Atende à minha súplica
Em nome de Allah, o Clemente, o Misericordioso
Ser-lhes-á dado de beber um néctar selado
Seu selo é almíscar; e nisso
Que nisso disputem os competidores
Naquele dia, ser-lhes-á dado de beber o mais puro dos néctares, de uma garrafa selada, cujo gargalo foi fechado, no momento de seu engarrafamento, com a fragrância do almíscar. Esta é, em verdade, a recompensa desejável pela qual todo competidor deve esforçar-se para vencer. (Surata Al-Mutaffifin, versículos 25–26)
Ar-Rahiq al-Makhtum — o precioso néctar selado com o qual Allah, o Altíssimo, preparará naquele dia, sobre o Seu Trono Sublime, o banquete para aquele que o merece: ele é a menina dos olhos de toda a criação, o venerável Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz.
Ó Profeta, não sei se Allah sequer incluiu o meu nome na lista dos honrados competidores na disputa, neste mundo, por aquele objeto tão raro. Por isso, para mim, a esperança de encontrar um lugar junto de ti no banquete preparado naquele dia é, de fato, uma vã esperança.
Ó Allah, aceita de mim este pequeno esforço de traduzir Ar-Raheeq Al-Makhtum para o bengali. Em troca, não peço um paraíso, nem sequer aquela toalha de mesa preparada no palácio do Paraíso; peço apenas que, naquele dia, ordenes que lhe seja concedido este reconhecimento: eu pertenço ao teu Mensageiro.
— Khadija Akhtar Rezaei
Em nome de Allah, o Clemente, o Misericordioso
Todos os louvores pertencem a Allah, o Altíssimo, Senhor de todos os mundos. Ele é infinitamente Clemente e extremamente Misericordioso. Ele é o Senhor do Dia do Juízo. Ó Allah, somente a Ti adoramos e somente de Ti pedimos ajuda. Guia-nos pelo caminho reto e correto: o caminho daqueles a quem concedeste Tua graça, não o daqueles sobre quem recaiu Tua maldição, nem o daqueles que se desviaram. (Surata Al-Fátiha)
1
Breve contexto
Algumas palavras minhas, algumas palavras de outros
Allah, o Altíssimo, diz
Certamente, o próprio Allah e todos os Seus anjos enviam bênçãos sobre o Profeta Muhammad; portanto, ó seres humanos, vós que crestes em Allah, enviai também sobre ele bênçãos e saudações sinceras. (Surata Al-Ahzab, 56)
Hazrat Muhammad Mustafa, sallallahu alayhi wa sallam
Nas palavras do próprio autor
Apresentação da obra
Março de 1976. Rabi al-Awwal de 1396 da Hégira.
Realizou-se em Karachi a primeira Conferência Mundial Muçulmana sobre a Sira. A Rabita al-Alam al-Islami, de Meca, desempenhou um papel importante nessa conferência. Na sessão de encerramento da conferência, foi lançado um apelo inédito a todos os escritores do mundo. Nesse apelo, divulgado pela Rabita, solicitava-se a redação, nas línguas vivas do mundo, da biografia do Mensageiro eleito, sallallahu alayhi wa sallam. Foi também anunciado que os cinco primeiros vencedores desse concurso receberiam prêmios. Os valores dos prêmios seriam, respectivamente, 50, 40, 30, 20 e 10 mil riais sauditas. O anúncio do concurso foi publicado em várias edições do jornal Akhbar al-Alam al-Islami, órgão oficial da Rabita al-Alam al-Islami. Naquela época, porém, eu ainda não tinha tomado conhecimento desse anúncio.
Isso aconteceu alguns dias depois. Fui de Benarés para minha aldeia natal, Mubarakpur. Ali, meu primo materno, Maulana Abdur Rahman Mubarakpuri, filho de Shaykh al-Hadith Maulana Ubaidullah Sahib, contou-me sobre o assunto. Ele aconselhou-me a participar do concurso. Mencionei minhas limitações de conhecimento e declarei-me incapaz. Mas Maulana Abdur Rahman não desistia. Humildemente, repetia várias vezes: não é porque o senhor ganhará um prêmio no concurso; quero, antes, que por meio disso se realize uma boa obra. Mesmo após os repetidos pedidos de meu primo, permaneci calado. Pensava comigo mesmo que certamente não participaria do concurso.
Alguns dias depois, essa notícia também foi publicada no periódico quinzenal da Jamiat Ahl-e-Hadith da Índia. Assim que a notícia foi publicada, uma grande parte dos estudantes de todos os níveis da Jamia Salafia começou a pedir-me que participasse do concurso. Pensei comigo que o eco de tantas vozes provavelmente era um reflexo da vontade de Allah Todo-Poderoso. Ainda assim, permaneci interiormente quase firme na decisão de não participar do concurso. Depois de algum tempo, diminuíram a insistência nos pedidos e conselhos. Entretanto, alguns estudantes continuaram insistindo. Alguns chegaram também a dar diversos conselhos relacionados ao tema. Com as súplicas, a humildade e a insistência de alguns estudantes queridos, meus ouvidos acabaram, em certo momento, ficando exasperados.
Comecei o trabalho, mas num ritmo muito lento. Na fase inicial do trabalho chegou o recesso do Ramadã. Enquanto isso, no anúncio da Rábita, havia sido declarado que o primeiro dia do Muharram seguinte seria a data-limite para o recebimento do manuscrito. Já haviam passado cinco meses e meio. Restavam apenas três meses e meio. Nesse período, eu precisava preparar o manuscrito e enviá-lo pelo correio, para que chegasse a tempo. Enquanto isso, todo o trabalho ainda estava pendente. Eu não acreditava que, em tão pouco tempo, seria possível concluir a preparação do manuscrito, sua revisão e a tarefa de fazê-lo copiar. Mas aqueles que me pressionavam diziam que eu deveria continuar o trabalho sem qualquer hesitação. Se necessário, deveria tirar licença. Considerei o período de recesso uma oportunidade de ouro. Todo o recesso passou como um sonho. Quando os que haviam solicitado o trabalho voltaram, viram que dois terços do manuscrito já estavam prontos. Como não havia tempo para revisá-lo, entreguei-o para ser copiado. Eles ajudaram a providenciar o material restante. Depois que a Jamia reabriu, começaram as ocupações. Por isso, não foi possível continuar escrevendo tão rapidamente quanto durante o recesso. Durante o Eid al-Adha, eu escrevia dia e noite e, doze ou treze dias antes do início do mês de Muharram, enviei o manuscrito por correio registrado.
Alguns meses depois, a Rábita confirmou, por meio de uma carta registrada, o recebimento do manuscrito e informou que ele havia sido incluído no concurso por estar de acordo com as condições estabelecidas. Respirei aliviado.
Os dias foram passando. Nesse meio-tempo, um ano e meio se passou. Não havia qualquer notícia da Rábita. Enviei duas cartas. Quis saber o que estava acontecendo. Mas não recebi resposta alguma. Depois, mergulhei no meu próprio trabalho. Quase havia me esquecido de que tinha participado de um concurso sobre a vida do Profeta. Nos dias 6, 7 e 8 de julho de 1978, isto é, no mês de Sha’ban de 1398 da Hégira, realizou-se em Karachi a Primeira Conferência Islâmica Asiática. Eu lia atentamente as diversas notícias relacionadas a esse evento. Certo dia, estava esperando um trem na estação de Bhadohi. O trem estava um pouco atrasado. Comprei o jornal daquele dia e comecei a lê-lo. Meu olhar caiu sobre uma pequena notícia. Em uma sessão da conferência islâmica que se realizava em Karachi, haviam sido anunciados os nomes dos cinco vencedores entre os participantes do concurso sobre a vida do Profeta. Entre eles havia um concorrente indiano. Ao ler a notícia, fiquei interiormente agitado. Mesmo depois de chegar a Varanasi e tentar obter informações detalhadas, não consegui.
Era a manhã de 10 de julho de 1978. Eu estava dormindo. Até tarde da noite, tivera de permanecer ocupado com várias tarefas, inclusive a definição dos temas de um concurso de debates da Jamia. Depois de fazer a oração do fajr, voltara a me deitar. De repente, um grupo de estudantes entrou fazendo alvoroço. Seus rostos irradiavam alegria. Eles me felicitavam. O que aconteceu? O adversário se recusou a participar do debate? Não era isso. Então, o quê? Você conquistou o primeiro lugar no concurso sobre a vida do Profeta.
Ó Allah, agradeço-Te. Onde vocês souberam da notícia? Dessa vez, sentei-me na cama.
O Maulana Wazir Shams trouxe essa notícia. Pouco depois, o próprio Maulana Shams, que viera da conferência, contou-me todos os detalhes.
Em 29 de julho de 1978, correspondente ao dia 22 de Sha’ban de 1398 da Hégira, recebi uma carta registrada da Rábita. Junto com a notícia de que eu havia sido vencedor, fui convidado a receber oficialmente o prêmio na cerimônia da Rábita que seria realizada em Meca, no mês de Muharram de 1399 da Hégira. Mais tarde, porém, essa cerimônia foi realizada em Rabi al-Thani, em vez de Muharram.
Por ocasião da participação na cerimônia, tive pela primeira vez a ventura de visitar as duas cidades sagradas, Haramain Sharifain, a terra do amado Profeta. Cheguei a Meca no dia 10 de Rabi al-Thani. Depois, compareci à cerimônia. Concluídas as formalidades necessárias, por volta das dez da manhã os trabalhos da cerimônia começaram com a recitação do Alcorão. O juiz-chefe da Arábia Saudita, Sheikh Abdullah ibn Humayd, presidia a cerimônia. O príncipe Saud ibn Abdul Muhsin, governador adjunto de Meca e neto do rei Abdul Aziz ibn Saud, chegou como convidado de honra para a entrega dos prêmios. Mais tarde, ele também proferiu alguns discursos. Em seguida, discursou o secretário-geral adjunto da Rábita al-Alam al-Islami, Sheikh Ali al-Mukhtar. Ele explicou com certo detalhamento os objetivos do concurso e mencionou como os vencedores haviam sido selecionados. Informou que, após o anúncio da Rábita, foram recebidos 1.182 manuscritos. Em uma avaliação preliminar, a comissão de seleção indicou 183 manuscritos para o concurso. A responsabilidade pela seleção final foi confiada a uma comissão especialmente escolhida. O presidente dessa comissão era o ministro da Educação, Sheikh Hasan ibn Abdullah Al Sheikh. Seus membros eram professores do Departamento de Sharia da Universidade de Jidá, especialistas na vida do Profeta e na história do Islã. Seus nomes eram os seguintes: Dr. Ibrahim Ali Saut, Dr. Abdul Rahman Fahmi Mohammad, Dr. Mohammad Said Siddiqi, Dr. Fikri Ahmad Okaz, Dr. Ahmad Sayyid Daraj, Dr. Faiq Bakr Sawwaf, Dr. Shakir Mahmud Abdul Mun’im e Dr. Abdul Fattah Mansur.
Após uma seleção gradual, os especialistas deste comitê declararam cinco pessoas aptas a receber os prêmios por estas cinco obras: 1. Ar-Rahiqul Makhtum (árabe), Safiur Rahman Mubarakpuri, Jamia Salafia, Benares, Índia — primeiro lugar; 2. Khatamun Nabiyyin (inglês), Dr. Majed Ali Khan, Jamia Millia Islamia, Délhi, Índia — segundo lugar; 3. Paygambar-e Azam wa Akher (urdu), Dr. Nasir Ahmad Naser, vice-chanceler da Jamia Islamia, Bahawalpur, Paquistão — terceiro lugar; 4. Muntakāun Nuqūl fī Sīrati Azāmirir-Rasūl (árabe), Sheikh Hamed Mahmud ibn Mohammad Mansur Lemud, Gizé, Egito — quarto lugar; 5. Sīratun Nabiyyil Hādī’ir-Rahmat (árabe), Ustadh Abdus Salam Hashem Hafiz, Medina, Arábia Saudita — quinto lugar.
Depois desse relato, o secretário-geral adjunto, Sheikh Ali Al-Mukhtar, encerrou seu discurso agradecendo aos participantes do concurso.
Em seguida, fui convidado a expressar minha reação. Em meu discurso, aconselhei a Rabeta a adotar algumas estratégias e métodos de trabalho para a propagação do Islã na Índia. Também expliquei quais seriam seus resultados posteriormente. Por parte da Rabeta, foi dada a garantia de que os conselhos seriam aceitos. Depois, o emir Saud ibn Abdul Mohsen entregou gradualmente o valor do prêmio e os certificados aos cinco vencedores. Após a distribuição dos prêmios, a cerimônia foi encerrada com a recitação do Alcorão.
No dia 17 de Rabi al-Thani, fui a Medina. No caminho, visitei a planície de Badr. Fiz a ziyarat do abençoado túmulo do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Alguns dias depois, certa manhã, fui a Khaybar. Vi as fortalezas históricas por dentro e por fora. Passeei por vários lugares e retornei a Medina à tarde. Depois de passar duas semanas em Medina, voltei novamente a Meca. Fiz o tawaf e o sa’i. Passei uma semana em Meca. Em Meca e Medina, conversei intimamente e troquei pensamentos com eruditos e sábios de todos os níveis, conhecidos e desconhecidos. Depois de passar um mês na Arábia Saudita, o país dos meus sonhos, retornei novamente à Índia, minha terra natal.
Depois de retornar da Arábia Saudita, muitas pessoas entre os falantes de urdu da Índia e do Paquistão me pediram uma tradução da obra para o urdu. Nesse meio-tempo, alguns dias se passaram. Eu havia ficado ocupado com diversos trabalhos. De modo algum conseguia encontrar tempo. Diante dos pedidos insistentes de muitas dessas pessoas, em certo momento comecei a tradução em meio à minha ocupação. Por fim, pela misericórdia de Allah, o trabalho de tradução foi concluído.
Por fim, considero necessário expressar minha gratidão aos anciãos da religião e aos amigos que me incentivaram e ajudaram na redação desta obra. Recordo especialmente a sincera colaboração do respeitável Ustadh Maulana Abdur Rahman Rahmani, do Sheikh Wazair Sahib e do Hafiz Mohammad Ilyas. Seus conselhos e incentivo me ajudaram a redigir o manuscrito no devido tempo. Que Allah, o Senhor dos mundos, lhes conceda a melhor recompensa. Que Allah Todo-Poderoso aceite esta obra e conceda a todos os envolvidos nela a salvação neste mundo e no Além.
Safiur Rahman Mubarakpuri
18 de Ramadan al-Mubarak
1404 da Hégira
Para a nova edição
da Liga do Mundo Islâmico
Prefácio do secretário-geral
A Sunnah do Profeta é um modelo vivo. Sua relevância permanecerá até o Dia da Ressurreição. A descrição desse modelo e a composição de obras sobre ele começaram desde o surgimento do Mensageiro de Allah e continuarão até o Dia da Ressurreição. O modelo do amado Profeta é, para os muçulmanos, um exemplo prático e um programa repleto de acontecimentos. É natural que, à sua luz, as palavras e ações dos muçulmanos sejam reguladas e orientadas. A relação do ser humano com Allah, o Senhor dos mundos, bem como suas relações com parentes, familiares, irmãos e amigos, deve estar de acordo com o modelo do Mensageiro de Allah.
O Deus Todo-Poderoso, Allah, diz: Certamente, no Mensageiro de Allah há um excelente modelo para cada pessoa: para aqueles que esperam a misericórdia de Allah, aspiram à vida futura e se lembram muito de Allah.
Perguntaram a Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) como era o caráter do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Ela respondeu: Seu caráter era o próprio Alcorão Sagrado.
Portanto, para aquele que deseja trilhar o caminho de Allah em todos os assuntos deste mundo e da vida futura e alcançar a libertação deste mundo, não há outro caminho senão seguir o Mensageiro de Allah. Uma pessoa assim deve seguir a Sira do Mensageiro de Allah com bastante reflexão e compreensão, e com fé inabalável. Deve compreender que esse é o caminho reto do Sustentador. Nosso líder e nosso guia, o Mensageiro de Allah, deixou um modelo digno de ser seguido em todos os aspectos e áreas da vida. Em seu modelo encontra-se a luz da orientação para líderes, trabalhadores, governantes e governados, guias e mujahideen. O modelo do amado Profeta é o melhor modelo para a política, a administração do Estado, a economia, a organização social, as relações mútuas, as relações nacionais e internacionais do ser humano — enfim, para todos os campos.
Os muçulmanos afastaram-se do caminho do Mensageiro de Allah e mergulharam nas profundezas do abismo da ignorância e da decadência. Chegou o momento de se conscientizarem. A biografia do Profeta deve ser colocada no topo de tudo nos currículos das instituições de ensino, bem como nas discussões e nos programas realizados em diversas reuniões. É preciso compreender que ela não é apenas alimento para o pensamento; pelo contrário, é o caminho de retorno a Allah, o Todo-Poderoso. Nesse modelo encontram-se a fonte da reforma e do bem-estar da humanidade. Pois o caráter e as ações do Mensageiro de Allah são a forma concreta do Livro de Allah, o Alcorão Sagrado. Seguindo esse modelo, o servo crente pode tornar-se seguidor da Lei de Allah, o Senhor dos mundos.
Esta obra, intitulada Ar-Raheeq Al-Makhtum, é o magnífico fruto do esforço do erudito Sheikh Safiur Rahman. No ano 1396 da Hégira, ele participou do concurso de redação sobre a biografia do Profeta promovido pela Liga do Mundo Islâmico, e esta obra conquistou a distinção do primeiro lugar. Informações detalhadas a esse respeito encontram-se no prefácio escrito pelo antigo secretário-geral da Liga, Sheikh Muhammad Ali al-Harakan.
Esta obra alcançou extraordinária popularidade e foi recebida com muitos elogios. A primeira edição, de 10 mil exemplares, esgotou-se em pouco tempo. O editor Hasan Hamubi, que Allah o preserve, publicou também 10 mil exemplares da segunda edição.
Por ocasião da publicação da terceira edição, o editor pediu-me que escrevesse algumas palavras. Por isso, escrevo brevemente o que segue. Que Allah, o Todo-Poderoso, faça deste texto um meio para alcançar a Sua misericórdia. Que, por meio desta obra, Ele salve os muçulmanos de todas as calamidades. Que a comunidade de Muhammad volte a ocupar a elevada posição de liderança mundial. Que esta declaração de Allah, o Todo-Poderoso, se torne realidade: vós sois a melhor comunidade; fostes escolhidos para o bem da humanidade. Ordenareis o que é correto, impedireis as pessoas de praticar o mal e, acima de tudo, crereis em Allah, o Todo-Poderoso.
Bênçãos e paz sobre o amado Mensageiro de Allah.
Doutor Abdullah Omar Nasif
Secretário-geral
Liga do Mundo Islâmico
Meca, a Venerável
ex-secretário-geral
expressou sua opinião—
Allah, o Senhor dos mundos, concedeu ao Seu amado Mensageiro o مقام de intercessão e uma elevada posição. Ordenou-nos que o amássemos. Informou-nos que, por meio da obediência a ele, demonstramos nosso amor por Allah, o Altíssimo.
Allah, o Senhor dos mundos, diz: “Ó Profeta, dize: se amais Allah, então obedecei-me; Allah vos amará e perdoará os vossos pecados.”
A prova do amor por Allah, o Altíssimo, é o amor por Seu Mensageiro. Por isso, sente-se no coração uma atração pelo Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, e surge a necessidade de estabelecer uma relação estreita com ele. Desde o surgimento do Islã, os muçulmanos têm louvado o Mensageiro de Allah e avançado na divulgação e propagação de sua pura Sira com um espírito verdadeiramente competitivo. Os escritos, as ações e o caráter do amado Mensageiro de Allah constituem sua Sira. Hazrat Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela, disse: “O Alcorão Sagrado é o seu caráter.” O Nobre Alcorão é o Livro de Allah, o Altíssimo, e a totalidade das palavras de Allah. Portanto, a grande personalidade que é o reflexo do Alcorão é, sem dúvida, superior e perfeita entre todos os seres humanos. Ela é a mais digna de receber o amor de toda a criação.
Os muçulmanos sempre demonstraram seu amor pelo Mensageiro de Allah. Como parte dessa demonstração, realizou-se no Paquistão, no ano 1396 da Hégira, a primeira conferência sobre a Sira. Nessa conferência, a Liga do Mundo Islâmico anunciou que seriam concedidos cinco prêmios pela redação de obras sobre a Sira do Profeta, sob determinadas condições. Como prêmio, cento e cinquenta mil riais sauditas em dinheiro seriam distribuídos entre os vencedores.
As condições são:
1. A Sīrat al-Nabī deve ser completa. Nela, os acontecimentos históricos devem ser organizados em sequência, de acordo com a época em que ocorreram.
2. A obra deve ser de alta qualidade e inédita.
3. A obra deve indicar devidamente os dados das fontes bibliográficas utilizadas como apoio.
4. O autor deve registrar sua biografia, esclarecer sua formação educacional e mencionar qualquer trabalho literário que tenha realizado.
5. O texto deve ser claro e legível. Será melhor se for datilografado.
6. A obra poderá ser escrita em árabe e em outras línguas correntes e modernas.
7. Os manuscritos serão recebidos a partir do dia 1º de Rabi al-Thani de 1396 da Hégira, e a data final para o recebimento será o dia 1º de Muharram de 1397 da Hégira.
8. O manuscrito deverá ser enviado, em envelope lacrado, à secretaria da Liga Mundial Islâmica, em Meca. A Liga registrará nele um número de série.
Nove, uma comissão especializada, dotada de amplos poderes e composta por eminentes ulemás, examinará e avaliará os manuscritos.
Como resultado desse anúncio da Liga do Mundo Islâmico, observou-se grande entusiasmo entre os escritores sedentos de conhecimento e amantes do Mensageiro. Um grande número de escritores participou do concurso. A Liga do Mundo Islâmico também aguardava o recebimento de manuscritos em árabe, inglês, urdu e outras línguas.
Nossos respeitáveis irmãos começaram a enviar manuscritos em várias línguas. Foram apresentados manuscritos em árabe, urdu, inglês, francês e hebraico.
Para examinar os manuscritos reunidos, a Liga do Mundo Islâmico formou uma comissão composta por eminentes ulemás. Os detalhes dos vencedores dos prêmios são os seguintes.
(1) Primeiro prêmio: Sheikh Safiur Rahman Mubarakpuri, Jâmi‘a Salafiya, Índia, 50 mil riais sauditas.
(2) Segundo prêmio: Doutor Majed Ali Khan, Jâmi‘a Millia Islamia, Nova Délhi, Índia, 40 mil riais sauditas.
(3) Terceiro prêmio: Doutor Nasir Ahmed Naser, Paquistão, 30 mil riais sauditas.
(4) Quarto prêmio: Ustaz Hamed Mahmoud Mohammad Mansur Lemud, Egito, 20 mil riais sauditas.
(5) Quinto prémio: Ustadh Abdus Salam Hashim Hafiz, Medina, a Iluminada, Arábia Saudita, 10 mil riais sauditas.
A Liga do Mundo Islâmico anunciou os nomes dos vencedores da Primeira Conferência Islâmica Asiática, realizada em Karachi no ano 1398 da Hégira. A notícia foi enviada a todos os jornais e agências de notícias.
Para a distribuição dos prémios, a Liga organizou esta cerimónia em Meca, na manhã de 12 de Rabi al-Thani de 1399 da Hégira. Amir Saud, secretário do governador de Meca, Amir Fawaz ibn Abdul Aziz, distribuiu os prémios como seu representante.
Na cerimónia de entrega dos prémios, foi anunciado que os manuscritos premiados seriam impressos e distribuídos sucessivamente em várias línguas. De acordo com esse anúncio, o manuscrito árabe do xeque Safiur Rahman Mubarakpuri foi publicado primeiro e apresentado aos leitores. Ele havia recebido o primeiro prémio. Os demais manuscritos também serão publicados sucessivamente. Suplico a Allah, o Senhor dos Mundos, que nos conceda a capacidade de dedicar as nossas ações à Sua satisfação e que aceite as nossas boas obras. Sem dúvida, Ele é o nosso melhor Guardião e o melhor Auxiliador.
Xeque Muhammad Ali al-Harakan
Secretário-Geral
Liga do Mundo Islâmico
Meca, a Honrada
Aquele que escreveu o livro
Sua própria apresentação
Entre as condições do concurso organizado pela Rabita, foi solicitado que se apresentasse a biografia dos concorrentes. Por isso, apresento abaixo uma breve biografia minha.
Safiur Rahman ibn Abdallah ibn Muhammad Akbar ibn Muhammad Ali ibn Abd al-Mu’min ibn Zākirullah Mubarakpuri Azmi. No certificado, consta como data de nascimento 6 de julho de 1943. Contudo, após investigação, verificou-se que a data verdadeira de nascimento foi em meados de 1942. Nasci em Mubarakpur, em Hossainabad, no distrito de Azamgarh.
Comecei a estudar o Alcorão em 1948. Estudei durante seis anos em Mubarakpur. Estudei a língua árabe, gramática, literatura e outras disciplinas. Depois, durante dois anos, estudei em Maunath Bhanjan, a 35 quilômetros de Mubarakpur. Em 1956, ingressei na madrasa Fayz-e Aam. Passei cinco anos ali. Nessa instituição, adquiri conhecimentos de língua árabe, gramática, literatura, fiqh, usul al-fiqh, tafsir, hadith e outras disciplinas.
Em janeiro de 1961, recebi o certificado de conclusão dos estudos. Com a concessão dos certificados de Fazilat fi ash-Shariah e Fazilat fil-Ulum, recebi autorização para lecionar e emitir fatwas.
Consegui obter bons resultados em todos os exames. Também participei dos exames do Conselho de Allahabad. Em fevereiro de 1959, fiz o exame de maulvi e, em 1960, o exame de alim. Fui aprovado em primeira classe nos dois exames. Depois de um longo período, em fevereiro de 1976, participei do exame Fazil Adab, relacionado ao ensino, e, em fevereiro de 1978, do exame Fazil Diniyat. Obtive a primeira classe em ambos os exames.
Depois de me formar na madrasa Fayz-e Aam, em 1961, lecionei primeiro em Allahabad e depois em Nagpur. Em 1963, o diretor da madrasa Fayz-e Aam convocou-me. Lecionei ali durante dois anos, mas, devido às circunstâncias, tive de sair. No ano seguinte, lecionei na Jamiat ur-Rashad, em Azamgarh, e, em 1966, assumi a responsabilidade de lecionar na madrasa feminina Darul Hadith. Passei três anos ali. Também desempenhei importantes funções como vice-diretor. Depois, pedi demissão e comecei a lecionar na madrasa Fayzul Ulum. Essa madrasa está situada em Madhya Pradesh, a sete quilômetros de Maunath Bhanjan. Desde janeiro de 1969, além de lecionar, estive envolvido nas atividades administrativas da madrasa. Também estive envolvido na tabligh da religião por regiões distantes. No final de 1969, assumi a responsabilidade de lecionar na madrasa Darut Talim, em Mubarakpur, minha terra natal. Em 1974, comecei a lecionar na Jamia Salafiyya, em Benares, onde continuo até hoje dedicado ao ensino religioso.
Apresento abaixo uma lista de algumas das minhas obras importantes,
1) Tazkirat-e Shaykhul Islam Muhammad ibn Abdul Wahhab (árabe), 1972. Esta obra teve quatro edições publicadas. 2) Tarikh-e Ale Saud (urdu), 1972; esta obra teve duas edições publicadas. 3) Ithaf-ul-Kiram Ta‘liq Bulughil Maram, de Ibn Hajar Asqalani (árabe), 1974. 4) Qadianiyat Apne Aine Mein (urdu), 1976. 5) Fitna-e Qadianiyat aur Maulana Sanaullah Amritsari (urdu), 1977. 6) Ar-Raheeq al-Makhtum (árabe). 7) Inkar-e Hadith Haq ya Batil (urdu), 1977. 8) Rajm-e Haq o Batil (urdu), 1978. 9) Abraaj-ul-Haq was-Sawab fi Mas’alati Kashf-ul-Hijab (árabe), 1978. 10) Tatawwurush Shu‘ub ad-Diniyyat fil-Hind wa Majalut Da‘watil Islamiyyah Fiha (árabe), 1979. 11) Al-Firqatun Najiyah al-Firaqul Islamiyyatul Ukhra (árabe), 1988. 12) Islam aur Adam-e Tashahhud (urdu), 1984; também foi publicado em inglês e hindi. 13) Ahl-e Tasawwuf fi Qardastan (urdu), 1986. 14) Al-Ahzab as-Siyasiyyah fil-Islam (árabe), 1986. Também exerço a função de editor do periódico mensal Mohaddes, de Benares.
Por ocasião da publicação da nova edição
Prefácio do autor
Na Conferência da Sira realizada no Paquistão no ano de 1396 da Hégira, a Rabita al-Alam al-Islami convocou uma competição mundial para a redação de obras sobre a Sira. Seu objetivo era promover a unidade de pensamento e consciência entre os autores e organizar sistematicamente seus esforços. Na minha opinião, foi uma iniciativa louvável. Pois, refletindo profundamente, compreende-se que a Sira do Profeta e o exemplo de Muhammad são o único tema por meio do qual a vida do mundo muçulmano e a felicidade da sociedade humana podem alcançar a perfeição. Que milhares de bênçãos e saudações estejam sobre o amado Mensageiro de Allah, sallallahu alayhi wa sallam.
Participar desta abençoada competição foi para mim uma grande honra. Mas será que eu possuía a capacidade de lançar luz sobre a sublime vida de Sayyidul Awwalin wal-Akhirin? Na realidade, eu desejava obter uma parte da bênção do amado Habib de Allah Todo-Poderoso. Mas por quê? Porque eu queria, em vez de vagar no escuro em busca de um caminho, viver como um membro da ummah do Profeta (s.), percorrendo sua brilhante e bela estrada principal. Depois, um dia, abraçarei a morte justamente como um viajante desse caminho. Na vida do além, pela bênção da intercessão do Mensageiro de Allah, Allah Todo-Poderoso perdoará os meus pecados.
Considero necessário dizer algumas palavras sobre o estilo de composição desta obra. Antes de escrevê-la, decidi que não a tornaria excessivamente longa, para não esgotar a paciência do leitor, mas também não a faria demasiado breve; ao contrário, mantê-la-ia dentro de uma extensão intermediária. Contudo, ao ler diversas obras escritas sobre a Sira do Profeta, ficou claro que eu mencionaria aquilo que, após examinar todos os aspectos, me parecesse correto. Evitaria apresentar argumentos e provas detalhados, bem como referências a informações e documentos. Se mencionasse tudo, o volume da obra aumentaria consideravelmente. Nesses casos, poderia surgir a dúvida de que minhas observações analíticas não eram suficientes; o leitor poderia ficar surpreso. Assim, nos casos em que as opiniões dos que sustentam uma posição diferente não me parecem corretas, limitarei-me a indicar os argumentos e as provas. É isso que estou fazendo na prática. Ó Allah Todo-Poderoso, determina para mim o bem deste mundo e do Além. Certamente, Tu és Perdoador e Misericordioso. Tu és o Senhor do Trono Majestoso; Tu és Sublime, Tu és Todo-Poderoso.
Safiur Rahman Mubarakpuri
24 de Rajab de 1396 da Hégira
23 de julho de 1976
O livro em língua bengali
quanto à sua tradução e publicação
Alhamdulillah,
Após um esforço prolongado, conseguimos entregar aos muçulmanos falantes da língua bengali a muito discutida e elogiada biografia do Profeta, Ar-Raheeq Al-Makhtum.
Ar-Raheeq Al-Makhtum é uma expressão usada por Allah, o Altíssimo, no Nobre Alcorão, cujo significado é “uma excelente bebida selada”. Na Surata Al-Mutaffifin, Allah, o Altíssimo, prometeu fornecer essa bebida no Paraíso como recompensa aos Seus servos virtuosos. Para os Seus amados, Ele não apenas guardou essa bebida em garrafas seladas; ao prepará-la em recipientes, também a impregnou com a fragrância do almíscar.
O Ar-Raheeq Al-Makhtum mencionado no Alcorão é verdadeiramente uma das melhores recompensas para os crentes, para quem foi preparada essa grande provisão. A biografia de seu líder, Ar-Raheeq Al-Makhtum, é uma obra de Sira inteiramente excepcional e de sabor singular. Não há dúvida de que, ao escrever uma obra assim, o grande erudito da Sira, Allama Safiur Rahman Mubarakpuri, realizou um trabalho extraordinário; na verdade, por meio dela, estabeleceu uma estreita ligação entre o Ar-Raheeq da terra e o Ar-Raheeq do céu.
Nada quero acrescentar, por iniciativa própria, sobre o apelo mundial e a extraordinária popularidade do livro Ar-Raheeq Al-Makhtum; depois da valiosa apresentação da obra feita pelo autor no início do livro original e dos relatórios de dois secretários-gerais de uma organização internacional dos muçulmanos do mundo, como a Liga Muçulmana Mundial, realmente não resta mais nada a dizer sobre o assunto. Se, antes de se aprofundar na obra principal, você ler uma vez estas palavras de contexto, facilmente compreenderá por que este livro foi agraciado com essa rara distinção entre cerca de mil e duzentas obras na competição mundial e qual foi a característica que lhe conferiu o status de melhor obra de sira de sua época. Parece que os amantes do Profeta de todo o mundo esperavam havia muito tempo por uma obra de sira que fosse elaborada reunindo os elementos confiáveis de todas as obras anteriores escritas sobre o tema — em outras palavras, que fosse uma síntese da vasta biblioteca sobre a sira. Sob esse aspecto, a abençoada iniciativa de Allama Safiur Rahman Mubarakpuri merece, sem dúvida, elogios. É desnecessário dizer que esse elogio foi reconhecido quando a Liga Muçulmana Mundial, em nome dos milhões e milhões de muçulmanos do mundo, concedeu o primeiro prêmio ao livro.
O erudito pesquisador escreveu a obra original em árabe; é sabido que os vastos materiais fundamentais de milhares e milhares de livros escritos sobre a sira também se encontram nessa língua. Quando surgiram traduções da obra árabe original em diversas línguas, pude perceber plenamente o esforço incansável dos tradutores qualificados para preservar o nível da linguagem e do estilo da obra original. Em especial, consigo perceber um pouco das dificuldades que enfrentaram ao transcrever, em suas próprias línguas, os nomes dos Companheiros utilizados neste livro, os nomes de suas tribos e clãs, bem como os nomes de inúmeras pessoas e lugares relacionados à sociedade, ao Estado, às guerras, aos conflitos e às atividades econômicas da Arábia antes e depois da chegada do Profeta. A pronúncia correta desses milhares de nomes pareceu-me realmente uma tarefa difícil. Além disso, há muitas divergências entre nossos sábios, ulemas, pesquisadores e linguistas quanto à representação da pronúncia árabe no alfabeto bengali: aquilo que um considera uma grafia correta, outro rejeita como completamente incorreto. Como método simples neste caso, utilizei a pronúncia de cada nome que me pareceu mais próxima da obra original. Tentei, tanto quanto possível, seguir um método uniforme para os nomes e lugares ao longo de todo o livro. Ainda assim, não direi que consegui escrever tudo corretamente. Que Allah Todo-Poderoso perdoe meus erros e falhas.
No livro Ar-Raheeq Al-Makhtum são fornecidos os nomes de inúmeras obras e seus números de página; parece necessário dizer algo também sobre esse assunto. Os números de página apresentados aqui são os das obras em árabe e em urdu. Entre elas, ele cita muitas obras que ainda não foram traduzidas para o bengali; mesmo nos casos em que houve tradução, não será possível localizar a informação original por meio desses números de página. Por exemplo, o autor original cita em muitos trechos de seu livro a famosa obra Fi Zilal al-Qur’an, de Sayyid Qutb, o Mártir, mas os números de volume e de página que ele fornece aplicam-se somente à edição árabe. Naturalmente, nenhum dos volumes ou números de página da tradução bengali do tafsir Fi Zilal al-Qur’an coincidirá com eles. Mesmo cientes desse problema, por uma questão de absoluta fidelidade, não alteramos nenhuma das fontes das informações fornecidas pelo autor original.
Como vocês sabem, as edições árabes desta inestimável obra de sira foram publicadas inicialmente no mercado mundial pela própria Liga Muçulmana Mundial; sob a supervisão da Liga, outra instituição publicou o livro, e posteriormente diversas instituições publicaram traduções da obra em várias línguas e em diferentes países do mundo. Nós também, seguindo o caminho deles, tomamos a iniciativa de publicar esta importante obra em língua bengali. Nosso objetivo aqui era apresentar este grande livro às pessoas que falam essa língua. É importante lembrar que o grande homem cuja biografia estamos prestes a publicar hoje era o líder de uma caravana que disse às suas respectivas nações: Wa ma as’alukum alaihi min ajrin in ajriya illa ala Rabbil alamin. Não vos peço nenhuma recompensa por este trabalho; minha recompensa está somente com o meu Senhor.
Por fim, expresso meus infinitos agradecimentos a todos os que estão ligados ao escritório de Bangladesh da Academia Alcorão de Londres. Se eles não tivessem assumido a responsabilidade pela distribuição do livro, eu teria continuado apenas sonhando, sentado em Londres, e talvez o livro não tivesse vindo à luz por muitos anos. Em especial, não se pode esquecer a colaboração do irmão Shamim. Sem seus esforços sinceros, este enorme manuscrito não poderia ter sido escrito tão rapidamente. E que Allah Todo-Poderoso recompense, cada um em seu respectivo lugar, todos os que também me incentivaram de diversas maneiras. Amém.
Ao meu amado Profeta, incontáveis bênçãos e incontáveis saudações.
Khadija Akhtar Rezaei
Rabiul Awwal, 1419 da Hégira, julho de 1998
Londres
Por ocasião da publicação da quarta edição
Nota do distribuidor
Em 1999, o mês da Sīrat al-Nabī correspondeu aos meses ingleses de junho e julho. Por isso, tínhamos pensado em apresentar, justamente no mês marcado pela memória do Profeta, a tradução bengali da melhor biografia do amado Profeta de nossa época. À luz do desejo e da intenção de seu tradutor e editor, havíamos concluído todos os preparativos para esse trabalho. Contudo, como não tínhamos controle total sobre todas as etapas adicionais necessárias para levar um livro tão volumoso do manuscrito às mãos dos leitores, não conseguimos apresentá-lo durante o mês da Sīrat al-Nabī, isto é, Rabīʿ al-Awwal. Finalmente, quando o livro veio à luz após superar todas as dificuldades da indústria gráfica, o mês da chegada do Profeta ao mundo já havia terminado. Mas Allah, o Altíssimo, provavelmente, considerando a intenção destes servos pecadores, não os deixou desapontados. Assim, embora esta obra incomparável tenha perdido, como meta específica de sua primeira distribuição, a ocasião do nascimento do amado Profeta, após apenas alguns dias Ele nos concedeu a memorável oportunidade do seu ingresso em Medina.
No mesmo ano, 24 de setembro foi o dia do ingresso do amado Profeta em Yathrib, isto é, Medina. Depois de atravessarmos os degraus de 1.420 anos, apresentamos, nesse dia abençoado, a segunda edição desta obra traduzida, regada pelo amor de um de seus devotados amantes. Quando publicamos a terceira edição desta obra abençoada, o momento de Yawm ʿArafah se encontrava diante de nós. Foi nesse mesmo dia, de pé nos arredores de Arafat, que ele proferiu diante de aproximadamente cento e cinquenta mil nobres Companheiros o histórico sermão do Hajj de Despedida, isto é, a grande carta dos direitos humanos, sobre a qual, pode-se dizer, se ergue hoje o fundamento da civilização e da cultura de toda a humanidade.
Hoje, quando começamos novamente a imprimir sua oitava edição revisada, o abençoado mês de Ramaḍān, o mês da revelação do Alcorão, encontra-se diante de nós. Que Allah, o Altíssimo, aceite, neste mês sagrado, esta preciosa biografia do portador do Alcorão!
Assim como Ar-Raḥīq al-Makhtūm conquistou, no cenário mundial, o título de maior obra de Sīrah ao quebrar todos os recordes de sua época, a tradução bengali deste livro também se tornou gloriosa por seu próprio mérito, quebrando todos os recordes do mundo literário de nosso país. Publicamos a segunda edição do livro apenas cinquenta e cinco dias depois e, louvado seja Allah, antes de se completarem três anos, sua oitava edição está prestes a ser publicada. Nos tempos recentes, esse fato constitui, sem dúvida, uma rara honra não apenas na literatura islâmica, mas em toda a história da língua bengali. Toda essa rara honra pertence, na realidade, ao Profeta (que a paz esteja com ele); nenhum indivíduo ou instituição tem qualquer mérito nisso. Não consideramos que o autor, a tradutora, o editor ou o distribuidor deste livro tenha a menor participação nesse mérito. Todo o louvor pela extraordinária popularidade desta obra pertence somente Àquele que, juntamente com Seus anjos, envia saudações ao Profeta em nome de Allah.
Depois que a tradução bengali do livro foi publicada, três anos atrás, percebemos o amor das pessoas por esta grande obra por meio das resenhas repletas de elogios entusiasmados que alguns respeitados e eruditos pensadores publicaram nas páginas literárias de vários dos principais jornais diários do país. Em determinado momento, nossos benfeitores também sugeriram a realização de uma cerimônia de lançamento do livro; por isso, aguardávamos com grande expectativa a chegada a Daca de sua tradutora e editora, a honorável Khadija Akhtar Rezaie. Graças a Allah, quando ela veio a Daca, naquele ano, por apenas alguns dias, em 14 de setembro, a caminho da realização da sagrada peregrinação da Umrah, organizamos, no dia 18 daquele mês, uma magnífica cerimônia de lançamento do livro no auditório do Clube Nacional de Imprensa.
Neste evento organizado em homenagem ao amado Profeta, o professor nacional, erudito e intelectual da literatura bengali, Syed Ali Ahsan, afirmou em seu artigo escrito: “A tradução de Khadija reúne tanto o orgulho luminoso quanto o compromisso com a língua materna. Khadija traduziu a obra para o bengali com extraordinária habilidade e uma composição incomparável; sua tradução parece não ser uma tradução, mas uma nova criação.” Referindo-se a esse raro sucesso, ele desejou ampla divulgação e disseminação desta grande obra. O respeitadíssimo erudito do país, khatib da Mesquita Nacional, Maulana Obaidul Haque, declarou que a tradução bengali de Ar-Raheeq Al-Makhtum constituía uma grande realização da tradutora na literatura da Sira, e rogou a misericórdia de Allah para que essa tradução servisse como provisão para nossas vidas. A. Z. M. Shamsul Alam, presidente do Al-Arafah Islami Bank, avaliou assim o trabalho difícil realizado por essa escritora expatriada: em apenas um mês, nenhum outro livro do país recebeu uma quantidade comparável de resenhas publicadas em jornais e revistas à que recebeu sua enorme obra traduzida.
Ao elogiar grandemente a tradução desta melhor obra de Sira da época, o ex-embaixador, renomado jornalista e editor do diário Dinkal, Akhtar-ul-Alam, comparou a arte da tradução ao avesso de um xale de Caxemira e expressou a opinião de que, no livro publicado Ar-Raheeq Al-Makhtum, é impossível distinguir o lado verdadeiro do lado imitado do xale de Caxemira. Maulana Ruhul Amin Khan, editor executivo do diário Inqilab, manifestou sua alegria ao ver que o trabalho de tradução desta obra atemporal fora realizado pelas mãos certas; segundo ele, a respeitável Khadija Akhtar Rezaie fez os leitores esquecerem que o livro era, na realidade, uma obra traduzida. O renomado dramaturgo Ariful Haque chamou o livro de uma narrativa completa, cronológica e histórica da vida do Mensageiro de Allah. Ele destacou que, no trabalho de tradução, a tradutora possuía habilidade tanto na criação quanto na recriação. O renomado ator Obaidul Haque Sarkar declarou Ar-Raheeq Al-Makhtum a maior obra de Sira da época, ao lado de centenas de outros livros de Sira, incluindo Mustafa Charit, de Maulana Akram Khan, Bishwanabi, do poeta Golam Mustafa, e a traduzida Siratun Nabi.
O poeta Al Mujahidi, editor literário do diário Ittefaq, agradeceu à tradutora e ao distribuidor por colocarem nas mãos de dezenas de milhões de pessoas de língua bengali do subcontinente uma tradução bengali de uma obra tão rara, e desejou sua ampla disseminação. Além disso, em um artigo escrito sobre o livro, o corajoso escritor da literatura bengali, o poeta Al Mahmud, chamou a recente obra traduzida da talentosa escritora contemporânea e artista da palavra, a respeitável Khadija Akhtar Rezaie, de uma nova construção. Por fim, a renomada escritora e ex-membro do Parlamento, Hafiza Asma Khatun, ao resenhar esta obra, exigiu que o livro fosse incluído como livro didático em escolas, faculdades e universidades.
O presidente do evento, Shah Abdul Hannan, ex-chefe do Conselho Nacional de Receitas e presidente-secretário do Islami Bank Ltd., agradeceu à tradutora e à editora por oferecerem a tradução desta valiosa obra, mundialmente famosa em língua bengali. Ele também agradeceu ao escritório de Bangladesh da Alcorão Academy de Londres, instituição distribuidora da obra. A tradutora e editora do livro, a respeitável Khadija Akhtar Rezaie, também esteve presente no evento. Em um artigo escrito para a distinta assembleia presente, ela agradeceu somente a Allah, o Altíssimo, pelo sucesso geral desta obra. Expressou sua gratidão a todos os eruditos distintos que escreveram valiosas resenhas sobre o livro em jornais e revistas, aos que discursaram nesta abençoada ocasião e aos que, estando presentes, contribuíram para o sucesso do evento. O poeta Matiur Rahman Mallik leu sua declaração escrita e o artigo do principal convidado do evento, o professor nacional Syed Ali Ahsan.
Também estava prevista a presença, como convidado especial de nosso evento de lançamento, do renomado internacionalmente mufassir do Alcorão, Hazrat Maulana Delwar Hossain Sayeedi Sahib. Durante sua estada em Londres, ele próprio havia expressado à respeitável Khadija Akhtar Rezaie seu sincero interesse em comparecer ao evento. Embora não tenha podido participar por motivos especiais, desejou pessoalmente o sucesso desta cerimônia de lançamento. Além disso, pela maneira como, nos anos anteriores, tornou conhecidos entre os milhões de falantes de bengali espalhados pelos recantos do mundo nossos Tafsir Fi Zilalil Quran e Tafsir Usmani publicados, também rogamos a Allah, o Altíssimo, por ele. Quando, na difícil planície do Juízo, os filhos de Adão estiverem clamando por uma única gota de água, que o Todo-Poderoso Allah o sacie com Ar-Raheeq Al-Makhtum e Khatamuhu Miskun, isto é, a bebida perfumada com almíscar, selada numa garrafa!
Estamos realmente felizes porque, quando distribuíamos a segunda edição do livro, a própria tradutora e editora estava em Daca. Assim, sob sua cuidadosa supervisão, pudemos, por assim dizer, reorganizar todo o livro desde o início. Desta vez também estamos apresentando a oitava edição tendo em vista seus valiosos conselhos. Conseguimos igualmente corrigir, tanto quanto possível, os erros e falhas que havia aqui e ali. É necessário mencionar que, conforme o desejo da respeitável senhora, reduzimos o preço do livro quase pela metade, para que o maior número possível de pessoas conheça esta valiosa biografia do amado Profeta.
Que milhares de saudações sejam oferecidas em nome daquele amado ser humano cuja louvação ressoa por todo o céu e toda a terra.
Alcorão Academy de Londres
Centro de Bangladesh
Ó nosso Senhor, envia entre esta descendência um Mensageiro, escolhido dentre eles mesmos, que lhes recite os Teus versículos, lhes ensine o Teu Livro e a sua sabedoria, e os purifique. (Aceita esta súplica, pois) Tu és Poderoso, Onisciente e Sapientíssimo — Surata Al-Baqarah, 129
2
Este mundo envolto em trevas: à espera do Subh-e-Sadiq
A identidade geográfica da Arábia e a localização das diversas nações
A Sira do Profeta é, na realidade, o retrato vivo do último Profeta de Allah. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, guia da salvação da humanidade, apresentou-a à humanidade. Por meio dela, Allah Todo-Poderoso tirou as pessoas das trevas para a luz e, libertando os servos da servidão aos servos, introduziu-os na adoração de Allah. Não é possível apresentar um quadro completo da Sira do Profeta sem uma análise comparativa da situação antes e depois da revelação da mensagem de Allah, isto é, da mensagem divina. Portanto, antes de iniciar a discussão do tema principal, é absolutamente necessário descrever as diversas comunidades da Arábia pré-islâmica e as condições em que viviam. Assim, será possível obter uma compreensão abrangente da situação na época do advento do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz.
O significado lexical da palavra “árabe” é deserto, planície árida ou terra infértil. Desde os tempos antigos, essa palavra tem sido usada em referência à Península Arábica e aos seus habitantes.
A oeste da Arábia ficam o Mar Vermelho e a Península do Sinai; a leste, o Golfo Arábico; ao sul, uma grande parte do Iraque, ao sul, uma grande parte do Iraque e, ainda mais ao sul, o Mar Arábico. Este é, na realidade, uma extensa parte do Oceano Índico. Ao norte ficam a Síria e uma parte do norte do Iraque. Há também alguns limites controversos nessa região. A área total é de dez a treze centenas de milhares de milhas quadradas.
Este país árabe, semelhante a uma ilha, é especialmente importante do ponto de vista natural e geográfico. Ele é cercado por extensas planícies e desertos tanto no interior quanto no exterior. É por isso que esta região é tão protegida. Outros não conseguem expandir facilmente sua influência sobre esta região. Por isso, observa-se que os habitantes do território central da Jazirat al-Arab são, desde os tempos antigos, completamente independentes e autossuficientes em todos os seus assuntos. No entanto, esses habitantes da Arábia eram vizinhos de duas grandes potências do mundo de então. Se não fosse essa barreira natural, os árabes jamais teriam tido capacidade para repelir os ataques dessas duas potências.
Externamente, a Jazirat al-Arab situava-se no centro de todos os continentes do mundo antigo. As comunicações da Arábia com o mundo exterior eram fáceis tanto por via terrestre quanto marítima. A parte noroeste da Jazirat al-Arab é a entrada, ou porta de acesso, ao continente africano. No nordeste, encontram-se os povos da Europa. A leste, ficam as rotas de entrada para o Irã, a Ásia Central e o Extremo Oriente. Por esse caminho, podia-se chegar até a China e a Índia. Assim, todos os continentes estavam ligados à Arábia. Os navios destinados a esses continentes ancoravam diretamente nos portos árabes.
Devido a essa posição geográfica, as partes norte e oeste da Jazirat al-Arab eram conhecidas como ponto de encontro de diversos povos e como centro de comércio, negócios, indústria, literatura, cultura e vida religiosa.
Os povos árabes
Os historiadores dividiram os povos árabes em três grupos.
Um. Árabes al-Baida
Por árabes al-Baida entendem-se as antigas tribos e comunidades da Arábia que desapareceram completamente. Já não se conhecem informações detalhadas suficientes sobre essas tribos e comunidades. Entre elas estão os povos de Ad, Samud, Tasm, Jadis e Amaleque, entre outros.
Dois. Árabes al-Ariba
Com isso, faz-se referência às tribos que eram descendentes de Yarub ibn Yashjub ibn Qahtan. Elas também são chamadas de árabes qahtanitas.
3. Os árabes musta’riba
Estas são as tribos descendentes de Hazrat Ismael, que a paz esteja com ele. Elas também são chamadas de árabes adnanitas.
A verdadeira terra natal dos árabes ʿĀriba, isto é, dos árabes qahtanitas, era o Iêmen. Foi ali que suas famílias e os diversos ramos de suas tribos se expandiram. Entre eles, duas tribos alcançaram especial notoriedade. A saber:
(a) Himyar: seus ramos famosos eram Zaid al-Jamhur, Quda’a e Yaqasik.
(b) Qahtan: seus ramos famosos eram Hamdan, Anmar, Tayy, Madhhij, Kindah, Lakhm, Judham, Azd, Aws, Khazraj e os descendentes de Jafnah. Depois de abandonar sua região de origem, eles estabeleceram um reino nos arredores da Síria. Posteriormente, passaram a ser conhecidos como Ghassan.
Mais tarde, as tribos qahtanitas comuns deixaram o Iêmen e se estabeleceram em várias regiões da Península Arábica. Elas emigraram nessa época, quando os romanos, depois de conquistarem o Egito e a Síria, estabeleceram seu domínio sobre o comércio marítimo dos iemenitas e também assumiram o controle do comércio terrestre. Como resultado, as oportunidades e vantagens comerciais dos qahtanitas foram completamente destruídas.
Também é possível que os qahtanitas tenham sido obrigados a emigrar em consequência dos conflitos e disputas que surgiram entre as tribos qahtanitas e himyaritas. A razão para essa hipótese é que as tribos qahtanitas emigraram, enquanto as tribos himyaritas permaneceram firmemente em seus lugares.
As tribos qahtanitas que emigraram podem ser divididas em quatro grupos, a saber:
1) Azad: eles emigraram seguindo o conselho de seu líder, Imran ibne Amr Muzaiqia. Inicialmente, deslocaram-se de um lugar para outro no Iêmen e começaram a enviar vários grupos para investigar a situação. Depois, avançaram para o norte e se estabeleceram de forma dispersa em diferentes lugares. Seus detalhes são os seguintes:
Taalaba ibne Amr: primeiro, ele partiu em direção ao Hejaz e se estabeleceu entre Taalaba e Dhi Qar. Quando seus filhos cresceram e seu clã se fortaleceu, partiu em direção a Medina e começou a viver na própria Medina. Foi da linhagem desse Taalaba que nasceram Aws e Khazraj. Aws e Khazraj eram filhos de Haritha, filho de Taalaba.
Harith ibne Amr: ele era descendente de Khuza’a. Depois de vagarem por diferentes lugares do Hejaz, os membros dessa linhagem se estabeleceram em Marr az-Zahran e posteriormente atacaram Medina. Expulsaram de Meca os membros da tribo Banu Jurhum e se estabeleceram na cidade.
Imran ibne Amr: ele e seus filhos continuaram vivendo em Omã. Por essa razão, passaram a ser chamados de Azad de Omã.
Nasr ibne Azad: as tribos ligadas a esse homem se estabeleceram em Tihama. Eram chamadas de Azad Shanu’a. Jafna ibne Amr: ele foi para a Síria e passou a viver ali com toda a sua família. Foi o bisavô dos reis gassânidas. Antes de ir para a Síria, eles permaneceram por algum tempo no Hejaz, perto de um reservatório chamado Ghassan.
2) A tribo Lakhm-Judham: entre os descendentes de Lakhm, Nasr ibne Rabi’a foi uma das figuras mais importantes. Ele foi antepassado dos governantes que reinaram em Hira, chamados Aal al-Mundhir.
3) A tribo Banu Tayy: depois da emigração dos Banu Azad, essa tribo partiu para o norte e começou a viver entre duas montanhas chamadas Aja e Salma. Essas duas montanhas se tornaram famosas por causa da tribo Tayy.
Quarto) a tribo de Kinda: os membros dessa tribo estabeleceram-se inicialmente num lugar chamado Al-Ahsa, no atual Bahrein. Depois de algum tempo, partiram para Hadramaut. Porém, também não conseguiram permanecer ali. Por fim, estabeleceram-se no Najd e fundaram um governo. Mas esse governo também não durou. Em pouco tempo, seu nome e seus vestígios desapareceram.
Além de Qahtan, havia outra tribo dos Himyar, chamada Quda’a. Há divergência quanto à classificação dessa tribo como himiarita. Eles deixaram o Iêmen e passaram a viver no deserto de Samawa, no Iraque (para informações detalhadas sobre essas tribos e sua migração, consulte Tarikh al-Imam al-Islamiyya, vol. 1, pp. 11–13, e Al-Jazirat al-Arab, pp. 231–235. Há divergências quanto à data dos acontecimentos relacionados à migração. Mencionamos as informações consideradas mais aceitáveis à luz de vários aspectos.)
Os árabes musta’riba: seu antepassado foi Sayyiduna Abraão, que a paz esteja sobre ele. Na realidade, ele era habitante da cidade de Ur, no Iraque. Essa cidade situava-se perto de Kufa, na margem ocidental do rio Eufrates. Muitas informações sobre essa cidade foram obtidas a partir dos vestígios encontrados durante a escavação do rio Eufrates. Essas descobertas também revelaram muitas informações sobre a família do Profeta Abraão, os habitantes de Ur e suas crenças religiosas.
Abraão, que a paz esteja sobre ele, percorreu o país e o exterior para propagar a religião. Certa vez, foi ao Egito. Depois de ouvir falar de Sara, esposa de Abraão, o Faraó concebeu más intenções. Com propósitos perversos, chamou Sara à sua corte. Em seguida, tentou realizar seus maus desígnios. Sara suplicou a Deus. Pela bênção de sua súplica, Deus puniu o Faraó de tal maneira que ele começou a contorcer-se em dores insuportáveis. Então, compreendeu que Sara era uma mulher muito querida por Deus e virtuosa. Impressionado com essas qualidades de Sara, o Faraó entregou-lhe sua filha Hajar (em outras obras, afirma-se que Hajar era uma serva; na realidade, ela era filha do Faraó. Consulte Rahmatul-lil-Alamin, vol. 2, pp. 36–37). Sara casou Hajar com seu marido, Abraão, que a paz esteja sobre ele (ibid., vol. 2, p. 34; para o relato detalhado do acontecimento, consulte Sahih al-Bukhari, vol. 1, p. 484).
Abraão, que a paz esteja sobre ele, voltou à Palestina acompanhado de Sara e Hajar. Depois, Deus, o Senhor dos mundos, concedeu a Abraão um filho do ventre de Hajar. Deve-se observar que Sara era estéril. Ao filho que nasceu deram o nome de Ismail. Aos poucos, Sara passou a sentir ciúmes de Hajar e obrigou Abraão, que a paz esteja sobre ele, a exilar Hajar juntamente com o recém-nascido. A situação chegou a tal ponto que Abraão teve de aceitar isso e partiu para Meca levando Hajar e Ismail consigo. Perto do local onde hoje se encontra a Caaba, Abraão deixou sua esposa e seu filho. Naquela época, a Caaba ainda não existia. O local destinado à Casa era elevado, como uma pequena colina. Quando ocorria uma inundação, a água passava pelos dois lados dessa colina. Ali, perto do Zamzam, junto à parte superior do recinto da Mesquita Sagrada, havia uma grande árvore. Abraão deixou sua esposa Hajar e seu filho Ismail junto àquela árvore. Naquele tempo, não havia em Meca nem água nem qualquer povoamento humano. Por isso, Abraão deixou um pouco de tâmaras num recipiente e um pouco de água num odre. Em seguida, voltou à Palestina. Porém, em poucos dias, as tâmaras e a água acabaram. Surgiu uma situação extremamente difícil. Naquele momento de aflição, a fonte da misericórdia de Deus manifestou-se sob a forma de Zamzam, que durante longo tempo serviu como meio de subsistência para muitas pessoas. Seu relato detalhado é, em linhas gerais, conhecido por todos (Sahih al-Bukhari, Kitab al-Anbiya, vol. 1, pp. 474–475). Algum tempo depois, uma tribo veio do Iêmen para Meca. Na história, essa tribo é conhecida como Jurhum Sana, ou o segundo Jurhum. Com a permissão da mãe de Ismail, essa tribo começou a viver em Meca. Diz-se que, anteriormente, essa tribo havia se estabelecido nas proximidades de Meca. Registra-se que os membros dessa tribo chegaram a Meca em busca de Zamzam depois da chegada de Ismail, que a paz esteja sobre ele, e antes de ele atingir a idade adulta. Eles já transitavam por esse caminho anteriormente. (Esta obra, vol. 1, p. 475.)
Abraão, que a paz esteja sobre ele, ia ocasionalmente a Meca para cuidar de sua esposa e de seu filho. Contudo, não se sabe quantas vezes fez essas viagens. Dados históricos comprovam que ele foi e voltou quatro vezes.
Um) No Sagrado Alcorão, Deus Todo-Poderoso diz que mostrou a Abraão, que a paz esteja sobre ele, em sonho, que ele sacrificava seu filho Ismail. Esse sonho era uma espécie de ordem divina. Pai e filho prepararam-se para cumprir essa ordem. Depois de ambos se submeterem à vontade de Deus, o pai deitou o filho no chão e preparou-se para sacrificá-lo. Nesse momento, Deus disse: “Ó Abraão, realizaste verdadeiramente o teu sonho. Assim recompensamos os virtuosos. Certamente, isso foi uma prova evidente.” Como recompensa por ter sido aprovado nessa prova, Deus concedeu a Abraão, que a paz esteja sobre ele, a grande honra do sacrifício. (Surata As-Saffat, pp. 103–107.)
Afirma-se na Bíblia que Ismail, que a paz esteja sobre ele, era treze anos mais velho que Ishaq, que a paz esteja sobre ele. Pelo estilo narrativo do Alcorão, entende-se que esse acontecimento ocorreu antes do nascimento de Ishaq, pois, depois de narrar todo o acontecimento, menciona-se aqui a boa-nova do nascimento de Ishaq.
Este acontecimento prova que o Profeta Ibrahim, que a paz esteja com ele, viajou para Meca pelo menos uma vez antes de o Profeta Ismail, que a paz esteja com ele, atingir a idade adulta. Os detalhes das outras três viagens são mencionados numa longa narrativa de Sahih al-Bukhari (Sahih al-Bukhari, vol. 1, pp. 475–476).
2) O Profeta Ismail, que a paz esteja com ele, atingiu a idade adulta. Aprendeu a língua árabe com os membros da tribo de Jurhum. Os membros da tribo casaram-no com uma das suas filhas. Nessa época, a Profeta Hajar, que a paz esteja com ela, faleceu. Enquanto isso, o Profeta Ibrahim, que a paz esteja com ele, foi a Meca para visitar a esposa e o filho, mas não encontrou o Profeta Ismail. Ao encontrar a nora, perguntou-lhe sobre as dificuldades e a situação de carência em que viviam. O Profeta Ibrahim disse-lhe que, quando Ismail chegasse, lhe dissesse para trocar a soleira da porta da casa. O Profeta Ismail compreendeu o significado do conselho do pai. Divorciou-se da esposa e casou-se com outra mulher. A sua segunda esposa era filha de Majaz ibn Amr, chefe da tribo de Jurhum (Qalb Jāzirat al-‘Arab, p. 233).
3) Após o segundo casamento do Profeta Ismail, que a paz esteja com ele, o Profeta Ibrahim, que a paz esteja com ele, voltou a Meca. Mas, dessa vez também, não encontrou o filho. Depois de perguntar à nora sobre a situação da casa e da família, ela louvou o Deus Todo-Poderoso. Ao ouvir da nora o louvor a Allah, o Profeta Ibrahim, que a paz esteja com ele, disse-lhe que, quando Ismail chegasse, lhe dissesse para conservar a soleira da porta da sua casa. Depois disso, o Profeta Ibrahim, que a paz esteja com ele, regressou à Palestina.
4) Na quarta vez, quando o Profeta Ibrahim, que a paz esteja com ele, chegou a Meca, viu o seu filho Ismail, que a paz esteja com ele, sentado à margem de Zamzam, fabricando flechas. Assim que se viram, abraçaram-se emocionados. Depois de muito tempo, o pai de coração terno encontrou-se com o filho obediente. Foi nessa ocasião que pai e filho construíram juntos a Caaba. Cavaram o solo e ergueram as paredes, e o Profeta Ibrahim, que a paz esteja com ele, convocou toda a humanidade a realizar o Hajj.
Allah, o Senhor dos Mundos, concedeu ao Profeta Ismail, que a paz esteja com ele, doze filhos, nascidos da filha de Majaz ibn Amr (Qalb Jāzirat al-‘Arab, p. 230). Os seus nomes eram: 1) Nabit ou Niabūt; 2) Qaidar; 3) Adbail; 4) Mibsham; 5) Mishma; 6) Dūma; 7) Maisha; 8) Hadad; 9) Tayma; 10) Yatur; 11) Nafis; e 12) Qaidman.
Através desses doze filhos formaram-se doze tribos. Todos eles viviam em Meca. Sustentavam-se comerciando no Iémen, no Egito e na Síria. Mais tarde, essas tribos espalharam-se por várias regiões da Jāzirat al-‘Arab e para além da Arábia. Os relatos sobre a sua situação perderam-se na profunda escuridão dos tempos. Apenas se conhecem algumas informações sobre os descendentes de Nabit e de Qaidar.
A cultura dos Nabateus desenvolveu-se na parte setentrional do Hijaz. Eles estabeleceram um governo poderoso e dominaram os povos vizinhos. Batra era a sua capital. Ninguém tinha força para enfrentá-los. Depois veio a era dos Romanos. Os Romanos derrotaram os Nabateus. Após longas pesquisas e discussões, Mawlana Sayyid Sulayman Nadwi, que Allah tenha misericórdia dele, provou que os membros da linhagem dos Ghassan e os Ansar, isto é, os Qahtanitas de Aws e Khazraj, não eram árabes. Pelo contrário, nessa região viviam os descendentes remanescentes de Nabit, filho de Ismail (Tarikh-e Abdul Quran, vol. 2, pp. 77–86).
Os descendentes de Qaidar, filho do Profeta Ismail, que a paz esteja com ele, continuaram a estabelecer-se em Meca e, com o passar do tempo, multiplicaram-se. Mais tarde, chegou a época de Adnan e do seu filho Ma‘ad. A genealogia adnanita foi preservada corretamente até esse ponto.
Adnan era o décimo nono antepassado do Nobre Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Algumas narrações afirmam que, ao mencionar sua linhagem, o Nobre Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, parava ao chegar a Adnan. Ele dizia que os especialistas em genealogia transmitiam informações incorretas. (At-Tabari, Umam al-Muluk, vol. 2, pp. 191–194; Al-Alam, pp. 5–6.) Contudo, também é possível mencionar as linhagens de todos esses antepassados. Muitos classificaram a narração acima como fraca. Segundo esses eruditos, há uma diferença de quarenta gerações entre Adnan e o Profeta Ibrahim, que a paz esteja com ele.
Em suma, de Nizar, filho de Maad, surgiram várias famílias. Diz-se que Maad teve apenas um filho, chamado Nizar. Nizar teve quatro filhos, e da descendência de cada um deles formou-se uma tribo. Os nomes desses quatro filhos eram Iyad, Anmar, Rabia e Mudar. As tribos de Rabia e Mudar, os dois últimos mencionados, expandiram-se em numerosos ramos. De Rabia surgiram muitas tribos de Asad ibn Rabia, Anaza, Abd al-Qays, Wa’il, Bakr, Taghlib e Banu Hanifa.
Os descendentes de Mudar dividiram-se em duas grandes tribos: (1) Qays Aylan ibn Mudar; (2) Ilyas ibn Mudar.
De Qays Aylan expandiram-se as tribos de Banu Sulaym, Banu Hawazin e Banu Ghatafan; e de Ghatafan, as tribos de Aras, Jurayan, Ashja e Ghani ibn Ashtar.
De Ilyas ibn Mudar expandiram-se as tribos de Tamim ibn Murra, Budayn ibn Marrika, Banu Asad ibn Khuzayma e Kinana ibn Khuzayma. Da tribo de Kinana surgiu a tribo dos coraixitas. Os membros dessa tribo eram descendentes de Fihr ibn Malik, ibn Nadr, ibn Kinana.
Mais tarde, os coraixitas dividiram-se em vários ramos. Os nomes dos famosos ramos dos coraixitas são os seguintes: Jumah, Sahm, Adi, Makhzum, Taym e Zuhra. A família de Qusayy ibn Kilab compreendia Abd ad-Dar, Asad ibn Abd al-Uzza e Abd Manaf. Esses três eram filhos de Qusayy. Abd Manaf teve quatro filhos. Desses quatro filhos originaram-se as seguintes quatro tribos: Abd Shams, Nawfal, al-Muttalib e Hashim. Da descendência de Hashim, Allah Todo-Poderoso escolheu o nosso amado Profeta, Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. (Muhadarat al-Khazrami, vol. 1, pp. 14–15.)
O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Allah Todo-Poderoso escolheu Ismail entre os descendentes de Ibrahim, que a paz esteja com ele. Em seguida, escolheu Kinana entre os descendentes de Ismail, que a paz esteja com ele. Entre os descendentes de Kinana, escolheu os coraixitas. Depois, entre os descendentes dos coraixitas, escolheu os Banu Hashim. E entre os Banu Hashim escolheu a mim.” (Sahih Muslim, vol. 2, p. 245; Jami at-Tirmidhi.)
Abdullah ibn Abbas, que Allah esteja satisfeito com ele, narrou que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Depois de criar as criaturas, Allah Todo-Poderoso criou-me entre o melhor grupo. Em seguida, escolheu as famílias e criou-me na melhor família. Portanto, sou da melhor tribo quanto à linhagem tribal e também o melhor quanto à família ou linhagem.” (At-Tirmidhi, vol. 2, p. 231.)
Em suma, quando a descendência de Adnan se expandiu, seus membros espalharam-se por várias regiões da Arábia em busca de alimento e bebida. A tribo de Abd al-Qays, alguns ramos de Bakr ibn Wa’il e as famílias de Banu Tamim partiram em direção ao Bahrein e começaram a viver naquela região. Banu Hanifa ibn Sa’d ibn Ali ibn Bakr foi para Yamama e começou a viver em Hajr, local situado no centro de Yamama.
Os ramos restantes de Bakr ibn Wa’il estabeleceram-se na região que se estendia de Yamama ao Bahrein, à costa de Kazima, aos arredores da península do Iraque, até Ibla e Ziyad.
Banu Taghlib estabeleceu-se na região da península do Eufrates. Contudo, alguns de seus ramos continuaram vivendo junto de Banu Bakr.
Banu Sulaym estabeleceu-se nas proximidades de Medina. Seu território estendia-se de Wadi al-Qura, passando por Khaybar e pela região oriental de Medina, até as duas montanhas associadas à Harra de Banu Sulaym.
Os membros da tribo de Banu Thaqif estabeleceram-se em Taif. Banu Hawazin estabeleceu-se nos arredores da planície de Awas, a leste de Meca. Suas moradias ficavam dos dois lados da estrada entre Meca e Basra.
Banu Asad passou a viver a leste de Tayma e a oeste de Kufa. Entre eles e Tayma vivia uma família da tribo de Banu Tayy. Os membros dessa família eram chamados de Bohter. A distância entre o território de Banu Asad e Kufa equivalia a cinco dias de viagem.
Banu Jubyān vivia em Hawā, próximo de Tayma.
A família de Banu Kinana continuou vivendo em Tihama. Entre eles, as famílias Quraysh viviam em Meca e nos arredores. Viviam de forma dispersa e isolada. Mais tarde, Qusay ibn Kilab surgiu e unificou os coraixitas, elevando-os a uma posição de honra, prestígio e superioridade (Muhadarate Khazrami, vol. 1, p. 15–16).
A situação administrativa da Arábia
Ao discutir a situação da Arábia no período pré-islâmico, apresenta-se um breve quadro de sua administração, liderança e ideais religiosos. Assim, será fácil compreender a situação da Arábia no momento do surgimento do Islã.
Na época em que a luz do Islã se espalhou pela Península Arábica, havia dois tipos de sistema de governo em vigor na região. Primeiro, os reis coroados, que também não eram plenamente independentes. Segundo, os chefes tribais. Eles exerciam o poder de modo semelhante aos reis coroados, mas eram independentes na tomada de várias decisões. Os verdadeiros reis eram os reis do Iêmen, os reis da dinastia gassânida da Síria e os reis de Hira, no Iraque. Fora esses, não havia outros reis coroados na Arábia.
O reino do Iêmen
Entre os ‘árabes al-ʿAriba’, o nome da antiga tribo iemenita era povo de Sabá. Inscrições antigas descobertas no Iraque revelam que, dois mil e quinhentos anos antes de Cristo, o povo de Sabá já estava estabelecido nessa região. Contudo, o início do desenvolvimento e do progresso desse povo ocorreu no século XI antes de Cristo. Os principais períodos históricos são os seguintes:
1) O período anterior a 650 a.C. Nessa época, o título dos reis de Sabá era Mukarreb de Sabá. Sua capital ficava num lugar chamado Sarwah. As ruínas dessa capital encontram-se a uma distância de um dia de viagem a oeste de Ma’rib. Atualmente, o lugar chama-se Kharibah. Foi nessa época que se lançaram as bases da famosa barragem de Ma’rib. Na história do Iêmen, esse foi um acontecimento importante. Durante o governo dos reis de Sabá nesse período, muitas pessoas estabeleceram novos assentamentos em diversos lugares, dentro e fora da Arábia.
2) De 650 a.C. a 115 a.C. Nesse período, os reis de Sabá abandonaram o título de Mukarreb, adotaram o título de rei e escolheram Ma’rib como capital, em lugar de Sarwah. As ruínas dessa cidade ainda podem ser encontradas 60 milhas a leste de Sana’a.
3) De 115 a.C. a 300 d.C. Nesse período, a tribo de Himyar estendeu seu domínio sobre os reis de Sabá e escolheu Raydan como sua capital, em lugar de Ma’rib. Mais tarde, o nome de Raydan foi alterado para Zafar. Suas ruínas ainda podem ser encontradas numa montanha próxima ao Iêmen.
Em certa época, começou o declínio do povo de Sabá. Primeiro, os nabateus estenderam seu domínio sobre a região norte do Hijaz e começaram a expulsar os novos assentamentos de Sabá. Depois, os romanos estenderam seu domínio sobre o Egito, a Síria e a região norte do Hijaz, fazendo com que o comércio pelas rotas terrestres fosse interrompido. Enquanto isso, as tribos qahtanitas também se encontravam em dificuldades financeiras. Em tal situação, as tribos qahtanitas abandonaram sua terra e se dispersaram, espalhando-se desordenadamente por diversos lugares.
4) Do ano 300 d.C. até o início do Islam. Nesse período, continuaram no Iêmen as constantes divergências e desordens. Houve revoltas, guerras civis e intervenções de potências estrangeiras. Assim, em determinado momento, a independência do Iêmen também foi tomada. Nessa época, os romanos intervieram militarmente em Áden e, beneficiando-se do conflito mútuo entre as tribos himiarita e hamdanita da Abissínia, isto é, dos habashitas, conquistaram o Iêmen pela primeira vez, em 340. Essa ocupação permaneceu até 378. Depois, o Iêmen recuperou sua independência, mas surgiu uma ruptura na famosa represa de Ma’rib. A represa rompeu-se em 450 ou 451. O Alcorão Sagrado chamou essa ruptura de inundação causada pelo rompimento da represa. Ela é mencionada na surata Sabá. Foi uma grande calamidade. Como resultado dessa inundação, muitos povoados foram devastados e ficaram desabitados, e muitas tribos se dispersaram por diferentes lugares.
No ano 523 d.C., ocorreu outra grande calamidade. O rei Dhu Nuwas atacou os cristãos do Iêmen e tentou obrigá-los a abandonar o cristianismo. Como eles não aceitaram, foram cavadas trincheiras, e eles foram lançados em fogueiras ardentes. Na surata Al-Buruj, o Alcorão Sagrado menciona esse acontecimento aterrador, dizendo: “Destruídos foram os companheiros da vala”. Esse acontecimento despertou o desejo de vingança. Com o apoio dos romanos, os abissínios voltaram a atacar em 515, sob a liderança de Aryat, com setenta mil soldados, e tomaram o Iêmen. Após a conquista, Aryat passou a governar o Iêmen como governador do imperador da Abissínia. Algum tempo depois, um comandante do exército de Aryat matou-o e tomou o poder. O nome desse comandante era Abraha. Depois de assumir o poder, Abraha se fortaleceu e também fez com que o imperador da Abissínia aceitasse sua submissão. Foi esse Abraha que mais tarde tentou destruir a Caaba. Comandando um grupo de soldados destemidos e vários elefantes, Abraha conduziu uma expedição contra Meca. Essa expedição é mencionada no Alcorão, na surata Al-Fil, pelo nome de “Companheiros do Elefante”.
Em consequência das perdas sofridas pelos abissínios no episódio dos Companheiros do Elefante, os habitantes do Iêmen pediram ajuda ao governo persa. Eles se revoltaram contra os abissínios e, sob a liderança de Ma‘di Karib, filho de Sayf Dhu Yazan al-Himyari, expulsaram-nos do país. Depois, como nação independente e autossuficiente, proclamaram Ma‘di Karib rei do Iêmen. Isso ocorreu no ano 505.
Após a independência, Ma‘di Karib manteve alguns habashitas, isto é, abissínios, a seu serviço e para dar esplendor à guarda real. Essa decisão revelou-se perigosa. Certo dia, os abissínios que estavam a serviço do rei traíram-no e assassinaram Ma‘di Karib. Como resultado, o reinado da família de Dhu Yazan terminou para sempre. O imperador persa Kisra aproveitou-se dessa situação. Ele nomeou em Saná um governador de origem persa, e governadores persas continuaram a ser nomeados. O último governador, Badhan, aceitou o Islam em 628. Com isso, o domínio persa desapareceu do Iêmen, e o Iêmen tornou-se um Estado islâmico (Maulana Sayyid Sulayman Nadwi apresentou detalhadamente, no primeiro volume de sua obra Tarikh Ardh al-Qur’an, da página 136 até o final do livro, informações sobre toda a nação com base na preservação de dados históricos. Maulana Abul A‘la Maududi também inseriu algumas informações sobre esta etapa nas páginas 158–198 do quarto volume de Tafhim al-Qur’an).
O reino de Hira
No Iraque e nas regiões circunvizinhas, o domínio dos persas existia desde a época de Ciro, o Grande, ou Sayram Dhu al-Qarnayn (de 575 a 529 a.C.). Ninguém tinha força para enfrentar os persas. Em 326 a.C., Alexandre da Macedônia derrotou pela primeira vez e aniquilou o poder persa. Como resultado, o Império Persa fragmentou-se. Esse estado de desordem continuou até 230. Nesse período, as tribos qahtanitas deixaram o país. Os adnanitas que haviam emigrado de uma extensa fronteira do Iraque retornaram nessa época a Qarila e, lutando contra seus adversários, estabeleceram seus assentamentos em uma parte das margens do rio Eufrates.
Enquanto isso, depois que Ardashir estabeleceu o reino sassânida em 226, o poder persa começou gradualmente a se consolidar. Ardashir apoiou os persas e repeliu os árabes que viviam nas fronteiras de seu país. Como resultado, a tribo de Quda‘a partiu em direção à Síria. Por outro lado, os habitantes árabes de Hira e Anbar concordaram em submeter-se.
Durante o reinado de Ardashir, a tribo de Rabi’a estabeleceu seu domínio sobre Hira, a Badiyat al-Iraque e a Península. Os Jazirat al-Wazzah dominavam as tribos de Mudar. Parece que os Ardashiridas compreenderam que não era possível governar diretamente os habitantes árabes nem impedi-los de saquear as fronteiras; seria mais sensato nomear como governante um líder árabe com amplo apoio popular. Isso teria a vantagem de permitir que, quando necessário, os persas recorressem à ajuda desses árabes contra os romanos e colocassem esses governantes do Iraque contra os governantes árabes pró-romanos da Síria. Sob os reis de Hira, havia uma unidade de soldados persas na Abissínia. Eles eram usados para reprimir as revoltas árabes em diversos lugares.
Em 268, Jadhima morreu, e Amr ibn Adi ibn Nasr al-Lakhami al-Hadrami o sucedeu. Ele foi o primeiro governante da tribo de Lakhm. O domínio dos lakhmidas sobre Hira continuou ininterruptamente até a época de Shapur Qobad ibn Firoz. Durante o período contemporâneo de Qobad, surgiu Mazdak. Ele era um defensor do reformismo. Qobad e muitos de seus seguidores enviaram uma mensagem ao rei Mundhir ibn Ma’us-sama, dizendo-lhe: “Adota também esta religião”. Mundhir era um homem de grande discernimento e recusou-se a fazê-lo. Por isso, Qobad o destituiu e confiou o governo de Hira a Harith ibn Amr ibn Hajar al-Findi, um dos principais defensores da doutrina mazdakista.
Depois de Qobad, o poder governamental da Pérsia passou para Kisra Anushirvan. Ele odiava intensamente essa religião. Matou Mazdak e muitos de seus apoiadores. Restabeleceu Mundhir no governo de Hira e convocou Harith ibn Amr à sua presença. Harith, porém, fugiu para a região dos Banu Kinana e passou ali o restante de sua vida.
Depois de Mundhir ibn Ma’us-sama, o governo de Hira permaneceu alternadamente entre seus descendentes até a época de Nu’man ibn Mundhir. Então Zayd ibn Adi al-Ibadi apresentou a Kisra uma falsa acusação contra Nu’man ibn Mundhir. Kisra Anushirvan enfureceu-se e convocou Nu’man à sua presença. Em vez de comparecer imediatamente, Nu’man foi secretamente até Hani ibn Mas’ud, chefe dos Banu Shayban, e deixou com ele sua família, seus bens e toda a sua riqueza; depois compareceu à corte de Kisra. Kisra o prendeu, e ele morreu ainda encarcerado.
Depois de Kisra prender Nu’man, nomeou em seu lugar Iyas ibn Qubaysa al-Ta’i como governador de Hira e ordenou-lhe que exigisse de Hani ibn Mas’ud os bens confiados a ele por Nu’man. Hani, homem de honra, declarou guerra. Iyas partiu com os soldados de Kisra e um contingente de marzbanes. Uma batalha feroz foi travada entre os dois lados no campo de Dhi Qar. Nessa batalha, os Banu Shayban venceram, e os persas foram vergonhosamente derrotados. Foi a primeira vez que os árabes triunfaram sobre os não árabes. Esse acontecimento ocorreu algum tempo depois do nascimento do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. No oitavo mês do governo de Iyas em Hira, nasceu o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz.
Depois de Iyas, Kisra nomeou um governador persa para Hira. Porém, em 632, o poder dos lakhmidas foi restaurado, e um homem chamado Mundhir ibn Ma’rur assumiu o governo. Apenas oito meses depois de iniciar seu governo, o nobre Khalid, que Allah esteja satisfeito com ele, entrou em Hira levando o estandarte do poder do Islã.
O reino da Síria
Quando estava em curso a migração das tribos árabes, alguns ramos da tribo de Quda’a chegaram à fronteira da Síria e começaram a estabelecer-se ali. Eles eram ligados aos Banu Sulaym ibn Hulwan. Um de seus ramos era o dos Banu Jadh’am ibn Sulaym, que se tornou conhecido como Jadhayima. Os romanos acolheram esse ramo dos Quda’a para protegê-lo dos saques dos beduínos árabes e utilizá-lo contra os persas. Um membro dessa tribo foi nomeado para assumir o governo. Depois disso, seu domínio continuou por longo tempo. Seu rei mais famoso foi Ziyad ibn Hiyula. Supõe-se que o governo dos Jadhayima tenha abrangido todo o segundo século da era cristã. Depois surgiu a dinastia dos gassânidas, e terminou o governo dos Jadhayima. Os gassânidas derrotaram os Banu Jadhayima e ampliaram seu domínio. Diante disso, os romanos reconheceram os governantes da dinastia gassânida como governantes dos árabes da Síria. A capital da dinastia gassânida era Dumat al-Jandal. Como marionetes do poder romano, eles mantiveram por muito tempo seu domínio na Síria. Durante o califado de al-Faruq, no décimo terceiro ano da Hégira, ocorreu a batalha de Yarmuk; nessa época, o último governante da dinastia gassânida, Jabala ibn Aiham, abraçou o Islã. Porém, por causa de sua arrogância, esse homem não conseguiu permanecer por muito tempo no Islã; mais tarde, mudou de religião e tornou-se apóstata.
A liderança do Hijaz
Foi a partir de Hazrat Ismael, que a paz esteja com ele, que se formou uma comunidade humana em Meca. Ele viveu 137 anos (Bíblia, Livro do Gênesis, capítulo, pp. 17–25). Enquanto esteve vivo, ele próprio foi o líder de Meca e o guardião da Caaba (Qalb-e Jaziratul Arab, pp. 230–237). Após sua morte, seus filhos Nabet e Qaidar governaram Meca.
Há divergência quanto a qual dos dois assumiu o poder primeiro e qual depois. Alguns dizem que Nabet governou primeiro e Qaidar depois. Outros dizem que Qaidar governou primeiro e Nabet depois. Depois deles, seu avô Majaz ibn Jurhami assumiu o poder. Assim, o governo de Meca passou para as mãos dos Jurhamitas. Eles mantiveram esse poder por muito tempo. Como Hazrat Ismael, que a paz esteja com ele, havia construído a Caaba junto com seu pai, seus descendentes ocupavam uma posição honrosa; porém, posteriormente, o poder e a liderança não lhes couberam (Ibn Hisham, vol. 1, pp. 111–113; Ibn Hisham menciona que, entre os descendentes de Hazrat Ismael, somente Nabet permaneceu no poder).
Passaram-se anos e anos, mas os descendentes de Hazrat Ismael, que a paz esteja com ele, não conseguiram sair da obscuridade. Pouco antes do surgimento de Bakht Nasr, o poder dos Banu Jurham enfraqueceu, e a estrela política dos Adnanitas começou a brilhar no céu político de Meca. A prova disso é que, na guerra que Bakht Nasr travou contra os árabes no lugar chamado Irq, não havia nenhum membro da tribo de Jurham entre os comandantes do exército árabe (Qalb-e Jaziratul Arab, p. 230).
No ano 587 a.C., durante a segunda expedição de Bakht Nasr, os Banu Adnan fugiram para o Iêmen. Naquela época, o profeta dos Filhos de Israel era Hazrat Ibrahim, que a paz esteja com ele. Ele foi à Síria levando consigo Maad, filho de Adnan. Depois que o poder de Bakht Nasr diminuiu, Maad retornou a Meca. Naquele momento, percebeu que em Meca restava apenas um homem da tribo de Jurham, chamado Jorham. Jorham era filho de Julhama. Então Maad casou-se com Mayana, filha de Jorham. Dela nasceu Nizar (Rahmatun lil-Alamin, vol. 2, p. 48).
Na época em que a situação dos Jurhamitas em Meca havia se tornado muito ruim, eles estavam oprimidos pela pobreza. Por isso, passaram a tratar com arrogância as pessoas que vinham circundar a Caaba e nem sequer hesitaram em apropriar-se dos bens e riquezas da Caaba (Qalb-e Jaziratul Arab, p. 231). Os Banu Adnan estavam profundamente descontentes, em segredo, com essas ações dos Banu Jurham. Assim, durante a expedição de Banu Khuza’a a Marr az-Zahran, eles exploraram a cobiça dos descendentes de Adnan. Banu Khuza’a, juntamente com Banu Bakr ibn Abd Manaf ibn Kinana, da tribo de Adnan, declarou guerra contra Banu Jurham. Banu Jurham foi derrotado e expulso de Meca. Esse acontecimento ocorreu em meados do século cristão.
Ao deixar Meca, Banu Jurham aterrou o poço de Zamzam. Naquele momento, jogaram nele vários objetos históricos e quase o preencheram completamente. Muhammad ibn Ishaq escreveu que Amr ibn Harith, de Majaz Jurhami (o Majaz Jurhami mencionado no relato de Hazrat Ismael e este homem não são a mesma pessoa), retirou da Caaba dois cervos de ouro (Mas’ud escreveu que os persas enviavam riquezas valiosas e presentes para a Caaba. Zayd ibn Baq enviou dois cervos de ouro, joias, pérolas, espadas e muito ouro. Amr lançou tudo isso no poço de Zamzam; Muruj adh-Dhahab, vol. 1, p. 205) e retirou também a Pedra Negra, instalada no canto da Caaba, enterrando-a no poço de Zamzam. Depois, foi para o Iêmen levando consigo todos os membros da tribo de Jurham. Banu Jurham não conseguia esquecer a dor de ter sido expulso de Meca e de ter perdido o poder. Um homem chamado Amr, da tribo de Jurham, disse em um poema composto sobre isso:
De Ajun a Safa, não há nenhum aliado; nas reuniões noturnas, não há ninguém para contar histórias. Por que não há ninguém? Nós somos os habitantes daqui; com o giro do tempo e a nossa sorte arruinada, ai de nós, hoje ele nos deixou desprovidos de tudo. (Ibn Hisham, vol. 1, pp. 114–115).
A época do profeta Ismael (que a paz esteja com ele) foi aproximadamente dois mil anos antes de Cristo. De acordo com esse cálculo, a tribo de Jurhum, em Meca, existiu por dois mil e cem anos. Eles governaram durante aproximadamente dois mil anos.
Depois de estabelecer seu domínio sobre Meca, os Banu Khuzāʿa passaram a governá-la, excluindo os Banu Bakr. No entanto, pessoas da tribo de Mudar foram instaladas em três cargos honoríficos. Esses três cargos eram os seguintes:
1) Conduzir os peregrinos de Arafat a Muzdalifah e dar a autorização para que partissem de Mina no Yawm al-Nahr. O dia 13 de Dhu al-Hijjah é o Yawm al-Nafr, o último dia do hajj. Essa honraria pertencia à família de Ilyas ibn Mudar, os Banu Sawm ibn Marra. Eles eram chamados de Sufa. No dia 13 de Dhu al-Hijjah, os peregrinos não podiam apedrejar até que um dos membros da Sufa lançasse as pedras. Durante o apedrejamento dos peregrinos e sua partida para Mina, os membros da Sufa permaneciam em ambos os lados de Aqaba, a única passagem para Mina. Nenhum peregrino podia atravessar essa passagem até que eles terminassem de passar. Depois que eles partiam, era permitido que os demais passassem. Depois dos Sufa, essa rara honraria foi concedida a uma família dos Banu Tamim, os Banu Saʿd ibn Zayd Manāt.
2) A honra de partir de Muzdalifah para Mina na manhã do dia 10 de Dhu al-Hijjah pertencia aos Banu Adnan.
3) Antecipar e adiar os meses sagrados. Os Banu Tamim ibn Adi, um ramo da tribo de Banu Kinana, detinham essa honraria. (Ibn Hisham, volume 1, pp. 119–122.)
O domínio da tribo dos Banu Khuzāʿa sobre Meca durou trezentos anos. (Yaqut, Saʿdah, Meca)
Durante esse período, as tribos adnanitas deixaram Meca e o Hijaz e se espalharam por Najd, por várias regiões do Iraque, pelo Bahrein e por outros lugares. Alguns ramos dos coraixitas permaneceram nos arredores de Meca. Eram beduínos. Estavam divididos em grupos distintos, e algumas famílias dispersas suas viviam entre os Banu Kinana. Não tinham qualquer participação na administração de Meca nem na manutenção da Caaba. Depois disso, surgiu Qusay ibn Kilab. (Muhādarāt Khazramī, volume 1, p. 35; Ibn Hisham, volume 1, p. 117.)
Diz-se a respeito de Qusay que seu pai morreu quando ele ainda estava no colo de sua mãe. Depois disso, sua mãe casou-se com um homem da tribo dos Banu ʿUdhra. Como a tribo de seu marido vivia na Síria, a mãe de Qusay mudou-se para lá. Ela levou Qusay consigo. Depois de chegar à juventude, Qusay retornou a Meca. Naquele tempo, o governador de Meca era Hulayl ibn Hubshiyyah al-Khuzaʿi. Qusay enviou uma proposta de casamento a Huba, filha de Hulayl.
Hulayl aceitou a proposta e casou sua filha Huba. (Ibn Hisham, vol. 1, pp. 117–118.) Após a morte de Hulayl, travou-se uma guerra entre os Khuzaitas e os coraixitas pela questão do domínio sobre Meca e a Caaba. Vitorioso nessa guerra, Qusay obteve o poder de governar e o direito de cuidar da Caaba.
Qual foi a causa dessa guerra? Há três relatos a esse respeito.
Primeiro: depois que o número dos descendentes de Qusay aumentou e veio a abundância de riquezas, sua posição social e sua influência cresceram. Enquanto isso, Hulayl morreu. Então Qusay pensou que, em vez dos Banu Khuza’a e dos Banu Bakr, ele próprio era o mais apto para cuidar da Caaba e governar Meca. Pensou também que os coraixitas eram árabes de pura descendência ismaelita e os líderes dos demais ismaelitas. Portanto, somente eles tinham o direito à liderança e à autoridade. Com esses pensamentos, Qusay consultou alguns homens das tribos dos coraixitas e dos Banu Khuza’a. Ele manifestou sua opinião, perguntando se havia algum pacto que impedisse expulsar de Meca os Banu Bakr, da tribo dos Banu Khuza’a. Todos concordaram com ele e lhe deram apoio (Ibn Hisham, vol. 1, pp. 117–118).
Segundo: no momento de sua morte, Hulayl, sogro de Qusay, havia deixado em testamento que Qusay cuidaria da Caaba e governaria Meca (Ibn Hisham, vol. 1, p. 118).
Terceiro: Hulayl havia confiado à sua filha Huba a responsabilidade de cuidar da Caaba. Abu Ghibshan, dos Khuzaitas, foi nomeado seu procurador. Como representante de Huba, Abu Ghibshan cuidava da Caaba. Após a morte de Hulayl, Qusay comprou de Abu Ghibshan a autoridade sobre a Caaba em troca de um odre de vinho. Entretanto, a tribo dos Khuza’a não aprovou essa compra e venda. Eles impediram Qusay de entrar na Caaba. Por isso, Qusay reuniu os coraixitas e os Banu Kinana para expulsar os Banu Khuza’a de Meca. Todos atenderam ao chamado de Qusay, e os Banu Khuza’a foram expulsos de Meca (Rahmatul lil-Alamin, vol. 2, p. 55).
Em suma, qualquer que tenha sido a causa, os acontecimentos se desenrolaram da seguinte forma: após a morte de Hulayl, os homens da tribo dos Sufa quiseram continuar fazendo o que já faziam. Nessa ocasião, Qusay reuniu os homens das tribos dos coraixitas e de Kinana. Aos que estavam reunidos à margem do caminho de Aqaba, Qusay disse: “Nós somos mais dignos desta honra do que vocês” (Ibn Hisham, vol. 1, p. 117). Depois dessas palavras, começou um violento confronto entre os dois lados, e Qusay tomou dos Sufa sua posição honorífica. Nessa ocasião, os homens das tribos dos Banu Khuza’a e dos Banu Bakr, em vez de se unirem a Qusay, opuseram-se a ele. Por isso, Qusay os ameaçou. Finalmente, eclodiu uma guerra entre os dois lados, e muitas pessoas morreram (Qalb Jazeera-tul-Arab, p. 232). Após a guerra, de acordo com os termos do tratado, Qusay reorganizou a administração de Meca. Convocou os coraixitas de diferentes áreas de Meca e os incorporou à administração. Além disso, destinou um local específico para o Ramadã de cada família coraixita. Manteve em seus cargos os responsáveis pelo cálculo dos meses, os al-Safwan, os Banu Adwan e os Banu Marra ibn Awf. Qusay considerava isso também parte da religião e entendia que ninguém tinha o direito de alterá-la (Ibn Hisham, vol. 1, pp. 124–125).
Uma das grandes realizações de Qusay foi fundar a Dar al-Nadwa em ambos os lados da Casa da Caaba. Sua porta ficava voltada para a mesquita. A Dar al-Nadwa era, na realidade, o edifício do parlamento dos coraixitas. Sua importância e influência na vida social dos coraixitas eram extraordinárias. Essa instituição era um símbolo da unidade dos coraixitas. Muitos problemas complexos da sociedade eram resolvidos ali. (Ibid., vol. 1, p. 125; Muhadarat al-Khazrami, vol. 1, p. 36.)
Qusay possuía as seguintes honras e poderes.
1) A presidência de Dār an-Nadwa. Ali, consultava-se sobre muitos assuntos importantes. Os casamentos de jovens também eram realizados ali.
2) Liwā, isto é, a bandeira de guerra, era confiada a Qusayy.
3) Hijāba, a manutenção da Caaba. Isso significa que Qusayy abria a porta da Caaba, e todos os serviços e a manutenção da Caaba eram realizados sob sua supervisão.
4) Siqāya, o fornecimento de água. A água dos peregrinos era mantida em vários reservatórios. Depois, tâmaras e passas eram misturadas à água para adoçá-la. Assim que os peregrinos do Hajj chegavam a Meca, bebiam aquela água. (Muhādarāt al-Khāḍramī, vol. 1, p. 36).
5) Rifāda, a hospitalidade aos peregrinos. Isso significava preparar comida para receber os peregrinos. Para esse fim, Qusayy fixava uma contribuição determinada para os coraixitas. Esse dinheiro tinha de ser entregue aos Qusayyitas durante a temporada do Hajj. Qusayy mandava preparar comida para os peregrinos com o dinheiro arrecadado. Servia-se comida aos peregrinos pobres e necessitados. Aqueles que não tinham recursos para retornar às suas casas eram ajudados (Ibn Hishām, vol. 1, p. 11).
Qusayy detinha todos os cargos mencionados. O nome de seu filho mais velho era Abd ad-Dār. O nome do segundo filho era Abd Manāf. Ainda durante a vida de Qusayy, o segundo filho alcançou uma posição elevada de liderança e autoridade. Por isso, Qusayy disse a seu filho mais velho, Abd ad-Dār: “Embora eles tenham superado você, eu o elevarei à mesma posição que eles.” Depois, Qusayy designou Abd ad-Dār como seu sucessor em todos os cargos. Ou seja, confiou a Abd ad-Dār a presidência de Dār an-Nadwa, a administração da manutenção da Caaba, o porte da bandeira de guerra, o fornecimento de água aos peregrinos e a hospitalidade aos peregrinos. Durante sua vida, ninguém se opunha a qualquer palavra ou ato de Qusayy; pelo contrário, todos aceitavam tudo sem contestação. Por isso, após sua morte, todos aceitaram suas decisões sem críticas. Os filhos de Qusayy demonstraram pleno respeito à disposição testamentária do pai. Após a morte de Abd Manāf, seus filhos começaram a negociar com os primos sobre os assuntos mencionados. Eles passaram a manifestar descontentamento, criticando o fato de os primos deterem exclusivamente os cargos. Como resultado, os coraixitas dividiram-se em dois grupos. Quase eclodiu uma guerra entre os dois grupos. Porém, em certo momento, ambos levantaram a proposta de um acordo e dividiram entre si os diversos cargos. Depois disso, o fornecimento de água e a hospitalidade aos peregrinos foram confiados aos Banū Abd Manāf. A liderança de Dār an-Nadwa e a manutenção da Caaba permaneceram nas mãos dos filhos de Abd ad-Dār. Quanto aos cargos obtidos, os filhos de Abd Manāf organizaram uma qura, isto é, um sorteio. No sorteio, saiu o nome de Hāshim, filho de Abd Manāf. Assim, Hāshim passou toda a vida fornecendo água aos peregrinos e oferecendo-lhes hospitalidade. Após a morte de Hāshim, seu irmão al-Muṭṭalib assumiu essa responsabilidade. Depois de al-Muṭṭalib, a responsabilidade foi confiada a seu sobrinho, Abd al-Muṭṭalib. Ele era o avô do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. O filho de Abd al-Muṭṭalib, al-Abbās, recebeu essa responsabilidade. (Ibid., vol. 1, pp. 129, 132, 178, 179).
Além disso, havia alguns outros cargos, que os coraixitas dividiram entre si. Por meio desses cargos, os coraixitas haviam formado uma espécie de pequeno governo. A administração desse governo era bastante semelhante ao sistema parlamentar dos tempos atuais. A estrutura dos cargos era a seguinte:
a) Īsār, isto é, adivinhação. A manutenção das flechas que eram colocadas junto aos ídolos para consultar o destino cabia aos Banū Jumah.
b) Administração financeira: gestão das oferendas, votos e sacrifícios apresentados para obter proximidade dos ídolos. Além disso, a responsabilidade de resolver disputas e conflitos também foi confiada aos Banu Sahm.
c) Shura: esta honra pertencia aos Banu Asad.
d) Ashnaq: arrecadação e distribuição dos valores de indenizações e multas. A tribo Banu Taym detinha esta dignidade.
e) Uqab: portar a bandeira nacional. Esta dignidade estava confiada à tribo Banu Umayya.
f) Qubba: administração do acampamento militar e comando dos soldados. Esta honra pertencia aos Banu Makhzum.
g) Safayat: supervisão dos assuntos relacionados às viagens. A tribo Banu Adi desempenhava essa função. (Tarikh-e Abdul Quran, vol. 2, pp. 104, 105 e 106).
A situação administrativa das demais regiões da Arábia
Anteriormente, foi discutida a partida dos árabes qahtânitas e adnanitas de suas terras, e foi mencionado que todo o país havia sido dividido entre essas tribos árabes. Quanto à situação de sua liderança e autoridade, as tribos que viviam nas proximidades da Caaba eram consideradas subordinadas a Hira. Mas isso era apenas nominal; na realidade, não era assim. Com exceção dos dois lugares mencionados, os árabes das demais regiões eram completamente independentes.
Entre todas essas tribos, vigorava um sistema de dignidades. Os membros da tribo nomeavam os seus próprios dignitários. Para esses chefes, a tribo era uma espécie de pequeno governo. Por meio dela, asseguravam a base da segurança da existência política, a resolução das disputas e desordens tribais e a manutenção e defesa do seu território.
A posição dos chefes era semelhante à de reis em suas sociedades. Nas questões de guerra e paz, as decisões dos chefes eram definitivas. Em nenhuma circunstância se fazia qualquer mudança nessa situação. O poder desses chefes tribais não era, em nada, inferior ao poder que um ditador deveria possuir; alguns chefes chegavam a ser independentes em todos os aspectos. Um poeta descreveu isso da seguinte maneira: “Entre nós, tens direito a um quarto dos despojos. Além disso, há riquezas selecionadas. Aquilo sobre o qual decidires também será de tua propriedade. Também és dono do que for encontrado pelo caminho e do que restar sem ser distribuído.”
Situação política
Já que foram discutidos o sistema de governo e os governantes da Península Arábica, convém fazer também uma breve análise da situação política.
Os habitantes das três regiões fronteiriças da Península Arábica eram vizinhos de países diferentes. Nesses três países prevaleciam a agitação, a desordem e a instabilidade política. As pessoas estavam divididas em duas classes: escravos e senhores. Todas as oportunidades e privilégios, todas as distinções, estavam nas mãos dos governantes estrangeiros. Todo o peso recaía sobre os escravos. Em termos claros, pode-se dizer que a administração era como uma lavoura; eles eram considerados uma fonte de receita do governo. Os governantes gastavam esses recursos e riquezas em seu próprio bem-estar, conforto, prazeres, opulência e luxo. O povo se debatia impotente na escuridão. Os governantes continuavam a infligir toda espécie de opressão e tirania ao povo, que suportava tudo em silêncio e sem protestar. Não havia qualquer meio de apresentar queixas. Tinham de suportar a desonra, a humilhação e a opressão. As pessoas que ocupavam o poder governamental agiam como ditadores. O povo não possuía direito algum.
Os vizinhos que viviam junto a essas regiões sofriam de indecisão. As pessoas dessas tribos mudavam de decisão conforme a situação e as necessidades. Às vezes apoiavam os iraquianos, e outras vezes se alinhavam com os sírios.
As tribos que viviam no interior da Arábia também estavam fragmentadas em inúmeras partes. Havia disputas e conflitos por todos os lados, além de discórdias, divisões hereditárias e religiosas e desordem.
Mesmo em meio a toda essa agitação, as pessoas divididas e dispersas apoiavam, quando necessário, apenas a própria tribo. Nesse caso, não se importavam com o que era justo ou injusto. Um poeta, porta-voz de uma tribo, disse:
Sou apenas um homem da tribo de Ghazira. Se eles seguirem o caminho errado, eu também seguirei o caminho errado; se seguirem o caminho certo, eu também seguirei o caminho certo.
Não havia na Arábia nenhum rei que se identificasse com o povo. Ninguém tinha um refúgio, nem alguém em quem confiar e de quem depender nas tristezas, sofrimentos, problemas, crises, aflições e adversidades.
O governante do Hijaz era visto com respeito e honrado como uma autoridade central. Na realidade, o governante do Hijaz era um líder mundano e religioso. Como líder religioso, sua autoridade sobre os árabes estava estabelecida. Seu governo era aceito sem oposição na Caaba e nas áreas ao seu redor. Cabia a esse governante supervisionar os que vinham visitar a Caaba, atender às suas necessidades, implementar a sharia e promover e desenvolver o sistema parlamentar, entre outras tarefas. Contudo, esses governantes eram tão fracos que não tinham capacidade para assumir o peso dos problemas internos da Arábia, isto é, para resolver todos os seus problemas. Essa fraqueza ficou comprovada durante o ataque dos abissínios.
As crenças religiosas e as doutrinas religiosas dos árabes
Devido à pregação e à transmissão da mensagem de Ismael, que a paz esteja com ele, o povo comum da Arábia seguia a religião de Abraão. Adorava somente Allah e acreditava no tawhid, ou monoteísmo. Porém, com o passar dos dias, foi esquecendo cada vez mais os ensinamentos da religião. Ainda assim, restavam entre eles alguns vestígios da luz do tawhid e dos ensinamentos de Abraão. Nesse período, Amr ibn Luhayy, chefe da tribo de Banu Khuza’a, surgiu em cena. Desde a infância, esse homem havia sido criado em um ambiente religioso e virtuoso. Seu interesse pelos diversos assuntos religiosos era extraordinário. O povo comum olhava para ele com amor. Considerando-o um eminente especialista religioso, seguia-o. Em certo momento, esse homem viajou para a Síria. Ao ver que ali se praticava a idolatria, pensou que aquilo também devia ser realmente uma boa prática. Muitos profetas haviam surgido na Síria e livros celestiais haviam sido revelados. Portanto, o que o povo da Síria fazia certamente devia ser algo bom e virtuoso. Pensando assim, ao retornar da Síria, trouxe consigo um ídolo chamado Hubal e o colocou dentro da Caaba. Depois, convidou os habitantes de Meca a associar parceiros a Allah por meio daquela idolatria. O povo de Meca respondeu amplamente ao seu chamado. Ao verem os habitantes de Meca praticando a idolatria, as pessoas de várias regiões da Arábia seguiram seu exemplo. Os habitantes da Grande Arábia consideravam os responsáveis pela manutenção da Caaba como líderes religiosos. (Mukhtasar as-Sirah, Sheikh Muhammad ibn Abd al-Wahhab an-Najdi, p. 12.) Por isso, seguiram os habitantes de Meca na idolatria. Assim, começou a disseminar-se a idolatria na Arábia.
Além de Hubal, um dos antigos ídolos da Arábia era Manat. Esse ídolo foi instalado num lugar chamado Mussallal, na região de Qudayd, na costa do Mar Vermelho. (Sahih al-Bukhari, vol. 1, p. 222.) Depois, em Taif, foi instalado um ídolo chamado al-Lat. Num lugar chamado Nakhla, foi colocado um ídolo chamado al-Uzza, que passou a ser adorado. Esses três eram os maiores ídolos da Arábia.
Seguindo esses ídolos, em pouco tempo o shirk se disseminou no Hijaz e surgiu uma verdadeira corrida para instalar ídolos. Conta-se que um jinn era seguidor de Amr ibn Luhayy. Ele informou a Amr que os ídolos do povo de Noé — Wadd, Suwa, Yaghuth, Ya’uq e Nasr — estavam enterrados em Jidá.
Ao saber disso, Amr ibn Luhayy foi a Jidá e desenterrou todos esses ídolos. Depois, levou-os para Meca. Durante a temporada do Hajj, esses ídolos foram entregues a várias tribos. As tribos levaram-nos para suas respectivas regiões. Desse modo, foram instalados ídolos em cada tribo e, gradualmente, em cada casa.
Gradualmente, os politeístas encheram a Kaaba de ídolos. Na época da conquista de Meca, havia trezentos e sessenta ídolos dentro da Kaaba. O Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — destruiu esses ídolos com as próprias mãos. Ele os golpeava com uma vara, e imediatamente o ídolo caía ao chão. Depois, por sua ordem, todos os ídolos foram retirados da Kaaba e queimados. (Mukhtasar as-Sirah, Shaykh Muhammad ibn Abd al-Wahhab an-Najdi, pp. 13, 50, 51, 52 e 54.) Em suma, o shirk e a idolatria eram as maiores práticas religiosas da época da Jahiliyyah. Ao praticarem a idolatria, eles acreditavam estar seguindo a religião de Ibrahim.
Entre os politeístas, havia certas regras e costumes específicos relacionados à idolatria. A maioria deles fora inventada por Amr ibn Luhayy. Os habitantes de Meca viam todas essas práticas de Amr com admiração. Em vez de considerá-las uma alteração da religião de Ibrahim, eles as julgavam uma bid‘ah hasanah. A seguir, serão apresentados alguns costumes da idolatria dos politeístas:
Um) Na época da Jahiliyyah, os politeístas sentavam-se diante dos ídolos com devoção e buscavam refúgio junto a eles. Invocavam-nos em voz alta e pediam-lhes ajuda para satisfazer suas necessidades, facilitar as dificuldades e resolver os problemas. Acreditavam que os ídolos intercederiam junto a Allah em seu favor e fariam com que seus desejos fossem realizados.
Dois) Realizavam hajj e tawaf em direção aos ídolos. Suplicavam humildemente diante deles e prostravam-se perante eles.
Três) Apresentavam oferendas e presentes votivos aos ídolos. Muitas vezes, levavam os animais destinados ao sacrifício ao santuário dos ídolos e os degolavam ali. Porém, isso era feito em nome dos ídolos. Allah, o Altíssimo, mencionou no Alcorão essas duas formas de degola. Também foi proibido o animal sacrificado sobre o altar da idolatria.
Allah, o Altíssimo, também diz: “Não comais a carne dos animais sobre os quais o nome de Allah não foi mencionado”; isto é, não consumais nada que tenha sido degolado em nome de outro que não Allah.
Quatro) Uma das maneiras de obter a satisfação dos ídolos era que os politeístas separavam para eles uma parte de seus alimentos e bebidas, de suas colheitas e de seus animais quadrúpedes. O mais curioso é que também reservavam uma parte para Allah. Depois, conforme as circunstâncias, ofereciam aos ídolos a parte reservada para Allah, mas jamais ofereciam a Allah a parte reservada para os ídolos.
Por exemplo, Allah, o Altíssimo, diz: “Eles destinam a Allah uma parte daquilo que Ele criou, entre as plantações e os animais, e, conforme sua própria suposição, dizem: ‘Isto é para Allah e isto é para os nossos deuses’. Mas o que é destinado aos seus deuses não chega a Allah, enquanto o que é destinado a Allah chega aos seus deuses. Quão ruim é o julgamento que fazem!”
Cinco) Eles estabeleceram como meio de obter a satisfação dos ídolos que os politeístas fizessem diversos votos em relação às colheitas produzidas e aos animais quadrúpedes. Como diz Allah, o Altíssimo: “Segundo suas opiniões, eles dizem: ‘Estes animais e estas plantações são proibidos; ninguém poderá comer deles, exceto aqueles que desejarmos’, e, ao proibirem montar no dorso de certos animais, não mencionavam o nome de Allah.”
Seis) Entre esses animais estavam a bahira, a sa’iba, a wasila e a hami. Ibn Ishaq disse que bahira era o nome dado à cria fêmea da sa’iba. Sa’iba era a camela que, sucessivamente, dava à luz dez crias fêmeas, sem que nascesse entre elas nenhuma cria macho. Uma camela desse tipo era deixada livremente à solta. Não se montava em seu dorso, não se cortava sua lã e ninguém, exceto os hóspedes, bebia de seu leite. Quando ela dava à luz pela décima primeira vez, sua cria era deixada livremente com a mãe. Não se montava em seu dorso. Quando dava à luz sua cria, ela se tornava uma sa’iba.
Wasila era o nome dado à cabra que dava à luz duas crias fêmeas por vez, cinco vezes consecutivas. Isto é, dava à luz dez crias fêmeas em cinco partos, sem que nascesse nenhuma cria macho. Depois, a cria que essas cabras davam à luz pela sexta vez ficava somente para os homens; quanto às mulheres, todos podiam comê-la.
Hami era o nome dado ao camelo macho cujo sêmen gerava dez crias fêmeas consecutivas, sem que nascesse nenhuma cria macho entre elas. Um camelo desse tipo era mantido protegido. Não se permitia que ninguém montasse em seu dorso, nem se cortava sua lã. Ele era deixado livre para perambular entre o rebanho de camelos. Além disso, não se realizava com ele nenhum outro tipo de trabalho. Contestando essas formas de idolatria e esses costumes praticados no período da ignorância, Allah, o Altíssimo, diz no Alcorão: “Allah não estabeleceu a bahira, a sa’iba, a wasila nem a hami; porém, os incrédulos inventam mentiras contra Allah, e a maioria deles não compreende.”
Allah, o Altíssimo, também diz no Alcorão: “Eles ainda dizem: ‘O que há nesses animais é destinado aos nossos homens e é proibido às nossas mulheres; mas, se nascer morto, todos, homens e mulheres, terão parte nele.’ Ele os recompensará pelo que dizem. Ele é Sapientíssimo e Onisciente.”
Foram mencionados outros significados para a classificação acima dos animais quadrúpedes, isto é, bahira, sa’iba e outras categorias. (Sira de Ibn Hisham, vol. 1, pp. 89–90.) A explicação de Ibn Ishaq apresenta algumas diferenças em relação à explicação mencionada.
Hazrat Sa’id ibn al-Musayyab, que Allah tenha misericórdia dele, disse: “Esses animais eram destinados aos seus tagutes.” (Sahih al-Bukhari, vol. 1, p. 499.) Foi narrado no Sahih al-Bukhari que Amr ibn Luhayy foi o primeiro a soltar animais em nome dos ídolos. (Ibid.)
Os árabes praticavam esses ritos e cerimônias acreditando que os ídolos os aproximariam de Allah e intercederiam por eles junto a Allah. Allah diz no Alcorão Sagrado que os politeístas diziam: “Nós somente os adoramos para que nos aproximem de Allah.”
Allah Todo-Poderoso também diz no Alcorão: “Aqueles que eles adoram além de Allah não podem prejudicá-los nem beneficiá-los. Eles dizem: ‘Estes são nossos intercessores junto de Allah’.” (18:10)
Os politeístas de Meca usavam as flechas do azlam, isto é, as flechas da adivinhação. Azlam é o plural da palavra zalam. Zalam é o nome dado à flecha que não possui penas. Essas flechas usadas para adivinhação eram de três tipos. Em um tipo de flecha estavam escritas as palavras “sim” e “não”. Essas flechas eram usadas em assuntos como viagens, casamentos e outros. Se a resposta obtida na adivinhação fosse “sim”, o plano era realizado; se estivesse escrito “não”, ele era adiado por um ano. No ano seguinte, usavam novamente a flecha da adivinhação para realizar a tarefa. No segundo tipo de flecha da adivinhação estavam gravadas palavras como “água”, “diyah” ou compensação, entre outras.
No terceiro tipo de flecha estava escrito: “de entre vocês” ou “de fora de vocês”. A finalidade dessas flechas era a seguinte: quando havia dúvida sobre a linhagem de alguém, essa pessoa era levada diante do ídolo Hubal, juntamente com cem camelos.
Esses camelos eram entregues ao sacerdote, dono das flechas. Ele reunia e misturava todas as flechas e, em seguida, retirava uma. Se nela estivesse escrito “de entre vocês”, essa pessoa era considerada um membro honrado da tribo. Se na flecha estivesse escrito “de fora de vocês”, essa pessoa não era considerada pertencente ao grupo inimigo; recebia o direito de viver normalmente entre a tribo, como um dos seus. (Muhadarat Khazrami, vol. 1, p. 56; Ibn Hisham, vol. 1, pp. 102-103)
Entre os politeístas havia também um costume bastante semelhante. Tratava-se do jogo de azar e das flechas do jogo. Conforme as marcas dessas flechas, um camelo era abatido e sua carne era distribuída. (A regra era que aquele que jogava apostava em um camelo, que era abatido e dividido em dez ou vinte e oito partes. Em seguida, fazia-se um sorteio com as flechas. Nenhuma flecha trazia a marca da vitória. Aquele em cujo nome saía a flecha indicadora da vitória era declarado vencedor e recebia gratuitamente a carne do camelo. Aquele em cujo nome saía a flecha sem marca tinha de pagar o preço da carne.)
Os politeístas árabes acreditavam nas palavras de mágicos e astrólogos. Eles falavam sobre o bem e o mal do futuro. Alguns afirmavam ter um jinn a seu serviço, que lhes trazia notícias. Outros afirmavam possuir inteligência e discernimento concedidos por Deus e que, graças a essas capacidades, podiam fazer previsões precisas do futuro. Entre eles havia uma classe chamada arraf. Eles falavam sobre casos de roubo, recuperavam bens roubados e identificavam o local do roubo. Astrólogos eram chamados aqueles que estudavam o movimento dos astros e, mediante cálculos, faziam previsões sobre os acontecimentos futuros do mundo. (Miratul Mafatih, Sharh Mishkat al-Masabih, vol. 2, p. 2.3, edição de Lucknow.)
Acreditar nas palavras de um astrólogo equivale, na realidade, a acreditar nas estrelas. Os politeístas de Meca acreditavam nas estrelas e diziam: “A chuva que cai sobre nós provém desta ou daquela estrela.” (Sahih Muslim, Sharh al-Nawawi, Kitab al-Iman, vol. 1, p. 95)
Eles realizavam outra prática semelhante para determinar o que era bom ou mau: penduravam um osso do joelho de um coelho. Consideravam azarentos certos dias, certos meses, certos homens e certas mulheres. Mantinham-se afastados do contato com pessoas doentes e consideravam nocivo olhar para elas. Acreditavam que, depois de sair do corpo, a alma se transformava em uma coruja. Acreditavam que a alma da pessoa morta não encontrava paz se não se vingassem do assassino. Acreditavam que a alma do morto vagava pelas montanhas e planícies, gritando: “Estou com sede; dai-me de beber!” Acreditavam que a alma da vítima encontrava paz quando se recebia a compensação pelo homicídio. (Sahih al-Bukhari, vol. 2, pp. 851, 857).
A disputa dos coraixitas sobre a religião de Ibrahim
Foi apresentada uma visão geral dos pensamentos, crenças e práticas das pessoas na Era da Ignorância. Paralelamente a tudo isso, eles também observavam parcialmente a religião de Ibrahim. Ou seja, não haviam abandonado completamente a religião de Ibrahim. Eles circundavam a Caaba em tawaf, honravam a Caaba, realizavam o Hajj e a Umrah, permaneciam em Arafat e Muzdalifah e sacrificavam os animais de hady. Contudo, haviam introduzido várias inovações na religião de Ibrahim. A seguir, são mencionados alguns exemplos.
Uma das inovações dos coraixitas era dizerem: somos descendentes do honrado Ibrahim, que a paz esteja com ele. Somos os guardiões ou responsáveis pela manutenção da Caaba, os administradores da Casa Sagrada e os habitantes de Meca; ninguém é igual a nós em posição. Ninguém possui direitos iguais aos nossos. Por isso, chamavam a si mesmos de Hums, isto é, corajosos e fervorosos. Diziam: temos uma posição tão extraordinária que não nos convém sair dos limites da Caaba. Durante o Hajj, não iam a Arafat nem retornavam de lá conforme o costume. Em vez disso, permaneciam em Muzdalifah e retornavam de lá. Allah corrigiu essa inovação dizendo: “Depois, retornai do lugar de onde as outras pessoas retornam.” (Ibn Hisham, vol. 1, p. 199; Sahih Bukhari, vol. 1, p. 226)
Uma das inovações dos idólatras era dizerem que, para os Hums, isto é, os coraixitas, não era permitido preparar queijo e manteiga clarificada enquanto estivessem em estado de ihram. Também não era permitido entrar numa casa coberta de lã, isto é, numa tenda de cobertores. Tampouco lhes era permitido buscar sombra em qualquer lugar que não fosse uma tenda de couro. (Ibn Hisham, vol. 1, p. 202)
Outra de suas inovações era considerarem ilícito comer os alimentos e beber as bebidas trazidos por aqueles que viessem de fora de Meca para realizar o Hajj ou a Umrah. (Ibidem)
Uma de suas inovações era terem ordenado aos habitantes de fora de Meca que, ao chegarem ao Haram, deveriam realizar seu primeiro tawaf usando roupas obtidas dos Hums, isto é, dos coraixitas. Se não encontrassem roupas, os homens realizavam o tawaf nus, enquanto as mulheres tiravam todas as suas roupas, vestiam uma pequena camisa aberta e realizavam o tawaf. Durante o tawaf, recitavam este poema:
“Hoje, parte ou toda a parte íntima ficará exposta. O que ficar visível, não considerarei um ato ilícito.”
Para pôr fim a esse comportamento obsceno, Allah revelou este versículo: “Ó filhos de Adão, usai vossa bela vestimenta em toda oração.” (31, 7)
Se algum homem ou mulher vindo de fora de Meca realizasse a circunvolução usando uma roupa trazida de fora de Meca, ao término da circunvolução essa roupa era jogada fora. Nem a própria pessoa a usava, nem permitia que outra pessoa a usasse (ibidem, vol. 1, pp. 202–203; Sahih al-Bukhari, vol. 1, p. 226).
Uma das inovações dos coraixitas era que, quando estavam em estado de ihram, não entravam na casa pela porta; em vez disso, abriam um buraco na parte de trás da casa, entravam por esse buraco e saíam por ele.
Eles consideravam esse tipo de prática absurda uma obra de piedade. No Alcorão Sagrado, Allah, o Altíssimo, proibiu-os de agir assim. Allah, o Altíssimo, disse: “Não há piedade em entrardes em vossas casas pela parte de trás. A piedade está em quem adota a taqwa. Portanto, entrai nas casas pelas portas. E temei Allah, para que sejais bem-sucedidos.”
Este era o panorama da vida religiosa dos politeístas.
Além disso, entre os diversos povos da Jazirat al-Arab havia ampla difusão do judaísmo, do cristianismo, do mazdeísmo ou culto do fogo, e do sabeísmo. A seguir, será apresentado brevemente um panorama dessas doutrinas. O judaísmo na Jazirat al-Arab teve duas épocas. A primeira foi o período em que os governos da Babilônia e da Assíria conquistaram a Palestina. Nessa época, os judeus foram obrigados a abandonar sua terra natal. Devido à severa perseguição e opressão desses governos e à destruição dos assentamentos judaicos, muitos judeus deixaram o Hijaz e se estabeleceram na região setentrional da Palestina (Kalb, Jazirat al-Arab, p. 251).
A segunda época foi o período em que, no ano 70 da era cristã, os romanos, sob Tito, conquistaram a Palestina. Nessa época, devido à perseguição dos romanos, os judeus estabeleceram-se em Tayma e construíram fortalezas. Como resultado do contato com esses judeus emigrados, o pensamento judaico difundiu-se entre os habitantes árabes. Em consequência disso, antes e depois do surgimento do Islã, os judeus tornaram-se, em diferentes períodos, uma força significativa. As famosas tribos judaicas existentes na época do surgimento do Islã eram: Khaybar, Nadir, Mustaliq, Qurayza, Qaynuqa e Samhudi. Afa Wa Afa menciona, na página 116 de sua obra, que naquela época o número de tribos judaicas era superior a vinte (ibidem).
No Iêmen, os judeus também eram bastante poderosos. A doutrina judaica difundiu-se no Iêmen por meio de um homem chamado Tubban Asad Abu Karib. Combatendo, esse homem chegou a Yathrib.
Depois de chegar a Yathrib, ele abraçou o judaísmo e chegou ao Iêmen acompanhado de dois especialistas judeus em religião da tribo de Banu Qurayza. Por meio deles, a doutrina judaica se difundiu no Iêmen. Depois de Abu Karib, seu filho Yusuf Dhu Nuwas assumiu o poder governamental do Iêmen. Impelido pelo fervor da doutrina judaica, esse homem atacou os cristãos de Najran e tentou convertê-los à força ao judaísmo. Porém, quando eles se recusaram, o enfurecido Dhu Nuwas mandou cavar uma enorme vala, ateou fogo nela e, depois, lançou nessa vala, no fogo ardente que se alastrava, pessoas de todas as classes: mulheres e homens, crianças e idosos. Nesse acontecimento, foram mortos entre vinte e vinte e quatro mil pessoas. Ocorreu em outubro do ano 523 da era cristã. Esse acontecimento é mencionado na surata Al-Buruj do Alcorão Sagrado (Ibn Hisham, vol. 1, pp. 20, 21, 22, 27, 31, 35, 36).
O cristianismo, ou religião cristã, difundiu-se nos países árabes por meio dos conquistadores abissínios e romanos. Já foi mencionado anteriormente que os abissínios começaram a dominar o Iêmen pela primeira vez no ano 340. Essa situação manteve-se até o ano 378. Durante esse período, missionários cristãos atuaram no Iêmen. Nessa época, um renomado asceta chamado Faimiyun chegou a Najran e pregou a religião cristã entre os habitantes locais. Depois de encontrarem provas da veracidade do cristianismo, os habitantes de Najran aceitaram a religião cristã. (Ibn Hisham, vol. 1, pp. 31–34)
As marcas do massacre de Dhu Nuwas ainda não haviam desaparecido. Como reação a esse acontecimento trágico, os abissínios ocuparam novamente o Iêmen, e Abraha tomou o poder. Esse homem construiu um templo no Iêmen. Ele queria que as pessoas devotas fossem ao templo que havia construído, em vez de irem à Caaba de Meca. Com esse objetivo, o ímpio tomou a iniciativa de destruir a Caaba em Meca. Por demonstrar essa desprezível audácia, Allah, o Altíssimo, aplicou-lhe um castigo tal que esse acontecimento permaneceu como uma lição para todos os que vieram antes e depois.
Por outro lado, como os romanos eram vizinhos dos territórios conquistados, o cristianismo difundiu-se entre tribos árabes como os Āl Ghassān, os Banū Taghlib e os Banū Ṭayy. Alguns governantes árabes de Hira também se converteram ao cristianismo.
A maioria dos seguidores da religião dos magos, ou adoradores do fogo, vivia nos países árabes vizinhos da Pérsia, isto é, no Iraque, no Barein e nas regiões costeiras do Golfo Árabe. Além disso, depois que a dominação persa se estabeleceu no Iêmen, muitas pessoas aceitaram a religião dos magos de forma dispersa.
A religião sabeia, ou sabiana. As inscrições encontradas durante escavações e descobertas de vestígios antigos no Iraque e em outros lugares mostram que os sabeus eram os seguidores da religião do povo caldeu. Eles eram descendentes de Ibrahim, que a paz esteja sobre ele. Na Antiguidade, muitos habitantes da Síria e do Iêmen seguiam essa religião. Contudo, quando o judaísmo e o cristianismo começaram a alcançar grande triunfo, essa religião desapareceu. Ainda assim, alguns de seus seguidores permaneceram no Iraque e na região do Golfo Árabe, misturados aos magos ou entre seus vizinhos. (Tarikh-e Ard al-Qur’an, vol. 2, pp. 193–208)
Situação religiosa geral
Na época do advento do Islã, as várias religiões mencionadas existiam na Arábia. Contudo, todas essas doutrinas religiosas estavam à beira do colapso. Embora os politeístas se considerassem seguidores da religião de Ibrahim, na realidade estavam muito distantes dos mandamentos e proibições da religião de Ibrahim.
Os politeístas não tinham sequer a mais remota relação com os ensinamentos que a religião de Ibrahim havia transmitido com o objetivo de formar um caráter elevado. Eles estavam submersos no lodaçal do pecado. Há muito tempo, entre eles existiam vícios, injustiças e depravações gerados pela idolatria. Por essas razões, sua vida política e religiosa coletiva foi profundamente afetada.
Os seguidores da religião judaica eram tomados por um orgulho que chegava aos céus. Os sacerdotes judeus haviam-se feito senhores, abandonando Allah, o Altíssimo. Impunham à força a própria vontade sobre as pessoas. Submetiam os pensamentos, as ideias, as crenças e as palavras das pessoas à sua própria vontade. Dedicavam-se inteiramente à conquista do poder, do dinheiro e das riquezas. Estavam sempre ávidos por obter tudo isso a qualquer custo. Queriam alcançar poder e riqueza mesmo que, para isso, tivessem de destruir a religião. Os idólatras estavam entregues à incredulidade e à rebeldia contra Deus. Essas más ações serviam para satisfazer os seus desejos. Não hesitavam nem por um instante em desobedecer às ordens de Allah, o Altíssimo.
O cristianismo era uma religião estranha de idolatria. Eles haviam misturado Allah, o Altíssimo, e o ser humano de maneira surpreendente. Essa religião não exercia qualquer influência real sobre os árabes que a seguiam, pois não havia vínculo entre os ensinamentos da religião e a vida pessoal deles. Em nenhuma circunstância estavam dispostos a abandonar o estilo de vida inteiramente dedicado aos prazeres. Suas vidas pessoais, familiares e sociais estavam imersas no lodo do pecado.
A vida dos seguidores das outras religiões da Arábia era semelhante à dos idólatras. Embora houvesse diferenças entre as suas religiões, no íntimo eles eram iguais. E não apenas no íntimo: também eram iguais nos modos de vida e nos costumes.
Alguns retratos da sociedade da Jāhiliyyah
Depois de descrever a situação política e religiosa da Península Arábica, apresenta-se agora um breve esboço da situação econômica e moral geral da região.
Situação geral
O povo da Arábia vivia dividido em diferentes classes. A situação de cada classe era diferente da das demais. Na classe nobre, as relações entre homens e mulheres eram relativamente desenvolvidas. As mulheres dessa classe desfrutavam de grande liberdade. Suas palavras eram levadas em consideração. Eram tão respeitadas e protegidas que, quando saíam à rua, espadas eram desembainhadas para defendê-las e havia derramamento de sangue. Quando alguém se gabava da própria generosidade e bravura, geralmente dirigia-se às mulheres. Se quisessem, elas podiam acender entre os homens o fogo da guerra e do derramamento de sangue. Apesar de tudo isso, os homens eram considerados os chefes da família, e suas palavras eram obedecidas com seriedade. Nessa classe, as relações entre homens e mulheres eram estabelecidas pelo casamento, que era celebrado por meio dos responsáveis das mulheres. As mulheres não tinham o direito de se casar por conta própria, sem os seus responsáveis.
Embora essa fosse a situação da classe nobre, a situação das outras classes era diferente. As relações entre homens e mulheres nessas classes não podem ser descritas senão como pecado, desavergonhamento, indecência, obscenidade e fornicação. Hadrat Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela, disse: na época da Jāhiliyyah, havia quatro tipos de casamento.
A primeira era semelhante à praticada atualmente. Por exemplo, um homem enviava uma proposta a outro para se casar com sua filha dependente. Depois que a proposta era aceita, o casamento era realizado mediante o pagamento do mahr.
A segunda era a seguinte: depois que a mulher casada se purificava da menstruação, o marido dizia-lhe: “Envie uma proposta a fulano e entregue-lhe seu órgão sexual”, isto é, cometa adultério com ele. Nesse período, o marido mantinha-se afastado da esposa e não se aproximava dela. O marido não voltava a ter relações com a esposa até que houvesse evidência de que o homem com quem ela havia cometido adultério a tivesse engravidado. Depois que os sinais da gravidez apareciam, o marido podia voltar a aproximar-se dela, se quisesse. A razão desse procedimento era fazer com que o filho fosse nobre e perfeito. Esse tipo de casamento era chamado de casamento istibdāʿ. Esse casamento também era praticado na Índia.
Terceiro: menos de dez homens cometiam adultério com uma mulher em determinado lugar. Depois que ela engravidava, chamava todos aqueles homens para junto de si. Nessa ocasião, nenhum deles podia estar ausente. Quando todos estavam presentes, ela dizia: “Vocês sabem o que fizeram; agora este filho nasceu do meu ventre. Ó fulano, este filho é seu.” A mulher podia escolher o nome de qualquer um, e aquele cujo nome fosse mencionado, enquanto todos aceitavam o recém-nascido como seu filho.
Quarto: muitas pessoas se reuniam e iam até uma mulher. Ela não recusava nem rejeitava nenhum homem que a desejasse. Essas mulheres eram prostitutas. Elas colocavam uma bandeira diante de suas casas. Assim, qualquer pessoa podia ir até elas livremente, sem impedimento. Quando uma dessas mulheres engravidava e dava à luz, todos os homens que haviam tido relações com ela compareciam, e um especialista era chamado. Esse especialista, segundo sua opinião, atribuía a criança a um deles. Depois disso, a criança crescia como filho do homem designado, e ele jamais podia negar que ela era seu filho. Após o surgimento do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, Allah aboliu todos os tipos de casamento da sociedade da Jāhiliyyah e estabeleceu o casamento islâmico atualmente praticado. (Sahih al-Bukhari, Kitab an-Nikah, vol. 2, p. 769; Abu Dawud, capítulo sobre os tipos de casamento. Para detalhes, consulte Tafsir Fi Zilal al-Qur’an, vol. 14.)
Na Arábia, as relações entre homens e mulheres muitas vezes eram determinadas pelo fio da espada. Nas guerras tribais, os vencedores capturavam as mulheres da tribo derrotada e mantinham-nas confinadas em seus haréns. Os filhos nascidos dessas mulheres cativas não podiam erguer a cabeça na sociedade. Sentiam vergonha constante de revelar sua identidade.
Na época da Jāhiliyyah, não era considerado reprovável ter várias esposas. Muitos mantinham até duas irmãs consanguíneas como esposas ao mesmo tempo. O filho podia casar-se com a esposa que o pai havia divorciado ou, após a morte do pai, com sua madrasta. O direito ao divórcio era exclusivamente dos homens. Não havia um número determinado de divórcios. (Abu Dawud, obras de exegese, “At-Talaq Marratan”, veja.)
O adultério era praticado em todos os níveis da sociedade. Nenhuma classe de homens ou mulheres estava livre da obscenidade e da sordidez do adultério. Contudo, havia alguns homens e mulheres que, por orgulho de sua própria superioridade, abstinham-se dessa imundície. Além disso, a situação das mulheres livres era relativamente melhor que a das escravas. A situação das escravas era a pior de todas. A maioria dos homens da época da Jāhiliyyah não considerava errado nem vergonhoso relacionar-se com escravas. É mencionado nas Sunan de Abu Dawud que certa vez um homem se levantou e disse: “Ó Mensageiro de Allah, fulano é meu filho. Na época da Jāhiliyyah, tive relações com a mãe dele.” O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, respondeu: “No Islã não há lugar para esse tipo de alegação. Agora, o filho pertence àquele homem em cuja relação matrimonial a mulher é conhecida como esposa ou marido; e para o adúltero há a pena de morte por apedrejamento.” É amplamente conhecido o conflito entre Sa’d ibn Abi Waqqas, que Allah esteja satisfeito com ele, e ‘Abd ibn Zam’a a respeito de ‘Abd ar-Rahman ibn Zam’a, filho da escrava de Zam’a (Sahih al-Bukhari, vol. 2, pp. 999, 1065). Na época da Jāhiliyyah, também havia diferentes tipos de relação entre pais e filhos. Havia pessoas que diziam: “Nossos filhos são nossos filhos, nossos filhos são como nossos próprios corações, aqueles que caminham sobre a terra.”
Por outro lado, havia pessoas que, por medo da desonra e da pobreza, enterravam os filhos vivos. Enterravam as crianças. Matavam os filhos ainda na infância.
O Sagrado Alcorão menciona isso (surata Al-An’am, versículo 101; surata An-Nahl, versículos 58–59; surata Bani Isra’il, versículos 31 e 81; surata Al-Anfal). É difícil dizer se essa situação era amplamente difundida. Isso porque os árabes sentiam a necessidade de dispor de um contingente humano maior que o de outros povos para enfrentar os inimigos e se defender. Pode-se dizer que eles estavam bastante conscientes disso.
As relações entre irmãos consanguíneos, entre primos paternos e com os demais membros da tribo eram bastante fortes. Isso porque os árabes viviam e morriam movidos pela superioridade e pelo orgulho tribal. A cooperação mútua e a solidariedade dentro da tribo existiam em pleno grau. O sistema de relações tribais constituía a base da organização social.
Eles cultivavam a ideia de que se devia ajudar o irmão, fosse ele opressor ou oprimido. Mais tarde, o Islã estabeleceu a justiça impedindo o opressor de continuar sua opressão. Quando um membro de uma tribo buscava domínio e liderança, todos os demais membros da tribo saíam para a guerra em seu apoio. Como exemplos, podem ser mencionados os conflitos entre Aws e Khazraj, Abs e Dhubyan, e Bakr e Taghlib, entre outras tribos.
As relações entre as diferentes tribos haviam se deteriorado a tal ponto que toda a força delas era consumida em guerras umas contra as outras. Às vezes, devido à influência de alguns ensinamentos religiosos e dos costumes sociais, a ferocidade e a gravidade das guerras diminuíam. Em certas ocasiões, várias tribos também estabeleciam alianças sob determinadas regras vigentes na sociedade. Além disso, os meses sagrados eram especialmente favoráveis à instauração da paz na vida dos politeístas e à obtenção de seu sustento.
Em suma, a situação geral estava em extremo declínio. A ignorância era onipresente. A imoralidade e a depravação haviam atingido o auge. As pessoas viviam como animais. Era praticado o comércio de mulheres. Muitas vezes, as mulheres eram tratadas como se fossem terra ou pedra. As relações mútuas eram fracas e frágeis. Tudo o que existia sob o nome de governo ou administração estava ocupado em arrecadar dinheiro e riquezas dos súditos para encher o tesouro e em reunir tropas contra os adversários.
Situação econômica
A situação econômica estava subordinada à situação social geral. Ao considerar as fontes de sustento dos árabes, vê-se que o comércio era o principal meio de obter os recursos necessários à vida. Não era possível realizar trocas comerciais. A situação da Península Arábica era tal que, fora os meses sagrados, não havia em nenhum outro período um ambiente de paz e segurança. Por essa razão, sabe-se que era justamente nos meses sagrados que se realizavam as feiras nos famosos mercados árabes de Ukaz, Dhu al-Majaz, Majanna e outros.
No campo industrial, os árabes estavam atrás de todos os demais países do mundo. Das indústrias conhecidas, como a tecelagem e o curtimento de peles, a maioria era praticada nos países vizinhos: no Iêmen, na Síria, em Hira ou no Iraque. Havia agricultura e produção de colheitas na Arábia. Em toda a Arábia, as mulheres fiavam. O problema, porém, era que os instrumentos para fiar se tornavam escassos devido aos horrores da guerra. A pobreza era um problema geral. As pessoas frequentemente ficavam privadas dos alimentos e das roupas necessários.
Condição moral
É uma verdade reconhecida que entre os árabes se encontravam hábitos desprezíveis e condenáveis, e eles praticavam atos que a razão e a consciência de modo algum aprovavam. Contudo, possuíam também algumas qualidades morais verdadeiramente surpreendentes. A seguir, são apresentados alguns detalhes dessas qualidades.
1) Compaixão e generosidade. Essa era uma qualidade especial dos árabes. Nesse aspecto, observava-se entre eles um espírito de verdadeira competição. Orgulhavam-se tanto dessa qualidade que metade dos árabes havia se tornado poeta. Alguns elogiavam a si mesmos, enquanto outros elogiavam outra pessoa. Às vezes acontecia de, mesmo em meio ao frio intenso e à escassez, um hóspede chegar à casa de alguém. Naquele momento, o anfitrião possuía apenas um camelo como recurso. Para oferecer hospitalidade, sacrificava justamente esse animal. Por causa da compaixão e da generosidade, eles assumiam grandes compensações e as pagavam devidamente. Dessa forma, salvavam as pessoas da destruição e do derramamento de sangue e orgulhavam-se de demonstrar sua superioridade sobre outros ricos e pessoas ilustres.
Foi justamente por causa desse tipo de generosidade que se via que eles se orgulhavam de beber vinho. Beber vinho, na realidade, não era uma boa ação, mas, sob o efeito do vinho, conseguiam ser generosos, e fazer caridade tornava-se fácil para eles. Isso porque, sob o efeito da embriaguez, gastar dinheiro e bens não é difícil para uma pessoa. Por essa razão, os árabes chamavam a videira, matéria-prima para a fabricação do vinho, de karam, e o vinho, de bintul karam. Ao observar os poemas dos poetas da época da Jāhiliyyah, percebe-se que eles davam bastante atenção à expressão do orgulho.
Antara ibn Shaddad al-Absi escreveu em sua Mu‘allaqa: “Depois que o calor intenso do sol do meio-dia diminuiu, bebi vinho de um recipiente amarelo ornamentado. Quando bebo vinho, distribuo minha riqueza. Ainda assim, nesse momento, permaneço atento à minha honra e reputação; não permito que nelas se deixe qualquer mancha. Mesmo depois de recuperar a consciência, não sou mesquinho em matéria de generosidade. O que mais posso dizer-vos sobre minha beleza moral e minha compaixão? Isso não vos é desconhecido.”
Foi por causa da compaixão que os árabes jogavam amplamente jogos de azar. Pensavam que isso era uma forma de generosidade. Depois de jogar, distribuíam entre os pobres e necessitados aquilo que os jogadores ganhavam, ou o que sobrava depois das despesas. Por isso, o Alcorão Sagrado não negou que houvesse algum benefício no vinho e nos jogos de azar; ao contrário, afirmou que os danos de ambos eram maiores que os benefícios. Allah, o Altíssimo, diz: “As pessoas perguntam-te sobre o vinho e os jogos de azar. Dize: em ambos há grande pecado e também benefícios para as pessoas, mas o pecado de ambos é maior que o seu benefício.” (219, 6)
2) Cumprimento das promessas. Os árabes consideravam o cumprimento das promessas parte da religião. Para cumprir uma promessa ou manter a palavra dada, consideravam insignificantes até mesmo os danos à vida e aos bens. Para compreender isso, bastam os episódios de Hani ibn Mas‘ud al-Shaybani, al-Samaw’al ibn Adiya e Hajir ibn Zarara.
3) Consciência da própria honra. Mesmo suportando injustiça e opressão, preservar a própria dignidade era uma conhecida qualidade moral da época da Jāhiliyyah. Como resultado, demonstravam bravura e valentia. Sua ira era extraordinária; irritavam-se de repente. Mesmo que surgisse o menor sinal de humilhação, saíam armados e provocavam derramamento de sangue. Nesse aspecto, consideravam a própria vida insignificante.
Quarto) Uma característica das pessoas da época da ignorância era que, quando se comprometiam a realizar alguma tarefa, de modo algum recuavam diante dela. Não aceitavam obstáculo algum. Mesmo que suas vidas estivessem em perigo, realizavam aquela tarefa.
Quinto) Paciência e sabedoria voltada para o futuro. Essa também era uma nobre qualidade dos árabes. Contudo, devido à sua bravura e à sua constante prontidão para a guerra, essa qualidade era rara entre eles.
Sexto) Simplicidade própria dos beduínos. Eles viviam afastados dos recursos da civilização e não demonstravam interesse por eles. Por levarem esse tipo de vida simples e despojada, havia entre eles veracidade e confiabilidade. Odiavam a fraude, a quebra de promessas e coisas semelhantes.
Acreditamos que, além da posição geográfica que a Península Arábica ocupava em relação ao mundo inteiro, foi justamente por causa das qualidades de caráter mencionadas que eles foram escolhidos para liderar a humanidade e para receber a profecia. Embora, por causa dessas qualidades, às vezes se tornassem subitamente perigosos e causassem acontecimentos desastrosos, não se pode negar que elas eram qualidades humanas genuínas e extremamente louváveis. Com pequenas correções, essas qualidades poderiam provar-se de grande benefício para a humanidade. O Islã realizou essa tarefa.
Provavelmente, entre as qualidades de caráter mencionadas, o senso de honra e o cumprimento dos compromissos e das promessas eram os mais valiosos e louváveis. Sem essas qualidades e essa força de caráter, não é possível afastar a desordem, a inquietação e o mal, nem estabelecer um sistema baseado na justiça e na equidade.
Na época da ignorância, havia entre os árabes outras qualidades de caráter dignas de nota, mas não é necessário discutir todas elas aqui.
Ele é Quem enviou, dentre o povo comum, um Mensageiro pertencente a eles próprios. Ele lhes recita Seus versículos, purifica suas vidas (da ignorância) e, acima de tudo, ensina-lhes a sabedoria da religião; entretanto, antes de sua chegada, essas pessoas estavam imersas em um claro desvio. (Surata Al-Jumu’a, 2)
3
De que linhagem era aquele homem de ouro: de Al-Amin a Mensageiro
A linhagem da família do Profeta
A linhagem do nobre Profeta Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, pode ser dividida em três partes. Os autores de biografias do Profeta e os especialistas em genealogia estão de acordo quanto à exatidão da primeira parte. Há algumas divergências entre os autores de biografias do Profeta quanto à segunda parte. Alguns a apoiaram, outros a rejeitaram e outros ainda expressaram opiniões diferentes. Ela vai de Adnã até o alto, chegando ao nobre Ibrahim, que a paz esteja sobre ele. A terceira parte contém certamente alguns erros; ela vai do nobre Ibrahim, que a paz esteja sobre ele, até o nobre Adão, que a paz esteja sobre ele. Isso já foi indicado anteriormente. A seguir, as três partes serão discutidas com algum detalhe.
Primeira parte
Muhammad, filho de Abdullah, filho de Abd al-Muttalib (Shaybah), filho de Hashim (Amr), filho de Abd Manaf (al-Mughirah), filho de Qusay (Zayd), filho de Kilab, filho de Murrah, filho de Kaab, filho de Lu’ayy, filho de Ghalib, filho de Fihr (cujo título era o nome pelo qual a tribo dos coraixitas ficou conhecida), filho de Malik, filho de al-Nadr, filho de Qays, filho de Kinanah, filho de Khuzaymah, filho de Mudrikah (Amir), filho de Ilyas, filho de Mudar, filho de Nizar, filho de Maad, filho de Adnan. (Ibn Hisham, vol. 1, p. 20; Talqih Fuhum Ahl al-Athar, pp. 5–6; Rahmatul lil-Alamin, vol. 2, pp. 11, 14, 52.)
Segunda parte
Acima de Adnan. Isto é: Adnan, filho de Hamisa, filho de Salaman, filho de Aws, filho de Buz, filho de Qamwal, filho de Ubayy, filho de Awwam, filho de Nashid, filho de Haza, filho de Baldaz, filho de Yadlaf, filho de Tarikh, filho de Jahim, filho de Nahish, filho de Makhi, filho de Aiz, filho de Akbar, filho de Ubayd, filho de Ad-Daya, filho de Hamdan, filho de Sunbar, filho de Yasrubi, filho de Yahzan, filho de Yalhan, filho de Arwi, filho de Ay, filho de Zayshan, filho de Ayshar, filho de Afnad, filho de Ayham, filho de Maqsur, filho de Nahis, filho de Jarah, filho de Sumay, filho de Mazi, filho de Awza, filho de Aram, filho de Qaydar, filho de Ismail, filho de Ibrahim, que a paz esteja sobre ele. (Após sua pesquisa, o erudito Mansurpur acrescentou esta parte com base nos relatos dos historiadores Kalbi e Ibn Sad. Rahmatul lil-Alamin, vol. 2, pp. 14–17. Há consideráveis diferenças nos dados históricos referentes a esta parte.)
Terceira parte
De Hadrat Ibrāhīm, que a paz esteja com ele, para cima: Ibrāhīm, filho de Tārāh (Āzar), filho de Nāhur, filho de Shāwadā (Sārūgh), filho de Rāū, filho de Fālegh, filho de Āber, filho de Shālekh, filho de Arfakhshad, filho de Sām, filho de Nūh, que a paz esteja com ele, filho de Lāmek, filho de Mātūshalakh, filho de Akhnūkh (segundo outra opinião, Hadrat Idrīs, que a paz esteja com ele), filho de Mahlāyil, filho de Qaynān, filho de Anūsh, filho de Shīth, filho de Ādam, que a paz esteja com ele. (Ibn Hishām, vol. 1, pp. 2, 4; Talqīhul-Fuhūm, p. 6; Khulāsatut-Siyar, p. 6.)
O Nobre Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, é conhecido como descendente dos hachemitas por ser identificado como descendente de seu bisavô Hāshim ibn ‘Abd Manāf. Portanto, é necessário mencionar brevemente Hāshim e alguns de seus descendentes posteriores.
1) Hāshim. Já mencionamos anteriormente que havia sido alcançado um acordo entre os Banū ‘Abd Manāf e os Banū ‘Abdud-Dār acerca da distribuição das posições de honra. De acordo com esse pacto, os descendentes de ‘Abd Manāf receberam o privilégio de oferecer água aos peregrinos e hospedar os visitantes. Hāshim era um homem ilustre, respeitado e rico. Ele instituiu o costume de alimentar os peregrinos de Meca com pão embebido em tharīd. Seu nome verdadeiro era ‘Amr, mas, por partir o pão e mergulhá-lo no tharīd, passou a ser chamado Hāshim. Hāshim significa aquele que quebra. Hāshim foi o primeiro a organizar duas viagens comerciais dos coraixitas, uma no verão e outra no inverno. Um poeta escreveu em seu louvor: “Ele é aquele ‘Amr que, em Meca, partia e despedaçava o pão, embebendo-o no tharīd, para alimentar seu povo fraco e assolado pela fome, e organizou as viagens de inverno e de verão.”
Um acontecimento importante relacionado a Hāshim, ou ‘Amr, foi que ele viajou à Síria para tratar de negócios. No caminho, chegou a Medina, casou-se com Salmā bint ‘Amr, da tribo dos Banū Najjār, e permaneceu ali por algum tempo. Depois que ela engravidou, ele deixou a esposa na casa de seus pais e partiu para a Síria. Ao chegar à cidade de Gaza, na Palestina, faleceu. Enquanto isso, nasceu um filho de Salmā. Isso ocorreu no ano de 497 da era cristã. Havia sinais de brancura nos cabelos da cabeça do menino; por isso, Salmā deu-lhe o nome de Shaybah (Ibn Hishām, vol. 1, p. 137; Rahmatul-lil-‘Ālamīn, vol. 1, p. 26, vol. 2, p. 24). Em Yathrib, ou Medina, Salmā criou o filho na casa de seus pais. Mais tarde, esse menino ficou conhecido como ‘Abdul-Muttalib. Durante muito tempo, os hachemitas não tiveram esse menino entre eles. Hāshim teve ao todo quatro filhos e cinco filhas. Seus nomes eram: Asad, Abū Sayfī, Nāzlah e ‘Abdul-Muttalib. Os nomes das filhas eram Shafā, Khālidah, Da‘īfah, Ruqayyah e Zaynāt. (Mesma obra, vol. 1, p. 107.)
2) ‘Abdul-Muttalib. Já foi mencionado que, depois de Hāshim, seu irmão Muttalib recebeu a responsabilidade de oferecer água aos peregrinos e hospedar os visitantes. Ele também gozava de grande prestígio entre sua família e seu povo. Ninguém ignorava aquilo que ele dizia. Por causa de sua generosidade, os coraixitas lhe deram o título de Fayyāḍ. Quando Shaybah, isto é, ‘Abdul-Muttalib, tinha dez ou doze anos, Muttalib soube de sua existência. Ele foi a Medina para buscá-lo. Ao chegar perto de Medina, isto é, de Yathrib, e olhar para Shaybah, seus olhos se encheram de lágrimas. Abraçou-o contra o peito, depois colocou-o atrás de si em seu camelo e partiu em direção a Meca. Contudo, Shaybah recusou-se a ir para Meca sem a permissão de sua mãe. Quando Muttalib pediu autorização à mãe de Shaybah, Salmā recusou-se a concedê-la. Muttalib disse que ele estava sob a autoridade de seu pai e que se dirigia à Casa de Allah. Depois dessas palavras, Salmā deu sua permissão. Muttalib colocou-o atrás de si no camelo e levou-o para Meca. Quando chegaram a Meca, os primeiros que o viram comentaram entre si: “É seu sobrinho, o filho de Hāshim.” A partir de então, Shaybah cresceu junto de Muttalib e, com o tempo, tornou-se jovem. Mais tarde, Muttalib morreu no Iêmen. Shaybah herdou a posição que ele deixara. ‘Abdul-Muttalib alcançou entre seu povo tamanha honra e prestígio que ninguém antes dele havia conseguido tanto. Seu povo o amava de todo o coração e lhe concedia uma honra sem precedentes. (Ibn Hishām, vol. 1, pp. 137–138.)
Após a morte de Muttalib, Nawfal tomou à força algumas terras de ‘Abdul-Muttalib. ‘Abdul-Muttalib pediu ajuda a alguns membros dos coraixitas, mas eles se declararam incapazes, dizendo: “Não podemos ficar ao seu lado contra seu próprio tio.” Por fim, ‘Abdul-Muttalib escreveu alguns poemas e os enviou a seu tio materno, entre os Banū Najjār. Nesses poemas, pedia ajuda. Em resposta, seu tio materno, Abū Sa‘d ibn ‘Adī, partiu com oitenta cavaleiros e chegou a um lugar chamado Abtah, próximo de Meca. ‘Abdul-Muttalib convidou-o para ir à sua casa, mas Abū Sa‘d disse: “Não; primeiro quero encontrar-me com Nawfal.” Então Abū Sa‘d apresentou-se diante de Nawfal. Naquele momento, Nawfal estava sentado conversando com alguns notáveis coraixitas de Meca. Abū Sa‘d desembainhou a espada e disse: “Juro pelo Senhor desta Casa: se não devolveres as terras de meu sobrinho, cravarei esta espada em teu corpo.” Nawfal respondeu: “Está bem, toma-as; eu as devolverei.” Diante dos líderes coraixitas como testemunhas, Abū Sa‘d devolveu as terras a ‘Abdul-Muttalib. Depois, Abū Sa‘d foi à casa de ‘Abdul-Muttalib e, após permanecer ali três dias, realizou a ‘umrah e retornou a Medina.
Depois disso, Nawfal comprometeu-se a apoiar os Banū ‘Abd Shams contra os Banū Hāshim.
Enquanto isso, a tribo dos Banū Khuzā‘ah observou que os Banū Najjār haviam ajudado ‘Abdul-Muttalib daquela maneira e disse: “‘Abdul-Muttalib é filho de vocês, assim como é nosso filho. Portanto, temos mais direito de ajudá-lo.” Isso se devia ao fato de a mãe de ‘Abd Manāf estar ligada à tribo dos Banū Khuzā‘ah. Por essa razão, os Banū Khuzā‘ah foram à Dār an-Nadwah e prometeram apoiar os Banū Hāshim contra os Banū ‘Abd Shams e os Banū Nawfal. Essa promessa posteriormente se tornou a causa da conquista de Meca na era islâmica. Os detalhes desse assunto serão mencionados mais adiante. (Mukhtaṣar Sīrat ar-Rasūl, Shaykh al-Islām Muhammad ibn ‘Abdul-Wahhāb an-Najdī, pp. 41–42.)
Por estar relacionado com a Casa da Caaba, dois acontecimentos importantes ocorreram com Abdul Muttalib: a escavação do poço de Zamzam e o episódio da Guerra do Elefante.
A escavação do poço de Zamzam
O resumo deste acontecimento é que Abdul Muttalib viu em sonho que estava sendo ordenado a escavar o poço de Zamzam. No próprio sonho, também lhe foi mostrado o local. Ao despertar repentinamente, começou a escavar o poço de Zamzam. No decorrer da escavação, duas coisas foram descobertas. Eram objetos que a tribo de Jurhum havia lançado dentro de Zamzam quando deixou Meca: espadas, ornamentos e dois cervos de ouro. Abdul Muttalib colocou uma porta usando as espadas recuperadas. Também fixou os dois cervos de ouro na porta e providenciou que os peregrinos bebessem a água do poço de Zamzam.
Depois que o poço de Zamzam foi descoberto, os coraixitas começaram a discutir com Abdul Muttalib. Exigiram que também fossem incluídos no trabalho de escavação. Abdul Muttalib disse: “Não posso fazer isso. Fui eu quem foi designado para este trabalho.” Mas os coraixitas não queriam aceitar. Por fim, todos foram até uma mulher adivinha da tribo de Banu Saad para que decidisse a questão. No caminho, porém, viram alguns sinais extraordinários. Com isso, compreenderam que, por determinação divina, a responsabilidade de escavar o poço de Zamzam havia sido concedida a Abdul Muttalib. Por essa razão, os coraixitas que estavam em disputa retornaram ainda no caminho. Nessa época, Abdul Muttalib fez um voto: se Deus lhe concedesse dez filhos e eles atingissem idade suficiente para se protegerem, sacrificaria um deles em nome de Deus junto à Caaba. (Ibn Hisham, vol. 1, pp. 142–147)
O episódio da Guerra do Elefante
O resumo do segundo acontecimento é que Abraha, Sabá, o abissínio, era o governador-geral do Iêmen em nome do rei da Abissínia, o Negus. Abraha observou que os árabes iam à Casa da Caaba para realizar o hajj. Ao ver isso, construiu uma igreja em Saná. Queria que os árabes fossem a Saná para realizar o hajj, em vez de irem a Meca. Ao saber disso, um homem da tribo de Banu Kinana entrou na igreja construída por Abraha e defecou no seu mihrab. Ao receber a notícia, Abraha ficou extremamente irado e avançou com sessenta mil soldados ferozes para destruir a Casa da Caaba. Para si, providenciou um elefante enorme. Seu exército tinha ao todo nove ou treze elefantes. Abraha saiu do Iêmen, chegou a um lugar chamado Mugammas e ali organizou suas tropas. Depois de entrar em Meca, quando chegaram à planície de Muhassir, entre Muzdalifa e Mina, todos os elefantes se sentaram. Apesar de muitas tentativas, não foi possível fazer o elefante avançar em direção à Caaba. Sempre que tentavam, ele se sentava. Nesse momento, Deus enviou um bando de pássaros. Eles carregavam pequenas pedras no bico e as lançaram sobre os soldados. Assim, o exército de Abraha foi completamente destruído, como palha triturada. Os pássaros eram semelhantes aos ababil. Cada pássaro carregava três pedras: uma no bico e as outras duas sob as asas. As pedras eram do tamanho de grãos de ervilha. Quando uma delas atingia alguém, seus membros começavam a se desprender e ele morria. Nem todos foram atingidos por essas pedras. O exército foi tomado por tamanho pânico e horror que todos começaram a fugir desordenadamente. Depois, foram caindo aqui e ali e morreram. Enquanto isso, o castigo caiu sobre Abraha: os dedos de suas mãos começaram a se desprender. Quando chegou a Saná, sua morte se aproximava. Seu fígado rompeu-se e saiu para fora, e ele morreu de maneira dolorosa.
Durante esse ataque de Abraha, os habitantes de Meca, tomados pelo medo de perder a vida, espalharam-se pelas montanhas e planícies e esconderam-se nas cavernas das montanhas. Quando o castigo de Deus desceu sobre o exército, retornaram tranquilamente às suas respectivas casas. (Ibn Hisham, vol. 1, pp. 43, 56)
Segundo a opinião da maioria dos autores de biografias proféticas, o acontecimento mencionado ocorreu cinquenta ou cinquenta e cinco dias antes do nascimento do Mensageiro de Deus. Era o mês de Muharram. O acontecimento ocorreu no fim de fevereiro ou no início de março do ano 571 da era cristã. Na realidade, Deus fez com que esse acontecimento ocorresse como uma preparação relacionada ao Seu Profeta e à sagrada Casa da Caaba. Do mesmo modo, em 587, Nabucodonosor conquistou Jerusalém e dela tomou posse. Antes disso, no ano 70, os romanos haviam conquistado Bayt al-Maqdis. Por outro lado, os cristãos jamais conseguiram dominar a Caaba. Entretanto, naquela época, os cristãos eram muçulmanos crentes em Deus, enquanto os guardiões da Caaba eram idólatras.
Logo após a ocorrência do incidente do Elefante, em pouco tempo essa notícia chegou a Roma e à Pérsia, então conhecidas como países avançados. Isso porque os romanos mantinham relações estreitas com Meca. Por outro lado, os persas mantinham os romanos constantemente sob vigilância. A Pérsia, ou os persas, observava todos os acontecimentos relativos aos romanos e aos seus inimigos. Por isso, vemos que, logo após a queda de Abraha, os persas conquistaram o Iêmen. Como, naquele tempo, a Pérsia e Roma eram conhecidas no mundo como países avançados e civilizados, a atenção da humanidade voltou-se para a Caaba. Eles testemunharam provas claras da honra e da excelência da Caaba. Compreenderam que Allah, o Altíssimo, havia escolhido aquela Casa como uma Casa sagrada. Portanto, era perfeitamente apropriado que alguém surgisse da cidade de Meca reivindicando a profecia. Ao refletirmos sobre o surgimento do Mensageiro de Allah, não é difícil compreender por que Allah havia ajudado os politeístas, que se encontravam no polo oposto ao dos muçulmanos, contra aqueles.
Abdul Mutalib tinha dez filhos. Seus nomes eram Harith, Zubair, Abu Talib, Abdullah, Hamza, Abu Lahab, Ghaydaq, Maqhum, Safar e Abbas. Alguns disseram que eram onze; o nome de um deles seria Qutham. Outros disseram que eram treze; um chamava-se Abdul-Kaaba e outro, Hujal. Os que mencionaram dez filhos afirmam que Muqawwam era outro nome de Abdul-Kaaba, e que Hujal era outro nome de Ghaydaq. Abdul Mutalib não teve nenhum filho chamado Qutham. Ele teve seis filhas. Seus nomes eram Ummul Hakim, também chamada Baiza, Baira, Atika, Safia, Arwa e Umaima. (Talqihul Fuhum, pp. 8-9; Rahmatul lil-Alamin, vol. 2, pp. 56, 66)
3) Abdullah era o pai do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. O nome da mãe de Abdullah era Fatima. Ela era filha de Amr ibn Abid ibn Imran ibn Makhzum ibn Yaqza ibn Murra. Entre os filhos de Abdul Mutalib, Abdullah era o mais belo, virtuoso e querido. Ele era chamado de Zabih, ou aquele que seria sacrificado. A razão disso foi que, depois que o número de filhos de Abdul Mutalib chegou a dez e eles alcançaram idade suficiente para se defender, Abdul Mutalib informou-lhes sobre o seu voto. Em seguida, escreveu os nomes de todos eles nas flechas usadas para tirar a sorte. Depois de escrevê-los, entregou-as ao guardião do ídolo Hubal. Quando o guardião realizou o sorteio, saiu o nome de Abdullah. Abdul Mutalib segurou Abdullah pela mão, pegou uma faca e levou-o para junto da Caaba a fim de sacrificá-lo. Porém, os coraixitas, especialmente Abu Talib, irmão de Abdullah, opuseram-se. Abdul Mutalib disse: “Se vocês me impedirem, como cumprirei o meu voto?” Eles aconselharam-no a procurar uma mulher adivinha e pedir-lhe uma solução. Abdul Mutalib foi até uma adivinha. Ela aconselhou-o a escrever o nome de Abdullah e o de dez camelos e realizar um sorteio. Disse ainda que, se o nome de Abdullah saísse, deveria continuar acrescentando dez camelos de cada vez, até que Allah Se agradasse. Depois, deveria sacrificar tantos camelos quantos fossem indicados pelo sorteio. Abdul Mutalib voltou e começou a fazer o sorteio, isto é, a qura. Nas primeiras dez tentativas, o nome de Abdullah não saiu. Então, foi acrescentando dez camelos de cada vez. Quando chegaram a cem camelos, saiu o nome de Abdullah. Abdul Mutalib sacrificou cem camelos e deixou-os ali. Ninguém, fosse homem ou animal, era impedido de se aproximar deles. Antes desse acontecimento, entre os coraixitas e os árabes, o valor do preço de sangue era de dez camelos. Depois desse acontecimento, ele foi elevado para cem camelos. O Islã também manteve esse valor. O Nobre Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Sou filho de dois homens destinados ao sacrifício: um deles é o honorável Ismael, que a paz esteja sobre ele, e o outro é meu pai, Abdullah.” (Ibn Hisham, vol. 1, pp. 151-155; Rahmatul lil-Alamin, vol. 2, pp. 89-90; Mukhtasar Sirat Rasul, Sheikh Abdul Wahab Najdi, pp. 22-23)
Abdul Mutalib escolheu Amina para o casamento de seu filho Abdullah. Amina era filha de Wahab ibn Abd Manaf ibn Zuhra ibn Kilab. Essas famílias eram consideradas as melhores dos coraixitas em termos de nobreza genealógica. O pai de Amina era o chefe da tribo Banu Zuhra em dignidade de linhagem e nobreza. Após o casamento, a senhora Amina deixou a casa paterna e foi para a casa do marido. Alguns dias depois, Abdul Mutalib enviou Abdullah a Medina para trazer tâmaras. Abdullah faleceu ali.
Alguns autores de obras sobre a Sira escreveram que Abdullah foi à Síria para comerciar. Ao adoecer durante o retorno a Meca com uma caravana comercial dos coraixitas, desembarcou em Medina e faleceu ali. Foi sepultado na casa de Nabigha al-Jaadi. Naquela ocasião, tinha vinte e cinco anos. Segundo a maioria dos historiadores, o Mensageiro de Allah ainda não havia nascido. Alguns afirmam que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, nasceu dois meses antes do falecimento de seu pai. (Ibn Hisham, vol. 1, pp. 156, 158; Fiqhus-Siyar, Muhammad Ghazali, p. 45; Rahmatul lil-Alamin, vol. 2, p. 91)
Ao receber a notícia da morte do marido, Amina recitou com voz dolorida: “A terra de Batha ficou desprovida de um descendente de Hashim. A morte o chamou, e ele respondeu: ‘Aqui estou’. Ele jaz entre Ranga e Khurush. A morte não deixou agora nenhum homem semelhante ao filho de Hashim. Recordo aquela tarde em que as pessoas o levaram sobre um esquife. Embora a morte tenha apagado a sua existência, não poderá apagar os seus feitos. Ele era generoso e misericordioso.” (Tabaqat de Ibn Sad, vol. 1, p. 62)
Os bens que deixou ao morrer eram cinco camelos, um rebanho de cabras e uma escrava abissínia. O nome dessa escrava era Baraka, e sua kunya era Umm Ayman. Ela amamentou o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. (Mukhtasar Sira, Sheikh Abdullah, p. 12; Talqihul Fuhum, p. 14; Sahih Muslim, vol. 2, p. 16)
O surgimento do Mensageiro de Allah e os quarenta anos de sua vida sagrada
Seu abençoado nascimento
O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, nasceu em Meca, na linhagem dos Banu Hashim, numa segunda-feira, 9 de Rabi al-Awwal. Naquele mesmo ano ocorreu o acontecimento da Guerra do Elefante. Naquela época, haviam-se completado quarenta anos desde a ascensão do imperador Nushirvan ao trono. A data de nascimento foi 20 ou 22 de abril, no ano 571 da Era Cristã. Sayyid Sulaiman Nadwi, Salman Mansur Puri e Muhammad Pasha Falaki forneceram essa informação após pesquisas. (Tarikh-e Khazram, vol. 1, p. 62; Rahmatul lil-Alamin, vol. 1, pp. 3, 39)
Segundo o relato de Ibn Saad, a mãe do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse que, quando ele nasceu, uma luz saiu de seu corpo, e por meio dessa luz os palácios da região da Síria ficaram iluminados. O Imam Ahmad também mencionou um relato quase semelhante, transmitido por Arbad ibn Sariya. (Mukhtasarush-Sirah, Sheikh Abdullah, p. 12)
Alguns relatos mencionam que, como parte dos sinais que precederam a profecia, certos acontecimentos se manifestaram no momento do nascimento do Mensageiro de Allah. As quatorze colunas do palácio real de Kisra ruíram, o fogo no altar dos adoradores do fogo se apagou e a igreja de Bahira foi destruída. Esse foi o relato de Bayhaqi. Contudo, Muhammad al-Ghazali não considerou esse relato autêntico. (Mukhtasarush-Sirah, p. 12)
Após o nascimento, sua mãe levou ao seu avô, Abd al-Muttalib, a boa-nova do nascimento do neto. Ele ficou muito feliz e, cheio de alegria, levou-o à Caaba, suplicou a Allah e Lhe ofereceu graças. Naquela ocasião, deu-lhe o nome de Muhammad. Conforme o costume árabe, circuncidou-o no sétimo dia. Depois de sua mãe, ele foi amamentado por Thuwaybah, escrava de Abu Lahab. Naquela época, o bebê que estava no colo de Thuwaybah chamava-se Masruh. Antes dele, Thuwaybah havia amamentado Hamza ibn Abd al-Muttalib e, depois dele, Abu Salama Sama ibn Abd al-Asad al-Makhzumi. (Talqih al-Fuhum, p. 4; Mukhtasar al-Sirah, do xeique Abdullah, p. 13)
A localização da tribo Banu Saad
Era costume dos habitantes urbanos da Arábia enviar seus filhos a mulheres beduínas encarregadas de amamentá-los, para protegê-los das doenças das cidades. Com isso, os corpos das crianças se desenvolviam robustos e fortes. Além disso, outro objetivo era que, durante o período de amamentação, elas pudessem aprender a língua árabe pura. Seguindo esse costume, Abd al-Muttalib procurou uma ama de leite e entregou-lhe seu neto, Halimah bint Abu Dhu’aib. Essa mulher pertencia aos Banu Saad ibn Bakr. Seu marido chamava-se al-Harith ibn Abd al-Uzza e seu kunya era Abu Kabsha. Ele também pertencia à tribo Banu Saad.
Os filhos de al-Harith eram irmãos e irmã de leite do Mensageiro de Allah, devido à relação que tinham com ele. Seus nomes eram Abdullah, Anisa e Huzafa, ou Juzama. O título de Halimah era Shayma, e ela era mais conhecida por esse nome. Ela amamentava o Mensageiro de Allah. Além dela, Abu Sufyan ibn al-Harith ibn Abd al-Muttalib, que era primo do Mensageiro de Allah, também era seu irmão de leite por meio de Halimah. Seu tio, Hamza ibn Abd al-Muttalib, também havia sido confiado, para ser amamentado, a uma mulher da tribo Banu Saad. Durante o período em que esteve com a senhora Halimah, essa mulher também amamentou o Mensageiro de Allah em certa ocasião. Assim, ele e Hamza eram irmãos de leite por duas linhas de parentesco (por um lado, por meio de Thuwaybah; por outro, por meio dessa mulher da tribo Banu Saad) (Zad al-Ma’ad, vol. 1, p. 19).
Durante o período de amamentação, Hazrat Halima testemunhou acontecimentos tão extraordinários da bênção do nobre Profeta, o Mensageiro de Allah, que ficou maravilhada e perplexa. Ouçamos o relato detalhado de sua própria boca. Segundo a narração de Ibn Ishaq, Hazrat Halima disse: “Saí da nossa cidade com meu marido, levando nosso filho de leite, junto com algumas mulheres da tribo de Banu Sa’d. Era um ano de fome. Havia necessidade e escassez por toda parte. Eu estava montada no lombo de uma jumenta. Também tínhamos uma camela, mas ela não dava sequer uma gota de leite. O bebê de leite contorcia-se de fome. Não conseguíamos dormir à noite. Eu também não tinha leite no peito, e a camela tampouco dava leite. Passávamos os dias esperando chuva e melhores condições. Quando saí de casa montada na jumenta, ela começou a andar tão devagar que todos os integrantes da caravana ficaram irritados. Fomos a Meca em busca de crianças para amamentar. Todas as mulheres da nossa caravana receberam a oferta de acolher o Mensageiro de Allah, mas todas se recusaram a aceitá-lo por ele ser órfão, isto é, não ter pai. Todas esperavam receber uma boa remuneração da família da criança. O que uma mãe viúva poderia oferecer? Por essa razão, nenhuma de nós concordou em levá-lo.”
Enquanto isso, todas as mulheres da nossa caravana haviam encontrado alguma criança, menos eu. Eu não havia encontrado criança alguma. Na hora de voltar, disse ao meu marido: “Não me sinto bem em voltar de mãos vazias. Prefiro levar aquela criança.” Meu marido concordou e disse: “Talvez, por meio dele, Allah Todo-Poderoso nos conceda bênçãos.” Então fui e o acolhi.
Hazrat Halima, que Allah esteja satisfeito com ela, disse: “Quando voltei à tenda levando a criança, ambos os meus seios estavam cheios de leite, e a criança mamou até se saciar. Seu irmão de leite também mamou até se saciar. Depois, os dois adormeceram tranquilamente. Antes disso, porém, meu filho não conseguia dormir por causa da fome. Enquanto isso, meu marido foi ordenhar a camela e percebeu que seus úberes estavam cheios de leite. Ordenhou tanto leite que bebemos até nos satisfazermos. Passamos a noite com grande conforto. Pela manhã, meu marido disse: ‘Juro por Deus, Halima, você acolheu uma criança cheia de bênçãos.’ Eu respondi: ‘Eu também penso assim.’”
Halima disse: “Depois, nossa caravana partiu. Montei a jumenta fraca, com a criança no colo. A jumenta caminhou tão depressa que ultrapassou todas as outras jumentas. As mulheres que me acompanhavam ficaram admiradas e disseram: ‘Ó filha de Abu Zubair, que coisa extraordinária! Olhe um pouco para nós. Esta é a mesma jumenta em que você veio montada?’ Eu disse: ‘Sim, é ela mesma.’ Elas disseram: ‘Certamente há algo especial nisso.’”
Depois, voltamos para nossas casas na tribo de Banu Sa’d. Eu não sabia se havia alguma região mais necessitada e assolada pela fome do que a nossa. Depois que voltamos, nossas cabras iam para o pasto e retornavam com a barriga cheia e os úberes repletos. Nós as ordenhávamos e bebíamos o leite, enquanto, naquela época, ninguém mais conseguia obter leite algum. Não havia leite nos úberes dos animais dos outros. As pessoas da nossa comunidade diziam aos pastores: ‘Seus desgraçados, levem suas cabras para pastar na região onde pastam as cabras da filha de Zubair.’ Mesmo assim, as cabras deles voltavam de barriga vazia. Não se encontrava sequer uma gota de leite em seus úberes. Já as minhas cabras retornavam com a barriga cheia e os úberes repletos. Assim, começamos a testemunhar a misericórdia e as bênçãos de Allah Todo-Poderoso. Quando a criança completou dois anos, nós a desmamamos. Essa criança era mais bem nutrida e robusta do que as outras. Depois, levamos a criança para sua mãe. Como havíamos testemunhado bênçãos por causa dela, queríamos que permanecesse conosco. Informei a mãe da criança sobre esse desejo. Após muitos pedidos e súplicas, Bibi Amina devolveu novamente a criança aos meus cuidados. (Ibn Hisham, volume 1, pp. 162–164)
O acontecimento da abertura do peito
Mesmo depois do desmame, o menino Muhammad continuou na tribo de Banu Sa’d. Quando tinha quatro ou cinco anos, ocorreu o acontecimento da abertura do peito. (A maioria dos autores de biografias do Profeta expressou essa opinião. Contudo, pela narração de Ibn Ishaq, sabe-se que o acontecimento ocorreu quando ele tinha três anos. Ibn Hisham, volume 1, pp. 164–165.)
O relato detalhado desse acontecimento foi transmitido por Hazrat Anas, que Allah esteja satisfeito com ele, no Sahih Muslim. Consta que Hazrat Jibril, que a paz esteja com ele, veio até o Mensageiro de Allah. Naquele momento, o Mensageiro de Allah brincava com as crianças. Jibril o deitou, abriu-lhe o peito e retirou o coração; depois extraiu dele uma parte e disse: ‘Esta é a parte de Satanás que há em você.’ Em seguida, colocou o coração numa bacia e o lavou com água do recipiente de Zamzam. Depois, recolocou-o em seu devido lugar. As outras crianças correram até Bibi Halima e disseram: ‘Muhammad foi morto.’ Os familiares correram até lá e o encontraram sentado, com o rosto pálido. (Sahih Muslim, capítulo Al-Isra, volume 1, p. 92)
Sob o carinho da mãe e os afagos do avô
Depois desse acontecimento, Bibi Halima ficou assustada. Ela devolveu a criança à sua mãe. Até completar seis anos, ele viveu sob o terno cuidado da mãe. (Talqihul Fuhum, p. 7; Ibn Hisham, vol. 1, p. 168)
Enquanto isso, Hazrat Amana desejou visitar o túmulo de seu falecido marido. Acompanhada de seu filho Muhammad, da serva Umm Ayman e de seu sogro Muttalib, ela percorreu cerca de quinhentos quilômetros até chegar a Medina. Depois de permanecer ali por um mês, partiu rumo a Meca. Ao chegar a um lugar chamado Abwa, entre Meca e Medina, Bibi Amana ficou gravemente doente. Pouco a pouco, a enfermidade se agravou. Por fim, ela faleceu em Abwa. (Ibn Hisham, vol. 1, p. 168; Talqisul Tuhum, p. 7; Fiqh us-Sirah, Ghazali, p. 50)
O idoso Abdul Muttalib chegou a Meca levando consigo o neto. Seu coração ardia de amor pelo neto órfão de pai e mãe. As lembranças do passado tornaram seu coração pesaroso. Ele amava o neto órfão de pai e mãe mais do que amava qualquer de seus próprios filhos ou filhas. Por ironia do destino, o menino Muhammad encontrava-se então completamente sozinho; mas Abdul Muttalib não permitia que ele permanecesse só. Amava e honrava o neto mais do que a todos os demais. Ibn Hisham escreveu que se estendia uma esteira à sombra da Caaba para Abdul Muttalib. Todos os seus filhos se sentavam ao redor dela. Quando Muhammad chegava, porém, sentava-se sobre a própria esteira. Ele era ainda uma criança pequena. Seu tio tentava afastá-lo da esteira, mas Abdul Muttalib dizia: “Não o afastem. Sua dignidade é extraordinária.” Em seguida, fazia-o sentar-se ao seu lado. E não apenas o fazia sentar-se: mantinha sempre consigo o amado neto. As atividades do menino Muhammad lhe davam alegria. (Ibn Hisham, vol. 1, p. 168)
Quando ele tinha oito anos, dois meses e dez dias de idade, também se extinguiu a sombra do carinho de seu avô. Ele faleceu. Antes de morrer, recomendou a seu filho Abu Talib que cuidasse especialmente de seu sobrinho. Abu Talib e Abdullah eram filhos da mesma mãe. (Talqihul Fuhum, p. 7; Ibn Hisham, vol. 1, p. 149)
Sob o carinho e a ternura do tio
Abu Talib criou seu sobrinho com profundo carinho e afeto. Incorporou-o à sua própria família, tratando-o como um de seus filhos. Na verdade, amava-o mais do que aos próprios filhos e o apoiou por mais de quarenta anos. Abu Talib estabelecia laços de inimizade ou amizade com as pessoas tendo sempre em vista os interesses de seu amado sobrinho.
Em busca da misericórdia de Allah
Ibn Asakir menciona, segundo o relato de Jalahama ibn Arafat: “Cheguei a Meca. Havia fome por toda parte, causada pela seca e pela falta de chuvas. Os membros da tribo dos coraixitas pediram a Abu Talib que suplicasse por chuva. Abu Talib saiu acompanhado de um menino. O menino parecia um sol coberto por nuvens. Havia também outros meninos ao redor. Abu Talib levou o menino até a frente da Caaba e encostou suas costas na parede da Caaba. O menino colocou os dedos nela. Não havia sequer um pedaço de nuvem no céu. Porém, pouco depois, todo o céu se cobriu de nuvens e começou a chover torrencialmente. A cidade e os campos tornaram-se vivos e férteis. Mais tarde, aludindo a esse acontecimento, Abu Talib disse: ‘Ele é belo; de seu rosto espera-se a misericórdia da chuva. Ele é o abrigo dos órfãos e o protetor das viúvas.’ (Mukhtasar al-Sirah, Shaykh Abdullah, pp. 15–16)
O sacerdote Bahira
Quando o Profeta Muhammad — que Allah lhe conceda bênçãos e paz — tinha doze anos, ou, segundo outra opinião, doze anos, dois meses e dez dias (Talqih al-Fuhum, Ibn al-Jawzi, p. 7), Abu Talib partiu com ele para a Síria com fins comerciais. Ao chegar a Basra, montou uma tenda em determinado lugar. Naquela época, Basra era a capital do reino romano que ocupava a Península Arábica. Nessa cidade vivia um sacerdote chamado Jirjis, conhecido como Bahira. Depois que a caravana montou as tendas, Bahira saiu da igreja, aproximou-se dos integrantes da caravana e ofereceu-lhes hospitalidade. O sacerdote Bahira, porém, nunca costumava sair de sua igreja. Ele reconheceu o Mensageiro de Allah — que Allah lhe conceda bênçãos e paz —, segurou sua mão e disse: ‘Ele é o senhor dos mundos. Allah, o Altíssimo, o enviará como misericórdia para os mundos.’ Abu Talib perguntou a Bahira: ‘Como você sabe disso?’ Ele respondeu: ‘Quando vocês chegaram a esta região, todas as árvores e pedras daqui se prostraram em homenagem a este menino. Elas não se prostram diante de ninguém além de um profeta. Além disso, reconheci-o pelo selo da profecia. Ao lado do osso macio abaixo de seu ombro há uma marca semelhante a uma maçã. Encontramos menção a ele em nossos livros religiosos.’
Depois, o sacerdote Bahira disse a Abu Talib: ‘Envie-o de volta a Meca. Não o leve para a Síria. Os judeus podem fazer-lhe mal.’ Seguindo esse conselho, Abu Talib enviou seu querido sobrinho de volta a Meca acompanhado de alguns servos. (Mukhtasar al-Sirah, Shaykh Abdullah, p. 16; Ibn Hisham, p. 16. Em Tirmidhi e outras obras, menciona-se que ele retornou a Meca acompanhado de Bilal, mas isso está errado. Bilal ainda nem havia nascido naquela época. Mesmo que tivesse nascido, ainda não conheceria Abu Bakr. Zad al-Ma’ad, vol. 1, p. 17.)
A Guerra de Fijar
Quando o Profeta, o Mensageiro de Allah — que Allah lhe conceda bênçãos e paz —, tinha quinze anos, começou a Guerra de Fijar. Nessa guerra, de um lado estavam os coraixitas, juntamente com os Banu Kinana, e do outro estava Qays Aylan. O líder dos coraixitas e dos Banu Kinana era Harb ibn Umayya. Devido à sua idade e à nobreza de sua linhagem, era respeitado pelos coraixitas. Os Banu Kinana também o respeitavam. Na primeira fase da batalha, Qays levou vantagem sobre Kinana. Porém, antes do meio-dia, Kinana passou a levar vantagem sobre Qays. Essa guerra foi chamada de Guerra de Fijar porque nela foram suspensas as proibições tanto do território sagrado quanto dos meses sagrados. O Mensageiro de Allah — que Allah lhe conceda bênçãos e paz — também participou dessa guerra. Ele entregava flechas aos seus tios. (Ibn Hisham, vol. 1, pp. 184–186; Qalb-e Jazirat al-Arab, p. 360; Tarikh al-Khazrami, vol. 1, p. 63)
Hilf al-Fudul
Após a Guerra de Fijar, no mês proibido de Dhu al-Qi’dah, foi estabelecido o Hilf al-Fudul. Algumas tribos dos coraixitas organizaram-no, entre elas os Banu Hashim, os Banu al-Muttalib, os Banu Asad ibn Abd al-Uzza, os Banu Zuhra ibn Kilab e os Banu Taym ibn Murra. Todos se reuniram na casa de Abdullah ibn Jud’an al-Taymi. Eram pessoas universalmente respeitadas por sua idade e nobreza. Comprometeram-se mutuamente a impedir qualquer tipo de injustiça e opressão cometida em Meca.
Seja ele habitante de Meca ou alguém de fora, quando fosse vítima de uma injustiça, a injustiça seria reparada e seu direito lhe seria devolvido. O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, esteve presente nessa assembleia. Após receber a profecia, ao mencionar esse acontecimento, ele dizia: “Participei, na casa de Abdullah ibn Jud’an, de um pacto em troca do qual nem mesmo um camelo vermelho me agradaria. Se, na época islâmica, eu fosse chamado para cumprir esse pacto, certamente atenderia.” (Ibn Hisham, vol. 1, pp. 133–135; Mukhtasar as-Sirah, Sheikh Abdullah, pp. 30–31)
A base desse pacto era a eliminação de todas as injustiças da época da ignorância. Conta-se que a razão do pacto foi a seguinte: um homem de Zabair havia chegado a Meca com algumas mercadorias. As ibn Wa’il comprou essas mercadorias, mas não pagou o seu preço. O vendedor pediu ajuda a Abd ad-Dar, Makhzus, Jamih, Saham e Adi, que estavam com As ibn Wa’il, mas ninguém deu importância ao assunto. Então, o homem subiu ao monte Abu Qubais e recitou em voz alta alguns poemas nos quais descrevia a injustiça que lhe havia sido cometida.
Ao ouvir isso, Zubair ibn Abd al-Muttalib começou a se movimentar e disse: “Por que não há ninguém para ajudar esse homem?” Por iniciativa dele, as tribos mencionadas reuniram-se. Primeiro, firmaram o pacto; depois, cobraram de As ibn Wa’il o preço das mercadorias vendidas e o entregaram ao homem. (Mukhtasar as-Sirah, pp. 30–31)
Uma vida de luta
Na juventude, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, não tinha nenhum trabalho específico. Contudo, sabe-se por diversos relatos que ele pastoreava cabras. Ele pastoreava as cabras da tribo Banu Sa’d. (Ibn Hisham, vol. 1, pp. 62, 166)
Ele também pastoreava as cabras de várias pessoas de Meca em troca de alguns qirats como pagamento. (Sahih al-Bukhari, vol. 1, p. 301) Aos vinte e cinco anos, partiu para a Síria levando as mercadorias comerciais de Khadija, que Allah esteja satisfeito com ela. Ibn Ishaq narrou que Khadija, filha de Khuwaylid, era uma nobre e rica mulher. Ela fornecia mercadorias a várias pessoas, que depois as vendiam, e recebia uma parte do lucro. Toda a tribo dos coraixitas se dedicava ao comércio. Ao ouvir falar da honestidade, do bom caráter e da gentileza do Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, Bibi Khadija enviou-lhe uma proposta para que ele se encarregasse de seus negócios. Ela propôs que ele levasse consigo seu servo Maysara. Bibi Khadija também disse que lhe pagaria uma remuneração maior do que a que costumava pagar às outras pessoas. O Mensageiro de Allah aceitou a proposta e foi à Síria com as mercadorias comerciais de Bibi Khadija, acompanhado de seu servo Maysara. (Ibn Hisham, vol. 1, pp. 187–188)
O casamento com Bibi Khadija
Depois que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, retornou a Meca de sua viagem comercial, Bibi Khadija percebeu que, dessa vez, seu lucro havia sido muito maior do que antes. Além disso, ouviu de seu servo Maysara grandes elogios ao excelente caráter, à honestidade, à justiça e a outras qualidades do Mensageiro de Allah. Ao ouvir isso, apaixonou-se por ele em seu coração. Antes disso, homens muito importantes e líderes haviam pedido Bibi Khadija em casamento, mas ela não aceitara nenhuma proposta. Ela revelou seu desejo secreto à amiga Nafisa, filha de Munabbih. Nafisa foi falar com o Mensageiro de Allah. Ele concordou e consultou seu tio. Seus tios conversaram com os tios de Khadija e enviaram uma proposta de casamento. Depois, o casamento foi realizado. Estiveram presentes nessa união pessoas proeminentes das tribos Banu Hashim e Mudar.
