Prefácio

A forma de vida islâmica está fundamentada, tanto em teoria quanto em termos factuais, sobre duas bases fundamentais: uma é o Sagrado Alcorão, e a outra são os hadiths do Mensageiro. O Sagrado Alcorão apresentou uma estrutura fundamental do Islã, enquanto os hadiths do Mensageiro edificaram sobre essa estrutura um edifício completo. Por isso, na forma de vida islâmica, os hadiths do Mensageiro receberam extrema importância logo depois do Sagrado Alcorão. É nos hadiths que se reflete o amplo esboço da forma de vida islâmica. Por essa razão, para compreender os ensinamentos e o significado do Sagrado Alcorão e, de acordo com eles, formar o indivíduo, a família e a sociedade, nada pode substituir os hadiths.

De acordo com os ensinamentos do Sagrado Alcorão, a vida e a conduta do Nobre Mensageiro (S) constituem para os muçulmanos a “Uswah Hasanah”, ou o melhor modelo. O alcance desse modelo se estende a todos os campos da vida, da sociedade, do Estado e da economia dos muçulmanos. O relato correto e preciso desse modelo está preservado no vasto tesouro dos hadiths. Portanto, para viver como um verdadeiro muçulmano e cumprir plenamente as responsabilidades, é absolutamente necessário estudar amplamente os hadiths e adquirir conhecimento suficiente sobre sua autenticidade e autoridade probatória. Não adquirir conhecimento sobre os hadiths equivale, na realidade, a permanecer ignorante acerca do Islã.

É lamentável que, há muito tempo, venha sendo empreendida uma vã tentativa de criar uma nuvem de dúvidas acerca da autoridade e da autenticidade dos hadiths, bem como de sua compilação e preservação, com o objetivo de separar a vida dos muçulmanos da vida e da conduta do Nobre Mensageiro (S) e transformar o Islã numa religião sem vida e estagnada. Na realidade, essa tentativa começou com o surgimento da seita mutazilita após o fim da era dourada do Islã e, posteriormente, sob a máscara dos “seguidores do Alcorão”, um grupo de negadores dos hadiths empreendeu, em diferentes momentos, esse ignóbil esforço de semear habilidosamente a confusão entre os muçulmanos.

Nas décadas de 1950 e 1960, também neste subcontinente, um grupo conspirador semelhante iniciou uma campanha vigorosa contra os hadiths. Eles levantaram diversas questões irrelevantes sobre a compilação, o registro escrito e a preservação dos hadiths, com o intuito de espalhar confusão entre o povo muçulmano quanto à sua autoridade e autenticidade. É lamentável que, no então Paquistão, alguns altos funcionários responsáveis, inclusive em níveis administrativos, tenham também alimentado essa conspiração, abrigados sob a proteção do poder estatal.

Foi precisamente com o objetivo de enfrentar essa desastrosa conspiração que o eminente especialista em hadiths desta região, Shaykh al-Islam, Hazrat Allamah Muhammad Abdur Rahim, escreveu, na primeira metade da década de 1960, esta extensa obra intitulada “A História da Compilação dos Hadiths”.

Fruto de quase meio século de amplo estudo e pesquisa, esta valiosa obra apresenta respostas extensas e minuciosas a todas as capciosas perguntas dos opositores dos hadiths sobre a compilação, o registro escrito e a preservação dos hadiths, bem como sobre a história da ciência dos hadiths; além disso, o autor refutou com extrema competência todas as dúvidas e suspeitas relacionadas ao tema. É motivo de infinita gratidão a Allah que a obra já tenha conquistado o status de livro didático indispensável no campo dos estudos dos hadiths em língua bengali.

Nos últimos 26 anos, foram publicadas cinco edições desta obra incomparável. Sua primeira edição foi publicada pela instituição nacional Bangla Academy, em 1970. Após o surgimento de Bangladesh, sua terceira, quarta e quinta edições foram publicadas, entre 1980 e 1992, com o apoio da Islamic Foundation Bangladesh. Essa continuidade de publicação demonstra, sem dúvida, a extraordinária popularidade da obra. Agora, a Khayrun Prakashani, encarregada da publicação das obras de Maulana Abdur Rahim, tomou todas as providências para a publicação adequada e a comercialização da obra. Além disso, fizemos todo o possível para corrigir os erros tipográficos das edições anteriores. Estamos firmemente convencidos de que esta edição da obra será recebida com ainda maior apreço pelo público leitor erudito.

Que o Deus Altíssimo conceda ao autor o Jannatul Firdaus por este singular serviço religioso; esta é a nossa súplica humilde.

Muhammad Habibur Rahman

Presidente

Fundação Maulana Abdur Rahim

Daca: agosto de 1997

Introdução

A natureza humana contém, naturalmente, duas tendências mutuamente opostas. Uma é reconhecer a submissão a outrem, e a segunda é tornar outras pessoas submissas a si. Instintos de submissão e gregarismo. Em outras palavras, reconhecer a submissão e exercer domínio são duas qualidades inerentes à natureza humana, e ambas geralmente existem nas pessoas em medida quase igual. Por um lado, a natureza humana impele a pessoa a buscar exercer domínio sobre os outros; por outro, exatamente do mesmo modo, obriga-a a curvar a cabeça em submissão diante de outra força. Aquele que exerce domínio sobre bilhões de pessoas no mundo será visto de cabeça inclinada diante de alguma força superior e mais poderosa. Como ambas essas tendências — exercer influência e reconhecer a submissão — estão presentes na natureza humana, a pessoa é capaz de viver em sociedade e, unindo-se a muitas outras, cumprir responsabilidades sociais. Se essas tendências não existissem, nem a sociedade poderia se formar, nem o palácio de qualquer Estado poderia erguer-se altaneiro acima da sociedade.

Somente por meio de um estudo mais profundo da natureza humana e da psicologia é possível compreender o verdadeiro significado desta teoria. Essas duas tendências opostas inerentes à natureza humana não são desnecessárias, tampouco são censuráveis. Toda tendência, inclinação e manifestação de entusiasmo emocional natural tem um limite conforme à sua natureza, e somente enquanto permanecer dentro desse limite poderá ser benéfica para o ser humano.

Essa corrente de pensamento de obediência e de expansão da influência, no curso do desenvolvimento ao longo do tempo, estabelece relações e comunicações entre o uno e o múltiplo. Quando o fluxo dessa corrente seca e se torna estagnado, o progresso da civilização é necessariamente prejudicado e a máquina da vida fica paralisada. Por essa razão, nenhuma ideologia ou corrente de pensamento do mundo pode ser inteiramente nova e extraordinária, por mais “inédita” e “nova” que possa parecer à primeira vista. Pelo contrário, se cada uma delas for examinada com um olhar perspicaz, será possível encontrar suas raízes profundas no subsolo do passado. Quando o talento para a pesquisa e a investigação é sutil e abrangente, não é de modo algum difícil perceber, nas cavernas obscurecidas do passado, o curso subterrâneo de uma fonte eterna de vida. Nenhuma descoberta científica existe cujo germe não tenha sido transmitido de alguma descoberta ou invenção anterior. Não há dúvida de que o grandioso palácio da civilização e da cultura está erguido sobre as ruínas da antiguidade primitiva.

Por essa razão, nenhuma nação civilizada do mundo pode viver por muito tempo rompendo sua relação com o próprio passado. O passado não apenas proporciona à nação uma base sólida, mas também lhe oferece, no caminho para o futuro, um amplo conhecimento-patrimônio gerado por experiências concretas. Os erros, equívocos, tropeços e golpes e contragolpes do passado tornam-na mais cautelosa. Contudo, para isso, é absolutamente necessário que existam na nação uma mentalidade imparcial e liberal, bem como uma condição humana favorável à aceitação de conselhos. É sob essa perspectiva que se deve compreender a importância do estudo da história. Com sua ajuda, torna-se fácil para qualquer nação colocar o passado lado a lado com o presente, verificá-los e compará-los mutuamente e, à luz do conhecimento adquirido dele, iluminar o horizonte obscurecido do futuro desconhecido.

Além disso, a história de uma nação não é apenas para essa nação; ela é um patrimônio inestimável para toda a humanidade. Por essa razão, o Alcorão Sagrado, ainda que de forma resumida, menciona a história de muitas nações antigas e, a partir dos relatos comoventes de sua ascensão e queda, de seu bem-estar e de sua desventura, constrói uma concepção precisa da história. Assim, o Alcorão é um guia para o caminho do bem destinado às pessoas de todas as épocas. Mas sua eficácia depende da exatidão, da veracidade e da confiabilidade dos acontecimentos. Quando essas qualidades são corretamente alcançadas, as pessoas de hoje podem, por meio dela, receber orientação para o caminho correto e, igualmente, obter grande vigor e inspiração para percorrer o árduo caminho do futuro.

Existem várias categorias de pessoas que desejam o bem da humanidade. Entre elas, os melhores e mais elevados são os nobres profetas enviados por Allah. Eles são o modelo luminoso de toda a humanidade. Estão eternamente livres de toda espécie de pecado, erro, transgressão e desobediência. Seus pensamentos, perspectivas, palavras e ações — tudo está diretamente sob o controle de Allah. Portanto, eles não são apenas dignos de receber a devoção e o respeito das pessoas comuns; começando pela crença e pelo credo, são dignos de ser seguidos concretamente em todas as espécies de atos e ações de todos os níveis da vida.

Todos os profetas são os precursores da mesma caravana luminosa, os originadores e pregadores de um sistema de vida baseado nos mesmos princípios e ideais; são os fundadores da mesma religião. A natureza humana também é eternamente una e imutável. Por isso, a orientação necessária ao ser humano, bem como sua concepção fundamental e seu ideal supremo, são igualmente unos, eternos e imutáveis. O nome desse ideal fundamental e eterno é “din”. E o din do Islã é, por essa razão, um sistema integral de vida instituído definitivamente para toda a humanidade. Todos os profetas, desde Adão (que a paz esteja sobre ele) até o último profeta, Muhammad (que a paz esteja sobre ele), foram portadores, pregadores e promotores do estabelecimento do din do Islã. Na sequência da vinda dos profetas, Muhammad (que a paz esteja sobre ele) ocupa a etapa final. Assim como Allah o enviou por último, também lhe concedeu uma plenitude abrangente além de toda concepção. Tanto em termos de qualidades humanas quanto em aptidão para a profecia, ele foi uma personalidade incomparável. Allah o estabeleceu para as gerações posteriores como um sinal ainda mais luminoso para todos os níveis, direções e campos. A sharia revelada a ele é eterna, destinada a toda a humanidade e o único meio de alcançar o bem-estar abrangente neste mundo e no outro. Os limites ou as transformações do tempo e do espaço são incapazes de tocá-la. Por essa razão, a profecia alcançou nele sua consumação definitiva. E é por isso que ele é o “Selo dos Profetas” e a “Misericórdia para os Mundos”.

Já disse anteriormente que o Nobre Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) é um modelo perfeito para a humanidade. Não há nenhum aspecto ou atividade da vida humana — nem poderia haver — sobre o qual não se possa obter orientação do Nobre Mensageiro. A vida pessoal, familiar e conjugal das pessoas; a vida social, política e econômica; as transações mútuas; o estabelecimento de relações e vínculos; os laços de parentesco e a inimizade; a educação e a formação; o governo e a administração do país; e as relações internacionais — guerra e paz —: sobre tudo isso existe um modelo claro na vida do Nobre Mensageiro (que a paz esteja sobre ele).

O Nobre Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) demonstrou o ápice supremo do esforço para pregar o ideal islâmico e empenhar-se em sua implementação. Para isso, teve de conduzir uma luta total, uma campanha implacável. Não era uma tarefa fácil. Se isso pudesse ser realizado apenas pela criação de uma sutil rede de pensamentos ou pela produção de fórmulas mágicas da eloquência, então filósofos instalados no assento da serena indiferença do pensamento e da imaginação poderiam, por si sós, produzir semelhante revolução nas mentes e na vida, bem como realizar a difícil tarefa de reconstruir nações mortas e governar Estados. Na realidade, a vida de um profeta transcorre por meio do controle e da orientação. A “profecia” não é algo que possa ser adquirido, nem é um patrimônio obtido por herança. Ela é exclusivamente uma dádiva de Allah. Aqueles que consideram que ela pode ser adquirida total ou parcialmente sustentam uma concepção contrária à declaração explícita do Alcorão. Allah, o Altíssimo, declarou claramente:

اللَّهُ يَصْطَفِي مِنَ الْمَلَائِكَةِ رُسُلًا وَمِنَ النَّاسِAllah escolhe e nomeia, por Si mesmo, mensageiros entre os seres humanos e os anjos. (Surata Al-Hajj, versículo 75)

اللَّهُ أَعْلَمُ حَيْثُ يَجْعَلُ رِسَالَتَهُ

Allah sabe melhor do que todos onde e a quem estabelecerá a sua profecia e missão apostólica. (Surata Al-An’am, versículo 123)

Por essa razão, o último Profeta para nós, Muhammad (S), é o modelo eterno e perfeito, digno de ser seguido em todos os campos da vida. O grandioso e sagrado Livro — o Alcorão Majid — que recebemos por seu intermédio é, igualmente, um modelo imperecível para nós; do mesmo modo, a Sunnah, formada por suas palavras, ações e aprovações, é uma lâmpada eternamente luminosa. E esta é a base filosófica do Hadith. Sobre ela se ergue o edifício perene do sistema de vida islâmico.

Há cerca de mil e quatrocentos anos, na terra da Arábia, foi lançada a base de uma civilização cujo soberano absoluto era Allah, o Altíssimo, e em cujo posto de liderança estava sentado o último Profeta, Muhammad (S). Porém, como essa civilização não se destinava apenas a um país e a uma época, mas era permanente e benéfica para todos os seres humanos, sem distinção de países, sociedades, povos ou épocas, foram preservados para a humanidade dois sistemas, com o propósito de tornar eternas e perenes as duas bases fundamentais da civilização — a soberania de Allah e a liderança do Mensageiro — como realidades eternas. Esses dois sistemas são o Alcorão Majid, símbolo da soberania de Allah, e a Sunnah, expressão concreta da liderança exclusiva do Mensageiro. Por meio deles, a lei de Allah e o modelo do Mensageiro, isto é, o Islã, podem permanecer na sociedade humana como verdade eterna e sistema eterno; e os povos de todos os países e de todas as épocas podem construir novas sociedades e civilizações sobre esses dois fundamentos permanentes. Por isso, assim como o Alcorão Majid foi preservado intacto e inalterado por um sistema especial de Allah e ainda hoje se encontra disponível, da mesma forma o modelo do nobre Mensageiro — a Sunnah ou o Hadith — foi protegido das garras destruidoras da ruína e do desaparecimento.

Com efeito, durante mil e quinhentos anos, a comunidade muçulmana reconheceu o Hadith juntamente com o Alcorão Majid como fundamento do Islã; e, longe de ter havido qualquer divergência entre os muçulmanos a esse respeito desde os tempos antigos, nenhum muçulmano de nenhuma época jamais alimentou sequer a menor dúvida. Além disso, se alguém se recusasse a reconhecer e aceitar simultaneamente esses dois fundamentos

e, na sociedade muçulmana, nenhum muçulmano se mostrou disposto a conceder-lhe sequer o mínimo reconhecimento.

Entretanto, nos tempos atuais, veem-se espalhados aqui e ali alguns poucos indivíduos entre os muçulmanos que se recusam a reconhecer a Sunnah do Mensageiro, juntamente com o Alcorão Majid, como fonte do Islã. Também se observa a existência de algumas pessoas que expressam dúvidas sobre se o Hadith foi preservado no momento devido e de maneira apropriada, deixando-se influenciar pela falsa propaganda dos estudiosos ocidentais a esse respeito. Como resultado, não seria de admirar que surgissem na mente de alguns membros da sociedade muçulmana dúvidas quanto à infalibilidade, à confiabilidade e à eternidade do ideal islâmico. Contudo, durante esta fase de ressurgimento e renascimento da sociedade muçulmana, tais dúvidas ou incredulidade acerca da base do ideal islâmico podem revelar-se fatais para toda a comunidade.

Nesse contexto, era absolutamente indispensável realizar uma investigação imparcial sobre a análise histórica da compilação do Hadith, fundamentada em argumentos e provas autênticos em seu favor.

Pode-se dizer que, na literatura árabe e urdu, já foram realizadas pesquisas suficientes sobre este tema. Contudo, a ausência de estudos semelhantes na literatura bengali é prova da grande pobreza dos falantes de bengali no campo da cultura islâmica. Com o objetivo de suprir essa carência e eliminar essa deficiência, bem como ampliar e desenvolver o patrimônio da língua e da literatura bengali e dissipar todas as dúvidas acerca dos hadiths, ao longo dos últimos quatro anos realizei extensas pesquisas e estudos aprofundados sobre o assunto. O fruto que obtive com esse trabalho foi reunido nesta obra e apresentado aos leitores eruditos. Cabe aos leitores ponderados julgar se este foi, da minha parte, um passo audacioso. Ao ver esta vasta obra sendo impressa e publicada pela primeira vez com o apoio da Academia Bangla, ofereço infinitas graças a Allah.

Muhammad Abdur Rahim

173, Nakhalpara

Mustafa Manzil

…………..1965

نضر الله امرء سمع منا شىا

Allah abençoará aquele que ouviu algo de mim e o transmitiu a outra pessoa exatamente como o ouviu. Pois aquele a quem isso chega pode preservá-lo melhor do que aquele que o ouviu. (Tirmidhi)

قَالَ  رَسُوْلُ اللهِ صَلَّى اللهُ عليه وَسَلَّم نَضَر اللهُ عَبْدًا سَمِعَ مقَالتىْ فَحَفَظَهَا اوْوَ عَاهَا وَاَدَّها وَرَدَّهَا فَرُبَّ حَامِلِ فِقْهِ اَلَى مَنْ هُوَ اَفْقَهٌ مِنْهُ-    (ابو داؤد)

O nobre Profeta (que a paz esteja com ele) disse: “Allah tornará radiante o rosto daquele que ouvir minhas palavras, memorizá-las ou conservá-las na memória e transmiti-las a outras pessoas. Muitos que carregam conhecimento não são verdadeiramente sábios; contudo, muitos portadores de conhecimento o transmitem a alguém mais perspicaz do que eles.” (Abu Dawud)

A história da compilação dos hadiths

بِسْمِ اللَّهِ الرَّحْمَٰنِ الرَّحِيمِ

Definição e identificação do hadith

O Alcorão e o hadith são os fundamentos principais do sistema de vida islâmico. Enquanto o Alcorão apresenta os princípios básicos da organização da vida, do hadith se obtêm a análise detalhada das normas minuciosas e o método eficaz para implementar os princípios alcorânicos. O Alcorão é o pilar da lâmpada do Islã, e o hadith é a inundação de sua luz irradiada. Assim como uma lâmpada sem luz é irreal, ao se rejeitar o hadith o Alcorão também se torna igualmente sem sentido. Pode-se dizer que o Alcorão é a raiz e o tronco da grande árvore do Islã; o hadith são seus ramos e ramificações. Um tronco e uma raiz sem ramos são apenas resíduos inúteis. Desde o primeiro dia em que a lei de Allah foi revelada, já estava em vigor a determinação de enviar um engenheiro (o Mensageiro) com o plano para construir o palácio da vida islâmica. Em qualquer período da história e em qualquer etapa de circunstâncias transformadas, a explicação e análise do engenheiro (o Mensageiro), as instruções para a ação prática, os conselhos e as orientações para construir o palácio de acordo com o plano original jamais podem ser ignorados.

No conhecimento e nas ciências islâmicos, o Alcorão é como o coração, e o hadith é a artéria ligada a esse coração. No vasto campo do conhecimento e das ciências do Islã, essa artéria faz fluir continuamente uma corrente de sangue fresco e quente, mantendo sem cessar seus órgãos revigorados e ativos. Por um lado, o hadith oferece uma interpretação precisa do Alcorão; do mesmo modo, apresenta a vida sagrada, a conduta e o modelo do Profeta universal, portador do Alcorão, bem como um relato detalhado de suas palavras e ações, de sua orientação e de seus conselhos. Por essa razão, no sistema de vida islâmico, a importância do hadith, imediatamente depois do Alcorão Majid e juntamente com o Alcorão, é inegável. Assim como servir e obedecer a Allah não é possível sem obedecer ao Mensageiro e segui-lo na prática, também é impossível agir de acordo com o Alcorão deixando de lado o hadith. De fato, o hadith e o conhecimento dos hadiths constituem um patrimônio inestimável e indispensável no âmbito do sistema de vida islâmico e da pesquisa do conhecimento islâmico. Como discussão introdutória desta etapa, apresentaremos aqui uma análise detalhada da definição, da identificação, dos tipos e do campo do hadith.

 

O significado da palavra hadith

O uso da palavra hadith no Alcorão e

A base corânica do Hadith

Ao analisar a palavra ‘Hadith’, o Imam Raghib Isfahani escreveu:

اًلحَدِيثُ: وَاَلْحدِيْثُ كَوْنُ اَلشَّئِ بَعَدَ اَنْ لَّمْ تَكُنْ عِرضَاً كَاَنَ تَوْ اَوْجَدْ هَرَّا وكٌلُّ كَلاَمٍ يَبْلُعُ الْانْسَانَ مِنْ جَهَةِ الْسَّمْعِ اَوِ الْوَحِىْ فِىْ يَقْظَتِهِ اَوْ مَنَامِهِ حَدِيْثٌ-

‘Hadith’ e ‘huduth’ significam a existência de algo que antes não existia, seja algo fundamental ou não fundamental. E qualquer palavra que chegue ao ser humano por meio da audição ou da revelação, durante o sono ou a vigília, é chamada de Hadith.

Em outro lugar, escreveu:

شَىَّ ىُلْقَى فِىْ رَوْعٍ اَحَدٍ مِنْ جِهَةِ الْملأَ

Tudo aquilo que é suscitado no íntimo de alguém a partir do mundo superior é Hadith.[مفردات راغب اصفهانى صفحه]

As falas durante o sonho são chamadas de ‘Hadith’ no Alcorão Majid. No Alcorão, é dito pelas palavras do profeta José:

وَعَلَّمْتَنِي مِن تَأْوِيلِ الْأَحَادِيثِ –

Ensinaste-me a interpretação dos sonhos. (Surata Iúçufe, versículo 101)

O Imam Rāghib escreveu, a propósito do significado deste versículo:

اَىْ مَا يحَدِّثُ بِهِ الأِنسَانَ فِىْ نَوْمِهِ-

Isto é, todas as palavras que são ditas às pessoas por meio de sonhos.[مفردات راغب صفع]

Allah, o Altíssimo, designou o Alcorão Majide pelo nome de “Hadith”. No Alcorão, foi dito:

فَلَعَلَّكَ بَاخِعٌ نَّفْسَكَ عَلَىٰ آثَارِهِمْ إِن لَّمْ يُؤْمِنُوا بِهَٰذَا الْحَدِيثِ أَسَفً ا [الكهف:٦]

Se eles não acreditarem nesta “palavra” (Livro), ó Profeta, talvez acabes por afligir-te profundamente.

Em outro lugar, é dito:

فَلْيَأْتُوا بِحَدِيثٍ مِّثْلِهِ إِن كَانُوا صَادِقِينَ [الطُّور:٣٤]

(Se eles não reconhecem o Alcorão como o Livro de Allah,) é seu dever trazer e apresentar um livro semelhante a este, se forem verdadeiros.

Na Surata Az-Zumar, é dito:

اللَّهُ نَزَّلَ أَحْسَنَ الْحَدِيثِ كِتَابًا مُّتَشَابِهًا

Allah, o Altíssimo, revelou a mais excelente palavra na forma de um Livro cujas partes se assemelham umas às outras.

Aqui, hadith foi usado no sentido de livro ou palavra.

A palavra “hadith” significa fala ou palavra. Os versículos seguintes do Alcorão empregam-na no sentido de fala ou palavra:

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Então, em que palavra acreditarão?

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E quando o Profeta confidenciou um segredo a uma de suas esposas.

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Acaso vos maravilhais com esta declaração?

Nesses poucos versículos, a palavra ‘hadith’حديث foi usada no sentido de ‘palavra’ ou ‘discurso’. No Alcorão Sagrado, também se encontra o uso dessa palavra nos sentidos de nova notícia, informação e nova declaração, entre outros. Vejamos:

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Chegou até ti a notícia dos honrados hóspedes que foram visitar Abraão?

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Ficaste sabendo da história de Moisés?

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Ficaste sabendo da história daqueles soldados?

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Chegou até ti a notícia da Ressurreição, que a tudo envolve?

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Agora, vocês demonstram indiferença para com esta palavra?

Da palavra “Hadith” deriva-se “Tahdith”تحديث e, no Alcorão, ela é usada no sentido de narrar, manifestar e falar. Assim:

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Proclama a graça de Allah:

O erudito Abu’l-Baqa disse:

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O termo “Hadith” significa falar e transmitir notícias.

Em suma, à luz dos dicionários árabes e do uso corânico, a palavra “Hadith” significa palavra, discurso, notícia, informação e questão ou assunto. O nobre Profeta (S) falava com as pessoas com o propósito de transmitir a mensagem de Allah; por meio de suas palavras, explicava diversos ensinamentos, informações e verdades importantes do Islã, esclarecia verdades profundas e, através de seus sermões e discursos, explicava e analisava o Livro de Allah. Por isso, isso foi denominado “Hadith”.

O Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) recebeu pessoalmente todos os mandamentos e preceitos do Islã, agiu de acordo com a lei de Allah e, por meio de suas próprias ações, concretizou a lei de Allah. Por essa razão, os relatos de suas diversas ações também foram chamados de “Hadith”.

O Nobre Profeta (que a paz esteja com ele), com especial cuidado e esforço, formou os nobres Companheiros com base nos elevados ideais do Islã, moldando seu caráter, pensamento, crença e visão de mundo segundo o elevado padrão islâmico. Por essa razão, as palavras e ações dos nobres Companheiros que o Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) aprovou e apoiou — ou, pelo menos, contra as quais não se opôs — também receberam o nome de “Hadith”.

Em suma, as palavras do Mensageiro, os relatos de suas ações e suas aprovações e confirmações são chamados de Hadith. Um Hadith prova que o próprio Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) o chamou de “Hadith”. Hazrat Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele) perguntou-lhe: “Quem é a pessoa mais afortunada, aquela que será agraciada com a intercessão do Mensageiro no Dia da Ressurreição?” Então o Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) disse:

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Penso que, antes de você, ninguém jamais me perguntou sobre este Hadith. Isso especialmente porque vejo em você o maior empenho e interesse em ouvir Hadith. [5****************************************************** ]

O Nobre Alcorão é o último e completo livro da religião do Islã. Ele foi revelado ao último Profeta. Allah, o Altíssimo, enviou o Nobre Mensageiro (que a paz esteja com ele) como Profeta do Islã, propagador e fundador do sistema de vida islâmico, guia e mestre da humanidade. O Mensageiro recitou este grandioso e sagrado livro, o Nobre Alcorão, do princípio ao fim, fazendo-o ser ouvido pelo povo; muitos Companheiros o memorizaram imediatamente. Acima de tudo, por meio de seu modo de vida, de seus pensamentos e crenças, de sua conduta e de sua prática concreta, o Mensageiro ensinou, aconselhou e demonstrou na prática as normas fundamentais do Islã e seus mandamentos e proibições; isto é, formou completamente uma nação com base nesse ideal. Na verdade, a grandiosa vida do Nobre Profeta era a forma concreta do Nobre Alcorão e do Islã, a manifestação prática do ideal corânico. Portanto, na terminologia islâmica, todas as palavras, ações, aprovações e apoios do Nobre Mensageiro relativos à religião do Islã são chamados de “Hadith”.

“Hadith” não é apenas uma palavra lexicográfica. Na realidade, é um termo específico do Islã. De acordo com isso, qualquer palavra do Nobre Mensageiro, qualquer relato de suas ações ou qualquer apoio e aprovação de palavras e ações que seja comprovado por fontes fiéis e confiáveis é denominado “Hadith” na terminologia islâmica.

Em árabe, “Hadith” também é chamado de “khabar”. A diferença, porém, é que a palavra “khabar” tem um sentido mais amplo que Hadith. “Khabar” abrange simultaneamente tanto o Hadith quanto a história.[6****************************]

Não é uma invenção chamar de “hadith” as palavras, ações, aprovação e consentimento do Nobre Profeta, bem como os relatos de sua condição. Há uma prova irrefutável disso no Nobre Alcorão. Não há dúvida de que a religião concedida por Allah é uma dádiva especialmente importante para toda a humanidade. No Nobre Alcorão, esta “religião” foi declarada uma dádiva de Allah, e a divulgação e manifestação das dádivas foi chamada de “tahdith” (relatar, divulgar e manifestar).

Sobre as dádivas de Allah, Allah, o Altíssimo, disse:

******************************************************

Lembrai-vos da dádiva que Allah vos concedeu e também do Livro e da sabedoria que foram revelados com o propósito de vos aconselhar.

Também ao tratar da conclusão e aperfeiçoamento da religião do Islam, Allah, o Altíssimo, mencionou-a como uma dádiva. Foi dito:

****************************************************** (Surata Al-Ma’idah, 3)

Hoje, completei e aperfeiçoei para vós a vossa religião e completei e consumai para convosco a dádiva que vos concedi.

Nos dois versículos mencionados acima, a religião do Islam, isto é, o Nobre Alcorão, foi declarada em linguagem clara como “a dádiva de Allah”. A ordem de relatar e manifestar esta dádiva foi dada no seguinte versículo do Nobre Alcorão:

****************************************************** (Surata Al-Fajr, 11)

Descrevei, divulgai e narrai as dádivas de Allah. [Allama Bayzid escreveu no tafsir deste versículo: ******************************************************

‘Aqui, por dádiva entende-se a profecia, e fazer tahdith significa divulgá-la.

Allama al-Alusi escreveu:

‘Muitos transmitiram que “dádiva” significa o Alcorão.’]

É sob essa perspectiva que, na terminologia islâmica, o relato verbal de todas as palavras proferidas e de todas as ações praticadas por Hazrat Muhammad (S), na qualidade de Profeta e Mensageiro, é chamado de ‘hadith’. E não somente isso: se algum companheiro dissesse alguma coisa ou praticasse alguma ação diante dele, e ele a aprovasse e autorizasse, ou não manifestasse qualquer reprovação, o relato disso também seria denominado ‘hadith’. Isso porque o nobre Profeta (S) veio ao mundo incumbido da divulgação e do estabelecimento da verdade e da justiça, bem como da reprovação e resistência a toda injustiça e falsidade. É inconcebível sequer imaginar que, diante dele, fosse proferida alguma afirmação falsa e anti-islâmica — contrária ao espírito islâmico — ou fosse praticada alguma ação desse tipo, sem que ele a reprovasse, impedisse os companheiros de fazê-la e, ao contrário, permanecesse calado e silencioso. E, na realidade, isso também não seria possível.

Em segundo lugar, se o Mensageiro permanecesse calado e inativo ao ver uma injustiça ou um pecado sendo cometido, seu dever fundamental permaneceria por cumprir. Allah, o Altíssimo, declarou:

(Surata Al-Ma’idah: versículo 67)يَا أَيُّهَا الرَّسُولُ بَلِّغْ مَا أُنزِلَ إِلَيْكَ مِن رَّبِّكَ ۖ وَإِن لَّمْ تَفْعَلْ فَمَا بَلَّغْتَ رِسَالَتَهُ

Ó Mensageiro, transmite devidamente aquilo que foi revelado a ti pelo teu Senhor; se não o fizeres, não terás cumprido a responsabilidade de transmitir a Mensagem de Allah.

Neste ponto, Ibn Jarir at-Tabari citou uma importante declaração de Ibn Zayd. Ele disse:

******************************************************

Dizia-se que, se o Nobre Profeta (S) quisesse ocultar alguma coisa revelada por meio da revelação, certamente teria ocultado a surata “Abasa wa Tawalla”, que foi revelada a respeito de seu próprio “erro”. [8******************************************** ]

De fato, a biografia preservada do Nobre Profeta prova irrefutavelmente que, mesmo nos momentos mais críticos de sua vida, ele não cometeu a menor falha ao cumprir a responsabilidade da profecia e ao proclamar devidamente diante do povo a Palavra de Allah revelada por meio da revelação. Nesse aspecto, jamais demonstrou negligência ou fraqueza. No início do chamado islâmico, ele rejeitou com semblante sereno e intensa repulsa até mesmo a tentação de abandonar a missão de propagar o Islam em troca das mulheres mais belas, de imensas riquezas e do governo absoluto da Arábia. [9********************************************] Portanto, não pode haver a menor dúvida de que ele jamais deixou de propagar a religião, em momento algum, nunca se absteve de protestar contra a injustiça e, sempre que via algum erro ou falha em alguém, não se detinha sem corrigi-lo. Por essa razão, os relatos de suas próprias palavras e ações, bem como das palavras ou ações que ele aprovou — não tendo protestado contra elas —, foram denominados “hadith”.

Quando um Companheiro realizava alguma ação ou dizia algo diante do Mensageiro e ele não protestava contra isso, os Companheiros eram plenamente unânimes quanto à sua conformidade com a Sharia; e essa aprovação, anuência e silêncio do Profeta também eram considerados uma das principais fontes para conhecer as determinações da Sharia sobre qualquer assunto. Pode-se mencionar aqui um acontecimento. Quando Jabir ibn Abdullah (R) proferiu algo jurando em nome de Allah, Muhammad ibn al-Munkadir apresentou uma objeção. Ele disse:

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Você está jurando em nome de Allah?

Em resposta, ele disse:

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Ouvi Hazrat Umar jurar em nome de Allah diante do Profeta Nobre (S), mas o Profeta Nobre (S) não desaprovou isso nem o contestou.[10********************************************]

A propósito da definição de hadith, serão citadas aqui algumas declarações extraídas de obras autorizadas. Com isso, o assunto ficará mais claro.

O Imam Sakhawi disse:

******************************************************

No dicionário, “hadith” (novo) tem sentido oposto a “qadim” (antigo). Já na terminologia dos muhaddiths, hadith significa as palavras, ações, aprovações tácitas e atributos do Mensageiro; inclui até mesmo seus movimentos durante a vigília e o sono.[11****************************************************** ]

Na introdução do Bukhari Sharif, foi dito:

******************************************************

Hadith é o conhecimento por meio do qual se conhecem as palavras, os atos e as condições do Profeta (s).

O Allama Badruddin Ayni e Nawab Siddiq Hasan escreveram:

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O conhecimento do hadith é um conhecimento especial por meio do qual se podem conhecer as palavras, os atos e as condições do Profeta (s). A fala do Mensageiro significa as palavras pronunciadas por ele em língua árabe. Elas podem ser de vários tipos. Por atos dele entende-se:

Na introdução da obra Mishkat al-Masabih, Shah Abdul Aziz (r) escreveu:

******************************************************

Os eruditos dos tempos antigos usavam o termo “hadith” para os relatos das palavras e dos atos dos Companheiros, dos Tabi’in e dos Tabi’ al-Tabi’in, bem como para suas fatwas. E consideravam como dois hadiths um único relato transmitido por duas cadeias independentes.

Nawab Siddiq Hasan (r) também disse isso. Ao definir o hadith, ele escreveu:

******************************************************

Do mesmo modo, as palavras, ações e aprovações dos Companheiros, bem como as palavras, ações e aprovações dos tabi‘in, também são denominadas hadith. [15****************************************************** ]

A diferença, porém, é que ele não chamou de “hadith” os relatos das palavras e ações dos tabi‘ al-tabi‘in. Contudo, não há dúvida de que, assim como os relatos das palavras, ações e aprovações dos Companheiros e dos tabi‘in, os relatos das palavras, ações e aprovações dos tabi‘ al-tabi‘in também são especialmente importantes e necessários para a explicação, análise e aplicação prática do Alcorão e do hadith. Nos livros de hadith e de tafsir, os relatos autênticos desse tipo, transmitidos pelos Companheiros, tabi‘in e tabi‘ al-tabi‘in, também foram considerados conjuntamente como pertencentes à categoria dos hadith, embora seus nomes técnicos sejam diversos. O célebre especialista em hadith, Hafiz al-Sakhawi, escreveu:

******************************************************

“Do mesmo modo, os primeiros sábios chamavam cada um dos relatos e pareceres jurídicos dos Companheiros, dos tabi‘in e de outros (os tabi‘ al-tabi‘in) de ‘hadith’.” [16******]

Em outras palavras, embora os relatos das palavras, ações e aprovações do Nobre Profeta (s), dos nobres Companheiros, dos tabi‘in e dos tabi‘ al-tabi‘in sejam, em termos gerais, chamados de “hadith” — pois as palavras, ações e aprovações de todos eles se orientavam em torno do mesmo fundamento —, ainda assim, como há diferenças entre eles quanto ao grau de autoridade na sharia, foram estabelecidos termos técnicos distintos para cada um. Assim, as palavras, ações e aprovações do Nobre Profeta são chamadas de “hadith”. As palavras, ações e aprovações dos Companheiros são chamadas de athar (اثارe os relatos das palavras, ações e aprovações dos tabi‘in e dos tabi‘ al-tabi‘in são chamados de “fatwa”. Isso ocorre porque todas essas ações eram realizadas com base nos fundamentos do Alcorão e do hadith. [Esses três tipos de hadith possuem ainda três denominações técnicas distintas: o relato das palavras, ações e aprovações do Mensageiro é chamado marfu‘; o relato das palavras, ações e aprovações dos Companheiros é chamado mawquf; e as palavras, ações e aprovações dos tabi‘in são chamadas maqtu‘.

مقد مة صحيح بخارى ص -13]

 

Hadith e Sunnah

Outro nome do hadith é «sunnah». A palavra «sunnah» significa caminho a seguir, princípio de conduta e método de ação. Não se trata da «sunnah» consagrada e utilizada na ciência do fiqh.

O Imam Rághib escreveu:

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«Sunnat an-Nabi» significa o caminho e o método que o Nobre Profeta (s) escolhia e seguia. [18****] Às vezes, é utilizada como sinônimo da palavra «hadith». No livro «Taj al-Masadir», está escrito:

******************************************************

«Sunnah» significa estabelecer um caminho. «Mu‘adh estabeleceu um caminho para vós».

Neste hadith, a palavra «sunnah» foi utilizada nesse sentido. [*********19]

Em outras palavras, a mais elevada disposição legal (Lei Suprema) proclamada pelo nobre Profeta (S), que comprova e manifesta a vontade e o propósito de Allah Todo-Poderoso, é a Sunna. E, na linguagem do Alcorão, por “grande modelo” entende-se precisamente isto. O “mais grandioso modelo” do Mensageiro nobre, que Allah Todo-Poderoso ordenou seguir, pode ser conhecido justamente por este hadith. Por essa razão, os muhaddithun — especialmente os muhaddithun dos períodos posteriores — usaram “hadith” e “Sunna” com o mesmo sentido. Foi dito:

******************************************************

A palavra “Sunna” abrange as palavras, ações e silêncios do Mensageiro, bem como as palavras e ações dos Companheiros.

O erudito al-Jazairi escreveu:

******************************************************

“Sunna” geralmente designa as palavras, ações e aprovações atribuídas ao Mensageiro. Segundo os especialistas, é sinônimo de hadith.

O erudito Abd al-Aziz al-Hanafi escreveu:

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A palavra “Sunna” designa as palavras e ações do Mensageiro e também é usada no sentido do modo prático de agir seguido pelo Mensageiro e pelos Companheiros.

Safiuddin al-Hali escreveu:

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“Sunna” significa todas as palavras, ações e aprovações do Mensageiro, exceto o Alcorão.

Em suma, neste ponto, a palavra “Sunna” não é completa e absolutamente equivalente à palavra “Hadith”. Isso porque “Sunna” é o modo prático de agir do Mensageiro, enquanto “Hadith” abrange, além das ações do Mensageiro, suas palavras e aprovações. Por essa razão, também se diz na ciência do Hadith: Sufyan al-Thawri é um imã do Hadith; al-Awzai é um imã da Sunna, não um imã do Hadith; e Malik ibn Anas é o imã de ambos.

 

O conteúdo do Hadith

Qual é o conteúdo do Hadith? Qual é o assunto principalmente discutido nele? Sobre esta questão, todos os eruditos especialistas na ciência do Hadith escreveram concordemente:

******************************************************

O objeto e tema de estudo da ciência do hadith é a nobre pessoa do Mensageiro de Deus (S), enquanto Mensageiro de Deus, o Altíssimo.[২৬ ********************]

Isto é, tudo o que Hazrat Muhammad (S), como pessoa escolhida e enviada por Deus, o Altíssimo, investido nessa posição elevada, disse, fez, permitiu que fosse dito ou feito e aprovou, bem como a nobre personalidade do Mensageiro de Deus que se desenvolveu e se manifestou por meio de tudo isso, constitui o objeto da ciência do hadith. Todos esses assuntos são discutidos no hadith, e, mediante a leitura do hadith, é justamente isso que se pode conhecer. O único meio confiável de conhecer o relato detalhado e fidedigno das palavras, ações, aprovações e dos esforços e lutas ao longo de toda a vida do Mensageiro de Deus é o hadith.

Na realidade, o hadith não é um patrimônio estreito, limitado, unilateral e de pequeno alcance. Ele é, por sua própria natureza, extremamente amplo e reúne uma vasta corrente de ideias; a forma completa e detalhada do grande movimento revolucionário que surgiu na terra árabe sob a grandiosa liderança do Profeta universal Muhammad (S) manifesta-se claramente no hadith. A história completa da vida do Mensageiro, as atividades revolucionárias dele e dos nobres companheiros, bem como o relato de suas amplas e fundamentais correções e reformas na sociedade, na civilização e nas condições internacionais, políticas e morais de sua época, também estão incluídos no hadith.

A amplitude do hadith é inegável, e de modo algum é difícil compreender sua verdadeira natureza. Os sábios dos tempos antigos também foram capazes de compreender essa forma abrangente do hadith. Embora a obra de hadith compilada pelo imã Bukhari seja conhecida como Bukhari Sharif, seu nome original e completo é:

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Uma compilação abrangente, com relatos dotados de cadeias de transmissão autênticas, das ações do Mensageiro de Deus e de todas as circunstâncias e acontecimentos de sua época.[২৭****************]

Objetivo e mérito do estudo do hadith

Qual é o objetivo do estudo do hadith? Com que propósito se deve estudar o hadith e qual é o mérito de seu estudo? Isso também merece especial menção. O erudito Badruddin Ayni e outros sábios escreveram:

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A obtenção do bem supremo em ambos os mundos é o verdadeiro propósito do estudo do hadith.[28**********]

Nawab Siddiq Hasan escreveu:

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O objetivo do estudo do hadith é alcançar o bem supremo neste mundo e no além.[29**************]

O Allama Kirmani escreveu:

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‘Depois do Alcorão, entre todos os tipos de conhecimento, o patrimônio mais elevado, excelente e rico em informações e fundamentos é o conhecimento do hadith. Isso porque, por meio dele, podem-se conhecer o objetivo e o significado da palavra de Allah, e é também dele que se pode compreender o propósito de todas as determinações e mandamentos de Allah. Isso porque a maior parte — e, em termos gerais, a totalidade — do Alcorão consiste apenas em princípios gerais e ensinamentos fundamentais. Dele, portanto, só se podem conhecer indicações gerais. [30]

Em suma, o hadith é a história da queda de uma civilização e do surgimento, ascensão e consolidação de uma nova civilização. É sob essa perspectiva que o estudo do hadith se torna necessário.

Classificação do hadith com base em sua definição

Da definição mencionada de hadith, emergem claramente três categorias primárias. São elas: as palavras proferidas pelo Mensageiro, suas próprias ações e conduta, e os relatos de palavras e ações aprovados em sua presença. Todos os hadiths se dividem nesses três níveis. Contudo, há diferenças entre os hadiths desses três níveis quanto à sua importância real, aplicação e valor prático. O primeiro lugar pertence às palavras do Mensageiro — aquilo que ele próprio disse sobre determinado assunto constitui a primeira fonte do sistema de vida islâmico. Isso é chamado de “hadith qawli” do Mensageiro — (*************) “hadith verbal” — no qual são citadas palavras do próprio Mensageiro.

A segunda categoria consiste nos relatos das próprias ações e da conduta do Profeta. O Mensageiro (s), que trouxe a religião do Islã, de fato a seguiu à risca e realizou cada ação de acordo com ela. Foi por meio de suas ações e de seu caráter que todas as normas e práticas do Islã se manifestaram claramente. Nenhuma de suas ações poderia ser contrária à sharia islâmica. Por essa razão, cada uma de suas ações merece ser considerada fundamento da sharia islâmica. E o hadith que relata alguma ação realizada pelo Mensageiro na qualidade de Mensageiro é chamado de “hadith fi‘li” (*******).

A terceira categoria consiste nas palavras e ações dos Companheiros aprovadas e apoiadas pelo Mensageiro Nobre (s). Pois já foi dito anteriormente que, se em sua presença fosse proferida alguma palavra ou realizada alguma ação contrária à sharia islâmica, o Mensageiro (s) não poderia deixar de protestar contra ela ou de proibi-la. Também pelos relatos de qualquer palavra ou ação desse tipo pode-se conhecer, sem dúvida, a perspectiva da sharia. Portanto, isto também é uma fonte da sharia islâmica. O hadith no qual se encontra mencionado algum acontecimento desse tipo é chamado de “hadith taqriri” (**********).

Com o objetivo de tornar o assunto ainda mais claro e compreensível, serão citados aqui três hadiths, um de cada uma dessas três categorias:

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Foi narrado por Hazrat Anas (que Allah esteja satisfeito com ele), que disse: o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: quando uma pessoa ímpia é louvada e exaltada, Allah, o Altíssimo, fica descontente e irado; por isso, a terra treme. (Bayhaqi)

Por mencionar uma fala específica do Mensageiro, este é chamado de “hadith qawli”.

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Foi narrado por Hazrat Abu Musa (que Allah esteja satisfeito com ele), que disse: vi o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) comer carne de galo. (Bukhari e Muslim)

Neste hadith, é descrita uma ação do Mensageiro. Por isso, ele é um “hadith fi‘li”.

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Foi narrado por Hazrat Ibn Abi Awfa (que Allah esteja satisfeito com ele), que disse: combatemos sete vezes junto com o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Enquanto estávamos com ele, comíamos jarad (um gafanhoto semelhante a um pardal). (Bukhari e Muslim)

Este é um “hadith taqriri”.

 

Classificação dos hadiths segundo o conteúdo

Quanto ao conteúdo, os hadiths dividem-se em várias categorias. O Imam Shafi‘i (r) disse: os hadiths são de três tipos. Os assuntos mencionados em linguagem clara no Alcorão Sagrado, sobre os quais o Profeta (s) forneceu explicação e análise em suas próprias palavras, constituem o primeiro tipo de hadith. No Alcorão Sagrado, muitas leis e normas são mencionadas de modo geral e não detalhado; o Mensageiro de Deus (s) apresentou sua forma detalhada e explicou-as. Ele expôs aos muçulmanos, em suas próprias palavras, muitos assuntos resumidos e pouco claros de maneira detalhada e explícita. Este é o segundo tipo de hadith. O terceiro tipo consiste nos hadiths nos quais o Mensageiro de Deus (s) mencionou muitos assuntos não citados no Alcorão. Como esses três tipos de hadiths são fontes do conhecimento que o Mensageiro de Deus recebeu de Allah, direta ou indiretamente, todos eles são tão confiáveis e dignos de fé quanto o Alcorão. [Kitab al-Risala — Imam Shafi‘i (r)]

Neste ponto, segue abaixo um resumo da discussão de Shah Waliullah Dehlawi:

Os hadiths narrados do Profeta (s) e compilados nas coletâneas de hadiths dividem-se em dois tipos, do ponto de vista da extração das normas da sharia. Tudo o que o Mensageiro de Deus (s) disse no cumprimento da responsabilidade especial da missão profética pertence ao primeiro tipo. No versículo “Aceitai aquilo que o Mensageiro vos der e abstende-vos daquilo que ele vos proibir”, foi proclamada a ordem de Allah precisamente a respeito desse tipo de hadith. Também pertencem a este tipo os hadiths nos quais o Mensageiro (s) falou sobre os assuntos e acontecimentos extraordinários do Além e do mundo malakuti. Esses hadiths derivam do conhecimento recebido por meio da revelação. Também pertencem a esta categoria os hadiths relativos à explicação das normas da sharia, dos métodos de adoração e da administração dos assuntos sociais e do bem-estar público, bem como ao incentivo à sua observância. Contudo, uma parte deles foi recebida diretamente por meio da revelação, e outra parte resultou do ijtihad do próprio Profeta (s). Naturalmente, a decisão do Profeta (s) jamais poderia permanecer baseada no erro. Seu ijtihad necessariamente se baseava na ordem de Allah. Isso porque frequentemente Allah informava Seu Profeta sobre os propósitos e objetivos da sharia; ensinava-lhe as regras para instituí-la, torná-la fácil e determinar as ordens e proibições; e o Profeta, de acordo com essa lei e essas regras conhecidas por meio da revelação, explicava os objetivos obtidos através da revelação. Os assuntos racionais e benéficos que ele apresentou sem condições, aos quais não foi fixado nenhum prazo ou limite — como o bom e o mau caráter — também pertencem à esfera do cumprimento da missão profética, e a maioria deles foi recebida da fonte da revelação. Isso significa que Allah ensinou ao Mensageiro as regras para a sociedade e o bem-estar público; o Profeta delas extraiu argumentos ou provas e apresentou-as como princípios fundamentais. Os hadiths sobre a excelência das ações, as qualidades dos praticantes e os méritos também são incluídos nesta categoria. Na minha opinião, a maior parte deles foi recebida por meio da revelação, enquanto uma parte foi fruto de seu ijtihad. O segundo tipo de hadith não pertence à esfera do cumprimento da missão profética. O Mensageiro de Deus (s) disse:

******************************************************

Sou apenas um ser humano. Portanto, quando vos ordeno algo relacionado à vossa religião, aceitai-o e cumpri-o. Mas, se vos ordenar algo segundo a minha própria opinião, lembrai-vos de que sou apenas um ser humano.

Com estas palavras, o Mensageiro de Deus (s) referiu-se precisamente ao segundo tipo de hadith. Ao ver os muçulmanos de Medina introduzirem ramos de tamareiras masculinas nas tamareiras femininas, na esperança de obter uma colheita muito abundante, o Profeta (s) expressou a opinião de que “não haveria prejuízo se não o fizessem” e disse:

******************************************************

Talvez tivesse sido melhor se vocês não tivessem feito isso.

Mas, por não fazerem isso, no ano seguinte foi produzida uma colheita muito pequena. Então, o Nobre Profeta (S) disse:

******************************************************

‘Eu tinha uma opinião, e foi isso que vos disse; se a opinião estivesse errada, não me culpeis por isso. Mas, quando eu vos transmitir algo da parte de Allah, então deveis aceitá-lo certamente. Pois eu nunca digo uma falsidade acerca de Allah’. [Estes poucos hadiths foram mencionados no volume 2 de Muslim Sharif, página 264.]

****************************************************** ]

Tudo o que o Nobre Mensageiro (S) disse sobre medicina, as propriedades das substâncias e assuntos semelhantes também pertence a esta categoria. Ele disse:

******************************************************

Deveis certamente manter um cavalo de cor negra intensa, com as faces levemente brancas.

Isto foi dito à luz do conhecimento adquirido pela experiência prática do Mensageiro.

Aquilo que o Mensageiro (S) fazia por hábito — não como adoração — ou que fazia por acaso — não intencionalmente — não possui fundamento na Sharia. Quando um grupo de pessoas manifestou a intenção de ouvir hadiths de Hazrat Zayd ibn Thabit (R), ele disse: “Eu era vizinho do Mensageiro. Quando a revelação descia sobre ele, mandava chamar-me; eu ia e a escrevia. Era seu hábito que, quando discutíamos assuntos mundanos, ele também falasse conosco sobre assuntos mundanos. E quando falávamos sobre a vida futura, ele também falava conosco sobre a vida futura. Quando falávamos sobre comida e bebida, ele também falava conosco sobre isso. Deveria eu agora narrar-vos todos esses hadiths do Mensageiro?” Esta declaração é digna de menção precisamente neste contexto.

Além disso, foram estabelecidas muitas medidas para o benefício parcial da época do Mensageiro. Elas não constituíam preceitos eternos para toda a humanidade. Um exemplo disso é quando um rei equipa um exército e determina um distintivo para ele. Foi sob essa perspectiva que Hazrat Umar al-Faruq (R) disse:

******************************************************

Que necessidade temos de fazer ramal? Antes, fazíamos isso para mostrar-nos a um grupo de pessoas que Deus Todo-Poderoso havia destruído.

Mas depois ele compreendeu claramente que poderia haver outra razão para fazer ramal e que isso de modo algum deveria ser abandonado.

Também pertencem a esta categoria os hadiths relativos a métodos específicos de guerra e a regras, procedimentos e modalidades específicas para proferir decisões judiciais. (Citado de Hujjatullah al-Baligha, volume 1, página 102.)

Não há obrigação de que isso seja devidamente comprovado como verdadeiro. A proibição do Mensageiro relativa à prática corrente nos países árabes acerca das tamareiras também pertencia a esta categoria. Ao discutir este assunto, o Imam Nawawi escreveu:

******************************************************

Segundo os especialistas, esta declaração do Profeta não se enquadrava na categoria de informar sobre qualquer assunto; pelo contrário, era apenas uma opinião sua. É o que foi mencionado nos hadithes relacionados a este tema. Eles também disseram que, nas questões mundanas, a opinião e a concepção do nobre Profeta eram como as opiniões e concepções das demais pessoas. Portanto, a ocorrência de um acontecimento desse tipo — que se comprovasse irreal — não é impossível, nem há nisso qualquer motivo de erro ou culpa. [An-Nawawi, Sharh Muslim, vol. 2, p. 264]

Também é necessário ter em mente, acerca do ijtihad do Mensageiro, que, nos assuntos sobre os quais não havia sido revelada nenhuma revelação, o nobre Mensageiro (S) fazia ijtihad. Se esse ijtihad estivesse correto, Allah permitia que fosse confirmado e posto em prática; e, se nele houvesse algum erro humano, Allah informava o Mensageiro a esse respeito e o advertia. Portanto, o ijtihad do Mensageiro também é considerado parte da Sunnah. Os hadithes contêm relatos de todos esses ijtihads. Assim, não há diferença fundamental nem contradição entre os hadithes e o ijtihad do Mensageiro. [**************]

Entretanto, tudo quanto o nobre Mensageiro (S) disse acerca da religião e da Shariah — sobre a crença, a adoração, o caráter moral, a vida futura e as questões sociais e civilizacionais — foi recebido da fonte da revelação, possui valor eterno e importância permanente, e jamais pode ser abandonado. [Hujjatullah al-Baligha, vol. 1**********]

 

Hadith Qudsi

Existe ainda outro tipo de hadith, que é chamado de ‘hadith qudsi’حديث قدسى assim. A palavra ‘qudsi’ é formada a partir de قدسى‘quds’قدس, e seu significado é الظهر pureza e grandeza. Outro nome de Allah é ‘quddus’قدوس: grandioso; santo. [*******]

Esse tipo de hadith é chamado de ‘hadith qudsi’ porque seu conteúdo original foi recebido diretamente de Allah. O que Allah, o Altíssimo, comunicou ao Seu Profeta por meio de inspiração ou de um sonho, o Profeta narrou em suas próprias palavras. Ele é diferente do Alcorão, pois tanto o conteúdo quanto a linguagem do Alcorão foram revelados por Allah por meio da revelação. O ilustre comentarista de hadith, Allamah Mulla Ali al-Qari, ao definir o ‘hadith qudsi’, disse:

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Hadiths Qudsi são aqueles hadiths que o venerável Muhammad (S), o mais eminente narrador, resplandecente como a lua cheia e absolutamente digno de confiança, transmite de Allah, tendo-os conhecido às vezes por meio de Jibril (A), e recebido às vezes diretamente por revelação, inspiração ou através de um sonho. A responsabilidade de expressá-los com o auxílio de qualquer tipo de linguagem é confiada ao Mensageiro. [৩৮************]

Allama Abu’l-Baqa escreveu em sua obra ‘Kulliyat’:

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As palavras, a linguagem, o significado, o sentido e o discurso do Alcorão foram todos revelados por Allah mediante uma revelação clara; já as palavras e a linguagem do ‘Hadith Qudsi’ pertencem ao Mensageiro, mas seu significado, sentido e discurso foram recebidos de Allah por meio de inspiração ou de um sonho. [৩৯**********]

Allama Tayyibi também apoiou esta afirmação. Ele disse:

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Jibril (a) desceu até o Nobre Mensageiro com as palavras e a linguagem do Alcorão. Quanto ao conteúdo original do “Hadith Qudsi”, Allah o comunicou por inspiração ou por meio de um sonho. (Por isso, o Hadith Qudsi ficou conhecido como a palavra de Allah.) Mas, além disso, ele não divulgou os demais hadith como palavras de Allah, nem os narrou em Seu nome.[40********]

Diferenças entre o Alcorão e o Hadith Qudsi

As diferenças existentes entre o Alcorão e o Hadith Qudsi são as seguintes:

a) O Nobre Alcorão não foi revelado senão por intermédio de Jibril; suas palavras e sua linguagem foram certamente descidas da “Lawh Mahfuz”. Sua transmissão é mutawatir — contínua, certa e indubitável — em todas as etapas e em todas as épocas.

b) Na oração, recita-se somente o Nobre Alcorão; sem o Alcorão, a oração não é válida, e mesmo que se recite o Hadith Qudsi em seu lugar, a oração não é válida.

c) O “Hadith Qudsi” pode ser tocado por uma pessoa impura e também por uma mulher que esteja menstruada ou em resguardo pós-parto, mas é proibido para elas tocar o Alcorão.

d) O Hadith Qudsi não é um “milagre” como o Alcorão.

ঙ) Negar o Hadith Qudsi não torna uma pessoa incrédula, como ocorre quando se nega o Alcorão.[৪১***********]

O xeique Muhammad Ali Faruqi dividiu os hadiths em duas categorias. A primeira: o Hadith Nabawi — os hadiths do Mensageiro Nobre; e a segunda: o Hadith Ilahi — o hadith de Allah. E este é chamado de “Hadith Qudsi”. Ele escreveu:

******************************************************

“Hadith Qudsi” é aquilo que o Nobre Profeta (S) narra em nome de seu Allah Todo-Poderoso; e aquilo que ele não narra dessa maneira é Hadith Nabawi. [৪২************]

O “Hadith Qudsi” não é o Alcorão; contudo, nele está misturada a fragrância encantadora do mundo sagrado de Allah. Ele também é uma “luz” vinda do mundo invisível. Nele também se encontra o espírito majestoso e imponente de Allah, o Magnífico e Poderoso. Isto é o “Hadith Qudsi”. Ele também é chamado de “Ilahi” ou “Rabbani”. [৪৩************]

Nas antigas coletâneas de hadiths, o Hadith Qudsi era apresentado nestes termos:

******************************************************

Ao narrar em nome de Allah, o Nobre Profeta (S) disse………..

E os muhaddith posteriores citaram-no nestes termos:

******************************************************

Allah disse: aquilo que o nobre Profeta (S) narrou d’Ele……..

É evidente que o narrador original de ambos os tipos de afirmações é o mesmo: Hazrat Muhammad (S).[44***********]

Isnad e Matn

A cadeia de transmissão e narração pela qual o conteúdo principal do hadith chegou até o compilador da obra é denominada “isnad” na terminologia da ciência do hadith. Nela, os nomes dos narradores do hadith aparecem dispostos um após o outro. Por isso, foi dito:

******************************************************

A cadeia de transmissão pela qual o hadith original chegou é o isnad.[مুকাদ্দামা আল-হাদীস আল-মুহাদ্দিসূন, ২,৩,৪ পৃষ্ঠা।]

Foi dito:

******************************************************

A cadeia de transmissão do hadith — a sequência dos seus narradores — chama-se sanad.

******************************************************

O conteúdo principal do hadith e as suas palavras constituem o matn.

O Shaykh Abdul Haq escreveu:

******************************************************

A parte que se segue ao ponto até onde chega a cadeia de transmissão do sanad é chamada de matn.

Os hadiths podem ser divididos em três categorias quanto às diferenças qualitativas entre os seus isnads ou narradores. A primeira categoria compreende os hadiths narrados por pessoas que são «hafizes mutqin» (hafizes de hadith capazes de memorizar com precisão impecável). A segunda compreende os hadiths cujos narradores são desconhecidos e possuem um nível mediano de memória e cautela. A terceira compreende os hadiths narrados por pessoas fracas, inaceitáveis e rejeitadas. [46*****************]

Classificação dos hadiths com base no isnad

Os hadiths foram divididos em várias categorias tendo em vista até que nível chegou a cadeia de transmissão e de que maneira ela chegou até esse nível; cada uma dessas categorias recebeu um nome técnico. A seguir, este assunto será discutido em detalhes:

1. Marfūʿ: O hadith cuja cadeia de transmissão chega até o Mensageiro (S), por meio da qual é narrada uma palavra do próprio Mensageiro, a descrição de alguma ação sua ou a aprovação de algum assunto, e cuja continuidade do isnad foi preservada desde o nobre Mensageiro (S) até o compilador do livro de hadith, sem que nenhum narrador tenha sido omitido no meio, é chamado «hadith marfūʿ»حديث نرفوعe é conhecido por esse nome.

O Imame Nawawī definiu-o nos seguintes termos:

******************************************************

«Marfūʿ é o hadith que é narrado especificamente como uma palavra do Mensageiro — e não como a palavra de qualquer outra pessoa além dele.» [47********]

Ibn Ṣalāḥ escreveu:

******************************************************

A palavra que pertence ao Mensageiro, e a ninguém mais — nem mesmo a qualquer Companheiro — é conhecida como “hadith marfūʿ”.[৪৮********]

Isto poderá ser claramente compreendido por meio de um exemplo. Por exemplo, certo Companheiro disse:

******************************************************

O Nobre Mensageiro (S) disse:

******************************************************

Ouvi o Nobre Mensageiro (S) dizer assim —

Os hadiths transmitidos por uma cadeia de transmissão desse tipo são conhecidos como “hadith marfūʿ qawlī”.

Ou algum Companheiro disse:

******************************************************

Eu vi o Mensageiro Nobre (S) fazer assim.

Isso é conhecido como «hadith marfūʿ fiʿlī». Pois apresenta, na narrativa de um Companheiro, o relato de alguma ação do nobre Profeta.

Ou algum Companheiro disse:

******************************************************

Eu realizei tal ação na presença do Mensageiro Nobre (S), mas ele não a contestou.

Isso é conhecido como «hadith marfūʿ taqrīrī». Neste hadith, afirma-se que determinada ação foi realizada diante do nobre Profeta e que ele não a proibiu.

2. Os hadices cuja cadeia de transmissão (isnad) remonta até um companheiro, e nos quais são narradas, por meio dessas cadeias, as palavras, ações ou aprovações de algum companheiro, são denominados «hadices mauquuf». O imame Nawawi definiu-o nos seguintes termos:

******************************************************

Tudo aquilo em que são narradas as palavras, ações ou algo semelhante de algum companheiro — quer seja narrado por transmissores consecutivamente ligados, quer haja a ausência de algum transmissor no meio — é um «hadice mauquuf».

3. Aquele cuja cadeia de transmissão narra as palavras, ações ou aprovações de algum tabi‘i é conhecido como «hadice maqtu‘». O imame Nawawi disse: aquilo cuja cadeia remonta até um tabi‘i é um «hadice maqtu‘».[49**********]

4. Os hadices cuja cadeia de transmissão foi integralmente preservada de cima a baixo, sem que nenhum transmissor tenha sido omitido em qualquer nível, são chamados «hadices muttasil» **********.

5. Os hadices cuja cadeia de transmissão não foi preservada, de modo que algum transmissor intermediário tenha sido omitido ou desaparecido, são denominados «hadices munqati‘»حديث منقطع.[50************]

Também se estabelecem várias categorias de hadices considerando as diferenças nas qualidades próprias dos transmissores de hadices, e cada uma delas recebe um nome técnico específico. A saber:

1. O hadice cuja cadeia de transmissão é contínua, em cada nível do isnad os nomes dos transmissores são corretamente mencionados, os transmissores são inteiramente dignos de confiança — thiqah —, possuem memória extremamente aguçada e nunca há apenas um transmissor em qualquer nível, é denominado tecnicamente «hadice sahih» *********.

O Imam Nawawi escreveu:

******************************************************

O hadith cujo isnad é contínuo, composto por narradores confiáveis e precisos na preservação, e no qual não há sequer um narrador anômalo ou deficiente, é chamado de «hadith sahih».[৫১********]

2. Se, apesar da presença de todas as qualidades mencionadas acima, for comprovado que a memória dos narradores é um tanto fraca, o nome técnico desse hadith é «hadith hassan» (********).

Ao definir este termo, o Imam Nawawi escreveu:

******************************************************

O hadith cuja origem é amplamente conhecida e cujos narradores são famosos é chamado de hadith hassan.[৫২**********]

3. Se todas as qualidades mencionadas acima forem encontradas nos narradores em grau inferior, o hadith por eles narrado é chamado de «hadith da’if» ***********.

O Imã al-Nawawi disse:

******************************************************

Aquele em que não se encontram as condições dos hadiths sahih e hasan é o «hadith da‘if».[৫৪*******]

Classificação dos hadiths com base no número de transmissores

O número de transmissores dos hadiths não foi o mesmo em todos os casos. Nos diferentes hadiths, o número de transmissores variou. Sob esse aspecto, os hadiths foram divididos em várias categorias, e cada categoria recebeu um termo técnico próprio. Aqui será apresentada uma breve descrição dessas categorias.

1. Mutawatir (*****) O hadith cujos transmissores, em todos os níveis da cadeia de transmissão, são tão numerosos que parece naturalmente impossível que todos eles se reúnam para inventar ou declarar uma mentira é chamado de «hadith mutawatir». Como no hadith ********************, o valor de todas as ações é determinado segundo a intenção. Este hadith foi transmitido por mais de setecentas cadeias de transmissão.[ ৩-شرح النخبة ص Os muhaddiths geralmente não designam o hadith «mutawatir» por esse termo técnico. Isso porque o fato de um hadith ser «mutawatir» não é considerado no âmbito da discussão da cadeia de transmissão. A razão é que, na ciência da cadeia de transmissão, geralmente se discute apenas se o hadith é «sahih» ou «da‘if», para que se possa agir de acordo com ele ou, caso contrário, abandoná-lo. Além disso, não se discute a respeito dos transmissores dos hadiths mutawatir. Agir de acordo com ele é obrigatório sem necessidade de discussão. علوم الحديث ومصطله وشرح النخبة ج-3 ص- 150 ]

2. Khabar al-wahid (***********) O hadith cujos transmissores e cuja cadeia de transmissão são um pouco menos numerosos que os do hadith «mutawatir» é chamado de «khabar al-wahid». Esse tipo de hadith divide-se em três categorias:

a. Se, em qualquer nível posterior ao dos Companheiros, o número de transmissores não for inferior a três, trata-se de um «hadith mashhur» (*************).

b. Se, em nenhum nível, o número de narradores for inferior a dois, então isso é um “hadith de Aziz” (**********).

c. Se, em algum nível, o número de narradores for de apenas uma pessoa, então esse hadith é conhecido como “hadith de Gharib” (*************).

 

As fontes fundamentais do conhecimento e da ciência

O significado de conhecimento e saber é conhecer o desconhecido. Saber aquilo que é ignorado, aquilo que está além dos limites do conhecimento humano, e estar informado sobre todos os seus aspectos é o que se chama conhecimento. O conhecimento e o saber acerca das coisas são luz. É pelo fulgor da luz que a escuridão chega ao fim. O conhecimento e o saber dissipam a escuridão acumulada da ignorância da mente humana, tornam o íntimo do ser luminoso e adornam-no com a harmonia da majestade do conhecimento.

Mas a mera reunião de algumas teorias e informações não é conhecimento. As teorias e informações verdadeiras obtidas de fontes confiáveis e incontestáveis é que constituem o verdadeiro conhecimento. As teorias e informações que não se baseiam na verdade e que não foram obtidas de fontes confiáveis não conseguem desanuviar o mundo mental tomado pela dúvida; assim como não podem promover qualquer benefício para o ser humano, são também inteiramente indignas de ser chamadas de “conhecimento”. Não é possível apoiar-se em tal conhecimento para dar passos no caminho da vida e avançar com o coração destemido. Por isso, o ser humano necessita de um conhecimento e de um saber que sejam, sob todos os aspectos, verdadeiros e confiáveis, obtidos de fontes irrefutáveis e certas. Esse conhecimento torna a mente e o cérebro humanos livres de dúvidas, firmes, seguros e radiantes. Ele ilumina, no campo de visão, cada curva do caminho da vida, cada subida e cada descida. Sem tal conhecimento, nem nossa vida biológica pode funcionar corretamente, nem é possível viver no mundo como seres humanos.

Mas onde poderá o ser humano encontrar tal conhecimento? Por que fonte lhe será possível obtê-lo? Esta é uma questão difícil. A esse respeito, teremos de examinar e discutir com um pouco mais de profundidade, ponderando e analisando a questão.

Entre os meios e fontes naturalmente concedidos ao ser humano para a aquisição de um conhecimento infalível, irrefutável e confiável, a fonte externa e primária são os cinco sentidos humanos. Mas esses cinco sentidos constituem, para o ser humano, o limite extremo de seu alcance apenas até determinado ponto. É impossível conceder-lhe qualquer conhecimento que esteja além deles. Além disso, não é possível afirmar com certeza que o conhecimento obtido pelos cinco sentidos seja, sob todos os aspectos, infalível e inteiramente livre de dúvidas. Muitas vezes eles fornecem ao ser humano informações completamente erradas e, por vezes, também o enganam. Quando uma pessoa adoece, seu paladar se altera: a boca fica desagradável, e o doce torna-se amargo. A visão do passageiro de um trem que se move rapidamente é enganada; as paisagens permanentemente imóveis de ambos os lados parecem avançar velozmente na direção oposta. Um navio em movimento parece estar parado, imóvel. Se uma centelha de fogo se mover em linha reta, com grande velocidade, parecerá uma linha de fogo contínua e ardente; e, se se mover em círculo, parecerá um círculo de fogo. É algo comum que a grande multidão de estrelas no alto e distante firmamento pareça pequena e semelhante a débeis chamas de ilhas, tremeluzentes; mas será que, na realidade, ela é assim?

A segunda fonte da aquisição do conhecimento humano é o discernimento baseado na inteligência inata, na sabedoria, no pensamento e na investigação, e nos fundamentos da razão. Ela transmite o conhecimento essencialmente com base nas informações obtidas da fonte de conhecimento do primeiro nível. Sobre as informações reunidas, constrói o palácio do conhecimento do desconhecido. Quando os dados ao seu alcance são recolhidos do mundo material, o conhecimento obtido com base neles pode ficar, em grande medida, livre de dúvidas. E este é precisamente o caso fundamental das ciências físicas (Physical Science). Mas o conhecimento baseado em dados que transcendem a matéria não passa de mera concepção e conjectura. Todas as ideologias e filosofias criadas pelo ser humano são produto disso. Assim como não está completamente livre de dúvidas, também há nele amplo espaço para o surgimento de divergências de opinião. É por essa razão que o pensamento filosófico e as ideologias modernas se encontram em situação extremamente deplorável.

O conhecimento que não tem relação com o mundo material ocupa o lugar seguinte. Embora seja um conhecimento que transcende a matéria, ele ainda assim se reflete e se projeta sobre o delicado espelho da mente e do cérebro orientados para a realidade. Assim como o conhecimento do primeiro nível depende diretamente da matéria, o conhecimento deste segundo nível também está relacionado com a mente e a força espiritual do ser humano.

Esta última fonte de conhecimento possui vários níveis: firāsat (observação intuitiva), hads (conjectura), kashf, ilhām e Wahy. F irāsat significa visão penetrante e percepção interior; trata-se de um talento inato. As palavras proferidas com sua ajuda despertam assombro na mente das pessoas comuns. Depois vem o “hads”. Ele é inteiramente fruto do exercício mental e da reflexão, aquilo que chamamos de sabedoria. Kashf significa desvelamento; o surgimento, no mundo interior, de conhecimento sobre algo desconhecido é o que se chama “kashf”. Seu melhor exemplo é o sonho. A diferença, porém, é que o sonho é possível durante o sono, enquanto o “kashf” ocorre em estado desperto e consciente. “Ilhām” significa a transmissão de algum conhecimento à mente: a luz do conhecimento acender-se no campo mental sem qualquer esforço ou empenho. O “Wahy” é a mais elevada fonte de conhecimento deste nível. Conceder a uma pessoa, de modo invisível e longe dos olhos do público, algum conhecimento especial, transcendente e livre de dúvida, é o que constitui o “Wahy”. Ele é o meio espiritual supremo para adquirir conhecimento e transmitir verdades, bem como o limite final e mais confiável das fontes de conhecimento.

 

Wahy

É necessária uma discussão ampla e autorizada sobre o “Wahy”. Apresenta-se aqui uma discussão detalhada sobre o “Wahy”, extraída de obras autorizadas.

O significado lexicográfico da palavra “Wahy” é o seguinte:

******************************************************

“Wahy” significa fazer um sinal, enviar algo escrito, enviar uma pessoa com uma mensagem, falar secretamente com outra pessoa e informar alguém sobre algo sem que os demais saibam.

Diz Abū Isḥāq al-Lughawī:

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Em todos os dicionários, “wahy” significa informar algo secretamente.

O Imame Rاغیب Isfahani escreveu:

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“Wahy” significa gesto ou sinal de movimento rápido; também pode ser realizado por meio de falar através de gestos e sinais. Pode ocorrer igualmente por meio de palavras que não têm uma forma precisa. Também pode ocorrer mediante gestos dos membros do corpo ou com o auxílio da escrita.

Foi dito no Alcorão Majيد:

***********************************************

Então Allah lhes fez um sinal, dizendo-lhes que glorificassem pela manhã e ao entardecer. [Surata Maryam, versículo 11]

A palavra de Allah que é lançada na mente dos profetas também é chamada de “revelação”.

O xeque Abdullah Sarkavi escreveu:

******************************************************

“Revelação” significa “dar a conhecer”. Na terminologia da Sharia, revelação é aquilo que Allah dá a conhecer aos Seus profetas sobre algum assunto, falando-lhes, enviando um anjo, por meio de sonhos ou com o auxílio da inspiração. Essa palavra também é usada no sentido de “dar uma ordem”.[59**********]

Na realidade, ninguém além de Allah conhece corretamente qual é a essência profunda e o verdadeiro mistério da revelação. Lexicógrafos, especialistas em ciência religiosa e filósofos tentaram defini-la e explicar seu significado e sua natureza. Com isso, é fácil formar uma concepção clara e, em linhas gerais, sobre a “revelação”. O que o xeque Bu Ali Sina disse a esse respeito é citado abaixo nas palavras do erudito Abul Baqa:

******************************************************

Nós vemos as coisas com o auxílio dos sentidos; o profeta vê com o auxílio de forças interiores e ocultas. Primeiro vemos e depois podemos conhecer algo sobre aquilo. Já o profeta pode conhecer primeiro e só depois ver. [60**********]

A revelação era transmitida ao nobre Profeta das seguintes maneiras:

1. Sonhos verdadeiros: Na primeira fase após receber a profecia, o Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) costumava ter sonhos, e esses sonhos eram extremamente bons. Cada um dos sonhos se comprovava infalível, verdadeiro e real. Hadrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse:

******************************************************

A revelação ao Mensageiro começou primeiramente por meio de bons sonhos durante o sono. Naquela época, qualquer sonho que ele tivesse se refletia na realidade como a luz da manhã. [61**********]

Na narração de Sahih Muslim, ********** em vez de ‘bons sonhos’, *********** consta ‘sonhos verdadeiros’. [62***********]

2. Inspiração no coração: Um hadith cita estas palavras do Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele):

******************************************************

O anjo Gabriel incutiu em meu coração que nenhuma criatura pode morrer antes de receber integralmente o sustento que lhe foi determinado e antes de completar o período de vida que lhe foi determinado. [63************]

Neste hadith, a expressão ‘incutiu em meu coração’ indica uma forma específica de fazer descer a revelação. Allamah Ibn Kathir escreveu:

******************************************************

A partir deste versículo, fica evidente a existência de diferentes formas de a revelação ser enviada. Às vezes, Allah, o Altíssimo, fazia surgir no íntimo do nobre Profeta alguma ideia sobre cuja procedência de Allah não podia haver dúvida.

3. A revelação enviada com um som semelhante ao toque de um sino: Aisha (r.a.) narrou, por intermédio de Harith ibn Hisham (r.a.), que ele perguntou ao nobre Profeta (s):

******************************************************

Como a revelação lhe é enviada?

Em resposta, o nobre Profeta (s) disse:

******************************************************

Às vezes, a revelação chega até mim com um som intenso, semelhante ao toque de um sino. Isso é muito difícil e penoso para mim. Depois, a intensidade e a força da revelação se afastam de mim. Nesse momento, tudo o que foi dito fica sob meu domínio e é memorizado por mim.

Por estas palavras, pode-se compreender claramente que, embora todo tipo de revelação fosse extremamente penoso, este tipo de revelação era, entre todos, o mais penoso para o Mensageiro. Sobre este tipo de revelação, o próprio nobre Mensageiro disse:

******************************************************

Ouço o som de um sino de ferro; então permaneço sentado em silêncio. Sempre que esse tipo de revelação descia, eu sentia como se minha alma estivesse prestes a ser tomada.

Em tal estado, o suor fluía em abundantes correntes do corpo do Mensageiro. Isso não era diferente nem durante o frio intenso e o frio rigoroso. Nessa ocasião, mesmo que estivesse montado sobre um camelo forte, ele, sentindo uma pressão intensa, sentava-se.

Allama Kirmânî escreveu, ao explicar este hadith:

******************************************************

Por isso, soube-se que, quando a revelação descia sobre o Mensageiro, ele sentia grande sofrimento e intensa pressão; e uma dor insuportável, de modo extremamente penoso, tomava conta dele por causa daquilo que lhe era revelado. Allah, o Altíssimo, disse isso nas seguintes palavras: Em breve, farei descer sobre ti uma palavra pesada. [66************]

4. O anjo comparecia diante do Mensageiro sob a aparência de determinada pessoa e, depois de transmitir a mensagem enviada por Allah ou realizar uma tarefa específica, ia embora. O próprio nobre Profeta disse:

******************************************************

Às vezes, o anjo vem a mim assumindo a forma de uma pessoa; ele fala comigo, e eu retenho perfeitamente tudo o que diz. [Bukhari Sharif, vol. 1, p. 1]

É digno de menção, a propósito, que o anjo costumava vir especialmente assumindo a forma do companheiro chamado Hazrat Dahiya Kalbi. Sobre a razão disso, Allama Badruddin Ayni escreveu:

******************************************************

A razão pela qual o anjo vinha assumindo especialmente a forma de Dahiya Kalbi, em vez da de outros companheiros, era que ele possuía, entre as pessoas daquela época, o rosto mais belo e formoso.[68***********]

Também é mencionado no hadith que o anjo veio disfarçado de uma pessoa completamente desconhecida e transmitiu uma mensagem importante. Ao final de um longo relato narrado por Hazrat Abu Hurayra, o Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse:

******************************************************

Este homem era Jibril; ele veio com o propósito de ensinar às pessoas a sua religião. [Muslim Sharif, vol. 1, p. 29, com o capítulo incluído.]

Também foi mencionado que Jibril (que a paz esteja sobre ele) apareceu diante do Nobre Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) com sua própria aparência, fisionomia e forma, e lhe transmitiu a revelação. No hadith sobre a descida da primeira revelação, narrado por Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) no Bukhari Sharif, foi dito:

******************************************************

Então, o anjo veio até ele, apareceu diante dele e disse: Leia. [Bukhari Sharif, 1.º volume, página 1.]

A descrição da segunda vez em que viu o anjo, nas próprias palavras do Nobre Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), é a seguinte:

******************************************************

Eu estava caminhando quando, de repente, ouvi uma voz vinda de cima. Ao levantar os olhos e olhar para o céu, vi aquele anjo que anteriormente viera até mim na caverna de Hira, sentado num assento entre o céu e a terra. Então, Allah, o Altíssimo, revelou a surata Al-Muddassir. [Bukhari Sharif, 1.º volume, página 733]

É digno de nota, neste contexto, que todo o Alcorão Majid foi revelado por meio desse tipo de revelação. No Alcorão Majid é dito:

******************************************************

Este Alcorão foi, sem dúvida alguma, revelado pelo próprio Allah, o Senhor dos mundos; e Jibril, o digno de confiança, desceu com ele, fazendo-o descer sobre o teu coração, ó Profeta, para que fosses um admoestador para as pessoas. [Não há divergência quanto ao fato de que, neste versículo, “Ruh al-Amin” se refere a Hazrat Jibril. **********]

Allama Badruddin Ayni escreveu a esse respeito:

******************************************************

Desde o Profeta (S) até os dias atuais, uma cadeia de transmissão confiável e ininterrupta proclama em alta voz que aquele que vinha ao nosso nobre Profeta com o Alcorão era Hazrat Jibril (A.S.), e que aquele que sempre vinha somente com o Alcorão era Hazrat Jibril (A.S.). Ninguém manifestou qualquer negação ou contestação a esse respeito, nem alguém sustentou sequer a menor divergência. [73***********]

Na verdade, é consenso geral e uma verdade incontestável que o Nobre Alcorão foi revelado por meio do anjo Jibril (A.S.). Porém, não é absolutamente correto afirmar que Jibril (A.S.) vinha sempre trazendo somente o Alcorão e que não trazia nenhuma outra questão da religião do Islã além do Alcorão. Pois, em várias narrações dos hadices, vê-se claramente que ele veio pessoalmente da parte de Allah à presença do Mensageiro Nobre; contudo, não veio trazendo nenhum versículo ou surata do Alcorão, mas veio com o propósito de apresentar outros assuntos relacionados à religião do Islã. Como exemplo, será mencionado aqui um hadice.

Hazrat Umar Faruq (R.A.) disse:

******************************************************

Ouvi o Nobre Profeta (S), quando se encontrava no vale chamado “Aqeeq”, dizer: “Na noite passada, veio até mim um visitante da parte de Allah e disse-me: ‘Reza neste vale abençoado e declara que isto é uma “Umrah” durante o período do “Hajj”.’” [74*************]

É evidente que, neste hadith, o Profeta (s) se referiu precisamente a Hazrat Jibril ao dizer “aquele que veio”. Contudo, ele não trouxe nenhum versículo do Alcorão, nem recitou ao Profeta (s) qualquer versículo do Alcorão. Pelo contrário, veio e transmitiu a ordem de Allah acerca da permissibilidade do hajj do tipo qiran. Mas isso não foi inserido no Alcorão. O Alcorão também não contém qualquer menção ao hajj de qiran. Assim, ficaria provado que, além de trazer a revelação do Alcorão, Hazrat Jibril (a) também ia ao Mensageiro com assuntos religiosos.

É pertinente mencionar, nesta etapa, o hadith a seguir, citado nos cinco principais livros de hadith sahih. O hadith é o seguinte:

******************************************************

O Mensageiro (s) disse: Jibril veio até mim e instruiu-me a ordenar aos meus companheiros que recitassem em voz alta o takbir e o tahlil.[75***************]

O Imam Ahmad ibn Hanbal (r) citou este hadith no seu Musnad, dizendo:

******************************************************

Jibril veio até o Profeta e disse.[76**************]

6. Allah, o Altíssimo, fala pessoalmente com o Mensageiro (s) por detrás do véu e faz descer a revelação. Nesse caso, não há qualquer possibilidade de intermediação por parte de um anjo. Allah, o Altíssimo, faz descer diretamente a revelação no íntimo do Mensageiro (s). Sobre isso, o Alcorão Majid diz:

******************************************************

Allah não fala com pessoa alguma, exceto que lhe revele uma inspiração ou lhe fale detrás de um véu. [Surata Ash-Shura, versículo 51.]

Em seu tafsir deste versículo, o Allama Ibn Kathir escreveu:

******************************************************

Um exemplo de falar detrás de um véu é o caso de Moisés (a.s.): depois de falar com Allah, ele desejou vê-Lo. Contudo, Allah não Se revelou e colocou um véu. [78*************]

Na noite do Mi’raj, Allah, o Altíssimo, falou com o Nobre Mensageiro permanecendo detrás de um véu dessa maneira. Isso ocorreu enquanto o Mensageiro se encontrava plenamente desperto e consciente. O Nobre Mensageiro (s.a.w.) disse pessoalmente:

******************************************************

Quando fui levado aos mundos superiores durante o Mi’raj, Allah, o Altíssimo, aproximou-me muito d’Ele. A ponto de, por fim, restar entre Ele e mim apenas a distância correspondente à de um arco e uma flecha, ou menos ainda. Então Ele disse: “Ó Maomé!” Eu respondi: “Ó meu Senhor, encontro-me muito próximo de Vós”. [79*****************]

Também ocorreu que esse tipo de “revelação” fosse feito durante o sono. Isso é comprovado por uma declaração do próprio Nobre Profeta. Ele disse:

******************************************************

Allah veio até mim em uma forma extraordinariamente bela e disse: Sobre que assunto o mundo superior (os anjos) está debatendo? [80****************]

Em suma, na terminologia do Alcorão, a fonte pela qual se obtém o conhecimento mais confiável do mundo invisível é chamada de “revelação”. Os profetas e mensageiros têm plena certeza do conhecimento, das informações e das verdades que obtêm por essa fonte. Nenhuma dúvida surge em suas mentes quanto à sua veracidade. Essa fé e essa ausência de dúvida são centenas ou milhares de vezes mais certas, firmes e dignas de confiança do que o conhecimento adquirido do mundo material. Foi sobre esse conhecimento obtido dessa fonte que se declarou em tom solene no Nobre Alcorão:

******************************************************

O Profeta não fala segundo a sua própria vontade e desejo; o que ele diz não é senão revelação revelada. [Surata An-Najm, versículos 3–4.]

O Nobre Alcorão é a Palavra de Allah recebida por meio dessa revelação. Contudo, o Nobre Alcorão não é o único conhecimento obtido por essa fonte; além dele, o Profeta recebeu muitos outros conhecimentos e informações, diretamente ou por intermédio de um anjo. Naturalmente, há uma diferença clara entre essas duas categorias de conhecimento. O Nobre Alcorão é inteiramente a Palavra de Allah; embora os demais conhecimentos e informações sejam recebidos de Allah por meio da revelação, eles não são a Palavra de Allah. O objetivo dessa segunda categoria de conhecimentos e informações é oferecer uma explicação e uma análise exatas e corretas da Palavra do próprio Allah — o Nobre Alcorão. Por essa razão, tudo pertencente a ambos os tipos provém de Allah. Por isso, cada uma de suas letras, palavras e linguagem está totalmente protegida. Não pode haver nela qualquer possibilidade de alteração, mudança, acréscimo ou modificação.

Por outro lado, não são as palavras e a linguagem do hadith, mas apenas o sentido e a ideia central, que provêm de Allah. Por essa razão, o próprio Allah Todo-Poderoso assumiu a responsabilidade pela preservação integral do Nobre Alcorão. Ele disse:

******************************************************

Certamente, fui Eu quem revelou o Alcorão, e sou Eu o seu Guardião. [Surata Al-Hijr, versículo 9.]

Mas a linguagem e as palavras dos demais conhecimentos recebidos por meio da revelação, além do Alcorão, não estão protegidas por Allah; suas palavras e sua linguagem são próprias do Mensageiro, e Allah não assumiu pessoalmente a responsabilidade de preservá-los como preservou o Alcorão. Também não lhes foi atribuído o mesmo grau de importância. Nunca foram chamados de “palavra de Allah”.

 

A fonte do Hadith

A discussão anterior prova que a revelação que Allah Ta‘ala fez descer sobre o Profeta de toda a humanidade é a fonte fundamental do Hadith. A revelação enviada por Allah é principalmente de dois tipos. O primeiro tipo é chamado de “wahy matlu” — revelação que deve ser recitada publicamente — e também é chamado de wahy jali. O segundo tipo de revelação é conhecido como “wahy ghair matlu”. Geralmente, ele não é recitado. Seu outro nome é “wahy khafi”, isto é, revelação oculta. Por meio dele, entende-se tanto o meio de obter conhecimento quanto o conhecimento obtido por esse meio.

Depois do Alcorão, o Hadith ocupa o lugar seguinte como fundamento principal da Sharia. Assim como o Alcorão Sagrado foi revelado da fonte da orientação de Allah e do conhecimento verdadeiro, seguro e infalível, o Hadith também procede exatamente dessa mesma fonte. A veracidade disso é comprovada pela própria declaração do Alcorão Sagrado. Allah Ta‘ala declarou:

******************************************************

Ó Profeta! Allah fez descer sobre ti o Livro e a Sabedoria, e ensinou-te aquilo que não sabias. [Surata An-Nisa, versículo 113.]

Na exegese deste versículo, Allama Ibn Kathir escreveu:

******************************************************

O Al-Kitab mencionado no versículo significa o Nobre Alcorão, e Hikmah significa a Sunnah ou os hadiths do Mensageiro (e ambas essas coisas foram reveladas por Allah, provenientes de Allah). [Tafsir de Ibn Kathir.]

A seguinte declaração do Nobre Profeta também prova que tanto o Alcorão como os hadiths provêm do mesmo lugar e da mesma fonte. Ele disse:

******************************************************

Foi-me dado o Alcorão e, juntamente com ele, algo semelhante a ele. [Kanzul Ummal, de Shaykh Alauddin; Abu Dawud, Kitab as-Sunnah.]

A expressão “algo semelhante a ele” não pode significar outra coisa senão os hadiths. Pois as pessoas do mundo receberam essas duas coisas do Nobre Mensageiro.

Hazrat Hassan ibn Thabit disse:

******************************************************

Jibril (a.s.) descia até o Profeta levando a Sunnah ou os hadithes, assim como descia levando o Alcorão, e também lhe ensinava a Sunnah, tal como lhe ensinava o Alcorão.

Hasan ibn Atiyya disse:

******************************************************

A Revelação descia sobre o nobre Mensageiro (s.a.w.), e o venerável Jibril comparecia diante dele levando a Sunnah, que explicava a primeira espécie de Revelação: o Alcorão.

Está claramente comprovado por um hadith de Sahih Muslim que o venerável Jibril também comparecia diante do nobre Profeta levando apenas hadithes, sem versículos do Alcorão. É mencionado no Kitab al-Jihad—

******************************************************

Depois de narrar um longo relato sobre o perdão dos pecados do mujahid devotado e sincero, o nobre Mensageiro (s.a.w.) disse:

O próprio Jibril (que a paz esteja sobre ele) veio dizer-me isto.

Neste ponto, isto é muito claro e irrefutável.

Na verdade, o nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) só falava depois de obter de Allah conhecimento perfeito sobre todos os assuntos relacionados à religião. Ele não dizia nada sobre a religião com base em suas próprias conjecturas ou suposições. A prova concreta disso é que, quando lhe perguntavam algo relacionado à religião do Islã e ele não tinha conhecimento prévio sobre o assunto, não dava imediatamente nenhuma resposta. Pelo contrário, aguardava obter, por intermédio de Jibril, o conhecimento correto sobre o assunto da parte de Allah. Quando tomava conhecimento disso por esse meio, só então respondia à pergunta. Apresentam-se dois exemplos disso:

1. Um sábio judeu perguntou ao nobre Profeta: Qual é o melhor lugar da Terra? O nobre Profeta não sabia naquele momento a resposta correta para isso; por essa razão, não respondeu imediatamente à pergunta. Mais tarde, quando Jibril chegou, ele lhe perguntou sobre o assunto. Na primeira vez, Jibril disse: “Tanto aquele que fez a pergunta quanto aquele a quem ela foi dirigida são ignorantes sobre este assunto. Será possível responder depois de obter conhecimento sobre ele da parte de Allah.” Na segunda vez que Jibril veio, disse: “Ó Profeta, desta vez cheguei tão perto de Allah quanto jamais havia chegado. Allah, o Altíssimo, declarou sobre o assunto perguntado:”

******************************************************

“O lugar mais ruim é o dos mercados, e os lugares mais excelentes e abençoados são as mesquitas. [89**************]”

Hazrat Abu Ya’la, um companheiro, manifestou o desejo de observar diretamente como a “revelação” descia e qual era a condição do nobre Mensageiro durante a descida da “revelação”. Durante a viagem da Peregrinação de Despedida, surgiu uma oportunidade extraordinária de presenciar isso. Naquela ocasião, o nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) encontrava-se num lugar chamado “Jeyr Rena”. Então, um companheiro perguntou ao nobre Mensageiro: “É permitido, depois de aplicar perfume, vestir o ihram para realizar a umra? [O Allama Sharqawi escreveu: o questionador era Ata ibn Munya, irmão de Hazrat Ya’la.]” O nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) não respondeu imediatamente. Permaneceu em silêncio por bastante tempo. Depois, a revelação desceu sobre o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). A esse respeito, é dito no Sahih al-Bukhari:

******************************************************

Então, o nobre Profeta (s) permaneceu em silêncio por algum tempo. Depois, foi revelado a ele………………

Naquele momento, estenderam um pano para fazer sombra sobre o nobre Profeta (s). Então, Ya‘la introduziu a cabeça por baixo dele e viu:

******************************************************

Todo o rosto do Mensageiro havia adquirido uma coloração avermelhada, e ele respirava com um som intenso. [Bukhari Sharif, vol. 1, Kitab al-Manasik, p. 208, e vol. 2, Kitab Fada’il al-Qur’an, p. 745.]

Segundo os muhaddithin, naquele momento o nobre Profeta sofria de intensa falta de ar devido ao insuportável peso da descida da revelação. O Allama Sharqawi escreveu:

******************************************************

O ‘ghatit’ mencionado no hadith é uma espécie de som intenso, produzido quando a revelação descia, devido à respiração extremamente difícil causada por seu insuportável peso. [Fath al-Mubdi, vol. 2, p. 89.]

Quando a revelação descia sobre o nobre Mensageiro, ele sentia esse tipo de dificuldade e, por isso, sofria de intensa falta de ar. Por outro lado, ao ouvirem um som desse tipo, todos os Companheiros compreendiam que naquele momento a revelação estava descendo sobre o Mensageiro.

Na realidade, o Majid Alcorão é a legislação completa e verdadeira recebida por meio de Gabriel através da revelação. Contudo, nem todos os conhecimentos verdadeiros e infalíveis recebidos por meio dessa revelação foram incorporados ao Majid Alcorão. No Islão, a importância desse tipo de conhecimento verdadeiro vem imediatamente depois do Alcorão; por isso, em vez de ser incorporado ao Alcorão, ele foi preservado como “hadith do Mensageiro”. Na história da vida do Profeta, encontram-se numerosos relatos de revelações que não são vistos em nenhum lugar do Alcorão Majid, composto por trinta partes. Teriam eles, porém, sido destruídos e submergido no abismo do esquecimento? Seriam desnecessários? Isso não pode ser. Na realidade, não foram destruídos. Como eram absolutamente necessários para a vida humana, foram preservados separadamente para sempre. Para a comunidade muçulmana, constituem um tesouro eterno.

Além disso, assim como os membros da sociedade formada pelo Nobre Profeta (s) tinham fé e consideração pela Palavra de Allah, o Majid Alcorão, também demonstravam interesse e atenção semelhantes pela parte da revelação exterior ao Alcorão — o hadith. Pelo contrário, após o falecimento do Mensageiro, como o Majid Alcorão se encontrava entre os nobres Companheiros completamente escrito e compilado, não surgiu a necessidade de empreender qualquer investigação a seu respeito. Mas essa necessidade surgiu no caso dos hadiths do Mensageiro. E, por isso, não houve limite para seus esforços e dedicação. Eles chegaram a interrogar, nesse sentido, as pessoas que haviam sido mais próximas do Mensageiro. Como exemplo, podem ser mencionados dois acontecimentos:

******************************************************

Além da revelação compilada no Alcorão, conserva-se junto de vós alguma outra parte da revelação? [Sahih al-Bukhari, primeiro volume, Kitab al-Jihad, página 428.]

Em resposta, o Hazrat Ali apresentou alguns hadiths. Disso fica provado: (a) além do Alcorão, existe ainda conhecimento recebido por meio da revelação. (b) Nem toda a revelação foi compilada no Majid Alcorão ou incluída nele. Existe ainda outra parte da revelação que permanece fora do Alcorão. Embora não seja a “Palavra” de Allah, é conhecimento recebido de Allah. (c) A revelação exterior ao Alcorão é conhecida pelos relatos das palavras proferidas e das ações realizadas na prática pelo Nobre Mensageiro, e também é, sem dúvida, “revelação” — conhecimento obtido por meio da revelação. O Hazrat Abu Hudhayfa também a incluiu entre a “revelação”, mas o Hazrat Ali (r) não apresentou qualquer objeção a isso. Ele não disse que toda a revelação — todo conhecimento recebido por meio da revelação — está compilada no Majid Alcorão e que não existe nenhuma parte da revelação fora dele.

Embora o Alcorão e o hadith sejam aparentemente duas coisas, na realidade ambos emanam da fonte da revelação. Por essa razão, no que diz respeito à originalidade, fundamentação racional, autenticidade e obrigatoriedade de segui-los, não há diferença entre os dois. Portanto, não pode ser princípio de nenhum muçulmano demonstrar qualquer tipo de negligência em relação ao hadith e diminuir sua importância dizendo: “Ele é a palavra do Mensageiro, não a palavra de Allah; portanto, mesmo que não o aceitemos, não haverá problema.”

Neste ponto, é preciso lembrar especialmente uma coisa: o Nobre Profeta (s), muitas vezes, também exerceu o ijtihad com base no Alcorão revelado a ele. À luz dos princípios fundamentais e gerais do Alcorão, ele transmitiu ao povo muitas ordens e orientações relativas aos aspectos detalhados da religião, fundamentadas em seu próprio pensamento e consideração. Do ponto de vista da Sharia, isso também é considerado hadith — parte da Sunnah do Mensageiro. Sobre isso, o Imam al-Shafi’i (r) disse:******************************************************

Tudo quanto o Nobre Mensageiro (s) ordenou é precisamente aquilo que ele compreendeu do Alcorão. Depois, extraiu do Alcorão a confirmação disso.

Mulla Ali al-Qari escreveu que o hadith é apresentado como uma palavra do nobre Profeta porque foi ele quem o compreendeu a partir do Alcorão.

******************************************************

Isso porque ele o compreendeu diretamente do Alcorão e o extraiu do espírito e dos ensinamentos do Alcorão.

 

A diferença entre o Alcorão e o hadith

Embora tanto o Alcorão quanto o hadith emanem da fonte da revelação, existem entre ambos diferenças sob diversos aspectos. Na discussão anterior, isso já foi indicado; porém, nesta etapa, é necessário apresentar uma discussão detalhada sobre o assunto.

O Nobre Alcorão é um milagre extraordinário. Ele não é um milagre apenas pelo aspecto das palavras, da linguagem e da literatura; seu conteúdo, a amplitude, a extensão, a profundidade e a sutileza dos temas abordados, bem como o sistema de vida completo apresentado por ele para o bem da humanidade, constituem também um milagre extraordinário e absolutamente maravilhoso.

A primeira e mais importante Palavra é o Nobre Alcorão; devido às suas características milagrosas, ele é eterno e está para sempre protegido de toda espécie de alteração, acréscimo, correção ou modificação. É proibido tocá-lo ou recitá-lo sem ablução. Recitá-lo de modo específico na oração é um dever obrigatório.

Mas os hadiths não são milagres como o Alcorão. Apenas o conteúdo essencial dos hadiths foi refletido, por meio da revelação, no coração puro e límpido do Profeta, que o apresentou publicamente em sua própria língua. Por isso, sua linguagem não é para ser recitada; não é obrigatório recitar sua linguagem e suas palavras. Na sharia, foi ordenado seguir seu conteúdo essencial e seu sentido. É por essa razão que ele é denominado “revelação não recitada”. Porém, tanto o sentido quanto as palavras do Nobre Alcorão pertencem inteiramente a Deus e foram revelados por Deus.

O ilustre Ibn Hajar Asqalani escreveu:

******************************************************

A revelação recitada é o Nobre Alcorão. O outro tipo de revelação foi transmitido do Mensageiro Supremo (que a paz esteja com ele) por meio das cadeias de transmissão. [96**************]

O ilustre Muhammadur Rahman al-Madani escreveu: As diferenças entre o Alcorão e o hadith devem ser consideradas sob seis aspectos. Primeiro, o Alcorão é um milagre dotado de características sobrenaturais; o hadith não o é. Segundo, sem a recitação do Alcorão, a oração não é válida; o mesmo não se aplica ao hadith. Terceiro, quem negar o Alcorão, ou mesmo uma pequena parte dele, torna-se certamente um incrédulo; porém, se alguém se recusar a aceitar um hadith específico com base em uma razão específica, não se torna incrédulo. Quarto, para a revelação do Alcorão, é indispensável a intermediação de Gabriel entre Deus e o Mensageiro; para o hadith, isso não é necessário. Quinto, cada palavra e expressão do Alcorão pertence ao próprio Deus, enquanto as palavras e os significados do hadith são do próprio Mensageiro. Sexto, é obrigatório tocar o Alcorão estando em ablução e pureza; não se pode tocá-lo sem ablução. Não existe instrução semelhante a respeito do hadith.[97************]

Em outras palavras, pode-se dizer que a diferença entre uma carta e uma mensagem oral é semelhante à diferença entre o Alcorão e o hadith. No caso da transmissão de uma mensagem oral por meio de uma pessoa, o conteúdo essencial é o que importa; a variação na língua ou nas palavras não faz diferença alguma. Mas não é assim no caso de uma carta. Primeiro, ela é redigida de acordo com a vontade própria de quem a envia e, segundo, nela são empregadas palavras e uma linguagem que expressam plenamente o pensamento e a intenção do remetente. Na transmissão de uma mensagem oral, porém, não há essa mesma obrigação quanto às palavras e à linguagem.

Embora o Alcorão e o hadith tenham, por suas características próprias, essa diferença — o Alcorão pode ser considerado a carta escrita pelo próprio Deus, enquanto o hadith é a mensagem oral de Deus —, é também indispensável lembrar que o Profeta Universal, Hazrat Muhammad (que a paz esteja com ele), é o porta-voz de ambas, a “carta” e a “mensagem oral” de Deus. Por isso, assim como é absolutamente necessário receber dele a carta escrita de Deus (o Alcorão), também é absolutamente necessário conhecer e aceitar sua mensagem oral (o hadith). Essas duas coisas enviadas por Deus estão intimamente ligadas entre si. Ao aceitar uma e rejeitar a outra, o objetivo fundamental estará inevitavelmente destruído.

Hazrat Abdullah ibn Masud (que Deus esteja satisfeito com ele) disse:

******************************************************

Quando relato um hadith, informo-vos apenas de que ele é corroborado pelo Alcorão.[৯৮***********]

Ibn Zubair disse:

******************************************************

Todo hadith que chegou até mim, encontrei no Livro de Allah a sua confirmação e a prova da sua veracidade. [৯৯**********]

A opinião unânime dos imãs da Sharia foi:

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Toda a Sunnah e os hadiths são uma explicação do Alcorão.

 

A importância do hadith no sistema de vida islâmico

O Hadith é um tesouro inestimável da comunidade islâmica e uma das fontes indispensáveis da Sharia islâmica. É inconcebível conceber um modo de vida islâmico deixando o Hadith de lado. Antes de determinar a importância do Hadith, é absolutamente necessário determinar a importância e a posição do próprio Nobre Mensageiro (S).

Do ponto de vista do Islã, as ordens e proibições do Mensageiro, todos os seus atos e condutas, suas palavras — em suma, as palavras proferidas por sua boca e toda a sua vida ativa — constituem um grande modelo que a comunidade islâmica deve seguir rigorosamente. O propósito fundamental de Allah ao enviar o Mensageiro foi que a comunidade o seguisse plenamente e, além de cumprir integralmente suas ordens e determinações, seguisse também o seu modo de vida prático. O Alcorão Majid declarou claramente o propósito do envio do Mensageiro, dizendo:

******************************************************

Enviei o Mensageiro unicamente com o propósito de que, com a permissão de Allah, ele fosse seguido e obedecido. [Surata An-Nissá, versículo 64.]

Em outro versículo, Allah, o Altíssimo, ordenou claramente a obediência ao Mensageiro e o ato de segui-lo, dizendo:

******************************************************

Ó vós que credes, obedecei a Allah e ao Seu Mensageiro; depois de ouvirdes as suas ordens, não lhes desobedeçais, voltando-lhes as costas. E não sejais como aqueles que dizem: “Ouvimos”, mas, na prática, não ouvem. [Surata Al-Anfal, versículos 20 e 21.]

Aqui, primeiro foi ordenado aos crentes que obedecessem a Allah e, juntamente com isso, que seguissem e obedecessem também ao Mensageiro. A obediência a Allah e ao Mensageiro foi ordenada por meio da mesma ******** palavra imperativa: “obedecei”. Foi declarado dever do muçulmano obedecer tanto a Allah quanto ao Mensageiro, e não foi feita qualquer distinção entre ambos no que diz respeito a esse dever. Contudo, exteriormente, pode-se apontar apenas a seguinte diferença: o nome de Allah foi mencionado primeiro; portanto, deve-se obedecer a Ele essencial e primeiramente, e somente depois obedecer ao Mensageiro.

Em segundo lugar, pode-se obedecer a Allah observando as ordens e proibições do Livro de Allah, o Alcorão Sagrado. E deve-se obedecer ao Mensageiro observando as suas ordens e proibições, bem como a conduta e os costumes por ele seguidos. As ordens e proibições de Allah encontram-se no Alcorão Sagrado, dividido em trinta partes; mas onde se encontrarão as ordens e proibições do Mensageiro? Encontram-se, por meio do Hadith, esse magnífico tesouro que contém as palavras, as ações e as aprovações do Mensageiro.

Allah, o Altíssimo, disse:

******************************************************

Dize: “Ó Profeta, se amais Allah, segui-me; então Allah vos amará e perdoará os vossos pecados. Certamente, Allah é Perdoador, Misericordioso.” [Surata Al Imran, versículo 31.]

Isto é, a exigência inevitável e a condição efetiva do amor a Allah consistem em seguir, na prática, o Mensageiro; o único caminho e meio para obter o amor de Allah e o perdão dos pecados junto a Ele é seguir o Mensageiro (que a paz esteja com ele). Sem seguir o Mensageiro, não é possível obter o amor de Allah nem o perdão dos pecados junto a Ele. E não é somente isso: se a pessoa não seguir o Mensageiro, não poderá ser crente nem permanecer muçulmana; ao contrário, tornar-se-á incrédula.

Allah, o Altíssimo, disse:

******************************************************

Dize: “Ó Profeta, obedecei a Allah e ao Mensageiro; mas, se não o fizerdes, sabei que Allah não ama os incrédulos.” [Surata Al Imran, versículo 32.]

Também neste versículo, no que diz respeito à obediência, foi concedida ao Mensageiro uma posição distinta, depois de Allah e imediatamente junto a Ele. Portanto, não basta obedecer somente a Allah; é preciso também obedecer ao Mensageiro. Assim como uma pessoa se torna kafir se não obedece a Allah, do mesmo modo se torna kafir se não obedece ao Mensageiro. A parte final do versículo expressa isso claramente. Além disso, é dito que Allah de modo algum ama nem aprova esses kafirs.

Há uma razão especial para que a obediência ao Mensageiro, juntamente com a obediência a Allah, seja tão enfaticamente exigida para que alguém seja muçulmano. Na realidade, transmitir apenas a palavra de Allah não é a única função do Mensageiro. Sem dúvida, também é função do Mensageiro divulgar amplamente a palavra de Allah, explicá-la detalhadamente às pessoas, formar, com base nela, suas mentes, caráter e vidas, e estabelecer, de acordo com ela, uma sociedade ideal.

Sobre isso, é dito no Alcorão Majid:

******************************************************

Foi Ele, o Grandioso Allah, que enviou aos iletrados um Mensageiro dentre eles mesmos. O Mensageiro recita diante deles os versículos de Allah, purifica-os e os organiza, e lhes ensina o Livro e a Hikmat, embora antes disso estivessem mergulhados em evidente extravio. [Surata Al-Jumu’a, versículo 2.]

Neste versículo, são anunciadas três responsabilidades e deveres claros do Nobre Profeta:

Primeiro: recitar os versículos do Alcorão e, depois de recitá-los, fazê-los ouvir às pessoas. Segundo: purificar e depurar os corações e as mentes das pessoas, educá-las e formá-las segundo os padrões de um ideal especial e definido. Purificá-las da imundície do shirk e da falta de caráter.

Terceiro: ensinar o Livro de Allah e os conhecimentos necessários, desenvolver a inteligência e os talentos indispensáveis à concretização do modo de vida islâmico e ensinar a ‘Sunnah’.

Na passagem em discussão, as ações cuja realização é ordenada no primeiro e no terceiro estágios — recitar os versículos e ensinar o Livro — são do mesmo tipo? Se fossem do mesmo tipo, esta passagem estaria, sem dúvida, viciada pelo defeito da repetição. Nesse caso, deveriam ter sido empregadas palavras do mesmo tipo em ambos os casos. Contudo, em ambos os casos foram usadas palavras completamente distintas. Assim, devido à diferença de significado, elas se apresentam como duas ações independentes. Na realidade, a “recitação dos versículos” e o “ensino do Livro” são duas ações diferentes, responsabilidades especialmente distintas.

Portanto, juntamente com a recitação do Alcorão, a explicação de seus termos técnicos difíceis e novos, a análise dos assuntos por ele indicados, a ampliação dos temas resumidos e sua concretização e estabelecimento por meio de suas próprias palavras e ações — tudo isso foi determinado como responsabilidade e dever do nobre Mensageiro.

