Palavras do tradutor
Agradeço infinitamente ao grandioso Allah, pois Ele me concedeu a oportunidade de traduzir esta valiosa obra do Imam Dhahabi, “Kitabul Kabair”. Aproveito também para expressar minhas sinceras saudações e gratidão às autoridades do Centro Islâmico de Bangladesh por providenciarem a publicação gradual desta obra no periódico mensal Prithibi e, finalmente, sua publicação em forma de livro.
A tradução de Kitabul Kabair foi feita diretamente a partir da obra original em árabe. Se esta obra trouxer algum benefício aos muçulmanos falantes de bengali, rogo sinceramente ao grandioso Allah, em Sua presença misericordiosa, que perdoe todos os pecados deste humilde servo por sua bênção.
“Grandes Pecados”, embora seja uma tradução fiel da obra Kitabul Kabair, do erudito Dhahabi, exigiu também um pequeno trabalho de edição. Por exemplo, evitou-se repetir várias vezes, na tradução, os mesmos hadiths e versículos; em alguns casos, foram omitidos relatos de experiências e sonhos de certas pessoas veneráveis; a longa prosa e poesia de caráter exortativo pessoal do autor foram, em alguns trechos, apresentadas de forma resumida e, em outros, omitidas por serem consideradas desnecessárias; como foram apresentados versículos suficientes e hadiths autênticos como prova, foram omitidos os hadiths fracos e as declarações dos sábios; e, em um ou dois casos, os títulos foram alterados em conformidade com o conteúdo original, entre outras coisas.
Este pequeno trabalho de edição foi realizado com dois objetivos: primeiro, livrar o leitor falante de bengali do incômodo de ler relatos longos e desnecessários; segundo, assegurar que o volume do livro não aumentasse excessivamente.
Espero que esta obra seja apreciada em todos os círculos e contribua para preservar os valores islâmicos e morais da sociedade.
Akram Faruk,
Daca
1-11-1995
Apresentação do autor
(O Imam Shamsuddin Muhammad bin Uthman bin Qaymaz al-Turkmani, al-Fariqi, al-Dimashqi al-Dhahabi nasceu em Damasco no ano de 673 da Hégira, correspondente a 1274 d.C. Sua terra ancestral era Mიაფারেকীন, no Turcomenistão. Ele estudou com os grandes sábios muçulmanos da Síria, do Egito e do Hijaz, e viajou para muitos países com esse propósito. Alcançou especial excelência em vários ramos das ciências e do conhecimento islâmicos, particularmente nas disciplinas relacionadas ao Alcorão e ao Hadith. Embora tenha se tornado uma figura lendária como hafiz de hadith, sua habilidade em avaliar e verificar a autenticidade dos hadiths elevou seu conhecimento e sua erudição ao mais alto patamar da fama. Ele escreveu 90 obras valiosas em diferentes ramos das ciências e do conhecimento islâmicos. Essas obras tratam, entre outros assuntos, de hadith, história e biografias. Além de sua maior obra, “Tarikh al-Islam” (A História do Islã), são especialmente famosas “Siyar al-Nubala” (Biografias dos eruditos muçulmanos) e três obras sobre a verificação da autenticidade dos hadiths: “Mizan al-I‘tidal”, “Al-Mushtabah fi Asma al-Rijal” e “Tajrid al-Usul fi Ahadith al-Rasul”. Além disso, ele deixou uma grande enciclopédia contendo os nomes e breves biografias de 1.300 sábios. Entre esses sábios, muitos foram seus discípulos ou mestres.)
Sua obra intitulada “Kitabul Kabair” contém a descrição de 70 grandes pecados. Ela foi escrita com o objetivo de proteger os muçulmanos comuns do desvio.
O Imã Dhahabi ocupou vários cargos públicos no setor educacional em Damasco e, paralelamente ao trabalho, escreveu essas obras. Embora tenha perdido a visão no ano 741 da Hégira e, por isso, tenha interrompido o trabalho de escrita, continuou ensinando até sua morte, em 748 da Hégira, correspondente ao ano de 1348 d.C. Seu túmulo encontra-se em Damasco.
O que são os grandes pecados?
As coisas que, segundo o Livro de Allah, a Sunnah do Mensageiro e os relatos dos piedosos sábios do passado, são reconhecidas como explicitamente proibidas por Allah e pelo Mensageiro são os kabair (grandes pecados). Allah garantiu no Alcorão que, se forem evitados os kabair e as coisas proibidas, os sagair (pequenos pecados) serão perdoados. Allah diz: “Se vocês evitarem os grandes pecados que lhes foram proibidos, Nós perdoaremos os seus (outros) pecados e os faremos entrar em um lugar honroso.” (Surata An-Nissá)
Com esta declaração inequívoca e sem ambiguidades, Allah Todo-Poderoso garantiu claramente o Paraíso àqueles que se abstêm dos kabair, ou grandes pecados.
Na Surata Ax-Xura, Allah diz: “E aqueles que se abstêm dos grandes pecados e das obscenidades e perdoam quando ficam irados.”
E na Surata An-Najm, Allah diz: “E aqueles que se abstêm dos grandes pecados e das ações obscenas terão, certamente, o perdão de Allah muito amplo. Quanto aos pequenos pecados, isso é outra questão.”
O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “As cinco orações diárias, de uma oração de sexta-feira até a sexta-feira seguinte, e o jejum do Ramadã, até o Ramadã seguinte, garantem o perdão dos pecados cometidos entre eles, se forem evitados os ‘grandes pecados’.”
À luz destes poucos versículos e hadiths, tornou-se nosso dever indispensável investigar quais são os grandes pecados. A esse respeito, observamos algumas divergências entre os sábios. Alguns afirmam que os grandes pecados são sete. Eles argumentam com base nas palavras do Mensageiro: “Abstenham-se dos sete pecados destruidores: associar alguém a Allah, praticar magia, cometer um homicídio ilícito, salvo quando legitimado pela lei religiosa, apropriar-se dos bens do órfão, consumir juros, fugir do campo de batalha e acusar de adultério as mulheres crentes, castas, inocentes e virtuosas.” (Sahih Al-Bukhari e Sahih Muslim) O nobre Abdullah ibn Abbas disse: “Seu número se aproxima de setenta.”
Nos hadiths, não se conhece um número específico de pecados maiores. Contudo, pode-se compreender e provar de forma irrefutável que são pecados maiores todos aqueles grandes pecados para os quais foi ordenada uma punição neste mundo, como o assassinato, o roubo e o adultério; ou para os quais foi anunciado um terrível castigo na Outra Vida; ou cujo autor foi amaldiçoado nas palavras do Mensageiro; ou sobre os quais se afirmou que aquele que neles incorre não possui fé ou não é considerado parte da ummah muçulmana.
Foi narrado por Hazrat Saíd ibn Jubair que um homem disse a Hazrat Abdullah ibn Abbas: “Os pecados maiores são apenas sete.” Hazrat Ibn Abbas respondeu: “Pelo contrário, aproximam-se de setecentos.” Contudo, quando se pede perdão e se faz tawbah, nenhum pecado maior permanece maior; isto é, é perdoado. Mas, quando se persiste nele, nem mesmo o pecado menor permanece menor; ao contrário, torna-se maior. De outra narração, sabe-se que Hazrat Ibn Abbas disse: “Os pecados maiores são aproximadamente setenta.” A maioria dos sábios, ao enumerá-los, encontrou exatamente setenta ou apenas alguns a mais.
Também é verdade que há diferenças entre os próprios pecados maiores: alguns são mais graves ou mais leves que outros. Por exemplo, o shirk também é considerado um pecado maior. No entanto, aquele que incorre nesse pecado permanecerá eternamente no Inferno, e seu pecado é imperdoável. Allah, o Altíssimo, disse na surata An-Nissá: “Allah não perdoa o pecado do shirk. Quanto aos pecados abaixo disso, Ele perdoa a quem deseja.” Naturalmente, a situação é diferente quando se abandona o shirk. (A seguir, será apresentada uma discussão sobre os setenta pecados maiores.)
1. Shirk
Associar alguém a Allah é o maior dos pecados maiores. Esse shirk é de dois tipos: (1) shirk de crença, isto é, considerar alguém além de Allah como igual a Allah e adorá-lo. Seja uma árvore, uma pedra, o sol, a lua, uma estrela, um anjo, um profeta, um santo ou qualquer outra coisa, considerá-lo igual a Allah e adorá-lo é shirk. Allah, o Altíssimo, diz: “Certamente, Allah não perdoa que se associe alguém a Ele; quanto a qualquer pecado menor que esse, perdoa a quem deseja.” (Surata An-Nissá) “Certamente, o shirk é uma grande injustiça.” (Surata Luqman) “Quem associar alguém a Allah, Allah lhe proibirá o Paraíso, e sua morada será o Inferno.” (Surata Al-Máida)
Há ainda muitos outros versículos sobre esse assunto.
Com efeito, quem associar alguém ou alguma coisa a Allah e morrer nesse estado certamente irá para o Inferno. Do mesmo modo, se alguém crer em Allah e morrer como crente, será habitante do Paraíso, ainda que sofra o castigo do Inferno por mais intenso que seja. Foi narrado em Sahih al-Bukhari e Sahih Muslim que, certo dia, o Mensageiro disse três vezes: “Quereis que vos informe sobre o maior dos pecados maiores?” Todos responderam: “Sim, ó Mensageiro!” Então ele disse: “Associar alguém a Allah e maltratar os pais.” Em seguida, sentou-se ereto, depois de estar reclinado, e disse: “Cuidado com mentir e prestar falso testemunho!” Ele continuou repetindo essas últimas palavras tantas vezes que o narrador do hadith disse: “Nós pensávamos em silêncio que seria melhor se o Mensageiro parasse de falar.”
Foi narrado por Bukhari e Ahmad: “O Mensageiro disse: ‘Afastai-vos dos sete pecados destrutivos e devastadores.’ Em seguida, mencionou o shirk e depois disse: ‘Matai aquele que mudar de religião, isto é, abandonar o Islã.’”
O segundo tipo de shirk é praticar boas ações com o objetivo de ser visto pelas pessoas.
Allah diz: “Quem deseja encontrar-se com Allah deve praticar boas obras e não associar ninguém ao culto de seu Senhor.” Isto é, não se deve praticar boas obras com a intenção de mostrá-las a alguém. O Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) disse: “Afastai-vos do pequeno shirk.” Os Companheiros perguntaram: “O que é o pequeno shirk?” Ele respondeu: “Riya, isto é, praticar boas obras para ser visto pelas pessoas.” No Dia em que Allah concederá a Seus servos a recompensa por suas ações, Ele lhes dirá: “Ide até aqueles diante dos quais praticáveis boas ações no mundo. Vede se eles vos darão alguma recompensa.” (Ahmad, Bayhaqi, Tabarani) Em outro hadith, o Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) disse: “Allah, o Altíssimo, afirmou: ‘Quem pratica uma ação e associa nela alguém além de Mim, essa ação pertence àquele que foi associado. Não tenho nenhuma relação com tal ação.’” (Muslim, Ibn Majah) O Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) também disse: “Quem faz algo para que as pessoas ouçam falar dele, Allah fará com que as pessoas ouçam falar dele; e quem faz algo para que as pessoas o vejam, Allah o tratará de modo ostensivo.” (Bukhari e Muslim) O Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) disse: “Há muitos jejuadores que nada obtêm de seu jejum além de fome e sede, e há muitos que passam a noite em oração, mas cuja vigília noturna nada lhes aproveita.” Isto é, se a oração e o jejum não forem praticados buscando a satisfação de Allah, não haverá recompensa por eles. (Ibn Majah, Ahmad, Tabarani) Allah, o Altíssimo, declara: “Voltaremos às obras que praticaram e as tornaremos poeira dispersa.” Isto é, Allah destruirá a recompensa daquilo que a pessoa fizer com qualquer objetivo que não seja buscar a satisfação de Allah.
Adi ibn Hatim narra que o Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) disse: “No Dia da Ressurreição, será ordenado que algumas pessoas sejam conduzidas ao Paraíso. Quando estiverem bem próximas dele, sentirem seu aroma e virem os palácios em seu interior e suas demais bênçãos incomparáveis, será dito aos anjos: ‘Levai-os de volta dali, pois eles não têm direito a nenhuma dessas bênçãos do Paraíso.’ Então voltarão em extrema desilusão e arrependimento. Depois dirão: ‘Ó Allah! Se nos tivesses enviado ao Inferno antes de nos mostrares as bênçãos que reservaste para Teus amados, isso teria sido muito mais fácil para nós.’ Allah dirá: ‘Eu já havia decidido tratar-vos exatamente assim. Quando ficáveis sozinhos, comportáveis-vos com extrema desobediência para Comigo. Porém, quando convivíeis com as pessoas, comportáveis-vos com elas como pessoas tementes a Allah. A atitude que demonstráveis às pessoas por meio de vossas ações não era a atitude que sinceramente mantínheis para Comigo. Tínheis medo das pessoas, mas não de Mim. Dávais importância às pessoas, mas não a Mim. Fazíeis sacrifícios pelas pessoas, mas não por Mim. Por isso, hoje privar-vos-ei da Minha abundante recompensa e também vos infligirei um castigo doloroso.’” Em outro hadith, consta que um homem perguntou ao Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) como obter a salvação. Ele respondeu: “Se não enganares Allah, obterás a salvação.” O homem perguntou: “O que significa enganar Allah?” Ele respondeu: “Se fizeres, para agradar a alguém além de Allah, aquilo que Allah e Seu Mensageiro te ordenaram fazer, isso será equivalente a enganar Allah.” O Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) também disse: “Abstém-te da ostentação (de praticar ações para ser visto), pois a ostentação é o pequeno shirk. Aquele que se entregar à ostentação será chamado, no Dia da Ressurreição, diante da multidão reunida, por quatro qualificativos: ‘Ó ostentador! Ó traidor! Ó desobediente! Ó perdedor! Tuas ações foram anuladas, tua recompensa foi perdida e não tens nenhum pagamento a receber de Mim. Ó enganador, recebe teu pagamento daquele por quem trabalhaste.’”
Conta-se que perguntaram a um sábio muçulmano o que são sinceridade e devoção (ikhlas). Ele respondeu: “Assim como a pessoa esconde seus atos pecaminosos, deve também esconder suas boas ações. Isso é sinceridade ou ikhlas.” Perguntaram-lhe: “Qual é o objetivo do ikhlas ou da sinceridade?” Ele respondeu: “Não desejar que as pessoas te elogiem.” Hazrat Fudayl ibn Iyad disse: “Abandonar uma má ação por medo das pessoas é ostentação, e praticar uma boa ação para agradar às pessoas é shirk. Ikhlas é estar livre dessas duas enfermidades.”
2. Matar ou cometer homicídio
Allah, o Altíssimo, disse: “Quem matar intencionalmente um crente terá como destino o Inferno, onde permanecerá eternamente. Allah ficará irado com ele, amaldiçoá-lo-á e preparou para ele um terrível castigo.” (Surata An-Nisa) “E aqueles que não matam a vida que Allah proibiu, salvo por uma razão legítima, e não cometem adultério — esses são os servos amados de Allah. Mas aqueles que praticam tais atos são grandes pecadores. O castigo ser-lhes-á duplicado, e permanecerão ali eternamente, humilhados. Exceto aquele que se arrepende, crê e pratica boas ações: esse terá uma condição diferente.” Na Surata Al-Ma’idah, matar uma pessoa é comparado a matar toda a humanidade. Allah diz: “Por isso, prescrevi aos Filhos de Israel que quem matar alguém, não como retribuição por um homicídio, será como se tivesse matado toda a humanidade,
“e quem salvar uma vida será como se tivesse salvado toda a humanidade.” No hadith, matar e ter a intenção de matar foram considerados crimes igualmente graves. O Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) disse: “Quando dois muçulmanos se enfrentam com suas espadas, tanto o assassino quanto o assassinado irão para o Inferno.” Perguntaram-lhe: “Quanto ao assassino, entendemos. Mas qual é a situação do assassinado?” O Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) respondeu: “Ele queria matar seu adversário.” (Bukhari, Muslim, Ahmad)
Os imames e os muhaddiths disseram, ao explicar este hadith, que ele se aplica quando ocorre um confronto mútuo por algum interesse ilegítimo, inimizade ou hostilidade. Caso contrário, ele não se aplica quando se portam armas para autodefesa ou para proteger bens legitimamente adquiridos. Isso porque o objetivo de quem se defende não é matar o adversário, mas repelir o ataque. Se for possível defender-se sem matar o agressor, isso é preferível.
O Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) também disse: “Depois de mim, não vos torneis como os incrédulos que matam uns aos outros.” Também disse: “Enquanto não cometer um homicídio injusto, o servo ainda tem a possibilidade de ter todos os demais pecados perdoados.” Também disse: “No Dia da Ressurreição, o julgamento do homicídio será o primeiro a ser realizado.” Também disse: “Para mim, o homicídio de um crente é um acontecimento mais grave do que a destruição do mundo inteiro.” Em um hadith, associar parceiros a Allah, matar uma pessoa e prestar um juramento falso foram classificados como os maiores pecados graves. O Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) disse: “De todo homicídio injusto cometido na Terra, o primeiro filho de Adão receberá uma parcela, pois foi ele quem primeiro estabeleceu esse crime.” O Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) também disse: “Aquele que matar um não muçulmano não sentirá sequer o aroma do Paraíso, embora o aroma do Paraíso possa ser sentido a uma distância de quarenta anos.”
3. Praticar magia
A razão pela qual a magia é um pecado grave é que não é possível praticá-la sem se tornar um incrédulo. Allah, o Altíssimo, diz: «Os demônios ensinavam magia às pessoas, entregando-se à incredulidade.» Na verdade, o único objetivo do amaldiçoado Satanás ao ensinar magia às pessoas é fazê-las associar parceiros a Allah. Ao narrar a história dos dois anjos chamados Harute e Marute, Allah diz: «Antes de ensinar magia a alguém, ambos advertiam: “Somos apenas uma prova; portanto, não vos entregueis à incredulidade.” Depois, as pessoas aprendiam com eles uma magia pela qual se podia separar o marido da esposa. Contudo, não podiam prejudicar ninguém com ela, salvo com a permissão de Allah. A magia que aprendiam só lhes causava dano e não lhes trazia benefício. E sabiam também que quem adquirisse magia não teria nenhuma parte na Outra Vida.» (Surata Al-Baqara)
Por isso, vê-se muitas pessoas desviadas recorrerem à magia, pois consideram-na apenas uma prática proibida. Porém, não sabem que, na realidade, ela também constitui incredulidade. Para separar marido e esposa ou criar amor entre um homem e uma mulher que não lhe são permitidos, pratica-se magia recitando fórmulas, a maioria das quais está repleta de shirk e incredulidade.
A punição prescrita pela Sharia para o mágico é a pena de morte, pois isso constitui incredulidade em relação a Allah ou está incluído na categoria da incredulidade. A magia também está incluída no hadith em que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) ordenou que se evitassem «as sete práticas destrutivas». Portanto, devemos temer Allah e não nos aproximar de algo prejudicial tanto neste mundo quanto na Outra Vida. Está dito em um hadith: «A punição do mágico é eliminá-lo com um golpe de espada.» (Al-Jami‘ at-Tirmidhi)
Está narrado em um hadith de Sahih al-Bukhari: «Ibn Abda disse: um ano antes do falecimento de Umar (que Allah esteja satisfeito com ele), recebemos uma carta ordenando: “Matai o mágico, seja ele homem ou mulher.”» Em um hadith qudsi, Allah, o Altíssimo, diz: «Não há nenhuma divindade além de Mim. Não são do Meu agrado aquele que pratica magia, aquele para quem ela é praticada, aquele que faz previsões, aquele para quem elas são feitas, aquele que acredita em presságios bons ou maus, nem aquele que aconselha alguém a acreditar neles.» Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) narra que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: «Três pessoas não entrarão no Paraíso: (1) o alcoólatra; (2) aquele que rompe os laços de parentesco; e (3) aquele que deposita confiança na magia.» (Musnad Ahmad)
Está mencionado em um hadith narrado por Ibn Mas‘ud: acreditar em amuletos e em encantamentos é shirk. Contudo, não há problema em usar amuletos e encantamentos se a pessoa acreditar que eles não têm nenhum benefício senão pela vontade e pela graça de Allah, desde que não estejam escritos em linguagem não islâmica. O imame Al-Khattabi disse: é permitido usar amuletos nos quais estejam escritos versículos do Alcorão ou nomes de Allah, pois o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) escreveu pessoalmente amuletos para Hasan e Husayn (que Allah esteja satisfeito com ambos).
4. Negligenciar a oração
Allah, o Altíssimo, diz: «Depois deles, vieram sucessores que negligenciaram a oração e seguiram os desejos e paixões. Certamente, cairão em “Ghayy”. Exceto aqueles que se arrependem, creem e praticam boas obras; esses estarão a salvo.» (Maria)
Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: «Negligenciar a oração não significa abandoná-la completamente; significa rezá-la depois do horário determinado ou fazê-la como oração compensatória. Sa‘id ibn al-Musayyab disse: significa atrasar a oração até que chegue o horário da oração seguinte. Allah ameaçou lançar no lugar chamado “Ghayy” aquele que se acostuma a fazer isso e morre sem se arrepender desse hábito. Esse é o nome de uma cavidade extremamente profunda e imunda do Inferno.»
Em outro versículo, Allah disse: “Ai daqueles que rezam, mas são negligentes em relação à sua oração”, isto é, são preguiçosos e procrastinam.
Hazrat Sa‘d ibn Abi Waqqas disse: “Perguntei ao Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele): O que significa essa negligência?” Ele respondeu: “Atrasá-la para além do seu horário determinado.” Eles foram chamados de pessoas que rezam, mas, por causa da sua desatenção e atraso, foram ameaçados com o “Wail”. Wail significa a severidade do tormento. Segundo alguns, Wail é um lugar extremamente quente do Inferno, onde até mesmo todas as montanhas e cordilheiras da Terra, se fossem lançadas ali, derreteriam com o intenso calor. Se não buscarem perdão com arrependimento e remorso, esse lugar está destinado a ser a morada daqueles que deixam passar a oração e dos que são negligentes na oração.
Allah, o Altíssimo, disse em outro versículo: “Ó crentes! Que as vossas riquezas e os vossos filhos não vos distraiam da recordação de Allah. E quem fizer isso será um dos perdedores.” Os exegetas disseram que, nesse versículo, “recordação de Allah” se refere às cinco orações diárias. Portanto, se alguém, ocupado com as atividades relacionadas à obtenção de sustento — como negócios e comércio — e com os assuntos relativos aos filhos, não rezar no horário, será um dos perdedores.
O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “No Dia da Ressurreição, a primeira ação do servo pela qual será chamado a prestar contas será a oração. Se ele for capaz de responder por ela, será salvo; caso contrário, o fracasso será inevitável.”
Sobre os habitantes do Inferno, Allah diz: “Os habitantes do Paraíso perguntarão: ‘Por que razão entrastes no Inferno?’ Eles responderão: ‘Não fazíamos parte dos que rezavam…’”
O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “O pacto entre os não muçulmanos e nós diz respeito à oração. Quem a abandona é um incrédulo.” Ele também disse: “Entre o servo e a sua condição de incrédulo há apenas o abandono da oração.”
É narrado em Sahih al-Bukhari que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Quem perder a oração do ‘Asr terá todas as suas boas ações anuladas.” Em outro hadith, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Allah está livre de qualquer responsabilidade para com aquele que abandona deliberadamente a oração.” Em um hadith narrado por ‘Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) e registrado em Sahih al-Bukhari e Sahih Muslim, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Fui ordenado a combater as pessoas até que reconheçam o Único Allah como seu Deus, estabeleçam a oração e paguem o zakat. Aqueles que fizerem isso terão o seu sangue e os seus bens protegidos de mim, salvo por uma justa razão. E Allah será responsável por lhes pedir contas.” Ao explicar esse hadith, ‘Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Aquele que abandona a oração não poderá usufruir de nenhuma das concessões e da segurança concedidas pelo Islam.”
O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) também disse: “Quem cumprir devidamente a oração, ela será, no Dia da Ressurreição, para ele um meio de salvação, uma luz e uma prova. Mas quem não cumprir devidamente a oração não terá nela nem luz, nem prova, nem meio de salvação. Além disso, no Dia da Ressurreição, estará na companhia de Faraó, Qarun, Haman e Ubay ibn Khalaf.”
Ao explicar esse hadith, alguns sábios muçulmanos disseram que a razão pela qual aquele que não reza será ressuscitado com esses quatro notórios incrédulos é que há quatro causas para o abandono da oração: cuidar das riquezas, ocupações relacionadas ao Estado, ocupações administrativas e ocupações comerciais. Se a primeira for a razão de abandonar a oração, será ressuscitado com Qarun; se for a segunda, com Faraó; se for a terceira, com Haman; e, se for a quarta, com Ubay ibn Khalaf, o destacado comerciante de Meca.
É narrado por al-Bayhaqi, segundo ‘Umar (que Allah esteja satisfeito com ele), que um homem foi até o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e disse: “Ó Mensageiro! Qual ato do Islam é mais amado por Allah?”
O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) respondeu: “Fazer a oração no horário. Quem abandona a oração não tem religião. A oração é o pilar do Islam.”
Quando Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) foi ferido pelo golpe de um assassino, informaram-lhe: “Ó Comandante dos Crentes! Chegou o horário da oração.” Ele respondeu: “Sim, rezarei. Aquele que abandona a oração não tem nenhuma relação com o Islã.” Então ele realizou a oração, enquanto o sangue ainda escorria de seu ferimento.
O ilustre tabi‘ī (aquele que não viu o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), mas encontrou um Companheiro; assim é chamado um tabi‘ī), Abdullah ibn Shaqīq (que Allah tenha misericórdia dele), disse: “Os Companheiros do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) não consideravam que abandonar qualquer ato, além da oração, tornasse uma pessoa incrédula.” Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) e Ibn Mas‘ūd (que Allah esteja satisfeito com ele) declararam claramente que aquele que não reza é, respectivamente, incrédulo e desviado. Ibn Abbās disse: “Mesmo que alguém abandone deliberadamente uma única oração obrigatória, quando encontrar Allah, Ele estará irado com ele.”
O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Aquele que se apresentar diante de Allah sem rezar, Allah não aceitará suas outras boas obras.” (At-Tabarānī) O Imām Ibn Hazm disse: “Depois de associar parceiros a Allah e matar injustamente um crente, o maior dos pecados é abandonar a oração.” O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) também disse: “Quando um servo realiza a oração no início de seu horário, essa oração ascende até o Trono, lançando raios de luz, e continua suplicando até o Dia da Ressurreição: ‘Que Allah te proteja assim como tu me protegeste!’” (At-Tabarānī)
O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Allah, o Altíssimo, não aceita a súplica de três pessoas:
(1) aquele que se impõe como líder de um povo, embora o povo o deteste;
(2) aquele que priva uma pessoa livre de sua liberdade;
(3) aquele que realiza a oração depois de passado o horário determinado.” (Abū Dāwūd)
O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) também disse: “Aquele que juntar duas orações sem uma justificativa cometerá um pecado gravíssimo.” (Al-Hākim)
Foi narrado por Abū Dāwūd que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Quando uma criança completar sete anos, ordenai-lhe que reze. Quando completar dez anos, castigai-a por isso e separai sua cama.”
O Imām Al-Khattābī disse: “Este hadith indica que, para um adulto que abandona a oração, aplica-se um castigo ainda mais severo. Segundo alguns estudiosos da escola shāfi‘ī, um adulto que abandona deliberadamente a oração pode, no máximo, ser condenado à morte.”
Segundo os Imāms Mālik, Ash-Shāfi‘ī e Ahmad, ele deve ser morto.
Segundo Ibrāhīm An-Nakha‘ī, Ayyūb As-Sakhtiyānī, Abdullah ibn Al-Mubārak, Ahmad ibn Hanbal e Ishāq ibn Rāhwayh, aquele que voluntariamente abandona a oração sem justificativa deve ser considerado incrédulo depois que terminar o horário da oração.
Foi narrado em um hadith que aquele que cumprir devidamente as cinco orações obrigatórias receberá de Allah cinco honras. Primeiro: Ele eliminará sua pobreza; segundo: libertá-lo-á do castigo da sepultura; terceiro: entregar-lhe-á o registro de suas obras na mão direita; quarto: fará com que atravesse a Ponte Sirāt à velocidade de um relâmpago; quinto: fará com que entre no Paraíso sem prestar contas. Quanto àquele que demonstrar negligência em relação à oração, Allah lhe imporá quatorze castigos: cinco durante a vida terrena, três no momento da morte, três na sepultura e três no momento de ser ressuscitado da sepultura. Os cinco da vida terrena são: a bênção será retirada de sua vida; o brilho próprio das pessoas virtuosas desaparecerá de seu rosto; e ele não receberá recompensa por nenhuma de suas boas obras.
Nenhuma de suas súplicas será aceita, e ele será privado das súplicas das pessoas virtuosas. Os três castigos no momento da morte são: morrerá humilhado; morrerá faminto; e morrerá com tanta sede que, mesmo que bebesse a água de todos os mares do mundo, sua sede não seria saciada. Os três castigos que sofrerá enquanto estiver na sepultura são: sua sepultura se estreitará e o esmagará com tanta força que as costelas de um lado se quebrarão e passarão para o outro lado; sua sepultura será preenchida com fogo, que continuará ardendo dia e noite; e uma serpente venenosa continuará a picá-lo até o Dia da Ressurreição. Os três castigos que sofrerá ao sair da sepultura são: sua prestação de contas será rigorosa; verá Allah irado; e entrará no Inferno. Em outra narração, consta que, no Dia da Ressurreição, três frases estarão inscritas em sua testa. A primeira será: “Ó desperdiçador do direito de Allah!” A segunda será: “Ó merecedor da ira de Allah!” A terceira será: “Assim como não concedeste na Terra o direito de Allah, hoje serás privado da misericórdia de Allah.”
Foi narrado por Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) que, no Dia da Ressurreição, um homem será colocado de pé diante de Allah e receberá a ordem de entrar no Inferno. Ele perguntará: “Ó meu Senhor! Por qual motivo?” Allah dirá: “Por teres realizado a oração depois do horário determinado e por teres feito um juramento falso em Meu nome.”
Certa vez, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Ó Allah! Não transformes nenhum de nós em um desventurado privado da Tua misericórdia.” Em seguida, perguntou aos Companheiros presentes: “Sabeis quem é o desventurado privado da misericórdia?” Os Companheiros disseram: “Ó Mensageiro de Allah, quem?” Ele respondeu: “Aquele que abandona a oração.” Em outro hadith, consta que, no Dia da Ressurreição, aqueles cujos rostos ficarão negros primeiro serão os que abandonaram a oração. No Inferno existe uma região chamada Malham. Ali há muitas serpentes. Cada uma delas é tão grossa quanto o pescoço de um camelo e tão longa quanto a distância percorrida em aproximadamente um mês. Essas serpentes morderão aquele que abandona a oração, e seu veneno continuará a atormentá-lo por setenta anos; por fim, sua carne cairá aos pedaços.
Foi narrado que certa vez uma mulher dos Filhos de Israel foi até Moisés (que a paz esteja sobre ele). Ela disse: “Ó Mensageiro de Allah! Cometi um pecado terrível. Depois, arrependi-me. Suplica para que Allah me perdoe.” Moisés (que a paz esteja sobre ele) perguntou: “Que pecado cometeste?” Ela respondeu: “Cometi adultério. Depois, dei à luz um filho ilegítimo e o matei.” Moisés (que a paz esteja sobre ele) disse: “Ó grande pecadora! Sai imediatamente. Temo que o fogo desça agora do céu e nos reduza todos a cinzas.” A mulher saiu com o coração despedaçado. Pouco depois, Gabriel (que a paz esteja sobre ele) chegou e disse: “Ó Moisés! Allah perguntou por que expulsaste esta mulher arrependida. Acaso não viste alguém ainda mais vil do que ela?” Moisés disse: “Ó Gabriel! Quem poderia ser mais pecador do que ela?” Gabriel (que a paz esteja sobre ele) respondeu: “Aquele que abandona deliberadamente a oração.”
É narrado outro acontecimento: um homem sepultou e amortalhou sua irmã e, ao voltar para casa, percebeu que sua carteira havia desaparecido. Depois, pensou que ela poderia ter caído dentro da sepultura. Então voltou, abriu a sepultura e viu fogo ardendo intensamente por todo o seu interior. Ele tornou a cobri-la com terra e voltou para casa chorando. Quando contou tudo à sua mãe, ela disse que a filha era negligente quanto à oração e costumava rezar depois de passado o horário. Se deixar passar uma oração sem desculpa pode levar a tal destino, é arrepiante imaginar quão terrível poderá ser o destino daquele que não reza. Não basta realizar a oração dentro do horário determinado; também é necessário realizá-la correta e validamente. Caso contrário, realizar uma oração incorreta equivale a não realizar a oração. É narrado em Sahih al-Bukhari e Sahih Muslim que, certo dia, um homem entrou na Mesquita do Profeta. O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) estava sentado na mesquita. O homem rezou e depois foi até o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e o cumprimentou. Ele respondeu ao cumprimento e disse: “Volta e reza, pois não rezaste.” O homem foi embora, rezou novamente como antes e voltou ao Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) para cumprimentá-lo. Ele respondeu ao cumprimento e disse novamente: “Volta e reza, pois não rezaste.” Depois de rezar assim três vezes, o homem disse: “Ó Mensageiro de Allah! Não consigo rezar melhor do que isso. Ensina-me.” Ele disse: “Primeiro, fica de pé para a oração e pronuncia o takbīr. Depois, recita do Alcorão o que puderes. Em seguida, inclina-te e permanece imóvel na inclinação. Depois, levanta-te e fica completamente ereto. Então prostra-te e permanece imóvel na prostração. Depois, senta-te tranquilamente. Em seguida, faz outra prostração e permanece imóvel nela. Conclui a oração dessa maneira.”
No Alcorão Sagrado, consta: “Está reservado o Wail para aqueles que rezam e demonstram negligência em sua oração.” Na explicação desse versículo, consta em um hadith que se refere àqueles que não realizam corretamente a inclinação e a prostração, limitando-se a movimentos rápidos e superficiais.
Em um hadith, consta que o maior ladrão é aquele que rouba na oração. Perguntaram: “Como se rouba na oração?” O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) respondeu: “Não realizar corretamente a inclinação e a prostração, e não recitar o Alcorão corretamente.” (Ahmad) O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) também disse: “Allah não olhará para aquele que não endireita as costas entre a inclinação e a prostração.” (Ahmad) O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) também disse: “A oração daquele que permanece sentado observando o sol e, quando este chega entre os dois chifres de Satanás — isto é, pouco antes de se pôr —, levanta-se de repente e faz quatro prostrações rápidas com a cabeça é a oração de um hipócrita. Nesse momento, ele raramente se lembra de Allah.” (Sahih al-Bukhari e Sahih Muslim)
Foi narrado por Abu Musa (que Allah esteja satisfeito com ele) que, certo dia, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) sentou-se depois de rezar com seus Companheiros. Nesse momento, um homem chegou e realizou a oração apressadamente, fazendo rapidamente as inclinações e as prostrações. O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Estais vendo aquele homem? Se morrer nesse estado, morrerá fora da comunidade de Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele).” Ele concluiu a oração dando bicadas, como um corvo que bica o sangue com o bico. (Sahih de Abu Bakr ibn Khuzaymah)
“O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) também disse: sempre que alguém realiza a oração, um anjo fica à sua direita e outro à sua esquerda. Se ele concluir a oração corretamente, ambos levam essa oração até Allah; caso contrário, atiram-na contra o rosto dele.” (Al-Daraqutni)
O Mensageiro (que a paz esteja com ele) também disse: aquele que realiza corretamente a ablução, depois se levanta para a oração e a conclui realizando corretamente o rukū‘, a prostração e a recitação do Alcorão, ouvirá sua oração dizer-lhe: “Assim como me preservaste, que Allah te proteja.”
Então ela sobe em direção ao céu, espalhando raios de luz. As portas do céu se abrem para ela e, ao chegar diante de Allah, intercede em favor daquele que realizou a oração. Mas, quando ele não realiza corretamente o rukū‘, a prostração e a recitação do Alcorão, a oração lhe diz: “Assim como me arruinaste, que Allah também te arruíne.” Então ela sobe ao céu envolta em escuridão. As portas do céu se fecham para ela. Depois, é enrolada como um tecido velho e lançada sobre o rosto daquele que realizou a oração.
O Mensageiro (que a paz esteja com ele) também disse: a oração é como uma balança. Àquele que a cumpre plenamente será dada integralmente a sua recompensa. Quanto àquele que a cumpre de modo incompleto, foi dito no Alcorão que o “Wail” está reservado para os que dão medida menor. Assim como alguém pode dar medida menor em outras coisas, também pode fazê-lo na oração. E “Wail” é um lugar extremamente quente do Inferno, cujo calor até o próprio Inferno busca proteção de Allah contra ele. (Musnad Ahmad)
O Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: durante a prostração, colocai o rosto, o nariz e as duas mãos no chão. Pois Allah, o Altíssimo, ordenou-me que realizasse a prostração com sete partes do corpo: a testa, o nariz, as palmas das duas mãos, os dois joelhos e o dorso dos dois pés. Durante a prostração, ele proibiu que se ajeitassem as roupas e os cabelos. Aquele que ora sem dar a cada parte do corpo o seu devido direito será amaldiçoado pela parte correspondente durante todo o tempo da oração. (Sahih al-Bukhari e Sahih Muslim)
Hazrat Hudhayfa viu um homem rezando sem realizar corretamente o rukū‘ e a prostração. Perguntou-lhe: “Há quanto tempo rezas dessa maneira?” Ele respondeu: “Há quarenta anos.” Então disse: “Durante quarenta anos não realizaste nenhuma oração. Se morreres nesse estado, morrerás como um não muçulmano.”
O Imam Hasan al-Basri costumava dizer: “Ó filho de Adão! Se a oração é, para ti, algo sem importância, que outra prática do Islã será importante para ti? No entanto, o Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: no Dia da Ressurreição, o servo será questionado primeiramente sobre a oração. Se a tiver realizado corretamente, será salvo. Mas, se não a tiver realizado adequadamente, fracassará e será um perdedor. E, se for encontrada alguma deficiência na oração obrigatória, Allah dirá: ‘Vejam se o Meu servo possui alguma prática voluntária. Se possuir, a deficiência da oração obrigatória será compensada por meio dela.’ Da mesma forma, todas as ações serão julgadas.” (Tirmidhi) Portanto, todo crente deve realizar o máximo possível de orações voluntárias, para que as deficiências das obrigatórias possam ser compensadas.
Sobre a punição por não realizar a oração em congregação
Allah, o Altíssimo, diz: “No dia em que chegar o momento difícil, e as pessoas forem chamadas a prostrar-se, …” Ka‘b al-Ahbar (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: este versículo foi revelado exclusivamente a respeito daqueles que se ausentam da oração em congregação. Assim, pode-se saber quão terrível é a consequência de não comparecer à congregação sem uma justificativa. Em um hadith registrado por Bukhari e Muslim, o Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: “Desejo que a oração em congregação seja realizada e que eu designe um imam; depois, acompanhado por um grupo que carregue lenha seca, eu iria às casas daqueles que não compareceram à congregação e incendiaria suas casas.”
Está registrado no hadith de Muslim Sharif que um homem cego foi até o Mensageiro (s.a.) e disse: “Ó Mensageiro, não há ninguém que possa me levar à mesquita. Permita-me fazer a oração em casa.” O Mensageiro (s.a.) permitiu-lhe. Quando ele se preparava para partir, chamou-o e perguntou: “Você ouve o adhan?” Ele respondeu: “Sim.” Então ele disse: “Nesse caso, vá à mesquita.” Este hadith aparece em Abu Dawud Sharif da seguinte maneira: “Amr ibn Umm Maktum foi até o Mensageiro (s.a.) e disse: Ó Mensageiro! Medina é uma cidade repleta de muitos animais selvagens. Não enxergo. Minha casa também fica muito longe. Há alguém que pode me levar à mesquita, mas ele não é adequado para isso. Posso fazer a oração em casa? O Mensageiro (s.a.) perguntou: Você ouve o adhan? Ele respondeu: Sim, ouço. O Mensageiro (s.a.) disse: Então você irá à mesquita. Não posso permitir que faça a oração em casa.”
Este hadith mostra que, para uma pessoa saudável, não pode ser de forma alguma permitido deixar de comparecer à oração em congregação. Isso porque o Mensageiro (s.a.) não permitiu sequer a um homem cego fazer a oração em casa. Por isso, quando Ibn Abbas foi questionado sobre um homem que jejua sempre durante o dia e reza à noite, mas não faz a oração em congregação, perguntaram-lhe: o que acontecerá com ele? Ele respondeu: se morrer permanecendo nessa prática, irá para o Inferno. (Tirmidhi)
O Mensageiro (s.a.) disse: aquele que ouvir o chamado para a oração, mas não comparecer à congregação sem ter qualquer desculpa, sua oração feita sozinho não será aceita. Perguntaram: que tipo de desculpa? O Mensageiro (s.a.) respondeu: doença ou receio de perigo. (Abu Dawud)
O Mensageiro (s.a.) disse: Allah amaldiçoou três pessoas:
(1) Aquele que se torna líder do povo contra a vontade deste. (2) A mulher cuja noite termina enquanto seu marido está descontente com ela. (3) Aquele que, mesmo ouvindo o adhan, não vai à congregação.
Ali (r.a.) disse: “A oração do vizinho da mesquita não é válida senão na mesquita.” Perguntaram-lhe: quem é o vizinho da mesquita? Ele respondeu: aquele que, estando em sua casa, consegue ouvir o adhan.”
Em um hadith de Bukhari Sharif, Abdullah ibn Masud (r.a.) disse: “Não considerávamos a pessoa ausente da oração em congregação senão um hipócrita ou um doente.”
Ibn Umar (r.a.) relata que certa vez Umar (r.a.) foi ver seu pomar de tamareiras. Ao retornar, descobriu que a oração da tarde em congregação já havia terminado. Imediatamente, doou aquele pomar de tamareiras como caridade em favor dos pobres, para que compensasse o prejuízo de ter perdido a congregação.
Ao realizar a oração em congregação, deve-se dar a maior importância às orações de Isha e Fajr. Pois o Mensageiro (s.a.) disse: estas duas orações, isto é, Fajr e Isha, são as mais difíceis para o hipócrita. Se as pessoas soubessem qual é a recompensa de realizar essas duas orações em congregação, jamais as abandonariam. (Sahih al-Bukhari)
Ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: Quando alguém estava ausente das orações de Fajr e de Isha em congregação, considerávamos que ele havia se tornado um hipócrita.
Ubaidullah bin Umar al-Kawārīrī, mestre do Imam Bukhari e do Imam Muslim, disse que eu nunca deixava de realizar a oração de Isha em congregação. Porém, certo dia, um hóspede veio à minha casa e, por ter ficado ocupado com ele, não consegui alcançar a oração de Isha em congregação. Depois, realizei a oração de Isha vinte e sete vezes. Isso porque há um hadith que diz que a recompensa da oração em congregação é vinte e sete vezes maior. Mas, à noite, sonhei que estava competindo numa corrida com um grupo de cavaleiros. Eu, porém, ficava para trás. Os que estavam à frente disseram: “Você jamais conseguirá nos alcançar, pois nós realizamos a oração de Isha em congregação, enquanto você a realizou sozinho.”
5. Não pagar o zakat
Allah, o Altíssimo, disse: “Não considereis benéfico para eles o fato de serem avarentos com a riqueza que Allah lhes concedeu. Ao contrário, isso é prejudicial para eles. A riqueza com a qual foram avarentos será pendurada em seus pescoços no Dia da Ressurreição.” (Al Imran)
Allah, o Altíssimo, também disse: “Ai dos politeístas que não pagam o zakat.” Aqui, Allah os qualificou como politeístas.
Allah, o Altíssimo, também disse: “Anuncia-lhes o castigo doloroso dos que acumulam ouro e prata e não os gastam no caminho de Allah. No dia em que esse ouro e essa prata forem aquecidos no fogo do Inferno, serão usados para marcar suas testas, suas costas e seus flancos, e lhes será dito: ‘Isto é o que acumulastes para vós mesmos. Portanto, saboreai o que acumulastes.’” (At-Tawbah)
Está narrado no Sahih al-Bukhari e no Sahih Muslim que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: Quem possuir ouro e prata em quantidade suficiente, mas não pagar deles a parte devida segundo a Sharia, será marcado no Dia da Ressurreição com placas de ferro aquecidas no fogo, na testa, nas costas e em ambos os flancos. Sempre que esses locais esfriarem, serão novamente marcados. Assim, seu tormento continuará durante cada dia tão longo quanto cinquenta mil anos. As marcas continuarão até que o julgamento seja concluído. Depois, ele irá para o Paraíso ou para o Inferno. Os Companheiros perguntaram: “Ó Mensageiro! Aqueles que não pagam o zakat de camelos, vacas, cabras e outros animais também sofrerão esse tormento?” O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) respondeu: “Sim.”
Em um hadith narrado por Abu Huraira, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: As três primeiras pessoas a entrarem no Inferno serão: o governante que toma o poder à força (isto é, o tirano), o rico que não paga o zakat e o pobre arrogante. (Sahih Ibn Khuzaymah e Sahih Ibn Hibban)
Hazrat Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: aquele que possui riqueza suficiente para realizar o hajj, mas não o realiza, ou possui riqueza suficiente para pagar o zakat, mas não o paga, lamentará no momento da morte, dizendo que, se tivesse recebido mais um pouco de vida, poderia ter cumprido o direito de Allah. Nesse momento, um dos ouvintes disse: “Ó Ibn Abbas! Tema a Allah. Esse tipo de arrependimento no momento da morte será sentido somente pelos kafir.” Hazrat Ibn Abbas disse: “Como prova do que acabei de dizer, vou recitar agora mesmo para você um versículo do Alcorão.” Allah, o Altíssimo, diz: “Ó crentes! Gastai no caminho correto uma parte dos bens que vos concedemos, antes que a morte se aproxime, quando aquele que estiver à beira da morte disser: ‘Meu Senhor! Se apenas retardasses minha morte por um pouco, eu daria sadaqa e seria um dos virtuosos.’” (Al-Munafiqun)
Aqui, “eu daria sadaqa” significa “eu realizaria o hajj”. Depois, perguntaram a Hazrat Ibn Abbas: “Quando o zakat se torna obrigatório?” Ele respondeu: “Quando se acumula uma riqueza equivalente a duzentos dirhams.” (Aproximadamente o equivalente a dez mil takas.) Em seguida, perguntaram-lhe: “Em que circunstâncias o hajj se torna obrigatório?” Ele respondeu: “Quando se reúnem os recursos para a provisão e o transporte.” Não se deve pagar zakat sobre joias lícitas feitas para uso pessoal. Contudo, deve-se pagar zakat sobre joias feitas para poupança ou para serem alugadas. Também se deve pagar zakat sobre mercadorias comerciais. O Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: “Aquele a quem Allah concedeu riqueza, mas que não paga o zakat correspondente, terá sua riqueza transformada, no Dia da Ressurreição, numa serpente venenosa que se enrolará em seu pescoço e morderá suas duas mandíbulas, dizendo: ‘Eu sou a tua riqueza; eu sou o teu tesouro.’” Em seguida, ele recitou o seguinte versículo: “Que aqueles que são avarentos com a riqueza que Allah lhes concedeu não pensem que isso é bom para eles. Pelo contrário, isso é mau para eles. A riqueza pela qual foram avarentos ficará enrolada em seus pescoços no Dia da Ressurreição.” (Sahih al-Bukhari)
Há um hadith narrado na coletânea de At-Tabarani: “No Dia da Ressurreição, o ouro e a prata serão aquecidos no fogo, e suas testas, costas e flancos serão marcados com eles.” Ao explicar esta afirmação do Alcorão, Hazrat Ibn Masud disse que seus dinares e dirhams não serão queimados e colocados uns sobre os outros para marcar o corpo; ao contrário, a pele do corpo da pessoa será esticada de tal modo que cada dinar e cada dirham — isto é, cada moeda corrente da época correspondente — poderá ser aquecido separadamente no fogo e usado para marcá-la.
Pode surgir a pergunta: por que as costas, a testa e os flancos foram especificamente escolhidos para serem marcados? A resposta é que, quando os ricos avarentos veem uma pessoa pobre, franzem a testa e fecham o semblante com irritação. Depois, viram o corpo de lado, curvando-o. Então, quando o pobre se aproxima para pedir alguma coisa, dão-lhe as costas e vão embora. Por isso, serão marcados justamente esses membros, e receberão uma punição correspondente às suas ações.
Há um hadith narrado na coletânea de At-Tabarani em que o Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: “Cinco pecados têm cinco punições.” Os Companheiros perguntaram: “Ó Mensageiro de Allah! Quais são os cinco delitos e quais são as cinco punições?” O Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: “Sempre que um povo romper seu compromisso, Allah fará com que seus inimigos dominem suas nucas. Sempre que um povo governar de acordo com algo diferente das leis reveladas por Allah, Ele espalhará a pobreza entre eles. Sempre que a obscenidade, a falta de pudor e o adultério se tornarem comuns entre um povo, Allah espalhará entre eles a morte — isto é, mortes anormais e em idade prematura. (Em algumas narrações, em vez de ‘morte’, menciona-se ‘perturbação mental’.) Sempre que um povo diminuir ou aumentar nas medidas e nos pesos, Allah o sujeitará à fome e à esterilidade da terra. Sempre que um povo deixar de pagar o zakat, Allah o sujeitará à falta de chuvas.”
Conselho: aqueles que se orgulham de sua riqueza devem lembrar que em breve terão de deixar este mundo e todos os seus recursos. Quando a riqueza acumulada for queimada e usada para marcar suas testas, costas e flancos, ela não lhes será de nenhuma utilidade. Nunca devemos esquecer este versículo. Não se deve demonstrar irritação ao ver os pobres e os mendigos. Se Allah quiser, pode transformar o pobre em rico e o rico em pobre num único instante. Não se deve esquecer o profundo e nobre propósito de Allah por trás de tornar alguns pobres e outros abastados.