Esse casamento ocorreu dois meses após o retorno da viagem comercial à Síria. O Mensageiro de Allah ofereceu vinte camelos como dote. Naquela época, Bibi Khadija tinha quarenta anos. Ela era a mais nobre das mulheres em inteligência, beleza, riqueza e honra de linhagem. Esse foi o primeiro casamento do Mensageiro de Allah com Bibi Khadija. Enquanto Bibi Khadija esteve viva, o Mensageiro de Allah não se casou com nenhuma outra mulher. (Ibn Hisham, vol. 1, pp. 189–190; Fiqh as-Sirah, p. 59; Talkhis al-Fuhum, p. 7)
Todos os filhos do Mensageiro de Allah, que a paz esteja sobre ele, exceto Ibrahim, nasceram do ventre de Bibi Khadija. O primeiro a nascer foi Qasim. Por isso, o Mensageiro de Allah era chamado Abu al-Qasim, ou seja, pai de Qasim. Depois de Qasim, nasceram Zaynab, Ruqayya, Umm Kulthum, Fatima e Abdullah. Abdullah tinha os títulos de Tayyib e Tahir. Todos os filhos homens faleceram na infância. As filhas viveram até a era do Islam. Todas aceitaram o Islam e alcançaram a honra da Hégira. Exceto Hazrat Fatima, todas faleceram durante a vida do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Hazrat Fatima, que Allah esteja satisfeito com ela, faleceu seis meses após o falecimento de seu pai, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. (Ibn Hisham, vol. 1, pp. 190–191; Fiqh as-Sirah, p. 60; Fath al-Bari, vol. 7, p. 105. Há alguma divergência nos dados históricos. Mencionei apenas a informação que me pareceu correta.)
A construção da Caaba e a resolução da disputa sobre a Pedra Negra
Quando o Profeta, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, tinha trinta e cinco anos, os coraixitas iniciaram a reconstrução da Caaba. A razão dessa iniciativa era que a Caaba era cercada por quatro paredes cuja altura era apenas ligeiramente superior à altura de uma pessoa. Desde a época de Hazrat Ismail, que a paz esteja sobre ele, essas paredes tinham nove côvados de altura e não havia teto acima delas. Aproveitando-se dessa situação, alguns ladrões perversos roubaram os tesouros do interior. Além disso, havia passado muito tempo desde a construção; o edifício envelhecera e surgiram rachaduras nas paredes. Naquele ano também ocorreu uma grande inundação, cuja correnteza se dirigiu para a Caaba. Por essas razões, havia o risco de a Caaba desabar a qualquer momento. Assim, os coraixitas sentiram a necessidade de reconstruí-la.
Nessa etapa, os coraixitas decidiram que, na construção da Caaba, seriam utilizados apenas recursos obtidos por meios lícitos. Não poderiam ser usados os ganhos das prostitutas, o dinheiro dos juros nem qualquer riqueza obtida injustamente.
Para reconstruir a Caaba, era necessário demolir o antigo edifício. Contudo, ninguém tinha coragem de derrubar a casa. Por fim, Walid ibn al-Mughira al-Makhzumi começou a demolição. Quando todos perceberam que nenhum mal havia atingido Walid, participaram do trabalho de demolição. Depois de demolirem também a parte construída por Hazrat Ibrahim, que a paz esteja sobre ele, começaram a reconstruí-la. A parte de cada tribo na obra havia sido determinada, e cada tribo iniciou seu trabalho. Um arquiteto romano chamado Baqum supervisionava a construção. Quando o edifício alcançou a altura da Pedra Negra, surgiu o problema de quem a colocaria em seu lugar. Tratava-se de uma tarefa de grande distinção e santidade. A disputa continuou por quatro ou cinco dias e assumiu proporções tão graves que surgiu o temor de que houvesse derramamento de sangue. Abu Umayya al-Makhzumi encontrou uma maneira de resolver a controvérsia: todos aceitariam a decisão daquele que entrasse pela porta da Mesquita Sagrada na manhã seguinte. Todos aceitaram a proposta. Na manhã seguinte, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, foi o primeiro a entrar na Caaba. Então ele foi escolhido como árbitro. O Mensageiro de Allah estendeu uma capa no chão, colocou a pedra sobre ela com as próprias mãos e ordenou aos membros das tribos em disputa que segurassem as extremidades da capa e levassem a pedra até o local. Eles assim fizeram. Depois de levarem a capa ao lugar determinado, o Mensageiro de Allah colocou a pedra em sua posição com as próprias mãos. Essa decisão foi extremamente sensata e inteligente. Todos os envolvidos ficaram satisfeitos, e ninguém apresentou qualquer reclamação.
Enquanto isso, os coraixitas ficaram sem recursos lícitos suficientes. Por isso, reduziram em cerca de seis côvados o comprimento da Caaba no lado norte. Essa parte é chamada Hijr e Hatim. Nessa etapa, os coraixitas elevaram bastante a porta da Caaba, para que somente as pessoas autorizadas por eles pudessem entrar. Depois que as paredes atingiram quinze côvados de altura, ergueram seis colunas no interior e construíram um teto sobre elas. Ao final da construção, a Caaba adquiriu forma quadrangular. Atualmente, a altura da Caaba é de quinze metros. A parede do lado onde se encontra a Pedra Negra e as paredes à sua frente, isto é, dos lados norte e sul, têm dez metros de altura cada. A Pedra Negra encontra-se a um metro e meio do solo. A parede do lado onde está a porta e a parte frontal são doze metros mais altas que as paredes dos lados leste e oeste. Abaixo do recinto murado, cuja porta está a dois metros do solo, há em todos os lados uma estrutura em forma de cadeira. Sua altura é de vinte e cinco centímetros e seu comprimento, de trinta centímetros. Ela é chamada Shadhrawan. Na realidade, também faz parte da Caaba, mas os coraixitas suspenderam a construção dessa parte. (Para uma descrição detalhada, consulte Ibn Hisham, vol. 1, pp. 192 e 197; Fiqh as-Sirah, p. 62; Sahih al-Bukhari, vol. 1, pp. 1, 2 e 15.)
A vida antes da profecia
As qualidades e características que se encontram separadamente entre pessoas de diferentes classes estavam presentes, de forma completa, no Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Ele era um altíssimo farol de perspicácia, amor à verdade e reflexão. A pureza e maturidade do pensamento, bem como a santidade dos propósitos e objetivos, estavam plenamente presentes nele. Em seus longos períodos de silêncio, recebia a ajuda de Allah em favor da verdade e da justiça. Dotado de uma inteligência clara, refinada e bela, de excelente caráter e de uma visão elevada, ele refletia profundamente sobre a vida das pessoas, especialmente sobre os diversos problemas da vida. Ao observar, por meio dessa reflexão, as pessoas submersas em toda espécie de corrupção, seu coração encheu-se de aversão. Ele ficou profundamente entristecido. Manteve-se afastado das pessoas imersas no turbilhão da corrupção. Depois de obter uma compreensão correta da vida humana, participava tanto quanto possível do bem-estar das pessoas; no restante do tempo, retornava ao seu amado mundo de solidão. Nunca tocou em álcool, nunca comeu a carne de animais abatidos nos santuários e jamais participou de festivais, feiras ou eventos organizados para os ídolos.
Desde o início, ele detestava intensamente os ídolos, falsas divindades assim chamadas. Nada mais ele detestava tanto quanto isso. Tampouco conseguia tolerar juramentos feitos em nome de Lat e Uzza. (Há prova disso no episódio de Buhaira. (Ibn Hisham, volume 1, p. 128)
Não há dúvida de que o destino havia lançado sobre ele a sombra da proteção. Quando seu coração ansiava por obter alguma coisa mundana ou surgia em sua mente o desejo de seguir costumes fúteis e detestáveis, Allah, o Altíssimo, mantinha-o afastado dessas coisas.
Em uma narração de Ibn Athir, consta que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Nunca desejei fazer, mais de duas vezes, nenhuma das práticas que as pessoas da época da Jahiliyyah costumavam realizar. E, em ambas essas ocasiões, Allah criou um obstáculo para mim.”
Depois disso, jamais surgiu em minha mente o desejo de fazer algo desse tipo. Nesse meio-tempo, Allah, o Altíssimo, honrou-me com a profecia. Certo dia, disse ao rapaz que pastoreava cabras comigo nos arredores de Meca: “Se você vigiasse minhas cabras, eu iria a Meca e participaria, como os outros jovens, de uma roda de conversas noturnas.” O pastor concordou. Parti em direção a Meca. Quando cheguei perto da primeira casa, ouvi o som de instrumentos musicais. Ao perguntar, alguém respondeu: “Está ocorrendo o casamento de fulano com fulana.” Sentei-me para ouvir. Allah fechou meus ouvidos, e adormeci. Quando despertei, depois que o calor do sol atingiu meu corpo, voltei para junto daquele pastor, nos arredores de Meca. Depois que ele perguntou, contei-lhe tudo em detalhes. Em outro dia, dizendo a mesma coisa, cheguei a Meca vindo da companhia do pastor, mas aconteceu o mesmo que na primeira noite. Depois disso, jamais surgiu em minha mente um desejo incorreto desse tipo. (Hammam Jawabi considerou este hadith autêntico; Ibn Kathir, em sua obra Al-Bidaya wan-Nihaya, volume 2, p. 287, mencionou este hadith como da‘if, isto é, fraco.)
Está registrado no Sahih al-Bukhari, segundo Jabir ibn Abdullah, que Allah esteja satisfeito com ele, que, quando a Caaba estava sendo construída, o nobre Profeta, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e Abbas estavam quebrando pedras. Abbas disse ao Mensageiro de Allah: “Tire seu tahband e coloque-o sobre o ombro; assim você se protegerá da poeira das pedras.” No momento em que retirou o tahband, ele caiu no chão; depois olhou para o céu e desmaiou. Pouco depois, ao recuperar a consciência, disse: “Meu tahband, meu tahband.” Então seu tahband foi colocado novamente nele. Segundo uma narração, depois desse acontecimento, sua parte íntima jamais voltou a ser vista. (Sahih al-Bukhari, capítulo sobre a construção da Caaba, volume 1, p. 540)
O nobre Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, era singular e distinto por suas ações louváveis, seu caráter nobre e belo e sua natureza dotada de doçura. Ele possuía mais personalidade do que todos os demais, tinha o caráter mais elevado, era o vizinho mais honrado, o mais perspicaz, o mais verdadeiro de todos e o mais compassivo, com o coração mais puro e limpo. Nos bons atos e nas boas palavras, era superior a todos e digno de louvor. Era o primeiro de todos no cumprimento das promessas. Na honestidade e na guarda dos depósitos confiados, era incomparável. Seu próprio povo deu-lhe o nome de Al-Amin. Ele reunia todas as qualidades e características louváveis. Khadija, que Allah esteja satisfeito com ela, testemunhou que ele carregava os fardos dos aflitos, estendia a mão para ajudar os pobres e entristecidos, oferecia hospitalidade e ajudava no estabelecimento da verdade e da justiça. (Sahih al-Bukhari, volume 1, p. 3)
(Allah, o Altíssimo, enviou revelação ao Seu Mensageiro e disse:) “Ó tu que estás envolto em mantos (Muhammad), levanta-te, deixa o teu leito e adverte as pessoas do mundo sobre as consequências de não crerem; e proclama tu mesmo a grandeza do teu Senhor.” (Surata Al-Muddaththir, 1–3)
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Estrangeiro em sua própria casa: treze anos de opressão e perseguição
As diversas etapas do chamamento
No interior da caverna de Hira, sob a sombra da missão profética
A idade de Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, aproximava-se dos quarenta anos. Devido à sua personalidade íntegra e inflexível, aumentou muito a distância mental e intelectual entre ele e seu povo. Nessa situação, o Mensageiro passou a amar a solidão. Levando farinha tostada e água, começou a passar o tempo na caverna do monte Hira, situada a cerca de duas milhas de Meca. Era uma caverna pequena, com quatro côvados de comprimento e pouco menos de dois côvados de largura. Não era profunda na parte inferior. Situava-se junto a um pequeno caminho, no ponto de encontro com a extremidade do planalto superior. Depois que o amado Mensageiro passou a ir àquela caverna, Khadija também o acompanhava e permanecia em algum lugar próximo. O amado Mensageiro passava ali todo o mês de Ramadan. Refletia sobre o mundo visível e sobre os feitos do poder divino que atuavam por trás dele. Não encontrava tranquilidade ao ver a idolatria e a vida imunda de seu povo. Entretanto, não havia diante dele nenhum caminho claro, nenhum método definido nem um programa contrário à situação vigente, segundo o qual pudesse viver e alcançar conforto e paz mental. (Rahmatul lil-Alamin, vol. 1, p. 47; Ibn Hisham, vol. 1, pp. 235-236; Tafsir Fi Zilalil Quran, de Sayyid Qutb, p. 29, 66.) Essa preferência do Mensageiro pela solidão era, na realidade, parte da sabedoria de Allah. Assim, Allah o preparava para a grande responsabilidade que teria no futuro. Com efeito, é natural que aquele que se empenhará em provocar uma mudança revolucionária no curso da vida, oferecendo soluções para os problemas reais da existência humana, permaneça por algum tempo em solidão, longe do tumulto e do alvoroço do ambiente ao seu redor, num lugar livre de ruídos.
De acordo com esse princípio, Allah preparava gradualmente Seu amado Mensageiro para carregar o enorme peso da confiança e cumprir a histórica responsabilidade de transformar o curso da vida da humanidade. Três anos antes de lhe confiar a responsabilidade dessa confiança, havia determinado previamente que ele se dedicasse à meditação na solidão. Nessa reclusão, às vezes permanecia absorto em meditação por até um mês. Em sua jornada espiritual, refletia profundamente e pesquisava os mistérios da criação, para que, ao receber as orientações necessárias, fosse capaz de cumprir adequadamente sua responsabilidade. (Tafsir Fi Zilalil Quran, juz 29, pp. 166-167. É necessário lembrar que essas são as páginas da edição árabe do tafsir. As páginas da tradução bengali publicada pela Bangladesh Al-Quran Academy, de Londres, podem não coincidir com elas.)
A chegada de Gabriel com a revelação
Os quarenta anos são a idade da maturidade e da plenitude humana. Os profetas costumam receber a revelação nessa idade. Depois que o amado Mensageiro completou quarenta anos, os sinais da missão profética começaram a brilhar no horizonte de sua vida. Esses sinais manifestavam-se por meio de sonhos. Nessa época, qualquer sonho que o amado Mensageiro tinha tornava-se claro como a manhã luminosa. Seis meses se passaram nesse estado. Esse período correspondia à quadragésima sexta parte do período da missão profética, cuja duração total era de vinte e três anos. No terceiro ano de sua reclusão na caverna do monte Hira, Allah quis banhar os habitantes do mundo com a torrente de Sua misericórdia. Então Allah concedeu a missão profética ao Seu amado Mensageiro. O venerável Gabriel, que a paz esteja sobre ele, chegou trazendo alguns versículos do Sagrado Alcorão. (Hafiz Ibn Hajar al-Asqalani escreveu, e al-Bayhaqi mencionou, que o período dos sonhos durou seis meses. Ou seja, durante seis meses ele teve sonhos em diferentes momentos. Portanto, o início da missão profética por meio dos sonhos ocorreu no mês de Rabi al-Awwal, após ele completar quarenta anos. Esse era o mês de nascimento do amado Mensageiro. A primeira revelação recebida por ele em estado de vigília ocorreu no mês de Ramadan. (Fath al-Bari, vol. 1, p. 27.)
De acordo com as informações obtidas mediante o estudo das provas e dos argumentos históricos, bem como do Alcorão e de várias outras obras, sabe-se que a primeira revelação ocorreu na noite de segunda-feira, dia 21 do mês de Ramadã. Segundo o calendário lunar, naquela época o Mensageiro nobre, Hazrat Muhammad Mustafa Ahmad Mujtaba, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, tinha 40 anos, 6 meses e 12 dias de idade.
A idade dele no momento da descida da revelação
Há divergência entre os historiadores sobre em que mês o amado Profeta recebeu a profecia. Segundo a maioria dos autores de obras de sira, o amado Mensageiro recebeu a profecia no mês de Rabi al-Awwal. Alguns disseram que foi no mês de Ramadã, enquanto outros afirmaram que foi no mês de Rajab. Veja Mukhtasar al-Sira, de Sheikh Abdullah, volume 1, p. 75. No meu entendimento, foi no mês de Ramadã. É correto dizer que a descida da revelação, isto é, o recebimento da profecia, ocorreu então. Pois Allah Todo-Poderoso disse no Alcorão que este foi revelado no mês de Ramadã. Allah Todo-Poderoso também diz que o Alcorão foi revelado na Noite do Decreto. Ora, a Noite do Decreto ocorre no mês de Ramadã. Allah Todo-Poderoso também disse: “Nós o revelamos numa noite abençoada e advertimos as pessoas sobre o castigo”. Há ainda este argumento a favor da descida do Alcorão no mês de Ramadã: o Mensageiro costumava meditar na caverna de Hira durante o mês de Ramadã. Hazrat Jibril (que a paz esteja sobre ele) veio justamente à caverna de Hira.
Entre os que mencionaram que o Alcorão foi revelado no mês de Ramadã, há também divergência sobre em que dia desse mês ocorreu a revelação. Alguns dizem que foi no dia 7; outros, no dia 18. (Veja Mukhtasar al-Sira, volume 1, p. 75, e Rahmatul lil-Alamin, volume 1, p. 49.) Allama Hazrami escreveu que o dia 17 é o correto.
(Veja Tarikh al-Hazrami, volume 1, p. 69, e Tarikh al-Tashrih al-Islami, pp. 5, 6 e 7.) Eu dei preferência à data de 21 de Ramadã neste assunto. Embora ninguém tenha mencionado que a descida do Alcorão começou no dia 21 de Ramadã, meu argumento é que, segundo a maioria dos autores de obras de sira, o advento do Mensageiro ocorreu numa segunda-feira. Isso também é comprovado por um hadith narrado por Hazrat Qatada (que Allah esteja satisfeito com ele). Ele disse que, quando perguntaram ao amado Mensageiro sobre a segunda-feira, ele respondeu: “Neste dia nasci. Neste dia recebi a profecia.” Sahih Muslim, volume 1, p. 368; Musnad Ahmad, volume 5, pp. 297 e 299; Bayhaqi, volume 4, pp. 286 e 300; Hakim, volume 2, pp. 2 e 6. Naquele ano, as segundas-feiras do mês de Ramadã caíram nos dias 7, 14, 21 e 8. Foi comprovado por relatos autênticos que a Noite do Decreto ocorre nas noites ímpares do mês de Ramadã e alterna-se entre elas. Allah Todo-Poderoso disse que o Alcorão foi revelado na Noite do Decreto. Ao se examinarem as segundas-feiras do ano em que ele recebeu a profecia, chega-se à conclusão de que nasceu numa segunda-feira, dia 21 de Ramadã, e que recebeu a profecia nessa mesma data.
Ouçamos o relato detalhado desse acontecimento pelas palavras de Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela). A descida do Alcorão foi o surgimento de uma chama de luz miraculosa; com o êxito dessa chama de luz, a escuridão da perdição e do desvio desapareceu. O curso da história foi transformado por esse acontecimento.
Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: o início da revelação ao amado Mensageiro ocorreu por meio de sonhos. Os sonhos que ele tinha manifestavam-se como a luz da manhã radiante. Depois disso, ele passou a amar a solidão. Permanecia na caverna de Hira dedicado à adoração e, durante esse período, não voltava para casa por vários dias seguidos. Quando terminavam os alimentos e as bebidas, retornava à sua casa para buscá-los. Assim, certo dia, Hazrat Jibril (que a paz esteja sobre ele) veio até ele e disse-lhe: “Leia!”. Ele respondeu: “Não sei ler”. O anjo então o abraçou e o apertou com força contra o peito, dizendo: “Leia!”. Ele disse: “Senti como se toda a minha força tivesse sido espremida”. Depois, o anjo soltou-o e disse: “Leia!”. Ele respondeu: “Eu não sei ler”. Novamente, o anjo abraçou-me e apertou-me contra o peito.
Depois, soltou-o e disse: “Leia!”. Pela terceira vez, abraçou-o e apertou-o com força contra o peito, dizendo: “Leia: Iqra bi-ismi rabbika alladhi khalaq”. (Foram revelados até “Allama al-insana ma lam ya’lam”.) Isto é: “Leia em nome do teu Senhor, que criou”.
Depois que esses versículos foram revelados, o amado Profeta voltou para casa. Seu peito palpitava. Ele disse à sua esposa, Khadija bint Khuwaylid: “Cubra-me com um manto, cubra-me com um manto.” Bibi Khadija envolveu o amado Profeta em um manto e o fez deitar-se. Seu medo passou.
Depois de contar tudo a Bibi Khadija, o amado Mensageiro disse: “O que aconteceu comigo? Temo pela minha vida.” Bibi Khadija o tranquilizou, dizendo: “Allah, o Altíssimo, jamais o humilhará. Você cumpre os direitos dos parentes, ajuda as pessoas em dificuldades, oferece hospitalidade e auxilia no estabelecimento da verdade.”
Bibi Khadija então levou o amado Profeta até seu primo, Waraqa ibn Nawfal. Waraqa ibn Nawfal ibn Abd al-Uzza era cristão nos dias da Jahiliyyah. Ele sabia escrever em hebraico. Na medida em que Allah, o Altíssimo, lhe concedia capacidade, escrevia o Evangelho em hebraico. Naquela época, estava curvado pela idade avançada e era cego. Bibi Khadija disse: “Meu irmão, ouça o que seu sobrinho tem a dizer.” Waraqa disse: “Meu sobrinho, o que você viu?”
O Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) contou-lhe detalhadamente tudo o que havia visto. Depois de ouvir tudo, Waraqa disse: “Ele é o mensageiro que veio até Moisés (que a paz esteja sobre ele). Ah, se eu estivesse vivo quando seu povo o expulsar!” O Mensageiro, surpreso, disse: “Então meu povo realmente me expulsará?” Waraqa respondeu: “Sim. Sempre que alguém recebeu uma mensagem desse tipo, foi hostilizado. Se eu estiver vivo, certamente o ajudarei.” Pouco tempo depois, Waraqa faleceu. Em seguida, a revelação cessou subitamente. [Esse relato é mencionado, com ligeiras alterações, em Sahih al-Bukhari, no capítulo “Como ocorreu a revelação”, vol. 1, pp. 2–3.]
Pelos relatos de Tabari e Ibn Hisham, sabe-se que, mesmo quando a revelação cessou, ele permaneceu por algum tempo na caverna de Hira, completou o período determinado e depois retornou a Meca. O relato de Tabari também lança luz sobre sua saída de casa. O relato é o seguinte.
Ao discutir seu estado mental depois da revelação, o nobre Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Entre as criaturas de Allah, os poetas e os loucos eram os mais detestáveis para mim. Por causa da intensa aversão, eu nem desejava levantar os olhos para eles. Depois da revelação, pensei comigo mesmo: ‘Os coraixitas dirão que sou poeta ou louco?’ Depois de pensar assim, subi ao topo de uma montanha com a intenção de descer e acabar comigo mesmo. Cheguei até a subir uma montanha. Quando havia alcançado sua parte intermediária, de repente ouvi uma voz vinda do céu: ‘Ó Muhammad, você é o Mensageiro de Allah. Eu sou Jibril.’ Depois de ouvir essa voz, olhei para o céu. Vi Jibril em forma humana, de pé no horizonte. Ele disse: ‘Ó Muhammad, você é o Mensageiro de Allah; eu sou Jibril.’ O Mensageiro disse: ‘Fiquei imóvel; não conseguia avançar nem voltar. Para qualquer lado do céu que olhasse, via Jibril. Permaneci ali parado. Enquanto isso, Khadija enviou pessoas à minha procura. Depois de me procurar, ela retornou a Meca.”
Depois que Jibril partiu, voltei para minha casa. Sentei-me apoiado junto à coxa de Khadija. Ela disse: “Abu al-Qasim, onde você estava? Enviei alguém à sua procura; ele foi a Meca e voltou depois de procurá-lo, mas não o encontrou.” Então contei a Khadija tudo o que havia visto. Ela disse: “Ó meu primo, alegre-se e permaneça firme. Espero que você seja o Profeta desta comunidade.” Depois, ela foi até Waraqa ibn Nawfal e contou-lhe tudo. Ao ouvir, ele disse: “Juro por Aquele em cuja mão está a vida de Waraqa: o anjo que veio até Moisés (que a paz esteja sobre ele) veio até ele. Muhammad é o Profeta desta comunidade. Diga-lhe que permaneça firme.”
Depois, Hadrat Khadija voltou e transmitiu ao Mensageiro as palavras de Waraqa. O amado Profeta veio a Meca depois de completar o período de sua permanência na caverna de Hira. Nesse momento, Waraqa ibn Nawfal [disse]: “Por Aquele em cuja mão está a vida dele, você é o Profeta desta comunidade. O grande anjo que veio até Moisés (que a paz esteja sobre ele) veio até você.” (Hijab, p. 207; Ibn Hisham, vol. 1, pp. 237–238. Quanto à autenticidade desse relato, tenho, contudo, dúvidas. O episódio da conversa com Waraqa ocorreu logo depois da chegada da revelação. Após examinar os hadiths de Bukhari, é preciso concluir que a conversa com Waraqa ocorreu em Meca, imediatamente após o recebimento da revelação.)
Suspensão temporária da revelação
Por quanto tempo a revelação permaneceu suspensa naquela época? A esse respeito, Ibn Sa’d citou uma narração de Ibn Abbas. Nela é mencionado que a revelação ficou suspensa por alguns dias. Considerando todos os aspectos, essa narração parece ser a mais correta. É famosa a afirmação de que a revelação ficou suspensa por dois anos e meio ou três anos, mas esse relato não é verdadeiro. Não é necessário discutir aqui os argumentos e as provas relacionados a essa questão. (Isso foi parcialmente esclarecido na nota nº 11.)
Durante o período em que a revelação permaneceu suspensa, o amado Mensageiro ficava triste e preocupado. Encontrava-se em estado de inquietação mental e ansiedade. Uma narração do Kitab at-Ta’bir do Sahih Bukhari Sharif relata que, depois da suspensão da revelação, o amado Mensageiro ficou tão inquieto e preocupado que subiu várias vezes ao topo de uma montanha alta, de onde pretendia saltar. Porém, quando subia a montanha, Jibril vinha e dizia: “Ó Muhammad, você é o amado Mensageiro de Allah.” Ao ouvir essas palavras, ele parava; sua ansiedade e inquietação desapareciam. Retornava para casa com o coração tranquilo. Quando a revelação não voltava a chegar, ele novamente ficava inquieto. Então Jibril aparecia e dizia: “Ó Muhammad, você é o Mensageiro de Allah.” (Sahih Bukhari, Kitab at-Ta’bir, Ru’ya Salihah, vol. 2, p. 1034.)
O retorno de Jibril trazendo a revelação
Hafiz Ibn Hajar escreveu que a razão pela qual a revelação permaneceu suspensa por algum tempo foi para que o medo que ele havia sentido desaparecesse e para que surgissem em seu coração o desejo e a expectativa de receber novamente a revelação. (Fath al-Bari, vol. 1, p. 27)
Depois que o assombro passou, a realidade apresentou-se diante dele, e ele compreendeu claramente que havia se tornado o profeta de Allah. Também conseguiu compreender que aquele que viera até ele era o portador da mensagem da revelação, o mensageiro das notícias celestiais. Quando essa crença se firmou em seu coração, começou a esperar ansiosamente pela revelação. Decidiu que deveria permanecer firme e assumir essa responsabilidade. Nesse estado mental, Jibril (que a paz esteja sobre ele) apareceu novamente. No Sahih Bukhari Sharif, é narrado por Jabir ibn Abdullah (que Allah esteja satisfeito com ele) que ele ouviu da boca do amado Profeta o relato sobre a suspensão da revelação. O Mensageiro disse: “Eu estava caminhando quando, de repente, ouvi uma voz vinda do céu. Olhei para o céu e vi o mesmo anjo que havia vindo até mim na caverna de Hira. Ele estava sentado numa cadeira entre o céu e a terra. Fiquei com medo e desviei o olhar. Depois, cheguei em casa e disse à minha esposa: ‘Cubra-me com um manto, cubra-me com um manto.’ Minha esposa cobriu-me com um manto e fez-me deitar. Então Allah fez descer a surata Al-Muddaththir até ‘abandone a impureza’. Depois desse acontecimento, a revelação começou a descer frequentemente.” (Sahih Bukhari, Kitab at-Tafsir, capítulo “abandone a impureza”, vol. 2, p. 733.) Nessa narração também é mencionado que o Mensageiro disse: “Permaneci em retiro espiritual na caverna de Hira. Depois de completar o retiro, desci. Quando avançava pela planície, fui chamado. Olhei para a direita, para a esquerda, para a frente e para trás, mas não vi nada. Olhei para cima e vi aquele anjo.” —. De todos os relatos dos autores de biografias, sabe-se que o Mensageiro permanecia em retiro espiritual na caverna de Hira todos os anos, durante o mês de Ramadan. No terceiro Ramadan, Jibril veio até ele trazendo a revelação. Ele permanecia em retiro espiritual durante todo o mês de Ramadan e retornava a Meca bem cedo, no primeiro dia de Shawwal. Ao combinar essa informação com o relato mencionado, pode-se concluir que a revelação da primeira parte da surata Al-Muddaththir ocorreu dez dias depois da primeira revelação. Em outras palavras, o período de suspensão da revelação foi de dez dias.)
As diferentes formas de revelação
Antes de abordar a vida que começou para o amado Profeta depois que a revelação desceu sobre ele, isto é, depois que recebeu a profecia, é necessário esclarecer as diferentes formas de revelação. Com isso, será possível obter uma compreensão clara sobre a missão apostólica e a profecia. Allamah Ibn al-Qayyim mencionou os seguintes tipos de revelação:
1. Sonhos verdadeiros — a revelação do Mensageiro através de sonhos.
2. O anjo lhe incutia palavras no coração sem se deixar ver por ele. Assim, o amado Profeta disse que Ruh al-Qudus incutiu em seu coração estas palavras: ninguém morre antes de receber o sustento que lhe foi destinado. Portanto, temei a Allah e buscai as coisas boas. Ao buscar o sustento, não o procureis por meio da desobediência a Allah, pois tudo o que está com Allah só pode ser obtido mediante a obediência a Ele.
3. O anjo assumia a forma humana e se dirigia a ele. O amado Mensageiro memorizava tudo o que ele dizia. Às vezes, nesse período, os Companheiros também conseguiam ver os anjos.
4. A revelação chegava ao Mensageiro com um som contínuo, semelhante ao toque de sinos. Esse era o estado mais intenso da revelação. Nessa ocasião, o anjo se encontrava com ele, e o amado Profeta suava mesmo durante o frio intenso. O suor escorria de sua testa. Quando estava montado em um camelo, ele se sentava no chão. Certa vez, enquanto sua coxa estava sobre a coxa de Zayd ibn Thabit, a revelação lhe veio; Zayd sentiu um peso tão grande que sua coxa quase pareceu ser esmagada.
5. Ele via o anjo em sua verdadeira forma. Nesse estado, a revelação descia sobre ele pela vontade de Allah. Isso ocorreu duas vezes. Allah menciona esse fato na nobre Surata An-Najm.
6. Na noite do Mi’raj, a obrigação da oração e outras revelações foram determinadas e reveladas no céu. Naquele momento, o amado Profeta estava no céu.
7. Allah, o Altíssimo, falar diretamente, sem a intermediação de um anjo, assim como falou com Moisés (que a paz esteja sobre ele). Há no Alcorão provas de que Allah falou com Moisés. A prova de que Allah falou com o amado Profeta encontra-se nos hadiths sobre o Mi’raj.
8. Alguns mencionaram ainda uma oitava forma: falar diretamente com Allah, face a face e sem véu. Contudo, há margem para divergência quanto a essa questão (Zad al-Ma’ad, vol. 1, p. 18).
A ordem de transmitir a mensagem
As instruções dadas ao amado Profeta nos primeiros versículos da Surata Al-Muddaththir parecem, à primeira vista, breves, simples e diretas; na realidade, porém, são muito abrangentes e profundas em significado. Sua eficácia e influência sobre a vida prática são extraordinárias.
1. A finalidade última da ordem de advertir é informar a todos sobre as graves consequências dos atos praticados no mundo contra a vontade de Allah. Essa advertência deve ser feita de tal modo que o temor do castigo de Allah produza medo no coração e na mente das pessoas.
2. A finalidade última da descrição do Senhor é que somente a supremacia de Allah permaneça firme em Sua terra; não se deve permitir que a supremacia de qualquer outro permaneça. Pelo contrário, a autoridade e o domínio de tudo o mais devem ser anulados. Assim, somente a supremacia e a majestade de Allah se manifestarão e serão reconhecidas em Sua terra.
3. A finalidade última da pureza e da limpeza das vestes é manter toda forma de pureza, tanto exterior quanto interior, até alcançar um estado que permita buscar abrigo sob a sombra da misericórdia de Allah. Isso só pode ser alcançado por meio de Sua orientação e de Sua luz. Depois de adquirir a pureza e a limpeza mencionadas, o coração se voltará para Allah, e Sua supremacia e majestade despertarão nele. Como resultado, toda a humanidade permanecerá próxima d’Ele, seja em oposição, seja em obediência. Ele será o centro de tudo.
4. A finalidade última de não esperar uma recompensa maior depois de demonstrar misericórdia ou benevolência para com alguém é não considerar grandiosas as próprias ações nem atribuir-lhes importância excessiva. Ao contrário, deve-se continuar empenhando-se e esforçando-se em uma ação após outra. Mesmo depois de realizar um grande sacrifício, deve-se considerá-lo insignificante. Isto é, diante da lembrança de Allah e do temor de prestar contas perante Ele, deve-se considerar pequeno e modesto o próprio esforço.
5. O último versículo indica que, depois do início da obra de الدعوة por parte de Allah, os inimigos causarão sofrimento por meio de oposição, gracejos, zombaria, escárnio e coisas semelhantes, e farão todo o possível para matar o amado Profeta e seus companheiros. Ele terá de enfrentar tudo isso. Nessa situação, deverá perseverar firmemente e ter paciência. Essa paciência não será em busca de tranquilidade interior, mas pela satisfação de Allah e pela divulgação e expansão de Sua religião. Pois Allah disse: “Wa li-rabbika fasbir”, isto é, “Sê paciente por teu Senhor”.
Que maravilhoso! Em sua expressão aparente, como essas instruções são simples, diretas e breves! Como é leve e poética a escolha das palavras, mas como são abrangentes e significativas em sua aplicação prática! A aplicação efetiva dessas poucas palavras provocará agitação por toda parte e estabelecerá sólidos laços de unidade e harmonia entre os povos de todos os cantos do mundo.
Nos versículos mencionados também estão presentes os elementos da da‘wah e do tabligh. Entre os filhos de Adão, há atos cujo resultado é mau. Todos sabem que, por tudo o que uma pessoa faz, ela não recebe sua devida retribuição neste mundo, nem isso é possível. Portanto, naturalmente, deve haver um dia em que se dará a plena retribuição por todos os atos. Esse dia é chamado de Dia da Ressurreição. Uma necessidade inevitável da retribuição nesse dia é que exista uma vida diferente daquela que vivemos neste mundo.
Em outros versículos, Allah, o Altíssimo, exigiu que Seus servos fossem seguidores do tawhid puro. Ele declarou que o servo deve confiar todos os seus desejos e aspirações somente em Allah, e que deve dar preferência à vontade de Allah sobre os desejos de sua própria natureza e sobre os demais desejos humanos. Dessa forma, a responsabilidade da da‘wah e do tabligh pode ser cumprida. Essas condições são as seguintes:
a. Tawhid.
b. Crença na vida após a morte.
c. Dar ênfase à tazkiyat an-nafs, isto é, abster-se de toda obscenidade e de todo pecado, praticar mais boas ações e esforçar-se por permanecer firme nelas.
d. Confiar todos os seus atos a Allah, o Todo-Poderoso.
e. Tudo isso deve ser realizado por meio da fé na profecia e na missão profética do amado Profeta, bem como do seguimento de sua liderança extraordinária.
Esses versículos contêm instruções celestiais. Allah, o Senhor dos mundos, convocou Seu amado Profeta a avançar para uma grande tarefa. Ordenou-lhe que abandonasse o conforto do sono e entrasse no árduo campo do jihad. Como Allah, o Todo-Poderoso, disse nos primeiros versículos da Surata Al-Muddaththir, somente aquele que vive para si mesmo pode levar uma vida confortável; mas como pode dormir tranquilamente aquele sobre quem pesa a responsabilidade de orientar uma vasta humanidade? Que relação ele tem com uma cama quente e uma vida confortável? Sai para realizar a grande tarefa que te espera. Avança para erguer o enorme fardo de responsabilidade preparado para ti. Avança para lutar. Esforça-te. O tempo do sono e do conforto já passou. Agora é tempo de permanecer acordado e dedicar-se a um longo esforço. Prepara-te para realizar essa tarefa.
Esta ordem reveste-se de grande importância. Ela tirou o amado Profeta de uma vida de conforto e lançou-o ao oceano insondável, repleto de ondas. Colocou-o diante da consciência humana e da realidade da vida.
Depois disso, o amado Mensageiro de Allah levantou-se e permaneceu de pé por mais de vinte longos anos. Durante esse período, manteve-se firme e inabalável na luta da vida. Abandonou o conforto e o bem-estar, sacrificando a felicidade, a paz e o conforto próprios e de sua família. Depois de se levantar, permaneceu nessa condição. Sua tarefa era convidar as pessoas para o caminho de Allah. Sem qualquer pressão, assumiu essa responsabilidade sobre os próprios ombros. Essa responsabilidade era a Amanat-e-Kubra na Terra, isto é, o peso de uma enorme confiança: o peso de toda a humanidade, o peso de toda a crença e convicção, e o peso do jihad em diversos campos. Durante mais de vinte anos, viveu essa vida repleta de luta. Desde que recebeu a ordem celestial, jamais se mostrou desatento ou indiferente a qualquer situação ou à passagem de uma situação para outra. Que Allah Todo-Poderoso lhe conceda, da nossa parte e da parte de toda a humanidade, a melhor recompensa. (Tafsir Fi Zilalil Qur’an, Sayyid Qutb Shahid, Surata Al-Muzzammil, Surata Al-Muddaththir, juz 29, pp. 168, 167, 172) (volume original em árabe).
Primeira etapa: iniciativa individual
Três anos de dawah secreta
Meca era o centro da Península Arábica. Ali estavam os guardiões e administradores da Caaba. Os árabes também eram os guardiões dos ídolos, e o povo de toda a Arábia os considerava dignos de honra. Por isso, era mais difícil realizar com êxito uma tentativa de reforma em Meca do que em qualquer outro lugar. Ali era necessária uma firmeza de coração tal que nenhum sofrimento, dificuldade, perigo ou obstáculo pudesse provocar sequer o menor recuo; pelo contrário, era preciso permanecer firme e inabalável diante dos perigos e obstáculos. Assim, a estratégia consistia em realizar inicialmente o trabalho de dawah e tabligh em segredo, para que não surgisse subitamente um tumulto entre os habitantes de Meca.
Alguns dos primeiros soldados do Islã
Era natural que o Mensageiro oferecesse primeiro a dawah do din àqueles que eram seus parentes próximos e com quem mantinha uma relação profunda. Ele convidaria primeiro sua família, parentes e amigos. Por isso, o amado Profeta começou por convidar essas pessoas. E percebeu nelas sinais de receptividade. Além disso, convidou aqueles que sabia que o conheciam e respeitavam como um homem veraz, justo, íntegro e correto.
Por meio da dawah do Mensageiro de Allah, algumas pessoas aceitaram o Islã. Elas jamais abrigaram qualquer dúvida sobre a honestidade, a veracidade e a generosidade do amado Mensageiro. Na história do Islã, são conhecidas como os Sabiqin al-Awwalin. Entre os primeiros da lista estavam a esposa do Mensageiro, a Mãe dos Crentes Khadija bint Khuwaylid; seu escravo liberto, Zayd ibn Haritha ibn Sharahbil al-Kalbi — ele havia chegado como escravo capturado na guerra. Mais tarde, a senhora Khadija tornou-se sua proprietária e o presenteou ao marido. Depois, seu pai e seu tio vieram buscá-lo, mas ele preferiu permanecer com o amado Mensageiro, deixando o pai e o tio. Em seguida, o Mensageiro adotou seu servo Zayd como filho adotivo, segundo o costume árabe. Depois desse acontecimento, ele ficou conhecido como Zayd Muhammad. Com a chegada do Islã, o costume árabe da adoção de filhos foi abolido. —; seu primo, Hazrat Ali ibn Abu Talib, que naquela época era criado em sua família; e seu íntimo amigo, Hazrat Abu Bakr Siddiq, radiyallahu anhum ajma‘in. Todos eles aceitaram o Islã no primeiro dia. (Rahmatul lil Alamin, vol. 1, p. 50)
Depois de aceitar o Islã, Hazrat Abu Bakr Siddiq (que Allah esteja satisfeito com ele) dedicou-se à propagação do Islã. Ele era uma pessoa amada por todos, de temperamento afável, excelente caráter e espírito generoso. Devido ao seu comportamento extraordinário, as pessoas iam e vinham constantemente à sua casa. Naquela época, Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) começou a transmitir o convite à religião às pessoas dignas de confiança e confiáveis. Awf, Hazrat Sa’d ibn Abi Waqqas e Hazrat Talha ibn Ubaydullah aceitaram o Islã. Eles foram os primeiros soldados do Islã.
Hazrat Bilal (que Allah esteja satisfeito com ele) também estava entre os primeiros a aceitar o Islã. Depois dele, Hazrat Abu Ubayda, o Amin da Ummah, Amir ibn Salama ibn Abd al-Asad, al-Arqam ibn Abi al-Arqam, Uthman ibn Maz’un e seus dois irmãos, Qudama e Abdullah, Ubayda ibn al-Harith, al-Muttalib ibn Abd al-Manaf, Sa’id ibn Zayd e sua esposa, isto é, Fatima bint Khattab, irmã de Umar, Khabbab ibn al-Aratt, Abdullah ibn Mas’ud e várias outras pessoas aceitaram o Islã. Todos eles estavam ligados a diferentes ramos da tribo dos coraixitas. Ibn Hisham escreveu que seu número era superior a quarenta. (Veja o volume 1, pp. 245–262.) Alguns deles foram incluídos entre os Sabiqun al-Awwalun.
Ibn Ishaq relatou que, depois de essas pessoas afortunadas aceitarem o Islã, grupos de pessoas passaram a refugiar-se à sombra refrescante do Islã. O Islã começou a ser discutido por toda Meca e ganhou ampla difusão. (Sira de Ibn Hisham, volume 1, p. 262.)
Eles aceitaram o Islã secretamente. O amado Profeta encontrava-se com eles em segredo, a fim de lhes ensinar o Islã e orientá-los. Isso porque o trabalho de transmissão da mensagem estava sendo realizado de modo discreto e secreto. Depois que foram revelados os primeiros versículos da Surata al-Muddaththir, a revelação começou a chegar com frequência. Naquele período, os versículos eram curtos, dotados de uma musicalidade cativante e de qualidade poética. Esses versículos ajustavam-se perfeitamente ao ambiente. Neles se lançava luz sobre a tazkiya al-nafs, isto é, a purificação e o aperfeiçoamento da alma, bem como sobre as consequências nefastas de se deixar envolver pelas ilusões mundanas. Além disso, as descrições do Paraíso e do Inferno eram apresentadas de tal modo que pareciam estar diante dos olhos. Esses versículos conduziam as pessoas por lugares inteiramente novos para aquele ambiente.
A ordem para a oração
Entre as primeiras coisas reveladas estava também a ordem para a oração. Muqatil ibn Sulayman afirma que, no início do Islã, Allah, o Altíssimo, determinou duas rak’ahs de oração pela manhã e duas rak’ahs à tarde. Isso porque Allah, o Altíssimo, diz: “Prostrai-vos diante d’Ele, glorificando vosso Senhor, pela manhã e à tarde.”
Ibn Hajar afirma que o amado Mensageiro e seus nobres Companheiros já realizavam a oração antes do acontecimento da Ascensão. Contudo, há divergência quanto à existência de alguma oração obrigatória antes das cinco orações diárias. Alguns afirmam que havia uma oração obrigatória antes do nascer do sol e outra antes do pôr do sol.
Harith ibn Usama narrou, sob a autoridade de Zayd ibn Haritha, este hadith: quando a revelação chegou pela primeira vez ao amado Profeta, Jibril veio e ensinou-lhe primeiro o modo de realizar o wudu. Depois de concluir o wudu, ele lançou uma mão-cheia de água sobre as partes íntimas. Ibn Majah também narrou um hadith semelhante. Narrações desse tipo também foram transmitidas por Bara ibn Azib e Ibn Abbas. No hadith narrado por Ibn Abbas consta que essa oração estava entre as primeiras obrigações. (Mukhtasar al-Sira, Shaykh Abdullah, p. 88.)
Ibn Hisham relatou que o amado Mensageiro e os nobres Companheiros costumavam ir para as montanhas nos horários das orações e rezavam secretamente. Certa vez, Abu Talib viu o Mensageiro e Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) realizando a oração. Ele perguntou a respeito disso. Depois que lhe explicaram, disse: “Continuem com esse hábito.” (Ibn Hisham, volume 1, p. 147).
Informando os coraixitas
Vários acontecimentos comprovam que, embora naquela época o trabalho de pregação fosse realizado secretamente, os coraixitas começavam a perceber algumas coisas. Entretanto, não deram importância alguma ao assunto.
O Imam Ghazali escreveu que os coraixitas recebiam notícias das atividades dos muçulmanos, mas não lhes davam nenhuma importância. Talvez considerassem Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, uma espécie de personalidade religiosa que falava sobre ascetismo e renúncia ao mundo. Havia pessoas desse tipo na sociedade árabe, como Umayya ibn Abi Salt, Quss ibn Sa’idah e Amr Tufayl, entre outros. Contudo, os coraixitas perceberam que sua atividade parecia ser um pouco mais intensa e diferente. Com o passar do tempo, os coraixitas foram aumentando gradualmente sua atenção às atividades religiosas e à pregação do amado Profeta. (Fiqh al-Sirah, p. 76)
Durante três anos, o trabalho da religião foi realizado secretamente. Nesse período, formou-se um grupo de crentes. Eles se mantinham firmes na fraternidade e na ajuda mútua. Transmitiam a mensagem de Allah Todo-Poderoso e esforçavam-se para elevar essa mensagem a um determinado nível. Depois, Allah Todo-Poderoso revelou uma revelação e deu instruções ao seu povo. Além da pregação da religião, também foi ordenado que se confrontasse o poder vão dos coraixitas e que fossem expostos os aspectos nocivos de seus ídolos.
A segunda etapa: a pregação pública
A primeira ordem relativa à pregação
A esse respeito, a primeira ordem que Allah Todo-Poderoso revelou foi: “Ó Profeta, adverte teus parentes próximos sobre o castigo de Allah.” Este é um versículo da Surata Ash-Shu’ara. Nessa surata, primeiramente é narrado o episódio de Hazrat Musa, que a paz esteja com ele. Isto é, relata-se como Hazrat Musa, que a paz esteja com ele, recebeu a profecia e como, após emigrar com os Filhos de Israel, o Faraó, seu povo e seus companheiros foram afogados no rio Nilo. Em outras palavras, essa surata apresenta as diversas etapas da pregação que Hazrat Musa, que a paz esteja com ele, dirigiu ao Faraó e aos Filhos de Israel.
Creio que, depois de ter sido dada ao Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — a ordem de proclamar abertamente a mensagem entre seu povo, o relato sobre o profeta Moisés — que a paz esteja sobre ele — foi mencionado justamente para que ele tivesse um exemplo diante de si. Depois de convocar abertamente para a religião, o profeta Moisés — que a paz esteja sobre ele — teve de enfrentar situações adversas e sofreu todo tipo de excessos; assim, o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — e os nobres Companheiros deveriam ter sempre diante de si um modelo disso. Por outro lado, nesta surata também se discute qual foi o destino das comunidades que chamaram os profetas de mentirosos, como o Faraó e seu povo, o povo de Noé, Aad, Samud, o povo de Abraão, o povo de Lot e os habitantes de Aicá, entre outros. Possivelmente, o objetivo era que aqueles que chamassem o Mensageiro de Allah de mentiroso compreendessem qual seria seu destino caso persistissem nesse comportamento e que tipo de castigo de Allah enfrentariam. Os crentes também compreenderiam que o bom desfecho pertence a eles. Quanto aos que chamam o profeta de mentiroso, seu destino não será bom.
A proclamação da mensagem entre os parentes próximos
Depois da revelação deste versículo, o nobre Profeta — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — reuniu, como primeiro passo, os Banu Hashim. Junto deles havia também um grupo dos Banu al-Muttalib ibn Abd Manaf. Ao todo, eram quarenta e cinco pessoas. Abu Lahab aproveitou a oportunidade e disse: “Vejam, estes são seus tios e primos. Fale, mas não se comporte como um tolo, e lembre-se de que sua família não poderá enfrentar toda a Arábia. Eu tenho mais direito de capturá-lo. Os membros de sua linhagem paterna são suficientes para você. Se permanecer firme em suas palavras, todas as tribos dos coraixitas avançarão contra você, com o apoio delas. O que acontecerá depois? Entre os membros de sua linhagem paterna, você será aquele que praticará as ações mais destrutivas.” Ao ouvir essas palavras, o nobre Profeta — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — reuniu-os novamente e disse: “Todo louvor pertence a Allah, o Altíssimo. Eu O louvo e peço auxílio somente a Ele. Creio Nele e deposito minha confiança Nele. Dou testemunho de que ninguém é digno de adoração além de Allah. Ele é Uno e Único; não possui associado algum.” Então o Mensageiro de Allah disse: “Um guia não pode mentir para os membros de sua própria família. Juro por Allah, além de Quem não há divindade, que sou o Mensageiro de Allah enviado especialmente a vós e, de modo geral, a todos os demais seres humanos. Juro por Allah que um dia morrereis como dormis, e um dia sereis ressuscitados assim como despertai do sono. Então sereis chamados a prestar contas por vossas ações. Depois disso, haverá, para a eternidade, ou o Paraíso ou o Inferno.”
Ao ouvir isso, Abu Talib disse: “Não é necessário dizer o quanto me agrada ajudá-lo. Seu conselho é digno de ser aceito. Creio que suas palavras são verdadeiras. Todos os membros de sua linhagem paterna estão presentes aqui, e eu sou um deles. Portanto, não sou favorável a que você abandone a religião de Abdul Muttalib.” Abu Lahab disse: “Juro por Allah, isso é uma coisa ruim. Você se apressou em apoiá-lo antes dos outros?” Abu Talib respondeu: “Juro por Allah, enquanto eu viver continuarei a protegê-lo.” (Fiqh al-Sirah, pp. 77, 88, obra de Ibn al-Athir.)
A proclamação da mensagem no monte Safa
Quando o Profeta — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — compreendeu com certeza que Abu Talib o apoiaria na proclamação da religião de Allah, certo dia subiu ao monte Safa e gritou: “Ya Sabahah!”, isto é, “Ó manhã!”. Naquela época, quando era necessário anunciar uma notícia terrível, as pessoas subiam ao topo das montanhas e gritavam: “Ya Sabahah! Ya Sabahah! Ó manhã!”. Ao ouvirem esse chamado, as tribos dos coraixitas reuniram-se diante dele. Ele os convidou a crer no tawhid de Allah, em Sua missão profética e no Dia do Juízo. Uma parte desse acontecimento foi narrada assim no Sahih al-Bukhari, por Abdullah ibn Abbas — que Allah esteja satisfeito com ele:
“Ó Profeta, adverte teus parentes próximos sobre o castigo de Allah.” Depois da revelação deste versículo do Alcorão, o nobre Profeta — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — subiu ao monte Safa e chamou: “Ó Banu Fihr, ó Banu Adi!”. Ao ouvirem esse chamado, todos os líderes dos coraixitas se reuniram. Quem não pôde ir enviou um representante para saber do que se tratava. Os coraixitas chegaram, e Abu Lahab também estava com eles. Então ele disse: “Dizei-me: se eu vos dissesse que, na planície do outro lado da montanha, há um grupo de cavaleiros escondido que pretende atacar-vos, acreditaríeis em mim?”. Todos responderam: “Sim, acreditaríamos, pois nunca vos ouvimos mentir.” O amado Profeta — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — disse: “Ouvi: fui enviado para vos advertir sobre um castigo terrível.” Abu Lahab disse: “Que pereças! Foi para nos dizer isso que nos chamaste aqui?” Depois que Abu Lahab disse isso, Allah, o Altíssimo, revelou a Surata Al-Lahab, na qual se diz: “Que pereçam as duas mãos de Abu Lahab, e que ele próprio pereça.” (Sahih al-Bukhari, vol. 2, pp. 706, 743; Sahih Muslim, vol. 1, p. 114.)
O Imam Muslim mencionou outra parte desse acontecimento em sua coletânea Sahih. Abu Huraira — que Allah esteja satisfeito com ele — narrou este hadith. Ele disse: Depois da revelação do versículo “Adverte teus parentes próximos sobre o castigo de Allah”, o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — chamou, de modo geral e específico. Ele disse: “Ó grupo dos coraixitas, salvai-vos do Inferno. Ó Banu Kaab, salvai-vos do Inferno. Ó Fátima, filha de Muhammad, salva-te do Inferno. Fui incumbido de vos proteger do castigo de Allah. Como há entre nós laços de parentesco, advertir-vos-ei sobre isso tanto quanto me for possível.” (Sahih Muslim, vol. 1, p. 385.)
Proclamação pública da da‘wa
Enquanto ainda se ouviam os ecos dessa voz nos arredores de Meca, Allah, o Altíssimo, revelou este versículo: “Proclama abertamente aquilo que te foi ordenado e afasta-te dos idólatras” (15:94).
Depois disso, o Nobre Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) expôs publicamente a imundície e os males do politeísmo e desvelou o véu da falsidade. Ele evidenciou o vazio e a inutilidade dos ídolos e revelou a sua verdadeira natureza. Continuou explicando, por meio de exemplos, que os ídolos eram inúteis e impotentes. Também informou que aqueles que adoravam esses ídolos e os estabeleciam como intermediários entre si mesmos e Allah estavam em manifesto desvio.
Ao ouvirem que os idólatras e os adoradores de ídolos eram considerados desviados, os habitantes de Meca ficaram desorientados de raiva. Foi como se um raio tivesse caído sobre eles; na sua vida tranquila e despreocupada, pareceu-lhes que uma tempestade devastadora havia irrompido. Por isso, os coraixitas se levantaram para arrancar pela raiz essa revolução que havia eclodido subitamente, pois ela ameaçava eliminar os seus costumes e práticas idólatras.
Os coraixitas se levantaram, arregaçando as mangas. Eles sabiam que negar qualquer outro como divindade além de Allah e crer na missão profética e na Vida Futura significava entregar-se completamente à missão profética e submeter-se incondicionalmente a ela. Com isso, não apenas os outros, mas até mesmo em relação às suas próprias vidas e riquezas, deixariam de ter qualquer direito independente. Isso significava que a superioridade e a autoridade religiosa que os habitantes de Meca exerciam sobre o povo da Arábia seriam completamente eliminadas. Como resultado, somente a vontade e o desejo de Allah e de Seu Mensageiro seriam definitivos, e eles nada poderiam fazer segundo a própria vontade. Teriam de afastar-se das opressões e perseguições que infligiam às classes mais baixas e de todos os atos abomináveis aos quais se entregavam de manhã e à noite. Os coraixitas compreendiam muito bem o que isso significava; por isso, não conseguiam aceitar uma situação tão humilhante aos seus olhos. Contudo, não se tratava da expectativa de qualquer benefício ou bem; o objetivo era, antes, envolver-se em atos ainda mais malignos. Allah, o Altíssimo, diz: “Isso ocorre porque o ser humano deseja continuar entregando-se ao mal no futuro” (5:75).
Os coraixitas compreendiam tudo isso, mas a dificuldade era que diante deles estava um homem verdadeiro e digno de confiança. Ele era o melhor exemplo de um ideal. Durante longo tempo, os habitantes de Meca não haviam visto nem ouvido falar de semelhante exemplo entre os seus antepassados, e não conseguiam decidir como enfrentar uma personalidade assim. Estavam surpresos, estavam perplexos, e havia, de fato, algumas razões fundamentais para tal perplexidade.
Depois de muita reflexão, os coraixitas decidiram ir até Abu Talib, o tio do amado Profeta, e pedir-lhe que impedisse o seu sobrinho de continuar a sua missão. Para tornar as suas exigências plausíveis e convincentes, apresentaram o argumento de que convidar as pessoas a abandonar os seus deuses e declarar que eles não tinham poder para fazer bem ou mal constituía, na realidade, um insulto e uma grave ofensa contra essas divindades.
Além disso, isso equivalia a chamar de tolos e desviados os nossos pais e avós, isto é, os nossos antepassados, pois eles também viveram segundo a religião na qual atualmente cremos. Depois de explicarem tudo isso aos coraixitas, eles compreenderam facilmente e responderam prontamente.
A delegação dos coraixitas diante de Abu Talib
Ibn Ishaq escreveu: Alguns dos líderes dos coraixitas foram até Abu Talib e disseram: “Ó Abu Talib, seu sobrinho insulta nossas divindades, chama nossa religião de desvio e considera nossa inteligência tolice. Ele chama nossos pais e avós de desviados. Portanto, ou impeça-o de fazer isso, ou afaste-se da questão entre ele e nós. Afinal, você também professa a mesma religião que nós. Nós somos capazes de lidar com ele por conta própria.”
Em resposta a esse pedido, Abu Talib falou com suavidade e desempenhou o papel de mediador. Então eles foram embora. O Mensageiro de Allah continuou pregando a religião da mesma maneira e dedicou-se à sua divulgação e propagação (Ibn Hisham, vol. 1, p. 265).
Uma reunião urgente para impedir os peregrinos
Naquela época, surgiu mais um problema diante dos coraixitas. Alguns meses haviam se passado desde o início da pregação pública do Islã, e chegou a temporada do Hajj. Os coraixitas sabiam que, nessa época, delegações de várias regiões da Arábia viriam a Meca. Por isso, consideraram necessário dizer algo sobre o nobre Profeta — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — para que a pregação do Mensageiro de Allah não causasse nenhuma influência sobre os árabes. Para discutir o assunto, reuniram-se na casa de Walid ibn al-Mughira. Walid disse: “Primeiro, todos vocês devem concordar; não pode acontecer de um contradizer o outro, considerando falsa a sua declaração. Não deve haver qualquer divergência entre vocês.” Os visitantes disseram: “Diga-nos o que devemos afirmar.” Walid disse: “Digam vocês; eu ouvirei.” Então alguns disseram: “Diremos que ele é um adivinho.” Walid respondeu: “Não, ele não é um adivinho. Já vi adivinhos e ele não possui as características dos adivinhos; eles falam coisas vazias, mas ele não fala dessa maneira.” Ao ouvir isso, os visitantes disseram: “Então diremos que ele é louco.” Walid respondeu: “Não, ele também não é louco. Já vi loucos e conheço a natureza da loucura. Ele não se comporta como um louco nem fala coisas disparatadas como um louco.” Eles disseram: “Então diremos que ele é um poeta.” Walid respondeu: “Ele também não é poeta. Conheço os diversos tipos de poesia, e o que ele diz não é poesia.” Disseram: “Então diremos que ele é um feiticeiro.” Walid respondeu: “Não, ele também não é feiticeiro. Já vi feiticeiros e sua feitiçaria. Ele não pratica encantamentos nem magia.” Os visitantes perguntaram: “Então, o que devemos dizer?” Walid respondeu: “Por Allah, suas palavras são muito doces e seu significado é profundamente expressivo. Tudo o que vocês disserem, os ouvintes considerarão falso. Contudo, podem dizer a respeito dele que é um feiticeiro. Tudo o que ele apresenta não passa de magia. Depois de ouvirem suas palavras, surgem divergências entre pai e filho, entre irmãos, entre marido e mulher e entre diferentes tribos.” Finalmente, a delegação dos coraixitas concordou com isso e retirou-se da presença de Walid (Ibn Hisham, vol. 1, p. 271).
Alguns relatos mencionam em detalhes que, quando Walid rejeitou todas as sugestões dos visitantes, eles disseram: “Então apresente uma opinião ponderada.” Ao ouvir isso, Walid disse: “Dêem-me um pouco de tempo para pensar.” Depois de refletir por algum tempo, Walid fez o comentário mencionado acima (Tafsir Fi Zilal al-Qur’an, Sayyid Qutb Shahid, juz 29, p. 188).
No contexto do acontecimento mencionado, Allah revelou dezesseis versículos da Surata Al-Muddaththir a respeito de Walid. Nesses versículos, pode-se observar uma representação da natureza do pensamento de Walid. Allah diz: “Ele refletiu e tomou uma decisão. Que ele pereça! Como tomou tal decisão? Novamente, que ele pereça! Como chegou a tal conclusão? Depois, olhou; em seguida, franziu as sobrancelhas e fez uma expressão de desagrado. Depois, voltou as costas e mostrou arrogância, e declarou: ‘Isto não é senão magia transmitida desde os tempos antigos; isto não passa de palavra humana’” (versículos 18–25).
Depois que a decisão mencionada foi tomada, começaram os preparativos para executá-la. Alguns politeístas posicionaram-se nas diversas rotas pelas quais chegavam os peregrinos do Hajj e os alertaram a respeito do Profeta Muhammad — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — (Ibn Hisham, vol. 1, p. 271).
O primeiro de todos a empreender essa ação foi Abu Lahab. Durante o Hajj, ele perseguia o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, nos acampamentos dos peregrinos e nos mercados de Ukaz, Majanna e Dhu al-Majaz. Enquanto o Profeta, que a paz esteja sobre ele, transmitia a religião de Allah, Abu Lahab ficava atrás dele dizendo: “Não deem ouvidos ao que ele diz; ele é um mentiroso e um homem sem religião” (Tirmidhi; Musnad Ahmad, vol. 3, p. 492).
O resultado de toda essa movimentação foi que, quando os peregrinos do Hajj retornaram às suas casas, souberam que o Nobre Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, havia reivindicado a profecia. Em suma, por meio dos peregrinos do Hajj, a notícia sobre o Mensageiro de Allah espalhou-se por toda a Arábia.
Resistência conjunta
Quando os coraixitas perceberam que sua estratégia de impedir Muhammad, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, de transmitir a religião não estava funcionando, voltaram a refletir sobre o assunto. Para pôr fim definitivamente ao chamado para a religião, adotaram métodos e estratégias diferentes. O resumo desses métodos e estratégias é o seguinte:
Primeiro tipo de resistência
Rir, zombar, ridicularizar e chamá-lo de mentiroso. O objetivo era destruir o ânimo dos muçulmanos. Para alcançar esse objetivo, os idólatras começaram a lançar acusações infundadas e insultos contra o Nobre Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Às vezes, chamavam o amado Profeta de louco. Como diz Allah, o Altíssimo: “Esses incrédulos disseram: ‘Aquele sobre quem o Alcorão foi revelado é certamente um louco’” (6:15).
Às vezes, acusavam-no de ser um feiticeiro e um mentiroso. Como diz Allah, o Altíssimo: “Eles se admiram de que tenha vindo até eles um admoestador dentre eles, e os incrédulos dizem: ‘Este é um feiticeiro, um mentiroso’” (4:38).
Os incrédulos passavam furiosos diante e atrás do Mensageiro de Allah e fitavam-no com olhos inflamados de ira. A esse respeito, Allah, o Altíssimo, diz: “Quando os incrédulos ouvem o Alcorão, quase te derrubam com seus olhares penetrantes e dizem: ‘Ele é certamente um louco’” (51:68).
Quando o Nobre Profeta — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — ia a algum lugar e havia, à sua frente e atrás dele, Companheiros nobres fracos e oprimidos, os politeístas zombavam, dizendo: “Foi Allah que vos concedeu favor?” (53, 6)
Em resposta a essa afirmação deles, Allah diz: “Acaso Allah não conhece perfeitamente os agradecidos?” (53, 6)
Descrevendo no Alcorão a condição geral dos incrédulos, Allah, o Altíssimo, apresenta-a assim: os criminosos costumavam zombar dos crentes; quando passavam perto deles, piscavam-lhes os olhos em sinal de escárnio; e, quando os viam, diziam: “Estes estão realmente desviados.” Contudo, eles não foram enviados para serem seus guardiões (29, 33, 83).
Segundo tipo de resistência
Distorcer os ensinamentos do Mensageiro de Allah, semear dúvidas e descrença, espalhar propaganda falsa e fazer críticas abjetas aos ensinamentos da religião e aos pregadores da religião eram suas atividades habituais. Eles praticavam essas ações com tanta intensidade que o povo não tivesse oportunidade de refletir sobre os ensinamentos do Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Os politeístas diziam a respeito do Sagrado Alcorão: “Isto não passa de lendas dos antigos, que ele mandou escrever; elas lhe são recitadas manhã e tarde” (5, 25).
Os incrédulos dizem: “Isto não passa de uma mentira que ele inventou, e pessoas de outra comunidade o ajudaram nisso” (4, 25).
Os politeístas também diziam que um ser humano lhe ensinava (103, 16).
A acusação que faziam contra o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — era esta: diziam: “Que espécie de mensageiro é este, que come e anda pelos mercados?” (7, 25).
Em muitos lugares do Alcorão, as acusações dos politeístas foram refutadas; em alguns lugares, suas acusações são mencionadas, e em outros, não.
O terceiro tipo de resistência
O Alcorão enfrentou os incrédulos mencionando os acontecimentos e as histórias dos povos anteriores. Eis o que ocorreu com Nadr ibn al-Háris: certa vez, ele disse aos coraixitas: “Ó coraixitas, por Deus, uma calamidade caiu sobre vós, e até agora não encontrastes maneira alguma de vos livrar dela. Muhammad cresceu entre vós; era o mais querido de vós, o mais veraz de todos e o mais digno de confiança. Agora, quando seus cabelos ficaram grisalhos, ele veio até vós com algumas palavras, mas vós dizeis que ele é um feiticeiro. Por Deus, ele não é feiticeiro. Eu já vi feiticeiros e também vi suas feitiçarias; ouvi igualmente suas palavras desconexas. Dizeis que ele é poeta; por Deus, ele também não é poeta. Eu já vi poetas e ouvi sua poesia. Dizeis que ele é louco; não, por Deus, ele também não é louco. Eu já vi loucos e vi a loucura dos loucos. Não há nele sinal algum de loucura. Ó povo dos coraixitas, refleti profundamente: uma enorme calamidade caiu sobre vós!”
Depois disso, Nadr ibn al-Háris foi a Hira, onde aprendeu várias histórias dos reis, especialmente as histórias de Rustam e Alexandre. Em seguida, voltou a Meca. Quando o Mensageiro de Allah se sentava em alguma reunião, falava sobre Allah e advertia as pessoas acerca de Seu castigo, ele ia até lá e dizia: “Por Deus, as palavras de Muhammad não são melhores do que as minhas histórias.” Depois dizia: “Por que as palavras de Muhammad seriam melhores do que as minhas?” (Ibn Hisham, vol. 1, pp. 299, 300, 358; Mukhtasar as-Siyar, Sheikh Abdullah, pp. 117-118).
Também se sabe, pelo relato de Abdullah ibn Abbas, que Nadr ibn al-Háris havia comprado algumas escravas. Quando ouvia que alguém estava se inclinando ao Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, mandava uma delas atrás dessa pessoa. A escrava oferecia comida e bebida a esse homem e cantava para ele. Com o tempo, ele deixava de sentir qualquer atração pelo Islã. A respeito disso, Allah, o Altíssimo, revelou este versículo: “Há pessoas que compram palavras vãs para afastar do caminho de Allah” (Fath al-Qadir, vol. 4, p. 236).
O quarto tipo de resistência
Em certa ocasião, os coraixitas tentaram construir uma ponte entre o Islã e a jahiliyyah, isto é, propuseram que cada lado cedesse algo ao outro. O Mensageiro de Allah aceitaria algumas coisas dos politeístas, e os politeístas adotariam alguns princípios do Mensageiro de Allah. Allah, o Altíssimo, diz no Alcorão a esse respeito: “Eles desejam que tu sejas flexível, para que também sejam flexíveis” (68:9). Segundo um relato de Ibn Jarir e at-Tabarani, os politeístas propuseram ao Mensageiro de Allah: “Adora nossos deuses durante um ano, e nós adoraremos o teu Senhor durante um ano.” Em um relato de Abd ibn Humayd, consta que os politeístas disseram: “Se aceitares nossos deuses, nós também adoraremos o teu Deus” (Fath al-Qadir, de ash-Shawkani, vol. 5, p. 508).
Ibn Ishaq relata que, enquanto o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, circundava a Caaba, vieram até ele al-Aswad ibn al-Muttalib ibn Asad ibn Abd al-Uzza, al-Walid ibn al-Mughira, Umayya ibn Khalaf e As ibn Wa’il as-Sahmi. Eram homens proeminentes de suas respectivas tribos. Eles disseram: “Vem, Muhammad: adoraremos aquele que tu adoras, e tu adorarás aquele que adoramos. Assim, ambos alcançaremos a mesma posição. Se a vossa divindade for melhor que a nossa, obteremos benefício dela; e, se a nossa divindade for melhor que a vossa, vós obtereis benefício dela.” Em resposta a essas palavras ridículas, Allah, o Altíssimo, revelou a surata al-Kafirun. Nela foi declarado: “Não posso adorar aqueles que adorais” (Ibn Hisham, vol. 1, p. 362).
Por meio desta resposta decisiva, foi desmascarada a natureza ridícula das alegações dos politeístas. A possível razão para as diferentes versões é que esse tipo de tentativa provavelmente foi feito repetidas vezes.
Injustiça e perseguição
Já foi apresentado anteriormente o relato das ações realizadas pelos politeístas, no quarto ano da missão profética, para interromper a pregação pública do Islã. Os politeístas desenvolveram essas atividades maléficas de forma gradual e progressiva. Durante semanas, e até mesmo meses, não fizeram nada além disso. Porém, quando perceberam que suas atividades não conseguiam criar obstáculos ao caminho da pregação do Islã, reuniram-se novamente e formaram um comitê composto por vinte e cinco incrédulos. Eles eram figuras proeminentes da tribo dos coraixitas. O chefe desse comitê era o tio do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Depois de consultas e reflexões mútuas, o comitê aprovou uma proposta decisiva contra o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e seus Companheiros. Decidiram que, ao se oporem ao Islã, não demonstrariam qualquer tolerância em causar sofrimento ao Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, nem em perseguir aqueles que haviam aceitado o Islã. (Rahmatul lil-Alamin, vol. 1, pp. 59–60)
Depois de adotarem essa proposta, os politeístas resolveram implementá-la com determinação total. Era fácil aplicar a decisão dos politeístas contra os muçulmanos, especialmente os muçulmanos fracos. Mas era difícil fazê-lo contra o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Afinal, ele era um homem extraordinário, dotado de uma personalidade incomparável. Todos o viam com respeito. Era fácil aproximar-se dele de maneira respeitosa. Atividades ofensivas e abomináveis contra ele eram próprias de bárbaros e tolos. Além de sua personalidade, distinção e grandeza, ele também contava com o apoio de Abu Talib. A influência de Abu Talib em Meca era insuperável. Ninguém tinha coragem de superar essa influência, individual ou coletivamente, nem de romper o compromisso firmado com ele. Nessas circunstâncias, os coraixitas viviam dias de grande angústia. Mas a questão era que a divulgação e a expansão da religião estavam cortando as raízes de seu domínio religioso e de sua liderança e autoridade mundanas. Por quanto tempo mais suportariam aquela religião? Por fim, os politeístas começaram a perseguir o Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, sob a liderança de Abu Lahab. Na realidade, a atitude hostil de Abu Lahab para com o amado Profeta já existia havia muito tempo. Antes mesmo de os coraixitas pensarem em perseguir o Mensageiro de Allah, Abu Lahab já pensava nisso. Já foram mencionadas anteriormente as coisas vis que ele disse na assembleia dos Banu Hashim e ao pé do monte Safa. Algumas versões relatam que, depois que o Profeta Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, pregou a religião ao pé do monte Safa, Abu Lahab levantou uma pedra para atingi-lo. (Tirmidhi)
Antes de o Mensageiro receber a missão profética, Abu Lahab havia casado seus dois filhos, Utba e Utaiba, com as duas filhas do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, Ruqayya e Umm Kulthum. Porém, depois que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, recebeu a missão profética e começou a pregar a religião, Abu Lahab obrigou seus dois filhos a se divorciarem das duas filhas do Profeta. (Tafsir Fi Zilalil Qur’an, Sayyid Qutb Shahid, vol. 3, p. 282; Tafsir Tafhimul Qur’an, Maulana Sayyid Abul Ala Maududi, vol. 6, p. 552, edição em urdu)
Após a morte de Abdullah, o segundo filho do Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, Abu Lahab ficou tão feliz que correu até seus amigos e, exultante, dizia: “Muhammad ficou sem filhos homens.” [Tafsir Tafhimul Qur’an, vol. 6, p. 490, edição em urdu]
Já foi mencionado anteriormente que, durante a temporada da peregrinação, Abu Lahab seguia o Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, pelos mercados e por diversas reuniões públicas, tentando declará-lo mentiroso. Segundo o relato de Tariq ibn Abdullah al-Muhabiri, sabe-se que Abu Lahab não se limitava a tentar provar que as palavras do Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, eram falsas; ele também atirava pedras contra ele, fazendo com que seus calcanhares sangrassem. (Jami‘ at-Tirmidhi)
O nome verdadeiro da esposa de Abu Lahab, Umm Jamil, era Arwa. Ela era filha de Harb ibn Umayya e irmã de Abu Sufyan. Em sua hostilidade para com o Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, ela não era inferior ao marido em nada. Espalhava espinhos no caminho por onde o Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, passava e diante de sua porta. Essa mulher imunda era extremamente vulgar e brigona. Insultar o Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, fazer intrigas, provocar discussões por diversos pretextos, criar tumultos e gerar situações de conflito eram suas ocupações. Por isso, Allah, o Altíssimo, disse no Alcorão: “e sua esposa também carrega a lenha.”
Quando a esposa de Abu Lahab soube que haviam sido revelados versículos condenando-a e condenando seu marido, foi até as proximidades da Caaba à procura do Mensageiro de Allah, que naquele momento estava junto à Casa Sagrada. Abu Bakr Siddiq também estava com ele. A esposa de Abu Lahab carregava um punhado de pedras. Quando se aproximou do Mensageiro de Allah, Allah, o Altíssimo, retirou-lhe a visão; ela não conseguiu vê-lo, embora pudesse ver Abu Bakr. Aproximando-se de Abu Bakr, perguntou: “Onde está o seu companheiro? Ouvi dizer que ele me censurou. Por Allah, se eu o encontrar, atirarei estas pedras em seu rosto. E saibam que também sou poeta.” Então recitou estes versos: “Muzammam, desobedecemos e rejeitamos sua ordem; não apoiamos sua conduta e detestamos e desprezamos sua religião.” (Os politeístas chamavam o nobre Profeta de Muzammam, em vez de Muhammad. Muhammad significa “louvado”, enquanto Muzammam significa o oposto, “censurado”.) Em seguida, foi embora.
Abu Bakr Siddiq disse ao Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele: “Ó Mensageiro de Allah, ela não conseguiu vê-lo?” Ele respondeu: “Não, não conseguiu. Allah, o Altíssimo, retirou-lhe a visão em relação a mim.” (Ibn Hisham, vol. 1, pp. 335–336.)
Abu Bakr Razzar também narrou este acontecimento e acrescentou que a esposa de Abu Lahab, ao aproximar-se de Abu Bakr, lhe dissera: “Ó Abu Bakr, o seu companheiro me censurou.” Abu Bakr respondeu: “Isso não é verdade. Juro pelo Senhor desta Casa: ele não compõe poesia nem a recita.” A esposa de Abu Lahab disse: “Você está certo.”
Abu Lahab era vizinho e tio do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele; sua casa ficava perto da casa do Mensageiro. Os outros vizinhos também causavam sofrimento ao Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele.
Ibn Ishaq disse que os homens que causavam sofrimento ao Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, dentro de sua própria casa eram Abu Lahab, al-Hakam ibn Abi al-As ibn Umayya, Uqba ibn Abi Muayt, Adi ibn Hamra e Saqafi ibn al-Asda al-Hudhali, entre outros. Todos eles eram seus vizinhos.
Nenhum deles se tornou muçulmano, exceto al-Hakam ibn Abi al-As, que era pai do califa omíada Marwan ibn al-Hakam. O método que usavam para molestá-lo era o seguinte: quando o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, realizava a oração, um deles atirava as entranhas de uma cabra de modo que elas caíssem sobre seu corpo. Quando uma panela era colocada sobre o fogo, também lançavam as entranhas da cabra de modo que caíssem dentro dela. Mais tarde, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, reservou um lugar dentro de casa para poder realizar a oração em segurança.
Depois que essas entranhas eram lançadas sobre o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, ele as colocava na ponta de um bastão, ficava à porta e dizia: “Ó Banu Abd Manaf, que tipo de comportamento de vizinhança é este?” Depois, jogava as entranhas fora. (Ibn Hisham, vol. 1, p. 416.)
Uqba ibn Abi Muayt era um criminoso abominável e um mestre em toda espécie de maldade. Está narrado no Sahih al-Bukhari, segundo Abdullah ibn Masud, que Allah esteja satisfeito com ele, que o Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, estava realizando a oração junto à Casa Sagrada. Abu Jahl e alguns de seus companheiros estavam sentados ali. Então um deles disse aos outros: “Quem de vocês irá buscar as entranhas do camelo de fulano e, quando Muhammad se prostrar, colocá-las sobre suas costas?” Em seguida, Uqba ibn Abi Muayt — esse acontecimento é narrado em detalhes em outra versão do Sahih al-Bukhari; veja o vol. 1, p. 534 — trouxe as entranhas do camelo e ficou esperando. Quando o Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, se prostrou, ele pendurou as entranhas sobre os dois lados de seus ombros. Eu estava vendo tudo, mas não conseguia dizer nada. Como teria sido bom! Ah, se eu tivesse tido força para protegê-lo.
Hazrat Abdullah ibn Mas‘ud (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: depois disso, os malfeitores começaram a inclinar-se uns sobre os outros, rindo, enquanto o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) permanecia prostrado, sem levantar a cabeça. Hazrat Fátima (que Allah esteja satisfeito com ela), ao receber a notícia, correu até lá e retirou as vísceras. Então o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) levantou a cabeça da prostração e disse três vezes: “Allahumma, ‘alayka bi-Quraysh”, isto é: “Ó Allah, encarrega-Te dos coraixitas”. Ao ouvirem essa maldição, eles ficaram descontentes, pois acreditavam firmemente que, naquela cidade, as súplicas dele eram aceitas. Em seguida, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) amaldiçoou-os nominalmente, dizendo: “Ó Allah, apanha Abu Jahl; apanha também ‘Utba ibn Rabi‘a, Shayba ibn Rabi‘a, al-Walid ibn ‘Utba, Umayya ibn Khalaf e ‘Uqba ibn Abu Mu‘ayt”.
É possível que o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) tenha mencionado os nomes de mais algumas pessoas, mas o narrador esqueceu esses nomes. Abdullah ibn Mas‘ud (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Vi os cadáveres de todos os incrédulos cujos nomes o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) pronunciou ao fazer essa súplica contra eles, caídos no poço de Badr” (Sahih al-Bukhari, Kitab al-Wudu, vol. 1, p. 37).
Era hábito de Umayya ibn Khalaf que, sempre que via o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), proferia diversos insultos contra ele e o amaldiçoava. Allah, o Altíssimo, revelou a seu respeito o seguinte versículo: “Ai de todo difamador e caluniador”, isto é, refere-se àquele que insulta e difama publicamente. Ibn Hisham disse: humaza é aquele que insulta abertamente e faz sinais com os olhos de modo depreciativo; lumaza é aquele que difama as pessoas pelas costas e lhes causa sofrimento (Ibn Hisham, vol. 1, pp. 356-357).
Ubay ibn Khalaf, irmão de Umayya, era um amigo íntimo de ‘Uqba ibn Abu Mu‘ayt. Certo dia, ‘Uqba sentou-se junto do Profeta (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) e ouviu algumas palavras sobre o Islã. Ao saber disso, Ubay censurou ‘Uqba e ordenou-lhe: “Vai e cospe no rosto de Muhammad”. ‘Uqba assim o fez. Certa vez, Ubay ibn Khalaf reduziu a pó um osso velho e depois soprou esse pó ao vento, lançando-o contra o Profeta (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) (Ibn Hisham, vol. 1, pp. 361-362).
Akhlas ibn Shurayq al-Thaqafi também se mostrava entusiasmado em causar sofrimento ao Profeta (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). O Alcorão Sagrado menciona nove de seus maus hábitos; por isso, pode-se compreender a natureza de suas ações. Allah, o Senhor dos mundos, disse: “E não obedeças a nenhum jurador vil, difamador, que espalha intrigas, impede o bem, transgride os limites, é pecador, rude e, além disso, de má reputação” (68:10-13).
Às vezes, Abu Jahl ia até o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) para ouvir o Alcorão, mas limitava-se a ouvi-lo. Não abraçava a fé, não aceitava os ensinamentos do Islã nem demonstrava obediência a Allah e ao Seu Mensageiro. Pelo contrário, causava sofrimento ao Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) com suas palavras e obstruía o caminho de Allah; depois, estufava o peito com orgulho por causa de seus atos, como se tivesse realizado um grande feito. Allah, o Altíssimo, revelou a respeito dele os seguintes versículos do Alcorão Sagrado (Tafsir Fi Zilal al-Qur’an, vol. 29). Allah disse: “Ele não creu nem orou; ao contrário, negou a verdade e virou as costas. Depois, voltou para sua família, andando com arrogância. Ai de ti! E ai de ti!” (75:31-35).
Desde o primeiro dia, Abu Jahl tentou impedir o Profeta (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) de orar, depois de vê-lo realizando a oração. Certa vez, o Profeta (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) estava orando junto ao Maqam Ibrahim, e Abu Jahl passava por aquele caminho. Ele disse: “Muhammad, acaso não te proibi de fazer isso?”. Em seguida, também o ameaçou, e o Profeta (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) respondeu à ameaça com outra ameaça. Então Abu Jahl disse: “Muhammad, por que me ameaças? Vê: nesta Meca, minha assembleia é a maior de todas”. Por causa dessas palavras arrogantes de Abu Jahl, Allah, o Altíssimo, revelou este versículo: “Que ele convoque, então, sua assembleia” (Tafsir Fi Zilal al-Qur’an, Sayyid Qutb, parte 30, p. 208). “Eu também convocarei os anjos encarregados do castigo.”
Segundo uma narração, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) agarrou Abu Jahl pela gola de sua veste, junto ao pescoço, e disse: “Ai de ti! E ai de ti! Novamente, ai de ti! E ai de ti!” (mesma fonte).
Ao ouvir isso, o inimigo de Allah, Abu Jahl, disse: “Ó Muhammad, estás me ameaçando? Juro por Deus, nem tu nem o teu Senhor poderão fazer-me coisa alguma. Entre todos os que circulam entre as duas montanhas de Meca, eu sou o homem mais honrado.”
Apesar da ameaça anunciada no Sagrado Alcorão, Abu Jahl não abandonou sua conduta insensata; pelo contrário, sua perversidade aumentou ainda mais. É narrado no Sahih Muslim, por Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele), que certo dia Abu Jahl disse aos líderes dos coraixitas: “Muhammad coloca o rosto no pó diante de vocês?” Os líderes dos coraixitas responderam: “Sim.” Abu Jahl disse: “Juro por Lat e Uzza: se eu o vir nessa situação, quebrarei seu pescoço e arrastarei seu rosto pelo chão.” Então, ao ver o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, realizando a oração, avançou para torcer-lhe o pescoço. Porém, todos viram Abu Jahl cair gritando e rolar pelo chão, clamando: “Socorro! Socorro!” Pessoas conhecidas perguntaram: “Abu al-Hakam, o que aconteceu contigo?” Abu Jahl respondeu: “Vi uma trincheira de fogo entre mim e Muhammad; um fogo terrível ardia intensamente nessa trincheira.” Ao ouvir isso, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Se ele tivesse se aproximado de mim, o anjo teria despedaçado seus membros.” (Sahih Muslim).
Por um lado, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, era tratado dessa maneira injusta e opressiva; por outro, as pessoas comuns de Meca tinham por ele profundo respeito e amor e, por causa de sua grande personalidade, viam-no com extraordinária estima e honra. Além disso, ele contava com o apoio e a ajuda de seu tio Abu Talib. Apesar de tudo isso, tais abusos eram cometidos contra ele. A opressão e a perseguição dos politeístas contra os muçulmanos que haviam buscado abrigo sob a sombra refrescante do Islã, especialmente contra os muçulmanos fracos, eram ainda mais terríveis. Cada tribo castigava aqueles de seu grupo que aceitavam o Islã; quanto aos que não pertenciam às tribos de Meca, os insolentes e os líderes infligiam-lhes todo tipo de opressão e tortura. Ao ouvir o relato desses abusos, até mesmo uma pessoa de coração firme ficaria perturbada.
Quando ouvia que alguma pessoa nobre e respeitada havia aceitado o Islã, Abu Jahl a insultava e humilhava; além disso, ameaçava prejudicá-la social e economicamente. Se alguma pessoa fraca aceitava o Islã, ele a agarrava e espancava, incentivando também os outros a espancá-la (Ibn Hisham, vol. 1, p. 320).
Depois que Hazrat Uthman ibn Affan (que Allah esteja satisfeito com ele) aceitou o Islã, seu tio o envolvia em uma esteira de folhas de palmeira e o defumava (Rahmatul lil-Alamin, vol. 1, p. 57).
Depois que a mãe de Hazrat Musab ibn Umayr (que Allah esteja satisfeito com ele) soube que ele havia aceitado o Islã, proibiu que seu filho comesse ou bebesse e expulsou-o de casa. Desde pequeno, Hazrat Musab havia vivido confortavelmente, desfrutando de uma vida de bem-estar e luxo. Devido às circunstâncias, chegou a enfrentar uma situação em que a pele de seu corpo ficou semelhante à pele de uma cobra que havia trocado de pele (ibid., p. 58).
Hazrat Bilal (que Allah esteja satisfeito com ele) era escravo de Umayya ibn Khalaf. Depois que Bilal aceitou o Islã, Umayya amarrava-lhe uma corda ao pescoço e o entregava a meninos insolentes. Os meninos o levavam a diferentes lugares de Meca e, por causa disso, marcas da corda ficavam em seu pescoço. O próprio Umayya também o amarrava e o submetia a espancamentos cruéis; depois, obrigava-o a deitar-se sobre a areia quente. Durante esse período, mantinha-o sem comida nem bebida. Às vezes, ao meio-dia, deitava-o sobre a areia escaldante do deserto e colocava uma pedra pesada sobre seu peito. Nessa ocasião, dizia: “Tu serás deixado assim até morrer; mas, se quiseres viver, abandona o caminho de Muhammad.” Mesmo em condições tão dolorosas, ele dizia: “Ahad, Ahad” — “Um só, Um só”. Certo dia, ao ver a tortura a que ele era submetido, Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) ficou profundamente angustiado. Ele comprou Hazrat Bilal em troca de um escravo negro — segundo outra versão, por duzentos dirhams — e concedeu-lhe a liberdade (Rahmatul lil-Alamin, vol. 1, p. 57; Talqihul Fuhum; Ibn Hisham, vol. 1, p. 318).
Hazrat Ammar ibn Yasir (que Allah esteja satisfeito com ele) era escravo dos Banu Makhzum. Depois que ele e seus pais aceitaram o Islã, começaram a submetê-los a terríveis torturas. Os politeístas, sob a liderança de Abu Jahl, deitavam-nos em áreas arenosas sob o sol escaldante e faziam-nos sofrer. Certa vez, enquanto estavam sendo castigados dessa maneira, o Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, passava por aquele caminho e disse: “Ó família de Yasir, tende paciência; vosso destino é o Paraíso.”
O venerável Yasser (que Allah esteja satisfeito com ele) faleceu por não conseguir suportar as torturas. O perverso Abu Jahl lançou uma lança contra as partes íntimas de sua esposa, a venerável Sumayya (que Allah esteja satisfeito com ela), mãe do venerável Ammar, e, em consequência disso, ela alcançou o martírio. Ela foi a primeira mártir do Islã. O venerável Ammar continuava sendo torturado sem cessar: às vezes, deitavam-no sobre a areia escaldante; às vezes, colocavam uma pedra pesada sobre seu peito; e, às vezes, mantinham-no submerso na água. Os politeístas diziam-lhe: “Não poderemos libertá-lo enquanto você não insultar Maomé e não disser palavras elogiosas sobre Lat e Uzza.” O venerável Ammar (que Allah esteja satisfeito com ele), forçado pelas circunstâncias, atendeu ao que diziam. Depois, apresentou-se chorando diante do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Então, o Senhor dos mundos, Allah, revelou este versículo do Sagrado Alcorão: “Quem renegar Allah depois de ter crido — exceto aquele que for compelido a isso, enquanto seu coração permanecer firme na fé — e abrir o coração à descrença, sobre ele recairá a ira de Allah, e haverá para ele um castigo leve” (Ibn Hisham, volume 1, p. 320; Fiqh al-Sirah, Muhammad al-Ghazali, p. 82; Awfi narrou parte disso sob a autoridade de Ibn Abbas; veja o Tafsir de Ibn Kathir).
O venerável Khabbab ibn al-Aratt (que Allah esteja satisfeito com ele) era escravo de uma mulher chamada Umm Anmar, da tribo de Khuza’a. Os politeístas o torturavam de diversas maneiras: arrastavam-no pelo chão (Rahmatul lil-Alamin, volume 1, p. 57; I’jaz at-Tanzil, p. 53), puxavam-no pelos cabelos e torciam-lhe o pescoço. Várias vezes, deitaram-no sobre brasas ardentes e colocaram uma pedra sobre seu peito para que ele não pudesse se levantar (ibid., volume 1, p. 57; Talqih al-Fuhum, p. 60).
Zinnirah (a pronúncia deste nome seria exatamente como “Zinnirah Maskinara ibn”, isto é, conforme indicado pela palavra), Nahdiyyah, sua filha, e Umm Umais eram escravas. Elas aceitaram o Islã e sofreram severos castigos nas mãos dos politeístas. Acima foram mencionados alguns exemplos de tortura. Uma escrava de uma família da tribo Banu Adi, pertencente a Banu Mu’ammil, havia aceitado o Islã. O venerável Umar ibn al-Khattab (que Allah esteja satisfeito com ele) ainda não havia aceitado o Islã. Ele batia violentamente naquela escrava e, fazendo pausas, dizia: “Não parei por compaixão por você; parei apenas porque eu mesmo me cansei” (Rahmatul lil-Alamin, volume 1, p. 57; Ibn Hisham, volume 1, p. 319).
Por fim, o venerável Abu Bakr as-Siddiq (que Allah esteja satisfeito com ele) comprou e libertou também essas escravas, tal como fizera com o venerável Bilal e Amir ibn Fuhayra (Ibn Hisham, volume 1, pp. 318–319).
Os politeístas também castigavam os que aceitavam o Islã de maneiras horrendas. Amarravam alguns Companheiros dentro de peles cruas de camelo e de vaca e deixavam-nos ao sol; vestiam outros com armaduras de ferro e deitavam-nos sobre pedras incandescentes. Ao saberem que alguém havia aceitado o Islã, os perversos politeístas submetiam-no a torturas e perseguições de várias formas. Em suma, a lista dos cruéis tormentos e torturas infligidos aos que abraçavam a religião escolhida por Allah é muito extensa e profundamente dolorosa (Rahmatul lil-Alamin, volume 1, p. 58).
Dar al-Arqam
Diante dessa situação terrível de opressão e tortura, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse aos muçulmanos, como medida estratégica, que os novos muçulmanos não anunciassem publicamente sua conversão ao Islã e que mantivessem discrição em seus encontros e convivência. Isso porque, se os não muçulmanos ouvissem falar dos encontros dos muçulmanos com o Mensageiro de Allah, impediriam a divulgação dos ensinamentos islâmicos, e o risco de conflito entre os dois grupos se tornaria intenso. No quarto ano da missão profética, ocorreu um incidente desse tipo. Os nobres Companheiros costumavam reunir-se num vale para realizar a oração. Certa vez, um grupo de politeístas os viu nessa situação e começou a insultar os muçulmanos, iniciando uma briga. Nesse momento, o venerável Sa’d ibn Abi Waqqas (que Allah esteja satisfeito com ele) golpeou um homem com tanta força que o sangue começou a escorrer. Esse foi o primeiro episódio de derramamento de sangue no Islã (Ibn Hisham, volume 1, p. 263; Mukhtasar as-Sirah, Sheikh Muhammad ibn Abd al-Wahhab).
Se conflitos desse tipo ocorressem repetidamente e se prolongassem, a existência dos muçulmanos poderia ser eliminada. Por isso, era absolutamente necessário adotar a estratégia da discrição. De acordo com essa estratégia, os Companheiros em geral mantinham em segredo sua conversão ao Islã, sua adoração, a pregação, seus encontros e sua convivência mútua. Entretanto, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, realizava publicamente a pregação da religião e todos os atos de adoração; nenhum obstáculo pôde impedi-lo de fazê-lo. Ainda assim, mantinha discrição ao encontrar-se e conversar com os muçulmanos. A casa de Arqam ibn Abi al-Arqam al-Makhzumi ficava ao pé do monte Safa. Como os rebeldes politeístas não costumavam ir ali, o Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, escolheu Dar al-Arqam, a partir do quinto ano da missão profética, como centro da pregação da religião e dos encontros com os muçulmanos (Mukhtasar as-Sirah, Sheikh Muhammad ibn Abd al-Wahhab an-Najdi, p. 61).
A primeira Hégira para a Abissínia
Essa onda de injustiça, opressão e perseguição começou em meados ou no final do quarto ano da missão profética. No início, era insignificante, mas sua intensidade aumentava dia após dia. Em meados do quinto ano da missão profética, atingiu o auge, tornando-se impossível para os muçulmanos permanecerem em Meca. Nesse período crítico e sombrio, foi revelada a Surata al-Kahf. Nela foram respondidas várias questões levantadas pelos politeístas. Nos três relatos nela mencionados, foram dadas, da parte de Allah, indicações claras sobre o futuro dos servos crentes. O relato dos Companheiros da Caverna contém o ensinamento de que, quando a religião e a fé se encontram ameaçadas, é necessário emigrar fisicamente do centro da incredulidade e da injustiça. Allah, o Altíssimo, disse: “Quando vos afastardes deles e daquilo que adoram em vez de Allah, refugiai-vos na caverna; vosso Senhor vos cobrirá com Sua misericórdia e providenciará para vós um resultado benéfico em vossos assuntos.” (16, 18).
Do relato de Musa e Khidr, que a paz esteja sobre ambos, aprende-se que o desfecho nem sempre é determinado pela situação aparente; às vezes, ele é completamente oposto à situação aparente. Portanto, esse relato contém uma indicação sutil de que o desfecho das injustiças e opressões atualmente cometidas contra os muçulmanos será completamente oposto. Se esses politeístas, rebeldes arrogantes, não abraçarem a fé, um dia serão derrotados e obrigados a baixar a cabeça diante dos muçulmanos e a se render diante deles para que estes determinem seu destino.
O relato de Zulqarnain aponta para alguns dos ensinamentos mencionados abaixo:
Um. A soberania da terra pertence a Allah; Ele associa a ela, entre Seus servos, quem quer que deseje.
Dois. O sucesso está unicamente depois da fé; não há sucesso no caminho da incredulidade.
Três. Allah, o Altíssimo, às vezes faz surgir, dentre Seus servos, homens que libertam as pessoas injustiçadas e oprimidas do domínio daqueles incrédulos, Yajuj e Majuj.
Quatro. Os servos virtuosos de Allah são os mais dignos de se tornarem herdeiros da terra.
Após a revelação da Surata Al-Kahf, Allah, o Altíssimo, revelou a Surata Az-Zumar. Nela há uma indicação à Hégira e afirma-se que a terra de Allah não é estreita. Allah, o Altíssimo, diz: “Dize: Ó Meus servos crentes, temei o vosso Senhor. Para aqueles que praticam o bem neste mundo haverá o bem. A terra de Allah é ampla, e aos pacientes será concedida uma recompensa sem medida.”
O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, sabia que o rei da Abissínia, Ashama Najashi, era um governante justo e que, em seu reino, ninguém sofria qualquer injustiça ou opressão. Por isso, o Mensageiro de Allah ordenou aos muçulmanos que emigrassem para a Abissínia a fim de preservar sua religião. Então, de acordo com o plano estabelecido, o primeiro grupo dos nobres Companheiros partiu para a Abissínia no mês de Rajab. Esse grupo era composto por doze homens e quatro mulheres. Uthman, que Allah esteja satisfeito com ele, era o líder do grupo, e com ele estava também Ruqayya, que Allah esteja satisfeito com ela, filha do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse a respeito deles: “Depois de Ibrahim, que a paz esteja com ele, e Lut, que a paz esteja com ele, este é o primeiro grupo a emigrar pelo caminho de Allah” (Mukhtasarus-Sirah, Sheikh Amanullah).
Eles avançaram secretamente, na escuridão da noite, em direção ao destino. Essa precaução foi tomada justamente para que os coraixitas não descobrissem. Primeiro, dirigiram-se ao porto de Shurayba, no Mar Vermelho. Felizmente, encontraram ali dois barcos mercantes. Embarcaram neles e foram com segurança para a Abissínia. Depois que partiram, os coraixitas souberam de sua fuga e correram imediatamente até o litoral, mas os nobres Companheiros, que Allah esteja satisfeito com eles, já haviam partido. Por isso, retornaram fracassados. Enquanto isso, os muçulmanos chegaram à Abissínia e respiraram aliviados (Rahmatul lil-Alamin, vol. 1, p. 61; Zadul-Ma’ad, vol. 1, p. 24).
Nesse mesmo ano, no mês de Ramadan, o Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, foi à Mesquita Sagrada, onde os líderes coraixitas estavam reunidos. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, apareceu repentinamente e começou a recitar a Surata An-Najm. Nunca antes tantos idólatras haviam escutado o Alcorão juntos, pois haviam decidido que jamais ouviriam o Alcorão. Nas palavras do Alcorão: “Os incrédulos dizem: ‘Não escuteis este Alcorão e, quando ele for recitado, fazei algazarra, para que possais vencer’” (26:41).
Quando o Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, começou subitamente a recitar o Alcorão com uma voz melodiosa, os idólatras ficaram encantados. Estavam fascinados e maravilhados pela elegância e pela doçura da linguagem do Alcorão; naquele momento, nenhum outro pensamento lhes ocorreu. Todos ficaram completamente arrebatados. Ele recitou o seguinte versículo, no final da surata: “Prostrai-vos perante Allah e adorai-O.” Depois de recitar esse versículo, o Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, prostrou-se. Imediatamente, os idólatras também se prostraram. A força e a doçura da verdade haviam despedaçado o orgulho dos não muçulmanos; nenhum deles estava consciente de si mesmo e, por isso, prostraram-se sem perceber (há um breve relato desse acontecimento no Sahih Bukhari, transmitido por Abdullah ibn Masud e Abdullah ibn Abbas).
Ao recobrarem a consciência, ficaram perplexos. Os idólatras que estavam ausentes censuraram-nos ao vê-los empenhados justamente na obra que haviam tentado destruir por todos os meios. Para escapar à censura, então disseram que Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, havia mencionado respeitosamente os seus ídolos. Para provar que eram inocentes, disseram: “Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, afirmou: ‘Eles são deusas de elevada posição, e pode-se esperar a sua intercessão.’”
Na realidade, isso era uma mentira evidente. Eles haviam inventado essa história para apresentar uma desculpa plausível pelo erro que haviam cometido ao se prostrarem junto com o Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. É natural que aqueles que sempre espalhavam que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, era mentiroso e difundiam calúnias contra ele recorressem a afirmações forjadas desse tipo para se defender; não há motivo para espanto (após uma análise detalhada do relato mencionado, os especialistas chegaram a essa conclusão).
Os muçulmanos que haviam emigrado para a Abissínia também souberam que os coraixitas haviam se prostrado, mas receberam uma notícia falsa: ouviram que os líderes coraixitas haviam se tornado muçulmanos. Ao receberem essa notícia, no mês de Shawwal, deixaram a Abissínia para retornar a Meca. Quando estavam a um dia de distância de Meca, souberam da verdadeira situação. Então, alguns retornaram à Abissínia, enquanto outros entraram em Meca secretamente ou sob a proteção de algum coraixita (Zadul-Ma’ad, vol. 1, p. 24; vol. 2, p. 44; Hisham, vol. 1, p. 364).
A segunda Hégira para a Abissínia
Depois disso, a perseguição dos politeístas contra aqueles emigrantes que haviam feito a Hégira, e especialmente contra os muçulmanos em geral, aumentou ainda mais. Os familiares não muçulmanos começaram a causar sofrimento aos muçulmanos de várias maneiras, pois os coraixitas haviam recebido a notícia de que o Negus tratara muito bem os muçulmanos e de que eles haviam passado seus dias muito tranquilamente na Abissínia. Essa notícia aumentou a angústia em seus corações. Como a opressão e a perseguição dos coraixitas se intensificaram, o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — aconselhou os Companheiros a fazerem novamente a Hégira para a Abissínia. Porém, esta Hégira foi mais difícil que a primeira. Dessa vez, os politeístas coraixitas estavam alertas; não conseguiam sequer imaginar que os muçulmanos os enganariam, partiriam para outro lugar e viveriam em segurança. Mas, como os muçulmanos demonstraram maior inteligência que os não muçulmanos, Allah facilitou-lhes o caminho para a Abissínia. Assim, os muçulmanos emigrantes chegaram ao rei da Abissínia antes que caíssem sob o controle dos coraixitas. Dessa vez, emigrou um grupo de oitenta e duas ou oitenta e três pessoas. Diferentemente da Hégira de Ammar, nesta Hégira havia dezoito ou dezenove mulheres (Zad al-Ma‘ad, vol. 1, p. 140; Rahmat li-l-‘Alamin, vol. 1, p. 60). O erudito Mansurpurī menciona dezoito mulheres (Rahmat li-l-‘Alamin).
A conspiração dos coraixitas na Abissínia
O fato de os muçulmanos terem partido para outro lugar levando consigo sua vida e sua fé causou uma profunda dor aos coraixitas. Após longas discussões, decidiram enviar Amr ibn al-As e Abdullah ibn Rabia à Abissínia em uma missão importante.
Naquela época, esses dois ainda não haviam aceitado o Islã. Eram homens bastante inteligentes. Para que fossem entregues ao rei da Abissínia, os coraixitas enviaram presentes valiosos por meio desses dois emissários. Primeiro, eles ofereceram os presentes ao rei; depois, explicaram os argumentos e as razões com base nos quais desejavam levar os muçulmanos de volta a Meca. Disseram: “Ó rei, alguns jovens tolos nossos fugiram para o seu país. Eles abandonaram a religião de seu próprio povo, mas também não adotaram a religião na qual você acredita; em vez disso, adotaram uma religião recém-inventada. Nós nada sabemos sobre essa religião, e vocês também nada sabem sobre ela. Os pais e parentes deles nos enviaram para levá-los de volta. Eles não querem que vocês devolvam conosco esses seus tolos, pois conhecem bem o que é bom e o que é mau para seu próprio povo.” Os cortesãos da corte também desejavam que o rei devolvesse os muçulmanos.
O Negus pensou que deveria investigar profundamente esse problema e examiná-lo cuidadosamente sob todos os aspectos. Então, convocou os muçulmanos à sua corte. Depois de consultarem-se entre si, os muçulmanos decidiram que falariam a verdade sem medo, e que aceitariam qualquer que fosse o resultado. Quando chegaram à corte, o Negus perguntou: “Qual é essa crença religiosa por causa da qual rompestes as relações com vosso próprio povo? Vós também não adotastes a religião que eu sigo.” O porta-voz dos muçulmanos, Ja‘far ibn Abi Talib — que Allah esteja satisfeito com ele —, disse: “Ó rei, éramos um povo ignorante, entregue à idolatria. Comíamos a carne de animais mortos, praticávamos atos pecaminosos, rompíamos os laços com os parentes próximos, tratávamos mal os vizinhos, e os fortes entre nós oprimiam os fracos. Quando nos encontrávamos nesse estado, Allah enviou entre nós um Mensageiro. Já conhecíamos sua nobre linhagem, sua veracidade, seu caráter virtuoso, sua honestidade e sua lealdade. Ele nos chamou para o caminho de Allah e nos ensinou que deveríamos reconhecer o Único e adorá-Lo, abandonando os ídolos e as pedras que nossos antepassados adoravam. Ordenou-nos dizer a verdade, cumprir os depósitos confiados, manter os laços com os parentes próximos, não pecar e abster-nos do derramamento de sangue. Proibiu-nos envolver-nos em atos obscenos, mentir, usurpar os bens dos órfãos e caluniar mulheres castas e virtuosas. Disse-nos que adorássemos somente Allah e não associássemos ninguém a Ele, e ordenou-nos realizar a oração, jejuar e pagar o zakat. Depois de apresentar dessa forma os ensinamentos do Islã, Ja‘far — que Allah esteja satisfeito com ele — continuou: ‘Aceitamos esse Profeta como verdadeiro, cremos nele, cremos na religião que ele trouxe e obedecemos-lhe. Adoramos somente Allah e não associamos ninguém a Ele. Tudo aquilo que esse Profeta declarou proibido, consideramos proibido; e tudo aquilo que declarou lícito, consideramos lícito. Por causa disso, nosso próprio povo se voltou contra nós. Intensificaram sua opressão e perseguição contra nós e passaram a tentar de várias maneiras fazer-nos retornar à religião anterior. Querem que abandonemos a adoração de Allah e voltemos à idolatria, e que consideremos lícitas todas as coisas imundas que antes julgávamos ilícitas. Quando aumentaram enormemente a opressão contra nós, tornaram a terra estreita para nós e se colocaram entre nós e nossa fé, partimos em direção ao seu país e preferimos buscar seu abrigo, dando-lhe preferência sobre os demais. Esperávamos que, sob sua proteção, não sofreríamos aqui nenhum tipo de injustiça ou opressão.’
O Negus disse: “Recitai para mim algo do Livro trazido pelo vosso Mensageiro.”
Ja‘far — que Allah esteja satisfeito com ele — recitou alguns versículos do início da Surata Maryam. Ao ouvi-los, o coração do Negus mudou, e ele começou a chorar incessantemente. Sua barba ficou molhada de lágrimas. Seus conselheiros religiosos também choraram tanto que as lágrimas escorreram sobre os livros religiosos abertos diante deles. Então, o Negus disse: “Esta mensagem e a mensagem trazida por Moisés emanam da mesma fonte.” Depois, disse a Amr ibn al-As e a Abdullah ibn Rabia: “Ide embora. Não posso entregar-vos essas pessoas, e não tolerarei aqui nenhum tipo de intriga da vossa parte.”
Após a ordem do rei, os dois representantes dos coraixitas saíram da corte. Então, Amr ibn al-As disse a Abdullah ibn Rabia: “Amanhã direi ao rei algo contra eles que acabará com todos os seus planos.” Abdullah ibn Rabia respondeu: “Não há necessidade disso. Embora tenham abandonado a minha religião, eles são pessoas da minha tribo.” Ainda assim, Amr ibn al-As permaneceu firme em sua decisão.
No dia seguinte, Amr ibn al-As foi à corte do rei e disse: “Ó rei, eles dizem algo estranho sobre Jesus, filho de Maria (que Allah esteja satisfeito com ele).” Ao ouvir isso, o Najashi convocou novamente os muçulmanos e perguntou-lhes qual era sua opinião sobre Jesus (que a paz esteja com ele). Dessa vez, os muçulmanos ficaram com medo. Ainda assim, pensaram: “Confiamos em Allah; aconteça o que tiver de acontecer.” Eles, porém, diziam a verdade.
Em resposta à pergunta do Najashi, Ja’far (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Sobre Jesus (que a paz esteja com ele), dizemos apenas aquilo que nosso Profeta (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) nos ensinou. Ele disse que Jesus (que a paz esteja com ele) é o servo de Allah, Seu Mensageiro, Seu Espírito e Sua Palavra, que Allah, o Altíssimo, confiou à virgem casta e virtuosa Maria (que a paz esteja com ela).”
Ao ouvir isso, o Najashi pegou do chão um pedaço de madeira e disse: “Por Deus, Jesus (que a paz esteja com ele) não é mais do que este pedaço de madeira em relação a tudo o que vocês disseram.” Ao ouvirem isso, os conselheiros religiosos emitiram sons de desagrado. O rei disse: “Mesmo que vocês emitam esses sons, o que estou dizendo é verdade.”
Depois, o Najashi disse aos muçulmanos: “Vão; vocês estão completamente seguros em meu país. Será imposta uma multa àqueles que insultarem vocês. Não quero que ninguém lhes cause sofrimento, nem mesmo em troca de receber uma montanha de ouro.”
Depois, o Najashi disse aos seus servos: “Devolvam aos representantes vindos de Meca os presentes que trouxeram. Não precisamos deles. Por Allah, quando Ele me devolveu ao meu país, não aceitou suborno algum de mim; por que eu aceitaria suborno em Seu caminho? Além disso, Ele — isto é, Allah, o Altíssimo — não aceitou, a meu respeito, o que outras pessoas disseram; por que eu aceitaria, sobre Allah, o que outras pessoas dizem?”
Umm Salama (que Allah esteja satisfeito com ela), testemunha ocular desse acontecimento, disse: “Depois disso, os dois representantes dos coraixitas retornaram ao seu país de maneira humilhante, levando consigo os presentes que haviam trazido. Nós continuamos vivendo no país do Najashi sob a proteção de um bom vizinho” (Ibn Hisham, vol. 1, p. 334–338).
Ibn Ishaq registrou o relato desse acontecimento. Outros autores de biografias proféticas escreveram que Amr ibn al-As foi à corte do Najashi depois da Batalha de Badr. Alguns, buscando conciliar os dois relatos, escreveram que Amr ibn al-As foi duas vezes à corte do Najashi para trazer os muçulmanos de volta. Contudo, o relato que Ibn Ishaq menciona sobre a conversa entre o Najashi e Ja’far depois da Batalha de Badr é semelhante à conversa ocorrida no período posterior à migração dos muçulmanos para a Abissínia. Além disso, pelo modo como o Najashi formulou sua pergunta, entende-se que ele conversou com os muçulmanos apenas uma vez, e isso aconteceu logo depois da migração dos muçulmanos para a Abissínia.
Em suma, as estratégias dos idólatras fracassaram. Eles compreenderam que toda a hostilidade que pudessem demonstrar teria de permanecer dentro dos próprios limites. Contudo, começaram então a considerar uma questão grave. Entenderam claramente que tinham diante de si dois caminhos para se livrar desse perigo: ou interromperiam, pela força, a pregação religiosa do Mensageiro de Allah, ou eliminariam completamente a sua existência. Mas não era fácil pôr em prática o segundo plano, pois o próprio Abu Talib era o responsável pela proteção do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda a paz. Ele se erguia como uma cortina de ferro diante da determinação dos idólatras. Diante disso, sentiram novamente a necessidade de falar com Abu Talib.
Ameaça contra Abu Talib
Depois dessa proposta, os líderes dos coraixitas foram até Abu Talib e disseram: “Ó Abu Talib, você desfruta de prestígio e honra entre nós. Nós lhe havíamos pedido que impedisse o seu sobrinho, mas você não o fez. Saiba que não podemos tolerar que nossos pais e antepassados sejam insultados, que nossa inteligência, razão, discernimento e bom senso sejam chamados de loucura, nem que se apontem defeitos em nossas divindades. Impeça-o e faça-o desistir. Se não conseguir, provocaremos uma luta entre você e o seu sobrinho, na qual muitas vidas serão perdidas.”
Essa ameaça afetou Abu Talib. Ele chamou o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda a paz, e disse: “Meu sobrinho, o seu povo veio até mim e me disse todas essas coisas. Portanto, tenha agora piedade de mim e de você mesmo. Não me imponha neste assunto um fardo que eu não possa suportar.”
Ao ouvir isso, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda a paz, compreendeu que até mesmo o seu tio o abandonaria e que também havia enfraquecido no que dizia respeito a ajudá-lo. Então disse: “Meu tio, por Allah, mesmo que alguém trouxesse o sol para a minha mão direita e a lua para a minha mão esquerda e me dissesse para abandonar esta missão, eu não a abandonaria. Ou conseguirei completá-la e fazê-la triunfar, ou perecerei tentando realizá-la.”
Depois de dizer isso, o Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda a paz, tomado pela emoção, começou a chorar e então se retirou. O coração do tio Abu Talib comoveu-se; ele chamou o sobrinho e disse: “Vá, meu sobrinho, faça o que quiser. Por Allah, jamais poderei abandoná-lo, em circunstância alguma.” (Ibn Hisham, vol. 1, pp. 265–266.)
Juro por Deus: eles não conseguirão chegar até você, em grupos,
enquanto eu não for sepultado sob a terra.
Continue proclamando a sua mensagem abertamente; não tenha mais medo.
Que seus olhos se alegrem e que seu coração se encha de felicidade (Mokhtarus-Sirat, Sheikh Muhammad Abdul Wahhab Najdi, p. 68).
A delegação dos coraixitas retorna a Abu Talib
Apesar das ameaças extremamente graves, quando os coraixitas viram que o Mensageiro de Allah continuava com sua missão, compreenderam que Abu Talib não abandonaria seu sobrinho; pelo contrário, se necessário, estava pronto para romper relações com os coraixitas e até mesmo enfrentá-los. Pensando nisso, os líderes coraixitas foram até Abu Talib levando consigo Amara, filho de al-Walid ibn al-Mughira, e disseram: “Ó Abu Talib, trouxemos Amara. Amara é um belo jovem da tribo dos coraixitas. Aceite-o; ele o ajudará em tudo. Adote-o como seu próprio filho: ele será seu. E entregue-nos seu sobrinho Muhammad, que se opõe à religião de seus pais e antepassados, desintegra seu povo e chama sua inteligência de estupidez. Nós o mataremos; assim, será simplesmente uma pessoa em troca de outra.”
Abu Talib disse: “Que excelente negócio vocês vieram propor-me! Trouxeram seu próprio filho para mim; eu lhe darei comida e bebida, cuidarei dele e o criarei. E eu lhes entregarei meu próprio filho, para que o levem e matem? Por Allah, isso jamais acontecerá.”
Ao ouvir isso, Adi, filho de Nawfal ibn Mut’im, disse: “Por Deus, ó Abu Talib, seu povo falou com você em nome da justiça, enquanto você deseja manter-se afastado de uma situação benéfica. Contudo, vejo que você não quer aceitar nenhuma de suas palavras.”
Em resposta, Abu Talib disse: “Por Deus, vocês não falaram comigo com justiça. Pelo contrário, vocês também estão prestes a abandonar-me e ajudar as pessoas contra mim. Está bem; façam o que quiserem.” (Ibn Hisham, vol. 1, pp. 266–267).
Mesmo consultando diversas obras sobre a Sira, não é possível determinar a época dos dois diálogos mencionados. Contudo, com base nas provas, testemunhos e indícios, parece que não houve grande intervalo entre eles; ambos ocorreram em algum momento em meados do sexto ano da Hégira.
A proposta vil de assassinar o Mensageiro de Allah
Depois que ambas as discussões mencionadas dos líderes coraixitas fracassaram, sua hostilidade aumentou e o grau de opressão e perseguição se intensificou ainda mais. Naquela época, uma nova dimensão foi acrescentada às abomináveis conspirações dos líderes coraixitas: eles propuseram assassinar o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Entretanto, naquele período, a conversão ao Islã de dois ilustres líderes coraixitas, Hamza, que Allah esteja satisfeito com ele, e Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, multiplicou muitas vezes a força do Islã. Em vez de eliminar o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, esses dois bravos leões submeteram-se ao Mensageiro de Allah e fortaleceram ainda mais o Islã.
Apresentarei dois exemplos da opressão e perseguição dos idólatras contra o Mensageiro de Allah.
Certa vez, Otaiba, filho de Abu Lahab, foi até o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e disse: “Wa-n-najmi idha hawa” e “thumma dana fa-tadalla”, e com isso estou cometendo kufr. O significado dos dois versículos da Surata An-Najm é: “Pelo astro quando desaparece; depois, aproximou-se dele e ficou muito próximo”. Em seguida, Otaiba começou a maltratar o Mensageiro de Allah: rasgou sua roupa e cuspiu em direção ao seu rosto purificado, mas o cuspe não atingiu seu rosto. Naquele momento, o Mensageiro de Allah lançou uma maldição contra ele e disse: “Ó Allah Todo-Poderoso, envia contra ele um dos teus cães”. A súplica do Mensageiro de Allah foi atendida. Certa vez, Otaiba viajava para a Síria com alguns membros da tribo de Quraysh. Ao chegarem a um lugar chamado Zarqa, montaram suas tendas para passar a noite. Nesse momento, viram um leão rondando. Ao vê-lo, Otaiba disse: “Ai de mim! Minha destruição é inevitável. Por Deus, esse leão vai me devorar. Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, lançou uma maldição contra mim. Vejam, estou na Síria; ou ele me matou enquanto estava sentado em Meca”. Como precaução, seus companheiros de viagem fizeram Otaiba dormir no meio deles. Durante a noite, o leão apareceu, passou por todos, chegou até Otaiba e quebrou-lhe o pescoço (Mukhtasarus-Siyar, Sheikh Abdullah, p. 135, vol. 1; Isti‘ar Dalailun Nubuwat e Fawzul Anf).
Uqba ibn Abu Muait era um idólatra famoso. Certa vez, enquanto o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, estava prostrado durante a oração, um canalha apertou seu pescoço com tanta força que parecia que seus olhos saltariam para fora (mesma fonte, Mukhtasarus-Siyar, p. 113).
Um relato de Ibn Ishaq revela a conspiração dos coraixitas. Eles conspiravam continuamente para eliminar o Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, deste mundo. Nesse relato, é dito que certa vez Abu Jahl falou: “Ó irmãos coraixitas, vocês não veem que Muhammad não deixa de criticar nossa religião e condenar nossos ídolos, e que continua insultando incessantemente nossos pais e antepassados? Por isso, comprometo-me diante de Allah a sentar-me com uma pesada pedra e, quando Muhammad se prostrar, esmagar sua cabeça com ela. Depois disso, estou preparado para qualquer consequência. Se quiserem, deixem-me sem proteção ou providenciem segurança para mim; depois, que os Banu Abd Manaf façam comigo o que desejarem, não me importarei. Ao ouvirem essa proposta, os coraixitas disseram: “De modo algum o deixaremos sem proteção. Faça o que pretende fazer.”
De manhã, Abu Jahl sentou-se à espera do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, levando consigo uma pesada pedra. Os coraixitas reuniram-se um após outro e ficaram ansiosos para observar as ações de Abu Jahl. O Mensageiro de Allah chegou como de costume e começou a realizar a oração. Quando se prostrou, Abu Jahl avançou com a pedra, mas logo voltou aterrorizado, e sua mão parecia ter ficado presa à pedra. Alguns coraixitas foram até ele e perguntaram: “Abul Hakam, o que aconteceu com você?”. Ele respondeu: “Eu estava indo fazer o que havia dito à noite, mas, quando me aproximei, vi um camelo entre Muhammad e eu. Por Deus, nunca vi um camelo tão grande, com um pescoço tão comprido e dentes assim. O camelo queria atacar-me.”
Ibn Ishaq disse: “Foi-me informado que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, afirmou: ‘Ele era Jibril disfarçado de camelo. Se Abu Jahl tivesse se aproximado, teria sido agarrado’” (Ibn Hisham, vol. 1, pp. 298–299).
Depois, Abu Jahl passou a tratar o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, de tal maneira que Hazrat Hamza (que Allah esteja satisfeito com ele), ao testemunhar isso, aceitou o Islã. Sobre esse episódio falaremos daqui a pouco.
Os demais malfeitores dos coraixitas também queriam eliminar o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, deste mundo. Ibn Ishaq narrou, sob a autoridade de Hazrat Abdullah ibn Amr ibn al-As (que Allah esteja satisfeito com ele), que certa vez os politeístas estavam sentados diante da Caaba, e eu também estava ali. Eles mencionaram o Mensageiro de Allah e disseram: “Não se pode encontrar exemplo de paciência como a que demonstramos em relação a este homem; na verdade, tivemos uma paciência incomparável com ele.” Enquanto essa conversa prosseguia, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, chegou. Primeiro, beijou a Pedra Negra; depois, enquanto circundava a Caaba, passou junto aos politeístas. Eles o insultaram com palavras ofensivas, e a marca daquele insulto apareceu no rosto do Mensageiro de Allah. Quando passou novamente por eles durante a circunambulação, tornaram a dirigir-lhe palavras insultuosas da mesma forma, e observei em seu rosto o efeito daquele insulto. Na terceira vez aconteceu algo semelhante. Então, a paciência do Mensageiro de Allah chegou ao limite; ele parou e disse: “Ó coraixitas, escutem! Pelo Deus em cuja mão está a minha vida, vim até vocês com animais destinados ao sacrifício.”
As palavras do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, causaram profunda impressão nos coraixitas. Todos ficaram em silêncio, e até os homens de coração duro passaram a dirigir-se a ele com palavras gentis e suaves. Eles disseram: “Abul-Qasim, volte. Por Allah, você nunca foi um tolo.”
No dia seguinte, os coraixitas também se reuniram da mesma maneira e conversavam sobre o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Nesse momento, ele chegou; assim que se aproximou, todos se lançaram contra ele ao mesmo tempo. Um deles tentou estrangulá-lo, enrolando seu manto em torno do pescoço. Hazrat Abu Bakr as-Siddiq (que Allah esteja satisfeito com ele) tentou protegê-lo das mãos dos malfeitores e, chorando, dizia: “Vocês estão matando um homem que diz: ‘Meu Senhor é Allah’?” Depois disso, os malfeitores o soltaram e foram embora. Abdullah ibn Amr ibn al-As (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Entre os episódios de perseguição dos coraixitas que presenciei, este foi o mais grave.” (Ibn Hisham, volume 1, pp. 289–290.)
É narrado no Sahih de al-Bukhari, sob a autoridade de Hazrat Urwah ibn az-Zubayr (que Allah esteja satisfeito com ele), que ele disse: “Perguntei a Hazrat Abdullah ibn Amr ibn al-As (que Allah esteja satisfeito com ele): ‘Conte-me o que os politeístas fizeram de mais bárbaro ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz.’ Ele respondeu: ‘O Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, estava rezando no Hatim da Caaba quando Uqbah ibn Abu Muayt apareceu. Assim que chegou, enrolou seu manto em torno do pescoço do Mensageiro de Allah e tentou estrangulá-lo. Nesse momento, Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) chegou, segurou Uqbah pelos dois ombros e o empurrou para longe. Depois disse: ‘Vocês querem matar um homem que diz: “Meu Senhor é Allah”?’” (Sahih al-Bukhari, volume 1, p. 544.)
Hazrat Asma (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: “Hazrat Abu Bakr as-Siddiq (que Allah esteja satisfeito com ele) ouviu este grito: ‘Salvem o seu companheiro!’ Assim que ouviu o grito, correu de nosso lado. Ele tinha quatro tranças na cabeça e correu dizendo: ‘Vocês querem matar um homem que diz: “Meu Senhor é Allah”?’ Os politeístas deixaram o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e lançaram-se contra Hazrat Abu Bakr. Quando ele voltou para casa, sempre que tocávamos em qualquer parte de sua cabeça, os cabelos ficavam em nossas mãos.”
A aceitação do Islã por Hazrat Hamza
Enquanto o ambiente de Meca permanecia envolto em opressão e perseguição desse tipo, de repente surgiu um clarão de luz: Hazrat Hamza (que Allah esteja satisfeito com ele) aceitou o Islã. Esse acontecimento ocorreu no mês de Dhu al-Hijjah do sexto ano após o Mensageiro de Allah ter recebido a profecia.
A razão pela qual Hazrat Hamza (que Allah esteja satisfeito com ele) aceitou o Islã foi que, certo dia, Abu Jahl insultou o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) e o feriu nas proximidades do monte Safa. O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) permaneceu em silêncio e nada disse. Então, o perverso Abu Jahl atirou uma pedra contra a cabeça do Mensageiro de Allah, fazendo-a abrir-se e sangrar. Depois disso, Abu Jahl foi sentar-se na assembleia dos coraixitas diante da Caaba. Uma serva de Abdullah ibn Judaan testemunhou a cena. Hazrat Hamza estava voltando de uma caçada, e a serva contou-lhe tudo. Hazrat Hamza ficou tomado pela ira. Ele era o jovem mais forte entre os coraixitas. Sem demora, avançou e disse: “Onde quer que eu encontre Abu Jahl, eu o golpearei.” Em seguida, entrou diretamente na Caaba, aproximou-se de Abu Jahl e disse: “Ó tu que soltas gases pelo ânus, insultas o meu sobrinho, embora eu também siga a religião que ele prega?” Dizendo isso, golpeou com tanta força a cabeça de Abu Jahl com o arco que carregava na mão, que lhe causou um ferimento grave. Imediatamente, os membros do clã de Abu Jahl, Banu Makhzum, e os membros do clã de Hazrat Hamza (que Allah esteja satisfeito com ele), Banu Hashim, prepararam-se para lutar uns contra os outros. Abu Jahl deteve todos, dizendo: “Não façam nada contra Abu ‘Imara; de fato, insultei o sobrinho dele de maneira extremamente ofensiva.” (Mukhtasarus-Sirah, Sheikh Muhammad ibn Abdul Wahhab, p. 66; Rahmatul lil-Alamin, vol. 1, p. 68; Ibn Hisham, vol. 1, p. 292.)
A princípio, incapaz de suportar que seu parente fosse insultado, Hazrat Hamza (que Allah esteja satisfeito com ele) sentiu-se atraído pelo Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). Depois, Allah, o Altíssimo, abriu-lhe o coração, e ele se tornou um vigoroso defensor do Islã. Por causa dele, os muçulmanos sentiram grande força e tranquilidade. (Mukhtasarus-Sirah, Sheikh Abdullah, p. 101.)
A aceitação do Islã por Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele)
Naquela atmosfera sombria e grave, sob as nuvens negras da opressão, tirania e perseguição, o episódio da aceitação do Islã por Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) foi mais um clarão de luz. Esse acontecimento ocorreu no mês de Dhul-Hijjah do sexto ano da missão profética, três dias depois de Hazrat Hamza (que Allah esteja satisfeito com ele) ter aceitado o Islã. O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) havia feito uma súplica pela sua conversão. (Tarikh Umar ibn al-Khattab, Ibn al-Jawzi, p. 11.)
O Imam al-Tirmidhi narrou esse acontecimento a partir de Hazrat Abdullah ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) e o classificou como autêntico. O Imam al-Tabarani também narrou esse acontecimento a partir de Hazrat Ibn Mas‘ud e Hazrat Anas (que Allah esteja satisfeito com ele).
O Profeta (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) suplicou: “Ó Allah, concede a oportunidade de aceitar o Islã àquele, entre Umar ibn al-Khattab e Abu Jahl, que for mais querido para Ti, e fortalece o Islã por meio dele.”
Allah, o Altíssimo, aceitou essa súplica, e Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) aceitou o Islã. Entre os dois mencionados, Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) era o mais querido para Allah. (Tirmidhi, Manaqib Abi Hafs Umar ibn al-Khattab, vol. 2, p. 209.)
Ao examinar todas as narrações relativas à aceitação do Islã por Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele), fica comprovado que o Islã foi conquistando gradualmente um lugar em seu coração. Antes de abordar esse assunto, considero necessário fazer uma breve referência ao temperamento, à disposição e às ideias de Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele).
Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) era conhecido por seu temperamento áspero e sua natureza severa. Durante muito tempo, os muçulmanos sofreram diversas formas de perseguição às suas mãos. Parece que nele se conjugavam tendências opostas: por um lado, respeitava os costumes e tradições inventados por seu pai e seus antepassados e tinha grande interesse por esportes; por outro, observava com interesse a firmeza dos muçulmanos em sua fé e em sua crença, bem como sua paciência e perseverança diante da opressão e da perseguição. Às vezes, refletindo com inteligência e discernimento, pensava que aquilo para o qual o Islã convocava talvez fosse verdadeiro, mais puro e superior. Por isso, embora se enfurecesse de repente, costumava acalmar-se (esta análise sobre Hazrat Umar foi feita pelo Imam Ghazali; veja Fiqh al-Sirah, pp. 92–93).
O essencial de todas as narrativas relacionadas à aceitação do Islã por Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) é o seguinte:
Certa vez, Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) teve de passar o dia fora. Foi à Mesquita Sagrada e entrou na Caaba, escondendo-se atrás de uma cortina. Naquele momento, o Profeta — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — estava orando e recitava a surata Al-Haqqah. Hazrat Umar começou a ouvir o Alcorão e ficou maravilhado e profundamente impressionado com seu estilo. Pensou consigo mesmo: “Parece que este homem é um poeta; os coraixitas têm razão.” Nesse momento, o Profeta — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — recitou: “Certamente, este Alcorão é uma mensagem trazida a um nobre Mensageiro; não é composição de um poeta. Quão pouco credes!” Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Pensei comigo: ‘Parece que este homem é um adivinho.’” Então o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — recitou: “Não são palavras de um adivinho; quão pouco refletis! É uma revelação do Senhor dos mundos.” O Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — continuou a recitar até o fim da surata.
Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Naquele momento, o Islã deixou uma marca em meu coração” (Tarikh Umar ibn al-Khattab, Ibn al-Jawzi, p. 6; Sirat Ibn Hisham, vol. 1, pp. 326–348). Contudo, sua fé e seu amor pela religião de seus antepassados ainda permaneciam firmes. Por isso, embora a semente do amor pelo Islã já tivesse sido plantada no mais profundo e oculto de seu coração, ele continuava a manifestar abertamente sua oposição ao Islã.
Sua natureza severa e sua hostilidade contra o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — eram tais que, certo dia, saiu com uma espada, decidido a matar o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz. No caminho, encontrou um homem de Banu Zuhrah (Tarikh Umar ibn al-Khattab, al-Jawzi, p. 17), de Banu Makhzum (Mukhtasar al-Sirah, p. 102), chamado Nuaim ibn Abdullah al-Nahham al-Adawi (Ibn Hisham, vol. 1, p. 344). Ao ver seu rosto áspero, o homem perguntou: “Umar, aonde vais?” Ele respondeu: “Vou matar Muhammad.” O homem disse: “Depois de matar Muhammad, como te protegerás das mãos de Banu Hashim e de Banu Zuhrah?” Ele respondeu: “Parece que tu também abandonaste a religião de teus antepassados e te tornaste um incrédulo?” O homem disse: “Umar, vou contar-te algo extraordinário: tua irmã e teu cunhado também abandonaram a religião de vocês e se tornaram incrédulos.” Ao ouvir isso, Hazrat Umar, tomado pela ira, dirigiu-se diretamente à casa de seu cunhado. Ao chegar, viu-os lendo, na presença de Hazrat Khabbab ibn al-Aratt, uma folha na qual estava escrita a surata Ta-Ha. Hazrat Khabbab (que Allah esteja satisfeito com ele) costumava ir àquela casa para ensinar-lhes o Alcorão. Ao ouvirem os passos de Hazrat Umar, todos ficaram em silêncio, e a irmã de Hazrat Umar escondeu a folha com a surata. Entretanto, do lado de fora da casa, Hazrat Umar havia ouvido a voz de Hazrat Khabbab (que Allah esteja satisfeito com ele) recitando o Alcorão. Por isso, perguntou: “Que voz era essa que eu estava ouvindo?” Eles responderam: “Ora, não era nada; estávamos apenas conversando entre nós.” Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “É possível que ambos tenham se tornado incrédulos.” Seu cunhado respondeu: “Ó Umar, o que acontecerá se a verdade estiver em uma religião diferente da vossa?” Assim que ouviu isso, Hazrat Umar lançou-se sobre o cunhado e espancou-o severamente. Sua irmã correu para tentar livrar o marido das mãos do irmão e, depois de algum tempo, conseguiu afastá-lo. Então, de repente, Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) deu um tapa tão forte em sua irmã que o rosto dela ficou ensanguentado. Segundo o relato de Ibn Ishaq, ela também sofreu um ferimento na cabeça. Sua irmã disse com raiva: “Ó Umar, o que acontecerá se a verdade estiver em uma religião diferente da vossa? Testemunho que não há divindade além de Allah, e que Muhammad — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — é Seu Mensageiro.” Ao ouvir isso, Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) ficou desanimado e, vendo o sangue no rosto da irmã, também sentiu vergonha. Disse: “Está bem, deixai-me ler um pouco do que estáveis recitando.” Sua irmã respondeu: “Tu estás impuro; somente pessoas puras podem tocar este livro. Vai banhar-te e volta.” Hazrat Umar foi banhar-se e voltou. Em seguida, sentou-se com a parte específica do livro nas mãos e leu: “Em nome de Allah, o Misericordioso, o Misericordiador.” Depois disse: “Que nome tão grandiosamente puro!”
Ao ouvir essas palavras da boca de Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele), Hazrat Khabbab (que Allah esteja satisfeito com ele) saiu de dentro da casa e disse: “Alegra-te, Umar! Isto é o resultado da súplica que o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — fez na noite de quinta-feira.” Naquele momento, o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) encontrava-se numa casa próxima ao monte Safa.
Ao ouvir isso, Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) chegou diante daquela casa com a espada na mão e bateu violentamente à porta. Um companheiro espiou pela porta e viu Umar com a espada na mão; todos ao redor se reuniram. Hazrat Hamza (que Allah esteja satisfeito com ele) perguntou: “O que aconteceu?” Disseram-lhe: “Umar chegou.” Ele disse: “Umar chegou? Abram a porta. Se ele veio com boas intenções, será bom; mas, se veio com más intenções, nós o mataremos com a sua própria espada.” Enquanto isso, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) estava dentro, recebendo revelação. Depois que a revelação terminou, ele foi até Umar no aposento e, segurando sua roupa e uma parte de sua espada, sacudiu-o e disse: “Umar, não deixarás de agir assim até que Allah faça descer sobre ti um castigo humilhante como o que fez descer sobre Walid ibn Mughirah?” Então suplicou: “Ó Allah, concede força e honra à religião por meio de Umar ibn al-Khattab.” Assim que ouviu essas palavras, Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) aceitou o Islã e disse: “Testemunho que não há divindade além de Allah e que tu és o Mensageiro de Allah.” Ao ouvirem isso, os que estavam dentro da casa proclamaram Allahu Akbar com tanta força que até os que estavam dentro da Caaba puderam ouvir suas vozes (Tarikh Umar ibn al-Khattab, pp. 7, 10 e 11; Sirat Ibn Hisham, vol. 1, pp. 343-344). Ninguém na Arábia ousava enfrentá-lo; por isso, ao saberem de sua conversão ao Islã, os idólatras entraram em grande alvoroço e enfrentaram uma grave crise e humilhação. Por outro lado, com sua conversão, aumentaram o orgulho, a força, a honra, o sucesso e a alegria dos muçulmanos. Ibn Ishaq, com sua cadeia de transmissão, citou o relato de Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele): “Quando me tornei muçulmano, pensei: quem é o maior inimigo do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) em Meca? Então pensei comigo mesmo: é Abu Jahl. Fui à casa de Abu Jahl e bati à porta. Abu Jahl saiu e, ao ver-me, disse: ‘Bem-vindo, muito bem-vindo! O que te traz aqui, Umar?’ Respondi: ‘Vim informar-te de que creio em Allah Todo-Poderoso e em Seu Mensageiro, Muhammad (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), creio em tudo o que ele trouxe e reconheço isso como verdade.’ Ao ouvir isso, Abu Jahl, enquanto fechava a porta, disse: ‘Que Allah faça o mal a ti e ao que trouxeste contigo’ (Ibn Hisham, vol. 1, pp. 249-250).
O imame Ibn al-Jawzi narrou, com base no relato de Hazrat Umar al-Faruq (que Allah esteja satisfeito com ele), que, quando alguém aceitava o Islã, os incrédulos coraixitas perseguiam essa pessoa e a espancavam cruelmente; e a pessoa espancada também os espancava. Depois que aceitei o Islã, fui até meu tio materno, Adi ibn Hashim, e informei-o. Sem dizer uma palavra, ele entrou em casa. Em seguida, fui até um homem importante dos coraixitas — provavelmente uma referência a Abu Jahl. Depois que meu tio Adi informou esse homem dos coraixitas, ele também entrou em casa (Tarikh Umar ibn al-Khattab, p. 8).
Ibn Hisham e Ibn al-Jawzi narraram que, depois de Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) aceitar o Islã, ele foi até Jamil ibn Muammar al-Jumahi, homem famoso entre os coraixitas por divulgar notícias. Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) informou-lhe: “Aceitei o Islã.” Ao ouvir isso, ele gritou em voz alta: “O filho de Khattab tornou-se um apóstata!” Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) respondeu: “Estás mentindo; tornei-me muçulmano.” Em suma, as pessoas lançaram-se sobre Hazrat Umar e começaram a espancá-lo. Hazrat Umar era espancado, mas também os espancava. Quando o sol chegou ao alto do céu, ele se sentou exausto e disse: “Fazei o que quiserdes. Por Allah, se fôssemos trezentos em número, então ou vós permaneceríeis em Meca, ou permaneceríamos nós” (mesma obra, p. 8; Ibn Hisham, vol. 1, pp. 348-349).
Depois disso, os idólatras cercaram a casa de Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) para matá-lo. Está narrado no Sahih al-Bukhari que Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) estava dentro de casa, assustado e perturbado, quando chegou Abu Amr As ibn Wa’il al-Sahmi. Ele vestia um manto iemenita ornamentado e roupas de seda. Era membro da tribo de Sahm e, naquela época, pertencia a uma tribo aliada à nossa. Ele perguntou: “O que aconteceu? Por que todo esse tumulto?” Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) respondeu: “Tornei-me muçulmano, e por isso querem matar-me.” As disse: “Isso não é possível.” Ao ouvir essas palavras de As, senti-me aliviado. Naquele momento, muitas pessoas estavam aglomeradas ao redor de minha casa. As abriu caminho pela multidão, avançou e perguntou-lhes: “Para onde todos vós estais indo?” Todos responderam: “Umar tornou-se apóstata; estamos indo até ele.” As disse: “Não há caminho para ir naquela direção.” Ao ouvir isso, todos voltaram (Sahih al-Bukhari, capítulo sobre Umar ibn al-Khattab, vol. 1, p. 545). Segundo o relato de Ibn Ishaq, eles haviam se reunido de tal maneira que parecia que todos estavam entrando na mesma roupa (Ibn Hisham, vol. 1, p. 349).
Após a conversão de Hazrat Umar ao Islã, a situação dos idólatras era como mencionado acima; e a condição dos muçulmanos também pode ser avaliada a partir desse acontecimento. Mujahid narrou, com base no relato de Hazrat Abdullah ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele): “Perguntei a Umar ibn al-Khattab: ‘Por que recebeste o título de al-Faruq?’ Ele respondeu: ‘Hazrat Hamza (que Allah esteja satisfeito com ele) aceitou o Islã três dias antes de mim.’” Depois de narrar o episódio da conversão de Hazrat Hamza, Hazrat Umar prosseguiu: “Então aceitei o Islã e disse ao amado Profeta (que Allah o abençoe e lhe conceda paz): ‘Ó Mensageiro de Allah, quer vivamos ou morramos, não estamos sobre a verdade?’ O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) respondeu: ‘Certamente. Por Aquele em cuja mão está minha alma, quer vivais, quer morrais, estais certamente sobre a verdade.’ Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: ‘Então perguntei: “Por que continuaremos a fugir?” Por Aquele que vos enviou com a verdade, certamente sairemos.’ Em seguida, dividimo-nos em duas fileiras e saímos em procissão, acompanhando o Mensageiro de Allah. Hazrat Hamza estava em uma fileira e eu na outra. Enquanto caminhávamos, a poeira subia como farinha moída num moinho manual. Entramos na Mesquita Sagrada. Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: ‘Os coraixitas ficaram tão aflitos ao nos ver que nunca haviam sofrido tamanho pesar antes.’ Naquele dia, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) concedeu-me o título de al-Faruq” (Tarikh Umar ibn al-Khattab, Ibn al-Jawzi, pp. 6-7).
Hazrat Ibn Masud (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Antes disso, não éramos capazes de realizar a oração junto à Caaba” (Mukhtasar al-Sirah, Sheikh Abdullah, p. 103).
Hazrat Zuhayr ibn Sinan al-Rumi (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Depois que Hazrat Umar al-Faruq (que Allah esteja satisfeito com ele) se tornou muçulmano, o Islã saiu de trás do véu, e começou-se a fazer publicamente o convite ao Islã. Passamos a sentar-nos em círculo diante da Caaba e a circundá-la em tawaf. Tomamos vingança daqueles que haviam cometido excessos contra nós e respondemos à opressão” (Tarikh Umar ibn al-Khattab, Ibn al-Jawzi, p. 13).
Hazrat Abdullah ibn Masud (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Depois que Hazrat Umar aceitou o Islã, permanecemos fortes e honrados” (Sahih al-Bukhari, capítulo sobre a conversão de Umar ibn al-Khattab ao Islã, vol. 1, p. 545).
Após a conversão ao Islã de Hamza ibn Abd al-Muttalib e Umar ibn al-Khattab (que Allah esteja satisfeito com ambos), a perseguição em massa aos muçulmanos diminuiu. Os politeístas decidiram enfrentar a situação com prudência e reflexão. Pensaram que, assegurando a Muhammad (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) aquilo que ele desejava obter ao convocar as pessoas ao Islã e satisfazendo suas exigências, talvez pudessem fazê-lo desistir de sua missão. Porém, não sabiam que, diante da convocação do Mensageiro de Allah à religião, o universo inteiro não tinha valor algum. Por isso, seus esforços naturalmente fracassaram.
Ibn Ishaq citou, por intermédio de Yazid ibn Ziyad, o relato de Muhammad ibn Ka’b al-Qurazi: “Fui informado de que Utba ibn Rabi’a, líder do povo, certo dia apresentou uma nova proposta aos seus compatriotas. Naquele momento, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) estava sozinho em um lugar da Mesquita Sagrada. Utba disse: ‘Conversem com Muhammad e resolvam isso; apresentem-lhe algumas propostas. Talvez ele aceite uma delas. Seja qual for a exigência que fizer, nós a atenderemos.’ Depois de observarem o fortalecimento dos muçulmanos com a conversão de Hamza (que Allah esteja satisfeito com ele), eles deliberaram entre si dessa maneira.”
Os coraixitas disseram: “Abu al-Walid, vá; converse com ele.” Então Utba levantou-se e sentou-se diante do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). Utba disse: “Meu sobrinho, todos conhecem a posição que ocupas entre nosso povo. És de uma linhagem nobre e estás promovendo algo que provocou divisão, desordem e discórdia entre o povo. Chamas de insensatos os líderes inteligentes do povo, criticas de várias maneiras seus deuses, declaras falsa sua fé e chamas de incrédulos seus antepassados. Escuta-me: vou apresentar-te algumas propostas; reflete sobre elas. Talvez uma delas seja aceitável para ti.” O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: “Fala, Abu al-Walid; eu te ouvirei.”
Utba, também conhecido como al-Walid, disse: “Meu sobrinho, se desejas riquezas em troca daquilo que estás pregando, nós te daremos tanta riqueza que serás o mais rico entre nós. Se desejas prestígio, basta dizer, e te aceitaremos como nosso líder; nenhuma decisão será tomada sem ti. Se desejas ser rei, também basta dizer, e te aceitaremos como rei. Se aquilo que veio até ti é um jinn ou um demônio, dize-nos; talvez o vejas, mas não consigas expulsá-lo. Providenciaremos tratamento para ti; gastaremos quanto for necessário para curar-te. Às vezes, os jinn e os demônios dominam uma pessoa, e nesse estado ela necessita de tratamento.”
Depois de ouvir atentamente Utba, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: “Abu al-Walid, terminaste de falar? Escuta-me.” Então o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) começou a recitar, desde o início, a surata Ha-Mim Sajda: “Em nome de Allah, o Clemente, o Misericordioso. Ha-Mim. Esta é uma Escritura revelada pelo Clemente, o Misericordioso. Seus versículos foram detalhados; é um Alcorão em língua árabe para um povo que compreende, como anúncio de boas-novas e advertência. Porém, a maioria deles se afastou e não escutará. Eles dizem: ‘Nossos corações estão cobertos por um véu diante daquilo para que nos convocas; há surdez em nossos ouvidos e existe uma barreira entre nós e ti. Portanto, age conforme o teu caminho, e nós agiremos conforme o nosso.’”
O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) continuou recitando, enquanto Utba permanecia sentado confortavelmente, apoiando as duas mãos atrás de si no chão, ouvindo. Depois de recitar o versículo da prostração, o Mensageiro levantou-se e prostrou-se. Em seguida, disse: “Abu al-Walid, querias ouvir alguma coisa; eu fiz-te ouvir. Agora, tu sabes o que fazer, e o teu próprio trabalho saberá o que fazer.”
Utba levantou-se e foi até seus companheiros. Ao vê-lo, eles começaram a comentar: “Por Allah, Abu al-Walid não está voltando com o mesmo semblante com que foi.” Depois que Utba se sentou, seus companheiros perguntaram: “Que notícia trouxeste?” Ele respondeu: “A notícia é que ouvi palavras como jamais ouvira antes. Por Allah, não são poesia nem encantamento. Escutem-me: deixem-no seguir seu caminho. As palavras que ouvi provocarão, no futuro, um grande acontecimento. Se os árabes o matarem, outra pessoa fará o trabalho de vocês; mas, se ele triunfar sobre os árabes, sua honra será a honra de vocês, seu reino será o reino de vocês e sua existência será uma causa de boa fortuna para vocês.”
Os coraixitas disseram: “Abu al-Walid, a magia dessas palavras também te afetou.” Utba respondeu: “Eu disse a vocês o que compreendi sobre ele. Agora façam o que julgarem melhor.” (Ibn Hisham, volume 1, pp. 293–294.)
Segundo outro relato, quando o Mensageiro de Allah recitou este versículo: “Mas, se eles virarem as costas, dize: Eu vos advirto contra um castigo devastador, semelhante ao castigo de ‘Ad e de Thamud”, assim que ouviu a recitação desse versículo, ‘Utbah levantou-se, colocou a mão sobre a boca do Mensageiro de Allah e disse: “Suplico-vos, por Allah e pelos laços de parentesco, que não façais isso.” ‘Utbah temia que um castigo semelhante recaísse sobre ele. Em seguida, levantou-se, foi até seus companheiros e relatou-lhes o que foi mencionado (Tafsir Ibn Kathir, vol. 6, p. 15, 160, 161).
Reunião de Abu Talib com os Banu Hashim e os Banu al-Muttalib
Enquanto isso, a situação havia mudado significativamente. Abu Talib ainda estava apreensivo e temia pela segurança de seu sobrinho diante dos idólatras. Ele estava avaliando os acontecimentos ocorridos até então. Os idólatras haviam ameaçado enfrentá-lo e propuseram levar seu sobrinho e matá-lo em troca de ‘Ammarah ibn al-Walid. Abu Jahl havia tentado esmagar a cabeça de seu sobrinho com uma pedra pesada; ‘Uqbah ibn Abi Mu‘ayt quis matá-lo por estrangulamento, enrolando um manto em seu pescoço; e Khawlah, filho de al-Khattab, saíra para matá-lo com a espada desembainhada. Ao considerar todos esses acontecimentos sucessivos, Abu Talib pressentiu um perigo tão grave que seu coração estremeceu.
Ele compreendeu perfeitamente que os idólatras estavam decididos a matar seu sobrinho. Nessas circunstâncias, se algum incrédulo atacasse repentinamente seu sobrinho, será que Hamzah, ‘Umar ou qualquer outra pessoa, agindo isoladamente, conseguiria protegê-lo?
A apreensão de Abu Talib não era infundada, pois os idólatras estavam determinados a matar o Mensageiro de Allah. Aludindo à determinação deles, Allah, o Altíssimo, diz: “Acaso eles tomaram uma decisão definitiva sobre algum assunto? Sou Eu quem decide.” (79:43)
A questão era: o que Abu Talib deveria fazer em uma situação como essa? Quando viu que os idólatras se empenhavam em atormentar seu sobrinho por todos os lados, reuniu os descendentes das duas figuras ilustres de seu avô, Hashim e al-Muttalib. Naquela reunião, convocou todos a se unirem para proteger seu sobrinho e disse, com voz emocionada: “Até agora, eu sozinho cumpri essa responsabilidade; agora, vinde, cumpramo-la todos juntos.” Os descendentes de seus dois antepassados atenderam ao chamado de Abu Talib. Apenas seu irmão Abu Lahab adotou uma posição contrária: recusou-se e juntou-se aos idólatras (Ibn Hisham, vol. 1, p. 269; Mukhtasar al-Sirah, Sheikh ‘Abdullah, p. 106).
Boicote total
Em um período de quatro semanas ou menos, os idólatras sofreram quatro grandes golpes: Hamzah e ‘Umar aceitaram o Islã e, acima de tudo, os Banu Hashim e os Banu al-Muttalib uniram-se e concordaram em proteger o Mensageiro de Allah. Isso deixou os idólatras profundamente perturbados. E como não ficariam? Eles haviam compreendido que, se naquele momento tomassem qualquer medida para matar Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, o derramamento de sangue necessário para protegê-lo tornaria vermelhas as planícies de Meca, e eles próprios poderiam ser destruídos. Por isso, abandonaram o plano de matar o Mensageiro de Allah e conceberam um novo método de opressão e perseguição, ainda mais grave que todas as medidas adotadas anteriormente.
Ibn al-Qayyim escreveu que se diz que esse documento foi redigido por Mansur ibn Ikrima ibn Amir ibn Hashim; segundo alguns, foi Nadr ibn al-Harith quem o redigiu. Porém, a opinião correta é que o documento foi escrito por Bughaiz ibn…, e, por ter lançado uma maldição contra o Mensageiro de Deus, que Deus o abençoe e lhe conceda paz, sua mão ficou paralisada (Zad al-Ma‘ad, vol. 2, p. 49).
Depois de ser escrito, o documento foi pendurado na Caaba. Por causa dele, todos os muçulmanos e não muçulmanos — homens, mulheres e crianças — dos clãs Banu Hashim e Banu al-Muttalib, exceto Abu Lahab, ficaram confinados num lugar chamado شعب أبي طالب. Isso ocorreu no sétimo ano após o surgimento do Profeta, que Deus o abençoe e lhe conceda paz, como profeta.
Três anos em شعب أبي طالب
Durante esse boicote, a situação se agravou. O fornecimento de alimentos foi interrompido; tudo o que chegava a Meca era rapidamente comprado pelos politeístas. Assim, nada chegava normalmente aos muçulmanos ou não muçulmanos confinados. Eles sobreviviam comendo folhas de árvores e couro. A fome era tão intensa que os lamentos de mulheres e crianças famintas podiam ser ouvidos do lado de fora de شعب أبي طالب, ou do desfiladeiro de Abu Talib. Eram mínimas as possibilidades de que qualquer alimento chegasse até eles; e o pouco que chegava era enviado secretamente. Exceto nos meses sagrados, eles nem saíam do desfiladeiro para comprar o que necessitavam. Muitas vezes, mesmo tentando comprar os produtos que chegavam a Meca vindos de fora, não conseguiam, pois os politeístas elevavam seus preços várias vezes.
Hakim ibn Hizam era sobrinho de Khadija, que Deus esteja satisfeito com ela. De vez em quando, enviava trigo para sua tia paterna. Certa vez, quando se preparava para enviar trigo, Abu Jahl tentou impedi-lo, mas Abu al-Bakhtari tomou o partido de Hakim ibn Hizam e providenciou o envio do trigo.
Enquanto isso, Abu Talib estava sempre preocupado com o Mensageiro de Deus, que Deus o abençoe e lhe conceda paz. À noite, depois que todos se deitavam, dizia ao sobrinho: “Vá agora e deite-se em sua cama.” Ele dizia isso para que, caso houvesse algum assassino oculto, este pudesse descobrir onde ele havia se deitado. Depois que todos adormeciam, Abu Talib mudava o lugar onde seu querido sobrinho dormia e colocava seu próprio filho, seu irmão ou outra pessoa na cama do sobrinho. Durante a noite, passava o tempo tomado pela preocupação e pela angústia por seu querido sobrinho, o Mensageiro de Deus, Muhammad, que Deus o abençoe e lhe conceda paz.
Apesar de um bloqueio tão severo, o Mensageiro de Deus, que Deus o abençoe e lhe conceda paz, e os demais muçulmanos saíam durante o Hajj e convidavam para o Islã as pessoas que chegavam com o propósito de realizar o Hajj. O modo como Abu Lahab tratava, nessa ocasião, o Mensageiro de Deus, que Deus o abençoe e lhe conceda paz, e os muçulmanos já foi mencionado anteriormente. (Abu Talib morreu seis meses depois da destruição do documento; a informação correta é que morreu no mês de Rajab. Aqueles que dizem que morreu no mês de Ramadan também afirmam que sua morte ocorreu oito meses e alguns dias depois da destruição do documento; em ambos os casos, fica provado que morreu no mês de Muharram.)
O episódio da destruição do documento
Nessas condições, transcorreram três anos completos. Então, no mês de Muharram do décimo ano da missão profética, ocorreu o rompimento do documento, pondo fim à opressão e às perseguições. Como alguns membros dos coraixitas se opunham a essa medida, tomaram a iniciativa de cancelar o bloqueio.
O principal articulador da destruição do documento elaborado a respeito desse bloqueio desumano foi um homem chamado Hisham ibn Amr, da tribo de Banu Amir ibn Lu’ayy. Durante a noite, Hisham enviava secretamente alimentos para ajudar os indefesos que estavam no acampamento de Abu Talib. Primeiro, Hisham foi até Zuhayr ibn Abi Umayya al-Makhzumi. A mãe de Zuhayr, Atika, era filha de Abd al-Muttalib, isto é, irmã de Abu Talib. Hisham lhe disse: “Zuhayr, você aceita comer e beber à vontade enquanto seu tio materno e os outros morrem lentamente? Você não sabe em que situação eles se encontram?” Zuhayr respondeu: “Que pena! O que posso fazer sozinho? Se outra pessoa se juntar a mim, posso tomar a iniciativa de destruir o documento.” Hisham disse: “Há outra pessoa.” Zuhayr perguntou: “Quem?” Hisham respondeu: “Eu.” Zuhayr disse: “Então procure uma terceira pessoa.” Ao ouvir isso, Hisham foi até Mut’im ibn Adi e, mencionando a situação de Banu Hashim e Banu al-Muttalib, pediu sua ajuda e explicou que eles eram seus parentes próximos. Mut’im disse: “O que posso fazer sozinho?” Hisham respondeu: “Há mais uma pessoa.” Mut’im perguntou: “Quem?” Hisham disse: “Eu.” Mut’im respondeu: “Então procure uma terceira pessoa.” Hisham disse: “Isso também já fiz.” Mut’im perguntou: “Quem é ela?” Hisham respondeu: “Zuhayr ibn Umayya.” Mut’im disse: “Então procure uma quarta pessoa.” Depois disso, Hisham foi até Abu al-Bakhtari e falou com ele da mesma maneira que havia falado com Mut’im. Abu al-Bakhtari perguntou: “Há alguém que apoie essa causa?” Hisham respondeu que sim e mencionou Zuhayr ibn Abi Umayya, Mut’im ibn Adi e a si próprio. Abu al-Bakhtari disse: “Então procure um homem de confiança.” Em seguida, Hisham foi até Jam’a ibn al-Aswad ibn al-Muttalib ibn Asad, conversou com ele sobre a difícil situação de Banu Hashim e Banu al-Muttalib e pediu sua ajuda. Ele perguntou se havia outros apoiadores. Hisham respondeu que sim e mencionou todos os seus nomes. Depois, todos os mencionados se reuniram em um lugar chamado Hajun e comprometeram-se a destruir o documento. Zuhayr disse: “Serei eu o primeiro a levantar essa questão.”
Na manhã seguinte, todos se reuniram na assembleia, como de costume. Zuhayr compareceu bem-arrumado, vestindo roupas caras. Primeiro, deu sete voltas ao redor da Caaba e, dirigindo-se a todos, disse: “Ó habitantes de Meca, escutem! Nós comemos e bebemos, vestimos nossas roupas, enquanto Banu Hashim está sendo destruída; nada lhes é vendido, nem se compra deles. Por Deus, não posso permanecer em silêncio enquanto existir um documento tão desumano. Quero que esse documento seja destruído.”
Ao ouvir isso, Abu Jahl disse: “Você está errado. Por Deus, esse documento não pode ser rompido.”
Jam’a ibn al-Aswad disse: “Por Deus, você é quem está errado. Quando esse documento foi escrito, eu já não estava de acordo; não estou disposto a aceitá-lo.” Em seguida, Mut’im ibn Adi disse: “Vocês dois estão certos. Buscamos refúgio em Allah contra tudo o que está escrito neste documento.”
Hisham ibn Amr também disse algo semelhante.
Vendo aquela situação, Abu Jahl disse: “Ah, entendi! Esse tipo de consenso foi alcançado durante a noite; esse plano não foi elaborado aqui, mas em outro lugar.”
Naquele momento, Abu Talib também estava presente nas proximidades. O Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — havia lhe informado que Allah enviara uma espécie de inseto para destruir o documento; ele havia devorado e reduzido a pedaços os trechos que descreviam a injustiça e a opressão, restando apenas as partes onde estava escrito o nome de Allah.
Abu Talib disse aos coraixitas: “Meu sobrinho enviou-me para lhes dizer que Allah, exaltado seja, informou-o de que enviou um tipo de inseto que destruiu o documento de compromisso de vocês, deixando nele apenas o nome de Allah. Se isso for provado falso, afastar-me-ei dele e de vocês, e poderão fazer o que quiserem; mas, se for provado verdadeiro, vocês deverão cessar o tratamento injusto que nos têm infligido por meio do boicote.” Os coraixitas concordaram.
Quando terminou o debate entre Abu Jahl e os demais sobre esse assunto, Mut’im ibn Adi foi rasgar o documento de compromisso e descobriu que, exceto a parte onde estava escrito o nome de Allah, o restante havia sido realmente devorado pelos insetos. Depois que o documento foi rasgado, o boicote chegou ao fim, e o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e todos os demais saíram do desfiladeiro de Abu Talib. Os incrédulos ficaram maravilhados com esse sinal extraordinário, mas sua atitude não mudou. Allah, exaltado seja, diz: “E, quando veem algum milagre, esquivam-se e dizem: ‘Isto não passa de magia.’”
Os idólatras árabes também se afastaram desse sinal extraordinário da profecia e avançaram mais alguns passos no caminho de sua descrença. (O relato do boicote foi compilado das seguintes obras: Sahih al-Bukhari, vol. 1, pp. 216 e 548; Zad al-Ma’ad, vol. 2, p. 46; Ibn Hisham, vol. 1, pp. 350–351, 347 e 377; Rahmat lil-‘Alamin, vol. 1, p. 70; Mukhtasar al-Sirah, Shaykh Abdullah, pp. 6, 10 e 110; Mukhtasar al-Sirah, Muhammad ibn Abd al-Wahhab, pp. 68 e 73.)
A última delegação dos coraixitas diante de Abu Talib
Depois de sair do desfiladeiro de Abu Talib, o nobre Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, retomou o trabalho de convocação e divulgação. Embora o boicote tivesse terminado, os perversos idólatras continuavam criando diversos obstáculos à propagação do Islam. Enquanto isso, Abu Talib prosseguia em seus esforços de longa data para proteger o sobrinho, mas estava curvado pelo peso da idade; já tinha mais de oitenta anos. Após vários anos consecutivos de tristezas, sofrimentos, perigos e calamidades, sua saúde havia se debilitado gravemente. Especialmente o cerco no desfiladeiro havia esgotado suas forças e capacidades. Poucos meses depois de sair dali, ele adoeceu gravemente. Nesse período, os idólatras pensaram: “Abu Talib está adoecendo rapidamente, e sua vida pode terminar a qualquer momento. Se, depois da morte dele, fizermos algo excessivo contra seu sobrinho, teremos má reputação. As pessoas dirão que estamos aproveitando a ausência do protetor.” Por isso, enquanto Abu Talib ainda estivesse vivo, queriam chegar a uma decisão sobre o Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Não estavam dispostos a fazer concessões nesse assunto. Depois de conversarem entre si, uma delegação foi à presença de Abu Talib; era a última delegação dos coraixitas a visitá-lo.
Ibn Ishaq e outros narraram que, depois que Abu Talib adoeceu, os coraixitas temeram que ele subitamente desse o último suspiro. Diziam entre si: “Vejam, Hamza e Umar tornaram-se muçulmanos, e a religião de Muhammad espalhou-se por todas as tribos dos coraixitas. Portanto, vamos a Abu Talib e peçamos que mantenha seu sobrinho sob controle; assim poderemos chegar a um acordo com ele. Tememos que, se no futuro pessoas comuns cometerem algum abuso contra Muhammad, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, o povo nos critique. Dirão que, enquanto Abu Talib estava vivo, não ousávamos fazer nada, mas agora encontramos uma oportunidade.”
Em suma, a delegação dos coraixitas foi discutir com Abu Talib. Homens eminentes dos coraixitas também faziam parte da delegação: Abu Jahl ibn Hisham, Umayya ibn Khalaf, Abu Sufyan ibn Harb e outros; ao todo, eram vinte e cinco. Eles disseram: “Ó Abu Talib, você não desconhece a posição que ocupa entre nós, nem desconhece a situação em que atualmente passa seus dias. Tememos que os dias de sua vida estejam chegando rapidamente ao fim. Você não ignora nossa disputa com seu sobrinho. Queremos que o chame e estabeleça um entendimento entre nós e ele. Queremos assumir alguns compromissos com ele e que ele também assuma alguns compromissos conosco. Nós o deixaremos seguir sua religião, e ele também deverá nos deixar seguir a nossa.”
Depois de ouvir tudo isso, Abu Talib mandou chamar seu amado sobrinho, Muhammad, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Quando ele chegou, disse: “Veja, sobrinho: eles são os homens honrados do seu povo e se reuniram por sua causa. Querem obter de você alguns compromissos.” Em seguida, Abu Talib apresentou a ele a proposta deles: queriam que você não interferisse na religião deles, e que eles também não interferissem na sua religião.
Ao ouvir isso, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse à delegação dos coraixitas: “Digam-me: se eu lhes apresentar uma palavra que, caso a aceitem, fará de vocês os reis dos árabes e colocará os não árabes sob seu controle, o que farão?” Outra narração menciona que ele se dirigiu a Abu Talib e disse: “Quero que eles reconheçam uma palavra; se a reconhecerem, toda a Arábia ficará sob seu domínio e os não árabes lhes pagarão a jizia.” Segundo outra narração, ele disse: “Tio, convide-os a algo que será bom para eles.” Abu Talib perguntou: “A que queres convidá-los?” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, respondeu: “Quero convidá-los a algo que, se aceitarem, fará toda a Arábia obedecer-lhes e estabelecerá sua autoridade também sobre os não árabes.” Numa narração de Ibn Ishaq consta que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Aceitem apenas uma palavra; com isso, tornar-se-ão os reis da Arábia, e os não árabes ficarão sob seu controle.”
Em suma, depois de ouvirem essa proposta, a delegação dos coraixitas ficou perplexa. Admirados, começaram a pensar: se aceitar uma única palavra traz um benefício tão grande, como poderemos ignorá-la? Abu Jahl disse: “Dize essa palavra! Juro por teu pai que, se fossem dez palavras desse tipo, estaríamos prontos para aceitá-las.” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Digam: La ilaha illallah — não há divindade além de Allah — e abandonem a obediência e a adoração de todos os demais.” Ao ouvirem isso, os coraixitas bateram palmas e disseram: “Ó Muhammad, devemos adorar um único Deus? Realmente, o teu assunto é muito estranho.”
Depois, disseram uns aos outros: “Por Allah, este homem não está disposto a aceitar nenhuma de nossas palavras. Portanto, venham, permaneçamos firmes na religião de nossos antepassados; depois, Allah decidirá entre ele e nós.” Dizendo isso, levantaram-se e foram embora. Depois desse acontecimento, Allah, o Altíssimo, revelou sobre eles estes versículos: “Pelo Alcorão cheio de admoestação, certamente és veraz; porém, os incrédulos estão mergulhados na arrogância e na oposição. Quantas gerações destruí antes deles! Então clamaram, mas já não havia meio de escapar. Admiram-se de que tenha vindo até eles um admoestador dentre eles mesmos, e os incrédulos dizem: ‘Este é um feiticeiro mentiroso. Pretende ele transformar todas as divindades em uma só divindade? Isso é realmente algo extraordinário.’ E seus líderes se afastam, dizendo: ‘Ide embora e permanecei firmes na adoração de vossos deuses. Certamente, isto tem um propósito. Não ouvimos coisa semelhante em nenhuma outra religião; isto não passa de uma afirmação inventada.’ (Ibn Hisham, vol. 1, pp. 7, 4, 419; Mukhtasar as-Sirah, Sheikh Abdullah, p. 91.) (38:1–7).
O Ano da Tristeza e da Dor
O falecimento de Abu Talib
A doença de Abu Talib se agravou e, algum tempo depois, ele faleceu. Abu Talib morreu no mês de Rajab, no décimo ano da missão profética, seis meses depois de ser libertado do cerco no desfiladeiro. (Sahih al-Bukhari, capítulo sobre a história de Abu Talib, vol. 1, p. 548.) Outra narração menciona que ele faleceu no mês de Ramadan, três dias antes do falecimento da Senhora Khadija.
É narrado por Musayyab, no Sahih al-Bukhari, que, quando se aproximou a hora do falecimento de Abu Talib, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, foi até ele. Abu Jahl também estava presente. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Meu querido tio, diga apenas La ilaha illallah; se fizeres esta declaração, poderei interceder por ti junto a Allah.” Abu Jahl e Abdullah ibn Umayya disseram: “Ó Abu Talib, acaso abandonarás a religião de Abd al-Muttalib?” Então os dois continuaram falando com Abu Talib. As últimas palavras de Abu Talib foram: “Sobre a religião de Abd al-Muttalib.” O Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Continuarei pedindo perdão por ti até que eu seja proibido.” Então Allah, o Altíssimo, revelou este versículo: “Não é permitido ao Profeta nem aos crentes pedir perdão pelos idólatras, ainda que sejam parentes, depois de se tornar claro que são habitantes do Inferno.” (9:113).
A esse respeito, Allah, o Altíssimo, também revelou o seguinte versículo: “Certamente, não podes guiar quem amas, mas Allah guia quem quer, e Ele conhece melhor os que seguem a orientação.” (Sahih al-Bukhari, capítulo sobre a história de Abu Talib, vol. 1, p. 548.) (28:56).
Não é necessário explicar de que maneira Abu Talib ajudou e apoiou o Profeta; na realidade, diante dos ataques dos líderes coraixitas e dos ignorantes de Meca contra o Islã, ele era como uma fortaleza. Contudo, ele próprio permaneceu firme e inabalável na religião de seus antepassados. Por isso, é narrado no Sahih al-Bukhari, por intermédio de Abbas ibn Abd al-Muttalib, que ele perguntou ao Profeta: “De que você lhe valeu, tio? Ele o protegia e assumia, por sua causa, o risco de discutir, entrar em conflito e despertar a hostilidade dos outros.” O Mensageiro de Allah respondeu: “Ele permanecerá no nível mais profundo do Inferno.” (Sahih al-Bukhari, capítulo sobre o relato de Abu Talib, vol. 1, p. 548.)
Abu Sa’id al-Khudri relata que, certa vez, quando se mencionou o tio do Profeta diante dele, ele disse: “No Dia da Ressurreição, talvez minha intercessão lhe seja útil em alguma medida. Ele será colocado numa parte elevada do Inferno, mas o fogo chegará apenas até os joelhos de ambos os pés.” (Sahih al-Bukhari, capítulo sobre o relato de Abu Talib, vol. 1, p. 548.)
O falecimento de Khadija
Dois meses — segundo alguns, apenas três dias — após o falecimento de Abu Talib, a Mãe dos Crentes, Khadija al-Kubra, deixou este mundo. Ela faleceu no mês de Ramadan do décimo ano da missão profética. Naquela época, tinha 65 anos, enquanto o Mensageiro de Allah se aproximava dos 50. (Ibn al-Jawzi menciona o falecimento no mês de Ramadan na sétima página de Talqih al-Fuhum, e o erudito Mansurpuri também o registra em sua obra Rahmat lil-‘Alamin.)
Para o Mensageiro de Allah, Khadija foi uma bênção especial de Allah. Durante um quarto de século, ela foi sua companheira de vida. Nesse período, seu coração se afligia pelo amado marido nos momentos de tristeza, sofrimento e adversidade; nas horas difíceis, ela lhe dava confiança; acompanhava-o na transmissão da religião e aliviava suas dores e sofrimentos, oferecendo para isso tanto sua própria pessoa quanto seus bens. O Mensageiro de Allah disse: “Quando as pessoas descreram de mim, Khadija acreditou em mim; quando me consideraram mentiroso, ela me confirmou como veraz; quando as pessoas me privaram, ela me tornou sócio de sua riqueza; e Allah me concedeu filhos por meio dela, enquanto não me concedeu filhos por meio de nenhuma outra esposa.” (Musnad Ahmad, vol. 6, p. 118.)
É narrado no Sahih al-Bukhari, por intermédio de Abu Hurayra, que Jibril foi até o Profeta e disse: “Ó Mensageiro de Allah, eis que Khadija vem, trazendo um recipiente que contém comida ou bebida. Quando ela chegar até você, transmita-lhe as saudações de seu Senhor e anuncie-lhe a boa-nova de uma casa de pérolas no Paraíso, onde não haverá barulho nem tumulto, e onde ninguém será tomado pelo cansaço ou pela exaustão.” (Sahih al-Bukhari, capítulo sobre a preparação do Profeta, vol. 1, p. 539.)
Tristeza, preocupação e sofrimento emocional
Os dois acontecimentos mencionados ocorreram no intervalo de poucos dias, deixando o Mensageiro de Allah profundamente abatido pela dor e pelo luto. Além disso, ele continuava sendo submetido à perseguição, à opressão e aos maus-tratos por parte de seu próprio povo, pois, após a morte de Abu Talib, eles haviam ganhado coragem e começaram a causar sofrimento abertamente ao Profeta. Em tal situação, o Mensageiro de Allah foi a Ta’if, esperando interiormente que seus habitantes talvez aceitassem o convite para a religião que ele pregava, lhe oferecessem proteção e o ajudassem diante da oposição de seu próprio povo.
Mas ali não se encontrou nenhum ajudante ou protetor; pelo contrário, ele foi submetido a perseguições e maus-tratos. Foi tratado de maneira tão cruel que os membros de seu povo jamais o haviam tratado assim. Os detalhes disso serão mencionados mais adiante.
Não será descabido dizer aqui que, assim como os habitantes de Meca perseguiram e maltrataram o Profeta, também infligiram o mesmo tipo de sofrimento a seus companheiros. Abu Bakr, o querido companheiro do Mensageiro de Allah, exausto com essa perseguição, partiu em direção à Abissínia. No caminho, encontrou Ibn al-Daghina, um homem influente de Meca, que assumiu a responsabilidade de acolhê-lo sob sua proteção e o levou de volta a Meca. Akbar Shah Najibabadi mencionou que esse acontecimento ocorreu naquele mesmo ano; consulte Tarikh-e Islam, vol. 1, pp. 372–373, e Sahih al-Bukhari, vol. 1, pp. 552–553.
Ibn Ishaq mencionou que, após a morte de Abu Talib, os coraixitas infligiram ao Profeta uma perseguição tão intensa que jamais poderiam tê-la imaginado durante a vida de Abu Talib. Um tolo dos coraixitas aproximou-se e lançou terra sobre a cabeça do Mensageiro de Allah. Uma de suas filhas correu até ele e limpou a terra.
Enquanto limpava a terra, ela apenas chorava. Naquele momento, o Mensageiro de Allah a consolava, dizendo: “Minha filha, não chore; Allah protegerá seu pai.” Naquela ocasião, o Mensageiro de Allah também dizia: “Os coraixitas não me trataram de uma maneira tão ruim que isso me tivesse causado sofrimento.” Foi nesse estado de coisas que Abu Talib morreu (Ibn Hisham, vol. 1, p. 416).
Devido a esse tipo de perseguição e sofrimento que se sucedeu, o Mensageiro de Allah deu àquele ano o nome de ‘Am al-Huzn’, isto é, o Ano da Tristeza. Esse ano ficou famoso na história por esse nome.
O casamento com Sawda
Naquele ano, isto é, no mês de Shawwal do décimo ano da profecia, o Mensageiro de Allah casou-se com Sawda bint Zam’a. Sawda havia aceitado o Islã nos primeiros tempos da profecia e também havia migrado para a Abissínia na segunda Hégira. Seu marido chamava-se Sakran ibn Amr, que também havia aceitado o Islã nos primeiros tempos. Sawda migrou com ele para a Abissínia, mas ele morreu ali — segundo outra versão, no caminho de volta para Meca. Depois que terminou o período de espera legal de Sawda, o Mensageiro de Allah pediu-a em casamento e casou-se com ela. Após o falecimento de Khadija, ela foi a esposa do Mensageiro de Allah. Alguns anos mais tarde, ela ofereceu seu turno a Aisha (Rahmat li-l-‘Alamin, vol. 2, p. 165; Talqih al-Fuhum, p. 6).
A paciência e a perseverança dos companheiros que aceitaram o Islã nos primeiros tempos
Como os muçulmanos conseguiram permanecer firmes e inabaláveis mesmo naquele período de sofrimento tão terrível? Ao refletir sobre isso, até mesmo uma pessoa de coração forte fica maravilhada com a paciência e a tolerância demonstradas pelos muçulmanos diante de perseguições tão cruéis. Ao ler os relatos dessas opressões e perseguições, o corpo e a mente estremecem. Que força magnética era essa que fazia os muçulmanos permanecerem tão inabaláveis? A seguir, será feita uma breve exposição sobre isso.
I. A beleza da fé
A primeira e mais importante razão é a fé em Allah e o conhecimento correto sobre Ele. A beleza e a doçura da fé permanecem firmes mesmo quando colidem com uma montanha. Quem possui uma fé tão sólida e forte não dá a qualquer opressão ou perseguição mais importância do que à espuma que flutua sobre o mar. É por isso que o servo crente não se importa com nenhuma adversidade ou obstáculo diante da doçura e do encanto da fé.
Allah, o Altíssimo, diz: “Quanto ao que é inútil, ele é lançado fora; e quanto ao que é útil às pessoas, permanece na terra” (17, 13).
II. Uma liderança atraente
O Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, era o maior líder da comunidade islâmica, ou melhor, de toda a humanidade. Ao contemplar sua beleza física, sua perfeição mental, seu caráter admirável, sua personalidade extraordinária, seus hábitos refinados e sua diligência, surgia espontaneamente o desejo de amá-lo e de dedicar-lhe inteiramente o coração. Todas as qualidades que as pessoas apreciam de coração e alma estavam nele presentes em tal abundância que ninguém mais havia recebido tantas virtudes reunidas. O Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, ocupava o mais elevado posto em dignidade, excelência, nobreza e beleza de caráter. Possuía em grau tão elevado qualidades como clemência, confiabilidade, honestidade, veracidade e tolerância, entre outras, que nem mesmo seus inimigos jamais duvidaram de sua singularidade e superioridade. Quando ele pronunciava uma palavra, seus próprios inimigos sabiam que ela era verdadeira e certamente se realizaria. Vários acontecimentos comprovam isso.
Certa vez, três homens dos coraixitas se reuniram. Cada um deles havia escutado secretamente a recitação do Alcorão, mas nenhum revelou isso aos demais. Abu Jahl era um deles. Um dos outros dois perguntou a Abu Jahl: “Diga-me, o que você acha de tudo o que ouviu de Maomé?” Abu Jahl respondeu: “O que foi que eu ouvi? A verdade é que nós e os Banu Abd Manaf competíamos uns com os outros em nobreza e prestígio. Quando eles alimentavam os pobres, nós também o fazíamos; quando eles davam esmolas, nós também dávamos. Eles e nós éramos rivais, como dois competidores numa corrida de cavalos. Então, Abd Manaf começou a dizer: ‘Há entre nós um profeta que recebe revelação do céu.’ Como poderíamos obter uma revelação assim? Juro por Deus, jamais acreditarei nesse homem, nem o reconhecerei como veraz.” (Ibn Hisham, volume 1, p. 216).
Já foi mencionado anteriormente o relato de que, certo dia, os politeístas insultavam o Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Fizeram isso três vezes seguidas. Na terceira vez, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, parou e disse: “Ó coraixitas, trouxe-vos animais para serem abatidos.” Ao ouvirem isso, os incrédulos começaram a tentar agradar o Mensageiro de Allah com palavras amáveis. Também já foi mencionado que, enquanto o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, se prostrava, alguns incrédulos colocaram as entranhas de um camelo sobre seu pescoço. Ao terminar a oração, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, lançou uma maldição contra aqueles que haviam praticado tal ato. Ao ouvirem essa maldição, o sorriso desapareceu do rosto dos incrédulos; eles ficaram profundamente preocupados, pois sabiam com certeza que, dessa vez, não escapariam.
Também foi mencionado que, depois que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, lançou uma maldição contra Otaiba, filho de Abu Lahab, este compreendeu que não escaparia das consequências. Durante uma viagem à Síria, ao ver um leão, disse: “Juro por Allah, Muhammad me matou enquanto ainda estava em Meca.”
No episódio de Ubayy ibn Khalaf consta que esse homem ameaçava repetidamente matar o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Em resposta a uma dessas ameaças, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse certa vez: “Não serás tu; pelo contrário, eu é que te matarei, se Allah quiser.” Depois, na batalha de Uhud, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, tomou uma lança das mãos de outro companheiro e a arremessou contra Ubayy, causando-lhe um pequeno ferimento próximo ao pescoço. Mais tarde, Ubayy repetia: “Muhammad disse em Meca: ‘Eu te matarei’. Mesmo que ele tivesse cuspido em mim, minha alma teria deixado meu corpo” (Ibn Hisham, vol. 2, p. 84). O relato detalhado será mencionado posteriormente.
Certa vez, em Meca, Hazrat Sa‘d ibn Mu‘adh disse a Umayya ibn Khalaf: “Ouvi o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, dizer que os muçulmanos te matarão.” Ao ouvir isso, Umayya ficou extremamente assustado; esse medo sempre o acompanhava. Ele jurava que jamais sairia de Meca. Na época da batalha de Badr, depois de Abu Jahl insistir para que Umayya participasse da batalha, ele comprou o camelo mais veloz, para poder fugir rapidamente caso surgisse algum perigo. Quando partia para a batalha, sua esposa lhe disse: “Abu Safwan, esqueceste o que disse teu irmão de Yathrib?” Umayya respondeu: “Não esqueci; apenas irei com eles por uma curta distância” (Sahih al-Bukhari, vol. 2, p. 563).
Essa era a situação dos inimigos do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz; quanto aos seus companheiros, sua condição era tal que estavam devotados de coração e alma ao amado Profeta. O amor dos companheiros pelo Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, era tão intenso quanto o fluxo de água de uma fonte montanhosa. Assim como o ferro é atraído pelo ímã, os companheiros também eram atraídos pelo Mensageiro de Allah.
O poeta diz: “Seu rosto era a essência de todos os corpos humanos; sua existência era como um ímã para todos os corações.”
Foi por causa desse amor e dessa devoção que os nobres companheiros não conseguiam suportar que alguém sequer arranhasse o Mensageiro de Allah ou que um espinho penetrasse em seu pé; em troca disso, estavam dispostos até a oferecer a própria cabeça.
Certa vez, o perverso Utba ibn Rabi‘a espancou violentamente Hazrat Abu Bakr al-Siddiq, que Allah esteja satisfeito com ele, deixando seu rosto coberto de sangue. Em determinado momento, devido à intensidade das agressões, ele perdeu a consciência. Ao saber do ocorrido, membros de sua tribo, Banu Taym, envolveram-no em um pano e o levaram para casa. Todos haviam perdido a esperança de que sobrevivesse. Ao recuperar a consciência no fim do dia, perguntou primeiro: “Como está o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz?” Ao ouvirem isso, os membros de Banu Taym que estavam presentes demonstraram irritação. Quando se levantaram para sair, disseram à mãe de Abu Bakr: “Vejam se conseguem dar-lhe alguma coisa para comer.” Abu Bakr, que Allah esteja satisfeito com ele, perguntou à sua mãe, Umm al-Khayr, sobre o Mensageiro de Allah. Ela respondeu: “Não sei, meu filho.” Hazrat Abu Bakr disse: “Mãe, vá até Umm Jamil, filha de Khattab, e traga-me notícias do Mensageiro de Allah.” Umm al-Khayr foi até Umm Jamil e disse-lhe: “Abu Bakr quer saber de ti sobre Muhammad ibn Abdullah.” Umm Jamil respondeu: “Não conheço Abu Bakr, nem conheço Muhammad ibn Abdullah; porém, se quiseres, posso ir até Abu Bakr.” Umm al-Khayr levou Umm Jamil até seu filho. Ao ver o estado de Abu Bakr, Umm Jamil gritou e disse: “Sem dúvida, os membros da tribo que te deixaram nesse estado são perversos e descrentes. Espero que Allah Todo-Poderoso Se vingue deles em teu favor.” Hazrat Abu Bakr perguntou por notícias do Mensageiro de Allah. Umm Jamil fez um sinal para Umm al-Khayr. Hazrat Abu Bakr disse: “Não há problema.” Umm Jamil respondeu: “Ele está bem e encontra-se na casa de Ibn al-Arqam.” Hazrat Abu Bakr disse: “Juro que não comerei nem beberei nada até que me levem ao Mensageiro de Allah.” Umm al-Khayr e Umm Jamil esperaram. Depois que o movimento das pessoas diminuiu, ao anoitecer, e a escuridão se tornou profunda, Hazrat Abu Bakr foi levado à presença do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, apoiado nos ombros de sua mãe, Umm al-Khayr, e de Umm Jamil (Al-Bidaya wa al-Nihaya, vol. 3, p. 30).
Outros acontecimentos extraordinários de amor e devoção foram mencionados em diferentes partes do livro, especialmente no relato da batalha de Uhud e no episódio de Hazrat Zubayr, que Allah esteja satisfeito com ele.
3. Consciência da responsabilidade
Os nobres Companheiros sabiam muito bem que não havia como negligenciar as responsabilidades impostas aos seres humanos, por mais difíceis que fossem, pois as consequências de negligenciá-las seriam ainda mais terríveis: toda a humanidade sofreria prejuízos. Em comparação com esse prejuízo, nenhuma opressão, injustiça, perigo ou calamidade tinha qualquer importância.
4. Crença na Vida Futura
A crença na vida futura, ou na Outra Vida, inspirou-os a serem rigorosamente disciplinados e pacientes no cumprimento dessas responsabilidades. Os nobres Companheiros mantinham uma fé firme e inabalável de que um dia teriam de comparecer diante de Allah, o Senhor dos mundos, onde prestariam contas de todas as ações da vida, grandes e pequenas; depois, poderiam ser admitidos no Paraíso repleto de bênçãos ou no Inferno cheio de terríveis castigos. Fortalecidos por essa crença, os nobres Companheiros viviam uma vida repleta de esperança e temor: esperavam a misericórdia de Allah, seu amado Senhor, e temiam Seu castigo. Allah, o Altíssimo, menciona assim a condição deles no Alcorão Sagrado: eles fazem o que fazem com o coração cheio de temor, porque terão de retornar ao seu Senhor.
Eles também acreditavam firmemente que todos os confortos, prazeres, bem-estar, tristezas e sofrimentos deste mundo não tinham, em comparação com a Outra Vida, sequer o valor equivalente à asa de um mosquito. Essa crença era tão firme e inabalável que, diante dela, todas as adversidades, amarguras, tristezas e sofrimentos mundanos lhes pareciam insignificantes.
5. Uma situação cada vez mais difícil
Nos versículos do Alcorão que eram revelados gradualmente, os ensinamentos fundamentais e os ideais do Islam eram apresentados de maneira atraente. Esses versículos fortaleciam ainda mais, diante da humanidade, a vivacidade e a firmeza da fé da mais honrosa e distinta sociedade islâmica. Allah, o Altíssimo, apresentava vários exemplos e ensinava aos muçulmanos a sabedoria e os métodos adequados. Assim, Allah, o Altíssimo, diz: “Pensais que entrareis no Paraíso sem que vos tenha sobrevindo algo semelhante ao que sobreveio aos que vos precederam? Atingiram-nos a miséria e a adversidade, e foram abalados, a ponto de o Mensageiro e os que creram com ele dizerem: ‘Quando chegará o auxílio de Allah?’ Sim, o auxílio de Allah está próximo.” (2:214).
Allah, o Altíssimo, também diz: “Alif-Lam-Mim. As pessoas pensam que serão deixadas em paz apenas por dizerem: ‘Cremos’, sem serem postas à prova? Nós já pusemos à prova os que vieram antes delas. Allah certamente distinguirá os verdadeiros dos mentirosos.” (29:1–3).
Ao mesmo tempo, eram revelados versículos que ofereciam respostas contundentes às diversas perguntas dos descrentes e politeístas; nenhuma de suas desculpas podia resistir ao exame. Era-lhes dito claramente que, se permanecessem firmes em seu desvio e obstinação, o resultado seria terrível. Como exemplo, eram apresentados acontecimentos e exemplos históricos de povos anteriores, nos quais se expunha a lei de Allah acerca do Mensageiro de Allah e dos descrentes. Ao mesmo tempo, também eram mencionadas a misericórdia, o perdão e a orientação. Tudo isso era dito para que os incrédulos se abstivessem de seu desvio e extravio.
Na realidade, o Sagrado Alcorão conduziu os muçulmanos a uma realidade diferente e apresentou diante deles exemplos extraordinários, para que não se deixassem abater e para que nenhuma dificuldade ou adversidade pudesse desviá-los do caminho de alcançar a satisfação de Allah.
Nesses versículos, também eram transmitidas aos muçulmanos palavras pelas quais eles podiam receber de Allah as boas-novas do Paraíso, repleto de misericórdia e bênçãos. Quanto aos incrédulos, sua situação era descrita de tal maneira que soubessem que seriam levados à presença de Allah para o julgamento; não teriam qualquer lugar para as boas ações de sua vida terrena. Pelo contrário, seriam arrastados e lançados no Inferno, e lhes seria dito: “Agora provem o tormento do Inferno para sempre.”
Seis. Paciência rigorosa
Além de tudo isso, os muçulmanos sabiam, não apenas desde o início de sua perseguição, mas mesmo antes dela, que aceitar o Islã não significava ter de suportar sofrimento e dificuldades para sempre. Pelo contrário, a essência do chamado do Islã era o fim da Era da Ignorância, o desenraizamento de todas as formas de injustiça, perseguição, opressão e sistemas tirânicos. Um dos objetivos do chamado do Islã também era que os muçulmanos expandissem sua influência no mundo e alcançassem uma vitória política que permitisse conduzir todas as pessoas ao caminho da vontade e da satisfação de Allah, libertando-as da servidão aos seres humanos e fazendo-as entrar na servidão a Allah.
Essas boas-novas do Sagrado Alcorão eram reveladas ora por alusão, ora abertamente. Por um lado, embora fosse ampla, a terra estava se tornando estreita para os muçulmanos, e era difícil que sobrevivessem; havia um grupo de pessoas constantemente empenhado em expulsá-los por completo. Por outro lado, eram revelados versículos para fortalecer o poder, a coragem e o ânimo dos muçulmanos, nos quais eram narrados acontecimentos do passado: em épocas anteriores, os profetas haviam sido desmentidos e também haviam sido submetidos a perseguição e opressão. O quadro traçado nesses versículos correspondia exatamente à situação dos muçulmanos e dos descrentes de Meca. Por fim, mencionava-se como os incrédulos anteriores haviam sido destruídos e como os servos virtuosos de Allah haviam sido feitos herdeiros de Sua terra. Como resultado, os incrédulos de Meca seriam derrotados e fracassariam, enquanto os muçulmanos e o chamado do Islã alcançariam a vitória. Nesse período, também foram revelados versículos que anunciavam claramente a vitória dos crentes. Assim, Allah, o Senhor dos mundos, diz: “Minha sentença já foi previamente estabelecida acerca dos Meus servos enviados: certamente serão socorridos, e Meu exército será vitorioso. Portanto, afasta-te deles por algum tempo; observa-os, pois em breve verão.”
Será que eles querem apressar o Meu castigo? Quando o castigo descer sobre seus pátios, a retribuição dos advertidos será terrível e abominável (171, 177, 37).