Na parte final do versículo, fala-se do ensino do “Livro” e da “sabedoria”. “Al-Kitāb” significa o Nobre Alcorão, mas o que significa “sabedoria”?

Em muitos lugares do Nobre Alcorão, a palavra “sabedoria” é mencionada juntamente com “Al-Kitāb”, e foi declarado claramente que, assim como todos os Mensageiros receberam o Livro, também lhes foi concedida a sabedoria. Na surata Al ‘Imrān, foi dito:

******************************************************

Lembra-te de quando Allah tomou dos profetas o compromisso de que: “Hoje, concedi-vos o Livro e a sabedoria.” [Surata Āl ‘Imrān, versículo 81.]

Não há dúvida de que “Livro”, mencionado no versículo, significa o Livro celestial que contém a Palavra de Allah. Mas qual é o significado da palavra “sabedoria”? O que Allah, Exaltado seja, pretende fazer compreender por meio dela? Que outra coisa, além do Livro, Allah revelou aos Mensageiros, à qual Ele chamou de “sabedoria”? É necessário realizar uma pesquisa e uma investigação detalhadas a esse respeito.

Segundo os dicionários, a raiz da palavra “sabedoria” é *******, e seu significado é ****************** “proibir algo ou uma ação com o objetivo de corrigi-la”. É precisamente nesse sentido que o freio é chamado de “hākamatun” ******; pois, por meio dele, o cavalo é impedido de rebelar-se e de avançar arbitrariamente. É por causa dessa correspondência de significado que “sabedoria” é interpretada como — *************** colocar e manter as coisas em seus devidos lugares e colocá-las, confiná-las, em lugares inadequados.

No dicionário «Taj al-‘Urūs», ao se fazer uma análise mais aprofundada do termo, afirma-se:

******************************************************

No âmbito do julgamento e da decisão judicial, a justiça equitativa, a imparcialidade e a retidão são chamadas de «hikmat».

«Conhecer a verdadeira essência profunda e a realidade (Reality) das coisas e agir à luz desse conhecimento puro e preciso. Por isso, a “hikmat” divide-se em duas partes: uma relacionada ao conhecimento e outra de natureza prática, ou relacionada às ações. [Taj al-‘Urūs, discussão sobre o termo “hikmat”.]»

O Imame Rāghib al-Isfahānī escreveu:

******************************************************

Hikmat é alcançar a verdade objetiva com a ajuda do conhecimento e da razão, bem como possuir a capacidade e o talento para alcançar a verdade. Portanto, a “hikmat” de Allah consiste em conhecer e reconhecer bem todas as coisas e criar e inovar coisas novas com base no decreto definitivo. Já a “hikmat” do ser humano consiste em adquirir familiaridade e conhecimento acerca dos assuntos do mundo material e realizar boas ações.[107]

No livro Lisān al-‘Arab, afirma-se:

******************************************************

Na realidade, adquirir um conhecimento profundo e sutil sobre as coisas melhores e mais excelentes é Hikmat.[108]

O Imame Ibn Jarir at-Tabari, depois de mencionar as palavras de várias pessoas, escreveu:

******************************************************

A meu ver, a opinião correta sobre Hikmat é que Hikmat é o conhecimento sobre as ordens e proibições de Allah, o qual não é possível obter de modo algum sem a descrição do Mensageiro; e adquirir uma compreensão profunda e sutil a seu respeito também é Hikmat. Tudo aquilo que lhe é compatível e por meio do qual ela pode ser obtida também está incluído nela. Na minha opinião, a palavra “Hikmat” deriva de “Hakam”. Seu significado é distinguir entre a verdade e a falsidade. [109**************]

O Imame Shafi‘i (r) escreveu:

******************************************************

Ouvi de pessoas eminentes, dignas de confiança e supremamente versadas no conhecimento relacionado ao Alcorão; elas disseram: Hikmat é a Sunnat do Nobre Mensageiro (s).[Kitabur Risala; página 28.]

Depois, ele escreveu:

******************************************************

A Sunnah do Mensageiro é aquela Hikmat que foi infundida por Allah no coração abençoado do Hazrat. [Kitab al-Risala; página 28.]

Nos lugares do Alcorão Majestoso em que o “Al-Kitab” é mencionado juntamente com a “Al-Hikmat”, Kitab significa o Kalam próprio de Allah, que foi revelado ao Mensageiro e no qual foram descritas as ordens, proibições e exortações de Allah. Já “Al-Hikmat” significa o conhecimento puro e correto das verdades profundas de tudo isso, bem como a ação correta conforme esse conhecimento infalível. Com efeito, a cada Mensageiro foi concedida inteligência suficiente para possuir esse conhecimento infalível e agir corretamente de acordo com ele. No caso dos profetas e mensageiros, esta é a regra permanente e sem exceção de Allah.

De acordo com esta regra, ao último Profeta, Hazrat Muhammad (que a paz esteja com ele), também foi concedida a “Al-Hikmat” juntamente com o Al-Kitab, o Alcorão. Isso foi mencionado claramente em numerosas aleyas do Alcorão Majestoso. Aqui será citada uma dessas aleyas. Allah, o Altíssimo, declarou:

******************************************************

Ó Profeta, Allah fez descer sobre ti o “Al-Kitab” e a “Al-Hikmat”, e ensinou-te aquilo que não sabias. E isto é uma grande graça de Allah para contigo. [Surata An-Nisa, ayat 113.]

Esta “Al-Hikmat” concedida por Allah juntamente com o Alcorão é, sem dúvida, algo distinto do Alcorão. A sua Sunnah e a sua explicação detalhada encontram-se reunidas no patrimônio dos Hadithes. [É necessário compreender o significado de chamar Hikmat ao Hadith. O erudito Badruddin Aini escreveu: ********************** O significado de chamar Hikamat à Sunnah ou ao Hadith é que, por meio dele, se distinguiu entre a verdade e a falsidade ***************** e, por meio dele, foram explicadas as afirmações gerais do Alcorão.]

Que a al-Hikmah ou a Sunnah também foi revelada por Allah está claramente provado pelo versículo anteriormente mencionado. Na verdade, Allah Ta’ala não considerou suficiente revelar somente al-Kitab para orientar toda a humanidade e conduzi-la pelo caminho da Hidayah; juntamente com isso, considerou necessário enviar também o Mensageiro e a Sunnah do Mensageiro da parte de Allah. Caso contrário, somente al-Kitab não poderia proporcionar aos seres humanos nenhum benefício verdadeiro.

Explicar e analisar o Alcorão Majid também é uma das principais responsabilidades do Mensageiro. O versículo a seguir declara a importância da Sunnah ou dos Hadiths sob essa perspectiva. Allah Ta’ala declarou:

******************************************************

Ó Profeta, revelamos-te este Livro com o propósito de que expliques e esclareças diante das pessoas este Livro que lhes foi revelado, e também para que elas reflitam sobre ele e o estudem. Sura an-Nahl, versículo 44. Ao explicar o significado de “esclarecer”, Hafiz Ibn Abi al-Bar disse: O esclarecimento do Alcorão pelo Profeta foi de dois tipos. Primeiro, a explicação dos princípios gerais do Alcorão, como declarar as cinco orações diárias e seus horários, suas prostrações, inclinações e demais regras e mandamentos, bem como descrever os procedimentos do Hajj. Quando o Profeta realizou o Hajj, disse: “Aprendei de mim os procedimentos do Hajj”. Isso é necessário porque no Alcorão foram dadas apenas ordens gerais sobre a oração, o zakat e o Hajj; nenhuma explicação dessas práticas foi apresentada, nem lhes foi dada uma forma detalhada. É o Hadith que oferece a explicação e a análise.

O ponto central do versículo em questão é que o verdadeiro propósito de revelar o Alcorão ao Mensageiro foi apresentar ao povo uma explicação e uma análise detalhadas do Alcorão. Na verdade, para explicar corretamente e de modo completo qualquer assunto, três ações são absolutamente indispensáveis:

Primeiro, explicá-lo e analisá-lo por meio da palavra falada, revelando, através da discussão, a forma teórica e prática de cada assunto.

Segundo, tornar evidente seu valor e sua importância prática por meio das ações da própria vida e do modo de vida concreto.

Terceiro, esforçar-se para que as pessoas o ponham em prática e o implementem; manter uma vigilância atenta para verificar se estão compreendendo e seguindo corretamente seu significado; dedicar-se à verificação e à avaliação; quando se observar que ele está sendo corretamente posto em prática, apoiá-lo e aprová-lo; e, caso se perceba qualquer erro, engano, falha ou desvio, corrigi-lo.

Foi declarado que o Alcorão foi revelado ao nobre Profeta (s) com o propósito de que ele o apresentasse ao público de forma clara e luminosa sob esses três aspectos. O nobre Mensageiro (s) cumpriu essa responsabilidade plenamente e de maneira apropriada durante os vinte e três anos de sua vida profética. Tudo o que ele disse ou fez no cumprimento dessa responsabilidade constitui o registro confiável conhecido como hadith. Portanto, não pode haver dúvida de que o hadith é apoiado pelo Alcorão e de que nele não se encontra nada que não seja apoiado pelo Alcorão. Foi justamente por isso que o Imam Shatibi escreveu:

******************************************************

Na Sunna ou no hadith, só se encontrará aquilo que é plenamente apoiado pelo Alcorão. No hadith, não se encontrará nada que não seja apoiado pelo Alcorão. [115*********]

Os capítulos de exegese das coletâneas de hadith constituem a prova concreta de que o nobre Mensageiro (s) explicou e analisou diversos versículos importantes do Alcorão Sagrado. Quando os Companheiros nobres (r.a.) não conseguiam compreender o significado correto de certos versículos e, por isso, ficavam profundamente aflitos, o nobre Mensageiro (s) explicava e analisava esses versículos, afastando a preocupação dos Companheiros. Como exemplo, pode-se mencionar o seguinte versículo do Alcorão. O Altíssimo declarou:

******************************************************

Aqueles que creem e não misturam sua fé com qualquer forma de injustiça………….

Quando foi revelado, isso se tornou motivo de grande preocupação para os Companheiros. Eles perguntaram ao Mensageiro para conhecer seu significado correto:

******************************************************

Quem há entre nós que não tenha misturado sua fé com o zulm?

Ao ouvir essa pergunta, o nobre Profeta (s) compreendeu que esse versículo havia se tornado extremamente difícil de entender para os nobres Companheiros. Então, o nobre Profeta (s) disse:

******************************************************

O significado do versículo não é aquilo que vocês imaginaram. Aqui, zulm significa apenas shirk. Vocês não ouviram que Luqman disse a seu filho: ‘Ó meu querido filho, não associes parceiros a Allah; certamente, o shirk é uma grande injustiça, sem dúvida.’ [Sahih Bukhari Sharif, volume 2, Kitab at-Tafsir, página 708.]

Os nobres Companheiros encontraram consolo ao conhecerem do Mensageiro a verdadeira explicação desse versículo. Por isso, para conhecer também a explicação teórica do Alcorão Majid, todo o mundo muçulmano depende dos hadiths do Mensageiro. Sem a explicação do Mensageiro, não pode haver outro meio confiável de conhecer o significado correto do Alcorão.

Em outro versículo, Allah, o Altíssimo, disse:

******************************************************

Ó Profeta, fizemos descer sobre ti este Livro com a verdade, para que julgues entre as pessoas de acordo com o método e as normas demonstrados por Allah. [Surata An-Nisa, versículo 105.]

Allah, o Altíssimo, revelou o Livro com o propósito de que o nobre Mensageiro julgasse entre as pessoas; mas de que maneira ele deveria fazê-lo? Em resposta, foi dito: ************ “Pelo método que Allah te mostrou”. Assim, tal como o Livro original foi revelado por Allah, também o método para estabelecer o julgamento e a justiça de acordo com ele foi recebido por meio da revelação. [Tafsir Ruh al-Ma‘ani, vol. 5, p. 140. Tafsir al-Baydawi, vol. 1, p. 205. Ambos fizeram o tafsir de ************* como ********* “aquilo que Ele te fez compreender e sobre o qual enviou revelação a ti”.] E a explicação disso só pode ser obtida por meio dos hadiths. Com relação ao Nobre Alcorão, Allah, o Altíssimo, assumiu pessoalmente a responsabilidade por várias tarefas importantes. Sobre isso, o próprio Allah disse:

******************************************************

Certamente, cabe a Mim a sua compilação e a sua recitação. Portanto, quando Eu o recitar, segue a sua recitação. Além disso, cabe a Mim também fornecer a sua explicação e elucidação. [Surata al-Qiyamah, versículos 17, 18 e 19.]

De acordo com este versículo, Allah, o Altíssimo, assumiu pessoalmente a responsabilidade por três tarefas; são elas:

a) A preservação, compilação e organização do Nobre Alcorão.

b) Ensinar a recitação do Nobre Alcorão.

c) Explicar o significado, o sentido e a importância do Alcorão.

Mas é preciso analisar como Allah, o Altíssimo, realizou essas três tarefas. É do conhecimento geral que Allah, o Altíssimo, ensinou o Nobre Alcorão ao Mensageiro por intermédio de Gabriel; ao mesmo tempo que Gabriel o recitava, ordenou ao Mensageiro que acompanhasse essa recitação e ensinou-lhe a estudá-lo; e, dessa forma, fez com que o Alcorão completo fosse preservado e organizado no coração do Mensageiro. Entre as três tarefas de Allah, as duas primeiras foram concluídas dessa maneira. Mas como foi realizada a terceira tarefa? Certamente, Allah ensinou ao Mensageiro o significado, o sentido, a importância do Alcorão e a explicação das suas partes difíceis, e isso foi feito de forma independente do Alcorão. Na realidade, todos os ensinamentos que Allah transmitiu a esse respeito estão preservados nos hadiths.

A responsabilidade de determinar o que é halal e haram para os que creem no ideal de vida islâmico foi confiada ao Mensageiro. O Mensageiro cumpriu essa tarefa como representante de Allah. No Alcorão, foi dito claramente:

******************************************************

O Mensageiro ordena as boas ações; impede as pessoas de praticarem más ações; torna halal para as pessoas as coisas boas e excelentes e declara haram as coisas más e abjetas. [Surata Al-A‘raf, 157.]

Portanto, é dever de todo muçulmano crer e seguir todas as ordens, proibições e exortações do Mensageiro, bem como o halal e o haram por ele declarados. O registro detalhado de todas essas ações encontra-se preservado nos hadiths. Allah enviou o Mensageiro como árbitro final nas disputas e controvérsias mútuas dos muçulmanos. Sobre isso, foi feita uma declaração em linguagem extremamente enfática no seguinte versículo do Alcorão:

******************************************************

Juro pelo teu Senhor: eles não poderão ser crentes de modo algum até que te aceitem — ó Profeta — como juiz e árbitro em todas as questões entre eles, não sintam em seus corações qualquer constrangimento quanto à tua decisão e a aceitem de todo o coração. [Surata An-Nissá, versículo 65.]

Também é dever de todo muçulmano obedecer ao Mensageiro em todos os aspectos da vida. Sobre isso, Allah, o Altíssimo, disse:

******************************************************

Ó crentes, obedecei a Allah, obedecei ao Mensageiro e também aos responsáveis dentre vós,,,,,,,,,,,,,,. Se divergirdes entre vós sobre alguma questão, remetei-a a Allah e ao Mensageiro.[Surata An-Nissá, versículo 59.]

Neste versículo, é dada, em linguagem clara, a ordem de obedecer a três entidades distintas. Primeiro, a obediência a Allah; segundo, a obediência ao Mensageiro; e terceiro, a obediência aos responsáveis muçulmanos. Como, no caso de Allah e do Mensageiro, a palavra ‘obediência’ é mencionada duas vezes de forma explícita ******* , ambas as obediências foram estabelecidas como fundamentais e dotadas de uma posição independente. De acordo com esta instrução, a obediência a Allah pode ser efetivada seguindo o Nobre Alcorão. Mas qual é o caminho para efetivar a ordem ‘obedecei ao Mensageiro’?…………… Por isso, não pode haver outro meio além de aceitar e seguir o Hadith. Por outro lado, foi ordenado retornar a Allah e ao Mensageiro para a resolução final de questões divergentes. Pode-se retornar a Allah recorrendo ao Livro de Allah; mas, na ausência do Mensageiro, qual pode ser o meio de retornar ao Mensageiro? O meio é aceitar a Sunnah ou o Hadith do Mensageiro. Somente fazendo isso será possível cumprir esta ordem de Allah. Não há outro meio além deste. Por isso, ao comentar o versículo acima mencionado, Maymun ibn Mahran disse:

******************************************************

Retornar a Allah significa retornar ao Livro de Allah, e retornar ao Mensageiro significa apresentar a questão pessoalmente a ele durante a vida do Nobre Mensageiro. Quando Allah lhe tomou a alma, o significado prático disso passou a ser retornar à sua Sunnah. [123*********]

O erudito Ibn Hajar al-Asqalani escreveu, ao comentar este versículo:

******************************************************

Embora, na realidade, o único verdadeiramente digno de receber obediência seja Allah, apesar disso, uma nova ordem para obedecer também ao Mensageiro foi dada. Porém, antes do subsequente ‘ulil amr’ ******** , a ordem ‘obedecei’ não foi repetida. A razão é que as pessoas são obrigadas a seguir apenas duas coisas: o ‘Alcorão e a Sunnah’. Portanto, o significado aqui é: obedecei a Allah nas questões sobre as quais foi dada uma decisão clara no Alcorão; e obedecei ao Mensageiro naquilo que, tendo sido conhecido a partir do Alcorão, vos foi comunicado, e naquilo que vos foi comprovado mediante as provas da Sunnah. Assim, o significado geral do versículo é o seguinte: obedecei a Allah cumprindo as ordens que vos forem dadas a partir da revelação que é recitada. E obedecei ao Mensageiro cumprindo as ordens que vos forem dadas a partir da revelação que não é o Alcorão.[*****************************]

O erudito Tayyibi escreveu, ao comentar este versículo:

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O fato de a ordem de obedecer ter sido repetida nas palavras “obedecei ao Mensageiro” no mandamento de Allah demonstrou que o Nobre Mensageiro (S) tem o direito de receber uma obediência independente, autônoma e plena. Quanto a “ulul-amr”, o fato de essa expressão não ter sido repetida demonstrou que “ulul-amr” também pode ser alguém cuja obediência não é obrigatória. [125**************]

Quão grave pode ser o pecado de desobedecer ao Nobre Mensageiro (S)? Sobre isso, podemos conhecer muitos ensinamentos a partir do versículo citado abaixo. Allah, o Altíssimo, declarou:

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Ó crentes! Quando vos reunirdes para consultas mútuas, não consulteis sobre o pecado, a transgressão e a desobediência ao Mensageiro. Consultai, antes, sobre a bondade e aquilo que conduz ao temor de Allah. E temei Allah, perante Quem todos vós sereis reunidos. [Surata Al-Mujadalah, versículo 9]

Neste versículo, é proibido especificamente desobedecer ao Mensageiro. De um lado, são mencionados o pecado, a transgressão e a desobediência ou rebeldia contra o Mensageiro; de outro, são mencionadas a bondade e as ações que conduzem ao temor de Allah. Isso significa que, assim como a desobediência e a oposição ao Mensageiro constituem pecado e transgressão, do mesmo modo a pessoa fica privada de toda bondade, boas ações e temor de Allah. Na parte final do versículo, ao mencionar a vida futura, declara-se que quem desobedecer e se opuser ao Mensageiro sofrerá um severo castigo no Dia da Ressurreição.

Obedecer e seguir o Mensageiro é um dever eterno na vida do muçulmano. Allah, o Altíssimo, declarou:

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Portanto, crede em Allah e no Seu Profeta «ummi», que crê no próprio Allah e na Sua Palavra, e segui-o. [Surata Al-A‘raf, versículo 159]

Foi declarado em outro versículo:

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Aceitai e guardai plenamente tudo aquilo que o Mensageiro vos der; e abstende-vos de tudo aquilo que ele vos proibir. Temei a Allah (no que diz respeito a obedecer às ordens e proibições do Mensageiro); certamente, Allah é severo no castigo. [Surata Al-Hashr, versículo 7]

Se desobedecerdes às ordens e proibições do Mensageiro ou vos opuserdes a ele, Allah conceder-vos-á um severo castigo. Ele declarou:

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Aqueles que se opõem à ordem do Mensageiro devem temer que lhes sobrevenha alguma calamidade ou que sejam lançados num castigo doloroso. [Surata An-Nur, versículo 63]

A orientação e a obtenção da prosperidade pelo ser humano dependem inteiramente de reconhecer a «ita‘at», ou obediência, ao Mensageiro e de viver a vida prática com base em segui-lo.

Allah, o Altíssimo, disse:

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Somente obedecendo e seguindo o Mensageiro alcançareis a orientação.[Surata An-Nur, versículo 54]

Além disso, a obediência a Allah também depende da obediência ao Mensageiro. Em outras palavras, não é possível obedecer a Allah sem obedecer ao Mensageiro. É precisamente isso que foi dito com clareza no versículo a seguir:

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Quem obedecer ao Mensageiro terá, de fato, obedecido a Allah.[Surata An-Nisā’, versículo 80]

O ‘ittibā’ e a obediência ao Mensageiro

Nos versículos acima mencionados, juntamente com o reconhecimento da obediência a Allah, foi ordenado claramente que se obedeça e se siga também o Mensageiro. Para compreender corretamente essa ordem de Allah, é necessário explicar e analisar detalhadamente os dois termos ‘ittibā’ e ‘itā‘at’ usados no Alcorão. Aqui discutiremos detalhadamente esses dois termos.

Na língua árabe, ‘ittiba’ (*******) significa seguir alguém, caminhando atrás dele. Ibn Manzur disse em sua famosa obra lexicográfica ‘Lisan al-Arab’:

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O imame al-Farra, autoridade em lexicografia e gramática, diz: ‘Ittiba’ significa que alguém caminha à frente e tu caminhas atrás dele. Assim, se disseres: “Eu faço ‘ittiba’ dele”, isso significará que estás caminhando atrás dele, seguindo as suas pegadas.

Na obra ‘Taj al-Urus’, está dito:

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‘Tubbu’ ou ‘tubbu’, assim como ‘sukkaru’, significa sombra. É chamada de sombra porque está sempre seguindo o sol. Sob essa perspectiva, também se chama ‘tubba’ a abelha macho mais elevada e excelente entre as abelhas. Isso porque todas as abelhas comuns a seguem cegamente.

O imame Abul Al-Amadi, ao explicar o seu significado terminológico, disse:

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“Mutābi‘at—seguimento— às vezes se refere a palavras, e às vezes a fazer ou não fazer alguma coisa. No caso das palavras, ‘ittibā‘ significa agir de acordo com a exigência e a natureza daquilo que foi dito. No caso das ações, ‘ittibā‘ significa ver a ação de alguém e realizá-la exatamente da maneira como ele a realiza. E essa ação será feita precisamente porque ele a está fazendo.[***************]

À luz desta explicação e análise, pode-se dizer que, para fazer o ‘ittibā‘ do Mensageiro conforme a ordem de Allah, Exaltado seja, cada palavra do Mensageiro deve ser cumprida exatamente da maneira que corresponde ao objetivo e à exigência de suas palavras, e suas ações devem ser realizadas exatamente da maneira como ele as realizou. Caso contrário, não se poderá cumprir a ordem de Allah de fazer o ‘ittibā‘ do Mensageiro.

A palavra ‘itā‘at’ (**********) também requer uma explicação semelhante. Na língua árabe, ‘itā‘at’ significa inclinar a cabeça em obediência diante de alguém e cumprir devidamente as ordens e determinações de outra pessoa.

Está mencionado na obra ‘Lisān al-‘Arab’:

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Na autorizada obra de dicionário intitulada ‘Tahdhīb’, afirma-se que ************* significa inclinar a cabeça em obediência diante de alguém. Quando uma pessoa cumpre a ordem de outra, diz-se: ********** ela lhe obedeceu.[*****************]

O imã Abū al-Ḥasan al-Āmidī, ao explicar o significado terminológico da palavra ‘itā‘at’, disse:

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Se alguém age como outra pessoa com o propósito de considerá-la grande ou de engrandecê-la, diz-se que ele lhe foi obediente.

Desta discussão sobre os sentidos lexicais e terminológicos das duas palavras, ittibāʿ e itāʿat, ficou indubitavelmente comprovado que aceitar plenamente as palavras e as ações do Mensageiro e cumpri-las devidamente — em suma, prestar-lhe plena obediência e segui-lo — é dever de todo muçulmano. E, visto que todos os relatos das palavras e ações do Mensageiro só podem ser conhecidos por meio dos hadiths, a importância dos hadiths no Islã é, por isso, inegável.

Neste contexto, considera-se necessário mencionar ainda outro versículo do Alcorão Sagrado. Allah, o Altíssimo, declarou:

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Depois que Allah e o Mensageiro tiverem emitido uma decisão e uma ordem sobre qualquer assunto, nenhum homem ou mulher crente pode ter qualquer escolha quanto a aceitá-la ou não. Quem desobedece a Allah e ao Seu Mensageiro se desvia e se afasta muito do Islã. [Surata Al-Ahzab, versículo 36.]

Deste versículo, aprendem-se simultaneamente três coisas. Primeiro: assim como Allah tem o direito de decidir ou ordenar livremente sobre qualquer assunto, o Mensageiro de Allah também tem exatamente esse direito. Segundo: assim como os homens e mulheres crentes são obrigados a aceitar as ordens e decisões de Allah, também são obrigados, da mesma forma, a aceitar as decisões e ordens do Mensageiro. Terceiro: assim como uma pessoa se torna desviada e incrédula por não aceitar as ordens e decisões de Allah, também se torna desviada e incrédula por não aceitar as decisões e ordens do Mensageiro.

Portanto, assim como o Alcorão Sagrado, aceitar as ordens e decisões do Mensageiro, registradas de modo confiável nos hadiths, é absolutamente indispensável para que todo muçulmano seja crente e viva como crente.

 

A indispensabilidade dos hadiths

O Hadith é o intérprete e explicador do Alcorão Sagrado. Sem recorrer ao Hadith, é extremamente difícil interpretar e compreender corretamente o Alcorão Sagrado, bem como determinar seu verdadeiro propósito e orientação. Foi por isso que o Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) pronunciou uma severa advertência sobre interpretar o Alcorão segundo a própria opinião, dizendo:

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Quem interpreta o Alcorão Sagrado segundo a própria opinião é como alguém que procura para si um assento no Inferno. [Tirmidhi, Abwab at-Tafasir, narrado por Ibn Abbas.]

Foi narrado no Hadith:

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Quem interpreta o significado do Alcorão Sagrado segundo a própria opinião comete um erro, mesmo que sua interpretação esteja correta. [Tirmidhi, Abwab at-Tafasir, narrado por Jundub.]

Na verdade, por mais aguda, penetrante e abrangente que seja a inteligência humana, ela é necessariamente limitada. Ao alcançar determinado limite, é obrigada a fracassar e a declarar e provar sua própria incapacidade. O racionalismo, porém, ou o culto à razão, não está disposto a reconhecer limite algum. Se a inteligência e o discernimento não forem controlados pela Sunna do Mensageiro, isso nada mais será que racionalismo e culto ao discernimento. Esse racionalismo e esse culto ao discernimento obrigam o ser humano a transgredir os limites da obediência a Allah. Além disso, por um lado, o Alcorão é submetido à injustiça por meio de interpretações errôneas, falsas e contrárias, e, por essa razão, as pessoas são privadas da graça de viver de acordo com o Alcorão; por outro lado, surgem profundas divergências entre os crentes no Alcorão e diversas ideologias ou perspectivas conflitantes, fazendo com que a sociedade muçulmana se divida em muitos grupos. Muitas pessoas aproveitam ainda essa oportunidade para agir arbitrariamente em relação ao Alcorão e começam a extrair, de cada linha dele, interpretações baseadas em suas próprias ideias inventadas ou em pensamentos estranhos. O Hadith do Mensageiro cria um forte obstáculo nesse caminho. É ele que apresenta às pessoas a ampla estrada da orientação corânica, protege-as da perdição e da confusão e as conduz ao caminho correto, reto e direto.

O Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) é o portador do Alcorão, e foi sobre ele que o Alcorão foi revelado; contudo, ele não apresentou às pessoas somente o Alcorão. Tendo o Alcorão como base e centro, ele apresentou um sistema completo do Islam. Por isso, ele próprio declarou de várias maneiras a importância da Sunna e do Hadith juntamente com o Alcorão. Aqui consideramos necessário mencionar, a esse respeito, alguns Hadiths importantes.

Hazrat Miqdad ibn Ma‘di Karib (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: o Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) disse:

******************************************************

Atenção: foi-me dado o Alcorão e, juntamente com ele, algo semelhante a ele. Atenção: talvez algum homem afortunado, sentado em seu assento de grandeza, comece a dizer: “Aceitai somente este Alcorão; considerai lícito aquilo que nele encontrardes como lícito e considerai ilícito aquilo que nele encontrardes como ilícito.” Contudo, a verdadeira questão é que aquilo que o Mensageiro tornou ilícito é tão vinculante quanto o ilícito declarado por Allah.[Ibn Majah, página 3; Abu Dawud, Kitab as-Sunnah: *********************]

Este mesmo hadith foi mencionado na obra ‘Sunan ad-Darimi’ com as seguintes palavras:

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Talvez alguém se sente reclinado em seu assento, mencione algo que eu disse e diga: “Entre vós e nós há somente o Livro de Allah. Tudo o que nele encontrarmos como lícito, consideraremos lícito; e tudo o que encontrarmos como ilícito, aceitaremos como ilícito.” (Então o Mensageiro diz:) Atenção: aquilo que o Mensageiro de Allah tornou ilícito é como o ilícito determinado por Allah.[Sunan ad-Darimi, página 70.]

Esta declaração do Mensageiro aparece de modo ainda mais claro no hadith a seguir. Hazrat Ibráz ibn Sariya diz:

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O Nobre Profeta (s) disse: Será que algum de vós, sentado em seu assento, imagina que Allah, o Altíssimo, nada proibiu além do que é mencionado no Alcorão? Cuidado! Juro por Allah: eu também ordenei muitas coisas, dei muitos conselhos e proibi muitas coisas; e isso também é digno de ser obedecido, tal como o Alcorão, ou até mais. [Sunan Abu Dawud, Kitab al-Sunnah; em sua cadeia de transmissão, Ashyas ibn Shu’ba é um narrador; contudo, foram levantadas objeções quanto à aceitação dos hadiths narrados por ele.]

O Hadith também deve ser aceito juntamente com o Alcorão, e o fato de que nenhum hadith autêntico pode ser contrário ao Alcorão é comprovado pelo hadith a seguir. Certa vez, Hazrat Sa’id ibn Jubayr (ra) narrou um hadith do Nobre Profeta (s). Um homem presente disse:

******************************************************

Há no Alcorão, sobre este assunto, algo que é contrário a este hadith.

Então Hazrat Sa’id disse:

******************************************************

Estou narrando para ti um hadith do Mensageiro, e tu falas de sua contradição com o Livro de Allah. No entanto, o Nobre Mensageiro conhecia o Livro de Allah melhor do que tu. [Sunan al-Darimi, página 77.]

Seguir o caminho da orientação e proteger-se do desvio depende de aceitar e praticar tanto o Alcorão quanto o Hadith. Neste contexto, serão mencionados aqui dois hadiths narrados pelo Nobre Mensageiro (s). Hazrat Abu Hurayra (ra) disse: o Nobre Profeta (s) declarou:

******************************************************

Deixo entre vós duas coisas. Enquanto continuardes a seguir estas duas coisas, jamais vos desviareis. Elas são o Livro de Allah e a minha Sunnah (hadith); e estas duas coisas jamais se separarão uma da outra até que compareçais, no Dia da Ressurreição, junto ao “Hawd al-Kawthar”. [Mustadrak al-Hakim, volume 1, página 13.]

Na alocução do Mensageiro (S) durante a Peregrinação de Despedida, ele disse:

******************************************************

Duas coisas que deixo entre vós: enquanto vos apegardes firmemente a estas duas coisas, jamais vos desviareis. Elas são o Livro de Allah e a Sunnah do Mensageiro. [Ibid., narrado por Malik ibn Anas.]

Na narração de Ibn Ishaq, o texto desta alocução é o seguinte:

******************************************************

Deixo entre vós algo que, se vos apegardes firmemente a isso, jamais vos desviareis. Trata-se do Livro de Allah e da Sunnah do Seu Profeta (S). [Tafsir Ruh al-Ma‘ani, volume 5, página 198.]

Na Sīrat de Ibn Hisham, esta parte do sermão da Peregrinação de Despedida é narrada com as seguintes palavras:

******************************************************

Ó humanidade, deixei entre vós um tesouro; se vos apegardes firmemente a ele, jamais vos desviareis. Esse tesouro é o Livro de Allah e a Sunnah do Seu Profeta.

Na assembleia de Hazrat Imran ibn Husayn (que Allah esteja satisfeito com ele), um homem disse:

******************************************************

Não nos narrareis nada além do Alcorão.

Então Hazrat Imran chamou aquele homem e disse-lhe:

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Você já refletiu: se você e seus companheiros fossem deixados a depender exclusivamente do Alcorão, encontrariam nele a menção às quatro rakʿahs da oração do zuhr, às quatro do asr e às três do maghrib?

Ao mencionar o Hajj, disse:

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Somente no Alcorão Sagrado você encontra a prescrição de realizar sete voltas em torno da Casa de Deus, o tawaf entre Safa e Marwah, permanecer na planície de Arafat e lançar pedras?

Ele também disse: No Alcorão foi ordenado cortar a mão do ladrão, mas—

******************************************************

De que ponto deve ser cortada a mão do ladrão?…………… Está escrito no Alcorão se é daqui ou daqui?

A importância e a indispensabilidade da Sunnah e dos hadiths tornam-se claramente evidentes a partir desses argumentos. Os sábios das primeiras gerações reconheciam plenamente a sua importância. Os nobres Companheiros, os tabiʿun e os atbaʿ al-tabiʿin aceitavam tanto o hadith quanto o Alcorão como matérias de cumprimento obrigatório. Uma discussão detalhada sobre isso será apresentada no devido lugar. Aqui, a propósito, mencionaremos algumas declarações dos sábios das gerações anteriores, pelas quais se tornará claramente evidente a importância de aceitar o hadith e a Sunnah.

Nesta etapa, é necessário mencionar primeiro um episódio da época dos Companheiros. Um homem disse a Hazrat Imran ibn Husayn (r.a.):

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Vocês nos relatam hadiths cuja base fundamental não conseguimos encontrar no Alcorão.

Com isso, Hazrat Imran ficou extremamente irado e, dirigindo-se ao homem que fizera a pergunta, disse:

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Deveis pagar um dirham de zakat por cada quarenta dirhams; por cada quarenta cabras, deveis dar uma cabra; e por cada vinte e cinco camelos, um camelo — encontrais acaso no Alcorão Majid o nisab da zakat?

Em outras palavras, a ordem explícita de dar zakat foi claramente mencionada no Alcorão Majid; mas foram nele mencionadas suas normas e disposições detalhadas?

O homem disse: “Não, isso não se encontra no Alcorão.” Então Hazrat Imran disse:

******************************************************

Então, de quem vocês puderam conhecer essas normas detalhadas da zakat? Tudo isso vocês receberam de nós (os Companheiros), e nós o recebemos do Mensageiro de Allah (por meio dos hadiths).

Com base neste hadith, os muhaddiths comprovaram por unanimidade o seguinte princípio e regra:

******************************************************

As normas fundamentais de todas as questões estão mencionadas no Alcorão; porém, todos os seus pormenores, ramificações e regras práticas foram conhecidos por meio das declarações do Mensageiro.

Makhul al-Dimashqi disse:

******************************************************

O Alcorão depende mais do hadith ou da sunna, enquanto a sunna não depende tanto do Alcorão.

O imame Al-Awza’i também disse isto nas seguintes palavras:

******************************************************

A Sunnah é mais necessária para explicar o Livro de Allah, mas o Alcorão não é tão necessário para explicar a Sunnah.

Yahya ibn Abi Kathir disse:

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A Sunnah ou Hadith é mais determinante do que o Alcorão; o Alcorão não pode emitir uma decisão contrária à Sunnah.

Ao explicar estas duas afirmações, o imame Ahmad ibn Hanbal disse:

******************************************************

A Sunnah ou o Hadith é aquele que explica e analisa o Alcorão, e a Sunnah expõe seu significado em linguagem clara.

Shah Waliullah Dehlawi declarou a importância e a indispensabilidade do Hadith nas seguintes palavras:

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******************************************************

A ciência do Hadith é superior e melhor que todos os tipos de conhecimento e ciência, e constitui a base dos diversos aspectos da religião islâmica. No Hadith estão narradas as palavras, ações e aprovações provenientes do mais nobre dos Profetas e de seus Companheiros. Na verdade, ele é um farol de luz em meio às trevas; é como uma lua cheia que ilumina em todas as direções. Quem o seguir e dele se apropriar encontrará o caminho reto e alcançará imenso bem. Mas quem o rejeitar e dele se afastar se desviará, seguirá os desejos e, por fim, sofrerá uma perda ainda maior. Pois o Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) proibiu muitas ações e ordenou muitas outras. Advertiu sobre as consequências dos pecados e anunciou as boas-novas da recompensa pelas boas ações. Ele aconselhou as pessoas por meio de muitos exemplos. Portanto, ele é certamente tão importante quanto o Alcorão, ou até mais importante.

Shah Dehlawi também disse:

******************************************************

A Sunnah ou o Hadith é precisamente o intérprete do Alcorão e de modo algum o contradiz.

Também é citada, neste contexto, a seguinte declaração do Imam Abu Hanifa:

******************************************************

Se não existisse a Sunnah ou o Hadith, nenhum de nós seria capaz de compreender o Alcorão.

Neste contexto, é especialmente digno de menção o seguinte:

******************************************************

Foi narrado por Rabia (que Allah esteja satisfeito com ele), que disse: «Certamente, Allah, o Altíssimo, revelou-te, ó Profeta, o Alcorão de forma extremamente detalhada; contudo, deixou nele espaço para o Hadith e a Sunnah. O Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) estabeleceu essa Sunnah e esse Hadith, embora também tenha deixado neles a possibilidade de praticar o ijtihad ou aplicar a própria opinião. [Tafsir Durre Mansur, Tarikh al-Tafsir, página 4.]

O Imam Ubayad escreveu:

******************************************************

Não há diferença entre os mandamentos de Allah e do Mensageiro acerca do que é lícito e ilícito. O Mensageiro jamais emitia um mandamento cujo contrário fosse comprovado pelo Alcorão. Pelo contrário, a Sunnah (Hadith) é a intérprete do Livro revelado por Allah e a explicadora das leis, normas e Shariah do Alcorão. [Kitab al-Amwal — Abu Ubaid, página 544.]

Quem rejeita o Hadith é kafir

Os imames da jurisprudência islâmica declararam, em total unanimidade, que quem rejeita o Hadith é desviado e alguém que saiu do Islam. Ishaq ibn Rahwayh disse:

******************************************************

Se um Hadith do nobre Mensageiro chegar a uma pessoa, e ela reconhecer sua veracidade e autenticidade, mas ainda assim o rejeitar sem qualquer motivo, então deverá ser considerada kafir.

O Imam Ibn Hazm escreveu em sua obra ‘Al-Ahkam’:

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Se alguém disser: “Aceitaremos apenas aquilo que se encontra no Alcorão; não aceitaremos nada além disso”, então, com base no consenso de toda a comunidade muçulmana, essa pessoa é kafir.

Hazrat Umar ibn al-Khattab (que Allah esteja satisfeito com ele) disse:

******************************************************

Em breve virão pessoas que discutirão convosco, duvidando do Alcorão; enfrentai-as por meio da Sunnah ou do Hadith. Pois o detentor da Sunnah ou o especialista em Hadith possui maior conhecimento sobre o Livro do Deus Altíssimo.*********************************

 

O Hadith e o ijtihad do Mensageiro

A humanidade recebeu duas coisas do nobre Profeta (que a paz esteja com ele). Uma é o Nobre Alcorão, e a segunda é a Sunnah. O Alcorão é diretamente a Palavra de Allah; foi revelado por meio da revelação, vindo diretamente de Allah. E a fonte fundamental da Sunnah também é a revelação. É verdade que o nobre Mensageiro (que a paz esteja com ele) fez ijtihad por si próprio em muitos casos; contudo, isso também não ocorreu sem revelação. Ou tem uma relação direta com a revelação, ou é apoiado e autorizado pela revelação. Portanto, o ijtihad do Mensageiro também deve ser reconhecido como uma fonte do Islã.

Neste contexto, é especialmente digno de nota o comentário de Shah Waliullah Dehlavi. Ao oferecer uma explicação clara e uma análise deste assunto, ele escreveu:

Os Hadiths narrados e citados nos livros de Hadith, provenientes do Mensageiro (que a paz esteja com ele), são de dois tipos. O primeiro tipo de Hadith é aquele que foi proferido com o objetivo de cumprir a missão da Mensagem. O versículo do Alcorão:

******************************************************

“Aceitai tudo quanto o Mensageiro vos deu e abstende-vos de tudo quanto ele vos proibiu” — os hadiths desse tipo estão incluídos nesta ampla categoria. Uma parte desses hadiths trata da condição da vida futura e das maravilhas do mundo malakuti. A base de todos esses assuntos é a revelação. Os hadiths nos quais são descritos os mandamentos e preceitos da sharia, nos quais são explicados os pilares e as regras da adoração, e nos quais se encontram explicações e conselhos relativos aos diversos ramos do modo de vida constituem a primeira parte dos hadiths do primeiro período. Entre os hadiths desse primeiro período, alguns da segunda parte são baseados na revelação, enquanto outros se fundamentam no próprio ijtihad do Mensageiro Nobre. Contudo, deve-se lembrar que o ijtihad do Mensageiro Nobre também está no mesmo nível da revelação. Isso porque Allah, o Altíssimo, não lhe permitiu fazer um ijtihad equivocado. Se alguma vez seu ijtihad resultasse em erro, Ele não lhe permitiria permanecer nesse erro. Sempre que ocorresse qualquer erro, era indispensável que, imediatamente, Allah o corrigisse e o tornasse correto.[****************]

Shah Waliullah escreveu estas últimas palavras nos seguintes termos:

******************************************************

Uma parte dos hadiths desse tipo é baseada na revelação, e outra parte, no ijtihad. Contudo, o ijtihad do Mensageiro Nobre (que a paz esteja com ele) também equivale à revelação. Isso porque Allah, o Altíssimo, protegeu o Mensageiro de permanecer em erro quanto à sua opinião.

 

A origem dos hadiths

Da discussão detalhada apresentada anteriormente, ficou claramente comprovado o lugar dos hadiths na vida islâmica, bem como sua importância e indispensabilidade. Nesta etapa, discutiremos como os hadiths foram obtidos; esse será o tema principal da presente discussão.

Os primeiros ouvintes dos hadiths do Profeta Nobre (que a paz esteja com ele) foram os nobres Sahabah. Para adquirir um conhecimento correto e detalhado sobre a religião do Islã, eles permaneciam ansiosamente sentados na presença do Mensageiro. Mantinham-se ao redor do Profeta Nobre (que a paz esteja com ele) durante as vinte e quatro horas do dia. Quando ele ia a algum lugar, seguiam-no como uma sombra.

O Mensageiro Nobre (que a paz esteja com ele) foi, em cada momento de sua vida, um intérprete das normas islâmicas. Ele não as explicava apenas por meio de palavras, mas também lhes oferecia uma explicação prática através de suas próprias ações e da aprovação das palavras e ações dos Sahabah. Foi por esse meio que os Sahabah reuniam e preservavam o magnífico tesouro dos hadiths. Sempre que surgia alguma dificuldade ou ignorância acerca dos diversos aspectos da religião do Islã, ou quando surgia alguma pergunta, eles consultavam imediatamente o Mensageiro sobre o assunto pertinente e obtinham a resposta; e os nobres Sahabah (que Allah esteja satisfeito com eles) preservavam-na como um tesouro inestimável.

Além disso, outros meios de origem dos hadiths podem ser claramente identificados na história da ciência do hadith. Hazrat Jibril (a.s.) às vezes comparecia à presença do Mensageiro disfarçado e, fazendo-lhe perguntas sobre diversos assuntos e obtendo suas respostas, ensinava indiretamente os Companheiros presentes. O famoso hadith denominado “Hadith de Jibril”, citado no Sahih de Bukhari e no Sahih de Muslim, é uma prova incontestável disso. Nele se relata que um homem desconhecido e bem-vestido compareceu à presença do Mensageiro e fez perguntas sobre questões fundamentais como o Islam, o iman, o ihsan e a Qiyamah. O Nobre Mensageiro (s.a.w.) respondeu adequadamente a cada uma das perguntas. Depois, o homem deixou a assembleia. O Nobre Mensageiro (s.a.w.) perguntou a Hazrat Umar Faruq (r.a.), entre os Companheiros presentes:

******************************************************

Ó Umar, sabes quem era este homem que fez as perguntas?

Quando Hazrat Umar (r.a.) declarou que não sabia, o Nobre Mensageiro (s.a.w.) disse pessoalmente:

******************************************************

Este questionador era Jibril; ele veio até vós para vos ensinar a religião.

A seguir, mencionaremos, com base em obras autorizadas, alguns acontecimentos que comprovam que os Companheiros faziam ao Mensageiro perguntas sobre diversos assuntos e obtinham suas respostas.

Na verdade, não era incomum que os Companheiros fizessem perguntas ao Nobre Profeta (s.a.w.). Ele próprio lhes fazia perguntas, ordenara-lhes que perguntassem a ele para obter conhecimento e agissem de acordo com isso, e por esse motivo também os exortava de tempos em tempos. Hazrat Abdullah ibn Abbas (r.a.) relata: Durante a época do Nobre Profeta (s.a.w.), um homem ficou ferido e foi-lhe ordenado que tomasse um banho ritual. Mais tarde, ele morreu. Quando o Nobre Profeta (s.a.w.) soube desse acontecimento, disse em tom irado:

******************************************************

Que Allah extermine essas pessoas! Por que não me perguntaram? Acaso perguntar não é o remédio para toda ignorância?

Hazrat Nawwas ibn Salman (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: Permaneci em Medina durante um ano inteiro para fazer uma pergunta ao Mensageiro.

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Por fim, perguntei-lhe sobre o birr e o ithm. Ele respondeu: O birr é o bom caráter, enquanto o ithm é aquilo que desperta dúvidas e constrangimento em você, e que você não gostaria que as pessoas conhecessem.

Não eram apenas os habitantes de Medina que faziam perguntas ao Mensageiro; pessoas recém-convertidas ao Islã vinham também de cidades distantes e regiões rurais para lhe fazer perguntas. Certo dia, o Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, estava sentado na Mesquita do Profeta, cercado pelos Companheiros. Nesse momento, um homem chegou montado em um camelo. Pediu permissão para fazer uma pergunta ao Mensageiro e disse:

******************************************************

Farei uma pergunta a você e serei extremamente rigoroso ao fazê-la; peço, porém, que você não guarde ressentimento de mim.

Então, quando o nobre Profeta (S) lhe deu permissão para fazer perguntas, ele perguntou sobre Allah, sobre o envio do Mensageiro de Allah para toda a humanidade, sobre as cinco orações diárias, o jejum de um mês e a obrigatoriedade de arrecadar o zakat dos ricos e distribuí-lo entre os pobres. O nobre Mensageiro (S) respondeu:

******************************************************

Sim, Allah Ta’ala tornou tudo isso obrigatório.

Por fim, inspirado pela resposta do Mensageiro, aquele homem disse:

******************************************************

Eu creio na religião que você trouxe. Meu nome é Dimam ibn Tha‘laba; vim até você como representante do meu povo.

Hazrat Anas diz: Um homem do campo veio e perguntou ao nobre Mensageiro (S):

******************************************************

Seu enviado foi até nós e nos informou que você afirma que Allah o enviou como Mensageiro; isso é verdade?

O nobre Profeta (que a paz esteja com ele) reconheceu, em resposta, a veracidade disso. Em seguida, aquele homem perguntou ao Mensageiro sobre a veracidade de algumas coisas que ouvira anteriormente acerca dos princípios fundamentais da religião do Islã. Depois que o Mensageiro (que a paz esteja com ele) lhe explicou a sua veracidade, ele exclamou em voz alta:

******************************************************

Juro pelo nome de Allah, que o enviou com a verdadeira lei: não acrescentarei nem diminuirei nada das coisas que você mencionou.[****************]

A delegação da tribo de Abd al-Qays compareceu perante o nobre Profeta (que a paz esteja com ele) e, ao descrever as dificuldades que enfrentava, disse: ‘Ó Mensageiro, há tribos politeístas entre nós e você; por isso, não podemos comparecer diante de você em outra época além dos quatro meses em que é proibido guerrear’. Portanto:

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Diga-nos algo sobre os princípios fundamentais da religião do Islã que, se seguirmos e praticarmos de acordo com isso, nos permitirá entrar no Paraíso; e convidaremos as pessoas que ficaram em nossa terra a praticar de acordo com isso.[Sahih Bukhari, 2º volume, página 627-************]

Um grupo de pessoas, em nome da tribo de Banu Tamim e dos habitantes do Iêmen, compareceu perante o Mensageiro e apresentou o seguinte pedido:

******************************************************

Viemos até vós com o propósito de adquirir um conhecimento profundo sobre o Dīn do Islã. Também vos perguntamos o que havia na origem e no primeiro estágio desta criação.[Bukhārī Sharīf, volume 1, página 15.]

Alguns jovens e pessoas da mesma idade, pertencentes aos Banū Layth ibn Bakr ibn ʿAbd Manāf ibn Kinānah, de Basra, foram à presença do Mensageiro em Medina e permaneceram ali por cerca de vinte dias. Quando ficaram ansiosos por retornar à sua terra, o Profeta (s) disse-lhes:

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Retornai e vivei com vossas famílias. Ensinai-lhes o Dīn do Islã. Orai. (Bukhārī)

Em outra narração de Muslim, acrescenta-se depois disso:

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(Da mesma maneira como me vistes orar.) E, quando chegar a hora da oração, um de vós fará o adhān para todos, e o mais velho dentre vós conduzirá a oração.[Bukhārī Sharīf, volume 1, *****************]

O nobre Profeta (S) ensinou a esse grupo de jovens, durante vinte dias, muitas questões do din do Islã de maneira prática. Também lhes ensinou todas as normas e regras relativas às determinações da Sharia e à adoração. Assim, por um lado, muitos hadiths tiveram origem; e, por outro, esses hadiths do Mensageiro puderam chegar e ser difundidos de Medina até a longínqua Basra por intermédio de Companheiros confiáveis.

Hazrat Abu Huraira (RA) narra: Hazrat Abu Huraira (RA) narra: Estávamos sentados na presença do Mensageiro. Ele estava ocupado conversando com as pessoas. Nesse momento, um beduíno árabe chegou e perguntou ao Mensageiro: “Quando será o Dia da Ressurreição?” Depois que o nobre Profeta (S) terminou de falar, chamou o beduíno e disse-lhe:

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Quando a confiança começar a ser violada, aguarda a Hora.

O homem perguntou: Como a confiança será violada?

O nobre Profeta (S) disse:

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Quando uma tarefa de responsabilidade for confiada a uma pessoa inadequada, considera que chegou o momento de aguardar o Dia da Ressurreição. [Sahih al-Bukhari, volume 1, p. 14.]

Esses acontecimentos provam claramente que todos os Companheiros possuíam um intenso desejo de conhecer, por intermédio de Hazrat Muhammad (s), portador do Alcorão, os diversos assuntos fundamentais e minuciosos do Islã, bem como a disposição de se esforçar e suportar dificuldades para isso. E tudo quanto o Nobre Mensageiro (s) disse em resposta a essas perguntas, tudo quanto fez e tudo quanto aprovou de palavras e ações faz parte da ampla explicação do sistema de vida islâmico; e isso é o Hadith. Sobre este assunto, o que escreveu Allamah Badruddin Ayni é aqui mencionado:

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Os nobres Companheiros costumavam perguntar ao Mensageiro sobre a explicação e o significado de muitos assuntos importantes. O Profeta Nobre (s) reunia-os e ensinava-lhes a religião. Alguns Companheiros faziam perguntas ao Mensageiro e obtinham respostas; outros guardavam isso na memória; e alguns transmitiam-no a outras pessoas e informavam-nas. Desse modo, Allah, o Altíssimo, conduziu Sua religião à perfeição.[***********]

Não há dúvida de que este é um discurso autêntico sobre a origem da ciência do Hadith. Neste contexto, uma citação do Imam Ibn Qayyim também é especialmente importante. Ao discorrer sobre a chegada de uma tribo chamada Banu Muntafiq, ele mencionou uma pergunta feita por eles e, em seguida, escreveu:

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Ficou comprovado por isso que os Companheiros apresentavam ao Mensageiro suas diversas perguntas, dúvidas e incertezas, e ele lhes respondia. Como resultado, seus corações encontravam tranquilidade. Seus inimigos também lhe faziam perguntas, assim como seus Companheiros. A diferença era que os inimigos perguntavam com o objetivo de discutir e provar sua própria bravura, enquanto os Companheiros perguntavam para compreender a essência da religião, esclarecê-la e alcançar uma fé cada vez maior. E o Mensageiro (s) respondia a todos eles. Naturalmente, não respondia apenas às questões cuja resposta não conhecia, como o momento da chegada da Ressurreição.[****************]

A origem do Hadith não se limitava ao fato de o Profeta Nobre (s) responder às perguntas das pessoas. Ele próprio ensinava detalhadamente a religião aos Companheiros conforme a necessidade. Nos livros de Hadith encontram-se menções a muitos acontecimentos desse tipo. Aqui mencionaremos dois relatos dessa natureza.

1. Hazrat Abu Zayd al-Ansari (r.a.) disse: “Certo dia, o Profeta (s.a.w.) conduziu a oração do fajr conosco. Depois, subiu ao púlpito, permaneceu de pé e dirigiu-nos um sermão. Esse sermão continuou até o momento da oração do zuhr. Então, desceu e realizou a oração do zuhr. Terminada a oração, voltou a subir ao púlpito, permaneceu de pé e continuou a proferir o sermão. Isso prosseguiu até a oração do asr. Quando chegou o momento da oração do asr, desceu e realizou-a. Terminada a oração, voltou a ficar de pé no púlpito e começou novamente a proferir um sermão. Esse sermão continuou até o pôr do sol. Nesse longo sermão, que durou um dia inteiro, ele nos relatou muitas coisas do passado e do futuro. Ele não apenas as relatou, mas também no-las ensinou e fez com que as memorizássemos. [Musnad de Ahmad ibn Hanbal, vol. 1, p. 153.]

2. Hazrat Hanzala (r.a.) disse: Certo dia, estávamos com o Mensageiro (s.a.w.). Nessa ocasião, ele nos falou detalhadamente sobre o Paraíso e o Inferno. Como resultado, essas duas coisas tornaram-se luminosamente claras diante de nós, como se pudéssemos vê-las diretamente………………. [Musnad de Ahmad ibn Hanbal, vol. 1, p. 153.]

Aqui só foi possível citar duas narrações, embora os livros de hadith contenham muitas outras declarações desse nível. Esses dois relatos demonstram claramente que, quando necessário, o nobre Profeta (s.a.w.) muitas vezes falava espontaneamente sobre muitos assuntos da religião, e que os Companheiros guardavam na memória tudo o que ele dizia e transmitiam essas palavras do hadith a outras pessoas.

Também é digno de menção este aspecto na fase de origem do hadith.

 

A preservação do hadith

O Islã é um sistema de vida eterno para toda a humanidade. Por isso, o próprio Allah, o Altíssimo, assumiu a responsabilidade de preservar o Alcorão Sagrado, seu fundamento principal e primordial. Ele declarou:

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Certamente, Nós fizemos descer o Alcorão e certamente Nós somos os seus Guardiões. [Surata Al-Hijr, versículo 9.]

De fato, Allah, o Altíssimo, providenciou, juntamente com a revelação do Alcorão Majid, um sistema abrangente e confiável para sua preservação integral. O Alcorão foi revelado ao Mensageiro nobre por intermédio de Jibril, e ele imediatamente o recitou para as pessoas. Depois, com o objetivo de preservá-lo para sempre, foram adotados dois métodos. Por um lado, os nobres Companheiros memorizaram o Alcorão assim que o ouviram. Eles protegeram cada palavra e cada letra dele, para sempre, no mais íntimo de sua memória. [Discussão escrita por Shah Abdul Qadir na explicação do versículo 49 da Surata Al-Ankabut, **************** página 124.]

Consequentemente, nem mesmo um ponto dele pôde desaparecer ou ser distorcido. Também no que diz respeito às vantagens dessa forma de preservação, o Alcorão Majid é incomparável na história dos Livros celestiais; nenhum outro livro do mundo é considerado digno de ser memorizado como uma grande obra de mérito. Por essa razão, a prática de memorizar o Alcorão Majid vem sendo mantida desde tempos imemoriais. Mesmo que o Alcorão registrado em forma de livro desaparecesse hoje, o Alcorão Majid preservado na memória dos hafizes poderia ocupar o seu lugar. Dar novamente ao Alcorão uma forma escrita não apresentaria a menor dificuldade. Não há dúvida de que isso é um dos milagres do Alcorão Majid.

Por outro lado, assim que o Alcorão começou a ser revelado, o nobre Profeta (s) mandou que ele fosse continuamente escrito por escribas da revelação especialmente designados. O seguinte hadith, narrado por Bara ibn Azib (r), é uma prova evidente disso:

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Um crente inativo e uma pessoa que luta no caminho de Allah jamais podem ser iguais — quando este versículo foi revelado, o nobre Profeta (S) disse: «Chamem Zayd e digam-lhe que traga um tinteiro, uma tabuinha e coisas semelhantes.» Quando ele (Zayd) chegou, o nobre Profeta (S) disse: «Escreva este versículo»…………… [Bukhari Sharif, volume 2, página 746.]

Assim, todo o Alcorão Majid foi escrito durante a própria vida do nobre Profeta (S), por escribas designados. Cerca de quarenta Companheiros foram encarregados de escrever o Alcorão Majid. [***********] Cerca de vinte e seis Companheiros eram os mais célebres entre eles. Hazrat Abu Bakr, Hazrat Umar, Hazrat Uthman, Hazrat Ali, Hazrat Zayd ibn Thabit, Hazrat Abdullah ibn Sa’d, Hazrat Zubayr ibn al-Awwam, Hazrat Khalid ibn Sa’id, Hazrat Amr ibn al-As, Hazrat Muawiya ibn Abu Sufyan, Hazrat Ubayy ibn Ka’b (ra) e outros estão entre os mais notáveis. [Tabaqat de Ibn Sa’d, Tarikh-i Tabari, ***************************************]

Como resultado da adoção desses dois métodos, o Alcorão Majid foi protegido para sempre de toda espécie de distorção e do desaparecimento.

Contudo, aos olhos de Allah, proteger apenas o Alcorão Majid não era suficiente para a preservação e a permanência da religião do Islã. Por isso, vemos que, juntamente com o estabelecimento dos meios para preservar o Alcorão, Allah, o Altíssimo, também providenciou devidamente os meios para preservar o hadith. A história da preservação do hadith deixa claro para nós que, para a preservação do Alcorão, foram adotados principalmente dois meios externos; a Sunnah do Mensageiro, isto é, o hadith, também foi protegida principalmente exatamente com o auxílio desses mesmos dois meios. Eles são: o sistema natural estabelecido por Allah, o Altíssimo, e o esforço e a organização humanos. Nesta etapa, procuraremos apresentar aqui uma discussão detalhada, baseada em dados históricos e em fundamentos teóricos.

Método natural

Ao verificar e examinar o método natural de preservação dos hadiths, parece que três fatores importantes tornaram esse método eficaz. Primeiro, a agudeza e a extraordinária capacidade da memória natural dos árabes daquela época. Segundo, a sede de conhecimento dos Companheiros, sua dedicação ao estudo e sua extraordinária perseverança na busca e no cultivo do conhecimento; e, terceiro, o senso de responsabilidade individual e coletiva pela propagação dos ideais e do conhecimento islâmicos. Apresenta-se a seguir uma discussão detalhada desses três aspectos.

A memória da nação árabe

A memória da nação árabe daquela época era verdadeiramente uma maravilha histórica. Ela contribuiu consideravelmente para a preservação do Alcorão e dos hadiths. O Alcorão Sagrado a considerou um método natural. Allah, o Altíssimo, declarou:

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Antes, este Alcorão é um conjunto de versículos claros, preservado nas mentes daqueles que receberam conhecimento. [Surata Al-Ankabut, versículo 49.]

Este versículo contém uma indicação clara da capacidade de memória dos sábios muçulmanos daquela época e também declara que o Alcorão Sagrado estava preservado em suas mentes por meio da memória. Allama Bayazavi escreveu em seu tafsir deste versículo:

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Isto é, eles memorizavam o Alcorão e o preservavam de tal maneira que ninguém podia distorcê-lo ou alterá-lo. (Tafsir al-Baydawi, volume 2, página 169.)

A história provou que os membros da sociedade árabe daquela época possuíam uma memória extraordinariamente aguçada; para guardar algo na memória, bastava-lhes ouvi-lo uma única vez. A este respeito, é digno de nota o seguinte relato histórico escrito por Ibn Abd al-Barr:

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A nação árabe possuía, por natureza, uma grande capacidade de memorização, e isso constituía sua particularidade e característica distintiva.

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Eles nasciam naturalmente dotados de capacidade de memorização.

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É famoso e universalmente conhecido que a nação árabe se distinguia por sua especial força e talento para memorizar. Cada um de seus membros era capaz de memorizar e conservar na memória um longo poema de qualquer pessoa depois de ouvi-lo uma única vez.

Hazrat Ibn Abbas (r.a.) memorizou completamente, depois de ouvi-lo apenas uma vez, um longo poema do célebre poeta árabe Omar ibn Abi Rabia. [***************] Os companheiros do Mensageiro também eram pessoas de origem árabe pura. A princípio, não sabiam escrever nada, nem eram capazes de ler qualquer coisa escrita. Por isso, todos tiveram de depender exclusivamente da memória. Na época da Jahiliyyah, memorizavam detalhadamente suas extensas genealogias e os extraordinários elogios e virtudes de seus antepassados. Quando entre eles surgia uma competição de glória genealógica, cada um recitava de uma só vez, de memória, toda a glória passada e os poemas de louvor de sua própria linhagem. Quase todos eles, graças à acuidade de sua memória, eram os intérpretes ou porta-vozes de suas respectivas linhagens.

Foi precisamente essa nação árabe, dotada de memória natural, que Allah, o Altíssimo, designou como guardiã da profecia e das palavras transmitidas por Hazrat Muhammad (S.). Ele preparou plenamente esses corações de memória aguçada para memorizar os versículos do Alcorão e os hadiths do Mensageiro. [***************************]

É exatamente por essa razão que vemos que, assim que o Sagrado Alcorão era revelado, os Companheiros podiam memorizá-lo simplesmente ouvindo-o da boca do Nobre Profeta (S.). Dessa forma, memorizar e conservar todo o Sagrado Alcorão não era, para eles, nem um pouco difícil.

O célebre tabi‘i Qatadah ibn Di‘amah afirmou:

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Allah concedeu a esta nação um talento de memória que não foi concedido a nenhuma outra nação. Isso é uma particularidade que foi dada somente a eles; e é uma honra e uma dignidade com as quais Ele honrou exclusivamente a eles. [Zurqani, volume 5, página 495.]

Um acontecimento histórico envolvendo Hazrat Abu Huraira (r.a.) é digno de menção neste contexto. Ele era um hafiz de um grande número de hadiths. Contudo, o califa Marwan ibn al-Hakam, governante da dinastia omíada, começou a duvidar disso. Para testar Hazrat Abu Huraira, ele adotou uma estratégia. Certo dia, pediu a Hazrat Abu Huraira que narrasse alguns hadiths. Abu Huraira (r.a.) então narrou alguns hadiths. Conforme as instruções de Marwan, os hadiths foram escritos por alguém sentado atrás de uma cortina. Mais de um ano depois, certo dia, quando Hazrat Abu Huraira foi novamente solicitado a narrar exatamente aqueles hadiths, ele os recitou de memória de tal maneira que não havia absolutamente nenhuma diferença em relação aos hadiths narrados anteriormente. Isso prova de forma incontestável a extraordinária força da memória de Hazrat Abu Huraira. [Kitabul Kuni, escrito pelo Imam Bukhari, página 33.]

O célebre compilador de hadiths, Imam Ibn Shihab al-Zuhri, também era uma pessoa dotada de memória extraordinária. Ele também certa vez foi obrigado a submeter-se a um teste. O então rei Hisham pediu-lhe que escrevesse alguns hadiths para ensinar a seu filho. Zuhri escreveu imediatamente quatrocentos hadiths. Depois de muito tempo, quando lhe pediram novamente que escrevesse aqueles hadiths, ele tornou a escrevê-los. Ao comparar os hadiths escritos nas duas ocasiões, o rei constatou que:

******************************************************

Na segunda vez, nenhuma letra daqueles hadiths havia sido esquecida. [Tadhkirat al-Huffaz, volume 1, página 201.]

Não há dúvida de que isto é uma prova concreta da memória ilimitada do imã Zuhri.

Ibn Shihab Zuhri disse:

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Sempre que passava perto do mercado de ‘Baqi’, eu fechava os dois ouvidos, com medo de que neles penetrasse algum tipo de palavra obscena. Pois, por Deus, se alguma palavra entra em meus ouvidos, jamais a esqueço. [******************]

Ele acrescenta:

******************************************************

Memorizei tudo o que escrevi em meu caderno, fosse hadith ou qualquer outra coisa.[**************]

O célebre tabi’i e narrador de um grande número de hadiths, o Imam Sha’bi, ao descrever e demonstrar a acuidade de sua memória, disse:

******************************************************

Nunca escrevi um hadith de algum caderno, nem jamais senti necessidade de ouvir um hadith de alguém mais de uma vez.[***************]

O Imam Waki’ também era uma pessoa dotada de uma memória extraordinária. O Imam Ahmad ibn Hanbal disse a respeito dele:

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Nunca vi outra pessoa que memorizasse hadiths como ele.[Tarikh al-Khatib, volume 13, página 474.]

Outro muhaddith disse a respeito dele:

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A memória de ‘Ukī era uma característica inata.[Tarīkh al-Khatīb, vol. 13, p. 474.]

A memória do célebre tābi‘ī e muhaddith Qatādah também era incomparável. A seguinte descrição do historiador Hafiz Dhahabī comprova historicamente essa sua memória extraordinária. Ele disse:

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Qatādah era a pessoa dotada da memória mais poderosa entre os habitantes de Basra. Tudo o que ouvia, memorizava. Quando o livro de hadith compilado por Hazrat Jābir lhe foi lido uma única vez, ele o memorizou.[Tadhkirat al-Huffāz, vol. 1, p. 26.]

Yahyā ibn Qattān disse: Nunca vi alguém dotado de memória mais poderosa do que Sufyān Thawrī. Ele tinha trinta mil hadith memorizados. Ele próprio disse:

‘Nunca esqueci nada do que memorizei uma vez’.[Tadhkiyat al-Huffāz, vol. 1, p. 26.]

Sufyān ibn ‘Uyaynah tinha sete mil hadith memorizados e, por isso, não mantinha nenhum livro.

O imã Ahmad ibn Hanbal disse: Na capital Bagdá, não se viu ninguém dotado de memória mais poderosa do que o muhaddith Abu Zur’a. Somente sobre o Alcorão, ele tinha dez mil hadiths memorizados. Na verdade, quanto à capacidade de memorização, ele era incomparável.

O cádi Abu Bakr al-Isfahani memorizou todo o Alcorão quando tinha apenas cinco anos de idade.

A memória do mestre do imã Bukhari, o muhaddith Ishaq ibn Rahwayh, era extremamente aguçada. Inúmeros hadiths estavam gravados em sua memória. Ele chegou a ditar a seus alunos vários milhares de hadiths que havia memorizado, sem sentir necessidade de consultar o livro nem uma única vez. Ele próprio dizia: “Setenta mil hadiths estão sempre diante dos meus olhos”.

O muhaddith Abu Zur’a dizia a respeito dele:

Nunca vi ninguém dotado de uma memória como a dele (Ibn Rahwayh).

O governante da época, o emir Abdullah, ao testemunhar a extraordinária capacidade de memorização dele, disse:

******************************************************

Sei que o senhor consegue memorizar muitas coisas, mas estou maravilhado depois de testemunhar a sua capacidade de memorização. [Kitab al-Kuna, de autoria do imã Bukhari, p. 33]

A memória do erudito dos hadiths, Imame Bukhari, nas gerações posteriores, também não era de modo algum menos notável. Nawab Siddiq Hasan citou Abu Bakr ibn Abu Itab, dizendo:

******************************************************

Ainda na infância, o Imame Bukhari havia memorizado completamente setenta mil hadiths.

Sobre ele, relatou ainda:

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Diz-se que, depois de olhar para um livro uma única vez, ele o memorizava por completo.

Muhammad ibn Abu Hatim disse: Dois homens me disseram que costumávamos ouvir hadiths juntos; naquela época, o Imame Bukhari era ainda uma criança entre nós. Nós escrevíamos imediatamente tudo o que ouvíamos, mas o Imame Bukhari não escrevia absolutamente nada. Certo dia, quando lhe perguntamos sobre isso, ele disse: “Vocês foram muito injustos comigo. Bem, mostrem-me então o que escreveram.” Em seguida, mostramos-lhe mais de quinze mil hadiths que havíamos escrito.

******************************************************

Em seguida, ele recitou de memória todos esses hadiths que estavam preservados em sua memória. Chegamos até mesmo a corrigir nossos livros escritos ouvindo sua recitação de memória.

Outro acontecimento histórico digno de menção diz respeito ao Imam Bukhari. Quando ele chegou a Bagdá, os muhaddiths foram à sua presença e apresentaram-lhe, um por um, cem hadiths ao todo, de tal maneira que as cadeias de transmissão de cada um haviam sido trocadas, e a cadeia de um havia sido ligada ao texto de outro. Quando lhe pediram sua opinião sobre esses hadiths, ele declarou total desconhecimento deles. Em seguida, mencionou corretamente cada hadith e demonstrou que havia erros na forma como eles os tinham apresentado; também esclareceu de modo irrefutável qual cadeia de transmissão pertencia a cada hadith e qual não pertencia. Todos manifestaram profundo espanto ao contemplar sua memória extraordinária.

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Eles reconheceram sua memória extraordinária e todos acreditaram em sua singularidade e superioridade nesse aspecto.

Todos esses acontecimentos comprovam que a memória dos sábios muçulmanos daquela época era, por natureza, extremamente aguçada e vigorosa. Não se observa nenhuma exceção a isso desde a época dos Companheiros até a época dos tabi‘in, dos sucessores dos tabi‘in e dos muhaddiths. Assim como essa memória extraordinária existia entre os árabes daquele tempo, sua manifestação também foi observada entre os muçulmanos não árabes. Na realidade, isso foi uma graça incomensurável e inestimável de Allah, o Altíssimo, para a ummah muçulmana. Foi graças a essa graça que o Alcorão e os hadiths, esses dois fundamentos do Islã, puderam ser devidamente preservados e protegidos.

Essa característica daquela época também possui um significado biológico. Entre as diversas forças e capacidades que Allah, o Altíssimo, concedeu ao corpo humano, quando uma delas não é utilizada ou quando algum órgão se torna inoperante, a força de outro aumenta. Quem tem apenas uma mão acumula nessa mão a força de duas mãos. A capacidade de avaliação, percepção e sensação das pessoas cegas e sem visão aumenta extraordinariamente. Não se pode negar a veracidade disso no caso dos muçulmanos da primeira época do Islã. Naquele tempo, em geral, a educação escrita não era muito difundida. As pessoas utilizavam mais a memória do que a capacidade de escrever. Como resultado, nessa época, usava-se mais a memória do que a aplicação da capacidade de memorização. Por isso, nessa época, observou-se um extraordinário desenvolvimento da memória. Na preservação do Alcorão e dos hadiths, ela ocupou uma posição muito importante como meio inicial.

 

As instruções do Mensageiro para a preservação e divulgação dos hadiths

Foi por meio das palavras e ações do Honorável Mensageiro, ao longo de toda a sua vida, que o modo de vida islâmico tomou forma. Por essa razão, todas as suas palavras e ações são um bem de imenso valor para a sociedade muçulmana. Os nobres Companheiros ouviam atentamente cada palavra do Honorável Mensageiro e observavam cada uma de suas ações e movimentos com olhar minucioso e investigativo. Assim, as palavras e ações do Mensageiro foram espontaneamente acumuladas e vivificadas entre os Companheiros.

Entretanto, nesse assunto não se confiou inteiramente apenas na preservação espontânea e natural. O nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) também tomou medidas eficazes para esse fim.

Assim como ordenou aos ilustres Companheiros que ouvissem atentamente tudo o que se relacionava ao Islã — ordens, proibições e exortações —, também lhes ordenou que se lembrassem disso e o transmitissem devidamente a outras pessoas. Dirigindo-se aos Companheiros, disse:

******************************************************

Allah manterá eternamente viçosa e renovada a pessoa que ouvir algo de mim e o transmitir devidamente a outras pessoas. Pois, muitas vezes, aquele a quem isso foi transmitido posteriormente consegue preservá-lo melhor do que o primeiro ouvinte. Tirmidhi, vol. 2, p. 90, edição de Délhi de 1940; Ibn Majah, Darimi; Mustadrak, narrado por Abu al-Darda, vol. 1, p. 87.

Hazrat Abdullah ibn Masud (que Allah esteja satisfeito com ele) transmitiu este hadith de outra forma. A versão do hadith por ele narrada é a seguinte:

******************************************************

Allah iluminará a pessoa que ouvir as minhas palavras, guardá-las na memória, preservá-las integralmente e transmiti-las a outra pessoa. Muitas pessoas que carregam conhecimento o transmitem a alguém que é mais conhecedor e sábio do que elas. Shafi’i e Bayhaqi.

Também merece atenção a formulação do seguinte hadith, narrado por Hazrat Zayd ibn Thabit (que Allah esteja satisfeito com ele). Ele disse: O nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse:

******************************************************

Allah iluminará a vida daquele que ouvir minhas palavras, memorizá-las, preservá-las corretamente e transmiti-las àquele que não as tiver ouvido. …………… [******************* Tirmidhi.]

Quando uma delegação da tribo de Abd al-Qays compareceu perante o Mensageiro (s), ele lhes ensinou detalhadamente os princípios fundamentais do Islã e lhes disse:

******************************************************

Guardai estas palavras plenamente na memória, preservai-as por completo e informai sobre isso aqueles que vierem depois de vós. [Bukhari Sharif, 1º volume, Kitab al-Ilm, página 19.]

A respeito das responsabilidades futuras e da posição social dos ilustres Companheiros, o Mensageiro de Allah (s) disse:

******************************************************

Hoje vós estais ouvindo de mim as palavras da religião; elas também serão ouvidas daqueles que vierem depois de vós, e daqueles que ouvirem de vós também serão ouvidas. [Mustadrak Hakim, 1º volume, página 95, narrado por Ibn Abbas.]

Em outro hadith, o Nobre Profeta (S) disse:

******************************************************

‘Aquele que memorizar e preservar quarenta hadiths sobre a religião da comunidade muçulmana, Allah, o Altíssimo, fará dele um jurista, e eu serei seu intercessor e testemunha no Dia da Ressurreição. [Mishkat al-Masabih, p. 36, narrado por Hazrat Abu al-Darda.]

Como resultado dessas instruções e exortações do Nobre Profeta (S) relativas à preservação dos hadiths, cerca de cem mil pessoas da sociedade muçulmana daquela época conservaram, memorizaram e mantiveram tão vivas na memória as palavras proferidas pelo Mensageiro e os relatos de suas ações que, em geral, nunca as esqueceram. Nisso, sua capacidade natural de memorização lhes foi de grande ajuda. Além disso, essas ordens do Mensageiro reforçaram ainda mais essa capacidade. Sempre que o Mensageiro (S) dizia algo, os Companheiros presentes começavam a memorizá-lo, para não o esquecer. Hazrat Samura ibn Jundub (RA) disse:

******************************************************

Eu era ainda uma criança na época do Mensageiro e, já então, memorizava as palavras do Mensageiro. [Sahih Muslim, vol. 1, Introdução, p. 10, com o comentário de al-Nawawi.]

Hazrat Ibn Abbas (RA) disse:

******************************************************

Nós memorizávamos os hadices do Mensageiro; os hadices eram memorizados dessa maneira junto ao Mensageiro.[Sahih Muslim, primeiro volume, introdução, página 10, com o comentário de Nawawi.]

No final do sermão que o Nobre Profeta (S) proferiu diante dos mujahidin no dia seguinte à conquista de Meca, ele disse:

******************************************************

Que os presentes transmitam estas palavras aos ausentes. No final do histórico sermão da Peregrinação de Despedida, o Nobre Mensageiro (S) disse em voz elevada:

******************************************************

Que os presentes aqui transmitam estas minhas palavras aos ausentes. Pois muitos daqueles a quem elas forem transmitidas poderão ser mais versados na preservação dos hadices do que os ouvintes de hoje.[Sahih al-Bukhari, primeiro volume, página 21.]

No Sahih al-Bukhari, esta afirmação é citada com estas palavras:

******************************************************

Os presentes transmitem estas palavras até aos ausentes. Pois talvez o presente as transmita a alguém que seja capaz de guardá-las melhor do que ele. (Bukhari Sharif, vol. 1, p. 16.)

A parte final do hadith narrado por Ibn Awn é a seguinte:

******************************************************

Pode ser que o ausente seja mais capaz do que o presente de memorizar as minhas palavras.

O Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) disse:

******************************************************

Transmitam de mim, ainda que seja um único versículo. (Bukhari Sharif, Mishkat, Kitab al-‘Ilm……)

Mazhari e Mulla Ali al-Qari explicaram o significado disso, dizendo:

******************************************************

Transmiti os meus hadiths, mesmo que sejam muito poucos.

O Nobre Profeta (S) disse:

******************************************************

Depois de mim, as pessoas desejarão ouvir hadiths de vós. Quando vierem ter convosco com esse propósito, sede benevolentes para com elas e narrai-lhes os meus hadiths. (Musnad Ahmad, narrado por Malik ibn Anas.)

Ele disse:

******************************************************

Aprendei o ilm e ensinai-o às pessoas. Aprendei os faraid, ou leis de herança, e ensinai-os também às outras pessoas. Aprendei o Alcorão e ensinai-o às pessoas. Pois um dia terei de partir. (Daremí Sharif, p. 40)

Uma vez, o Nobre Profeta (S) estava fazendo uma súplica e disse:

******************************************************

Ó Allah, concede misericórdia aos meus califas.

Os Companheiros perguntaram:

******************************************************

Ó Mensageiro, quem são os seus califas?

Em resposta, o Nobre Profeta (S) disse:

******************************************************

Aqueles que narram meus hadiths e os ensinam às pessoas (esses são meus califas). [Muqaddimah de Darimi, 1º volume, página 5.]

O nobre Profeta (S) também disse:

******************************************************

Se alguém for questionado sobre algum assunto relacionado à religião e ocultá-lo, não o revelando, no Dia da Ressurreição será colocado nele um freio de fogo do Inferno. [Musnad de Ahmad, Abu Dawud, Tirmidhi, Ibn Majah-************]

Além dessas declarações de caráter geral, o nobre Profeta (S) exortava vigorosamente os Companheiros presentes a informar as demais pessoas sobre suas ações específicas.

O hadith a seguir fornece uma prova irrefutável disso. Yasar disse: Certo dia, Hazrat Abdullah ibn Umar viu-me rezando depois do despontar do Fajr. Então, Ibn Umar disse-me:

******************************************************

Certo dia, estávamos rezando dessa maneira. Nesse momento, o nobre Profeta (S) veio até nós e disse: Aqueles dentre vocês que estão presentes aqui devem transmitir aos ausentes estas minhas palavras: depois do Fajr, não é permitido realizar nenhuma oração além de duas prostrações. [Musnad de Ahmad, 2º volume, página 104.]

Málik ibn al-Huwayrith (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: Nós éramos um grupo de jovens e pessoas da mesma idade. Depois de permanecermos vinte dias e noites na presença do Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), decidimos voltar para casa. Então, ele disse:

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Voltem para junto das pessoas de suas casas, permaneçam vivendo com elas, ensinem-lhes o Islã e ordenem-lhes que o pratiquem devidamente. [Nessa ocasião, o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) mencionou algumas práticas, que eu memorizei.] E rezem exatamente da maneira como me viram rezar. [Sahih al-Bukhari, volume 2, página 1076]

Este hadith mostra que novos muçulmanos vinham de regiões distantes à presença do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) com o objetivo de adquirir um conhecimento detalhado sobre o Islã. O Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) ensinava-lhes os ideais islâmicos e a sharia. Ele os exortava especialmente a memorizar tudo o que ouvissem e aprendessem e, ao retornarem, a ensinar e divulgar isso entre as pessoas de suas respectivas regiões.

Assim, como resultado das ordens e orientações claras e fundamentais do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), os hadiths do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) chegaram rapidamente aos muçulmanos que viviam em regiões distantes, e quase todos os muçulmanos daquela época puderam conhecer os hadiths do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) por meio de fontes confiáveis. Esse foi o método inicial e natural de preservação e divulgação dos hadiths.

 

Revisão mútua dos hadiths e ensino

Após ouvirem os hadiths do nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), os Companheiros se reuniam em seus momentos livres, conforme a oportunidade e a necessidade, e dedicavam-se à revisão e à discussão mútua. Às vezes, os Companheiros organizavam entre si reuniões especiais para discutir os hadiths. Embora essas reuniões geralmente fossem realizadas na Mesquita do Profeta, ocasionalmente também se realizavam reuniões semelhantes nas casas dos Companheiros. Nessas reuniões, discutiam-se abertamente as palavras, ações e orientações do nobre Mensageiro. Os principais Companheiros participavam dessas reuniões. Se anteriormente alguém desconhecesse algum assunto, por meio das discussões dessas reuniões podia obter pleno conhecimento dele de forma confiável e por fontes fidedignas. Se alguém tivesse alguma dúvida sobre determinado assunto, ela também desaparecia como resultado dessas discussões. Apresentamos aqui alguns relatos autênticos sobre esse tipo de reunião e atividade de discussão:

1. Hazrat Anam (que Allah esteja satisfeito com ele) disse:

Costumávamos ouvir hadith do Mensageiro (s). Quando ele se levantava da reunião e partia, sentávamo-nos e repetíamos, praticávamos e revisávamos entre nós os hadith que havíamos ouvido. Cada um de nós recitava, de memória, todos os hadith que havia memorizado. Quando nos levantávamos de quase todas essas reuniões, cada um de nós já havia memorizado tudo.[**********]

2. Abdullah ibn Amr (que Allah esteja satisfeito com ele) disse:

Certo dia, o nobre Profeta (s) saiu de um de seus aposentos e viu duas assembleias de pessoas na mesquita. Em uma delas, as pessoas reunidas recitavam o Alcorão e estavam ocupadas suplicando a Allah. Na outra, as pessoas estudavam e ensinavam hadith. O nobre Profeta (s) disse: “As pessoas de ambas as assembleias estão ocupadas com boas ações. Estas — um grupo — estão recitando o Alcorão e invocando Allah: se Allah quiser, Ele lhes concederá aquilo que pedem; e, se não quiser, não lhes concederá. E as pessoas do outro grupo estão estudando e ensinando conhecimento e hadith. ********************* e fui enviado justamente como professor.” Abdullah ibn Amr disse: “Então, ele sentou-se junto delas.”[**********************]

Não há dúvida de que as pessoas dedicadas ao estudo do conhecimento discutiam os hadith do Mensageiro, suas ações e condutas e diversos assuntos da religião do Islã relacionados a isso, ensinando-os às pessoas presentes. Que reuniões desse tipo eram realizadas ainda durante a vida do nobre Profeta (s), e que o próprio Mensageiro delas participava, incentivando especialmente as pessoas a aprenderem o conhecimento dos hadith, fica inequivocamente comprovado pelo longo relato acima.

3. O episódio seguinte, narrado por Hazrat Mu‘awiya, fornece mais uma prova do que foi dito acima. Ele disse6

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Certo dia, eu estava com o nobre Profeta (s). Ele entrou na mesquita e viu um grupo de pessoas sentado. Perguntou-lhes: “Por que estais sentados aqui?” Eles responderam: “Oferecemos a oração obrigatória e, depois disso, sentamo-nos para conversar uns com os outros sobre o Livro de Allah e a Sunnah de Seu Profeta.”[Mustadrak al-Hakim, vol. 1, p. 94.]

Depois de memorizarem os hadith, os companheiros do Profeta prestavam especial atenção para não os esquecer. Por isso, muitos companheiros costumavam estudar e recitar hadith por iniciativa própria. Isso fica comprovado pela seguinte declaração de Hazrat Abu Hurayra (que Allah esteja satisfeito com ele). Ele disse:

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Divido a noite em três partes. Em uma parte da noite durmo, outra parte passo em adoração e, na terceira, fico recordando e memorizando os hadiths do Mensageiro.

Neste contexto, pode-se mencionar os Aṣḥāb al-Suffa. Particularmente, na história dos hadiths, os Aṣḥāb al-Suffa desempenharam um papel especialmente importante como o primeiro centro de surgimento e os primeiros transmissores dos hadiths.

Em geral, todos os Companheiros procuravam passar mais tempo na companhia do Mensageiro. Porém, os moradores da Sufa permaneciam dia e noite, durante as vinte e quatro horas, na presença do Mensageiro. O pátio em frente à Mesquita do Profeta era sua morada. Eles não tinham casa nem família, e tampouco possuíam grande necessidade de renda ou de ganhos. Portanto, não pode haver dúvida de que, em comparação com os demais Companheiros, eles podiam passar o maior tempo na companhia do Mensageiro.

Consequentemente, a Mesquita do Profeta transformou-se, na prática, em uma universidade residencial. O próprio Profeta Nobre (S) era seu principal diretor, e quase todos os Companheiros eram seus estudantes. Sob as instruções do Mensageiro, os Companheiros mais eminentes também se encarregavam de ensinar assuntos específicos.

Não é possível determinar o número exato de Companheiros que viviam na Sufa. Contudo, não há dúvida de que esse número não era de modo algum insignificante. Pode-se ter uma ideia da amplitude dessa instituição a partir do relato apresentado por Ibn Abd al-Barr sobre uma tribo. Ele escreveu:

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A delegação de Tamim contava com setenta ou oitenta pessoas. Depois de aceitarem o Islã, permaneceram em Medina por um longo período. Durante esse tempo, estudaram o Alcorão e a religião do Islã.

Em suma, os companheiros de Ahl as-Suffa permaneciam dia e noite próximos do Mensageiro, ouvindo, observando e compreendendo, com olhar atento e especial cuidado, suas palavras, suas ações, suas atividades, seus movimentos, suas inclinações e os ditos e atos por ele aprovados. Esforçavam-se ao máximo para que não permanecessem ignorantes de qualquer palavra ou mesmo do menor assunto.

Na verdade, poder permanecer continuamente na presença do nobre Mensageiro era, para os companheiros, a maior das felicidades. Nesse contexto, merece especial menção o caso de Hazrat Salit. O nobre Mensageiro lhe havia dado um pedaço de terra para cultivar. Ele saía para trabalhar no cultivo e depois retornava. Então ouvia de outros companheiros que, durante sua ausência, haviam sido revelados certos versículos do Alcorão e que o nobre Mensageiro havia dito isto e aquilo. Nesse momento, sentia em seu coração grande tristeza e a dor de estar privado de algo. Foi até o nobre Mensageiro e disse: “Ó Mensageiro de Allah, aceite de volta a terra que me destes, pois, por causa dela, sou privado da grande felicidade de permanecer presente em vossa presença. Não quero isso; não tenho necessidade alguma dela.”

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Se algum companheiro, por uma razão especial, não pudesse comparecer à presença do Mensageiro em determinado dia, informava-se de tudo por meio daquele que estivera presente ali naquele dia. Hazrat Umar havia assumido com seu irmão ansari e vizinho, Hazrat Utban Malik, o compromisso de que, se algum dos dois não pudesse comparecer à presença do Mensageiro em determinado dia, o outro o informaria de tudo o que acontecera naquele dia. Nas palavras de Hazrat Umar:

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Quando eu ia à presença do Mensageiro, transmitia-lhe as notícias da revelação daquele dia e dos demais assuntos; e, quando ele ia, também fazia o mesmo.

Hazrat Abdullah ibn Umar tinha especial interesse em aprender os hadices. Quando se ausentava, em algum dia ou momento, da presença do Profeta, perguntava aos companheiros que haviam estado presentes naquele período para saber o que o nobre Mensageiro havia dito, que ações havia realizado e quais palavras e atos havia aprovado. Se desconhecia algum hadice ou qualquer outro assunto, perguntava pessoalmente ao nobre Profeta, eliminando assim toda ignorância, dúvida e incerteza.

Certa vez, um homem da tribo de Lais relatou, com base na autoridade de Hazrat Abu Sa’id al-Khudri: “O nobre Profeta disse:”

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Não compreis nem vendais ouro em troca de ouro, exceto em quantidades iguais. [Bukhari Sharif, primeiro volume, página 291.]

Este ensinamento era desconhecido de Hazrat Ibn Umar. Ele então compareceu imediatamente diante de Abu Sa’id al-Khudri e perguntou-lhe:

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Você está narrando este hadith com base no Mensageiro (que a paz esteja com ele)?

Os ilustres Companheiros também estabeleceram centros de ensino semelhantes em suas respectivas regiões para ensinar o Alcorão e o hadith. Ainda durante a vida do Nobre Profeta (que a paz esteja com ele), foram construídas nove mesquitas na cidade de Medina. Nelas, assim como se realizavam as cinco orações diárias em congregação, também havia, em cada uma, व्यवस्था para o ensino da religião do Islã. A delegação da tribo de Abdul Qays que havia chegado retornou ao seu país com esse reconhecimento:

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Os Ansar ensinavam-nos o Livro de Allah e a Sunnah do Mensageiro.

Farham ibn Malik (r.a.) veio do Iêmen para Medina a fim de aprender os ensinamentos do Islã. Sobre ele, o historiador Ibn Sa’d escreveu:

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Ele veio do Iêmen e estudou o Alcorão, as obrigações do Islã e as disposições da Sharia.

Neste contexto, também é digno de menção o seguinte relato de Hazrat Abu Huraira. Ele disse:

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Os Companheiros sabiam muito bem que eu comparecia regularmente à presença do Mensageiro (s.a.w.). Por isso, perguntavam-me sobre os hadiths do nobre Mensageiro (s.a.w.) e aprendiam comigo. Entre eles, destacavam-se Hazrat Umar, Uthman, Ali, Talha e Zubair.

Os centros de ensino religioso estabelecidos pelos Companheiros nas diversas regiões de Medina geralmente ofereciam aulas durante o dia. Por isso, muitos trabalhadores e pessoas que exerciam diferentes profissões não tinham a oportunidade de participar deles e adquirir conhecimento. Assim, foram obrigados a estabelecer centros de ensino semelhantes a escolas noturnas. Sobre os estudantes dessas escolas, o Imam Ahmad ibn Hanbal escreveu:

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Quando a escuridão da noite os envolvia, eles iam até seus professores que se encontravam em Medina. Ali permaneciam ocupados estudando até a manhã. [************]

É desnecessário dizer que, nesses centros, juntamente com o Alcorão, também se ensinava o hadith. Foi precisamente por essa razão que muitos Companheiros transmitiram hadiths não diretamente do Mensageiro, mas por intermédio de outro Companheiro. A seguinte declaração de Hazrat Anam ibn Malik (ra) fornece uma prova clara disso. Ele disse:

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Nem todos os hadiths que narramos a vocês ouvimos diretamente do Mensageiro. Pelo contrário, os nossos (Companheiros) narravam hadiths uns aos outros. [Mustadrak al-Hakim, volume 1, página 95.]

Também se encontra apoio para isso nas palavras que Hazrat Bara ibn Azib (ra) proferiu ao falar sobre o mérito dos hadiths que narrou. Ele disse:

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Não ouvimos todos os hadiths do Mensageiro; nossos companheiros também nos transmitiam os hadiths do Mensageiro. Isso porque o trabalho de cuidar dos camelos e as ocupações nos impediam de comparecer à presença do Mensageiro. [Tabaqat de Ibn Saad, volume 4, página 283; Mustadrak, volume 1, página 95.]

No livro ‘Mustadrak’, as palavras dessa declaração aparecem da seguinte forma:******************************************************

Não ouvimos todos os hadiths diretamente do Mensageiro; ao contrário, nossos companheiros narravam hadiths para nós. E nós ficávamos ocupados em cuidar dos camelos. [Mustadrak al-Hakim, volume 1, página 96]

Esta longa discussão comprobatória demonstra que os Companheiros que tinham a oportunidade de ouvir hadiths do nobre Profeta (s.) transmitiam-nos aos demais Companheiros; e aqueles que não tinham a oportunidade de ouvir hadiths diretamente do Mensageiro ouviam-nos dos outros Companheiros que os haviam escutado. Dessa forma, cada hadith do nobre Mensageiro chegou, ainda durante sua vida, a quase todos os Companheiros.

 

A aplicação prática dos hadiths

Os nobres Companheiros (r.a.) não se contentavam em apenas memorizar os hadiths recebidos do nobre Profeta (s.) e em transmiti-los e revisá-los oralmente em suas reuniões. Ao mesmo tempo, esforçavam-se ao máximo para colocá-los em prática. Quando o nobre Profeta (s.) proferia alguma declaração sobre uma crença ou uma questão puramente teórica, os nobres Companheiros memorizavam-na, fixavam-na firmemente em suas mentes e corações e, de acordo com ela, formavam suas próprias crenças e convicções. E quando ele proferia alguma declaração contendo uma ordem ou proibição, ordenava a realização de algum ato ou proibia a realização de algum ato, ou emitia algum decreto administrativo, os nobres Companheiros (r.a.) imediatamente a transformavam em prática. Enquanto não a transformassem em um hábito cotidiano, não deixavam de se esforçar nem por um instante para praticá-la e habituar-se a ela. O nobre Abd Allah ibn Mas’ud (r.a.) disse:

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Quando qualquer um de nós aprendia dez versículos, não avançava para aprender mais nada antes de compreender plenamente seu significado e agir de acordo com ele. [*************]

Isso significa que tudo o que os nobres Companheiros aprendiam do nobre Profeta (s.), eles se esforçavam ao máximo, antes de tudo, para colocá-lo em prática. Assim, cada palavra, ordem e decreto do Mensageiro era imediatamente cumprido e implementado pelos nobres Companheiros.

Numerosas ordens do tipo a seguir, proferidas pelo nobre Profeta (s.), também comprovam que ele próprio dava atenção especial à transformação das leis e normas fundamentais do Islã em realidade na vida dos Companheiros. Ele vigiava rigorosamente para verificar se os muçulmanos seguiam suas instruções na vida pessoal. Dava-se extrema importância à conduta prática e à observância do Islã. Tomavam-se cuidados especiais para transformar as crenças e as leis islâmicas em hábitos e traços de caráter dos muçulmanos. Como exemplo, entre as inúmeras palavras de ordem do Mensageiro, serão mencionadas aqui duas. Ele disse:

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Rezai exatamente como me vistes rezar. [Sahih al-Bukhari, volume 2, página 1076.]

Sobre a realização do Hajj, o Profeta (S) declarou em seu sermão do Hajj de despedida:

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Recebei de mim as regras e os procedimentos para a realização do Hajj. (a). ******************* No Sahih Muslim, a frase é mencionada assim:

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Aprendei de mim os ritos do vosso Hajj e tomai conhecimento deles.

Ao explicar este hadith, o Imam Nawawi escreveu:

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O sentido das palavras do Mensageiro é este: tudo aquilo que pratiquei durante a realização do meu hajj — palavras, atos e questões relacionadas a Allah — constitui os ritos e a forma do hajj. Para vós, também, esses mesmos procedimentos e ritos estão prescritos. Portanto, aceitai-os de mim, acolhei-os; conhecei-os, memorizai-os e preservai-os; praticai de acordo com eles e ensinai-os também a outras pessoas. O Imam Nawawi disse: no que diz respeito aos ritos e aos procedimentos do hajj, este é um fundamento e uma fonte de extrema importância. Trata-se exatamente de uma ordem como esta: “Rezai tal como me vistes rezar”.

Destes dois mandamentos, fica inicialmente comprovado que, embora o Alcorão Majide contenha instruções claras sobre as orações, o jejum, o hajj, o zakat e outros atos de adoração, nele não foram mencionadas as regras detalhadas relativas a esses atos. Portanto, elas devem ser recebidas do Profeta universal, portador do Alcorão.

Em segundo lugar, para ensinar o modo e o procedimento de cada ato, o Mensageiro (S) realizava pessoalmente esse ato e apresentava às pessoas um exemplo prático; ele próprio demonstrava, por meio da prática, como o ato deveria ser realizado.

Além disso, sempre que percebia algum erro ou falha de alguém nos atos de adoração, o Mensageiro (S) corrigia isso imediatamente; apontava o erro e também insistia para que a pessoa o corrigisse. Certo dia, ele observava na Mesquita do Profeta a oração de um companheiro. Viu que a oração dele não estava sendo realizada de acordo com as regras corretas. Quando, depois de concluir a oração, ele se aproximou do Mensageiro, este lhe disse:

******************************************************

Volta e reza novamente, pois não rezaste.

Isto é, a sua oração não foi realizada; você não a realizou da maneira como deve ser realizada. Portanto, reze novamente. Mesmo depois de ele ter rezado três ou quatro vezes dessa forma, quando a sua oração ainda não foi concluída corretamente, o Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) ensinou pessoalmente, de modo prático e detalhado, todas as regras e procedimentos da oração. [Sahih al-Bukhari, volume 1, página 10.]

Dessa maneira, os nobres Companheiros (que Allah esteja satisfeito com eles), permanecendo diante do Mensageiro e em sua companhia, recebiam formação e treinamento ideológicos, éticos e práticos do Islã. Assim que um versículo do Alcorão era revelado, eram eles os primeiros a ouvi-lo do Mensageiro. Quando o Mensageiro (que a paz esteja com ele) proferia algo sobre a interpretação ou a aplicação prática de algum versículo do Alcorão, eram eles os primeiros a ouvi-lo.

Por outro lado, os nobres Companheiros (que Allah esteja satisfeito com eles) também observavam atentamente todas as ações e atividades do Mensageiro, esforçando-se para compreendê-las com a mente e o coração. Os hadiths a seguir podem ser citados como prova disso:

(a) Algumas pessoas perguntaram a Hadrat Khabbab ibn al-Aratt (que Allah esteja satisfeito com ele): “O Nobre Mensageiro (que a paz esteja com ele) recitava o Alcorão na oração do zuhr?” Hadrat Khabbab respondeu: “Sim.” Então, perguntaram-lhe:

******************************************************

Como vocês podiam saber, estando atrás dele, que o Mensageiro recitava o Alcorão durante a oração?

Ele respondeu:

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Nós podíamos saber e compreender isso apenas observando o movimento de sua barba.[Bukhari Sharif, vol. 1, p. 105; Abu Dawud: Kitab as-Salat, vol. 1; Mustadrak Hakim, vol. 3, p. 579.]

(b) Hazrat Abu Sa’id al-Khudri (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: Nós calculávamos aproximadamente quanto tempo o Profeta, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, permanecia de pé nas orações do Zuhr e do Asr. Observávamos que, nas duas primeiras rak’ahs, ele permanecia de pé durante o tempo necessário para recitar três versículos do Alcorão, e nas duas últimas rak’ahs permanecia de pé durante metade desse tempo.[Muslim Sharif, vol. 1, p. 185; Abu Dawud, Kitab as-Salat, vol. 1.]

Que os Companheiros realizavam suas ações de acordo com o que observavam das práticas do Mensageiro é comprovado pelo seguinte hadith:

Um homem disse a Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele): “No Nobre Alcorão, vemos menção apenas à oração em tempo de medo (********) e à oração durante a permanência em nossa própria casa; mas não encontramos no Nobre Alcorão nenhuma menção à oração durante a viagem. Qual é a razão disso?” Em resposta, ele disse:

Nós nada sabíamos sobre a religião. Em tal situação, Allah, o Altíssimo, enviou Muhammad, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele, como Mensageiro; portanto, agora praticamos a religião exatamente da maneira como o vemos praticá-la.[Musnad Ahmad, vol. 2, p. 65.]

Os três hadiths mencionados anteriormente comprovam claramente os seguintes pontos:

(a) No que diz respeito às práticas da religião, os Companheiros realizavam tudo exatamente como o próprio Mensageiro fazia; os Companheiros imitavam fielmente tanto as palavras quanto as ações do Mensageiro e consideravam que, agindo assim, a religião havia sido cumprida.

(c) O próprio Nobre Mensageiro exortava os Companheiros a observar e seguir a maneira como ele realizava qualquer prática da religião, e os Companheiros cumpriam isso por causa de seu dever de praticar a religião. Pois o único meio de obter conhecimento detalhado sobre a religião era aceitar e compreender as palavras do Mensageiro, observar atentamente suas ações e aprender diretamente com ele, na prática.

De fato, para conhecer as normas e regulamentos detalhados e minuciosos do Islã, a primeira comunidade islâmica, os Companheiros honoráveis, empreendia esforços imensuráveis e demonstrava grande empenho na investigação. Foi assim que o sistema detalhado do Islã foi elaborado com base nos princípios fundamentais corânicos.

Os Companheiros honoráveis (que Allah esteja satisfeito com eles) seguiam fielmente o Mensageiro até mesmo em ações nas quais, segundo a Sharia, não era indispensável imitá-lo. Certa vez, o nobre Profeta (que a paz esteja com ele) realizou a oração usando apenas um manto. Um dia, o célebre Companheiro Hazrat Jabir fez exatamente o mesmo. Ao vê-lo, seus discípulos perguntaram: “Embora o senhor tenha um manto adicional, por que não o usou durante a oração?” Ele respondeu: “Fiz isso porque o nobre Profeta (que a paz esteja com ele) concedeu essa permissão, para que vocês pudessem tomar conhecimento disso”. [Musnad do Imam Ahmad, vol. 3, p. 328.]

Hazrat Bara ibn Azib (que Allah esteja satisfeito com ele) esforçava-se ao máximo para se assemelhar ao Mensageiro em cada ato da oração. Certo dia, reuniu os membros de sua família e disse: “Hoje mostrarei a vocês como o nobre Profeta (que a paz esteja com ele) realizava a ablução e a oração”. Em seguida, fez a ablução e realizou em congregação as orações do zuhr, asr, maghrib e isha, executando cada ato à imitação do Profeta. Também demonstrou como o Mensageiro (que a paz esteja com ele) fazia o rukū e o sujūd. [Musnad do Imam Ahmad, vol. 4, pp. 288 e 303.]

Hazrat Anas (que Allah esteja satisfeito com ele) serviu continuamente o nobre Mensageiro (que a paz esteja com ele) durante dez anos. Tudo o que viu o Mensageiro (que a paz esteja com ele) fazer, em qualquer circunstância e de qualquer maneira, ele realizou exatamente da mesma forma ao longo de toda a sua vida. Ao observar o modo e o método de sua oração, Hazrat Abu Hurayra (que Allah esteja satisfeito com ele) costumava dizer: “Não vi ninguém realizar a oração de modo mais semelhante e harmonioso com o Mensageiro do que Ibn Umm Sulaym (Anas)”. Certa vez, ele estava realizando a oração montado sobre um camelo, numa planície nos arredores de um lugar chamado Ayn al-Tamar. O camelo não estava voltado para a qibla. Seus companheiros ficaram admirados ao ver isso e perguntaram-lhe o significado. Ele respondeu: “Se não tivesse visto o nobre Profeta (que a paz esteja com ele) realizar a oração dessa maneira, jamais a teria realizado assim”. Em outra ocasião, realizou a oração vestindo uma extremidade de uma peça de roupa e envolvendo a outra ao redor do corpo. Havia um manto jogado bem perto. Depois que terminou a oração, Ibrahim ibn Rabia (um tabi‘i) perguntou-lhe o motivo. Hazrat Anas (que Allah esteja satisfeito com ele) respondeu: “Vi o nobre Profeta (que a paz esteja com ele) realizar a oração exatamente assim”. Ele imitava e seguia fielmente o nobre Profeta não apenas nas obrigações, mas também nas questões relacionadas aos atos wajib e sunnah. A vida grandiosa e pura do nobre Profeta (que a paz esteja com ele), cada ato e cada passo de sua vida, era para ele e para centenas de milhares de Companheiros como ele o mais luminoso farol de orientação.

Na realidade, foi por meio desse tipo de seguimento dos Companheiros que cada palavra e ação do Mensageiro, bem como o relato de suas ações, permaneceu preservado para sempre; a sociedade formada pelo Mensageiro jamais pôde esquecê-los. Esta foi uma das principais e mais importantes bases para a preservação dos hadiths do Mensageiro.

 

Cumprimento da responsabilidade de propagar o Islã

Tudo o que os Companheiros honoráveis (que Allah esteja satisfeito com eles) aprendiam sobre o Islã junto ao Mensageiro, todo o tesouro de conhecimento do Alcorão e dos hadiths que adquiriam, eles não o mantinham limitado e guardado apenas entre si; pelo contrário, considerando isso uma responsabilidade fundamental e moral, permaneciam continuamente ocupados em divulgá-lo entre o povo e entre os muçulmanos que viviam distantes da presença do Mensageiro e de sua companhia diária. Isso constituía um de seus principais deveres religiosos. Na realidade, foi precisamente para o cumprimento desse dever que Allah, o Altíssimo, formou a comunidade muçulmana por meio do nobre Profeta (que a paz esteja com ele). Ao descrever as metas e os objetivos individuais e coletivos da nação muçulmana, o Sagrado Alcorão proclamou em tom solene:

******************************************************

Assim, fizemos de vós uma ummah que segue o caminho do meio, para que sejais guias para a humanidade, e o Mensageiro seja vosso guia. [Surata Al-Baqarah, versículo 143.]

De acordo com esta declaração do Alcorão, os Companheiros Nobres (que Allah esteja satisfeito com eles), ao mesmo tempo que moldavam sua vida e seu caráter como exemplos concretos da verdade, também sentiam como responsabilidade e dever guiar o povo para o caminho da verdade e convidá-lo à verdade. Nesse assunto, não se importavam minimamente com qualquer obstáculo, sofrimento ou cansaço. Nenhum golpe podia fazê-los abandonar esse caminho. Além disso, consideravam um pecado gravíssimo deixar este mundo ocultando qualquer ensinamento da religião que tivessem aprendido, sem transmiti-lo a outras pessoas. Pois, por causa da declaração corânica a seguir, permaneciam extremamente temerosos, apreensivos e alarmados quanto a isso. Allah, o Altíssimo, disse:

******************************************************

Aqueles que ocultarem, depois de Eu ter revelado as evidências claras, enviado a mensagem de orientação para as pessoas e explicado isso também no Livro, terão sobre si a maldição de Allah e a maldição de todos os que amaldiçoam. [Surata Al-Baqarah, versículo 159]

Depois de ouvirem esta severa advertência, nenhum Companheiro podia ousar ocultar sequer uma pequena questão relacionada à religião. Quando se perguntava a algum Companheiro sobre qualquer assunto do Islã, ele considerava seu dever responder de acordo com seu conhecimento. Pois tinham presente a seguinte palavra do nobre Profeta:

******************************************************

Se alguém for questionado sobre algum conhecimento e o ocultar, no Dia da Ressurreição Allah colocará nele uma rédea de fogo. [Mustadrak de Hakim, volume 1, página 101.]

Por essa razão, pode-se afirmar enfaticamente que a sociedade islâmica formada pelo nobre Profeta funcionava, em sua totalidade, como um mecanismo automático de propagação do Alcorão e dos hadices. Assim como o sangue, ao ser bombeado pelo coração, circula e flui por todo o corpo, até cada órgão pequeno ou grande, através de artérias permanentes e automáticas, também o patrimônio dos hadices no Islã, tendo emanado do nobre Profeta, chegou aos centros mais distantes da sociedade humana graças ao esforço incansável e à dedicação de cada muçulmano.

Além de cumprir essa responsabilidade pessoal de propagar o Islã, durante a vida do Nobre Profeta (S) os hadiths também foram difundidos por meio da administração oficial. Isso porque o Nobre Profeta (S) enviou indivíduos e grupos a diversos lugares e países para a propagação do Islã. Nesta seção, mencionaremos alguns acontecimentos célebres.

Hazrat Abu Imam Bahili (R.A.) disse:

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O Nobre Mensageiro (S) enviou-me ao meu próprio povo e às pessoas da minha região, com o objetivo de convidá-los a Allah e apresentar-lhes as normas da Sharia islâmica.[Al-Mustadrak de Hakim, volume 3, página 641.]

Um grupo de Ansar permanecia a serviço do Nobre Profeta (S). Durante o dia, transportavam água, recolhiam lenha e, vendendo-a, compravam alimento para os habitantes de Suffa. À noite, estudavam o Alcorão e os hadiths. Certa vez, alguns hipócritas reuniram-se e disseram ao Mensageiro:

******************************************************

Envie conosco algumas pessoas que nos ensinem o Alcorão e os hadiths.

Para esse propósito, o Nobre Profeta (S) enviou com eles setenta homens dentre as pessoas mencionadas acima. Infelizmente, no meio do caminho, os hipócritas lançaram um ataque repentino contra eles e fizeram-nos mártires.[Sahih Muslim, volume 2, página 139. ********************]

Às vésperas da Hégira, Hazrat Abu Dharr al-Ghifari (que Allah esteja satisfeito com ele) aceitou o Islam perante o Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), em Meca Sharif. O Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse-lhe:

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Foi-me ordenado que partisse para a terra das tâmaras. Penso que não pode ser outra terra senão Yathrib, ou Medina. Agora, podes, em meu nome, convidar para o Islam os membros da tua própria tribo e os habitantes da tua região?