O ilustre tabi‘i Muhammad ibn Yusuf al-Firyabi disse: certa vez, eu e meus companheiros fomos visitar Hazrat Abu Sinan (que Allah tenha misericórdia dele). Depois de algum tempo, Hazrat Abu Sinan levou-nos consigo para visitar um de seus vizinhos. Um irmão daquele vizinho havia falecido recentemente. Nosso objetivo era consolá-lo. Quando chegamos até ele, vimos que chorava e lamentava-se com grande agitação. Nenhuma palavra de consolo nossa conseguia acalmá-lo. Por fim, dissemos: “Você não sabe que a morte é inevitável?” Ele respondeu: “Eu sei disso, irmão, mas estou chorando apenas porque meu irmão está sofrendo um terrível castigo no túmulo.” Dissemos: “Allah lhe informou o oculto?” Ele respondeu: “Depois que o enterro foi concluído e todos foram embora, permaneci sentado por algum tempo junto ao túmulo. De repente, ouvi uma voz sair dele: ‘Ah! Deixem-me sozinho. Permitam que eu continue sofrendo o castigo. Eu também costumava fazer a oração e jejuar.’” Ao ouvir essas palavras, comecei a chorar. Para ver sua condição, cavei o túmulo. Vi que um fogo ardia intensamente dentro dele e que uma corrente de fogo estava pendurada no pescoço do meu irmão. Perguntamos: “O que seu irmão fazia quando vivia neste mundo?” Ele respondeu: “Não pagava o zakat.” Então dissemos: “Allah disse no Alcorão Sagrado: ‘Não considereis bom o que fazem aqueles que são avarentos com a riqueza concedida por Allah. Isso é mau para eles. A riqueza pela qual foram avarentos será pendurada em seus pescoços no Dia da Ressurreição.’ Talvez este castigo esteja sendo aplicado antecipadamente ao seu irmão.” Depois, saímos dali e fomos até um Companheiro que ainda estava vivo. Contamos-lhe todo o ocorrido e dissemos: “Quantos judeus e cristãos morrem, mas não vemos que algo assim lhes aconteça.” Ele respondeu: “Sem dúvida, eles irão para o Inferno. Porém, Allah mostra exemplos entre os crentes para que aprendais uma lição.”
6. Romper o jejum do Ramadã sem justificativa
Allah, o Altíssimo, diz: “Ó crentes, foi-vos prescrito o jejum, assim como foi prescrito aos que vos precederam, para que vos torneis tementes a Allah. São alguns dias; e quem estiver doente ou em viagem deverá jejuar em outros dias.”
Foi narrado no Sahih al-Bukhari e no Sahih Muslim que: “O Islam se fundamenta em cinco coisas: testemunhar que não há divindade além de Allah e que Muhammad é Seu Mensageiro, estabelecer a oração, pagar o zakat, realizar o Hajj e jejuar no Ramadã.”
O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) também disse: “Quem abandonar, sem justificativa, sequer um jejum do Ramadã, mesmo que jejue pelo resto da vida, não poderá compensá-lo.” (At-Tirmidhi, An-Nasa’i e Ibn Majah)
De fato, embora a expiação perdoe o pecado de romper o jejum, não será possível alcançar a recompensa e a dignidade do jejum do Ramadã.
7. Não realizar o Hajj apesar de ter capacidade
Allah, o Altíssimo, diz: “A realização do Hajj é uma obrigação para quem tem capacidade para fazê-lo.” O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Se alguém possui o meio de transporte e as provisões necessárias para chegar à Casa de Allah e realizar o Hajj, mas não o realiza, tanto faz para Allah se ele morrer judeu ou cristão.”
Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Tenho vontade de impor a jizya àqueles que, apesar de terem capacidade, não realizam o Hajj, pois não são muçulmanos.”
Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Aquele que, apesar de ter capacidade, não paga o zakat nem realiza o Hajj lamentará, no momento da morte, não ter tido sua vida prolongada.” Perguntaram-lhe: “Mas tal arrependimento é próprio dos descrentes.” Ele respondeu: “O que eu disse está no Alcorão.” Então recitou os seguintes versículos:
“Ó crentes, que vossas riquezas e vossos filhos não vos distraiam da lembrança de Allah. E aqueles que se distraírem serão os perdedores. E gastai daquilo que vos concedi antes que chegue o momento em que a morte se apresente a algum de vós e ele diga: ‘Meu Senhor, por que não me concedes um breve adiamento? Então eu daria caridade (isto é, pagaria o zakat) e estaria entre os virtuosos (isto é, entre os que realizam o Hajj).’” Perguntaram-lhe: “Em que circunstância o zakat se torna obrigatório?” Ele respondeu: “Quando se possui duzentos dirrãs ou ouro de valor equivalente.” Em seguida, perguntaram: “Em que circunstância o Hajj se torna obrigatório?” Ele respondeu: “Quando se dispõe das despesas de ida e volta e do meio de transporte, o Hajj se torna obrigatório.” Sa’id ibn Jubayr (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Quando um vizinho rico meu morreu sem realizar o Hajj, não fiz sua oração fúnebre.”
8. Cometer suicídio
Allah, o Altíssimo, diz: “Não vos mateis. Certamente, Allah é Misericordioso convosco. E quem fizer isso por transgressão e injustiça, fá-lo-ei queimar no Fogo. Isso é fácil para Allah.” (Surata An-Nissá)
O Imam al-Wahidi, Ibn Abbas e outros disseram, ao comentar este versículo, que seu significado é: não mateis uns aos outros, pois todos sois seguidores da mesma religião; portanto, sois como uma única pessoa. Outros, porém, disseram que neste versículo o suicídio foi proibido. Esta última opinião é a correta, pois há proibições ainda mais claras no Alcorão e nos hadiths acerca do assassinato de outras pessoas, tema que foi tratado separadamente. Além disso, o hadith narrado por Amr ibn al-As, citado em Abu Dawud Sharif, é uma das provas da autenticidade dessa opinião. Hazrat Amr ibn al-As disse: durante a batalha de Dhat as-Salasil, conduzida sob a liderança do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), tive uma emissão noturna numa noite muito fria. Se eu tomasse banho naquela noite, temia morrer de frio. Por isso, fiz tayammum e conduzi a oração do fajr com meus companheiros. Depois, informei o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) sobre o ocorrido. Ele disse: “Ó Amr, conduziste a oração com teus companheiros enquanto estavas impuro?” Expliquei-lhe por que não havia tomado banho e acrescentei: “Li no Alcorão estas palavras de Allah: ‘Não vos mateis; na verdade, Allah é misericordioso convosco.’” Ao ouvir isso, o Mensageiro sorriu e nada mais disse. Este hadith prova que Hazrat Amr entendeu que este versículo se referia ao suicídio, e não ao assassinato de outra pessoa. Contudo, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) não contestou sua interpretação.
Em outro hadith, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: entre os povos que vos precederam, havia um homem que estava ferido e sofria muito. Então, golpeou o próprio corpo com uma faca. Como resultado da hemorragia, morreu. Allah, o Altíssimo, disse então: “Meu servo se antecipou a Mim e decidiu por si mesmo; por isso, proibi-lhe o Paraíso.” (Sahih al-Bukhari e Sahih Muslim)
Em outro hadith, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: quem se matar com uma arma de ferro ficará sentado no fogo do Inferno, golpeando-se continuamente com essa mesma arma por toda a eternidade. E quem cometer suicídio ingerindo veneno continuará, mesmo sentado no Inferno, a beber veneno por toda a eternidade. E quem se suicidar saltando de uma montanha continuará, mesmo no Inferno, a lançar-se incessantemente de um lugar elevado. Assim, continuará a torturar-se por toda a eternidade. (Sahih al-Bukhari e Sahih Muslim)
Em outro hadith, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Amaldiçoar um crente equivale a matá-lo. Chamar falsamente um crente de incrédulo equivale a matá-lo. E quem se matar com qualquer coisa será punido, no Dia da Ressurreição, com essa mesma coisa.” (Sahih al-Bukhari, Sahih Muslim, an-Nasa’i e at-Tirmidhi)
Está narrado em outro hadith autêntico que um homem, incapaz de suportar a dor do ferimento que tinha, suicidou-se com a própria espada. Ao ouvir sobre ele, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Ele está destinado ao Inferno.”
Na verdade, a vida e o tempo de vida concedidos por Allah são uma grande bênção e uma oportunidade limitada para praticar boas ações visando à vida futura. É inevitável que a ira de Allah recaia sobre aqueles que põem fim a isso com as próprias mãos. Que Allah nos proteja deste terrível pecado grave.
9. Desobedecer aos pais e causar-lhes sofrimento
Allah, o Altíssimo, declara na surata Bani Isra’il: “Teu Senhor decretou que não adoreis ninguém além d’Ele e que trateis bem os pais.” Isto é, deveis cuidar de ambos e tratá-los com amor e compaixão. “Se um deles, ou ambos, chegarem à velhice junto de ti, não lhes digas ‘uff’ nem os repreendas.” Isto é, não uses palavras duras ou ásperas. Na verdade, uma vez que ambos cuidaram de ti, também deves cuidar deles. Deves lembrar que, ao cuidarem primeiro de ti, demonstraram extrema abnegação e grande generosidade; e, mesmo que cuides deles, não conseguirás igualá-los. É lamentável que, na infância, embora sofressem com os filhos, os pais cuidassem deles e desejassem que tivessem saúde e vida longa. Já o filho, ao sofrer um pouco com os pais idosos, deseja que morram rapidamente. Depois, Allah diz: “Fala com ambos usando palavras amáveis.” Isto é, fala com humildade e sincera compaixão. Estende sobre eles as asas da misericórdia e diz: “Ó meu Senhor, tem misericórdia deles, assim como eles me criaram com carinho e afeição na minha infância.”
Na surata Luqman, Allah diz: “Sê grato a Mim e aos teus pais.” É digno de nota como Allah, o Altíssimo, associou a gratidão aos pais à gratidão para com Ele próprio. Hazrat Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: três versículos foram revelados associados a três coisas; sem uma delas, a outra não é aceita. No primeiro, Allah, o Altíssimo, disse: “Obedecei a Allah e obedecei ao Mensageiro.” A obediência de quem obedece a Allah, mas não ao Mensageiro, não é aceita. No segundo, Allah diz: “Estabelecei a oração e dai o zakat.” A oração de quem ora, mas não dá o zakat, não é aceita. No terceiro, Allah diz: “Sê grato a Mim e aos teus pais.” A gratidão para com Allah daquele que demonstra gratidão somente a Ele, mas não é grato aos pais, é sem sentido e inaceitável. Por isso, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “A satisfação de Allah está na satisfação dos pais, e a insatisfação de Allah está na insatisfação dos pais.” (Al-Jami‘ at-Tirmidhi)
Hazrat Ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: um homem veio pedir ao Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) permissão para partir com ele para o jihad. O Mensageiro perguntou-lhe: “Teus pais estão vivos?” Ele respondeu: “Sim.” O Mensageiro disse: “Então, pratica o jihad servindo-os.” Isto é, servi-los é o teu jihad. (Sahih al-Bukhari e Sahih Muslim)
É digno de nota que o serviço aos pais foi declarado superior ao jihad. Em outro hadith narrado por Sahih al-Bukhari e Sahih Muslim, o Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) disse: “Quereis que vos informe qual é o maior dos grandes pecados? É associar parceiros a Allah e tratar mal os pais.” Aqui deve-se observar que maltratar, negligenciar e descuidar dos pais foi colocado no mesmo nível que associar parceiros a Allah. Em outro hadith de Sahih al-Bukhari e Sahih Muslim, o Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) disse: “Não entrará no Paraíso aquele que trata mal os pais, aquele que dá caridade e depois reprova o beneficiário, e aquele que bebe álcool.” O Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) também disse: “Se houvesse algum comportamento doloroso menor que dizer ‘uff’ aos pais, Allah também o teria proibido. Portanto, que o desobediente aos pais faça o que quiser: jamais entrará no Paraíso. E que o benfeitor faça o que quiser: jamais entrará no Inferno.” (Daylami)
Ele também disse: “Allah amaldiçoou aquele que trata mal os pais.” Em outro hadith narrado por Ibn Abbas, o Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) disse: “Allah amaldiçoou aquele que insulta e repreende seu pai; e Allah também amaldiçoou aquele que insulta e repreende sua mãe.” Em outro hadith narrado por Abu Bakr, o Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) disse: “Allah adia a punição de todos os pecados pelo tempo que deseja, podendo adiá-la até o Dia da Ressurreição. A única exceção é tratar mal os pais: Allah aplica sua punição imediatamente.” Isto é, a pessoa recebe essa punição ainda nesta vida terrena, antes do Dia da Ressurreição.
Hazrat Ka’b al-Ahbar (que Allah tenha misericórdia dele) disse: “Quando um servo trata mal seus pais, Allah encurta sua vida para apressar sua punição. E quando um servo trata bem seus pais, Allah prolonga sua vida, para que possa praticar mais boas ações e alcançar felicidade, paz e bem-estar.” Tratar bem os pais também pode consistir em o filho suprir aquilo de que eles sentem falta. Um homem foi até o Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) e disse: “Ó Mensageiro! Meu pai quer consumir meus bens.” O Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) disse: “Tu e teus bens pertencem a teu pai.” Perguntaram a Hazrat Ka’b al-Ahbar o que significava tratar mal os pais. Ele respondeu: “Se os pais fizerem um juramento ou um voto em favor do filho, o filho não o cumprir; se eles derem uma ordem, ele não obedecer; se pedirem algo, ele não lhes der, embora tenha capacidade para isso; e, se depositarem algo sob sua guarda, o filho se apropriar disso.” (Ibn Majah)
Há um hadith narrado por Ibn Abbas e outros transmissores em várias coletâneas de hadith, incluindo Ibn Majah, segundo o qual perguntaram a Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) o que era A’raf e quem habitaria ali. Ibn Abbas respondeu que A’raf é uma montanha situada entre o Paraíso e o Inferno. Do alto dessa montanha podem ser vistos o Paraíso e o Inferno, e ela recebeu o nome de A’raf porque possui muitas árvores frutíferas e nascentes. Aqueles que forem martirizados ao partir para o jihad sem o consentimento dos pais permanecerão ali temporariamente. Pois alcançar o martírio no caminho de Allah lhes fechará o caminho para o Inferno, enquanto a insatisfação dos pais bloqueará seu caminho para o Paraíso. Depois de permanecerem ali por algum tempo, Allah decidirá o destino deles.
Há um hadith de Sahih al-Bukhari e Sahih Muslim segundo o qual um homem foi até o Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) e perguntou: “Ó Mensageiro de Allah, quem tem o maior direito à minha boa conduta?” Ele respondeu: “Tua mãe.” O homem perguntou: “Depois dela, quem?” Ele respondeu: “Tua mãe.” Perguntou novamente: “Depois, quem?” O Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) respondeu: “Tua mãe.” O homem perguntou: “Depois, quem?” Ele respondeu: “Teu pai.” Depois, em ordem, os teus parentes mais próximos e íntimos.” Assim, ele enfatizou três vezes a boa conduta para com a mãe e uma vez a boa conduta para com o pai. A única razão é que a mãe se preocupa mais com o filho e lhe dedica mais carinho, amor e cuidados. A gravidez, a amamentação, a criação e a vigilância durante as noites são trabalhos penosos que somente a mãe realiza pelo filho.
Certa vez, Hazrat Ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) viu um homem fazendo o tawaf da Kaaba carregando a própria mãe sobre os ombros. O homem disse: “Ó Ibn Umar, achas que, carregando assim minha mãe sobre os ombros durante o tawaf, consegui quitar parte da dívida que tenho para com ela?” Ibn Umar respondeu: “De modo algum. Nem sequer quitaste a dívida de um único dia dos muitos dias em que ela sofreu carregando-te no ventre. No entanto, fizeste algo bom. Allah te dará uma grande recompensa por esse pequeno ato.”
O Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) disse: “Allah determinou que não permitirá que quatro pessoas entrem no Paraíso nem lhes dará a oportunidade de desfrutar suas bênçãos: o consumidor de álcool, o usurário, aquele que se apropria dos bens do órfão e aquele que trata mal os pais. Se eles se arrependerem, isso é outra questão.” (Hakim) O Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) também disse: “O Paraíso está aos pés das mães.” (Ibn Majah, Nasa’i) Um homem foi até Hazrat Abu al-Darda (que Allah esteja satisfeito com ele) e disse: “Casei-me com uma mulher, mas minha mãe está me mandando divorciar-me dela.” Hazrat Abu al-Darda disse: “A mãe é a porta central do Paraíso. Se quiseres, podes destruí-la ou preservá-la.” (Abu Dawud, Tirmidhi, Nasa’i, Ibn Majah)
O Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) disse: “Não há dúvida de que as súplicas de três pessoas são aceitas: a súplica do expatriado ou viajante, a súplica do oprimido e perseguido, e a súplica dos pais em favor do filho.” (Tirmidhi, Abu Dawud)
O Mensageiro (S.A.) também disse: “A tia materna possui a mesma dignidade da mãe.” Ou seja, é obrigatório tratá-la com bondade, respeito e presentes, como se trata a mãe. Foi narrado por Hazrat Wahb bin Munabbih que Allah, o Altíssimo, revelou a Hazrat Musa (A.S.): “Ó Musa, honra teus pais. Pois aquele que honra os próprios pais, Eu lhe concedo vida longa e lhe dou um filho que o honrará. E aquele que maltrata os próprios pais, Eu reduzo sua vida e lhe concedo um filho mal-educado e desobediente.”
Hazrat Abu Bakr bin Abu Maryam (R.A.) disse: “Li na Torá que o castigo daquele que agride o pai é a pena de morte.” Hazrat Wahb disse: “Li na Torá que aquele que esbofeteia o próprio pai deve ser morto por apedrejamento.” Hazrat Amr bin Murra al-Juhani (R.A.) disse: “Um homem foi até o Mensageiro (S.A.) e disse: ‘Ó Mensageiro, se eu fizer as cinco orações diárias, jejuar no Ramadã, pagar o zakat e realizar o hajj, qual será o meu benefício?’ Ele respondeu: ‘Aquele que cumprir corretamente essas ações estará na companhia dos profetas, dos veracíssimos, dos mártires e dos servos virtuosos. Porém, se maltratar os pais, será privado dessa oportunidade.’” (Ahmad, Tabarani, Ibn Hibban, Ibn Khuzayma.) O Mensageiro (S.A.) também disse: “Allah amaldiçoou aquele que maltrata os pais.” O Mensageiro (S.A.) também disse: “Na noite do Miraj, vi algumas pessoas suspensas em colunas de fogo. Perguntei a Jibril: ‘Quem são elas?’ Ele respondeu: ‘São aqueles que, neste mundo, repreendiam os próprios pais.’” Também se sabe, por várias narrações, que, no túmulo daquele que repreende e insulta os próprios pais, descerá do Inferno uma quantidade tão grande de brasas ardentes quanto o número de gotas de chuva que caem do céu. Também foi narrado que, depois de ser sepultado, o túmulo aperta o maltratador dos pais com tanta força que seus ossos e costelas são despedaçados; e que, no Dia da Ressurreição, os que sofrerão o castigo mais severo serão o idólatra, o adúltero e aquele que maltrata os pais.
Hazrat Bishr (R.A.) disse: aquele que permanece tão próximo da mãe que consegue ouvir sua voz é superior àquele que combate no caminho de Allah empunhando uma espada. Não há obra mais nobre do que lançar um olhar cheio de devoção à mãe.
Está registrado em um hadith narrado pelo Imam Ahmad e por Abu Dawud que um homem e uma mulher compareceram perante o Mensageiro (S.A.) para disputar a respeito de seu filho. O homem disse: “Ó Mensageiro, eu sou o pai desta criança.” A mulher disse: “Ó Mensageiro! Ele não sofreu dificuldade alguma para carregar a semente desta criança; além disso, ao gerá-la, apenas desfrutou de alegria. Eu, porém, carreguei a criança no ventre com sofrimento, dei-a à luz com sofrimento e amamentei-a durante dois anos.” Depois de ouvir isso, o Mensageiro (S.A.) decidiu que a criança permaneceria com a mãe.
O Imam Tabarani e o Imam Ahmad narraram um acontecimento. Na época do Mensageiro (S.A.), vivia em Medina um jovem chamado Alqama. Ele se dedicava intensamente à adoração de Allah por meio da oração, do jejum e da caridade. Certa vez, foi acometido por uma doença grave. Sua esposa enviou uma mensagem ao Mensageiro (S.A.): “Meu marido Alqama está morrendo. Ó Mensageiro, considero necessário informá-lo de sua situação.” O Mensageiro (S.A.) enviou imediatamente Hazrat Ammar, Suhaib e Bilal (R.A.) até ele, dizendo-lhes: “Vão até ele e instruam-no a recitar a declaração de fé.” Eles foram e encontraram Alqama em estado terminal. Então tentaram fazê-lo recitar “La ilaha illallah”, mas ele não conseguia pronunciar a declaração de fé de modo algum. Por fim, informaram o Mensageiro (S.A.) de que a declaração não saía da boca de Alqama. O Mensageiro (S.A.) perguntou ao homem que levara a notícia: “Algum dos pais de Alqama ainda está vivo?” Ele respondeu: “Ó Mensageiro, somente sua mãe idosa está viva.” O Mensageiro (S.A.) enviou-o imediatamente à mãe de Alqama e disse: “Diga-lhe que, se puder vir até o Mensageiro (S.A.), venha; caso contrário, espere, pois ele irá encontrá-la.” O mensageiro foi até a mãe de Alqama e informou-lhe o que o Mensageiro (S.A.) havia dito. A mãe de Alqama respondeu: “Que minha vida seja sacrificada pelo Mensageiro (S.A.). Eu mesma irei até ele.” A idosa foi até o Mensageiro (S.A.), apoiada em uma bengala, e o cumprimentou. O Mensageiro (S.A.) respondeu ao cumprimento e disse: “Ó mãe de Alqama, diga-me a verdade. Se mentir, uma revelação de Allah me informará. Diga-me: como era o caráter e o comportamento de seu filho Alqama?” A idosa respondeu: “Ó Mensageiro de Allah, ele realizava muitas orações, jejuns e caridades.” O Mensageiro (S.A.) perguntou: “Qual é a sua atitude para com ele?” A idosa respondeu: “Ó Mensageiro de Allah, estou descontente com ele.” O Mensageiro (S.A.) perguntou: “Por quê?” A idosa respondeu: “Ele dava preferência à esposa sobre mim e desobedecia às minhas ordens.” O Mensageiro (S.A.) disse: “Por causa do descontentamento da mãe de Alqama, a língua de Alqama ficou impedida de pronunciar a declaração de fé.” Então o Mensageiro (S.A.) disse: “Ó Bilal, vá e traga uma grande quantidade de lenha para mim.”
A idosa perguntou: “Ó Mensageiro de Allah, o que fará com a lenha?” O Mensageiro (S.A.) respondeu: “Vou queimá-lo diante de você.” A idosa disse: “Ó Mensageiro de Allah, não poderei suportar queimar meu filho diante de mim.” O Mensageiro (S.A.) disse: “Ó mãe de Alqama, o castigo de Allah é ainda mais severo e duradouro do que isso. Agora, se deseja que Allah perdoe seu filho, perdoe-o e fique satisfeita com ele. Caso contrário, juro por Aquele em cuja mão está a minha vida: enquanto você estiver descontente com ele, suas orações, jejuns e caridades não trarão benefício algum a Alqama.” Ao ouvir isso, a mãe de Alqama disse: “Ó Mensageiro de Allah, tomo Allah, os anjos de Allah e todos os muçulmanos aqui presentes como testemunhas de que estou satisfeita com meu filho Alqama.” O Mensageiro (S.A.) disse: “Ó Bilal, vá agora até Alqama e veja se ele consegue dizer ‘La ilaha illallah’. Creio que a mãe de Alqama me disse toda a verdade, sem ocultar nada por vergonha.” Hazrat Bilal (R.A.) foi imediatamente. Ouviu Alqama pronunciando em voz alta, de dentro da casa: “La ilaha illallah.” Então Bilal entrou na casa e disse aos presentes: “Fiquem sabendo que, por causa do descontentamento de sua mãe, Alqama não conseguiu pronunciar a declaração de fé no início. Depois que ela ficou satisfeita, sua língua foi capaz de pronunciá-la.” Alqama morreu naquele mesmo dia, e o Mensageiro (S.A.) esteve presente, ordenou que ele fosse lavado e envolvido na mortalha, realizou a oração fúnebre e participou de seu sepultamento. Depois, estando junto ao túmulo, o Mensageiro (S.A.) disse: “Ó ansares e muhajirins! Sobre aquele que dá preferência à esposa em detrimento da mãe recaem a maldição de Allah, dos anjos e de todas as pessoas! Allah não aceitará nenhuma intercessão em seu favor. Somente poderá escapar se se arrepender, tratar bem a mãe e fazê-la ficar satisfeita. Lembrem-se: a satisfação da mãe está na satisfação de Allah, e a insatisfação da mãe está na insatisfação de Allah.”
10. Abandonar os parentes consanguíneos
Allah, o Altíssimo, diz: “Temei a Allah e atentai para os parentes consanguíneos.” Isto é, não rompais os laços de parentesco. (Surata An-Nissá)
Allah, o Altíssimo, também diz: “Porventura, se rejeitardes a orientação do Mensageiro, creareis corrupção na terra e rompereis os laços de parentesco? Aqueles que praticam tais más ações são os mesmos sobre os quais Allah, o Altíssimo, lançou Sua maldição, tornando-os surdos e cegos.” (Surata Muhammad) Allah, o Altíssimo, também diz: “E aqueles que cumprem o pacto de Allah e não rompem a promessa, que mantêm os laços que Allah ordenou que fossem mantidos, temem seu Senhor e temem o mau resultado (esses são os sensatos).” (Surata Ar-Ra’d)
Allah, o Altíssimo, também diz: “Com isso (isto é, com o Alcorão), Allah desvia muitos e guia muitos. Ele somente desvia os transgressores, que rompem o pacto firmado com Allah, cortam os laços que Allah ordenou que fossem mantidos e espalham a corrupção na terra. Esses são, de fato, os perdedores.”
Na verdade, os laços que Allah ordenou que fossem mantidos são os mais importantes. Está registrado no Sahih al-Bukhari e no Sahih Muslim que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Aquele que rompe os laços de parentesco jamais entrará no Paraíso.” Essa ameaça e advertência aplicam-se àquele que rompe os laços com seus parentes próximos, fracos e pobres, abandona-os, demonstra arrogância e orgulho diante deles e, embora seja rico enquanto eles são pobres, não fortalece sua proximidade com eles por meio de compaixão, caridade e generosidade; ele não terá o direito de entrar no Paraíso. Somente o arrependimento diante de Allah e o bom trato para com esses parentes podem salvá-lo desse destino.
Está registrado em uma narração de fonte confiável no At-Tabarani que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Aquele que, tendo parentes próximos pobres, não demonstra generosidade para com eles e dá sua caridade e suas esmolas a outros em vez de dá-las a eles, Allah, o Altíssimo, não aceitará sua caridade e não olhará para ele no Dia da Ressurreição.” Se ele próprio for pobre, deve esforçar-se para fortalecer os laços visitando-os e informando-se sobre sua situação. Pois o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Fortalecei os laços de parentesco, ainda que seja cumprimentando vossos parentes próximos com a saudação de paz.”
O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) também disse: “Aquele que crê em Allah e no Derradeiro Dia deve manter os laços de parentesco.” (Sahih al-Bukhari, Abu Dawud, At-Tirmidhi) Em outro hadith, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Aquele que apenas retribui não cumpre o dever de manter os laços de parentesco. Aquele que mantém os laços é quem os preserva ou restabelece com aquele que os rompe.”
Em um hadith qudsi, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Allah, o Altíssimo, disse: Eu sou o Misericordioso. Quem mantém os laços de parentesco, Eu mantenho os laços com ele; e quem os rompe, Eu também rompo os laços com ele.” Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) disse a seu filho: “Ó meu filho! Nunca sejas companheiro de quem rompe os laços de parentesco, pois vi no Livro de Allah que tal pessoa é amaldiçoada em três passagens.” (Abu Dawud, At-Tirmidhi)
Certa vez, enquanto narrava o hadith do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) em uma reunião, Hazrat Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Sinto repugnância em sentar-me junto de quem rompe os laços de parentesco, até que ele se levante.” Ao ouvir isso, um jovem levantou-se do outro extremo da reunião. Foi até sua tia paterna, com quem havia rompido relações durante muitos anos, e restabeleceu os laços com ela. Sua tia perguntou: “Por que vieste?” Ele respondeu: “Eu estava sentado com Abu Huraira, companheiro do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), e ele disse: ‘Sinto repugnância em sentar-me junto de quem rompe os laços de parentesco, até que ele se levante.’” Sua tia disse: “Ó sobrinho, volta para junto de Abu Huraira e pergunta-lhe qual é a razão disso.” Ele voltou a Abu Huraira, transmitiu-lhe as palavras de sua tia e perguntou: “Por que não pode sentar-se junto de vós alguém que rompe os laços de parentesco?” Hazrat Abu Huraira disse: “Ouvi o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) dizer: ‘Se houver, em um grupo, uma pessoa que rompe os laços de parentesco, a misericórdia de Allah não será derramada sobre eles.’” (At-Targhib wa At-Tarhib)
Conta-se que certa vez um homem rico foi realizar o Hajj. Ao chegar a Meca, depositou mil dinares seus com um homem conhecido por ser muito honesto e digno de confiança. Mais tarde, ao retornar de Arafat, descobriu que aquele homem havia morrido. Foi à família do falecido e, ao perguntar, soube que eles nada sabiam sobre aqueles mil dinares. Então procurou os eminentes sábios de Meca e pediu conselho. Eles lhe disseram: «Vá ao poço de Zamzam à meia-noite e chame-o pelo nome. Se ele for um dos habitantes do Paraíso, responderá ao seu primeiro chamado e lhe informará sobre o seu dinheiro.» O homem foi à meia-noite ao poço de Zamzam e chamou muitas vezes. Mas não obteve resposta alguma. Por fim, voltou aos referidos sábios. Eles disseram: «Tememos que o seu amigo tenha se tornado um dos habitantes do Inferno. Vá ao Iêmen. Lá existe um poço chamado Barhut. Segundo se diz, esse poço está ligado ao Inferno e nele permanecem as almas dos pecadores. Vá até lá no meio da noite e chame-o pelo nome. Se ele for um dos habitantes do Inferno, responderá ao seu chamado.» Então o homem foi até o referido poço no Iêmen e chamou o falecido pelo nome. O morto respondeu imediatamente. Ele perguntou: «Onde você colocou os meus mil dinares?» O outro respondeu: «Eles estão enterrados em determinado lugar, no chão da minha casa. Não os deixei com meu filho porque ele não é digno de confiança. Vá à minha casa, cave a terra e pegue os seus dinares.» Ele disse: «Nós o considerávamos um homem honesto. Mas por que você veio parar aqui?» O outro respondeu: «Eu tinha uma irmã pobre, mas não cuidava dela nem procurava saber como estava. Por isso Allah me impôs este castigo.»
Observação: há divergência quanto à possibilidade de aceitar literalmente os detalhes desta história, e o Imam Ibn Qayyim rejeitou, em sua obra «Ar-Ruh», a ideia de que as almas dos crentes estejam no poço de Zamzam e as almas dos pecadores no poço de Barhut ou Zabia, por ser contrária ao Alcorão e aos hadiths. (Nota do autor.) Contudo, o ensinamento fundamental desta história é corroborado pelo hadith autêntico do Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe dê paz), segundo o qual «aquele que rompe os laços de parentesco não entrará no Paraíso». — Tradutor
11. Adultério
A gravidade do adultério varia conforme as circunstâncias e as pessoas envolvidas.
Allah, o Altíssimo, diz: «Não vos aproximeis do adultério. Isso é uma obscenidade e um péssimo caminho.» (Bani Isra’il) «E aqueles que não invocam outra divindade além de Allah, não matam a vida que Allah proibiu, salvo por justa causa, e não cometem adultério — esses são os servos amados de Allah. E quem praticar essas coisas sofrerá a punição. No Dia da Ressurreição, sua punição será duplicada, e permanecerá eternamente ali, humilhado. Exceto aquele que se arrepender.» (Surata Al-Furqan)
«Açoitai com cem chibatadas o homem adúltero e a mulher adúltera, cada um deles. Que a compaixão por eles não vos impeça de aplicar a lei de Allah, se credes em Allah e no Último Dia. E que um grupo de crentes testemunhe o castigo deles.» (Surata An-Nur)
Os sábios disseram: este é o castigo terreno do homem e da mulher adúlteros solteiros. Porém, se forem casados, ou se tiverem sido casados ao menos uma vez na vida, deverão ser mortos por apedrejamento. Isso está comprovado pelos hadiths. Se, mesmo com essa pena de morte, a expiação completa de seus pecados não ocorrer, e ambos morrerem sem arrependimento, serão castigados no Inferno com barras de ferro aquecidas no fogo.
Estava escrito no Livro de Allah, o Zabur: «Os adúlteros serão pendurados nus no Inferno e golpeados nos órgãos genitais com varas ou bastões de ferro. Quando, por causa dos golpes, começarem a gritar, os anjos do Inferno lhes dirão: quando, no mundo, vos divertíeis, ríeis, não meditáveis sobre Allah e não tínheis vergonha Dele, onde estava esse grito?»
Em um hadith narrado por Abu Huraira e registrado em Sahih al-Bukhari, Muslim, Abu Dawud e an-Nasa’i, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Nenhum adúltero comete adultério enquanto é crente; nenhum ladrão rouba enquanto é crente; nenhum beberrão bebe álcool enquanto é crente; e nenhum saqueador saqueia enquanto é crente.” Em outro hadith narrado por Abu Dawud, at-Tirmidhi e al-Bayhaqi, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: Quando um servo comete adultério, a fé sai de dentro dele e fica pairando sobre sua cabeça como uma nuvem. Então, quando ele se arrepende, a fé retorna para ele.
Em outro hadith narrado por Abu Huraira, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: Quando uma pessoa comete adultério ou bebe álcool, Allah retira dela a fé exatamente como alguém tira uma camisa por cima da cabeça. Em outro hadith narrado por Muslim e an-Nasa’i, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: No Dia da Ressurreição, Allah não falará com três pessoas, não olhará para elas, não as purificará e haverá para elas um castigo doloroso. Elas são: o adúltero idoso, o governante mentiroso e o pobre arrogante.”
Ibn Mas’ud (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: Eu perguntei: Ó Mensageiro! Qual é o maior pecado perante Allah? Ele respondeu: Considerar alguém igual a Allah, embora Ele seja o Criador de toda criatura. Eu disse: Isso é certamente um pecado terrível. E depois? Ele respondeu: Matar teu filho por medo de que ele coma contigo. Eu perguntei: E depois qual? Ele respondeu: Cometer adultério com a esposa do teu vizinho. (Sahih al-Bukhari e Sahih Muslim)
Aqui é digno de nota como o adultério com a esposa do vizinho foi colocado juntamente com associar parceiros a Allah e matar injustamente uma vida que Allah proibiu matar.
No hadith que contém o relato do sonho do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), narrado por Samura ibn Jundub (que Allah esteja satisfeito com ele) em Sahih al-Bukhari, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Jibril e Mikail (que a paz esteja sobre eles) vieram até mim, e parti com eles. Enquanto seguíamos, chegamos a uma grande fornalha. Sua parte superior era estreita e sua parte inferior, larga. Ouvia-se dentro dela um enorme clamor e alvoroço. Vimos dentro da fornalha homens e mulheres nus. Periodicamente, uma labareda de fogo subia de baixo deles e, com o intenso calor do fogo, eles gritavam em voz alta. Perguntei: Ó Jibril, quem são eles? Ele respondeu: São os homens e mulheres adúlteros.” (Sahih al-Bukhari)
“O Inferno terá sete portas.” Ao comentar esse versículo da surata Al-Hijr do Sagrado Alcorão, Ata (que Allah tenha misericórdia dele) disse: “Entre essas sete portas, a mais quente, a mais cheia de tristeza e sofrimento e a mais fétida será a porta daqueles que se entregam conscientemente ao adultério.”
Mak-hul ad-Dimashqi disse: Um odor extremamente repugnante chegará aos narizes dos habitantes do Inferno. Eles dirão: Nunca sentimos antes um odor tão terrível. Então lhes será dito que esse odor provém dos órgãos genitais dos adúlteros. O ilustre imam da exegese, Ibn Zayd, disse: O mau cheiro dos órgãos genitais dos adúlteros causará sofrimento adicional aos habitantes do Inferno. Entre as dez primeiras revelações que Allah concedeu ao profeta Musa (que a paz esteja sobre ele), uma foi a seguinte: “Não roubes e não cometas adultério. Se o fizeres, ocultarei de ti o Meu rosto.” Se isso foi dito ao profeta de Allah, Musa (que a paz esteja sobre ele), é fácil imaginar o que pode ser dito aos demais.
O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: Quando Iblis espalha seus exércitos por toda a Terra, diz: Darei uma coroa e concederei a mais alta posição àquele dentre vós que conseguir desviar mais um muçulmano. Ao fim do dia, eles vêm um após outro até Iblis e relatam seus feitos. Um deles diz: Continuei a sussurrar tentações a fulano até induzi-lo a se divorciar da esposa, e ele se divorciou. Iblis diz: “Não fizeste grande coisa. Ele se casará com outra mulher.” Então outro vem e diz: Continuei a sussurrar tentações a fulano até provocar inimizade entre ele e seu irmão. Iblis diz: “Não fizeste grande coisa. Em breve eles se reconciliarão.” Então outro vem e diz: Continuei a incitar fulano sem cessar até fazê-lo cometer adultério. Ao ouvir isso, Iblis o parabeniza e diz: Realmente fizeste um trabalho de valor. Então chama-o para perto, coloca uma coroa em sua cabeça e o coroa. Que Allah nos proteja das garras de Satanás e de seus asseclas!
Relatado por Hazrat Anas (que Allah esteja satisfeito com ele): o Mensageiro (S.A.) disse: “A fé é uma excelente vestimenta, que Allah, o Altíssimo, faz vestir a quem deseja. Porém, quando um servo comete adultério, Ele lhe retira a vestimenta da fé. Depois, quando ele se arrepende, devolve-lhe essa vestimenta.” (Bayhaqi, Tirmidhi, Abu Dawud e Hakim)
Em outro hadith, o Mensageiro (S.A.) disse: “Ó muçulmanos! Abstenham-se do adultério, pois ele tem seis punições: três manifestam-se neste mundo e três no Além. As três punições neste mundo são: o brilho de seu rosto desaparece, sua vida torna-se curta e sua pobreza torna-se permanente. As três que se manifestam no Além são: ele sofrerá a ira de Allah, uma prestação de contas severa e o castigo do Inferno.” (Bayhaqi) O Mensageiro (S.A.) também disse: “Allah fará beber a água de uma fonte chamada Ghawta àquele que morrer persistindo no consumo de álcool. Ghawta é uma fonte de pus e líquidos impuros que emanam das partes íntimas das mulheres adúlteras e que fluirá no Inferno.” (Ahmad)
O Mensageiro (S.A.) também disse: “Depois de associar alguém a Allah, não há pecado maior do que ter relações com uma mulher proibida.” (Ahmad e Tabarani)
O Mensageiro (S.A.) também disse: “No Inferno há um lago onde vivem numerosas serpentes. Cada serpente é tão grossa quanto o pescoço de um camelo. Essas serpentes morderão aquele que abandona a oração. Com uma única mordida, o veneno permanecerá em seu corpo durante setenta anos. Depois, sua carne cairá. Além disso, há no Inferno outro lago chamado ‘Lago da Tristeza’. Nele vivem muitas serpentes e escorpiões. Cada escorpião é do tamanho de uma mula e tem setenta ferrões; cada ferrão está cheio de veneno. Esses escorpiões morderão o adúltero e derramarão todo o seu veneno em seu corpo. Como consequência, ele sofrerá a agonia do veneno durante mil anos. Depois, sua carne cairá, e pus e líquidos impuros sairão de seus órgãos genitais.”
É relatado em outro hadith que aquele que cometer adultério com uma mulher casada, tanto ele quanto essa mulher sofrerão no túmulo metade do castigo de toda a ummah muçulmana. No Dia da Ressurreição, Allah, o Altíssimo, confiará ao marido a responsabilidade de julgar suas boas ações e perguntará se ele sabia do ato perverso cometido por sua esposa. Se soubesse e não tivesse tomado nenhuma medida para impedir esse ato perverso, Allah lhe proibirá o Paraíso. Pois Allah, o Altíssimo, afixou um aviso na porta do Paraíso declarando que o Paraíso é proibido ao Dayyuth. Dayyuth é aquele em cuja família ocorrem atos obscenos, mas que, mesmo sabendo disso, permanece calado e não toma nenhuma medida para impedi-los.
Também foi relatado no hadith que aquele que tocar uma mulher proibida com má intenção virá, no Dia da Ressurreição, de tal modo que sua mão estará ligada ao pescoço. Se tiver beijado essa mulher, seus dois lábios serão cortados com uma tesoura de fogo. E se tiver cometido adultério com ela, suas duas coxas testemunharão, dizendo: “Eu montei para um ato ilícito.” Allah, o Altíssimo, olhará para ele com ira. Sentindo-se humilhado, ele teimosamente dirá: “Eu não fiz isso.” Então sua língua testemunhará contra ele. A língua dirá: “Eu falei sobre assuntos ilícitos.” Sua mão testemunhará: “Eu toquei em coisas ilícitas.” Depois, seus olhos dirão: “Eu olhei para coisas ilícitas.” Seus dois pés dirão: “Eu caminhei em direção a coisas ilícitas.” Seus órgãos íntimos dirão: “Eu cometi adultério.” O anjo guardião dirá: “Eu ouvi.” O outro anjo dirá: “E eu registrei.” E Allah, o Altíssimo, dirá: “Eu soube e ocultei.” Depois Allah, o Altíssimo, dirá: “Ó anjos! Agarrai-o e fazei-o sofrer o Meu castigo, pois a Minha ira aumenta contra aquele cuja vergonha diminui.”
A veracidade do hadith mencionado é comprovada pelo seguinte versículo: “No dia em que suas línguas, suas mãos e seus pés testemunharem contra eles acerca do que faziam na vida terrena.” (Surata An-Nur)
O tipo mais abominável de adultério é ter relações com mulheres mahram, isto é, mulheres permanentemente proibidas. Entre elas estão a mãe, a tia materna, a irmã, a filha etc. O Mensageiro (S.A.) disse: “Aquele que cometer adultério com uma mulher mahram, matai-o.”
Foi relatado por Hazrat Bara (que Allah esteja satisfeito com ele) que o Mensageiro (S.A.) enviou o tio materno de Hazrat Bara com a ordem de matar certo indivíduo e voltar trazendo todos os seus bens confiscados, pois ele havia se casado com sua própria madrasta.” (Hakim)
Que o Deus Altíssimo nos proteja deste pecado abominável e grave. E que conceda aos que estão envolvidos nesse pecado a graça de se arrependerem e os perdoe.
As disposições da Sharia para prevenir o adultério
Para manter a sociedade humana livre da mistura de linhagens e estabelecê-la sobre uma base genealógica saudável e pura, Allah proibiu o adultério. E, para prevenir esse adultério, a Sharia islâmica estabeleceu um conjunto detalhado de normas chamado hijab. De acordo com essas normas, foram proibidos: as mulheres circularem fora de casa sem se cobrirem, com o propósito de exibir sua beleza; estudarem e trabalharem juntamente com homens sem observar o hijab; dois adultos, um homem e uma mulher que não sejam marido e esposa, permanecerem sozinhos em reclusão; permitir que a voz das mulheres seja ouvida por homens estranhos sem necessidade; e as canções obscenas, a música e a literatura, as peças teatrais e os filmes obscenos, entre outras coisas. Em particular, tanto homens quanto mulheres receberam a ordem de baixar o olhar uns diante dos outros. Na Surata An-Nur, Allah, o Altíssimo, disse: “Dize aos homens crentes que baixem seus olhares e protejam suas partes íntimas… E dize às mulheres crentes que baixem seus olhares e protejam suas partes íntimas.”
Há um hadith: “Quem olhar para uma mulher estranha terá chumbo derretido despejado em seus olhos no Dia da Ressurreição.” E há outro hadith: “O adultério dos olhos é o olhar; o adultério da língua é falar obscenidades; o adultério das mãos é tocar alguém ilegalmente; o adultério dos pés é caminhar com a intenção de cometer adultério; o adultério dos ouvidos é ouvir palavras más; e o adultério do coração é imaginar e desejar o adultério. Depois, as partes íntimas dão a isso sua consumação ou o deixam incompleto.” (Sahih al-Bukhari, Muslim, Abu Dawud e An-Nasa’i)
Há também no hadith: o olhar é uma flecha envenenada de Iblis. Quem o controlar, Allah concederá ao seu coração o verdadeiro sabor da adoração, que ele continuará a desfrutar até o Dia da Ressurreição.
Em suma, todas as coisas que incitam ao adultério também são pecados graves, assim como o próprio adultério. (O tradutor)
12. Homossexualidade e perversões sexuais
Allah, o Altíssimo, relatou em vários lugares do Alcorão Sagrado o acontecimento do povo de Ló. Por exemplo, disse na Surata Hud: “Quando se cumpriu Meu decreto, fizemos com que a parte superior daquela cidade se tornasse sua parte inferior, e fizemos chover sobre ela pedras de argila endurecida, em sucessão contínua. As pedras eram marcadas. (Isto é, traziam sinais pelos quais se podia reconhecer, ao vê-las, que não eram pedras da Terra.) Elas estavam junto do teu Senhor. (Isto é, estavam em Seu tesouro, do qual nada é utilizado sem a permissão de Allah.) Na verdade, esse castigo não está longe dos injustos. (Isto é, se os habitantes desta comunidade também cometerem atos abomináveis semelhantes, terão o mesmo fim lamentável que aqueles tiveram.) Ibn Majah e At-Tirmidhi narram que o Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: A coisa que mais temo para vós é o ato abominável do povo de Ló. Em seguida, amaldiçoou três vezes os que praticam esse ato, dizendo: A maldição de Allah recaia sobre quem pratica o ato do povo de Ló!” Em um hadith narrado por Abu Dawud, At-Tirmidhi e Ibn Majah, o Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: “Quando encontrardes duas pessoas praticando o ato do povo de Ló, matai ambas.” Hazrat Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: Eles devem ser lançados do telhado da casa mais alta da região e, assim que forem lançados, devem ser apedrejados, tal como foi feito com o povo de Ló. Entre os muçulmanos há consenso, isto é, uma decisão unânime, de que a homossexualidade é um ato proibido e um pecado grave.
Allah diz: “Vós vos aproximais apenas dos homens dentre os habitantes da Terra e abandonais as esposas que vosso Senhor criou para vós? Na verdade, sois transgressores dos limites (isto é, ultrapassais os limites do lícito e ingressais nos limites do ilícito).” (Surata Ach-Chuará)
Em outro versículo, Allah, o Altíssimo, diz sobre Seu profeta, o honorável Lot (que a paz esteja com ele): “E salvei-o daquela cidade, cujos habitantes se entregavam a atos obscenos. Na verdade, eram um povo perverso e pecador.” (Surata Al-Anbiya)
O nome daquela cidade era Sodoma. O Alcorão descreveu os atos obscenos aos quais seus habitantes costumavam entregar-se. Eles praticavam sexo anal com homens e cometiam diversos pecados em locais de reunião pública.
É narrado que o honorável Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) classificou as seguintes práticas como práticas do povo de Lot: as mulheres manterem os cabelos curtos como os homens e os homens mantê-los longos como as mulheres; usar a camisa desabotoada; disparar armas de fogo; atirar pedras; brincar com pombos voadores; assobiar colocando os dedos na boca; tatuar os tornozelos; deixar as roupas pendentes abaixo dos tornozelos; deixar intencionalmente aberta a parte inferior das vestes; beber álcool; e homens praticarem sexo com homens e mulheres praticarem sexo com mulheres. (É importante observar que, ao chamar essas práticas de práticas do povo de Lot, o honorável Ibn Abbas quis dizer que eles foram os primeiros a introduzi-las. Com exceção do disparo de armas de fogo, todas as demais são, por consenso, práticas ilícitas ou indecentes. O disparo de armas de fogo também não é permitido, salvo por órgãos governamentais regulares de aplicação da lei e em casos de necessidade especial de autodefesa. O tradutor.)
Em um hadith citado por At-Tabarani, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “O sexo entre mulheres é uma forma de adultério.” Em um hadith narrado por At-Tabarani e Al-Baihaqi, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Quatro pessoas permanecem, de manhã e à noite, sob a ira e a cólera de Allah: o homem que adota vestimentas semelhantes às das mulheres; a mulher que adota vestimentas semelhantes às dos homens; aquele que pratica sexo com animais; e o homossexual.” É narrado em outro hadith: “Quando um homem penetra outro homem, o Trono de Allah começa a tremer de medo da ira de Allah, e o céu quase desaba sobre a Terra. Os anjos seguram o céu pelas suas extremidades e continuam recitando a Surata Al-Ikhlas até que a cólera de Allah seja apaziguada.”
O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Allah lança Sua maldição sobre sete pessoas, não olhará para elas no Dia da Ressurreição e ordenará que entrem no Inferno: os homossexuais, aqueles que praticam sexo com animais, aquele que se casa simultaneamente com uma mulher e sua filha, e aquele que pratica masturbação. Contudo, se se arrependerem, todos poderão ser perdoados.” Também é narrado que, no Dia da Ressurreição, um grupo de pessoas será ressuscitado de tal maneira que suas mãos estarão grávidas como resultado do adultério. Durante a vida terrena, praticavam masturbação. Em outro hadith, é dito que jogos como xadrez e dados, brigas de pombos, brigas de cães, brigas de carneiros, brigas de galos, entrar no banheiro sem levar roupa e dar menos na medida — tudo isso são práticas do povo de Lot. Para aqueles que praticarem essas coisas, o castigo severo será inevitável.” É narrado pelo honorável Ibn Abbas que, se um homossexual morrer sem arrependimento, assumirá no túmulo a forma de um porco.
Em At-Tirmidhi, An-Nassa’i e Ibn Abbas, é narrado que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Allah não olhará para aquele que praticar sexo anal com um homem ou uma mulher.” Olhar para uma mulher ou para um jovem belo com desejo também é, da mesma forma, uma forma de adultério. Isso porque já foi narrado anteriormente um hadith com este sentido: “O olhar malicioso é o adultério dos olhos.” Um poeta árabe disse: “O início de todos os acontecimentos se dá pelo olhar, assim como grandes incêndios começam com uma pequena faísca.”
É narrado que, sob as ordens do honorável Abu Bakr, o honorável Khalid ibn al-Walid queimou vivo um homossexual praticante.
Também é narrado que, certa vez, uma delegação da tribo de Abd al-Qays foi até o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Entre eles havia um jovem imberbe, sem barba nem bigode. O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) colocou o jovem atrás de si e disse: “Foi por causa do olhar que o honorável Davi (que a paz esteja com ele) sofreu um infortúnio.”