Allah, o Altíssimo, também diz: “Este grupo será em breve derrotado e dará as costas” (45, 54).
Também esse exército de muitos grupos será certamente derrotado nesse caso (11, 38).
Sobre aqueles que emigraram para a Abissínia, Allah, o Altíssimo, diz:
Aos que emigraram pelo caminho de Allah depois de terem sido injustiçados, concederei certamente uma excelente morada neste mundo; e a recompensa da Outra Vida é ainda melhor. Ah, se eles soubessem! (42.16).
Depois que os incrédulos perguntaram ao Mensageiro de Allah sobre o relato de José, Allah, o Altíssimo, disse: “Há sinais para os que perguntam” (7, 12). Isto é, hoje os habitantes de Meca perguntam sobre o relato de José e fracassarão exatamente da mesma maneira que fracassaram os irmãos de José. O destino deles será semelhante ao destino dos irmãos de José. Portanto, os habitantes de Meca deveriam aprender com a história de José e de seus irmãos e compreender qual é o destino dos injustos. Em certa passagem, ao tratar dos profetas, Allah, o Altíssimo, diz que os incrédulos disseram aos seus mensageiros: “Nós certamente vos expulsaremos de nossa terra, ou tereis de retornar à nossa religião”. Então, o seu Senhor revelou aos mensageiros: “Certamente destruirei os injustos” (13–14, 14).
Quando as chamas da guerra ardiam na Pérsia e em Roma, os incrédulos desejavam que os persas vencessem, enquanto os muçulmanos desejavam a vitória dos romanos, pois os romanos afirmavam crer em Allah, nos profetas, na revelação e nos Livros Celestiais. Quando surgiu a possibilidade de uma vitória dos persas, Allah anunciou a boa-nova de que, após alguns anos, os romanos venceriam. Não foi dada apenas essa boa-nova; Allah também anunciou que, no momento da vitória dos romanos, ajudaria especialmente os crentes. Ao receberem essa ajuda, eles se alegrariam. Allah, o Altíssimo, diz: “E, nesse dia, os crentes se regozijarão com a ajuda de Allah” (45, 30). Mais tarde, a vitória e o sucesso dos muçulmanos na batalha de Badr comprovaram a veracidade da palavra de Allah.
Além dos anúncios do Alcorão, o Mensageiro de Allah também dava aos muçulmanos, em diversas ocasiões, boas-novas desse tipo. Durante a peregrinação, nos mercados de Ukaz, Majanna e Zulmajaz, o Mensageiro de Allah anunciava sua missão profética às pessoas: “Ó gente! Dizei: não há divindade além de Allah; com isso sereis bem-sucedidos. Por meio disso, sereis os reis dos árabes, e os demais se submeterão a vós; e, depois da morte, também sereis reis dentro do Paraíso” (Jami‘ at-Tirmidhi).
Já foi mencionado anteriormente que, quando Utba ibn Rabi‘a tentou seduzir o Mensageiro de Allah com os prazeres, o luxo e as riquezas mundanas, e ele, em resposta, recitou para ele alguns versículos da Surata Fussilat, Utba predisse que, no fim, seriam os muçulmanos que triunfariam.
Já foi mencionada anteriormente a resposta dada pelo Mensageiro de Allah quando a última delegação dos coraixitas foi encontrar-se com Abu Talib. Também nessa ocasião, o Mensageiro de Allah disse com plena firmeza: “Crede na unicidade de Allah; com isso, toda a Arábia se submeterá a vós, e estabelecereis também o vosso domínio sobre os não árabes”.
Hazrat Khabbab ibn Aratt (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: Certa vez, fui ter com o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — e ele estava deitado à sombra da Caaba, usando um manto como travesseiro. Naquela época, éramos torturados e humilhados pelas mãos dos politeístas. Eu disse: “Ó Mensageiro de Allah, não poderia suplicar a Allah?” Ao ouvir isso, ele se sentou; seu rosto ficou vermelho e ele disse: “Antes de vós, a situação dos crentes chegou a ser tal que sua carne era arrancada com pentes de ferro, restando apenas os ossos; contudo, nem mesmo uma perseguição assim conseguia afastá-los da fé na religião de Allah.” Depois disse: “Allah levará a religião à sua plenitude. Um cavaleiro viajará de Sanaá até Hadramaut sem temer ninguém além de Allah. Sim, ainda haverá o temor de que um lobo ataque as cabras.” (Sahih al-Bukhari, vol. 1, p. 543).
Também é mencionado em uma narração: “Mas vós vos apressais.” (Sahih al-Bukhari, vol. 1, p. 51).
É preciso lembrar que essas boas-novas não eram algo secreto; eram amplamente conhecidas. Assim como os muçulmanos, os incrédulos e descrentes também sabiam dessas coisas. Sempre que Aswad ibn al-Muttalib e seus companheiros viam os nobres Companheiros, diziam entre si: “O rei de todo o mundo chegou até vós; em breve eles derrotarão Cosroes e César.” Enquanto diziam isso, assobiavam e batiam palmas. (Fiqh al-Sirah, p. 82).
Em suma, todas as injustiças, abusos, torturas e perseguições infligidos aos nobres Companheiros naquela época eram insignificantes diante da certeza de alcançar o Paraíso e das boas-novas recebidas. Os nobres Companheiros consideravam essas provações como uma nuvem que desapareceria com uma única rajada de vento.
Além disso, os Companheiros forneciam regularmente alimento espiritual aos crentes, dando-lhes uma compreensão clara da maturidade de sua fé e purificando suas mentes por meio do ensino do Alcorão. O treinamento islâmico, o fortalecimento espiritual, a purificação mental e o ensino da beleza moral elevavam o ânimo dos Companheiros. O Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — transformava as centelhas quase extintas da fé dos Companheiros em chamas brilhantes; tirava-os das trevas e conduzia-os à luz da orientação. Como resultado, seu conhecimento religioso e sua fé haviam se desenvolvido muitas vezes mais. Abandonando a escravidão aos desejos, avançavam pelo caminho da satisfação de Allah. Haviam-se empenhado no desejo de se tornar habitantes do Paraíso, na busca do conhecimento e na autocrítica. Por essas razões, a tortura e a perseguição dos politeístas não conseguiram afastá-los do caminho de seu objetivo. Permaneceram firmes e inabaláveis na paciência e na perseverança, e cada um deles se tornou um modelo luminoso para toda a humanidade.
Terceira fase: o convite ao Islã fora de Meca
O Mensageiro de Allah em Taife
No início do décimo ano da missão profética — no fim de maio ou no início de junho de 619 d.C. (Maulana Nadjibadi menciona detalhadamente este assunto na página 122 do primeiro volume de Tarikh-e Islam; em minha opinião, esta é a data correta) — o Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, foi a Taife. Taife situava-se a sessenta milhas de Meca. O Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — percorreu a pé todo o trajeto de ida e volta, de cento e vinte milhas. Com o Mensageiro de Allah estava seu escravo liberto, Zaid ibn Harithah (que Allah esteja satisfeito com ele). Ao longo do caminho para Taife, ele convidava as pessoas ao Islã, mas ninguém aceitou seu convite. Ao chegar a Taife, o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — foi até os três chefes da tribo de Thaqif. Eles eram irmãos e chamavam-se Abd Yalil, Masud e Habib. Seu pai chamava-se Amr ibn Umayr al-Thaqafi. Quando o Mensageiro de Allah chegou até eles, convidou-os à obediência a Allah e a apoiar o Islã. Em resposta, um deles disse, em tom de zombaria: “Que ele rasgue a cortina da Caaba, se Allah realmente o fez Mensageiro.” (Na língua urdu, essa expressão corresponde à ideia de: “Se és um profeta, que Allah me destrua.” Com isso, pretendia-se dizer que era impossível que alguém como tu fosse profeta, assim como é impossível atacar a Caaba.)
Outro disse: “Allah não encontrou ninguém além de você?” O terceiro disse: “Não quero falar absolutamente nada com você, pois, se você for um profeta, será perigoso para mim rejeitar suas palavras; e, se você estiver inventando mentiras em nome de Allah, então não devo falar com você.” Ao ouvir isso, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) levantou-se e disse: “Se vocês fazem o que estão fazendo, mantenham isso em segredo.”
O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) permaneceu dez dias em Taife. Durante esse período, foi até todos os líderes de Taife, isto é, os chefes das tribos, e convidou cada um deles para a religião. Mas todos disseram a mesma coisa: “Saia da nossa cidade.” Não se limitaram a dizer apenas isso; pelo contrário, incitaram meninos desordeiros. Quando ele estava voltando, aqueles meninos perversos começaram a segui-lo. Eles insultavam o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), batiam palmas e faziam muito alarde. Em pouco tempo, reuniram-se tantos meninos e pessoas perversas que formaram filas dos dois lados da estrada. Depois, começaram a insultá-lo e a atirar pedras, fazendo com que seus dois pés sangrassem e seus sapatos se enchessem de sangue. Enquanto isso, Hazrat Zaid ibn Haritha (que Allah esteja satisfeito com ele) protegia o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) como um escudo, e as pedras lançadas atingiam seu corpo, causando-lhe cortes em vários lugares da cabeça. Enquanto faziam alarde, os perversos continuaram seguindo o Mensageiro de Allah. Por fim, ele refugiou-se num jardim pertencente a Utba, Shaiba e Rabi’a, de Meca. Esse jardim ficava a três milhas de Taife. Depois que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) se refugiou ali, os perversos foram embora. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) encostou-se numa parede e sentou-se à sombra de uma videira. Depois de se acalmar um pouco, fez a súplica que ficou famosa como a súplica dos desamparados. Cada palavra dessa súplica mostra quanto sofrimento o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) sentiu devido ao mau tratamento dos habitantes de Taife e ao fato de ninguém ter acreditado; mostra também quão profunda era sua tristeza e sua dor interior. Nessa súplica, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Ó Allah, que és Todo-Poderoso, queixo-me a Ti da minha fraqueza, da minha impotência e da minha falta de valor aos olhos das pessoas. Ó Misericordioso Doador, Tu és o Senhor dos fracos e és também o meu Senhor. A quem me confiaste? Acaso me confias a alguém desconhecido que me tratará com rudeza, ou a um inimigo a quem Tu entregaste o controle dos meus assuntos? Se não estás irado comigo, não tenho tristeza nem pesar. Concede-me amplamente o Teu perdão. Busco refúgio na luz do Teu Ser, pela qual as trevas são afastadas e tudo ao redor se enche de luz. Todos os assuntos deste mundo e do Além estão em Tuas mãos. Que Tu faças descer sobre mim uma maldição ou me destruas, contanto que eu busque a Tua satisfação. Todo poder e toda força pertencem somente a Ti; não há poder nem força senão por meio do Teu poder.”
Os filhos de Rabi’a, ao verem a situação do Mensageiro de Allah, foram tomados de compaixão por ele; pensando no parentesco próximo, seus corações se abrandaram. Deram um cacho de uvas ao seu escravo cristão Addas e disseram: “Leva isto àquele homem.” Depois que o escravo Addas entregou o cacho de uvas ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), ele começou a comer dizendo: “Bismillah.”
Addas disse: “Ao comer, as pessoas daqui não costumam dizer esse tipo de coisa.” O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) perguntou: “De onde você é? Qual é a sua religião?” Ele respondeu: “Minha cidade é Nínive, e minha religião é o cristianismo.” O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Você é da terra do servo virtuoso Hazrat Yusuf.” Addas perguntou: “Como você conhece Yusuf?” O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) respondeu: “Ele era meu irmão. Ele era um profeta, e eu sou um profeta.” Ao ouvir isso, Addas inclinou-se sobre o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e beijou sua cabeça, suas mãos e seus pés.
Ao verem isso, os dois filhos de Rabi’a comentavam entre si: “Esse homem agora corrompeu a mente dos nossos escravos.” Quando Addas voltou para seus senhores, eles lhe perguntaram: “O que aconteceu?” Addas respondeu: “Na minha opinião, não há na Terra homem melhor do que esse. Ele me disse algo que ninguém, exceto um profeta, poderia saber.” Os filhos de Rabi’a disseram: “Olha, Addas, que esse homem não te afaste da tua fé. A tua religião é melhor do que a religião dele.”
Depois de permanecer algum tempo ali, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) saiu do jardim e partiu em direção a Meca. Mentalmente, estava devastado. Quando chegou a um lugar chamado Mana’il, Hazrat Jibril (que a paz esteja sobre ele) veio por ordem de Allah; com ele estavam também os anjos das montanhas. Eles vieram pedir permissão ao Mensageiro de Allah para que, caso ele assim ordenasse, esmagassem os habitantes daquele lugar entre duas montanhas.
O relato desse acontecimento foi transmitido por Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) no Sahih Bukhari. Ela disse: “Certo dia, perguntei ao Mensageiro de Allah: ‘Houve em sua vida algum dia mais difícil do que o dia de Uhud?’ O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) respondeu: ‘Entre as provações que sofri por parte do teu povo, o dia de Taife foi o mais terrível. Eu havia convidado os filhos de Abd Yalil ibn Abd Kulal para o Islam, mas eles não aceitaram meu convite. Cheguei a Qarn Tha’alib em estado de tristeza, sofrimento e perturbação mental, e ali respirei aliviado. Então levantei a cabeça e vi um pedaço de nuvem acima de mim. Olhando atentamente, vi Hazrat Jibril (que a paz esteja sobre ele). Ele me disse: “Allah ouviu tudo o que o teu povo te disse. Ele te enviou os anjos das montanhas.” Depois, os anjos das montanhas me chamaram, saudaram-me e disseram: “Ó Mensageiro de Allah, sim, isso é verdade. Se quiseres, esmagaremos essas pessoas entre as duas montanhas.”’ (Aqui, no Sahih Bukhari, é usada a palavra Akhshabain. Esse termo é empregado para designar as duas famosas montanhas de Meca, Abu Qubais e Qaiqaian. Essas duas montanhas ficam frente a frente, ao norte e ao sul da Caaba; naquela época, os habitantes de Meca viviam na área entre elas.)
O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Não. Espero que Allah faça surgir, entre os descendentes deles, pessoas que adorem somente a Allah e não associem ninguém a Ele.” (Sahih Bukhari, Livro da Criação, volume 1, p. 458.)
Na resposta do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, podem-se observar sua visão perspicaz, sua prudência, sua personalidade incomparável e sua elevada consciência humanitária. Em suma, a ajuda invisível vinda do alto acalmou seu coração. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, tomou o caminho de Meca. Ao chegar a um lugar chamado Vale de Nakhla, parou. Havia dois locais onde poderia permanecer: um chamava-se as-Sayl al-Kabir e o outro, Jayma. Ambos possuíam água, beleza natural e vegetação exuberante. Não se sabe com certeza em qual dos dois lugares ele permaneceu.
O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, passou alguns dias em Nakhla. Ali, Allah, o Senhor dos mundos, enviou-lhe dois grupos de jinn. O relato sobre eles é mencionado em dois lugares do Alcorão Sagrado: nas suratas Al-Ahqaf e Al-Jinn.
Na surata Al-Ahqaf, Allah, o Altíssimo, diz: “E lembra-te de quando atraímos para ti um grupo de jinns, para que ouvissem a recitação do Alcorão. Quando se apresentaram diante dele, disseram uns aos outros: ‘Escutai em silêncio.’ E, quando a recitação terminou, voltaram ao seu povo como admoestadores. Disseram: ‘Ouvimos a recitação de um Livro que foi revelado depois de Moisés; ele confirma os Livros anteriores e guia para a verdade e para um caminho reto. Ó nosso povo, atendei ao convocador de Allah e crede nele; Ele vos perdoará os pecados e vos protegerá de um castigo doloroso’” (29–31, 46).
Na surata Al-Jinn, Allah, o Altíssimo, diz: “Dize: Foi-me revelado que um grupo de jinns escutou atentamente e disse: ‘Ouvimos uma recitação admirável, que guia para o caminho reto; por isso, cremos nela e jamais associaremos qualquer parceiro ao nosso Senhor.’” O relato sobre eles se estende até o décimo quinto versículo da surata Al-Jinn.
Pelo modo como os versículos mencionados são narrados, entende-se que, no início, o Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, não sabia da vinda dos jinns. Depois de ser informado por meio dos versículos do Alcorão, o Mensageiro de Allah tomou conhecimento disso. Os versículos do Alcorão indicam que essa foi a primeira vinda dos jinns, enquanto diversos hadiths mostram que suas visitas continuaram posteriormente.
A vinda dos jinns e sua aceitação do Islã foram, na realidade, uma segunda ajuda proveniente de Allah; ele recebeu essa ajuda dos tesouros invisíveis de Allah. Outros versículos relacionados a esse acontecimento mostram que Allah, o Altíssimo, deu ao Seu amado Mensageiro boas-novas sobre o sucesso da convocação para a religião e declarou claramente que nenhuma força da Terra poderia permanecer como obstáculo ao êxito e ao progresso da convocação para a religião do Islã. Allah, o Altíssimo, diz: “Quem não atender ao convocador de Allah não poderá frustrar o propósito de Allah na Terra, e não terá protetor algum além d’Ele. Esses estão em evidente erro” (32, 46).
Allah, o Altíssimo, relata as palavras dos incrédulos: “Compreendemos que jamais poderemos tornar Allah impotente na Terra, nem poderemos escapar d’Ele fugindo” (12, 72).
Diante dessa ajuda e dessas boas-novas, a tristeza e o sofrimento causados pelo mau tratamento de Taife desapareceram, como nuvens negras, do coração. O Mensageiro de Allah decidiu firmemente que deveria retornar a Meca e continuar convocando para a religião com renovado entusiasmo e vigor. Nesse momento, Zayd ibn Haritha, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: “Ó Mensageiro de Allah, como retornarás a Meca, se os habitantes de Meca te expulsaram de lá?” Ele respondeu: “Ó Zayd, Allah certamente encontrará uma saída para a situação que estás vendo. Allah certamente ajudará a Sua religião e dará vitória ao Seu Profeta.”
O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, partiu de Nakhlah e permaneceu na caverna de Hira, nas proximidades de Meca. De lá, por meio de um homem da tribo de Khuzāʿah, enviou a seguinte mensagem a Akhnas ibn Shurayq: que Akhnas lhe concedesse proteção. Akhnas declarou sua incapacidade, dizendo: “Eu pertenço a uma parte aliada; uma parte aliada não pode assumir a responsabilidade de conceder proteção a alguém.” Em seguida, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, enviou a mesma mensagem a Suhayl ibn ʿAmr, mas ele também declarou sua incapacidade, dizendo: “A proteção concedida pelos Banū ʿAmr não se aplica aos Banū Kaʿb.” Então o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, enviou uma mensagem a Muṭʿim ibn ʿAdī. Muṭʿim disse: “Sim, aceito.” Depois, armou-se, chamou e reuniu seus filhos e os membros de sua tribo. Quando todos se reuniram, disse: “Vão armados até diante da Caaba, pois concedi proteção a Muhammad, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele.” Em seguida, Muṭʿim enviou uma mensagem ao Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, dizendo-lhe que entrasse em Meca. Ao receber a mensagem, ele entrou em Meca acompanhado de Zayd. Muṭʿim ibn ʿAdī, de pé sobre sua montaria, proclamou: “Ó coraixitas, escutai! Concedi proteção a Muhammad, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele; depois disso, ninguém deve molestá-lo.” O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, beijou a Pedra Negra e realizou duas unidades de oração. Depois da oração, voltou para sua casa. Nesse momento, Muṭʿim ibn ʿAdī e seus filhos, armados, cercaram o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, e permaneceram com ele até que o Mensageiro de Allah retornasse à sua casa.
Diz-se que, nessa ocasião, Abu Jahl perguntou a Muṭʿim: “Tu apenas lhe concedeste proteção ou também te tornaste seu seguidor, isto é, muçulmano?” Muṭʿim respondeu: “Apenas lhe concedi proteção.”
Então Abu Jahl disse: “Aquele a quem concedeste proteção, nós também lhe concedemos proteção.” (Os relatos desse acontecimento durante a viagem a Taife encontram-se em Ibn Hisham, vol. 1, pp. 422–429; Zād al-Maʿād, vol. 2, pp. 46–47; Rahmatul lil-ʿĀlamīn, vol. 1, pp. 71–74; e Tārīkh-e Islām Nazīrābādī, vol. 1, pp. 123–124.)
O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, jamais esqueceu esse favor de Muṭʿim ibn ʿAdī. Depois da batalha de Badr, quando os incrédulos de Meca foram trazidos como prisioneiros, o filho de Muṭʿim, o honorable Hubayb — que Allah esteja satisfeito com ele —, compareceu diante do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, para interceder pela libertação de alguns prisioneiros. Ele disse: “Se Muṭʿim ibn ʿAdī estivesse vivo hoje e intercedesse junto a mim por essas pessoas malcheirosas, eu os libertaria a todos por consideração a ele.” (Sahih al-Bukhari, vol. 3, p. 573.)
O convite ao Islã dirigido a diversas tribos e indivíduos
No décimo ano da missão profética, no mês de Dhu al-Qaʿdah, isto é, no fim de maio ou início de junho do ano 619 d.C., o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, chegou a Meca vindo de Taife. Ali, começou a convidar novamente, com renovado vigor, diversos indivíduos e tribos para o Islã. Como era a época da peregrinação, muitas pessoas vinham de lugares próximos e distantes para realizar o hajj, algumas a pé e outras montadas. Nessa ocasião, o Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, convidou-as para o Islã. Ele vinha fazendo esse tipo de convite desde o quarto ano da missão profética.
O Imam Zuhri disse: “As tribos às quais o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, foi e apresentou o convite ao Islã foram: Banū ʿĀmir ibn Ṣaʿṣaʿah, Ṣaʿṣaʿah, Muḥārib ibn Khaṣfah, Fazārah, Naṣrān, Māʿirah, Ḥanīfah, Sālim, ʿAbbās, Banū Naḍr, Banū al-Baqāʿ, Kilāb, Ḥārith ibn ʿĀzirah e Hazārimah; porém, ninguém aceitou o Islã.” (Tirmidhi, Mukhtaṣar al-Sīrah, Shaykh ʿAbdullah, p. 149.)
O convite ao Islã dirigido a todas essas tribos mencionadas pelo Imam Zuhri não ocorreu apenas uma vez, nem somente durante a temporada de hajj de um único ano; ao contrário, desde o quarto ano da missão profética até a última temporada de hajj antes da Hégira, isto é, durante dez anos, elas foram convidadas ao Islã de várias maneiras e em diferentes ocasiões. (Rahmatul lil-ʿĀlamīn, vol. 1, p. 74.)
Ibn Ishaq convocou várias tribos ao Islã e também registrou as respostas que recebeu delas. A seguir, apresenta-se brevemente algo a esse respeito.
1) Banu Kilab. O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, foi até um ramo dessa tribo, os Banu Abdullah, e os convidou a crer em Allah e em Seu Mensageiro. Durante a conversa, disse: “Ó Banu Abdullah, Allah, o Altíssimo, deu ao vosso avô um nome supremo.” Contudo, os membros dessa tribo não aceitaram o convite feito pelo Mensageiro de Allah.
2) Banu Hanifa. O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, foi até suas casas e os convidou ao Islã, mas a resposta que deram foi algo que ninguém entre os árabes jamais havia dado.
3) Amir ibn Sa’sa’a. O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, também os convidou ao Islã. Em resposta, um homem dessa tribo chamado Buhayrah ibn Firas disse: “Juro por Allah que, se eu tiver comigo um jovem dos coraixitas, devorarei toda a Arábia.” Depois disse: “Responda a uma pergunta: se aceitarmos a sua religião e você vencer os seus adversários, a liderança passará para as nossas mãos?” O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, respondeu: “A liderança e a autoridade estão nas mãos de Allah; Ele as coloca onde deseja.” Ao ouvir isso, o homem disse: “Que excelente resposta! Nós ofereceremos o peito como alvo aos árabes para protegê-lo, mas, quando Allah lhe der a vitória, a liderança e a autoridade ficarão nas mãos de outros? Isso não pode ser. Não precisamos da sua religião.”
Depois que a tribo Banu Amir voltou para sua região, uma anciã ouviu o que havia acontecido. Por causa da velhice, ela não pudera ir ao Hajj. Ao ouvir tudo, apertou a cabeça com as duas mãos e disse: “Cometeste um erro terrível, ó membros da tribo Banu Amir. Há alguma maneira de encontrardes aquele homem?” Pelo Ser em cuja mão está a minha vida! Nenhum descendente de Ismael pode reivindicar falsamente a profecia, e nenhum jamais o fez. Perdeste a razão!” (Ibn Hisham, vol. 1, pp. 443–448).
A luz do Islã fora de Meca
O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, não convidou ao Islã apenas várias tribos e delegações, mas também muitas pessoas individualmente. Muitas delas deram uma boa resposta. Pouco depois da temporada do Hajj, algumas pessoas aceitaram o Islã. A seguir, apresenta-se um breve relato relacionado a isso,
1) Suwayd ibn Samit. Esse homem era poeta e possuía grande inteligência e discernimento. Era habitante de Yathrib. Por causa de sua inteligência, de sua prática da poesia, de sua nobreza e de sua linhagem, os membros de seu povo lhe deram o título de Kamil. Ele foi a Meca para realizar o Hajj ou a Umrah. O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, convidou-o ao Islã. Ele disse: “Talvez você tenha algo semelhante ao que tenho.” O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, perguntou: “O que você tem?” Ele respondeu: “A sabedoria de Luqman.” O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Recite-a para mim.” Suwayd a recitou. O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Estas palavras são boas, mas o que tenho é ainda melhor. Tenho o Alcorão. Allah fez este Alcorão descer sobre mim; ele é a luz da orientação.” Em seguida, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, recitou ao homem alguns trechos do Alcorão. Então ele aceitou o Islã e disse: “Que discurso extraordinário!” Ele aceitou o Islã no início do décimo primeiro ano da profecia. Depois de aceitar o Islã, quando Suwayd retornou a Medina, começou a batalha de Bu’ath. Ele foi martirizado nessa batalha (Ibn Hisham, vol. 1, pp. 425–427; Rahmat lil-Alamin, vol. 1, p. 74).
2) Iás ibn Mu’ádh. Este homem era natural de Iátrib e ainda jovem. No décimo primeiro ano da profecia, pouco antes da batalha de Bu’áth, uma delegação dos Aus veio a Meca na esperança de obter ajuda dos coraixitas contra os Khazraj. Iás também estava com eles. Naquela época, o fogo da inimizade ardia entre as duas tribos; o número dos Aus era menor que o dos Khazraj. Ao ouvir sobre a chegada da delegação, o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — foi encontrar-se com eles. Aproximando-se do grupo, o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — perguntou: “Aceitais algo melhor do que o propósito para o qual viestes a Meca?” Eles perguntaram: “Que coisa é essa?” O Mensageiro de Allah respondeu: “Sou o Mensageiro de Allah. Allah Todo-Poderoso enviou-me aos Seus servos para convocá-los a adorá-Lo e a não associar ninguém a Ele. Allah Todo-Poderoso revelou-me um Livro.” Em seguida, mencionou o Islã e recitou o Alcorão.
Iás ibn Mu’ádh disse: “Ó meu povo, aquilo para o qual viestes é inferior a este chamado.” Então um membro da delegação, Abul-Hácer Anas ibn Ráfi’, atirou um punhado de palha no rosto de Iás e disse: “Deixa essas palavras; pelo tempo da minha vida, viemos aqui com outro propósito.” Depois disso, Iás não disse mais nada, e o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — levantou-se e partiu. Enquanto isso, a delegação também não conseguiu firmar um pacto de amizade e cooperação com os coraixitas; derrotados, retornaram a Medina.
3) Abu Dharr al-Ghifári. Um homem vivia num lugar distante da cidade. Abu Dharr havia recebido de Suwaid ibn Sámit e de Iás ibn Mu’ádh a notícia do surgimento do Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz —, e essa notícia foi a causa de sua aceitação do Islã (Akbar Nadwi escreveu isso; consulte Tárikh al-Islãm, vol. 1, p. 128). A narrativa de sua conversão ao Islã está detalhada no Sahih al-Bukhári. Segundo o relato de Abdullah ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele), Abu Dharr disse: “Eu pertencia à tribo de Ghifar. Ouvi que havia surgido um homem que afirmava ser profeta. Ao ouvir essa notícia, enviei meu irmão a Meca e disse-lhe: ‘Encontra-te com esse homem.’”
“Depois, traz-me notícias sobre ele.” Quando meu irmão voltou de Meca, perguntei-lhe: “Que notícia trouxeste?” Ele respondeu: “Por Allah, vi um homem que ordena o bem e proíbe o mal.” Eu disse: “Não trouxeste uma notícia que me tranquilize.” Então preparei algumas provisões e parti para Meca. Ao chegar lá, não consegui reconhecer o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz —, nem ousei perguntar a ninguém sobre ele. Bebi da água de Zamzam e permaneci deitado na Mesquita Sagrada. Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) viu-me e disse: “Parece que és um estrangeiro.” Respondi: “Sim.” Ele disse: “Vem comigo para minha casa.” Fui com ele; ele não me fez nenhuma pergunta, e eu também nada disse.
Na manhã seguinte, fui novamente à Mesquita Sagrada, esperando perguntar sobre o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz —, mas ninguém me disse nada a respeito dele. À noite, Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) veio, viu-me e disse: “Este homem ainda não descobriu onde ficar?” Respondi: “Sim, ainda não.” Ele disse: “Vem comigo.” Depois perguntou: “Qual é o teu problema? Por que vieste a esta cidade?” Respondi: “Se guardares segredo sobre isso, posso contar.” Ele disse: “Está bem.” Então falei: “Recebi a notícia de que aqui há um homem que afirma ser profeta. Depois de ouvir isso, enviei meu irmão, mas ele não conseguiu trazer-me informações detalhadas; por isso vim pessoalmente.” Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Chegaste ao lugar certo. Vem comigo. Eu entrarei ali, e tu entrarás também. Se, no caminho, alguém te causar preocupação, irei até uma loja e fingirei estar consertando meus sapatos; nesse momento, continuarás caminhando.” Então Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) partiu, e eu fui com ele. Por fim, quando ele entrou numa casa, acompanhei-o até o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — e disse-lhe: “Convoca-me ao Islã.” O Mensageiro de Allah apresentou-me o Islã, e eu o aceitei, tornando-me muçulmano. Depois, o Mensageiro — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — disse-me: “Ó Abu Dharr, mantém em segredo a tua conversão ao Islã e retorna à tua região. Quando ouvires que nos manifestamos publicamente, vem encontrar-te conosco.” Eu disse: “Juro por Aquele que vos enviou com a verdade: proclamarei publicamente a minha conversão ao Islã diante dos incrédulos.” Depois de dizer isso, fui até diante da Caaba, onde os coraixitas estavam reunidos, e declarei: “Testemunho que Muhammad — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — é o servo e o Mensageiro de Allah.”
Depois dessa declaração, os coraixitas começaram a dizer uns aos outros: “Levantai-vos e dai uma lição a este apóstata.” Então espancaram-me de tal maneira que pensei que morreria. Nesse momento, Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) veio salvar-me. Inclinou-se um pouco para olhar-me e disse aos coraixitas: “Este homem pertence à tribo de Ghifar; vós passais pela região dessa tribo em vossas viagens comerciais.” Ao ouvirem isso, os coraixitas politeístas deixaram-me. No dia seguinte, fui novamente ao mesmo lugar, e o mesmo acontecimento repetiu-se. Mais uma vez, Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) veio resgatar-me (Sahih al-Bukhári, capítulo ‘A narrativa de Zamzam’, vol. 1, p. 499; capítulo ‘A conversão de Abu Dharr ao Islã’, vol. 1, pp. 544–545).
4) Tufail ibn Amr al-Dausi. Este homem era poeta, notável por sua inteligência e discernimento, e chefe de sua tribo, que detinha autoridade governamental em algumas regiões do Iêmen. No décimo primeiro ano da profecia, quando foi a Meca, os notáveis de Meca receberam-no e queixaram-se a ele do Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Disseram: “Este homem lançou-nos numa situação complicada e dividiu a nossa união. Suas palavras exercem uma influência semelhante à magia; por causa delas, surgiu discórdia entre irmãos, entre maridos e esposas e entre pais e filhos. Tememos que, assim como nós fomos atingidos por esse infortúnio, tu também sejas atingido. Portanto, pedimos-te que não fales com esse homem de modo algum.”
Hazrat Tufail (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Os politeístas coraixitas tentaram convencer-me de várias maneiras. A certa altura, cheguei a decidir que não falaria com o Mensageiro de Allah nem ouviria coisa alguma do que ele dissesse. De manhã, depois de ir à Mesquita Sagrada, coloquei algodão nos ouvidos para não ouvir nenhuma palavra do Mensageiro de Allah. Porém, Allah, o Altíssimo, desejou que eu ouvisse algumas palavras de Seu Mensageiro, Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Então ouvi algumas palavras boas e pensei comigo mesmo: ‘Sou uma pessoa dotada de razão e inteligência, um poeta famoso; nada de bom ou mau pode permanecer oculto para mim. Por que não hei de ouvir palavras boas? Se forem aceitáveis, aceitá-las-ei; se forem más, não as aceitarei.’ Pensando assim, permaneci em silêncio. Quando o Mensageiro de Allah começou a voltar para casa, segui-o. Ele entrou em sua casa, e eu também entrei. Então contei-lhe o que as pessoas me haviam dito para me advertir contra ele e que, como precaução, eu havia colocado algodão nos meus próprios ouvidos. Depois disse: ‘Diga-me também aquilo que costuma dizer a todos.’ O Mensageiro de Allah convidou-me ao Islam e recitou o Alcorão para mim. Aceitei imediatamente o Islam. Juro por Allah que nunca havia ouvido palavras melhores. Ali mesmo aceitei o Islam e testemunhei a verdade; então o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, fez uma súplica.”
O sinal concedido a Hazrat Tufail (que Allah esteja satisfeito com ele) foi que, quando se aproximou de seu povo, seu rosto tornou-se luminoso como a luz de uma lâmpada. Ele disse: “Ó Allah, transfere esta luz para outro lugar; caso contrário, eles me criticarão, acusando-me de ter o rosto deformado.” Então aquela luz foi transferida para o cajado que ele segurava. Hazrat Tufail (que Allah esteja satisfeito com ele) convidou seu pai e sua esposa ao Islam, e ambos aceitaram o Islam. Contudo, as pessoas de seu povo demoraram a aceitar o Islam, mas Hazrat Tufail (que Allah esteja satisfeito com ele) continuou esforçando-se. Quando migrou, depois da Batalha da Trincheira (Sahih al-Bukhari, capítulo “O relato de Zamzam”, vol. 1, p. 499; capítulo “A aceitação do Islam por Abu Dharr”, vol. 1, pp. 544–545), setenta ou oitenta famílias de seu povo estavam com ele. Hazrat Tufail (que Allah esteja satisfeito com ele) desempenhou um papel importante na propagação do Islam e alcançou o martírio na Batalha de Yamamah (Mishkat al-Masabih).
5) Jimad al-Azdi. Este homem era habitante do Iêmen e pertencia à tribo Azd Shanū’ah. Praticava exorcismos e expulsava demônios. Ao chegar a Meca, ouviu dos tolos daquele lugar que Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, era louco. Foi até o Mensageiro de Allah com a intenção de que talvez ele pudesse ser curado por suas mãos. Ao encontrar-se com o Mensageiro de Allah, disse: “Conheço exorcismos; o senhor precisa deles?” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, respondeu: “Certamente, todo louvor pertence a Allah. Eu O louvo e peço ajuda somente a Ele. A quem Allah guia, ninguém pode desencaminhar; e a quem Allah desencaminha, ninguém pode guiar. Testemunho que não há divindade além de Allah; Ele é Único e sem associados. E testemunho também que Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, é Seu servo e Mensageiro.”
Então Jimad disse ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz: “Repita para mim as suas palavras.” O Mensageiro de Allah repetiu aquelas palavras três vezes. Jimad disse: “Ouvi as palavras de feiticeiros e adivinhos, mas nunca ouvi em lugar algum palavras como as que você proferiu. Segundo o que você disse, elas parecem provir das profundezas insondáveis do mar. Estenda a sua mão; prestarei o juramento de adesão ao Islam em sua mão.” Então Jimad al-Azdi aceitou o Islam (Sahih Muslim; Mishkat al-Masabih, vol. 2, p. 525).
Seis homens virtuosos de Medina
No décimo primeiro ano da missão profética, isto é, em julho do ano 620 d.C., durante a temporada do Hajj, ocorreu uma expansão efetiva do convite ao Islam. Naquela época, esse convite transformou-se numa árvore majestosa; sob a sombra de sua densa folhagem, os muçulmanos foram libertados de anos de opressão e perseguição. Para escapar da conspiração iniciada pelos habitantes de Meca para desacreditar o Mensageiro de Allah e afastar as pessoas do caminho de Allah, o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, recorreu a uma estratégia. Nesse período, ele ia à noite até várias tribos e convidava-as ao Islam; por isso, os politeístas de Meca não conseguiram criar obstáculos em seu caminho.
Como parte dessa estratégia, certa noite o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, foi acompanhado por Hazrat Abu Bakr as-Siddiq (que Allah esteja satisfeito com ele) e Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) até as casas dos membros das tribos Banu Juhal e Banu Shayban ibn Tha‘labah, fora de Meca, e convidou-os ao Islam. Em resposta, eles disseram palavras promissoras, mas não deram nenhuma resposta concreta quanto à aceitação do Islam. Nessa ocasião, ocorreu um interessante diálogo sobre genealogia entre Hazrat Abu Bakr as-Siddiq e um homem da tribo Banu Juhal; ambos eram especialistas em genealogia (Sahih al-Bukhari, capítulo “O relato de Zamzam”, vol. 1, p. 499; capítulo “A aceitação do Islam por Abu Dharr”, vol. 1, pp. 544–545).
Depois, enquanto o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, atravessava a região montanhosa de Mina, ouviu algumas pessoas conversando (Rahmatul lil-Alamin, vol. 1, p. 84). Foi diretamente até elas. Eram seis jovens de Medina, ligados à tribo dos Khazraj. Seus nomes e identidades eram os seguintes:
1. Asʿad ibn Zurārah Banū Najjār
2. ʿAwf ibn al-Ḥārith ibn Rifāʿah (Ibn ʿAfrā) Banū Najjār
3. Rāfiʿ ibn Mālik ibn ʿAjlān Banū Zurayq
4. Quṭbah ibn ʿĀmir ibn Ḥadīdah Banū Salamah
5. ʿUqbah ibn ʿĀmir ibn Nābī Banū Ḥarām ibn Kaʿb
6. al-Ḥārith ibn ʿAbdullah ibn Riʾāb Banū ʿUbayd ibn Ghanam
Esses jovens ouviam dos judeus de Medina, seus adversários, que naquela época surgiria um profeta; também tinham ouvido que ele apareceria de repente (Zād al-Maʿād, vol. 2, p. 50; Ibn Salām, vol. 1, pp. 429–541).
O Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — aproximou-se deles e perguntou-lhes quem eram. Eles responderam: “Somos do clã dos Khazraj.” O Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — perguntou: “Os adversários dos judeus?” Eles responderam: “Sim.” O Mensageiro de Allah disse: “Sentem-se um pouco; vou falar-lhes sobre algumas coisas.” Eles se sentaram, e o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — falou-lhes sobre a religião. Os seis jovens disseram uns aos outros: “Este parece ser o profeta de quem os judeus nos intimidam ao falar. Precisamos tomar providências para que os judeus não prevaleçam sobre nós.” Em seguida, aqueles seis jovens afortunados aceitaram o convite do Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — e abraçaram o Islã.
Esses seis eram homens sensatos de Medina. Pouco antes, havia ocorrido uma guerra em Medina, e a fumaça daquela guerra ainda não havia se dissipado. Essa guerra os havia devastado; por isso, tinham motivos justos para esperar que o convite do Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — se mostrasse um meio de pôr fim à guerra. Eles disseram: “Deixamos nosso povo em uma situação tal que não parece haver hostilidade semelhante entre qualquer outro povo cercado por inimigos. Esperamos que, por seu intermédio, Allah, o Altíssimo, estabeleça entre eles laços de amizade. Ao voltar para Medina, nós os convidaremos ao caminho da religião que você prega. Também os convidaremos a aceitar a religião que recebemos de você. Se Allah os unir por seu intermédio, ninguém será mais honrado do que você.”
Ao retornarem a Medina, esses seis novos muçulmanos levaram consigo o convite ao Islã. Por meio deles, a vinda do Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — e o convite à religião espalharam-se de casa em casa por toda Medina (Ibn Hisham, vol. 1, pp. 428–443).
Casamento com Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela)
Nesse mesmo ano, isto é, no mês de Shawwal do décimo primeiro ano da missão profética, o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — contraiu matrimônio com Aisha, a Siddiqa (que Allah esteja satisfeito com ela). Aisha tinha então apenas seis anos de idade. No mês de Shawwal do ano anterior à Hégira, Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) foi morar na casa do marido; naquela época, tinha nove anos (Talqih al-Hukum, p. 10; Sahih al-Bukhari, vol. 1, p. 557).
O acontecimento do Mi’raj
O convite e a transmissão da mensagem do Profeta — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — já haviam alcançado um estágio intermediário de sucesso, enquanto a opressão e a perseguição contra seus seguidores do Islã continuavam. Ao longe, no horizonte distante, brilhava tenuemente a luz das estrelas. Foi então que ocorreu o misterioso acontecimento do Mi’raj. Quando ocorreu esse Mi’raj? Há divergências entre os autores da Sira a esse respeito, tais como:
1) Al-Tabarani disse que ocorreu no mesmo ano em que o Profeta, senhor dos mensageiros, recebeu a missão profética.
2) O Imam Nawawi e o Imam al-Qurtubi escreveram que ocorreu cinco anos após o início da missão profética.
Três) Dezesseis meses antes da Hégira, isto é, cinco anos após o início da profecia.
Quatro) No décimo ano da profecia, no dia 27 de Rajab; o erudito Mansurpurî adotou esta opinião.
Cinco) Um ano e dois meses antes da Hégira, isto é, no mês de Muharram do décimo terceiro ano da profecia.
Seis) Um ano antes da Hégira, isto é, no mês de Rabi al-Awwal do décimo terceiro ano da profecia.
Entre as opiniões mencionadas, três podem ser consideradas corretas. Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela) faleceu antes de as cinco orações diárias se tornarem obrigatórias, e todos concordam que as cinco orações diárias foram prescritas na noite do Miraj. Isso significa que Khadija faleceu antes do Miraj. Sabe-se que sua morte ocorreu no mês de Ramadã do décimo ano da profecia; portanto, o evento do Miraj ocorreu depois disso, e não antes. Não foi encontrada nenhuma prova que permita dar preferência a qualquer uma das três últimas opiniões sobre as demais. Apresentaremos os relatos sobre esse assunto mencionados no Alcorão e nos hadiths (Zad al-Ma’ad, vol. 2, p. 49).
Ibn Qayyim escreveu que, segundo o relato correto, sabe-se que o Profeta, Senhor dos Mensageiros, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, foi levado fisicamente sobre o Buraq, acompanhado pelo anjo Jibril (que a paz esteja sobre ele), da Mesquita Sagrada até Bayt al-Maqdis. O amado Profeta parou ali para a viagem, amarrou o Buraq a uma estaca junto à porta da mesquita e conduziu a oração como imame de todos os profetas.
Naquela mesma noite, ele foi levado de Bayt al-Maqdis ao primeiro céu. Jibril (que a paz esteja sobre ele) abriu a porta. Ali, o amado Profeta encontrou Adão (que a paz esteja sobre ele) e o saudou. Adão respondeu à saudação dizendo: “Bem-vindo!”, e reconheceu sua profecia. Naquele momento, Allah, o Altíssimo, mostrou ao Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, as almas dos virtuosos à direita de Adão (que a paz esteja sobre ele) e as dos pecadores à sua esquerda. Depois, ele subiu ao segundo céu, cuja porta foi aberta. Ali, o amado Profeta viu Yahya ibn Zakariya (que a paz esteja sobre ele) e Isa ibn Maryam (que a paz esteja sobre ele) e os saudou. Eles responderam à saudação e reconheceram a profecia do amado Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Em seguida, o amado Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, subiu ao quarto céu. Ali, viu Idris (que a paz esteja sobre ele) e o saudou. Em resposta à saudação, Idris felicitou-o e reconheceu sua profecia.
Depois, ele foi levado ao quinto céu. Ali, viu Harun (que a paz esteja sobre ele) e o saudou. Em resposta à saudação, Harun felicitou-o e reconheceu sua profecia.
Depois, o Profeta — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — foi levado ao sexto céu, onde encontrou Hadrat Musa (que a paz esteja sobre ele). Ele o cumprimentou; Hadrat Musa respondeu: “Bem-vindo”, e reconheceu a sua missão profética. O Profeta dos Mensageiros prosseguiu, e, nesse momento, Hadrat Musa começou a chorar. Quando lhe perguntaram a razão, ele disse: “Um profeta que surgiu depois de mim terá mais seguidores entrando no Paraíso do que os meus seguidores.”
Depois, o amado Profeta — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — foi levado ao sétimo céu, onde encontrou Hadrat Ibrahim (que a paz esteja sobre ele). Ele o cumprimentou, e Ibrahim respondeu, felicitou-o e reconheceu a sua missão profética.
Então, o amado Profeta — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — foi levado à Sidrat al-Muntaha. Ele se aproximou tanto de Allah que entre ambos havia a distância de dois arcos, ou ainda menos. Nesse momento, Allah concedeu-lhe tudo o que desejou conceder, revelou-lhe o que quis revelar e tornou obrigatórias cinquenta orações diárias. No caminho de volta, encontrou Hadrat Musa (que a paz esteja sobre ele), que perguntou: “Que ordem Allah lhe deu?” O Profeta — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — respondeu: “Ele ordenou que eu realizasse cinquenta orações diárias.” Hadrat Musa disse: “A sua comunidade não terá força para realizar tantas orações. Volte a Allah e peça que reduza o número de orações.” O Profeta — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — olhou para Hadrat Jibril (que a paz esteja sobre ele), que fez um sinal afirmativo. Então ele voltou e pediu a redução do número de orações. No caminho de volta, encontrou novamente Hadrat Musa, que perguntou: “Que ordem está levando de Allah?” O Profeta — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — mencionou quarenta e cinco orações diárias. Hadrat Musa disse: “Volte.” Assim, após repetidos retornos e reduções, o número chegou a cinco. Hadrat Musa também considerou excessivas essas cinco orações diárias e pediu-lhe que voltasse para solicitar uma nova redução. Hadrat Muhammad — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — disse: “Sinto uma vergonha imensa; não quero voltar novamente. Submeti-me a esta ordem de Allah.” Depois de percorrer certa distância no caminho de volta, ouviu-se uma voz: “Determinei a Minha obrigação e reduzi-a para os Meus servos” (Zad al-Ma‘ad, vol. 2, pp. 47–48).
Allamah Ibn Qayyim sustentou uma opinião diferente a esse respeito e levantou a questão: o Profeta viu Allah, o Altíssimo? O Imam Ibn Taymiyyah escreveu que não há prova de que O tenha visto com os olhos, e nenhum companheiro relatou isso. Quanto ao que é mencionado por Abdullah ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele), sobre vê-Lo com os olhos e com o coração, a primeira narração não contradiz a segunda. A proximidade e a aproximação maior mencionadas pelo Imam Ibn Qayyim referem-se a um momento diferente do Miraj. Na Surata an-Najm é mencionada a proximidade de Hadrat Jibril (que a paz esteja sobre ele), e Hadrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) foi quem relatou isso. Por outro lado, a proximidade mencionada no hadith do Miraj é explicada como sendo a proximidade de Allah. A Surata an-Najm não apresenta uma discussão abrangente sobre isso; pelo contrário, afirma que o amado Profeta — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — foi visto uma segunda vez junto à Sidrat al-Muntaha. Aquele que o viu foi Jibril (que a paz esteja sobre ele). O Profeta — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — viu Hadrat Jibril em sua forma original duas vezes: uma vez na Terra e outra junto à Sidrat al-Muntaha (Zad al-Ma‘ad, vol. 2, pp. 47–48; Sahih al-Bukhari, vol. 1, pp. 50, 455, 456, 470, 471, 481, 548, 549, 550; vol. 2, p. 684; Muslim, vol. 1, pp. 91, 91, 93).
Também nessa ocasião ocorreu ao amado Profeta — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — o episódio do Shaqq as-Sadr, ou abertura do peito. Durante essa viagem, foram-lhe mostradas várias coisas: ofereceram-lhe leite e vinho, e ele escolheu o leite. Ao ver isso, Hadrat Jibril (que a paz esteja sobre ele) disse: “Foi-lhe mostrada a consequência da fitrah, ou natureza inata. Se tivesse escolhido o vinho, a sua comunidade teria se desviado.”
O Mensageiro de Allah viu quatro rios: quatro aparentes e quatro ocultos. Os rios aparentes eram o Nilo e o Eufrates. O significado disso talvez seja que a sua missão se espalharia pelas regiões férteis do Nilo e do Eufrates; isto é, os habitantes dessas regiões se tornariam muçulmanos de geração em geração. Isso não significa que a origem da água desses dois rios esteja no Paraíso.
Ele viu Malik, o guardião do Inferno. Ele não sorria, e não havia qualquer sinal de alegria em seu rosto. Ao Mensageiro de Allah também foram mostrados o Paraíso e o Inferno.
Também foi mostrada ao Profeta — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — a situação daqueles que se apropriam injustamente dos bens dos órfãos. Seus lábios eram como os lábios de camelos; eles introduziam na boca brasas semelhantes a pedaços de pedra, e essas brasas saíam pelo ânus.
O Profeta — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — também viu os usurários; seus lábios eram tão grandes que eles não conseguiam movê-los. Quando os seguidores do Faraó eram levados para o Inferno, eles passavam por cima desses usurários.
Ele também viu os adúlteros. Diante deles havia carne fresca e carne podre, malcheirosa; no entanto, eles deixavam a carne fresca e comiam a carne podre.
Ele também viu as mulheres que, apesar de terem maridos, haviam concebido em seu ventre filhos de outros homens. O querido Profeta — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — observou que os seios dessas mulheres haviam sido perfurados com grandes ganchos e estavam suspensos no vazio.
Ele viu uma caravana de Meca. Um camelo daquela caravana havia fugido, e ele lhes indicou onde encontrar o animal. Havia água num recipiente coberto, e ele bebeu daquela água enquanto todos os incrédulos dormiam. Na manhã seguinte à noite da Ascensão, esse relato tornou-se uma prova da veracidade de sua afirmação (Ibn Hisham, vol. 1, pp. 39, 402, 406; consulte as obras de exegese na explicação da surata Bani Isra’il). Ele também informou que a caravana retornaria em determinado horário e descreveu o camelo que, depois de fugir da caravana, vinha em direção a Meca. Mais tarde, tudo o que ele havia relatado foi comprovado como verdadeiro; apesar de tudo isso, porém, o ódio dos incrédulos aumentou ainda mais, e eles se recusaram a aceitar suas palavras (Zad al-Ma‘ad, vol. 1, p. 48; veja também Sahih al-Bukhari, vol. 2, p. 684; Sahih Muslim, vol. 1, p. 96; Ibn Hisham, vol. 1, pp. 402–403).
Diz-se que foi naquela ocasião que o Profeta concedeu a Abu Bakr al-Siddiq — que Allah esteja satisfeito com ele — o título de al-Siddiq, pois, enquanto todos os demais haviam descrido, ele acreditou em tudo (Ibn Hisham, vol. 1, p. 699).
Allah Altíssimo mencionou no Alcorão o relato da Ascensão.
Esta é a sunnah de Allah no que diz respeito aos profetas. Allah Altíssimo diz: “E assim mostramos a Ibrahim o domínio dos céus e da terra, para que ele se tornasse um dos que têm certeza.”
Allah Altíssimo disse a Moisés: “Então, mostrar-te-ei alguns dos Meus grandiosos sinais.”
O propósito de mostrar essas coisas é para que eles possam crer; Allah Todo-Poderoso também declarou isso. Ao presenciarem diretamente os sinais de Allah, a fé dos profetas se fortalece ainda mais. Assim, ao convidarem as pessoas para o caminho de Allah, eles conseguem suportar sofrimentos, dificuldades, torturas e opressões que seriam impossíveis para qualquer outra pessoa suportar. Aos seus olhos, todas as forças do mundo material parecem insignificantes; por isso, não temem força alguma. Nos grandes livros da Shariah há discussões detalhadas sobre os pormenores do evento do Mi‘raj e sobre seus verdadeiros mistérios. Entre eles, serão mencionados aqui alguns dos principais pontos.
É importante observar aqui que, depois de mencionar o evento do Mi‘raj em apenas um versículo do Alcorão, Allah Todo-Poderoso descreveu as más ações dos judeus. Em seguida, informou-lhes que este Alcorão guia para o caminho correto e reto. Os leitores do Alcorão podem pensar que as duas afirmações não têm relação entre si, mas, na realidade, não é assim. Por meio de sua forma de expressão, Allah Todo-Poderoso deu a entender que, a partir daquele momento, os judeus seriam retirados da posição de liderança da humanidade, pois haviam cometido crimes tão terríveis que já não eram dignos de liderar. Portanto, essa responsabilidade e essa honra seriam, dali em diante, concedidas ao Grande Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e ambos os centros da ousada da‘wah seriam colocados sob seu controle. Em outras palavras, a liderança espiritual seria transferida de uma ummah para outra: a liderança seria retirada de uma ummah cuja história estava maculada pela injustiça, opressão e traição e entregue a uma ummah por meio da qual brotariam correntes de bondade. O profeta dessa ummah recebeu, por meio da Revelação, o Nobre Alcorão, e o Alcorão concedeu à humanidade a orientação mais elevada.
Mas como se completaria essa liderança? O Profeta do Islã continuava percorrendo as montanhas de Meca, indo de pessoa em pessoa. Essa é uma questão. E essa questão revelou outra verdade: o chamado do Islã havia chegado ao fim de uma etapa e entraria agora em outra. Essa nova fase seria diferente da anterior. Por isso, vemos que, em alguns versículos, os politeístas são advertidos de modo claro e recebem severas ameaças. Allah Todo-Poderoso diz: “Quando quero destruir uma cidade, ordeno aos seus abastados que pratiquem boas ações; mas eles cometem atos de corrupção nela. Então, torna-se justo aplicar-lhes o castigo, e Eu a destruo completamente” (Surata Bani Isra’il, versículo 16).
Allah Todo-Poderoso também diz nessa mesma surata: “Quantas gerações destruí depois de Noé! Teu Senhor é suficiente como conhecedor e observador dos pecados de Seus servos” (Surata Bani Isra’il, versículo 17).
Além de todos esses versículos, há também alguns que apresentam o esboço da futura sociedade islâmica dos muçulmanos. Eles estabeleceram sua morada em uma terra onde tudo seria colocado sob seu próprio controle. Os versículos mencionados contêm a indicação de que o Mensageiro de Allah em breve encontraria um lugar seguro onde a religião do Islã seria devidamente propagada e difundida.
Há aspectos do misterioso evento do Mi‘raj que estão diretamente relacionados ao assunto em discussão; por isso, é necessário descrevê-los. Chegamos à conclusão de que o evento do Mi‘raj talvez tenha ocorrido algum tempo antes da Bay‘at al-‘Aqabah, ou entre a primeira e a segunda Bay‘at al-‘Aqabah. Allah sabe melhor todas as coisas.
A Primeira Bay‘at al-‘Aqabah
Foi mencionado anteriormente que, durante a temporada do Hajj, no décimo ano da missão profética, seis homens de Yathrib aceitaram o Islã. Eles prometeram ao Mensageiro de Allah que, ao retornarem para seu povo, transmitiriam a mensagem da missão profética do Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. (Aqabah é chamada de uma passagem estreita. No caminho de Meca para Mina, é necessário atravessar uma estreita passagem montanhosa no lado ocidental de Mina. Essa passagem tornou-se conhecida como Aqabah. Como a jamrah na qual se lançam pedras no dia 10 de Dhu al-Hijjah está situada na extremidade desse túnel, ela é chamada Jamrat al-‘Aqabah. Seu segundo nome é Jamrat al-Kubra. As outras duas jamarat ficam um pouco a leste desse local, no campo de Mina. Como as três jamarat estão no lado oriental, há sempre grande concentração de pessoas nessa direção. Depois do lançamento das pedras, não há mais circulação de pessoas por ali. Por isso, o juramento prestado pelo Nobre Profeta, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), é chamado Bay‘at al-‘Aqabah. Atualmente, uma estrada larga foi construída nesse local após o corte da montanha.)
Como resultado, na temporada seguinte do Hajj, treze pessoas foram até o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Entre elas, além de Jabir ibn Abdullah, havia outras cinco que também tinham vindo no ano anterior. Os nomes e as identidades dos sete restantes eram os seguintes:
1. Mu’adh ibn al-Harith ibn Afra — Banu Najjar, Khazraj
2. Dhakwan ibn Abd al-Qays — Banu Zurayq, Khazraj
3. Ubadah ibn al-Samit — Banu Ghanam, Khazraj
4. Yazid ibn Tha’laba — aliado de Banu Ghanam, Khazraj
5. Abbas ibn Ubadah ibn Nadlah — Banu Salim, Khazraj
6. Abu al-Haytham ibn al-Tayyihan — Banu Abd al-Ashhal, Aws
7. Uwaym ibn Sa’idah — Banu Amr ibn Awf, Aws
Os dois últimos entre eles pertenciam à tribo de Aws, e todos os demais à tribo de Khazraj (Rahmatul lil-‘Alamin, vol. 1, p. 85; Ibn Hisham, vol. 1, pp. 431–433).
Todos eles prestaram bay‘ah ao Mensageiro de Allah junto a al-‘Aqabah, em Mina, comprometendo-se com várias coisas. Mais tarde, após o tratado de Hudaybiyyah e por ocasião da conquista de Meca, as mulheres também prestaram bay‘ah com base nesses mesmos termos. O relato dessa bay‘ah de al-‘Aqabah é mencionado no Sahih al-Bukhari, na narração de ‘Ubadah ibn as-Samit. Ele disse que o Mensageiro de Allah ﷺ afirmou: “Vinde prestar-me bay‘ah comprometendo-vos a não associar ninguém a Allah, a não roubar, a não cometer adultério, a não matar os vossos filhos, a não lançar sobre ninguém uma acusação inventada, a seguir-me nas boas ações e a não desobedecer em coisa alguma. Quem cumprir tudo isso terá sua recompensa junto de Allah. Quanto àquele que violar alguma dessas determinações, se for punido por essa desobediência, sua punição será uma expiação por seu pecado. Mas, se alguém desobedecer e Allah ocultar o seu pecado, seu destino dependerá da vontade de Allah: se Ele quiser, irá puni-lo; e, se quiser, irá perdoá-lo.”
‘Ubadah disse: “Prestamos bay‘ah ao Mensageiro de Allah sobre todas essas questões” (al-Bukhari, vol. 1, pp. 550–551).
O emissário do Mensageiro para Medina e seu êxito extraordinário
A bay‘ah foi concluída, e o Hajj também chegou ao fim. O Mensageiro de Allah ﷺ enviou a Medina, junto com os visitantes, o seu primeiro emissário. O objetivo desse envio era ensinar o Islã aos muçulmanos e transmitir o convite da religião àqueles que ainda não haviam aceitado o Islã. Assim, o Mensageiro de Allah enviou a Medina o jovem Mus‘ab ibn ‘Umair al-‘Abdari (que Allah esteja satisfeito com ele), que havia aceitado o Islã nos primeiros tempos.
Ao chegar a Medina, o honrado Mus‘ab ibn ‘Umair (que Allah esteja satisfeito com ele) hospedou-se na casa do honrado As‘ad ibn Zurara (que Allah esteja satisfeito com ele). Em seguida, os dois começaram, com entusiasmo e fervor, a convidar os habitantes de Medina ao Islã. Nessa época, o honrado Mus‘ab recebeu o título de Muqri, que significa professor ou instrutor.
Há um acontecimento extraordinário relacionado ao seu êxito na propagação da religião. As‘ad ibn Zurara e Mus‘ab estavam sentados num jardim, à margem de um reservatório chamado Marq, e alguns muçulmanos também se reuniram junto deles. Os líderes da tribo de Banu Ashhal eram Sa‘d ibn Mu‘adh e Usaid ibn Hudair; nenhum dos dois havia aceitado o Islã. Ao saberem da chegada dos muçulmanos recém-convertidos, o honrado Sa‘d disse ao outro líder, Usaid ibn Hudair: “Vá ver o que está acontecendo. Diga-lhes: ‘Vocês querem enganar os nossos mais fracos, ensinar-lhes a sua religião e proibir que venham ao nosso bairro?’ As‘ad ibn Zurara é meu primo; por isso não o envio, caso contrário eu mesmo iria.”
Usaid pegou sua lança e foi até os dois. Ao vê-lo aproximar-se, o honrado As‘ad disse ao honrado Mus‘ab: “Um dos líderes do povo está vindo até você; peça interiormente a misericórdia de Allah para ele.” O honrado Mus‘ab disse: “Se ele se sentar, conversarei com ele.” Assim que chegou, Usaid irritou-se e disse: “Por que vocês vieram à nossa região? Querem enganar os nossos mais fracos? Se têm apreço pela própria vida, vão embora!” O honrado Mus‘ab disse: “Sente-se conosco e ouça algumas palavras. Se gostar, aceite-as; se não gostar, não as aceite.” O honrado Usaid disse: “O que você diz é justo.” Em seguida, fincou sua lança no chão e sentou-se. O honrado Mus‘ab (que Allah esteja satisfeito com ele) começou a falar sobre o Islã e recitou o Alcorão. Mais tarde, ele disse: “Antes que Usaid pronunciasse qualquer palavra, percebi no seu rosto o brilho do Islã.” Depois de ouvir tudo, Usaid disse: “Que belas palavras! Como vocês introduzem alguém no Islã?” Mus‘ab respondeu: “Você deve tomar banho, vestir roupas limpas, testemunhar a kalimah tayyibah e realizar duas rak‘ahs de oração.” Usaid fez tudo isso e então disse: “Há outro líder em nossa tribo. Se ele aceitar o Islã, ninguém mais em nossa tribo ficará de fora. Vou enviá-lo agora mesmo até vocês.”
Depois disso, Hazrat Usaid foi até Sa’d ibn Mu’adh levando sua lança. Ao ver Usaid, Sa’d disse: “Este homem voltou com uma aparência diferente daquela com que havia saído.” Sa’d perguntou a Usaid: “O que você fez?” Usaid respondeu: “Conversei com eles e não encontrei nada de censurável. No entanto, eu os proibi, e eles disseram: ‘Faremos tudo o que vocês quiserem.’ Ouvi dizer que os homens da tribo de Banu Haritha querem matar As’ad ibn Zurarah. A razão é que ele é seu primo materno. Eles querem romper o compromisso assumido com você.” Ao ouvir isso, Sa’d, tomado pela ira, foi até eles com a lança na mão. Ao chegar, viu que os dois estavam sentados tranquilamente. Então percebeu que Usaid queria que ele próprio conversasse com os dois visitantes. Sa’d foi até eles e disse em tom áspero: “Vocês querem enganar os nossos fracos?” Então As’ad disse a Sa’d: “Por Deus, ó Abu Anas, se não houvesse parentesco entre você e eu, você não poderia fazer isso. Vocês vieram à nossa região e estão fazendo algo que não nos agrada.”
Hazrat As’ad já havia dito a Hazrat Mus’ab que estava vindo um homem que era um líder influente de sua tribo; se ele ouvisse suas palavras, ninguém permaneceria para trás. Por isso, Hazrat Mus’ab disse a Hazrat Sa’d: “Sente-se e ouça algumas palavras. Se não gostar, não precisa continuar ouvindo.” Hazrat Sa’d disse: “Está bem.” Dito isso, fincou a lança no chão e sentou-se. Hazrat Mus’ab convidou-o ao Islã e recitou o Alcorão. Mais tarde, Hazrat Mus’ab disse: “Antes mesmo de Sa’d falar, percebi no rosto dele o brilho do Islã.” Sa’d perguntou: “O que vocês fazem depois de aceitar o Islã?” Mus’ab respondeu: “Tome um banho, vista roupas limpas, testemunhe a declaração de fé e depois faça duas unidades de oração.” Então Sa’d ibn Mu’adh fez tudo isso.
Depois de cumprir as formalidades iniciais da aceitação do Islã, Hazrat Sa’d voltou para o seu povo. As pessoas disseram: “Parece que você voltou com uma aparência diferente.” Hazrat Sa’d perguntou: “Que tipo de homem vocês pensam que eu sou, ó Banu Abd al-Ashhal?” Todos responderam: “Você é o nosso líder e o mais sensato entre nós.” Sa’d ibn Mu’adh disse: “Então escutem: enquanto vocês não tiverem fé em Allah, o Senhor dos mundos, e em Seu amado Mensageiro, o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz —, será ilícito para mim falar com vocês.” Até o fim da tarde, todos os homens e mulheres da tribo aceitaram o Islã. Um homem chamado Usairem não havia aceitado a fé naquele momento; ele aceitou o Islã no dia da batalha de Uhud, participou da batalha e foi martirizado. Não realizou sequer uma oração. O Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — disse a respeito dele: “Com pouca prática, recebeu uma recompensa muito grande.”
Hazrat Mus’ab e Hazrat As’ad ibn Zurarah realizaram o trabalho de convidar ao Islã e transmiti-lo enquanto permaneciam na casa de Hazrat As’ad. Por meio desse convite, alguns homens e mulheres de cada família dos Ansar aceitaram o Islã. Antes da chegada da temporada seguinte da peregrinação, Hazrat Mus’ab ibn Umair (que Allah esteja satisfeito com ele) chegou a Meca, vindo até o Mensageiro de Allah, trazendo a boa notícia do sucesso. Ele apresentou ao amado Profeta — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — informações detalhadas sobre a situação das tribos de Yathrib, suas estratégias de guerra e defesa e suas demais capacidades (Ibn Hisham, vol. 1, p. 435; vol. 2, p. 90; Zad al-Ma’ad, vol. 2, p. 51).
A Segunda Aliança de Aqabah
No décimo terceiro ano da missão profética, em junho de 622 da era cristã, setenta muçulmanos chegaram a Meca vindos de Medina para realizar a peregrinação. Eles haviam vindo a Meca junto com os peregrinos politeístas de seu próprio povo. Enquanto ainda estavam em Medina ou durante a viagem para Meca, disseram uns aos outros: “Até quando deixaremos o amado Mensageiro — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — em Meca, sofrendo dessa maneira?” Também conversaram sobre as circunstâncias adversas que ele enfrentava em Meca.
Depois de chegar a Meca, eles estabeleceram secretamente contato com o amado Mensageiro — que Allah o abençoe e lhe conceda paz —, e decidiu-se que, no meio dos dias de Tashriq — os dias 11, 12 e 13 do mês de Dhu al-Hijjah são chamados de dias de Tashriq —, no dia 12 de Dhu al-Hijjah, os dois grupos se reuniriam junto à Jamrah al-Ula, isto é, no desfiladeiro de Jamrah de Aqabah, em Mina, para realizar uma conversa secreta durante a escuridão da noite.
Essa reunião mudou o curso da história no conflito entre o Islã e a idolatria. Eis o relato dessa reunião, narrado por um líder dos Ansar.
Hazrat Kaab ibn Malik (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: Partimos para realizar o Hajj. O amado Profeta marcou um encontro conosco em Aqaba, durante os dias de Tashriq. Por fim, chegou a noite marcada para a conversa. Consultamos nosso respeitado líder, Abdullah ibn Haram, e dissemos-lhe: “Ó Abu Jabir, o senhor é um de nossos líderes respeitados. Queremos tirá-lo da situação em que se encontra; desejamos que seja salvo para sempre do fogo do Inferno.” Em seguida, convidamo-lo ao Islam e informamo-lo sobre o assunto de nossa conversa com o amado Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Ele aceitou o Islam e foi conosco a Aqaba. Foi nomeado naqib (Ibn Hisham, volume 1, p. 440).
Hazrat Kaab (que Allah esteja satisfeito com ele), relatando detalhadamente o acontecimento, disse: Naquela noite, deitamos em nosso acampamento como de costume. Depois que passou um terço da noite, encontramo-nos com o Mensageiro de Allah no local previamente combinado. Assim como um pardal sai furtivamente de seu ninho, também saímos do acampamento da mesma maneira. Finalmente, reunimo-nos em Aqaba. Éramos 75 pessoas: 73 homens e 2 mulheres. As duas eram Umm Ammara Nasiba bint Kaab, da tribo Banu Majin ibn Najjar, e Umm Mani Asma bint Amr, da tribo Banu Salama.
Todos chegamos ao vale e ficamos esperando o amado Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Depois de algum tempo, ele chegou acompanhado de seu tio Abbas ibn Abd al-Muttalib. Embora ainda não tivesse aceitado o Islam, era bem-intencionado para com seu sobrinho. Foi ele quem iniciou a conversa (Ibn Hisham, volume 1, p. 440).
Explicação da delicadeza da situação
A reunião começou, e iniciaram-se as discussões para definir a ajuda religiosa e militar. Abbas, tio do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, falou primeiro. Ele queria esclarecer, à luz da situação, a responsabilidade que estava prestes a ser assumida. Dirigindo-se àqueles sobre os quais essa grave responsabilidade seria confiada, disse: “Vocês conhecem o valor e a posição de Muhammad Mustafa. Em nossa comunidade, mantivemos Muhammad afastado daqueles que não apoiam a religião que ele trouxe. Ele está seguro em sua própria cidade, entre seu povo. Agora deseja ir até vocês e viver entre vocês. Se puderem garantir sua segurança e protegê-lo dos ataques da parte adversária, não há mais nada a dizer. Vocês sabem melhor que ninguém a responsabilidade que assumiram. Mas, se pensam em abandoná-lo, então partam agora mesmo, pois ele está seguro em sua própria cidade, entre seu povo, e também possui honra ali.”
Hazrat Kaab (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: Dissemos a Hazrat Abbas: “Ouvimos suas palavras. Ó Mensageiro de Allah, agora fale você. Tome de nós o compromisso que desejar em seu próprio favor e em favor de seu Senhor” (Ibn Hisham, volume 1, pp. 441–442).
O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, começou a falar. Primeiro, recitou o Alcorão e convocou à fé em Allah; em seguida, realizou-se a bay’ah,
Cláusulas da bay’ah
O acontecimento da Bay‘ah foi narrado detalhadamente pelo imame Ahmad, com base no relato de Jabir (que Allah esteja satisfeito com ele). Jabir (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Perguntamos: ‘Ó Mensageiro de Allah, em que questões lhe prestaremos a Bay‘ah?’ Ele respondeu: ‘Nos seguintes assuntos:’
1. Ouvireis e obedecereis às minhas ordens em todas as circunstâncias, sejam boas ou más.
2. Gastareis vossos bens tanto em tempos de prosperidade quanto em tempos de dificuldade.
3. Ordenareis o que é correto e impedireis o que é incorreto.
4. Levantar-vos-eis pela causa de Allah e não recuareis por medo ou intimidação de ninguém quando se tratar de Allah.
5. Depois que eu for até vós, ajudar-me-eis e protegereis a mim assim como protegeis vossas próprias vidas e vossos filhos; nisso haverá o Paraíso para vós. (O imame Ahmad ibn Hanbal narrou este relato com uma cadeia de transmissão hasan; o imame al-Hakim e Ibn Hibban o consideraram autêntico. Consulte Ibn Hisham, volume 1.)
O relato de Ka‘b mencionado por Ibn Ishaq aparece somente no quinto item. Ali se afirma que o amado Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, conclamou à adoração de Allah por meio da recitação do Alcorão e enfatizou o Islã, dizendo: “Estou recebendo de vós a Bay‘ah sob a condição de que me protejais com aquilo com que protegeis vossos filhos.” Ao ouvir isso, Ka‘b ibn Marur segurou a mão do amado Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e disse: “Sim, pelo Ser que o enviou como verdadeiro Profeta, nós certamente o protegeremos com aquilo com que protegemos nossos filhos. Portanto, ó Mensageiro de Allah, receba de nós a Bay‘ah. Por Allah, somos filhos da guerra — isto é, nascemos à sombra da guerra —; as armas são nossos brinquedos, e esse estado existe entre nós desde o tempo de nossos antepassados.”
Ka‘b disse: Enquanto ele conversava com o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, Abu al-Tayahan ibn Tayhan disse: “Ó Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, temos um pacto com os judeus; cortaremos seus laços. Rompemos nossas relações com os judeus. Depois, quando Allah lhe conceder a vitória, o senhor não nos abandonará para retornar ao seu próprio povo, não é?”
Ao ouvir isso, o Mensageiro de Allah sorriu suavemente e disse: “Não, isso não acontecerá. O vosso sangue será considerado como o meu sangue, e a vossa destruição, como a minha destruição. Eu pertenço a vós, e vós pertenceis a mim. Combaterei aqueles contra quem combaterdes e farei trégua com aqueles com quem fizerdes trégua.”
Descrição da situação perigosa do juramento de lealdade
Após uma discussão detalhada sobre as condições do juramento de lealdade, os presentes desejaram prestar o juramento nas mãos do Profeta. Nesse momento, dois muçulmanos se levantaram. Eles haviam aceitado o Islão durante a temporada do Hajj, entre o décimo primeiro e o décimo segundo ano da missão profética. Eles queriam explicar e analisar cuidadosamente as suas responsabilidades, deveres e a situação. Desejavam expor devidamente todos os aspectos da questão antes de prestarem o juramento. Queriam saber e compreender até que ponto o seu povo estava preparado para fazer sacrifícios.
Ibn Ishaq escreveu que, depois de as pessoas se reunirem para prestar o juramento, Abbas ibn Ubada ibn Nadla disse: “Certamente sabeis a respeito de que estais a prestar juramento a ele?” Todos responderam: “Sim, sabemos.” Abbas disse: “Estais a prestar juramento nas mãos dele para combater pessoas negras e vermelhas. Se pensais que, depois de gastardes as vossas riquezas e de os vossos líderes serem mortos, o abandonareis, então abandonai-o agora, pois abandoná-lo, depois de o levardes convosco, quando estiverdes sozinhos, será uma humilhação neste mundo e no Além. Mas, se pensais que, mesmo depois de sacrificardes as vossas riquezas e de os vossos líderes serem mortos, cumprireis o compromisso assumido com ele e ireis para onde sois chamados, então levai-o convosco. Juro por Allah que nisso estão o bem e a prosperidade deste mundo e do Além.” (Ibn Hisham, volume 1, p. 442.)
Depois de ouvirem essas palavras, todos perguntaram em uníssono: “Sacrificaremos as nossas riquezas e correremos o risco de ver os nossos líderes serem mortos, mas o que receberemos em troca? Cumpriremos devidamente o nosso compromisso, mas qual será a nossa recompensa?” O Mensageiro de Allah respondeu: “O Paraíso.” Então todos estenderam as mãos, e o Mensageiro de Allah também estendeu a mão; assim, o juramento de lealdade foi concluído. (Ibn Hisham, volume 1, p. 446.)
Jabir relatou: Entre os presentes, Asad ibn Zurara era o mais jovem. Então Asad segurou a mão do Mensageiro de Allah e disse: “Ó habitantes de Medina, esperai um pouco. Viemos até ele depois de percorrer uma distância que resseca o peito de um camelo, e fizemos isso porque ele é o Mensageiro de Allah. Levá-lo hoje de Meca significa tornar-nos inimigos de toda a Arábia, ver os vossos líderes eminentes serem mortos e ouvir o tilintar das espadas. Portanto, levai-o somente se puderdes suportar tudo isso. A recompensa por esse ato está junto de Allah. Mas, se prezais mais as vossas próprias vidas, deixai-o agora; isso será uma desculpa aceitável diante de Allah.” (Musnad Ahmad.)
A conclusão do juramento de lealdade
Os termos do juramento de lealdade já haviam sido determinados, e a gravidade da situação também havia sido exposta. Depois que foram exortados ainda mais, todos disseram em uníssono: “Asad ibn Zurara, tira a tua mão! Juro por Allah que não podemos renunciar a este juramento nem quebrá-lo.” (Musnad Ahmad.)
Ao receber essa resposta, As‘ad compreendeu perfeitamente que seu povo estava firmemente decidido e preparado para dar a própria vida. Mus‘ab ibn ‘Umair era o mais destacado pregador da religião em Medina e, naturalmente, era o líder religioso daqueles que prestavam o juramento de fidelidade. Assim, As‘ad ibn Zurara foi o primeiro a prestar o juramento. Ibn Ishaq narrou que os Banu Najjar disseram: Abu Umasha As‘ad ibn Zurara foi a primeira pessoa a apertar a mão do amado Mensageiro de Allah. (Ibn Ishaq narrou que os Banu Ashhal disseram que Abu al-Haitham ibn al-Taihan foi o primeiro a prestar o juramento; Ka‘b ibn Malik disse que o primeiro a prestá-lo foi Bara ibn Ma‘rur; Ibn Hisham, volume 1, p. 447. Creio que os relatos sobre Abu al-Haitham e Bara se referem ao juramento prestado antes da Bay‘ah; caso contrário, como As‘ad ibn Zurara estava presente diante de todos naquela ocasião, seu nome deveria ter sido mencionado primeiro.) Depois, todos os demais prestaram o juramento. Jabir (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Nós nos levantamos um a um, e o Mensageiro de Allah recebeu o juramento de cada um de nós; em troca, ele nos anunciou as boas-novas do Paraíso.” (Musnad Ahmad.)
As duas mulheres presentes naquela assembleia prestaram o juramento verbalmente; o amado Mensageiro jamais apertou a mão de uma mulher que não lhe fosse familiar. (Sahih Muslim, Bay‘at an-Nisa, volume 2, p. 131.)
Os doze naqib e seus nomes
Depois da conclusão da Bay‘ah, o amado Profeta propôs que fossem nomeados doze líderes, que seriam os naqib de seus respectivos povos. Eles ficariam responsáveis por fazer com que as condições da Bay‘ah fossem cumpridas pelos membros de seus próprios povos. O amado Profeta pediu aos presentes que indicassem os nomes dos doze e, pouco depois de fazer esse pedido, foram nomeados doze naqib: nove eram da tribo dos Khazraj e três, da tribo dos Aws.
1. As‘ad ibn Zurara ibn ‘Udas 2. Sa‘d ibn Rabi‘a ibn ‘Amr 3. ‘Abdullah ibn Rawaha ibn Tha‘laba 4. Rafi‘ ibn Malik ibn ‘Ajlan 5. Bara ibn Ma‘rur ibn Sakhr 6. ‘Abdullah ibn ‘Amr ibn Haram 7. ‘Ubada ibn Samit ibn Qais 8. Sa‘d ibn ‘Ubada ibn Uaim
9. Mundhir ibn ‘Amr Khunais. Eles pertenciam à tribo dos Khazraj.
Por outro lado,
1. Usaid ibn Hudair ibn Sammak 2. Sa‘d ibn Khaithama ibn Harith 3. Rifa‘a ibn ‘Abdul-Mundhir ibn Zubair pertenciam à tribo dos Aws. (Alguns mencionaram Yunair em vez de Zubair; alguns autores de obras sobre a vida do Profeta acrescentaram o nome de Abu al-Haitham ibn at-Taihan em vez de Rifa‘a.)
Depois de nomear os doze naqibs, o Mensageiro de Allah — que a bênção e a paz de Allah estejam sobre ele — exigiu deles ainda outro compromisso, pois eram mais responsáveis. Ele disse: “Vocês são responsáveis e guardiões de todos os assuntos de seu povo, assim como os hawariyyun (os doze discípulos) eram responsáveis e guardiões em nome de Jesus (que a paz esteja sobre ele); do mesmo modo, eu sou responsável e guardião em nome dos muçulmanos.” Todos responderam em uníssono: “Sim.”
A revelação do acordo por Satanás
Quando o acordo foi concluído e todos se preparavam para partir, Satanás tomou conhecimento da reunião. Não havia tempo para levar a notícia aos coraixitas; se a notícia chegasse até eles, atacariam os muçulmanos em conjunto. Por isso, Satanás subiu ao topo de uma montanha elevada e gritou em voz alta: “Ó habitantes de Mina, vejam Muhammad! Pessoas sem religião estão atualmente com ele; reuniram-se para lutar contra vocês!”
O nobre Profeta disse: “Aquele é o Satanás do desfiladeiro. Ó inimigo de Allah, fica sabendo que em breve terei tempo para lidar contigo.” Em seguida, disse às pessoas que retornassem às suas respectivas tendas (Zad al-Ma‘ad, vol. 2, p. 51).
Ao ouvir a voz de Satanás, Hazrat Abbas ibn Ubada ibn Nadla disse: “Juro por Aquele que o enviou com a verdade: se o senhor quiser, amanhã mesmo atacaremos os habitantes de Mina com nossas espadas.” O nobre Mensageiro — que a bênção e a paz de Allah estejam sobre ele — respondeu: “Ainda não recebi ordem para fazer isso. Retornem aos seus acampamentos.” Então todos foram deitar-se (Ibn Hisham, vol. 1, p. 448).
A discussão dos coraixitas com os líderes de Medina
Ao receberem essa notícia, os coraixitas ficaram desorientados, pois conheciam as consequências de longo alcance de uma bay‘ah desse tipo. Na manhã seguinte, um grupo de homens eminentes dos coraixitas foi até as tendas dos visitantes de Medina e manifestou forte indignação contra a reunião e a bay‘ah da noite anterior. Disseram: “Ó habitantes de Khazraj, ouvimos dizer que vocês querem levar este nosso homem para longe de nós. Vocês prestam bay‘ah a ele para lutar contra nós, embora para nós seja mais detestável lutar contra vocês do que contra qualquer outra tribo árabe que nos combata” (Ibn Hisham, vol. 1, p. 448).
Depois que os coraixitas de Meca protestaram, os peregrinos não muçulmanos vindos de Medina disseram: “O que vocês estão dizendo não é verdade.” Juraram que um acontecimento desses não poderia ter ocorrido. Abdullah ibn Ubayy disse: “É inconcebível que os homens do meu povo tenham realizado uma coisa tão importante sem me consultar. Eu estou agora em Meca; mesmo que estivesse em Medina, eles não teriam tomado uma medida dessas sem consultar-me.”
Era inacreditável que a reunião e a bay‘ah tivessem ocorrido durante a noite; por isso, os não muçulmanos de Meca acreditaram nas palavras dos peregrinos não muçulmanos de Medina. Os muçulmanos trocaram olhares furtivos entre si e permaneceram calados.
Eles não disseram nem sim nem não. Depois de algum tempo, os líderes dos coraixitas compreenderam que nada que justificasse preocupação havia realmente acontecido e, por fim, partiram decepcionados.
A perseguição aos que haviam prestado a bay‘ah
Os líderes coraixitas retornaram a Meca convencidos de que aquilo que haviam ouvido não era verdade. Contudo, como ainda tinham dúvidas, ficaram ansiosos para reunir informações. Por fim, compreenderam que o acontecimento era verdadeiro: a bay‘ah realmente havia ocorrido, sem dúvida alguma. Mas, quando obtiveram a confirmação, os peregrinos de Medina já haviam partido. Alguns não muçulmanos foram atrás dos viajantes de Medina, mas, até então, a oportunidade já havia sido perdida. Cavaleiros velozes avistaram Sa‘d ibn ‘Ubadah e Mundhir ibn ‘Amr. Mundhir avançou rapidamente, mas Sa‘d foi capturado, levado amarrado a Meca e espancado. Depois que o levaram para Meca, Mut‘im ibn ‘Adi e al-Harith ibn Harb Umayyah o libertaram, pois as caravanas comerciais dos dois viajavam para Medina sob a proteção de Sa‘d ibn ‘Ubadah. Enquanto isso, os peregrinos de Medina expressaram intensa indignação ao saberem da prisão de seu companheiro de viagem, Sa‘d ibn ‘Ubadah. Decidiram retornar a Meca e atacar os coraixitas incrédulos; porém, antes de avançarem em direção a Meca, perceberam que Sa‘d ibn ‘Ubadah estava voltando. Depois disso, todos os integrantes da caravana partiram em segurança e chegaram sãos e salvos a Medina. (Zad al-Ma‘ad, vol. 2, pp. 51–52; Ibn Hisham, vol. 1, pp. 448–450.)
Esta foi a Segunda Bay‘ah de ‘Aqabah, também chamada de Bay‘ah de ‘Aqabah al-Kubra. Essa bay‘ah ocorreu em um ambiente no qual estavam despertos, entre os crentes, os sentimentos de solidariedade mútua, cooperação, confiança, bravura e coragem. O coração dos crentes de Medina estava repleto de amor por seus irmãos vulneráveis de Meca, e seus espíritos estavam tomados por uma determinação irresistível de ajudá-los; em seus corações havia ira e ódio contra os incrédulos opressores. Aqueles que, mesmo sem jamais terem se visto, haviam sido aceitos como irmãos pela causa da satisfação de Allah eram, de fato, irmãos na religião.
Esse tipo de motivação não provinha de nenhuma atração externa, nem havia possibilidade de que o fluxo do tempo apagasse o estímulo desse amor. Pelo contrário, a base desse amor era a fé em Allah, a fé no Mensageiro de Allah, sallallahu alayhi wa sallam, e a fé no Alcorão de Allah. Não havia possibilidade de que essa fé se enfraquecesse ou se deteriorasse diante de qualquer forma de injustiça, perseguição, opressão ou força. A firmeza dessa fé, ou crença no invisível, manifesta-se por meio das ações. Foi justamente por causa dessa fé que os muçulmanos foram capazes de deixar no mundo marcas de realizações extraordinárias; exemplos dessas realizações não foram encontrados no mundo do passado, e tampouco há probabilidade de que sejam encontrados no mundo do futuro.
A apreensiva delegação dos muçulmanos emigrantes
Com a conclusão da Segunda Bay‘ah de ‘Aqabah, o Islã conseguiu estabelecer para si as bases de uma terra de habitação em meio às trevas da incredulidade e da ignorância. Desde o início da da‘wah, esse foi um importante sucesso do Islã. O amado Profeta, sallallahu alayhi wa sallam, permitiu que os muçulmanos emigrassem para sua nova terra.
A Hégira significa abandonar tudo e partir para algum lugar apenas para salvar a própria vida; contudo, nem mesmo essa vida está livre de perigos. Desde o início da viagem até a chegada ao destino, a vida pode ser ceifada em qualquer lugar. A viagem começa rumo a um destino obscuro e incerto, e nada se pode dizer antecipadamente sobre os tipos de perigos e dificuldades que serão enfrentados no futuro.
Mesmo sabendo e compreendendo tudo isso, os muçulmanos começaram a fazer a Hégira. Enquanto isso, os politeístas começaram a criar obstáculos no caminho dos muçulmanos, pois haviam percebido que, após a Hégira dos muçulmanos, muitos perigos e ameaças surgiriam para eles no futuro. A seguir, são apresentados alguns exemplos da Hégira.
1. O primeiro emigrante foi Abu Salama (que Allah esteja satisfeito com ele). Segundo o relato de Ibn Ishaq, ele emigrou um ano antes da Segunda Aliança de Aqaba, acompanhado de sua esposa e dos filhos. Quando começou a partir, os familiares de sua esposa disseram: “Você tem mais direito do que nós de decidir sobre a própria vida, mas o que será de nossa filha? Como podemos permitir que ela vá com você, sabendo que você a levará de cidade em cidade? Isso é absolutamente impossível.” Os pais da esposa de Abu Salama a retiveram. Ao saber disso, os pais de Abu Salama ficaram furiosos e levaram consigo o neto. O bebê, que ainda mamava, foi entregue a uma ama para ser criado. Antes disso, quando os dois lados puxaram a criança em direções opostas, sua mão ficou ferida. Em suma, Abu Salama (que Allah esteja satisfeito com ele) partiu sozinho para Medina. Enquanto isso, Umm Salama ficou como uma mulher enlouquecida, separada do marido e do filho. O lugar onde seu marido havia partido e de onde seu filho fora levado chamava-se Abtaha. Todas as manhãs, ela ia a Abtaha e lamentava-se durante todo o dia. Assim passou-se um ano. Finalmente, um parente de Umm Salama disse aos pais dela: “Por que vocês não permitem que esta pobre mulher vá até o marido?” Então, seus pais lhe disseram: “Se quiseres, podes ir até teu marido.” Umm Salama foi então à família do marido, tomou o filho da ama e partiu sozinha com ele para Medina. A distância entre Meca e Medina era de quinhentos quilômetros. Ao chegar a um lugar chamado Tan’im, encontrou Uthman ibn Abu Talha. Umm Salama contou-lhe tudo em detalhes. Depois de ouvir tudo, Uthman partiu com ela rumo a Medina. Ao avistar de longe o povoado de Quba, disse: “Teu marido está neste povoado. Vai para lá. Que Allah te abençoe.” Depois disso, Uthman voltou para Meca. (Ibn Hisham, vol. 1, pp. 469-470.)
2) Quando Suhaib (que Allah esteja satisfeito com ele) decidiu emigrar para Medina, os politeístas coraixitas disseram: “Quando vieste até nós, eras um pobre solitário. Depois que chegaste aqui, adquiriste muitas riquezas e prosperaste bastante. Agora queres partir daqui levando tudo isso? Isso é absolutamente impossível.” Suhaib disse: “Se eu deixar todas as minhas riquezas, vocês me deixarão partir?” Eles responderam: “Sim, deixaremos.” Suhaib disse: “Está bem, que assim seja. Deixo tudo com vocês.” Ao saber disso, o amado Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, comentou: “Suhaib lucrou! Suhaib lucrou!” (Ibn Hisham, vol. 1, p. 477.)
3) Umar ibn al-Khattab, Ayyash ibn Abi Rabia e Hisham ibn As ibn Wa’il conversaram entre si e decidiram reunir-se certa manhã em determinado lugar e, de lá, emigrar para Medina. Depois, Umar e Ayyash conseguiram chegar no horário marcado, mas Hisham não conseguiu chegar e foi mantido prisioneiro.
Depois que os dois homens mencionados emigraram e chegaram a Quba, Abu Jahl e seu irmão Harith foram até Ayyash. Os três eram filhos da mesma mãe. Os dois irmãos disseram a Ayyash: “Nossa mãe jurou que não penteará os cabelos nem sairá do sol para a sombra enquanto não te vir.” Ao ouvir isso, o coração de Ayyash se compadeceu de sua mãe. Vendo a situação, Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) disse a Ayyash: “Escuta, Ayyash, eles querem te lançar numa provação quanto à tua religião. Portanto, tem cuidado. Juro por Allah que, quando os piolhos morderem a cabeça de tua mãe, ela certamente a penteará; e, quando o sol intenso de Meca se tornar insuportável, ela certamente irá para a sombra.” Mas Ayyash não deu ouvidos a isso. Para cumprir o juramento de sua mãe, decidiu voltar a Meca com os irmãos. Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Já que queres ir, leva esta minha camela. Não desças de seu dorso; depois de veres tua mãe, parte imediatamente. Se perceberes qualquer comportamento suspeito, volta rapidamente para Medina.”
Ayyash montou na camela e partiu de volta em direção a Meca com os dois irmãos. Depois de percorrerem certa distância, Abu Jahl disse a Ayyash: “Meu irmão, meu camelo anda muito devagar. Vamos trocar por um instante com tua camela.” Assim que Ayyash fez a camela ajoelhar-se, os dois irmãos amarraram-no com uma corda e levaram-no amarrado para Meca durante o dia. Depois de o levarem a Meca, disseram em voz alta para que todos ouvissem: “Ó habitantes de Meca, tratem seus tolos exatamente assim, como nós tratamos este nosso tolo.” (Hisham e Ayyash estavam cativos nas mãos dos incrédulos. Um dia, depois que o Mensageiro emigrou, ele disse: “Quem está disposto a libertar Hisham e Ayyash para mim?” Walid ibn Walid assumiu essa tarefa. Secretamente, foi a Meca e descobriu o local onde estavam seguindo uma mulher que levava comida para eles. Os dois estavam presos em uma casa sem teto. No meio da noite, Walid escalou o muro, entrou na casa, cortou as amarras e saiu, levando ambos em seu camelo para Medina. Ibn Hisham, vol. 1, pp. 474-476. Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) emigrou para Medina acompanhado de um grupo de vinte Companheiros. Sahih al-Bukhari, vol. 1.)
Depois de saberem que alguém estava tomando a iniciativa de emigrar, os politeístas tratavam essas pessoas da maneira descrita; aqui foram apresentados três exemplos. Apesar de todos esses obstáculos, os muçulmanos continuaram a emigrar, levando a fé no coração. Dois meses e alguns dias após a Segunda Aliança de Aqaba, em Meca não restava nenhum muçulmano além do amado Profeta, Abu Bakr e Ali (que Allah esteja satisfeito com ele). Esses dois permaneceram em Meca conforme a orientação do amado Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Havia ainda alguns muçulmanos que os politeístas haviam detido à força. O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, preparava-se para emigrar para Medina e aguardava a ordem de Allah, enquanto Abu Bakr as-Siddiq (que Allah esteja satisfeito com ele) já havia preparado e guardado os equipamentos necessários para a viagem. (Zad al-Ma’ad, vol. 2, p. 52.)
É narrado de Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela), no Sahih Bukhari Sharif, que o amado Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse aos muçulmanos: “Foi-me mostrado o local da vossa migração; trata-se de uma região situada entre duas montanhas.” Então, os muçulmanos começaram a migrar para Medina, e aqueles que haviam migrado para a Abissínia também começaram a chegar a Medina. Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) também se preparou para viajar para Medina. O amado Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse-lhe: “Espera, pois creio que também receberei a ordem de migrar.” Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Que meu pai e minha mãe sejam sacrificados por ti; esperas migrar?” O amado Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) respondeu: “Sim.” Depois disso, Hazrat Abu Bakr começou a esperar, na esperança de se tornar o companheiro de viagem do amado Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Ele possuía duas camelas, que foram alimentadas cuidadosamente com folhas da planta bachla durante quatro meses (Sahih Bukhari, capítulo sobre a Hégira do Profeta, volume 1, p. 553).
A reunião dos coraixitas em Dar an-Nadwa
Quando os politeístas de Meca viram que os nobres Companheiros haviam deixado para trás suas famílias e seus bens e chegado à região dos Aws e dos Khazraj, ficaram desorientados e, tomados pela ira, tornaram-se inquietos. Até então, jamais haviam enfrentado uma situação tão perigosa. Aquela situação representava um golpe severo e um desafio à sua idolatria e à sua base econômica.
Os politeístas sabiam muito bem que Hazrat Muhammad (que a paz esteja sobre ele) possuía capacidade de liderança e orientação, bem como uma força capaz de exercer influência. Também não desconheciam o espírito de sacrifício e coragem existente entre seus Companheiros. A habilidade militar das tribos Aws e Khazraj e sua fama e reputação como guerreiros e combatentes eram igualmente conhecidas por todos. Todos conheciam também a extraordinária sabedoria dos líderes perspicazes de ambas as tribos: eles sabiam lutar conforme as circunstâncias e, quando necessário, também sabiam firmar tréguas e acordos. Os coraixitas tampouco ignoravam que, após muitos anos de amargura decorrente da guerra civil, as tribos Aws e Khazraj haviam começado a avançar rumo a uma trégua e a uma aliança, quando necessário.
Os coraixitas politeístas sabiam que havia uma rota ao longo da costa do Mar Vermelho, do Iêmen até a Síria, e que era por essa rota que passavam as caravanas comerciais dos coraixitas. Essa rota não ficava muito distante de Medina; portanto, sob os pontos de vista econômico e militar, a localização de Medina era extremamente importante. O volume anual do comércio dos habitantes de Meca com a Síria equivalia, segundo os cálculos daquela época, a duzentas e cinquenta mil moedas de ouro; o comércio com Tabera e outras regiões somava-se a isso. Assim, compreendiam perfeitamente que seus interesses comerciais só poderiam ser preservados mediante a garantia da segurança das rotas comerciais.
Esta discussão mostra quão graves seriam as consequências do fortalecimento da base da pregação islâmica em Medina e da união dos habitantes de Medina contra os habitantes de Meca. Os politeístas estavam devidamente cientes desses perigos e compreendiam que tinham diante de si tempos difíceis e grandes desafios. Por isso, começaram a pensar em uma medida eficaz para enfrentar esses desafios. Sabiam que, na raiz de toda essa desordem e inquietação, estava o próprio Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), o portador da bandeira do Islã.
Cerca de dois meses e meio após o Segundo Juramento de Aqaba, na sexta-feira, 26 de Safar, correspondente a 12 de setembro de 622 do calendário cristão (esta história foi registrada com base nas informações acrescentadas pelo erudito Mansurpurī, Rahmatul lil-Alamin, volume 1, pp. 95, 97 e 102; volume 2, p. 471), realizou-se uma reunião pela manhã (há evidências, na narração de Ibn Ishaq, de que essa reunião ocorreu no primeiro período do dia, isto é, pela manhã. Ele afirma que Hazrat Jibril (que a paz esteja sobre ele) levou ao amado Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) a notícia dessa reunião e lhe concedeu permissão para a Hégira. No Sahih Bukhari, consta a narração de Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) de que o amado Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) foi ao encontro de Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) ao meio-dia e disse: “Foi-me dada permissão para partir para Medina.” Os detalhes serão apresentados posteriormente.) Essa reunião, a mais odiosa e abominável da história, foi realizada em Dar an-Nadwa, o parlamento de Meca. Representantes de todas as tribos dos coraixitas de Meca participaram dela. O tema da discussão era elaborar um plano para eliminar do mundo o porta-estandarte da pregação islâmica e apagar para sempre a luz do Islã.
Identificação dos representantes das tribos que participaram dessa abominável reunião
1. Abu Jahl ibn Hisham — clã Banu Makhzum
2. Zubair ibn Mut’im, Tuwayma ibn Banu Nawfal ibn Abd Manaf
Adi e Harith ibn Amir
3. Shayba ibn Rabi’a, Utba ibn Rabi’a
e Abu Sufyan ibn Harb, Banu Abd Shams ibn Abd Manaf
4. Nadr ibn Harith — Banu Abd ad-Dar
5. Abu al-Bukhtari ibn Hisham
Jumah ibn Aswad e
Hakim ibn Hizam — Banu Asad ibn Abd al-Uzza
6. Nabiih ibn Hajjaj e Banu Sahm
Munabbih ibn Hajjaj
7. Umayya ibn Khalaf — Jumah
No horário previamente marcado, os representantes chegaram à Darun Nadwa. Naquele momento, Iblis, o Satanás, assumiu a aparência de um ancião e compareceu ao local da reunião. Vestia uma túnica. Ao vê-lo na entrada, as pessoas disseram: “Quem é o senhor? Não conseguimos reconhecê-lo.” O Satanás respondeu: “Sou um homem de Najd. Ao ouvir sobre a pauta de vocês, vim até aqui. Gostaria de ouvir a discussão e espero poder oferecer alguns conselhos úteis.” Os líderes politeístas receberam o Satanás com atenção e o acomodaram respeitosamente entre eles.
O plano para assassinar o Mensageiro de Allah
Depois que todos chegaram, a discussão começou. Após uma longa deliberação, várias propostas foram apresentadas. Primeiro, Abu al-Aswad propôs: “Vamos expulsá-lo de nosso meio e não lhe permitiremos permanecer em Meca. Não procuraremos saber nada a seu respeito, nem onde vai nem o que faz. Assim poderemos permanecer seguros e a solidariedade entre nós retornará como antes.”
O Satanás disfarçado de ancião de Najd disse: “Isso não serve para nada. Acaso não observastes quão excelentes e quão doces são as suas palavras? Ele conquista facilmente o coração das pessoas. Se permanecerdes indiferentes a respeito dele, ele irá até alguma tribo árabe e, depois de torná-los seus seguidores, atacará vocês. Em seguida, dentro da própria cidade de vocês, destruirá vocês e fará convosco o que bem entender. Portanto, pensai em outra proposta.”
Abul Bukhtari disse: “Que ele seja preso com correntes de ferro e colocado numa sala fechada, com a porta trancada pelo lado de fora; assim, ele morrerá naquela sala, tal como morreram os poetas Zuhayr e Nabigha.”
O Satanás sob a aparência de um xeique najdiano disse: “Esta proposta também não é aceitável. Se vocês o prenderem e o mantiverem dentro de uma casa, de algum modo a notícia chegará aos seus companheiros. Então eles se reunirão, atacarão vocês e o libertarão; depois, aumentando o número de seus apoiadores, voltarão a atacá-los. Nessa ofensiva, a derrota de vocês será inevitável. Portanto, pensem em outra proposta.”
Depois que as duas propostas mencionadas foram rejeitadas, uma terceira proposta foi apresentada. Abu Jahl, o mais abominável criminoso de Meca, levantou essa proposta e disse: “Tenho uma única proposta a respeito dele. Observei atentamente e vi que ninguém aqui chegou nem perto de apresentar essa proposta.” Todos disseram: “Diga, Abul Hakam, qual é essa proposta?” Abu Jahl disse: “Que se escolha um jovem de cada tribo e se entregue a cada um deles uma espada afiada. Depois, esses jovens fortes e armados deverão atacá-lo e matá-lo simultaneamente, de modo que pareça que apenas um homem o golpeou. Assim, nos livraremos desse homem. Como ele será morto dessa maneira, a responsabilidade pelo assassinato será distribuída entre todas as tribos. Os Banu Abd Manaf não poderão combater todas as tribos e, consequentemente, aceitarão receber o preço de sangue. Então lhes pagaremos a compensação pela morte dele.” (Hisham, vol. 1, pp. 480–482).
O Satanás sob a aparência de um xeique najdiano apoiou essa proposta, e o parlamento de Meca chegou a um consenso sobre ela. Todos retornaram às suas casas decididos a pôr imediatamente essa proposta em prática.
A Hégira do Mensageiro de Allah
Depois que foi aprovada a abominável proposta de assassinar o nobre Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, o anjo Gabriel, que a paz esteja sobre ele, veio ao amado Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, trazendo a revelação. Ele informou o Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, sobre a conspiração dos coraixitas e disse que Allah, o Altíssimo, havia lhe permitido emigrar de Meca. Ao informar-lhe o momento da emigração, o anjo Gabriel, que a paz esteja sobre ele, disse ao amado Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele: “Não se deite esta noite na cama de sua casa.” (Hisham, vol. 1, pp. 480–482; Zad al-Ma‘ad, vol. 2, p. 52).
Depois de receber essa notícia, o Profeta foi à casa de Abu Bakr, que Allah esteja satisfeito com ele, exatamente ao meio-dia. Seu objetivo era elaborar com ele o plano da Hégira. Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela, disse: “Estávamos sentados na casa de Abu Bakr, que Allah esteja satisfeito com ele, exatamente ao meio-dia, quando alguém disse a Abu Bakr: ‘O Profeta de Allah está vindo para cá com a cabeça coberta.’ O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, não costumava vir naquela hora. Ao ouvir isso, Abu Bakr, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: ‘Que meu pai e minha mãe sejam sacrificados por ele! Certamente ele veio por causa de algum assunto importante.’”
Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela, disse: “Quando o amado Profeta chegou, pediu permissão para entrar na casa. Depois que lhe foi dada permissão, entrou. Em seguida, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse a Abu Bakr: ‘Afasta aqueles que estão com você.’ Abu Bakr, que Allah esteja satisfeito com ele, respondeu: ‘Há apenas minhas duas filhas.’ O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: ‘Foi-me permitido partir.’ Abu Bakr, que Allah esteja satisfeito com ele, perguntou ao Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele: ‘Eu também irei com você? Ó Mensageiro de Allah, que meu pai e minha mãe sejam sacrificados por você!’ O amado Mensageiro respondeu: ‘Sim.’” (Zad al-Ma‘ad, vol. 1).
Em seguida, depois de preparar os planos da Hégira, ele voltou para sua casa e ficou aguardando a noite (Sahih al-Bukhari, capítulo sobre a Hégira do Profeta, vol. 1, p. 553).
O cerco à residência do Mensageiro de Allah
Enquanto isso, os criminosos proeminentes dos coraixitas passaram o dia inteiro se preparando, de acordo com a proposta aprovada por unanimidade no parlamento de Meca, Dar an-Nadwa. Entre os criminosos mais vis, foram escolhidos onze chefes. Seus nomes eram:
1. Abu Jahl ibn Hisham
2. Hakam ibn As
3. Uqbah ibn Abu Mu‘ayt
4. an-Nadr ibn al-Harith
5. Umayyah ibn Khalaf
6. Jam’a ibn Aswad
7. Tu‘ayma ibn ‘Adi
8. Abu Lahab
9. Ubayy ibn Khalaf
10. Nుబayh ibn Hajjaj
11. Munabbih ibn Hajjaj (Zad al-Ma‘ad, vol. 1, p. 52)
Ibn Ishaq disse: quando a escuridão da noite se adensou, onze malfeitores ficaram à espreita ao redor da residência do Profeta (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), esperando que, quando ele se deitasse, pudessem atacá-lo todos juntos.
Os malfeitores acreditavam de todo o coração que sua desprezível conspiração certamente teria sucesso (Ibn Hisham, vol. 1, p. 482). Abu Jahl, brincando e gracejando com seus companheiros, dizia: “Muhammad afirma que, se vocês abraçarem sua religião e o seguirem, tornar-se-ão reis dos árabes e dos não árabes; depois, quando forem ressuscitados após a morte, haverá para vocês um Paraíso semelhante aos jardins da Jordânia. Se não o matarem, eles os degolarão e, quando forem ressuscitados após a morte, serão queimados no fogo” (Ibn Hisham, vol. 1, p. 483).
O horário para executar a conspiração foi fixado depois da meia-noite. Por isso, eles aguardavam insone o momento determinado. Mas Allah Todo-Poderoso faz prevalecer a Sua vontade. Ele é o Rei dos céus e da terra; faz o que quer. Ninguém pode prejudicar aquele a quem Ele deseja salvar, e ninguém pode salvar aquele a quem Ele deseja capturar. Também nessa ocasião, Allah Todo-Poderoso fez o que havia desejado. Dirigindo-se ao amado Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, Ele disse: “Recorda-te de quando os incrédulos conspiraram contra ti, para aprisionar-te, matar-te ou expulsar-te. Eles conspiram, e Allah também planeja; e Allah é o melhor dos que planejam” (Surata Al-Anfal, versículo 30).
A saída do Mensageiro de Allah de sua casa
Apesar dos preparativos finais e de todos os esforços dos incrédulos coraixitas para executar seu plano, eles não conseguiram ter êxito. Em uma situação tão delicada, o amado Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse a Ali, que Allah esteja satisfeito com ele: “Deita-te na minha cama, usando este meu manto verde hadrami (chama-se manto hadrami o manto confeccionado em Hadramaut, no sul do Iêmen); nada te acontecerá pelas mãos deles.” O amado Profeta dormia à noite usando esse manto (Ibn Hisham, vol. 1, pp. 482–483).
Em seguida, o Mensageiro de Allah saiu, pegou um punhado de poeira e lançou-o contra os incrédulos. Com isso, Allah Todo-Poderoso cegou-os, e eles não puderam ver o Mensageiro de Allah. Naquele momento, o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, recitava este versículo do Sagrado Alcorão: “Colocamos uma barreira diante deles e uma barreira atrás deles, e os cobrimos; por isso, não podem ver” (Surata Yasin, versículo 9).
A poeira lançada caiu sobre a cabeça de cada idólatra. Depois, ele foi à casa de Abu Bakr, que Allah esteja satisfeito com ele; saindo por uma janela daquela casa, os dois partiram para Medina pelo caminho do Iêmen. Após iniciarem a viagem, fizeram uma pausa em uma caverna do monte Thawr, situada a vários quilômetros dali (Ibn Hisham, vol. 1, p. 483; Zad al-Ma’ad, vol. 2, p. 52).
Enquanto isso, os sitiantes aguardavam o momento determinado, mas, antes que ele chegasse, descobriram que haviam fracassado. Um homem desconhecido aproximou-se dos malfeitores e perguntou: “Por quem vocês estão esperando aqui?” Eles responderam: “Por Muhammad.” O homem disse: “Seu desejo não se realizará. Por Allah, Muhammad lançou poeira sobre suas cabeças e passou diante de vocês, seguindo para onde queria.” Ao ouvirem isso, eles disseram: “Como assim? Nós não o vimos.” Então todos puseram as mãos sobre a cabeça e encontraram poeira; em seguida, levantaram-se depois de sacudi-la.
Depois, espiaram para dentro da casa do amado Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, e viram alguém deitado na cama do Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Pensando que Ali era o Mensageiro de Allah, esperaram até a manhã. Ao verem Ali, que Allah esteja satisfeito com ele, deixar a cama pela manhã, os malfeitores ficaram completamente desanimados. Perguntaram a Ali: “Onde está o Mensageiro de Allah?” Ali respondeu: “Não sei” (Zad al-Ma’ad, vol. 1, p. 52; Ibn Hisham, vol. 1, p. 483).
Da casa à caverna de Thawr
O amado Mensageiro emigrou na noite correspondente a 12 de setembro, na passagem para o dia 12, em meados dos dias 12 e 13 de setembro do ano 622 da Era Cristã, no dia 27 de Safar. Seu companheiro de viagem era seu mais fiel companheiro, Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele). Os dois avançaram rapidamente, com o objetivo de atravessar os limites de Meca antes do nascer do sol (Rahmatul lil-Alamin, vol. 1, p. 95). Este mês da viagem será considerado o décimo quarto ano da missão profética se a contagem dos anos for iniciada no mês de Muharram; se a contagem começar no mês em que ele recebeu a missão profética, então Safar será o décimo terceiro ano da missão profética. A maioria dos autores de biografias proféticas iniciou a contagem dos anos no mês de Muharram; alguns adotaram ambos os métodos. Por isso, apresentaram datas confusas para a Hégira. Nós mencionamos a contagem dos anos iniciada no mês de Muharram).
O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, sabia que os perversos coraixitas o procurariam com todos os esforços e, naturalmente, avançariam pela rota que levava a Medina. Por isso, o amado Profeta seguiu na direção oposta, pela estrada do Iêmen. A estrada para Medina ficava ao norte de Meca, enquanto a estrada para o Iêmen ficava ao sul. Depois de percorrer cinco milhas, o amado Profeta chegou ao sopé de uma montanha conhecida como monte Thawr. Era uma montanha muito elevada, difícil de escalar, com muitas pedras. Ao atravessá-las, os dois pés do amado Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, ficaram ensanguentados. Diz-se que, para ocultar suas pegadas, ele caminhava apoiando os calcanhares; por isso, seus pés ficaram feridos.
Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) subiu primeiro uma parte da montanha e ajudou o amado Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, a subir. Depois, os dois se refugiaram numa caverna no cume da montanha. Essa caverna ficou famosa na história pelo nome de caverna de Thawr (Rahmatul lil-Alamin, vol. 1, p. 95; Mukhtasarus-Sirah, de Sheikh Abdullah, p. 1677; Ibn Hisham, vol. 1, p. 482).
Na caverna do monte Thawr
Ao chegar perto da caverna, Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) disse ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz: “Espere um pouco. Se houver alguma coisa na caverna, que aconteça comigo ao enfrentá-la.” Em seguida, entrou na caverna e a limpou. Havia vários buracos, que ele fechou rasgando seu tahband; restaram dois buracos, nos quais colocou os pés, e então convidou o amado Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, a entrar. O amado Profeta entrou e adormeceu com a cabeça no colo de Abu Bakr. Nesse ínterim, algo picou Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele), mas ele não se moveu, temendo que o sono do amado Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, fosse interrompido. Devido à dor do veneno, seus olhos se encheram de lágrimas. Sem perceber, uma lágrima caiu sobre o rosto do amado Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e ele despertou. Perguntou a Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele): “O que aconteceu com você?” Ele respondeu: “Algo me picou.”
Ao ouvir isso, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, pegou um pouco de saliva e aplicou-a no local da picada; imediatamente, a dor do veneno desapareceu (este relato foi transmitido por Umar ibn al-Khattab, que Allah esteja satisfeito com ele. O relato também menciona que, mais tarde, os efeitos daquele veneno reapareceram e que ele faleceu justamente em decorrência de seus efeitos. Veja Mishkat, vol. 2, p. 556, capítulo intitulado “Abu Bakr entre os virtuosos”).
Os dois permaneceram ali durante três dias: sexta-feira, sábado e domingo (Fath al-Bari, vol. 7, p. 336). Nesse período, Abdullah, filho de Abu Bakr, também passava as noites com eles. Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse que Abdullah era um jovem muito inteligente: partia de junto deles no fim da noite, mas era visto em Meca pela manhã; quem o visse pensaria que ele havia passado a noite em Meca. Tudo o que ouvia durante o dia sobre as conspirações contra os dois, levava à caverna de Thawr ao cair da noite.
Enquanto isso, Amir ibn Fuhayrah, escravo liberto de Abu Bakr, pastoreava cabras. Quando a escuridão da noite se tornava profunda, ele ia até os dois levando as cabras e ordenhava o leite para eles; ambos o bebiam até se saciar. Bem cedo, Amir partia com as cabras. Ele fez isso durante as três noites (Sahih al-Bukhari, vol. 1, pp. 553–554). Além disso, Amir ibn Fuhayrah apagava, conduzindo as cabras por aquele caminho, os rastros deixados por Abdullah ibn Abu Bakr em suas idas a Meca (Ibn Hisham, vol. 1, p. 486).
A expedição dos coraixitas
Depois que o plano dos coraixitas fracassou e eles compreenderam claramente que o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — havia escapado de suas mãos, ficaram como enlouquecidos. Primeiro, descarregaram sua ira sobre Ali — que Allah esteja satisfeito com ele —, arrastaram-no até a Caaba e tentaram fazê-lo falar (Rahmatul lil-Alamin, vol. 1, p. 99), mas isso não lhes trouxe resultado algum. Em seguida, foram à casa de Abu Bakr — que Allah esteja satisfeito com ele —. Asma, filha de Abu Bakr, abriu a porta. Perguntaram-lhe: “Onde está teu pai?”. Ela respondeu: “Não sei”. Ao ouvir essa resposta, o perverso Abu Jahl deu uma bofetada tão forte em Asma que seu brinco caiu (Ibn Hisham, vol. 1, p. 487).
Depois disso, os líderes dos coraixitas reuniram-se em uma reunião de emergência e decidiram que deveriam empreender uma busca total para prender o Mensageiro — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — e Abu Bakr — que Allah esteja satisfeito com ele —. Estabeleceram uma vigilância rigorosa em todas as estradas que saíam de Meca e, ao mesmo tempo, anunciaram que quem apresentasse Muhammad — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — e Abu Bakr — que Allah esteja satisfeito com ele —, ou qualquer um dos dois, vivo ou morto, receberia cem camelos como recompensa (Sahih al-Bukhari, vol. 1, p. 554). Depois que esse anúncio se espalhou entre o povo, muitas pessoas saíram por todos os lados; até especialistas em rastrear pegadas começaram a procurá-los. Percorreram todos os lugares, nas encostas das montanhas e nas regiões altas e baixas, mas, apesar de tudo isso, não obtiveram resultado algum.
Os perseguidores chegaram também perto da caverna do monte Thawr, mas Allah, o Rei de todo o mundo, faz prevalecer a Sua vontade. Em Sahih al-Bukhari, Anas — que Allah esteja satisfeito com ele — narrou que Abu Bakr — que Allah esteja satisfeito com ele — disse: “Eu estava com o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — na caverna. Quando levantei a cabeça, vi os pés das pessoas. Eu disse: ‘Ó Mensageiro de Allah, se algum deles se abaixar um pouco e olhar para este lado, poderá nos ver’. O amado Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — disse: ‘Abu Bakr, cala-te! Nós não somos apenas dois aqui; Allah é o terceiro conosco’”. Em outra narração consta que o amado Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — disse: “Abu Bakr, o que pensas de dois homens cujo terceiro é Allah?” (Sahih al-Bukhari, vol. 1, pp. 516, 558). Deve-se ter em mente que a inquietação de Abu Bakr — que Allah esteja satisfeito com ele — não era para salvar a própria vida; ele estava preocupado com o amado Profeta — que Allah o abençoe e lhe conceda paz —. Ele conseguia ver os pés dos perversos e, naquele momento, ficou agitado e disse: “Se eu morrer, morrerá apenas um Abu Bakr; mas, se o senhor morrer, toda a comunidade será destruída”. Então o Mensageiro disse: “Não temas, Abu Bakr; Allah, o Altíssimo, está conosco”.
Em suma, os perseguidores partiram justamente quando a distância entre o Mensageiro de Allah e os perversos era de apenas alguns passos.
A caminho de Medina
A busca empreendida pelos homens ávidos pela recompensa, sob a liderança dos coraixitas de Meca, revelou-se infrutífera. Depois de procurarem continuamente durante três dias, ficaram cansados e desesperados, e seu entusiasmo pela busca começou a diminuir. Percebendo essa situação, o amado Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — e Abu Bakr — que Allah esteja satisfeito com ele — partiram em direção a Medina. Abdullah ibn Urayqit al-Laythi, experiente nas diferentes estradas, já havia combinado que levaria os dois a Medina mediante pagamento. Embora professasse a religião dos coraixitas, era um homem digno de confiança; por isso, também lhe foram entregadas montarias. Disseram-lhe que, depois de três dias, deveria ir com duas montarias até diante da caverna de Thawr. Na noite de segunda-feira, correspondente à noite de 16 de setembro de 622 d.C., 1º de Rabi al-Awwal, Abdullah ibn Urayqit chegou com as montarias. Abu Bakr — que Allah esteja satisfeito com ele — mostrou então seus dois camelos e disse: “Ó Mensageiro, escolha um destes dois”. O Mensageiro respondeu: “Sim, mas mediante pagamento”.
Enquanto isso, Asma, filha de Abu Bakr — que Allah esteja satisfeito com ela —, trouxe uma esteira para colocar sobre o camelo, mas esqueceu-se de trazer a corda para amarrá-la. Quando chegou o momento da partida, depois de Asma colocar a esteira sobre o dorso do camelo, percebeu-se que ela havia deixado a corda para trás. Então, ela tirou sua faixa da cintura, rasgou-a em duas partes, amarrou a esteira ao dorso do camelo com uma delas e amarrou a outra à própria cintura. Por isso, recebeu o título de Dhat an-Nitaqayn, “a possuidora de duas faixas” (Sahih al-Bukhari, vol. 1, pp. 553–555; Ibn Hisham, vol. 1, p. 486).
Depois disso, o amado Mensageiro de Allah e Abu Bakr partiram. Amir ibn Zuhayra também os acompanhava, e o guia Abdullah ibn Uraiqit dirigiu-se com eles para Medina pela rota costeira.
Depois de saírem da caverna de Thawr, Abdullah avançou primeiro por uma longa distância em direção ao Iêmen, isto é, para o sul. Depois, tomou a direção oeste e seguiu ao longo da costa marítima. Mais tarde, passou a seguir uma rota da qual as pessoas comuns não tinham conhecimento; avançou para o norte por esse caminho costeiro do Mar Vermelho, que raramente era frequentado.
Ibn Ishaq mencionou os lugares pelos quais o Mensageiro de Allah passou nessa rota. Ele disse que, quando o guia partiu com eles, atravessou as áreas baixas de Meca. Depois de seguir pela costa, virou na região baixa de Asfan, passou por Saniyat al-Murra, depois por Laqaf, e atravessou a vasta extensão de Laqaf. Em seguida, chegou à ampla região do Hijaz e, de lá, dirigiu-se, pela curva de Mujahir, para uma terra verdejante. Depois entrou na planície de Dhi Kishra e seguiu em direção a Judajid, chegando então a Ajd. Em seguida, atravessou Yuzalam, passando pela vasta região de Tahan; de lá, foi para Abadi e depois partiu em direção a Faja. Mais tarde, desceu em Ajr e, passando pelo lado direito de Raq uba, dirigiu-se a Laniyat al-Azra e desceu ao vale de Rim. Por fim, chegou a Quba. Ibn Hisham (Ibn Hisham, vol. 1, pp. 491–492).
Alguns acontecimentos ocorridos durante a viagem
1) É narrado no Sahih al-Bukhari, por Abu Bakr Siddiq, que ele disse: “Depois de sairmos da caverna de Thawr, viajamos durante toda a noite e continuamos até o meio-dia do dia seguinte. Ao meio-dia, não havia nenhum viajante na estrada. Nesse momento, vimos uma planície extensa e alongada, onde não havia sol, e descemos ali. Com minhas próprias mãos, nivelei um lugar para o amado Profeta dormir e estendi ali uma manta. Então disse ao amado Profeta: ‘Ó Mensageiro de Allah, deite-se e descanse; eu ficarei atento aos arredores.’ O Profeta deitou-se, e eu permaneci observando em todas as direções. De repente, vi um pastor aproximar-se com algumas cabras. Ele vinha em direção à sombra da planície. Perguntei-lhe: ‘Suas cabras têm um pouco de leite?’ Ele respondeu: ‘Sim.’ Perguntei: ‘Posso ordenhá-las?’ Ele respondeu: ‘Sim.’ Então ele trouxe uma cabra. Eu lhe disse: ‘Limpe um pouco o úbere da terra, da palha e dos pelos.’ Depois de limpá-lo, ele ordenhou um pouco de leite numa taça. Eu tinha comigo um recipiente de couro, que havia levado para a ablução do Mensageiro de Allah e para que ele bebesse água. Ao aproximar-me do amado Profeta, vi que ele havia adormecido e não achei apropriado acordá-lo. Depois de algum tempo, ele despertou. Misturei um pouco de água ao leite, fazendo com que a parte inferior do recipiente ficasse fria, e disse-lhe: ‘Beba este leite.’ Ele bebeu e ficou contente. Em seguida, perguntou: ‘Ainda não chegou a hora de partirmos?’ Respondi: ‘Por que não?’ Então partimos novamente.” (Sahih al-Bukhari, vol. 1, p. 556).
2) Durante essa viagem, Abu Bakr sentava-se atrás do Mensageiro de Allah. Os viajantes primeiro dirigiam o olhar para ele, pois seu rosto trazia marcas da velhice; em comparação, o Mensageiro de Allah parecia mais jovem. Quando algum viajante perguntava: ‘Quem é aquele à sua frente?’, Abu Bakr respondia: ‘Ele me guia.’ O interlocutor entendia que ele estava se referindo a guiar pelo deserto; na realidade, Abu Bakr Siddiq aludia ao caminho da piedade e do bem. (Sahih al-Bukhari, vol. 1, p. 556).
3) Durante essa viagem, o amado Profeta fez uma breve parada na tenda de Umm Ma‘bad al-Khuza‘iyya. Essa mulher era muito inteligente e estava sentada no pátio de sua casa; oferecia aos viajantes que passavam o alimento e a bebida que podia. O amado Profeta perguntou-lhe: ‘Você tem alguma coisa?’ A mulher respondeu: ‘Se eu tivesse algo, não deixaria de recebê-los como hóspedes. Tenho algumas cabras, mas elas estão pastando numa região distante. Além disso, agora é um período de fome.’
O Mensageiro de Allah percebeu que havia uma cabra amarrada a um lado da casa e disse: ‘Umm Ma‘bad, por que esta cabra está aqui?’ Umm Ma‘bad respondeu: ‘Esta cabra está muito fraca e não consegue caminhar.’ O amado Mensageiro disse: ‘Se você permitir, posso ordenhá-la?’ A mulher respondeu: ‘Sim; se encontrar leite, ordenhe-a.’ Então o amado Mensageiro tocou o úbere da cabra, pronunciou o nome de Allah e fez uma súplica. Imediatamente, a cabra estendeu as pernas e se levantou; seu úbere estava cheio de leite. O amado Mensageiro pegou um grande recipiente e ordenhou nele a cabra. O recipiente ficou tão cheio que um grupo de pessoas poderia beber até se saciar. Depois de ordenhar, o recipiente encheu-se de espuma. Ele deu de beber aos companheiros, e Umm Ma‘bad também bebeu. Em seguida, ordenhou novamente a cabra no mesmo recipiente. Deixou-o cheio de leite na casa de Umm Ma‘bad e o Mensageiro de Allah partiu em direção ao seu destino.
Depois de algum tempo, o marido da mulher voltou para casa com um rebanho de cabras. Essas cabras também estavam fracas e, exaustas pela caminhada, ofegavam. Abu Ma‘bad, marido de Umm Ma‘bad, ficou espantado ao ver o leite! Perguntou: “De onde veio o leite?” Ela respondeu: “Levei todas as cabras leiteiras para o pasto; em casa não havia nenhuma cabra capaz de dar leite.” Umm Ma‘bad disse: “Um homem abençoado esteve conosco; ele era assim e sua condição era tal.” Depois de ouvir tudo, Abu Ma‘bad disse: “Parece que esse é o homem que os coraixitas estão procurando. Descreva-me um pouco sua aparência e suas características.” Umm Ma‘bad descreveu o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — de maneira extremamente atraente e cativante. Ao ouvir o modo como ela o descrevia, parecia que o ouvinte podia vê-lo diante dos próprios olhos. Esses detalhes serão mencionados no final do livro. Ao ouvir os grandes elogios ao visitante, ele disse: “Juro por Allah, este é o homem dos coraixitas sobre quem as pessoas fizeram essa descrição. Desejo tornar-me um de seus companheiros mais próximos; se encontrar algum meio, certamente o farei.”
Enquanto isso, algumas palavras chegavam levadas pelo vento de Meca, em ritmo de poesia. Não se podia ver quem as recitava; o significado do poema era o seguinte:
Que Allah recompense aqueles dois
que entraram na casa de Umm Ma‘bad
Pararam em segurança, partiram e novamente foram bem-sucedidos
Ele é o companheiro de Muhammad
Ó Qusay, dentre vocês
alcançou sucesso sem precedentes e assumiu a liderança, Allah arrebatou
Aquela mulher de Bun Kab — ah, quão afortunada!
Abençoada seja aquela morada para os crentes.
Perguntem à mulher sobre a cabra e sobre o recipiente.
Até aquela cabra dará testemunho; ide até a cabra.
Hazrat Asma (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: “Nós não sabíamos para que direção o Mensageiro de Allah havia partido. De repente, um jinn veio a Meca e recitou estes versos. As pessoas, tomadas de entusiasmo, não conseguiam encontrar o jinn; corriam atrás da voz e ouviam o som. Em certo momento, a voz desapareceu na região elevada de Meca. Ao ouvirmos aqueles versos, compreendemos em que direção o amado Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) havia partido. Ficou claro que ele se encontrava a caminho de Medina.” (Zad al-Ma’ad, vol. 2, pp. 53–54. Considerando a localização da tribo Banu Khuza’a, pode-se compreender que esse acontecimento ocorreu no segundo dia após o amado Profeta (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) partir para Medina.)
Quarto: No caminho, Suraqah ibn Malik seguiu o amado Profeta e Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele). O relato de Suraqah é o seguinte: “Eu estava sentado numa reunião de meu povo, os Banu Mudlij, quando um homem veio até nós e ficou em pé; depois de algum tempo, sentou-se. O homem disse: ‘Ó Suraqah, há pouco vi algumas pessoas perto da costa. Creio que ele seja Muhammad e seu companheiro.’ Suraqah disse: ‘Compreendi que eram eles, mas, para ocultar minha intenção daquele que trouxera a notícia, respondi: “Não, não são eles. As pessoas que viste, nós também as vimos; passaram diante dos nossos olhos.”’ Depois permaneci sentado por algum tempo na reunião. Em seguida, entrei em casa e pedi à minha criada que trouxesse meu cavalo. Quando ela o trouxe, disse-lhe: ‘Leva-o para trás da colina e espera ali por mim; eu já vou.’ Então peguei uma lança, saí pelos fundos da casa e fui até o cavalo, segurando uma extremidade da lança enquanto arrastava a outra pelo chão. Montei no cavalo, e ele começou a correr comigo. Depois de algum tempo, cheguei até eles na região costeira. De repente, o cavalo começou a saltar, e eu caí de suas costas. Montei novamente e estendi a mão em direção à aljava; tirei uma flecha de adivinhação para saber se poderia colocá-lo em dificuldade, mas a flecha que saiu foi desfavorável para mim. Notei que o Mensageiro de Allah recitava o Alcorão calmamente e com total concentração, sem prestar atenção a nenhuma direção. Abu Bakr as-Siddiq olhava para mim, voltando-se para trás. De repente, as duas patas dianteiras do meu cavalo afundaram no chão até os joelhos. Caí novamente do cavalo. Repreendi-o, e ele tentou levantar-se; com grande dificuldade, conseguiu erguer as patas. Quando as levantou, uma poeira semelhante a fumaça subia das marcas deixadas por seus cascos. Consultei novamente as flechas de adivinhação, e desta vez também saiu uma flecha que eu não desejava. Então chamei-os em voz normal, e eles pararam. Aproximei-me deles montado no cavalo. Assim que os fiz parar, senti subitamente que o Mensageiro de Allah seria vitorioso. Disse então ao Mensageiro de Allah: ‘Seu próprio povo ofereceu uma recompensa pela sua captura, em troca da sua vida.’ Também o informei imediatamente sobre os planos do povo de Meca. Quis oferecer-lhe algumas provisões para a viagem, mas ele nada aceitou nem me fez pergunta alguma; apenas disse: ‘Mantém em segredo o que diz respeito a nós.’ Eu lhe disse: ‘Escreve para mim um salvo-conduto.’ O Mensageiro de Allah ordenou imediatamente a Amir ibn Fuhayrah que escrevesse algumas palavras num pedaço de couro como salvo-conduto para Suraqah, e ele me entregou o documento. Depois, o Mensageiro de Allah prosseguiu.” (Sahih al-Bukhari, vol. 1, p. 554. A terra natal dos Banu Mudlij ficava perto de Babeg. Quando Suraqah os seguia, o amado Profeta (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) subia de Qudayd em direção às partes mais elevadas. Zad al-Ma’ad, vol. 2, p. 53. Parece que esse acontecimento ocorreu no terceiro dia após a partida da Gruta de Thawr.)
Há um relato de Hazrat Abu Bakr sobre esse acontecimento. Ele disse: “Depois que partimos, as pessoas do povo começaram a procurar-nos, mas ninguém conseguiu ver-nos, exceto Suraqah ibn Malik ibn Ju’shum. Suraqah veio montado num cavalo. Eu disse: ‘Ó Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), um homem está seguindo-nos; ele já se aproximou.’ O amado Profeta (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse imediatamente: ‘La tahzan, innallaha ma’ana’, isto é: ‘Não temas; Allah está conosco.’” (Sahih al-Bukhari, vol. 1, p. 516.)
Suraqah voltou a Meca e descobriu que a busca ainda continuava. Ao ver algumas pessoas dirigindo-se para o caminho em que havia visto o Mensageiro de Allah, Suraqah disse: “O que tinham de fazer naquela direção já foi feito.” No início do dia, aquele homem era um dos perseguidores; ao fim do dia, o mesmo homem havia se tornado um guardião digno de confiança. (Sahih al-Bukhari, vol. 1, p. 516.)
5) No caminho, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, encontrou-se com Buraida al-Aslami. Este homem era o chefe de seu povo e, atraído pela recompensa anunciada pelos coraixitas, também havia saído à procura do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, e de Abu Bakr, que Allah esteja satisfeito com ele. Contudo, assim que conversou com o Mensageiro de Allah, seu estado de espírito mudou: ele aceitou o Islã ali mesmo, juntamente com setenta homens de sua tribo. Depois, tirou o turbante, amarrou-o à lança e, balançando-a, anunciou a boa-nova de que estava chegando o rei da paz, o pioneiro da reconciliação e o precursor daquele que encheria a Terra de justiça e equidade (Rahmatul lil-Alamin, vol. 1, p. 101).
6) No caminho para Medina, o amado Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, encontrou Zubair ibn al-Awwam, que Allah esteja satisfeito com ele. Ele estava voltando da Síria com uma caravana comercial de muçulmanos e presenteou o amado Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, e Abu Bakr, que Allah esteja satisfeito com ele, com alguns objetos (Sahih Bukhari, vol. 1, p. 554).
Estadia em Quba
Na segunda-feira, 4 de Rabi al-Awwal do décimo quarto ano da Profecia, isto é, 1º de Hijra, correspondente a 23 de setembro de 622 d.C., o amado Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, chegou a Quba (Rahmatul lil-Alamin, vol. 1, p. 102). Nessa data, o amado Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, havia completado cinquenta e três anos de idade. Segundo aqueles que calculam a Profecia a partir do ano da batalha do Elefante, considerando o dia 9 de Rabi al-Awwal do ano 41, nessa data haviam se completado treze anos da Profecia. Já segundo aqueles que consideram que o início da Profecia ocorreu no mês de Ramadã do ano 49, de acordo com o cálculo deles, nessa data a idade de sua Profecia era de doze anos, cinco meses e doze ou vinte e dois dias).
Urwa ibn Zubair, que Allah esteja satisfeito com ele, relatou: os muçulmanos de Medina souberam que o amado Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, havia partido de Meca. Por isso, iam todos os dias até um lugar chamado Harrat, nos arredores de Medina, e esperavam. Quando o calor do meio-dia se tornava insuportável, voltavam. Certo dia, depois de uma longa espera, todos haviam retornado para suas casas. Nesse momento, um judeu subiu a uma colina para tratar de um assunto pessoal e, de repente, avistou um dossel feito de tecido branco. Tomado de alegria, começou a gritar: “Ouçam, muçulmanos, ouçam! Aquele por quem esperáveis todos os dias está chegando!” Assim que ouviram isso, os muçulmanos correram e, armados, saíram para receber seu amado líder (Sahih Bukhari, vol. 1, p. 555).
Ibn Qayyim relata que, assim que o anúncio foi feito, houve grande alvoroço entre os Banu Amr ibn Awf e ouviram-se clamores de takbir. Os muçulmanos receberam o Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, e começaram a se aglomerar ao seu redor. Naquele momento, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, estava em silêncio, enquanto lhe era revelado o seguinte versículo do Alcorão: “Mas, se vos ajudardes mutuamente contra o Profeta, sabei que Allah é o seu Protetor, assim como Gabriel, os crentes virtuosos e, além disso, os anjos são seus auxiliares” (Surata At-Tahrim, versículo 4).
Urwa ibn Zubair, que Allah esteja satisfeito com ele, relatou: depois de se juntar ao povo, o amado Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, avançou com eles para a direita e partiu em direção às casas dos Banu Amr ibn Awf. Era segunda-feira, no mês de Rabi al-Awwal. Abu Bakr, que Allah esteja satisfeito com ele, estava de pé para receber os recém-chegados, enquanto o amado Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, permanecia sentado em silêncio.
Os integrantes dos Ansar que ainda não haviam visto o Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, cumprimentavam Abu Bakr, que Allah esteja satisfeito com ele. Quando os raios do sol, que incidiam obliquamente, atingiram o corpo do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, Abu Bakr ficou de pé, protegendo-o com um manto. Assim, todos puderam reconhecer o Mensageiro de Allah (Sahih Bukhari, vol. 1, p. 555).
Multidões afluíram a Medina para receber o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Foi um dia histórico; o solo de Medina jamais havia testemunhado uma cena semelhante. Os judeus também presenciaram a chegada do Profeta prometido. Está mencionado na Bíblia que Allah fará com que ele venha do sul, e que aquele que é santo virá do monte Parã (Bíblia, capítulo de Habacuque, p. 3).
O Mensageiro hospedou-se em Medina na casa de Kulthum ibn Hadam; segundo outra opinião, na casa de Saʿd ibn Khaythama. Contudo, a primeira informação é mais confiável.
Enquanto isso, ʿAli, que Allah esteja satisfeito com ele, permaneceu três dias em Meca, devolveu às pessoas os depósitos que lhe haviam sido confiados e depois foi para Medina (Zad al-Maʿad, vol. 1, p. 54; Ibn Hisham, vol. 1, p. 493; Rahmatul lil-ʿAlamin).
O Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, permaneceu em Quba por quatro dias ao todo (este é o relato de Ibn Ishaq; veja Ibn Hisham, vol. 1, p. 494; este mesmo relato foi adotado pelo erudito Mansurpuri, Rahmatul lil-ʿAlamin, vol. 1, p. 102). Contudo, há um relato em Sahih al-Bukhari segundo o qual o amado Mensageiro permaneceu ali 24 noites (vol. 1, p. 61); outro relato menciona algo além de dez noites (vol. 1, p. 555), e um terceiro menciona catorze noites (vol. 1, p. 560). Ibn Qayyim adotou este último relato, mas explicou que o amado Profeta chegou a Quba numa segunda-feira e partiu dali numa sexta-feira (Zad al-Maʿad, vol. 2, pp. 54–55). Se a segunda-feira e a sexta-feira forem tomadas como pertencentes a duas semanas distintas, o total será de dez dias, sem contar os dias de viagem, ou doze dias incluindo o tempo da viagem; nesse caso, como poderiam ser catorze dias? Ele permaneceu ali na segunda, terça, quarta e quinta-feira. Segundo alguns, foram dez dias; segundo outros, permaneceu em Quba 24 dias, sem contar o dia da partida e alguns dias de viagem. Durante esse período, lançou os alicerces da mesquita de Quba e realizou orações nela. Foi a primeira mesquita construída após o início da sua missão profética, e seus alicerces foram estabelecidos sobre a piedade. Na sexta-feira do quinto, do décimo segundo ou do vigésimo sexto dia, ele montou sua montaria por ordem de Allah. Antes de partir, enviou uma mensagem à tribo dos seus tios maternos, Banu Najjar, e eles compareceram armados de espadas. Ele partiu com eles em direção a Medina. Quando chegaram ao povoado de Banu Salim ibn Awf, chegou o horário da oração de sexta-feira. O Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, realizou a oração de sexta-feira na localidade, e cem fiéis participaram da oração congregacional (Sahih al-Bukhari, vol. 1, pp. 555, 560; Zad al-Maʿad, vol. 2, p. 55; Ibn Hisham, vol. 1, p. 494; Rahmatul lil-ʿAlamin, vol. 1, p. 102). Essa mesquita ainda existe ali.
A entrada do Mensageiro de Allah em Medina
Depois de realizar a oração de sexta-feira, o amado Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, dirigiu-se a Medina. Desde aquele dia, Yathrib passou a chamar-se Madinat al-Rasul, ou seja, “a cidade do Mensageiro”; resumidamente, Medina. Esse foi um dia histórico e memorável. De todos os lados, ouviam-se louvores a Allah, e as crianças dos Ansar, transbordando de alegria, cantavam esta canção:
Desde aquela montanha do sul, ergueu-se sobre nós a lua cheia
Agradecer a Allah é dever de todos nós
Cumprir Tuas ordens e obedecer-Te é dever de todos nós; Allah Todo-Poderoso enviou-Te. (Esta tradução do poema foi feita por Allama Mansurpurî. Allama Ibn Qayyim escreveu que este poema foi recitado quando o Mensageiro retornou de Tabuk, e afirmou que foi um erro dizer que ele só foi recitado no momento da entrada do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) em Medina — Zad al-Ma‘ad, volume 3, p. 10. Contudo, embora Allama Ibn Qayyim tenha considerado isso um erro, não conseguiu apresentar uma prova argumentativa confiável. Por outro lado, Allama Mansurpurî deu preferência à opinião de que o poema foi recitado no momento da entrada em Medina; ele afirmou que possuía provas argumentativas confiáveis a esse respeito. Veja Rahmatul lil-Alamin, volume 1, p. 106.)
Os Ansar não eram ricos nem abastados, mas todos desejavam que o Profeta se hospedasse em sua própria casa. As pessoas das áreas pelas quais ele passava seguravam a rédea da camela do Profeta — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — e pediam que ele fosse para suas casas. Porém, o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — disse: “Deixem livre o caminho da camela; ela recebeu uma ordem da parte de Allah.” Então a camela começou a caminhar à vontade e parou no local onde hoje se encontra a Mesquita do Profeta. O Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — não desceu da camela. Ela avançou um pouco, depois voltou ao lugar anterior e sentou-se. Esse era o bairro dos antepassados maternos do Profeta, isto é, o bairro dos Banu Najjar. Ao deixar a camela sob a vontade de Allah, ela parou na área dos Banu Najjar, demonstrando respeito por seus antepassados maternos; e o próprio Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — também desejava isso em seu íntimo. Então os membros da tribo Banu Najjar começaram a insistir, cada um pedindo que ele fosse para sua própria casa. Abu Ayyub al-Ansari adiantou-se, segurou a rédea da camela e levou-a para sua casa. Depois, o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — disse: “A pessoa acompanha a sela de sua camela.” Em seguida, Hazrat As‘ad ibn Zurarah aproximou-se e segurou a rédea da camela; desde então, ela permaneceu sob seu controle. (Zad al-Ma‘ad, volume 2, p.; Rahmatul lil-Alamin, volume 1, p. 106.)
É narrado no Sahih Bukhari, por intermédio de Hazrat Anas (que Allah esteja satisfeito com ele), que o Profeta — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — perguntou: “Qual de nossas casas fica mais perto?” Hazrat Abu Ayyub al-Ansari respondeu: “A minha casa, ó Mensageiro de Allah; esta é a minha casa e esta é a minha porta.” O Mensageiro de Allah disse: “Vá preparar para nós a qaylulah, isto é, o descanso do meio-dia.” Abu Ayyub disse: “Venham ambos; Allah concederá bênçãos.” (Sahih Bukhari, volume 1, p. 556.)
Alguns dias depois, chegaram também a esposa do Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele —, a Mãe dos Crentes, Hazrat Sawdah; suas duas filhas, Fatimah e Umm Kulthum; Usamah ibn Zayd; e Umm Ayman. Abdullah ibn Abi Bakr levou todos eles para Medina junto com a família de Hazrat Abu Bakr. Hazrat Aishah (que Allah esteja satisfeito com ela) também estava com eles. Uma das filhas do Profeta — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele —, Hazrat Zaynab, permaneceu com Hazrat Abu al-‘As, pois ele não permitiu que ela partisse naquele momento; ela chegou depois da Batalha de Badr. (Zad al-Ma‘ad, volume 2, p. 55.)
Hazrat Aishah (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: “Depois que o amado Mensageiro — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — chegou a Medina, Hazrat Abu Bakr e Hazrat Bilal foram acometidos de febre. Fui até eles e perguntei: ‘Meu pai, como você está? Bilal, como você está?’ Quando Hazrat Abu Bakr tinha febre, recitava este poema:
Todos os membros da família dizem: “Bom dia”
Mas ninguém pensa que sua morte está mais próxima do que o cadarço do seu sapato
Quando Hazrat Bilal (que Allah esteja satisfeito com ele) se recuperou um pouco, recitou com sua voz melodiosa:
Se eu soubesse que passaria a noite nas terras de Meca, cercado por izkhir e jalil (ervas), não sei se conseguiria chegar à fonte de Marjinna; será que poderei ver as montanhas de Sama e Tufayl?
Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: fui até o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) e lhe comuniquei essa notícia. Ele disse: “Ó Allah, torna Medina tão querida para nós quanto Meca era; ou melhor, torna seu ambiente e clima mais saudáveis que os de Meca, abençoa seus cereais e afasta daqui a doença para Al-Juhfa.” (Sahih al-Bukhari, vol. 1, pp. 588–589.) Allah aceitou a súplica de Seu amado Profeta, e a situação mudou.
Até aqui, completaram-se uma parte da vida do amado Profeta (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) e o período mequense da pregação islâmica.
Se Eu lhes conceder autoridade em Minha terra (política), eles estabelecerão a oração e ordenarão o bem; contudo, o desfecho final de todas as coisas pertence exclusivamente a Allah. (Surata Al-Hajj, 41.)
5
Os dez anos de Yathrib: o rei vestido como um mendigo
As diferentes fases da vida medinense
A situação geral de Medina no momento da Hégira
1) Em primeiro lugar, os muçulmanos tiveram de enfrentar fitnas, desordens e adversidades internas; ao mesmo tempo, os inimigos externos atacaram Medina com o objetivo de destruí-la. Essa fase continuou até o Tratado de Hudaybiyyah, no mês de Dhu al-Qa’dah do sexto ano da Hégira.
2) Em segundo lugar, eles firmaram um tratado com os politeístas. Essa fase terminou com a conquista de Meca, no mês de Ramadan do oitavo ano da Hégira. Durante esse período, o convite ao Islã foi apresentado aos governantes de diversos países.
3) Em terceiro lugar, as pessoas começaram a entrar na religião de Allah em grupos. Durante essa fase, representantes de diversas comunidades e tribos vieram a Medina. Essa fase terminou no mês de Rabi al-Awwal do décimo primeiro ano da Hégira, no fim da vida do Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele.
O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, teve de estabelecer relações com três grupos nos quais predominavam as diferenças. Eram eles:
1) O grupo dos nobres Companheiros, que haviam recebido excelente formação do Mensageiro escolhido por Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, e estavam sempre prontos a sacrificar seus bens e suas vidas pelo caminho de Allah.
2) Os politeístas, ligados aos antigos e verdadeiros habitantes de Medina, que ainda não haviam abraçado a fé.
3) Quanto à comunidade judaica e aos nobres Companheiros, os problemas que o amado Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, teve de enfrentar eram os seguintes: a situação de Medina era completamente diferente da de Meca. Embora em Meca fossem seguidores da mesma declaração de fé e tivessem um objetivo comum, estavam espalhados por diferentes famílias; eram temerosos, fracos e submetidos à humilhação, não possuíam qualquer poder, e todo o poder estava nas mãos dos inimigos. Em Meca, os muçulmanos não dispunham de nenhum dos elementos sobre os quais se constrói uma sociedade na Terra. Com que base, então, poderiam os muçulmanos construir uma sociedade? Por isso, vemos que as suratas do Alcorão reveladas em Meca apresentavam apenas os detalhes do convite islâmico. Naquele período, foram reveladas normas que cada pessoa podia cumprir individualmente.
Em contrapartida, depois de migrarem para Medina, desde o primeiro dia as rédeas do poder estavam nas mãos dos muçulmanos, e ninguém mais exercia domínio sobre eles. Eles tiveram de lidar com muitas leis e regulamentos relacionados à cultura, à economia, à política, à guerra e aos tratados, entre outros. Era o momento de estabelecer um modelo concreto para a formação de uma nova sociedade muçulmana, isto é, uma sociedade islâmica, na qual a vida superior se desenvolvesse plenamente por meio da observância do lícito e do ilícito e da manifestação de um caráter nobre. Essa sociedade seria uma sociedade ideal, livre da ignorância e da incultura; nela não haveria nenhum vestígio da sociedade da jahiliyyah. Seria uma sociedade completamente distinta. Chegara então o momento de provar, na prática, a realidade dos diversos sofrimentos, perseguições e opressões que os muçulmanos haviam suportado durante dez anos pelo convite ao Islã.
Uma sociedade desse tipo não pode ser formada em um dia, um mês ou um ano; ao contrário, é necessário um longo período para que as orientações possam ser dadas gradualmente, etapa por etapa, e para que se possa concluir a formulação e a implementação das leis. A responsabilidade pela implementação das orientações e das leis, bem como pela formação e orientação dos muçulmanos, cabia diretamente ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz.
Allah, Exaltado seja, diz: “Ele foi Quem enviou aos iletrados um Mensageiro dentre eles, que lhes recita os Seus versículos, os purifica e lhes ensina o Livro e a sabedoria, embora antes disso estivessem em evidente extravio” (Surata Al-Jumu‘ah, versículo 2).
Quanto à situação dos nobres Companheiros, eles permaneciam sempre atentos ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Sentiam satisfação ao cumprir devidamente as ordens que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, lhes dava. Allah, Exaltado seja, diz: “E, quando os Seus versículos lhes são recitados, isso lhes aumenta a fé.”
Esses assuntos não fazem parte do que devemos discutir aqui; por isso, trataremos deles nos lugares apropriados, conforme a necessidade.
As questões decorrentes da relação dos muçulmanos com o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, têm como ponto central o convite ao Islã e a missão profética de Muhammad. Contudo, isso também não era algo impulsivo; tratava-se, antes, de uma questão distinta e permanente. Além disso, havia outras questões que exigiam atenção imediata; em resumo, eram as seguintes:
Entre os muçulmanos havia dois tipos de pessoas. Um grupo vivia tranquilamente entre suas próprias terras, casas e bens; eram os membros das tribos dos Ansar. Havia uma inimizade hereditária entre eles. Ao lado deles, havia outro grupo: os Muhajirun. Eles estavam privados das vantagens mencionadas; de uma forma ou de outra, haviam chegado a Medina de mãos vazias. Não tinham onde morar, nem trabalho para saciar a fome, nem dinheiro ou qualquer outra coisa que lhes permitisse estabelecer-se por seus próprios meios. O número desses Muhajirun dependentes de auxílio aumentava dia após dia, pois havia sido proclamado no Alcorão que aqueles que acreditassem em Allah e em Seu Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, deveriam emigrar para Medina. Era sabido que Medina não possuía muitos recursos nem meios significativos de renda e sustento. Como resultado, o equilíbrio econômico de Medina foi abalado e, naquele momento crítico, os inimigos do Islã impuseram um boicote econômico a Medina; com isso, as importações diminuíram e a situação se tornou ainda mais grave.
Outro grupo era formado pelos habitantes não muçulmanos de Medina, cuja situação não era melhor que a dos muçulmanos. Alguns não muçulmanos politeístas estavam indecisos e cheios de dúvidas, hesitando em abandonar a religião de seus antepassados; contudo, não nutriam qualquer hostilidade ou inimizade contra o Islã e os muçulmanos. Pessoas desse tipo aceitaram o Islã em pouco tempo e se tornaram verdadeiros muçulmanos.
Por outro lado, havia alguns politeístas que, no íntimo, alimentavam em seus corações intenso ódio e inimizade contra o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e contra os muçulmanos, mas não tinham coragem de se apresentar abertamente ou enfrentá-los. Pelo contrário, devido às circunstâncias, demonstravam amor pelo Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e fingiam ser ingênuos. O principal entre eles era Abdullah ibn Ubayy. Deve-se mencionar que, após a batalha de Bu‘ath, as tribos de Aws e Khazraj haviam concordado em torná-lo seu líder.
Antes disso, essas duas tribos jamais haviam chegado a um consenso sobre qualquer outra questão. Enquanto se preparavam para proclamar Abdullah ibn Ubayy como rei, os membros das tribos de Aws e Khazraj haviam confeccionado uma magnífica coroa. Foi então que o Mensageiro — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — chegou a Medina. Quando a atenção do povo se voltou para o Mensageiro — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — em vez de Abdullah ibn Ubayy, Abdullah pensou que o Mensageiro — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — havia tomado dele o seu reino. Por isso, nutria em segredo um ódio intenso pelo amado Mensageiro — que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Apesar disso, após a batalha de Badr, Abdullah percebeu que a situação não lhe era favorável. Se permanecesse firme no shirk, seria privado até das vantagens mundanas; por isso, declarou publicamente que havia aceitado o Islã, embora, em seu íntimo, fosse um incrédulo. Assim, não perdia nenhuma oportunidade de prejudicar os muçulmanos. Seus companheiros eram pessoas que, sob a liderança daquele hipócrita, sonhavam ocupar altos cargos, mas foram privadas dessas oportunidades. Por isso, também estavam sempre prontas a prejudicar os muçulmanos. Elas executavam os planos do líder hipócrita, Abdullah, e, para esse fim, atraíam para seu grupo alguns jovens muçulmanos ingênuos de Medina e os utilizavam como marionetes.
A terceira classe de pessoas era constituída pelos judeus que viviam ali. Eles haviam buscado refúgio no Hijaz, exaustos da opressão dos assírios e dos romanos. Na realidade, eram hebreus; depois de se refugiarem no Hijaz, em seus costumes, modo de falar e vestimentas, pareciam árabes, e até os nomes de suas tribos e de seus indivíduos eram como os dos árabes. Também haviam estabelecido relações matrimoniais com os árabes. Apesar de tudo isso, não conseguiam esquecer o orgulho de sua linhagem. Orgulhavam-se de ser israelitas, isto é, judeus, e consideravam os árabes extremamente inferiores. Insultavam-nos chamando-os de ummiyyun; com isso queriam dizer ignorantes, tolos, selvagens, inferiores e intocáveis. Acreditavam que os bens dos árabes eram lícitos para eles e que podiam deles usufruir como quisessem. Como Allah, o Altíssimo, diz: “Eles dizem: Não temos obrigação alguma para com os iletrados” (Al ‘Imran, versículo 75).
Ou seja, não seria censurável para nós usufruir e utilizar os bens dos ummiyyun. Entre esses judeus, não se observava qualquer atividade de propagação ou divulgação de sua religião. A adivinhação, a magia e os encantamentos faziam parte de suas crenças e práticas religiosas; por meio de tudo isso, consideravam-se eruditos, sábios e líderes espirituais.
Os judeus eram habilidosos em acumular riqueza. Comercializavam alimentos, tâmaras, vinho e roupas; importavam alimentos, roupas e vinho, e exportavam tâmaras. Além disso, ocupavam-se de muitos outros tipos de atividades. Nos produtos comerciais, obtinham dos árabes lucros duas ou três vezes maiores. Não apenas isso: também praticavam a usura. Emprestavam dinheiro a juros aos xeques e chefes árabes. Estes gastavam generosamente o dinheiro emprestado com os poetas que os louvavam, a fim de conquistar fama. Em troca dos empréstimos a juros, os judeus exigiam vários bens como garantia; assim, em poucos anos, tornavam-se proprietários desses bens.
Os judeus eram extremamente hábeis em conspirar e acender o fogo da guerra. Semeavam secretamente a animosidade entre as tribos vizinhas e estavam sempre prontos para incitar uma tribo contra outra e lançá-las umas contra as outras. Entretanto, aqueles que se envolviam nos conflitos não percebiam absolutamente nada disso. Depois, a discórdia e os confrontos persistiam entre as tribos rivais. Quando percebiam que o fogo da guerra começava a se apagar, os judeus voltavam a agir. O surpreendente é que, depois de incitarem uns contra os outros, permaneciam sentados em silêncio, observando a destruição dos árabes. Mesmo naquele momento, emprestavam dinheiro a juros elevados; não queriam que a guerra terminasse por falta de recursos. Com isso, os judeus obtinham dois tipos de benefício: por um lado, mantinham sua comunidade segura; por outro, mantinham próspero o negócio da usura. Ganharam dinheiro calculando juros sobre juros.
As três principais tribos judaicas de Medina
1) Banu Qaynuqa: eram aliados da tribo de Khazraj e viviam dentro da própria Medina.
2) Banu Nadir.
(3) Os Banu Qurayza eram aliados da tribo de Aws e viviam nos arredores de Medina.
Durante muito tempo, o fogo da guerra ardeu entre as tribos de Aws e Khazraj. Na batalha de Bu’ath, eles próprios também participavam dos combates em apoio às respectivas tribos aliadas. Os judeus nutriam hostilidade contra o Islã; isso era natural, pois esse tipo de inimizade já fazia parte de seu caráter havia muito tempo. O Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, não era descendente deles, portanto seu orgulho aristocrático não encontrava qualquer reconhecimento. Se o Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, tivesse surgido entre eles, teriam se sentido tranquilos. Além disso, o chamado do Islã era um chamado vigoroso, que dava às pessoas a oportunidade de esquecer a hostilidade e unir-se pelos laços da fraternidade, estabelecendo a justiça, a honestidade e a consideração pelo lícito e pelo ilícito. Isso significava que, dessa vez, surgiria harmonia e concórdia entre as tribos em conflito de Yathrib. Como resultado, as atividades comerciais dos judeus diminuiriam e eles seriam privados da riqueza baseada em juros, que constituía o principal fundamento de sua economia. Havia até o temor de que essas tribos tomassem consciência de seus direitos e recuperassem os bens que os judeus haviam tomado sem oferecer nada em troca; isto é, recuperariam os pomares e as terras de várias tribos que os judeus haviam tomado por meio do comércio de juros.
Desde o início da propagação do Islã em Yathrib, os judeus haviam levado tudo isso em consideração. Por essa razão, desde a chegada do Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, os judeus de Medina nutriam intensa hostilidade contra o Islã e os muçulmanos. Contudo, não manifestaram essa hostilidade imediatamente, mas somente algum tempo depois. Um episódio narrado por Ibn Ishaq menciona claramente essa situação.
Ibn Ishaq escreveu: «Recebi um relato de Umm al-Mu’minin Safiyya bint Huyai ibn Akhtar, que Allah esteja satisfeito com ela. Ela disse: “Eu era a mais querida entre os filhos de meu pai e de meu tio; ele me amava mais do que aos demais filhos. Depois que o Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, chegou a Medina, hospedou-se junto aos Banu Amr ibn Awf, na localidade de Quba. Ao receber essa notícia, Huyai ibn Akhtar e seu tio Yasser foram até o Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, bem cedo pela manhã, e retornaram ao pôr do sol. Ambos estavam extremamente cansados.”»
Como de costume, corri até eles, mas estavam tão absortos em seus pensamentos que não prestaram atenção em mim. Ouvi meu tio Yasser e meu pai conversando assim:
— É ele?
— Sim, por Allah.
— Você o reconheceu bem?
—Sim.
Que opinião você tem dele agora?
—Inimizade, por Deus! Enquanto eu viver. (Ibn Hisham, volume I, páginas 518–519).
Também há uma narrativa mencionada no Sahih al-Bukhari que comprova isso; nela é relatada a conversão de Abdullah ibn Salam, que Allah esteja satisfeito com ele,
Abdullah era um erudito judeu de elevada categoria. Assim que soube da chegada do Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, a Medina, foi imediatamente até ele e fez algumas perguntas às quais ninguém, exceto um profeta, poderia responder. Assim que recebeu as respostas do Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, abraçou o Islã. Em seguida, disse ao Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz: “Os judeus são hábeis em caluniar os outros. Se você lhes perguntar algo sobre mim, eles dirão uma coisa; mas, assim que souberem da minha conversão, dirão o oposto.” O Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, imediatamente mandou chamar alguns judeus e perguntou: “Que tipo de pessoa é Abdullah ibn Salam entre vocês?” Eles responderam: “Ele é o mais sábio entre nós e filho do mais sábio entre nós.” Outra narrativa registra: “Ele é nosso líder e filho de nosso líder.” Então o Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, perguntou: “O que vocês diriam se soubessem que Abdullah ibn Salam se tornou muçulmano?” Os judeus disseram duas ou três vezes: “Que Allah o proteja!” Logo depois, Abdullah saiu e declarou em voz alta: “Ashhadu an lā ilāha illā Allāh wa ashhadu anna Muhammadan rasūlullāh”, isto é: “Testemunho que não há divindade além de Allah e testemunho que Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, é Seu Mensageiro.” Ao ouvirem isso, os judeus disseram: “Ele é o pior de nós e filho do pior de nós”, e começaram a dizer outras coisas ainda mais ofensivas sobre ele. Abdullah, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: “Ó comunidade judaica, temei a Allah! Juro por Allah, além de quem não há divindade, que vocês sabem muito bem que ele é o Mensageiro de Allah e que veio com a verdade.” Mas os judeus responderam: “Você está mentindo.” (Sahih al-Bukhari, volume I, páginas 459, 556, 561).
Essa foi a experiência que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, teve com os judeus logo no início de sua chegada a Medina.
Tudo o que foi mencionado até aqui dizia respeito à situação interna de Medina. Fora de Medina, os maiores inimigos dos muçulmanos eram os coraixitas. Durante dez anos, eles haviam infligido sofrimentos ilimitados aos muçulmanos de Meca, tornando suas vidas miseráveis com intrigas, conspirações, perseguições e opressão; não deixavam escapar nenhuma oportunidade de atormentá-los. Depois que os muçulmanos emigraram para Medina, os incrédulos usurparam suas casas, terras e riquezas e, sempre que encontravam alguém que se interpusesse entre os muçulmanos e suas famílias, causavam-lhe sofrimento de diversas maneiras. Além disso, envolveram-se numa terrível conspiração para assassinar o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e erradicar completamente a missão do Islã, mobilizando para esse objetivo todas as suas forças. Mesmo depois de os muçulmanos terem chegado a Medina, distante quinhentos quilômetros, os incrédulos não abandonaram suas conspirações. Os coraixitas eram vizinhos da Casa Sagrada e detinham a liderança religiosa entre os árabes. Por isso, usando sua influência, pressionaram várias tribos de Meca, incitaram-nas contra os muçulmanos e boicotaram Medina politicamente. Como resultado, diminuíram as importações de mercadorias para Medina, enquanto o número de emigrantes que chegavam à cidade aumentava dia após dia. Na realidade, criou-se uma situação semelhante à de um estado de guerra entre os incrédulos de Meca e os habitantes muçulmanos de Medina. Seria extrema insensatez responsabilizar os muçulmanos por essa situação.
Da mesma forma que os incrédulos de Meca haviam tomado à força as casas e riquezas dos muçulmanos e lhes haviam infligido abusos, perseguições e opressão, os muçulmanos também tinham legitimamente o direito de fazer algo semelhante. Da mesma forma que os não muçulmanos haviam criado obstáculos ao curso normal da vida dos muçulmanos, estes também tinham legitimamente o direito de criar obstáculos e impedimentos semelhantes. De acordo com os atos dos não muçulmanos, eles mereciam receber uma resposta proporcional às suas ações; assim, sua conspiração para eliminar completamente os muçulmanos não teria êxito.
Depois que o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — chegou a Medina, deparou-se com esses problemas. Diante deles, adotou uma postura própria de um líder profético: concedeu graça àqueles que eram dignos de recebê-la e providenciou punição para os que a mereciam. Contudo, é certo que a medida de misericórdia e benevolência foi muito maior que a severidade das punições. Assim, em poucos anos, a liderança e a autoridade passaram às mãos dos muçulmanos; esse assunto será discutido em detalhes numa etapa posterior.
Primeira etapa: a implementação de uma nova ordem social
Como mencionado anteriormente, na sexta-feira, 12 de Rabi al-Awwal do primeiro ano da Hégira, correspondente a 27 de setembro de 622 d.C., o Profeta — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — chegou diante da casa de Hadrat Ayyub al-Ansari — que Allah esteja satisfeito com ele —, da tribo dos Banu Najjar. Naquele momento, dizia: “Se Allah quiser, este será o nosso destino”. Em seguida, mudou-se para a casa de Hadrat Ayyub al-Ansari — que Allah esteja satisfeito com ele —.
A construção da Mesquita do Profeta
Depois disso, o Profeta — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — iniciou a construção da Mesquita do Profeta. Escolheu para sua construção o local onde sua camela havia parado durante a viagem. O terreno pertencia a dois meninos órfãos. O Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — comprou deles aquele terreno por um preço justo e iniciou a construção da mesquita. Ele próprio carregava tijolos e pedras para a mesquita, recitando:
Ó Allah, não há vida senão a vida da Outra Vida; perdoa os Ansar,
e os Muhajirun. Este carregamento não é como o carregamento de Khaybar,
este é mais virtuoso para o nosso Senhor e mais puro.
Os Companheiros recitavam com entusiasmo, juntamente com o Profeta (que Allah o abençoe e lhe conceda paz):
Rā’inā qadanā wan-nabī yuʿmal,
Lādhāka minnāl-amānu wal-mudallal,
Isto é: Ó Allah, a verdadeira vida é a vida da Outra Vida; perdoa os Ansar e os Muhajirun. Este fardo não é o fardo de Khaybar; este é um fardo do Senhor, puro. Se ficarmos sentados enquanto o Profeta (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) trabalha, seremos responsáveis por agir de modo desviado.
Naquele terreno havia alguns túmulos de politeístas; parte dele era desolada e irregular, e também havia algumas tamareiras e outras árvores. O Profeta (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) mandou escavar os túmulos dos politeístas, nivelou o terreno irregular, cortou as tamareiras e as outras árvores e plantou-as voltadas para a qibla. Deve-se mencionar que, naquela época, a qibla era Bayt al-Maqdis.
As duas ombreiras da porta da mesquita eram de pedra; as paredes foram construídas com tijolos crus e barro; ramos e folhas de tamareira foram colocados sobre o telhado; e foram instaladas três portas. Da parede dianteira da qibla até a parede traseira, o comprimento era de cem côvados, e a largura era menor que isso. A fundação tinha aproximadamente três côvados de profundidade.
O Profeta (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) construiu, não muito longe da mesquita, algumas cabanas simples. As paredes dessas habitações eram feitas de folhas e ramos de tamareira. Eram as residências das esposas do amado Profeta (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). Depois que foram construídas, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) mudou-se da casa de Abu Ayyub al-Ansari para ali (Sahih Bukhari Sharif, p. 71, 555, 560; Zad al-Maʿad, vol. 2, p. 56).
A mesquita construída não servia apenas para a realização das orações; era também uma universidade, onde os muçulmanos aprendiam os princípios fundamentais do Islã e a orientação.
Era uma assembleia de tal natureza que nela pessoas de diferentes tribos, dilaceradas por conflitos tribais, ódio e hostilidade, conviviam em harmonia e cordialidade mútua. Essa mesquita era um centro a partir do qual eram administrados todos os assuntos do Estado recém-formado, e de onde eram enviados homens para diversas expedições. Além disso, essa mesquita funcionava como um parlamento: nela reuniam-se o Majlis al-Shura e o conselho administrativo.
Além disso, essa mesquita era um abrigo para aqueles emigrantes e desamparados que não tinham casa, família nem qualquer outro amparo.
Desde a primeira etapa da Hégira, começou a prática do adhan. Esse adhan era como uma música extraordinariamente doce, e os horizontes ressoavam com a melodia dessa música. A esse respeito, é mencionado o episódio em que Hazrat Abdullah ibn Zayd (r.a.) recebeu, em sonho, essa orientação. Para mais detalhes, consulte Tirmidhi, Sunan Abi Dawud, Musnad Ahmad e Sahih Ibn Khuzaymah.
Estabelecimento de relações de fraternidade entre os muçulmanos
O Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, estabeleceu, por meio da construção da Mesquita do Profeta, um centro de reunião mútua, união e afeição. Da mesma forma, realizou uma obra extraordinária na história da humanidade: criou um vínculo de fraternidade entre os Ansar e os Muhajirun. O erudito Ibn al-Qayyim escreveu: depois, o Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, estabeleceu um laço de fraternidade entre os Muhajirun e os Ansar na casa de Anas ibn Malik. Naquela ocasião, estavam presentes ao todo noventa Companheiros: metade eram Muhajirun e metade, Ansar. O princípio fundamental desse vínculo fraterno era que cada um compartilharia a tristeza e a alegria do outro e, após a morte, herdaria os bens do outro em lugar dos parentes próximos. Essa regra de herança permaneceu em vigor até a Batalha de Badr. Depois, Allah, o Altíssimo, revelou no Nobre Alcorão o seguinte versículo: “Os parentes próximos têm mais direito uns sobre os outros.”
Após a revelação desse versículo, a lei de herança relativa aos bens entre os Ansar e os Muhajirun deixou de vigorar, mas o vínculo de fraternidade permaneceu intacto. Diz-se que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, estabeleceu outro vínculo de fraternidade somente entre os Muhajirun; contudo, o vínculo fraterno mencionado anteriormente é o que está comprovado. É evidente que os Muhajirun já eram muito próximos uns dos outros devido à fraternidade islâmica, à fraternidade de origem e aos laços de parentesco, não necessitando de qualquer outro tipo de vínculo fraterno. Entretanto, a situação dos Muhajirun e dos Ansar era diferente (Zad al-Ma’ad, vol. 2, p. 56).
Sobre o objetivo desse vínculo fraterno, o Imam al-Ghazali, que Allah esteja satisfeito com ele, escreveu: seu objetivo era pôr fim aos costumes da época da ignorância, realçar a beleza do Islã e eliminar as diferenças de raça, tribo e região. Com isso, demonstrou-se que o critério de superioridade ou inferioridade não reside em nada além da taqwa.
O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, não revestiu esse vínculo fraterno apenas com palavras vazias; pelo contrário, qualificou-o como um compromisso obrigatório e necessário de cumprir, ao qual estavam ligados a vida e os bens. Ele não se limitava a saudações e congratulações pronunciadas apenas com os lábios, sem qualquer resultado; ao contrário, esse vínculo fraterno também despertava o espírito de sacrifício, compaixão diante do sofrimento, cordialidade e harmonia. Por isso, o vínculo fraterno encheu a nova sociedade de Medina de atividades valiosas e brilhantes (Fiqh as-Sirah, pp. 140–141).
É relatado no Sahih Bukhari Sharif que, depois da chegada dos Muhajirun a Medina, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, estabeleceu um vínculo de fraternidade entre Abd al-Rahman ibn Awf, que Allah esteja satisfeito com ele, e Sa’d ibn al-Rabi’, que Allah esteja satisfeito com ele. Então Sa’d ibn al-Rabi’, que Allah esteja satisfeito com ele, disse a Abd al-Rahman, que Allah esteja satisfeito com ele: “Sou o mais rico entre os Ansar; aceite metade da minha riqueza. Tenho duas esposas; veja-as e diga-me de qual gosta mais, e eu me divorciarei dela. Depois que terminar o período de espera legal, você poderá casar-se com ela.” Ao ouvir isso, Abd al-Rahman, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: “Que Allah abençoe sua família e seus bens. Onde fica o mercado de vocês?” Indicaram-lhe o mercado de Banu Qaynuqa. Quando voltou do mercado, havia junto dele um pouco de queijo e manteiga. Depois disso, passou a ir e voltar regularmente do mercado todos os dias. Certo dia, quando voltou, viram-se em suas roupas marcas de açafrão. O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, perguntou-lhe a causa. Abd al-Rahman, que Allah esteja satisfeito com ele, respondeu: “Ó Mensageiro de Allah, casei-me.” O Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, perguntou: “Quanto você deu de dote?” Abd al-Rahman respondeu: “Uma medida e um quarto de tola de ouro.” (Sahih Bukhari, capítulo sobre o estabelecimento do vínculo de fraternidade entre os Muhajirun e os Ansar, vol. 1, p. 553).
É narrado um hadith por Abu Hurayra, que Allah esteja satisfeito com ele, segundo o qual os Ansar solicitaram ao Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele: “Distribua entre nós e nossos irmãos os pomares de tamareiras que possuímos.” O Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, não aceitou. Então os Ansar disseram: “Nesse caso, que os Muhajirun trabalhem em nossos pomares, e nós lhes daremos uma parte dos frutos produzidos.” O Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, consentiu, e então agimos de acordo com isso.
Isso mostra como os Ansar honraram os Muhajirun. Também revela o amor dos Ansar por seus irmãos Muhajirun, sua sincera simplicidade e seu espírito de sacrifício. Os Muhajirun davam grande importância a esse tipo de conduta dos Ansar (Sahih Bukhari, vol. 1, p. 312); não aceitaram deles qualquer benefício adicional, mas receberam apenas a ajuda necessária para reanimar um pouco sua economia debilitada.
Esse vínculo de fraternidade entre os Ansar e os Muhajirun foi uma prova de extraordinária visão e prudência políticas; o estabelecimento dessa fraternidade foi uma solução excelente para os problemas que os muçulmanos enfrentavam naquele momento.
O compromisso de cooperação em prol do Islã
Além do vínculo de fraternidade mencionado, o Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, redigiu outro pacto para os muçulmanos. Por meio dele, foram destruídas as bases de todos os conflitos e disputas tribais da época da ignorância, e não se deixou qualquer espaço para os costumes e tradições daquele período. As cláusulas desse pacto eram as seguintes:
Este documento é celebrado pelo Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, entre os coraixitas yathribitas, aqueles sob sua proteção e seus aliados, e os crentes e muçulmanos que participam do jihad—
1) Todos eles constituem uma comunidade distinta das demais pessoas.
Dois) Os emigrantes coraixitas resgatarão uns aos outros de acordo com o costume anterior e devolverão os prisioneiros entre os crentes de maneira justa; entre os crentes, cada tribo dos Ansar pagará justamente o resgate de seus próprios prisioneiros.
Três) Os crentes não privarão nenhum dos seus de doações e presentes conforme o costume estabelecido no caso de fidya ou resgate.
Quatro) Todos os muçulmanos sinceros se oporão aos que transgredirem os limites; todos os crentes se oporão àqueles que, entre eles, cometerem injustiça e opressão, pecarem ou provocarem tumultos e sedição.
Cinco) Os crentes se unirão contra o injusto; essa decisão não mudará mesmo que o injusto seja filho de um crente.
Seis) Nenhum crente matará outro crente sob a acusação de ter matado um infiel.
Sete) Nenhum crente se oporá a outro crente para ajudar um infiel.
Oito) Todos estarão sob a proteção de Allah, e todos serão obrigados a cumprir até mesmo o compromisso assumido por uma pessoa comum.
Nove) Aqueles judeus que adotarem nosso ideal receberão ajuda e serão tratados como os demais muçulmanos; nenhuma injustiça ou opressão será cometida contra eles, e ninguém receberá ajuda contra eles.
Dez) O acordo entre os muçulmanos será uno: nenhum muçulmano fará um acordo com outra pessoa, excluindo outro muçulmano, no jihad pelo caminho de Allah; ao contrário, todos chegarão a um tratado ou acordo com base na igualdade e na justiça.
Onze) No que diz respeito ao sangue derramado no jihad pelo caminho de Allah, todos os muçulmanos serão considerados iguais.
Doze) Nenhum muçulmano poderá conceder segurança ou proteção, quanto à vida e aos bens, a qualquer um dos incrédulos coraixitas, nem poderá pedir a um crente que conceda segurança ou proteção, quanto à vida e aos bens, a qualquer incrédulo.
Treze) Se alguém matar um crente e isso for comprovado, será aplicado qisas contra ele; isto é, por ser culpado do crime de assassinato, ele também será morto. Contudo, se o assassino puder satisfazer os parentes do morto mediante o pagamento de uma compensação, nesse caso não será aplicado qisas.
Catorze) Se todos os crentes chegarem a um consenso sobre qualquer assunto, ninguém poderá opor-se a ele.
Quinze) Não será lícito ao crente ajudar qualquer causador de tumulto ou inovador; ninguém poderá dar abrigo a uma pessoa que provoque desordem. Se alguém lhe der abrigo ou o ajudar, no Dia da Ressurreição cairá sobre ele a maldição de Allah, e, nesta vida terrena, nenhuma de suas adorações obrigatórias ou voluntárias será aceita.
Dezesseis) Sempre que surgir entre vós alguma divergência sobre qualquer assunto, esse assunto deverá ser resolvido de acordo com as instruções de Allah, o Altíssimo, e de Seu Mensageiro, o Mensageiro de Allah (Ibn Hisham, vol. 1, p. 503).
A nova estrutura do sistema social
Graças a essa visão perspicaz e inteligência, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, lançou os fundamentos de uma nova sociedade. Contudo, a forma externa da sociedade desenvolveu-se e se manifestou tendo o Mensageiro de Allah como centro; sua personalidade cativante era o foco de toda atração. Seus ensinamentos, sua formação, os elementos para a construção do caráter moral, o amor, os exemplos de fraternidade, a adoração e a obediência fizeram com que os muçulmanos alcançassem uma nova vida.
Um Companheiro perguntou ao Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele: “Qual Islam é o melhor?”, isto é, qual prática é a melhor no Islam? O Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, respondeu: “Alimentarás os outros e saudarás com salam todos, conhecidos e desconhecidos” (Sahih Bukhari, vol. 1, pp. 6, 9).
Hazrat Abdullah ibn Salam (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Depois que o Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, chegou a Medina, fui à sua presença. Apenas ao ver seu rosto sagrado, compreendi que aquele não era o rosto de um mentiroso. Então, as primeiras palavras que ele me disse foram: ‘Ó povo, continuai a oferecer salam, alimentai os outros, mantende os laços de parentesco, e rezai à noite, quando todos estiverem dormindo; entrareis no Paraíso em segurança’” (Tirmidhi, Ibn Majah, Darimi, Mishkat, vol. 1, p. 168).
O Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, dizia: “Não entrará no Paraíso aquele cujo vizinho não estiver a salvo de sua perversidade e de sua destruição” (Sahih Muslim, Mishkat, vol. 2, p. 422).
Ele dizia: “É um bom muçulmano aquele de cuja língua e mãos os muçulmanos estão a salvo” (Sahih Bukhari, vol. 1, p. 6).
Ele dizia: “Nenhum de vós será crente enquanto não desejar para seu irmão aquilo que deseja para si mesmo” (Sahih Bukhari, vol. 1, p. 6).
Ele dizia: “Todos os crentes são como um só homem: quando seu olho dói, todo o corpo sente esse sofrimento; quando sua cabeça dói, todo o corpo sente a dor” (Muslim, Mishkat, vol. 2, p. 422).
Ele dizia: “O crente é como uma construção para o outro crente; cada parte dela fortalece a outra” (Bukhari, Muslim e Mishkat, vol. 2, p. 422).
Ele dizia: “Não nutram ódio nem rancor uns contra os outros; não sejam hostis, não discutam e não deem as costas uns aos outros. Sejam servos de Allah e irmãos. Não é permitido a um muçulmano afastar-se de seu irmão por mais de três dias” (Sahih Bukhari, vol. 2, p. 896).
Ele dizia: “O muçulmano é irmão do muçulmano. Um muçulmano não deve oprimir outro muçulmano nem entregá-lo ao inimigo. Quem atender à necessidade de seu irmão, Allah Ta’ala atenderá à sua necessidade. Quem aliviar a angústia e a preocupação de um muçulmano, Allah Ta’ala aliviará uma de suas angústias no Dia da Ressurreição. E quem ocultar o defeito de um muçulmano, Allah Ta’ala ocultará seu defeito no Dia da Ressurreição” (Bukhari, Muslim e Mishkat, vol. 2, p. 422).
Ele dizia: “Tende misericórdia dos habitantes da Terra, e o Senhor dos céus terá misericórdia de vós” (Sunan Abu Dawud, vol. 2, p. 335; Tirmidhi, vol. 2, p. 14).
Ele dizia: “Não é crente aquele que come até se saciar enquanto seu vizinho, ao seu lado, permanece faminto” (Bayhaqi, Mishkat, vol. 2, p. 424).
Ele dizia: “Insultar um muçulmano é um ato de um pecador perverso, e lutar contra um muçulmano é kufr” (Bukhari, vol. 2, p. 893).
Ele dizia: “Remover da estrada aquilo que causa dano faz parte da sadaqa; essa ação é uma das principais ramificações da fé” (Bukhari, Muslim e Mishkat, vol. 1, pp. 12, 167).
O Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, insistia na prática da sadaqa e da caridade. Ele descrevia seus méritos de maneira tão grandiosa que o coração se inclinava espontaneamente a praticá-la. Dizia: “A sadaqa extingue os pecados assim como a água extingue o fogo” (Ahmad, Tirmidhi, Ibn Majah e Mishkat, vol. 1, p. 14).
Ele dizia: “Aquele muçulmano que vestir um muçulmano sem roupa, Allah Ta’ala o vestirá no Paraíso com roupas verdes; aquele muçulmano que alimentar um muçulmano faminto, Allah Ta’ala lhe dará frutos no Paraíso; e aquele muçulmano que der água a um muçulmano sedento, Allah Ta’ala lhe dará no Paraíso uma bebida pura” (Abu Dawud, Tirmidhi e Mishkat, vol. 1, p. 169).
Ele dizia: “Protegei-vos do Fogo, mesmo dando em caridade um pedaço de tâmara; se não tiverdes sequer essa capacidade, protegei-vos do Fogo por meio de uma boa palavra” (Bukhari, vol. 1, p. 190; vol. 2, p. 890).
Ao mesmo tempo, o Profeta, que a bênção e a paz de Allah estejam sobre ele, insistiu para que se mantivessem afastados da mendicância. Ensinou paciência, perseverança e frugalidade, e descreveu a mendicância como um arranhão no rosto do mendigo e como outros tipos de ferida (ver Abu Dawud, Tirmidhi, Nasa’i, Ibn Majah, Darimi e Mishkat).
Contudo, declarou livres desse tipo de humilhação mencionada aqueles que mendigam por absoluta necessidade.
Ele descreveu as diversas virtudes de cada tipo de adoração e mencionou as diferentes recompensas que Allah concede por essas adorações.
Ele informava os muçulmanos sobre a revelação que lhe vinha do céu e os ajudava a viver de acordo com ela. Recitava-lhes essa revelação e, depois de ouvi-la dele, os muçulmanos a recitavam novamente para ele. Como resultado, além de inteligência, discernimento e reflexão, surgiam entre os muçulmanos o senso de responsabilidade profética e a consciência em relação à da‘wah da verdade.
O Mensageiro de Allah, que a bênção e a paz de Allah estejam sobre ele, criou uma extraordinária escala de progresso no modo de vida dos muçulmanos, desenvolveu as capacidades concedidas por Deus aos seres humanos e introduziu beleza em seus métodos de ação, pensamentos e consciência. Graças aos ensinamentos do Mensageiro de Allah, que a bênção e a paz de Allah estejam sobre ele, os Companheiros tornaram-se as melhores pessoas depois dos profetas e alcançaram o mais elevado nível de ideal na história da humanidade. Hazrat Abdullah ibn Mas‘ud (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Quem quiser seguir uma ordem, que siga as ordens dos mortos, pois há o risco de fitnah em relação aos vivos.”
Os Companheiros eram os companheiros do Profeta, que a bênção e a paz de Allah estejam sobre ele; eram as melhores pessoas da Ummah de Muhammad, piedosos, dotados de profundo conhecimento e os mais humildes. Allah, o Senhor dos mundos, escolheu essas pessoas como amigos e companheiros de Seu amado Profeta, que a bênção e a paz de Allah estejam sobre ele, e como homens capacitados para a tarefa de estabelecer o Din. Portanto, é necessário conhecer suas características e sua excelência, segui-los, imitá-los e obedecer-lhes, e assimilar, tanto quanto possível, a beleza de seu caráter e o relato de suas vidas, pois eles estavam na orientação e na Sirat al-Mustaqim (Razin, Mishkat, vol. 1, p. 32).
Nosso Profeta, Hazrat Muhammad, que a bênção e a paz de Allah estejam sobre ele, era um exemplo de um modelo tão excelente e elevado que os corações se sentiam espontaneamente atraídos por ele e despertava-se o desejo de sacrificar a própria vida. Por isso, os Companheiros corriam para cumprir as palavras que saíam de sua boca santa; entre eles parecia iniciar-se uma competição para cumprir plenamente tudo o que ele dizia para orientação e condução.
Foi precisamente graças a esforços desse tipo que o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) conseguiu estabelecer em Medina uma sociedade que, à luz da história, foi a mais bem-sucedida de todas. Ele ofereceu soluções tão eficazes para os problemas dessa sociedade que aqueles que se debatiam no turbilhão das trevas encontraram alívio. Por meio de uma educação elevada e de ideais nobres, essa sociedade conseguiu remover todos os obstáculos de sua época e mudar o próprio curso da história.
A celebração de um pacto com os judeus
Após a Hégira, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) lançou as bases de uma nova sociedade entre os muçulmanos por meio de ideias, crenças, política e esforços unificados. Em seguida, tomou a iniciativa de estabelecer relações com os não muçulmanos. O Profeta (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) desejava que todas as pessoas vivessem em felicidade e paz, e que os habitantes de Medina e das regiões vizinhas fossem abrangidos por uma administração justa. Por meio da generosidade e da justiça, ele promulgou leis para as quais não se encontra paralelo no mundo atual, dilacerado por conflitos e agitações.
Como já foi mencionado, os habitantes das proximidades de Medina eram judeus. Embora secretamente fossem hostis aos muçulmanos, não manifestavam essa hostilidade abertamente. Por isso, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) celebrou um pacto com eles. Por meio desse pacto, foi concedida aos judeus liberdade para praticarem sua religião e segurança para suas vidas e seus bens; não lhes foi dada qualquer oportunidade para atitudes políticas imprudentes.
O pacto com os judeus foi celebrado à luz do pacto mútuo entre os muçulmanos. As cláusulas do pacto eram as seguintes:
Um. Os judeus de Banu Awf, unidos aos muçulmanos, serão considerados uma única umma. Judeus e muçulmanos praticarão cada qual a sua própria religião, e os demais judeus, além dos de Banu Awf, também terão os mesmos direitos.
Dois. Os judeus serão responsáveis por todas as suas próprias despesas, e os muçulmanos serão individualmente responsáveis por suas próprias despesas.
Três. Contra aqueles que combaterem qualquer grupo abrangido por este pacto, todos se unirão para repeli-los.
Quatro. Todos os participantes deste pacto desejarão o bem uns dos outros; contudo, esse desejo de bem e essa cooperação deverão fundamentar-se na justiça, e não na injustiça.
Cinco. Ninguém será considerado culpado por causa de seu aliado.
Seis. Oprimidos receberão ajuda.
Sete. Enquanto durar a guerra, os judeus também arcarão com os custos da guerra juntamente com os muçulmanos.
Oito. Tumultos, desordem e derramamento de sangue serão proibidos em Medina para os participantes deste pacto.
Nove. Se surgir algum novo problema ou ocorrer alguma disputa entre os abrangidos por este pacto, o Mensageiro de Allah decidirá a questão de acordo com a lei de Allah.
Dez. Não será concedido refúgio aos coraixitas nem aos seus aliados.
Onze. Se alguém atacar Iátrib, todas as partes cooperarão umas com as outras para repelir esse ataque, e cada parte assumirá a responsabilidade pela defesa de sua própria área.
Quarto. Por meio deste pacto, nenhum opressor ou criminoso receberá abrigo (Ibn Hisham, vol. 1, pp. 503–504).
Após a celebração deste pacto, foi formado um Estado abrangendo Medina e as áreas circundantes. A capital desse Estado era Medina, e o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, era seu grande líder. A autoridade principal estava nas mãos dos muçulmanos. Assim, Medina transformou-se no centro do Estado islâmico. Em prol da paz e da estabilidade, o Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, posteriormente celebrou pactos semelhantes com outras tribos.
Conflito armado
A conspiração dos coraixitas contra os muçulmanos
Anteriormente, foi exposta a opressão e a perseguição infligidas pelos incrédulos de Meca aos muçulmanos. Também foi mencionado o tipo de conspirações que os incrédulos tramaram contra eles quando começaram a emigrar. Além de toda essa opressão e perseguição contra os muçulmanos, os incrédulos também cometeram o crime de confiscar seus bens e riquezas. Sua insensatez, em vez de diminuir, continuava aumentando. Ao verem os muçulmanos escapando de seu domínio e encontrando um refúgio seguro em Medina, a ira dos incrédulos aumentou ainda mais. Abdullah ibn Ubay ainda não havia adotado o disfarce do Islã. Em Medina, Abdullah ibn Ubay era o líder dos Ansar. Os politeístas de Meca escreveram-lhe uma carta ameaçadora. Naquela época, Abdullah gozava de grande influência e prestígio em Medina. De fato, se o Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, não tivesse ido para Medina, os habitantes de Medina o teriam aceitado como seu rei. Em sua carta ameaçadora, os politeístas de Meca escreveram a Abdullah ibn Ubay e a seus aliados politeístas: “Vocês deram abrigo ao nosso homem; por isso juramos que devem lutar contra ele ou expulsá-lo de Medina. Caso contrário, atacaremos vocês com toda a nossa força, mataremos os homens guerreiros e violaremos a honra de suas mulheres.” [Abu Dawud, capítulo Khubrun Nazir]
Troca de cartas com Abdullah ibn Ubay
Assim que recebeu essa carta, Abdullah ibn Ubay preparou-se para cumprir as instruções dos politeístas de Meca. Já havia surgido em seu coração um intenso ódio contra o Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Isso porque se arraigara em sua mente a ideia de que o Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, havia lhe tomado a coroa do reino de Medina. Logo após receber a carta dos politeístas de Meca, Abdullah ibn Ubay e seus aliados de Medina prepararam-se para lutar contra o nobre Mensageiro. Ao tomar conhecimento disso, o Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, foi até Abdullah e lhe disse: “Parece que você foi bastante influenciado pela ameaça dos coraixitas. Ouça: os coraixitas de Meca não poderão causar a vocês mais dano do que aquele que vocês mesmos estão prestes a causar a si próprios. Vocês querem lutar contra seus próprios filhos e irmãos?” Ao ouvirem essas palavras do Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, os apoiadores de Abdullah, que estavam preparados para a guerra, dispersaram-se. [Abu Dawud, capítulo Khubrun Nazir]
Com a dispersão de seus apoiadores e aliados, Abdullah ibn Ubay absteve-se da guerra naquele momento. Contudo, continuou mantendo contato com os coraixitas, pois esse malfeitor não desperdiçava nenhuma oportunidade de envolver-se em qualquer conflito entre muçulmanos e incrédulos. Além disso, mantinha contato também com os judeus para obter força contra os muçulmanos, a fim de que os judeus o ajudassem quando necessário. Porém, o Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, apagava repetidamente o fogo da agitação e da desordem por meio de estratégias concedidas por Allah [Sahih al-Bukhari, vol. 2, pp. 655, 656, 916, 924].