Abu Dharr al-Ghifari (que Allah esteja satisfeito com ele) aceitou alegremente essa responsabilidade e, ao chegar à sua terra, começou a convidar o povo para o Islam. Ele transmitiu aos membros da sua tribo e aos habitantes da sua terra tudo o que havia aprendido sobre o Islam junto do Nobre Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Como resultado, muitas pessoas aceitaram o Islam. Sahih Muslim, volume 2, página 276.

De modo semelhante, após aceitar o Islam, Qays ibn Nashiah Aslami (que Allah esteja satisfeito com ele) regressou à sua terra. Ele disse aos membros da sua tribo e aos habitantes da sua região:

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Ó membros dos Banu Sulaym! Ouvi a literatura dos povos romano e persa, a poesia dos poetas árabes, as histórias dos adivinhos e a poesia de Himyar. Contudo, nada disso pode ser comparado às palavras de Muhammad — trata-se de algo completamente distinto em espírito. Portanto, segui o meu exemplo quanto a ter fé em Muhammad.

O Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) enviou Hazrat Amr ibn Hazm (que Allah esteja satisfeito com ele) à tribo de Najran com o objetivo de que—

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Ele lhes transmitirá o conhecimento apropriado sobre a religião e lhes ensinará o Alcorão.

O Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) enviou Hazrat Mu‘az ibn Jabal ao Iêmen:

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como professor dos habitantes do Iêmen e de Hadramaut.

Quando as duas tribos chamadas Karba e Adl aceitaram o Islã no terceiro ano após a Hégira, o Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) enviou seis professores para elas:

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O Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) enviou seis professores às duas tribos chamadas Adl e Karra, para lhes transmitir o conhecimento básico sobre a religião do Islã e ensinar-lhes o Alcorão e as normas da Sharia islâmica. Eles eram: Marsad ibn Abi Marsad, Asim ibn Thabit, Habib ibn Adi, Khalid ibn al-Bukair, Zaid ibn Dasna e Abdullah ibn Tariq (que Allah esteja satisfeito com ele).

Após a conquista de Meca, toda a Arábia se preparou para aceitar o Islã. Então, as pessoas começaram a enviar os chefes de suas respectivas tribos à presença do Nobre Profeta (s). Eles aceitavam o Islã, retornavam para junto dos membros de suas tribos e dos habitantes de suas regiões, convidavam-nos ao Islã e difundiam o conhecimento islâmico — o Alcorão e os hadiths.

Além disso, o Nobre Profeta (s) enviou numerosos Companheiros, individualmente ou em grupos, a diferentes regiões da Arábia com o propósito de propagar o Islã. Por meio deles, o Majestoso Alcorão e os hadiths do Mensageiro, como sua explicação, também se difundiram amplamente.

Os Companheiros que o Nobre Profeta (s) nomeou governadores e enviou às diversas províncias do Estado Islâmico adotaram, juntamente com o Alcorão, o hadith como uma das bases para administrar. A esse respeito, é especialmente memorável a conversa que o Nobre Mensageiro (s) teve com Hazrat Mu’az ibn Jabal (r.a.) quando o nomeou governador do Iêmen e o enviou para lá. O Nobre Profeta (s) perguntou: “Com base em que administrarás?” Mu’az respondeu: “Com base no Alcorão.” Ele perguntou: “E se nada for encontrado no Alcorão sobre a questão em causa?” Mu’az respondeu:

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“Agirei com base na Sunna do Mensageiro.”

Ao final dessa conversa, o Nobre Mensageiro agradeceu a Allah com grande satisfação e, colocando a mão sobre o peito de Hazrat Mu’az, disse:

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“Louvado seja Aquele que concedeu ao enviado do Mensageiro de Allah a capacidade de determinar ações e princípios que agradam ao Mensageiro de Allah.”

A palavra final a este respeito é que, em quase todas as partes do Estado Islâmico, o hadith chegou ainda durante a vida do Mensageiro, graças aos esforços e aos cuidados das pessoas enviadas por ele. Em toda parte, começou o seu estudo e a sua prática. Como resultado, os muçulmanos que viviam em regiões distantes puderam familiarizar-se plenamente com o hadith do Mensageiro, juntamente com o Alcorão.

 

A divulgação e o ensino do hadith pelos Companheiros

No cumprimento da responsabilidade de divulgar o Islã, os Companheiros divulgaram o hadith juntamente com o Alcorão em diferentes países. Nesta etapa, apresentaremos uma discussão detalhada sobre os esforços empreendidos pelos Companheiros, particularmente no que se refere à divulgação do hadith.

Contudo, antes de prosseguirmos, é necessário apresentar aqui uma discussão breve e fundamental sobre o que significa “Companheiro”, quem é Companheiro e quem não é.

A opinião de célebres muhaddiths, como o Imam Bukhari e Ahmad ibn Hanbal, é a seguinte:

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Aquele que viu o Mensageiro (que a paz esteja com ele), possuía capacidade de discernimento, creu nele e morreu professando o Islã é um Companheiro. Quer o seu encontro e convivência com o Mensageiro tenham sido longos ou breves, quer tenha narrado hadith dele ou não, quer tenha combatido ao seu lado ou não, será considerado um Companheiro.

O Imam Bukhari escreveu em sua obra Sahih:

Todo muçulmano que teve contato com o Mensageiro ou que o viu é um companheiro do Mensageiro.

Abul Muzaffar as-Samʿani disse:

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Os estudiosos da ciência dos hadith chamam de companheiros todos aqueles que narraram do Mensageiro um hadith ou mesmo uma única palavra.

O próprio Allah elogiou e apresentou os companheiros em diversos lugares do Alcorão. Em um deles, isso é dito em linguagem relativamente detalhada e extremamente enfática:

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Muhammad é o Mensageiro de Allah, e os que estão com ele (os companheiros) são extremamente severos para com os incrédulos; entre si, são compassivos e amorosos. Tu os verás sempre inclinados e prostrados, humildes e submissos diante de Allah. Estão sempre desejosos de alcançar a graça e a satisfação de Allah. Em suas testas há marcas de prostração. [Surata al-Fath, versículo 29.]

Em outro lugar, foi dito:

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Allah ficou muito satisfeito com estes crentes (os Companheiros), quando eles, sentados sob a árvore, prestavam juramento de fidelidade à tua mão, ó Profeta. Então Allah, o Altíssimo, conheceu o que havia em seus corações. [Ibid., versículo 18.]

Também nos hadiths autênticos foram citadas muitas palavras importantes do Mensageiro sobre as virtudes dos Companheiros.

Em um hadith, o Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse:

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Não insulteis os meus Companheiros. Pois, por Aquele em cuja mão está a minha alma, se algum de vós doasse ouro equivalente ao monte Uhud, ainda assim não alcançaria o mesmo grau de um Companheiro, nem sequer a metade dele. [Muslim, volume 2, página 310; Bukhari, volume 1, página 518.]

Na verdade, como resultado dos esforços incansáveis e dos sacrifícios infinitos e incomparáveis desses Companheiros, por um lado o Islã foi propagado e, por outro, a sociedade e o Estado islâmicos estabelecidos pelo Mensageiro Honorável (que a paz esteja com ele) também permaneceram plenamente protegidos. Foram os Companheiros que receberam do Mensageiro o conhecimento do Alcorão e dos hadiths e, ao mesmo tempo, providenciaram para que suas correntes doces fluíssem por todas as partes do mundo, tornando seus habitantes eternamente afortunados.

Portanto, por terem sido os primeiros receptores, transmissores e propagadores dos hadiths, os Companheiros permanecerão eternamente memoráveis na história dos muçulmanos do mundo; não há a menor dúvida quanto a isso.

De fato, ao receberem as instruções do Mensageiro de Deus (que a paz esteja com ele) sobre o aprendizado, a preservação e a memorização dos hadiths, bem como sobre sua divulgação e ensino, os Companheiros não puderam permanecer inativos. Pelo contrário, assim como deram aos hadiths a devida importância, aprenderam-nos e memorizaram-nos, também se empenharam com todas as suas forças para transmiti-los até mesmo às pessoas inexperientes e educá-las plenamente no aprendizado dos hadiths. Tanto durante a vida do Profeta (que a paz esteja com ele) quanto após seu falecimento, eles não demonstraram a menor negligência na divulgação e no ensino dos hadiths, juntamente com o Alcorão Sagrado. Após o falecimento do Profeta, espalharam-se por todas as regiões do Estado Islâmico e por muitos países não muçulmanos distantes, dedicando-se, cada um em seu próprio local e círculo de atuação, à disseminação dos hadiths e do conhecimento islâmico. Apresentamos aqui relatos históricos e comprovados sobre a divulgação e o ensino dos hadiths por alguns Companheiros ilustres:

1. Hazrat Abu Idris al-Khawlani (que Deus esteja satisfeito com ele) disse: Participei de uma reunião realizada na mesquita da cidade de Hims. Havia nela 32 Companheiros presentes. Ali se estudavam e ensinavam os hadiths coletivamente. Quando um Companheiro terminava de narrar um hadith, o segundo começava a narrar. [Musnad Ahmad, volume 5, página 328.]

2. Nasr ibn Asim al-Laythi disse: Vi uma grande reunião na mesquita congregacional da cidade de Kufa. Todas as pessoas, silenciosas e imóveis, olhavam fixamente para um homem, com profunda atenção, ansiosa expectativa e os olhos arregalados. Ao perguntar, soube que ele era o famoso Companheiro Hazrat Hudhayfa ibn al-Yaman (que Deus esteja satisfeito com ele) e que estava ensinando hadiths. [Musnad Ahmad, volume 5, página 386.]

3. A Mãe dos Crentes, Hazrat Aisha (que Deus esteja satisfeito com ela), estava ocupada ensinando hadiths em Medina. Ao mesmo tempo, o número de estudantes que frequentavam suas aulas era superior a duzentos. Entre eles, havia 38 mulheres. Companheiros respeitados como Hazrat Abu Musa al-Ashari, Abdullah ibn Abbas e Amr ibn al-As participavam regularmente de suas reuniões de ensino de hadiths. [Tadhkirat al-Huffaz, de al-Dhahabi, seção sobre Hazrat Abu al-Darda.]

4. Na cidade de Kufa, Hazrat Abdullah ibn Masud (que Deus esteja satisfeito com ele) ministrava regularmente aulas de hadith. Em suas aulas reuniam-se nada menos que quatro mil estudantes e ouvintes. [Ver a obra Asrar al-Anwar.]

5. Hazrat Abu al-Darda (que Deus esteja satisfeito com ele) [o nome deste Companheiro era Uwaymir ibn Zayd, página 32] vivia em Damasco. Quando comparecia à mesquita para ministrar uma aula de hadith, reunia-se diante dele uma multidão tão grande de ouvintes que, em meio a eles, ele parecia estar sentado como um imperador. [Tadhkirat al-Huffaz, seção sobre Abu al-Darda.]

‘Está mencionado no livro Tadhkirat al-Huffaz que pelo menos mil e seiscentos estudantes participavam regularmente da reunião de ensino de Hazrat Abu al-Darda.

6. Hazrat Abdullah ibn Umar (que Deus esteja satisfeito com ele) havia dominado o grande oceano do conhecimento dos hadiths; contudo, não o manteve limitado apenas a si mesmo, mas, por meio dele, saciava a sede de conhecimento de milhares e centenas de milhares de muçulmanos. Assim, realizou-se por seu intermédio uma ampla divulgação dos hadiths. Ele viveu por mais de sessenta anos após o falecimento do nobre Profeta (que a paz esteja com ele) (falecido em 74 H.). Durante essa longa vida, o ensino e a divulgação dos hadiths constituíram sua principal ocupação. [*****************] Por essa razão, ele nem sequer aceitou um emprego, pois isso teria prejudicado e dificultado essa grande obra.

Ele realizava regularmente assembleias de estudo de hadith em Medina. Especialmente durante o hajj, quando grande número de muçulmanos se reunia em Medina, ele lhes apresentava hadiths. Como resultado, os hadiths do Mensageiro chegavam com muita facilidade até os mais remotos centros do mundo muçulmano. [Usd al-Gabah, vol. 3, p. 228.] Além disso, ele também divulgava os hadiths visitando as casas das pessoas. Durante o governo de Yazid ibn Muawiya, ele foi à casa de Abdullah ibn Mutī. Quando lhe disseram que preparassem uma esteira e uma cama para ele, Hazrat Abdullah ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) disse:

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Não vim à tua casa para me sentar; vim apenas com o propósito de te transmitir um hadith. Eu ouvi esse hadith do Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele).

Em seguida, ele disse: Ouvi o Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) dizer:

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Quem se abstiver de obedecer ao emir, isto é, ao chefe do Estado islâmico, comparecerá no Dia da Ressurreição diante de Allah em tal condição que não terá nenhuma justificativa a apresentar. E quem morrer sem prestar bayʿah ao emir morrerá com a morte da jahiliyyah. [Sahih Muslim, vol. 2, p. 128; Musnad Ahmad, vol. 2, p. 154.]

7. Hazrat Abdullah ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) divulgava hadiths em toda ocasião e ensinava hadiths às pessoas. Ali ibn Abd al-Rahman disse: Abdullah ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) viu-me brincando com pedrinhas durante a oração. Quando terminei a oração, ele me proibiu de fazer isso e disse:

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Reza da mesma maneira que o Mensageiro (S) costumava rezar.

Quando lhe perguntaram como o Mensageiro (S) costumava rezar, ele respondeu:

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Quando o Mensageiro (S) se sentava durante a oração, colocava a mão direita sobre a coxa direita, fechava todos os dedos e fazia um gesto com o dedo ao lado do polegar. E colocava a mão esquerda sobre a coxa esquerda.[Muwatta do Imam Muhammad, p. 53 (com tradução)]

Quando passavam muitos dias sem que um hadith específico fosse narrado, os Companheiros sentiam temor de que, se não o narrassem e o mantivessem oculto, cometeriam um pecado. Portanto, já não era possível mantê-lo oculto. Então ele o narrava imediatamente às pessoas. O relato a seguir sobre Hazrat Uthman (r.a.) oferece um exemplo notável disso:

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Quando Hazrat Uthman (r.a.) fez a ablução, disse: “Certamente narrar-vos-ei um hadith. Entretanto, se não houvesse um versículo, de modo algum vo-lo narraria. Ouvi o Nobre Profeta (S) dizer: Se alguém fizer a ablução, a completar perfeitamente em todos os seus aspectos e realizar a oração, todos os pecados cometidos entre ele e a oração ser-lhe-ão perdoados, enquanto continuar a completar a oração.” O narrador do hadith responde: “O versículo é este: ‘Certamente, aqueles que ocultam o que fiz descer…’.[Sahih al-Bukhari, vol. 1, p. 28.

A apresentação do versículo citado como prova de que seria pecado ocultar o hadith de Hazrat Uthman (r.a.) demonstra que ele considerava os hadiths dos nobres Companheiros palavras descidas da parte de Allah. Do contrário, não poderia haver qualquer sentido em apresentar esse versículo como argumento, narrar o hadith que não fora narrado durante muitos dias por temor do pecado e do castigo mencionados no versículo, e dizer: “Se este versículo não existisse, de modo algum eu narraria este hadith.”]

Mesmo enquanto jaziam no leito de morte, os nobres Companheiros (que Allah esteja satisfeito com eles) narravam, quando necessário, os hadiths do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Hasan al-Basri disse: Hazrat Mambkal estava deitado no leito de morte quando Ubaydullah ibn Ziyad chegou ali. Nessa ocasião, Hazrat Mambkal disse:

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Vou narrar-te um hadith que ouvi do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Ele disse: Se Allah confiar a um servo a responsabilidade de governar o povo, e ele não o proteger aconselhando-o sinceramente e zelando pelo seu bem-estar, não sentirá sequer o aroma do Paraíso. [Bukhari Sharif, 2.º volume, página 1058.]

Hazrat Abu Ayyub Ansari (que Allah esteja satisfeito com ele), enquanto jazia no leito de morte, tremia sob o senso de responsabilidade de transmitir os hadiths. Pouco antes de morrer, narrou dois hadiths que nunca havia narrado antes. Após o seu falecimento, esses dois hadiths foram transmitidos ao povo muçulmano por meio de um anúncio público. [Musnad de Ahmad, 5.º volume, página 414.]

Ibn Abi Shaybah também citou um incidente semelhante relacionado a Hazrat Abu Hurayra (que Allah esteja satisfeito com ele). Ele estava deitado no leito de enfermidade e disse aos presentes:

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Ajudai-me a levantar e sentar, pois tenho comigo, guardado, um depósito confiado pelo nobre Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), e quero transmiti-lo a vós.

Depois que o fizeram sentar-se, ele narrou:

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Que nenhum de vós olhe de um lado para o outro durante a sua oração. Se alguém olhar, que o faça numa oração que não seja obrigatória.[Tafsir Ruh al-Maʻani, vol. 18, p. 3.]

Abul Aliya, o tabi’i, disse:

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Na cidade de Basra, costumávamos ouvir das pessoas relatos de hadiths transmitidos pelos companheiros do Mensageiro (s); mas não conseguíamos ficar de modo algum satisfeitos ou saciados com isso, até irmos a Medina e os ouvirmos da própria boca deles.[Musnad de Darimi, p. 74.]

Com efeito, numerosos muçulmanos vinham de diferentes centros do mundo islâmico à presença dos nobres companheiros, com o objetivo de adquirir conhecimento islâmico, hadith e ensinamentos do Alcorão. Eles os recebiam com honra e entusiasmo e lhes ensinavam hadiths. Está especialmente comprovado por fontes confiáveis, a respeito de Abu Hurayra (ra) e Abu Sa’id al-Khudri (ra), que suas assembleias ficavam repletas de estudantes de hadith. Quando se fazia uma pergunta sobre qualquer assunto, havia uma demora considerável para se obter a resposta.[Musnad do imame Ahmad, vol. 3, p. 92; Tirmidhi, Abwab al-‘Ilm.]

Ibn Abbas (ra) enviou seu filho Ali e seu servo Ikrimah a Abu Sa’id al-Khudri para ouvirem hadiths. Quando chegaram, ele estava no jardim. Ao vê-los, aproximou-se, sentou-se junto deles e narrou-lhes hadiths.[Ibidem]

8. Anas ibn Malik (ra) dedicou-se à propagação do conhecimento dos hadiths. Passou toda a sua vida no ambiente do ensino de hadiths. Enquanto os demais companheiros do Mensageiro (s) estavam ocupados em diversas guerras, ele permaneceu profundamente envolvido na divulgação e no ensino dos hadiths do Mensageiro (s), na mesquita congregacional de Basra. Um grande número de pessoas vinha de Meca, Medina, Basra, Kufa e da Síria para participar de suas sessões de exposição de hadiths. Ele foi um dos companheiros que narraram um grande número de hadiths. O Sahih al-Bukhari contém 80 hadiths narrados por ele; o Sahih Muslim, 70; e 128 hadiths narrados por ele aparecem em ambas as obras, a de Bukhari e a de Muslim.

9. Hazrat Ubay ibn Kambab (que Deus esteja satisfeito com ele) possuía um conhecimento particularmente profundo dos hadithes. Al-Dhahabi escreveu:

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Hazrat Ubay era um dos que haviam ouvido um grande número de hadithes do Nobre Profeta (que a paz esteja com ele). [Tazkiyat al-Huffaz — seção sobre Ubay.] Muitos Companheiros que transmitiam hadithes primeiro se tornaram seus discípulos.

10. Amr ibn Sa’id, governador de Medina, estava enviando tropas a Meca contra Hazrat Abdullah ibn al-Zubayr. Então Hazrat Abu Shurayh (que Deus esteja satisfeito com ele) dirigiu-se a ele, dizendo:

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Ó comandante! Permita-me narrar-lhe um hadith do Mensageiro (que a paz esteja com ele), que ele proferiu de pé no dia seguinte à conquista de Meca: meus dois ouvidos o ouviram, meu coração o preservou e reteve de memória, e meus dois olhos o viram quando ele falou. Em seguida, narrou-lhe um hadith que incluía a declaração de Meca como santuário inviolável e outros assuntos. [Bukhari Sharif, volume 1, página 21.]

Das palavras de Hazrat Abu Shurayh, sabe-se, em primeiro lugar, que ele havia memorizado e preservado completamente o hadith; e, em segundo lugar, que estava sempre pronto para cumprir a responsabilidade de narrá-lo.

Hazrat Jabir ibn Abdullah (que Deus esteja satisfeito com ele) também ministrava regularmente lições de hadith sentado na Mesquita do Profeta. O ilustre al-Suyuti disse:

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Na própria Mesquita do Profeta, Hazrat Jabir ibn Abdullah tinha um centro de ensino. Ali, as pessoas se reuniam e aprendiam hadith com ele.

Os Companheiros (r.a.) não se limitavam a ensinar hadith às pessoas apenas oralmente; pelo contrário, esforçavam-se sinceramente e tomavam especial cuidado para que elas memorizassem os hadith e pudessem gravá-los e preservá-los para sempre em sua memória. Já foi mencionado anteriormente o esforço dos Companheiros para memorizar hadith. Aqui tentaremos mostrar que eles se empenhavam especialmente em fazer memorizar os hadith àqueles que vinham até eles para aprendê-los.

Nesse primeiro período do Islã, assim como os muçulmanos enviavam seus filhos pequenos a instituições educacionais específicas com o objetivo de fazê-los memorizar o Alcorão, também os enviavam aos centros de ensino de hadith. Além disso, exortavam insistentemente as pessoas a memorizar hadith e, para esse fim, davam-lhes conselhos de várias maneiras.

Abu Nadra, um tabi‘i, disse a Hazrat Abu Sa‘id al-Khudri (r.a.):

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Não deveríamos escrever aquilo que ouvimos de vós?

Em resposta, ele disse:

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Vosso nobre Profeta (que a paz esteja com ele) narrava hadith para nós; nós os memorizávamos e os guardávamos na memória. Portanto, memorizai também os hadith como nós.

Os Companheiros não deixavam de modo algum de praticar constantemente os hadith e de incentivar para isso. Ao relatar como o venerável Ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele), mestre de Ikrimah e imã do conhecimento dos hadith na era dos tabi’un, lhe ensinou os hadith, ele disse:

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Ibn Abbas costumava colocar grilhões nos meus pés para me ensinar o Alcorão e os hadith. Tadhkirat al-Huffaz, al-Dhahabi, página 90.

O venerável Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) disse:

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Praticai muito os hadith; caso contrário, este vosso conhecimento (conhecimento dos hadith) desaparecerá.

O Companheiro ʿAbdullah ibn Masʿud (que Allah esteja satisfeito com ele) dizia: «Revisai e praticai mutuamente os hadith, pois somente por meio da prática e da revisão é possível preservá-los.»

O Companheiro Abu Saʿid al-Khudri (que Allah esteja satisfeito com ele) dizia:

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Praticai e recordai sempre os hadith.

O tabiʿi ʿAbd al-Rahman ibn Abi Layla também dizia frequentemente aos seus alunos de hadith:

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O conhecimento dos hadith adquirido só pode permanecer vivo e preservado por meio da prática, da recordação e da recitação repetidas. Portanto, continuai todos a praticar, recordar e recitar os hadith.

Em outra transmissão, esta afirmação foi apresentada da seguinte forma:

Praticai e recordai mutuamente os hadiths, pois é por meio dessa recordação e prática que os hadiths permanecerão vivos. [Sunan al-Darimi, página 78.]

As seguintes palavras de Hazrat Ibn Abbas (r.a.) esclarecem ainda mais este assunto. Dirigindo-se aos seus discípulos, ele dizia:

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Praticai este hadith reunindo-vos uns com os outros. Assim, ele não desaparecerá de vós. Pois este hadith não está tão sistematizado, compilado e preservado quanto o Alcorão Sagrado. Por isso, se não o praticardes amplamente, ele desaparecerá de vós. [Sunan al-Darimi, página 77.]

As seguintes palavras de Hazrat Ibn Abbas também são dignas de menção neste contexto. Ele dizia:

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Quando ouvirdes algum hadith de nós, praticai-o mutuamente. [Sunan al-Darimi, página 78.]

Hazrat Ibn Umar (r.a.) exortava os seus discípulos, dizendo:

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Quando algum de vocês pretender narrar um hadith a outra pessoa, deverá recitá-lo necessariamente três vezes. [Sunan al-Darimi, p. 78.]

Da discussão detalhada acima fica provado que, assim como os Companheiros (que Allah esteja satisfeito com eles) se esforçavam para memorizar os hadiths e divulgá-los amplamente, da mesma forma exortavam especialmente as pessoas da geração dos tabi‘un que aprendiam hadiths com eles a memorizá-los, praticá-los e ensiná-los às gerações posteriores.

 

Precaução ao narrar hadiths

O nobre Profeta (que a paz esteja com ele) deu instruções claras para divulgar os seus hadiths e narrá-los a outras pessoas. Contudo, ele não tornou essa divulgação e narração irrestritas, independentes e incondicionais. Pelo contrário, exortou com extrema severidade a que se adotasse especial cautela ao narrar e divulgar hadiths, e proibiu veementemente narrar e divulgar em seu nome qualquer declaração falsa, inventada ou incompleta. Neste contexto, serão mencionados alguns ditos do nobre Mensageiro (que a paz esteja com ele).

Hazrat Anas ibn Malik (que Allah esteja satisfeito com ele) disse:

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O nobre Profeta (que a paz esteja com ele) disse:

Aquele que mentir deliberadamente a meu respeito, que prepare seu lugar no Inferno.

Hazrat Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele) disse:

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Aquele que mentir intencionalmente a meu respeito, que faça do Inferno sua morada.

Hazrat Mughira ibn Shu’ba disse:

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Ouvi o Mensageiro (que a paz esteja com ele) dizer que mentir de qualquer forma a meu respeito não é como mentir a respeito de outra pessoa. Portanto, aquele que mentir deliberadamente a meu respeito, que procure no Inferno sua morada. [Todos estes hadiths foram extraídos de Sahih Muslim, volume 1, página 7.]

Embora apresentem pequenas diferenças de palavras e tenham sido narrados por diferentes Companheiros, o tema central dos três hadiths acima é o mesmo: dizer qualquer mentira a respeito do Mensageiro (que a paz esteja com ele) ou em seu nome, ou atribuir ao Mensageiro palavras inventadas por si próprio, fazendo-as passar por suas palavras, é um pecado extremamente grave. O nobre Profeta (que a paz esteja com ele) pronunciou uma severa advertência contra tal ato. O hadith narrado por Hazrat Mughira (que Allah esteja satisfeito com ele) mostra que mentir a respeito do Mensageiro (que a paz esteja com ele) não é como mentir a respeito de outra pessoa. Isso porque o Mensageiro e as palavras do Mensageiro, logo depois de Allah e do Kalam de Allah, são a autoridade e a fonte de conhecimento da Shariah islâmica. Portanto, se qualquer mentira se infiltrar nesse âmbito, todo o fundamento da Shariah se torna frágil e indigno de confiança. E, se o fundamento da Shariah islâmica se enfraquecer, então nenhum caminho para a salvação humana permanecerá aberto. No livro Irshad al-Sari, comentário de Bukhari, foi dito o seguinte sobre este hadith:

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Este hadith é definitivo e incontestável no que diz respeito à sua autenticidade e à inquestionável força de sua cadeia de transmissão. Uma grande comunidade de muhaddithin qualificou este hadith como um hadith «mutawatir».[*****************]

O pai do Imamul Haramain Abu al-Ma‘ali, o shaykh Abu Muhammad al-Juwayni, disse:

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Quem mentir deliberadamente a respeito do nobre Profeta (s) tornar-se-á kafir.[Mesmo]

Com efeito, devido a todas essas severas advertências do nobre Mensageiro acerca da transmissão de hadiths, os Companheiros honoráveis (ra) tinham extremo temor de dizer qualquer coisa a respeito do Mensageiro; quando o faziam, adotavam o máximo de cautela e precaução, e cada um deles ouvia novamente de outro Companheiro aquilo que sabia e tinha escutado muitas vezes, verificando assim sua veracidade e exatidão. Se houvesse algum erro, não deixavam de corrigi-lo imediatamente, nem sequer por um instante. Temendo que, de algum modo, acabassem proferindo uma mentira a respeito do Mensageiro, muitos Companheiros não ousavam transmitir hadiths. E, quando os transmitiam, tremiam de medo. Proferiam cada hadith e cada palavra de um hadith com o mais elevado senso de responsabilidade e consciência.

Por essa razão, os Companheiros honoráveis e os tabi‘in jamais aceitavam qualquer hadith se ele não fosse comprovadamente confiável e incontestável, e se a continuidade e a integridade da cadeia sucessiva de transmissão não estivessem intactas e ininterruptas. Entre os compiladores de hadith de épocas posteriores, o seguinte princípio foi aceito por consenso geral:

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Se ficar provado que alguém mentiu deliberadamente, ainda que uma única vez, acerca do Mensageiro, será considerado um fāsiq; todos os hadiths por ele narrados serão rejeitados, e nenhum deles poderá ser aceito como prova da Sharia. [************ Volume 1, página 8.]

Após esta discussão doutrinária sobre a cautela na narração dos hadiths, é necessário lançar luz sobre o assunto mencionando alguns acontecimentos concretos da vida dos Companheiros. Apresentaremos aqui alguns episódios envolvendo alguns deles.

1. Hazrat az-Zubair (que Allah esteja satisfeito com ele) não narrava hadith algum. Certo dia, Hazrat Abdullah (que Allah esteja satisfeito com ele) perguntou-lhe: “Por que você não narra hadiths como os demais Companheiros?” Ele respondeu: “Embora eu tivesse uma relação especial com o Mensageiro, ouvi dele que disse: ‘Quem mentir acerca de mim, que prepare sua morada no Inferno.’” (Por medo disso, não narro hadiths.) [Abu Dawud, Kitab al-‘Ilm **********************]

2. Muitos Companheiros, durante vários anos consecutivos, não faziam a afirmação “o Mensageiro (que a paz esteja com ele) disse”. O Imam ash-Sha‘bi disse: “Permaneci durante um ano junto de Hazrat Abdullah ibn Umar. Contudo, nesse período, ele não narrou hadith algum.” Hazrat Sa’ir ibn Yazid (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Permaneci durante muitos dias na companhia de Hazrat Talha ibn Abdullah, Hazrat Sa‘d, Hazrat Miqdad e Abd ar-Rahman ibn Awf (que Allah esteja satisfeito com eles), mas nunca vi nenhum deles narrar hadith algum. Entretanto, Hazrat Talha narrava hadiths apenas sobre o dia da batalha de Uhud.” [Sahih al-Bukhari, volume 1, Kitab al-Jihad, página 396.]

3. Hazrat Sa’ir ibn Yazid (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Viajei junto com Hazrat Sa‘d ibn Malik (que Allah esteja satisfeito com ele) de Medina até Meca; contudo, durante todo esse longo percurso, não ouvi um único hadith de sua boca.” [Sunan Ibn Majah***************************]

4. Muitas pessoas desejavam ouvir hadiths dos ilustres Companheiros, mas estes, muitas vezes, recusavam-se a narrá-los. Certa vez, algumas pessoas disseram a Hazrat Zayd ibn Arqam (que Allah esteja satisfeito com ele): “Narre-nos hadiths; narre hadiths para que os ouçamos.” Em resposta, ele disse: “Envelhecemos e esquecemos; narrar hadiths é uma tarefa muito difícil.”

5. Certa vez, quando pediram a Hazrat Anas ibn Malik (que Allah esteja satisfeito com ele) que narrasse um hadith, ele respondeu apenas: “Insha’Allah”. [Sunan ad-Darimi, página 46.]

Ou seja, ele desejava esquivar-se da responsabilidade de narrar hadiths. (E muitos Companheiros tinham esse mesmo costume.) Ele próprio disse:

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Estas palavras do Mensageiro — “Quem desejar mentir a meu respeito, que prepare para si um lugar no Inferno” — impedem-me de narrar muitos hadith para vocês.[Bukhari Sharif, volume 1, página 21.]

Isto não significa que ele jamais narrasse hadith. Ele os narrava, mas era extremamente cauteloso nesse assunto.[****************] A respeito dele, foi dito:

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Quando Hazrat Anas (r.a.) narrava hadith, ficava extremamente temeroso e aflito; seu coração tremia. Por isso, depois de narrar um hadith, dizia: “O Nobre Mensageiro (s.a.w.) disse assim”, ou “exatamente como ele disse”.[Musnad do Imam Ahmad, volume 5, página 140.]

Hazrat Anas (r.a.) não narrava de modo algum os hadith cuja interpretação pudesse conter risco de erro. Além disso, fazia distinção até mesmo entre os hadith ouvidos diretamente do Mensageiro.[Musnad do Imam Ahmad, volume 5, página 140.]

6. Hazrat Ubayy ibn Ka’b (r.a.) narrava hadith, mas era extremamente cauteloso nessa tarefa. Embora fosse muito querido pelo Mensageiro e tivesse passado a maior parte de sua vida em sua companhia, ainda assim não narrou muitos hadith do Mensageiro. O número de hadith que narrou é de apenas 64. [****************]

7. Hazrat Abdullah ibn Umar (r.a.), apesar de possuir grande competência na ciência dos hadith, narrou: entre os Companheiros, ninguém era mais cauteloso do que Hazrat Ibn Umar (r.a.) ao narrar hadith. Ele temia até mesmo narrá-los com qualquer acréscimo ou redução.[Tazkiratul Huffaz, volume 1, página 34.]

Abu Ja’far, o tabi’i, também ecoou estas mesmas palavras. (Al-Mustadrak de al-Hakim, vol. 3, p. 561.)

Sa’id disse, citando seu pai: «Não vi ninguém mais cauteloso do que Ibn Umar no que diz respeito à transmissão de hadith.»

Na verdade, foi justamente por causa dessa cautela que ele geralmente não consentia em transmitir hadith.

8. Hazrat Abdullah ibn al-Zubayr (r.a.) também transmitia hadith muito raramente e em pequena quantidade. Ele adotara essa conduta tendo diante de si o hadith relativo a mentir sobre o Mensageiro (s.a.w.). Certa vez, algumas pessoas lhe disseram: «Vemos que transmites pouquíssimos hadith, enquanto este e aquele Companheiro, bem como Hazrat Ibn Mas’ud (r.a.), transmitem um número considerável de hadith. Em outras palavras, apesar de tua posição distinta por teres convivido com o Mensageiro, por que estás tão atrás na transmissão de hadith?» Em resposta, ele disse:

******************************************************

«Escuta: depois de aceitar o Islã, nunca permaneci afastado do Mensageiro (s.a.w.). Contudo, ouvi o Mensageiro (s.a.w.) dizer: “Quem disser uma mentira a meu respeito, que faça do Inferno o seu abrigo.” (Musnad do Imam Abu Hanifa, tradução urdu, p. 73; Sahih al-Bukhari, vol. 1, p. 21. Na versão de al-Bukhari, o nome de Abdullah ibn Mas’ud não é mencionado; porém, ele é mencionado na narração de Ibn Majah. E na narração de Isma’ili consta a expressão “desde que aceitei o Islã”, que não aparece em al-Bukhari.)»

Na verdade, esse temor era a única razão pela qual ele transmitia poucos hadith.

 

A escrita dos hadith

A exposição detalhada do método natural de preservação do Hadith apresentada anteriormente não era o único meio fundamental para a preservação do Hadith. Pelo contrário, o Hadith foi preservado por meio de um método ainda mais sólido e confiável. Esse método de preservação do Hadith é a sua escrita.

Existe, firmemente arraigado na mente de muitas pessoas, um equívoco comum acerca do Hadith. Os inimigos do Hadith apresentam-no como argumento com o propósito de provar a sua falta de originalidade e de autenticidade. Dizem que o Hadith não foi registrado durante a vida do Nobre Profeta (que a paz esteja com ele), mas somente um século após o seu falecimento. Portanto, segundo eles, o Hadith não é digno de confiança.

Mas, ao examinar com atenção a história da preservação do Hadith, fica inequivocamente provado que essa concepção não é de modo algum verdadeira; trata-se apenas de propaganda caluniosa e de uma falsa invenção dos inimigos. A história protesta veementemente contra isso. Na realidade, uma questão tão importante como a preservação do Hadith não poderia permanecer tão desprovida de fundamento e de comprovação. Todas as medidas possíveis necessárias à sua preservação foram adotadas no devido tempo. Ele foi memorizado e guardado na memória, e foi estudado de diversas maneiras; do mesmo modo, no momento oportuno e em medida suficiente, também se empregaram e utilizaram os recursos da escrita. E, acima de tudo, não se confiou exclusivamente em nenhum desses métodos, nem, por se confiar em um deles, se demonstrou a menor negligência para com os demais. Ao contrário, todos esses métodos foram postos em prática simultaneamente, ou quase no mesmo período, segundo uma ordem sucessiva. Isso se tornará claro aos leitores a partir da presente discussão sobre a escrita do Hadith.

Como mencionei inicialmente, no começo da missão profética, quando o Alcorão Majid estava sendo revelado, o Nobre Mensageiro (que a paz esteja com ele) já havia nomeado numerosos “escribas da Revelação” para registrá-lo e preservá-lo devidamente.[************ Segundo um relato, o número dos escribas da Revelação era de pelo menos quarenta.**********] Sempre que algum versículo ou surata era revelado ao Nobre Profeta, por um lado ele o recitava de memória à comunidade islâmica reunida, como se fosse um sermão; por outro, ao mesmo tempo, fazia com que os referidos escribas da Revelação o registrassem corretamente. Esse era o método “oficial” organizado por iniciativa do Nobre Mensageiro. Como resultado, até o final da vida do Mensageiro, o Alcorão Majid pôde adquirir uma forma completamente escrita e preservada.

Mas isso não significa que, naquela época, somente um número determinado de “escribas da Revelação” escrevesse a Revelação ou o Alcorão, e que nenhum outro companheiro o fizesse. Pelo contrário, além dos escribas nomeados pelo Nobre Mensageiro, muitos outros companheiros, estando presentes na presença do Mensageiro, registravam por iniciativa própria os versículos do Alcorão.

O mesmo também se observa no caso da escrita do Hadith pelo Nobre Mensageiro. Alguns companheiros começaram a registrar os hadiths com a permissão do Mensageiro, enquanto muitas outras pessoas passaram a escrevê-los por iniciativa própria. Porém, nessa primeira fase, surgiu uma dificuldade. Muitos companheiros começaram a registrar juntos e no mesmo suporte tudo o que ouviam do Mensageiro, fosse a Palavra de Allah ou as próprias palavras do Mensageiro. Como consequência, surgiu o sério risco de que o Alcorão e o Hadith se misturassem e de que se tornasse difícil distingui-los um do outro. É fácil compreender quão terríveis seriam as consequências disso. O Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) não podia de modo algum aprovar tal prática. Ao ver os escritos desses escribas, manifestou forte desagrado. A esse respeito, um hadith narrado por Hazrat Abu Sa’id (que Allah esteja satisfeito com ele) diz: certa vez, alguns companheiros estavam sentados escrevendo? Eles disseram: *********** “Estamos escrevendo aquilo que ouvimos de vós.” Então ele disse: *********** “Está sendo escrito outro livro juntamente com o Livro de Allah?”

Isso significa que registrar o Alcorão e o Hadith misturados, sem adotar qualquer medida para distingui-los, é tão prejudicial à perpetuidade e à integridade do Alcorão quanto à solidez e à confiabilidade dos fundamentos da religião do Islã. Por essa razão, o Nobre Mensageiro (que a paz esteja com ele) ordenou-lhes:

******************************************************

Abandonai esse método de escrever. Registai exclusivamente o Livro de Allah. Não mistureis nada com ele.

Consequentemente, tudo quanto havia sido escrito por esses Companheiros, misturando o Alcorão e os hadices, foi destruído; depois disso, o Alcorão passou a ser registrado de modo completamente independente.[Musnad do Imam Ahmad, volume 1, página 171; Majma‘ al-Zawa’id, volume 1, página 152.]

Basta refletir um pouco sobre a razão desse ato e dessas palavras do Mensageiro nobre para compreendê-la. Se algum dos Companheiros tivesse escrito o Alcorão juntamente com os hadices, isso teria se tornado, mais tarde, um desafio à autenticidade do Alcorão Majid. As pessoas do mundo jamais poderiam possuir o Alcorão Majid, tal como hoje, como um grande Livro puro, inalterado, completo e independente; nem poderiam conhecer e distinguir separadamente a Palavra de Allah e os relatos das palavras e atos do Mensageiro. Por essa razão, na fase inicial, o Profeta nobre proibiu os Companheiros, em termos claros e veementes, de registrar qualquer coisa além do Alcorão; porém, o Mensageiro nobre jamais proibiu sua transmissão e narração oral. As palavras do Profeta nobre são as seguintes:

******************************************************

Não escrevais nada do que eu digo. Se alguém tiver escrito algo de mim além do Alcorão, que o apague. Contudo, narrai oralmente as minhas palavras ou palavras a meu respeito; nisso não há culpa. Mas, mesmo na narração oral, não se deve dar qualquer espaço à mentira. Com efeito, quem disser alguma mentira a meu respeito, que tome seu lugar no Inferno.[Sahih Muslim, volume 2, página 414, narrado por Abu Sa‘id al-Khudri: *****************************]

Segue-se outro hadice narrado por Abu Sa‘id:

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Nós havíamos pedido ao Mensageiro (que a paz esteja com ele) permissão para registrar por escrito, para nossa preservação, outras palavras e hadices além do Alcorão; mas ele não nos deu permissão.[*****************]

Também foi narrado de Hazrat Zayd ibn Thabit (r.a.) um hadith com este mesmo significado. Ei-lo:

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O Mensageiro Nobre (s.a.w.) ordenou-nos que não escrevêssemos nada além do Alcorão.

Há uma profunda sabedoria por trás da proibição de escrever qualquer coisa além do Alcorão e de não permitir que essa “outra coisa” fosse escrita. É certamente necessário refletir sobre qual foi a razão fundamental para o Mensageiro Nobre (s.a.w.) agir dessa maneira.

A primeira razão era o receio de que surgisse uma situação terrível caso outras coisas fossem misturadas e escritas junto com o Alcorão. Até aquele momento, os muçulmanos em geral ainda não conheciam plenamente a linguagem especial, o sentido e a mensagem do Alcorão, nem a solenidade de sua orientação. Tampouco havia despertado neles a perspicácia e o discernimento necessários para distinguir entre o Alcorão e aquilo que não era Alcorão. A segunda razão era que a proibição do Mensageiro Nobre (s.a.w.) se dirigia àqueles Companheiros cuja memória era extremamente aguçada, que conseguiam gravar facilmente na memória aquilo que ouviam e não esqueciam absolutamente nada. Pois, se até mesmo esses Companheiros começassem a adquirir o hábito de depender da escrita, haveria um risco certo de que a agudeza de sua memória diminuísse. E, desse modo, de forma alguma seria correto demonstrar desprezo por essa grande dádiva de Allah.

O Imam Nawawi também escreveu a respeito:

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A princípio, foi proibido escrever os hadiths. Antes de o Alcorão se tornar conhecido, essa proibição se aplicava a todos. Naquela época, proibiu-se escrever qualquer coisa além do Alcorão, por medo de que isso se misturasse com ele e, consequentemente, gerasse dúvidas e incertezas. Mais tarde, quando o Alcorão se tornou amplamente conhecido e se alcançou segurança em relação a esse perigo, foi concedida permissão para escrevê-los.

Em segundo lugar, proibiu-se que aqueles cuja memória era confiável escrevessem, pelo receio de que passassem a depender exclusivamente da escrita. Contudo, essa proibição não significava que escrever fosse originalmente haram. Àqueles cuja memória não era confiável foi concedida permissão para registrar os hadiths.

O Imam Khattabi escreveu a esse respeito:

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Parece que a proibição de escrever os hadiths dizia respeito ao período inicial. Posteriormente, isso foi permitido. E o que havia sido proibido era escrever os hadiths misturados com o Alcorão na mesma folha. Pois, como resultado, o Alcorão e os hadiths se misturariam, e isso se tornaria uma grande fonte de dúvida para os leitores.

A partir desta análise do Imam Nawawi e do Imam Khattabi, fica comprovado que, embora na primeira fase todos tivessem sido proibidos de escrever qualquer coisa além do Alcorão, havia exceções. O Profeta queria que os Companheiros empregassem plenamente sua memória nas tarefas necessárias. Por isso, proibiu as pessoas dotadas de uma memória extraordinária de abandonar a memorização dos hadiths e depender unicamente da escrita. Mas não proibiu aqueles que desejavam usar tanto a memória quanto a escrita para registrar os hadiths. Pelo contrário, concedeu-lhes essa permissão. O hadith a seguir também comprova claramente isso:

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Foi narrado por Abdullah ibn Amr (que Allah esteja satisfeito com ele) que ele foi até o Mensageiro e disse: Ó Mensageiro! Desejo narrar hadiths. Por isso, gostaria de recorrer à escrita, além de usar a memória, se o senhor aprovar. Então o Profeta disse: Se quiser escrever meus hadiths, pode escrevê-los enquanto os memoriza. [Sunan al-Darimi, página 67.]

Além disso, é também um fato histórico que muitas pessoas portadoras de instrumentos de escrita permaneciam constantemente presentes na audiência do nobre Profeta (S) e anotavam tudo o que ouviam da boca do Mensageiro. Isso é comprovado pelas seguintes palavras de Hazrat Abdullah ibn Amr:

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Éramos várias pessoas ocupadas escrevendo na residência do Mensageiro. Nessa ocasião, perguntaram ao nobre Mensageiro (S): “Qual cidade será conquistada primeiro: Constantinopla ou Roma?” Ele respondeu: “Não; Constantinopla, a cidade de Heráclio, será conquistada primeiro.” Sunan al-Darimi, p. 68.

A primeira frase desta narração merece atenção. Ela comprova que, sempre que o nobre Mensageiro (S) se sentava em sua audiência, os escribas também se sentavam ao seu redor. E todas essas provas e evidências deixam claro que, no primeiro período, principalmente apenas o Nobre Alcorão continuou a ser registrado. Nenhuma providência oficial foi tomada para a escrita dos hadiths. Naquela época, os hadiths eram geralmente preservados por meio da memorização, da prática oral, da transmissão e da discussão. Depois de transcorrido algum tempo dessa maneira, foi concedida aos Companheiros uma autorização geral para escrever os hadiths. A partir de então, na preservação dos hadiths, juntamente com a memória dos Companheiros, sua prática e transmissão mútuas, passou-se a utilizar plenamente também a escrita, tal como no caso do Alcorão.

Ibn Qutayba escreveu:

No início, ele proibiu a escrita dos hadiths; depois, compreendeu a necessidade de preservá-los por escrito.

Allama Ibn al-Jawzi escreveu:

******************************************************

No início, proibiu que se escrevesse. Mais tarde, concedeu permissão para escrever.[*************************]

Nesta etapa, dirigindo-se aos Companheiros, disse claramente:

******************************************************

Registrem por escrito o conhecimento do hadith.[***************]

É necessário apresentar uma breve discussão sobre a questão fundamental relativa à escrita do conhecimento do hadith. Também há divergência quanto a saber se era de fato permitido registrar os hadiths por escrito. Em nossa opinião, registrar os hadiths por escrito não era apenas permitido; era uma tarefa extremamente necessária da religião. O próprio Alcorão Majid deu instruções claras para o uso da escrita em todos os assuntos necessários e importantes. Allah, o Altíssimo, disse:

******************************************************

Quer a transação seja pequena ou grande, não negligencieis nem por um instante escrevê-la para um prazo determinado. Registrá-la por escrito é muito mais justo aos olhos de Allah, um meio adequado para preservar a prova e a melhor medida para evitar dúvidas.[Surata al-Baqara, versículo 282. É necessário lembrar que esta surata foi revelada já no primeiro período da vida medinense após a Hégira, e, como foi justamente nesse período que se enfatizou registrar tudo por escrito, os Companheiros certamente também registraram os hadiths. Portanto, o Mensageiro de Allah (S) certamente não o proibiu.]

O Imam Abu Hanifa (R) argumentou com base neste versículo e disse:

******************************************************

Quando Allah Ta’ala ordenou que até mesmo os assuntos das transações comuns fossem registrados por receio de que surgissem dúvidas, e quando conservar o conhecimento — o conhecimento dos hadith — por meio da memorização é muito mais difícil do que recordar os detalhes das transações, então, por temor de que tais dúvidas e incertezas surgissem, era ainda mais necessário e apropriado permitir que isso fosse registrado.

O Allama Abu Mलीh disse, com base em outro versículo:

******************************************************

As pessoas censuram os muhaddiths por registrarem os hadith. No entanto, o próprio Allah Ta’ala disse: as condições das nações anteriores estão preservadas por escrito junto a Allah.

Entretanto, Allah Ta’ala não esquece nem Se confunde. Nessas circunstâncias, sendo o ser humano a própria personificação do erro e da falha, como poderia estar dispensado da necessidade de escrever?

Portanto, registrar os hadith nunca foi completamente haram. No início, isso foi geralmente adiado, embora, nesse período, também tenha sido concedida permissão a determinadas pessoas.

A divergência mencionada nesta etapa não tem importância especial. Com exceção do período absolutamente inicial, registrar os hadith sempre foi inteiramente permitido.

Ibn al-Salah escreveu:

******************************************************

Mais tarde, essa divergência foi eliminada, e todos os muçulmanos concordaram quanto à permissibilidade de registrar os hadiths. Pois, se eles não tivessem sido escritos naquela época, acabariam por se perder completamente. [***************]

 

Registros escritos pelo Profeta (S)

Na primeira fase do movimento islâmico — o período de Meca — o Nobre Profeta (S) não permitiu que se registrasse qualquer coisa além do Alcorão Sagrado. Por isso, não há evidência de que algum hadith tenha sido escrito durante a vida em Meca, antes da Hégira. Contudo, após a Hégira, assim que começou a vida em Medina, um vasto conjunto de hadiths começou a ser registrado juntamente com o Alcorão. Com base nas provas a seguir, pode-se afirmar enfaticamente que, no período medinense — no décimo terceiro ou décimo quarto ano da profecia —, depois de se tornar clara a distinção entre o Alcorão e os hadiths, por um lado foi concedida autorização geral para registrar os hadiths e, por outro, acumulou-se nas mãos dos muçulmanos um grande número de registros feitos pelo próprio Nobre Profeta (S). Pode-se mencionar, a propósito, que, depois de se estabelecer em Medina o ensino da leitura e da escrita aos meninos muçulmanos em troca da libertação dos prisioneiros de guerra de Badr [********************], escrever hadiths tornou-se mais fácil e sua quantidade também se ampliou consideravelmente. Hazrat Abdullah ibn Sa’id ibn al-‘As havia fundado uma escola regular de escrita na Mesquita do Profeta, em Medina. [*********************] Além disso, foram tomadas providências para ensinar leitura e escrita aos meninos em nove mesquitas de Medina. [*****************] Consequentemente, em épocas posteriores, não faltavam pessoas que soubessem escrever ou fossem capazes de fazê-lo.

Por isso, para realizar os trabalhos urgentes de escrita, o Nobre Profeta (S) nomeou muitas pessoas para junto de si, e numerosos escribas — pessoas capazes de escrever — permaneciam continuamente presentes na corte do Mensageiro para realizar trabalhos escritos sobre diversos assuntos. Em linguagem moderna, pode-se dizer que naquela época um secretariado completo havia sido estabelecido e funcionava em Medina. Pessoas específicas eram nomeadas para realizar trabalhos específicos de escrita. Entre elas, Hazrat Ali (r.a.), Hazrat Uthman (r.a.), Hazrat Zayd ibn Thabit (r.a.) [***************] e Hazrat Ubayy ibn Ka’b (r.a.), entre outros Companheiros, eram responsáveis por registrar o Alcorão Sagrado. Hazrat al-Zubayr ibn al-‘Awwam (r.a.) e Jahm ibn al-Salt (r.a.) eram responsáveis pelos registros dos bens da zakat e da sadaqa. Hazrat Abdullah ibn al-Arqam (r.a.) e al-‘Ala ibn ‘Uqba (r.a.) escreviam os documentos relativos às transações mútuas e aos contratos e compromissos entre as pessoas. Hazrat Hudhayfa ibn al-Yaman (r.a.) registrava, após estimá-las, a quantidade da colheita de tâmaras e o montante da zakat cobrada sobre ela. Mu’ayqib ibn Abu Fatimadsi (r.a.) registrava os bens recebidos pelo Nobre Mensageiro. [******************] Também foram tomadas providências para registrar os nomes e as informações de identificação dos Companheiros que participavam da jihad durante a época do Nobre Mensageiro. [***************] O escriba Hanzala (r.a.) substituía, na corte, cada escriba ausente. Era também ele quem guardava e usava o selo do Nobre Mensageiro (S). [***************************]

Por ordem do Nobre Mensageiro (S), vários Companheiros aprenderam as línguas então utilizadas no mundo civilizado, a fim de escrever cartas nessas línguas para pessoas que falavam outros idiomas. Hazrat Zayd ibn Thabit (r.a.) foi incumbido de aprender a língua siríaca e a aprendeu. Quando chegava ao Mensageiro uma carta escrita nessa língua, ele a lia e informava o Nobre Mensageiro (S) sobre o conteúdo escrito. Também foram escritos muitos livros sobre os escribas designados para a corte do Mensageiro. [***********************]

1. Depois que o Nobre Profeta (S) migrou para Medina e começou a residir ali, uma das primeiras tarefas importantes que realizou foi redigir um longo tratado contendo cláusulas de não agressão mútua e outras condições entre os judeus de Medina e os cristãos das regiões vizinhas, por um lado, e os muçulmanos Ansar e Muhajir de Medina, por outro. Seu texto era o seguinte:

******************************************************

Este é o pacto escrito entre Muhammad (que a paz esteja com ele), o Profeta e Mensageiro de Allah, e os muçulmanos crentes da tribo de Quraysh e os habitantes de Medina que se juntarem a eles e combaterem juntos pela causa de Allah. A decisão é que eles constituirão uma ummah, isto é, uma nação independente e distinta das demais pessoas.

Este pacto é um valioso tesouro histórico na história do Islã. Nele foram incluídas ao todo 52 cláusulas. Nele, Medina foi declarada um haram para os muçulmanos. (Kitab al-Amwal, Abu Dawud, página 311.) A citação seguinte comprova que o pacto foi devidamente escrito e que ele foi o primeiro documento escrito do Islã:

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Foi narrado por Rafi ibn Khadija (que Allah esteja satisfeito com ele) que ele disse: Medina é um haram. O Mensageiro Nobre (que a paz esteja com ele) declarou-a um haram. Temos conosco este pacto escrito em couro khawlani.

Este pacto escrito permaneceu guardado com Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) até tempos posteriores. Ele disse:

******************************************************

Não possuo nenhum documento escrito além do Livro de Allah e desta sahifa recebida do Nobre Profeta (que a paz esteja com ele). Está escrito na sahifa: Medina é um haram. Seus limites estendem-se desde o monte Ayir até aquele lugar. Sobre quem introduzir e propagar qualquer inovação neste haram, ou der abrigo a alguém que pratique uma inovação, recairá a maldição dos anjos de Allah e de todas as pessoas. Nenhum pagamento ou compensação será aceito dele. A proteção concedida por um muçulmano será considerada plenamente igual em dignidade. E quem violar a promessa concedida por um muçulmano terá sobre si também a maldição de Allah, dos anjos e de todas as pessoas. Nenhum pagamento ou compensação será aceito dele.

De fato, na história da civilização, este tratado é digno do título de primeiro estatuto escrito e constitui um documento extremamente importante.

1. Depois de estabelecer o Estado Islâmico em Medina, o nobre Mensageiro (que a paz esteja com ele) realizou um recenseamento dos cidadãos muçulmanos. Para esse propósito, ele emitiu um decreto com a seguinte formulação:

******************************************************

Escrevei para mim os nomes e os dados de todas as pessoas que declararam ter aceitado o Islã.

O Companheiro narrador de hadith, Hadrat Huzayfa (que Allah esteja satisfeito com ele), disse:

******************************************************

Depois, escrevemos para o Mensageiro os nomes, os dados e a identificação de mil e quinhentas pessoas.

Isso também foi um registro escrito da época da vida do nobre Mensageiro (que a paz esteja com ele).

3. No mês de Safar do terceiro ano da Hégira, o Profeta ﷺ assinou um tratado de paz com a tribo de Banu Damra. Esse tratado também foi encontrado em forma escrita.

Entretanto, os dois relatos a seguir indicam que, ainda antes da Hégira, o Profeta ﷺ havia emitido decretos escritos em pelo menos duas ocasiões:

(a) O Profeta ﷺ enviou a Tamim al-Dari uma autorização por escrito.

(b) No caminho para Medina, após a Hégira, o Profeta ﷺ escreveu para Suraqa ibn Malik al-Mudlaji um salvo-conduto.

O erudito Ibn Kathir mencionou:

******************************************************

Suraqa disse: “Escreva para mim um documento que sirva como prova desta decisão de salvo-conduto entre mim e o Mensageiro.” Então, o Profeta ﷺ mandou que preparassem para mim um escrito sobre um osso, uma folha ou um pedaço de tecido rasgado.

4. Foi narrado por Abu Huraira (que Deus esteja satisfeito com ele) que, no ano da conquista de Meca (o oitavo ano da Hégira), membros da tribo de Khuzāʿa mataram um homem da tribo de Banu Layth. Quando essa notícia chegou ao Mensageiro de Deus, ele proferiu um importante sermão enquanto estava montado em sua montaria. Nele, descreveu detalhadamente a honra, a excelência e a santidade do Santuário Sagrado, bem como todas as determinações relativas à pena pelo homicídio e à diyah. Quando o sermão terminou, um Companheiro chamado Abu Shah disse ao Mensageiro de Deus ﷺ: “Ó Mensageiro! Mande escrever o sermão para mim.” A prova de que Abu Shah pediu que escrevessem justamente o sermão proferido pelo Mensageiro é que o narrador deste hadith, ʿAli ibn Muslim, perguntou ao imã al-Awzaʿi: “Abu Shah pediu ao Mensageiro de Deus que mandasse escrever, dizendo: ‘Ó Mensageiro! Mande escrever isto para mim’?” O imã al-Awzaʿi respondeu: “Era o sermão proferido pelo Mensageiro que ele havia ouvido.” Então, o Profeta ﷺ aceitou seu pedido e disse a um Companheiro: “Escreva este sermão para Abu Shah.”

5. O historiador Hāfiz Ibn Abd al-Barr escreveu:

******************************************************

O Profeta (que a paz esteja com ele) mandou redigir um documento para Amr ibn Hazm e outros, acerca da sadaqa, da diyah, das obrigações religiosas e da sunna.

O erudito al-Shawkani mencionou este documento em diversos lugares. O Imām Mālik (que Allah esteja satisfeito com ele), ao mencionar este documento, narrou:

******************************************************

Foi narrado por Abd Allah ibn Abī Bakr ibn Hazm que, no documento que o Profeta (que a paz esteja com ele) mandou redigir para Amr ibn Hazm, estava escrito: «Somente uma pessoa purificada tocará o Alcorão Majestoso.»

O Imām al-Bayhaqī mencionou, em sua obra, a seguinte narração sobre este documento:

******************************************************

Foi narrado por Abu Bakr ibn Muhammad ibn Hazm. Ele disse: Este é o livro escrito pelo nobre Profeta (S), que ele mandou redigir quando enviou Amr ibn Hazm ao Iêmen. Enviou-o com o objetivo de ensinar aos habitantes daquela região o conhecimento profundo da religião do Islã e da Sunnah, e de cobrar deles o zakat. Nele também estavam escritos sua carta de nomeação, o compromisso a ele confiado e as responsabilidades que deveria cumprir entre o povo daquela região.[******************]

No décimo ano da Hégira, o nobre Profeta (S) nomeou Amr ibn Hazm (RA) governador dos habitantes de Najran. Quando ele partia em direção à região de Najran, recebeu esse documento para utilizá-lo como lei e regulamento administrativo.[***************]

O Imam Abu Dawud mencionou:

******************************************************

O nobre Profeta (S) assinou um tratado de paz com os habitantes de Najran e mandou redigir um livro para eles. [**************]

6. Além disso, o nobre Profeta (S) mandou redigir e enviou outro “documento” para os habitantes do Iêmen. Seu nome era “Kitabul Jirah” (********). No início dele estava escrito:

******************************************************

Este é o decreto emitido por Allah, o Altíssimo, e por Seu Mensageiro: Ó crentes! Cumpri vossas promessas e vossos compromissos.[*****************]

Este documento estava escrito em pele de camelo. O hafiz Ibn Kathir escreveu:

Este livro tem sido honrado por todas as figuras de liderança dos primeiros tempos e dos períodos posteriores do Islã, lido regularmente e considerado uma fonte de conhecimento em todos os assuntos importantes. A ponto de—

******************************************************

Os companheiros do Mensageiro sempre consultavam este documento e abandonavam suas próprias opiniões e pontos de vista quando estes entravam em conflito com ele.[************]

7. Ele também redigiu um tratado de paz para os Banu Saqif. No início dele estava escrito:

******************************************************

Este é o tratado de paz escrito pelo Mensageiro de Allah para a tribo de Saqif.[********************]

8. O Profeta (s) mandou redigir um documento completo sobre a sadaqa e o zakat. Seu propósito era enviá-lo aos funcionários governamentais responsáveis das diversas regiões do Estado Islâmico. Contudo, faleceu antes que pudesse enviá-lo. Mais tarde, ele foi utilizado como orientação completa para a administração dos assuntos do Califado dos Rashidun.[**************]

Allama Shawkani citou o seguinte relato sobre este documento:

******************************************************

O nobre Profeta (s) mandou redigir um livro sobre a sadaqa. Porém, faleceu antes que este fosse enviado aos seus funcionários. Depois dele, Hazrat Abu Bakr trouxe-o à luz e agiu de acordo com ele. Após o seu falecimento, Hazrat Umar trouxe-o à luz e procedeu conforme o seu conteúdo. Depois do falecimento de Hazrat Umar, ele foi encontrado registrado junto com um de seus testamentos. [******************]

O Imam Zuhri viu este documento e disse que se tratava do livro escrito sobre a sadaqa do nobre Profeta. Zuhri recebeu sua leitura de Salim ibn Abdullah, que o havia memorizado. Mais tarde, quando Umar ibn Abd al-Aziz assumiu o califado, recebeu-o dos descendentes de Hazrat Abdullah ibn Umar e mandou fazer uma cópia dele.[ A mesma obra, página 190; Musnad do Imam Ahmad, volume 2, página 14.]

9. O nobre Profeta (s) também mandou redigir um documento sobre a sadaqa para Hazrat Mu’adh ibn Jabal (que Allah esteja satisfeito com ele). Musa ibn Talha disse:

******************************************************

Temos conosco um livro de Mu’adh ibn Jabal, recebido do nobre Profeta (s).[Mishkat, página 159.]

Além disso, foram encontrados muitos outros tratados de paz e documentos escritos pelo nobre Profeta (s). Do ponto de vista da ciência dos hadiths, o valor de todos eles é incomensurável. Se se fizer a contagem desse tipo de documento, serão mais de trezentos. A obra ‘Miftahul Aqba’ menciona cópias de 36 cartas enviadas pelo nobre Profeta (s). Sahibzada Abdul Rahim Khan, então ministro do Interior do Estado de Tonk, mencionou 250 documentos escritos.[**********]

1. O tratado de Hudaybiyyah. [Kitab al-Amwal: Abu Ubayd, pp. 157–158; Al-Bidaya wa an-Nihaya, Ibn Kathir, vol. 4, p. 168; Sahih al-Bukhari, vol. 1, p. 371; vol. 2, p. 610.]

2. Decretos escritos, emitidos em diferentes ocasiões, para várias tribos e clãs. [Tabaqat de Ibn Sa’d, Kitab al-Amwal: Abu Ubayd, p. 21.]

3. Cartas de convite ao Islã, escritas e enviadas aos reis e chefes de Estado de vários países. [Bukhari Sharif, vol. 2, p. 631; Kitab al-Amwal: Abu Ubayd, vol. 1, pp. 20–23.]

4. A carta enviada pelo Mensageiro ao companheiro Abdullah ibn Hakim. Nessa carta estavam escritas as leis relativas a animais mortos e outras questões. [Mu’jam al-Saghir, al-Tabarani.]

5. O Profeta (S) mandou escrever para o companheiro Wa’il ibn Hujr as disposições relativas à oração, ao consumo de bebidas alcoólicas, à usura e a outras questões. [Ibid.]

6. O companheiro Dahhak ibn Sufyan possuía uma hidayatnama escrita e enviada pelo Mensageiro (S), na qual estava registrada a disposição relativa à cobrança, pela esposa em nome do marido, da compensação pelo derramamento de sangue (*********). [Abu Dawud.]

7. Um documento escrito e enviado pelo Profeta (S) aos habitantes do Iêmen, relativo ao zakat sobre várias colheitas. [********************]

8. Outra carta escrita pelo Mensageiro (S) aos habitantes do Iêmen, na qual estava escrito:

******************************************************

Entre os judeus e cristãos, aqueles que aceitarem o Islã serão considerados parte dos crentes; seus direitos e deveres serão iguais aos dos crentes. Quanto àqueles que permanecerem judeus ou cristãos, não se tentará impedi-los de praticar sua religião; contudo, estarão obrigados a pagar a jizya.[Kitab al-Amwal: Abu Ubayd, volume 1, página 21.]

9. Foi redigido um decreto para Hudhayfa ibn al-Yaman (r.a.). Nele havia uma explicação sobre as obrigações da zakat.[Tabaqat de Ibn Sa’d.]

10. O Mensageiro Nobre (s.a.w.) fez com que as normas da zakat fossem escritas para al-Ibn al-Hajari.

11. No nono ano da Hégira, nomeou e enviou Hazrat Abu Bakr Siddiq (r.a.) como líder da peregrinação, e o Nobre Profeta (s.a.w.) fez com que fossem escritos para ele os procedimentos e as regras do hajj.[Tafsir Ruh al-Ma’ani, volume 10, página 44 ******************** Sirat Ibn Hisham, página 556.]

12. Após a revelação da surata At-Tawba, no nono ano da Hégira, enviou Hazrat Ali (r.a.) de Medina a Meca com uma mensagem especial. Para que ele a anunciasse ao povo durante o hajj, fez com que fosse escrita a seguinte proclamação:

******************************************************

Depois deste ano, nenhum politeísta poderá aproximar-se da Casa da Caaba; ninguém poderá circundá-la nu; ninguém, exceto um crente, poderá entrar no Paraíso, e todos estarão obrigados a cumprir suas promessas.[Tafsir de Abu as-Su’ud, volume 2, página 252, Sirat Ibn Hisham (urdu), página 553.]

13. Foi enviado um decreto escrito a Umar ibn Aqsa al-Sulami, no qual estavam registradas as leis e normas relativas à sadaqa e ao zakat dos animais.

14. Foi enviado um decreto a Ghalib ibn Abd Allah, no qual estavam registradas em detalhes as normas relativas aos bens tomados como espólio.

15. O Nobre Mensageiro (que a paz esteja com ele) fez escrever para a delegação de Thumama os deveres obrigatórios e as normas relativas à sadaqa.

16. Fez escrever para Abu Rashid al-Azdi as regras e normas da oração.

17. Foi enviado um decreto escrito do Nobre Mensageiro (que a paz esteja com ele) a um sacerdote dos habitantes de Najran. Nele estavam registradas as disposições sobre o Islã, o convite ao Islã e a jizya.

18. Foram enviadas ao governador de Hadramaut as disposições relativas à oração, ao zakat e aos bens tomados como espólio.

19. Foram enviadas aos habitantes de Dumat al-Jandal as disposições relativas à jizya e ao zakat. [Kitab al-Amwal, de Abu Ubayd, página 195.]

20. Foram enviadas aos habitantes de Dumat al-Jandal e Qatan as normas relativas ao ushr.

21. Foram enviadas às tribos de Harra e Adhra as disposições relativas à jizya.

22. Foram enviadas à tribo dos Banu Nahad instruções relativas aos animais destinados à zakat.

23. Foi enviado à tribo dos Banu Hanifa um documento contendo as normas relativas à jizya.

24. Foi enviado aos habitantes de ‘Hajar’ um decreto. Nele, eram exortados a permanecer firmes no Islã e a obedecer ao governador.[A mesma obra, p. 200.]

25. Foi entregue aos habitantes de ‘Ayla’ e ‘Yuhana’ um salvo-conduto. Ibn Kathir escreveu:

******************************************************

O Mensageiro redigiu um documento para eles. Este era guardado junto deles. No início dele, estava escrito:

******************************************************

Em nome de Deus, o Misericordioso, o Compassivo — esta é uma garantia concedida por Deus e por Seu Profeta Muhammad aos habitantes de Yuhana e Ayla. [Kitab al-Amwal, página 200; Nur al-Yaqin, página 248.]

26. Foram escritas para a tribo Tamim al-Dari as disposições islâmicas relativas à aceitação de presentes e ao uso de objetos feitos de ouro.

28. Foram enviadas aos governadores de Amã, Ja’far e Abd, as instruções sobre o convite ao Islã e as normas relativas ao ushr, ao zakat, entre outras.

29. Foram escritos para Khalid ibn Jammad os pilares do Islã.

30. Foram escritas para Juraya ibn Saif as disposições relativas à jizya e ao zakat. [Kitab al-Amwal, página 201, ********]

31. Foram escritas para Rabi’a ibn Dhi-Marhab al-Hadrami as normas relativas aos tributos, entre outras.

32. Foram escritas para Sharhabil, Harith, Nu’aym e os Banu Abdu-Qalan as normas relativas aos espólios de guerra, ao ushr e ao zakat.

33. Em um decreto destinado ao povo muçulmano, o Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) escreveu as disposições islâmicas relativas à venda dos frutos antes de amadurecerem, à retirada da própria parte dos espólios antes do pagamento de um quinto ao tesouro público, entre outras questões.

34. Foi redigida para Adā ibn Khālid uma declaração sobre a necessidade de revelar os defeitos das mercadorias antes da venda.

35. Foram escritos para Hazrat Umar (que Deus esteja satisfeito com ele) os preceitos relativos à sadaqa.

36. Foram escritos para Hazrat Abū Bakr (que Deus esteja satisfeito com ele) todos os mandamentos e disposições relativos à zakat.

37. Quando Tamīm ad-Dārī aceitou o Islã, foi-lhe concedido por escrito um lote de terra de sua aldeia. Depois que Hazrat Umar (que Deus esteja satisfeito com ele) foi nomeado califa, esse documento escrito foi apresentado a ele, e ele destinou o referido lote de terra ao próprio Tamīm. [Kitāb al-Amwāl — Abū Ubayd, p. 274]

38. Foi concedido por escrito um lote de terra a Majjāya al-Yamānī, e foi preparado um documento para ele. Também foi concedido um lote de terra a Abū Thaʿlaba al-Khushanī, para quem foi preparado um documento semelhante.

39. Foram escritos para Mutarif ibn Kāhin al-Bāhilī os preceitos e disposições relativos à zakat.

40. Foram escritos para Mundhir ibn Sābī os preceitos relativos à jizya. Também foi redigida uma declaração sobre a posição do Islã em relação aos adoradores do fogo. [Ibid., pp. 280 e 281 ***************]

41. Foi redigido um decreto para os membros da linhagem de ʿAqīdar. Como, até então, o selo oficial da missão profética do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) ainda não havia sido confeccionado, nele foi aposta a impressão digital do Profeta. [Al-Isābah, vol. 1, p. 131.]

42. O Nobre Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) mandou redigir e enviar um decreto em nome de Musailima, o Mentiroso (a fotografia desse decreto foi publicada em 1896 na revista londrina Picture Mahazine).

43. Hazrat Abdullah ibn Sahl (que Allah esteja satisfeito com ele) foi encontrado morto na região dos judeus de Khaibar. Então, o Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) enviou aos judeus uma carta acerca do pagamento da sua diyah. [Sira de Ibn Hisham (em urdu), página 473.]

44. Foi enviado aos habitantes do Iêmen um escrito informando que também era obrigatório pagar o zakat sobre o mel.

Bayhaqi mencionou:

******************************************************

O Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) escreveu aos habitantes do Iêmen que o zakat seria cobrado dos produtores de mel. [***********]

45. O Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) enviou a Hazrat Mu’adh ibn Jabal (que Allah esteja satisfeito com ele) uma determinação acerca do zakat sobre dinheiro em espécie e ouro:

******************************************************

O nobre Profeta (S) escreveu e enviou a Mu‘az ibn Jabal (ra) que deveria cobrar cinco dirhams para cada duzentos dirhams e meio miskal de zakat para cada vinte miskals de ouro.[******************* Primeiro volume, Kitab az-Zakat, página 175, Dar al-Qutni.]

46. Sobre outro decreto enviado aos habitantes do Iêmen, o Imame Darimi escreveu:

******************************************************

O nobre Profeta (S) havia escrito e enviado aos habitantes do Iêmen que somente uma pessoa ritualmente pura deveria tocar o Alcorão Sagrado; não pode haver divórcio antes de se adquirir a autoridade matrimonial ou a condição de marido; e um escravo não pode ser libertado antes de ser comprado.[Sunan ad-Darimi, página 293.]

47. Em certa ocasião, o nobre Profeta (S) mandou escrever e enviar a todas as tribos da Arábia as normas relativas ao preço de sangue.[Bukhari, Nasai, Dar al-Qutni, Nayl al-Awtar, volume 7, página 242.]

48. Foi redigido um acordo para a distribuição entre os judeus das terras conquistadas de Khaybar.[Futuh al-Buldan, páginas 36–42.]

49. O nobre Profeta (S) enviou uma carta à tribo de Hamadan por intermédio de Hadrat Ali (ra). Quando essa carta lhes foi lida, todos aceitaram o Islã. O erudito Ibn Kathir escreveu:

******************************************************

Hazrat Ali fez com que eles ouvissem a carta do Nobre Mensageiro (s). Quando ouviram tudo, todo o povo da tribo de Hamdan aceitou o Islã em conjunto.

50. O Nobre Mensageiro (s) também redigiu um salvo-conduto em favor dos habitantes de Jurbá e Azra.

O erudito Ibn Kathir escreveu:

******************************************************

O Nobre Mensageiro (s) redigiu um salvo-conduto para os habitantes de Jurbá e Azra. Depois de escrever Bismillah no início, foi escrito: “Este é o documento redigido pelo Mensageiro de Allah, Muhammad, em favor dos habitantes de Jurbá e Azra; eles permanecerão sob a proteção e a plena segurança concedidas por Allah e Muhammad.” 5.º volume, páginas 16–17.

51. A carta escrita pelo Mensageiro aos reis de Himyar.

O erudito Ibn Kathir escreveu:

******************************************************

O nobre Mensageiro (S) escreveu-lhes uma carta.

52. O nobre Profeta (S) enviou uma carta ao bispo sacerdote de Najran. Nela estava escrito:

******************************************************

Em nome do Mensageiro e Profeta de Allah, Muhammad, ao bispo de Najran: aceita o Islã. Louvo, diante de ti, Allah, o Deus de Ibrahim, Ishaq e Yaqub. Em seguida, convido-vos a libertar-vos da servidão aos servos e a aceitar a servidão a Allah, bem como a abandonar a tutela e a proteção dos homens e buscar refúgio na tutela e proteção de Allah. Se não aceitardes isso, sereis obrigados a pagar a jizya. E, se também recusardes isso, declararei a decisão de guerrear contra vós.

 

Os escritos dos Companheiros sobre os hadiths

Entre os Companheiros, alguns já sabiam ler e escrever na época da jahiliyyah e, como mencionei anteriormente, muitos jovens Companheiros haviam recebido instrução dos habitantes de Meca que sabiam ler e escrever e que foram capturados na batalha de Badr. Assim, muitos deles eram capazes de registrar pessoalmente os hadiths que ouviam do nobre Profeta (S). Embora, inicialmente, o nobre Profeta (S) tivesse proibido de modo geral que todos escrevessem hadiths, mais tarde ele concedeu permissão geral para isso. Além disso, sempre que surgia qualquer dificuldade ou obstáculo à escrita dos hadiths, ele o removia.

A esse respeito, um acontecimento é particularmente digno de menção. O venerável Abdullah ibn Amr ibn al-As (r.a.) disse:

Eu registrava, com o propósito de preservação, todas as palavras que ouvia do nobre Profeta (S). Ao verem isso, os Companheiros da tribo de Quraysh proibiram-me de fazê-lo. Disseram-me:

******************************************************

Tudo o que ouves da boca do Mensageiro, escreves? No entanto, o Mensageiro (s.) é um ser humano; às vezes fala estando satisfeito e, outras vezes, estando irado?

Abdullah diz: Depois disso, parei de escrever os hadiths. Certo dia, mencionei o assunto ao Mensageiro e disse:

******************************************************

Ó Mensageiro de Allah! Os coraixitas dizem: estás escrevendo tudo o que o Mensageiro diz? No entanto, ele é um ser humano. Assim como as pessoas comuns, às vezes ele fica irado.

Assim que o Mensageiro Honorável (s.) ouviu minhas palavras, apontou para os próprios lábios e exclamou:

******************************************************

Continua escrevendo. Juro por Aquele em cuja mão está a minha vida: desta minha boca não sai nada além da verdade genuína.[Sunan al-Darimi, página 67. Abu Dawud; no relato de Musnad Ahmad e Mustadrak al-Hakim, depois destas palavras, é mencionado: o Mensageiro disse-************ «Portanto, escreve; 1.º volume, página 104; na citação do Imã Ahmad, foi dito: ************************** Escreve; juro por Aquele em cuja mão está a minha vida: de mim não se manifesta nada além da verdade. *****************************]

Após ouvir essa ordem, Hazrat Abdullah perguntou ao Mensageiro (S):

******************************************************

Ó Mensageiro! Devo escrever tudo o que ouço de vós?

O Mensageiro respondeu: Sim; Abdullah perguntou novamente:

— Devo escrever tudo o que dizeis tanto em estado de ira quanto de satisfação?

Então o Mensageiro (S) declarou definitivamente:

******************************************************

Sim, em todas essas situações, não digo nada além da verdade absoluta.

Desta narrativa, duas coisas ficam claramente conhecidas ao mesmo tempo. Primeiro, jamais uma palavra contrária à verdade foi expressa ou pronunciada pela boca do Profeta. Mesmo que ele tivesse proferido ou estivesse prestes a proferir algo semelhante, o Profeta foi preservado desse erro pela proteção abrangente de Allah. A citação acima comprova a firmeza incomparável e a força de caráter do Profeta no que diz respeito a falar a verdade.

Em segundo lugar, registrar os hadiths não era apenas algo permitido; o Mensageiro não somente tinha dado sua permissão para isso, como também havia emitido uma ordem clara e irrestrita para que os hadiths fossem registrados. Essa ordem do Mensageiro não estava limitada a algum período ou circunstância específica. Ele autorizou, em tom firme, que tudo o que fosse dito em todos os momentos e circunstâncias fosse escrito.

Isso porque o Nobre Mensageiro (s.a.w.) devia ser seguido pelos muçulmanos em geral em todos os momentos e em todas as circunstâncias. Cada estado em que ele se encontrava, todas as suas palavras de cada momento e todos os tipos de atos que praticava são considerados uma das fontes da Sharia islâmica.

A coleção de hadiths que Hazrat Abdullah ibn Amr (r.a.) preparou, registrando todas as palavras do Mensageiro, foi denominada pelo próprio Nobre Profeta (s.a.w.) de “Sahifa Sadiqa”. Esse era o livro mais querido de Hazrat Abdullah ibn Amr ibn al-As. Ele mesmo disse:

******************************************************

Somente duas coisas me atraíram na vida; uma delas é a “Sadiqa” e a segunda é a minha mandíbula inferior. Contudo, “Sadiqa” é um livro que escrevi depois de ouvi-lo do Nobre Profeta (s.a.w.). Sunan al-Darimi, página 67; Jami Bayan al-Ilm, de Ibn Abd al-Barr. Nele haviam sido compilados mil hadiths.

Após o falecimento de Hazrat Abdullah, esse livro, “Sadiqa”, passou às mãos de seu neto, Shuayb ibn Muhammad. Seu filho, Amr, narrou os hadiths de Sadiqa às pessoas, por intermédio dele.

******************************************************

Nos livros de hadith, todos os hadith narrados por Amr ibn Shuayb, por intermédio de seu pai………….. por intermédio de seu avô, foram extraídos e narrados desta “Sahifa Sadiqa”.[Tirmidhi Sharif, *********************- Kitab al-Ilm, Darimi.]

Esta sahifa foi integralmente incluída no livro Musnad de Ahmad ibn Hanbal. Os quatro imames do fiqh apresentavam os hadith deste livro como prova.[Zad al-Ma’ad—Ibn al-Qayyim, 3ª página, 458.]

Hazrate Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: Um companheiro ansari costumava sentar-se a serviço do Rasul Karim (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e ouvir suas palavras; elas lhe agradavam muito e eram de seu agrado. Contudo, ele não conseguia lembrar-se bem de palavra alguma. No que dizia respeito a recordar todas as palavras, ele era um tanto diferente dos demais. Assim, certo dia, quando expôs essa sua dificuldade ao Rasul, o Rasul Karim (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse: ******************** “Busca a ajuda de tua mão direita”. Com isso, ele indicou que se escrevesse com a mão.[**************]

O Nabi Karim (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) ordenou que todo tipo de conhecimento—especialmente o conhecimento dos hadith—fosse tornado imperecível e eterno por meio do registro escrito.

Ele disse:— ******************* “Registra o conhecimento e conserva-o”. Em outra narração, é mencionado que Hazrate Abdullah ibn Amr (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: O Nabi Karim (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) disse:

******************************************************

Aprisionar e preservar o conhecimento dos hadith?

Nós perguntamos:

******************************************************

Como o capturarei?

O Mensageiro disse:

******************************************************

Anote-o. [Mustadrak, volume 1, página 106.]

Abu Tufail Amer ibn Wasel disse: Um dia, eu estava na presença de Hazrat Ali. Então, um homem perguntou a Hazrat Ali (r.a.):

******************************************************

O Mensageiro lhe concedeu alguma coisa especialmente?

Em resposta, Ali (ra) disse:

******************************************************

O Mensageiro não me deixou nada particularmente que não tivesse dado de modo geral a todas as pessoas. Contudo, aquilo que está escrito dentro da bainha desta minha espada, isso ele me concedeu particularmente. [Jami Bayan al-Ilm, vol. 1, p. 72; Mustadrak al-Hakim, Sahih Muslim, vol. 2, p. 161.]

Em outra narração, as palavras foram proferidas da seguinte forma. Perguntaram a Ali (ra):

******************************************************

O Mensageiro lhe disse alguma coisa em segredo?

Em resposta, Ali (ra) disse:

******************************************************

O Mensageiro não me deixou secretamente, oculto das outras pessoas, nada além de uma coisa. Essa coisa é que ele me disse quatro palavras. [Jāmiʿ Bayān al-ʿIlm, vol. 1, p. 72; Mustadrak al-Hākim, Sahīh Muslim, vol. 2, p. 161.]

Um relato semelhante também foi transmitido por Hazrat Abu Hudhayfa (r.a.). Ele disse que, certo dia, perguntou a Hazrat Ali (r.a.):

******************************************************

O senhor possui algum documento escrito? Em resposta, ele disse:

******************************************************

Não. Não possuo nada além do Livro de Allah, do entendimento concedido ao muçulmano e daquilo que está escrito nesta sahifa.

Hudhayfa (r.a.) perguntou:

******************************************************

O que está escrito nesta sahifa?

Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) disse:

******************************************************

Nela estão escritas estas disposições: a retaliação por derramamento de sangue, a libertação de prisioneiros e que um muçulmano não será morto como punição pela morte de um kafir. [Bukhari Sharif, Kitab al-Ilm, 1.º volume, página 21.]

Na parte final do hadith narrado por Abu Tufayl, é dito que, depois disso, Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) tirou uma sahifa do interior da sua bainha. Nela estavam escritas as seguintes palavras:

******************************************************

Que Allah amaldiçoe aquele que abater um animal ou uma criatura em nome de alguém que não seja Allah; que Allah amaldiçoe aquele que roubar os marcos das diferentes partes da terra ou, segundo outra narração, os alterar; e que Allah amaldiçoe aquele que der abrigo a alguém que corrompa o Islão ou a um adepto de uma inovação religiosa. [Muslim Sharif, 2.º volume, p. 162.]

A este respeito, também merece ser mencionado aqui um hadith narrado no Bukhari Sharif. Yazid ibn Sharif disse:

******************************************************

Certo dia, Hazrat Ali (que Deus esteja satisfeito com ele) estava de pé sobre o púlpito, discursando diante de nós, num lugar chamado ‘Azur’. Uma espada estava pendurada em seu ombro, e junto dela também estava pendurado um sahifa. Ele disse: “Juro por Deus: não tenho nenhum livro que possa ser lido — além do Livro de Deus e do que está escrito neste sahifa.” Então, abriu o sahifa e o mostrou. Nele, vimos a disposição relativa aos dentes de camelo, e também estava escrito: “Medina é um santuário desde o lugar chamado ‘A’ir até tal montanha. Se alguém cometer neste lugar alguma inovação — algo contrário ao Islã — sobre ele recairá a maldição de Deus, dos anjos e de toda a humanidade. Deus não aceitará dele qualquer gasto ou compensação.” Também estava escrito: “A dhimma de todos os muçulmanos é uma só, e todos eles se empenharão por ela. E sobre aquele que romper um pacto feito com um muçulmano recairá a maldição de Deus, dos anjos e de toda a humanidade. Deus não aceitará dele qualquer gasto ou retribuição.”

Nele também estava escrito: “Quem estabelecer uma relação de filiação ancestral com alguém que não seja seu próprio ancestral, sobre ele recairá a maldição de Deus, dos anjos e de toda a humanidade. Dele não será aceito qualquer gasto ou compensação.” [Bukhari Sharif, volume 2, página 1084.]

Outro hadith narrado por Hazrat Hudhayfa (que Deus esteja satisfeito com ele) também é digno de menção neste contexto. Ele disse:

******************************************************

Perguntei a Hazrat Ali (que Deus esteja satisfeito com ele): “Além da revelação escrita no Livro de Deus, há junto de vós alguma outra coisa que faça parte da revelação?”

Hazrat Ali respondeu-lhe:

******************************************************

Não, pelo juramento d’Aquele que faz a semente germinar e cria o ser humano, não conheço nada da revelação além do Alcorão. Contudo, conheço duas coisas: uma é a compreensão que Allah, o Altíssimo, concede a uma pessoa por meio deste Alcorão; e a segunda é o que está escrito nesta sahifa.

Hazrat Hudhayfa (que Allah esteja satisfeito com ele) perguntou: O que há nesta sahifa? Então Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Nela estão escritos a diya, as regras de libertação de cativos e que nenhum muçulmano será morto em troca de um incrédulo.” [Bukhari Sharif, volume 1, Kitab al-Jihad, página 428. Este hadith permite saber que alguns hadiths estavam escritos na sahifa e que isso também fazia parte da revelação. Em segundo lugar, não somente o Alcorão é algo recebido por revelação; os hadiths também são recebidos por revelação.]

Também se encontra menção a outra narração relacionada a este discurso de Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele). Ele disse:

******************************************************

Não escrevemos nada do Profeta Nobre (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), além do Glorioso Alcorão e dos hadiths registrados nesta sahifa. [Bukhari Sharif, volume 1, página 451.]

A síntese de todas as narrações e discussões mencionadas acima é que Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) registrou o Glorioso Alcorão e os hadiths do Profeta Nobre (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Além disso, ele também preparou uma compilação de hadiths. Que tipo de hadiths estava escrito nela foi conhecido por meio das diversas narrações mencionadas acima. Contudo, em nenhum lugar é mencionado quantos eram.

Hazrat Abu Hurayra (que Allah esteja satisfeito com ele) disse:

******************************************************

Entre os companheiros do Mensageiro (s), ninguém narrou mais hadiths do Mensageiro do que Amr. Contudo, Abdullah ibn Amr ibn al-‘As narrou mais. A razão é que ele escrevia os hadiths, ao passo que eu não os escrevia.[Bukhari Sharif, 1º volume, p. 22. Sunan al-Darimi, p. 67.]

Já foi comprovado anteriormente que Hazrat Abdullah ibn Amr ibn al-‘As (ra) escrevia os hadiths do Mensageiro. Contudo, a declaração do próprio Hazrat Abu Huraira aplica-se à primeira fase de sua vida, não à fase final. Isso porque, no período inicial, ele não escrevia os hadiths do Mensageiro, pois então não sentia necessidade de registrá-los. Considerava suficiente memorizar aquilo que ouvia. Além disso, possuía uma memória mais poderosa que a dos demais. Sobre essa capacidade, foi dito em um hadith:

******************************************************

Ele conseguia lembrar-se daquilo que os outros não conseguiam recordar.[Bukhari Sharif, 1º volume, p. 22.]

Na própria narrativa de Hazrat Abu Huraira é mencionado um episódio relacionado à sua excelente memória. Está narrado em Muslim Sharif que, certo dia, o Nobre Profeta (s), dirigindo-se às pessoas presentes na reunião, disse:

******************************************************

Quem dentre vocês estender sua roupa, ouvir este meu hadith e depois encostá-la contra o próprio peito, jamais esquecerá nenhuma das palavras que tiver ouvido.

Hazrat Abu Huraira (ra) disse:

******************************************************

Ao ouvir isso, estendi o manto que estava sobre meu ombro. Quando o Mensageiro terminou de falar, encostei o manto ao meu peito. Depois disso, não esqueci nenhum hadith que ouvi do Mensageiro.[Sahih Muslim, vol. 2, p. 302,*************]

Apesar dessa extraordinária memória, ele finalmente começou a registrar os hadiths por escrito e registrou uma enorme quantidade deles. O número de hadiths que escreveu ultrapassava cinco mil.[Mustadrak al-Hakim, vol. 3, p. 511, Fath al-Bari—************* Jami’ Bayan al-‘Ilm — Ibn Abd al-Barr, vol. 1, p. 84.]

Hasan ibn Amr ibn Umayya al-Damri, que havia aprendido hadith com Abu Huraira, certa vez recitou-lhe de memória um hadith e disse: “Ouvi isto de você.” Então Abu Huraira (ra) disse: “Se você o ouviu de mim, certamente ele está registrado comigo.” Em seguida, segurou Hasan pela mão, levou-o à sua casa e mostrou-lhe uma enorme pilha de hadiths que havia escrito, dizendo: “O hadith que você narrou está escrito aqui.”

Hasan disse:

******************************************************

Ele (Abu Huraira) mostrou-me um grande número de livros, nos quais estavam escritos os hadiths do Mensageiro.[Está escrito na p. 184 do vol. 1 de Fath al-Bari: Os hadiths compilados por Abu Huraira estavam espalhados por numerosas páginas; Ibn Wahb os havia visto.]

Cerca de oitocentos ou mais Companheiros e Tabi’un narraram hadiths de Abu Huraira (ra). [****************] O livro intitulado “Musnad de Abu Huraira” foi compilado ainda na época dos Companheiros.[*********************]

Hazrat Anas (que Allah esteja satisfeito com ele) também costumava registrar os hadiths. Aos dez anos de idade, já era capaz de ler e escrever. Seu pai o apresentou para servir ao Mensageiro e disse:

******************************************************

Ó Mensageiro! Este é meu filho, um menino que sabe escrever.

Ele passou ininterruptamente dez anos a serviço do Mensageiro. Que surpresa haveria no fato de registrar tudo o que ouvia do Mensageiro? Sa’id ibn Hilal disse:

******************************************************

Quando insistíamos com Anas ibn Malik (que Allah esteja satisfeito com ele) para que narrasse hadiths, ele trazia um rolo e dizia: Estes são os hadiths que ouvi do nobre Profeta (que a paz esteja com ele) e, depois de escrevê-los, li-os para ele. [Mustadrak al-Hakim, volume 3, página 573.]

Com isso, soube-se que Hazrat Anas (que Allah esteja satisfeito com ele) registrava regularmente os hadiths. Ele não apenas os escrevia por conta própria e os acumulava; ao contrário, lia-os para o Mensageiro e corrigia os erros e falhas.

Ele também ordenava a seus filhos que registrassem os hadiths. Dizia:

******************************************************

Ó meus filhos! Registrem por escrito este conhecimento dos hadiths.[Sunane Darimi, p. 68.]

Quando ele foi nomeado governador do Bahrein e se dirigiu para lá, Hazrat Abu Bakr Siddiq (que Allah esteja satisfeito com ele) enviou-lhe uma compilação de hadiths. No início dela estava escrito:

******************************************************

Em nome de Allah, o Misericordioso, o Compassivo — Estas são as normas da sadaqa, que o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele) estabeleceu para os muçulmanos, e com relação às quais Allah ordenou o Seu Mensageiro.[Sahih al-Bukhari, volume 1, p. 195. Abu Dawud, hadith nº 1567.]

Não há dúvida alguma de que, entre os hadiths narrados por Hazrat Anas, há também muitos hadiths desta compilação.

Hazrat Jabir (que Allah esteja satisfeito com ele) também reuniu uma compilação de hadiths.[*************]

Os muhaddiths da geração dos tabi’in, como Hasan al-Basri e Qatadah, recebiam e narravam hadiths a partir desta compilação. Além deles, Sulayman ibn Qays, Abu az-Zubayr, Abu Sufyan e ash-Sha’bi, entre outros tabi’in, também transmitiam hadiths a partir desta compilação de Hazrat Jabir. Todos os hadiths que Abu Sufyan narrou de Hazrat Jabir foram extraídos desta sahifa.[**************]

Quase todos os muhaddiths mencionaram esta compilação de hadiths de Hazrat Jabir. Hafiz al-Dhahabi narrou, sob a autoridade do Imam Ahmad, a respeito de Qatada ibn Du’ama:

******************************************************

Qatada era a pessoa dotada da memória mais aguçada entre os habitantes de Basra. Tudo o que ouvia, memorizava. Certa vez, a compilação de hadiths de Hazrat Jabir foi lida diante dele, e ele a memorizou integralmente de imediato.

O próprio Qatada costumava dizer:

******************************************************

Eu havia memorizado mais a sahifa de Jabir do que a Surata al-Baqara.

Disso se comprova que Hazrat Jabir havia preparado uma compilação de hadiths, que continuou a ser regularmente estudada pelos estudantes de hadith até muito tempo depois dele, e da qual os hadiths eram transmitidos.

Hazrat Abdullah ibn Mas’ud também costumava registrar os hadiths por escrito. Assim, conseguiu preparar uma compilação contendo um grande número de hadiths. Após seu falecimento, essa compilação foi preservada por seus filhos. Seu filho Abd al-Rahman, mostrando uma compilação manuscrita de hadiths, dizia: “Por Deus, esta é a compilação de hadiths escrita à mão por meu pai.”

Hazrat Samura ibn Jundub (ra) também registrou hadiths. Após seu falecimento, seu filho Salman ibn Samura recebeu esta coletânea de hadiths por herança. O historiador Ibn Sirin disse: “O livro de hadiths compilado por Samura contém conhecimentos de grande valor.”

Hazrat Abdullah ibn Abbas (ra) compilou em forma de livro todos os hadiths que havia ouvido. Algumas pessoas de Taif ouviram-no repetidamente e levaram consigo uma cópia completa desse livro. Ele também divulgava hadiths por meio de cartas. Após seu falecimento, seu filho Ali ibn Abdullah recebeu por herança um grande número de compilações de hadiths. Foi narrado:

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Hazrat Ibn Abbas deixou uma coleção de hadiths que podia ser transportada por um camelo carregado.

A seguinte narração sobre a escrita dos hadiths por Hazrat Ibn Abbas é digna de menção. Al-Katani mencionou, citando as Tabaqat de Ibn Sa’d, estas palavras de Salma, esposa de Abu Rafi’:

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Vi Ibn Abbas pegar uma tábua para escrever e registrar nela, a partir de Abu Rafi’, algo sobre os atos e as palavras do Mensageiro.

Al-Katani também escreveu:

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Ibn Abbas ia até Abu Rafi. Perguntava: “O que o nobre Mensageiro de Deus (s) fez em determinado dia?” …………. Ibn Abbas levava consigo alguém que escrevia o que Abu Rafi dizia.

Pode-se compreender, pela citação a seguir, quão vasto era o acervo de hadiths escritos por Hazrat Ibn Abbas. O Imam Musa ibn Uqba disse:

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Qarib, o escravo de Abdullah ibn Abbas, apresentou diante de nós um acervo equivalente à carga de um camelo, composto pelos livros de hadiths escritos por ele (Ibn Abbas).

Hazrat Mughira ibn Shu’ba (ra) fez escrever numerosos hadiths para Hazrat Muawiya (ra), a pedido deste. Sahih al-Bukhari. O Imam Bukhari (r) mencionou o seguinte relato a esse respeito:

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Arbad, o escriba de Mughira ibn Shu’ba, disse: “Mughira ibn Shu’ba fez com que eu escrevesse muitos hadiths para Muawiya (ra), em um livro (carta) dirigido a ele.” Sahih al-Bukhari.

Hadrat Abdullah ibn Amr ibn al-‘As (ra) compilou outra coleção de hadiths após o falecimento do Nobre Profeta (s). Segundo um relato dos historiadores, foi o próprio Nobre Profeta (s) quem lhe ordenou que a compilasse. Seu nome era “Sahifa de Yarmuk”.

Hadrat Sa‘d ibn ‘Ubadah Ansari também compilou uma sahifa de hadiths. Seu filho narrava hadiths com base nessa “sahifa”. O Imam Bukhari disse:

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Esta sahifa era uma parte da sahifa de Abdullah ibn Abi Awfa. Ele escrevia os hadiths com a própria mão.

Em suma, devido à aprovação, à permissão e ao incentivo do Nobre Profeta (s), os companheiros empenharam-se plenamente na preservação, escrita e compilação desta preciosa riqueza do Islam — o conhecimento dos hadiths. Na sociedade daquela época, o estudo do conhecimento dos hadiths não era praticado apenas como meio de obter recompensa na vida futura; também era considerado de máxima importância para alcançar status social, cultivar o conhecimento e as ciências e desenvolver os talentos inatos. Por essa razão, as inúmeras e incomensuráveis palavras do Nobre Profeta (s) foram preservadas para sempre por seus companheiros, que ele formara como os mais fiéis, confiáveis, verazes e tementes a Allah.

Hadrat Abdullah ibn Amr ibn al-‘As disse: quando eu era jovem, perguntei aos companheiros:

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Como vocês narram os hadiths do Mensageiro? Vocês ouviram aquilo que ele disse. E, no entanto, estavam imersos nos hadiths do Mensageiro?

Ao ouvirem isso, eles começaram a rir. Disseram: “Ó filho de nosso irmão, tudo o que eu ouvia dele está escrito no livro que temos conosco.[Tabarani, al-Kabir—e *********************]

Este acontecimento prova que, quando Abdullah ibn Amr ainda era jovem, os Companheiros já escreviam os hadiths. Trata-se do período inicial da Medina islâmica.

Anas ibn Malik (que Allah esteja satisfeito com ele) ouviu de Mahmud ibn Rabi um longo hadith narrado por Utban ibn Malik. Em seguida, disse:

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Este hadith agradou-me muito.

Então disse ao filho: **********— “Escreve isto.” Então foi escrito.[***************]

 

Classificação dos Companheiros narradores de hadith

[Baseada no número]

O número daqueles que ouviram diretamente os hadiths do nobre Profeta (S) e narraram dele pelo menos alguns hadiths não é nada pequeno. A esse respeito, o muhaddith Imam Ali ibn Abu Zur’a, especialista nas biografias dos narradores de hadith, respondeu assim a uma pergunta:

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O número daqueles que viram o nobre Profeta com os próprios olhos e ouviram suas palavras com os próprios ouvidos antes de seu falecimento ultrapassava cem mil, entre homens e mulheres. Todos eles narraram hadiths, quer os tivessem ouvido diretamente do venerável Profeta, quer os tivessem recebido por meio da narração de outra pessoa.

Muhammad Abu Zahw, um dos maiores especialistas na ciência do hadith da época atual e professor da Universidade de Al-Azhar, no Egito, escreveu:

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O nobre Profeta deixou este mundo deixando aproximadamente cento e quatorze mil Companheiros. Eles ouviram e receberam hadiths do nobre Profeta (S) e os narraram. Pergunta-se: onde viviam e como conseguiram ouvir os hadiths? A resposta é que eram habitantes de Meca e Medina, pessoas da região entre essas duas cidades, a população árabe em geral e aqueles que estiveram com ele na Peregrinação de Despedida. Todos viram o nobre Mensageiro (S) com os próprios olhos e ouviram hadiths dele ainda durante sua vida.

Segundo um relato fornecido pelo muhaddith Abu Zur’a, embora o número dos Companheiros e das pessoas que narraram deles pelo menos alguns relatos do nobre Profeta (S) ultrapassasse cem mil, de acordo com o Allama al-Dhahabi o número dos Companheiros que narraram regularmente uma quantidade considerável e contabilizável de hadiths era de apenas cento e cinco. Naturalmente, esse número pode aumentar mediante uma investigação mais aprofundada. O Musnad de Abu Dawud al-Tayalisi é um livro de hadith compilado na segunda metade do segundo século da Hégira; nele foram narrados hadiths de aproximadamente duzentos e cinquenta Companheiros. No livro Usud al-Ghaba, menciona-se o número de 7.554 Companheiros narradores de hadiths. A obra afirma que todos eles narraram hadiths diretamente do Mensageiro. Contudo, o Allama Ibn Hajar contestou isso. Ele afirmou que pessoas que não eram Companheiros foram incluídas nessa contagem.

Segundo o Allama al-Dhahabi, entre esses cento e cinco Companheiros, foram narrados numerosos hadiths de vinte e oito deles. De acordo com a maioria dos muhaddiths, esses vinte e oito Companheiros são os narradores do maior número de hadiths. Na verdade, quase metade do vasto acervo de hadiths foi narrada por esses vinte e oito Companheiros. A conclusão dos muhaddiths é que aqueles que narraram menos de quarenta hadiths são considerados “narradores de poucos hadiths”. Com base nisso, os Companheiros podem ser divididos em quatro categorias, como narradores de muitos e de poucos hadiths:

a) Sahabas da primeira categoria: aqueles que narraram mil hadiths ou mais.

b) Sahabas da segunda categoria: aqueles de quem foram narrados quinhentos hadiths ou mais.

c) Sahabas da terceira categoria: aqueles cujo número de hadiths é quarenta ou mais.

d) Sahabas da quarta categoria: aqueles cujo número de hadiths narrados é inferior a quarenta.

Contudo, é muito elevado o número de sahabas narradores de hadiths entre mais de quinhentos e menos de quarenta. Por isso, podemos dividi-los novamente em duas etapas. Os narradores de cem a quinhentos hadiths pertencem à primeira etapa, e os narradores de quarenta a cem hadiths pertencem à segunda.

De acordo com esta classificação, todos os sahabas narradores de hadiths podem ser divididos em cinco categorias:

1. Aqueles cujo número de hadiths narrados é mil ou mais.

2. Aqueles cujos hadiths narrados são quinhentos ou mais, mas menos de mil.

3. Aqueles cujos hadiths narrados somam cem ou mais, mas menos de quinhentos.

4. Aqueles cujos hadiths narrados somam quarenta, ou quarenta, ou mais de quarenta, mas menos de cem.

5. Aqueles cujos hadiths narrados somam quarenta ou menos.

Primeira categoria

Segundo os estudiosos dos hadiths em maior número, apenas seis Companheiros podem ser incluídos na primeira categoria. São eles: (1) Hazrat Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele), (2) Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela), (3) Hazrat Abdullah ibn Abbas (que Allah esteja satisfeito com ele), (4) Hazrat Abdullah ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ele), (5) Hazrat Jabir ibn Abdullah (que Allah esteja satisfeito com ele) e (6) Hazrat Anas ibn Malik (que Allah esteja satisfeito com ele). O número de hadiths narrados por eles ultrapassa mil. Contudo, Shah Waliullah Dehlavi (que Allah tenha misericórdia dele) incluiu um total de oito Companheiros nesta categoria. Ele acrescentou a eles Hazrat Abdullah ibn Amr ibn al-As (que Allah esteja satisfeito com ele) e Hazrat Abu Said al-Khudri (que Allah esteja satisfeito com ele).

A opinião de Shah Dehlavi é contrária à opinião dos grandes estudiosos da primeira categoria da ciência dos hadiths. O Imam Ahmad ibn Hanbal (que Allah esteja satisfeito com ele) também mencionou apenas os seis Companheiros citados anteriormente como os narradores do maior número de hadiths.

Na realidade, os muhaddiths geralmente não incluíram Hazrat Abu Said al-Khudri (que Allah esteja satisfeito com ele) nesta categoria, embora o número de hadiths narrados por ele ultrapasse mil.

O Allama Badruddin Ayni escreveu a respeito dele:

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Ele narrou mil cento e setenta hadiths. Destes, 46 foram mencionados tanto em Bukhari quanto em Muslim; 16, exclusivamente em Bukhari Sharif; e outros 52, em Muslim.

Não se compreende por que Shah Waliullah (r) quis incluir Hazrat Abdullah ibn Amr ibn al-As (ra) nesta categoria. Pois, segundo cálculos confiáveis, o número de hadiths narrados por ele é de apenas setecentos. Nesse contexto, pode-se dizer que o número de Companheiros que narraram mil ou mais hadiths é de apenas sete, e o total de hadiths narrados por eles é de quatorze mil oitocentos e setenta.

É necessário apresentar aqui uma discussão um pouco detalhada sobre esses seis Companheiros. Isso porque tal discussão é indispensável para formar uma convicção firme e uma compreensão clara acerca dos hadiths.

Hazrat Abu Huraira (ra)

Hazrat Abu Huraira (ra) aceitou o Islã durante a batalha de Khaybar, no mês de Muharram do sétimo ano da Hégira, e passou a acompanhar o Nobre Profeta (s). Desde então até o falecimento do Nobre Profeta (s), ele jamais abandonou a presença e a companhia do Mensageiro. Seu objetivo principal era adquirir um conhecimento correto e detalhado sobre o Islã.

Ibn Abd al-Barr escreveu:

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Abū Hurayra aceitou o Islã no ano da batalha de Khaybar. Ele participou dessa batalha juntamente com o nobre Mensageiro (S.A.W.). Depois disso, passou a acompanhar o Mensageiro e permanecia sempre com ele. Seu objetivo era adquirir conhecimento; nisso encontrava satisfação e saciava sua fome. Sua mão permanecia ligada à mão do Mensageiro. Aonde quer que ele fosse, Abū Hurayra (R.A.) também ia.

Ele ouvia atentamente e memorizava tudo o que o nobre Mensageiro (S.A.W.) costumava dizer, tudo o que respondia às perguntas das pessoas, tudo o que ensinava sobre diversos assuntos do Islã e do Alcorão, as explicações e análises dos versículos do Alcorão e os sermões e discursos que proferia sobre diferentes temas, permanecendo constantemente presente na assembleia do Mensageiro. Além disso, ele próprio também os guardava na memória. Muitos dos outros Companheiros estavam ocupados com diversas atividades familiares, sociais e econômicas, como negócios, comércio e agricultura, e por isso não podiam passar muito tempo na assembleia do Mensageiro. Mas Hadrat Abū Hurayra não tinha nenhum tipo de ocupação semelhante. Por essa razão, teve mais oportunidades do que os outros de ouvir hadiths. Portanto, não é de modo algum surpreendente que ele tenha narrado um grande número de hadiths. Nessas circunstâncias, o próprio Hadrat Abū Hurayra (R.A.) disse:

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A maioria dos meus irmãos muhājirūn permanecia ocupada com negócios no mercado, enquanto eu permanecia ligado ao Mensageiro. Eu não tinha nenhuma ocupação externa. Assim, quando eles estavam ausentes da assembleia do Mensageiro, eu estava presente ali. Quando eles esqueciam algo, eu me lembrava disso.

Por outro lado, meus irmãos ansār estavam ocupados administrando suas propriedades e riquezas. Eu, porém, era um homem pobre e necessitado entre o povo da Suffa. Assim, mesmo quando eles esqueciam alguma coisa, eu a guardava na memória.

O número total de hadiths narrados por Hadrat Abū Hurayra (R.A.) é de 5.347. Dentre eles, 325 hadiths foram mencionados tanto em Bukhārī quanto em Muslim; além disso, 79 hadiths foram citados exclusivamente no Sahīh de Bukhārī e 93 exclusivamente no Sahīh de Muslim.

O Imām Bukhārī e Badruddīn ʿAynī escreveram:

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Mais de oitocentos Companheiros e tabi‘in narraram hadiths dele.[************]

Como Hazrat Abu Huraira (r.a.) pôde narrar tantos hadiths, em quantidade muito superior à dos outros Companheiros, pode-se saber detalhadamente a partir de sua própria análise acima mencionada. Além disso, suas palavras a seguir também dão uma ideia clara a esse respeito. Ele próprio disse:

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Se Allah, o Altíssimo, não tivesse revelado estes dois versículos em Seu Livro, eu jamais teria narrado qualquer hadith. Neles, Allah disse: “Sobre aqueles que ocultam as evidências claras, argumentos convincentes e orientações que revelei, recaem a maldição de Allah e a maldição dos demais que amaldiçoam.”[Muslim Sharif, vol. 2, p. 302; Bukhari Sharif, vol. 1, p. 22.]

Hazrat Abu Huraira (r.a.) permaneceu continuamente com o Mensageiro durante aproximadamente três anos, mais ou menos, ouvindo hadiths e guardando-os na memória. Foi por isso que lhe foi possível narrar um número tão grande de hadiths em comparação com os outros Companheiros. Em particular, Allah, o Altíssimo, concedera-lhe uma memória tão extraordinária que ele jamais esquecia aquilo que ouvia. Embora essa memória incomparável tivesse sido adquirida justamente como resultado da súplica do Mensageiro Nobre e de um método especial. [************] O fato de ele ter adquirido o maior número de hadiths e de possuir uma memória incomparável era amplamente conhecido e reconhecido na sociedade daquela época. Isso é comprovado sem dúvida pelas declarações citadas abaixo.