Certa vez, um rapaz foi até Sufyan al-Thawri. Ele gritou: “Tirem-no da minha frente. Pois vejo um demônio junto de cada mulher, mas junto dos rapazes vejo mais de dez demônios.”
Certa vez, enquanto o profeta Jesus (que a paz esteja sobre ele) se dirigia a algum lugar, viu no caminho um homem sendo consumido pelo fogo. Ao ver aquilo, trouxe água e apagou o fogo; então o fogo se transformou em um rapaz, e o homem se transformou em fogo. Jesus (que a paz esteja sobre ele) suplicou: “Ó Allah! Restitui ambos à sua forma original, pois quero fazer-lhes algumas perguntas.” Quando Allah os ressuscitou, viu-se que um era um homem idoso e o outro, um rapaz. Jesus (que a paz esteja sobre ele) perguntou: “O que aconteceu com vocês?” O homem respondeu: “Ó Espírito de Allah! Apaixonei-me por este rapaz e cometi um ato imoral com ele. Depois da morte de nós dois, Allah está nos punindo desta maneira: por algum tempo, eu me torno fogo e queimo o rapaz; depois, por algum tempo, o rapaz se torna fogo e me queima. E assim continuará até o Dia da Ressurreição.”
Observe-se que também constitui adultério ilícito ter relações anais com a própria esposa ou manter relações com ela durante a menstruação. Pois o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Aquele que mantém relações com a própria esposa durante a menstruação ou mantém relações anais com ela é amaldiçoado.”
Que Allah proteja todos os muçulmanos desse grande pecado.
13. Dar e receber juros
O Deus Altíssimo diz: “Ó crentes! Não consumais juros em múltiplas proporções. Temei a Allah. Talvez alcanceis o sucesso.” (Surata Al Imran) Allah, o Altíssimo, também diz: “Aqueles que consomem juros só se levantarão como se levanta aquele que Satanás enlouqueceu com o seu toque.” (Isto é, no Dia da Ressurreição, levantar-se-ão dos túmulos como uma pessoa enlouquecida pelo toque de Satanás.) “Isso porque dizem: ‘O comércio é apenas como os juros.’ No entanto, Allah permitiu o comércio e proibiu os juros.” (Surata Al-Baqara)
Ou seja, consideraram lícito aquilo que Allah proibiu. Então, no Dia da Ressurreição, quando Allah ressuscitar a humanidade, todos se levantarão dos túmulos e correrão velozmente. Mas os que consomem juros não poderão fazê-lo. Eles se levantarão e cairão repetidamente, como uma pessoa embriagada. Assim que se levantarem, cairão imediatamente. Isso porque consumiam juros proibidos neste mundo. E Allah havia aumentado enormemente dentro de seus ventres aquele alimento ilícito. Assim, no Dia da Ressurreição, Ele os tornará tão pesados que, sempre que tentarem se levantar, cairão. Eles também desejarão correr no mesmo ritmo que os demais, mas não conseguirão.
O imame Qatada (que Allah tenha misericórdia dele) disse: “O que consome juros será ressuscitado no Dia da Ressurreição em estado de loucura. Esse estado de loucura será reconhecido por todos no campo da Ressurreição como um sinal de quem consumia juros.”
Os imames al-Bayhaqi, Ibn Jarir e Ibn Abi Hatim narram, por intermédio de Abu Sa’id al-Khudri, que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Na noite da Ascensão, quando fui levado, passei por um grupo de pessoas cujas barrigas eram enormes, cada uma como uma casa. Com barrigas tão grandes, não conseguiam se locomover adequadamente. Assim, ao caminhar, desviavam-se do próprio caminho. Aquele era o caminho pelo qual o Faraó e seu grupo são levados ao Inferno de manhã e à tarde. Essas pessoas entravam nesse caminho de vez em quando e caminhavam como camelos estúpidos, surdos e desviados. Quando aqueles homens de grandes barrigas percebiam que o Faraó e seu grupo estavam sendo trazidos, tentavam fugir apressadamente. Porém, como não conseguiam se mover por causa das barrigas, não podiam sair da estrada. Então o Faraó e seu grupo avançavam sobre eles, empurrando-os e levando-os ora para trás, ora para a frente. Eles continuarão sofrendo esse castigo até antes da Ressurreição.” O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Perguntei: ‘Ó Gabriel, quem são eles?’ Ele respondeu: ‘São os que consomem juros, que caminham como pessoas enlouquecidas pelo toque de Satanás.’”
Em um hadith narrado pelo imame Ahmad, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Na noite da Ascensão, ouvi acima da minha cabeça, no sétimo céu, um estrondo terrível. Quando abri os olhos e olhei, vi algumas pessoas cujas barrigas se projetavam à sua frente. Cada uma dessas barrigas era grande como uma casa. Dentro delas havia milhares de serpentes e escorpiões. Tudo isso era visível do lado de fora das barrigas. Perguntei: ‘Quem são eles?’ Gabriel respondeu: ‘São os que consomem juros.’”
Foi narrado por Abu Ya’la e Al-Hakim, com base em Ibn Abbas, que o Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: “Quando um povo se entrega à fornicação e à riba, Allah Todo-Poderoso permite que seja destruído. Abu Dawud narrou que, quando um povo se torna avarento, realiza suas transações com base na riba, organiza competições de corrida de touros e abandona o jihad no caminho de Allah, Allah Todo-Poderoso envia sobre ele uma calamidade da qual não poderá escapar até retornar ao caminho da religião.
Ibn Majah, Bazaz, Bayhaqi e Al-Hakim narraram que o Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: ‘Quando a riba se dissemina em uma sociedade, aumenta nela o número de loucos; quando a fornicação se dissemina, aumenta a taxa de mortalidade; e, quando se estabelece o costume de dar menos na medida, Allah Todo-Poderoso interrompe a chuva naquele lugar. Isso é inevitável.’
Foi narrado em um longo hadith de Sahih al-Bukhari que o usuário de riba continuará a sofrer tormento, nadando em um rio vermelho cheio de sangue, desde sua morte até o Dia da Ressurreição, e pedras continuarão sendo introduzidas em sua boca. Esse rio é a riqueza ilícita que ele acumulou no mundo, na qual será obrigado a se debater. As pedras de fogo que lhe serão introduzidas na boca são o castigo por ter consumido alimento ilícito. Esse castigo lhe será aplicado até o Dia da Ressurreição, e, juntamente com ele, maldições continuarão a ser lançadas sobre ele. Em outro hadith autêntico, o Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: ‘Allah Todo-Poderoso considera Sua responsabilidade impedir quatro pessoas de entrarem no Paraíso e de desfrutarem de suas bênçãos, enquanto não se arrependerem: o alcoólatra, o usuário de riba, aquele que se apropria indevidamente dos bens de um órfão e aquele que negligencia seus deveres para com os pais.’
Também foi narrado em um hadith que, assim como um grupo de judeus, embora fosse proibido pescar aos sábados, cavava secretamente grandes buracos na margem do mar; os peixes caíam nesses buracos no sábado, e eles os recolhiam no domingo — e Allah os transformou em macacos e porcos como punição por essa artimanha —, da mesma forma, aqueles que, não podendo consumir riba de maneira direta, a consomem por meio de vários subterfúgios e enganos, serão ressuscitados por Allah Todo-Poderoso no Dia da Ressurreição como macacos e porcos. Isso porque nenhuma de suas artimanhas ou fraudes permanece oculta para Allah Todo-Poderoso. O ilustre tabi’i Ayyub as-Sakhtiyani disse: ‘Assim como se engana uma criança, os usuários de riba querem enganar Allah Todo-Poderoso. Se, em vez disso, consumissem riba abertamente, talvez seu castigo fosse um pouco mais leve.’
Foi narrado em At-Tabarani, Ibn Majah e Al-Bayhaqi que o Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: ‘A riba tem setenta pecados. O menor deles equivale ao pecado de casar-se com a própria mãe. E a forma mais abominável de riba é violar a honra de um muçulmano ou usurpar seus bens ao cobrar uma dívida de riba.’
Al-Bayhaqi narrou que o Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: ‘Se um usuário de riba receber sequer uma quantia de riba equivalente a um dirham, seu pecado será equivalente ao de cometer fornicação trinta e seis vezes.’
Ibn Majah e Al-Bayhaqi narraram que o Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: ‘A riba tem setenta pecados. O menor deles equivale a cometer fornicação com a própria mãe.’ Em um hadith narrado por Sahih al-Bukhari e Sahih Muslim, o Mensageiro (que a paz esteja com ele) chamou sete pecados de “pecados destrutivos” e ordenou que as pessoas se protegessem deles. Consumir riba é um desses sete.
O Mensageiro (que a paz esteja com ele) também disse: ‘Allah Todo-Poderoso lançou Sua maldição sobre o usuário de riba, aquele que a paga, suas testemunhas e aquele que a registra — sobre todos eles.’ (Sahih Muslim e Sunan At-Tirmidhi.) Hazrat Ibn Mas’ud (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: ‘Se alguém lhe deve uma dívida e lhe enviar um presente, não o aceite, pois isso é riba.’ Hazrat Hasan al-Basri disse: ‘Se você comer algo oferecido por uma pessoa que lhe deve dinheiro, isso é riba.’
O Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: ‘Qualquer empréstimo do qual se obtenha algum benefício é riba.’ Foi narrado em Sunan Abu Dawud que o Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: ‘Quem interceder em favor de alguém e, depois, receber um presente dessa pessoa e aceitá-lo terá realizado uma forma grave de transação de riba.’
14. Apropriar-se indevidamente dos bens dos órfãos (meninos e meninas menores sem pai) e cometer injustiça contra eles
Allah, o Altíssimo, disse: “Certamente, aqueles que devoram injustamente os bens dos órfãos apenas enchem seus ventres de fogo. Em breve arderão no Inferno.” Allah, o Altíssimo, também disse: “Não vos aproximeis dos bens dos órfãos, exceto da melhor maneira, até que atinjam a maturidade; então, podeis administrá-los.”
Foi narrado no Sahih Muslim, por Abu Sa‘id al-Khudri (que Allah esteja satisfeito com ele), que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: Na noite da Ascensão, vi algumas pessoas sob a responsabilidade de outras. Aqueles encarregados delas abriam suas mandíbulas, obrigando-as a escancarar a boca, enquanto outros traziam pedras em brasa do Inferno e as introduziam em suas gargantas. Imediatamente, as pedras saíam pelo ânus. Perguntei: Ó Jibril, quem são eles? Ele respondeu: São aqueles que se apropriam indevidamente dos bens dos órfãos. Eles apenas comem fogo.
Abu Hurairah narra que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “No Dia da Ressurreição, Allah, o Altíssimo, fará algumas pessoas se levantarem de seus túmulos em tal estado que o fogo sairá de seus ventres e irromperá de suas bocas. Perguntou-se: Ó Mensageiro de Allah, quem são eles? O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) respondeu: Não leste as palavras de Allah, o Altíssimo: ‘Aqueles que se apropriam injustamente dos bens dos órfãos não consomem senão fogo em seus ventres’?”
O Imam as-Suddi (que Allah tenha misericórdia dele) disse: Quando aquele que se apropriou injustamente dos bens de um órfão for reunido no campo da Ressurreição, fogo sairá de sua boca, nariz, ouvidos e olhos. Qualquer pessoa que o vir o reconhecerá: este é alguém que devorou os bens de um órfão.
Os sábios experientes disseram: Se o guardião de um órfão for pobre, poderá tomar, para cuidar dos interesses do órfão, desenvolver seus bens e administrá-los, apenas o necessário e a quantia cuja aceitação seja comum e justa na sociedade de seu tempo. Se tomar mais do que isso, será ilícito e haram. Allah, o Altíssimo, disse sobre o guardião do órfão:
“Quanto ao rico, que se contenha; e quanto ao pobre, que coma de maneira justa.”
Há várias opiniões sobre o que seja essa quantia justa. A primeira opinião é que ela deve ser considerada um empréstimo. A segunda é que se pode consumir apenas o necessário para sua subsistência, sem jamais desperdiçar ou esbanjar. A terceira é que o guardião só pode receber remuneração quando realizar algum trabalho para o órfão, e apenas em proporção ao trabalho realizado. A quarta é que ele só pode tomar algo quando sentir extrema necessidade; se for abastado, não deve tomar nada, mas, se não for, pode fazê-lo. O erudito Ibn al-Jawzi mencionou essas quatro opiniões em seu tafsir.
Foi narrado no Sahih al-Bukhari que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Eu e aquele que sustenta um órfão estaremos assim no Paraíso.” Ao dizer isso, juntou dois dedos da mão. No Sahih Muslim, consta que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Aquele que sustenta um órfão, seja ele parente ou não, e eu estaremos no Paraíso como estes dois dedos.” Ao dizer isso, mostrou dois dedos. Sustentar um órfão significa assumir a responsabilidade por ele, providenciar sua alimentação, vestuário e outras necessidades com seus próprios bens, caso ele possua patrimônio, e cuidar para que esse patrimônio aumente continuamente. Se ele não possuir bens, significa sustentá-lo com os próprios recursos, buscando a satisfação de Allah. A expressão do hadith “parente ou não” significa que ele pode ser um familiar ou um desconhecido. Por exemplo, se o guardião for seu avô, irmão, mãe, tio paterno, padrasto, tio materno ou outro parente, ele será alguém próximo; caso contrário, será alguém de fora.
Está registrado no Tirmidhi Sharif que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Aquele que acolhe uma criança órfã muçulmana em sua alimentação e a mantém assim até que Allah a torne próspera e independente, Allah lhe garantirá o Paraíso. Contudo, isso é diferente caso cometa algum pecado imperdoável. Está registrado no Musnad de Ahmad que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Aquele que acaricia a cabeça de um órfão que não tem ninguém além de Allah para acariciá-la receberá uma recompensa por cada fio de cabelo tocado por sua mão. E aquele que trata bem um órfão estará no Paraíso assim comigo” — e apontou para seus dois dedos juntos.”
Um homem disse a Abu ad-Darda (que Allah esteja satisfeito com ele): “Dê-me um conselho.” Ele respondeu: “Seja compassivo para com o órfão, aproxime-o de si e alimente-o com sua própria comida. Certa vez, um homem informou ao Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) que seu coração era muito duro. Então o Mensageiro lhe disse: “Se quiser que seu coração se torne terno, aproxime o órfão de si, acaricie sua cabeça e alimente-o com sua própria comida. Se fizer isso, seu coração se tornará terno e todas as suas necessidades serão atendidas.” Um grande homem dos primeiros tempos do Islã disse: “No início da minha juventude, eu estava envolvido com o consumo de álcool e vários tipos de pecados. Certo dia, nesse período, vi à beira do caminho um menino órfão e abandonado. Levei-o para casa, tratei-o com carinho como a um filho, dei-lhe banho, vesti-o com roupas boas e ofereci-lhe comida.”
Depois, dormi à noite e sonhei que o Dia do Juízo havia começado e eu fora chamado para prestar contas. Após a prestação de contas, foi ordenado que eu fosse lançado no Inferno como punição por meus pecados. Quando os anjos do Inferno começaram a arrastar-me, em extrema humilhação e desamparo, para me lançar nele, de repente vi aquele menino órfão aproximar-se e bloquear nosso caminho. Ele disse: “Ó anjos! Deixem-no. Intercederei por ele diante do meu Senhor, pois ele me fez muito bem.” Os anjos disseram: “Não recebemos nenhuma ordem a esse respeito.” Nesse momento, ouviu-se subitamente uma voz do invisível. O Grandioso Allah, Senhor dos mundos, dizia: “Ó anjos! Deixem-no, pois, por ter tratado bem o órfão, concedi a esse órfão o direito de interceder por ele.” Ele disse: “Nesse momento, acordei. Arrependi-me de todos os pecados que ainda cometia e aos quais estava acostumado. Depois, dediquei todos os meus esforços ao serviço dos órfãos.”
Foi justamente por isso que Anas ibn Malik (que Allah esteja satisfeito com ele), servo do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), disse: “A melhor casa é aquela onde se cuida de um órfão. E a pior casa é aquela onde algum órfão é maltratado. O servo que beneficia e serve um órfão ou uma viúva é o servo mais amado por Allah, o Altíssimo.”
É relatado que Allah, o Altíssimo, revelou ao profeta Davi (que a paz esteja sobre ele): “Ó Davi! Torna-te para o órfão como um pai compassivo e, para a viúva, como um marido afetuoso. E sabe que colherás a mesma safra que a semente que plantares. Ou seja, assim como tratares os outros, assim também serão tratados, depois da tua morte, teus filhos órfãos e tua esposa viúva.” Davi (que a paz esteja sobre ele) suplicou: “Ó meu Senhor! Qual será a recompensa daquele que, buscando a Tua satisfação, ajuda órfãos e viúvas?” Allah, o Altíssimo, respondeu: “No Dia do Juízo, quando não houver nenhuma sombra além da sombra do Meu Trono, colocá-lo-ei sob a sombra do Meu Trono.”
Há uma história conhecida sobre a virtude de servir órfãos e viúvas. Conta-se que certa vez um muçulmano não árabe migrou com toda a família e chegou a Balkh. No início, eram muito prósperos e felizes. Porém, quando o marido morreu subitamente, sua esposa viúva e os filhos órfãos caíram na pobreza. Para superar sua situação miserável e proteger-se das zombarias dos vizinhos hostis, a mulher, apesar do frio intenso, partiu com os filhos para outra cidade. Deixando-os em uma mesquita abandonada, saiu à procura de alimento para eles. Nesse momento, encontrou duas pessoas importantes. Uma era muçulmana, natural da cidade e prefeita. A outra era adoradora do fogo e responsável pela segurança da cidade. Primeiro, ela descreveu sua aflição à prefeita: “Sou uma mulher muçulmana viúva. Tenho alguns filhos órfãos. Deixei-os em uma mesquita abandonada e estou procurando alimento para esta noite.” A prefeita disse: “Primeiro, prove que você é uma mulher muçulmana casta e virtuosa.” A mulher respondeu: “Sou estrangeira. Ninguém aqui me conhece.” Ao ouvir isso, a prefeita ignorou-a e foi embora. Com o coração abatido, a mulher despediu-se dela e foi até o responsável adorador do fogo pela segurança, a quem contou tudo. Também lhe relatou seu encontro com a prefeita muçulmana. O responsável pela segurança pediu-lhe que esperasse um pouco, entrou em casa, enviou uma mulher e, por meio dela, levou a visitante e seus filhos para sua própria casa. Depois, alimentou-os com grande satisfação, vestiu-os com roupas excelentes e providenciou respeitosamente um lugar para que passassem a noite.”
Por volta da meia-noite, a prefeita muçulmana sonhou que o Dia do Juízo havia começado e que o próprio Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) estava diante de um palácio magnífico feito de pedras verdes de esmeralda, segurando uma bandeira. A prefeita perguntou: “Ó Mensageiro de Allah! De quem é este palácio?” Ele respondeu: “De um líder muçulmano que acredita na unicidade de Allah.” Ela disse: “Eu sou uma líder muçulmana que acredita na unicidade de Allah.” O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Primeiro, prove que você é uma verdadeira muçulmana monoteísta.” Ao ouvir isso, ela ficou completamente atônita. O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) repetiu: “Na noite passada, quando uma mulher se identificou como muçulmana e pediu ajuda, você lhe disse: ‘Primeiro, prove que é muçulmana.’ Do mesmo modo, agora você também deve provar que é muçulmana.”
Ao acordar desse sonho, a prefeita ficou inquieta e enviou pessoas em todas as direções à procura daquela mulher. Por fim, descobriu que ela estava na casa do responsável adorador do fogo pela segurança. Foi até lá e disse-lhe: “Envie-me a mulher muçulmana que se refugiou em sua casa com os filhos.” Ele respondeu: “Estendi-lhe a mão em auxílio e obtive imensa bondade e bênçãos. Portanto, não posso mandá-la embora.” A prefeita disse: “Dou-lhe mil dinares. Entregue-os a mim.” Ele respondeu: “Não, isso é impossível para mim.” E acrescentou: “Vi em sonho que um enorme palácio havia sido construído para mim. Por isso, eu e toda a minha família aceitamos o Islã pelas mãos dessa mulher muçulmana.”
Por isso, foi narrado no Sahih al-Bukhari e no Sahih Muslim que o Rasul (que a paz esteja com ele) disse: “Aquele que se empenha pelo bem-estar dos órfãos e das viúvas é equivalente àquele que luta no caminho de Allah.” O narrador disse: “Creio que o Rasul (que a paz esteja com ele) também disse que essa pessoa é equivalente àquele que ora e jejua continuamente.”
15. Atribuir falsamente algo a Allah e ao Rasul
Na surata Az-Zumar, Allah Ta’ala diz: “No Dia da Ressurreição, verás enegrecidos os rostos daqueles que atribuíram falsidades a Allah.” Hasan al-Basri disse: “Aqueles que atribuem falsidades a Allah e ao Seu Rasul são os que dizem: ‘Faremos determinada coisa se quisermos; caso contrário, não a faremos. Não seremos punidos por isso.’” Allama Ibn al-Jawzi disse em seu tafsir: “Segundo a opinião de um grupo de eruditos, quem atribui uma falsa acusação a Allah e ao Rasul de Allah torna-se completamente incrédulo e sai do Islam. Do mesmo modo, considerar lícito aquilo que Allah proibiu e ilícito aquilo que Ele tornou lícito é pura incredulidade. Não se pode chamar isso simplesmente de um pecado grave. Portanto, atribuir falsidades a Allah e ao Rasul certamente deve ser algo diferente desse tipo de falsa acusação.”
Num hadith narrado no Sahih al-Bukhari e no Sahih Muslim, o Rasul (que a paz esteja com ele) disse: “Aquele que deliberadamente atribuir uma mentira a meu respeito, que prepare sua morada no Inferno.” Em outro hadith do Sahih Muslim, o Rasul (que a paz esteja com ele) disse: “Aquele que narrar algum hadith a meu respeito, embora saiba que é falso, é um mentiroso.”
Em outro hadith do Sahih Muslim, o Rasul (que a paz esteja com ele) disse: “Atribuir uma mentira a meu respeito não é como atribuir uma mentira a qualquer outra pessoa. Aquele que atribuir uma mentira a meu respeito, que prepare sua morada no Inferno.” O Rasul (que a paz esteja com ele) também disse: “Aquele que divulgar algo dizendo que é minha palavra, embora eu não o tenha dito, que prepare sua morada no Inferno.” O Rasul (que a paz esteja com ele) também disse: “Um crente pode ter qualquer outro defeito em seu caráter. Mas a mentira, a traição, a deslealdade e a apropriação dos bens confiados por outros não podem existir nele.”
16. Fugir do campo de batalha
“Quando o exército inimigo não for mais que o dobro do exército muçulmano, fugir do confronto com ele é um pecado grave. Contudo, se alguém fugir como manobra de guerra, ou com o propósito de juntar-se a algum grupo de mujahidin ou a todo o seu exército, isso não é um pecado grave. Allah Ta’ala diz: “Aquele que fugir do confronto com os inimigos no dia da batalha incorrerá na ira de Allah, e seu destino será o Inferno; e que péssimo destino! Porém, se alguém fugir como manobra de guerra ou com o propósito de juntar-se a uma tropa, será diferente.” (Al-Anfal)
Num hadith narrado no Sahih al-Bukhari e no Sahih Muslim, entre os sete pecados graves destrutivos mencionados está a fuga do campo de batalha.
Hazrat Ibn Abbas disse: Quando foi revelado o versículo: “Se houver entre vós vinte pessoas pacientes, elas vencerão duzentas”, Allah, o Altíssimo, determinou que, se houvesse vinte homens no exército muçulmano e duzentos no exército inimigo, ninguém do exército muçulmano poderia fugir. Em seguida, foi revelado o versículo: “Agora Allah aliviou o vosso fardo, pois sabe que há entre vós alguns fracos. Portanto, se houver entre vós cem pessoas pacientes, elas vencerão duzentas, com a permissão de Allah. E Allah está com os pacientes.” Com a revelação deste último versículo, Allah, o Altíssimo, determinou que, quando houvesse cem combatentes no exército muçulmano e duzentos no exército inimigo, a fuga dos muçulmanos seria proibida. (Sahih al-Bukhari)
[Isso significa que, quando a força dos inimigos for mais que o dobro da força dos muçulmanos, não é obrigatório continuar a guerra, sendo permitido cessar os combates ou firmar uma trégua por qualquer meio. O tradutor.]
17. A opressão e a fraude dos governantes contra os governados, bem como apoiá-las e auxiliá-las
Allah, o Altíssimo, diz no Sagrado Alcorão: ‘Só se pode agir contra aqueles que oprimem as pessoas e transgridem injustamente na Terra. Para eles haverá um castigo doloroso.’ (Surata Ash-Shura)
Allah, o Altíssimo, também diz: “Nunca penses que Allah está desatento ao que fazem os opressores. Ele apenas adia o seu julgamento até um dia em que os olhos ficarão arregalados, as pessoas correrão com a cabeça erguida, sem conseguirem voltar o olhar para si mesmas, e os seus corações estarão vazios.” (Surata Ibrahim)
Allah, o Altíssimo, também diz: “Aqueles que cometeram injustiça logo saberão a que destino serão conduzidos.” (Ash-Shura)
Allah, o Altíssimo, também diz: “Eles não proibiam uns aos outros as más ações que cometiam. Que péssimo era o que faziam!” (Al-Ma’idah)
O Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Quem nos engana não faz parte de nós.” (Sahih Muslim) O Mensageiro (que a paz esteja com ele) também disse: “No Dia da Ressurreição, a opressão se transformará em trevas.” (Sahih al-Bukhari, Sahih Muslim, Jami’ at-Tirmidhi) O Mensageiro (que a paz esteja com ele) também disse: “Cada um de vós é um governante, e cada um será interrogado sobre como governou.” (Sahih al-Bukhari)
O Mensageiro (que a paz esteja com ele) também disse: “Todo governante que enganar os seus súditos será um habitante do Inferno.” (At-Tabarani) O Mensageiro (que a paz esteja com ele) também disse: “Allah proibirá o Paraíso àquele a quem confiou alguns de Seus súditos e que não os beneficia buscando o bem deles.” (Sahih al-Bukhari) O Mensageiro (que a paz esteja com ele) também disse: “Aquele a quem Allah confiou alguns súditos sob seu governo, mas que continua a enganá-los e morre enquanto os engana, terá o Paraíso proibido por Allah.” (Sahih al-Bukhari)
O Mensageiro (que a paz esteja com ele) também disse: “Todo governante que governa o povo será detido no Dia da Ressurreição, e um anjo segurará o seu pescoço. Se Allah disser ao anjo: ‘Atira-o ao chão’, então o anjo o atirará, e ele será lançado no Inferno.” (Ahmad, Ibn Majah)
O Mensageiro (que a paz esteja com ele) também disse: “Até mesmo o juiz justo se deparará, no Dia da Ressurreição, com um momento em que se arrependerá de não ter deixado de ir resolver uma disputa entre duas pessoas por causa de uma única tâmara.” (Ahmad) O Mensageiro (que a paz esteja com ele) também disse: “Até mesmo o governante de dez pessoas será apresentado perante Allah, no Dia da Ressurreição, amarrado com as mãos atadas às costas; então, ou a sua justiça e boa governança o libertarão, ou a sua injustiça e má governança o destruirão.” (Ahmad e Ibn Hibban)
O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) costumava suplicar assim: “Ó Allah! Sê misericordioso com aquele a quem for confiada alguma responsabilidade sobre esta comunidade e que tratar seus membros com gentileza; e sê severo com aquele que for severo com eles.” (Sahih Muslim, Sunan an-Nasa’i) O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) também disse: “Aquele a quem Allah confiar alguma responsabilidade sobre os muçulmanos e que se esconder sem atender às suas necessidades e dificuldades, Allah também Se esconderá dele sem atender às suas necessidades e dificuldades.” (Sunan Abu Dawud, Al-Jami‘ at-Tirmidhi)
O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) também disse: “Em breve surgirão na Terra governantes pecadores e tirânicos. Quem aceitar suas mentiras e apoiar sua tirania não pertence ao meu grupo, e eu não pertenço ao grupo dele. Jamais terá a oportunidade de chegar ao Lago de Kawthar.” (Ahmad, at-Tirmidhi, an-Nasa’i) O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) também disse: “Duas categorias de pessoas da minha comunidade jamais obterão a minha intercessão: os governantes tirânicos e enganadores, e aqueles que cometem excessos na religião. Haverá testemunho contra eles, e ninguém assumirá qualquer responsabilidade por eles.” (at-Tabarani) O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) também disse: “No Dia da Ressurreição, o governante tirânico sofrerá o maior castigo.” (at-Tabarani)
Em outro hadith, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Ó humanidade! Ordenai o bem e proibí o mal; caso contrário, chegará um tempo em que, mesmo que supliqueis, Allah não aceitará vossas súplicas, e, mesmo que peçais perdão, Allah não vos perdoará. Sabei que Allah amaldiçoou, por meio de seus profetas, os sábios judeus e os ascetas cristãos, porque deixaram de ordenar o bem e proibir o mal, e fez descer sobre eles calamidades e desastres generalizados.”
O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) também disse: “Quem não é misericordioso com as pessoas não receberá a misericórdia de Allah.” (Sahih al-Bukhari) O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) também disse: “Allah colocará o governante justo, no Dia da Ressurreição, sob a sombra de Seu Trono, no dia em que não haverá outra sombra além da Sua.” (Sahih al-Bukhari e Sahih Muslim) O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) também disse: “No Dia da Ressurreição, os governantes justos estarão sentados em púlpitos luminosos: são aqueles que praticam a justiça ao governar seus subordinados, suas famílias, seus parentes e o povo.” (Sahih Muslim e an-Nasa’i)
Quando enviou Ma‘az ao Iêmen, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse-lhe: “Cuidado! Protege as propriedades valiosas do povo e teme a súplica do oprimido, pois não há véu entre Allah e a súplica do oprimido.” (Sahih al-Bukhari) Em um hadith narrado no Sahih Muslim, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse que Allah não falará, no Dia da Ressurreição, com três pessoas; uma delas será o governante mentiroso. Ele também disse: “Desejareis avidamente a liderança, embora ela se torne, para vós, motivo de arrependimento no Dia da Ressurreição.” (Sahih al-Bukhari) O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) também disse: “Por Allah, não confiarei esta responsabilidade a quem a pedir ou a desejar.” (Sahih al-Bukhari)
O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) também disse: “Ó Qa‘q ibn ‘Ajrah, que Allah te proteja do governo de pessoas ignorantes e tolas. Depois de mim, governantes assumirão o poder e não seguirão o caminho que mostrei.” (Ahmad) O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) também disse: “Para aquele que deseja tornar-se juiz dos muçulmanos e é nomeado para esse cargo, e cuja justiça supera sua injustiça, o Paraíso está garantido. Mas aquele cuja injustiça supera sua justiça terá o Inferno determinado para si.” (Sunan Abu Dawud) O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) também disse: “No Dia da Ressurreição, um governante será lançado sobre a ponte do Inferno. Ela tremerá tão violentamente que suas junções se abrirão e se deslocarão. Se esse governante for obediente a Allah, ainda assim atravessará a ponte. Mas, se for desobediente a Allah, a ponte ruirá com ele, e ele será lançado nas profundezas do Inferno, situadas a uma distância de cinquenta anos.”
‘Amr ibn al-Muhajir disse: Umar ibn Abd al-Aziz me disse: “Quando me vires afastar-me do caminho da verdade, puxa imediatamente a gola da minha roupa e diz: ‘Ó Umar, o que estás fazendo?’”
Portanto, ó governante injusto e tirânico! Lembra-te de que tua prisão é o Inferno e que o Senhor Majestoso, Allah, é teu juiz supremo. Lá, não poderás apresentar nenhuma desculpa ou justificativa. O túmulo assustador será tua cela. E terás de permanecer de pé para um longo acerto de contas e prestação de contas. Portanto, salva-te desse castigo. E tu, ó oprimido, lembra-te de que ao opressor não será concedido nem o menor perdão. Se vires que algum opressor se tornou tão poderoso que já não pode ser impedido, confia-o a Allah e dorme. Verás que talvez, ainda durante a noite, seja acometido por alguma doença; de modo algum poderá escapar da punição de Allah.
18. A arrogância
Considerar-se superior entre os servos de Allah, considerar os outros inferiores e menores em comparação consigo e desprezá-los, demonstrar insolência contra a ordem de Allah, desobedecer-Lhe e não cumprir Sua ordem — tudo isso são sinais de arrogância e está incluído nela. No Sagrado Alcorão, em vários lugares, a arrogância é condenada e é proclamada a reprovação dos arrogantes. Por exemplo, na Surata Al-Mu’min, Allah, o Altíssimo, diz: “Moisés disse: Busco refúgio em meu Senhor e vosso Senhor contra todo arrogante que não crê no Dia do Juízo.” Na Surata An-Nahl, Allah, o Altíssimo, diz: “Certamente, Allah não ama os arrogantes.”
Na Surata Al-Baqarah, Allah diz: “Eu disse aos anjos: Prostrai-vos diante de Adão. Todos se prostraram, exceto Iblis. Ele recusou e foi arrogante, tornando-se um dos incrédulos.” Com isso, compreende-se que aquele que, por arrogância, desobedece à ordem de Allah não obterá nenhum benefício de sua fé em Allah. Será considerado um incrédulo, tal como Iblis. Na Surata Luqman, foi dito: “Não faças caretas para as pessoas, nem franzas a testa, e não caminhes pela terra com arrogância. Certamente, Allah não ama nenhum arrogante presunçoso.”
Em um hadith qudsi, Allah, o Altíssimo, diz: “A arrogância é Minha vestimenta. Quem tentar arrancar de Mim essa vestimenta, Eu o lançarei no Inferno.” (Sahih Muslim)
O Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: “No Dia da Ressurreição, os tiranos arrogantes serão ressuscitados na forma de pequenas partículas. As pessoas os pisotearão, e de todos os lados lhes sobrevirão apenas humilhação e desonra. Eles serão levados à prisão chamada Būlās, no Inferno. Fogo arderá sobre suas cabeças, e lhes será dado para comer o excremento, o suor, a expectoração e outras coisas dos habitantes do Inferno.” (Sunan an-Nasa’i, Jami‘ at-Tirmidhi) O Mensageiro (que a paz esteja com ele) também disse: “Aquele que tiver no coração sequer o peso de uma partícula de arrogância não entrará no Paraíso.” (Sahih Muslim) O Mensageiro (que a paz esteja com ele) também disse: “O Paraíso e o Inferno discutirão. O Paraíso dirá: ‘Que é isto que me acontece, que ninguém entra em mim além dos fracos e desprezados da sociedade humana?’ E o Inferno dirá: ‘Fui reservado para todos os tiranos e arrogantes.’ Então Allah resolverá a disputa entre ambos e dirá: ‘Ó Paraíso! Tu és o símbolo da Minha misericórdia; por teu intermédio, concedo misericórdia a quem quero. E ó Inferno! Tu és o símbolo do Meu castigo; por teu intermédio, castigo a quem quero. Contudo, ambos serão preenchidos até a borda.’” (Sahih Muslim)
A história testemunha que o primeiro pecado por meio do qual Allah foi desobedecido foi a arrogância. Iblis foi quem cometeu esse delito.
Hazrat Salama ibn al-Akwa‘ narra: Um homem comeu com a mão esquerda diante do Mensageiro (que a paz esteja com ele). Ele lhe disse: “Come com a mão direita.” O homem respondeu: “Não consigo comer com a mão direita.” O Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: “Que nunca mais consigas.” Em seguida, dirigindo-se aos seus companheiros, disse: “A razão pela qual ele não consegue comer com a mão direita não é outra senão a arrogância.” Depois disso, ele nunca mais conseguiu levar a mão à boca. (Sahih Muslim)
O Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: “Não vos direi quem são os habitantes do Inferno?” Todos responderam em uníssono: “Sim, dizei.” Então o Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: “A pessoa de coração extremamente duro, o avarento ganancioso e o arrogante.” (Sahih al-Bukhari e Sahih Muslim) O Mensageiro (que a paz esteja com ele) também disse: “Aquele que caminha com arrogância e se considera superior, quando se encontrar com Allah, verá que Ele estará irado com ele.” (At-Tabarani)
O Mensageiro (que a paz esteja com ele) também disse: Os três primeiros a entrar no Inferno serão o governante injusto que toma o poder pela força, o rico negligente no pagamento do zakat e o pobre arrogante. Está registrado no Sahih al-Bukhari que o Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: No Dia da Ressurreição, Allah não olhará para três pessoas, não as purificará dos pecados e lhes reservou um castigo severo. Essas três pessoas são: aquele que usa uma roupa cuja bainha se arrasta até os tornozelos ou até os pés; aquele que, depois de dar uma caridade ou prestar um benefício a alguém, o censura por isso; e aquele que vende mercadorias jurando falsamente. Considera-se que arrastar a roupa até os pés é um sinal de arrogância. Por isso, o Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: A roupa que for usada abaixo dos tornozelos irá para o Inferno.
Deve-se lembrar que vangloriar-se da superioridade do conhecimento e da erudição, bem como da elevada posição social, é uma forma extremamente vil de arrogância. Aquele que busca conhecimento, especialmente o conhecimento islâmico, com o objetivo da vida futura não pode ser arrogante. Ele está sempre vigilante sobre o próprio coração e o observa atentamente. Se demonstrar negligência nesse assunto, a arrogância entrará em seu coração e o desviará do caminho correto. Allah, o Altíssimo, disse: Àquele que se ensoberbece, afastá-lo-ei dos Meus versículos. Isso significa que a arrogância fecha o caminho da orientação para o ser humano. Já aquele que busca conhecimento com o propósito de se tornar arrogante, desprezar os muçulmanos e, depois de adquirir conhecimento, considerá-los tolos, envolve-se na forma mais grave de arrogância.
19. Dar falso testemunho
Na Surata Al-Furqan do Sagrado Alcorão, foi mencionado como uma das qualidades indispensáveis dos crentes: “Aqueles que não prestam falso testemunho.” Na Surata Al-Hajj, foi declarado: “Abstende-vos da falsidade.” Foi dito no hadith: “Prestar falso testemunho equivale ao shirk.” (Abu Dawud, Tirmidhi, Ibn Majah, Tabarani)
Em outro hadith narrado por Ibn Majah, o Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: No Dia da Ressurreição, aquele que presta falso testemunho não poderá sequer mover os pés até que seja decidido que irá para o Inferno.
Aquele que presta falso testemunho, na realidade, comete quatro grandes pecados. Primeiro: profere mentiras e palavras inventadas. A esse respeito, Allah, o Altíssimo, disse no Alcorão: “Allah não guia o mentiroso transgressor.” (Surata Al-Mu’min) Segundo: comete injustiça contra aquele contra quem presta falso testemunho, pois, por meio disso, causa dano à sua vida, aos seus bens ou à sua honra. Terceiro: também comete injustiça contra aquele em favor de quem testemunha, pois proporciona-lhe o acesso a bens ilícitos, tornando inevitável para ele o Inferno. O Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: “Se, por causa de um falso testemunho, eu ordenasse que alguém recebesse os bens de outro irmão crente, que não os aceitasse, pois esses bens seriam para ele um pedaço do fogo do Inferno.” (Sahih al-Bukhari e Sahih Muslim) Quarto: por meio do falso testemunho, torna lícita a intervenção de outra pessoa sobre bens, vida ou honra proibidos.
Há um hadith narrado no Sahih al-Bukhari, no Sahih Muslim e no Tirmidhi em que o Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: “Quereis que vos diga quais são os pecados maiores mais abomináveis? Ouvi: associar parceiros a Allah, maltratar os pais e, atenção, prestar falso testemunho; atenção, prestar falso testemunho.” O narrador disse: Ele repetiu tanto as últimas palavras que pensávamos em nosso íntimo: “Ah, seria melhor se ele agora se calasse.”
20. Consumo de álcool
Allah, o Altíssimo, diz na Surata Al-Ma’idah: “Ó crentes! O álcool, os jogos de azar e a adivinhação são obras imundas de Satanás. Afastai-vos delas; assim, prosperareis. Satanás deseja apenas provocar entre vós inimizade e ódio por meio do álcool e dos jogos de azar, e afastar-vos da recordação de Allah e da oração. Não vos abstereis, então?”
Assim, fica inequivocamente comprovado que Allah, o Exaltado, proibiu nesta ayah o consumo de bebidas alcoólicas e advertiu contra elas. O Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) disse: «Abandonai as bebidas alcoólicas, pois elas são a mãe de todos os atos abomináveis.» Isso deixa claro que aquele que não abandona as bebidas alcoólicas desobedece a Allah e ao Seu Mensageiro e, por isso, merece o castigo. A esse respeito, Allah, o Exaltado, diz na surata An-Nissá: «Aquele que desobedece a Allah e ao Seu Mensageiro e transgride os Seus limites, Ele o fará entrar no Inferno, onde permanecerá eternamente. Para ele haverá um castigo humilhante.»
Hazrat Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: «Depois que foi revelada a proibição do consumo de bebidas alcoólicas, os Companheiros foram uns aos outros dizendo que as bebidas alcoólicas haviam sido declaradas haram e que seu consumo fora considerado um pecado equivalente ao shirk.»
Segundo um hadith narrado por Tabarani e Hakim, Hazrat Abdullah ibn Amr considerava o consumo de bebidas alcoólicas o maior dos pecados graves. Não há dúvida de que elas são a fonte ou mãe da incitação a toda espécie de atos imundos e condenáveis. Em diversos hadiths narrados em Abu Dawud Sharif por Hazrat Ibn Umar, em Ibn Majah e Tirmidhi Sharif por Hazrat Anas, e em Abu Dawud e no Musnad de Ahmad por Hazrat Ibn Abbas, foi lançada uma maldição sobre aquele que consome bebidas alcoólicas.
Em um hadith narrado por Sahih Muslim, o Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) disse: «Todo intoxicante e toda substância embriagante são bebidas alcoólicas, e toda bebida alcoólica é haram. Aquele que se acostumou a consumir bebidas alcoólicas na vida deste mundo e morreu sem se arrepender será privado, na Vida Futura, das bebidas do Paraíso.» Este hadith também foi narrado em Sahih Bukhari, Tirmidhi, Nasa’i, Abu Dawud e Bayhaqi. Em hadiths narrados por Sahih Muslim e Nasa’i, o Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) disse: «Aquele que consumir qualquer substância intoxicante, Allah prometeu fazê-lo beber o suor e as excreções dos habitantes do Inferno.» Em um hadith narrado por Hazrat Abu Huraira no Musnad de Ahmad, o Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) disse: «O consumidor de bebidas alcoólicas é igual ao adorador de ídolos.»
Em um hadith narrado por Sahih Nasa’i, o Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) disse: «Duas pessoas não entrarão no Paraíso: o desobediente aos pais e o consumidor de bebidas alcoólicas.» Em outro hadith, foi dito: «Três pessoas não entrarão no Paraíso: o consumidor de bebidas alcoólicas, o desobediente aos pais e o dayyuth.» Dayyuth é aquele que, mesmo sabendo que os membros de sua família estão envolvidos em atos imorais, não os impede.
O Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) disse: «A oração de três pessoas não é aceita, e nenhuma boa ação ascende: a do escravo fugitivo, até que retorne ao seu senhor; a da mulher cujo marido está descontente com ela, até que ele fique satisfeito com ela; e a do embriagado por ter consumido bebidas alcoólicas, até que recupere a consciência.»
Toda substância intoxicante que inativa o discernimento e a razão das pessoas é uma bebida alcoólica, seja ela uma bebida líquida ou um alimento sólido, seca ou úmida. O Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) disse: «Enquanto restar no corpo do consumidor de bebidas alcoólicas sequer uma gota de álcool, Allah não aceitará sua oração.» Em outro hadith, consta: «Allah não aceita nenhuma boa ação do consumidor de bebidas alcoólicas, e a oração da pessoa que ficou embriagada por consumir bebidas alcoólicas não será aceita durante 40 dias. Se ela se arrepender e voltar a consumir bebidas alcoólicas, Allah certamente a fará comer cobre derretido do Inferno.» O Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) também disse: «Aquele que consumiu bebidas alcoólicas, mas não ficou embriagado, terá Allah afastado de si durante 40 noites. E aquele que consumiu bebidas alcoólicas e ficou embriagado, Allah não aceitará sua sadaqah nem suas boas ações durante 40 noites. Se morrer nesse período, morrerá como um politeísta. E Allah o fará beber as excreções e o suor dos habitantes do Inferno.»
O Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) disse: «O ladrão não rouba enquanto é crente; o adúltero não comete adultério enquanto é crente; e o consumidor de bebidas alcoólicas não as consome enquanto é crente. Depois, o arrependimento o devolve ao estado normal.» (Sahih Bukhari, Muslim, Abu Dawud, Tirmidhi, Nasa’i) O Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) também disse: «Aquele que comete zina ou consome bebidas alcoólicas, Allah lhe retira a fé, assim como uma pessoa tira a camisa pela cabeça.» (Hakim)
O Mensageiro (que a paz esteja com ele) também disse: “Aquele que beber álcool à noite permanecerá politeísta até o amanhecer. E aquele que beber álcool pela manhã permanecerá politeísta até a noite.” O Mensageiro (que a paz esteja com ele) também disse: “A fragrância do Paraíso pode ser sentida à distância de quinhentos anos. No entanto, o filho desobediente aos pais, aquele que censura quem recebeu sua doação, o alcoólatra e o adorador de ídolos não sentirão essa fragrância.” (Tabarani) O Mensageiro (que a paz esteja com ele) também disse: “Ao alcoólatra será dada, no Inferno, água que escorre dos órgãos sexuais das mulheres adúlteras para beber.”
O Mensageiro (que a paz esteja com ele) também disse: “Allah, o Altíssimo, enviou-me como misericórdia e orientação. Enviou-me para eliminar os instrumentos musicais e as práticas da Jahiliyya. Meu Senhor jurou que, mesmo que um dos meus servos beba uma gota de álcool, farei com que beba água fervente do Inferno. Mas aquele servo que abandonar o álcool por temor a Mim, farei com que beba uma bebida no lugar mais nobre do Paraíso, junto dos melhores companheiros.” (Ahmad)
O Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: “Foi lançada uma maldição sobre o álcool, sobre aquele que o bebe, sobre aqueles que fazem outros beberem, sobre seu comprador, vendedor, produtor, carregador e transportador, armazenador, distribuidor e sobre todos aqueles que consomem o dinheiro obtido com sua venda.” (Abu Dawud, Ahmad)
Hazrat Abdullah ibn Amr ibn al-As disse: “Quando os alcoólatras adoecerem, não vão visitá-los.” O Imame Bukhari disse que Ibn Umar afirmou: “Não cumprimenteis os alcoólatras.” O Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: “Não vos senteis na companhia dos alcoólatras. Quando adoecerem, não os visiteis. Não compareçais aos seus funerais. Quando o alcoólatra comparecer ao campo da Ressurreição, sua língua ficará pendurada sobre o peito e dela escorrerá saliva. Todos os que o virem o odiarão e o repreenderão, e todos o reconhecerão como alcoólatra.”
Alguns sábios muçulmanos disseram: “A razão pela qual é proibido visitar o alcoólatra quando adoece e cumprimentá-lo é que o alcoólatra é um pecador depravado e amaldiçoado. Allah e Seu Mensageiro lançaram uma maldição sobre ele. Contudo, se ele se arrepender, Allah o perdoará.”
Hazrat Umm Salama (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: “Quando uma de minhas filhas adoeceu, preparei um pouco de álcool para tratá-la. Nesse momento, o Mensageiro (que a paz esteja com ele) entrou em minha casa e disse: ‘Ó Umm Salama! O que está acontecendo?’ Eu disse: ‘Ó Mensageiro de Allah! Estou tratando minha filha com isso.’ O Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: ‘Allah, o Altíssimo, não colocou nenhuma propriedade curativa naquilo que proibiu à minha comunidade.’”
Abu Musa (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: Trouxeram ao Mensageiro (que a paz esteja com ele) um pouco de suco guardado em um jarro. Esse suco já havia começado a apodrecer. O Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: “Atirai este jarro contra a parede, pois a bebida que está nele é a bebida dos que não creem em Allah e dos que não creem na Outra Vida.”
O Mensageiro (que a paz esteja com ele) também disse: “Se aquele que tiver guardado no peito um versículo do Livro de Allah beber álcool, no Dia da Ressurreição cada letra desse versículo virá apresentar uma queixa contra ele e o fará comparecer como réu perante Allah. E más notícias para aquele contra quem o Alcorão apresentar uma queixa no Dia da Ressurreição.”
O Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse em outro hadith: “Se algum grupo se unir no mundo para consumir qualquer substância intoxicante, Allah os reunirá no Inferno. Então, todos culparão uns aos outros por terem induzido os demais a consumir essa substância entorpecente. Cada um dirá ao outro: foste tu que me incitaste a consumir essa coisa proibida.”
O Mensageiro (que a paz esteja com ele) também disse: “Aquele que consumir álcool, Allah o fará beber no Inferno um veneno tão terrível que, assim que levar a taça à boca, antes mesmo de beber o veneno, a carne de seu rosto cairá dentro dela. E, depois de beber o veneno, toda a carne e a pele de seu corpo cairão. Com seu mau cheiro, todos os habitantes do Inferno sofrerão. Saibam que o bebedor de álcool, o produtor, o transportador e fornecedor, o comprador e vendedor, e todos os que se beneficiam de seu preço de venda, são participantes de seu pecado. Allah não aceitará suas orações, seu jejum nem sua peregrinação enquanto não se arrependerem. Se morrerem sem se arrepender, Allah fará com que bebam, por cada gole de álcool, o sangue e o pus dos habitantes do Inferno. Saibam que toda substância intoxicante e entorpecente é considerada álcool, e todo álcool é haram.”
Há um hadith que diz que os guardiões do Inferno arrebatarão os alcoólatras da ponte Sirat e lhes darão de beber, no Inferno, uma bebida imunda que, se caísse sobre o céu, faria todo o céu arder e se transformar em cinzas com seu calor.
Hazrat Ibn Mas’ud (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Quando um alcoólatra morrer, crucifiquem-no sobre um pedaço de madeira e enterrem-no. Depois, abram a sepultura e vejam. Se perceberem que sua cabeça não se voltou para o lado ocidental, retirem-no da cruz e enterrem-no normalmente. Caso contrário, deixem-no crucificado.”