Proibição da Mesquita Sagrada para os muçulmanos
Depois disso, Hazrat Sa’d ibn Mu’adh (que Allah esteja satisfeito com ele) foi a Meca para realizar a Umrah e hospedou-se como convidado de Umayyah ibn Khalaf. Hazrat Sa’d (que Allah esteja satisfeito com ele) ainda não havia abraçado o Islã. Ele disse a Umayyah: “Quero circundar a Caaba tranquilamente por algum tempo.” Ao meio-dia, Umayyah saiu levando Hazrat Sa’d consigo. Durante a circunvolução, encontraram Abu Jahl. Ao ver Hazrat Sa’d realizando a circunvolução com profunda concentração, Abu Jahl disse a Umayyah: “Abu Safwan, quem é este homem que veio contigo?” Umayyah respondeu: “Este é Sa’d ibn Mu’adh.” Abu Jahl dirigiu-se diretamente a Hazrat Sa’d e disse: “Vejo que você está realizando a circunvolução com grande devoção. No entanto, vocês estão dando abrigo aos incrédulos e também declararam sua intenção de ajudá-los e apoiá-los. Juro por Deus: se você não fosse hóspede de Abu Safwan, não lhe seria permitido retornar em segurança a Medina.” Ao ouvir isso, Hazrat Sa’d (que Allah esteja satisfeito com ele) disse em voz alta: “Escute: se você tentar impedir-me de realizar a circunvolução, não permitirei que seu comércio passe perto de Medina. E isso será uma questão grave para você” [Bukhari, Kitab al-Maghazi, vol. 2, p. 563].
Ameaças dos coraixitas aos emigrantes
Os coraixitas enviaram uma mensagem aos muçulmanos: “Não pensem que, depois de partirem de Meca, estarão seguros. Pelo contrário, assim que chegarmos a Medina, acabaremos completamente com vocês.” [Rahmatul lil-‘Alamin, vol. 1, p. 116]
Isso não era apenas uma ameaça. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) foi informado, por várias fontes, sobre as conspirações e as más intenções dos coraixitas. Por isso, às vezes passava a noite inteira acordado e, em outras ocasiões, passava a noite sob a guarda dos nobres companheiros. É narrado por Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) no Sahih Bukhari que, certa noite, depois de chegar a Medina, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Como seria bom se algum companheiro virtuoso entre os meus companheiros vigiasse aqui por mim.” Assim que terminou de dizer isso, ouviu-se o tilintar de armas. O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) perguntou: “Quem está aí?” Veio a resposta: “Sa’d ibn Abi Waqqas.” Ele perguntou: “Por que você veio?” O visitante respondeu: “Ó Mensageiro de Allah, como de repente surgiu em meu coração uma preocupação quanto à sua segurança, vim vigiá-lo.” Ao ouvir isso, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) fez uma súplica por ele e deitou-se. [Muslim, vol. 2, capítulo sobre as virtudes de Sa’d ibn Abi Waqqas; e Bukhari, vol. 1, p. 404]
Deve-se lembrar que o sistema de vigilância não foi estabelecido apenas para algumas noites específicas. Pelo contrário, foi mantido continuamente. É narrado por Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) que, durante a noite, era mantida uma vigilância para o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Então foi revelado o seguinte versículo do Sagrado Alcorão: “Allah protegerá você das pessoas.” Depois da revelação desse versículo, o amado Profeta colocou a cabeça para fora da janela e disse: “Ó pessoas, voltem; Allah me garantiu segurança.” [Jami’ al-Tirmidhi, Abwab al-Tafsir, vol. 2, p. 130]
O temor da insegurança não se limitava apenas ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Aplicava-se a todos os muçulmanos. É narrado por Hazrat Ubay ibn Ka’b (que Allah esteja satisfeito com ele) que, depois que o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e seus companheiros chegaram a Medina, os Ansar lhes ofereceram abrigo. Por causa disso, toda a Arábia se voltou contra eles. Consequentemente, os Ansar de Medina não passavam a noite sem armas, e também as mantinham consigo pela manhã.
A permissão para combater
A insegurança provocada pelos não muçulmanos constituía uma séria ameaça à existência dos muçulmanos de Medina. Em outras palavras, era um enorme desafio à sua sobrevivência. Como resultado, os muçulmanos compreenderam claramente que os coraixitas não desistiriam de sua determinação de prejudicá-los. Foi então que Allah, o Senhor dos mundos, permitiu aos muçulmanos combater. Contudo, essa guerra não foi qualificada como obrigatória. Nessa ocasião, Allah, o Altíssimo, revelou no Alcorão o seguinte versículo: “É concedida permissão para combater àqueles contra os quais se combate, porque foram injustiçados. Certamente, Allah é capaz de ajudá-los.”
Depois disso, foram revelados mais alguns versículos relacionados a esse versículo. Neles, foi mencionado que essa permissão para combater não se destinava simplesmente à guerra; seu objetivo era extirpar as raízes da falsidade e estabelecer a verdade e a justiça. Assim, Allah, o Altíssimo, diz: “Se lhes dermos autoridade na Terra, estabelecerão a oração, pagarão o zakat, ordenarão o bem e proibirão o mal; e a Allah pertence o desfecho de todos os assuntos.” (Surata Al-Hajj, versículo 81)
Essa permissão foi revelada em Medina, após a Hégira, e não em Meca. Contudo, é difícil determinar o momento exato de sua revelação.
A permissão para combater havia sido concedida, mas a situação favorecia os coraixitas politeístas. Por isso, os muçulmanos precisaram adotar algumas estratégias. Eles ampliaram os limites de seu controle até as caravanas comerciais dos coraixitas. Esse limite correspondia à rota entre Meca e a Síria. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, adotou dois planos para ampliar a área sob controle dos muçulmanos.
1) Celebrar pactos de não agressão com as tribos que viviam nas proximidades da rota das caravanas comerciais que viajavam de Meca para a Síria e Medina.
2) Enviar caravanas para patrulhar essa rota.
No contexto do primeiro plano, é importante mencionar que, entre os pactos anteriormente celebrados com os judeus, consta também a celebração de um pacto semelhante de não agressão com a tribo de Juhaina. Essa tribo vivia a três manzils, isto é, a 51 milhas, de Medina. Além disso, o Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, celebrou pactos com várias outras tribos. Esses pactos serão mencionados no momento oportuno.
O segundo plano apresentado pelo Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, estava relacionado à guerra; todos os assuntos referentes a ele também serão discutidos no devido lugar.
Sariyya e Ghazwah [Segundo a terminologia dos autores de biografias proféticas, chama-se sariyya às expedições militares das quais o Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) não participou pessoalmente, tenha havido combate ou não. Por outro lado, ghazwah é o nome dado às expedições militares das quais o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) participou pessoalmente, tenha havido combate ou não.]
Depois que os versículos do Sagrado Alcorão concederam permissão para combater, começaram as expedições sucessivas dos muçulmanos para pôr em prática os dois planos mencionados. Caravanas armadas passaram a patrulhar. O objetivo era observar a situação, de modo geral nas estradas ao redor de Medina e, em particular, nas estradas ao redor de Meca. Ao mesmo tempo, deveriam ser firmados pactos de não agressão com as tribos estabelecidas nas proximidades dessas estradas. Assim, seria possível incutir no coração dos politeístas, dos judeus e dos beduínos dos arredores de Medina a convicção de que os muçulmanos eram então suficientemente fortes. Eles haviam superado a fraqueza e a incapacidade do passado. Além disso, seria possível amedrontá-los quanto à arrogante ousadia dos coraixitas. Ser-lhes-ia possível explicar que as ideias e a ira que haviam manifestado teriam consequências terríveis. Ao verem sua economia ameaçada no lamaçal da insensatez em que se revolviam, tenderiam a buscar tréguas e acordos. Abster-se-iam dos propósitos que alimentavam secretamente: entrar nas casas dos muçulmanos e exterminá-los, impedir o caminho de Allah e oprimir os muçulmanos vulneráveis. Como resultado, os muçulmanos poderiam divulgar livremente o convite ao tawhid em toda a Península Arábica.
A seguir, lançaremos brevemente luz sobre essas sariyya e ghazwah:
1) Sariyya de Sif al-Bahr [Sif al-Bahr significa «litoral»]
Ramadã do primeiro ano da Hégira, correspondente a março de 623 d.C.
O Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, nomeou como comandante dessa expedição Hamza ibn Abd al-Muttalib (que Allah esteja satisfeito com ele). Na planície de Rabigh, os companheiros de Abu Sufyan nessa caravana eram duzentos. Ambos os lados dispararam flechas uns contra os outros, mas o incidente não chegou a se transformar em combate [Rahmatul lil-Alamin].
Nessa sariyya, dois homens dentre os habitantes de Meca juntaram-se aos muçulmanos. Um deles era Miqdad ibn Amr al-Bahrani, e o outro, Utbah ibn Ghazwan al-Mazini (que Allah esteja satisfeito com ambos). Os dois haviam aceitado o Islã secretamente. Eles se juntaram aos politeístas com o propósito de, caso encontrassem os muçulmanos no caminho, partir e juntar-se a eles.
2) Sariyya de Kharrar [nome de um lugar próximo a Juhfa]
O mês de Dhu al-Qa’dah do primeiro ano da Hégira, correspondente a maio de 623.
O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, nomeou Hazrat Sa’d ibn Abi Waqqas como seu comandante. Sob seu comando, enviou vinte muçulmanos dedicados em busca de uma caravana dos incrédulos. Esse grupo partiu a pé. Eles viajavam à noite e permaneciam escondidos durante o dia. Na manhã do quinto dia, ao chegarem a Kharrar, souberam que a caravana comercial dos coraixitas havia deixado Kharrar um dia antes.
Sua bandeira era branca, e Hazrat Miqdad ibn Amr (que Allah esteja satisfeito com ele) a carregava.
3) A Expedição de Ghazwah de Abwa [Waddan é o nome de um lugar situado entre Meca e Medina. Fica a 29 milhas de Rabigh, no caminho para lá. Abwa é outro lugar próximo de Waddan.]
Safar do segundo ano da Hégira, correspondente a agosto de 623.
Nessa expedição, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, partiu acompanhado de setenta Muhajirun. Naquele momento, o Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, nomeou Hazrat Sa’d ibn Ubadah como seu representante em Medina. O objetivo dessa expedição era interceptar a rota de uma caravana comercial dos coraixitas. O Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, chegou até Waddan. Entretanto, nenhum incidente desagradável ocorreu.
Às vésperas dessa expedição, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, celebrou um tratado de amizade com Amr ibn Makhshi al-Jumairi, chefe da tribo Banu Jamrah. O teor do tratado era o seguinte: “Para os Banu Jamrah, este é um escrito de Muhammad, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Eles estarão seguros quanto às suas vidas e aos seus bens. Se alguém os atacar, eles serão ajudados contra esse ataque. Contudo, se iniciarem uma guerra contra a religião de Allah, este compromisso não será cumprido. Enquanto o mar molhar sua praia, a validade deste tratado permanecerá intacta. Quando o Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, os convocar para ajudá-lo, deverão avançar.” [Al-Wahāhib al-Ladunniyya, vol. 1, p. 75]
Esta foi a primeira expedição militar da qual participou o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Depois de passarem quinze dias fora de Medina, eles retornaram.
Quarta) A expedição de Buat
Rabi al-Awwal do segundo ano da Hégira, correspondente a setembro de 623.
Nesta expedição, o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — partiu acompanhado de duzentos Companheiros. O objetivo da expedição era perseguir a caravana comercial dos coraixitas. Nessa caravana havia cem homens dos coraixitas, entre eles Umayya ibn Khalaf, e dois mil e quinhentos camelos. O Profeta — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — chegou ao local chamado Buat, situado na região de Ghazwa [Buat e Ridhwi são duas montanhas da região montanhosa de Junaina. Na realidade, são dois prolongamentos de uma montanha. Ficam no caminho de Meca para a Síria e estão situadas a 48 milhas de Medina]. Contudo, nenhum incidente desagradável ocorreu. Nesta expedição, a bandeira era branca e foi carregada por Sa’d ibn Abi Waqqas — que Allah esteja satisfeito com ele.
Às vésperas desta expedição, Sa’d ibn Mu’adh — que Allah esteja satisfeito com ele — foi nomeado governador de Medina.
Quinta) A expedição de Safwan
Rabi al-Awwal do segundo ano da Hégira, correspondente a setembro de 623.
A razão desta expedição foi que um grupo de pessoas, liderado por um politeísta chamado Kurz ibn Jabir al-Fihri, atacou as pastagens de Medina e roubou alguns animais. O Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — perseguiu os saqueadores acompanhado de setenta Companheiros. Contudo, Kurz e seus companheiros não foram encontrados. Eles retornaram sem qualquer confronto. Alguns chamam esta batalha de a Primeira Batalha de Badr. A bandeira era branca. Ali — que Allah esteja satisfeito com ele — carregava-a.
Durante esta expedição, Zayd ibn Haritha — que Allah esteja satisfeito com ele — foi nomeado governador de Medina.
Seis) A expedição de Dhu al-Ushayra
Jumada al-Awwal e Jumada al-Thani do segundo ano da Hégira, correspondentes a novembro e dezembro de 623
Nesta expedição, acompanharam o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — entre cento e cinquenta e duzentos Muhajirun. Ninguém foi obrigado a participar. Havia apenas trinta camelos para montaria, e todos montavam por turnos. A expedição foi realizada para perseguir uma caravana de politeístas que havia partido de Meca em direção à Síria. A caravana transportava muitos bens dos coraixitas. Para persegui-la, o Profeta — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — chegou até um lugar chamado Dhu al-Ushayra [Ushayra é o nome de um lugar próximo de Yanbu]. Contudo, os idólatras haviam partido alguns dias antes. Quando essa mesma caravana retornou da Síria, o Profeta — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — tentou capturá-la, mas seus integrantes conseguiram fugir para Meca. Como consequência desse acontecimento, mais tarde ocorreu a batalha de Badr.
Também nesta expedição, a bandeira era branca. Hamza — que Allah esteja satisfeito com ele — carregou a bandeira.
Segundo Ibn Ishaq, nesta expedição o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — partiu no final de Jumada al-Awwal e retornou em Jumada al-Thani. Por essa razão, há divergência entre os autores de biografias sobre a determinação exata da época desta expedição.
Durante esta expedição, o Profeta — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — concluiu um tratado de não agressão com os Banu Mudlij e seus aliados, os Banu Damra.
Durante esta expedição do Profeta — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — Abu Salama ibn Abd al-Asad al-Makhzumi — que Allah esteja satisfeito com ele — ficou encarregado da administração de Medina.
Sete) A expedição de Nakhla
Rajab do segundo ano da Hégira, correspondente a janeiro de 624.
Nessa expedição, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, enviou um grupo de doze emigrantes sob o comando de Abdullah ibn Jahsh, que Allah esteja satisfeito com ele. Havia um camelo para cada dois soldados. O Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, entregou uma carta ao comandante e ordenou que ela fosse lida somente após dois dias de viagem. Ao fim de dois dias, Abdullah ibn Jahsh, que Allah esteja satisfeito com ele, abriu e leu a carta. Nela estava escrito: “Depois de lerem esta minha carta, desçam em Nakhlah, situada entre Meca e Ta’if, e ali aguardem emboscados uma caravana dos coraixitas. Além disso, mantenham-me informado sobre as notícias.”
Abdullah, que Allah esteja satisfeito com ele, informou os companheiros que o acompanhavam sobre o conteúdo da carta e disse: “Não estou forçando nem coagindo ninguém. Aqueles que desejarem o martírio podem seguir. Mesmo que eu fique sozinho, continuarei avançando.”
Depois de ouvirem as palavras de Abdullah ibn Jahsh, que Allah esteja satisfeito com ele, eles partiram em direção a Nakhlah. No caminho, o camelo de Sa‘d ibn Abi Waqqas, que Allah esteja satisfeito com ele, e de Utbah ibn Ghazwan, que Allah esteja satisfeito com ele, desapareceu. Os dois companheiros viajavam alternadamente sobre o dorso daquele camelo. Como o animal se perdeu, ambos ficaram para trás.
Depois de percorrer uma longa distância, Abdullah ibn Jahsh, que Allah esteja satisfeito com ele, chegou a Nakhlah. Ao chegar, soube que uma caravana comercial dos coraixitas havia passado por aquela estrada. A caravana transportava passas, peles e outras mercadorias. Nela estavam Uthman e Nawfal, os dois filhos de Abdullah ibn al-Mughira, além de Amr ibn al-Hadrami, um liberto de al-Mughira, e Hakim ibn Kaisan. Os muçulmanos consultaram-se sobre o que deveriam fazer. Era o último dia do mês de Rajab. Rajab era um dos meses sagrados, nos quais os combates eram proibidos. Se atacassem, profanariam a santidade do mês sagrado. Por outro lado, se não atacassem, aquela caravana dos coraixitas entraria nos limites de Medina. Depois da consulta, decidiram realizar o ataque. Os Companheiros seguiram a caravana comercial dos coraixitas e lançaram uma flecha contra Amr ibn al-Hadrami. Ele foi derrubado e morreu. Os outros capturaram Uthman e Hakim. Nawfal fugiu, e não foi possível capturá-lo. Em seguida, os Companheiros chegaram a Medina levando os dois prisioneiros e as mercadorias. Eles separaram um quinto dos bens obtidos como espólio. [Os autores de biografias do Profeta mencionaram isso. A dificuldade, porém, é que o mandamento do Alcorão Sagrado sobre separar um quinto dos bens capturados como espólio foi revelado durante a Batalha de Badr. Pela leitura da ocasião da revelação desse versículo, entende-se que, antes desse mandamento, os muçulmanos não conheciam a norma relativa ao espólio.] Esse foi o primeiro espólio, o primeiro morto e o primeiro prisioneiro da história do Islã. Depois de ouvir tudo, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Eu não vos ordenei que combatêsseis durante um mês sagrado.” Ele não permitiu qualquer abuso em relação às mercadorias apreendidas e aos prisioneiros.
Por causa desse incidente, os não muçulmanos encontraram a oportunidade de espalhar a propaganda de que os muçulmanos haviam tornado lícito o mês que Allah declarou sagrado. Diversas calúnias foram difundidas a esse respeito. Por fim, Allah, o Altíssimo, revelou um versículo, dizendo: “Tudo o que os idólatras fazem é muito mais criminoso e abominável do que as ações dos muçulmanos.”
Allah, o Altíssimo, diz: “Perguntam-te sobre o combate no mês sagrado. Dize: combater nele é um grave pecado. Porém, obstruir o caminho de Allah, descrer n’Ele, impedir o acesso à Mesquita Sagrada e expulsar dela os seus habitantes é, aos olhos de Allah, um pecado ainda maior. A perseguição é mais grave do que o homicídio.” (Surata Al-Baqarah, versículo 217)
Por meio desta revelação, ficou claro que as críticas dos incrédulos contra os muçulmanos eram infundadas. Isso porque os idólatras haviam violado todas as proibições ao combater o Islã e oprimir e perseguir os muçulmanos. Quando os bens dos muçulmanos emigrantes foram confiscados e se tramou o assassinato do Mensageiro, será que se levou em consideração a santidade de Meca, isto é, a santidade da cidade? Essas conspirações ocorreram em algum lugar fora de Meca? Se não, por que, de repente, tanto alarde sobre a santidade de Meca? Na realidade, a tempestade de propaganda dos idólatras nasceu de uma evidente falta de vergonha e de uma descarada insolência.
Com a revelação deste versículo, o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — libertou os dois prisioneiros e também pagou a compensação pelo assassinato do homem morto. [As obras das quais foram compilados os relatos das expedições ghazwa e sariyya mencionadas são: Zad al-Ma’ad, volume 2, pp. 83–85; Ibn Hisham, volume 1, pp. 591–605; Rahmatul lil-‘Alamin, volume 1, pp. 115–116; volume 2, pp. 21215–216, 468–470.]
Nas obras mencionadas, observa-se certa divergência de opiniões. Eu adotei a análise de Allama Ibn Qayyim e de Allama Mansur Puri.
Foram apresentados os relatos das expedições ghazwa e sariyya ocorridas antes da batalha de Badr. Nessas ocasiões, não ocorreram pilhagem, assassinatos nem destruição. Contudo, o primeiro ataque partiu dos politeístas. Esse ataque foi conduzido sob a liderança de Kurz ibn Jabir al-Fihri. Antes disso, os politeístas também haviam cometido diversos excessos.
Enquanto isso, após a sariyya conduzida por Abdullah ibn Jahsh, o medo tomou conta dos politeístas: caíram justamente na armadilha em que temiam ficar presos. Perceberam que a liderança de Medina era extremamente vigilante e consciente, acompanhando de Medina as atividades comerciais dos coraixitas. Se quisessem, os muçulmanos poderiam atravessar e transpor uma distância de trezentas milhas, chegar ao território deles e fazer o que bem entendessem. Assassinatos, pilhagens e tudo o mais estavam ao alcance deles. Mesmo depois de fazer tudo isso, poderiam retornar em segurança a Medina. Os politeístas compreenderam que o comércio com a Síria enfrentava um novo perigo. Contudo, apesar de saberem e compreenderem tudo, não abandonaram a própria insensatez. Em vez de firmarem pactos e acordos — isto é, tratados de não agressão — como os de Juwaina e Banu Damra, escolheram o caminho da ira. Passaram a empenhar-se em concretizar a ameaça de entrar nas casas dos muçulmanos e exterminá-los. Foi essa ira que os reuniu na planície de Badr.
Pouco depois do incidente da sariyya liderada por Abdullah ibn Jahsh, Allah, o Senhor dos mundos, tornou o jihad obrigatório para os muçulmanos no mês de Sha’ban do segundo ano da Hégira. Sobre isso, Allah, o Altíssimo, revelou vários versículos. Por exemplo: «Combatei, no caminho de Allah, aqueles que vos combatem, mas não transgredi. Allah não ama os transgressores. Matai-os onde quer que os encontreis e expulsai-os de onde vos expulsaram, pois a perseguição é pior que o homicídio. Não os combatais junto à Mesquita Sagrada, até que eles vos combatam ali. Se vos combaterem, então matai-os; tal é a recompensa dos incrédulos. Mas, se desistirem, Allah é Perdoador, Misericordiosíssimo. Combatei-os até que não haja mais perseguição e a religião de Allah esteja estabelecida. Mas, se desistirem, não haverá hostilidade senão contra os injustos.» (Surata al-Baqara, versículos 190–193)
Quase ao mesmo tempo, foram revelados outros versículos de natureza semelhante, nos quais foi explicado o método de combate. Por exemplo: «Assim, quando enfrentardes os incrédulos em combate, golpeai-lhes os pescoços. Depois, quando os tiverdes subjugado completamente, prendei-os firmemente. Então, ou libertação por benevolência, ou mediante resgate. Continuai o jihad até que a guerra deponha suas armas. Assim é a determinação. Isso porque, se Allah quisesse, poderia puni-los; porém, Ele deseja testar alguns de vós por meio de outros. Quanto àqueles que forem mortos no caminho de Allah, Ele jamais fará perecer suas obras. Ele os guiará e corrigirá sua condição. Ele os fará entrar no Paraíso que lhes descreveu. Ó crentes! Se ajudardes Allah, Ele vos ajudará e firmará vossos passos.» (Surata Muhammad, versículos 4–7)
Mais tarde, Allah, o Altíssimo, criticou aquelas pessoas cujos corações começam a tremer ao ouvirem a ordem de combater. Allah, o Altíssimo, diz: «E, quando uma surata clara é revelada e nela há uma ordem para o jihad, vês aqueles em cujos corações há uma doença olhando para ti com os olhos desvairados de quem teme a morte. Ai deles!» (Surata Muhammad, versículo 20)
Na realidade, tornar o jihad obrigatório, insistir nele e ordenar sua preparação eram exigências da situação daquele momento. Para um comandante que observasse atentamente as condições da época — isto é, para alguém que acompanhasse a situação — era natural ordenar uma preparação total para a guerra. Como poderia Allah, o Todo-Poderoso, que conhece tudo o que é manifesto e oculto, não ordenar o jihad? As circunstâncias daquele período exigiam um conflito sangrento entre o haqq e o batil, isto é, entre a verdade e a falsidade, para que a diferença entre a verdade e a falsidade se tornasse claramente manifesta. O golpe de Abdullah ibn Jahsh foi como lançar combustível sobre o fogo da ira dos incrédulos.
Os versículos do Alcorão deixavam claro que se aproximava o momento de um confronto sangrento. Os muçulmanos sairiam vitoriosos desse confronto. É digno de nota que Allah, o Altíssimo, ordenava aos muçulmanos: assim como os incrédulos vos expulsaram do lugar, expulsai-os também desse lugar. Além disso, os muçulmanos foram instruídos a capturar os prisioneiros, eliminar os adversários e levar a guerra a um desfecho. Também foi declarado que os muçulmanos fariam parte de uma nação vitoriosa e bem-sucedida. Essa indicação significava que, no fim, os muçulmanos triunfariam. A razão de isso ter sido dito por alusão era que aqueles que estavam excessivamente ansiosos para fazer jihad no caminho de Allah pudessem demonstrar seu entusiasmo na prática.
Naquele período, isto é, no mês de Sha’ban do segundo ano da Hégira, correspondente ao mês de fevereiro de 614 da Hégira, Allah, o Altíssimo, ordenou aos muçulmanos que escolhessem a Caaba como qibla, em vez de Bayt al-Maqdis, e que mudassem a direção da oração para a Caaba. Como resultado dessa mudança, os hipócritas que se escondiam sob o disfarce de muçulmanos foram identificados. Eles se separaram dos muçulmanos. Assim, também foi indicado aos traidores e pérfidos que, a partir de então, começaria uma nova era. Os muçulmanos assumiriam o controle de sua própria qibla. Seria surpreendente que a qibla permanecesse sob o domínio do inimigo. Esforçar-se para libertá-la seria uma responsabilidade de fé dos muçulmanos.
Após todas essas ordens e indicações do Sagrado Alcorão, a consciência da fé cresceu nos corações dos muçulmanos. Eles se encheram de entusiasmo pela jihad fi sabilillah, e o desejo de travar uma batalha decisiva contra os inimigos aumentou muitas vezes em seus corações.
A Batalha de Badr
A primeira campanha militar decisiva do Islã
Na descrição da campanha militar empreendida em Ushayra, mencionamos que a caravana comercial dos coraixitas escapou por pouco da campanha empreendida pelo Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, quando ia de Meca para a Síria. Quando essa mesma caravana estava retornando da Síria para Meca, o Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, tomou outra iniciativa. Talha ibn Ubaydullah e Sa’id ibn Zayd, que Allah esteja satisfeito com ambos, foram enviados para o norte a fim de obter informações sobre a caravana. Os dois Companheiros chegaram primeiro a um lugar chamado Hawra, onde permaneceram aguardando a passagem da caravana comercial de Abu Sufyan. Assim que a caravana passou por aquele local, os dois Companheiros correram rapidamente para Medina e informaram o Nobre Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, sobre o ocorrido.
Essa caravana transportava grande parte das riquezas dos habitantes de Meca. Sobre mil camelos havia mercadorias comerciais diversas no valor de cinquenta mil dinares. Cinquenta mil dinares equivaliam a duzentos e sessenta e dois quilos e meio de ouro. Apenas quarenta homens acompanhavam a caravana para proteger essas mercadorias.
Para os habitantes de Medina, essa era uma oportunidade de ouro. Por outro lado, a perda dessas mercadorias representaria um enorme prejuízo militar, político e econômico para os habitantes de Meca. Por isso, o Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, anunciou aos muçulmanos de Medina que a caravana comercial dos coraixitas vinha trazendo grandes riquezas. Saí em direção a essa caravana. É possível que Allah vos conceda todas essas riquezas como espólio de guerra.
Embora a proclamação tivesse sido divulgada, a participação não era obrigatória. O assunto foi deixado à iniciativa, ao entusiasmo e ao interesse pessoal de cada um. Isso porque, no momento da proclamação, não se podia imaginar que, em vez de uma expedição contra uma caravana, ocorreria um confronto sangrento com os coraixitas na planície de Badr. Por não terem essa expectativa, muitos Companheiros permaneceram em Medina. Eles pensavam que essa expedição do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, seria como as expedições anteriores. Por essas razões, aqueles que não participaram dessa batalha também não foram censurados.
O número e as responsabilidades do exército islâmico
Quando o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, partiu em direção a Badr, havia com ele pouco mais de trezentos Companheiros. Segundo alguns, eram 313; segundo outros, 314; e, segundo outros ainda, 317. Entre eles, 82 — segundo outra opinião, 83, e segundo outra, 86 — eram muhajirun; todos os demais eram ansar. Entre os ansar, 61 pertenciam à tribo de Aws e 70 à tribo de Khazraj. Eles também não haviam tomado grandes preparativos para a batalha. Em todo o exército havia apenas dois cavalos: um pertencia a Hazrat az-Zubayr ibn al-Awwam, que Allah esteja satisfeito com ele, e o outro a Hazrat al-Miqdad ibn al-Aswad al-Kindi, que Allah esteja satisfeito com ele. Havia setenta camelos, e em cada camelo montavam alternadamente duas ou três pessoas.
Em um dos camelos montavam alternadamente o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, Hazrat Ali, que Allah esteja satisfeito com ele, e Hazrat Marshad ibn Abu Marshad al-Ghanawi, que Allah esteja satisfeito com ele.
A administração de Medina e a responsabilidade de conduzir as orações foram inicialmente confiadas a Hazrat Abd Allah ibn Umm Maktum, que Allah esteja satisfeito com ele. Porém, quando o Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, chegou a um lugar chamado Rawha, enviou Hazrat Abu Lubaba Abd al-Mundhir, que Allah esteja satisfeito com ele, para administrar Medina. A formação do exército foi organizada de modo que um grupo era composto pelos muhajirun e o outro pelos ansar. A bandeira dos muhajirun era carregada por Hazrat Ali ibn Abu Talib, que Allah esteja satisfeito com ele, e a dos ansar por Hazrat Sa’d ibn Mu’adh, que Allah esteja satisfeito com ele. A bandeira conjunta dos dois grupos era branca. A responsabilidade de carregá-la foi confiada a Hazrat Mus’ab ibn Umayr al-Abdi, que Allah esteja satisfeito com ele. O comandante do flanco direito era Hazrat az-Zubayr ibn al-Awwam, que Allah esteja satisfeito com ele, e o do flanco esquerdo era Hazrat al-Miqdad ibn Amr, que Allah esteja satisfeito com ele. Em todo o exército, esses dois eram os mais hábeis na arte da guerra. Hazrat Qays ibn Abi Sa’a, que Allah esteja satisfeito com ele, também foi nomeado um dos melhores comandantes. A responsabilidade de comandante supremo foi assumida pelo próprio Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz.
A marcha em direção a Badr
O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, levou consigo esse exército incompleto e, partindo de Medina pela principal estrada que conduzia a Meca, chegou a Bi’r Rawha (o poço de Rawha). Depois de avançar mais alguma distância, deixou a estrada de Meca à esquerda e continuou pelo caminho da direita. Por essa rota, atravessou primeiro Najiya e depois o vale de Rahqan. Mais tarde, seguindo a estrada de terra de Safra, chegou finalmente à planície de Darrarah. Ao chegar a Safra, enviou à região de Badr dois homens da tribo local de Juhayna para obter informações sobre a caravana dos coraixitas. Eles eram Bashish ibn Amr e Adi ibn Abu Zaghba.
Envio de notícias sobre a situação perigosa a Meca
Abu Sufyan liderava a caravana comercial dos coraixitas. Ele avançava com extrema cautela. Sabia que a estrada para Meca era perigosa. Por isso, perguntava a cada caravana sobre as condições do caminho. Durante a viagem, Abu Sufyan soube que Muhammad — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — havia convocado as pessoas em Medina para atacar a caravana dos coraixitas. Assim que recebeu a notícia, Abu Sufyan enviou Jamzam ibn Amr al-Ghifari a Meca por uma grande quantia em dinheiro. Ao chegar a Meca, ele incitou os habitantes a protegerem a caravana comercial. Jamzam chegou a Meca em extrema velocidade e, conforme o costume dos árabes, subiu nas costas de um camelo, rasgou a própria roupa e anunciou aos gritos a notícia urgente. Ele disse: “Ó coraixitas, ouvi! A caravana, a caravana! Muhammad e seus companheiros estão se preparando para atacar as mercadorias comerciais que estão com Abu Sufyan. Creio que vocês conseguirão alcançá-los. Socorro! Socorro! Socorro!”
Preparativos dos habitantes de Meca para a guerra
Ao ouvirem a notícia do perigo, os homens proeminentes de Meca correram de todas as partes. Diziam: “Será que Muhammad pensa que a caravana de Abu Sufyan é como a caravana de Ibn al-Hadrami? Não, de modo algum! É preciso mostrar-lhe que o nosso caso é diferente.” Todos os homens capazes de Meca se prepararam para a guerra. Alguns prepararam-se pessoalmente, enquanto outros enviaram alguém em seu lugar. Entre os homens ilustres de Meca, ninguém, exceto Abu Lahab, deixou de se preparar para participar dessa guerra. Abu Lahab enviou em seu lugar um homem que era seu devedor. Os coraixitas também recrutaram para o exército jovens de várias tribos vizinhas. Entre as tribos coraixitas, nenhuma ficou para trás, exceto Banu Adi. Ninguém da tribo de Banu Adi participou dessa guerra.
O número das forças inimigas
Inicialmente, o exército de Meca contava com mil e trezentos homens. Eles possuíam cem cavalos e seiscentas armaduras. Havia muitos camelos, mas não foi possível saber o número exato.
O comandante do exército era Abu Jahl ibn Hisham. Nove homens proeminentes dos coraixitas assumiram a responsabilidade pelo abastecimento de alimentos. Num dia, abatiam nove camelos; no dia seguinte, dez, e assim por diante.
Quando o exército de Meca estava prestes a partir, os coraixitas subitamente se lembraram de que estavam em inimizade e guerra com a tribo de Banu Bakr. Eles poderiam atacá-los pela retaguarda. Assim, acabariam entre dois fogos! Após discussões e deliberações sobre o assunto, a expedição militar dos coraixitas quase foi suspensa. Foi então que o maldito Iblis apareceu assumindo a aparência de Suraqa ibn Malik ibn Jusham al-Mudlaji, chefe da tribo de Banu Kinana, e disse aos líderes coraixitas: “Eu sou vosso aliado. Garanto-vos que Banu Kinana não fará nada censurável durante a vossa ausência.”
O avanço dos inimigos
O exército de Meca partiu então. Como partiu? Allah, o Altíssimo, diz que avançaram arrogantemente, exibindo sua pompa diante das pessoas e afastando-as do caminho de Allah. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse que eles saíram levando suas armas, aversão a Allah e ressentimento contra o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Consumidos pela ira de se vingarem, rangiam os dentes e diziam: “Como Muhammad e os Companheiros ousaram sequer olhar para a caravana comercial de Meca?”
Em suma, avançavam muito rapidamente para o norte, isto é, em direção à planície de Badr. Depois de atravessarem as planícies de Usfan e Qudayd, chegaram a um lugar chamado Juhfa. Ali receberam uma nova mensagem enviada por Abu Sufyan: “Vocês partiram para proteger a caravana e seus bens. Como Allah protegeu tudo, vocês já não são necessários; agora, retornem.”
O desaparecimento da caravana comercial
Enquanto conduzia a caravana comercial, Abu Sufyan avançava com extrema cautela. Recolhia informações de todos os lados e mantinha os olhos sobre a situação. Depois de chegar perto da planície de Badr, avançou um pouco mais, encontrou Majdi ibn Amr e perguntou-lhe sobre o exército de Medina. Majdi respondeu: “Não vi nada de especial, mas vi dois homens. Eles fizeram seus camelos se ajoelharem perto de uma colina rochosa, depois retiraram água do poço e partiram.” Abu Sufyan avançou, examinou o esterco deixado pelos camelos e verificou as sementes de tâmaras, dizendo: “Sem dúvida, estas tâmaras são de Yathrib.” Assim que disse isso, correu para junto de sua caravana e começou a avançar para oeste, seguindo pela costa marítima. A estrada principal para a planície de Badr ficou à esquerda. Desse modo, Abu Sufyan salvou sua caravana comercial de cair nas mãos do exército de Medina. Enquanto seguia por uma rota segura em direção a Meca, enviou uma mensagem aos soldados que haviam saído de Meca: “Retornem. Não há perigo algum de a caravana comercial ser atacada; estou voltando em segurança para Meca.”
A desunião e as divergências no exército inimigo
Ao receberem essa notícia, os soldados comuns de Meca preparavam-se para retornar. Mas Abu Jahl se opôs. Com extremo orgulho, disse: “Juro por Deus, não retornaremos antes de irmos à planície de Badr e permanecermos ali por três dias. Durante esse tempo, sacrificaremos camelos, convidaremos as pessoas para comer, beberemos vinho e as escravas cantarão para nos entreter. Assim, a notícia desta nossa expedição se espalhará por toda a Arábia, e o relato dela permanecerá para sempre brilhando na memória de todos.” Um líder importante chamado Akhnas ibn Shuraiq disse a Abu Jahl: “Vamos voltar para Meca.” Abu Jahl, porém, não deu atenção às suas palavras. Sem outra alternativa, Akhnas retornou a Meca com trezentos soldados que o seguiam, juntamente com os membros da tribo Banu Zuhrah. Nenhum membro da tribo Banu Zuhrah participou da batalha de Badr. Mais tarde, a tribo Banu Zuhrah elogiou a inteligência e a prudência de Akhnas ibn Shuraiq, e sua posição de prestígio ficou firmemente estabelecida entre aquela tribo.
Depois que os membros da tribo Banu Zuhrah partiram, Abu Jahl, da tribo Banu Hashim, disse em tom irado: “Ninguém mais poderá retornar até que nós retornemos.”
Depois que os membros da tribo Banu Zuhrah retornaram, mil homens permaneceram com Abu Jahl. Eles partiram em direção à planície de Badr. Ao chegarem à planície de Badr, montaram suas tendas atrás de uma colina rochosa. Essa colina situava-se ao sul de Badr.
Uma situação delicada para o exército muçulmano
Enquanto era informado, por meio do emissário de Medina, sobre a situação mais recente, o Profeta — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — e seus companheiros atravessavam a planície de Zafran. Depois de receber informações detalhadas sobre os coraixitas, ele percebeu, com sua visão do futuro, que um confronto sangrento com os coraixitas havia se tornado inevitável. Portanto, era necessário avançar com coragem. Pois, se o exército de Meca fosse deixado sem desafio, o poder dos coraixitas aumentaria e suas vitórias seriam celebradas de boca em boca. Com isso, sua influência política cresceria consideravelmente. Por outro lado, a voz dos muçulmanos se enfraqueceria, e o Islã se tornaria sem vida e sem força. Os inimigos do Islã, assim como aqueles que não haviam tido a oportunidade de conhecê-lo e compreendê-lo devidamente, passariam a nutrir ódio pelo Islã e, por fim, tornar-se-iam seus inimigos.
Além disso, não havia qualquer garantia de que as tropas desenfreadas de Meca não marchariam em direção a Medina. Elas não deixariam escapar a oportunidade de ir a Medina, entrar nas casas dos muçulmanos e submetê-los à opressão e à tortura. Se o exército de Medina demonstrasse a menor complacência e retornasse a Medina pensando em preservar a paz, sem enfrentar o inimigo, tudo o que foi mencionado se tornaria inevitável. Ademais, deixar os incrédulos sem desafio teria um efeito negativo sobre a glória e a dignidade do Islã.
A reunião do conselho de shura
Diante da situação, o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — convocou uma reunião do conselho de shura. Na reunião, a situação política mais recente foi analisada. Foram solicitadas as opiniões dos comandantes e dos soldados comuns. Alguns muçulmanos começaram a tremer ao ouvir sobre o confronto sangrento. Foi a respeito deles que Allah, o Altíssimo, disse no Alcorão Sagrado: “É como quando teu Senhor te fez sair de tua casa com a verdade, enquanto um grupo dos crentes não o desejava. Parecia que alguns estavam sendo conduzidos à morte, enquanto a contemplavam.” (Surata Al-Anfal, versículos 5–6)
Foi solicitada a opinião dos líderes. Hazrat Abu Bakr e Hazrat Umar — que Allah esteja satisfeito com ambos — demonstraram uma atitude excelente. Suas palavras revelaram a devoção de seus corações ao amado Profeta — que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Em seguida, levantou-se Hazrat Miqdad ibn Amr — que Allah esteja satisfeito com ele. Ele disse: “Ó Mensageiro de Allah, permaneça firme no caminho que Allah lhe mostrou; estamos com você. Juro por Allah que não lhe diremos o que os Filhos de Israel disseram a Hazrat Musa — que a paz esteja com ele. É sabido que os Filhos de Israel disseram a Hazrat Musa: ‘Ó Musa, jamais entraremos nela enquanto eles permanecerem ali. Portanto, vá você e seu Senhor e combatei; nós permaneceremos sentados aqui.’” (Surata Al-Ma’idah, versículo 24)
“Ao contrário, diremos: ‘Lute, você e seu Senhor, e nós também lutaremos ao seu lado.’ Juro por aquele Ser Majestoso que o enviou com a verdade: mesmo que você nos leve até Barq al-Ghimad, chegaremos lá com você, lutando durante todo o caminho.”
Ao ouvir as palavras de Hazrat Miqdad — que Allah esteja satisfeito com ele —, o Profeta — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — elogiou-o e fez uma súplica em seu favor.
Depois de ouvir a opinião dos Muhajirun, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, considerou necessário ouvir a opinião dos Ansar, pois eram mais numerosos. A maior parte da responsabilidade pela guerra recairia sobre eles. Entretanto, à luz do juramento de al-Aqabah, eles não eram obrigados a sair de Medina para lutar. Depois de ouvir as opiniões de Abu Bakr, Umar e Miqdad — que Allah esteja satisfeito com eles — o amado Profeta voltou-se para os Ansar e disse: “Aconselhem-me.” O comandante dos Ansar, Sa’d ibn Mu’adh — que Allah esteja satisfeito com ele — disse: “Ó Mensageiro de Allah, você deseja conhecer a nossa opinião?” O Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, respondeu: “Sim.” Sa’d ibn Mu’adh disse: “Nós cremos em você e acreditamos que você diz a verdade. Testemunhamos que tudo o que você trouxe é verdadeiro e firmamos com você um compromisso de obedecer-lhe. Portanto, avance na direção que considerar melhor. Juro por Aquele que o enviou com a verdade: se você quiser lançar-se ao mar levando-nos consigo, nós também nos lançaremos. Nenhum de nós ficará para trás. Mesmo que amanhã você nos leve para enfrentar o inimigo, não teremos objeção alguma. Não há qualquer hesitação ou dúvida em nossos corações. Somos hábeis na guerra. É possível que Allah Todo-Poderoso manifeste, por nosso intermédio, tal bravura que seus olhos se alegrem ao vê-la. Siga levando-nos consigo. Que Allah Todo-Poderoso abençoe a nossa jornada.”
Segundo uma narração, Sa’d ibn Mu’adh — que Allah esteja satisfeito com ele — disse ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz: “Talvez você pense que os Ansar o ajudarão apenas em seu próprio território e considerem isso seu dever e responsabilidade. É por isso que respondo em nome dos Ansar. Na verdade, siga para onde quiser e estabeleça relações com quem desejar. Tome de nossas riquezas o quanto quiser. Aquilo que você tomar será, para nós, mais querido do que a parte que nos restar. Aceitaremos sua decisão sobre este assunto como definitiva. Juro por Allah: mesmo que você avance até Bark al-Ghimad, nós o acompanharemos. E, se você quiser lançar-se ao mar levando-nos consigo, também nos lançaremos ao mar com você.”
Ao ouvir essas palavras de Sa’d ibn Mu’adh — que Allah esteja satisfeito com ele — o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, ficou muito feliz. Ele disse: “Avancem, e avancem com alegria. Allah Todo-Poderoso prometeu-me uma das duas tropas. Juro por Allah, é como se eu estivesse vendo o local onde eles serão abatidos.”
Em seguida, o Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, avançou de Jurfaran. Depois de atravessar várias passagens montanhosas, chegou a um lugar chamado Asfar. Deixando o monte Haiman à direita, prosseguiu e acampou nas proximidades da planície de Badr.
Iniciativa para obter informações secretamente
Depois de acampar ali, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, saiu para obter informações acompanhado de Abu Bakr — que Allah esteja satisfeito com ele —, seu companheiro na Caverna de Thawr. À distância, observava as tendas dos soldados de Meca. Nesse momento, encontrou um ancião árabe. O Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, perguntou-lhe sobre os coraixitas e os companheiros de Muhammad. A razão de perguntar sobre os dois exércitos era que o Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, não queria revelar sua identidade. Mas o velho recusou-se a responder. Disse: “Identifiquem-se; digam-me a que grupo pertencem. Caso contrário, não direi nada.” O Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Diga-nos aquilo que lhe perguntei e, depois, nós lhe diremos quem somos.” O velho disse: “Se Muhammad e seus companheiros me tiverem informado a verdade, hoje deverão estar em tal lugar.” Ao dizer isso, mencionou exatamente o lugar onde os Companheiros estavam acampados. O velho acrescentou: “Os coraixitas partiram em tal dia. Se o mensageiro de informações me tiver dito a verdade, hoje os coraixitas deverão estar em tal lugar.” Com essas palavras, mencionou precisamente o lugar onde Abu Jahl e seus companheiros se encontravam.
Depois de terminar de falar, o velho perguntou ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e ao seu companheiro quem eles eram. O Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, respondeu: “Nós somos originários da mesma água.” Tendo dito isso, foi embora. O velho começou a resmungar: “De que água? Da água do Iraque?”
Informações importantes sobre o exército de Meca
No final da tarde daquele dia, o Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, enviou um grupo de espiões para obter informações sobre a posição dos inimigos e outras notícias. Entre eles estavam três líderes dos Muhajirun: Ali, que Allah esteja satisfeito com ele, Zubair ibn al-Awwam, que Allah esteja satisfeito com ele, e Sa’d ibn Abi Waqqas, que Allah esteja satisfeito com ele. Esses três ilustres companheiros, acompanhados por alguns outros, saíram para obter informações sobre o exército dos coraixitas. Primeiro, foram até o reservatório de Badr. Ali, dois escravos estavam retirando água para o exército dos coraixitas. Os companheiros os capturaram e os levaram ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Naquele momento, o Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, estava rezando. Os companheiros perguntaram aos escravos capturados sobre os coraixitas. Eles responderam: “Somos homens dos coraixitas. Eles nos enviaram para buscar água.” Os companheiros não ficaram satisfeitos com essa resposta. Supuseram que eles fossem homens de Abu Sufyan, pois ainda conservavam uma tênue esperança de capturar a caravana comercial. Os companheiros espancaram severamente os dois escravos. Sob o efeito das pancadas, eles foram obrigados a dizer: “Sim, somos homens de Abu Sufyan.” Ao ouvirem isso, os que os espancavam pararam de golpeá-los.
Depois da oração, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse asperamente aos companheiros: “Quando eles estavam dizendo a verdade, vocês os espancaram; e quando disseram uma mentira, vocês os soltaram. Juro por Allah que ambos disseram a verdade. Eles são homens dos coraixitas.”
Em seguida, o Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse aos escravos: “Muito bem, agora contem-me algo sobre os coraixitas.” Eles responderam: “Os coraixitas estão atrás daquela colina que se vê no limite mais distante da planície.” O Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, perguntou: “Quantos homens são?” Eles responderam: “Não sabemos.” Ele perguntou: “Quantos camelos abatem por dia?” Eles responderam: “Em um dia, nove; no outro, dez.” Ao ouvir isso, ele disse: “O número de homens deve estar entre novecentos e mil.” Depois, o Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, perguntou quais dos homens importantes dos coraixitas estavam entre eles. Eles responderam: “Utba e Shayba, os dois filhos de Rabi’a; Abu al-Bakhtari ibn Hisham; Hakim; Ibn Hizam; Nawfal ibn Khuwaylida; Harith ibn Amir; Tumayma ibn Adi; Nadr ibn al-Harith; Jam’a ibn al-Aswad; Abu Jahl ibn Hisham; e Umayya ibn Khalaf.” Além desses, os dois escravos mencionaram os nomes de vários outros. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, voltou-se para os companheiros e disse: “Meca lançou diante de vocês seus grandes líderes.”
A chuva da misericórdia e o avanço dos muçulmanos
Naquela mesma noite, Allah, o Senhor dos mundos, fez chover. A chuva caiu torrencialmente sobre os incrédulos, dificultando seu avanço. Para os muçulmanos, ela foi uma torrente de misericórdia. Graças a ela, os muçulmanos tiveram a oportunidade de se purificar da impureza causada por Satanás; a areia sob seus pés se firmou, criando excelentes condições para caminhar, e seus corações se fortaleceram.
Depois, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, avançou acompanhado pelos líderes muçulmanos. O Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, esforçava-se para chegar ao reservatório de Badr antes dos politeístas. Nesse momento, al-Hubab ibn al-Mundhir, que Allah esteja satisfeito com ele, deu ao Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, um conselho, como um comandante perspicaz e previdente. Primeiro, perguntou: “Ó Mensageiro de Allah, você se estabeleceu aqui por uma ordem de Allah, de modo que não há possibilidade de avançar ou recuar? Ou escolheu este lugar como estratégia militar?” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, respondeu: “É simplesmente por uma razão estratégica.” Ao ouvir isso, al-Hubab, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: “Não considero apropriado permanecermos neste lugar. Devemos avançar mais e controlar o reservatório mais próximo da posição dos coraixitas. Manteremos os demais reservatórios sob nossa vigilância. Quando a batalha começar, beberemos água, enquanto os coraixitas sofrerão por falta dela.” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Você deu um conselho correto.” Em seguida, avançou com os soldados. No meio da noite, chegou ao reservatório mais próximo dos inimigos e montou acampamento. Depois, os companheiros construíram um tanque e fecharam todos os demais reservatórios.
O centro de comando
Depois que os companheiros se estabeleceram perto do reservatório, Sa’d ibn Mu’adh, que Allah esteja satisfeito com ele, apresentou uma proposta. Disse que os muçulmanos poderiam construir um posto de comando para seu líder. Assim, caso — que Allah não permita — em vez da vitória os muçulmanos sofressem uma derrota ou surgisse algum outro tipo de situação urgente, poderiam estar prevenidos desde o início. Depois dessa conversa, Sa’d, que Allah esteja satisfeito com ele, disse ao Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz: “Ó Mensageiro de Allah, queremos preparar para você um leito especial. Você permanecerá ali. Também deixaremos sua montaria ao seu lado. Então enfrentaremos o inimigo. Se Allah nos honrar e nos conceder vitória sobre o inimigo, será melhor para nós que você permaneça nesse posto. Se formos derrotados, você poderá montar e ir até aqueles que ficaram para trás. Ó Profeta de Allah, atrás de você estão pessoas que o amam ainda mais do que nós. Nosso amor por você não é tão grande e profundo quanto o deles. Se soubessem que você enfrentaria a batalha, de modo algum teriam ficado para trás. Allah o protegerá por meio deles; eles cuidarão do seu bem-estar e combaterão ao seu lado.”
Ao ouvir isso, o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — elogiou Hazrat Sa’d — que Allah esteja satisfeito com ele — e fez uma súplica por ele. Os muçulmanos prepararam para o Profeta — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — uma cama numa colina elevada, ao nordeste do campo de batalha. Dali, todo o campo de batalha podia ser visto. Um grupo de jovens ansares, sob a liderança de Hazrat Sa’d ibn Mu’adh — que Allah esteja satisfeito com ele — recebeu a responsabilidade de vigiar o Profeta — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele.
Disposição das tropas para a batalha
Em seguida, o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — dispôs as tropas e partiu para o campo de batalha. [Jami’ at-Tirmidhi, Abwab al-Jihad, vol. 1, p. 201]. Ali, apontando com a mão, disse: “Amanhã, se Allah quiser, este será o local da morte de fulano, e este será o local da morte de fulano.”
Depois, o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — passou a noite ali, junto à raiz de uma árvore. Os Companheiros também passaram a noite tranquilos e sem preocupações. Seus corações estavam repletos de confiança; passaram o tempo em paz e segurança. Esperavam ver, na manhã seguinte, com os próprios olhos, a prova das boas-novas do Senhor Supremo. Como Allah, o Altíssimo, diz: “Recorda quando Ele vos envolveu em sonolência, como uma segurança da Sua parte, e fez descer sobre vós água do céu, para purificar-vos com ela, afastar de vós a impureza de Satanás, fortalecer os vossos corações e firmar com ela os vossos pés.” (Surata al-Anfal, versículo 11)
Era a noite do dia 17 de Ramadã do segundo ano da Hégira. Ele havia partido de Medina no dia 8 ou 12 daquele mês. [Mishkat, vol. 2, p. 543]
Divergências mútuas entre os inimigos
Os coraixitas passaram a noite em suas tendas, do outro lado das colinas, na extremidade de Badr. Pela manhã, foram até o lado de cá das colinas e reuniram-se na planície de Badr. Um grupo de homens avançou em direção ao reservatório do Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. O Profeta — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — disse: “Não os impeçam.” Mais tarde, constatou-se que todos aqueles entre os homens que beberam da água do reservatório do Profeta — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — e lutaram contra ele foram mortos. Somente Hakim ibn Hizam sobreviveu. Mais tarde, Hakim aceitou o Islam e tornou-se um bom muçulmano. Seu costume era que, sempre que prestava um juramento, dizia: “Pelaquele que me salvou do dia de Badr.” Ou seja: “Pelo Ser que me libertou no dia de Badr.”
Depois de observar a concentração das tropas muçulmanas, os coraixitas enviaram ‘Umayr ibn Wahb al-Jumahi para avaliar sua força. ‘Umayr deu uma volta e, ao retornar, disse: “O número de soldados muçulmanos é de trezentos, talvez um pouco menos ou um pouco mais. Vou verificar se possuem alguma tropa de apoio.” Após cavalgar por uma distância considerável e voltar, ‘Umayr disse: “Os muçulmanos não deixaram nenhuma tropa de apoio para trás. Contudo, notei uma coisa: os camelos de Yathrib trouxeram consigo nada além de morte certa. Toda a força deles depende das espadas. Por Allah, pelo que compreendi, parece que nenhum deles morrerá sem antes matar alguém de vocês. Se eles matarem os vossos homens importantes, ficareis privados de companheiros ilustres. Portanto, é mais prudente refletir cuidadosamente antes de fazer qualquer coisa.”
Nesse momento, outro grupo de pessoas contrárias à guerra começou a se manifestar abertamente contra Abu Jahl. Abu Jahl, porém, estava firmemente decidido a lutar. Os opositores da guerra queriam retornar a Meca sem travar combate. Hakim ibn Hizam, por exemplo, não queria lutar. Ele começou a correr de um lado para o outro. Primeiro foi até Utba ibn Rabia e disse: “Ó Abu al-Walid, você é uma pessoa proeminente entre os coraixitas, e todos aceitam sua liderança sem hesitação. Faça uma boa ação; graças a ela, seu nome será sempre lembrado pelas pessoas. Utba perguntou: “Que ação é essa, Hakim?” Hakim respondeu: “Leve todos de volta e assuma a responsabilidade de pagar a indenização pelo assassinato de seu aliado, Amr ibn Hadrami, morto na expedição de Nakhla.” Utba disse: “Concordo. Tome-me como seu fiador. Amr ibn Hadrami era meu aliado, e a responsabilidade pela indenização por sua morte recai sobre mim. Eu compensarei tudo o que foi destruído de seus bens.”
Depois disso, Utba disse a Hakim ibn Hizam: “Vá até o filho de Hanzaliyya — isto é, Abu Jahl, cuja mãe se chamava Hanzaliyya. É ele quem está estragando tudo; é ele que está por trás da incitação do povo.”
Então Utba ibn Rabia levantou-se e, como num discurso, disse: “Ó coraixitas, vocês não obterão nenhuma honra especial lutando contra Maomé e seus companheiros. Por Deus, se eles os matarem, vocês verão rostos que não desejarão ver mortos. Afinal, vocês matarão seus primos paternos, seus primos maternos ou outros membros de sua própria tribo. Se outros árabes matarem Maomé e seus companheiros, seu desejo será realizado; mas, se surgir qualquer outra situação, lembrem-se de que vocês cairão nas mãos de Maomé e de seus companheiros, que se lembram de tudo o que lhes aconteceu no passado. Portanto, vamos voltar; permaneceremos neutros.”
Hakim ibn Hizam foi até Abu Jahl e viu que ele estava polindo a própria armadura. Hakim disse: “Ó Abu al-Hakam, Utba enviou-me até você com esta mensagem.” Abu Jahl respondeu: “Por Deus, o coração de Utba secou de medo ao ver Maomé e seus companheiros. Mas eu jamais retornarei a Meca. Não voltaremos a Meca até que Deus Todo-Poderoso decida entre Maomé e nós. Utba só disse o que disse porque ficou aterrorizado diante de Maomé e seus companheiros. O filho de Utba também está com eles; por isso ele está tentando amedrontá-los a respeito deles.” (Convém mencionar que o filho de Utba, Hudhayfa, havia abraçado o Islã muito antes e migrado para Medina.) Quando Utba soube que Abu Jahl dissera a seu respeito — “Por Deus, o coração de Utba secou de medo” —, ele disse: “Abu Jahl logo saberá de quem secou o coração: do meu ou do dele.” Abu Jahl ficou assustado ao saber da reação de Utba. Para que a situação não se prolongasse, mandou chamar Amir ibn Hadrami, irmão de Amr ibn Hadrami, morto na expedição de Nakhla. Quando Amir chegou, Abu Jahl disse: “Seu aliado Utba quer levar o povo de volta, embora vocês estejam vendo com os próprios olhos a injustiça cometida contra vocês. Portanto, levantem-se, proclamem em voz alta que foram injustiçados e que são vítimas da opressão, e contem novamente a todos sobre o assassinato de seu irmão.” Ao ouvir isso, Amir levantou-se, descobriu as nádegas e começou a gritar: “Ai, Amr! Ai, Amr! Ai, Amr!” Ao ouvir aqueles gritos, todos se reuniram, e o desejo de lutar se fortaleceu intensamente no coração de todos. Todos se comprometeram a vingar-se dos muçulmanos. O apelo de Utba fracassou. Assim, a paixão venceu a prudência, e fracassou a tentativa de evitar a guerra.
Os dois exércitos frente a frente
Os não muçulmanos saíram em grupos, e os dois exércitos começaram a se posicionar frente a frente. Nesse momento, o Mensageiro disse: “Ó Deus Todo-Poderoso, os coraixitas avançaram em oposição a Ti, tomados de completo orgulho, para desmentir o Teu Mensageiro. Ó Deus Todo-Poderoso, hoje necessitamos imensamente da ajuda que prometeste. Ó Deus Todo-Poderoso, dispersa-os hoje completamente.”
Ao ver Utba montado em seu camelo vermelho, o Mensageiro disse: “Se há algum bem em alguém deste povo, ele está no cavaleiro daquele camelo. Se os outros tivessem seguido suas palavras, teriam encontrado o caminho correto.”
Nesse momento, o Mensageiro organizou os muçulmanos em fileiras. Então ocorreu algo extraordinário.
O Profeta (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) tinha uma flecha na mão. Com ela, ele alinhava as fileiras. Naquele momento, a ponta da flecha tocou levemente o abdômen de Sawad ibn Ghaziyya. Ele havia avançado um pouco à frente da fileira. “Sawad, alinhe-se”, disse o Profeta. Sawad disse imediatamente: “Ó Mensageiro de Allah, o senhor me feriu; permita-me revidar.” O Profeta (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) levantou a roupa sobre o abdômen e disse: “Tome, retribua.” Sawad abraçou o amado Profeta (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) e beijou seu ventre sagrado. O Profeta (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) perguntou: “Sawad, o que o levou a fazer isso?” Sawad respondeu: “Ó Mensageiro de Allah, o senhor viu tudo o que está prestes a acontecer. Meu único desejo é que estar próximo do senhor seja a última lembrança da minha vida. Que o contato do meu corpo com o seu corpo sagrado seja o último acontecimento da minha vida.” Ao ouvir isso, o Profeta (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) fez uma súplica por Sawad.
Depois de alinhar as fileiras, o Profeta (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse aos Companheiros que ninguém deveria iniciar o combate sem receber sua ordem. Em seguida, o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) deu instruções especiais sobre a estratégia de guerra. Ele disse: “Quando os idólatras avançarem contra vocês em grupo, atirem flechas contra eles. Prestem atenção para não desperdiçar as flechas” [Sahih al-Bukhari, vol. 2, p. 568]. “Não usem as espadas até que eles os cerquem” [Sunan Abu Dawud, vol. 2, p. 13]. Depois, o Profeta (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), acompanhado de Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele), dirigiu-se ao centro da posição. Sa’d ibn Mu’adh (que Allah esteja satisfeito com ele), acompanhado dos soldados de guarda, foi encarregado de proteger o amado Profeta (que Allah o abençoe e lhe conceda paz).
Por outro lado, a situação dos idólatras era a seguinte: Abu Jahl suplicou a Allah por um julgamento. Ele disse: “Ó Allah, destrói hoje o grupo entre nós que mais rompeu os laços de parentesco e cometeu erros. Ó Allah, ajuda hoje o grupo entre nós que é mais amado e agradável a Ti.” Mais tarde, aludindo às palavras de Abu Jahl, Allah, o Senhor dos mundos, disse: “Vós pedistes uma decisão, e ela já vos chegou. Se desistirdes, será melhor para vós; mas, se voltardes a fazê-lo, Nós também voltaremos a punir-vos, e, ainda que o vosso grupo seja maior, isso de nada vos servirá. E Allah está com os crentes.” (Surata al-Anfal, versículo 19)
O primeiro estopim da batalha
O primeiro instigador desta batalha foi Aswad ibn Abd al-Asad al-Makhzumi. Esse homem era extremamente perverso e depravado. Ao sair para o campo de batalha, disse: “Prometo a Allah que beberei a água da cisterna deles. Se não conseguir, destruirei essa cisterna ou darei a vida por ela.”
Dizendo isso, Aswad avançou. Do outro lado, entre os Companheiros do amado Profeta (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), avançou Hamza ibn Abd al-Muttalib. Os dois se enfrentaram junto à cisterna. Hamza (que Allah esteja satisfeito com ele) golpeou com a espada de tal modo que a perna de Aswad, o incrédulo, foi cortada abaixo do joelho e separada do corpo. Ele caiu pesadamente ao chão. O sangue jorrou sem parar da perna decepada, e esse fluxo de sangue corria na direção de seus companheiros. Aswad avançava rastejando em direção à cisterna. Ao chegar perto dela, queria beber sua água e cumprir seu juramento. Nesse momento, Hamza (que Allah esteja satisfeito com ele) golpeou Aswad novamente. Com esse golpe, ele caiu dentro da cisterna e morreu.
Começa a batalha total
A morte de Aswad ibn Abd al-Asad foi o primeiro acontecimento da batalha de Badr. Depois dessa morte, o fogo da batalha se espalhou. Três guerreiros ilustres saíram das fileiras do exército coraixita. Eram homens da mesma tribo: Utba e Shayba, os dois filhos de Rabi’a, e Walid, filho de Utba. Assim que saíram da fileira, desafiaram o adversário para um combate. Três jovens Ansar avançaram. Eram Awf, Mu’awwidh e Abdullah ibn Rawaha. Os dois primeiros eram filhos de Harith. Sua mãe chamava-se Afra. Os coraixitas perguntaram: “Quem são vocês?” Eles responderam: “Somos os Ansar de Medina.” Os coraixitas disseram: “Sem dúvida, vocês são adversários nobres, mas não temos nenhuma disputa com vocês. Queremos nossos primos.” Então os três jovens coraixitas gritaram: “Ó Muhammad, envia-nos nossos parentes consanguíneos.” O Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: “Ubayda ibn al-Harith, Hamza e Ali, avancem.” Depois que eles avançaram, os três jovens coraixitas fingiram não reconhecê-los e perguntaram quem eram. Eles se identificaram. Os três jovens coraixitas disseram: “Sim, vocês são adversários nobres.” Então começou o combate regular. Ubayda ibn al-Harith (que Allah esteja satisfeito com ele) enfrentou Utba ibn Rabi’a; Hamza (que Allah esteja satisfeito com ele), Shayba; e Ali (que Allah esteja satisfeito com ele), Walid ibn Utba [Ibn Hisham, Musnad Ahmad. Há diferenças na narração de Abu Dawud. Mishkat, vol. 2, p. 343].
Hazrat Hamza (que Allah esteja satisfeito com ele) e Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) subjugaram seus respectivos adversários, mas houve troca de golpes entre Hazrat Ubaida ibn Harith (que Allah esteja satisfeito com ele) e seu adversário Utba. Eles feriram-se gravemente um ao outro. Enquanto isso, Hazrat Hamza e Hazrat Ali, depois de derrotarem seus adversários, avançaram para ajudar Hazrat Ubaida e, lançando-se sobre Utba, acabaram com ele. Em seguida, levaram Hazrat Ubaida. A perna de Hazrat Ubaida (que Allah esteja satisfeito com ele) havia sido decepada e ele perdera a fala. Não voltou a pronunciar palavra alguma. No quarto ou quinto dia, quando os muçulmanos atravessavam a planície de Safra a caminho de Medina, Hazrat Ubaida (que Allah esteja satisfeito com ele) faleceu. Hazrat Ali costumava dizer que este versículo foi revelado a nosso respeito. Allah, o Altíssimo, disse: “Estas são duas partes em disputa, que discutem acerca de seu Senhor.” (Surata Al-Hajj, versículo 19)
O infortúnio dos politeístas havia começado. Eles perderam de uma só vez três guerreiros ilustres. Desnorteados pela ira, todos lançaram-se juntos contra os muçulmanos.
Por outro lado, os muçulmanos suplicavam ajuda ao seu grandioso Senhor e enfrentavam firmemente o ataque dos incrédulos. Pronunciando as palavras “Ahad, Ahad”, contra-atacavam os incrédulos hereges e causavam-lhes grandes perdas.
A súplica do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) na planície de Badr
Enquanto isso, depois de alinhar as fileiras dos emigrantes, o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, suplicava com voz aflita por ajuda ao Todo-Poderoso Allah, o Senhor. Ele dizia: “Ó Allah, cumpre a promessa que nos fizeste. Ó Allah, peço-Te a ajuda que prometeste.”
Depois que começou a violenta batalha entre os dois lados, o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, fez esta súplica diante de Allah: “Ó Allah, Senhor dos mundos, se hoje este grupo de muçulmanos for completamente destruído, não restará ninguém no mundo para Te adorar. Ó Allah, acaso desejas que, depois de hoje, ninguém jamais Te adore?”
O Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, fazia esta súplica com extrema humildade e submissão, em tom angustiado. Em determinado momento de sua súplica, o manto caiu de ambos os seus ombros. Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) ajeitou o manto do Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, e disse: “Ó Mensageiro de Allah, pare agora. O senhor suplicou ao seu Senhor com extrema aflição.” Enquanto isso, Allah, o Altíssimo, ordenou aos anjos: “Recorda quando teu Senhor revelou aos anjos: ‘Estou convosco; portanto, fortalecei os crentes. Lançarei o terror nos corações dos que descreem; golpeai-os nos pescoços e em todo o corpo.’” (Surata Al-Anfal, versículo 12)
Enquanto isso, Allah, o Altíssimo, revelou ao Seu amado Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele: “Eu vos ajudarei com mil anjos, que virão sucessivamente.” (Surata Al-Anfal, versículo 9)
A descida dos anjos
Naquele momento, Gabriel (que a paz esteja sobre ele) veio até o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Ele levantou rapidamente a cabeça e disse: “Abu Bakr, alegra-te! Gabriel chegou, veio em meio à poeira.” Segundo o relato de Ibn Ishaq, o Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Abu Bakr, alegra-te! O auxílio de Allah chegou até vós. Gabriel vem à frente do cavalo, segurando suas rédeas. A poeira está se levantando.”
Depois, o Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, saiu do aposento. Estava vestido com uma armadura. Enquanto avançava à frente de maneira vigorosa, dizia: “Em breve, este grupo será derrotado e dará as costas.” (Surata Al-Qamar, versículo 45)
Em seguida, ao lançar um punhado de poeira contra os incrédulos, o Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Shāhatil-wujūh”, isto é, “Que seus rostos sejam cobertos”. Dito isso, lançou a poeira contra os incrédulos. A poeira lançada entrou nos olhos, bocas, narizes e gargantas de todos os incrédulos. Nenhum deles foi poupado. Sobre isso, Allah, o Altíssimo, diz: “E não foste tu que lançaste quando lançaste, mas foi Allah quem lançou.” (Surata Al-Anfal, versículo 17)
O contra-ataque
Depois, o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, ordenou o contra-ataque e incentivou o combate, dizendo: “Avançai! Juro por Aquele em cuja mão está a vida de Muhammad: qualquer um de vós que lutar contra eles com firmeza, considerando isso uma boa ação, avançando sem recuar, e morrer, certamente receberá de Allah o Paraíso.” Ao incentivar o combate contra os incrédulos, o Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse ainda: “Erguei-vos em direção ao Paraíso cuja extensão e largura equivalem à extensão dos céus e da terra.” Ao ouvir isso do Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, Umayr ibn Hammam disse: “Excelente! Excelente!” O Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, perguntou-lhe por que dissera aquilo. Ele respondeu: “Ó Mensageiro de Allah, não foi por outra razão senão que eu esperava poder estar entre os habitantes desse Paraíso.” O amado Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Tu estás entre esses habitantes do Paraíso.” Então Umayr ibn Hammam tirou algumas tâmaras e começou a comê-las. De repente, disse com voz exaltada: “Comer estas tâmaras levará muito tempo. Por que prolongar tanto a vida?” Depois dessas palavras, lançou as tâmaras fora e tornou-se mártir enquanto combatia os não crentes.
Quando o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, ordenou o contra-ataque, a intensidade do ataque dos inimigos começou a diminuir. Seu entusiasmo e ânimo também declinaram. Isso se mostrou útil para fortalecer a posição dos muçulmanos. Pois, quando os nobres Companheiros receberam a ordem de contra-atacar e seu ardor atingiu o auge, lançaram um ataque impetuoso. Naquele momento, avançaram desordenando as fileiras dos incrédulos e decapitando-os. Ao verem que o próprio Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, havia entrado no campo de batalha usando uma armadura, o entusiasmo dos Companheiros aumentou ainda mais. O Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, havia dito: “Em breve, eles serão derrotados e fugirão dando as costas.”
Inspirados pelo Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, os Companheiros lutaram com grande bravura. Naquele momento, os anjos também ajudaram os muçulmanos [Muslim, vol. 2, p. 139; Mishkat, vol. 2, p. 331].
Segundo o relato de Ibn Sa‘d, transmitido por Hadrat Ikrimah (r.a.), naquele dia cabeças humanas caíam decepadas, mas não se sabia quem as havia cortado. Também se viam mãos humanas separadas dos corpos, sem que se soubesse quem as havia decepado.
Hadrat Abdullah ibn Abbas (r.a.) disse: um muçulmano ansari perseguia um idólatra. De repente, ouviu-se sobre o idólatra o som de golpes de chicote, enquanto alguém dizia: “Vai, avança!” O Companheiro viu o idólatra cair de bruços. Havia marcas de golpes em seu nariz e em sua boca, e seu rosto estava ensanguentado. Era evidente que ele havia sido golpeado com um chicote, embora não se visse quem o golpeara. Esse Companheiro ansari relatou o ocorrido ao Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). O Profeta (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: “Disseste a verdade. Isso foi auxílio do terceiro céu.” [Muslim, vol. 2, p. 93]
Abu Dawud al-Mazini disse: “Eu perseguia um idólatra para matá-lo. Antes que minha espada alcançasse seu pescoço, sua cabeça decepada rolou pelo chão. Compreendi que outro havia matado aquele incrédulo.”
Um ansari trouxe Hadrat Abbas ibn Abdul Muttalib preso. Hadrat Abbas ainda não havia aceitado o Islã. Ele disse: “Por Allah, não foi este homem que me capturou e trouxe preso. Quem me capturou foi um homem de cabeça raspada. Aquele homem de bela aparência estava montado num cavalo malhado. Agora, porém, não se vê esse homem entre estas pessoas.” O ansari disse: “Ó Mensageiro de Allah, fui eu que o capturei.” O Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: “Cala-te. Allah vos ajudou por meio de um anjo nobre.”
A fuga de Iblis do campo de batalha
Já foi mencionado que o amaldiçoado Iblis viera assumindo a aparência de Suraqah ibn Malik ibn Jush‘am al-Mudliji. Naquele momento, ele ainda não havia se separado dos idólatras. Porém, ao ver a ação dos anjos contra os pagãos, começou a fugir correndo. Harith ibn Hisham o agarrou, pensando que ele fosse realmente Suraqah ibn Malik. Mas Iblis desferiu um golpe violento no peito de Hadrat Harith, que caiu ao chão. Nesse ínterim, Iblis fugiu. Os idólatras começaram a dizer: “Para onde vais, Suraqah? Não disseste que nos ajudarias e que não te afastarias de nós?” Suraqah respondeu: “Estou vendo algo que vós não vedes. Temo Allah; Ele é severo no castigo.” Depois, Iblis foi para o mar e escondeu-se.
A derrota dos incrédulos
Em pouco tempo, tornaram-se evidentes os sinais de fracasso e desânimo no exército dos não muçulmanos. Diante do poderoso ataque dos muçulmanos, eles se dispersaram. O resultado da batalha tornou-se claro. Os incrédulos coraixitas começaram a recuar, e o desânimo tomou conta de seus corações. Os muçulmanos matavam alguns, feriam outros e capturavam outros ainda. Assim, os incrédulos sofreram uma derrota manifesta.
Ao ver os descrentes coraixitas se dispersarem, Abu Jahl, o líder dos malfeitores, tentou impedir aquela debandada. Para encorajar seus seguidores, começou a gritar: “Não percam a coragem por causa da fuga desses jovens. Eles tinham uma conspiração com Muhammad. Não percam o ânimo ao verem Utba, Shaiba e Walid mortos. Eles se apressaram. Juro por al-Lat e al-Uzza que não retornaremos enquanto não os amarrarmos com cordas. Vejam, não matem nenhum deles; capturem-nos. Depois faremos com que provem as consequências de suas atividades malignas.”
Abu Jahl logo sentiu as consequências de sua arrogância. Pois, pouco depois, diante do contra-ataque dos muçulmanos, eles se encontravam dispersos. Abu Jahl ainda estava cercado com alguns de seus seguidores. Ao redor do líder dos malfeitores, Abu Jahl, havia uma guarda de flechas e espadas. O violento ataque dos combatentes muçulmanos despedaçou essa guarda. Os muçulmanos perceberam que Abu Jahl estava montado num cavalo. Sua morte aproximava-se passo a passo.
O assassinato de Abu Jahl
Hazrat Abdur-Rahman ibn Awf (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “No dia da batalha de Badr, eu estava entre as fileiras dos muçulmanos. De repente, notei dois jovens ansaritas, um à minha direita e outro à minha esquerda. Eu estava pensando sobre a presença deles quando, de repente, um deles me disse em segredo: ‘Tio, mostre-nos quem é Abu Jahl.’ Eu disse: ‘Meu sobrinho, o que vocês farão com ele?’ Ele respondeu: ‘Ouvi dizer que Abu Jahl insulta o amado Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Juro por Aquele em cuja mão está minha vida: se encontrarmos Abu Jahl, não nos separaremos dele até que morra aquele cuja morte foi decretada antes: ele ou nós.’ Hazrat Abdur-Rahman (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: ‘Fiquei admirado ao ouvir isso. O outro jovem ansarita também me disse secretamente a mesma coisa. Poucos momentos depois, vi Abu Jahl circulando entre as pessoas. Eu disse aos dois jovens ansaritas: “Ali está a presa de vocês, aquele sobre quem me perguntaram.” Assim que ouviram isso, os dois jovens ansaritas lançaram-se sobre Abu Jahl e o mataram. Depois, ambos foram até o amado Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. O Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, perguntou: “Qual de vocês matou Abu Jahl?” Ambos responderam: “Fui eu, fui eu.” O Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, perguntou: “Vocês limparam o sangue das espadas?” Eles disseram: “Não.” Ao examinar as espadas de ambos, o Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Vocês dois o mataram.” Contudo, o Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, entregou os pertences abandonados de Abu Jahl a Mu‘adh ibn Amr ibn Jamuh. Os nomes dos dois jovens eram Mu‘adh ibn Amr ibn Jamuh e Mu‘awwidh ibn Afra [Sahih al-Bukhari, vol. 1, p. 444; vol. 2, p. 568; Mishkat, vol. 2, p. 352. Em outras narrações, o nome do segundo jovem é mencionado como Mu‘awwidh ibn Afra. Ibn Hisham, vol. 1, p. 635. Os pertences abandonados de Abu Jahl foram entregues a um deles porque Mu‘adh ou Mu‘awwidh ibn Afra viria a ser martirizado posteriormente naquela batalha. A espada de Abu Jahl foi entregue a Hazrat Abdullah ibn Mas‘ud, pois ele havia separado a cabeça de Abu Jahl do corpo. Ver Sunan Abu Dawud, vol. 2, p. 373].”
Ibn Ishaq narrou que Mu‘adh ibn Amr ibn Jamuh disse: “Abu Jahl estava no interior de uma inexpugnável guarda de flechas e espadas dos descrentes. Os descrentes diziam que ninguém deveria conseguir chegar até Abu Jahl. Ao ouvir isso, reconheci Abu Jahl e permaneci perto dele. Assim que surgiu uma oportunidade, ataquei-o. Golpeei-o com tanta força que sua perna foi cortada abaixo do joelho e separada do corpo. Sua perna voou como uma tâmara caída. Enquanto eu golpeava Abu Jahl, seu filho Ikrimah golpeou-me com a espada na altura do ombro. Ficou difícil continuar lutando. Eu manejava a espada com uma mão, mantendo a mão decepada atrás de mim. Mesmo assim, era muito difícil. Então coloquei a parte cortada da mão sob o pé e, com um movimento brusco, separei-a da mão [Hazrat Mu‘adh ibn Amr Jamuh (que Allah esteja satisfeito com ele) permaneceu vivo até o califado de Hazrat Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele)].” Depois, ele desferiu contra Abu Jahl um golpe tal que o inimigo de Allah e de Seu Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, tombou ali mesmo. O último suspiro de Abu Jahl ainda não havia saído; sua respiração continuava. Depois, Hazrat Mu‘awwidh ibn Afra foi martirizado enquanto lutava.
Quando a batalha terminou, o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Vão ver quem encontrará o destino de Abu Jahl.” Então os Companheiros começaram a procurar Abu Jahl.
Hazrat Abdullah ibn Mas‘ud (que Allah esteja satisfeito com ele) encontrou Abu Jahl ainda respirando. Ele colocou o pé sobre o tronco de Abu Jahl, segurou sua barba para cortar-lhe a cabeça e disse: “Ó inimigo de Allah, finalmente Allah te humilhou e desonrou, não foi?” Abu Jahl respondeu: “Como Ele me desonrou? Existe alguém de posição mais elevada do que aquele que vocês mataram? Quem é maior do que ele? Ah, se ao menos alguém diferente de um jovem tivesse me matado.” Depois, começou a dizer: “Diga-me: quem venceu hoje?” Hazrat Abdullah ibn Mas‘ud (que Allah esteja satisfeito com ele) respondeu: “Allah e Seu Mensageiro.” Abdullah ibn Mas‘ud (que Allah esteja satisfeito com ele) mantinha o pé pressionado sobre o ombro de Abu Jahl. Abu Jahl disse-lhe: “Ó pastor de cabras, você alcançou uma posição muito elevada.” Pode-se mencionar que Hazrat Abdullah ibn Mas‘ud (que Allah esteja satisfeito com ele) pastoreava cabras em Meca.
Depois desse diálogo, Abdullah ibn Mas‘ud (que Allah esteja satisfeito com ele) cortou a cabeça de Abu Jahl e levou-a diante do Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, dizendo: “Ó Mensageiro de Allah, esta é a cabeça de Abu Jahl, o inimigo de Allah.” O Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Sim, é verdade. Juro por Allah, além de Quem não há divindade: sim, é verdade; além d’Ele não há divindade; sim, é verdade; além d’Ele não há divindade.” Depois, o Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Allah é Grandioso. Todo louvor pertence somente a Ele. Ele cumpriu Sua promessa, ajudou Seus servos e, sozinho, derrotou todos os grupos.”
Então, o Profeta e Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: «Vamos. Mostrem-me o cadáver dele». Levamos o Profeta e Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, até o cadáver de Abu Jahl. Ele disse: «Este é o Faraó desta comunidade».
Alguns sinais maravilhosos da fé
Já foram mencionados os feitos capazes de revigorar a fé de Hazrat Umayr ibn Hammam e Awf ibn Harith ibn Afrar. Na realidade, nesta expedição, a cada passo surgiram diante dos olhos cenas que revelaram a força da fé e a maturidade dos princípios. Nesta expedição, pais e filhos e irmãos se enfrentaram. Por uma questão de princípios, as espadas foram desembainhadas, e os oprimidos e injustiçados entraram em confronto com os injustos e opressores, apagando o fogo da ira. Por exemplo:
1) Hazrat Abdullah ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) narrou que o Profeta e Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse aos Companheiros: «Sei que homens de algumas tribos, incluindo os Banu Hashim, foram levados à força para o campo de batalha. Eles não têm nenhuma relação com a nossa guerra. Portanto, se algum homem da tribo de Hashim cair diante de alguém, que não seja morto. Se Abu al-Bakhtari ibn Hisham cair diante de alguém, que não seja morto. E, se Abbas ibn Abd al-Muttalib ficar sob o controle de alguém, que também não seja morto, pois foi trazido à força». Ao ouvir isso, Hazrat Abu Hudhayfa, filho de Utbah (que Allah esteja satisfeito com ele), disse: «Mataremos os outros, mas deixaremos Abbas, embora ele seja nosso pai, filho, irmão e membro da nossa tribo? Juro por Allah que, se eu me encontrar frente a frente com Abbas, farei a espada usar-lhe uma rédea». Quando essa notícia chegou ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, ele disse a Umar ibn al-Khattab (que Allah esteja satisfeito com ele): «Por acaso se golpeia também com a espada o rosto do tio do Mensageiro de Allah?». Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) respondeu: «Ó Mensageiro de Allah, deixe-me; cortarei o pescoço desse homem, pois ele se tornou um hipócrita».
Mais tarde, Hazrat Hudhayfa (que Allah esteja satisfeito com ele) dizia: «Por causa do que disse naquele dia, nunca encontrei tranquilidade nem pude ficar despreocupado. Eu sempre sentia medo. Pensava apenas que o meu martírio poderia ser a expiação pelo comentário impensado daquele dia». Por fim, Hazrat Hudhayfa (que Allah esteja satisfeito com ele) foi martirizado na batalha de Yamama.
2) A razão pela qual foi ordenado que Abu al-Bakhtari não fosse morto é que, em Meca, ele jamais causou qualquer sofrimento ao Profeta e Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Nunca se ouviu da parte dele qualquer palavra desagradável contra o Islã, contra Allah ou contra o Seu amado Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Além disso, ele foi um dos principais responsáveis pela revogação do boicote aos Banu Hashim e aos Banu al-Muttalib.
3) Apesar de todas essas virtudes, no dia de Badr ele se deparou frente a frente com Mujazzir ibn Balwa. Abu al-Bakhtari também estava acompanhado por um companheiro. Os dois lutavam lado a lado. Ao ver Abu al-Bakhtari, Hazrat Mujazzir disse: «Ó Abu al-Bakhtari, o Profeta e Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, proibiu que você fosse morto». Abu al-Bakhtari respondeu: «Juro por Deus: então nós dois morreremos». Em seguida, os dois entraram em combate com Hazrat Mujazzir. Hazrat Mujazzir (que Allah esteja satisfeito com ele), forçado pelas circunstâncias, matou ambos.
3) Desde a época da ignorância em Meca, Hazrat Abd al-Rahman ibn Awf (que Allah esteja satisfeito com ele) e Umayya ibn Khalaf eram grandes amigos. No dia da batalha de Badr, Umayya estava de pé, segurando a mão de seu filho Ali. Hazrat Abd al-Rahman ibn Awf (que Allah esteja satisfeito com ele) passava diante deles. Ele levava algumas armaduras tomadas dos inimigos. Umayya lhe disse: «Posso ser útil para você? Sou melhor do que essas suas armaduras. Nunca vi uma situação como a de hoje. Vocês não precisam de leite?», isto é, quem me capturar receberá de mim, como resgate ou fidya, muitas camelas leiteiras. Ao ouvir isso, Hazrat Abd al-Rahman atirou as armaduras ao chão, capturou Umayya e seu filho Ali e avançou.
Hazrat Abd al-Rahman (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: Eu avançava entre Umayya e seu filho quando Umayya perguntou: “Quem, entre vocês, era aquele homem que trazia penas de avestruz presas ao peito?” Respondi: “Ele era Hamza ibn Abd al-Muttalib.” Umayya ibn Khalaf disse: “Foi esse homem que causou a nossa destruição.”
Hazrat Abd al-Rahman (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: Eu levava os dois comigo quando Hazrat Bilal (que Allah esteja satisfeito com ele) viu Umayya ao meu lado. Deve-se lembrar que Umayya havia torturado severamente Hazrat Bilal (que Allah esteja satisfeito com ele) em Meca. Ao ver Umayya, ele disse: “Ó Umayya ibn Khalaf, chefe dos incrédulos, talvez eu sobreviva ou ele sobreviva.” Em seguida, gritou em voz alta: “Ó auxiliares de Allah, eis Umayya ibn Khalaf, chefe da incredulidade! Agora, talvez eu permaneça ou ele permaneça.” Hazrat Abd al-Rahman (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: Nesse momento, as pessoas já nos haviam cercado. Eu tentava protegê-lo, mas um companheiro ergueu a espada e golpeou a perna de Ali, filho de Umayya. Ele caiu imediatamente. Enquanto isso, Umayya soltou um grito tão forte que jamais ouvira algo semelhante. Eu disse: “Fuja, fuja!” Mas naquele dia não havia caminho para fugir. Juro por Allah, hoje não poderei ajudá-lo em nada.
Hazrat Abd al-Rahman ibn Awf (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: Os companheiros, tomados pela exaltação, cercaram Umayya e seu filho Ali e os mataram com golpes sucessivos. Depois, Abd al-Rahman (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Que Allah tenha misericórdia de Hazrat Bilal. Minhas armaduras também se foram, e, quanto aos prisioneiros que eu havia capturado, ele me desviou para outra direção.”
O erudito Ibn Qayyim escreveu em Zad al-Ma’ad que Hazrat Abd al-Rahman ibn Awf (que Allah esteja satisfeito com ele) disse a Umayya ibn Khalaf: “Ajoelhe-se e sente-se.” Ele se sentou. Hazrat Abd al-Rahman inclinou-se sobre o corpo de Umayya, mantendo-o protegido. Contudo, os companheiros golpearam Umayya com as espadas por baixo e o mataram. Um companheiro também decepou a perna de Hazrat Abd al-Rahman ibn Awf com um golpe de espada [Zad al-Ma’ad, vol. 2, p. 89; Sahih al-Bukhari, Kitab al-Wakala, vol. 1, p. 308. O episódio é relatado ali com mais detalhes].
Quatro) Hazrat Umar ibn al-Khattab (que Allah esteja satisfeito com ele) matou seu tio materno, As ibn Hisham ibn al-Mughira.
Cinco) Hazrat Abu Bakr al-Siddiq (que Allah esteja satisfeito com ele) chamou seu filho Abd al-Rahman, que na época era politeísta, e disse: “Ó miserável, onde estão minhas armas?” Abd al-Rahman respondeu: “Não restam senão as armas, o cavalo veloz e aquela espada que põe fim à confusão da velhice.”
Seis) Enquanto os muçulmanos capturavam os politeístas, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) permanecia no aposento preparado para ele. Hazrat Sa’d ibn Mu’adh (que Allah esteja satisfeito com ele) montava guarda com a espada erguida. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) percebeu que o semblante de Hazrat Sa’d (que Allah esteja satisfeito com ele) estava abatido. Disse-lhe: “Sa’d, parece que não aprovas a ação dos muçulmanos.” Ele respondeu: “Sim, ó Mensageiro de Allah. Esta é a nossa primeira guerra contra os não muçulmanos. Allah nos concedeu a oportunidade desta batalha. Portanto, penso que, em vez de libertar os politeístas, é mais apropriado matá-los; é necessário exterminá-los.”
Sete) Nesta batalha, a espada de Hazrat Ukasha ibn Mihsan al-Asadi quebrou. Ele foi até o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), que lhe deu um pedaço de madeira e disse: “Ukasha, lute com isto.” Quando Ukasha endireitou o pedaço de madeira com a mão, ele se transformou numa espada afiada e reluzente. Então ele começou a lutar com aquela espada. Nesse meio-tempo, os muçulmanos alcançaram a vitória. A espada recebeu o nome de “Awn”, isto é, auxílio. Ela permaneceu com Hazrat Ukasha, que a usava em várias batalhas. Durante o período de Hazrat Abu Bakr al-Siddiq (que Allah esteja satisfeito com ele), ele foi martirizado enquanto combatia os apóstatas. Naquela ocasião, a espada também estava com ele.
Oito) Após a batalha, Hazrat Mus’ab ibn Umayr al-Ansari (que Allah esteja satisfeito com ele) passou por seu irmão, Abu Uzayr ibn Umayr al-Ansari. Abu Uzayr estava lutando contra os muçulmanos. Naquele momento, um companheiro ansari segurava-o pelo braço. Hazrat Mus’ab disse àquele companheiro: “Aperte bem este homem. A mãe dele é muito rica. Talvez ela lhe pague um bom resgate.” Então Abu Uzayr disse ao seu irmão Mus’ab: “É esta a tua recomendação a meu respeito?” Hazrat Mus’ab (que Allah esteja satisfeito com ele) respondeu: “Sim. Tu não és meu irmão; este ansari é que é meu irmão.”
Nove) Quando foi dada a ordem para lançar os cadáveres dos politeístas no poço, o cadáver de Utba ibn Rabia estava sendo arrastado em direção ao poço. Nesse momento, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) olhou para o rosto de Hudhayfa, filho de Utba. Percebeu que Abu Hudhayfa estava profundamente abatido e parecia completamente arrasado. O Profeta, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), disse: “Hudhayfa, talvez estejas sofrendo por causa de teu pai?” Ele respondeu: “Sim, ó Mensageiro de Allah. Não sinto qualquer pesar em meu coração pela morte de meu pai e pelo seu assassinato. Contudo, eu pensava que meu pai possuía inteligência, bom senso e discernimento. Por isso, esperava que, graças à sua razão e prudência, ele buscasse abrigo à sombra do Islã. Mas agora, ao ver o seu destino e saber que sua vida terminou na incredulidade, sinto-me muito mal.” O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) fez uma súplica por Hazrat Hudhayfa (que Allah esteja satisfeito com ele) e fez um elogio a seu respeito.
Número de mortos e baixas de ambos os lados
A batalha de Badr terminou com a vitória dos muçulmanos e a derrota dos incrédulos. Nessa batalha, 14 muçulmanos foram martirizados: 6 Muhajirun e 8 Ansar. Os incrédulos sofreram enormes perdas: 70 foram mortos e 70 foram feitos prisioneiros. Eles eram pessoas proeminentes e chefes de suas tribos.
Depois do fim da batalha, o Profeta, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), parou junto aos mortos e disse: “Todos vós éreis pessoas proeminentes. Não acreditastes em mim, embora muitos tenham acreditado em mim. Deixastes-me sozinho e sem auxílio, enquanto muitos me ajudaram. Expulsastes-me, enquanto muitos me deram abrigo.” Em seguida, o Profeta, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), ordenou que os cadáveres dos mortos fossem arrastados e lançados em um dos poços de Badr.
É narrado por Hazrat Abu Talha (que Allah esteja satisfeito com ele) que, por ordem do Profeta, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), no dia de Badr os cadáveres de 24 dos grandes chefes dos coraixitas foram lançados em um poço imundo de Badr. Naquela época, era costume permanecer três dias no campo de batalha depois de vencer um povo. Após passar três dias no campo de Badr, foi colocada uma sela sobre a montaria do Profeta, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). Depois, ele partiu a pé, e os companheiros o seguiram. De repente, parou à margem do poço. Então começou a dirigir-se a várias pessoas, dizendo: “Ó fulano, filho de fulano; ó fulano, filho de fulano, não teria sido melhor para vós se tivésseis obedecido a Allah, o Altíssimo, e ao Seu Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz)? Nós comprovamos a veracidade da promessa que Allah, o Altíssimo, nos fez; acaso vós também comprovastes a veracidade da promessa feita por nosso Senhor?” Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) perguntou: “Ó Mensageiro de Allah, estais falando com corpos que não possuem alma?” O Profeta (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: “Juro por Aquele em cuja mão está a vida de Muhammad: vós não ouvis melhor do que eles aquilo que estou dizendo.” Segundo outra narração: “Vós não sois mais capazes de ouvir do que eles; porém, eles não podem responder.” [Bukhari, Muslim, Mishkat, volume 2, p. 345]
A notícia da derrota chega a Meca
Após a derrota, os politeístas de Meca fugiram em direção à cidade, em meio à desordem e completamente aterrorizados. Dominados pela vergonha, ficaram tão despreparados que não sabiam como entrar em Meca.
Ibn Ishaq diz que o primeiro homem a entrar em Meca trazendo a notícia da derrota dos coraixitas chamava-se Haythuman ibn Abdullah al-Khuza’i. As pessoas perguntaram-lhe sobre as últimas notícias. Ele disse: “Utba ibn Rabi’a, Shayba ibn Rabi’a, Abu al-Hakam ibn Hisham, Umayya ibn Khalaf e vários outros chefes foram mortos.” Ao ouvirem os nomes dos líderes coraixitas na lista dos mortos, Safwan ibn Umayya, que estava sentado no Hatim da Caaba, disse: “Vejam, ele está sentado no Hatim da Caaba. Juro por Deus, eu mesmo vi o pai dele e o irmão dele serem mortos.”
Abu Rafi, escravo do Mensageiro de Deus, que Deus o abençoe e lhe conceda paz, narra: “Naquela época, eu era escravo de Abbas. O Islã havia entrado em nossa família. Abbas havia aceitado o Islã, e eu também me tornara muçulmano. Abbas mantinha em segredo a sua conversão. Abu Lahab não participou da batalha de Badr. Ao ouvir a notícia da vitória dos muçulmanos em Badr, Abu Lahab ficou abatido. Nós sentimos uma nova força e honra. Eu era um homem de constituição frágil. Fabricava flechas. Sentava-me na câmara de Zamzam e afinava as pontas das flechas. Eu estava concentrado em fabricar flechas. Umm al-Fadl estava sentada ao meu lado. Estávamos muito felizes com a notícia da vitória. Nesse momento, Abu Lahab chegou arrastando os pés, quase mancando, e sentou-se perto da câmara. Suas costas estavam voltadas para as minhas. Então chegou Abu Sufyan ibn Harb ibn Abd al-Muttalib. Abu Lahab disse-lhe: ‘Venha até mim; juro pela minha vida que você tem notícias.’ Abu Sufyan sentou-se diante de Abu Lahab. Algumas pessoas permaneceram de pé. Abu Lahab disse: ‘Conte, sobrinho, quais são as notícias do povo?’ Abu Sufyan respondeu: ‘Nada de bom. Nós nos confrontamos com o povo e entregamos nossos ombros às mãos deles. Eles nos matavam como queriam e nos capturavam como queriam. Juro por Deus, apesar disso não culpo o povo. Na verdade, enfrentamos homens que cavalgavam cavalos malhados entre o céu e a terra. Juro por Deus, eles não deixavam nada escapar, e nada conseguia resistir diante deles.’”
Abu Rafi disse: “Levantei com as próprias mãos a borda da tenda. Depois falei: ‘Juro por Deus, eles eram anjos.’ Ao ouvir isso, Abu Lahab deu-me um forte tapa no rosto. Agarrei-me a ele, mas ele me levantou e me lançou ao chão. Depois começou a me espancar. Eu era fraco. Enquanto isso, Umm al-Fadl levantou-se e começou a golpear Abu Lahab com uma vara da tenda. Abu Lahab foi ferido. Enquanto o golpeava, Umm al-Fadl dizia: ‘Você o considerou fraco por ele não ter dono?’ Abu Lahab, humilhado, levantou-se e foi embora. Apenas sete dias depois desse incidente, Abu Lahab contraiu peste e morreu dessa doença. Na Arábia, as pústulas da peste eram consideradas muito agourentas. Depois da morte, o corpo de Abu Lahab permaneceu abandonado durante três dias, e nem mesmo seus filhos se aproximaram dele. Ninguém providenciou seu sepultamento. Após três dias, seus filhos pensaram que, se deixassem o corpo ali, as pessoas os censurariam e criticariam. Então empurraram o cadáver para dentro de uma cova com um pedaço de madeira. Depois, de longe, atiraram pedras até fechar a entrada da cova.”
Depois que a notícia da derrota na batalha de Badr chegou a Meca, o ânimo dos coraixitas ficou abalado. Eles não organizaram nenhuma cerimônia de luto em memória dos mortos. Pensavam que, com isso, os muçulmanos os criticariam. E não estavam dispostos a dar aos muçulmanos qualquer oportunidade de criticá-los.
Relata-se um incidente curioso. Na batalha de Badr, os três filhos de Aswad ibn Abd al-Muttalib foram mortos. Por isso, ele queria chorar em memória dos filhos. Aswad era cego. Certa noite, ouviu o choro de uma mulher carpideira. Ao ouvir aquela voz, enviou rapidamente seu escravo até a mulher para descobrir se havia sido concedida permissão para expressar o luto. ‘Os coraixitas estão chorando pelos seus mortos? Então eu choraria um pouco, pelo menos, por Abu Hakima, entre os meus três filhos, pois meu peito está ardendo.’ O escravo voltou e disse que ela lamentava a perda do seu camelo. Ao ouvir isso, Aswad não conseguiu conter-se e começou a recitar os versos abaixo.
Aquela mulher chora: “Ai, perdeu o camelo, por isso; de tanto lamentar o camelo, talvez não durma nem um instante.”
“Não chores pelo camelo, embora o tenhas perdido; chora pensando em Badr, ó desventurado.”
“Hasis, Makhzum e Abu Walid eram a vida da tribo; por Aqil e por Harith, derrama lágrimas dos olhos.”
Eles eram tigres entre os tigres; eram heróis.
Mesmo mencionando os nomes de todos, chore por eles; ah, Hakima, como posso explicar isso?
A dor pela morte de Abu Hakima não tem paralelo; um homem desconhecido tornou-se hoje um comandante no campo de batalha de Badr.
As boas-novas da vitória chegam a Medina
Depois que a vitória dos muçulmanos se completou, o amado Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, enviou mensageiros para levar rapidamente as boas-novas aos habitantes de Medina. Para levar a notícia às duas áreas de Medina, foram enviados Hazrat Abdullah ibn Rawaha e Hazrat Zayd ibn Haritha (que Allah esteja satisfeito com ele).
Antes disso, os judeus e os hipócritas haviam causado alvoroço em Medina espalhando uma propaganda falsa. Chegaram até a divulgar a notícia de que o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, havia sido morto. Quando um hipócrita viu Hazrat Zayd ibn Haritha aproximar-se montado na camela do Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, chamada Qaswa, acabou dizendo: “Maomé realmente foi morto. Vejam, ali está a camela dele. Nós conhecemos essa camela. Vejam, ali está Zayd ibn Haritha. Ele fugiu depois de ser derrotado na batalha. Está tão atordoado que não consegue pensar no que dizer.” Quando os dois mensageiros chegaram, os muçulmanos os cercaram e começaram a ouvir o relato detalhado. Depois de ouvirem tudo e se convencerem da vitória, os muçulmanos ficaram impacientes de alegria. Quando o ar de Medina ressoou com os brados de “Nara-e Takbir, Allahu Akbar”, os muçulmanos que não haviam acompanhado o Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, ao campo de batalha de Badr partiram pela estrada de Badr para recebê-lo.
Hazrat Usama ibn Zayd (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: quando havíamos sepultado Hazrat Ruqayya (que Allah esteja satisfeito com ela), esposa de Hazrat Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele) e filha do Profeta, e estávamos nivelando a terra sobre a sepultura, recebemos a notícia da vitória dos muçulmanos na batalha de Badr. Hazrat Ruqayya (que Allah esteja satisfeito com ela) estava doente. Para cuidar dela, o amado Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, havia deixado a mim e Hazrat Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele) em Medina.
Sobre os espólios (bens capturados na guerra)
Após o fim da batalha, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, permaneceu durante três dias no campo de Badr. Antes mesmo de partir em direção a Medina, surgiu uma divergência entre os muçulmanos a respeito dos espólios de guerra. Quando começaram a discutir sobre isso, o amado Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, ordenou que tudo o que cada um tivesse fosse levado à sua presença. Os Companheiros assim fizeram. Em seguida, o amado Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, resolveu essa questão por meio da Revelação.
Hazrat Ubada ibn Samit, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: “Partimos de Medina com o Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, e chegamos a Badr. Travou-se uma batalha com o povo, e Allah, o Altíssimo, derrotou os inimigos. Então, um grupo começou a perseguir os incrédulos, prendendo alguns e matando outros. Outro grupo começou a reunir os espólios de guerra, enquanto um terceiro grupo permaneceu constantemente ao redor do amado Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Eles temiam que os inimigos pudessem enganar o Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, e causar-lhe algum dano. Durante a noite, os que haviam recolhido os espólios começaram a dizer uns aos outros: ‘Recolhi esta quantidade; tudo isso é meu, e não darei parte alguma a ninguém.’ Os que haviam perseguido os inimigos disseram: ‘Fomos nós que expulsamos os inimigos de todos esses bens; portanto, eles nos pertencem.’ Os Companheiros que estavam encarregados da segurança do amado Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disseram: ‘Temíamos que os inimigos, julgando o amado Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, desatento, pudessem causar-lhe algum mal. Por isso, estávamos ocupados em garantir sua segurança.’ Diante desse tipo de divergência, Allah, o Altíssimo, revelou este versículo: ‘As pessoas perguntam-te acerca dos espólios de guerra. Dize: “Os espólios de guerra pertencem a Allah e ao Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Portanto, temei Allah e obedecei a Allah e ao Seu Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, se sois crentes.”’ (Surata Al-Anfal, versículo 1).
Em seguida, o Mensageiro de Allah distribuiu aqueles espólios de guerra entre os muçulmanos [Musnad Ahmad, volume 5, p. 323; Al-Hakim, volume 2, p. 326].
O exército muçulmano a caminho de Medina
Depois de passar três dias no campo de Badr, o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, partiu, no quarto dia, em direção a Medina. Com eles estavam os prisioneiros coraixitas de Meca e também os espólios de guerra. Hazrat Abdullah ibn Ka’b recebeu a responsabilidade de supervisionar tudo isso. Depois de atravessar a região de Safra, o amado Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, parou numa colina situada entre Darba e Najia. Foi ali que um quinto dos espólios de guerra foi separado, e o restante foi distribuído igualmente entre os muçulmanos. Na região de Safra, o Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, ordenou a execução de Nadr ibn al-Harith. Na batalha de Badr, esse homem carregava o estandarte dos coraixitas e estava entre os piores criminosos. Estava entre os principais responsáveis pela hostilidade contra o Islam. Por ordem do Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, Hazrat Ali, que Allah esteja satisfeito com ele, matou Nadr ibn al-Harith.
Depois, chegaram a Ubquz Jabia. O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, ordenou ali a execução de Uqbah ibn Abu Mu’ayt. Ele era um dos mais hostis ao Islam e causava sofrimento ao Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Isso já foi parcialmente mencionado anteriormente. Foi esse homem que, enquanto o Mensageiro de Allah estava realizando a oração, colocou vísceras de camelo sobre seus ombros e tentou matá-lo enrolando um manto em seu pescoço. Hazrat Abu Bakr as-Siddiq, que Allah esteja satisfeito com ele, apareceu subitamente e salvou o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, das mãos desse criminoso. O Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, ordenou a execução desse criminoso. Ele disse: ‘Ó Muhammad, quem cuidará dos filhos?’ Ele respondeu: ‘O fogo.’ [Sunan Abu Dawud, Sharh Awn al-Ma’bud, volume 3, p. 12].
Mais tarde, Hazrat Asim ibn Thabit al-Ansari, que Allah esteja satisfeito com ele, ou Hazrat Ali, que Allah esteja satisfeito com ele, decapitou Uqbah.
Do ponto de vista militar, era necessário matar esses dois criminosos, pois eram criminosos de guerra.
Delegação de recepção
Quando o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, chegou a um lugar chamado Rাওaha, encontrou os muçulmanos que tinham ido ao seu encontro para recebê-lo. Eles haviam saído de Medina para felicitar e receber o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, depois de ouvirem dos mensageiros a notícia da vitória dos muçulmanos. Quando o felicitaram, Hazrat Salama ibn Salama, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: “Por que vieram felicitar-nos? Nós enfrentamos apenas velhos de cabeças inclinadas, que pareciam camelos.” Ao ouvir isso, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, sorriu e disse: “Sobrinho, esses homens eram justamente os líderes do povo.”
Depois, Usaid ibn Khudair, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: “Ó Mensageiro de Allah, todo louvor pertence a Allah, que lhe concedeu o êxito e alegrou os seus olhos. Por Allah, eu não sabia que você enfrentaria os inimigos; pensei que tivesse saído em busca de uma caravana. Se soubesse que haveria um confronto com os inimigos, jamais teria ficado para trás.” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Disseste a verdade.”
Um dia depois de o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, chegar a Medina, os prisioneiros de guerra chegaram. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, recomendou aos Companheiros que os tratassem bem. Como consequência dessa recomendação, os nobres Companheiros comiam tâmaras, mas davam pão aos prisioneiros. Vale mencionar que, em Medina, o pão tinha mais valor e importância do que as tâmaras.
Sobre os prisioneiros de guerra
Depois de o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, chegar a Medina, consultou os nobres Companheiros sobre os prisioneiros de guerra restantes. Hazrat Abu Bakr as-Siddiq, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: “Ó Mensageiro de Allah, eles são nossos primos e parentes. Na minha opinião, deves libertá-los em troca de fidya, isto é, resgate. Tudo o que for obtido dessa maneira poderá ser usado como força contra os incrédulos. Talvez Allah os guie e eles venham juntar-se a nós.”
O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, perguntou a opinião de Hazrat Umar ibn al-Khattab. Ele disse: “Tenho uma opinião diferente da de Abu Bakr. Penso que deves entregar-me um determinado parente meu, para que eu o decapite. Do mesmo modo, entrega Aqil ibn Abi Talib a Hazrat Ali, e Ali o decapitará. E entrega a Hazrat Hamza um determinado irmão seu, para que Hamza o decapite. Assim, Allah saberá que não temos nenhuma compaixão em nossos corações pelos incrédulos. Todos esses prisioneiros de guerra são figuras de liderança entre os incrédulos.”
Hazrat Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: “Depois de ouvir os dois, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, aceitou o conselho de Hazrat Abu Bakr, mas não aceitou o meu. Assim, foi tomada a decisão de cobrar fidya dos prisioneiros. Na manhã seguinte, fui bem cedo à presença do Mensageiro de Allah e o encontrei chorando junto com Abu Bakr. Eu disse: ‘Ó Mensageiro de Allah, por que estais chorando? Dizei-me. Se há motivo para chorar, chorarei também; e, se não houver, chorarei por causa do vosso choro.’ O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: ‘Estou chorando por causa daquilo que foi imposto aos teus companheiros por terem aceitado a condição de cobrar fidya.’ Então o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, apontou para uma árvore próxima e disse: ‘O castigo deles foi-me apresentado como mais próximo do que esta árvore.’ [Tarikh de Umar ibn al-Khattab, Ibn al-Jawzi, p. 36]. Allah revelou este versículo: ‘Não é conveniente que nenhum profeta mantenha prisioneiros até subjugar amplamente os inimigos na terra. Vós desejais os bens mundanos, enquanto Allah deseja o bem da Outra Vida. Allah é Poderoso, Sapientíssimo. Se não houvesse uma determinação anterior de Allah, ter-vos-ia atingido um grande castigo por aquilo que tomastes.’ (Surata al-Anfal, versículos 76–68)
A disposição anterior mencionada por Allah, o Altíssimo, no versículo acima é uma instrução do quarto versículo da surata Muhammad. Nele, Allah, o Altíssimo, diz: “Depois, ou um gesto de benevolência, ou um resgate.”
Como este versículo permitia receber resgate dos prisioneiros de guerra, os Companheiros Nobres não foram castigados por terem decidido cobrar resgate pelos prisioneiros; ao contrário, foram repreendidos. E foram repreendidos precisamente porque haviam providenciado a cobrança de resgate de incrédulos que não eram apenas prisioneiros de guerra, mas também criminosos graves. Nem mesmo a lei moderna os libertaria sem abrir um processo contra eles. A pena para criminosos desse tipo, em um processo instaurado contra eles, poderia ser a morte ou a prisão perpétua.
Como a decisão foi tomada de acordo com a opinião de Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele), foi cobrado resgate dos politeístas. O valor do resgate era de mil dirrãs, três mil dirrãs e até quatro mil dirrãs. Os habitantes de Meca sabiam ler e escrever. Em contrapartida, os habitantes de Medina não eram tão familiarizados com a leitura e a escrita. Por isso, também foi estabelecida a condição de que aqueles que não tivessem meios para pagar o resgate ensinariam a ler e escrever a dez crianças cada, em Medina. Quando as crianças aprendessem bem, esse ensino seria considerado o resgate dos prisioneiros que atuavam como professores.
O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, por especial misericórdia, libertou alguns prisioneiros sem aceitar deles qualquer resgate. Eram al-Muttalib ibn Hantab, Sayfi ibn Abu Rifa’a e Abu ‘Azza Jุมahi. Este último foi novamente capturado na batalha de Uhud e depois executado. Um relato detalhado disso será apresentado mais adiante.
O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, libertou seu genro Abu al-‘As sob a condição de que ele não se opusesse à partida de Zaynab (que Allah esteja satisfeito com ela), filha do Profeta.
Isso aconteceu porque Zaynab havia enviado alguns bens como resgate por Abu al-‘As. Entre eles havia também um colar. O colar pertencia a Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela). Quando Zaynab foi enviada para a casa de Abu al-‘As, no momento da despedida, ela o dera à própria filha como presente. Assim que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, o viu, seus dois olhos se encheram de lágrimas e sua voz ficou embargada pela emoção. Ele pediu a opinião dos Companheiros sobre libertar Abu al-‘As. Os Companheiros aprovaram respeitosamente a proposta de seu amado Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Então, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, libertou seu genro Abu al-‘As sob a condição de que ele libertasse Zaynab (que Allah esteja satisfeito com ela). Depois de ser libertada, Zaynab emigrou para Medina. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, enviou a Meca Zayd ibn Haritha e outro Companheiro ansari. Disse-lhes que permanecessem nos arredores de Meca ou no lugar chamado Jaza. Quando Zaynab fosse até eles para partir, deveriam levá-la consigo. Esses dois Companheiros foram a Meca e levaram Zaynab (que Allah esteja satisfeito com ela) para Medina. O episódio da emigração de Zaynab (que Allah esteja satisfeito com ela) é muito longo e comovente.
Entre os prisioneiros de guerra estava também Suhayl ibn ‘Amr. Ele era um orador famoso. Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Ó Mensageiro de Allah, ordene que quebrem os dois dentes da frente de Suhayl ibn ‘Amr; assim, sua fala ficará prejudicada e ele não poderá tirar proveito de sua grande eloquência para fazer propaganda contra vós.” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, rejeitou essa proposta, pois mutilar os membros de uma pessoa é considerado mutilação — mutila — na terminologia islâmica. Sobre isso será perguntado no terrível Dia da Ressurreição.
Sa’d ibn Nu’man (que Allah esteja satisfeito com ele) havia saído para realizar a umra. Nessa ocasião, Abu Sufyan o capturou. O filho de Abu Sufyan, ‘Amr, era prisioneiro de guerra. Em troca de o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, entregar ‘Amr aos cuidados de Abu Sufyan, este libertou Sa’d.
Uma análise do Sagrado Alcorão
Allah, o Altíssimo, revelou a surata Al-Anfal acerca da Batalha de Badr. Na realidade, trata-se da análise e avaliação de Allah sobre a Batalha de Badr, completamente diferente da avaliação de quaisquer outros reis, comandantes militares ou qualquer outra pessoa do mundo. Apresenta-se aqui uma breve exposição sobre a análise e a avaliação de Allah. [Tafsir Fi Zilalil Qur’an, escrito pelo mártir Sayyid Qutb, contém uma discussão valiosa sobre este tema [no volume da surata Al-Anfal].]
Allah, o Senhor dos Mundos, começa por lançar luz sobre a estreiteza da visão e a fraqueza de caráter dos muçulmanos. Essa estreiteza e fraqueza existiam neles e manifestaram-se em grande medida após a batalha. Allah, o Altíssimo, aborda essa questão porque queria libertar os muçulmanos delas. Assim, eles seriam capazes de alcançar a plenitude da fé.
Em seguida, Ele menciona a ajuda de Allah e o auxílio do invisível nessa batalha. O objetivo era impedir que os muçulmanos se deixassem enganar pela sua própria bravura e heroísmo. Isso faria surgir o orgulho em seus corações; porém, Allah, o Altíssimo, deseja que neles se manifestem apenas a confiança em Allah e a qualidade da obediência ao Mensageiro.
Depois de o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, ter iniciado o caminho desta campanha terrível e sangrenta, guiado por um grande propósito e objetivo, são mencionadas as qualidades e características morais indispensáveis. Em seguida, são dirigidos aos politeístas, hipócritas, judeus e prisioneiros de guerra conselhos tão elevados que eles se submetam diante da verdade e se tornem seus seguidores.
Em seguida, são explicados os princípios fundamentais relativos aos espólios de guerra.
As normas relativas à guerra e à trégua também são explicadas aqui. Não há como negar sua indispensabilidade e necessidade no contexto da pregação islâmica. Essa explicação e esses princípios foram apresentados para que os muçulmanos possam distinguir entre a guerra anterior ao Islã e a guerra posterior ao Islã. Além disso, para que possam alcançar uma posição mais elevada no campo dos valores morais e de caráter. Dessa forma, o mundo poderá saber que o Islã não é apenas um ideal; pelo contrário, de acordo com os princípios e normas que o Islã prega, ele também oferece aos seus seguidores uma formação prática.
Depois, são mencionadas algumas disposições relativas aos princípios do Estado Islâmico. Por meio delas, torna-se claramente compreensível a diferença entre os muçulmanos sob o controle do Estado Islâmico e os muçulmanos que se encontram fora de suas fronteiras.
Outros acontecimentos
No mês de Ramadã do segundo ano da Hégira, o jejum e a sadaqat al-fitr foram tornados obrigatórios. Nesse período, também foi estabelecida a quantidade da zakat, isto é, o nisab. Entre os muhajirun, havia alguns que eram extremamente pobres. Seu problema de subsistência era grave. Para eles, era difícil correr de um lugar para outro em busca de algo que aliviasse a fome. As disposições relativas à sadaqat al-fitr e à zakat os libertaram das dificuldades relacionadas à alimentação e ao vestuário.
Os muçulmanos celebraram o Eid pela primeira vez no mês de Shawwal do segundo ano da Hégira. Essa celebração ocorreu após a vitória clara na Batalha de Badr. Depois de colocar sobre a cabeça dos muçulmanos a coroa da vitória e da honra, Allah, o Senhor dos mundos, concedeu-lhes a oportunidade de celebrar esse Eid. O Eid trouxe aos muçulmanos uma honra e uma felicidade extraordinárias. A cena da oração do Eid era extremamente encantadora. Os muçulmanos saíram ao campo, proclamando em voz alta o louvor a Allah, o takbir, o tasbih e o tawhid. Naquele momento, seus corações estavam repletos das bênçãos e da ajuda concedidas por Allah.
Eles estavam ansiosos por alcançar ainda mais a satisfação de Allah. Suas cabeças permaneciam inclinadas em gratidão a Allah. Allah, o Senhor dos mundos, mencionou essa bênção neste versículo do Alcorão Sagrado. Ele diz: “Lembrai-vos de quando éreis poucos e considerados fracos na terra, temendo que as pessoas vos arrebatassem repentinamente. Então, Ele vos deu abrigo, fortaleceu-vos com o Seu auxílio e concedeu-vos como provisão coisas boas, para que fôsseis agradecidos.” (Surata al-Anfal, versículo 26)
Atividades militares subsequentes à Batalha de Badr
A Batalha de Badr foi o primeiro confronto armado e decisivo entre os muçulmanos e os politeístas. Nela, os muçulmanos obtiveram a “Fath Mubín”, isto é, uma vitória clara. Todo o mundo árabe testemunhou essa vitória. Aqueles que foram diretamente prejudicados pela derrota nessa batalha ficaram atormentados pela angústia causada por seu resultado. Eram os politeístas. Havia também outro grupo que considerava a vitória e a conquista de elevada posição pelos muçulmanos uma ameaça à sua existência religiosa e econômica. Eram os judeus. Quando os muçulmanos venceram a Batalha de Badr, esses dois grupos — os politeístas e os judeus — explodiram de ira e rancor contra os muçulmanos. Como Allah, o Altíssimo, diz: “Certamente encontrarás os judeus e os idólatras como os mais hostis aos crentes.” (Surata al-Ma’idah, versículo 82)
Entretanto, alguns habitantes de Medina eram simpatizantes de ambos os grupos. Assim, quando perceberam que não havia outro caminho aberto para preservar sua própria honra, entraram no Islã por aparência. Eram Abdullah ibn Ubayy e seus companheiros. Eles não eram menos hostis aos muçulmanos do que os judeus e os politeístas.
Além desses, havia também um quarto grupo. Eram os beduínos árabes que viviam nos arredores de Medina. Não tinham nenhuma inclinação interior nem pelo Islã nem pela incredulidade. Eram saqueadores e bandidos. Também ficaram ressentidos com o sucesso dos muçulmanos na Batalha de Badr. Temiam que, se um governo forte fosse estabelecido em Medina, o caminho para seus saques fosse fechado. Por isso, também surgiu em seus corações o ódio contra os muçulmanos, e eles se tornaram inimigos dos muçulmanos.
Dessa forma, os muçulmanos passaram a enfrentar problemas em quatro frentes. Contudo, cada um desses quatro grupos adotava uma estratégia diferente em relação aos muçulmanos. Cada grupo seguia um caminho distinto para alcançar seus objetivos e metas. Eles imaginavam que, assim, conseguiriam atingir seus objetivos.
Em Medina, um grupo de inimigos assumiu a aparência do Islã. Embora falassem do Islã em público, secretamente adotavam métodos de conspiração, intriga e criação de conflitos e discórdias mútuas. Um grupo de judeus manifestou abertamente sua hostilidade e ira contra o Islã. Enquanto isso, os habitantes de Meca começaram a ameaçar vingar-se da derrota esmagadora que haviam sofrido. Além de ameaçarem abertamente a vingança, começaram a preparar-se para a guerra. Era como se dissessem aos muçulmanos: “Há de chegar o dia, um dia resplandecente, em que ouviremos os lamentos e veremos as lágrimas nos olhos.”
Um ano depois, os coraixitas de Meca, preparados para a guerra, partiram em direção a Medina.
Na história do Islã, essa expedição é conhecida como a Batalha de Uhud. Essa batalha teve algumas repercussões desfavoráveis sobre a fama e a glória dos muçulmanos.
Para enfrentar todos esses perigos, os muçulmanos tomaram algumas medidas importantes. Por meio delas, podem-se reconhecer a liderança, a competência e as qualidades do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Também se compreende que a liderança em Medina permanecia sempre desperta e vigilante diante dos perigos vindos de todas as direções. Inclusive, foram elaborados vários planos para enfrentar os inimigos. Aqui trataremos brevemente desse assunto.
1. A guerra contra Banu Salim
Após a Batalha de Badr, o serviço de informações de Medina foi o primeiro a receber a notícia de que os membros de Banu Sulaym, um ramo da tribo de Ghatafan, haviam reunido tropas para atacar Medina. Ao receber essa notícia, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, lançou de surpresa uma expedição contra eles acompanhado de duzentos mujahidin e chegou ao local chamado Qudar, onde eles se encontravam. (Na realidade, Qudar é uma ave de cor cinzenta. Aqui, porém, o nome se refere a um assentamento da tribo Banu Salim. Ele fica na estrada principal entre Meca e a Síria.)
A tribo Banu Sulaym não estava preparada para um ataque surpresa desse tipo. Atônitos, fugiram, deixando para trás quinhentos camelos. Os muçulmanos se apoderaram desses camelos. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, distribuiu quatro quintos deles. Cada um recebeu dois camelos. Nessa expedição, também caiu nas mãos dos muçulmanos um escravo chamado Yasar. Mais tarde, o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, concedeu-lhe a liberdade. Depois de permanecer três dias na região dos Banu Salim, ele retornou a Medina.
Este acontecimento ocorreu no mês de Shawwal do segundo ano da Hégira, apenas sete dias depois do retorno da batalha de Badr. Durante essa expedição, Saba ibn Arfata — segundo outra opinião, Abdullah ibn Umm Maktum (que Allah esteja satisfeito com ele) — foi encarregado da administração de Medina.
2) A conspiração para assassinar o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele)
Depois que sua conspiração para assassinar o Mensageiro de Allah fracassou uma vez e, mais tarde, os politeístas foram derrotados também na batalha de Badr, eles arderam de ira. Toda Meca ficou inflamada contra o Mensageiro de Allah. Por fim, dois jovens vis decidiram eliminar justamente o Mensageiro de Allah, a fonte de toda inspiração, Muhammad, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele.
Isso aconteceu alguns dias depois da batalha de Badr. Havia um malfeitor coraixita chamado Umayr ibn Wahb Juhami. Esse criminoso costumava causar diversos sofrimentos ao Mensageiro de Allah em Meca. Seu filho, Wahb ibn Umayr, havia sido capturado pelos muçulmanos na batalha de Badr. Certo dia, esse Umayr estava sentado no Hatim da Caaba, conversando com Safwan ibn Umayya. Eles falavam sobre o doloroso acontecimento de os corpos dos mortos na batalha de Badr terem sido lançados num poço imundo de Badr. Safwan disse: “Juro por Deus, não há qualquer prazer em viver sem eles.” Em resposta, Umayr disse: “Juro por Deus, disseste a verdade. Vê, se eu não estivesse endividado e não tivesse de me preocupar com minha família, iria a Medina e acabaria com Muhammad. Mas não tenho sequer condições de pagar minhas dívidas, e minha família enfrentaria dificuldades na minha ausência. Além disso, há uma desculpa: meu filho está cativo nas mãos deles.”
Depois de ouvir tudo, Safwan pensou consigo mesmo: “Que excelente oportunidade!” Ele disse a Umayr: “Escuta, eu assumirei a responsabilidade pelo pagamento das tuas dívidas; eu as pagarei em teu nome. E cuidarei da tua família como se fosse a minha própria; cuidarei deles por toda a vida. Enquanto eu possuir algo, jamais lhes faltará coisa alguma.”
Umayr disse: “Está bem. Mas que isto permaneça em segredo entre nós.” Safwan respondeu: “Sim, permanecerá em segredo.”
Depois, Umayr afiou sua espada e impregnou-a de veneno. Partiu em direção a Medina e, algum tempo depois, chegou à cidade. Enquanto fazia seu camelo ajoelhar diante da Mesquita do Profeta, Umar ibn al-Khattab (que Allah esteja satisfeito com ele) o avistou. Ele estava falando a uma reunião de muçulmanos sobre a honra concedida por Allah por meio da batalha de Badr. Assim que viu Umayr, disse: “Este homem vil é inimigo de Allah; certamente veio com alguma má intenção.”
Então Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) foi até o Mensageiro de Allah e disse: “Ó Mensageiro de Allah, o inimigo de Allah veio com a espada pendurada.” O Mensageiro disse: “Tragam-no até mim.” Quando Umayr chegou, Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) pressionou a espada contra o pescoço dele. Disse a alguns Ansar: “Entrem até o Mensageiro de Allah e permaneçam sentados ali. Fiquem atentos a esta atividade maligna contra o amado Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, pois não se pode confiar nele.” Em seguida, Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) levou Umayr para dentro da mesquita. Ao notar a maneira como Umar segurava Umayr, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Solta-o, Umar.” E disse a Umayr: “Aproxima-te.” Umayr aproximou-se do Mensageiro de Allah e disse: “Que a vossa manhã seja boa.” O Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Allah ensinou-nos uma saudação melhor do que as vossas palavras. Ela é: ‘As-salamu alaykum’. Essa é a saudação dos habitantes do Paraíso.”
Então, o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, perguntou: “Ó Umair, por que você veio?” Ele respondeu: “Vim tratar do prisioneiro que está sob sua custódia. Peço que nos faça a gentileza de libertar o meu prisioneiro.”
O Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, perguntou: “Então, por que você traz uma espada pendurada no pescoço?” Ele respondeu: “Que Allah amaldiçoe esta espada! De que nos serviria ela agora?”
O Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Diga a verdade: por que você veio?” Ele respondeu: “Já disse: vim tratar do prisioneiro de guerra.” O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Não, não é por isso. Você e Safwan estavam sentados no Hatim da Caaba, lamentando o fato de os corpos dos coraixitas mortos terem sido lançados no poço. Então você disse: ‘Se eu não estivesse endividado e não tivesse família, partiria daqui e mataria Muhammad.’ Ao ouvir isso, Safwan assumiu a responsabilidade por suas dívidas e por sua família, sob a condição de que você matasse Muhammad. Mas lembre-se: Allah colocou uma barreira entre mim e vocês.”
Umair disse: “Testemunho que você é o Mensageiro de Allah. Ó Mensageiro de Allah, nós rejeitávamos como mentira as notícias do céu que você nos trazia e a revelação que lhe era enviada. Mas este é um assunto que somente eu e Safwan presenciamos; portanto, juro por Allah que ninguém além Dele lhe informou sobre isso. Louvado seja Allah, que me guiou ao Islam e me trouxe até este lugar.” Depois dessas palavras, Umair proferiu o testemunho da Kalima Tayyiba. O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse aos seus nobres Companheiros: “Ensinem a religião ao seu irmão, recitem o Alcorão para ele e libertem o seu prisioneiro.” [Ibn Hisham, volume 1, p. 660].
Enquanto isso, Safwan dizia abertamente em Meca: “Ouçam as boas-novas: dentro de alguns dias acontecerá algo que nos fará esquecer as dores e os sofrimentos de Badr.” Safwan perguntava às pessoas que chegavam de Medina pelas notícias que esperava. Por fim, soube por alguém que Umair havia aceitado o Islam e se tornado muçulmano. Ao ouvir isso, Safwan jurou que jamais falaria com Umair nem lhe prestaria qualquer ajuda. Entretanto, depois de aceitar o Islam, Umair chegou a Meca e começou a convidar as pessoas para o Islam. Graças ao seu chamado, muitas pessoas buscaram abrigo sob a sombra refrescante do Islam. [Ibn Hisham, volume 1, pp. 661–663].
Três) A batalha de Banu Qaynuqa
As condições do tratado que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, firmou com os judeus depois de chegar a Medina já foram mencionadas anteriormente. O Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, fez todo o possível, esperando sinceramente que as cláusulas do tratado fossem cumpridas. Por isso, da parte dos muçulmanos, não foi tomada a menor medida que pudesse ser considerada uma violação do tratado. Contudo, os judeus, historicamente conhecidos por sua traição e deslealdade, logo retomaram seus antigos costumes. Eles não pouparam esforços para espalhar conspirações entre os muçulmanos, provocar a guerra, fomentar tumultos e disseminar a desordem. Apresentamos aqui um exemplo.
A traição dos judeus
Ibn Ishaq narrou que havia um judeu chamado Shasha ibn Qays. Esse homem era tão idoso que, ao olhá-lo, parecia que um de seus pés já estava no túmulo. Sua hostilidade e seu ódio pelos muçulmanos eram ilimitados. Certa vez, ele passava perto das tribos de Aws e Khazraj. Ali, pessoas das duas tribos estavam sentadas conversando. Já não havia entre elas a hostilidade de outrora. Pelo contrário, via-se uma união e um afeto admiráveis. Ao ver aquela situação, o velho judeu ficou profundamente aflito. Começou a dizer: “Vejam só! Aqui estão reunidos os nobres membros da família de Banu Qayla. Depois que esses nobres se uniram, nós nos tornamos insignificantes.” Havia um jovem com o velho judeu. Ele lhe disse: “Fale com eles sobre a batalha de Bu’ath e sobre alguns acontecimentos anteriores, e recite-lhes alguns dos poemas que foram declamados de ambos os lados a respeito da guerra.” O judeu fez exatamente isso. Como resultado, começaram gradualmente as discussões entre os membros das tribos de Aws e Khazraj. Os muçulmanos presentes iniciaram uma discussão e começaram a exaltar a superioridade uns sobre os outros. Um representante de cada lado sentou-se de joelhos e começou a vangloriar-se das realizações de sua tribo. Um deles disse: “Se quiserem, ainda podemos reacender aquela guerra”, isto é, estamos preparados para a guerra que ocorreu anteriormente. Ao ouvirem isso, os dois lados se enfureceram e disseram: “Vamos, preparemo-nos. A batalha será em um lugar chamado Habra; vamos. Peguem as armas, peguem as armas!” Os muçulmanos de ambos os lados partiram armados em direção a Habra. Quando uma batalha sangrenta estava prestes a começar, a notícia chegou ao Mensageiro de Allah, que rapidamente foi ao local com os Companheiros emigrados e disse: “Ó muçulmanos! Ai, ai de vós! Ireis retornar à Jahiliyyah ainda durante a minha vida? Depois de aceitardes o Islã, ainda praticais isso? Por meio do Islã, fostes libertados dos costumes e tradições da Jahiliyyah, fostes libertados da incredulidade, e vossos corações se encheram de afeição uns pelos outros.”
Ao ouvirem as palavras do Mensageiro de Allah, os Companheiros ansar compreenderam que haviam caído no engano de Satanás e sido vítimas da provocação do inimigo. Pensando nisso, começaram a chorar. Os membros das tribos de Aws e Khazraj abraçaram-se. Depois, retornaram às suas casas em obediência ao Mensageiro de Allah, de tal modo que Allah, o Senhor dos mundos, apagou o fogo da conspiração do judeu Shasha ibn Qays, inimigo dos muçulmanos. [Ibn Hisham, vol. 1, pp. 555–556].
Este é um exemplo dos esforços vis e maléficos dos judeus para criar divisão e desunião entre os muçulmanos. Este episódio mostra como os judeus obstruíam o caminho da pregação do Islã. Para esse fim, os judeus elaboraram vários planos. Faziam propaganda falsa. Tornavam-se muçulmanos pela manhã e voltavam a ser incrédulos à tarde. Faziam isso para que, assim, pudessem criar dúvidas e descrença em relação ao Islã no coração das pessoas de fé fraca. Se mantivessem uma relação financeira com alguém e essa pessoa se tornasse muçulmana, deixavam de lhe dar dinheiro. Se tivessem dinheiro a receber, atormentavam-na cobrando insistentemente pela manhã e à tarde. Quando aquele novo muçulmano era seu devedor, não lhe pagavam o que lhe deviam; ao contrário, apropriavam-se injustamente de seu dinheiro. Se, ainda assim, o muçulmano lhes pedisse o dinheiro, o judeu conspirador dizia: “Eu só tinha a responsabilidade de pagar o que te devia enquanto tu acreditavas na religião de teus antepassados. Tu mudaste tua crença religiosa; portanto, agora não pode haver qualquer relação entre mim e ti, nem há motivo para que exista.” [Os exegetas mencionaram, nos comentários de várias suratas, incluindo a Surata Aal Imran, episódios dessas atividades vis dos judeus. Em particular, essa descrição é muito interessante no Tafsir Fi Zilal al-Qur’an, de Sayyid Qutb, o mártir.]
É importante observar que os judeus haviam iniciado esse tipo de atividade antes da batalha de Badr. Faziam tudo isso violando o tratado firmado com o Mensageiro de Allah. Contudo, o Mensageiro de Allah e os nobres Companheiros suportavam tudo em silêncio, esperando que os judeus recebessem orientação. Também desejavam manter um ambiente de paz e segurança na região.
A violação do pacto por Banu Qaynuqa
Quando os judeus perceberam que Allah, o Senhor dos mundos, havia concedido grande auxílio aos muçulmanos no campo de Badr e que sua honra e influência haviam se espalhado por toda parte, começaram a hostilizar o Islã e os muçulmanos. Iniciaram abertamente a traição por meio de declarações públicas e empenharam-se intensamente em causar sofrimento aos muçulmanos.
O mais invejoso e perverso entre eles era Ka’b ibn Ashraf. Falaremos sobre ele mais adiante. Entre as três tribos judaicas, a pior era Banu Qaynuqa. Eles viviam dentro de Medina, e seu bairro era conhecido pelo nome deles. Eram, profissionalmente, ferreiros, ourives e fabricantes de utensílios. Por isso, sempre dispunham de grande quantidade de equipamento militar. Havia entre eles setecentos homens arrogantes e preparados para lutar. Eram a tribo judaica mais corajosa de Medina. Foram os primeiros a violar o tratado com os muçulmanos. Eis o relato do acontecimento:
Quando Allah, o Senhor dos mundos, concedeu aos muçulmanos a vitória na batalha de Badr, a hostilidade dos judeus ultrapassou todos os limites. Eles continuaram com sua perversidade, suas atividades vis e suas ações provocadoras. Quando os muçulmanos iam ao mercado, os judeus faziam comentários zombeteiros sobre eles e sempre os ridicularizavam. Desse modo, causavam sofrimento psicológico aos muçulmanos. Sua insolência havia ultrapassado todos os limites, a ponto de também importunarem as mulheres muçulmanas.
Gradualmente, a situação tornou-se crítica. A arrogância e a obstinação dos judeus ultrapassaram todos os limites. Nessa ocasião, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) reuniu os judeus e, certo dia, exortou-os, aconselhou-os e convidou-os ao Islã. Além disso, advertiu-os sobre as más consequências de seus atos opressivos. Contudo, depois disso, suas ações vis e desprezíveis aumentaram ainda mais.
Abu Dawud e outros narraram, segundo o honorável Abdullah ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele), que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) derrotou os coraixitas no dia de Badr. Depois, ao retornar a Medina, convocou uma assembleia dos judeus no mercado de Banu Qaynuqa. Nessa assembleia, disse: “Ó comunidade judaica, aceitai o Islã antes que vos sobrevenha um golpe semelhante ao que atingiu os coraixitas.” Eles responderam: “Ó Maomé, estás equivocado a nosso respeito. Enfrentaste pessoas inexperientes e ignorantes da tribo dos coraixitas e, por isso, imaginaste que conquistaste o mundo. Venceste-os somente porque eram inexperientes. Se entrares em guerra conosco, saberás o que é um homem de verdade. Nós somos corajosos. Ainda não caíste em nossas mãos; por isso, tens uma opinião equivocada a nosso respeito.” Em resposta a essas palavras, Allah, o Senhor dos mundos, revelou este versículo.
“Dize aos que descreem: em breve sereis derrotados e sereis reunidos no Inferno. E que péssima morada! Há, para vós, um sinal no encontro de dois grupos. Um grupo combatia no caminho de Allah, e o outro era descrente. Eles os viam, com os próprios olhos, duas vezes mais numerosos. Allah fortalece, com Seu auxílio, quem Ele deseja. Certamente, nisso há uma lição para os dotados de discernimento.” [Sunan Abu Dawud, vol. 3, p. 112; Ibn Hisham, vol. 1, p. 552] (Surata Aal Imran, versículos 12–13)
Em suma, a resposta dada por Banu Qaynuqa equivalia a uma declaração explícita de guerra. Contudo, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) conteve sua ira e manteve a paciência. Os muçulmanos também tiveram paciência e aguardaram o futuro.
Depois que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) convidou os judeus ao Islã e os advertiu sobre suas consequências, sua arrogância aumentou ainda mais. Poucos dias depois, iniciaram atividades terroristas em Medina. Com isso, cavaram sua própria sepultura e fecharam para si mesmos todos os caminhos da vida.
Ibn Hisham narrou, segundo Abu Awn, que uma mulher árabe foi ao mercado de Qaynuqa para vender leite. Depois de vendê-lo, sentou-se por alguma necessidade na loja de um ourives judeu. O judeu pediu-lhe que descobrisse o rosto, mas ela se recusou. Então, o ourives amarrou uma parte da roupa da mulher às suas costas, sem que ela percebesse. Assim que ela se levantou, sua nudez ficou exposta. Os judeus começaram a rir às gargalhadas. Humilhada daquela maneira, a mulher começou a gritar e chorar. Ao ouvir seu choro, um muçulmano perguntou o que havia acontecido. Depois de ouvir tudo, tomado pela ira, atacou e matou aquele judeu. Quando os judeus viram que um dos seus havia sido morto por seu inimigo, um muçulmano, atacaram em conjunto e também mataram aquele muçulmano. Os familiares do muçulmano morto começaram a gritar e chorar, apresentando queixa contra os judeus a todos os muçulmanos. Como resultado, entre os muçulmanos e os judeus da tribo de Banu Qaynuqa, começaram os preparativos intensos para a guerra. [Ibn Hisham, vol. 2, pp. 47–48].
Cerco, rendição e expulsão
Depois desse incidente, a paciência do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) chegou ao fim. Ele confiou a administração de Medina a Abu Lubaba ibn Abd al-Mundhir. Com sua própria mão abençoada, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) entregou a bandeira dos muçulmanos a Hamza ibn Abd al-Muttalib e partiu com um grupo de muçulmanos em direção a Banu Qaynuqa. Ao verem o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), os judeus fecharam o portão principal da fortaleza. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) manteve a fortaleza cercada. Era uma sexta-feira, dia 15 do mês de Shawwal do segundo ano da Hégira. O cerco foi mantido por quinze dias, isto é, até o primeiro dia do mês de Dhu al-Qadah. Então Allah colocou nos corações dos judeus o temor e a influência dos muçulmanos. É costume de Allah que, quando deseja derrotar um povo, Ele incute em seus corações o temor de seu adversário. A tribo de Banu Qaynuqa rendeu-se sob a condição de aceitar a decisão do Mensageiro de Allah. A decisão dada pelo Mensageiro de Allah acerca de suas vidas, propriedades, mulheres e crianças seria definitiva. Depois disso, por ordem do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), os judeus foram amarrados.
Apenas um mês antes, o hipócrita Abdullah ibn Ubayy, que havia assumido a aparência do Islã, deu naquele momento um exemplo de afeição pelos judeus. Com súplicas dissimuladas ao Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, pediu perdão pelos judeus. Ele disse: “Ó Muhammad, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, seja benevolente com meus aliados.” Vale mencionar que os Banu Qaynuqa eram aliados da tribo dos Khazraj. O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, ainda não havia tomado nenhuma decisão. O líder dos hipócritas repetiu suas palavras. O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, virou o rosto para o outro lado. Então, o hipócrita insolente agarrou a manga da túnica do Mensageiro de Allah. Ele se irritou e disse: “Solte-me.” Mas o hipócrita continuou a insistir. Disse: “Não o soltarei até que declare sua benevolência para com meus aliados. Você matará numa única manhã quatrocentos jovens desarmados e trezentos jovens usando armaduras, que me salvaram de tantos perigos? Juro por Allah, temo muito as reviravoltas do tempo.”
Por fim, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, aparentemente atendeu ao pedido de Abdullah ibn Ubayy. Ele garantiu a vida dos judeus. Contudo, ordenou que eles não permanecessem em Medina nem nas proximidades de Medina. Então, os judeus partiram em direção à Síria, levando consigo tudo quanto conseguiram transportar. Ali, em poucos dias, muitos judeus morreram.
O Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, confiscou os bens abandonados pelos judeus. Entre eles, guardou para si três catapultas, duas armaduras, três espadas e três lanças. Separou um quinto dos bens restantes. A coleta dos espólios foi confiada a Muhammad ibn Maslamah. [Zad al-Ma’ad, vol. 2, pp. 71, 91; Ibn Hisham, vol. 2, pp. 47, 48, 49].
Quarto) A batalha de Sawiq
De um lado, Safwan ibn Umayya, os judeus e os hipócritas estavam envolvidos em conspirações. Do outro, Abu Sufyan também tramava seus planos. Ele queria fazer algo em pouco tempo que pudesse preservar a honra de seu povo e demonstrar sua força. Abu Sufyan havia jurado que não faria o banho ritual obrigatório até lutar contra Muhammad. Para cumprir esse juramento, Abu Sufyan partiu com duzentos cavaleiros e montou acampamento ao sopé de uma montanha chamada Naib, situada na planície de Qanat. A distância dali até Medina era de doze milhas. Abu Sufyan não ousou atacar Medina diretamente. Contudo, fez algo que pode ser claramente descrito como saque e banditismo.
O relato do acontecimento é o seguinte: sob a escuridão da noite, Abu Sufyan chegou aos arredores de Medina e foi até Huyayy ibn Akhtab, pedindo-lhe que abrisse a porta. Temendo as consequências, Huyayy recusou-se a abrir. Então Abu Sufyan foi até outro chefe dos Banu Nadir, Sallam ibn Mishkam. Esse homem era o tesoureiro da tribo dos Banu Nadir. Abu Sufyan pediu permissão para entrar. Sallam ibn Mishkam permitiu sua entrada e ofereceu-lhe hospitalidade. Serviu-lhe comida e vinho e informou-o detalhadamente sobre a situação de Medina. Em seguida, Abu Sufyan voltou rapidamente para junto de seus companheiros e enviou um grupo de homens armados para atacar um lugar chamado Arid, nos arredores de Medina. Esses criminosos da tribo dos coraixitas cortaram ali várias tamareiras e atearam fogo a algumas delas. Depois, encontraram um ansari e seu aliado num campo cultivado, mataram-nos e fugiram a toda velocidade em direção a Meca.
Ao receber essa notícia, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, perseguiu rapidamente Abu Sufyan e seus companheiros. Porém, os criminosos fugiram ainda mais depressa, correndo a toda velocidade pela estrada de Meca. Para aliviar a carga, abandonaram muitos objetos pelo caminho. Esses objetos caíram nas mãos dos muçulmanos. O Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, e seus companheiros perseguiram Abu Sufyan até Qarqarat al-Kudr e depois retornaram. Os muçulmanos recolheram, entre outros objetos, o sawiq deixado para trás e voltaram a Medina. Essa expedição recebeu o nome de batalha de Sawiq. Em árabe, sawiq significa farinha torrada. O acontecimento ocorreu no mês de Dhu al-Hijjah do segundo ano da Hégira, apenas dois meses depois da batalha de Badr. Durante essa expedição, a administração de Medina foi confiada a Abu Lubabah ibn Abd al-Mundhir. [Zad al-Ma’ad, vol. 2, pp. 90–91; Ibn Hisham, vol. 2, p. 593].
Quinto) A batalha de Dhu Amr
Depois da batalha de Badr, esta foi a maior expedição militar. O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, liderou essa expedição. Ela foi realizada no mês de Muharram do terceiro ano da Hégira. Isso ocorreu porque o serviço de informações de Medina informou ao Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, que um grande grupo das tribos de Banu Tha’laba e Muharib estava se unindo para atacar Medina. Assim que recebeu essa notícia, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, ordenou aos muçulmanos que se preparassem. Essa expedição foi realizada com quatrocentos mujahideen, entre cavaleiros e soldados a pé. Naquela ocasião, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, nomeou Uthman, que Allah esteja satisfeito com ele, como seu substituto em Medina.
No caminho, os mujahideen prenderam um homem chamado Jabbar, da tribo de Banu Salam, e o levaram à presença do Mensageiro de Allah. Ele o convidou ao Islã, e o homem aceitou o Islã. Depois disso, o homem guiou o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, e os Companheiros até a área inimiga.
Enquanto isso, ao receberem a notícia da expedição militar dos muçulmanos, os inimigos se dispersaram pelas áreas montanhosas próximas. O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, continuou avançando e, acompanhado pelos mujahideen, chegou ao local onde os inimigos estavam posicionados. Havia ali um lugar conhecido como Dhu Amr. O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, permaneceu ali por alguns dias, mesmo depois do mês de Safar do terceiro ano da Hégira, a fim de exercer influência sobre os beduínos e dar-lhes uma ideia do poder dos muçulmanos; depois, retornou a Medina. [Ibn Hisham, vol. 2, p. 46; Zad al-Ma’ad, vol. 2, p. 91. Diz-se que um homem chamado Ghawath al-Maharibi tentou assassinar o Mensageiro de Allah durante essa expedição. Porém, na realidade, essa tentativa não ocorreu durante essa expedição, mas durante outra. Ver Bukhari, vol. 2, p. 593].
Seis) O destino de Ka’b ibn Ashraf
Entre os judeus, esse homem odiava intensamente os muçulmanos. Sua hostilidade para com os muçulmanos e seu sofrimento constante diante das ações deles eram conhecidos. Esse homem causava sofrimento ao Mensageiro de Allah e andava convocando publicamente à guerra contra ele.
Ele tinha ligação com o ramo Banu Nabhan da tribo de Tayy. O nome da tribo de sua mãe era Banu Nadir. Esse homem era rico e influente. No mundo árabe, sua beleza física era famosa. Ele também era conhecido como um poeta célebre. A fortaleza desse homem ficava ao sul de Medina, atrás do povoado da tribo de Banu Nadir.
Assim que ouviu a notícia da vitória dos muçulmanos na batalha de Badr e da morte dos líderes coraixitas, ele exclamou: “Isso realmente aconteceu? Eles eram a elite dos árabes e os reis do povo. Se Muhammad realmente os matou, então o interior da terra é melhor do que sua superfície. Em outras palavras, é melhor morrermos do que continuarmos vivos.”
Depois de receber com certeza a notícia da vitória dos muçulmanos, o inimigo de Allah, Ka’b ibn Ashraf, começou a difamar o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, e os muçulmanos, e a elogiar os inimigos do Islã. Não satisfeito com isso, foi até os coraixitas em Meca e, hospedado por Muttalib ibn Abu Uda’a al-Sahmi, tentou acender o fogo da agitação nos corações dos politeístas. Recitou poemas de sua própria autoria para incitar os coraixitas a guerrearem contra o Mensageiro de Allah. Também recitou poemas em louvor aos coraixitas mortos. Durante a permanência de Ka’b em Meca, Abu Sufyan perguntou-lhe: “Qual religião entre as nossas te parece mais apreciável? Qual dos dois grupos está mais bem guiado?” Ka’b ibn Ashraf respondeu: “Vós sois mais bem guiados e melhores do que os muçulmanos.” Nessa ocasião, Allah, o Altíssimo, revelou este versículo.
“Não viste aqueles aos quais foi concedida uma parte do Livro? Eles creem em Jibt e Taghut e dizem, a respeito dos incrédulos: ‘O caminho deles é mais correto do que o dos crentes.’” (Surata An-Nissá, versículo 51)
Após realizar essas ações em Meca, Ka’b ibn Ashraf voltou para Medina. Ao chegar, começou a recitar poesias de natureza vil sobre as esposas dos nobres Companheiros. Além disso, dizia tudo o que lhe vinha à boca e, desse modo, afligia os muçulmanos.
Nessa situação, exasperado, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse certa vez: “Quem está disposto a resolver a questão com Ka’b ibn Ashraf? Esse homem ofendeu Allah, o Altíssimo, e Seu Mensageiro.”
Atendendo ao chamado do Mensageiro de Allah, Muhammad ibn Maslama, Ubbad ibn Bishr, Abu Na’ila, também conhecido como Salcan ibn Salama, Harith ibn Aus e Abu Abbas ibn Jabar (que Allah esteja satisfeito com ele) levantaram-se. Abu Na’ila, também conhecido como Salcan ibn Salama (que Allah esteja satisfeito com ele), era irmão de leite de Ka’b ibn Ashraf. Muhammad ibn Maslama foi escolhido como líder desse grupo.
O essencial das diversas narrativas sobre o assassinato de Ka’b ibn Ashraf é o seguinte: quando o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Ele ofendeu o Mensageiro. Quem poderá resolver a questão com Ka’b ibn Ashraf?”, assim que ouviu essas palavras, Muhammad ibn Maslama levantou-se e disse: “Estou aqui, ó Mensageiro de Allah.”
“Queres que eu o mate?” O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, respondeu: “Sim.” Ele disse: “Então, permite-me dizer algumas coisas.” O Mensageiro de Allah respondeu: “Sim, podes falar.”
Depois, Muhammad ibn Maslama (que Allah esteja satisfeito com ele) foi até Ka’b ibn Ashraf e disse: “Esse homem nos exige caridade. Na verdade, essa exigência nos colocou em dificuldades.”
Ka’b respondeu: “Por Allah, vocês ainda ficarão mais aflitos.”
Muhammad ibn Maslama (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Já que seguimos esse homem, não me parece apropriado abandoná-lo agora. É necessário ver qual será o resultado dessa decisão. De qualquer modo, peço que me emprestem um wasq de alimentos.”
Ka’b disse: “Deixem algo como garantia comigo.”
Muhammad ibn Maslama (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Que tipo de coisa você gostaria?” Ka’b disse: “Deixem suas mulheres como garantia comigo.”
Muhammad ibn Maslama (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Como isso seria possível? Você é o homem mais bonito da Arábia.”
Ka’b disse: “Então deixem suas filhas como garantia.”
Muhammad ibn Maslama (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “E como isso seria possível? Isso seria motivo de vergonha para mim. As pessoas diriam que fulano deixou suas próprias filhas como garantia com sicrano em troca de uma pequena quantidade de alimento. Não, mas posso deixar minhas armas como garantia com você.”
Depois, os dois combinaram que Muhammad ibn Maslama levaria suas armas à casa de Ka’b ibn Ashraf.
Abu Na’ila também fez algo semelhante. Ele era irmão de leite de Ka’b. Foi até Ka’b e conversou por algum tempo sobre poesia. Ouviu alguns poemas e recitou outros. Depois disse: “Irmão, vim até você por causa de uma necessidade. Quero falar-lhe sobre ela, mas o assunto é confidencial. Depois que eu lhe contar, você manterá isso em segredo.”
Ka’b disse: “Sim, farei isso.”
Abu Na’ila, referindo-se ao Mensageiro de Allah, disse: “A chegada deste homem revelou-se uma provação para nós. Toda a Arábia está se tornando nossa inimiga. Todos os nossos caminhos foram bloqueados. Nossas famílias estão prestes a ser destruídas. A vida tornou-se insuportável. Nossos filhos e filhas passam os dias em grande sofrimento e dificuldade.” Depois disso, Abu Na’ila disse algo semelhante ao que Muhammad ibn Maslama havia dito. Durante a conversa, Abu Na’ila também disse: “Tenho alguns amigos que compartilham da mesma opinião que eu. Quero trazê-los até você. Tenha misericórdia deles também, vendendo-lhes algumas coisas.”
Muhammad ibn Maslama e Abu Na’ila avançavam com sucesso em direção ao objetivo por meio da conversa, pois, depois da discussão, não deveria haver qualquer problema em eles irem à casa de Ka’b portando suas armas.
Após tomarem as providências iniciais, na noite enluarada do dia 14 de Rabi al-Awwal do terceiro ano da Hégira, esse pequeno grupo compareceu diante do Mensageiro de Allah com um objetivo comum. O Mensageiro os acompanhou até Baqi’ al-Gharqad. Depois disse: “Ide, em nome de Allah! Ó Allah, ajudai-os.” O Mensageiro voltou para casa e ocupou-se com a oração e a súplica.
Enquanto isso, depois de os Companheiros chegarem diante da casa, Abu Na’ila chamou Ka’b em voz alta. Ao ouvir a voz, Ka’b levantou-se, e sua recém-casada disse: “Aonde vais a esta hora da noite? Estou ouvindo uma voz da qual parece estar escorrendo sangue.”
Ka’b disse: “São meu irmão Muhammad ibn Maslama e meu irmão de leite Abu Na’ila. Mesmo que um homem nobre seja chamado para enfrentar golpes de lança, ainda assim ele atenderá ao chamado.”
Depois, Ka’b saiu. Um perfume emanava de sua cabeça.
Abu Na’ila dizia aos seus companheiros: “Quando ele vier, segurarei os cabelos de sua cabeça e começarei a cheirá-los. Quando virdes que consegui segurar sua cabeça e trazê-la sob meu controle, atacai-o e matai-o.” Depois que Ka’b chegou, conversaram durante algum tempo sobre diversos assuntos. Então Abu Na’ila (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Nunca senti um perfume tão encantador quanto o de hoje.” Ao ouvir isso, o coração de Ka’b encheu-se de orgulho. Ele disse: “Tenho comigo a mulher mais perfumada da Arábia, que usa os perfumes mais fragrantes.” Abu Na’ila disse: “Sim, sim, certamente.” Abu Na’ila passou a mão pelos cabelos da cabeça de Ka’b e sentiu o perfume deles, permitindo também que seus companheiros os cheirassem. Depois de algum tempo, Abu Na’ila (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Irmão, quero cheirá-los mais uma vez.” Ka’b respondeu com confiança: “Sim, sim.” Abu Na’ila voltou a sentir o perfume dos cabelos da cabeça de Ka’b. Ka’b estava então muito alegre e completamente despreocupado.
Depois de caminharem mais algum tempo, Abu Na’ila voltou a expressar o desejo de sentir o cheiro dos cabelos da cabeça de Ka’b ibn al-Ashraf. Ka’b disse que estava bem. Quando ele se inclinou um pouco ao dizer isso, Abu Na’ila tomou a cabeça de Ka’b sob seu controle e disse aos companheiros: «Agora, acabem com este inimigo de Allah.» Imediatamente, Muhammad ibn Maslama entrou em ação e, erguendo a arma, desferiu um golpe tão forte que o inimigo de Allah morreu ali mesmo. Depois que o atacaram, ele gritou tão alto que se espalhou uma grande agitação pelos arredores. Todas as casas acenderam as luzes e todos ficaram apreensivos. Mas nada aconteceu.
Durante o ataque a Ka’b ibn al-Ashraf, a espada de um dos companheiros atingiu acidentalmente o corpo de al-Harith ibn Aws (que Allah esteja satisfeito com ele) com um golpe leve. Com isso, ele ficou ferido. O sangue escorria de seu corpo. No caminho de volta, ao chegarem a um lugar chamado Hajra Arid, perceberam que al-Harith não estava com eles. Então ficaram esperando ali mesmo. Depois de algum tempo, al-Harith chegou. Levando al-Harith consigo, chegaram a um lugar chamado Baqi’ al-Gharqad e proclamaram o takbir em voz alta. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, também ouviu aquela proclamação do takbir. Assim, compreendeu que a expedição havia sido bem-sucedida. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, também proclamou «Allahu Akbar». Ele disse: «Aflahat al-wujuh», isto é: «Que estes rostos prosperem». Os Companheiros disseram: «Wa wajhuka ya Rasulullah», isto é: «E o seu rosto também, ó Mensageiro de Allah». Logo depois dessas palavras, os participantes da expedição colocaram diante do Mensageiro de Allah a cabeça decepada de Ka’b ibn al-Ashraf. Depois do assassinato do líder criminoso Ka’b, o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, louvou Allah e cuspiu sobre o ferimento de al-Harith. Com isso, ele ficou curado. Depois disso, aquele ferimento nunca mais lhe causou dor. [As obras das quais foi extraído o relato detalhado deste acontecimento são: Ibn Hisham, vol. 2, pp. 51 e 57; Sahih al-Bukhari, vol. 1, pp. 341 e 425, vol. 2, p. 577; Sunan Abu Dawud, vol. 2, pp. 42-43; Zad al-Ma’ad, vol. 2, p. 91].
Os judeus ficaram desanimados ao receber a notícia do assassinato de Ka’b ibn al-Ashraf. Compreenderam claramente que, quando aqueles responsáveis pela perturbação da paz e pela violação dos pactos celebrados não seguissem devidamente os bons conselhos que lhes fossem dados, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, não hesitaria em usar a força contra eles. Por isso, mesmo ao ouvirem a notícia do assassinato de Ka’b ibn al-Ashraf, não manifestaram qualquer reação. Por meio de sua conduta, deram a entender que estavam cumprindo as condições do tratado de paz. Também não fizeram mais nenhuma tentativa de demonstrar força. Pode-se dizer que a serpente venenosa entrou rastejando em seu buraco. Assim, desapareceu o temor de que os inimigos internos de Medina voltassem a levantar a cabeça.
Depois disso, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, teve tempo para enfrentar as ameaças de perigo que vinham de fora de Medina.
Sétimo: a expedição de Bahran
Tratou-se de uma grande expedição militar. Trezentos mujahidin participaram dela. Com esse exército, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, partiu no mês de Rabi’ al-Awwal do terceiro ano da Hégira em direção à região chamada Bahran. Era um lugar da região de Farah, pertencente ao Hijaz. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e os mujahidin que o acompanhavam permaneceram ali durante os dois meses de Rabi’ al-Thani e Jumada al-Awwal. Depois, ele retornou a Medina. Não teve de enfrentar qualquer combate. [Ibn Hisham, vol. 2, pp. 50-51; Zad al-Ma’ad, vol. 2, p. 91. Há diversos relatos sobre a razão dessa expedição. Diz-se que chegou a Medina a notícia de que a tribo Banu Salim havia feito amplos preparativos para atacar Medina e seus arredores. Também se diz que o Mensageiro de Allah havia saído à procura de uma caravana dos coraixitas. Ibn Hisham mencionou essa razão, e Ibn Qayyim também expressou essa opinião. A primeira razão não é discutida. A outra é a mais digna de crédito, pois a tribo Banu Salim não vivia na região de Farah, mas em Najd. Essa região fica muito distante de Farah].
Oitavo: a expedição de Zayd ibn Harithah
Antes da batalha de Uhud, esta foi a última expedição bem-sucedida dos muçulmanos. Ela foi realizada em Jumada al-Thani do terceiro ano da Hégira. O relato detalhado do acontecimento é o seguinte:
Após a batalha de Badr, os coraixitas não tinham paz de espírito. Então chegou o verão. Era nessa época que se enviavam caravanas comerciais para a Síria. A preocupação com a segurança dessas caravanas também se tornou motivo de grande inquietação para eles. Naquele ano, Safwan ibn Umayya, líder da caravana comercial que seguia para a Síria, disse aos coraixitas: “Muhammad e seus companheiros tornaram perigosa a rota utilizada em nossas expedições comerciais. Não sei como enfrentá-los. Eles não vão a nenhum lugar além do litoral. Os habitantes do litoral estabeleceram boas relações com eles. O povo comum está ao lado deles. Não sei que caminho devemos tomar. Por outro lado, se permanecermos em casa, nosso capital será consumido. No fim, nada restará. Afinal, o sustento de Meca depende do comércio em duas estações: com a Síria no verão e com a Abissínia no inverno.”
Depois dessa pergunta de Safwan, começaram a refletir sobre o assunto. Aswad ibn Abd al-Muttalib disse a Safwan: “Abandone a rota costeira e siga pelo caminho que leva ao Iraque. Esse caminho é muito mais longo; será preciso ir até a Síria passando por Najd. Os coraixitas desconhecem essa rota, que fica a leste de Medina. Aconselho você a entrar em contato com Furāt ibn Hayyān, ligado à tribo de Bakr ibn Wā’il. Contrate-o como guia para a viagem planejada.”
Depois dessa decisão, a caravana comercial dos coraixitas, sob a liderança de Safwan ibn Umayya, avançou pela nova rota. Entretanto, informações detalhadas sobre o plano dessa viagem chegaram a Medina. Como essa notícia chegou? O caso foi o seguinte: Sālit ibn Nu‘mān encontrou-se com Nu‘aym ibn Mas‘ūd numa reunião de bebida. O primeiro deles, isto é, Sālit, havia aceitado o Islã naquela época, mas o segundo, isto é, Nu‘aym, ainda não havia aceitado o Islã. A bebida ainda não tinha sido proibida. Durante a reunião, sob o efeito da embriaguez, Nu‘aym revelou a Sālit todos os detalhes da viagem comercial dos coraixitas. Sālit partiu imediatamente para Medina e informou tudo ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz.
Ao receber essa notícia, o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, preparou imediatamente um ataque contra a caravana coraixita. Foi enviada uma força de cem cavaleiros sob o comando de Zayd ibn Hāritha, que Allah esteja satisfeito com ele. Zayd, que Allah esteja satisfeito com ele, avançou rapidamente e encontrou a caravana num lugar chamado Qaradah. Eles tinham acabado de chegar ali. Quando estavam prestes a acampar à margem de um reservatório de água, foram surpreendidos pelo ataque e ficaram atordoados. Safwan ibn Umayya e seus companheiros não conseguiram pensar em outra coisa senão fugir.
Os muçulmanos fizeram de Furāt ibn Hayyān o guia da caravana. Também foi mencionado que outros dois homens foram capturados. Diversas mercadorias comerciais caíram nas mãos dos muçulmanos. O valor desses produtos era de quase cem mil dirrames.
Ao chegar a Medina, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, separou um quinto dos bens. O restante foi distribuído entre os combatentes. Furāt ibn Hayyān aceitou o Islã pelas mãos do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. [Ibn Hisham, vol. 2, pp. 50–51; Rahmat li-l-‘Alamīn, vol. 2, p. 219].
Após a batalha de Badr, este foi o acontecimento mais doloroso para os coraixitas incrédulos. Como resultado, seu sofrimento mental aumentou muitas vezes. Naquele momento, havia dois caminhos abertos diante deles.
Talvez pudessem esquecer tudo e fazer as pazes com os muçulmanos; caso contrário, poderiam recuperar-se com novo ânimo, entrar em guerra contra os muçulmanos e destruir completamente seu poder, para que não conseguissem voltar a levantar a cabeça no futuro. Os principais coraixitas de Meca escolheram o segundo caminho. Depois de perderem tudo na expedição comercial, seu desejo de vingança aumentou muitas vezes. Para entrar em conflito com os muçulmanos, os coraixitas começaram a preparar-se ao máximo para entrar em suas casas e atacá-los. Além dos acontecimentos passados, a frustração pelo fracasso da expedição comercial também foi uma das causas da batalha de Uhud.
A Batalha de Uhud
Os preparativos dos coraixitas para a vingança
Os habitantes de Meca tiveram de suportar a dor da derrota e da humilhação na Batalha de Badr, bem como a morte de muitos de seus líderes. Por isso, ficaram desorientados de raiva contra os muçulmanos. Contudo, os líderes coraixitas proibiram os parentes dos mortos de expressar luto e lamentar por eles. Também foram proibidos de se apressar no pagamento dos resgates dos prisioneiros de guerra. Eles não queriam que os muçulmanos conhecessem a profundidade de seu luto e de seu sofrimento. Após a Batalha de Badr, os incrédulos decidiram coletivamente que travariam outra guerra contra os muçulmanos para aliviar a angústia que sentiam. Nessa guerra, sua ira também seria aplacada. Imediatamente após tomarem essa decisão, começaram os preparativos para a guerra contra os muçulmanos. Entre os líderes coraixitas, os mais destacados nesses preparativos foram Ikrimah ibn Abi Jahl, Safwan ibn Umayyah, Abu Sufyan ibn Harb e Abdullah ibn Ziyad.
A caravana de Abu Sufyan, que havia sido a causa da Batalha de Badr, foi retirada com sucesso por Abu Sufyan, juntamente com suas mercadorias. Todas as mercadorias da caravana foram reservadas para a guerra. Foi dito aos proprietários das mercadorias: “Ó membros da tribo dos coraixitas, escutai: Muhammad desferiu um duro golpe contra vós. Portanto, ajudai a combatê-lo com essas vossas mercadorias. Eles mataram os vossos chefes escolhidos. Talvez, se travarmos outra guerra, sejamos capazes de nos vingar.” Os coraixitas responderam a esse apelo e concordaram em doar todos os seus bens para a guerra. A quantidade dessas mercadorias correspondia a mil camelos e cinquenta mil dinares. Os camelos foram vendidos para financiar os preparativos de guerra. A esse respeito, Allah, o Todo-Poderoso, revelou o seguinte versículo: “Os incrédulos gastam suas riquezas para afastar as pessoas do caminho de Allah; continuarão a gastá-las. Depois, isso lhes causará pesar. Em seguida, serão derrotados, e os que descreem serão reunidos no Inferno.” (Surata Al-Anfal, versículo 36.)
Depois disso, os coraixitas lançaram um fervoroso apelo ao voluntariado. Pessoas de várias tribos foram incentivadas a lutar contra os muçulmanos. Foi pedido a todos que se reunissem sob a bandeira dos coraixitas. Também lhes foram oferecidos diversos tipos de incentivos. Um poeta chamado Abu Uzza havia sido capturado na Batalha de Badr. O Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, libertou-o sem exigir resgate. Ele havia assumido o compromisso de não fazer, no futuro, nada contra o Islã e os muçulmanos. Porém, depois de retornar a Meca, Safwan ibn Umayyah convenceu-o, dizendo: “Vai até as pessoas das diversas tribos e incita-as contra os muçulmanos por meio de poemas inflamados. Se eu retornar são e salvo da guerra, dar-te-ei muitas riquezas ou assumirei a responsabilidade pelo sustento de tuas filhas.” Seduzido por essa oferta, Abu Uzza rompeu o compromisso que havia assumido com o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Ele foi às diversas tribos e começou a incitar as pessoas contra os muçulmanos por meio de poemas, estimulando-as à luta. Os líderes coraixitas também recrutaram outro poeta, Musafah ibn Abd Manaf Juhami, para sua causa. Assim, o entusiasmo e o ânimo dos incrédulos para lutar contra os muçulmanos continuaram a crescer.
Ao completar-se um ano, os preparativos de guerra dos coraixitas estavam concluídos. Somando seus aliados aos seus próprios homens, o número de soldados chegou a três mil. Os líderes coraixitas também opinaram a favor de levar algumas mulheres belas à guerra. Assim, quinze mulheres belas foram levadas ao campo de batalha. A justificativa apresentada para levá-las era que, motivados a proteger sua segurança e honra, os combatentes demonstrariam maior bravura e disposição para o sacrifício na guerra. Foram preparados três mil camelos e duzentos cavalos para serem levados à guerra. [Entretanto, na obra Fath al-Bari, o número de cavalos é indicado como cem (volume 7, p. 346).] Para mantê-los mais ativos, ninguém montou neles durante todo o percurso até o campo de batalha. Além disso, entre as armas de proteção, incluíam-se três mil armaduras.
Abu Sufyan era o comandante do exército. Khalid ibn al-Walid recebeu o comando da cavalaria de apoio. Ikrimah ibn Abu Jahl foi nomeado seu ajudante. De acordo com o costume estabelecido, o estandarte da guerra foi entregue à tribo de Banu Abd al-Dar.
A marcha dos não muçulmanos em direção a Medina
Após tais preparativos, esse exército de Meca partiu em direção a Medina. Enfurecidos pelo desejo de vingança contra os muçulmanos, estavam quase enlouquecidos. A intensidade de sua ira pode ser deduzida do derramamento de sangue e dos horrores da guerra.
Hazrat Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) acompanhava os preparativos de guerra dos coraixitas. Assim que soube que eles haviam partido em direção a Medina, enviou rapidamente um mensageiro à cidade para informar o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) de todos os detalhes.
O mensageiro enviado por Hazrat Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) percorreu em apenas três dias os quinhentos quilômetros entre Meca e Medina. Assim que chegou a Medina, entregou a carta de Hazrat Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Naquele momento, o amado Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) encontrava-se na mesquita de Quba, em Medina.
Hazrat Ubayy ibn Ka’b (que Allah esteja satisfeito com ele) leu a carta de Hazrat Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) para o amado Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Ordenando a Hazrat Ubayy (que Allah esteja satisfeito com ele) que mantivesse em segredo o conteúdo da carta, o amado Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) realizou uma consulta urgente com os líderes dos Ansar e dos Muhajirun.
Medidas urgentes para enfrentar a situação
Depois disso, os muçulmanos de Medina começaram a portar armas para enfrentar qualquer situação indesejável. Mesmo durante a oração, as armas não eram deixadas afastadas.
Alguns Ansar foram encarregados de proteger o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Entre eles estavam Hazrat Sa’d ibn Mu’adh (que Allah esteja satisfeito com ele), Usayd ibn Hudayr (que Allah esteja satisfeito com ele) e Sa’d ibn Ubadah (que Allah esteja satisfeito com ele). Armados, eles vigiavam durante toda a noite a residência do amado Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele).
Vários muçulmanos também foram posicionados nas diferentes entradas de Medina. Eles estavam preparados para enfrentar qualquer tipo de ataque repentino. Algumas pequenas tropas foram igualmente destacadas nas estradas fora de Medina para observar os movimentos do inimigo.
A presença dos incrédulos nas proximidades de Medina
O exército de Meca continuou avançando em direção a Medina. Ao chegar a um lugar chamado Abwa, Hind bint Utbah, esposa de Abu Sufyan, propôs que procurassem o túmulo de Bibi Amina, mãe do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e o despedaçassem. Porém, os líderes dos coraixitas não concordaram em executar a desprezível conspiração daquela mulher. Eles refletiram que as consequências desse ato seriam terríveis.
Os incrédulos continuaram sua jornada a partir de Abwa. Ao chegar perto de Medina, atravessaram a planície de Aqiq. Depois, desviaram um pouco para a direita e acamparam num lugar chamado Aynayn, próximo ao monte Uhud. Aynayn é uma terra fértil junto à planície de Qanat, ao norte de Medina. Isso ocorreu numa sexta-feira, no dia 6 de Shawwal do terceiro ano da Hégira.
Reunião do conselho de shura
Os mensageiros muçulmanos levavam a Medina informações detalhadas sobre os movimentos dos não muçulmanos. A notícia de que eles haviam acampado também chegou a Medina. Naquele momento, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, convocou uma reunião do conselho de shura. Nessa reunião, discutia-se a tomada de decisões urgentes sobre a defesa de Medina. No início, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, informou aos Companheiros sobre o sonho que tivera. O amado Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Juro por Allah, vi algo bom. Vi algumas vacas sendo abatidas. Vi alguns sinais de derrota sobre a minha espada. Também vi que havia introduzido a mão dentro de uma armadura.” Em seguida, o Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, explicou o abate das vacas dizendo que alguns Companheiros seriam martirizados. Sobre os sinais de derrota na espada, disse que alguém de sua família seria martirizado. Quanto à interpretação da armadura segura, disse que isso significava a cidade de Medina.
Em seguida, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, expressou sua opinião sobre a estratégia de defesa interna: os muçulmanos não deveriam sair da cidade, mas permanecer dentro de Medina. Que os incrédulos continuassem em suas tendas; se entrassem em Medina, os muçulmanos combateriam contra eles nas ruas e vielas da cidade, enquanto as mulheres os atacariam dos telhados. Essa opinião era a correta. O líder dos hipócritas, Abdullah ibn Ubayy, também declarou concordar com ela. A razão pela qual esse hipócrita concordou com a opinião do amado Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, não era ter apreciado sua opinião e estratégia de defesa; ele a preferia porque, por um lado, poderia abster-se de combater sem que ninguém percebesse. Porém, a vontade de Allah, o Senhor dos mundos, era outra. Ele queria que, pela primeira vez, esse homem fosse identificado e humilhado entre os muçulmanos comuns, e que o véu de sua incredulidade fosse retirado sob a aparência de sua condição de muçulmano. Além disso, queria que os muçulmanos, em seu momento de crise, descobrissem quantas serpentes venenosas estavam escondidas em suas mangas.
Alguns Companheiros ilustres que não haviam podido participar da batalha de Badr aconselharam o amado Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, a sair ao campo e enfrentar os incrédulos. Eles demonstraram grande entusiasmo por participar do jihad. Alguns Companheiros disseram: “Ó Mensageiro de Allah, nós ansiávamos por este dia e também suplicávamos a Allah, o Senhor dos mundos. Hoje Allah nos concedeu essa oportunidade. Chegou o momento de nos lançarmos à batalha. Portanto, ó Mensageiro de Allah, avance contra os inimigos; não pense que estamos com medo.”
Entre aqueles que demonstraram esse entusiasmo e fervor estava também o tio do amado Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz: Hamza ibn Abdul Muttalib. Ele havia demonstrado extraordinária bravura e coragem na batalha de Badr. Disse ao amado Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz: “Juro por Aquele que revelou o Alcorão a você: não levarei alimento à boca antes de combater os incrédulos em campo aberto, fora de Medina.” [Sira de Halabiyah, volume 2, p. 14].
O Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, retirou sua própria opinião diante da opinião da maioria dos Companheiros. Por fim, decidiu-se que os incrédulos seriam enfrentados em campo aberto, fora de Medina.
A organização do exército islâmico e a marcha para a batalha
Em seguida, o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, conduziu a oração de sexta-feira. Após a oração, fez uma exortação e aconselhamento. Ele disse que somente através da paciência e da firme determinação seria possível alcançar a vitória. Ao mesmo tempo, ordenou aos muçulmanos que se preparassem para enfrentar o inimigo. Ao ouvirem isso, uma onda de alegria percorreu os corações dos muçulmanos.
Quando o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, realizou a oração da tarde, viu que muitas pessoas haviam se reunido. Algumas pessoas também tinham vindo dos arredores de Medina. Após a oração, o Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, entrou. Abu Bakr e Umar, que Allah esteja satisfeito com eles, estavam com ele. Eles amarraram um turbante na cabeça do amado Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, e o vestiram. O Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, vestiu uma armadura inferior e outra superior, tomou sua espada e, equipado com outras armas, apresentou-se diante de todos.
Todos aguardavam a chegada do amado Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. De repente, Sa’d ibn Mu’adh e Usaid ibn Hudair, que Allah esteja satisfeito com eles, disseram aos Companheiros: “Vocês estão levando o amado Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, à força para o campo de batalha. Estão obrigando-o. Portanto, deixem esta questão nas mãos do amado Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele.” Ao ouvirem isso, todos ficaram envergonhados. Quando o amado Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, saiu, todos lhe disseram: “Ó Mensageiro de Allah, não foi correto que nos opuséssemos a você. Faça o que considerar melhor. Se considerar mais apropriado permanecermos em Medina, aceitaremos isso. Faça, portanto, o que julgar melhor.” O Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Quando um profeta veste suas armas, não lhe convém retirá-las até que Allah, o Senhor dos mundos, decida entre ele e seus inimigos.” [Musnad Ahmad, an-Nasa’i, Ibn Ishaq].
Em seguida, o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, dividiu os soldados em três grupos da seguinte maneira:
1) O exército dos emigrantes. A bandeira desse exército foi entregue a Mus’ab ibn Umair, que Allah esteja satisfeito com ele.
2) O exército da tribo Aws, dos Ansar. Usaid ibn Hudair, que Allah esteja satisfeito com ele, foi colocado à frente desse exército.
3) O exército da tribo dos Khazraj. Hazrat Habbab ibn al-Mundhir (que Allah esteja satisfeito com ele) comandava esse exército.
O exército muçulmano contava ao todo com mil soldados. Entre eles, cem usavam armaduras e cinquenta estavam montados a cavalo. [Ibn Qayyim escreveu isso na página 92 do segundo volume de Zad al-Ma‘ad. Hafiz Ibn Hajar diz que isso está errado. Musa ibn ‘Uqbah afirmou categoricamente que nenhum cavalo foi usado na batalha de Uhud. Al-Waqidi escreveu que havia apenas dois cavalos: um estava com o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) e o outro com Abu Zobda (que Allah esteja satisfeito com ele). Fath al-Bari, volume 7, página 350].
Outra narração afirma que não havia sequer um soldado montado a cavalo.
A responsabilidade de conduzir as orações dos Companheiros que permaneceriam em Medina durante a batalha foi confiada a Hazrat ‘Abdullah ibn Umm Maktum (que Allah esteja satisfeito com ele); em seguida, foi dada ordem para que os soldados muçulmanos partissem. Os soldados muçulmanos seguiram para o norte. Hazrat Sa‘d ibn Mu‘adh (que Allah esteja satisfeito com ele) e Hazrat Sa‘d ibn ‘Ubadah (que Allah esteja satisfeito com ele) marchavam à frente do amado Profeta, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), usando armaduras.
Ao chegarem a um lugar chamado ‘Thaniyyat al-Wada‘, avistaram um grupo de soldados. Eles estavam equipados com armas excelentes e separados do exército principal. Quando o Profeta (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) perguntou quem eram, responderam que eram aliados da tribo dos Khazraj e judeus, [Ibn Sa‘d narrou esse acontecimento. Essa narração também menciona que eles eram judeus da tribo dos Banu Qaynuqa. Porém, essa informação não está correta, pois os membros da tribo dos Banu Qaynuqa foram expulsos de Medina poucos dias depois da batalha de Badr,] mas queriam lutar ao lado dos muçulmanos contra os incrédulos de Meca. Quando se perguntou se haviam se tornado muçulmanos, foi informado ao amado Profeta, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), que eles não haviam aceitado o Islam nem desejavam fazê-lo. O Profeta (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) recusou-se a aceitar a ajuda dos judeus contra os incrédulos.
Inspeção do exército
Ao chegar ao lugar chamado Shaikhan, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) inspecionou os soldados muçulmanos. Depois dessa inspeção, os menores de idade e aqueles que não eram aptos para a guerra foram mandados de volta. Os que foram mandados de volta foram: Hazrat ‘Abdullah ibn ‘Umar (que Allah esteja satisfeito com ele), Hazrat Usama ibn Zayd (que Allah esteja satisfeito com ele), Hazrat Usaid ibn Zuhayr (que Allah esteja satisfeito com ele), Zayd ibn Thabit (que Allah esteja satisfeito com ele), Hazrat Zayd ibn Arqam (que Allah esteja satisfeito com ele), Hazrat Usama ibn Aws (que Allah esteja satisfeito com ele), Hazrat Abu Sa‘id al-Khudri (que Allah esteja satisfeito com ele), Hazrat Zayd ibn Haritha al-Ansari (que Allah esteja satisfeito com ele) e Hazrat Sa‘d ibn Hibab (que Allah esteja satisfeito com ele). O nome de Hazrat Bara ibn ‘Azib (que Allah esteja satisfeito com ele) também aparece nessa lista. Contudo, segundo o Sahih al-Bukhari, está comprovado que ele participou da batalha de Uhud.
Embora fossem jovens, Hazrat Rafi‘ ibn Khadij (que Allah esteja satisfeito com ele) e Hazrat Samura ibn Jundub (que Allah esteja satisfeito com ele) receberam permissão para participar do jihad. Isso se deveu ao fato de Hazrat Rafi‘ ibn Khadij (que Allah esteja satisfeito com ele) ser especialmente habilidoso como arqueiro. Depois que lhe deram permissão, Hazrat Samura ibn Jundub (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Eu sou mais forte que Rafi‘. Posso derrubá-lo numa luta.” Quando isso foi informado ao Profeta (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), ele ordenou que os dois lutassem. Nessa luta, Hazrat Samura ibn Jundub (que Allah esteja satisfeito com ele) realmente derrubou Hazrat Rafi‘. Então o Profeta (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) também permitiu que Hazrat Samura (que Allah esteja satisfeito com ele) participasse.
Pernoite no local entre Uhud e Medina
Já havia anoitecido no lugar chamado Shaykhan. O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, decidiu passar a noite ali, depois de realizar as orações do Maghrib e do Isha. O líder dos guardas que vigiavam as tendas dos muçulmanos era o honorável Muhammad ibn Maslamah al-Ansari, que Allah esteja satisfeito com ele. Foi ele quem liderou o assassinato do judeu Ka’b ibn al-Ashraf. E Safwan ibn Abdullah ibn Qays, que Allah esteja satisfeito com ele, foi encarregado de vigiar o Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele.
A traição dos hipócritas
A conspiração do líder dos hipócritas, Abdullah ibn Ubayy, estava prestes a alcançar o sucesso. Ao verem a retirada dele e de seus companheiros, os grupos de Banu Harithah, da tribo de Aws, e de Banu Salimah, da tribo de Khazraj, também ficaram indecisos. Eles pensaram em voltar. Porém, como Allah, o Senhor dos Mundos, despertou a consciência da fé nos corações dos membros dessas duas tribos, eles permaneceram firmes em sua decisão de lutar. A esse respeito, Allah, o Senhor dos Mundos, diz: “Quando dois grupos entre vós estavam prestes a demonstrar covardia, embora Allah fosse seu aliado. E é em Allah que os crentes devem confiar.”
Quando os hipócritas decidiram retornar a Medina, o honorável Abdullah ibn Haram, pai do honorável Jabir, que Allah esteja satisfeito com ambos, tentou conscientizá-los sobre seu dever naquela situação tão delicada. Ele foi atrás dos hipócritas que desejavam retornar, tentando fazê-los voltar, e disse: “Voltai ainda agora e lutai no caminho de Allah.” Mas eles responderam: “Se soubéssemos que lutaríeis, não teríamos voltado.” Ao ouvir isso, o honorável Abdullah ibn Haram, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: “Ó inimigos de Allah, o castigo de Allah descerá sobre vós. Lembrai-vos de que Allah, o Altíssimo, não deixará Seu Profeta depender de vós.”
A respeito desses hipócritas, Allah, o Altíssimo, revelou este versículo: “E para que se soubesse quem eram os hipócritas, foi-lhes dito: ‘Vinde, lutai no caminho de Allah ou defendei-vos.’ Eles disseram: ‘Se soubéssemos que haveria combate, certamente vos seguiríamos.’ Naquele dia, estavam mais próximos da descrença do que da fé. Dizem com suas bocas o que não está em seus corações, mas Allah sabe melhor o que ocultam.” (Al Imran, versículo 167)
Ao sopé de Uhud
Depois que os hipócritas partiram, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, avançou contra os inimigos acompanhado dos setecentos muçulmanos restantes. Os inimigos estavam posicionados do lado oposto do monte Uhud. O Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, dirigiu-se aos companheiros e disse: “Alguém pode indicar um caminho pelo qual não tenhamos de fazer uma grande volta para chegar ao destino?”
Ao ouvir isso, Hazrat Abu Khaythama (que Allah esteja satisfeito com ele) avançou e disse: “Estou aqui para esta tarefa, ó Mensageiro de Allah.” Em seguida, ele prosseguiu por um caminho mais curto. Mantendo os inimigos a oeste, os muçulmanos avançaram por esse caminho através das terras da tribo Banu Haritha. Ao passarem por esse caminho, atravessaram o jardim de um homem chamado Marba ibn Qayza. Esse homem era cego por um lado e hipócrita por outro. Ao perceber a chegada dos muçulmanos, começou a atirar-lhes poeira. Naquele momento, dizia ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele): “Se você é realmente o Mensageiro de Allah, saiba que não tem permissão para entrar no meu jardim.” Os muçulmanos quiseram matá-lo. O amado Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Não o matem. Ele é cego tanto no coração quanto nos olhos.”
O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) avançou até chegar à base do monte Uhud, situado nos limites da planície, e estabeleceu ali o acampamento. À frente ficava Medina, e atrás estavam as altas montanhas de Uhud. Naquele momento, o exército inimigo encontrava-se entre os muçulmanos e Medina.
Plano de resistência
Ao chegar ali, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) dispôs e organizou os soldados. Do ponto de vista militar, dividiu-os em várias fileiras. Formou uma unidade de arqueiros, composta por cinquenta homens. Hazrat Abdullah ibn Jabir ibn Nu’man al-Ansari (que Allah esteja satisfeito com ele) foi nomeado comandante dessa unidade. Eles foram posicionados numa passagem situada ao sul do vale de Qanat. Essa passagem ficava a cento e cinquenta metros a sudeste da posição do exército muçulmano. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse ao comandante dos arqueiros: “Atirem contra os inimigos montados a cavalo e mantenham-nos afastados de nós. Cuidem para que não possam atacar-nos pela retaguarda. Quer vençamos, quer sejamos derrotados, permaneçam firmes em suas posições em ambas as situações. Vigiem para que nenhum ataque contra nós possa vir do lado em que estão posicionados.” [Ibn Hisham, volume 2, pp. 65–66]. Em seguida, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse a todos os arqueiros: “Protejam a nossa retaguarda. Mesmo que vejam que estamos sendo mortos, não avancem para nos ajudar. E mesmo que vejam que estamos recolhendo os espólios, não participem deles conosco.” [Ahmad, al-Tabarani e al-Hakim transmitiram isso segundo Hazrat Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele). Ver Fath al-Bari, volume 7, p. 350].
Segundo o relato mencionado no Sahih al-Bukhari, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Mesmo que vejam que os pássaros estão bicando-nos, não abandonem suas posições, a menos que eu os chame. E mesmo que vejam que estamos derrotando os inimigos e, em determinado momento, os exterminamos, ainda assim não abandonem suas posições, a menos que eu os chame.” [Sahih al-Bukhari, Livro do Jihad, volume 1, p. 426].
Com instruções militares tão rigorosas, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) posicionou os soldados arqueiros e fechou a passagem. Isso porque os inimigos poderiam aproximar-se pelo lado oposto daquela passagem e atacar facilmente os muçulmanos.
Entre os soldados restantes, Hazrat Mundhir ibn Amr (que Allah esteja satisfeito com ele) foi colocado no flanco direito, e Hazrat Zubayr ibn al-Awwam (que Allah esteja satisfeito com ele) foi nomeado, tendo como auxiliar Miqdad ibn al-Aswad (que Allah esteja satisfeito com ele). Também foi atribuída a Hazrat Zubayr (que Allah esteja satisfeito com ele) a tarefa de conter a cavalaria liderada por Khalid ibn al-Walid. Khalid ainda não havia aceitado o Islam. Além dessa disposição, companheiros ilustres e escolhidos foram posicionados na linha de frente. A fama desses companheiros por sua bravura e coragem era tão grande que cada um deles era considerado suficiente para enfrentar mil inimigos.
Esse plano de disposição do exército elaborado pelo Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) demonstrava grande sutileza e sabedoria militar. Nele se evidenciavam sua habilidade e discernimento na liderança militar e na estratégia de guerra. Também ficava comprovado que nenhum comandante competente e previdente seria capaz de elaborar, no campo da estratégia militar, um plano de batalha superior ao do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Depois que as tropas inimigas chegaram, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) escolheu o melhor local para a posição dos muçulmanos. Ao ocupar uma posição diante da montanha, protegeu a retaguarda e o flanco direito contra os ataques inimigos. No local onde se temia que os inimigos chegassem pelo lado esquerdo para atacar, posicionou uma eficiente unidade de arqueiros. Escolhendo uma área elevada na retaguarda, determinou que, caso — que Allah não permita — fossem derrotados, não precisariam fugir nem seriam humilhados sob a perseguição dos inimigos; ao contrário, poderiam refugiar-se no acampamento. Se, nessas circunstâncias, os inimigos atacassem para assumir o controle do acampamento, enfrentariam uma derrota desastrosa. Por outro lado, os inimigos foram obrigados a permanecer num local em que, mesmo vencendo, não poderiam usufruir plenamente dos frutos da vitória. E, se os muçulmanos vencessem, os incrédulos não conseguiriam proteger-se da perseguição dos muçulmanos. Além disso, ao colocar um grupo de companheiros ilustres na linha de frente, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) também compensou a insuficiência teórica do efetivo militar. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) concluiu essa importante tarefa de organizar o exército na manhã de sábado, no dia 7 de Shawwal do segundo ano da Hégira.
A mensagem do Mensageiro de Allah (que a paz esteja com ele) aos responsáveis
Em seguida, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) anunciou: “Não iniciareis o combate até que eu vos dê a ordem.” Naquele dia, ele vestia duas armaduras. Dirigindo-se aos Companheiros, disse: “Ao enfrentardes o inimigo, demonstrai bravura e coragem.” Às vésperas de criar entusiasmo, fervor e espírito de jihad entre os Companheiros, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) desembainhou uma espada afiada e disse: “Quem poderá desembainhar esta espada e cumprir o seu direito?” Ao ouvirem isso, vários Companheiros avançaram para receber a espada. Entre eles estavam Ali ibn Abu Talib, Zubair ibn Awwam e Umar ibn Khattab (que Allah esteja satisfeito com eles). Abu Dujana Sammak ibn Khaisha (que Allah esteja satisfeito com ele) avançou e perguntou: “Ó Mensageiro de Allah, qual é o seu direito?” O amado Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) respondeu: “Com esta espada, golpeia os rostos dos inimigos de tal maneira que fiquem deformados.” Abu Dujana (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Ó Mensageiro de Allah, desejo receber esta espada e cumprir o seu direito.” Então, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) entregou a espada a Abu Dujana (que Allah esteja satisfeito com ele).
