eles. Ele apenas proíbe manter relações amistosas com aqueles que estão envolvidos em guerra contra os muçulmanos e adotam agressão contra eles.

A forma de expressão usada aqui é exatamente como a de outro versículo. O versículo diz:( Árabe*******************)

Não há culpa sobre quem realiza o Hajj ou a Umrah em circundar Safa e Marwah.

A razão para essa forma de expressão é que algumas pessoas, por causa dos vestígios do período da جاهلية, hesitavam em realizar, mesmo no Islã, o tawaf ao redor das duas montanhas; o primeiro objetivo era eliminar essa hesitação e constrangimento. A expressão “não há culpa” foi usada com o propósito de afastar a dúvida, embora o tawaf dessas duas montanhas seja obrigatório e esteja incluído nos ritos indispensáveis do Hajj.

Concessões especiais aos Ahli al-Kitab

Se o Islã não proíbe que se adote o mais elevado grau de bom tratamento e justiça nem mesmo para com os opositores da religião do Islã — inclusive os politeístas adoradores de ídolos —, como foi dito nos dois versículos citados anteriormente, que foram revelados a respeito dos politeístas árabes, então é perfeitamente natural que o Islã conceda privilégios especiais aos Ahli al-Kitab — judeus e cristãos —, estejam eles entre os habitantes de um país islâmico ou fora dele.

No Alcorão Sagrado, esses judeus e cristãos são chamados de Ahli al-Kitab, isto é, “o povo que recebeu o Livro”. Com isso, pretende-se mostrar que, na realidade, eles são os portadores da religião revelada por Allah. Portanto, há um parentesco próximo entre os muçulmanos e eles. A religião fundamental e a legislação com as quais Allah enviou Seus profetas e mensageiros são, na realidade, uma só e a mesma. Eis um versículo relevante:( Árabe*******************)

Ele estabeleceu para vós a mesma religião que havia ordenado a Noé, e que Nós te revelamos, e que havíamos recomendado a Abraão, Moisés e Jesus, dizendo: “Estabelecei todos esta religião e não vos dividais nem vos disperseis a seu respeito.” (Surata Ash-Shura: 13)

Aos muçulmanos foi ordenado que cressem em todos os Livros revelados por Allah. Portanto, é dever do muçulmano crer em todos os profetas e mensageiros. Sem isso, sua fé não pode ser verdadeira e correta. Foi dito:( Árabe*******************)

Dizei: “Cremos em Allah e no que foi revelado a nós, no que foi revelado a Abraão, Ismael, Isaque, Jacó e às tribos, no que foi concedido a Moisés e a Jesus e no que foi concedido aos profetas por seu Senhor. Não fazemos distinção entre nenhum deles e somos submissos a Ele.” (Surata Al-Baqara: 136)

Quando o povo dos Ahli al-Kitab lê o Alcorão, percebe que nele são feitos elevados elogios às suas escrituras religiosas e aos seus profetas e mensageiros. Portanto, quando os muçulmanos se envolverem em debates com o povo dos Ahli al-Kitab, devem certamente abster-se de dizer coisas que aumentem o ódio e a hostilidade mútuos. Foi dito:( Árabe*******************)

Não discutais com o Povo do Livro, exceto da melhor maneira, salvo com aqueles dentre eles que são injustos. E dizei: “Cremos no que foi revelado para nós e no que foi revelado para vós. Nosso Deus e vosso Deus é um só e o mesmo. E a Ele nos submetemos.” (Surata Al-Ankabut: 46)

Já discutimos em detalhes a política liberal adotada pelo Islã ao permitir que se compartilhem alimentos com o Povo do Livro, que se coma dos animais por eles abatidos e que se casem suas mulheres — embora o casamento seja o centro das manifestações de afeto e amor. Neste ponto, é relevante mencionar o seguinte versículo:( Árabe*******************)

A comida daqueles que receberam o Livro é lícita para vós, e a vossa comida é lícita para eles. E também são lícitas para vós as mulheres castas e protegidas dentre as muçulmanas e dentre aqueles que receberam o Livro antes de vós. (Surata Al-Maida: 5)

Esta é a política geral do Islã em relação ao Povo do Livro. Contudo, foi adotada uma política de natureza especial para com os cristãos. O Alcorão afirmou a respeito deles que estão muito próximos do coração dos muçulmanos. Disse:( Árabe*******************)

Encontrareis mais próximos, em afeição, dos crentes aqueles que dizem: “Somos cristãos.” Isso porque há entre eles muitos eruditos e estudiosos, e porque não se ensoberbecem. (Surata Al-Maida: 82)

Dhimmi

Os conselhos citados acima abrangem todo o Povo do Livro. Onde quer que vivam, não há exceção em relação a ninguém. Contudo, para os não muçulmanos que vivem sob a proteção do Estado Islâmico, o Islã estabeleceu disposições especiais. Na terminologia muçulmana, eles são chamados de “dhimmis”. A palavra “dhimmi” significa “pacto” ou “promessa”. Essa palavra indica que, para eles, existe uma promessa de Deus e de Seu Mensageiro. A comunidade muçulmana é obrigada a cumprir essa promessa. E ela consiste nisto: eles poderão viver completamente seguros e tranquilos, sob a sombra refrescante do Islã.