Certa vez, Hazrat Fudayl ibn Iyad foi visitar um discípulo seu que estava à beira da morte e pediu-lhe que recitasse a Kalima. Mas ele não conseguia recitá-la. Repetidamente, ensinou-lhe a Kalima. Porém, ele disse: “Não consigo recitar a Kalima. Não tenho nenhuma relação com a Kalima.” Fudayl saiu de junto dele chorando. Alguns dias depois, sonhou com ele. Viu que o estavam arrastando em direção ao Inferno. Então lhe perguntou: “O que te privou do conhecimento da Kalima?” Ele respondeu: “Certa vez, adoeci. O médico me disse que eu deveria beber álcool para me tratar. Por isso, eu bebia álcool.” Se esse foi o estado daquele que bebia álcool para fins medicinais, é de arrepiar só de pensar no estado daquele que bebe por prazer e sob o efeito do vício.
Além do álcool, existem algumas substâncias entorpecentes líquidas ou sólidas que, quando comidas ou bebidas, causam intoxicação, alteram temporária ou permanentemente a razão e o humor, provocam embriaguez parcial ou total, geram excitação sexual excessiva e incitam à fornicação, tornam a pessoa violenta por natureza e a levam a insultos, brigas ou tumultos, além de afastá-la da oração, do jejum e de outras formas de adoração; quando consumidas em excesso, podem até causar a morte do consumidor. Ganja, bhang, ópio, toddy, heroína, haxixe e substâncias nacionais ou estrangeiras semelhantes estão incluídos entre as drogas. Todas elas são haram. Com a frase inequívoca “toda substância entorpecente é haram, seja em grande ou pequena quantidade”, o Mensageiro (que a paz esteja com ele) declarou-as completamente haram, e a punição prescrita pela sharia para o alcoólatra — oitenta açoites — é devida a todo consumidor de drogas.
Um acontecimento: um jovem chegou chorando diante do governante omíada Abd al-Malik ibn Marwan e disse: “Ó Emir dos Crentes, eu cavava sepulturas e roubava as mortalhas dos mortos. Ao abrir uma sepultura, vi que a pessoa ali deitada havia assumido a forma de um porco. Quando, assustado, me preparava para deixar a sepultura, ouvi uma voz do invisível dizer: ‘Estás indo embora.’
‘Sabes por que este homem foi transformado em porco?’ Eu respondi: ‘Não.’ Foi-me dito: ‘Ele bebia álcool e morreu sem se arrepender. Nesse estado, sofrerá castigo até o Dia da Ressurreição.’ Que Allah nos proteja deste pecado terrível.
21. Jogo de azar
O Altíssimo Allah diz: “Ó crentes! O vinho, os jogos de azar, os sacrifícios oferecidos nos altares em nome dos ídolos e a adivinhação por meio de sorteios são obras imundas de Satanás. Afastai-vos delas; assim, sereis bem-sucedidos. Satanás deseja, por meio do vinho e dos jogos de azar, semear entre vós a inimizade e o ódio, e afastar-vos da lembrança de Allah e da oração. Acaso não vos abstereis?” (Surata Al-Ma’idah)
Qualquer tipo de jogo de azar foi proibido neste versículo, seja praticado com xadrez, cartas, dados, peças ou qualquer outra coisa. Na realidade, isso se enquadra na apropriação e no saque dos bens das pessoas por meios ilícitos, algo que Allah, o Altíssimo, proibiu neste versículo da Surata Al-Baqarah: “Não consumais os bens uns dos outros por meios ilícitos.” O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse em um hadith: “Algumas pessoas se apoderam injustamente dos bens alheios. Para elas haverá o castigo do Inferno.” (Sahih Al-Bukhari) Em outro hadith do Sahih Al-Bukhari, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Se alguém fizer uma proposta ou convite dizendo: ‘Vem jogar comigo’, deverá dar uma caridade (para expiar o pecado).” Na verdade, se é necessário dar caridade ou kaffara apenas por falar sobre jogos de azar, pensem qual poderá ser a consequência de praticá-los!
Quanto a jogos como cartas e xadrez, se estiverem livres de apostas financeiras e forem praticados exclusivamente para entretenimento, há divergência de opinião. Alguns os consideram haram, enquanto outros os consideram halal. Porém, se houver apostas financeiras, todos os eruditos e imames das escolas jurídicas concordam que são haram. Os imames também concordaram que jogos de azar como o nard ou os dados são haram.
Pois o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Quem jogar dados é como se tivesse mergulhado e tingido as mãos na carne e no sangue de porco.” (Muslim) Em um hadith narrado por Sahih Al-Bukhari, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Quem joga dados desobedece a Allah e ao Mensageiro.” Ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Jogar dados é uma espécie de jogo de azar e é uma prática haram, como polir algo com gordura de porco.”
Jogar xadrez é haram segundo a maioria dos eruditos, quer haja ou não a obrigação de deixar algo como garantia, isto é, uma aposta financeira. Contudo, quando há uma garantia e esta é confiscada do jogador derrotado — em outras palavras, quando há aposta financeira —, isso é unanimemente considerado jogo de azar e haram. Mesmo sem garantia ou aposta financeira, a maioria dos eruditos considera o xadrez haram. Apenas o Imam Ash-Shafi’i o considera halal, sob a condição de que seja jogado em casa e não cause a perda de uma oração obrigatória perdida ou de qualquer outro dever obrigatório. O Imam An-Nawawi emitia fatwas de acordo com essa opinião do Imam Ash-Shafi’i. Ao mesmo tempo, julgava que jogar xadrez em troca de pagamento ou prêmio fazia parte dos jogos de azar.
A prova apresentada pelos eruditos que consideram o xadrez haram é a expressão do terceiro versículo da Surata Al-Ma’idah: “Wa an tastaksimū bil-azlām.” O Imam Sufyan e Waki’ ibn al-Jarrah explicaram que “azlām” significa jogar xadrez. Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “O shatranj, ou xadrez, é o jogo de azar dos não árabes.” Certo dia, Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) passou por um grupo de pessoas que jogava xadrez. Ao vê-los, disse: “O que é isto em que estais tão absortos? É melhor tocar no fogo ardente do que tocar nessas coisas. Juro por Allah, não fostes criados para isso.” Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) também disse: “Não há mentiroso maior que o jogador de xadrez. Ele diz: ‘Estou matando’, embora não tenha matado ninguém. Diz: ‘Aquilo morreu’, embora nada tenha morrido.” Abu Musa al-Ash’ari (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Ninguém joga xadrez senão o pecador.” Perguntaram ao Imam Ishaq ibn Rahwayh: “Considerais censurável jogar xadrez?” Ele respondeu: “O xadrez é inteiramente censurável.” Disseram-lhe: “Os soldados das fortalezas jogam xadrez como preparação para a guerra.” Ele respondeu: “Isso é um pecado.” Muhammad ibn Ka’b al-Qurazi, em resposta a uma pergunta sobre o xadrez, disse: “O menor dano de jogar xadrez é que o jogador será reunido, no Dia da Ressurreição, com os adeptos da falsidade.”
Ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) considerava o xadrez pior que os dados, enquanto o Imam Malik (que Allah tenha misericórdia dele) considerava o xadrez equivalente aos dados; ambos declararam os dois haram. O Imam Malik também disse: “Ouvi dizer que Ibn Abbas era responsável pela administração dos bens de um órfão. Ao encontrar naquele patrimônio equipamentos para jogar xadrez, ele os queimou. Se jogar xadrez fosse permitido, ele não teria podido causar tal prejuízo aos bens do órfão. Foi por considerá-lo haram que pôde fazer isso, assim como é obrigatório derramar o vinho que se encontre nos bens de um órfão.” Segundo Ibrahim an-Nakha’i (que Allah tenha misericórdia dele), o xadrez é um jogo amaldiçoado. Em um hadith, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Allah, o Altíssimo, dirige diariamente um olhar de misericórdia às Suas criaturas trezentas e sessenta vezes. Quem joga xadrez não recebe sequer um desses olhares.” Abu Huraira narrou que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Não cumprimenteis com salam as pessoas que encontrardes entregues ao xadrez, aos dados e a outros jogos que causam ociosidade. Quando se entregam ao jogo, Satanás e seu grupo se reúnem entre elas. Sempre que alguém abandona o jogo e vai embora, Satanás desvia o olhar dele, pois Satanás e seu grupo o detestam. Quando os jogadores de xadrez se dispersam ao terminar o jogo, vão embora como cães de barriga cheia que comeram a carcaça de animais mortos.” Em outro hadith, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Os jogadores de xadrez sofrerão um severo castigo no Dia da Ressurreição.”
22. Caluniar mulheres castas
Allah, o Exaltado, diz: “Aqueles que caluniam as mulheres crentes, castas e ingênuas, serão amaldiçoados neste mundo e no Além, e terão um castigo severo no dia em que suas línguas, suas mãos e seus pés testemunharem contra eles pelo que faziam.” (Surata An-Nur) “Aqueles que acusam mulheres castas de adultério e não apresentam quatro testemunhas, açoitai-os com oitenta açoites e jamais aceiteis seu testemunho. Esses são os transgressores.” (Surata An-Nur)
Nesses versículos, Allah, o Exaltado, deixou claramente estabelecido que aquele que acusa uma mulher casta de adultério e de envolvimento em atos obscenos será amaldiçoado neste mundo e no Além, e terá um castigo severo reservado. Seu castigo neste mundo é receber oitenta açoites (com um instrumento de flagelação especialmente preparado), e seu testemunho jamais será aceito, mesmo que diga a verdade. Em Sahih al-Bukhari e Sahih Muslim, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) ordenou que se evitassem os sete maiores pecados graves; um deles é caluniar mulheres muçulmanas, castas e ingênuas, acusando-as de adultério. Há várias formas de calúnia, como dirigir-se a uma mulher muçulmana inocente dizendo: “Ó adúltera, ó prostituta, ó impudica”; ou dirigir-se ao seu marido dizendo: “Ó marido de uma adúltera ou de uma prostituta”; ou dizer ao seu filho: “Ó filho de um bastardo ou de uma bastarda, ó filho de uma prostituta ou de uma adúltera”, e assim por diante. Deve-se observar que, seja a acusação de adultério feita sem provas contra uma mulher ou um homem, em qualquer linguagem, e seja o homem ou a mulher acusada livre ou escrava, o acusador receberá oitenta açoites, mediante solicitação da pessoa prejudicada.
(A questão da calúnia relacionada a outros atos pecaminosos, além do adultério, será apresentada separadamente mais adiante. Embora também sejam pecados graves, não há para eles nenhuma punição mundana específica estabelecida. — O tradutor)
É lamentável que, em geral, muçulmanos ignorantes espalhem esse tipo de conversa obscena e, por isso, sejam amaldiçoados e sofram castigo neste mundo e no Além. Por isso, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) ordenou que as pessoas controlassem suas línguas. Em um hadith narrado por Sahih al-Bukhari e Sahih Muslim, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “As pessoas são lançadas nas profundezas do Inferno por dizerem certas coisas sem testemunho nem prova; sua distância é maior que a distância entre o lugar do pôr do sol e o lugar do nascer do sol.” Ao ouvir isso, Mu’adh ibn Jabal disse: “Ó Mensageiro de Allah! Também seremos punidos por nossas palavras?” O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) respondeu: “Ó Mu’adh! Existe algo que lance uma pessoa de bruços no Inferno além dos pecados cometidos por sua boca?” O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) também disse: “Quem crê em Allah e no Além, que diga o bem ou permaneça em silêncio.” Além disso, este versículo do Sagrado Alcorão contém uma severa advertência a respeito da língua: “Não pronuncia palavra alguma sem que haja junto dele um vigilante preparado para registrá-la.” (Surata Qaf) Uqbah ibn Amir (que Allah esteja satisfeito com ele) perguntou ao Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele): “Ó Mensageiro de Allah! Como se alcança a salvação?” Ele respondeu: “Contém tua língua; que a amplitude de tua casa te seja suficiente (isto é, não cobices a terra alheia); chora por teus pecados e lembra-te de que as pessoas de coração cruel são as mais distantes de Allah.” (Abu Dawud e At-Tirmidhi)
O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) também disse: “A pessoa mais detestável aos olhos de Allah é aquela que profere palavras obscenas.” (At-Tirmidhi) A partir desse hadith, pode-se compreender facilmente quão mais detestáveis são as pessoas envolvidas em atos obscenos. Ele também disse: “Quem assumir, por mim, a responsabilidade de preservar o que está entre suas duas mandíbulas (a língua, os dentes e o canal alimentar) e o que está entre suas duas coxas (o órgão sexual), eu assumirei por ele a responsabilidade pelo Paraíso.”
É importante observar que essa severidade jurídica foi imposta à acusação pública de adultério sem quatro testemunhas oculares precisamente para proteger a honra das pessoas virtuosas e castas e impedir a disseminação da obscenidade na sociedade. Não é objetivo da Sharia proteger os verdadeiros adúlteros. (Deus nos livre!) Para punir os verdadeiros criminosos, deve-se apresentar a acusação ao tribunal de acordo com os procedimentos adequados.
23. Apropriação indevida de bens públicos
A apropriação indevida diretamente do tesouro público e do fundo de zakat também está incluída nessa categoria. Allah, o Exaltado, diz: “Certamente, Allah não ama os traidores.” (Surata At-Tawbah) “Não é possível que um profeta se aproprie indevidamente dos bens públicos. Quem se apropriar indevidamente comparecerá, no Dia da Ressurreição, levando consigo aquilo de que se apropriou.” (Al ‘Imran)
Hazrat Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele) narra que, certo dia, o Mensageiro (que a paz esteja com ele) fez um sermão. Nesse sermão, mencionou com grande ênfase a apropriação indevida dos bens públicos. Em seguida, disse: “Não quero ver nenhum de vocês, no Dia da Ressurreição, numa situação em que carregue sobre o pescoço um camelo que esteja berrando. Então essa pessoa me dirá: ‘Ó Mensageiro de Allah, salva-me!’ Eu direi: ‘Não sou capaz de lhe prestar ajuda alguma; já lhe transmiti anteriormente a legislação de Allah.’ Não quero ver nenhum de vocês, no Dia da Ressurreição, numa situação em que carregue sobre o pescoço um cavalo que esteja relinchando em voz alta. Essa pessoa me dirá: ‘Ó Mensageiro, salva-me!’ Eu direi: ‘Não sou capaz de lhe prestar ajuda alguma; já lhe transmiti anteriormente a legislação de Allah.’ Não quero ver nenhum de vocês, no Dia da Ressurreição, numa situação em que carregue sobre o pescoço uma cabra que esteja berrando em voz alta. Essa pessoa me dirá: ‘Ó Mensageiro, salva-me!’ Eu direi: ‘Não sou capaz de lhe prestar ajuda alguma. Já lhe transmiti anteriormente a legislação de Allah.’ Não quero ver nenhum de vocês numa situação em que carregue sobre o pescoço algum animal que esteja gritando. Essa pessoa me dirá: ‘Ó Mensageiro, salva-me!’ Eu direi: ‘Não sou capaz de lhe prestar ajuda alguma. Já lhe transmiti anteriormente a legislação de Allah.’ Não quero ver nenhum de vocês, no Dia da Ressurreição, numa situação em que carregue sobre o pescoço um amontoado de roupas e me diga: ‘Ó Mensageiro, salva-me!’ Mas eu direi: ‘Sou incapaz de ajudá-lo. Já lhe transmiti anteriormente a legislação de Allah.’ Não quero ver nenhum de vocês, no Dia da Ressurreição, numa situação em que carregue sobre o pescoço objetos silenciosos (ouro e prata) e diga: ‘Ó Mensageiro, salva-me!’ Mas eu direi: ‘Sou incapaz de ajudá-lo. Já lhe transmiti anteriormente a legislação de Allah.’” (Sahih Muslim)
Com efeito, quem, depois de todos esses bens chegarem como espólio de guerra (bens do tesouro público), tomar algo antes de sua distribuição oficial, ou retirar algo do Baitul Mal ou dos bens arrecadados como zakat, sem a autorização do funcionário competente ou do responsável, carregará isso sobre o pescoço no Dia da Ressurreição. O Sagrado Alcorão indica isso ao dizer: “Quem se apropriar indevidamente de algo virá trazendo consigo aquilo de que se apropriou.”
O Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: “Se alguém tiver consigo até mesmo uma agulha ou um fio dos bens arrecadados em nome do governo, que os entregue. Abstenham-se da apropriação indevida, pois aquele que se apropria indevidamente sofrerá humilhação e desonra terríveis no Dia da Ressurreição.” Certa vez, um Companheiro chamado Ibn al-Latbiyya foi nomeado para arrecadar zakat e sadaqa. Ele arrecadou alguns bens de sadaqa e compareceu diante do Mensageiro (que a paz esteja com ele). Apontando para algumas coisas, disse: “Isto é para vocês.” E, apontando para outras, disse: “Isto me foi dado como presente.” Assim que ouviu isso, o Mensageiro (que a paz esteja com ele) subiu ao púlpito da mesquita e, louvando a Allah, fez o seguinte sermão: “Juro por Allah, que nenhum de vocês tome algo sem ter direito a isso. Caso contrário, no Dia da Ressurreição, comparecerá carregando esse objeto. Aquele que, naquele dia, comparecer diante de Allah carregando sobre o próprio pescoço um camelo, uma vaca ou uma cabra que esteja gritando, eu não o reconhecerei.” Em seguida, ergueu as mãos e disse: “Ó Allah! Eu transmiti a Tua ordem?” (Segundo outra narração, o Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse ao arrecadador: “Se você não tivesse se tornado um arrecadador oficial e tivesse ficado em casa, alguém lhe daria presentes?” (Sahih al-Bukhari e Sahih Muslim)
Hazrat Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: Fomos a Khaybar com o Mensageiro (que a paz esteja com ele), e depois a conquistamos. Ali, não encontramos ouro nem prata entre os espólios de guerra; encontramos apenas alimentos e roupas. Depois, seguimos para Wadi al-Qura. Havia com o Mensageiro (que a paz esteja com ele) um servo que lhe fora dado por um homem da tribo de Banu Juzam (ele era conhecido como Rifa’a bin Yazid, da tribo de Banu Juzaib). Quando paramos para descansar no vale, o servo do Mensageiro (que a paz esteja com ele) estava junto aos camelos da caravana. Nesse momento, morreu atingido por uma flecha lançada de algum lugar. Dissemos: “Ó Mensageiro de Allah! Que felicidade a desse homem, pois se tornou mártir.” O Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: “De modo algum! Juro por Aquele em cuja mão está a minha vida: ele retirou um cobertor dos espólios, embora esse cobertor ainda não lhe tivesse sido oficialmente distribuído. Esse cobertor arderá como fogo sobre o seu corpo.” Ao ouvirem isso, os Companheiros ficaram extremamente amedrontados, e aqueles que tinham uma ou duas tiras de sandália também as trouxeram e as entregaram, dizendo: “Encontrei isto no dia da batalha de Khaybar.” O Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: “Uma ou duas tiras de sandália pertencem ao Fogo.” (Malik, Ahmad, Abu Dawud, an-Nasa’i, Ibn Majah, al-Bukhari e Muslim)
Hazrat Abdullah ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) narra que, certa vez, durante uma viagem, um homem chamado Kirkira foi encarregado de guardar os bens do Mensageiro (que a paz esteja com ele). Quando ele morreu, o Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: “Ele é um habitante do Inferno.” Quando as pessoas foram vê-lo, descobriram que ele havia se apropriado indevidamente de uma capa. Hazrat Zayd ibn Khalid al-Juhani (que Allah esteja satisfeito com ele) disse que, durante a batalha de Khaybar, um homem se apropriou indevidamente de algum objeto. Depois, quando morreu, o Mensageiro (que a paz esteja com ele) não realizou sua oração fúnebre. Ele disse: “Este companheiro de vocês se apropriou indevidamente de algo pertencente aos bens destinados ao caminho de Allah.” Revistamos seus pertences e encontramos uma peça de seda no valor de dois dirrames, que havia sido capturada dos judeus na batalha. O Imã Ahmad disse: “Não sei de ninguém cuja oração fúnebre o Mensageiro (que a paz esteja com ele) tenha deixado de realizar, além daquele que se apropriou indevidamente de bens e do suicida.” O Mensageiro (que a paz esteja com ele) também disse: “Os presentes recebidos pelos funcionários fazem parte da apropriação indevida.” (Sahih Muslim)
O Mensageiro (que a paz esteja com ele) também disse: “Assim como Allah não aceita a oração sem purificação, também não aceita a caridade feita com bens obtidos por apropriação indevida.” (Sahih Muslim)
Há muitos outros hadiths sobre a apropriação indevida. Alguns deles serão apresentados no capítulo sobre a injustiça (opressão). A injustiça foi dividida em três categorias, a saber:
Primeira: usurpar injustamente os bens de alguém.
Segunda: cometer injustiça contra alguém matando-o, espancando-o ou ferindo-o.
Terceira: cometer injustiça contra a honra de alguém por meio de insultos, maldições, difamação e falsas acusações. No sermão da Peregrinação de Despedida, o Mensageiro (que a paz esteja com ele) declarou todas essas ações proibidas e disse: “Sabei que o vosso sangue, os vossos bens e a vossa honra são sagrados para vós, assim como este dia é sagrado nesta cidade e neste mês.” (Sahih al-Bukhari e Sahih Muslim)
24. Roubar
Allah, o Altíssimo, diz: “Quanto ao ladrão, homem ou mulher, cortai-lhes as mãos como retribuição pelo que fizeram e como castigo da parte de Allah. Allah é Poderoso, Sapiente.” (Surata Al-Ma’idah)
A respeito da interpretação deste versículo, Ibn Shihab disse: Allah estabeleceu a punição de cortar a mão pelo crime de usurpar os bens das pessoas. Ele é Poderoso para punir o ladrão e Sábio ao tornar obrigatório o corte da mão.
O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Nenhum ladrão rouba enquanto é crente. Contudo, se se arrepender, sua fé é restaurada.” (Abu Dawud, Tirmidhi)
Hazrat Ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) narrou que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) cortou a mão de um ladrão por este ter roubado um objeto no valor de três dirhams. (Sahih Al-Bukhari, Sahih Muslim) Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) cortava a mão por roubo de um quarto de dinar ou mais. (Sahih Al-Bukhari, Sahih Muslim) Está narrado em vários hadiths que não se cortava a mão por um roubo inferior a um quarto de dinar ou a três dirhams. Naquela época, um dinar equivalia a doze dirhams. Contudo, qualquer que seja o valor roubado e seja ou não o caso passível da punição de cortar a mão, em todas as circunstâncias o roubo é um pecado grave e um crime abominável.
Em um hadith narrado por Sahih Al-Bukhari e Sahih Muslim, Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse que uma mulher da tribo Banu Makhzum tomava várias coisas emprestadas e depois negava tê-las recebido. O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) ordenou que sua mão fosse cortada. Os familiares dela foram até Usama, filho de Zayd, filho adotivo do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), e pediram-lhe que intercedesse pela absolvição daquela mulher. Quando Usama intercedeu, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Ó Usama! Não quero ver-te interceder a respeito de uma punição estabelecida por Allah, o Altíssimo.” Em seguida, dirigindo-se à multidão reunida, levantou-se e proferiu um discurso: “As nações anteriores a vós somente foram destruídas porque, quando uma pessoa nobre entre elas roubava, deixavam-na impune; mas, quando uma pessoa fraca roubava, cortavam-lhe a mão. Juro por Allah: se Fátima, filha de Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), roubasse, eu também lhe cortaria a mão.” Depois disso, cortaram a mão daquela mulher de Banu Makhzum.
Em um hadith narrado por Tirmidhi, Abu Dawud, Nasa’i e Ibn Majah, Hazrat Abd al-Rahman ibn Jarir disse: perguntamos a Fudala ibn Ubayd se pendurar no ombro do ladrão a mão amputada após o corte era uma sunnah do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Ele respondeu: Sim, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) pendurou a mão amputada no ombro do ladrão.
Os sábios dizem: o arrependimento do ladrão não terá benefício algum enquanto ele não devolver o objeto roubado ao seu proprietário. Contudo, se for pobre, poderá pedir perdão ao proprietário.
25. Cometer banditismo
Allah, o Altíssimo, diz: “A única punição para aqueles que travam guerra contra Allah e Seu Mensageiro e espalham a corrupção na terra é que sejam mortos, crucificados, que lhes sejam amputadas as mãos e os pés de lados opostos, ou que sejam expulsos do país. Isso será para eles uma humilhação neste mundo; e, na Outra Vida, terão um castigo terrível.” (Surata Al-Ma’idah)
O Imam Wahidi, ao explicar o versículo acima, diz: O significado de “travar guerra contra Allah e Seu Mensageiro” é opor-se a Allah e ao Mensageiro e desobedecer às suas ordens e proibições. Na realidade, aquele que desobedece às ordens está envolvido em guerra e rebelião. “Espalhar a corrupção na terra” significa espalhar a corrupção por meio de assassinatos e do saque de bens. Aquele que porta armas contra os crentes é considerado rebelde contra Allah e o Mensageiro e alguém que lhes declarou guerra. O Imam Malik, o Imam Shafi‘i e o Imam Awza‘i sustentavam essa opinião. O uso repetido da palavra “ou” indica que o governo islâmico tem liberdade para aplicar qualquer uma dessas medidas. Ou seja, se quiser, poderá matá-lo; se quiser, poderá crucificá-lo; e, se quiser, poderá expulsá-lo. Essa era a opinião de Ibn Abbas, Hasan, Sa‘id ibn al-Musayyab e Mujahid. Segundo o Imam Atiya, isso não indica liberdade, mas sim que a punição deve ser determinada conforme a gravidade do crime. O bandido que cometer tanto assassinato quanto apropriação de bens será morto e depois crucificado. O bandido que tomar os bens, mas não matar ninguém, terá apenas as mãos e os pés amputados de lados opostos. O bandido que apenas derramar sangue, sem apropriar-se de bens, será morto. E aquele que não matar nem tomar bens, mas espalhar terror portando armas ou por algum outro meio, será expulso do país. Essa é a opinião da escola shafi‘ita. O Imam Shafi‘i também diz que cada pessoa deve ser punida de acordo com a gravidade de seu crime. Aquele a quem cabem tanto a morte quanto a crucificação será primeiro morto ou crucificado três vezes e retirado, para que sua punição seja exibida de modo extremamente repugnante. Quanto àquele a quem cabe apenas a pena de morte, deverá ser morto e seu corpo entregue aos familiares. E aquele a quem cabe somente a pena de amputação terá primeiro a mão direita amputada. Se voltar a cometer furto ou banditismo, terá o pé esquerdo amputado. Se reincidir novamente, terá a mão esquerda amputada. Isso porque, num hadith narrado por Abu Dawud e An-Nasa’i, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Na primeira vez que furtar, amputai-lhe a mão; na segunda vez, amputai-lhe o pé; se furtar novamente, amputai-lhe a mão; e, se furtar novamente, amputai-lhe o pé.
” Durante os califados de Abu Bakr e Umar (que Allah esteja satisfeito com ambos), agia-se de acordo com esse hadith, e nenhum dos Companheiros se opôs a isso.
A respeito da explicação da frase do versículo “ou que sejam expulsos do país”, Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: no caso daquele que não puder ser capturado, o governo deverá anunciar que quem conseguir capturá-lo deverá matá-lo. Quanto àquele que for capturado, deverá ser preso e encarcerado. Assim, ficará impedido de circular pelo país cometendo crimes, e isso é a sua expulsão.
Na verdade, até mesmo ameaçar alguém de morte e espalhar o terror são grandes pecados. Se, além disso, alguém ainda roubar bens e cometer assassinato e ferimentos, então estará cometendo vários grandes pecados de uma só vez. Ademais, criminosos desse tipo geralmente também estão envolvidos em outros grandes pecados, como o consumo de álcool, adultério, homossexualidade, abandono da oração e semelhantes.
26. Fazer juramentos falsos e jurar em nome de alguém além de Allah
Allah, o Altíssimo, diz: “Certamente, aqueles que obtêm um pequeno benefício em troca de um compromisso e de um juramento em nome de Allah nada terão na Outra Vida. Allah não lhes falará, não olhará para eles, nem os purificará; além disso, terão um castigo doloroso.” (Al ‘Imran)
O Imame Wahidi disse: certa vez, dois homens começaram a apresentar reivindicações conflitantes sobre a propriedade de uma terra e ambos foram até o Mensageiro (que a paz esteja com ele) para que sua disputa fosse resolvida. Quando o réu se preparou para jurar em favor de sua própria reivindicação, eis que este versículo foi revelado. Então ele se absteve de prestar o juramento e reconheceu a propriedade da terra pelo autor da ação.
Em um hadith, o Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: aquele que jura para usurpar os bens de outra pessoa, embora não tenha direito a eles, encontrará Allah irado com ele quando se encontrar com Ele. Ash’ath disse: o versículo acima foi revelado a meu respeito. Eu tinha uma disputa sobre uma terra com um judeu.
Levei-o até o Mensageiro (que a paz esteja com ele). Ele me perguntou: «Você tem alguma testemunha ou prova?» Eu respondi: «Não.» Então o Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse ao referido judeu: «Jure que essa terra é sua.» Eu disse: «Ó Mensageiro! Se você der ao judeu a oportunidade de jurar, ele jurará e tomará minha terra.» Foi nesse momento que este versículo foi revelado. O «pequeno interesse» mencionado no versículo refere-se ao interesse mundano, pelo qual as pessoas costumam fazer falsos juramentos.
A propósito, é importante mencionar que, de acordo com a lei islâmica, quando o autor da ação não consegue apresentar testemunhas e provas adequadas perante o tribunal, o réu tem a oportunidade de prestar juramento, e o tribunal resolve a disputa com base nesse juramento. Portanto, em tais casos, o juramento é um meio extremamente eficaz.
Foi narrado por Hazrat Abdullah ibn Mas’ud (que Allah esteja satisfeito com ele) que o Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse:
«Aquele que jura reivindicando uma propriedade, embora saiba que ela não lhe pertence, encontrará Allah irado com ele.» Em seguida, o Mensageiro (que a paz esteja com ele) recitou este versículo: «Aqueles que trocam o pacto com Allah e seus juramentos por um pequeno interesse…»
Hazrat Abu Umamah (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: estávamos sentados na presença do Mensageiro (que a paz esteja com ele).
O Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: aquele que, por meio de seu juramento, usurpa os bens de algum muçulmano, torna o Inferno obrigatório para si e o Paraíso proibido para si. Um homem perguntou: «Ó Mensageiro! Mesmo que seja algo muito insignificante?» Ele respondeu: «Mesmo que seja apenas um galho de árvore.» (Sahih Muslim, Nasai e Ibn Majah)
Em um hadith narrado por Abu Dharr em Sahih Muslim, Abu Dawud, Tirmidhi, Nasai e Ibn Majah, o Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: «No Dia da Ressurreição, Allah não falará com três pessoas, não as purificará e haverá para elas um castigo severo.» Ele repetiu isso três vezes. Hazrat Abu Dharr disse: «Eles são realmente os mais perdidos e desafortunados.»
«Ó Mensageiro! Quem são eles?» O Mensageiro (que a paz esteja com ele) respondeu: «Aquele que usa uma roupa que chega aos calcanhares, aquele que recorda à pessoa a quem fez uma caridade ou um favor o que fez por ela, e aquele que vende sua mercadoria mediante um falso juramento.» Ou seja, jura falsamente que a mercadoria tem um preço de compra mais alto ou que é estrangeira, para poder vendê-la por um preço elevado, enquanto, por meio de um falso juramento, oculta os defeitos da mercadoria.
Em outro hadith narrado em Sahih al-Bukhari, o Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: os pecados maiores são associar parceiros a Allah, desagradar os pais, cometer suicídio e fazer um falso juramento. O falso juramento feito deliberadamente é denominado, na terminologia da Sharia, «yamin ghamus», isto é, juramento imersivo. Isso porque esse juramento mergulha a pessoa no pecado.
Segundo alguns, recebeu esse nome porque mergulha a pessoa no Fogo.
Jurar pelo nome de qualquer outro que não Allah também está incluído entre os pecados maiores. Como, por exemplo, jurar pelo Profeta, pela Caaba, pelos anjos, pelo céu, pela água, pela vida, pela confiança depositada, pela alma, pela cabeça, pelo mausoléu de fulano, e assim por diante.
Em um hadith narrado em Muwatta do Imame Malik, Sahih al-Bukhari, Sahih Muslim, Sunan Abu Dawud, Jami’ Tirmidhi, Sunan Nasai e Sunan Ibn Majah, o Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: «Allah vos proibiu jurar por vossos antepassados. Se tiverdes de jurar, jurai somente pelo nome de Allah; caso contrário, permanecei em silêncio.»
Em um hadith narrado por Sahih Muslim, o Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: «Não jureis pelo nome de ídolos ou pelo nome de vossos antepassados». Dizer «Se o que digo não for verdade, então não sou filho de fulano» também se inclui entre os juramentos pelos antepassados. Em um hadith narrado por Abu Dawud, Ibn Majah e Hakim, o Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: «Quem jurar dizendo: “Se o que digo não for verdade, então não sou muçulmano”, se for mentiroso, tornar-se-á aquilo que declarou (será privado da fé); e, mesmo sendo veraz, não poderá permanecer completamente seguro no caminho do Islã». Em um hadith narrado por Sahih al-Bukhari e Sahih Muslim, o Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: «Se alguém, por hábito, jurar equivocadamente pelo nome de alguém além de Allah, deverá imediatamente dizer: “La ilaha illallah”».
27. Cometer injustiça ou opressão
A injustiça e a opressão são cometidas de várias formas. Entre as formas mais comuns estão usurpar os bens das pessoas, tomar à força os bens alheios, espancar pessoas, insultá-las, atacar alguém sem provocação, causar danos financeiros, físicos e à honra, e praticar crueldade contra os fracos, entre outras. Allah diz na surata Ibrahim do Sagrado Alcorão: «Nunca penses que Allah está desatento ao que os injustos fazem. Allah apenas lhes concede prazo até um dia determinado, quando os olhos ficarão arregalados; eles correrão, de cabeça erguida e apressadamente, sem que seus olhos possam voltar-se para si mesmos, e seus corações ficarão desorientados. Adverte as pessoas sobre o dia em que o castigo lhes sobrevirá. Nesse dia, os opressores dirão: “Ó nosso Senhor, concede-nos um breve prazo, e aceitaremos o Teu chamado e seguiremos os Mensageiros”. Não juráveis anteriormente, repetidas vezes, que não haveria para vós declínio algum? Habitastes as moradas daqueles que foram injustos consigo mesmos, e tornou-se claro para vós como procedi com aqueles injustos. Além disso, demos-vos muitos exemplos».
Allah diz na surata Ash-Shura: «Somente contra aqueles que oprimem as pessoas se pode tomar providência». No último versículo da surata Ash-Shura, Allah diz: «Os opressores saberão em breve qual será o destino de sua opressão».
O Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: «Allah concede um longo prazo ao injusto. Porém, quando o captura, não o deixa escapar». Em seguida, recitou este versículo: «Assim é a captura do teu Senhor, quando Ele captura as cidades enquanto cometem injustiça. Sua captura é dolorosa e irresistível». (Sahih al-Bukhari, Sahih Muslim, Jami at-Tirmidhi)
O Mensageiro (que a paz esteja com ele) também disse: «Se alguém tiver lesado a honra de seu irmão ou causado qualquer outro dano, que hoje mesmo lhe peça perdão — isto é, que procure obter sua absolvição — antes que chegue o dia terrível em que não haverá compensação por meio de dinheiro. Nesse dia, se ele tiver boas ações, elas serão dadas ao oprimido na medida de sua opressão; e, se não tiver más ações, as más ações do oprimido serão transferidas para ele». (Sahih al-Bukhari e Jami at-Tirmidhi)
Em um hadith qudsi, o Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: Allah, o Altíssimo, afirmou: «Ó Meus servos! Eu proibi a injustiça para Mim mesmo e também a proibi entre vós. Portanto, não cometais injustiça uns contra os outros». (Sahih Muslim, Jami at-Tirmidhi)
Em outro hadith, consta: «O Mensageiro (que a paz esteja com ele) perguntou aos Companheiros: “Sabeis quem é o pobre?”. Eles responderam: “Entre nós, pobre é aquele que não tem dinheiro nem bens”. O Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: “O pobre da minha comunidade é aquele que, no Dia da Ressurreição, virá trazendo muitas orações, zakat, jejuns e hajj, mas chegará tendo insultado alguém, usurpado os bens de alguém, lesado a honra de alguém, espancado alguém e derramado o sangue de alguém. Então suas boas ações serão distribuídas entre essas pessoas. Quando suas boas ações se esgotarem antes de compensar os danos causados aos oprimidos, os pecados dos oprimidos serão colocados, um após outro, sobre seus ombros, e ele será lançado no Inferno”». (Sahih al-Bukhari e outros livros de hadith autênticos) Em outro hadith narrado por Sahih al-Bukhari e Sahih Muslim, consta: «Quem usurpar, ainda que seja um palmo, da terra de outra pessoa, no Dia da Ressurreição terá sete terras colocadas sobre seu pescoço». Em um hadith qudsi, Allah diz: «Fico extremamente irado com aquele que oprime uma pessoa que não tem outro ajudador além de Mim».
Um poeta árabe disse:
«Não cometas injustiça apenas por teres poder; o resultado da injustiça não é senão arrependimento. Depois de cometeres uma injustiça, dormes tranquilamente, mas o oprimido não consegue dormir. Ele passa a noite inteira rogando contra ti, e Allah o ouve, pois Ele também não dorme». Um sábio disse: «Não oprimas os fracos. Caso contrário, um dia eles se transformarão em um grupo poderoso e extremamente perigoso».
Está narrado na Torá que: «À margem da Ponte Sirat, um arauto continuará proclamando no Dia da Ressurreição: “Ó arrogantes e cruéis opressores! Allah jurou por Sua dignidade e majestade que, neste dia, nenhum opressor poderá atravessar esta ponte e entrar no Paraíso.”»
Hazrat Jabir (que Allah esteja satisfeito com ele) narra: «No ano da conquista de Meca, quando os emigrantes muçulmanos que haviam migrado para a Abissínia retornaram à presença do Mensageiro (que a paz esteja com ele), o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) disse: “Contai-me alguma experiência extraordinária que tivestes enquanto estáveis na Abissínia.” Então, alguns jovens dentre os emigrantes disseram: “Sim, ó Mensageiro de Allah! Certo dia, estávamos sentados ali quando vimos uma idosa passando ao nosso lado com um jarro de água sobre a cabeça. De repente, um jovem aproximou-se, pôs a mão em seu pescoço e empurrou-a com força. A idosa caiu, e seu jarro de água também caiu e se quebrou. A idosa levantou-se, olhou para aquele jovem e disse: ‘Ó traidor! No dia em que Allah estabelecer o Trono, no dia em que reunirá todos os povos, dos primeiros aos últimos, e no dia em que as mãos e os pés das pessoas testemunharão acerca de seus atos, nesse dia verás qual será o teu destino diante de Allah e qual será a minha situação.’” Ao ouvir isso, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) disse: “A idosa disse a verdade. Como Allah honrará uma nação que não controla os fortes em benefício dos fracos?”» (Ibn Majah, Ibn Hibban, Bayhaqi)
O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) disse: «A ira de Allah é inevitável contra cinco tipos de pessoas. Se Ele quiser, fará recair sobre elas ainda neste mundo; caso contrário, fará recair sobre elas na Outra Vida:
(1) O governante de uma nação que arrecada de seus súditos aquilo que é devido ao Estado, mas não age com justiça e equidade para com eles nem os protege da opressão.
(2) O líder de um grupo, chefe de uma tribo ou líder nacional a quem todos obedecem e cujas ordens todos seguem, mas que não trata igualmente os fortes e os fracos e fala conforme seus próprios caprichos.
(3) Aquele que não ordena à sua família e aos seus filhos que obedeçam a Allah, nem lhes ensina as normas do Islã.
(4) Aquele que, depois de exigir integralmente do empregado que contratou o trabalho que lhe cabe, não lhe entrega por completo a remuneração que lhe é devida.
(5) Aquele que priva a própria esposa do dote e a oprime.»
Hazrat Abdullah ibn Salam disse: «Quando Allah criou pela primeira vez todas as Suas criaturas, elas perguntaram a Allah, dizendo: “Ó nosso Senhor, com quem permaneces?” Allah respondeu: “Com o oprimido, até que aquilo que lhe é devido lhe seja devolvido.”»
Hazrat Wahb ibn Munabbih disse: «Um rei poderoso havia construído um palácio. Certo dia, uma idosa mendiga veio e construiu uma cabana ao lado daquele palácio, passando a morar nela. Mais tarde, certo dia, enquanto o rei subiu ao terraço do palácio e observava os arredores, viu aquela cabana e perguntou: “De quem é essa cabana?” As pessoas responderam: “De uma pobre idosa. Ela mora ali.” O rei imediatamente ordenou que a cabana fosse demolida. A idosa havia saído para mendigar. Pouco depois, voltou e viu que sua cabana estava destruída. Perguntou às pessoas das proximidades: “Quem demoliu minha cabana?” Elas lhe informaram que fora o rei. A idosa ergueu a cabeça para o céu e disse: “Ó Allah! Onde estavas quando eu não estava em minha cabana? Não pudeste protegê-la?” Então Allah ordenou a Jibril que destruísse aquele palácio, e ele foi imediatamente destruído.»
Conta-se que, depois de cair do poder, quando o rei Khaled ibn Barmak e seu filho foram presos, o filho disse: “Pai, depois de termos desfrutado de tanta honra e dignidade, por que estamos agora na prisão?” Khaled respondeu: “Sim, meu filho. Nas noites em que dormíamos satisfeitos, depois de oprimir os súditos, Allah estava desperto e havia aceitado as súplicas dos oprimidos.” Yazid ibn Hakim costumava dizer: “Eu havia oprimido um homem. Sabia que, além de Allah, ele não tinha no mundo nenhum outro auxiliador. Porém, quando ele disse: ‘Allah é suficiente para mim; Allah decidirá entre mim e ti’, tive tanto medo dele que jamais temi alguém assim em toda a minha vida.”
Certa vez, o califa Harun al-Rashid prendeu o poeta Abu al-Atahiya. Na carta que o poeta lhe escreveu da prisão, havia estas linhas: «Juro por Allah: sabei que a opressão traz terrível infortúnio ao próprio opressor. O opressor é sempre perverso. Ó opressor, no Dia da Ressurreição, quando estivermos reunidos, saberás quem será verdadeiramente digno de censura.»
Em um hadith narrado no Sharif de Tabarani, consta: “Quando o opressor chegar à Ponte Sirat no Dia da Ressurreição, todos aqueles contra quem ele cometeu injustiça — isto é, aqueles cujos direitos ele violou e a quem causou prejuízo — virão e, como compensação, tomarão suas boas ações. Depois que todas as suas boas ações forem tomadas, montes e montes de pecados dos oprimidos serão colocados sobre seus ombros. Assim, o opressor será lançado no nível mais baixo do Jahannam.”
Em um hadith narrado no Musnad de Ahmad, o Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: “No Dia da Ressurreição, os servos de Allah se reunirão no campo descalços e nus. Nesse momento, uma voz solene ressoará, que todos, próximos e distantes, poderão ouvir. Será dito: ‘Eu sou o Rei dos reis, Aquele que supre as necessidades de todos. Nenhum habitante do Paraíso poderá entrar no Paraíso, nem nenhum habitante do Inferno poderá entrar no Inferno, enquanto eu não tomar vingança pela injustiça que cometeu, ainda que tenha sido apenas um tapa ou um pontapé. Teu Senhor não trata ninguém com injustiça.’ Nós perguntamos: ‘Ó Mensageiro! Como isso será possível, se todos estaremos descalços e nus?’ O Mensageiro (que a paz esteja com ele) respondeu: ‘A vingança será tomada por meio da transferência das boas e más ações de cada pessoa. Vosso Senhor não é injusto.’ Em outro hadith, o Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: ‘Até mesmo por uma chicotada será exigida reparação no Dia da Ressurreição.’
Conta-se que um imperador da Pérsia contratou um professor para seu filho. Quando o menino já havia crescido o suficiente, certo dia o professor o chamou e lhe aplicou um severo castigo físico sem motivo nem culpa. O menino ficou zangado e interiormente furioso com o professor. Poucos dias depois, o rei morreu e o menino subiu ao trono. Então convocou o referido professor à corte e perguntou-lhe: ‘Por que, naquele dia, o senhor me castigou sem motivo?’ O professor respondeu: ‘Ó imperador, escute. Quando vi que o senhor havia crescido e que em breve subiria ao trono, decidi fazê-lo experimentar a dor causada por uma agressão e uma injustiça sem motivo, para que nunca cometesse injustiça contra ninguém.’ Ao ouvir isso, o imperador agradeceu e disse: ‘Que Allah lhe conceda a melhor recompensa.’ Em seguida, despediu seu antigo professor, presenteando-o generosamente.”
A injustiça cometida contra o órfão e a injustiça do governante contra seus súditos já foram discutidas separadamente. Aqui se aborda a injustiça dos fortes contra os fracos em todos os níveis. Ou seja, violar o direito de qualquer servo é injustiça. A esse respeito, deve-se observar que também constitui injustiça um rico ou uma pessoa capaz atrasar e apresentar desculpas sem motivo para pagar o salário devido a um credor pobre, ou entregar-lhe qualquer outra coisa que lhe seja devida. Por isso, um hadith ordena que o salário do trabalhador seja pago antes que o suor de seu corpo seque. O Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: “A procrastinação do rico também faz parte da injustiça.”
Em um hadith narrado no Musnad de Ahmad e em Tirmidhi, o Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: “A súplica do oprimido sobe acima das nuvens, e então Allah diz: ‘Por Minha dignidade e Meu poder, certamente te ajudarei, ainda que seja depois de algum tempo.’” O fato de o marido não pagar à esposa o dote e o sustento a que ela tem direito também é injustiça. O Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: “A conduta injusta do forte para com o fraco, por meio da qual ele prejudica seus bens e sua honra e lhe causa sofrimento, faz parte da injustiça.”
Consta em um hadith narrado por Hazrat Ibn Masud: “No Dia da Ressurreição, cada homem e cada mulher serão conduzidos, um após outro, pela mão e apresentados diante de toda a humanidade reunida no campo da Ressurreição, e será dito: ‘Eis fulano, filho ou filha de fulano. Se alguém tiver algum direito a cobrar dele, que venha recebê-lo.’ Nesse momento, as esposas privadas de seus direitos ficarão felizes e tomarão seus direitos dos pais, irmãos ou maridos que os usurparam. Então ele recitou este versículo: ‘Nesse dia, nenhum vínculo de parentesco será aceito, e ninguém perguntará por ninguém.’ Nesse dia, Allah perdoará, quanto aos direitos que Lhe pertencem, quem Ele quiser; porém, não perdoará os direitos das pessoas. Depois, o homem ou a mulher que tiver sido identificado será mantido de pé em determinado lugar, e será dito aos reivindicantes: ‘Avancem para receber seus direitos.’ Allah, o Altíssimo, dirá aos anjos: ‘Entreguem a cada credor, das boas ações dele, uma quantia proporcional ao seu direito.’ Depois que todos os credores tiverem recebido, se ainda restarem algumas boas ações e, considerando o conjunto de suas obras, ele for uma pessoa querida por Allah, suas ações restantes serão aumentadas de tal modo que possa entrar no Paraíso. Então ele será admitido no Paraíso. Mas, se for, em termos gerais, uma pessoa má e não lhe restar nenhuma boa ação, os anjos dirão: ‘Ó Allah, todas as suas boas ações se esgotaram, mas ainda há muitos credores.’ Então Allah dirá: ‘Coloquem sobre ele os pecados dos credores e lancem-no no Inferno.’”
Mesmo que alguém cometa injustiça contra um não muçulmano, sofrerá a mesma consequência neste mundo e no Além. Assim como é injustiça não dar a um muçulmano o que lhe é devido, dar-lhe menos, enganá-lo, ludibriá-lo, impor-lhe um trabalho além de sua capacidade ou tomar algo dele sem que ele o ofereça voluntária e prazerosamente, todas essas ações são igualmente injustiça quando praticadas contra um não muçulmano. O Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: “Aquele que usurpar o direito de um não muçulmano ou causar qualquer dano à sua vida ou aos seus bens, no Dia da Ressurreição eu próprio exigirei justiça contra ele diante do tribunal de Allah.”
Em um hadith narrado por Tabarani, o Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: “A primeira disputa a ser apresentada para julgamento no Dia da Ressurreição será a de um marido e sua esposa. A esposa não falará, mas suas mãos e seus pés testemunharão sobre a conduta que ela tinha para com o marido; e as mãos e os pés do marido testemunharão sobre a conduta, boa ou má, que ele tinha para com a esposa. Depois será apresentado o caso dos senhores e dos servos e servas. Ali, a disputa não será resolvida com dinheiro algum; somente as boas ações do opressor serão entregues ao oprimido. Depois, todos os governantes opressores e poderosos serão apresentados acorrentados com correntes de ferro e enviados ao Jahannam.”
Conta-se que o ilustre tabi‘i Tawus al-Yamani certa vez aconselhou Hisham ibn Abd al-Malik, governante omíada, dizendo: “Cuidado com o dia do chamado.” Hisham perguntou: “Que dia do chamado?” Tawus respondeu: “Allah, o Altíssimo, disse: ‘Nesse dia, alguém fará o chamado, proclamando: A maldição de Allah sobre os opressores!’” Ao ouvir isso, Hisham desmaiou. Tawus disse: “Se esta é a reação ao ouvir a descrição do que acontecerá no Dia da Ressurreição, qual será a situação quando isso ocorrer de fato e for visto com os próprios olhos?”
Além da injustiça, o Islã também proibiu severamente auxiliar a injustiça e manter proximidade com os opressores. Allah diz na Surata Hud: “Não sejais aliados dos opressores, pois o Fogo vos tocará.” Hazrat Ibn Abbas, em sua exegese, disse: isto significa não nutrir por eles amor sincero e completo, não lhes falar com linguagem branda e humilde, nem manter amizade com eles. Suddi disse: significa não fazer acordos de conciliação com os opressores. Ikrimah disse: isto é, não lhes obedecer. Abu al-Aliyah disse: isto é, não aceitar de bom grado as ações dos opressores.