Hazrat Ubayy ibn Ka‘b (r.a.) disse:

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Abu Huraira era muito ousado ao fazer perguntas e indagações ao Mensageiro. Ele lhe perguntava sobre assuntos a respeito dos quais nenhum outro Companheiro fazia perguntas.[***********]

Abu Amir disse: Eu estava na presença de Hazrat Talha. Um homem chegou e disse-lhe: “Ó Abu Muhammad! Até hoje não conseguimos entender se Abu Huraira é um memorizador maior dos hadiths do Mensageiro ou se sois vós.” Então Hazrat Talha (r.a.) disse: “Ele [Abu Huraira (r.a.)] conhece muitas coisas que estão além do nosso conhecimento. A razão é que éramos pessoas abastadas, tínhamos casas, propriedades e família, e ocupávamo-nos a maior parte do tempo com essas coisas. Comparecíamos ao serviço do Mensageiro apenas de manhã e à tarde, e depois partíamos para os nossos afazeres. Abu Huraira (r.a.), porém, era pobre; não tinha terras nem família. Por isso, permanecia junto do Mensageiro, segurando a sua mão e acompanhando-o constantemente. Todos nós acreditamos que ele ouviu mais hadiths do que qualquer um de nós. Nenhum de nós o acusou de narrar algum hadith sem o ter ouvido do Mensageiro.”

Certa vez, Hazrat Aisha (r.a.) chamou-o e perguntou: “Que tipo de hadiths estás a narrar? Eu vi as mesmas ações do Mensageiro (s.) e ouvi as mesmas palavras; não as ouviste também?” Em resposta, Hazrat Abu Huraira (r.a.) disse: “Minha mãe! Vós estáveis ocupada com os preparativos para o Mensageiro (s.); juro por Allah que nada vindo da parte do Mensageiro conseguia desviar o meu olhar para outra coisa.”

Certa vez, por não suportar uma determinada situação diante do governante omíada Marwan, Hazrat Abu Huraira (r.a.), irado, disse: “As pessoas dizem que Abu Huraira (r.a.) narra muitos hadiths, embora tenha chegado a Medina apenas alguns dias antes do falecimento do Nobre Profeta (s.).

Em resposta, Hazrat Abu Huraira (r.a.) disse: “Quando cheguei a Medina, tinha pouco mais de trinta anos. Depois disso, permaneci com o Mensageiro (s.) até ao seu falecimento. Ia com ele até aos aposentos das suas esposas, prestava-lhe serviço, participava com ele nas batalhas e no jihad e ia com ele ao hajj. Por isso, consegui conhecer mais hadiths do que os outros. Juro por Allah que aqueles que haviam acompanhado o Mensageiro (s.) antes de mim também reconheciam que eu estava sempre presente na companhia do Mensageiro e perguntavam-me sobre os hadiths. Entre eles, destacavam-se especialmente Hazrat Umar (r.a.), Hazrat Uthman (r.a.), Hazrat Talha (r.a.) e Hazrat Zubair (r.a.). Talha ibn Ubaidullah disse:

******************************************************

Não pode haver dúvida alguma de que Abu Huraira ouviu do Mensageiro (s.) tantos hadiths que nós não conseguimos ouvir.

Certa vez, Hazrat Ibn Umar (r.a.) disse, dirigindo-se a Hazrat Abu Huraira (r.a.):

******************************************************

Você permanecia na companhia do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) mais do que nós e, por isso, conseguiu conhecer e memorizar mais hadiths dele do que nós.

O Imame Al-Dhahabi escreveu que Umar Al-Faruq também disse exatamente isso um dia a Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele).

Numerosos sábios entre os tabi’in testemunharam a agudeza da memória de Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele). Aqui são citadas as declarações de alguns deles:

Abu Salih disse:

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Entre os companheiros do Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele), Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele) possuía a memória mais notável e era um grande hafiz de hadiths.

Sa’id ibn Abi Al-Hasan disse:

******************************************************

Entre os Companheiros, não houve ninguém que narrasse mais hadiths do que Hazrat Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele).[*******]

O Imam Bukhari (que Allah esteja satisfeito com ele) escreveu sobre Hazrat Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele):

******************************************************

Cerca de oitocentos eruditos narraram hadiths a partir dele. Entre os narradores de hadith de sua época, ele era o maior hafiz de hadith.[****************]

Badruddin Ayni escreveu:

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Todos os eruditos da ciência do hadith concordam que Hazrat Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele) foi o maior narrador de hadith entre os Companheiros.[***************]

O Imam Shafi’i (que Allah tenha misericórdia dele) disse:

******************************************************

Abu Huraira (r.a.) possuía a memória mais poderosa e era o maior hafiz de hadith entre todos os narradores de hadith de sua época.[*************]

O muhaddith al-Hakim disse:

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Hazrat Abu Huraira (r.a.) possuía a memória mais poderosa e era um grande hafiz de hadith entre os companheiros do Mensageiro (s.a.w.). Ele permaneceu com o Mensageiro (s.a.w.) por muito mais tempo do que os outros. Isso porque estava livre de preocupações materiais. Sua mão permanecia na mão do Mensageiro (s.a.w.); quando o Mensageiro (s.a.w.) ia a algum lugar, ele também ia para lá. Essa situação continuou até o falecimento do Mensageiro. E foi por essa razão que o número de hadith narrados por Hazrat Abu Huraira (r.a.) se tornou muito maior que o dos demais.[***************]

O Imam al-Hafiz Baqi ibn Makhlad al-Andalusi escreveu em sua obra Musnad:

******************************************************

Há cinco mil trezentos e setenta e quatro hadith narrados por Abu Huraira. Nenhum outro entre os companheiros narrou essa quantidade de hadith, nem sequer uma quantidade próxima dela.[********************]

Em suma, há quatro razões principais para o grande número de hadiths narrados por ele. São elas:

1. Permanecer na companhia do Mensageiro (s.) durante todo o tempo após aceitar o Islã.

2. Seu intenso desejo de aprender os hadiths e memorizá-los, sem esquecer nenhuma palavra que ouvisse.

3. A companhia dos grandes Companheiros e a oportunidade de aprender hadiths com eles; assim, seu conhecimento dos hadiths alcançou a plenitude, e ele conseguiu reunir os hadiths de todas as épocas, anteriores e posteriores.

4. Viver por muitos anos após o falecimento do Nobre Profeta (s.), tendo a oportunidade de transmitir hadiths durante cerca de 74 anos, e não aceitar o envolvimento com qualquer cargo estatal importante.

Por todas essas razões, Abu Huraira (r.a.) era um grande hafiz de hadiths, o mais conhecedor dos hadiths entre os Companheiros e aquele que mais hadiths narrava. Os hadiths que os Companheiros narravam separadamente podiam ser encontrados reunidos junto de Abu Huraira (r.a.). Por isso, todos lhe faziam perguntas e confiavam nele. Abdullah ibn Umar disse:

******************************************************

Abu Huraira (r.a.) memorizava e conservava os hadiths do Mensageiro (s.) para os muçulmanos.

Está sendo inequivocamente comprovado, pela longa discussão apresentada anteriormente, que Hazrat Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele) era um eminente erudito em hadith; que, naturalmente, o número de hadiths narrados por ele seria maior em comparação com o de outros; e que os hadiths narrados por ele são inteiramente autênticos e confiáveis. Apesar disso, é preciso ficar maravilhado diante da audácia daqueles que lançaram críticas contra o grande número de hadiths narrados por Hazrat Abu Huraira.

Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela)

A Mãe dos Crentes, Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela), passou nove longos anos consecutivos como companheira de vida do Profeta do mundo. Esses foram justamente os anos mais repletos de acontecimentos da vida do Mensageiro e o período de plena consolidação do sistema de vida islâmico. O Profeta, que a bênção e a paz estejam com ele, faleceu quando Hazrat Aisha tinha dezoito anos de idade. Depois disso, ela permaneceu viva por aproximadamente trinta e nove anos. Por essa razão, por um lado, ela pôde recolher um grande número de hadiths diretamente do Profeta, que a bênção e a paz estejam com ele, e, por outro, pôde igualmente divulgá-los de modo adequado. Muitos Companheiros do Profeta, que a bênção e a paz estejam com ele, e numerosos tabi’un das gerações posteriores puderam ouvir hadiths dela e narrá-los por meio de sua cadeia de transmissão.

O erudito Badruddin Ayni escreveu:

******************************************************

Hazrat Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) era uma grande companheira especialista em fiqh e uma das seis Companheiras que narraram o maior número de hadiths do Mensageiro, que a bênção e a paz estejam com ele. Por meio de sua cadeia de transmissão, foram narrados dois mil duzentos e dez hadiths. Dentre eles, cento e setenta e quatro hadiths foram mencionados igualmente nas duas obras, Bukhari e Muslim. Além disso, cinquenta e quatro hadiths foram mencionados exclusivamente no Sahih al-Bukhari, e outros cinquenta e oito, exclusivamente no Sahih Muslim.

Hazrat Anas (que Allah esteja satisfeito com ele)

Como já foi mencionado, Hazrat Anas (que Allah esteja satisfeito com ele) esteve a serviço do Profeta, que a bênção e a paz estejam com ele, durante longos dez anos. Permanecendo na companhia do nobre Mensageiro, ele teve a oportunidade de ouvir muitas de suas palavras e observar atentamente muitos de seus atos. Ele foi um dos Companheiros que adotavam uma atitude especial quanto à narração de hadiths. Prestou serviços particularmente importantes ao conhecimento dos hadiths. Pode-se dizer que dedicou toda a sua vida à divulgação dos hadiths. Mesmo depois do falecimento do Mensageiro, que a bênção e a paz estejam com ele, quando os demais Companheiros estavam envolvidos em guerras e conflitos, ele continuou incansavelmente ocupado com a divulgação dos hadiths. No fim de sua vida, a Mesquita Congregacional de Basra era o centro de sua atividade de divulgação dos hadiths.

Nas suas assembleias de transmissão de hadith, estudantes ávidos por aprender hadith, vindos de Meca, Medina, Basra, Kufa e da Síria, participavam com intenso entusiasmo.

O número de hadiths por ele narrados chegava a vários milhares. Nas palavras do Allama Badr al-Din al-Ayni:

******************************************************

Ele narrou 2.286 hadiths transmitidos pelo Profeta (s.a.w.).

Desses, 83 foram mencionados no Sahih al-Bukhari e outros 91 no Sahih Muslim. Além disso, 168 hadiths foram citados tanto no Bukhari quanto no Muslim. Entre os Companheiros que faleceram na cidade de Basra, ele foi o último. Viveu aproximadamente um século.

Hazrat Abdullah ibn Umar (r.a.)

Hazrat Abdullah ibn Umar (r.a.) foi Companheiro na presença do Mensageiro (s.a.w.) desde uma idade muito jovem. Por causa de sua pouca idade, foi privado da oportunidade de participar da batalha de Badr. Mas participou diretamente de todos os acontecimentos posteriores. Assim, entre os Companheiros que permaneceram com o Profeta (s.a.w.) e narraram seus hadiths, ele ocupou uma posição de especial importância. O número total de hadiths por ele narrados é 1.630. Entre eles, 173 foram citados tanto no Bukhari quanto no Muslim. Além desses, 81 hadiths foram mencionados no Sahih al-Bukhari e 31 no Sahih Muslim. O Allama Badr al-Din al-Ayni escreveu:

******************************************************

Depois de Abu Huraira, ele foi o que mais narrou hadiths entre os Companheiros.[*****************]

Hazrat Abdullah ibn Abbas (ra)

A tia materna de Hazrat Abdullah ibn Abbas era a Mãe dos Crentes, Hazrat Maymuna (ra). Hazrat Abdullah geralmente permanecia na casa de sua tia materna. Fazia isso porque tinha especial interesse em observar com os próprios olhos a adoração e devoção noturnas do nobre Profeta (s). [**********] O nobre Profeta (s) fez uma súplica por ele, dizendo:

******************************************************

Ó Allah, concede a Ibn Abbas uma compreensão especial da religião do Islã e ensina-lhe os conhecimentos profundos dessa questão.[************]

Diante disso, que ele tenha conseguido reunir um número tão grande de hadiths não é de admirar! O erudito Badruddin Ayni escreveu:

******************************************************

Ibn Abbas (ra) narrou do nobre Profeta (s) mil seiscentos e sessenta hadiths. Destes, 95 foram citados tanto no Bukhari quanto no Muslim. Além disso, há cento e vinte hadiths somente no Bukhari e 49 somente no Muslim.[*******] Entre os Companheiros e os Tabi’een, um grande número de pessoas narrou hadiths dele. Todos o conheciam como alguém especialmente versado em hadiths.[**************]

Hazrat Jabir ibn Abdullah (r.a.)

Hazrat Jabir ibn Abdullah (r.a.) era especialmente versado na ciência dos hadiths. Dedicou toda a sua vida aos estudos dos hadiths. O aprendizado, a prática e a divulgação dos hadiths eram o objetivo de sua vida. Para esse fim, viajou durante muitos anos pelas regiões mais distantes e por suas estradas mais difíceis. Sobre ele, o compilador da obra Mishkat afirmou:

******************************************************

Ele era um dos ilustres Companheiros. Foi um daqueles Companheiros que narraram um grande número de hadiths.

Ele narrou hadiths diretamente do Profeta (s.a.w.), assim como por intermédio dos Companheiros. Quando Hazrat Abdullah foi martirizado na batalha de Uhud, Hazrat Jabir passou a acompanhar constantemente o Mensageiro (s.a.w.). Ele viveu por muitos anos. Ao viajar pelas grandes cidades do mundo muçulmano, teve a oportunidade de encontrar muitos Companheiros narradores de hadiths. Na Mesquita do Profeta, formou durante muitos anos um “halqa” (círculo) para ensinar hadiths. Ele viveu 64 anos após o Mensageiro (s.a.w.). Dedicou essa longa vida à divulgação dos hadiths. O número total de hadiths narrados por ele é de 1.540. Destes, Bukhari e Muslim mencionaram conjuntamente sessenta hadiths. Bukhari mencionou separadamente 26, e Muslim mencionou outros 26 hadiths de forma independente.

Segundo grupo

No segundo grupo, os Companheiros que podem ser mencionados como narradores de quinhentos ou mais de quinhentos hadiths são apenas quatro. Apresentam-se seus nomes e breves informações sobre eles:

1. Hazrat Abdullah ibn Masud (r.a.):Ele aceitou o Islã ainda nos primeiros tempos da pregação islâmica em Meca e participou de quase todas as batalhas com o Mensageiro (s.a.w.). Era o guardião dos calçados do Mensageiro (s.a.w.). Ele vestia o Mensageiro (s.a.w.).

O Allama Badruddin Ayni escreveu a respeito dele:

******************************************************

Ele narrou 848 hadiths do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Dentre eles, 64 hadiths foram registrados tanto no Sahih al-Bukhari quanto no Sahih Muslim. Além disso, outros 21 foram mencionados no Sahih al-Bukhari e mais 35 no Sahih Muslim.

2. Hazrat Abdullah ibn Amr ibn al-As (que Allah esteja satisfeito com ele):O Allama Badruddin Ayni escreveu a respeito dele:

******************************************************

Ele era um grande erudito e muito diligente nas práticas de adoração. Era detentor de mais hadiths do que Hazrat Abu Huraira, pois costumava escrever os hadiths, enquanto Hazrat Abu Huraira, inicialmente, não os escrevia. Apesar disso, o número de hadiths narrados através de sua cadeia de transmissão era muito menor do que o dos hadiths narrados através da cadeia de transmissão de Hazrat Abu Huraira.

Ele costumava registrar os hadiths por escrito. Mujahid disse: Ao ver uma compilação de hadiths junto de Abdullah, perguntei: “O que é isto?” Ele respondeu:

******************************************************

Seu nome é Sadiqa. Nela estão escritos os hadiths que ouvi do Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Ao ouvir esses hadiths, não havia nenhuma pessoa entre mim e o Mensageiro.

3. Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele):o quarto califa dos Califas Bem-Guiados. Foi o primeiro entre os homens a aceitar o Islam e, naquela época, permaneceu como companheiro do Mensageiro. Era primo paterno e genro do Nobre Mensageiro. Ele também foi o primeiro califa da linhagem dos Banu Hashim.

Allama Badruddin Aini escreveu sobre ele:

******************************************************

Através de sua cadeia de transmissão, foram narrados do Mensageiro um total de 586 hadiths. Dentre eles, Bukhari e Muslim mencionaram vinte hadiths, cada um em sua própria obra. Além desses, Bukhari mencionou outros nove, e Muslim, mais quinze hadiths.

4. Hazrat Umar ibn al-Khattab (que Allah esteja satisfeito com ele):  o segundo califa dos Califas Bem-Guiados. Ele aceitou o Islam no sexto ano da Profecia. Como resultado de sua conversão ao Islam, o Islam adquiriu grande força em Meca. Dedicou toda a sua vida ao Islam. Segundo uma contagem, o número total de hadiths narrados por ele é de 539.

Terceira categoria

Na terceira categoria são considerados ao todo 26 Companheiros. Seus nomes e uma breve apresentação são fornecidos a seguir:

1. Ummul Mu’minin Hazrat Umm Salama (r.a.):O número de hadiths narrados por ela é 157. Entre eles, dois estão registrados tanto em Bukhari quanto em Muslim. O autor de Mishkat escreveu sobre ela:

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De sua parte, Hazrat Ibn Abbas (r.a.), Aisha (r.a.), sua própria filha Zaynab, seu filho Umar e Ibn al-Musayyib narraram hadiths.

Além desses, numerosos Companheiros e tabi’in também narraram hadiths de sua parte.[******************]

2. Hazrat Abu Musa Ash’‘ari (r.a.): Allama Badruddin Ayni escreveu sobre ele:

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Os hadiths narrados por ele são 360. Entre eles, cinquenta foram citados tanto em Bukhari quanto em Muslim. Além desses, quatro hadiths foram mencionados separadamente em Bukhari Sharif e outros quinze em Muslim Sharif. Anas ibn Malik (r.a.), Tariq ibn Shihab e muitos outros tabi’in narraram hadiths de sua parte. Ele era considerado um especialista entre os Companheiros.[**********]

3. Hazrat Bara’ ibn Ajib (r.a.): Badruddin Ayni escreveu:

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Foram narrados, por sua cadeia de transmissão, 305 hadiths provenientes do Mensageiro. Dentre eles, 22 hadiths foram citados tanto em Bukhari quanto em Muslim; 15 somente no Sahih de Bukhari e 6 somente no Sahih de Muslim.[*****************]

4. Hazrat Abu Dharr al-Ghifari (que Allah esteja satisfeito com ele): Ele próprio disse:

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Fui o quarto entre os quatro primeiros a aceitar o Islã.[ঐ]

Allama Badruddin Ayni mencionou:

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Por sua cadeia de transmissão, foram narrados 281 hadiths provenientes do Mensageiro. Dentre eles, doze hadiths foram citados tanto nos livros de Bukhari quanto nos de Muslim; individualmente, 2 no Sahih de Bukhari e 17 no Sahih de Muslim. Muitos Companheiros também narraram hadiths por intermédio dele.[***********] Um tabi’i também narrou hadiths por intermédio dele.[**********]

Hazrat Sa’d ibn Abi Waqqas (que Allah esteja satisfeito com ele):Ele foi um dos dez Companheiros aos quais, ainda neste mundo, foi anunciada a boa-nova do Paraíso. Aceitou o Islam aos 14 ou 17 anos de idade. Foi ele quem primeiro lançou flechas no jihad pela causa da religião de Allah. Sobre ele, Allama Badruddin Ayni escreveu:

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O total de hadiths que ele narrou do Mensageiro foi de duzentos e setenta. Dentre eles, Bukhari e Muslim mencionaram conjuntamente quinze hadiths. Além disso, Bukhari mencionou separadamente cinco hadiths, e Muslim, dezoito.

6. Hazrat Sahl ibn Sa’d Ansari (que Allah esteja satisfeito com ele):O Mensageiro de Allah faleceu quando ele tinha quinze anos de idade, e, entre os Companheiros, foi ele quem faleceu por último em Medina. Como, após a morte de todos os Companheiros, somente ele permaneceu vivo, todos recorriam a ele em busca do conhecimento dos hadiths. O número total de hadiths narrados por ele foi de 188. Dentre eles, 28 hadiths foram registrados tanto por Bukhari quanto por Muslim.

7. Hazrat Ubada ibn al-Samit (que Allah esteja satisfeito com ele):Ele foi um daqueles moradores de Medina aos ouvidos dos quais chegou o chamado do Islam vindo de Meca e que participaram da Bay’at de Aqaba realizada durante o Hajj por três anos consecutivos.

Allama Badruddin Ayni escreveu:

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O número de hadiths que ele narrou do Mensageiro foi de 181. Dentre eles, seis hadiths foram mencionados conjuntamente por Bukhari e Muslim. Além disso, Bukhari mencionou outros dois hadiths, e Muslim mencionou outros dois.

8. Hazrat Abu Darda (que Allah esteja satisfeito com ele):Ele era um Companheiro muito ilustre. Sua erudição, inteligência, sabedoria e pleno domínio da ciência dos hadiths eram amplamente reconhecidos. Certo dia, Hazrat Abu Dharr al-Ghifari (que Allah esteja satisfeito com ele) dirigiu-se a ele, dizendo:

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Agora, sobre a terra e sob o céu, não há ninguém mais erudito do que tu, ó Abu Darda.

9. Hazrat Abu Qatadah al-Ansari (que Allah esteja satisfeito com ele):Ele era extremamente cauteloso ao narrar hadiths. Começou a adotar esse princípio imediatamente após ouvir as severas advertências relativas a atribuir falsidades ao Mensageiro. [A mesma obra, volume 8, página 92.] Apesar disso, o número de hadiths narrados por ele é 100.

10. Hazrat Ubayy ibn Ka’b (que Allah esteja satisfeito com ele):Cada momento de sua vida foi dedicado ao serviço da ciência dos hadiths. Khatib al-Umari escreveu:

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Ele era o escriba da revelação para o nobre Profeta (que a paz esteja sobre ele). Foi um daqueles que memorizaram todo o Nobre Alcorão durante a época do Mensageiro. Muitas pessoas narraram hadiths através de sua autoridade.

11. Hazrat Muadh ibn Jabal (que Allah esteja satisfeito com ele):Ele foi um dos sete presentes no segundo Juramento de Aqabah. Participou da batalha de Badr e de todas as demais batalhas. O nobre Profeta (que a paz esteja sobre ele) enviou-o à província do Iêmen como juiz e instrutor do Islã.

Hazrat Ibn Masud disse:

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Mu‘az era o mestre de todos os ensinamentos do bem e obedecia a Allah e ao Mensageiro.

Sobre ele, o próprio Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) disse:

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Mu‘az é quem mais sabe, entre todos, sobre o lícito e o ilícito.

Ele também disse:

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No Dia do Juízo, Mu‘az comparecerá como imame da comunidade dos sábios.

Os ilustres companheiros Abdullah ibn Amr, Ibn Abbas, Ibn Abu Awfa, Anas ibn Malik, Abu Imamata, Abu Qatadah, Abu Salabata, Abd al-Rahman ibn Samura e Jabir ibn Samura, entre outros, narraram hadiths com base em sua autoridade.

12. O ilustre Nu‘man ibn Bashir (que Allah esteja satisfeito com ele): Ele foi o primeiro filho da linhagem dos Ansar nascido após a Hégira. O erudito Badruddin Ayni escreveu:

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Em sua cadeia de transmissão, foram narrados cento e quatorze hadiths.

13. O ilustre Abu Bakrata (que Allah esteja satisfeito com ele):Ele se juntou ao Mensageiro após a conquista de Ta’if. A respeito dele, Badruddin Ayni escreveu:

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Entre os companheiros, ele era especialmente versado em conhecimento religioso. Estava entre os mais virtuosos. Ele sempre se esforçava ao máximo na prática da adoração.

Al-ʿAynī também escreveu:

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Em sua cadeia de transmissão, foram narrados do Nobre Profeta (s) um total de 133 hadiths. Destes, 8 hadiths foram mencionados tanto em Bukhari quanto em Muslim; outros cinco, no Sahih de Bukhari; e outro, no Sahih de Muslim.

14. Hazrat Jarir ibn Abdullah (ra):Ele aceitou o Islã no próprio ano do falecimento do Nobre Mensageiro (s). Ele mesmo disse:

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Aceitei o Islã quarenta dias antes do falecimento do Mensageiro.

O erudito Badruddin al-ʿAynī escreveu:

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Os hadiths narrados por ele são cem. Entre eles, Bukhari e Muslim mencionaram ambos oito hadiths, e Bukhari e Muslim mencionaram seis hadiths distintos. No livro Sharh an-Nawawi de Sahih Muslim, foi mencionado que os hadiths narrados por ele são duzentos. Destes, Bukhari mencionou sozinho apenas um. Alguns disseram que foram seis.

15. Hazrat Abu Ayyub Ansari (ra):Ele era um companheiro muito respeitado. Participou do segundo juramento de Aqabah e da Batalha de Badr. Quando o Mensageiro de Allah chegou a Medina, hospedou-se primeiro em sua casa. Allama Badruddin Ayni escreveu:

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O número de hadiths narrados por ele é de cento e cinquenta. Entre eles, sete hadiths foram mencionados tanto em Bukhari quanto em Muslim. Além desses, há ainda outro hadith em Bukhari.

16. Hazrat Uthman ibn Affan (ra):Ele foi o terceiro califa dos Califas Bem-Guiados, o Amir al-Mu’minin. As duas filhas do Mensageiro foram casadas com ele sucessivamente. Badruddin Ayni escreveu a respeito dele:

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Ele narrou 146 hadiths do Mensageiro. Bukhari mencionou onze deles em seu próprio livro.

17. Hazrat Mughira ibn Shu’ba (ra):Ele ocupava uma posição distinta entre os Companheiros no que diz respeito ao conhecimento. Os livros de hadith mencionam 133 hadiths narrados por ele. Além desses, mais um hadith foi mencionado em Bukhari e outros dois em Muslim.

18. Hazrat Imran ibn Husayn (que Allah esteja satisfeito com ele):Khattib al-Umari escreveu:

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Ele era um eminente sábio entre os Companheiros e um dos maiores juristas.[***********]

19. Hazrat Usama ibn Zayd (que Allah esteja satisfeito com ele):Ele era o filho adotivo do nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Ocupava uma posição eminente no conhecimento islâmico. Quando o Mensageiro faleceu, ele tinha apenas dezoito ou vinte anos. Apesar disso, um grande número das palavras do nobre Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) estava preservado em sua memória. Suas ações e seu caráter também eram um modelo para todos e dignos de ser seguidos.[*************]

Por seu intermédio, um grande número de hadiths foi narrado e divulgado. O número total dos hadiths narrados por ele era 128. Desses, 15 foram citados no Sahih al-Bukhari e no Sahih Muslim. Além disso, outros dois hadiths foram mencionados no Sahih al-Bukhari, e outros dois, no Sahih Muslim.[*************]

20. Hazrat Thawban (que Allah esteja satisfeito com ele):Ele era o escravo liberto do nobre Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e fazia parte de sua família. Estava sempre na companhia do nobre Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Por um lado, memorizava e guardava os hadiths na memória; por outro, cumpria plenamente a responsabilidade de divulgar os hadiths.[************]

21. Hazrat Buraydah ibn al-Hasib (que Allah esteja satisfeito com ele):Ele gozava de grande distinção entre os Companheiros. Tinha de memória um grande número de hadiths do Mensageiro. O número total dos hadiths narrados por ele era 164. Desses, apenas um foi mencionado tanto no Sahih al-Bukhari quanto no Sahih Muslim. Além disso, outros dois hadiths foram citados exclusivamente no Sahih al-Bukhari, e 11, exclusivamente no Sahih Muslim.[**********] Todos os hadiths narrados por ele foram ouvidos diretamente do Mensageiro.[***********]

22. Hazrat Abu Masud Uqbah ibn Amr (que Allah esteja satisfeito com ele):Ele aceitou o Islã por ocasião do segundo juramento de Aqabah. Era um zeloso pregador da religião islâmica. Participou de todas as batalhas. Também dedicava grande atenção à divulgação dos hadiths. Nos livros de hadiths, encontram-se menções a 102 hadiths narrados por ele.[***********]

23. Hazrate Jarir ibn Abdullah (r.a.):Ele aceitou o Islã cerca de quarenta dias antes do falecimento do Mensageiro. O número de hadiths narrados por ele é cem. Dentre eles, oito hadiths foram registrados em ambas as obras, Bukhari e Muslim. Além disso, um hadith foi registrado separadamente no Sahih Bukhari, e seis hadiths foram registrados no Sahih Muslim. Contudo, no Sharh Muslim de Nawawi, afirma-se que duzentos hadiths foram narrados por Hazrate Jarir. Dentre eles, um foi registrado no Sahih Bukhari e nove no Sahih Muslim.

24. Hazrate Samura ibn Jundub Farazi (r.a.):A respeito dele, o compilador do Mishkat escreveu:

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Ele era um hafiz de hadith e um dos que narraram numerosos hadiths do Mensageiro. Muitas pessoas também narraram hadiths por intermédio dele.

Allama Badruddin Ayni escreveu:

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No total, foram narrados por intermédio dele cento e vinte e três hadiths. Dentre eles, apenas quatro hadiths foram citados no Sahih Bukhari.

25. Hazrate Jabir ibn Samura (r.a.):Ele era sobrinho de Hazrate Sa’d ibn Abi Waqqas. Vivia na cidade de Kufa, onde faleceu no ano 74 da Hégira. Muitas pessoas também narraram hadiths por intermédio dele.

26. Hazrat Abu Bakr Siddiq (que Allah esteja satisfeito com ele):Ele foi o primeiro califa dos califas corretamente guiados. Foi o amigo e companheiro de toda a vida do nobre Profeta. Desde a época da ignorância até o estabelecimento da sociedade islâmica, em nenhuma circunstância ele se separou do nobre Mensageiro por mais que um breve período. Sobre ele, o compilador de Mishkat escreveu: Sobre ele, o compilador de Mishkat escreveu:

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Numerosos Companheiros e tabi’in narraram hadiths dele. Contudo, por ter vivido apenas pouco tempo após o falecimento do Mensageiro, foram narrados dele muito poucos hadiths.

Para uma discussão detalhada sobre a transmissão de hadiths por Hazrat Abu Bakr, consulte a discussão deste livro intitulada «Os califas corretamente guiados e a compilação dos livros de hadith».

Cada um dos Companheiros mencionados acima narrou cem hadiths ou mais, e o total dos hadiths narrados por todos eles é de 4.556.

Quarto grupo

O quarto grupo é composto por 33 Companheiros que narraram hadiths. De cada um deles foram narrados de quarenta a cem hadiths. Apresenta-se aqui a lista completa de seus nomes:

(1) Hazrat Abdullah ibn Abi Awfa (2) Hazrat Zayd ibn Thabit (3) Hazrat Zayd ibn Arqam (4) Hazrat Ka’b ibn Aslami (5) Hazrat Zayd ibn Khalid al-Juhani (6) Hazrat Abu Talha Zayd ibn Sahl (7) Hazrat Rafi ibn Khadij (8) Hazrat Salma ibn al-Akwa (9) Hazrat Abu Rafi al-Qibti (10) Hazrat Awf ibn Malik al-Ashja’i (11) Hazrat Adi ibn Hatim (12) Hazrat Abd al-Rahman ibn Awf (13) Umm al-Mu’minin Hazrat Umm Habiba (14) Hazrat Ammar ibn Yasir (15) Hazrat Salman al-Farisi (16) Umm al-Mu’minin Hazrat Hafsa (17) Hazrat Buraida ibn Mutarim al-Qubshi (18) Hazrat Asma bint Abu Bakr (19) Hazrat Wathila ibn al-Asqa al-Kinani (20) Hazrat Uqba ibn Amir al-Juhani (21) Hazrat Fudala ibn Ubayda al-Ansari (22) Hazrat Umar ibn Utba (23) Hazrat Ka’b ibn Amr al-Ansari (24) Hazrat Fudala ibn Ubayd al-Aslami (25) Umm al-Mu’minin Hazrat Maymuna (26) Hazrat Umm Hani (27) Hazrat Abu Hudhayfa ibn Mughaffal (28) Hazrat Bilal ibn Rabah al-Tamimi (29) Hazrat Abdullah ibn Mughaffal (30) Hazrat Miqdam ibn Asad al-Kufi (31) Hazrat Umm Atiyya al-Ansariyya (32) Hazrat Hakim ibn Hajar al-Asadi e (33) Hazrat Salma ibn Hanif al-Ansari (que Allah esteja satisfeito com ele).

Quinta categoria

O número de Companheiros da quinta categoria é cinquenta e cinco. De cada um deles foram narrados quarenta ou menos de quarenta hadiths. Aqui serão mencionados os nomes dos quarenta narradores de hadiths relativamente mais numerosos desta categoria. São eles:

(1) Hazrat Zubair ibn Awam (2) Hazrat Fátima bint Qais (3) Hazrat Khabbab ibn al-Ibt (4) Hazrat Ayaz ibn Hammad Tamimi (5) Hazrat Malik ibn Rabia Saídi (6) Hazrat Abdullah ibn Salam (7) Hazrat Umm Qais bint Mahy (8) Hazrat Fadl ibn Abbas (9) Hazrat Amir ibn Rabia (10) Hazrat Rabi bint Muawiyah (11) Hazrat Usaid ibn Hudair Ashhali (12) Hazrat Khalid ibn Walid (13) Hazrat Umar ibn Harith (14) Hazrat Khawla bint Hakim (15) Hazrat Thabit ibn Dahhak (16) Hazrat Urwa ibn Abi Zaid al-Asadi (17) Hazrat Muawiya ibn Hakim Salami (18) Hazrat Yamra bint Safwan (19) Hazrat Urwa ibn Majras (20) Hazrat Majma ibn Yazid (21) Hazrat Salm ibn Qais (22) Hazrat Qatada ibn Luqman (23) Hazrat Qubaisa ibn Mukhariq Amiri (24) Hazrat Asim ibn Adi (25) Hazrat Salma ibn Naim Ashjai (26) Hazrat Malik ibn Sa’sa’a (27) Hazrat Mahjan ibn Adra (28) Hazrat Saib ibn Falaha (29) Hazrat Khafaf Ghifari (30) Hazrat Zu’far Habashi (31) Hazrat Malik ibn Hubair (32) Hazrat Zaid ibn Harith (33) Hazrat Thabit ibn Adiya (34) Hazrat Kaab ibn Ayad Ashari (35) Hazrat Kulthum ibn Husain Ghifari (36) Hazrat Dahya Kalbi (37) Hazrat Judana bint Wahab (38) Hazrat Malik ibn Yasar (39) Hazrat Abdullah ibn Jamra e (40) Hazrat Kulthum ibn Alqama (que Deus esteja satisfeito com eles).

Os quinze restantes eram Companheiros jovens. O número de hadiths narrados por eles é muito pequeno e insignificante.

O número total dos Companheiros cujos nomes foram mencionados acima nas diversas categorias é cento e cinco. Não há dúvida de que o grandioso e sublime tesouro dos hadiths, que permanece como um pilar de luz inesgotável e imperecível para a comunidade muçulmana, é fruto das narrativas desses Companheiros — de sua dedicação ilimitada e ininterrupta, de sua devoção, de seu trabalho incansável, de sua firme fé em Deus e de seu eterno desejo pelo bem da humanidade.

 

Causa da diferença no número de hadiths narrados

Na discussão anterior, vimos que há uma grande diferença entre os Companheiros quanto ao número de hadiths narrados. Embora fossem todos Companheiros do mesmo Profeta, alguns narraram um grande número de hadiths, enquanto outros narraram um número muito pequeno. É particularmente necessário que saibamos qual foi a causa dessa grande diferença no número de hadiths narrados.

Enquanto o Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) viveu entre os Companheiros, ocupou-se, de modo geral, em ensinar a todos eles a religião do Islã, o Livro de Deus e a sabedoria. Naquele tempo, assim como não havia oportunidade de divulgar qualquer falsidade em nome do Mensageiro, também não havia a menor possibilidade de rejeitar ou descartar qualquer palavra do Mensageiro dizendo: “Isso não é uma palavra do Mensageiro”. Naquela época, os hipócritas também não tinham muita oportunidade de interpretar erroneamente qualquer palavra do Mensageiro e criar confusão acerca da religião do Islã. Pois, sempre que algo assim acontecia, os nobres Companheiros podiam perguntar ao Mensageiro e esclarecer completa e claramente toda a questão. Há inúmeros exemplos disso na história, especialmente nos nobres hadiths. Certa vez, Hazrat Umar Faruq (que Deus esteja satisfeito com ele) viu Hazrat Hisham ibn Hakim recitar a surata Al-Furqan de uma maneira nova, ficou muito surpreso, agarrou-o e levou-o à presença do Mensageiro. Depois de ouvir a recitação de Hazrat Hisham, o Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele) disse que também era permitido recitá-la dessa maneira. Assim, a dúvida que estava na mente de Hazrat Umar desapareceu. Por isso, pode-se dizer que, durante sua vida, o Nobre Mensageiro era aquele que resolvia todas as divergências entre os nobres Companheiros. Sempre que surgia a menor dúvida ou confusão sobre qualquer assunto, ela era diretamente eliminada por meio do Mensageiro.

Contudo, após o falecimento do nobre Profeta (que a paz esteja com ele), ocorreu uma enorme mudança nessa situação. Por um lado, rompeu-se a fonte de acesso ao conhecimento da Revelação e, por outro, incontáveis novos muçulmanos tornaram-se apóstatas e se prepararam para abandonar a religião do Islã. Em tal situação, alguns hipócritas também se ergueram, com o objetivo de obter ganhos pessoais em águas turvas. Se, então, eles tentaram espalhar alguma mentira em nome do Mensageiro, isso não é de modo algum algo estranho ou surpreendente.

Entretanto, o primeiro califa, Abu Bakr Siddiq (que Allah esteja satisfeito com ele), organizou uma vigorosa resistência contra isso. Por um lado, empregando toda a sua força, ele esmagou os apóstatas e os que negavam o zakat; por outro, ergueu igualmente uma muralha intransponível diante da propagação das mentiras dos mentirosos. Depois dele, Umar Faruq (que Allah esteja satisfeito com ele) também tomou medidas apropriadas para esse fim. Ele adotou extrema severidade no que dizia respeito à transmissão dos hadiths. Um grande número de Companheiros, guardando no peito um imenso tesouro de hadiths, permanecia vigilante como sentinelas incansáveis. Temendo que, caso algum hadith fosse transmitido, ele pudesse tornar-se um brinquedo nas mãos dos hipócritas e assumir uma forma deturpada, eles quase cessaram, em geral, a transmissão de hadiths. Em alguns, esse temor tornou-se tão intenso que receavam cometer erros ao transmitir muitos hadiths, ou que, se os muçulmanos comuns se ocupassem completamente do estudo dos hadiths, pudessem negligenciar a própria Palavra de Allah, o Alcorão Majid. Por essas razões também, os nobres Companheiros, em geral, suspenderam temporariamente quase por completo a divulgação e a transmissão dos hadiths. Somente quando se tornava indispensável recorrer aos hadiths para resolver questões da Sharia, governar o Estado, administrar a justiça e tratar de assuntos cotidianos semelhantes, eles transmitiam hadiths uns aos outros.

Neste contexto, podemos mencionar especialmente alguns Companheiros e, a partir disso, compreender também a razão pela qual, apesar de conhecerem um grande número de hadiths, transmitiram relativamente poucos.

Abu Bakr Siddiq (que Allah esteja satisfeito com ele), companheiro do Profeta (que a paz esteja com ele) durante toda a sua vida, Abu Ubaida, Abbas ibn Abd al-Muttalib, Imran ibn Husain e outros ilustres Companheiros, apesar de conhecerem um grande número de hadiths, transmitiram muito poucos. Sa’id ibn Zayd (que Allah esteja satisfeito com ele) era um dos dez Companheiros a quem fora anunciada a boa-nova do Paraíso; contudo, transmitiu apenas dois ou três hadiths. Ubai ibn Ummarata transmitiu somente um hadith.

Alguns Companheiros ficaram tão ocupados, após o falecimento do Mensageiro, com o desempenho das responsabilidades do califado, que não tiveram oportunidade nem tempo para transmitir hadiths. Os quatro ilustres Companheiros dos Califas Bem-Guiados, bem como Talha e Zubair (que Allah esteja satisfeito com eles), são exemplos concretos dessa razão.

A situação de muitos Companheiros era exatamente o oposto. Eles dispunham de amplo tempo livre. Não tinham nenhuma ocupação que pudesse impedi-los de transmitir hadiths. Assim, foram capazes de transmitir um grande número de hadiths. Entre eles estavam Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele), Aisha (que Allah esteja satisfeita com ela) e Abd Allah ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ele).

Alguns Companheiros tiveram relativamente mais oportunidades de estar na companhia e na presença do nobre Profeta (que a paz esteja com ele). Por permanecerem com ele em toda parte — no país e no estrangeiro, em casa e durante as viagens —, por um lado, tornou-se fácil para eles reunir um maior número de hadiths e, por outro, após o seu falecimento, tiveram também oportunidade de transmiti-los plenamente a outros. Nesta categoria, são dignos de menção os Companheiros Abd Allah ibn Mas’ud (que Allah esteja satisfeito com ele), Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele), Jabir ibn Abd Allah (que Allah esteja satisfeito com ele), Anas ibn Malik (que Allah esteja satisfeito com ele) e Abd Allah ibn Umar (que Allah esteja satisfeito com ele), entre outros. Alguns Companheiros faleceram ainda durante a vida do Mensageiro ou imediatamente após o seu falecimento; por isso, em suas vidas, não tiveram oportunidade alguma de transmitir hadiths a outros. Também daqueles que não tiveram muitas oportunidades de encontrar o Mensageiro ou de permanecer junto dele foram transmitidos pouquíssimos hadiths.

Após o desaparecimento do nobre Mensageiro (que a paz esteja com ele), surgiram continuamente novas situações na sociedade islâmica. Então, tornou-se necessário para o povo muçulmano conhecer a palavra do Mensageiro sobre as questões pertinentes. Consequentemente, os Companheiros que ainda estavam vivos foram obrigados a transmitir um número maior de hadiths. Mais tarde, nasceu entre os muçulmanos um intenso interesse em adquirir o conhecimento dos hadiths. Eles apresentavam de várias maneiras aos Companheiros o pedido de ouvir os hadiths do Mensageiro. Por essa razão também, os Companheiros se dispuseram a revelar diante deles o conhecimento dos hadiths que preservavam e a ensiná-los a eles. Essa razão também possibilitou que um grande número de hadiths fosse transmitido por muitos Companheiros.

Na fase final do Califado dos Rashidun, surgiram várias fitnas na sociedade muçulmana. Os xiitas e os kharijitas ergueram-se permanentemente como duas seitas desviadas. Nessa época, eles também tentaram fazer passar certas declarações como hadiths do Mensageiro. Por essa razão, alguns Companheiros do Mensageiro foram obrigados a adotar extremo rigor na transmissão de hadiths, mesmo transmitindo poucos hadiths autênticos. Foi precisamente por esse motivo que pouquíssimos hadiths puderam ser transmitidos por intermédio do quarto califa, Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele).

As diferenças na capacidade de memorização e o fato de registrar ou não os hadiths também constituem uma das principais razões para a diferença no número de hadiths transmitidos. Aqueles que conseguiram memorizar ou registrar um grande número de hadiths — como Hazrat Abu Huraira (que Allah esteja satisfeito com ele) e Hazrat Abdullah ibn Amr (que Allah esteja satisfeito com ele) — puderam transmitir mais hadiths do que os demais Companheiros. Na base da diferença entre o número de hadiths transmitidos pelos numerosos Companheiros do mesmo Mensageiro encontram-se todas essas diversas razões. Portanto, por mais surpreendente que o fato possa parecer, pode-se afirmar sem dúvida que não há nele nada de anormal. Consulte as páginas 66, 67 e 147 e 148 da obra *************** escrita por Muhammad Abu Zahw.

 

O empenho dos Tabi’in no estudo dos hadiths

Após o falecimento do Nobre Profeta (que a paz esteja com ele), iniciou-se a era dos Companheiros. Assim como os ilustres Companheiros adquiriram especial competência ao aprenderem o Alcorão, os hadiths e, em suma, os conhecimentos islâmicos junto do Nobre Profeta, também ensinaram o Alcorão, os hadiths e os conhecimentos islâmicos aos Tabi’in, que pertenciam à geração seguinte. Durante a vida do Nobre Profeta, ele próprio ocupava uma posição de autoridade no âmbito do conhecimento islâmico; após o seu desaparecimento, os ilustres Companheiros (que Allah esteja satisfeito com eles) foram investidos de uma posição de responsabilidade semelhante. Por meio de esforços individuais e coletivos, eles também se dedicaram a tornar o povo muçulmano da era dos Tabi’in mais proficiente no conhecimento do Alcorão e dos hadiths, a fim de nutri-lo com a corrente do conhecimento islâmico. Assim como o Nobre Profeta havia estabelecido, em Medina, um grande centro de conhecimento no período inicial, mais tarde a maioria dos Companheiros criou, individualmente e em seu próprio círculo, um círculo de conhecimento; e os muçulmanos da era dos Tabi’in adquiriram deles o conhecimento do Alcorão e dos hadiths. Mas quem é um Tabi’i? É necessário apresentar aqui uma discussão fundamental sobre esse tema. O historiador Al-Khatib al-Baghdadi escreveu a esse respeito:

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Tabi’i é aquele que esteve na companhia de um Companheiro.

De acordo com essa definição, um simples encontro com um Companheiro não é suficiente para que alguém seja considerado Tabi’i; é necessário também ter passado algum tempo junto dele. Contudo, a opinião da maioria dos muhaddithin é diferente. Segundo eles:

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“Tabi’i” é aquele que encontrou algum Companheiro, ainda que não tenha permanecido em sua companhia.

Ibn Hibban estabeleceu, nesse assunto, como condição que, no momento do encontro com um Companheiro, o tabi’i já tivesse alcançado discernimento e conhecimento para distinguir o bem do mal. Ele disse:

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Se, no momento do encontro, ele ainda fosse muito jovem e não fosse capaz de preservar e guardar plenamente tudo o que tivesse ouvido, então o simples fato de ter encontrado o Companheiro não teria valor.

A elevada posição dos tabi’in depois dos Companheiros também foi mencionada de modo especial no Alcorão Majიდ. Foi dito:

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E os primeiros entre os Muhajirun e os Ansar a aceitar o Islã, bem como aqueles que os seguiram com sincera dedicação e satisfação, Allah está satisfeito com eles, e eles estão satisfeitos com Allah. E Ele preparou para eles jardins sob os quais correm rios. [Surata At-Tawra, 2º rukū, versículo 100.]

Neste versículo do Alcorão, os tabi’in são mencionados imediatamente depois dos Companheiros Muhajirun e Ansar. Assim como estão subordinados aos nobres Companheiros no que diz respeito à fé e às obras, também são seus sucessores no decorrer do tempo. Por isso, na terminologia corrente, são chamados de “tabi’in” (posteriores ou seguidores).

Os tabi’un também são mencionados nos hadiths com especial distinção. O nobre Mensageiro (que a paz esteja sobre ele) disse:

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Os meus contemporâneos (os Companheiros) são os melhores da minha comunidade. Depois deles vêm aqueles que os encontraram (os tabi’un), e depois deles vêm aqueles que encontraram estes últimos (os tabi’ al-tabi’in). [Sahih Muslim, Kitab al-Fada’il, p. 309.]

Na verdade, a comunidade muçulmana do período posterior aos Companheiros — os tabi’un — era, em linhas gerais, um reflexo dos próprios Companheiros. Por um lado, eles adquiriram dos Companheiros do Mensageiro todo o conhecimento relacionado ao Alcorão e à Sunnah; por outro, difundiram amplamente esse conhecimento por todas as regiões e recantos da enorme sociedade muçulmana de então. Foram, na prática, o meio pelo qual o conhecimento islâmico recebido dos Companheiros foi transmitido aos muçulmanos das gerações posteriores. [Tābiʿīn, de Shah Mu’inuddin, introdução, pp. 2–3.]

Esses tabi’un eram numerosos — e nem sequer é possível determinar seu número com exatidão. Isso porque, após o falecimento do nobre Profeta (que a paz esteja sobre ele), os ilustres Companheiros espalharam-se por diversas regiões do mundo e—

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Todo aquele que encontrou sequer um dos Companheiros era um tabi’i.

Por essa razão, é realmente impossível determinar quantos tabi’un existiram especificamente em todo o mundo muçulmano e, de modo geral, em todo o mundo. Contudo, na história da compilação dos hadiths, são relevantes apenas aqueles tabi’un que, no período posterior ao nobre Profeta (que a paz esteja sobre ele), estiveram de alguma forma envolvidos no estudo, na memorização e na escrita dos hadiths. Ao tratar da dedicação dos tabi’un aos hadiths, discutiremos apenas os tabi’un ilustres dessa categoria.

A existência de um método gradual para o ensino dos hadiths na época dos tabi’un é comprovada pela passagem a seguir:

******************************************************

O método de ensino da ciência dos hadiths era o seguinte: primeiro, ouvia-se; depois, prestava-se atenção ao que fora ouvido; em seguida, memorizava-se; posteriormente, começava-se a agir de acordo com isso; e, depois, adotavam-se medidas práticas para divulgá-lo.

Na realidade, foi exatamente de acordo com esse método e nessa ordem que os nobres Companheiros ensinaram os hadiths aos seus discípulos e estabeleceram, após o falecimento do nobre Profeta, faróis de disseminação do conhecimento nos centros da sociedade islâmica. Como resultado, durante essa época, um grande número de pessoas teve a oportunidade de aprender os hadiths e moldar a própria vida segundo eles. Em todas as atividades — memorizar os hadiths, registrá-los por escrito e compilar livros de hadiths, entre outras — eles demonstraram pleno empenho e entusiasmo. Além disso, alcançaram completa proficiência, excelência, renome e fama em todos esses campos.

Aqui são discutidos separadamente os diversos aspectos do estudo dos hadiths na época dos tabi’un.

Memorização dos hadiths

Assim como os nobres Companheiros, os tabi’un também demonstraram pleno empenho, entusiasmo, interesse ilimitado e dedicação na aprendizagem e memorização dos hadiths. Para eles, depois do Nobre Alcorão, os hadiths constituíam a segunda fonte de conhecimento. No Alcorão, recebiam ensinamentos sobre os princípios fundamentais e as normas do Islã; por meio dos hadiths, obtinham conhecimento e informações detalhados sobre o Islã.

Na primeira fase da época dos tabi’un, os muçulmanos deram a máxima importância à memorização dos hadiths. Todo hadith que ouviam, memorizavam-no. Até então, a nação árabe dependia plenamente da sua memória natural; para dominar qualquer coisa, seu costume permanente era, antes de tudo, memorizá-la. Em particular, até esse período, a arte da escrita ainda não havia alcançado entre eles grande desenvolvimento, difusão nem ampla popularidade.

Todavia, apesar disso, não se pode dizer que o hadith jamais fosse escrito e que todos dependessem exclusivamente da memorização. Pelo contrário, a situação real era que a maioria das pessoas daquela época estava habituada a memorizar. Mesmo quando alguém escrevia, fazia-o com o propósito de memorizar; pode-se dizer que não havia ali o costume de simplesmente escrever e guardar algo sem memorizá-lo. A seguinte declaração do Imam Malik revela a situação real dessa prática. Ele disse:

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As pessoas daquela época geralmente não estavam acostumadas a escrever; em geral, estavam acostumadas a memorizar. Mesmo quando alguém escrevia alguma coisa, fazia-o apenas com o propósito de memorizá-la e, depois de memorizá-la, apagava-a.

Foi dito a respeito do tabi‘i Muhammad ibn Sirin que o método deles para aprender hadith consistia primeiro em escrevê-lo e memorizá-lo e, depois de memorizado, destruir o que havia sido escrito.

O historiador Ibn Asakir, citando uma declaração do muhaddith Ismail ibn Ubaida, deixou clara a importância atribuída à memorização do hadith naquela época. O muhaddith Ismail disse:

******************************************************

Assim como memorizamos o Alcorão, é nosso dever memorizar o hadith exatamente da mesma maneira.

O historiador al-Dhahabi escreveu sobre o célebre hafiz de hadith Ibn Khuzayma:

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Assim como um recitador do Alcorão memoriza as suratas do Alcorão, Ibn Khuzayma também memorizava as hadices relativas à jurisprudência islâmica.[****************]

O tabi‘i Khalid al-Hazza disse: Eu primeiro escrevia as hadices longas e ********************************** quando as memorizava, apagava-as.[************]

Ao tratar da biografia do tabi‘i Ismail ibn Yunus, o historiador al-Dhahabi escreveu que ele dizia:

******************************************************

Eu memorizava as hadices narradas por Abu Ishaq exatamente da mesma maneira como memorizava as suratas do Alcorão.[**********************]

Ao tratar da biografia do tabi‘i Shahr ibn Hawshab, foi escrito que Ahmad Abd al-Hamid ibn Rahman tinha reunidas todas as hadices narradas por ele (Shahr), e

******************************************************

Ele memorizava os hadiths de tal maneira que parecia estar recitando uma surata do Alcorão.

O célebre muhaddith Abu Dawud al-Tayalisi, compilador de uma renomada obra de Musnad, afirmava:

******************************************************

Consigo recitar de memória, fluentemente, trinta mil hadiths; naturalmente, isso não é uma afirmação de orgulho da minha parte.

O célebre tabi‘i Qatada recitou de memória ao muhaddith Sa‘id ibn Arara a surata Al-Baqara, do início ao fim, sem cometer um único erro. Então disse:

******************************************************

Tenho memorizada a compilação de hadiths de Jabir em medida ainda maior do que a surata Al-Baqara.

A partir do relato a seguir, pode-se compreender como era realizado, naquela época, o ensino dos hadiths.

Urwa ibn al-Zubair era sobrinho e discípulo de Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela). Seu filho, Hisham ibn Urwa, disse: “Meu pai ensinava hadith a mim e aos meus outros irmãos. Depois, pedia que os recitássemos para ele e dizia:

******************************************************

Leiam para mim repetidamente aquilo que vocês estudaram.

Depois disso, ele disse:

******************************************************

Meu pai ficava extremamente admirado e feliz ao constatar minha capacidade de memorizar.

Ibrahim al-Nakha’i, um tabi’i, costumava aconselhar seus alunos de hadith:

******************************************************

Quando ouvires um hadith, transmite-o a outra pessoa.

É relatado que o famoso compilador de hadith da época dos tabi’in, o Imam Ibn Shihab al-Zuhri, fazia a ablução após a oração do isha e sentava-se para memorizar e discutir hadith; permanecia na mesma reunião até a oração do fajr, dedicando-se ao estudo dos hadith. [Sunan al-Darimi, p. 79.]

Este Imam al-Zuhri disse:

******************************************************

Quando eu perguntava a Ubaydullah ibn Abdullah sobre algum hadith, ele começava a narrá-lo de tal maneira que parecia que um mar havia irrompido. [Sunan al-Darimi, p. 80.]

Na realidade, até quase o fim do primeiro século hijri, os sábios muçulmanos do mundo árabe geralmente não se dedicavam a escrever coisa alguma; para eles, era mais fácil memorizar do que registrar por escrito.

Em tal ambiente, não se pode imaginar que todos os tabi’in especialistas em hadith daquela época escrevessem hadith em grande escala. Por isso, no primeiro século hijri, o número dos que memorizavam hadith era muito maior que o dos que os escreviam. Os nomes de inúmeros eruditos dessa época são mencionados nos livros biográficos; eles haviam memorizado por completo um grande número de hadith e enormes compilações de hadith, e conseguiam recitá-los de memória de tal modo que não se percebia sequer um erro.

A escrita dos hadith

Assim como os Companheiros veneráveis não se limitaram a memorizar os hadithes para preservá-los, muitos Companheiros também sentiram a necessidade de registrá-los por escrito. Do mesmo modo, os tabi’in não consideravam suficiente apenas memorizar os hadithes para cumprir o dever de preservá-los; entre eles havia também pessoas que compreenderam plenamente a importância de registrá-los. Em suma, se, na época dos Companheiros e dos tabi’in, se tivesse considerado suficiente apenas memorizar os hadithes e ninguém tivesse dado atenção à sua transcrição, teria havido o risco de que uma grande parte dos hadithes do Mensageiro se perdesse. Portanto, o fato de pessoas especiais dessas duas épocas terem voltado sua atenção, juntamente com a memorização, também para o registro escrito dos hadithes deve ser considerado uma graça incomensurável de Allah para com a nação muçulmana.

Com efeito, muitos entre os tabi’in, depois de ouvir e aprender os hadithes dos Companheiros, registraram-nos e compilaram-nos com a devida cautela, atenção e concentração. A prova concreta disso será encontrada nos relatos a seguir.

1. Bashir ibn Nuhayk, um tabi’i, era discípulo dos hadithes de Hadrat Abu Hurayra. Ele disse: Eu registrava por escrito todos os hadithes que ouvia de Hadrat Abu Hurayra. Finalmente, quando chegou o momento de me despedir dele, apresentei-lhe a coletânea escrita de hadithes e li-lhe tudo do princípio ao fim. Eu disse: — ********************* “Esta é a coletânea de todos os hadithes que ouvi de você.” Em resposta, Hadrat Abu Hurayra (que Allah esteja satisfeito com ele) disse: “Sim, está correto.” [Sunan al-Darimi, p. 68.]

2. Outro discípulo de Hadrat Abu Hurayra foi Hammam ibn Munabbih al-Yamani. Ele também organizou por escrito os hadithes que ouvira. Esta compilação é conhecida como “Sahifa de Hammam ibn Munabbih”. Ela contém cerca de cento e quarenta hadithes. O manuscrito desta obra ainda se encontra preservado nas bibliotecas de Damasco e de Berlim. O célebre pesquisador e especialista em investigação do subcontinente, Dr. Hamidullah, descobriu-o pela primeira vez em 1933. Exatamente vinte anos depois, em 1953, publicou-o em quatro parcelas no periódico Abri de Damasco ****************. Pelo anúncio do Dr. Hamidullah, soube-se também que na biblioteca da Universidade de Ancara, na Turquia, ainda existe o manuscrito de outra obra de hadith compilada por Ma’mar ibn Rashid, discípulo de Hammam ibn Munabbih.

Também foi encontrada uma obra de hadith compilada por Abd al-Razzaq ibn Hammam al-San’ani al-Yamani (125–211 H.), discípulo de Ma’mar ibn Rashid e mestre do Imam Ahmad ibn Hanbal. Ela é conhecida como “Musannaf de Abd al-Razzaq”.

Essas compilações de hadithes são, por um lado, testemunhos vivos de que os hadithes foram compilados durante a vida do Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) e na época do Califado Bem-Guiado, além de constituírem as fontes originais das obras mais antigas. [Todos esses dados foram extraídos da introdução à “Sahifa de Hammam ibn Munabbih”, editada pelo Dr. Hamidullah.]

3. O tabi’i Sa’id ibn Jubayr disse:

******************************************************

Eu costumava ouvir hadith de Ibn Umar e Ibn Abbas à noite e anotá-los sentado sobre minha montaria.[Sunan al-Darimi, página 68.]

De outra declaração sua, sabe-se que certa noite ele estava viajando com Hazrat Ibn Abbas pela estrada de Meca. Nessa ocasião, Ibn Abbas narrava hadith, e ele os escrevia. Continuaram assim até a manhã.[Idem]

A respeito do tabi’i Sufyan ibn Uyaynah, Mubarak ibn Sa’id diz:

******************************************************

Sufyan ibn Uyaynah ouvia hadith à noite e os escrevia na parede; pela manhã, fazia uma cópia deles e depois os apagava.[Sunan al-Darimi.]

Certo dia, foi apresentada a Hujr ibn Adi uma pergunta sobre fazer istinja com água. Ele disse: Tragam meu sahifah.

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Quando o trouxeram, ele disse bismillah e começou a ler, dizendo: Ouvi isto de Hazrat Ali ibn Abi Talib; ele dizia: “A purificação é metade da fé”.[Tabaqat de Ibn Sa’d, volume 6, página 454.]

Isso prova que Hujr ibn Adi possuía uma compilação escrita de hadiths provenientes de Hazrat Ali e que, sempre que lhe faziam alguma pergunta, ele a abria, lia os hadiths e respondia com base neles.

6. Abd al-A‘la ibn Amr também conservava uma compilação escrita de hadiths. Sobre ele, foi dito:

******************************************************

Todos os hadiths que Abd al-A‘la narrou de Ibn al-Hanafiyya eram, na realidade, uma coletânea encontrada sob a forma de um livro escrito. Ele a havia recebido dele; contudo, não ouviu os hadiths de sua própria transmissão oral. [Tabaqat de Ibn Sa‘d, volume 6, página 94.]

7. O Imam Baqir também possuía uma obra que era uma compilação de hadiths. Hazrat Ja‘far Sadiq disse: “Todos os hadiths que narro em nome de meu pai, encontrei-os registrados em sua obra compilada e foi dela que os tomei”.[Tahdhib al-Tahdhib, volume 2, página 104.]

8. Durante o governo de Hazrat Mu‘awiya, foram preparadas várias compilações dos hadiths narrados por Hazrat Ibn Abbas (r.a.). Marwan ibn al-Hakam compilou os hadiths narrados por Hazrat Zayd ibn Thabit. [Sunan al-Darimi.]

De fato, os tabi‘in coletavam hadiths dos companheiros de diversas maneiras. Para conhecer os hadiths junto a algum companheiro que estivesse distante, eles também trocavam correspondência e, por meio das cartas, tomavam conhecimento dos hadiths do Mensageiro. O hadith a seguir, narrado por Hazrat Sa‘d ibn Abi Waqqas (r.a.), fornece uma prova clara disso. Amir Zuhri al-Qurashi (falecido em 104 H.) disse:

******************************************************

Enviei uma carta ao honorável Jābir (que Deus esteja satisfeito com ele) por intermédio do meu servo Nāfiʿ. Nela, escrevi: “Escreva-me e envie-me algo que você tenha ouvido do Mensageiro.” Em resposta, ele (Jābir) escreveu-me que, na tarde da sexta-feira em que al-Aslamī foi apedrejado, ouviu o nobre Mensageiro dizer: “A religião do Islã permanecerá estabelecida até o Dia da Ressurreição”; ou teria dito: “A religião do Islã permanecerá estabelecida até que doze califas da tribo dos Coraixitas sejam nomeados sobre vós.” [Sahih Muslim, vol. 2, Kitāb al-Imārah, p. 119.]

10. Rajāʾ ibn Haywah relata que o califa Hishām ibn ʿAbd al-Malik perguntou-me sobre um hadith e ordenou a um de seus funcionários que o escrevesse e lho enviasse. Porém—

******************************************************

Se esse hadith não estivesse escrito comigo, eu o teria esquecido. [Sunan al-Dārimī, p. 69.]

11. Os estudiosos de hadith entre os Tābiʿūn informavam-se mutuamente sobre os hadith por meio de correspondência. Yazīd ibn Abī Habīb disse:

******************************************************

O Tābiʿī ʿAtā escreveu-me que ouviu Jābir ibn ʿAbd Allāh (que Deus esteja satisfeito com ele) dizer: “Ouvi o nobre Mensageiro (que a paz esteja com ele) dizer, no dia da conquista de Meca, enquanto estava em Meca: ‘Certamente, Deus e Seu Mensageiro proibiram a compra e a venda de vinho, carniça, porcos e ídolos.’” [*******************]

Os Tābiʿūn também adotavam o devido cuidado ao registrar os hadith; eles não os escreviam de qualquer pessoa. O Tābiʿī Yahyā ibn Maʿīn disse:

******************************************************

O famoso muhaddith Abd al-Razzaq disse-me: “Anote de mim pelo menos um hadith, ainda que não seja de nenhum livro.”

Ele era, de fato, um grande hafiz de hadith. Mas, naquela época, já havia ficado cego, no fim da vida. Por isso, não concordei em anotar nenhum hadith dele, pois havia o receio de que tivesse esquecido seus hadiths, além do temor de que dissesse uma coisa querendo dizer outra. Por isso, disse-lhe claramente: *************** “Não, não ouvirei nem anotarei de você sequer uma letra”. [Musnad do Imam Ahmad, volume 1, página 174.]

A compilação dos hadiths do Ahl al-Bayt

O Imam Zayd, neto do Imam Husayn (que Allah esteja satisfeito com ele) e filho de Ali ibn al-Husayn, nasceu em algum momento do ano 80 da Hégira, em Medina Tayyiba. Ele compilou todo o conhecimento da Sunnah e dos hadiths junto às pessoas do Ahl al-Bayt. O nome de seu livro de hadith compilado era **************. Nele havia sido compilado um grande número de hadiths. A maioria desses hadiths foi narrada por intermédio de Ali (que Allah esteja satisfeito com ele), remontando ao Profeta nobre (que a paz esteja com ele). As cadeias de transmissão de alguns hadiths, ao chegar a Ali (que Allah esteja satisfeito com ele), haviam ***********. Além do Imam Husayn e de Ali (que Allah esteja satisfeito com ele), um grande número de hadiths foi narrado dele por meio de muitas outras cadeias de transmissão. Seu pai, Ali ibn al-Husayn, narrou hadiths de numerosos tabi’in. O Imam Zayd recebeu essas narrações de seu irmão mais velho, o Imam Muhammad al-Baqir. Isso porque seu pai, Ali ibn al-Husayn, faleceu no ano 94; naquele momento, ele era apenas um menino de quatorze anos. O Imam Abu Hanifa (que Allah tenha misericórdia dele) e outros imams do fiqh receberam e narraram hadiths dele. [**********************]

 

Alguns famosos muhaddiths tabi’in

Após a discussão geral apresentada anteriormente, trataremos aqui, de modo específico e breve, de alguns destacados especialistas em hadith da época dos tabi’in. A partir desta discussão, será possível compreender mais claramente quão grandiosa e nobre foi a dedicação aos hadiths na época dos tabi’in e que tipo de pessoas dotadas de capacidade e talento foram formadas como resultado dela.

Entre o primeiro século da Hégira e a primeira metade do segundo século da Hégira, várias pessoas alcançaram grande fama em diferentes cidades e regiões do mundo muçulmano. A seguir, mencionamos seus nomes, juntamente com os respectivos locais e anos de falecimento:

Medina: (1) Sa‘id ibn al-Musayyib — falecido em 93 H. (2) ‘Urwa ibn al-Zubayr — falecido em 94 H. (3) Abu Bakr ibn ‘Abd al-Rahman ibn al-Harith — falecido em 94 H. (4) ‘Ubaydullah ibn ‘Utba — falecido em 99 H. (5) Salim ibn ‘Abdullah ibn ‘Umar — falecido em 106 H. (6) Sulayman ibn Yasar — falecido em 93 H. (7) Qasim ibn Muhammad ibn Abu Bakr — falecido em 112 H. (8) Nafi‘, o mawla de Ibn ‘Umar — falecido em 117 H. (9) Ibn Shihab al-Zuhri — falecido em 124 H. (10) Abu al-Zinad — falecido em 130 H.

Meca: (1) ‘Ikrima, o mawla de Ibn ‘Abbas — falecido em 105 H. (2) ‘Ata ibn Abu Ribah — falecido em 115 H. (3) Abu al-Zubayr Muhammad ibn Muslim — falecido em 128 H.

Kufa: (1) al-Sha‘bi, ‘Amir ibn Sharhabil — falecido em 104 H. (2) Ibrahim al-Nakha‘i — falecido em 96 H. (3) ‘Alqama ibn Qays ibn Abu al-Hasan al-Basri — falecido em 110 H.

Basra: (1) al-Hasan ibn Abu al-Hasan al-Basri — falecido em 110 H. (2) Muhammad ibn Sirin — falecido em 110 H. (3) Qatada ibn Di‘ama al-Dawsi — falecido em 117 H.

Síria: (1) ‘Umar ibn ‘Abd al-‘Aziz — falecido em 101 H. (2) Mak-hul — falecido em 118 H. (3) Qubaysa ibn Dhu’ayb — falecido em 86 H. (4) Ka‘b al-Ahbar — falecido em 32 H.

Egito: (1) Abu al-Khayr Marsad ibn ‘Abdullah al-Yazani — falecido em 90 H., e (2) Yazid ibn Abu Habib — falecido em 128 H.

Iêmen: (1) Tawus ibn Kaysan al-Yamani al-Himyari — falecido em 106 H. (2) Wahb ibn Munabbih — falecido em 110 H. [Esta lista completa dos tabi‘in foi extraída da página 173 da obra composta pelo professor Muhammad Abu Zahw, da Universidade de al-Azhar.]

Nas obras relacionadas a ‘Asma’ir Rijal’, encontram-se discussões detalhadas sobre eles. Aqui, será apresentada uma discussão um pouco mais detalhada sobre apenas alguns deles.

Ibn Shihab al-Zuhri

(seu nome verdadeiro era Muhammad ibn Muslim)

O Imã al-Zuhri era um renomadíssimo estudioso de hadith. Ele narrou hadiths dos ilustres Companheiros, entre os quais Hazrat Anas ibn Malik, Sahl ibn Sa’d, Sa’ib ibn Yazid, Shu’ayb Abu Jamilah, Abd al-Rahman ibn Sa’d, Rabi’ah ibn ‘Atad, Mahmud ibn al-Rabi’ e Abu al-Tufayl. Por outro lado, um grande número de tabi’un narrou hadiths dele.

No conhecimento do hadith, ele era um imã reconhecido por unanimidade. Os hadiths que narrou eram uma prova concreta de sua extraordinária memória.

Amr ibn Dinar disse a respeito dele:

******************************************************

Não conheci ninguém mais digno de confiança e mais incontestável como autoridade em hadith do que o Imã al-Zuhri.

De fato, Allah lhe havia concedido uma memória incomparável. Segundo o relato do Imã al-Bukhari:

******************************************************

Ele memorizou completamente o Alcorão Majid em apenas oitenta noites.

Ele próprio, dando testemunho de sua memória, disse:

******************************************************

Depois de memorizar algo, jamais o esqueci.

Por ordem de Umar ibn Abd al-Aziz, foi ele o primeiro a coletar e compilar os hadiths do Mensageiro (S). Ao observar o grandioso trabalho de sua coleta de hadiths, o Imam Shafi’i disse:

******************************************************

Se não fosse pelo Imam Zuhri, os hadiths de Medina certamente teriam desaparecido.

Ele faleceu no ano 124 da Hégira, numa aldeia da Síria chamada ‘Shagbad’, e foi sepultado ali mesmo. [*************************] Ele havia reunido a Sunnah do Mensageiro (hadith) disponível em toda a região do Hijaz.

Ikrama, mawla de Ibn Abbas

Ele era o escravo liberto de Hazrat Ibn Abbas (ra). O próprio Hazrat Ibn Abbas ensinou-lhe o Alcorão e o hadith. O próprio Ikrama declarou:

******************************************************

Ibn Abbas fazia-o permanecer preso, colocando grilhões em seus pés, e ensinava-lhe o Alcorão e o hadith.[********************]

Além de Hazrat Ibn Abbas, Ikrama também transmitiu hadith de companheiros como Hasan ibn Ali, Abu Qatadah, Ibn Umar, Abu Huraira, Abu Sa’id al-Khudri, Mu’awiya e Ibn Amr ibn al-As. Por sua vez, um grande número de tabi’un também transmitiu dele. Sa’id ibn al-Musayyib, um tabi’i, foi questionado: *********************** ‘Há alguém mais versado em hadith do que o senhor?’ Ele respondeu: ‘Sim, há, e é Ikrama.[*******************]

Sa’id ibn al-Musayyib

Ele nasceu no segundo ou quarto ano do califado de Hazrat Umar Faruq. [********************] Nessa época, a era dourada do Nobre Mensageiro já havia passado; contudo, a primavera do Islã ainda prevalecia por toda parte. Com exceção de dois ou quatro, quase todos os principais companheiros ainda estavam vivos. E eles eram os verdadeiros herdeiros do ‘conhecimento da Mensagem’. Ibn al-Musayyib possuía uma sede insaciável de conhecimento. Ele absorveu dos companheiros o néctar do conhecimento do Alcorão e do hadith. Hazrat Abu Huraira (ra) era seu sogro. Por causa dessa relação, foi fácil para ele adquirir em grande medida o conhecimento dos hadith junto de Hazrat Abu Huraira. Por essa razão, a maioria dos hadith que ele transmitiu era, na realidade, transmitida por Hazrat Abu Huraira (ra). [***********************] Por outro lado, sua memória natural era tão aguçada e poderosa que tudo o que ouvia uma vez ficava para sempre gravado e preservado em sua memória.[**************************] Por todas essas razões, seu conhecimento do hadith tornou-se extremamente profundo e abrangente.

Ubaidullah ibn Abdullah

Ele era neto de Utba, irmão do ilustre companheiro Abdullah ibn Masud. Sua casa e sua família eram um centro do conhecimento islâmico. Criado nesse ambiente, tornou-se possuidor de um conhecimento incomensurável. Ibn Saad escreveu a seu respeito:

******************************************************

Ele era narrador de muitos hadiths e um narrador confiável.[*********************]

O imã Zuhri disse: «Aprendi quase todo o conhecimento que possuo com quase todos os eruditos de hadith meus contemporâneos. Mas o conhecimento de Ubaidullah era um mar infinito e insondável; cada vez que eu ia até ele, tinha a oportunidade de adquirir um conhecimento inteiramente novo.»[*******************] Isso demonstra claramente a profundidade, a abrangência e a amplitude de seu conhecimento.

Urwa ibn az-Zubair

Urwa alcançou profundo conhecimento e grande domínio tanto dos hadiths quanto da jurisprudência islâmica. O erudito Ibn Saad escreveu:

******************************************************

Ele era um prolífico narrador de hadith, especialmente versado no conhecimento do fiqh e de elevada posição. Estava protegido de todas as adversidades e era extremamente firme e digno de confiança.

Seu pai, irmão, mãe, tia materna e todos os demais parentes próximos eram particularmente versados no conhecimento dos hadiths. Urwa adquiriu hadiths de todos eles. Contudo, conseguiu reunir quase integralmente os hadiths narrados por Aisha. Visitava-a repetidamente, e Aisha era a maior erudita em hadith entre todos. Urwa declarou pessoalmente: antes do falecimento de Aisha, consegui adquirir todo o seu conhecimento de hadith e preservá-lo integralmente. Além de Aisha, Urwa também adquiriu uma grande quantidade de hadiths de outros ilustres Companheiros.

Salim ibn Abd Allah

Salim foi um dos principais tabi’un de Medina. Nele se uniam o conhecimento e a prática. Foi junto de Abd Allah ibn Umar que adquiriu a maior parte dos hadiths. Além disso, também obteve conhecimento de hadith junto de Abu Huraira, Abu Ayyub al-Ansari e Aisha al-Siddiqa. O erudito Ibn Sa’d referiu-se a ele como “um prolífico narrador de hadith e uma pessoa de elevada posição”.

Sulayman ibn Yasar

Ele era escravo da Mãe dos Crentes, Maymuna. Por essa razão, teve uma grande oportunidade de visitar Aisha e outros Companheiros e adquirir conhecimento de hadith. Assim, pôde ser contado entre os principais eruditos de Medina. O Imam Nawawi escreveu que sua posição e sua preeminência no conhecimento eram reconhecidas por todos.

Ata ibn Abi Rabah

Ele era um escravo abissínio. Contudo, no que dizia respeito ao conhecimento e à prática, à taqwa e à piedade, era contado entre os tabi’un descendentes de Sayyids. Adquirira especial domínio dos conhecimentos religiosos indispensáveis, como o Alcorão, os hadiths e o fiqh. Nas palavras de Ibn Sa’d:

******************************************************

Ele possuía conhecimento de fiqh e narrava muitos hadiths. Ensinava o Alcorão às pessoas.[********************]

Ele era um célebre hafiz de hadith. O historiador al-Dhahabi o incluiu entre os hafizes de hadith de primeira categoria. Ele reuniu grande quantidade de hadiths de ilustres Companheiros, como Hazrat Abdullah ibn Abbas, Abdullah ibn Umar, Abdullah ibn Amr, Ibn al-Zubayr, Muawiya, Usama ibn Zayd, Jabir ibn Abdullah, Zayd ibn Arqam, Abdullah ibn Sa’ib, Rafi ibn Khadij, Abu Darda, Abu Sa’id al-Khudri, Abu Huraira e Hazrat Aisha (r.a.).[********************]

Ele demonstrava respeito e reverência incomensuráveis pelos hadiths. Durante a narração de um hadith, não gostava nem tolerava de modo algum que se falasse de outro assunto.[********************]

O Imam Baqir (r.a.) incentivava as pessoas, dizendo: “Aceitai de Ata tantos hadiths quantos puderdes.”[********************]

Ibrahim al-Nakha’i

Ele era um dos mais destacados tabi’ines da cidade de Kufa. Foi criado num ambiente puro de conhecimento e prática. Seu tio paterno, Alqama, e seu tio materno, al-Aswad, eram ambos célebres muhaddiths de Kufa.[********************] Nessa oportunidade, ele também visitava Hazrat Aisha (r.a.) para servi-la e participava de suas assembleias.

Por essa razão, Ibrahim conseguiu alcançar grande competência no conhecimento dos hadiths. Segundo o Imam al-Nawawi, quanto à sua confiabilidade, posição e conhecimento de fiqh

Todos estão de acordo. Ele era um hafiz de hadith. O historiador al-Dhahabi incluiu-o entre os hafizes de hadith da segunda categoria.

Hasan al-Basri

Quando Hasan al-Basri nasceu, um grande número de Companheiros ainda estava vivo na Terra. Naquele ambiente, todos os lugares estavam impregnados dos ensinamentos da Mensagem.

Ibn Saad escreveu sobre ele:

******************************************************

Hasan al-Basri possuía muitas qualidades e méritos. Era um grande erudito, de elevada posição, um faqih, protegido das tribulações, um grande devoto e asceta, dotado de conhecimento, eloquente, agradável na fala, belo e afável. Tinha, especialmente, profundo domínio da ciência do hadith.

Nas palavras do hafiz al-Dhahabi, ele era um grande sábio, um oceano de conhecimento. Narrou hadiths transmitidos por grandes Companheiros, como Uthman, Ali, Abu Musa al-Ashari, Abdullah ibn Umar, Abdullah ibn Abbas e Anas ibn Malik.

Yahya ibn Said

Ele era um dos mais eminentes tabi‘un. O hafiz al-Dhahabi referiu-se a ele como imame, “Shaykh al-Islam”, entre outros títulos.

Embora tenha vivido quase no final da era dos Companheiros, ele adquiriu plenamente o conhecimento de todos os Companheiros que ainda viviam naquela época; ouviu hadiths de eminentes Companheiros e tabi‘un, como Anas ibn Malik, Qasim ibn Muhammad, Amr ibn Salama ibn Abd al-Rahma, Urwa ibn al-Zubayr e Sulayman ibn Yasar.

Assim, tornou-se um grande hafiz de hadiths. O erudito Ibn Sa‘d escreveu a seu respeito:

******************************************************

Ele era extremamente confiável, digno de crédito, narrador de grande número de hadiths, uma autoridade incontestável e de reconhecida posição.

Ibn al-Mubarak considerava-o um dos maiores hafizes de hadiths. Abu Hatim considerava-o um especialista em hadiths do mesmo nível que o imame al-Zuhri. Na verdade, além do imame al-Zuhri, aquele que, com esforços incansáveis, reuniu e preservou os hadiths dispersos de Medina foi este Yahya ibn Sa‘id. Yazid ibn Harun afirma que Yahya ibn Sa‘id memorizou três mil hadiths que ele havia narrado.

 

Incentivo à escrita dos hadiths

Os especialistas em hadiths entre os tabi‘un recomendavam especialmente aos estudantes que aprendiam hadiths com eles que os escrevessem. Quando Abd al-Rahman ibn Harmalata, aluno de hadiths de Sa‘id ibn al-Musayyib, queixou-se a ele de sua memória fraca, este lhe recomendou que escrevesse todos os hadiths. O Sha‘bi, por sua vez, repetia muitas vezes diante de seus alunos o hadith proferido pelo Nobre Mensageiro e frequentemente narrado pelos Companheiros e pelos tabi‘un. Esse hadith é o seguinte:

******************************************************

A função da escrita é preservar o conhecimento dos hadiths.

Ele explicava e esclarecia de modo especialmente detalhado os benefícios de registrar os hadiths. Ele dizia:

******************************************************

Escrevei imediatamente os hadiths que ouvis de mim; não deixeis de fazê-lo, ainda que tenhais de escrevê-los na parede.

Sabe-se que ele próprio também registrava hadiths específicos. Por isso, após a sua morte, foi encontrado um livro compilado de hadiths relacionados às faraid e a outros assuntos.

Mujahid ibn Jubayr (falecido em 103 AH) entrava em seu aposento acompanhado de pessoas e apresentava diante delas suas compilações de hadiths. Elas copiavam os hadiths delas. Sunan al-Darimi, página 128.

Ata ibn Abi Rabah (falecido em 114 AH) também registrava hadiths e aconselhava os outros a fazerem o mesmo.

Qatada ibn Di’amata costumava dizer, sem hesitação e em linguagem firme, a qualquer pessoa que lhe perguntasse sobre a escrita dos hadiths:

******************************************************

Quem te impede de registrar por escrito? O Altíssimo Allah declarou que tudo deve ser registrado por escrito, dizendo: “O conhecimento relativo à Hora está escrito junto do meu Senhor; contudo, Ele não se desvia nem esquece.” O versículo é o de número 52 da surata Ta-Ha.

Umar ibn Abd al-Aziz

(nascido em 61 H.; falecido em 101 H.)

Umar ibn Abd al-Aziz era um tabi’i especialmente versado na ciência dos hadiths. Inicialmente, em Medina, junto do muhaddith Salih ibn Kaysan, aproveitou plenamente a oportunidade de estabelecer contato para o aprendizado dos hadiths e do conhecimento religioso, bem como de estudá-los e discuti-los mutuamente, adquirindo um conhecimento e uma compreensão incomparáveis dos hadiths. Ele próprio disse: “Quando deixei Medina, não havia ninguém mais erudito em hadiths do que eu.”

O hafiz al-Dhahabi escreveu sobre ele:

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Umar ibn Abd al-Aziz era imã, jurista, mujtahid, especialmente versado na Sunna e nos hadiths, de imensa dignidade, um renomado especialista em hadith, narrador de hadiths aceitável e confiável, hafiz de hadith, obediente aos mandamentos de Allah, humilde e devoto de Allah.

Umar ibn Abd al-Aziz narrou um grande número de hadiths. Ele aprendeu e narrou hadiths dos seguintes muhaddiths entre os Companheiros e os tabi’in:

(1) Uqba ibn Amir (2) Yusuf ibn Abdallah (3) Tamim al-Dari (que Allah esteja satisfeito com ele) (4) Anas ibn Malik (que Allah esteja satisfeito com ele) (5) Salim ibn Abdallah ibn Umar (6) Mu’awiya ibn Abu Sufyan (que Allah esteja satisfeito com ele) (7) Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) (8) Asma bint Umayya (9) Khawla (10) Sa’id ibn al-Musayyib (11) Abdallah ibn Qaruz (12) Aban ibn Uthman (13) Abu Bakr ibn Abd al-Rahman ibn al-Harith ibn Hisham (14) Urwa ibn al-Zubayr (15) Muhammad ibn Abdallah ibn Rawfal (16) Abu Burda (17) Abu Salama (18) Sa’id ibn Khalid (19) Amir ibn Sa’d (20) Yahya ibn al-Qasim (21) Qays ibn al-Harith (22) Abd al-Aziz (pai de Umar) (23) Abdallah ibn Mawhab (24) Ubada ibn Abdallah (25) Ibn Shihab al-Zuhri (26) Rabi ibn Sabura (27) Muhammad ibn Thabit ibn Shurahbil, além de muitos outros muhaddiths. Introdução à Musnad de Umar ibn Abd al-Aziz, editada por A. H. Hale.

Nenhum outro tabi’i tinha memorizado tantos hadiths marfu’ quanto ele. Ayyub al-Sakhtiyani dizia:

“Entre todas as pessoas que conheci, não vi ninguém que narrasse mais hadiths do Mensageiro Nobre do que Umar ibn Abd al-Aziz.”

Imã Makhul

O imã Makhul começou sua vida como escravo. Mesmo nessa condição, dedicou-se ao aprendizado do conhecimento. Assim que obteve a liberdade, partiu para viajar por todo o mundo muçulmano. Visitou cada centro do Estado Islâmico e adquiriu dali todo o conhecimento de hadith que lhe foi possível. Primeiro, assimilou o patrimônio intelectual do Egito. E não saiu do Egito antes de dominá-lo completamente.

Depois, foi para Medina e de lá seguiu para o Iraque. Tendo recolhido todo o patrimônio de hadith desses dois lugares, partiu para a Síria. Aprendeu hadith com todos os estudiosos de hadith então existentes na Síria. Em suma, para aprender e reunir hadiths, percorreu todas as cidades e ruelas de cada centro do mundo muçulmano. Ele próprio disse: “Percorri o mundo inteiro em busca do conhecimento dos hadiths.”

Ele aprendeu hadith com vários Companheiros. Eles são: (1) Hazrat Anas (que Allah esteja satisfeito com ele), (2) Hazrat Abu Hinddari (que Allah esteja satisfeito com ele), (3) Hazrat Wasilah ibn Asqa (que Allah esteja satisfeito com ele), (4) Hazrat Abu Imam (que Allah esteja satisfeito com ele), (5) Hazrat Abd al-Rahman ibn Ghanam (que Allah esteja satisfeito com ele) e (6) Hazrat Abu Jandal ibn Suhayl (que Allah esteja satisfeito com ele).

Além disso, aprendeu hadith com destacados tabi’is, como Sa’id ibn al-Musayyib, Masruq, Zubayr ibn Nufayr, Qarib Abu Muslim, Urwah ibn al-Zubayr e Maghirah ibn Kathir.

Segundo o historiador Ibn Sa’d, ele faleceu no ano 112, 113 ou 118 da Hégira. A data de seu nascimento é completamente desconhecida. Ele escreveu duas obras sobre hadith e fiqh. Contudo, até aquela época, o trabalho de composição de livros ainda nem havia começado.

Imam al-Sha’bi

Imam al-Sha’bi foi o maior e incomparável especialista em hadith entre os tabi’is de sua época. Quando atingiu a maturidade, havia um grande número de Companheiros vivos e presentes na cidade de Kufa. Ele os visitava regularmente. Ao longo da vida, teve a felicidade de encontrar aproximadamente quinhentos Companheiros. Dentre eles, aprendeu hadith formalmente com quarenta e oito. Ele permaneceu durante dez meses consecutivos a serviço de Hazrat Abdullah ibn Umar, adquirindo um conhecimento profundo e abrangente de hadith.

Para aprender e reunir hadith, ele teve de suportar esforços extenuantes e grandes dificuldades. Quando lhe perguntaram como havia dominado esse oceano de conhecimento dos hadith, respondeu: abandonando todas as preocupações, viajando por diferentes terras, despendendo forças como um jumento e suportando despertar ao alvorecer como um corvo. A extensão e a profundidade de seu conhecimento dos hadith ficam comprovadas por uma de suas próprias declarações. Ele disse:

Durante vinte anos, nunca ouvi de alguém um hadith sobre o qual eu não estivesse mais bem informado do que o próprio narrador daquele hadith.

Ele não foi apenas o professor do Imam Abu Hanifa; segundo o hafiz al-Dhahabi, foi o principal professor de Abu Hanifa.

 

A campanha de coleta de hadiths

Abandonar todas as preocupações com suas casas e com o progresso e prosperidade de suas famílias, atravessando, dentro e fora de seu país, caminhos remotos, difíceis e montanhosos, para aprender, coletar e compilar hadiths, foi um piedoso compromisso de muitos sábios muçulmanos. O Alcorão e os hadiths deram especial incentivo a esse trabalho. A imensa recompensa por esse trabalho também foi anunciada em termos claros. Viajar para terras estrangeiras em busca de conhecimento relacionado à religião, adquirir de lá esse patrimônio de conhecimento, retornar ao próprio país e convidar seu povo a adotar o modo de vida islâmico é, de fato, um grandioso e piedoso dever da nação muçulmana. Ao ler as maravilhosas histórias da incansável dedicação dos Companheiros veneráveis, dos tabi‘in e dos buscadores de conhecimento das gerações posteriores, parece que eles se lançaram a esse trabalho considerando-o um compromisso e dever piedoso e indispensável. O Alcorão Sagrado, por um lado, relata a viagem do profeta Hazrat Moisés até “Majma‘ul Bahrayn” (o local de confluência dos dois mares) com o objetivo de adquirir conhecimento; por outro, apresenta a seguinte exortação para viajar a terras estrangeiras com o propósito de obter conhecimento e compreensão da religião:

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Não é necessário que todos os crentes saiam juntos de suas casas; ainda assim, por que não deveria sair de cada grupo e comunidade uma parte de seu povo, a fim de adquirir conhecimento e compreensão corretos sobre a religião, para que, ao retornarem ao seu povo, o admoestem a temer a Allah? Assim, pode-se esperar que se acautelem e passem a agir com temor. [Surata At-Tawbah, seção 15, versículo 122.]

Encontram-se numerosos hadiths que apoiam esta instrução clara do Alcorão. Neste contexto, é digno de nota, em primeiro lugar, o hadith a seguir, narrado por Hazrat Abu Hurayra (r.a.).

O Nobre Mensageiro (s.a.w.) disse:

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Aquele que percorrer qualquer distância com o propósito de buscar conhecimento, em troca disso Allah lhe facilitará o caminho para o Paraíso. [Bukhari, volume 1, página 16.]

Foi narrado por Hadrat Anas (r.a.) que o Nobre Profeta (s.a.w.) disse:

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Quem sair de casa com o propósito de adquirir conhecimento, sua viagem será considerada uma viagem no caminho de Allah até que retorne à sua casa. [Tirmidhi, ******************** Sunan de Darimi.]

É desnecessário dizer que, em todos os hadices desta seção, o conhecimento islâmico para cuja busca se é incentivado a sair refere-se ao conhecimento relacionado ao Alcorão e aos hadices. Pode referir-se, em particular, ao conhecimento dos hadices.

(a)

A época dos Companheiros

Ainda durante a vida do Nobre Profeta, várias tribos da Arábia vinham de lugares distantes reunir-se em sua presença, recolhiam os conhecimentos e informações necessários e depois regressavam às suas próprias terras. O mesmo se aplica, individualmente, aos Companheiros que viviam perto ou longe.

Hadrat Aqaba ibn al-Harith (r.a.) veio de um lugar distante a Medina com o propósito de obter uma decisão sobre uma questão relacionada ao seu casamento. Tendo chegado, recebeu do Hadrat a decisão da Shariah e partiu em direção à sua casa; de acordo com essa decisão, separou-se da sua ama de leite, que havia tomado como esposa. [Sahih Bukhari, 1.º volume, página 19.] Na história dos primeiros tempos do Islã, não há limite para o número de acontecimentos desse tipo. Isso porque, naquela época, os muçulmanos que viviam em lugares distantes não tinham outro meio de conhecer o Islã.

Naturalmente, os habitantes de Suffa permaneciam permanentemente quase vinte e quatro horas junto ao Mensageiro e estavam sempre empenhados e ansiosos por adquirir conhecimento junto do Mensageiro (S). Após o falecimento do nobre Profeta (S), muitos de seus Companheiros dispersaram-se e espalharam-se pelos diversos centros do mundo muçulmano. Por isso, surgiu a necessidade de viajar ao estrangeiro e percorrer minuciosamente diferentes países em busca dos tesouros dos hadiths. Desde a época dos Companheiros, os muçulmanos das gerações posteriores tiveram de suportar imensas dificuldades, viajando ao estrangeiro em busca de cada hadith. Este lugar transformou-se no centro vital do ensino dos hadiths.[********************]

Está mencionado no Sahih Bukhari que Hazrat Jabir ibn Abdullah (ra) percorreu uma distância de um mês de viagem com o propósito de ouvir um hadith de Hazrat Abdullah ibn Unays. Ele soubera que Hazrat Abdullah ibn Unays (ra), que se encontrava na longínqua Síria, conhecia um hadith do nobre Mensageiro, que não estava conservado junto de mais ninguém. Assim que recebeu a notícia, comprou um camelo e partiu rumo à Síria. Depois de percorrer um mês de viagem, chegou a um local determinado na zona rural da Síria e teve o encontro com Hazrat Abdullah ibn Unays. Dirigindo-se a ele, disse:

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Chegou até mim, por seu intermédio, um hadith que você ouviu do Mensageiro. Temi que talvez eu morresse antes de ouvi-lo com meus próprios ouvidos diretamente de você; foi por esse temor que vim imediatamente à sua presença.[********************]

Em seguida, Hazrat Abdullah ibn Unays (ra) recitou de memória o hadith solicitado. O hadith é o seguinte:

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Ouvi o nobre Mensageiro (S) dizer que Allah Ta’ala reunirá os servos no campo da Ressurreição e lhes falará com uma voz que as pessoas próximas e distantes poderão ouvir igualmente. Allah Ta’ala proclamará: Eu sou o Proprietário, sou o Rei, sou o Benfeitor.[Sahih Bukhari, 2º volume — *************************** página 1114. Na obra Tadhkirat al-Huffaz, é mencionado neste ponto um hadith relacionado às retribuições, 1º volume, página 43.]

Quando Hazrat Muslimah ibn Makhlad (ra) se encontrava no Egito, Hazrat Jabir ibn Abdullah (ra) foi até ele, suportando muitas dificuldades, para conhecer um hadith relacionado às ‘retribuições’, e disse: ‘Vim até você com o desejo ardente de aprender este único hadith, e quero conhecê-lo antes que um de nós morra.[********************]

Um companheiro chegou ao Egito, vindo de uma região distante, para encontrar Fudala ibn Ubaid (que Allah esteja satisfeito com ele). Fudala recebeu-o cordialmente. Ele disse: “Não vim até você apenas com o propósito de visitá-lo. Vim por uma razão específica. Eu e você ouvimos juntos um hadith do Mensageiro; talvez você ainda se lembre muito bem dele. Vim aqui justamente para ouvi-lo novamente de você.”

Então Fudala transmitiu o hadith solicitado, e, depois de tomar conhecimento dele, o referido companheiro retornou ao seu próprio país. [Darimi, Abu Dawud, Musnad Ahmad, vol. 6, p. 22.]

Durante o governo de Muawiya, Abu Ayyub al-Ansari (que Allah esteja satisfeito com ele) foi de Medina até Uqba ibn Amir al-Juhani (que Allah esteja satisfeito com ele), que residia numa aldeia remota do Egito, com o único propósito de ouvir um hadith. Ao receber a notícia, Uqba saiu e abraçou Abu Ayyub (que Allah esteja satisfeito com ele). Perguntou-lhe:

“Ó Abu Ayyub! Por que você veio de tão longe até mim?” Então Abu Ayyub (que Allah esteja satisfeito com ele) respondeu:

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“Eu havia ouvido do Mensageiro um hadith sobre o satr do crente (isto é, manter certas coisas ocultas), mas agora, além de você e de mim, não resta no mundo mais ninguém que o tenha ouvido. Foi por isso que vim de tão longe, desejando ouvi-lo novamente de você.”

Então Uqba transmitiu o hadith com as seguintes palavras:

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Quem ocultar, neste mundo, qualquer ato vergonhoso e humilhante de um crente, Deus ocultará (perdoará) os seus pecados no Dia da Ressurreição.

Depois de ouvir o hadith desejado, Hazrat Abu Ayyub disse: ******************** “Disseste exatamente a verdade, disseste a verdade.” Em seguida, montou em seu camelo e partiu em direção a Medina com tanta rapidez que Muslimah ibn Makhlad, o então governador do Egito, embora tivesse preparado muitos presentes para lhe oferecer, não conseguiu entregá-los; por isso, ele não se dispôs a atrasar-se nem por um instante.[Bayhaqi, Ibn Majah, Jami Bayan al-Ilm, Musnad Ahmad, volume 4, página ******************** Al-Hadith al-Muhaddithun, página 110.]

Certa vez, o Nobre Profeta (s.a.w.) narrou um hadith. Hazrat Sa’ib ibn Khallad e Hazrat Uqbah ibn Amir, que estavam presentes na assembleia, também o ouviram. Mais tarde, Sa’ib esqueceu-se parcialmente do hadith e passou a ter algumas dúvidas quanto à sua formulação. Contudo, considerando que de modo algum era correto alimentar sequer a menor dúvida acerca de um hadith, dirigiu-se a Hazrat Uqbah, que se encontrava no Egito, para ouvir novamente o hadith e eliminar o seu próprio erro e dúvida. Primeiro, apresentou-se diante de Muslim ibn Makhlad, o governador do Egito. Ao recebê-lo como hóspede, Ibn Makhlad acolheu-o com grande satisfação. Mas Hazrat Sa’ib disse: “Não estou disposto a demorar-me em lugar algum; é necessário encontrar-me imediatamente com Uqbah.” Depois, foi até Uqbah e comparou o hadith com o que estava registrado. Então, ao ficar convencido de sua autenticidade e exatidão, encontrou tranquilidade e consolação.[********************]

Quando surgiam divergências entre os Companheiros acerca da interpretação e do significado de algum versículo do Alcorão Majid, eles também viajavam para terras distantes com o objetivo de obter sua resolução junto a um especialista. Hazrat Sa’id ibn Jubayr (r.a.) diz:

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Os habitantes de Kufa divergiam acerca do versículo do Alcorão: “Quem matar intencionalmente um crente terá como destino o Inferno.” Por isso, fui até Ibn Abbas e perguntei-lhe sobre o assunto. Ele disse: “Este foi o último versículo a ser revelado. Nada pôde revogá-lo ou anulá-lo.”[********************]

Hazrat Abu al-Darda (r.a.) diz:

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Se algum versículo do Alcorão se tornasse incompreensível para mim, eu iria até lá para obter sua explicação, mesmo que tivesse de ir a uma pessoa situada a cinco dias de viagem de Meca.

Um dos nobres Companheiros tentou conhecer e reunir os hadiths do Mensageiro até mesmo por correspondência com outro Companheiro que se encontrava numa região distante.

Hazrat Mu‘awiya enviou de Damasco uma carta a Hazrat Mughirah, na cidade de Kufa. Nela escreveu:

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Escreva para mim e envie-me tudo o que tiver ouvido do Mensageiro.

Então Hazrat Mughirah escreveu de volta: O Nobre Profeta (S) recitava a seguinte súplica após cada oração:

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Não há divindade além de Allah; Ele é Único e Um. A soberania e o reinado pertencem somente a Ele; a Ele pertence todo o louvor, e Ele é Todo-Poderoso. Ó Allah! Ninguém pode dar aquilo que Tu dás. Por mero esforço, não é possível fazer nada que contrarie isso. Junto com isso, ele também escreveu:

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O Profeta (que a paz esteja com ele) proibia envolver-se em discussões desnecessárias e sem sentido, fazer perguntas repetidas e excessivas e desperdiçar riquezas. Ele também proibia romper os laços com a mãe ou tratá-la mal, bem como matar secretamente as filhas. [Todos esses relatos estão mencionados em Sahih al-Bukhari, volume 2, páginas 1083, e volume 7, página 958.]

Durante os seus respectivos califados, os Califas Bem-Guiados, no cumprimento de suas responsabilidades como califas, escreviam e enviavam os hadiths necessários aos responsáveis por diversas localidades.

Abu عثمان disse:

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Estávamos estacionados com o comandante Utba ibn Farqad no Azerbaijão. Então chegou até nós uma carta do califa Umar al-Faruq, dirigida a Utba. Nela estava escrito: O Profeta (que a paz esteja com ele) disse que somente pode vestir seda o homem que não terá parte alguma na vida futura. [Sahih al-Bukhari, volume 2, página 867. ********************]

Quando necessário, os Companheiros escreviam e enviavam espontaneamente uns aos outros os hadiths do Mensageiro (que a paz esteja com ele). Quando Umar ibn Ubaydullah foi para Haruriyya, Abdullah ibn Abi Awfa (que Allah esteja satisfeito com ele) escreveu-lhe:

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O Nobre Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) certa vez, durante sua vida, aguardava ansiosamente o confronto com o grupo inimigo. Finalmente, quando o sol começou a declinar, ele se pôs diante de seus companheiros e disse: “Ó povo! Não desejeis enfrentar e encontrar o inimigo; antes, suplicai a Allah por paz e segurança. Porém, se ainda assim ocorrer um encontro com o inimigo, prossegui no combate com paciência ilimitada. Sabei que o Paraíso está sob a sombra das espadas.” Depois, o Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) levantou-se e fez a seguinte súplica:

Ó Allah! Revelador do Livro, Condutor das nuvens, Derrotador das hostes inimigas! Derrota-os e prostra-os, e concede-nos a vitória sobre eles. Muslim Sharif, volume 2, página 84.

Os nobres Companheiros (que Allah esteja satisfeito com eles) costumavam perguntar uns aos outros sobre os hadiths e verificar sua autenticidade. Certa vez, o venerável Abdullah ibn Amr (que Allah esteja satisfeito com ele) foi a Meca por ocasião do Hajj. Nessa ocasião, uma narração dele chegou a Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela). Quando, no ano seguinte, o venerável Abdullah voltou para realizar o Hajj, Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) disse a seu sobrinho Urwah:

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Ó sobrinho! Vai até Abdullah e verifica para mim a narração que disseste ter recebido dele.

Urwah disse: Fui até o venerável Abdullah e manifestei o desejo de ouvir novamente aquele hadith. Ele narrou o referido hadith exatamente da mesma maneira como o havia narrado no ano anterior. Quando fui até a venerável Aisha e lhe relatei isso, ela ficou muito admirada e disse:

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Juro por Allah que Abdullah ibn Amr o memorizou corretamente. Bukhari Sharif, volume 2, página 1086.

Que os nobres Companheiros viajavam para terras estrangeiras em busca de hadiths e suportavam grandes dificuldades e privações para aprendê-los fica claramente demonstrado também pela seguinte declaração de Ibn Abbas. Ele disse:

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Quando chegava até nós um hadith narrado por outra pessoa, eu poderia facilmente ter enviado alguém até ela para chamá-la, dizendo-lhe que viesse narrar o hadith para mim. Porém, em vez de fazer isso, eu mesmo ia até ela e deitava-me diante de sua casa. Quando ela saía de casa, narrava-me então o referido hadith.

Isso mostra que os nobres Companheiros (que Allah esteja satisfeito com eles) não se contentavam em ouvir de boca em boca um hadith narrado por outro Companheiro, nem o aceitavam imediatamente como indubitavelmente autêntico. Pelo contrário, esforçavam-se para ouvi-lo diretamente do próprio narrador original do hadith. Por isso, iam até diante da casa do narrador. Contudo, não gostavam de chamá-lo para que saísse de casa; em vez disso, esperavam até que ele próprio saísse. Pode-se avaliar quão longa era essa espera pelo fato de que os que aguardavam, depois de esperar por muito tempo, ficavam cansados e acabavam deitando-se, exaustos, diante da casa. É realmente admirável essa perseverança dos nobres Companheiros com o objetivo de obter corretamente os hadiths.

(b)

A era dos tabi’un

Acima foi apresentada uma breve descrição da campanha de coleta de hadiths na era dos Companheiros. É muito fácil formar uma ideia geral sobre todo o trabalho realizado na coleta de hadiths durante essa era a partir da breve discussão acima. Em poucas palavras, pode-se dizer que, na era dos Companheiros, a campanha de coleta de hadiths apenas teve início, enquanto na era dos tabi’un esse trabalho foi realizado de maneira muito mais desenvolvida e em escala mais ampla. Em especial, os narradores de hadiths da era dos tabi’un não se limitavam a ouvir hadiths de uma única pessoa ou dos Companheiros que viviam em sua própria cidade. Por isso, foram obrigados a viajar por muitas cidades e centros urbanos, próximos e distantes. Assim, tiveram a oportunidade de ouvir o mesmo hadith de numerosos narradores originais, bem como de ouvir e coletar um grande número de hadiths de muitos narradores. Como resultado, nasceu em seus corações uma convicção firme a respeito dos hadiths.

A descrição apresentada a seguir pode fornecer uma indicação clara do trabalho realizado durante essa era.

Sa‘id ibn al-Musayyib disse:

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Para obter apenas um hadith, eu viajava durante vários dias e noites seguidos.

O tabi‘i al-Sha‘bi, residente na cidade de Kufa, certa vez relatou um longo hadith sobre a recompensa de ensinar conhecimento religioso aos filhos, aos escravos e às servas, e de educá-los para que tivessem bom caráter. Depois de concluir a narração do hadith, dirigiu-se aos seus alunos e disse:

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Aceitai bem este hadith; nada tereis de dar em troca dele (não tivestes de suportar qualquer dificuldade). Embora houvesse um tempo em que cada pessoa tinha de viajar até Medina, partindo de Fā, por palavras ainda menos numerosas que estas. O hadith original foi citado no primeiro volume do Kitab al-‘Ilm de al-Bukhari.

Busr ibn ‘Abdullah al-Hadrami disse:

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Mesmo que fosse necessário percorrer várias cidades por causa de um único hadith, era isso que fazíamos.[********************]

Apresentamos aqui um relato detalhado do empenho de alguns célebres tabi‘ins na coleta de hadiths:

O célebre tabi‘i Ubaidullah ibn Adi soube que Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) possuía um hadith que, apesar de tê-lo procurado até então, ele próprio não conseguira conhecer de ninguém em lugar algum. Então pensou que, se não o aprendesse imediatamente e não o divulgasse entre o povo, havia o risco de toda a ummah ficar privada dele. Por isso, partiu sem demora para o Iraque, com o propósito de encontrar-se com Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele).[********************]

O tabi‘i Kasir ibn Qais disse: Estávamos sentados com Hazrat Abu Darda (que Allah esteja satisfeito com ele) na mesquita principal de Damasco. Nesse momento, um homem apresentou-se diante dele e disse: “Ó Abu Darda! Ouvi dizer que você narra um hadith especial transmitido pelo Mensageiro. Vim de Medina Sharif, percorrendo todo este caminho, exclusivamente para ouvir esse hadith.” Hazrat Abu Darda (que Allah esteja satisfeito com ele) perguntou-lhe: “Você não veio aqui com algum outro propósito, para tratar de negócios ou comércio?” O visitante respondeu: “Não, não vim por nenhum outro motivo.” Então Hazrat Abu Darda (que Allah esteja satisfeito com ele) narrou-lhe o seguinte hadith:

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Ouvi o Nobre Mensageiro dizer que, para quem percorrer um caminho em busca do conhecimento, Allah facilitará e tornará mais acessível um dos inúmeros caminhos do Paraíso. De fato, os anjos estendem suas asas para demonstrar sua satisfação com o buscador do conhecimento, e tudo o que existe nos céus e na terra — até mesmo os peixes sob as águas — pede a Allah o perdão dos pecados do buscador do conhecimento. Além disso, a superioridade do ‘alim sobre o devoto é como a superioridade da lua sobre todas as estrelas. Os ‘ulama são os herdeiros dos profetas. Os profetas nunca deixam dinheiro ou bens materiais como herança; deixam apenas conhecimento e sabedoria. Portanto, quem os receber terá sua parte — ou, conforme foi dito, receberá uma parte plena e abundante.[Este hadith é citado em obras autênticas como o Musnad de Ahmad, Abu Dawud, Tirmidhi e Ibn Majah, entre outras. Embora haja diferenças entre elas quanto às palavras e à redação, aqui foi citada a versão narrada no Sunan de Darimi.]

É digna de menção aqui uma declaração de Basr ibn Ubaidullah. Ele disse: “Percorri e procurei em inúmeras cidades e centros urbanos exclusivamente por causa de um único hadith.[Darimi, página 74.]

O tabi‘i Abu al-Aliya disse:

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Nós, estando em Basra, ouvíamos os hadith narrados pelos Companheiros que se encontravam em Medina, por intermédio de outras pessoas; mas, antes de ouvi-los diretamente da boca do Companheiro narrador que residia em Medina, de modo algum ficávamos satisfeitos — e também não os narrávamos a outras pessoas. [Darimi, p. 74.]

Abu Qilaba (Abdullah ibn Zayd al-Jurami al-Basri) disse:

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Permaneci em Medina durante três dias, meses ou anos, apenas à espera de que um homem que possuía um hadith viesse, para que eu pudesse ouvi-lo dele.

O muhaddith tabi‘i Makhul (Abu Abdullah ibn Abu Muslim) viajou do Egito para o Hijaz, do Hijaz para o Iraque e do Iraque para a Síria em busca de um hadith; foi justamente ali que ouviu o hadith que procurava.

Em suma, graças à dedicação dos buscadores de hadith da época dos tabi‘in, aos seus encontros mútuos e às suas incessantes viagens por diferentes terras para coletar hadith, tornou-se possível a divulgação e a disseminação de um grande número de hadiths. Os Companheiros haviam se dispersado por várias cidades e localidades do mundo muçulmano, e cada um deles permanecia em seu próprio lugar, divulgando e ensinando os hadiths. Seus próprios discípulos, os tabi‘in, deslocavam-se de cidade em cidade e de país em país com o propósito de coletar hadiths; aprendiam e coletavam diferentes hadiths junto a diferentes Companheiros ou ouviam o mesmo hadith de vários Companheiros. Assim, o acervo de hadiths adquiriu, em seu conjunto, uma dimensão enorme e grandiosa.