Na interpretação moderna, eles são habitantes — cidadãos — do Estado Islâmico. Desde os primeiros tempos até hoje, a sociedade muçulmana tem consenso absoluto de que, no Estado Islâmico, os não muçulmanos têm os mesmos direitos que os muçulmanos. Os deveres e responsabilidades que cabem àqueles cabem igualmente a estes. Contudo, não há entre eles qualquer identidade ou correspondência apenas nas questões de crença, fé e religião. Isso porque o Islã lhes concedeu plena liberdade para permanecerem em sua religião e em sua fé.

O nobre Profeta (que a paz esteja com ele) aconselhou os muçulmanos, em termos muito severos, a respeito dos dhimmis, e declarou que o descontentamento de Allah seria inevitável caso esse conselho fosse contrariado ou violado. As palavras do nobre Profeta foram citadas num hadith:( Árabe*******************)

Quem causar sofrimento ou aflição a qualquer dhimmi será como se tivesse causado sofrimento e aflição a mim. E quem me causar aflição e sofrimento terá causado sofrimento ao Deus Todo-Poderoso. (At-Tabarani, Al-Awsat)

( Árabe*******************)Quem causar sofrimento a qualquer dhimmi, eu serei seu acusador. E contra aquele de quem eu for acusador, eu próprio litigarei no Dia da Ressurreição. (Al-Khatib)

( Árabe*******************)Quem cometer injustiça contra uma pessoa sob pacto, violar seus direitos, impor-lhe um fardo superior às suas forças ou tomar qualquer coisa que lhe pertença sem sua vontade e permissão, contra ele eu litigarei no Dia da Ressurreição. (Abu Dawud)

Os califas do nobre Mensageiro (que a paz esteja com ele) permaneciam sempre atentos e vigilantes para garantir os direitos e preservar a dignidade desses cidadãos não muçulmanos. Apesar das divergências entre eles, os juristas do Islã deram especial importância a esses direitos e a essa dignidade.

O jurista da escola maliquita Shihabuddin al-Qarafi disse:

O pacto firmado com os dhimmis tornou obrigatórios para nós certos direitos que lhes pertencem. Isso porque, ao se tornarem nossos vizinhos, eles passaram a estar sob nossa proteção e segurança. Allah, o Mensageiro e a religião do Islã lhes concederam segurança. Portanto, quem cometer contra eles qualquer excesso, ainda que mínimo, será culpado de violar a segurança concedida por Allah, por Seu Mensageiro e pela religião do Islã. Falar mal deles, caluniar qualquer um deles, causar-lhes qualquer espécie de sofrimento ou aflição, ou ajudar em atos desse tipo, tudo isso constitui uma forma de violar essa segurança.

O jurista da escola zahirita Ibn Hazm disse:

Se alguém vier atacar os dhimmis, é nosso dever avançar para travar uma guerra armada em defesa deles e dar a vida por eles. Somente assim poderemos proteger aqueles a quem Allah e o Mensageiro concederam segurança. Pois, em tal situação, deixá-los indefesos e como presa fácil seria extremamente prejudicial ao cumprimento do dever de lhes conceder proteção.

A natureza das relações com os não muçulmanos

Pode surgir a pergunta: como é possível tratar bem os não muçulmanos e estabelecer boas relações com eles, quando o próprio Alcorão proíbe estabelecer relações de amizade com os incrédulos e fazer deles aliados e amigos?

Como foi dito no Alcorão:( Árabe*******************)

Ó vós que credes! Não tomeis os judeus e os cristãos como amigos e protetores. Eles são amigos uns dos outros! Portanto, quem dentre vós os tomar como amigos e protetores será contado entre eles. Certamente, Allah não guia os injustos. Vês aqueles em cujos corações há uma doença correndo apressadamente entre eles.

A resposta a essa pergunta é que esses versículos não se aplicam de modo geral. Além disso, nem todos os judeus, cristãos e incrédulos são iguais. Se isso fosse considerado assim, haveria contradição com os demais versículos e provas deste tema, nos quais foi declarada a legitimidade de tratar bem e manter boas relações com pessoas benevolentes e de bom caráter, independentemente de sua religião. Também é permitida a constituição de relações matrimoniais com o Povo do Livro e o casamento com suas filhas. No entanto, sobre o casamento, Allah, o Altíssimo, disse:( Árabe*******************)

Ele estabeleceu entre vossos cônjuges uma relação profunda, repleta de afeição, amor, misericórdia e compaixão.

E, a respeito dos cristãos, disse:( Árabe*******************)

Aqueles que disseram: «Somos cristãos», encontrarás que são os mais próximos deles em afeição para com os crentes.