Na Surata As-Saffat, Allah diz: “Reuni aqueles que cometem injustiça e seus cúmplices.” Ou seja, seus ajudantes e seguidores também sofrerão o mesmo destino. Em um hadith, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Quem apoiar um opressor, sabendo que ele é um opressor, sairá do Islam.” Em outro hadith, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Surgirão muitos governantes que terão numerosos seguidores, e esses seguidores também praticarão opressão e mentiras contra as pessoas. Quem conviver com eles, apoiar suas mentiras e ajudá-los em sua opressão, não sou dos seus, nem ele é dos meus. Mas quem se mantiver afastado deles e não os ajudar em sua opressão será meu íntimo, e eu serei seu íntimo.” O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Quem ajudar um opressor terá algum opressor colocado sobre si.” Hazrat Sa’id ibn al-Musayyab (que Allah tenha misericórdia dele) disse: “Quando olhar para o governante opressor e seus cúmplices, olhe para eles com indignação e descontentamento no coração; caso contrário, há o risco de que suas boas obras sejam anuladas.” Makhul ad-Dimashqi disse: “No Dia da Ressurreição, quando forem chamados o opressor e seus cúmplices, nem mesmo aquele que enchia de tinta a caneta do opressor, ou arrumava sua caneta, ou o ajudava em tarefas pequenas como essas ou em tarefas ainda maiores, será deixado de fora. Todos os ajudantes serão colocados em uma caixa de fogo e lançados no Inferno.”
O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse em um hadith: “Aqueles que andavam armados em favor dos governantes opressores e, para agradá-los, espancavam pessoas sem motivo, serão os primeiros a entrar no Inferno.” Hazrat Ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Os cúmplices dos opressores serão os cães do Inferno.”
Em outro hadith, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Não permaneçam em um lugar onde uma pessoa esteja sendo injustamente torturada ou morta. Pois a maldição de Allah recairá sobre aqueles que permanecerem nesse lugar e não impedirem a opressão.” (At-Tabarani)
Em outro hadith, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Depois que um homem for colocado no túmulo, os anjos lhe dirão: ‘Nós lhe daremos cem golpes de chicote.’ O homem suplicará e implorará insistentemente por clemência. Então lhe darão apenas um golpe de chicote. Depois disso, o túmulo ficará cheio de fogo. O homem perguntará: ‘Por que me golpearam?’ Eles responderão: ‘Porque você fez uma oração sem realizar a purificação ritual e, no caminho por onde passava, uma pessoa estava sendo oprimida, mas, embora tivesse poder, você não a ajudou.’ É algo para refletir: se esse é o destino de quem, apesar de ter poder, não ajuda o oprimido, qual será então o estado daquele que pratica pessoalmente a opressão?
Em um hadith de Sahih al-Bukhari e Sahih Muslim, o Mensageiro disse: “Ajudem seu irmão, seja ele opressor ou oprimido.” Os Companheiros disseram: “Ó Mensageiro de Allah! Entendemos que devemos ajudá-lo se ele for oprimido, mas como devemos ajudá-lo se ele for opressor?” O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) respondeu: “Impeçam-no de cometer opressão. Essa é a maneira de ajudá-lo.”
Conta-se que, certo dia, um dervixe viu em sonho, algum tempo após sua morte, um dos cúmplices de funcionários públicos opressores, em uma situação extremamente miserável. Perguntou-lhe: “Como você está depois da morte?” Ele respondeu: “Estou em uma situação insuportável. Estou sofrendo o castigo de Allah.” O dervixe perguntou: “Onde estão seus senhores, isto é, os funcionários públicos opressores?” Ele respondeu: “Eles estão em uma situação ainda mais terrível do que a minha.” Então disse: “Você não leu este versículo? ‘Os opressores logo saberão qual será o seu destino.’”
Um historiador narrou ainda outro acontecimento a esse respeito. Ele disse: “Certa vez, vi um homem cuja mão havia sido amputada junto ao ombro. Ele gritava em alta voz: ‘Quem me vir, que não oprima ninguém.’ Aproximei-me dele e perguntei: ‘O que aconteceu, irmão?’ Ele respondeu: ‘Aconteceu algo extraordinário. Eu era o capanga de um homem opressor. Certo dia, vi um pescador carregando um peixe enorme. Ao ver o peixe, senti uma avidez terrível; então espanquei o pescador e tomei-lhe o peixe. Eu ia alegremente para casa com o peixe quando, de repente, ele mordeu meu polegar com enorme força. Ao chegar em casa, atirei o peixe ao chão. Naquela noite, não consegui dormir por causa da dor. Na manhã seguinte, vi que meu dedo estava muito inchado. Fui rapidamente a um médico, que me informou que seria necessário amputar o polegar; caso contrário, depois toda a mão seria afetada. Assim, o polegar foi amputado. Mas nem isso aliviou a dor. Voltei ao médico, e dessa vez ele amputou toda a palma da minha mão e fez um curativo. Mesmo assim, não houve alívio.”
Aos poucos, foi necessário amputar toda a minha mão. Depois, um homem que ouviu toda a minha história aconselhou-me a ir pedir perdão ao dono do peixe e advertiu-me de que, caso contrário, todo o meu corpo poderia adoecer. Depois de muito procurar, encontrei o pescador e, recordando-lhe tudo o que havia acontecido, agarrei-me aos seus pés e pedi perdão. Agora, o restante do meu corpo está saudável, porque aquele pescador me perdoou e retirou a maldição que havia lançado contra mim.
Com efeito, oprimir as pessoas é um pecado tão terrível que o castigo por ele começa a ser recebido, de uma forma ou de outra, ainda nesta vida mundana, embora muitos não o percebam. A maneira eficaz de se proteger disso é dedicar-se a obras de beneficência e de serviço público; conter-se da ganância, da inveja e da ira; e contentar-se com tudo o que possui e obteve de forma lícita. O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Aquele que se contenta com o destino e perde a esperança naquilo que os outros possuem é quem verdadeiramente saboreia a fé.
28. Extorsão de contribuições à força
Isso também é uma forma de opressão. Está igualmente incluído na opressão mencionada no seguinte versículo do Alcorão Sagrado:
“A medida deve ser tomada somente contra aqueles que oprimem as pessoas e espalham injustamente a rebelião pela terra. Para eles haverá um castigo doloroso.” (Ash-Shura)
Aqueles que extorquem contribuições à força são eles próprios opressores e também os maiores auxiliares dos opressores. Assim como as contribuições que os extorsionários arrecadam não lhes são devidas, tampouco é lícito o caminho pelo qual as gastam.
Por isso, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “O extorsionário que arrecada contribuições ilegalmente não entrará no Paraíso.” (Abu Dawud)
A razão é que aquele que extorque contribuições à força oprime e explora os servos de Allah. Ele toma o dinheiro adquirido por eles com muito esforço. Pessoas desse tipo não poderão, no Dia da Ressurreição, restituir aos oprimidos aquilo que lhes é devido. Se possuírem alguma boa ação aceita, terão de entregá-la. Caso contrário, terão de ir para o Inferno carregando sobre a cabeça o peso dos pecados dos oprimidos.
Um hadith relacionado a esse assunto já foi mencionado anteriormente. O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “O verdadeiramente pobre entre os membros da minha comunidade é aquele que, no Dia da Ressurreição, virá com muitas orações, jejuns, peregrinações e zakat
Mas virá tendo insultado alguém, agredido alguém ou usurpado os bens de alguém. Então, suas boas ações serão dadas, uma a uma, a todas essas pessoas prejudicadas. Quando suas boas ações se esgotarem, os pecados dos oprimidos serão colocados sobre seus ombros, e ele será lançado no Inferno.
No hadith em que é relatado o apedrejamento até à morte de uma mulher adúltera, o Mensageiro (S.A.) disse: “Esta mulher arrependeu-se de tal maneira que, se aquele que cobra contribuições à força se arrependesse da mesma forma, também o seu pecado seria perdoado.” Isto demonstra quão grande e grave é este pecado. Na verdade, cobrar dinheiro à força é semelhante a assalto e banditismo. Aquele que cobra contribuições à força, aquele que o ajuda, aquele que escreve e aquele que serve de testemunha são todos igualmente cúmplices deste pecado. Todos eles consomem o que é ilícito.
O Mensageiro (S.A.) disse: “O pedaço de carne que se forma a partir de riqueza ilícita é digno do Inferno.”
O Imam Wahidi (R.A.), ao comentar o versículo “Ó Profeta, dize: o puro e o impuro não são iguais”, incluiu entre as coisas impuras aquilo que é obtido à força. O Mensageiro (S.A.) disse: “A riqueza de alguém não se torna lícita se ele não a entregar voluntariamente.” Certa vez, Hazrat Jabir (R.A.) foi ter com o Mensageiro (S.A.) e disse: “Ó Mensageiro, eu tinha um comércio de vinho. Possuo uma quantia considerável de dinheiro poupado proveniente desse comércio. Se eu usar esse dinheiro para alguma forma de adoração a Allah ou para uma boa ação, isso me beneficiará?”
O Mensageiro (S.A.) respondeu: “Se usares esse dinheiro para o hajj, o jihad ou a caridade, ele não terá diante de Allah sequer o valor da asa de uma mosca. Allah não aceita nada além de riqueza pura.” Então Allah revelou, em apoio a esta declaração: “Ó Profeta! Dize: o puro e o impuro não são iguais, ainda que a abundância do impuro te cause admiração.” O Imam Ata e Hasan Basri dizem que, respectivamente, puro e impuro significam lícito e ilícito.
Conselho: Aqueles que, saqueando à força os bens das pessoas, construíram e habitaram palácios altos como fortalezas protegidas para escapar da ira do povo; aqueles que construíram agradáveis jardins floridos e viveram uma vida de extremo luxo; aqueles que se sentaram nos tronos da elevada honra e do poder neste mundo — pensem: onde estão hoje? Todos os esforços e sonhos de permanecerem para sempre neste mundo foram reduzidos a pó. Hoje começaram a sofrer a retribuição pelos seus atos. Refletindo sobre esse destino, aquele que abandona para sempre o caminho da opressão, da perseguição e da apropriação dos bens alheios, purificando-se a si próprio, é verdadeiramente sábio. Quem deseja purificar-se deve considerar como uma oportunidade de ouro os poucos dias que ainda lhe restam de vida.
29. Consumir o ilícito e obter, possuir e usufruir de riqueza por qualquer meio ilícito
Allah diz no Alcorão Sagrado: “Não consumais ilegalmente os bens uns dos outros.” Hazrat Ibn Abbas diz: isto significa estabelecer o próprio domínio sobre a propriedade alheia por meio de juramentos falsos e infundados. A obtenção ilegal, isto é, por meios ilícitos, pode ocorrer de duas formas. Primeiro: inteiramente por meio da força e da opressão, como apropriação indevida, sequestro, usurpação, apoderar-se de bens confiados através de traição, furto, roubo à mão armada e assim por diante. Segundo: por meio de jogos, astúcia, fraude e semelhantes. Ganhar dinheiro através de lotarias e jogos de azar também está incluído nisso. Está registado no Sahih al-Bukhari que o Mensageiro (S.A.) disse: “Há pessoas que se apoderam injustamente dos bens dos servos de Allah. Para elas está reservado o Inferno no Dia da Ressurreição.” Está registado no Sahih Muslim que o Mensageiro (S.A.) disse: “Um homem, estando numa longa viagem, com os cabelos desgrenhados e o corpo coberto de poeira, levanta as mãos para o céu e suplica: ‘Ó Senhor! Ó Senhor!’, mas o que come é ilícito, o que bebe é ilícito, o que veste é ilícito e nutre-se apenas do ilícito. Como poderá a sua súplica ser aceite?” Hazrat Anas (R.A.) disse: “Eu disse: ‘Ó Mensageiro, suplica a Allah para que a minha súplica seja aceite.’” O Mensageiro (S.A.) respondeu: “Ó Anas, mantém lícito o teu sustento e a tua súplica será aceite. Lembra-te: se alguém colocar na boca sequer um bocado de alimento ilícito, a sua súplica não será aceite durante quarenta dias.”
Al-Bayhaqi narra que o Mensageiro (S.A.) disse: “Assim como Allah distribuiu entre vós o vosso sustento, também distribuiu entre vós as vossas naturezas e caracteres. Ele concede os bens deste mundo tanto àquele que ama como àquele que não ama. Porém, só concede os bens da religião, isto é, da Vida Futura, àquele que ama. A quem Allah concedeu a religião, deve-se entender que Ele o amou. Se um servo obtiver riqueza ilícita e a gastar nas suas próprias necessidades, não obterá nela bênção nem benefício. Se a der em caridade a outra pessoa, essa caridade também não será aceite; e aquilo que deixar neste mundo será para ele provisão para o Inferno. Allah não repele o mal com o mal; repele o mal com o bem.” (Musnad Ahmad)
Hazrat Ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) narra que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “O mundo é doce e verdejante. Quem adquirir aqui riquezas lícitas e as gastar de maneira justa, Allah lhe dará uma excelente recompensa e lhe concederá o Paraíso. E quem adquirir riquezas ilícitas e as gastar de maneira injusta, Allah o exilará em um lugar de humilhação. E aqueles que se apoderarem de riquezas ilícitas arderão no fogo no Dia da Ressurreição.”
O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) também disse: “Quem não se importa com a origem de seus bens, Allah não se importará por qual porta do Inferno o fará entrar.”
Hazrat Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Para um muçulmano, comer terra é melhor do que comer algo ilícito.” (Musnad Ahmad)
Hazrat Yusuf ibn Asbat (que Allah tenha misericórdia dele) disse: “Quando um jovem se dedica à adoração, Satanás diz aos seus companheiros: ‘Descubram o que esse homem come! Se ele comer o que é ilícito, deixem-no cansar-se adorando tanto quanto quiser; não o impeçam. Pois ele próprio basta para destruir sua adoração. Enquanto continuar comendo o que é ilícito, sua adoração não lhe servirá de nada.’” Essa afirmação é corroborada pelo hadith de Sahih Muslim citado anteriormente. É relatado em um hadith que um anjo anuncia todas as noites e todos os dias em Bait al-Maqdis: “Allah não aceita nenhuma oração obrigatória ou voluntária daquele que come o que é ilícito.” Abdullah ibn al-Mubarak disse: “Para mim, é preferível doar cem mil moedas a aceitar um único dirham duvidoso.” O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Quando alguém gasta dinheiro ilícito e, ao realizar a peregrinação, diz ‘Labbayk’ (Senhor, aqui estou), um anjo lhe diz: ‘Seu Labbayk não é aceito. Sua peregrinação foi lançada de volta ao seu rosto.’” (Tabarani)
É relatado no Musnad Ahmad que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Quem comprar uma roupa por dez dirhams, sendo que um dirham foi obtido de maneira ilícita, não terá sua oração aceita enquanto estiver usando aquela roupa.” O Imame Wahb ibn al-Ward disse: “Mesmo que você esteja designado como combatente ou sentinela no campo da jihad, isso não lhe trará benefício algum enquanto não prestar atenção se aquilo que come é lícito ou ilícito.” Hazrat Ibn Abbas disse: “Allah não aceita a oração de quem se alimenta do ilícito até que se arrependa diante de Allah e retorne aos ganhos lícitos.” Hazrat Sufyan al-Thawri disse: “Quem pratica uma boa ação com dinheiro ilícito é como aquele que lava uma roupa com urina. A roupa não se purifica sem água pura, e a expiação dos pecados também não é possível sem ganhos lícitos.”
Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Por medo de cair no ilícito, abandonávamos nove décimos dos bens lícitos.”
O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “O corpo que se desenvolveu e se fortaleceu alimentando-se do ilícito não entrará no Paraíso.” (Tirmidhi) É relatado no Sahih Bukhari que Hazrat Abu Bakr tinha um escravo. Quando este pediu sua libertação sob a condição de pagar certa quantia como resgate, Abu Bakr concordou. Depois disso, ele trazia diariamente uma parte do valor do resgate. Hazrat Abu Bakr perguntava-lhe como havia obtido aquilo. Se recebesse uma resposta satisfatória, aceitava e utilizava o dinheiro; caso contrário, não o fazia. Certo dia, o escravo trouxe-lhe à noite algo para comer. Como Abu Bakr estava jejuando naquele dia, esqueceu-se de perguntar sobre a origem do alimento e comeu uma mordida. Depois, perguntou-lhe: “Como você conseguiu esse alimento?” Ele respondeu: “Na época da jahiliyyah, eu praticava adivinhação para as pessoas. Não era bom em adivinhar; apenas as enganava. Este alimento foi adquirido com o dinheiro ganho por meio dessa adivinhação.” Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Que calamidade! Você quase me destruiu.” Então introduziu os dedos na garganta e tentou vomitar, mas o alimento não saiu com o vômito. As pessoas presentes disseram-lhe que, sem beber água, o alimento não sairia. Então ele pediu água e, bebendo repetidamente, expulsou do estômago tudo o que havia ingerido. As pessoas disseram: “Que Allah tenha misericórdia de você! Tudo isso foi por causa de uma única mordida?” Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) respondeu: “Mesmo que eu tivesse de morrer para eliminar esse alimento, eu o eliminaria. Pois ouvi o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) dizer: ‘Para aquele cujo corpo se formou com alimento ilícito, o fogo do Inferno é mais apropriado.’” Por isso, temi que alguma parte do meu corpo pudesse se formar a partir dessa única mordida. Os sábios disseram: “A cobrança forçada de dinheiro, a traição, o roubo, o engano e a fraude, os juros e a intermediação de juros, o falso testemunho, apropriar-se de um empréstimo depois de recebê-lo, aceitar suborno, alterar para menos ou para mais as medidas e os pesos, vender um produto ocultando seus defeitos, o jogo de azar, a magia, a adivinhação, desenhar e tirar fotografias, o adultério, o choro profissional pelos mortos, receber do comprador uma comissão de corretagem sem a permissão do vendedor, indicar mercadorias ao comprador em troca de dinheiro, vender uma pessoa livre, os bens obtidos com a venda de vinho e de porco, e os bens de órfãos sequestrados — tudo isso são riquezas ilícitas.”
O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “No Dia da Ressurreição, algumas pessoas comparecerão trazendo boas ações do tamanho das montanhas de Tihama. Mas Allah imediatamente as transformará em partículas de poeira e as dispersará. Perguntaram-lhe: ‘Ó Mensageiro, como isso será possível?’ O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) respondeu: ‘Essas pessoas costumavam fazer a oração, jejuar, pagar o zakat e realizar o hajj. Porém, sempre que se deparavam com algo ilícito, envolviam-se imediatamente com isso. Por isso, Allah anulou todas as suas boas ações.’” (Tabarani)
É narrado que alguém viu em sonho um homem piedoso e lhe perguntou sobre sua situação. Ele respondeu: “Não estou sofrendo nenhum castigo. Contudo, minha entrada no Paraíso está suspensa porque, durante a vida terrena, tomei uma agulha emprestada e não a devolvi.”
Admoestação: tendo sempre em mente o severo e inevitável castigo da Vida Futura, deve-se evitar continuamente tudo o que é haram.
30. Mentir
Allah, o Altíssimo, diz no Sagrado Alcorão: “Que a maldição recaia sobre os mentirosos.” (Al-Baqara) Ele também diz: “Allah, o Altíssimo, não guia o mentiroso perdulário.” (Al-Mu’min)
É narrado no Sahih al-Bukhari e no Sahih Muslim que o Mensageiro (s.a.w.) disse: a veracidade conduz a pessoa à retidão, e a retidão conduz ao Paraíso. Quando alguém continua dizendo a verdade e buscando o caminho da verdade, chega um momento em que é registrado perante Allah como siddiq, isto é, “sumamente veraz”. Já a mentira conduz a pessoa à transgressão, e a transgressão conduz ao Inferno. Quando alguém continua mentindo e buscando o caminho da mentira, chega um momento em que é registrado perante Allah como “mentiroso”.
Também é narrado no Sahih al-Bukhari e no Sahih Muslim que o Mensageiro (s.a.w.) disse: três coisas são sinais do hipócrita, “ainda que ele reze e jejue muito e reivindique ser muçulmano:
– quando fala, mente;
– quando promete, quebra a promessa; e
– quando recebe algo em confiança, trai a confiança.”
Há outro hadith no Sahih al-Bukhari em que o Mensageiro (s.a.w.) disse: aquele que tiver em si quatro defeitos é um hipócrita genuíno. E aquele que tiver um deles conservará em si uma característica da hipocrisia até que a abandone: trair uma confiança, quebrar uma promessa, mentir e proferir insultos durante uma discussão. No longo hadith do Sahih al-Bukhari que relata o sonho do Mensageiro (s.a.w.), ele diz em certo trecho: chegamos junto de um homem deitado. Vimos outro homem de pé ao seu lado, rasgando uma vez, com uma ferramenta de ferro, a mandíbula e o olho do lado direito até a parte posterior. Então, sempre que rasgava de modo semelhante o lado esquerdo, o lado direito voltava ao estado normal de antes. E, quando rasgava novamente a mandíbula do lado direito, o lado esquerdo se recuperava. Perguntei: quem é esse homem? Meus dois anjos companheiros disseram: ele saía de casa, espalhava uma falsa notícia e ela se propagava por toda parte.
Em outro hadith, o Mensageiro (s.a.w.) disse: é possível que um crente tenha todos os tipos de defeitos em seu caráter, mas não é possível que tenha mentira e traição. O Mensageiro (s.a.w.) disse: “Não mantenhais más suspeitas sobre ninguém, pois a má suspeita é a pior das mentiras.” (Sahih al-Bukhari e Muslim) No hadith do Sahih Muslim consta que o Mensageiro (s.a.w.) disse: Allah, o Altíssimo, não falará no Dia da Ressurreição com três pessoas, não olhará para elas nem as purificará dos pecados: um velho adúltero, um governante mentiroso e um pobre arrogante.
No hadith do Musnad Ahmad, o Mensageiro (s.a.w.) disse: “Que pereça, que pereça, que pereça aquele que mente para fazer as pessoas rirem.” Entre as mentiras, a mais grave é o falso juramento. Na Surata al-Munafiqun, Allah, o Altíssimo, classificou-o como uma característica dos hipócritas. Ele disse: os hipócritas prestam falsos juramentos conscientemente.
(Ver o pecado maior nº 26.) No hadith narrado por Abu Dawud, Tirmidhi, Nasa’i e Bayhaqi, o Mensageiro (s.a.w.) disse: Allah, o Altíssimo, não falará no Dia da Ressurreição com três pessoas. Não as purificará e, além disso, haverá para elas um castigo severo: aquele que possui água excedente, mas não permite que o viajante a utilize; aquele que faz um falso juramento ao comprador, dizendo: “Comprei isto por determinado preço”, e o comprador acredita nele e compra por um preço maior, embora na realidade ele não o tenha comprado por aquele preço; e aquele que promete obedecer a um líder somente por interesse mundano e, depois, obedece-lhe quando o líder lhe concede algum benefício, mas não lhe obedece quando não o concede. O Mensageiro (s.a.w.) também disse: “Mentir àquele que acredita em ti e te considera veraz é a pior das traições.”
O Mensageiro (s.a.w.) também disse: “A maior fraude contra Allah é alguém afirmar ter visto aquilo que não viu.” Ou seja, dizer: “Tive tal sonho”, embora não o tenha tido. Hazrat Ibn Mas‘ud (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: quando um servo continua mentindo, primeiro surge uma mancha negra em seu coração; depois, à medida que essa mancha cresce, todo o coração se torna negro. Então ele é registrado perante Allah como mentiroso.
Portanto, nenhum muçulmano deve mentir em circunstância alguma, exceto quando houver um benefício claro e específico nisso. Ele deve dizer a verdade ou permanecer calado. O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Quem crê em Allah e no Além deve falar o bem ou permanecer calado.” Este hadith deixa claro que, se o benefício de uma fala não for claramente evidente, não se deve dizê-la. Abu Musa (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: Perguntei: Ó Mensageiro de Allah, quem é o melhor entre os muçulmanos? O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) respondeu: Aquele de cuja língua e mãos os outros muçulmanos não sofram dano. (Bukhari, Muslim, Tirmidhi, Nasa’i)
Em outro hadith, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Quem pronuncia conscientemente uma palavra ilícita será lançado no Inferno a uma profundidade mais distante do que a distância entre o extremo leste e o extremo oeste da Terra.” Deve-se observar que, para salvar a vida de alguém, apaziguar a discórdia entre duas partes e impedir a ruptura de uma relação conjugal, não apenas é permitido mentir, mas, em certas circunstâncias, isso se torna obrigatório. Mesmo nesses casos, porém, é melhor usar uma expressão ambígua do que dizer uma mentira explícita. Por exemplo, quando o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) ia para a caverna do monte Thawr, um homem perguntou a Abu Bakr sobre ele: Quem é este? Abu Bakr respondeu: Ele é meu guia. Um sábio disse: Entre os seres humanos há cerca de oito mil defeitos de caráter. Mas uma virtude é capaz de encobrir todos os seus defeitos: o autocontrole na fala. E outra virtude pode eliminar todos os seus defeitos: a veracidade.
31. Desonestidade e corrupção na administração da justiça
Allah, o Altíssimo, diz na Surata Al-Ma’idah: “Aqueles que não julgam e governam de acordo com as leis reveladas por Allah são injustos”… “Aqueles que não julgam e governam de acordo com as leis reveladas por Allah são incrédulos.” “Aqueles que não julgam e governam de acordo com as leis reveladas por Allah são transgressores.” O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: Allah não aceita a oração do juiz ou governante que não decide de acordo com as leis reveladas por Allah. (Hakim) O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) também disse: Há três tipos de juízes; dois deles irão para o Inferno e um irá para o Paraíso. O juiz que conhece a verdade e a justiça e julga de acordo com elas irá para o Paraíso. Já o juiz que não sabe o que são a verdade e a justiça, e o juiz que sabe o que são a verdade e a justiça, mas não julga com justiça, irão ambos para o Inferno. Perguntaram: Que culpa tem aquele que não sabe? O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) respondeu: “Sua culpa é ter se tornado juiz sem conhecimento.” (Hakim, Abu Dawud, Tirmidhi) Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: Quem é nomeado juiz é como se fosse abatido sem faca.
Fudayl ibn Iyad disse: “Um juiz deveria passar um dia administrando a justiça e outro dia chorando por si mesmo.”
O imã Muhammad ibn Wasi (que Allah tenha misericórdia dele) disse: No Dia da Ressurreição, os juízes serão os primeiros a ser chamados para prestar contas.” O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: Quando um juiz justo for submetido à prestação de contas no Dia da Ressurreição, ao ver a severidade da prestação de contas, lamentará: Quem dera eu não tivesse julgado nem mesmo uma disputa referente a uma tâmara entre duas pessoas.”
Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: Ouvi o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) dizer que, no Dia da Ressurreição, todo governante e juiz será colocado diante de Allah, de pé sobre a Ponte Sirat, e seu registro secreto de obras será lido perante toda a humanidade. Depois, se for considerado um juiz justo, Allah o libertará; caso contrário, cairá no Inferno junto com a Ponte Sirat.”
32. Consumir suborno
Allah diz: “Não vos aproprieis injustamente dos bens uns dos outros, nem leveis dinheiro aos governantes para que possais consumir injustamente uma parte dos bens das pessoas, embora saibais.” Isto é: não procureis apropriar-vos dos bens alheios subornando os governantes, embora saibais que isso não é permitido.
O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: Allah amaldiçoou tanto o subornador quanto aquele que recebe o suborno. Os imãs concordaram que a maldição recai sobre o subornador quando ele, por meio disso, procura prejudicar outra pessoa ou obter algum benefício ao qual não tem direito. Porém, se ele, não tendo outra alternativa, oferece suborno para obter algo que lhe é legitimamente devido ou para proteger-se da opressão de alguém, a maldição não recai sobre ele. No hadith citado por Abu Dawud e Tirmidhi, também foi incluída entre os amaldiçoados uma terceira pessoa que auxilia ambos, o subornador e aquele que recebe o suborno. Se essa pessoa tiver sido contratada pelo subornador, sua situação, ao ajudá-lo a obter um direito legítimo e a proteger-se da opressão, será como a do subornador, e ela não merecerá a maldição. Caso contrário, merecerá a maldição. Entretanto, para o governante, a intermediação de suborno é sempre haram — quer seja utilizada para violar o direito de alguém, quer seja para impedir uma opressão.
O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) também disse: “Quem interceder em favor de alguém e, depois, aquele em favor de quem se intercedeu lhe oferecer um presente ou uma dádiva, se ele aceitar essa dádiva, isso será equivalente a consumir uma forma grave de usura.” Hazrat Ibn Mas’ud (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Se satisfizeres a necessidade de teu irmão e aceitares dele um presente, isso será haram.” (Deve-se observar que, se uma pessoa for contratada como funcionária assalariada para determinado trabalho e, ao realizar uma tarefa que faz parte de suas atribuições, aceitar qualquer pagamento daquele para quem trabalhou, isso será, por consenso, suborno, seja qual for o nome dado: presente, oferta, dádiva ou gorjeta. Porém, se a tarefa for além de suas atribuições e for realizada fora do horário de trabalho, receber por ela uma remuneração ou recompensa não será suborno. — Tradutor.)
É relatado que certa vez um cristão encontrou-se com o imã Awza’i, em Beirute, e queixou-se de que o governante de Baalbek havia imposto injustamente sobre ele um tributo excessivo. Pediu ao imã que escrevesse uma carta de recomendação para remediar essa opressão e ofereceu-lhe uma garrafa de mel como presente. O imã Awza’i disse-lhe: “Escreverei a carta e devolverei a garrafa de mel.” O homem partiu levando a garrafa de mel e a carta e, atendendo ao pedido do imã, o governante de Baalbek reduziu em trinta dirhams o seu tributo.
33. Adotar vestimentas semelhantes às dos homens para as mulheres e às das mulheres para os homens
Foi narrado por Hazrat Ibn Abbas, em Sahih Bukhari, Abu Dawud, Tirmidhi, Nasa’i e Ibn Majah, que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Allah amaldiçoou os homens que adotam vestimentas semelhantes às das mulheres e as mulheres que adotam vestimentas semelhantes às dos homens.” Observe-se que também se inclui nisso o homem imitar a voz da mulher e a mulher imitar a voz do homem.
Assim, quando uma mulher usa roupas apertadas e finas como as dos homens, deixando descobertas partes do corpo que devem ser cobertas, ela se assemelha aos homens e torna-se merecedora da maldição. Se o marido aprovar esse comportamento e não a impedir de praticá-lo, ele também será merecedor da maldição, pois foi incumbido de manter sua esposa obediente à ordem de Allah e de impedi-la de desobedecer-Lhe. Allah disse: “Ó crentes! Protegei-vos a vós mesmos e às vossas famílias do Fogo…” Isto é: ensinai-lhes a boa conduta, ordenai-lhes que obedeçam a Allah e impedi-os de desobedecer-Lhe, assim como isso é necessário no vosso próprio caso. Além disso, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Todos vós sois responsáveis, e cada um de vós será questionado acerca daqueles que estão sob sua autoridade. O homem é responsável por sua família e será questionado no Dia da Ressurreição.” (Sahih al-Bukhari e Muslim.) O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) também disse: “Quando os homens se tornarem submissos às esposas, os homens perecerão.”
Este hadith indica que uma mulher tornar-se governante também se inclui na categoria de assemelhar-se aos homens, e que um homem submeter-se a uma mulher se inclui na categoria de imitar as mulheres. O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Haverá duas categorias de pessoas no Inferno: aquelas que açoitam as pessoas com chicotes semelhantes às caudas dos bois, e as mulheres que usam roupas tão finas que a cor de seus corpos pode ser vista através delas e que caminham balançando-se, com a atitude dos arrogantes. Essas mulheres não sentirão sequer o aroma do Paraíso, embora ele possa ser sentido de uma grande distância.” (Sahih Muslim.) Foi narrado por Hazrat Nafi’ (que Allah esteja satisfeito com ele) que, certo dia, Hazrat Ibn Umar e Abdullah ibn Amr estavam na presença de Hazrat Zubair.
Nessa situação, uma mulher aproximou-se carregando um arco ao redor do pescoço e conduzindo um rebanho de ovelhas. Abdullah ibn Umar perguntou-lhe: “És homem ou mulher?” Ela respondeu: “Mulher.” Então, quando ele olhou para Abdullah ibn Amr, este disse: “Allah Todo-Poderoso amaldiçoou, pela boca de Seu Profeta, as mulheres que imitam os homens e os homens que imitam as mulheres.” Compreende-se disso que, para as mulheres, adotar profissões masculinas, circular e trabalhar sem recato, à maneira dos homens, se enquadra na imitação dos homens. Contudo, é permitido adotar uma profissão e trabalhar mantendo o recato.
Entre as ações pelas quais as mulheres são amaldiçoadas estão exibir a beleza do corpo e as joias ao sair, usar substâncias perfumadas no corpo ou nas roupas e vestir roupas curtas, justas e finas, que não cobrem as partes íntimas nem proporcionam recato. Tudo isso faz parte do tabarruj, contra o qual Allah e Seu Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) fizeram severas críticas. Foi justamente porque a maioria das mulheres se envolve nessas práticas que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Na noite da Ascensão, vi o Inferno e vi que a maioria de seus habitantes eram mulheres.” Ele também disse: “Não deixei para os homens nada mais prejudicial do que as mulheres.”
34. Tolerar a obscenidade e a depravação no seio da própria família
O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Três pessoas não entrarão no Paraíso: aquele que desobedece aos pais; o dayyuth, isto é, aquele que tolera a obscenidade e a depravação no seio da família; e a mulher que imita o comportamento masculino.” Segundo uma narração de An-Nasa’i, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Allah proibiu o Paraíso a três pessoas: o bebedor de álcool, aquele que desobedece aos pais e aquele que tolera a obscenidade e a depravação em sua própria família.”
Não se pode chamar de dayyuth o homem que suspeita que sua própria esposa esteja envolvida em obscenidade, mas não possui provas claras e, por amá-la, não consegue dizer-lhe nada; ou que demonstra tolerância por temer que ela recorra à justiça para cobrar uma dívida que ele não consegue pagar, uma grande quantia de dote que lhe deve ou o sustento de numerosos filhos pequenos. Contudo, aquele que não sente aversão à obscenidade e não obriga a esposa e os filhos a observarem as normas islâmicas, especialmente o recato, não terá nenhum bem nesta vida nem na Outra, e será considerado dayyuth.
[Convém observar que, deixando de lado as poucas situações excepcionais mencionadas acima, em geral uma pessoa possui autoridade absoluta e domínio exclusivo sobre a própria esposa e os próprios filhos, algo semelhante ao poder soberano de um Estado. Tanto as normas da Sharia quanto os costumes sociais asseguram ao pai e ao marido o direito de receber dos filhos e da esposa uma obediência quase incondicional e irrestrita. Portanto, para que, dentro desse âmbito de autoridade absoluta, ele use seu poder para manter a família no caminho correto, o Alcorão Sagrado ordenou: “Protegei a vós mesmos e às vossas famílias do Fogo do Inferno.” Aqueles que demonstram negligência nesse assunto são chamados de dayyuth. Se demonstrar negligência quanto ao recato na família e às demais normas da Sharia, o chefe da família será responsabilizado por isso e, segundo a perspectiva da Sharia, será considerado dayyuth. — Tradutor]
35. Tahلیل da mulher divorciada
(Isto é, casar-se sob a condição de divorciar-se sem ter relações conjugais, para que a mulher divorciada se torne lícita para seu marido anterior.) Em um hadith narrado por An-Nasa’i e At-Tirmidhi, Ibn Mas‘ud (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) amaldiçoou tanto aquele que se casa com uma mulher divorciada com o objetivo de torná-la lícita para seu marido anterior e se divorcia dela sem ter relações conjugais, conforme a condição do casamento, quanto aquele para quem ela é tornada lícita.” O Imam At-Tirmidhi disse: “Umar (que Allah esteja satisfeito com ele), Abdullah ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) e os juristas da geração dos tabi‘un agiam de acordo com este hadith.” O Imam Ahmad também narrou este hadith em seu Musnad. Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Quando perguntaram ao Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) sobre o tahليل, ele respondeu: ‘Não; nenhum casamento é válido senão por livre vontade. Não são permitidos subterfúgios em nome do casamento.’” (Isto é, não é permitido apenas fingir ou encenar um casamento sem realmente se casar.)
Não há margem para zombaria do Livro de Allah. Não é aceitável assumir a obrigação de divorciar-se da esposa sem ter relações sexuais com ela. Foi narrado por Uqbah ibn Amir que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “A quem chamarei de bode alugado?” Todos disseram: “Sim, diga!” Então o Mensageiro disse: “Aquele que se casa aceitando a condição de que deverá divorciar-se dela sem ter relações sexuais com ela é o bode alugado. Allah amaldiçoou aquele que se casa sob essa condição e aquele por cuja causa ele se casa.” (Ibn Majah)
Um homem perguntou a Ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ele): “Casei-me com uma mulher divorciada. Quero divorciar-me dela para torná-la lícita para seu marido anterior. Contudo, o marido anterior não me ordenou isso, e nem sabe que estou fazendo isso por ele. Qual é a sua opinião a respeito?” Ibn Umar respondeu: “Todos os casamentos, exceto o casamento realizado por livre e espontânea vontade, são inválidos. Se quiseres, poderás mantê-la; caso contrário, divorcia-te dela. Nós considerávamos esse tipo de prática adultério na época do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) considerava esse tipo de casamento adultério e manifestava a intenção de apedrejar até a morte tanto aquele que contraía esse casamento quanto aquele por cuja causa ele o contraía. Ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) chamou ambos, marido e mulher, de adúlteros, mesmo que tivessem permanecido vinte anos casados com o propósito de realizar o tahlil. Um homem perguntou a Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele): “Meu primo divorciou-se de sua esposa três vezes de uma só vez e agora está arrependido.”
Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) respondeu: “Ele desobedeceu a Allah. Por isso, Allah o lançou nessa situação lamentável. Ele obedeceu ao demônio; por isso, o demônio o deixou nessa situação angustiante e não lhe deixou saída.” O homem perguntou: “O que aconteceria se alguém tomasse a iniciativa de tornar sua esposa lícita para ele?” Ibn Abbas respondeu: “Quem tentar enganar Allah, será enganado por Allah.” Ibrahim al-Nakha’i, um eminente imã dos tabi’un, disse: “Se qualquer um dos três — o primeiro marido, a mulher ou o segundo marido — tiver a intenção de realizar o tahlil, o casamento celebrado com o segundo marido será considerado inválido, e por meio desse casamento a mulher não se tornará lícita para o ex-marido.” Hasan al-Basri, Sa’id ibn al-Musayyab, Malik ibn Anas, Laith ibn Sa’d, Sufyan al-Thawri e o Imã Ahmad concordaram que, nesse caso, a mulher não se tornará lícita para o ex-marido. Segundo o Imã al-Shafi’i, se o contrato matrimonial for concluído sob a condição do tahlil, o próprio casamento será inválido, pois será temporário como o casamento mut’a, que não é reconhecido pela Sharia. Porém, se essa condição for mencionada antes ou depois da celebração do contrato, e não no momento de sua celebração, a condição será anulada e o casamento será válido.
36. Não purificar-se devidamente da urina
Não purificar-se corretamente da urina é, essencialmente, um costume dos cristãos. Allah, o Altíssimo, disse: “Purificai as vossas vestimentas.” (Surata Al-Muddaththir) Foi narrado por Ibn Abbas que, ao passar por dois túmulos, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Os ocupantes destes dois túmulos estão sendo castigados. Um deles costumava espalhar intrigas; o outro não se purificava devidamente da urina.” (Sahih al-Bukhari e Sahih Muslim)
O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) também disse: “Purificai-vos da urina, pois a maior parte do castigo do túmulo ocorre por causa disso.” (Al-Daraqutni)
Aquele que não se purifica devidamente da urina torna impuros tanto o corpo quanto as roupas, e sua oração não é válida. Al-Tabarani e Ibn Abi al-Dunya narraram que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Os habitantes do Inferno já sofrerão dores e aflições indescritíveis. Além disso, por causa de quatro classes de pessoas, sua aflição aumentará ainda mais. Então correrão entre água fervente e fogo, desejando a morte e a destruição para si mesmos. Depois, os habitantes do Inferno dirão uns aos outros: ‘Quem são essas quatro pessoas que, ao entrarem no Inferno, aumentaram o nosso sofrimento?’ Então um deles dirá: ‘Uma delas está presa numa jaula de fogo; outra arrasta as próprias entranhas que lhe saem do corpo; da boca de outra vomitam continuamente pus e sangue; e a quarta está mordendo e comendo a carne do próprio corpo.’ Dir-se-á então ao homem preso na jaula: ‘O que aconteceu a esse amaldiçoado, que acrescentou sofrimento ao nosso sofrimento?’ Ele responderá: ‘Sou amaldiçoado porque costumava apropriar-me da riqueza das pessoas de várias maneiras e morri carregando todas essas responsabilidades.’ Depois perguntarão o mesmo ao homem que arrasta as próprias entranhas. Ele responderá: ‘Sou amaldiçoado porque não tinha cuidado com a urina e não a lavava nem limpava.’ Em seguida, perguntarão da mesma forma àquele de cuja boca vomitam continuamente sangue e pus. Ele responderá: ‘Sou amaldiçoado porque gostava de ouvir todo tipo de conversa maldosa e, transmitindo as palavras de uma pessoa à outra, provocava intrigas e inimizade.’ Depois perguntarão o mesmo àquele que morde e come a carne do próprio corpo. Ele responderá: ‘Sou amaldiçoado porque comia a carne das pessoas, isto é, praticava a difamação.’ Que Allah nos proteja a todos desses pecados repugnantes!”
37. Riya, isto é, praticar boas ações com o propósito de mostrá-las aos outros
Allah, ao descrever as características e os sinais dos hipócritas, diz: “Eles se exibem diante das pessoas e raramente se lembram de Allah.” (Surata An-Nissá)
“Ai dos que oram, mas são negligentes quanto à sua oração, que oram para serem vistos pelas pessoas e não ajudam os necessitados com os bens de uso cotidiano.” (Surata Al-Ma’un) “Ó crentes! Não anuleis vossas caridades com reprovações e ofensas, como aquele que doa para ser visto pelas pessoas.” (Surata Al-Baqara) “Aquele que espera encontrar-se com seu Senhor deve praticar boas ações e não associar ninguém à adoração de seu Senhor.” (Surata Al-Cahf) Isto é, não se deve adorar com o objetivo de agradar aos outros por meio da ostentação.
É narrado por Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele) que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: No Dia da Ressurreição, o julgamento de três pessoas será realizado em primeiro lugar. A primeira pessoa havia sido martirizada no caminho de Allah. Ela será apresentada e será interrogada sobre as bênçãos que Allah lhe concedeu. Ela reconhecerá todas essas bênçãos. Então lhe será perguntado: Que fizeste em agradecimento por todas essas bênçãos? Ela responderá: Lutei por Ti e fui martirizada. Allah dirá: “Mentiste. Na verdade, lutaste para que as pessoas te chamassem de herói. E elas realmente te chamaram de herói.” Então será dada a ordem para que seja lançada no Inferno. A segunda pessoa havia recebido de Allah uma grande riqueza. Ela será apresentada e será lembrada das bênçãos de Allah. Reconhecerá as bênçãos de Allah. Então lhe será perguntado: Que boas ações fizeste com essa grande riqueza? Ela responderá: Ó Allah! Sempre que vi necessidade de gastar dinheiro em Teu caminho, não hesitei em fazê-lo. Allah dirá: Mentiste. Não doaste em Meu caminho; doaste para que as pessoas te elogiassem, chamando-te generoso. E elas realmente te chamaram de generoso.” Então também será lançada no Inferno. A terceira pessoa havia adquirido conhecimento do Islã durante a vida terrena, ensinava esse conhecimento a outros e estudava o Alcorão. Ela será apresentada e será lembrada das bênçãos de Allah que lhe foram concedidas, e as reconhecerá. Será perguntado: Que fizeste com esse conhecimento islâmico? Ela responderá: Adquiri conhecimento islâmico, ensinei-o e estudei o Alcorão para obter a Tua satisfação. Allah dirá: És um mentiroso. Não estudaste para obter a Minha satisfação, mas para que as pessoas te elogiassem, chamando-te recitador do Alcorão. Então também será dada a ordem para que seja lançada no Inferno.” (Sahih Muslim)
O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) também disse: “Aquele que pratica uma boa ação para que as pessoas a ouçam, Allah fará com que ela seja ouvida; e aquele que a pratica para que as pessoas a vejam, Allah fará com que ela seja vista.”
(Sahih Al-Bukhari, Sahih Muslim)
O imã Al-Khattabi disse: O sentido deste hadith é que aquele que age não para obter a satisfação de Allah, mas para que as pessoas o ouçam e o vejam, será punido por Allah da seguinte maneira: no Dia da Ressurreição, Ele revelará publicamente o verdadeiro objetivo de suas ações e o humilhará diante das pessoas.
O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) também disse: A menor parcela de ostentação também faz parte do politeísmo. (At-Tabarani, Al-Hakim)
O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) também disse: Temo que a coisa mais terrível a se espalhar entre vós seja o pequeno politeísmo. Perguntaram: Ó Mensageiro de Allah! O que é o pequeno politeísmo? Ele respondeu: Praticar boas ações para ser visto pelas pessoas. No dia em que Allah recompensar Seus servos por suas ações, dirá: Ide até aqueles para quem praticáveis boas ações a fim de ser vistos, e vede se recebeis alguma recompensa deles.” (Ahmad, Al-Bayhaqi)
No Sagrado Alcorão, Allah diz: “E lhes aparecerá, da parte de Allah, aquilo que jamais haviam imaginado.” A respeito da explicação desse versículo, alguns dizem que eles praticavam ações que consideravam boas na vida terrena, mas que no Dia da Ressurreição aparecerão como más ações. Ao recitarem este versículo, alguns piedosos diziam: “Que pereçam os que praticam ostentação!” Ibn Abi Dunya narra que, no Dia da Ressurreição, aquele que pratica ostentação será chamado por quatro nomes: “Ó ostentador, ó hipócrita, ó pecador, ó perdedor! Vai e recebe tua recompensa daquele a quem procuraste agradar. Nada tenho para ti.” É narrado que Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) viu um homem caminhando com a cabeça baixa. Ele lhe disse: “Caminha com a cabeça erguida. A humildade não está em baixar a cabeça; a humildade está no coração.” Abu Umama Al-Bahili (que Allah esteja satisfeito com ele) viu um homem, enquanto estava prostrado na mesquita, suplicando a Allah em voz alta e chorando copiosamente. Abu Umama lhe disse: “Teria sido melhor para ti fazer esse choro em tua casa.” O imã Muhammad ibn Al-Mubarak disse: “Faze tuas súplicas e apelos publicamente durante a noite, pois levantar-se à noite é para Allah, enquanto fazê-lo durante o dia é para as pessoas.” Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “O sinal daquele que pratica ostentação é que, quando está sozinho, torna-se negligente e preguiçoso; quando está entre as pessoas, torna-se ativo; quando é elogiado, aumenta suas boas ações; e quando seus erros e falhas são apontados, ou é censurado e criticado, reduz suas boas ações.” Fudayl ibn Iyad disse: “Praticar boas ações para agradar às pessoas é politeísmo, e abandonar as boas ações por medo da ira das pessoas é ostentação. Sinceridade é libertar-se dessas duas situações.” Que Allah nos livre da ostentação e nos conceda sinceridade. Amém.
(Observe-se que, se não houver a intenção de obter o elogio das pessoas, ou se a intenção for incentivá-las a praticar boas ações, não há problema em praticar boas ações publicamente. Assim, Allah diz: “Aqueles que gastam seus bens, de dia e de noite, em público e em segredo, terão sua recompensa junto ao seu Senhor.” — Tradutor)
38. Adquirir conhecimento ou ciência religiosa tendo unicamente objetivos mundanos, ocultá-los e, depois de adquirir conhecimento do Islã, não agir de acordo com ele
Allah, o Altíssimo, disse: “Somente os sábios, dentre os servos de Allah, temem Allah.” (Surata Fátir) Isto é, aqueles que têm conhecimento sobre Allah. Ibn Abbas disse: isto é, dentre as criaturas de Allah, somente aqueles que conhecem Seu poder e majestade O temem. O imame Sha‘bi disse: aquele que teme Allah é sábio. Rabi ibn Anas disse que quem não teme Allah não é sábio. Allah, o Altíssimo, também disse: “Aqueles que ocultam as evidências claras e a orientação que Nós revelamos, depois de as termos explicado às pessoas neste Livro, são amaldiçoados por Allah e pelos que amaldiçoam.” (Surata Al-Baqara)
Este versículo foi revelado acerca dos sábios judeus. Por “evidências claras”, entendem-se as leis das punições prescritas pela Sharia para homicídio, adultério e semelhantes, bem como outras leis; por “orientação”, todo o sistema de leis trazido pelo Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e seus elogios; por “pessoas”, os Filhos de Israel; por “Livro”, a Torá; e por “os que amaldiçoam”, todos os seres, exceto os gênios e os seres humanos. Hazrat Ibn Mas‘ud (que Allah esteja satisfeito com ele) disse que, quando dois muçulmanos amaldiçoam um ao outro, isso retorna aos judeus e aos cristãos, pois eles ocultaram os relatos referentes a Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), embora estivessem presentes em seus Livros.
Em outro lugar, Allah diz: “Allah tomou um compromisso daqueles a quem foi concedido o Livro: vós o explicareis plenamente às pessoas e não ocultareis dele coisa alguma. Porém, eles o deixaram para trás e adquiriram, em troca dele, um interesse vil. E quão ruim é aquilo que adquiriram!”
O imame Wahidi disse que este versículo foi revelado acerca dos judeus de Medina. Allah tomou deles, na Torá, um compromisso — isto é, deu-lhes uma ordem rigorosa — de que deveriam certamente divulgar as informações mencionadas sobre Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), seus elogios e as questões relativas à sua profecia, e de modo algum ocultá-las. Contudo, eles deixaram aquele compromisso ou ordem para trás, isto é, desobedeceram-lhe. O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse que aquele que adquirir, visando apenas um ganho mundano, o conhecimento por meio do qual se pode alcançar a satisfação de Allah não sentirá sequer o aroma do Paraíso. (Sunan Abu Dawud, Sunan Ibn Majah)
O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) também disse que aquele que adquire conhecimento com o objetivo de se orgulhar entre todos os sábios, de discutir com os ignorantes ou de atrair para si os corações das pessoas será lançado no Inferno. (Jami‘ at-Tirmidhi)
O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) também disse: aquele que possui conhecimento sobre algo, mas, quando questionado a respeito, oculta esse conhecimento, no Dia da Ressurreição receberá uma rédea de fogo em seu pescoço. Foi narrado em Sahih Muslim, Jami‘ at-Tirmidhi e Sunan an-Nasa’i que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) costumava suplicar: “Busco refúgio contra um conhecimento que não me beneficia (isto é, na Vida Futura).” Foi narrado em Tirmidhi e Ibn Majah que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Aquele que adquirir conhecimento (relativo à religião), mas não agir de acordo com ele, terá seu conhecimento apenas aumentando sua arrogância.” Foi narrado em Abu Dawud e Tirmidhi que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: o sábio que pratica más ações será lançado no Inferno no Dia da Ressurreição. Então as pessoas lhe perguntarão: “Por que chegaste a esta situação? Nós recebíamos orientação de ti.” Ele responderá: “Eu mesmo praticava aquilo que vos proibia.”