Pode-se citar como exemplo que o nobre Amr ibn al-As permanecia no Egito e ali apresentava às pessoas os relatos das palavras, atos e aprovações do Mensageiro. Também narrava as decisões judiciais proferidas na época do Nobre Mensageiro e dos Califas Bem-Guiados. Consequentemente, somente os habitantes locais podiam obter todos esses inestimáveis tesouros do conhecimento islâmico. Porém, na época dos tabi‘in, quando esses mesmos habitantes do Egito começaram a chegar a Damasco, Kufa, Basra, Medina e a outros centros de hadith e locais de residência dos Companheiros para coletar hadiths, seu conhecimento dos hadiths tornou-se extremamente amplo e abrangente. Os tabi‘in que anteriormente narravam um hadith apenas pela autoridade de um único Companheiro passaram então a ser capazes de narrá-lo por meio de várias cadeias de transmissão. Quando se examina, sob a perspectiva do conhecimento dos hadiths, as viagens dos tabi‘in por terras próximas e distantes, sua importância torna-se facilmente compreensível. Na verdade, não há dúvida de que, se essa campanha de coleta de hadiths não tivesse sido realizada na época dos tabi‘in, muitos hadiths teriam desaparecido no abismo insondável do esquecimento e permanecido fora do alcance do conhecimento do público.

Pode-se mencionar, a propósito, que a expedição dos tabi‘ins para coletar hadiths exerceu uma influência especial sobre a compilação das obras de hadith posteriores. Com efeito, as compilações daqueles compiladores de obras de hadith que reuniram apenas os hadiths divulgados em suas próprias cidades, sem se dirigirem a outros centros de hadith nem viajarem por diferentes países para coletá-los, não obtiveram qualquer reconhecimento de valor na sociedade. Além disso, dizia-se a eles:

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Ele está desviado do caminho da verdadeira orientação e é incapaz de demonstrar a validade do caminho da orientação e da verdade.

O famoso tabi‘i Yahya ibn Mu‘in disse:

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Não se pode esperar a verdadeira orientação de quatro tipos de pessoas. São elas: o guardião da habilidade em artes sutis, o anunciador das decisões do juiz, o filho de um inovador religioso e aquele que não viaja para outras terras em busca de hadiths, compilando apenas os hadiths encontrados em sua própria cidade.

Entretanto, os meios de transporte e as rotas de viagem daquela época eram extremamente difíceis, inacessíveis e perigosos. Montados em cavalos ou camelos, eles tinham de atravessar desertos que se estendiam até o horizonte, caminhos montanhosos e florestas remotas e de difícil acesso; e suas viagens prosseguiam noite após noite, mês após mês e ano após ano. É fácil imaginar quão árduo era esse esforço. Mas, para eles, essas dificuldades e sofrimentos eram absolutamente insignificantes. Depois de suportarem sofrimentos tão desumanos, a riqueza de hadiths que obtinham fazia jorrar em seus corações uma torrente de alegria pura, e era nisso que suas vidas encontravam realização e êxito. Na verdade, essa foi uma contribuição extraordinária e benéfica para todos os muçulmanos do mundo. Os muçulmanos do mundo jamais poderão esquecer essa contribuição.

(c)

A era dos Tabi‘ al-Tābi‘in

A campanha de coleta de hadiths iniciada na era dos Tabi‘in prosseguiu ininterruptamente pelos dois ou três séculos seguintes. Na era dos Tabi‘ al-Tābi‘in, sua necessidade não diminuiu nem um pouco, e essa campanha tampouco se enfraqueceu ou foi interrompida. Pelo contrário, vemos que, no período dos Tabi‘ al-Tābi‘in, ela assumiu proporções ainda mais amplas do que antes. Após os Tabi‘in, a comunidade dos Tabi‘ al-Tābi‘in, educada e formada por eles, assumiu plenamente sobre os próprios ombros essa nobre missão e, considerando as condições e necessidades de seu tempo, dedicou-se ao cumprimento dessa difícil responsabilidade. Nesse caminho, assim como seus predecessores, eles também tiveram de suportar sofrimentos e dificuldades incalculáveis.

É difícil determinar a era dos Tabi‘ al-Tābi‘in com base em anos e datas, assim como é difícil determinar a era dos Tabi‘in. Não é realmente possível dizer com clareza exatamente quando, em que ano, começou a era deles e quando terminou. À luz de certos acontecimentos e indícios, pode-se dizer que a era dos Tabi‘in começou ainda na época do Profeta Nobre (que a paz esteja com ele). Isso porque, nessa era, encontram-se algumas pessoas grandiosas que, embora não tenham podido contemplar com os próprios olhos o rosto abençoado do Mensageiro Nobre, aceitaram com sincera devoção o chamado do Islã assim que ele chegou aos seus ouvidos. Os nomes de Uways al-Qarani e de Asḥama, rei da Abissínia, podem ser mencionados nesse contexto. Assim, pode-se dizer que, durante aproximadamente um século, as eras dos Companheiros e dos Tabi‘in transcorreram simultaneamente, lado a lado. Contudo, com o fim do primeiro século da Hégira, essa era também chegou ao fim. Foi então que começou a era dos Tabi‘ al-Tābi‘in, isto é, daqueles que haviam sido educados, instruídos e formados pelos Tabi‘in. A era dos Tabi‘in, porém, ainda não havia terminado. Pelo contrário, continuou juntamente com a era dos Tabi‘ al-Tābi‘in, transcorrendo simultaneamente com ela por aproximadamente três quartos de século.

Do mesmo modo, é difícil determinar, com base em anos e datas, exatamente quando começou e quando terminou a era dos Tabi‘ al-Tābi‘in. Contudo, com base nas datas de nascimento de alguns Tabi‘ al-Tābi‘in e nos anos de falecimento de alguns Tabi‘in, pode-se dizer que essa era começou já no final do primeiro século da Hégira. Como exemplo, pode-se dizer que o Imam Shu‘ba nasceu no ano 80 da Hégira, e o Imam Abu Hanifa também nasceu nesse mesmo ano. Entretanto, todos os biógrafos incluem o Imam Shu‘ba entre os Tabi‘ al-Tābi‘in e o Imam Abu Hanifa entre os Tabi‘in. Apesar disso, o fato é que a verdadeira era dos Tabi‘ al-Tābi‘in começou no primeiro quarto do segundo século da Hégira e terminou no primeiro quarto do terceiro século. Isso porque muitos Tabi‘in faleceram entre os anos 164 e 174 da Hégira. Em outras palavras, pode-se dizer que a era dos Tabi‘ al-Tābi‘in existiu desde o período do segundo califa omíada, al-Walid, até o período de al-Mutawakkil, o décimo califa abássida.

Como já dissemos, o estudo, a divulgação e a coleta de hadiths nessa era ocorreram de maneira ainda mais ampla e profunda do que antes. Entre aqueles que, nessa era, alcançaram o mais elevado domínio e renome na ciência do hadith, destacam-se especialmente os seguintes:

(1) Imam Abu Hanifa; (2) Imam Malik; (3) Imam Abu Yusuf; (4) Imam Muhammad al-Shaybani; (5) Imam al-Awza‘i; (6) Imam Ibn Jurayj; (7) Imam Ishaq ibn Rahwayh; (8) Imam Sufyan ibn ‘Uyayna; (9) ‘Abdullah ibn al-Mubarak; (10) Imam Shu‘ba; (11) Mus‘ir ibn Qudam; (12) ‘Abdullah ibn Wahb; (13) Yahya ibn Ma‘in; (14) ‘Ali ibn al-Madini; (15) Imam al-Layth ibn Sa‘d; (16) Hazrat Fudayl ibn ‘Iyad; e (17) Yahya ibn Adam (que Deus tenha misericórdia deles).

Aqui faremos uma breve exposição sobre o empenho na busca e a campanha de coleta de hadiths de alguns dos principais entre eles.

Imam Abu Hanifa (que Deus tenha misericórdia dele)

Surgiu uma considerável divergência quanto a saber se o Imam Abu Hanifa (r) era tabi’i ou tabi-tabi’i. Como o Imam Abu Hanifa não narrou hadith de nenhum sahabi — e, como os hadith que certos grupos divulgaram, afirmando que ele os havia narrado, não foram comprovados e não passaram pelo crivo da ciência do hadith — alguns historiadores chegaram a recusar-se a reconhecê-lo como ‘tabi’i’. Contudo, com base em provas históricas irrefutáveis, pode-se afirmar categoricamente que o Imam Abu Hanifa (r) encontrou alguns sahabas. Com efeito, o Imam Abu Hanifa nasceu na cidade de Kufa, no ano 80 da Hégira. Naquela época, encontrava-se ali vivo o sahabi do Mensageiro, Hazrat Abdullah ibn Abi Awfa (ra). Ele faleceu no ano 81 da Hégira ou posteriormente. Segundo a narração de Ibn Abd al-Barr, faleceu no ano 87 da Hégira. O historiador Ibn Sa’d escreveu: o Imam Abu Hanifa (r) viu Hazrat Anas ibn Malik (ra), pois este faleceu na cidade de Basra no ano 91 da Hégira e, segundo Ibn Abd al-Barr, no ano 99 da Hégira.

Além disso, Hazrat Sahl ibn Sa’d Sa’idi vivia em Medina, e Hazrat Abu al-Tufayl, Amir ibn Wathila, vivia em Meca. Portanto, não se pode considerar impossível que o Imam Abu Hanifa tenha encontrado algum sahabi.

O ilustre Ibn Hajar Makki, autor do comentário de Mishkat Sharif, escreveu com base na fatwa emitida pelo hafiz Ibn Hajar Asqalani:

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O Imam Abu Hanifa (r) encontrou um grupo de sahabas que viviam na cidade de Kufa, quando ele nasceu ali, no ano 80 da Hégira. Contudo, os imams seus contemporâneos — Awza’i, da Síria; Hammad ibn Salama e Hammad ibn Zayd, de Basra; Sufyan Thawri, de Kufa; Malik, de Medina; e Layth ibn Sa’d, do Egito, entre outros — não alcançaram essa distinção. (Nenhum deles era tabi’i.)

Ibn Hajar Makki escreveu em seu comentário de Mishkat:

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O grande Imam Abu Hanifa encontrou oito sahabas. Entre eles, destacam-se especialmente Hazrat Anas ibn Malik, Abdullah ibn Abi Awfa, Sahl ibn Sa’d e Abu al-Tufayl (ra).

Allama Alaauddin escreveu na introdução da obra «Durr al-Mukhtar»:

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Pela idade, ele encontrou aproximadamente vinte Companheiros.

Citando a obra «Muniyat al-Mufti», ele escreveu ainda:

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Está comprovado que o Imam Abu Hanifa ouviu hadiths de sete Companheiros.

Com base nessas citações, pode-se dizer que o Imam Abu Hanifa (r) era um tabeí.

Allama Ibn Abidin escreveu:

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Em todos os aspectos, o Imam Abu Hanifa era um tabi’i. O muhaddith Dhahabi e o muhaddith Asqalani declararam isso com plena convicção.

Contudo, o renomado muhaddith de nossa época, Allama Shah Anwar Kashmiri (r), sustentava uma opinião diferente. Ele disse:

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Ele era um tabi’i no que diz respeito ao encontro, mas era um tabi’ al-tabi’in no que diz respeito à transmissão de hadith.

Quando o Imam Abu Hanifa se empenhou em estudar hadith, todo o mundo muçulmano estava fervilhando com o estudo dos hadiths. Em cada cidade e localidade haviam sido estabelecidos grandes centros de transmissão de hadith. Cerca de dez mil Companheiros haviam se espalhado por toda parte, e o número dos estudantes de hadith que aprendiam com eles chegava a várias centenas de milhares. As cidades onde residia um Companheiro ou um tabi’i eram chamadas de “Darul-Ulum” (escola).

Nessa época, o Imam Abu Hanifa (r) começou estudando hadith na cidade de Kufa com os grandes eruditos de hadith entre os tabi’in. O Imam Shafi’i escreveu: “O Imam Abu Hanifa aprendeu hadith com 93 muhaddiths da cidade de Kufa. Segundo o relato do Imam Zahri, sabe-se que, na cidade de Kufa, o Imam Abu Hanifa teve 29 mestres de hadith. A maioria deles eram grandes tabi’in. Entre eles, destacam-se especialmente os grandes muhaddiths Imam Sha’bi, Salama ibn Kuhayl, Muharib ibn Dithar, Abu Ishaq al-Sabi’i, Awn ibn Abd Allah, Samak ibn Harb, Amr ibn Murra, Mansur ibn Mu’tamir, A’mash, Ibrahim ibn Muhammad, Adi ibn Marsad, entre outros. O Imam Abu Hanifa (r) aprendeu e reuniu uma grande quantidade de hadiths com eles.

Depois, ele foi a Basra com o objetivo de estudar e reunir mais hadiths. Naquela época, a cidade de Basra estava repleta do conhecimento dos hadiths transmitidos por grandes muhaddiths tabi’in, como o Imam Hasan al-Basri, Shu’ba e Qatada.

Depois disso, ele foi para Meca e Medina. Naquela época, o ensino do hadith era amplamente difundido nesses lugares. Alguns grandes tabi‘ins, formados e instruídos sob a convivência, a atenção e os cuidados dos Companheiros, haviam estabelecido independentemente numerosos centros de ensino do hadith. ‘Ata ibn Abi Rabah, ‘Ikrimah e outros estavam entre os notáveis sábios. Nesta fase, o muhaddith al-Dhahabi escreveu:

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O Imame Abu Hanifa estudou e ouviu hadith de ‘Ata ibn Abi Rabah em Meca Sharif.[********************]

Naquela época, o Imame Baqir residia em Medina. O Imame Abu Hanifa (r) também compareceu à sua assembleia unicamente com o propósito de estudar hadith.

Em suma, Abu Hafs al-Kabir afirmou que o Imame Abu Hanifa (r) estudou hadith com aproximadamente quatro mil muhaddiths ao todo, pertencentes aos centros de hadith situados em diferentes países do vasto mundo muçulmano daquela época. Embora essa afirmação não tenha passado plenamente pela prova do conhecimento do hadith nem tenha sido comprovada como absolutamente precisa, pode-se afirmar categoricamente que o número de seus mestres de hadith era enorme. No livro ‘Tadhkirat al-Huffaz’, depois de mencionar os nomes dos mestres do Imame Abu Hanifa, o Imame al-Dhahabi escreveu:

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Além desses, um número ainda maior de muhaddiths foi seu mestre.

O hafiz Muhammad ibn Yusuf al-Salihi al-Shafi‘i diz:

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O Imã Abu Hanifa é contado entre os grandes hafizes e mestres do hadith. Se ele não tivesse dedicado muita atenção ao hadith e não fosse versado nele, jamais lhe teria sido possível extrair as questões e normas do fiqh.

O Shaykh al-Islam Yazid ibn Harun disse:

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O Imã Abu Hanifa era extremamente piedoso, um asceta de caráter puro e íntegro, um erudito, veraz e o maior hafiz do hadith entre todos os seus contemporâneos. O manuscrito desta obra está preservado na biblioteca Majlis-e Ilmi, em Karachi.

Yahya ibn Sa’id al-Qattan disse:

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Juro por Deus: entre a atual ummah muçulmana, Abu Hanifa é o mais sábio e conhecedor do Livro de Deus, dos hadiths do Mensageiro e da Sunna.

Sempre que perguntavam ao muhaddith Yahya ibn Mu’in sobre o Imam Abu Hanifa, ele dizia:

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Ele era extremamente confiável, digno de confiança e livre de erros. Nunca ouvi dizer que alguém o tivesse considerado “fraco” ou inaceitável no que diz respeito aos hadiths.

Ele também dizia:

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Abu Hanifa era um muhaddith piedoso, digno de confiança, veraz e confiável. Ninguém o acusou de narrar falsidades. Ele permanecia firme na religião de Allah e era plenamente veraz na transmissão dos hadiths.

O Imam Ibn Ayyub, de Balkh, disse com toda a verdade:

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O verdadeiro conhecimento chegou de Allah a Muhammad (que a paz esteja com ele). Depois dele, seus Companheiros o adquiriram. Dos Companheiros, os tabi‘uns o receberam. E, dos tabi‘uns, ele se concentrou e amadureceu no Imam Abu Hanifa.

O hafiz Abu Nu‘aym al-Isfahani narrou, por intermédio de Yahya ibn Nasr ibn Hajib:

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Entrei num aposento de Abu Hanifa que estava cheio de livros. Perguntei: “De que tratam estes livros?” Ele respondeu: “Todos eles são livros de hadith. Eu apenas narrei uma pequena parte deles, da qual as pessoas estão obtendo grande benefício.”

Outra declaração de Yahya ibn Ma‘in também merece ser mencionada. Ele disse:

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Abu Hanifa era um muhaddith extremamente confiável. Ele narrava apenas os hadiths que havia memorizado e preservado. Nunca narrava aquilo que não tivesse memorizado.

Em segundo lugar, depois de guardar em seu íntimo um vasto acervo de hadiths, ele transmitiu verbalmente uma quantidade menor deles; não costumava realizar muitas reuniões exclusivamente com o propósito de ensinar hadiths. Pelo contrário, dedicou-se inteiramente a desvendar os significados profundos dos hadiths e a extrair deles as questões jurídicas necessárias à vida prática dos muçulmanos.

Mas isso não significa que ele tivesse interrompido a busca e a coleta de hadiths. Pelo contrário, esforçava-se e empenhava-se constantemente para enriquecer-se cada vez mais, encontrando novos hadiths dia após dia. O Imame Nazr ibn Muhammad al-Marwazi era um dos discípulos ilustres e renomados do Imame Abu Hanifa. Ele disse:

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Não vi ninguém mais entusiasmado e atento à busca de hadiths do que o Imame Abu Hanifa. Certa vez, Yahya ibn Sa’id al-Ansari, Hisham ibn Urwa e Sa’id ibn Abu Aruba chegaram. Então o Imame Abu Hanifa nos disse: “Ide verificar se essas pessoas possuem algum tesouro de hadiths que eu possa ouvir e receber delas.”

Outro discípulo do Imame Supremo era o muhaddith Abd al-Aziz ibn Abu Razama. Ele também transmitiu um relato praticamente semelhante. Disse:

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Quando um muhaddith chegou a Kufa, o Imame Abu Hanifa disse aos seus discípulos e companheiros: “Ide até ele e verificai se possui algum hadith que não temos.”

Abd al-Aziz disse: “Em outra ocasião, quando um muhaddith chegou, o Imame Abu Hanifa enviou seus discípulos, dizendo-lhes o mesmo.”

Os dois relatos acima demonstram claramente o interesse do Imame Abu Hanifa em buscar hadiths. Portanto, somente um ignorante poderia afirmar que ele era desatento no que dizia respeito aos hadiths.

A acusação de que ele abandonava os hadiths e emitia pareceres sobre questões jurídicas apenas com base no qiyas e no uso da razão é absolutamente falsa. Qual era seu método ao emitir pareceres sobre questões jurídicas, isso fica demonstrado de forma clara e irrefutável pelas seguintes palavras dele. Ele próprio disse sobre si mesmo:

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Primeiro tomo o Livro de Allah como fundamento; quando encontro nele uma decisão sobre a questão em causa, emito meu parecer de acordo com ela. Se não a encontro nele, então aceito a Sunnah do Mensageiro e os relatos autênticos de suas ações, transmitidos por pessoas confiáveis. Mas, se também não encontro isso no Livro de Allah nem na Sunnah do Mensageiro, então deixo de lado a opinião de qualquer pessoa.

A prova de que ele aceitava até mesmo o hadith que contrariasse o qiyas e a razão comum, e agia de acordo com o hadith comprovado, é que considerava permitido determinar responsabilidades por sorteio, embora, à primeira vista, isso fosse equivalente a jogo de azar.

Ele disse:

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Segundo o qiyas, o sorteio não deveria ser permitido; contudo, quanto à sua permissibilidade, aceito o hadith e a Sunnah comprovados, abandonando o qiyas.

As condições rigorosas e as exigências estritas que ele impôs para aceitar os hadiths eram, de fato, indispensáveis no que dizia respeito à religião de Allah. Isso porque, na época do Imam Abu Hanifa, várias formas de crenças equivocadas e hadiths falsos, inventados por uma determinada classe de pessoas, haviam sido amplamente difundidos. Se, naquele período, ele não tivesse adotado uma cautela especial e aceitasse indiscriminadamente tudo o que era apresentado como hadith, sem distinguir o verdadeiro do falso, a religião de Allah não poderia ter sido preservada de forma íntegra. Na realidade, isso foi o resultado de sua incomparável taqwa e de sua fé sincera e genuína, bem como de seu amor pela religião; não pode haver dúvida alguma quanto a isso.

Condições do Imam Abu Hanifa para aceitar hadiths

A maioria das condições que o Imam Abu Hanifa (que Allah tenha misericórdia dele) estabeleceu para aceitar hadiths eram condições estabelecidas pelos muhaddiths em geral. Contudo, ele próprio estabeleceu adicionalmente algumas condições específicas, por razões particulares. Aqui mencionamos algumas delas:

1. Se, depois de narrar um hadith, o narrador o esquecer, embora os muhaddiths em geral o considerem aceitável, o Imam Abu Hanifa e seus discípulos não estão dispostos a aceitá-lo.

2. Somente é aceitável o hadith que o narrador transmitir de acordo com sua própria lembrança e memória.

3. Quando, nas assembleias de muhaddiths renomados, devido à grande quantidade de ouvintes, são designadas pessoas para falar em voz alta, e os hadiths ouvidos por meio delas são narrados como se tivessem sido ouvidos diretamente do muhaddith original, esse hadith não é aceitável para o Imam Abu Hanifa. Os renomados muhaddiths Hafiz Abu Nuaym, Fadl ibn Aqin, Ibn Qudama e outros também sustentavam essa opinião. Segundo Hafiz Ibn Hajar al-Makki, embora essa seja uma posição racional, a opinião dos muhaddiths em geral é mais fácil de seguir.

4. O Imam Abu Hanifa não aprovava o hadith narrado por um narrador que o encontrasse escrito em seu próprio caderno, mas não se lembrasse de tê-lo ouvido de algum de seus mestres muhaddiths. Segundo os demais muhaddiths, não há nenhum problema nisso.

Os muhaddiths de Kufa consideravam permitido narrar o sentido fundamental de um hadith em suas próprias palavras. Essa era, então, a prática geralmente corrente. Não era grande o número dos narradores que transmitiam as palavras exatas dos hadiths. Consequentemente, existia em plena medida o risco de diferenças e alterações na transmissão dos hadiths. Por isso, o Imam Abu Hanifa foi obrigado a adotar uma política de extrema rigidez quanto à aceitação dos hadiths. Está inequivocamente comprovado que, depois de todas essas precauções, ele compilou obras de hadith. Muhammad ibn Mahmud al-Khwarizmi reuniu quinze Musnads do Imam Abu Hanifa (coleções de hadiths).

Imam Malik ibn Anas (que Allah tenha misericórdia dele)

O Imam Malik foi o maior muhaddith de Medina, a Cidade do Mensageiro. Nasceu em Medina no ano 93 da Hégira. Contudo, o historiador Yafi‘i afirma na obra ‘Tabaqat al-Fuqaha’ que o ano de seu nascimento foi 94 da Hégira. Nessa época, toda a cidade de Medina ressoava com a doce voz do estudo e do ensino do hadith. Após o falecimento do Nobre Profeta (s), embora os ilustres Companheiros tivessem se espalhado por lugares distantes, uma mina de ouro continua sendo uma mina de ouro mesmo depois de dela se extrair o ouro; e a quantidade que permanece nela não pode ser de modo algum insignificante. Todos os grandes Companheiros viviam nessa cidade. Durante a vida do Nobre Profeta e por 24 ou 25 anos depois, essa cidade foi o centro do governo islâmico. Nela, todas as leis e normas do Islã eram estudadas, divulgadas e aplicadas, sendo depois transmitidas aos demais centros do mundo muçulmano. Foi nessa cidade que se estabeleceu o centro de ensino do hadith dos grandes Companheiros, como Abu Bakr al-Siddiq, Umar al-Faruq, Aisha, Abdullah ibn Umar, Ibn Abbas, Abu Huraira e Zayd ibn Thabit. Consequentemente, centenas de milhares de habitantes dessa cidade puderam adquirir especial domínio do conhecimento da Revelação e da Sunna e, mais tarde, tornaram-se seus verdadeiros herdeiros.

Quando o Imam Malik se dedicou ao ensino do hadith, os grandes ‘reis’ do conhecimento do hadith encontravam-se em Medina. Os principais alunos de Aisha ainda estavam ali, como seu sobrinho Qasim ibn Muhammad ibn Abu Bakr, seu sobrinho por parte de irmã Urwa ibn al-Zubayr, os alunos de Abdullah ibn Umar, Nafi e Abdullah ibn Dinar, seus dois servos, Salim ibn Abdullah e outros tábi‘un. Embora Zayd ibn Thabit tivesse deixado Medina, seu filho Kharija ibn Zayd havia herdado seu conhecimento do hadith e vivia em Medina. Sa‘id ibn al-Musayyib, genro de Abu Huraira, havia bebido até a saciedade do vasto oceano de conhecimento de hadith deste último. Ele também vivia nessa Medina. Embora Abdullah ibn Abbas tivesse difundido seu conhecimento de hadith principalmente fora de Medina, em Meca, Kufa e Basra, o tabi‘i Sa‘id ibn al-Musayyib, que residia em Medina, havia aprendido com ele um grande número de hadiths.

Além desses, vários outros ilustres tábi‘un viviam em Medina nessa época. Eram eles: Hisham ibn Urwa, Muhammad ibn al-Munkadir, Ubaydullah ibn Utba ibn Mas‘ud, Muhammad ibn Shihab al-Zuhri, Amir ibn Abdullah, Ja‘far Sadiq, Rabi‘a al-Ra’y, Abu Suhail e Sulayman ibn Yasar. Eram tábi‘un em cujo regaço o conhecimento do hadith e do tafsir havia sido criado, nutrido e desenvolvido progressivamente.

O avô, o tio e o pai do Imam Malik eram todos grandes muhaddiths. Pode-se dizer, portanto, que em sua própria casa e família todo o ambiente ressoava com o conhecimento do hadith. Por isso, começou a estudar hadith ainda na infância. Possivelmente, começou seus estudos de hadith com seu tio Abu Suhail. Depois, foi estudar com Nafi. Enquanto Nafi permaneceu vivo, o Imam Malik continuou indo até ele para estudar hadith. Em seguida, estudou hadith com quase todos os estudiosos do hadith entre os tábi‘un anteriormente mencionados de Medina. Segundo Shah Waliullah Dehlawi, o número total de seus mestres era 75. Outra narração menciona 94.

Contudo, o erudito Jalaluddin al-Suyuti escreveu:

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O Imam Malik recebeu hadith de novecentos muhaddiths. Entre eles, trezentos eram tábi‘un e seiscentos eram tabi‘ al-tábi‘un.

Ele encontrou todos esses mestres em Medina Sharif. Por isso, não sentiu necessidade de sair de Medina com o propósito de estudar hadith.

O Imame Malik não aceitava hadith de todo e qualquer narrador. Ele refletia profunda e minuciosamente antes de escolher e selecionar quem tomaria como mestre de hadith. A esse respeito, em resposta a uma pergunta de seu querido discípulo Habib, ele próprio disse:

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Ó Habib! Nesta mesma mesquita, a Mesquita do Profeta, encontrei setenta muhaddiths que haviam encontrado e convivido com os Companheiros do Nobre Mensageiro e que também narravam hadith dos tabi’in. (Foi deles que aprendi e recebi os hadiths.) E aceitei os hadiths somente daqueles que eram dignos de transmiti-los; jamais os aceitei de pessoas indignas.

A partir do relato a seguir, pode-se compreender claramente que tipo de pessoas eram seus mestres e de quem ele não aceitava hadith. Foi dito:

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O Imame Malik havia selecionado cuidadosamente todos os que foram seus mestres no estudo dos hadiths; ele os escolhera por sua devoção religiosa, capacidade de compreensão, conhecimento de fiqh e por cumprirem os direitos e requisitos da narração dos hadiths. Em seu coração, havia fé sincera e plena tranquilidade em relação a eles. Além desses, não aceitou hadith de muitas pessoas piedosas e virtuosas, pois elas não conheciam corretamente as regras adequadas para a narração dos hadiths.

A grandeza do Imame Malik (que Allah tenha misericórdia dele) como muhaddith pode ser claramente compreendida pelas seguintes declarações de outros eminentes especialistas em hadith a seu respeito.

O Imame Shafi’i (que Allah tenha misericórdia dele) disse a respeito dele:

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O Imam Malik foi uma prova irrefutável de Allah para as pessoas das gerações posteriores à dos tabi‘in.

O muhaddith al-Nasa’i disse:

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Na minha opinião, depois da geração dos tabi‘in, não houve ninguém mais erudito que Malik.

O Imam Abu Yusuf (r)

Embora o Imam Abu Yusuf (r) seja conhecido sobretudo como um célebre especialista e imam em fiqh, no que diz respeito ao conhecimento dos hadiths, ele também não era de modo algum inferior a ninguém. Allah concedeu-lhe uma memória extraordinária. Sempre que ouvia hadiths de um mestre de hadith, memorizava-os imediatamente. Ele podia até ouvir, numa única sessão, cinquenta ou sessenta hadiths com suas cadeias completas de transmissão e recitá-los de memória após uma única audição. O Imam al-Dhahabi contou-o entre os grandes hafizes de hadith. O hafiz Ibn Hajar al-‘Asqalani mencionou que, certa vez, ele adoeceu gravemente. Nessa ocasião, o grande hafiz de hadith Sufyan ibn ‘Uyaynah recitou-lhe quarenta hadiths. Ele memorizou esses hadiths imediatamente e, depois que Sufyan partiu, recitou-os todos de memória às outras pessoas presentes. Todos os presentes ficaram atônitos e maravilhados com isso.

Com o objetivo de estudar hadiths, depois de concluir seus estudos com os muhaddiths de Kufa, sua cidade natal, ele viajou para Medina e ali ouviu, do início ao fim, o livro al-Muwatta’, compilado pelo Imam Malik, junto a Asad ibn al-Furat al-Saqalabi, aluno do Imam Malik.

O Imame Abu Yusuf nunca escrevia os hadiths que ouvia de seus mestres para estudá-los; ao contrário, memorizava-os completamente assim que os ouvia uma única vez. Seus colegas, porém, escreviam repetidamente os hadiths que ouviam. E não apenas isso: muitas vezes, tinham de ouvir os hadiths escritos da própria recitação do Imame Abu Yusuf, para então corrigi-los e revisá-los.

Ele era um imame no conhecimento dos hadiths e de outras ciências relacionadas.

Seu interesse, entusiasmo e empenho pelo estudo dos hadiths eram tão intensos que, por um lado, ele frequentava a assembleia do Imame Abu Hanifa para adquirir conhecimento de fiqh; e, assim que se levantava dali, dirigia-se a um muhaddith com o objetivo de estudar hadiths. Foi somente após uma dedicação sem limites e um esforço incansável que ele se tornou um grande especialista na ciência dos hadiths.

Imame Muhammad al-Shaybani (que Deus tenha misericórdia dele)

O Imame Muhammad al-Shaybani foi o segundo principal discípulo do Imame Abu Hanifa. Ao entrar em contato com o Imame Abu Hanifa e o Imame Abu Yusuf, nasceu em seu coração o interesse pelo estudo dos hadiths. Com esse propósito, dirigiu-se a Medina, situada a várias centenas de milhas de Wasit, no Iraque, seu local de nascimento, e apresentou-se ao Imame Malik, o maior especialista em hadiths de sua época. Permaneceu continuamente em Medina durante três anos e frequentou regularmente as sessões em que o Imame Malik ensinava hadiths. Nessa assembleia, ouviu pelo menos setecentos hadiths. Ele próprio disse:

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Permaneci na assembleia do Imame Malik durante três anos ou mais e aprendi com ele setecentos hadiths.

Depois de estudar hadiths com especialistas mundialmente famosos e eminentes como os imames Abu Hanifa, Abu Yusuf e Malik, não havia necessidade de estudar hadiths com qualquer outro especialista. Contudo, para saciar a sede ardente pelo estudo dos hadiths que havia despertado no coração do Imame Muhammad, ele não conseguiu de modo algum ficar satisfeito e tranquilo sem frequentar as sessões dos demais grandes especialistas em hadiths de sua época e estudar hadiths com eles.

Allama Zahid al-Kawthari mencionou que o Imam Muhammad teve setenta mestres de hadith. Esses mestres estavam espalhados por cidades e regiões como Kufa, Medina, Meca, Basra, Wasit, Síria, Khorasan e Yamama.

Sua memória era tão aguçada que, por ordem do Imam Abu Hanifa, começou a memorizar o Nobre Alcorão e, em apenas uma semana, conseguiu memorizar o Alcorão inteiro. Pode-se facilmente deduzir disso quão grande sábio do conhecimento do hadith ele era. Pois é natural que, quando uma pessoa dotada de uma memória tão aguçada se dedica ao estudo do hadith, qualquer hadith que ouça de seu mestre fique para sempre gravado em sua mente.

Imam Awza’i (que Deus tenha misericórdia dele)

O Imam Awza’i era um grande muhaddith da era dos tabi’ al-tabi’in. Primeiro, estudou hadith com o muhaddith Yahya ibn Kathir, que vivia em Yamama. Depois, dirigiu-se até lá com o propósito de estudar hadith com os renomados muhaddiths Muhammad ibn Sirin e Hasan al-Basri, na distante cidade de Basra. Contudo, quando chegou a Basra, após atravessar aquele longo e difícil caminho, soube que o Imam Hasan al-Basri havia falecido e que o Imam Ibn Sirin estava em seu leito de morte. É fácil imaginar o golpe de frustração que isso lhe causou.

O Imam Awza’i ouviu hadith de um grande número de tabi’in.

O historiador Hafiz Ibn Kathir escreveu:

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Ele havia obtido contato direto e companhia de numerosos tabi’in.

Os biógrafos mencionaram que o Imame Awza‘i aprendeu hadith com os seguintes tabi‘in e tabi‘ al-tabi‘in:

(1) Ata ibn Abi Rabah; (2) Qatada; (3) Nafi‘, o mawla de Ibn Umar; (4) o Imame Zuhri; (5) Muhammad ibn Ibrahim; (6) Shaddad ibn Abi ‘Umarah; (7) Qasim ibn Mukhaimirah; e (8) Rabi‘ah ibn Yazid, entre outros.

O próprio Awza‘i disse: Depois de concluir o estudo do hadith com o Imame Zuhri e Yahya ibn Kathir, ambos me deram suas próprias compilações de hadith e disseram:

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Narra estes hadiths em meu nome e através da minha cadeia de transmissão a outras pessoas.

O Imame Ibn Jurayj (r)

Quando Ibn Jurayj nasceu (80 da Hégira), muitos Companheiros ainda estavam vivos. Se tivesse tido contato com eles desde o início, seria considerado um tabi‘i. Contudo, não pôde adquirir conhecimento com eles. Por essa razão, é considerado um tabi‘ al-tabi‘in.

Naquela época, em Meca, Ata ibn Abi Rabah, destacado discípulo de Hazrat Abdullah ibn Abbas (ra), dedicava-se ao ensino do hadith. Depois de adquirir a educação básica necessária, Ibn Jurayj permaneceu em sua companhia e estudou hadith durante dezessete anos consecutivos.

Depois disso, ele estudou hadith com quase todos os renomados imames do hadith do mundo muçulmano. Tal como esteve a serviço de Ata ibn Abi Rabah, permaneceu também durante muitos anos junto de Amr ibn Dinar, estudando e compilando hadith. Por todas essas razões, o Imam Ibn Jurayj alcançou uma posição singular no conhecimento dos hadith. Os hadith narrados por ele foram aceitos pelos grandes eruditos do hadith. A coleção de hadith que ele compilara encontrava-se com ele em forma escrita.

Sufyan ibn Uyaynah (que Allah tenha misericórdia dele)

Sufyan foi um dos maiores eruditos de hadith de sua época. Desde a infância, sua extraordinária memória manifestava-se espontaneamente. Ele próprio disse:

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Nunca escrevi nada; porém, sempre que anotava alguma coisa, ela ficava gravada na minha memória.

Ele estudou e compilou hadith junto de muitas centenas de tabi’un e seguidores dos tabi’un. Entre seus mestres de hadith, mais de oitenta eram tabi’un. Entre eles, destacam-se o Imam Zuhri, o Imam Shu’bah, Musayeb ibn Qudam, Amr ibn Dinar, Abu Ishaq al-Sabi’i, Muhammad ibn Aqabah, Humayd, Ziyad ibn Alaqah, Salih ibn Kaysan e outros grandes eruditos. Para estudar hadith, viajou a Kufa, Meca, Medina e outros centros de conhecimento.

O famoso especialista em hadith Ali ibn al-Madini disse a respeito dele:

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Entre os discípulos do Imam Zuhri, não havia ninguém mais digno de confiança do que Ibn Uyayna.

Muhaddiths como A‘mash, Sufyan al-Thawri, Ibn Jurayj, Shu‘ba, Uqay, Ibn al-Mubarak, Sa‘id al-Qattan, al-Shafi‘i e Ahmad ibn Hanbal aprenderam hadiths com ele e os receberam dele. Ele nasceu no ano 107 da Hégira e faleceu no ano 198.

Abdullah ibn al-Mubarak (r)

Depois de concluir a educação básica, Ibn al-Mubarak partiu para terras estrangeiras a fim de estudar hadith. Com esse propósito, percorreu várias cidades e localidades da Síria, do Hijaz, do Iêmen, do Egito, de Kufa e de Basra; onde quer que encontrasse uma oportunidade de estudar hadith, e com quem quer que a encontrasse, estudava hadith com essa pessoa. Todos reconhecem que ele foi um grande viajante em busca de hadith. Segundo o Imam Ahmad ibn Hanbal, naquela época não havia outra pessoa que viajasse tão longas distâncias em busca de hadith.

Abu Usama disse:

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Nunca vi ninguém que buscasse hadith de país em país mais do que Ibn al-Mubarak.

É necessário lembrar que, naquela época, viajar para terras estrangeiras não era de modo algum tão fácil quanto é na era atual. Era preciso caminhar durante meses, ou viajar montado no dorso de um camelo ou de um jumento, para chegar de um lugar a outro. Hoje é impossível sequer imaginar quão penosa era a viagem naquela época.

Pode-se compreender, pela seguinte declaração sua, de quantos mestres Ibn al-Mubarak aprendeu e reuniu hadiths. Ele mesmo disse:

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Aprendi e reuni hadiths de quatro mil mestres, e transmiti a outras pessoas os hadiths narrados por mil deles.

Ele próprio ensinou a um grande número de pessoas esse vasto acervo de hadiths, obtido com árduo esforço. O Imam al-Dhahabi escreveu:

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Foram tantos os habitantes do mundo islâmico que aprenderam hadiths com ele que é absolutamente impossível determinar o seu número.

No conhecimento dos hadiths, ele ocupava a posição de um grande imam. O estudo dos hadiths era o compromisso de todas as suas vinte e quatro horas. Segundo ele, quando se discutem hadiths, é como se se obtivesse exatamente a proximidade e a companhia do nobre Mensageiro (que a paz esteja com ele). Grandes eruditos, como Yahya ibn Ma’in, disseram: o número de hadiths narrados por Ibn al-Mubarak deve estar entre vinte e vinte e um mil.

Imam Shu’ba (que Deus tenha misericórdia dele)

O Imam Shu‘ba viu os dois Companheiros Anas ibn Malik (que Allah esteja satisfeito com ele) e Amr ibn Muslim (que Allah esteja satisfeito com ele). Por essa razão, embora pertencesse à geração dos tabi‘in, os biógrafos o incluíram entre os tabi‘ al-tabi‘in. Nasceu numa cidade chamada Wasit, situada entre Kufa e Basra. Logo após concluir sua educação inicial, dedicou-se ao estudo da ciência do hadith. Mais tarde, alcançou um grau extraordinário de domínio nessa área. Ouviu e compilou hadith de quase todos os grandes especialistas em hadith de sua época. Os biógrafos em geral escreveram que entre seus mestres de hadith havia cerca de quatrocentos tabi‘in. Hafiz Ibn Hajar al-Asqalani escreveu que ele ouviu e transmitiu hadith de trezentos especialistas em hadith da cidade de Kufa.

Esses mestres não permaneciam em apenas uma ou duas cidades; ao contrário, estavam dispersos por uma área de milhões de milhas quadradas que se estendia por todo o mundo muçulmano. Além disso, as estradas daquela época eram difíceis e quase intransitáveis. Muitas vezes, para obter um único hadith, era necessário percorrer mil milhas a pé, ou montado num camelo ou cavalo. Também deve ser mencionada sua extraordinária e aguçada memória. Ao ouvir um hadith, ele geralmente não o escrevia; em vez disso, memorizava imediatamente hadith muito longos. Graças a isso, conseguiu gravar e conservar em sua memória um grande número de hadith em pouquíssimo tempo.

Os grandes especialistas em hadith de sua época e das gerações posteriores reconheceram francamente seu conhecimento extraordinário da ciência do hadith.

Imam Laith ibn Sa‘d (que Allah tenha misericórdia dele) (nascido no ano 94 da Hégira, falecido no ano 165 da Hégira)********************]

O Imam Laith pertencia à geração dos tabi‘ al-tabi‘in. Assim que concluiu sua educação inicial, concentrou-se no estudo do hadith. Para estudar hadith, dirigiu-se a Nafi‘, o célebre tabi‘i que havia sido especialmente criado e instruído por Abdullah ibn Umar. Tudo o que ouviu e compilou de hadith junto dele, registrou numa coletânea. Além disso, ouviu e compilou hadith de tabi‘in como o Imam Zuhri, Sa‘id al-Muqbari, Abdullah ibn Abi Mulaika, Yahya al-Ansari e Abu Zubair. Depois de mencionar os nomes de alguns dos ilustres mestres do Imam Laith, o Imam Nawawi escreveu:

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Além desses, ele estudou e ouviu hadith de um número tão grande de imames do hadith que não é possível determinar sua quantidade exata.

Imam Sufyan al-Thawri (que Allah tenha misericórdia dele) (nascido no ano 97 da Hégira, falecido no ano 161 da Hégira)********************]

Sufian Sauri foi um dos maiores eruditos do conhecimento dos hadiths na era dos tabi‘ al-tabi‘in. Recebeu a educação primária de seu pai. Depois, ouviu hadiths de todos os muhaddiths da cidade de Kufa. Naquela época, em Kufa, muhaddiths como al-A‘mash e Abu Ishaq haviam estabelecido uma instituição para ministrar regularmente aulas de hadith.

Yahya ibn Ma‘in disse:

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Sufian conhece os hadiths narrados por al-A‘mash melhor do que qualquer outra pessoa.[********************]

Naquela época, como os hadiths ainda não haviam sido compilados em livros para o público em geral, uma grande parte deles estava gravada na memória dos muhaddiths e era preservada por eles segundo seus próprios métodos. Por isso, os estudantes tinham de viajar para terras distantes a fim de aprender hadiths. Sufian também teve de viajar para lugares longínquos para estudar hadiths e, por essa razão, teve de percorrer centenas e milhares de milhas.[********************]

Depois de concluir seus estudos de hadith com os mestres de Kufa, ele foi para Basra e o Hijaz. Nessas duas cidades, ouviu e coletou hadiths de um grande número de muhaddiths. Depois de mencionar os nomes de seus célebres mestres de Kufa, Basra e do Hijaz, Hafiz Ibn Hajar escreveu:

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Ele estudou hadith com numerosos mestres de Kufa. Do mesmo modo, ouviu hadiths de muitos mestres de Basra e também obteve grande benefício das diversas sessões de estudo de hadith realizadas no Hijaz.[********************]

Abd al-Rahman ibn Mahdi, um imame do hadith. Ele disse:

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Nunca vi ninguém que memorizasse mais hadiths do que Sufyan Sauri.[********************]

Quando, no segundo século hijri, o acervo disperso dos hadiths foi sistematizado em livros, tornou-se muito fácil memorizá-lo juntamente com centenas de milhares de cadeias de transmissão; porém, quando esse acervo ainda estava disperso, era extremamente difícil guardar no próprio peito dois ou quatro mil hadiths e preservá-los. Por isso, em nenhuma parte se encontra o exemplo de um imame do hadith da época dos seguidores dos seguidores que tivesse memorizado mais de dez mil hadiths. Também sob esse aspecto, o mérito e a distinção de Sufyan Sauri são especialmente notáveis. O número dos hadiths que ele narrava e que estavam preservados em sua memória era de trinta mil.[********************] Abu Asim disse:

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O imame Sauri foi o maior líder na ciência do hadith.[********************]

Em suma, nessa época a ciência do hadith não estava sistematizada. Pelo contrário, encontrava-se dispersa por quase todo o mundo muçulmano. A razão disso — como já foi dito — era que os nobres Companheiros eram os primeiros depositários e transmissores dos hadiths. Eles não passaram a vida em algum canto isolado de uma mesquita ou de uma khanqah. Ao contrário, viveram como verdadeiros mujahids. Para o jihad, para a da‘wah islâmica e para cumprir outras responsabilidades religiosas, espalharam-se por quase todos os países e regiões do mundo habitados por muçulmanos. Onde quer que chegassem, os habitantes daquele lugar aprendiam com eles o conhecimento islâmico, isto é, a ciência do hadith. Recolhiam informações sobre as palavras, ações e caráter do Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) e preservavam-nas em sua memória. Naquele momento, para aqueles cujo objetivo era apenas viver uma vida islâmica, bastava adquirir um conhecimento geral sobre o Islã e seguir a vida prática de algum Companheiro. Contudo, depois dos Companheiros, os grandes homens que assumiram a difícil tarefa de recolher e compilar as pérolas dispersas do conhecimento sobre o Mensageiro, e que aceitaram a responsabilidade de proteger da destruição esse precioso tesouro do conhecimento islâmico, não tinham alternativa senão atravessar país após país, vastos subcontinentes, mares imensos, ilimitados desertos escaldantes e caminhos cobertos de montanhas e florestas densas e inacessíveis. Além disso, para os devotos colecionadores de hadiths daquela época, esse era um trabalho extremamente amado.

Um homem perguntou a Khalaf ibn Ayyub, o famoso muhaddith da cidade de Balkh, sobre um assunto urgente. Ele respondeu: “Não sei disso, mas é possível obter a resposta correta de Hasan ibn Ziyad, residente da cidade de Kufa.” Ao ouvir o nome da cidade de Kufa, o questionador disse:…………….. Kufa! Mas ela fica muito longe! Ao ouvir isso, Khalaf ibn Ayyub disse:

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Para aquele que se consagrou à religião, até uma cidade tão distante quanto Kufa será considerada muito próxima.

Por essa razão, se alguém daquela época declarasse ser incapaz de viajar longas distâncias, necessárias para adquirir conhecimento, era obrigado a enfrentar, no seio da sociedade, extrema humilhação e reprovação. O especialista em hadith e célebre crítico da ciência do hadith, o Imam Yahya ibn Mu’in, disse:

Não podeis esperar nenhum benefício de um muhaddith que aprenda e reúna hadiths apenas permanecendo em sua própria cidade e que não esteja disposto a suportar as dificuldades de viajar para terras estrangeiras.

O benefício contido nas viagens a terras estrangeiras com o objetivo de aprender e reunir hadiths possui um valor material que não pode ser ignorado. Pode-se compreender sua importância a partir da seguinte declaração de Ibrahim ibn Adham. Ele disse:

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Graças às viagens dos estudantes e colecionadores de hadiths, realizadas com esse propósito dentro e fora do país, Allah protegeu esta comunidade de muitas calamidades e aflições.

De fato, a amplitude e a intensidade da campanha de coleta de hadiths que observamos desde a época dos Companheiros até a época dos tabi’ al-tabi’in e dos muhaddiths posteriores tornam claramente evidente a importância dessas viagens a terras estrangeiras; e sentimos infinita reverência e gratidão por aqueles grandes homens que conduziram essa campanha na prática. Se eles não tivessem se lançado à ação com tão extrema determinação para obter a satisfação de Allah e preservar o hadith, um dos maiores fundamentos da religião, não restaria dúvida de que hoje a comunidade muçulmana teria sido privada para sempre de uma grande parte da Sunnah do Mensageiro Nobre (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele).

 

Compilação dos livros de hadith

Ficou comprovado pela discussão anterior que, na primeira fase, os hadiths do Mensageiro nobre (S) não puderam ser compilados em forma de livro. O erudito Allama Ibn Hajar al-Asqalani escreveu:

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Os hadiths do Profeta nobre (S) não estavam compilados em forma de livro nem sistematicamente organizados na época de seus Companheiros e dos mais destacados Tabi’un.

Há várias razões lógicas para que os livros de hadith não tenham sido compilados na primeira fase do Islã. Primeiro, como já foi discutido em detalhes anteriormente, os nobres Companheiros possuíam uma memória extraordinária; tudo o que ouviam do Mensageiro ficava memorizado, e, de modo geral e naturalmente, não sentiam necessidade de escrever aquilo.

Segundo, muitos deles não tinham capacidade para escrever. Naquela época, a prática da escrita também não era tão difundida quanto em períodos posteriores, nem havia alcançado popularidade geral.

Terceiro, como o próprio Profeta nobre (S) havia proibido a escrita dos hadiths na primeira fase, a atenção de todos os Companheiros não pôde ser direcionada à compilação dos livros de hadith.

O que o erudito Anwar Shah Kashmiri escreveu a esse respeito merece atenção aqui:

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Embora, à primeira vista, tivesse sido melhor que os hadiths fossem reunidos e compilados ainda durante a vida do Nobre Profeta (s), parece que não era vontade de Allah que os hadiths fossem compilados como o Alcorão e preservados exatamente como o Alcorão.[Fayz al-Bari, Sharh Sahih al-Bukhari, volume 1, página 208.]

Tudo isso diz respeito às medidas especiais e aos cuidados adotados com o propósito de compilar os livros de hadith. De outro modo, no que se refere à preservação dos hadiths e à sua proteção contra o desaparecimento, desde a época do Nobre Mensageiro até a época dos Companheiros e dos tabi’in, jamais se deu a isso a menor importância a menos.

É por isso que vemos que, assim que o risco de os hadiths se misturarem ao Alcorão foi eliminado, os nobres Companheiros passaram a dar atenção ao registro escrito dos hadiths; do mesmo modo, desde a época dos nobres Companheiros, o trabalho de compilar os hadiths e organizá-los plenamente em forma de livro também foi realizado em toda a sua extensão.

Entretanto, na época dos Companheiros, a necessidade prática de compilar os hadiths em forma de livro não era, em geral, sentida. Isso porque, naquela época, os próprios Companheiros eram os transmissores dos hadiths do Mensageiro. Sempre que surgia necessidade em qualquer assunto, as pessoas compareciam diante dos Companheiros, obtinham deles conhecimento sobre a questão relacionada e resolviam todos os assuntos; também era possível saber com absoluta certeza, por intermédio dos Companheiros, qual era o decreto do Nobre Mensageiro sobre a questão em causa. Porém, quando os Companheiros começaram a deixar este mundo, um após outro, tanto os muçulmanos em geral passaram a sentir a necessidade de compilar os livros de hadith, quanto os Companheiros que ainda transmitiam os hadiths passaram a sentir intensamente a necessidade de compilá-los e deixá-los protegidos para sempre.

A importância da presença dos nobres Companheiros na época dos tabi’in pode ser claramente compreendida pela seguinte declaração de um tabi’i chamado Murek, proferida após o falecimento de Hadrat Anas (r.a.). Ele disse:

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Hoje, metade do conhecimento — o hadith — deixou este mundo.

Quando lhe perguntaram o significado dessas palavras, ele respondeu:

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Na época dos Companheiros, quando alguma pessoa mal-intencionada nos contradizia ou discordava de nós a respeito de um hadith, dizíamos: “Vamos até aquele que ouviu este hadith diretamente do Mensageiro e verifiquemos a sua autenticidade.”

Por essa razão, antes mesmo de começar o desaparecimento definitivo da caravana dos Companheiros, começou a ser sentida, de modo geral e intenso, a necessidade de compilar os hadiths e registrá-los em livros, a fim de preservá-los para sempre. Nesta etapa da era pós-profética, isso deve ser apresentado conjuntamente. Aqui será apresentada primeiro uma breve discussão sobre o período dos Califas Bem-Guiados. Depois será registrada a história detalhada dos períodos posteriores.

 

Os Califas Bem-Guiados e a compilação dos livros de hadith

Após o falecimento do Nobre Profeta, os Califas Bem-Guiados assumiram a responsabilidade de administrar e patrocinar o sistema de vida islâmico e o Estado islâmico, bem como todas as atividades religiosas. Durante esse período, não houve qualquer falta em seus esforços e cuidados com relação ao segundo pilar indispensável do Islã — o conhecimento dos hadiths. Aqui será apresentada separadamente uma discussão sobre os serviços prestados por cada califa no campo dos hadiths.

Hazrat Abu Bakr Siddiq (que Allah esteja satisfeito com ele)

O primeiro califa, Hazrat Abu Bakr Siddiq (que Allah esteja satisfeito com ele), havia preparado pessoalmente uma compilação de quinhentos hadiths. Porém, no final de sua vida, ele mesmo a destruiu. Como razão para isso, os muhaddiths e historiadores mencionaram que, depois de compilar os hadiths, ele não conseguiu encontrar qualquer tranquilidade. Vários tipos de temor surgiram em seu coração. Ele ficou especialmente preocupado com a possibilidade de que, entre os hadiths que havia compilado, uma afirmação — até mesmo uma única palavra — pudesse divergir, ainda que minimamente, da mensagem original do Nobre Mensageiro; nesse caso, de acordo com a severa advertência do Mensageiro, ele se tornaria combustível do Inferno.

Em segundo lugar, surgiu também em sua mente o temor de que, se o povo muçulmano conferisse à coletânea de hadiths por ele compilada uma posição equivalente à do Alcorão, ou começasse a atribuir-lhe uma posição superior à dos hadiths narrados e compilados pelos demais Companheiros, isso também seria causa de grande prejuízo para os muçulmanos. Como consequência, o amplo trabalho e o progresso no campo da compilação dos hadiths poderiam ser prejudicados. Foi em razão de todas essas preocupações que ele a destruiu. Contudo, o Allama Dhahabi não reconheceu como verdadeira a narrativa de que Hazrat Abu Bakr teria destruído a própria coletânea de hadiths que havia compilado.

Por mais profunda e minuciosa que seja nossa análise do assunto, não se pode dizer que se trate de outra coisa senão do resultado de um estado psicológico e mental específico.

Apesar disso, Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) não proibiu a compilação dos hadiths. Pelo contrário, ele próprio também narrou alguns hadiths. Segundo o Imam Suyuti, os hadiths narrados por ele somam 142. Ele também mencionou em quais coletâneas de hadiths esses hadiths foram registrados. Há razões suficientes por trás do fato de ele ter narrado tão poucos hadiths. O Imam Suyuti escreveu sobre isso:

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A razão de ele ter narrado poucos hadiths é que faleceu antes que começassem a divulgação dos hadiths e o trabalho dos tabi’in de ouvi-los, aprendê-los e preservá-los.

Ao analisar a razão pela qual foram narrados tão poucos hadiths de Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele), o Imam Suyuti escreveu em outra passagem da obra mencionada acima:

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Foram narrados muito poucos hadiths com cadeia de transmissão completa de Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele). Isso porque, após a morte do venerável, o tempo de vida que lhe restava era muito curto, e sua morte ocorreu pouco depois. Caso contrário, se tivesse vivido por muitos anos, teriam sido narrados dele numerosos hadiths. Enquanto ele viveu, nenhum dos Companheiros sentiu necessidade de narrar hadiths dele, pois todos participavam igualmente de todos os assuntos. Eles só narravam dele aquilo que desconheciam.

Shah Waliullah Dehlawi também escreveu o seguinte:

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Os Companheiros não tinham necessidade de narrar muitos hadiths por intermédio de Hazrat Abu Bakr, pois eles próprios haviam ouvido a maioria dos hadiths da boca do Mensageiro. [********************]

Além disso, Hazrat Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele) viveu apenas dois anos e meio após o falecimento do Profeta. Esses dois anos e meio transcorreram enquanto ele desempenhava as difíceis responsabilidades do califado e enfrentava tempestades extremamente adversas. Consequentemente, nesse período ele não teve, como os demais Companheiros de vida longa, tempo livre contínuo nem um ambiente favorável para narrar hadiths.

Além disso, sua principal tarefa nesse período era cumprir todas as responsabilidades após consultar os muçulmanos. Como o califado islâmico era genuinamente democrático e baseado na consulta, em cada questão social, estatal e geral, os assuntos eram conduzidos somente após consultar os Companheiros ilustres e tomar decisões ou chegar a acordos sobre as questões pertinentes com base no Alcorão e nos hadiths.

Hazrat Abu Bakr al-Siddiq (que Allah esteja satisfeito com ele) dava importância aos hadiths imediatamente depois do Alcorão Sagrado na condução de todos os assuntos do califado. No próprio discurso que proferiu logo após ser escolhido como califa, declarou a importância dos hadiths imediatamente depois do Alcorão. Ele disse:

******************************************************

Ó povo! Fui incumbido da responsabilidade de governar vosso Estado, embora eu não seja o melhor entre vós. Contudo, o Alcorão foi revelado, e o Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) estabeleceu sua Sunna e seu exemplo. Ele nos ensinou essas duas coisas, e nós as aprendemos. [********************]

Também no exercício das funções do califado, na prática, ele obtinha orientações e decisões jurídicas da fonte dos hadiths, logo depois do Alcorão. Essa sua orientação é mencionada claramente em linguagem explícita nas obras autorizadas. Está escrito:

******************************************************

Quando alguma questão que exigia decisão era apresentada a Hazrat Abu Bakr, ele primeiro consultava o Livro de Allah. Se encontrasse nele a base para uma decisão, julgava as pessoas com base nela. Se não encontrasse nada no Alcorão, mas conhecesse alguma sunna do Mensageiro relacionada à questão, decidia com base nela. (Sunane al-Darimi, p. 23)

Após o falecimento do venerável, sempre que surgia uma divergência sobre questões gerais, Hazrat Abu Bakr resolvia quase todas elas apresentando um hadith do nobre Mensageiro; e o hadith que ele apresentava punha fim a todas as divergências relacionadas à questão. Após o falecimento do venerável, surgiu entre os Companheiros, na Saqifa de Banu Sa’ida, a primeira questão complexa: quem seria o califa? A situação havia chegado a tal ponto que então se tornara impossível chegar a qualquer decisão sobre o assunto. Foi então que Hazrat Abu Bakr se levantou, apresentou um hadith do nobre Mensageiro e disse:

******************************************************

O imã e o califa deverão ser escolhidos entre os coraixitas.

Assim, a sucessão após o Mensageiro permanecerá limitada à sua linhagem coraixita.

Assim que ouviram esse hadith, todos os Companheiros presentes reconheceram sua autenticidade. Em seguida, a escolha do califa foi concluída sem qualquer contestação.

Quando surgiu uma divergência sobre onde o Nobre Profeta (S) deveria ser sepultado, Hazrat Abu Bakr (R), o Siddiq (RA), apresentou um hadice:

******************************************************

Eu tinha ouvido uma declaração do Mensageiro e não a esqueci. Ele disse: Deus toma a vida de Seu profeta no lugar onde ele deve ser sepultado.

Em seguida, disse:******************************************************

Portanto, sepultai também o Mensageiro Excelso (S) no próprio local de seu leito de morte.[Shamā’il de Tirmidhi, p. 30 ******************** Muwatta de Malik, p. 80.]

Hazrat Aisha (RA) reivindicou junto ao primeiro califa, Hazrat Abu Bakr, uma parte dos bens do Nobre Profeta. Então Hazrat Abu Bakr (RA) narrou o seguinte hadice. Ele disse:

******************************************************

Ouvi o Mensageiro Excelso (S) dizer: não fazemos de ninguém herdeiro de bens. Tudo o que deixamos é uma doação no caminho de Allah. Portanto, os descendentes de Muhammad serão sustentados pelo Bayt al-Mal.

Em seguida, Hazrat Abu Bakr (r.a.) disse:

******************************************************

Juro por Allah: colocarei em prática cada uma das ações que vi o Mensageiro realizar; não deixarei nenhuma delas de lado.

O resultado imediato da narração deste hadith manifestou-se tão rapidamente que o narrador do hadith diz ao final:

******************************************************

Depois disso, Hazrat Fatima renunciou à reivindicação da herança e, até sua morte, não voltou a dizer nada sobre o assunto. [Sahih al-Bukhari, segundo volume, pp. 995–996.]

Por outro lado, quando ele soube, com base no hadith do Mensageiro, que a avó tinha direito à herança, não demorou nem um pouco para decidir a herança dela de acordo com o hadith. Inicialmente, quando a avó reivindicou a herança, ele disse:

******************************************************

Nenhuma parte da herança foi determinada para você no Livro de Allah. Tampouco sei que alguma parte tenha sido determinada para você na prática do Mensageiro (hadith). Portanto, vá embora. Perguntarei às pessoas sobre isso e depois lhe informarei.

Então, certo dia, ele perguntou aos Companheiros sobre esse assunto. Hazrat Mugira ibn Shu’ba levantou-se e disse:

******************************************************

Eu estava presente junto do Mensageiro, e ele determinou para a avó um sexto da herança. Eu mesmo vi isso com os meus próprios olhos.

A fim de certificar-se da autenticidade desse hadith, narrado a respeito da conduta de Hazrat Abu Bakr (ra), e de reforçar sua comprovação, ele perguntou:

******************************************************

Há mais alguém que possa testemunhar isso junto com você?

Então, Hazrat Muhammad ibn Muslim (ra) levantou-se, prestou testemunho e confirmou as palavras de Hazrat Mugira. Depois, Hazrat Abu Bakr (ra) não hesitou nem um pouco em aceitar isso.

Contudo, é verdade que Hazrat Abu Bakr (r.a.) era especialmente rigoroso quanto à transmissão dos hadiths. Quando um hadith do Mensageiro era comprovado de modo específico e com provas irrefutáveis, ele se curvava diante dele. Isso fica claramente evidente no episódio sobre a herança da avó mencionado há pouco. Além disso, enquanto não estivesse absolutamente convencido e seguro da autenticidade de um hadith, não estava disposto a aceitá-lo.

Hafiz Zahabi escreveu:

******************************************************

Hazrat Abu Bakr foi o primeiro a adotar uma cautela especial na aceitação dos hadiths.

Quando Hazrat Abu Bakr Siddiq (r.a.) nomeou Hazrat Anas (r.a.) governador do Bahrein e o enviou para lá, escreveu um documento detalhado sobre as normas e determinações relativas ao zakat e enviou-o com ele. No início desse documento detalhado estava escrito:

******************************************************

Em nome de Allah, o Beneficente, o Misericordioso. — Este é o documento relativo à obrigatoriedade do zakat. O Nobre Mensageiro (s.a.w.) tornou-o obrigatório para os muçulmanos, e Allah ordenou isso ao Seu Mensageiro.

Hazrat Umar Faruq (r.a.)

O segundo califa, Hazrat Umar Faruq (r.a.), transmitiu pessoalmente hadiths. Em sua visão, depois do Majestoso Alcorão, como fundamento da religião islâmica, vinha a Sunnah, ou os hadiths do Mensageiro. Ele reuniu e registrou um grande número de hadiths, enviou-os aos governantes de alto e baixo escalão das diversas províncias do Estado Islâmico e ordenou que fossem amplamente divulgados entre o povo.

Para ampliar o ensino da ciência dos hadiths, ele estabeleceu numerosas madrassas em diversas regiões. Enviou ilustres Companheiros a diferentes regiões com o objetivo de ensinar hadiths. Nessa fase, enviou Hazrat Abdullah ibn Mughaffal, Hazrat Imran ibn Husayn (r.a.) e Hazrat Ma’qal ibn Yasar (r.a.) à província de Basra, e Hazrat Ubada ibn Samit e Hazrat Abu Darda (r.a.) à Síria. Enviou Arjan ibn Abu Hala ao Egito com esse mesmo objetivo.

Quando Hazrat Abu Musa al-Ash’ari (r.a.) foi nomeado governador de Kufa, dirigiu-se para lá e disse, dirigindo-se aos muçulmanos daquela região:

******************************************************

Hazrat Umar (r.a.) enviou-me a vocês com o objetivo de ensinar-lhes o Livro de Allah e a Sunnah—os hadiths do seu Profeta.

Ele também enviou Hazrat Abdullah ibn Masud (r.a.) a Kufa como professor de hadiths e do Alcorão, e ordenou aos habitantes de Kufa que aprendessem hadiths com ele.

Allama Khazri escreveu:

******************************************************

Hazrat Abdullah ibn Masud permaneceu em Kufa. O povo dali aprendia com ele os hadiths do Mensageiro (que a paz esteja com ele). Ele era seu professor e juiz.

Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) adotava, quanto à aceitação dos hadiths, uma política muito rigorosa, tal como o primeiro califa. Para comprovar a autenticidade de um hadith narrado por Hazrat Abu Musa Ashari (que Allah esteja satisfeito com ele), ordenou-lhe, em tom severo, que o fizesse. Disse-lhe:

******************************************************

Apresenta uma prova; caso contrário, aplicar-te-ei um castigo severo.

Mais tarde, quando outro companheiro foi apresentado como testemunha em apoio às suas palavras, ele ficou tranquilizado.

Allama Dhahabi escreveu a seu respeito:

******************************************************

Quanto à narração dos hadiths, ele estabeleceu para os muhaddiths a regra de adotarem um método firme e sólido.

Hazrat Abu Musa apresentou outro Companheiro como testemunha em apoio ao hadith que ele havia narrado. Só então Hazrat Umar (ra) o aceitou. Disso se prova que:

******************************************************

Quando um hadith é narrado por pelo menos dois narradores confiáveis, ele se torna mais autêntico, mais forte e mais digno de prioridade do que um hadith narrado por uma única pessoa. Isso também é um incentivo suficiente para obter numerosas cadeias de transmissão desse hadith. Como resultado, o hadith pode elevar-se do nível de uma “concepção geral” ao nível do conhecimento certo (conhecimento preciso e confiável).

Quando Hazrat Ubay ibn Ka’b narrou um hadith, Hazrat Umar (ra) disse:

******************************************************

Você deverá necessariamente apresentar provas da autenticidade do hadith que narrou.

Quando Hazrat Ubay apresentou alguns Companheiros dentre os Ansar como testemunhas, o califa disse:

******************************************************

Eu não duvidei de vós; apenas vos pedi uma prova com o propósito de estabelecer firmemente o hadith com base em evidências conclusivas.

Foi durante o período de Hazrat Umar al-Faruq que, pela primeira vez, se realizou em nível governamental a compilação e o registro do patrimônio disperso dos hadiths, e se levantou a questão de organizá-lo de forma sistemática. O próprio Hazrat Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) expressou o desejo de concluir essa grande tarefa e também consultou os demais Companheiros a esse respeito. Os muçulmanos o aconselharam favoravelmente. Mais tarde, porém, surgiu em sua própria mente hesitação e dúvida sobre se seria apropriado fazê-lo. Durante cerca de um mês, continuou refletindo profundamente e fazendo istikhara. Mas, finalmente, certo dia ele mesmo disse:

******************************************************

Vós sabeis que eu vos havia falado sobre registrar e compilar os hadiths. Mas depois pensei que os Ahl al-Kitab que vos precederam também haviam compilado dessa maneira as palavras do profeta; então se apegaram a isso e abandonaram o Livro de Allah. Juro por Allah que não misturarei absolutamente nada ao Livro de Allah. Depois disso, ele abandonou a intenção de compilar os hadiths.

Na verdade, somente pelo receio de que, ao obterem um livro de hadiths sistematicamente organizado e compilado, as pessoas se concentrassem nele a tal ponto que até esquecessem o Alcorão Sagrado, cuja importância se tornaria insignificante para elas, e desejassem conduzir-se tendo apenas os hadiths como base, Hazrat Umar al-Faruq (que Allah esteja satisfeito com ele) não realizou pessoalmente a tarefa de registrar e compilar os hadiths. Caso contrário, certamente não consideraria isso um ato ilícito. Só é possível compreender quão razoável era esse receio quando se o avalia à luz das condições posteriores. Foi justamente como resultado desse tipo de cautela que a comunidade muçulmana aprendeu hoje a atribuir ao Majid Alcorão a primeira importância e aos hadiths a segunda, logo depois dele. Se essa cautela não tivesse sido adotada, entre os muçulmanos o lugar do Majid Alcorão não teria permanecido primeiro e principal, mas teria se tornado secundário, como ocorreu com as escrituras religiosas dos seguidores de outras religiões.

Hazrat Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele)

O próprio Hazrat Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele) narrou hadiths; porém, apenas um número muito pequeno de hadiths foi transmitido por ele. Ao explicar a razão disso, ele mesmo disse:

******************************************************

O fato de eu não ser, entre os Companheiros do Mensageiro, aquele que mais hadiths preservou não me impediu de narrar os hadiths do Mensageiro. Pelo contrário, a razão pela qual me abstive de narrar hadiths é que eu mesmo testemunhei ter ouvido o nobre Mensageiro dizer: “Se alguém atribuir ao Mensageiro aquilo que ele não disse, que procure para si um lugar no Inferno.”

Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele)

Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) foi um dos poucos Companheiros que registraram com as próprias mãos os hadiths ouvidos diretamente do Mensageiro. Ele ouviu do Mensageiro e escreveu alguns hadiths sobre a explicação e a análise do Alcorão. Deu a essa coletânea de hadiths o nome de “Sahifa”. Dobrou-a e guardou-a cuidadosamente dentro da bainha de sua espada. Nela estavam escritos alguns hadiths relativos a determinações práticas e regras referentes às atividades e aos assuntos cotidianos. (Sahih Bukhari, Kitab al-Ilm e Kitab al-I‘tisam; Musnad Ahmad, volume 1, página 709.)

Mais tarde, ele enviou essa Sahifa a Hazrat Uthman, como um documento escrito dos hadiths. Seu filho, Muhammad ibn al-Hanafiyya, disse:

******************************************************

Meu pai enviou-me, dizendo: “Leva este livro ao califa Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele). Nele estão escritos os decretos do nobre Mensageiro sobre a caridade e o zakat.”

Da discussão acima, fica provado que, durante o período dos califas bem-guiados, os hadiths foram divulgados, o ensino deles foi plenamente realizado e eles alcançaram a condição de uma das principais bases da lei na administração do Estado e na aplicação da justiça. Também foram escritos e reunidos, de forma fragmentada, por diversas pessoas. Contudo, os hadiths não foram compilados adequadamente em forma de livro. Até então, muitos tabiins haviam aprendido e recolhido os hadiths junto aos Companheiros e os haviam divulgado amplamente entre muitas pessoas. Entretanto, não há na história nenhum exemplo de que, nessa fase, alguém tenha realizado a compilação dos hadiths de modo sistemático e em forma de livro. Assim transcorreu quase um século da história islâmica. No final do primeiro século da Hégira, ocorreu uma exceção a isso, e foi adotada uma medida revolucionária no campo da compilação dos hadiths.

Hazrat Umar ibn Abd al-Aziz (que Allah tenha misericórdia dele) e a compilação dos hadiths

Hazrat Umar ibn Abd al-Aziz (que Allah tenha misericórdia dele) foi escolhido califa no ano 99 da Hégira. Assim que assumiu a responsabilidade do califado, sentiu intensamente a necessidade de compilar o vasto e disperso acervo de hadiths. Compreendeu claramente que o hadith era um patrimônio indispensável para a vida islâmica e a administração do califado. Havia o risco de toda a ummah ser privada desse patrimônio caso não fossem imediatamente adotadas medidas eficazes para sua compilação e preservação integral. Quase todos os Companheiros veneráveis já haviam partido deste mundo. A maioria dos tabi’un que haviam aprendido com eles também estava seguindo o mesmo caminho. Não havia qualquer garantia de que aqueles que ainda estavam vivos permanecessem vivos por muito tempo. Portanto, era absolutamente necessário recolher e compilar imediatamente esse grandioso patrimônio e organizá-lo de maneira sistemática.

Em seguida, enviou ao centro do Estado Islâmico um decreto com as seguintes palavras:

******************************************************

Dai imediatamente atenção aos hadiths do nobre Mensageiro e começai a recolhê-los e compilá-los.

Enviou também ao governador e juiz de Medina, Abu Bakr ibn Muhammad ibn Hazm, um decreto com o seguinte teor:

******************************************************

Dai atenção aos hadiths do Mensageiro, à sua sunnah, às palavras de Hazrat Umar e a tudo o que for encontrado de semelhante, e registrai-o para mim. Temo o desaparecimento dos transmissores do conhecimento dos hadiths e a extinção do patrimônio dos hadiths.

******************************************************

E que nada além dos hadiths do Mensageiro fosse aceito. E ordenou que o conhecimento dos hadiths fosse amplamente divulgado. Que fossem realizadas sessões para o ensino dos hadiths, para que aqueles que não sabem pudessem aprendê-los. Pois, quando o conhecimento é ocultado, ele se perde.[******************** Sahih al-Bukhari, volume 1, página 20.]

O imame Darimi citou estas palavras, pela boca de Abdullah ibn Dinar, nos seguintes termos:

******************************************************

Escreve e envia-me os hadiths do Mensageiro que estejam comprovados e estabelecidos para ti, bem como os hadiths de Umar. Pois temo que o conhecimento dos hadiths seja perdido e que os conhecedores dos hadiths desapareçam.[********************]

O historiador Ibn Sa’d também mencionou outra parte do decreto de Umar ibn Abd al-Aziz. O trecho que ele citou é o seguinte:

******************************************************

Umar ibn Abd al-Aziz enviou um decreto a Abu Bakr ibn Hazm, ordenando-lhe que escrevesse também os hadiths narrados por Umra e os enviasse a ele.[********************]

Do relato de Ibn Sa’d também se sabe que Umar ibn Abd al-Aziz ordenou que fossem escritos e enviados os hadiths narrados por Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela). E foi por essa razão que insistiu para que fossem coletados, registrados e enviados os hadiths narrados por Umra bint Abd al-Rahman. Pois os mandamentos e preceitos necessários para as crenças e a vida prática dos muçulmanos estão mencionados de modo especial nos hadiths narrados por Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela).[********************] E essa Umra havia sido criada no regaço de Aisha (que Allah esteja satisfeito com ela) e recebera dela, plenamente, o ensinamento dos hadiths. O próprio Umar ibn Abd al-Aziz disse a respeito dela:

******************************************************

Não restou ninguém mais erudito que Umra no que diz respeito aos hadiths narrados por Hazrat Aisha.

O Imam Zuhri também disse a respeito dela:

******************************************************

Encontrei nela um mar inesgotável de conhecimento dos hadiths.

O Imam Malik disse que Umar ibn Abd al-Aziz ordenara a Abu Bakr ibn Hazm que escrevesse e enviasse, juntamente com os hadiths narrados por Umra bint Abd al-Rahman, também os hadiths narrados por Qasim ibn Muhammad.

Quem era esse Qasim? O Imam Bukhari escreveu a respeito dele:

******************************************************

Quando seu pai foi morto, ele foi criado no colo de sua tia paterna, Hazrat Aisha, e adquiriu com ela um profundo conhecimento da religião.

Ibn Hibban escreveu sobre este Qasim:

******************************************************

Qasim era um tabi‘i e, entre as pessoas de sua época, era o melhor e o mais eminente em conhecimento do hadith e da religião.

Já foi mencionado anteriormente, a respeito de Abu Bakr ibn Hazm, que ele era o governador de Medina. Ao mesmo tempo, também lhe cabia exercer a função de juiz. Ele era um dos principais faqihs de Medina naquela época. Possuía uma competência incomparável nas leis e normas islâmicas. Ele já havia registrado anteriormente todos os hadiths narrados por Hazrat Aisha que estavam com a mencionada Umra bint Abd ar-Rahman e os havia guardado consigo. Umra era sua tia materna.

O qadi Abu Bakr havia reunido um grande número de hadiths e compilado vários volumes de livros de hadith por ordem do califa Umar ibn Abd al-Aziz. Contudo, não foi possível fazê-los chegar à “Dar al-Khilafa” antes da morte do califa. A esse respeito, Allama as-Suyuti mencionou, citando como fonte a obra “At-Tamhid”, escrita por Ibn Abd al-Barr:

******************************************************

Ibn Hazm compilou vários volumes de livros de hadith, mas morreu antes de poder enviá-los ao califa Umar ibn Abd al-Aziz.

Mas qual foi, depois, o destino dessas compilações de hadith? Sobre isso, o Imã Malik disse: Quando perguntei a Abdullah, filho do cádi Abu Bakr, sobre esses livros de hadith, ele respondeu: ******************** Todos eles foram destruídos.[********************] Mas isso não é digno de crédito. Pois não se pode admitir que, apenas porque o califa faleceu, as compilações de hadith preparadas sob a administração do governo tenham sido destruídas e que não se tenha tomado nenhuma providência para sua preservação. Certamente, elas foram conservadas junto ao povo e, posteriormente, os hadith foram divulgados entre o povo com base nelas.

Algumas narrativas permitem saber que o califa Umar ibn Abd al-Aziz ordenou que, em Medina, além de Abu Bakr ibn Hazm, também Salim ibn Abdullah recolhesse hadith e os enviasse. O erudito al-Suyuti escreveu, citando o Imã al-Zuhri:

******************************************************

Umar ibn Abd al-Aziz ordenou a Salim ibn Abdullah que escrevesse e lhe enviasse os procedimentos relativos ao zakat e à sadaqa de Umar.[********************]

Depois, o Imã al-Suyuti escreveu sobre Salim:

******************************************************

Salim escreveu e enviou por completo aquilo que lhe fora ordenado. Junto com isso, ele (Salim) também lhe escreveu que, se Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) tivesse realizado, durante seu governo, trabalho semelhante entre as pessoas de sua época, então você seria considerado e reconhecido por Allah como uma pessoa melhor até mesmo que Umar al-Faruq.[********************]

A esse respeito, Muhammad ibn Abd al-Rahman al-Ansari disse:

******************************************************

Quando Umar ibn Abd al-Aziz foi escolhido califa, enviou uma ordem insistente para que fossem reunidos, em Medina, os documentos escritos do Mensageiro de Deus e de Umar — relativos à zakat e a assuntos semelhantes. Mais tarde, foram encontrados, entre os descendentes de Amr ibn Hazm, os documentos escritos do Mensageiro de Deus e, entre os descendentes de Umar, documentos escritos semelhantes aos do Mensageiro de Deus.

Umar ibn Abd al-Aziz encarregou especialmente o Imam Zuhri da tarefa de compilar os hadiths.

Sobre o Imam Zuhri, o próprio Umar ibn Abd al-Aziz disse:

******************************************************

No passado, não restou sequer outro sábio maior que Zuhri no conhecimento da Sunna e dos hadiths.

A esse respeito, o próprio Imam Ibn Shihab Zuhri disse:

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Umar ibn Abd al-Aziz ordenou-nos que recolhêssemos e compilássemos os hadiths. Ao receber essa ordem, escrevemos uma grande obra de hadiths e enviamo-la a ele. Depois, ele próprio enviou um exemplar dessa obra a cada província pertencente ao seu reino.

Isto prova, sem qualquer dúvida, que o acervo de hadiths compilado não se perdeu em medida alguma.

O Imam Malik (r.a.) disse:

******************************************************

A primeira pessoa a compilar os hadiths foi Ibn Shihab al-Zuhri.

Outra eminente figura, o Imam Abd al-Aziz Darawardi, também apoiou essa afirmação. Ele disse:

******************************************************

A compilação dos hadiths e o trabalho de os registar foram realizados pela primeira vez por Ibn Shihab al-Zuhri.

O imame Zuhri reivindicou pessoalmente essa honra, dizendo:

******************************************************

Antes de mim, ninguém havia compilado a ciência dos hadiths.

Umar ibn Abd al-Aziz não ordenou apenas a coleta e o registro dos hadiths; ele também enviou decretos explícitos para que fossem tomadas providências visando ao seu amplo ensino em todos os lugares.

Um decreto foi enviado a outro governador nos seguintes termos:

******************************************************

Ordene aos especialistas em hadith e aos eruditos que ensinem os hadiths em todas as mesquitas e os divulguem amplamente. Pois o conhecimento dos hadiths está prestes a desaparecer quase por completo.

Com base nas citações acima e nas provas e evidências históricas, não resta dúvida de que o decreto de Umar ibn Abd al-Aziz relativo à coleta dos hadiths não foi enviado a um único lugar específico; pelo contrário, foi enviado por todo o território do Estado islâmico e, como resultado, a campanha de coleta e compilação dos hadiths teve início de forma organizada em toda parte. Como consequência inevitável dessa campanha, os hadiths foram compilados em todos os lugares. Quase todos os especialistas em hadith que estavam vivos naquela época dedicaram-se à nobre tarefa de compilar os hadiths, e o vasto e imenso patrimônio compilado por eles foi considerado e preservado pela sociedade muçulmana como um tesouro inestimável para todos os tempos.

Segundo se relata, Umar ibn Abd al-Aziz (que Deus tenha misericórdia dele) não se limitou a ordenar isso a outras pessoas; ele próprio também começou a escrever os hadiths.

Abu Qilaba, um célebre tabi‘i e narrador de hadiths transmitidos por Anas, que Deus esteja satisfeito com ele, [********************] disse:

******************************************************

Certa vez, quando Umar ibn Abd al-Aziz foi à mesquita para a oração do zuhr, vimos alguns papéis em sua mão. Mais tarde, quando saiu para a oração do asr, vimos que ainda trazia consigo aqueles mesmos papéis. Perguntei: “Ó Comandante dos Crentes! O que é este escrito?” Ele respondeu: “Awn ibn Abd Allah narrou-me alguns hadiths. Gostei muito deles e escrevi-os. Entre eles encontra-se também este hadith. [********************]

Entre os eruditos que, depois do Imam Zuhri, trabalharam na compilação de hadiths e na redação de livros nos diversos centros do Estado islâmico, destacam-se os seguintes:

Em Meca: Ibn Jurayj (150 H.); em Medina: Ibn Ishaq (151 H.) e o Imam Malik (179 H.); em Basra: Rubay ibn Subayh (160 H.), Sa‘id ibn Abi Aruba (156 H.) e Hammad ibn Salama (176 H.); em Kufa: Sufyan al-Thawri (161 H.); na Síria: o Imam Awza‘i (156 H.); em Wasit: Hushaym (188 H.); no Iêmen: Ma‘mar (153 H.); e no Khurasan: Jarir ibn Abd al-Hamid (188 H.) e Abdullah ibn al-Mubarak (que Deus esteja satisfeito com ele) (181 H.). [********************]

A partir das datas da Hégira mencionadas acima junto a cada nome, pode-se compreender claramente que todos eles foram contemporâneos, pertencendo aproximadamente à mesma época, e que, vivendo em diferentes lugares durante o mesmo período, coletaram o patrimônio de hadiths do Nobre Mensageiro (que a paz esteja com ele) e compilaram livros de hadiths. Portanto, não há como afirmar com certeza quem, entre eles, realizou primeiro esse trabalho. Contudo, o Allama Ibn Hajar al-Asqalani estabeleceu entre eles uma ordem de precedência. Ele disse:

******************************************************

Os primeiros a empreender a coleta e a compilação dos hadiths foram Rubay ibn Subayh, Saad ibn Abu Aruba e alguns outros além deles. Eles compilavam cada capítulo dos hadiths separadamente em um livro.

Nesse período, o nome do Imam Makhul também merece destaque, pois, antes de o trabalho de composição de livros começar em larga escala, ele compôs um livro de hadiths intitulado “Kitab al-Sunan”.

Na cidade de Kufa, o Imam Sha’bi foi o primeiro a empreender a tarefa de reunir em um mesmo lugar os hadiths relacionados a um mesmo tema. Inicialmente, ele não era favorável à escrita dos hadiths nem à composição de livros de hadiths; contudo, começou a compor um livro de hadiths unicamente ao receber a ordem do califa dos muçulmanos, Umar ibn Abd al-Aziz. Isso porque ele era o juiz nomeado por Umar ibn Abd al-Aziz na província de Kufa.

O Allama al-Suyuti citou Ibn Hajar al-Asqalani:

******************************************************

O primeiro a reunir e compilar hadiths relacionados a um mesmo tema foi o Imam Sha’bi. Com efeito, foi relatado a seu respeito que ele disse: “Este é um grande capítulo sobre o divórcio”, e nele escreveu juntos numerosos hadiths.

O Imam Sha’bi nasceu no ano 22 da Hégira, durante o califado de Umar ibn al-Khattab, e faleceu no ano 104 da Hégira. O Imam Makhul faleceu no ano 134. Já o Imam al-Zuhri faleceu no ano 123, 124 ou 125 da Hégira. Com base nesses cálculos, pode-se dizer que o Imam Makhul foi o primeiro na composição de livros de hadiths.

Contudo, ao analisar a questão de modo específico, é preciso adotar a conclusão de que os primeiros a realizar a coleta e a compilação dos hadiths foram os estudiosos de hadith de Medina — Abu Bakr ibn Hazm, Salim, o Imam al-Zuhri e outros. Já a composição de livros de hadiths organizados por capítulos foi realizada pelos muhaddiths de Kufa — o Imam Sha’bi e outros.

Umar ibn Abd al-Aziz, o “califa bem guiado” da dinastia omíada, não viveu por muito tempo depois de emitir o decreto para a coleta e compilação dos hadiths. Contudo, como consequência de seu decreto, o fluxo da coleta e compilação dos hadiths, que havia começado a ondular, continuou por vários séculos. Os eruditos e especialistas em hadith que vieram depois do Imam al-Zuhri dedicaram-se plenamente à tarefa de coletar e compilar os hadiths. Depois disso, esse trabalho prosseguiu com todo vigor.

 

A compilação dos hadiths no segundo século hijri

Umar ibn Abd al-Aziz faleceu em 25 de Rajab do ano 101 da Hégira. Seu califado durou dois anos e cinco meses. As coletâneas de hadith compiladas pelo Imam al-Shabi, pelo Imam al-Zuhri, pelo Imam Makhul al-Dimashqi e pelo juiz Abu Bakr ibn Hazm foram contribuições imortais de seu período de califado. A compilação dessas coletâneas foi concluída ainda no primeiro século hijri.

Embora o trabalho realizado nessa etapa do primeiro século hijri não tenha sido grandioso em volume ou extensão, é inegável que, graças a ele, abriu-se o caminho para a compilação de livros de hadith. Por isso, desde o início do segundo século hijri, esse trabalho começou a ser realizado com a devida importância. Nessa etapa, os livros de hadith dessa época não tiveram a oportunidade de incluir apenas os hadiths relacionados às palavras e ações do Mensageiro (que a paz esteja com ele), mas também as palavras e fatwas dos Companheiros, as diversas fatwas dos Tabi‘in baseadas no Alcorão e nos hadiths, e até mesmo suas declarações e exortações sobre questões importantes da religião.

Kitab al-Athar

As coletâneas de hadith compiladas pelos muhaddiths da era dos Tabi‘in não chegaram aos estudiosos de hadith das gerações posteriores preservando sua existência independente. Sob esse aspecto, podemos mencionar apenas um livro que chegou até nós: o Kitab al-Athar. Tendo sido nomeado principal professor do famoso centro de ensino da mesquita congregacional de Kufa, fundada na época de Abdullah ibn Masud (que Allah esteja satisfeito com ele), o Imam Abu Hanifa (que Allah tenha misericórdia dele), por um lado, lançou as bases do conhecimento do fiqh e, por outro, ao mesmo tempo, compôs uma coletânea dos hadiths relativos às ordens e proibições do Mensageiro (que a paz esteja com ele), combinando-os com hadiths compilados por meio de fontes confiáveis. O nome dessa obra é Kitab al-Athar. Provavelmente não existe, entre os muçulmanos do mundo, nenhum livro de hadith mais antigo do que este. Ou pode-se dizer que, entre os livros de hadith disponíveis para a comunidade muçulmana, este é o mais antigo. Antes de Abu Hanifa, os coletores de hadith haviam apenas reunido e compilado os hadiths de maneira desordenada. Nenhum livro de hadith havia sido composto segundo um método propriamente voltado à elaboração de livros. É verdade que o Imam al-Shabi havia reunido num só lugar os hadiths sobre o mesmo tema e lhes dera a forma de um livro; contudo, isso se limitara a apenas alguns capítulos, e não lhe fora possível fazer mais do que isso. Depois disso, esse trabalho também não pôde avançar. Por essa razão, até então permanecia incompleta a tarefa de organizar sistematicamente os hadiths em seções (kitab) e capítulos (bab), segundo o método e a tradição de composição de livros. Ao compor o Kitab al-Athar, o Imam Abu Hanifa (que Allah tenha misericórdia dele) cumpriu essa responsabilidade com extraordinária competência e erudição. O hafiz al-Suyuti escreveu sobre o Imam Abu Hanifa (que Allah tenha misericórdia dele):

******************************************************

Uma realização especial do Imam Abu Hanifa (que Allah tenha misericórdia dele), na qual ele foi único, é que foi o primeiro a sistematizar o conhecimento da Sharia e compilá-lo em capítulos. O Imam Malik (que Allah tenha misericórdia dele) seguiu-o na composição do Muwatta. Contudo, quanto à composição de uma obra desse tipo, ninguém conseguiu superar o Imam Abu Hanifa em anterioridade.

Sobre o «Kitab al-Athar» compilado pelo Imã Abu Hanifa (r.), escreveu Hafiz Ibn Hajar al-Asqalani:

******************************************************

Existe uma obra independente de hadiths narrados pelo Imã Abu Hanifa (r.). Trata-se do «Kitab al-Athar», que foi narrado a partir dele por Muhammad ibn Hasan.[********************]

O Imã Alauddin «Kashani» mencionou esta obra ******************** como o «Kitab al-Athar» compilado pelo Imã Abu Hanifa (r.).[********************]

Para compor a obra de hadiths intitulada «Kitab al-Athar», o Imã Abu Hanifa (r.) coletou e examinou criteriosamente um grande número de hadiths. Sadr al-A’imma Muwaffaq ibn Ahmad Makki escreveu em sua obra:

******************************************************

O Imã Abu Hanifa (r.) compôs esta obra, o «Kitab al-Athar», selecionando-a criteriosamente entre quarenta mil hadiths.[******************** O número de hadiths mencionado aqui não se refere a hadiths individuais; refere-se apenas às cadeias de transmissão dos hadiths, e um único hadith pode ter numerosas cadeias de transmissão.]

Todos os especialistas em hadith reconheceram sua extraordinária cautela na seleção e aceitação dos hadiths. O Imã Waki (r.) disse:

******************************************************

Ninguém adotou, ao aceitar hadiths, uma cautela como a observada pelo imame Abu Hanifa (r.). [Isso é digno de nota: o imame dos hadiths, Yahya ibn Sa’id al-Qattan, era perito na ciência de verificar, examinar, selecionar e depurar hadiths. Ele disse:

****************************************************** Juro pelo nome de Deus: entre a comunidade ou nação muçulmana, ele era reconhecido como o maior erudito em todo o conhecimento recebido de Deus e do Mensageiro.]

Precisamente por essa razão, parece que os muhaddiths, ao criticarem o imame Abu Hanifa (r.), o qualificaram como ******************** “um homem extremamente rigoroso e severo na transmissão de hadiths”; e, por essa mesma razão, o número de hadiths transmitidos por ele não pôde ser muito elevado. O historiador Allama Ibn Khaldun escreveu, ao explicar a causa disso:

******************************************************

A razão de o número de hadiths transmitidos pelo imame Abu Hanifa (r.) ser relativamente pequeno é que ele impunha rigorosas condições éticas quanto à aceitação e à transmissão de hadiths.[********************]

É digno de menção aqui uma declaração do próprio imame Abu Hanifa (r.) sobre a grande quantidade de hadiths que ele reuniu e sobre a transmissão de apenas uma pequena parte deles. Ele disse:

******************************************************

Tenho armazenados comigo vários baús repletos de material escrito de hadith. Contudo, publiquei e transmiti apenas uma quantidade muito pequena dele, que pudesse beneficiar a vida prática das pessoas.[********************]

Assim como ocorre com outras obras de hadith, existem ‘nuskhas’ (cópias) do ‘Kitab al-Athar’. Por isso, a obra tornou-se conhecida pelo nome de cada um dos estudantes. Caso contrário, a obra original é um único livro de hadith compilado pelo Imam Abu Hanifa. Entre os divulgadores dessas ‘nuskhas’, são dignos de menção os seguintes nomes:

1. Imam Zufar ibn al-Hudhayl: Sobre isso, encontra-se citado em obras autorizadas:

******************************************************

Ahmad ibn Bakr transmitiu o ‘Kitab al-Athar’, compilado por Abu Hanifa (r), através de Abu Wahab, discípulo de Zufar ibn al-Hudhayl.[********************]

2. Imam Abu Yusuf ibn Abu Yusuf: Sobre ele, encontra-se citado:

******************************************************

Ele transmitiu, através de seu pai, o ‘Kitab al-Athar’ compilado por ele, a partir do Imam Abu Hanifa (r). Trata-se de uma obra de grande extensão.[O juiz Athar Mubarakpuri (editor da revista ‘Al-Balag’, publicada pela Bo’ei) escreveu: Os estudantes do Imam Abu Hanifa transmitiram o seu ‘Kitab al-Athar’, por intermédio dele, a outras pessoas e, durante a transmissão, eles próprios acrescentaram muitos hadiths à obra. Por essa razão, a obra original tornou-se conhecida entre o povo pelos nomes de diferentes estudantes. Caso contrário, a obra original é um livro de hadith compilado pelo Imam Abu Hanifa (r).********************]

3. Imam Muhammad ibn Hasan al-Shaybani: a compilação preparada por ele é a célebre, e atualmente, por engano, é conhecida como o «Kitab al-Athar» compilado pelo Imam Muhammad (r).

4. Imam Hasan ibn Ziyad al-Lu’lu’i: Ibn Hajar al-Asqalani (r), ao discorrer sobre Muhammad ibn Ibrahim, escreveu a respeito desta obra:

******************************************************

Muhammad ibn Ibrahim transmitiu o «Kitab al-Athar» do Imam Abu Hanifa (r) por intermédio de Muhammad ibn Shuja, através de seu mestre Hasan ibn Ziyad.

Muwatta do Imam Malik

Logo depois do «Kitab al-Athar» compilado pelo Imam Abu Hanifa (r), encontramos, como obra de hadith compilada, o «Muwatta» compilado pelo Imam Malik (r).

Uma diferença principal entre o «Kitab al-Athar» e o «Muwatta» do Imam Malik (r) é que a primeira obra contém os hadiths narrados por pessoas transmissoras de hadith do Hijaz, do Iraque, da Síria e de outras regiões do mundo muçulmano; ao passo que o «Muwatta do Imam Malik» contém somente os hadiths narrados pelos muhaddiths residentes em Medina. Pois, como vimos na discussão anterior sobre o Imam Malik (r), ele jamais viajou para fora de Medina em busca de hadiths.

A estrutura da obra «Muwatta» foi organizada de tal modo que, primeiramente, são mencionados os relatos das palavras ou ações do nobre Mensageiro (s). Depois, nela foram incluídos os dizeres dos Companheiros e as fatwas dos tabi’in fundamentadas no Alcorão e nos hadiths.

O Imam Malik (que Deus tenha misericórdia dele) compilou esta obra de hadith por ordem do califa abássida Al-Mansur. Um autor egípcio contemporâneo chamado Muhammad Abu Zahw escreveu:

******************************************************

O califa abássida Abu Ja’far Al-Mansur convocou o Imam Malik (que Deus tenha misericórdia dele) e disse-lhe que compilasse os hadiths que, segundo seu próprio conhecimento, estivessem comprovados e estabelecidos como autênticos, os organizasse em forma de livro e o destinasse à aplicação na vida prática das pessoas. Então, ele redigiu esta obra e deu-lhe o nome de “Al-Muwatta”.

O Imam Malik (que Deus tenha misericórdia dele) dedicou um esforço imenso, uma paciência incansável e uma perseverança inabalável à composição desta obra. O Imam Suyuti mencionou, por intermédio de Ibnul Hubab:

******************************************************

O Imam Malik (que Deus tenha misericórdia dele) começou por transmitir cem mil relatos. A partir deles, compilou a obra “Al-Muwatta”, reunindo dez mil hadiths. Depois, passou a verificá-la à luz do Alcorão e da Sunnah. Também a examinou com base nos athar dos Companheiros e em outros relatos. Por fim, inseriu nela apenas quinhentos hadiths.

O Imam Suyuti também citou a seguinte transmissão por intermédio de Atiq Ibn Yaqub:

******************************************************

O Imã Malik compilou o “Muwatta” reunindo cerca de dez mil hadiths. Depois, a cada ano, continuou a revisá-lo e verificá-lo, retirando hadiths dele. Por fim, a obra alcançou sua forma completa, tal como existe atualmente.

O Imã Malik levou quarenta anos completos para concluir definitivamente a composição desta obra. A esse respeito, foi dito:

******************************************************

Os muhaddiths disseram que o Imã Malik passou quarenta anos completos compondo esta obra. Durante todo esse longo período, ele a examinou e depurou, empenhando-se em organizá-la de modo sistemático, torná-la livre de erros e conferir-lhe ordem.

Sobre a escolha do nome desta obra, o próprio Imã Malik disse:

******************************************************

Apresentei este meu livro a setenta juristas residentes em Medina. Todos eles me aconselharam a respeito dele. Por isso, dei-lhe o nome de “Muwatta”.

Da citação do Imã Suyuti, mencionada acima por intermédio de Ibn al-Hubab, soube-se que o Imã Malik selecionou e depurou dez mil hadiths, conservando apenas quinhentos em sua obra. Contudo, por meio dessa citação, não se sabe quantos hadiths foram finalmente incluídos no “Muwatta”. Sobre isso, há a seguinte citação do Imã Suyuti, pela qual se pode conhecer o número exato. Ele a mencionou por intermédio de Abu Bakr al-Abhari:

******************************************************

No livro al-Muwatta, o número total de hadiths narrados pelo nobre Mensageiro (S), pelos nobres Companheiros e pelos Tabi‘un é de mil setecentos e vinte.

Entre eles, apenas trezentos hadiths possuem uma cadeia de transmissão autêntica; há 222 hadiths ‘mursal’, 616 ‘mawquf’ e 285 declarações dos Tabi‘un. O Imam Hazm (R) diz:

******************************************************

Contei os hadiths do livro al-Muwatta. Assim, encontrei nele pouco mais de quinhentos hadiths ‘musnad’ e cerca de trezentos hadiths ‘mursal’. Além disso, há nele cerca de setenta hadiths cuja adoção o Imam Malik (R) havia evitado.

Existem inúmeras cópias do livro al-Muwatta. Entre elas, trezentas cópias são extremamente famosas. Há uma diferença considerável no número de hadiths incluídos nessas cópias: algumas contêm relativamente mais hadiths, enquanto outras contêm menos. O Imam Suyuti mencionou especialmente três dessas cópias. São elas:

1. A cópia de Yahya ibn Yahya al-Laythi al-Andalusi: ele ouviu diretamente do Imam Malik (R) o livro al-Muwatta completo, exceto os três últimos capítulos.

2. A cópia compilada por Abu Mus‘ab Ahmad ibn Abu Bakr al-Qasim: ele era o juiz de Medina, e a cópia preparada por ele foi a última a ser apresentada ao Imam Malik (R). Ela contém cerca de cem hadiths a mais do que as outras cópias.

3. Compilado pelo Imam Muhammad ibn al-Hasan al-Shaybani: assim como estudou o conhecimento do fiqh com o Imam Abu Hanifa (r.), ele também estudou e recebeu hadith do Imam Malik (r.).
Após ouvirem o livro al-Muwatta do Imam Malik (r.), cerca de mil pessoas o transmitiram. Isso prova que, naquela época, o livro al-Muwatta gozava de grande prestígio na sociedade islâmica. O povo o recebeu com entusiasmo, e multidões de todo o mundo muçulmano afluíram ao Imam Malik (r), residente em Medina, com o propósito de ouvir diretamente dele o livro do início ao fim. Por essa razão, muitos muhaddiths consideram que a seguinte profecia do Nobre Profeta (s.), citada no Tirmidhi, se comprovou verdadeira precisamente a respeito do Imam Malik (r.). O hadith é o seguinte: o Nobre Profeta (s.) disse:

******************************************************

Não está distante o tempo em que as pessoas viajarão para terras longínquas montadas em camelos, com o objetivo de adquirir conhecimento; contudo, em lugar algum encontrarão alguém mais sábio do que o alim residente em Medina.

Os célebres muhaddiths, como Ibn Uyayna e Abd al-Razzaq, afirmaram unanimemente que o ‘alim’ mencionado neste hadith é o Imam Malik (r.). [Tirmidhi, narrado por Abu Hurayra.]

O Imam Shafi’i (r.) tinha uma opinião extremamente elevada sobre o al-Muwatta do Imam Malik (r.) e considerava-o um livro absolutamente incomparável. A seguinte declaração sua sobre esse assunto é bem conhecida. Ele disse:

******************************************************

Depois do Livro de Allah, não há na face da terra livro mais autêntico do que o livro de hadith compilado pelo Imam Malik (r.).

Sua declaração também foi transmitida nas seguintes palavras:

******************************************************

Nenhum outro livro mais próximo do Alcorão foi escrito no mundo do que o livro do Imam Malik (que Allah tenha misericórdia dele).

O famoso muhaddith de época posterior, Abu Zur’a, disse a respeito do Muwatta de Malik (que Allah tenha misericórdia dele):

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Nenhum outro livro recebeu tamanha confiança e credibilidade.

Essa coletânea de hadith compilada pelo Imam Malik alcançou tamanha popularidade que, quando o então califa abássida Al-Mansur foi a Medina para realizar o Hajj, disse ao Imam Malik:

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Decidi mandar preparar inúmeras cópias da coletânea de hadith que o senhor compilou, enviar uma para cada cidade e povoado muçulmano e ordenar a todos que pratiquem de acordo com ela. Também lhes direi que não deem atenção a nenhum outro livro, deixando este de lado.

Depois de ouvir isso, seria natural que uma onda de alegria e entusiasmo inundasse o coração do Imam Malik (r). Contudo, o próprio Imam Malik (r) não conseguiu de modo algum apreciar nem aceitar aquilo. Ele disse claramente:

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Não faça tal coisa. Pois muitas questões da Sharia já haviam chegado ao conhecimento das pessoas. Elas haviam ouvido muitos hadiths e também haviam narrado muitos hadiths; e aquilo que as pessoas haviam recebido primeiro, foi isso que aceitaram e começaram a praticar. Portanto, deixe que os habitantes de cada cidade e região pratiquem de acordo com aquilo que escolheram para si.

Depois disso, o califa Harun al-Rashid também quis tomar uma medida especial em relação ao Mu’atta de Malik (r). Ele decidiu pendurá-lo junto à Caaba e ordenar ao povo que praticasse de acordo com ele. Mas, quando expressou essa intenção ao Imam Malik (r), este disse:

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Não, não faça tal coisa. Pois os Companheiros do Mensageiro divergiram em questões secundárias e espalharam-se por diferentes cidades e regiões. E todos eles foram guiados pelo caminho correto.

É inteiramente natural haver divergências nas questões secundárias do amplo e abrangente sistema de vida do Islã. Não pode de modo algum ser correto fechar esse caminho, tentar fazer de todas as pessoas seguidoras de uma única opinião específica e definida, e usar para isso o poder do Estado. Pelo contrário, é princípio do Islã reconhecer como verdadeiras e corretas todas as opiniões baseadas nas normas islâmicas — por mais contraditórias que possam parecer externamente — nas questões secundárias. Isso também é comprovado pela declaração acima do Imam Malik (r). Não há dúvida de que esse princípio do Imam Malik (r) era extremamente racional e justo. Observando esse princípio, o Imam Ibn Abd al-Barr (r) disse:

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Para as pessoas ponderadas, sem dúvida, este é um princípio extremamente justo.

Para aqueles que se entregam a um fanatismo extremista quanto às minúcias do fiqh e são inflexíveis em impor à força aos demais a sua própria opinião particular sobre questões pormenorizadas, a atitude acima mencionada do Imam Malik contém uma lição especial.

Al-Jami de Sufyan Sauri (r)

Foi precisamente nessa época que o Imam Sufyan Sauri (r) compilou a sua obra de hadith, intitulando-a «Al-Jami». Sufyan Sauri (r) costumava assistir regularmente às sessões de ensino ministradas pelo Imam Abu Hanifa (r) e narrava hadith por meio dele. Contudo, aprendeu fiqh com Ali ibn Mashhar, eminente discípulo do Imam Abu Hanifa. Ali ibn Mashhar era um sábio especialmente proficiente tanto em fiqh quanto em hadith. A seu respeito, os especialistas escreveram:

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Ele era um especialista tanto em hadith quanto em fiqh.

O Imam Sauri compilou a sua obra Al-Jami com a ajuda e a colaboração dele. O Imam Yazid ibn Harun disse:

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Sufyan al-Thawri aprendia a jurisprudência do Imam Abu Hanifa (r) com Ali ibn Mishar; foi com a ajuda dele e por meio de conversas e discussões com ele que compôs sua obra de hadith intitulada “Al-Jami”.[********************]

Houve uma época em que o “Al-Jami” de Sufyan al-Thawri alcançou grande prestígio entre os estudiosos de hadith, sendo muito apreciado e amplamente estudado. Entre as primeiras obras de hadith que o Imam al-Bukhari estudou, esta obra “Al-Jami” ocupava um lugar de destaque.

Perguntaram ao Imam Ishaq ibn Rahwayh (r):

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Qual das duas obras é superior: o “Muwatta” do Imam Malik ou o “Al-Jami” de Sufyan al-Thawri?

Em resposta, ele naturalmente declarou o “Muwatta do Imam Malik” como a melhor obra.[********************] Contudo, o Imam Abu Dawud al-Sijistani (autor dos Sunan) tinha uma opinião diferente. Ele disse:

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De todas as obras que as pessoas compuseram até esta época, o “Al-Jami” de Sufyan al-Thawri é a melhor de todas.[********************]

Acima, foi apresentada uma breve descrição apenas de algumas das obras de hadith mais importantes compiladas até este período; contudo, a história detalhada deste século prova que, nesse período, não foram compiladas somente essas poucas obras. Pelo contrário, além delas, foram compiladas várias outras obras de hadith. No entanto, essas obras não são mencionadas em detalhe, pois foram compiladas diretamente e com especial auxílio das obras acima mencionadas.

Nesse período, surgiram dois muhaddiths de profunda erudição. É digno de nota que ambos se chamavam Abu Hafs e eram pai e filho. Como pai e filho tinham o mesmo nome, para distingui-los um do outro, o pai era chamado Abu Hafs al-Kabir (o Maior) e o filho, Abu Hafs al-Saghir (o Menor). A contribuição desses dois homens para a divulgação e a expansão da ciência do hadith nessa época é inesquecível. Eles estavam entre os principais muhaddiths de Bukhara, e foi graças aos seus esforços que a ciência do hadith se difundiu amplamente por toda a região de Bukhara, passando a ser estudada, ensinada e discutida em todos os lares. O hafiz Sam‘ani escreveu sobre Abu Hafs al-Kabir:

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Tantas pessoas transmitiram hadith dele que é impossível determinar o seu número.

De fato, seus alunos se espalharam por todas as aldeias de Bukhara. Até na aldeia chamada Khaizakhiz havia numerosos alunos seus dedicados ao estudo da ciência do hadith.

O imam Abu Hafs estudou a ciência do hadith e o fiqh com o imam Abu Yusuf e o imam Muhammad. O hafiz al-Dhahabi escreveu:

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O imam Abu Hafs al-Kabir era considerado um dos principais alunos do imam Muhammad e foi o último pilar da liderança dos sábios hanafitas de Bukhara.

Na história do Islã, este foi um período em que se realizou uma ampla produção de obras sobre vários campos importantes do conhecimento islâmico, como tafsir, hadith, fiqh e história. O historiador Suyuti escreveu: Nesse período, inúmeras pessoas que haviam estudado e sido formadas junto ao Imam Abu Hanifa e ao Imam Malik, levando no coração um vasto acervo de conhecimentos islâmicos, estabeleceram centros em diversas partes do mundo muçulmano e se dedicaram intensamente ao seu ensino e divulgação. Uma ideia clara sobre o número exato dos alunos do Imam Abu Hanifa pode ser obtida do relato abaixo, transmitido pelo Hafiz Abd al-Qadir al-Qurashi. Ele escreveu:

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Cerca de quatro mil pessoas transmitiram e divulgaram, a partir do Imam Abu Hanifa (r), suas opiniões relacionadas ao hadith e ao fiqh.[********************]

O Imam Hajjajuddin ibn al-Bazzaz al-Qurdari apresentou uma extensa lista dos numerosos alunos do Imam Abu Hanifa, dispersos por todo o mundo muçulmano. No título dessa lista, escreveu as seguintes palavras:

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Aquelas pessoas, dispersas cidade após cidade nas regiões do Oriente e do Ocidente, que transmitiram hadith e fiqh a partir do Imam Abu Hanifa.

Em seguida, ele citou os nomes de quase todas as províncias, cidades, centros urbanos e aldeias importantes do mundo muçulmano daquela época, apresentando um relato detalhado sobre quais alunos do Imam Abu Hanifa estavam empenhados na divulgação do hadith e do fiqh em cada localidade.[********************]

Sobre os sábios que, depois de receberem do Imam Abu Hanifa ensinamentos de hadith e fiqh, compuseram obras de forma independente e por iniciativa própria, o Imam Tahawi escreveu:

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Os alunos do imame Abu Hanifa que se dedicaram à composição de obras foram quarenta. Entre os dez da primeira geração, destacavam-se: o imame Abu Yusuf, Zufar, o imame Dawud al-Ta’i, o imame Asad ibn Amr, o imame Yusuf ibn Khalid al-Simti e o imame Yahya ibn Zakariya ibn Abu Za’ida. Este último, durante trinta anos, trabalhou como escriba dos primeiros mencionados.

Todos eles eram famosos muhaddiths. O imame Hasan ibn Ziyad também foi um dos mais eminentes especialistas em hadith dessa geração. Ele coletou hadiths de Ibn Jurayj. Ele próprio disse:

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Eu havia transcrito doze mil hadiths de Ibn Jurayj. Esses hadiths são extremamente necessários para os juristas.