Na realidade, a proibição de estabelecer relações de amizade com certos Povos do Livro aplica-se aos inimigos da religião islâmica e àqueles que estão em guerra contra os muçulmanos. Ajudá-los, apoiá-los, revelar-lhes informações secretas e aproximá-los excessivamente, tornando-os aliados contra os interesses nacionais, não é de modo algum permitido a nenhum muçulmano. Isso foi claramente afirmado em outros versículos. Pode-se citar um versículo:( Árabe*******************)

Ó crentes! Não tomeis como amigos íntimos outros que não sejam dos vossos. Eles não pouparão esforços para vos prejudicar. Tudo aquilo que vos causa sofrimento, dano e perigo é do agrado deles; a inimizade, o ódio e a ira deles já se manifestaram pelas suas bocas. E aquilo que ocultam em seus corações é ainda maior e mais terrível. Nós vos esclarecemos as leis e os preceitos. Agora, se compreenderdes e agirdes com discernimento, ficai atentos. Vós os amais muito, mas eles não gostam de vós de modo algum.

No versículo acima, foi apresentada em termos claros a identidade daqueles com quem é proibido estabelecer relações de amizade. Na realidade, eles ocultam em seus corações uma extrema hostilidade para com os muçulmanos. Apesar disso, os sinais dessa hostilidade acabam manifestando-se em suas bocas.

Allah, o Altíssimo, disse:( Árabe*******************)

Nunca encontrarás pessoas que creem em Allah e no Último Dia tomando como amigos aqueles que se opõem a Allah e ao Seu Mensageiro, ainda que estes fossem seus pais, seus filhos, seus irmãos ou seus parentes. (Surata Al-Mujadila: 22)

Na realidade, nutrir hostilidade contra Allah e Seu Mensageiro não é apenas incredulidade. Trata-se de uma agressão contra o Islã e os muçulmanos.

Allah disse:( Árabe*******************)

Ó vós que credes! Não tomeis os Meus inimigos e os vossos inimigos como amigos e protetores. Vós lhes demonstrais grande amizade e afeição, embora eles tenham negado a verdade grandiosa que vos chegou. Eles expulsaram o Mensageiro e a vós somente porque credes em Allah, vosso Senhor.

Os idólatras de Meca que declararam guerra contra Allah e o Mensageiro e expulsaram os muçulmanos de suas casas, tendo como único crime o fato de dizerem: “Nosso Senhor é Allah”, eram aqueles a respeito dos quais foi revelado o versículo acima. Portanto, jamais é permitido aos muçulmanos estabelecer amizade e afeição com pessoas desse tipo. Apesar disso, o Alcorão não declarou definitivamente perdida a esperança de que seus corações se purifiquem. Pelo contrário, expressou a esperança de que essa mentalidade também possa mudar e que a atitude de hostilidade que têm agora talvez não permaneça para sempre. Logo após o versículo citado, foi dito:( Árabe*******************)

Não é impossível nem surpreendente que Allah estabeleça amizade e afeição entre vós e aqueles contra os quais mantendes inimizade e cuja hostilidade temeis. Allah é Onipotente e Allah é Perdoador, Misericordioso. (Surata Al-Mumtahanah: 7)

Esta é uma advertência do Alcorão. Dela se compreende claramente que é absolutamente necessário estabelecer um limite para a inimizade, as disputas e os conflitos. À luz disso, o grau de hostilidade diminui consideravelmente. Assim também foi dito no Hadith:( Árabe*******************)

Modera um pouco o teu ódio pelo teu inimigo, pois ele pode tornar-se um dia teu amigo.

Quando o lado inimigo se torna tão poderoso que as pessoas depositam nele suas esperanças e também o temem, estabelecer com ele relações de amizade e afeição torna-se ainda mais intensamente proibido. Pois, em tal situação, os hipócritas e aqueles cujos corações estão enfermos serão os mais inclinados a fazer amizade com eles. Manterão com eles uma relação secreta, para que isso possa beneficiá-los no futuro. Como Allah disse:( Árabe*******************)

Verás aqueles em cujos corações há uma doença correrem sempre entre eles, demonstrando empenho, e dizerem: “Tememos que uma calamidade nos atinja.” Mas é possível que Allah vos conceda a vitória ou manifeste algo de Sua parte; então eles se arrependerão e se envergonharão do que ocultaram em seus corações. (Surata Al-Mā’idah: 52)( Árabe*******************)

Anuncia aos hipócritas que lhes está reservado um castigo doloroso. São aqueles que tomam os incrédulos como amigos e protetores, em vez dos crentes. Porventura procuram obter deles honra, força e poder? Na verdade, toda honra, força, poder e domínio pertencem a Allah. (Surata An-Nissā’: 138–139)

Pedir ajuda a um não muçulmano

Um muçulmano pode pedir ajuda a um não muçulmano em assuntos científicos, como medicina, indústria e agricultura, exceto em questões religiosas; não há nisso qualquer problema. Essa permissão existe tanto para as autoridades governantes quanto para as pessoas comuns. Contudo, é extremamente importante que, em todos esses campos, os muçulmanos se empenhem necessariamente em alcançar a autossuficiência e a plena independência.