Abu Dujana (que Allah esteja satisfeito com ele) era um soldado completamente dedicado. Durante o combate, caminhava com o peito estufado. Ele possuía uma faixa vermelha. Quando a amarrava, as pessoas entendiam que, daquela vez, lutaria até à morte. Depois de receber a espada que lhe fora dada pelo Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), amarrou a faixa à cabeça e começou a caminhar altivamente entre os soldados muçulmanos e os incrédulos. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Allah, o Senhor dos Mundos, não gosta desse tipo de comportamento, mas essa proibição não se aplica neste caso.”
A disposição dos soldados vindos de Meca
Os politeístas formaram os soldados em fileiras e os reuniram. O seu comandante era Abu Sufyan. Ele estabeleceu o seu centro no meio das tropas. Khalid ibn al-Walid estava à direita, e Ikrima ibn Abu Jahl, à esquerda. Safwan Umayya comandava a infantaria. Já Abdullah ibn Rabi’a foi encarregado de enfrentar os arqueiros.
Um pequeno grupo dos Banu Abd al-Dar carregava o estandarte de guerra. Os Banu Abd al-Dar haviam recebido essa honra quando os privilégios herdados de Qusay, dos Banu Abd Manaf, foram distribuídos entre eles. No início do livro, ninguém podia sequer criar qualquer disputa a esse respeito. Porém, Abu Sufyan lembrou-lhes a situação que os coraixitas haviam enfrentado depois que o porta-estandarte Nadr ibn al-Harith fora capturado na batalha de Badr. Ao recordar-lhes isso, Abu Sufyan disse, para provocar a ira dos porta-estandartes: “Ó Banu Abd al-Dar, no dia da batalha de Badr, fostes vós que carregastes o nosso estandarte. Mas vistes que situação tivemos de enfrentar naquela ocasião. Na verdade, o estandarte de guerra é a alma da batalha. Quando o estandarte cai, os soldados comuns perdem o equilíbrio. Desta vez, ou protegereis devidamente o nosso estandarte, ou deixareis de carregá-lo. Nós mesmos providenciaremos quem o carregue.” O objetivo de Abu Sufyan com esse discurso foi alcançado. Ao ouvirem as suas palavras inflamadas, os Banu Abd al-Dar ficaram tomados de intensa cólera. “Nós entregaremos o estandarte a vós? Quando a luta começar amanhã, vereis o que faremos.” No dia seguinte, quando a batalha começou, cada homem dos Banu Abd al-Dar segurou o estandarte com firmeza e dedicação. No fim, porém, todos chegaram ao Inferno, um após o outro.
As manobras políticas dos coraixitas
Pouco antes do início da batalha, os coraixitas tentaram provocar divisão e discórdia mútua entre os soldados muçulmanos. Abu Sufyan enviou uma mensagem aos Ansar: “Se vos afastardes do espaço entre nós e o nosso primo Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), não vos atacaremos, pois não temos necessidade de lutar convosco.” Mas como poderia uma manobra diplomática desse tipo ter êxito diante de uma fé perante a qual nem as montanhas conseguem permanecer firmes? Os Ansar enviaram a Abu Sufyan uma resposta severa e também lhe dirigiram algumas palavras ásperas.
Depois de se aproximarem uns dos outros, os coraixitas recorreram a outra artimanha. O idólatra Fásiq Abu Amir apresentou-se diante dos muçulmanos. O nome desse homem era Abd Amr ibn Sayfi. Ele era chamado de Rahib. Mas o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, deu-lhe o nome de Fásiq. Esse homem era o chefe da tribo de Aws na época da ignorância. Após o advento do Islã, o Islã tornou-se um espinho na sua garganta. Ele iniciou uma hostilidade aberta contra o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Saindo de Medina, chegou a Meca e dirigiu-se aos coraixitas, incitando-os e encorajando-os à guerra. Ele também garantiu aos incrédulos que as tribos do meu povo que haviam aceitado o Islã correriam para mim ao me verem no campo de batalha.
Junto com os habitantes de Meca, esse homem chamado Abd Amr apresentou-se primeiro diante dos muçulmanos e chamou os membros do seu próprio povo. Revelando sua identidade, disse: «Ó membros da tribo de Aws, eu sou Abu Amir.» Ao ouvirem essa identificação, os membros da tribo de Aws responderam: «Ó Fásiq, que Allah, Senhor dos mundos, jamais permita que teus olhos tenham alegria.» Ao ouvir isso, Abu Amir disse: «Ó meu povo, vocês se tornaram maus depois que parti.» Quando a batalha começou, esse homem lutou com todas as suas forças ao lado dos incrédulos e contra os muçulmanos. Atirou muitas pedras contra os mujahidin muçulmanos.
Assim, também fracassou a segunda tentativa dos coraixitas de criar divisão entre os muçulmanos. Isso demonstra quão intenso era o medo dos politeístas diante dos muçulmanos, apesar de sua superioridade numérica e de seu grande poderio bélico, e quão pequenos e insignificantes eles próprios se consideravam diante da personalidade dos muçulmanos.
O papel das mulheres não muçulmanas
As mulheres dos coraixitas também participaram da batalha. Eram lideradas por Hind bint Utba, esposa de Abu Sufyan. Percorrendo as fileiras dos soldados em combate e tocando o daff, essas mulheres incitavam os soldados. Além de inspirá-los para a guerra, exortavam-nos a demonstrar habilidade no arremesso de lanças e no uso da espada e das flechas. Dirigindo-se aos porta-estandartes, diziam em versos:
«Vede, ó Banu Abd al-Dar,
vede, vós sois a glória dos descendentes,
demonstrai habilidade no uso da espada.»
Às vezes, incitando os homens de seu povo à guerra, dizia:
“Se avançarem, abraçarei vocês
e os apertarei contra o meu peito.
Prepararei camas macias
Mas, se recuarem, ficarei ressentido
e partirei para longe, deixando vocês.”
O primeiro estopim da batalha
Em seguida, os dois grupos se posicionaram frente a frente, e a batalha começou. Do lado dos coraixitas, Talha ibn Abu Talha Abdari avançou. Esse homem era considerado o maior guerreiro entre os coraixitas. Os muçulmanos o chamavam de sapo do exército. Montado em um camelo, Talha desafiou os muçulmanos para um combate. Pensando em sua extraordinária bravura, os muçulmanos comuns hesitavam. De repente, Hazrat Zubair (que Allah esteja satisfeito com ele) avançou e, num piscar de olhos, saltou como um tigre sobre o camelo de Talha. No instante seguinte, subjugou Talha e saltou para o chão. Talha também caiu. Hazrat Zubair (que Allah esteja satisfeito com ele) desembainhou a espada e degolou Talha.
O Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, ficou tomado de alegria ao ver a imensa bravura de Hazrat Zubair (que Allah esteja satisfeito com ele) e proclamou: Allahu Akbar. Os muçulmanos também gritaram em voz alta: Nara-e-Takbir, Allahu Akbar. Em seguida, o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, elogiou Hazrat Zubair (que Allah esteja satisfeito com ele) e disse: “Todo profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, tem um hawari; meu hawari é Zubair. [O autor da obra Sirat-e-Halabiya registrou esta declaração. Em outro lugar foi mencionada a declaração do Profeta (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) sobre Hazrat Zubair (que Allah esteja satisfeito com ele), no Hadith Sharif].
Início da batalha geral e a derrota dos incrédulos
Depois disso, o incêndio da batalha espalhou-se por todos os lados. Em todo o campo, houve ataques indiscriminados e contra-ataques. A bandeira dos coraixitas estava no centro do campo de batalha. Após o assassinato de seu comandante, Talha ibn Abu Talha, os Banu Abdud Dar passaram a carregar a bandeira alternadamente entre si. Mas todos foram mortos, um após o outro. Depois que Talha foi morto, seu irmão Uthman ibn Abu Talha tomou a bandeira nas mãos, avançou e disse:
“O dever de quem carrega a bandeira é difícil
que a lança fique ensanguentada ou se quebre”
Hazrat Hamza ibn Abdul Muttalib (que Allah esteja satisfeito com ele) atacou Uthman. Hazrat Hamza (que Allah esteja satisfeito com ele) golpeou o ombro de Uthman com a espada com tamanha força que, cortando-lhe o braço e o ombro, a espada chegou até perto do umbigo. Depois que a espada foi retirada, seus intestinos ficaram visíveis.
Após o assassinato de Uthman, Abu Sa’d ibn Abu Talha avançou. Hazrat Sa’d ibn Abu Waqqas (que Allah esteja satisfeito com ele) lançou uma flecha contra ele. A flecha atravessou-lhe a garganta e, quando sua língua saiu, Abu Sa’d morreu imediatamente. Alguns autores de obras sobre a vida do Profeta escreveram que, quando Abu Sa’d avançou e desafiou para um combate, Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) avançou para enfrentá-lo. Embora cada um tivesse golpeado o outro uma vez, Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) permaneceu ileso. Abu Sa’d, porém, foi morto.
Depois que Abu Sa’d foi morto, Mus’ab ibn Abu Talha tomou a bandeira. Mas Hazrat Asim ibn Thabit ibn Abu Aflah (que Allah esteja satisfeito com ele) lançou uma flecha e o matou.
Depois que Mosafa foi morto, seu irmão, ou seja, Kelab ibn Talha, filho de Talha, tomou a bandeira e avançou. Hazrat Zubair ibn Awam (que Allah esteja satisfeito com ele) dirigiu-se até ele e, após um breve combate, também o enviou para junto de seu pai.
Depois, Jilas ibn Abu Talha, sobrinho de Mosafa e de Kelab, tomou a bandeira. Hazrat Talha ibn Ubaidullah (que Allah esteja satisfeito com ele) matou-o lançando-lhe uma lança. Segundo outro relato, Jelas foi morto por Hazrat Asim ibn Thabit ibn Aflah (que Allah esteja satisfeito com ele), que lhe lançou uma flecha.
Seis homens da mesma família foram mortos sucessivamente. Eram filhos e netos de Abu Talha Abdullah ibn Uthman ibn Abdud Dar. Todos perderam a vida enquanto carregavam e defendiam a bandeira dos politeístas.
Em seguida, outro homem da tribo dos Banu Abdud Dar, chamado Artat ibn Shuraybil, ergueu a bandeira. Porém, Hazrat Ali ibn Abu Talib (que Allah esteja satisfeito com ele) — segundo outra opinião, Hazrat Hamza ibn Abdul Muttalib (que Allah esteja satisfeito com ele) — matou-o. Depois, Shuraih ibn Qariz levantou a bandeira. Kinatu Kuzman matou-o. Kuzman era um hipócrita e havia vindo lutar não por zelo pelo Islã, mas movido pelo desejo de proteger sua honra.
Depois de Shuraih, Abu Zaid Amr ibn Abd Manaf Abdari ergueu a bandeira. Mas Kuzman também o matou. Em seguida, um filho de Shurahbil ibn Hashim Abdai levantou a bandeira. Porém, ele também morreu pelas mãos de Kuzman.
Os dez homens da tribo dos Banu Abdud Dar que haviam erguido a bandeira dos politeístas morreram todos, um após o outro. Depois disso, não restou ninguém vivo para levantar a bandeira. Nesse momento, porém, um escravo deles chamado Mawab tomou a bandeira e lutou com mais bravura do que seus antigos senhores, que haviam carregado a bandeira. Por fim, suas duas mãos foram cortadas, uma após a outra. Ainda assim, apoiando-se nos joelhos e usando o peito e os ombros, continuou mantendo a bandeira erguida. Finalmente, também foi morto pelas mãos de Kuzman. Naquele momento, disse: “Ó Allah, agora não deixei nenhuma desculpa.” Depois que esse escravo, isto é, Mawab, foi morto, a bandeira caiu ao chão, pois não havia restado ninguém capaz de levantá-la. Por isso, ela permaneceu caída no chão.
Enquanto a batalha prosseguia no local onde era carregada a bandeira dos politeístas, combates violentos também se desenrolavam em várias partes do campo. A força da fé era poderosa no coração dos muçulmanos. Por isso, eles se lançavam sobre os incrédulos como uma torrente. Gritavam: “Amte, amete”, isto é, “Morte, morte”.
Hazrat Abu Dujana (que Allah esteja satisfeito com ele) amarrou uma faixa vermelha à cabeça, tomou a espada do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e cumpria plenamente o direito daquela espada. Enquanto lutava, avançava para muito longe. Todo infiel contra quem lutava era retirado deste mundo. Ele abriu caminho, eliminando fileira após fileira dos incrédulos.
Hazrat Zubair ibn Al-Awwam (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: Quando pedi uma espada ao Mensageiro de Allah, que as bênçãos e a paz de Allah estejam sobre ele, ele não ma deu. Fiquei triste com isso. Pensei comigo mesmo: sou filho de Hazrat Safiyya (que Allah esteja satisfeito com ela), tia paterna do amado Profeta, que as bênçãos e a paz de Allah estejam sobre ele; pertenço à tribo dos coraixitas e fui até ele antes de Abu Dujana para pedir uma espada, mas ele não ma deu; deu-a a Abu Dujana. Portanto, juro por Allah, observarei que bravura Abu Dujana demonstrará com essa espada. Depois disso, mantive-me seguindo Abu Dujana. Primeiro, Abu Dujana amarrou uma faixa vermelha na cabeça. Ao vê-lo, os ansares disseram: “Abu Dujana retirou a faixa da morte.” Em seguida, ele avançou em direção ao campo de batalha, recitando este poema:
“Aos pés daquela montanha, fiz uma promessa ao meu amigo.
Jamais permanecerei atrás das fileiras
Avançarei à frente e brandirei a espada de Allah.”
Enquanto recitava esse poema, Abu Dujana matava todos aqueles que encontrava à sua frente. Um infiel percorria o campo de batalha, matando os muçulmanos feridos. Esse homem e Hazrat Abu Dujana (que Allah esteja satisfeito com ele) aproximavam-se cada vez mais. Desejei em meu íntimo: “Que Allah faça com que os dois entrem em confronto.” Pouco depois, os dois entraram em combate. Eles atacaram-se mutuamente. Primeiro, o idólatra atacou Hazrat Abu Dujana (que Allah esteja satisfeito com ele). Ele defendeu-se do golpe com o escudo. A espada do idólatra ficou presa no escudo. Então Hazrat Abu Dujana (que Allah esteja satisfeito com ele), com um único golpe de espada, lançou o pagão no Inferno. [Ibn Hisham, volume II, pp. 58–69].
Depois disso, Hazrat Abu Dujana (que Allah esteja satisfeito com ele) avançou, abrindo fileira após fileira. A certa altura, chegou até a líder das mulheres coraixitas. Ele não sabia que eram mulheres. Disse: “Vi uma pessoa incitando os guerreiros a demonstrarem ainda mais bravura. Apontei para ela. Porém, quando quis atacá-la com a espada, ela soltou um grito de morte. Ao ouvir esse grito, Hazrat Abu Dujana (que Allah esteja satisfeito com ele) percebeu que era uma mulher. Ele disse: ‘Pensei: não mancharei esta espada matando uma mulher com a espada do Mensageiro de Allah, que as bênçãos e a paz de Allah estejam sobre ele.’”
Essa mulher era Hind bint Utba, esposa de Abu Sufyan. Hazrat Zubair (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Vi Hazrat Abu Dujana (que Allah esteja satisfeito com ele) erguer a espada sobre a cabeça de Hind e depois baixá-la novamente. Então eu disse: ‘Allah, o Altíssimo, e Seu Mensageiro, que as bênçãos e a paz de Allah estejam sobre ele, sabem melhor.’” [Ibn Hisham, volume II, p. 69].
Enquanto isso, Hazrat Hamza (que Allah esteja satisfeito com ele) lutava como um tigre enfurecido. Com uma bravura e uma coragem incomparáveis, avançava, rompendo as formações inimigas. Diante dele, grandes e valentes guerreiros desapareciam como folhas levadas pela tempestade de Karb Vaisakhi. Por desempenhar um papel louvável na aniquilação dos idólatras, tornou-se um terror para os infiéis no campo de batalha. Ao verem aquela situação, alguns idólatras, sem coragem de enfrentá-lo diretamente, golpearam-no sorrateiramente, como covardes e pusilânimes. Com esse golpe, o Senhor dos Mártires, Hazrat Hamza (que Allah esteja satisfeito com ele), caiu ao chão.
O martírio de Hazrat Hamza (que Allah esteja satisfeito com ele), o Leão de Deus
O assassino de Hazrat Hamza (que Allah esteja satisfeito com ele) chamava-se Wahshi ibn Harb. Relataremos o episódio do martírio de Hazrat Hamza nas palavras de seu assassino, Wahshi. Depois de se tornar muçulmano, ele disse: Eu era escravo de Jubayr ibn Mut’im. Seu tio, Tu’ayma ibn ‘Adi, havia sido morto na batalha de Badr. Às vésperas de os coraixitas partirem para a batalha de Uhud, Jubayr ibn Mut’im me disse: “Se você conseguir matar Hamza, tio de Muhammad, em vingança pela morte de meu tio, será libertado.” Depois de receber essa proposta, parti com os coraixitas para a batalha de Uhud. Eu era habitante da Abissínia. Assim como os abissínios, eu também era exímio no arremesso de lanças. Minha lança raramente errava o alvo. Quando a batalha se espalhou amplamente, comecei a procurar Hazrat Hamza. Em certo momento, cheguei a vê-lo. Ele avançava, despedaçando os homens à sua frente como um camelo indomável. Nenhum obstáculo conseguia resistir diante dele. Ninguém era capaz sequer de permanecer à sua frente.
Juro por Allah que eu me preparava para atacar Hazrat Hamza e estava escondido atrás de uma pedra ou de uma árvore, quando Siba ibn Abd al-‘Uzza passou por mim e chegou até ele. Hazrat Hamza bradou para Siba: “Ó filho do circuncidador dos órgãos íntimos, tome isto!” Dizendo isso, golpeou o pescoço de Siba com a espada de tal maneira que sua cabeça se separou do corpo como se jamais tivesse estado sobre seu pescoço. Então ergui a lança e a arremessei contra Hazrat Hamza. A lança penetrou abaixo do umbigo e atravessou entre suas pernas, saindo pelas costas. Ele caiu e tentou se levantar, mas não conseguiu. Deixei-o em agonia até que desse seu último suspiro. Por fim, ele faleceu. Quando me aproximei dele, retirei a lança e fui sentar-me entre os coraixitas. Eu não tinha desejo nem necessidade de ferir ninguém além de Hazrat Hamza. Matei Hazrat Hamza apenas para obter minha liberdade. Depois, assim que retornei a Meca, fui libertado. Ibn Hisham, volume II, páginas 69–72. Sahih al-Bukhari, volume II, página 583. Wahshi aceitou o Islã depois da batalha de Ta’if. Com a mesma lança com que matou Hazrat Hamza, atingindo-o, matou Musaylima, o Mentiroso, na batalha de Yamama, durante o califado de Hazrat Abu Bakr al-Siddiq. Ele também participou da batalha de Yarmuk, travada contra os romanos.
O sucesso dos muçulmanos
O martírio de Hazrat Hamza (que Allah esteja satisfeito com ele), o Leão de Deus e Leão do Mensageiro, causou aos muçulmanos uma perda grave e irreparável. Apesar disso, os sinais do sucesso dos muçulmanos na batalha tornaram-se claramente evidentes. Hazrat Abu Bakr, Hazrat Umar, Hazrat Ali, Hazrat Zubayr, Hazrat Mus’ab ibn Umayr, Hazrat Talha ibn Ubaydullah, Hazrat Abdullah ibn Jahsh, Hazrat Sa’d ibn Mu’adh, Hazrat Sa’d ibn Ubadah, Hazrat Sa’d ibn al-Rabi’ e Hazrat Nadr ibn Anas (que Allah esteja satisfeito com eles) lutaram com tamanha bravura e coragem que os incrédulos ficaram aterrorizados, seu ânimo desmoronou e sua força e coragem se enfraqueceram.
Do leito nupcial ao campo do jihad
Entre os mujahidin de coração devotado estava Hazrat Hanzala (que Allah esteja satisfeito com ele). Naquele dia, ele compareceu ao campo do jihad com uma glória incomparável. Era filho de Abu Amir, o Monge. Mais tarde, Abu Amir recebeu o título de Al-Fasiq, o Perverso. Sua identidade já foi mencionada anteriormente. Hazrat Hanzala havia se casado recentemente. Quando foi feito o chamado para o jihad, ele estava no leito nupcial. Assim que ouviu o chamado para o jihad, partiu para o combate. Depois que a batalha se espalhou amplamente, Hazrat Hanzala rompeu as fileiras dos incrédulos e chegou rapidamente até Abu Sufyan. Ele estava prestes a golpear o comandante dos incrédulos, mas Allah, o Senhor dos mundos, havia decretado seu martírio. No momento em que Abu Sufyan levantou a espada para atacá-lo, Shaddad ibn Aws o avistou e lançou um ataque repentino contra Hazrat Hanzala. Assim, ele alcançou o martírio.
O feito dos arqueiros
Os arqueiros que o Profeta — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — havia colocado em Jabal al-Rumah para uma missão específica desempenharam um papel importante para assegurar a vitória e o sucesso dos muçulmanos na batalha. Os não muçulmanos de Meca, sob a liderança de Khalid ibn al-Walid e com o auxílio de Abu Amir al-Fasiq, lançaram três ataques sucessivos para romper a ala esquerda do exército islâmico e derrotar os muçulmanos. Porém, os muçulmanos frustraram seus esforços. Com uma chuva de flechas, despedaçaram os coraixitas. [Veja Fath al-Bari, volume 7, página 346].
A derrota dos politeístas
Durante algum tempo, travou-se uma batalha intensa. Esse pequeno grupo de muçulmanos cobria todo o campo de batalha. Por fim, o moral dos politeístas foi abalado. Começaram a pensar em recuar. Começaram a dispersar-se para a direita e para a esquerda, para a frente e para trás. Os muçulmanos combatiam contra três mil soldados. Demonstravam fé, certeza, bravura e coragem, exibindo sua excelência no manejo das espadas.
Diante do ataque irresistível dos muçulmanos, os incrédulos ficaram desorientados. Sem conseguir decidir o que fazer, começaram a fugir. Ao ver o destino lamentável dos porta-estandartes da batalha, ninguém mais tinha coragem de segurar o estandarte. Seu moral desmoronou. Todas as grandes palavras que haviam proferido sobre vingar-se dos muçulmanos, recuperar sua dignidade e honra, e assim por diante, ficaram completamente desordenadas.
Ibn Ishaq escreveu que Allah fez descer Seu auxílio sobre os muçulmanos e cumpriu a promessa que lhes havia feito. Os muçulmanos golpearam os politeístas com as espadas de tal maneira que eles fugiram para longe, abandonando até mesmo o acampamento. Em suma, sofreram uma derrota lamentável. Abdullah ibn al-Zubayr (que Allah esteja satisfeito com ele) disse que seu pai contou: “Juro por Allah, vi os joelhos de Hind bint Utba e das mulheres que a acompanhavam. Elas fugiam correndo, levantando as roupas. Não havia obstáculo, grande ou pequeno, para capturá-las.” [Ibn Hisham, volume 2, p. 77].
É narrado no Sahih al-Bukhari, por meio de Bara ibn Azib (que Allah esteja satisfeito com ele), que ele disse: “Quando nos defrontamos com os incrédulos, instalou-se grande alvoroço entre eles. Vi as mulheres fugindo rapidamente em direção à região montanhosa, levantando as roupas acima dos joelhos. A maior parte de suas pernas estava visível.” [Sahih al-Bukhari, volume 2, p. 579]. Em meio a essa desordem e tumulto, os muçulmanos golpeavam os politeístas com as espadas, recolhiam os bens e os perseguiam.
O erro suicida dos arqueiros
Justamente quando o pequeno grupo de muçulmanos assinalava nas páginas da história uma vitória singular contra os habitantes de Meca, a maioria dos arqueiros cometeu um erro terrível. No entanto, o sucesso dos muçulmanos nesta batalha não foi de modo algum inferior ao da batalha de Badr. Mas o terrível erro dos arqueiros mudou completamente o curso da batalha. Os muçulmanos sofreram perdas gravíssimas. Por causa desse erro, a imagem dos muçulmanos, conquistada na batalha de Badr, ficou prejudicada.
Já foi mencionado que o Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, ordenara aos arqueiros que permanecessem firmes e imóveis em seus postos tanto em caso de vitória quanto de derrota. Contudo, apesar da ordem do amado Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, ao verem os outros muçulmanos recolhendo os espólios, os arqueiros não conseguiram controlar a cobiça. Alguns disseram uns aos outros: “Os espólios, os espólios! Vossos companheiros venceram; o que estais esperando agora?”
Depois que tais palavras foram proferidas entre os arqueiros, seu comandante, Abdullah ibn Zubayr, que Allah esteja satisfeito com ele, lembrou-lhes a ordem do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, dizendo: “Esquecestes o que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, vos ordenou?” Contudo, a maioria dos arqueiros não deu atenção às palavras de Abdullah, que Allah esteja satisfeito com ele. Eles disseram: “Por Allah, nós também iremos até eles e certamente obteremos uma parte dos espólios.” [Isso é narrado por Bara ibn Azib, que Allah esteja satisfeito com ele, no Sahih al-Bukhari; veja a página 826.]
Então, quarenta arqueiros negligenciaram seu dever e começaram a recolher os espólios. Já Abdullah ibn Jabir, que Allah esteja satisfeito com ele, e seus nove companheiros permaneceram encarregados da guarda. Eles cumpriam seu dever com firme determinação e diziam: “Só partiremos daqui quando o Profeta e Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, nos disser para partir; caso contrário, sacrificaremos nossas próprias vidas.”
O exército muçulmano sob o controle dos inimigos
Khalid ibn al-Walid havia chegado a essa passagem montanhosa e recuado três vezes após fracassar. Dessa vez, não deixou escapar essa oportunidade de ouro. Em pouco tempo, Khalid matou Abdullah ibn Jabir, que Allah esteja satisfeito com ele, e seus companheiros, e atacou os muçulmanos pela retaguarda. Os companheiros de Khalid ibn al-Walid soltaram gritos em voz alta. Então, os incrédulos derrotados tomaram conhecimento da mudança na situação do campo de batalha e voltaram a atacar os muçulmanos com renovado ímpeto. Enquanto isso, uma mulher da tribo de Banu al-Harith, chamada Asrah bint Aq lama, ergueu bem alto a bandeira dos incrédulos, coberta de poeira. Os incrédulos dispersos começaram a se reunir ao redor dela. Chamaram uns aos outros e, em pouco tempo, os incrédulos começaram a lutar unidos contra os muçulmanos. Os muçulmanos ficaram então cercados pela frente e pela retaguarda. Parecia que estavam entre as pedras de um moinho.
A firme decisão e a corajosa iniciativa do Mensageiro de Allah
Naquele momento crítico, apenas nove Companheiros permaneciam com o Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Eles observavam a bravura dos Companheiros e os movimentos dos inimigos. [A prova disso está neste versículo, no qual Allah, o Altíssimo, diz que o Mensageiro vos chamava estando atrás de vós.] De repente, o Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, avistou a montaria de Khalid ibn al-Walid. A partir de então, havia dois caminhos diante do amado Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz: partir com seus nove companheiros para um lugar seguro, deixando entregues ao seu destino os Companheiros que estavam sob o controle dos inimigos; ou arriscar a própria vida, chamar e reunir os Companheiros dispersos, formar uma forte linha defensiva e abrir caminho para sair do cerco dos incrédulos e alcançar um lugar relativamente mais elevado.
Em um momento tão difícil de provação, o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, demonstrou uma bravura e uma coragem incomparáveis. Abandonando a ideia de buscar um abrigo seguro para preservar a própria vida, decidiu arriscar sua vida para salvar a vida dos Companheiros.
Ao ver a cavalaria de Khalid ibn al-Walid e seus companheiros, o Mensageiro, sallallahu alayhi wa sallam, chamou os Companheiros em voz alta e disse: “Ó servos de Allah, venham para cá.” O Mensageiro de Allah, sallallahu alayhi wa sallam, sabia que esse grito chegaria aos ouvidos dos incrédulos antes de chegar aos ouvidos dos muçulmanos. E foi exatamente isso que aconteceu. Ao ouvirem a voz do Mensageiro, sallallahu alayhi wa sallam, os incrédulos compreenderam que Muhammad, sallallahu alayhi wa sallam, estava ali mesmo. Depois de entenderem isso, um grupo de incrédulos chegou até o Mensageiro, sallallahu alayhi wa sallam, antes dos muçulmanos. Os demais incrédulos começaram rapidamente a cercar os muçulmanos. Agora, lançaremos uma luz separadamente sobre as ações dos dois exércitos.
Desordem entre os muçulmanos
Depois de serem envolvidos pelo cerco dos incrédulos, um grupo de muçulmanos ficou completamente desorientado. A preocupação em salvar a própria vida também se tornou predominante entre eles. Por isso, começaram a fugir do campo de batalha. Eles não sabiam o que estava acontecendo atrás deles. Alguns foram para Medina, e outros buscaram refúgio no topo da montanha. Outro grupo foi para a retaguarda e acabou misturando-se aos incrédulos. Já não era possível distinguir quem era incrédulo e quem era muçulmano. Como resultado, muçulmanos começaram a ser mortos pelas mãos de muçulmanos. É narrado no Sahih al-Bukhari, sob a autoridade de Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela), que, no dia de Uhud, os politeístas haviam sido derrotados. Então Iblis gritou: “Ó servos de Allah, voltem para trás!” Com isso, os homens que estavam na frente foram para trás e acabaram misturando-se uns aos outros. Hazrat Hudhayfa (que Allah esteja satisfeito com ele) percebeu que seu pai, al-Yaman, estava sendo atacado. Ele disse: “Ó servos de Allah, este é o meu pai!” Mas, por Allah, as pessoas não pararam de golpeá-lo. Por fim, acabaram matando-o. Então Hazrat Hudhayfa (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Que Allah, o Senhor dos Mundos, nos perdoe.” Hazrat Urwa (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Por Allah, Hazrat Hudhayfa (que Allah esteja satisfeito com ele) permaneceu sempre firme no bem. Foi nesse estado que ele partiu para encontrar-se com Allah.” [Sahih al-Bukhari, volume 1, p. 539; Fath al-Bari, volume 7, pp. 325, 362 e 363. Além do Bukhari, algumas narrações mencionam que o Nobre Mensageiro, sallallahu alayhi wa sallam, quis pagar uma compensação pelo assassinato do pai de Hazrat Hudhayfa (que Allah esteja satisfeito com ele). Porém, Hazrat Hudhayfa (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Eu doei essa compensação como sadaqah aos muçulmanos.” Por essa razão, a importância e a estima de Hazrat Hudhayfa (que Allah esteja satisfeito com ele) aumentaram aos olhos do Profeta, sallallahu alayhi wa sallam. Veja Mukhtasar al-Siyar, escrito por Shaykh Abd al-Wahhab al-Najdi, p. 246.]
Em suma, surgiu extrema desordem e desorganização entre esse grupo. Muitos ficaram atônitos e não conseguiam compreender para que lado deveriam ir. Naquele momento, alguém anunciou em voz alta que Muhammad havia sido morto. Com isso, o restante da coragem dos muçulmanos também se desfez. Ao ouvirem esse anúncio, alguns muçulmanos pararam de lutar, desanimados, e lançaram ao chão as armas que tinham nas mãos. Alguns chegaram a pensar que deveriam encontrar-se com o líder hipócrita, Abdullah ibn Ubayy, e pedir-lhe que obtivesse para eles uma garantia de segurança junto a Abu Sufyan.
Pouco depois, Hazrat Anas ibn al-Nadr (que Allah esteja satisfeito com ele) passou por perto dessas pessoas. Ele viu vários Companheiros sentados em silêncio. Perguntou-lhes: “A quem vocês estão esperando?” Eles responderam: “O Mensageiro de Allah, sallallahu alayhi wa sallam, foi morto.” Hazrat Anas ibn al-Nadr disse: “Então, de que lhes servirá continuar vivos? Levantem-se! Pela mesma causa pela qual o Mensageiro de Allah, sallallahu alayhi wa sallam, deu a vida, deem também vocês a vida.” Em seguida, disse: “Ó Allah, Senhor dos Mundos, busco refúgio em Vossa presença contra tudo o que eles — isto é, esses muçulmanos — fizeram.” Depois de dizer isso, avançou. Mais adiante, encontrou Hazrat Sa’d ibn Mu’adh (que Allah esteja satisfeito com ele). Este perguntou: “Ó Abu Umar, para onde você está indo?” Hazrat Anas (que Allah esteja satisfeito com ele) respondeu: “O que posso dizer sobre a fragrância do Paraíso? Ó Sa’d, consigo sentir a fragrância do Paraíso do outro lado da montanha de Uhud.” Depois de dizer isso, Hazrat Anas (que Allah esteja satisfeito com ele) avançou ainda mais e foi martirizado enquanto lutava contra os incrédulos. Depois da batalha, já não era possível identificá-lo. Sua irmã o reconheceu pelos dedos. Seu corpo sagrado havia recebido oitenta ferimentos causados por lanças, flechas e espadas. [Zad al-Ma’ad, volume 2, pp. 92–93; Sahih al-Bukhari, volume 2, p. 579.]
Hazrat Thabit ibn al-Dahdah (que Allah esteja satisfeito com ele) dirigiu-se aos muçulmanos e disse: “Mesmo que Muhammad Mustafa, sallallahu alayhi wa sallam, tenha sido de fato morto, Allah, o Senhor dos Mundos, continua vivo. Ele é eterno. Lutem por sua religião. Allah, o Senhor dos Mundos, concedeu-lhes a vitória e o auxílio.”
Depois desse chamado, um grupo de Ansar preparou-se novamente para o jihad. Hazrat Thabit (que Allah esteja satisfeito com ele), levando-os consigo, atacou o exército de Khalid ibn al-Walid. Enquanto lutava, acabou sendo morto pelas mãos de Khalid ibn al-Walid. Foi morto por um golpe de lança. Assim como ele, seus companheiros Ansar também alcançaram o martírio enquanto lutavam. [As-Sirah al-Halabiyyah, volume 2, p. 22.]
Um Companheiro Muhajir passava perto de um Companheiro Ansari coberto de sangue. O Muhajir disse: “Ó irmão, o Mensageiro, sallallahu alayhi wa sallam, foi morto?” O Ansari respondeu: “Se Muhammad foi de fato morto, ele transmitiu a religião de Allah. Agora é responsabilidade de vocês lutar para proteger essa religião.” [Zad al-Ma’ad, volume 2, p. 99.]
Com palavras que transmitiam coragem e entusiasmo desse tipo, o exército islâmico recuperou o ânimo. Em vez de abandonar as armas e pedir, por intermédio do líder hipócrita Abdullah ibn Ubayy, garantias de segurança ao incrédulo Abu Sufyan, eles empunharam as armas. Em seguida, começaram a tentar abrir caminho através do inexpugnável cerco dos incrédulos para alcançar sua liderança central. Nesse momento, ouviram a notícia de que o relato do assassinato do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, era um rumor infundado. Com isso, a coragem e o moral dos muçulmanos aumentaram muitas vezes, e, por meio de uma luta feroz, conseguiram romper o cerco dos incrédulos e chegar perto de sua posição fortificada.
Um terceiro grupo do exército islâmico pensava unicamente na segurança do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Assim que souberam do cerco dos incrédulos, correram em direção ao Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Entre esses Companheiros estavam Abu Bakr, Umar e Ali, que Allah esteja satisfeito com eles, entre outros. Eles também estavam na primeira linha do campo de batalha, mas, quando a vida do Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, ficou ameaçada, correram para junto dele a fim de protegê-lo.
A batalha sangrenta ao redor do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele
Enquanto os nobres Companheiros eram esmagados pelo cerco dos incrédulos, semelhante às mós de um moinho, ao mesmo tempo travava-se uma batalha sangrenta ao redor do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Já foi mencionado que, no início do cerco dos incrédulos, havia apenas nove Companheiros ao redor do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Quando ele convocou os muçulmanos, dizendo: “Vinde até mim; eu sou o Mensageiro de Allah”, esse chamado chegou aos ouvidos dos incrédulos antes de chegar aos muçulmanos. Assim, eles o reconheceram, pois naquele momento estavam muito próximos do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Consequentemente, lançaram um ataque contra o amado Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Antes que os muçulmanos pudessem se reunir, exerceram uma pressão terrível. Naquele momento, os incrédulos entraram em confronto com os nove Companheiros que estavam ao redor do nobre Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, para repelir o ataque. Nesse confronto, os Companheiros demonstraram de maneira extraordinária seu amor pelo amado Profeta, bem como seu heroísmo e sua coragem.
Está narrado no Sahih Muslim que, no dia de Uhud, em certo momento o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, ficou isolado com aqueles nove Companheiros. Entre eles havia sete Ansar e dois Muhajirun. Quando os atacantes chegaram muito perto do Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, o amado Profeta disse: “Quem está disposto a afastá-los de mim? Para ele haverá o Paraíso.” Ou teria dito: “Essa pessoa será minha companheira no Paraíso.” Então, um Companheiro ansari avançou e foi martirizado enquanto lutava. Depois disso, os politeístas chegaram ainda mais perto do amado Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Um após outro, sete Companheiros ansar foram martirizados na batalha defensiva. O Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse aos dois Companheiros coraixitas muhajirun que estavam com ele: “Não fomos justos com nossos companheiros.” [Sahih Muslim, capítulo sobre a batalha de Uhud, volume 2, p. 107].
O último dos sete Companheiros ansar mencionados foi Ammara ibn Yazid ibn Sakan, que Allah esteja satisfeito com ele. Enquanto lutava, ele também ficou coberto de ferimentos e, após algum tempo, caiu. [Pouco depois, um grupo de Companheiros chegou junto ao nobre Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Eles o afastaram dos incrédulos e levaram Ammara, que Allah esteja satisfeito com ele, até o nobre Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. O nobre Profeta permitiu que ele repousasse sobre sua própria coxa. Nessa posição, ele deu seu último suspiro. Seu martírio enquanto tocava os pés do amado Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, pode ser expresso nas palavras de um poeta: “Que minha morte seja aos teus pés; este é o único desejo do meu coração, nada mais”.]
Depois que Ammara ibn Yazid, que Allah esteja satisfeito com ele, caiu, restavam junto ao Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, apenas dois Companheiros coraixitas. Está narrado no Bukhari e no Muslim que Abu Uthman, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: “Quando o Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, estava lutando, ninguém estava com ele nessa luta além de Talha ibn Ubaydullah, que Allah esteja satisfeito com ele.” [Sahih al-Bukhari, volume 1, p. 527; volume 2, p. 581].
Aquele era o momento de maior crise na vida do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Para os incrédulos, era uma oportunidade de ouro. Na realidade, eles não demonstraram qualquer negligência em aproveitá-la. Lançaram um ataque total contra o amado Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, querendo eliminá-lo de uma vez por todas. Naquele momento, Utba ibn Abu Waqqas atirou pedras contra o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Com o impacto, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, caiu ao chão. Seu dente rubaiya do lado direito da mandíbula inferior foi quebrado. [Os dois dentes frontais, superior e inferior, das gengivas superior e inferior dentro da boca são chamados thanaya. Os dentes à direita e à esquerda deles são chamados rubaiya]. Seu lábio inferior foi cortado. Abdullah ibn Shihab al-Zuhri avançou e golpeou a testa do amado Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Um perverso malfeitor chamado Abdullah ibn Qamiah avançou e golpeou com tanta força o ombro do amado Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, com sua espada, que ele continuou sentindo a dor desse golpe durante um mês. Contudo, o golpe não conseguiu atravessar sua armadura de ferro. O malfeitor Ibn Qamiah ergueu a espada e golpeou o amado Profeta uma segunda vez. O golpe atingiu o osso abaixo do olho direito, e duas argolas ficaram cravadas em seu rosto. [Um capacete de ferro ou de pedra. Durante a guerra, usa-se esse tipo de capacete para proteger a cabeça e o rosto. As duas argolas do capacete ficaram cravadas, devido ao golpe da espada, no lado direito do rosto do amado Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, abaixo do olho. Subhanallah!]
Imediatamente, aquele malfeitor disse: “Toma isto; eu sou Qamiah, isto é, o filho do Destruidor.” Enquanto limpava o sangue de seu rosto abençoado, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Que Allah te despedace completamente.” [Allah aceitou a súplica do Mensageiro (que a paz esteja sobre ele). Ibn Aiz narrou que, depois de voltar para casa ao término da batalha, Ibn Qamiah saiu à procura de suas cabras. Descobriu-se que uma delas estava numa montanha. Ele subiu a montanha para trazê-la de volta. De repente, uma cabra montanhesa atingiu-o com os chifres e lançou-o ao sopé da montanha. Fath al-Bari, volume 7, página 373. Segundo a narração de at-Tabarani, ele havia lançado uma cabra contra Ibn Qamiah. Essa cabra despedaçou Ibn Qamiah com uma chifrada. Fath al-Bari, volume 7, página 366].
É narrado no Sahih al-Bukhari que o dente rubā‘ī do Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, foi quebrado e que ele foi ferido na cabeça. Naquele momento, o Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, limpava o sangue que escorria por seu rosto e dizia: “Como poderá prosperar aquele povo que feriu o rosto de seu próprio Profeta e quebrou seus dentes, enquanto ele os convoca ao caminho de Allah, Senhor dos mundos?” Depois que o Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse isso, Allah, Senhor dos mundos, revelou este versículo [Sahih Muslim, volume 2, página 108]: “Não te compete decidir se Ele os perdoará ou os castigará, pois são injustos.” (Al Imran, versículo 128)
Segundo uma narração de at-Tabarani, o Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse naquele dia: “Que recaia sobre esse povo o severo castigo de Allah, que ensanguentou o rosto de seu próprio Profeta.” Pouco depois, ele disse: “Ó Allah, Senhor dos mundos, perdoa o meu povo, pois eles não sabem.” [Fath al-Bari, volume 7, página 323].
Também é narrado no Sahih Muslim que o Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, repetidamente dizia: “Ó meu Senhor, perdoa o meu povo, pois eles não sabem.” [Sahih Muslim, capítulo sobre a batalha de Uhud, volume 2, página 108].
Isso também é mencionado na obra Ash-Shifa, de Qadi Iyad: “Ó Allah, concede orientação ao meu povo, pois eles não sabem.” [Kitab ash-Shifa bi-Ta‘rif Huquq al-Mustafa, volume 1, página 81].
Sem dúvida, os incrédulos queriam matar o amado Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Porém, Talhah (que Allah esteja satisfeito com ele) e Sa‘d ibn Abi Waqqas (que Allah esteja satisfeito com ele), por meio de um sacrifício incomparável, extraordinária bravura e coragem, frustraram os esforços dos incrédulos. [Sahih al-Bukhari, volume 1, página 407]. Ambos eram arqueiros altamente habilidosos da Arábia. Disparando flechas continuamente, afastaram os incrédulos de perto do amado Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. A habilidade e a perícia de Sa‘d ibn Abi Waqqas (que Allah esteja satisfeito com ele) ficam demonstradas pelo fato de que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, não disse a nenhum outro Companheiro, em nenhuma circunstância, que seu pai e sua mãe fossem sacrificados por ele, isto é, que lhe fossem devotados. [Sahih al-Bukhari, volume 1, página 407; volume 2, páginas 580–581].
A descrição da bravura de Talhah (que Allah esteja satisfeito com ele) pode ser conhecida por meio de um hadith narrado no Sunan an-Nasa’i. Nesse hadith, Jabir (que Allah esteja satisfeito com ele) menciona o ataque dos incrédulos ao Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, quando apenas alguns Companheiros estavam presentes diante do Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Jabir (que Allah esteja satisfeito com ele) disse que, quando os politeístas cercaram o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, ele perguntou: “Quem está disposto a lutar contra eles?” Talhah (que Allah esteja satisfeito com ele) respondeu: “Eu estou.” Em seguida, Jabir (que Allah esteja satisfeito com ele) relata como os Ansar avançaram e foram martirizados um após o outro. Já mencionamos anteriormente esse relato com base no Sahih Muslim.
Jabir (que Allah esteja satisfeito com ele) disse que, depois que os Ansar foram martirizados, Talhah (que Allah esteja satisfeito com ele) avançou e demonstrou bravura sozinho diante de onze homens. Em certo momento, a mão dele foi atingida pela espada de um incrédulo, e um de seus dedos foi cortado. Imediatamente, ele pronunciou as palavras “is si”. O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Se tivesses pronunciado agora a palavra Bismillah, os anjos de Allah ter-te-iam elevado diante de todos.” Jabir (que Allah esteja satisfeito com ele) disse que, depois disso, Allah fez os incrédulos voltar para o outro lado. [Fath al-Bari, volume 7, página 361; Sunan an-Nasa’i, volume 2, páginas 52–53].
Foi relatado por al-Hakim em várias obras que, no dia de Uhud, Talha sofreu trinta e nove ou trinta e cinco ferimentos no corpo. Dois de seus dedos, incluindo o indicador, ficaram paralisados. [Fath al-Bari, volume sete, página 361].
O imame Bukhari narrou, através de Qays ibn Abi Hazim, que ele disse: “Observei que a mão de Talha (que Allah esteja satisfeito com ele) havia ficado paralisada. Foi com essa mão que, no dia de Uhud, ele protegeu o Profeta — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. [Sahih Bukhari, volume um, páginas 527 e 581].”
Foi narrado no Tirmidhi Sharif que, naquele dia, o Mensageiro — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — disse: “Quem quiser ver um mártir caminhando sobre a terra, que olhe para Talha ibn Ubaydullah (que Allah esteja satisfeito com ele).” [Tirmidhi].
Abu Dawud al-Tayalisi narrou, através de Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela), que Abu Bakr al-Siddiq (que Allah esteja satisfeito com ele), ao falar sobre a batalha de Uhud, costumava dizer: “O mérito exclusivo daquele dia pertenceu a Talha.” [Fath al-Bari, volume sete, página 361]. Isto é, naquela batalha, foi ele quem mais cumpriu o dever de proteger o Profeta — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) também disse o seguinte sobre Talha (que Allah esteja satisfeito com ele):
“Ó Talha, os jardins do Paraíso já te foram destinados.
Em tua morada haverá incontáveis huris de olhos grandes. [Mukhtasar Tarikh Dimashq, volume sete, página 82; nota de rodapé de Sharh Zajuruz Zahab, página 114].”
Naquele momento crítico, Allah, o Senhor dos Mundos, enviou ajuda do invisível. Sa’d (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “No dia de Uhud, vi junto do Mensageiro — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — dois homens vestidos de branco. Eles lutavam bravamente em defesa do Profeta — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Nunca tinha visto aqueles dois homens antes nem depois disso.” Outra narração afirma que os dois eram Jibril (que a paz esteja sobre ele) e Mikail (que a paz esteja sobre ele). [Bukhari, volume dois, página 580].
Os Companheiros reúnem-se ao lado do Profeta
O incidente mencionado ocorreu repentinamente, em poucos instantes. Os companheiros escolhidos do Profeta — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — que, desde o início da batalha, lutavam na primeira fileira, correram até o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — assim que perceberam a mudança da situação e ouviram o chamado do Profeta — que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Eles tentavam impedir que acontecesse algo desagradável. Contudo, antes que esses companheiros chegassem até o Profeta — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — ele já havia sido gravemente ferido. Até então, seis companheiros ansar haviam sido martirizados, e o sétimo companheiro ansari, coberto de ferimentos, havia caído. Hazrat Sa‘d e Hazrat Talha continuavam travando uma luta defensiva com todas as forças para proteger o amado Profeta — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — dos ataques dos incrédulos. Assim que chegaram, os companheiros deram uma resposta esmagadora ao ataque total dos incrédulos contra o Profeta — que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Naquele momento, demonstraram coragem e bravura incomparáveis. O primeiro a correr até o amado Profeta — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — foi Hazrat Abu Bakr Siddiq.
Ibn Hibban narrou em sua obra Sahih, citando Hazrat Aisha, que Hazrat Abu Bakr disse: No dia de Uhud, todos os companheiros haviam se afastado do Profeta — que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Isto é, exceto seus guarda-costas, todos haviam avançado para a primeira fileira para combater. Depois do incidente em que os incrédulos cercaram o Profeta, fui o primeiro a correr até ele. Ao chegar junto do Profeta — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — vi um homem lutando para protegê-lo. Pensei comigo mesmo: “Você só pode ser Talha. Que meus pais sejam sacrificados por você.” Nesse momento, Hazrat Abu Ubaidah ibn al-Jarrah veio correndo até mim. Nós dois fomos para junto do Profeta — que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Percebemos que Hazrat Talha estava caído diante do Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz. O Mensageiro de Allah disse: “Levantem seu irmão. Ele assegurou para si o Paraíso.” Hazrat Abu Bakr disse: Quando chegamos, também vimos que um elo metálico afiado da armadura do amado Profeta — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — havia penetrado abaixo de seu olho. Tentei removê-lo, mas Abu Ubaidah disse: “Eu lhes suplico em nome de Allah: deixem que eu o retire.” Então ele prendeu um dos elos com os dentes e o retirou lentamente, para que o Profeta — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — sentisse menos dor. Finalmente, conseguiu retirar um elo. Com isso, um dente da mandíbula inferior de Hazrat Abu Ubaidah caiu. Tentei retirar o segundo elo, mas Abu Ubaidah disse: “Abu Bakr, suplico-lhe por Allah: deixe que eu o retire.” Então ele também retirou o segundo elo, e outro dente de sua mandíbula inferior se quebrou. Depois, o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — disse: “Cuidem de seu irmão Talha. Ele assegurou para si o Paraíso.” Hazrat Abu Bakr disse: Em seguida, voltamos nossa atenção para Hazrat Talha. Seu corpo tinha mais de oitenta ferimentos. [Zad al-Ma‘ad, volume dois, página 95].
Isso permite compreender com que bravura, abnegação e coragem Hazrat Talha lutou naquele dia.
Naquele momento crítico, um grupo de companheiros totalmente devotados ao Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — chegou até ele. Eram Hazrat Abu Dujana, Hazrat Mus‘ab ibn Umair, Hazrat Ali ibn Abu Talib, Hazrat Sahl ibn Hunayf, Hazrat Malik ibn Sinan (pai de Hazrat Abu Sa‘id al-Khudri), Hazrat Umm Ammara Nusaiba bint Ka‘b Mazina, Hazrat Qatada ibn al-Nu‘man, Hazrat Umar ibn al-Khattab, Hazrat Hatib ibn Abu Balta‘a e Hazrat Abu Talha.
O violento ataque dos inimigos contra os muçulmanos
Enquanto isso, o número de inimigos ao redor do Profeta — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — aumentava. Consequentemente, seus ataques também se intensificavam. Em certo momento, o Profeta — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — caiu dentro de uma cova e feriu o joelho. Abu Amir, o Ímpio, havia cavado várias covas desse tipo para prejudicar os muçulmanos, levado por sua inclinação satânica. Depois que o Profeta — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — caiu na cova, Hazrat Ali segurou sua mão, e Hazrat Talha ibn Ubaidullah abraçou o Profeta — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — e o ergueu.
Nafi ibn Jabir disse: Ouvi um companheiro emigrado dizer: Eu estava presente na batalha de Uhud. Vi flechas sendo lançadas contra o Profeta — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — de todas as direções. Ele estava no meio das flechas, mas os companheiros recebiam aquelas flechas lançadas contra ele. Também ouvi Abd Allah ibn Shihab al-Zuhri dizer: “Digam-me, onde está Muhammad? Agora ou ele permanecerá, ou eu permanecerei.” Entretanto, o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — estava ao lado dele, sem que houvesse mais ninguém junto dele naquele momento. Certa vez, Ibn Shihab avançou. Então Safwan o repreendeu. Em resposta, Ibn Shihab disse: “Juro por Allah, não o vi. Ele foi protegido de nossos olhares.” Depois, nós quatro saímos comprometidos a matar Muhammad — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — (que Allah nos proteja). Mas não conseguimos sequer nos aproximar dele. [Zad al-Ma‘ad, volume dois, página 97].
Abnegação e coragem sem precedentes
Naquele momento, os muçulmanos demonstraram uma coragem e um espírito de sacrifício tão extraordinários que não há outro exemplo semelhante na história. Hazrat Abu Talha (que Allah esteja satisfeito com ele) posicionou-se de peito aberto diante do Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Para proteger o amado Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, das flechas lançadas pelos inimigos, Hazrat Abu Talha colocou-se em uma posição um pouco mais elevada. Hazrat Anas (que Allah esteja satisfeito com ele) disse que, no dia de Uhud, os muçulmanos comuns, depois de serem derrotados, fugiam correndo de um lado para outro, sem se aproximarem do amado Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Hazrat Abu Talha (que Allah esteja satisfeito com ele), segurando um escudo, posicionou-se diante do amado Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, como uma barreira de defesa. Ele era um arqueiro habilidoso e disparava as flechas com grande destreza. Naquele dia, quebrou dois arcos, ou talvez três. Quando alguém passava ao lado do Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, levando um arco, o Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, dizia: “Entregue-o a Abu Talha (que Allah esteja satisfeito com ele).” Quando o Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, levantava a cabeça para olhar para as pessoas, Hazrat Abu Talha (que Allah esteja satisfeito com ele) dizia: “Que meu pai e minha mãe sejam sacrificados por ti; não levantes a cabeça para olhar. Que Deus não permita que uma flecha atinja teu corpo sagrado. Meu peito está diante do teu peito.” [Sahih Bukhari, volume 2, página 97].
Também foi narrado por Hazrat Anas (que Allah esteja satisfeito com ele) que Hazrat Abu Talha (que Allah esteja satisfeito com ele) formou uma barreira de defesa com um escudo, colocando-se diante do Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Hazrat Abu Talha (que Allah esteja satisfeito com ele) era um arqueiro habilidoso. Depois de disparar uma flecha, o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, levantava a cabeça para ver onde ela havia atingido. [Sahih Bukhari, volume 1, página 406].
Hazrat Abu Dujana (que Allah esteja satisfeito com ele) aproximou-se e posicionou-se diante do Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, voltado para ele, oferecendo as próprias costas como escudo. As flechas lançadas pelos inimigos cravavam-se em suas costas, mas ele não se movia nem um pouco.
Hazrat Hatib ibn Abi Balta’a (que Allah esteja satisfeito com ele) perseguiu Utba ibn Abi Waqqas. Utba golpeava com extrema força o corpo do Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, com a espada. Hazrat Hatib (que Allah esteja satisfeito com ele) tomou a espada e o cavalo de Utba e o matou. Hazrat Sa’d ibn Abi Waqqas (que Allah esteja satisfeito com ele) procurava uma oportunidade para matar seu irmão Utba. Mas essa honra coube a Hazrat Hatib (que Allah esteja satisfeito com ele).
Hazrat Sahl ibn Hunayf (que Allah esteja satisfeito com ele) também era um destacado arqueiro. Ele prestou ao Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, o juramento de lutar até a morte. Lutou com grande bravura no campo de batalha.
O próprio Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, também disparava flechas. Foi narrado por Hazrat Qatada ibn al-Nu’man (que Allah esteja satisfeito com ele) que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disparou uma flecha de seu arco. Com isso, uma das extremidades do arco se quebrou. Mais tarde, Hazrat Qatada ibn al-Nu’man (que Allah esteja satisfeito com ele) ficou com aquele arco, que permaneceu em sua posse. Naquele dia, Hazrat Qatada (que Allah esteja satisfeito com ele) sofreu um ferimento tão grave no olho que este saltou para fora do rosto. O Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, recolocou aquele olho em seu lugar com sua mão sagrada. Mais tarde, entre os dois olhos, justamente aquele parecia mais bonito. A visão daquele olho também era mais aguçada.
Hazrat Abd al-Rahman ibn Awf (que Allah esteja satisfeito com ele) sofreu um golpe muito forte no rosto enquanto lutava. Com isso, quebrou-se um de seus dentes frontais. Ele recebeu vinte ou vinte e dois ferimentos. Também foi ferido na perna, ficando manco.
Hazrat Abu Sa’id al-Khudri (que Allah esteja satisfeito com ele) narra que Malik ibn Manana chupou e limpou o sangue do rosto do Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. O Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse-lhe: “Cospe.” Ele respondeu: “Juro por Allah que não vou cuspir.” Depois, voltou-se e continuou lutando. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Quem quiser ver um homem do Paraíso, que olhe para Malik ibn Manana (que Allah esteja satisfeito com ele).” Em seguida, ele continuou lutando até ser martirizado.
O papel das mulheres muçulmanas na batalha de Uhud também foi incomparável. A companheira Umm Ammara, Nusaiba bint Ka’b (que Allah esteja satisfeito com ela), demonstrou uma coragem extraordinária. Lutando ao lado de alguns muçulmanos, ela chegou diante de Ibn Qomma. Quando Ibn Qomma a golpeou com a espada, ela sofreu um ferimento no ombro. Ela também golpeou Ibn Qomma várias vezes com a própria espada. Contudo, como Ibn Qomma estava usando uma armadura, nenhum golpe o atingiu. Hazrat Umm Ammara recebeu doze golpes enquanto lutava.
Hazrat Mus’ab ibn Umair (que Allah esteja satisfeito com ele) demonstrou uma bravura e coragem extraordinárias. Ele repeliu os golpes de Ibn Qomma e de outros dirigidos ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Era ele quem carregava a bandeira do Islã. Os soldados inimigos golpearam sua mão direita com tanta força que ela foi decepada. Então ele ergueu a bandeira do Islã com a mão esquerda. Porém, no ataque dos inimigos, sua mão esquerda também foi decepada. Então ele segurou a bandeira contra o peito com os braços e a manteve erguida. Nessa posição, alcançou o martírio. Seu assassino foi Abdullah ibn Qomma. Esse malfeitor confundiu Hazrat Mus’ab (que Allah esteja satisfeito com ele) com o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). O rosto de Hazrat Mus’ab (que Allah esteja satisfeito com ele) tinha certa semelhança com o rosto do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Depois de matar Hazrat Mus’ab (que Allah esteja satisfeito com ele), Ibn Qomma foi até os incrédulos e gritou: “Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) foi morto.” [Ibn Hisham, volume II, páginas 73, 80 e 83; Zad al-Ma’ad, volume II, página 97].
A notícia do martírio do Profeta e sua repercussão
Quando Ibn Qomma espalhou a notícia de que o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) havia sido morto, ela chegou aos muçulmanos e aos incrédulos em poucos instantes. Era um momento extremamente delicado. Com isso, o moral dos companheiros que lutavam longe do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) desmoronou. Muitos ficaram completamente desnorteados. Os companheiros dispersaram-se em todas as direções. Instalou-se uma grande desordem. Contudo, houve um benefício: o ataque dos incrédulos cessou temporariamente, pois eles pensaram que seu objetivo principal havia sido alcançado. Muitos politeístas deixaram de atacar os muçulmanos e passaram a saciar sua fúria demoníaca nos corpos dos mártires. Eles mutilavam os corpos dos mártires.
Controle da situação dos muçulmanos
Após o martírio de Hazrat Mus’ab ibn Umair (que Allah esteja satisfeito com ele), o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) entregou a bandeira a Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele). Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) lutou bravamente. Alguns outros companheiros presentes também travaram uma resistência e contra-ataques com uma bravura e coragem incomparáveis. Depois de algum tempo de combate, surgiu a possibilidade de o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) abrir caminho até os companheiros que estavam próximos. O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) dirigiu-se até eles para encontrar um refúgio seguro. Nesse momento, Hazrat Ka’b ibn Malik (que Allah esteja satisfeito com ele) foi o primeiro a reconhecê-lo. Gritando de alegria, disse: “Ó muçulmanos, boas-novas para vocês: ele é o Mensageiro de Allah.” O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) fez-lhe um sinal para que ficasse calado, a fim de que os inimigos não o reconhecessem. Mas os muçulmanos ouviram aquela voz e, pouco depois, os companheiros começaram a aproximar-se do amado Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Em pouco tempo, trinta companheiros estavam presentes.
Depois disso, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) começou a dirigir-se ao desfiladeiro da montanha, isto é, ao acampamento dos muçulmanos. Como o objetivo dos incrédulos fracassaria se o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) chegasse ao acampamento, eles fizeram esforços desesperados para bloquear seu caminho. Mas o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) avançou protegido por um grupo de companheiros devotados. Nesse momento, um malfeitor chamado Uthman ibn Abdullah ibn Mughirah avançou em direção ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), dizendo: “Ou eu permanecerei, ou ele permanecerá.” Contudo, não conseguiu avançar muito, pois seu cavalo caiu em um buraco cavado por Abu Amir, o perverso. Enquanto isso, Hazrat Harith (que Allah esteja satisfeito com ele) avançou rugindo contra ele e desferiu um golpe violento de espada em sua perna, enviando-o para o Inferno. Depois de retirar-lhe as armas, Hazrat Harith (que Allah esteja satisfeito com ele) chegou até o nobre Mensageiro. Nesse ínterim, um soldado inimigo chamado Abdullah ibn Jabir golpeou com a espada o ombro de Hazrat Harith (que Allah esteja satisfeito com ele). Mas os muçulmanos o capturaram. Logo depois, Hazrat Abu Dujana (que Allah esteja satisfeito com ele), usando uma faixa vermelha na cabeça, lançou-se sobre Abdullah ibn Jabir e decepou-lhe a cabeça com um golpe de espada.
Vejam o prodígio do poder divino: mesmo em meio a uma batalha de vida ou morte como aquela, os muçulmanos sentiam sono. De acordo com o versículo do Sagrado Alcorão, isso era um sinal da tranquilidade concedida por Allah. Hazrat Abu Talha (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Durante a terrível batalha de Uhud, eu estava entre aqueles que sentiam sono. Sob o efeito do sono, a espada caiu várias vezes da minha mão. A situação chegou a tal ponto que a espada caía, e eu a apanhava. Isso aconteceu várias vezes.” [Sahih Bukhari, volume II, página 582].
Em suma, após um esforço desesperado, o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — e um número limitado de Companheiros chegaram ao acampamento dos muçulmanos, situado na passagem da montanha. Assim, a estratégia militar de Khalid ibn al-Walid empalideceu diante da estratégia militar do Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele.
A morte de Ubay ibn Khalaf
Ibn Ishaq narrou que, depois que o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — chegou à passagem, Ubay ibn Khalaf avançou, dizendo: “Onde está Muhammad? Ou eu permanecerei vivo, ou ele permanecerá vivo.” Os Companheiros disseram ao Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele —: “Ó Mensageiro de Allah, devemos atacá-lo?” O Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — pegou uma pequena lança de al-Harith e avançou em sua direção. Foi exatamente como quando uma mosca pousa sobre o corpo e este dá um pequeno estremecimento, fazendo-a voar. Em seguida, o Profeta — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — foi ao encontro de Ubay. Havia um pequeno espaço descoberto junto à garganta, entre o capacete e a armadura de Ibn Umayya. O Profeta — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — lançou a lança em direção àquele ponto. Com isso, Ubay, quase caindo do cavalo, conseguiu se recompor e voltou para junto de seu povo.
Havia apenas um pequeno corte em sua garganta. O ferimento também não era grave, e tampouco saía sangue. Ainda assim, ele começou a gritar: “Por Allah, Muhammad me matou!” As pessoas lhe disseram: “Que tolice estás dizendo? Teu ferimento não é tão grave; parece apenas um pequeno arranhão.” Ubay respondeu: “Ele me disse em Meca: ‘Eu te matarei.’” [O ocorrido foi o seguinte: quando Ubay encontrava o Nobre Mensageiro em Meca, dizia orgulhosamente: “Ó Muhammad, tenho um cavalo chamado Awad. Dou-lhe diariamente três saa, isto é, sete quilos e meio de alimento. Um dia, montado nesse cavalo, eu te matarei.” Em resposta, o Nobre Mensageiro — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — dizia: “Talvez ocorra o contrário. Se Allah quiser, serei eu quem te matará.”] Portanto, por Allah, minha vida chegará ao fim.” Por fim, esse inimigo declarado de Allah morreu no lugar chamado Sarf, a caminho de Meca. [Ibn Hisham, volume II, página 84; Zad al-Ma’ad, volume II, página 97.] Abu al-Aswad narrou, sob a autoridade de Urwah — que Allah esteja satisfeito com ele —, que Ubay gritava como uma vaca e dizia: “Juro por Aquele em cuja mão está minha vida: se os habitantes de Dhu al-Majaz sentissem a dor e o sofrimento que estou sentindo, todos morreriam.” [Mukhtasar Sirat al-Rasul, Sheikh Abdullah, página 250.]
A sinceridade de Talha
Enquanto o Nobre Profeta — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — retornava em direção à montanha, surgiu um lugar elevado. O Profeta — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — não conseguia subir; por um lado, seu corpo havia ficado pesado, pois vestia duas armaduras, e, além disso, estava gravemente ferido. Talha ibn Ubaydullah — que Allah esteja satisfeito com ele — ajoelhou-se e ajudou o Profeta — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — a subir, carregando-o sobre os ombros. Desse modo, o Profeta — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — ultrapassou aquele lugar elevado. Então disse: “Talha garantiu para si o Paraíso.” [Ibn Hisham, volume II, página 86.]
O último ataque dos inimigos
Depois que o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — se refugiou em segurança dentro da passagem, os inimigos fizeram uma última tentativa de derrotar os muçulmanos. Ibn Ishaq disse que, depois que o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — entrou na passagem, um grupo de não muçulmanos, liderado por Abu Sufyan e Khalid ibn al-Walid, tentou subir. O Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — suplicou: “Ó Allah, Altíssimo, não permitas que eles subam.” Em seguida, Umar ibn al-Khattab — que Allah esteja satisfeito com ele — e um grupo de Companheiros emigrados combateram-nos e fizeram-nos descer para o sopé da montanha. [Ibn Hisham, volume II, página 86.]
Quando alguns soldados inimigos subiram, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse a Hazrat Sa‘d (que Allah esteja satisfeito com ele): “Expulsa-os para trás.” Hazrat Sa‘d perguntou: “Como poderei fazê-lo sozinho?” O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) repetiu essa ordem três vezes. Então Hazrat Sa‘d (que Allah esteja satisfeito com ele) retirou uma flecha da sua aljava e atirou-a contra um dos inimigos. Aquele malfeitor morreu ali mesmo. Hazrat Sa‘d (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Depois atirei aquela flecha; eu conhecia aquele homem. Ele morreu ali mesmo. Com o disparo daquela flecha, matei outro homem. Em seguida, os soldados inimigos desceram. Eu disse: ‘Esta é uma flecha abençoada.’ Depois guardei aquela flecha na minha aljava. Enquanto isso, os inimigos já haviam descido. Mais tarde, aquela flecha permaneceu com Hazrat Sa‘d (que Allah esteja satisfeito com ele). Depois dele, seus filhos conservaram-na. [Zad al-Ma‘ad, volume 2, página 95]
A mutilação dos mártires
Este foi o último ataque dos soldados inimigos contra o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). Naquele momento, eles ainda não haviam compreendido claramente a situação do amado Profeta (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). Contudo, presumiram que ele havia sido morto. Por isso, retornaram ao seu acampamento e começaram a preparar-se para voltar a Meca. Nesse momento, alguns homens e mulheres politeístas começaram a mutilar os corpos dos mártires. Cortaram-lhes as partes íntimas, as orelhas, os narizes e outros membros. Abriram o abdômen de alguns deles. Hind bint ‘Utba, esposa de Abu Sufyan, abriu o peito de Hazrat Hamza (que Allah esteja satisfeito com ele), retirou-lhe o fígado e começou a mastigá-lo. Como não conseguiu engoli-lo, cuspiu-o. Além disso, fez colares com os narizes e as orelhas cortados e usou-os no pescoço e nos pés como adornos. [Ibn Hisham, volume 2, página 90]
Os muçulmanos preparam-se para a batalha final
Ao final, ocorreram dois acontecimentos que permitem compreender facilmente quão firmemente os muçulmanos devotados estavam determinados a continuar lutando até o fim. Isso também demonstra que era imenso o seu desejo de sacrificar a vida para alcançar a satisfação de Allah, o Senhor dos Mundos.
Primeiro acontecimento: Hazrat Ka‘b ibn Malik disse: “Eu era um deles. Observei que os mártires estavam sendo profanados pelas mãos dos muçulmanos. Parei por um momento e avancei. Vi um homem de corpo enorme, vestido com uma armadura, passando por cima dos corpos dos mártires. Outro muçulmano avançava em direção àquele homem. Olhei para ambos e avaliei mentalmente a força dos dois. Pareceume que as armas do incrédulo eram melhores que as do muçulmano. Fiquei esperando pelos dois. Em certo momento, ambos entraram em combate. Aquele muçulmano golpeou o incrédulo com uma tahbari com tanta força que o incrédulo foi partido ao meio e caiu no chão. O muçulmano mascarado retirou a máscara e disse: ‘Ó Ka‘b, o que achaste do feito?’ Eu sou Abu Dujana. [Al-Bidaya wa’n-Nihaya, volume 4, página 17]
Segundo acontecimento: depois da batalha, alguns muçulmanos chegaram a Medina vindos do campo de batalha. Hazrat Anas (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Vi Hazrat Aisha bint Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ela) e Umm Sulaym (que Allah esteja satisfeito com ela) carregando odres de água, com as vestes levantadas acima dos tornozelos, e dando aquela água aos muçulmanos.” [Sahih al-Bukhari, volume 1, p. 403; volume 2, página 581]
Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “No dia de Uhud, Umm Sulayt (que Allah esteja satisfeito com ela) trazia para nós água em odres cheios.” [Sahih al-Bukhari, volume 1, p. 403]
Entre as mulheres que trouxeram água estava também Hazrat Umm Ayman. Ao ver os muçulmanos derrotados entrando em Medina, ela atirava poeira em seus rostos e dizia: “Aqui estão os instrumentos para fiar; agora entreguem suas espadas às nossas mãos.” (Naquela época, as mulheres árabes fiavam mediante pagamento. Muitas usavam diversos ornamentos feitos de fio, semelhantes às pulseiras usadas pelas mulheres de nosso país. Aqui, em termos locais, pode-se dizer: “Usem estas pulseiras e entreguem as espadas às nossas mãos.”) Depois, ela chegou rapidamente ao campo de batalha e começou a dar água aos feridos. Um homem chamado Hibban ibn Arqa atirou uma flecha contra Hazrat Umm Ayman (que Allah esteja satisfeito com ela). Quando ela caiu, seu véu se abriu. O inimigo de Allah viu aquilo e começou a rir alto. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) observava a situação e ficou muito contrariado. Ele deu uma flecha a Hazrat Sa’d ibn Abi Waqqas (que Allah esteja satisfeito com ele) e disse: “Atire-a.” Sa’d atirou a flecha. A flecha de Hazrat Sa’d (que Allah esteja satisfeito com ele) atravessou a garganta de Hibban, e ele caiu de costas. Seu véu se abriu. Com isso, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) riu bastante. Então disse: “Sa’d vingou Umm Ayman; que Allah, o Senhor dos mundos, aceite sua súplica.” (As-Sirat al-Halabiyya, volume dois, página 22)
Depois de se refugiar no desfiladeiro
Depois que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) se refugiou no desfiladeiro da montanha, Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) trouxe água de Mihras em seu escudo. Mihras é uma espécie de poço feito de pedra. Diz-se que Mehram era uma fonte de Uhud. Hazrat Ali trouxe aquela água e a ofereceu ao Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) para beber. Porém, ao sentir certo odor, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) não bebeu a água; lavou com ela o ferimento do rosto e derramou um pouco sobre a cabeça. Naquele momento, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) dizia: “Que Allah faça recair um severo castigo sobre aquele que feriu o rosto do Mensageiro de Allah.” (Ibn Hisham, volume dois, página 85)
Hazrat Sahl (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Vi quem lavou o sangue do rosto do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), quem derramou a água e quem tratou o ferimento. Hazrat Fatima (que Allah esteja satisfeito com ela), a amada filha do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), lavava seu ferimento. Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) derramava a água. Hazrat Fatima percebeu que, mesmo depois de derramar a água, o sangue continuava a escorrer e não parava de modo algum. Então ela pegou um pedaço de esteira, queimou-o no fogo e aplicou as cinzas sobre o ferimento do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Imediatamente, o sangue parou.” (Sahih al-Bukhari, volume dois, página 584)
Enquanto isso, Hazrat Muhammad ibn Maslama (que Allah esteja satisfeito com ele) trouxe água fresca e doce. O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) bebeu aquela água e suplicou a Allah pelo seu bem-estar. (As-Sirat al-Halabiyya, volume dois, página 30)
Por causa da dor dos ferimentos, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) realizou a oração do meio-dia sentado. Os nobres Companheiros também realizaram a oração sentados atrás dele. (Ibn Hisham, volume dois, página 87)
A arrogância de Abu Sufyan
Os politeístas infiéis de Meca preparavam-se para partir. Então Abu Sufyan subiu ao monte Uhud e perguntou: “Há algum Muhammad entre vocês?” Ninguém respondeu. Ele perguntou novamente: “Há entre vocês o filho de Abu Quhafa?” Ninguém respondeu. Perguntou mais uma vez: “Há entre vocês Umar ibn al-Khattab?” Dessa vez também ninguém respondeu. O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) havia proibido que respondessem. Além dos três mencionados, Abu Sufyan não perguntou por mais ninguém, pois sabia muito bem que era por meio desses três que o Islã estava sendo difundido e expandido. Não obtendo resposta, Abu Sufyan murmurou para si mesmo: “Enfim, estamos livres desses três.” Ao ouvir isso, Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) não conseguiu conter-se e disse: “Ó inimigo de Allah, todos aqueles cujos nomes mencionaste estão vivos. Allah reservou para ti instrumentos ainda mais terríveis de humilhação.” Ao ouvir isso, Abu Sufyan disse: “Os corpos dos vossos mortos foram mutilados e desfigurados. Eu não ordenei que fizessem isso, mas também não estou descontente com isso.” Em seguida, bradou: “Glória a Hubal!”
O Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Por que vocês não respondem?” Os nobres Companheiros disseram: “O que devemos responder?” O Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Digam: Allah, o Altíssimo, é grandioso e Todo-Poderoso.”
Abu Sufyan gritou: “Nós temos al-‘Uzza, e vocês não têm.”
O Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Por que vocês não respondem?” Os Companheiros perguntaram: “O que devemos responder?” O Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Digam: ‘Allahu maulana wa-la maula lakum.’” Isto é: “Allah, o Altíssimo, é o nosso Senhor; vocês não têm senhor.”
Então Abu Sufyan disse: “Que grande feito! Hoje é o dia da vingança pela batalha de Badr. A guerra é como um balde.” (Às vezes um lado vence, e às vezes o outro, assim como, ao puxar água com um balde, ora uma pessoa o ergue, ora a outra.)
Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) respondeu: “Não é igual. Os nossos que foram mortos estão no Paraíso, enquanto os seus que foram mortos estão no Inferno.”
Então Abu Sufyan disse: “Ó Umar, aproxime-se um pouco.” O Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Vá e veja o que ele quer dizer.” Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) avançou. Abu Sufyan disse: “Ó Umar, eu lhe pergunto, fazendo-o jurar por Allah: conseguimos matar Muhammad?” Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) respondeu: “Juro por Allah que não conseguiram. Pelo contrário, ele está ouvindo o que você diz neste momento.” Abu Sufyan disse: “Umar, para mim, você é ainda mais veraz do que Ibn Qum’ah.” (Ibn Hisham, segundo volume, pp. 93–94; Zad al-Ma‘ad, segundo volume, p. 94; Sahih al-Bukhari, segundo volume, p. 579.)
Outro compromisso para Badr
Ibn Ishaq (que Allah esteja satisfeito com ele) relata que, quando Abu Sufyan e seus companheiros estavam partindo, disseram: “Fica combinado que lutaremos novamente no campo de Badr no próximo ano.” O Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse a um dos Companheiros: “Diga-lhes: ‘Está bem, de acordo; fica assim combinado entre vocês e nós.’” (Ibn Hisham, segundo volume, p. 94.)
Observar os movimentos dos inimigos
Depois, o Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, ordenou a Hazrat Ali ibn Abu Talib (que Allah esteja satisfeito com ele) que seguisse os descrentes e disse: “Vá atrás deles e veja o que estão fazendo. Qual é a intenção deles agora? Se estiverem montados em cavalos e camelos, deve-se entender que estão indo em direção a Meca. Se estiverem montados em cavalos e conduzindo os camelos, deve-se entender que estão vindo para Medina.” Em seguida, disse: “Juro por Aquele em cuja mão está a minha vida: se eles tiverem partido pelo caminho de Medina, iremos a Medina e os enfrentaremos.” Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Então segui os descrentes e observei que estavam retornando a Meca montados em cavalos e camelos.” [Ibn Hisham, volume 2, página 64. Hafiz Ibn Hajar escreveu, no volume 7 de Fath al-Bari, página 347, que Hazrat Sa’d ibn Abi Waqqas (que Allah esteja satisfeito com ele) havia partido para descobrir a intenção dos politeístas.]
Cuidando dos mártires e dos feridos
Depois que os descrentes partiram, os muçulmanos começaram a procurar os mártires e os feridos. Hazrat Zayd ibn Thabit (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “No dia de Uhud, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, enviou-me para procurar Sa’d ibn Rabi (que Allah esteja satisfeito com ele). Disse-me que, se eu encontrasse Sa’d, lhe transmitisse a sua saudação e perguntasse como ele estava se sentindo. Hazrat Zayd (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Procurei entre os corpos dos mártires e o encontrei. Ao me aproximar, vi-o gemendo em agonia, à beira da morte. Seu corpo havia recebido setenta golpes de lanças, flechas e espadas. Eu disse: ‘Ó Sa’d, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, enviou-lhe a sua saudação e quis saber como você está se sentindo.’ Hazrat Sa’d ibn Rabi (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: ‘Transmitam a minha saudação ao Mensageiro de Allah. Digam-lhe que estou sentindo o aroma do Paraíso. Digam aos meus irmãos ansar que, se os inimigos conseguirem chegar até o Mensageiro de Allah enquanto ainda lhes restar sequer o movimento de um olho, então nenhuma desculpa ou justificativa lhes será útil diante de Allah.’ Logo após dizer isso, ele faleceu. [Zad al-Ma’ad, volume 2, página 96]
Entre os feridos, também foi encontrado um homem chamado Usayrim. Seu nome era Amr ibn Thabit (que Allah esteja satisfeito com ele). Ainda lhe restava algum sopro de vida. Anteriormente, ele havia sido convidado ao Islã, mas não aceitara o convite. Muitos, admirados, disseram: “Como Usayrim veio parar aqui? Nós o convidamos ao Islã, mas ele não aceitou.” Perguntaram-lhe: “Como você veio parar aqui? Você veio por amor ao Islã ou para fortalecer o seu povo?” Ele respondeu: “Vim por amor ao Islã. Creio em Allah, o Senhor dos mundos, e em Seu amado Mensageiro, e participei da batalha em apoio ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz.” Então ele faleceu. Quando perguntaram ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, sobre ele, respondeu: “Ele está entre os habitantes do Paraíso.” Hazrat Abu Hurayra (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “No entanto, ele não havia realizado sequer uma oração por Allah.” [Zad al-Ma’ad, volume 2, página 94; Ibn Hisham, volume 2, página 90] (Ele morreu como mártir antes que chegasse o horário de qualquer oração após aceitar o Islã.)
Entre os feridos, também foi encontrado um homem chamado Kuzman. Ele havia lutado ao lado dos muçulmanos naquela batalha e matara sete ou oito politeístas. Seu corpo estava coberto de numerosas feridas. Levaram-no ao bairro de Banu Zufar. Os muçulmanos deram-lhe a boa-nova. Ele disse: “Juro por Allah que lutei apenas pela honra do meu clã. Se não tivesse a preocupação de preservar a honra do meu clã, eu não teria lutado.” Quando a dor dos ferimentos se tornou intensa, Kuzman degolou-se e cometeu suicídio. Quando o assunto foi mencionado ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, ele disse: “Ele é um dos habitantes do Inferno.” [Zad al-Ma’ad, volume 2, páginas 97–98; Ibn Hisham, volume 2, página 88] Esse acontecimento confirmou a veracidade de uma profecia do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz.
Todos aqueles que lutam por seu país ou por qualquer outro objetivo que não seja elevar a palavra de Allah terão um fim como o de Kuzman. Mesmo que lutem sob a bandeira do Islã, acompanhando o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, ou os nobres Companheiros, ainda assim terão de enfrentar esse destino.
Entre os mortos havia também um judeu da tribo de Banu Sa’lam. Ele disse aos membros de sua tribo: “Juro por Allah, vocês sabem que é seu dever ajudar Muhammad.” Os judeus disseram: “Hoje é sábado.” O judeu respondeu: “Não há sábado para vocês.” Então ele partiu para o campo de batalha levando uma espada e os demais equipamentos necessários. Ao partir, disse: “Se eu morrer na batalha, Muhammad será o proprietário dos meus bens. Ele fará com eles o que quiser.” Depois, morreu lutando ao lado dos muçulmanos no campo de batalha. Ao ouvir tudo isso, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Ele foi um bom judeu.” [Ibn Hisham, volume 2, página 88]
Nessa ocasião, o Mensageiro de Allah também inspecionou os corpos dos mártires e disse: “Serei testemunha em favor deles.” Na verdade, quem é ferido no caminho de Allah será ressuscitado por Allah Todo-Poderoso no Dia da Ressurreição com o sangue escorrendo de suas feridas. A cor desse sangue será a mesma do sangue, mas dele emanará o aroma do almíscar. [Ibn Hisham, volume II, p. 98]
Alguns Companheiros transferiram para Medina os corpos de seus companheiros mártires mais próximos. Ao saber disso, o Mensageiro de Allah ordenou que os corpos daqueles mártires fossem sepultados no próprio local onde haviam alcançado o martírio. Ele disse: “Retirem as armas e as vestes de proteção dos mártires e sepultem-nos sem realizar o banho ritual.” O Mensageiro de Allah ordenou que os corpos de dois ou três Companheiros fossem sepultados na mesma sepultura. Também ordenou que os corpos de dois Companheiros fossem envolvidos no mesmo sudário e sepultados juntos. Depois de envolver dois Companheiros no mesmo sudário, o Mensageiro de Allah perguntava qual dos dois conhecia melhor o Nobre Alcorão. Aquele para quem os Companheiros apontavam era colocado na parte inferior da sepultura. Ele dizia: “No Dia da Ressurreição, testemunharei a respeito deles.” Abdullah ibn Amr ibn Haram e Amr ibn Jamuḥ foram sepultados na mesma sepultura, pois eram amigos íntimos. [Zad al-Maʿad, volume II, p. 98; Sahih al-Bukhari, volume II, p. 584] O corpo de Hanzala não foi encontrado. Depois de procurá-lo, foi encontrado em um lugar, e a água escorria de seu corpo. O corpo estava um pouco acima do solo. O Mensageiro de Allah disse aos Companheiros: “Os anjos estão dando-lhe o banho ritual.” Em seguida, disse: “Perguntem à sua esposa o que aconteceu.” Quando lhe perguntaram, ela contou o ocorrido. Desde então, Hanzala passou a ser chamado de Ghasil al-Malaika, isto é, aquele a quem os anjos deram o banho ritual. [Zad al-Maʿad, volume II, p. 94]
Ao ver o estado de seu tio Hamza, o Mensageiro de Allah ficou profundamente angustiado. Sua querida tia, Safiyyah, veio. Ela queria ver Hamza. Porém, o Mensageiro de Allah disse a Zubayr, filho de Safiyyah: “Leve-a de volta, para que ela não veja o estado de seu irmão.” Mas Safiyyah disse: “Por quê? Eu sei que os membros de meu irmão foram mutilados. Hamza estava no caminho de Allah. Portanto, aceitamos tudo o que aconteceu. Buscarei a paciência, se Allah quiser, esperando a recompensa.” Depois, aproximou-se de Hamza, viu-o, recitou “Inna lillahi”, suplicou por ele e pediu perdão para ele. Em seguida, o Mensageiro de Allah ordenou: “Sepultem Hamza junto com Abdullah ibn Jahsh.” Ele era sobrinho de Hamza e seu irmão de leite.
Abdullah ibn Masud relatou que nunca viu o Mensageiro de Allah chorar por alguém como chorou por Hamza. O querido Profeta colocou Hamza voltado para a qibla e, depois, permaneceu chorando junto à sua oração fúnebre, de tal modo que ouvimos o som intenso de seu choro. [Esta é uma narração de Ibn Shadhan. Veja Mukhtasar al-Siyar, de Shaykh Abdullah, p. 355.]
A situação dos mártires era verdadeiramente comovente. Khabbab ibn al-Aratt relatou: “Não foi encontrado outro sudário para Khabbab além de uma capa com uma faixa preta. Quando se cobria a cabeça com essa capa, os pés ficavam descobertos; quando se cobriam os pés, a cabeça ficava descoberta. Por fim, deixaram os pés descobertos e cobriram-nos com capim idhkhir [um tipo de capim aromático. Em muitos lugares, esse capim é misturado ao chá durante o preparo].” [Musnad Ahmad, Kitab al-Shahadat, volume I, p. 140]
Abd al-Rahman ibn Awf alcançou o martírio. Ele era melhor do que eu. Foi envolvido em um único sudário. Quando sua cabeça era coberta com esse sudário, os pés ficavam descobertos; quando os pés eram cobertos, a cabeça ficava descoberta. Khabbab também relatou essa condição de seu sudário. Acrescentou, porém, que, ao ver seu estado, o Mensageiro de Allah nos dizia: “Cubram sua cabeça com o sudário e coloquem capim ukhkir sobre seus pés.” [Sahih al-Bukhari, volume II, pp. 579–584]
A súplica do Mensageiro de Allah perante Allah
Segundo uma narração do Imam Ahmad, depois que os politeístas recuaram no dia de Uhud, o Mensageiro de Allah disse aos Companheiros: “Formem fileiras, pois louvarei um pouco o meu Senhor.” Em seguida, disse: “Ó Allah, Senhor dos mundos, todo louvor pertence a Ti. Ninguém pode restringir aquilo que Tu amplias, e ninguém pode ampliar aquilo que Tu restringes. Aquele a quem Tu desvias, ninguém pode guiar; e aquele a quem Tu guias, ninguém pode desviar. Aquilo que Tu reténs, ninguém pode conceder; e aquilo que Tu concedes, ninguém pode reter. Aquilo que Tu afastas, ninguém pode aproximar; e aquilo que Tu aproximas, ninguém pode afastar. Ó Allah, Senhor dos mundos, derrama sobre nós Tuas bênçãos, Tua misericórdia, Tua graça e Teu sustento.”
Ó Allah, peço-Te uma bênção permanente, uma bênção que jamais terminará. Ó Allah Todo-Poderoso, peço-Te auxílio nos dias de pobreza e segurança nos dias de medo. Ó Allah, busco refúgio em Ti contra o mal de tudo aquilo que nos concedeste e também contra o mal de tudo aquilo que não nos concedeste. Ó Allah, fortalece a nossa fé e embeleza os nossos corações. Faze com que não apreciemos a descrença, a perversidade e a desobediência, e inclui-nos entre os que foram guiados. Ó Allah, concede-nos a morte enquanto formos muçulmanos e ressuscita-nos na Outra Vida como muçulmanos. Mantém-nos afastados da humilhação, da sedição e da corrupção. Inclui-nos entre os Teus servos virtuosos. Ó Allah, trata com severidade e lança no castigo aqueles incrédulos que matas, que desmentem os Teus profetas e impedem as pessoas de seguir o Teu caminho. Ó Allah, destrói também os incrédulos aos quais foi dado o Livro. [Al-Bukhari, Al-Adab al-Mufrad; Musnad Ahmad, volume III, página 324.]
O Retorno a Medina
Depois de sepultar os mártires e suplicar a Allah, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, partiu em direção a Medina. Assim como os Companheiros haviam demonstrado dedicação e sacrifício no campo de batalha, os familiares dos mártires também demonstraram igual sacrifício e paciência.
A caminho de Medina, o Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, encontrou Hamna bint Jahsh, que Allah esteja satisfeito com ela. Seu irmão, Abdullah ibn Jahsh, que Allah esteja satisfeito com ele, havia sido martirizado na batalha. Ao ouvir a notícia do martírio, Hamna pronunciou “Inna lillahi” e suplicou pelo perdão de seu irmão. Em seguida, informaram-lhe o martírio de seu tio materno, Hamza ibn Abd al-Muttalib, que Allah esteja satisfeito com ele. Ela pronunciou novamente “Inna lillahi” e suplicou pelo perdão. Depois, informaram-lhe o martírio de seu marido, Musab ibn Umayr, que Allah esteja satisfeito com ele. Ao ouvir isso, ela soltou um grito e começou a chorar convulsivamente. O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “O marido ocupa uma posição especialmente elevada para uma mulher.” [Ibn Hisham, volume II, página 98]
Os Companheiros encontraram uma mulher da tribo de Banu Dinar. Seu marido, seu irmão e seu pai também haviam sido martirizados. Informaram-lhe o martírio deles. Ao ouvir isso, ela perguntou: “Como está o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele?” Disseram-lhe que ele estava bem. A mulher disse: “Quero apenas vê-lo.” Então, seguindo a indicação dos Companheiros, mostraram-lhe o Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Imediatamente, a mulher começou a chorar soluçando e disse: “Kullu musibatin ba‘duka jalalun”, isto é: “Enquanto o senhor estiver presente, toda calamidade é insignificante.” [Ibn Hisham, volume II, página 99] Nessa ocasião, a mãe de Sa‘d ibn Mu‘adh, que Allah esteja satisfeito com ele, correu até o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Naquele momento, Sa‘d, que Allah esteja satisfeito com ele, segurava as rédeas do cavalo do amado Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Ele disse: “Ó Mensageiro de Allah, esta é a minha mãe.” O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Seja bem-vinda.” Em seguida, o Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, parou o cavalo em consideração àquela mulher. Quando ela se aproximou, o Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, informou-a do martírio de seu filho, Amr ibn Mu‘adh, e pediu-lhe que tivesse paciência. A mulher disse: “Depois de vê-lo em boas condições, toda calamidade se tornou insignificante para mim.” Em seguida, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, suplicou pelos mártires de Uhud e disse: “Ó Umm Sa‘d, alegra-te. Vai até as famílias dos mártires e dá-lhes a boa notícia de que todos os seus mártires estão juntos no Paraíso e de que sua intercessão em favor de seus familiares foi aceita.” A mulher disse: “Ó Mensageiro de Allah, suplique pelas famílias dos mártires.” O Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Ó Allah Todo-Poderoso, remove a dor do luto de seus corações, recompensa-os por sua calamidade e protege todos os demais.” [As-Sirat al-Halabiyya, volume II, página 47.]
O Mensageiro de Allah em Medina
Na tarde de domingo, dia 7 de Shawwal do terceiro ano da Hégira, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, chegou a Medina. Entregou sua espada a Fátima, que Allah esteja satisfeito com ela, e disse: “Lava o sangue que está nesta espada. Por Allah, hoje esta espada provou seu valor por mim.” Ali, que Allah esteja satisfeito com ele, também pediu a Fátima, que Allah esteja satisfeito com ela, que lavasse o sangue de sua espada. Acrescentou: “Por Allah, esta espada provou seu valor por mim.” Então o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Tu demonstraste bravura na batalha; porém, lembra-te de que Suhayl ibn Hunayf e Abu Dujana, que Allah esteja satisfeito com ambos, também lutaram bravamente.” [Ibn Hisham, volume II, página 100]
Setenta muçulmanos foram martirizados na batalha de Uhud. A maioria dos narradores concorda quanto a esse número. Entre os mártires, 65 eram Ansar. Desses, 41 eram da tribo de Khazraj e 24 da tribo de Aws. Um judeu também foi morto. Quanto aos mártires emigrantes, foram apenas quatro. Quantos dos incrédulos coraixitas foram mortos? Segundo o historiador Ibn Ishaq, 22 deles foram mortos. Contudo, à luz dos relatos da batalha de Uhud mencionados pelos especialistas em guerra e pelos autores de biografias, bem como dos relatos dos mortos em suas diversas fases, verifica-se que não foram 22, mas 37 os mortos. Allah Todo-Poderoso sabe melhor sobre isso. [Ibn Hisham, volume II, página 122; Ghazwat-e Uhud, página 180]
Estado de emergência em Medina
Após retornarem de Uhud, na noite do dia 8 de Shawwal do terceiro ano da Hégira, os muçulmanos enfrentaram uma situação de emergência. Embora todos estivessem exaustos da batalha, passaram toda a noite percorrendo as ruas de Medina e suas entradas. Também se ocuparam de garantir a proteção especial do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, pois temiam perigos vindos de várias direções.
A batalha de Hamra al-Asad
O Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, passou toda a noite refletindo sobre a situação resultante da batalha.
Ele temia que, se os inimigos pensassem que, apesar de serem mais numerosos no campo de batalha, não haviam conseguido obter nenhuma vantagem, certamente se sentiriam envergonhados. Como consequência, poderiam retornar do caminho de Meca e atacar Medina. Por isso, o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, decidiu que era necessário perseguir as tropas de Meca.
Os autores da Sira escreveram que, na manhã seguinte à batalha de Uhud, isto é, no dia 8 de Shawwal do terceiro ano da Hégira, o Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, anunciou que era preciso partir para enfrentar os inimigos, e que somente aqueles que haviam participado da batalha de Uhud poderiam acompanhá-los. O hipócrita Abdullah ibn Ubayy pediu permissão, mas o Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, não lhe concedeu permissão. Feridos fisicamente, aflitos pela perda de familiares e perturbados pela apreensão, os muçulmanos curvaram-se diante do chamado do Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Jabir ibn Abdullah (que Allah esteja satisfeito com ele) não pudera estar presente na batalha de Uhud. Ele pediu permissão. Aproximando-se do amado Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Ó Mensageiro de Allah, desejo acompanhá-lo em todas as batalhas. Na batalha de Uhud, meu pai deixou-me para cuidar de minhas irmãs, e por isso não pude partir para a batalha.” O Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, concedeu-lhe permissão. De acordo com o plano, o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, partiu com os muçulmanos e estabeleceu acampamento em um lugar chamado Hamra al-Asad, a oito milhas de Medina.
Nesse momento, Ma’bad ibn Ma’bad al-Khuza’i apresentou-se diante do Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, e aceitou o Islã. Antes disso, ele permanecera firme no politeísmo. No entanto, desejava o bem do Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Havia um pacto de amizade entre as tribos de Khuza’a e Banu Hashim. Foi por causa desse pacto que ele era bem-intencionado para com o amado Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Ele disse ao Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele: “Fiquei profundamente consternado com as dificuldades que você e seus companheiros enfrentaram no campo de batalha. Desejei sinceramente que você estivesse bem.” Depois de expressar essa compaixão, o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse a Ma’bad (que Allah esteja satisfeito com ele): “Vá até Abu Sufyan, destrua seu ânimo e desencoraje-o.”
O temor do Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, de que os politeístas pudessem partir novamente em direção a Medina revelou-se verdadeiro. Ao chegarem a um lugar chamado Rawha, a trinta e seis milhas de Medina, os politeístas começaram a culpar uns aos outros. Um grupo dizia ao outro: “Vocês não fizeram nada. Depois de enfraquecê-los, deixaram-nos escapar. Ainda há entre eles muitas cabeças, que voltarão a causar-lhes problemas. Vamos retornar e exterminá-los pela raiz.”
Aqueles que haviam feito essa proposta parecem não estar devidamente informados sobre a força de ambos os lados. Por isso, Safwan ibn Umayya, um dos responsáveis, opôs-se a essa opinião, dizendo: “Não façam isso. Temo que até mesmo os muçulmanos que não participaram da batalha de Uhud se levantem contra nós. Portanto, voltemos a Meca satisfeitos, pensando que fomos nós que vencemos. Caso contrário, se atacarmos Medina, acabaremos envolvidos em problemas.” Contudo, a maioria dos incrédulos não aceitou essa opinião e permaneceu firme na decisão de atacar Medina. Antes que partissem em direção a Medina, Ma‘bad ibn Ma‘bad al-Khuza‘i chegou até eles. Abu Sufyan não sabia que Ma‘bad havia buscado refúgio sob a sombra refrescante do Islã. Perguntou-lhe: “Ma‘bad, quais são as notícias de trás?” Ma‘bad respondeu astutamente: “Muhammad — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — saiu com seus companheiros em sua perseguição. Eles são tão numerosos que jamais vi antes um exército tão grande. Todos ardem de raiva contra vocês. Também se juntaram a eles aqueles que não haviam participado da batalha de Uhud. Estão envergonhados por tudo o que perderam na batalha. Agora estão tão furiosos contra vocês que nunca vi antes um exemplo de ira semelhante.”
Abu Sufyan disse: “Meu irmão, o que você está dizendo?”
Ma‘bad disse: “Sim, estou falando a verdade. Creio que, antes mesmo de vocês partirem daqui, verão a cavalaria. A vanguarda do exército surgirá detrás desta colina.”
Abu Sufyan disse: “Por Allah, juramos que lançaremos um contra-ataque contra eles e os exterminaremos.”
Ma‘bad disse: “Não façam isso. Estou dizendo isso para o bem de vocês.”
Ao ouvir essas palavras, o moral dos incrédulos desmoronou. Eles consideraram melhor retornar a Meca. No entanto, para desencorajar o exército muçulmano e evitar um confronto com ele, Abu Sufyan adotou uma estratégia. Chamando os homens de uma caravana de Banu ‘Abd al-Qays, que seguia pela estrada de Medina, Abu Sufyan disse: “Vocês poderiam entregar uma mensagem minha a Muhammad? Se a entregarem, prometo que, quando vocês chegarem a Meca, darei a vocês, no mercado de ‘Ukaz, tantas passas quanto esta camela puder carregar.”
Os homens de Banu ‘Abd al-Qays concordaram em atender ao pedido de Abu Sufyan.
Abu Sufyan disse: “Digam a Muhammad que decidimos lançar um contra-ataque com o objetivo de exterminá-lo e aos seus companheiros.”
Ao receberem essa notícia dos integrantes da caravana, a fé dos muçulmanos se fortaleceu ainda mais. Eles disseram: “Allah é suficiente para nós, e Ele é o melhor dos que dispõem os assuntos.”
Graças a essa força da fé, os muçulmanos partiram em direção a Medina com as bênçãos e o favor de Allah. Nenhum mal pôde tocá-los. Eles buscaram a satisfação de Allah, o Senhor dos mundos. Certamente, Allah é o Possuidor de mistérios insondáveis. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, dirigiu-se a Hamra’ al-Asad no domingo. Permaneceu ali na segunda, terça e quarta-feira, isto é, nos dias 9, 10 e 11 de Shawwal do terceiro ano da Hégira. Depois, retornou a Medina. Antes de seu retorno a Medina, Abu ‘Azzah Jumaí caiu sob seu controle. Esse homem havia sido feito prisioneiro pelos muçulmanos na batalha de Badr. Contudo, devido à sua pobreza e ao grande número de filhas, foi libertado sem resgate. Ele havia prometido que não ajudaria ninguém contra o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Mas não cumpriu sua palavra. Por meio de poemas, continuou a incitar o povo contra Allah, o Mensageiro e os nobres Companheiros. Isso já foi explicado anteriormente. Depois, também participou da batalha de Uhud contra os muçulmanos. Após ser capturado e levado, foi apresentado ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Ele disse: “Ó Muhammad, perdoa meu erro. Tem misericórdia de mim. Deixa-me partir por consideração às minhas filhas. Prometo que nunca mais farei algo assim.” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Agora não pode mais acontecer que vás a Meca, passando as mãos pelo rosto, e digas: ‘Muhammad, enganei-te pela segunda vez.’ O crente não é picado duas vezes pela mesma toca.” Então o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, ordenou a Zubair — segundo outra opinião, a ‘Asim ibn Thabit — e eles separaram a cabeça daquele traidor de seu corpo.
Da mesma forma, outro espião de Meca também foi morto. Seu nome era Mu‘awiya ibn al-Mughira ibn Abu al-‘As. Ele era avô materno de ‘Abd al-Malik ibn Marwan. No dia de Uhud, depois que os politeístas de Meca deixaram Meca, esse homem permaneceu em Medina. Por intermédio de seu primo, o venerável ‘Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele), o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, concedeu-lhe proteção sob a condição de que ele poderia permanecer em Medina por no máximo três dias. Se fosse visto em Medina depois disso, seria morto. Depois que os emigrantes muçulmanos partiram para a batalha de Uhud, Mu‘awiya ibn al-Mughira permaneceu em Medina além dos três dias para espionar os coraixitas. Quando os emigrantes muçulmanos retornaram, ele tentou fugir. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, ordenou a Zayd ibn Harithah e a ‘Ammar ibn Yasir. Ambos os Companheiros perseguiram Mu‘awiya, capturaram-no e mataram-no. [As obras das quais foram retirados os relatos detalhados da batalha de Uhud e de Hamra’ al-Asad são: Ibn Hisham, vol. 2, pp. 60–129; Zad al-Ma‘ad, vol. 2, pp. 91–109; Fath al-Bari, vol. 7, pp. 345–377; e Mukhtasar al-Sirah, pp. 242–257.]
Uma análise sobre vitória e derrota na batalha de Uhud
Após o relato detalhado da batalha de Uhud, é necessário mencionar o seguinte: à luz de tudo o que foi discutido, como devem ser determinadas a vitória e a derrota? Com base nos acontecimentos dessa batalha, pode-se declarar que os muçulmanos venceram ou foram derrotados? Na realidade, o campo de batalha estava sob o controle deles. As baixas também foram maiores entre os muçulmanos, e foram terríveis. Uma parte dos muçulmanos foi certamente derrotada e fugiu. Naquele momento, o curso da batalha favorecia os incrédulos. Apesar de tudo isso, há certos fatos pelos quais não se pode de modo algum dizer que os incrédulos venceram a batalha de Uhud. É evidente que as tropas de Meca não conseguiram tomar o acampamento dos muçulmanos. Uma grande parte das tropas de Medina não fugiu, apesar da terrível agitação e desordem. Com coragem e firmeza ilimitadas, reuniram-se ao lado do grande comandante, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. O número de muçulmanos não havia diminuído a ponto de permitir que as tropas de Meca os perseguissem. Além disso, nenhum muçulmano foi capturado pelos incrédulos. Os incrédulos não conseguiram apoderar-se de nenhum espólio. Ademais, não se prepararam para combater os muçulmanos pela terceira vez, embora o exército muçulmano ainda permanecesse em seu acampamento. Os incrédulos não permaneceram sequer um dia no campo de batalha. Naquela época, porém, os vencedores costumavam permanecer pelo menos três dias em seu acampamento no campo de batalha. Isso era considerado um sinal essencial da vitória na guerra. O objetivo era demonstrar a consolidação da vitória. Mas os incrédulos rapidamente levantaram acampamento e se retiraram do campo de batalha. Não tiveram sequer coragem de entrar em Medina, saquear riquezas ou prender seus habitantes, embora a cidade de Medina estivesse a pouca distância do campo de Uhud. Naquele momento, as medidas de segurança em Medina também não eram muito rigorosas.
Em resumo, as tropas coraixitas de Meca conseguiram, de fato, aproveitar uma oportunidade temporária para deixar os muçulmanos aturdidos, mas, depois de colocar o exército muçulmano sob seu controle, não conseguiram aplicar a estratégia militar indispensável de matar ou capturar todos e tirar proveito disso. Por outro lado, os soldados muçulmanos conseguiram superar todas as consequências das perdas temporárias. Há muitos exemplos de vencedores que enfrentaram esse tipo de perda temporária. Portanto, não se pode de modo algum considerar os incrédulos vencedores na batalha de Uhud por causa da situação temporariamente difícil dos muçulmanos.
A fuga rápida de Abu Sufyan em direção a Meca, sem iniciar a terceira fase da batalha, prova que ele temia que, se os combates recomeçassem, suas tropas sofreriam inevitavelmente grandes perdas. A atuação de Abu Sufyan na batalha de Hamra’ al-Asad comprova isso.
Nessas circunstâncias, em vez de dizer qual lado venceu ou perdeu na batalha de Uhud, podemos classificá-la como uma batalha inconclusiva. Ambos os lados obtiveram benefícios e sofreram perdas, cada um sob seu próprio ponto de vista. A batalha terminou sem que houvesse fuga do campo de batalha e sem deixar seus próprios acampamentos desprotegidos para que fossem controlados pelo inimigo. Esse tipo de batalha é chamado de batalha inconclusiva. Foi justamente a esse respeito que Allah, o Senhor dos mundos, disse: “Não vos desanimeis na busca do povo inimigo. Se sofreis, eles também sofrem como vós; mas vós esperais de Allah aquilo que eles não esperam. Allah é Onisciente e Sábio.” (Surata An-Nisa, versículo 104)
Neste versículo, Allah, o Senhor dos mundos, compara um grupo ao outro quanto à aflição causada e experimentada. Isso significa que ambos os grupos se encontravam em condições iguais e nenhum deles prevaleceu sobre o outro.
A avaliação do Alcorão sobre esta batalha
Posteriormente, o Alcorão lançou luz sobre cada aspecto desta batalha. Após uma análise, foram identificadas todas as causas que fizeram os muçulmanos sofrerem uma perda tão grande. O Alcorão mencionou claramente quais eram, nesta expedição, as fraquezas dos crentes e da melhor comunidade. Esta comunidade recebeu a distinção singular de ser a melhor comunidade. Foram identificadas as fraquezas existentes entre os diferentes grupos desta comunidade.
Além disso, o Sagrado Alcorão mencionou o papel dos hipócritas e expôs abertamente a sua situação. Ao revelar a hostilidade oculta em seus corações contra Allah e Seu Mensageiro, suas máscaras foram retiradas. Também foram expostas as provocações que os hipócritas e seus aliados judeus lançaram entre os muçulmanos simples e sinceros. Em seguida, foram apresentados os objetivos e as finalidades subjacentes desta batalha.
Cinquenta versículos da Surata آل عمران foram revelados sobre esta batalha. Em primeiro lugar, é mencionada a situação inicial da batalha. Allah, o Altíssimo, diz: “E recorda quando, ao amanhecer, saíste de tua família para posicionar os crentes em seus postos para o combate; e Allah é Oniouvinte, Onisciente.” (Surata آل عمران, versículo 121)
Por fim, foram apresentados de forma sistemática os resultados e a sabedoria desta expedição. Allah, o Senhor dos mundos, diz: “Allah não deixará os crentes na situação em que vos encontrais até separar o mau do bom. Allah não vos informará sobre o invisível, mas escolhe, dentre Seus Mensageiros, quem Ele quer. Portanto, crede em Allah e em Seus Mensageiros. Se credes e sois tementes, tereis uma grande recompensa.” (Surata آل عمران, versículo 179)
A sabedoria contida nesta batalha por Allah
O erudito Ibn Qayyim tratou amplamente do assunto mencionado.[Zad al-Ma’ad, volume 2, pp. 99–108
(O mártir Sayyid Qutb apresentou também, em seu grandioso tafsir “À Sombra do Alcorão”, uma discussão comovente sobre este ponto. Consulte o 4.º volume da tradução bengali.)
Os ulama dizem que, na crise e nas dificuldades enfrentadas pelos muçulmanos na batalha de Uhud, estava oculta a sabedoria de Allah. Entre outras coisas, isso serviu para advertir os muçulmanos sobre as más consequências de seus atos. Eles violaram a ordem que o Mensageiro ﷺ lhes havia dado de permanecer firmes em suas posições. Por isso tiveram de enfrentar a calamidade. Além disso, pretendia-se revelar ao Profeta aquela sunnah segundo a qual eles primeiro são submetidos à prova e depois alcançam o sucesso. Se os muçulmanos vencessem sempre, entre os crentes entrariam pessoas que não fossem verdadeiramente crentes. Como resultado, não seria possível distinguir entre os verazes e os mentirosos. Por outro lado, se fossem sempre derrotados, o próprio propósito da vinda do Profeta de Allah fracassaria. Por essa razão, pela sabedoria de Allah, foram criadas ambas as situações, para que se pudesse distinguir a verdade da falsidade. Com efeito, a hipocrisia dos munafiqun estava oculta entre os muçulmanos. Depois que esse acontecimento a revelou e que a identidade dos munafiqun foi reconhecida por suas palavras e ações, os muçulmanos compreenderam que havia inimigos dentro de suas próprias casas. Assim, ficaram atentos a eles e se prepararam para enfrentá-los.
Outra sabedoria foi que, muitas vezes, quando a ajuda demora a chegar, a paciência se esgota. Depois de serem submetidos à prova, os muçulmanos mantiveram a paciência. Já entre os munafiqun instalou-se grande agitação, e eles começaram a lamentar-se.
Outra sabedoria foi que Allah, o Altíssimo, reservou no Paraíso, morada de honra destinada aos crentes, certos graus aos quais não é possível ascender por meio das ações comuns. Por isso foram preparados alguns meios de provação e aflição, para que os crentes pudessem ascender a esses graus de honra.
Outra sabedoria foi conceder aos awliya, isto é, aos amigos de Allah, a elevada honra do martírio.
Outra sabedoria foi que Allah, o Senhor dos mundos, quis que Seus inimigos fossem destruídos e, por isso, criou também os meios de sua destruição. Na prática da kufr, da opressão, da tirania e de causar sofrimento aos nobres awliya, eles demonstraram arrogância e transgressão sem limites. Como consequência de suas ações, Allah ficou satisfeito com a paciência e a perseverança dos crentes, purificou-os e destruiu os descrentes. [Fath al-Bari, vol. 7, p. 347]
As expedições militares posteriores a Uhud
A derrota aparente na batalha de Uhud teve um profundo impacto no prestígio dos muçulmanos. A influência deles diminuiu aos olhos dos inimigos do Islã. Como resultado, aumentaram os problemas internos e externos dos crentes. Cresceu o temor de ataques contra Medina vindos de todas as direções. Judeus, munafiqun e beduínos começaram a demonstrar hostilidade aberta. Todos os grupos passaram a tentar causar sofrimento aos muçulmanos. Chegaram até a manifestar a expectativa de que, se quisessem, poderiam exterminá-los por completo. Assim, antes que se passassem dois meses da batalha de Uhud, os membros da tribo de Banu Asad tomaram a iniciativa de atacar Medina. No mês de Safar do quarto ano da Hégira, os membros das tribos de Adal e Qarah tramaram uma conspiração que levou dez Companheiros ao martírio. Nesse mesmo mês, como resultado da traição do líder da tribo de Banu Amir, setenta Companheiros alcançaram o martírio. Esse incidente ficou conhecido como o incidente de Bi’r Ma’una. Nessa época, os membros da tribo de Banu Nadir também começaram a demonstrar hostilidade aberta. No mês de Rabi al-Awwal do quarto ano da Hégira, tentaram assassinar o Mensageiro de Allah ﷺ. Enquanto isso, a audácia da tribo de Banu Ghatafan havia crescido tanto que, no mês de Jumada al-Awwal do quarto ano da Hégira, eles planejaram atacar Medina.
Em suma, a influência dos muçulmanos foi prejudicada na batalha de Uhud e, por isso, eles permaneceram durante muito tempo sob ameaça. Contudo, graças à habilidade administrativa do Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele —, a honra e a influência dos muçulmanos foram restauradas. Nesse sentido, o primeiro passo do Mensageiro de Allah foi perseguir os politeístas até Hamra’ al-Asad. Com isso, a honra dos emigrantes muçulmanos foi em grande parte reavivada. Essa ação militar deixou perplexas as forças contrárias ao Islã, especialmente os hipócritas. Depois disso, o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — iniciou gradualmente atividades militares de tal natureza que os muçulmanos não apenas recuperaram a honra perdida anteriormente, mas também a aumentaram. Nas páginas seguintes, lançaremos luz sobre esse assunto.
1) A expedição de Abu Salama
Após a batalha de Uhud, a primeira tribo a levantar-se contra os muçulmanos foi a tribo de Banu Asad ibn Khuzayma. Chegou a Medina a notícia de que Talha e Salama, os dois filhos de Khuwailid, estavam organizando, junto com sua tribo e outros companheiros, um ataque contra o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele —, mobilizando a tribo de Banu Asad. Em pouco tempo, o Mensageiro de Allah formou uma força de cento e cinquenta Ansar e Muhajirun. O honorável Abu Salama foi nomeado comandante dessa força. Antes mesmo que a tribo de Banu Asad pudesse iniciar a expedição, Abu Salama lançou contra ela um ataque surpresa tão repentino que seus membros se dispersaram e fugiram. Nem sequer foi necessário travar um confronto direto. Os muçulmanos apoderaram-se dos camelos e das ovelhas deles. Depois, retornaram em segurança a Medina com os despojos. Os muçulmanos partiram na noite do surgimento da lua de Muharram, no quarto ano da Hégira. Depois de retornar a Medina, Abu Salama adoeceu gravemente. A dor do ferimento que ele havia sofrido na batalha de Uhud se intensificou e, poucos dias depois, ele faleceu. [Zad al-Ma‘ad, vol. 2, p. 108]
Após permanecer dezoito dias fora de Medina, Abdullah ibn Unays retornou no dia 23 de Muharram. Ao voltar, havia matado Khalid e trazido consigo a cabeça dele. Quando se apresentou diante do Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — e colocou a cabeça diante dele, o Mensageiro de Allah lhe entregou um bastão e disse: “Este será um sinal entre mim e você no Dia da Ressurreição.” Quando sua morte se aproximou, ele deixou como testamento que aquele bastão fosse colocado em seu túmulo junto com seu corpo. [Zad al-Ma‘ad, vol. 2, p. 109; Ibn Hisham, vol. 2, pp. 619–620.]
2) O incidente de al-Raji‘
No mês de Safar do quarto ano da Hégira, algumas pessoas das tribos de ‘Adal e Qara’ compareceram perante o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — e solicitaram que, como havia entre eles alguma prática do Islã, alguns Companheiros fossem enviados para lhes ensinar o Alcorão e a religião. Assim, segundo Ibn Ishaq, o Mensageiro de Allah enviou seis Companheiros com eles; segundo o Sahih al-Bukhari, foram dez. De acordo com Ibn Ishaq, Murshid ibn Abi Murshid al-Ghanawi foi nomeado líder; segundo o relato do Sahih al-Bukhari, o líder foi ‘Asim ibn Thabit, avô materno de ‘Asim ibn ‘Umar ibn al-Khattab. Quando chegaram à fonte chamada al-Raji‘, situada entre Rabigh e Jeddah, pertencente à tribo de Hudhail, as pessoas anteriormente mencionadas de ‘Adal e Qara’ incitaram Banu Lihyan, um ramo da tribo de Hudhail, a atacá-los.
Cem arqueiros daquela tribo passaram a procurar os Companheiros.
3) A expedição de Abdullah ibn Unays
No dia 5 de Muharram do quarto ano da Hégira, chegou a Medina a notícia de que Khalid ibn Sufyan al-Hudhali estava reunindo tropas para atacar os muçulmanos. O Mensageiro de Allah enviou Abdullah ibn Unays (que Allah esteja satisfeito com ele) para realizar uma expedição contra ele.
Abdullah ibn Unays (que Allah esteja satisfeito com ele) permaneceu fora de Medina durante dezoito dias. Nesse período, eles incitaram contra ele Banu Lihyan, um ramo da tribo de Hudhayl. Então, cerca de cem arqueiros da tribo de Banu Lihyan investiram contra eles. Os Companheiros refugiaram-se no alto de uma colina. Os arqueiros cercaram-nos e disseram: “Prometemos solenemente que, se vocês descerem, não mataremos nenhum de vocês.” Ibn Unays (que Allah esteja satisfeito com ele) recusou-se a descer e começou a lutar contra eles junto com seus companheiros. Sob uma intensa chuva de flechas, sete Companheiros alcançaram o martírio. Os três restantes ainda estavam vivos. Eram Hadrat Khubayb (que Allah esteja satisfeito com ele), Hadrat Zayd ibn Dathina e outro homem. Os arqueiros de Banu Lihyan reiteraram sua promessa e pediram que eles descessem. Sem outra alternativa, os três Companheiros desceram. Assim que os tiveram sob seu controle, amarraram os três. Então, o terceiro Companheiro mencionado disse: “Vocês já quebraram a promessa desde o início; de modo algum irei com vocês.” Eles tentaram arrastar o Companheiro do Mensageiro de Allah. Como também não conseguiram, mataram-no. Levaram Hadrat Khubayb e Hadrat Zayd ibn Dathina a Meca e venderam-nos. Esses dois Companheiros haviam matado os chefes incrédulos em Meca no dia de Badr. Hadrat Khubayb (que Allah esteja satisfeito com ele) permaneceu cativo por alguns dias. Depois, os malfeitores de Meca decidiram matá-lo e levaram-no para um lugar chamado Tan’im, fora do Haram. Quando iam colocá-lo na cruz, ele disse: “Deixem-me. Vou realizar duas rak’ahs de oração.” Os idólatras permitiram. Ele realizou duas rak’ahs de oração. Depois de concluir a oração, disse: “Por Allah, se eu não temesse que vocês dissessem que estou fazendo tudo isso por medo, eu teria prolongado ainda mais a oração.” Em seguida, disse: “Ó Allah, conta-os; depois, mata-os dispersando-os, e não deixes escapar nenhum deles.” Depois disso, Hadrat Khubayb (que Allah esteja satisfeito com ele) recitou um poema:
“Todos eles me cercaram em grupos.
Reuniram-se tribo após tribo, sem deixar ninguém para trás.
Não ficou mulher nem criança; vieram em grupos.
Eles me levaram para debaixo de uma grande árvore.
Hoje estou longe da minha terra natal, desamparado.
A Ti somente dirijo minha súplica, Senhor dos mundos!”
Concede-me, ó Senhor do Trono, um coração paciente
Concede-me, Senhor, coragem física e mental incessante.
Disseram eles: melhor a morte do que tornar-me incrédulo
Meus dois olhos soluçam sem lágrimas.
Vou morrer como muçulmano; o que tenho eu a temer?
Quando morrer no caminho de Allah, não me importa a direção.
Meu martírio é pela satisfação de Allah.’
Quando terminou a recitação do poema de Khubayb (que Allah esteja satisfeito com ele), Abu Sufyan disse-lhe: «Queres que, em teu lugar, capturemos Maomé, decapitemo-lo e tu retornes para junto da tua família?» Khubayb (que Allah esteja satisfeito com ele) respondeu com firmeza: «Juro por Allah: não aceitaria sequer que um espinho ferisse o pé de Maomé (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), enquanto eu permanecesse junto da minha família, e que ele, mesmo sentado onde está, sofresse a dor de ser ferido por esse espinho.»
Depois disso, os politeístas, inimigos de Deus, penduraram Hazrat Khubayb (que Allah esteja satisfeito com ele) numa estaca e designaram homens para vigiar seu corpo. Hazrat Amr ibn Umayya chegou durante a noite, retirou o corpo e o sepultou. Hazrat Khubayb (que Allah esteja satisfeito com ele) foi morto por Uqba ibn al-Harith. Na batalha de Badr, Hazrat Khubayb (que Allah esteja satisfeito com ele) havia matado o pai dele.
Está mencionado no Sahih Bukhari Sharif que Hazrat Khubayb (que Allah esteja satisfeito com ele) foi o primeiro homem virtuoso a instituir o costume de realizar duas rak‘at de oração imediatamente antes da execução. Enquanto estava cativo nas mãos dos incrédulos, foi visto comendo uvas frescas. No entanto, naquela época, nem mesmo tâmaras estavam disponíveis em Meca.
O outro Companheiro capturado, Hazrat Zayd ibn Dathana (que Allah esteja satisfeito com ele), foi comprado por Safwan ibn Umayya e morto em retaliação pela morte de seu pai.
Hazrat Asim (que Allah esteja satisfeito com ele) já havia sido morto pela chuva de flechas dos incrédulos. Os coraixitas de Meca enviaram homens para trazer ao menos alguma parte do corpo de Hazrat Asim (que Allah esteja satisfeito com ele), pois ele havia matado um dos líderes ilustres dos incrédulos na batalha de Badr. Mas Allah, o Altíssimo, protegeu seu corpo enviando um enxame de abelhas. Assim, os incrédulos não conseguiram levar sequer uma pequena parte do corpo sagrado de Hazrat Asim (que Allah esteja satisfeito com ele). Na verdade, Hazrat Asim (que Allah esteja satisfeito com ele) havia suplicado a Allah que nenhum politeísta pudesse tocá-lo e que ele também não tocasse em nenhum politeísta. Mais tarde, ao ouvir esse acontecimento, Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) costumava dizer: “Allah, o Senhor dos mundos, protege Seu servo crente mesmo depois de sua morte, exatamente como o protege durante a vida.” [Ibn Hisham, vol. 2, pp. 69–79; Zad al-Ma‘ad, vol. 2, p. 209; Sahih Bukhari, vol. 2, pp. 568, 569 e 585]
Quatro) O doloroso incidente de Bi’r Ma’una
No mesmo mês em que ocorreu o incidente de Raji‘, ocorreu também o incidente de Bi’r Ma’una. Este acontecimento não foi menos doloroso que o incidente de Raji‘. Eis um breve relato: Abu Bara Amir ibn Malik foi à presença do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, em Medina. Ele era conhecido pelo título de “Mala’ik al-Asinna”, isto é, jogador de lanças. Depois que compareceu perante o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, o Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, convidou-o ao Islam. Porém, ele não aceitou o Islam, nem disse que o desaprovava. Ele disse: “Ó Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, se enviares teus Companheiros aos habitantes de Najd, creio que eles aceitarão o convite ao Islam.” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, respondeu: “Tenho receio dos habitantes de Najd por causa dos meus Companheiros.” Abu Bara disse: “Eles estarão sob minha proteção.” Depois disso, o Mensageiro de Allah, segundo o relato de Ibn Ishaq, enviou quarenta Companheiros com Abu Bara. A narração mencionada pelo Imam Bukhari no Sahih Bukhari, de que eram setenta Companheiros, é a correta. Como comandante desses setenta Companheiros foi nomeado Mundhir ibn Amr. Ele pertencia à tribo de Banu Sa‘ida e tinha o título de “Mutakallim al-Mawt”. Todos os setenta Companheiros mencionados possuíam profundo conhecimento de diversos assuntos do Islam e eram extremamente piedosos. Durante o dia, cortavam lenha e, com o dinheiro obtido, compravam comida para os habitantes de Ahl al-Suffa; eles próprios recitavam o Alcorão e ensinavam-no aos outros. À noite, passavam o tempo em súplicas e oração diante de Allah, o Senhor dos mundos. Enquanto viajavam como pregadores do Islam, esses setenta Companheiros chegaram às proximidades do reservatório de Ma’una. Esse reservatório ficava entre Banu Amir e Harra Bani Sulaym. Assim que chegaram, os Companheiros enviaram, por intermédio de Haram ibn Malhan, irmão de Umm Sulaym, a carta enviada pelo Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, a Amir ibn Tufayl, um inimigo fanático do Islam. Esse perverso sequer abriu a sagrada carta do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz; em vez disso, fez um sinal para um homem. Esse homem golpeou Hazrat Haram ibn Malhan (que Allah esteja satisfeito com ele) pelas costas com tanta força que a ponta da lança saiu pela frente. Ao ver o sangue, Hazrat Haram ibn Malhan (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Allahu Akbar! Pelo Senhor da Caaba, fui bem-sucedido!”
Pouco depois, o obstinado inimigo de Deus, o perverso incrédulo Amir ibn Tufayl, convocou os homens de sua tribo, Banu Amir, para atacar os demais Companheiros. Porém, por causa da proteção de Abu Bara, eles não atenderam ao chamado de Amir. Desesperado por isso, Amir convocou os homens da tribo Banu Sulaym. Três ramos de Banu Sulaym — Usayya, Ri‘l e Dhakwan — atenderam ao chamado e cercaram os nobres Companheiros. Os Companheiros também lutaram em resposta, mas quase todos foram martirizados. Apenas Hazrat Ka‘b ibn Zayd al-Najjar (que Allah esteja satisfeito com ele) permaneceu vivo. Ele foi retirado ferido de entre os Companheiros martirizados. Viveu até a batalha da Trincheira. Hazrat Amr ibn Umayya al-Damri estava sozinho, pastoreando os camelos de Hazrat Mundhir ibn Uqba Amir (que Allah esteja satisfeito com ele). Ao verem pássaros voando sobre o local, chegaram ali. Hazrat Mundhir (que Allah esteja satisfeito com ele) foi martirizado enquanto lutava com seus companheiros. Hazrat Amr ibn Umayya al-Damri foi capturado. Ele pertencia à tribo de Mudar. Depois de descobrir sua identidade, Amir ibn Tufayl cortou alguns fios de cabelo da parte superior de sua testa e libertou-o em nome de sua mãe. A mãe daquele perverso havia anteriormente feito o voto de libertar um escravo.
Hazrat Amr ibn Umayya al-Damri chegou a Medina com essa notícia que dilacerava o coração. O martírio de setenta Companheiros ilustres fez lembrar o desastre de Uhud. Na batalha de Uhud, havia a possibilidade de que ambos os lados sofressem baixas no confronto; aqui, porém, os Companheiros de coração puro foram vítimas de uma traição descarada. No caminho de volta, Hazrat Amr ibn Umayya al-Damri chegou a um lugar chamado Qarqara, perto da planície de Qanat, e parou à sombra de uma árvore. Dois homens da tribo Banu Kilab também haviam chegado ali. Depois que ambos adormeceram, Hazrat Amr ibn Umayya matou os dois. Em sua opinião, estava vingando a morte de seus companheiros. Contudo, esses dois homens possuíam uma carta de salvo-conduto do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Hazrat Amr não sabia disso. Quando chegou a Medina e informou o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, sobre o ocorrido, ele disse: “Mataste dois homens cuja compensação pela morte certamente terei de pagar.” Depois disso, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, concentrou-se em recolher dos muçulmanos e de seus aliados judeus o dinheiro da compensação. Foi por causa desse incidente que ocorreu a batalha de Banu Nadir, sobre a qual falaremos mais adiante.
O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, ficou tão profundamente angustiado e tão duramente atingido pelos acontecimentos de Bir Ma’una e de Rajī’ [Al-Wāqidī escreveu: o Mensageiro de Allah recebeu notícias dos acontecimentos de Rajī’ e de Ma’una na mesma noite] que isso não pode ser descrito em palavras. [Ibn Sa’d narrou, sob a autoridade de Anas (que Allah esteja satisfeito com ele), que o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) não ficou tão angustiado e enlutado por nenhum outro acontecimento quanto ficou pelo incidente de Bir Ma’una. Mukhtasar al-Sīrah, Sheikh Abdullah, p. 260.] Houve apenas alguns dias de intervalo entre os dois acontecimentos. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, suplicou contra os povos e tribos que haviam cometido uma traição tão cruel contra os Companheiros durante um mês inteiro. Foi narrado no Sahih al-Bukhari, sob a autoridade de Anas (que Allah esteja satisfeito com ele), que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, suplicou contra aqueles de Bir Ma’una que haviam martirizado os Companheiros durante trinta dias. Após a oração do fajr, ele suplicava contra Ba’l, Dhakwan, Lihyan e Usayya, dizendo: “O povo da tribo de Usayya desobedeceu a Allah, o Altíssimo, e ao Seu Mensageiro.” Allah, o Altíssimo, revelou versículos do Alcorão para aliviar a dor de Seu Mensageiro a esse respeito. Mais tarde, esse versículo foi considerado mansukh, isto é, ab-rogado. O teor daquele versículo do Sagrado Alcorão era: “Informai aos nossos compatriotas que encontramos o nosso Senhor em uma condição tal que Ele está satisfeito conosco, e nós estamos satisfeitos com Ele.”
Depois da revelação desse versículo, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, deixou de fazer súplicas contra eles. [Sahih al-Bukhari, vol. 2, pp. 586, 587, 588]
Quinto) A batalha de Banu Nadir
Já foi mencionado anteriormente que os judeus ardiam de ódio contra o Islã e os muçulmanos. Contudo, não eram guerreiros valentes; eram conspiradores e intrigantes. Por isso, em vez de guerrear abertamente, expressavam ódio e hostilidade. Apesar dos tratados e pactos que tinham com os muçulmanos, procuravam diversos pretextos para causar-lhes sofrimento e persegui-los. Depois da expulsão da tribo de Banu Qaynuqa e do assassinato de Ka’b ibn Ashraf, a coragem dos judeus diminuiu. Permaneceram calados, tomados pelo medo. Porém, depois da batalha de Uhud, recuperaram a coragem. Começaram a demonstrar abertamente hostilidade e traição contra os muçulmanos. Os hipócritas de Medina fizeram secretamente uma aliança com os politeístas de Meca, e os judeus continuaram a ajudar os politeístas. [Sunan Abu Dawud, Sharh ‘Awn al-Ma’bud, vol. 3, pp. 116–117]
Embora soubesse de tudo, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, manteve a paciência. Porém, depois dos incidentes de Rajī’ e de Ma’una, a coragem deles aumentou consideravelmente, e eles conceberam um plano para eliminar o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Eis o relato do acontecimento: o Mensageiro de Allah, Muhammad Mustafa, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, foi até os judeus acompanhado de alguns de seus Companheiros. Conversou com eles sobre a indenização pela morte de dois homens de Banu Kilab, que haviam sido mortos por engano por ‘Amr ibn Umayya al-Damri. De acordo com o tratado firmado com os judeus, eles eram obrigados a contribuir para o pagamento dessa indenização. Quando o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, lhes falou sobre isso, eles disseram: “Ó Abu al-Qasim, faremos isso. Sente-se aqui com seus companheiros; nós cuidaremos do assunto.” Depois disso, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, sentou-se, esperando, encostado a uma parede dos judeus. Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele), Umar (que Allah esteja satisfeito com ele), Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) e alguns outros Companheiros estavam com o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, naquele momento.
Depois de se afastarem um pouco, Satanás apoderou-se dos judeus. Satanás apresentou-lhes o seu futuro infortúnio como se fosse boa sorte. Os judeus aconselharam-se mal entre si: “Esta é uma oportunidade excelente; vamos matar Muhammad.” Quando perguntaram quem estaria disposto a matar o Mensageiro de Allah lançando uma pesada mó por cima da parede, um judeu chamado ‘Amr ibn Jihash concordou. Um judeu chamado Salam ibn Mishkam disse: “Cuidado! Não façam isso. Juro por Allah que o Mensageiro de Allah descobrirá a sua intenção; o próprio Allah o informará. Além disso, isso também violará o pacto que temos com os muçulmanos.” Porém, os judeus perversos e desafortunados não deram ouvidos a palavra alguma e permaneceram firmes na execução de seu mau propósito.
Enquanto isso, Allah, o Senhor dos Mundos, enviou Jibril (que a paz esteja com ele) ao Seu amado Mensageiro. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, levantou-se rapidamente daquele lugar e partiu em direção a Medina. Os Companheiros o seguiram e lhe disseram: “Ó Mensageiro de Allah, o senhor partiu tão depressa que não conseguimos compreender nada.” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, informou aos Companheiros sobre a conspiração dos judeus intrigantes.
Depois de retornar a Medina, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, enviou Muhammad ibn Maslamah à tribo de Banu Nadir e transmitiu-lhes o seguinte ultimato: “Saiam imediatamente de Medina. Vocês não poderão permanecer aqui conosco. Concedemos-lhes dez dias de prazo. Depois disso, todos os que forem encontrados terão a cabeça decepada.” Ao receberem esse ultimato, os judeus não encontraram outra alternativa senão serem expulsos. Começaram a preparar-se para partir após alguns dias. Entretanto, o líder hipócrita, Abdullah ibn Ubayy, enviou-lhes uma mensagem: “Permaneçam firmes em seus lugares; não abandonem suas casas. Temos dois mil guerreiros sob nosso comando, que entrarão em sua fortaleza e sairão com vocês. Não seremos influenciados por qualquer ameaça contra vocês. Se vocês forem combatidos, nós os ajudaremos. Além disso, as tribos de Banu Qurayza e Banu Ghatafan são suas aliadas e também os ajudarão.”
Os judeus se animaram com a notícia enviada pelo hipócrita Abdullah ibn Ubayy. Então decidiram que lutariam em vez de serem expulsos. O líder judeu Huyayy ibn Akhtab esperava que o líder dos hipócritas cumprisse sua palavra. Por isso, enviou uma mensagem ao Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele: “Não deixaremos nossas casas. Faça o que quiser.”
Para os muçulmanos, esse desafio era delicado e, do ponto de vista histórico, complexo e importante. Naquele momento de mudanças, as consequências de entrar em conflito com os inimigos não eram previsíveis. Uma situação perigosa poderia surgir a qualquer momento. Toda a Arábia se levantava contra os muçulmanos. Duas delegações muçulmanas de pregação haviam sido brutalmente assassinadas. Os judeus da tribo Banu Nadir eram tão poderosos que não seria fácil fazê-los entregar as armas. Além disso, era perigoso assumir o risco de entrar em guerra contra eles. Depois do incidente de Bi’r Ma’una e da tragédia anterior, os muçulmanos haviam se tornado muito mais conscientes de crimes como assassinato e traição. Esses crimes os haviam abalado e irritado profundamente. Por isso, decidiram que, como Banu Nadir havia conspirado para assassinar o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, era necessário lutar contra eles, quaisquer que fossem as consequências. Assim que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, recebeu a mensagem de Huyayy ibn Akhtab, os Companheiros disseram “Allahu Akbar” e se prepararam para a batalha. Naquele momento, Abdullah ibn Umm Maktum foi encarregado de administrar Medina. Em seguida, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, partiu com os Companheiros em direção à área habitada por Banu Nadir. A bandeira foi entregue a Ali ibn Abi Talib, que Allah esteja satisfeito com ele. Ao chegarem ao território de Banu Nadir, sitiaram-nos.
Enquanto isso, Banu Nadir refugiou-se dentro de suas fortalezas e ficou sitiada. Depois de fechar os portões das fortalezas, começou a lançar flechas e pedras. Usavam os densos pomares de tamareiras como escudo. Certo dia, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, ordenou que as tamareiras fossem cortadas e queimadas. Aludindo a isso, o famoso poeta Hassan ibn Thabit, que Allah esteja satisfeito com ele, escreveu:
“Para os chefes de Banu Luway, isso é apenas uma coisa comum
As chamas ardentes incendiarão as águas de Buwayba.”
Buwayba era uma área cercada pelos pomares de tamareiras da tribo Banu Nadir. Aludindo a isso, Allah, o Senhor dos mundos, diz: “Cortastes algumas tamareiras e deixastes outras de pé sobre seus troncos; isso ocorreu com a permissão de Allah.” Por isso, ao apresentar o exemplo desse acontecimento, Allah, o Senhor dos mundos, disse: “São semelhantes a Satanás, que diz ao ser humano: ‘Renega a fé.’ Mas, quando ele renega a fé, Satanás diz: ‘Não tenho nada a ver contigo; temo Allah, o Senhor dos mundos.’” (Surata Al-Hashr, versículo 16)
O cerco não se prolongou. Durou seis ou sete noites, ou, segundo outra opinião, quinze noites. Durante esse período, Allah lançou o temor dos muçulmanos nos corações dos judeus, e seu moral foi destruído. Eles concordaram voluntariamente em entregar as armas e enviaram uma mensagem ao Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, dizendo que estavam prontos para deixar Medina. O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, aprovou a proposta dos judeus. Também autorizou que levassem consigo, além das armas, todos os bens que pudessem transportar e que deixassem Medina com suas famílias. Depois de receber essa autorização, Banu Nadir entregou as armas e começou a demolir suas casas com as próprias mãos, embalando os objetos necessários. Providenciaram meios para levar consigo o maior número possível de portas e janelas. Alguns chegaram a levar as vigas dos tetos e os pilares das paredes. Depois, colocaram as mulheres e as crianças sobre camelos e deixaram Medina. A maioria dos judeus refugiou-se em Khaybar. Entre eles estavam os judeus notáveis Huyayy ibn Akhtab e Sallam ibn Abi al-Huqayq, que foram para Khaybar. Um grupo partiu em direção à Síria. Porém, Yamin ibn Amr e Abu Sa’id ibn Wahb aceitaram o Islã. Por isso, os muçulmanos sequer tocaram em seus bens.
De acordo com as condições estabelecidas, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, tomou sob seu controle as armas, as terras, as casas e os pomares da tribo Banu Nadir. Entre as armas havia 50 armaduras, 50 elmos e 340 espadas.
Os jardins, as terras e as casas da tribo dos Banu Nadir pertenciam exclusivamente ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Ele tinha autoridade exclusiva para conservá-los para si ou doá-los a quem quisesse. Por isso, não retirou desses bens um quinto, como se faz com os espólios de guerra. Isso porque Allah, o Senhor dos mundos, concedeu esses bens ao Seu amado Mensageiro como fai. Os muçulmanos não haviam conquistado esses bens por meio de combate. Em razão da autoridade e do direito especiais, o Mensageiro os entregou somente aos muhajirun que haviam emigrado na primeira fase. Devido à sua pobreza, alguns bens foram concedidos a dois companheiros ansaritas, Abu Dujana e Sahl ibn Hunayf, que Allah esteja satisfeito com eles. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, reservou uma pequena parte dos bens para si. Com os rendimentos desses bens reservados, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, custeava durante todo o ano as despesas de suas esposas.
Essa expedição contra os Banu Nadir ocorreu em 4 de agosto de 625 EC. Allah, o Altíssimo, revelou a surata Al-Hashr inteira por ocasião desse acontecimento. Nela, são expostas as más ações dos judeus e desmascarada a verdadeira natureza dos hipócritas.
Após a exposição dos princípios relativos ao fai, os muhajirun e os ansar são elogiados; afirma-se também que, em função das estratégias de guerra, é permitido cortar as árvores dos inimigos e atear-lhes fogo. Tal ato não constitui corrupção na terra. Em seguida, os crentes são exortados a adquirir taqwa e a preparar-se para a Outra Vida. Depois, Allah, o Senhor dos mundos, encerra a surata expressando Seu próprio louvor e descrevendo Seus nomes e atributos.
Por isso, o venerável Abdullah ibn Abbas, que Allah esteja satisfeito com ele, disse que é mais apropriado chamar esta surata de Surata dos Banu Nadir. [Ibn Hisham, vol. 2, pp. 183–187; Zad al-Ma’ad, vol. 2, pp. 209, 110; Sahih al-Bukhari, vol. 2, pp. 584, 568]
Seis) A batalha de Najd
Na batalha contra os Banu Nadir, os muçulmanos alcançaram um sucesso louvável sem qualquer sacrifício ou sofrimento. Com isso, o poder dos muçulmanos em Medina tornou-se ainda mais forte e consolidado. Os hipócritas ficaram desesperados e seus rostos se obscureceram. Já não ousavam realizar abertamente nenhuma ação contra o Islã. Depois disso, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, procurou obter informações sobre os beduínos que, desde Uhud, haviam colocado os muçulmanos em grandes dificuldades. Eles haviam atacado os pregadores e divulgadores do Islã com extrema crueldade e tirado suas vidas. Mais tarde, sua ousadia aumentou tanto que chegaram a pensar em atacar Medina.
Poucos dias depois de permanecer em Medina após a batalha contra os Banu Nadir, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, recebeu a notícia de que as tribos Banu Muharib e Banu Tha’laba, dos Banu Ghatafan, haviam começado a reunir beduínos para combater os muçulmanos. Assim que recebeu essa notícia, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, decidiu empreender uma expedição a Najd. Atravessando as planícies de Najd, o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e os muçulmanos avançaram por uma grande distância. O objetivo dessa expedição era incutir temor no coração dos beduínos ferozes, para que não ousassem repetir suas atividades anteriores contra os muçulmanos.
Ao ouvirem a notícia dessa súbita expedição dos muçulmanos, os beduínos, habituados e experientes em pilhagem, banditismo, assaltos e atos de temeridade, ficaram apavorados, fugiram e refugiaram-se nas montanhas. Depois de estabelecer sua influência sobre esses saqueadores, os muçulmanos partiram rumo a Medina.
Os historiadores que mencionam as batalhas referiram-se, nesta etapa, a uma batalha específica, conhecida como a Batalha de Dhat al-Riqa, no quarto ano da Hégira. Pelas informações e evidências disponíveis, entende-se que, naquela época, ocorreu uma batalha no interior de Najd. Isso porque a situação de Medina era semelhante. Ao retornar da Batalha de Uhud, Abu Sufyan havia ameaçado travar, no ano seguinte, uma batalha na planície de Badr, e os muçulmanos aceitaram o desafio dessa ameaça. Esse momento estava novamente se aproximando. Não seria sensato deixar Medina desguarnecida para partir para uma grande batalha semelhante à de Badr, permitindo que os beduínos continuassem com sua obstinação e arbitrariedade. Antes de sair para uma batalha tão terrível quanto a que ocorrera na planície de Badr, era necessário desferir um golpe contra os excessos dos beduínos, para que, pensando nesse golpe, no futuro eles jamais ousassem sequer considerar atacar Medina.
Parece que a batalha ocorrida no mês de Rabi al-Thani ou Jumada al-Awwal do quarto ano da Hégira não foi a Batalha de Dhat al-Riqa. De acordo com as evidências disponíveis, uma batalha desse tipo não ocorreu naquela época. Isso porque Abu Hurayra e Abu Musa al-Ashari estiveram presentes na Batalha de Dhat al-Riqa. Abu Hurayra havia aceitado o Islã poucos dias antes da Batalha de Khaybar. Abu Musa al-Ashari havia comparecido perante o Mensageiro de Allah em Khaybar.
A segunda prova de que a Batalha de Dhat al-Riqa ocorreu bastante tempo depois do quarto ano da Hégira é que, nela, o Mensageiro de Allah realizou a oração do medo (a oração realizada em estado de guerra é chamada de oração do medo. Um de seus procedimentos é que metade dos soldados reza atrás do imame enquanto permanece equipada com suas armas, e a outra metade, também armada, vigia o inimigo. Após uma rak‘ah, a segunda metade passa para trás do imame, enquanto a primeira metade avança para vigiar o inimigo. O imame completa a segunda rak‘ah, e os dois grupos do exército completam suas respectivas orações alternadamente. Há ainda outras regras relacionadas a essa oração, que são observadas de acordo com as condições da guerra. Consulte os livros de hadith para obter detalhes). A oração do medo foi realizada pela primeira vez na Expedição de Asfan. Não há dúvida de que a Expedição de Asfan ocorreu depois da Batalha da Trincheira. A Batalha da Trincheira ocorreu no final do quinto ano da Hégira. Na realidade, a Expedição de Asfan foi um acontecimento relacionado à viagem a Hudaybiyyah. A viagem a Hudaybiyyah ocorreu no final do sexto ano da Hégira. Depois de retornar de lá, o Mensageiro de Allah partiu em direção a Khaybar. Também por essa indicação fica comprovado que a Batalha de Dhat al-Riqa ocorreu somente depois da Batalha de Khaybar.
Sete) A segunda batalha de Badr
Depois de assegurar-se dos inimigos nas proximidades de Medina e silenciar as transgressões dos beduínos, os muçulmanos começaram a preparar-se para combater os grandes inimigos, os coraixitas. Isso porque o ano estava terminando rapidamente, e aproximava-se também o prazo estabelecido na época de Uhud. Era preciso combater o Mensageiro de Allah e seu povo e mostrar-lhes que os muçulmanos não eram fracos. Além disso, nessa batalha, somente o grupo guiado e obediente ao Criador do universo seria considerado digno de sobreviver. As circunstâncias também estariam a seu favor.
No mês de Sha‘ban do quarto ano da Hégira, isto é, em janeiro de 626, o Mensageiro de Allah partiu em direção a Badr para a batalha planejada, deixando a responsabilidade de Medina sob os cuidados de Abdullah ibn Rawahah. Com ele estavam mil e quinhentos mujahidin e dez cavalos. A bandeira do exército foi entregue a Ali. Ao chegarem à planície de Badr, o Mensageiro de Allah e os muçulmanos ficaram esperando o inimigo.
Enquanto isso, Abu Sufyan partiu com um grupo de dois mil soldados politeístas e cinquenta cavaleiros, e acampou junto ao famoso poço chamado Majannah, em Marr az-Zahran, a uma distância de uma planície de Meca. Contudo, desde o momento em que partira de Meca, Abu Sufyan estava tomado pelo medo e pela ansiedade. Que benefício haviam obtido anteriormente ao combater os muçulmanos? Abu Sufyan começou a avaliar suas experiências passadas. Ao pensar na bravura e no sacrifício dos muçulmanos, Abu Sufyan não tinha coragem de avançar. Ao chegar ao lugar chamado Marr az-Zahran, seu moral foi completamente destruído. Começou a procurar uma desculpa para retornar a Meca. Por fim, disse aos companheiros: “Ouçam, companheiros: só se pode guerrear quando há abundância. Quando há bastante pasto, os animais comem à vontade, e vocês bebem seu leite. Mas agora é a estação seca. Portanto, eu estou voltando; vocês também voltem.”
Todos os soldados do grupo dos coraixitas pareciam estar tomados pelo medo. Depois das palavras de Abu Sufyan, ninguém foi capaz de apresentar um novo argumento. Ninguém mais demonstrava interesse em combater os muçulmanos. Assim, todos retornaram.
Enquanto isso, os muçulmanos aguardaram durante oito dias, na planície de Badr, pelas tropas inimigas. Nesse período, venderam mercadorias comerciais, transformando um dirham em dois. Após oito dias, retornaram a Medina alegres e orgulhosos, com atitude de heróis.
Naquele momento, a situação estava inteiramente favorável aos muçulmanos. Essa batalha é conhecida como a batalha prometida, a segunda batalha de Badr, outra batalha de Badr ou a pequena batalha de Badr. [Ibn Hisham, vol. 2, p. 209; Zad al-Ma’ad, vol. 2, p. 112]
A batalha de Dumat al-Jandal
O Mensageiro de Allah retornou de Badr. Havia paz e tranquilidade por toda parte. Em toda a região, espalhavam-se os sinais da vitória do Islã, numa atmosfera serena, agradável e perfumada. O Mensageiro de Allah sentiu a necessidade de voltar sua atenção até os confins da Arábia. Isso também era necessário, pois, assim, os muçulmanos manteriam um controle firme sobre a situação, e tanto os inimigos quanto os aliados compreenderiam e reconheceriam esse fato.
Após a pequena batalha de Badr, o Mensageiro de Allah passou seis meses em Medina, em paz e tranquilidade. Então, foi informado de que, nas proximidades de Dumat al-Jandal, perto da Síria, algumas tribos estavam saqueando e pilhando as caravanas que passavam. Elas também haviam preparado um grande grupo para atacar Medina. Diante dessas notícias, o Mensageiro de Allah nomeou Saba ibn Arfata al-Ghifari como seu substituto em Medina e partiu com mil muçulmanos. Esse acontecimento ocorreu no dia 25 de Rabi al-Awwal do quinto ano da Hégira. Para guiá-los pelo caminho, levaram consigo um homem chamado Madhkur, da tribo de Banu Adhra.
Durante essa expedição, o costume do Mensageiro de Allah era viajar à noite e esconder-se durante o dia. Essa estratégia era adotada para realizar um ataque súbito contra os inimigos. Ao chegarem a Dumat al-Jandal, soube-se que eles haviam se retirado para outro lugar. Seus rebanhos e pastores foram capturados. Alguns também conseguiram fugir.
Os habitantes de Dumat al-Jandal também fugiram, cada qual para onde pôde. Quando os muçulmanos chegaram ao campo de Dumat al-Jandal, não encontraram nenhum dos habitantes locais. O Mensageiro de Allah permaneceu ali por alguns dias. Grupos de soldados foram enviados para diversos lugares próximos, mas ninguém foi encontrado. Alguns dias depois, o Mensageiro de Allah retornou a Medina. Durante essa expedição, foi firmado um tratado com Uyayna ibn Hisn. Dumat al-Jandal é uma cidade situada na fronteira da Síria. Dali, a distância até Damasco era de cinco noites de viagem, e até Medina, de quinze noites.
Graças a essas medidas ponderadas e a esse planejamento sábio, o Mensageiro de Allah conseguiu difundir, por regiões distantes, a glória e o poder do Islã, bem como seu ideal de paz. O curso dos acontecimentos passou a favorecer os muçulmanos, e as crises dos problemas internos e externos diminuíram. Durante algum tempo, porém, os dois tipos de problemas haviam cercado os muçulmanos. Como resultado dessas expedições vitoriosas, os hipócritas silenciaram. Uma tribo judaica foi expulsa, enquanto outra prometeu comportar-se como uma boa vizinha. O poder dos coraixitas também enfraqueceu. Os muçulmanos tiveram a oportunidade de divulgar os elevados ensinamentos do Islã e transmitir a mensagem da religião de Allah, o Senhor dos Mundos.
A Batalha da Trincheira
Como resultado das atividades militares dos muçulmanos durante mais de um ano, a paz foi estabelecida em Jაზirat al-Arab, isto é, na Península Arábica. A influência e o prestígio dos muçulmanos se expandiram por toda parte. Nessa época, os judeus foram submetidos a diversos tipos de humilhação e desonra por causa de seu comportamento abominável, de suas conspirações e de sua traição. Ainda assim, não aprenderam a lição nem tiraram qualquer ensinamento. Após o exílio de Khaybar, os judeus ficaram esperando para ver aonde chegaria o conflito entre os muçulmanos e os idólatras. Porém, a situação se encaminhava cada vez mais a favor dos muçulmanos, e os triunfos do Islã se espalhavam por lugares distantes. Ao verem isso, os judeus começaram a arder de inveja. Eles iniciaram novas conspirações e começaram a se preparar para desferir um golpe final contra os muçulmanos. Queriam exterminá-los para sempre. Contudo, não tinham coragem de enfrentá-los diretamente; por isso, adotaram um plano terrível para alcançar seu objetivo.
Eis o relato do acontecimento: vinte chefes e líderes da tribo dos Banu Nadir compareceram diante dos coraixitas em Meca. Eles incitaram os coraixitas a combater o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, dizendo que também lhes dariam todo o apoio. Os coraixitas aceitaram. Durante a Batalha de Uhud, os coraixitas haviam prometido combater no ano seguinte na planície de Badr, mas não puderam cumprir a promessa. Por isso, pensaram que, por meio de uma nova ação militar, poderiam preservar sua reputação e seu prestígio, além de cumprir o compromisso assumido anteriormente.
Depois disso, a delegação judaica foi até os Banu Ghatafan e os incentivou a participar da guerra, assim como havia feito com os coraixitas. Eles também se prepararam. Em seguida, esses representantes judeus percorreram as diversas tribos da Arábia, incitando-as contra os muçulmanos e convocando-as para a guerra. Com isso, muitas pessoas se prepararam para combater. Em suma, os políticos judeus conseguiram formar uma aliança com os incrédulos e prepararam muitas pessoas para combater o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, sua الدعوة e os muçulmanos.
Depois, de acordo com o plano traçado, os coraixitas, os Kinana e outras tribos aliadas que viviam em Tihama partiram do sul em direção a Medina. Seu comandante era o líder incrédulo Abu Sufyan. O número total de soldados era de quatro mil. Quando chegaram a Marr az-Zahran, os membros da tribo dos Banu Sulaym juntaram-se a eles. Enquanto isso, do leste, partiram as tribos de Ghatafan, Fazara, Murra e Ashja.
O comandante dos soldados de Fazara era Uyayna ibn Hisn. O comandante da tribo dos Banu Murra era al-Harith ibn Awf, e o comandante dos Banu Ashja era Masara ibn Rakhil. Muitos homens dos Banu Asad e de outras tribos também se juntaram a eles.
No dia determinado, todas essas pessoas partiram em direção a Medina, conforme o plano previamente anunciado. Em pouco tempo, um enorme exército de dez mil soldados reuniu-se nos arredores de Medina. Seu número era tão grande que nem mesmo toda a população de Medina, incluindo mulheres e crianças, igualava-se a ele. Se esse enorme exército tivesse avançado repentinamente sobre Medina, teria criado uma situação perigosa para os muçulmanos. Não seria de modo algum impossível que os exterminasse completamente. Entretanto, o líder dos muçulmanos em Medina era extremamente vigilante e consciente. Ele tomava decisões de acordo com a gravidade da situação. Os espiões encarregados de fornecer informações ao Estado Islâmico informaram oportunamente ao Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, que os soldados de várias tribos haviam partido em direção a Medina.
Assim que recebeu a notícia, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, reuniu-se com os Companheiros ilustres em uma sessão do conselho consultivo e começou a discutir a estratégia de defesa de Medina. Após analisar as propostas, uma sugestão de Salman al-Farisi, que Allah esteja satisfeito com ele, foi aprovada por unanimidade. Salman, que Allah esteja satisfeito com ele, apresentou sua proposta da seguinte maneira: “Ó Mensageiro de Allah, quando éramos cercados na Pérsia, cavávamos trincheiras ao nosso redor.”
Esta foi uma proposta de defesa bem ponderada. O povo da Arábia não conhecia esse tipo de estratégia. O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) aprovou a proposta e começou imediatamente os trabalhos de escavação. O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) supervisionava pessoalmente esse trabalho. Ele próprio também participou da escavação da trincheira. Está narrado por Hazrat Sahl ibn Sa’d (que Allah esteja satisfeito com ele) no Sahih Bukhari Sharif que estávamos com o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) na trincheira; as pessoas escavavam, enquanto nós carregávamos a terra nos ombros e a levávamos para longe. Nessa ocasião, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: «A vida da Outra Vida é, de fato, a verdadeira vida. Ó Misericordioso, perdoa os Ansar e os Muhajirun.» [Sahih Bukhari, capítulo sobre a Batalha da Trincheira, vol. 2, p. 588]
Em outra narração, transmitida por Hazrat Anas (que Allah esteja satisfeito com ele), consta que o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) foi até a trincheira e viu que, numa manhã de inverno, os Muhajirun e os Ansar estavam ocupados escavando-a. Eles não tinham escravos que pudessem realizar esse trabalho em seu lugar. Ao ver o sofrimento e a fome dos Companheiros, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse:
«Ó Allah, a vida é certamente a vida da Outra Vida
Perdoa os Muhajirun e os Ansar, ó Compassivo.»
Os Ansar e os Muhajirun responderam:
Enquanto tivermos vida
Prestamos juramento de lealdade para o jihad pelas mãos de Muhammad.» [Bukhari, vol. 1, p. 397; vol. 2, p. 588.]
No Sahih Bukhari Sharif, há uma narração de Hazrat Bara ibn Azib (que Allah esteja satisfeito com ele) segundo a qual vi o Mensageiro de Allah escavando a terra na Batalha da Trincheira. Seu corpo estava coberto de poeira. Seus cabelos eram abundantes. Mesmo nesse estado, ele escavava a terra e dizia:
‘Sem Ti não teríamos recebido orientação, ó Soberano,
não daríamos zakat nem faríamos a oração.
Concede-nos paz, para que nossos corações permaneçam firmes; quando houver batalha, mantém firmes nossos passos.
Eles incitaram as pessoas contra nós,
mas sabemos que não curvaremos a cabeça diante da provação.’
Hazrat Bara’ relata que o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) pronunciava com firmeza as palavras finais. Em outra narração, os dois últimos versos do poema aparecem assim:
Se eles quiserem cometer injustiça e lançar-nos na provação,
seremos daqueles que não baixam a cabeça. [Bukhari, 2º volume, p. 589]
De um lado, os muçulmanos trabalhavam com grande entusiasmo e fervor; de outro, suportavam uma fome intensa. Ao pensar nisso, o coração estremece. Hazrat Anas (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: traziam um pouco de cevada aos que cavavam a trincheira e também traziam um pouco de farinha de cevada aquecida. Era esse alimento insípido e sem sabor que eles comiam. [Bukhari, vol. 2, p. 588]
Abu Talha (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: relatamos ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) que estávamos com fome e mostramos uma pedra amarrada ao nosso abdômen sob a roupa; então o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) mostrou-nos duas pedras amarradas ao seu abdômen. [Jami‘ at-Tirmidhi, Mishkat, vol. 2, p. 448]
Durante a escavação da trincheira, também se manifestaram alguns sinais da profecia. É mencionado no Sahih Bukhari que, ao ver o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) sofrendo intensamente de fome, Jabir ibn Abdullah (que Allah esteja satisfeito com ele) sacrificou um cabrito. Sua esposa preparou pães com um sa‘ de cevada (aproximadamente dois quilos e meio). Depois, disse secretamente ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele): “Venha à nossa casa com alguns de seus companheiros mais próximos.” Porém, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) partiu levando consigo todos os companheiros ocupados na escavação. Eram mil companheiros. Então todos comeram pão e carne até se saciarem, enquanto a panela de carne ainda fervia sobre o fogo. Todo pão que era preparado era servido, mas não acabava. Preparava-se pão continuamente, um após o outro. [Sahih Bukhari, vol. 2, pp. 588, 4898]
A irmã de Nu‘man ibn Bashir trouxe algumas tâmaras para a trincheira. Ela as havia trazido para que seu irmão e seu tio materno comessem. Quando as levava ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), pediu as tâmaras de volta, estendeu uma esteira e espalhou-as sobre ela. Depois, chamou os companheiros ocupados na escavação para comer. Os companheiros começaram a comer. Quanto mais comiam, mais as tâmaras aumentavam. Todos comeram até se saciar e foram trabalhar; ainda assim, as tâmaras continuavam caindo para fora do tecido estendido. [Ibn Hisham, vol. 2, p. 218]
Naquela ocasião ocorreu um acontecimento ainda mais admirável que os dois mencionados acima. O Imam Bukhari narra esse acontecimento a partir de Jabir (que Allah esteja satisfeito com ele). Jabir (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: estávamos cavando a trincheira quando, de repente, surgiu uma grande pedra. Não conseguíamos movê-la de maneira alguma. Então informamos o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Ele disse: “Estou indo.” Naquele momento, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) tinha uma pedra amarrada ao abdômen. Ele golpeou com uma pá a pedra que estava dentro da trincheira. Imediatamente, ela se transformou em um monte de terra e areia. [Sahih Bukhari, vol. 2, p. 588]
Hazrat Bara ibn Azib (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: durante a escavação da trincheira surgiu um enorme obstáculo. Quando o golpeávamos com a pá, o golpe ricocheteava. Informamos o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) sobre o assunto. Ele tomou a pá, disse “Bismillah” e golpeou. Uma parte da pedra se quebrou. Ele disse: “Allahu Akbar, foram-me dadas as chaves da região do Sham, isto é, da Síria. Juro por Allah, agora vejo ali o palácio vermelho.” Depois, golpeou pela segunda vez, e outro fragmento se soltou. Ele disse: “Juro por Allah, agora vejo o palácio branco de Mada’in.” Em seguida, deu o terceiro golpe e disse: “Bismillah.” Com isso, o restante da pedra foi cortado. Ele disse: “Allahu Akbar, foram-me dadas as chaves do Iêmen. Agora vejo os portões de Sana’a.” [Sunan an-Nasa’i, vol. 2, p. 56]
Ibn Ishaq também mencionou uma narração semelhante de Hazrat Salman al-Farisi (que Allah esteja satisfeito com ele).
A cidade de Medina é aberta ao norte e cercada nos outros três lados por montanhas e palmeirais. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) era um estrategista militar perspicaz. Ele sabia que os não muçulmanos viriam do norte para atacar Medina. Por isso, mandou cavar a trincheira somente ao norte. [Ibn Hisham, vol. 2, p. 219]
Os muçulmanos prosseguiram de maneira uniforme no trabalho de escavação da trincheira. Escavavam durante todo o dia e voltavam para casa ao anoitecer. Antes que o exército dos incrédulos chegasse aos arredores de Medina, o trabalho de escavação da trincheira foi concluído conforme o plano. [Ibn Hisham, vol. 2, pp. 220–221]
Os coraixitas chegaram com quatro mil soldados e montaram acampamento em Majma‘ al-Asyal, entre Ruma, Jurf e Jagabar, nos arredores de Medina. Por outro lado, os Gatafã e seus aliados de Najd chegaram com seis mil soldados e montaram acampamento na área de Jamb Naqmi, a leste de Uhud.
Allah, o Altíssimo, diz: “Quando os crentes viram as forças coligadas, exclamaram: ‘Isto é precisamente o que Allah e Seu Mensageiro nos haviam prometido, e Allah e Seu Mensageiro disseram a verdade.’ E isso apenas lhes aumentou a fé e a obediência.” (Surata Al-Ahzab, versículo 22)
Mas, quando os hipócritas e os fracos de coração os viram, começaram a tremer de medo. Allah, Senhor dos mundos, diz: “E os hipócritas e aqueles em cujos corações havia uma doença diziam: ‘Allah e Seu Mensageiro não nos prometeram senão ilusões.’” (Surata Al-Ahzab, versículo 12)
Para enfrentar as forças coligadas dos não muçulmanos, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, preparou um exército de dez mil soldados. Eles assumiram uma posição de cerco, deixando o monte Sala‘ às suas costas. À frente encontrava-se a trincheira. A senha dos muçulmanos era: “Ha-Mim, la insarun”, isto é, que não se lhes prestasse auxílio. A responsabilidade por Medina foi confiada a Abdallah ibn Umm Maktum. As mulheres e as crianças foram alojadas em diferentes fortalezas e casas protegidas.
Os inimigos chegaram para atacar Medina e descobriram que uma trincheira profunda e larga constituía uma barreira entre eles e Medina. Por isso, permaneceram sitiando a cidade. Quando partiram em direção a Medina, não haviam imaginado que encontrariam um obstáculo desse tipo; não tinham qualquer preparação mental para isso. Diziam entre si que semelhante estratégia de defesa era algo completamente novo para os árabes. Como não haviam sequer imaginado essa estratégia defensiva inovadora, os incrédulos ficaram perplexos.
Ao chegarem à trincheira, os inimigos ficaram desorientados de raiva. Haviam pensado que derrotariam facilmente os muçulmanos. Enquanto isso, os muçulmanos vigiavam os movimentos dos incrédulos e não lhes permitiam aproximar-se da trincheira. Quando se aproximavam, lançavam flechas contra eles. Como resultado, os inimigos ficaram em grande dificuldade. Não ousavam aproximar-se da trincheira, e era inconcebível que pudessem preenchê-la lançando terra.
Como poderiam os soldados coraixitas impor um cerco junto à trincheira e esperar indefinidamente sem obter qualquer resultado? Isso era contrário aos seus costumes e à sua honra. Um grupo deles atravessou a trincheira, ou fosso, por um ponto estreito. Depois, alguns deles começaram a circular a cavalo entre a trincheira e Sala‘. Entre eles estavam Amr ibn Abd, Ikrima ibn Abu Jahl e Dirar ibn Khattab, entre outros. O califa Ali, que Allah esteja satisfeito com ele, saiu acompanhado de alguns muçulmanos. Eles assumiram o controle do ponto por onde aqueles homens haviam entrado e bloquearam sua rota de retorno. Então Amr ibn Abd desafiou o califa Ali, que Allah esteja satisfeito com ele, gritando para que o enfrentasse em combate individual. O Leão de Allah, Ali, que Allah esteja satisfeito com ele, disse algo que deixou Amr cego de raiva; ele saltou do cavalo. Em seguida, matou o cavalo e apresentou-se diante do califa Ali, que Allah esteja satisfeito com ele. Era um grande guerreiro. Irrompeu entre os dois um violento combate. Cada um atacava o outro para subjugá-lo. Por fim, o califa Ali, que Allah esteja satisfeito com ele, pôs fim à vida dele. Os demais politeístas fugiram correndo para o outro lado da trincheira. Estavam extremamente aterrorizados. Ikrima, filho de Abu Jahl, fugiu deixando para trás a própria lança.
Os politeístas tentaram de todas as formas atravessar a trincheira ou preenchê-la para abrir uma passagem. Porém, os muçulmanos não lhes permitiam aproximar-se da trincheira. Disparando flechas contra eles e apontando-lhes lanças, repeliram-nos de tal maneira que todas as suas tentativas fracassaram.
Devido a esse confronto intenso, os Companheiros tiveram de deixar passar algumas orações. Está narrado no Sahih de Bukhari e no Sahih de Muslim, por Jabir (que Allah esteja satisfeito com ele), que Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) chegou no dia da batalha da Trincheira e, depois de criticar duramente os incrédulos, disse ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele): “Ó Mensageiro de Allah, hoje só consegui realizar a oração quando o sol estava prestes a se pôr.” O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “E eu ainda nem realizei a oração.” Então os Companheiros fizeram a ablução depois que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) fez a ablução. O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) realizou a oração do Asr. Enquanto isso, o sol já havia se posto. Depois, realizou a oração do Maghrib.
O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) ficou profundamente angustiado por ter sido obrigado a compensar a oração do Asr. Ele suplicou contra os politeístas. Está narrado no Sahih de Bukhari, por Ali (que Allah esteja satisfeito com ele), que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse no dia da batalha da Trincheira: “Ó Allah, enche de fogo as casas e os túmulos de todos esses politeístas. Por causa deles, tivemos de realizar a oração do Asr, quando o sol já havia se posto.” [Sahih de Bukhari, vol. 2, p. 590]
Está narrado no Musnad de Ahmad e no Musnad de al-Shafi’i que os politeístas não permitiram que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) realizasse no horário as orações do Dhuhr, do Asr, do Maghrib e do Isha. O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) realizou essas orações juntas. O Imam al-Nawawi disse que, quanto à aparente divergência entre as narrações dos hadiths mencionados, pode-se dizer que todas são corretas. A batalha da Trincheira durou vários dias; em um dia ocorreu uma situação e, no dia seguinte, outra.
Esses hadiths mostram que os politeístas tentaram desesperadamente, durante vários dias, atravessar a trincheira e atacar Medina, enquanto os muçulmanos repeliam essas tentativas. A trincheira erguia-se como uma barreira entre os dois grupos. Por isso, não houve oportunidade para um confronto sangrento corpo a corpo. Em vez disso, foram disparadas flechas de um lado contra o outro.
Algumas pessoas de ambos os lados foram mortas pelos disparos de flechas. Seu número, porém, era dez. Entre os politeístas mortos, dois ou um perderam a vida por golpes de espada.
Uma flecha atravessou o corpo de Sa’d ibn Mu’adh (que Allah esteja satisfeito com ele). Com isso, ele ficou gravemente ferido. Um politeísta chamado Hibban ibn al-‘Arqa disparou a flecha contra ele. Esse homem era descendente dos coraixitas. Depois de ser ferido, Sa’d (que Allah esteja satisfeito com ele) suplicou: “Ó Allah, Tu sabes que combater, em Teu caminho, o povo cujos membros negaram o Teu Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e o expulsaram de suas casas é mais amado por mim do que combater qualquer outro povo. Ó Allah, creio que fizeste a guerra entre nós e eles chegar à sua fase final. Ó Allah, se ainda resta uma guerra contra os coraixitas, conserva-me para essa guerra, para que eu possa combater contra eles. Se terminaste a minha luta contra os incrédulos, então não permitas que a ferida causada por este ferimento cicatrize, e faze desta ferida a causa da minha morte.” [Sahih de Bukhari, vol. 2, p. 591] Ao concluir a súplica, ele disse: “Ó Allah, não me deixes morrer até que meus olhos se alegrem com relação aos Banu Qurayza.”] Ibn Hisham, vol. 2, p. 227]
Em suma, os muçulmanos enfrentavam, por um lado, os problemas do campo de batalha, enquanto, por outro, prosseguiam as desprezíveis atividades de conspiração e intriga. Os conspiradores e intrigantes tentavam injetar veneno no corpo dos muçulmanos. Huway ibn Akhtab, o perverso líder da tribo Banu Nadir, foi até os membros da tribo Banu Qurayza e apresentou-se diante de seu chefe, Ka’b ibn Asad. Esse Ka’b ibn Asad havia sido o mediador da conclusão do pacto em nome dos Banu Qurayza. Ele havia firmado um acordo com o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), comprometendo-se a ajudá-lo em tempos de guerra. Isso já foi discutido anteriormente.
Huyay chegou e chamou à porta de Ka‘b. Assim que viu Huyay, Ka‘b abriu a porta. Depois de entrar, Huyay disse: “Ó Ka‘b, trouxe para ti a honra da época e um mar agitado. Reuni todos os coraixitas, juntamente com seus chefes, em Rumat Majma‘ al-Asyal. Reuni também os homens da tribo de Banu Ghatafan, juntamente com todos os seus chefes, em Jamb Nakim, próximo de Uhud. Eles me prometeram que não abandonarão aquele lugar antes de exterminarem completamente Maomé e seus companheiros.”
Ka‘b disse: “Por Deus, trouxeste a humilhação da minha época e uma nuvem carregada de chuva. Dela só relampeja e troveja, mas nada de bom resta nela. Ai de ti, Huyay! Deixa-me em paz. Nada vi em Maomé além de veracidade e lealdade.” Huyay, porém, começou a afagar a cabeça e o corpo de Ka‘b, abraçando-o ao peito com falsa emoção e demonstrando-lhe um amor sincero. Assim, acabou conseguindo que Ka‘b concordasse. Contudo, teve de prometer-lhe: “Se os coraixitas forem obrigados a retornar sem matar Maomé, entrarei contigo na tua fortaleza. Depois, aceitarei o destino que te couber.” Após essa promessa de Huyay, Ka‘b ibn Asad rompeu o compromisso que havia firmado com o Mensageiro de Deus e violou o tratado celebrado com os muçulmanos, participando da guerra contra eles ao lado dos politeístas. [Ibn Hisham, vol. 2, pp. 220–221]
Depois disso, os judeus de Banu Qurayza começaram a preparar-se para combater os muçulmanos. Ibn Ishaq disse que Safiyya bint ‘Abd al-Muttalib estava dentro da fortaleza chamada Far‘, pertencente a Hassan ibn Thabit. Hassan estava ali mesmo, junto com as mulheres e as crianças. Safiyya disse: “Um judeu passou perto de nós e começou a rondar a fortaleza. Isso aconteceu quando Banu Qurayza havia rompido o tratado celebrado com o Mensageiro de Deus e entrado em guerra contra ele. Naquele momento, entre nós e os judeus que haviam violado o tratado, não havia ninguém que pudesse garantir nossa segurança. O Mensageiro de Deus estava ocupado, junto com os Companheiros, enfrentando as forças inimigas reunidas. Se alguém nos atacasse, ele não poderia vir até nós. Então chamei a atenção de Hassan e disse: ‘Ó Hassan, um judeu está rondando a fortaleza. Suspeito que ele incitará os outros judeus contra nós. O Mensageiro de Deus e os Companheiros estão tão ocupados com outras tarefas que não poderão vir até nós. Portanto, vá e mate-o.’ Hassan disse: ‘Você sabe que não sou homem para esse tipo de coisa.’” Safiyya continuou seu relato: “Amarrei um pano à cintura, peguei um pedaço de madeira, fui até o judeu do lado de fora da fortaleza e o golpeei cruelmente até matá-lo. Depois, voltei à fortaleza e disse a Hassan: ‘Vá retirar as armas e os demais pertences daquele homem.’ Como ele era homem, não retirei suas armas. Hassan disse: ‘Não temos necessidade das armas nem dos pertences dele.’” 18
A bravura da tia do Mensageiro de Deus, ao proteger as mulheres e as crianças muçulmanas, teve um grande impacto. Os judeus imaginaram que dentro da fortaleza havia uma unidade de tropas auxiliares dos muçulmanos. Por isso, não ousaram enviar mais ninguém para perto daquela fortaleza, embora ali não houvesse soldado algum.
Contudo, para demonstrar que estavam unidos aos soldados politeístas coraixitas, forneciam-lhes regularmente alimentos. Em certa ocasião, os muçulmanos capturaram vinte camelos entre esses suprimentos.
Em suma, assim que recebeu a notícia de que os judeus haviam rompido o compromisso, o Mensageiro de Deus voltou sua atenção para o assunto. Primeiro, quis verificar a veracidade da questão, para que ficasse clara a verdadeira posição de Banu Qurayza. Caso se encontrassem provas de que o tratado havia sido violado, seriam tomadas as medidas militares necessárias de acordo com isso.
Por isso, o Mensageiro de Deus enviou alguns Companheiros. Eram Sa‘d ibn Mu‘adh, Sa‘d ibn ‘Ubadah, ‘Abdullah ibn Rawahah e Khawwat ibn Jubayr. O Mensageiro de Deus disse: “Ide e investigai o que se tem ouvido sobre Banu Qurayza; depois, informai-me disso por meio de sinais. Se forem apenas rumores, anunciai publicamente que eles permanecem firmes no tratado celebrado conosco.”
Os Companheiros foram até os membros da tribo de Banu Qurayza e perceberam que eles proferiam palavras desrespeitosas contra o Mensageiro de Deus e os muçulmanos. Diziam: “Quem é afinal o Mensageiro de Deus? Não há tratado algum entre nós e Maomé.” Ao ouvir isso, os Companheiros retornaram. Quando chegaram diante do Mensageiro de Deus, disseram apenas, por meio de sinais: “Adal e Qarah.” Ou seja, assim como os membros das tribos de Adal e Qarah haviam traído a delegação muçulmana, Banu Qurayza também estava envolvido no mesmo tipo de traição.
18. Ibn Hisham, vol. 2, p. 228
Embora tenha tentado comunicar isso por meio de sinais, os outros Companheiros perceberam. Como resultado, todos se viram diante de uma situação terrível.
Na realidade, os muçulmanos encontravam-se então numa situação complexa. Atrás deles estava a tribo de Banu Qurayza. Se eles atacassem, não havia ninguém para conter o ataque. À frente estava o exército unido dos incrédulos. Também não era possível ignorá-los. Não havia nenhuma medida para garantir a segurança das mulheres e crianças muçulmanas; elas estavam ao alcance dos judeus traidores. Por essas razões, o estado psicológico dos muçulmanos havia se tornado extremamente frágil. Foi justamente essa situação que Allah, o Altíssimo, descreveu assim: “Quando eles vieram contra vós, de cima e de baixo, os vossos olhos se desviaram, os vossos corações chegaram às gargantas e vós tivestes diversos pensamentos acerca de Allah. Então os crentes foram postos à prova e foram violentamente abalados.” (Surata Al-Ahzab, versículos 10 e 11)
Naquele momento, alguns hipócritas também começaram a agir. Diziam entre si: “Muhammad havia nos prometido que desfrutaríamos os tesouros de César e de Kisra, mas agora chegamos a uma situação em que até mesmo sair para urinar ou defecar implica risco de vida.” Alguns hipócritas iam até os líderes de seu grupo e diziam: “As nossas casas estão expostas diante do inimigo. Concedei-nos permissão para voltar para nossas casas. As nossas casas ficam fora da cidade.”
A situação chegou a tal ponto que os membros da tribo de Banu Salama ficaram profundamente abalados. Eles pensavam em recuar. Sobre eles, Allah, o Altíssimo, diz: “E os hipócritas, em cujos corações havia uma doença, diziam: ‘Allah e Seu Mensageiro nada nos prometeram senão ilusões’; e um grupo deles dizia: ‘Ó povo de Yathrib, não há lugar para vós aqui; retornai’; e um grupo deles pedia permissão ao Profeta, dizendo: ‘As nossas casas estão desprotegidas’. Na verdade, elas não estavam desprotegidas; eles apenas pretendiam fugir.” (Surata Al-Ahzab, versículos 12 e 13)
Enquanto a situação era essa, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, deitou-se envolto em seu manto. Ao vê-lo permanecer deitado assim por muito tempo, a inquietação dos Companheiros aumentou ainda mais. Depois de algum tempo, uma nova inspiração surgiu no coração do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Ele levantou-se dizendo “Allahu Akbar” e declarou: “Ó muçulmanos, recebei a boa notícia do auxílio de Allah e da vitória.”
Em seguida, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, tomou medidas para enfrentar a situação existente. Enviou um grupo de muçulmanos para garantir a segurança. Temia que os judeus, percebendo a desatenção dos muçulmanos, lançassem de repente um ataque contra as mulheres e crianças muçulmanas. Contudo, era necessário tomar uma medida decisiva que pudesse separar os diversos grupos inimigos uns dos outros. Para alcançar esse objetivo, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, pensou em fazer um acordo com os dois líderes de Banu Ghatafan, Uyayna ibn Hisn e Harith ibn Awf.
Por meio desse acordo, um terço da produção agrícola de Medina seria entregue a Banu Ghatafan. Se essa concessão fosse feita, os judeus retornariam. Consequentemente, os muçulmanos poderiam enfrentar melhor os inimigos de Quraysh. Uma proposta desse tipo chegou a ser discutida. Contudo, quando o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, consultou dois ilustres Companheiros chamados Sa’d ibn Mu’adh e Sa’d ibn Ubadah, eles expressaram uma opinião diferente. Disseram: “Ó Mensageiro de Allah, se Allah, o Altíssimo, vos deu essa ordem, nós a aceitaremos sem objeção. Mas, se desejais fazer isso apenas por nossa causa, então dizemos que não precisamos disso. Quando nós e eles adorávamos ídolos, eles não podiam esperar de nós sequer um grão, exceto por hospitalidade e comércio. Agora Allah, o Altíssimo, nos concedeu honra e dignidade; nessa situação, entregaríamos a eles os nossos bens? Por Allah, nós lhes daremos apenas as nossas espadas.” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, declarou que a opinião dos dois Companheiros era correta e disse: “Eu havia pensado de outra maneira. Toda a Arábia se uniu e se levantou contra vós. Foi pensando nisso que quis fazer isso somente por vossa causa.”
Depois, pela vontade de Allah, começou a desintegração do exército inimigo. Surgiram fissuras em sua unidade. Sua força perdeu o fio. Na’im ibn Mas’ud ibn ‘Amir al-Ashja’i, da tribo de Banu Ghatafan, foi secretamente até o Mensageiro de Allah e disse: “Ó Mensageiro de Allah, aceitei o Islã, mas ainda não revelei isso aos membros do meu povo. Dê-me alguma ordem.” O Mensageiro de Allah disse: “Você não poderá tomar nenhuma medida militar contra eles, mas, na medida do possível, provoque divisões entre eles e destrua seu moral. A guerra é astúcia.”
Ao ouvir isso, Hazrat Na’im foi imediatamente até os Banu Qurayza. Ele já tivera, certa vez, uma relação bastante próxima com eles. Ao chegar, disse: “Vocês sabem que lhes tenho afeição e que mantenho uma relação especial com vocês.” Eles responderam: “Sim.” Na’im disse: “Então escutem: minha opinião sobre os coraixitas difere da de vocês. Esta região é seu próprio território. Suas casas, riquezas, famílias e parentes estão todos aqui. Vocês não podem abandonar tudo isso. Os membros das tribos de Quraysh e Ghatafan vieram lutar contra os muçulmanos, e vocês lhes oferecerão apoio e solidariedade? O que vocês estão fazendo? O que Quraysh e Ghatafan têm aqui? Não têm casas, riquezas nem famílias. Se encontrarem uma oportunidade, tomarão alguma medida; caso contrário, amarrarão sua bagagem e partirão. Depois, ficarão aqui apenas vocês e Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Naquele momento, Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, poderá vingar-se de vocês como quiser.” Ao ouvir isso, os Banu Qurayza ficaram alarmados. Disseram: “Na’im, diga-nos: o que podemos fazer agora?” Na’im respondeu: “Digam aos coraixitas que lhes entreguem alguns homens como reféns. Se eles não o fizerem, não participem de modo algum da guerra ao lado deles.” Os membros da tribo de Qurayza disseram: “Você falou com verdade e razão.”
Depois, Hazrat Na’im foi diretamente aos líderes de Quraysh. Disse-lhes: “Vocês não desconhecem meu afeto por vocês nem minha sinceridade ao desejar o bem de vocês.” Ao ouvirem Na’im, responderam: “Sim.” Hazrat Na’im disse: “Então escutem: os judeus estão arrependidos de terem violado o tratado firmado com Muhammad. Atualmente, fizeram entre si um acordo escrito segundo o qual aceitarão alguns de vocês como reféns e os entregarão a Muhammad. Depois, reorganizarão novamente sua relação com Muhammad. Portanto, se os judeus lhes pedirem alguns homens como reféns, não os entreguem de modo algum.” Depois disso, Hazrat Na’im foi também até os membros da tribo de Banu Ghatafan e, dizendo-lhes a mesma coisa, lançou suspeitas sobre os coraixitas. Assim, no meio da noite, Quraysh enviou uma mensagem aos judeus: “Nossa situação não é muito boa. Cavalos e camelos estão morrendo. Portanto, venham atacar Muhammad em conjunto. Ataquem por esse lado, e nós atacaremos por este.” Os judeus responderam: “Hoje é sábado, como vocês sabem. Que tipo de castigo receberam, no passado, aqueles que violaram as determinações da lei religiosa relativas a esse dia? Além disso, não participaremos da guerra enquanto vocês não nos entregarem alguns de seus homens como reféns.” Depois que o mensageiro voltou e transmitiu a resposta dos judeus, Quraysh e Ghatafan disseram: “Por Allah, Na’im disse a verdade.” Então enviaram aos judeus a seguinte mensagem: “Por Deus, não podemos enviar homem algum como refém. Ataquem agora mesmo a partir de suas posições; nós atacaremos deste lado.” Ao ouvir isso, os membros da tribo de Qurayza disseram: “Na’im realmente disse a verdade.” Assim, surgiu desconfiança entre os dois grupos. O desânimo tomou conta também dos soldados de cada grupo, e surgiram fissuras entre as tropas da coalizão.
Naquele momento, o Mensageiro de Allah e os muçulmanos ergueram as mãos, suplicando ao Senhor dos mundos. Os muçulmanos faziam esta súplica: “Ó Allah, protege-nos e liberta-nos desta aflição.”
O Mensageiro de Allah fazia esta súplica: “Ó Allah, Tu revelaste o Livro e logo farás o julgamento. Derrota aquelas tropas, ó Allah; derrota-as e faze-as tremer.” [Bukhari, Livro do Jihad, vol. 1, p. 411; Livro das Expedições Militares, vol. 2, p. 590]
Allah, o Senhor dos mundos, aceitou a súplica de Seu amado Mensageiro e dos muçulmanos devotados. Depois de provocar a desintegração da coalizão dos politeístas e semear entre eles o desânimo e a desconfiança mútua, Allah enviou sobre eles um vento tempestuoso. Esse vento derrubou suas tendas, espalhou seus pertences e arrancou as estacas das tendas. Nada permaneceu em seu devido lugar. Além disso, Allah enviou um grupo de anjos. Como resultado, os corações dos incrédulos tremeram intensamente, e a poderosa influência dos muçulmanos deixou uma profunda impressão em suas mentes.
Naquela noite fria e ventosa, o Mensageiro de Allah enviou Hudhayfa ibn al-Yaman para trazer notícias dos incrédulos. Ao chegar, ele viu que os politeístas estavam se preparando para fugir. Hazrat Hudhayfa voltou e informou o Mensageiro de Allah. Pela manhã, viu-se que todo o campo estava vazio. Allah obrigara as tropas inimigas a retornar sem obter qualquer vantagem. Assim, Allah cumpriu Sua promessa ao Seu amado Mensageiro e aos muçulmanos. Honrou Seus servos amados, ajudou-os e derrotou as tropas dos incrédulos. Depois que os incrédulos partiram, o Mensageiro de Allah voltou a Medina.
Segundo o relato correto, a Batalha da Trincheira ocorreu no mês de Shawwal do quinto ano da Hégira. Os politeístas mantiveram os muçulmanos sob cerco durante um mês ou aproximadamente um mês. Ao analisar todos os fatos, constata-se que o cerco começou em Shawwal e terminou no mês de Dhu al-Qi’dah. Ibn Sa’d afirma que o dia em que o Mensageiro de Allah retornou da trincheira era uma quarta-feira. Ainda faltavam sete dias para o fim do mês de Dhu al-Qi’dah.
A Batalha da Trincheira, ou Batalha do Fosso, na realidade não foi uma batalha de derrota; pelo contrário, os muçulmanos saíram vitoriosos dela. Não houve nela nenhum confronto particularmente sangrento. Ainda assim, foi uma batalha decisiva na história do Islã. Nessa batalha, o moral dos politeístas foi completamente destruído. E tornou-se claro que nenhuma força da Arábia seria capaz de eliminar a força que se desenvolvia em Medina. No futuro, os politeístas não conseguiriam reunir um exército maior do que aquele que haviam reunido na Batalha da Trincheira, e tampouco haviam sido capazes de fazê-lo naquela época. Por isso, ao retornar da Batalha da Trincheira, o Mensageiro de Allah disse: “Agora nós os atacaremos, e eles não poderão mais nos atacar. Agora nosso exército irá na direção deles.” (Sahih al-Bukhari, volume 2, p. 590)
A Batalha de Banu Qurayza
Depois que o Mensageiro de Allah retornou da Trincheira, ele estava em certo momento na casa de Umm Salama, por volta do horário da oração do meio-dia. Nesse momento, Gabriel veio e disse: “Ó Mensageiro de Allah, você depôs as armas, mas os anjos ainda não depuseram as suas. Seguindo o seu povo, também vim atrás de você. Levante-se e vá com seus companheiros até Banu Qurayza. Eu irei à frente e lançarei tremor em sua fortaleza, enchendo seus corações de medo e terror.” Depois de dizer isso, Gabriel partiu com os anjos.
Enquanto isso, o Mensageiro de Allah ordenou que um Companheiro anunciasse que aqueles que pudessem ouvir e estivessem dispostos a obedecer deveriam realizar a oração da tarde em Banu Qurayza. Em seguida, confiou a responsabilidade de cuidar de Medina a Abdullah ibn Umm Maktum, entregou o estandarte a Ali e partiu em direção a Banu Qurayza. Quando Ali chegou perto da fortaleza de Banu Qurayza, os judeus daquela tribo começaram a insultar o Mensageiro de Allah.
Pouco depois, o Mensageiro de Allah chegou ali acompanhado dos Companheiros emigrados e dos Ansar. Primeiro, parou junto a um reservatório chamado Ana. Os muçulmanos também partiram em direção à tribo de Banu Qurayza ao ouvirem o anúncio da batalha. No caminho, chegou o horário da oração da tarde. Alguns disseram: “Recebemos ordem de ir a Banu Qurayza para realizar a oração da tarde; faremos a oração somente quando chegarmos lá.” Eles realizaram a oração da tarde depois da oração da noite. Outros Companheiros, como o horário da oração da tarde chegou enquanto estavam no caminho, fizeram-na ali mesmo. Eles disseram que o Mensageiro de Allah lhes havia ordenado que realizassem a oração da tarde em Banu Qurayza apenas para enfatizar que chegassem rapidamente. Quando esse assunto foi apresentado ao Mensageiro de Allah, ele não criticou nenhum dos dois grupos.
Em suma, os nobres Companheiros, divididos em vários grupos, chegaram a Banu Qurayza e se juntaram ao Mensageiro de Allah. Depois, sitiaram os arredores da fortaleza de Banu Qurayza. O número dos Companheiros era de três mil. Eles tinham consigo trinta cavalos. Quando o cerco se tornou severo, Ka’b ibn Asad, o líder dos judeus, apresentou três propostas diante de todos os judeus.
1) Entrar na religião de Muhammad aceitando o Islã e, por meio disso, proteger suas vidas, seus bens e suas famílias. Por Allah, já ficou claro para vocês que Muhammad é verdadeiramente um profeta e mensageiro, e que ele é o Profeta mencionado em seus livros.
2) Matar seus próprios familiares com as próprias mãos e lançar-se contra os muçulmanos com toda a força, empunhando as espadas. Depois disso, só haverá vitória ou derrota. É possível também que todos sejam mortos na batalha.
Terceiro: atacá-los no sábado, enganando o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) e os Companheiros, pois eles teriam certeza de que nenhuma luta ocorreria naquele dia.
Alguns judeus não aceitaram nenhuma das três propostas mencionadas. Irritado com isso, Ka’b ibn Asad disse: “Depois que nasceram do ventre de suas mães, nenhum de vocês passou sequer uma noite usando a razão e o discernimento.”