39. Traição ou quebra de confiança
Allah, o Altíssimo, declarou: “Ó crentes! Não traiais Allah, Seu Mensageiro nem os depósitos que vos foram confiados, embora saibais (a importância disso).” (Al-Anfal)
O imame Wahidi (que Allah tenha misericórdia dele) disse que este versículo foi revelado a respeito do companheiro Abu Lubaba. A esposa e os filhos dele viviam na localidade da tribo de Banu Qurayza. O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) havia sitiado Banu Qurayza. Ele enviou Abu Lubaba a Banu Qurayza para tratar de um assunto. O povo de Banu Qurayza perguntou: “Ó Abu Lubaba! Se nos rendermos segundo o julgamento de Sa’d a nosso respeito, o que você acha que nos acontecerá?” Abu Lubaba apontou para a própria garganta, indicando que eles seriam degolados. Por isso, disse-lhes que não se rendessem. Esse ato dele foi uma traição à confiança de Allah e de Seu Mensageiro. O próprio Abu Lubaba reconheceu: “Assim que fiz isso, compreendi que havia cometido uma traição.” Depois, Abu Lubaba amarrou-se durante seis dias a um dos pilares da Mesquita do Profeta e só se libertou após chegar o anúncio de que seu arrependimento havia sido aceito. Ibn Abbas disse: Tudo o que Allah tornou obrigatório para Seus servos é uma confiança. Desobedecer às ordens ou proibições de Allah é trair essa confiança.
O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Os sinais do hipócrita são três: quando fala, mente; quando promete, quebra a promessa; e, quando algo lhe é confiado, trai a confiança.” (Sahih al-Bukhari e Sahih Muslim) A adição encontrada em Sahih Muslim é: “Ainda que ele faça a oração, jejue e se considere muçulmano.”
O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) também disse: “Aquele que não é digno de confiança não tem fé, e aquele que não cumpre a promessa não tem religião.” (Ahmad, Bazzar e Tabarani) A traição, isto é, a deslealdade, é ruim em todos os casos. Contudo, uma pode ser pior que outra. Aquele que trai uma confiança em algo insignificante não é como aquele que trai a confiança de alguém em relação a seus bens, sua riqueza e sua família, cometendo grandes injustiças. O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Proteja a confiança daquele que confia em você e não traia aquele que o trai.”
Em outro hadith, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Por mais defeitos que um crente possa ter, ele não pode ter traição nem mentira.” (Ahmad) O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Allah afirmou: Quando duas pessoas se unem para realizar algo, Eu sou o terceiro entre elas, enquanto não traírem uma à outra.” (Isto é, enquanto não houver traição, a misericórdia de Allah permanece em todo empreendimento realizado em sociedade.) (Abu Dawud)
O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) também disse: “A primeira virtude a desaparecer entre as pessoas será a confiança e a lealdade; e a última que permanecerá será a oração. Mesmo assim, haverá muitos que rezam e não alcançarão o bem.” Ibn Mas’ud (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Aquele que trai uma confiança será apresentado no Dia da Ressurreição e lhe será dito: ‘Devolva a confiança que lhe foi confiada.’ Ele dirá: ‘Ó meu Senhor! Como poderei devolvê-la? O mundo já foi destruído.’ Então, o objeto que lhe havia sido confiado lhe será mostrado no nível mais baixo do Inferno, exatamente na forma em que havia sido guardado. Depois lhe será dito: ‘Desça até lá e traga-o.’ Ele descerá e o trará carregando-o sobre o pescoço. O objeto lhe parecerá mais pesado que todas as montanhas do mundo. Ele pensará que, ao trazê-lo, será libertado do fogo do Inferno.
Mas, assim que chegar à entrada do Inferno, cairá novamente no nível mais baixo do Inferno junto com o objeto confiado, e permanecerá ali para sempre. Em seguida, Ibn Mas’ud disse: “A oração, a ablução, o banho, a balança usada nas compras e vendas — tudo isso é uma confiança. E os bens depositados são a maior das confianças.”
40. Lembrar e proclamar as próprias caridades e favores, censurando os beneficiados
Allah, o Altíssimo, disse: “Ó crentes! Não anuleis vossas caridades ao lembrá-las e ao causar sofrimento.” (Surata Al-Baqarah) Em um hadith narrado por Sahih Muslim, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “No Dia da Ressurreição, Allah não falará com três pessoas, não olhará para elas, não as purificará do pecado e haverá para elas um castigo doloroso: aquele que deixa sua roupa abaixo dos tornozelos; aquele que lembra e proclama as caridades e os favores que fez; e aquele que vende mercadorias fazendo um juramento falso.” Em um hadith narrado nas Sunan de An-Nasa’i, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Três pessoas não entrarão no Paraíso: aquele que desagrada seus pais; o alcoólatra; e aquele que proclama e lembra os favores e as caridades que fez.” Isto é, aquele que dá algo a alguém e depois lembra e proclama essa doação. O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Não proclameis as caridades que fizestes, pois isso anula a recompensa da caridade e elimina o direito de receber gratidão.” O imame Ibn Sirin ouviu um homem dizer a outro: “Eu lhe dei isto e fiz-lhe aquele favor.” Ibn Sirin disse-lhe: “Cale-se! Quem faz um favor e depois o contabiliza não recebe recompensa alguma.”
41. Negar o destino
Allah, o Altíssimo, diz na surata Al-Qamar: “Criei todas as coisas com medida exata.” O Imam Ibn al-Jawzi diz que há duas opiniões sobre a causa da revelação deste versículo. A primeira opinião é que os hipócritas de Meca foram até o Mensageiro (que a paz esteja com ele) e começaram a discutir sobre o destino. Então este versículo foi revelado. Segundo a narração de Abu Umama (que Allah esteja satisfeito com ele), este versículo foi revelado a respeito de um grupo que não acreditava no destino. A segunda opinião é que um sacerdote cristão de Najran foi até o Mensageiro (que a paz esteja com ele) e disse: “Ó Muhammad! Você acha que os atos pecaminosos ocorrem de acordo com o destino? Na verdade, não é assim.” Então o Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: “Vocês são rebeldes contra Deus.” Foi nesse momento que o versículo foi revelado. Allah diz na surata Al-Hadid: “Qualquer calamidade que ocorra na terra ou em vossas próprias vidas está registrada num Livro antes de vos criarmos. Isso é muito fácil para Allah. Portanto, não vos aflijais pelo que perdeis nem vos exulteis orgulhosamente pelo que Allah vos concedeu. Allah não ama o arrogante e presunçoso.”
Foi narrado por Hazrat Umar ibn al-Khattab (que Allah esteja satisfeito com ele) que o Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: Quando Allah reunir os primeiros e os últimos no Dia da Ressurreição, um anjo, por Sua ordem, proclamará com uma voz tão alta que os primeiros e os últimos poderão ouvi-la: “Onde estão os desobedientes a Allah?” Então os qadarianos (isto é, os que não acreditam no destino) se levantarão. Eles serão imediatamente lançados no Inferno. A doutrina dos qadarianos é que não é possível que Allah conceda ao servo o poder de cometer pecados e depois o castigue por isso. Porém, a realidade é que Allah testa o ser humano concedendo-lhe poder e liberdade para praticar todo tipo de ação, boa ou má. Se fizer o bem, será aprovado no teste e recompensado. E, se fizer o mal, será reprovado no teste e punido. Allah, o Altíssimo, descreveu precisamente este assunto no versículo seguinte: “Allah criou a vós e às vossas ações.” Isto é, Allah criou todas as ações boas e más dos seres humanos. Em outro versículo, Ele disse: “Ele mostrou à consciência humana o pecado e a piedade.” Isto é, concedeu-lhe poder e oportunidade tanto para o pecado quanto para a piedade. O Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: Allah, por Sua graça, inspira uma classe de pessoas a praticar boas ações e as inclui em Sua misericórdia; e submete outra classe de pessoas a uma provação, humilhando-as. Ele as censura por suas más ações, e elas não são capazes de realizar nenhuma ação além daquela pela qual Ele as testa. Depois, Ele as pune. Apesar de tudo isso, Allah é justo.”
O Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: Sabei que, mesmo que toda a humanidade se unisse para vos beneficiar de alguma forma, não poderia beneficiar-vos mais do que aquilo que Allah já registrou para vós. E, mesmo que se unisse para vos prejudicar, não poderia prejudicar-vos além daquilo que Allah determinou. “As canetas foram retiradas e as folhas secaram.” Isto é, tudo o que foi escrito no destino é definitivo. Nada mais será escrito e nada novo acontecerá.
[É importante observar que acreditar no destino ou qadar é uma condição essencial da fé, assim como acreditar na missão profética, na vida após a morte e no Livro. Portanto, não acreditar no destino não é apenas um pecado grave, mas também incredulidade. Há muita confusão e divergência sobre este assunto; contudo, acima de todas as divergências, pode-se concluir que Allah, o Altíssimo, concedeu ao servo a capacidade e a liberdade de ter a intenção ou vontade de praticar ações boas e más e de se esforçar para isso. Ele será recompensado ou punido justamente pela vontade e pelo esforço que exercer ao utilizar essa liberdade. Contudo, não lhe foi concedido o poder de concluir o ato, e ele também não será responsabilizado por isso. Por exemplo, um homem decidiu matar alguém e, para isso, golpeou-o com uma arma adequada. Mesmo que a pessoa ferida não morra, o agressor será considerado culpado perante Allah pelo assassinato e será punido. Isso porque ninguém pode ser morto antes que sua vida termine e que chegue o momento determinado para sua morte. Mas ele não poderá escapar do pecado do assassinato por sua intenção e esforço ativo, pois fez plenamente tudo o que estava ao seu alcance. Em apoio a esta afirmação, pode-se citar um hadith. O Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: Quando duas pessoas entram em combate com a intenção de matar uma à outra, tanto o assassino quanto o assassinado estarão no Inferno. Perguntaram: Não há objeção ao fato de que aquele que matou estará no Inferno. Mas por que a pessoa assassinada irá para o Inferno? O Mensageiro (que a paz esteja com ele) respondeu: Ela também queria matar o seu adversário.” — Tradutor]
42. Tentar descobrir os defeitos secretos das pessoas
Allah, o Altíssimo, disse: Não investigueis as coisas ocultas. Os exegetas dizem que isso significa: não tenteis descobrir os defeitos ocultos das pessoas. Em outras palavras, é proibido fazer espionagem. Certa vez, disseram a Ibn Masud que gotas de vinho escorriam da barba de Walid ibn Uqba. Ele respondeu: Fomos proibidos de espionar. Porém, se algo se tornar manifesto, nós o levaremos em consideração.
O Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: “Aquele que escutar às escondidas a conversa de alguém sem o seu consentimento terá chumbo derretido despejado nos ouvidos no Dia da Ressurreição.” Um hadith também proíbe severamente ler a carta de alguém sem sua permissão.
43. Namima ou intriga
(A regra permanente do Islã é que, quando se quiser elogiar alguém, isso deve ser feito em sua ausência; e, quando se quiser criticá-lo, em sua presença. Sempre que, violando essa regra, alguém é difamado, criticado ou caluniado em sua ausência, isso se transforma em uma ação contrária à Sharia. Esse tipo de ação pode assumir três formas, e todas as três são grandes pecados. Primeiro: se a acusação ou falta atribuída à pessoa em questão for falsa ou não tiver as provas necessárias, trata-se de uma simples calúnia. Em árabe, isso é chamado de buhtan ou qadhf. Na Sharia islâmica, não é apenas um grande pecado, mas também um crime penal punível por lei. Sua pena, segundo a Sharia, é de 80 chibatadas e a declaração de incapacidade para testemunhar pelo resto da vida. Isso já foi discutido detalhadamente no grande pecado nº 22. Segundo: se a falta ou acusação atribuída for verdadeira, mas, em vez de explicar isso diretamente e em particular à pessoa acusada, conforme as regras do Islã, dando-lhe a oportunidade de se purificar, alguém revelar o assunto a uma pessoa específica, criando inimizade entre ambos ou tentando destruir sua boa relação, isso é chamado de namima ou intriga. Terceiro: se, em vez de revelá-lo a uma pessoa específica, o assunto for divulgado ao público com a intenção de humilhá-lo perante todos, isso é chamado de ghibah. Essas três formas de falar mal dos outros na sua ausência são grandes pecados e crimes abomináveis. Em todas elas, viola-se o haqq al-ibad, isto é, os direitos humanos. Pois, por meio disso, sua honra, dignidade e reputação são destruídas injustamente, sem que sequer lhe seja dada a oportunidade de se defender. Portanto, Allah também não perdoa esse crime se a pessoa lesada e envolvida nele não perdoar. Tradutor)
Allah diz no Sagrado Alcorão: “Não sigas aquele que jura a cada palavra, que é desprezível, que fala mal dos outros na sua ausência e que leva a palavra de um ao outro.” (Surata al-Qalam)
Foi narrado em Sahih al-Bukhari, Muslim, Abu Dawud e al-Tirmidhi que o Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse que o intrigante não entrará no Paraíso. Em outro hadith, relata-se que certa vez, ao passar por dois túmulos, o Mensageiro disse: “Os habitantes destes dois túmulos estão sendo castigados. Contudo, não estão sendo castigados por algum pecado que fosse considerado grande. Um deles não se purificava adequadamente depois de urinar, e o outro costumava praticar intriga. Então ele pegou dois ramos cortados de uma tamareira, fincou um em cada túmulo e disse: Talvez o castigo deles seja aliviado enquanto esses dois ramos não secarem.”
O significado da declaração deste hadith — “não estão sendo castigados por algum pecado que fosse considerado grande” — é que, na opinião deles, o pecado que haviam cometido não parecia tão grave. Por isso, em algumas narrações, consta que o Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: “Mas certamente era um grande pecado.” Sahih al-Bukhari,
Foi narrado em Muslim e no Muwatta do Imam Malik que o Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: Vocês encontrarão como a pior das pessoas aquela que vai até diferentes pessoas e se apresenta de maneiras diferentes. E quem agir de modo dúplice neste mundo, no Dia da Ressurreição Allah lhe dará duas línguas de fogo. O comportamento dúplice significa falar de duas maneiras diferentes com duas pessoas.
O Imam al-Ghazali (que Allah tenha misericórdia dele) disse: “Por pessoa de comportamento dúplice geralmente se entende o intrigante, que vai até alguém e diz: Fulano falou isto sobre você. Revelar um assunto secreto cuja divulgação é indesejada por qualquer uma das duas partes envolvidas ou por uma terceira pessoa é intriga, seja isso feito por meio de palavras, escrita, sinais, gestos ou qualquer outro meio, e seja o assunto revelado uma fala, uma ação ou qualquer defeito de alguém. Em suma, intriga é divulgar qualquer informação secreta cuja revelação seja indesejada por uma das partes envolvidas ou por uma terceira pessoa. Qualquer que seja a situação observada nas pessoas, se divulgá-la a outra pessoa não trouxer benefício à sociedade nem contribuir para protegê-la de algum pecado, deve-se evitar fazê-lo.” O Imam al-Ghazali também disse: aquele a quem alguém faz intriga sobre outra pessoa, dizendo que fulano falou isto e aquilo a seu respeito, deve fazer seis coisas: primeiro, não acreditará nele, pois ele é um intrigante e um pecador; não é digno de confiança. Segundo, pedirá que ele abandone essa prática, fará uma crítica severa a ela e lhe dará bons conselhos. Terceiro, odiá-lo-á em seu coração, pois ele é detestado por Allah; e é obrigatório odiar quem é detestado por Allah. Quarto, não formará imediatamente uma má opinião sobre a pessoa a respeito de quem o intrigante trouxe más notícias, pois Allah disse: ‘Evitai ter demasiadas suspeitas, pois algumas suspeitas são pecado.’ Quinto, não dará tanta importância à notícia relatada a ponto de começar a investigar sua veracidade, pois Allah diz: “Não espioneis.” Sexto, não violará ele próprio o conselho dado ao intrigante: não falará com outras pessoas sobre o que o intrigante disse. Relata-se que certa vez um homem levou uma notícia ruim sobre alguém ao califa Umar ibn Abd al-Aziz. Ele disse: Se quiseres, investigaremos tua notícia. Se tiveres dito a verdade, aplicar-se-á a ti este versículo: “Se um pecador vos trouxer uma notícia, investigai-a.” Mas, se fores mentiroso, aplicar-se-á a ti este versículo: “Que difama pelas costas e leva a palavra de um ao outro.” E, se quiseres, perdoar-te-ei. O homem disse: Ó comandante dos crentes, peço que Allah perdoe. Não farei mais isso.”
Hasan al-Basri disse: Se alguém te leva a palavra de outra pessoa, fica sabendo que também levará a tua palavra a outra pessoa.
Certa vez, um homem foi até um eminente sábio e começou a atribuir várias difamações a respeito de outra pessoa. Então o sábio lhe disse: “Você cometeu três ofensas contra mim. Primeiro: criou em meu coração ressentimento e aversão contra um irmão meu na fé. Segundo: por causa dele, tornou meu coração pesado de preocupação. Terceiro: você perdeu minha confiança. Alguns sábios costumavam dizer: ‘Aquele que lhe transmite o insulto de alguém é como se ele próprio o tivesse insultado.’ Certa vez, um homem foi até Ali (que Deus esteja satisfeito com ele) e disse: “Fulano espalhou difamações e proferiu insultos contra você.” Ele respondeu: “Leve-me até ele.” O homem o levou até aquela pessoa. Ele pensava que Ali se vingaria dele. Mas Ali foi até ele e disse: “Ó irmão! Se o que você disse for verdade, peço perdão a Deus; e, se for mentira, peço a Deus que o perdoe.” Alguns exegetas, ao explicar a passagem da Surata Al-Masad em que a esposa de Abu Lahab é chamada de “Hammālata al-hatab”, dizem: seu significado literal é “a carregadora de lenha”. Ela era uma intrigante. O hábito de espalhar intrigas foi comparado à lenha, pois, assim como a lenha ajuda a acender o fogo, a intriga ajuda a acender o fogo da inimizade entre duas pessoas.
Um acontecimento: conta-se que, certa vez, um homem viu alguém vendendo seu escravo no mercado. O vendedor anunciava: “Este escravo não tem nenhum defeito, exceto o hábito de espalhar intrigas.” O homem não deu importância a esse defeito e comprou o escravo. O escravo passou a morar em sua casa. Depois de algum tempo, disse à esposa de seu senhor: “Meu senhor quer se casar novamente e já não sente por você o mesmo amor. Se você quer impedir esse casamento e deseja que seu marido volte a amá-la como antes, quando ele estiver dormindo, corte com uma faca alguns pelos acima de sua garganta e guarde-os com você.” Por outro lado, disse ao senhor: “Sua esposa ama secretamente outro homem e conspirou com ele para degolá-lo hoje enquanto você estiver dormindo. Se quiser sobreviver, não durma: apenas finja estar dormindo. Você verá como sua esposa tentará passar a faca em sua garganta.” O senhor fez exatamente isso. À noite, quando sua esposa foi cortar com uma faca os pelos de sua garganta, o senhor levantou-se imediatamente, segurou sua mão, tomou-lhe a faca e matou-a na mesma hora. Depois, os parentes da esposa vieram e mataram o senhor. Em seguida, começou uma guerra entre os dois lados, e ambos perderam tudo.
44. Amaldiçoar e insultar um muçulmano sem que ele tenha cometido qualquer ofensa
O Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: “Insultar um muçulmano é transgressão, e lutar contra ele é incredulidade.” (Todas as coletâneas de hadith autênticos, exceto Abu Dawud.) Ele também disse: “Amaldiçoar um crente equivale a matá-lo.” (Todas as coletâneas de hadith autênticos, exceto Ibn Majah.) Está narrado no Sahih Muslim que o Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: “Os que amaldiçoam não serão, no Dia da Ressurreição, intercessores de ninguém, nem testemunhas.” Também consta no hadith: “O crente jamais pode ser alguém que amaldiçoa, que usa linguagem áspera, obscena ou indecente.”
Está narrado nas Sunan de Abu Dawud que o Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: “Quando um servo amaldiçoa alguém — e uma súplica de maldição também se aproxima de uma maldição — ela sobe ao céu. Mas as portas do céu são fechadas e sua entrada é impedida. Então ela desce à terra, mas o caminho da terra também lhe é bloqueado. Depois, fica vagando para a direita e para a esquerda. Quando não encontra nenhuma saída, se aquele sobre quem a maldição foi lançada é merecedor dela, ela recai sobre ele; caso contrário, recai sobre o próprio autor da maldição.” Imran ibn Husayn narra que certa vez o Mensageiro (que a paz esteja com ele) viajava. Durante a viagem, uma mulher ansarita começou a insultar em voz alta seu camelo de montaria e a amaldiçoá-lo. Ao ouvir isso, o Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: “Retirem toda a carga que está sobre o dorso deste camelo e soltem-no, pois ele está amaldiçoado.” Imran disse: “Ainda parece que estou vendo aquela mulher caminhando desamparada junto com as pessoas, sem que ninguém viesse ajudá-la.” (Sahih Muslim)
O Mensageiro (que a paz esteja com ele) também disse: “A pior usura é quando uma pessoa usa linguagem insultuosa contra outra.”
É permitido, contudo, amaldiçoar certas pessoas envolvidas em pecados específicos. Por exemplo, Deus, o Altíssimo, disse: “A maldição de Deus está sobre os injustos!… A maldição de Deus está sobre os mentirosos.” O Mensageiro (que a paz esteja com ele) amaldiçoou várias pessoas: os envolvidos com usura, os envolvidos com tahilil, e os envolvidos com suborno, álcool e jogos de azar; amaldiçoou aqueles que unem cabelos a cabelos, os que arrancam os pelos das sobrancelhas, os que, ao serem atingidos por uma calamidade, entram em pânico, gritam e lamentam, e os que raspam os cabelos e rasgam as roupas. Ele amaldiçoou os pintores, os escultores e aqueles que removem ou alteram os marcos de limites para usurpar a terra alheia. Do mesmo modo, amaldiçoou aqueles que invocam maldição sobre os próprios pais, os que insultam, os que desviam um cego do caminho, os que praticam atos sexuais com animais, os homossexuais, os que mantêm relações sexuais com a própria esposa pelo ânus, os adivinhos e aqueles que os consultam, as mulheres que choram em voz alta pelos mortos, as carpideiras profissionais e suas auxiliares, aqueles que, apesar da desaprovação do povo, tomam à força o cargo de líder ou governante, a esposa que passa a noite enquanto o marido está descontente com ela, aquele que, mesmo tendo ouvido o chamado para a oração, não comparece à oração em congregação sem uma justificativa, aquele que sacrifica um animal em nome de alguém que não seja Deus, os ladrões, os que insultam os Companheiros, as mulheres que usam vestimentas masculinas ou imitam os homens e os homens que usam vestimentas femininas ou imitam as mulheres, aqueles que defecam ou urinam nos caminhos por onde as pessoas passam, as mulheres que se abstêm de usar henna nas mãos e kohl nos olhos — isto é, que não demonstram interesse em agradar o marido por meio dos cuidados de beleza —, aqueles que rompem a relação entre marido e esposa ou entre servo e senhor, aqueles que mantêm relações sexuais com uma mulher menstruada, aqueles que aterrorizam uma pessoa apontando-lhe uma arma, aqueles que se recusam a pagar o zakat, aqueles que atribuem como pai alguém que não é seu pai e como senhor alguém que não é seu senhor, aqueles que marcam um animal com uma haste de ferro em brasa, os que intercedem e os que aceitam a intercessão para isentar um criminoso da punição que um juiz está prestes a declarar contra ele segundo a lei religiosa, a mulher que sai da casa do marido sem sua permissão, a mulher que abandona o leito do marido e passa a noite em outro lugar, aquele que, apesar de ter poder, se abstém de ordenar o bem e proibir o mal, e os que bebem álcool, os que o produzem, compram, vendem ou transportam, bem como todos os envolvidos e colaboradores nessas atividades.
Em outro hadith, é mencionado que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Eu amaldiçoei seis pessoas; Allah as amaldiçoou, e todos os profetas as amaldiçoaram, e é certo que a súplica de todo profeta é aceita. Essas seis pessoas são: aquele que nega o destino determinado por Allah; aquele que acrescenta algo ao Livro de Allah; aquele que, por meio da força, toma o poder para humilhar aqueles a quem Allah honrou e honrar aqueles a quem Allah humilhou; aquele que considera lícito o que Allah proibiu e considera proibido o que Allah tornou lícito; e aquele que abandona o caminho que mostrei. Além disso, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) amaldiçoou aquele que comete adultério com a esposa do vizinho; aquele que pratica masturbação; aquele que se casa simultaneamente com uma mulher e sua filha; o subornador, o subornado e o intermediário do suborno; aquele que oculta o conhecimento; aquele que açambarca alimentos; aquele que humilha um muçulmano; aquele que, apesar de ter poder, não ajuda o muçulmano oprimido; o governante cruel; o homem e a mulher que juram não se casar; e também aquele que, sem necessidade, viaja sozinho por uma região deserta.
Amaldiçoar um muçulmano inocente é unanimemente proibido. Já amaldiçoar pessoas de mau caráter, sem mencionar seus nomes, é unanimemente permitido.
Por exemplo, se alguém disser: “Que a maldição recaia sobre os opressores, sobre os mentirosos ou sobre os incrédulos”, isso é unanimemente permitido. Por outro lado, há divergência quanto a amaldiçoar nominalmente uma pessoa envolvida em algum pecado. Muitos consideram isso permitido. Porém, segundo o Imam al-Ghazali, só é permitido amaldiçoar aqueles sobre os quais se sabe com certeza que morreram sem se arrepender, como Abu Lahab, Abu Jahl, Faraó, Hamã e outros semelhantes. Suplicar contra alguém, desejando-lhe o mal, também se aproxima da maldição. Nos mesmos casos em que a maldição é ilícita, essa súplica também é ilícita. Mesmo suplicar contra um opressor é inadequado; contudo, se todos os esforços para resistir fracassarem, o oprimido pode suplicar contra o opressor. Ainda assim, também nesse caso, deve-se evitar amaldiçoá-lo.
45. Quebrar promessas
Allah, o Altíssimo, disse: “Cumpri as promessas. Certamente, sereis questionados sobre as promessas.” Al-Zujjaj disse: tudo aquilo que Allah ordenou que se faça e tudo aquilo que proibiu que se faça está incluído nas promessas, pois, ao cumprir essas determinações, os muçulmanos estão comprometidos por uma promessa com Allah.
Allah, o Altíssimo, também disse: “Ó crentes! Cumpri os pactos.” Ibn Abbas disse: o significado de pactos abrange tudo aquilo que o Alcorão declarou lícito ou ilícito, bem como tudo aquilo que foi regulamentado e delimitado. Muqatil disse: pacto significa as determinações de Allah, estabelecidas por meio do Alcorão, relativas ao lícito e ao ilícito, ao permitido e ao proibido, assim como todos os contratos, compromissos e promessas celebrados entre muçulmanos e incrédulos e entre as pessoas em geral.
O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Aquele que tiver quatro características será um hipócrita completo. E aquele que tiver uma dessas características terá nele um elemento de hipocrisia, até que a abandone: quando fala, mente; quando algo lhe é confiado, ele trai a confiança; quando assume um compromisso ou faz uma promessa, quebra-a; e, quando entra em disputa com alguém, excede os limites.” (Sahih al-Bukhari e Sahih Muslim)
Em um hadith qudsi, Allah diz: “No Dia da Ressurreição, serei o adversário de três pessoas: daquele que faz uma promessa e a quebra; daquele que vende uma pessoa livre e consome o valor obtido; e daquele que contrata um trabalhador, obtém dele todo o trabalho, mas não lhe paga a remuneração.” (Sahih al-Bukhari)
O Mensageiro (que a paz esteja com ele) também disse: “Aquele que morrer sem estar vinculado a nenhum bai‘ah (juramento de lealdade) morrerá uma morte de ignorância.” (Sahih Muslim) O Mensageiro (que a paz esteja com ele) também disse: “Aquele que prestar juramento de lealdade a um líder deve obedecer-lhe tanto quanto puder.” (Sahih Muslim)
46. Acreditar nas palavras de adivinhos e astrólogos
Allah diz: “Não sigas aquilo sobre o qual não tens conhecimento seguro. Certamente, o ouvido, a vista e o coração serão questionados.” Ao comentar este versículo, o Imam Wahidi disse: isto significa: não afirmes aquilo que não sabes. Qatada disse: isto significa: não declares ter visto aquilo que não viste, ter ouvido aquilo que não ouviste e saber aquilo que não sabes. Em suma, não fales sobre aquilo que não sabes. Hazrat Ibn Abbas disse, ao explicar a parte final do versículo: Allah perguntará como os olhos, os ouvidos e o coração foram utilizados. Com estas palavras, foi proibido rigorosamente olhar para aquilo que é ilícito ver, ouvir aquilo que é ilícito ouvir e nutrir desejos que é proibido nutrir. Em outro lugar, Allah diz: “Allah é o Único conhecedor do invisível. Ele não concede o Seu conhecimento do invisível a ninguém, exceto a um Mensageiro que Ele tenha escolhido.” O Imam Ibn al-Jawzi disse: isto significa que Allah possui autoridade exclusiva sobre o conhecimento do invisível ou do oculto. Ele não tem associado algum nessa autoridade. Ele não concede esse conhecimento do oculto a ninguém, exceto a um Mensageiro escolhido. Concede ao Mensageiro apenas o quanto do conhecimento do oculto deseja conceder-lhe, pois informar sobre o oculto é a prova da profecia do Profeta. Disso se entende que aquele que considera as estrelas uma fonte de conhecimento do invisível é um incrédulo.
O Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: “Aquele que se dirige a um astrólogo ou adivinho e acredita no que ele diz nega o Livro e a Revelação enviados a Muhammad (que a paz esteja com ele).” (Abu Dawud, Tirmidhi, Ibn Majah) Em um hadith qudsi, Allah diz: “Entre os Meus servos, alguns são crentes e outros são incrédulos. Aquele que diz que a chuva caiu pela graça de Allah crê em Mim e não crê nas estrelas. E aquele que diz que a chuva caiu por causa de determinado tipo de clima ou por causa do vento não crê em Mim e crê nas estrelas.”
Os sábios experientes disseram: se, ao dizer que a chuva caiu por causa de determinado tipo de clima, um muçulmano acredita que esse tipo específico de clima é o criador da chuva, então ele se torna, sem dúvida, um incrédulo e apóstata.
Mas, se alguém acredita que determinado tipo de clima é apenas um sinal ou indício da chuva, não se torna incrédulo. Contudo, segundo a maioria dos sábios, é melhor não falar dessa maneira.
Em um hadith narrado por Sahih Muslim, o Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: “Aquele que acredita nas palavras de um adivinho não terá suas orações aceitas durante quarenta dias.” Em um hadith de Sahih Bukhari e Muslim, consta que, quando algumas pessoas perguntaram ao Mensageiro (que a paz esteja com ele) sobre adivinhos e astrólogos, ele disse: “Eles não são nada.” “Eles não são nada.” Então alguns disseram: “Ó Mensageiro! Não foi tal astrólogo que disse isto ou aquilo?” O Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: “Os jinns recolhem algumas palavras verdadeiras e depois as sussurram ao ouvido do homem que é seu mestre. Então ele acrescenta centenas de mentiras a elas e as divulga.” Em um hadith de Sahih Bukhari, o Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: “Os anjos descem às nuvens e discutem as decisões que já foram tomadas sobre os diversos assuntos. Satanás escuta essas palavras às escondidas e as transmite aos astrólogos. Então os astrólogos acrescentam centenas de mentiras a elas.”
O Mensageiro (que a paz esteja com ele) também disse: “Determinar o que é auspicioso ou funesto por meio da direção do voo dos pássaros e de outros sinais é shirk manifesto.”
47. Violação dos direitos mútuos entre marido e esposa
(a) Má conduta da esposa para com o marido
Allah, o Altíssimo, diz: “Àquelas esposas cuja desobediência temeis, admoestai-as, afastai-vos delas no leito e castigai-as. Se elas vos obedecerem, não procureis nenhum meio contra elas.” O Imã Wahidi disse: aqui, desobediência significa desobedecer ao marido e opor-se a ele. Ata disse: isso inclui a mudança no tipo de obediência que a esposa vinha demonstrando ao marido até então e impedi-lo de ter relações sexuais sem motivo válido. “Admoestai-as” significa lembrá-las do Livro de Allah e de Seus mandamentos. Ibn Abbas disse: afastar-se delas no leito significa deitar-se de costas para a esposa e não falar com ela. Segundo Sha’bi e Mujahid, significa separar completamente os leitos e não dormir na mesma cama que a esposa. E “castigai-as” significa golpeá-las levemente, de modo que não sintam muita dor. Segundo Ibn Abbas, não deve ir além de socos e tapas dados com as mãos nuas.
O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Quando um marido chama sua esposa para o leito e ela não atende ao seu chamado, os anjos continuam a amaldiçoá-la até o amanhecer.” (Sahih al-Bukhari e Sahih Muslim)
Em outro hadith, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “A oração e nenhuma boa ação de três pessoas são aceitas: o escravo ou servo fugitivo, enquanto não retornar; a esposa desobediente ao marido, enquanto o marido não se agradar dela; e a pessoa embriagada pelo consumo de álcool, enquanto não recuperar a consciência.”
O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) também disse: “No Dia da Ressurreição, a primeira coisa sobre a qual a mulher será questionada será sua oração e seu marido.” O Mensageiro também disse: “Não é permitido à esposa crente jejuar voluntariamente sem a permissão do marido, nem permitir que outra pessoa entre em sua casa.” (Sahih al-Bukhari)
O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) também disse: “Se eu ordenasse que alguém se prostrasse diante de outra pessoa, ordenaria à esposa que se prostrasse diante do marido.” (Tirmidhi) Certa vez, uma mulher mencionou seu marido diante do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), e ele lhe disse: “Pensa em quanta honra possuis em comparação com ele. Ele é o teu Paraíso e o teu Inferno.” (Nasa’i)
O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) também disse: “A esposa está sempre dependente do marido. No entanto, Allah não olhará para a esposa que não é grata ao marido.” (Nasa’i)
O Mensageiro (que a paz esteja com ele) também disse: «Quando a esposa abandona a casa sem a permissão do marido, os anjos continuam a amaldiçoá-la até que ela retorne.» (At-Tabarani)
O Mensageiro (que a paz esteja com ele) também disse: «A esposa que morre enquanto seu marido está satisfeito com ela entrará no Paraíso.» (At-Tirmidhi)
Contudo, não é permitido à esposa ajudar o marido em qualquer ato ilícito; e, mesmo que o marido fique insatisfeito porque ela não o ajuda em um ato ilegal, ela não será pecadora por isso. É obrigatório para a esposa obedecer plenamente ao marido dentro dos limites do permitido. Sem a permissão do marido, não é permitido que ela se ocupe de qualquer atividade que faça com que ele fique temporariamente privado de sua companhia. Não é permitido à esposa dispor dos bens do marido sem sua permissão. É indispensável que a esposa dê prioridade aos direitos do marido sobre os seus próprios direitos e aos direitos dos parentes do marido sobre os direitos de seus próprios parentes. Ela deve estar sempre pronta para atender ao chamado do marido, mantendo plena higiene. Não é recomendável que ela se vanglorie diante dele por causa de sua própria beleza, nem que o repreenda por alguma característica desagradável que ele possua.
A esposa deve ser sempre recatada diante do marido, baixar os olhos diante dele, obedecer às suas ordens, ouvir atentamente o que ele diz, permanecer calada enquanto ele fala, dirigir-se à porta para recebê-lo quando ele chegar em casa, acompanhá-lo até a porta quando ele sair e permanecer ali por algum tempo, evitar tudo aquilo de que ele não gosta, estar junto dele quando ele dormir, preservar, durante sua ausência, sua casa, seus bens e a própria castidade como um depósito confiado, escovar regularmente os dentes, manter-se limpa e asseada, e apresentar-se sempre diante dele bem-arrumada e perfumada; não falar mal dele em sua ausência. Deve cuidar de seus parentes e considerar grandes os seus pequenos favores.
O Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: «Quando a esposa cumprir corretamente as cinco orações diárias, jejuar corretamente durante o mês do Ramadã e obedecer ao marido, poderá entrar no Paraíso pela porta que desejar.» (Ahmad, At-Tabarani)
O Mensageiro (que a paz esteja com ele) também disse: «Até os pássaros, os peixes, o sol, a lua e os anjos pedem a Allah perdão pelos pecados da esposa obediente ao marido. Quanto à esposa desobediente ao marido, recai sobre ela a maldição de Allah, dos anjos e de toda a humanidade. Allah permanecerá descontente com a esposa que mantém o rosto fechado diante do marido até que ela volte a sorrir e satisfaça o marido. A esposa que sair de casa sem a permissão do marido continuará a receber a maldição dos anjos até retornar.»
O Mensageiro (que a paz esteja com ele) também disse: «Quatro tipos de mulheres entrarão no Paraíso, e quatro tipos de mulheres entrarão no Inferno: a mulher casta, obediente a Allah e ao marido; a mulher capaz de gerar muitos filhos, paciente e satisfeita com pouco; a mulher recatada, que preserva sua castidade e os bens do marido durante sua ausência e, quando ele está presente, guarda moderação em suas palavras com ele; e a mulher que, depois de ficar viúva com filhos pequenos, se apega a eles e, temendo que sofram algum dano, não se casa e dedica-se a criá-los. Quanto aos quatro tipos de mulheres que irão para o Inferno, são:»
(1) A mulher que dirige palavras duras e censuras ao marido, não preserva sua castidade durante a ausência dele e, quando ele está presente, o magoa com palavras ofensivas.
(2) A mulher que impõe ao marido um fardo além de sua capacidade e o obriga a fazer aquilo que está fora de seu alcance.
(3) A mulher que não se cobre diante de homens estranhos (não observa as regras do véu), sai de casa adornada e exibindo sua beleza.
(4) A mulher que, além de comer, beber e dormir, não se interessa por mais nada e não deseja obedecer a Allah, ao Mensageiro e ao marido. Quando uma mulher que possui esses defeitos sai de casa sem a permissão do marido, atrai maldições e torna-se merecedora do Inferno. Somente por meio do arrependimento ela poderá ser salva desse destino.
O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Na noite da Ascensão, visitei o Inferno. Vi que a maioria de seus habitantes era composta por mulheres. Isso porque elas obedecem pouco a Allah, ao Mensageiro e aos maridos, e praticam o “tabarruj”. Tabarruj é vestir as roupas mais bonitas ao sair, usar muitos adornos e exibir excessivamente a beleza, seduzindo o público; em outras palavras, tabarruj é sair sem observar o véu. O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: A mulher foi criada para permanecer resguardada. Quando ela sai de casa, Satanás a saúda.”
Está mencionado no hadith que, enquanto permanecem em suas casas, as mulheres são as mais honradas aos olhos de Allah. Também está mencionado no hadith que a mulher não pode alcançar a satisfação de Allah de nenhuma outra maneira tanto quanto a alcança permanecendo em sua casa, adorando Allah e obedecendo ao marido. Certa vez, Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) perguntou à sua esposa, Hazrat Fátima (que Allah esteja satisfeito com ela): “Em que consiste o bem-estar da mulher?” Hazrat Fátima respondeu: “O bem-estar da mulher reside em não olhar para homens estranhos e em não lhes dar a oportunidade de olhar para ela.”
Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) dizia: “Não tendes vergonha? Não tendes senso de honra, permitindo que vossas esposas saiam e olhem para homens estranhos, enquanto eles também olham para elas?” Está narrado por Abu Dawud, Nasa’i e Ibn Majah que, certo dia, Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) e Hazrat Hafsa (que Allah esteja satisfeito com ela) estavam na presença do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Nesse momento, chegou o companheiro cego Ibn Umm Maktum. O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse às suas duas esposas: “Afastai-vos dele, permanecendo atrás do véu.” Ambas disseram: “Mas ele é cego; não pode nos ver nem nos reconhecer.” O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Vós duas também sois cegas? Acaso não o vedes?”
Este hadith mostra que tanto os homens quanto as mulheres devem abster-se de olhar uns para os outros. Allah, o Altíssimo, disse na Surata An-Nur: “Dize aos homens crentes que baixem seus olhares e protejam suas partes íntimas… E dize às mulheres crentes que baixem seus olhares e protejam suas partes íntimas.”
Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: Certa vez, eu e Fátima fomos à presença do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e o vimos chorando muito angustiado. Eu disse: “Ó Mensageiro de Allah, que minha vida seja sacrificada por ti, assim como a vida de meus pais! Por que estás chorando?” O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) respondeu: “Ó Ali! Na noite da Ascensão, vi as mulheres da minha comunidade sofrendo diversos tipos de tormento. Choro ao lembrar-me desses tormentos terríveis. Vi uma mulher suspensa sobre o fogo do Inferno pelos cabelos; por isso, o cérebro em sua cabeça fervia intensamente. Vi outra mulher cuja língua havia sido puxada e alongada, e ela estava suspensa por ela, enquanto água fervente era despejada em sua garganta. Vi outra mulher suspensa, com os dois pés amarrados aos dois seios e as duas mãos aos cabelos da testa. Vi outra mulher suspensa, com uma corda amarrada aos seios. Vi outra mulher cuja cabeça era como a cabeça de um porco e cujo corpo era como o de um jumento, e que recebia milhares de tipos de castigo. Vi ainda outra mulher que havia assumido a forma de um cão. O fogo entrava por sua boca e saía pelo ânus, enquanto os anjos golpeavam sua cabeça com martelos de ferro.”
Hazrat Fátima levantou-se e perguntou a causa desses tormentos infligidos a essas mulheres. O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Ó Fátima! A mulher que foi amarrada pelos cabelos e suspensa não cobria a cabeça dos olhares dos homens estranhos. A mulher que foi suspensa pela língua costumava ferir a vizinha com palavras duras. A mulher que foi amarrada pelos seios com uma corda e suspensa não preservava sua castidade na ausência do marido; isto é, era adúltera. Aquela cujos dois pés foram amarrados aos dois seios e cujas duas mãos foram amarradas aos cabelos da testa não se purificava da relação sexual e da impureza menstrual, e fazia troça da oração. Aquela cuja cabeça se tornou como a de um porco e cujo corpo se tornou como o de um jumento era uma caluniadora e mentirosa. E aquela que se transformou em cão era invejosa e censurava as pessoas por suas doações.”
O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: Quando uma mulher causa sofrimento ao próprio marido, as huris do Paraíso amaldiçoam essa mulher.
Está mencionado que não há mal em sair, com a permissão do marido e observando o véu, para visitar os pais e parentes próximos ou para outras necessidades urgentes.
(b) Violação dos direitos da esposa pelo marido:
Assim como a esposa é ordenada a obedecer ao marido e a mantê-lo satisfeito, o marido também é ordenado a tratar bem a esposa e a ser gentil com ela, a demonstrar paciência e tolerância quando ela manifestar algum comportamento inadequado, e a proporcionar-lhe sustento e a oportunidade de levar uma vida digna. Allah, o Altíssimo, diz: “Tratai bem as esposas.” O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Cuidai do bem-estar de vossas esposas. Lembrai-vos de que, assim como tendes direitos sobre vossas esposas, elas também têm direitos sobre vós. O direito delas sobre vós é que as trateis bem e lhes providencieis o sustento. E o vosso direito sobre elas é que preservem sua castidade e decência e não permitam a entrada em casa daqueles que vós não desejais.” (Ibn Majah, Tirmidhi)
Ibn Hibban narra que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “O melhor dentre vós é aquele que melhor trata sua família.” Em algumas narrações consta: “O melhor é aquele que trata sua família com a maior gentileza.” O Mensageiro tratava as mulheres com extrema gentileza. O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Aquele que suportar com paciência o mau comportamento de sua esposa será recompensado como Ayub (que a paz esteja sobre ele). E a esposa que suportar com paciência o mau comportamento do marido será recompensada como Asiya bint Muzahim, a esposa do Faraó.”
É narrado em um hadith que certa vez um homem foi a Hazrat Umar para queixar-se do mau comportamento de sua esposa. Ele ficou junto ao portão da casa de Hazrat Umar, esperando que ele saísse. Nesse momento, ouviu a esposa de Hazrat Umar repreendê-lo com palavras severas. Hazrat Umar, porém, suportava tudo em silêncio, sem responder. Ao ouvir aquilo, o homem decidiu voltar. Pensou: “Se até um califa tão poderoso e imponente se encontra nessa situação, quem sou eu?” Justamente então, Hazrat Umar saiu e viu o homem indo embora. Chamou-o e disse: “Por que vieste e por que estás indo embora sem me encontrar?” Ele respondeu: “Ó Amir al-Mu’minin! Vim pedir sua ajuda contra o mau comportamento e as palavras ásperas que minha esposa dirige a mim. Mas ouvi que a sua própria esposa também age assim. Por isso estava voltando. Pensei: se essa é a situação do Amir al-Mu’minin, quem sou eu para reclamar?”
Hazrat Umar disse: “Escuta, irmão! Eu a suporto porque ela tem certos direitos sobre mim. Vê: ela prepara minha comida, faz o pão, lava minhas roupas e amamenta meus filhos, embora nada disso seja obrigatório para ela. Além disso, ao realizar essas tarefas, ela me mantém afastado dos ganhos ilícitos. É por isso que a suporto.” O homem disse: “Ó Amir al-Mu’minin! Minha esposa também é assim.” Hazrat Umar disse: “Então continua a suportá-la, irmão. A vida deste mundo é extremamente passageira.”
Conta-se que certa vez o irmão religioso e virtuoso de um homem virtuoso foi visitá-lo em sua casa. Ele costumava visitá-lo uma vez por ano. Assim que bateu à porta, a esposa abriu e perguntou ao visitante: “Quem é você?” O visitante respondeu: “Sou irmão religioso de seu marido! Vim visitá-lo.” A esposa disse em tom extremamente áspero: “Ele foi cortar lenha na floresta. Que Allah não o faça voltar em segurança. Que Allah faça isto e aquilo com ele!” E assim por diante. Ela continuou a falar mal intensamente do marido ausente. Enquanto isso, de repente, seu marido chegou. Voltava da direção das montanhas montado nas costas de um leão, carregando sobre ele uma enorme carga de lenha. Cumprimentou seu irmão religioso e deu-lhe as boas-vindas. Depois entrou em casa, retirou a lenha das costas do leão e disse ao leão: “Vai, que Allah te abençoe.” Em seguida, levou também seu irmão religioso para dentro e o fez sentar. Sua esposa continuava a repreendê-lo, mas o marido permanecia calado. Depois da refeição, o visitante despediu-se e foi embora. Ficou admirado com o comportamento da esposa de língua afiada de seu amigo e com a paciência dele.
No ano seguinte, ele voltou na mesma época. Assim que bateu à porta, ouviu uma voz de dentro: “Quem está à porta?” O visitante respondeu: “Sou fulano, irmão religioso de seu marido.” Então a mulher abriu a porta, dando-lhe as boas-vindas. Acrescentou: “Sente-se, por favor. Meu marido voltará em breve, se Allah quiser. Que Allah o faça retornar em segurança”, e assim por diante. O visitante ficou admirado com sua gentileza e suas palavras doces. Pouco depois, o dono da casa voltou carregando uma carga de lenha. Dessa vez, porém, não a trouxe nas costas de um leão, mas nas próprias costas. Depois, trataram o visitante com atenção, ofereceram-lhe comida e despediram-se dele. Ao partir, ele disse ao amigo: “No ano passado, quando vim, ouvi o comportamento áspero e as palavras insolentes de sua esposa. Ela o difamava continuamente, enquanto você trazia uma carga de lenha nas costas de um leão. Mas este ano vi o tratamento doce de sua esposa, enquanto você trouxe a carga nas próprias costas. Diga-me, o que aconteceu?” Ele respondeu: “Ó irmão! Aquela mulher de língua áspera morreu. Eu suportava sua conduta com paciência; por isso Allah submeteu aquele leão a mim. Depois me casei com esta mulher bondosa. Vivo feliz com ela, mas aquele leão deixou de estar sob meu controle. Por isso fui obrigado a carregar a lenha nas próprias costas, a fim de viver feliz com esta esposa obediente e de bom caráter.”
48. Desenhar, imprimir, esculpir, pendurar e conservar retratos ou imagens de seres vivos
Allah, o Altíssimo, diz: “Aqueles que ofendem Allah e Seu Mensageiro, Allah os amaldiçoará neste mundo e na Outra Vida e preparou para eles um castigo humilhante.” Ao explicar este versículo, Ikrimah disse: “São os que fazem imagens que ofendem Allah e o Mensageiro.” O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Aqueles que fazem imagens serão castigados no Dia da Ressurreição, e lhes será dito: ‘Dai vida ao que criastes.’” (Sahih al-Bukhari e Sahih Muslim)
Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) narra que certa vez o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) retornou para casa de uma viagem. Eu havia coberto o nicho na parede do meu quarto com uma cortina que tinha algumas imagens. Assim que viu a cortina, o rosto do Mensageiro mudou de cor. Ele disse: “Ó Aisha! Os que tornam sua criação semelhante à criação de Allah sofrerão o castigo mais severo no Dia da Ressurreição.” Hazrat Aisha disse: “Então cortei a cortina em duas partes e fiz com ela duas almofadas.” (Bukhari e Muslim) O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Todo pintor de imagens estará no Inferno. Para cada imagem que fez, será criada uma alma, e cada alma sofrerá tormento no fogo do Inferno.” (Bukhari e Muslim) O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Aquele que fizer na Terra a imagem ou o retrato de um ser vivo receberá, no Dia da Ressurreição, a ordem de insuflar vida nessa imagem ou retrato, mas jamais será capaz de fazê-lo.” (Bukhari)
O Mensageiro (que a paz esteja com ele) também disse: «Allah, Exaltado seja, diz: quem é mais injusto do que aquele que se atreve a criar algo semelhante à Minha criação? Que ele crie sequer um grão! Que crie um grão de trigo ou um grão de feijão-mungo, então!» (Bukhari, Muslim)
Foi narrado em Tirmidhi que o Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: «No Dia da Ressurreição, uma cabeça sairá do Inferno e dirá: três pessoas foram entregues a mim para serem castigadas. Essas três são: aquele que atribui parceiros a Allah, o governante tirano e o pintor.» Em outro hadith narrado por Bukhari e Muslim, o Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: «Os anjos não entram numa casa onde há um cão ou imagens de seres vivos.» O imã Khattabi disse que isso se refere aos anjos da misericórdia e das bênçãos. Os anjos encarregados da proteção visitam todas as casas. O cão mencionado é o cão criado apenas por passatempo. Se houver necessidade de um cão para caçar, guardar a casa ou para outros fins semelhantes, não há impedimento. Por imagem entende-se a imagem ou o retrato de qualquer ser vivo, independentemente do objeto sobre o qual esteja conservado e da forma como esteja conservado. Foi ordenado que todas essas imagens e retratos fossem removidos ou destruídos tanto quanto possível. Foi narrado em Sahih Muslim que Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) ordenou a destruição de todas as imagens ou retratos e que todos os túmulos elevados fossem nivelados.