O próprio Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) recebeu ajuda de não muçulmanos em diversos trabalhos e áreas, contratando-os mediante remuneração. Durante a Hégira, recorreu à ajuda de Abdullah ibn Uraiqit, um politeísta de Meca, para que lhe mostrasse o caminho. Os sábios dizem: não é necessariamente correto afirmar que, por alguém ser um incrédulo, não se pode confiar nele em assunto algum. O fato de se ter recorrido à ajuda de um politeísta para orientar o caminho numa tarefa como deixar Meca rumo a Medina elimina facilmente todas as dúvidas e hesitações nesse sentido.

Mais importante ainda: os especialistas expressaram a opinião de que é plenamente lícito ao líder dos muçulmanos pedir ajuda a não muçulmanos, especialmente ao Povo do Livro. Eles foram incluídos na guerra e, quando se alcançou a vitória, receberam também parte dos espólios, tal como os muçulmanos. Na batalha de Hunayn, Safwan ibn Umayya, embora fosse um politeísta, combateu ao lado do Nobre Mensageiro (que a paz esteja com ele).

A condição, porém, é que o não muçulmano cuja ajuda for aceita tenha uma boa opinião e uma atitude favorável para com os muçulmanos. Se não for possível confiar nele, naturalmente não será lícito aceitar sua ajuda. Pois, se é proibido aceitar a ajuda de um muçulmano indigno de confiança, nem sequer se coloca a questão de aceitar a ajuda de um incrédulo indigno de confiança.

Um muçulmano pode oferecer presentes a um não muçulmano e também pode aceitar os presentes que ele oferecer. O Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) aceitou os presentes oferecidos por reis e soberanos não muçulmanos. Muitos hadiths foram narrados e citados sobre esse assunto. O Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) disse à sua esposa, a venerável Umm Salama (que Allah esteja satisfeito com ela):( Árabe*******************)

Eu havia enviado ao rei Najashi presentes, como mantos de seda e outros itens.

De fato, o Islã dignifica e honra o ser humano simplesmente por ele ser humano. Então, por que não se deveria adotar um tratamento e uma conduta igualmente dignos para com qualquer pessoa do Povo do Livro, um dhimmi ou alguém sob um pacto?

Uma procissão funerária de um judeu passava diante do Profeta (que a paz esteja com ele). Ao vê-la, ele se levantou. Então lhe disseram: “Ó Mensageiro de Allah, este é o cadáver de um judeu!” Ele respondeu: “Por quê? Acaso um judeu não é um ser humano? No Islã, todo ser humano possui honra e dignidade.”

O Islã é uma misericórdia universal

O Islã ordenou que se demonstrasse misericórdia para com toda criatura. Proibiu até mesmo qualquer crueldade para com os animais, que não têm capacidade de falar. Então, como poderia ser permitido aos muçulmanos tratar mal qualquer ser humano não muçulmano?

Desde há treze séculos, o Islã ordena que se demonstre misericórdia para com os animais. Declarou que tratá-los com compaixão faz parte da fé. E anunciou que causar-lhes qualquer sofrimento é uma causa de entrada no Inferno.

O Profeta (que a paz esteja com ele) contou aos seus companheiros que um cão, atormentado pela sede, ofegava. Ao vê-lo, um homem desceu a um poço, tirou a meia do pé, encheu-a de água e deu de beber ao cão até saciá-lo. O nobre Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: “Allah, o Altíssimo, aprovou esse ato e perdoou os seus pecados.” Os companheiros perguntaram:( Árabe*******************)

“Ó Mensageiro! Também receberemos recompensa por fazer o bem aos animais?” Ele respondeu: “Haverá certamente uma boa recompensa por tratar bem qualquer ser vivo.” (Bukhari)

Junto a esse brilhante exemplo de como tornar inevitável o recebimento do perdão de Allah, o nobre Profeta (que a paz esteja com ele) apresentou outro exemplo: o de como tornar inevitáveis o castigo e a ira de Allah. Ele disse:( Árabe*******************)

Uma mulher entrou no Inferno por ter tratado cruelmente uma gata. Ela a manteve presa: não lhe dava comida nem a soltava para que ficasse livre. Assim, a gata não conseguiu sobreviver sequer comendo insetos. (Bukhari)

Vemos a máxima ênfase no tratamento dos animais no comportamento do Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Ele viu um jumento cujo rosto havia sido marcado. Protestou contra isso e disse: ( Árabe*******************)

Juro por Allah, não é correto marcar dessa maneira. Eu costumava marcar bem longe, deixando o rosto de fora. (Muslim)

Outro hadith relata que um jumento passou diante dele. Ele viu que o rosto do animal havia sido marcado. Então disse: ( Árabe*******************)

Não sabeis que amaldiçoei aquele que marca o rosto de um animal ou golpeia o seu rosto? (Abu Dawud)

Como mencionei anteriormente, o venerável Ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) viu algumas pessoas usando uma galinha como alvo, praticando o lançamento de flechas e a pontaria contra ela. Então disse: ( Árabe*******************)

O Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) amaldiçoou aquele que usa qualquer ser vivo como alvo para praticar o lançamento de projéteis.