Depois de rejeitarem as três propostas, restava aos Banu Qurayza apenas um caminho: entregar as armas diante do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) e deixar em suas mãos a decisão sobre o próprio destino. Porém, antes de entregar as armas, os judeus manifestaram o desejo de conversar com alguns de seus aliados muçulmanos. Pensavam que, por meio dessa conversa, talvez pudessem obter dos muçulmanos alguma indicação sobre as consequências da rendição. Com esse pensamento, enviaram uma proposta ao Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz): “Por favor, envie Abu Lubaba até nós. Queremos consultá-lo sobre algumas coisas.” Abu Lubaba era aliado dos judeus. Seu jardim e seus familiares também ficavam na área dos judeus. Quando Abu Lubaba (que Allah esteja satisfeito com ele) chegou ali, as mulheres e as crianças judias correram até ele e começaram a chorar aos prantos. Ao ver aquela situação, seus dois olhos também se encheram de lágrimas. Os judeus lhe perguntaram: “Abu Lubaba, você quer que entreguemos as armas, submetendo-nos à decisão de Muhammad?” Ele respondeu: “Sim, quero.” Em seguida, apontou para a própria garganta. Esse gesto significava: vocês podem entregar as armas, mas depois serão degolados. Assim que fez esse gesto, Abu Lubaba (que Allah esteja satisfeito com ele) lembrou-se de que havia traído Allah, o Altíssimo, e o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). Ao recordar isso, em vez de retornar ao Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), dirigiu-se diretamente à Mesquita do Profeta. Depois, amarrou-se a uma coluna da Mesquita do Profeta e jurou que ninguém, senão o próprio Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), desataria aquela amarra com suas mãos puras. Também prometeu que jamais voltaria a entrar no território dos Banu Qurayza. Enquanto isso, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) pensava em várias coisas ao notar a demora de Abu Lubaba, que havia sido enviado como mensageiro. Depois de ouvir tudo, disse: “Se ele tivesse retornado para junto de mim, eu teria suplicado a Allah pelo seu perdão. Mas, já que fez isso, não poderei desatar suas amarras até que Allah, o Altíssimo, aceite seu arrependimento.”
Apesar do gesto de Abu Lubaba, os judeus decidiram entregar as armas diante do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). Pensaram que aceitariam qualquer decisão que o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) proferisse. No entanto, se quisessem, os Banu Qurayza poderiam ter suportado o cerco por muito tempo. Possuíam provisões suficientes, abundância de água e fortalezas sólidas. Em contrapartida, os muçulmanos padeciam no campo aberto com o frio intenso, que fazia o sangue congelar, e com a fome. Já estavam física e mentalmente exaustos por causa de várias batalhas travadas antes mesmo da Batalha da Trincheira. Mas a batalha contra os Banu Qurayza foi, na realidade, uma guerra psicológica. Allah, o Altíssimo, havia incutido nos judeus uma forte impressão do poder dos muçulmanos. Seu moral havia sido destruído. Então, ao ouvirem uma proclamação de Ali (que Allah esteja satisfeito com ele), desmoronaram completamente. Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) e az-Zubayr ibn al-Awwam avançaram em direção à área habitada pela tribo dos Banu Qurayza. Então Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) proclamou corajosamente: “Ouçam, crentes emigrantes, ouçam! Não há mais demora. Juro por Allah: desta vez também provarei o que Hamza (que Allah esteja satisfeito com ele) provou, ou conquistarei a fortaleza.”
Ao ouvirem essa declaração de bravura de Ali (que Allah esteja satisfeito com ele), os Banu Qurayza não demoraram mais. Entregaram-se às mãos do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) e disseram: “Faça o que achar melhor.” O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: “Amarrem os homens.” Sob a supervisão de Muhammad ibn Maslama al-Ansari, as mãos de todos os homens foram amarradas. As mulheres e as crianças foram separadas. Os membros da tribo de Aws começaram a suplicar ao Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz): “Você se lembra do tratamento que dispensou aos Banu Qaynuqa? Eles eram aliados de nossos irmãos, os Khazraj. Estes também são nossos aliados. Portanto, trate-os com benevolência.” O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: “Vocês ficariam satisfeitos se um homem dentre vocês decidisse o caso de vocês?” Eles responderam: “Sim, sim, certamente.” O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: “Sa’d ibn Mu’adh decidirá este assunto.” Os membros da tribo de Aws disseram: “Estamos satisfeitos com isso.”
Em seguida, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) mandou chamar Sa’d ibn Mu’adh. Ele estava em Medina e não pudera vir com os emigrantes muçulmanos. Durante a Batalha da Trincheira, as veias de sua mão haviam sido cortadas pela flecha disparada por um soldado inimigo. Ele foi levado diante do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) montado em um jumento. Assim que entrou na área dos Banu Qurayza, os judeus o cercaram e começaram a dizer: “Ó Sa’d, tenha misericórdia de seus aliados e dê uma decisão benéfica para eles. O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) nomeou você como juiz.” Sa’d permaneceu calado e não respondeu. Depois de ficar exausto com os apelos e súplicas vindos de todos os lados, finalmente disse: “Chegou o momento em que Sa’d não teme, em nome de Allah, o olhar ameaçador de nenhum poderoso.” Ao ouvirem isso, algumas pessoas correram imediatamente para Medina e espalharam a notícia de que os prisioneiros seriam executados.
Quando Sa’d se aproximou do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse aos judeus: “Avancem em direção ao seu líder.” Quando Sa’d (que Allah esteja satisfeito com ele) se apresentou diante do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), este lhe disse: “Ó Sa’d, eles concordaram em aceitar sua decisão.” Sa’d (que Allah esteja satisfeito com ele) perguntou: “Minha decisão será aplicada a eles?” Todos responderam: “Sim.” Ele perguntou: “Também será aplicada aos muçulmanos?” Responderam: “Sim.” Ele perguntou: “Também será aplicada àquele que está presente aqui?” Disse isso apontando para o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), mas não teve coragem de olhar diretamente para seu rosto majestoso. Por isso, falou olhando para o outro lado. O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) respondeu: “Sim, certamente. Também será aplicada a mim.” Sa’d (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Então declaro que minha decisão sobre eles é a seguinte: os homens serão mortos, as mulheres e as crianças serão feitas prisioneiras, e seus bens serão distribuídos.” O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: “Você proferiu sobre eles a mesma decisão que Allah, o Altíssimo, decretou acima dos sete céus.”
A decisão de Hazrat Sa‘d ibn Mu‘adh (que Allah esteja satisfeito com ele) foi extremamente justa e equitativa. Pois, além da terrível traição que os Banu Qurayza haviam cometido contra os muçulmanos no momento crítico entre a vida e a morte, estavam determinados a exterminá-los, conseguissem ou não fazê-lo. Para usar contra os muçulmanos, haviam armazenado mil e quinhentas espadas, duas mil lanças, trezentas armaduras e quinhentos escudos. Após a vitória, os muçulmanos recuperaram essas armas.
Após essa decisão, por ordem do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), os Banu Qurayza foram levados a Medina e mantidos detidos na casa da filha de Harith, da tribo dos Banu Najjar. Essa mulher era filha de um homem chamado Harith, da tribo dos Banu Najjar. Em seguida, uma trincheira foi cavada no mercado de Medina. Depois de cavada a profunda vala ou trincheira, os judeus amarrados foram conduzidos em grupos, decapitados e lançados nela. Quando o massacre em massa começou, alguns judeus perguntaram ao seu chefe, Ka‘b ibn Asad: “Qual é a sua reação ao tratamento que estamos recebendo?” Ele respondeu rudemente: “Vocês não entendem nada? Não veem que aquele que é levado não retorna? E continuam chamando outros. Eles estão sendo mortos; são simplesmente levados e mortos.” Em suma, todos os judeus que estavam com as mãos amarradas foram mortos em Medina. Seu número estava entre seiscentos e setecentos.
Como resultado dessa ação, essas serpentes venenosas da traição foram exterminadas. Elas haviam rompido o pacto firme estabelecido com os muçulmanos. Para exterminar os muçulmanos, haviam colaborado com os inimigos em um momento delicado, cometendo um grave crime de guerra. A pena de morte era a única punição para esse grave crime. Nenhuma injustiça lhes foi cometida.
Com a destruição dos Banu Qurayza, Huyayy ibn Akhtab, o demônio dos Banu Nadir e o principal criminoso da batalha da Trincheira, também chegou ao fim de sua retribuição. Esse homem era o pai de Hazrat Safiyyah (que Allah esteja satisfeito com ela), Mãe dos Crentes. Depois que os coraixitas e os Banu Ghatafan partiram, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) e os muçulmanos sitiaram os Banu Qurayza. Quando eles foram cercados, Huyayy ibn Akhtab também ficou sitiado. Pois, durante a batalha da Trincheira, quando havia incitado Ka‘b ibn Asad à traição contra os muçulmanos, ele havia prometido permanecer com eles no momento da adversidade. Agora estava cumprindo sua promessa. Quando foi levado à presença do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), viu-se que sua roupa estava rasgada em toda a volta, cerca de um dedo de largura. Ele a havia rasgado dessa maneira para que pudesse ser amarrada firmemente. Ao ser apresentado diante do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), disse: “Ouçam: não me arrependo da hostilidade que demonstrei contra vocês. Contudo, aqueles que lutam contra Allah são derrotados.” Em seguida, dirigindo-se a todos, disse: “Ó gente, não há motivo para lamentar a decisão de Allah. Isto é o que foi decretado e um grande massacre que Allah, o Altíssimo, havia prescrito para os filhos de Israel.” Depois, ele também se sentou e foi decapitado.
Nesse episódio, uma mulher dos Banu Qurayza também foi morta. Essa mulher havia matado Khallad ibn Suwayd atirando contra ele uma mó de moer trigo. Ela foi morta em retribuição por esse assassinato.
O Mensageiro ordenou que fossem mortos aqueles em quem já tivesse crescido pelos abaixo do umbigo. Como ainda não haviam crescido pelos abaixo do umbigo de ‘Atiyyah al-Qurazi, ele foi poupado. Mais tarde, ele entrou sob a proteção do Islam e honrou sua vida.
Hazrat Thabit ibn Qays solicitou que Jubayr ibn Bata e sua família lhe fossem concedidos como dádiva. O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) aprovou o pedido. Então Thabit ibn Qays disse a Jubayr: “O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) confiou você e sua família aos meus cuidados. Estou libertando vocês. A partir de agora, estão livres.” Quando Jubayr ibn Bata soube que seu povo havia sido morto, disse a Hazrat Thabit ibn Qays: “Thabit, pelo favor que certa vez lhe fiz, peço que também me conduza até meus amigos.” Depois disso, ele foi morto. Não foi morto o filho de Jubayr ibn Bata, ‘Abd al-Rahman; posteriormente, ‘Abd al-Rahman aceitou o Islam. Umm al-Mundhir Salma bint Qays, da tribo dos Banu Najjar, solicitou ao Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) que lhe fosse concedido como dádiva Rifa‘ah, filho de Samaw’al al-Qurazi. O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) também aceitou esse pedido e entregou Rifa‘ah aos seus cuidados. Umm al-Mundhir manteve Rifa‘ah vivo. Mais tarde, Rifa‘ah aceitou o Islam.
Naquela noite, antes da entrega das armas, algumas pessoas aceitaram o Islam; por isso, suas vidas, seus bens e suas famílias receberam proteção. Naquela noite, saiu um homem chamado ‘Amr. Esse homem não havia participado da traição dos Banu Qurayza. O comandante dos guardas, Hazrat Muhammad ibn Maslamah (que Allah esteja satisfeito com ele), reconheceu-o e, depois de reconhecê-lo, deixou-o partir. Mais tarde, esse homem desapareceu, e nunca mais se teve notícia dele.
O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, separou um quinto dos bens dos Banu Qurayza e distribuiu todo o restante entre os muçulmanos. Concedeu três partes aos cavaleiros: uma para o próprio cavaleiro e as duas restantes para o cavalo. Aos que vieram a pé foi concedida uma parte. Os prisioneiros e as crianças foram enviados a Najd sob a liderança de Hazrat Sa’d ibn Zayd al-Ansari; em troca deles, foram adquiridas armas e cavalos.
O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, escolheu Rayhana bint Amr ibn Khunafa entre as mulheres dos Banu Qurayza para si. Segundo o relato de Ibn Ishaq, essa mulher permaneceu com o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, até o seu falecimento. [Ibn Hisham, volume 2, p. 245]
Al-Kalbi relatou que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, libertou Rayhana e se casou com ela. Hazrat Rayhana faleceu depois que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, retornou da Peregrinação de Despedida. Ela foi sepultada em Jannat al-Baqi. [Tanqih al-Fuhum, p. 12]
Após o acontecimento dos Banu Qurayza, aproximou-se o momento em que a súplica do piedoso servo de Allah, Hazrat Sa’d ibn Mu’adh, que Allah esteja satisfeito com ele, seria atendida. Isso foi mencionado durante a discussão sobre a Batalha da Trincheira. A ferida de Hazrat Sa’d, que Allah esteja satisfeito com ele, abriu-se. Naquele momento, ele estava na Mesquita do Profeta. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, mandou erguer ali uma tenda para ele, a fim de que pudesse ser cuidado de perto. Hazrat Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela, relatou: quando a ferida se abriu, havia algumas tendas dos Banu Shifar na mesquita. Ao verem o fluxo de sangue de Hazrat Sa’d, ficaram alarmados. Disseram: “Ó habitantes das tendas, o que está acontecendo? Algo está vindo da direção de vocês para a nossa direção.” Ao observarem, perceberam que o sangue de Hazrat Sa’d fluía incessantemente. Por fim, Hazrat Sa’d ibn Mu’adh, que Allah esteja satisfeito com ele, faleceu em consequência da ferida. [Sahih al-Bukhari, volume 2, p. 591]
É relatado por Hazrat Jabir, que Allah esteja satisfeito com ele, no Sahih al-Bukhari e no Sahih Muslim, que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Com o falecimento de Sa’d ibn Mu’adh, que Allah esteja satisfeito com ele, o Trono do Misericordioso inclinou-se.” [Sahih al-Bukhari, volume 1, p. 536; Muslim, volume 2, p. 294; Jami’ al-Tirmidhi, volume 2, p. 225]
O Imam al-Tirmidhi narrou um hadith de Hazrat Anas, que Allah esteja satisfeito com ele, e declarou-o autêntico. Nesse hadith, é relatado que, depois que o esquife funerário de Hazrat Sa’d foi levantado, as pessoas disseram: “Como está leve o seu esquife!” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Os anjos estão carregando o seu esquife.” [Jami’ al-Tirmidhi, volume 2, p. 225]
Durante o cerco aos Banu Qurayza, um muçulmano alcançou o martírio. Uma mulher dos Banu Qurayza lançou contra esse companheiro uma mó, ou pedra de moinho usada para moer trigo. Além disso, Abu Sinan ibn Muhsin, irmão de Hazrat Ukkasha, faleceu durante o cerco.
Hazrat Abu Lubaba, que Allah esteja satisfeito com ele, passou seis noites consecutivas amarrado a um pilar da Mesquita do Profeta. Quando chegava a hora da oração, sua esposa o desamarrava; depois da oração, tornava a amarrá-lo. Na manhã do sexto dia, foi revelado ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, que o arrependimento de Abu Lubaba havia sido aceito. Naquele momento, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, estava na casa de Hazrat Umm Salama. Hazrat Abu Lubaba, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: “A Mãe dos Crentes, Hazrat Umm Salama, que Allah esteja satisfeito com ela, ficou junto à porta de sua casa e me disse: ‘Ó Abu Lubaba, alegra-te; Allah, o Altíssimo, aceitou o teu arrependimento.’” Ao ouvir isso, os companheiros aproximaram-se para desatar suas amarras, mas ele não consentiu. Disse: “Ninguém além do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, desatará minhas amarras.” Quando o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, saiu para realizar a oração do amanhecer, desatou as amarras de Abu Lubaba.
Este cerco ocorreu no mês de Dhu al-Qa’dah. O cerco permaneceu efetivo durante longos 256 dias.[Ibn Hisham, volume 2, pp. 237–238. Para um relato detalhado da batalha, consulte Ibn Hisham, volume 2, pp. 233–273; Sahih Bukhari, volume 2, pp. 590–591; Zad al-Ma’ad, volume 2, pp. 72–73, 74; Mukhtasar al-Siyar, de Sheikh Abdullah, pp. 287–290]
Allah, o Altíssimo, revelou numerosas ayat na surata Al-Ahzab do Sagrado Alcorão sobre Banu Qurayza e a Batalha da Trincheira. Nela, são analisados vários aspectos de ambas as batalhas. São descritas as condições dos crentes e dos hipócritas. Menciona-se a divisão e a covardia entre os vários grupos inimigos. Também é explicado o resultado da traição do Povo do Livro.
Expedições militares após as batalhas da Trincheira e de Banu Qurayza
1) O assassinato de Salam ibn Abu al-Huqayq
A kunya de Salam ibn Abu al-Huqayq era Abu Rafi. Ele era um dos mais perversos criminosos entre os judeus, daqueles que conspiravam contra os muçulmanos e os ajudavam com riquezas e provisões alimentares. Além disso, havia causado sofrimento ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Por essas razões, depois de os muçulmanos se livrarem de Banu Qurayza, alguns companheiros da tribo de Khazraj pediram permissão para matar Abu Rafi. Antes disso, alguns companheiros da tribo de Aws haviam participado do assassinato de Ka’b ibn al-Ashraf, e os companheiros da tribo de Khazraj desejavam também realizar algum feito semelhante. Por isso, pediram ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) permissão para matar Abu Rafi.[Fath al-Bari, volume 7, p. 343]
O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) concedeu permissão aos companheiros, mas enfatizou: “Não matem mulheres nem crianças.” Em seguida, um grupo composto por cinco companheiros partiu para sua expedição. Todos esses companheiros pertenciam ao ramo Banu Salima da tribo de Khazraj. E Hazrat Abdullah ibn Atik foi nomeado seu comandante.
Esse pequeno grupo partiu em direção a Khaybar, pois era ali que ficava a residência de Abu Rafi, semelhante a uma fortaleza. Quando os companheiros chegaram a Khaybar, o sol já havia se posto. Todos estavam voltando para casa com seus pertences. Abdullah ibn Atik disse aos seus companheiros: “Esperem aqui; eu vou. Tentarei entrar usando alguma desculpa diante do guarda da porta.” Então ele foi. Ao se aproximar da porta, sentou-se com a cabeça coberta por um pano, de tal modo que parecia estar sentado para urinar. O guarda chamou: “Ó servo de Allah, se queres entrar, entra; estou fechando a porta.”
Hazrat Abdullah ibn Atik disse: “Entrei e permaneci escondido. Pensando que todos haviam entrado, o guarda fechou a porta e pendurou a chave num poste. Depois de algum tempo, quando tudo ao redor ficou silencioso e deserto, levantei-me, peguei a chave e abri a porta. Abu Rafi morava num quarto no andar superior. Ali realizavam-se reuniões de entretenimento. Quando as pessoas da reunião foram embora, comecei a subir. Sempre que abria uma porta, fechava-a por dentro. Pensei comigo: mesmo que alguém perceba minha chegada, ainda assim matarei Rafi antes que ele consiga vir até mim. Por fim, cheguei perto de Abu Rafi, mas ele estava deitado num quarto com os filhos. O quarto estava escuro. Não era possível perceber onde Abu Rafi se encontrava. Chamei Abu Rafi. Ele perguntou: ‘Quem chama?’ Avancei rapidamente na direção da voz e golpeei-o com a espada. Mas, por estar muito agitado, não consegui fazer nada; o golpe não o atingiu. Abu Rafi começou a gritar. Saí rapidamente do quarto e, alterando a voz, disse: ‘Abu Rafi, que barulho foi esse que ouvi?’ Ele respondeu: ‘Que tua mãe seja destruída! Um homem acabou de me golpear com uma espada dentro de um quarto.’”
Abdullah ibn Atik disse: “Desta vez, fui até o quarto e golpeei Abu Rafi novamente. O golpe não falhou o alvo. Como resultado, Abu Rafi ficou ensanguentado. Contudo, ainda não conseguira matá-lo. Por isso, enfiei a ponta da espada em seu abdômen. A ponta afiada da espada atravessou seu abdômen e penetrou até suas costas. Pensei comigo mesmo que conseguira matá-lo. Depois desse pensamento, comecei a sair. Abri uma porta e saí. Ao abrir outra porta, coloquei o pé no degrau da escada. Pensei que já tivesse chegado embaixo, mas isso estava errado. De repente, caí no piso inferior. Era uma noite de luar. Torci o tornozelo. Tirei o turbante e amarrei bem o pé. Depois, fui sentar-me junto à porta. Pensei comigo mesmo que não partiria dali até saber se realmente conseguira matar Abu Rafi.”
Depois que o galo cantou, no final da noite, um homem subiu ao telhado da casa e começou a anunciar em voz alta: “Anuncio a morte de Abu Rafi, ilustre comerciante e habitante do Hijaz.”
Abdullah ibn Atik disse: “Então fui até meus companheiros e lhes disse: ‘Fujam! Pela vontade de Allah, Abu Rafi chegou ao lugar onde receberá o resultado de seus atos.’ Depois, chegamos até o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele —, e contei-lhe detalhadamente tudo o que acontecera. O Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — disse: ‘Estende o pé.’ Eu o estendi, e o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — passou levemente a mão sobre ele. Imediatamente, senti como se nunca tivesse havido dor alguma em meu pé.[Sahih al-Bukhari, vol. 2, p. 577]”
Esta é a narração de Sahih al-Bukhari. Na narração de Ibn Ishaq, menciona-se que cinco Companheiros entraram na casa de Abu Rafi, e todos participaram do assassinato. Aquele que golpeou o corpo de Abu Rafi chamava-se Abdullah ibn Unays. Essa narração também menciona que, depois de Abu Rafi ser morto durante a noite, o osso do tornozelo de Abdullah ibn Atik havia se fraturado. Os outros Companheiros o carregaram e esconderam-se junto a um reservatório de água, ao lado da muralha da fortaleza. Enquanto isso, os judeus acenderam tochas e vieram correndo de todos os lados. Depois de procurarem bastante, sem encontrar ninguém, voltaram ao quarto do homem morto. Quando os Companheiros retornaram, levaram o honorável Abdullah ibn Atik, apoiando-o, até o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele —.[Ibn Hisham, vol. 2, pp. 284–285]
Esta expedição militar foi realizada no mês de Dhu al-Qa’dah ou Dhu al-Hijjah do quinto ano da Hégira.[Rahmatul lil-‘Alamin, vol. 2, p. 223]
Após as batalhas do Fosso e dos Banu Qurayzah, e depois da execução da pena de morte dos criminosos de guerra, o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — tomou novas iniciativas. Começou a realizar expedições contra as tribos e as pessoas que criavam obstáculos no caminho da paz e da estabilidade. Sem tomar medidas contra eles, a esperança de alcançar a paz estaria muito distante.
Dois) A expedição de Muhammad ibn Maslamah
Esta foi a primeira expedição militar depois das batalhas do Fosso e dos Banu Qurayzah. Um grupo composto por trinta Companheiros participou dessa expedição.
Essa expedição foi enviada a Riyā, na região de Bakrāt, no interior de Najd, no dia 10 de Muharram do ano da Hégira. Riyā ficava a sete noites de viagem de Medina. O alvo era um ramo da tribo de Banū Bakr ibn Kilāb. Quando os muçulmanos os perseguiram, todos os inimigos fugiram. Os muçulmanos capturaram vários quadrúpedes, incluindo cabras, e chegaram a Medina quando ainda faltava um dia para o fim de Muharram. Eles também prenderam e levaram consigo Thumāmah ibn Uthāl al-Hanafī, chefe da tribo de Banū Hanīfah. Thumāmah havia saído disfarçado, por ordem do falso profeta Musaylimah, o Mentiroso, para assassinar o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. [Sīrat Halabiyyah, vol. 2, p. 297]
Mas os muçulmanos prenderam Thumāmah e o amarraram a um dos pilares da Mesquita do Profeta. O Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, veio e perguntou-lhe: “Thumāmah, o que tens?” Ele respondeu: “Ó Muhammad, tenho o bem. Se me matares, matarás um homem cujo corpo tem muito sangue. Se me tratares com clemência, tratarás com clemência alguém que não é ingrato. Se desejas riqueza, pede quanto precisares.” Depois de ouvir isso, o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, deixou-o naquela situação. Na segunda vez, fez-lhe a mesma pergunta, e Thumāmah deu a mesma resposta. Depois, na terceira vez, o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, fez a mesma pergunta, e ele deu novamente a mesma resposta. Então o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, ordenou: “Libertai Thumāmah.” Ele foi libertado. Thumāmah dirigiu-se então a um jardim de tamareiras junto à Mesquita do Profeta, tomou banho e purificou-se. Depois foi até o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e aceitou o Islã. Após aceitar o Islã, disse: “Por Allah, em toda a terra não havia rosto humano mais detestado por mim do que o teu. Mas hoje não há rosto humano mais amado por mim do que o teu. Por Allah, em todo o mundo não havia religião mais detestada por mim do que a tua, mas hoje não há religião mais amada por mim do que a tua. Os teus cavaleiros capturaram-me quando eu pretendia realizar a ʿumrah.” O Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, deu-lhe boas-novas e ordenou-lhe que a realizasse. Quando chegou junto aos coraixitas, eles disseram: “Thumāmah, tornaste-te um apóstata!” Ele respondeu: “Não; tornei-me muçulmano pelas mãos de Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Escutai: nenhum grão de trigo de al-Yamāmah chegará até vós enquanto o Mensageiro de Allah não der permissão. Al-Yamāmah é para os habitantes de Meca como um campo.” Ao chegar à sua terra, Thumāmah interrompeu a exportação de trigo para Meca. Com isso, os coraixitas enfrentaram grandes dificuldades. Então escreveram ao Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, apelando aos laços de parentesco e pedindo-lhe que solicitasse a Thumāmah o levantamento da proibição à exportação de trigo para Meca. O compassivo Profeta, Muhammad al-Mustafā, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, assim fez. [Zād al-Maʿād, vol. 2, p. 119; Mukhtaṣar al-Siyar, Shaykh ʿAbdullah, pp. 292–293]
3) A expedição contra Banū Liḥyān
Foram os membros da tribo de Banū Liḥyān que enganaram dez Companheiros no lugar chamado al-Rajīʿ, mataram oito deles e venderam dois aos habitantes de Meca. Estes mataram cruelmente os dois. Contudo, como o território de Banū Liḥyān ficava próximo de Meca e havia uma intensa hostilidade entre os coraixitas e os muçulmanos, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, não considerava conveniente aproximar-se tanto dos inimigos. Enquanto isso, haviam surgido divisões entre os vários grupos dos coraixitas; sua determinação de se opor aos muçulmanos havia diminuído bastante, e eles também haviam aceitado as circunstâncias. Por isso, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, considerou que chegara o momento de vingar-se de Banū Liḥyān pelo assassinato dos mártires de al-Rajīʿ. No mês de Rabīʿ al-Awwal ou Jumādā al-Awwal do sexto ano da Hégira, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, partiu em direção à tribo de Banū Liḥyān com duzentos Companheiros. Em Medina, deixou como seu substituto ʿAbdullah ibn Umm Maktūm. Aos demais foi dito que ele iria para a Síria. Primeiro, o Mensageiro chegou ao vale chamado Batn Gharān, situado entre os lugares de Umāj e ʿUsfān. Ali os Companheiros haviam sido mortos. O Mensageiro suplicou ali a Allah em favor dos Companheiros. Entretanto, ao ouvirem a notícia da chegada do Mensageiro, os membros de Banū Liḥyān fugiram para as regiões montanhosas. Assim, não foi possível capturar nenhum deles. O Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, permaneceu ali por dois dias. Enviou os Companheiros, divididos em pequenos grupos, para várias regiões, mas não encontraram qualquer vestígio deles. Depois, o Mensageiro foi a ʿUsfān e, de lá, enviou dez Companheiros montados a cavalo para o lugar chamado Qarāʾ al-Ghamīm. Eles foram enviados para informar os coraixitas de sua chegada. Após permanecer fora por um total de catorze dias, o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, retornou a Medina.
Depois de retornar dessa expedição, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, enviou sucessivamente várias expedições militares. Apresentamo-las brevemente a seguir.
4) A expedição de Ghamr
No mês de Rabīʿ al-Awwal ou Rabīʿ al-Thānī do sexto ano da Hégira, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, enviou quarenta Companheiros em uma expedição ao lugar chamado Ghamr. Ghamr era o nome de um reservatório de água pertencente à tribo de Banū Asad. Ḥaḍrat Muḥammad ibn Maslamah, que Allah esteja satisfeito com ele, comandou a expedição. Ao saberem da chegada dos muçulmanos, os inimigos fugiram. Os muçulmanos levaram duzentos camelos deles para Medina.
5) A expedição de Dhū Qissah (1)
No Rabi al-Awwal ou Rabi al-Thani do sexto ano da Hégira, um destacamento de dez Companheiros, sob o comando de Muhammad ibn Maslamah, partiu em direção a um lugar chamado Dhu Qassah. Esse lugar situava-se na área habitada pela tribo de Banu Tha‘labah. O número de inimigos era de cem. Eles fugiram e esconderam-se. Quando os nobres Companheiros adormeceram, os inimigos lançaram um ataque repentino e mataram nove deles. Somente o comandante do grupo, Muhammad ibn Maslamah, sobreviveu. Ferido, ele retornou a Medina.
Seis) Expedição de Dhu Qassah (2)
Após o martírio do destacamento enviado sob o comando de Muhammad ibn Maslamah, no Rabi al-Thani do sexto ano da Hégira, o Mensageiro de Allah enviou um grupo de Companheiros a Dhu Qassah, nomeando Abu Ubaidah como comandante. Esse destacamento, composto por quarenta Companheiros, partiu em direção ao local onde os nove Companheiros anteriormente mencionados haviam sido martirizados. Caminharam a noite inteira e chegaram a Dhu Qassah. Assim que chegaram, começaram a procurar os inimigos. Esse grupo inimigo da tribo de Banu Tha‘labah fugiu rapidamente para uma região montanhosa. Os muçulmanos não conseguiram encontrar nenhum deles. Foi possível capturar apenas um homem, que também aceitou o Islã. Durante essa expedição, os muçulmanos obtiveram muitos animais, incluindo várias cabras.
Sete) Expedição de Jumum
Essa expedição militar foi enviada à região chamada Jumum, sob o comando de Zayd ibn Harithah, no Rabi al-Thani do sexto ano da Hégira. Jumum era o nome de um poço pertencente à tribo de Banu Sulaym, em Marraz Zahran, na atual planície de Fatimah. Ao chegar ali, Zayd capturou uma mulher chamada Halimah, da tribo de Muzaynah. Essa mulher informou aos muçulmanos o nome de um lugar pertencente aos Banu Sulaym. De lá, os muçulmanos obtiveram muitos animais, incluindo cabras, bem como prisioneiros. O Mensageiro de Allah libertou aquela mulher e casou-se com ela.
Oito) Expedição de Ghaith
O número de soldados nessa expedição era de 117. Ela também foi enviada com o mesmo objetivo, sob o comando de Zayd ibn Harithah, no Jumada al-Ula do sexto ano da Hégira. Nela, os muçulmanos apreenderam as mercadorias de uma caravana comercial dos coraixitas. Essa caravana viajava sob a liderança de Abu al-As, genro do Mensageiro de Allah. Abu al-As ainda não havia aceitado o Islã. Não foi possível capturá-lo. Ele fugiu rapidamente, chegou a Medina e refugiou-se junto de sua esposa, Zaynab. Em seguida, pediu à esposa que falasse com seu pai, o Mensageiro de Allah, para que providenciasse a devolução das mercadorias da caravana apreendida. Zaynab informou ao pai o pedido do marido. Em resposta ao pedido de Zaynab, o Mensageiro de Allah indicou aos Companheiros que devolvessem as mercadorias, sem exercer qualquer pressão. Os nobres Companheiros devolveram todos os bens. Com essas mercadorias, Abu al-As foi para Meca, entregou aos coraixitas todos os seus bens e depois retornou a Medina, onde aceitou o Islã. O Mensageiro de Allah entregou Zaynab novamente a Abu al-As conforme o casamento anterior. [Ver Sunan Abu Dawud]
O Mensageiro de Allah não renovou o casamento de sua filha com seu genro, pois ainda não havia sido revelado o versículo que tornava ilícito para as mulheres muçulmanas viverem com maridos descrentes. Contudo, há um hadith segundo o qual o Mensageiro de Allah celebrou novamente o casamento de Zaynab e Abu al-As. Esse hadith não é correto quanto ao significado nem quanto à cadeia de transmissão. [Tuhfat al-Ahwazi, vol. 2, pp. 195–196] Ele é fraco sob ambos os aspectos. Aqueles que citam esse hadith fraco fazem afirmações surpreendentemente contraditórias. Dizem que Abu al-As aceitou o Islã no final do oitavo ano da Hégira, alguns dias antes da conquista de Meca. Também mencionam que Zaynab faleceu no início do oitavo ano da Hégira. Entretanto, essas duas afirmações contraditórias não podem ser aceitas. Pois, nessa situação, Zaynab já não estaria viva quando Abu al-As aceitou o Islã, migrou e chegou a Medina. Nessas circunstâncias, como ela poderia ter sido entregue a Abu al-As, fosse por meio do casamento anterior ou de um novo casamento?
O ilustre escritor Hadrat Musa ibn Uqba (que Allah esteja satisfeito com ele) mencionou que este acontecimento ocorreu no sétimo ano da Hégira pelas mãos de Abu Basir e seus companheiros. Contudo, essa informação não é correta segundo nenhum hadith, seja autêntico ou fraco.
Nove) Sariyya de Tarf ou Taraq
Esta expedição foi enviada à região de Tarf ou Taraq, sob a liderança de Hadrat Zayd ibn Haritha (que Allah esteja satisfeito com ele), no mês de Jumada al-Thani. Ela ficava na região de Banu Tha’laba. Havia quinze Companheiros com Hadrat Zayd (que Allah esteja satisfeito com ele). Assim que os beduínos receberam a notícia, fugiram. Temiam que o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) estivesse chegando. Hadrat Zayd (que Allah esteja satisfeito com ele) apreendeu quatro camelos e retornou a Medina quatro dias depois.
Dez) Sariyya de Wadi al-Qura
O número de soldados nesta expedição era de doze. Seu líder também era Hadrat Zayd ibn Haritha (que Allah esteja satisfeito com ele). No mês de Rajab do sexto ano da Hégira, ele partiu em direção a Wadi al-Qura. O objetivo era observar os movimentos do inimigo. Porém, os habitantes de Wadi al-Qura atacaram-nos. Nove Companheiros foram martirizados nesse ataque. Hadrat Zayd e três outros Companheiros sobreviveram. (Rahmat li-l-‘Alamin, vol. 2, p. 226; Zad al-Ma’ad, vol. 2, pp. 120–122; e a nota de rodapé de Talkhih al-Fuhum li-l-Athar, pp. 28–29; consulte.)
Onze) Sariyya de Khabat
Ela foi realizada no mês de Rajab do oitavo ano da Hégira. Contudo, ao observar a sequência dos acontecimentos, parece que foi realizada antes do Tratado de Hudaybiyyah. Hadrat Jabir (que Allah esteja satisfeito com ele) narra: o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) enviou trezentos cavaleiros sob a liderança de Hadrat Abu Ubayda ibn al-Jarrah. O objetivo era encontrar uma caravana comercial dos coraixitas. Durante essa expedição, passamos por uma fome terrível. Chegamos a comer até folhas de árvores. Por isso, essa expedição recebeu o nome de Khabat. As folhas arrancadas das árvores são chamadas de khabat. Depois, atormentados pela fome extrema, nove camelos foram abatidos, três de cada vez. Abu Ubayda (que Allah esteja satisfeito com ele) não permitiu que se abatesse mais nenhum camelo. Mais tarde, um enorme peixe chamado ‘anbar surgiu do mar e apareceu na margem de um rio. Comemos sua carne e usamos seu óleo durante quinze dias.
Com isso, nossa saúde voltou ao normal. Hadrat Abu Ubayda (que Allah esteja satisfeito com ele) retirou uma costela daquele enorme peixe. O homem mais alto entre os soldados e o camelo mais alto entre os camelos foram colocados lado a lado. Em seguida, fizeram o homem alto sentar-se sobre o camelo e disseram-lhe que passasse por baixo da costela. Montado no camelo, o homem passou facilmente por baixo dela. Havíamos guardado uma parte daquele peixe. Depois de chegarmos a Medina, conversamos sobre isso com o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). Ele disse: “Isto é uma provisão de Allah. Ele a providenciou para vocês. Se ainda tiverem alguma parte desse peixe, deem-me também para comer.” Enviamos então um pouco do peixe à casa do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). Aqui termina o relato detalhado do acontecimento. (Sahih al-Bukhari, vol. 2, pp. 625–626; Sahih Muslim, vol. 2, pp. 145–146.)
Como já foi mencionado, o curso dos acontecimentos indica que este episódio ocorreu antes do tratado de Hudaybiyyah. Isso porque, depois desse tratado, os muçulmanos não tentaram apoderar-se das caravanas comerciais dos coraixitas.
A expedição de Banu al-Mustaliq
Do ponto de vista militar, esta expedição não foi de grande porte. Contudo, às vésperas dela ocorreram alguns acontecimentos que provocaram agitação e grande alvoroço na sociedade islâmica. Por um lado, isso revelou a verdadeira natureza dos hipócritas; por outro, foram reveladas certas leis e normas que conferiram à sociedade islâmica características e distinção no campo da dignidade. A sociedade islâmica adquiriu uma estrutura e uma configuração próprias. Primeiro mencionaremos a ghazwa, ou expedição militar; depois apresentaremos o relato detalhado.
Segundo os relatos dos autores da Sira, esta expedição ocorreu no mês de Sha‘ban do quinto ou do sexto ano da Hégira. Alega-se, como argumento, que foi no caminho de retorno desta expedição militar que ocorreu o episódio da calúnia, isto é, foi feita uma falsa acusação contra Aisha. Esse episódio ocorreu depois do casamento do Mensageiro de Deus com Zaynab e da revelação da determinação do hijab para as mulheres muçulmanas. Zaynab casou-se no final do quinto ano da Hégira, isto é, no mês de Dhu al-Qa‘dah ou Dhu al-Hijjah. Há consenso de que esta expedição militar ocorreu no mês de Sha‘ban. Portanto, não pode ter sido no Sha‘ban do quinto ano, mas sim no Sha‘ban do sexto ano da Hégira. Por outro lado, aqueles que situam esta expedição militar no Sha‘ban do quinto ano da Hégira argumentam que, no hadith sobre a calúnia, o relato deste episódio menciona Sa‘d ibn Mu‘adh. Sa‘d ibn Mu‘adh morreu no final do quinto ano da Hégira, depois da expedição militar contra Banu Qurayzah. Por isso, o argumento de que ele estava presente no momento do episódio da calúnia implica que esta expedição militar ocorreu no quinto, e não no sexto ano da Hégira.
A primeira corrente respondeu que a menção de Sa‘d ibn Mu‘adh no hadith sobre a calúnia foi um erro do narrador. Isso porque este mesmo hadith foi narrado por Ibn ‘Utbah a partir de Aisha. A cadeia de transmissão é: de Aisha para ‘Abdullah ibn ‘Utbah, e de ‘Abdullah ibn ‘Utbah para al-Zuhri. Nessa versão, em vez de Sa‘d ibn Mu‘adh, é mencionado Usayd ibn Hudayr. O imã Abu Muhammad ibn Hazm afirmou: “Sem dúvida, esta é a versão autêntica; a menção de Sa‘d ibn Mu‘adh é uma invenção.” (Ver Zad al-Ma‘ad, vol. 2, p. 115.) Embora o argumento da primeira corrente pareça bastante convincente e, por isso, inicialmente eu também tenha concordado com ela, ao refletirmos compreendemos que o fundamento dessa interpretação é que o casamento do Mensageiro de Deus com Zaynab ocorreu no final do quinto ano da Hégira. Além de algumas indicações, não há neste caso nenhuma prova clara. Entretanto, tanto a presença de Sa‘d ibn Mu‘adh no episódio da calúnia quanto sua morte no quinto ano da Hégira são fatos comprovados por diversos relatos autênticos. É difícil qualificar esses relatos como invenções. Portanto, a verdade é que o casamento de Zaynab ocorreu no final do quarto ano ou no início do quinto ano da Hégira. Posteriormente, isso será explicado. O episódio da calúnia e a expedição militar contra Banu al-Mustaliq ocorreram no mês de Sha‘ban do quinto ano da Hégira. Nesse meio-tempo, o Mensageiro de Deus soube que o chefe de Banu al-Mustaliq, al-Harith ibn Abi Dhirar, estava vindo para combater os muçulmanos com sua própria tribo e outras tribos árabes. Para verificar a veracidade dessa notícia, enviou Buraydah ibn al-Husayb al-Aslami. Ele foi e conversou com al-Harith ibn Abi Dhirar. Ao retornar, informou ao Mensageiro tudo o que havia ocorrido.
Depois de tomar conhecimento de tudo e certificar-se da situação, o Mensageiro ordenou aos nobres Companheiros que se preparassem. A expedição foi realizada imediatamente. Os Companheiros partiram no dia 2 do mês de Sha‘ban. Alguns hipócritas, que anteriormente não haviam participado de nenhuma outra batalha, também acompanharam o Mensageiro de Deus nesta expedição. O Mensageiro confiou a responsabilidade pela administração de Medina a Zayd ibn Harithah — segundo outra versão, a Abu Dharr; segundo outra, a Numayl ibn ‘Abdullah al-Laythi. Ao receberem a notícia de que o Mensageiro de Deus havia partido, al-Harith ibn Abi Dhirar e seus companheiros ficaram extremamente amedrontados. Eles também souberam que o espião que haviam enviado fora morto. Os membros das diversas tribos que acompanhavam al-Harith dispersaram-se. Quando o Mensageiro de Deus chegou diante do reservatório de al-Muraysi‘, Banu al-Mustaliq preparou-se para a batalha. O Mensageiro de Deus e os Companheiros também se prepararam. [Al-Muraysi‘ é o nome de um reservatório de água de Banu al-Mustaliq, situado na costa marítima da região de Qudayd. Ver Sahih al-Bukhari, Kitab al-‘Itq, vol. 1, p. 345; Fath al-Bari, vol. 7, p. 431.]
O comandante de todo o exército islâmico era Abu Bakr al-Siddiq. A bandeira dos Ansar foi entregue a Sa‘d ibn ‘Ubadah. Durante algum tempo, houve troca de flechas. Em seguida, sob a ordem do Mensageiro de Deus, os nobres Companheiros atacaram em conjunto e obtiveram a vitória. Alguns politeístas foram mortos. As mulheres e as crianças foram capturadas. Os muçulmanos também se apoderaram dos rebanhos, incluindo camelos. Apenas um muçulmano foi morto. Mesmo esse foi atingido por um homem dos Ansar, que, por engano, o julgou membro do grupo inimigo.
É isso que os autores da Sira registraram sobre esta batalha. O erudito Ibn al-Qayyim rejeitou esses relatos como invenções. Ele escreveu que não houve combate nesta expedição; em vez disso, os inimigos foram atacados e as mulheres, as crianças e os rebanhos foram capturados. Está mencionado no Sahih al-Bukhari que, quando o Mensageiro de Deus atacou Banu al-Mustaliq, eles estavam desprevenidos. Ou seja, não estavam preparados para um ataque desse tipo. Ver o hadith. [Sahih al-Bukhari, Kitab al-‘Itq, vol. 1, p. 345; Fath al-Bari, vol. 7, p. 431.]
Entre os cativos também se encontrava Hazrat Juwayriya (que Allah esteja satisfeito com ela). Ela era filha de Harith ibn Abi Dhirar, chefe da tribo Banu al-Mustaliq. Estava sob a posse de Thabit ibn Qays. Hazrat Thabit fez com Juwayriya um contrato de mukātaba. [“Mukātaba” é o contrato pelo qual um escravo ou uma escrava se compromete com o seu senhor a pagar uma quantia determinada para obter a liberdade.] Depois, o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — pagou a quantia estipulada, libertou-a e casou-se com ela. Por causa desse casamento, os muçulmanos libertaram cem famílias da tribo Banu al-Mustaliq. Todos eles haviam abraçado o Islã. Foram libertados por serem parentes dos sogros do Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz. [Zād al-Maʿād, vol. 2, pp. 112–113; Ibn Hisham, vol. 2, pp. 289–290, 294–295]
Este é o relato da batalha. É necessário mencionar também os demais acontecimentos ocorridos durante essa batalha. Entre esses acontecimentos, destaca-se especialmente o incidente da calúnia. O líder dos hipócritas, Abdullah ibn Ubay, foi responsável por esse incidente. Esse hipócrita e seus companheiros espalharam essa história. Portanto, primeiro lançaremos brevemente luz sobre o papel vergonhoso que desempenharam na sociedade islâmica e, depois, apresentaremos em detalhes o relato do acontecimento.
O papel dos hipócritas antes da batalha de Banu al-Mustaliq
Já foi mencionado várias vezes que Abdullah ibn Ubay nutria, em geral, inimizade contra o Islã e os muçulmanos, e, em particular, contra o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz. As tribos de Aws e Khazraj haviam se unido, confiantes em sua liderança. Preparativos também haviam sido feitos para sua entronização. Uma coroa estava sendo confeccionada para ser colocada na cabeça de Abdullah ibn Ubay. Foi então que o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — chegou a Medina, trazendo consigo o resplendor de uma luz revolucionária. Como resultado, a atenção das pessoas de todas as camadas de Medina se desviou de Abdullah. A partir de então, esse homem começou a pensar que o Mensageiro de Allah havia lhe tomado o reino.
A expressão da vingança e da ira de Abdullah ibn Ubay ocorreu logo no início da Hégira do Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Naquela época, ele ainda não havia demonstrado lealdade exterior ao Islã. Mais tarde, embora tenha demonstrado exteriormente lealdade ao Islã, sua atitude não mudou. Um dia, antes de manifestar essa lealdade exterior ao Islã, o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — ia montado em um burro prestar assistência a Hazrat Saʿd ibn ʿUbada.
No caminho, o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — passou por uma reunião pública. Entre os presentes estava também o futuro hipócrita Abdullah ibn Ubay. Cobrindo o nariz com sua capa, ele disse: “Não levante poeira sobre nós.” O Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — recitava a Palavra pura de Allah para as pessoas reunidas. Abdullah ibn Ubay disse: “Fique sentado em sua própria casa; não venha incomodar-nos em nossa reunião.” [Ibn Hisham, vol. 2, pp. 584, 587; Sahih al-Bukhari, vol. 2, p. 924; Sahih Muslim, vol. 2, p. 109]
Isso ocorreu antes de ele demonstrar exteriormente lealdade ao Islã. Após a batalha de Badr, Abdullah ibn Ubay abraçou o Islã ao perceber para que lado soprava o vento. Contudo, mesmo depois de aceitar o Islã, esse homem desprezível continuou sendo inimigo de Allah Todo-Poderoso, de Seu amado Mensageiro e dos muçulmanos. Ele não poupou nenhum esforço para criar desordem na sociedade islâmica e enfraquecer a voz do Islã. Prosseguiu gradualmente com suas ações contra o Islã. Mantinha relações francas e cordiais com os inimigos do Islã. No caso da tribo Banu Qaynuqa, Abdullah ibn Ubay interferiu de maneira extremamente censurável. Isso já foi abordado anteriormente. Da mesma forma, esse malfeitor empenhou-se ao máximo, durante a batalha de Uhud, para provocar divisão, desordem, desespero e anarquia entre os muçulmanos. Isso também já foi relatado anteriormente.
Depois de abraçar o Islã, esse hipócrita costumava levantar-se na Mesquita do Profeta todas as sextas-feiras, antes de o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — proferir o sermão, e dizer: “Ó gente, ele é o Mensageiro de Allah entre vós. Allah Todo-Poderoso concedeu-vos, por meio dele, dignidade e honra. Portanto, ajudai-o, fortalecei-o, escutai-o e obedecei-lhe.” Depois dessas palavras, sentava-se. Mais tarde, sua falta de vergonha e obstinação chegaram a tal ponto que, na primeira sexta-feira após a batalha de Uhud, começou a dizer as mesmas coisas. Entretanto, todos estavam cientes de seu papel contrário ao Islã na batalha de Uhud. Enquanto ele falava, os muçulmanos, de vários lados, puxaram suas roupas e disseram: “Ó inimigo de Allah, senta-te! Depois do que fizeste, não te fica bem dizer esse tipo de coisa.” Diante dessa reação hostil, ele saiu altivamente, dando passos largos. Enquanto ia embora, murmurava: “Eu me levantei para ajudá-los; parece que cometi um crime. Por acaso disse algo errado?” À porta, encontrou um homem dos Ansar. Este lhe disse: “Que a destruição recaia sobre ti! Volta. O Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — suplicará a Allah pelo teu perdão.” Ele respondeu: “Juro por Deus, não quero que ele suplique a Allah pelo meu perdão.” [Ibn Hisham, vol. 2, p. 105]
Além disso, Abdullah ibn Ubay estabeleceu relações com a tribo dos Banu Nadir e, juntamente com eles, continuou a conspirar secretamente contra os muçulmanos.
Da mesma forma, Abdullah ibn Ubay e seus companheiros continuaram a conspirar de várias maneiras para causar desordem entre os muçulmanos e influenciá-los durante a Batalha da Trincheira. Allah, o Altíssimo, diz a respeito disso na Surata al-Ahzab: “E um grupo deles disse: ‘Ó povo de Yathrib, não há lugar para vós aqui; retornai.’ E outro grupo do Profeta pedia permissão, dizendo: ‘Nossas casas estão desprotegidas’, embora não estivessem desprotegidas. Na realidade, pretendiam apenas fugir. Se os inimigos entrassem na cidade por seus diversos lados e lhes pedissem rebelião, eles certamente a praticariam e não demorariam nisso. Eles já haviam feito um pacto com Allah de que não dariam as costas. E o pacto feito com Allah será certamente questionado. Dize: ‘A fuga não vos beneficiará em nada, se fugirdes por medo da morte ou de serdes mortos; nesse caso, não desfrutareis senão por pouco tempo.’ Dize: ‘Quem vos protegerá de Allah, se Ele quiser um mal para vós? E quem poderá prejudicar-vos, se Ele quiser conceder-vos uma misericórdia?’ Eles não encontrarão, além de Allah, protetor nem auxiliar algum. Allah conhece certamente aqueles dentre vós que impedem os outros de participar da batalha e dizem a seus irmãos: ‘Vinde juntar-vos a nós.’ Eles participam pouco da batalha — e, quando participam, fazem-no por avareza em relação a vós. Quando chega o perigo, vês que olham para ti com os olhos revirados, como os de alguém desmaiado pelo medo da morte. Mas, quando o perigo passa, ferem-vos com suas línguas afiadas, cobiçosos dos espólios. Eles não creram; por isso, Allah tornou vãs as suas obras, e isso é fácil para Allah. Eles pensam que os aliados não partiram e que, se estivessem entre os beduínos nômades do deserto, procurariam notícias vossas. E, mesmo que permanecessem convosco, combateriam muito pouco.” (Surata al-Ahzab, versículos 13–20)
Nos versículos mencionados, foi apresentado um retrato completo das ideias, pensamentos, ações, estado mental, egoísmo e, em suma, do caráter oportunista dos hipócritas.
Apesar de tudo isso, os judeus, os hipócritas e os idólatras — isto é, todos os inimigos do Islã — compreenderam muito bem que a causa da vitória do Islã não era a força material nem a abundância de armas. Essa vitória estava, na realidade, fundamentada na obediência a Allah e nos valores morais. Por meio dela, toda a sociedade islâmica e todas as pessoas ligadas ao Islã alcançavam o sucesso. Esses inimigos do Islã também sabiam que a fonte de todos esses êxitos estava na personalidade do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, cujo caráter e personalidade eram um modelo incomparável.
Após cinco anos de esforços, todos esses inimigos do Islã compreenderam que não era possível destruir os seguidores dessa religião por meio de armas. Por isso, provavelmente chegaram à conclusão de que poderiam realizar uma ampla campanha de propaganda contra essa religião, lançando uma mancha sobre seu caráter. Para esse propósito, escolheram o próprio Mensageiro de Allah. Como os hipócritas viviam entre os muçulmanos e residiam em Medina, tinham a oportunidade de conviver facilmente com eles. Assim, conseguiam ferir com facilidade os sentimentos dos muçulmanos. Portanto, os hipócritas assumiram para si a responsabilidade por essa campanha de propaganda. O líder dos hipócritas, Abdullah ibn Ubay, tomou para si a responsabilidade por essa campanha.
Esse plano e essa conspiração vieram à tona certa vez, quando o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, casou-se com Zaynab, depois que Zayd ibn Harithah se divorciou dela. Era costume dos árabes considerar o filho adotivo como seu próprio filho e considerar sua esposa tão proibida quanto a esposa de um filho biológico. Por isso, depois que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, se casou com Zaynab, os hipócritas iniciaram uma campanha contra ele. Com isso, encontraram dois pontos extremamente eficazes para sua propaganda caluniosa.
Primeiro, Zaynab era a quinta esposa do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Entretanto, o Alcorão Sagrado não permitia que um muçulmano tivesse mais de quatro esposas. Então, como poderia ser válido o casamento do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz?
Segundo, Zaynab era a esposa de Zayd, o filho adotivo do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Por isso, segundo o costume dos árabes, casar-se com a esposa de um filho adotivo era um crime grave e um grande pecado. Os propagandistas fizeram muita propaganda nesse assunto e espalharam todo tipo de boato. Chegaram a dizer que Muhammad havia visto Zaynab de repente e ficara tão fascinado por sua beleza que se apaixonara por ela naquele mesmo instante. Depois que seu filho adotivo Zayd soube disso, abriu o caminho para Muhammad casar-se com Zaynab.
Os hipócritas divulgaram esse episódio de tal maneira que, até então, as discussões e críticas a seu respeito continuavam. Essa propaganda exerceu tamanha influência sobre os muçulmanos simples e sinceros que, por fim, Allah, o Altíssimo, revelou versículos sobre o assunto, nos quais foi dada uma resposta adequada a essa questão. A importância do tema pode ser compreendida pelo fato de que, logo no início da Surata Al-Ahzab, Allah, o Senhor dos mundos, menciona isso, dizendo: “Ó Profeta, teme a Allah e não obedeças aos incrédulos e aos hipócritas. Por certo, Allah é Onisciente, Sapientíssimo.” (Surata Al-Ahzab, versículo 1)
Aqui, faz-se alusão às atividades dos hipócritas e apresenta-se brevemente o seu perfil. O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, suportava essas atividades dos hipócritas com paciência, tolerância e gentileza. Os muçulmanos comuns também passavam os dias com paciência, protegendo-se das atividades dos hipócritas, pois sabiam que Allah, o Altíssimo, os humilharia e desonraria de várias maneiras. Como Allah, o Altíssimo, diz: “Não veem eles que são postos à prova uma ou duas vezes a cada ano? Mesmo assim, não se arrependem nem tiram ensinamento.” (Surata At-Tawbah, versículo 126)
As atividades dos hipócritas durante a expedição contra Banu Mustaliq
Os hipócritas também participaram da expedição militar contra Banu Mustaliq. Sobre o que fizeram durante essa expedição, Allah, o Altíssimo, revelou no Nobre Alcorão: “Se tivessem saído convosco, não teriam feito senão aumentar-vos a confusão e teriam corrido de um lado para outro entre vós, procurando causar discórdia entre vós.” (Surata At-Tawbah, versículo 47)
Durante essa expedição, surgiram para eles duas oportunidades de manifestar o ressentimento acumulado contra os muçulmanos. Eles causaram grande agitação e desordem entre os muçulmanos e lançaram uma vil campanha de difamação contra o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Eis um relato resumido dos dois acontecimentos:
1) A proposta de expulsar a pessoa mais desprezível
Após concluir a expedição militar contra Banu Mustaliq, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, estava acampado junto ao açude de Muraisi’. Nessa ocasião, algumas pessoas foram ao açude buscar água. Entre elas estava um servo de Umar, que Allah esteja satisfeito com ele. Seu nome era Jahjah al-Ghifari. Quando foi buscar água, ele começou primeiro a discutir com Sinan ibn Wabr al-Juhani, e os dois começaram a trocar golpes. Então, al-Juhani gritou: “Ó ansáres, ajudai-me!” Jahjah também gritou: “Ó muhajirun, ajudai-me!” Assim que soube do ocorrido, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, foi até lá e disse: “Estou entre vós, e ainda assim dais gritos como nos dias da ignorância? Deixai-o, pois isso é repugnante.”
Ao tomar conhecimento do ocorrido, Abdullah ibn Ubayy explodiu de raiva. Ele disse: “Então eles ousaram fazer isso? Ele se tornou nosso rival e inimigo em nosso próprio território? Ao ver a nossa situação, confirma-se a veracidade do antigo provérbio: alimenta e engorda o teu próprio cão para que ele possa morder-te e dilacerar-te. Escutai: quando chegarmos a Medina, o mais honrado entre nós expulsará de Medina o mais desprezível.” Depois, dirigindo-se aos presentes, disse: “Vós mesmos atraístes esta calamidade sobre vós. Permitistes que ele permanecesse em vossa cidade e lhe destes uma parte de vossas riquezas. Vede: se deixardes de dar-lhe tudo o que possuís, ele deixará a vossa cidade e irá para outro lugar.”
Naquela ocasião, também estava presente o jovem Companheiro Hazrat Zaid ibn Arqam. Ele foi até seu tio e contou-lhe tudo. Seu tio informou o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). Hazrat Umar também estava presente naquele momento. Ele disse: “Ó Mensageiro de Allah, ordene a Ubbad ibn Bishr que o mate.” O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: “Umar, como isso seria possível? Muhammad mataria seus próprios companheiros? Em vez disso, anuncie que partiremos daqui.” Não era o momento habitual de partir para algum lugar. O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) nunca partia em momentos assim. Quando os Companheiros iniciaram a viagem, foram até o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), cumprimentaram-no e disseram: “Hoje o senhor partiu em um horário incomum.” Ele perguntou: “Você sabe tudo o que seu companheiro disse?” Hazrat Usayd perguntou: “O que ele disse?” Ele respondeu: “Disse que, depois de chegarmos a Medina, o homem honrado expulsará de Medina o homem mais vil.” Hazrat Usayd disse: “Ó Mensageiro de Allah, se quiser, expulse-o de Medina. Por Allah, ele é vil, enquanto o senhor é honrado.” Em seguida, disse: “Ó Mensageiro de Allah, trate-o com suavidade. Por Allah, Allah o trouxe para o nosso meio numa época em que seu povo estava preparando uma coroa de joias para sua cerimônia de coroação. Por isso, ele pensa que foi o senhor quem lhe tomou o reino.”
Depois disso, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) continuou caminhando sem parar desde aquela manhã até a tarde e até o sol do dia seguinte ter subido bastante no céu. Então, assim que fizeram uma pausa na viagem e todos se deitaram no chão, adormeceram profundamente, sem perceber nada. Era isso que o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) queria. Ele não queria que os Companheiros se sentassem confortavelmente para conversar e tagarelar⁴.
Enquanto isso, quando Abdullah ibn Ubay soube que Zaid ibn Arqam havia revelado tudo, compareceu diante do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) e começou a jurar. Dizia: “Aquilo que o senhor ouviu não é verdade; por Allah, jamais disse nada disso. Nem sequer pronunciei palavras semelhantes.” Os Ansar presentes disseram: “Ó Mensageiro de Allah, Zaid ainda é apenas um rapaz. Talvez tenha ouvido errado. Zaid pode não ter se lembrado bem do que Abdullah disse. Por isso, o senhor acreditou em tudo o que ouviu a respeito de Abdullah ibn Ubay.”
Hazrat Zaid ibn Arqam (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Depois disso, fiquei tão angustiado que nunca havia ficado assim antes. Permaneci em casa, consumido pela tristeza. Então Allah, o Exaltado, revelou a Surata Al-Munafiqun. Nessa surata, Allah testemunhou que eles diziam: ‘Não gasteis com os companheiros do Mensageiro de Allah até que eles se dispersem.’”
Allah, o Exaltado, também disse: “Eles dizem: quando retornarmos a Medina, certamente expulsaremos dela o mais fraco dentre nós, que é o mais poderoso.”
Hazrat Zaid (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Depois que este versículo foi revelado, o Mensageiro de Allah enviou alguém para me chamar. Ele recitou para mim o versículo revelado e depois disse: ‘Allah testemunhou a veracidade de suas palavras.’ [Sahih al-Bukhari, vol. 1, p. 499; vol. 2, pp. 227, 228 e 229; Ibn Hisham, vol. 2, pp. 290, 291 e 292.]”
Esse hipócrita também tinha um filho chamado Abdullah. Ele era completamente oposto ao pai. Era um Companheiro extremamente piedoso e de bom caráter. Rompendo relações com o pai, foi até o portão de Medina e ficou ali de pé, com a espada na mão. Quando seu pai, Abdullah ibn Ubay, chegou ali, ele disse: “Por Allah, enquanto o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) não der permissão, você não poderá avançar nem um passo. O Mensageiro de Allah é honrado, enquanto você é desprezado.” Depois, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) foi até ali e permitiu que o chefe dos hipócritas entrasse em Medina. Esse mesmo Abdullah havia dito ao Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz): “Ó Mensageiro de Allah, se quiser matá-lo, diga-me. Por Allah, cortarei sua cabeça e a trarei diante do senhor.” [Ibn Hisham, Mukhtasar al-Sirah, Sheikh Abdullah, p. 277]
Dois) O incidente do Ifk
Outro aspecto importante desta expedição foi o episódio do “ifk”, isto é, a acusação contra a honra. O relato desse acontecimento é o seguinte: quando o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) pretendia viajar, fazia um sorteio entre os nomes de suas esposas. Aquela cujo nome saísse acompanhava-o na viagem. Na ocasião desta batalha, o nome de Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) foi sorteado.
O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) levou-a consigo. No caminho de volta, fez uma parada em determinado lugar. Ela havia tomado aquele colar emprestado de sua irmã. Ao perceber que o colar não estava com ela, foi imediatamente procurá-lo. Enquanto isso, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) e os Companheiros partiram em direção a Medina. Os homens que colocavam a liteira de Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) sobre o camelo pensaram que ela estava dentro da liteira. Por isso, ergueram-na e a amarraram sobre o camelo. Não lhes ocorreu que a liteira não estava muito pesada. A jovem Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) era magra e leve. Como vários homens levantaram a liteira, não perceberam que não havia ninguém dentro dela. Se apenas um ou dois a tivessem levantado, talvez tivessem notado que estava leve.
Em suma, depois de procurar o colar, Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) voltou ao local da parada e viu que todos haviam partido; o campo estava vazio. Então sentou-se, pensando que, ao perceberem sua ausência, certamente alguém viria procurá-la. Certamente, aquilo que Allah, o Altíssimo, deseja é o que acontece. Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) deitou-se e, algum tempo depois, adormeceu. Ao ouvir: “Inna lillahi wa inna ilayhi raji’un, a esposa do Mensageiro de Allah?”, Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) despertou. Quem havia dito isso era Safwan ibn al-Mu’attal (que Allah esteja satisfeito com ele). Seu sono era profundo, e esse Companheiro sonolento também havia ficado para trás. Assim que viu Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela), reconheceu-a, pois já a havia visto antes da revelação da ordem do véu. Depois de pronunciar “Inna lillahi”, conduziu sua montaria até Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) e fez com que ela se sentasse nela. Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) montou. Safwan não disse uma única palavra além de “Inna lillahi”. Também não fez nenhuma pergunta a Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela). Em silêncio, segurando a rédea do camelo e caminhando, chegou até a caravana.
Era exatamente meio-dia. Todos os integrantes da caravana estavam descansando naquele momento. Ao verem Safwan chegando daquela maneira, os Companheiros começaram a conversar e a fazer comentários. O inimigo de Allah, Abdullah ibn Ubayy, encontrou uma oportunidade para externar o rancor que trazia no coração. Teve a chance de atiçar ainda mais o fogo de ódio e inveja que ardia dentro dele. Começou a espalhar uma calúnia contra a honra da esposa do Mensageiro de Allah. Seus companheiros também começaram a espalhar várias coisas, buscando agradá-lo. Depois que chegaram a Medina, a calúnia foi ampliada e seus rumores se espalharam. O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) ouviu tudo e permaneceu em silêncio. Não disse nada a esse respeito. Durante vários dias, nenhuma revelação havia chegado. Diante dessa situação, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) consultou os Companheiros próximos sobre a possibilidade de romper a relação com Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela). Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) sugeriu, por gestos e alusões, que ele rompesse com ela e se casasse com outra. Usama (que Allah esteja satisfeito com ele) e alguns outros Companheiros disseram: “Ó Mensageiro de Allah, não se divorcie de Aisha; não dê ouvidos às palavras dos inimigos.” Então o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) subiu ao púlpito da Mesquita do Profeta e chamou a atenção dos Companheiros, pedindo que o livrassem do sofrimento causado por Abdullah ibn Ubayy. Ao ouvir isso, Sa’d ibn Mu’adh expressou o desejo de matar Abdullah ibn Ubayy. Sa’d ibn Ubadah (que Allah esteja satisfeito com ele) não gostou do que ele disse. Era o chefe da tribo dos Khazraj, e Abdullah pertencia à sua própria tribo. Por isso, o sentimento tribal se fortaleceu em seu coração. Então houve uma discussão entre Sa’d ibn Mu’adh e Sa’d ibn Ubadah. Como resultado, os membros das duas tribos se exaltaram. O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) acalmou ambos os lados depois de lhes falar longamente e, em seguida, permaneceu em silêncio.
Enquanto isso, Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) adoeceu assim que voltou da viagem. Permaneceu acamada durante um mês. Ela nada sabia sobre a calúnia espalhada a seu respeito. Contudo, às vezes pensava que, ao contrário do tratamento compassivo que o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) lhe dispensava durante suas doenças anteriores, desta vez ele não fazia o mesmo. Depois de se recuperar, Aisha saiu certa noite com Umm Mistah ao campo para atender às necessidades naturais. Por acaso, Umm Mistah tropeçou ao enroscar o pé em sua própria capa e caiu. Então lançou uma maldição contra o próprio filho.
Quando Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) criticou Umm Mistah por isso, ela disse: “Meu filho é cúmplice do crime de espalhar a calúnia.” Então contou a Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) o episódio da calúnia espalhada a seu respeito. Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) pediu permissão para ir à casa de seu pai e de sua mãe, a fim de conhecer todos os detalhes. Ao receber permissão, foi para a casa deles. Depois de ouvir tudo, começou a chorar copiosamente. Passou dois dias e uma noite chorando. Durante esse tempo, não enxugou os olhos nem dormiu. Sentia como se o peito fosse explodir de tanto chorar. Nesse estado, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) chegou. Depois de recitar o testemunho de fé, disse em um discurso: “Ó Aisha, chegaram aos meus ouvidos palavras desse tipo a seu respeito. Se estiveres inocente disso, em breve Allah, o Altíssimo, manifestará tua inocência. Mas, se — que Allah não permita — tiveres cometido algum pecado, pede o perdão de Allah e arrepende-te. Quando um servo reconhece seu pecado e se arrepende diante de Allah, Allah, o Altíssimo, aceita seu arrependimento.”
Assim que ouviu essas palavras, Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) parou de chorar. Nenhuma lágrima veio aos seus olhos. Pediu a seu pai e à sua mãe que respondessem. Porém, eles não sabiam o que responder. Então Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: “Juro por Allah que sei que, de tanto ouvir isso, essas palavras se gravaram em vossas mentes. Vós as considerais verdadeiras. Agora, se eu disser que sou inocente, ainda assim não acreditareis em mim. Por outro lado, se eu confessar a culpa, acreditareis nisso. Allah, o Altíssimo, sabe muito bem que sou inocente. Portanto, minha situação e a vossa são como a situação do pai de Yusuf, Ya’qub (que Allah esteja satisfeito com ele), quando disse: ‘A paciência plena é o melhor; e, quanto ao que dizeis, Allah é o único a quem peço auxílio.’”
Depois disso, Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) foi para um canto e deitou-se. Naquele exato momento, começou a descer uma revelação sobre o Mensageiro de Allah. Depois que terminou o estado penoso da revelação, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) sorria discretamente. Suas primeiras palavras foram: “Ó Aisha, Allah, o Altíssimo, declarou tua inocência.” Sua mãe disse alegremente: “Aisha, vai até o Mensageiro de Allah.” Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela), em tom de falso ressentimento, respondeu: “Não irei; apenas louvarei a Allah.”
Os versículos revelados sobre esse acontecimento fazem parte da surata An-Nur. Nessa surata, eles começam no décimo versículo.
Em seguida, cada um dos três Companheiros, Mistaḥ ibn Uthātha, Hassan ibn Thabit e Hamna, recebeu oitenta chibatadas sob a acusação de espalhar calúnias. [Quando alguém é acusado de adultério e isso não pode ser provado, a lei da sharia islâmica determina que aquele que espalhou a calúnia receba oitenta chibatadas.]
O líder hipócrita, Abdullah ibn Ubayy, escapou da punição. Contudo, ele estava na vanguarda da disseminação dessa calúnia. Esse perverso desempenhou o papel principal nesse assunto. Por que ele não recebeu nenhum tipo de punição?
A razão é que aqueles que foram punidos recebem perdão na Vida Futura em lugar dessa punição. Essa punição serve como expiação para eles. Como Allah, o Altíssimo, declarou que Abdullah ibn Ubayy receberia um severo castigo na Vida Futura, ele não foi punido. Ou não foi punido pela mesma razão pela qual não foi morto. [Sahih al-Bukhari, vol. 1, p. 364; vol. 2, pp. 696, 697, 698; Zad al-Ma’ad, vol. 2, pp. 113, 114, 115; Ibn Hisham, vol. 2, pp. 297–307]
Assim, depois de um mês, a nuvem negra de suspeitas, dúvidas e agitação mental se dissipou do ambiente de Medina. Abdullah ibn Ubayy foi tão humilhado que esse perverso nunca mais conseguiu erguer a cabeça. Ibn Ishaq diz que, depois disso, quando ele cometia algum excesso, eram os próprios membros de seu povo que o humilhavam. Vendo essa situação, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse certa vez a Umar, que Allah esteja satisfeito com ele: “Umar, o que você acha? Veja: naquele dia, se você o tivesse matado, muitas pessoas arrogantes teriam se lançado às críticas. E hoje? Agora, se lhes fosse ordenado que o matassem, seriam justamente esses críticos que o matariam.” Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: “Juro por Allah, compreendi que o discernimento do Mensageiro de Allah é melhor que o meu.” [Ibn Hisham, vol. 2, p. 293]
Expedições militares posteriores à batalha de Banu al-Mustaliq
1) Expedição a Diyar Banu Kilab (região de Dumat al-Jandal)
Essa expedição foi realizada sob a liderança de Abd al-Rahman ibn Awf, que Allah esteja satisfeito com ele, no mês de Sha’ban do sexto ano da Hégira. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, fez Abd al-Rahman sentar-se diante dele, amarrou pessoalmente um turbante em sua cabeça e recomendou-lhe que agisse adequadamente durante o combate. Ele disse: “Se eles aceitarem sua autoridade, você se casará com a filha do rei deles.” Ao chegar a Dumat al-Jandal, Abd al-Rahman ibn Awf, que Allah esteja satisfeito com ele, convidou-os continuamente ao Islã durante três dias. Por fim, eles aceitaram o Islã. Depois disso, Abd al-Rahman, que Allah esteja satisfeito com ele, casou-se com Tamadur bint al-Asbagh. Essa mulher era a mãe de Abu Salama, filho de Abd al-Rahman. Seu pai era o chefe e rei do povo.
Dois) Sariyya de Diyar Banu Sa‘d (região de Fadak)
Esta expedição foi realizada no mês de Sha‘ban do sexto ano da Hégira, sob a liderança de Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele). O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) recebeu a notícia de que um grupo da tribo Banu Sa‘d estava se preparando para ajudar os judeus contra os muçulmanos. Ao receber essa notícia, enviou Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) com duzentos homens. Eles viajavam à noite e permaneciam escondidos durante o dia. Por fim, um espião foi preso. Ele confessou que haviam oferecido ajuda aos judeus em troca de tâmaras de Khaybar. O espião também informou que os membros de Banu Sa‘d estavam reunidos em determinado lugar. Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) lançou um ataque súbito durante a noite e tomou quinhentos camelos e duas mil cabras. Os membros da tribo Banu Sa‘d conseguiram fugir levando consigo suas mulheres e crianças. O nome de seu chefe era Abar ibn Alim.
Três) Sariyya de Wadi al-Qura
Esta expedição foi realizada no mês de Ramadan do sexto ano da Hégira, sob a liderança de Hazrat Abu Bakr Siddiq (que Allah esteja satisfeito com ele) ou de Hazrat Zayd ibn Haritha (que Allah esteja satisfeito com ele). A razão foi que um ramo da tribo Banu Fazara recorreu à traição e conspirou para assassinar o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). Por isso, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) enviou Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele). Hazrat Salama ibn Akwa‘ disse: “Eu também estava com ele nesta expedição.” Depois de realizar a oração do fajr, atacamos por ordem de Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele).
Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) matou algumas pessoas. Vi um grupo de pessoas, entre as quais havia mulheres e crianças. Temia que pudessem fugir para as montanhas. Pensando nisso, avancei e lancei uma flecha entre eles e a montanha. Com isso, eles pararam. Entre eles havia uma mulher chamada Umm Qirfa. Ela vestia uma antiga peça de couro. Estava acompanhada de sua filha jovem, que era uma das mais belas moças da Arábia. Conduzi ambas até Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele). Ele me entregou a moça. Eu jamais descobri suas vestes. Mais tarde, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) pediu a guarda dessa moça a Salama ibn Akwa‘ e a enviou para Meca. Em troca dessa moça, alguns muçulmanos que estavam detidos em Meca foram libertados. Sahih Muslim, vol. 2, p. 89. Também foi mencionado que esta expedição militar ocorreu no sétimo ano da Hégira.
Umm Qirfa era uma mulher demoníaca. Essa mulher vivia conspirando para assassinar o Mensageiro de Allah. Para esse objetivo, preparou trinta cavaleiros de sua tribo. Ela recebeu nesta expedição o que merecia: todos os seus trinta cavaleiros foram mortos.
Quatro) Sariyya de Urnain
Esta expedição foi realizada no mês de Shawwal do sexto ano da Hégira, sob a liderança de Hazrat Kars ibn Jabir al-Fihri (que Allah esteja satisfeito com ele). [Este é o mesmo Kars ibn Jabir al-Fihri que, antes da batalha de Badr, atacou os rebanhos de Medina durante a expedição militar de Safwan. Mais tarde, aceitou o Islam e foi martirizado durante a conquista de Meca.] A razão foi que algumas pessoas das tribos de ‘Ukl e ‘Urayna vieram a Medina, aceitaram o Islam e permaneceram na própria Medina. Porém, não conseguiram adaptar-se à permanência ali com alguns camelos. O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) enviou-os com alguns camelos para uma pastagem e ordenou-lhes: “Bebam o leite e a urina dos camelos.” Depois de se recuperarem, mataram os pastores dos camelos enviados pelo Mensageiro de Allah e fugiram levando os animais. Depois de aceitar o Islam, voltaram novamente à descrença. O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) enviou em sua perseguição um grupo de vinte Companheiros, sob a liderança de Kars ibn Jabir al-Fihri. Ele suplicou contra esses ingratos e apóstatas, dizendo: “Ó Allah Todo-Poderoso, cegue o caminho para eles e torne-o mais estreito que um bracelete.”
Os Companheiros os perseguiram e os capturaram. Como punição pelo assassinato dos pastores muçulmanos, além de outras penas, tiveram as mãos e os pés amputados. Depois, foram abandonados numa região chamada Harra. Ali, cavando a terra continuamente, sofreram as consequências de seus atos. [Zad al-Ma‘ad, vol. 2, p. 122] Em outras obras, este acontecimento também é narrado por Hazrat Anas (que Allah esteja satisfeito com ele). [Sahih Bukhari, vol. 2, p. 602]
Hazrat Amr ibn Umayya Zamri foi a Meca para matar Sufyan. Isso porque Abu Sufyan havia enviado um beduíno a Medina para assassinar o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Contudo, nenhum dos dois conseguiu alcançar seu objetivo.
Os autores da Sira também escreveram que, nesta expedição, Hazrat Amr ibn Umayya Zamari matou três incrédulos. Ele também trouxe consigo o corpo de Hazrat Khubayb (que Allah esteja satisfeito com ele). Entretanto, o martírio de Hazrat Khubayb (que Allah esteja satisfeito com ele) ocorreu no dia da expedição de Raji‘ ou alguns meses depois. O acontecimento de Raji‘ ocorreu no mês de Safar do quarto ano da Hégira. Portanto, ambos os acontecimentos ocorreram durante viagens distintas; porém, não consigo entender por que os autores da Sira os mencionaram de maneira tão desordenada, criando confusão. Eles mencionaram ambos os acontecimentos como se tivessem ocorrido durante a mesma viagem. Também é possível que, na realidade, os dois acontecimentos tenham ocorrido durante a mesma viagem, em momentos diferentes. Contudo, os autores da Sira podem ter cometido um erro ao determinar o ano, mencionando o sexto ano da Hégira em vez do quarto.
Allama Mansurpuri também se opôs a reconhecer este acontecimento como uma expedição militar ou sariyya. Allah Todo-Poderoso sabe melhor todas as coisas.
Todas estas expedições militares foram realizadas depois de Ahzab e Banu Qurayza. Em nenhuma delas houve um confronto grave ou uma batalha. Em algumas expedições ocorreram ataques e confrontos comuns. O objetivo dessas expedições era aterrorizar os inimigos e exercer influência sobre eles.
Ao analisar tudo, percebe-se que, depois da Batalha de Ahzab, a situação mudou rapidamente. O moral dos inimigos do Islã foi quebrado. Os inimigos também abandonaram a esperança de destruir o chamado do Islã e apagar sua glória. Contudo, depois do Tratado de Hudaybiyyah, ocorreu uma mudança notável na situação. Esse tratado foi, na realidade, uma manifestação do próprio poder do Islã. Por meio dele, ficou claro que, no mundo árabe, já não restava força alguma capaz de impedir o avanço do Islã, e que a vitória do Islã era inevitável.
O Tratado de Hudaybiyyah
Preparativos para a Umrah
A situação no mundo árabe havia se tornado quase favorável aos muçulmanos. Os sinais do sucesso do convite islâmico e de uma grande vitória começavam a manifestar-se gradualmente. Os politeístas mantinham fechadas, havia seis anos, as portas da Mesquita Sagrada aos muçulmanos. Já havia começado a iniciativa inicial para obter o reconhecimento do direito dos muçulmanos de adorar naquela mesquita sagrada.
Em Medina, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) teve um sonho no qual ele e os nobres Companheiros entravam na Mesquita Sagrada. Ele também viu que havia tomado a chave da Caaba e que, acompanhado pelos Companheiros, realizava o tawaf e a umrah na Caaba. Depois, alguns Companheiros cortavam os cabelos, enquanto outros cortavam apenas as unhas. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) contou esse sonho aos Companheiros. Ao ouvi-lo, eles ficaram muito felizes. Esperavam secretamente que pudessem ir a Meca naquele ano. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) também lhes informou que realizaria a umrah. Depois de dizer isso, os nobres Companheiros começaram a preparar-se para a viagem.
Anúncio da partida dos muçulmanos
O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) anunciou em Medina e arredores que iria a Meca com ele. A maioria dos árabes estava hesitante. Enquanto isso, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) limpou suas roupas. Confiou a responsabilidade de Medina a Abdullah ibn Umm Maktum — segundo outra opinião, a Namila al-Laythi (que Allah esteja satisfeito com ele). Montado em sua camela chamada Qaswa, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) partiu em direção a Meca no primeiro dia de Dhu al-Qi’dah do sexto ano da Hégira. Sua esposa, Umm Salama (que Allah esteja satisfeito com ela), acompanhou-o. Entre os Companheiros, viajaram mil e quatrocentos — segundo outra opinião, mil e quinhentos. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) levou consigo apenas armas próprias de viajantes; além de espadas embainhadas, não levou nenhuma outra arma.
O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e os muçulmanos avançavam em direção a Meca. Ao chegar a um lugar chamado Dhul-Hulayfah, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) preparou seu hady. O hady é o animal que os peregrinos do hajj e da umrah sacrificam em Meca ou Mina. Nos tempos da Jahiliyyah, quando o animal do hady era uma ovelha ou uma cabra, amarrava-se um pedaço de tecido em seu pescoço como marca; quando era um camelo, fazia-se uma incisão em sua corcova para deixá-la marcada com sangue. Ninguém causava qualquer dano a esse animal. A Sharia islâmica preservou essa prática. Ele marcou o camelo fazendo uma incisão em sua corcova e vestiu o ihram para a umrah. Fez isso para que todos pudessem ter certeza de que estava indo apenas para realizar a umrah e que não tinha intenção de guerrear. Um espião da tribo Khuzāʿah foi enviado à frente da caravana para descobrir a atitude dos coraixitas. Quando chegaram a um lugar chamado ʿUsfān, o espião voltou e informou: “Vi Kaʿb ibn Luʾayy. Ele está reunindo membros da tribo aliada deles, os Ahābīsh, para enfrentá-lo. Além disso, pessoas estão sendo reunidas de outros lugares. Eles estão determinados a lutar contra você e impedir sua entrada em Meca.” Ao receber essa notícia, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) consultou os Companheiros.
Ele disse: “Qual é a vossa opinião? Devemos atacar as áreas das tribos que se prepararam para ajudar os coraixitas? Mesmo que permaneçam em silêncio, o terror da guerra cercará seus corações. Se fugirem, talvez, pela vontade de Allah, algum de seus pescoços seja cortado. Ou quereis que partamos em direção à Caaba e lutemos contra aqueles que tentarem impedir nosso caminho?” Ao ouvir isso, Abu Bakr as-Siddiq (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Allah e Seu Mensageiro sabem melhor. Viemos para realizar a umrah, não para lutar contra ninguém. No entanto, lutaremos contra aqueles que se colocarem entre nós e a Casa de Allah.” O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Está bem; vamos.” Depois, todos avançaram em direção a Meca.
Tentativa de impedir os muçulmanos de chegar à Casa de Allah
Enquanto isso, ao receberem a notícia da partida do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), os coraixitas reuniram-se em conselho e decidiram que os muçulmanos deveriam ser mantidos longe da Casa de Allah a qualquer custo. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) continuou a viagem depois de passar pela tribo dos Ahābīsh. Então, um homem da tribo dos Banu Kaʿb chegou e disse: “Os coraixitas estão posicionados num lugar chamado Dhu Tuwa. Khalid ibn al-Walid está preparado em Qurāʾ al-Ghamīm com uma tropa de duzentos cavaleiros. Esse lugar fica na principal estrada que conduz a Meca.” Khalid ibn al-Walid tentou impedir os muçulmanos. Posicionou suas tropas num local de onde os dois grupos podiam ver-se mutuamente.
Enquanto os muçulmanos realizavam a oração do meio-dia, Khalid observou que eles estavam fazendo a inclinação e a prostração. Depois da oração, Khalid comentou: “Durante a oração, eles estavam desatentos. Se tivéssemos atacado naquele momento, poderíamos tê-los dominado.” Em seguida, Khalid decidiu que, quando os muçulmanos se levantassem para a oração da tarde, deveriam atacá-los de surpresa. Naquele momento, Allah, o Altíssimo, ordenou a oração do medo. Apesar de sua intenção, Khalid ibn al-Walid não conseguiu atacar os muçulmanos.
Esforços para evitar um conflito sangrento
Enquanto isso, o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — deixou a estrada principal de Qurā’ al-Ghamīm e avançou por outro caminho. Essa rota passava por uma região montanhosa. Em outras palavras, virando à direita, o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — passou entre as montanhas de Hamsh por um caminho que terminava num lugar chamado Thaniyyat al-Murār. De Thaniyyat al-Murār, eles seguiram para Hudaybiyyah. Esse lugar ficava perto de Meca. Ao ver que os muçulmanos tinham deixado Qurā’ al-Ghamīm e mudado de rota, Khalid foi rapidamente a Meca com seus companheiros para informar os coraixitas sobre a nova situação.
Enquanto isso, o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — continuou sua viagem. Quando chegaram a um lugar chamado Thaniyyat al-Murār, a camela se ajoelhou. As pessoas disseram: “Vamos, vamos!”, mas a camela permaneceu ajoelhada. O Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — disse: “Esta camela não tem o hábito de se sentar assim. Aquele que deteve o elefante é quem a está detendo.” Em seguida, disse: “Juro por Aquele em cuja mão está a minha vida: eles não me pedirão nada que contenha uma demonstração de respeito por algo que Allah proibiu sem que eu o aceite.” Então, quando o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — insistiu para que a camela se levantasse, ela se levantou imediatamente. Depois, ele alterou ligeiramente o caminho e acampou junto a um poço em Hudaybiyyah. A quantidade de água no poço não era grande. Depois de retirarem pequenas quantidades, a água acabou em pouco tempo. Os Companheiros informaram o Mensageiro de Allah sobre sua sede. Ele tirou uma flecha de sua aljava e ordenou que a lançassem no poço. Os Companheiros fizeram isso. Depois, a água começou a brotar do poço em um fluxo contínuo, e a dificuldade dos Companheiros com a água foi aliviada.
A chegada de Budayl ibn Warqā’
Enquanto o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — permanecia tranquilamente no local, Budayl ibn Warqā’, da tribo de Khuzā‘ah, chegou com alguns homens de sua tribo para encontrar-se com o Mensageiro de Allah. Entre os habitantes de Tihamah, os membros dessa tribo eram bem-intencionados para com o Mensageiro de Allah e os muçulmanos. Budayl disse: “Acabo de ver Ka‘b ibn Lu’ayy, que mantém sob seu controle o reservatório de água de Hudaybiyyah. Ele está acompanhado de mulheres e crianças e decidiu lutar contra vocês e impedir que cheguem à Casa Sagrada.” O Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — disse: “Não viemos lutar contra ninguém. A guerra destruiu os coraixitas e lhes causou grandes perdas. Portanto, se quiserem, estabelecerei com eles um prazo, e eles se retirarão do caminho entre nós e o meu povo. Se quiserem, poderão abandonar aquilo em que as pessoas se envolveram; caso contrário, alcançarão a paz. Mas, se não aceitarem nenhuma solução além da luta, juro por Aquele em cuja mão está a minha vida: lutarei contra eles pela religião enquanto houver vida em meu corpo ou até que se cumpra a vontade de Allah.”
Budayl disse: “Transmitirei suas palavras aos coraixitas.” Então foi até os coraixitas e disse: “Venho de junto deles. Ouvi deles algo que posso contar, se quiserem ouvir.” Os insensatos disseram: “Não precisamos ouvir o que eles têm a dizer. Não queremos ouvir nada deles.” Alguns sensatos disseram: “Vamos ouvir o que ele tem a dizer.” Budayl contou-lhes tudo. Depois, os coraixitas enviaram Makraz ibn Hafs como representante. Ao vê-lo, o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — disse: “Este homem é um traidor.” Makraz veio conversar com o Mensageiro de Allah, que lhe repetiu as mesmas palavras que havia dito anteriormente a Budayl. Makraz voltou e informou os coraixitas de tudo o que ouvira.
O envio de emissários pelos coraixitas
Então, um homem chamado al-Halis ibn Alqama, da tribo de Banu Kinana, disse: “Deixem-me ir até eles.” Os coraixitas deram-lhe permissão. Ao vê-lo, o amado Profeta disse aos Companheiros: “Este homem pertence a um povo que honra os animais destinados ao sacrifício. Portanto, façam os animais se levantarem.” Os Companheiros fizeram o rebanho levantar-se e o receberam dizendo: “Labbayk.” Ao ver aquela situação, o homem disse: “Subhanallah! Não é de modo algum apropriado impedi-los de chegar à Casa de Allah.” Sem dizer mais nada, dirigiu-se diretamente ao acampamento dos coraixitas e disse: “Vi os animais destinados ao hady, isto é, trazidos para serem sacrificados em busca da satisfação de Allah. Há pedaços de tecido amarrados em seus pescoços, e muitos animais foram marcados com sangue em suas corcovas. Portanto, não considero apropriado impedi-los de chegar à Casa de Allah.” Depois, algumas palavras foram trocadas entre ele e os coraixitas, e ele se irritou.
Nesse momento, Urwa ibn Masud al-Thaqafi interveio e disse: “Ele lhes fez uma proposta. Aceitem essa proposta e deixem-me ir até ele.” Os coraixitas deram-lhe permissão. Ele foi até lá e começou a falar com o Mensageiro de Allah. O Mensageiro de Allah ﷺ repetiu tudo o que havia dito a Budayl e aos seus companheiros. Ao ouvir aquilo, Urwa disse: “Ó Muhammad ﷺ, diga-me: se você exterminasse o seu próprio povo, já ouviu falar, antes de você, de algum árabe que tenha exterminado completamente o seu próprio povo? Se surgir uma situação diferente, juro por Deus que vi rostos e pessoas tão desorientadas que parecem prontas a abandoná-lo e fugir. Ao ouvir isso, Abu Bakr, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: “Vá chupar a pele pendente do órgão sexual de Lat! Nós abandonaríamos o Mensageiro de Allah e fugiríamos?” Urwa perguntou: “Quem é este homem?” Os Companheiros responderam: “Este é Abu Bakr, que Allah esteja satisfeito com ele.” Então Urwa dirigiu-se a Abu Bakr e disse: “Olhe, juro por Aquele em cuja mão está a minha vida: certa vez você me favoreceu. Se não fosse isso, e se eu ainda não tivesse retribuído esse favor, certamente teria respondido às suas palavras.”
Depois, Urwa continuou a falar com o Mensageiro de Allah ﷺ. Enquanto falava, tocava a barba do Mensageiro de Allah ﷺ. Mugira ibn Shuba, que Allah esteja satisfeito com ele, estava de pé junto à cabeça do Mensageiro de Allah ﷺ, segurando uma espada. Sempre que Urwa tocava a barba do Mensageiro de Allah, Mugira afastava sua mão com o punho da espada e dizia: “Afaste sua mão da barba do Mensageiro de Allah.” Em certo momento, Urwa levantou a cabeça e perguntou quem era Mugira. Os Companheiros disseram: “Mugira ibn Shuba, que Allah esteja satisfeito com ele.” Urwa disse: “Traidor! Acaso não corri de um lado para outro para resolver o seu problema?” O fato foi que Mugira ibn Shuba estava com algumas pessoas. Depois, matou-as, tomou seus bens e foi para Medina. Ao chegar diante do Mensageiro de Allah ﷺ, aceitou o Islam. O Mensageiro de Allah ﷺ disse: “Aceito que você se torne muçulmano, mas não tenho relação alguma com esses bens.” Por causa desse acontecimento, Urwa havia corrido de um lado para outro para resolver a questão. Era disso que ele falava agora. Convém mencionar que Mugira era sobrinho de Urwa.
Depois, Urwa passou a observar a relação especial entre o Mensageiro de Allah ﷺ e os Companheiros. Algum tempo depois, voltou a Meca e disse aos seus companheiros: “Ó meu povo, fui até imperadores como César, Cosroes e o Negus. Juro por Allah que nunca vi um rei receber de seus companheiros o respeito que vi Muhammad receber. Juro por Allah que, quando ele cospe, alguém estende a mão para recolher a saliva e a passa no rosto e no corpo. Quando dá uma ordem, todos se apressam em cumpri-la. Quando começa a fazer a ablução, os companheiros quase se atropelam para recolher a água que sobra. Quando começa a falar, seus companheiros baixam a voz. Por excesso de reverência, não olham diretamente para ele. Esse homem lhes fez uma boa proposta. Peço-lhes que aceitem essa proposta.”
Quando os jovens belicosos dos coraixitas perceberam que os anciãos estavam ocupados com uma fórmula de conciliação, começaram a tramar para provocar uma guerra. Decidiram ir secretamente, durante a noite, ao acampamento dos muçulmanos e iniciar uma confusão que faria arder o fogo da guerra entre os dois lados. Em seguida, avançaram para executar o plano. Na escuridão da noite, setenta ou oitenta jovens desceram do monte Tan’im e tentaram entrar secretamente no acampamento dos muçulmanos. Porém, Muhammad ibn Maslama, que Allah esteja satisfeito com ele, comandante das tropas muçulmanas, prendeu todos eles e os apresentou diante do Mensageiro de Allah ﷺ. O compassivo Profeta perdoou-os e libertou-os, a fim de concretizar o objetivo da trégua. A esse respeito, Allah, o Senhor dos mundos, diz: “Ele conteve as mãos deles de vós e as vossas mãos deles no vale de Meca, depois de vos ter dado vitória sobre eles.” (Surata al-Fath, 24)
A ida de Uthman, que Allah esteja satisfeito com ele, a Meca
O Mensageiro de Allah ﷺ sentiu a necessidade de enviar um emissário a Meca para explicar claramente aos coraixitas o propósito de sua chegada. Para essa tarefa, chamou Umar ibn al-Khattab, que Allah esteja satisfeito com ele. Umar declarou sua incapacidade, dizendo: “Ó Mensageiro de Allah, se os não muçulmanos me maltratarem, não haverá sequer um homem da tribo de Banu Ka’b em Meca para me apoiar. Na minha opinião, Uthman é mais adequado para essa tarefa. Peço que o envie. Os membros de sua tribo estão em Meca, e ele poderá explicar adequadamente aos coraixitas o propósito de nossa chegada.” Então, o Mensageiro de Allah ﷺ chamou Uthman e ordenou-lhe que fosse até os coraixitas, dizendo: “Diga-lhes que não viemos para lutar; viemos apenas para realizar a Umrah. Convide-os ao Islam.” O Mensageiro de Allah ﷺ também disse a Uthman, que Allah esteja satisfeito com ele, que fosse até os homens e mulheres crentes de Meca para confortá-los. Deveria dizer-lhes que Allah, exaltado seja o Seu nome, em breve estabeleceria o Islam em Meca como uma força vitoriosa. Por serem crentes, ninguém mais teria de adorar Allah secretamente. Uthman, que Allah esteja satisfeito com ele, partiu levando a mensagem do Mensageiro de Allah ﷺ. Em um lugar chamado Baldah, encontrou alguns coraixitas. Eles perguntaram: “Aonde você vai?” Uthman, que Allah esteja satisfeito com ele, respondeu: “O Mensageiro de Allah, Muhammad ﷺ, enviou-me até vocês com esta mensagem.” Os coraixitas disseram: “Já ouvimos a mensagem que você trouxe. Vá cuidar dos seus assuntos.” Nesse momento, Sa’id ibn al-As levantou-se e disse a Uthman, que Allah esteja satisfeito com ele: “Marhaban.” Depois, selou seu próprio cavalo, colocou Uthman, que Allah esteja satisfeito com ele, sobre o animal e levou-o até sua residência em Meca. Ali, Uthman, que Allah esteja satisfeito com ele, explicou a mensagem do Mensageiro de Allah aos líderes coraixitas. Os coraixitas ofereceram a Uthman, que Allah esteja satisfeito com ele, a oportunidade de circundar a Caaba, mas ele recusou. Não quis circundar a Caaba antes que o Mensageiro de Allah ﷺ o fizesse.
O rumor do martírio de Uthman e a Bay’at al-Ridwan
Uthman, que Allah esteja satisfeito com ele, cumpriu a tarefa que lhe fora confiada. Porém, os coraixitas o mantiveram junto deles. Talvez quisessem, à luz da situação surgida, chegar a uma decisão específica após consultas mútuas. Depois, enviariam a resposta à mensagem trazida por Uthman, que Allah esteja satisfeito com ele. Como Uthman demorou muito a retornar, espalhou-se entre os muçulmanos o rumor de que ele havia sido morto. Quando o Mensageiro de Allah foi informado disso, disse: “Não partiremos deste lugar sem combater os coraixitas.” Depois de dizer isso, convocou os Companheiros para prestarem o juramento de fidelidade. Os nobres Companheiros, demonstrando grande entusiasmo, prestaram o juramento de que ninguém fugiria do campo de batalha. O primeiro a prestar o juramento foi Abu Sinan al-Asadi. Salama ibn al-Akwa, que Allah esteja satisfeito com ele, prestou o juramento três vezes: no início, no meio e no fim. O Mensageiro de Allah tomou uma de suas mãos com a outra e disse: “Esta mão é a de Uthman.” Quando terminou de receber os juramentos, Uthman, que Allah esteja satisfeito com ele, chegou e também prestou o juramento. Um homem chamado Jad ibn Qays não participou do juramento. Ele era um hipócrita.
O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, recebeu esse juramento sob uma árvore. Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, segurava a mão do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Ma’qil ibn Yasar, que Allah esteja satisfeito com ele, segurava alguns galhos da árvore e os afastava de cima do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Sobre esse juramento, Allah, o Altíssimo, revelou no Sagrado Alcorão o seguinte versículo: “Allah ficou satisfeito com os crentes quando eles te prestaram juramento sob a árvore.” (Surata al-Fath, versículo 18)
As condições do tratado histórico
Os coraixitas perceberam a delicadeza da situação. Então enviaram rapidamente Suhayl ibn Amr para negociar um tratado. Suhayl recebeu instruções enfáticas de que o Mensageiro de Allah deveria retornar naquele ano, pois os árabes poderiam dizer que ele havia entrado à força na cidade deles. Ao ver Suhayl, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse aos Companheiros: “Vossa tarefa foi facilitada.” O envio daquele homem significava que os coraixitas desejavam um tratado. Suhayl aproximou-se do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e conversou longamente com ele. Depois, foram redigidas as condições do tratado, que eram as seguintes:
1) O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, retornará este ano sem entrar em Meca. No ano seguinte, os muçulmanos virão a Meca e permanecerão ali por três dias. No ano seguinte, os muçulmanos virão a Meca e permanecerão ali por três dias. Levarão consigo armas para autodefesa. As espadas permanecerão embainhadas. Ninguém os incomodará.
2) Ambas as partes interromperão a guerra durante dez anos. Nesse período, o povo viverá tranquilo e em segurança. Ninguém levantará a mão contra ninguém.
3) Aqueles que desejarem aderir à orientação de Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, poderão fazê-lo; e aqueles que desejarem permanecer na orientação dos coraixitas poderão permanecer nela. A tribo que se juntar a outra será considerada parte dela. Portanto, qualquer agressão contra uma tribo deverá ser considerada também uma agressão contra os membros da tribo que se juntou a ela.
4) Se qualquer homem dos coraixitas for até Maomé sem a permissão de seus líderes, isto é, fugindo, ele deverá devolvê-lo. Porém, se algum dos companheiros de Maomé procurar refúgio entre os coraixitas, os coraixitas não terão de devolvê-lo.
Depois de redigido o rascunho do tratado, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, chamou o Leão de Deus, Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele), e mandou que ele escrevesse os termos. No início, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, ordenou que se escrevesse “Bismillahir-Rahmanir-Rahim”, isto é, “Começo em nome de Allah, o Clemente, o Misericordioso”. Suhail disse: “Nós não sabemos o que é Rahman. Mande escrever, em vez disso, assim: ‘Bi-ismika Allahumma’, isto é, ‘Em Teu nome, ó Allah’.” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, ordenou a Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) que escrevesse dessa maneira. Em seguida, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, começou a escrever: “O Mensageiro de Allah, Maomé, celebrou um tratado com base nas seguintes disposições.” Ao ouvir isso, Suhail disse: “Se soubéssemos que você é o Mensageiro de Allah, não o teríamos impedido de circundar a Caaba nem teríamos lutado contra você. Escreva ‘Maomé, filho de Abdullah’.” Ele respondeu: “Mesmo que vocês não reconheçam isso, eu sou o Mensageiro de Allah.” Então disse a Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele): “Escreva ‘Maomé, filho de Abdullah’ e apague as palavras ‘Mensageiro de Allah’.” Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) não concordou, e o Mensageiro de Allah apagou a expressão com a própria mão. Depois, os termos do tratado foram registrados integralmente.
Depois da conclusão do tratado, a tribo dos Banu Khuza’a aderiu à causa do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Na realidade, os membros dessa tribo já eram aliados dos Banu Hashim desde a época de Abdul Muttalib. Isso foi explicado no início do livro. Aderir à causa ou adotá-la significa reconhecer a antiga aliança e fortalecê-la. Por outro lado, a tribo dos Banu Bakr aderiu à causa dos coraixitas.
O retorno de Abu Jandal
Enquanto os termos do tratado estavam sendo escritos, Abu Jandal, filho de Suhail, chegou ao local acorrentado, arrastando as correntes. Ele veio de Meca e lançou-se entre os muçulmanos. Suhail disse: “Quanto a ele, sou eu quem primeiro aplicará o acordo com você. Devolva-o.” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “O tratado ainda não foi concluído.” Suhail disse: “Se você não devolver Abu Jandal, não farei nenhum tratado com você.” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse a Suhail: “Está bem, liberte-o por minha consideração.” Suhail respondeu: “Nem mesmo por sua consideração posso libertá-lo.” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, pediu novamente: “Vamos, liberte-o!”
Suhail disse: “Não, não posso entregá-lo.” Então Suhail esbofeteou Abu Jandal no rosto e começou a puxá-lo pela gola da camisa para levá-lo de volta a Meca. Abu Jandal gritou: “Ó muçulmanos, acaso devo voltar novamente para os idólatras? Eles me submeterão a provações por causa da minha religião.” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Ó Abu Jandal, tenha paciência e considere essa paciência uma causa de recompensa. Allah abrirá um caminho e providenciará um refúgio para você e para os demais muçulmanos fracos que estão com você. Estamos celebrando um tratado com os coraixitas. Nós nos comprometemos com eles em nome de Allah, e eles se comprometeram conosco em nome de Allah. Portanto, não podemos violar os termos do tratado.”
Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) foi rapidamente até Abu Jandal. Enquanto caminhava ao seu lado, dizia: “Abu Jandal, tenha paciência; eles são politeístas, idólatras. O sangue deles é como sangue de cães.” Ao dizer isso, Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) levava sua própria espada até Abu Jandal. Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) disse mais tarde: “Eu esperava que Abu Jandal pegasse a espada de mim e acabasse com seu pai.” Mas Abu Jandal não fez isso. Por fim, os termos do tratado foram cumpridos.
Considerando a Umrah concluída, oferecer o sacrifício e cortar o cabelo
Depois de mandar escrever as condições do tratado, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: «Levantem-se e ofereçam cada um o seu animal em sacrifício». Nenhum dos Companheiros se levantou. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, repetiu as mesmas palavras e a mesma ordem três vezes. Contudo, ninguém demonstrou qualquer disposição. Então, ele expôs a questão à Mãe dos Crentes, Hazrat Salma (que Allah esteja satisfeito com ela). A esposa do Profeta disse: «Ó Mensageiro de Allah, se consideras necessário abater os animais destinados ao hady, vai tu mesmo, sem dizer nada a ninguém, e abate o teu animal do hady. Depois, chama o teu barbeiro e raspa o cabelo da tua cabeça». Seguindo o conselho da Mãe dos Crentes, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, abateu o seu animal do hady e providenciou que lhe raspassem o cabelo. Pouco depois, seguindo o exemplo do Mensageiro de Allah, os Companheiros abateram os seus respectivos animais do hady. Em seguida, começaram a cortar os cabelos uns dos outros. Alguns rasparam todo o cabelo, enquanto outros o apararam e o deixaram curto. Todos estavam sérios e preocupados. O estado de espírito de cada um estava tão perturbado que parecia que, pelo excesso de preocupação, matariam uns aos outros. Nessa ocasião, vacas e camelos foram abatidos, cada um em nome de sete pessoas. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, abateu um dos camelos de Abu Jahl. Esse camelo tinha um brinco de prata no nariz. O objetivo disso era que, ao receberem essa notícia, os idólatras ficassem tomados por uma ira impotente. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, suplicou uma vez pelo perdão deles. Durante essa viagem, Allah, o Senhor dos mundos, revelou uma instrução acerca de Hazrat Ka’b ibn Ujrah: aquele que, por causa de uma dificuldade, raspar a cabeça enquanto estiver em estado de ihram deverá oferecer uma expiação por meio de jejum, caridade ou abate de um animal.
Recusa em devolver as mulheres emigradas
Algumas mulheres crentes vieram de Meca até o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Seus parentes exigiram que elas fossem devolvidas, conforme o tratado de Hudaybiyyah. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, rejeitou essa exigência. Ele explicou que o texto escrito no tratado dizia que, sob a condição daquele acordo, qualquer homem nosso que fosse até vós deveria ser devolvido, independentemente da religião em que acreditasse. As mulheres não foram mencionadas. (Sahih Bukhari, volume 1, p. 307.) Portanto, as mulheres estavam fora do alcance dessa condição do tratado. Depois disso, Allah, o Senhor dos mundos, revelou o seguinte versículo: «Ó crentes, quando as mulheres crentes vierem até vós como emigradas, examinai-as. Allah conhece perfeitamente a sua fé. Se souberdes que são crentes, não as devolvais aos incrédulos. As mulheres crentes não são lícitas para os incrédulos, nem os incrédulos são lícitos para as mulheres crentes. Restituí-lhes aquilo que eles gastaram. Não cometereis pecado se vos casardes com elas, desde que lhes deis os seus dotes. E não conserveis os vínculos conjugais com as mulheres incrédulas». (Surata al-Mumtahanah, versículo 10)
Depois da revelação desse versículo, sempre que alguma mulher crente emigrava, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, recebia o seu juramento de fidelidade. Sobre isso, Allah, o Senhor dos mundos, diz: «Ó Profeta, quando as mulheres crentes vierem até ti para te prestarem juramento de fidelidade, comprometendo-se a não associar nada a Allah, a não roubar, a não cometer adultério, a não matar os seus filhos, a não inventar e divulgar conscientemente qualquer calúnia e a não te desobedecer no que é correto, aceita o seu juramento e pede a Allah que as perdoe. Allah é Perdoador, Misericordioso». (Surata al-Mumtahanah, versículo 12)
As mulheres que emigravam prestavam um compromisso de acordo com as condições do versículo mencionado. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, dizia: «Aceitei o vosso juramento de fidelidade». Depois disso, não as devolvia.
De acordo com essa instrução, os muçulmanos divorciaram-se das suas esposas não muçulmanas, isto é, incrédulas. Naquela época, Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) tinha duas esposas incrédulas. Ele divorciou-se delas. Uma delas casou-se com Muawiyah, e a outra, com Safwan ibn Umayyah.
Síntese das condições do tratado
Este é o tratado de Hudaybiyyah. Ao refletir profundamente sobre as condições desse tratado, compreende-se que ele foi uma grande vitória para os muçulmanos. Isso porque, até então, os coraixitas sequer reconheciam a existência dos muçulmanos. Estavam determinados a exterminá-los e aguardavam o dia em que, mais cedo ou mais tarde, essa força seria completamente destruída. Além disso, como os coraixitas ocupavam a posição de liderança nos assuntos religiosos e mundanos da Península Arábica, esforçavam-se com todas as suas forças para impedir a pregação islâmica entre o povo. Quando se analisa a questão desse ponto de vista, basta refletir um pouco sobre o tratado para compreender que ele representava o reconhecimento dos muçulmanos e a declaração de que os coraixitas já não tinham capacidade de destruir o poder dos muçulmanos. A análise psicológica da terceira cláusula do tratado mostra que os coraixitas fracassaram em cumprir a responsabilidade que haviam recebido nos âmbitos religioso e mundano. Agora estavam absortos apenas na preocupação com os próprios interesses. Não tinham qualquer preocupação ou dor de cabeça pelos demais. Ou seja, mesmo que toda a população da Península Arábica
Mesmo que o povo da Arábia aceite o Islã, os coraixitas não se importarão com isso. Eles não interferirão de forma alguma nesse assunto. Considerando a determinação dos coraixitas e o objetivo dela, isso não constitui uma derrota evidente para eles? À luz da situação dos muçulmanos, isso não representa uma vitória evidente para eles? O objetivo do conflito sangrento que ocorreu entre os seguidores do Islã e seus inimigos era que as pessoas alcançassem plena liberdade e autonomia em matéria de fé e religião. Ou seja, por livre vontade, quem quisesse se tornaria muçulmano, e quem quisesse permaneceria incrédulo. Nenhuma força se colocaria no caminho da realização dessa vontade. O objetivo dos muçulmanos jamais foi confiscar os bens dos incrédulos, empurrá-los para a morte ou convertê-los ao Islã à força. O objetivo dos muçulmanos era justamente aquilo que, nas palavras de Allama Iqbal, foi expresso da seguinte maneira:
“O objetivo do servo crente — esse é o martírio
Ele não busca bravura, nem espólio.”
Basta observar para compreender que, por meio do Tratado de Hudaybiyyah, os muçulmanos conseguiram alcançar plenamente seu objetivo e sua meta. A importância e o significado desse sucesso são muito maiores do que os de uma vitória militar. Graças a essa liberdade, os muçulmanos conseguiram obter um êxito extraordinário no campo da da‘wah e da propagação do Islã. Até o Tratado, o número de soldados muçulmanos nunca havia ultrapassado três mil; em dois anos, às vésperas da conquista, esse número havia aumentado para dez mil.
A segunda cláusula do tratado também constitui uma parte clara da vitória. Isso porque não foram os muçulmanos, mas os incrédulos que iniciaram a guerra. Como disse o Todo-Poderoso: “Foram eles que começaram primeiro contra vós.”
Por meio de expedições militares, os muçulmanos quiseram impedir que os coraixitas persistissem em sua conduta insensata — isto é, em sua tentativa de impedir as pessoas de seguir o caminho de Allah — e em sua obstinação. A reivindicação dos muçulmanos era simplesmente obter direitos iguais nas relações mútuas. Cada parte deveria agir igualmente em seu próprio âmbito, desfrutar de direitos iguais e expressar livremente suas opiniões. Mas os não muçulmanos não concederam isso. Por fim, incluíram no tratado a condição de cessar a guerra por dez anos. Isso significa que não mais criariam obstáculos no caminho de Allah. Significa também que os iniciadores da guerra haviam se mostrado fracos, impotentes e completamente derrotados.
Ao analisar a declaração mencionada na primeira cláusula do tratado, percebe-se que ela era, na realidade, um sinal do sucesso dos muçulmanos, e não de fracasso algum. Isso porque os incrédulos haviam proibido os muçulmanos de ir à Caaba; por meio dessa cláusula, anunciou-se justamente a retirada dessa proibição. Contudo, havia nessa cláusula algo que podia consolar os incrédulos: eles haviam conseguido manter os muçulmanos afastados, por um ano, de sua amada Casa de Allah. Mas é evidente, mesmo sem precisar dizer, que esse era um sucesso temporário e sem valor.
Ao examinar mais atentamente o Tratado de Hudaybiyyah, percebe-se que os coraixitas concederam três vantagens aos muçulmanos e obtiveram uma vantagem para si mesmos. Essa vantagem é mencionada na quarta cláusula do tratado. Contudo, era muito insignificante e sem valor. Ela não causava nenhum prejuízo aos muçulmanos, pois é sabido que, enquanto permanecessem muçulmanos, não fugiriam de Medina para Meca. Só poderiam fugir caso se convertessem a outra religião ou apostatassem. Isso poderia ocorrer de forma aberta ou secreta, de qualquer maneira. Depois que um muçulmano se convertesse a outra religião, deixaria de ser necessário para os muçulmanos. Então, para eles, seria mais benéfico que ele deixasse a sociedade islâmica do que permanecesse nela. O Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — aludiu a isso ao dizer: “Aquele que nos abandonou e fugiu para junto dos politeístas, Allah o afastou.” [Sahih Muslim, Tratado de Hudaybiyyah, vol. 2, p. 105] Quanto às pessoas de Meca que haviam se tornado muçulmanas ou que viessem a se tornar, nenhuma vantagem lhes foi concedida nas cláusulas do tratado. Portanto, não havia para elas oportunidade de obter refúgio em Medina. Mas não se tornou ela um grande refúgio? Naquela época, os habitantes de Medina sequer conheciam o nome do Islã. Ainda hoje, alguma parte do mundo abrirá seu peito para os muçulmanos. Foi aludindo a isso que o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — disse: “Aquele dentre eles que vier até nós, Allah providenciará para eles uma saída e um lugar amplo.”
Com esse tipo de acordo, aparentemente os coraixitas haviam saído beneficiados, mas, na realidade, isso era um sinal do medo, da apreensão, do pânico, da inquietação e da derrota psicológica dos coraixitas. Isso mostra que eles haviam ficado encolhidos de medo diante de seu sistema social baseado nos ídolos. Eles sentiam que esse corpo social se apoiava sobre uma condição tão frágil e destituída de substância que poderia desmoronar a qualquer momento. Portanto, era indispensável reforçar as medidas de segurança para protegê-lo. Por outro lado, o fato de o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, ter aceitado com tanta generosidade a condição de não exigir a devolução de nenhum muçulmano que buscasse refúgio junto aos coraixitas prova que ele tinha plena confiança na maturidade e na firmeza da sociedade islâmica. Uma condição desse tipo não lhe causaria dano algum.
A dúvida de Hazrat Omar (que Allah esteja satisfeito com ele)
As condições do tratado de Hudaybiyyah foram analisadas sob diversos aspectos. Entre elas havia duas questões que fizeram os muçulmanos sofrerem um colapso psicológico. Primeiro, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, havia dito que iria à Casa de Allah e faria o tawaf, mas estava retornando sem ter realizado o tawaf. Segundo, ele era o Mensageiro de Allah e estava com a verdade. Allah, o Altíssimo, havia prometido tornar vitoriosa a Sua religião. Então, por que o Mensageiro de Allah se deixou influenciar, cedeu e firmou um tratado? Essas duas questões suscitavam várias dúvidas e perguntas e haviam ferido tanto os sentimentos dos muçulmanos que eles sucumbiram à tristeza e à preocupação. Hazrat Omar ibn al-Khattab foi provavelmente quem sofreu a maior angústia mental. Ele foi até o Mensageiro de Allah e disse: “Ó Mensageiro de Allah, não estamos nós com a verdade e eles com a falsidade?” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, respondeu: “Sim, por quê?” Ele disse: “Não estão os nossos mortos no Paraíso e os mortos deles entre os habitantes do Inferno?” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, respondeu: “Sim, por quê?” Ele disse: “Então por que cedemos quanto à religião, aceitamos uma condição como essa e chegamos a tal situação, quando Allah, o Altíssimo, ainda não julgou entre nós e eles?” O Mensageiro de Allah disse: “Ó Omar, filho de al-Khattab, eu sou o Mensageiro de Allah. Portanto, não posso desobedecer a Allah. Allah me ajudará e jamais me destruirá.” Ele disse: “Não nos disseste que iríamos à Casa de Allah e faríamos o tawaf?” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, respondeu: “Sim, não disse?” Mas eu havia dito que seríamos vitoriosos justamente desta vez?” Ele respondeu: “Não.” O Mensageiro de Allah disse: “Escuta, então: certamente ireis à Casa de Allah e fareis o tawaf ao redor dela.”
Entretanto, Hazrat Omar (que Allah esteja satisfeito com ele), ainda descontente, foi até Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) e contou-lhe o que havia dito ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Abu Bakr deu a Hazrat Omar a mesma resposta que o Mensageiro de Allah lhe havia dado. Depois, Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) acrescentou: “Permanece firme na obediência ao Mensageiro de Allah até a morte.”
Mais tarde, Allah, o Senhor dos mundos, revelou na Surata Al-Fath os versículos que começam assim: “Em verdade, concedemos-te uma vitória manifesta.” Nessa surata, o tratado de Hudaybiyyah é mencionado como uma vitória manifesta para os muçulmanos. Depois que esses versículos foram revelados, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, chamou Hazrat Omar e recitou-os para ele.
Hazrat Omar (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Ó Mensageiro de Allah, isto é uma vitória?” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, respondeu: “Sim, é uma vitória.” Ao ouvir isso, o coração de Hazrat Omar (que Allah esteja satisfeito com ele) tranquilizou-se, e ele voltou.
Mais tarde, ao compreender seu próprio erro, Hazrat Omar (que Allah esteja satisfeito com ele) ficou profundamente envergonhado. Ele disse: “Por causa do erro que cometi e das palavras que proferi naquele dia, e por medo, pratiquei muitas boas ações: distribuí regularmente caridade, jejuei, ofereci as orações e libertei escravos. Agora, portanto, espero o bem.” [Fath al-Bari, volume 7, pp. 339–439; Sahih al-Bukhari, volume 1, pp. 598–600, 717; Sahih Muslim, volume 2, pp. 104–105; Ibn Hisham, volume 2, pp. 308, 322; Zad al-Ma’ad, volume 2, pp. 122–127; Mukhtasar as-Sirah, Sheikh Abdullah, pp. 207–305; Tarikh Omar ibn al-Khattab, de Ibn al-Jawzi, pp. 39–40]
A solução para os problemas dos muçulmanos vulneráveis
O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, chegou a Medina e sentiu-se tranquilo. Nessa época, um muçulmano chamado Abu Basir, exasperado com a opressão e a perseguição dos incrédulos, fugiu de Meca para Medina. Abu Basir pertencia à tribo de Taqif. Essa tribo era aliada dos coraixitas. Os coraixitas enviaram dois homens a Medina para buscar Abu Basir. Eles foram instruídos a dizer: “Cumpram a condição do tratado firmado entre nós e vocês.” O Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, enviou o recém-chegado Abu Basir com eles para Meca. Quando os três chegaram a um lugar chamado Dhul-Hulayfa, começaram a comer tâmaras. Então Abu Basir disse a um dos dois homens: “Por Allah, sua espada parece muito bonita.” O homem, radiante de alegria, respondeu: “Sim, é verdade. Já a testei várias vezes.” O senhor Abu Basir disse: “Mostre-ma um pouco; também quero vê-la.” O homem colocou a espada nas mãos de Abu Basir, que imediatamente o matou.
O outro homem fugiu, chegou a Medina e entrou na Mesquita do Profeta. Ao vê-lo, o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, comentou: “Este homem viu uma calamidade.” O homem foi até o Mensageiro de Allah e disse: “Meu companheiro foi morto, e eu também serei morto.” Nesse momento, Abu Basir retornou e disse: “Ó Mensageiro de Allah, Allah cumpriu o seu compromisso. Você me enviou de volta com eles, e então Allah me libertou das mãos deles.” O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Que sua mãe o perca! Se ele encontrar alguém que o apoie, acenderá o fogo da guerra.” Ao ouvir isso, Abu Basir compreendeu que agora seria entregue aos incrédulos. Por isso, saiu de Medina e foi para uma região costeira. Enquanto isso, Abu Jandal ibn Suhayl fugiu de Meca e juntou-se a Abu Basir. Todos os coraixitas que abraçavam o Islã iam juntar-se a Abu Basir. Ali formou-se um grupo. Depois, eles saqueavam as caravanas comerciais dos coraixitas que viajavam para a Síria e espancavam cruelmente os integrantes das caravanas. Exasperados, os coraixitas apelaram ao Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, invocando os laços de parentesco e pedindo: “Chame-os para junto de si. A partir de então, qualquer homem de Meca que aceite o Islã e vá até você estará seguro. Não levantaremos objeções a respeito deles.” Depois disso, o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, chamou para Medina os muçulmanos que estavam na região costeira. [Veja a nota 3.]
A conversão ao Islã de homens eminentes dos coraixitas
No início do sétimo ano da Hégira, após o tratado, Amr ibn al-As, Khalid ibn al-Walid e Uthman ibn Talha, que Allah esteja satisfeito com eles, abraçaram o Islã. Quando se apresentaram diante do Mensageiro de Allah, ele disse: “Meca nos entregou os pedaços de seus corações.” [Há divergência quanto à época em que os companheiros mencionados abraçaram o Islã. Várias obras de Asma al-Rijal mencionam o oitavo ano da Hégira. Contudo, todos sabem que Amr ibn al-As abraçou o Islã na corte do Negus. Isso ocorreu no oitavo ano da Hégira. No caminho de retorno da Abissínia, Amr encontrou-se com Khalid e Uthman ibn Talha; os três apresentaram-se juntos diante do Mensageiro de Allah e abraçaram o Islã. Isso indica que eles também abraçaram o Islã no início do sétimo ano da Hégira. Allah, o Altíssimo, sabe melhor todas as coisas.]
O tratado de Hudaybiyyah foi, na realidade, o início de uma transformação na vida do Islã e dos muçulmanos. Entre os inimigos do Islã, os coraixitas eram os mais firmes, obstinados e belicosos. Com a passagem do campo de batalha para o âmbito da paz, um dos três braços da aliança formada, na época da Batalha da Trincheira, pelos coraixitas, pelos Ghatafan e pelos judeus foi quebrado. Os coraixitas eram o principal estímulo à idolatria em toda a Península Arábica, e o fervor da idolatria também pareceu arrefecer. Também começou a ocorrer uma mudança no campo de sua hostilidade. É por isso que, após o tratado, não se observou nenhuma ação particularmente hostil por parte da tribo de Ghatafan. Mesmo quando fizeram algo, foi apenas por instigação dos judeus.
Após serem expulsos de Medina, os judeus fizeram de Khaybar o centro de suas conspirações e maquinações. Ali, seus demônios pareciam multiplicar-se. Eles estavam empenhados em acender os fogos da sedição. Incitavam os beduínos dos arredores de Medina e conspiravam para destruir o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, e os muçulmanos, ou para causar-lhes algum grande dano. Por essas razões, após o tratado de Hudaybiyyah, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, dedicou-se primeiro a extirpar pela raiz o centro das más ações dos judeus.
Em suma, a nova era de paz que começou após o tratado de Hudaybiyyah proporcionou aos muçulmanos uma importante oportunidade de convidar ao Islã, propagá-lo e transmitir a religião. Por isso, nesse período, a atividade dos muçulmanos no campo do convite e da transmissão multiplicou-se muitas vezes. Essa atividade de transmissão chegou a superar a atividade militar. Esse período pode ser dividido em duas partes.
Antes de abordar a atividade militar, é apropriado tratar primeiro da atividade de convite e transmissão. Isso porque o trabalho de transmissão merece prioridade e constitui também a verdadeira missão do Islã. Foi justamente para propagar e expandir esse trabalho de transmissão que os muçulmanos suportaram tantos perigos, calamidades, conflitos, guerras, tumultos e desordens.
Cartas aos reis e aos emires
No final do sexto ano da Hégira, depois de o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, retornar de Hudaybiyyah, enviou cartas a vários reis e emires, convidando-os ao Islã. Quando o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, decidiu enviar essas cartas, disseram-lhe que os reis só as aceitariam se estivessem seladas. Por isso, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, mandou fazer um anel de prata, no qual foram gravadas as três palavras: Muhammad, Mensageiro e Allah. «Allah» foi escrito na primeira linha, «Mensageiro» na segunda e «Muhammad» na terceira. [Sahih Bukhari, vol. 2, p. 872.]
Depois de escrever as cartas, o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, enviou alguns companheiros experientes a diferentes lugares, levando-as consigo. Esses emissários foram enviados no dia 1º de Muharram do sétimo ano da Hégira, alguns dias antes de sua partida para Khaybar. [Rahmatul lil-Alamin, vol. 1, p. 171.] A seguir, apresentamos informações sobre isso.
1) Ao rei da Abissínia, chamado Najashi—
O verdadeiro nome de Najashi era Ashama ibn al-Jabar. Depois de escrever a carta, o Mensageiro de Allah a enviou, pelas mãos de Amr ibn Umayya al-Damri, no final do sexto ano da Hégira ou no início do sétimo. Allama Tabari também mencionou o conteúdo da carta. Contudo, observando atentamente seu conteúdo, compreende-se que ela não foi escrita depois do tratado de Hudaybiyyah. Parece que esta é a carta que o Mensageiro de Allah entregou ao nobre Ja’far Tayyar, quando este migrou para a Abissínia durante o período em que o Mensageiro de Allah estava em Meca, para que a entregasse a Najashi. Isso porque, no final da carta, os emigrantes são mencionados da seguinte forma: «Enviei-lhe meu primo Ja’far com um grupo de muçulmanos. Quando eles chegarem até você, mantenha-os sob sua proteção e não os submeta a qualquer tipo de coerção.»
O Imam Bayhaqi também mencionou, com base no relato de Abdullah ibn Abbas, que o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, enviou outra carta a Najashi. O conteúdo da carta era o seguinte: «Esta carta é do Profeta Muhammad para Ashama, rei da Abissínia. Que a paz esteja sobre aquele que segue a orientação e crê em Allah e em Seu Mensageiro. Testemunho que não há ninguém digno de adoração além de Allah, o Único e Incomparável. Ele não tem esposa nem filho. Testemunho também que Muhammad é servo e Mensageiro de Allah. Convido-o ao Islã, pois sou o Mensageiro de Allah. Portanto, aceite o Islã e terá paz. Ó Povos do Livro, venham para uma palavra comum entre nós e vocês: não adoraremos ninguém além de Allah, não associaremos ninguém a Ele e não tomaremos ninguém, além de Allah, como senhor. Se alguém se recusar a aceitar essa crença, diga-lhe: testemunhem que somos muçulmanos. Se você não aceitar este convite, recairá sobre você todo o pecado dos cristãos do seu povo.»
O Dr. Muhammad Hamidullah, de Paris, também mencionou o conteúdo de outra carta. Ela foi encontrada. Essa carta é mencionada, com a diferença de uma palavra, na obra Zad al-Ma’ad, escrita por Allama Ibn Qayyim. O doutor empenhou-se consideravelmente em verificar a autenticidade do conteúdo da carta.
O Dr. Hamidullah incluiu em sua obra uma fotocópia dessa carta, publicada nos tempos atuais. Sua tradução é a seguinte: «Em nome de Allah, o Clemente, o Misericordioso.»
“Da parte do Mensageiro de Allah, Muhammad, para o Najashi Azram da Abissínia. A paz esteja sobre aquele que segue a orientação. Louvo, diante de vós, o Deus Altíssimo, além de Quem não há divindade. Ele é o Santíssimo, a Fonte da Paz, Aquele que concede segurança e paz, o Protetor e o Guardião. Testemunho que Jesus, filho de Maria, é o espírito de Allah e Sua palavra. Allah Altíssimo fez com que ele repousasse sobre Maria, pura e casta. Maria ficou grávida por causa do espírito e do sopro de Allah, assim como Allah Altíssimo criou Adão com Suas próprias mãos. Convidamo-nos mutuamente à crença no Deus Uno e Único e à obediência a Ele. Convido-vos também à unidade: obedecei-me e crede naquilo que vos trouxe. Pois sou o Mensageiro de Allah; convido-vos e ao vosso exército a Allah, o Todo-Poderoso, Senhor dos mundos. Transmiti a mensagem e ofereci conselho. Portanto, aceitai minha transmissão e meu conselho. Finalmente, a paz esteja sobre aquele que segue a orientação.[A Vida Política do Mensageiro de Allah, Dr. Muhammad Hamidullah, pp. 108, 109, 122, 123, 124 e 125. Na obra Zad al-Ma‘ad, em vez das palavras finais “aquele que segue a orientação”, consta “aquele que aceita o Islã”. Ver Zad al-Ma‘ad, vol. 3, p. 60]”
O Dr. Muhammad Hamidullah afirmou categoricamente que esta é a carta que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, enviou ao Najashi após o Tratado de Hudaybiyyah. Ao examinar as cadeias de transmissão relacionadas a esta carta, não há razão para duvidar da veracidade dessa afirmação. Contudo, não se encontra nenhuma prova de que o Mensageiro de Allah tenha enviado esta carta após o Tratado de Hudaybiyyah. Pelo contrário, a carta que o Imam al-Bayhaqi mencionou na narração de ‘Abdullah ibn ‘Abbas parece estar mais de acordo com os relatos das cartas enviadas aos outros reis. Isso porque, juntamente com as cartas compiladas pelo Imam al-Bayhaqi, há versículos do Alcorão que contêm o tratamento “Ó Povos do Livro”. Versículos desse tipo também são mencionados nas cartas compiladas por outros imames. Na carta compilada pelo Imam al-Bayhaqi, o nome do rei da Abissínia é mencionado como Ashama. Na carta compilada pelo Dr. Hamidullah, não é mencionado o nome de ninguém. Diante disso, penso que a carta do doutor é, na realidade, aquela que o Mensageiro de Allah escreveu ao sucessor de Ashama após a morte deste. Talvez por essa razão não houvesse nela o nome de ninguém.
Não temos nenhuma prova sobre este assunto. Pelo contrário, a base são as evidências internas que podem ser extraídas do conteúdo da carta. Entretanto, causa espanto a posição do Dr. Hamidullah: ele afirmou com plena certeza que a carta citada por al-Bayhaqi, segundo a narração de ‘Abdullah ibn ‘Abbas, era a carta do Mensageiro de Allah escrita ao sucessor de Ashama após a morte deste. Ou então, na carta dirigida a Ashama, seu nome está claramente escrito.
Em suma, ‘Amr ibn Umayyah al-Damri entregou a carta do Mensageiro de Allah ao Najashi. O Najashi levou a carta aos olhos e desceu do trono. Em seguida, aceitou o Islã pelas mãos de Ja‘far ibn Abi Talib. Em resposta à carta enviada pelo Mensageiro de Allah, ele enviou uma carta a Medina. O conteúdo dessa carta é o seguinte.
Começo em nome de Allah, o Misericordioso, o Clementíssimo.
Da parte do Najashi Ashama para Muhammad, o Mensageiro de Allah.
Ó Profeta de Allah, que a paz, a misericórdia e as bênçãos de Allah desçam sobre vós; da parte de Allah, além de Quem ninguém é digno de adoração. Em seguida, ó Mensageiro de Allah, recebi vossa carta. Nela mencionastes Jesus. Pelo juramento de Allah, o Senhor dos céus e da terra, Jesus não era mais do que aquilo que mencionastes. Ele era exatamente como o descrevestes.[Esta declaração do Najashi, isto é, Ashama, sobre Jesus prova que a carta foi enviada em nome de Ashama, cuja menção é feita nela.] Tomei conhecimento de tudo o que me escrevestes e estou hospedando vosso primo e vossos companheiros. Testemunho que sois o verdadeiro e sincero Mensageiro de Allah. Presto-vos juramento de fidelidade, presto juramento de fidelidade ao vosso primo e, pelas mãos dele, aceitei o Islã por Allah, Senhor dos mundos.[Zad al-Ma‘ad, vol. 3, p. 61]
O Mensageiro de Allah também pediu ao Najashi que enviasse Ja‘far e os demais emigrantes da Abissínia. Assim, o Najashi providenciou o envio dos companheiros para Medina em dois navios, juntamente com ‘Amr ibn Umayyah al-Damri. Em um dos navios estavam Ja‘far, Abu Musa al-Ash‘ari e alguns outros companheiros. Eles chegaram primeiro a Khaybar e, de lá, dirigiram-se a Medina. No outro navio, a maioria era composta por crianças e adolescentes; eles chegaram diretamente da Abissínia a Medina.[Zad al-Ma‘ad, vol. 3, p. 61]
É digno de nota que o Najashi faleceu no nono ano da Hégira, após a batalha de Tabuk. No próprio dia da morte do Najashi, o Mensageiro de Allah informou os Companheiros sobre seu falecimento e realizou a oração fúnebre à distância. Mais tarde, o Mensageiro de Allah também enviou uma carta ao rei que sucedeu o Najashi, mas não se sabe se ele aceitou o Islã ou não.[mesma obra, mesma página]
Segundo: em nome do rei do Egito, Muqawqis—
O Mensageiro de Allah também enviou uma carta a Jorayj ibn Mata, governante do Egito e de Alexandria.[Allama Mansurpurī discutiu este assunto na página 178 de sua obra Rahmat lil-‘Alamin. O doutor Hamidullah mencionou, em sua obra A Vida Política do Mensageiro de Allah, que o nome desse rei era Bani Yamin.] O título de Jorayj era Muqawqis. O teor da carta era o seguinte—
‘Em nome de Allah, o Misericordioso, o Muito Misericordioso.
De Muhammad, servo de Allah e Seu Mensageiro, para Muqawqis, o grande dos coptas. Que a paz esteja sobre aquele que segue a orientação.
Convido-o ao Islã. Aceite o Islã e estará em paz. Se aceitar o Islã, Allah lhe concederá duas recompensas. Mas, se não aceitar o Islã, o pecado dos habitantes dos coptas também recairá sobre você. Ó coptas, vinde para uma palavra comum entre nós e vós: que não adoremos senão a Allah, que não associemos ninguém a Ele e que nenhum de nós tome outro, além de Allah, como senhor.’ Se alguém se afastar deste convite, dizei: testemunhai que somos muçulmanos.’[É mencionado na página 61 do terceiro volume de Zad al-Ma‘ad que esta carta foi descoberta recentemente. Observa-se uma diferença de apenas duas palavras entre a descrição da fotocópia impressa pelo doutor Hamidullah e o texto da carta citado em Zad al-Ma‘ad. Ver A Vida Política do Mensageiro de Allah, pp. 136–137.]
Hazrat Hatib ibn Abi Balta‘a foi escolhido para entregar esta carta. Ao chegar à corte de Muqawqis, ele disse: antes de você, houve nesta terra um governante que se considerava o Senhor Supremo. Allah fez dele um exemplo para as gerações anteriores e posteriores. Primeiro, por meio dele, outros foram punidos; depois, ele próprio se tornou alvo da punição. Portanto, aprenda com o acontecimento dos outros, para que não aconteça de outros aprenderem com o seu acontecimento.’
Muqawqis respondeu: temos uma crença religiosa e não podemos abandoná-la enquanto não encontrarmos uma crença melhor do que ela.
Hazrat Hatib (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Estou convidando-o ao Islã. Allah Todo-Poderoso considerou esta religião suficiente em lugar de todas as religiões anteriores. Depois que o profeta da religião do Islã, isto é, da religião escolhida por Allah, convidou as pessoas à religião, os coraixitas tornaram-se seus principais inimigos. Os judeus também começaram a demonstrar hostilidade e a conspirar. Os cristãos estavam muito próximos. Juro por Allah: assim como Hazrat Moisés (que a paz esteja com ele) anunciou boas-novas sobre Hazrat Jesus (que a paz esteja com ele), nós o convidamos ao Alcorão da mesma maneira que vocês convidam os seguidores da Torá ao Evangelho. Cada profeta é essencial para seu povo.”
Vocês alcançaram a época de um novo profeta; portanto, obedeçam-lhe. Não estamos pedindo que abandonem a religião do Messias; pelo contrário, estamos essencialmente convidando-os à mesma religião.
Muqawqis disse: “Depois de investigar e ouvir informações sobre esse profeta, soube que ele não ordena nenhuma ação reprovável nem proíbe qualquer ação louvável. Ele não é um feiticeiro desviado nem um astrólogo mentiroso. Pelo contrário, vi nele este sinal da profecia: ele revela assuntos ocultos e informa sobre coisas invisíveis. Pensarei ainda mais sobre seu convite.”
Muqawqis pegou a carta do Mensageiro de Allah, colocou-a numa caixa de marfim, fechou-a, selou-a e entregou-a a uma de suas servas. Em seguida, chamou um escriba de língua árabe e ditou-lhe a seguinte carta para o Mensageiro de Allah:
“Em nome de Allah, o Misericordioso, o Clementíssimo. De Muqawqis, grande senhor dos coptas, para Muhammad ibn Abdullah. Que a paz esteja com você. Li a sua carta. Compreendi o conteúdo da sua carta e o seu convite. Sei que ainda falta surgir um profeta. Eu imaginava que ele surgiria da Síria. Honrei o seu mensageiro. Estou enviando-lhe duas servas e também uma mula como presente para sua montaria. Que a paz esteja com você.”
Muqawqis não escreveu mais nada. Ele também não aceitou o Islã. As servas que enviou chamavam-se Maria Copta e Sirin. A mula chamava-se Duldul. Ela permaneceu viva até a época de Muawiya (que Allah esteja satisfeito com ele). [Zad al-Ma’ad, vol. 3, p. 61] O nobre Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, manteve Maria consigo. Foi do ventre de Maria que nasceu Ibrahim, filho do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Sirin foi dada ao poeta Hassan ibn Thabit al-Ansari.
3) Para o imperador persa Khusrau Parviz—
O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, também enviou uma carta ao imperador persa Kisra; ela era a seguinte—
‘Começo em nome de Allah, o Misericordioso e o Compassivo—
Da parte do Mensageiro de Allah, Muhammad, para Parvez, da Pérsia.’
A paz esteja sobre aquele que segue a orientação e crê em Allah, o Altíssimo, e em Seu Mensageiro. Ele é Único e Incomparável; não possui associado algum. Muhammad é Seu servo e Seu Mensageiro. Convido-o a aceitar Allah, pois fui enviado por Allah para toda a humanidade. Minha missão é advertir os que estão vivos sobre o destino final e estabelecer a verdade contra os incrédulos. Portanto, aceite o Islã e viverá em paz. Se recusar, o pecado de todos os adoradores do fogo também recairá sobre você.
Hazrat Abdullah ibn Hudhafa Sahmi (que Allah esteja satisfeito com ele) foi escolhido para levar esta carta. Ele a entregou ao governante do Bahrein. Não se sabe se o governante do Bahrein enviou a carta por meio de algum mensageiro ou se enviou o próprio Hazrat Abdullah ibn Hudhafa. Em suma, depois que a carta foi lida para Parvez, ele a rasgou e disse com arrogância: “Um súdito comum entre os meus súditos escreveu o próprio nome antes do meu nome.” Ao receber essa notícia, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: “Que Allah destrua o seu reino.” E aconteceu exatamente como o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) havia dito.
O imperador escreveu ao seu governador do Iêmen, Bazan: “Envie-me daí dois homens robustos, para que vão ao Hijaz e tragam aquele homem até mim.” Para cumprir a ordem do imperador, Bazan enviou dois homens ao Mensageiro de Allah, levando consigo a carta. Os dois enviados foram até o Mensageiro de Allah, em Medina. Um deles disse: “O imperador escreveu uma carta e ordenou a Bazan que o apresentasse à sua corte. O rei Bazan nos enviou até você; portanto, venha conosco.” Ao mesmo tempo, ambos os visitantes proferiram algumas palavras ameaçadoras. O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse calmamente: “Encontrem-se comigo amanhã.”
Enquanto isso, a rebelião e a discórdia familiar de Khosrow Parvez, da Pérsia, haviam assumido proporções intensas. Os soldados persas continuavam sofrendo derrota após derrota nas mãos das tropas de César. Por fim, irritado e furioso, o filho do imperador, Shirway, matou o próprio pai e tomou o poder. Era a noite de terça-feira. No dia 10 de Jumada al-Awwal do sétimo ano da Hégira [Fath al-Bari, vol. 8, p. 127], o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) recebeu essa notícia por meio da revelação. No dia seguinte, quando os dois representantes foram à presença do Mensageiro de Allah, ele lhes comunicou a notícia. Eles disseram: “O que está dizendo? Isso é um absurdo! Consideramos até palavras menos graves como uma ofensa sua. Devemos escrever isso ao rei?” O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) respondeu: “Sim, escrevam. Escrevam também que a minha religião e o meu governo chegarão até onde chegou o vosso rei. Mais ainda: chegarão a lugares além dos quais nenhum camelo ou cavalo poderá viajar. Informem-no também de que, se ele aceitar o Islã, tudo o que estiver sob seu controle lhe será deixado, e nós o tornaremos rei do seu povo.”
Depois disso, os dois mensageiros foram de Medina ao Iêmen, até Bazan, e lhe contaram tudo. Pouco depois, chegou ao Iêmen uma carta informando que Shirway havia matado o pai e ascendido ao trono. Em sua carta, o novo imperador também ordenava ao governador do Iêmen, Bazan, que não incomodasse, até novas instruções, aquele sobre quem seu pai havia escrito.
Por causa desse acontecimento, Bazan e seus compatriotas persas, que estavam presentes no Iêmen naquela época, todos aceitaram o Islã e se tornaram muçulmanos. [Muhadirat Khazrami, vol. 1, p. 147; Fath al-Bari, vol. 8, pp. 127–128; Rahmatul lil-Alamin]
Quarto) Em nome do imperador romano César—
Um longo hadith sobre esta carta é mencionado no Sahih al-Bukhari. O conteúdo da carta que o Mensageiro escreveu ao imperador romano Heráclio é o seguinte—
Em nome de Allah, o Clemente, o Misericordioso.
De Muhammad, servo de Allah e Seu Mensageiro, para o grande Heráclio de Roma.
A paz esteja sobre aquele que segue a orientação. Se você aceitar o Islã, estará em paz. Se aceitar o Islã, receberá uma recompensa dupla. Se recusar, o pecado de seus súditos também recairá sobre você. Ó Povo do Livro, venham a uma palavra comum entre nós e vocês: que não adoremos nem obedeçamos a ninguém além de Allah; que não associemos ninguém a Allah; e que não tomemos uns aos outros como senhores além de Allah. Mas, se eles se recusarem, digam-lhes: testemunhem que sou muçulmano. [Sahih al-Bukhari, vol. 2, pp. 4–5]
Para entregar esta carta, o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, escolheu Hazrat Dihya Khalifa Kalbi. Foi-lhe dito que entregasse a carta ao governador de Bosra. O governador de Bosra a entregaria ao imperador Heráclio. O que aconteceu depois é narrado no Sahih al-Bukhari por Hazrat Abdullah ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele). Ele disse que Abu Sufyan ibn Harb lhe contou que o imperador Heráclio o convidara à sua corte junto com um grupo de coraixitas. De acordo com os termos do Tratado de Hudaybiyyah, aquela caravana fora à Síria para comerciar, levando mercadorias. A caravana compareceu perante o imperador Heráclio em Iliya, isto é, Bayt al-Maqdis. [Naquela época, o imperador Heráclio havia ido de Homs a Bayt al-Maqdis. Ele foi a Bayt al-Maqdis para agradecer a Allah, o Altíssimo, pela vitória na guerra contra a Pérsia. Veja Sahih Muslim, vol. 2, pp. 4–5. Segundo o relato do acontecimento, após o assassinato de Cosroes Parvez, os romanos fizeram um tratado com o imperador persa sob a condição de recuperar os territórios que haviam perdido. A Pérsia também devolveu a cruz que, segundo a crença dos cristãos, era aquela na qual Jesus havia sido crucificado. O imperador Heráclio foi a Iliya, isto é, Bayt al-Maqdis, em 629 d.C., no sétimo ano da Hégira, para reinstalar em seu devido lugar a cruz recuperada após o tratado e agradecer a Allah, o Altíssimo, pela grande vitória.] O imperador chamou-os à sua presença. Naquele momento, muitas personalidades importantes do país estavam presentes na corte.
O imperador Heráclio convocou seu intérprete diante da delegação comercial de Meca. Em seguida, por meio do intérprete, perguntou: entre vocês, quem é o mais próximo, por parentesco, daquele que afirma ser profeta? Abu Sufyan disse: então informei ao rei que eu era o mais próximo dele. Heráclio disse: tragam-no para perto de mim e façam com que seus companheiros se sentem atrás dele. Depois, Heráclio disse ao intérprete: farei perguntas a este homem sobre aquele que afirma ser profeta. Se ele mentir ao responder alguma pergunta, diga a seus companheiros que o contradigam imediatamente. Abu Sufyan disse: por Allah, se eu não temesse ser conhecido por mentir, certamente teria mentido a respeito dele.
Abu Sufyan disse: depois que me fizeram sentar diante dele, Heráclio me perguntou primeiro: qual é a posição da linhagem daquele homem entre vocês?
Eu: Ele pertence a uma família de elevada nobreza.
Heraclius: Antes dele, alguém entre vocês já havia dito algo semelhante ao que ele diz?
Eu: Não.
Heraclius: Houve algum rei entre seus antepassados?
Eu: Não.
Heraclius: Foram os nobres ou os fracos que o seguiram?
Eu: Os fracos.
Heraclius: O número deles está aumentando ou diminuindo?
Eu: Está aumentando cada vez mais.
Heráclio: Depois de aceitar esta religião, alguém a abandonou?
Eu: Não.
Heráclio: Antes de ele dizer essas coisas, alguém já o acusou de mentir?
Eu: Não.
Heráclio: Ele comete traição?
Eu: Não, senhor. No entanto, atualmente estamos vinculados a ele por um tratado. Não sabemos o que ele fará a esse respeito. Abu Sufian diz: Com exceção dessa resposta, não tive oportunidade de acrescentar nada por conta própria.
Heráclio: Vocês lutaram contra ele?
Eu: Sim.
Heráclio: Como era a guerra entre vocês e ele?
Eu: A guerra entre nós e ele é como um balde: às vezes ele nos derrota, e às vezes nós o derrotamos.
Heráclio: Que ações ele ordena que vocês pratiquem?
Eu: Ele diz: adorai somente a Allah e não associeis ninguém a Ele. Ele ordena a veracidade, a piedade, a pureza e a limpeza, e o bom tratamento dos parentes próximos, coisas que vossos pais e avós também recomendavam.
Depois, Heráclio disse ao seu intérprete: Diga a este homem que, quando perguntei sobre a linhagem do pretendente à profecia, ele respondeu que era de elevada linhagem. A regra é que os profetas sejam enviados dentre pessoas de elevada linhagem. Perguntei-lhe se, antes dele, alguém entre vocês havia afirmado algo semelhante. Ele respondeu que não. Se ele estivesse apenas repetindo as palavras de outra pessoa, eu diria que este homem é apenas o eco das palavras de outro. Perguntei se algum de seus antepassados havia sido rei. Você respondeu que não. Se algum de seus antepassados tivesse sido rei, eu diria que este homem estava reivindicando o reino de seus antepassados. Perguntei se, antes do que ele afirma agora, vocês já o haviam acusado de mentir. Você respondeu que não. Portanto, aquele que não mente a respeito das pessoas não pode mentir sobre Allah, o Todo-Poderoso. Também perguntei se os ricos o seguiam ou se eram os fracos que o seguiam. Você respondeu que eram os fracos. Na verdade, são os fracos que primeiro seguem os profetas. Perguntei se alguém havia abandonado sua religião depois de aceitar a fé nele. Você respondeu que não. Na verdade, é assim que acontece quando a vitalidade da fé penetra no coração. Perguntei se ele traía vocês. Você respondeu que não. Na verdade, os profetas são assim: não quebram suas promessas nem traem. Perguntei que ações ele ordenava. Você respondeu que ele ordenava que adorassem Allah, que não associassem ninguém a Ele, que não adorassem ídolos, e que observassem a oração, a veracidade, a piedade, a pureza e a limpeza. Se tudo o que você disse for verdade, ele em breve será senhor até do território sob meus dois pés. Eu sabia que esse profeta surgiria, mas não imaginava que surgiria entre vocês. Se eu pudesse suportar a dificuldade de chegar até ele, iria até ele e lavaria seus dois pés.
Depois, Heráclio pediu a carta do Mensageiro de Allah, que lhe foi entregue, e a leu. Assim que terminou de ler a carta, começou um tumulto no local, e ouviram-se vozes em tom elevado. Heráclio deu ordens a nosso respeito, e fomos expulsos. Quando saímos, eu disse aos companheiros: O caso do filho de Abu Kabsha tornou-se bastante sério. Pelo que vejo, até o rei dos Banū al-Asfar, isto é, dos romanos, tem medo dele. Depois disso, sempre mantive a convicção de que a religião do Mensageiro de Allah certamente triunfaria. Mais tarde, Allah, o Senhor dos mundos, acendeu em mim a luz do Islã.
Este relato de Abu Sufyan foi o efeito da carta enviada pelo Mensageiro de Allah ao imperador romano Heráclio. Outro efeito dessa carta foi que o imperador Heráclio deu uma quantidade considerável de riquezas e bens a Dihya al-Kalbi, portador da carta do Mensageiro de Allah. Enquanto Dihya retornava a Medina levando esses bens, algumas pessoas da tribo de Juzam o assaltaram no lugar chamado Husma e levaram tudo. Ao chegar a Medina, Dihya não foi para sua casa; dirigiu-se primeiro à presença do Mensageiro de Allah e contou-lhe tudo. Depois de ouvir o relato, o Mensageiro de Allah enviou quinhentos Companheiros numa expedição contra Husma, sob o comando de Zayd ibn Haritha. Zayd lançou um ataque surpresa contra os membros da tribo de Juzam e matou vários deles. Em seguida, conduziu seu rebanho e suas mulheres para Medina. Entre os animais havia um jahar de camelos e cinco mil cabras. Entre os cativos havia cem mulheres e crianças.
Já existia um tratado de entendimento entre o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, e a tribo de Juzam. Por isso, Zayd ibn Rifa’a, um dos chefes dessa tribo, dirigiu-se apressadamente à presença do Mensageiro de Allah para apresentar um protesto e um apelo. Zayd ibn Rifa’a já havia aceitado o Islam muito antes, juntamente com várias pessoas da tribo de Juzam. Quando Hadrat Dihya al-Kalbi foi atacado, eles tentaram protegê-lo. Por isso, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, aceitou seu protesto e apelo, e devolveu os prisioneiros e os bens tomados como espólio. Muitos autores de obras sobre a Sira mencionaram que esse acontecimento ocorreu antes do tratado de Hudaybiyyah. Mas isso está incorreto. Isso porque a carta foi enviada ao César Heráclio somente depois do tratado de Hudaybiyyah. Por essa razão, o Allamah Ibn Qayyim escreveu que esse acontecimento ocorreu, sem dúvida, depois do tratado de Hudaybiyyah. [Zad al-Ma’ad, vol. 2, p. 122; Hashiya Talqih al-Fuhum, p. 29]
Cinco) Em nome de Munzir ibn Sa’dir—
O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, escreveu uma carta a Munzir ibn Sa’dir, convidando-o também ao Islam. Munzir era o governador do Bahrain. Essa carta foi enviada pelas mãos de Hadrat Ala ibn Hadrami. Em resposta, Munzir escreveu ao Mensageiro de Allah: “Ó Mensageiro de Allah, li sua carta aos habitantes do Bahrain. Algumas pessoas apreciaram o Islam, consideraram-no uma religião de pureza e aceitaram-no, enquanto muitas outras não o apreciaram. Aqui também há judeus e adoradores do fogo. Dê-me instruções a respeito deles.” Em resposta, a carta que o Mensageiro escreveu foi a seguinte.
Começo em nome de Allah, o Todo-Misericordioso, o Misericordiosíssimo.
Em nome de Allah, do Mensageiro de Allah, Muhammad, para Munzir ibn Sa’dir. Que a paz esteja com você. Louvo Allah diante de você, além de Quem ninguém é digno de adoração. Testemunho que Muhammad é servo de Allah e Seu Mensageiro.
Em seguida, recomendo-lhe que se lembre de Allah. Lembre-se de que quem faz o bem o faz para si mesmo. Quem obedecer aos meus mensageiros e cumprir suas ordens será considerado alguém que me obedeceu. Aqueles que tratarem bem os meus mensageiros serão considerados pessoas que me trataram bem. Meus mensageiros elogiaram você. Aceitei sua intercessão em favor de seu povo. Portanto, deixe os muçulmanos no estado em que abraçaram a fé. Perdoei os culpados; perdoe-os também. Enquanto você seguir o caminho reto, não o destituirei. Aqueles que seguem a religião judaica e aqueles que adoram o fogo deverão pagar a jizya. [Zad al-Ma’ad, vol. 3, pp. 61–62. Esta carta foi descoberta no passado recente. O Dr. Hamidullah publicou uma fotocópia desta carta. Há uma diferença de uma palavra entre o texto de Zad al-Ma’ad e o da fotocópia. Na fotocópia consta “lā ilāha illā huwa”, enquanto em Zad al-Ma’ad consta “lā ilāha ghayruhu”.]
Seis) Ao governante de Yamama —
O Mensageiro de Allah enviou a seguinte carta a Hawza ibn Ali, governante de Yamama.
Em nome de Allah, o Clemente, o Misericordioso.
Carta de Maomé, o Mensageiro de Allah, para Hawza ibn Ali.
Que a paz esteja sobre aquele que segue a orientação. Você deve saber que minha religião se expandirá até onde chegam os camelos e os cavalos. Portanto, aceite o Islã e estará em paz. Tudo o que está sob seu comando será preservado para você.
Salit ibn Amr al-Amiri foi escolhido como mensageiro para entregar esta carta. O honorável Salit chegou à corte de Hawza, governador de Iamama, levando consigo a carta selada. Hawza recebeu-o como seu hóspede e felicitou-o. O honorável Salit leu a carta ao governador. Ele deu uma resposta ambígua. Depois, enviou uma resposta por escrito ao Mensageiro de Allah. A resposta foi a seguinte.
‘A benevolência e a excelência daquilo para o qual você está convidando são incontestáveis. Tenho influência sobre os árabes. Portanto, confie-me alguma responsabilidade, e eu obedecerei a você.’
O governador Hawza também ofereceu alguns presentes ao mensageiro do Mensageiro de Allah. Entre esses presentes havia roupas preciosas. O honorável Salit levou esses artigos ao Mensageiro de Allah e informou-o de tudo.
Depois de ler esta carta, o Mensageiro de Allah comentou: “Mesmo que ele me peça um pedaço de terra, não lho darei. Ele próprio será destruído, e tudo o que lhe pertence também será destruído.”
Depois que o Mensageiro de Allah voltou da conquista de Meca, o honorável Gabriel (que a paz esteja sobre ele) informou-o de que Hawza estava à beira da morte.
Então, o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse aos Companheiros: “Ouçam: um mentiroso surgirá em Iamama e será morto depois de mim.” Um Companheiro perguntou: “Ó Mensageiro de Allah, quem o matará?” O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, respondeu: “Tu e o teu companheiro.”
Mais tarde, as palavras do Mensageiro de Allah provaram-se verdadeiras.
Sete) Ao governador de Damasco, Ghassani—
O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, enviou a seguinte carta a Harith ibn Abu Shimar al-Ghassani, governador de Damasco.
Em nome de Allah, o Misericordioso, o Compassivo.
De Muhammad, Mensageiro de Allah, para Harith ibn Abu Shimar.
A paz esteja sobre aquele que segue a orientação, crê e reconhece a verdade. Convido-te a crer em Allah, o Único e Incomparável, que não tem parceiro algum. Aceita o convite ao Islam. O teu reino permanecerá estabelecido para ti.
Esta carta foi enviada pelas mãos do nobre Companheiro Shuja ibn Wahab, ligado à tribo de Asad ibn Khuzayma. Depois de receber a carta das mãos de Harith, ele disse: “Quem pode arrancar o meu reino de mim? Em breve partirei para atacá-lo.” Esse desafortunado não aceitou o Islam.
8) Em nome do rei de Omã
O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, também escreveu uma carta ao rei de Omã, Jaifar, e a seu irmão Abd. O nome de seu pai era Julanda. O teor da carta era o seguinte:
Em nome de Allah, o Clemente, o Misericordioso,
De Muhammad, filho de Abdullah, para Jaifar e Abd, filhos de Julanda.
A paz esteja sobre aquele que segue a orientação. Em seguida, convido ambos ao Islam. Aceitem o Islam e viverão em paz. Pois sou o Mensageiro de Allah para toda a humanidade. Trabalho para advertir os vivos sobre seu destino e para estabelecer a verdade da palavra de Allah contra os incrédulos. Se ambos aceitarem o Islam, vocês permanecerão no poder. Mas, se recusarem, seu reino chegará ao fim. Suas terras ficarão sob os cascos dos cavalos. A profecia triunfará sobre o seu reino.’
Hazrat Amr ibn al-As foi escolhido para entregar essa carta. Ele conta: parti e fui para Omã, onde me encontrei com Abd. Entre os dois irmãos, Abd era de temperamento mais amável. Eu lhe disse: vim como mensageiro do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, até você e seu irmão. Ele respondeu: meu irmão é mais velho e superior a mim tanto em idade quanto em autoridade. Portanto, vou levá-lo até ele; ele próprio lerá a carta que você trouxe. Depois disso, Abd disse: muito bem, a que vocês estão convidando?
Eu: Convidamos as pessoas para Allah. Ele é Uno e Único. Não tem parceiro algum. Dizemos que se deve abandonar aquilo que é adorado além de Allah e testemunhar que Muhammad, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, é servo e Mensageiro de Allah.
Abd: Ó Amr, você é filho do líder de seu povo. Diga-me: o que seu pai fazia? O modo de agir de seu pai será algo que devemos seguir?
Eu: Ele faleceu antes de depositar sua fé em Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Sinto muito pesar; como teria sido bom se ele tivesse aceitado o Islã e depositado sua fé no Mensageiro de Allah. Eu mesmo era um incrédulo. Mas Allah, o Senhor dos mundos, concedeu-me a orientação para o Islã.
Abd: Quando você começou a segui-lo?
Eu: Não faz muito tempo.
Abd: Onde você aceitou o Islã?
Eu: Diante do Najashi. O Najashi também se tornou muçulmano.
Abd: Depois que seus compatriotas aceitaram o Islã, o que ele fez com seu reino?
Eu: Manteve-o intacto, e os outros também seguiram seu exemplo.
Abd: O sacerdote da igreja e os outros também seguiram seu exemplo?
Eu: Sim, todos o fizeram.
Abd: Ó Amr, pense bem no que está dizendo. Lembre-se de que, para uma pessoa, não pode haver defeito pior do que a mentira.
Eu: Não estou mentindo. Nós também não consideramos lícito mentir.
Abd: Creio que o imperador Heráclio não sabe que o Najashi aceitou o Islã.
Eu: Certamente sabe.
Abd: Como você soube?
Eu: O Najashi costumava pagar impostos a Heráclio, mas, depois de reconhecer, por meio do Islã, a veracidade de Maomé — que Allah o abençoe e lhe conceda paz —, disse: “Juro por Allah que, de agora em diante, mesmo que Heráclio me peça um único dirham, não lhe darei.” Quando essa notícia chegou à corte de Heráclio, seu irmão Yanak lhe disse: “Você deixará escapar um servo seu que se recusa a pagar o kharaj? Você aceitará que ele abandone sua crença religiosa e adote a crença religiosa de outra pessoa?” Heráclio respondeu: “Este homem escolheu uma crença religiosa e a adotou. O que posso fazer contra ele? Juro por Deus que, se não fosse pelo desejo de reinar, eu mesmo faria o que o Najashi fez.”
Abd: Amr, pense bem no que está dizendo.
Eu: Por Deus, estou dizendo a verdade.
Abd: Muito bem, diga-me: que atos ele ordena e que atos proíbe?
Eu: Allah, o Altíssimo, ordena que se Lhe obedeça e proíbe que se Lhe desobedeça. Ordena que se pratiquem boas ações e que se trate bem os parentes. Proíbe a injustiça, a opressão, os excessos, o adultério, o consumo de bebidas alcoólicas e a adoração de pedras, ídolos e cruzes.
Abd: Tudo o que ele ordena são boas ações. Se eu tivesse confiança de que meu irmão me seguiria, partiríamos montados para Medina e acreditaríamos em Muhammad (que a paz esteja com ele). Porém, meu irmão tem grande apego ao seu reino; tenho dúvidas de que, por medo de perder o reino, ele aceite obedecer a outra pessoa.
Eu: Se ele aceitar o Islã, o Mensageiro de Allah o manterá como rei. No entanto, ele terá de fazer uma coisa: arrecadar a sadaqa dos ricos e distribuí-la entre os pobres.
Abd: Isso é realmente uma boa ação. Diga-me, então, o que é a sadaqa?
Eu mencionei os detalhes da sadaqa estabelecida pelo Mensageiro de Allah sobre os diversos bens. Quando se chegou ao assunto dos camelos, ele disse: Ó Amr, também será cobrada sadaqa dos nossos rebanhos que pastam por conta própria nas áreas de pastagem?
Eu: Sim.
Abd: Juro por Allah, não sei se o povo do nosso país aceitará isso, considerando a vastidão do país e a grande quantidade de camelos.
Amr ibn al-As disse: Passei alguns dias no portão da corte real. Abd foi até seu irmão e conversou com ele a meu respeito. Certo dia, mandaram chamar-me, e entrei. Os guardas agarraram meu braço. Abd disse: “Soltem-no”, e então eles me soltaram. Quando quis sentar-me, os guardas não me deixaram. Olhei para o rei, e ele disse: “Diga, o que deseja?”. Entreguei-lhe a carta dentro de um envelope selado. Ele rasgou o envelope e leu a carta. Depois de ler tudo, entregou-a ao irmão. Notei que o irmão de Abd era um homem de temperamento relativamente mais amável que o rei.
O rei perguntou: “Diga-me, como os coraixitas se comportaram?”
Eu: Todos se submeteram à sua obediência. Alguns por amor à religião, e dois ou três por medo da espada.
O rei: “Que tipo de pessoas está com ele?”
Eu: Há pessoas de todos os tipos. Elas aceitaram o Islam com entusiasmo e deram-lhe preferência sobre todas as outras crenças religiosas. Pela orientação de Allah e pela orientação de sua consciência, compreenderam que, até então, estavam desviadas do caminho. Pelo que sei, nesta região, o senhor é o único que ainda não aceitou o Islam. Se não aceitar o Islam e não seguir Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, pessoas montadas em cavalos e camelos virão e o destruirão completamente. Aniquilarão sua força. Portanto, aceite o Islam e viverá em paz. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, o manterá como governante de seu povo. Nenhum invasor entrará em sua região.
O rei disse: “Encontre-se comigo amanhã.”
Depois disso, voltei para junto do irmão do rei.
Abd disse: “Amr, penso que meu irmão aceitará o Islã, a menos que a cobiça pelo trono seja muito forte.”
No dia seguinte, quis voltar à presença do rei. Porém, não me deram permissão para entrar. Ao voltar, informei o irmão dele sobre isso. O irmão dele levou-me até ele. O rei disse: “Refleti sobre o convite que você me apresentou. Se eu confiar o reino a alguém cujo exército ainda nem chegou, serei conhecido na Arábia como o mais fraco e covarde. Se as tropas dele chegarem aqui, nós lhes daremos o que desejam em matéria de guerra.”
Eu disse: “Está bem, voltarei amanhã.”
Depois de se certificar de que eu partiria, o rei conversou em particular com o irmão. O rei disse ao irmão: “Comparados àqueles sobre os quais este profeta triunfou, nós não somos nada. Todos a quem ele enviou uma mensagem aceitaram o convite.”
Na manhã seguinte, fui novamente chamado à corte do rei. Tanto o rei quanto seu irmão aceitaram o Islã. Eles depositaram sua fé no Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Fui encarregado de coletar a sadaqah e de julgar entre as partes litigantes. Nesse assunto, eles me deram ampla ajuda e cooperação. [Zad al-Ma’ad, vol. 3, pp. 62–63]
Pelo relato e pela natureza desse acontecimento, parece que o Mensageiro de Allah enviou cartas a ambos depois de enviá-las aos outros reis. É possível que essas cartas tenham sido enviadas após a Conquista de Meca.
Por meio dessas cartas, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) havia levado seu convite à maior parte das regiões do mundo. Em resposta, alguns creram, enquanto outros permaneceram firmes na descrença. Contudo, o efeito dessas cartas foi que até mesmo a atenção daqueles que não creram se voltou para esse assunto, e o nome do Mensageiro de Allah e a religião que ele pregava tornaram-se conhecidos por eles.
Atividades militares após o Tratado de Hudaybiyyah
Expedição de Dhu Qarad
Esta expedição foi realizada contra uma parte dos Banu Fazara. Eles haviam atacado os rebanhos do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Foi para vingar esse ataque que o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, conduziu esta expedição acompanhado dos Companheiros.
Depois do tratado de Hudaybiyyah e antes da expedição de Khaybar, esta foi a primeira e única expedição. O Imã Bukhari, que Allah esteja satisfeito com ele, mencionou que ela ocorreu apenas três dias antes da expedição de Khaybar. Há um relato detalhado a esse respeito transmitido pelo Imã Salama ibn al-Akwa, que Allah esteja satisfeito com ele. Ela também é mencionada no Sahih Muslim. Os autores de biografias escreveram que esse acontecimento ocorreu antes do tratado de Hudaybiyyah. Mas isso não está correto. Pelo contrário, o relato mencionado nas coletâneas de hadith é o correto. [Sahih Bukhari, capítulo sobre a expedição de Dhat Qarad, vol. 2, p. 603; Sahih Muslim, capítulo sobre a expedição de Dhu Qarad, vol. 2, pp. 113, 114 e 115; Fath al-Bari, vol. 7, pp. 460, 461 e 462; Zad al-Ma’ad, vol. 2, p. 120]
O relato da atuação de Salama bint al-Akwa, que Allah esteja satisfeito com ela, nesta expedição encontra-se em sua própria narração. O relato do acontecimento é o seguinte: Salama conta que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, enviou os camelos de montaria para pastar, entregando-os aos cuidados de seu servo Rabah. Eu também estava com eles, montado no cavalo de Abu Talha. De repente, ao amanhecer, Abd al-Rahman al-Fazari atacou os camelos, matou o pastor e os levou consigo. Eu disse a Rabah: “Rabah, pegue este cavalo, entregue-o a Abu Talha e informe o Mensageiro de Allah sobre o ocorrido.” Então subi a uma colina, voltei-me para Medina e gritei três vezes: “Ó manhã de ataque!”, isto é, “Ai, o ataque da manhã!”. Em seguida, saí correndo atrás dos atacantes. Atirava flechas contra eles e recitava:
“Sou filho de al-Akwa; hoje é o dia de Rujz.”
Não sou outro senão o filho de al-Akwa; hoje será provado o valor do leite materno.
Salama ibn al-Akwa conta: continuei atirando flechas contra eles. Quando algum cavaleiro avançava para contra-atacar-me, eu me escondia atrás de uma árvore. Dali, atirava flechas e o feria. Quando entraram por um caminho estreito da montanha, subi à montanha e comecei a atirar pedras. Continuei a persegui-los dessa maneira. Em certo momento, consegui tomar sob meu controle todos os camelos do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Mesmo assim, continuei a persegui-los. Para aliviar a carga, eles deixaram para trás trinta mantos e mais de trinta lanças e seguiram adiante. Tudo o que deixavam para trás, eu reunia algumas pedras ao lado, como sinal. Fazia isso para facilitar o reconhecimento do caminho pelo Mensageiro de Allah e seus Companheiros. Depois, eles se sentaram para almoçar numa passagem estreita de uma fortificação. Eu também me sentei em um lugar. Quatro deles vinham em minha direção. Eu conseguia ouvir o que diziam. Eu lhes disse: “Vocês me conhecem? Meu nome é Salama ibn al-Akwa. Se eu começar a perseguir qualquer um de vocês, capturá-lo-ei facilmente. Mas, se vocês me perseguirem, jamais conseguirão alcançar-me.” Ao ouvirem isso, os quatro voltaram. Permaneci sentado em meu lugar. Pouco depois, vi os cavaleiros do Mensageiro de Allah chegando por entre as árvores. À frente vinha Akhram; atrás dele vinham, nessa ordem, Abu Qatada e Miqdad ibn al-Aswad. De repente, iniciou-se um confronto entre Abd al-Rahman e Akhram. Akhram feriu o cavalo de Abd al-Rahman. Enfurecido, Abd al-Rahman matou Akhram com uma lança. Nesse ínterim, Abu Qatada chegou junto à cabeça de Abd al-Rahman e feriu-o com a lança. Os demais atacantes fugiram. Comecei a correr rapidamente atrás deles. Pouco antes do pôr do sol, eles viraram em direção a uma fortificação. Ali havia um reservatório chamado Dhu Qarad. Estavam sedentos e queriam beber água ali. Mas eu os mantive afastados do reservatório. Assim, não conseguiram beber sequer uma gota de água. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e os nobres Companheiros chegaram até mim depois do pôr do sol. Eu disse: “Ó Mensageiro de Allah, todos eles estavam sedentos. Se o senhor me der cem Companheiros, conseguirei tomar-lhes os cavalos, até mesmo os que estiverem com os gênios, e entregarei todos os seus pescoços ao senhor.” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Filho de al-Akwa, você já os dominou; agora seja um pouco mais paciente.” Depois disse: “Neste momento, eles estão sendo hospedados entre os Banu Ghatafan.”
Ao fazer uma avaliação desta expedição, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Hoje, nosso melhor cavaleiro é Abu Qatada, e nosso melhor soldado de infantaria é Salama.” O Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, concedeu-me duas partes: uma de soldado de infantaria e outra de cavaleiro. Ao retornar, o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, honrou-me. Ele me fez montar atrás da camela chamada Adba e veio comigo até Medina.
Durante essa expedição militar, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) confiou a administração de Medina a Hazrat Abdullah ibn Umm Maktum. Hazrat Miqdad ibn Amr (que Allah esteja satisfeito com ele) carregava a bandeira dessa expedição.
A batalha de Khaybar e Wadi al-Qura
Muharram do sétimo ano da Hégira. A cidade de Khaybar está situada a 60 ou 80 milhas de Medina. É uma cidade bastante grande. Havia nela fortalezas e campos agrícolas. O clima não é muito saudável. Atualmente, é uma localidade.
Como resultado do Tratado de Hudaybiyyah, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) ficou plenamente seguro quanto aos coraixitas, a mais poderosa das três forças da Batalha da Trincheira. Os outros dois ramos eram os poderosos judeus e algumas tribos de Najd. O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) considerou necessário também resolver as questões com eles. Assim, seria possível obter segurança em todas as direções. Estabelecer-se-ia um ambiente de paz e estabilidade em toda a região. Consequentemente, os muçulmanos seriam capazes de se dedicar à transmissão da mensagem de Allah e ao convite para a Sua religião, deixando de lado os confrontos sangrentos.
Khaybar era, de fato, um centro de conspirações e intrigas dos judeus. Esse lugar também era o centro dos preparativos militares dos judeus contra os muçulmanos. Por essa razão, os muçulmanos voltaram sua atenção para lá antes de tudo.
Khaybar era realmente um centro de conspirações e intrigas? A esse respeito, deve-se lembrar que foram os habitantes de Khaybar que, na Batalha da Trincheira, incitaram e reuniram todos os grupos de politeístas contra os muçulmanos. Foram eles que estimularam os membros da tribo Banu Qurayza à traição. Foram eles que estabeleceram relações com os hipócritas, a quinta coluna da sociedade islâmica, e, durante a Batalha da Trincheira, com Banu Ghatafan e os beduínos. Eles próprios também estavam se preparando para guerrear contra os muçulmanos. Eles assediavam e importunavam os muçulmanos de diversas maneiras. Foram eles que também conspiraram para assassinar o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Por todas essas razões, os muçulmanos foram obrigados a realizar uma expedição militar. Foi necessário eliminar os líderes dos conspiradores, Salam ibn Abu al-Huqayq e Usayr ibn Zarim. Na realidade, as responsabilidades e os deveres dos muçulmanos em relação aos judeus eram ainda maiores do que isso. Contudo, o cumprimento desse dever estava sendo adiado, pois os coraixitas eram mais poderosos que os judeus, mais organizados, belicosos e um adversário formidável.
Não era possível enfrentar os judeus ignorando os coraixitas. Depois de estabelecer uma trégua com os coraixitas, surgiu a situação adequada para se voltar contra os judeus. Agora, aproximava-se o dia de acertar as contas com eles.
A caminho de Khaybar
Ibn Ishaq narrou que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, após retornar de Hudaybiyyah, permaneceu em Medina durante todo o mês de Dhu al-Hijjah e alguns dias do mês de Muharram. Em seguida, partiu rumo a Khaybar nos dias restantes do mês de Muharram.
Os exegetas escreveram que a conquista de Khaybar foi uma promessa de Allah. Ele disse: “Allah vos havia prometido muitos despojos de guerra, dos quais sereis os beneficiários. E Ele os apressou para vós.” (Surata Al-Fath, versículo 20)
O fato de Ele os ter apressado para vós refere-se ao tratado de Hudaybiyyah. E os muitos despojos de guerra referem-se a Khaybar.
O número de soldados muçulmanos
Os hipócritas e as pessoas de fé fraca não acompanharam o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, na viagem a Hudaybiyyah; permaneceram em suas casas. Por isso, Allah, o Senhor dos mundos, ordenou ao Seu Mensageiro a respeito deles, dizendo: “Quando partirdes para recolher os despojos de guerra, aqueles que ficaram em casa dirão: ‘Permiti-nos acompanhar-vos’. Eles querem mudar a promessa de Allah. Dize: ‘De modo algum podereis acompanhar-nos. Allah já havia declarado isso anteriormente’. Eles dirão: ‘Na verdade, vós nos invejais’. Porém, compreendem muito pouco.” (Surata Al-Fath, versículo 15)
Quando o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, partiu em direção a Khaybar, anunciou que somente poderiam acompanhá-lo aqueles que tivessem interesse genuíno no jihad. Como resultado desse anúncio, tiveram permissão para partir apenas aqueles que haviam participado da Bay’at al-Ridwan sob a árvore de Hudaybiyyah. Seu número era de mil e quatrocentos.
Durante essa expedição, a responsabilidade pela administração de Medina foi confiada a Siba ibn Arfata al-Ghifari. Por outro lado, Ibn Ishaq afirma que ela foi confiada a Numayla ibn Abdullah al-Laythi. Contudo, segundo os pesquisadores e especialistas, a primeira opinião é mais confiável. [Fath al-Bari, volume 7, p. 465; Zad al-Ma’ad, volume 2, p. 133]
Nessa época, Abu Hurayrah também havia chegado a Medina. Siba ibn Arfata estava realizando a oração do Fajr. Após a oração, Abu Hurayrah foi até ele. Ele providenciou provisões para sua viagem. Abu Hurayrah partiu para Khaybar a fim de juntar-se ao amado Profeta. Ao chegar, soube que Khaybar havia caído sob o domínio dos muçulmanos. Após consultar os muçulmanos, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, concedeu a Abu Hurayrah e aos seus companheiros uma parte dos despojos.
As atividades dos hipócritas em favor dos judeus
Naquele momento, os hipócritas fizeram grandes esforços para ajudar os judeus. O líder dos hipócritas, Abdullah ibn Ubayy, já havia enviado uma mensagem a Khaybar, dizendo: “Maomé está indo na direção de vocês; fiquem atentos. Preparem-se e não tenham medo. Vocês são numerosos e possuem muitas armas. Os companheiros de Maomé não são numerosos e, além disso, são destituídos; as armas que possuem também são muito poucas.” Depois de receberem essa notícia, os habitantes de Khaybar enviaram Kinanah ibn Abi al-Huqayq e Hawdah ibn Qays à tribo de Banu Ghatafan para solicitar ajuda. Banu Ghatafan era aliada dos judeus de Khaybar e apoiava seus aliados contra os muçulmanos. Os judeus também haviam prometido a Banu Ghatafan que, caso conseguissem vencer os muçulmanos, receberia metade da produção total de Khaybar.
Descrição das condições do caminho
A caminho de Khaybar, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) atravessou a montanha de “Isr”. Ela também é conhecida como a montanha de “Asr”. Depois, atravessou a planície de Sabha e chegou à planície de Raji’. Contudo, esta Raji’ não é aquela onde oito companheiros foram martirizados pelas mãos de Banu Lihyan, devido à traição de Adal e Qarah.
A área residencial da tribo de Banu Ghatafan ficava a um dia e uma noite de viagem de Raji’. Atendendo ao chamado dos judeus, Banu Ghatafan também havia partido em direção a Khaybar. Depois que partiram, ouviram-se ruídos atrás deles. Eles imaginaram que os muçulmanos haviam atacado suas famílias e seus rebanhos. Por isso, retornaram, deixando Khaybar livre para os muçulmanos.
O Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) chamou dois companheiros que conheciam o caminho para que viessem. Um deles chamava-se Husayl. O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) pediu-lhes que indicassem uma rota adequada pela qual se pudesse entrar em Khaybar pelo lado da Síria, em vez do lado de Medina. Dessa forma, o caminho de fuga dos judeus para a Síria seria bloqueado. Por outro lado, a possível ajuda de Banu Ghatafan também viria por esse lado. Nessa situação, os muçulmanos ficariam entre Banu Ghatafan e os judeus, e, mesmo que a ajuda de Banu Ghatafan chegasse, não conseguiria alcançar os judeus.
Um dos guias disse: “Ó Mensageiro de Allah, eu o conduzirei justamente pelo caminho que deseja.” O guia começou a avançar à frente. Ao chegar a uma encruzilhada, disse: “Ó Mensageiro de Allah, cada uma destas quatro estradas converge em Khaybar. O senhor poderá chegar lá por qualquer uma delas.” O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) perguntou os nomes das estradas. Husayl respondeu: “Uma chama-se Hazn, a segunda Shash, a terceira Hatb e a quarta Marhab.” O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) preferiu o último nome, isto é, Marhab. Considerando o significado dos nomes das outras três estradas, deixou-as de lado. Por fim, decidiu-se seguir pela estrada de Marhab.
Alguns acontecimentos no caminho
1) Hazrat Salma ibn Akwa (que Allah esteja satisfeito com ele) relata: Partimos para Khaybar com o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Decidiu-se viajar durante a noite. Um homem veio e disse a Amir: “Amir, recite-nos algo.” Amir era poeta. Ele desceu de sua montaria e começou a recitar os seguintes versos.
“Se não fosses Tu, ó Allah,
não receberíamos orientação,
não ofereceríamos a oração nem daríamos o zakat.
Por Ti, sacrificamos esta vida,
perdoa-nos, pois,
e manteremos firmes os pés ao enfrentar os inimigos.
Concede-nos paz, ó Allah, o Altíssimo.”
Quando soltamos o grito de guerra, o inimigo não treme de medo?
Nisso, alcançamos confiança.”
Ao ouvir esse poema, o Mensageiro de Allah quis saber quem era o poeta. Foi-lhe informado que ele era Ámir ibn Aqwa. O Mensageiro de Allah disse: “Que Allah tenha misericórdia dele.” Um companheiro comentou: “Agora, o martírio de Ámir tornou-se inevitável**.” Porém, nós desejávamos desfrutar de sua companhia** por mais tempo. [Sahih al-Bukhari, capítulo da expedição de Khaybar, vol. 2, p. 603; Sahih Muslim, capítulo da expedição de Dhu Qarad, vol. 2, p. 115] Os nobres companheiros sabiam que, durante uma batalha, quando o Mensageiro de Allah fazia uma súplica especial pelo perdão de Allah em favor de algum companheiro, este acabava sendo martirizado. [Sahih Muslim, vol. 2, p. 115] Foi isso que aconteceu com Ámir, que Allah esteja satisfeito com ele, na batalha de Khaybar. Por essa razão, os companheiros disseram: “Se ele tivesse suplicado por sua longevidade, nós o teríamos entre nós por mais tempo.”
Dois) Na planície de Sabha, muito próxima de Khaybar, o Mensageiro de Allah realizou a oração do ‘Asr. Depois, comeu. Foi servido apenas sawiq. Por sua ordem, o sawiq foi preparado para ser consumido. Em seguida, ele próprio comeu e permitiu que os companheiros também comessem. Depois da refeição, levantou-se para a oração do Maghrib. Naquele momento, não fez uma nova ablução; apenas enxaguou a boca. Os companheiros fizeram o mesmo. [Sahih al-Bukhari, vol. 2, p. 603] Depois, realizou a oração do ‘Isha.
O exército islâmico nos arredores de Khaybar
Na noite anterior à batalha, os muçulmanos passaram a noite nos arredores de Khaybar. Os judeus nem sequer perceberam isso. Era costume do Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — que, quando chegava à noite diante de um povo, esperava e não se dirigia a eles antes do amanhecer. Naquele dia, realizou a oração do Fajr bem cedo, quando ainda havia certa escuridão. Depois, os muçulmanos montaram e avançaram em direção a Khaybar. Muitos dos habitantes de Khaybar haviam saído para trabalhar nos campos, carregando enxadas aos ombros. Ao verem subitamente os soldados muçulmanos, começaram a fugir aos gritos. Repetidamente, gritavam: “Por Deus! Muhammad — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — chegou com seu exército!” [Al-Maghazi, al-Waqidi, A batalha de Khaybar, p. 112; Sahih al-Bukhari, capítulo da batalha de Khaybar, vol. 2, pp. 603–604]
Ao ver aquela situação, o Mensageiro de Allah disse: “Allah é o Maior! Khaybar está arruinada; Allah é o Maior! Khaybar está arruinada. Quando descemos ao campo de algum povo, a manhã dos temerosos daquele povo torna-se terrível.” [Sahih al-Bukhari, capítulo da batalha de Khaybar, vol. 2, pp. 603–604]
O Mensageiro de Allah determinou um local para o desembarque dos soldados. Habbab ibn al-Mundhir veio e perguntou: “Ó Mensageiro de Allah, decidiste permanecer aqui por ordem de Allah ou por uma decisão estratégica?” Ele respondeu: “Decidi por uma razão estratégica.” Ao ouvir isso, Habbab, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: “Este lugar fica muito próximo da fortaleza de Najat. Todos os guerreiros de Khaybar estão nessa fortaleza. Eles poderão conhecer completamente nossa situação, enquanto nós não poderemos conhecer a situação deles. Assim, poderão aplicar suas estratégias contra nós; as flechas que lançarem alcançarão nosso lado, enquanto as flechas que lançarmos não alcançarão o lado deles. Também permanecerá plenamente o risco de que possam realizar um ataque surpresa contra nós durante a noite. Além disso, há palmeirais ao redor deste lugar, e o terreno é baixo. Portanto, seria melhor providenciar nossa permanência em um lugar onde esses problemas não existissem.” O Mensageiro de Allah disse: “Tua opinião está correta.” Então, o Mensageiro de Allah ordenou aos companheiros que parassem. Em seguida, fez esta súplica diante de Allah, o Senhor dos Mundos: “Ó Allah, Tu és o Senhor dos sete céus e de tudo aquilo sobre o qual esses céus estendem sua sombra; o Senhor das sete terras e de tudo o que há acima e abaixo delas; o Senhor dos demônios e daqueles que eles desviaram. Pedimos-Te o bem desta povoação, o bem de seus habitantes e o bem de tudo o que nela existe. E buscamos refúgio em Ti contra o mal desta povoação, o mal de seus habitantes e o mal de tudo o que nela existe.”
Em seguida, o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — disse: “Avancem em nome de Allah.” [Por causa dessa enfermidade nos olhos, ele ficou para trás e depois se juntou a todos.]
Preparativos para a batalha e as fortalezas de Khaybar
Na noite em que o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — entrou nos arredores de Khaybar, disse: “Amanhã entregarei o estandarte a um homem que ama Allah e Seu Mensageiro, e que também é amado por Allah e Seu Mensageiro.” Todos os nobres Companheiros compareceram diante do Mensageiro de Allah. Todos desejavam secretamente receber o estandarte. O Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — perguntou: “Onde está Ali ibn Abu Talib?” Os Companheiros responderam: “Ó Mensageiro de Allah, os olhos dele estão enfermos.” O Mensageiro — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — disse: “Tragam-no.” Ali, que Allah esteja satisfeito com ele, foi trazido.
O Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — aplicou um pouco de sua saliva nos olhos dele e fez uma súplica. Ali, que Allah esteja satisfeito com ele, ficou tão curado que parecia que jamais tivera qualquer enfermidade nos olhos. Em seguida, o estandarte foi entregue a Ali, que Allah esteja satisfeito com ele. Ele disse: “Ó Mensageiro de Allah, lutarei contra eles até que se tornem como nós.” O Mensageiro — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — disse: “Avance tranquilamente e, quando chegar ao campo deles, convide-os ao Islã. Informe-os sobre os direitos de Allah que lhes são obrigatórios no Islã. Se, por seu intermédio, Allah, o Altíssimo, guiar sequer um deles, isso será melhor para você do que numerosos camelos vermelhos.” [Sahih al-Bukhari, capítulo sobre a batalha de Khaybar, pp. 605–606. Alguns relatos indicam que várias tentativas de conquistar uma das fortalezas de Khaybar fracassaram, e depois o estandarte foi entregue a Ali, que Allah esteja satisfeito com ele. Mas isso é verdade.]
Os assentamentos de Khaybar estavam divididos em duas partes. Uma delas continha as cinco fortalezas mencionadas a seguir: 1) Hisn Na’im. 2) Hisn Sha’bah ibn Ma’yadh. 3) A fortaleza de Zubayr. 4) Hisn Ubay. E 5) Hisn Nizar.
Entre as cinco fortalezas mencionadas, a área que abrangia as três primeiras era chamada de “Natat”. A área que abrangia as outras duas fortalezas era conhecida como “Shaqq”.
Os assentamentos da segunda parte de Khaybar eram conhecidos como Qutayrah. Havia três fortalezas nessa área: primeiro, Hisn Qamum. Os habitantes dessa fortaleza pertenciam à tribo dos Banu Nadir e estavam instalados na fortaleza de Abu al-Huqayq, dos Banu Nadir. Segundo, Hisn Atiyah. Terceiro, Hisn Salalim.
Além das oito fortalezas mencionadas, havia em Khaybar outras fortalezas e edifícios. Contudo, eram relativamente pequenos. Não eram tão fortificados quanto as fortalezas mencionadas anteriormente em termos de resistência e sistemas de segurança.
As batalhas ocorreram apenas nas fortalezas da primeira seção. Três das fortalezas restantes foram entregues aos muçulmanos sem combate, embora nelas houvesse guerreiros.
Início do confronto e conquista da fortaleza de Na’im
A primeira das oito fortalezas mencionadas a ser atacada foi a fortaleza de Na’im. Em termos de localização e importância estratégica, todas essas fortalezas eram consideradas a primeira linha de defesa dos judeus. O proprietário dessa fortaleza era um judeu feroz chamado Marhab, considerado um guerreiro com a força e a capacidade de mil homens.
Hazrat Ali ibn Abi Talib (que Allah esteja satisfeito com ele), acompanhado dos soldados muçulmanos, foi até diante da fortaleza e convidou os judeus ao Islã. Eles rejeitaram o convite ao Islã. Sob a liderança de seu rei Marhab, levantaram-se para enfrentar os muçulmanos.
Ao chegar ao campo de batalha, um guerreiro chamado Marhab desafiou alguém para um combate individual. Segundo o relato de Salama ibn al-Akwa, isso é mencionado da seguinte maneira: depois que chegamos a Khaybar, Marhab, o rei dos habitantes de Khaybar, avançou empunhando a espada e exibindo orgulho. Em sua voz, recitou com arrogância estes versos:
“Khaybar sabe: Marhab, eu sou
único, equipado com armas, um herói na arte da guerra,
faço uso da experiência; quando o fogo da guerra se ergue, ele arde.”
Para enfrentá-lo, meu tio Hazrat Amir (que Allah esteja satisfeito com ele) avançou. Ele recitou:
“Khaybar sabe que meu nome é Amir
um bravo guerreiro armado para a batalha.”
Depois de se enfrentarem, cada um golpeou o outro. A espada afiada de Marhab atingiu o escudo de meu tio Amir. Meu tio também tentou golpear o judeu Marhab por baixo, mas a espada era curta. Quando tentou atingir a coxa de Marhab, a espada ricocheteou e atingiu o próprio joelho. Por fim, ele morreu devido a esse golpe. O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, levantou dois de seus dedos sagrados e disse: “Ele receberá dois tipos de recompensa.” Hazrat Amir (que Allah esteja satisfeito com ele) era um mujahid excepcionalmente habilidoso na guerra. Poucos heróis árabes como ele surgiram no mundo. [Sahih Muslim, capítulo sobre a Batalha de Khaybar, vol. 2, p. 122; Ghazwa Dhi Qarad, vol. 2, p. 115; Sahih Bukhari, capítulo sobre a Batalha de Khaybar, vol. 2, p. 603]
Depois que Hazrat Amir (que Allah esteja satisfeito com ele) foi ferido, Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) avançou para enfrentar Marhab. Ele recitava este poema:
“Sabes quem sou? Minha mãe chamou-me
Haydar
Sou terrível como um leão da floresta
Golpearei; meu golpe será mais contundente.”
Em seguida, Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) desferiu um golpe no pescoço de Marhab, que o derrubou ali mesmo. A vitória foi alcançada pelas mãos de Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele). [Há divergência quanto à identidade do assassino de Marhab. Também há divergência sobre a data em que ele foi morto e sobre a data em que essa fortaleza foi conquistada. Existem diferenças entre os relatos de Sahih al-Bukhari e Sahih Muslim. O relato acima foi apresentado de acordo com Sahih al-Bukhari.]
Durante a batalha, quando Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) se aproximou de uma das fortalezas dos judeus, um judeu perguntou do alto da fortaleza: “Quem és tu?” Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) respondeu: “Sou Ali ibn Abu Talib.” O judeu disse: “Pelo Livro revelado a Hazrat Musa, vocês foram derrotados.” Em seguida, Yasir, irmão de Marhab, avançou e disse: “Quem há para me enfrentar?” Hazrat Zubayr (que Allah esteja satisfeito com ele) aceitou o desafio.