Em suma, imediatamente após o imame Zuhri, começou a fluir uma torrente avassaladora de compilação de hadiths e composição de obras de hadith. Esse trabalho teve início em quase todas as cidades do mundo muçulmano. Entre os outros autores de obras desse período estavam:

Em Meca, Ibn Jurayj (150 H.) e Ibn Ishaq (152 H.); em Medina, Sa’id ibn Abu Aruja (156 H.), Rabi’ ibn Dubay (160 H.) e Malik ibn Anas (179 H.); em Basra, Hammad ibn Salama (176 H.) e Ibn Aruba; em Kufa, Sufyan al-Thawri (161 H.); na Síria, Abu Amr al-Awza’i (156 H.); em Wasit, Hushaym (188 H.); Layth e Ibn Lahi’a; em Khurasan, Abdullah ibn al-Mubarak (181 H.); no Iêmen, Ma’mar (153 H.); e na cidade de Rayy, Jarir ibn Abd al-Hamid (188 H.). Todos eles se dedicaram, em seus respectivos lugares, à coleta e à compilação de hadiths.

Todos eles pertenciam, aproximadamente, à mesma época e eram contemporâneos; eram os mais eminentes especialistas em hadith do segundo século da Hégira. Foi precisamente graças à sua incansável dedicação, à sua sincera e profunda devoção, e às suas pesquisas, verificações e rigorosos exames que se ergueu, segundo a perspectiva da escola hanafita, o grandioso edifício do conhecimento da jurisprudência islâmica.

Da mesma forma, os discípulos do Imam Mālik (r) espalharam-se pelo Oriente e pelo Ocidente do mundo muçulmano. Quantas eram as pessoas que aprenderam hadith com ele e se dedicaram à sua divulgação e ao seu ensino? Al-Khatīb al-Baghdādī mencionou o número de narradores como sendo 93; mas o hafiz Qādī Iyād escreveu: mais de mil e trezentos.

Entre os discípulos do Imam Mālik (r), ʿAbdullāh ibn Wahb (falecido em 195 H.), ʿAbd al-Rahmān ibn al-Qāsim (falecido em 191 H.) e Ashhab (falecido em 204 H.) foram autores altamente qualificados e de grande nível. O hafiz al-Dhahabī disse que Ibn Wahb narrava de memória cem mil hadiths. E nas obras por ele compiladas foram citados cento e vinte mil hadiths. Ibn al-Qāsim também era um hafiz de hadith e era considerado a principal autoridade entre aqueles que transmitiram e divulgaram o fiqh do Imam Mālik (r).

Fica claramente comprovado, a partir da longa discussão acima, que, antes do término do segundo século da Hégira, inúmeras compilações de hadith já haviam sido preparadas e divulgadas por toda parte. Ao mesmo tempo, os discípulos do Imam Abū Hanīfa (r) e do Imam Mālik (r), levando no peito um vasto tesouro de conhecimento dos hadiths, espalharam-se pelos diversos centros de todo o mundo muçulmano. Dedicaram-se à missão de divulgá-los e ensiná-los.

 

O estudo dos hadiths no terceiro século da Hégira

No terceiro século da Hégira, a ciência dos hadiths alcançou um desenvolvimento, progresso, expansão e amplitude muito maiores do que antes. O hadith consolidou-se como uma ciência completa. Cada uma de suas áreas foi constituída de modo completo e independente.

Os muhaddiths e narradores de hadith desse século percorreram terra e mar em busca dos hadiths; vasculharam minuciosamente cada centro do mundo muçulmano. Chegaram a cada cidade e até a cada aldeia, reunindo os hadiths dispersos. Organizaram e dispuseram separadamente os hadiths dotados de isnad completo. Deram plena importância à continuidade da cadeia do isnad e da transmissão, bem como à sua autenticidade. Para esse fim, o ʿIlm al-Asmāʾ wa al-Rijāl foi compilado e desenvolvido como uma área independente do conhecimento. A análise minuciosa da verificação dos hadiths, de sua triagem e seleção, e da determinação do verdadeiro e do falso desenvolveu-se como uma ciência independente. Os célebres Sihāh Sittah (os seis livros autênticos de hadith) também foram compilados nesse século.

Neste século, por um lado, houve extraordinárias inovações na coleta e compilação dos hadiths, na redação de obras e nos conhecimentos essenciais relacionados aos hadiths; por outro, também se manifestaram entre os muçulmanos um entusiasmo irresistível pelo estudo e pela prática dos hadiths, além de um enorme interesse. Diante de cada professor de hadith, reuniam-se e tomavam seus lugares dezenas de milhares de estudantes com o propósito de aprender hadith. Depois de mencionar os nomes de cento e trinta muhaddiths do oitavo nível, o hafiz al-Dhahabī escreveu:

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Ainda não mencionei uma grande congregação de memorizadores de hadith de igual nível. Naquela época, em cada reunião de ensino de hadith, reuniam-se dez mil ou mais estudantes com seus tinteiros. As pessoas registravam os hadiths do Nobre Mensageiro (S), dedicando-lhes plena atenção e o devido respeito. Entre elas, duzentos eram imams do hadith. Assim como estavam qualificados para emitir fatwas com base no hadith, também começaram a emitir fatwas publicamente.

A referência à presença de dez mil estudantes na citação acima talvez se aplique apenas a um centro de ensino de hadith muito comum e de nível inicial. Pois há relatos de que, nas reuniões de ensino dos grandes e eminentes imams e hafizes do hadith, reuniam-se muitas vezes mais estudantes — até cem mil. Na reunião de ensino de hadith do Imam Hafiz Abu al-Hasan Ali ibn Asim al-Wasiti, aluno do Imam Abu Hanifa (R), reuniam-se mais de trinta mil estudantes.

Relata-se um episódio relacionado à busca de conhecimento de hadith por Hasan ibn Asim. Seu pai deu-lhe cem mil moedas e disse-lhe:

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Viaja para terras estrangeiras a fim de estudar hadith; não quero ver teu rosto até que tenhas aprendido pelo menos cem mil hadiths.

Então ele partiu para terras estrangeiras e alcançou tal domínio do conhecimento de hadith que, por fim, retornou ao pai após receber títulos como ‘Musnad do Iraque’ e ‘o Imam Hafiz’, como símbolos de sua excelência em hadith. Ele também estudou hadith com o Imam Abu Hanifa (R).

Seu filho, o Imam Abu Husayn Asim ibn Ali al-Wasiti (falecido em 212 H.), foi mestre do Imam Bukhari. Hadiths narrados por ele são citados no Sahih Bukhari. Sobre ele, o Hafiz al-Dhahabi escreveu:

Ele chegou a Bagdá e começou a ditar hadiths por escrito. Como resultado, uma enorme multidão de estudantes se reuniu ao seu redor.

Abu’l-Husayn Ibn al-Mubarak (r.) disse: Mais de cem mil pessoas se reuniam em sua aula. Um homem chamado Harun subia ao topo de uma tamareira para fazer sua voz chegar a grandes distâncias. Ao estimar o número de pessoas naquela reunião, constatou-se que não era inferior a cento e vinte mil.

Yazid ibn Harun era outro discípulo do Imam Supremo Abu Hanifa. Ele era um especialista em hadith e um hafiz de um grande número de hadiths. Ele ministrava aulas de hadith em Bagdá. Setenta mil estudantes se reuniam em sua aula.

O famoso hafiz de hadith de Bagdá, Sulayman ibn Harb (falecido em 224 H.). Quarenta mil estudantes compareciam às suas aulas. Um alto minbar foi construído nas proximidades do palácio do califa al-Ma’mun. Sulayman sentava-se nele e ministrava aulas de hadith. Além do califa e dos nobres, uma multidão imensa também comparecia à reunião.

Quando o hafiz Abu Muslim al-Qadi (falecido em 292 H.), autor de Sunan, realizava em Gaman, uma praça de Bagdá, uma reunião para ditar hadiths, reunia-se uma multidão tão imensa que era necessário designar sete pessoas para, auxiliando-se mutuamente, transmitir as palavras de Abu Muslim às pessoas que estavam muito distantes. Depois do término da reunião, certa vez contou-se o número daqueles que tinham ido apenas para escrever, levando tinteiro e caneta, e constatou-se que eram nada menos que quarenta mil. Quanto aos que haviam comparecido apenas para ouvir, seu número era incontável.

Na reunião de estudo de hadith realizada pelo hafiz Ja‘far al-Faryabi (falecido em 301 H.) na estrada principal de Manar, em Bagdá, estavam presentes pelo menos trinta mil pessoas.

Quando o Imam Muhammad al-Shaybani ministrava aulas de hadith na cidade de Kufa, as vias principais da cidade ficavam fechadas devido à multidão.

O hafiz Abu Bakr ibn Abi Shaybah, mestre do Imam Ibn Majah, e seu irmão Uthman ibn Abi Shaybah eram ambos eminentes muhaddiths. Nada menos que trinta mil pessoas também se reuniam em suas aulas de hadith.

De fato, os acontecimentos históricos mencionados anteriormente permitem compreender claramente o imenso entusiasmo e a intensa sede existentes no coração da comunidade islâmica pela aquisição do conhecimento dos hadiths no terceiro século da Hégira. Além disso, é impossível determinar o número exato de pessoas que, naquela época, eram versadas em hadith e os difundiam e ensinavam no mundo muçulmano. O Imam Abu Dawud al-Sijistani escreveu: “O hafiz Ibn Ibrahim al-Farahidi (falecido em 222 H.), um dos maiores muhaddiths do terceiro século, ouviu e registrou hadiths de aproximadamente mil muhaddiths; contudo, para isso, não teve necessidade de viajar para fora de sua própria cidade.”

Por essa razão, o número de ustads dos muhaddiths desta época era enorme, verdadeiramente excessivo. Cada muhaddith tinha mais de mil ustads. Alguns tiveram ainda a oportunidade de aprender e receber hadith de quatro mil ustads. O Imam Abdullah ibn al-Mubarak disse pessoalmente: “Aprendi hadith com quatro mil muhaddiths. Entre eles, narrei hadith com o isnad de apenas mil muhaddiths.”

O hafiz Shamsuddin al-Dhahabi, em sua obra Tadhkirat al-Huffaz, depois de discorrer sobre cento e seis hafizes de hadith do nono nível, escreveu:

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Nesta época e nas proximidades dela, havia muitos imams versados no hadith do Mensageiro de Allah (s). Não consegui mencionar aqui nem sequer um décimo deles. A maioria deles foi mencionada na obra de história que escrevi.

O Imam Bukhari também foi o maior muhaddith deste terceiro século. Ele escreveu:

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Ouvi e escrevi hadith de mil e oitenta ustads. Cada um deles era um grande muhaddith.

 

Cidades do terceiro século abundantes em hadith

No terceiro século hijri, a ciência do hadith alcançou um desenvolvimento extraordinário. Naquela época, em quase todas as grandes cidades do mundo muçulmano — e até nas aldeias distantes das cidades — praticava-se amplamente o estudo e o ensino do hadith. Entre elas, algumas cidades eram os maiores centros do hadith. Nelas, assim como um grande número de muhaddiths locais transmitia o hadith, os muhaddiths que o investigavam e compilavam também iam a essas cidades para ouvi-lo e registrá-lo por escrito. O número das cidades e lugares percorridos pelos muhaddiths naquela época com o objetivo de coletar hadiths não seria inferior a cinquenta. Hafiz Zahabi escreveu uma obra independente mencionando os nomes dessas cidades e lugares, bem como suas descrições. Seu título é:

******************** — Cidades ricas em hadith.

Entre esses centros do hadith, algumas cidades eram ainda mais importantes. Mencionando seus nomes e características, o Imam Ibn Taymiyya escreveu:

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Entre esses centros do hadith, algumas cidades eram ainda mais importantes. Mencionando seus nomes e características, o Imam Ibn Taymiyya escreveu:

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Meca-Medina, Kufa-Basra e Síria — essas cinco cidades eram o berço das ciências e do conhecimento islâmicos; foi dessas cidades que brotou o fluxo abundante do conhecimento transmitido pelo Profeta — a fé, o Alcorão e o conhecimento relacionado à sharia.********************

Desejamos apresentar aqui uma descrição dessas cinco cidades.

Medina

Medina foi o centro da última fase da vida ativa do Profeta do mundo e a Casa da Hégira; somente esta cidade teve a honra de ser a fonte e a origem do conhecimento profético. Por isso, outro nome desta cidade é Darus-Sunnat, e não pode haver dúvida de que este é um nome muito apropriado. Desde a época do nobre Profeta (s) até o califado de Hazrat Ali (ra), ela foi o centro do conhecimento e da prática de todo o mundo muçulmano. Posteriormente, essa posição permaneceu intacta até a época do Imam Malik (r). Entre os habitantes desta cidade estiveram Nafi, Ibrahim ibn Sa’d, Sulayman ibn Bilal e Isma’il ibn Ja’far. Mais tarde, vieram o hafiz Abu Mus’ab Zuhri, o hafiz Ibrahim ibn al-Mundhir e o hafiz Ishaq ibn Musa al-Ansari.

Sobre o hafiz Abu Mus’ab Zuhri, o hafiz Dhahabi escreveu:

******************************************************

Ele era um narrador de hadith digno de confiança e confiável, mestre de hadith para os habitantes de Medina, juiz e muhaddith.

Ele nasceu no ano 150 da Hégira e faleceu no ano 242 da Hégira. Foi mestre de cinco dos seis compiladores das Sihah Sitta, com exceção do Imam Nasa’i.

Sobre o hafiz Ibrahim, Dhahabi escreveu:

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Imame do hadith, grande muhaddith e narrador confiável de hadith.

Foi mestre do imame Bukhari e do imame Nasai. Faleceu em Medina no ano 236 da Hégira.[********************] Sobre Hafiz Ishaq, Zahabi disse:

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Jurista, hafiz de hadith e narrador confiável de hadith.

Foi mestre de hadith do imame Muslim, Tirmizi, Nasai e Ibn Majah. Faleceu no ano 244.[********************]

Os três eram grandes hafizes e mestres de hadith. Além deles, Bakr ibn Abd al-Wahhab Madani (falecido em 250 da Hégira), Hasan ibn Dawud (falecido em 247 da Hégira) e Muhammad ibn Ubayd Madani foram muhaddiths notáveis.

Meca

Foi nesta cidade que começou a revelação ao nobre Mensageiro (S). Foi aqui que ele foi investido como profeta e mensageiro. Depois, o nobre Profeta (S) passou nesta cidade treze longos anos, em meio a lutas e conflitos mortais. Na época dos Companheiros, o estudo do hadith era relativamente pouco praticado aqui. Nos últimos tempos dos Companheiros e durante as épocas dos tabi’in e dos tabi’ al-tabi’in, esta cidade foi um centro de residência de muhaddiths eminentes. Mujahid, Ata, Sa’id ibn Jubayr e Ibn Abi Mulayka viveram aqui e se dedicaram ao ensino e à transmissão de hadith. Em épocas posteriores, viveram aqui muhaddiths renomados como Abd Allah ibn Abi Najih, Ibn Qasim, Hanzala ibn Uyayna, Abu Sufyan, Ibn Jurayj, Muslim Jangi, Fudayl ibn Uyayna, Abu Abd al-Rahman Muqri, Azraqi, Humaydi e Sa’id ibn Mansur.[********************]

Embora, no terceiro século da Hégira, o estudo da ciência do hadith na cidade de Meca não fosse tão amplo quanto em Medina, não há dúvida de que a lâmpada do hadith ainda ardia ali. Nesse século, vários muhaddiths viviam ali, ocupados em ensinar e divulgar o hadith. Eles eram:

1. Hafiz al-Halwani, Imam Abu Muhammad Hasan ibn Ali ibn Muhammad al-Khallal. Ele passou os últimos anos de sua vida em Meca. Tornou-se famoso pelo nome de “Muhaddith de Meca”. Hafiz al-Dhahabi escreveu sobre ele:

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Ele compilou livros de hadith e, para isso, suportou muitas dificuldades e dedicou grande esforço.

Ibn Adi mencionou que ele compilou um livro de hadith chamado “Kitab al-Sunan”. Ele faleceu no ano 242 da Hégira.

2. Hafiz Zubayr ibn Bakkar — Abu Abdullah ibn Abu Bakr al-Qurashi. Hafiz al-Dhahabi iniciou sua exposição sobre ele dizendo:

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Imam do hadith, hafiz, especialista em genealogia e juiz de Meca.

Ele foi mestre do imame Ibn Mājah. Faleceu em Meca, no ano 256 da Hégira.********************

3. Hafiz Salām ibn Shubayb — Abū ʿAbd al-Raḥmān al-Hujūrī al-Masmūʿī. Na realidade, era natural de Nishapur. Mais tarde, estabeleceu residência permanente em Meca. Abū Nuʿaym al-Isfahānī disse a seu respeito:

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Ele era um dos narradores de hadices mais confiáveis; muitos imames e pessoas das primeiras gerações narraram hadices dele.

Al-Ḥākim escreveu:

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Ele era o muhaddith dos habitantes de Meca, e todos concordavam quanto à sua probidade e à profundidade de seu conhecimento.

Ele faleceu no ano 246 da Hégira.********************

4. Hafiz Yaqub ibn Humayd — inicialmente era residente de Medina; depois passou a viver em Meca. Hafiz al-Dhahabi escreveu sobre ele:

******************************************************

Imame do hadith, muhaddith eminente, sábio de Medina, residente em Meca.

O Imame Bukhari foi seu aluno. Ele faleceu no ano 241 da Hégira.

Esses quatro eram hafizes do hadith. Além deles, havia muitos xeiques, mestres do hadith.

Kufa

O historiador Ibn Sa’d escreveu, ao tratar da demonstração das características da cidade de Kufa no âmbito do conhecimento do hadith:

******************************************************

Trezentos Companheiros que haviam prestado o juramento de lealdade para morrer sob a árvore e setenta Companheiros dentre os participantes da batalha de Badr residiam nesta cidade de Kufa.[********************]

Entretanto, o hafiz Abu Bashr Dulabi citou, com uma cadeia de transmissão confiável, o seguinte relato de Qatada:

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Mil e cinquenta Companheiros do Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) chegaram à cidade de Kufa. Além disso, vinte e quatro Companheiros dentre os participantes da batalha de Badr também haviam chegado.[********************]

Nesta cidade, havia amplo ensino e estudo do hadith. O tabi‘i Ibn Sirin disse:

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Quando cheguei a Kufa, havia ali quatro mil estudantes de hadith dedicados ao estudo.[********************]

A compilação do hadith por capítulos começou aqui pela primeira vez. A primeira coletânea de hadiths sahih foi compilada por escrito justamente aqui. Como o Imam Abu Hanifa (que Allah tenha misericórdia dele) era habitante desta cidade, foi no ambiente desta cidade que a jurisprudência islâmica, baseada no hadith, nasceu e se desenvolveu. O hafiz do hadith Abu Bakr ibn Abi Shayba residia nesta cidade. O hafiz al-Dhahabi escreveu sobre ele:

******************************************************

Abu Bakr era um hafiz de hadiths, um narrador de hadiths incomparável, exemplar e confiável, além de uma pessoa dotada de extraordinária competência.

O imã al-Bukhari, o imã Muslim, o imã Abu Dawud e Ibn Majah foram seus ilustres alunos e discípulos. Seus livros de hadiths contêm numerosos hadiths recebidos dele. O imã Abu Zur’ah disse a seu respeito:

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Nunca vi ninguém que memorizasse mais hadiths do que Ibn Abi Shaybah.

Ele faleceu no ano 235 da Hégira. Deixou como lembrança algumas obras que havia compilado.

O shaykh al-Islam al-Ashajj Abu Sa’d Abdullah também vivia nesta cidade. Foi dele que Abu Bakr ibn Abi Dawud escreveu trinta mil hadiths em um único mês. O imã Ibn Majah também citou em seu livro muitos hadiths recebidos dele. O sábio al-Dhahabi escreveu a seu respeito:

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Al-Ashajj, imame do hadith, líder dos muçulmanos, hafiz do hadith, o maior muhaddith de Cufa e autor de obras sobre a exegese do Alcorão e outros assuntos.

Todos os autores dos Sihah Sittah foram seus alunos no estudo do hadith. Ele faleceu no ano 247 da Hégira, com mais de noventa anos de idade.[********************]

O hafiz do hadith, Uthman ibn Abu Shaybah, também era residente desta cidade. Ele era o irmão mais velho do anteriormente mencionado Abu Bakr ibn Abu Shaybah. O hafiz al-Dhahabi escreveu a respeito dele:

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Ele era, assim como seu irmão Abu Bakr, um dos maiores especialistas em hadith e um imame do hadith.[********************]

O hafiz Muhammad ibn Abdullah ibn Numayr, ‘Durrat al-Iraq’ (a joia do Iraque), também era residente de Cufa. Ali ibn al-Husayn ibn al-Junayd disse:

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‘Ele reunia conhecimento, inteligência, a Sunnah e piedade; não encontrei ninguém igual a ele na cidade de Cufa.[********************]

O Imame Bukhari, o Imame Muslim, o Imame Abu Dawud, Ibn Majah e outros autores das coletâneas Sihah foram seus alunos. No Sahih Muslim, foram citados 536 hadiths transmitidos por sua autoridade. Na obra de Ibn Majah também foram recolhidos e citados muitos hadiths recebidos dele.

Abu Kuraib, o muhaddith de Kufa, era um célebre hafiz de hadiths da cidade de Kufa. Todos os muhaddiths que compilaram as Sihah Sittah foram seus alunos. Ibn Uqdah era um especialista na ciência dos hadiths. Ele disse: “Em Kufa, foram transmitidos trezentos mil hadiths através de Abu Kuraib. Somente Musra ibn Ishaq recebeu dele cem mil hadiths.” No Sahih Bukhari, foram aceitos 75 hadiths transmitidos por sua autoridade, e no Sahih Muslim, 500. Ele faleceu no ano 243 da Hégira, com aproximadamente 87 anos.

Hannad, o xeique de Kufa, também era um grande muhaddith de Kufa. O hafiz Dhahabi teceu grandes elogios a ele e reconheceu sua superioridade no conhecimento dos hadiths e na taqwa. Todos os compiladores das Sihah Sittah aprenderam hadiths com ele. Ele faleceu no ano 243, aos 91 anos.

O hafiz Walid ibn Shuja era um célebre muhaddith de Kufa. O Imame Muslim, Abu Dawud, Tirmidhi e Ibn Majah foram seus alunos. Yahya ibn Mu’in disse: “Ele possuía cem mil hadiths compilados, transmitidos através de narradores confiáveis.” O hafiz Dhahabi o qualificou como “um grande hafiz de hadiths e um muhaddith amante da verdade”. Ele faleceu no ano 243 da Hégira.

O hafiz Harun ibn Ishaq al-Hamdani era um dos muhaddiths de Kufa. Foi mestre do Imame Bukhari, de Tirmidhi, Nasa’i, Ibn Majah e de outros autores de obras. Ele faleceu no ano 258.

Além desses poucos muhaddiths eminentes e célebres, no século III havia na cidade de Kufa muitos eruditos, professores e transmissores de hadiths. Em várias obras das Sihah Sittah, especialmente no Sahih Ibn Majah, foram recebidos muitos hadiths transmitidos por eles.

Basra

Até o século III da Hégira, esta cidade era considerada um centro do conhecimento e das ciências islâmicas. Nos primeiros tempos, Hazrat Abu Musa al-Ash’ari, Hazrat Imran ibn Husayn, Hazrat Ibn Abbas e muitos outros companheiros do Profeta viviam nesta cidade. Por fim, Hazrat Anas (que Allah esteja satisfeito com ele) também veio para cá e começou a residir nela. Entre os tabi’un, Hasan al-Basri, Ibn Sirin e Abu al-‘Aliya, e depois deles Qatada, Ayyub, Thabit al-Bunani, Yunus e Ibn Awn, e, depois destes, Hammad ibn Salama, Hammad ibn Zayd e os muhaddiths que foram seus alunos passaram a vida nesta cidade.

Na cidade de Basra havia se reunido um número tão grande de mestres do hadith que o hafiz Muslim ibn Ibrahim al-Basri disse:

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Escrevi hadiths a partir de oitocentos mestres de hadith, e, para isso, não precisei atravessar sequer uma ponte.[********************]

Entre os hafizes e mestres de hadith que estavam presentes em Basra até o terceiro século, mencionaremos aqui os nomes e uma breve apresentação dos principais:

1. O hafiz Tahhan — Hasan ibn Mudrak ibn Bashir al-Sadusi. Ele foi mestre do Imam Bukhari, de Nasa’i e de Ibn Majah. Ibn Adi disse a respeito dele:

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Ele era um dos mais destacados hafizes de hadith da cidade de Basra.[********************]

2. O hafiz Zayd ibn Akhzam — Abu Talib al-Ta’i al-Basri. Ele foi mestre de todos os demais eruditos do hadith entre os autores do Sihah al-Sittah, exceto o Imam Muslim. O hafiz al-Dhahabi referiu-se a ele como “hafiz e imam do hadith”.[********************]

3. Hafiz Abbas Anrabi. O erudito al-Dhahabi mencionou-o como um Hafiz e imame de reconhecida autoridade no hadith. Todos os compiladores do Sihah-Sittah receberam hadith dele e citaram-nos em suas respectivas obras.********************

4. Hafiz Abbas al-Buhrani ibn Yazid ibn Abu Habib al-Basri. Hafiz al-Dhahabi mencionou-o como ******************** e afirmou que ele possuía a mais elevada cadeia de transmissão do hadith e profunda compreensão a seu respeito. Faqih Ibn al-Jarrah, Ibn Yahya ibn Sa’id al-Qattan, Sufyan ibn Uyayna, Abd al-Razzaq e outros célebres muhaddithun ouviram hadith dele. Quando veio de Buhrān para Hamadan, transmitiu hadith a partir de suas próprias numerosas compilações de hadith. Ensinava hadith em Hamadan, Bagdá, Isfahan e outros lugares. Faleceu no ano 258 da Hégira.********************

5. Hafiz Bidya Abdullah ibn Ishaq Abu Muhammad al-Jawhari. Foi um célebre discípulo do Imã Abu Hanifa. O Imã Abu Dawud, al-Tirmidhi, al-Nasa’i e Ibn Majah — todos eles — aprenderam hadith com ele. Era um célebre Hafiz do hadith. Faleceu no ano 258 da Hégira.********************

6. Hafiz Aqaba ibn Mukarram ibn Aflah era um célebre Hafiz do hadith.******************** O Imã Muslim, Abu Dawud, al-Tirmidhi e Ibn Majah foram seus célebres discípulos no hadith. Faleceu no ano 243.********************

7. Hafiz Umar ibn Shibah ibn Ubaydah al-Basri. Nas palavras de Hafiz al-Dhahabi, ele era ******************** um grande Hafiz do hadith, um grande erudito, e um narrador de hadith fiel e digno de confiança. Ibn Majah foi seu destacado discípulo no hadith. Faleceu no ano 262, aos 89 anos de idade.

8. Hafiz Amr ibn Ali al-Fallas. Hafiz al-Dhahabi escreveu a seu respeito: ******************** um grande Hafiz do hadith e narrador digno de confiança. Todos os muhaddithun compiladores do Sihah-Sittah foram seus discípulos. Faleceu no ano 249.********************

9. O Imã Abu Bakr Muhammad ibn Bashshar ibn Uthman al-Basri. Todos os muhaddithun compiladores do Sihah-Sittah foram seus discípulos. Faleceu no ano 252. No Sahih al-Bukhari, foram aceitos 205 hadith dele, e no Sahih Muslim, 406.********************

10. Hafiz Muhammad ibn al-Muthanna. Era um grande Hafiz do hadith. Hafiz al-Dhahabi mencionou-o como ******************** um Hafiz do hadith, de autoridade incontestável e reconhecida, e um muhaddith de Basra. Foi o mestre de todos os muhaddithun das obras do Sihah-Sittah. No Sahih al-Bukhari, foram citados 103 hadith narrados por ele, e no Sahih Muslim, 700. Muitos hadith foram aceitos dele na obra de Ibn Majah.********************

11. O hafiz Muhammad Bukhari — Abu Abdullah ibn Ma’mar al-Basri. Ele era um renomado hafiz de hadith e um narrador confiável. Todos os compiladores da Sihah-Sittah receberam hadith dele.[********************]

12. O hafiz Nasr ibn al- Abu Amr al-Azdi al-Basri. Ele foi o mestre de todos os autores da Sihah-Sittah. Quando o califa al-Musta’in Billah quis nomeá-lo para o cargo de juiz, ele suplicou a Allah com voz angustiada:

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Ó Allah! Se houver algum bem para mim junto de Ti, leva-me para junto de Ti.

Allah aceitou a sua súplica. Depois de suplicar, ele adormeceu e não despertou. Isso ocorreu no mês de Rabi al-Awwal do ano 250 da Hégira.[********************]

13. O hafiz Yahya ibn Hakim Abu Sa’id al-Basri. Muitos hadiths narrados por ele foram citados no Sahih de Ibn Majah. Abu Dawud, al-Nasa’i e Ibn Majah — os três foram seus alunos. Ele foi descrito como um hafiz de hadith confiável e cuidadoso, ********************.[********************]

Além deles, neste século havia muitos outros muhaddiths renomados na cidade de Basra.

Bagdá

Durante o reinado dos califas abássidas, a cidade de Bagdá era o principal centro da cultura, da civilização e das ciências dos muçulmanos. O hafiz de Nishapur escreveu sobre esta cidade:

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Esta cidade era um centro de hadith e de conhecimento; nela viviam numerosos muhaddiths e eminentes homens sábios.[********************]

Não se sabe de nenhum companheiro do Profeta que tenha falecido em Bagdá. Contudo, uma grande comunidade de tabi’in e tabi’ al-tabi’in viveu ali, e foi nessa cidade que eles deram o último suspiro de suas vidas.[********************] Nesta cidade viviam vários grandes estudiosos de hadith, entre os quais estava o imã Abu Yusuf (que Allah tenha misericórdia dele). O imã Ahmad ibn Hanbal (que Allah tenha misericórdia dele) começou a aprender hadith primeiramente com ele.[********************]

O imã Asad ibn Amr também era um grande estudioso de hadith e vivia nessa cidade. Sobre ele, foi dito:******************************************************

‘Entre os habitantes da cidade de Rayy, depois do imã Abu Hanifa (que Allah tenha misericórdia dele), ninguém possuía mais hadiths do que o imã Asad.[********************]

Em Bagdá, o ensino e o estudo de hadith eram amplamente praticados. Diante de cada muhaddith reuniam-se milhares de estudantes com o objetivo de aprender hadith.

O imã Ahmad ibn Hanbal (que Allah tenha misericórdia dele) era um habitante desta própria cidade.[********************] O imã Abu Thawr (falecido em 240 H.), o imã Dawud al-Zahiri (falecido em 270 H.) e o imã Muhammad ibn Jarir al-Tabari (falecido em 310 H.) também eram habitantes de Bagdá. O mundialmente famoso tafsir do imã al-Tabari foi escrito nesta cidade.[********************]

Damasco

Damasco era a capital dos califas omíadas, uma cidade civilizada pertencente à Síria. Houve um tempo em que dez mil Companheiros viviam na Síria. O historiador Ibn Asakir escreveu:

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Na Síria havia dez mil pessoas cujos olhos foram agraciados com a visão do Nobre Mensageiro (s). [********************]

Já foi mencionado anteriormente que, durante seu califado, Hazrat Umar Faruq (ra) enviou à Síria Hazrat Muadh ibn Jabal, Ubadah ibn al-Samit e vários outros ilustres Companheiros, com o objetivo de divulgar amplamente e ensinar o Alcorão e os hadiths. Inicialmente, o povo da Síria aprendeu o Alcorão e os hadiths diretamente com eles, e—

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por meio deles e de suas fontes, o conhecimento do Alcorão e dos hadiths chegou a todos os muçulmanos. [********************]

Durante o governo do califa omíada Abd al-Malik, havia em Damasco um amplo estudo das ciências islâmicas. Também na época dos tabeins e dos tabe-tabeins havia ali numerosos muhaddiths e juristas. Depois de mencionar isso, o hafiz al-Dhahabi escreveu:

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Damasco era o centro do Alcorão, dos hadiths e do fiqh. Contudo, nos séculos IV e V da Hégira, o estudo dos hadiths ali diminuiu consideravelmente.

O renomado muhaddith e jurista Imam Awza‘i era residente desta cidade. Dois renomados muhaddiths, chamados Hisham e Dahim, viviam ali e ministravam amplamente aulas de hadith. O Imam Ibn Majah (r.) participou dessas aulas e, a partir dali, coletou um grande número de hadiths. Os Imams Bukhari, Abu Dawud e Nasa’i também foram seus alunos. O hafiz Dahim faleceu no ano 245 da Hégira, e Hisham faleceu em Damasco.

O estudo dos hadiths na África

Egito

O Egito ocupava, nessa época, uma posição especialmente importante no estudo dos hadiths e na divulgação de seu ensino. Pelo menos trezentos Companheiros chegaram a este lugar. O hafiz Dhahabi escreveu:

Um grande grupo dos Companheiros chegou aqui e começou a estabelecer-se amplamente. Durante a era dos tabi‘in, o estudo dos hadiths teve início aqui. Mais tarde, na época de Amr ibn al-Harith, Yahya ibn Ayyub, Hayat ibn Shurayh, al-Layth ibn Sa‘d e Ibn Lahi‘a, o estudo dos hadiths assumiu uma dimensão muito mais ampla do que antes. Esse estudo continuou até a época de Ibn Wahb, do Imam al-Shafi‘i, de Ibn al-Qasim e de seus discípulos.

Depois de ser escolhido como califa, Hazrat Umar ibn Abd al-Aziz nomeou Yazid ibn Abi Habib para emitir fatwas no Egito com base nos hadiths. Foi ele quem familiarizou o povo daquela região com os hadiths e o fiqh e o instruiu nesses conhecimentos. O hafiz Jalaluddin Suyuti escreveu sobre Yazid ibn Abi Habib:

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Foi ele quem, pela primeira vez no Egito, divulgou e propagou os hadiths e ensinou as questões relativas ao halal e ao haram. Antes dele, os habitantes daquela região apenas narravam e discutiam hadiths relacionados ao incentivo quanto à vida futura, às guerras e às fitnas.

Naquela época, havia no Egito vários eminentes muhaddiths. Aqui serão mencionados os nomes e breves biografias de alguns deles:

1. Harmala (nascido em 162 H.; falecido em 243 H.). O hafiz Dhahabi escreveu que ele narrou cerca de cem mil hadiths através de Abdullah ibn Wahb. O Imām Muslim e Ibn Mājah foram seus alunos. O erudito Taqi al-Din al-Subki escreveu:

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Ele era um eminente especialista em hadith e imām, de elevadíssima posição.

2. Rabi al-Muradi. Foi um dos maiores muhaddiths do Egito (nascido em 174 H.; falecido em 270 H.). O hafiz Dhahabi escreveu sobre ele:

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Ele era um hafiz de hadith, imam e o maior muhaddith da região do Egito.

Imam Abu Dawud, al-Nasa’i e Ibn Majah foram seus alunos. Khalili escreveu sobre ele:

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Um narrador confiável de hadith e um muhaddith reconhecido por consenso.

3. Hafiz Muhammad ibn Rimah ibn Muhajir. Ele era um grande hafiz de hadith. Imam Muslim e Ibn Majah foram seus alunos no conhecimento dos hadiths. Ibn Yunus disse sobre ele:

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Um narrador confiável de hadith e um muhaddith de grande renome.

Imam Bukhari recebeu hadith dele. O Sahih Muslim contém 161 hadiths narrados por ele. Muitos hadiths narrados por ele também foram citados no livro Sunan Ibn Majah.

4. Hafiz Yahya ibn Sareh al-Qurayshi. Ele era um grande hafiz de hadith.

Além disso, no Egito e em outras regiões da África, prosseguiram amplamente as atividades de ensino e aprendizagem dos hadiths. Em quase todos os lugares, muhaddiths competentes e profundamente eruditos estavam empenhados nessa nobre missão.

 

Alguns muhaddiths eminentes do terceiro século hijri

No terceiro século, surgiram vários muhaddiths de imensa erudição e de fama extraordinária em todo o mundo muçulmano. Depois de discutir os lugares e cidades ricos em hadiths, é absolutamente necessário tratar separadamente desses eminentes estudiosos dos hadiths. Caso contrário, não será possível formar uma compreensão clara e completa da ampla disseminação dos hadiths e do extraordinário desenvolvimento que alcançaram nesse século. Nesta etapa, os muhaddiths cujos nomes merecem especial destaque são: (1) Ali ibn al-Madini; (2) Yahya ibn Mu’in; (3) Abu Zur’ah al-Razi; (4) Abu Hatim al-Razi; (5) Muhammad ibn Jarir al-Tabari; (6) Ibn Khuzaymah; (7) Muhammad ibn Sa’d; (8) Ishaq ibn Rahwayh; (9) Imam Ahmad ibn Hanbal (r.).

Ali ibn al-Madini (r.)

Ali ibn al-Madini era um grande muhaddith. A lista daqueles que foram seus mestres no estudo dos hadiths é extensa. Ao examiná-la, pode-se facilmente compreender que ele percorreu diversos países com um entusiasmo incansável pelo estudo dos hadiths. Percorreu Meca, Medina, Bagdá, Kufa e outros centros de hadiths e cidades ricas em hadiths, onde ouviu e coletou os hadiths do Mensageiro (s.). Na cidade do Iêmen, passou três anos consecutivos com esse objetivo. Contudo, durante sua permanência no Iêmen, ele não era um estudante iniciante de hadiths; pelo contrário, antes disso já havia acumulado em seu coração um vasto tesouro de hadiths. Ele recebeu hadiths de grandes muhaddiths, como Abdullah ibn Ja’far, Hammad ibn Zayd, Abu Dawud al-Tayalisi e Sa’id ibn Amir.

Ele adotava extrema cautela ao aceitar hadiths. Por intermédio de um narrador chamado Ubbad ibn Suhayb, havia coletado trinta mil hadiths; porém, mais tarde, quando surgiram dúvidas sobre sua veracidade e confiabilidade, rejeitou-os e desconsiderou-os todos.

Ele era um autor habilidoso e escreveu numerosas obras sobre os diversos aspectos da ciência relacionada aos hadiths. Antes dele, nenhum outro muhaddith havia escrito obras sobre esses assuntos.

Ele nasceu na cidade de Basra no ano 161 da Hégira e faleceu no ano 234 da Hégira.[********************]

Yahya ibn Mu’in (r)

Yahya ibn Mu’in foi uma personalidade ímpar no conhecimento do hadith. Logo após obter sua educação inicial, voltou sua atenção para o estudo do hadith e, por isso, sacrificou generosamente toda a sua vida e seus bens. Gastou no estudo do hadith cem mil moedas que havia recebido de seu pai. Por fim, tornou-se tão pobre e desprovido de recursos que nem sequer lhe era possível obter um par de sapatos. Estudou hadith com os seguintes ilustres muhaddiths: (a) Abdus-Salam ibn Harb (b) Abdullah ibn al-Mubarak (c) Yahya ibn Sa’id al-Qattan (d) Waki’ ibn al-Jarrah (e) Abdur-Rahman ibn Mahdi (f) Sufyan ibn Uyayna (g) Hisham ibn Yusuf e muitos outros.[********************]

Yahya ibn Mu’in não se limitava a ouvir os hadiths; escrevia-os imediatamente. Ali ibn al-Madini disse: Ninguém registrou tantos hadiths quanto Ibn Mu’in. O próprio Ibn Mu’in disse:

Registrei com minhas próprias mãos centenas de milhares de hadiths que ouvi. Ele não se limitava a registrá-los; depois de escrever cada hadith, refletia profundamente sobre ele e o estudava, verificando e examinando sua autenticidade.[********************]

O Imam Ahmad ibn Hanbal (r) disse:

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Aquilo que Yahya ibn Mu’in não considera um hadith, na realidade não é hadith.

Faleceu em 233 da Hégira, na cidade de Medina. Sua extraordinária contribuição para a ciência da crítica dos hadiths será discutida posteriormente.

Abu Zur’a al-Razi (que Deus tenha misericórdia dele)

Abu Zur’a era um famoso hafiz de hadiths. Com exceção do Imam Abu Dawud, os outros cinco muhaddiths dos Sihah al-Sitta foram seus discípulos. Sobre ele, o hafiz al-Dhahabi escreveu:

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Abu Zur’a era incomparável em memória, talento e inteligência, conhecimento islâmico, observância da religião e prática correta.

Para adquirir conhecimento dos hadiths, Abu Zur’a percorreu Meca, Medina, o Iraque, a Síria, a Jazira, o Coração e o Egito. Ele escreveu hadiths com cem mil cadeias de transmissão. Eis o testemunho dos muhaddiths e historiadores sobre ele:

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Ele guardava de memória setecentos mil hadiths.

Abu Zur‘a nasceu no ano 200 da Hégira e faleceu no ano 264 da Hégira.

Abu Hatim ar-Razi (r.)

O imã Abu Hatim ar-Razi era um especialista excepcional em hadith. Era um muhaddith do mesmo nível que o imã Bukhari. Nasceu no ano 195 da Hégira e, já no ano 209, partiu para terras estrangeiras com o objetivo de estudar e coletar hadiths. Passou um longo período nessa viagem. Viajou a pé do Bahrein ao Egito, do Egito a Ramla, de Ramla a Damasco e, de lá, a Tarsum. Depois, retornou a Hims e chegou a Meca. Partindo dali, alcançou o Iraque. Quando concluiu essa longa viagem, tinha apenas 20 anos de idade. Certa vez, disse a seu filho Abdur-Rahman:

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Ó meu querido filho! Em busca do hadith, percorri a pé mais de mil furlongs.

Ao chegar ao Iraque, permaneceu oito meses na cidade de Basra. Ali, por ter caído em extrema dificuldade financeira, foi obrigado a vender até as roupas que usava. Por fim, foi obrigado a jejuar. Contudo, mesmo afligido por essa pobreza severa e extrema indigência, continuou ininterruptamente seus estudos de hadith. Na verdade, foi suportando sofrimentos desse tipo que estudou a ciência do hadith e, finalmente, conseguiu alcançar a posição de um célebre hafiz de hadith e de um imã de grande erudição.

Muhammad ibn Jarir at-Tabari (r.)

Ibn Jarir foi um célebre estudioso de hadith e autor de um tafsir do Nobre Alcorão. Nasceu no ano 224 da Hégira. É considerado um muhaddith do nível dos imãs Tirmidhi e Nasa’i. Reuniu e estudou um grande número de hadiths junto aos mestres dos imãs Bukhari e Muslim. Grandes muhaddiths também estudaram e transmitiram hadiths dele. Entre eles, destacam-se os muhaddiths Ahmad ibn Kamil, Muhammad ibn Abdallah ash-Shafi‘i e Makhlad ibn Ja‘far. Ibn Jarir compôs numerosas obras valiosas e extensas sobre tafsir, hadith e diversos temas do Islã. Ibn Kathir mencionou que ele compilou uma obra de hadith. Faleceu no ano 310 da Hégira.

Ibn Khuzayma (r)

Seu nome completo era Muhammad ibn Abu Bakr ibn Khuzayma Nishapuri. Ele era um grande imã do hadith. Com o propósito de estudar hadith, viajou para Rayy, Bagdá, Basra, Kufa, Síria, Jazira, Egito, Wasit e outros lugares, ouvindo hadith de numerosos renomados estudiosos do hadith. Entre seus mestres, destacam-se Ishaq ibn Rahwayh e Muhammad ibn Humayd ar-Razi, entre outros.

Ele era especialmente entusiasmado e resoluto no estudo do hadith. O imã Darqutni disse a respeito dele:

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Ibn Khuzayma era um imã renomado do hadith e um narrador confiável de hadith. Não há ninguém que se compare a ele.

Ele escreveu numerosas obras sobre hadith e questões e preceitos religiosos. Faleceu no ano 311 da Hégira.[********************]

Muhammad ibn Sa’d (r)

Embora Ibn Sa’d fosse famoso como um grande historiador e biógrafo, também era um grande muhaddith do terceiro século da Hégira. Nasceu na cidade de Basra no ano 168 da Hégira. Ouviu hadith dos grandes muhaddiths de Basra. Depois, viajou para Kufa, Wasit, Bagdá, Meca e Medina, Síria, Iêmen, Egito e outras grandes cidades e centros do mundo muçulmano, coletando e estudando uma enorme quantidade de hadiths. Muitos muhaddiths renomados também estudaram e narraram hadith sob sua autoridade. Foi dito a respeito dele:

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Ele possuía um vasto conhecimento. Foi autor de numerosas obras. Suas obras tratavam de hadith, fiqh e outros assuntos.

Ibn Sa’d era um muhaddith muito estimado pelos narradores de hadith. Ele não se envolveu em nenhuma das tribulações da sociedade de seu tempo. Assim, foi-lhe possível disseminar e ampliar o conhecimento, bem como preservar o conhecimento anterior para a sociedade humana das gerações posteriores.

Ishaq ibn Rahwayh (r)

Ishaq foi um dos maiores muhaddiths da era dos tabi’ al-tabi’in. Primeiro, dirigiu-se a Abdullah ibn Mubarak com o propósito de estudar hadith. Contudo, sua pouca idade tornou-se um obstáculo nesse caminho. Depois, saiu em busca de outros centros de estudo de hadith. Esses centros ficavam distantes uns dos outros centenas ou milhares de milhas. Ibn Rahwayh iniciou suas viagens por esse caminho de grandes distâncias e estudou e coletou hadith junto a grandes eruditos do hadith. Entre as províncias do mundo muçulmano onde se localizavam esses centros de hadith, destacavam-se o Iraque, o Hijaz, o Iêmen, Meca e a Síria. Em cada uma dessas cidades havia centenas de centros de estudo de hadith. O Imam Ishaq esteve presente em quase todos esses centros e estudou e coletou o patrimônio dos hadiths.

Sua extraordinária e aguçada memória tornou esse esforço e dedicação duas vezes mais eficaz e benéfico. Ele sabia de cor inúmeros hadiths. Recitava de memória vários milhares de hadiths para seus alunos e fazia com que eles os escrevessem. Por isso, nunca precisava consultar um livro. Ele mesmo disse:

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Tudo o que ouço, memorizo completamente, e aquilo que memorizo jamais esqueço.

Ele nasceu no ano 161 da Hégira e faleceu em Nishapur, no ano 238 da Hégira, aos 77 anos de idade.[********************]

Imam Ahmad ibn Hanbal (que Allah tenha misericórdia dele)

Imam Ahmad ibn Hanbal (que Allah tenha misericórdia dele) foi um muhaddith de competência extraordinária e incomparável no conhecimento dos Hadiths. Nasceu em Bagdá no ano 164 da Hégira. Inicialmente, começou a frequentar o círculo de Imam Abu Yusuf. Mais tarde, no ano 187 da Hégira, dedicou-se profundamente ao estudo dos Hadiths. Com o propósito de estudar Hadiths, viajou por todas as cidades e regiões do mundo muçulmano.

Primeiramente, começou a estudar Hadiths com os muhaddiths de Bagdá. Nessa etapa, seu mestre de Hadiths foi Hushaym ibn Bashir ibn Abu Hazim (falecido em 183 da Hégira). Permaneceu continuamente a seu serviço durante quatro anos — dos 16 aos 20 anos de idade (179–183 da Hégira).[********************] Nesse período, ouviu uma quantidade considerável de Hadiths de outro muhaddith de Bagdá, Umayr ibn Abd Allah ibn Khalid. Também é mencionado que estudou Hadiths com outros dois muhaddiths, chamados Abd al-Rahman ibn Mahdi e Abu Bakr ibn Ayyash.[********************]

No ano 186 da Hégira, iniciou suas viagens ao estrangeiro com o propósito de estudar Hadiths. Primeiro foi a Basra e depois dirigiu-se ao Hijaz. Com esse objetivo, também foi às cidades do Iêmen e de Kufa. Visitou a cidade de Basra cinco vezes consecutivas. Em algumas dessas ocasiões, permaneceu ali continuamente por três meses. Foi cinco vezes ao Hijaz. O único objetivo de todas essas viagens ao estrangeiro era estudar e coletar Hadiths. Na realidade, estudou e coletou Hadiths junto aos maiores muhaddiths daquela época.[********************]

Desde o início de sua missão de estudar e coletar Hadiths, Imam Ahmad seguia um princípio: escrever o Hadith imediatamente após ouvi-lo. Ele não confiava exclusivamente em sua extraordinária memória. Pelo contrário, sua regra permanente era escrever no papel tudo aquilo que ouvia.[********************]

Ele memorizava completamente todos os Hadiths que ouvia; apesar disso, nunca narrava um Hadith sem consultar seu próprio manuscrito. Quando alguém lhe perguntava sobre algum Hadith, embora se lembrasse dele e o tivesse memorizado, abria seu próprio livro, procurava-o e depois o lia em voz alta diante da pessoa. Quando fazia alguém escrever um Hadith, após o Hadith ser escrito, dizia-lhe: “Leia em voz alta o que você escreveu.” Seu objetivo era evitar qualquer diferença na linguagem e nas palavras do Hadith.[********************]

Os grandes muhaddiths daquela época receberam Hadiths dele. Entre eles, destacam-se especialmente Imam Bukhari, Imam Muslim, Imam Shafi’i, Abd al-Razzaq e outros. Imam Shafi’i confiava plenamente em Imam Ahmad para determinar a autenticidade dos Hadiths. Ele lhe dizia repetidamente:

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Ó Abu Abdullah! Sempre que, na sua avaliação, lhe chegar um hadith autêntico, informe-me necessariamente. Com base nele, estabelecerei minha escola jurídica de fiqh.

O Imam Ahmad faleceu na cidade de Bagdá, no ano 231 da Hégira.

 

Compilação de Musnads

Já na primeira parte do terceiro século da Hégira, começou o trabalho de compilação de livros de hadith denominados musnad. Que tipo de livro é chamado de musnad?

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O muhaddith reúne, separadamente em relação a cada sahabi, todos os hadiths, sem fazer qualquer distinção entre os autênticos e os não autênticos; além disso, o conteúdo dos hadiths é inteiramente diverso. É a esse tipo de livro que se chama musnad.

Pode-se dar o seguinte exemplo: o muhaddith menciona o nome de Abu Bakr (que Allah esteja satisfeito com ele). Em seguida, todos os hadiths narrados por ele sobre diferentes assuntos e que chegaram até esse muhaddith por meio de diferentes cadeias de transmissão são registrados num único lugar. Depois, vem o nome de Umar (que Allah esteja satisfeito com ele), e todos os hadiths narrados por ele são registrados num único lugar, separadamente. Desse modo, após o nome de cada sahabi, todos os hadiths narrados por ele e obtidos em forma de livro por meio de diferentes cadeias de transmissão são compilados num único lugar. No início do terceiro século, observa-se a tendência de compilar esse tipo de livro de hadith. Nessa fase, encontram-se referências aos seguintes livros de musnad: (1) Musnad de Ubaydullah ibn Musa (falecido em 213 H.), (2) Musnad al-Humaydi (falecido em 219 H.), (3) Musnad de Mussaddad ibn Masarhad (falecido em 228 H.), (4) Musnad de Ishaq ibn Rahwayh (falecido em 238 H.), (5) Musnad de Uthman ibn Abu Shaybah (falecido em 239 H.), (6) Musnad do Imam Ahmad ibn Hanbal (falecido em 231 H.), (7) Musnad de Ibn Humayd (falecido em 249 H.), (8) Al-Musnad al-Kabir, de Yaqub ibn Shaybah (falecido em 262 H.), (9) Musnad de Muhammad ibn Mahdi (falecido em 276 H.), (10) Al-Musnad al-Kabir, de Baqi ibn Makhlad al-Qurtubi (falecido em 272 H.), (11) Musnad de Abu Dawud al-Tayalisi (falecido em 204 H.).

Contudo, este método de compor obras de hadith não está isento de falhas. Por meio dele, torna-se difícil formar uma compreensão clara da autenticidade do hadith, da confiabilidade da cadeia de transmissão e de seu grau de autoridade. Apesar disso, não se pode negar que há certamente algum benefício na composição de obras de hadith dessa maneira. Em primeiro lugar, isso possibilita estudar os hadiths do Mensageiro nobre separadamente das demais narrativas. Em segundo lugar, permite saber claramente quantas pessoas narraram hadiths de um determinado Companheiro. É possível também que uma determinada cadeia de transmissão de um hadith seja fraca, enquanto outra cadeia da mesma narrativa seja íntegra e aceitável. Consequentemente, o hadith narrado por essa cadeia fraca pode, com o apoio de uma cadeia confiável, ser considerado autêntico e aceitável.

Entretanto, também não se deve imaginar que os muhaddiths que compilaram musnads tenham atribuído ao nome de um Companheiro tudo o que encontraram sob o nome de hadith, como cegos ou como quem recolhe lenha no escuro. Na realidade, tal concepção é infundada e imprópria. Pois eles se empenharam ao máximo para verificar e examinar a autenticidade de cada hadith. Para isso, aplicaram profunda investigação e observação. Com esse objetivo, viajaram de país em país, e passaram toda a sua vida na árdua e extremamente rigorosa tarefa de coletar, verificar, examinar, separar e selecionar esse material. Houve muitos compiladores de musnads que não aceitaram sequer um hadith sem verificar devidamente o texto original e sua cadeia de transmissão. Em muitos musnads, os hadiths de cada Companheiro foram novamente reunidos de acordo com o método de composição do fiqh. Nesse contexto, merece menção Al-Musnad al-Kabir, composto por Baqi ibn Makhlad. Outros, por sua vez, organizaram cada hadith mencionando suas diversas cadeias de transmissão e seus diversos narradores.

Sobre a composição de diversas obras nesse período, o erudito Ibn Hajar al-Asqalani escreveu:

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Por fim, alguns imames do hadith desejaram compilar separadamente, em forma de livro, apenas os hadiths relacionados ao nobre Profeta. Nessa época, Ubaydullah ibn Musa al-Absi al-Kufi, Musaddad ibn Masarhad al-Basri, Asad ibn Musa al-Umawi e Nu’aym ibn Hammad al-Khuza’i, que se encontrava no Egito, compuseram, cada um, um musnad. Os imames do hadith das gerações posteriores seguiram igualmente os passos deles. Não se encontrará nenhum dos imames entre os mestres do hadith que não tenha compilado os hadiths que reuniu segundo o método de composição das obras chamadas musnad. O Imam Ahmad ibn Hanbal, Ishaq ibn Rahwayh, Uthman ibn Abi Shaybah e outros grandes muhaddiths semelhantes a eles também adotaram esse método. Alguns compiladores de hadith, por outro lado, compuseram suas obras seguindo tanto a organização por capítulos quanto o método do musnad, como Abu Bakr ibn Abi Shaybah.

Como foi dito anteriormente, há certa diferença entre compor uma obra por capítulos e compor uma obra de hadith segundo o método do musnad. A composição por capítulos consiste em organizar os hadiths segundo seus temas, dispondo os hadiths de cada assunto em um capítulo específico. Assim, os hadiths relativos à oração são colocados em um capítulo; os relativos ao jejum, no capítulo do jejum; e os hadiths narrados sobre taqwa e piedade, em um capítulo separado. Já o método de composição do musnad consiste em reunir todos os hadiths narrados por cada Companheiro, independentemente de seu tema, sejam eles sobre oração, jejum ou taqwa e piedade. Por exemplo, segundo o método de composição de um musnad, todos os hadiths narrados por Abu Bakr al-Siddiq, qualquer que seja o assunto a que se refiram, são reunidos e registrados sob o título “Musnad de Abu Bakr al-Siddiq”. Mesmo quando se examina a diferença entre esses dois métodos sob o aspecto da confiabilidade e da autoridade, percebe-se claramente uma distinção entre eles. No início das obras de hadith compiladas segundo o método dos capítulos encontram-se as narrativas que são importantes do ponto de vista da crença ou das práticas religiosas. Por isso, eles reúnem no capítulo correspondente apenas os hadiths dignos de menção como provas e argumentos gerais, independentemente de qual Companheiro os tenha narrado. Já a única tarefa dos compiladores de musnads era coletar, inserir e reunir todos os tipos de hadiths. Por essa razão, reuniam os hadiths sem julgar se o texto original era autêntico ou inautêntico.

Com o objetivo de mostrar a diferença entre os métodos dos capítulos e do musnad, o famoso muhaddith al-Hakim al-Nishapuri mostrou como os hadiths são inseridos e como seus títulos são determinados segundo ambos os métodos. Ele escreveu: “Quando os hadiths são coletados segundo o método do musnad, o título será o seguinte:”

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Menção ou citação de todos os hadiths narrados por Hazrat Abu Bakr Siddiq a partir do Profeta Nobre (s).

E, sob este título, serão citados todos os hadiths narrados por Hazrat Abu Bakr.

Depois disso, o segundo título será:

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Menção dos hadiths que Qays ibn Abi Hazim narrou a partir de Hazrat Abu Bakr (ra).

Aqui, o autor deve mencionar todos os hadiths narrados a partir de Hazrat Abu Bakr (ra) através de Qays. Não é necessário avaliar se são autênticos ou não autênticos.

Porém, quando uma coletânea de hadiths é organizada por capítulos, o título de cada capítulo é definido de acordo com seu conteúdo. Assim, o título será:

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A menção ao que foi comprovadamente estabelecido e transmitido do Mensageiro Nobre (que a paz esteja com ele) sobre a tahārah, a oração ou qualquer outro assunto relacionado à adoração.[********************]

A respeito de demonstrar essa diferença, Ibn Hajar al-Asqalani escreveu em outra parte:

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Quanto à composição de uma obra de hadith por capítulos, o método consiste em mencionar nela apenas as narrações que são dignas de servir como prova ou argumento. Por outro lado, aqueles que compõem obras do tipo Musnad seguem um método diferente, pois seu objetivo principal é simplesmente reunir as narrações dos hadiths.[********************]

As obras de Musnad são, essencialmente, um enorme acervo de hadiths transmitidos por diversas cadeias de transmissão. A partir delas, é muito fácil formar uma ideia sobre a autenticidade ou a inautenticidade dos hadiths. O objetivo da composição desse tipo de obra é reunir todos os hadiths transmitidos por cada cadeia, para que nenhum hadith transmitido permaneça sem ser compilado. Quando todos os hadiths transmitidos, autênticos e não autênticos indistintamente, são reunidos e compilados num único lugar, todo crítico versado na ciência dos hadiths e dotado de discernimento apurado pode verificar e examinar cada narração na pedra de toque da crítica, julgando qual hadith é autêntico e qual não é, qual cadeia é irrepreensível e qual não é isenta de falhas. Pode-se até determinar, com base nessas obras de Musnad, quantas vezes cada hadith foi transmitido e por quais cadeias, com que palavras foi transmitido em cada uma delas e qual é a condição de cada cadeia; tudo isso se torna possível e fácil com base nessas obras de Musnad.

O muhaddith al-Hakim Nishapuri escreveu:

Nas obras de Musnad compiladas no Islã, foram incluídos somente os hadiths transmitidos pelos Companheiros. Nelas, as cadeias de transmissão são confiáveis e também isentas de falhas. Entre elas estão o Musnad de Ubaydullah ibn Musa e o Musnad de Abu Dawud Sulayman ibn Dawud al-Tayalisi. De fato, no Islã, esses dois muhaddiths foram os primeiros a começar a compor obras de Musnad com base nos nomes dos transmissores. [Segundo alguns, o primeiro a compor um Musnad foi Dawud al-Tayalisi [********************] Depois desses dois, foram compostos os Musnads de Ahmad ibn Hanbal, Ishaq ibn Ibrahim al-Hanzali, Abu Khaythama, Zuhayr ibn Harb e Ubaydullah ibn Umar al-Qawariri. Depois disso, a composição de Musnads com base nos nomes das pessoas tornou-se muito comum. E, ao reunir os hadiths dessa maneira, não se fazia distinção entre as cadeias de hadiths que continham falhas e as que eram isentas de falhas.[********************]

Al-Hakim empregou uma linguagem extremamente severa ao falar das obras Musnad. Ele expressou essa opinião a respeito de todas as obras Musnad. Sem dúvida, a maioria dessas obras se encontra nesse nível, mas nem todas são culpadas desse defeito. Não se pode negar de modo algum que alguns compiladores de obras Musnad tenham sido bastante cuidadosos na seleção dos hadiths que incluíram em suas próprias obras. Foi assim que o ilustre al-Suyuti escreveu sobre Ishaq ibn Rahwayh:

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Como mencionou Abu Zur‘a al-Razi, Ishaq atribuía a cada Companheiro somente os hadiths narrados por esse Companheiro que fossem sólidos e aceitáveis.

O Musannaf de Abu Bakr ibn Shaybah

Nesse contexto, as obras de hadith do Imam Abu Bakr ibn Shaybah merecem especial destaque. O Musnad e o Musannaf compilados por ele são obras de hadith célebres do terceiro século hijri. Os muhaddithun mencionaram unanimemente o Musannaf como uma obra inigualável. Aos olhos deles, trata-se também de motivo de orgulho. Hafiz Ibn Kathir chegou a dizer:

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O Musannaf é uma obra tal que ninguém jamais compilou outra semelhante, nem antes nem depois dela.

Hafiz Ibn Hazm al-Andalusi declarou que esta era uma obra mais importante e de maior distinção do que o Muwatta do Imam Malik. De fato, nas três célebres obras dos Sihah Sittah — Sahih Muslim, Sunan Abu Dawud e Sunan Ibn Majah — foram aceitos mais hadiths do Musannaf de Abu Bakr ibn Shaybah do que do Muwatta.

Nesta obra foram incluídos apenas hadith relacionados aos «Ahkam», dos quais se pode deduzir alguma questão de fiqh. Contudo, nela não foi dada preferência especial a nenhuma escola de fiqh, nem foi atribuído maior destaque a qualquer uma delas. Pelo contrário, todos os hadith encontrados junto aos transmissores de hadith das regiões do Hijaz e do Iraque foram incluídos nesta obra segundo um princípio de absoluta imparcialidade. Assim, todo jurista pode, a partir desta obra, adotar sua própria opinião de forma imparcial e independente, e reunir fundamentos ou provas dos hadith em seu apoio.

Outra característica desta obra é que, juntamente com cada «hadith nabawi», também foram citadas as declarações e fatwas dos Sahaba e dos Tabi’in. Assim, pode-se saber facilmente qual era a opinião dos Sahaba e dos Tabi’in acerca de cada hadith. O autor de «Kashf al-Zunun» escreveu o seguinte sobre esta obra:

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É uma obra grandiosa. Nela foram compiladas, com as respectivas cadeias de transmissão, segundo o método dos muhaddiths, as fatwas dos Tabi’in, as declarações dos Sahaba e os hadiths do Mensageiro (que a paz esteja com ele); e seus capítulos e seções foram organizados de acordo com o método de compilação dos livros de fiqh.

Quando Baqi ibn Makhlad, aluno eminente de Ibn Abi Shaybah e Shaykh al-Islam, levou esta obra para a Andaluzia, embora alguns círculos se opusessem a ela, o governante local, Muhammad ibn Abd al-Rahman, ouviu-a do início ao fim e ordenou ao responsável pela biblioteca real:

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Esta é uma obra tão importante que há uma necessidade especial dela em nossa biblioteca. Portanto, providencie que seja feita uma cópia.

Musnad do Imã Ahmad

A coletânea de hadith compilada pelo Imam Ahmad ibn Hanbal (r.), o Musnad Ahmad, é uma obra grandiosa, extraordinária e incomparável deste século. Não seria exagero chamá-la de enciclopédia da ciência dos hadith. Os muhaddithun de todos os períodos, tanto os anteriores quanto os posteriores, reconheceram em voz alta seu extraordinário valor e importância. Eles disseram:

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O Musnad Ahmad é, depois de Bukhari e Muslim, a obra mais abrangente e autêntica da literatura dos hadith. Todos os hadith necessários à vida prática dos muçulmanos, relativos tanto à religião quanto ao mundo, foram compilados e registrados nesta grandiosa obra.

O Imam Ahmad (r.) conseguiu preparar esta obra após muitos anos de esforço incansável, extraordinário e de profunda dedicação. Desde o período em que estudava os hadith, começou a escrevê-los ao mesmo tempo que os memorizava. Em termos de idade, iniciou esse trabalho quando tinha apenas 16 anos. Depois disso, dedicou-se exclusivamente a esse trabalho durante toda a sua vida. O objetivo de sua vida era tornar esta coletânea de hadith tão abrangente quanto possível e uma fonte de todos os hadith necessários. Ele registrava os hadith em páginas separadas. Por fim, isso se transformou no manuscrito de uma obra monumental.

Entretanto, antes que o desejo maior e o esforço do Imam Ahmad fossem plenamente realizados, sua vida chegou ao fim. Ao ouvir os passos da morte, a primeira coisa que fez foi reunir seus filhos e familiares, recitar-lhes do início ao fim esta grandiosa coletânea de hadith e providenciar que ela fosse escrita de modo separado e organizado. Contudo, o Imam Ahmad (r.) não pôde selecionar, organizar em forma de livro e estruturar sistematicamente os hadith que havia compilado como resultado do esforço de toda a sua vida.

Shah Abdul Aziz Muhaddith Dehlavi escreveu:

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Embora o Musnad Ahmad seja a coletânea de hadith compilada por esse grande e ilustre Imam, duas pessoas acrescentaram posteriormente muitos outros hadith a ela. Uma foi seu filho, Abdullah, e a outra foi Abu Bakr al-Qati‘i, que transmitiu esta obra a partir de Abdullah.

Sobre o número total de hadiths incluídos nesta obra, os historiadores especialistas em hadith escreveram:

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Na obra “Musnad Ahmad”, foram originalmente incluídos trinta mil hadiths. Com os acréscimos feitos por seu filho, o número chegou, ao final, a quarenta mil hadiths.

Alguns afirmaram que o número total de hadiths nela é de quarenta mil, mas, excluindo as repetições, o número chega a trinta mil.

O Imam Ahmad compilou esta obra precisamente segundo o método do Musnad. Ele mencionou o nome de cada Companheiro (r.a.) individualmente. Em seguida, apresentou, um após o outro, todos os hadiths do Profeta (s.a.w.) narrados por esse Companheiro. Depois de concluir a menção desses hadiths, citou outro Companheiro e os hadiths narrados por ele. Ele não organizou a obra por temas. Assim, nela, logo após um hadith citado sobre o hudud, pode-se encontrar um hadith relacionado à adoração e ao temor da Vida Futura.

Nesta obra foram mencionados apenas dezoito Musnads. Primeiro foi mencionado o Musnad dos dez Companheiros que receberam as boas-novas do Paraíso. Na segunda etapa, o Musnad de Ahl al-Bayt; na terceira, o de Abdullah ibn Masud; na quarta, o de Abdullah ibn Umar; na quinta, o de Abdullah ibn Amr e Abu Marmasa; na sexta, o de Hazrat Abbas; na sétima, o de Abu Huraira; na oitava, o de Anas ibn Malik; na nona, o de Abu Said al-Khudri; na décima, o de Jabir ibn Abdullah; na décima primeira, o dos Companheiros de Meca; na décima segunda, o dos Companheiros de Medina; na décima terceira, o dos Companheiros residentes em Suffa; na décima quarta, o dos Companheiros residentes em Basra; na décima quinta, o dos Companheiros residentes na Síria; na décima sexta, o dos Ansar; e na décima sétima, o de Hazrat Aisha. Em termos gerais, a obra Musnad está dividida em cento e setenta e duas partes.

O Imam Ahmad desejava organizar esta obra como uma fonte incomparável de hadiths autênticos. Seu desejo sincero era que, quando surgisse uma divergência entre os estudiosos de hadith acerca de algum hadith, esta obra pudesse servir como árbitro final, e que pudesse constituir um documento confiável sobre as cadeias de transmissão dos hadiths.

Abdullah, filho do Imam Ahmad, perguntou-lhe:

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Por que você desaprova a compilação de livros, quando você mesmo compilou um livro de Musnad?

Em resposta, o Imam Ahmad disse:

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Compilei este livro como um “Imam”, para que, quando houver divergência entre as pessoas acerca de alguma sunna ou hadith do nobre Mensageiro de Deus (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele), elas possam obter dele a decisão definitiva.

O sobrinho paterno do Imam Ahmad, Hambal ibn Ishaq, disse:

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Meu respeitado tio, o Imam Ahmad, reuniu a mim e a seus dois filhos, Salih e Abdullah, e recitou para nós, do início ao fim, este livro de Musnad. Ninguém além de nós conseguiu ouvi-lo ler o livro inteiro diretamente de sua boca. Ele nos disse: “Compilei e redigi este livro depois de selecioná-lo dentre os relatos de mais de setecentos e cinquenta mil hadiths. Quando houver divergência entre os muçulmanos acerca de um hadith do nobre Mensageiro de Deus (que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele), voltem a este livro para encontrar esse hadith (isto é, procurem e busquem nele esse hadith). Se ele for encontrado aqui, muito bem; se não for encontrado, não se poderá considerá-lo um hadith comprovado ou estabelecido.”

A afirmação do Imam Ahmad ibn Hanbal no final da longa citação acima requer análise. O Imam al-Dhahabi disse, ao explicar:

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Esta declaração do Imam Ahmad deve ser entendida no contexto da situação geral. Caso contrário, encontramos nos livros de Muslim, Bukhari, nas coleções Sunan, em outros livros de juz e em outras obras hadiths autênticos que não se encontram no Musnad.

O hafiz Shamsuddin al-Jazari escreveu:

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Com essas palavras, o Imam Ahmad quis aludir às fontes originais dos hadiths. E isso é verdade. Pois provavelmente não existe hadith cuja “fonte original” não tenha sido mencionada neste Musnad.

A coletânea de hadiths compilada pelo Imam Ahmad poderia ter alcançado esse elevado status; mas, como ele próprio não pôde concluir plenamente o trabalho de compilação, muitos hadiths autênticos e os relatos de numerosos Companheiros não puderam ser incluídos nela. O hafiz Ibn Kathir escreveu, ao discutir este assunto:

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Embora este Musnad compilado pelo Imã Ahmad (que Allah tenha misericórdia dele) seja incomparável e inigualável tanto pela abundância das cadeias de transmissão dos hadiths quanto pela excelência de sua composição, um grande número de hadiths foi inteiramente excluído dele. Na verdade, diz-se que nele não foi citado nenhum hadith narrado por cerca de duzentos Companheiros, embora os hadiths narrados por eles tenham sido citados nas obras de Bukhari e Muslim.

Apesar de tudo isso, a singularidade do Musnad de Ahmad não pode de modo algum ser negada. É consenso que nele não há sequer um hadith inventado, composto pelo próprio autor ou sem fundamento. O Imã Ibn Taymiyyah escreveu que não há no Musnad sequer um hadith desse tipo. Além disso, não existe outra compilação tão grande de hadiths autênticos. O hafiz Nur al-Din al-Haythami escreveu:

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Como coleção de hadiths sahih, o Musnad de Ahmad é mais autêntico do que as demais obras de hadith.

O Imã Ahmad compilou os hadiths depois de avaliá-los segundo seu próprio critério. Os muhaddiths disseram:

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O Imã Ahmad havia decidido que, em sua obra, de acordo com suas próprias condições, não aceitaria nada além de hadiths especialmente autênticos.

Como já mencionei, o Imã Ahmad não pôde completar inteiramente esta obra durante sua vida. Por isso, nela podem ser encontrados muitos hadiths acrescentados por Abdullah, filho do Imã, e pelo hafiz Abu Bakr al-Qati’i.

O Allama Ahmadul Banna realizou a edição completa desta vasta obra e a reorganizou segundo os capítulos e os temas. Recentemente, seus volumosos 21 volumes foram publicados no Egito sob o título «Fath al-Rabbani», acompanhados de seu próprio extenso sharh, incluído sob o título «Bulugh al-Amani». Em nossa opinião, ela constitui atualmente um imenso e incomparável tesouro de hadiths.

Ahmadul Banna escreveu o seguinte sobre os hadiths do «Musnad»:

«Depois de verificar e examinar os hadiths da obra ‘Musnad’, constatei que nela há, ao todo, seis tipos de hadiths. O primeiro consiste nos hadiths narrados por Abu Abd al-Rahman Abdullah ibn Imam Ahmad, que os ouviu pessoalmente do Imam. Essencialmente, este é o Musnad de Ahmad e corresponde a três quartos da presente obra.

O segundo consiste nos hadiths que Abdullah ouviu do Imam Ahmad e de outros muhaddiths. Seu número é muito pequeno.

O terceiro consiste nos hadiths que Abdullah ouviu de muhaddiths além de seu pai; eles são conhecidos como ‘Zawa’id de Abdullah’ ou ‘Adições de Abdullah’. O número desses hadiths é enorme.

O quarto consiste nos hadiths que Abdullah recitou pessoalmente diante de seu pai e fez com que ele os ouvisse; porém, não os ouviu de seu pai. Seu número também é pequeno.

O quinto consiste nos hadiths que Abdullah não leu para seu pai nem ouviu dele; ao contrário, encontrou-os no livro de seu pai, escritos pelo próprio pai. Seu número também é pequeno.

O sexto consiste nos hadiths que o renomado e universalmente reconhecido muhaddith, Hafiz Abu Bakr al-Qati‘i, narrou de muhaddiths que não eram Abdullah nem seu pai, Imam Ahmad. Seu número é o menor de todos.»

 

A fase final da compilação dos hadiths

Da discussão anterior ficou claro aos leitores que, no terceiro século da Hégira, o estudo, a divulgação, a compilação dos hadiths e a redação de obras alcançaram um progresso, desenvolvimento, expansão e excelência muito maiores. Cada uma de suas áreas foi estabelecida com dignidade própria e plena autonomia. Nesse século, os muhaddiths e os narradores de hadiths dedicaram-se ao ensino e ao estudo dos hadiths numa base muito mais ampla do que antes. Os compiladores de hadiths viajaram por todos os centros do mundo muçulmano em busca de hadiths; estiveram presentes em cada local e reuniram e compilaram os hadiths dispersos. Depois, compilaram conjuntamente os hadiths reunidos e redigiram numerosas obras valiosas e volumosas.

Nesse período, surgiu na sociedade muçulmana uma situação que tornou extremamente necessária a criação de uma área independente do conhecimento, denominada ciência dos hadiths. Na terminologia da ciência dos hadiths, ela é chamada de ******************** “ciência da análise e crítica dos hadiths”. É indispensável discutir detalhadamente a situação acima para obter uma compreensão clara da área de análise e crítica dos hadiths.

A sociedade muçulmana do terceiro século

Em uma palavra, a sociedade muçulmana do terceiro século deve ser descrita como afligida por diversas correntes de pensamento contrárias ao Islã e por fitnas e desordens. Desde os primeiros tempos dos Califas Bem-Guiados, os golpes violentos que caíam repetidamente sobre o Islã podem ser chamados, em termos militares, de “agressões externas”. Em particular, podem ser incluídos nessa categoria os golpes ocorridos durante os períodos de Hazrat Uthman (que Allah esteja satisfeito com ele) e Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele). Contudo, o Islã repeliu todas essas agressões externas por meio de sua força e firmeza intrínsecas. Mais tarde, tentou-se destruir o califado islâmico e, na inundação avassaladora da jahiliyyah, lavar, apagar e eliminar completamente até os vestígios do nome do Islã. Entretanto, graças aos esforços incansáveis, à dedicação e à concentração dos tabi‘in sinceros no período posterior aos companheiros, o Islã conseguiu manter firmes e sólidos os seus fundamentos ideológicos. Tendo fracassado em eliminá-lo por meio dos golpes da agressão externa, os inimigos do Islã empregaram todas as suas forças para provocar uma catástrofe extrema mediante conspirações secretas desde o seu interior. Nessa fase, os inimigos do Islã passaram a divulgar livremente entre todos os muçulmanos, em nome do Islã, pensamentos, opiniões, crenças e convicções de toda espécie, fazendo com que o Islã estivesse prestes a alcançar, desde o seu interior, a extinção eterna, como uma lâmpada sem óleo.

Entre os pensamentos e doutrinas vãos que surgiram nesse período na sociedade muçulmana, o primeiro foi a forte tendência ao racionalismo e ao uso desenfreado da razão. Até mesmo as crenças fundamentais do Islã começaram a ser pesadas e verificadas na pedra de toque da razão. Tudo o que não passava pela balança da razão e da consciência estreitas e limitadas do ser humano começou a ser rejeitado. Assim, algumas crenças fundamentais do Islã — sobre as quais se estabelece a base do Islã — passaram a ser explicitamente negadas e abandonadas.

Depois disso, surgiu na sociedade muçulmana, nesse período, um tumulto intenso de discussões e debates sobre se o Alcorão era “makhluq” (criado) ou “ghayr makhluq” (não criado, eterno). Como resultado, desapareceu a disposição de seguir fielmente as instruções claras do Alcorão, e as pessoas começaram a ficar confusas e desviadas ao se envolverem nesse debate completamente desnecessário e sem fundamento.

Na parte final da era abássida, o ateísmo começou a se disseminar na sociedade muçulmana como uma crença e uma convicção. Embora os ateus daquela época afirmassem publicamente ser muçulmanos, interiormente negavam por completo toda a própria “religião” e assim prosseguiam. Nessa época, obras gregas sobre filosofia e ciência foram traduzidas para o árabe, e começaram a ser amplamente lidas e estudadas na sociedade muçulmana. Como consequência, as ideias de ateísmo e de irreligião passaram a ser aceitas pelo povo como uma doutrina de caráter científico.

Nesse período, as histórias e narrativas infundadas dos tempos antigos também começaram a difundir-se amplamente entre o povo muçulmano. Faziam-se todos os esforços para tornar essas histórias inventadas mais atraentes para o público, adornando-as com cores e ornamentos. Não havia hesitação em dar-lhes a forma e o estilo narrativo dos hadiths e em fazê-las passar por hadiths do Mensageiro. Como resultado, a atenção dos muçulmanos comuns desviou-se do Alcorão e dos hadiths do Mensageiro e fixou-se inteiramente na direção oposta. Na realidade, todos esses acontecimentos constituíam uma fitna gravíssima para o Islã, e a ampla tendência à fabricação de hadiths era a manifestação concreta dessa fitna.

Em cada etapa das fitnas mencionadas, é particularmente espantoso que tenham sido empreendidos esforços incansáveis para obter apoio nos hadiths do Mensageiro. Porém, quando não se encontrou nos hadiths autênticos do Mensageiro sequer um mínimo apoio a nenhuma delas, todos eles — praticamente todos os responsáveis por essas fitnas — passaram a inventar declarações por conta própria, acrescentando-lhes uma cadeia de transmissão de hadiths (sanad) em nome do Mensageiro, e começaram a apresentá-las de tal modo que todos as aceitassem como palavras proferidas pela boca do Mensageiro — ou, pelo menos, não houvesse motivo manifesto para suspeitar disso. Foi precisamente nessa situação que surgiu a necessidade indispensável de pesar e verificar cada hadith na pedra de toque da crítica dos hadiths; e, para determinar quais das palavras narradas em nome de hadith eram de fato palavras do Mensageiro e quais não eram, a ciência da crítica dos hadiths foi aplicada em toda a sua extensão como método eficaz e confiável. Como resultado, esse ataque vindo de dentro, destinado a destruir o Islã, acabou também em completo fracasso. É fácil imaginar que, se naquele momento não tivesse sido dada tanta importância à verificação e ao exame dos hadiths, o amontoado de hadiths falsos teria coberto inteiramente a mente muçulmana e a teria desviado completamente; não há dúvida alguma quanto a isso. Sempre que, durante cada uma das fitnas acima mencionadas, a atenção dos muçulmanos começou a desviar-se do Alcorão e dos hadiths para outra direção, surgiram na sociedade grandes homens que, com vigor, tomaram providências para proteger os hadiths, lançaram fora o lixo acumulado, estabeleceram publicamente os hadiths autênticos do Mensageiro e iluminaram o mundo interior muçulmano com o brilho imperecível dos verdadeiros hadiths do Mensageiro. Os amplos esforços empregados nesse assunto, tanto em nível governamental quanto privado, permanecerão eternamente brilhantes na história do conhecimento, da ciência e da cultura.

Depois do Califado Bem-Guiado, quando Umar ibn Abd al-Aziz, da dinastia omíada, foi escolhido como califa, já foi apresentada uma discussão detalhada sobre as amplas medidas que ele adotou em nível oficial para a coleta e compilação dos hadiths. Nesta etapa, pode-se declarar novamente que, se essas providências para a coleta e preservação dos hadiths não tivessem sido adotadas, um grande número dos hadiths do Nobre Mensageiro teria desaparecido da face da Terra.

Mesmo durante o período dos abássidas, quando as densas nuvens de inúmeros perigos começaram a cobrir os hadiths, um califa — na verdade, um rei — tomou a iniciativa de preservar os hadiths e divulgá-los corretamente. Ele era al-Mutawakkil ʿala Allah (232 H.). Por natureza, sentia-se atraído pela Sunnah do Mensageiro. Assim que assumiu a responsabilidade de governar o Estado, enviou ordens para que fossem tomadas providências, em todo o mundo muçulmano, para a preservação dos hadiths e seu amplo ensino. O maior especialista em hadiths daquele período, Abu Bakr ibn Shaybah, começou a ensinar hadiths na Mesquita de al-Rasafa. Como resultado, cerca de trinta mil pessoas reuniram-se, vindas de várias regiões do mundo muçulmano, para estudar hadiths com ele. Por outro lado, seu próprio irmão, Uthman ibn Abu Bakr, começou a ensinar hadiths na Mesquita de al-Mansur. Diante dele também se apresentou um número semelhante de estudantes de hadiths.

Ao ver os esforços sinceros de al-Mutawakkil em favor do ensino e da preservação dos hadiths, o coração de todo o povo muçulmano transbordou em súplicas fervorosas a Deus por ele; suas bocas se encheram de louvores a ele, e todos passaram a demonstrar-lhe profunda reverência e respeito. Chegou até mesmo a tornar-se um ditado popular entre o povo a seguinte frase:

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Houve apenas três califas: Abu Bakr, por subjugar e matar os apóstatas; Umar ibn Abd al-Aziz, por pôr fim à opressão e à tirania; e al-Mutawakkil, por reviver os hadiths e a Sunnah e subjugar e destruir os seguidores das doutrinas vãs.

Por outro lado, depois da coleta, compilação, seleção e depuração dos hadiths, também foi concluído, neste século, com extraordinária importância, prestígio, amplitude e profundidade, o trabalho de elaborar obras de alto nível reunindo hadiths inteiramente autênticos. Pela graça de Deus, surgiram alguns homens dotados do talento e da competência indispensáveis para essa grandiosa e difícil tarefa. Eles foram os seis autores das seis obras de hadith mais autênticas — os seis maiores especialistas em hadiths:

1. Imam Bukhari, 2. Imam Muslim, 3. Imam Nasai, 4. Imam Tirmidhi, 5. Imam Abu Dawud e 6. Imam Ibn Majah. Cada uma das coletâneas de hadith compiladas por eles é uma maravilha na história do conhecimento e da cultura.

Aqui, primeiro discutiremos brevemente a biografia de cada estudioso do hadith e, depois, apresentaremos separadamente uma descrição detalhada das coletâneas de hadith por eles compiladas. A partir desta discussão, será possível obter uma compreensão clara do extraordinário desenvolvimento e do apogeu alcançados pelo hadith neste século.

 

Os seis maiores estudiosos da ciência do hadith

Imam Bukhari (r)

O nome completo do Imam Bukhari (r) era Abu Abdullah Muhammad ibn Ismail ibn Ibrahim. Ele nasceu na cidade de Bukhara, povoada por muçulmanos e centro de florescimento da cultura e da civilização islâmicas, na sexta-feira, dia 13 de Shawwal do ano 194 da Hégira. Seu pai faleceu quando ele ainda era criança. Foi criado no colo afetuoso de sua mãe. Quando frequentava o maktab para receber a educação elementar, surgiu em seu coração um intenso desejo de estudar hadith. A respeito disso, o próprio Imam Bukhari (r) disse:

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Enquanto me ocupava com os estudos elementares no maktab, fui inspirado quanto à necessidade de memorizar os hadiths.

Quando lhe perguntaram qual era sua idade naquela época, ele respondeu: “Dez anos ou menos.”

Aos onze anos de idade, manifestou-se espontaneamente o talento extraordinário do Imam Bukhari na transmissão de hadiths. Um acontecimento desse período merece menção. Naquela época, um hadith estava sendo divulgado publicamente por meio da seguinte cadeia de transmissão: Sufyan, por intermédio de Abu az-Zubair, e Abu az-Zubair, por intermédio de Ibrahim. Assim que ouviu essa cadeia do então muhaddith Dakhili, ele exclamou:

Esta cadeia não está correta, pois Abu az-Zubair jamais transmitiu qualquer hadith de Ibrahim.

O muhaddith Dakhili ficou estupefato diante da audácia daquele menino de onze anos. Repreendeu o menino. Então o Imam Bukhari disse:

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Se o senhor tiver consigo o livro original, abra-o e examine-o uma vez (e verifique a veracidade das minhas palavras).
Bukhara está situada na República do Uzbequistão. Atualmente, esta cidade faz parte do império russo da Ásia Central. É considerada uma cidade importante na região de Mā warāʾ an-nahr, às margens do rio Jihun. Fica a 300 quilômetros de Samarcanda, no Irã.

O Imam Bukhari disse: “Aqui, nesta cadeia, ‘Abu az-Zubair’ foi mencionado por engano; na realidade, a cadeia de transmissão deve ser: ‘Zubair ibn Adi, por intermédio de Ibrahim’ — assim.”

Depois, o muhaddith Dakhili abriu o livro original e constatou que as palavras do menino Abu Abdullah eram verdadeiras; no livro original estava escrito exatamente assim.

Quando o Imam Bukhari tinha ultrapassado os dezesseis anos de idade, já havia memorizado por completo as coletâneas de hadiths compiladas por Abdullah ibn Mubarak e pelo Imam Waki’.

Depois disso, o Imam Bukhari partiu para o Hajj na companhia de sua mãe e de seu irmão. Antes disso, havia concluído a audição dos hadiths junto de todos os muhaddiths que residiam em Bukhara. Essa viagem ocorreu no ano 210 da Hégira. Ao chegar para o Hajj, permaneceu ininterruptamente por seis anos no Hijaz. Durante esse período, por um lado, dedicou-se intensamente ao estudo dos hadiths e, ao mesmo tempo, empenhou-se plenamente na escrita. O Imam Bukhari falou pessoalmente sobre seu trabalho de escrita e composição de livros naquela época:

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Quando eu havia ultrapassado os dezoito anos, compus um livro sobre os julgamentos e decisões dos Companheiros e dos tabi‘is. Depois, sentado junto ao túmulo do Nobre Mensageiro em Medina, escrevi o livro At-Tarikh al-Kabir. Eu prosseguia esse trabalho de escrita nas noites iluminadas pela lua.

Com o objetivo de estudar e coletar hadiths, o Imam Bukhari percorreu muitos países e cidades. Ao chegar a cada cidade, dominava todos os hadiths que fosse possível obter. Em seguida, partia em direção a outra cidade. Assim, não havia cidade importante do vasto reino islâmico onde ele não tivesse estado para coletar hadiths. O Allama Dhahabi, a esse respeito, mencionou os nomes de cidades como Bagdá, Meca, Basra, Kufa, Ascalão, Hims e Damasco, e também registrou os nomes dos muhaddiths de cada cidade com quem o Imam Bukhari estudou e de quem coletou hadiths.

Contudo, parece que essa lista não é completa. O Allama Khatib al-Baghdadi falou brevemente sobre as viagens do Imam Bukhari por esses países:

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Em busca do conhecimento dos hadiths, ele visitou todos os muhaddiths de todas as cidades.

Com o objetivo de oferecer uma ideia abrangente sobre suas viagens, ele próprio disse:

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Estive na Síria, no Egito e na Jazira duas vezes em cada lugar. Fui a Basra quatro vezes. Permaneci continuamente seis anos no Hijaz. Quanto às inúmeras vezes que fui a Kufa e a Bagdá e estive na presença dos muhaddiths, não sou capaz de contá-las.

Certa vez, o Imam Bukhari (r.) chegou a Samarcanda. Então, cerca de quatrocentos muhaddiths reuniram-se diante dele. Eles já haviam ouvido falar da fama do Imam Bukhari por seu conhecimento profundo e abrangente dos hadiths. Por isso, quiseram pô-lo à prova. Para esse fim, separaram as formulações originais de alguns hadiths de suas respectivas cadeias de transmissão, ligaram-nas às cadeias de transmissão de outros hadiths e também trocaram e misturaram as cadeias. Em seguida, leram tudo diante do Imam Bukhari (r.) e pediram-lhe que verificasse sua autenticidade e exatidão. Todos aqueles hadiths eram, para o Imam Bukhari (r.), claros como um espelho. Assim, ele não teve a menor dificuldade nem precisou de tempo algum para compreender onde o texto original e sua cadeia de transmissão haviam sido alterados. Ele começou a ler cada hadith e a apontar seus defeitos e, por fim, apresentou cada um deles aos muhaddiths reunidos em sua forma original, com sua própria cadeia de transmissão. Os muhaddiths não puderam deixar de aceitar como absolutamente verdadeira a resposta do Imam Bukhari (r.). Os historiadores escreveram que em Bagdá também foram feitas perguntas semelhantes ao Imam Bukhari e que, finalmente, depois de ouvirem suas respostas, os muhaddiths foram obrigados a reconhecer a superioridade do Imam Bukhari (r.).

A respeito da agudeza da memória do Imam Bukhari, foi dito:

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Ele lia um livro apenas uma vez e, bastando vê-lo uma única vez, memorizava todo o livro.

A imensidão, a abrangência e a profundidade de seu conhecimento dos hadiths ficam claramente comprovadas pelo reconhecimento franco dos muhaddiths do mundo. Aqui são citadas as declarações de alguns deles:

Ibn Khuzayma (r.) disse:

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Sob o firmamento, não vi ninguém maior do que Muhammad ibn Isma’il al-Bukhari em conhecimento e memorização dos hadiths do Mensageiro.

Certo dia, o Imam Muslim foi ter com o Imam Bukhari (r.) e beijou-lhe a face. Disse:

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Permita-me beijar os seus pés, ó mestre de todos os mestres, o mais eminente entre os muhaddiths e o “médico das enfermidades do hadith”.

O Imam Bukhari era um homem extremamente cortês, valente e de natureza pura. Era extremamente zeloso e consciente no que dizia respeito à sua honra. Não tinha qualquer interesse pelas cortes dos reis e soberanos; pelo contrário, esforçava-se com todas as suas forças para manter-se a cem léguas delas.

Naquela época, o governante de Bukhara era Khalid ibn Ahmad az-Zuhali. Ele enviou uma ordem ao Imam Bukhari por intermédio de um mensageiro:

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Venha até nós com os livros de hadith e de história que compilou; desejo ouvi-los de você.

O Imam Bukhari (r) recusou-se explicitamente a cumprir essa ordem e mandou dizer ao mensageiro:

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Transmita ao rei estas minhas palavras: não posso desonrar o hadith levando-o às cortes dos reis e soberanos. Se ele precisar disso, que venha até mim na mesquita ou em minha casa. E, se essa proposta não lhe agradar, o que se pode fazer? Afinal, ele é o rei……….

Ibn Hajar al-Asqalani disse:

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Foi isso que causou o distanciamento e a animosidade entre o Imam Bukhari e o rei.

Entretanto, o Imam Hakim mencionou outra causa dessa animosidade. Ele disse:

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A razão pela qual Abu Abdullah deixou a cidade de Bukhara foi que o rei Khalid ibn Ahmad lhe ordenara que comparecesse ao palácio real para ensinar História e os livros de hadith aos seus filhos. Contudo, o Imam al-Bukhari recusou-se a cumprir essa ordem e mandou dizer: “Não pode ser de modo algum desejável que eu ensine este livro especificamente a algumas pessoas e não o ensine a outras.”

Depois disso, o Imam al-Bukhari (que Allah tenha misericórdia dele) dirigiu-se à cidade de Khartank, situada nas proximidades de Samarcanda, e suplicou ardentemente a Allah que o salvasse daquela grave provação para a religião do Islã. Na súplica que fazia à noite, após a oração, dizia:

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“Ó Allah! A vasta Terra tornou-se estreita para mim; portanto, leva-me agora para junto de Ti.”

O Imam al-Bukhari faleceu nessa cidade de Khartank, no dia 30 de Rajab do ano 256 da Hégira, aos 62 anos de idade.

O Imam al-Bukhari (que Allah tenha misericórdia dele) deixou este mundo; porém, deixou para os muçulmanos de todo o mundo várias obras grandiosas e inestimáveis, como fontes primárias do conhecimento islâmico. Entre as suas valiosíssimas obras, duas são famosas e as mais importantes: uma é “Sahih al-Bukhari”, uma compilação de hadith, e a outra é “Tarikh al-Kabir”.

O Imam Muslim (que Allah tenha misericórdia dele)

O nome completo do Imam Muslim era Abu’l-Husayn Muslim ibn al-Hajjaj al-Qushayri al-Nishapuri. Ele nasceu em 204 da Hégira, em Nishapur, no Khorasan. Desde a infância, dedicou-se ao estudo dos hadiths. Com o objetivo de estudar hadiths, visitou todos os principais centros do mundo muçulmano. Esteve em cidades como o Iraque, o Hijaz, a Síria e o Egito, onde estudou e coletou hadiths junto dos grandes mestres e muhaddiths que ali residiam.

Quando o Imam Bukhari (que Deus tenha misericórdia dele) chegou a Nishapur, o Imam Muslim (que Deus tenha misericórdia dele) passou a acompanhá-lo. Ele também se beneficiou amplamente de seu vasto conhecimento dos hadiths. Quando começou a desenvolver-se naquela cidade uma campanha hostil contra o Imam Bukhari (que Deus tenha misericórdia dele), o Imam Muslim tentou resistir a ela. Certo dia, ocorreu um incidente. Ele estava presente, juntamente com outros estudantes, na assembleia de seu mestre de hadiths, Muhammad ibn Yahya al-Dhuhli. O muhaddith al-Dhuhli anunciou subitamente:

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Que aquele que, em determinada questão, acreditar na opinião do Imam Bukhari e aceitar seu parecer se retire desta minha assembleia.

Assim que ouviu isso, o Imam Muslim levantou-se e, ao voltar para sua casa, devolveu os registros escritos dos hadiths que havia ouvido e recebido desse mestre. Depois disso, abandonou completamente a transmissão de hadiths pela autoridade de al-Dhuhli.[********************]

O Imam Muslim possuía um conhecimento vasto e profundo dos hadiths. Os conhecedores dos hadiths estão unanimemente de acordo quanto ao fato de ele ter sido um imam dos hadiths.[********************] Os grandes muhaddiths daquela época estudaram e receberam hadiths dele. Entre eles, merecem menção especial Abu Hatim al-Razi, Musa ibn Harun, Ahmad ibn Salama, Yahya ibn Sa‘id, Muhammad ibn Makhlad e o Imam al-Tirmidhi. Todos estavam de acordo quanto à grandeza e à excelência do Imam Muslim. Todos reconheceram sua posição e seu altíssimo grau no conhecimento dos hadiths. Além disso, suas valiosas obras e sua profunda erudição constituem uma prova irrefutável disso. Entre elas, destacam-se Sahih Muslim, al-Musnad al-Kabir e al-Jami‘ al-Kabir. O Imam Muslim faleceu em Nishapur, no ano 261 da Hégira, aos 57 anos de idade.[********************]

O Imam al-Nasa’i (que Deus tenha misericórdia dele)

O nome completo do Imam al-Nasa’i (que Deus tenha misericórdia dele) era Abd al-Rahman Ahmad ibn Shu‘ayb ibn ‘Ali ibn Bahr ibn Mannan ibn Dinar al-Nasa’i. Ele nasceu no ano 215 da Hégira, na cidade de Nasa, situada no Khorasan.[********************]

O Imã an-Nasa’i (r) era um grande hafiz de hadith. Com o objetivo de estudar e coletar hadiths, viajou para o estrangeiro aos quinze anos de idade. Primeiro, apresentou-se diante de Qutayba ibn Sa’id al-Balkhi e permaneceu ali durante um ano e dois meses, estudando e coletando hadiths com ele. Depois, foi para o Egito. Permaneceu no Egito por um longo período. Durante esse tempo, concluiu a composição de vários livros. Esses livros alcançaram grande fama entre o povo. Foi também nesse período que as pessoas começaram a ouvir hadiths dele.

Depois de sair do Egito, ele chegou a Damasco no ano 302 da Hégira. Ali, concluiu a composição de um livro de louvor a Hazrat Ali e à família do Mensageiro. Ele havia observado que, sob a influência do governo omíada, o povo começara a nutrir uma má opinião sobre Hazrat Ali (ra) e a família do Mensageiro (s). Com o objetivo de eliminar essa tendência ou reduzir sua intensidade, começou a recitá-lo na mesquita principal de Damasco. Então, um homem se levantou e perguntou: “Você escreveu algo em louvor a Muawiya?” O Imã an-Nasa’i respondeu: “Já é suficiente para Muawiya escapar em igualdade de condições. O que há para elogiar nele?”

Assim que ele disse isso, vozes se levantaram de todos os lados: “Este homem é xiita, este homem é xiita”. Dizendo isso, começaram a espancá-lo sem piedade. Com isso, o Imã an-Nasa’i ficou gravemente ferido e agonizante. Ele disse: “Levem-me a Meca, para que eu possa dar ali meu último suspiro”. Quando o levaram a Meca, ele faleceu ali no ano 303 da Hégira, aos 89 anos de idade, e foi sepultado entre Safa e Marwa.[********************]

O Imã an-Nasa’i compôs muitas obras valiosas sobre hadith e assuntos relacionados à ciência do hadith. Sunan al-Kubra e Sunan al-Sughra — também chamada de al-Mujtaba — estão entre suas obras mais famosas.[********************]

O Imã Abu Dawud (r)

O nome completo do Imã Abu Dawud era Sulaiman ibn al-Ash’ath ibn Ishaq al-Asadi as-Sijistani. Ele nasceu no ano 202 da Hégira (819 d.C.), em um lugar chamado Sistan, próximo a Kandahar e Chisht.[********************]

Com o objetivo de estudar hadiths, percorreu os célebres centros de hadith do Egito, da Síria, do Hijaz, do Iraque e do Khurasan, entre outros, e ouviu e coletou hadiths dos renomados muhaddiths de sua época. O Imã Ahmad ibn Hanbal, Uthman ibn Abu Shayba, Qutayba ibn Sa’id e outros eminentes muhaddiths de sua época foram seus mestres na ciência do hadith.[********************]

Todos os sábios de sua época proclamaram em voz alta o extraordinário conhecimento e a profunda perícia que ele possuía em hadith, e elogiaram sua aguçada memória. Da mesma forma, todos reconheceram sua profunda taqwa e piedade.

O Imam al-Hakim disse:

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O Imam Abu Dawud era o maior muhaddith entre os estudiosos do hadith de sua época. Sua superioridade era absoluta e incontestável. Ele ouviu hadith no Egito, no Hijaz, em Kufa, em Basra e no Khurasan.

O Imam al-Tirmidhi e o Imam al-Nasa’i foram seus discípulos no hadith. É surpreendente que, por um lado, o Imam Ahmad ibn Hanbal tenha sido mestre do Imam Abu Dawud, enquanto, por outro, alguns mestres do Imam Ahmad tenham narrado hadiths do Imam Abu Dawud. O próprio Imam Ahmad também recebeu e narrou alguns hadiths do Imam Abu Dawud.

Ele faleceu na cidade de Basra, no dia 16 de Shawwal do ano 275 da Hégira.

Imam al-Tirmidhi (que Deus tenha misericórdia dele)

O nome completo do Imam al-Tirmidhi era al-Imam al-Hafiz Abu Isa Muhammad ibn Isa ibn Sawrata ibn Musa ibn Dahhak al-Sulami al-Tirmidhi. Ele nasceu no ano 209 da Hégira, na antiga cidade de Tirmidhi, situada às margens do rio Jihun. Possuía um conhecimento incomparável do hadith. Os hadiths narrados por ele são considerados completamente confiáveis, dignos de crédito e provas irrefutáveis. Ele ouviu e recebeu hadith dos grandes estudiosos do hadith de seu tempo. Qutayba ibn Sa’id, Ishaq ibn Musa, Mahmud ibn Ghaylan, Sa’id ibn Abd al-Rahman, Muhammad ibn Bashshar, Ali ibn Hajar, Ahmad ibn Mani, Muhammad ibn al-Muthanna, Sufyan ibn Waki’ e Muhammad ibn Isma’il al-Bukhari, entre outros muhaddiths, foram mestres do Imam al-Tirmidhi.

O Imam al-Bukhari disse muitas palavras elogiosas a seu respeito. Os muhaddiths referiram-se a ele como o sucessor do Imam al-Bukhari. O próprio Imam al-Bukhari também recebeu e narrou hadiths dele.

O imã At-Tirmidhi viajou pelos célebres centros de hadith do mundo muçulmano, ouvindo e compilando hadiths. Durante anos, percorreu Kufa, Basra, Rai, Khurasan, Iraque e Hijaz para coletar hadiths.

O imã At-Tirmidhi possuía uma memória extraordinariamente aguçada. Bastava ouvir uma vez para conseguir memorizar grande número de hadiths. Ele havia ouvido alguns trechos de hadiths narrados por certo muhaddith; contudo, jamais o havia encontrado, nem lhe fora possível ouvi-los da própria boca dele. Por isso, ansiava secretamente por encontrar esse muhaddith. Certo dia, encontrou-o no caminho e manifestou o desejo de ouvir dele o hadith completo. Atendendo ao seu pedido, o muhaddith recitou de memória todos os hadiths enquanto permanecia de pé no caminho. Ao ouvi-los, o imã At-Tirmidhi percebeu que nunca os tinha escutado antes. Apesar disso, bastou-lhe ouvi-los uma única vez para memorizá-los completamente; então, recitou-os uma vez e os transmitiu ao mestre que estava diante dele. Não havia cometido sequer um erro em uma única palavra.

O imã At-Tirmidhi compôs muitas obras valiosas. Al-Jami’ at-Tirmidhi, Kitab al-Asma, Al-Kuna, Ash-Shama’il at-Tirmidhi, Tawārikh e Kitab az-Zuhd estão entre suas obras marcantes.

No fim da vida, o imã At-Tirmidhi perdeu a visão. Ele faleceu na própria cidade de Tirmidhi, no ano 279 da Hégira, aos setenta anos de idade.

O imã Ibn Majah (que Deus tenha misericórdia dele)

O nome completo do imã Ibn Majah era Abu Abdullah Muhammad ibn Yazid ibn Abdullah ibn Majah al-Qazwini. Ele era um grande erudito em hadith, tafsir e história.

Ele nasceu no ano 209 da Hégira (828 d.C.), no lugar chamado Qazvin. Desde que foi conquistada durante o período do terceiro califa, o honorável Uthman (que Deus esteja satisfeito com ele), essa cidade era considerada um centro do conhecimento e da ciência islâmicos. Desde o início do terceiro século da Hégira, ela alcançou especial excelência no estudo da ciência dos hadiths; assim, Ibn Majah teve desde a infância uma oportunidade extraordinária de aprender hadiths. Naquela época, vários grandes muhaddiths ministravam aulas de hadith na cidade de Qazvin. Entre eles, ele estudou e recebeu hadiths de grandes muhaddiths como Ali ibn Muhammad Abu al-Hasan at-Tanafisi (falecido em 233 da Hégira), Amr ibn Rafi Abu Hajar al-Bidhli (falecido em 238 da Hégira), Ismail ibn Tawbah Abu Sahl al-Qazwini (falecido em 247 da Hégira), Harun ibn Musa ibn Hayyan at-Tamimi (falecido em 288 da Hégira) e Muhammad ibn Abu Khalid Abu Bakr al-Qazwini.

Depois, ele viajou para Medina, Meca, Kufa, Basra, Bagdá, Wasit, Damasco, Hims, Egito, Tinnis, Isfahan, Nishapur e outros centros de hadith, onde estudou e compilou hadiths. Seus mestres de hadith eram inumeráveis. Um grande número de estudantes de hadith também recebeu hadiths dele.

Ele compôs muitas obras. Também escreveu uma extensa obra de tafsir do Alcorão Sagrado com base nos hadiths. Tarikh-e Malih é outra de suas obras notáveis. Nela, é apresentada uma história detalhada desde a época dos companheiros até o período do autor. Sua obra de hadith, As-Sunan, é célebre e constitui um dos grandes livros incluídos nas Seis Coleções Canônicas. Ele faleceu no ano 273 da Hégira (886 d.C.), numa segunda-feira, aos 64 anos.

 

Seis notáveis obras de hadith

Quando, na primeira metade do terceiro século da Hégira, os hadiths dispersos por todo o mundo muçulmano e preservados em diferentes lugares foram reunidos e registrados em forma de musnad, os muhaddiths das gerações posteriores tomaram a iniciativa de verificar, selecionar, depurar e compor, de forma concisa, obras contendo apenas hadiths autênticos. Como resultado dessa iniciativa, em meados e na segunda metade desse século, seis célebres obras de hadith sahih foram apresentadas ao público. Aqui desejamos discutir a história da compilação dessas seis obras de hadith, bem como a apresentação e as características de cada uma delas.

Sahih al-Bukhari

Entre essas seis obras de hadith consideradas as mais autênticas, a primeira em importância, a mais famosa e a que contém o maior número de hadiths autênticos é Sahih al-Bukhari, compilada pelo Imam Bukhari. O Imam Bukhari recebeu a inspiração para compor esta obra na reunião de seu ilustre mestre, Ishaq ibn Rahwayh. Ele próprio disse:

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Eu estava na presença de Ishaq ibn Rahwayh. Alguém entre os presentes em sua reunião disse: Seria muito bom se alguém compilasse uma obra que reunisse os hadiths autênticos e as sunnas narrados pelo Mensageiro, que fosse concisa e atingisse o mais alto grau de autenticidade; assim, também seria mais fácil para os praticantes cumprir a Sharia. Desse modo, eles não precisariam depender dos mujtahids.

Assim que ouviu essas palavras, surgiu no coração do Imam Bukhari o desejo de compor uma obra de hadith desse tipo. Embora as palavras acima tivessem sido proferidas de maneira geral e o discurso se dirigisse indistintamente a todos os presentes na reunião, o desejo de concretizá-las despertou no coração daquele a quem Allah, o Altíssimo, havia destinado a honra de compor uma obra de hadith incomparável como o Sahih Bukhari.

O Imam Bukhari (que Allah tenha misericórdia dele) disse:

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Esta palavra ficou gravada no meu coração e, sem demora, comecei a elaborar este livro.

Também foi mencionada pelo próprio Imam Bukhari outra razão que o levou a empreender a elaboração do livro de Bukhari. Ele disse:

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Vi em sonho o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele). Vi-me de pé diante dele, segurando um leque com o qual abanava o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) e repelia o ataque das moscas. Depois, quis saber a interpretação disso junto a alguém que interpretasse sonhos. O intérprete disse que eu repeliria todas as mentiras atribuídas ao Mensageiro. Na verdade, foi esse sonho e sua interpretação que me incentivaram a elaborar este grandioso livro contendo hadiths autênticos. Quis saber a interpretação disso junto a alguém que interpretasse sonhos. O intérprete disse que eu repeliria todas as mentiras atribuídas ao Mensageiro. Na verdade, foi esse sonho e sua interpretação que me incentivaram a elaborar este grandioso livro contendo hadiths autênticos.

Embora duas narrativas diferentes mencionem, de duas formas distintas, as razões que estiveram na origem da elaboração do livro, não há qualquer contradição fundamental entre essas duas razões. É muito possível que, depois de sair da assembleia de Ishaq ibn Rahwayh levando consigo a inspiração e o desejo de elaborar um livro de hadiths, o Imam Bukhari tenha tido esse belo sonho em consonância com isso e em seu apoio. Esse sonho também lhe comunicou que o propósito que havia formado de elaborar um livro reunindo hadiths autênticos havia recebido aprovação na presença do Mensageiro e que seu trabalho seria, na realidade, uma forma de proteger o Mensageiro (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) de seus intensos golpes.

Dos grandes livros de hadiths elaborados anteriormente, em diferentes capítulos e períodos, o Imam Bukhari obteve grande benefício ao elaborar esta obra inédita; e, avaliando os hadiths que ele próprio havia reunido segundo os rigorosos critérios que estabelecera, elaborou um grandioso e inestimável livro de hadiths.

Nas obras anteriores de hadith haviam sido incluídos hadiths de diversos graus, como sahih, hasan e da‘if. Para um leitor comum, era muito difícil selecionar delas apenas os hadiths sahih; isso só era possível para pessoas especialmente proficientes e profundamente versadas na ciência do hadith. Do mesmo modo, era extremamente difícil reunir todos os hadiths referentes às instruções específicas da Sharia sobre determinado assunto. Isso porque o objetivo das obras anteriores era somente coletar os hadiths do nobre Mensageiro (s.) e protegê-los da destruição. Por isso, nelas não se fazia, em grande medida, o trabalho de organizar num único lugar os hadiths sobre um mesmo tema. Consequentemente, não havia como, por meio de sua leitura, conhecer em detalhe as palavras do Mensageiro sobre a Sharia. Todas essas razões, reunidas, levaram o Imã Bukhari, diante das novas necessidades, a compor uma nova compilação de hadiths.

O Imã Bukhari iniciou o trabalho de composição desta obra de hadith sentado no interior da ‘Casa Sagrada’ — a Casa de Allah. Mais tarde, concluiu a inclusão de seus diversos capítulos e da ‘Tarjamatul Bab’ sentado em Medina, no interior da Mesquita do Profeta, no espaço entre o púlpito e o abençoado túmulo do Mensageiro.