O venerável Abdullah ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: ( Árabe*******************)

O Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) proibiu colocar animais para lutarem uns contra os outros. (Abu Dawud, Tirmidhi)

Ele também narrou:( Árabe*******************)

O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) proibiu veementemente a castração de animais. (Al-Bazzar)

Na época da Jahiliyyah, as pessoas cortavam e rasgavam as orelhas dos animais. O Alcorão protestou contra esse ato hediondo e esclareceu que se tratava de uma ação puramente satânica, praticada apenas por instigação de Satanás.

Ao discutirmos o abate, mostramos que o Islam atribui grande importância a proporcionar tranquilidade e facilidade até mesmo ao animal que será abatido. Ele ordenou que a faca fosse afiada ao máximo e que fosse mantida fora da vista do animal antes do abate.

Também foi proibido abater um animal à vista de outro. Que religião ou ideologia no mundo concedeu tamanha importância a proporcionar tranquilidade aos animais?

Conclusão

Nesta obra, havíamos decidido apresentar detalhadamente a discussão sobre os níveis de halal e haram no que diz respeito às ações e aos comportamentos externos do muçulmano. E concluímo-la dentro das nossas possibilidades. Além disso, não tínhamos qualquer plano de discutir nesta obra, entre as atividades da mente e do cérebro, os movimentos da psicologia, os desejos, aspirações e imaginações, o que é haram, o que é halal e quais são intensamente haram — como a inveja, o ódio, a inveja da prosperidade alheia, a vaidade, a arrogância, a ostentação, a hipocrisia, a ganância, a cobiça e a avareza, entre outros. Embora esses estados psicológicos sejam gravíssimos haram e o Islam tenha travado contra eles uma guerra rigorosa e os tenha enfrentado, e embora o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) tenha advertido sobre os seus malefícios, alguns deles foram identificados como doenças fatais para a Ummah muçulmana. Foram descritos como destrutivos. Contudo, eles não foram incluídos no âmbito desta discussão.

Na realidade, o Alcorão Sagrado e a Sunnah de Muhammad desejaram purificar e aperfeiçoar o mundo interior do ser humano, tornando-o a base do bem-estar integral do indivíduo e da coletividade e da salvação neste mundo e no Além. Foi com referência a isso que se disse no Alcorão Sagrado:( Árabe*******************)

Allah, o Altíssimo, não mudará a condição coletiva de um povo enquanto este não mudar o próprio coração, a própria mente e o próprio íntimo.

( Árabe*******************)No Dia da Ressurreição, riquezas, bens e filhos não trarão benefício algum; somente prosperará aquele que se apresentar diante de Allah com um coração e um íntimo sãos e imaculados.

Foi com essa perspectiva que o nobre Profeta (que a paz esteja com ele) disse em seu célebre hadith:( Árabe*******************)

O halal é claro, e o haram também é claro. Entre ambos existem muitas questões duvidosas. Quem se proteger delas e delas se afastar poderá preservar sua religião e sua honra. Mas quem nelas cair estará sujeito a cair no haram evidente. Todo rei possui uma área protegida; na Terra, a área protegida por Allah são as coisas que Ele declarou haram.

Em seguida, falou sobre a importância do coração no corpo humano. Também indicou as resistências, inclinações, tendências, desejos e aspirações que dele emanam e sob cuja influência se forma o comportamento exterior da pessoa. Disse:( Árabe*******************)

Sabei que há no corpo humano um pedaço de carne. Se ele estiver são, todo o corpo se tornará são; e, se adoecer, todo o corpo adoecerá. Sabei que ele é o coração, o íntimo.

De acordo com este hadith, o coração é o órgão principal e o mais importante. Todos os demais órgãos são conduzidos sob sua orientação. Se esse condutor, ou força motriz, for bom, todo o corpo e seu conjunto de membros também serão bons. Mas, se ele for mau, tudo se tornará mau. Isso é inteiramente natural.

O critério para a aceitação das ações da pessoa por Allah é o coração, isto é, sua atitude interior ou intenção. A aparência exterior da pessoa, sua forma física e suas palavras não têm importância reconhecida neste caso. Isso porque Allah não olha para a aparência e a forma das pessoas; Ele vê o estado do coração e a condição interior. O hadith do Mensageiro: “As ações são avaliadas com base nas intenções” também significa isso. A pessoa obtém aquilo que intencionou obter.

Esta é a verdadeira posição de todas as ações relacionadas ao íntimo ou ao coração, e é por isso que fica evidente a grande importância que os assuntos psicológicos têm no Islã. Contudo, não os mencionamos nesta obra, pois pertencem ao âmbito da moralidade. Neles também existe a questão do halal e do haram. Os especialistas muçulmanos em moralidade e os adeptos do tasawwuf deram grande ênfase à sua importância. Sob essa perspectiva, tudo aquilo que é haram recebeu, na terminologia do tasawwuf, o nome de “Amrāḍ al-Qulūb”, “as doenças do coração”. Eles determinaram suas causas e também prescreveram tratamentos para remediá-las. O Alcorão e a Sunnah foram tomados como base para isso. Um quarto da obra “Iḥyāʾ ʿUlūm al-Dīn”, do Imam al-Ghazali, é dedicado a essa discussão. Ele deu-lhe o nome de “al-Muhlikāt” — os assuntos destrutivos —, pois, segundo a perspectiva do tasawwuf, são justamente eles que causam destruição, ruína e prejuízo generalizados tanto nesta vida quanto na Outra.