Ao ver essa cena, Hazrat Safiyya (que Allah esteja satisfeito com ela), mãe de Hazrat Zubayr (que Allah esteja satisfeito com ele), disse: “Ó Mensageiro de Allah, meu filho será morto?” O Mensageiro de Allah respondeu: “Não; pelo contrário, teu filho o matará.” Por fim, Hazrat Zubayr (que Allah esteja satisfeito com ele) matou Yasir.
Depois disso, houve uma batalha feroz perto da fortaleza de Na’im. Os demais judeus não tiveram coragem de enfrentar os muçulmanos. Algumas obras mencionam que essa batalha durou vários dias e que os muçulmanos tiveram de fazer um grande esforço. Ainda assim, os judeus não conseguiram derrotar os muçulmanos. Por isso, abandonaram secretamente a fortaleza e fugiram para a fortaleza de Sa’b. Então, os muçulmanos tomaram facilmente a fortaleza de Na’im.
Conquista da fortaleza de Sa’b ibn Mu’adh
Depois da conquista da fortaleza de Na’im, a fortaleza de Sa’b era a segunda mais inexpugnável em termos de segurança e força. Os muçulmanos atacaram essa fortaleza sob a liderança de Hazrat Hubab ibn al-Mundhir al-Ansari (que Allah esteja satisfeito com ele) e mantiveram-na sitiada durante três dias. No terceiro dia, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) fez uma súplica especial pela conquista dessa fortaleza.
Ibn Ishaq narra que os membros dos Banu Sahm, um ramo da tribo de Aslam, compareceram diante do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e disseram: “Estamos completamente exaustos e não temos nada.” O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse ao Misericordiosíssimo: “Ó Allah, Tu conheces a situação deles. Sabes que não têm força e que não tenho nada para lhes dar. Ó Allah, ajuda-nos, fazendo-nos conquistar uma fortaleza dos judeus cuja conquista seja mais proveitosa para nós, uma fortaleza onde haja a maior quantidade de provisões e gordura.” Depois dessa súplica do Mensageiro de Allah, os Companheiros atacaram. Allah, Senhor dos mundos, concedeu aos muçulmanos a honra de conquistar a fortaleza de Sa’b ibn Mu’adh. Nenhuma outra fortaleza de Khaybar possuía mais provisões e gordura do que essa. [Ibn Hisham, volume 2, p. 232]
Depois de fazer a súplica, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) deu instruções aos muçulmanos a respeito dessa fortaleza. Os membros da tribo Banu Aslam foram os primeiros a cumprir as instruções. Ali, diante da fortaleza, travou-se uma batalha feroz entre os dois lados. Ainda assim, foi possível conquistá-la antes do pôr do sol daquele mesmo dia. Os muçulmanos encontraram na fortaleza armas de arremesso e tanques feitos de madeira. [Aqui foi usada a palavra “dababa”, que significa tanque. As pessoas podiam entrar numa carroça fechada e segura, feita de madeira, aproximar-se das muralhas da fortaleza e proteger-se dos ataques do inimigo. Ela também dispunha de um mecanismo para abrir grandes brechas na muralha.]
Na narrativa de Ibn Ishaq, é relatada uma batalha intensa nesse episódio. Depois da conquista da fortaleza, os muçulmanos abateram jumentos e puseram panelas sobre os fogões. Ao tomar conhecimento disso, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) proibiu o consumo da carne de jumentos domésticos.
A conquista da fortaleza de Zubair
Depois da conquista das fortalezas de Na’im e Saba, os judeus saíram de todas as fortalezas de Najat e reuniram-se na fortaleza de Zubair. Era uma fortaleza segura e bem protegida. Situada no cume de uma montanha, o caminho para subir até ela era extremamente difícil. Não era possível subir levando qualquer montaria, e até mesmo subir a pé era muito árduo. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) manteve a fortaleza sob cerco durante três dias. Então, um judeu compassivo aproximou-se e disse: “Ó Abu al-Qasim, mesmo que mantenha a fortaleza cercada durante um mês, os judeus não se importarão. No entanto, a fonte de água deles fica abaixo. À noite, eles descem para beber e levam consigo a água necessária para todo o dia. Se você conseguir cortar o acesso deles à água, eles se submeterão.” Ao receber essa informação, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) cortou o acesso deles à água. Então os judeus perceberam a gravidade da situação. Desceram e envolveram-se numa batalha feroz. Alguns muçulmanos também alcançaram o martírio, e dez judeus criminosos foram mortos. Por fim, essa fortaleza também caiu.
A conquista da fortaleza de Ubay
Após a queda da fortaleza de Zubair, os judeus foram reunir-se na fortaleza de Ubay. Os muçulmanos também cercaram essa fortaleza. Dessa vez, dois judeus, orgulhosos de sua força, desafiaram sucessivamente os adversários para um combate. Ambos foram mortos pelas mãos dos muçulmanos. O segundo judeu foi morto pelo famoso guerreiro e companheiro do Profeta, Abu Dujana Sammak ibn Kharasha al-Ansari (que Allah esteja satisfeito com ele), conhecido por usar uma faixa vermelha. Depois de matar o segundo judeu, ele entrou rapidamente na fortaleza.
Os companheiros também entraram com ele e atacaram o adversário. Depois de uma batalha feroz que durou algum tempo, os judeus começaram a retirar-se da fortaleza. Por fim, todos se reuniram na fortaleza de Nizar. A fortaleza de Nizar era a última fortaleza da primeira parte de Khaybar.
A conquista da fortaleza de Nizar
Essa fortaleza também era bem protegida e segura. Os judeus tinham plena convicção de que os muçulmanos não conseguiriam entrar nela, por mais determinado que fosse seu esforço. Por isso, reuniram nela as mulheres e as crianças, em vez de colocá-las em alguma outra fortaleza.
Os muçulmanos impuseram um rigoroso cerco à fortaleza e exerceram pressão sobre os judeus. Como a fortaleza estava situada numa região montanhosa elevada, os muçulmanos não conseguiram obter vantagem para entrar nela. Os judeus também não tinham coragem de sair da fortaleza para enfrentar os muçulmanos. Contudo, continuavam oferecendo intensa resistência, lançando flechas e pedras do alto.
Como era difícil conquistar a fortaleza de Nizar, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) ordenou o emprego de máquinas de arremesso. Vários projéteis foram lançados, abrindo um buraco na muralha da fortaleza. Os muçulmanos entraram por essa abertura. Em seguida, travou-se uma batalha feroz entre os dois lados no interior da fortaleza. Os judeus foram derrotados no combate. Assim como nas outras fortalezas, os judeus escaparam furtivamente também desta, salvando a própria vida ao deixar as mulheres e as crianças à mercê da misericórdia dos muçulmanos.
Com a conquista dessa fortaleza sólida, os muçulmanos conquistaram a primeira metade de Khaybar, isto é, as regiões de Najat e Shaqq. Havia ali também várias outras pequenas fortalezas. Porém, após a queda dessa fortaleza, os judeus evacuaram igualmente as demais fortalezas e fugiram em direção a Qatiba, a segunda parte de Khaybar.
A conquista da segunda parte de Khaybar
Depois da conquista das regiões de Natat e Shaqq, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) partiu em direção às regiões de Qutaiba, Atiha e Salalim. Salalim era a fortaleza do notório judeu Abu al-Huqaiq, dos Banu Nadir. Enquanto isso, todos os judeus que haviam fugido das regiões de Natat e Shaqq também chegaram ali e fecharam os portões da fortaleza.
Há divergências nos livros que contêm relatos sobre as guerras quanto a qual das três fortalezas desta região foi palco de combate. No relato de Ibn Ishaq, menciona-se claramente que houve combate para conquistar a fortaleza de Qamus. O próprio relato também indica que essa fortaleza foi conquistada por meio de combate. Da parte dos judeus, tampouco houve ali negociações para uma rendição. [Ibn Hisham, volume 2, pp. 331, 336 e 337]
Al-Waqidi escreveu em termos claros que as três fortalezas desta região foram entregues aos muçulmanos por meio de negociações. É possível que, após algum combate, tenham ocorrido negociações para a entrega da fortaleza de Qamus. Quanto às outras duas fortalezas, porém, foram entregues aos muçulmanos sem combate.
Após a chegada do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, a esta região, isto é, Qutayba, ele impôs um rigoroso cerco aos seus habitantes. O cerco continuou por quatorze dias. Os judeus não saíam de sua fortaleza. Então, o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, ordenou o posicionamento de máquinas de arremesso. Quando os judeus compreenderam que sua destruição era inevitável sob a chuva de projéteis, aproximaram-se para negociar uma trégua com o Mensageiro de Allah.
Negociações da trégua
Primeiro, Ibn Abu al-Huqayq enviou uma mensagem ao Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele: «Posso ir falar com você?» O Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, respondeu: «Sim.» Depois de receber permissão, Abu al-Huqayq apresentou uma proposta de trégua sob a condição de que fosse concedido perdão aos soldados que estavam na fortaleza e que suas esposas, filhos e filhas permanecessem com eles. Ou seja, eles não seriam mantidos cativos como escravos e servas dos muçulmanos. Eles entregariam ao Mensageiro de Allah todos os seus bens — ouro, prata, terras, cavalos, armaduras e tudo o mais — e sairiam levando apenas as roupas que vestiam. [Está mencionado em Sunan Abu Dawud que o Mensageiro de Allah concordou com a condição de que os judeus levassem consigo, sobre suas montarias, tantos bens quanto pudessem. Veja Abu Dawud, volume 2, seção sobre Khaybar, p. 76.] Ao ouvir a proposta, o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: «Se esconderdes alguma coisa, Allah, o Altíssimo, e Seu Mensageiro não serão responsáveis por isso.» Os judeus aceitaram essa condição, e a trégua foi concluída. Assim, a conquista de Khaybar foi definitivamente consolidada.
A traição e sua punição
Violando as condições da trégua, os dois filhos de Abu al-Huqayq esconderam uma grande quantidade de riquezas. Eles esconderam um recipiente de couro que continha riquezas e as joias de Huyayy ibn Akhtab. Huyayy ibn Akhtab havia trazido essas joias consigo quando os Banu Nadir foram expulsos de Medina.
Ibn Ishaq escreveu que Kinana ibn Abu al-Huqayq foi levado diante do Mensageiro de Allah. Ele tinha consigo o tesouro dos Banu Nadir. Contudo, quando o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, o interrogou, ele negou categoricamente. Quando lhe perguntaram onde as riquezas estavam escondidas, respondeu que não sabia. Mais tarde, um judeu veio informar: «Vi Kinana perambulando todos os dias por uma área abandonada.» Ao receber essa informação, o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse a Kinana: «Se um tesouro for encontrado em teu poder, nós te mataremos. Dize-me: estás de acordo com isso?» Kinana respondeu: «Sim, estou de acordo.» Então, o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, ordenou que a área abandonada indicada fosse escavada. Ali foram encontradas algumas riquezas. Em resposta à pergunta do Mensageiro de Allah sobre o restante dos bens, ele declarou que nada sabia. O Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, entregou Kinana a Zubayr — que Allah esteja satisfeito com ele — e disse: «Pune-o, para que tudo o que estiver com ele chegue às nossas mãos.» Zubayr — que Allah esteja satisfeito com ele — puniu Kinana severamente. Ele ficou à beira da morte, mas ainda assim não abriu a boca. Depois, o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, entregou o criminoso a Muhammad ibn Maslamah, que o matou em retaliação pelo assassinato de seu irmão, Mahmud ibn Maslamah. É importante mencionar que Mahmud estava sentado à sombra de uma árvore perto da fortaleza de Na’im quando, de repente, esse criminoso judeu, Kinana, lançou uma mó de cima e matou Mahmud.
Ibn al-Qayyim relatou que o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, mandou matar os dois filhos de Abu al-Huqayq, pois o primo de Kinana testemunhou contra ambos, afirmando que haviam escondido riquezas.
Depois, o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, tomou como cativa Safiyya, filha de Huyayy ibn Akhtab. Ela estava sob a autoridade de Kinana ibn Abu al-Huqayq. Naquela época, ela ainda era recém-casada. Foi afastada dele nesse mesmo estado. [1616]
Distribuição dos espólios de guerra
O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, desejou expulsar os judeus de Khaybar. Isso também foi incluído no tratado. Mas os judeus disseram: “Ó Muhammad, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, permita-nos permanecer nesta terra; nós cuidaremos dela. Conhecemos este território melhor do que vocês.”
Por outro lado, o Mensageiro de Allah não dispunha de escravos em número suficiente para cultivar e cuidar daquela terra. Também não havia Companheiros suficientes para realizar esse trabalho. Por essas razões, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, entregou aos judeus as terras de Khaybar em regime de parceria agrícola. Isso foi feito sob a condição de que os muçulmanos receberiam metade da colheita produzida. Os judeus teriam essa oportunidade enquanto o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, desejasse; e, quando quisesse, poderia expulsá-los. Em seguida, Abdullah ibn Rawahah foi nomeado administrador das terras de Khaybar.
A distribuição de Khaybar foi feita da seguinte maneira: o total das terras foi dividido em 36 partes. Cada parte era composta por cem quinhões. Assim, o total das terras foi dividido em 3.600 quinhões. Metade deles, isto é, 1.800 quinhões, pertencia aos muçulmanos. Assim como os muçulmanos comuns, o Mensageiro de Allah também tinha apenas um quinhão. Os 1.800 quinhões restantes foram separados pelo Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, para as necessidades coletivas dos muçulmanos e para enfrentar quaisquer problemas imprevistos. A finalidade de dividir em 1.800 quinhões era que as terras de Khaybar constituíam um dom especial de Allah para aqueles que haviam participado de Hudaybiyyah.
Essa distribuição era aplicável a todos, presentes e ausentes. O número dos participantes de Hudaybiyyah era de mil e quatrocentos. Ao chegarem a Khaybar, eles haviam trazido consigo duzentos cavalos. Até mesmo para um cavalo sem cavaleiro era destinada uma parte. A parte do cavalo era o dobro da de um soldado. Por isso, Khaybar foi dividida em mil e oitocentas partes. Assim, cada cavaleiro recebeu três partes, totalizando seiscentas partes, enquanto os mil e duzentos soldados a pé receberam mil e duzentas partes. [Zad al-Ma’ad, vol. 2, pp. 137–138]
Um hadith de Sahih al-Bukhari relata a abundância dos espólios obtidos em Khaybar. Marbi ibn Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: “Até a conquista de Khaybar, não conseguíamos ficar satisfeitos.” Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela, disse: “Após a conquista de Khaybar, dissemos uns aos outros: ‘A partir de agora, poderemos comer tâmaras até nos saciarmos.’” [Sahih al-Bukhari, vol. 3, p. 609]
Depois que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, retornou a Medina, os Muhajirun devolveram aos Ansar as tamareiras que estes lhes haviam dado. Isso porque, em Khaybar, eles haviam adquirido riquezas e a propriedade de tamareiras. [Zad al-Ma’ad, vol. 2, p. 128; Sahih Muslim, vol. 2, p. 96]
A chegada de alguns Companheiros
Nesta batalha, Hazrat Ja‘far ibn Abu Talib apresentou-se ao serviço do Mensageiro de Allah ﷺ. Com ele estavam os muçulmanos ash‘aritas, isto é, Hazrat Abu Musa al-Ash‘ari (que Allah esteja satisfeito com ele), além de seus amigos e companheiros.
Hazrat Abu Musa al-Ash‘ari (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Enquanto eu estava no Iêmen, soube da aparição do Mensageiro de Allah. Eu e meus dois irmãos embarcamos num navio com cinquenta homens de nossa tribo e partimos para nos apresentar ao Mensageiro de Allah. Porém, o navio nos levou à Abissínia. Ali encontramos Hazrat Ja‘far (que Allah esteja satisfeito com ele) e seus companheiros. Eles nos informaram que o Mensageiro de Allah ﷺ os havia enviado e lhes ordenara que permanecessem na Abissínia, dizendo: ‘Fiquem também comigo’. Assim, permanecemos ali. Depois que o Mensageiro de Allah ﷺ conquistou Khaybar, fomos apresentar-nos a ele. Ele também nos concedeu uma parte. Além de nós, nenhum outro muçulmano que estivesse ausente de Khaybar recebeu uma parte de Khaybar. Somente os participantes da batalha receberam uma parte dos espólios. Os marinheiros de nosso navio também receberam uma parte, juntamente com Hazrat Ja‘far e seus companheiros. Os espólios foram distribuídos entre todos eles.” [Bukhari, volume 1; Fath al-Bari, volume 4]
O casamento com Hazrat Safiyyah
Já foi mencionado que Hazrat Safiyyah foi incluída entre as mulheres cativas depois que seu marido foi morto sob a acusação de traição. Após reunir as mulheres cativas, Hazrat Dihyah ibn Khalifah al-Kalbi (que Allah esteja satisfeito com ele) pediu ao Mensageiro de Allah uma escrava. O Mensageiro de Allah ﷺ disse: “Vá e escolha uma”. Hazrat Dihyah escolheu Hazrat Safiyyah. Então um homem veio e disse: “Ó Mensageiro de Allah, você designou para Dihyah a líder das tribos Banu Qurayzah e Banu Nadir, embora ela seja digna exclusivamente de você”. O Mensageiro de Allah ﷺ disse: “Traga ambos aqui”. Ambos compareceram. O Mensageiro de Allah ﷺ disse a Hazrat Dihyah: “Escolha outra escrava”. Quando o Mensageiro de Allah ﷺ convidou Hazrat Safiyyah ao Islam, ela aceitou o Islam de coração alegre. Então ele a libertou e fez de sua libertação o seu mahr, casando-se com ela. A caminho de Medina, Hazrat Umm Sulaym (que Allah esteja satisfeito com ela) adornou Hazrat Safiyyah. Na manhã seguinte, o Mensageiro de Allah ﷺ ofereceu aos Companheiros uma refeição de tâmaras, manteiga clarificada e sawiq. [Sahih Bukhari, volume 1, p. 54; Zad al-Ma‘ad, volume 2, p. 137] Ao ver uma marca no rosto de Hazrat Safiyyah, o Mensageiro de Allah ﷺ perguntou-lhe a causa. Hazrat Safiyyah disse: “Ó Mensageiro de Allah, antes de você partir para Khaybar, sonhei que a lua caiu do céu no meu colo. Quando contei esse sonho ao meu marido pela manhã, ele me deu uma bofetada e disse: ‘Você deseja obter o rei de Medina?’” [Sahih Bukhari; Zad al-Ma‘ad; Ibn Hisham]
O episódio da carne envenenada
Após a conquista de Khaybar, o Mensageiro de Allah ﷺ sentiu-se seguro. Nessa ocasião, Zaynab bint al-Harith, esposa de Salam ibn Mishkam, enviou-lhe como presente carne assada de uma ovelha. Antes, a mulher havia procurado saber de qual parte da ovelha o Mensageiro de Allah mais gostava. Ao descobrir isso, colocou uma grande quantidade de veneno na parte preferida, e também pôs veneno nas demais partes. Depois, colocou a carne envenenada diante do Mensageiro de Allah. O Mensageiro de Allah ﷺ colocou na boca um pedaço da parte de que gostava, mas o cuspiu assim que o mastigou. Em seguida, disse: “Este osso que você vê está me informando que há veneno em mim”. Zaynab foi chamada e interrogada, e confessou. Ele disse: “Por que fez isso?” A mulher respondeu: “Pensei que, se esse homem fosse um rei, ficaríamos livres do seu governo; e, se fosse um profeta, ele seria informado de que eu havia colocado veneno”. Ao ouvir essa confissão franca, o Mensageiro de Allah ﷺ perdoou a mulher.
Hazrat Bashar ibn al-Bara ibn Ma‘rur também estava com o Mensageiro de Allah durante esse episódio. Ele comeu uma bocada e morreu envenenado.
Há divergência quanto a saber se o Mensageiro de Allah ﷺ perdoou ou matou aquela mulher. A conciliação entre os diversos relatos foi feita da seguinte maneira: embora inicialmente o Mensageiro de Allah ﷺ a tenha perdoado, depois da morte de Hazrat Bashar ordenou que ela fosse morta como retribuição legal (qisas). [Zad al-Ma‘ad, volume 2, p. 139; Fath al-Bari, volume 7, p. 497; Ibn Hisham, volume 2, p. 337]
Os mortos na batalha de Khaybar
Nesta expedição, em diferentes momentos, 16 pessoas foram martirizadas. Entre elas, havia quatro coraixitas, um da tribo de Ashja, um da tribo de Aslam, um habitante de Khaybar e nove ansar.
Segundo outro relato, ao todo 18 pessoas foram martirizadas nesta expedição. O Allama Mansurpurī registrou o número de 19. Contudo, ele também mencionou em certa passagem que os autores de biografias registraram 15 pessoas. Após investigar, encontrei os nomes de 23 pessoas. O nome de Janif ibn Wā’ila foi mencionado somente por Wāqidī. Já o nome de Janif ibn Hanīf foi mencionado por Tabarī. Bashar ibn Barā ibn Ma‘rūr faleceu depois da batalha, em consequência de ter comido carne envenenada. Há dois relatos sobre Bashar ibn ‘Abd al-Mundhir. Um deles afirma que ele foi martirizado na batalha de Badr; o outro afirma que foi martirizado na batalha de Khaybar. Na minha opinião, o primeiro relato é mais confiável. [Zād al-Ma‘ād, vol. 2, p. 139; Fath al-Bārī, vol. 7, p. 497; Ibn Hishām, vol. 2, p. 337] Quanto aos judeus mortos, seu número foi 93.
Fadak
Ao chegar a Khaybar, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) enviou Muhayyisa ibn Mas‘ud para convidar seus habitantes ao Islã. Contudo, os habitantes de Fadak demoraram a aceitar o Islã. Depois que Khaybar passou ao domínio dos muçulmanos, isso teve efeito entre os habitantes de Fadak, que enviaram uma delegação ao Mensageiro de Allah e propuseram um acordo sob a condição de entregar metade da produção agrícola, como em Khaybar. O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) aceitou. Assim, as terras de Fadak ficaram especialmente destinadas ao Mensageiro de Allah, pois os muçulmanos não haviam partido em expedição contra Fadak; isto é, Fadak não foi conquistada pela força da espada. [Ibn Hishām, vol. 1, p. 337]
Wādī al-Qurā
Depois de concluir a expedição de Khaybar, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) partiu em direção a Wādī al-Qurā. Ali também havia um grupo de judeus, ao qual se juntou outro grupo de árabes. Quando os muçulmanos chegaram, os judeus os receberam com flechas. Eles já estavam alinhados. Um servo do Mensageiro de Allah morreu atingido pelas flechas dos judeus. Os Companheiros disseram: “Que o Paraíso seja abençoado para ele.” O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: “De modo algum. Juro por Aquele em cuja mão está a minha vida: a manta que o servo roubou dos espólios da batalha de Khaybar antes de sua distribuição está agora ao seu redor como fogo.” [Sahih al-Bukhari, vol. 2, p. 607]
Em seguida, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) organizou os Companheiros para a batalha. Sa‘d ibn ‘Ubādah foi nomeado comandante. Um estandarte foi entregue a Hubāb ibn al-Mundhir, e outro a ‘Ubādah ibn Bishr. Depois, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) apresentou o convite ao Islã aos judeus. Eles não o aceitaram. Um deles avançou para lutar. Da parte dos muçulmanos, Zubayr ibn al-‘Awwām avançou e matou o judeu. Quando outro judeu avançou, Zubayr também o matou. Quando um terceiro judeu avançou, ‘Alī avançou para enfrentá-lo e também o matou. Assim, 11 judeus foram mortos sucessivamente. Cada vez que um judeu era morto, o Mensageiro de Allah convidava os demais judeus ao Islã.
Quando chegava a hora da oração, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, realizava a oração acompanhado pelos nobres Companheiros. Depois, enfrentava os judeus e os convidava ao Islam. Assim, enquanto combatiam, chegou o entardecer. Na manhã seguinte, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, voltou a apresentar-se com os Companheiros para enfrentar os judeus. O sol ainda não havia subido muito no céu. Foi então que os judeus se renderam e entregaram os bens do espólio.
O Mensageiro de Allah permaneceu quatro dias em Wadi al-Qura. Distribuiu entre os Companheiros os bens e riquezas obtidos na guerra. Contudo, deixou as terras e os pomares de tamareiras nas mãos dos judeus. Sobre isso, foi firmado um acordo semelhante ao celebrado com os judeus de Khaybar. [Zad al-Ma’ad, vol. 2, pp. 146–147]
Tayma
Os judeus de Tayma receberam a notícia da derrota e da rendição dos judeus de Khaybar, Fadak e Wadi al-Qura, ou da região de Qura. Depois, eles próprios enviaram uma delegação e propuseram um tratado de paz. O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, aceitou a proposta. [Mesma obra, mesma página] O Mensageiro de Allah também mandou redigir um acordo a esse respeito. O acordo estabelecia o seguinte: este documento é do Mensageiro de Allah, Muhammad, para os Banū Tayma. Eles terão garantia e proteção; deverão pagar a jizya. Não serão tratados injustamente nem serão expulsos do país. Este acordo será considerado permanente. As cláusulas do documento foram escritas por Khalid ibn Sa’id, que Allah esteja satisfeito com ele.
Retorno a Medina
Depois disso, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, partiu em direção a Medina. Durante o retorno, ao chegarem perto de uma planície, os Companheiros proferiram o takbir em voz alta. Eles diziam: “Allahu Akbar, Allahu Akbar, não há divindade além de Allah.” O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Não há necessidade de elevar tanto a voz. Vocês não estão chamando alguém surdo ou ausente; estão chamando Aquele que ouve e está próximo.”
No caminho de volta, depois de viajar durante toda a noite, descansaram em um lugar no fim da noite. O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, havia dito a Bilal: “Você permanecerá acordado e nos despertará na hora da oração do fajr.” Bilal, que Allah esteja satisfeito com ele, sentou-se inclinado contra sua montaria, voltado para o leste. Porém, vencido pelo cansaço da viagem, também adormeceu em certo momento. Ninguém conseguiu acordar na hora da oração. O Mensageiro de Allah foi o primeiro a despertar. Ele acordou os Companheiros e avançou um pouco daquele lugar. Depois, realizou a oração do fajr com os Companheiros. Diz-se que esse acontecimento ocorreu durante a segunda viagem. [Ibn Hisham, vol. 2, p. 340]
Ao observar a sequência dos acontecimentos de Khaybar, percebe-se que o Mensageiro de Allah retornou no mês de Rabi al-Awwal, no final do mês de Safar do sétimo ano da Hégira.
Expedição de Aban ibn Sa’id
O Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, sabia muito bem que deixar Medina desprotegida após o término dos meses sagrados não era sinal de prudência e sabedoria. Isso porque havia muitos beduínos nos arredores de Medina que aguardavam a desatenção dos muçulmanos para saquear e praticar banditismo. Por essa razão, quando partiu para a expedição de Khaybar, o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, enviou uma força militar em direção a Najd, sob o comando de Aban ibn Sa’id (que Allah esteja satisfeito com ele), para manter os beduínos atemorizados. Ao retornar, depois de cumprir sua missão, Aban ibn Sa’id encontrou o Mensageiro de Allah em Khaybar. Naquele momento, Khaybar já havia sido conquistada.
Essa sariyya, ou seja, essa pequena expedição militar, foi enviada no mês de Safar do sétimo ano da Hégira. Esse acontecimento é mencionado no Sahih al-Bukhari. [Al-Bukhari, capítulo da batalha de Khaybar, vol. 2, pp. 608–609] Contudo, Hafiz Ibn Hajar al-Asqalani escreveu: “Não consegui encontrar nenhuma informação sobre essa expedição militar.” [Fath al-Bari, vol. 7, p. 491]
A expedição de Dhat ar-Riqa
Depois de colocar sob seu controle duas das três forças da trincheira, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, teve a oportunidade de voltar sua atenção para a terceira força. Eram os beduínos. Eles viviam em tendas nas planícies de Najd. O saque era a fonte de seu sustento.
Os beduínos não eram habitantes de nenhuma região povoada ou cidade. Não viviam em casas nem em fortalezas. Por isso, ao contrário dos habitantes de Meca e de Khaybar, era difícil controlá-los e extinguir completamente o fogo do banditismo entre eles. Era necessário apenas realizar uma ação que os deixasse amedrontados.
Com o objetivo de influenciar todos esses beduínos e dispersar os beduínos reunidos nos arredores de Medina, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, conduziu uma expedição de caráter instrutivo. Essa expedição ficou conhecida como a expedição de Dhat ar-Riqa.
Os biógrafos do Profeta mencionaram que essa expedição foi realizada no quarto ano da Hégira. Contudo, o Imam al-Bukhari (que Allah tenha misericórdia dele) mencionou que ela foi realizada no sétimo ano da Hégira. O fato de Abu Hurayra (que Allah esteja satisfeito com ele) e Abu Musa al-Ash’ari (que Allah esteja satisfeito com ele) terem participado dessa expedição prova claramente que esse acontecimento ocorreu depois da batalha de Khaybar. Isso porque Abu Hurayra foi a Medina e aceitou o Islã depois que o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, já havia partido para a expedição de Khaybar. Depois, ele foi a Khaybar e encontrou-se com o Mensageiro de Allah. Até então, a conquista de Khaybar já havia sido concluída. Abu Musa al-Ash’ari também chegou a Khaybar vindo da Abissínia para junto do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, em algum momento depois da conquista de Khaybar.
O resumo do que os autores da Sira mencionaram sobre esta expedição é o seguinte: ao saber que dois ramos dos Ansar, ou seja, Banu Gatafã — Banu Tha’laba e Banu Muharib — haviam se reunido, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, confiou a administração de Medina a Abu Dharr al-Ghifari — segundo outra versão, a Uthman ibn Affan — que Allah esteja satisfeito com ambos. Depois, partiu em direção a Najd com quatrocentos — segundo outra versão, setecentos — Companheiros. Ao chegarem a Nakhlah, a dois dias de viagem de Medina, encontraram um grupo do povo de Banu Gatafã. Contudo, não houve combate. O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, realizou ali a oração do medo.
É narrado no Sahih al-Bukhari, por Abu Musa al-Ash’ari — que Allah esteja satisfeito com ele —, que ele disse: “Saímos com o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Éramos seis pessoas e tínhamos apenas um camelo. Montávamos nele alternadamente. Como caminhávamos muito, nossos pés ficaram cheios de bolhas. Meus dois pés ficaram feridos e minhas unhas foram machucadas. Por isso, enfaixamos os pés. Dhat ar-Riqa significa ‘a que tem faixas’, pois durante essa expedição enfaixamos os pés.” [Sahih al-Bukhari, capítulo da expedição de Dhat ar-Riqa, vol. 2, p. 592; Sahih Muslim, capítulo de Dhat ar-Riqa, vol. 2, p. 118]
É narrado no Sahih al-Bukhari, por Jabir — que Allah esteja satisfeito com ele —, que disse: “Estávamos com o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, durante a expedição de Dhat ar-Riqa. Quando chegávamos a uma árvore que proporcionava sombra, deixávamos sua sombra para o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Certa vez, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, descansava sob uma árvore frondosa, enquanto os Companheiros haviam se espalhado para todos os lados. Ele pendurou sua espada num galho e, enquanto descansava, adormeceu. Jabir disse: ‘Todos nós também adormecemos. Nesse ínterim, um politeísta veio, pegou a espada do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, e disse: “Você tem medo de mim?” O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, respondeu com voz firme: “Não, de modo algum.” O politeísta disse: “Quem o protegerá de mim?” O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, respondeu: “Allah, o Altíssimo.”’
Jabir — que Allah esteja satisfeito com ele — disse: “O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, chamou-nos. Fomos até ele e vimos um homem desconhecido sentado com uma espada na mão. O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: ‘Eu estava deitado quando esse homem pegou minha espada e me disse: “Quem o protegerá de mim?” Eu respondi: “Allah me protegerá.” Este é o homem.’ Depois disso, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, não lhe dirigiu nenhuma palavra ofensiva.”
Na narração de Abu Awana, acrescenta-se que, assim que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse que Allah, o Altíssimo, o protegeria, a espada caiu da mão do homem. Então o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, pegou a espada e disse ao homem: “Agora diga: quem o protegerá?” O homem respondeu: “Espero contar com sua misericórdia.” O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Testemunhe que não há divindade além de Allah e que Muhammad, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, é Seu Mensageiro.” O homem disse: “Comprometo-me diante de você a não lutar contra você nem ajudar de modo algum aqueles que lutarem contra você.” Jabir — que Allah esteja satisfeito com ele — mencionou que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, posteriormente o libertou. O homem foi até seu povo e disse: “Venho até vocês da presença do melhor dos homens.” [Mukhtasar as-Sira, Shaykh Abdullah an-Najdi, p. 264; Fath al-Bari, vol. 7, p. 416]
É mencionado numa narração do Sahih al-Bukhari que foi feito o chamado para o início da oração, e o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, conduziu um grupo de Companheiros em duas rak’ahs. Depois, eles se retiraram para trás, e ele conduziu outro grupo de Companheiros em duas rak’ahs. Assim, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, realizou quatro rak’ahs, enquanto os Companheiros realizaram duas rak’ahs. [Sahih al-Bukhari, vol. 1, pp. 407–408; vol. 2, p. 593] Pela sequência dessa narração, entende-se que essa oração foi realizada imediatamente após o acontecimento mencionado.
É mencionado na narração do Sahih al-Bukhari que o nome desse homem era Ghawrath ibn al-Harith. Essa narração foi transmitida por Musaddad, de Abu Awana, e por Abu Awana, de Abu Bishr. [Sahih al-Bukhari, vol. 2, p. 593]
Ibn Hajar al-Asqalani disse: ao fornecer os detalhes desse acontecimento, al-Waqidi afirmou que o nome daquele beduíno era Dasur e que ele havia aceitado o Islã. Contudo, pelas palavras de al-Waqidi, entende-se que os dois acontecimentos ocorreram em momentos distintos. Esses dois acontecimentos ocorreram durante duas batalhas diferentes. Allah sabe melhor. [Fath al-Bari, vol. 7, p. 428]
Ao regressarem desta expedição, os Companheiros Nobres capturaram uma mulher politeísta. Ao saber disso, o marido da mulher jurou que faria correr o sangue de um dos Companheiros Nobres. Ele veio à noite para cumprir seu juramento. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, havia encarregado Ubbad ibn Bishr e Ammar ibn Yasir de proteger os muçulmanos contra os inimigos. Quando o homem chegou, Ubbad estava realizando a oração. Nessa situação, o inimigo disparou uma flecha contra ele. Sem interromper a oração, ele a retirou de um só movimento. O homem disparou uma segunda flecha e, depois, uma terceira. Todas as vezes, ele retirou as flechas. Depois de concluir a oração com a saudação final, despertou seu companheiro e contou-lhe tudo. Seu companheiro, Ammar ibn Yasir, surpreso, perguntou: “Por que você não me despertou?” Ele respondeu: “Eu estava recitando uma surata e não queria terminar a oração antes de concluir sua recitação.” [Zad al-Ma’ad, vol. 2, p. 112. Para detalhes sobre esta batalha, consulte Ibn Hisham, vol. 2, pp. 203 e 209; Zad al-Ma’ad, vol. 2, pp. 110, 111 e 112; Fath al-Bari, vol. 7, pp. 417 e 428.]
Esta batalha foi muito eficaz para influenciar e aterrorizar os beduínos árabes de coração duro, isto é, os nômades. Ao observar as expedições que ocorreram posteriormente, vê-se que, depois desta expedição, as tribos de Ghatafan não tiveram coragem de voltar a se levantar. Aos poucos, enfraqueceram e perderam suas forças, até que finalmente aceitaram o Islã. Algumas dessas tribos árabes foram vistas junto dos muçulmanos na conquista de Meca e na batalha de Hunayn. Também lhes foi concedida uma parte dos espólios. Depois do regresso da conquista de Meca, funcionários do Estado islâmico foram enviados para recolher deles o zakat, e eles pagaram devidamente o zakat. Em suma, como resultado da estratégia do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, as três forças que haviam se colocado contra os muçulmanos na batalha da Trincheira foram completamente esmagadas. Como consequência, a paz e a segurança se espalharam por toda a região. Depois disso, algumas tribos causaram tumultos em diferentes áreas, mas os muçulmanos facilmente as subjugaram. Foi somente depois desta expedição que o caminho para os muçulmanos conquistarem grandes cidades e países começou a se abrir. Isso ocorreu porque, após esta expedição, a situação interna do país passou a favorecer o Islã e os muçulmanos.
Algumas sariyyas do sétimo ano da Hégira
Depois de regressar da expedição mencionada, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, permaneceu em Medina no mês de Shawwal do sétimo ano da Hégira e, durante esse período, enviou os Companheiros em várias sariyyas. A seguir, apresenta-se o relato de algumas delas.
1. Sariyya de Qudayd
Safar ou Rabi al-Awwal do sétimo ano da Hégira
Esta sariyya foi enviada sob o comando de Ghalib ibn Abdullah al-Laythi à região de Qudayd, para dar uma lição aos membros da tribo Banu Maluh por seus atos. Os Banu Maluh haviam matado os companheiros de Bishr ibn Suwayd. Esta expedição foi enviada para vingar esse assassinato. Os Companheiros enviados realizaram um ataque surpresa durante a noite e mataram várias pessoas. Os inimigos os perseguiram com uma grande tropa para enfrentá-los, mas, quando se aproximaram dos muçulmanos, começou a chover. Pouco depois, surgiu uma inundação. Como essa inundação se formou entre os dois grupos, os inimigos não puderam se aproximar. Assim, os muçulmanos percorreram em segurança o restante do caminho.
2. Sariyya de Hasmi
Mês de Jumada al-Thani do sétimo ano da Hégira
Isso foi discutido no capítulo intitulado “A carta do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, aos líderes mundiais”.
3. Expedição de Turba
Mês de Sha’ban do sétimo ano da Hégira
Esta expedição foi realizada sob a liderança de Umar ibn al-Khattab (que Allah esteja satisfeito com ele). Trinta Companheiros estavam com ele. Eles viajavam à noite e permaneciam escondidos durante o dia. Quando o povo da tribo de Banu Hawazin soube disso, fugiu. Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) e seus companheiros então retornaram a Medina.
4. Expedição à região de Fadak
Mês de Sha’ban do sétimo ano da Hégira
Um grupo de trinta Companheiros partiu em expedição sob a liderança de Bashir ibn Sa’d al-Ansari (que Allah esteja satisfeito com ele). Foi enviado especificamente para dar uma lição ao povo da tribo de Banu Murra.
Hadrat Bashir chegou à sua região e conduziu consigo ovelhas, cabras e outros rebanhos. À noite, os inimigos chegaram e os cercaram. Os muçulmanos lançaram flechas. Em determinado momento, Bashir e seus companheiros ficaram sem flechas. Então, os inimigos mataram um a um os muçulmanos desarmados. Somente Bashir sobreviveu. Ele foi levado ferido para Fadak e permaneceu entre os judeus. Dois meses depois, quando sua ferida cicatrizou, retornou a Medina.
5. Expedição de Maifa’a
Ramadã do sétimo ano da Hégira
Esta expedição foi enviada sob o comando de Galib ibn Abdullah para disciplinar as tribos de Banu Awal e Banu Abd ibn Tha’laba. Segundo outro relato, ela foi enviada para disciplinar os membros do ramo Harqat da tribo de Juhayna. O número de muçulmanos era de cento e trinta. Eles atacaram os inimigos simultaneamente. Todos os que levantavam a cabeça eram mortos. Depois, conduziram consigo os rebanhos, incluindo ovelhas e cabras. Nessa mesma expedição, Hadrat Usama ibn Zayd (que Allah esteja satisfeito com ele) matou um homem chamado Nuhayek ibn Mirdas, embora ele tivesse pronunciado: “Não há divindade além de Allah”. Ao ouvir essa notícia, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Por que não abriste o peito dele para saber se era sincero ou mentiroso?”
6. Expedição de Khaybar
Shawwal do sétimo ano da Hégira
Esta expedição foi organizada com trinta Companheiros. Hadrat Abdullah ibn Rawaha (que Allah esteja satisfeito com ele) comandou a expedição. O motivo era que Usayr — segundo outra versão, Bashir ibn Rizam — havia reunido membros da tribo de Banu Ghatafan para atacar os muçulmanos. Os muçulmanos asseguraram a Usayr que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, o nomearia governador de Khaybar. Por causa dessa promessa, Usayr e seus trinta companheiros concordaram em ir a Medina com os muçulmanos. Quando chegaram a um lugar chamado Qarqarania, surgiu um mal-entendido entre os dois lados. Como resultado, Usayr e seus companheiros perderam a vida.
7. Expedição ao Iêmen Ajabar
O mês de Shawwal do sétimo ano da Hégira
Jabār é o nome da região de Banu Ghatafan, ou, segundo outra opinião, de Banu Faza’a e Banu Azara. Hadrat Bashir ibn Ka’b al-Asari foi enviado para lá com trezentos muçulmanos. Eles foram enviados para enfrentar um grande exército inimigo que se havia reunido para atacar Medina. Os muçulmanos viajavam à noite e permaneciam escondidos durante o dia. Ao saberem da chegada de Hadrat Bashir, os inimigos fugiram. Hadrat Bashir levou muitos animais para Medina. Além disso, capturou dois homens e levou-os para Medina. Quando foram apresentados ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, eles aceitaram o Islã.
8. A expedição de Gaba
O Imame Ibn Qayyim inclui esta expedição entre as sariyyas — isto é, as campanhas militares enviadas no sétimo ano da Hégira, antes da Umrah compensatória, compostas exclusivamente pelos nobres Companheiros. O resumo desta expedição é que um homem da tribo de Jashm ibn Mu’awiyah chegou a Gaba acompanhado de muitas pessoas. Ele pretendia reunir Banu Qays para lutar contra os muçulmanos. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, enviou Hadrat Abu Hadrāw acompanhado de apenas dois homens. Hadrat Hadrāw adotou uma estratégia militar tal que os inimigos foram derrotados, e muitos camelos e cabras passaram para a posse dos muçulmanos. Zad al-Ma’ad, vol. 2, pp. 149–150; Rahmat li-l-‘Alamin, vol. 2, pp. 229–231; Talkhih al-Fuhum, p. 31; Mukhtasar al-Siyar, Shaykh Abdullah Najdi, pp. 322–324.
Realização da Umrah compensatória
O Imame Hakim afirmou que está claramente comprovado que, após o surgimento da lua de Dhu al-Qi’dah, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, ordenou aos nobres Companheiros que se preparassem para realizar a Umrah compensatória. O Mensageiro de Allah também declarou que nenhum dos Companheiros presentes por ocasião do tratado de Hudaybiyyah deveria faltar. Com exceção daqueles que haviam alcançado o martírio após o tratado, todos os demais Companheiros, bem como vários Companheiros que estavam ausentes no momento do tratado, prepararam-se para realizar a Umrah. O número de Companheiros, sem contar as mulheres e as crianças, era de dois mil. Fath al-Bari, vol. 7, p. 500.
O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, deixou Abu Ruhm al-Ghifari como seu substituto em Medina. Levaram consigo sessenta camelos, cuja supervisão foi confiada a Najiyah ibn Jundub al-Aslami. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e os nobres Companheiros entraram no estado de ihram para a Umrah em Dhu al-Hulayfah e proferiram a talbiyah. Temendo uma traição dos coraixitas, os muçulmanos levaram armas consigo. Entre essas armas havia escudos, flechas, lanças e espadas. Ao chegarem à planície de Yajaj, deixaram todas as armas sob a liderança de Aws ibn Qawli al-Ansari e prosseguiram. Os muçulmanos mantiveram as espadas embainhadas. Fath al-Bari, vol. 7, p. 500; Zad al-Ma’ad, vol. 2, p. 151.
Quando entrou em Meca, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, montava sua camela chamada Qaswa. Os muçulmanos, erguendo as espadas embainhadas e tendo o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, no meio deles, entoavam: “Labbayka Allahumma labbayk”.
Os politeístas de Meca saíram de suas casas para assistir ao espetáculo e subiram ao monte Caiqaian, situado ao norte. Diziam entre si: “Está vindo até vocês um grupo de pessoas que a febre deixou debilitadas em Medina”.
Ao ouvir isso, o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — disse aos Companheiros que corressem vigorosamente três vezes. Contudo, entre o Rukn al-Yamānī e a Pedra Negra, deveriam caminhar em ritmo normal. Não lhes foi ordenado que corressem durante todas as sete voltas; isso se devia à esperança de alcançar a misericórdia e as bênçãos de Allah. O objetivo era mostrar aos politeístas a força dos muçulmanos. [Sahih al-Bukhari, vol. 1, p. 218; vol. 2, pp. 610–611; Sahih Muslim, vol. 1, p. 412] Além disso, o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — ordenou aos seus Companheiros que praticassem a idtibāʿ. Isso significa deixar o ombro direito descoberto, passando a parte inferior do manto por baixo da axila direita e enrolando-o de baixo para cima, deixando a outra extremidade do manto cair sobre o ombro esquerdo, tanto pela frente quanto pelas costas.
O Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — avançou pelo caminho que atravessava a passagem montanhosa de Meca. Os politeístas haviam formado uma fila para vê-lo. O Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — continuava a entoar a talbiyah. Ao chegar à Mesquita Sagrada, tocou a Pedra Negra com seu bastão. Em seguida, realizou o tawāf, e os muçulmanos também o realizaram. Naquela ocasião, Abdullah ibn Rawahah (que Allah esteja satisfeito com ele) caminhava diante do Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — segurando a espada erguida e recitando estes versos:
“Ó filhos dos incrédulos, deixai livre o caminho dele
A misericórdia de Allah o envolve.
Sua menção está no Livro do Misericordioso, do Clementíssimo
Essas folhas são recitadas continuamente.
Ó Allah, creio nestas palavras dele
Oferecerei meu último suspiro no caminho de Allah
Obedecendo à ordem de Allah, desferirei um golpe tão forte
Que os crânios voarão, e não restará mais notícia dos amigos.
Segundo o relato de Anas (que Allah esteja satisfeito com ele), também é mencionado que, ao ouvir a recitação do poema, Umar ibn al-Khattab (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Ó filho de Rawahah, está-se recitando poesia no Haram diante do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz)?” O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: “Ó Umar, deixe-o recitar. O efeito disso sobre eles é mais eficaz do que o das flechas.” [Jami‘ at-Tirmidhi, vol. 2, p. 107]
O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) e os muçulmanos correram três voltas. Ao vê-los, os politeístas disseram: “Pensávamos que aqueles que a febre de Medina havia debilitado eram assim; mas vemos que eles têm mais força do que pessoas desse tipo.” [Sahih Muslim, vol. 1, p. 412]
Depois de concluir o tawaf, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) realizou o sa‘i entre Safa e Marwah. Naquele momento, seu hady, isto é, o animal destinado ao sacrifício, estava parado perto do monte Marwah. Ao concluir o sa‘i, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: “Este é o local do sacrifício, e todos os lugares de Meca são locais de sacrifício.” Em seguida, todos sacrificaram os animais ao sopé do monte Marwah. Depois do sacrifício, rasparam ali mesmo os cabelos da cabeça. Os nobres Companheiros seguiram o amado Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). Depois, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) enviou alguns Companheiros a Yajij para vigiar as armas. Ordenou que, depois que aqueles que estavam vigiando as armas chegassem, os enviassem para realizar a Umrah.
O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) permaneceu três dias em Meca. Na manhã do quarto dia, os politeístas disseram a Ali (que Allah esteja satisfeito com ele): “Diga ao seu companheiro que parta, pois o prazo terminou.” O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) saiu de Meca e foi permanecer num lugar chamado Sarif.
Quando ele partia de Meca, a filha de Hamzah (que Allah esteja satisfeito com ele) o seguia, chamando: “Tio, tio!” Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) levou-a consigo. Surgiu uma divergência entre Ali (que Allah esteja satisfeito com ele), Ja‘far (que Allah esteja satisfeito com ele) e Zayd (que Allah esteja satisfeito com ele) a respeito de quem deveria criá-la, pois cada um afirmava ser o mais digno de assumir sua tutela. Por fim, o Mensageiro de Allah decidiu em favor de Ja‘far, porque a tia materna da menina era a esposa de Ja‘far.
Durante a realização desta Umrah, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, casou-se com Maymunah bint al-Harith al-Amiriyyah. Antes de o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, chegar a Makkah, enviou Ja’far ibn Abu Talib a Maymunah para esse fim. Maymunah confiou essa responsabilidade a Abbas, pois ele era seu cunhado. Sua esposa, Umm al-Fadl, era irmã de Maymunah. Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) casou Maymunah com o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Abu Rafi foi encarregado de trazer Maymunah. Quando o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, chegou a um lugar chamado Sarif, Maymunah foi levada até ele. [Zad al-Ma’ad, vol. 2, p. 152]
Por que esta Umrah recebeu o nome de Umrah al-Qada? A razão é que esta Umrah era a Umrah compensatória referente à ocasião do Tratado de Hudaybiyyah. Esta Umrah foi realizada de acordo com o Tratado de Hudaybiyyah. Esta é a explicação mais digna de consideração. [Zad al-Ma’ad, vol. 1, p. 172; Fath al-Bari, vol. 7, p. 500] Além disso, esta Umrah é conhecida por quatro nomes: Umrah al-Qada, Umrah al-Qadiyyah, Umrah al-Qisas e Umrah al-Sulh. [Fath al-Bari, vol. 7, p. 500]
Mais algumas expedições
1. Expedição de Abu al-Awja
Mês de Dhu al-Hijjah do sétimo ano da Hégira
O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, enviou cinquenta Companheiros, sob a liderança de Abu al-Awja, à tribo de Banu Salim, levando o convite ao Islã. Depois de lhes transmitir o convite ao Islã, eles disseram: “Não temos necessidade daquilo para o qual nos convidais.” Em seguida, envolveram-se numa batalha feroz. O comandante Abu al-Awja foi ferido nessa batalha. Por fim, os muçulmanos voltaram trazendo dois soldados inimigos como prisioneiros.
2. Expedição de Ghalib ibn Abdullah
Mês de Safar do oitavo ano da Hégira
Duzentos Companheiros foram enviados, sob a liderança de Ghalib ibn Abdullah, para a região de Fadak, ao local onde os companheiros de Bashil ibn Sa‘d haviam sido mortos. Eles capturaram os rebanhos dos inimigos e mataram alguns soldados inimigos.
3. A expedição de Dhat Atlaḥ
Rabī‘ al-Awwal do oitavo ano da Hégira
O relato desta expedição é o seguinte: os membros da tribo de Banū Qudā‘ah haviam reunido um grande número de pessoas para atacar os muçulmanos. Ao receber essa notícia, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, enviou quinze Companheiros sob a liderança de Ka‘b ibn ‘Umair. Os nobres Companheiros os convidaram ao Islã. Porém, em vez de aceitarem o Islã, eles começaram a disparar flechas contra os Companheiros. Como resultado, os Companheiros foram martirizados. Apenas um Companheiro foi retirado vivo dentre os mortos. (Rahmat lil-‘Alamīn, vol. 2, p. 231)
4. A expedição de Dhat ‘Irq
O mês de Rabī‘ al-Awwal do oitavo ano da Hégira
A razão desta expedição foi que os membros da tribo de Banū Hawāzin os importunavam repetidamente. Por isso, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, enviou vinte e cinco Companheiros sob a liderança de Shujā‘ ibn Wahb al-Asadī. Eles conduziram consigo os rebanhos dos inimigos. Contudo, não houve nenhum confronto. (Ibid., Talāqīh al-Fuhūm, p. 33)
A batalha de Mu’ta
Mutah é um povoado próximo à região de Balqa, na Jordânia. A distância deste lugar até Bayt al-Maqdis é de apenas duas manzils. A Batalha de Mutah ocorreu precisamente aqui.
Entre as batalhas das quais os muçulmanos participaram durante a vida do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, esta foi a mais sangrenta. Foi esta batalha que abriu o caminho para a conquista dos países habitados por cristãos. Ela ocorreu no mês de Jumada al-Awwal do oitavo ano da Hégira, isto é, em 629 d.C., ou no mês de setembro.
Causa da batalha
A causa desta expedição foi que o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, enviou Harith ibn Umayr al-Azdi com uma carta ao governador de Sabrā. Sharhabil ibn Amr al-Ghassani, governador do César de Roma, estava então designado para a região de Balqa. Esse malfeitor prendeu o mensageiro do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, amarrou-o firmemente e matou-o. Deve-se lembrar que matar embaixadores ou mensageiros comuns é um crime grave. Isso equivale a declarar guerra, sendo considerado até mesmo mais grave do que isso.
Por isso, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, ficou profundamente consternado ao ouvir a notícia do assassinato de seu mensageiro enviado. Ele ordenou a preparação de tropas para serem estacionadas naquela região. Assim, foram preparados três mil soldados (Zad al-Ma‘ad, vol. 2, p. 155; Fath al-Bari, vol. 7, p. 511). Com exceção da Batalha da Trincheira, os muçulmanos nunca haviam reunido três mil soldados em nenhuma outra batalha anterior.
Instruções do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, aos comandantes
O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, nomeou Zayd ibn Harithah, que Allah esteja satisfeito com ele, comandante deste exército. Em seguida, disse que, se Zayd fosse morto, Ja‘far assumiria o comando; e, se Zayr fosse morto, ‘Abdullah ibn Rawahah, que Allah esteja satisfeito com ele, seria nomeado comandante (Sahih al-Bukhari, vol. 2, p. 611).
O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, preparou uma bandeira branca para o exército muçulmano e entregou-a a Zayd ibn Harithah (Mukhtasar al-Sirah, Shaykh ‘Abdullah, p. 327). Ele recomendou às tropas que, ao chegarem ao local onde Harith ibn Umayr havia sido assassinado, convidassem os habitantes locais ao Islam. Se aceitassem o Islam, isso seria bom; mas, se não o aceitassem, deveriam pedir ajuda a Allah e combater contra eles. Disse ainda: “Em nome de Allah, no caminho de Allah, combatei contra os descrentes em Allah. Não sereis traiçoeiros nem cometereis deslealdade; não matareis nenhuma mulher, criança, idoso ou asceta que esteja numa igreja. Não cortareis palmeiras nem qualquer outra árvore, e não destruireis nenhum edifício” (Rahmatul lil-‘Alamin, vol. 2, p. 271).
A partida do exército islâmico
Às vésperas da partida do exército islâmico, os muçulmanos comuns cumprimentaram e se despediram dos comandantes nomeados pelo Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Naquele momento, um dos comandantes, Hazrat Abdullah ibn Rawaha (que Allah esteja satisfeito com ele), chorava. Quando lhe perguntaram a razão de seu choro, ele disse: “Por Allah, não estou chorando por apego ao mundo nem por causa da minha relação convosco. Ao ouvir o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, recitar um versículo do Sagrado Alcorão, chorei de medo do Inferno; chorei de medo do Inferno. Nesse versículo, Allah, o Altíssimo, diz: ‘E cada um de vós o atravessará; isso é uma decisão inevitável do vosso Senhor.’ (Surata Maryam, versículo 71)”
Não sei como retornarei depois de ser levado ao Inferno. Os muçulmanos disseram: “Que Allah, o Altíssimo, vos acompanhe em segurança. Que Allah, o Altíssimo, vos proteja e vos traga de volta para nós com os bens do espólio.” Então Hazrat Abdullah recitou este poema:
“Para obter o perdão junto ao Misericordioso
Para os golpes da espada que faz o cérebro sair
A mão do lançador de lanças, intestinos e fígado
Para conceder força para rasgá-los e golpeá-los
Peço ajuda. Ao lado do meu túmulo
Aqueles que forem dirão: este é o ghazi
a quem Allah guiou e
que recebeu orientação
Em seguida, os soldados muçulmanos partiram. Rasulullah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) acompanhou o exército até Thaniyyat al-Wada e despediu-se dos soldados. [Ibn Hisham, vol. 2, pp. 373–374; Zad al-Ma’ad, vol. 2, p. 156; Mukhtasar as-Sirah, p. 327]
A crise do exército muçulmano
Avançando para o norte, os soldados muçulmanos chegaram à região chamada Ma’an. Esse lugar situava-se numa área jordaniana ligada ao Hijaz. O exército muçulmano estabeleceu-se ali. Os espiões muçulmanos chegaram e informaram que o César de Roma havia reunido cem mil soldados romanos na região de Ma’ab, no território de Balqa. Além disso, sob sua bandeira, haviam-se reunido outros cem mil soldados das tribos de Lakhm, Judham, Balqin, Bahra e Bali. Esses últimos cem mil constituíam um exército formado pela união de tribos árabes.
A reunião do conselho de shura
Os muçulmanos jamais haviam imaginado que enfrentariam um exército tão formidável. Numa região distante, depararam-se realmente com uma situação crítica. Diante deles surgiu claramente a questão: deveriam enfrentar duzentos mil soldados com apenas três mil? Surpresos e preocupados, os muçulmanos deliberaram durante duas noites. Alguns opinaram que se deveria escrever uma carta a Rasulullah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), informando-o sobre a situação surgida. Talvez ele enviasse tropas adicionais ou desse alguma outra ordem. Essa ordem poderia então ser cumprida.
Hazrat Abdullah ibn Rawaha (que Allah esteja satisfeito com ele) rejeitou firmemente essa proposta. Ele disse: “Ó povo, aquilo que vocês estão tentando evitar é precisamente o martírio pelo qual partiram. Lembrem-se de que nosso confronto com os inimigos não deve ser avaliado pelo número de soldados, pela força ou pela superioridade numérica. Lutamos por aquela religião por meio da qual Allah, o Senhor dos mundos, nos honrou. Portanto, avancem. Certamente alcançaremos um dos dois bens: ou obteremos a vitória, ou nossa vida será honrada pelo martírio.” Por fim, decidiu-se seguir a opinião de Abdullah ibn Rawaha.
O avanço do exército muçulmano
Depois de passar duas noites na região chamada Ma’an, o exército muçulmano avançou contra os inimigos. No lugar chamado Masharif, em Balqa, eles se depararam com as tropas de Heráclio. Quando os inimigos avançaram ainda mais, os muçulmanos reuniram-se no lugar chamado Mu’tah. Em seguida, as tropas foram dispostas para a batalha. Qutbah ibn Qatadah al-Uzri foi colocado à direita, e ‘Ubadah ibn Malik al-Ansari (que Allah esteja satisfeito com ele), à esquerda.
O martírio dos comandantes do exército
No lugar chamado Mu’tah, irrompeu um confronto entre os dois grupos, e travou-se uma luta extremamente encarniçada. Apenas três mil soldados muçulmanos envolveram-se numa batalha desigual contra duzentos mil soldados não muçulmanos. Essa batalha foi extraordinária. As pessoas do mundo ficaram observando, tomadas de assombro. Quando a bravura da fé se manifesta, também acontecem acontecimentos extraordinários desse tipo.
Primeiramente, Hazrat Zayd ibn Harithah (que Allah esteja satisfeito com ele), o querido protegido do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, tomou o estandarte. Demonstrando uma bravura extraordinária, ele alcançou o martírio. Não se observou esse tipo de bravura em ninguém além dos muçulmanos.
Após o martírio de Hazrat Zayd, Hazrat Ja’far ibn Abi Talib tomou o estandarte. Ele também continuou lutando com uma bravura incomparável. Em certo momento da intensa batalha, saltou do dorso de seu cavalo malhado e começou a atacar os inimigos. Quando os golpes dos inimigos cortaram sua mão direita, começou a lutar com a esquerda. Manteve o estandarte dessa forma até alcançar o martírio.
Conta-se que um soldado romano o golpeou com uma espada de tal modo que seu corpo se partiu em dois. Allah, o Altíssimo, concedeu-lhe duas asas no Paraíso. Com a ajuda dessas asas, ele voa pelo Paraíso para onde quiser. Por isso, seus epítetos são “Ja’far al-Tayyar” e “Ja’far Dhu al-Janahayn”. Tayyar significa “aquele que voa”, e Dhu al-Janahayn significa “aquele que possui duas asas”.
O Imame Bukhari menciona uma narração de Abdullah ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ele), transmitida por Nafi‘. Ele disse: “No dia da batalha de Mu’ta, após Hazrat Ja‘far ter sido martirizado, contei as marcas dos golpes em seu corpo. Havia cinquenta ferimentos de flechas e espadas em seu corpo. Nenhum desses ferimentos estava na parte posterior.” 6 [Fath al-Bari, vol. 7, p. 512. Há uma diferença no número entre as duas narrações. A diferença é resolvida considerando-se um total de 90, incluindo os ferimentos de flechas.]
Outra narração relata que Abdullah ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Eu estava com os muçulmanos na batalha de Mu’ta. Procurei Ja‘far ibn Abu Talib e encontrei-o entre os mortos. Vi em seu corpo mais de noventa ferimentos de lanças e flechas.” 7 [A mesma obra, mesma página.] É narrado por Nafi‘ que, na narração de Ibn Umar, também consta: “Observei que todos esses ferimentos estavam na parte frontal de seu corpo.” 8 [Fath al-Bari, vol. 7, p. 512. Há uma diferença no número entre as duas narrações. A diferença é resolvida considerando-se um total de 90, incluindo os ferimentos de flechas.] Após Hazrat Ja‘far (que Allah esteja satisfeito com ele) alcançar o martírio numa batalha heroica, Hazrat Abdullah ibn Rawaha (que Allah esteja satisfeito com ele) tomou o estandarte, montou a cavalo e avançou. Depois de alguma hesitação, recitou este poema:
“Ó meu coração, alegre ou aflito, de qualquer modo
enfrenta-o. Eles acenderam o fogo da guerra
e mantiveram as lanças erguidas. Por que, vindo do Paraíso,
ó meu coração, queres permanecer distante?”
Depois disso, Hazrat Abdullah ibn Rawaha (que Allah esteja satisfeito com ele) continuou lutando com grande bravura. Seu primo colocou em sua mão um osso ainda com carne. Ele deu uma mordida e atirou-o fora. Em seguida, continuou lutando até alcançar o martírio.
A espada de Allah
Após o martírio de Abdullah ibn Rawaha, Thabit ibn Arqam, um Companheiro da tribo de Banu Adlan, tomou a bandeira. Ele disse: “Ó muçulmanos, nomeiem alguém adequado para assumir o comando do exército.” Quando os Companheiros lhe pediram que assumisse o comando, ele disse: “Não sou adequado para essa tarefa.” Então os Companheiros nomearam Khalid ibn al-Walid (que Allah esteja satisfeito com ele) como comandante. Depois que ele tomou a bandeira, iniciou-se uma intensa batalha. No Sahih al-Bukhari, é narrado pelo próprio Khalid ibn al-Walid (que Allah esteja satisfeito com ele) que, no dia da batalha de Mu’tah, nove espadas se quebraram em sua mão. Depois disso, restou em sua mão apenas uma pequena espada iemenita. 9[ Sahih al-Bukhari, capítulo sobre a batalha de Mu’tah, vol. 2, p. 611]
Em outra narração, é relatado com suas próprias palavras: “No dia da batalha de Mu’tah, nove espadas se quebraram em minha mão. Depois disso, restou em minha mão apenas uma pequena espada iemenita.” 10[Mesmo livro, p. 612]
Enquanto isso, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, recebeu por meio da revelação as notícias do campo de batalha antes que alguém lhas transmitisse. Ele disse: “Zayd tomou a bandeira e foi martirizado. Depois, Ja’far tomou a bandeira e foi martirizado. Depois, Abdullah ibn Rawaha tomou a bandeira, e ele também foi martirizado.” Os olhos do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, encheram-se de lágrimas nesse momento. Ele disse: “Depois, uma das espadas de Allah tomou a bandeira.” Por meio de seu combate, Allah, o Altíssimo, concedeu a vitória aos muçulmanos. 11[Mesmo livro, p. 611].
Fim da batalha
Apesar da coragem, bravura e dedicação, foi um acontecimento extraordinário que apenas três mil soldados muçulmanos conseguissem resistir diante de duzentos mil soldados não muçulmanos. A bravura demonstrada por Khalid ibn al-Walid (que Allah esteja satisfeito com ele) nesse momento não encontra paralelo na história.
Há considerável divergência entre os relatos sobre o desfecho dessa batalha. Depois de ler todos os relatos, sabe-se que, no final do primeiro dia da batalha, Khalid (que Allah esteja satisfeito com ele) permaneceu firme diante dos soldados romanos. Naquele momento, ele pensava em uma nova estratégia de combate que pudesse influenciar os romanos. O objetivo dessa estratégia era recuar gradualmente os muçulmanos. Contudo, era necessário garantir que os romanos não pudessem persegui-los em nenhuma circunstância. Pois, se os romanos os perseguissem, seria muito difícil escapar de suas garras.
Na manhã seguinte, Khalid (que Allah esteja satisfeito com ele) reorganizou e reposicionou as tropas. Levou os soldados do flanco direito para a esquerda e os do flanco esquerdo para a retaguarda. Ao perceberem essa mudança de disposição, os inimigos começaram a dizer entre si que os muçulmanos haviam recebido reforços e que sua força havia aumentado em relação ao que era antes.
Depois de alterar a disposição do exército, Khalid (que Allah esteja satisfeito com ele) fez os muçulmanos recuarem gradualmente. Os soldados romanos não avançaram para atacar os muçulmanos, pois pensavam que eles estavam armando uma cilada e que os levariam para o deserto, onde lançariam um contra-ataque e os derrotariam. Pensando dessa maneira, os soldados romanos, em vez de perseguirem os muçulmanos, retornaram ao seu próprio território. Enquanto isso, os muçulmanos continuaram recuando até chegarem a Medina. 12[ Fath al-Bari, vol. 7, pp. 513–514; Zad al-Ma’ad, vol. 2, p. 156.]
Número de baixas
Doze muçulmanos alcançaram o martírio na Batalha de Mu’ta. Não se sabe quantos romanos foram mortos ou feridos. Contudo, pela leitura do relato da batalha, entende-se que eles sofreram muitas baixas. Isso porque somente nas mãos de Hazrat Khalid quebraram-se nove espadas. Assim, é fácil estimar o número de baixas entre as tropas inimigas.
O impacto da Batalha de Mu’ta
Embora o objetivo da expedição de Mu’ta — obter vingança — não tenha sido alcançado, como resultado dessa batalha a fama e a reputação dos muçulmanos se espalharam por grandes distâncias. Todo o mundo árabe ficou atônito de espanto. Isso porque os romanos eram a maior potência daquela época. Os árabes consideravam que entrar em conflito com os romanos equivalia a cometer suicídio. Portanto, não era algo simples que três mil soldados obtivessem a glória de uma vitória corajosa ao enfrentar duzentos mil soldados sem perdas significativas. O povo árabe pôde compreender que os muçulmanos eram completamente diferentes de todas as potências anteriormente conhecidas. O auxílio de Allah estava com os muçulmanos. Seu líder, Muhammad Mustafa — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — era, sem dúvida, o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Por isso, depois da Batalha de Mu’ta, vemos que várias tribos conhecidas como inimigas eternas dos muçulmanos, obstinadas e arrogantes, buscaram refúgio sob a sombra do Islã. Entre essas tribos, algumas das mais importantes eram Banu Salim, Ashja, Ghatfan, Jiban e Fazarah.
Foi justamente como resultado do conflito sangrento iniciado com os romanos às vésperas da Batalha de Mu’ta que, posteriormente, a glória das vitórias dos muçulmanos se espalhou por terras distantes.
Expedição de Dhat al-Salasil
Ao tomar conhecimento do papel cooperativo desempenhado por várias tribos árabes junto às tropas romanas na Batalha de Mu’ta, o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — considerou necessário tomar uma medida para que os romanos e as tribos árabes estendessem a mão em relações amistosas com os muçulmanos e, no futuro, não pensassem em reunir tropas de qualquer tipo contra os muçulmanos.
Para esse objetivo, o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — escolheu Hazrat ‘Amr ibn al-‘As (que Allah esteja satisfeito com ele). Sua avó era uma mulher da tribo de Bala. Após a Batalha de Mu’ta, no mês de Jumada al-Thani do oitavo ano da Hégira, o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — enviou Hazrat ‘Amr ibn al-‘As (que Allah esteja satisfeito com ele). Diz-se que, por meio de espiões, chegou a notícia de que a tribo de Banu Quda‘a havia preparado muitas tropas nos arredores de Medina para realizar um ataque. Por essas razões, o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — enviou ‘Amr ibn al-‘As (que Allah esteja satisfeito com ele).
O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, havia ordenado que, ao passar pelas pessoas das áreas de Bali, Adhra e Balqin, o exército muçulmano lhes pedisse ajuda. O exército muçulmano viajava durante a noite e permanecia escondido durante o dia. Quando se aproximaram dos inimigos, souberam que estes eram numerosos. Então, Hazrat Amr enviou Rafi ibn Makith Juhani ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, com uma carta solicitando ajuda. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, enviou duzentos soldados sob o comando de Hazrat Abu Ubaidah ibn al-Jarrah (que Allah esteja satisfeito com ele). Entre eles estavam Hazrat Abu Bakr, Hazrat Umar e outros líderes proeminentes dos Ansar e dos Muhajirun. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, ordenou ao comandante Abu Ubaidah (que Allah esteja satisfeito com ele) que se unisse a Amr ibn al-As e que ambos trabalhassem em cooperação, sem qualquer divergência. Depois que Abu Ubaidah chegou ao local, quis assumir o comando de todo o exército. Mas Hazrat Amr ibn al-As disse: “Eu sou o comandante; você veio apenas com tropas de apoio.” Abu Ubaidah aceitou isso. Depois disso, o próprio comandante do exército, Hazrat Amr ibn al-As, passou também a liderar as orações.
Depois que as tropas de apoio chegaram, alcançaram a região de Qazaah e dali avançaram para um lugar mais distante. Em certo momento, estavam prestes a enfrentar os inimigos. Contudo, diante da iniciativa de ataque dos muçulmanos, eles fugiram rapidamente.
Em seguida, Awf ibn Malik al-Ashjai foi enviado como mensageiro ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Ele contou ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, sobre o retorno seguro dos muçulmanos e os detalhes da expedição.
Dhat as-Salasil era um lugar diante da planície de Wadi al-Qura. Situava-se a dez dias de distância de Medina. Ibn Ishaq afirma que os muçulmanos acamparam junto a um reservatório chamado Salasil, pertencente à tribo de Juzam. Por isso, essa expedição recebeu o nome de Dhat as-Salasil.13 [Ibn Hisham, vol. 2, pp. 623–626; Zad al-Ma’ad, vol. 2, p. 157]
Expedição de Khazarah
Mês de Sha’ban do oitavo ano da Hégira
A razão dessa expedição foi que a tribo de Banu Ghatafan estava reunindo tropas em Khazarah, um lugar no território da tribo de Muharib, no interior de Najd. Para subjugá-los, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, enviou quinze Companheiros sob a liderança de Hazrat Abu Ubaidah. Essas tropas mataram alguns inimigos, capturaram outros e obtiveram espólios. As tropas enviadas nessa expedição permaneceram fora de Medina durante quinze dias, sob a liderança de Hazrat Abu Ubaidah.14 [Rahmatul lil-Alamin, vol. 2, p. 233; Talqihul Fuhum, p. 33].
Ele disse: “Apesar da vitória, hoje não haverá retaliação contra vocês. Que Allah, o Altíssimo, os perdoe pelo que fizeram no passado, pois Ele é o melhor dos misericordiosos.”
(Surata de Yusuf: 92
6
Às portas da grande vitória: hoje não haverá vingança
A conquista de Meca
O Imame Ibn Qayyim escreveu: esta foi a grande vitória por meio da qual Allah Altíssimo honrou os guardiões de Sua religião. Além disso, libertou Sua cidade e Sua Casa — a Casa que havia tornado um meio de orientação para as pessoas do mundo — das mãos dos incrédulos e politeístas. Por causa dessa vitória, uma onda de alegria espalhou-se entre os habitantes dos céus. Como resultado dessa vitória, as pessoas começaram a entrar na religião de Allah em grupos, e o semblante do universo resplandeceu de felicidade. 1[Zad al-Ma’ad, vol. 2, p. 160]
O motivo da expedição
Na discussão sobre o tratado de Hudaybiyyah, foi mencionado que uma de suas cláusulas estabelecia que qualquer pessoa poderia, se desejasse, aliar-se ao Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) ou aos coraixitas.
Aquele que se aliasse a um grupo seria considerado parte dele. Se alguém o atacasse ou cometesse qualquer outro tipo de agressão, isso seria considerado um ataque contra esse grupo.
Por meio desse tratado, a tribo de Banu Khuzāʿa ficou vinculada ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, por um pacto de aliança. A tribo de Banu Bakr ficou vinculada à aliança dos coraixitas. Assim, ambas as tribos ficaram protegidas uma da outra. Contudo, desde a época da ignorância pré-islâmica, havia conflitos e disputas ocasionais entre elas. Mais tarde, com o advento do Islã e após o Tratado de Hudaybiyyah, ambas as tribos em conflito passaram a estar seguras e tranquilas uma em relação à outra. A tribo de Banu Bakr considerou uma oportunidade vantajosa o tratado e preparou-se para vingar a antiga inimizade contra a tribo de Banu Khuzāʿa. Nawfal ibn Muʿāwiyah ad-Daylī atacou a tribo de Banu Khuzāʿa, no dia 8 do mês de Shaʿban, acompanhado por um grupo de Banu Bakr. Naquele momento, os membros de Banu Khuzāʿa estavam acampados junto a um poço chamado Watīr. Alguns membros da tribo foram mortos no ataque surpresa. Depois, também ocorreu um confronto entre os dois grupos. Os coraixitas ajudaram Banu Bakr com armas nesse ataque. Alguns coraixitas aproveitaram-se da escuridão da noite, misturaram-se aos homens de Banu Bakr e também atacaram o adversário. Os agressores perseguiram os membros de Banu Khuzāʿa até as proximidades do Haram. Ali, os homens de Banu Bakr disseram: “Ó Nawfal, agora entraremos no Haram Sagrado. O vosso deus e a vossa adoração!” Em resposta, Nawfal disse: “Hoje não há divindade alguma. Vingai-vos! Pela minha idade, se podeis roubar no Haram Sagrado, por acaso não podeis tomar vingança?”
Enquanto isso, os membros da tribo de Banu Khuzāʿa chegaram a Meca e refugiaram-se na casa de Budayl ibn Warqāʾ al-Khuzāʿī e de Rāfiʿ, um escravo liberto dele. ʿAmr ibn Sālim al-Khuzāʿī saiu dali, dirigiu-se a Medina e foi apresentar-se diante do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Naquele momento, ele estava na Mesquita do Profeta com os Companheiros. ʿAmr ibn Sālim disse: “Ó Senhor, invoco, diante de Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, o pacto dele e o antigo compromisso de seu pai (2. Refere-se ao compromisso existente desde tempos remotos entre Banu Khuzāʿa e Banu ʿAbd al-Muttalib). Ó Mensageiro, vós éreis filhos e nós éramos os que vos deram origem (3. Refere-se ao fato de que Habbī, mãe de ʿAbd Manāf e esposa de Quṣayy, era filha da tribo de Banu Khuzāʿa. Por isso, toda a família do Profeta foi chamada de descendente de Banu Khuzāʿa). Depois, aceitamos a obediência e jamais demonstramos desobediência. Que Allah, o Altíssimo, vos guie. Ajudai-nos com todo o vosso empenho, convocai os servos de Allah, e eles virão em vosso auxílio. Entre eles estará também o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, belo como a lua cheia nascente. Quando é vítima de injustiça, seu rosto torna-se vermelho e severo. Vós marchareis entre um exército indomável, que avançará em ondas, como um mar de espuma. Sabei com certeza que os coraixitas violaram o tratado celebrado convosco e romperam o compromisso. Eles armaram uma emboscada para mim num lugar chamado Watīr e imaginaram que eu não pediria ajuda a ninguém. Contudo, são grandes canalhas e poucos em número. Atacaram-nos durante a escuridão da noite, num lugar chamado Aṭr, e mataram-nos enquanto estávamos curvados e prostrados. Isto é: havíamos aceitado o Islã, mas fomos mortos.”
Depois de ouvir essa queixa, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Ó ʿAmr ibn Sālim, foste ajudado.” Em seguida, apareceu no céu um pedaço de nuvem. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Essa nuvem surgiu como uma boa notícia de auxílio a Banu Kaʿb.”
Depois, uma delegação da tribo de Banu Khuzāʿa, liderada por Budayl ibn Warqāʾ al-Khuzāʿī, chegou a Medina e informou ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, quem havia sido morto. Informaram também como os coraixitas haviam ajudado a tribo de Banu Bakr. Em seguida, retornaram a Meca.
Tentativa de renovar o tratado
O que os coraixitas e seus aliados haviam feito constituía uma violação clara e uma traição ao Tratado de Hudaybiyyah. Não havia qualquer justificativa legítima que pudessem apresentar para isso. Os próprios coraixitas logo compreenderam que haviam violado o tratado. Pensando nas consequências dessa traição, convocaram uma assembleia consultiva. Nessa assembleia, decidiu-se por unanimidade que enviariam seu líder, Abū Sufyān, a Medina para renovar o Tratado de Hudaybiyyah.
O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, já havia informado aos Companheiros sobre os acontecimentos que se seguiriam à violação do tratado pelos coraixitas. Ele disse: “É como se eu estivesse vendo Abū Sufyān chegar a Medina para consolidar o tratado e prolongar sua duração.”
Enquanto isso, quando Abū Sufyān chegou a um lugar chamado ʿUsfān, a caminho de Medina, encontrou-se com Budayl ibn Warqāʾ. Budayl estava viajando de Medina para Meca.
Abu Sufyan pensou que Budail vinha do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Ainda assim, perguntou: “De onde você vem, Budail?” Budail respondeu: “Fui àquela região costeira com os Khuzā‘a.” Abu Sufyan perguntou: “Você não foi até Muhammad?” Budail respondeu: “Não.” Depois que Budail tomou o caminho de Meca, Abu Sufyan disse: “Se Budail esteve em Medina, então deve ter dado tâmaras de Medina ao seu camelo.” Em seguida, Abu Sufyan foi até o local onde Budail havia feito o camelo se ajoelhar, abriu o esterco deixado pelo animal e encontrou ali caroços de tâmaras de Medina. Então disse: “Juro por Allah que Budail foi até Muhammad.”
Em suma, Abu Sufyan foi a Medina e hospedou-se na casa de sua filha, Umm Habiba. Abu Sufyan ia sentar-se na cama do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Ao perceber isso, Umm Habiba, que Allah esteja satisfeito com ela, imediatamente dobrou a cama. Abu Sufyan disse: “Minha filha, você não me considera digno dessa cama ou considera que essa cama não é digna de mim? Depois que veio de minha casa, você ficou má.”
Umm Habiba, que Allah esteja satisfeito com ela, respondeu: “Esta é a cama do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e você é um idólatra impuro.” Abu Sufyan disse: “Juro por Deus que, depois que saiu de minha casa, você ficou má.”
Depois, Abu Sufyan saiu dali, foi até o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e conversou com ele. O Mensageiro de Allah não lhe deu resposta alguma. Abu Sufyan foi até Abu Bakr e pediu-lhe que conversasse com o Mensageiro de Allah. Abu Bakr, que Allah esteja satisfeito com ele, recusou-se. Abu Sufyan foi até Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, e pediu-lhe que falasse com o Mensageiro de Allah a respeito deles. Umar disse: “Por que eu haveria de interceder por vocês junto ao Mensageiro de Allah? Juro por Allah que, mesmo que eu não encontrasse nada além de um pedaço de madeira, ainda assim lutaria contra vocês com esse pedaço de madeira.” Depois, Abu Sufyan foi até Ali, que Allah esteja satisfeito com ele. Fátima, que Allah esteja satisfeito com ela, estava ali. Hasan também estava presente. Ele ainda era pequeno e estava aprendendo a andar. Abu Sufyan disse: “Ó Ali, meu parentesco com você é o mais próximo. Vim por uma necessidade. Vim esperançoso e não quero voltar decepcionado. Interceda um pouco por mim junto a Muhammad.” Ali, que Allah esteja satisfeito com ele, respondeu: “Abu Sufyan, sinto muito por você. O Mensageiro de Allah tomou uma decisão sobre determinado assunto, e não podemos falar com ele a respeito disso.” Abu Sufyan olhou para Fátima, que Allah esteja satisfeito com ela, e disse: “Você pode ordenar a este seu filho que proclame conceder proteção às pessoas e, assim, torne-se para sempre o líder dos árabes?” Fátima, que Allah esteja satisfeito com ela, respondeu: “Juro por Allah que meu filho ainda não está apto a fazer uma proclamação que o torne líder entre as pessoas. Além disso, na presença do Mensageiro de Allah, ninguém pode conceder proteção.”
Depois que todas as suas tentativas fracassaram, tudo ficou escuro diante dos olhos de Abu Sufyan. Com o coração tomado pela dúvida e a voz trêmula, ele disse a Ali, que Allah esteja satisfeito com ele: “Abu al-Hasan, percebo que a situação se complicou. Portanto, indique-me uma saída.” Ali respondeu: “Juro por Allah que não conheço nada que seja benéfico para você. Você é o líder da tribo de Banu Kinana. Levante-se e proclame entre as pessoas que lhes concede segurança; depois, volte para sua terra.” Abu Sufyan perguntou: “Você acha que isso será benéfico para mim?” Ali respondeu: “Não, não acho. Contudo, não me parece que haja outra saída.” Então Abu Sufyan levantou-se na mesquita e proclamou: “Ó povo, declaro que vocês estão sob proteção.” Depois, montou em seu camelo e partiu para Meca.
Quando chegou aos coraixitas, eles o cercaram e perguntaram pelas notícias de Medina. Abu Sufyan respondeu: “Falei com ele, mas ele não me deu resposta alguma. Fui até o filho de Abu Quhafa, mas não encontrei nele nada de bom. Fui até Umar ibn al-Khattab; ele me pareceu o mais ferrenho dos inimigos. Fui até Ali; ele me pareceu o mais brando. Ele me deu um conselho, e agi de acordo com ele. Não sei se isso será benéfico.” As pessoas perguntaram qual era o conselho. Abu Sufyan respondeu: “Ali aconselhou-me a proclamar que concedia segurança; por fim, foi o que fiz.”
Os coraixitas disseram: “Muhammad declarou válida a sua proclamação de proteção?” Abu Sufyan respondeu: “Não, não fez isso.” Os coraixitas disseram: “Que você seja destruído! Ali simplesmente brincou com você.” Abu Sufyan respondeu: “Juro por Allah que não havia outra saída.”
Segundo o relato de Tabarani, sabe-se que, três dias antes de chegar a notícia da traição dos coraixitas, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, pediu a Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela, que preparasse seus equipamentos e provisões. Contudo, recomendou-lhe que mantivesse o assunto em segredo. Depois, Abu Bakr, que Allah esteja satisfeito com ele, perguntou a Aisha: “Minha filha, para que serve esta preparação?” Aisha respondeu: “Não sei, papai.” Abu Bakr disse: “Este não é o momento de guerrear contra os romanos. Então, para que direção o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, pretende ir?” Aisha respondeu: “Não sei, papai.” Na manhã do terceiro dia, Amr ibn Salim al-Khuza‘i chegou acompanhado de quarenta cavaleiros. Ele recitou alguns versos de poesia. Com isso, os ouvintes compreenderam que os coraixitas haviam traído. Depois chegou Budail. Em seguida, chegou Abu Sufyan. Assim, os Companheiros compreenderam a situação. Então o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse aos Companheiros que era preciso ir a Meca. Ao mesmo tempo, fez esta súplica: “Ó Allah, providencia para que os espiões e os coraixitas não recebam a notícia de nossa partida. Que eles não compreendam nem saibam de nossa vinda antes de nos aproximarmos dos habitantes de Meca.”
Para preservar o segredo, no mês de Ramadã do oitavo ano da Hégira, o Mensageiro de Allah enviou oito Companheiros, sob a liderança de Abu Qatada ibn Rabi, numa sariyya para um lugar chamado Batn Azam. Esse lugar situava-se entre Dhu-Khashab e Dhu al-Marrah. A distância até Medina era de 36 milhas.
O objetivo do envio desse pequeno destacamento era que aqueles que fossem capazes de entender compreendessem que o Mensageiro de Allah iria ao lugar mencionado. Essa notícia se espalharia por toda parte. Depois que o pequeno destacamento chegou ao local mencionado, soube que o Mensageiro de Allah havia partido em direção a Meca. Ao receber essa notícia, eles também se juntaram à caravana do Mensageiro de Allah. 4. Esta foi a sariyya que encontrou Amir ibn Adbat. Amir cumprimentou-os com o salam, conforme o costume islâmico. Porém, devido a uma antiga inimizade, Mahl am ibn Jashama matou Amir e apropriou-se de seu camelo e de seus demais pertences. Então foi revelado o seguinte versículo do Alcorão: “Não digais àquele que vos saúda: ‘Tu não és crente.’” Depois, os nobres Companheiros pediram ao Mensageiro de Allah que suplicasse pelo perdão de Mahl am ibn Jashama. Quando Mahl am compareceu diante do Mensageiro de Allah, ele disse: “Ó Allah, que Mahl am não seja perdoado.” Repetiu essas palavras três vezes. Ao ouvi-las, Mahl am enxugou os olhos com sua roupa e levantou-se. Ibn Ishaq disse que os membros da tribo de Mahl am relataram que, posteriormente, o Mensageiro de Allah suplicou pelo perdão de Mahl am. Consulte Zad al-Ma’ad, volume 2, página 151.
Enquanto isso, Hatib ibn Abi Balta’a tentou informar os coraixitas sobre os planos do Mensageiro de Allah, escrevendo-lhes uma carta. Para entregar essa carta aos coraixitas em Meca, contratou uma mulher mediante pagamento. A mulher escondeu a carta no cabelo e partiu para Meca. Nesse ínterim, Allah informou Seu amado Mensageiro sobre o assunto. O Mensageiro de Allah chamou Ali, Miqdad, Zubayr e Abu Marthad al-Ghunawi e disse: “Ide, vós quatro, até Rawda Khakh. Lá encontrareis uma mulher montada num camelo. Ela terá uma carta consigo. Essa carta foi enviada aos coraixitas.” Os quatro Companheiros chegaram a Rawda Khakh e encontraram a mulher. Perguntaram-lhe: “Tens alguma carta contigo?” A mulher negou. Os Companheiros revistaram o howdah do camelo, mas não encontraram a carta. Então Ali disse: “Juro por Allah que o Mensageiro de Allah não mentiu, e nós também não estamos mentindo. Ou entregas a carta, ou te despiremos.” Ao ouvir isso, a mulher disse: “Está bem, voltem-se por um momento.” Quando os Companheiros se viraram, a mulher soltou o cabelo, retirou a carta e entregou-a a eles. Eles levaram a carta ao Mensageiro de Allah. Quando ele a leu, viu que estava escrito: “De Hatib ibn Abi Balta’a para os coraixitas.” Nela, os coraixitas eram avisados da campanha do Mensageiro de Allah contra Meca. 5. O imã Suhayli mencionou acontecimentos de várias batalhas e citou o conteúdo da carta. Nela estava escrito: “Quanto ao que vem depois: Ó coraixitas, o Mensageiro de Allah está vindo contra vós com um exército. Mesmo que viesse sozinho, Allah o ajudaria e cumpriria a promessa que lhe fez. Portanto, cuidai de vós mesmos. E a paz.”
Al-Waqidi escreveu que Hatib enviou esta mensagem a Suhayl ibn Amr, Safwan ibn Umayya e Ikrima: “O Mensageiro de Allah anunciou às pessoas que haverá guerra. Não sei se ele virá contra vós ou se irá para outro lugar. Quero que isto seja considerado um favor meu para convosco.”
Perguntaram ao Mensageiro de Allah: “Hatib, que significa isto?” Hatib respondeu: “Não vos precipiteis a meu respeito. Juro por Allah que tenho fé em Allah e em Seu Mensageiro. Não me tornei apóstata, nem ocorreu qualquer mudança em mim. O fato é que não pertenço à tribo dos coraixitas. Eu vivia entre eles sob sua proteção, e atualmente minha família está com eles. Não tenho com os coraixitas nenhum vínculo de parentesco que os leve a cuidar da minha família. Por isso pensei em prestar-lhes um favor, para que protegessem minha família. Todos os outros que estão convosco, exceto eu, têm parentes em Meca. Esses parentes cuidarão de suas famílias.” Ao ouvir as palavras de Hatib, Umar disse: “Ó Mensageiro de Allah, permite-me decepar-lhe a cabeça. Esse homem traiu Allah e Seu Mensageiro; tornou-se um hipócrita.” O Mensageiro de Allah disse: “Vede, ele participou da batalha de Badr. Ó Umar, como podes saber? Talvez Allah tenha dito aos participantes da batalha de Badr: ‘Fazei o que quiserdes; eu vos perdoei.’” Ao ouvir isso, os olhos de Umar encheram-se de lágrimas. Ele disse: “Allah e Seu Mensageiro sabem melhor.” 6. Sahih al-Bukhari, volume 1, página 422.
Assim, Allah, o Senhor dos mundos, fez com que os espiões fossem descobertos. Como resultado, nenhuma informação sobre os preparativos de guerra dos muçulmanos conseguiu chegar aos coraixitas.
O exército muçulmano dirige-se a Meca
No dia 10 de Ramadã do oitavo ano da Hégira, o Mensageiro de Allah partiu em direção a Meca. Dez mil Companheiros estavam com ele. Abu Raham al-Ghifari foi designado para administrar Medina.
Depois de avançar até Juhfa ou um pouco além, encontraram o tio do Mensageiro de Allah, o honorável Abbas. Ele havia aceitado o Islã e estava emigrando para Medina com toda a sua família. Ao chegarem a um lugar chamado Abwa, encontraram Abu Sufyan ibn al-Harith, seu primo paterno, e Abdullah ibn Umayya, seu primo materno. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, virou o rosto. Ambos haviam causado muitos sofrimentos a ele e costumavam compor poesias para difamá-lo. Ao ver isso, a honorável Umm Salama disse ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz: “Não é conveniente que seus primos paterno e materno sejam as pessoas mais malvistas por você.”
O honorável Ali disse a Abu Sufyan ibn al-Harith e a Abdullah ibn Umayya: “Ide até o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e dizei-lhe as palavras que os irmãos de José lhe disseram. Certamente o Mensageiro de Allah não gostará que a resposta de outra pessoa seja melhor que a sua.” Os irmãos do honorável José lhe haviam dito: “Por Allah, Allah certamente lhe deu primazia sobre nós, e nós fomos certamente culpados.” (Surata Yusuf, versículo 91)
Abu Sufyan ibn al-Harith fez isso. Ao ouvir esse versículo, Abu Sufyan ibn al-Harith recitou então alguns versos de poesia, cujo significado era: “Pela tua vida, quando ergui a bandeira com o propósito de fazer o cavaleiro de Lat triunfar sobre o cavaleiro de Muhammad, eu estava como um viajante perdido na noite. Mas agora chegou o momento de eu ser guiado; agora estou apto a receber a orientação. Em vez da minha própria inclinação, um guia me orientou e mostrou-me o caminho de Allah, embora antes eu sempre tivesse ignorado esse caminho.”
Ao ouvir isso, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, bateu emocionado no peito de Abu Sufyan e disse: “Tu me ignoraste em todos os assuntos.” 7[Mais tarde, Abu Sufyan ibn al-Harith tornou-se um bom muçulmano. Conta-se que, depois de aceitar o Islã, por vergonha, não levantava os olhos para olhar para o Mensageiro de Allah. O Mensageiro de Allah também o amava e lhe dava a boa notícia do Paraíso. Dizia: “Espero que Abu Sufyan seja como Hamza.” Quando sua morte se aproximou, ele disse: “Não choreis por mim. Depois de aceitar o Islã, não proferi nenhuma palavra que pudesse ser considerada pecado.” (Zad al-Ma’ad, vol. 2, pp. 162–163)]
O exército muçulmano em Marr al-Zahran:
O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, continuou sua viagem. Ele e todos os nobres Companheiros estavam jejuando. Ao chegar perto de Qudayl Jalshayer, entre Asfan e Qudayd, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, rompeu o jejum. 8[ Sahih al-Bukhari, vol. 2] Seguindo o seu exemplo, os nobres Companheiros também romperam o jejum.
Depois, eles retomaram a viagem. Na primeira vigília da noite, chegaram a Marr al-Zahran, isto é, à planície de Fátima. Por ordem do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, os Companheiros acenderam fogueiras separadamente. Dez mil fogueiras estavam sendo usadas para cozinhar. O Mensageiro de Allah designou o honorável Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, para a tarefa de vigiar.
Abu Sufyan diante do Mensageiro de Allah:
Depois de acampar em Marr az-Zahran, Hazrat Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) saiu para circular montado na mula branca do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Ele queria encontrar alguém a quem pudesse enviar notícias a Meca, para que os coraixitas fossem até o Mensageiro e pedissem segurança antes que ele entrasse em Meca.
Enquanto isso, Allah havia impedido que qualquer tipo de notícia chegasse aos coraixitas. Por isso, os habitantes de Meca nada puderam descobrir. Entretanto, passavam os dias aterrorizados e apreensivos. Abu Sufyan saía para tentar descobrir se havia alguma notícia nova. Naquela ocasião, ele havia saído acompanhado de Hakim ibn Hizam e Budail ibn Warqa para tentar obter informações.
Hazrat Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Eu ia montado na mula do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). De repente, ouvi Abu Sufyan e Budail ibn Warqa conversando. Abu Sufyan dizia: ‘Por Allah, nunca antes vi tantos fogos e um exército tão grande como hoje.’ Budail ibn Warqa respondeu: ‘Por Allah, são os Banu Khuza’a. A guerra os devastou.’ Abu Sufyan disse: ‘Os Banu Khuza’a não poderiam ter tantos fogos e um exército tão numeroso.’”
Hazrat Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Ao ouvir a voz de Abu Sufyan, eu disse: ‘É você, Abu Hanzala?’ Reconhecendo minha voz, Abu Sufyan respondeu: ‘É você, Abul Fadl?’ Eu disse: ‘Sim.’ Abu Sufyan perguntou: ‘O que aconteceu? Que meus pais sejam sacrificados por você.’ Eu disse: ‘O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) chegou com todo o seu exército. Que situação desastrosa para os coraixitas!’ Abu Sufyan disse: ‘O que faremos agora? Que meus pais sejam sacrificados por você.’ Eu disse: ‘Se eles o encontrarem, cortarão sua cabeça. Suba e sente-se atrás de mim nesta mula. Vou levá-lo ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e providenciarei sua segurança.’ Então Abu Sufyan montou na mula e sentou-se atrás de mim. Os outros dois companheiros dele voltaram.”
Hazrat Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Segui caminho levando Abu Sufyan. Quando chegávamos a algum grupo, as pessoas perguntavam: ‘Quem está vindo?’ Mas, ao me verem montado na mula do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), diziam: ‘É o tio do Mensageiro de Allah, montado na própria mula dele.’ Estávamos passando por Umar ibn al-Khattab, que perguntou: ‘Quem é?’ E imediatamente veio em minha direção. Ao ver Abu Sufyan atrás de mim, disse: ‘Abu Sufyan? O inimigo de Allah? Louvo a Allah, pois Abu Sufyan caiu em nosso poder sem qualquer confronto.’ Dizendo isso, Hazrat Umar correu até o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Eu também apressei a mula. Desci dela e fui até o Mensageiro de Allah. Enquanto isso, Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) chegou e disse: ‘Ó Mensageiro de Allah, veja Abu Sufyan ali. Dê-me permissão para cortar sua cabeça.’ Hazrat Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: ‘Ó Mensageiro de Allah, eu lhe concedi proteção.’ Depois, toquei a cabeça do Mensageiro de Allah e disse: ‘Por Allah, esta noite ninguém além de mim poderá falar secretamente com você.’ Quando Hazrat Umar insistiu repetidamente para receber permissão para matar Abu Sufyan, eu disse: ‘Pare, Umar. Se Abu Sufyan fosse dos Banu Adi ibn Ka’b, você não falaria assim.’ Hazrat Umar disse: ‘Pare, Abbas. Por Allah, sua conversão ao Islam é mais querida para mim do que a conversão de meu pai, Khattab, e isso somente porque sua conversão é mais querida ao Mensageiro de Allah do que a conversão de meu pai, Khattab.’”
O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Abbas, leve Abu Sufyan para sua tenda. Traga-o até mim pela manhã.” Conforme a ordem do Mensageiro de Allah, levei Abu Sufyan para minha tenda. Pela manhã, levei Abu Sufyan diante do Mensageiro de Allah. O Mensageiro de Allah disse: “Abu Sufyan, ai de você! Ainda não chegou o momento de compreender que não há divindade além de Allah?” Abu Sufyan respondeu: “Que meus pais sejam sacrificados por você. Como você é generoso, nobre e misericordioso! Compreendi perfeitamente que, se houvesse alguma divindade além de Allah, ela teria sido útil nesta ocasião.”
O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Abu Sufyan, ainda não chegou o momento de compreender que eu sou o Mensageiro de Allah?” Abu Sufyan respondeu: “Que meus pais sejam sacrificados por você. Como você é nobre e misericordioso, e como demonstra compaixão para com os parentes! Ainda tenho algumas dúvidas sobre a questão que você levantou.” Hazrat Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Aceite o Islam antes que sua cabeça seja cortada. Testemunhe que não há ninguém digno de adoração além de Allah e que Hazrat Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) é o Mensageiro de Allah.” Depois que Hazrat Abbas disse isso, Abu Sufyan aceitou o Islam e testemunhou a verdade.
Hazrat Abbas disse: “Ó Mensageiro de Allah, Abu Sufyan é um homem de posição; por isso, peço que lhe seja concedida alguma distinção.” O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) respondeu: “Está bem. Quem entrar na casa de Abu Sufyan estará seguro. Quem fechar a porta de sua própria casa por dentro estará seguro. E quem entrar na Casa Sagrada, a Caaba, também estará seguro.”
O exército islâmico em direção a Meca:
Na manhã do dia 17 de Ramadã do oitavo ano da Hégira, o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — partiu de Marr az-Zahran em direção a Meca. Ele disse ao seu tio, Abbas — que Allah esteja satisfeito com ele —, que mantivesse Abu Sufyan parado ao pé da montanha na planície, para que ele pudesse ver os soldados de Allah que passavam por aquele caminho. Abbas fez isso. Enquanto isso, as diversas tribos avançavam com suas bandeiras. Quando uma tribo passava, Abu Sufyan perguntava: “Abbas, quem são eles?”. Abbas respondia, por exemplo: “São os Banu Salim”. Abu Sufyan dizia: “O que tenho eu a ver com os Banu Salim?”. Quando outra tribo passava pelo caminho, Abu Sufyan perguntava: “Quem são estes?”. Abbas respondia: “Esta é a tribo Muzaina”. Abu Sufyan dizia: “O que tenho eu a ver com a tribo Muzaina?”. Uma após outra, todas as tribos passaram diante de Abu Sufyan. Sempre que uma tribo passava, Abu Sufyan perguntava quem eram e, depois de saber sua identidade, dizia: “O que tenho eu a ver com eles?”. Em seguida, o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — avançava acompanhado pelos emigrantes e pelos ansar. Ali se viam apenas elmos de ferro. Abu Sufyan disse: “Subhanallah! Quem são estes?”. Abbas respondeu: “O Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — está avançando com os ansar e os emigrantes”. Abu Sufyan disse: “Quem tem força para lutar contra eles? Ó Abu al-Fadl, o reino do teu sobrinho tornou-se realmente poderoso”. Abbas respondeu: “Ó Abu Sufyan, isto é a profecia”. Abu Sufyan disse: “Sim, agora é isso que se dirá”.
Nesse momento, ocorreu ainda outro incidente. A bandeira dos ansar era carregada por Sa’d — que Allah esteja satisfeito com ele. Ao passar diante de Abu Sufyan, Sa’d disse: “Hoje é o dia do derramamento de sangue e da luta. Hoje o Santuário será violado. Hoje Allah determinou a humilhação dos coraixitas”. Depois, quando o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — passou, Abu Sufyan disse: “Ó Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele —, o senhor ouviu o que Sa’d disse?”. O Mensageiro de Allah perguntou: “O que Sa’d disse?”. Abu Sufyan contou-lhe o que ele havia dito. Ao ouvir isso, Uthman e Abd ar-Rahman ibn Awf disseram: “Ó Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele —, tememos que Sa’d comece um massacre entre os coraixitas”. O Mensageiro de Allah disse: “Não. Hoje é o dia em que a Caaba será honrada. Hoje é o dia em que Allah concederá honra aos coraixitas”. Então, o Mensageiro de Allah enviou um companheiro para retirar a bandeira das mãos de Sa’d e entregá-la a seu filho Qays. Assim, pareceu que a bandeira continuava nas mãos de Sa’d. Segundo outro relato, o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — entregou a bandeira a az-Zubayr — que Allah esteja satisfeito com ele.
Às portas dos coraixitas:
Depois que o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — passou diante de Abu Sufyan, Abbas — que Allah esteja satisfeito com ele — disse: “Abu Sufyan, agora vai até o teu povo”. Abu Sufyan chegou rapidamente a Meca e gritou em voz alta: “Ó coraixitas! Muhammad — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — veio contra vocês com um exército tão numeroso que enfrentá-lo é impossível. Portanto, quem entrar na casa de Abu Sufyan estará seguro”. Ao ouvir isso, sua esposa, Hind bint Utbah, levantou-se, aproximou-se e, puxando o bigode de Abu Sufyan, disse: “Matem este velho! Que pereça este velho que trouxe más notícias!”
Abu Sufyan disse: “Que a destruição recaia sobre vocês! Cuidado para que essa mulher não os engane quanto a salvar suas vidas. Muhammad — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — veio com um exército tão grande que, de modo algum, é possível enfrentá-lo. Portanto, estarão seguros aqueles que entrarem na casa de Abu Sufyan”. As pessoas disseram: “Que Allah te destrua! Quantos de nós poderão entrar na tua casa?”. Abu Sufyan respondeu: “Também estarão seguros aqueles que fecharem por dentro as portas de suas próprias casas. E estarão seguros aqueles que entrarem na Mesquita Sagrada”. Ao ouvir isso, as pessoas começaram a correr para suas casas e para a Mesquita Sagrada, isto é, para a Caaba. Entretanto, os coraixitas ardilosos instigaram alguns arruaceiros rebeldes, dizendo: “Nós os lançamos contra eles. Se os coraixitas obtiverem algum sucesso, juntar-nos-emos a eles. Se forem feridos, daremos a eles tudo o que nos pedirem”. Como líderes dos tolos arruaceiros e rebeldes que se prepararam para lutar contra os muçulmanos foram escolhidos Ikrima ibn Abu Jahl, Safwan ibn Umayya e Suhayl ibn Amr. Sob a liderança desses três, um grupo de coraixitas reuniu-se em Khindama. Entre eles estava um homem da tribo Banu Bakr chamado Hammas ibn Qays. Antes disso, ele trabalhava consertando armas. Certo dia, enquanto consertava suas armas, sua esposa perguntou: “Para que serve toda essa preparação?”. Hammas respondeu: “Para me preparar para enfrentar Muhammad e seus companheiros”. Ao ouvir isso, sua esposa disse: “Por Allah, ninguém é capaz de enfrentar Muhammad e seus companheiros”. Hammas respondeu: “Por Allah, espero poder trazer alguns de seus companheiros para que sejam teus escravos. Se eles vierem hoje para o combate, não terei desculpa alguma para não enfrentá-los. Tenho armas completas: lanças afiadas e espadas de dois gumes”. Esse homem também esteve presente na batalha de Khindama.
Em Dhu Tuwa:
Enquanto isso, o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — partiu de Marr az-Zahran e chegou a Dhu Tuwa. Nessa ocasião, devido à honra que Allah lhe havia concedido, o Mensageiro de Allah mantinha a cabeça baixa, em humildade e gratidão. Em Dhu Tuwa, ele reuniu o exército. Colocou Khalid ibn al-Walid à sua direita. Ali estavam as tribos Aslam, Sulaym, Ghifar, Muzaina e algumas outras tribos árabes. O Mensageiro de Allah ordenou a Khalid ibn al-Walid que entrasse pela área baixa de Meca. Disse-lhe: “Se algum coraixita se colocar em teu caminho, mata-o. Depois, vai encontrar-me em Safa”.
Colocou Hadrat az-Zubair ibn al-Awwam à esquerda. Ele levava o estandarte do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, ordenou-lhe que entrasse na parte elevada de Meca, isto é, em Kudá, erguesse em Hajun o estandarte que lhe havia entregado e aguardasse ali até a sua chegada.
Hadrat Abu Ubaida estava encarregado de dirigir aqueles que haviam vindo a pé. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, ordenou-lhe que avançasse pelo caminho situado na extremidade da planície e que eles descessem em Meca.
A entrada do exército islâmico em Meca:
Depois de receberem as instruções do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, os comandantes seguiram com seus respectivos soldados para os locais determinados.
Os politeístas que se encontravam no caminho de Hadrat Khalid e seus companheiros foram enfrentados e mortos. Qarz ibn Jabir al-Fihri e Khunais ibn Khalid ibn Rabi’a, companheiros de Hadrat Khalid, alcançaram o martírio. Os dois haviam se separado do exército e seguido por outro caminho. Ali foram mortos. Em Khandama, os coraixitas rebeldes enfrentaram Hadrat Khalid e seus companheiros. Houve um confronto entre os dois lados durante algum tempo, no qual doze politeístas foram mortos. Por causa desse acontecimento, o terror tomou conta dos coraixitas. Hammās ibn Qais, que estava decidido a lutar contra os muçulmanos, correu para casa e trancou a porta. Disse à esposa: “Mantenha a porta trancada; não a abra.” A esposa perguntou: “Onde foi parar toda aquela sua fanfarronice?” Hammās ibn Qais respondeu: “Ai de mim! Safwan e Ikrima fugiram correndo. Fomos recebidos com espadas desembainhadas. Essas espadas cortavam gargantas e cabeças de tal maneira que nada se ouvia além dos gritos lancinantes dos mortos e do alvoroço.”
Depois de enfrentar os inimigos em Khandama, Hadrat Khalid percorreu várias áreas de Meca, foi até Safa e encontrou-se com o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz.
Enquanto isso, Hadrat az-Zubair avançou à frente, ergueu o estandarte do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, perto da Mesquita de Fath, em Hajul, e construiu uma tenda para a sua permanência. Depois, permaneceu ali até a chegada do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz.
A entrada na Caaba e a remoção dos ídolos:
Depois, o Mensageiro de Allah entrou na Mesquita Sagrada — a nobre Baitullah — acompanhado pelos Ansar e pelos Muhajirun. Primeiro, beijou a Pedra Negra. Em seguida, circundou a Caaba. Naquela ocasião, o Mensageiro de Allah segurava um bastão.
Naquela época, havia trezentas e sessenta estátuas ao redor da Caaba e sobre seu teto. O Mensageiro de Allah golpeava essas estátuas com o bastão que tinha na mão e proclamava: “A verdade chegou, e a falsidade desapareceu; certamente, a falsidade estava destinada a desaparecer.”
Ele também recitava este versículo do Sagrado Alcorão: “A verdade chegou, e o movimento da falsidade cessou.”
O Mensageiro de Allah realizou a circunvolução montado em sua camela e, por não estar em estado de ihram, limitou-se a fazer apenas a circunvolução. Depois de concluí-la, chamou Uthman ibn Talha (que Allah esteja satisfeito com ele) e tomou dele a chave da Caaba. Em seguida, por ordem do Mensageiro de Allah, a Caaba foi aberta. Ao entrar, ele viu muitas imagens. Entre elas, havia imagens do profeta Ibrahim e do profeta Ismail. Eles seguravam nas mãos flechas usadas para adivinhação. Ao ver aquilo, o Mensageiro de Allah disse: “Que Allah destrua todos esses politeístas! Por Allah, esses dois profetas jamais usaram flechas para adivinhação.” O Mensageiro de Allah também viu dentro da Caaba um pombo de madeira. Ele mesmo o despedaçou com as próprias mãos. Por sua ordem, as imagens foram destruídas.
A oração na Caaba e o discurso aos coraixitas:
Depois, o Mensageiro de Allah fechou por dentro a porta da Caaba. Usama e Bilal permaneceram no interior. Após fechar a porta, o Mensageiro de Allah foi até a parede diante dela e ficou a três côvados de distância da parede. Naquele momento, havia duas colunas à esquerda, uma coluna à direita e três colunas atrás. Naquela época, havia seis colunas ou pilares na Caaba. Então, ele realizou a oração ali. Depois da oração, percorreu o interior da Caaba e proclamou em todas as suas partes as palavras do takbir e do tawhid. Em seguida, abriu novamente a porta da Caaba. Os coraixitas estavam reunidos diante dela, isto é, na Mesquita Sagrada, esperando para ver o que o Mensageiro de Allah faria. Segurando com as duas mãos as duas folhas da porta, ele dirigiu um discurso aos coraixitas. Nesse discurso, disse: “Não há divindade além de Allah. Ele é Único e Incomparável; não tem parceiro algum. Ele cumpriu Sua promessa. Por meio de Seus servos, derrotou sozinho todas as forças que se opunham a Ele. Saibam que, exceto a administração da Caaba e o fornecimento de água aos peregrinos, todas as demais honras ou méritos estão sob os meus pés. Lembrem-se: a responsabilidade ou compensação por qualquer tipo de homicídio é de cem camelos, dos quais quarenta devem estar prenhes.”
Ó coraixitas, Allah eliminou de vosso meio a ignorância e o orgulho baseado na ascendência paterna e nos antepassados. Todos os seres humanos são filhos de Adão, e Adão foi criado do barro. Em seguida, recitou este versículo: “Ó humanidade, criamos-vos de um homem e de uma mulher. Depois, dividimos-vos em diferentes povos e tribos para que vos conhecêsseis uns aos outros. Certamente, o mais honrado de vós perante Allah é o mais temente. Allah conhece todas as coisas e está informado de tudo.”
Hoje não há censura:
Então ele disse: “Ó coraixitas, o que pensais que farei convosco?” Todos responderam: “Pensamos que nos tratarás bem. És misericordioso, filho de um irmão misericordioso.” Então ele disse: “Nesse caso, digo-vos as mesmas palavras que o profeta José (que a paz esteja sobre ele) disse aos seus irmãos: ‘Lā taṯrība ʿalaykumu l-yawma.’ Hoje não há censura contra vós. Estais todos livres.”
A chave da Caaba:
Depois, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) sentou-se na Mesquita Sagrada. A chave da Caaba estava nas mãos de Ali. Ele disse: “Ó Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), além da honra de dar água aos peregrinos, confia-nos também a responsabilidade de cuidar da Caaba. Que Allah Todo-Poderoso tenha misericórdia de ti.” Segundo outro relato, quem fez esse pedido foi Abbas. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) perguntou: “Onde está Uthman ibn Talha?” Foram chamá-lo. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Uthman, toma esta chave. Hoje é o dia da lealdade.” Segundo o relato de Tabaqat Ibn Sa‘d, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Toma esta chave para sempre. Ninguém a tirará de vós, exceto um injusto. Ó Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele), Allah Todo-Poderoso nomeou-vos guardiões da Sua Casa. Portanto, consumi o que receberdes da Casa de Allah.”
O chamado à oração de Bilal sobre o teto da Caaba:
Chegara a hora da oração. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) ordenou a Bilal que subisse ao teto da Caaba e fizesse o chamado à oração. Naquele momento, Abu Sufyan ibn Harb, Attab ibn Asid e Harith ibn Hisham estavam sentados no pátio da Caaba. Não havia mais ninguém ali. Attab disse: “Allah Todo-Poderoso concedeu a Asid a graça de não ter de ouvir isto; caso contrário, teria de ouvir algo desagradável.” Ao ouvir isso, Harith disse: “Escuta, juro por Allah: se eu ouvir que ele é verdadeiro, tornar-me-ei seu seguidor.” Abu Sufyan disse: “Vede, não direi nada. Se eu disser alguma coisa, juro por Allah, estas pedras me enterrarão.” Depois, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) apresentou-se diante deles e disse: “Sei tudo o que acabastes de dizer.” Então repetiu-lhes as próprias palavras. Diante desse acontecimento extraordinário, Harith e Attab disseram: “Testemunhamos que és o Mensageiro de Allah. Juro por Allah que não havia ninguém conosco capaz de ouvir as nossas palavras. Afirmamos que foste informado do que dissemos.”
A oração da vitória ou de agradecimento:
Naquele dia, o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) foi à casa de Umm Hani, filha de Abu Talib, e tomou banho. Depois, realizou ali oito unidades de oração.
Era então o período da oração de Duha. Por isso, alguns disseram que era a oração de Duha, enquanto outros disseram que era a oração de agradecimento após a conquista ou a vitória. Umm Hani havia dado abrigo aos seus dois cunhados. O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Ó Umm Hani, também concedo proteção àqueles a quem deste abrigo.” Ele disse isso porque Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) queria matar os dois cunhados de Umm Hani. Umm Hani era irmã de Ali. Ela escondera os dois cunhados e mantivera a porta fechada. Quando o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) chegou ali, Umm Hani contou-lhe o problema relativo aos seus cunhados, e o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) fez a declaração acima.
Alguns inimigos notórios:
No dia da conquista de Meca, quando o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, incluiu nove criminosos notórios e identificados na lista daqueles que deveriam ser mortos, foi ordenado que fossem mortos mesmo que se escondessem sob as cortinas da Caaba. Eles eram:
1. Abd al-Uzza ibn Khatal; 2. Abdullah ibn Sa’d ibn Abi Sarh; 3. Ikrima ibn Abi Jahl; 4. Harith ibn Nufayl ibn Wahb; 5. Maqis ibn Sababa; 6. H abbar ibn Aswad; 7. as duas escravas de Ibn Khatal, que difamavam o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, por meio de poemas; 9. Sarah. Ela era uma escrava de um dos filhos de Abd al-Muttalib. Difamava o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele; além disso, foi com ela que foi encontrada a carta enviada por Hatib a Meca.
Uthman ibn Affan, que Allah esteja satisfeito com ele, levou Abdullah ibn Sa’d ibn Abi Sarh ao Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, e intercedeu por sua vida. O Mensageiro de Allah concedeu-lhe o perdão e aceitou sua conversão ao Islã. Contudo, antes disso, permaneceu em silêncio por algum tempo. Ele desejava que, nesse intervalo, algum companheiro matasse Abdullah. Isso porque esse homem já havia aceitado o Islã uma vez e emigrado para Medina, mas depois apostatara, isto é, abandonara a religião, e fugira de volta para Meca. Após aceitar o Islã pela segunda vez, porém, permaneceu firme e inabalável nele.
Ikrima ibn Abi Jahl havia fugido pelo caminho do Iêmen. Sua esposa pediu ao Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, que poupasse a vida de seu marido. O Mensageiro de Allah concedeu-lhe o pedido. Então aquela mulher seguiu o caminho do marido e o trouxe de volta. Ikrima foi até o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, aceitou o Islã, e sua conversão revelou-se verdadeiramente sincera.
Ibn Khatal estava pendurado, segurando as cortinas da Caaba. Um companheiro foi até o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, e deu-lhe a notícia. Ele disse: “Mate-o.” Aquele companheiro foi e o matou.
Maqis ibn Sababa foi morto por Numayla ibn Abdullah. Maqis havia aceitado o Islã inicialmente, mas depois apostatou e também matou um companheiro dos Ansar. Em seguida, retornou para junto dos idólatras em Meca.
Harith costumava causar diversos sofrimentos ao Mensageiro em Meca. Ali, que Allah esteja satisfeito com ele, matou-o.
Habbab ibn Aswad empurrou com tanta força Zaynab (que Allah esteja satisfeito com ela), filha do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), durante sua Hégira, que ela caiu da liteira sobre um terreno duro. Com isso, sofreu um aborto. No dia da conquista de Meca, esse homem fugiu. Mais tarde, retornou como muçulmano. Posteriormente, seu Islam também se mostrou genuíno.
Uma das duas escravas de Ibn Khatal foi morta. Quanto à outra, pediram ao Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) que lhe concedesse perdão, e ela aceitou o Islam.
Também pediram perdão para Sarah, a mensageira da carta de Hatib, e ela aceitou o Islam.
Foi concedido perdão aos cinco restantes, e eles aceitaram o Islam.
Ibn Hajar escreveu que, a respeito daqueles que haviam sido incluídos na lista dos que deveriam ser mortos, Abu Ma’shab mencionou ainda outro nome: Harith ibn Talal al-Khuza’i. Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) matou-o. O Imam Hakim também menciona o nome de Ka’b ibn Zuhayr nessa lista. A história de Ka’b é famosa. Mais tarde, ele veio, aceitou o Islam e compôs poemas elogiando o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). Os nomes de Wahshi ibn Harb e de Hind bint Utbah, esposa de Abu Sufyan, também constavam dessa lista. Mais tarde, eles aceitaram o Islam. A escrava de Ibn Khatal, Arnab, foi morta. Umm Sa’d também foi morta. Ibn Ishaq fez esse relato. Segundo essa contagem, o número de homens era oito e o de mulheres, seis. Também é possível que Arnab e Umm Sa’d fossem nomes da mesma escrava, havendo diferença apenas no laqab e na kunya.
Embora Safwan ibn Umayya não tivesse sido incluído na lista dos que deveriam ser mortos, como um destacado líder coraixita, temia por sua vida. Por isso, fugiu. Umayr ibn Wahb al-Jumahi compareceu perante o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) e pediu segurança para ele. O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) concedeu-lhe proteção. Como sinal dessa proteção, entregou a Umayr seu próprio turbante. Deve-se mencionar que o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) usava esse turbante na cabeça quando entrou em Meca. Umayr foi até Safwan. Naquele momento, Safwan estava prestes a embarcar num barco para fugir por mar de Jidá para o Iêmen. Umayr trouxe Safwan de volta dali. Ao chegar perante o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), Safwan pediu um prazo de dois meses; o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) concedeu-lhe quatro meses. Depois disso, Safwan aceitou o Islam. Sua esposa já havia se tornado muçulmana. O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) manteve ambos em seu primeiro casamento.
Fudala era um criminoso. Enquanto o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) realizava o tawaf, ele se aproximou e ficou diante dele com a intenção maliciosa de assassiná-lo. O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) revelou-lhe a conspiração que ele guardava no coração. Fudala ficou absolutamente perplexo. Imediatamente, recitou: “Não há divindade senão Allah; Muhammad é o Mensageiro de Allah.”
O sermão do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) no dia seguinte à conquista de Meca:
No dia seguinte à conquista de Meca, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) levantou-se para proferir um sermão. Depois de louvar devidamente a Allah, disse: “Ó pessoas! No mesmo dia em que Allah, o Altíssimo, criou os céus e a terra, determinou Meca como uma cidade sagrada. Por isso, a santidade desta cidade permanecerá intacta até o Dia da Ressurreição. Não é permitido a ninguém que creia em Allah e no Dia da Ressurreição derramar sangue nesta cidade ou cortar qualquer árvore. Se alguém perguntar: ‘Mas o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) derramou sangue aqui’, dizei-lhe que Allah havia dado permissão ao Seu Mensageiro, mas essa permissão não vos foi concedida. Quanto a mim, o derramamento de sangue só me foi permitido durante um período determinado. Assim como no passado eram proibidos aqui o derramamento de sangue e os homicídios, assim também continuarão proibidos no futuro. Os que estão presentes devem transmitir esta notícia aos ausentes.”
Segundo outra narração, também foi mencionado que os espinhos daqui não devem ser cortados, a caça não deve ser afugentada e os objetos perdidos encontrados no caminho não devem ser recolhidos. Contudo, poderá recolhê-los aquele que anunciar a identificação do objeto. A erva daqui não deve ser arrancada. Quando Umar ibn al-Khattab (que Allah esteja satisfeito com ele) mencionou a erva idhkhir, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: “Sim, a erva idhkhir pode ser arrancada.” Naquele dia, membros da tribo Banu Khuza’a mataram um homem da própria tribo. Sobre isso, o Mensageiro de Allah disse: “Ó membros de Khuza’a, abstende-vos dos homicídios. Se os homicídios fossem benéficos, já teriam sido cometidos antes. Muitos homicídios já ocorreram. Vós matastes um homem cuja indenização certamente pagarei. A partir de agora, se alguém matar uma pessoa, os parentes do morto poderão, se quiserem, matar um dos assassinos; e, se quiserem, poderão receber uma indenização.”
Segundo uma narração, depois deste anúncio do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), um homem do Iêmen chamado Abu Shah levantou-se e disse: “Ó Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), mande escrever este seu anúncio para mim.” Ele ordenou que o escrevessem. 10 [Sahih Bukhari, vol. 1, pp. 22, 216]
A dúvida dos Ansar:
Após a conquista de Meca, os Ansar comentavam entre si: “Depois de conquistar sua terra natal, será que o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) permanecerá em Meca?” Naquele momento, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) estava orando no monte Safa, com as mãos erguidas. Ao terminar a oração, perguntou: “Sobre o que estáveis conversando entre vós?” Os Ansar negaram. Depois de perguntar repetidamente, eles informaram-no de sua dúvida. O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: “Allah me proteja! Agora, minha vida e minha morte estão convosco.”
O Juramento de Fidelidade:
Depois que Allah, o Senhor dos mundos, concedeu a conquista de Meca ao Seu amado Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) e aos muçulmanos, a verdade tornou-se clara para os habitantes de Meca. Eles compreenderam que não havia caminho para o sucesso senão o Islam. Por isso, apresentaram-se diante do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) para prestar o juramento de fidelidade, com o propósito de se tornarem seguidores do Islam. O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) sentou-se sobre Safa e começou a receber o juramento de fidelidade das pessoas. Umar ibn al-Khattab (que Allah esteja satisfeito com ele) estava abaixo do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) e obtinha os compromissos das pessoas. Os presentes comprometeram-se diante do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) a ouvi-lo e obedecer-lhe tanto quanto pudessem.
É mencionado no Tafsir Madarək que, depois de receber o juramento de fidelidade dos homens, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) também o recebeu das mulheres. Umar ibn al-Khattab (que Allah esteja satisfeito com ele) estava abaixo e, por ordem do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), recebia o juramento de fidelidade e transmitia suas palavras às mulheres.
Naquela ocasião, Hind, a esposa de Abu Sufyan, apresentou-se com roupas diferentes. Na verdade, ela temia que o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, a reconhecesse por causa do tratamento que havia dado ao corpo de Hamza, que Allah esteja satisfeito com ele. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, estava recebendo o juramento de fidelidade, dizendo: “Não associareis ninguém a Allah.” Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, repetiu essas mesmas palavras, dizendo: “Ó mulheres, não associareis ninguém a Allah.” Em seguida, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Não roubareis.” Assim que ouviu isso, Hind disse: “Abu Sufyan é extremamente avarento; o que acontecerá se eu pegar algo de seus bens?” Abu Sufyan estava presente e disse: “Tudo o que pegares será lícito para ti.” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, sorriu e então disse: “Então, és Hind?” A esposa de Abu Sufyan respondeu: “Sim, ó Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Perdoa o que aconteceu.” O Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Que Allah te perdoe.”
Em seguida, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Não cometereis adultério.” Ao ouvir isso, Hind disse: “Uma mulher livre poderia cometer adultério?” Depois, ele disse: “Não matareis os vossos próprios filhos.” Hind respondeu: “Eu os criei durante a infância, e, quando cresceram, os vossos homens os mataram. Portanto, vós e eles sabeis melhor o que aconteceu com eles.”
Convém mencionar que Hanzala ibn Abu Sufyan, filho de Hind, foi morto no dia da batalha de Badr. Ao ouvir as palavras de Hind, Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, riu intensamente. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, também sorriu.
Em seguida, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Não caluniareis ninguém.” Hind respondeu: “Juro por Allah, a calúnia é algo muito mau. Tu realmente ensinas a orientação e o bom caráter.” Depois, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Não me desobedecereis em nenhum assunto legítimo.” Hind disse: “Juro por Allah, não me sentei nesta reunião com a intenção de te desobedecer.”
Depois, ao voltar para casa, Hind quebrou os ídolos que havia em sua residência. Enquanto os quebrava, dizia: “Estávamos enganados a vosso respeito.” 11 [Madābik al-Tanzil.]
A permanência do Profeta, que a paz esteja com ele, em Meca:
O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, permaneceu dezenove dias em Meca. Durante esse período, orientou as pessoas sobre o ensino do Islã, o temor a Allah e a orientação. Nessa época, por ordem do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, Abu Ubayd al-Khazari, que Allah esteja satisfeito com ele, reinstalou os pilares do Santuário Sagrado.
Durante o período mencionado, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, convocou as pessoas ao Islã e enviou a vários lugares algumas sariyyah, isto é, pequenas unidades militares. Assim, todos os ídolos foram destruídos. Por ordem do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, um homem anunciou: “Quem crer em Allah e no Além não deve manter um ídolo em sua casa; deve, pelo contrário, destruí-lo.”
Envio de destacamentos e delegações:
1. Após a conquista de Meca, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, enviou, no dia 25 do Ramadã do 8.º ano da Hégira, um destacamento sob o comando de Khalid ibn al-Walid (que Allah esteja satisfeito com ele). A expedição foi enviada para eliminar Uzza. Uzza estava em Nakhlah. Os coraixitas e todas as tribos de Banu Kinana adoravam esse ídolo. Era o maior de seus ídolos. A tribo de Banu Shayban cuidava dele. Hazrat Khalid foi a Nakhlah com trinta cavaleiros e destruiu o ídolo. Ao retornar, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, perguntou a Hazrat Khalid: “Viste alguma coisa?” Ele respondeu: “Não, nada.” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Então não destruíste o ídolo de fato?”
Hazrat Khalid voltou, empunhando novamente a espada desembainhada. Dessa vez, viu uma mulher negra, nua e de cabeça raspada, avançando em sua direção. Hazrat Khalid então a golpeou com a espada, e a mulher foi partida em duas. Depois, Hazrat Khalid foi informar o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Ele disse: “Sim, era Uzza. Agora ela perdeu toda a esperança de ser adorada em vossa terra.”
2. Ainda naquele mês, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, enviou Amr ibn al-As para destruir outro ídolo chamado Suwa. Ele ficava a três milhas de Meca. A tribo de Banu Hudhayl o adorava na região de Ruhat. Quando Hazrat Amr chegou, o sacerdote perguntou: “O que queres?” Ele respondeu: “Vim, por ordem do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, para destruir este ídolo.” O sacerdote disse: “Não conseguirás.” Ele perguntou: “Por quê?” O sacerdote respondeu: “Serás impedido por forças invisíveis.” Ele disse: “Que pena para ti! Esse ídolo acaso vê? Acaso ouve? Ainda permaneces na falsidade?” Então destruiu o ídolo e ordenou aos seus companheiros que revistassem o santuário. Nada foi encontrado. Por ordem de Hazrat Amr, o santuário também foi destruído. Em seguida, ele perguntou ao sacerdote: “E então, o que achaste?” O sacerdote respondeu: “Passei a crer em Allah, o Único, sem associados.”
3. Ainda naquele mês, foram enviados vinte soldados sob o comando de Hazrat Sa’d ibn Zayd al-Ashhali. Eles foram destruir o ídolo Manat. Esse ídolo ficava numa região chamada Mashal, perto de Qudayd. As tribos de Ghassan, Aws e Khazraj o adoravam. Quando Hazrat Sa’d chegou, o sacerdote perguntou: “O que queres?” Ele respondeu: “Quero destruir Manat.”
O sacerdote disse: “Tu sabes, e teu trabalho também sabe.” Hazrat Sa’d percebeu então que uma mulher negra, de aparência horrível e cabeça raspada, havia saído. Ela batia no peito e gritava de dor. O sacerdote disse: “Manat está prestes a destruir alguns dos teus desobedientes.” Nesse momento, Hazrat Sa’d partiu Manat em dois com a espada. Depois, o santuário foi destruído. Porém, nada foi encontrado ali.
4. Ainda naquele mês, depois de retornar da destruição de Uzza, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, enviou Hazrat Khalid (que Allah esteja satisfeito com ele) a Banu Jadhimah. Ele foi enviado para convidá-los ao Islã. Hazrat Khalid (que Allah esteja satisfeito com ele) partiu com trezentos e cinquenta homens dos Muhajirun, dos Ansar e da tribo de Banu Sulaym. Ao chegar à tribo de Banu Jadhimah, convidou-os ao Islã. Em vez de dizerem “aslamna”, isto é, “aceitamos o Islã”, disseram “saba’na, saba’na”, isto é, “abandonamos nossa religião”. Por isso, Hazrat Khalid começou a matá-los e prendê-los. Depois, entregou um prisioneiro a cada um de seus companheiros e ordenou que os matassem. Hazrat Abdullah ibn Umar e seus companheiros recusaram-se a obedecer à ordem do comandante. O ocorrido foi relatado ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Ele ergueu as duas mãos ao céu e disse duas vezes: “Ó Allah, busco refúgio em Ti contra aquilo que Khalid fez.” 12 [Sahih al-Bukhari, vol. 1, p. 450]
Por ordem de Hazrat Khalid, os homens da tribo de Banu Sulaym mataram seus próprios prisioneiros. Os Ansar e os Muhajirun não mataram os seus prisioneiros. Depois desse incidente, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, enviou Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) para providenciar a indenização pelos mortos e a reparação de seus demais prejuízos. Nesse episódio, houve uma acalorada discussão entre Hazrat Khalid e Hazrat Abd al-Rahman ibn Awf (que Allah esteja satisfeito com ele). Ao ouvir isso, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Khalid, para! Abstem-te de dizer qualquer coisa contra meus companheiros. Juro por Allah: mesmo que o monte Uhud se transformasse em ouro e tu gastasses tudo no caminho de Allah, ainda assim não poderias alcançar sequer o mérito da adoração de uma manhã ou de uma tarde de qualquer um dos meus companheiros.” 13 [Ibn Hisham, Sahih al-Bukhari, Fath al-Bari, Sahih Muslim, Zad al-Ma’ad.]
A batalha pela conquista de Meca foi a verdadeira batalha decisiva, e a conquista de Meca foi a verdadeira vitória, que despedaçou completamente o poder e a arrogância dos politeístas. Não restou mais qualquer possibilidade de shirk ou idolatria na Península Arábica. Pois, além dos muçulmanos e dos politeístas, as pessoas comuns observavam o assunto com grande curiosidade, querendo saber qual seria o desfecho desse conflito. As pessoas comuns sabiam muito bem que somente a força estabelecida sobre a verdade seria capaz de estabelecer seu domínio sobre a Caaba. O acontecimento de Abraha e seu exército de elefantes, ocorrido meio século antes, fortaleceu ainda mais sua fé. Os árabes daquela época haviam testemunhado com os próprios olhos como o exército de elefantes que avançava com o objetivo de atacar a Casa de Allah foi destruído e completamente aniquilado.
Pode-se recordar que o Tratado de Hudaybiyyah foi o início, ou a introdução, da conquista de Meca. Como resultado desse tratado, fontes de paz e segurança começaram a fluir por toda parte. As pessoas tiveram a oportunidade de conversar abertamente umas com as outras. Elas trocavam opiniões e debatiam sobre o Islã. Até aqueles que haviam aceitado o Islã secretamente em Meca tiveram a oportunidade de trocar opiniões sobre a religião. Como resultado, muitas pessoas abraçaram o Islã. Até então, nas diversas guerras, o número de muçulmanos não havia ultrapassado três mil. Contudo, no momento da conquista de Meca, seu número era de dez mil.
Nessa batalha decisiva, os olhos das pessoas se abriram. Até o último véu que cobria seus olhos foi removido. Não restou mais nenhum obstáculo para aceitar a religião do Islã. Após a conquista de Meca, o sol dos muçulmanos começou a brilhar no céu político e religioso de Meca. Tanto a autoridade religiosa quanto o domínio mundano passaram inteiramente para as mãos dos muçulmanos.
A situação favorável aos muçulmanos que havia surgido como resultado do Tratado de Hudaybiyyah alcançou sua plenitude após a conquista de Meca. A etapa seguinte pertencia exclusivamente aos muçulmanos, e a situação estava sob seu controle único. Depois disso, restava apenas um caminho às diversas tribos árabes: ir, acompanhadas de delegações, aceitar o Islã e espalhar o convite à religião por todas as partes. E, de fato, foi isso que aconteceu durante os dois anos seguintes.
Terceira etapa: a batalha de Hunayn
Esta foi a última etapa da vida profética do Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Esta etapa de sua vida foi o reconhecimento do sofrimento que ele suportou ao longo de quase vinte e três anos de esforço e dedicação.
Durante esse longo período, a conquista de Meca foi o sucesso mais importante do Profeta (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). Essa vitória provocou uma transformação radical na situação e trouxe mudanças ao ambiente e às circunstâncias da Arábia. Essa conquista foi uma ponte entre o período anterior e o posterior. Aos olhos do povo árabe, os coraixitas eram os guardiões e defensores da religião. Toda a Arábia estava subordinada a eles nesse aspecto. A derrota dos coraixitas significava que a idolatria havia sido extirpada pela raiz de todo o território árabe, para sempre.
Essa última etapa mencionada divide-se em duas partes: primeiro, a luta e a guerra; segundo, a chegada apressada de diversos povos e tribos para aceitar o Islã. Essas duas situações estavam intimamente ligadas uma à outra.
A Batalha de Hunayn
A conquista de Meca ocorreu por meio de uma campanha repentina. Com isso, o povo da Arábia ficou atônito de espanto. As tribos vizinhas não tinham força para enfrentar essa campanha inesperada. Por essa razão, algumas tribos poderosas, arrogantes e indisciplinadas, juntamente com algumas pessoas de Banu Bilal, juntaram-se à luta. Essas tribos eram ligadas a Qays ʿAylān. Consideravam contrária à sua honra submeter-se aos muçulmanos. Por isso, foram até Malik ibn Awf an-Nasri e decidiram atacar os muçulmanos.
A partida dos inimigos e sua chegada a Awtas
Após a decisão, todos os não muçulmanos reunidos partiram sob a liderança de Malik ibn Awf para combater os muçulmanos. Levaram consigo suas famílias e seus rebanhos. Chegaram à planície de Awtas. Awtas é uma planície da região de Banu Hawazin, perto de Hunayn. Contudo, essa planície é diferente de Hunayn. Hunayn é uma planície distinta, situada perto de Dhu al-Majaz. De lá, a distância até Meca, passando por Arafat, é superior a dez milhas. 1[Fath al-Bari, vol. 8, pp. 27, 42]
A concentração das tropas inimigas
Depois de chegarem a Awtas, as pessoas se apresentaram diante do comandante Malik ibn Awf. Entre elas estava o experiente veterano Duraid ibn as-Simmah. Esse homem estava curvado pelo peso da idade. Tinha experiência em muitas guerras. Em certa época, fora um guerreiro valente. Agora, não podia fazer mais nada além de relatar sua experiência e aconselhar com base nela. Ele perguntou a Malik: “Em que planície vocês estão?” Responderam-lhe: “Na planície de Awtas.” Ele disse: “Este é um lugar adequado para reunir tropas. Mas estou ouvindo o zurro dos jumentos, o bramido dos camelos, o relinchar dos cavalos, o choro das crianças e as vozes das mulheres.” Informaram-lhe que o comandante Malik ibn Awf havia trazido consigo, junto com os soldados, suas famílias e seus rebanhos. Quando Duraid perguntou a razão disso, responderam-lhe que cada guerreiro lutaria bravamente, atraído pelas esposas, filhos, filhas e rebanhos que tinha consigo.
Ao ouvir essa resposta de Malik ibn Awf, Duraid disse: “Por Deus, você é um pastor de ovelhas. Poderá alguma coisa deter um derrotado? Veja: se você vencer a guerra, será pelas espadas e pelas lanças que obterá benefício. Mas, se for derrotado, será humilhado. Pois nada estará seguro: nem as esposas, os filhos, as famílias ou os rebanhos dos guerreiros derrotados.” Duraid perguntou sobre os chefes das diferentes tribos. Depois de ouvir tudo, disse ao comandante: “Ó Malik, você não fez bem em trazer as famílias e os rebanhos da tribo de Banu Hawazin. Envie-os para um lugar seguro em seu próprio território. Depois, montem a cavalo e lutem contra os incrédulos. Se vencerem, os que ficarem atrás virão juntar-se a vocês. Se forem derrotados, eles permanecerão em segurança.”
O comandante Malik ibn Awf rejeitou esse conselho e disse: “Por Deus, não posso fazer isso. Você envelheceu, e sua inteligência também envelheceu. Talvez a tribo de Hawazin me obedeça; caso contrário, cometerei suicídio apoiando-me sobre a espada.” Em suma, Malik não gostou que o nome de Duraid ou seu conselho fosse incluído nessa guerra. Os membros da tribo de Hawazin disseram: “Permanecemos firmes em nossa obediência a você.” Duraid disse: “Não estou com esta guerra. Não tenho nenhuma responsabilidade por ela. Ah! Se hoje eu fosse jovem, se ainda tivesse idade para correr de um lado para o outro, então eu conduziria os cavalos como uma cabra de tamanho médio e pelos longos.”
Espiões dos inimigos
Malik ibn Awf enviou dois espiões para obter informações sobre os muçulmanos. Eles retornaram antes de chegar ao destino. Estavam incapacitados de se mover. Depois que foram apresentados ao comandante, este disse: “Que a desgraça recaia sobre vocês! O que aconteceu?” Eles responderam: “Vimos alguns cavalos malhados e homens; logo depois ficamos assim.”
Enquanto isso, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, recebia diversas informações sobre os inimigos. Ele disse a Abu Hadrad al-Aslami: “Vá, permaneça entre os inimigos e traga-me informações sobre eles.” Ele assim fez.
A rota de Meca para Hunayn
No domingo, 6 de Shawwal do oitavo ano da Hégira, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, partiu de Meca em direção a Hunayn. Esse era o décimo nono dia desde sua chegada a Meca. Havia 12 mil soldados com ele. Desses, 10 mil tinham vindo de Medina para Meca, e os 2 mil restantes partiram de Meca. A maioria dos 2 mil de Meca era de novos muçulmanos. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, tomou emprestadas de Safwan ibn Umayya cem armaduras, juntamente com armas. Nomeou Attab ibn Asid governador de Meca.
Depois do meio-dia, um companheiro chegou e disse: “Subi a uma determinada montanha e vi que os Banu Hawazin vieram lutar com suas famílias. Também trouxeram seus rebanhos.” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, sorriu e disse: “Se Allah quiser, amanhã estes serão despojos dos muçulmanos.” Durante a noite, Anas ibn Marthad ficou encarregado da vigilância.
No caminho, os companheiros viram uma árvore de lote chamada Dhat Anwat. Os politeístas de Meca costumavam pendurar suas armas nessa árvore. Abatiam animais junto dela e realizavam uma feira sob sua sombra. Alguns companheiros disseram ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz: “Faça para nós uma árvore como a deles, chamada Dhat Anwat.” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Allah é o Maior! Juro por Aquele em cuja mão está a minha vida: vocês disseram algo semelhante ao que o povo de Moisés lhe disse. Eles disseram: ‘Faça para nós uma divindade, assim como eles têm divindades.’ Ou seja: faça para nós uma divindade, assim como eles têm uma divindade. Vejo que vocês estão seguindo exatamente o caminho dos povos anteriores. 3 [At-Tirmidhi, Al-Fitan; Musnad Ahmad, vol. 5, p. 281]”
Ao verem o grande número de soldados, algumas pessoas disseram: “Hoje, de modo algum seremos derrotados.” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, também não aprovou essa afirmação.
O ataque repentino dos muçulmanos:
Na noite de terça-feira, dia 10 de Shawwal, o exército islâmico chegou a Hunayn. Mālik ibn Awf já havia chegado ao local e, na escuridão da noite, espalhara secretamente seus soldados em vários pontos. Eles receberam ordens de, assim que os muçulmanos chegassem, lançar flechas contra eles e, pouco depois, atacá-los em conjunto.
Enquanto isso, bem cedo pela manhã, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, posicionou os soldados em vários lugares. Ao amanhecer, os soldados muçulmanos entraram no campo de Hunayn. Eles nada sabiam sobre o exército inimigo. Enquanto os soldados muçulmanos, ignorando que o inimigo estava à espreita, se instalavam tranquilamente, de repente começou uma chuva de flechas contra eles. Pouco depois, os inimigos lançaram-se todos de uma vez sobre os muçulmanos. Os muçulmanos, atordoados, começaram a dispersar-se. Foi uma derrota evidente. Abū Sufyān, que havia aceitado recentemente o Islã, disse: “Eles não pararão antes de chegar ao outro lado do mar.” Jabalah — ou Qaladah ibn Junayd — disse: “Vejam, hoje a magia foi anulada.” Ibn Isḥāq narrou isso. Al-Barā’ ibn ʿĀzib disse: “Está mencionado no Ṣaḥīḥ al-Bukhārī que os Banū Hawāzin eram arqueiros; quando os atacamos, eles fugiram. Depois começamos a recolher os despojos. Nesse meio-tempo, os inimigos nos deram as boas-vindas com uma chuva de flechas.” 4[Ṣaḥīḥ al-Bukhārī, capítulo sobre o Dia de Hunayn]
É narrado no Ṣaḥīḥ Muslim, segundo Anas (que Allah esteja satisfeito com ele), que Anas disse: “Conquistamos Meca. Depois empreendemos a campanha de Hunayn. Os politeístas vieram em fileiras magnificamente organizadas. Nunca vi uma ordem tão disciplinada. Primeiro vinha a fileira dos cavaleiros, depois a dos soldados a pé; atrás deles, as mulheres, e atrás delas, as ovelhas e cabras; depois, os rebanhos. Éramos numerosos. À direita de nossas tropas estava Khālid (que Allah esteja satisfeito com ele). Porém, nossos cavaleiros começaram a esconder-se atrás de nós e, pouco depois, fugiram. Os árabes também fugiram. Também fugiram aqueles que vocês conhecem.” 5[Fatḥ al-Bārī, volume 8, p. 8]
Quando os Companheiros começaram a dispersar-se, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, chamou-os pelo lado direito, dizendo: “Ó povo, venham até mim! Eu sou Muḥammad, filho de ʿAbdullah.” Naquele momento, além de alguns Muhājirūn e dos Companheiros de sua família, ninguém estava com o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. 6[Segundo a narração de Ibn Isḥāq, seu número era de nove ou dez. O Profeta disse: “Doze permaneceram firmes com o Mensageiro de Allah.” Os Companheiros haviam partido em busca de um abrigo seguro. Oitenta permaneceram firmemente com o Mensageiro de Allah. Nós não demos as costas. Al-Tirmidhī narrou o hadith transmitido por ʿAbdullah ibn ʿUmar. Ele disse: “Vi que meu próprio povo deu as costas no dia de Hunayn. Nem sequer cem Companheiros estavam com o Mensageiro de Allah.”]
Naquele momento delicado, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, demonstrou uma bravura e uma coragem incomparáveis. Ele avançava em direção aos inimigos e dizia em voz alta: “Anā al-nabīyu lā kadhib, anā ibn ʿAbd al-Muṭṭalib”, isto é: “Eu sou o Profeta, não sou mentiroso; sou filho de ʿAbd al-Muṭṭalib.”
Naquele momento, Abū Sufyān e al-ʿAbbās seguravam a mula do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, para que ela não disparasse para a frente. Então o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse ao seu tio al-ʿAbbās que começasse a chamar o povo em voz alta. Al-ʿAbbās tinha uma voz forte. Al-ʿAbbās disse: “Chamei em voz alta: ‘Onde estão vocês, os do povo da árvore, os que participaram do Pacto de Riḍwān?’” Ao ouvirem minha voz, os Companheiros começaram a correr até mim como os bezerros correm ao ouvir o mugido das vacas. Os Companheiros disseram: “Estamos chegando.” 7[Ṣaḥīḥ Muslim, volume 2, p. 100]
Quando os Companheiros começaram a chegar correndo, e cem Companheiros do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, se reuniram ao seu redor, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, enfrentou o inimigo. A batalha começou.
Em seguida, os Ansar foram chamados. Gradualmente, esse chamado ficou restrito aos Banu Harith ibn Khazraj. Enquanto isso, os Companheiros começaram a retornar tão rapidamente quanto haviam partido do campo de batalha. Num instante, uma batalha feroz começou. O Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) olhou para o campo de batalha e disse: “Agora o forno esquentou.” Em seguida, pegou um punhado de poeira e o lançou contra os inimigos, dizendo: “Shāhat al-wujūh”. Isso significa: “Que os rostos sejam desfigurados”. Como resultado da poeira lançada, os olhos de cada inimigo ficaram cobertos de pó. Eles começaram a fugir para salvar a vida, dando as costas.
A derrota dos inimigos
Imediatamente após o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) lançar a poeira, o curso da batalha mudou e os inimigos foram derrotados. Setenta incrédulos da tribo de Thaqif foram mortos. Todas as armas, riquezas, provisões, suprimentos, mulheres, crianças e rebanhos que eles haviam trazido caíram nas mãos dos muçulmanos.
Allah, o Senhor dos mundos, diz a respeito disso: “Allah já vos ajudou em muitas ocasiões, especialmente no dia da batalha de Hunayn, quando vos envaideceu a vossa grandeza numérica, mas isso de nada vos serviu; e, embora fosse ampla, a terra se tornou estreita para vós, e então fugistes, dando as costas. Depois, Allah fez descer a tranquilidade sobre o Seu Mensageiro e sobre os crentes, vinda d’Ele, e enviou tropas que não podíeis ver; e castigou os incrédulos. Essa é a recompensa dos incrédulos.” (Surata At-Tawbah, versículos 25–26)
Perseguição dos inimigos em fuga
Após um breve confronto entre os dois lados, os politeístas começaram a fugir. Depois da derrota, um grupo de inimigos avançou em direção a Ta’if. Outro grupo dirigiu-se para Nakhla, e outro seguiu pelo caminho de Awtas. No confronto entre os dois lados, Hazrat Abu Amir al-Ash‘ari (que Allah esteja satisfeito com ele), um dos Companheiros, alcançou o martírio. Ele liderava um grupo.
Um grupo de Companheiros perseguiu os não muçulmanos que seguiam pelo caminho de Nakhla. Durayn ibn Summa foi capturado. Hazrat Rabi‘ah ibn Rafi o matou.
O maior grupo dos inimigos derrotados avançou em direção a Ta’if. Depois de reunir os espólios de guerra, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) partiu pela estrada de Ta’if.
Espólio de guerra
A descrição do espólio de guerra é a seguinte: seis mil prisioneiros de guerra, vinte e quatro mil camelos, mais de quarenta mil cabras e quatro mil uqiyyas de prata, ou seja, cento e sessenta mil dirrãs. Seu peso era alguns quilos inferior a seis quintais. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, ordenou que todos os bens fossem reunidos. Todo o patrimônio foi concentrado num lugar chamado Yaranah e colocado sob a responsabilidade de Mas‘ud ibn ‘Amr al-Ghifari (que Allah esteja satisfeito com ele). Esses bens não foram distribuídos até que a campanha de Taife fosse concluída.
Entre os prisioneiros também estava Shayma bint Harith Sa‘diyya. Ela era irmã de leite do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Depois que a levaram até o Mensageiro de Allah e ela se identificou, ele a reconheceu por um sinal. Em seguida, o Mensageiro de Allah a tratou com grande respeito. Estendeu seu próprio manto para que ela se sentasse. Atendendo ao desejo de Sa‘diyya, ele lhe demonstrou benevolência e a enviou de volta para seu povo.
A batalha de Taife
Essa batalha foi, na realidade, parte da batalha de Hunayn. A maioria dos derrotados das tribos Hawazin e Thaqif havia ido refugiar-se em Taife com seu comandante, Malik ibn ‘Awf al-Nasri. Por isso, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, partiu em direção a Taife.
Primeiro, foram enviados mil soldados sob o comando de Khalid ibn al-Walid; depois, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, partiu pessoalmente. No caminho, passou por Nakhlah, Imaniyya e Manzil. Num lugar chamado Liyaah havia uma fortaleza de Malik ibn ‘Awf. Por ordem do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, essa fortaleza foi destruída. Depois, prosseguindo a viagem, ao chegar a Taife, o Mensageiro de Allah sitiou a fortaleza de Taife.
O cerco foi prolongado. Segundo o relato de Anas (que Allah esteja satisfeito com ele), registrado no Sahih Muslim, esse cerco durou quarenta dias. Alguns autores de obras sobre a vida do Profeta também mencionaram vinte dias. Outros mencionaram dez, quinze ou dezoito dias. 8[Fath al-Bari, vol. 8, p. 45]
Durante o cerco, ambos os lados lançaram flechas e pedras. No primeiro cerco realizado pelos muçulmanos, flechas foram continuamente disparadas contra eles. Quando os muçulmanos iniciaram o cerco, no começo, foram lançadas tantas flechas contra eles de dentro da fortaleza que parecia que um enxame de gafanhotos havia estendido sua sombra. Alguns muçulmanos ficaram feridos e doze foram martirizados. Por isso, os muçulmanos afastaram suas tendas e as levaram para um lugar um pouco mais distante.
Para enfrentar essa situação, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, instalou um dispositivo para lançar projéteis e disparou várias pedras contra a fortaleza. Isso provocou rachaduras e abriu um buraco na muralha. Os Companheiros lançaram pedras contra eles através desse buraco. Porém, os inimigos dispararam flechas como uma chuva, e vários muçulmanos foram martirizados.
Como estratégia para subjugar os inimigos, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, ordenou que as videiras fossem cortadas e queimadas. Alarmada, a tribo de Thaqif pediu, invocando Allah, o Altíssimo, e os laços de parentesco, que ele desistisse dessa ação. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, aceitou o pedido.
Durante o cerco, um arauto, por ordem do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, anunciou: “Todo escravo que descer da fortaleza e vier até nós será livre.” Com isso, trinta homens saíram da fortaleza e se juntaram aos muçulmanos. 9[Ṣaḥīḥ al-Bukhārī, vol. 2, p. 260]
Entre os escravos que chegaram estava também Abu Bakrah. Ele subiu à muralha da fortaleza e, por meio de uma roda giratória, desceu pendurado até embaixo e veio entregar-se aos muçulmanos. Na língua árabe, “gharāb” é chamado de “bakrah”. Por isso, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, deu a esse escravo recém-chegado o nome de Abu Bakrah. Conforme o relato, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, libertou os escravos que vieram entregar-se aos muçulmanos e os colocou sob a responsabilidade de trinta Companheiros, dizendo: “Dai-lhes os equipamentos necessários.” Esse acontecimento tornou-se extremamente grave para os inimigos dentro da fortaleza.
O cerco se prolongou, mas não havia nenhum sinal de que os inimigos se renderiam. Eles haviam armazenado na fortaleza alimentos para um ano. Nessa ocasião, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, consultou Naufal ibn Muawiya al-Dayli. Naufal disse: “A raposa entrou em sua toca. Se prolongares o cerco, poderás capturá-los; mas, se retornares, eles não poderão causar-te nenhum dano.” Ao ouvir isso, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, decidiu encerrar o cerco. Umar, que Allah esteja satisfeito com ele, anunciou aos Companheiros: “Se Allah quiser, retornaremos amanhã.” Os Companheiros criticaram esse anúncio. Disseram: “Que conversa é essa? Retornaremos sem conquistar Ta’if?” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, ouviu a opinião divergente dos Companheiros e disse: “Está bem, ide combater amanhã pela manhã.” No dia seguinte, os Companheiros foram lutar, mas não obtiveram outro resultado além de voltar feridos. Vendo essa situação, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Se Allah quiser, retornaremos amanhã.” Os Companheiros de todas as categorias demonstraram satisfação com essa decisão. Começaram silenciosamente a arrumar seus pertences. Ao ver isso, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, começou a sorrir suavemente.
Enquanto os nobres Companheiros retornavam, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Retornamos, arrependidos, adoradores e louvando o nosso Senhor.” Ou seja: sois aqueles que retornam, que se arrependem, que adoram e que continuam louvando o vosso Senhor.
Os Companheiros disseram: “Ó Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, roga contra o povo de Thaqif.” Ele disse: “Ó Allah, guia Thaqif e traz seus membros até nós.”
Distribuição dos espólios de guerra em Ji‘rana
Depois de levantar o cerco de Taife, o Mensageiro não iniciou a distribuição do espólio de guerra acumulado em Ji‘rana. A razão desse atraso era que ele desejava devolver tudo ao povo da tribo de Hawazin caso eles retornassem arrependidos. Contudo, mesmo depois de esperar, ninguém veio. Então o Mensageiro começou a distribuir o espólio. Os chefes de várias tribos e as figuras proeminentes de Meca aguardavam ansiosamente receber uma parte do espólio. O Mensageiro concedeu uma quantidade generosa do espólio a esses novos muçulmanos. 10 [para que permanecessem firmes no Islã]
A Abu Sufyan ibn Harb foram dados quarenta uqiyyas, isto é, aproximadamente seis quilos de prata, e cem camelos. Abu Sufyan perguntou: “E meu filho Yazid?” O Mensageiro também lhe deu uma quantia semelhante. Abu Sufyan perguntou: “E meu filho Mu‘awiya?” O Mensageiro também lhe deu uma quantia semelhante. Em suma, somente Abu Sufyan e seus dois filhos receberam dezoito quilos de prata e trezentos camelos.
A al-Harith ibn Kalada foram dados cem camelos. Aos chefes tribais coraixitas e não coraixitas, a alguns foram dados cem camelos, a outros cinquenta e a outros quarenta. Espalhou-se entre as pessoas a notícia de que Muhammad fazia doações tão abundantes que não temia a pobreza. Depois que essa notícia se espalhou, os beduínos vieram cercar o Mensageiro de Allah e conduziram-no até uma árvore. Devido à multidão que o apertava, o manto do Mensageiro ficou preso na árvore. Ele disse: “Ó gente, devolvei-me o meu manto!”
Juro por Aquele em cuja mão está a minha vida: mesmo que eu possuísse tantos quadrúpedes quanto o número das árvores de Tihama, eu distribuiria tudo. Então vereis que não sou avarento, nem temeroso, nem mentiroso. 11 [Ash-Shifa, capítulo do juiz, vol. 1, p. 86]
Depois, o Mensageiro foi até seu próprio camelo e ficou de pé junto dele. Arrancou alguns pelos do animal, mostrou-os e disse: “Ó gente, não tenho direito a nada dos vossos bens de fai’. Nem sequer a quantidade correspondente a estes pelos de camelo que vedes. Há apenas o khums, isto é, uma quinta parte do espólio de guerra, e mesmo essa parte é devolvida a vós.”
Isso foi dado aos novos muçulmanos, chamados no Alcorão de al-mu’allafatu al-qulub. Depois, o Mensageiro disse a Zayd ibn Thabit que reunisse o espólio e os soldados num só lugar e calculasse a distribuição. Ele assim fez. Desse modo, a parte de cada soldado foi de quatro camelos e quarenta cabras. Os guerreiros distintos receberam doze camelos e doze cabras cada um.
Nessa distribuição, o Mensageiro adotou uma estratégia especial. Pois há muitas pessoas no mundo que não seguem o caminho da consciência, mas o caminho do estômago. Assim como se pode conduzir um animal a um lugar seguro pendurando um punhado de capim fresco diante dele e recuando, tentou-se conquistar o coração dos novos muçulmanos por meio da distribuição dos bens mencionados, para que tivessem a oportunidade de aprender a fé e desenvolvessem amor pelo Islã. 12 [Muhammad Ghazali, Fiqh as-Sirah, pp. 298–299]
O estado psicológico dos Ansar
A princípio, não se compreendeu a estratégia política do Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — na distribuição dos espólios de guerra. Por isso, algumas pessoas o criticaram. Os ansar ficaram especialmente entristecidos, pois nada lhes havia sido dado. No entanto, haviam sido convocados em um momento de crise e compareceram rapidamente. Eles lutaram ao lado do Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — de tal maneira que uma derrota aparente se transformou em vitória. Porém, durante a distribuição dos espólios, perceberam que as mãos daqueles que haviam fugido no momento da crise estavam cheias, enquanto as suas estavam vazias. 13[Mesma obra, mesma página]
Ibn Ishaq narrou, citando Abu Sa’id al-Khudri (que Allah esteja satisfeito com ele), que, quando o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — concedeu grandes dádivas aos líderes tribais dos coraixitas e dos árabes, mas nada deu aos ansar, eles ficaram entristecidos. Começaram a cochichar entre si. Alguns chegaram a dizer abertamente: “Por Allah, o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — voltou a se unir ao seu povo.” Sa’d ibn ‘Ubadah (que Allah esteja satisfeito com ele) foi até o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — e disse: “Ó Mensageiro de Allah, os ansar não estão satisfeitos com o que fizeste com os espólios de guerra. Eles estão te criticando. Dizem que distribuíste os bens somente entre o teu próprio povo e concedeste dádivas especiais às tribos árabes, mas não deste nada aos ansar.” O Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — perguntou: “Ó Sa’d, qual é a tua opinião sobre isso?” Ele respondeu: “Ó Mensageiro de Allah, eu também sou um dos membros do meu povo.” O Nobre Profeta disse: “Vai e reúne os membros do teu povo em um só lugar.” Sa’d fez isso. Alguns muhajirun chegaram, e também lhes foi permitido sentar-se. Outros chegaram, mas foram mandados de volta. Então informaram ao Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — que eles haviam comparecido. Ele foi até eles.
Depois de louvar devidamente a Allah, o Nobre Profeta disse: “Ó ansar, qual é a causa do vosso descontentamento e das vossas críticas? Acaso não fui até vós quando estáveis extraviados? Então Allah, o Altíssimo, vos guiou. Éreis necessitados, e Allah, o Altíssimo, vos concedeu riqueza e bens. Ele uniu os vossos corações. Isso não é verdade?” Eles responderam: “Sim, ó Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz —, disseste a verdade. Allah, o Altíssimo, e Seu Mensageiro — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — foram muito benevolentes conosco.” Ele disse: “Por que os ansar não respondem?” Eles disseram: “O que haveremos de responder? Allah, o Altíssimo, e Seu Mensageiro — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — foram extremamente benevolentes conosco.” Ele disse: “Se quiserdes, podeis dizer: ‘Vieste até nós quando eras desacreditado, e nós acreditamos em ti. Foste abandonado, sozinho e sem amigos, e nós te ajudamos. Foste rejeitado, e nós te demos abrigo. Estavas necessitado, e nós aliviamos o teu sofrimento.’”
O Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — disse: “Ó ansar, vós vos ressentistes, em vosso íntimo, por causa de uma coisa insignificante deste mundo. Por meio dela, procurei conquistar os corações de algumas pessoas, para que se tornassem muçulmanas. Quanto a vós, confiei-vos ao Islã que abraçastes. Ó ansar, não estais satisfeitos com o fato de que os outros voltarão para casa levando camelos e cabras, enquanto vós voltareis para casa levando convosco o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz? Juro por Aquele em cuja mão está a minha alma: se não tivesse havido a Hégira, eu teria sido um dos ansar. Se todas as pessoas seguissem um caminho e os ansar seguissem outro, eu seguiria o caminho dos ansar. Ó Allah, concede misericórdia aos ansar, aos seus filhos e aos filhos de seus filhos.”
Ao ouvirem o sermão do Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz —, as pessoas choraram tanto que suas barbas ficaram molhadas. Diziam: “Estamos satisfeitos por ter o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — como nossa parte.” Depois, o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — voltou, e os companheiros foram para seus respectivos lugares. 14[Ibn Hisham, vol. 2, pp. 499–500; Sahih al-Bukhari, vol. 2, pp. 620–621[
A chegada da delegação de Hawazin
Depois da distribuição dos espólios, uma delegação da tribo de Hawazin veio, já tendo aceitado o Islã, ao Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Eram quatorze pessoas. Zuhayr ibn Surad era o seu líder. Abu Barkān, tio de leite do Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz —, também estava entre eles. Eles vieram pedir a devolução dos prisioneiros de guerra e dos bens. Falaram de tal maneira que o coração de todos se enterneceu. 15[Ibn Ishaq afirma que havia nove líderes entre os membros da tribo da delegação. Eles aceitaram o Islã, prestaram o juramento de fidelidade e falaram com Allah e Seu Mensageiro. Disseram: “Ó Mensageiro de Allah, entre aqueles que capturaste há nossas mães e irmãs, nossas tias paternas e maternas. Isso é humilhante para o nosso povo.” (Fath al-Bari, vol. 8, p. 33). Pode-se mencionar que, por “mães”, “irmãs” e semelhantes, pretendiam referir-se às mães, tias paternas, tias maternas e irmãs de leite do Mensageiro de Allah. Quem falava em nome da delegação era Zubayr ibn Surad. Há divergência quanto ao nome Abu Barkān. Alguns o mencionam como Abu Marwan ou Abu Sarwan]. O Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — disse: “Vedes as pessoas que estão conosco. Gosto muito da verdade. Dizei sinceramente: amais mais os vossos filhos e familiares ou os vossos bens?”
Eles responderam: “Para nós, o valor da honra familiar é maior.” O Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — disse: “Está bem. Depois que eu realizar a oração do meio-dia, levantai-vos e dizei: ‘Fazemos do Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — nosso intercessor junto aos crentes, e fazemos dos crentes nossos intercessores junto ao Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz.’ Portanto, devolvei-nos os nossos prisioneiros.”
Depois da oração do meio-dia, eles disseram isso. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “A minha parte e a parte dos Banū ʿAbd al-Muṭṭalib são para vocês. Agora perguntarei aos demais.” Imediatamente, os Ansar e os Muhajirun levantaram-se e disseram: “Tudo o que possuímos também é para o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz.” Em seguida, al-Aqraʿ ibn Ḥābis levantou-se e disse: “O que pertence a mim e aos Banū Tamīm não é para você.” ʿUyaynah ibn Ḥiṣn disse: “O que pertence a mim e aos Banū Fazārah não é para você.” ʿAbbās ibn Mirdās disse: “O que pertence a mim e aos Banū Sulaym também não é para vocês.” Um homem da tribo de Banū Sulaym levantou-se e disse: “Não; pelo contrário, tudo o que possuímos é para o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz.” Ao ouvir isso, ʿAbbās ibn Mirdās disse: “Vocês me humilharam.”
O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Vejam, eles vieram como muçulmanos. Por isso, demorei a distribuir os seus cativos. Portanto, aqueles que estão com cativos devem devolvê-los. Isso será muito bom. Quem quiser conservar a sua parte devida também deve devolver os cativos. No futuro, quando obtivermos bens de al-fayʾ, eles receberão seis vezes esse valor em compensação.” As pessoas disseram: “Estamos dispostos a entregar tudo ao Mensageiro de Allah, com alegria.” O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Não sei quem está satisfeito e quem está insatisfeito.”
Então disse: “É melhor que vocês voltem e enviem o seu líder.” Depois disso, os Companheiros devolveram as crianças e as mulheres cativas. Uma idosa havia caído na partilha de ʿUyaynah ibn Ḥasan; ele não quis devolvê-la, mas posteriormente também a devolveu. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, despediu cada cativo presenteando-o com um manto copta.
A ʿUmrah e o retorno a Medina
Depois de distribuir os espólios, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, entrou em estado de ihram em Jiʿrānah para realizar a ʿUmrah e cumpriu-a. Em seguida, nomeou ʿAttāb ibn Asīd governador de Meca.
Muḥammad al-Ghazālī diz: quando, por ocasião dessa vitória, Allah colocou sobre a sua cabeça a coroa da Grande Vitória, quão grande era a diferença entre aquele momento e o momento em que ele chegara a essa cidade, oito anos antes!
Ele havia chegado a essa cidade como alguém que buscava segurança. Naquela época, era desconhecido e estranho, e a dúvida estava presente em seu coração. Naquele tempo, os habitantes locais honraram-no, deram-lhe abrigo e ajudaram-no; seguiram a luz que ele trouxera consigo. Mais do que isso, por causa dele, consideraram insignificante toda forma de hostilidade dos demais. Aqueles mesmos que, oito anos antes, haviam acolhido o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, quando ele emigrou para Medina, hoje voltavam a recebê-lo. Agora Meca estava em suas mãos, sob o seu controle. O povo de Meca havia colocado aos pés do nobre Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, a sua arrogância e a sua ignorância. Ele perdoou todas as injustiças que haviam cometido no passado e concedeu-lhes, por meio do Islã, honra e sucesso.
Allah, o Altíssimo, diz no Nobre Alcorão: “Certamente, quem tem taqwa e persevera, então Allah não deixa perder a recompensa dos benfeitores.” 16 [Fiqh al-Sīrah, p. 306. Para detalhes sobre a Conquista de Meca e a batalha de Tāʾif, consulte Zād al-Maʿād, vol. 2, pp. 160–201; Ibn Hishām, vol. 2, pp. 389–501; Ṣaḥīḥ al-Bukhārī, vol. 2, pp. 612–623; Fatḥ al-Bārī, vol. 8, pp. 3–85.]
Expedições após a conquista de Meca
Após retornar a Medina dessa longa e bem-sucedida viagem, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, permaneceu em Medina por algum tempo. Durante esse período, ele recebeu várias delegações, enviou funcionários para administrar o governo e enviou pregadores para divulgar a religião.
Além disso, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, enfrentou aqueles que, mesmo depois de a superioridade do Islã ter sido comprovada, não puderam aceitá-lo e, ao contrário, demonstravam arrogância e obstinação de várias maneiras. A seguir, apresentam-se os relatos desses acontecimentos.
Envio de coletores para a zakat
Foi esclarecido na discussão anterior que, após a conquista de Meca, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, retornou a Medina no final do oitavo ano da Hégira. Logo após o surgimento da lua de Muharram do nono ano da Hégira, o Profeta Mustafa, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, enviou coletores para arrecadar a zakat de várias tribos. A seguir, apresenta-se a lista deles.
Nome do coletorTribo para a qual foi enviado
1 Uyayna ibn HusaynBanu Tamim
2 Yazid ibn HusaynAslam e Ghifar
3 Ubbad ibn Bashir — Ashhal, Sulaym e Muzayna
4 Rafi ibn Makith — Juhayna
5 Amr ibn al-As — Banu Fazarah
6 Dahhak ibn Sufyan — Banu Kilab
7 Bashir ibn Sufyan — Banu Ka’b
8 Ibn al-Lutbiyyah — Azd, Banu Zabyan
9 Muhajir ibn Abu Umayya — cidade de Sana’a
10 Ziyad ibn Labid — Hadramaut
11 Adi ibn Hatim at-Ta’i e Banu Asad
12 Malik ibn Nuwayra, Banu Hanẓala
13 Zibrqan ibn Badr, uma parte de Banu Sa’d
14 Qays ibn Asim, outra parte de Banu Sa’d
15 Ala ibn Hadrami, Barein
16 Ali ibn Abu Talib, Najrã
Esses companheiros foram enviados como encarregados da arrecadação do zakat no mês de Muharram do nono ano da Hégira. Nesse ínterim, os membros das tribos das regiões envolvidas já haviam aceitado o Islã. Alguns partiram no início do mês de Muharram, e muitos outros partiram depois. Isso permite compreender a amplitude do sucesso da pregação do Islã após o tratado de Hudaybiyyah. Depois da conquista de Meca, grupos de pessoas começaram a buscar refúgio sob a sombra do Islã.
Algumas expedições daquele período
Coletores foram enviados às diversas tribos para arrecadar o zakat. Contudo, apesar da paz e da ordem em várias regiões da Península Arábica, em alguns lugares começaram a surgir desordens. Tropas foram enviadas para reprimi-las. A seguir, são apresentados os relatos de algumas dessas expedições.
(1) A expedição de Uyayna ibn Hisn al-Fazari
Muharram do nono ano da Hégira
Uyayna foi enviado à tribo de Banu Tamim à frente de cinquenta cavaleiros. Isso ocorreu porque Banu Tamim incitava várias tribos a se absterem do pagamento da jizya. Nenhum Muhajir ou Ansar participou dessa expedição.
Uyayna ibn Hanan marchava durante a noite e permanecia escondido durante o dia. Depois de avançar dessa maneira, ao chegar ao local determinado, perseguiu os membros da tribo de Banu Tamim. Eles fugiram correndo a toda velocidade. No entanto, os muçulmanos capturaram onze homens, vinte e uma mulheres e trinta crianças. Eles foram levados para Medina e mantidos detidos na casa de Ramla bint Harith.
Mais tarde, vieram dez chefes da tribo de Banu Tamim para discutir a libertação dos prisioneiros. Foram até a porta da casa do Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — e clamaram: “Ó Muhammad, venha até nós.” O Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — saiu. Eles o abraçaram e começaram a conversar com ele. O Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — passou algum tempo com eles. Enquanto isso, chegou a hora da oração do meio-dia. Ele conduziu a oração. Depois da oração, sentou-se no pátio da mesquita. Os chefes de Banu Tamim, desejando um debate para demonstrar seu orgulho e sua arrogância, fizeram seu orador, Ata ibn Hajib, avançar. Ele proferiu um discurso. O Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — ordenou ao orador do Islã, Hazrat Thabit ibn Qays Shammās, que o enfrentasse. Ele proferiu uma resposta. Em seguida, os chefes de Banu Tamim fizeram avançar o poeta de sua tribo, Zaykal ibn Badr. Ele recitou alguns poemas que expressavam arrogância. Hassan ibn Thabit, o poeta do Islã, respondeu-lhe.
Quando os dois oradores e os dois poetas terminaram seus discursos e recitações, Aqra ibn Habis disse: “O orador deles fez um discurso mais eloquente que o nosso orador, e o poeta deles recitou uma poesia melhor que a do nosso poeta. A voz do orador e do poeta deles é mais elevada que a voz do nosso orador e do nosso poeta.” Depois disso, os chefes visitantes de Banu Tamim aceitaram o Islã. O Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — presenteou-os com escravas e devolveu-lhes as mulheres e crianças cativas. 1. Escritores especialistas em assuntos de guerra narraram que esse acontecimento ocorreu no mês de Muharram do nono ano da Hégira. Isso indica que Aqra ibn Habis se tornou muçulmano naquela época. Porém, os autores de biografias escreveram que o Mensageiro de Allah havia ordenado a devolução dos cativos da tribo de Banu Hawazin. Então Aqra ibn Habis disse: “Nem eu nem Banu Tamim os devolveremos.” Isso indica que Aqra ibn Habis já havia se tornado muçulmano antes do mês de Muharram do nono ano da Hégira.
2. A expedição de Qutba ibn Amir
Mês de Safar do nono ano da Hégira
Esta expedição partiu em direção a um ramo da tribo Khath’am, na região de Tabala, perto de Turbah. Qutbah partiu com vinte homens. Dez eram camelos, nos quais eles se revezavam para montar. Os muçulmanos lançaram um ataque surpresa, e teve início um intenso combate. Vários homens de ambos os lados ficaram feridos. Qutbah foi morto juntamente com alguns de seus companheiros. Ainda assim, os muçulmanos levaram ovelhas, cabras e crianças para Medina.
3. Expedição de Dahhak ibn Sufyan al-Kilabi
Mês de Rabi al-Awwal do nono ano da Hégira
Esta expedição foi enviada para convidar a tribo Banu Kilab ao Islã. Porém, como eles se recusaram a aceitar o Islã, teve início um combate. Os muçulmanos os derrotaram e mataram um de seus homens.
4. Expedição de Alqamah ibn Mujazziz al-Mudlaji
Mês de Rabi al-Awwal do nono ano da Hégira
Alqamah foi enviado em direção à costa de Jeddah, encarregado do comando de trezentos soldados. A razão era que alguns abissínios haviam se reunido perto da costa de Jeddah. Eles pretendiam saquear e assaltar os habitantes de Meca. Alqamah empreendeu uma expedição marítima e avançou até uma ilha. Ao receberem a notícia da chegada dos muçulmanos, os abissínios fugiram. 2[ Fath al-Bari, vol. 8, p. 59[
5. A expedição de Ali ibn Abi Talib
No mês de Rabi al-Awwal do nono ano da Hégira
Hazrat Ali foi enviado para destruir um ídolo chamado Qalas ou Qalisa, pertencente à tribo de Tai. Sob a liderança de Hazrat Ali, partiram cento e cinquenta soldados, acompanhados de cem camelos e cinquenta cavalos. Eles carregavam bandeiras brancas e negras. Ao amanhecer, os muçulmanos atacaram o bairro de Hatim Tai e destruíram o ídolo Qalas. Em seguida, muitas pessoas, animais quadrúpedes, ovelhas e cabras foram capturados. Entre os prisioneiros estava também a filha de Hatim Tai. Adi ibn Hatim, filho de Hatim, fugiu pelo caminho da Síria. Na casa do ídolo Qalas, os muçulmanos encontraram três espadas e três armaduras. Os espólios foram distribuídos durante o caminho de volta. A filha de Hatim Tai não foi entregue como parte do quinhão de ninguém.
Depois de chegar a Medina, a filha de Hatim Tai pediu misericórdia ao Mensageiro de Allah e disse: “Ó Mensageiro de Allah, aquele que poderia vir até aqui hoje está desaparecido. Meu pai morreu. Sou idosa e não tenho forças para servir. Tende misericórdia de mim, e Allah Todo-Poderoso terá misericórdia de vós.” O Profeta Mustafa perguntou: “Quem poderia vir por ti?” Ela respondeu: “Meu irmão, Adi ibn Hatim.” O Mensageiro de Allah disse: “Ele é o homem que fugiu de Allah Todo-Poderoso e de Seu Mensageiro.” Depois de dizer isso, o Profeta Mustafa foi embora. A mesma pergunta e resposta repetiram-se durante três dias. No terceiro dia, o Mensageiro de Allah, por misericórdia, libertou a filha de Hatim. Naquele momento, havia ali um companheiro — provavelmente Hazrat Ali — que disse à mulher: “Peça também ao misericordioso Profeta uma montaria.” A mulher fez isso. Então o Mensageiro de Allah também ordenou que fosse providenciada uma montaria para a filha de Hatim.
Depois de ser libertada em Medina, a filha de Hatim foi diretamente para a Síria. Ao encontrar os irmãos, disse: “O misericordioso Profeta demonstrou uma misericórdia que nem mesmo vosso pai poderia ter demonstrado. Ide até ele com temor e esperança.” Depois disso, Adi ibn Hatim foi a Medina e encontrou-se diretamente com o Mensageiro de Allah. O Profeta Mustafa fez com que ele se sentasse diante dele e disse: “Para onde estás fugindo? Estás fugindo de Allah Todo-Poderoso e de Seu Mensageiro? Se é assim, dize-me: conheces alguma divindade além de Allah Todo-Poderoso?” Ele respondeu: “Não conheço.” O Profeta Mustafa disse: “Sabe que há uma maldição de Allah sobre os judeus, e os cristãos estão desviados.” Adi disse: “Nesse caso, sou um muçulmano obstinado.” Ao ouvir isso, o rosto do Profeta Mustafa brilhou de alegria. Ele hospedou o filho de Hatim na casa de um ansari. Depois disso, Adi ibn Hatim costumava comparecer diante do Profeta Mustafa de manhã e à tarde. 3 [Zad al-Ma’ad, volume 2, p. 205]
Ibn Ishaq narrou, a partir de Adi ibn Hatim, que o Profeta Mustafa fez Adi ibn Hatim sentar-se diante dele em sua casa e perguntou: “Adi ibn Hatim, não eras sacerdote?” Adi disse: “Respondi: ‘Sim, era.’” O Profeta disse: “Não recebias um quarto dos espólios de teu povo?” Eu respondi: “Sim, recebia.” Ele disse: “No entanto, isso não é lícito na vossa religião.” Respondi: “Sim, é verdade.” Foi então que compreendi que ele era um guia verdadeiramente enviado, o Mensageiro de Allah, pois me havia falado de algo que naturalmente não poderia conhecer. 4 [Ibn Hisham, volume 2, p. 581]
É mencionado na narração de Musnad Ahmad que o Mensageiro de Allah disse: “Ó Adi, aceita o Islã e estarás em paz.” Eu disse: “Eu sigo uma religião.” Ele disse: “Conheço a tua religião melhor do que tu.” Eu perguntei: “Conheces a minha religião melhor do que eu?” Ele respondeu: “Sim. Não é verdade que és sacerdote e que usufruis de um quarto dos espólios do teu povo?” Eu disse: “Sim, é verdade.” O Profeta Mustafa disse: “Isso não é lícito segundo os preceitos da vossa religião.” Ao ouvir essas palavras do Profeta Mustafa, baixei a cabeça. 5 [Musnad Ahmad, volume 7, pp. 258–278]
É narrado no Sahih al-Bukhari, por Hazrat Adi ibn Hatim, que eu estava sentado diante do Profeta Mustafa quando um homem veio informar que estava com fome. Outro homem veio queixar-se de bandidos e salteadores. O Profeta Mustafa disse: “Ó Adi, já viste a cidade de Hira? Se viveres por muito tempo, verás uma mulher chegar de Hira montada num cavalo e circumambular a Caaba. Nesse momento, ela não terá medo de ninguém, exceto de Allah. Se viveres por muito tempo, conquistareis os tesouros de Kisra. Se viveres por muito tempo, verás que será levado ouro em saias cheias para ser distribuído, mas não se encontrará ninguém para recebê-lo.” Ao final dessa narração, Adi diz: “Vi uma mulher chegar de Hira montada num howdah e circumambular a Caaba, sem temer ninguém além de Allah. Eu mesmo fui um dos que conquistaram os tesouros de Kisra. Se viverdes por muito tempo, também encontrareis a prova da veracidade das palavras de Abu al-Qasim: ele disse que seria levado ouro em saias cheias para ser distribuído, mas não se encontraria ninguém para recebê-lo.” 6 [Sahih al-Bukhari, volume 1, p. 507]
A Batalha de Tabuk
A conquista de Meca foi uma campanha decisiva entre a verdade e a falsidade. Depois dessa campanha, não restou no coração dos habitantes de Meca qualquer dúvida sobre a profecia e a missão apostólica do Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Assim, ocorreu uma mudança extraordinária na situação. As pessoas estavam aceitando o Islã em grupos. Tratarei detalhadamente desse assunto no capítulo intitulado “O envio das delegações”. Também é possível ter uma ideia a esse respeito pelo número de muçulmanos presentes durante a Peregrinação de Despedida. Em suma, como os problemas internos estavam quase resolvidos, os muçulmanos passaram a dedicar-se com empenho à universalização do ensino da Sharia islâmica e à propagação e divulgação do Islã.
A causa da guerra
Naquela época, uma potência havia voltado os olhos para Medina e queria provocar um conflito com os muçulmanos sem qualquer provocação da parte deles. Essa potência era o Império Romano. No mundo contemporâneo, era a maior e mais poderosa potência. Já foi mencionado anteriormente que o início desse conflito havia sido provocado por Shurahbil ibn Amr al-Ghassani. Esse homem matou Harith ibn Umayr, mensageiro do Profeta Mustafa, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. O mensageiro havia sido enviado ao governador de Bosra. Depois disso, o Profeta Mustafa, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, enviou um contingente sob o comando de Zayd ibn Haritha. Como resultado, ocorreu a Batalha de Mu’ta em território romano. Contudo, o exército muçulmano não conseguiu vingar-se dos inimigos. Ainda assim, essa expedição exerceu uma influência de grande alcance sobre os habitantes árabes das regiões próximas e distantes.
O imperador de Roma não pôde ignorar todos esses efeitos, reações e sua extensão. Como resultado das expedições muçulmanas, o espírito de independência começou a manifestar-se entre as diversas tribos árabes. Isso constituía uma situação perigosa para ele. Ao mesmo tempo, a consciência de liberdade do povo estava se tornando um desafio para os romanos nas regiões fronteiriças. Em especial, a tensão aumentava na fronteira da Síria. Por isso, o imperador de Roma pensou que era necessário subjugar e eliminar o poder dos muçulmanos antes que se tornasse perigoso. Dessa forma, não haveria oportunidade para que a sedição e a agitação se propagassem nas regiões árabes ligadas a Roma.
Por causa dessas guerras, antes que se completasse um ano após a Batalha de Mu’ta, o imperador de Roma começou a reunir tropas provenientes de Roma, de seus habitantes e das regiões árabes sob o domínio romano. Tratava-se dos preparativos para um terrível e sangrento confronto com os muçulmanos.
Notícias gerais sobre os preparativos de Roma e Ghassan
Enquanto isso, chegavam gradualmente a Medina notícias de que Roma estava se preparando para uma guerra decisiva contra os muçulmanos. Ao receberem essas notícias, os muçulmanos passavam os dias inquietos e apreensivos. Ao ouvirem de repente qualquer som, sobressaltavam-se. Pensavam que os romanos talvez já tivessem chegado. No nono ano da Hégira, ocorreu um episódio. Esse episódio revela a preocupação e a ansiedade dos muçulmanos. Naquela época, o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, fez īlā’ com suas esposas¹ (fazer um juramento de não se aproximar da esposa. Se o juramento for feito por quatro meses ou menos, segundo a Sharia não se aplica qualquer determinação a esse respeito. Porém, se o juramento for feito por um período superior a quatro meses, quando se completarem os quatro meses o assunto será encaminhado ao tribunal da Sharia, que dirá: ou você concede à sua esposa o status de esposa, ou divorcia-se dela. Segundo alguns Companheiros, contudo, depois de transcorridos quatro meses o divórcio ocorre automaticamente.) e retirou-se delas para um aposento separado. No início, os nobres Companheiros não conseguiram compreender o que estava acontecendo. Pensaram que o Profeta Mustafa, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, havia se divorciado de suas esposas. Isso espalhou profunda preocupação e tristeza entre os Companheiros. Umar ibn al-Khattab, que Allah esteja satisfeito com ele, relatou o episódio da seguinte maneira: eu tinha um companheiro dos Ansar. Quando eu estava ausente da presença do Profeta Mustafa, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, ele vinha trazer-me notícias; quando ele estava ausente, eu ia até ele para levar-lhe notícias. Os dois moravam nos arredores de Medina. Eram vizinhos um do outro. Alternadamente, compareciam ao serviço do Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Umar disse: naquela época, temíamos o governante de Ghassan. Haviam-nos informado que o rei de Ghassan poderia atacar-nos. Por isso, passávamos sempre os dias em preocupação e ansiedade. Certo dia, meu companheiro dos Ansar chegou de repente e bateu à porta, dizendo: “Abra, abra!” Eu perguntei: “Os ghassanitas chegaram?” Ele respondeu: “Não, mas aconteceu algo ainda maior.” O Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, havia se afastado de suas esposas. ² [Sahih al-Bukhari, volume 2, p. 730]
Outra narração relata que Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Espalhou-se entre nós a notícia de que o imperador de Ghassan havia preparado cavalos para nos atacar. Um dia, um homem veio comigo à presença do Profeta Mustafa ﷺ e começou a bater repetidamente à porta com força. De fora, ele perguntou: ‘Você adormeceu?’ Saí, angustiado. Ele disse: ‘Aconteceu uma grande calamidade.’ Perguntei: ‘O que aconteceu? Ghassan chegou?’ Ele respondeu: ‘Não, aconteceu algo ainda maior. O Mensageiro de Allah ﷺ divorciou-se de suas esposas.’ 3[Saheeh Bukhari, volume 1, p. 334]
Esse acontecimento mostra quão grave era, naquela época, a ameaça de um ataque romano contra os muçulmanos. Depois que o Profeta Mustafa ﷺ chegou a Medina, os hipócritas espalhavam entre os muçulmanos notícias exageradas sobre os preparativos de guerra dos romanos. Contudo, os hipócritas observavam que o Mensageiro de Allah ﷺ era bem-sucedido em todos os campos e não temia nenhuma potência do mundo. Sempre que qualquer obstáculo surgia diante dele, era despedaçado. Apesar disso, os hipócritas esperavam secretamente que os muçulmanos não sobrevivessem desta vez e que certamente sofressem uma derrota humilhante. O dia de assistir ao espetáculo que aguardavam não estava muito distante. Tendo em vista tais pensamentos, construíram uma mesquita, conhecida como “Masjid Dirar”. Os hipócritas sentavam-se nessa mesquita para conversar e tramavam vários complôs contra os muçulmanos. Ela fora construída com o objetivo de criar divisão e desordem entre os muçulmanos, abrir uma brecha na unidade da ummah muçulmana e preparar o terreno para ajudar os inimigos. Não se limitaram a envolver-se em atividades contrárias ao Islã naquela mesquita fundada com propósitos perversos; além disso, pediram ao Profeta ﷺ que realizasse a oração nela. Por meio disso, os hipócritas queriam enganar os muçulmanos de coração inocente. Se o Profeta ﷺ realizasse a oração ali uma única vez, os muçulmanos comuns não compreenderiam o objetivo abominável daquela mesquita fundada pelos hipócritas. Tampouco poderiam imaginar que terríveis conspirações e complôs estavam sendo tramados contra eles naquela casa chamada mesquita. Além disso, não prestariam atenção a quem frequentava aquela mesquita. Assim, ela se transformaria num centro de conspirações dos hipócritas e de seus aliados externos. Contudo, o Mensageiro de Allah ﷺ não concordou em realizar imediatamente a oração naquela mesquita. Ele disse: “Se Allah quiser, voltarei da guerra e realizarei a oração naquela mesquita.” Naquele momento, estava ocupado com os preparativos para a guerra. Mas os hipócritas não conseguiram alcançar seu objetivo. Allah Todo-Poderoso desmascarou sua conspiração. Ao retornar da guerra, em vez de realizar a oração naquela mesquita, o Nobre Profeta ordenou que ela fosse destruída.
Notícias especiais sobre os preparativos de Roma e de Ghassan
Naquela época, soube-se inesperadamente, por meio de nabateus que haviam ido à Síria buscar óleo — eles eram descendentes de Nabate, filho de Ismael (que a paz esteja sobre ele). Em certa época, haviam dominado Petra e a região norte do Hijaz, mas, com o passar do tempo, perderam sua força e transformaram-se em agricultores e comerciantes —, que Heráclio havia formado um exército de quarenta mil soldados ferozes, comandado por um famoso guerreiro romano. Esse comandante havia reunido sob seu comando as tribos cristãs de Lakhm, Juzam e outras, e a força avançada já havia chegado a um lugar chamado Balqa. Assim, um grave problema surgiu diante dos muçulmanos.
A delicadeza da situação
Naquela época, fazia um calor intenso. O país enfrentava dificuldades econômicas e uma situação próxima da fome. Por isso, muitos queriam permanecer à sombra e perto dos frutos. Não queriam partir imediatamente para a guerra. Além disso, a distância era grande, e o caminho era difícil e acidentado. Considerando tudo isso, a situação era extremamente delicada.
Uma decisão imediata
O Profeta de Allah, após avaliar essa situação, era favorável à adoção de medidas imediatas. Ele compreendia que, se em um momento tão crítico se demonstrassem fraqueza e negligência ao enfrentar os romanos, estes entrariam nas regiões sob domínio e ocupação muçulmanos. Como resultado, isso teria graves repercussões para o chamado, a divulgação e a expansão do Islã. Os muçulmanos perderiam sua superioridade militar. As forças da falsidade e da descrença, derrotadas na batalha de Hunayn, reviveriam e se fortaleceriam. Os hipócritas que mantinham contatos secretos com potências externas e aguardavam o momento e a oportunidade apunhalariam os muçulmanos pelas costas. Atrás estariam os hipócritas do grupo inimigo, e à frente, os soldados romanos não muçulmanos. Assim, os esforços e sacrifícios dedicados à divulgação e à expansão do Islã ficariam diante do fracasso. Os longos sofrimentos do Profeta e dos Companheiros seriam desperdiçados. O sucesso alcançado com grande dificuldade se converteria em fracasso. Contudo, por trás desse sucesso havia uma história muito longa de sacrifício e perseverança dos muçulmanos.
O Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, compreendia plenamente essas possibilidades. Por isso, decidiu que, em vez de permitir a entrada dos infiéis nas áreas dominadas e povoadas pelos muçulmanos, eles seriam atacados em seu próprio território.
Anúncio dos preparativos para a guerra contra os romanos
Após analisar os assuntos mencionados, o Profeta Mustafa, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, ordenou aos Companheiros que se preparassem para a guerra. Também foi ordenado aos habitantes de Meca e às diversas tribos árabes que se preparassem para a guerra. Em outras ocasiões, o Nobre Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, adotava uma estratégia diferente nas guerras e mantinha o destino em segredo. Mas desta vez não fez isso. Anunciou publicamente que haveria uma guerra contra os romanos.
Isso foi feito para que os muçulmanos pudessem preparar-se devidamente para a guerra. Por essa razão, o anúncio da guerra foi feito publicamente. Também foi revelada uma parte da Surata At-Tawbah para incentivar os muçulmanos a se prepararem para a guerra. Ao mesmo tempo, ele explicou a virtude de oferecer caridade e esmolas e incentivou os muçulmanos a gastarem seus bens e riquezas no caminho de Allah.