Ao registrar os hadiths, o Imã Bukhari (r.) adotou um método extraordinário e surpreendente. Ele mesmo disse:

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Antes de registrar cada hadith nesta obra sahih, eu tomava um banho ritual e realizava duas rak‘at de oração nafl; além disso, não escrevi sequer um hadith.

Ele manteve tanto em Meca quanto em Medina o procedimento de tomar um banho ritual e realizar duas rak‘at de oração nafl antes de registrar cada hadith. Antes de escrever cada hadith, tomava todas as precauções possíveis a seu respeito. Sem estar firmemente convencido de que o hadith era realmente do Mensageiro, não citava nele sequer um hadith. Sobre isso, ele mesmo disse:

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Eu não acrescentei nesta obra sequer um hadith sem antes obter, por meio da istikhara, conhecimento da parte de Allah sobre cada hadith, sem realizar uma oração nafl e sem estar firme e inequivocamente convencido de sua autenticidade.

Com efeito, fica claramente evidente, a partir de tudo o que foi mencionado acima, quão difícil e rigoroso foi o processo de compilação desta obra de hadith pelo Imam Bukhari. Basta refletir um pouco para compreender a grande verdade nele contida. Esse esforço extraordinário e essa dedicação incansável prosseguiram ininterruptamente durante longos dezesseis anos. Sobre isso, o próprio Imam Bukhari declarou:

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Concluí o trabalho de compilação desta obra ao longo de exatos dezesseis anos.

O Imam Bukhari (r.) iniciou o trabalho de compilação do Bukhari Sharif tendo diante de si um total de seiscentos mil hadiths. Ele declarou:

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Concluí o trabalho de compilação desta obra de Bukhari a partir de aproximadamente seiscentos mil hadiths.

Entre esses seiscentos mil hadiths, o Imam Bukhari havia memorizado integralmente, por si mesmo, cem mil hadiths autênticos. O Imam Bukhari (r.) declarou:

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Eu era capaz de recitar de memória cem mil hadiths.

É desnecessário dizer que esse não é o número total de todos os hadiths autênticos, e que o Imam Bukhari não tinha decorado apenas esses cem mil hadiths; ele tinha decorado muitos outros hadiths além desses. Contudo, entre os hadiths que tinha memorizado, o número dos hadiths autênticos era precisamente de cem mil. Ele também tinha memorizado cerca de duzentos mil hadiths não autênticos.

Pode-se compreender claramente, pelas palavras que seguem, se o Imam Bukhari possuía alguns hadiths acumulados quando compilou esta obra de hadiths e se inseriu nela todos os hadiths autênticos. Ele disse:

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Nesta minha obra de hadiths, incluí somente hadiths autênticos e fidedignos. Além desses, deixei de fora muitos outros hadiths autênticos. Não os incluí nesta obra por receio de que ela se tornasse excessivamente longa e volumosa.

Outra declaração do Imam Bukhari a esse respeito merece ser mencionada. Ele disse:

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Nesta obra, incluí somente hadiths autênticos. E o número daqueles que deixei de fora é muito maior que o dos hadiths incluídos. Fiz isso apenas por receio de que a obra se tornasse excessivamente volumosa.

Assim, a obra que o Imame Bukhari organizou sistematicamente e apresentou ao mundo recebeu o seguinte nome:

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Uma compilação concisa e abrangente de hadiths com cadeias de transmissão autênticas sobre todos os assuntos e atos do Nobre Mensageiro (que a paz esteja com ele), sua Sunnah e as condições de sua época.

Estabeleci esta obra como uma prova irrefutável entre mim e Allah.

Qualquer pessoa que tenha lido o Bukhari Sharif pode compreender quão verdadeira é essa afirmação do Imame Bukhari e que esta obra de hadiths é um pilar imperecível da religião do Islão.

O total dos hadiths citados mais de uma vez no Bukhari Sharif é de nove mil e oitenta e dois (9.082). Excluindo os seus mu‘allaqat e mutabi‘at, o número de hadiths fica em sete mil trezentos e noventa e sete (7.397). Se forem excluídos do cálculo os hadiths mencionados mais de uma vez, o total é de dois mil seiscentos e dois (2.602). Segundo outro cálculo, nesta categoria o número de hadiths é de dois mil setecentos e sessenta e um (2.761).

Contudo, o Allama Badruddin Ayni (que Allah tenha misericórdia dele) escreveu o seguinte sobre o número de hadiths do Bukhari Sharif:

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O número total de hadiths com isnad incluídos no Sahih al-Bukhari é de sete mil duzentos e setenta e cinco (7.275). Nesse número estão incluídos os hadiths repetidos. Excluindo-os da contagem, restam aproximadamente quatro mil hadiths.

Há uma razão principal para essa diferença na contagem: embora a compilação desta valiosíssima obra do Imām al-Bukhārī tenha sido concluída em dezesseis anos, as alterações, ampliações, acréscimos e supressões continuaram por muito tempo depois disso. Por essa razão, diferentes alunos ouviram a obra do Imām al-Bukhārī em diferentes épocas, o que ocasionou diferenças no número de hadiths conservados em seus exemplares. Na primeira fase, os alunos tinham por escrito apenas os hadiths que haviam sido incluídos até então. Posteriormente, foram feitas alterações: o compilador suprimiu alguns hadiths da compilação inicial e incluiu muitos hadiths novos. Assim, aqueles que a ouviram nessa fase receberam um número maior de hadiths do que os anteriores, incluindo também os hadiths recém-acrescentados.

Isso ficará ainda mais claro na discussão a seguir. Centenas de milhares de pessoas ouviram esta sua coletânea de hadiths diretamente do Imām al-Bukhārī. Contudo, os alunos do Imām al-Bukhārī por meio dos quais se transmitiu principalmente a linha fundamental da narração desta obra foram quatro.

1. Ibrāhīm ibn Ma‘qil ibn al-Hajjāj al-Nasafī (falecido em 294 H.)

2. Hammād ibn Shākir al-Nasafī (falecido em 311 H.)

3. Muhammad ibn Yūsuf al-Farabī (falecido em 320 H.)

4. Abū Talha Mansūr ibn Muhammad ibn ‘Alī ibn Karīma al-Bajdūdhī (falecido em 329 H.)

Al-Farabī ouviu o Sahih al-Bukhari do Imām al-Bukhārī duas vezes. Uma vez, no lugar chamado Farab, no ano 248 da Hégira, quando o Imām al-Bukhārī havia chegado ali; e, pela segunda vez, no ano 252 da Hégira, quando ele próprio foi a Bucara.

A versão de Sahih al-Bukhari narrada por Hammad ibn Shakir contém duzentos hadiths a mais do que a versão narrada por al-Farabrī. E, em comparação com a versão narrada por Ibrahim ibn Ma‘qal, contém trezentos hadiths a mais. Isso prova claramente que o Imām al-Bukhari aumentou gradualmente o número de hadiths em sua obra Bukhari, e que as versões narradas pelos estudantes da primeira fase continham menos hadiths do que as versões narradas pelos estudantes posteriores.

Depois de concluir a composição de sua obra, o Imām al-Bukhari apresentou-a aos demais grandes muhaddiths de sua época. Entre eles, destacavam-se ‘Ali ibn al-Madini, Ahmad ibn Hanbal e Yahya ibn Ma‘in (que Allah tenha misericórdia deles). Cada um deles, após examinar a obra,

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gostou muito dela, declarou-a uma obra excelente e testemunhou claramente que se tratava de uma obra autêntica.

Os sábios e os muhaddiths de todas as épocas fizeram muitas declarações proclamando a superioridade e as características distintivas de Sahih al-Bukhari. Maulana Ahmad ‘Ali citou:

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Todos os sábios do hadith estão em pleno acordo quanto ao fato de que, entre os livros de hadith compilados, as obras mais autênticas são Bukhari e Muslim. Segundo a maioria, entre essas duas obras, Sahih al-Bukhari é mais autêntica e proporciona maior benefício às pessoas.

Neste ponto, a seguinte declaração também é amplamente conhecida e repetida por todos:

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Depois do Livro de Allah, o livro mais autêntico sob o céu é o Sahih al-Bukhari.

O Imã an-Nasa’i disse:

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Entre todos esses livros de hadith, não há nenhum melhor que o livro de al-Bukhari.

A comunidade muçulmana atribuiu a este livro uma importância extraordinária e incomparável. Os eruditos muçulmanos compuseram inúmeras e extensas obras de comentário sobre ele. O autor de Kashf az-Zunun afirmou que o número de seus comentários era de oitenta e dois. Entre eles, os melhores são Fath al-Bari, al-Qastallani e Umdat al-Qari.

Sahih Muslim

A coletânea autêntica de hadith do Imã Muslim é o Sahih Muslim. O Imã Muslim compilou esta obra após examinar, selecionar e escolher entre trezentos mil hadith que havia ouvido diretamente de seus mestres.

Após concluir a compilação da coletânea de hadiths, ele a apresentou ao então renomado hafiz de hadiths, o Imam Abu Zur’a.

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Eu apresentei esta obra ao Imam Abu Zur’a al-Razi. Abandonei todos os hadiths cujo isnad ele indicou conter alguma falha (isto é, retirei-os da obra); e incluí nesta obra todos os hadiths sobre os quais ele opinou que eram sahih e não apresentavam qualquer deficiência.

Isso prova que o Imam Muslim não incluiu nenhum hadith nesta obra considerando-o sahih unicamente com base em seu próprio conhecimento, inteligência e julgamento; ao contrário, consultou também outros muhaddiths contemporâneos sobre a autenticidade de cada hadith, e registrou nesta sua preciosa obra somente aqueles cuja autenticidade os muhaddiths contemporâneos aceitaram por unanimidade. A própria declaração dele sobre esse assunto será a prova mais confiável. Ele disse:

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Não incluí na obra apenas os hadiths que considerei sahih. Pelo contrário, incluí nesta obra somente aqueles hadiths sobre cuja autenticidade os muhaddiths estão de acordo.

Assim, após quinze longos anos de dedicação, pesquisa e rigorosa verificação e seleção ininterruptas, foi preparada uma compilação sistemática dos hadiths sahih.

Esta obra contém ao todo doze mil hadiths. Nela também estão incluídos hadiths citados mais de uma vez. Excluindo esses, o número total de hadiths é de aproximadamente quatro mil.

Sobre a autenticidade dos hadiths incluídos neste livro de hadiths, o Imã Muslim declarou pessoalmente:

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Mesmo que os muhaddiths continuassem escrevendo hadiths por duzentos anos, ainda assim teriam de depender deste livro autêntico com sua cadeia de transmissão.

A afirmação do Imã Muslim não é falsa; ela se revelou uma verdade real aos muhaddiths das gerações posteriores. Já se passaram quase mil e cem anos, mas não foi possível compilar nenhum livro de qualidade igual à de Sahih Muslim, ou de dignidade superior à sua. Ainda hoje, sua beleza e autenticidade permanecem imaculadas, concedendo à humanidade a luz de um conhecimento puro e límpido. O hafiz Muslim ibn Qurtubi escreveu sobre Sahih Muslim Sharif:

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Ninguém no Islã conseguiu compilar outro livro semelhante a este.

Além disso, segundo vários muhaddiths de destaque das gerações posteriores, Muslim Sharif é mais autêntico e superior a Bukhari Sharif.

Qadi Iyad é um grande muhaddith. Ele afirmou que vários de seus mestres de hadith — um dos quais era um muhaddith de enorme destaque — davam preferência a Muslim Sharif em relação a Bukhari.

Hafiz Ibn Mandah disse:

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Ouvi Abu Ali Nishapuri — não vi outro grande hafiz de hadith igual a ele — dizer: “Não vi, sob o céu, livro algum mais autêntico que o livro de hadith do Imam Muslim.”

Esta citação também comprova que essa era a opinião de Hafiz Ibn Mandah. E uma clara compreensão do tipo de muhaddith que Abu Ali era pode ser obtida do relato apresentado por Hakim Nishapuri, autor do livro Mustadrak. Ao apresentar Abu Ali, ele disse:

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Na memorização de livros de hadith, na vigilância especializada sobre seu conteúdo, na análise dos hadiths e na composição de livros de hadith, ele era incomparável e incontestado em sua época.

Muitos estudantes ouviram dele este livro de hadith compilado pelo Imam Muslim e também o transmitiram por sua autoridade. Mas aquele por cuja autoridade a cadeia de transmissão deste livro se manteve em toda parte — especialmente para esse propósito, até a época recente — foi o célebre muhaddith, Shaykh Abu Ishaq Ibrahim ibn Muhammad ibn Sufyan Nishapuri. Ele faleceu no ano 308 da Hégira.

A esse respeito, o Imam Nawawi escreveu:

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Atualmente, e para esse fim, a cadeia de transmissão deste livro, a partir do Imam Muslim, por meio de uma cadeia ininterrupta de transmissão, depende unicamente da narração de Abu Ishaq Ibrahim ibn Muhammad ibn Sufyan. Entre este Ibrahim ibn Muhammad ibn Sufyan e o Imam Muslim estabeleceu-se uma relação especial. Ele permanecia sempre na companhia do Imam Muslim e estudava hadith com ele.

Outro discípulo do Imam Muslim foi Abu Muhammad Ahmad ibn Ali Qalansi. O Sahih Muslim também foi transmitido por meio de sua cadeia; contudo, essa cadeia de transmissão não era completa e tampouco pôde perdurar por muito tempo.

Sunan de al-Nasa’i

O Imam al-Nasa’i compilou inicialmente um livro de hadith chamado ‘Sunan al-Kubra’. Nele foram reunidos hadiths de ambos os tipos: autênticos e isentos de defeitos. Depois, preparou uma versão resumida da mesma obra. Deu-lhe o nome de ‘al-Sunan al-Sughra’. Ela também é conhecida pelo nome de ‘al-Mujtaba’ — ‘o selecionado’.

Nesta última coletânea, o Imam al-Nasa’i seguiu os métodos de compilação do Imam al-Bukhari e do Imam Muslim. A obra do Imam al-Nasa’i combina os métodos introduzidos por ambos. O hafiz Abu Abd Allah Ibn Rushayd (falecido em 721 da Hégira) disse:

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Entre todos os livros de hadith compilados na categoria dos Sunan, esta obra foi composta de maneira extremamente original. Também é uma excelente obra quanto à organização e à disposição do material. Nela se combinam os métodos de composição de al-Bukhari e Muslim. As ‘ilal dos hadiths também são citadas nela em uma seção específica.

Sobre a autenticidade desta obra, o próprio Imam al-Nasa’i disse:

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“Todos os hadiths citados na obra chamada Mujtaba — a compilação de hadiths — são autênticos.[******************** Contudo, Hafiz al-Dhahabi tinha uma opinião diferente a esse respeito. Ele disse: este ‘Al-Mujtaba’ não foi escrito pelo Imam al-Nasa’i; foi, antes, escrito por seu discípulo Ibn Samali ********************]

Com efeito, a opinião de quase todos os maiores muhaddiths sobre os hadiths narrados pelo Imam al-Nasa’i é que, em termos de autenticidade, eles são mais confiáveis do que os hadiths narrados por outros.

O hafiz Imam Abu al-Hasan al-Muzaffari (falecido em 403 da Hégira) disse:

******************************************************

Sempre que examinardes os hadiths narrados pelos muhaddiths, compreendereis que os hadiths narrados pelo Imam al-Nasa’i estarão mais próximos da autenticidade do que os narrados por outros.[********************]

Embora muitos discípulos tenham ouvido esta obra diretamente do Imam al-Nasa’i, dez grandes muhaddiths transmitiram sua cadeia contínua de transmissão.

Embora muitos estudantes tenham ouvido esta obra do Imam al-Nasa’i, dez grandes muhaddiths transmitiram sua cadeia de narração.

Escreveram comentários sobre esta obra do Imam al-Nasa’i Jalaluddin al-Suyuti (falecido em 911 H.) e Muhammad ibn Abd al-Hadi al-Samadi (falecido em 1138 H.). O nome do comentário escrito por al-Suyuti é — ********************

Sunan Abu Dawud

O Imam Abu Dawud compilou esta obra após selecionar e filtrar quinhentos mil hadiths. Nela foram incluídos ao todo quatro mil e oitocentos hadiths. Todos esses hadiths estão relacionados aos ahkam, e a maioria deles pertence à categoria dos hadiths ‘mashhur’.[********************] Sobre isso, suas próprias palavras são as seguintes:

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Eu havia registrado quinhentos mil hadiths do Mensageiro Nobre (que a paz esteja com ele). Dentre eles, inseri nesta obra os hadiths selecionados após filtrá-los e examiná-los.[********************]

É necessário ter em mente que o Imam Abu Dawud selecionou os hadiths sob uma perspectiva de fiqh. Depois do Imam Bukhari, ele possuía uma visão mais abrangente e perspicaz sobre o fiqh do que os demais autores dos Sihah Sittah. Por essa razão, embora sua obra seja essencialmente uma compilação de hadiths, na prática ela foi organizada segundo o método da ciência do fiqh; todos os temas do fiqh foram discutidos nela, e todos os juristas das épocas contemporânea e posteriores extraíram argumentos e provas dos hadiths compilados por ele. É por essa razão que os juristas consideram:

******************************************************

Para um mujtahid, a fim de deduzir questões de fiqh, depois do Livro de Deus, o Alcorão Majid, esta obra, o Sunan de Abu Dawud, é suficiente.

Ele determinou os capítulos sob a perspectiva do fiqh e mencionou neles afirmações comprovadas pelos hadiths citados abaixo, tendo algum faqih adotado tal opinião com base nesses hadiths. Por isso, esta obra conseguiu alcançar enorme popularidade e renome entre os estudiosos do fiqh.

Foi atentando para essa característica que o imame e hafiz Abu Ja‘far ibn Zubayr al-Garnati (falecido em 708 H.), ao discutir os Seis Livros Canônicos, disse o seguinte sobre o Sunan de Abu Dawud:

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Devido à compilação abrangente e irrestrita dos hadiths relacionados ao fiqh, a distinção do Sunan de Abu Dawud não se encontra em nenhuma outra obra dos Seis Livros Canônicos.

Sobre a importância prática e o valor do Sunan de Abu Dawud, o imame Ghazali também declarou claramente: ‘Entre os livros de hadith, esta única obra é suficiente para um mujtahid’.

O muhaddith Zakariya Saji disse:

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O fundamento do Islã é o Livro de Allah, e a norma do Islã é o Sunan de Abu Dawud.

O Imam Abu Dawud concluiu, ainda jovem, o trabalho de compilação desta sua obra. A extraordinária competência que ele havia adquirido no conhecimento dos hadiths naquela época pode ser claramente compreendida pela declaração de Ibrahim al-Harbi, citada a seguir. Ele disse:

******************************************************

Quando o Imam Abu Dawud compilou esta sua obra, os hadiths foram tornados fáceis e acessíveis para ele, exatamente como o ferro havia sido tornado maleável para o profeta Dawud.

Depois de concluir a compilação da obra, ele a apresentou ao seu mestre de hadiths, o Imam Ahmad ibn Hanbal. O Imam Ahmad gostou muito dela e a elogiou como uma excelente obra de hadiths.

Depois, ela foi apresentada ao público em geral. Allah, o Altíssimo, concedeu-lhe tamanha popularidade e estima entre as pessoas que nenhuma outra obra dos Sihah Sittah conseguiu alcançar. Fazendo alusão a isso, o discípulo do Imam Abu Dawud, o Hafiz Muhammad ibn Makhlas al-Duari (falecido em 331 H.), disse:

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Quando o Imam Abu Dawud concluiu a composição do livro Sunan e o recitou para que as pessoas o ouvissem, ele imediatamente se tornou, para os muhaddiths, um livro sagrado digno de ser seguido, tal como o Alcorão Majid.

Sobre os hadiths incluídos nesta obra, o próprio Imam Abu Dawud declarou:

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Não citei nela nenhum hadith que tivesse sido unanimemente rejeitado pelo povo.

Esta obra foi transmitida a partir do Imam Abu Dawud, por meio de uma cadeia contínua de transmissores, por cerca de nove ou dez grandes muhaddiths.

No ano 275 da Hégira, o Imam Abu Dawud fez com que seus estudantes registrassem esta obra pela última vez; nesse mesmo ano, na sexta-feira, dia 16 de Shawwal, partiu para a morada eterna.

Jami‘ at-Tirmidhi

A coletânea de hadith do Imam Tirmidhi é conhecida pelo nome de «Jami‘ at-Tirmidhi». É também conhecida como «Sunan

»; contudo, a primeira denominação foi adotada pela maioria dos estudiosos de hadith.

O imame At-Tirmidhi preparou sua obra segundo o método de composição seguido pelo imame Abu Dawud e pelo imame Al-Bukhari. Primeiro, nela foram organizados capítulos à maneira do fiqh, nos quais ele inseriu os hadiths relacionados às necessidades práticas. Contudo, não preencheu toda a obra apenas com hadiths relativos às necessidades práticas; ao contrário, acrescentou também, à semelhança do Sahih Al-Bukhari, hadiths de outros capítulos. Assim, a obra tornou-se uma combinação extraordinária e uma obra abrangente. Por isso, o nome “Jami‘ At-Tirmidhi” mostrou-se plenamente adequado. Nela foram dispostos de modo belo os hadiths necessários sobre diversos assuntos. Por essa razão, o hafiz Abu Ja‘far Ibn Zubay (falecido em 708 da Hégira), ao discutir as Seis Coleções Canônicas, disse:

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O imame At-Tirmidhi é incontestável na característica que alcançou ao compor sua obra reunindo hadiths sobre diversos assuntos.

Depois de concluir a composição desta obra, o imame At-Tirmidhi apresentou-a aos eruditos especialistas em hadith do mundo muçulmano de então, para que a verificassem. Sobre isso, ele próprio disse:

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Depois de concluir a composição desta obra de hadiths com suas cadeias de transmissão, apresentei-a aos especialistas em hadith do Hijaz. Ao examiná-la, eles gostaram muito dela e expressaram sua satisfação. Em seguida, apresentei-a aos especialistas em hadith do Coração. Eles também gostaram imensamente dela e expressaram sua satisfação.

O imame At-Tirmidhi fez pessoalmente uma afirmação muito importante a respeito desta sua obra. Ele disse:

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Pode-se considerar que, na casa onde este livro estiver, o próprio Profeta Nobre (que a paz esteja com ele) está presente e fala pessoalmente.

Na verdade, esta é a verdadeira posição dos livros de hadith — especialmente dos livros de hadith autênticos — e isso não se aplica apenas ao Tirmidhi Sharif; é igualmente aplicável e uma verdade incontestável no caso de todos os livros de hadith autênticos.

O Tirmidhi Sharif é um livro de hadith agradável de ler e fácil de compreender para os leitores comuns. O Shaykh al-Islam, al-Hafiz Imam Abu Isma’il Abdullah al-Ansari (falecido em 481 da Hégira), disse o seguinte durante uma discussão sobre o Tirmidhi Sharif:

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Na minha opinião, o Tirmidhi Sharif é mais útil na prática do que os dois livros, Bukhari e Muslim. Isso porque Bukhari e Muslim são livros de hadith dos quais ninguém, exceto os eruditos especialmente versados, é capaz de tirar proveito. Mas qualquer pessoa pode beneficiar-se do livro do Imam Abu Isa at-Tirmidhi.

Embora numerosas pessoas tenham ouvido este livro do Imam at-Tirmidhi, sua cadeia de transmissão foi preservada e transmitida de forma contínua e ininterrupta por meio de apenas seis grandes muhaddiths.

Acima, foi apresentada uma discussão detalhada sobre os cinco principais livros de hadith. Os grandes eruditos especialistas em hadith de todo o mundo declararam aberta e solenemente a excelência e a distinção desses cinco livros de hadith, e nesse aspecto não surgiu divergência alguma. O Hafiz Abu Tahir as-Salafi (falecido em 576 da Hégira) disse:

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Todos os eruditos especialistas em hadith do Oriente e do Ocidente estão plenamente de acordo quanto à autenticidade destas cinco obras.

Qual é a sexta obra?

Entretanto, surgiu uma divergência entre os muhaddiths quanto a qual obra ocupa o sexto lugar depois destas cinco obras. Os muhaddiths das primeiras gerações e muitos especialistas em hadith das gerações posteriores consideraram apenas as cinco obras mencionadas acima como as principais coletâneas de hadith. Porém, alguns muhaddiths das gerações posteriores (muta’akhkhirun) expressaram uma opinião contrária. Há também considerável divergência quanto à sexta obra entre essas seis. Segundo alguns, a sexta obra das Sihah Sittah é o Ibn Majah Sharif; segundo outros, é o Muwatta do Imam Malik. Contudo, aos olhos dos especialistas em hadith desta corrente, o Ibn Majah é muito superior ao Muwatta e mais adequado ao uso do público em geral. Por isso, ele é a sexta obra das Sihah Sittah. O hafiz Abu al-Fadl ibn Tahir al-Maqdisi (falecido em 507 H.) foi o primeiro a declarar o nome do Ibn Majah como a sexta obra das Sihah Sittah. Depois, o hafiz Abd al-Ghani al-Maqdisi também adotou essa posição. O muhaddith Abu al-Hasan al-Sindi escreveu:

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A opinião da maioria dos muhaddiths das gerações posteriores é que o Ibn Majah Sharif é precisamente a sexta obra das Sihah Sittah.

Alguns muhaddiths consideram o Sunan de al-Darimi uma coletânea de hadith superior e mais livre de falhas do que o Sunan de Ibn Majah. Eles propuseram seu nome como a sexta obra das Sihah Sittah. Entretanto, nenhuma dessas opiniões é aceitável. O Sunan de Ibn Majah é superior ao Muwatta e ao Sunan de al-Darimi sob qualquer aspecto. Portanto, é o Sunan de Ibn Majah que merece ser mencionado como a sexta obra. O historiador Ibn Khallikan (falecido em 681 H.), ao tratar de Ibn Majah, escreveu:

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A sua coletânea de hadith é uma das Sihah Sittah.

Sunan Ibn Majah

Sunan Ibn Majah é uma obra especialmente valiosa de hadiths. Quando o Imam Ibn Majah concluiu sua compilação e a apresentou ao seu mestre, o Imam Abu Zur’a, este, ao examiná-la, disse:

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Creio que, se este livro chegar às mãos das pessoas, todos ou a maioria dos livros de hadiths compilados até o presente se tornarão desnecessários.[********************]

De fato, essa previsão do Imam Abu Zur’a revelou-se válida e verdadeira. Esta obra ocupa uma posição distinta entre todas as obras de Sihah Sitta por dois motivos. Primeiro, sua composição, organização, disposição e excelência. Nela, os hadiths foram organizados segundo um método especial de disposição e por capítulos, sem qualquer repetição. Em nenhum outro livro se encontra semelhante beleza. Quanto à popularidade, ela eclipsou quase todos os livros de hadiths anteriores a ela. O muhaddith Shah Abd al-Aziz Dehlawi (que Allah tenha misericórdia dele) teceu grandes elogios à obra Ibn Majah. Ele disse:

******************************************************

Na verdade, a apresentação dos hadiths um após o outro, sem repetição, juntamente com a beleza da organização e outras particularidades, como a concisão, encontradas neste livro são raras em qualquer outra obra.[********************]

O Hafiz Ibn Kathir (que Allah tenha misericórdia dele) escreveu sobre a obra compilada por Ibn Majah:

******************************************************

Esta é uma obra extremamente benéfica; seus capítulos foram organizados de maneira muito bela e sólida do ponto de vista da jurisprudência islâmica.

Hafiz Ibn Hajar al-Asqalani disse:

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A obra Sunan de Imam Ibn Majah contém uma coleção extremamente abrangente e excelente de hadiths.

A segunda característica desta obra é que nela foram citados hadiths que não aparecem em nenhuma das outras obras de al-Sihah al-Sitta. Por essa razão, seu valor prático é muito maior que o das demais obras. Allama Abu’l Hasan al-Sanadi disse:

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O autor desta obra seguiu nela o método de Hazrat Muadh ibn Jabal. Em muitos capítulos, ele citou hadiths que não são encontrados nas outras cinco famosas obras de hadith autênticas.

O significado de “seguir o método de Hazrat Mu‘adh” é que Hazrat Mu‘adh (que Allah esteja satisfeito com ele) frequentemente narrava hadiths que não haviam chegado ao conhecimento dos demais Companheiros. Em sua obra, o Imam Ibn Majah narrou independentemente muitos hadiths desse tipo, em comparação com outras obras. Allama Abu’l-Hasan Sindi disse: – ******************** “Hazrat Mu‘adh fazia isso com o propósito de proporcionar maior benefício às pessoas”.[********************]

No início da discussão sobre este assunto, já foi mencionada a declaração do Imam e estudioso de hadith Abu Zur‘a a respeito do Sunan de Ibn Majah. Não há dúvida de que Abu Zur‘a apreciava muito esta obra; contudo, também mencionou claramente as falhas que, a seu ver, encontrou nela. Sobre isso, citando a declaração de Abu Zur‘a, foi dito:

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O Imam Abu Zur‘a disse: Estudei a coletânea de hadiths de Abu ‘Abdullah Ibn Majah. Entretanto, encontrei nela apenas pouquíssimos hadiths que continham alguma falha. Fora isso, não encontrei nenhum outro defeito. Em seguida, mencionou cerca de dez hadiths nesse contexto.[********************]

(Embora os estudiosos da ciência do hadith tenham levantado objeções quanto à cadeia de transmissão desta declaração.)

Seja como for, o Imam Ibn Majah concluiu a compilação desta obra após um esforço e uma investigação imensos. Selecionou quatro mil hadiths dentre centenas de milhares e os organizou em diferentes capítulos. Contudo, por conter mais hadiths fracos em comparação com as outras cinco obras dos Sihah Sittah, ela ocupa o último lugar entre as seis coletâneas de hadiths. O estudioso de hadith Sindi disse:

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Seja como for, em termos de prestígio e honra, a obra de Ibn Majah ocupa uma posição ainda inferior às outras cinco obras.[********************]

É considerado até mesmo posterior a Abu Dawud e ao Sunan de al-Nasa’i. O erudito Muhammad ibn Ibrahim disse:

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O Sunan de Ibn Majah será considerado posterior a Abu Dawud e ao Sunan de al-Nasa’i.

Mas isso não significa que cada hadith citado nos outros cinco livros de hadith seja, individualmente, necessariamente superior e mais autêntico do que cada hadith narrado por Ibn Majah. Pois no livro de Ibn Majah também foram citados hadiths mais autênticos do que os hadiths de Sahih al-Bukhari.

O Sunan de Ibn Majah contém, ao todo, 32 seções, mil e quinhentos capítulos e quatro mil hadiths citados.

No livro de Ibn Majah, quatro grandes muhaddiths narraram principalmente por meio de uma cadeia contínua de transmissão. Eles são:

1. Abu al-Hasan ibn Qattan

2. Sulayman ibn Yazid

3. Abu Ja‘far Muhammad ibn ‘Isa

4. Abu Bakr Hamed al-Azhari.

 

A ciência do hadith no quarto século

No quarto século da Hégira, a ciência do hadith alcançou plena maturidade. O estudo e o desenvolvimento da ciência do hadith realizados no terceiro século superaram todos os trabalhos anteriores. Foi precisamente neste século que surgiram numerosos grandes muhaddiths, hafizes do hadith e imames da ciência do hadith. Também foi neste século que foram compiladas as seis mundialmente famosas obras autênticas de hadith, e quase todos os hadiths autênticos foram reunidos nessas obras. Neste século foram igualmente redigidas numerosas obras contendo discussões detalhadas e minuciosas sobre o isnad de cada hadith, bem como a história de vida e o caráter de cada narrador mencionado no isnad. Assim, a ciência do hadith desenvolveu-se plenamente como uma ciência autônoma e completa.

No quarto século, deu-se continuidade aos trabalhos do século anterior. Contudo, isso não significa que, na compilação de obras de hadith, nada de independente tenha sido realizado nesse século. Quase tudo o que foi feito nesse período consistiu apenas na elaboração de novas obras de hadith com base nos hadiths recebidos e preservados pelos estudiosos anteriores do hadith. Além disso, a distinção entre hadiths autênticos e fracos foi realizada com especial cautela.

Muitos muhaddiths desse século reuniram os hadiths preservados de forma fragmentada e dispersa nas obras dos predecessores. As longas cadeias de transmissão foram abreviadas. O trabalho de sua organização e compilação foi realizado com plena competência. As obras de quase todos eles basearam-se nos trabalhos dos muhaddiths anteriores.

Ainda assim, nesse século surgiram vários grandes muhaddiths que, de forma independente, compilaram obras de hadith segundo o método dos predecessores. Possuíam profundo conhecimento na transmissão dos hadiths e na investigação das cadeias de transmissão. Apresentamos aqui uma breve discussão sobre eles:

O muhaddith al-Hakim an-Nishapuri (que Allah tenha misericórdia dele)

O muhaddith al-Hakim al-Nishapuri foi um dos maiores especialistas em hadith do quarto século hijri. Após a composição das obras do imame Bukhari e do imame Muslim, ele reuniu principalmente os hadiths sahih restantes e, com base neles, compôs uma obra independente. Seu nome é “Al-Mustadrak”.

É universalmente conhecido que, entre as obras de hadith compostas pelo imame Bukhari e pelo imame Muslim, essas duas são as mais autênticas no mundo do conhecimento dos hadiths. Isso, porém, não significa que todos os hadiths sahih tenham sido incluídos nessas duas obras e que não tenha restado nenhum hadith sahih fora delas. Na realidade, os hadiths mencionados nessas duas obras são autênticos, mas, fora delas, permaneceram muitos outros hadiths igualmente autênticos e do mesmo nível que os hadiths nelas incluídos. Muitos outros hadiths que preenchiam as condições impostas pelos dois imames para aceitar um hadith como sahih e que atendiam aos critérios por eles estabelecidos para selecionar hadiths autênticos permaneceram fora delas, pois não foram incluídos apenas pelo receio de que o tamanho das duas obras se tornasse extraordinariamente grande. O imame al-Hakim investigou esse tipo de hadith, avaliou-o na balança crítica e, reunindo-o, compôs esta obra, conhecida pelo nome de “Mustadrak”.

Além disso, o imame al-Hakim compôs várias outras obras valiosas sobre hadith. O total dos volumes de suas obras chega a mil e quinhentos. Ele viajou duas vezes ao Iraque e ao Hijaz em busca de hadiths. Durante essas viagens, discutiu muitos hadiths. Faleceu no ano 405 da Hégira.

Imame al-Daraqutni (que Deus tenha misericórdia dele)

O nome completo de al-Daraqutni era Ali ibn Umar ibn Ahmad. Ele foi um dos maiores hafizes e imames de hadith de sua época. Ouviu e reuniu uma grande quantidade de hadiths junto a numerosos mestres e, com base neles, compôs muitas obras de alto nível. Era especialmente dotado de extraordinária competência na verificação e avaliação dos hadiths. Sua obra “Al-Ilzamat” é uma obra de hadith incomparável, tal como o Mustadrak. O nome de outra de suas obras é “Kitab as-Sunan”.

Ele nasceu no ano 306 da Hégira, no famoso bairro “Daraqutn”, em Bagdá. Com o objetivo de estudar hadith, visitou todos os grandes muhaddiths de Bagdá e, posteriormente, com o mesmo propósito, percorreu Kufa, Basra, a Síria, Wasit, o Egito e outros centros de hadith. Desde a infância, alcançou grande fama por sua extraordinária memória e capacidade de compreensão. Faleceu em Bagdá, no ano 385 da Hégira.

Ibn Hibban (que Deus tenha misericórdia dele)

Seu nome completo era Muhammad ibn Hibban Ahmad ibn Hibban Abu Hatim al-Busti. Ele era um grande hafiz de hadith. Percorreu os principais centros de hadith de seu tempo e ouviu hadiths de numerosos muhaddiths. O historiador Ibn Sam‘ani disse:

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Abu Hatim Ibn Hibban era o maior conhecedor de hadith de sua época. Com o propósito de ouvir e coletar hadiths, percorreu a longa rota de Shash até Alexandria.[********************]

Al-Khatib al-Baghdadi escreveu a respeito dele:

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Ele era um narrador de hadith extremamente confiável e fidedigno. Também deixou numerosas obras de hadith.[]

Sobre sua expedição de coleta de hadith, ele próprio disse:

******************************************************

Percorri a longa rota de Shash até Alexandria e, provavelmente, ouvi e coletei hadith de cerca de mil mestres.[********************]

É opinião de quase todos os muhaddiths deste século que, entre aqueles que, depois de Bukhari e Muslim, compilaram obras reunindo hadiths autenticamente sahih, se primeiro for necessário mencionar o nome de Ibn Khuzaymah, logo depois dele deve ser mencionado Ibn Hibban.[ ক. ********************]

Ibn Hibban faleceu no ano 354 da Hégira.[********************]

Imam Tabarani (que Deus tenha misericórdia dele)

O nome completo do Imam Tabarani era Abu’l-Qasim Sulayman ibn Ahmad al-Tabarani. Ele compilou uma coletânea de hadiths chamada ‘Al-Mu‘jam’, dividida em três partes. Os nomes de cada parte são, respectivamente:

1. ********************

2. ********************

3. ********************

Na primeira parte, ele inseriu os hadiths recebidos por meio das cadeias de transmissão dos Companheiros, exceto Abu Hurayrah. Ele reuniu os musnads de Abu Hurayrah em um volume separado. Neste volume do Mu‘jam, reuniu aproximadamente vinte mil e quinhentos hadiths (musnads). Nele, adotou a ordem alfabética dos nomes dos Companheiros.

Na obra da terceira parte, ele reuniu os hadiths recebidos de cerca de dois mil mestres, organizando-os segundo isnads que trazem o nome de cada mestre. Diz-se que nela há hadiths narrados através de cerca de trinta mil isnads, e que ela está dividida em seis volumes distintos.

A obra da segunda parte está completa em um único volume. Nela foram reunidos cerca de mil e quinhentos hadiths recebidos de mil mestres.

Imam al-Tahawi (r)

O nome completo do Imam al-Tahawi era Abu Ja’far Ahmad ibn Muhammad al-Tahawi. Ele foi um dos mais proeminentes muhaddiths deste século. Nasceu no ano 228 da Hégira, na aldeia de Taha, no Egito. Nessa época, algumas pessoas avessas à religião começaram a expressar dúvidas sobre os preceitos e as normas do Islã. Elas alegavam que os mandamentos e as proibições do Islã eram contraditórios entre si. Por essa razão, os amigos do Imam al-Tahawi pediram-lhe que compilasse uma obra de hadith da qual todos os mandamentos, proibições e normas práticas do Islã pudessem ser provados de maneira irrefutável. Então, o Imam al-Tahawi compôs uma obra de hadith extraordinária e incomparável.

Ele faleceu no ano 321 da Hégira, com mais de oitenta anos de idade.

Outros muhaddiths deste século

Além deles, neste século nasceram ainda alguns grandes muhaddiths. Entre eles, destacam-se especialmente Qasim ibn Asbagh (falecido em 340 da Hégira) e Ibn al-Sakan (falecido em 353 da Hégira). Ambos compuseram duas obras de hadith intituladas “Sahih al-Muntaqa”.

 

A compilação de obras de hadith após o quarto século

Foi apresentada anteriormente uma breve discussão sobre os muhaddiths e os autores de livros de hadith do quarto século. Quase todos eles eram, em sentido estrito, muhaddiths. Eles compunham livros de hadith reunindo os hadiths que haviam escutado dos renomados ustads dos quais os haviam obtido. Na composição de seus livros, seguiram integralmente os métodos e procedimentos adotados pelos autores de livros de hadith do terceiro século. Assim transcorreram os dias dourados do quarto século.

Entretanto, no século seguinte, os muhaddiths que alcançaram importância e prestígio notáveis na história não possuíam talentos do mesmo nível que os muhaddiths anteriores. Em particular, ninguém mais conseguiu compor uma obra original semelhante aos livros de hadith elaborados pelos predecessores. Contudo, sua competência no conhecimento dos hadiths, a amplitude e profundidade de seu saber e a sutileza e abrangência de sua visão não eram de modo algum insignificantes. Embora os muhaddiths desse século não tenham conseguido compor originalmente nenhum livro de hadith, foram capazes de introduzir novos métodos de composição de livros de hadith, tomando como base as obras originais de seus predecessores. Reuniram os hadiths de diversas obras, organizaram-nos de maneira sistemática e conseguiram apresentar à sociedade um grande número de obras inovadoras. Apresentamos aqui uma breve discussão sobre algumas das célebres coletâneas de hadiths desse período.[********************]

Reunião dos hadiths de Bukhari e Muslim

Numerosos muhaddiths selecionaram hadiths de Sahih Bukhari e Sahih Muslim, reuniram-nos e compuseram obras independentes. Um muhaddith chamado Ismail ibn Ahmad — conhecido como “Ibnul Furat” (falecido em 414 H.) — compôs uma obra desse tipo. Muhammad ibn Nasr al-Humaidi al-Andalusi (falecido em 488 H.) escreveu outra obra de hadith. Os muhaddiths Husain ibn Masud al-Baghawi (falecido em 516 H.), Muhammad ibn Abdul Haq al-Ashbili (falecido em 582 H.) e Ahmad ibn Muhammad al-Qurtubi (falecido em 642 H.), entre outros, também compilaram uma obra de hadith desse tipo.[********************]

Reunião dos hadiths dos Sihah Sittah

Neste período, também se realizou em grande escala o trabalho de coletar hadiths exclusivamente das obras dos Sihah Sittah e compor obras independentes. Essas obras são geralmente conhecidas como versões resumidas do “Tajridus-Sihah-Sittah”. Mencionamos aqui os nomes de alguns dos autores desse tipo de obra:

1. Ahmad ibn Ruzain ibn Murabiyat al-Abdari al-Sarqasti (falecido em 535 H.). O nome do livro de hadith que ele compilou é Tajridus Sihah. Essa obra não foi organizada nem composta de maneira sistemática. Muitos hadiths dos Sihah Sittah foram omitidos dela. Mais tarde, Mubarak ibn Muhammad, conhecido como Ibnul Asri al-Jazari (falecido em 606 H.), encarregou-se da edição e organização dessa obra. Organizou-a cuidadosamente em capítulos e seções, e nela foram incluídos os hadiths que inicialmente não haviam sido incorporados. Também foram fornecidas explicações para suas palavras difíceis e desconhecidas, e ela recebeu o nome de: ********************. Como resultado, transformou-se numa obra valiosa e fácil de compreender. Essa obra foi impressa e publicada no Egito. Está dividida em dez volumes. O renomado muhaddith do Jame Azhar, Shaykh Abd Rabbihi ibn Sulaiman, escreveu um comentário sobre ela. Ele deu-lhe o nome de: ********************

2. Abdul ibn Abdur Rahman al-Ashbili, conhecido como Ibn Kharat (falecido em 582 H.), também compôs uma obra reunindo os Sihah Sittah.[********************]

Coleta e compilação de hadiths a partir de diversas obras

Nesse período, também se realizou em grande escala o trabalho de coletar hadiths de diversas obras de hadith e compor obras independentes de hadith. Apresentam-se a seguir os nomes e as informações de algumas dessas obras.

1. Masabih al-Sunna — esta obra foi editada pelo imame Husayn ibn Mas‘ud al-Baghawi (falecido em 526 AH). Nela foram inicialmente incluídos hadiths sahih, hasan e outros. Os sábios das gerações posteriores demonstraram especial importância e interesse por esta compilação de hadiths. Muhammad ibn ‘Abdullah al-Khatib organizou-a de forma sistemática. Foram mencionados tanto o nome do Companheiro que transmitiu originalmente o hadith quanto a obra da qual ele foi extraído. No início, em cada capítulo, eram incluídas apenas duas categorias (********************); posteriormente, foram acrescentados hadiths de uma terceira categoria (********************). Isso ocorreu no ano 737 AH. Finalmente, a obra recebeu o nome Mishkat al-Masabih (********************). Muitos muhaddiths compuseram extensas obras de comentário sobre ela.

2. Jami‘ al-Masanid wa al-Alqab — esta é uma obra de hadith compilada por Abu al-Faraj ‘Abdullah ibn ‘Ali al-Jawzi (falecido em 597 AH). Nela foram coletados hadiths de Bukhari, Muslim, Musnad Ahmad e Tirmidhi Sharif.

3. Bahr al-Asanid — foi compilada pelo imame hafiz al-Hasan ibn Ahmad al-Samarqandi (falecido em 491 AH). Nela foram incluídos cem mil hadiths. Sobre esta obra, diz-se:

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O Islã não tem exemplo semelhante.

Compilação de hadiths sobre normas e exortações

Nesta fase, também foram compiladas diversas obras de hadith mediante a reunião, a partir de diferentes livros de hadith, de hadiths sobre ahkam e de exortação e aconselhamento. Entre elas, destacam-se as seguintes obras:

1. Munt nos textos Al-Akhbar fil-Ahkam —foi compilada pelo hafiz Majduddin Abu al-Barakat Abdus Salam ibn Abdullah ibn Abu al-Qasim al-Harrani. Ele é conhecido pelo nome de Ibn Taymiyya. É necessário lembrar que ele não é o célebre mujaddid Ibn Taymiyya; era seu avô paterno. O Ibn Taymiyya autor desta obra também foi um grande mujtahid. Nasceu no ano 590 da Hégira e faleceu no ano 652 da Hégira.

Nesta obra foram compilados e incluídos hadiths provenientes de obras autênticas e universalmente reconhecidas, como Bukhari, Muslim, Abu Dawud, Nasai, Tirmidhi, Ibn Majah e Sunan Ahmad, entre outras. O muhaddith iemenita Muhammad ibn Ali al-Shawkani (falecido em 1250 da Hégira) escreveu um comentário sobre ela em nove volumes, intitulado Nayl al-Awtar.

2. As-Sunan al-Kubra, compilada pelo imam Ahmad ibn Husayn al-Bayhaqi(falecido em 458 da Hégira). Segundo Ibn Salah, nenhuma outra obra reuniu as provas dos hadiths com tamanha abrangência e amplitude quanto esta. Nela, nenhum hadith necessário foi deixado de fora. O imam al-Bayhaqi possui ainda outra compilação de hadiths, cujo nome é . Diz-se:

******************************************************

Não foi elaborada nenhuma outra obra do Islã semelhante a esta.

3. Al-Ahkam as-Sughra — foi compilada pelo hafiz Abu Muhammad Abd al-Haqq al-Ishbili(conhecido pelo nome de Ibn al-Kharat). Ele faleceu no ano 582 da Hégira. Nela foram incluídos, por um lado, os hadiths relativos à vida prática dos muçulmanos e às ordens e proibições; do mesmo modo, foram acrescentados hadiths de exortação e aconselhamento, bem como hadiths que alertam sobre a vida futura.

4. Umdat al-Ahkam — foi compilada pelo imam e hafiz Abd al-Ghani ibn Abd al-Wahid al-Maqdisi ad-Dimashqi(falecido em 600 da Hégira). Nela foram compilados todos os hadiths relativos aos ahkam citados nas obras de Bukhari e Muslim.

5. At-Targhib wa at-Tarhib — compilado pelo Hafiz Abdul Aziz ibn Abd al-Qawi ibn Abdullah al-Mundhiri (falecido em 656 H.). Esta obra é excelente tanto pela coleta de hadiths quanto pela determinação de sua qualidade.

 

O estudo dos hadiths nos séculos VII e VIII

A discussão anterior estendeu-se por aproximadamente seiscentos e cinquenta anos. Na segunda metade do século VII da Hégira, uma violenta tempestade de destruição e calamidade abateu-se sobre o mundo muçulmano. No ano 658 da Hégira, os tártaros empreenderam uma devastação total numa vasta região da Ásia Central habitada por muçulmanos. Nessa época, destruíram Halab e avançaram em direção a Damasco. No Egito, então, encontrava-se estabelecido o governo aiúbida; porém, também ele se tornara quase apagado, como uma lâmpada sem óleo. A autoridade dos mamelucos tornou-se predominante e poderosa em toda parte. A supremacia turca começou a estabelecer-se sobre o mundo muçulmano no século VII. Por outro lado, em toda a região do Magrebe (noroeste da África), estabeleceu-se o governo do povo berbere magrebino.

Em suma, nessa época, sobre todo o mundo muçulmano prevalecia uma situação semelhante ao crepúsculo da civilização. Os muçulmanos tornaram-se mais fracos em todos os aspectos: caráter, fé, coragem e valor. Sua intensa inveja e hostilidade mútuas, suas divergências e seu abatimento haviam-nos deixado completamente sem vida, à beira da morte. Em parte alguma se observava entre os muçulmanos qualquer tendência a viajar de um país para outro ou a estabelecer profundos vínculos de unidade com a vasta comunidade muçulmana. Até mesmo as viagens dos muçulmanos em busca de hadiths, que haviam sido uma característica especial e motivo de orgulho, deixaram, nesse século, de constituir qualquer vínculo intelectual entre os centros de conhecimento e os sábios e muhaddiths que viviam distantes uns dos outros.

Nesse contexto, naturalmente, o pensamento e o intelecto dos muçulmanos começaram a se embotar; entre os buscadores do conhecimento, não havia qualquer empenho em viajar para longe a fim de adquirir conhecimento. Consequentemente, o caminho da continuidade na coleta e transmissão dos hadiths começou a ser interrompido. A partir de então, o estudo dos hadiths ficou limitado a obter do mestre a autorização para transmiti-los e a escrever alguns hadiths ditados por ele. A cadeia de transmissão dos hadiths, nessa época, transformou-se simplesmente num meio de obter uma “bênção”.

Mas esta não é, de modo algum, a conclusão nem a única realidade. Mesmo nessa época, encontramos alguns sábios vigorosos que revitalizaram a antiga e tradicional atividade de buscar e coletar hadiths. Eles viajavam para centros distantes e sentavam-se diante dos muhaddiths com o propósito de escrever os hadiths que lhes eram transmitidos. Na terminologia da ciência dos hadiths, esse método de ensino é chamado de “imla” (ditado). O muhaddith sentava-se num lado da mesquita, em um dia determinado da semana, e os estudantes de hadith sentavam-se ao seu redor, em todas as direções. O muhaddith recitava os hadiths oralmente, e os estudantes escreviam-nos em suas próprias folhas. Entre os muhaddiths dessa época, destaca-se o nome de al-Hafiz Abu al-Fadl Zayn ad-Din Abd ar-Rahim ibn al-Husayn al-Iraqi. Ele foi, por um lado, o imam dos hadiths de sua época e, por outro, autor de numerosas obras valiosas. Realizou mais de quatrocentas sessões para ditar hadiths. Seu discípulo Ibn Hajar disse:

******************************************************

Ele começou a ditar hadiths no ano 796 da Hégira. Assim, depois que o estudo dos hadiths do Mensageiro havia sido interrompido, ele o revitalizou. Para esse fim, realizou mais de quatrocentas sessões e, na maioria dessas reuniões, fez com que hadiths bem organizados, preservados e benéficos fossem escritos valendo-se exclusivamente de sua memória.

Ele faleceu no ano 806 da Hégira.

Nesta fase, o segundo grande sábio de destaque foi Shihabuddin Abul Fazl Ahmad ibn Ali ibn Muhammad ibn Hajar al-Asqalani. Ele não era apenas um hafiz de hadith; entre os hafizes de hadith deste século, era o mais eminente. Neste século, não havia nenhum outro muhaddith igual a ele. Ele faleceu no ano 852 da Hégira. Sobre ele, os muhaddiths disseram:

******************************************************

A prática de viajar pelos países para coletar hadiths e a predominância do estudo dos hadiths no mundo chegaram, em termos gerais, ao seu fim com ele. Em sua época, entre seus contemporâneos, ninguém além dele se tornou hafiz de hadith. Ele escreveu um grande número de obras e realizou mais de mil assembleias para fazer com que os hadiths fossem ditados por escrito.[********************]

A obra mais célebre do hafiz Ibn Hajar al-Asqalani é o comentário do Sahih al-Bukhari, “Fath al-Bari”. Ela está dividida em dez grandes volumes. Sua introdução foi publicada como uma obra independente, cujo nome é: ********************.[********************]

Ele também possui uma coletânea própria de hadiths. Ela é ********************. Trata-se de uma coletânea especial de hadiths relativos aos ahkam.

Esta obra também foi especialmente prestigiada entre os sábios.[********************]

O imam Sakhawi, discípulo de Ibn Hajar, também foi uma personalidade notável desta fase. Em sua célebre obra “Fath al-Mughith”, ele escreveu:******************************************************

Escrevi hadith em Meca, a Nobre. Também fiz esse trabalho em diversos e numerosos lugares do Cairo, e o número das sessões de hadith em que, até agora, fiz com que fossem escritos hadiths deve chegar a quase seiscentas. …………. E a base de todas as obras é a intenção.

Contudo, esse método de fazer a ‘imla’ dos hadiths também não pôde permanecer em vigor por muito mais tempo. Os estudiosos de hadith das épocas posteriores passaram a ocupar-se sobretudo das coletâneas de hadith compiladas pelos predecessores. Dedicaram sua atenção principalmente à seleção de hadiths a partir delas, à elaboração de versões resumidas, à redação de comentários sobre as obras de hadith e a trabalhos semelhantes. Além disso, essa atividade ficou limitada a apenas algumas cidades do mundo muçulmano, e somente um número muito reduzido de pessoas se dedicou a ela.

 

O estudo dos hadiths em diferentes países

Durante os séculos VII, VIII e os séculos seguintes, o estudo, o ensino e a divulgação dos hadiths desenvolveram-se em várias regiões do mundo muçulmano. Nesse período, sua expansão foi maior nos países do Magrebe (no noroeste da África). Depois disso, porém, observou-se uma ampla difusão do estudo dos hadiths em dois grandes países muçulmanos: um era o Egito e o outro, o Hindustão (Índia). A queda do Califado Abássida em consequência da invasão tártara de Bagdá foi um acontecimento trágico do ponto de vista da erudição muçulmana e do conhecimento e das ciências islâmicos. Os tártaros roubaram milhões de livros das bibliotecas islâmicas de Bagdá e os lançaram no rio Tigre; depois construíram sobre eles uma ponte com aquela pilha de livros, para que seu exército pudesse atravessar facilmente o rio. Foi então que o centro de onde emanavam o conhecimento e as ciências se transferiu de Bagdá para outros lugares. Primeiro, o Egito teve a fortuna de enriquecer-se com o conhecimento e as ciências islâmicos — especialmente com o conhecimento dos hadiths — e florescer plenamente. A atividade e a expansão do estudo dos hadiths no Egito nesse período podem facilmente ser comparadas às do terceiro século hijri. Depois, porém, também ali esse sol ardente do estudo dos hadiths começou a declinar. O estudo do conhecimento dos hadiths passou então a fluir em direção a outros países. Vê-se que o sol do conhecimento dos hadiths se pôs no Egito e surgiu, resplandecente, no céu da Índia. Foi então que, na Índia, começou verdadeiramente a era de ouro do estudo dos hadiths. (Para uma discussão detalhada, consulte o capítulo desta obra intitulado ‘O conhecimento dos hadiths no Paquistão e na Índia’.)

Não se pode dizer que, mesmo durante o período de declínio do Egito, o estudo dos hadiths tenha desaparecido por completo. Pelo contrário, a história apresenta diante de nós exemplos de grandes e inesquecíveis serviços prestados ao conhecimento dos hadiths também nesse período. Naquela época, o Egito estava sob o domínio dos mamelucos. Entre esses reis mamelucos, muitos permaneceram memoráveis nas páginas da história por sua sede de conhecimento. Muitos reis sentaram-se como estudantes diante dos estudiosos de hadith de seu tempo. Esvaziaram e derramaram os tesouros reais com o objetivo de fundar grandes instituições para o ensino dos hadiths.

Também nesse período havia no Egito alguns imames dos hadiths. Eles haviam memorizado os hadiths com suas cadeias de transmissão completas e autênticas. Os sedentos de conhecimento aprendiam hadiths com eles, e as pessoas se aglomeravam diante deles com o objetivo de ouvi-los.

Entre eles, destacam-se os seguintes estudiosos de hadith:

1. Zahir Barquq 2. Imam Akmaluddin al-Babarti 3. Ibn Abu al-Majd 4. al-Mu’ayyad 5. Shamsuddin ad-Dayeri, o estudioso de hadith.

 

Apêndice 1

Nas páginas anteriores, o número de hadiths e a longa história da compilação dos hadiths foram discutidos detalhadamente. Os leitores foram familiarizados com a grandiosa e nobre atividade de preservar hadiths, compilá-los e elaborar obras de hadith nas diversas etapas da história. Na discussão anterior, também conhecemos a elaboração de diferentes tipos de obras de hadith nas várias etapas. Aqui é apresentada uma discussão separada sobre a elaboração de obras de hadith segundo diferentes métodos e tipos.

Existem vários tipos e métodos (Technique) de elaboração de obras de hadith. Os nomes das obras elaboradas segundo esses diferentes tipos também são diversos. A saber:

1. ‘Al-Jami’’– — As obras de hadith nas quais são reunidos, em diferentes capítulos, hadiths de todos os tipos, como os relativos a aqā’id (crenças), ahkām (ordens e proibições e as regras práticas da Sharia), misericórdia e compaixão, etiqueta da alimentação e da bebida, viagens ao estrangeiro e permanência em um lugar, tafsir do Alcorão, história, guerras e tratados, envio de exércitos contra os inimigos, fitnas e calamidades, descrição de louvores e méritos, entre outros, são chamadas de Al-Jami’. Entre os As-Sihah as-Sitta, as duas obras seguintes pertencem a esta categoria:

(a) Al-Jami’ as-Sahih al-Bukhari e (b) Al-Jami’ at-Tirmidhi. Sahih Muslim não pertence a esta categoria, pois nele não foram incluídos hadiths relativos ao tafsil e à qira’at.

2. ‘Al-Musnad’ (********************)- — As obras nas quais os hadiths narrados pelos companheiros são compilados sucessivamente com base na ordem alfabética de seus nomes, mas não são organizados segundo o método de elaboração dos livros de fiqh, são conhecidas como Al-Musnad ou Al-Masanid. Por exemplo, registrar juntos todos os hadiths narrados por Hazrat Abu Bakr as-Siddiq, independentemente de seu conteúdo, e depois reunir em um único lugar os hadiths narrados por outro companheiro.

Sua compilação pode ser feita de duas maneiras: segundo a ordem alfabética, como colocar primeiro os hadiths narrados por Hazrat Abu Bakr e, depois dele, os hadiths narrados por Hazrat Usama ibn Zayd.

Ou os hadiths também podem ser organizados com base na posição ou na nobreza de linhagem do companheiro narrador. Por exemplo, mencionar primeiro, em ordem sucessiva, os hadiths narrados pelos Califas Bem-Guiados e, depois deles, os hadiths dos demais companheiros.

O livro de hadith compilado pelo Imam Ahmad ibn Hanbal está organizado precisamente segundo este método; por isso, é chamado de ‘Al-Musnad’.

3. As-Sunan (********************)-Os livros de hadith nos quais são reunidos exclusivamente os hadiths relativos às normas e aos preceitos da Sharia, bem como às regras, aos mandamentos e às proibições necessários à vida prática, e que são organizados em diferentes capítulos e seções, à semelhança dos livros de fiqh, são conhecidos como ‘Sunan’. São exemplos o Sunan de Abu Dawud, o Sunan de an-Nasa’i e o Sunan de Ibn Majah. O Tirmidhi Sharif também pertence, em certo sentido, à categoria dos ‘Sunan’.

4. ‘Al-Mu’’jam’ (********************)-—Os livros de hadith nos quais, segundo o método do Musnad, os hadiths recebidos de cada mestre de hadith são organizados em sequência constituem os livros Al-Mu’jam. São exemplos os três livros compilados por at-Tabarani.

5. ‘Al-Juz’’ (********************)-—Nos livros de hadith nos quais são inseridos os hadiths narrados por um único narrador — seja ele um Companheiro ou um mestre posterior a ele — encontram-se obras desse tipo. Por exemplo: ****************************************************** .[********************]

Entretanto, segundo alguns outros especialistas na ciência dos hadiths, isso não é chamado de [termo corrompido], mas de ‘Al-Mufrad’. Segundo eles, ******************** designa todos os livros nos quais são reunidos hadiths referentes a um mesmo tema. Por exemplo: as obras compiladas pelo Imam al-Bukhari, ******************** e ******************** .[********************]

6. ‘Al-Ghariba’ (********************)-—Se um mestre de hadith transmitir por escrito certos hadiths a apenas um de seus muitos alunos, sem transmiti-los a qualquer outro, a compilação desses hadiths será chamada de ‘Al-Ghariba’.[********************]

7. Al-Mustakhrajat (********************)—O livro no qual são compilados os hadiths mencionados em determinada obra (ou parte deles), apresentando-se o seu ‘matn’, isto é, o texto do hadith original, juntamente com a sua própria cadeia de transmissão, é chamado de Al-Mustakhraj. Muitas obras desse tipo foram compostas. Muitos também compilaram os hadiths do Sahih al-Bukhari em livros separados, segundo esse método e dessa maneira. Entre eles, destacam-se al-Isma‘ili, al-Burqani, Ibn Ahmad al-Ghat rifee, Abu ‘Abdullah ibn Abi Dhuhl e Abu Bakr ibn Marduyah, entre outros. [********************] De modo semelhante, os hadiths do Sahih Muslim também foram compilados. Entre os que o fizeram, destacam-se os muhaddiths Hafiz Ya‘qub ibn Ishaq al-Isfarayini, Abu Ja‘far ibn Hamdan, Abu Bakr Muhammad ibn Raja’ an-Nishapuri, Abu Bakr al-Jawqi, Abu Hamid ash-Shayqi e Abul-Walid Hasan ibn Muhammad al-Qarashi.

E os muhaddiths Abu Nu’aym al-Isfahani, Abu Abdullah ibn al-Ahjam, Abu Dhar al-Harbi e Abu Muhammad al-Khallal, entre outros, compilaram conjuntamente os hadiths das obras de Bukhari e Muslim.

Contudo, a obra Al-Mustakhraj, do hafiz Yaqub, mencionada acima, é tanto completa quanto autêntica e confiável. Ela permaneceu, até tempos recentes, numa biblioteca da Alemanha.

8. ‘Al-Mustadrak’ (********************)।As obras que reúnem os hadiths que não foram incluídos numa determinada coletânea de hadiths, embora cumpram plenamente as condições seguidas pelo autor daquela obra, são chamadas de Al-Mustadrak. Um exemplo é a obra Al-Mustadrak, compilada pelo imame hafiz.

O imame Hakim reuniu um grande número de hadiths e elaborou uma obra independente em dois volumes. Sua crença ou opinião era que todos esses hadiths cumpriam plenamente as condições estabelecidas pelo imame Bukhari para a aceitação de hadiths e eram autênticos, mas não haviam sido incluídos no Sahih Bukhari. Contudo, segundo os especialistas em ciência dos hadiths, nela também há muitos hadiths fracos e forjados.

Além disso, o hafiz Abu Zay Abd ibn Humayd ibn Muhammad ibn Abdullah al-Ansari (falecido em 433 da Hégira) elaborou outra obra, reunindo hadiths com base nas condições estabelecidas pelos autores de Bukhari e Muslim.

9. ‘Kitab al-Ilal’ (********************)।Quando os hadiths livres de defeitos são compilados numa obra e, juntamente com eles, também são descritos os defeitos ou falhas dos hadiths, essa obra é chamada Kitab al-Ilal. O imame Muslim e o imame hafiz Abu Yahya também elaboraram obras desse tipo. O imame Dhahabi mencionou que o muhaddith Shadhi também escreveu, nesse campo, uma obra importante.

10. ‘Kitab al-Atraf’ (********************)-Mencionar uma parte de um hadith a partir da qual também se possa compreender o restante. Uma obra desse tipo é chamada Kitab al-Atraf. Nela, a cadeia de transmissão do hadith é mencionada por completo. Também nesse campo foram elaboradas numerosas obras. Entre elas, destacam-se as duas obras citadas na página seguinte:

1. Al-Ashraf Alia Tuhfat al-Atraf.

2. Tuhfat al-Ashraf bi-Ma‘rifat al-Atraf.[********************]

Classificação das obras de hadith por categorias

O único meio de conhecer detalhadamente as normas e os preceitos da Sharia islâmica, bem como as ordens e proibições do Islã, é o hadith do Mensageiro. E o único meio de conhecer o hadith do Mensageiro é examinar e verificar as narrações que remontam ao Mensageiro — quer tenham início no próprio Mensageiro, quer em algum Companheiro ou em algum tabi‘i. Deve-se, porém, manter plena vigilância quanto à autenticidade, precisão e força conclusiva da cadeia de transmissão. Não pode haver outro meio além de investigar as cadeias de transmissão dos hadiths do Mensageiro, verificar e examinar essas cadeias e consultar as obras de hadith compiladas nos tempos atuais. Com efeito, nos tempos presentes, é absolutamente impossível encontrar um hadith do Mensageiro e obter sua cadeia de transmissão de modo preservado e confiável se ele não tiver sido anteriormente compilado em nenhuma obra de hadith.[********************]

Assim, para obter todos os tipos de hadith e suas cadeias de transmissão, todas as pessoas de nossa época terão de recorrer exclusivamente às obras de hadith compiladas e preservadas, e depender inteiramente delas. Por isso, devemos adquirir um conhecimento detalhado e completo das obras de hadith. Devemos conhecer suas categorias, posição e grau de importância.

As obras de hadith são classificadas em quatro categorias segundo sua fama e autenticidade. Isso porque os próprios hadiths pertencem a diferentes níveis. O nível mais elevado corresponde aos hadiths transmitidos com plena continuidade na cadeia de narradores (********************) e cuja aceitação e prática conforme seu conteúdo contam com a unanimidade de toda a ummah muçulmana.

Depois vêm os hadiths transmitidos e recebidos por diversas vias, sem que neles tenha penetrado sequer o menor vestígio de dúvida ou suspeita, e com base nos quais todos os juristas praticaram. Pelo menos, os estudiosos do hadith de Meca e Medina não expressaram qualquer divergência a respeito deles. Isso porque esses dois lugares foram os centros da vida e das atividades dos Califas Bem-Guiados e constituíram o ponto de encontro dos estudiosos do hadith de todas as regiões; eles sempre viajaram para lá, e os muhaddiths de uma geração sucederam-se continuamente à geração seguinte nesses dois centros. Por essa razão, de modo algum se pode supor que esses hadiths contenham qualquer defeito ou erro aparente. Além disso, esses hadiths sempre foram célebres e seguidos no vasto mundo muçulmano, e foram transmitidos por grande número de pessoas das gerações dos Companheiros e dos tabi‘in.

Depois destes vêm os hadiths cuja autenticidade foi comprovada e cuja cadeia de transmissão é excelente e irrepreensível; os estudiosos do hadith deram precisamente esse testemunho a respeito deles. Eles tampouco foram abandonados. Pelo contrário, foram seguidos na prática em todos os tempos, antes e depois de serem compilados em obras. Os imames do hadith já haviam começado a transmiti-los anteriormente. Os juristas elaboraram a jurisprudência com base neles e depositaram neles plena fé e confiança.

Obras da primeira categoria

As coletâneas de hadith que possuírem essas duas qualidades e características serão consideradas obras do primeiro nível. É assim que, sucessivamente, será determinada a posição das coletâneas de hadith.

Ao examinar e verificar as coletâneas de hadith sob esse ponto de vista, fica claramente comprovado que, entre todas as coletâneas de hadith, apenas três livros podem ser considerados pertencentes a este nível. São eles, respectivamente: (a) o Muwatta do Imam Malik; (b) o Sahih al-Bukhari; e (c) o Sahih Muslim.[Todo este conteúdo foi extraído de ********************.]

Nas narrações dos hadiths citados nessas três obras, dois terços dos narradores (********************) pertencem ao primeiro e ao segundo níveis. Esses hadiths estão relacionados a questões jurídicas e práticas. Já um terço dos hadiths foi narrado por transmissores do terceiro nível. Nenhum hadith narrado por qualquer transmissor do quarto nível foi incluído nessas três obras. Os hadiths com as cadeias de transmissão mais autênticas, contínuas e ininterruptas foram incluídos justamente nessas três obras. Os sábios do mundo muçulmano demonstram por essas três obras um interesse, respeito e veneração maiores do que por quaisquer outras obras.[********************]

Obras do segundo nível

Pertencem a este nível as obras que, quanto às qualidades e características mencionadas acima, não possuem a mesma posição que o Muwatta, Bukhari e Muslim. Certamente, porém, aproximam-se deles. Os autores dessas obras alcançaram especial renome por sua confiabilidade incontestável, probidade, memória, transmissão correta dos hadiths e pleno domínio de todos os conhecimentos, inclusive os mais sutis, relacionados à ciência do hadith. Em suas obras, não deram lugar à menor negligência ou descuido. As condições que eles próprios estabeleceram para aceitar um hadith foram aplicadas com rigor: cada hadith foi pesado na balança minuciosa dessas mesmas condições antes de ser aceito e registrado em suas obras. Depois disso, os muhaddiths e juristas de todos os níveis reconheceram devidamente sua importância, e elas também alcançaram ampla divulgação entre os muçulmanos. Os sábios escreveram obras explicando-as.

Neste nível incluem-se as três obras Sunan Abu Dawud, Jami al-Tirmidhi e Sunan al-Nasa’i. O Imam Ruzayn compilou esses hadiths em sua obra Tajrid al-Sihah, e o Imam Ibn al-Amir, em sua obra Jami al-Usul.

Os muhaddiths também mencionaram que a obra Musnad, compilada pelo Imam Ahmad ibn Hanbal, pertence a este nível.[********************]

Nas três primeiras obras mencionadas, os hadiths narrados por transmissores do terceiro nível correspondem a aproximadamente metade. Da metade restante, dois terços são hadiths narrados por pessoas do primeiro e do segundo níveis. E um terço são hadiths narrados por transmissores do quarto nível. Nas demais obras, os hadiths narrados por transmissores do terceiro nível constituem mais da metade.

Obras do terceiro nível

Consideram-se obras de hadith do terceiro nível aquelas que foram compiladas antes, durante e depois da compilação de Bukhari e Muslim. Nelas foram incluídos todos os tipos de hadith, como sahih, hasan e daif. Embora esses hadiths não tenham permanecido completamente desconhecidos, ainda assim não alcançaram grande fama nem popularidade entre os eruditos. Os autores de obras de fiqh não lhes deram muita atenção. Os muhaddiths também não consideraram especialmente necessário discutir seus defeitos e falhas. Neste nível existem obras para cuja elucidação da linguagem obscura ou dos termos difíceis não foi realizado nenhum trabalho específico. Nenhum jurista considerou necessário comparar os hadiths compilados nelas com as opiniões dos imames anteriores. Nenhum especialista em ciência do hadith tentou descrever ou revelar suas inconsistências. Nenhum historiador lançou luz sobre a vida dos transmissores desses hadiths. Aqui, naturalmente, não se fala dos historiadores dos últimos tempos, mas dos historiadores dos primeiros tempos. Consequentemente, esse tipo de obra permaneceu inédito e desconhecido do público.

As seguintes obras de hadith são consideradas pertencentes a este nível:

1) Musnad de Abu Ali 2) Musannaf de Abd al-Razzaq 3) Musannaf de Bakr ibn Shaybah 4) Musnad de Abd ibn Humayd 5) Musnad de Tayalisi 6) As obras do Imam Bayhaqi 7) As obras do Imam Tahawi 8) As obras do Imam Tabarani.

O único objetivo fundamental dos autores dessas obras ao compilá-las era simplesmente reunir os hadiths que haviam recebido. Seu objetivo não era organizá-los de forma sistemática ou adequada, nem torná-los úteis para aplicação prática.[********************]

Mais de um terço dos transmissores dos hadiths citados nessas obras pertence ao terceiro nível, e um terço dos transmissores pertence ao quarto nível. Entre essas obras, algumas são reconhecidas pelos muhaddiths como relativamente mais bem fundamentadas e sólidas do que as demais.

Obras do quarto nível

Consideram-se pertencentes a este nível as obras de hadith cujos autores, muito tempo depois, compilaram hadiths que não haviam sido incluídos nas obras do primeiro e do segundo níveis. Pelo contrário, esses hadiths haviam sido citados em obras pouco famosas e de autores desconhecidos. Mais tarde, os autores das obras deste nível reconheceram o valor desses hadiths. Eles eram transmitidos oralmente por pessoas das quais os muhaddiths e compiladores de obras de hadith dos tempos anteriores não estavam dispostos a recebê-los e incluí-los em suas próprias obras. Ou eram transmitidos por transmissores indisciplinados ou fracos; ou eram palavras de companheiros ou tabi’un; ou eram histórias dos Filhos de Israel, palavras de filósofos ou de pregadores, que os transmissores posteriores, por engano, haviam misturado aos hadiths do Mensageiro.

O «Kitab al-Du‘afa», compilado por Ibn Hibban e Kamil ibn Adi, e as obras compostas por Khatib Abu Nuaym, Ibn Asakir, Ibn Najjar e Daylami são consideradas pertencentes a esta categoria. O Musnad de Khwarizmi também parece ser uma obra desta categoria.

As obras da quinta categoria

Estas obras também possuem uma quinta categoria. Consideram-se pertencentes a esta categoria os hadiths que foram transmitidos oralmente por juristas, sufis, historiadores e outros. Eles não têm qualquer concordância com os hadiths das quatro categorias acima mencionadas.

Também se incluem nesta categoria os hadiths inventados por pessoas ímpias e eloquentes. Elas acrescentaram a esses hadiths cadeias de transmissão ou fontes narrativas de tal modo que nenhuma objeção pudesse ser levantada. Além disso, organizaram e apresentaram as palavras com tamanha elegância que, aparentemente, é difícil afirmar com veemência que o Mensageiro nobre (que a paz esteja com ele) não disse essas palavras.

Na realidade, foram essas pessoas que criaram um grave perigo para o Islã. Apesar disso, a intensidade desse perigo não conseguiu manter o céu cultural do Islã obscurecido por muito tempo. Os especialistas na ciência do hadith verificaram e examinaram esses hadiths na pedra de toque da crítica, compararam-nos com hadiths de conteúdo semelhante ao do Mensageiro e desvendaram de modo irrefutável o segredo de seu caráter «inventado». Consequentemente, nenhum hadith inventado conseguiu obter a oportunidade de ser considerado um hadith.

Na discussão acima, nenhuma categoria foi mencionada ou determinada para duas célebres coletâneas de hadiths. São elas: (a) Ibn Majah; (b) Sunan de al-Darimi. A categoria à qual pertencem essas duas obras é uma questão que requer discussão.

O muhaddith Abu al-Hasan al-Sindi escreveu:

******************************************************

Em suma, Ibn Majah ocupa uma posição inferior às cinco principais obras em termos de status.

O erudito Muhammad ibn Ibrahim al-Yamani escreveu:

******************************************************

O Sunan de Ibn Majah é uma obra de categoria posterior ao Sunan de Abu Dawud e ao Sunan de al-Nasa’i. É necessário examinar e verificar os seus hadiths, pois nele há um hadith mawdu’ no capítulo sobre as virtudes.

Essas citações comprovam que Ibn Majah é uma obra de hadiths da terceira categoria.

Os estudiosos da ciência do hadith também expressaram essa mesma opinião a respeito do Sunan de al-Darimi. Shah Abd al-Aziz, o muhaddith dehlevi, considerou-o entre as obras da terceira categoria. Shah Waliullah Dehlevi também tinha essa opinião.

A proximidade do Mensageiro na transmissão dos hadiths

Os autores de obras de hadith geralmente procuravam cadeias de transmissão por meio das quais fosse possível estabelecer uma relação mais próxima com o Mensageiro. Ou seja, os muhaddiths que compilavam obras de hadith esforçavam-se especialmente para obter os hadiths do Mensageiro por meio do menor número possível de transmissores. Consequentemente, quanto menor fosse o número de transmissores por meio dos quais um hadith chegasse até o autor da obra, maior seria, aos olhos dos muhaddiths, a sua importância e o seu status, e mais confiável ele seria considerado. Isso porque, quanto menor fosse o número de intermediários na cadeia de transmissão do hadith, mais próximo do Nobre Mensageiro poderia estar o compilador da obra de hadith.

Em segundo lugar, quanto mais breve for a cadeia de transmissão dos hadiths (********************) e quanto menor for o número de transmissores, mais fácil será verificar, examinar e avaliar a condição deles. Também será menor a probabilidade de erros na transmissão dos hadiths. Sob esse aspecto, entre todos os autores de livros de hadiths, o Imam Abu Hanifa (que Allah tenha misericórdia dele) ocupa a posição mais elevada. Isso se deve ao fato de ele ter tido a felicidade de encontrar pessoalmente pelo menos quatro Companheiros.

Em razão da extensão e da brevidade das cadeias de transmissão dos hadiths, surgiram vários termos técnicos. Apresentamos aqui uma breve explicação deles:

1. Os hadiths que chegaram do Mensageiro ﷺ até o autor da compilação por meio de apenas um transmissor são chamados de “Wahdaniyyat” (********************), isto é, “hadiths com um único transmissor”.

No livro de hadiths compilado pelo Imam Abu Hanifa, foram citados vários hadiths desse tipo. Como exemplo, apresentamos aqui um hadith:

******************************************************

Abu Hanifa disse: ouvi Aisha bint Ajrad dizer: O Profeta ﷺ disse: “Os gafanhotos são os soldados mais numerosos de Allah”; eu mesmo não os como, mas também não os considero haram. Este hadith foi citado no livro Musnad Abu Hanifa ********************. Além disso, também foi citado no livro de história de Yahya ibn Ma’in. *******************

O hadith citado chegou do Mensageiro até Abu Hanifa por meio de apenas um transmissor. Trata-se de uma mulher Companheira chamada Aisha bint Ajrad. Por essa razão, este hadith pertence à categoria dos “Wahdaniyyat”, isto é, hadiths transmitidos pela intermediação de uma única pessoa.

Há numerosos hadiths que chegaram até Abu Hanifa (que Allah tenha misericórdia dele) por meio de apenas dois níveis de transmissores. Ele próprio ouviu hadiths de outros tabi’un; e o tabi’i os ouviu dos Companheiros. Assim, para que este hadith chegasse do Mensageiro até o compilador do livro de hadiths, houve apenas dois níveis de transmissores. Por isso, na terminologia, esses hadiths são chamados de “Thunaiyyat” (********************), isto é, “hadiths com dois níveis de transmissores”. Muitos hadiths desse tipo foram citados no livro Kitab al-Athar, compilado pelo Imam Abu Hanifa. Aqui são mencionadas as cadeias de transmissão de apenas dois hadiths.

(1)

******************************************************

Abu Hanifa disse: Abu al-Zubayr narrou-me, de Jabir ibn Abdallah, que narrou do Nobre Mensageiro (S) o hadith………….

Neste hadith transmitido por meio deste isnad, entre o Imam Abu Hanifa e o Nobre Mensageiro (S) encontram-se como intermediários Abu al-Zubayr, um tabi’i, e Jabir ibn Abdallah, um companheiro.

(2)

******************************************************

Abu Hanifa disse: Nafi narrou-nos, de Ibn Umar, que o Nobre Mensageiro (S) proibiu………..

Neste isnad, o hadith do Mensageiro chegou até o Imam Abu Hanifa por meio de apenas dois níveis de narradores: o tabi’i Nafi e o companheiro Ibn Umar.

Como o Imame Málik não era um tabi‘i, mas pertencia à geração posterior aos tabi‘in — os tabi‘ al-tabi‘in —, a maioria dos hadices por ele compilados pertence à categoria das “sunaiyât”. O Imame Shafi‘i e o Imame Ibn Hanbal não chegaram a encontrar nenhum tabi‘i. Por isso, os hadices compilados por eles pertencem geralmente à categoria das sulasiyât — hadices que contêm três níveis de transmissores. Na obra Sunan al-Darimi há quinze hadices que ele ouviu, depois do Mensageiro, através de três níveis de transmissores.[********************]

Entre os autores dos Sihah Sitta, os imames Bukhari, Ibn Majah, Abu Dawud e Tirmidhi também encontraram alguns tabi‘in; deles aprenderam, coletaram e transmitiram hadices. Por isso, quanto à elevação da cadeia de transmissão, eles também se encontram no mesmo nível do Imame Ahmad ibn Hanbal. Embora, por ocasião do falecimento do Imame Shafi‘i (m. 204 H.), o Imame Bukhari tivesse apenas dez anos, Abu Dawud tivesse apenas dois anos, e Ibn Majah ainda nem tivesse nascido.[********************] Nas suas obras, o número de cadeias de transmissão de hadices que contêm os três níveis de transmissores acima mencionados é o seguinte:

1) Sahih Bukhari Sharif: 22; 2) Sunan Ibn Majah: 5; 3) Sunan Abu Dawud: 1; 4) Jami‘ Tirmidhi: 1.

O Imame Muslim e o Imame Nasa’i não transmitiram hadices diretamente de nenhum tabi‘i. Por isso, todos os hadices por eles transmitidos contêm quatro níveis de transmissores.

A falsificação de hadices e suas causas

A longa história da compilação dos hadices, apresentada anteriormente aos leitores, provou irrefutavelmente que, em cada etapa, desde a origem dos hadices até sua compilação em livros, foram adotadas todas as medidas confiáveis para sua preservação. Para que os hadices do Mensageiro fossem preservados da melhor maneira, não sofressem qualquer mistura e não desaparecessem, em nenhuma etapa se permitiu sequer o menor grau de negligência, descuido ou desatenção na adoção de medidas eficazes. Apesar disso, não há como negar que, durante essa longa continuidade da transmissão dos hadices, surgiram ocasiões em que pessoas perversas, movidas por interesses próprios ou más intenções, tentaram fazer passar suas próprias “palavras” como hadices do Mensageiro, e algumas dessas “palavras” tiveram a oportunidade de se misturar ao vasto oceano dos hadices do Mensageiro.

Como pôde ocorrer um acidente desse tipo nessa cadeia pura e ininterrupta de preservação dos hadices do Mensageiro é algo tão surpreendente quanto digno de análise sob uma perspectiva histórica.

Aqui discutiremos, de forma breve e abrangente, a história da falsificação de hadices.

Ao examinar minuciosamente a continuidade da história, constata-se que o trabalho de forjar hadiths foi iniciado, em primeiro lugar, pelos famosos Khawarij. Na batalha de Siffin (36 H.), surgiu uma grave divergência entre os apoiadores de Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele) acerca do acordo de arbitragem, e eles não estavam de modo algum dispostos a aceitá-lo. Depois disso, assumiram a forma de um grupo religioso independente.

Os Khawarij eram completamente ignorantes a respeito dos hadiths. Eles não estavam de modo algum dispostos a aceitar como verdadeiras quaisquer palavras transmitidas por outras pessoas. Consideravam o mentiroso um kafir. Apesar disso, começaram a forjar hadiths e a divulgar falsidades em nome do Mensageiro. No fundo, seu único objetivo era obter apoio para suas próprias opiniões particulares.

Allama Ibn al-Jawzi mencionou, em sua obra intitulada ‘Kitab al-Mawdu‘at’, a seguinte declaração de Ibn Lahia:

******************************************************

Este hadith é um dos fundamentos do Din do Islã. Portanto, observai com especial atenção de quem recebeis este fundamento do Din. Pois, sempre que desejávamos, fazíamos passar por hadith qualquer coisa que quiséssemos.

Isto significa que esse homem anteriormente pertencia ao grupo dos Khawarij e, naquela época, fazia passar por hadith do Mensageiro qualquer coisa que lhe viesse à mente. Esta é a origem da falsificação de hadiths pelos Khawarij.

Depois disso, também encontramos a comunidade xiita envolvida na falsificação de hadiths. Na realidade, eles eram inimigos ferozes do Islã. Com a má intenção de obter uma oportunidade livre para atacar os próprios fundamentos do Islã, recorreram à extrema deturpação da doutrina xiita. Primeiro, tentaram introduzir uma extrema distorção e interpretações perversas em diversos versículos do Alcorão Majid. Porém, ao perceberem que não conseguiriam obter êxito com isso, voltaram sua atenção para os hadiths do Mensageiro e tentaram fazer circular inúmeras falsidades em nome dos hadiths do Mensageiro. Forjaram grande quantidade de hadiths com o objetivo de exaltar grandemente Hazrat Ali e diminuir a posição de Hazrat Muawiya. Fizeram circular, em defesa de Hazrat Ali, muitos hadiths pelos quais alguns pretendiam provar a profecia de Hazrat Ali e outros, o direito de Hazrat Ali ao califado depois do Mensageiro.

Entre a comunidade xiita, o principal ‘forjador de hadiths’ era Mukhtar ibn Abu Ubayd. Inicialmente, ele pertencia ao grupo dos Khawarij. Mais tarde, juntou-se aos apoiadores de Hazrat Abdullah ibn Zubayr. Por fim, adotou inteiramente a doutrina xiita e tornou-se membro da comunidade xiita. Ele forjava hadiths abertamente. Quando se encontrou com Abdullah ibn Zubayr em Kufa, disse a um certo muhaddith:

******************************************************

Compondei para mim alguns hadiths em nome do Mensageiro, dos quais se prove que ele (Mukhtar) será o califa imediatamente depois dele.

Também os muçulmanos de fé fraca começaram a forjar muitos hadiths em nome do Mensageiro. Compuseram também numerosos hadiths para diminuir a honra de Hazrat Ali e provar a superioridade de Hazrat Abu Bakr e Hazrat Umar.

No segundo século da Hégira, surgiu uma nova fitna de forjamento de hadiths. As pessoas começaram a divulgar histórias, mentiras e lendas infundadas sob a forma de hadiths, acompanhadas de cadeias de transmissão. Entre os autores de hadiths desse período, destacaram-se sobretudo os que buscavam interesses políticos, os contadores de histórias e aqueles que secretamente promoviam a apostasia religiosa. Fonte desta longa discussão: ********************

Vê-se na continuidade histórica acima mencionada que, em linhas gerais, a fitna do forjamento de hadiths no Islã surgiu por três razões:

a) O forjamento de hadiths com o objetivo de estabelecer e fazer prevalecer as próprias opiniões no campo da política, comprovar a ideologia política por eles adotada e torná-la aceitável para o povo.

b) O forjamento de hadiths com o objetivo de disseminar o Islã entre o povo, torná-lo mais religioso por meio de pregações e exortações, incentivá-lo mais intensamente à adoração e à devoção e fazê-lo sentir maior temor do Além.

c) Fazer passar palavras inventadas como “hadith”, com o objetivo de tornar fácil e incontestável a obtenção de benefícios pessoais.

Por razões políticas específicas, os hadiths foram inicialmente forjados em torno de Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele). O objetivo de forjar tais hadiths era provar que, depois do Nobre Profeta, somente ele — e ninguém mais — tinha o direito de se tornar califa. Apresentam-se a seguir três exemplos de hadiths forjados desse período:

a) Divulga-se que, no discurso que o Nobre Profeta (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) proferiu no lugar chamado ‘Ghadir Khumm’, ao retornar da Peregrinação de Despedida, ele teria apontado para Hazrat Ali e também dito as seguintes palavras:

(a) ******************************************************

“Este homem é meu sucessor e meu irmão; depois de mim, ele será o califa. Portanto, escutai todos as suas palavras e segui somente a ele.”

(b)- ******************************************************

Nutrir amor por Ali é uma virtude tal que, enquanto ela existir, nenhum pecado poderá prejudicá-lo. Em contrapartida, nutrir inveja e inimizade por Ali é um pecado tal que nenhuma boa ação poderá beneficiá-lo.

******************************************************

Quem morrer nutrindo inveja por Hazrat Ali morrerá como judeu ou cristão.

Pode-se compreender à primeira vista que estas três frases, divulgadas sob o nome de hadith, de modo algum podem ser hadith do Mensageiro; pelo contrário, foram simplesmente inventadas com o objetivo de alcançar interesses políticos e partidários.

Não há conta de quantos hadith os xiitas forjaram e divulgaram com o objetivo de provar que Hazrat Ali era o sucessor do Nobre Profeta. Mas que cada uma de suas afirmações é uma mentira evidente também é provado pelos hadith autênticos narrados por Hazrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele), e isso é considerado inacessível ao conhecimento e à razão comuns.

Por outro lado, não demora nem um instante para se considerar igualmente um exagero extremo os hadith forjados e divulgados em louvor excessivo a Hazrat Abu Bakr e Umar.

Como exemplo, citam-se dois hadith deste período:

******************************************************

Quando fui levado ao céu durante o Mi’raj, eu disse: Ó Allah! Faz de Ali ibn Abu Talib o califa depois de mim. Então o mundo celestial começou a tremer, e de todas as direções os anjos exclamaram com vozes invisíveis: Ó Muhammad! Recita este versículo de Allah, cujo significado é: nada podereis querer, senão o que Allah quiser. E Allah quis que, depois de ti, Abu Bakr Siddiq fosse o califa.

******************************************************

Em cada folha de cada árvore do Paraíso está escrito: Lā ilāha illallāh, Muhammadur Rasūlullāh, Abu Bakr, Umar al-Faruq e Uthman Dhu’n-Nurayn.

Também foi forjado um hadith em louvor de Hazrat Muawiya. Por exemplo:

******************************************************

Quando virdes Muawiya de pé no meu púlpito, proferindo o sermão, então aceitai-o, pois ele é muito confiável, digno de confiança e protegido.

Dessa forma, muitas afirmações infundadas e absolutamente sem fundamento foram divulgadas entre o povo em nome dos hadiths do Mensageiro. Aqui serão mencionadas mais três afirmações desse tipo:

(a)****************************************************** — O amor à terra natal é parte da fé.

(b)****************************************************** — Ó Muhammad! Se não fosse necessário criar-te, eu não teria criado os céus nem o mundo’.

(c)****************************************************** — O sol poente foi feito ressurgir por causa de Ali ibn Abu Talib.[Ahmad ibn Hanbal disse: ******************** Este hadith não tem fundamento. Ibn al-Jawzi afirmou: ******************** “Isto não é um hadith, mas uma afirmação inventada. Contudo, o imã al-Suyuti e al-Tahawi afirmaram que é sahih. ********************]

Essas três afirmações foram divulgadas na sociedade como hadiths e ganharam ampla divulgação de boca em boca entre os pregadores. Na realidade, porém, as três são completamente falsas e forjadas.

Medidas para impedir a falsificação de hadiths

Embora os khawarij tenham começado inicialmente a falsificar hadiths em benefício próprio, isso não pôde prosseguir por muito tempo. A própria crença dos khawarij não lhes permitiu avançar muito nesse caminho.

1. A crença dos khawarij era: quem mente é um kafir! Assim, a tendência de proferir mentiras e falsificar hadiths desapareceu naturalmente entre eles.

2. Os khawarij eram beduínos, naturalmente severos e rudes. Não estavam dispostos a aceitar qualquer palavra de outras nações ou tribos. Por isso, nenhuma palavra dos persas e dos judeus — que, em sua maioria, haviam adotado a doutrina xiita e composto hadiths falsificados — podia ter qualquer importância para eles.

3. Ao lutar contra os adversários, os khawarij confiavam sobretudo na própria bravura, força, capacidade e armas. Por isso, nunca estavam dispostos a recorrer à mentira ********************. Além disso, como consideravam seus adversários kafirs, não sentiam necessidade de recorrer à mentira. Pois não lhes passava pela mente que, para subjugar os kafirs, se pudesse usar qualquer outra arma além da espada.

Foi por essas três razões que os khawarij compuseram pouquíssimos hadiths falsificados, em comparação com as demais seitas causadoras de corrupção e desordem. E os poucos hadiths que falsificaram foram facilmente identificados e rejeitados pela sociedade muçulmana versada no conhecimento islâmico. Assim, a falsificação de hadiths ocorrida nessa fase não chegou a constituir um perigo significativo.

Mais tarde, porém, os hadiths compostos pela comunidade xiita deram origem a uma situação grave na sociedade muçulmana. Naturalmente, nessa fase, a infinita graça de Allah providenciou uma proteção adequada para a fé e a religião dos muçulmanos. De um lado estavam os khawarij, os xiitas e outros grupos e subgrupos desviados e de caráter desonesto, empenhados em erradicar o Islã; mas, do lado oposto, erguia-se como uma barreira inabalável a sociedade muçulmana organizada e o povo islâmico. As doutrinas equivocadas e a propaganda infundada dos khawarij e dos xiitas não puderam influenciá-los nem um pouco. Pelo contrário, agarraram-se com extrema firmeza ao Alcorão e aos hadiths autênticos. Ao mesmo tempo, dedicaram-se ao amplo ensino e à divulgação dos hadiths puros e autênticos. Até então, um grande número de companheiros ainda estava vivo, e com eles havia uma vasta comunidade de tabi’in instruídos no conhecimento islâmico, formados com todo o empenho por aqueles mesmos companheiros. Todos eles, unidos, frustraram todos os esforços de falsificação de hadiths, romperam a rede de todas as conspirações destinadas a criar labirintos na lei clara do Islã e expuseram publicamente, uma a uma, as mentiras dos mentirosos.

Nesse período, a sociedade muçulmana tornou-se extremamente vigilante e consciente quanto à aceitação de qualquer palavra apresentada em nome de “hadith”. Eles de modo algum estavam dispostos a aceitar algo como hadith apenas por ter sido transmitido por uma cadeia de transmissão. Pelo contrário, começaram a verificar sua cadeia de isnad e a investigar minuciosamente o caráter, o taqwa, o conhecimento, a memória de cada pessoa mencionada nela, bem como o encontro mútuo entre os transmissores.

Na introdução de Sahih Muslim [página 11], o imã Muslim cita esta declaração do tabi‘i Ibn Sirin:

******************************************************

Anteriormente, os muçulmanos não perguntavam sobre o isnad dos hadiths; porém, quando mais tarde surgiram a fitna e a desordem, começaram a dizer: “Dizei os nomes dos narradores. Entre eles, os que forem ahl al-sunna, deles serão aceitos os hadiths; e os que seguirem a inovação, os hadiths narrados por eles serão rejeitados.”

Assim, os muhaddiths tabi‘is perguntavam aos Companheiros sobre os narradores dos hadiths. O objetivo principal dessas perguntas era estabelecer uma distinção fundamental entre o bem e o mal e não aceitar cegamente tudo o que fosse dito.

Nessa época, toda a sociedade muçulmana tornou-se extremamente rigorosa e inflexível no que dizia respeito aos hadiths. Quando alguém que propagava falsidades vinha sentar-se na mesquita junto aos Companheiros para ouvir hadiths, eles o repreendiam severamente e o expulsavam da mesquita. Muitas vezes, também se recorria à ajuda da polícia para expulsar pessoas desse tipo.

Certa vez, um contador de histórias veio sentar-se junto de ‘Abdullah ibn ‘Umar (que Allah esteja satisfeito com ele). Este então ordenou-lhe que se levantasse e fosse embora dali. Mas ele se recusou a partir. Então, Ibn ‘Umar (que Allah esteja satisfeito com ele) mandou chamar a polícia e, com a sua ajuda, expulsou-o.

Muitos acontecimentos desse tipo são mencionados nos livros de hadith. Isso prova que, na época dos Companheiros e dos tabi‘in, os indivíduos que forjavam hadiths eram conhecidos e identificados publicamente. Eles descobriam as atividades satânicas desses indivíduos; por isso, o povo jamais caía nas redes de desorientação por eles lançadas.

Os estudiosos dos hadiths daquela época não se limitaram a cortar as redes de conspiração dos mentirosos e dos falsificadores de hadiths; pelo contrário, como demonstra a discussão anterior deste livro, ao mesmo tempo dedicaram-se plenamente à coleta e compilação dos hadiths autênticos a partir de fontes confiáveis.

Não somente isso: nesse período, também foram estabelecidos critérios permanentes para criticar, verificar e examinar cada hadith antes de aceitá-lo. Foi justamente disso que surgiu a ciência da crítica dos hadiths.

A origem da ciência da crítica dos hadiths

Com o objetivo de impedir a falsificação de hadiths discutida anteriormente, foi elaborada uma ciência independente dos hadiths. Ela foi chamada de (******************************************************

) — “conhecimento relacionado à falsificação de hadiths”. Ao definir esse conhecimento, Nawab Siddiq Hasan escreveu:

******************************************************

O conhecimento relacionado à falsificação de hadiths é uma espécie de ciência por meio da qual se pode saber e reconhecer qual hadith é falso e qual é comprovado e estabelecido; por meio dele, também se pode conhecer a condição do falsificador e saber se ele disse a verdade ou mentiu. O objetivo desse conhecimento especial é adquirir a capacidade e a aptidão para compreender a diferença entre hadiths verdadeiros e falsos, e entre narradores verdadeiros e falsos. Seu propósito e benefício consistem em tornar possível, com seu auxílio, proteger-se desse tipo de hadiths falsos e forjados. Ou, ao narrar um hadith, também é possível declarar imediatamente que ele é falso. No caso dos hadiths, este é um conhecimento extremamente necessário e indispensável. Pois o nobre Profeta (que a paz esteja com ele) disse: “Quem atribuir a mim uma mentira, que prepare sua morada no Inferno.”[********************]

Com o surgimento desse conhecimento, foi possível proteger a sociedade muçulmana de todos os tipos de hadiths falsos. Nessa etapa, os sábios versados no conhecimento dos hadiths demonstraram um talento sem precedentes, extremamente necessário e surpreendente. Eles formularam muitas regras e princípios teóricos, com cuja ajuda se pode reconhecer muito facilmente os hadiths mawdu‘ ou falsos. Por isso, identificaram determinados sinais e características. Nos hadiths em que esses sinais forem observados, não haverá mais espaço para qualquer dúvida quanto ao fato de serem falsos.

O segundo caminho é o prático — utilitário e concreto: nessa etapa, eles apresentaram publicamente informações detalhadas sobre as pessoas habituadas a falsificar hadiths. Elas foram apresentadas minuciosamente ao povo, e os seus “hadiths”, compostos segundo sua própria imaginação e divulgados como mentiras, também foram apresentados diante de todos.

Os sábios compuseram, nesta fase, numerosas obras valiosas. Essas obras ficaram conhecidas pelo nome de “Kitab al-Mawdu‘at”. Assim como os verdadeiros hadiths do Mensageiro Nobre (s) foram reunidos e compilados em obras de hadith de diversos tipos, como Sahih, Jami, Sunan e Musnad, igualmente os hadiths falsos e forjados se tornaram claros para os eruditos especialistas em hadith. Como resultado, tornou-se muito fácil conhecer os hadiths autênticos e sua categoria, bem como distinguir se eram “sahih”, “hasan”, da‘if ou mawdu‘. Esta contribuição dos especialistas em hadith permanecerá eternamente brilhante na história do estudo do conhecimento islâmico.

Alguns sinais dos hadiths forjados

Já dissemos anteriormente que os sábios estabeleceram, para reconhecer os hadiths forjados, regras que são realmente infalíveis e plenamente confiáveis. Isso porque possuíam em grau máximo um conhecimento sólido e aguçado, bem como talento, para criticar, verificar e examinar os hadiths. Aqui mencionaremos algumas dessas regras:

1. No narrador de um hadith forjado aparecem sinais pelos quais se pode compreender facilmente que ele inventou uma afirmação inteiramente falsa e a apresentou como um hadith do Mensageiro.

Apresentaremos aqui exemplos de dois hadiths forjados, procurando esclarecer a questão:

(a) Sā’in ibn Umar al-Tamimi disse: Eu estava na presença de Sa‘yad ibn Zarif. Nesse momento, seu filho chegou chorando, com um livro na mão. Ele perguntou: O que aconteceu com você? O filho respondeu: O professor me bateu. Então ele disse: “Hoje certamente o deixarei envergonhado”. ‘Ikrima narrou, sob a autoridade de Ibn ‘Abbas, estas palavras do Mensageiro:

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Os professores de vossos meninos são os mais perversos dentre vós; são muito pouco compassivos para com os órfãos e extremamente severos para com os necessitados.

(b) Alguém disse a Ma’mun ibn Ahmad al-Harawi: “O que pensas sobre Shafi‘i e seus seguidores khurasanianos?” Foi narrado pelo nobre Profeta (S):

******************************************************

“Haverá entre a minha comunidade um homem cujo nome será Muhammad ibn Idris. Ele será mais prejudicial à minha comunidade do que Iblis. E haverá entre a minha comunidade outro homem cujo nome será Abu Hanifa; ele será uma lâmpada para a minha comunidade.”

Não é nem um pouco difícil compreender que o narrador desses dois hadiths, movido pelo interesse próprio e pela inveja, fez passar como hadith uma mentira em nome do Mensageiro.

2. No hadith narrado, podem ser encontrados sinais que provam categoricamente que ele é forjado. Por exemplo, quando no texto principal do hadith há alguma palavra cujo significado é extremamente ridículo, ou quando tanto as palavras quanto o significado são frívolos. Não se pode afirmar, de modo geral, que o hadith será forjado apenas porque uma palavra é ridícula. É possível que o hadith seja autêntico quanto ao significado original, mas que algum narrador posterior tenha introduzido uma pequena alteração nas palavras e colocado, por vontade própria, alguma outra palavra em seu lugar. Originalmente, porém, o hadith foi narrado pelo nobre Mensageiro (S). Contudo, se o narrador afirmar que a linguagem e todas as palavras do hadith foram narradas pelo nobre Mensageiro (S), não há alternativa senão considerá-lo mentiroso. Isso porque o Profeta (S) era, entre os árabes, extremamente eloquente e de fala doce. Em tal situação, se mesmo uma palavra do hadith for ridícula ou leviana, ele será necessariamente forjado e falso.

Eis um hadith forjado que contém um significado ridículo:

******************************************************

“Não insulteis o galo, pois ele é meu amigo.” [Embora todo este hadith seja forjado, sua primeira parte é realmente uma palavra do Mensageiro. Abu Dawud citou-a com uma excelente cadeia de transmissão, nas seguintes palavras: Não insulteis o galo, pois ele desperta para a oração.]

Quem poderia não compreender que isto não pode ser uma palavra do nobre Profeta (que a paz esteja com ele)?

3. Outro sinal de que um hadith é forjado é ele ser contrário à razão e ao bom senso naturais. Se um hadith for contrário à razão e ao bom senso naturais, e não for possível atribuir-lhe nenhum significado aceitável, ou se for contrário ao sentimento comum e à observação, também ficará comprovado que é forjado. Como, por exemplo, relatar a união de duas coisas opostas; ou afirmar algo que negue o Criador. Pois nenhuma norma da sharia pode ser contrária à razão natural e ao bom senso saudável.

Um hadith forjado é o seguinte:

******************************************************

Allah criou o cavalo. Ele o fez correr, e, como resultado, o cavalo suou abundantemente. Depois, a partir dele, criou a Si mesmo.

Poderia uma pessoa dotada de bom senso dizer uma coisa tão absurda?

O segundo é o seguinte:

******************************************************

‘A berinjela bajendjan é um remédio para todos os tipos de doenças’.

Isto é completamente inválido e sem fundamento. Pois foi comprovado pela observação que a berinjela bajendjan aumenta a intensidade da doença e a torna mais grave. Basta ouvir este hadith (?) para o bom senso dizer que ele é falso.[********************]

4. Se um hadith contradiz uma determinação clara do Alcorão, um hadith mutawatir ou um consenso definitivo, deve ser considerado fabricado ou mawdu.[********************]

É sob essa perspectiva que foram declarados falsos os hadiths que fixam em sete mil anos o tempo de vida restante do mundo. Pois isso contradiz o seguinte versículo do Alcorão. Allah, o Altíssimo, disse:

******************************************************

Ó Profeta! As pessoas perguntam-te quando ocorrerá a Ressurreição. Dize: o conhecimento a esse respeito está exclusivamente sob o domínio do meu Allah; somente Ele a revelará no seu tempo exato.[********************]

Um estudioso dos hadiths declarou inválido e fabricado o hadith citado a seguir.[********************]

******************************************************

O filho ilegítimo não poderá entrar no Paraíso.

Pois isso contradiz a seguinte declaração clara do Alcorão. Allah disse:

******************************************************

Nenhum portador de fardo carregará o fardo (do pecado) de outro.[********************]

Da mesma forma, são fabricados os “hadiths” que expressam o sentido de que aquele cujo nome seja Ahmad ou Muhammad jamais irá para o Inferno. Pois é universalmente sabido que somente um nome, um apelido ou um título jamais pode suprir a necessidade de observar a religião. Portanto, ninguém pode obter a salvação do Inferno apenas por meio de um nome, apelido ou título. O único meio de alcançar a salvação é o ‘amalus salih — as boas ações.

5. Não há dúvida de que são fabricados os hadiths que mencionam um acontecimento realizado na presença de um grande número de Companheiros, mas que não conseguiram alcançar ampla divulgação na época dos Companheiros, nem foram narrados por ninguém além de um pequeno número de pessoas. A seguinte alegação de uma corrente dos xiitas também é um hadith fabricado desse tipo:

******************************************************

Ao retornar da Peregrinação de Despedida, na presença de mais de cem mil Companheiros em Ghadir Khumm, o Nobre Profeta (S) concedeu o califado a Hazrat Ali (R.A.).

Alega-se que, na presença de um número imenso — mais de cem mil Companheiros — o Nobre Profeta (que a paz esteja com ele) concedeu o califado a Hadrat Ali (que Allah esteja satisfeito com ele); contudo, em geral, os Companheiros não deram importância alguma a isso, e, por ocasião da escolha do califa após o falecimento do Nobre Profeta, nenhum Companheiro se lembrou dessa afirmação. Isso é algo impossível. Portanto, trata-se inteiramente de uma invenção.

6. Mesmo que uma afirmação contrária à razão comum e à consciência sã seja mencionada em algum hadith, ela deve ser considerada fabricada. Por exemplo, em uma afirmação conhecida como hadith, foi citado:

******************************************************

Nem a tirania dos turcos é boa, nem a justiça dos árabes.

Pois a opressão manifesta é geralmente condenável, assim como a justiça é louvável em todas as circunstâncias.

7. Se o narrador de um hadith for adepto da doutrina rafidita e no hadith forem mencionadas as virtudes dos membros da linhagem do Mensageiro, deve-se entender que ele é fabricado. Isso porque os adeptos da doutrina rafidita estão geralmente acostumados a atribuir ao Mensageiro, em meio a elogios infundados aos membros de sua linhagem, afirmações desse tipo, bem como a insultar os Companheiros e divulgar calúnias contra eles. Em especial, nutrem uma inimizade extrema pelos dois primeiros califas e consideram-nos usurpadores do direito de Hadrat Ali ao califado.

8. Se o acontecimento mencionado em algum hadith for contrário à história autêntica, confiável e comprovada, deve-se entender que ele é, sem dúvida, fabricado. Por exemplo, afirma-se em um hadith que a jizya foi retirada dos habitantes de Khaybar por causa do martírio de Hadrat Saad ibn Muadh. Isso é contrário à história verdadeira. Pois Hadrat Saad foi martirizado na batalha da Trincheira, acontecimento que ocorreu antes da batalha de Khaybar. Em segundo lugar, a jizya nem sequer havia sido instituída na época da batalha de Khaybar; pelo contrário, antes da batalha de Tabuk ela era completamente desconhecida dos Companheiros. Em terceiro lugar, afirma-se nele que esse documento foi escrito por Muawiya ibn Abu Sufyan. Ora, Muawiya só aceitou o Islã por ocasião da conquista de Meca. Durante a batalha de Khaybar, ele ainda não era muçulmano.

9. Se alguém alegar ter vivido além da duração normal da vida determinada por Allah e divulgar que encontrou uma pessoa que viveu em um passado muito remoto, deve-se entender que isso é inteiramente falso. Por exemplo, Ratan Hindi alegou ter encontrado o Nobre Profeta (que a paz esteja com ele). Contudo, essa pessoa ainda estava viva no ano 600 da Hégira. A crença dos ignorantes é que esse homem se encontrou com o Nobre Profeta, ouviu hadiths dele e que o Mensageiro suplicou para que tivesse vida longa. Na realidade, tal alegação é completamente infundada, pois a maioria dos Companheiros que encontraram o Nobre Profeta já havia desaparecido antes do ano 59 da Hégira. Naquela época, apenas Hadrat Abu al-Tufayl estava vivo. E, quando ele faleceu, as pessoas choraram dizendo:

******************************************************

Ele é a última pessoa entre aquelas que se encontraram com o nobre Profeta.

10. Também é completamente falsa e infundada a alegação de que os sufis receberam hadiths do Mensageiro por meio de kashf ou de sonhos, sem qualquer cadeia contínua de transmissão. Todos os eruditos do Islã estão plenamente de acordo quanto a isto: nenhuma verdade da Shariah pode ser comprovada por meio de sonhos ou kashf. Isso, de modo algum, é confiável; pelo contrário, não passa de um acréscimo infundado às normas fundamentais da Shariah. Além do Alcorão e dos hadiths transmitidos por cadeias contínuas e autênticas de transmissão, não existe uma terceira base para a Shariah; mesmo que alguém pense que ela existe, isso é falso e deve ser rejeitado. Esta longa discussão até aqui foi extraída das páginas 479–485 da obra ******** e contou com auxílio de ********.

Método de crítica dos hadiths

Ao discutirmos a origem da ciência da crítica dos hadiths, mencionamos diversos métodos para reconhecer os hadiths forjados. Diante da situação criada pela fabricação de hadiths, surgiu uma necessidade urgente de verificar e examinar os hadiths com base em critérios minuciosos e irrefutáveis, a fim de determinar claramente quais eram forjados e quais eram autênticos. Por isso, começou em grande escala o trabalho de investigar minuciosamente a cadeia de transmissão de cada hadith, cada pessoa ligada à cadeia, os encontros entre elas, as circunstâncias em que ouviram e receberam os hadiths, a fonte original dos hadiths e tudo o mais. Nessa época, os especialistas da sociedade muçulmana decidiram por consenso que somente os hadiths autênticos e corretos seriam aceitos; nenhum outro “hadith” seria aceito. Isso porque só é possível aceitar um hadith e agir de acordo com ele quando se comprova que ele é verdadeiramente uma palavra do Mensageiro e que não há qualquer dúvida quanto a ser um hadith. Essa comprovação depende da autenticidade de sua cadeia de transmissão, da confiabilidade de cada transmissor mencionado nela e de nenhum deles ter sido “ferido” pelos ataques da crítica. Quando a cadeia de transmissão do hadith é aprovada nesses exames, deve-se, numa segunda etapa, examinar e verificar as qualidades intrínsecas do próprio hadith: a exatidão e a credibilidade de seu conteúdo principal. Na terminologia da ciência dos hadiths, o primeiro método é chamado de verificação da riwayat. O segundo é chamado de dirayat: verificar o conteúdo principal na pedra de toque da razão e da sã consciência.