Quando falamos das coisas haram, queremos referir-nos apenas aos haram positivos. Isso porque o haram é de dois tipos. Um deles consiste em praticar atos injustos. Estes são negativos. Esse segundo tipo de assunto não é, fundamentalmente, o tema desta obra; uma eventual menção a ele será apenas circunstancial. Se fôssemos discuti-lo, teríamos de nos voltar para um assunto diferente. Então também seria necessário mencionar todos os deveres ordenados por Allah, pois deixar de cumpri-los ou negligenciá-los é, sem dúvida, haram. Por exemplo, adquirir conhecimento é dever de todo muçulmano. E, se um muçulmano for deixado na ignorância, é muito natural que acabe caindo no haram. Além disso, as práticas obrigatórias de adoração, como a oração, o jejum, o zakat e o hajj, são pilares fundamentais do Islã. Abandoná-las sem uma justificativa não é permitido a nenhum muçulmano. Ainda assim, se alguém as abandonar, cometerá um pecado grave. E aquele que as desprezar e não reconhecer que são obrigatórias terá soltado e lançado para longe de seu pescoço a corda do Islã.

Adquirir, tanto quanto possível, força e capacidade para a própria defesa da Ummah e para atemorizar e intimidar seus inimigos é um importantíssimo dever islâmico de toda a nação. Sobretudo, esse dever recai em primeiro lugar sobre o chefe de Estado responsável pela nação. Se esse dever não for cumprido — se for negligenciado —, cometer-se-á um grande haram, um grande pecado. O mesmo se aplica a todos os deveres da vida, particulares e gerais.

Não afirmamos que, nesta obra, tenhamos discutido todos os assuntos importantes, grandes e pequenos, relacionados ao halal e ao haram. Contudo, tratamos deles de tal maneira que todo muçulmano poderá compreender, à luz dela, o que é halal e o que é haram para si, tanto em sua vida pessoal quanto no âmbito coletivo. Foram apresentados esclarecimentos e análises de muitos assuntos importantes cujo funcionamento e fundamento no halal e no haram o povo comum desconhece por completo. Por isso, consideramos que esta obra é suficiente para nós.

Considero que, nesta obra, foram expostos muitos assuntos importantes sobre o nível profundo e íntimo das causas e razões subjacentes ao halal e ao haram proclamados pelo Islã. A partir disso, toda pessoa sensata poderá compreender claramente que não se deve de modo algum pensar que Allah, ao tornar algo halal, tenha querido humilhar as pessoas, ou que, ao torná-lo haram, tenha estreitado suas vidas. Na realidade, isso é inteiramente uma determinação de Allah, e Ele estabeleceu essa determinação com base em tudo aquilo que considerou benéfico para os seres humanos. Por meio dela, protegeu a religião deles e também providenciou o aperfeiçoamento de sua vida material. Por meio dela, estabeleceu a proteção e o controle de sua mente, consciência, razão, caráter, honra, dignidade e bens. Tanto no plano individual quanto no coletivo, tomou medidas para o desenvolvimento e o progresso da humanidade.

Há algo que deve ser sempre lembrado: a elaboração de leis humanas é um símbolo e um reflexo da fraqueza humana. Ela é extremamente defeituosa e incompleta. Quer o autor dessas leis seja um indivíduo, um governo ou mesmo um parlamento, ele as elabora tendo em vista exclusivamente o bem-estar material e mundano. Entretanto, sua atenção não se volta, nesse momento, para as exigências da religião, os imperativos do caráter e da moralidade, e assim por diante. O ser humano sempre pensa dentro do estreito cerco de sua pátria e de sua nacionalidade geográfica. Ele não tem capacidade para pensar no ambiente amplo, aberto e liberal da vasta humanidade e do mundo maior, nem para elaborar leis nesse contexto.

O ser humano elabora leis para resolver os problemas presentes e para o dia de hoje; elaborar leis capazes de atender às necessidades de amanhã, do futuro e da eternidade está além de sua capacidade. Além disso, o ser humano está repleto de fraqueza e estreiteza humanas. As leis elaboradas pelo homem estão necessariamente marcadas por sua incapacidade, pela estreiteza de sua visão e por seus próprios desejos, inclinações e tendências.