49. Lamentar-se em voz alta em situações de calamidade, desastre ou acontecimentos dolorosos, bater no peito e na testa, rasgar as roupas, raspar a cabeça, arrancar os cabelos e desejar a própria morte e destruição, entre outras coisas
Foi narrado em Sahih Bukhari que o Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: «Quem bate no rosto e na testa, rasga as roupas e suplica segundo os costumes da ignorância não faz parte da minha comunidade.» Já mencionamos anteriormente o hadith narrado por Bukhari e Muslim segundo o qual o Mensageiro (que a paz esteja com ele) amaldiçoou as mulheres que expressam o luto com gritos, raspando os cabelos, arrancando-os e rasgando as roupas. Todos esses atos são unanimemente haram. Da mesma forma, é haram bater no rosto e na testa, arranhar o rosto e suplicar desejando a morte e a destruição. Umm Atiyya (que Allah esteja satisfeito com ela) narra que o Mensageiro (que a paz esteja com ele) exigiu de nós o compromisso de que jamais expressaríamos o luto com gritos. (Bukhari)
O Mensageiro (que a paz esteja com ele) também disse: «Duas práticas pertencem à categoria da incredulidade: zombar da linhagem de alguém e lamentar-se em voz alta por um morto.» (Muslim)
Foi narrado em Abu Dawud que o Mensageiro (que a paz esteja com ele) amaldiçoou as mulheres que lamentam em voz alta e aqueles que as escutam. Foi narrado em Bukhari, Ibn Majah e Nasai que, quando Abu Musa al-Ashari (que Allah esteja satisfeito com ele) perdeu a consciência devido a uma dor intensa, uma de suas parentes começou a chorar aos gritos. Ao recuperar a consciência, ele disse: «Aquele que o Mensageiro (que a paz esteja com ele) considerou indesejável, eu também considero indesejável.» O Mensageiro (que a paz esteja com ele) considerou indesejável expressar o luto por meio de gritos, arrancando os cabelos, rasgando as roupas e coisas semelhantes.
Foi narrado em Sahih Bukhari e Sahih Muslim que o Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: «Por causa do lamento em voz alta, o morto sofre tormento no túmulo.» O Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: «Fui ordenado a evitar dois sons tolos e pecaminosos: um é o som da música e dos instrumentos; o outro é o som de bater no rosto em tempos de calamidade e gritar como Satanás.» Foi narrado que Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) golpeou com a própria mão uma lamentadora profissional e disse: «Estou golpeando esta lamentadora porque não é proibido golpeá-la. Ela não chora por compartilhar da vossa tristeza; chora, antes, para obter dinheiro de vós. Ela causa sofrimento aos vossos mortos no túmulo e aumenta a dor do luto dos vivos. Pois ela vos impede de ter paciência, embora Allah tenha ordenado isso, e vos incita a chorar desesperadamente, embora Allah tenha proibido tal coisa.»
Os eruditos disseram que, excetuando-se o choro das lamentadoras profissionais contratadas e o lamento desorientado em voz alta, não é haram chorar suavemente e com sinceridade, dominado simplesmente pela tristeza. Foi narrado em Sahih Bukhari e Sahih Muslim que o Mensageiro (que a paz esteja com ele) chorou ao visitar o enfermo Sa’d ibn Ubada. Ao verem o seu choro, os Companheiros reunidos também choraram.
Então o Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: «Sabei que Allah não castiga pelo derramamento das lágrimas dos olhos nem pela expressão da emoção do coração; Ele apenas castiga ou concede misericórdia por causa desta coisa» — e apontou para a língua. Em outra narração, consta que, quando o Mensageiro (que a paz esteja com ele) chorou, Sa’d perguntou: «Ó Mensageiro de Allah! O que é isto?» Ele respondeu: «Isto é a misericórdia e a compaixão que Allah criou nos corações dos Seus servos. Allah só concede misericórdia aos servos misericordiosos e compassivos.»
Também foi narrado no Sahih al-Bukhari que, quando o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) foi visitar seu filho Ibrahim, que estava morrendo, lágrimas escorriam de seus olhos. Ao ver isso, Abd al-Rahman ibn Awf disse: “Ó Mensageiro! Você também chora!” O Mensageiro respondeu: “Isso é apenas uma expressão de ternura e compaixão.” Em seguida, disse: “Os olhos derramam lágrimas e o coração se entristece. Contudo, nada proferimos com a boca senão aquilo que agrada a Allah. Ó Ibrahim, estamos entristecidos pela tua separação.”
Convém mencionar que a razão para desencorajar o choro excessivo diante de calamidades e da separação de entes queridos é que Allah e Seu Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) ordenaram paciência e autocontrole, e proibiram demonstrar desespero e impaciência. Allah, o Altíssimo, disse: “Ó crentes! Buscai força na paciência e na oração. Certamente, Allah está com os pacientes…… E, certamente, haveremos de vos testar com algo de medo, fome, perda de bens, vidas e frutos. E anuncia as boas-novas aos pacientes, aqueles que, quando uma calamidade os atinge, dizem: ‘Pertencemos a Allah e a Ele retornaremos.’” (Surata Al-Baqarah)
Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: O significado de “Allah está com os pacientes” é que Ele os ajuda e não os humilha. E o sentido de “aqueles que, quando uma calamidade os atinge, dizem: ‘Pertencemos a Allah’” é: “Somos servos de Allah; portanto, Ele pode fazer conosco o que quiser.”
O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Qualquer calamidade que atinja o servo crente — mesmo que um espinho fure seu pé — faz com que Allah apague, por meio dela, seus pecados.” (Sahih Muslim) Foi narrado em At-Tirmidhi que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Quando o filho de um servo morre, Allah pergunta aos anjos: ‘O que Meu servo disse quando tomastes a vida de seu filho?’ Eles respondem: ‘Ele Te louvou e lembrou que retornará a Ti.’ Então Allah diz: ‘Construí para Meu servo uma casa no Paraíso e chamai-a de Bayt al-Hamd (Casa do Louvor).’ Em um hadith qudsi, Allah diz: “Quando morre alguém querido de Meu servo e ele demonstra paciência e autocontrole diante disso, não tenho para ele outra recompensa senão o Paraíso.” (Sahih al-Bukhari)
O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Para o filho de Adão, é uma bênção aceitar de semblante sereno o decreto de Allah; e é uma desgraça irritar-se e mostrar descontentamento com ele.” Foi narrado em um hadith de Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) que, quando o Anjo da Morte, após tirar a vida de um crente, parte, e sua família começa a lamentar-se, bater no peito, soltar os cabelos e desejar a própria morte e destruição, ele para por um instante à porta da casa e diz: “Por que todo esse lamento e choro? Juro por Allah! Não reduzi a vida de nenhum de vocês, não privei ninguém de seu sustento e não oprimi ninguém. Se a vossa queixa e descontentamento são contra mim, então, por Deus, sou obediente à ordem de Allah. Mas, se o vosso ressentimento é contra o falecido, então vos tornastes descrentes. Ainda terei de voltar muitas vezes, e chegará um tempo em que nenhum de vocês restará.” O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Juro por Allah! Se as pessoas ouvissem esse discurso e o vissem, esqueceriam seu morto e chorariam, desorientadas, por si mesmas.” Expressar pesar ou solidariedade ao ouvir a notícia da calamidade de alguém é uma ação recompensada. Está registrado em Tirmidhi Sharif que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Quem expressa condolências a uma pessoa afligida receberá uma recompensa semelhante à que a própria pessoa afligida receberia se demonstrasse paciência.” O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) também disse: “Se alguém oferecer condolências e consolo a uma mãe que perdeu o filho, Allah lhe vestirá uma preciosa veste do Paraíso.” (At-Tirmidhi)
Convém mencionar que expressar pesar e solidariedade tem o objetivo de consolar a pessoa atingida, aconselhá-la a ter paciência e aliviar a sensação de tristeza, luto e calamidade; por isso, é mustahabb. Isso está incluído na ordenação do bem, na proibição do mal e na cooperação em atos de retidão e temor a Allah. A melhor forma de expressar solidariedade e consolo é conhecida pelo seguinte hadith do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Foi narrado no Sahih al-Bukhari e no Sahih Muslim que uma filha do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) enviou-lhe uma mensagem informando que um de seus filhos estava à beira da morte. O Mensageiro disse ao mensageiro: “Vai e diz a ela: ‘O que Allah toma pertence a Ele, e o que Ele dá também pertence a Ele. Tudo tem, junto ao servo, um prazo determinado.’ Diz-lhe que tenha paciência e autocontrole.”
Ao notar que um companheiro estava ausente da reunião, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) perguntou por ele. Um homem disse: “Ó Mensageiro! O filho dele morreu.” O Mensageiro foi visitá-lo e expressou-lhe condolências. Em seguida, disse: “Dize-me: preferes que teu filho permaneça contigo durante toda a vida, ou que ele vá antes de ti, fique à porta do Paraíso e, quando morreres, abra para ti a porta do Paraíso? Qual das duas coisas preferes?” O companheiro respondeu: “Prefiro que ele vá antes de mim ao Paraíso e abra a porta para mim.” O Mensageiro disse: “Então, isso foi destinado para ti.” O companheiro perguntou: “Isso é somente para mim?” O Mensageiro respondeu: “Não, é para todos os muçulmanos.” (Ahmad, An-Nasa’i)
Abu Musa (que Allah esteja satisfeito com ele) narra que, certo dia, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) foi a Jannat al-Baqi e viu uma mulher prostrada sobre um túmulo, chorando. O Mensageiro disse-lhe: “Ó serva de Allah, teme a Allah e tem paciência.” A mulher respondeu: “Ó servo de Allah, sou uma mãe que perdeu o filho. Portanto, o que estou fazendo não é algo inadequado para mim.” O Mensageiro repetiu: “Tenha paciência.” A mulher disse: “Já chega. Ouvi o que você disse. Agora vá embora.” O Mensageiro afastou-se dela. Um companheiro, ao ver a mulher, perguntou: “O que esse homem lhe disse?” A mulher contou-lhe tudo. O companheiro perguntou: “Você sabe quem era aquele homem?” Ela respondeu: “Não.” O companheiro disse: “Que desgraça! Era o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele).” Assim que ouviu isso, a mulher correu para encontrar o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e disse: “Ó Mensageiro! Terei paciência.” O Mensageiro disse: “A paciência deve ser demonstrada no primeiro impacto.” Ou seja, é melhor ter paciência no momento em que a calamidade repentina ocorre; caso contrário, com o passar do tempo, o coração naturalmente se acalma.
Foi narrado no Sahih Muslim que um filho de um companheiro chamado Abu Talha morreu. Naquela ocasião, ele estava no exterior e não sabia absolutamente nada sobre a morte do filho. Quando voltou para casa, sua esposa disse antecipadamente a todos os membros da família: “Nenhum de vocês deve revelar a ele a morte do filho. Quando for preciso dizer alguma coisa, eu mesma direi.” Depois, ela providenciou a comida de Abu Talha. Quando se deitaram à noite, ela lhe disse: “Ó Abu Talha, se alguém empresta algo a outra pessoa e depois pede aquilo de volta, é correto que ela se recuse a devolvê-lo?” Talha respondeu: “Não.” Então sua esposa contou-lhe tudo e disse: “Portanto, tenha paciência quanto ao seu filho.” Ao ouvir isso, Abu Talha ficou irritado e disse: “Por que você me informou disso tão tarde?” Em seguida, foi até o Mensageiro de Allah (s.a.w.) e contou-lhe todo o ocorrido. Ao ouvir, o Mensageiro de Allah (s.a.w.) disse: “Allah aprovou o comportamento de vocês na noite passada.” Também consta no hadith: “Ninguém recebeu algo melhor e mais amplo do que a paciência.”
Foi narrado que, quando os assassinos feriram Hazrat Uthman (r.a.), enquanto o sangue escorria por sua barba, ele disse: “La ilaha illa anta subhanaka inni kuntu minaz-zalimin. Ó Allah! Peço-Te ajuda contra eles e peço-Te ajuda em todos os assuntos; e peço-Te paciência diante da provação na qual me lançaste.”
Foi narrado no Jami‘ at-Tirmidhi que o Mensageiro (s.a.w.) disse: “Aquele cujos dois filhos menores morrerem entrará no Paraíso.” Em um hadith narrado no Sahih Muslim, o Mensageiro (s.a.w.) disse: “As crianças falecidas que ainda não atingiram a maturidade circularão livremente por todo o Paraíso. No Campo da Ressurreição, encontrarão seus pais, agarrar-se-ão a eles e não os deixarão até que entrem no Paraíso.”
Hazrat Malik ibn Dinar (r.a.) disse: “Na juventude, eu era viciado em álcool. Nessa época, morreu uma filha minha de dois anos de idade. Eu a amava muito. Por isso, fiquei tão dolorido com sua morte que reduzi bastante o consumo de álcool. Certo dia, adormeci e sonhei que a Ressurreição havia começado e que eu havia saído do meu túmulo. De repente, vi uma enorme serpente píton perseguindo-me. Fugi correndo, aterrorizado, mas a serpente continuava avançando contra mim. No caminho, vi um ancião vestido de branco e disse-lhe: ‘Por favor, dê-me abrigo. Uma serpente está vindo atrás de mim.’ Ele respondeu: ‘Sou fraco, e essa serpente é mais forte do que eu. Continue correndo. Talvez Allah o proteja.’ Continuei correndo até chegar ao topo de uma montanha. Ali vi várias crianças pequenas brincando. Seus rostos brilhavam como a lua. Vi que minha filha também estava entre elas. Ao me ver, ela desceu e lançou uma lâmpada contra a serpente. Com isso, a serpente fugiu. Depois, minha filha veio para o meu colo e recitou este versículo do Alcorão: ‘Ainda não chegou o momento de os corações dos crentes se inclinarem à recordação de Allah e à verdade que Ele revelou?’ Eu disse: ‘Ó minha filha pequena! Você também conhece o Alcorão?’ Ela respondeu: ‘Papai! Nós sabemos mais do que vocês.’ Perguntei: ‘Quem são seus companheiros e o que vocês fazem aqui?’ Ela respondeu: ‘Somos todas crianças falecidas de pais muçulmanos. Ficaremos aqui até a Ressurreição, esperando a chegada de nossos pais.’ Perguntei: ‘Ó minha filhinha! Você sabe por que essa serpente me perseguia?’ Ela respondeu: ‘Papai, ela representa suas más ações. Você mesmo a tornou forte.’ Perguntei: ‘Quem era aquele ancião?’ Ela respondeu: ‘Ele representa suas boas ações, que ficaram fracas por causa da sua negligência. Arrependa-se e será salvo.’ Então acordei e imediatamente me arrependi.”
O Mensageiro (s.a.w.) disse: Sempre que uma calamidade ou aflição atinge um servo, ela ocorre ou para purificá-lo de um pecado que Allah determinou perdoar somente por meio daquela calamidade, ou para elevá-lo a uma posição elevada para a qual Allah não deixou nenhum outro meio.
A Mãe dos Crentes, Hazrat Umm Salama (r.a.), narra que o Mensageiro (s.a.w.) disse: Quem, ao ser atingido por uma calamidade, disser “Inna lillahi wa inna ilayhi raji’un” e suplicar: “Ó Allah! Concede-me proteção nesta calamidade e dá-me uma compensação melhor do que ela”, Allah lhe concederá uma recompensa adequada e uma compensação melhor. Hazrat Umm Salama (r.a.) disse: “Depois, quando meu marido Abu Salama morreu, fiz uma súplica semelhante. Então Allah me concedeu um marido como o Mensageiro de Allah (s.a.w.).” (Sahih Muslim)
O juiz Shuraih (r.a.) costumava dizer: “Quando sou atingido por alguma calamidade, louvo Allah quatro vezes. A primeira, porque a calamidade poderia ter sido ainda mais grave, mas não foi. A segunda, quando Allah me concede a capacidade de suportá-la. A terceira, quando Ele me dá a oportunidade de recitar ‘Inna lillah…’. E a quarta, quando vejo que a calamidade não assumiu a forma de eu me desviar do Islam.”
Por outro lado, se alguém, diante das calamidades, se desespera, deseja a própria morte e destruição, rasga os cabelos e as roupas, bate e arranha o rosto e o peito, grita e chora intensamente ou paga alguém para chorar por ele, Allah certamente ficará irado com essa pessoa. Ele a amaldiçoará e, de acordo com algumas narrações, destruirá suas boas ações. Isso porque tais atitudes equivalem a descrer no destino, isto é, na decisão de Allah. Em particular, desejar a própria morte e destruição é, de certo modo, uma tentativa de suicídio.
50. Rebelião, insolência e arrogância
Allah, o Altíssimo, disse: “Somente contra aqueles que cometem injustiça contra as pessoas e se rebelam e agem com insolência injustamente na terra é que se pode tomar uma medida. Para eles está reservado um castigo doloroso.” (Surata Ax-Xura)
O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Allah, o Altíssimo, revelou-me que sejais humildes, para que ninguém agrida nem se comporte com arrogância para com outro.” (Sahih Muslim, Sunan Abu Dawud e Sunan Ibn Majah)
O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) também disse: “Não há crime semelhante à rebelião e à insolência que torne inevitável um castigo também neste mundo, além do castigo da Outra Vida.” (Jami’ at-Tirmidhi e Sunan Ibn Majah)
Qarun recebeu o castigo mais exemplar por esse crime. Ele era primo paterno do Profeta Moisés (que a paz esteja sobre ele) e um dos principais conselheiros do Faraó. Como punição por sua rebelião e arrogância, Allah o enterrou vivo na terra, juntamente com todos os seus bens e riquezas. O relato desse acontecimento é apresentado da seguinte forma na Surata Al-Qasas:
“Na verdade, Qarun era do povo de Moisés. Porém, rebelou-se contra eles. E havíamos-lhe concedido tesouros cujas chaves seriam pesadas para um grupo de homens fortes. Recorda quando seu povo lhe disse: ‘Não te envaideças, pois Allah não ama os vaidosos. Busca, com aquilo que Allah te concedeu, a morada da Outra Vida, mas não te esqueças da tua parte neste mundo. Faz o bem aos outros, como Allah te fez o bem, e não procures causar corrupção na terra. Allah não ama os corruptores.’ Ele respondeu: ‘Isto me foi concedido apenas por causa do conhecimento que possuo.’ Acaso não sabia que Allah já havia destruído, antes dele, muitas gerações que eram mais poderosas e mais ricas do que ele? E os criminosos não serão questionados acerca de seus pecados. (Pois tudo estará registrado em seus livros de obras.) Qarun saiu diante de seu povo com todo o seu esplendor. Então, aqueles que desejavam a vida mundana disseram: ‘Ah! Se tivéssemos o mesmo que foi concedido a Qarun! Ele é realmente muito afortunado.’ Porém, aqueles que haviam recebido conhecimento disseram: ‘Ai de vós! A recompensa de Allah é melhor para aqueles que creem e praticam boas ações; e ninguém a alcançará, exceto os pacientes.’ Então, fizemos com que Qarun e seu palácio fossem tragados pela terra. E não havia para ele nenhum grupo que pudesse protegê-lo do castigo de Allah, nem ele mesmo era capaz de se defender. E aqueles que, no dia anterior, haviam desejado ser como Qarun começaram a dizer, ao verem o destino dele: ‘Na verdade, Allah amplia a provisão para quem quer e a restringe para quem quer. Se Allah não tivesse sido bondoso conosco, também nos teria feito ser tragados pela terra. Na verdade, os descrentes não prosperam.’”
O Imam Ibn al-Jawzi disse: Há diversas opiniões sobre como Qarun manifestou insolência e rebelião. Segundo Ibn Abbas, por meio de uma fraude, ele induziu uma mulher de má conduta a difamar o Profeta Moisés (que a paz esteja sobre ele), alegando que ele havia cometido adultério com ela. Quando o Profeta Moisés (que a paz esteja sobre ele) a obrigou, sob juramento, a dizer a verdade, ela revelou que tinha uma relação com Qarun e que ele a havia induzido a espalhar aquela calúnia. Segundo Ad-Dahhak e Qatada, Qarun renegou o Profeta de Allah e caiu na descrença. Segundo Al-Mawardi, ele trabalhava na corte do Faraó e, apoiando-se nessa posição, oprimia seu próprio povo, os Filhos de Israel.
É narrado por Ibn Abbas que, quando o Profeta Moisés (que a paz esteja sobre ele) lançou uma maldição contra Qarun, enfurecido por sua calúnia, Allah disse: “Ó Moisés! Ordenei à terra que obedecesse à tua ordem. Ordena-lhe o que quiseres.” Moisés (que a paz esteja sobre ele) ordenou: “Ó terra, traga Qarun para dentro de ti.” Imediatamente, a cama de Qarun desapareceu dentro da terra. Ao ver isso, Qarun implorou a misericórdia de Moisés (que a paz esteja sobre ele). Porém, Moisés (que a paz esteja sobre ele) ordenou novamente à terra: “Traga-o para dentro de ti.” Dessa vez, seus pés afundaram sob a terra. Assim, enquanto continuava a ordenar-lhe repetidamente, Qarun desapareceu completamente sob a terra.
Os aspectos da rebelião e da arrogância de Qarun revelados por meio do acontecimento acima mencionado no Sagrado Alcorão são:
(1) Aliar-se aos inimigos do Islã e dos muçulmanos, causando prejuízo aos interesses dos muçulmanos e de seu próprio povo.
(2) Em vez de considerar sua riqueza adquirida como uma dádiva da graça de Allah, exibir-se orgulhosamente, julgando-a fruto de seu próprio conhecimento.
(3) Não reconhecer o direito que os pobres da sociedade tinham sobre sua riqueza e recusar-se a concedê-lo; além disso, exibir ao povo o esplendor de sua riqueza, fazendo com que o sofrimento mental dos privados se agravasse ainda mais e que seu sentimento de privação se tornasse mais intenso.
(d) Avareza, capitalismo desenfreado e mentalidade consumista arrogante e monopolista.—-Tradutor)
51. Tratar cruelmente as classes vulneráveis, os escravos e escravas, os empregados e empregadas e os animais
Allah, o Altíssimo, disse: “Adorai a Allah e não associeis ninguém a Ele; tratai bem os pais, os parentes, os órfãos, os necessitados, os vizinhos parentes, os vizinhos que não são parentes, o companheiro de viagem, o viajante e os escravos e escravas. Allah não aprecia os arrogantes e presunçosos.” (Surata An-Nissá)
O Mensageiro (s.a.), mesmo nos momentos que antecederam sua morte, enfatizou: “Temei a Allah quanto à oração e aos que estão sob vossa autoridade.” (Abu Dawud, Ibn Majah)
O Mensageiro (s.a.) também disse: “Tratar bem os subordinados é fonte de felicidade, e tratá-los mal é fonte de infelicidade.” (Musnad Ahmad, Sunan Abu Dawud)
Hazrat Abu Masud (r.a.) disse: Eu estava golpeando um servo com um bastão. Nesse momento, ouvi uma voz atrás de mim: “Sabei, ó Abu Masud, que foi Allah, o Altíssimo, quem te concedeu autoridade sobre este servo.” Eu disse: Ó Mensageiro de Allah! Nunca mais golpearei escravos, escravas, empregados ou empregadas. Eu o libertei. O Mensageiro (s.a.) disse: “Se não tivesses feito isso, o Fogo te teria consumido no Dia da Ressurreição.” (Sahih Muslim)
O Mensageiro (s.a.) disse: Allah infligirá um severo castigo àqueles que atormentam as pessoas neste mundo. É relatado no Jami’ at-Tirmidhi e no Sunan Abu Dawud que perguntaram ao Mensageiro (s.a.): “Quantas vezes devemos perdoar os subordinados?” O Mensageiro (s.a.) respondeu: “Setenta vezes por dia.”
É relatado no Musnad Ahmad que o Mensageiro (s.a.) chamou um de seus servos. Ele veio depois de muito tempo. Então o Mensageiro (s.a.), mostrando o miswak que segurava, disse: “Se não temesse receber uma retribuição no Dia da Ressurreição, eu te bateria com este miswak.”
Em um hadith, consta que uma mulher foi até o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e disse: “Ó Mensageiro! Insultei minha escrava, chamando-a de ‘adúltera’.” O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) perguntou: “Você viu nela algum sinal de adultério?” A mulher respondeu: “Não.” O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Cuidado, pois essa menina se vingará de você no Dia da Ressurreição.” Imediatamente, a mulher foi até sua escrava e, entregando-lhe um bastão, disse: “Bata em mim.” A escrava não aceitou. Então, a mulher a libertou. Depois, foi até o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e informou-o de que havia libertado a escrava. O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Espera-se que seu pecado seja perdoado.”
É narrado nos hadiths de Sahih al-Bukhari e Sahih Muslim que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: quem acusar falsamente seu subordinado sofrerá, no Dia da Ressurreição, o castigo de açoite prescrito para a calúnia. O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “É preciso fornecer aos servos, às servas ou aos escravos as roupas e os alimentos necessários, e não se deve impor-lhes responsabilidades além de sua capacidade. Se for absolutamente necessário impor tal responsabilidade, deve-se trabalhar junto com eles. Não maltratem as criaturas de Allah. Ele fez de vocês seus senhores; se quisesse, poderia tê-los feito seus senhores.” (Sahih Muslim, Tabarani)
Fazer pessoas ou animais sob sua responsabilidade sofrerem de fome, bem como separar filhos de seus pais, é um dos tipos mais abomináveis de grande pecado. O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: quem separar uma mãe de seu filho, Allah o separará de seus entes queridos no Dia da Ressurreição. (Jami’ at-Tirmidhi)
O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) também disse: “Não há pecado maior do que fazer uma pessoa ou um animal sob sua responsabilidade sofrer de fome.” (Sahih Muslim)
Da mesma forma, não é permitido bater com força nos animais domésticos, mantê-los sempre presos em gaiolas, não lhes dar comida no devido momento ou obrigá-los a realizar trabalhos além de sua capacidade. O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Uma mulher será castigada por ter amarrado uma gata e a deixado morrer de fome.” Evidentemente, isso se aplica a todos os animais. É narrado nos hadiths de Sahih al-Bukhari e Sahih Muslim que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) proibiu usar qualquer animal para outra finalidade que não seu trabalho natural e fazê-lo trabalhar além de sua capacidade. Quando fosse necessário abater um animal, ordenou que fosse abatido com uma arma afiada; e, quando fosse necessário matar um animal, ordenou que ele não fosse mantido preso, mas morto na primeira oportunidade. É terminantemente proibido matar queimando animais nocivos, como cobras, escorpiões, ratos e cães raivosos. O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) proibiu matar qualquer animal apenas para entretenimento ou por diversão, sem qualquer benefício. Libertar escravos e escravas é uma ação de grande recompensa. O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: quem libertar seu escravo ou sua escrava, Allah o livrará do castigo do Inferno.
52. Causar sofrimento ao vizinho
É narrado em Sahih al-Bukhari e Sahih Muslim que certa vez o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Ele não é crente. Ele não é crente.” Todos perguntaram: “Ó Mensageiro! Quem?” O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) respondeu: “Aquele cujo vizinho não está seguro contra suas ações prejudiciais.” Há três tipos de vizinhos. Primeiro: o vizinho muçulmano e parente. Esse vizinho possui três direitos: um como parente, um como muçulmano e um como vizinho. Segundo: o vizinho muçulmano que não é parente. Esse vizinho possui dois direitos: um como vizinho e um como muçulmano. Terceiro: o vizinho não muçulmano. Esse vizinho possui apenas o direito decorrente da vizinhança.
O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: quem come até se satisfazer enquanto seu vizinho permanece com fome não é muçulmano. O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) também disse: “Jibril me recomendou tanto que eu cuidasse dos vizinhos que, às vezes, pensei que talvez o vizinho fosse ser declarado meu herdeiro.” (Sunan Abu Dawud, Sunan Ibn Majah)
O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) também disse: no Dia da Ressurreição, o vizinho pobre agarrará o vizinho rico e dirá: “Ó Senhor! Tu tornaste este meu irmão abastado, e ele vivia bem perto de mim, mas eu permanecia com fome enquanto ele comia até se fartar. Pergunta-lhe por que mantinha a porta fechada para mim e me privava.” O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Os três pecados mais terríveis são associar parceiros a Allah, matar os filhos por medo da pobreza e violar a castidade da esposa do vizinho.” (Sahih al-Bukhari, Sahih Muslim, Sunan an-Nasa’i, Jami’ at-Tirmidhi)
Hazrat Ibn Umar tinha um vizinho judeu. Sempre que um bode era abatido em sua casa, ele dizia: “Levem um pouco de carne ao nosso vizinho judeu.” (Sunan Abu Dawud, Jami‘ at-Tirmidhi)
O vizinho deve suportar, tanto quanto possível, o comportamento prejudicial do outro vizinho, mesmo que ele seja não muçulmano. Pois isso também está incluído na bondade e benevolência para com ele. Certa vez, um homem foi até o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e disse: “Ó Mensageiro! Indique-me uma ação que, se eu a praticar, me permita entrar no Paraíso.” O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Sê benevolente.” Ele perguntou: “Como saberei se sou benevolente?” O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Pergunta ao teu vizinho. Se ele disser que és benevolente, então és benevolente; e se disser que prejudicas os outros, então és prejudicial.” (Al-Bayhaqi)
Em outro hadith, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “O direito do vizinho é que, quando ele pedir ajuda, deve-se ajudá-lo; quando pedir um empréstimo, deve-se emprestar-lhe; quando necessitar de alguma coisa, deve-se dá-la a ele; quando adoecer, deve-se visitá-lo; quando alcançar algum bem, deve-se felicitá-lo; quando for atingido por uma calamidade, deve-se oferecer-lhe condolências; quando morrer, deve-se acompanhar o seu funeral e ir ao cemitério para sepultá-lo. Não se deve construir uma casa alta sem a sua permissão, bloqueando o vento para ele. Se ele sentir o aroma da comida preparada na panela, deve-se dar-lhe um pouco dela. Se comprares frutas, envia-lhe um presente; caso contrário, não jogues as cascas para fora, para que ele não as veja.”
O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse que violar a castidade de uma mulher vizinha equivale a violar a castidade de outras dez mulheres. Do mesmo modo, roubar na casa de um vizinho equivale a roubar em dez casas de outros lugares.
Demonstrar tolerância para com o vizinho é uma ação muito nobre, mesmo que ele seja hostil. Conta-se que Hazrat Sahl ibn Abdullah at-Tustari (que Allah tenha misericórdia dele) tinha um vizinho adorador do fogo. Todos os dias, uma grande quantidade de lixo e detritos da casa do vizinho caía, sem que ele percebesse, na casa de Hazrat Sahl. Mas ele nunca reclamava disso ao vizinho. Durante o dia, juntava o lixo e o cobria; à noite, levava-o para fora. Certo dia, aproximou-se a hora da morte de Sahl. Ele chamou o vizinho, mostrou-lhe o monte de lixo e disse: “Se a minha morte não estivesse próxima, eu não lhe mostraria isto. Temo que, depois da minha morte, ninguém da minha família consiga demonstrar a mesma tolerância que eu. Por isso lhe mostrei. Faça o que achar melhor.” O espanto do adorador do fogo não teve limites. Ele disse: “O senhor vem suportando esse incômodo há tanto tempo, sem sequer pronunciar uma palavra. E eu ainda permaneço na minha incredulidade.” Então, segurando a mão de Sahl, aceitou o Islã. E Sahl faleceu imediatamente depois.
53. Incomodar e insultar os muçulmanos e criar tumulto, discórdia e ressentimento entre eles.
Allah, o Altíssimo, disse: “Ó crentes! Que um grupo não zombe de outro grupo; talvez aqueles de quem se zomba sejam melhores do que os que zombam. E que um grupo de mulheres não zombe de outro grupo de mulheres; talvez aquelas de quem se zomba sejam melhores do que as que zombam. Não difamem uns aos outros nem caluniem uns aos outros, e não vos chameis por nomes ofensivos. É muito mau chamar alguém por nomes ofensivos depois da fé. E aqueles que não abandonam essa prática são injustos.” Surata Al-Hujurat
Allah também disse: “Não fiqueis procurando os defeitos uns dos outros e não faleis mal uns dos outros na ausência.” Foi narrado em Sahih Al-Bukhari e Sahih Muslim que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “No Dia da Ressurreição, aos olhos de Allah, o mais detestado será aquele cuja companhia as pessoas abandonam por medo de ouvir suas palavras obscenas e indecentes.”
O Mensageiro (que a paz esteja com ele) também disse: “Ó servos de Allah! Allah removeu de vocês a estreiteza. Contudo, aquele que brinca com a honra e a dignidade de seu irmão muçulmano é uma exceção. Ele será vítima da estreiteza.\nEstá registrado no Sahih Muslim e no Sunan at-Tirmidhi que o Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: É proibido a todo muçulmano prejudicar a vida, os bens ou a honra de outro muçulmano.\nTambém foi narrado no Sahih Muslim que o Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: O muçulmano é irmão do muçulmano. Ninguém oprime o outro, nem o humilha ou odeia. Não pode haver ato pior para um muçulmano do que odiar ou desprezar seu irmão muçulmano. No Sahih al-Bukhari e no Sahih Muslim está narrado que o Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: Insultar um muçulmano é perversidade, e lutar contra ele é incredulidade.
Al-Hakim ibn Hibban, Ahmad e al-Bazzar narram que certa vez foi dito ao Mensageiro (que a paz esteja com ele): “Certa mulher passa as noites rezando e jejua dia após dia, mas causa sofrimento aos seus vizinhos com palavras duras.” O Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: “Não há bem algum nela. Ela irá para o Inferno.” Também consta em um hadith: “Mencionem apenas as boas qualidades de seus mortos e abstenham-se de mencionar seus defeitos, pois ele já chegou ao lugar de receber a recompensa por suas obras.” (Al-Hakim) O Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: “Aquele que chama alguém de ‘incrédulo’ ou de ‘inimigo de Allah’, quando na realidade ele não é assim, verá essa acusação retornar contra si.” Ou seja, ele próprio se tornará incrédulo e inimigo de Allah. (Sahih al-Bukhari e Sahih Muslim)\nEstá narrado no Sunan Abu Dawud que o Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: “Na noite da Ascensão, vi um grupo de pessoas que tinham garras de cobre nas mãos e, com elas, arranhavam o próprio rosto. Perguntei: ‘Ó Jibril, quem são eles?’ Ele respondeu: ‘São aqueles que andavam difamando e caluniando as pessoas e brincando com sua honra e dignidade.’”\nDe fato, causar divisão, desunião e desordem entre os muçulmanos, bem como provocar lutas entre animais, é um terrível pecado grave. O Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: “Satanás já não espera que os muçulmanos da Península Arábica o adorem. Contudo, ainda alimenta a esperança de criar divisão, desunião e conflito entre eles.”\nEste hadith prova que aquele que provoca tumulto e discórdia entre duas pessoas ou dois grupos e troca entre eles palavras ofensivas e incitadoras é um mexeriqueiro do partido de Satanás e uma das pessoas mais vis. Do mesmo modo, aquele que destrói o relacionamento entre marido e mulher, entre servo e senhor, ou entre trabalhador e patrão, também pertence ao partido de Satanás e é um mexeriqueiro, por mais que isso seja feito sob o pretexto de uma boa ação. O Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: “É amaldiçoado aquele que provoca divisão e conflito entre marido e mulher ou entre servo e senhor.” (Sunan Abu Dawud)
Da mesma forma, o Mensageiro (que a paz esteja com ele) proibiu severamente a realização de brigas de galos, rinhas de cães, brigas de touros e semelhantes como formas de diversão. (Pelo mesmo motivo, deveriam ser proibidos o boxe e todos os jogos e competições que envolvam risco de danos físicos e desperdício financeiro. — Tradutor)
Por outro lado, reconciliar duas partes em conflito e restabelecer seu relacionamento é uma ação extremamente nobre. Não há mal em realizar consultas secretas com esse nobre objetivo. Caso contrário, consultas secretas podem gerar suspeita, dúvida e divisão. Em um versículo da surata An-Nissa, Allah diz: “Não há bem na maioria de suas consultas secretas, exceto quando alguém as realiza com o propósito de dar caridade, praticar o bem ou reconciliar as pessoas. Àquele que fizer isso buscando a satisfação de Allah, concederei uma grande recompensa.” O Mensageiro (que a paz esteja com ele) incentivou especialmente a reconciliação entre as pessoas, a eliminação dos conflitos, o fortalecimento da união e a aproximação dos relacionamentos. Ele disse a Abu Ayyub al-Ansari: “Queres que te indique uma caridade melhor do que uma manada de camelos vermelhos?” Ele respondeu: “Sim, ó Mensageiro.” O Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: “Quando os relacionamentos entre as pessoas se deteriorarem, corrige-os; e quando se afastarem uns dos outros, aproxima-os.”\nRestabelecer os relacionamentos é uma ação tão nobre que, para esse fim, o Mensageiro (que a paz esteja com ele) permitiu, quando necessário, dizer algo que não corresponda à verdade. Está registrado no Sahih al-Bukhari que o Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: “Não é mentiroso aquele que procura melhorar o relacionamento entre as pessoas e, por isso, suas palavras produzem um bom resultado.” Está narrado em um hadith do Sahih Muslim que Umm Kulthum disse: O Mensageiro (que a paz esteja com ele) só permitiu a mentira em três situações: na guerra, para reconciliar as pessoas e quando o marido diz algo à esposa ou a esposa diz algo ao marido.
Está registrado no Sahih al-Bukhari que, ao ouvir que uma guerra estava prestes a começar entre os Banu Amir, o Mensageiro (que a paz esteja com ele) foi até lá com um grupo de Companheiros e acalmou a tensão. O Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: “Aquele que resolve a disputa entre duas pessoas, Allah aperfeiçoará todas as suas ações, concederá a ele a recompensa de libertar um escravo por cada palavra sua e perdoará todos os seus pecados passados.”
54. Causar sofrimento aos servos virtuosos e tementes a Allah
Allah, o Altíssimo, diz: “Aqueles que causam sofrimento aos homens e mulheres crentes, divulgando sobre eles aquilo que não fizeram, carregam uma calúnia e um pecado evidente.” (Surata Al-Ahzab) “Sede cuidadosos com os crentes obedientes.” (Surata Al-Hijr)
Foi narrado por Abu Huraira que o Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: “Allah, o Altíssimo, disse: Declarei guerra contra aquele que causa sofrimento a qualquer um dos Meus amigos.” Em um hadith mencionado anteriormente, consta que certa vez os três Companheiros Salman al-Farisi, Suhaib e Bilal (que Allah esteja satisfeito com eles) estavam sentados em um lugar. Nesse momento, Abu Sufyan chegou até eles. Ao vê-lo, disseram: “As espadas de Allah não obtiveram uma vingança adequada do inimigo de Allah.” Abu Bakr, que estava presente, ao ouvir isso, disse: “Vocês fazem esse comentário sobre um respeitado ancião da tribo dos coraixitas?” Em seguida, foi até o Mensageiro e contou-lhe todo o ocorrido. O Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: “Ó Abu Bakr, talvez tenhas despertado ressentimento no coração daqueles três Companheiros e também provocado a ira de Allah” — isto é, não fizeste bem. Abu Bakr foi imediatamente até aqueles três Companheiros e disse: “Irmãos, vocês ficaram zangados com minhas palavras?” Eles responderam: “Não, irmão. Que Allah te perdoe.”\nÉ digno de nota que os primeiros a crer nos profetas eram pessoas pobres. Não apenas no caso dele, mas no caso de todos os profetas, os primeiros a crer eram pessoas pobres. O Mensageiro (que a paz esteja com ele) costumava sentar-se frequentemente com Companheiros pobres, como Suhaib, Salman e Bilal, entre outros. Os politeístas souberam por meio de eruditos judeus que um dos sinais dos profetas e mensageiros era que seus primeiros seguidores provinham dos pobres. Por isso, elaboraram um plano para afastar os pobres dele. Alguns líderes dos politeístas foram até o Mensageiro e disseram: “Ó Muhammad, afasta os pobres de teu redor, pois temos aversão a sentar-nos com eles. Se os afastares, os mais nobres e influentes da sociedade crerão em ti.” Em resposta, Allah revelou: “Não os expulses, pela manhã e pela tarde, pois buscam a satisfação de seu Senhor.” (Al-An’am)
Depois que a conspiração dos idólatras fracassou, eles disseram: “Ó Muhammad, se não queres expulsá-los, então estabelece um dia para nós e um dia para eles.” Em resposta, Allah revelou: “Permanece com aqueles que invocam o seu Senhor, buscando o Seu agrado, e não deixes que os teus olhos os ignorem por desejarem o esplendor da vida mundana.” (Surata Al-Kahf)
Depois disso, o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) passou a cuidar ainda mais dos Companheiros pobres e a conceder-lhes maior importância e honra. Desde então, tornou-se um princípio permanente do Islã que o critério de honra e respeito seja a fé, as boas ações, o temor de Allah e a piedade, e não o esplendor mundano, a pompa, a riqueza ou a influência. Aqueles que são mais avançados na piedade e no temor de Allah e possuem caráter superior não devem ser desprezados, negligenciados ou ignorados por serem pobres; de modo algum devem ser prejudicados.
55. Usar roupas abaixo dos tornozelos por arrogância e ostentação de nobreza
Está registrado no Sahih Al-Bukhari que o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: “Aquele que usar uma roupa que chegue abaixo dos tornozelos irá para o Inferno.” Está registrado no Muwatta do Imame Malik, no Sahih Al-Bukhari, no Sahih Muslim, no Jami‘ At-Tirmidhi e no Sunan Ibn Majah que o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: “Allah não olhará para aquele cuja roupa se arrastar abaixo dos tornozelos por arrogância.” Está registrado no Sunan Abu Dawud que um homem estava rezando com uma roupa que se arrastava abaixo dos tornozelos. Nesse momento, o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse-lhe: “Vai e faze a ablução.” Quando ele voltou após fazer a ablução, disse-lhe novamente: “Vai e faze a ablução.” Um homem perguntou: “Ó Mensageiro de Allah, por que lhe disseste para fazer a ablução?” O Mensageiro permaneceu em silêncio. Depois de algum tempo, disse: “Ele estava rezando com uma roupa que se arrastava abaixo dos tornozelos. Allah não aceita uma oração desse tipo.” Está registrado no Sahih Al-Bukhari, no Sahih Muslim, no Sunan Abu Dawud e no Sunan Ibn Majah que, quando o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: “Allah não olhará, no Dia da Ressurreição, para aquele cuja roupa se arrasta abaixo dos tornozelos por arrogância”, Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Ó Mensageiro, minha calça fica frouxa e se arrasta quando não a amarro firmemente.” O Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: “Tu não estás entre aqueles que fazem isso por arrogância.” Deve-se observar que muitos hadiths relacionados a este assunto não contêm as palavras “por arrogância e ostentação de nobreza”. (Nota do tradutor)
56. O uso de ouro e seda pelos homens
Está registrado no Sahih Al-Bukhari e no Sahih Muslim que o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: “Aquele que usar seda neste mundo não poderá usá-la na Outra Vida.” Está registrado no Sunan Abu Dawud e no Sunan An-Nasa’i que o uso de ouro e seda foi proibido aos homens da minha comunidade.” Isso se aplica tanto aos militares quanto aos civis. Também está registrado no Sahih Al-Bukhari que o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) proibiu comer e beber em recipientes de ouro e prata, vestir roupas de seda e sentar-se sobre leitos de seda. Aquele que considerar lícito o uso de seda pelos homens, ou considerar lícito qualquer outra coisa proibida, é um incrédulo. Somente uma pessoa doente pode usá-la quando isso for indispensável segundo a avaliação médica. Em situação de guerra, os soldados também podem usá-la quando necessário. É consensualmente proibido aos homens usar seda e ouro apenas por gosto ou por beleza. Do mesmo modo, é proibido aos homens usar uma roupa cuja maior parte dos fios seja de seda. Está registrado no Sahih Muslim que o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), ao ver um anel de ouro na mão de um homem, retirou-o e disse: “Um de vós desejou vestir com a própria mão uma brasa do fogo do Inferno.” Da mesma forma, são proibidos aos homens os desenhos e bordados de ouro e seda. Há, porém, divergência quanto a fazer as crianças usarem ouro e seda. Segundo o Imame Ahmad ibn Hanbal e a maioria dos imames, isso também é proibido aos meninos.
57. Desobedecer às autoridades legítimas e romper unilateralmente o vínculo da obediência legítima
Na Sharia islâmica, há três tipos de autoridade e liderança legítimas, e é proibido a quem se encontra sob qualquer uma delas abandonar unilateralmente a obediência a essa autoridade e romper o vínculo com ela. Primeiro: quando, devido aos costumes vigentes e às relações internacionais, uma pessoa se torna escrava ou serva de outra, é ilícito abandonar unilateralmente esse senhor e fugir, desde que ele não cometa opressão ou maus-tratos contra seu escravo, sua serva ou seu criado. Contudo, fugir de um senhor opressor é lícito e será considerado uma migração. Segundo: a autoridade do marido sobre a esposa. Enquanto o marido sustentar a esposa e continuar a conceder-lhe todos os direitos conjugais reconhecidos pela lei, é ilícito para a esposa abandonar a obediência ao marido, romper o vínculo com ele e desobedecer-lhe. (Ver o 47.º grande pecado.) Terceiro: a obediência a um líder ou grupo que dê instruções de modo conforme à Sharia. Abandonar a obediência a tal líder ou grupo e romper o vínculo com ele é proibido e constitui um grande pecado. A seguir, serão citados alguns hadiths sobre a obediência a esses três tipos de autoridade.
O Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: “Quando um escravo, uma escrava ou um servo foge, suas orações e qualquer outra boa ação não são aceitas até que ele retorne; quando uma esposa desobedece ao marido, até que lhe obedeça; e quando uma pessoa se embriaga com álcool, até que recupere a sobriedade.” (Sahih Muslim, at-Tabarani, Sahih Ibn Khuzayma) O Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse ainda: “Ninguém é responsável pelo destino de três pessoas — isto é, elas mesmas são responsáveis: aquele que rompe sua ligação com sua comunidade ou organização e desobedece ao líder; o servo que abandona seu senhor, foge e morre em estado de desobediência; e a esposa que, embora o marido satisfaça todas as suas necessidades, circula sem observar o véu na ausência dele e exibe sua beleza de maneira não islâmica.” (Sahih Ibn Hibban, at-Tabarani e al-Hakim)
58. Sacrificar um animal em nome de alguém que não seja Allah
Na Surata al-An’am, Allah diz: “Não comais aquilo sobre o qual o nome de Allah não foi pronunciado no momento do sacrifício; isso é um pecado grave…..” O venerável Ibn Abbas, al-Kalbi, Ata e outros imãs disseram, ao comentar este versículo, que ele se refere aos animais sacrificados pelos descrentes e politeístas em nome de alguém que não seja Allah. Caso contrário, os animais sacrificados pelos muçulmanos são, por consenso, halal, quer o nome de Allah tenha sido pronunciado sobre eles ou não. At-Tabarani narra que um homem perguntou: “Ó Mensageiro! O que acontecerá se algum de nós esquecer de mencionar o nome de Allah no momento do sacrifício?” O Mensageiro (que a paz esteja com ele) respondeu: “O nome de Allah está na boca de todo muçulmano.” É narrado no Muwatta do Imã Malik e no Sahih al-Bukhari que alguns muçulmanos disseram: “Ó Mensageiro, algumas pessoas vêm nos oferecer carne, mas não sabemos se esses animais foram sacrificados mencionando-se o nome de Allah.” O Mensageiro respondeu: “Mencionai o nome de Allah e comei.”
59. Afirmar conscientemente ser filho de alguém que não seja o próprio pai
É narrado no Sahih al-Bukhari que o Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: aquele que
se declara filho de alguém que não seja seu pai terá o Paraíso proibido para si. Em outro hadith do Sahih al-Bukhari, tal pessoa foi chamada de incrédula, e maldições e condenações foram lançadas sobre ela. É narrado no Sahih Muslim que o Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: “Aquele que se declara filho de alguém que não seja seu pai, embora saiba que ele não é seu pai, não faz parte da minha comunidade; pelo contrário, é um incrédulo. Aquele que reivindica ser aquilo que não é não faz parte da minha comunidade; que tome seu lugar no Inferno. Aquele que chama alguém de incrédulo ou de inimigo de Allah, embora ele não o seja de fato, terá suas próprias palavras aplicadas contra si. Isto é, ele próprio se tornará um incrédulo e inimigo de Allah. Essa é uma de suas consequências.”
60. Discutir, brigar e contender conscientemente em defesa da injustiça
Allah, o Altíssimo, diz: “Entre as pessoas há algumas cujas palavras sobre a vida terrena te maravilham, e que tomam Allah como testemunha daquilo que está em seus corações. Contudo, são adversários obstinados.” O Imã al-Ghazali (que Allah tenha misericórdia dele) disse: Na Sharia islâmica, a disputa tem três formas, e as três são censuráveis. Uma delas é a “mira”. Significa apontar uma falha meramente linguística nas palavras de alguém e objetá-la. Seu objetivo não é outro senão humilhar o orador e provar que se é superior a ele. A segunda é o “jidal”. Significa manifestar uma diferença de opinião e tentar estabelecer a própria opinião como superior. A terceira é a “khusumat”. Seu objetivo é obter dinheiro ou algum outro tipo de benefício. Às vezes, ela é iniciada deliberadamente; outras vezes, é levantada a partir das palavras de outra pessoa. A primeira, isto é, a “mira”, nunca é iniciada deliberadamente desde o começo; ela é feita sob o pretexto de alguma outra declaração. As duas últimas, porém, podem ser iniciadas tanto no começo quanto depois. Contudo, o objetivo das três é desonesto e injusto.
O Imã an-Nawawi disse: A disputa pode ser de dois tipos: em defesa da injustiça ou em defesa da justiça. Allah disse: “Não discuteis com o Povo do Livro, exceto da melhor maneira.” “Ninguém discute os versículos de Allah senão os incrédulos.” Se o objetivo da discussão for conhecer e estabelecer a verdade como verdade, então ela é louvável; mas discutir para refutar a verdade como verdade e discutir sobre assuntos desconhecidos é censurável. É à luz desta explicação que se devem compreender as declarações sobre disputas mencionadas no Alcorão e nos hadiths. Mesmo que se discuta em defesa de uma reivindicação justa, se isso se transformar em mentira, palavras dolorosas e linguagem indecente, também será censurável e deverá ser abandonado.