Os esforços dos muçulmanos para os preparativos da guerra
Os nobres Companheiros começaram a preparar-se para a guerra assim que receberam a ordem do Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Muçulmanos dispostos a participar continuavam chegando de todas as partes de Medina. Ninguém, exceto aqueles em cujo coração havia hipocrisia, isto é, a doença da nifaq, sequer pensava em ficar afastado daquela guerra. Havia, porém, três categorias de muçulmanos que eram diferentes. Não havia qualquer falha em sua fé ou em suas obras. Muçulmanos pobres e famintos chegavam e solicitavam que lhes fossem providenciadas montarias. Mas o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, declarava sua incapacidade de fazê-lo. Sobre isso, Allah Todo-Poderoso diz na Surata At-Tawbah: “Não há culpa sobre aqueles que vieram ter contigo para que lhes providenciasses montarias e tu lhes disseste: ‘Não encontro montarias para vós’. Eles retornaram com os olhos transbordando de lágrimas, entristecidos por não poderem gastar.”
Os muçulmanos esforçavam-se para superar uns aos outros na caridade e nas esmolas. Othman (que Allah esteja satisfeito com ele) havia preparado uma caravana para enviá-la à Síria com fins comerciais. Ela consistia de duzentos camelos bem equipados. Havia também duzentas uqiyyas, isto é, aproximadamente vinte e nove quilos e meio de prata, e ele doou tudo isso. Depois, doou novamente cem camelos, todos bem equipados. Trouxe mil dinares, isto é, aproximadamente cinco quilos de ouro, e os entregou ao Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Ele os examinava, virando-os de um lado para o outro, e dizia: “Depois de hoje, qualquer coisa que Othman faça não lhe causará dano algum.” 5 [Jami‘ At-Tirmidhi, Virtudes de Othman ibn Affan, volume 2, p. 211] Mesmo depois disso, Othman continuou oferecendo caridade. Ao todo, além do dinheiro em espécie, sua doação chegou a novecentos camelos e cem cavalos.
Enquanto isso, Abd ar-Rahman ibn Awf (que Allah esteja satisfeito com ele) trouxe duzentas uqiyyas, isto é, aproximadamente vinte e nove quilos e meio de prata. Abu Bakr as-Siddiq (que Allah esteja satisfeito com ele) trouxe tudo o que havia em sua casa e deixou nela apenas Allah Todo-Poderoso e Seu Mensageiro. Sua doação foi de quatro mil dirhams. Ele foi o primeiro a apresentar sua caridade. Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) apresentou metade de sua riqueza. Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) trouxe grande parte de sua riqueza. Talhah, Sa‘d ibn Ubadah e Muhammad ibn Muslim também apresentaram muitas riquezas. Asim ibn Adi trouxe noventa wasqs, isto é, treze mil e quinhentos quilos, ou doze toneladas e meia, de tâmaras. Os demais Companheiros também trouxeram caridade conforme suas possibilidades. Alguns deram um punhado, outros dois punhados; não tinham condições de dar mais do que isso.
As mulheres enviaram, conforme suas possibilidades, seus colares, braceletes, brincos, tornozeleiras, argolas, anéis e outros adornos ao serviço do Profeta — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Ninguém se absteve nem ficou para trás. O pensamento de avareza não ocorreu ao coração de ninguém. Os hipócritas zombavam daqueles que davam muitas esmolas, dizendo: “Eles pretendem conquistar o país de César com uma ou duas tâmaras.” Sobre isso, Allah, o Altíssimo, diz na surata At-Tawbah do Alcorão: “Quanto àqueles que, entre os crentes, dão esmolas voluntariamente, e àqueles que nada encontram além do fruto de seu próprio trabalho, e que são censurados e ridicularizados por isso, Allah os ridiculariza; e para eles haverá um castigo doloroso.”
O exército muçulmano a caminho de Tabuk
O exército islâmico foi preparado em meio a grande entusiasmo e fervor. Então, o amado Profeta nomeou Muhammad ibn Maslamah — segundo outra versão, Siba ibn Arfatah — governador de Medina e ordenou a Hazrat Ali — que Allah esteja satisfeito com ele — que permanecesse em Medina para cuidar da família e dos parentes. Contudo, os hipócritas começaram a criticá-lo. Como resultado, Hazrat Ali — que Allah esteja satisfeito com ele — deixou Medina e juntou-se ao Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. O Profeta Mustafa — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — enviou-o novamente de volta a Medina e disse: “Não estás satisfeito que tua relação comigo seja como a relação de Moisés com Aarão? Porém, depois de mim não virá profeta algum.”
Após organizar tudo, o Profeta digno de confiança — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — partiu em direção ao norte. Segundo a narração de An-Nasa’i, aquele dia era um sábado. O destino era Tabuk. O número de soldados muçulmanos era de trinta mil. Até então, nunca havia sido formado um exército tão grande. Apesar dos esforços máximos dos muçulmanos, não foi possível fornecer todo o equipamento necessário para um exército tão numeroso. Havia escassez de montarias e provisões. Para cada dezoito soldados havia um camelo, no qual os dezoito se revezavam para montar. Devido à falta de alimentos, muitas vezes eram obrigados a comer folhas de árvores e, apesar do pequeno número de camelos, precisavam abatê-los para saciar a fome. Por essas razões, esse exército ficou conhecido como Jaish al-Usrah, isto é, o exército da dificuldade e da escassez.
A caminho de Tabuk, o exército islâmico passava por Hijr, isto é, a região onde vivia o povo de Thamud. O povo de Thamud havia escavado casas nas rochas dentro de Wadi al-Qura. Os nobres Companheiros retiraram água de um poço dali. Quando se preparavam para partir após retirar a água, o Profeta digno de confiança — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — disse: “Não bebam a água deste lugar nem a utilizem para a ablução. Retirem água do poço em que a camela de Hazrat Salih — que a paz esteja sobre ele — bebia.”
É narrado por Hazrat Abdullah ibn Umar — que Allah esteja satisfeito com ele — em Sahih al-Bukhari e Sahih Muslim que, ao passar por Hijr, isto é, pela terra de Thamud, o Profeta digno de confiança — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — disse: “Não entreis nas moradas desses injustos, para que não vos alcance a calamidade que os atingiu. Porém, podeis entrar chorando.” Depois, cobriu a cabeça e atravessou rapidamente aquele lugar. 6 [Sahih al-Bukhari, volume 2, p. 637]
No caminho, surgiu uma grave escassez de água. Por fim, os Companheiros fizeram um pedido ao Profeta digno de confiança — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Ele fez uma súplica, e Allah, o Altíssimo, enviou uma nuvem. Caiu muita chuva. Os Companheiros beberam água até se saciarem e também armazenaram a quantidade necessária.
Quando se aproximaram de Tabuk, o Profeta digno de confiança — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — disse: “Se Allah quiser, amanhã chegareis ao reservatório de Tabuk. Porém, não chegareis antes do horário de Chasht. Aqueles que chegarem antes não devem tocar na água dali até que eu chegue.”
Hazrat Mu‘adh (que Allah esteja satisfeito com ele) relata: quando chegamos a Tabuk, vimos que dois de nossos companheiros já haviam chegado antes de nós. Da fonte brotava apenas um pouco de água. O Profeta al-Amīn (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) perguntou: “Vocês tocaram na água daqui?” Eles responderam: “Sim.” Ao ouvir isso, o Profeta disse o que Allah quis que ele dissesse. Depois, retirou da fonte uma pequena quantidade de água. Quando a água, que corria lentamente, se acumulou na palma de sua mão, ele lavou o rosto e as mãos com ela e, em seguida, devolveu aquela água à fonte. Depois disso, começou a brotar muita água da fonte. Os Companheiros beberam daquela água até se saciarem. Então o Profeta me disse: “Ó Mu‘adh, se viveres uma vida longa, verás que aqui haverá jardins verdejantes.” 7 [Sahih Muslim, vol. 2, p. 246]
A caminho de Tabuk — segundo outra versão, depois de chegarem a Tabuk — o Profeta (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: “Esta noite haverá uma tempestade muito forte; nenhum de vocês deverá se levantar. Aqueles que tiverem camelos deverão segurar firmemente as cordas deles.” Durante a noite, irrompeu uma tempestade violenta. Um Companheiro havia se levantado, e a força da tempestade o carregou e o lançou entre duas montanhas. 1 [ibid.]
Durante essa viagem, o Profeta costumava juntar as orações do zuhr e do asr, e as do maghrib e do isha. Ele praticou tanto o jam‘ taqdim quanto o jam‘ ta’khir. Jam‘ taqdim significa que, algumas vezes, realizava as orações do zuhr e do asr no horário do zuhr, e as do maghrib e do isha no horário do maghrib. Jam‘ ta’khir significa que, algumas vezes, realizava as orações do zuhr e do asr no horário do asr e, em outras ocasiões, as do maghrib e do isha no horário do isha.
O exército islâmico em Tabuk
Depois que o exército islâmico desembarcou em Tabuk, estabeleceu seu acampamento. Estavam preparados para lutar contra os soldados romanos. O Profeta al-Amīn (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) dirigiu aos Companheiros um discurso em linguagem vigorosa. Nesse discurso, incentivou-os e deu-lhes boas-novas sobre o bem-estar neste mundo e no Além. O discurso elevou o moral dos soldados. Eles não consideraram importante nenhuma privação. Por outro lado, a situação dos romanos e de seu exército tornou-se tal que, ao saberem da chegada do enorme exército muçulmano, ficaram aterrorizados e não tiveram coragem de avançar para enfrentá-lo. Dispersaram-se em suas próprias cidades. Essa retirada dos incrédulos revelou-se benéfica para os muçulmanos. Começou-se a falar, na Arábia e fora dela, da superioridade do poder militar muçulmano. O sucesso político alcançado pelos muçulmanos nessa expedição não teria sido possível se tivessem travado uma guerra contra os romanos.
O relato detalhado é o seguinte: Yahna ibn Rawba, governante de Ayla, foi até o Profeta al-Amīn e celebrou um tratado de paz, aceitando a condição de pagar a jizya. Os habitantes de Jarba e de Adhruh também compareceram e aceitaram a condição de pagar a jizya. O Profeta (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) redigiu para eles um documento de tratado, que eles conservaram. O tratado de paz escrito para o governante de Ayla era o seguinte: “Em nome de Allah, o Clemente, o Misericordioso. Este salvo-conduto de paz é escrito por Allah e pelo Profeta Muhammad (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) para Yahna ibn Rawba e os habitantes de Ayla. Eles terão a proteção de Allah e a proteção do Profeta Muhammad para seus navios e caravanas, em terra e no mar; e esta proteção se estende aos sírios e aos habitantes do litoral que estiverem com Yahna. Contudo, se algum deles causar desordem, Muhammad não poderá garantir a segurança de sua vida por meio de seus bens e riquezas. Os bens de tal pessoa serão lícitos para quem os tomar. Ninguém deverá ser impedido de descer a qualquer poço deles nem de circular por qualquer caminho, em terra ou no mar.”
Além disso, o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) enviou Hazrat Khalid ibn al-Walid com um destacamento de 420 soldados até Ukaydir, governante de Dumat al-Jandal. Foi dito a Khalid: “Verás que ele estará caçando uma vaca azul.” Hazrat Khalid partiu. Quando o castelo do governante já estava à vista, de repente uma vaca azul saiu e começou a dar cabeçadas no portão do castelo. Ukaydir saiu para caçá-la. Hazrat Khalid (que Allah esteja satisfeito com ele), juntamente com seus soldados, capturou Ukaydir e o levou diante do Profeta (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). Este lhe concedeu a vida sob a condição de que entregasse dois mil camelos, oitocentos escravos, quatrocentas armaduras e quatrocentas lanças.
Ukaydir também reconheceu que pagaria a jizya. O Profeta celebrou um tratado de paz com Ukaydir, juntamente com Yahna, sob as condições referentes a Duma, Tabuk, Ayla e Tayma.
Ao verem essa situação, as tribos subservientes aos romanos compreenderam que os romanos já não tinham chão sob os pés. Agora o senhor havia mudado. Já não era necessário obedecer aos romanos; os dias de sua autoridade haviam chegado ao fim. Por isso, elas também se tornaram aliadas dos muçulmanos. Assim, as fronteiras do Estado Islâmico se expandiram até se unir à fronteira romana, e a autoridade e o domínio dos romanos diminuíram consideravelmente.
Retorno a Medina
O exército islâmico retornou de Tabuk vitorioso e bem-sucedido. Não houve nenhum confronto. Quanto à guerra, Allah, o Altíssimo, foi suficiente para os crentes. No caminho, em determinado posto, doze hipócritas tentaram assassinar o Profeta Amin, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Com o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, estava Hazrat Ammar, que Allah esteja satisfeito com ele. Ele avançava segurando as rédeas do camelo. Atrás dele estava Hazrat Hudhayfa ibn al-Yaman, que Allah esteja satisfeito com ele, conduzindo o camelo. Os demais Companheiros estavam então afastados. Os conspiradores hipócritas consideraram aquele momento uma oportunidade de ouro e avançaram para realizar sua intenção impura. Dois Companheiros que acompanhavam o Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, ouviram os passos dos hipócritas. Os doze hipócritas avançavam com o rosto coberto. O amado Profeta compreendeu o que estava acontecendo e enviou Hazrat Hudhayfa. Hazrat Hudhayfa foi para trás e começou a golpear desordenadamente os camelos que transportavam os hipócritas. Por meio desses golpes, Allah, o Altíssimo, os intimidou. Eles recuaram rapidamente e se misturaram aos nobres Companheiros. Então o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, revelou seus nomes e desmascarou a conspiração. Por essa razão, Hazrat Hudhayfa era chamado de “Razdan”, isto é, o guardião dos segredos. Sobre esse acontecimento, Allah, o Altíssimo, diz: “Eles tramaram aquilo que não puderam realizar”, ou seja, eles tencionaram fazer isso, mas não conseguiram.
Na etapa final da viagem, o Profeta Amin, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, avistou Medina de longe e disse: “Ali está Taba; ali está Uhud. Esta é a montanha que me ama e que eu também amo.” Quando a notícia de sua chegada se espalhou por Medina, pessoas de todas as idades saíram e o receberam com grande entusiasmo. Naquele momento, cantavam 9 — palavras de Ibn Qayyim; isso já foi discutido anteriormente: “A lua cheia surgiu sobre nós, vinda de Thaniyyat al-Wada. Enquanto houver quem invoque Allah, será nosso dever agradecer.”
O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, partiu para Tabuk no mês de Rajab e retornou no mês de Ramadan. Toda a viagem durou cinquenta dias. Desses, ele permaneceu vinte dias em Tabuk, e trinta dias foram gastos na ida e na volta. Esta foi a última jihad do Profeta Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, realizada com sua presença física durante sua vida.
Relato sobre os que ficaram para trás
A batalha de Tabuk foi uma difícil prova enviada por Allah, o Senhor dos mundos, devido às circunstâncias especiais. Por meio dela, ficou demonstrada a diferença entre os crentes e as demais pessoas. Em tempos difíceis desse tipo, Allah, o Altíssimo, põe os crentes à prova. Assim, Allah, o Altíssimo, diz na Surata Al Imran: “Allah não deixará os crentes na situação em que vos encontrais até separar o mau do bom. Allah não vos informará sobre o invisível; contudo, escolhe, entre Seus mensageiros, quem Ele quer.”
Todos os crentes sinceros participaram dessa batalha, e a ausência na guerra foi considerada um sinal de hipocrisia. Quando alguém ficava para trás e isso era mencionado ao Profeta Amin, ele dizia: “Deixai-o. Se houver bem nele, Allah logo o fará chegar até vós; e, se não houver, em breve vos livrará dele.” Em suma, duas categorias de pessoas ficaram afastadas dessa batalha. Uma categoria era formada pelos desculpados ou incapazes; a outra, pelos hipócritas. Os hipócritas eram aqueles cuja alegação de crer em Allah e em Seu Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, era falsa; eles apresentavam falsas desculpas para não ir à guerra. Alguns deles nem sequer pediram ao Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, permissão para não participar da guerra. Entretanto, entre eles havia três que eram crentes firmes e sinceros. Eles ficaram afastados da guerra sem qualquer motivo justificável. Allah, o Altíssimo, submeteu-os a uma dura provação e, finalmente, aceitou seu arrependimento.
O relato deste acontecimento é o seguinte: ao retornar da expedição, o Profeta dos Mensageiros, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, dirigiu-se primeiro, como de costume, à Mesquita do Profeta, onde ofereceu duas rak‘ahs de oração. Depois, sentou-se ali. O número de hipócritas era de oitenta ou um pouco mais. 10 [Al-Waqidi escreveu que esse era o número dos hipócritas de Medina. Além disso, o número de hipócritas dos Banu Ghifar e de outras tribos era de oitenta e dois. Abdullah ibn Ubayy e seus seguidores não foram incluídos nessa contagem. O número deles também era grande. Veja Fath al-Bari, vol. 8, p. 119.] Eles foram à Mesquita do Profeta, apresentaram desculpas por não terem podido participar da expedição e fizeram juramento após juramento.
O Profeta dos Mensageiros, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, aceitou suas justificativas externas, recebeu seus juramentos, suplicou a Allah que os perdoasse e deixou o estado interior deles nas mãos de Allah.
Restava o caso de três crentes sinceros: Ka‘b ibn Malik, Mararah ibn ar-Rabi‘ e Hilal ibn Umayyah. Eles disseram com toda a sinceridade que não tinham qualquer razão que os impedisse de participar da expedição. Ao ouvir isso, o Profeta dos Mensageiros, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse aos Companheiros que não falassem com eles. Assim, foi imposto contra eles um boicote total. Pessoas conhecidas tornaram-se estranhas, a terra tornou-se terrível e, apesar de sua vastidão, o mundo pareceu estreito para eles. Suas vidas enfrentaram uma grave crise. A severidade aumentou tanto que, após quarenta dias, Allah aceitou o arrependimento deles. Foi revelado o seguinte versículo da Surata At-Tawbah: “E Ele também perdoou os três que foram deixados para trás, até que a terra, apesar de sua amplidão, se tornou estreita para eles, suas almas se angustiaram e compreenderam que não há refúgio senão em Allah. Então Ele voltou-Se para eles, para que se arrependessem. Certamente, Allah é o Perdoador, o Misericordioso.”
Com o anúncio do perdão vindo de Allah, todos os muçulmanos em geral, e especialmente os três Companheiros mencionados, ficaram extremamente felizes. Os Companheiros correram de um lado para outro, transmitindo essa notícia uns aos outros. Ofereceram doces uns aos outros e fizeram caridade. Na realidade, o dia da revelação desse versículo foi o dia de maior alegria e felicidade de suas vidas.
Sobre aqueles que não puderam participar da expedição por incapacidade e impotência, Allah, o Altíssimo, diz: “Não há culpa sobre os fracos, os doentes e aqueles que não encontram meios, desde que sejam sinceros para com Allah e Seu Mensageiro. Não há motivo para censurar os que praticam o bem. Allah é Perdoador, Misericordioso.”
A respeito dessas pessoas, o Profeta dos Mensageiros, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse ao se aproximar de Medina: “Em Medina há pessoas que estiveram convosco onde quer que tenhais estado e por onde quer que tenhais ido. Elas não puderam participar da expedição por sua incapacidade, isto é, por uma justificativa válida.” Os Companheiros disseram: “Ó Mensageiro de Allah, quer dizer que, permanecendo em Medina, elas estiveram conosco?” O Profeta dos Mensageiros respondeu: “Sim, mesmo permanecendo em Medina, elas estiveram convosco.”
Os efeitos desta expedição
A expedição de Tabuk desempenhou um papel importante na expansão da influência dos muçulmanos sobre a Península Arábica e no fortalecimento de seu poder. O povo compreendeu claramente que, dali em diante, não haveria na Península Arábica nenhuma força além do Islam. Os politeístas e os hipócritas vinham conspirando continuamente contra os muçulmanos e sonhando com a oportunidade que esperavam; esse sonho também foi completamente destruído. Isso porque o centro de suas esperanças e aspirações era o poder romano. Como resultado dessa expedição, essa esperança também se reduziu a pó. Com isso, o moral dos incrédulos e hipócritas foi abalado. Eles compreenderam claramente que não havia qualquer meio de fugir do Islam ou dele se livrar.
Nessa situação, os muçulmanos não tinham necessidade de tratar os hipócritas com suavidade. Allah, o Altíssimo, ordenou que se tratasse os hipócritas com rigor. Inclusive, foi proibido aceitar as esmolas que ofereciam, realizar a oração fúnebre por eles, pedir perdão por eles e visitar seus túmulos. Também foi ordenada a destruição do centro de conspiração que haviam estabelecido sob o nome de mesquita. Foram revelados versículos sobre os hipócritas que os desmascararam completamente. Já não restava qualquer dificuldade para reconhecê-los.
A influência da Expedição de Tabuk também pode ser compreendida pelo fato de que, embora delegações de diversos países tivessem começado a chegar a Medina após a conquista de Meca, depois dessa expedição seu número aumentou muitas vezes. 11[As obras das quais foi extraído o relato detalhado dessa expedição são: Ibn Hisham, volume 2, pp. 515–537; Zad al-Ma’ad, volume 3, pp. 2–13; Sahih al-Bukhari, volume 2, pp. 313–337; Fath al-Bari, volume 8, pp. 110–126; e Tafsir fi Zilal al-Qur’an, surata At-Tawbah]
Versículos do Alcorão sobre isso
Numerosos versículos foram revelados na surata At-Tawbah sobre essa expedição. Alguns foram revelados antes da partida para a expedição e outros depois do retorno a Medina. Esses versículos expuseram detalhadamente as circunstâncias da expedição. O véu dos hipócritas foi removido, deixando-os expostos. Neles é mencionado que o arrependimento dos crentes e dos verazes que participaram da expedição e daqueles que não participaram foi aceito.
Alguns acontecimentos importantes desse período
No nono ano da Hégira ocorreram vários acontecimentos de grande importância histórica.
(1) Após o retorno do Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, de Tabuk, ocorreu o li’an entre Uwaymir al-Ajlani e sua esposa. Deve-se observar que, quando o marido acusa a esposa de adultério sem possuir testemunhas, isso é chamado de li’an.
(2) Uma mulher adúltera foi até o Mensageiro e confessou seu pecado, pedindo que fosse punida. Foi-lhe dito que retornasse depois de dar à luz. Depois que a criança foi desmamada, ela foi apedrejada até a morte, isto é, sofreu o rajm.
(3) O imperador da Abissínia, Ashama Najashi, faleceu, e o Profeta — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — realizou a oração fúnebre à distância por ele.
(4) Umm Kulthum, filha do Profeta — que Allah esteja satisfeito com ela —, faleceu. Com a sua morte, o amado Profeta ficou profundamente entristecido. Ele disse a Uthman — que Allah esteja satisfeito com ele —: “Se eu tivesse uma terceira filha, também a casaria contigo.”
(5) Depois que o Mensageiro — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — retornou de Tabuk, o líder dos hipócritas, Abdullah ibn Ubayy, caiu à beira da morte. O Profeta suplicou pelo seu perdão e, apesar da objeção de Umar — que Allah esteja satisfeito com ele —, realizou a oração fúnebre por ele. Depois, foram revelados versículos do Alcorão que, apoiando a posição de Umar — que Allah esteja satisfeito com ele —, proibiram a realização da oração fúnebre pelos hipócritas.
A realização do Hajj sob a liderança de Abu Bakr — que Allah esteja satisfeito com ele —
No nono ano da Hégira, no mês de Dhu al-Qadah ou Dhu al-Hijjah, o Profeta — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — enviou a Meca o Siddiq al-Akbar, Abu Bakr — que Allah esteja satisfeito com ele —, como emir do Hajj.
Depois, foram revelados os primeiros versículos da surata At-Tawbah. Neles, foi ordenado que os pactos firmados com os politeístas fossem encerrados com base na reciprocidade. Após a chegada dessa ordem, o Profeta — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — enviou Ali — que Allah esteja satisfeito com ele — para tornar pública essa proclamação. Entre os árabes, esse era o costume em relação aos pactos. Abu Bakr — que Allah esteja satisfeito com ele — encontrou Ali — que Allah esteja satisfeito com ele — na planície de Dajnan, ou, segundo outra opinião, em Arj. Abu Bakr — que Allah esteja satisfeito com ele — perguntou: “És o emir ou o encarregado?” Ali — que Allah esteja satisfeito com ele — respondeu: “Sou o encarregado.” Depois, ambos seguiram adiante. Depois, ambos seguiram adiante. Abu Bakr conduziu as pessoas no Hajj. No dia 10 de Dhu al-Hijjah, isto é, no dia do sacrifício, Ali — que Allah esteja satisfeito com ele — postou-se junto aos peregrinos e fez a proclamação conforme a ordem do Profeta — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele —. Ou seja, anunciou o encerramento de todos os tipos de pactos e promessas. Foi concedido um prazo de quatro meses. Também foi concedido um prazo de quatro meses àqueles que não tinham nenhum pacto; porém, os pactos dos politeístas que não haviam violado os acordos com os muçulmanos nem ajudado outros contra os muçulmanos foram mantidos até o prazo determinado.
Abu Bakr — que Allah esteja satisfeito com ele — enviou alguns Companheiros para proclamar que, dali em diante, nenhum politeísta poderia realizar o Hajj, e que ninguém poderia circundar a Caaba nu.
Essa proclamação foi, na realidade, o passo decisivo para pôr fim à idolatria na Península Arábica. Em outras palavras, depois daquele ano, já não restava qualquer oportunidade para que alguém viesse com o propósito de praticar a idolatria. 1[Para mais detalhes, consulte Sahih al-Bukhari, vol. 1, pp. 220 e 451; vol. 2, pp. 626 e 671; Zad al-Ma’ad, vol. 3, pp. 543–546; e os livros de tafsir sobre os primeiros versículos da surata Bara’ah.]
Breve análise das batalhas:
Ao observar as batalhas travadas sob a liderança do Nobre Mensageiro, Hazrat Muhammad Mustafa, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, qualquer pessoa será moralmente obrigada a reconhecer que ele foi o maior e mais bem-sucedido comandante militar do mundo. Considerando as circunstâncias, o ambiente, o contexto, os fatores relevantes e as consequências, ele possuía uma inteligência incomparável. Seu discernimento era impecável e, em estado de consciência vigilante, revestia-se de profunda relevância. No campo da profecia e da missão apostólica, ele era o Sayyid al-Mursalin, isto é, o líder de todos os profetas enviados. Por outro lado, em suas qualidades e atributos de liderança militar, era extraordinário e incomparável. Em todas as batalhas que liderou ou para as quais enviou outros, era capaz de analisar as causas, o ambiente e as circunstâncias, adotando as estratégias e decisões corretas. Sua perícia militar e sua coragem eram únicas. Nos campos da mobilização das tropas, do planejamento da batalha e da determinação das posições, ninguém podia superá-lo. Sua habilidade militar demonstrou que ele era superior até mesmo aos maiores especialistas em guerra do mundo. Em seus planos de batalha não havia possibilidade de sofrer uma derrota. A esse respeito, pode-se mencionar que os acontecimentos nas batalhas de Uhud e Hunayn não foram causados por falhas ou erros no planejamento do Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. A responsabilidade coube à fraqueza pessoal de alguns soldados muçulmanos. Na batalha de Uhud, além disso, suas instruções e decisões importantes e claras foram ignoradas.
Em ambas as batalhas, os muçulmanos chegaram a enfrentar a derrota. Naquele momento, a coragem e a firmeza demonstradas por ele não encontram paralelo em lugar algum. Mesmo cercado pelos inimigos, permaneceu firme e inabalável, e, com uma habilidade militar incomparável, frustrou todas as conspirações deles. Um acontecimento desse tipo ocorreu na batalha de Uhud. Além disso, na batalha de Hunayn, sua perícia militar transformou a derrota dos muçulmanos em vitória decisiva. Entretanto, a situação perigosa de Uhud e o medo desenfreado e a agitação de Hunayn fazem os comandantes perderem a capacidade de tomar decisões. A pressão sobre seus nervos tornou-se tão intensa que, naquele momento, o esforço de autopreservação passou a ser sua principal preocupação.
Esse é o aspecto militar das batalhas mencionadas. Há outro aspecto ainda mais importante. Por meio dessas batalhas, o Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, estabeleceu a paz e a segurança. Apagou o fogo da discórdia e da desordem. No conflito entre o Islã e o paganismo, anulou a força, o poder e a arrogância dos inimigos. Obrigou-os a pensar livremente sobre o chamado e a divulgação do Islã e a tomar suas próprias decisões. Além disso, por meio dessas batalhas, distinguiu os inimigos dos aliados. A diferença entre os muçulmanos verdadeiros e os hipócritas tornou-se evidente.
Por meio da condução de campanhas militares, o Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, formou uma força invencível de comandantes muçulmanos. Mais tarde, o exército criado por ele combateu no Iraque, na Síria, na Pérsia e em Roma, derrotando grandes mestres da guerra por meio de seus planos e estratégias militares. Não apenas isso: expulsou os inimigos de seus territórios, riquezas, campos, fazendas, jardins, reservatórios de água e outros bens. Nessas guerras, o Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, realizou para os muçulmanos tarefas necessárias, como providenciar moradias, campos, fazendas e meios de subsistência. Resolveu o problema dos refugiados sem lar e sem endereço. Providenciou armas, cavalos e diversos tipos de equipamentos militares. E fez tudo isso sem cometer qualquer injustiça, opressão ou excesso contra o adversário.
O amado Profeta também transformou as causas que acendiam o fogo da guerra na época das trevas. Na era da ignorância, a guerra significava pilhagem, assassinato e destruição, injustiça e opressão, devastação das localidades, demolição de casas e palácios, violação da honra das mulheres e tratamento cruel e desumano de crianças e idosos. Além disso, destruir as colheitas dos campos e fazendas e matar os rebanhos — em suma, causar destruição e prejuízo generalizados — eram os objetivos e propósitos dessas guerras. O Islã impediu essas práticas abomináveis da guerra e transformou-a em uma jihad sagrada. Essas guerras eram iniciadas por razões legítimas e justas, e seus resultados eram benéficos para as pessoas de todos os tempos. Sua veracidade foi comprovada em todas as épocas posteriores. Depois dessas jihads, as pessoas compreenderam que a jihad é um esforço armado para libertar os seres humanos da servidão a outros seres humanos, retirá-los da injustiça, da opressão e da perseguição e colocá-los sob um sistema baseado na justiça e na equidade. Em outras palavras, trata-se de estabelecer um sistema no qual os poderosos não possam oprimir os fracos; pelo contrário, no qual os tiranos e opressores sejam enfraquecidos e os direitos dos oprimidos e dos pobres sejam estabelecidos. Assim, o significado da jihad no Islã é proteger aquelas mulheres, homens e crianças fracos que suplicam: “Ó nosso Senhor, tira-nos desta localidade cujos habitantes são opressores. Envia-nos, da Tua parte, um líder e um protetor, e ajuda-nos por meio desse líder.” Além disso, o significado da guerra dos muçulmanos passou a ser libertar a terra de Allah da traição, da injustiça, da opressão e da corrupção, estabelecendo em seu lugar a paz, a segurança, a compaixão e a humanidade. O Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, estabeleceu elevados princípios para a guerra. Não permitiu que os soldados e comandantes muçulmanos se afastassem desses princípios. Hazrat Salman ibn Juwayda narrou que, quando o Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, nomeava alguém como comandante, aconselhava-o a temer a Allah, a ser piedoso e a tratar bem seus companheiros muçulmanos. Depois, dizia: “Lutem em nome de Allah e no caminho de Allah. Combatei, mas não cometeis traição; não violai pactos nem agis com perfídia; não corteis o nariz, as orelhas ou qualquer outra parte de ninguém; não mateis nenhuma criança.”
O Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, também aconselhava o comandante escolhido a agir com simplicidade e gentileza, não recorrer à dureza, proporcionar paz às pessoas e não odiar ninguém. 1 [Sahih Muslim, volume 1, pp. 82–82]
Quando chegava a uma região durante a noite, o amado Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, não atacava antes do amanhecer. Além disso, proibia terminantemente atear fogo, isto é, incendiar qualquer coisa. Também proibiu matar alguém amarrado, agredir mulheres ou matá-las. Proibiu a pilhagem. Disse que os bens saqueados não são mais lícitos do que um animal morto. Também proibiu destruir campos e fazendas, matar quadrúpedes e cortar árvores e plantas. Contudo, se surgisse uma necessidade especial, a situação seria diferente.
Por ocasião da conquista de Meca, o Mensageiro — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — disse: “Não ataqueis nenhum ferido, não persigais nenhum fugitivo e não mateis nenhum prisioneiro.” Ele também estabeleceu a regra de que nenhum mensageiro poderia ser morto. Disse ainda que nenhum cidadão não muçulmano poderia ser morto. Além disso, afirmou que quem matasse injustamente um cidadão não muçulmano nem sequer sentiria o aroma do Paraíso, embora sua fragrância possa ser sentida à distância de quarenta anos de viagem.
Foram esses motivos, além de muitos outros princípios de conduta superiores, que purificaram a guerra da imundície da era da ignorância e a transformaram no sagrado jihad.
A entrada das pessoas na religião de Allah em grupos sucessivos
Já foi mencionado que a conquista de Meca foi uma campanha decisiva. Como resultado, a falsidade da idolatria tornou-se evidente aos árabes e a adoração dos ídolos chegou ao fim. A verdade e a falsidade tornaram-se claras para todos os árabes. Eles começaram então a aceitar o Islã rapidamente. Hazrat Amr ibn Salama — que Allah esteja satisfeito com ele — disse: “Eu vivia junto a um reservatório de água. As pessoas passavam por esse reservatório, e nós perguntávamos aos viajantes sobre aquele homem, isto é, o Profeta — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Os viajantes respondiam: ‘Ele afirma que Allah o enviou como profeta; a revelação é enviada a ele, e nessa revelação Allah diz isto e aquilo.’” Hazrat Amr ibn Salama — que Allah esteja satisfeito com ele — disse: “Eu ouvia essas palavras e guardava na memória aquilo que era mencionado na revelação. Depois que os árabes aceitaram o Islã, aguardavam a conquista de Meca. Diziam: ‘Deixai-o e ao seu povo. Se ele vencer o seu próprio povo, ficará claro que é um profeta verdadeiro.’ Então ocorreu a conquista de Meca.
Todos os povos avançaram para aceitar o Islã. Meu pai também voltou ao meu povo levando ensinamentos islâmicos. Ele disse: “Venho da parte do verdadeiro Profeta. O Profeta ordenou que se realizassem determinadas orações em determinados horários. Quando chegasse o horário da oração, um de vós deveria fazer o adhan. Depois, aquele dentre vós que soubesse mais do Alcorão deveria conduzir a oração como imame.”
Este hadith deixa claro o quanto a conquista de Meca influenciou a mudança da situação, o fortalecimento do Islã, a definição do papel dos árabes e a dedicação deles ao Islã. Após a batalha de Tabuk, essa situação assumiu uma forma ainda mais intensa. Por isso, vemos que, nesses dois anos — isto é, nos anos nove e dez da Hégira —, numerosas delegações chegaram a Medina. Naquele período, as pessoas buscaram refúgio sob a sombra do Islã em grupos sucessivos. Assim, no momento da conquista de Meca, o número de muçulmanos era de dez mil; contudo, em menos de um ano, por ocasião da batalha de Tabuk, esse número havia aumentado para trinta mil.
Por ocasião da Peregrinação de Despedida, verificou-se que o número de muçulmanos havia chegado a cerca de 124 mil — ou, segundo outra opinião, 144 mil. Ao redor do Mensageiro — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele —, eles entoavam o labbayk. Enchiam o céu e a terra com os louvores a Allah, o Senhor dos mundos. O chamado do tawhid ecoava pelas montanhas, pelos campos e pelas planícies.
A chegada das delegações
Os historiadores mencionam mais de setenta delegações. Não é possível discuti-las detalhadamente aqui. Por isso, destacaremos apenas as delegações historicamente importantes. Os leitores devem lembrar que, embora várias delegações tenham começado a comparecer à presença do Nobre Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, logo após a conquista de Meca, as delegações de algumas tribos já haviam ido a Medina para visitá-lo antes da conquista de Meca. A seguir, mencionaremos a identidade dessas tribos e os acontecimentos relacionados à sua chegada.
(1) A delegação de Abd al-Qays: a delegação dessa tribo compareceu à presença do Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, pela primeira vez no quinto ano da Hégira e pela segunda vez no nono ano. Na primeira ocasião, um homem da referida tribo chamado Mundhir ibn Hubban foi a Medina levando artigos comerciais. Depois disso, ele foi e voltou a Medina várias vezes. Após a Hégira do Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, para Medina, ele foi até lá, tomou conhecimento do Islam e abraçou a religião. Depois de aceitar o Islam, levou ao seu povo uma carta do Nobre Profeta e foi até os membros de sua própria tribo. Impressionados com a beleza do Islam, os membros de sua tribo também abraçaram a religião.
Depois, uma delegação de treze ou quatorze homens dessa tribo compareceu à presença do Nobre Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Essa delegação perguntou ao Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, sobre a fé e as bebidas. O líder da delegação era Al-Ashajj al-Asri.² [Mara’at al-Mafatih, volume 1, p. 71]. Sobre esse homem, o Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, comentou: “Há em ti duas qualidades que Allah, o Altíssimo, aprecia: uma é a prudência e a outra é a paciência.”
Na segunda ocasião, a delegação dessa tribo foi a Medina no nono ano da Hégira. Ela era composta por quarenta pessoas. Entre elas veio um cristão chamado Alá ibn Jarud al-Abdi. Ele foi a Medina, tornou-se muçulmano e, mais tarde, prestou serviços notáveis ao Islam.³ [Sharh Sahih Muslim, volume 1, p. 33; Fath al-Bari, volume 8, pp. 85–86].
(2) A delegação de Daws: no início do sétimo ano da Hégira, essa delegação foi a Medina. Naquela época, o Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, estava em Khaybar. Já foi mencionado anteriormente que Tufayl ibn Amr al-Dawsi havia abraçado o Islam em Meca. Ele foi até seu povo e o convidou ao Islam, mas seu povo continuou adiando e apresentando desculpas. Desesperado, foi à presença do Nobre Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, e pediu: “Ó Mensageiro de Allah, invoque uma maldição contra meu povo.” Em vez de rogar contra eles, o Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse: “Ó Allah, o Altíssimo, guia o povo de Daws.” Após essa súplica do Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, todo o povo de Daws abraçou o Islam. Depois, o honorável Tufayl, que Allah esteja satisfeito com ele, migrou para Medina no início do sétimo ano da Hégira com os membros de setenta ou oitenta famílias de seu povo. Naquela época, o Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, estava em Khaybar. O honorável Tufayl, que Allah esteja satisfeito com ele, encontrou-se com o Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, em Khaybar.
(3) A mensagem de Farwa ibn Amr al-Judhami: Farwa era um comandante árabe entre as tropas romanas. O imperador romano o nomeou governador das regiões árabes ocupadas. A capital de seu governo ficava num lugar chamado Ma’an, ao sul da Jordânia. Ele abraçou o Islam ao testemunhar a extraordinária bravura dos muçulmanos na batalha de Mu’ta, ocorrida no oitavo ano da Hégira. Enviou um mensageiro para informar ao Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, que havia abraçado o Islam e, ao mesmo tempo, enviou-lhe uma mula branca como presente. Os altos funcionários do imperador romano ficaram furiosos ao saber que o governador por eles nomeado havia abraçado o Islam. Eles prenderam Farwa e ordenaram que renunciasse ao Islam; caso contrário, ameaçaram matá-lo. O honorável Farwa considerou preferível tornar-se mártir a renunciar ao Islam. Então, sua execução foi realizada por crucificação junto a uma fonte, num lugar chamado Afra, na Palestina. ⁴ [Zad al-Ma’ad, volume 3, p. 45].
(4) A delegação de Sada: no oitavo ano da Hégira, essa delegação compareceu à presença do Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, depois de seu retorno de Jiran. O motivo de sua chegada foi o seguinte: o Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, havia ordenado a um grupo de muçulmanos que realizasse uma expedição na região do Iêmen onde vivia a tribo de Sada. O exército muçulmano havia chegado à planície de Qanat e montado acampamento. Naquele momento, o honorável Ziyad ibn Harith, que Allah esteja satisfeito com ele, correu até o Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, e disse: “Vim como líder daqueles que estão vindo atrás de mim; portanto, mande o exército muçulmano retornar. Eu me responsabilizo pelo meu povo.” O Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, fez o exército muçulmano retornar a Medina. Depois, o honorável Ziyad, que Allah esteja satisfeito com ele, foi até seu povo e disse: “Alguns de vocês, venham comigo até o Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele.” Em seguida, explicou-lhes tudo. Depois de ouvirem Ziyad, que Allah esteja satisfeito com ele, uma delegação de quinze homens de seu povo compareceu à presença do Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, e abraçou o Islam. Depois, retornaram ao seu povo, ensinaram-lhe a religião e propagaram o Islam. Durante a Peregrinação de Despedida, cem muçulmanos desse povo compareceram à presença do Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele.
(5) A chegada de Ka‘b ibn Zuhayr ibn Abi Sulma: Ka‘b era filho de uma família de poetas e um dos ilustres poetas da Arábia. Era incrédulo e difamava o Profeta — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Segundo o relato do imã al-Hakim, Ka‘b estava incluído na lista dos criminosos cuja execução fora ordenada na ocasião da conquista de Meca, mesmo que estivessem agarrados às cortinas da Caaba. Contudo, Ka‘b conseguiu fugir e salvar a própria vida. Depois que o Profeta — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — regressou da expedição de Ta’if, o irmão de Ka‘b, Rujayr ibn Zuhayr, escreveu-lhe uma carta informando que o Profeta — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — ordenara a execução de alguns dos seus difamadores, e que essa ordem fora cumprida. Um pequeno número de poetas dos coraixitas havia escapado, fugindo para vários lugares. Se tens apreço pela tua vida, vai à presença do Profeta — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele —, pois ele não mata os que se arrependem. Se não aceitares a minha sugestão, foge para qualquer lugar onde julgues poder encontrar segurança. Depois dessa carta, os dois irmãos trocaram várias correspondências. Em suma, percebendo que a sua vida corria perigo, Ka‘b chegou a Medina e hospedou-se na casa de um homem chamado Juhayna. Na manhã seguinte, realizou com esse homem a oração do fajr. Depois da oração, Juhayna indicou discretamente a Ka‘b quem era o Profeta — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Ka‘b então foi até o Profeta, sentou-se diante dele e colocou a própria mão sobre a sua mão. O Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — não reconheceu Ka‘b. Ka‘b disse: “Ó Mensageiro de Allah, se Ka‘b ibn Zuhayr se arrepender, aceitar o Islã e pedir segurança, e eu o trouxer à tua presença, tu o aceitarás?” O Profeta — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — respondeu: “Sim.” Ka‘b disse: “Eu sou Ka‘b ibn Zuhayr.” Ao ouvir isso, um homem dos ansar correu, agarrou Ka‘b e pediu ao Profeta — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — permissão para matá-lo. O Profeta disse àquele companheiro: “Deixa-o. Ele se arrependeu e lamentou os atos que cometeu no passado.”
Em seguida, naquele mesmo lugar, Ka‘b ibn Zuhayr recitou para o Profeta — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — a sua famosa qasida. Nessa qasida, Ka‘b pediu ao nobre Profeta — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — perdão pelos seus atos passados e louvou o amado Profeta — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. O significado do poema é o seguinte:
“Su‘ad partiu; por isso, agora há inquietação no meu coração. Acorrenta o coração por trás; o resgate dele ainda não foi pago. Foi-me dito que o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — me ameaçou. Entretanto, espero obter o perdão do Mensageiro de Allah. Permanece firme e não dês ouvidos às palavras dos mexeriqueiros. Que Aquele que te concedeu o Alcorão, repleto de exortações e de explicações detalhadas, te guie. Embora muitas coisas tenham sido ditas a meu respeito, não cometi crime algum. Estou num lugar, ouvindo tais palavras e vendo uma situação tal que, se um elefante estivesse no meu lugar, ele também ficaria paralisado. Contudo, se houvesse a permissão do Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — por benevolência de Allah, seria diferente. Entreguei espontaneamente a minha mão à mão daquela nobre personalidade, que tem pleno poder de vingança e cuja palavra está acima de todas as outras. Entretanto, disseram-me: ‘Há contra ti esta e aquela acusação, e serás questionado.’ Certamente, o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — é uma luz da qual se obtém iluminação. Ele é uma das espadas de Allah.”’
Depois disso, Ka‘b ibn Zuhayr elogiou os emigrantes coraixitas, pois, desde a chegada de Ka‘b, nenhum emigrante o havia incomodado. Ao elogiar os emigrantes, Ka‘b fez comentários sarcásticos sobre os ansar, porque um homem dos ansar havia pedido permissão para matar Ka‘b. Em seu poema, Ka‘b disse: “Os coraixitas avançam como camelos de bela aparência, e espadas afiadas os protegem quando homens baixos, negros e feios fogem, afastando-se do caminho.”
Depois que Ka‘b se tornou muçulmano, ele elogiou os ansar em um poema. Nele, escreveu: “Quem prefere uma vida honrada deve permanecer sempre entre algum grupo dos ansar. Os ansar herdaram a beleza. Na verdade, são bons aqueles que são filhos de pessoas boas.”
(6) A delegação de ‘Udhra: No nono ano da Hégira, essa delegação chegou a Medina. Eram doze pessoas, entre as quais estava Hamza ibn Nu‘man. Quando lhes perguntaram quem eram, responderam: “Somos os Banu ‘Udhra e temos parentesco com Qusayy. Ajudamos Qusayy e expulsamos Khuzā‘a Banu Bakr de Meca. Temos parentes aqui.” Depois de conhecer a sua identidade, o Profeta — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — deu-lhes boas-vindas e anunciou-lhes a boa-nova de que a Síria seria conquistada. Proibiu-os de buscar informações junto às mulheres adivinhas. Também os proibiu de abater os animais que costumavam sacrificar e comer durante os atos de politeísmo. Essa delegação aceitou o Islã e, depois de permanecer alguns dias em Medina, regressou a Meca.
(7) A delegação de Bali: No mês de Rabi‘ al-Awwal do nono ano da Hégira, essa delegação chegou a Medina e, depois de aceitar o Islã, permaneceu ali por três dias. Durante esse período, o líder da delegação, Abu Jarir, perguntou se havia recompensa na hospitalidade. O Profeta — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — respondeu: “Sim. Quando se trata bem uma pessoa rica ou pobre, esse tratamento é considerado caridade.” Ele perguntou novamente: “Por quantos dias deve durar a hospitalidade?” O Profeta — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — respondeu: “Três dias.” Ele perguntou: “Se alguém encontrar uma cabra perdida, qual é a orientação a respeito dela?” O Profeta — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — respondeu: “Ela é para ti, para os teus irmãos ou para o lobo.” Depois, aquele homem perguntou sobre um camelo perdido. O Profeta — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — respondeu: “Que relação tens com esse camelo? Deixa-o; o seu dono o encontrará.”
(8) Delegação de Saqif: Esta delegação compareceu após o retorno do Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — de Tabuk, no mês de Ramadã do nono ano da Hégira. Quando o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — retornava da batalha de Taife, no mês de Dhu al-Qada do oitavo ano da Hégira, antes mesmo de chegar a Medina, Urwa ibne Massude, chefe desta delegação, encontrou-se com o nobre Profeta — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — e aceitou o Islã. Depois, voltou para sua tribo e começou a convocar seu povo ao Islã. Os membros da tribo o amavam profundamente. Conta-se que preferiam Urwa aos próprios filhos e familiares. Urwa supôs que todos aceitariam seu convite ao Islã e seguiriam suas palavras. Contudo, essa suposição mostrou-se errada. Assim que começou a convocá-los ao Islã, os membros de sua tribo lançaram flechas contra ele de todos os lados e, depois de feri-lo gravemente, mataram-no. Depois de alguns meses, os membros da tribo perceberam que, com o crescimento da influência dos muçulmanos ao redor, não seria possível permanecerem seguros. Também não seriam capazes de enfrentar os muçulmanos. Consultaram-se e decidiram enviar alguém ao nobre Profeta — que Allah o abençoe e lhe conceda paz. De acordo com a decisão, propuseram que Abde Ialil ibne Amr fosse a Medina, mas, lembrando o destino de Urwa, Abde Ialil impôs como condição para ir a Medina que algumas outras pessoas o acompanhassem. Ele disse: “Terão de enviar mais algumas pessoas comigo; não aceito ir sozinho.” Conforme a proposta, os membros da tribo deram-lhe cinco companheiros. Por fim, uma delegação de seis membros partiu para Medina. Entre eles, Uthman ibne Abul As Saqafi era o mais jovem. Quando a delegação chegou a Medina, o Profeta — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — permitiu que permanecessem em um canto da Mesquita do Profeta, para que pudessem ouvir os Companheiros recitando o Alcorão e observar a realização da oração. Enquanto permaneciam na mesquita, começaram a ir à presença do Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz. O Profeta — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — passou a convidá-los ao Islã. Certo dia, o líder deles disse ao Profeta — que Allah o abençoe e lhe conceda paz: “Redija um tratado entre Saqif e você, estipulando que se permita o adultério, o consumo de vinho, a prática da usura, o direito de adorar seu ídolo Lat, a isenção da oração e que não sejamos nós a destruir nosso ídolo.” O Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — não aceitou nenhuma das condições mencionadas. Depois, a delegação consultou-se entre si, mas, no fim, não teve alternativa senão aceitar as palavras do Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Assim fizeram e buscaram refúgio sob a proteção do Islã. Contudo, impuseram novamente a condição de não destruírem com as próprias mãos seu ídolo Lat. O Profeta — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — aceitou essa condição e redigiu um documento nesse sentido. Ele nomeou Uthman ibne Abul As Saqafi como líder da delegação, pois seu interesse pelo Islã era maior que o de todos os demais. Os membros da delegação iam todas as manhãs à presença do Profeta — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — mas não levavam Uthman consigo. Ao meio-dia, enquanto os outros descansavam, Hazrat Uthman ia à presença do nobre Profeta e fazia perguntas detalhadas sobre o Islã. Quando via o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — dormindo, Hazrat Uthman fazia a Hazrat Abu Bakr perguntas diversas sobre a religião. O desempenho de Hazrat Uthman — que Allah esteja satisfeito com ele — em sua função de governador foi muito abençoado. Durante o califado de Hazrat Abu Bakr — que Allah esteja satisfeito com ele — algumas pessoas apostataram; nesse período, os membros da tribo de Saqif também planejaram apostatar. Em um momento tão delicado, Hazrat Uthman ibne Abul As — que Allah esteja satisfeito com ele — dirigiu-se a eles, dizendo: “Ó membros da tribo de Saqif, escutem: vocês foram os últimos a aceitar o Islã; portanto, não sejam os primeiros a apostatar.” Ao ouvirem isso, os membros da tribo de Saqif desistiram de abandonar o Islã e permaneceram firmes nele.
Em suma, a delegação retornou ao seu povo e ocultou a verdade. Com grande tristeza, disse que o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — lhes havia exigido que aceitassem o Islã e abandonassem o adultério, o consumo de vinho e a prática da usura. Caso não o fizessem, seriam combatidos. Ao ouvir isso, os membros da tribo de Saqif refletiram durante dois ou três dias sobre a possibilidade de lutar. Depois, Allah, o Altíssimo, mudou seus corações, e eles se prepararam mentalmente para aceitar o Islã. Disseram à delegação: “Voltem a Medina e digam ao Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — que estamos dispostos a aceitar suas condições e abraçar o Islã.” Então os membros da delegação revelaram que eles próprios haviam aceitado o Islã e convidaram os membros da tribo a aceitá-lo. Os membros da tribo de Saqif aceitaram o Islã imediatamente.
Enquanto isso, o Profeta — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — enviou alguns Companheiros à tribo de Saqif, sob a liderança de Hazrat Khalid ibne Ualide — que Allah esteja satisfeito com ele — para destruir o ídolo Lat. Hazrat Mugira ibne Xuba — que Allah esteja satisfeito com ele — balançou uma clava de ferro para destruir o ídolo e disse aos companheiros: “Vou fazer uma brincadeira para fazê-los rir.” Dito isso, golpeou o ídolo e imediatamente sentou-se segurando o joelho. Ao ver essa cena fingida, os membros da tribo de Saqif, de Taife, ficaram impressionados. Disseram: “Que Allah destrua Mugira! A deusa Lat o matou.” Hazrat Mugira — que Allah esteja satisfeito com ele — levantou-se, sacudindo o corpo, e disse: “Que Allah lhes cause o mal! Esse ídolo é feito apenas de pedra e barro.” Em seguida, Hazrat Mugira golpeou a porta e destruiu o ídolo. Depois, Hazrat Mugira subiu ao muro alto. Alguns outros Companheiros também subiram ao muro. Destruíram o ídolo, reduzindo-o a pó, e então escavaram o solo e retiraram os adornos e as roupas oferecidos ao ídolo. Ao ver essa cena, os membros da tribo de Saqif ficaram surpresos e perturbados. Hazrat Khalid levou os adornos e as roupas do ídolo para Medina e apresentou-os ao nobre Profeta — que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Naquele mesmo dia, o Profeta — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — distribuiu tudo e expressou gratidão perante Allah. 5 [Zad al-Ma’ad, vol. 3, pp. 26–28.]
(9) Carta do rei de Saqif, do Iêmen: Após o retorno do Profeta — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — de Tabuk, ele escreveu uma carta ao rei do Iêmen. Chegaram cartas de Harith ibne Abde Kalal, de Nuaim ibne Abde Kalal, de Ra’in e de No’man ibne Ca’il, governador de Hamdan e Ma’afir. Malik ibne Marra enviou a carta em nome de todos. Esses reis enviaram cartas mencionando a aceitação do Islã e o abandono do politeísmo e da incredulidade. O Profeta — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — enviou uma resposta na qual mencionou os direitos dos habitantes do Iêmen, bem como suas responsabilidades e deveres. Também declarou na carta que Allah e Seu Mensageiro seriam responsáveis pela proteção daqueles que aceitassem o Islã, sob a condição de que pagassem a jizya. Além disso, o Profeta — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — enviou ao Iêmen alguns Companheiros sob a liderança de Hazrat Muaz ibne Jabal — que Allah esteja satisfeito com ele.
(10) Delegação de Hamdan: Esta delegação compareceu perante o Nobre Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, após o seu retorno de Tabuk. O Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, escreveu uma carta contendo instruções para o povo da delegação e concedeu-lhes tudo o que haviam solicitado. Malik ibn Namit foi nomeado emir e governador dos membros de seu povo que haviam aceitado o Islam. O honorável Khalid ibn al-Walid, que Allah esteja satisfeito com ele, foi enviado para transmitir o convite ao Islam às demais pessoas. Ele permaneceu seis meses em Hamdan, convidando-as ao Islam, mas ninguém o aceitou. Então o Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, enviou o honorável Ali, que Allah esteja satisfeito com ele, a Hamdan e ordenou que Khalid, que Allah esteja satisfeito com ele, retornasse. O honorável Ali, que Allah esteja satisfeito com ele, foi até o povo da tribo de Hamdan, leu-lhes a carta do Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, e os convidou ao Islam. Então todos buscaram abrigo sob a sombra do Islam. O honorável Ali, que Allah esteja satisfeito com ele, enviou essa notícia à presença do Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Ao ler a carta contendo essa boa-nova, o Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, prostrou-se e disse: “Paz sobre Hamdan, paz sobre Hamdan.”
(11) Delegação dos Banu Fazara: No nono ano da Hégira, após o retorno do Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, de Tabuk, esta delegação encontrou-se com ele. Dez pessoas faziam parte dela. Elas se queixaram da fome que assolava sua região. O Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, subiu ao púlpito, ergueu ambas as mãos e suplicou: “Ó Allah, sacia a terra que Tu criaste e os animais quadrúpedes. Estende a Tua misericórdia. Dá vida à Tua cidade morta. Ó Allah, envia sobre nós uma chuva como a que desejamos. Por meio dela, concede-nos paz e conforto. Que as nuvens negras e extensas venham rapidamente, sem demora. Que essa chuva não seja destruidora nem prejudicial. Ó Allah, que a chuva da misericórdia não seja uma chuva de castigo; que não seja destruidora. Ó Allah, sacia-nos e ajuda-nos contra os inimigos.”⁶ [Zad al-Ma‘ad, vol. 3, p. 40]
(12) Delegação de Najran: Os habitantes desta região vivem no caminho de Meca para o Iêmen. A comunidade de Najran era composta por 73 localidades, isto é, povoados. Um cavaleiro montado num cavalo veloz podia percorrer todas essas localidades em um dia inteiro.⁷ [Fath al-Bari, vol. 8, p. 94] Nessa região havia cem mil homens guerreiros, todos seguidores da religião cristã.
A delegação de Najran também chegou no nono ano da Hégira. Era composta por sessenta pessoas, entre as quais vinte e quatro pertenciam à classe nobre. Três eram líderes altamente respeitados por todos os habitantes de Najran. Um homem chamado Abd al-Masih era o chefe do governo, e outro, chamado Sharhabil, atuava como conselheiro em assuntos políticos.
A delegação chegou a Medina e encontrou-se com o Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. O Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, fez-lhes algumas perguntas. Eles também fizeram algumas perguntas ao Nobre Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Em seguida, o Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, convidou-os ao Islam e recitou-lhes o Alcorão. Contudo, eles não aceitaram o Islam.
Eles perguntaram: “O que você pensa sobre o Messias, que a paz esteja sobre ele? Qual é a sua opinião a respeito dele?” Naquele dia, o Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, não respondeu à pergunta. Então Allah, o Senhor dos mundos, fez descer a revelação.
“Para Allah, o exemplo de Jesus, que a paz esteja sobre ele, é como o de Adão: Ele o criou do pó e então lhe disse: ‘Sê’, e ele passou a existir. Esta é a verdade proveniente do teu Senhor; portanto, não sejas um dos que duvidam. Após teres recebido o conhecimento, se alguém discutir contigo sobre isso, dize: ‘Vinde! Convocaremos nossos filhos e vossos filhos, nossas mulheres e vossas mulheres, nós mesmos e vós mesmos; então suplicaremos humildemente e invocaremos a maldição de Allah sobre os mentirosos.’” (Surata Al ‘Imran, versículos 59–61)
Na manhã seguinte, à luz do versículo nobre acima mencionado, o Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, informou os visitantes sobre Jesus, que a paz esteja sobre ele. Contudo, eles se recusaram a aceitar a declaração do Nobre Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, a respeito de Jesus, que a paz esteja sobre ele. Permaneceram firmes em sua recusa. Na manhã do dia seguinte, o Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, propôs-lhes a mubahala, isto é, que os dois grupos suplicassem mutuamente pela maldição um do outro. Depois de fazer esse convite, ao verem o Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, pronto para a mubahala, retiraram-se para um lugar reservado e consultaram-se entre si. Durante a consulta, um deles disse: “Não será correto correr o risco da mubahala. Por Allah, ele é realmente um profeta. Se fizermos mubahala com ele, jamais teremos êxito, nem nós nem nossos filhos. Seremos exterminados juntamente com toda a nossa descendência.” Após deliberarem, aceitaram o Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, como árbitro em seu assunto. Foram à presença do Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, e disseram-lhe: “Estamos dispostos a aceitar a sua reivindicação.” Depois dessa proposta, o Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, concordou em receber deles a jizya. Chegou-se a um acordo relativo a dois mil pares de roupas: eles concordaram em entregar mil pares no mês de Rajab e os outros mil no mês de Safar. Em troca, o Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, colocou-os sob a proteção de Allah Todo-Poderoso e de Seu Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Eles teriam liberdade em assuntos religiosos. Sobre os pontos mencionados, o Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, celebrou um tratado com eles. A delegação pediu que lhes fosse enviado um homem de confiança. De acordo com o tratado, o Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, enviou o ilustre Companheiro Abu Ubayda ibn al-Jarrah para recolher os bens.
Depois disso, o Islã começou a se espalhar entre a tribo de Najran. Os biógrafos escreveram que, depois de o líder da delegação e seus seguidores retornarem a Najran, eles buscaram refúgio sob a agradável sombra do Islã. Então, o Profeta — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — enviou Ali — que Allah esteja satisfeito com ele — para recolher o sadaqat e a jizya. Deve-se mencionar que o sadaqa era arrecadado apenas dos muçulmanos. 8 [Fath al-Bari, vol. 8, pp. 94–95; Zad al-Ma’ad, vol. 3, pp. 38–41. No relato detalhado da delegação de Najran, é mencionado que, quando a delegação de Najran foi pela segunda vez a Medina, alguns não concordaram com essa questão.]
(13) Delegação de Banu Hanifa: Esta delegação chegou a Medina no nono ano da Hégira. Era composta por dezessete pessoas, entre elas Musaylima ibn Kadhdhab. 9 [Fath al-Bari, vol. 8, p. 87.] A genealogia de Musaylima era a seguinte: Musaylim ibn Thumama ibn Qarib ibn Habib ibn al-Harith.
A delegação hospedou-se na residência de um companheiro dos ansar. Depois, apresentou-se perante o Profeta — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — e abraçou o Islã. Entretanto, há relatos diferentes a respeito de Musaylima, o Mentiroso. Considerando todos os relatos, percebe-se que Musaylima demonstrava obstinação, arrogância e desejo de obter poder. Ele não se apresentou perante o amado Profeta — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — junto com os demais membros da delegação. Mais tarde, quando foi à presença do Profeta — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele —, o Profeta convidou-o ao Islã com voz serena e amável. Contudo, percebeu que sua amabilidade não produzia nele qualquer reação favorável. Então, o Profeta — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — compreendeu que não haveria bem algum naquele homem. Seu coração estava cheio de impureza e mácula.
Antes disso, certa noite, o Profeta — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — viu em sonho que os tesouros do mundo inteiro haviam sido trazidos e colocados diante dele. De repente, dois braceletes de ouro voaram daquele tesouro e caíram em suas mãos. Os dois braceletes eram muito pesados, e o Profeta — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — ficou constrangido. Nesse momento, veio uma revelação por intermédio de Gabriel — que a paz esteja sobre ele — ordenando-lhe que soprasse sobre os dois braceletes. O Profeta — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — soprou sobre eles. Imediatamente, os dois braceletes voaram para longe. O Profeta — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — interpretou esse sonho dizendo que, depois dele, dois homens alegariam falsamente ser profetas. Ao ver o comportamento insolente de Musaylima, o Mentiroso, o Profeta — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — ficou aborrecido. Aquele malfeitor dizia: “Se Muhammad — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — me confiar o poder de governar depois dele, estarei disposto a obedecer-lhe.” O Profeta — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — foi até Musaylima. Naquele momento, ele segurava um ramo de tamareira, e o porta-voz do Profeta — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele —, Thabit ibn Qays ibn Shammās — que Allah esteja satisfeito com ele —, estava com ele. O Profeta — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — aproximou-se e parou junto à cabeceira dele. Musaylima disse: “Se você estiver de acordo, estou disposto a ceder-lhe quanto ao poder de governar. Mas, no que diz respeito ao poder, você terá de me nomear seu sucessor.” O Profeta — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — apontou para o ramo de tamareira que segurava e disse: “Mesmo que me peças isto, não te darei nem isso. Não poderás escapar da decisão que Allah tomou a teu respeito. Se virares as costas e partires, Allah te destruirá. Por Allah, penso que és tu aquele a respeito de quem me foi mostrado um sonho.” Então disse: “Thabit ibn Qays permanecerá aqui e responderá por mim.” Após dizer isso, o Profeta — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — partiu. 10 [Sahih al-Bukhari, capítulo sobre o relato de Banu Hanifa e de Aswad al-Ansi, vol. 2, pp. 627–628; e Fath al-Bari, vol. 8, pp. 86–93.]
Por fim, as palavras do Mensageiro — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — provaram ser verdadeiras. Musaylima, o Mentiroso, voltou a Yamama e, durante alguns dias, refletiu sobre si mesmo. Depois, de repente, alegou que havia sido associado a Muhammad — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — na profecia. Em seguida, começou a proclamar abertamente sua pretensão à profecia. Para os membros de seu próprio povo, declarou lícitos o adultério e o consumo de bebidas alcoólicas.
Musaylima, o Mentiroso, reivindicou a profecia no décimo ano da Hégira. Ele foi morto em Yamama, durante o califado de Abu Bakr al-Siddiq — que Allah esteja satisfeito com ele —, no mês de Rabi al-Awwal do décimo segundo ano da Hégira. Wahshi — que Allah esteja satisfeito com ele —, o assassino de Hamza — que Allah esteja satisfeito com ele —, matou Musaylima, o Mentiroso.
Conheceu-se o destino de um dos que reivindicavam a profecia. Outro pretendente, Aswad al-Ansi, havia espalhado a desordem no Iêmen. Um dia e uma noite antes do falecimento do Profeta — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele —, Firoz — que Allah esteja satisfeito com ele — matou esse falso profeta. O Profeta — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — soube, por meio da revelação, desse assassinato e informou os companheiros. Depois, a notícia chegou normalmente do Iêmen a Abu Bakr — que Allah esteja satisfeito com ele —. 13 [Fath al-Bari, vol. 8, p. 93.]
(14) Delegação de Banu Amir ibn Sa’sa’a: A delegação incluía Amir ibn al-Tufayl, o inimigo de Allah; Irbad ibn Qays, meio-irmão materno de Labid; Khalid ibn Ja’far; e Jabbar ibn Aslam. Eram figuras proeminentes de suas respectivas tribos e tinham natureza satânica. Um homem chamado Amir ibn al-Tufayl havia feito setenta companheiros serem martirizados em Bi’r Ma’una. Quando essa delegação decidiu ir a Medina, Amir ibn al-Tufayl e Irbad conspiraram para enganar o Profeta — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — e assassiná-lo de surpresa.
Depois que essa delegação chegou a Mina, Amir conversava com o Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Nesse momento, Arbad deu a volta, dirigiu-se para trás do Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e começou a desembainhar a espada. Contudo, não conseguiu desembainhar mais do que um palmo, pois Allah, o Altíssimo, paralisou sua mão. Allah, o Altíssimo, protegeu Seu amado Profeta. O Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, lançou uma maldição contra os dois malfeitores. No caminho de volta, um raio atingiu Arbad. O infiel morreu instantaneamente, junto com seu camelo. Enquanto isso, Amir refugiou-se na casa de uma mulher de Salul. Ali, surgiu-lhe um bócio no pescoço. Foi dessa doença que morreu naquele lugar. No momento da morte, Amir dizia: “Um bócio como o pescoço de um camelo e morrer na casa de uma mulher de Salul?”
É mencionado numa narração de Sahih al-Bukhari que, ao aproximar-se do Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, Amir disse: “Ofereço-lhe três condições; aceite qualquer uma delas: (1) os produtos produzidos pelos habitantes do vale ficarão sob meu controle; (2) serei o califa depois de você; (3) lançarei contra você mil homens e mil éguas da tribo de Banu Ghatafan.”
Depois, ele foi acometido pela peste na casa de uma mulher. Naquele momento, profundamente angustiado e tomado pela tristeza, disse: “Ai de mim, um bócio como o pescoço de um camelo! E ainda por cima na casa de uma mulher de tal tribo?” Em seguida, disse: “Tragam meu cavalo até mim.” Trouxeram-lhe o cavalo. Depois, esse inimigo de Allah morreu sobre o dorso do cavalo.
(15) A delegação de Tajib: essa delegação compareceu a Medina levando a sadaqa que restara depois de sua distribuição entre os pobres de sua tribo. Era composta por treze pessoas. Elas perguntavam sobre o Alcorão e a Sunna e os estudavam. Fizeram algumas perguntas ao Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e ele lhes escreveu as respostas. Não permaneceram muitos dias em Medina. O Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, ofereceu alguns presentes aos membros da delegação. Depois que partiram, enviaram ao Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, um jovem companheiro que havia ficado para trás. O jovem compareceu diante do Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e disse: “Senhor, juro por Allah que não vim de minha terra com outro propósito. Vim somente para que rogueis por mim ao Todo-Poderoso e Misericordioso Allah. Que Ele me conceda Sua misericórdia e a força para permanecer firme em Sua religião.” O Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, suplicou pelo jovem. Mais tarde, embora muitos novos muçulmanos tenham abandonado o Islã, esse jovem permaneceu firme e inabalável no Islã. Ele exortou e aconselhou seu povo sobre os ensinamentos do Islã. Como resultado, seu povo também permaneceu firme no Islã. No décimo ano da Hégira, durante a Peregrinação de Despedida, essa delegação voltou a encontrar-se com o Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz.
(16) A delegação de Tayy: entre os membros dessa delegação estava o famoso Zayd al-Khayl, da Arábia. Quando se encontraram para conversar com o Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, ele os convidou ao Islã. Eles aceitaram o Islã e tornaram-se excelentes muçulmanos. O Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, elogiou Zayd al-Khayl e disse: “Sempre que me falaram bem de algum homem árabe, depois que ele se apresentou diante de mim, descobri na realidade que ele era inferior à sua fama. Mas Zayd é uma exceção. Suas qualidades são superiores à sua fama.” O Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, mudou seu nome para Zayd al-Khayr.
Da mesma forma, durante o nono e o décimo anos da Hégira, chegaram numerosas delegações. Os autores de biografias mencionam as delegações de Yaman, Azad, Banu Sa’d de Quza’a, Huzaym, Banu Amir ibn Qays, Banu Asad, Bahra, Khawlan, Mahareb, Banu Harith ibn Ka’b, Ghamid, Banu Muntafiq, Salman, Banu Abbas, Mazina, Murad, Juhayna, Kinda, Dhu Marra, Ghassan, Bu Aish e Nakh. A delegação de Nakh foi a última a chegar. Ela chegou a Medina no mês de Muharram do décimo primeiro ano da Hégira.
Ela era composta por duzentas pessoas. Quase todas as demais delegações chegaram durante o nono e o décimo anos da Hégira. Apenas algumas poucas delegações chegaram no décimo primeiro ano da Hégira.
O fato de as delegações mencionadas terem chegado a Medina demonstra claramente até que ponto o Islã havia se difundido e se propagado. Também se compreende quão grande era a importância de Medina aos olhos do povo árabe. Eles não viam outro meio senão ir a Medina e submeter-se. Na realidade, Medina havia adquirido o status de capital da Jazirat al-Arab. Ninguém podia ignorar Medina. Contudo, não podemos afirmar que o Islã tenha influenciado e marcado profundamente o coração de todos os visitantes. Isso porque, entre os membros dessas delegações, havia muitos beduínos árabes que se haviam tornado muçulmanos apenas para obedecer aos chefes de suas tribos. Ainda não tinham conseguido abandonar completamente hábitos como matar e saquear, nem se haviam tornado pessoas civilizadas graças aos ensinamentos e à beleza do Islã. Ao identificar esse tipo de pessoa na Surata At-Tawba, Allah, o Altíssimo, diz: “Os habitantes de Meca são mais severos na descrença e na hipocrisia e mais propensos a ignorar os limites daquilo que Allah revelou ao Seu Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Allah é Onisciente, Sapientíssimo. Alguns beduínos consideram como multa aquilo que gastam no caminho de Allah e aguardam que a desgraça recaia sobre vós. Que o mau destino recaia sobre eles! Allah é Onioouvinte, Onisciente.”
No entanto, algumas pessoas também foram elogiadas. Na Surata At-Tawbah, Allah, o Altíssimo, diz: “E entre os beduínos há aqueles que creem em Allah e no Dia Derradeiro e consideram aquilo que gastam como um meio de alcançar a proximidade de Allah e as súplicas do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Na verdade, isso é um meio de alcançar a proximidade de Allah. Allah os introduzirá em Sua misericórdia. Allah é Perdoador, Misericordiosíssimo.”
O Islã havia se enraizado firmemente no coração de muitos habitantes de Meca, Medina, Taquif, Iêmen e Bahrein. Muitos deles eram Companheiros ilustres e muçulmanos virtuosos. 14[Khazrami escreveu isso no primeiro volume de sua obra Mohazerat, p. 144. Para informações detalhadas sobre as delegações mencionadas e aquelas às quais se faz referência, consulte Sahih al-Bukhari, vol. 1, p. 12; vol. 2, pp. 626–630; Ibn Hisham, vol. 2, pp. 501–503, 537–542, 560–601; Zad al-Ma’ad, vol. 3, pp. 26–60; Fath al-Bari, vol. 8, pp. 83–103; e Rahmatul lil-Alamin, vol. 1, pp. 184–217].
O grande sucesso do chamado do Mensageiro
Agora discutiremos a fase final da vida abençoada do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Porém, antes de avançarmos nessa direção, é necessário lançar uma breve luz sobre as extraordinárias realizações da vida profética. Na realidade, esse é o cerne da vida do Profeta. Foi justamente por essa característica que ele ocupou uma posição singular entre todos os profetas e mensageiros. Allah, Senhor dos mundos, concedeu-lhe a coroa da extraordinária distinção de ser o primeiro e o último. Allah, o Altíssimo, disse claramente ao Profeta e Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele: “Ó tu, coberto com as vestes, permanece em vigília durante a noite, salvo uma pequena parte.” Allah, o Altíssimo, também diz: “Ó tu, envolto em mantos, levanta-te e transmite a advertência!”
O que aconteceu depois? O Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, levantou-se, tomou sobre os próprios ombros o maior encargo do universo e permaneceu firmemente de pé. O encargo de toda a humanidade, o encargo de todas as crenças e o encargo de preservar a paz e a ordem em diversos campos.
Ele assumiu a responsabilidade do jihad no campo da consciência humana; essas consciências estavam imersas nas fantasias da era da ignorância e em toda espécie de ideias absurdas.
Naquele tempo, a consciência humana estava encoberta pelas diversas atrações do mundo. A consciência humana havia ficado presa às correntes e armadilhas dos desejos carnais. Depois de libertar e purificar a consciência das pessoas da ignorância e das atrações do universo, com a ajuda de alguns de seus Companheiros dedicados, o Profeta e Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, iniciou outra luta. Na verdade, uma luta sucedeu à outra. Isto é, os inimigos do chamado divino haviam se lançado com intensa hostilidade contra o chamado e contra aqueles que nele criam; queriam destruir a sagrada muda do chamado antes que ela fincasse raízes sob a terra, espalhasse seus ramos no espaço e se adornasse com flores e frutos. O Profeta e Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, iniciou a luta contra todos esses inimigos do chamado. Mal havia superado as diversas adversidades da Península Arábica, o Império Romano começou a preparar-se nas fronteiras para aniquilar essa nova nação.
Por fim, todas as lutas terminaram, mas o conflito da consciência não chegou ao fim. Pois este é um conflito permanente. Nele é preciso enfrentar Satanás. Satanás penetra nas profundezas da mente humana, continua sua atividade e não a interrompe nem por um instante. Muhammad, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, permanecia empenhado na obra do chamado de Allah e prosseguia com a luta adequada em diversos campos. O mundo havia se prostrado a seus pés, mas ele vivia em meio ao sofrimento e à pobreza. Os crentes haviam estendido ao redor do Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, a sombra da paz e da segurança. Contudo, ele continuava sua devoção no caminho de uma vida de sofrimento e pobreza. Em qualquer situação, suportava com uma paciência extraordinária as dificuldades e os sofrimentos. À noite, levantava-se para a oração. Adorava seu amado Senhor e recitava lentamente o Sagrado Alcorão. Rompendo os vínculos com todo o mundo, voltou sua atenção para Allah. Naturalmente, ele também havia recebido ordem de proceder assim. 1[Sayyid Qutb, mártir, Tafsir Fi Zilal al-Qur’an, vol. 29, pp. 168–169].
**Assim, o Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, continuou sua luta durante longos vinte anos. Nesse período, ao dedicar-se a uma tarefa, ele não negligenciou as demais. Por fim, o chamado islâmico alcançou um sucesso tão amplo que todos ficaram maravilhados. Toda a Península Arábica tornou-se obediente ao Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. As nuvens da jahiliyyah dissiparam-se do horizonte da Arábia. As consciências enfermas foram curadas. Eles não apenas abandonaram os ídolos, como também os destruíram. O ambiente encheu-se com o chamado ao tawhid. Revigorados pela força da fé, os desertos vibraram com a doce voz do adhan. O clamor de “Allahu Akbar” ecoou por todos os horizontes. Os recitadores do Nobre Alcorão recitavam o Alcorão Sagrado e espalhavam-se pelo norte e pelo sul para estabelecer os mandamentos e as determinações de Allah.
As tribos dispersas uniram-se, e as pessoas abandonaram a servidão aos seres humanos para dedicar-se à servidão a Allah. Já não havia opressor nem oprimido; o olhar ameaçador de ninguém aterrorizava os outros; não havia tirano nem injustiçado, senhor nem escravo, governante nem governado. Ao contrário, todos os seres humanos eram servos de Allah e irmãos uns dos outros. Amavam-se mutuamente e cumpriam os mandamentos e as determinações de Allah. Allah eliminou de seu meio o orgulho e a arrogância da época da jahiliyyah, bem como a vaidade baseada na ascendência paterna e ancestral. Já não havia superioridade dos árabes sobre os não árabes, nem dos brancos sobre os negros. O critério de superioridade era a taqwa. Caso contrário, todos os seres humanos são descendentes de Adão, e Adão foi criado da terra.
Em suma, como resultado desse chamado, a unidade árabe, a unidade humana, a ética coletiva, a justiça e a equidade foram estabelecidas. A humanidade encontrou o caminho da felicidade para os diversos problemas deste mundo e para as diversas questões da Outra Vida. Em outras palavras, o curso da história foi transformado.
Antes desse chamado, a jahiliyyah triunfava em todo o mundo. A consciência das pessoas havia ficado cega. As almas haviam se tornado fétidas. Os valores fundamentais haviam sofrido uma decadência extrema. A opressão e a escravidão predominavam. Ondas de conforto desenfreado e vergonhoso, juntamente com privações destrutivas, haviam levado o mundo ao abismo da decadência. Além disso, um espesso véu de incredulidade e desvio havia caído sobre ele. Embora ainda existissem religiões celestiais e crenças religiosas, as pessoas as haviam distorcido. Como consequência, a fraqueza no campo da fé religiosa havia chegado ao extremo. Os vínculos religiosos estavam frouxos. A religião havia se tornado fraca como um corpo sem vida, reduzida a alguns ritos e cerimônias.
Quando o chamado acima mencionado passou a influenciar a vida humana, a alma humana libertou-se de concepções ilusórias, da servidão às paixões, da imoralidade, da injustiça, da opressão, da anarquia e da desordem. Ele libertou a sociedade humana da tirania, da opressão, da imprudência, da arrogância, da destruição, da discriminação de classes, da opressão dos governantes e da humilhante arbitrariedade dos astrólogos. O mundo então se transformou em um centro de desenvolvimento e progresso da vida e de garantia dos direitos dos legítimos detentores desses direitos, fundamentado na misericórdia, no perdão, na humildade, na modéstia, na descoberta, na construção, na liberdade, na reforma, na ma’rifah, na fé, na justiça, na equidade e nas boas ações. 2[Sayyid Qutb, Tafsir Fi Zilal al-Qur’an, vol. 1, p. 14].
Por causa dessas mudanças, a Península Arábica tornou-se uma região abençoada, cujo exemplo não foi visto em nenhuma época nem em nenhum país da história humana, e jamais será visto. Em sua história, a Península Arábica tornou-se tão esplendorosa e radiante que nada semelhante havia sido visto antes, em lugar algum.
A Peregrinação de Despedida
O trabalho de convocação e transmissão havia sido concluído. Após abolir a rububiyyah de Allah e todas as demais ideologias, uma nova sociedade foi estabelecida sobre a base da missão profética do Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Então, como se um anunciador invisível tivesse gravado na mente e na consciência do Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, a ideia de que o período de sua permanência na Terra estava chegando ao fim. Quando o Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, enviou Mu’adh (que Allah esteja satisfeito com ele), nomeando-o governador do Iêmen, disse-lhe, depois de outras orientações necessárias: “Ó Mu’adh, talvez depois deste ano você não volte a encontrar-se comigo. Talvez depois disso você passe pela minha mesquita e pelo meu túmulo.” Ao ouvir isso, Mu’adh (que Allah esteja satisfeito com ele) começou a chorar, pensando na despedida definitiva do Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele.
Na verdade, Allah queria fazer Seu Mensageiro testemunhar os frutos de vinte longos anos de sofrimento, dificuldades e perseguições. Durante o Hajj, o povo e as delegações representativas das diversas regiões de Meca se reuniriam em Meca; então, aprenderiam com o Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, as normas e os preceitos da Shariah. O Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, tomaria deles o testemunho de que havia cumprido a confiança que lhe fora confiada, transmitido a mensagem de Allah às pessoas e cumprido seu dever para com o bem-estar da comunidade. De acordo com essa vontade de Allah, o Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, anunciou a data do Hajj histórico. Então, no dia determinado, os muçulmanos começaram a chegar a Meca em grupos. Todos os reunidos desejavam, de coração e alma, adotar o exemplo do Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e aceitar sua obediência. 1[Este hadith foi narrado por Hazrat Jabir (que Allah esteja satisfeito com ele) no Sahih Muslim. Consulte o volume 1, p. 394, capítulo Hujjat al-Nabi.]
Em seguida, no sábado, o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, preparou-se para partir rumo a Meca. Ainda faltavam quatro dias para o mês de Dhu al-Qi’dah. 2[Hafiz Ibn Hajar fez uma excelente análise sobre o assunto e corrigiu a afirmação encontrada em algumas narrações de que faltavam cinco dias para o mês de Dhu al-Qi’dah. Consulte Fath al-Bari, volume 8, p. 207.] Ele passou óleo na cabeça, penteou os cabelos, vestiu o tahband, envolveu-se com um manto, adornou os animais destinados ao sacrifício e partiu depois da oração do meio-dia. Antes da oração da tarde, chegou a um lugar chamado Dhu al-Hulayfah. Ali, realizou duas rak’ahs da oração da tarde. Montou uma tenda para passar a noite e pernoitou ali. Pela manhã, disse aos Companheiros: “Durante a noite, um visitante veio da parte do meu Senhor e disse: ‘Ó Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, faça a oração nesta sagrada planície—
faça a oração e diga que há uma Umrah dentro do Hajj.’ 3[Esta narração foi compilada no Bukhari Sharif por Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele). Volume 1, p. 207.]
Depois, antes da oração do meio-dia, o Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, tomou banho para o ihram. Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) aplicou com as próprias mãos jariya e almíscar no corpo sagrado do Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. O brilho do perfume era visível na risca dos cabelos e na barba sagrada do Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Ele não lavou o perfume; deixou-o como estava. Em seguida, vestiu o tahband e o manto. Realizou duas rak’ahs da oração do meio-dia. Depois, ainda sentado no local de oração, entrou no ihram simultaneamente para o Hajj e a Umrah e saiu proclamando “Labbayk”. Em seguida, montou a camela e disse “Labbayk” duas vezes. Montado na camela, foi até o campo aberto e ali também proclamou “Labbayk”.
Depois disso, o Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, continuou sua viagem. Uma semana depois, numa tarde, chegou perto de Meca, parou num lugar chamado Dhi-Tuwa e, após realizar a oração da alvorada, tomou banho. Em seguida, entrou em Meca. Era domingo, o quarto dia do mês de Dhu al-Hijjah do décimo ano da Hégira. Haviam transcorrido oito noites de viagem desde sua partida de Medina. Esse é o tempo normalmente necessário quando se viaja em ritmo habitual. Ao chegar à Mesquita Sagrada, o Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, primeiro circundou a Caaba em tawaf. Depois realizou o sa’i entre Safa e Marwah. Contudo, não saiu do ihram, pois havia entrado simultaneamente no ihram para o Hajj e a Umrah.
Ele também havia trazido consigo os animais destinados ao sacrifício. Depois do tawaf e do sa’i, permaneceu num lugar de Meca chamado Hajjun. Contudo, não realizou nenhum tawaf além do tawaf do segundo Hajj.
O Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, ordenou aos Companheiros que haviam vindo com ele, mas não haviam trazido animais para o sacrifício, que transformassem seu ihram em Umrah e, depois de concluírem o tawaf da Caaba e o sa’i entre Safa e Marwah, saíssem completamente do estado de ihram. Porém, como ele próprio não havia saído do ihram, os Companheiros ficaram em dúvida. O Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Se eu soubesse antes o que vim a saber depois, não teria trazido animais para o sacrifício. Se não tivesse animais para o sacrifício comigo, eu também teria saído do ihram.” Ao ouvirem isso do Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, os Companheiros inclinaram a cabeça em obediência. Aqueles que não tinham animais para o sacrifício saíram do ihram.
No dia oito do mês de Dhu al-Hijjah, o Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, foi para Mina. Permaneceu ali até o dia nove de Dhu al-Hijjah. Ali realizou as cinco orações: meio-dia, tarde, pôr do sol, noite e alvorada, e esperou ali até o nascer do sol. Depois partiu em direção à planície de Arafat. Ao chegar, viu que uma tenda havia sido preparada na planície de Namirah. O Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, sentou-se ali. Quando o sol declinou, por ordem do Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, foi colocado um assento sobre o dorso da camela. Ele dirigiu-se ao centro da planície. Naquele momento, ao redor do Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, havia um mar de pessoas, cento e vinte e quatro mil — segundo outra opinião, cento e quarenta e quatro mil. O Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, proferiu um discurso histórico à multidão reunida. Ele disse: “Ó povo, escutem minhas palavras, escutem minhas palavras! Não sei se, depois desta ocasião, voltarei a encontrar-me com vocês neste lugar.” 4[Ibn Hisham, volume 2, p. 603]
Vosso sangue e vossos bens são invioláveis uns para os outros, assim como este dia, este mês e esta cidade são invioláveis. Escutai: tudo o que pertencia ao período da جاهلية foi esmagado sob meus pés. Os homicídios e as vinganças do período da جاهلية foram abolidos. O primeiro sangue entre nós que estou abolindo é o sangue do filho de Rabia ibn al-Harith. Quando essa criança estava sendo amamentada entre a tribo de Banu Sa’d, pessoas da tribo de Hudhayl a mataram. A usura do período da جاهلية foi abolida. A primeira usura entre nós que estou abolindo é a usura de Abbas ibn Abd al-Muttalib. A partir de agora, toda forma de usura está abolida.
Temei a Allah no que diz respeito às mulheres, pois vós as tomastes como um depósito de Allah e as tornastes lícitas por meio da palavra de Allah. Elas têm o direito de não permitir que entre em vossos leitos alguém de quem não gostais. Se elas fizerem isso, podeis repreendê-las fisicamente, mas não as golpeeis com excessiva severidade. E elas têm o direito de receber de vós boa alimentação e vestimentas.
Deixo entre vós algo que, se o segurardes firmemente, jamais vos perdereis depois disso. Esse algo é o Livro de Allah. 5[Saheeh Muslim, capítulo sobre a Peregrinação do Profeta, vol. 1, p. 397] Ó povo, lembrai-vos de que não haverá profeta depois de mim, nem haverá outra comunidade depois de vós. Portanto, adorai o vosso Senhor, realizai as cinco orações diárias, jejuai durante o mês de Ramadan, pagai de bom grado o zakat de vossas riquezas, peregrinai à Casa do vosso Senhor e obedecei aos vossos governantes. Se fizerdes isso, entrareis no Paraíso do vosso Senhor. 6[Ibn Majah, Ibn Asakir, Rahmat lil-Alamin, vol. 1, p. 263]
Sereis questionados sobre a minha relação convosco. O que direis então? Os Companheiros responderam: testemunhamos que transmitistes a mensagem, entregastes o comunicado e cumpristes a responsabilidade que vos foi confiada quanto ao bem-estar.
Ao ouvir isso, o Profeta — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — levantou o dedo indicador em direção ao céu e depois o inclinou em direção às pessoas, dizendo três vezes: “Ó Senhor dos mundos, sê testemunha.”⁷ [Sahih Muslim, vol. 1, p. 397]
Rabi’a ibn Umayya ibn Khalaf transmitia em voz alta às pessoas as palavras do Profeta — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele.⁸ [Ibn Hisham, vol. 2, p. 605]
Depois que o Profeta — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — terminou o sermão, Allah, o Altíssimo, revelou este versículo do Alcorão Sagrado: “Hoje, completei para vós a vossa religião, completei sobre vós a Minha graça e escolhi para vós o Islã como religião.” (Surata Al-Ma’idah, versículo 3)
Ao ouvir este versículo, Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) começou a chorar. Perguntaram-lhe: “Por que estás chorando?” Ele respondeu: “Choro porque, depois da perfeição, nada resta senão a imperfeição.” ⁹ [Ver a narração de Ibn Umar em Bukhari, vol. 1, p. 265]
Durante o sermão do nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), Hazrat Bilal (que Allah esteja satisfeito com ele) fez o azan e a iqamah. O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) conduziu a oração do meio-dia. Em seguida, Hazrat Bilal fez a iqamah, e o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) conduziu a oração da tarde. Entre essas duas orações mencionadas, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) não realizou nenhuma outra oração. Depois, montou sua montaria e dirigiu-se ao local onde permaneceria. Ali, aguardou sobre o dorso de sua camela; pouco depois, o sol se pôs. Então o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) colocou Hazrat Usamah (que Allah esteja satisfeito com ele) atrás de si e partiu dali para Muzdalifah. Ali, realizou as orações do maghrib e do isha com um azan e duas iqamahs. Entre elas, não realizou nenhuma oração voluntária. Em seguida, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), deitou-se. Permaneceu deitado até chegar o horário da oração do fajr. Quando chegou o horário do fajr, realizou a oração com azan e iqamah. Depois, montou sua camela, dirigiu-se ao Mash’ar al-Haram, voltou-se para a qiblah e suplicou a Allah. Proclamou o takbir em nome de Allah e pronunciou a fórmula do tawhid. Permaneceu ali até que a manhã clareasse completamente ao redor. Depois, partiu para Mina antes do nascer do sol. Dessa vez, colocou Hazrat Fadl ibn Abbas atrás de si. Ao chegar a Batn Muhassar (o local onde caiu a ira sobre o exército de Abraha), fez sua montaria correr rapidamente. Seguiu pela estrada da Jamrat al-Kubra e chegou até ela. Naquela época, havia ali uma árvore. A Jamrat al-Kubra era conhecida pela identificação com essa árvore. A Jamrat al-Kubra também é chamada de Jamrat al-Aqabah e Jamrat al-Ula. Depois, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) lançou ali sete pedras. A cada lançamento, proclamava o takbir. Eram pequenos fragmentos de pedra. O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) lançou essas pedras estando de pé ao sopé da montanha.
Depois, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) foi ao local do sacrifício e, com suas mãos puras, sacrificou 63 camelos. Em seguida, os 37 camelos restantes foram entregues a Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) para que os sacrificasse. Assim, foram sacrificados cem camelos. O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) incluiu também Hazrat Ali em seu sacrifício. Depois, por ordem dele, foi retirado um pedaço de carne de cada camelo e tudo foi cozido em uma panela. O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e Hazrat Ali comeram daquela carne. O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) também bebeu um pouco de caldo.
Depois, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) montou sua montaria e dirigiu-se à nobre Makkah. Realizou o tawaf da Casa de Allah. Esse tawaf é chamado tawaf al-ifadah. O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) realizou em Makkah a oração do meio-dia. Depois, foi até os Banu Abd al-Muttalib, junto ao poço de Zamzam. Eles estavam oferecendo água de Zamzam aos peregrinos.
O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Ó Banu Abd al-Muttalib, continuem a retirar a água. Se não temesse que outras pessoas os vencessem nessa tarefa de retirar água, eu também a retiraria com vocês.” Ou seja, se os Companheiros vissem o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) retirando água, todos tentariam fazer o mesmo. Como resultado, a honra de oferecer água aos peregrinos, que pertencia exclusivamente aos Banu Abd al-Muttalib, deixaria de ser exclusiva. Então, os membros dos Banu Abd al-Muttalib deram ao Profeta (que Allah esteja satisfeito com ele) um balde de água, e o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) bebeu daquela água quanto necessitou. 10 [É narrado no Sahih Muslim por Hazrat Jabir (que Allah esteja satisfeito com ele), no capítulo sobre a Peregrinação do Profeta, volume 1, páginas 397–400.]
Hoje é o dia do sacrifício, o décimo dia do mês de Dhu al-Hijjah. Também hoje, durante o período de chasht, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) proferiu um sermão. Naquele momento, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) estava montado no dorso de uma mula. Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) transmitia aos Companheiros reunidos as palavras do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Alguns dos Companheiros estavam sentados e outros estavam de pé. 11 [Abu Dawud, capítulo sobre o Dia do Sacrifício, volume 1, página 270.] Também no sermão de hoje, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) repetiu alguns trechos do discurso do dia anterior. No Sahih al-Bukhari e no Sahih Muslim está registrada a narração de Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele), segundo a qual o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) proferiu um sermão para nós no Yawm al-Nahr, isto é, no décimo dia de Dhu al-Hijjah. Nesse sermão, disse: “Chegou o momento da conclusão do ciclo dos tempos. Foi neste dia que Allah criou os céus e a terra. Um ano tem doze meses. Dentre eles, quatro são meses sagrados. Três deles vêm consecutivamente: Dhu al-Qadah, Dhu al-Hijjah e Muharram. O outro é Rajab, situado entre Jumada al-Thani e Sha’ban.”
O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) também disse: “Que mês é este?” Respondemos: “Allah e Seu Mensageiro sabem melhor.” O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) permaneceu em silêncio. Então entendemos que ele daria a esse mês algum outro nome. Mas o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Não é este o mês de Dhu al-Hijjah?” Respondemos: “Sim, claro.” Ele disse: “Que cidade é esta?” Respondemos: “Allah e Seu Mensageiro sabem melhor.” O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) permaneceu em silêncio por algum tempo. Pensamos que daria à cidade algum outro nome. Mas o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Não é esta a cidade de Makkah?” Então respondemos: “Sim, claro.” O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Qual é a identidade deste dia?” Respondemos: “Allah e Seu Mensageiro sabem melhor.” O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) permaneceu em silêncio por algum tempo. Pensamos que daria a esse dia algum outro nome. Mas ele disse: “Não é este o Yawm al-Nahr, isto é, o Dia do Sacrifício? Ou seja, não é o décimo dia de Dhu al-Hijjah?” Respondemos: “Sim, claro.” O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Então escutem: o vosso sangue, os vossos bens e a vossa honra são tão invioláveis e sagrados uns para os outros quanto são sagrados para vós esta cidade, este mês e este dia. Em breve encontrareis o vosso Senhor, e sereis questionados sobre as vossas ações. Portanto, ficai atentos para não vos desviardes depois de mim.”
“Não vos desvieis a ponto de começardes a quebrar o pescoço uns dos outros. Dizei: ‘Transmiti a mensagem?’” Os Companheiros responderam: “Sim.” O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: “Ó Allah, sê testemunha. Que aqueles que estão presentes aqui transmitam minha mensagem aos ausentes, pois muitos ausentes darão maior importância às minhas palavras e acreditarão nelas mais firmemente do que muitos dos presentes. 12 [Sahih al-Bukhari, capítulo sobre o sermão dos dias de Mina, volume 1, página 234.]”
Segundo uma narração, o Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, também disse nesse sermão: «Lembrai-vos: quem comete um pecado, comete-o contra si mesmo; isto é, ele próprio será responsável por isso. Lembrai-vos: nenhum filho pecador pode responder pelo pecado de seu pai, nem um pai pecador pode responder pelo pecado de seu filho; isto é, o filho não será responsabilizado pelo pecado do pai, nem o pai pelo pecado do filho. Lembrai-vos: Satanás perdeu a esperança de que algum dia volte a ser adorado nesta cidade. No entanto, ele se satisfará quando for obedecido por meio daquelas ações que considerais insignificantes.» 13 [Tirmidhi, vol. 2, p. 38, 135; Ibn Majah, Kitab al-Qital wa al-Rajm, Mishkat, vol. 1, p. 234]
Depois disso, o Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, permaneceu em Mina durante os dias de Tashriq, isto é, nos dias 11, 12 e 13 de Zul-Hijjah. Durante esse período, ele também cumpria os ritos do Hajj. Ao mesmo tempo, ensinava ao povo as normas e os mandamentos da Sharia, recordava Allah, mantinha as Sunnas da religião de Ibrahim e eliminava os sinais do shirk. Em um dos três dias mencionados, isto é, durante os dias de Tashriq, proferiu um sermão. Abu Dawud registra, com uma cadeia classificada como “hasan”, que Hazrat Sara bint Binham (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: «O Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, proferiu um sermão para nós no dia de Raus 14 [isto é, 12 de Zul-Hijjah; Awn al-Ma’bud, vol. 2, p. 143] e disse: este dia não é o dia intermediário dos dias de Tashriq.» 15 [Abu Dawud, Yawm Yakhṭubu bi Mina, vol. 1, p. 269]. O sermão do Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, nesse dia era semelhante ao sermão do dia anterior, isto é, ao sermão do Dia do Sacrifício. Esse sermão foi proferido depois da revelação da surata An-Nasr.
A última expedição militar
Os governantes do vastíssimo Império Romano não estavam dispostos a reconhecer o direito do Islã e dos que o aceitavam de continuar vivos. Por isso, para qualquer pessoa que aceitasse o Islã nas áreas controladas pelo Império Romano, isso era perigoso. Para os demais, era também grande o temor de que se repetisse o episódio do governador romano Hazrat Farwah ibn Amr al-Judhami.
Diante de semelhante arrogância e comportamento altivo dos governantes do Império Romano, o Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, começou, no mês de Safar do décimo primeiro ano da Hégira, a preparar um grande exército. Nomeando Hazrat Usama ibn Zayd (que Allah esteja satisfeito com ele) como comandante desse exército, ordenou-lhe: «Ide devastar, com os cavaleiros, a região de Balqa e o território palestino de Darum, e regressai.» O objetivo dessa medida era aterrorizar os romanos e infundir coragem nas tribos árabes que viviam nas áreas sob seu controle. Assim, ninguém poderia pensar que não havia quem denunciasse os excessos e a tirania da Igreja. Além disso, ninguém poderia imaginar que aceitar o Islã significava convidar a própria morte.
Algumas pessoas criticaram a nomeação de Hazrat Usama (que Allah esteja satisfeito com ele) como comandante e hesitaram em participar dos preparativos para essa expedição. Diante disso, o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: «Se criticardes Usama por ser comandante, então deveis também dizer que anteriormente criticastes a nomeação de seu pai como comandante. Por Allah, Zayd era qualificado para ser comandante. Além disso, era um dos meus entes queridos. Usama também é, depois de Zayd, um dos meus entes queridos.» 1 [Sahih Bukhari, capítulo sobre o envio de Usama, Usama, vol. 2, p. 612]
Então os nobres Companheiros (que Allah esteja satisfeito com eles) reuniram-se em torno de Hazrat Usama (que Allah esteja satisfeito com ele) e juntaram-se ao seu exército. Esse exército partiu e estabeleceu-se num lugar chamado Maqam de Jurf, a três milhas de Medina. Como continuavam a receber notícias preocupantes sobre a doença do Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, não avançaram. Permaneceram ali, aguardando a decisão de Allah. A decisão de Allah foi que essa expedição seria reconhecida como a primeira campanha militar do califado de Hazrat Abu Bakr as-Siddiq (que Allah esteja satisfeito com ele). 2 [Sahih Bukhari e Ibn Hisham, vol. 2, pp. 606–650].
Muhammad não é senão um Mensageiro; antes dele, já havia muitos mensageiros
já passaram. Se ele morrer ou alguém o
matar, então acaso se afastarão (de seu exemplo)
? (Saibam) que
quem quer que se afaste (dessa maneira)
não poderá causar dano algum a Allah
.
(Surata Al Imran—144)
7
Adeus, meu amigo: o Grande Profeta a caminho da jornada final
Adeus, ó Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele
A convocação para a religião de Allah havia alcançado sua plenitude, e o mundo árabe estava então completamente sob o controle do Islã. Nessa época, começaram a manifestar-se nos pensamentos, sentimentos, conduta exterior e palavras do Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, sinais dos quais se compreendia claramente que em breve ele se despediria dos habitantes deste mundo.
Por exemplo, diz-se que, no mês de Ramadã do décimo ano da Hégira, o Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, praticou o i‘tikaf durante vinte dias, enquanto nos outros Ramadãs o praticava por dez dias. O Hazrat Jibril (que a paz esteja sobre ele) recitou para o Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, todo o Alcorão Sagrado duas vezes naquele ano. O Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, disse no sermão da Peregrinação de Despedida: “Não sei; talvez, depois deste ano, eu nunca mais possa encontrar-me convosco neste lugar.” Perto de Jamarat al-Aqaba, ele disse: “Aprendei comigo os ritos do Hajj, pois talvez, depois deste ano, eu nunca mais possa realizar o Hajj.” A Surata An-Nasr foi revelada em meados dos Dias de Tashriq, isto é, nos dias 10, 11 e 12 de Zul-Hijjah. Depois disso, ele compreendeu que havia chegado o momento de se despedir deste mundo. A revelação dessa surata significava uma comunicação antecipada sobre sua morte.
No início do mês de Safar do décimo primeiro ano da Hégira, o Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, foi à planície de Uhud. Ali, fez uma súplica pelos mártires como se os vivos estivessem se despedindo dos mortos. Depois de retornar, sentou-se no púlpito e disse: “Sou o responsável por vossas atividades e uma testemunha por vós. Juro por Allah que agora estou vendo minha Hawd, isto é, a Hawd de Kawthar. Foram-me entregues as chaves do mundo inteiro e de seus tesouros. Juro por Allah que não temo que cometais politeísmo depois de mim; temo, sim, que exagereis nas questões mundanas.”
Certa noite, à meia-noite, o Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, foi ao cemitério de Jannatul Baqi e fez uma súplica pelos mortos. Nessa súplica, disse: “A paz esteja convosco, ó habitantes das sepulturas. A condição em que vos encontrais é melhor para vós do que aquela em que as pessoas se encontram. As tribulações chegam umas após as outras como os trechos de uma noite escura. Os que vierem depois serão piores do que os que vieram antes.” Em seguida, deu aos habitantes das sepulturas a boa notícia de que ele também se encontraria com eles.
O início da doença
No domingo, 29 de Safar do décimo primeiro ano da Hégira, o Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, participou de uma oração fúnebre em Jannatul Baqi. No caminho de volta, começou a sentir dor de cabeça, e a febre aumentou tanto que seu calor podia ser sentido mesmo através da faixa amarrada em sua cabeça. Esse foi o início da doença mortal. Durante essa enfermidade, ele conduziu as orações por onze dias. A doença durou ao todo treze ou quatorze dias.
A última semana de sua vida
O Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, tornava-se cada vez mais debilitado. Nessa época, perguntava às suas piedosas esposas: «Onde estarei amanhã? Onde estarei amanhã?» Suas esposas compreenderam o significado dessa pergunta do Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Então disseram: «Ficará, ó Mensageiro de Allah, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, onde desejar permanecer.» Depois, ele foi transferido para o quarto de Aisha. Durante a transferência, Fadl ibn Abbas e Ali ibn Abi Talib, que Allah esteja satisfeito com ambos, levaram o amado Profeta apoiado neles. Sua cabeça estava enfaixada, e seus pés abençoados arrastavam-se pelo chão. Nesse estado, foi transferido para o quarto de Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela, e ali passou a última semana de sua vida.
Hazrat Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela, recitava as súplicas que havia aprendido do Mensageiro, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, soprava sobre o corpo abençoado do Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, e, buscando bênçãos, passava a mão abençoada dele sobre o próprio corpo.
Cinco dias antes de sua morte
Cinco dias antes de sua morte, na quarta-feira, chamada Chahar Shamba, a temperatura do corpo do Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, subiu de maneira anormal. Com isso, seu sofrimento aumentou. Ele havia perdido a consciência. Nesse momento, disse: «Derramai sobre mim sete mashks de água de diferentes poços, para que eu possa ir até as pessoas e fazer minhas recomendações.» Então fizeram-no sentar e derramaram sobre seu corpo tamanha quantidade de água que ele disse: «Basta, basta», isto é, não é mais necessário.
Depois disso, o Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, sentiu-se um pouco melhor e foi à mesquita. Sua cabeça estava enfaixada. Subiu ao púlpito, sentou-se e fez um sermão. Os nobres Companheiros estavam reunidos ao redor. Ele disse: «Que a maldição de Allah recaia sobre os judeus e os cristãos, pois transformaram os túmulos de seus profetas em mesquitas.» Em outra narração consta: «Que a ira de Allah recaia sobre os judeus e os cristãos, pois transformaram os túmulos de seus profetas em mesquitas.»² [Sahih al-Bukhari, volume 1, p. 52; Muwatta do Imam Malik, p. 360] Ele também disse: «Não transformeis meu túmulo em um ídolo a ser adorado.»³ [Muwatta do Imam Malik, p. 65]
Depois, o Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, ofereceu-se para qualquer retaliação e disse: «Se eu tiver golpeado alguém nas costas com um chicote, aqui estão minhas costas; que ele se vingue. Se eu tiver desonrado alguém, que ele obtenha de mim a devida reparação.»
Depois, o Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, desceu do púlpito e conduziu a oração do meio-dia. Em seguida, voltou a sentar-se no púlpito e repetiu o que havia dito sobre inimizade e assuntos semelhantes. Um homem disse: «Tenho uma dívida de três dirrãs para convosco.» O Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, ordenou a Fadl ibn Abbas, que Allah esteja satisfeito com ele, que pagasse aquela dívida.
Depois, o amado Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, recomendou que se tratasse bem os Ansar. Ele disse: “Recomendo-vos que cuideis dos Ansar, pois eles são meu coração e minhas entranhas. Eles cumpriram suas responsabilidades, mas seus direitos ainda permanecem. Portanto, acolhei os virtuosos entre eles e perdoai os malfeitores.” Em outra narração, consta que ele disse: “As pessoas continuarão aumentando, enquanto o número dos Ansar continuará diminuindo, até que se tornem como a quantidade de sal na comida. Portanto, aqueles dentre vós que receberem a responsabilidade por algum assunto benéfico ou prejudicial deverão acolher os virtuosos entre os Ansar e perdoar os malfeitores.” 4 [Sahih Bukhari, volume 1, p. 526]
Depois, o Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Allah concedeu a um servo a escolha: se ele desejar, Allah lhe dará o que quiser dos esplendores e prazeres deste mundo; ou poderá escolher o que estiver junto de Allah.” Esse servo expressou o desejo de escolher o que estava junto de Allah. Abu Sa’id al-Khudri, que Allah esteja satisfeito com ele, narrou que, ao ouvir isso, Abu Bakr Siddiq, que Allah esteja satisfeito com ele, começou a chorar e disse: “Que eu seja sacrificado por vós, juntamente com meus pais.” Ficamos admirados ao ouvir isso. As pessoas disseram: “Vede este ancião! O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, estava falando sobre um servo a quem Allah dera a escolha de aceitar o que quisesse ou de escolher o que está junto de Allah, mas este ancião diz: ‘Que eu seja sacrificado por vós, juntamente com meus pais.’” Porém, poucos dias depois, ficou claro para todos que o servo a quem Allah concedera a escolha era o próprio Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Naquele dia, também não restou dúvida para ninguém de que Abu Bakr, que Allah esteja satisfeito com ele, era o mais sábio entre nós. 5 [Sahih Bukhari, volume 1, p. 536]
Depois, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Entre todos, Abu Bakr foi quem mais me favoreceu por sua amizade e pelos sacrifícios de seus bens. Se eu tomasse alguém além do meu Senhor como khalil, um amigo íntimo, tomaria Abu Bakr. Contudo, entre nós existe a relação de fraternidade e amor islâmicos. Não se deve deixar nenhuma porta aberta na mesquita; todas as portas devem ser fechadas, exceto a porta de Abu Bakr.” 6 [Bukhari, Muslim, volume 1, p. 516; Mishkat, volume 2, pp. 546–554]
Quatro dias antes da morte
Na quinta-feira, quatro dias antes do falecimento do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, ele sofria intensamente. Naquele momento, disse: “Vou escrever-vos algo, depois do qual jamais vos perdereis.” Havia algumas pessoas presentes na casa, entre elas Umar, que Allah esteja satisfeito com ele. Ele disse: “Estais sofrendo muito por causa da doença, e temos o Sagrado Alcorão conosco. O Livro de Allah é suficiente para nós.” Ao ouvirem isso, os Companheiros presentes na casa divergiram. Alguns disseram: “Que se escreva aquilo que o Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, deseja escrever.” Outros diziam: “Não é necessário; o que Umar está dizendo está correto.” A divergência acabou se transformando em discussão, e o tumulto aumentou. Irritado, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: “Levantai-vos e saí da minha presença.” 7 [Bukhari e Muslim; Bukhari, volume 1, pp. 22 e 427; volume 2, p. 638]
Naquele mesmo dia, o Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, fez recomendações sobre três assuntos. Primeiro: expulsar os judeus, os cristãos e os politeístas da Península Arábica. Segundo: tratar as delegações visitantes da mesma maneira como eu as tratava. O narrador esqueceu o terceiro assunto; provavelmente o Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, recomendou apegar-se firmemente ao Alcorão e à Sunnah, ou enviar o exército de Usamah; ou talvez tenha dito: “Cuidai da oração e daqueles que estão sob vossa autoridade, isto é, vossos servos e escravos.”
Apesar da gravidade de sua doença, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, continuou conduzindo pessoalmente todas as orações até a quinta-feira, quatro dias antes de seu falecimento. Na oração do Maghrib daquele dia, ele também foi o imame. Nessa oração, ele recitou a surata
Na hora da oração do ‘Isha, a doença se agravou tanto que ele já não tinha forças para ir à mesquita. Aisha, que Allah esteja satisfeito com ela, disse: “O Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, perguntou: ‘As pessoas já terminaram a oração?’ Respondemos: ‘Não, ó Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Elas estão esperando por vós.’ O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, disse: ‘Trazei água para mim em um recipiente.’ Assim fizemos. Ele tomou banho. Depois tentou levantar-se, mas desmaiou. Ao recuperar a consciência, perguntou: ‘As pessoas já terminaram a oração?’ Foi-lhe informado: ‘Não, ó Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Elas estão esperando por vós.’ Na segunda e na terceira vez, aconteceu o mesmo. Ele tomou banho e depois tentou levantar-se, mas desmaiou. Em seguida, mandou chamar Abu Bakr, que Allah esteja satisfeito com ele, para que conduzisse a oração. Nos outros dias da doença do nobre Profeta, Abu Bakr Siddiq, que Allah esteja satisfeito com ele, também conduziu as orações. 9 [Bukhari e Muslim; Mishkat, volume 1, p. 102] Durante a vida do Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, Abu Bakr Siddiq, que Allah esteja satisfeito com ele, conduziu dezessete orações obrigatórias. 8 [Bukhari e Muslim; Mishkat, volume 1, p. 102] — foi ele quem conduziu como imame.”
Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) pediu ao Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), por três ou quatro vezes, que a responsabilidade de conduzir a oração fosse confiada a outra pessoa, e não a Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele). Ela temia que as pessoas formassem uma má opinião sobre Hazrat Abu Bakr Siddiq (que Allah esteja satisfeito com ele). Porém, em todas as ocasiões, o Profeta (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) rejeitou o pedido de sua esposa e disse: “Todos vocês se tornaram como as companheiras de José”. 10[No episódio de Hazrat José (que a paz esteja com ele), as mulheres que acusavam a esposa de Aziz do Egito aparentemente faziam isso; mas, ao verem Hazrat José e cortarem os dedos, ficou claro que todas eram profundamente devotadas a Hazrat José (que a paz esteja com ele). Ou seja, diziam uma coisa com a boca, mas tinham outra no coração. A situação aqui era semelhante. Aparentemente, dizia-se que Hazrat Abu Bakr Siddiq tinha um coração sensível e que, se começasse a conduzir a oração no lugar do Profeta, não conseguiria recitar o Alcorão por causa do choro intenso. Mas, no íntimo, a verdadeira preocupação era que, caso — que Allah não permita — o nobre Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) falecesse, todos formariam uma má opinião sobre Hazrat Abu Bakr Siddiq (que Allah esteja satisfeito com ele), acusando-o de ser um mau agouro. Por essas razões, juntamente com o pedido de Hazrat Aisha Siddiqah, as demais esposas do Profeta também fizeram o mesmo pedido ao nobre Profeta (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). Por isso, o Profeta (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse que todas vocês são como os irmãos do Profeta José.] Ordenem a Abu Bakr que conduza a oração.
Dois dias antes da morte
No sábado ou no domingo, o Profeta (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) sentiu-se um pouco melhor. Apoiado nos ombros de dois homens, foi à mesquita para a oração do meio-dia. Naquele momento, Hazrat Abu Bakr Siddiq (que Allah esteja satisfeito com ele) estava conduzindo a oração dos Companheiros. Ao ver o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), começou a recuar. O Profeta (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) fez-lhe um gesto para que não recuasse. Disse aos homens em cujos ombros se apoiara para chegar à mesquita: “Coloquem-me ao lado de Abu Bakr”. Então, ele foi colocado à direita de Hazrat Abu Bakr. Hazrat Abu Bakr Siddiq (que Allah esteja satisfeito com ele) seguia o Profeta — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — na oração e fazia os Companheiros ouvirem os takbirs. 12[ Sahih al-Bukhari, volume 1, pp. 98–99]
Apenas um dia antes da morte
Um dia antes de seu falecimento, na quarta-feira, o Profeta (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) libertou todos os seus servos e servas. Naquele momento, possuía sete dinares, que doou como caridade, e ofereceu suas armas aos muçulmanos. À noite, para acender a lamparina, Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) pediu óleo emprestado a uma vizinha. Uma armadura do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) estava penhorada a um judeu em troca de trinta sa‘, isto é, 75 quilos de cevada.
O último dia da vida sublime
Hazrat Anas (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: era uma segunda-feira, e os muçulmanos estavam realizando a oração do amanhecer. Hazrat Abu Bakr Siddiq (que Allah esteja satisfeito com ele) estava conduzindo a oração. De repente, o Profeta (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) afastou a cortina do aposento de Hazrat Aisha Siddiqah e, ao ver os Companheiros rezando em fileiras, sorriu suavemente. Nesse momento, Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) recuou um pouco, para que o Mensageiro de Allah pudesse juntar-se à fileira da oração. Ele pensou que o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) talvez pudesse juntar-se a eles e talvez desejasse participar da oração. Hazrat Anas (que Allah esteja satisfeito com ele) disse que, ao verem subitamente o Profeta (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), os Companheiros ficaram tão felizes que quase caíram em desordem durante a oração; isto é, queriam interromper a oração para saber como estava fisicamente o Profeta (que Allah o abençoe e lhe conceda paz). Porém, o Amado Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) fez-lhes um gesto com a mão, indicando que completassem a oração. Depois, o Profeta (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) entrou no aposento e fechou a cortina.
Depois disso, não chegou para o Profeta (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) o horário de nenhuma outra oração. No início do dia, no horário da oração de Duha, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) chamou para perto sua amada filha, Hazrat Fatimah (que Allah esteja satisfeito com ela), e disse-lhe algumas palavras em segredo. Ao ouvi-las, Hazrat Fatimah Zahra começou a chorar. Depois, o Profeta (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) voltou a dizer algumas palavras ao ouvido de Fatimah; dessa vez, Hazrat Fatimah (que Allah esteja satisfeito com ela) começou a rir.
Hazrat Aisha Siddiqah (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: Mais tarde, perguntei a Hazrat Fatimah sobre a razão de seu choro e de seu sorriso, e ela respondeu: Na primeira vez, o Profeta (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse-me: “Morrerei desta doença.” Ao ouvir isso, chorei. Depois, ele sussurrou ao meu ouvido: “Entre os membros da minha família, tu serás a primeira a seguir-me para a Outra Vida.” Ao ouvir isso, sorri. 14 [Bukhari, vol. 2, p. 638]
Ao ver a intensidade do sofrimento do Profeta (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), ele deu a Hazrat Fatimah (que Allah esteja satisfeito com ela) a boa notícia de que ela era a líder de todas as mulheres do mundo. 15 [Algumas narrações indicam que essa conversa e essa boa notícia ocorreram não no último dia da vida do Profeta, mas na última semana. Veja Rahmatul lil-Alamin, vol. 1, p. 282]
Naquele momento, ao ver a intensidade do sofrimento do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), Hazrat Fatimah (que Allah esteja satisfeito com ela) exclamou de repente: “Oh, que sofrimento o de meu pai!” Ao ouvir isso, o Profeta (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: “Depois de hoje, teu pai não terá mais sofrimento algum.” 16 [Algumas narrações indicam que essa conversa e essa boa notícia ocorreram não no último dia da vida do Profeta, mas na última semana. Veja Rahmatul lil-Alamin, vol. 1, p. 282]
O Profeta (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) chamou Hazrat Hasan e Husayn (que Allah esteja satisfeito com eles), beijou-os e recomendou que se fizesse o bem em relação a eles. Chamou suas esposas e também lhes deu exortações e conselhos.
Enquanto isso, o sofrimento aumentava cada vez mais. O efeito do veneno também começava a manifestar-se. Ele havia sido envenenado em Khaybar. O Profeta (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) dizia a Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela): “Ó Aisha, continuo sentindo o sofrimento causado pelo efeito da comida envenenada que comi em Khaybar. Agora parece-me que, por causa do efeito daquele veneno, as veias da minha vida estão sendo cortadas.” 17 [Sahih Bukhari, vol. 2, p. 637]
O Profeta (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) também deixou recomendações aos seus nobres Companheiros. Disse-lhes: “As-salat, as-salat, wa ma malakat aymanukum”, isto é: “A oração, a oração, e os escravos sob a vossa autoridade.” O Profeta (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) repetiu essas palavras várias vezes. 18 [Sahih Bukhari, vol. 2, p. 637]
Estado no momento da morte
Começou o estado da agonia da morte. Hazrat Aisha Siddiqah (que Allah esteja satisfeito com ela) sustentou o Profeta (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), apoiando-o contra o próprio corpo. Ela disse: “Uma das bênçãos de Allah para comigo é que o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) entregou o último suspiro em minha casa, no meu dia de prestação de contas e em meu colo.” No momento do falecimento do Profeta (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), Allah reuniu a saliva do Profeta (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) e a minha. O fato foi o seguinte: Abdur-Rahman ibn Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) veio; naquele momento, trazia um miswak na mão. O Profeta (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) estava apoiado sobre mim. Percebi que o Profeta (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) olhava para o miswak. Entendi que ele o desejava. Perguntei: “Devo pegá-lo para o senhor?” Ele fez um sinal afirmativo com a cabeça. Trouxe o miswak e dei-o a ele. Mas pareceu-lhe duro. Perguntei: “Devo amaciá-lo para o senhor?” Ele fez um sinal afirmativo com a cabeça. Amaciei-o com os dentes. Depois, ele usou o miswak muito bem. Havia um recipiente com água diante dele. Ele molhava a mão, passava-a pelo rosto e dizia: “La ilaha illallah”, isto é: “Não há divindade além de Allah.” A morte é muito difícil. 19 [Sahih Bukhari, vol. 2, p. 640]
Depois de usar o miswāk, o Profeta — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — levantou a mão ou o dedo. Nesse momento, seu olhar estava voltado para o teto. Seus dois lábios se moviam. Ele murmurava algo. Hazrat Aisha — que Allah esteja satisfeito com ela — aproximou o ouvido de sua boca. O Profeta — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — dizia então: “Ó Allah! Inclui-me entre os profetas, os verazes, os mártires e os justos que Tu agraciaste; perdoa-me. Ó Allah, perdoa-me, tem misericórdia de mim e conduz-me ao Rafīq al-A‘lā. Ó Allah! Rafīq al-A‘lā!” 20{Sahih Bukhari, capítulo sobre a doença do Profeta e capítulo sobre as últimas palavras da vida do Profeta, vol. 2, pp. 638–641}
O Profeta — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — repetiu essas últimas palavras três vezes. Logo depois, sua mão pendeu e ele partiu para junto do Amado Supremo. “Innā lillāhi wa innā ilayhi rāji‘ūn.” Isto é: todos pertencemos a Allah e a Ele haveremos de retornar.
Esse acontecimento ocorreu na segunda-feira, dia 12 de Rabī‘ al-Awwal do décimo primeiro ano da Hégira, no final da oração do duha. O Profeta — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — tinha então sessenta e três anos e quatro dias de idade.
Uma sombra de luto por toda parte
A dolorosa notícia do luto espalhou-se por toda parte em pouco tempo. O povo de Medina ficou tomado pela tristeza. Uma negra sombra de luto cobriu tudo. Hazrat Anas — que Allah esteja satisfeito com ele — disse: “Nunca vi um dia mais luminoso do que aquele em que o Profeta — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — chegou entre nós; e nunca vi um dia mais desafortunado e sombrio do que aquele em que ele nos deixou.” 21{Darimi, Mishkat, vol. 2, p. 547} Após o falecimento do amado Profeta — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — Hazrat Fatima — que Allah esteja satisfeito com ela —, tomada pela tristeza, disse: “Ai, meu pai querido, aquele que respondeu ‘aqui estou’ ao chamado do Senhor! Ai, meu pai querido, cujo destino é o Jannat al-Firdaws! Ai, meu pai querido, estou comunicando a Jibril — que a paz esteja sobre ele — a notícia do seu falecimento.” 22{Sahih Bukhari, capítulo sobre a doença do Profeta, vol. 2, p. 641}
A reação de Hazrat Umar e de Hazrat Abu Bakr
Ao ouvir a notícia do falecimento do Profeta — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — Hazrat Umar — que Allah esteja satisfeito com ele — perdeu os sentidos. De pé, começou a dizer: “Alguns hipócritas pensam que o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — faleceu, mas, na realidade, ele não faleceu. Ele foi para junto de seu Senhor exatamente como Hazrat Musa ibn Imran — que a paz esteja sobre ele — foi. Hazrat Musa — que a paz esteja sobre ele — esteve ausente de seu povo durante quarenta dias e depois retornou; entretanto, antes de seu retorno, seu povo dizia que Musa — que a paz esteja sobre ele — havia falecido. Juro por Allah, o Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — também retornará e cortará as mãos e os pés daqueles que pensam que ele morreu.” 23{Ibn Hisham, vol. 2, p. 655}
Hazrat Abu Bakr Siddiq — que Allah esteja satisfeito com ele — estava em sua própria casa, num lugar chamado Sanha. Ao ouvir a notícia do falecimento do Profeta — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — montou a cavalo, veio rapidamente e entrou na Mesquita do Profeta. Depois, sem dizer palavra a ninguém, dirigiu-se diretamente ao quarto de Hazrat Aisha — que Allah esteja satisfeito com ela. O corpo abençoado do Mensageiro de Allah — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — estava então coberto por um manto iemenita listrado. Hazrat Abu Bakr Siddiq — que Allah esteja satisfeito com ele — retirou o manto do rosto abençoado, beijou-o e chorou. Depois disse: “Que meu pai e minha mãe sejam sacrificados por ti; Allah não reunirá para ti duas mortes. A morte que estava destinada a ti já te alcançou.”
Depois, Hazrat Abu Bakr Siddiq (que Allah esteja satisfeito com ele) saiu. Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) estava falando com as pessoas reunidas. Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) disse-lhe: “Ó Umar, sente-se.” Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) recusou-se a sentar. Enquanto isso, os Companheiros deixaram de dar atenção a Hazrat Umar e voltaram sua atenção para Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele). Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Quem dentre vós adorava o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, saiba que Muhammad, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, não morreu. E quem dentre vós adorava Allah saiba que Allah, o Altíssimo, é Eterno e jamais morrerá. No Sagrado Alcorão, Allah, Senhor dos mundos, disse: ‘Muhammad é apenas um Mensageiro; antes dele, muitos Mensageiros já passaram. Se ele morrer ou for morto, acaso voltareis atrás? E quem voltar atrás não poderá causar dano algum a Allah; e Allah em breve recompensará os agradecidos.’ (Surata Aal Imran, versículo 144.)
Os Companheiros, desnorteados e inquietos pela angústia mental, ao ouvirem o discurso de Abu Bakr Siddiq (que Allah esteja satisfeito com ele), acreditaram que o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, havia realmente falecido.
Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Por Allah, era como se ninguém soubesse que Allah, o Altíssimo, havia revelado este versículo do Sagrado Alcorão. Depois da recitação de Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele), todos memorizaram esse versículo. Naquele momento, todos o repetiam de boca em boca.”
Hazrat Said ibn al-Musayyib (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Por Allah, ao ouvir Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele), foi como se eu tivesse me tornado terra. Eu não conseguia ficar de pé. Ao ouvir Hazrat Abu Bakr recitar esse versículo, eu cambaleava e caía por terra. Pois então compreendi claramente que o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, havia realmente falecido.” 24 [Sahih al-Bukhari, vol. 2, pp. 640–641]
Preparativos para o sepultamento
Antes mesmo de vestir o kafan no Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, surgiu entre os Companheiros certa divergência quanto à escolha de seu sucessor. Houve uma discussão entre os Muhajirun e os Ansar em Saqifah Banu Sa’dah. Por fim, todos concordaram com o califado de Hazrat Abu Bakr Siddiq (que Allah esteja satisfeito com ele). O restante da segunda-feira passou nessa questão. A noite chegou, e todos se ocuparam de seus afazeres. Amanheceu o dia seguinte, uma terça-feira. Naquele momento, o corpo sagrado do Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, estava coberto com aquele manto iemenita. As pessoas da casa fecharam a porta por dentro.
Na terça-feira seguinte, o Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, foi lavado sem que seu corpo fosse descoberto. Os que realizaram o banho ritual foram Hazrat Abbas, Hazrat Ali, os dois filhos de Hazrat Abbas, Fadl e Qutham, o liberto do Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, chamado Shaqran, Hazrat Usamah ibn Zayd e Aws ibn Khawla (que Allah esteja satisfeito com eles). Hazrat Abbas e seus dois filhos viravam o Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, de lado. Hazrat Usamah e Hazrat Shaqran derramavam a água. Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) lavava o Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Hazrat Aws (que Allah esteja satisfeito com ele) mantinha o Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, apertado contra o próprio peito.
Depois do banho ritual, o Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, foi envolto em três mantos brancos iemenitas como kafan. Não havia neles camisa nem turbante. 25 [Sahih al-Bukhari, vol. 1, p. 169; Sahih Muslim, vol. 1, p. 306] O Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, foi envolto apenas em mantos.
Surgiu também uma divergência entre os nobres Companheiros sobre onde o Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, deveria ser sepultado. Hazrat Abu Bakr (r.a.) disse: “Ouvi o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, dizer que todo profeta é sepultado no mesmo lugar onde sua alma é tomada.” Depois que essa decisão foi tomada, Hazrat Abu Talhah (r.a.) levantou a cama sobre a qual o Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, havia falecido. Uma sepultura foi cavada sob essa cama.
Depois, os Companheiros entraram na câmara em grupos de dez e realizaram sucessivamente a oração fúnebre. Nessa oração, ninguém atuou como imame. Primeiro, os membros do clã dos Banu Hashim realizaram a oração; depois, os Muhajirun; em seguida, os Ansar; depois, os demais homens; depois, as mulheres; e, por fim, as crianças realizaram a oração fúnebre.
O dia inteiro de terça-feira transcorreu na realização da oração fúnebre. Na noite de terça-feira, o amado Profeta Muhammad Mustafa Ahmad Mujtaba, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, foi sepultado. Seu corpo sagrado foi colocado dentro da sepultura.
Hazrat Aisha Siddiqah (r.a.) disse: “Não conseguimos saber exatamente quando o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, foi sepultado. Contudo, ouvimos alguns sons por volta da meia-noite de quarta-feira.” 26 [Para conhecer em detalhes esse acontecimento, consulte Mukhtasar Sirat-i Rasul, escrito pelo Sheikh Abdullah, p. 471; veja também o capítulo sobre a morte do Profeta em Bukhari Sharif. Consulte ainda Fath al-Bari, Sahih Muslim e Mishkat. Além disso, Ibn Hisham, vol. 2, pp. 649–665; Talqih, pp. 38–39; Rahmatul lil-Alamin, vol. 1, pp. 277–286.]
Breve apresentação da família do Profeta
(1) Hazrat Khadijah (r.a.)
Antes da Hégira, a família do Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, em Meca era formada pelo próprio Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e por sua esposa Khadijah (r.a.). Na época desse casamento, o Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, tinha vinte e cinco anos, e Bibi Khadijah tinha quarenta. Hazrat Khadijah (r.a.) foi a primeira esposa do Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Durante a vida dela, o Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, não se casou com nenhuma outra mulher. Entre os filhos do Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, todos, exceto Hazrat Ibrahim, eram filhos de Bibi Khadijah. Nenhum dos filhos homens estava vivo, mas as filhas estavam vivas. Seus nomes eram Hazrat Zaynab, Hazrat Ruqayyah, Hazrat Umm Kulthum e Hazrat Fatimah (r.a.). Zaynab casou-se, antes da Hégira, com seu primo paterno Hazrat Abu al-As ibn al-Rabi. Ruqayyah e Umm Kulthum casaram-se sucessivamente com Hazrat Uthman (r.a.). Hazrat Fatimah (r.a.) casou-se com Hazrat Ali ibn Abu Talib (r.a.) entre as batalhas de Badr e Uhud. Eles tiveram quatro filhos: Hazrat Hasan, Hazrat Husayn, Hazrat Zaynab e Umm Kulthum (r.a.).
O Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, possuía uma característica distinta em relação à sua ummah. É do conhecimento de todos que ele recebeu permissão para contrair quatro casamentos por diferentes razões. O número de mulheres com quem o Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, se casou foi onze. Quando o Profeta (s.) faleceu, nove delas ainda estavam vivas. Duas faleceram durante a vida dele: Hazrat Khadijah e Umm al-Masakin, Hazrat Zaynab bint Khuzaymah (r.a.). Além dessas, diz-se que ele também se casou com outras duas mulheres, mas há divergência quanto a saber se o casamento delas com o Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, chegou de fato a ocorrer. Entretanto, a decisão consensual é que essas duas mulheres mencionadas não foram levadas para sua casa como esposas. A seguir, apresentaremos sucessivamente os nomes e uma breve apresentação das esposas do Profeta depois de Hazrat Khadijah.
(2) Hazrat Sawda bint Zam’a
Poucos dias após o falecimento de Bibi Khadija (que Allah esteja satisfeito com ela), o Profeta (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) contraiu matrimônio com essa viúva, no mês de Shawwal do décimo ano de sua missão profética. Vale mencionar que, antes disso, Hazrat Sawda havia se casado com seu primo, Sakran ibn Amr.
(3) Hazrat Aisha bint Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ela)
O casamento dela com o Profeta (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) ocorreu no mês de Shawwal do décimo primeiro ano de sua missão profética. Ou seja, um ano após o casamento de Hazrat Sawda e dois anos e cinco meses antes da Hégira. Naquela época, Hazrat Aisha tinha apenas seis anos de idade. Sete meses após a Hégira, no primeiro dia do mês de Shawwal, Hazrat Aisha foi enviada para a casa do marido. Naquela época, ela tinha nove anos e era virgem. Além de Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela), o Profeta (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) não se casou com nenhuma outra moça virgem. Hazrat Aisha era sua esposa mais querida. Entre a comunidade de Muhammad, ela era a mais erudita em jurisprudência islâmica.
(4) Hazrat Hafsa bint Umar (que Allah esteja satisfeito com ela)
Seu primeiro marido foi Khunays ibn Hudhafa al-Sahmi (que Allah esteja satisfeito com ele). Seu marido faleceu no período entre as batalhas de Badr e Uhud. Depois disso, no terceiro ano da Hégira, o Profeta (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) contraiu matrimônio com ela.
(5) Hazrat Zaynab bint Khuzayma (que Allah esteja satisfeito com ela)
Ela era ligada à tribo de Banu Hilal ibn Amir ibn Sa’sa’a. Devido à sua extraordinária compaixão e amor pelos pobres e necessitados, recebeu o título de Umm al-Masakin. Ela era esposa de Hazrat Abdullah ibn Jahsh (que Allah esteja satisfeito com ele). Esse ilustre companheiro foi martirizado na batalha de Uhud. Depois disso, no quarto ano da Hégira, o Profeta (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) contraiu matrimônio com ela. Após permanecer oito meses como esposa do Profeta (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), ela faleceu.
(6) Umm Salama Hind bint Abi Umayya (que Allah esteja satisfeito com ela)
Ela era esposa de Abu Salama (que Allah esteja satisfeito com ele). Ficou viúva no mês de Jumada al-Thani do quarto ano da Hégira. No mês de Shawwal do mesmo ano da Hégira, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe dê paz) casou-se com ela.
(7) Zaynab bint Jahsh ibn Riyab (que Allah esteja satisfeito com ela)
Ela era uma mulher da tribo de Banu Asad ibn Khuzayma e prima do Mensageiro de Allah. Ela havia se casado anteriormente com Zayd ibn Haritha (que Allah esteja satisfeito com ele). Zayd era considerado filho do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe dê paz). Contudo, Zayd e Zaynab não se davam bem, e, por isso, Zayd divorciou-se dela. Depois que terminou o período de espera de Zaynab, Allah, o Altíssimo, Senhor dos mundos, revelou este versículo: “Então, quando Zayd rompeu o vínculo matrimonial com Zaynab, Nós a casamos com você.” (Surata Al-Ahzab, versículo 7)
Sobre esse assunto, foram revelados ainda vários outros versículos na Surata Al-Ahzab. Nesses versículos, foi dada uma solução justa para a controvérsia relacionada aos filhos adotivos. O assunto será discutido em detalhes mais adiante. O Mensageiro casou-se com Zaynab no mês de Dhu al-Qi’dah do quinto ano da Hégira, ou pouco antes.
(8) Juwayriya bint al-Harith (que Allah esteja satisfeito com ela)
Seu pai era o chefe dos Banu al-Mustaliq, um ramo da tribo de Khuza’a. Juwayriya foi apresentada juntamente com os prisioneiros de guerra dos Banu al-Mustaliq. Ela coube na partilha a Thabit ibn Qays ibn Shammas (que Allah esteja satisfeito com ele). Thabit informou que a libertaria sob certas condições. Como condição, foi estipulado o pagamento de uma quantia determinada. Depois que o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe dê paz) soube disso, pagou, em favor de Juwayriya, a quantia estipulada, providenciou sua libertação e casou-se com ela. Isso ocorreu no mês de Sha’ban do quinto ano da Hégira.
(9) Umm Habiba bint Abu Sufyan (que Allah esteja satisfeito com ela)
Ela era esposa de Ubaidullah ibn Jahsh. Fez a hijra para a Abissínia, isto é, a Etiópia, acompanhando o marido. Depois de chegar lá, Ubaidullah apostatou e adotou o cristianismo. Mais tarde, morreu naquele lugar. Umm Habiba, porém, permaneceu firme em sua fé e em sua hijra. No mês de Muharram do sétimo ano da hijra, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) enviou Amr ibn Umayya al-Damiri ao rei da Abissínia, o Negus, com uma carta. Nessa carta, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) manifestou seu desejo de casar-se com Umm Habiba. Com o consentimento de Umm Habiba, o Negus celebrou seu casamento com o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e enviou-a a ele acompanhada de Sharhabil ibn Hasana.
(10) Hazrat Safiyya bint Huyayy (que Allah esteja satisfeito com ela)
Ela pertencia ao povo dos Filhos de Israel e foi feita prisioneira em Khaybar. O Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), por tê-la escolhido, libertou-a e casou-se com ela. Isso ocorreu após a conquista de Khaybar, no sétimo ano da hijra.
(11) Hazrat Maymunah bint al-Harith (que Allah esteja satisfeito com ela)
Ela era irmã de Umm al-Fadl Lubaba bint al-Harith. No mês de Dhu al-Qi’dah do sétimo ano da hijra, depois de concluir a Umrah al-Qada e, segundo a opinião correta, depois de sair do ihram e voltar ao estado permitido, o amado Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) casou-se com ela.
O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) casou-se com as onze mulheres mencionadas acima. Havia outras duas mulheres que não foram conduzidas até ele para consumar o casamento: uma pertencia à tribo de Banu Kilab e a outra à tribo de Kinda. Entre os autores de biografias do Profeta há muita divergência sobre se o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) chegou a casar-se com essa mulher da tribo de Kinda, bem como sobre seu verdadeiro nome e sua genealogia. Não parece necessário mencionar essas divergências.
Quanto às escravas, pode-se mencionar que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) tinha duas escravas. Uma delas era Maria, a copta. O governante do Egito, al-Muqawqis, enviou-a como presente. De seu ventre nasceu Ibrahim, filho do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Ele faleceu no dia 28 ou 29 de Shawwal do décimo ano da hijra, correspondente a 27 de janeiro de 632 d.C.
O nome da outra escrava era Rayhana; ela pertencia à tribo de Banu Nadir ou de Banu Qurayza. Ela veio para Medina com os prisioneiros de guerra da tribo de Banu Qurayza. O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), tendo gostado de Rayhana, manteve-a sob sua tutela. A opinião dos pesquisadores sobre ela é que o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) a libertou e casou-se com ela. O erudito Ibn Qayyim escreveu que o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) manteve Rayhana como escrava. Abu Ubaida escreveu que, além das duas escravas mencionadas, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) tinha ainda outras duas escravas; uma delas foi oferecida ao Profeta por sua esposa Zaynab bint Jahsh (que Allah esteja satisfeito com ela). 1 [Veja Zad al-Ma’ad, vol. 1, p. 29]
Aqui consideramos muito necessário lançar luz sobre um aspecto especial da vida do Mensageiro de Allah. Durante uma grande parte de sua juventude, isto é, por cerca de trinta anos, ele viveu com apenas uma esposa. Além disso, ela era uma mulher que se poderia considerar quase idosa. Após a morte dela, casou-se com outra mulher idosa: primeiro, com Khadija; depois, com Sawda (que Allah esteja satisfeito com ela). Depois de viver assim e alcançar a velhice, teria acaso sua potência sexual aumentado subitamente a tal ponto que ele precisasse contrair tantos casamentos? Que Allah nos livre de semelhante ideia! Não. Se qualquer pessoa sensata considerar esses dois capítulos mencionados da vida do Profeta, não poderá lançar-lhe tal calúnia. Na realidade, o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) contraiu tantos casamentos tendo em vista objetivos especiais. Seus propósitos eram muito mais nobres do que os objetivos habituais de um casamento comum.
A explicação é que o Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), ao casar-se com Aisha e Hafsa, estreitou seus laços com Abu Bakr e Umar. Do mesmo modo, ao dar sucessivamente duas de suas filhas em casamento a Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele), e ao casar sua querida filha Fatima com Ali, o Profeta (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) uniu-se aos quatro companheiros mencionados por estreitos laços de parentesco. Isso porque esses quatro Companheiros haviam demonstrado sacrifícios e abnegação incomparáveis como soldados do Islam durante a época crítica do Islam. Todos conhecem os feitos de serviço e autossacrifício que realizaram pelo Islam.
Era costume dos árabes atribuir especial importância aos laços de parentesco. Na visão dos árabes, o vínculo entre sogro e genro desempenhava um papel especial no fortalecimento das relações entre diferentes tribos. Para eles, lutar contra o próprio genro era considerado vergonhoso. Por causa desse costume, o Mensageiro de Allah estabeleceu relações matrimoniais com mulheres de diferentes tribos, a fim de enfraquecer a hostilidade dessas tribos contra o Islam. Por exemplo, Umm Salama pertencia à tribo dos Banu Makhzum. Abu Jahl e Khalid ibn al-Walid também pertenciam a essa tribo. Depois que se estabeleceu uma relação matrimonial com essa tribo, não se observou em Khalid ibn al-Walid uma hostilidade tão intensa contra o Islam. Pelo contrário, algum tempo depois ele aceitou voluntariamente o Islam. Da mesma forma, depois que o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) se casou com Umm Habiba, filha de Abu Sufyan, Abu Sufyan, embora permanecesse hostil ao Islam, nunca se apresentou diante do Mensageiro de Allah. Após o casamento de Juwayriya e Safiyya com o Profeta (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), as tribos dos Banu Mustaliq e de Safiyya deixaram de lutar contra o Islam. Não há evidência de que essas duas tribos tenham lutado contra o Islam depois que o Profeta (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) estabeleceu relações matrimoniais com elas.
Juwayriya era considerada a mulher mais abençoada de toda a sua tribo. Depois que o amado Profeta (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) se casou com ela, os nobres Companheiros libertaram incondicionalmente cem famílias de prisioneiros de guerra daquela tribo. Eles diziam: “Estas são pessoas ligadas por parentesco ao sogro do Mensageiro de Allah.” Essa demonstração extraordinária de misericórdia causou uma profunda impressão nos membros da tribo.
O mais importante é que o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) havia sido encarregado de educar uma nação indisciplinada, purificar suas mentes e iluminá-la com a luz da civilização e da cultura. Eles não tinham conhecimento dos meios e recursos da civilização e da cultura, nem das responsabilidades necessárias ao desenvolvimento da sociedade. No que dizia respeito aos princípios sobre os quais a sociedade islâmica deveria ser edificada, não havia possibilidade de fazer distinção entre homens e mulheres. Contudo, também não era possível ensinar diretamente as mulheres sob uma perspectiva de pensamento livre de discriminação. Apesar disso, a necessidade de educá-las não era de modo algum menor que a dos homens; ao contrário, pode-se dizer que era ainda maior.
Diante do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), havia apenas um caminho para alcançar esse objetivo: selecionar mulheres de diferentes idades e capacidades e realizar o propósito maior com base em seu talento e competência. Ele poderia ensinar as mulheres selecionadas e promover sua purificação espiritual. Ensinaria a elas as determinações e preceitos da Sharia. Além disso, ensinaria a civilização e a cultura islâmicas de tal maneira que elas pudessem ensinar as normas da Sharia a todas as mulheres, jovens ou idosas, das aldeias e das cidades, sem distinção. Assim, a transmissão da religião alcançaria sua plenitude entre as mulheres.
Por isso, observamos que as Mães dos Crentes desempenharam um papel grandioso no ensino das normas da vida conjugal, isto é, da vida familiar. Especialmente aquelas que viveram mais tempo tiveram maior oportunidade de cumprir essa responsabilidade. Pode-se mencionar, por exemplo, Aisha Siddiqah (que Allah esteja satisfeito com ela). Ela transmitiu amplamente os relatos das palavras e ações do Profeta.
Uma ação do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) aboliu um costume da época da ignorância. Essa superstição vinha sendo praticada na sociedade árabe havia muitas gerações. A regra era que, quando alguém fosse adotado como filho, ele gozaria do status e dos direitos de um filho biológico. Esse costume estava tão profundamente arraigado na sociedade árabe que não era nada fácil aboli-lo. Contudo, ele estava em grave conflito com as leis islâmicas relativas ao casamento, ao divórcio, à herança e a outros assuntos. Além disso, essa superstição da época da ignorância havia produzido atos tão descarados e tanta desordem que libertar a sociedade dessas consequências fazia parte dos objetivos fundamentais do Islam. Foi precisamente com o propósito de eliminar essa superstição da época da ignorância que o próprio Allah, o Senhor dos mundos, casou Zaynab bint Jahsh com o Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz).
É importante observar que Hazrat Zainab foi inicialmente esposa de Hazrat Zaid. E Zaid era o filho adotivo do Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Como o casal não conseguia viver em harmonia, Hazrat Zaid decidiu divorciar-se de sua esposa. Isso ocorreu numa época em que todos os incrédulos estavam unidos contra o Mensageiro de Allah. Naquele momento, os incrédulos preparavam-se para a Batalha da Trincheira. Enquanto isso, havia sido revelada a ordem de Allah para resolver a questão dos filhos adotivos. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, pensou que, se, na situação vigente, Zaid se divorciasse de sua esposa e o Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, tivesse de casar-se com a esposa repudiada por Zaid, os não muçulmanos encontrariam uma oportunidade. Os hipócritas, idólatras e judeus iniciariam uma intensa propaganda contra o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e tentariam envenenar o coração dos muçulmanos simples. Por isso, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, esforçou-se para que Hazrat Zaid não se divorciasse de sua esposa. Assim, nem sequer surgiria a questão de o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, casar-se com a esposa de Zaid. Contudo, Allah não aprovou isso. Então Allah revelou ao Seu Mensageiro este versículo, contendo uma severa advertência: “Recorda-te de quando dizias àquele a quem Allah havia agraciado e tu também havias favorecido: ‘Conserva tua esposa e teme a Allah.’ Tu ocultavas em teu íntimo aquilo que Allah iria manifestar; temias as pessoas, embora fosse mais adequado que temesses a Allah.” (Surata Al-Ahzab, versículo 37)
Por fim, Hazrat Zaid divorciou-se de Hazrat Zainab. Depois disso, terminou o período de espera legal, a idda. Então Allah comunicou ao Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, Sua decisão de que se casasse com Hazrat Zainab. Allah tornou esse casamento obrigatório para o Seu Mensageiro, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Não foi deixada qualquer possibilidade de adiamento. O Alcorão Sagrado declara: “E quando Zaid rompeu com ela o vínculo matrimonial, Nós a casamos contigo, para que não houvesse constrangimento para os crentes quanto às esposas de seus filhos adotivos, quando estes rompessem com elas o vínculo matrimonial. E a ordem de Allah deve ser cumprida.” (Surata Al-Ahzab, versículo 37)
O objetivo dessa medida era extirpar, no que dizia respeito aos filhos adotivos, os costumes da época da ignorância e as superstições arraigadas. Antes disso, o Alcorão já havia extirpado essa superstição em seus versículos. Allah diz: “Chamem-nos pelos nomes de seus pais; isso é mais justo aos olhos de Allah.” (Surata Al-Ahzab, versículo 5)
Allah diz em outro versículo: “Muhammad não é pai de homem algum entre vós; ao contrário, é o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e o Selo dos Profetas.”
É preciso recordar que, quando um costume se arraiga na vida social, não é possível extirpá-lo apenas com palavras. Para transformar esse costume, as palavras não são suficientes; aquele que deseja a mudança deve apresentar um exemplo prático por meio de suas ações. Pode-se mencionar um exemplo a esse respeito. A verdade pode ser compreendida pela atitude demonstrada pelos muçulmanos durante a trégua de Hudaybiyyah. Naquela ocasião, sua devoção era extraordinária. Urwa ibn Masud al-Thaqafi observou que os muçulmanos não deixavam que a saliva e o catarro que saíam da boca do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, caíssem no chão; alguém sempre os recolhia com a mão. Quando o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, fazia a ablução, os Companheiros disputavam entre si para recolher a água que ele deixava. Esses mesmos Companheiros competiam, no momento do Juramento de Ridwan, para prestar juramento de morrer sob a sombra da árvore e não fugir. Entre eles estavam ilustres Companheiros como Hazrat Abu Bakr e Hazrat Umar. Esses Companheiros consideravam tanto dar a vida pelo Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, quanto permanecer vivos por ele uma felicidade e um sucesso. Contudo, depois da conclusão do tratado de Hudaybiyyah, quando o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, ordenou aos Companheiros que sacrificassem seus respectivos animais de oferenda, ninguém respondeu. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, ficou então profundamente angustiado. A esposa do Profeta, Hazrat Umm Salama, que Allah esteja satisfeito com ela, aconselhou o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, a sacrificar silenciosamente o seu próprio animal de oferenda. O Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, assim fez. Então os Companheiros começaram a competir na imitação do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Correram e sacrificaram seus próprios animais de oferenda. Esse acontecimento deixa claro quão grande pode ser a diferença entre palavras e ações na transformação de um costume vigente. Foi precisamente para eliminar a complicação relacionada aos filhos adotivos, arraigada desde a época da ignorância, que Allah fez o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, casar-se com a esposa divorciada de seu filho adotivo.
Depois da realização desse casamento, os hipócritas começaram a promover uma ampla campanha de calúnias e propaganda contra o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Começaram a espalhar vários rumores. Parte disso também afetou os muçulmanos de coração simples. Para fortalecer essa propaganda, os hipócritas encontraram também um argumento baseado na sharia. Propagavam que o Islã havia permitido quatro casamentos, mas o Mensageiro havia tomado como quinta esposa a mulher divorciada de Zaid, seu filho adotivo. Para um muçulmano, não era permitido pelo Islã ter mais de quatro esposas. O ponto central da propaganda era que Hazrat Zaid era filho adotivo do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, e que tomar a esposa do próprio filho adotivo como esposa seria um ato vergonhoso e abominável. Por fim, Allah revelou versículos na Surata Al-Ahzab esclarecendo ambos os assuntos mencionados. Os Companheiros compreenderam então que, no Islã, o filho adotivo não possui esse tipo de vínculo jurídico. Além disso, Allah concedeu ao Seu Mensageiro uma prerrogativa especial quanto ao número de casamentos por uma grande finalidade. Essa característica especial não foi concedida a mais ninguém.
Com as Mães dos Crentes, o amado Profeta levava uma vida de grande dignidade, respeito, elevado nível e nobreza. As esposas do Profeta desempenhavam um papel louvável em todos os aspectos: humildade, educação, modéstia, paciência, tolerância, dedicação ao serviço e cumprimento dos direitos do marido, entre outros. Contudo, o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, levava uma vida extremamente austera e desprovida de luxo. Não era nada fácil para os outros acompanhar o modo de vida daquela vida.
Hazrat Anas, que Allah esteja satisfeito com ele, disse: “Não sei se o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, alguma vez comeu pão macio feito de farinha. Foi assim que ele partiu para junto de Allah. Além disso, jamais viu uma cabra assada.” 2[ Sahih al-Bukhari, volume 2, p. 956]
Hazrat Aisha Siddiqah (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: dois meses se passavam um após o outro, e a lua do terceiro mês era avistada, enquanto o fogo não era aceso no fogão da casa do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Hazrat Urwah perguntou: “Então, o que vocês comiam?” Ela respondeu: “Nada além de duas coisas negras: tâmaras e água.” 3[mesma página, mesma obra]
Há muitos hadiths sobre esse assunto. Apesar de uma pobreza tão severa, não se observava nenhum comportamento censurável por parte das esposas do Profeta.
Devido à fraqueza da natureza humana, ocorreu uma ou outra falha. Além disso, era necessário esclarecer a determinação da Shariah sobre esse assunto. Por isso, foi revelado o seguinte versículo: “Ó Profeta, dize às tuas esposas: ‘Se desejais a vida mundana e seus adornos, vinde, que vos concederei os vossos bens e vos liberarei com nobreza. Mas, se desejais Allah, Seu Mensageiro e a Última Vida, sabei que Allah preparou uma magnífica recompensa para as virtuosas dentre vós.’” (Surata Al-Ahzab, versículos 28–29)
Todas as esposas do Profeta deram preferência a Allah e ao Seu Mensageiro. Pode-se compreender sua excelência e dignidade pelo fato de que nenhuma delas se inclinou para a vida mundana.
Os acontecimentos que normalmente ocorrem entre coesposas aconteceram muito raramente entre as esposas do Profeta, apesar de serem numerosas. Mesmo quando algo pequeno ocorreu, depois de serem advertidas, não se manifestou da parte de nenhuma delas qualquer atitude que pudesse suscitar questionamentos. Os cinco primeiros versículos da Surata At-Tahrim mencionam esse assunto.
Por fim, não será inadequado dizer que não consideramos necessário discutir aqui o número de esposas do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Isso porque os mais ruidosos sobre esse assunto são os habitantes do Ocidente. Que tipo de vida levam eles? A todo momento sofrem com o infortúnio e a amargura. Estão completamente mergulhados numa vida degradante e no pecado. Embora tenham se afastado do princípio da multiplicidade de esposas, permanecem veementes em sua crítica e estão imersos em sofrimento, aflição e desespero. Será necessário discutir isso? 4[Em comparação com várias esposas, será que várias namoradas são mais decorosas?] Seu infeliz modo de vida demonstra que o princípio islâmico da multiplicidade de esposas é cientificamente sólido. Para as pessoas sábias, virtuosas e perspicazes, ele oferece uma solução excelente.
Suas características morais e sua beleza física:
O Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) possuía características morais e uma beleza física que não podem ser descritas até o fim. Por essas razões, os corações se devotavam espontaneamente a ele. Consequentemente, as pessoas demonstravam tamanha dedicação ao assegurar sua segurança e preservar sua honra que não é possível apresentar exemplo semelhante no caso de qualquer outra personalidade do mundo. Seus amigos e companheiros o amavam mais do que à própria vida. Desejavam que, se necessário, sacrificariam a própria cabeça, contanto que nem sequer um arranhão atingisse o corpo abençoado do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). A razão desse amor era que nele se reuniam, em abundância incomparável, todas aquelas qualidades naturais pelas quais o coração e a alma desejam devotar-se inteiramente; ninguém mais possuía semelhante conjunto de qualidades. A seguir, apresentamos humildemente um resumo relacionado à beleza do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele).
A constituição física do amado Profeta
Durante a Hégira, depois de permanecer por algum tempo na tenda de Umm Ma‘bad al-Khuza‘iyya, o amado Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, partiu em direção a Medina. Depois que ele se foi, a descrição que Umm Ma‘bad apresentou ao marido sobre o Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, foi a seguinte: tinha uma tez radiante, um rosto luminoso e uma bela constituição; não era excessivamente alto nem curvado; além de uma beleza extraordinária, possuía um físico cativante; olhos como que realçados com kohl, longos cílios, voz clara, pescoço longo, olhos de intenso contraste entre o branco e o negro, cílios negros como kohl, sobrancelhas finas e bem unidas, cabelos negros brilhantes. Era de personalidade reservada, mas atraente ao falar. Visto de longe, parecia o mais luminoso e belo de todos; visto de perto, parecia sublime, amável e formoso. Suas palavras eram doces e sua expressão era clara; não falava de maneira excessivamente breve nem prolongada. Ao falar, parecia que pérolas caíam de sua boca. Tinha estatura mediana; não era tão baixo nem tão alto que sua aparência se tornasse desagradável. Quando seus companheiros conversavam ao seu redor, ele os escutava com profunda atenção. Quando dava uma ordem, eles a cumpriam imediatamente. Seus companheiros eram extremamente obedientes a ele e mantinham por ele profundo respeito e reverência; nenhum era arrogante ou insolente, e ninguém falava em excesso. 1 (Zad al-Ma‘ad, vol. 2, p. 54)
Hazrat Ali, que Allah esteja satisfeito com ele, mencionou, ao descrever as características do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, que ele não era anormalmente alto nem baixo. Tinha uma constituição mediana. Seus cabelos não eram encaracolados nem totalmente lisos, mas estavam entre os dois. Suas faces não eram carnudas nem magras; eram de uma forma intermediária. Sua testa era larga, e sua tez era uma combinação de rosado e claro. Seus olhos eram avermelhados, como realçados com kohl, e tinham cílios espessos. Do peito ao umbigo havia uma linha de pelos finos, enquanto o restante do corpo não tinha pelos. Suas mãos e seus pés eram robustos. Ao caminhar, levantava os pés com um movimento vigoroso. Ao vê-lo caminhar, parecia que descia de um lugar elevado para um lugar baixo. Quando olhava para alguma direção, fazia-o com plena atenção. Entre seus dois ombros encontrava-se o Selo da Profecia. Ele era o último de todos os profetas. Era o mais generoso, o mais corajoso, o mais veraz, o que melhor cumpria as promessas, o mais compassivo e o mais nobre. Quando alguém o via de repente, ficava tomado de temor; mas, quando alguém que o conhecia se apresentava diante dele, ficava tomado de amor. Aquele que descrevia suas qualidades dizia: “Antes dele e depois dele, nunca vi alguém semelhante a ele.” 2 (Ibn Hisham, vol. 1, pp. 401–402; Tirmidhi, Sharh Tuhfat al-Ahwazi, vol. 4, p. 303)
Em outra narração de Hazrat Ali, que Allah esteja satisfeito com ele, consta que sua cabeça era grande e os ossos das articulações eram robustos. Havia uma linha de pelos finos no meio do peito. Ao caminhar, ele o fazia de tal maneira que parecia que alguém descia de um lugar elevado para um lugar baixo. 3 (Tirmidhi, Sharh Tuhfat al-Ahwazi, vol. 4, p. 303)
Hazrat Jabir ibn Samura, que Allah esteja satisfeito com ele, narrou que os músculos do Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, eram largos, seus olhos eram avermelhados e seus calcanhares eram relativamente finos. 4 (Sahih Muslim, vol. 2, p. 258)
Hazrat Abu Tufayl disse: ele tinha uma tez clara e o rosto delicado. Sua estatura era mediana. 5 (Sahih Muslim, vol. 2, p. 258)
Hazrat Anas ibn Malik disse que as palmas das mãos do Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, eram largas; sua tez era luminosa, não completamente branca nem da cor do trigo. Até o momento de seu falecimento, nem vinte fios de cabelo de sua cabeça e de seu rosto haviam ficado brancos. 6 (Sahih al-Bukhari, vol. 1, p. 502) Apenas alguns pelos de suas orelhas haviam embranquecido; além disso, alguns fios de seus cabelos também tinham ficado brancos. 7 (Sahih al-Bukhari, vol. 1, p. 502)
Hazrat Abu Hudhayfa disse: vi alguns pelos da barba do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, junto ao lábio inferior, já brancos. 8 (Sahih al-Bukhari, vol. 1, pp. 502, 502)
Hazrat Abdullah ibn Bashar (r.a.) disse: alguns fios da barba do Profeta — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — junto ao lábio inferior haviam ficado brancos. 9 [Ibid., p. 502]
Hazrat Bara disse: o Profeta — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — tinha estatura mediana. Havia uma distância considerável entre seus ombros. Seus cabelos chegavam até os lóbulos de ambas as orelhas. Eu o vi vestindo uma roupa vermelha. Nunca vi nada mais belo do que ele. 10 [Ibid., p. 502]
A princípio, ele gostava de pentear os cabelos como o Povo do Livro. Por isso, quando os penteava, não fazia risca; mais tarde, passou a fazê-la. 11 [Ibid., p. 502]
Hazrat Bara ibn Azib (r.a.) disse: seu rosto era o mais belo, e sua aparência era superior à de todos os demais. 12 [Ibid., primeira página, p. 502; Sahih Muslim, vol. 2, p. 258]
Perguntaram a Hazrat Bara ibn Azib (r.a.) se o rosto do Profeta — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — era como uma espada. Ele respondeu: não, seu rosto era como a lua. Outra narração afirma que o rosto do Profeta — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — era redondo. 13 [Sahih Bukhari, vol. 1, p. 502; Sahih Muslim, vol. 2, p. 259]
Rabi bint Mu’awwidh (r.a.) disse: se vocês tivessem visto o Mensageiro — que Allah o abençoe e lhe conceda paz —, teriam pensado que estavam vendo o sol nascente. 14 [Musnad al-Darimi, Mishkat, vol. 2, p. 517]
Hazrat Jabir ibn Samura disse: numa noite de luar, eu observava o Profeta — que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Naquele momento, ele vestia uma roupa vermelha. Uma vez eu olhava para o Profeta — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — e outra vez para a lua. Por fim, cheguei à conclusão de que nosso Profeta — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — era mais belo do que a lua. 15 [Shama’il al-Tirmidhi, Darimi, Mishkat, vol. 2, p. 515]
Hazrat Abu Huraira (r.a.) disse: nunca vi pessoa alguma mais bela do que o Mensageiro — que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Parecia que o sol resplandecia em seu rosto. Nunca vi ninguém mais veloz do que ele. Quando começava a caminhar, parecia que a terra se encolhia sob seus pés. Eu me cansava enquanto caminhava, mas ele permanecia imperturbável. 16 [Jami’ al-Tirmidhi, Sharh Tuhfat al-Ahwazi, vol. 4, p. 306; Mishkat, vol. 2, p. 518]
Hazrat Kaab ibn Malik (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: Quando o Profeta (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) ficava feliz, seu rosto se iluminava. Parecia um pedaço da lua. 17 [Sahih Bukhari, vol. 1, p. 502]
Certa vez, ele estava na presença de Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela). Depois de ficar suado, seu rosto parecia ainda mais radiante e belo. Ao ver esse estado, Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) recitou este poema de Abu Qubayeb, o Hajali. 18 [Rahmatul lil-Alamin, vol. 2, p. 172]
“Ao olhar para seu rosto, vi
uma nuvem relampejante relampejar incessantemente.”
Hazrat Abu Bakr Siddiq (que Allah esteja satisfeito com ele) recitava este poema ao vê-lo. 19 [Khulasatus Siyar, p. 20]
“Convoca ao caminho do bem, cumpre as promessas
como a lua cheia, que brinca de esconde-esconde com a escuridão.”
Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) recitava sobre ele um poema de Zuhayr. Esse poema havia sido escrito sobre Hরম ibn Sinan. 20 [recitava. 19 [Khulasatus Siyar, p. 20]
‘Se este amado de Allah não fosse humano
ele faria resplandecer a noite de lua cheia.’
Quando ficava irado, seu rosto avermelhava-se; parecia que grãos de uva haviam sido espremidos sobre ambas as têmporas. 21[ Mishkat, vol. 1, p. 22; Tirmidhi, Anwarul Qadar, vol. 2, p. 35]
Hazrat Jabir ibn Samura disse: quando o Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, sorria, sorria suavemente; ao olhar para seus olhos, parecia que tinham sido delineados com surma, embora não tivessem sido. 22[Jami Tirmidhi, Sharh Tuhfatul Ahwazi, vol. 4, p. 306]
Hazrat Abdullah ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: os dois dentes frontais do Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, eram separados. Quando ele falava, uma luminosidade irradiava entre os dois dentes. 23[Tirmidhi, Mishkat, vol. 2, p. 518]
Seu pescoço era límpido como um recipiente feito de prata; suas pestanas eram longas; sua barba era espessa; sua testa, ampla; suas sobrancelhas, separadas; seu nariz, proeminente; do umbigo ao peito havia uma linha de pelos finos, e havia alguns pelos em seus braços. Seu abdômen e seu peito eram alinhados; seu peito era amplo, e as palmas de suas mãos eram largas. Ao caminhar, inclinava-se ligeiramente para a frente. Caminhava em velocidade moderada. 24[Khulasatus Siyar, p. 19-20]
Hazrat Anas (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: nunca vi seda mais macia que as palmas das mãos do Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Nunca cheirei almíscar ou âmbar mais perfumado que a fragrância do Profeta, que Allah o abençoe e lhe conceda paz. 25[Sahih Bukhari, vol. 1, p. 503; Sahih Muslim, vol. 2, p. 258]
Hazrat Abu Zuhaira (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: coloquei a mão do Mensageiro de Allah, que Allah o abençoe e lhe conceda paz, sobre mim. Naquele momento, senti que aquela mão era mais fria que o gelo e mais perfumada que o almíscar. 26[Sahih Bukhari, vol. 1, p. 502
O jovem Hazrat Jaber ibn Samura (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: o Profeta (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) colocou a mão sobre a minha testa, e senti nela uma frescura e uma fragrância tais que me pareceu que ele havia retirado sua mão sagrada de um recipiente de perfume de attar. 27 [Sahih Muslim, vol. 2, p. 258]
Hazrat Anas (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: o suor do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) era como pérolas. Hazrat Umm Sulaym (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: esse suor tinha a melhor fragrância. 28 [Sahih Muslim, vol. 2, p. 256]
Hazrat Jaber (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: depois que o Profeta (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) passava por uma estrada, qualquer pessoa que passasse por aquele mesmo caminho conseguia perceber que ele havia passado por ali. 29 [Daimi Mishkat, vol. 2, p. 17]
Entre os dois ombros do Profeta (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) havia o selo da profecia. Esse selo da profecia, que tinha a aparência de um ovo de pombo, possuía a mesma cor de sua pele. Estava situado junto ao osso macio do ombro esquerdo. 30 [Sahih Muslim, vol. 2, pp. 259–260]
Características de caráter
O Mensageiro (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) falava em árabe puro. Suas palavras eram francas, naturais, inequívocas e cheias de significado. Ele possuía qualidades extraordinárias e havia adquirido conhecimento de todos os dialetos da Arábia. Por isso, falava com cada tribo em sua própria língua e terminologia. Estavam ao seu alcance a força expressiva do modo de falar dos beduínos, sua forma de dirigir-se aos outros e a linguagem pura da vida urbana das cidades. Além disso, contava com a ajuda de Allah baseada na revelação.
Ele possuía as qualidades da tolerância, da paciência e da capacidade de perdoar. Tudo isso, na realidade, lhe fora concedido por Allah. Em geral, mesmo entre as pessoas pacientes e tolerantes, encontra-se alguma deficiência; mas o Profeta (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) era completamente diferente. Seu caráter era tão elevado e belo que, quanto mais aumentavam as conspirações dos inimigos contra ele e as atividades dos perversos para lhe causar sofrimento, mais aumentava também sua paciência.
Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: quando o amado Profeta era solicitado a escolher entre duas coisas, escolhia a mais fácil. Mantinha-se afastado de tudo que estivesse relacionado ao pecado. Nunca se vingou de ninguém por interesse próprio. Contudo, quando a honra de Allah era violada, vingava-se por Allah. 31 [Sahih Bukhari, vol. 1, p. 503]
Ele se mantinha distante da ira e de qualquer comportamento insolente. Mostrava facilmente benevolência para com todos. Era impossível medir sua generosidade e compaixão. Doava e praticava caridade com uma disposição livre do temor da pobreza. Hazrat Abdullah ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: o Profeta — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — era o mais generoso de todos. Sua generosidade aumentava ainda mais durante o mês de Ramadã, quando Hazrat Jibril (que a paz esteja com ele) o visitava. Todas as noites do Ramadã, ele se encontrava com Hazrat Jibril (que a paz esteja com ele) e recitava o Alcorão para ele. Ele era mais generoso e benéfico do que o vento enviado. 32 [Sahih Bukhari, vol. 1, p. 517]
Hazrat Jabir (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: nunca aconteceu de alguém lhe pedir alguma coisa e ele se recusasse a concedê-la. 33 [Sahih Bukhari, vol. 2, p. 517]
No que diz respeito à coragem e à bravura, o amado Profeta — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — ocupava a posição mais elevada. Ele era o mais valente de todos. Quando, em situações difíceis, até os grandes guerreiros perdiam o equilíbrio, o Mensageiro Escolhido — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — permanecia firme e resoluto. Mesmo nos momentos mais árduos, avançava sem recuar. Sua determinação jamais demonstrava o menor sinal de perturbação. Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: quando se via o horror da batalha e surgiam situações extremamente difíceis, buscávamos refúgio sob a proteção do Mensageiro — que Allah o abençoe e lhe conceda paz. Ninguém era capaz de enfrentar o inimigo com mais firmeza do que ele. 34 [Shifa, Qadi Iyad, vol. 1, p. 89, Sihah]
Hazrat Anas (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: certa noite, o pânico se espalhou entre os habitantes de Medina. Todos começaram a correr em direção ao ruído. No caminho, encontraram o Profeta. Ele avançou na direção do alvoroço. Naquele momento, estava montado no dorso sem sela de um cavalo pertencente a Hazrat Abu Talha (que Allah esteja satisfeito com ele). Uma espada pendia de seu pescoço. Ele dizia às pessoas: “Não tenham medo, não tenham medo.” 35 [Sahih Muslim, vol. 2, p. 252; Sahih Bukhari, vol. 1, p. 407]
O Profeta — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — era a pessoa mais modesta e recatada. Geralmente mantinha o olhar voltado para o chão. Hazrat Abu Said Khudri (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: o Profeta — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — era mais recatado do que uma jovem virgem protegida por véu. Quando algo lhe desagradava, isso podia ser percebido em seu rosto. 36 [Sahih Muslim, vol. 2, p. 252; Sahih Bukhari, vol. 1, p. 407] Ele não fixava o olhar no rosto de ninguém. Mantinha os olhos baixos e passava mais tempo olhando para baixo do que para cima. Normalmente, quando olhava, fazia-o com o olhar abaixado. Sua modéstia e seu senso de dignidade eram tão fortes que ele nunca dizia diretamente a alguém algo desagradável diante de seu rosto. Quando ouvia algo desagradável a respeito de alguém, não o constrangia mencionando seu nome. Em vez disso, dizia: “Algumas pessoas estão dizendo isto e aquilo.” O famoso poeta árabe Farazdaq retratou de maneira admirável essa característica do Profeta — que Allah o abençoe e lhe conceda paz — em seu poema.
“Ele era tão recatado que baixava o olhar
Diante dele, os olhos de todos se baixavam
Só então era possível falar com ele”
Quando um sorriso suave desabrochava em seus lábios.’
Ele era o mais justo, puro, veraz e notável depositário de confiança. Amigos e inimigos, todos reconheciam isso. Antes de receber a profecia, ele já havia recebido o título de “Al-Amín”. Nos Dias da Ignorância, ambas as partes — demandante e demandado — compareciam diante dele para que julgasse e resolvesse suas disputas. É narrado no Tirmidhi Sharif, por autoridade de Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele), que certa vez Abu Jahl disse ao Profeta (que Allah o abençoe e lhe conceda paz): “Nós não o chamamos de mentiroso, mas consideramos falsas as coisas que você proclama.” Depois disso, Allah, o Altíssimo, revelou este versículo: “Eles não o consideram mentiroso; são, antes, os transgressores que negam os versículos de Allah.” 37 [Mishkat, vol. 2, p. 521] (Al-An’am, versículo 33)
O imperador Heráclio perguntou a Abu Sufyan se, antes de o Profeta proferir as palavras que proferia, havia ocorrido algum fato que desse motivo para chamá-lo de mentiroso. Abu Sufyan respondeu: “Não.”
O Profeta (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) era extremamente humilde e livre de arrogância. Assim como os servos e admiradores dos reis permanecem curvados diante deles em sua honra, o Profeta (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) proibia os Companheiros de permanecerem assim de pé em sua honra. Ele servia aos pobres e necessitados e convivía com os indigentes. Aceitava também os convites dos escravos. Sentava-se entre os nobres Companheiros como uma pessoa comum.
Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse: “Ele mesmo remendava seus sapatos. Ele mesmo costurava suas roupas. Fazia com as próprias mãos as tarefas domésticas comuns. Era um ser humano como qualquer outra pessoa comum. Se encontrava piolhos em suas roupas, ele próprio os retirava; ordenhava a cabra com as próprias mãos e realizava pessoalmente seus afazeres.” 38 [Mishkat, vol. 2, p. 520]
O Profeta (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) era exemplar no cumprimento das promessas. Dedicava extrema atenção aos parentes. Relacionava-se com as pessoas com bondade e sinceridade. Era incomparável em humildade e gentileza. Seu caráter era singularmente belo. Não havia nele o menor traço de mau caráter. Por natureza, jamais dizia palavras obscenas. Mesmo involuntariamente, nunca proferia palavras indecentes. Jamais amaldiçoava alguém. Quando ia ao mercado, não gritava em voz alta. Não retribuía o mal com o mal; ao contrário, perdoava até mesmo a pessoa responsável pelo mal. Se alguém começava a segui-lo, ele não o deixava para trás e continuava seu caminho. No comer e beber, não se considerava superior aos servos. Também realizava as tarefas de seu ajudante. Nunca demonstrava irritação com ele, nem por fazer ou deixar de fazer algum trabalho. Amava os pobres e necessitados. Sentava-se com eles e comparecia aos seus funerais. Jamais desprezava um pobre por causa de sua pobreza. Certa vez, estava viajando. Naquela ocasião, decidiram abater uma cabra. Um homem disse: “Eu me encarregarei de abatê-la”; outro disse: “Eu me encarregarei de esfolá-la”; e um terceiro disse: “Eu me encarregarei de cozinhá-la.” Ao ouvir isso, o Profeta (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) disse: “Eu me encarregarei de recolher a lenha.” Os Companheiros disseram: “Ó Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz), nós faremos esse trabalho por você.” Mas o Profeta (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) não aceitou. Ele disse: “Sei que vocês farão esse trabalho por mim, mas não quero distinguir-me de vocês, colocando-me numa posição separada. Allah, o Altíssimo, não gosta que alguém tente demonstrar sua distinção entre os servos.” Em seguida, foi recolher lenha. 39 [Khulasatus-Siyar, p. 23]
Agora, ouçamos as qualidades e características do Mensageiro de Allah (que Allah o abençoe e lhe conceda paz) pelas palavras de Hind ibn Abi Hala. Hind declarou em uma longa descrição: “O amado Profeta estava profundamente imerso em pensamentos. Refletia o tempo todo. Pronunciava claramente o início e o fim de suas palavras. Nunca falava de modo indistinto. Dizia palavras significativas e inequívocas, sem qualquer excesso. Era de temperamento afável. Não desprezava nem mesmo uma pequena dádiva. Não censurava nem criticava coisa alguma. Não criticava os alimentos nem as bebidas. Quando alguém manifestava uma conduta contrária à verdade e à justiça, ele se incomodava com isso. Não se abstinha até que deixasse de buscar vingança daquela pessoa. Contudo, seu coração era generoso. Nunca se irava contra alguém por motivos pessoais, nem se vingava de ninguém. Ao apontar para alguém, usava a palma inteira da mão. Quando se admirava, virava as mãos. Quando se irava, desviava o rosto; e, quando estava contente, baixava o olhar. Na maior parte do tempo, sorria suavemente. Quando sorria, uma parte de seus dentes brilhava.”
Abstinha-se de palavras sem sentido. Esforçava-se para manter os companheiros unidos, não para separá-los. Honrava as pessoas respeitadas de todas as comunidades. Nomeava como líderes aqueles que eram respeitados. Abstinha-se de causar dano às pessoas.
Ele se informava sobre as condições dos Companheiros e perguntava como estavam. Elogiava as coisas boas e criticava as más. Preferia a moderação em todos os assuntos. Desaprovava a negligência em qualquer questão. Mantinha-se mentalmente preparado para qualquer situação. Não gostava de afastar-se da verdade e da justiça. Mantinha-se distante da falsidade. Os que permaneciam próximos dele eram as melhores pessoas. Entre eles, considerava melhores os que eram benevolentes. Para ele, tinham maior consideração — isto é, a seu ver, os melhores eram aqueles que se compadeciam do sofrimento alheio, eram naturalmente serenos e ajudavam os outros.
Ele sempre se lembrava de Allah ao levantar-se e ao sentar-se. Não havia um lugar determinado para ele sentar-se. Quando ia a uma reunião, sentava-se onde encontrasse um lugar livre. Tratava todos os presentes com igualdade. Ninguém pensava que alguém estivesse recebendo mais consideração do que ele, nem sentia ressentimento ou tristeza por isso. Quando alguém se sentava ou permanecia de pé diante dele por alguma necessidade, ele esperava até que a necessidade daquela pessoa fosse atendida. Jamais se via qualquer falha em sua paciência. Quando alguém lhe pedia algo, ele dava generosamente. Não dispensava o solicitante sem lhe conceder o que pedira ou sem alegrá-lo com uma palavra amável. Satisfazia a todos por meio de seu elevado caráter. Era como um pai para todos. Aos seus olhos, todos eram iguais. Se a superioridade ou a maior consideração por alguém fosse determinada, isso se dava com base na taqwa. Sua assembleia era uma assembleia de conhecimento, paciência, modéstia e confiabilidade. Ali ninguém falava em voz alta, nem se diminuía a dignidade de ninguém. Com base na taqwa, todos demonstravam solidariedade uns para com os outros. Todos respeitavam os mais velhos e tratavam os mais jovens com carinho. Quando alguém tinha uma necessidade, ela era atendida. O desconhecido não era desprezado nem ignorado; ao contrário, familiarizavam-se com ele e demonstravam cordialidade.
O rosto do Profeta — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — estava sempre iluminado por um leve sorriso. Ele tinha um temperamento afável. A aspereza era contrária à sua natureza. Não falava em voz muito alta. Nenhuma palavra indecente saía de sua boca. Mesmo quando se irritava com alguém, não falava com essa pessoa em tom de repreensão. Ao elogiar alguém, não o fazia excessivamente. Aquilo pelo qual não se interessava, esquecia-o facilmente. Em nenhum assunto alguém se desesperava ao procurá-lo. Ele se mantinha livre de três coisas: (1) arrogância, (2) excesso em qualquer coisa e (3) palavras sem sentido. E mantinha as pessoas a salvo de três coisas: (1) falar mal dos outros, (2) constranger alguém e (3) expor os defeitos alheios.
Ele só dizia aquilo que podia trazer a esperança de obter recompensa. Quando falava, seus Companheiros sentavam-se com a cabeça tão baixa que parecia que havia pardais pousados sobre suas cabeças. Quando ele — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — terminava de falar e ficava em silêncio, os Companheiros conversavam entre si. Nenhum Companheiro falava com o amado Profeta — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — palavras desnecessárias. Quando algum Companheiro começava a dizer algo ao amado Profeta — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — todos os demais presentes ouviam atentamente. Mantinham o silêncio até que ele terminasse de falar. Aquilo que fazia os Companheiros rir também fazia o Profeta — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — rir. Aquilo que os surpreendia também surpreendia o Profeta — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. Quando um desconhecido se expressava sem moderação, o Profeta não perdia a paciência. Ele dizia: “Ao perceberes alguém dependente dos outros, atende à sua necessidade.” Em qualquer assunto, não apreciava o elogio de ninguém, exceto como retribuição por uma boa ação. 40 [Shifā, Qāḍī ‘Iyāḍ, volume 1, pp. 121–126; Shamā’il de Tirmidhi.]
Hazrat Kharija ibn Zayd (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: o Profeta — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — era a pessoa mais honrada e digna em sua assembleia. Vestia-se com modéstia. Na maior parte do tempo, permanecia em silêncio. Não falava sem necessidade. Quando alguém dizia palavras desnecessárias e irrelevantes, ele desviava o rosto dessa pessoa. Quando sorria, sorria suavemente; falava de modo claro e não dizia palavras fúteis ou desnecessárias. Os Companheiros não riam em voz alta diante do Profeta — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele —; na presença do amado Profeta, continham o riso e sorriam discretamente. 41 [16 de Ramadan de 1404 da Hégira, correspondente a 17 de Ramadan de 1984 d.C.]
Em suma, o Profeta — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — era um ser humano completo, dotado de qualidades e características incomparáveis. Allah, o Senhor dos mundos, concedeu-lhe atributos incomparáveis. Em honra de Seu amado Profeta, Allah disse: “Innak la‘alā khuluqin ‘aẓīm”, isto é: “Certamente, possuis o mais nobre caráter.”
Era uma virtude incomparável que fazia as pessoas afluírem até ele. O amor por ele estava profundamente arraigado no coração das pessoas. Sua liderança era tão incontestável que as pessoas lhe dedicavam a própria vida.
Devido às mais excelentes qualidades humanas, a aspereza de seu próprio povo transformou-se completamente em docilidade. Por fim, as pessoas, em grupos sucessivos, refugiaram-se sob a sombra da religião escolhida por Allah e foram agraciadas.
É preciso lembrar que todas as qualidades do Profeta — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — que discutimos anteriormente eram apenas um breve esboço de suas qualidades extraordinárias e incomparáveis. Na realidade, suas qualidades eram tão amplas e abrangentes que não é possível concluir sua descrição, nem avaliar a extensão e a profundidade das características de seu caráter.
Ninguém é capaz de fazer a mais grandiosa descrição da história da humanidade. A identificação desse grande homem, o supremo modelo de perfeição, é que ele ocupava o mais elevado ápice da humanidade. Ele estava tão iluminado pelo sagrado esplendor da luz do Grandioso Senhor dos mundos que o Sagrado Alcorão foi mencionado como a descrição de seu caráter. As características de seu caráter eram o reflexo prático e completo do próprio Sagrado Alcorão.
“Ó Allah, concede paz e bênçãos a Muhammad — que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele — e à sua família, assim como concedeste paz e bênçãos a Ibrahim e à sua família. Certamente, Tu és Digno de todo louvor e glória.
Essa pessoa terá apenas o prêmio correspondente ao que
(neste mundo) fez; e também terá
de punição aquilo que corresponder à injustiça que
cometeu. (Portanto,) ó nosso Senhor,
se esquecermos algo ou errarmos em algum lugar,
Se cometermos algum erro,
não nos castigues por isso.
8
Obras de apoio: as flores com que teci a guirlanda
Obras de apoio
| Número | Nome da obra | Nome do autor | Ano da morte | Editora | Data de publicação |
| 1 | Akhbar al-Kiram ou Akhbar al-Masjid al-Haram | Masjid al-Haram, Masjid al-Haram, Asadi al-Makki | 1066 H. | Al-Matba’a al-Salafiyya, Benares | 1396 H. |
| 2 | Al-Adab al-Mufrad | Muhammad ibn Isma’il al-Bukhari | 356 H. | Istambul | 1304 H. |
| 3 | Al-Aʿlām | Khayr al-Din al-Zirikli | Cairo | 1954 AH | |
| 4 | Al-Bidāya wa al-Nihāya | Ismāʿīl ibn Kathīr al-Dimashqī | Al-Sayyida, Egito | 1332 H. | |
| 5 | Bulugh al-Maram min Adillat al-Ahkam | Ahmad ibn Hajar al-Asqalani
| 856 H. | Qayumi Press, Kanpur, Índia | 1323 H. |
| 6 | Tarikh-e Ard al-Qur’an | Saiyid Sulaiman Nadvi | 1373 H. | Ma’arif Press, Azamgarh | 1955 d.C. |
| 7 | Tarikh-e Islam | Akbar Khan Shah Nairabadi | Maktaba Rahmat, Deoband | ||
| 8 | Tarikh al-Umam wa al-Muluk | Ibn Jarir al-Tabari | Al-Hasanat al-Misriyya | ||
| 9 | Tarikh Umar ibn al-Khattab | Abu al-Faraj Abd al-Rahman ibn al-Jawzi | At-Tawfiq al-Adiba, Egito | ||
| 10 | Tuhfat al-Ahwazi | Abu al-Ala Abdurrahman al-Mubarakpuri | 1353 H. | Barki Press, Deli, Índia | 1346 H. |
| 11 | Tafsir Ibn Kathir | Ismail Ibn Kathir Damashqi | Dar al-Andalus, Beirute | ||
| 12 | Tafhimul | Ustadh Sayyid Abul A’la Maududi (que Allah tenha misericórdia dele) | Markazi Maktaba Jamaat-e-Islami | ||
| 13 | Talqih Fahum Ahl al-Athar | Abu al-Faraj Abd al-Rahman ibn al-Jawzi | 597 H. | Jaiyid Barki Press, Délhi, Bhar | |
| 14 | Jami’ at-Tirmidhi | Abu Isa Muhammad ibn Isa at-Tirmidhi | 279 H. | Maktaba Rashidiyya, Déli, Índia | |
| 15 | Al-Jihad fi al-Islam | Ustadh Sayyid Abul A’la Maududi (que Allah tenha misericórdia dele) | Publicações Islâmicas | 1967 d.C. | |
| 16 | Khulasat al-Siyar | Ibn Abdallah al-Tabari | 674 | Delhi Print, Delhi, Índia | |
| 17 | Rahmatul Lil Alamin | Mohammad Sulaiman Manjunpuri | 1930 H. | Hanif Book Depot, Delhi, Índia | |
| 18 | A vida política do Nobre Mensageiro | Dr. Hamidullah, Paris | Salem Company, Deoband | 1963 d.C. | |
| 19 | Ar-Rawd al-Unuf | Abu al-Qasim Abd al-Rahman ibn Abd Allah al-Suhayli | 581 H. | Al-Jaialia, Egito | 1332 H. |
| 20 | Zad al-Ma’ad | Hafiz Ibn Qayyim | 751 H. | Al-Misriya | 1347 AH |
| 21 | Safar at-Takwīn | ||||
| 22 | Sunan Ibn Majah | Ibn Yasin Ibn Maj | 273 AH | ||
| 23 | Sunan Abi Dawud | Abu Dawud | 275 H. | 1375 H. | |
| 24 | |||||
| 25 | Sīrat al-Ḥalabiyya | Ibn Burhanuddin | |||
| 26 | Sīrat al-Nabawiyyah | Abū Muhammad ʿAbd al-Malik ibn Hishām | 218 H. | 1375 H. | |
| 27 | Sharḥ-e Shuyūr al-Ṣaḥābah | Jamāl al-Dīn ibn Hishām al-Anṣārī | 761 H. | Maktaba Al Sajda, Egito | |
| 28 | Comentário de Sahih Muslim | Abu Zakaria Muhyiddin Yahya ibn Sharif Ansari | 676 H. | Maktab Rushidiyya, Deli | 1376 H. |
| 29 | Sharh Sahih Muslim | Abu Zakariya Muhyiddin Yahya ibn Sharaf al-Ansari | Veja a referência | 1312 H. | |
| 30 | Ash-Shifa bi-Ta’rif Huquq al-Mustafa | Qadi Iyad | Maktaba-i Osmaniya, Istambul | 1312 H. | |
| 31 | Sahih al-Bukhari | Muhammad Ismail al-Bukhari | 256 H. | Maktaba Rahimiya, Deoband | 1387 H. |
| 32 | Sahih Muslim | Muslim ibn al-Hajjaj al-Qushayri | Maktaba Rashidiyya, Deli, Índia | 1376 H. | |
| 33 | *** | ||||
| 34 | Pacto de Hudaybiyyah | Muhammad Ahmad Bashamil | Darul Faqer, Egito | 1391 H. | |
| 35 | at *** | Muhammad ibn Sa’d | Mata’ab A** | 1322 H. | |
| 36 | Awn al-Ma’bud: comentário de Abu Dawud | Abu Tayyib Shams al-Haqq Azimabadi | Primeira edição | ||
| 37 | Ghazwa de Uhud | Mohammad Ahmad Bashamil | Segunda edição | ||
| 38 | Ghazwat-e Badr al-Kubra | Muhammad Ahmad Bashamil | 1376 H. | ||
| 39 | Ghazwat-e Khaybar | Muhammad Ahmad Bashamil | Darul Fikr | ||
| 40 | Ghazwa de Banu Qurayza | Muhammad Ahmad Bashamil | 1376 H. | ||
| 41 | Fath al-Bari | Ahmad ibn Ali ibn Hajar al-Asqalani | 852 H. | Maktaba al-Salafiyya | |
| 42 | Fiqh al-Sira | Muhammad al-Ghazali | Dar al-Kitab al-Arabi | 1370 H. | |
| 43 | Tafsir Fi Zilal al-Qur’an | Sayyid Qutb, mártir | Dar Ihya al-Turath al-Arabi |
A tradução bengali deste tafsir foi publicada pela Academia do Alcorão de Londres
| 44 | Alcorão Sagrado | ||||
| 45 | Coração da Península Arábica | Fuad Hamza | Al-Maktaba al-Salafiya, Egito | 1352 H. | |
| 46 | O que o mundo perdeu com o declínio dos muçulmanos | Sayyid Abul Hasan Ali Nadwi | Maktaba Darul Arubah, Cairo | 1381 H. | |
| 47 | Palestras sobre a história das nações islâmicas | Xeique Muhammad al-Khadrami | Al-Maktabat al-Tijariyya, Egito | 1382 H. | |
| 48 | Resumo da biografia do Mensageiro | Xeique do Islã Muhammad ibn Abd al-Wahhab al-Najdi | 1206 H. | Matba‘at al-Sunna al-Muhammadiyya | 1375 H. |
| 49 | Mukhtasar Sirat al-Rasul | Shaykh al-Islam Muhammad ibn Abd al-Wahhab al-Najdi | 1242 | Matba‘at al-Salafiyya, Egito | 1679 H. |
| 50 | Madārik al-Tanzīl li’l-Nasafī | 1378 H. | |||
| 51 | Mir’āt al-Mafātīḥ (vol. 2) | Sheikh Ubaidullah Rahmani Mubarakpuri |
| Nami Press, Lucknow | 1378 H. |
| 52 | Muruj adh-Dhahab | Abu al-Hasan Ali al-Mas’udi | Ash-Sharaqāt al-Islāmiyya | ||
| 53 | Al-Musta’āra | Abu Abdallah Muhammad al-Hakim an-Nishapuri | Dā’irat al-Ma‘ārif al-‘Uthmāniyya, Hyderabad | ||
| 54 | Musnad de Ahmad | Imam Ahmad ibn Muhammad ibn Hanbal | 264 H. | ||
| 55 | Musnad de al-Dārimī | Ibn ‘Abd al-Rahman al-Dārimī | 255 H. | ||
| 56 | Mishkat al-Masabih | Waliuddin Muhammad ibn Abdullah al-Tabrizi | Maktaba Rahimiyya, Deoband | ||
| 57 | Mu’jam al-Buldan | Yaqut al-Hamawi | |||
| 58 | Al-Mawāhib al-Ladunniyya | Al-Qastallani | Al-Matba’a al-Sharafiyya | 1336 H. | |
| 59 | Muwatta do Imam Malik | Imam Malik ibn Anas al-Asbahi | 69 H. | Maktaba Rahimiyya, Deoband | |
| 60 | Wafa al-Wafa | Ali ibn Ahmad al-Samhudi |