Consequentemente, assim como as leis humanas são constituídas dentro de um ambiente estreito, também são dominadas por uma visão superficial e por concepções materiais e temporárias. É digno de nota que, nas leis humanas, o halal e o haram são determinados segundo suas próprias paixões e desejos; seu objetivo é apenas apaziguar e satisfazer a opinião pública. Mesmo vendo e compreendendo que disso podem resultar graves perigos e enormes prejuízos, eles ainda assim procedem à elaboração dessas leis. Basta mencionar, como exemplo adequado nesse contexto, o caso dos Estados Unidos, quando foi revogada a lei que proibia o consumo de bebidas alcoólicas e foi aprovada uma lei que o tornou legal. Mas, na base da elaboração da lei islâmica, não há lugar algum para esses defeitos, incapacidades e estreitezas.

A lei islâmica é a lei elaborada pelo Grandioso Criador. O Criador está plenamente e minuciosamente informado sobre todas as coisas. Somente o Criador sabe em que consiste o verdadeiro bem-estar dos seres humanos e como eles podem ser benéficos para si mesmos e para toda a criação. Foi Ele quem disse:( Árabe*******************)

Somente Allah sabe o que é causador de corrupção e destruição e o que é benéfico.

É natural que o Criador esteja informado sobre tudo o que diz respeito à Sua criação.

( Árabe*******************)Saiba que somente o Criador sabe. Ele é Sutil e está informado sobre todas as coisas.

A lei islâmica foi elaborada por Allah, o Onisciente, o Sapientíssimo. Ele não declara nada haram sem razão, nem declara nada halal de maneira arbitrária. Ele criou cada coisa na medida adequada e elaborou Sua lei pesando tudo na balança.

A lei islâmica é a lei elaborada por Allah, o Misericordiosíssimo e o Provedor Supremo. Por meio dessa lei, Ele estabeleceu para Seus servos um modo de vida fácil e agradável. Ele jamais pode desejar causar qualquer sofrimento ou dificuldade aos seres humanos. Ele é, para os seres humanos que criou, ainda mais misericordioso do que os pais.

A lei islâmica foi elaborada pelo Rei Todo-Poderoso. Ele não depende de Seus servos nem necessita deles; não favorece ninguém, nem qualquer grupo, nação ou linhagem, e não está limitado por coisa alguma. Somente Ele pode ter competência para estabelecer as normas do halal e do haram para os demais, pois Ele é o Senhor dos mundos de todas as coisas.

Esta é a crença de todo muçulmano a respeito das normas do halal e do haram estabelecidas para os muçulmanos. Essa crença é inteiramente racional e compatível com a consciência. O muçulmano aceita-a com plena satisfação e convicção. É necessário ter plena vontade e determinação para pôr em prática essas normas. A fé do muçulmano consiste em reconhecer que sua felicidade neste mundo e sua salvação e sucesso na vida futura residem exclusivamente em observar e cumprir devidamente os limites estabelecidos pelos mandamentos e proibições de Allah.

Por isso, seu primeiro dever é conhecer devidamente esses limites — o que é halal e o que é haram. Somente conhecendo-os e observando-os corretamente é possível alcançar o bem, a felicidade e o sucesso em ambos os mundos.

Para explicar este ponto, quero apresentar aqui dois exemplos da vida dos primeiros muçulmanos. Ficará claramente demonstrado com que empenho eles se esforçavam e competiam para respeitar os limites do halal e do haram estabelecidos por Allah e para pôr em prática Seus mandamentos.

Já mencionamos anteriormente um exemplo ao tratar da proibição do consumo de bebidas alcoólicas. Os árabes eram loucos por bebidas alcoólicas. O amor por elas estava arraigado em seu próprio ser. Por isso, preparavam recipientes especiais para beber e organizavam reuniões especiais para esse fim. Allah, o Altíssimo, conhecia muito bem essa condição deles. Por isso, adotou um método gradual ao proibi-las. Por fim, anunciou sua proibição definitiva. Disse:( Árabe*******************)

É a extrema abominação das obras de Satanás; portanto, evitai-as.

Por isso, o nobre Profeta (que a paz esteja com ele) declarou haram beber essa bebida, vendê-la e oferecê-la como presente aos não muçulmanos. Naquela época, os muçulmanos possuíam grandes quantidades de bebidas alcoólicas e recipientes. Assim que ouviram essa proibição, fizeram o álcool correr pelas vielas de Medina e abandonaram-no para sempre.

Entre eles, foi observado um exemplo extraordinário de forte espírito de obediência para cumprir os mandamentos da Sharia. Quando ouviram o anúncio da proibição, alguém segurava um recipiente cheio de bebida alcoólica. Parte dela já havia sido bebida, e outra parte ainda restava para ser consumida. Mesmo assim, assim que ouviu o anúncio da proibição, lançou-a para longe. A pergunta de Allah:( Árabe*******************)— Então, abstereis-vos disso?

E, em resposta, disseram na prática: Sim, Allah, abstivemo-nos.

Se compararmos a história desta luta contra o consumo de bebidas alcoólicas na sociedade islâmica e de sua decisão final com o episódio da proibição do consumo de bebidas alcoólicas na América, ficará claramente comprovado que, exceto a lei de Allah, nada é compatível com a natureza humana. Somente por meio dessa lei é possível alcançar tranquilidade e estabilidade para a mente humana. Não é difícil compreender que, neste assunto, somente a fé, sem força, dominação ou autoridade, é uma ferramenta mais eficaz.