O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: Persistir continuamente nas discussões é suficiente para fazer alguém cair no pecado. (At-Tirmidhi) O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) também disse: “Allah permanecerá irado com aquele que discutir sobre algo que desconhece, até que abandone essa discussão.” (At-Tirmidhi) O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) também disse: Sempre que uma pessoa se desvia, torna-se inclinada à discussão e à contenda. (At-Tirmidhi) O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) também disse: “Temo sobretudo três coisas por vós: o desvio daqueles que possuem conhecimento suficiente do Alcorão e do Hadith; a discussão sobre o Alcorão por parte de um hipócrita que se apresenta como muçulmano; e o amor pelo mundo, que vos incitará a lutar uns contra os outros.” (At-Tabarani) O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Discutir sobre o Alcorão é kufr.” (Abu Dawud) O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Aquele que, mesmo estando certo da veracidade da sua própria opinião, abstém-se de discutir, terá sua morada no lugar mais elevado do Paraíso. E aquele que abandona a discussão sem estar certo da veracidade da sua própria opinião receberá uma morada numa parte comum do Paraíso.”
61. Não dar a outra pessoa a água excedente
Allah, o Altíssimo, diz: “Considerastes acaso: se a vossa água desaparecer nas profundezas da terra, quem vos dará então água corrente?” (Surata Al-Mulk)
Foi narrado no Sahih Al-Bukhari e no Sahih Muslim que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Não vos recuseis a dar a água excedente, para que Allah não Se recuse a vos conceder colheitas.” Foi narrado no Musnad que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse que Allah, no Dia da Ressurreição, se recusará a conceder a Sua graça àquele que se recusar a dar a sua água excedente e a sua pastagem excedente.
Foi narrado no Sahih Muslim e no Sahih Al-Bukhari que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: Allah não falará com três pessoas no Dia da Ressurreição, não olhará para elas, não as purificará e haverá para elas um castigo doloroso: aquele que possui água excedente, mas não a dá ao viajante; aquele que presta juramento de lealdade a um líder somente por interesse mundano, mantendo-o se o líder lhe conceder aquilo que deseja e rompendo-o caso contrário; e aquele que, para vender algo por um preço elevado, jura dizendo: “Comprei isto por tal preço”, embora na realidade não o tenha comprado por esse preço, e o comprador acredite nele. O Sahih Al-Bukhari descreveu o primeiro deles da seguinte maneira: “Aquele que não dá a outra pessoa a sua água excedente; no Dia da Ressurreição, Allah lhe dirá: Assim como não deste a ninguém o excedente de algo que não produziste com as tuas próprias mãos, hoje também não te concederei a Minha graça.”
62. Dar menos na medida e no peso
Allah diz: “Ai dos que dão menos na medida e no peso; aqueles que, quando recebem dos outros algo medido, exigem a medida completa, mas, quando medem para os outros, dão menos.” O Imam Suddi disse: Quando o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) migrou, havia ali um comerciante chamado Abu Juhaynah. Ele tinha duas balanças: com uma pesava os seus próprios produtos e com a outra pesava os produtos dos demais. Foi sobre ele que este versículo foi revelado.
O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Cinco coisas tornam inevitáveis cinco consequências: quando um povo rompe os seus compromissos, Allah fará com que o seu inimigo o domine; quando um povo governa o país por leis inventadas, em vez das leis de Allah, a pobreza se espalhará entre eles; quando a obscenidade e o adultério se tornam generalizados em um povo, o número de mortes entre eles aumentará; quando dão menos na medida e no peso, as colheitas diminuirão e haverá fome; e quando deixam de pagar o zakat, a chuva cessará.”
É importante observar que aquele que dá menos na medida, na realidade, rouba pouco a pouco e às escondidas, obtendo ganhos ilícitos.
63. Sentir-se seguro quanto ao castigo e à ira de Allah
Allah, o Altíssimo, diz: “Quando esqueceram aquilo de que haviam sido lembrados, abrimos para eles as portas de todas as coisas — isto é, abrimos as portas da abundância e da prosperidade — e, quando ficaram exultantes com os bens que lhes haviam sido concedidos, apanhámo-los repentinamente. Então, mergulharam no mais profundo desespero. E os injustos foram totalmente exterminados.” Aqui, apanhar repentinamente significa capturá-los de tal modo que não percebessem. O Imame Hasan Basri disse: se alguém, ao receber de Allah riquezas abundantes, pensa que não será posto à prova, isso não é sinal de inteligência. Do mesmo modo, se alguém for lançado numa extrema miséria e pensar que foi abandonado e que Allah não lhe dá atenção alguma, também estará entregue a uma conceção equivocada.
O Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: “Quando virdes que Allah concede a um servo aquilo de que ele gosta, embora ele persista na desobediência a Allah, deveis compreender que lhe está sendo concedido um prazo, e que é apenas uma questão de tempo até que o castigo recaia sobre ele.” Em seguida, recitou este versículo.
É relatado que, quando Iblis, apesar de pertencer ao grupo dos anjos, foi atingido pela ira ardente de Allah, Jibril e Mikail começaram a chorar. Allah perguntou: “O que aconteceu convosco, para chorardes?” Eles responderam: “Ó nosso Senhor, tememos a Tua provação.” Allah disse: “Permanecei assim. Não vos sintais seguros quanto à Minha provação.” Está relatado no Jami’ at-Tirmidhi que o Mensageiro (que a paz esteja com ele) recitava frequentemente esta súplica: “Ó Transformador dos corações! Mantém os nossos corações firmes na Tua religião.” Perguntaram-lhe: “Ó Mensageiro, temeis pela nossa fé?” O Mensageiro (que a paz esteja com ele) respondeu: “Os corações estão entre os dois dedos de Allah; Ele os faz girar como e quando quer.”
Está registrado no Sahih al-Bukhari que o Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: “Uma pessoa continua praticando as obras dos habitantes do Paraíso até chegar a tal ponto que resta apenas a distância de um côvado entre ela e o Paraíso. Nesse exato momento, o que foi decretado para ela torna-se efetivo, e ela passa a praticar as obras dos habitantes do Inferno e entra no Inferno. Do mesmo modo, continua praticando as obras dos habitantes do Inferno até se aproximar dele. Nesse exato momento, o que foi decretado para ela torna-se efetivo, e ela pratica as obras dos habitantes do Paraíso e torna-se um dos habitantes do Paraíso. O destino de uma pessoa é determinado pelas suas últimas obras.”
Allah, o Altíssimo, narrou no Sagrado Alcorão o caso de Balam Baura. Mesmo depois de adquirir pleno conhecimento de Allah e da Sharia, a sua fé foi destruída. Da mesma forma, o asceta chamado Barsisa morreu como incrédulo. Portanto, cada pessoa deve ser cautelosa quanto à sua própria fé e recitar frequentemente esta súplica: “Rabbana la tuzig qulubana ba’da idh hadaytana wa hab lana min ladunka rahmatan innaka antal-Wahhab.” “Ó nosso Senhor! Depois de nos teres guiado, não desvies os nossos corações e concede-nos misericórdia da Tua parte. Certamente, Tu és o Grandíssimo Doador.” A senhora Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) narra que o Mensageiro (que a paz esteja com ele) recitava frequentemente esta súplica: “Ó Transformador dos corações, mantém o meu coração firme na obediência.” Perguntei: “Ó Mensageiro! Vós recitais esta súplica com tanta frequência. Acaso tendes medo?” Ele respondeu: “Ó Aisha, como poderia eu estar tranquilo, se os corações dos servos estão entre os dois dedos de Allah e Ele os faz girar como quer?” Portanto, a orientação provém sempre de Allah; quando a firmeza no caminho reto depende da Sua vontade, quando o destino final do ser humano é desconhecido e a firmeza da sua determinação é incerta, é impróprio orgulhar-se da própria fé, das boas obras, da oração e do jejum. Deve-se recordar que, embora a fé e muitas boas obras sejam adquiridas pelo esforço do servo, é Allah quem lhe concede a capacidade, a motivação e a oportunidade para realizá-las.
A este respeito, devemos sempre recordar o seguinte:
(1) Assim como Allah pode retirar a riqueza mundana de alguém — e de fato a retirou de Qarun e de outros — quando essa pessoa se torna arrogante por causa da abundância de algum bem deste mundo e despreza e considera insignificantes os que são inferiores e privados em relação a ela, também a arrogância por causa da fé, das boas obras e dos bens da Vida Futura, bem como odiar, desprezar e invejar os que ocupam uma posição relativamente inferior, pode fazer com que essas boas obras sejam anuladas e que a própria fé seja tomada. Foi assim que aconteceu com Iblis, Barsisa e Balam Baura. Portanto, é dever agradecer a Allah a cada instante pela própria fé, temor a Allah e sinceridade, e suplicar pela sua permanência.
(2) A fé e as boas obras são anuladas por causa da inveja, da hostilidade, da ostentação e da confusão de intenções. O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “A inveja devora as boas obras assim como o fogo devora a madeira seca.” Portanto, deve-se vigiar constantemente o coração e buscar o refúgio de Allah, para que essas coisas não destruam a fé e as obras, que são os preciosos bens adquiridos com tanto esforço.
64. Desesperar-se da misericórdia de Allah
Allah, o Altíssimo, disse: “Dize: Ó Meus servos que transgrediram contra si mesmos, não vos desespereis da misericórdia de Allah. Por certo, Allah perdoa todos os pecados. Ele é o Perdoador, o Misericordioso.” (Surata Az-Zumar)
“E ninguém se desespera da misericórdia de Allah, exceto os descrentes.” (Surata Yūsuf)
É narrado em um hadith que, no Dia da Ressurreição, um proclamador chamará em alta voz, vindo da direção do Trono: “Onde está fulano? Onde está fulano?” Quem ouvir esse chamado começará a tremer intensamente de medo. Allah lhe dirá: “És tu quem foi chamado. Vem e apresenta-te diante do Criador dos céus e da terra.” Nesse momento, todos os servos de Allah olharão para o Trono, com os olhos arregalados de medo. Aquele cujo nome foi chamado ficará diante de Allah. Então Allah o ocultará dos olhares de todos os demais com Sua luz e lhe dirá: “Ó Meu servo, não sabias que Eu via na terra todas as tuas ações?” Ele responderá: “Sim, meu Senhor, eu sabia.” Allah dirá: “Ó Meu servo, não ouviste que Eu castigo severamente o servo que Me desobedece?” Ele responderá: “Sim, ouvi.” Allah dirá: “Ó Meu servo, desobedeceste-Me?” Ele responderá: “Sim, algumas vezes.” Allah dirá: “Qual é hoje a tua opinião a Meu respeito?” Ele responderá: “Ó meu Senhor, penso que Tu me perdoarás.” Allah dirá: “Estavas certo de que Eu te perdoaria?” Ele responderá: “Sim, pois Tu me viste cometer pecados, mas os mantiveste ocultos.” Allah dirá: “Perdoei-te e confirmei a veracidade da tua expectativa. Toma, recebe o teu registro de obras na mão direita. Aceitei as boas ações que nele estão e perdoei todas as más ações. Sou Generoso e Misericordioso.”
É narrado em Sahih al-Bukhari e Sahih Muslim que, certa vez, alguns prisioneiros foram levados diante do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Ele viu que, entre os prisioneiros, uma mulher, assim que viu o próprio filho pequeno, tomou-o no colo e começou a amamentá-lo. O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse aos Companheiros: “Achais que essa mulher seria capaz de lançar o próprio filho ao fogo?” Eles responderam: “Não.” Então o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Essa mulher é tão misericordiosa para com o filho, mas Allah é ainda mais misericordioso para com Seus servos.”
É narrado em um hadith qudsi, registrado em Sahih al-Bukhari e Sahih Muslim, que Allah disse: “Sou conforme a expectativa que Meu servo tem de Mim. Estou com ele onde quer que ele se lembre de Mim. Allah se alegra mais com o arrependimento de Seu servo pecador do que aquele que, tendo perdido o camelo no deserto e estando prestes a morrer de desespero, o encontra de volta. Quem se aproxima de Mim um palmo, Eu me aproximo dele um côvado; e quando ele vem caminhando até Mim, Eu vou correndo até ele.”
É narrado em Sahih Muslim que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Se o crente soubesse qual castigo pelo pecado está determinado junto a Allah, ninguém teria esperança de alcançar o Seu Paraíso. E se soubesse quanta misericórdia e compaixão existem junto a Allah, ninguém se desesperaria do Seu Paraíso.”
Não se deve desesperar apenas quanto à salvação na Outra Vida, mas também quanto à felicidade e à paz neste mundo. Allah proibiu todo tipo de desespero, pois o desespero empurra a pessoa para o caminho da destruição, induz o pecador a cometer ainda mais pecados e leva a pessoa afligida por calamidades, dificuldades e carência a práticas pecaminosas como o suicídio, o desejo de morrer e a obtenção de dinheiro por meios ilícitos. Por mais difícil que seja a situação em que uma pessoa se encontre, é seu dever, confiando na esperança da misericórdia de Allah, enfrentar pacientemente todas as circunstâncias por meios lícitos.
(A presente 64ª grande transgressão encontrava-se incompleta na obra original. Ali não havia nada além do primeiro hadith, nem sequer um título. Com base no conteúdo do primeiro hadith, o tradutor completou a 64ª grande transgressão, acrescentando-lhe o título, os demais versículos e os hadiths.)
65. Abandonar a oração em congregação sem desculpa e rezar sozinho
Foi narrado em Sahih Muslim e Sunan Ibn Majah que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), referindo-se a um grupo de pessoas habituadas a abandonar a oração em congregação, disse: “Tenho vontade de designar outra pessoa para dirigir a oração e depois ir queimar as casas daqueles que abandonam a congregação.” Em outro hadith de Sahih Muslim, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Aqueles que estão habituados a abandonar a oração em congregação devem abandonar esse hábito; caso contrário, Allah certamente selará seus corações e eles certamente se tornarão negligentes.”
Foi narrado em Sunan Abu Dawud e Sunan Ibn Majah que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: Quem abandonar três orações de sexta-feira por desprezo, Allah selará seu coração. O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) também disse: “Aquele que abandonar a oração de sexta-feira sem desculpa e sem receio de qualquer dano será registrado como hipócrita em um registro do qual nada foi apagado nem alterado.”
Foi narrado em Sunan an-Nasa’i que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “A oração de sexta-feira é obrigatória para todo homem adulto.”
Foi narrado em Sunan Abu Dawud que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Aquele que ouviu o chamado para a oração e, sem qualquer desculpa, absteve-se de ir à congregação, não terá sua oração (realizada em casa) aceita.”
66. Prejudicar algum herdeiro por meio de um testamento
Foi narrado em Jami at-Tirmidhi, Sunan Abu Dawud e Sunan Ibn Majah que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Se um homem ou uma mulher obedecer plenamente a Allah durante sessenta anos, depois se aproximar da morte e prejudicar outra pessoa por meio de um testamento, o Inferno se tornará inevitável para essa pessoa.”
Foi narrado em Sunan Ibn Majah que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Quem usurpar a herança de alguém, Allah privará essa pessoa da herança do Seu Paraíso.”
Em Jami at-Tirmidhi consta que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Allah garantiu a cada pessoa o seu direito legítimo. Portanto, não é permitido fazer um testamento em favor de qualquer herdeiro.”
67. Enganar, trapacear e conspirar
Allah, o Altíssimo, diz: “A má conspiração cerca por todos os lados aquele que conspira. O Mensageiro (S.A.) disse: O lugar do conspirador e do enganador é o Inferno. O Mensageiro (S.A.) disse: Nenhum enganador, avarento ou caluniador entrará no Paraíso. No Sagrado Alcorão, Allah, o Altíssimo, descreveu o engano como uma característica dos hipócritas: “Eles (os hipócritas) enganam Allah e os crentes.” Em um hadith de Sahih Muslim, o Mensageiro (S.A.) disse: Quem enganar alguém no que diz respeito aos seus bens e à sua família estará no Inferno. (Falsificar produtos — imitações, adulterações, moedas, certificados, passaportes e outros documentos — e tentar alcançar objetivos ilícitos disfarçando-se com roupas de pessoas de outra profissão também fazem parte da fraude e da falsificação — Tradutor.)
68. Avareza, desperdício e esbanjamento, isto é, gastos ilícitos e desordenados
Allah, o Altíssimo, diz: “Não mantenhas tua mão acorrentada ao pescoço, nem a estendas completamente.” Isto é: não sejas avarento, nem desperdices ou esbanjes. Allah também diz: “Não esbanjeis. Na verdade, os esbanjadores são irmãos dos demônios.” (Surata Bani Isra’il)
O Mensageiro (S.A.) disse: “O avarento jamais entrará no Paraíso.” Allah diz: “Que aqueles que são avarentos com os bens que Allah lhes concedeu não pensem que isso é bom para eles. Ao contrário, isso é mau para eles. Aquilo com que são avarentos será pendurado em seus pescoços no Dia da Ressurreição.” Allah também diz: “Ai daqueles que não emprestam as coisas de uso necessário.” (Surata Al-Ma’un)
Em suma, assim como se deve obedecer às determinações da Shariah ao adquirir riqueza, também se deve seguir as determinações da Shariah ao gastá-la. Não gastar, ou gastar menos, nas necessidades e nos casos determinados pela Shariah é avareza; gastar além do necessário é desperdício; e desperdiçar dinheiro também é desperdício. Tudo isso está incluído nos gastos ilícitos e desordenados e constitui um pecado grave. O luxo também é uma forma de desperdício.
69. Revelar aos inimigos os assuntos secretos dos muçulmanos
O ilustre Sahabi e combatente de Badr, Hatib ibn Abi Balta’a, pretendia revelar o plano do Mensageiro (S.A.) para a conquista de Makkah, visando garantir a segurança de sua família que se encontrava em Makkah. Ao tomar conhecimento disso oportunamente por meio da revelação, o Mensageiro (S.A.) tomou medidas imediatas, e sua carta não conseguiu chegar a Makkah. Hazrat Umar pediu permissão para matar o referido Sahabi, protagonista desse incidente, acusando-o de ser um hipócrita. Porém, o Mensageiro (S.A.) não lhe deu permissão. Ele aceitou a desculpa e a explicação de Hatib e o perdoou. Contudo, não há dúvida de que esse ato era injusto. Ele foi considerado digno de perdão somente por ser um combatente de Badr. Em qualquer outra pessoa, tal ato não seria digno de perdão.
70. Insultar qualquer Companheiro
Este hadith, narrado em Sahih al-Bukhari e Sahih Muslim, já foi mencionado anteriormente: “Allah diz (no hadith qudsi): ‘Quem tratar algum dos Meus amigos com hostilidade, contra ele declararei guerra.’ O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: ‘Não insulteis os meus Companheiros. Juro por Aquele em cuja mão está a minha alma: mesmo que algum de vós gaste no caminho de Allah ouro equivalente ao monte Uhud, ainda assim não alcançará o mérito de um Companheiro, nem sequer a metade dele.’” (Sahih al-Bukhari e Sahih Muslim)
O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) também disse: “Temei a Allah no que diz respeito aos meus Companheiros. Não os tomeis como alvo de insultos após o meu falecimento. Quem os amar, amá-los-á movido pelo amor que tem por mim; e quem nutrir ódio por eles, nutrirá ódio por eles devido ao ódio que tem por mim. Quem lhes causar sofrimento, causar-me-á sofrimento; e quem me causar sofrimento, causará sofrimento a Allah. E quem causar sofrimento a Allah, Ele em breve o castigará.” (Jami‘ at-Tirmidhi)
A principal razão da importância e do mérito dos nobres Companheiros é que eles creram diretamente no Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), receberam dele sua formação e, juntamente com ele, empenharam-se no jihad, na propagação e no estabelecimento da religião. Eles são a melhor e a primeira geração desta ummah. Se eles não tivessem existido, nada teríamos recebido do Alcorão, do Hadith e da Sharia. Portanto, insultá-los e nutrir ódio por eles equivale a nutrir ódio pelo próprio Allah, pelo Mensageiro e pela religião, e a afastar-se do Islam.
Entre todos os Companheiros, dez são os superiores. Eles são os Asharah Mubashsharah, isto é, aqueles que receberam a boa-nova do Paraíso ainda em vida. Entre eles, os quatro califas são os mais superiores. Sobre eles, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Apegai-vos à minha prática e, depois de mim, segui a prática dos califas bem guiados. Segui-os firmemente e rejeitai as práticas recém-inventadas que estão fora da Sharia.”
É verdade que surgem algumas dificuldades em relação às questões sobre as quais houve divergência entre os nobres Companheiros. Contudo, nesse caso, é mais seguro manter o silêncio. Se for absolutamente indispensável expressar uma opinião, deve-se apoiar a opinião da maioria dos Companheiros e a prática dos califas corretamente guiados, dando a máxima prioridade à posição do Alcorão e da Sunnah. Entretanto, nunca será permitido fazer comentários desfavoráveis sobre os Companheiros que sustentaram opiniões diferentes. Não se pode duvidar de sua sinceridade, devoção, honestidade e veracidade. Em termos gerais, devemos manter a respeito deles a mesma crença proclamada no Alcorão: “Allah está satisfeito com eles, e eles estão satisfeitos com Allah.” Portanto, eles estão acima de todas as divergências da ummah. Apesar de algumas divergências entre eles, e mesmo tendo ocorrido entre eles a Batalha do Camelo e a Batalha de Siffin, todos são, sem dúvida, habitantes do Paraíso. Em vez de nos preocuparmos com suas ações, é nosso dever preocuparmo-nos com o nosso próprio destino.
Conclusão
(Acréscimo do tradutor)
Rendo milhares de graças ao Altíssimo Allah por ter concedido a este humilde servo a oportunidade de traduzir uma obra tão necessária e grandemente benéfica quanto a mundialmente famosa obra do Imame al-Dhahabi, “Kitab al-Kaba’ir”. É muito provável que quase todos os “pecados maiores” que ele reuniu nesta obra sejam unanimemente considerados pecados maiores por todos os grupos e escolas jurídicas de Ahl al-Sunna wa-l-Jama‘a. Talvez tenha sido justamente ao elaborar uma lista desses pecados maiores fundamentais e consensuais que ele precisou limitá-la a 70. Caso contrário, essa lista poderia ter sido ainda mais extensa.
Por considerar que, além dos 70 aqui discutidos, alguns outros pecados maiores são extremamente graves, apresento, nesta conclusão, breves provas e evidências do Alcorão e dos hadiths. Espero que leitores de todas as classes se beneficiem delas.
Mais 35 pecados maiores graves
1. Exagero e extremismo em relação ao Islam, isto é, ghulu fi’d-din e ikrah fi’d-din
Na terminologia islâmica, o exagero nos assuntos religiosos ou a coerção injustificada é chamado de “ghulu fi’d-din” ou “ikrah fi’d-din”. Isso é unanimemente haram e constitui um pecado maior. Pode-se chamar de exagero dar a uma coisa mais importância do que aquela que lhe foi dada no Alcorão e nos hadiths originais. Por exemplo, considerar uma ação nafl ou mustahabb obrigatória como um fard ou wajib, obrigar os outros a praticá-la, usar coerção e puni-los ou repreendê-los caso não a pratiquem constitui exagero. Da mesma forma, considerar makruh algo haram e obrigar os outros a abandoná-lo também se inclui no exagero.
Impedir os adeptos de outras religiões de realizar suas próprias cerimônias religiosas, privá-los de seus direitos religiosos, sociais e civis, insultar suas divindades ou convertê-los à força ao Islam também se inclui no exagero. Allah, o Altíssimo, disse: “Ó Povo do Livro! Não exagereis em vossa religião.” (Surata al-Ma’ida)
Ele também disse: “Não há coerção na religião.” (Surata al-Baqara) Em outra passagem, disse: “Ó crentes! Não torneis haram as coisas puras que Allah vos tornou halal, e não transgridais os limites. Allah não aprecia os transgressores.” (Surata al-Ma’ida) Em outra passagem, Allah disse: “Não insulteis aqueles que invocam outros além de Allah, pois eles, por ignorância, insultariam Allah.” (Surata al-An‘am) O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Aquele que causar dano a um cidadão não muçulmano pacífico, no Dia da Ressurreição eu mesmo apresentarei uma queixa contra ele.”
É importante observar, neste contexto, que não é censurável realizar mais atos de adoração nafl depois de cumprir todos os deveres obrigatórios, com o objetivo de aproximar-se de Allah, nem aconselhar os outros e incentivá-los a fazê-los. Do mesmo modo, pregar o Islam aos não muçulmanos não constitui interferência em sua liberdade religiosa. Tampouco é exagero obrigar um muçulmano que abandona os atos fard e wajib e está habituado a praticar atos haram a cumprir os atos fard e wajib e abandonar os atos haram. Contudo, ninguém, exceto uma pessoa ou autoridade autorizada pela Sharia e investida de poder legal, tem o direito de exercer tal coerção. Na realidade, a coerção e o exagero não trazem nenhum benefício, salvo afastar, de fato, o coração das pessoas do Islam.
2. Negligência e flexibilidade excessiva em relação ao Islam
Isso é exatamente o oposto do exagero mencionado anteriormente. Na terminologia islâmica, isso é chamado de “mudahanat fi’d-din”. Devido à escravidão mental diante das forças que se rebelam contra Deus, vitoriosas e estabelecidas, uma parcela dos muçulmanos fracos é acometida por essa doença. Essa doença tem três sinais ou características:
(1) Considerar os atos fard, wajib e sunan mu’akkada opcionais, como os atos nafl ou mustahabb, negligenciar sua prática e considerar os atos haram como se fossem makruh ou mubah, demonstrando negligência em abandoná-los.
(2) Relacionar-se e cooperar sinceramente com pessoas envolvidas em pecados públicos e pecados maiores, bem como com os hipócritas.
(3) Manter relações de afeição sincera e amizade com não muçulmanos.
Allah, o Altíssimo, disse: “Jamais encontrarás pessoas que creem em Allah e no Último Dia mantendo relações de afeição e amor com aqueles que desobedecem a Allah e ao Mensageiro, ainda que esses desobedientes sejam seus pais, seus filhos ou seus parentes.” (Surata al-Mujadala)
O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Nenhum de vós será crente até que eu lhe seja mais amado do que seu pai, seu filho e todas as pessoas.”
Allah diz: “Anuncia aos hipócritas a boa-nova de um castigo doloroso: eles tomam os descrentes como amigos em vez dos crentes.” (Surata an-Nisa)
Allah também disse: “Ó crentes! Não tomeis os judeus e os cristãos como amigos ou protetores. Quem dentre vós os tomar como tais será um deles.”
Devido à proibição da amizade com os não muçulmanos, também é haram adotar semelhanças com eles e seguir seus modos de vida, costumes, tradições e leis. (Em situações adversas, não há problema em demonstrar amizade apenas para aparentar.)
3. Envolver-se em bid‘ah
Considerar como parte do Islã, seguir, instituir e considerar como ato de recompensa qualquer crença, convicção, ideia, costume, tradição, lei ou algo semelhante que seja alheio ao Islã é bid‘ah. O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Quem acrescentar algo novo ao Islã será rejeitado.”
Allah diz: “Quem não julgar conforme as leis de Allah é incrédulo, injusto… transgressor.” (Surata Al-Ma’idah)
O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “O arrependimento e a súplica de quem pratica bid‘ah não serão aceitos enquanto ele não abandonar a bid‘ah.”
É importante observar que adotar novos meios e métodos adequados à época, para o benefício do Islã e dos muçulmanos, não é bid‘ah; por exemplo, fundar instituições islâmicas de ensino, combater os inimigos do Islã utilizando armas e estratégias modernas, travar lutas eleitorais e políticas sem armas, e assim por diante. Contudo, nesses casos, é obrigatório seguir os princípios fundamentais da Sharia.
4. Ghibah
A ghibah é um grave pecado maior. O Sagrado Alcorão diz: “Não faleis mal uns dos outros pelas costas. Acaso algum de vós gostaria de comer a carne de seu irmão morto? Certamente, detestaríeis isso.” (Surata Al-Hujurat)
Em um hadith, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Sabeis o que é ghibah?” Os Companheiros disseram: “Allah e Seu Mensageiro sabem melhor.” O Mensageiro disse: “Falar, na ausência de teu irmão muçulmano, algo sobre ele que ele não gostaria.” Os Companheiros disseram: “Ó Mensageiro, e se aquilo que digo realmente existir nesse irmão?” O Mensageiro disse: “Sim; se disseres algo que existe nele, terás cometido ghibah. E, se disseres algo que não existe nele, terás lançado uma calúnia contra ele (o que é um pecado ainda maior).”
Outro hadith diz: quando Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) fez alusão à estatura relativamente baixa de Hazrat Safiyya, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) disse-lhe: “Se aquilo que disseste fosse misturado ao mar, até mesmo suas águas abundantes ficariam contaminadas.”
Entretanto, a maledicência é permitida em seis casos. São eles:
(1) o oprimido apresentar uma queixa contra o opressor à autoridade competente;
(2) criar a opinião pública e um ambiente para outras formas de resistência, a fim de impedir que uma pessoa continuamente imersa em grandes pecados envolva toda a sociedade em más ações;
(3) mencionar a falta de alguém ao dar os detalhes do caso ao pedir uma fatwa a um mufti;
(4) proteger os muçulmanos comuns das garras de alguma pessoa nociva disfarçada, como um falso pir, um erudito ou imã incompetente e pecador, uma testemunha falsa ou um narrador de hadiths inventados; aconselhar alguém a se proteger de uma pessoa nociva em questões de casamento, sociedade comercial ou qualquer outro assunto; e divulgar a lista das más ações de uma pessoa desonesta e sedenta de poder, para impedir que ela seja eleita ao obter votos;
(5) formar a opinião pública para derrubar um governante tirânico no poder;
(6) quando uma deficiência involuntária de alguém se torna parte de sua identificação, como cego, aleijado, surdo etc.
Discutir as falhas de uma pessoa sem mencionar seu nome não constitui maledicência.
5. Tomar o poder e governar à força, sem aceitar a opinião e sem consultar os muçulmanos; tomar o poder por meio de fraude e astúcia; candidatar-se pessoalmente a um cargo; nomear um candidato ao cargo.
O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) disse: “Eu amaldiçoei seis pessoas; Allah as amaldiçoou, e todos os profetas as amaldiçoaram.”
(1) aquele que acrescenta algo novo ao Livro de Allah;
(2) aquele que nega o destino;
(3) aquele que assume à força o poder sobre minha comunidade, humilha aqueles a quem Allah honrou e honra aqueles a quem Allah humilhou;
(4) aquele que considera lícito aquilo que Allah declarou proibido;
(5) aquele que humilha os meus descendentes; e
(6) aquele que abandona a minha Sunnah. (Tabarani)
O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) também disse: “Aquele que se candidata a algum cargo é indigno desse cargo.”
Allah, o Altíssimo, disse: “Consulta os muçulmanos nos assuntos de governo.” (Surata آل عمران)
6. Apesar de ter autoridade, não ordenar o bem nem proibir ou impedir o mal; não cooperar com as boas ações ou impedi-las; cooperar com as más ações ou apoiar o opressor.
Na Surata Al-Ma’idah, Allah diz: “Aqueles dentre os filhos de Israel que se entregaram à incredulidade foram amaldiçoados pela boca de Davi e de Jesus, filho de Maria. Isso porque desobedeciam, transgrediam os limites e não proibiam as más ações.”
Em outro versículo da Surata Al-Ma’idah, Allah diz: “Ajudai-vos mutuamente na retidão e na piedade, e não vos ajudeis no pecado e na transgressão.”
O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: «Juro por Aquele em cuja mão está a minha vida: vós certamente ordenareis o bem e proibireis o mal; caso contrário, em breve Allah fará descer sobre todos vós um castigo abrangente. Então, mesmo que supliqueis, vossas súplicas não serão aceitas.» (Tirmidhi)
O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) também disse: «Quando as pessoas veem um opressor cometendo uma injustiça, mas não o impedem, Allah faz descer sobre elas um castigo abrangente.» (Abu Dawud, Tirmidhi, Nasa’i)
O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) também disse: «Quando algum de vós vê uma ação má, deve impedi-la com a força; se não puder, deve proibi-la com a palavra; e, se não puder, deve pensar em resistir a ela ou odiá-la em seu coração. Este último método é o nível mais fraco da fé.»
7. Passar diante de alguém que está orando
O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: «Se aquele que passa diante de alguém que está orando soubesse qual é a consequência disso, consideraria preferível permanecer de pé durante quarenta dias a passar diante dele.»
8. Sujar e poluir o meio ambiente
Jabir (que Allah esteja satisfeito com ele) relatou que «o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) proibiu urinar em águas paradas». (Sahih Muslim) O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) também disse: «Cuidado com aquele que urina ou defeca nos caminhos por onde as pessoas passam e sob a sombra das árvores, especialmente sob árvores frutíferas.»
9. Impedir, por meio de influência, recomendação ou qualquer outro método, a aplicação dos hudud islâmicos ou da legislação penal, e discriminar na aplicação das penas
Foi relatado por Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) que uma mulher chamada Fátima, da tribo de Banu Makhzum, fora presa por roubo, e os coraixitas deram grande importância à questão da aplicação da pena de cortar-lhe a mão. Começaram a dizer entre si: «Quem podemos enviar para interceder por ela junto ao Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele)?» Todos disseram: «Ninguém conseguirá fazê-lo, exceto Usama ibn Zayd, a pessoa mais querida do Mensageiro.» Assim, Usama foi interceder. O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: «Vieste interceder acerca de uma pena determinada por Allah?» Em seguida, levantou-se e começou a proferir um sermão. Disse: «Vossos predecessores foram destruídos justamente porque, quando uma pessoa nobre cometia um crime, eles a deixavam impune; mas, quando uma pessoa fraca cometia um crime, aplicavam-lhe a pena. Juro por Allah: se até minha filha Fátima roubasse, eu também lhe cortaria a mão.» Depois disso, cortaram a mão da referida mulher. (Sahih al-Bukhari, Sahih Muslim)
10. Deixar de falar com um muçulmano ou romper relações com ele por mais de três dias
Abu Aiube Ansari disse que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) afirmou: “É haram romper as relações com um irmão muçulmano por mais de três dias. Contudo, entre os dois, aquele que primeiro o cumprimentar com salam e restabelecer a relação será o melhor.” (Sahih al-Bukhari, Sahih Muslim)
11. Não obedecer ao Amir, isto é, ao líder dos seguidores do Islã, e morrer sem fazer parte de nenhuma Jamaat islâmica
Allah diz: “Ó crentes, obedecei a Allah, obedecei ao Mensageiro e às autoridades dentre vós.” (Surata An-Nissa)
O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) afirmou: “Todo muçulmano deve obedecer à ordem de seu líder, quer goste dela ou não, enquanto não lhe for ordenado cometer um pecado. Quando lhe for ordenado cometer um pecado, não deverá obedecer.” (Sahih al-Bukhari, Sahih Muslim)
O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) também afirmou: “Quem morrer sem fazer parte de nenhuma Jamaat islâmica morrerá uma morte de Jahiliyyah.” É importante observar que, durante a vida do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), havia apenas uma Jamaat islâmica, cujo líder era o próprio Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Posteriormente, qualquer organização que possua as quatro características a seguir será considerada uma Jamaat islâmica:
(1) Todas as decisões do grupo serão tomadas de acordo com o Alcorão e a Sunnah.
(2) Quando não houver uma orientação clara no Alcorão e na Sunnah, será adotada uma decisão com base em consulta mútua.
(3) O objetivo do grupo será estabelecer plenamente o Islã no país.
(4) O grupo terá um sistema de crítica mútua entre líderes e membros.
É importante observar que também não é permitido desobedecer às ordens e leis do governo que não sejam contrárias à Sharia.
12. Canto, instrumentos musicais e dança
Tocar e ouvir todos os instrumentos de melodias suaves e tristes é haram e constitui um pecado grave. Se uma canção contiver palavras que incentivem atos proibidos, for cantada por uma voz feminina ou for acompanhada de instrumentos proibidos, então ela será haram e constituirá um pecado grave. A respeito do “lahw al-hadith”, cuja condenação aparece na Surata Luqman do Sagrado Alcorão, o venerável Ibn Masud afirmou enfaticamente que isso significa canto. O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) afirmou que o dinheiro obtido por cantores e cantoras não é halal. (Tirmidhi) Pela mesma razão, isto é, por incitar a atos proibidos, especialmente à fornicação, a dança também é haram. Assistir, ouvir e organizar esses eventos constitui um pecado grave.
Da mesma forma, conversas, peças teatrais, romances, jogos e outras coisas que incentivem a obscenidade e atos haram também são haram. O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) afirmou: “Vim ao mundo para destruir os instrumentos musicais.”
É importante observar que não haverá pecado se uma canção sem conteúdo obsceno for cantada por uma voz masculina e sem instrumentos musicais.
13. Violar as normas da modéstia islâmica e promover a disseminação da obscenidade; expor a awrah, isto é, as partes do corpo que devem ser cobertas, sem uma justificativa válida segundo a Sharia
Para eliminar da sociedade a possibilidade de adultério, as normas da modéstia islâmica foram reveladas no Islã, e foi proibida a disseminação da falta de pudor e da obscenidade. Violar essas normas é um pecado grave. Allah, o Altíssimo, diz: “Dize aos homens crentes que baixem os seus olhares e protejam as suas partes íntimas… E dize às mulheres crentes que baixem os seus olhares, protejam as suas partes íntimas e não exibam a sua beleza diante de homens que não lhes sejam legítimos.”
O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Aquele que lançar um olhar lascivo para a esposa de outro homem terá chumbo derretido derramado nos olhos no Dia da Ressurreição.”
O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) também disse: “Quando um homem e uma mulher que não sejam legítimos um para o outro se encontram em reclusão, Satanás se torna o terceiro companheiro deles.”
Allah diz: “Aqueles que gostam que a falta de pudor e a obscenidade se disseminem entre os crentes terão um castigo doloroso neste mundo e na Outra Vida.”
Portanto, qualquer ação, palavra, texto, imagem, peça teatral, romance ou filme que incentive a violação da modéstia islâmica ou contribua para a disseminação da obscenidade é haram e constitui um pecado grave.
14. Armazenar alimentos por mais de quarenta dias e alegrar-se com o aumento dos preços dos alimentos
O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Aquele que armazenar qualquer alimento por mais de quarenta dias não terá o pecado de armazená-lo perdoado, mesmo que doe esse alimento como caridade.”
No entanto, é permitido que o governo armazene alimentos além da necessidade, por iniciativa oficial, para enfrentar uma possível fome.
15. Protelar o pagamento de uma dívida apesar de ter condições de pagá-la, assediar o credor ou não pagar os salários
O Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: “A demora, por parte de uma pessoa rica, em pagar o que deve equivale a uma injustiça.” (Sahih al-Bukhari e Sahih Muslim)
O Mensageiro (que a paz esteja com ele) também disse: “Pagai o salário do trabalhador antes que seu suor seque.”
16. Invejar e desejar o mal às pessoas
Desejar, de qualquer forma, a destruição ou o dano aos bens mundanos ou referentes à vida futura, materiais ou morais, de alguém, e sentir aflição diante de seu progresso, felicidade e prosperidade, é o que se chama inveja.
O Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: “Afastai-vos da inveja, pois, assim como o fogo consome a madeira seca, a inveja destrói as boas ações realizadas.”
17. Criar divisão, discriminação e desunião entre os muçulmanos com base na língua, cor, linhagem, regionalismo etc.; menosprezar uns aos outros, zombar e repreender uns aos outros
Deus Altíssimo disse: “Ó crentes, que um grupo não zombe de outro grupo; talvez estes sejam melhores do que aqueles. … Não vos repreendais uns aos outros nem vos atribuais apelidos ofensivos. Que coisa terrível é insultar depois da fé.”
Deus também disse: “Apegai-vos todos, juntos, à corda de Deus e não vos dividais.” (Al Imran)
O Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: “Um homem disse: ‘Por Deus, Deus jamais perdoará fulano.’ Então Deus disse: ‘Quem és tu para dizer que não perdoarei? Eu o perdoei e anulei as tuas boas ações.’” (Sahih Muslim)
18. Alegrar-se com a desgraça de um muçulmano
O Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: “Não te alegres com a desgraça de teu irmão muçulmano. Do contrário, Deus o livrará da desgraça e te fará sofrer uma desgraça.” (Tirmidhi)
19. Crueldade para com as crianças e desrespeito para com os mais velhos
O Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: “Aquele que não demonstra carinho pelos mais jovens e não respeita os mais velhos não faz parte da minha ummah.”
Contudo, disciplinar os mais jovens para ensiná-los a oração e a boa conduta é uma obrigação indispensável.
20. Mendigar sem necessidade, pedir os serviços e a ajuda de outros, depender dos outros e contrair dívidas
Hakim ibn Hizam (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: Eu pedi ajuda ao Mensageiro (que a paz esteja com ele) três vezes. Todas as vezes ele me ajudou e disse: “Ó Hakim, ouça! Todas essas riquezas são muito tentadoras e agradáveis. Para aquele que as aceita voluntariamente, elas não são benéficas. Lembre-se: a mão que dá é melhor do que a mão que recebe.” Eu disse: “Ó Mensageiro de Allah, depois de você não pedirei nada a mais ninguém.” Depois disso, embora Abu Bakr e Umar tenham desejado ajudá-lo, Hakim não aceitou. (Sahih al-Bukhari, Sahih Muslim)
O Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: Aquele que mendiga não terá ouro no rosto no Dia da Ressurreição.
O Mensageiro (que a paz esteja com ele) também disse: Allah endivida aquele a quem deseja lançar no castigo neste mundo.
O Mensageiro (que a paz esteja com ele) também disse: “Aquele que garantir que não pedirá nada a nenhuma pessoa, eu lhe garantirei o Paraíso.” (Abu Dawud)
21. Humilhar alguém revelando publicamente os pecados que cometeu anteriormente e revelar a privacidade de alguém sem sua permissão
O Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse: “Aquele que humilhar seu irmão muçulmano revelando um pecado que ele abandonou e pelo qual se arrependeu não morrerá sem se envolver nesse pecado.”
22. Alimentar uma má opinião sobre qualquer muçulmano sem provas
Allah diz: «Ó crentes! Evitai alimentar demasiadas suspeitas, pois algumas suspeitas são pecado.» (Surata Al-Hujurat)
O Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: «Evitai as suspeitas, pois alimentar suspeitas é a maior das mentiras.» (Sahih Al-Bukhari, Sahih Muslim)
O Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: «Tende uma boa opinião sobre os crentes.»
É importante observar que é ilícito alimentar uma má opinião imaginária e infundada. Se, por uma razão plausível, surgir espontaneamente uma má opinião, não haverá pecado nisso. Contudo, não é permitido tomar qualquer medida com base nela sem provas.
23. Profanar a mesquita
Transformar a mesquita num edifício comum, cuspir nela e torná-la impura, realizar compras e vendas e anunciar objetos perdidos, falar em voz alta e discutir, impedir a realização de atividades islâmicas na mesquita, tentar destruir a mesquita e nomear um incrédulo ou um ímpio como administrador da mesquita. Allah diz: «Quem é mais injusto do que aquele que impede que o nome de Allah seja mencionado nas mesquitas de Allah e tenta destruí-las?» (Surata Al-Baqarah)
Amr ibn Shu’ayb narra que o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) proibiu realizar compras e vendas e anunciar objetos perdidos na mesquita.
O Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: «Quem comer cebola ou alho (crus) não deve sequer aproximar-se da mesquita.»
O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) também disse: Cuspir na mesquita é um pecado, e sua expiação é removê-lo.
Contudo, ensinar na mesquita, realizar julgamentos, consultar-se e conversar não são censuráveis. É ilícito uma mulher menstruada ou um homem impuro que necessita realizar o ghusl obrigatório ou recomendado entrar na mesquita.
24. Falar sobre assuntos desconhecidos, espalhar rumores, acreditar em rumores sem investigação e ocultar aquilo que se sabe
Allah diz: “Não sigas aquilo de que não tens conhecimento.” (Surata Bani Israil) O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “É suficiente para um homem ser considerado mentiroso que divulgue tudo o que ouve.” (Sahih Muslim)
O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) também disse: “Quem possuir algum conhecimento necessário ao povo, mas o ocultar, no Dia da Ressurreição receberá um freio de fogo.
25. Não tratar a família de acordo com a Sharia, não agir com justiça e violar as determinações da Sharia relativas ao casamento e ao divórcio
Quando se tem mais de uma esposa, não tratar cada uma igualmente; casar-se com mais de uma mulher sem ter certeza de que poderá agir com justiça para com todas; divorciar-se da esposa pronunciando os três divórcios de uma só vez; divorciar-se dela enquanto estiver menstruada; expulsá-la de casa durante o período de iddah. Manter a esposa suspensa, isto é, não se divorciar dela nem manter com ela uma relação normal; privar algum dos filhos da herança ou dar-lhes parcelas desiguais; tratar os filhos de forma desigual nas transações enquanto se está vivo, especialmente as filhas; pressionar a esposa para que traga um dote; não pagar o mahr à esposa; não casar os filhos adultos sem uma justificativa; permanecer solteiro por toda a vida sem justificativa. O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “O casamento é minha sunnah. Quem desprezar minha sunnah não faz parte da minha comunidade.” O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) também disse: “Aquele que é bom para sua esposa é também bom aos olhos de Allah.”
26. Viver conscientemente na companhia de uma pessoa pecadora e contrária ao Islã, votar nela, elogiá-la e obedecer-lhe, e aceitar qualquer coisa que não seja a honestidade como critério de liderança
Allah diz: “Não obedeças àquele que Eu tornei negligente em relação à Minha lembrança e que segue os seus próprios desejos.” (Surata Al-Kahf) O Mensageiro (s.a.w.) disse: “Quando um ímpio é elogiado, Allah fica irado e o Trono treme.” Allah diz: “Certamente, o mais honrado entre vós é aquele que mais teme a Allah.”
27. Não adquirir o conhecimento indispensável e mínimo do Islão, isto é, do Alcorão e dos hadices
O Mensageiro (s.a.w.) disse: “Adquirir conhecimento sobre o Islão é obrigatório para todo homem e toda mulher muçulmanos.”
28. Praticar atos de adoração em horários proibidos e em estados proibidos
Jejuar nos dois Eids e nos dias de Tashriq (11, 12 e 13 de Zul-Hijjah), rezar deliberadamente em estado de impureza, rezar durante o nascer e o pôr do sol, recitar o Alcorão, fazer súplicas ou praticar o dhikr enquanto se está na latrina ou no banheiro, ou durante a evacuação e a micção, entre outras coisas. Muitos hadices proibiram severamente essas ações.
29. Controlar a natalidade por meios como matar o feto, abortar ou esterilizar, por mero medo da pobreza, exceto por razões de saúde ou por grave risco de vida
Allah diz: “Não mateis os vossos filhos por medo da pobreza.” (Bani Isra’il)
30. Deixar de realizar a oração de sexta-feira sem uma justificativa e violar as regras da oração de sexta-feira
Falar, rezar ou recitar súplicas e bênçãos durante o sermão do imame; chegar tarde à mesquita e tentar passar à frente daqueles que chegaram antes. Allah diz: “Ó crentes! Quando, na sexta-feira, fordes chamados para a oração, apressai-vos para a lembrança de Allah e deixai os negócios.” (Surata Al-Jumu’a) O Mensageiro (s.a.w.) disse: “Depois que o imame subir ao púlpito, não se deve fazer nenhuma oração nem conversar.”
31. Insultar, desprezar e negligenciar o Alcorão e os hadiths; interpretá-los erroneamente por ignorância; tocar o Alcorão em estado de impureza; não ouvi-lo durante sua recitação ou impedir que outros o ouçam; ocultar o conhecimento do Alcorão e dos hadiths, isto é, deixar de divulgá-lo sem justificativa ou impedir sua divulgação; negar e desobedecer aos hadiths autênticos; iniciar atos contrários ao Islã com a fórmula Bismillah ou com a recitação do Alcorão, e coisas semelhantes.
Allah diz: “Quando o Alcorão for recitado, escutai-o e permanecei em silêncio, para que talvez vos seja concedida misericórdia.” (Al-A’raf)
“Quando os Meus versículos são recitados, verás sinais de repulsa nos rostos dos incrédulos.” (Surata Al-Hajj)
32. Espalhar fitna, isto é, desorientação, na sociedade; criar uma situação em que as pessoas sejam desencorajadas ou impedidas de praticar boas ações e sejam instigadas ou forçadas a praticar más ações.
Allah diz: “A maldição de Allah recai sobre os injustos, que impedem as pessoas de seguir o caminho de Allah.” (Surata Al-A’raf)
33. Deixar de pagar a fitra e de realizar o sacrifício sem justificativa.
O Mensageiro (s.a.) disse: “Quem não realizar o sacrifício sem justificativa, que não se aproxime do nosso local de oração do Eid.”
34. Não responder à saudação de paz sem justificativa e saudar primeiro algum incrédulo.
Allah diz: “Quando alguém vos saudar, retribuí com uma saudação melhor ou, pelo menos, retribuí de modo semelhante.” (Surata An-Nisa) A saudação de paz também é uma súplica. Portanto, é obrigatório respondê-la.
35. Confiar a uma mulher, havendo homens aptos, a liderança e a administração dos homens ou de homens e mulheres conjuntamente
O Mensageiro (S.A.) disse: «Quando a autoridade for confiada às mulheres, para vós será melhor estar debaixo da terra do que sobre a superfície da terra.»
Allah, o Altíssimo, disse: «Os homens têm autoridade sobre as mulheres.» (Surata An-Nissá)
Como se salvar dos pecados maiores
Allah disse: «Ó Meus servos, que cometestes injustiça contra vós mesmos, não desespereis da misericórdia de Allah. Em verdade, Allah perdoa todos os pecados. Ele é Perdoador e Misericordioso.»
Na verdade, é possível obter a libertação de todos os pecados por meio de um arrependimento sincero.
Contudo, há quatro condições para isso:
(1) Arrepender-se sinceramente e sentir vergonha;
(2) Prometer não voltar a cometer esse pecado no futuro;
(3) Abandonar imediatamente e completamente o referido pecado;
(4) Se os direitos de alguém estiverem envolvidos no pecado, caso a pessoa em questão esteja viva, pedir-lhe perdão e, se necessário, conceder-lhe ou aos seus herdeiros uma compensação satisfatória.
Allah prometeu perdoar quem Lhe pedir perdão após cumprir estas quatro condições.