O segundo exemplo é a preparação das mulheres muçulmanas dos primeiros tempos para observar o recato. Allah, o Altíssimo, proibiu-lhes a libertinagem e a circulação livre, à maneira da época da ignorância. Foi-lhes ordenado preservar a honra e cobrir o corpo ao circular, enquanto, na época da ignorância, as mulheres saíam de casa com o peito descoberto. Não cobriam nenhuma parte do corpo. O pescoço permanecia exposto. Os cabelos flutuavam para trás sobre as costas como uma nuvem, e o brilho do ouro cintilava em suas orelhas. Allah, o Altíssimo, declarou ilícita essa maneira de circular. Elas deveriam seguir uma norma distinta e diferente daquela de seu tempo anterior. Deviam deixar de seguir e imitar a ignorância. Tinham de andar com o corpo completamente coberto. Deviam apertar o xale ou dupatta sobre o peito. Também deveriam cobrir a cabeça. Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) relatou como as mulheres das famílias dos Muhajirun e dos Ansar acolheram essa lei de Allah e como a implementaram pronta e tranquilamente na sociedade islâmica. Essa lei e essa ordem de Allah trouxeram consigo a exigência de uma mudança fundamental na vida das mulheres. E seu efeito incidiu sobre sua aparência, seu adorno e sua beleza. Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: Que Allah derrame Sua misericórdia sobre as mulheres Muhajir dos primeiros tempos. Quando foi revelado o versículo do Alcorão:( Árabe***************)— que apertem seus xales sobre os ombros e o peito —, viu-se que elas cobriram o peito com seus mantos. (Bukhari)

Certo dia, algumas mulheres estavam sentadas junto dele. Então se falou sobre as mulheres da tribo dos Quraysh e sua honra e posição. Ele disse: As mulheres dos Quraysh certamente têm sua honra. Porém, juro por Allah, não vi em lugar algum mulheres melhores do que as mulheres dos Ansar. Elas colocaram em prática o Livro de Allah e imediatamente creram em tudo o que era revelado. Depois que foi revelado o versículo acima mencionado da Surata An-Nur, seus homens o recitaram para elas. Cada homem o recitou para sua esposa, filha e irmã. Assim, cada homem informou suas parentes próximas sobre essa ordem de Allah. Então cada mulher dos Ansar tomou seu dupatta adornado com desenhos e brilhantes, apertou-o firmemente e amarrou-o sobre a cabeça. Desse modo, elas puseram em prática a ordem de Allah; e, na oração do fajr do dia seguinte, todas as mulheres que participaram estavam com a cabeça firmemente coberta por seus dupattas.

Assim era a atitude das mulheres crentes diante dos mandamentos de Allah. Elas se apressavam a obedecer à ordem de Allah sem demora. Abandonariam aquilo que lhes fosse proibido fazer; nisso não se via qualquer hesitação, constrangimento ou indecisão. Não esperavam nem adiavam a obediência. Não deixavam passar um dia, dois dias ou mais, dizendo: “Está bem, depois compraremos roupas novas e as usaremos de acordo com isso.” Pelo contrário, naquele mesmo momento usavam, para obedecer à ordem de Allah, as roupas que possuíam, qualquer que fosse o tecido ou a cor disponível. Se não encontrassem uma roupa apropriada, rasgavam a que tinham e a amarravam firmemente sobre a cabeça.

Neste ponto, queremos lembrar que não basta apenas conhecer e compreender o lícito e o ilícito. Na realidade, o lícito e o ilícito são assuntos claros; nada disso é desconhecido para qualquer muçulmano. Apesar disso, muitos muçulmanos acabam envolvidos no turbilhão do ilícito. E, como consequência, mesmo vendo, ouvindo, sabendo e compreendendo tudo, estão se preparando para se tornar combustível do Inferno.

Na verdade, o necessário é ter taqwa — o temor de Allah — no coração. Essa taqwa é a força motriz interior para cumprir a Sharia de Allah. Em linguagem atual, o necessário é uma disposição mental viva. Somente ela pode manter o muçulmano dentro dos limites do lícito e ser capaz de impedi-lo de praticar atos ilícitos. E esse tipo de disposição mental só pode ser alcançado por meio da formação da fé em Allah e na Vida Futura.

Quando, por um lado, o muçulmano possui forte conhecimento dos limites da religião e da Sharia e, por outro, uma disposição mental desperta vigia esses limites e não lhe permite ultrapassá-los nem sequer aproximar-se deles, então as portas do bem-estar integral podem abrir-se para ele. O Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) realmente disse:( Árabe*******************)

Quando Allah deseja o bem de uma pessoa, cria dentro dela um conselheiro para ela.

( Árabe*******************)

Ó Allah! Salva-nos do que proibiste por meio do que permitiste, da desobediência por meio da obediência a Ti e, por Tua graça, de tudo além de Ti.

— Fim —