O trabalho de examinar as cadeias de transmissão

Verificar a autenticidade ou falsidade de um hadith sob o aspecto de sua cadeia de transmissão é uma ciência especial. Os especialistas a definiram nos seguintes termos:

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Esta ciência baseia-se no exame e na avaliação extremamente minuciosos da cadeia de transmissão das palavras, ações, aprovações ou de quaisquer qualidades atribuídas ao Nobre Mensageiro, aos Companheiros e aos Tabi‘ins.[********************]

Para determinar se um hadith é aceitável, deve-se, antes de tudo, verificar a cadeia de transmissão pela qual foi narrado. Nesta etapa, é indispensável examinar cada narrador de hadith sob diversos aspectos. Que tipo de pessoa é o narrador, e qual é o seu caráter? Quanto ele domina o conhecimento e a erudição islâmicos? Quão aguçada e desenvolvida é sua capacidade de compreensão? Como são seu talento e sua memória? Sua ‘aqidah, sua crença, seu pensamento e sua doutrina são corretos e conformes ao Islam, ou ele segue inovações? Possui ele bom senso e capacidade de raciocínio, ou sofre de alguma doença mental? Está habituado a dizer a verdade de maneira precisa, ou às vezes também diz mentiras? É virtuoso e de bom caráter, ou é desprovido de caráter e inclinado à depravação? Na ciência da crítica, são precisamente esse tipo de perguntas que constituem as questões principais acerca de cada narrador de hadith. Além disso, é necessário saber onde e com quem ele ouviu e aprendeu hadith. É preciso examinar minuciosamente se ele realmente encontrou aquele de quem narra o hadith; e, caso tenha encontrado, onde e quando isso ocorreu e qual era sua idade naquela ocasião.

Na realidade, trata-se de um conhecimento especial, que é chamado: ********************. Ao tratar de sua definição, foi dito:

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É uma ciência na qual os narradores de hadith são criticados por meio de termos específicos e se estabelece uma conciliação entre eles.

Por isso, é indispensável adquirir um conhecimento profundo e minucioso da biografia detalhada de cada narrador de hadith. Esse conhecimento é chamado de:

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A ciência e o conhecimento relativos aos nomes e à identificação das pessoas.

Isso foi explicado da seguinte forma:

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Isto é, conhecimento sobre os Companheiros, os tabi’in e todos os narradores mencionados na cadeia de transmissão do hadith. Pois esse conhecimento constitui metade do conhecimento dos hadiths.

Sobre a necessidade desse conhecimento, Sufyan al-Thawri disse:

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A cadeia de transmissão e o conhecimento relacionado a ela são uma arma especial dos crentes; e, se ele não tiver uma arma, com que lutará (enfrentará o inimigo)?.

O Imam al-Shafi’i (que Allah tenha misericórdia dele) disse:

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Aquele que busca e aceita hadiths sem conhecer a cadeia de transmissão e tudo o que a ela se relaciona é como quem recolhe lenha na escuridão da noite. Carrega um feixe de lenha no qual há uma serpente venenosa. Ela o morde, mas ele nem sequer percebe.

Criticar, examinar e verificar os narradores de hadiths em todos os níveis e categorias, bem como conceder aos confiáveis entre eles a honra que lhes é devida, é uma atividade de extrema importância no Islã. Allah, o Altíssimo, ordenou claramente:

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Ó crentes! Se um ímpio vos trouxer alguma notícia, verificai a sua veracidade; caso contrário, podereis, por ignorância, causar uma calamidade a um povo e depois vos arrependerdes do que houverdes feito.

Foi por causa dessa instrução clara que os nobres Companheiros adotaram especial rigor e cautela ao aceitar cada palavra ou hadith. Eles não estavam dispostos a aceitar a palavra ou o hadith de quem quer que fosse sem argumentos irrefutáveis, provas e testemunhos. Mais tarde, no campo da ciência dos hadiths, isso lançou as bases para o surgimento da “ciência da crítica dos hadiths”. Foi por essa razão que se compôs o “Ilm Asma al-Rijal”. Essa ciência é absolutamente indispensável para decidir quais hadiths são aceitáveis. A esse respeito, foi dito:

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Está comprovado, por meio do Mensageiro Nobre, de numerosos Companheiros e dos tabi’in, que se falou sobre a crítica e a concessão da honra devida a cada narrador de hadith. Esse trabalho continuou depois deles. Todos consideraram esse procedimento legítimo, com o objetivo de proteger a Sharia do Islã das garras da mentira e da falsificação, e não com o objetivo de simplesmente ferir as pessoas ou provar que eram culpadas.

Muhammad ibn Sirin, um tabi’i, disse:

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Saibam certamente que este conhecimento é uma questão fundamental da religião islâmica; portanto, observem cuidadosamente de quem estão recebendo a religião.

Ao relatar a história do surgimento da ciência da crítica dos hadiths, ele também disse:

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Antigamente, as pessoas não desejavam conhecer o isnad dos hadiths nem a identidade dos narradores. Mas, quando começaram as dissensões, passaram a dizer: “Digam-nos os nomes e a identidade dos vossos narradores.” Se fossem pessoas que preservavam verdadeiramente os hadiths, os hadiths narrados por eles seriam aceitos; mas, se fossem seguidores de inovações religiosas, os hadiths narrados por eles não seriam aceitos.

Sobre este conhecimento indispensável relacionado à verificação dos hadiths — o ‘ilm al-rijal —, disse o célebre orientalista Dr. Springer:

Nunca existiu no mundo outra nação capaz de criar uma ciência biográfica tão grandiosa e abrangente quanto o ilm al-rijal dos muçulmanos, e atualmente também não existe no mundo nenhuma outra nação semelhante. Graças a essa ciência, hoje é possível conhecer de modo adequado e confiável as biografias detalhadas de quinhentos mil narradores de hadiths. (Introdução à tradução inglesa da obra, impressa em Calcutá no ano de 1853.)

Ao criticar os hadiths, os estudiosos dos hadiths adotaram uma cautela extraordinária. Se uma pessoa dotada de boa memória perdesse a memória aos sessenta anos e fosse acometida pela doença do esquecimento, sua biografia certamente registraria o seguinte: “Essa pessoa possuía boa memória na primeira parte da vida, mas sua memória desapareceu aos sessenta anos. Portanto, somente poderão ser aceitos os hadiths por ela narrados enquanto sua memória permanecia intacta; nenhum hadith narrado por ela após esse incidente poderá ser aceito. Na elaboração dessa ciência biográfica, os autores não demonstraram erros graves, como parcialidade, inveja ou hostilidade, inclinação injustificada por alguém específico ou elogios excessivos a respeito de qualquer pessoa. Eles analisaram os acontecimentos reais relativos a cada indivíduo baseando-se na plena verdade. Sua perspectiva baseava-se inteiramente na verdade ao analisar os acontecimentos reais. Sua perspectiva era completamente imparcial e livre de qualquer impureza. A cada pessoa deram exatamente a dignidade e a posição que lhe cabiam, sem demonstrar avareza nem estreiteza de visão.

Com o objetivo de formar aqui uma compreensão clara do método de crítica dos hadiths, serão mencionados, a título de exemplo, alguns relatos. (Naturalmente, a discussão dos princípios já foi apresentada anteriormente.)

Ao discutir o xeique Abdullah ibn Mubarak em relação ao xeique Ubad ibn Kathir, o muhaddith Sheikh Abdullah ibn Mubarak teceu grandes elogios à sua taqwa e piedade, mas declarou que, por razões morais, não se poderia aceitar os hadiths narrados por ele.

Certa pessoa narrou um hadith ao Imam Abdullah ibn Hakim. O Imam perguntou-lhe: Quando e de quem ouviste este hadith? Ele respondeu: “Ouvi este hadith de Abd ibn Humayd, em determinado ano.”

Então, o Imam Abdullah dirigiu-se aos estudantes reunidos diante dele e disse: “Vejam: segundo este homem, Abd ibn Humayd narrou um hadith a ele sete anos depois de sua morte.”

Isso porque Abd ibn Humayd havia falecido sete anos antes do ano que aquela pessoa mencionara como a data em que ouvira o hadith de Abd ibn Humayd. Em outras palavras, a alegação dessa pessoa de ter ouvido dele esse hadith é completamente falsa, e o hadith é inaceitável.

Os judeus apresentaram ao califa muçulmano um documento supostamente redigido pelo Mensageiro e alegaram que a jizya imposta sobre eles deveria ser abolida. No documento estava escrito que a jizya dos judeus habitantes de Khaybar havia sido perdoada. Para o califa e os governantes, não havia alternativa senão aceitá-lo humildemente e abolir a jizya dos judeus. Porém, quando os especialistas em hadith examinaram o documento, viram que nele era citada a testemunha de Sa’d ibn Mu’adh. Entretanto, ele havia falecido antes da batalha de Khaybar.

Em segundo lugar, o nome de Muawiya ibn Abi Sufyan estava escrito como autor desse documento, embora seja universalmente sabido que, até a batalha de Khaybar, Muawiya ainda não havia aceitado o Islã.

Em terceiro lugar, até o momento mencionado nesse documento, o decreto de Allah relativo à jizya ainda não havia sido revelado; ele só foi revelado muito tempo depois. Em quarto lugar, esse documento apenas prova que a jizya foi perdoada aos judeus que abandonaram a hostilidade ao Islã e demonstraram submissão a ele. Quanto àqueles que estavam imersos na hostilidade ao Islã, não poderia haver qualquer questão de perdoar-lhes a jizya.

Os muhaddithun declararam, com base nessas provas irrefutáveis, que esse documento era completamente falso. Portanto, deveria ser retirado.

Estes são apenas alguns exemplos práticos do funcionamento da ciência da crítica dos hadiths. Os estudiosos dos hadiths submeteram cada hadith à crítica, verificação e exame no crisol desse tipo de crítica e verificação. E a realização dessa grandiosa e nobre tarefa só foi possível com o auxílio da ciência de ‘Asma al-Rijal’. Seu fundamento foi estabelecido sobre o versículo anteriormente citado do Alcorão Sagrado. Os nobres Companheiros seguiram-no plenamente. Posteriormente, os muhaddithun distinguiram, com o auxílio desse critério, os hadiths verdadeiros dos falsos.

A seguir, são mencionados, em ordem cronológica, os nomes daqueles que realizaram algum trabalho no campo da crítica dos hadiths:

Entre os Companheiros: 1. Hazrat Abdullah ibn Abbas (falecido em 68 H.), 2. Ubadah ibn al-Samit (falecido em 34 H.), 3. Anas ibn Malik (falecido em 93 H.).

Entre os tabi’un: Amir al-Sha’bi (falecido em 104 H.), Ibn Sirin (falecido em 160 H.), Sa’id ibn al-Musayyib (falecido em 93 H.).

Entre as figuras notáveis do segundo século encontram-se o Imam Shu’ba (falecido em 160 H.), Anas ibn Malik (falecido em 179 H.), Ma’mar (falecido em 153 H.), Hisham al-Dastawa’i (falecido em 154 H.), o Imam al-Awza’i (falecido em 156 H.), Sufyan al-Thawri (falecido em 161 H.), Ibn al-Majishun (falecido em 163 H.), Hammad ibn Salama (falecido em 167 H.) e al-Layth ibn Sa’d (falecido em 175 H.).

Na fase seguinte, destacam-se Abdullah ibn al-Mubarak (falecido em 181 H.), Hushaym ibn Bashir (falecido em 188 H.), Abu Ishaq al-Fazari (falecido em 185 H.), al-Mu’afi ibn Imran al-Musili (falecido em 185 H.), Bishr ibn al-Mufaddal (falecido em 196 H.) e Ibn Uyaynah (falecido em 197 H.). Entre os notáveis de sua geração encontram-se Ibn Ulayya (falecido em 193 H.), Ibn Wahb (falecido em 197 H.) e Uqayl ibn Jarrah (falecido em 197 H.).

Nessa época surgiram duas pessoas de talento extraordinário. Eram Yahya ibn Sa’id al-Qattan (falecido em 189 H.) e Abd al-Rahman ibn Mahdi (falecido em 198 H.).

Entre os que se destacaram depois deles estão: Iázid ibn Harun (m. 206 H.), Abu Dawud al-Tayalisi (m. 204 H.), Abd al-Razzaq ibn Hammam (m. 211 H.) e Asim Nabil ibn Makhlad (m. 212 H.).

Depois deles, destacaram-se os autores de obras sobre a ciência da crítica. Nesta fase, os principais nomes foram: Yahya ibn Muin (m. 233 H.), Ahmad ibn Hanbal (m. 241 H.), Muhammad ibn Sayad (m. 230 H.), Abu Khaythama Zubayr ibn Harb (m. 234 H.), Abu Jafar Abdallah ibn Muhammad Nabil, Ali ibn al-Madini (m. 234 H.), Muhammad ibn Abdallah Numayr (m. 234 H.), Abu Bakr ibn Abi Shayba (m. 235 H.), Abdallah ibn Amr al-Qawwariri (m. 235 H.), Ishaq ibn Rahwayh, imã de Khurasan (m. 237 H.), Abu Jafar Muhammad ibn Abdallah Ammar al-Mawsili (m. 242 H.), Ahmad ibn Salih, o hafiz do Egito (m. 248 H.), e Harun ibn Abdallah al-Hammal (m. 243 H.).

Depois deles vieram Ishaq al-Kawsaj (m. 251 H.), o imã al-Darimi (m. 255 H.), o imã al-Bukhari (m. 256 H.), Hafiz al-Ajli, o imã Abu Zurʿa (m. 264 H.), Abu Hatim (m. 277 H.), o imã Muslim (m. 261 H.), Abu Dawud al-Sijistani (m. 275 H.), Baqi ibn Makhlad (m. 276 H.) e Abu Zurʿa al-Dimashqi (m. 281 H.).

Depois deles, destacou-se Abd al-Rahman Yusuf al-Baghdadi. Ele também escreveu uma obra sobre a crítica dos hadiths. Ibrahim ibn Ishaq al-Harbi (m. 285 H.), Muhammad ibn Ajja (m. 289 H.), Hafiz Qurṭuba Abu Bakr ibn Abi Asim (m. 287 H.), Abdallah ibn Ahmad (m. 290 H.), Salih Jazāra (m. 293 H.), Abu Bakr al-Bazzar (m. 292 H.) e Muhammad ibn Nasr al-Marwazi (m. 294 H.) também foram figuras importantes nesta fase.

Assim, em todas as épocas surgiram pessoas especialmente qualificadas, que criticaram os hadiths e verificaram sua autenticidade. Consequentemente, em nenhuma época um hadith absolutamente forjado e falso pôde ser conhecido e divulgado sob o nome de “hadith”, permanecendo como tal. Essa situação existiu desde a época dos Companheiros até o oitavo século da Hégira.

Entre as obras compostas nesse período, apresentamos aqui uma breve descrição de algumas das mais importantes:

1. Tabaqat de Ibn Sayad. Trata-se de uma obra monumental, concluída em quinze volumes.

2. O imã al-Suyuti elaborou um resumo da referida obra. Seu título é—

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3. Tarikh al-Kabir, Tarikh al-Saghir e Tarikh al-Awsat, obras do Imã Bukhari.

4. A história escrita por Ibn al-Madini, concluída em dez volumes.

5. *********************, obra de Ibn Hibban, concluída em dez volumes.

6. Kitab al-Takmil — obra do Imã Ibn Qasil. Nome completo:

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Os dois métodos de transmissão dos hadiths

Há dois métodos de transmitir os hadiths provenientes do nobre Profeta (s). Muitos hadiths foram transmitidos exatamente da maneira como as palavras proferidas pelo nobre Profeta foram ditas, com as mesmas palavras que ele empregou. O transmissor não fez qualquer alteração em sua linguagem ou em suas palavras. Essa forma de transmissão é chamada riwayat bil-lafz — transmissão literal, ou seja, transmissão com as palavras e a linguagem empregadas pelo Mensageiro.

Quando a declaração fundamental do Mensageiro é expressa e transmitida na linguagem do próprio narrador, esse método é chamado de riwāya bil-maʿnā — transmissão do sentido, ou seja, expressar a ideia central com as próprias palavras. Contudo, a condição indispensável é que as palavras e a linguagem empregadas em lugar das palavras e da linguagem usadas pelo Mensageiro sejam necessariamente portadoras e expressoras do sentido e significado originais. Isto é, aquilo que o Mensageiro quis dizer deve ser expresso na linguagem do narrador de tal modo que a declaração fundamental seja transmitida corretamente e desperte no ouvinte precisamente o mesmo sentido e significado que haviam sido despertados nos primeiros ouvintes ao escutá-la do Mensageiro. Se surgir qualquer diferença ou se houver acréscimo ou redução em relação à ideia original, a responsabilidade da transmissão não poderá ser cumprida corretamente.

Também é plenamente permitido pela lei transmitir os hadiths do Mensageiro por este último método. Segundo a maioria dos muhaddiths, a maior parte dos hadiths existentes foi transmitida dessa maneira. Isto é, as palavras do Mensageiro foram transmitidas na linguagem do próprio narrador.

Um companheiro apresentou-se perante o Profeta Nobre e disse: “Nós ouvimos os seus hadiths, mas não somos capazes de transmiti-los com as mesmas palavras. (O que devemos fazer agora?)” O Profeta Nobre respondeu: “Quando vocês não transformam o lícito em ilícito nem o ilícito em lícito, mas transmitem a ideia fundamental com as próprias palavras, não há nisso qualquer problema.”

Classificação dos narradores de hadiths

(qualitativa)

Os narradores de hadiths dividem-se, do ponto de vista qualitativo, em quatro categorias. É com base nessa distinção entre as categorias que se determinam o nível e o mérito dos hadiths por eles transmitidos.

Os narradores de hadiths da primeira categoria são aqueles que são extremamente piedosos, rigorosos no cumprimento da Sharia, dotados de memória aguçada, versados nas diversas ciências e conhecimentos do Islã, de inteligência sutil, criteriosos, plenamente cuidadosos na preservação dos hadiths memorizados e contrários às inovações religiosas.

Os narradores da segunda categoria são aqueles cujas qualidades são, em todos os aspectos, iguais às dos narradores da primeira categoria. Contudo, são inferiores à primeira categoria apenas no que diz respeito à memória. Nesta categoria encontram-se dois tipos de pessoas. Um tipo era constituído por aqueles que registravam os hadiths por escrito e não dependiam exclusivamente da memória. O segundo tipo era constituído por aqueles que não registravam os hadiths por escrito. Assim, por esquecerem algumas palavras do hadith original, utilizavam, ao transmiti-lo, palavras de significado equivalente em seu lugar.

Os narradores da terceira classe eram aqueles que seguiam a Sharia e eram piedosos; porém, em conhecimento, inteligência, compreensão e discernimento interior, não eram iguais aos narradores da segunda classe. Seu único patrimônio era aquilo que conservavam na memória; não davam qualquer atenção ao que haviam esquecido. Preenchiam as partes esquecidas com o auxílio da imaginação.

Os narradores da quarta classe eram seguidores da religião do Islã e observantes da Sharia; contudo, eram atrasados em capacidade de raciocínio, discernimento e visão de longo alcance. Consideravam permitido inventar hadiths para aconselhar as pessoas, assegurar-lhes a paz na vida futura e incutir-lhes temor do castigo. Essas pessoas, por sua vez, dividiam-se em quatro categorias. A primeira era composta por aqueles que, com o objetivo de obter prestígio e honra mundanos, não hesitavam em alterar os hadiths ou inventar novos. A segunda, por aqueles que, para apoiar suas opiniões sobre questões jurídicas minuciosas, incorporavam aos hadiths as palavras empregadas pessoalmente por seus mestres. A terceira, por aqueles que, devido à sua limitada inteligência e discernimento, consideravam parte do próprio hadith original as palavras explicativas proferidas por seus mestres. A quarta era composta pelos inimigos do Islã que, com o mau propósito de criar e alimentar divisões, separações e conflitos entre a comunidade muçulmana, não temiam minimamente inventar e divulgar hadiths.

Condições para a aceitação dos hadiths

Para determinar que tipo de hadith deve ser aceito e que tipo não pode ser aceito, e para decidir sobre essa questão, os imames da ciência dos hadiths estabeleceram diversas condições. Como já foi mencionado, todos os imames dos hadiths estão plenamente de acordo e firmemente decididos quanto ao princípio de que nada além do hadith sahih deve ser aceito. Contudo, ao investigar quais qualidades permitem que um hadith seja denominado “hadith sahih”, cada imam dos hadiths conduziu sua própria reflexão e pesquisa. Entretanto, como essa pesquisa e esse estudo, assim como o desenvolvimento da ciência dos hadiths, não foram realizados simultaneamente nem com a presença conjunta de todos os muhaddiths, mas ocorreram em épocas diferentes e em diferentes estágios do processo gradual de desenvolvimento da ciência dos hadiths, houve, por isso, ampliações em suas diversas etapas. Consequentemente, à primeira vista, parecem existir algumas divergências de opinião. Apresentamos aqui as condições estabelecidas por diferentes imames.

Imam A’zam (r)

As condições estabelecidas pelo Imam A’zam Abu Hanifa (r) para que um hadith fosse considerado “sahih” parecem ser extremamente rigorosas em comparação com as condições estabelecidas por outros muhaddiths. Na realidade, ele era uma pessoa muito rigorosa nesse aspecto. O xeique Uqay, mestre do Imam Bukhari, disse: se condições tão rigorosas quanto as do Imam A’zam fossem impostas de modo geral, haveria o risco de que o número de hadiths sahih diminuísse.

As condições do Imam Abu Hanifa são as seguintes:

1. O narrador do hadith deve necessariamente pertencer à primeira classe de narradores.

2. A transmissão do hadith deve ser literal, com a menção exata das palavras usadas pelo Mensageiro. Se o significado do hadith original for transmitido em palavras próprias, isso não será aceito.

3. Se esses ouvintes tiverem escutado o hadith da boca do proclamador encarregado da recitação em uma sessão de estudo de hadith, não poderão transmiti-lo às gerações posteriores dizendo: “Fulano narrou-me um hadith”. (Se o fizerem, esse hadith não será aceito.)

4. Se os muhaddiths que mantêm seu acervo de hadith preservado por escrito tiverem na memória cada palavra do hadith, sua transmissão oral poderá ser aceita. Caso contrário, deverão narrar o hadith mantendo diante de si o texto escrito. (Se não o fizerem dessa maneira, esse hadith não poderá ser considerado aceitável.)

5. Quanto aos hadiths cujo significado e conteúdo tenham sido transmitidos até este momento, mas não suas palavras exatas, eles poderão ser aceitos como “hadith sahih” se seus transmissores forem versados em fiqh ou, no mínimo, confiáveis, dignos de confiança, verazes e criteriosos, e se, também sob o critério da dirāya, aquilo que transmitiram for correto.

6. Se for transmitido um khabar wāhid sobre as atividades cotidianas, as transações e a adoração, deverá ser apresentada, em seu apoio e confirmação, outra cadeia de transmissão ou isnad como testemunho. Se não for encontrado um “testemunho” aceitável, então, ao menos segundo o critério da dirāya, o hadith original deverá ser necessariamente autêntico e sahih.

Condições dos compiladores dos Sihah Sittah

Os compiladores das obras dos “Sihah Sittah” também impuseram, por iniciativa própria, muitas condições importantes para a aceitação dos hadiths. Aqui serão mencionadas separadamente as condições impostas por cada um deles.

Imam Bukhari (que Allah tenha misericórdia dele)

1. A cadeia de transmissão do hadith (*********************) deverá ser contínua, conectada e ininterrupta (*********************). Al-Hakim Abu Abdullah al-Nishapuri (r) escreveu:

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O hadith sahih de primeira classe é aquele que um sahabi célebre transmitirá do Mensageiro Nobre, e que terá pelo menos mais dois transmissores confiáveis. Depois, um tabi’i que seja geralmente célebre por transmitir hadith diretamente dos sahaba transmitirá esse hadith a partir daquele sahabi, e também haverá, nesse nível, dois transmissores confiáveis. Em seguida, transmiti-lo-ão tabi’ al-tabi’in que sejam memorizadores de hadith e extremamente cuidadosos. Em uma etapa, serão considerados entre os transmissores. Depois virão os mestres do Imam Bukhari — memorizadores de hadith, célebres por preservar a confiabilidade na transmissão de hadith.[*********************]

2. O transmissor do hadith deverá ter permanecido por muitos anos na companhia de seus mestres.

3. O transmissor deverá ser considerado um dos transmissores de primeira classe, além de ser célebre e confiável.

4. Deverá estar comprovado que aqueles de quem uma pessoa transmitirá hadith se encontraram pessoalmente uns com os outros.

Imam Muslim (r)

O xeique Abu Amr Ibn al-Salah escreveu:

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O Imam Muslim estabeleceu, em sua obra Sahih, como condição para aceitar um hadith, que a cadeia de transmissão do hadith fosse necessariamente “muttasil”, contínua, ligada e ininterrupta; que uma pessoa “siqah” narrasse de outra pessoa “siqah”; que essa condição se mantivesse do início ao fim; e que o hadith estivesse livre de “shadh” e “illat”.

2. Aquele que narra um hadith daquele de quem o recebeu deve ter pertencido à mesma geração e vivido no mesmo período que este último.

3. Nenhum dos narradores do hadith deve ser “majhul”, de identidade desconhecida. Todos devem ser amplamente conhecidos.

4. O hadith original não deve conter qualquer defeito.

Há diferenças entre os Imams Bukhari e Muslim quanto às condições para aceitar hadiths. Por isso, muitos hadiths são considerados sahih pelo Imam Bukhari, mas não pelo Imam Muslim, e também ocorre o contrário. Consequentemente, o número de sheikhs ou mestres de hadith dos quais o Imam Bukhari recebeu hadiths, mas o Imam Muslim não, e dos quais o Imam Muslim recebeu hadiths, mas o Imam Bukhari não, chega a 625.

Os Imams Nasa’i e Abu Dawud (que Deus tenha misericórdia deles)

1. Todos os hadiths incluídos, com suas cadeias de transmissão, nas duas principais obras de hadith sahih, Bukhari e Muslim Sharif, são necessariamente considerados aceitáveis por esses dois Imams.

2. Todos os hadith que atendem às condições observadas para a aceitação dos hadith nas duas principais coletâneas de hadith são aceitáveis.

3. Devem ser aceitos todos os hadith que não tenham sido rejeitados por consenso geral nem com base na unanimidade dos muhaddithin, e cuja cadeia de transmissão seja muttaṣil, isto é, uma sequência contínua de narradores sem nenhum narrador omitido. Se o hadith original for ṣaḥīḥ e não for mursal nem munqaṭiʿ, ele também será aceitável.

4. Também é aceitável um hadith transmitido por um narrador de primeira linha entre os narradores do quarto nível.

5. Quando conta com o apoio de um hadith genuinamente ṣaḥīḥ, o imã Abū Dāwūd também aceita hadith cujo narrador seja ḍaʿīf, fraco ou desconhecido.

Todas essas condições são igualmente aceitas pelo imã Nasāʾī e pelo imã Abū Dāwūd. Contudo, em alguns aspectos, as condições impostas pelo imã Nasāʾī são mais rigorosas e elevadas que as do imã Abū Dāwūd. Ao aceitar hadith, o imã Nasāʾī foi mais cauteloso em relação aos narradores. Considerou necessário investigar mais detalhadamente a situação deles. Por essa razão, o imã Nasāʾī não aceitou muitos hadith transmitidos por narradores dos quais o imã Abū Dāwūd e o imã Tirmidhī aceitaram hadith. O ḥāfiẓ Ibn Ḥajar al-ʿAsqalānī (que Deus tenha misericórdia dele) afirmou a esse respeito que os hadith transmitidos por eles também são aceitáveis.

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Há muitos narradores dos quais o imã Abū Dāwūd e Tirmidhī aceitaram hadith, mas o imã Nasāʾī se absteve de aceitar os hadith por eles transmitidos. Além disso, o imã Nasāʾī não se dispôs a aceitar os hadith de um grande número de narradores cujos hadith foram aceitos por Bukhārī e Muslim em suas coletâneas Ṣaḥīḥ.

O imã Tirmidhī (que Deus tenha misericórdia dele)

1. Todos os hadith citados nas duas primeiras obras Sahih, de Bukhari e Muslim, são aceitáveis.

2. Sobretudo, são aceitáveis quaisquer outros hadith que sejam aprovados segundo as condições estabelecidas pelo muhaddith Imam Bukhari e pelo Imam Muslim e cuja autenticidade seja comprovada.

3. Também são aceitáveis os hadith aceitos pelo Imam Abu Dawud e pelo Imam al-Nasa’i, após terem eliminado suas deficiências e falhas.

4. Também são aceitáveis os hadith segundo os quais os juristas praticaram.

5. Também são aceitáveis os hadith cujo tema central seja uma instrução que sempre tenha permanecido em vigor.

6. Também são aceitáveis os hadith dos narradores thiqah que tenham sido criticados, desde que tudo a respeito deles tenha sido claramente exposto.

7. Também são aceitáveis os hadith narrados por narradores cujos hadith tenham sido criticados, mas cuja confiabilidade tenha sido comprovada.

Imam Ibn Majah (r)

1. Para ele, também são aceitáveis os hadiths aceitos pelos cinco muhaddiths mencionados anteriormente.

2. Também são aceitáveis os demais hadiths que possam passar pelos critérios estabelecidos pelos cinco mencionados anteriormente.

3. Também são aceitáveis os hadiths segundo os quais agem os sábios confiáveis e dignos de confiança.

4. Também são aceitáveis os hadiths narrados pelos melhores narradores da quarta categoria, que, após verificação e exame, tenham sido comprovados como sahih.

Na verdade, até os inimigos do Islã são obrigados a reconhecer a importância e a validade dos critérios estabelecidos pelos imames da ciência do hadith e do método de crítica dos hadiths.[*********************]

Dirayah, ou o método de verificar o texto original do hadith

O método de verificar, pesar e examinar os hadiths unicamente sob o aspecto do isnad foi discutido nas páginas anteriores. Seu segundo método eficaz e confiável consiste em verificar a autenticidade do texto original do hadith (*********************). Na terminologia da ciência do hadith, isso é chamado de “dirayah”. Esse processo possui vários aspectos. Em suma, porém, nele o texto original do hadith é pesado na balança do raciocínio, sem que se faça a crítica e a verificação dos narradores do hadith. O processo de verificar a “riwayah”, ou o isnad, limita-se unicamente às qualidades e ao caráter pessoais dos narradores do hadith e às relações entre eles. Contudo, se houver no conteúdo essencial do hadith algum erro, falsidade, irrealidade ou algo contrário ao Alcorão e aos hadiths sahih, isso não poderá ser detectado por meio desse método de verificação e exame. Portanto, não se pode aceitar um hadith simplesmente porque ele foi aprovado por esse método de verificação. Por essa razão, aplica-se o processo de “dirayah” com o objetivo de verificar o texto original do hadith (*********************) — o conteúdo essencial da mensagem do hadith — segundo o padrão da inteligência aguçada e da ponderação. Na verificação e no exame dos hadiths, a aplicação do princípio da “dirayah” é tão conforme ao Alcorão e aos hadiths quanto o princípio da “riwayah”. O próprio Allah Ta’ala proibiu que se decidisse aceitar ou rejeitar qualquer “palavra” baseando-se unicamente na “riwayah”.

Quando os hipócritas de Medina espalharam calúnias a respeito de Hazrat Aisha (ra), alguns muçulmanos também foram influenciados por isso. Então Allah Ta’ala dirigiu-se a eles, dizendo:

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Quando ouvistes tal afirmação, por que não dissestes imediatamente: “De modo algum nos convém dizer algo desse tipo”? Deveríeis ter dito: “Allah é glorificado e Altíssimo; isto não passa de uma mentira manifesta e de uma enorme calúnia. De modo algum pode ser verdade”.

Isto é, assim que se ouvisse a notícia original, deveria considerar-se que ela era completamente falsa. Portanto, naquele mesmo momento, era necessário interromper sua divulgação e propagação. Esta ordem divina de rejeitar como mentira a “calúnia” assim que fosse ouvida é precisamente uma instrução para aplicar a dirāya.

Com efeito, no exame dos hadiths, o método da dirāya é uma ferramenta elevadíssima, extremamente precisa e afiada. Nesta etapa, são observados os seguintes aspectos:

1. Se um acontecimento ocorreu diante de centenas ou milhares de pessoas — um acontecimento que, no momento em que ocorreu, não poderia deixar de ser conhecido por um grande número de pessoas — ou se algo semelhante for narrado por apenas um narrador, naturalmente surgirá dúvida quanto à sua veracidade. Se tal acontecimento não for narrado por numerosos Companheiros, a narrativa desse único indivíduo não poderá, de modo algum, ser considerada um “hadith autêntico” nem ser aceita sem hesitação.

2. Se um acontecimento for narrado por pessoas que não tinham qualquer motivo para ter tido contato com o acontecimento original ou com o seu contexto, ou para quem tal contato fosse impossível, e essa narrativa não encontrar apoio nas narrativas de pessoas intimamente relacionadas com o acontecimento original e o local onde ocorreu, ou se delas for transmitida uma versão contrária, o hadith narrado pelos primeiros narradores não poderá ser aceito como “hadith autêntico”. Em seu lugar, poderá ser aceita a narrativa transmitida por pessoas mais intimamente relacionadas com o acontecimento original. Por exemplo, se um hadith sobre a vida conjugal e familiar do Nobre Profeta (s) for inicialmente narrado por alguém que, sob nenhum aspecto, tivesse conhecimento da vida familiar do Profeta, nem tivesse ouvido isso de uma pessoa conhecedora, o hadith narrado por essa pessoa não poderá ser aceito. Contudo, se tal hadith for narrado por alguém de algum modo relacionado com esse aspecto da vida do Mensageiro — como uma de suas esposas ou um parente próximo — ou se for narrado por alguém que o tenha ouvido de uma dessas pessoas, então poderá certamente ser aceito.

3. O hadith narrado por um narrador familiarizado com o valor prático dos hadiths é mais aceitável do que o hadith narrado por alguém que não esteja familiarizado com o valor prático de outros tipos de hadiths. Além disso, segundo alguns, se um Tabi‘ī jurista narrar diretamente do Mensageiro sem mencionar o nome de um Companheiro, isso também será aceitável de acordo com o princípio acima. Durante a época dos Companheiros, as regras e normas do método da dirāya para verificar os hadiths não foram redigidas em detalhe. Entretanto, serão apresentados alguns exemplos da verificação de hadiths segundo esse método naquela época:

1. Hadiths narrados por Abū Hurayra (r):

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Ouvi o Mensageiro (s) dizer: «Depois de consumir algo aquecido pelo fogo, faça a ablução (para rezar).»

Ao ouvir este hadith, Hadrat Abdullah ibn Abbas (ra) exclamou: «Então, mesmo que se use água quente estando em estado de ablução, será necessário fazer novamente a ablução?» [Tirmidhi — Kitab at-Taharah] Em outras palavras, pelo processo de ‘dirayat’, este hadith não se confirma como sahih.

2. Outro hadith afirma:

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Na sexta-feira há um momento em que, se algum muçulmano pedir a Allah algum bem enquanto estiver rezando, Allah lhe concederá isso de modo especial.

Os Companheiros ficaram especialmente interessados em saber com certeza exatamente quando ocorria esse momento extraordinário. Hadrat Abdullah ibn Salam (ra) soube que esse momento extraordinário ocorria precisamente no último momento da sexta-feira. Mas, ao ouvir isso, Hadrat Abu Hurayra (ra) disse: «Como isso poderia ser? O Mensageiro disse: se alguém suplicar a Allah enquanto estiver de pé na oração, Ele atenderá à sua súplica. Contudo, no último momento do dia, não é permitido realizar nenhuma oração. Portanto, não é razoável determinar tal momento a partir deste hadith. [Abu Dawud — Kitab as-Salat]

No primeiro hadith mencionado, a exatidão da afirmação principal foi verificada com base na ‘dirayat’; no segundo hadith, foi verificada a interpretação específica do hadith.

Hadrat Aisha possuía especial competência e talento na verificação dos hadiths com base na ‘dirayat’. Com base nela, ela levantou objeções a alguns hadiths e, a partir dessas objeções, foi possível estabelecer alguns princípios fundamentais da dirayat. Por exemplo:

1. Quando, em sua presença, foi mencionada a seguinte frase como sendo uma declaração do Mensageiro:

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O falecido será punido por causa do pranto de seus familiares por ele.

Então ela disse: “Isto não pode ser aceito como verdadeiro, pois o Alcorão Sagrado declarou claramente:

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Ninguém carregará o fardo do pecado de outra pessoa.

Disso ficou comprovado, como princípio da verificação dos hadiths sob a perspectiva da dirayat, que nenhum hadith contrário a uma declaração clara do Alcorão pode ser aceito.

2. Na época dos Companheiros, difundiu-se entre o povo o seguinte hadith: na noite do Mi‘raj, o Nobre Profeta (s) alcançou um encontro direto com Allah. Hazrat Aisha (ra), ao ouvir isso, disse: “O narrador deste hadith é um mentiroso manifesto. Pois o Alcorão Majid disse claramente:”

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Nenhuma criatura pode abarcar Allah; Ele abarca toda a criação.

Os princípios fundamentais do processo de dirayat que se evidenciam da discussão detalhada anterior são aqui apresentados conjuntamente:

1. O hadith não será contrário às provas claras do Alcorão.

2. O hadith não será contrário à Sunna comprovada por transmissão mutawatir.

3. O hadith não será contrário ao ijma claro e incontestável dos nobres Companheiros.

4. O hadith não será contrário à razão e ao bom senso evidentes.

5. O hadith não será contrário aos princípios eternamente apoiados e unanimemente aceitos pela Sharia.

6. Nenhum hadith será contrário a um hadith aceito como autêntico e rigorosamente válido.

7. A linguagem do hadith não será contrária às regras e aos princípios da língua árabe. Isso porque o Profeta Karim (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) nunca proferiu qualquer palavra em linguagem contrária às regras da língua árabe.

8. O hadith não expressará um significado extremamente ridículo e que desonre a dignidade do Profeta.

Nos livros de Usul al-Hadith, muitos outros princípios fundamentais foram mencionados nesta seção.

Há divergência entre os especialistas da ciência do hadith quanto à aplicação dos dois métodos mencionados acima — riwayah e dirayah — para verificar os hadiths e distinguir os autênticos dos não autênticos. Um grupo dá importância exclusiva ao processo da riwayah, ou à verificação do isnad. Na sua perspectiva, desde que o isnad esteja correto e que sua continuidade, integridade e autenticidade tenham sido devidamente preservadas, o hadith pode sem dúvida ser aceito. Já outros consideram mais importante, do que a correção do isnad, que o texto fundamental do hadith seja racional e aprovado no exame do processo de dirayah. Segundo este critério, um hadith que não seja devidamente aprovado não pode ser aceito. Mesmo que o isnad esteja correto e que, segundo a análise do isnad, ele seja comprovadamente aceitável, não se pode aceitá-lo.

Contudo, na perspectiva do verdadeiro erudito muhaqqiq, cada um desses dois métodos, tomado isoladamente, é desequilibrado. Um deles depende inteiramente do isnad; nada além do isnad é considerado. Assim, mesmo que o isnad esteja correto e seja confiável, esse hadith é considerado absolutamente aceitável. O segundo é inteiramente baseado na razão. Se, à luz do senso comum e da lógica, o texto fundamental do hadith for aceitável, não se considera necessária qualquer análise do seu isnad. Na realidade, porém, somente o isnad não pode ser suficiente para provar que algo é verdadeiro e correto, assim como também não bastam apenas a razão e a análise lógica! Por isso, é indispensável estabelecer plena harmonia e manter o equilíbrio entre esses dois processos.

Princípios equilibrados da crítica dos hadiths

Qual poderá ser o método coerente para verificar um hadith é, na realidade, uma questão que requer pesquisa. A opinião ponderada a esse respeito é que, primeiro, deve-se verificar o isnad e examinar o texto principal do hadith *********************. Se o isnad estiver correto e o próprio texto do hadith também passar pelo critério da ‘dirayah’, então esse hadith é plenamente aceitável.

Contudo, existem muitos hadiths cujo isnad é irrepreensível, enquanto o conteúdo do hadith principal está além da compreensão do senso comum. Nesse caso, a única questão a observar e considerar é se ele não contradiz o Alcorão; se o hadith não está declarando ilícito aquilo que o Alcorão tornou lícito, nem provando algo contrário a isso. Pois todos sabem que os hadiths relativos ao Mi‘raj foram narrados por 25 Companheiros e trezentos tabi‘ins, embora esse acontecimento esteja além do alcance do senso comum. Apesar disso, ele deve certamente ser aceito como um hadith verdadeiro e autêntico. Pois, assim como não se trata de algo impossível, ele também está em plena concordância com o Alcorão. É uma explicação de assuntos mencionados no Alcorão de modo obscuro ou apenas em termos gerais.

Do mesmo modo, verificando as palavras e a linguagem dos hadiths, pode-se compreender com certeza se eles são realmente palavras do Mensageiro Excelso. Se um hadith mencionar algum termo que não era usado na época do Mensageiro, não poderá ser um hadith do Mensageiro. Por exemplo:

a) Encontra-se uma citação nos livros de hadith:

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Os qadritas são os adoradores do fogo desta ummah, e os rafiditas são os judeus desta ummah.

A linguagem e as palavras empregadas demonstram claramente que isso de modo algum pode ser uma declaração do Mensageiro. Em segundo lugar, palavras como ‘al-Qadari’ e ‘Rafidi’ são termos técnicos específicos. Como essa linguagem não era de modo algum corrente na época do Mensageiro Excelso, não se pode sequer cogitar que tenha sido empregada pelo Mensageiro.

b) A seguinte declaração também é citada como um ‘hadith’:

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Quem considera o Alcorão criado é um kafir.

Durante a era abássida, surgiu uma acalorada disputa entre os sábios da época acerca de saber se o Alcorão era “criado” ou não. Na época do Mensageiro de Deus, nem sequer se podia conceber uma questão desse tipo. Portanto, não se pode acreditar que semelhante afirmação tenha jamais saído da boca do Mensageiro.

A seguir, citamos os princípios e o método mencionados pelo erudito muhaddith Ibn al-Jawzi a respeito da aplicação do método da dirayat na etapa de verificação dos hadiths:

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Considerarás mawdu, ou seja, forjado, qualquer hadith que contrarie a razão comum ou pareça contrário aos princípios gerais. Depois disso, não haverá necessidade de verificar e examinar seus transmissores. Do mesmo modo, são mawdu aqueles hadiths que se tenham comprovado falsos à luz do sentimento comum e da observação. Também é mawdu aquilo que contradiz o Alcorão, um hadith mutawatir ou um consenso indiscutível, e para o qual não é possível oferecer qualquer interpretação; do mesmo modo, são mawdu os hadiths que ameaçam com severo castigo por coisas comuns e sem importância, ou que prometem uma enorme recompensa por uma ação insignificante. Esse tipo de hadith é geralmente encontrado nas cadeias de transmissão dos pregadores e dos sufis.

Além disso, é necessário verificar os hadiths também na balança psicológica. Aquele que estudar e praticar amplamente os hadiths do Mensageiro, pesquisando-os com uma visão profunda e perspicaz, verá surgir em seu mundo interior um intenso e límpido clarão de luz. Ele compreenderá facilmente qual é realmente um hadith do Mensageiro e qual não é; que tipo de palavras o Mensageiro poderia dizer e que tipo de ações poderia realizar; que tipo de palavras ou ações poderiam contar com sua aprovação e quais não poderiam. Compreender isso não lhe será nem um pouco difícil.

Nesta etapa, a opinião final é que a decisão definitiva sobre a aceitabilidade ou não de um hadith deve necessariamente basear-se na verificação adequada e extremamente minuciosa tanto do isnad quanto do hadith em si (matn).

 

Apêndice 2

O conhecimento dos hadiths no subcontinente

A chegada dos Companheiros ao subcontinente

As relações comerciais entre este subcontinente e os países árabes são antiquíssimas. Portanto, era perfeitamente natural que, no século VI da era cristã, o primeiro impacto da onda da revolução ocorrida na costa ocidental do Mar Arábico — nos países árabes — alcançasse este subcontinente, situado na costa oriental. Está comprovado por fontes históricas confiáveis que, nos primeiros anos da revolução islâmica — embora não durante o período da Profecia e do primeiro califa — alguns Companheiros do Profeta do mundo chegaram a este subcontinente durante o califado do segundo califa, Hazrat Umar Faruq (que Allah esteja satisfeito com ele). Os Companheiros cuja chegada à Índia nesse período é registrada são: (1) Hazrat Abdullah ibn Abdullah ibn Utban, (2) Hazrat Asim ibn Amr at-Tamimi, (3) Hazrat Suhar ibn al-Abdi, (4) Hazrat Suhaib ibn Adi e (5) Hazrat al-Hakem ibn Abil-As as-Saqafi (que Allah esteja satisfeito com ele). [Ver Siyarus-Sahaba, volume 6.]

Posteriormente, durante os governos de Hazrat Uthman, Hazrat Ali e Amir Muawiya, a chegada dos Companheiros à Índia continuou. Contudo, nesse período, só é possível identificar três Companheiros que chegaram à Índia. Os dois Companheiros que chegaram à Índia durante o califado de Hazrat Uthman foram: (1) Hazrat Ubaidullah ibn Mamr at-Tamimi e (2) Hazrat Abdur Rahman ibn Samura ibn Habir ibn Abd Shams. Já durante o período de Amir Muawiya chegou Hazrat Sinan ibn Salama ibn al-Muhabbiq al-Hudhali. Ziyad, então governador do Iraque, enviou-o para ocupar o cargo de governador da fronteira da Índia.

A chegada dos tabi‘ins ao subcontinente

A história comprova que, depois dos Companheiros, numerosos tabi‘ins chegaram à Índia. O primeiro tabi‘i a chegar à Índia durante o período de Amir Muawiya foi Mulahhab ibn Abu Safra. No ano 44 da Hégira, ele chegou a este lugar como comandante militar, acompanhando o Companheiro Hazrat Abdur Rahman ibn Samura. Depois de atravessar as fronteiras de Sijistão e Cabul, chegou a Lahore.

A propagação dos hadiths no subcontinente

Os nobres Companheiros foram os primeiros veículos da propagação do conhecimento dos hadiths. Eles eram exemplos vivos e pioneiros na propagação da religião do Islã. Onde quer que fossem, dedicavam-se à propagação do Islã, bem como do Alcorão e dos hadiths. Portanto, não pode haver dúvida de que também neste país eles se empenharam na propagação dos hadiths juntamente com o Alcorão. Por isso, pode-se acreditar que, na primeira metade do primeiro século da Hégira, os raios do conhecimento dos hadiths se irradiaram nesta região, embora não haja meios de conhecer sua história detalhada.

O conhecimento dos hadiths no Sindh

Nas áreas fronteiriças deste subcontinente, foram realizadas continuamente expedições muçulmanas durante vários anos. Sinan ibn Salamah conquistou Qusdar. Em seguida, Huri ibn Huri Bahili, por meio de uma ampla campanha, içou a bandeira do Islã sobre a maior parte das áreas do Sindh. [Veja Baladhuri, páginas 439 e 440.]

No ano 93 da Hégira, Muhammad ibn Qasim concluiu a conquista do Sindh e transformou-o em uma província integrante do Estado Islâmico. Ele estabeleceu colônias árabes em lugares como Multan, Mansura, Alor, Debal, Sindan, Qusdar e Qandabil. Cinquenta mil soldados de cavalaria permaneceram permanentemente com Muhammad ibn Qasim. Nessa época, muitos árabes vieram para este país com o objetivo de dedicar-se ao comércio e estabelecer residência permanente. Como resultado, foram estabelecidos em todos esses lugares centros de educação islâmica — de ensino do Alcorão e dos hadiths. Entre esses árabes havia também muitas pessoas que eram hafizes do Alcorão e dos hadiths. Graças aos seus esforços e cuidados, o ensino do Alcorão e dos hadiths difundiu-se amplamente nesta região. Alguns daqueles que, entre eles, se dedicaram especialmente à propagação dos hadiths são apresentados aqui, com seus nomes e informações biográficas:

1. Musa ibn Yaqub al-Thaqafi. Ele foi nomeado juiz (qadi) no Sindh. Possuía especial domínio no conhecimento dos hadiths.

2. Yazid ibn Abi Kabsha al-Dimashqi (falecido em 97 H.). Ele era um tabi’i; aprendeu um grande número de hadiths com os Companheiros, entre eles Hazrat Darda, Sharahbil ibn Aws e Marwan ibn al-Hakam. Também era reconhecido como narrador confiável de hadiths.

3. Mufaddal ibn al-Muhallab ibn Abi Safra (falecido em 102 H.), um tabi’i. Desempenhou um papel significativo na narração dos hadiths. Narrou hadiths do Companheiro Hazrat al-Nu’man ibn Bashir, e narraram hadiths dele Hajib, seu filho, Thabit al-Bunani e Jarir ibn Hazim.

4. Abu Musa Isra’il ibn Musa al-Basri (falecido em 155 H.), al-Siddi. Ele veio de Basra para a Índia por motivos comerciais. Era um narrador confiável de hadiths. Entre seus discípulos estavam célebres especialistas em hadiths, como Sufyan al-Thawri (falecido em 161 H.), Sufyan ibn Uyayna (falecido em 198 H.) e Yahya ibn Sa’d al-Qattan (falecido em 198 H.). A elevada posição de Abu Musa no conhecimento dos hadiths fica claramente comprovada por este relato. O Imam Bukhari narrou em sua coletânea de hadiths numerosos hadiths através da autoridade de Abu Musa.

5. Amr ibn Muslim al-Bahili chegou ao Sind como governador provincial sob o califa Umar ibn Abd al-Aziz. Ele narrou hadiths de Ya’la ibn Ubayd.

6. Rabi ibn Sabih al-Sa’idi al-Basri (m. 170 AH). Ele narrou muitos hadiths e também compilou um livro de hadiths. Chegou à Índia em 160 AH.

Propagação dos hadiths nas colônias árabes

Debal

Na cidade de Debal (província de Sind), sob o domínio árabe, houve intenso estudo e propagação dos hadiths. Como resultado, surgiram ali vários renomados narradores de hadiths. A seguir, mencionaremos os nomes e alguns dados biográficos de alguns deles—

1. Abu Ja’far al-Dabli (m. 322 AH). Ele narrou hadiths de Musa ibn Harun al-Bazzaz (m. 294 AH) e de Muhammad ibn Ali al-Saif (m. 291 AH).

3. Ahmad ibn Abdallah al-Dabli (m. 346 AH). Ele foi discípulo do muhaddith Abu Ja’far. Tornou-se conhecido por transmitir um grande número de hadiths no quarto século.

4. Muhammad ibn Muhammad ibn Abdallah al-Dabli (m. 346 AH). Ele estudou hadith com o califa Abu al-Qazi (m. 305). O célebre erudito Hakim Nishapuri foi seu discípulo.

5. Al-Hasan ibn Muhammad ibn Asad Devali (falecido em 350 H.). No ano 340 da Hégira, transmitiu hadith em Damasco. Sua cadeia de transmissão de hadith começava com o Companheiro Jabir ibn Abd Allah (que Allah esteja satisfeito com ele).

6. Khalaf ibn Muhammad Devali (falecido em 360 H.). Primeiro, estudou hadith em Deval com Ali ibn Musa Devali. Depois, foi para Bagdá e começou a dar aulas de hadith ali.

7. Ahmad ibn Muhammad ibn Harun Devali (falecido em 370 H.). Estudou hadith em Bagdá com Jafar ibn Muhammad Faryabi. Também estudou hadith na cidade de Kufa com Ahmad ibn Sharif.

8. Hasan ibn Hamid Devali (falecido em 407 H.). Era um grande comerciante e, paralelamente aos negócios, dedicou-se ao estudo dos hadith, adquirindo também grande domínio nessa área. Ali ibn Muhammad ibn Said Mucheli (falecido em 359 H.), Dalaj (falecido em 351 H.), Muhammad Naqqash (falecido em 351 H.) e Abu Ali Tumari (falecido em 360 H.) foram seus mestres. Quando transmitia hadith, seu coração ficava tão comovido e tomado pela emoção que ele acabava chorando.

9. Abu al-Qasim Shuayb ibn Muhammad Devali (falecido em 400 H.). Era conhecido como Abu Qatan. Foi para o Egito e ali fundou um círculo, passando a ensinar hadith.

Al-Mansura

Al-Mansura ficava a 47 milhas a nordeste da atual Hyderabad, no Sindh. Desde a época da primeira conquista muçulmana, essa cidade estava imbuída do espírito islâmico. A maioria de seus habitantes seguia os hadith. Por isso, pode-se supor que o estudo dos hadith tenha alcançado nessa cidade um desenvolvimento extraordinário. Ensinava-se hadith em várias mesquitas. Especialistas dedicavam-se à composição de livros de hadith. Entre eles, o cádi Abu al-Abbas al-Mansuri alcançou especial fama como mestre no ensino dos hadith e compilador de livros.

A seguir, mencionam-se os nomes e as informações sobre os demais estudiosos de hadith que viveram nessa cidade:

1. Ahmad Abu al-Abbas al-Mansuri. Estudou hadith em Fars com Abu al-Abbas ibn Asram (m. 336 H.) e em Basra com Ahmad Hijjani (conhecido pelo nome de Abu Rawq, m. 332 H.).

2. Ahmad ibn Muhammad al-Mansuri (m. 380 H.). Estudou hadith em Fars e em Basra. No século IV, alcançou fama como muhaddith.

3. Abu Abd Allah ibn Ja’far Murra al-Mansuri (m. 390 H.). Foi aluno de Hasan ibn al-Mukarram. Tornou-se famoso como mestre de al-Hakim al-Nishapuri.

Qasdar

O lugar atualmente chamado Khoshdar, no estado de Kalat, era conhecido naquela época pelo nome de Qasdar. Aqui está situado o túmulo de Hazrat Sinan ibn Salmah al-Hudhali. Durante o período do domínio árabe, era a capital do império de Turan. Alcançou grande importância como centro comercial. Essa cidade ocupou um lugar especial no estudo do hadith. Apresentam-se aqui os nomes de alguns estudiosos de hadith desta região:

1. Ja’far ibn Khattab al-Qasdari (m. 450 H.). Era conhecido pelo nome de Abu Muhammad. Mais tarde, estabeleceu-se na cidade de Balkh. Foi reconhecido como narrador de hadith thiqa. Abu al-Futuh Abd al-Ghafur al-Kashgari (m. 474 H.), um hafiz de hadith, narrava hadith sob sua autoridade. No século V, alcançou fama como muhaddith.

2. Sibawayh ibn Isma’il al-Qasdari (m. 463 H.). Abu al-Qasim Ali ibn Muhammad al-Husayni, Yahya ibn Ibrahim e Raja ibn Abd al-Wahid foram seus mestres de hadith. Ele foi a Meca e começou ali a ministrar aulas de hadith. Abu al-Fityan Amr ibn Hasan al-Rawasi (m. 503 H.) narrou hadith sob sua autoridade.

O estudo do hadith no norte da Índia

Até meados do segundo século hijri, Sindh esteve sob o governo central árabe. Depois disso, surgiram rebeliões, desordem e calamidades políticas neste país. Naquela época, toda a província acabou dividida em vários pequenos reinos independentes locais. No terceiro século, esses reinos também foram destruídos. Depois, a influência da seita batinita começou a se expandir nesta região. Como resultado, por algum tempo, sua relação com o governante muçulmano central foi rompida.

No ano 413 hijri, o sultão Mahmud Ghaznavi invadiu o Punjab pelo desfiladeiro de Khyber e conquistou Lahore. Como resultado, as relações entre o Paquistão-Índia e os muçulmanos foram restabelecidas. Depois disso, até o sétimo século hijri, o domínio muçulmano sobre todo o subcontinente se expandiu e se fortaleceu. Délhi foi designada como capital dos muçulmanos. A partir de então, muçulmanos de regiões como o Turquestão Asiático, o Khurasan e o Afeganistão começaram a chegar à Índia em grandes grupos, vindos pelo desfiladeiro de Khyber. Os dois primeiros países — o Turquestão Asiático e o Khurasan — haviam se tornado, no terceiro século hijri, berços da ciência do hadith. Os autores dos livros do Sihah Sittah eram habitantes dessas próprias regiões. Com a chegada de um grande número de pessoas desses países, começou na Índia a ampla disseminação da educação islâmica e da ciência do hadith. Lahore, em particular, tornou-se então um centro de ensino do hadith.

A ciência do hadith em Lahore

Ao falar sobre a disseminação da ciência do hadith em Lahore, deve-se mencionar antes de tudo o nome do xeique Muhammad Ismail Lahori (m. 448 H.). Ele veio de Bucara para a Índia no ano 395 hijri e começou a residir em Lahore. Ali, ao promover os ideais islâmicos, deu grande ênfase à ciência do hadith e adotou métodos eficazes para sua ampla divulgação. Como resultado, ao longo dos cem anos seguintes, inúmeros muhaddiths se formaram em Lahore.

Apresentam-se aqui os nomes e dados biográficos de alguns muhaddiths que residiam em Lahore nesse período:

1. Saiyid Murtaza (m. 589 H.). Era versado na ciência do hadith e ingressou no exército do sultão Shihabuddin Ghori.

2. Abul Hasan al-Ibn Umar Lahori (m. 529 H.). Era um grande muhaddith; estudou hadith com o hafiz do hadith, Abul Muzaffar Sa‘idi.

3. Abul Fath Abdus Samad ibn Adur Rahman Lahori (m. 550 H.). Ele ensinava hadith em Samarcanda.

4. Abul Qasim Muhammad ibn Khalaf Lahori (falecido em 540 AH). Mais tarde, ele partiu para Isfarain. Era um erudito especialista em hadith de alto nível.

Muhaddiths do subcontinente no século VII

No século VII da Hégira, viveram em vários lugares do subcontinente diversos muhaddiths; aqui serão mencionados os nomes e breves dados biográficos de alguns deles:

1. Shaykh Bahauddin Zakariya Multani (falecido em 666 AH). Era descendente do Companheiro Habban ibn Aswad. Aprendeu hadith em Meca e Medina e alcançou nelas grande especialização.

2. Qadi Mihajus Siraj Juzjani (falecido em 668 AH). Ele veio para Lakhnawati, em Bengala.

3. Burhanuddin Mahmud ibn Abul Khair Asad Balkhi (falecido em 687 AH). Foi aluno do muhaddith Saghani e recebeu dele a autorização para transmitir a obra de hadith Mashayikh al-Anwar.

4. Kamaluddin Zahid (falecido em 684 AH). Seu nome verdadeiro era Muhammad ibn Ahmad ibn Muhammad. Tornou-se conhecido como professor de hadith do Shaykh Nizamuddin Auliya.

5. Raziuddin Badauni (falecido em 700 AH). Foi um muhaddith extremamente célebre entre seus contemporâneos.

6. Sharafuddin Abu Tawwama Bukhari Hanbali (falecido em 700 H.). Ele chegou a Délhi vindo de Bucara no início do século VII. Depois foi para Sonargaon, em Bengala (no distrito de Daca), e começou a residir permanentemente ali. Estudou o ilm al-hadith com especial dedicação. Graças aos seus esforços, Sonargaon rapidamente se transformou em um centro de estudos de hadith. É lamentável que o relato detalhado da prática do ilm al-hadith em Sonargaon ainda permaneça imerso nas trevas da obscuridade.

A prática do hadith no subcontinente no século VIII

No século VIII da Hégira, iniciou-se a fase de desenvolvimento gradual do ilm al-hadith na Índia-Paquistão. O sultão bahmani do Decão, Mahmud Bahmani (780–799 H.), deu especial atenção à divulgação do ilm al-hadith. Ele providenciou bolsas de estudo para os estudantes de hadith. [O historiador Firishta] Embora nessa época se observasse em quase toda a Índia a influência da prática do fiqh, da filosofia e do tasawwuf, o ensino do hadith não foi significativamente prejudicado em parte alguma. Pelo contrário, eminentes adeptos do tasawwuf dedicaram-se à divulgação do ilm al-hadith. Sobretudo sob a liderança de quatro célebres sufis, estabeleceram-se os quatro centros de ensino de hadith a seguir.

1. Sob a liderança de Nizamuddin Auliya, iniciou-se em Délhi o ensino amplo do hadith.

2. Sob a liderança e por meio do ensino de Sharafuddin al-Muniri, teve início o ensino do hadith na região de Bihar.

3. Sob a liderança de al-Hamadhani, teve início o ensino do hadith na Caxemira.

4. Sob a liderança de Zakariya Multani, o ilm al-hadith foi divulgado em Multão.

Muitos muhaddiths saíram dos centros mencionados. Apresentam-se a seguir os nomes de alguns muhaddiths de cada centro:

Centro de Nizamuddin Auliya

1) Shamsuddin Muhammad ibn Yahya Udhi (m. 747 H.)

2) Fakhruddin Jarubadi (m. 748 H.)

3) Ziauddin ibn Muayyid al-Mulk Barani

4) Mahiuddin ibn Jalaluddin bin Qutbuddin Kashani (m. 719 H.)

5) Nizamuddin Allani Jafarabadi (m. 735 H.)

6) Shaykh Nasiruddin Chiragh-e Dilli (m. 757 H.)

7) Sayyid Muhammad Gisudaraz (m. 825 H.)

8) Shaykh Wajihuddin

9) Qadi Shihabuddin Daulatabadi (falecido em 849 H.)

10) Mawlana Khajegi Qurabi (falecido em 878 H.)

Centro de Sharafuddin al-Maniri

1) Shaykh Muzaffar Balkhi (falecido em 786 H.)

2) Husayn ibn Mu’izz Bihari (falecido em 845 H.)

3) Ahmad Langare Darya ibn Hasan ibn Muzaffar Bihari (falecido em 891 H.)

Centro de Ali Hamadani

Foi Ali Hamadani quem trouxe primeiro o conhecimento do hadith para a Caxemira. Ele chegou aqui no ano 774 da Hégira. Ele e seus discípulos foram os primeiros a propagar o Islã nesta terra. Ele também compôs duas obras sobre o hadith. Os nomes das duas obras são:

a) As-Sab‘in fi Fadaili Amir al-Mu’minin

b) Arba‘in-e Amiriyya

O centro do Shaykh Zakariya em Multão

O Shaykh Bahauddin Zakariya foi o pioneiro na propagação do ensino do hadith em Multão. Deste centro saíram como muhaddiths Jamaluddin Uluchi e o venerável senhor da era, Sayyid Jalaluddin Bukhari.

A era do renascimento do conhecimento do hadith no subcontinente

No século IX teve início no subcontinente a era do renascimento do conhecimento do hadith. Ahmad Shah, soberano do Guzerate, reabriu as rotas do comércio marítimo entre a Arábia e a Índia. Como resultado, muitos estudiosos do hadith vieram da Arábia para a Índia. Nessa época, o governo do vizinho Irã adotou a doutrina xiita. Por essa razão, uma grande comunidade versada na ciência do hadith foi obrigada a emigrar de lá para a Índia. Trouxeram consigo uma enorme quantidade de obras e conhecimentos de hadith. Por outro lado, nessa época também ocorreu no Egito uma grande expansão do conhecimento do hadith, e de lá vieram para a Índia grandes muhaddiths. Entre os muhaddiths que vieram para a Índia nesse período, os dois seguintes são os primeiros dignos de menção:

1. Badruddin Muhammad ibn Abi Bakr Damayni (m. 827 H.). Ele era professor de hadith na Jami‘ Zabid, no Iêmen. Ali, compôs um comentário sobre o Sahih al-Bukhari. Seu nome é “Masabih al-Jami‘”. Ele chegou ao Guzerate, na Índia, no mês de Sha‘ban do ano 820. Ali compôs as três obras seguintes: a) Ta‘liq al-Fara’id; b) “Tuhfat al-Gharib, Sharh al-Mughni al-Labib”; e c) “Ain al-Hayat fi Khulasat Hayat al-Hayawan”.

2. Abul Futuh Nuruddin Ahmad ibn Abdullah Shirazi Tayusi (m. 850 H.).

Ele provavelmente veio para Gujarat entre 814 e 844. Foi aluno de Majduddin Firuzabadi, Shamsuddin Jazari, Sayyid Sharif Jurjani e Baba Yusuf Haravi.

Entre os que vieram para a Índia do centro de ensino de hadith fundado no Egito por Ibn Hajar al-Asqalani, destacam-se os dois seguintes muhaddiths:

1. Yahya ibn Abdur-Rahman ibn Abul-Khair Hashimi (m. 843 H.)

2. Os seguintes muhaddiths vieram para a Índia do centro de hadith fundado por Khwaja Imad Sakhaqi:

1) Abul Fatah ar-Razi al-Makki (m. 886 H.)

2) Ahmad ibn Salih Malwi

3) Umar ibn Muhammad Dimashqi (m. 900 H.)

4) Abd al-Aziz ibn Mahmud Tusi (falecido em 910 H.)

5) Wajih al-Din Muhammad Maliki (falecido em 919 H.)

6) Husayn ibn Abdallah ibn Awliya Kirmani (falecido em 930 H.)

7) Jamal al-Din Muhammad ibn Umar Hajrani (falecido em 930 H.)

8) Rafi al-Din Saqavi (falecido em 954 H.)

Nomes dos muhaddiths que vieram do centro fundado por Zakariyya al-Ansari:

1) Abd al-Muti Hajrani (falecido em 989 H.)

2) Shihab al-Din Abbasi (932 H.)

Nomes dos muhaddiths provenientes do centro fundado por Ibn Hajar al-Haytami:

1) Shaykh Ibn Abdullah Aydarusi (falecido em 991 AH)

2) Abu Sa’adat Muhammad al-Faqihi (falecido em 992 AH)

3) Mir Murtaza Sharif Shirazi (falecido em 974 AH)

4) Mir Qala, o muhaddith de Akbarabad (falecido em 983 AH)

Mulla Ali Qari, autor do famoso comentário Mishkat Sharif, intitulado «Mirqat», foi aluno deste Qala.

Posteriormente, surgiram centros de ensino de hadith nos seguintes lugares do Indo-Paquistão.

1) Decão — para cá chegaram numerosos muhaddiths. (2) Guzerate (3) Malwa (4) Khandesh (5) Sinde — após quinhentos anos, no século X islâmico, o ensino e a propagação do conhecimento do hadith começaram novamente nesta região. (6) Lahore — sob a liderança de Maulana Muhammad (falecido em 1000 AH), esta cidade transformou-se num centro de ensino de hadith. (7) Jhansi e Kalpi — um muhaddith bagdadi chamado Sayyid Muhammad Ibrahim chegou aqui no século X islâmico e começou a ensinar hadith. (8) Agra — aqui foram estabelecidos simultaneamente três centros de hadith: a. a madrassa de Rafiuddin Safavi; b. a madrassa de Haji Ibrahim, o muhaddith de Akbarabad (falecido em 1010 AH); e c. a madrassa de Sayyid Shah Mir (falecido em 1000 AH). (9) Lucknow — na segunda metade do século X, esta cidade tornou-se um centro de estudo da ciência do hadith, quando Shaykh Ziauddin, o muhaddith, veio de Medina, estabeleceu-se aqui e começou a ensinar hadith. (10) Jaunpur — provavelmente, o hadith foi propagado aqui por meio de Muhadhdhab Jaunpuri, aluno do Imam al-Sakhawi. (11) Bihar — no século VIII, o conhecimento do hadith chegou a Phulwari Sharif, em Bihar, por intermédio de Sayyid Minhajuddin Rasti, aluno de Sharafuddin Muniri. No século X, desenvolveu-se e prosperou.

As viagens dos habitantes do subcontinente ao estrangeiro com o objetivo de estudar os hadiths

Entre 820 e 992 da Hégira (1417–1584 d.C.), a chegada de muhaddiths estrangeiros ao subcontinente deu início a uma nova onda no campo do estudo dos hadiths; desde então, os estudiosos e sedentos de conhecimento desta região começaram a partir em viagens ao estrangeiro com o nobre objetivo de estudar os hadiths. Essas viagens não permaneceram limitadas à Índia: eles viajaram até a distante Meca e Medina com o objetivo de obter uma formação avançada no conhecimento dos hadiths. Mesmo nessa época, não demonstraram a mínima hesitação ou temor em aceitar os riscos de atravessar mares agitados e revoltos. Desde o muhaddith Abd al-Awwal al-Husayni (m. 986 H.) até Shah Waliullah Dehlawi (m. 1172 H.), quase todos os estudiosos de hadiths dessa época empreenderam viagens desse tipo com o objetivo de estudar os hadiths.

Até então, Jamalullah Gulbagi foi o primeiro a empreender essa difícil viagem. Ele estudou os hadiths em Meca. Depois, muitas outras pessoas foram a Meca e Medina com o objetivo de estudar os hadiths, e viagens desse tipo continuaram ininterruptamente até a fundação dos primeiros centros de ensino de hadiths da Índia, as madraças de Deoband e Saharanpur.

Nessa época, as seguintes pessoas adquiriram especial proficiência na ciência dos hadiths:

1. Abu Bakr ibn Muhammad al-Bahruzi (m. 915 H.). Ele traduziu para o persa e redigiu um comentário sobre a obra Hisn-i Hasin, compilada por al-Jazari. Também traduziu para o persa a obra de Qadi Iyad intitulada Ain al-Wafa fi Tarjamat-i Shifa.

2. Mir Sayyid Abd al-Awwal al-Husayni Gujarati Jaunpuri (m. 986 H.). Ele foi contemporâneo do muhaddith Abu al-Fatah. Estudou os hadiths em Meca e Medina. Empreendeu grandes esforços e suportou muitas dificuldades para obter uma formação avançada nos hadiths, e escreveu duas obras intituladas Fayz al-Bari fi Sharh al-Bukhari e Muntakhab-i Kitab-i Safar al-Sa’adat. Nos primeiros tempos do reinado de Khan-Khanan Akbar, foi convidado de Gujarat para Deli.

3. Khwaja Mubarak ibn Makhdum al-Rajani Banarasi (m. 981 H.). Ele compilou uma coletânea de hadiths intitulada Madarij al-Akhbar.

4. Shaykh Vikari Kakuri (890–981 H.). Seu nome verdadeiro era Nizam al-Din ibn Aram Sayf al-Din. Foi um renomado muhaddith. Estudou e ouviu os hadiths de Hafiz Saqawi. Dedicou a vida ao serviço dos hadiths. Tinha o Sahih al-Bukhari inteiro memorizado.

6. Jamaluddin Muhammad ibn Tahir ibn Ali al-Fattani (falecido em 914 H.). Era conhecido pelo nome de “Malikul Muhaddisin” (o rei dos muhaddiths). No centro de ensino de hadith de Ali Muttaqi, em Meca, matriculou-se no ano 944 da Hégira para estudar hadith e ali estudou hadith durante seis longos anos. Será lembrado para sempre por causa das seguintes obras suas.

a) Majma’ al-Bihar al-Anwar (********************)

b) Tadhkirat al-Mawdu’at

c) Qanun al-Mawdu’at wa ad-Da’if

d) Asma’ ar-Rijal

e) Al-Mughni fi Dabti ar-Rijal

7. Shaykh Tayyeb Sindhi (falecido em 999 H.). Ele escreveu uma obra intitulada Ta’liqat Mishkat al-Masabih.

8. Shaykh Abdullah Ansari Sultanpuri (falecido em 990 H.). Durante o reinado do imperador Akbar, ele era o mais destacado erudito muhaddith da Índia. Os nomes de suas duas obras notáveis são os seguintes:

9) Sharh ‘ala Shama’il al-Nabi Gangguhi (falecido em 990 H.). Ele estudou hadith com Ibn Hajar al-Haytami. Durante o reinado de Akbar, desempenhou um papel revolucionário em defesa do Islã.

As seguintes obras suas sobre hadith são dignas de menção:

a) Sunan al-Huda fi Mutaba‘at al-Mustafa

b) ‘Aza’if al-Yawm al-Layl

10. Shaykh Wajihuddin Alawi Gujarati (falecido em 990 H.). Ele escreveu nada menos que 23 obras. Sharh Jami, Tafsir al-Baydawi e Nuzhat al-Nazar fi Sharh Nukhbat al-Fikar estão entre suas obras famosas.

11. Shaykh Tahir ibn Yusuf Sindhi Burhanpuri (falecido em 1004 H.). O número de obras que escreveu é quatro:

a) Talkhis Sharh Asma’ al-Rijal al-Bukhari Kirmami

b) Mulqat Jami‘ al-Jawami‘

g) Sharh al-Bukhari

d) Riyad al-Salikin

12. Shaykh Ibn Hasan Sayfi Kashmiri (falecido em 1003 H.). Foi mestre de Shaykh Ahmad Sirhindi Mujaddid Alf Sani. Os títulos de suas obras são:

a) Sharh Sahih al-Bukhari

b) Tafsir al-Qur’an

c) Risala-ye Adhkar

d) Maghazi al-Nubuwwat.

13. Haji Muhammad Kashmiri (falecido em 1006 H.). Entre suas obras sobre hadith, destacam-se as seguintes:

a) Sharh-e Shama’il al-Nabi

b) Sharh-e Mashariq al-Anwar

c) Kitab Khulasat al-Jami fi Jami al-Hadith

d) Sharh-e Hisn-e Hasin

15. Shaykh Munawwar ibn Abd al-Majid ibn Abd al-Shakur Lahori (falecido em 1010 H.). Durante o reinado de Akbar, ele assumiu o papel de um alim revolucionário. Por isso, também foi obrigado a ser encarcerado; enquanto estava na prisão, concluiu sua obra Durr al-Nazm fi Tartib al-Awa’il al-Suwar al-Karim e memorizou o tafsir intitulado Al-Bahr al-Mawaj, de Qadi Shihabuddin. Ele também escreveu um comentário sobre Mashariq al-Anwar, de Saghani, e Hisn-e Hasin, de Jazari.

16. Muhyi al-Din Abd al-Qadir ibn Shaykh ibn Abd Allah (falecido em 1037 H.). Ele compôs muitas obras. Entre suas obras sobre hadith, cinco são dignas de nota:

a) Al-Minh al-Bari bi-Khatm Sahih al-Bukhari

b) Iqd al-Layl fi Fada’il al-Layal

c) Risāla fī manāqib al-Bukhārī

d) Al-Qawl al-jāmiʿ fī bayān al-ʿilm al-nāfiʿ

e) Kitāb al-Anfus al-Laṭīf fī ahl Badr al-Sharīf.

17. ʿAbd al-Nabī Shattārī (falecido em 1039 H.). Entre suas obras sobre hadith, destacam-se as cinco seguintes:

a) Jāhriyat al-Najāt fī sharḥ al-Mishkāt (comentário da Mishkāt Sharīf)

b) Sharḥ Nukhbat al-Fikr

c) Comentário sobre hadith ********************

d) Comentário sobre hadith ********************

e) Lawaami‘ al-Anwaar fi Manaaqib al-Saadaat al-Athaar.

A era de Mujaddid-e Alf-e Sani

O nome de Mujaddid-e Alf-e Sani era Shaykh Ahmad ibn Abd al-Ahad al-Faruqi al-Sirhindi (fal. 1034 H.). Ele estudou hadith com Shaykh Yaqub Saifi e recebeu autorização para ensinar o Sahih al-Bukhari, o Mishkat de Tabrizi e o Jami‘ al-Saghir de Suyuti. Recebeu de Qadi Bahlul Badakhshani autorização para transmitir as Sihah Sittah. Sobre hadith, ele não deixou nenhuma outra obra além de ‘Hadith-e Arba‘in’. Com base no Alcorão e no hadith, conduziu um grande movimento de reforma e correção da sociedade muçulmana. Em sua obra ‘Maktubat’, deu especial importância ao ensino do Alcorão e do hadith. Como resultado, muitas pessoas foram estimuladas e motivadas a estudar o conhecimento do hadith e a alcançar proficiência nele. Apresentam-se a seguir os nomes de alguns muhaddithun daquele período:

1. Shaykh Sa‘id ibn Ahmad Sirhindi (fal. 1070 H.)

2. Farukh Shah, filho de Shaykh Sa‘id (fal. 1112 H.)

3. Siraj Ahmad Mujaddedi (fal. 1230 H.). Três de suas obras são especialmente notáveis:

a) Tradução persa do Sahih Muslim

b) Tradução persa do Jami‘ al-Tirmidhi

g) Compilação dos hadiths relacionados à comida e às bebidas.

4. Shaykh Ma‘sum ibn Ahmad Sirhindi (falecido em 1080 H.)

5. Khwaja Azam ibn Saifuddin Sirhindi (falecido em 1114 H.).

Ele foi um célebre muhaddith durante o reinado do imperador Alamgir. Escreveu um comentário do Sahih al-Bukhari intitulado ‘Fayz al-Bari Sharh Sahih al-Bukhari’.

6. Shah Abu Sa‘id ibn Safi al-Qadr Mujaddedi (falecido em 1250)

7. Shah Abdul Ghani ibn Sa‘id Mujaddedi (falecido em 1296 H.)

Ele escreveu uma obra de hadith sobre Ibn Majah, intitulada ‘Injah al-Hajah Sharh Ibn Majah’.

A época de Shaykh Abdul Haq Muhaddith Dehlavi

O xeique Abd al-Haqq estudou Hadith em Meca com o xeique Abd al-Wahab Muttaqi (m. 1010 H.) e recebeu dele uma “autorização” referente aos Sihah Sittah. No campo do Hadith, as seguintes obras constituem suas contribuições duradouras e inestimáveis:

a) ‘At-Tariqul Qavim fi Sharhe Siratil Mustaqim’. Comentário persa da obra ‘Safarus Sa’adat’.

b) Ashraatul-Lumayaat fil-Mishkat (comentário persa da Mishkat Sharif).

c) ‘Lamaayatut-Tanqih fi Sharhe Mishkatil Masabih’.

d) Al-Ikamal fi Asmair-Rijal

e) Jameul Barakat Muntakhab Sharhil-Mishkat

f) ‘Ma Sabata bis-Sunnah fi Ayyamis-Sanah

g) ‘Al-Hadithul Arba’in’

j) ‘Tarj umat al-Ahadith al-Arbain’

jh) ‘Dastur-e Faizun Nur’

10. ‘Zikr-ul-Ijāzāt al-Hadith fil Qadim al-Hadith’

Em razão de sua enorme dedicação ao hadith e de sua inesquecível contribuição no mundo das obras escritas, o Xeique Abd al-Haqq Muhaddith Dehlavi inaugurou uma nova era no campo do ensino do hadith neste país.

O autor da obra ‘Tarikh-e Ulama-e Hind’ escreveu a respeito dele:

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Foi ele quem primeiro semeou na Índia a semente do conhecimento do hadith.

Ele dedicou-se permanentemente a ministrar aulas de hadith. Entre seus descendentes, muitas pessoas alcançaram a honra de ocupar uma posição de destaque como muhaddiths. Aqui mencionaremos os nomes de alguns deles:

1. Shaykh Nurul Haq (falecido em 1073 H.). Ele estudou a ciência do hadith com seu pai. Suas obras relacionadas ao hadith são duas:

a) Taysirul Qari fi Sharh Sahih al-Bukhari

b) Sharh Shamayelun Nabi

2. Hafiz Abdur Samad Fakhruddin ibn Muhibbullah (falecido em 1160 H.). Suas obras são as seguintes:

a) Manbaul Ilm fi Sharh Sahih Muslim. Na realidade, esta é uma obra escrita por seu pai; ele apenas a editou.

b) Sharh Aynul Ilm

c) Sharh Hisn-e Haseen

3. Shaykh al-Islam ibn Hafiz Fakhruddin (falecido em 1180 H.). Suas obras sobre hadith são três:

a) Comentário de Sahih al-Bukhari

b) Tratado Kashf al-Ghita ‘amma Lazima lil-Mawta wal-Ahya (comentário da obra Muwatta).

Tratado Tard al-Awham ‘an Athar al-Imam al-Humam.

4. Salamullah ibn Shaykh al-Islam Muhaddith (falecido em 1229). Era conhecido como “Muhaddith de Rampur”. As seguintes obras dele sobre hadith são dignas de menção

1) Al-Muhalla bi-Asrar al-Muwatta.

2) Tradução persa de Sahih al-Bukhari

3) Tradução persa de Shama’il al-Nabi

4) Tratado sobre os fundamentos do hadith

5. O xeque Saifullah ibn Nurullah bin Nur al-Haqq. Durante o reinado do imperador Alamgir, ele escreveu uma obra intitulada «Ashraful Wasail fi Sharhish Shama’il».

Os discípulos do xeque Abdul Haqq

1) Khwaja Kharend Muinuddin (falecido em 1085 da Hégira); 2) Khwaja Haidar Patlu (falecido em 1057 da Hégira); 3) Baba Daudul Mishtaqi Kashmiri; 4) Xeque Enayatullah Muhaddith Kashmiri (falecido em 1195 da Hégira) — ele lecionou hadith durante 36 anos; 5) Mir Sayyid Mubarak Bilgirami (falecido em 1115 da Hégira) — ele escreveu comentários em persa sobre Shama’il al-Nabi e Hisn al-Hasin; 6) Mir Abdul Jalil Bilgirami (falecido em 1138 da Hégira) — ele era um muhaddith perito na ciência dos nomes dos narradores; 7) Mir Azad Bilgirami (falecido em 1200 da Hégira) — os títulos de suas obras relacionadas aos hadith são:

a) Al-Juyuddarari, Sharh Sahih al-Bukhari

b) Shamamat al-Anbar fi ma urida fil-Hind min Sayyid al-Bashar

c) Subhat al-Murjan fi athar Hindustan.

d) Makhdum Sayyad fi husni Khatimat al-Siyada.

Os seguintes muhaddiths alcançaram fama desde meados do século XI até meados do século XII da Hégira:

1) Muhammad Siddiq ibn Sharif (m. 1040 H.), 2) Shaykh Husainul Husaini (m. 1043 H.), 3) Sayyid Ja‘far Badre Alam (m. 1085 H.) — ele escreveu duas obras, intituladas ‘Al Fayzut Tari fi Sharhe Sahihil Bukhari’ e ‘Rawzatush-Shah’; 4) Abul Majd Mahbube Alam (m. 1111 H.) — ele escreveu uma obra intitulada ‘Zinatun Nuqat fi Sharhil Mishkat’; 5) Shaykh Yaqub Banani Lahori (m. 1098 H.) — ele escreveu as três obras seguintes:

a) Al Khairul Jari fi Sharhe Sahihil Bukhari

b) Al Mu‘lim fi Sharhe Sahihil Muslim

c) Kitabul Musaffa fi Sharhe Muwatta

6) Mawlana Na‘im Siddiqi (m. 1120 H.) — ele escreveu uma obra explicativa de Mishkatul Masabih; 7) Shaykh Muhammad Akram ibn Abdur Rahman (m. 1130 H.); 8) Shaykh Yahya ibn Amir al-Abbasi (m. 1114 H.) — ele escreveu, entre outras, as obras (a) ‘Iyanatul Qari Sharhe Mulasiyate Bukhari’, (b) ‘Arba‘in’ e (c) ‘Tazkiratul Ashab’; 9) Shaykh Muhammad Fakhr Ilahabadi (m. 1164 H.) — sobre a ciência do hadith, escreveu as quatro obras seguintes: a) ‘Qurratul Ayn fi Isbate Raf‘e Yadain’; b) ‘Risala-e Najatiya dar Aqaide Hadisiya’; c) ‘Nazme Ibrat-e Safarus Sa‘ad’; d) ‘Masnavi dar Ta‘rif-e Hadith’; 10) Mawlana Aminuddin Muhammad Umari (m. 1145 H.); 11) Mawlana Nuruddin ibn Saleh Ahmadabadi (m. 1155 H.) — ele escreveu um comentário de Bukhari Sharif intitulado ‘Nurul Qari Sharhe Sahihil Bukhari’; 12) Mirza Muhammad ibn Rustam Badakhshi (m. 1195 H.). As seguintes obras suas sobre hadith são notáveis:

a) Miftahun Naja fi Manaqibil Aba

b) Tarajimul Huffaz

c) Nuzulul Abrar bima Sahha min Manaqibe Ahlil Baitil Athar

d) Tuhfatul Muhibbin fi Manaqibi Khulafae Rashedin.

(13) Mirza Jan Jalandhari Biraki (fal. 1100 H.) — compôs uma obra intitulada “Najmud Durar al-Marjan”.

(14) Muhammad Siddiq Lahori (fal. 1193 H.) — compôs uma obra intitulada “Izalatul Fasadat fi Sharhe Manaqibis Sayadat”.

(15) Shaykh Hashem ibn Abdul Ghafur Sindi. Ele reorganizou e sistematizou o Sahih Bukhari Sharif de acordo com a sucessão cronológica das gerações dos Companheiros.

A época de Shah Waliullah Dehlavi

Foi na época de Shah Waliullah Dehlavi que se iniciou no subcontinente a fase do desenvolvimento máximo da ciência do hadith. Foi então que ela alcançou o reconhecimento como uma ciência avançada. Por trás disso, a contribuição do imame da época, Shah Waliullah, foi imensa e incomparável. Ele nasceu no dia 14 de Shawwal do ano 1114 da Hégira. Faleceu no ano 1176 da Hégira. Viajou para Meca e Medina a fim de obter uma formação avançada em hadith. As seguintes obras suas sobre hadith são dignas de menção:

a) Hujjatullahil Baligha

b) Arba’in

c) Asīqāt al-Akhyār

d) Ad-Durr as-Samīn fī Mubashshirāt an-Nabiyy al-Amīn

e) Al-Fadl al-Mubīn fī al-Musalsal min Hadīth an-Nabiyy al-Amīn

f) Al-Irshād ilā Muhimmāt al-Isnād

g) Tarājim al-Bukhārī

h) Sharh Tarājim Abwāb al-Bukhārī

i) Musaffā, Sharh Muwatta

j) Musawwā, Sharh Muwatta

t) Asarul Muhaddisin.

Apresentam-se abaixo os nomes dos muhaddisin que surgiram sob a influência de Shah Waliullah:

1) Qazi Sanaullah Panipati (falecido em 1225 H.). Ele compôs uma obra de hadith intitulada ‘Al-Lubab’.

2) Shah Abdul Aziz ibn Waliullah Dehlawi (falecido em 1236 H.). Ele dedicou-se ao ensino de hadith durante cerca de sessenta anos. Consequentemente, inúmeros de seus alunos se empenharam no ensino e na divulgação do hadith em várias regiões da Índia. Mencionam-se aqui os nomes de alguns deles:

1) Shah Rafiuddin Dehlawi (falecido em 1249 H.), (2) Shah Muhammad Ismail Shahid (martirizado em 1246 H.), (3) Shah Muhammad Maqsudullah (falecido em 1273 H.), (4) Munshi Sadruddin Dehlawi (falecido em 1258 H.), (5) Hasan Ali Muhaddis Lakhnawi, (6) Husain Ahmad (falecido em 1275 H.), (7) Shah Rauf Ahmad Mujaddedi (falecido em 1249 H.), (8) Shah Fazlur Rahman Ganj Muradabadi (falecido em 1315 H.), (9) Khurram Ali Balhari (falecido em 1271 H.). Ele traduziu para o urdu a obra ‘Mushariqul Anwar’, de As-Saghina, e ‘Arbain’, de Shah Waliullah. (10) Shah Abu Said (falecido em 1250 H.), (11) Muhammad Shakur (falecido em 1300 H.), (12) Shah Zahurul Haq Phulwari, (13) Awlad Husain, (14) Karamullah Muhaddis Dehlawi (falecido em 1258 H.), (15) Alamatullah Badauni.

As obras de Shah Abdul Aziz relacionadas ao hadith são apenas duas. São elas:

a) Bustanul Muhaddisin (em persa), b) Ujala-e Nafia.

3) Shah Ishaq ibn Afzal Faruqi Dehlawi (falecido em 1262) — dedicou-se ao ensino de hadith durante vinte anos. Seus alunos espalharam-se por toda a Índia. (4) Mazhab Nanutubi (falecido em 1320). (5) Ahmad Ali Saharanpuri (falecido em 1297) — recebeu educação superior em Meca e Medina. Compôs, entre outras obras, Ta‘liqat-e Bukhari, Muqaddama-e Bukhari e uma hâshiya (notas marginais) do Tirmidhi Sharif. (6) Maulana Qasim Nanutubi (falecido em 1297), (7) Mian Sahib Sayyid Nazir Husain (falecido em 1320). (8) Maulavi Nawab Muhammad Qutbuddin Muhaddis-e Dehlawi — estudou o conhecimento do hadith com Shah Ishaq Dehlawi. Depois, viajou para Meca e Medina, onde obteve uma sanad superior de hadith. As duas obras seguintes dele sobre hadith são dignas de menção:

a) Mazahir-e Haq — tradução e comentário em urdu de Mishkat Sharif; b) tradução de Hisn-e Hasin.

Após Shah Ishaq Sahib, estabeleceram-se vários centros de ensino de hadith. Os próprios alunos dos eruditos anteriormente mencionados começaram, em diferentes lugares do Paquistão e da Índia, a ensinar e divulgar por iniciativa própria o conhecimento do hadith. Muitas pessoas aprenderam hadith com Shah Abdul Ghani, sucessor de Shah Abu Sa’id Mujaddidi. Depois disso, as seguintes pessoas alcançaram renome como eruditos versados na ciência do hadith.

1) Maulana Abdul Hai Lakhnavi (falecido em 1304), Maulana Rashid Ahmad Gangohi, Maulana Qasim, Maulana Yaqub, Maulana Abdul Haq Ilahabadi, Shaykh Habibur Rahman Rudolvi, Maulana Muhammad Husain Ilahabadi, Shaykh Muhammad Ma’sum Mujaddidi, Maulana Jafari, Maulana Alimuddin Balkhi, Shaykh Manzur Ahmad Hindi.

O falecido Maulana Abdul Hai estabeleceu um centro de ensino de hadith em Firangi Mahal. As pessoas que estudaram com ele adquiriram grande domínio da ciência do hadith. Mencionam-se aqui os nomes de alguns muhaddiths desse período:

(1) Maulana Zahir Ahmad ‘Shauq’. Ele compôs uma obra de hadith intitulada Asar-is-Sunan (********************). (2) Maulana Abdul Hadi Azimabadi; (3) Maulana Muhammad Husain Ilahabadi; (4) o hafiz de hadith Maulana Idris Sasrami; (5) Maulana Abdul Gafur Ramzanpuri; (6) Maulana Abdul Karim Punjabi; (7) Shah Sulaiman Phulwari — certa vez foi o maulana-chefe da Madrassa Alia de Calcutá; (8) Maulana Abdul Hai; (9) Maulana Abdul Wahab Bihari; (10) Maulana Abdul Bari — ele escreveu um comentário sobre a obra Asar-is-Sunan.

Por intermédio de Maulana Sayyid Nazir Husain Dehlavi (falecido em 1320 da Hégira), o conhecimento do hadith difundiu-se amplamente no subcontinente. Ele era o líder da comunidade Ahl-e-Hadith. Centenas de milhares de alunos aprenderam com ele o conhecimento do hadith e espalharam-se por várias regiões do subcontinente. Entre os muhaddiths desse período, mencionam-se os nomes de alguns:

(1) Maulana Shamsul Haq Dehanwi. Ele escreveu uma obra intitulada Ghayatur Maqsud. (2) Maulana Ashraf Ali. Ele escreveu uma obra intitulada Ainul Ma’bud. (3) Maulana Abdur Rahman Mubarakpuri — escreveu uma volumosa obra de comentário sobre Tirmidhi Sharif, intitulada Tuhfatul Ahwazi. (4) Maulana Sayyadat Husain — foi professor de conhecimento do hadith na Madrassa Alia de Calcutá. (5) Maulana Amir Ali Malihabadi — escreveu uma nota sobre Hidaya (uma obra de fiqh). (6) Maulana Jamil Ansari — ensinava hadith na Madrassa Alia de Calcutá. (7) Maulana Ahmadullah (falecido em 1362) — era o Shaykh al-Hadith da Madrassa Rahmania de Deli. (8) Maulana Alam Ali Naginwi; em Rampur, no ensino de hadith, surgiram grandes muhaddiths como Sayyid Abu Muhammad Barkat Ali Shah, Maulana Hasan Shah, Maulana Munawwar Ali e seu aluno Maulana Vilayat Husain.

Os alunos de Maulana Shah Abdul Ghani, Maulana Muhammad Qasim e Maulana Rashid Ahmad, fundaram a Madrassa deobandi. Ao longo dos últimos séculos, vários milhares de muhaddiths provenientes dessa instituição espalharam-se por todas as regiões do Paquistão e da Índia. Maulana Khalil Ahmad Sahib foi um grande muhaddith desse período. Ele escreveu uma obra erudita e de alto nível, intitulada Bazlul Majhud, um comentário sobre Abu Dawud Sharif.

Maulana Mahmudul Hasan (Shaykhul Hind) foi, durante muito tempo, um dos principais muhaddith da madrasa de Deoband, e centenas de pessoas estudaram com ele a ciência do hadith. Maulana Anwar Shah Kashmiri foi um dos maiores muhaddith desta época. Os discursos que proferiu ao ensinar o Sahih Bukhari e o Tirmidhi Sharif foram registrados por seus alunos e publicados, respectivamente, sob os títulos “Fayzul Bari”, comentário do Bukhari, e “Al-Arfush-Shazi”, comentário do Tirmidhi.

Depois de estudar hadith com Maulana Ahmad Ali Saharanpuri, muitas pessoas se dedicaram a ministrar aulas de hadith em Bengala e Assam. Entre seus alunos, Mufti Abdullah Tungi e Maulana Nazer Hasan Deobandi alcançaram maior fama. Na região de Bengala Oriental e Assam, seus alunos, assim como os mestres particulares do autor desta obra, Maulana Muhammad Husain Sylheti e Maulana Mumtazuddin, alcançaram especial notoriedade.[A discussão desta fase não é encontrada de forma sistemática em um número muito grande de obras. Todas as obras desta discussão foram extraídas das seguintes obras: (1) a obra de pesquisa do Dr. Ishaq, Indian’s Contribution to the Study of Hadith Literature; (2) a obra escrita por Maulana Mufti Amimul Ihsan ********************; (3)********************; (4)********************; e a introdução, entre outros textos, de ********************, compilada por Maulana Abdul Ghaffar Hasan. O famoso especialista em hadith de Maner, Shaykh Makhdumul Mulk, estudou com ele ininterruptamente, durante longos 22 anos, a ciência do hadith e outras ciências e conhecimentos. (Manaqib al-Asfiya) (Islamic Culture, vol-xxvll- No-1]

A ciência do hadith em Bengala

Gaur Pandua

Alauddin Husain Shah ibn Saiyid Ashraf Makki reinou em Bengala de 900 a 924 da Hégira. Foi o primeiro a promover o desenvolvimento da língua e da literatura bengalis. Além disso, sua contribuição para a ampla disseminação do ensino do Alcorão e do hadith nas áreas sob seu governo é inesquecível. Ele convidou pessoas versadas nas ciências e conhecimentos islâmicos, de regiões distantes e próximas, a ir para seu reino e estabelecer residência ali. No ano 907 da Hégira (1502 d.C.), fundou em Gaur, no lugar chamado Ghuraba-e Shahid (atualmente pertencente ao distrito de Malda), uma madrasa de tipo avançado. Também estabeleceu uma faculdade em Pandua. Nessas instituições educacionais ensinava-se a ciência do hadith. No ano 911 da Hégira (1503 d.C.), Muhammad ibn Yazdan Bakhsh, conhecido como Khwajagir Shirwani, copiou o Sahih Bukhari em três volumes. Ele está preservado na Biblioteca Oriental de Baqipur.

Sonargaon

Já foi mencionado anteriormente que o muhaddith Sharafuddin Abu Tawama Bukhari Hanbali (falecido em 700 da Hégira) chegou, no século VII, a Sonargaon, no distrito de Dhaka, e organizou ali amplas instalações para o ensino do hadith. Como resultado, o local tornou-se um centro da ciência do hadith. Mesmo após sua morte, essa situação continuou por algum tempo. Naquela época, esta região estava sob o governo de Sayadat (900–945 da Hégira). Como capital da Bengala Oriental, grande número de especialistas em hadith reuniu-se em Sonargaon, e muitas pessoas também estudaram ali a ciência do hadith e alcançaram proficiência. Naquela época, a prática do hadith era tão disseminada nesta região que numerosas mesquitas e khanqahs foram destinadas a esse propósito. Por iniciativa do célebre especialista em hadith Taqiuddin Ainuddin (929 da Hégira), uma mesquita foi estabelecida ali. Naquele momento, reinava Nusrat ibn Husain Shah. Portanto, pode-se afirmar com segurança que foi durante o governo de Sayadat que Sonargaon se tornou um centro de ensino do hadith. É provável que essa glória tenha continuado e permanecido intacta até a fase final do domínio muçulmano na Bengala Oriental. Contudo, durante o posterior domínio britânico, os raios dourados de Sonargaon desapareceram completamente.

Desde a fundação do Paquistão, passou a funcionar o ensino superior da ciência do hadith em várias grandes madrasas da então região do Paquistão Oriental (atual Bangladesh). Como resultado, todos os anos um número considerável de pessoas estudava hadith e tomava conhecimento de um dos fundamentos mais importantes da religião do Islã. Contudo, devido às deficiências do sistema educacional, elas não conseguiram beneficiar-se nem alcançar uma proficiência semelhante à dos estudantes de hadith de épocas anteriores.

Compilação de livros de hadith no subcontinente

Parece que, na era pós-independência do subcontinente, os eruditos passaram a dedicar especial atenção à ampla divulgação do estudo do conhecimento dos hadiths. Em particular, começaram alguns esforços com o objetivo de familiarizar o povo com as fontes e os fundamentos primordiais do Islã. Também se iniciou a compilação de livros de hadith de uma nova maneira, bem como o trabalho de traduzir e redigir explicações dos hadiths nas línguas urdu e bengali. Pode-se esperar que isso assuma uma forma ampla num futuro próximo. [Escrito com base em Indian’s Contribution to the Study of Hadith Literatur, de autoria do Dr. Ishaq, e compilado a partir dessa obra.]

O conhecimento dos hadiths e os eruditos não muçulmanos

Para os muçulmanos, o hadith é um tesouro inestimável. Desde o primeiro capítulo da história do Islã, atribuiu-se-lhe importância extraordinária, e desde o início continuaram a ser tomadas medidas adequadas para sua preservação, divulgação e ensino. Os muçulmanos jamais puderam esquecer a posição elevada do hadith, imediatamente depois do Alcorão. Contudo, os eruditos não muçulmanos desenvolveram reações divergentes em relação ao hadith. Alguns eruditos olharam-no com uma perspectiva liberal e não hesitaram nem por um instante em compreender sua importância no campo do conhecimento e da ciência e em reconhecê-la francamente.

Entretanto, alguns pensadores europeus não puderam reconhecer a importância do hadith. Há até muitas pessoas que, justamente por ser impossível negar a importância do hadith, tentaram arduamente descobrir nele diversos tipos de falhas e defeitos.

No presente artigo, desejamos apresentar algumas declarações de pessoas de ambas as categorias. Em resposta às palavras daqueles que, de uma forma ou de outra, fizeram qualquer tipo de crítica ao conhecimento dos hadiths, à sua compilação e ao método dos muhaddiths para examinar e verificar os hadiths, apresentaremos também nossa posição.

Eruditos europeus em apoio ao hadith

1. O célebre historiador europeu Edward Gibbon escreveu: “A vida do fundador de cada nação completa o acervo de conhecimentos por ele escrito. Os hadiths de Hazrat Muhammad são os ensinamentos completos de palavras verdadeiras e o símbolo concreto de suas ações, de sua honestidade e de suas boas obras”.(********************)

2. Num jornal egípcio chamado “Watan”, um sábio cristão escreveu: “Se os muçulmanos pesquisarem o Alcorão e o Hadith, poderão encontrar neles uma excelente provisão para satisfazer suas necessidades religiosas e materiais.”

3. O célebre filósofo russo Tolstói publicou, em sua própria língua, uma compilação de hadiths para a reforma moral de seu país e de seu povo.

(******************************************************)

4. Heitinger publicou uma extensa lista das normas morais que prevalecem entre os muçulmanos com base no Hadith. Em sua opinião, não poderia haver método melhor do que este para atrair efetivamente as pessoas às boas ações e impedi-las de cometer pecados.(********************)

5. Sir William Muir escreveu:

“Nos primeiros tempos, que outro assunto poderia ser mais emocionante para os muçulmanos do que as palavras e os atos do maior dos homens? …………. Esse grande homem foi a única causa da existência e da ascensão desta nação conquistadora do mundo. Foi ele quem entregou às mãos dos muçulmanos as chaves tanto deste mundo quanto do Além. Por essa razão, entre os seguidores de Muhammad, a maior parte das conversas dizia respeito a ele. Devido a todos esses meios e fatores, a ciência do Hadith alcançou um desenvolvimento considerável. (Life of Muhammad)

As palavras proferidas pela boca do nobre Mensageiro, os relatos de suas ações e qualquer palavra, ato ou conduta por ele aprovados são chamados de Hadith. A confiabilidade e a força probatória desse Hadith dependem naturalmente de sua compilação no momento correto e por um método impecável. Com argumentos e provas irrefutáveis, tornou-se claro e incontestável que, na realidade, o Hadith começou a ser registrado ainda durante a vida do Mensageiro, de acordo com a orientação do próprio Mensageiro. Ninguém versado na história do conhecimento do Hadith pode negar isso. Contudo, a atitude de alguns sábios ocidentais a esse respeito é desalentadora. Sem estar devidamente informados sobre a verdadeira história do Hadith, fizeram declarações que podem causar extrema confusão na mente de leitores inexperientes quanto ao registro e à preservação do Hadith no momento correto e por um método confiável.

As dúvidas de Alfred

A este respeito, queremos citar uma afirmação da obra Alfred Guillame-Fr Islam. Na página 89 de sua referida obra, ele escreveu:

Não sabemos exatamente quando os relatos dos atos e palavras do Profeta foram registrados pela primeira vez; de fato, a tradição antiga é contraditória justamente quanto a esse ponto. Alguns dizem que o Profeta autorizou o registro de suas palavras; outros afirmam que ele o proibiu.

Não sabemos exatamente quando os relatos das palavras e ações do Profeta foram registrados pela primeira vez. Na realidade, os hadiths do período inicial são contraditórios quanto a essa questão. Alguns dizem que o Mensageiro autorizou o registro de suas palavras. Outros, por sua vez, afirmam que ele o proibiu.

A afirmação citada contém, ao mesmo tempo, várias insinuações questionáveis. Ao dizer “não sabemos exatamente quando o hadith foi registrado”, procurou-se despertar na mente das pessoas dúvidas quanto à autenticidade dos hadiths. Em segundo lugar, sem estabelecer uma conciliação real entre a “proibição” e a “permissão” do Mensageiro, suscitou-se uma extrema hesitação e dúvida. Contudo, a discussão relacionada a este tema nesta grande obra prova que a escrita dos hadiths foi proibida no estágio absolutamente inicial da missão islâmica unicamente para evitar que surgisse uma situação grave caso os hadiths se misturassem ao Alcorão. Entretanto, pouco depois essa proibição foi transformada em ordem, e os Companheiros começaram a registrar os hadiths sem qualquer hesitação ou constrangimento. Além disso, deve-se ter em mente que, embora o registro dos hadiths tenha sido interrompido no período inicial, como consequência da proibição de escrevê-los juntamente com o Alcorão, sua transmissão oral, bem como o estudo e a discussão mútuos, não foram interrompidos nem por um instante. Pois apenas a escrita havia sido proibida. Não havia sido proibida a transmissão oral entre as pessoas.

Além disso, dois renomados orientalistas, chamados Goldziher e Sprenger, também tentaram, nessa fase, criar dúvidas na mente do público. No segundo volume de sua obra intitulada Muhammadanische Studim, nas páginas 241–250, Goldziher tentou provar, apresentando numerosas evidências, que os hadiths foram compilados no início do segundo século da Hégira. Embora, na primeira parte dessa mesma obra, nas páginas 10–12, ele tenha escrito algumas coisas que indicam que certas coletâneas de hadiths — sahifas — foram compiladas já na época do Mensageiro, pouco depois ele apresentou muitas teorias destinadas a criar dúvidas e descrença quanto à autenticidade dessas sahifas.

Por trás de tal postura havia dois objetivos. O primeiro era enfraquecer o valor probatório dos hadiths e da Sunnah, alegando que eles haviam sido apenas memorizados, e mergulhar o povo numa grave confusão ao afirmar que os hadiths só haviam sido registrados no segundo século da Hégira. O segundo objetivo era provar que os compiladores de hadiths haviam inventado hadiths para apoiar suas próprias concepções e opiniões e para realizar seus próprios propósitos mal-intencionados, demonstrando assim que todo o conjunto dos hadiths e da Sunnah era inútil e indigno de apoio. Esse orientalista não realizou sua investigação com o propósito de assumir qualquer esforço para reunir as provas necessárias a fim de apresentar a história da compilação dos hadiths. Na verdade, tal trabalho só pode ser realizado por pessoas extremamente egoístas e movidas por objetivos particulares.

Sprenger, em sua obra intitulada Dao Traditious wesen dei den Arabern 1856, 1-17 Dans, tentou provar que era falsa a afirmação de que os hadiths haviam chegado de modo autêntico desde o Mensageiro. No que diz respeito à compilação dos hadiths, ele tentou provar que eles não pertenciam à época da vida do Mensageiro, mas haviam sido compilados no segundo século da Hégira. Na realidade, o objetivo desse orientalista também não era benévolo.

É verdade que Dozy reconheceu que um grande número de hadiths do Mensageiro havia sido memorizado e que, a partir deles, foram compilados livros. Contudo, entre eles também foram incluídos muitos hadiths inventados e falsos. Uma afirmação desse tipo feita por Dozy pode despertar na mente de muitas pessoas dúvidas quanto à autenticidade dos hadiths. Entretanto, por trás de sua afirmação não havia qualquer boa intenção oculta. Pelo contrário, seu objetivo era criar dúvidas sobre os hadiths e a Sunnah na mente das pessoas, especialmente daqueles que não conhecem a história autêntica da compilação dos hadiths.

Nesta etapa, nossa posição é que não estamos de modo algum dispostos a dar atenção às declarações incoerentes e às afirmações infundadas dos chamados orientalistas para provar a veracidade ou falsidade de nosso passado e da história inicial da cultura muçulmana. Quer os eruditos ocidentais reconheçam, quer não, que os hadiths foram registrados e compilados durante a vida do Mensageiro, isso não faz a menor diferença para os muçulmanos. Pois, como diz o provérbio, “os moradores da casa são os que melhor conhecem a situação da casa”: é um fato demonstrado de maneira irrefutável e comprovado por obras confiáveis que, diante do Nobre Profeta, os hadiths foram escritos e que um vasto acervo de hadiths foi compilado — sob a forma de sahifas e de cadernos de notas pessoais. Não há dúvida de que todo o acervo de hadiths compilado naquela época foi posteriormente reunido e incorporado em obras. Como exemplo, pode-se mencionar que o Musnad do Imam Ahmad ibn Hanbal contém integralmente as vastas sahifas de hadith compiladas por Abdullah ibn Amr ibn al-As e pelo honorável Abu Hurayra.

Os orientalistas consideram que todas as declarações e todos os relatos citados sobre a escrita e a compilação dos hadiths, ou sobre a proibição disso, foram inventados em consequência de uma determinada posição adotada pelos muhaddiths e pelos juristas. Alegam que estes teriam forjado hadiths com o objetivo de vencer uns aos outros em suas disputas, em apoio às próprias opiniões e juízos.

Mas isso é uma afirmação totalmente falsa e enganosa. O principal responsável por essa confusão foi Goldziher (Goldziher). Com efeito, o orientalista Sprenger, seu predecessor, descobriu em 1855 a obra escrita por Khatib al-Baghdadi ******************** e redigiu um artigo intitulado “A origem e o progresso da escrita” (origin and progress of writing). (Asiatic Sociaty of Bangal XXV, 303-329) Nesse artigo, com base na difusão da escrita na sociedade árabe e nas provas relacionadas a ela, concluiu que um grande número de hadiths devia ter sido escrito e compilado na época do Mensageiro. Goldziher, contudo, rejeitou todos esses relatos como falsos e difundiu a alegação de que pessoas contraditórias de épocas posteriores haviam inventado essas afirmações.

Na realidade, essa propaganda falsa foi promovida por pura má-fé e por hostilidade ao desenvolvimento da cultura islâmica. Caso contrário, ao julgá-la de uma perspectiva factual, não poderia haver qualquer fundamento para tais afirmações. É uma verdade irrefutável que numerosos Companheiros se dedicaram com especial importância à escrita e à compilação dos hadiths ainda durante a vida do Nobre Profeta. É desnecessário dizer que não há absolutamente nenhuma razão para alimentar qualquer dúvida a esse respeito. É verdade, porém, que naquela época o número de sahifas escritas e compiladas não era muito grande nem muito elevado. Mas não há motivo algum para duvidar de que os hadiths foram escritos e compilados.

A afirmação do Sr. Muir

Sir William Muir fez, em sua obra Life of Muhammad, uma afirmação infundada sobre o método dos muhaddiths para verificar os hadiths. Ele disse:

É evidente que tipo de crítica, verificação e exame dos hadiths os muhaddiths realizavam. Era tão rigoroso que, em média, consideravam inaceitáveis noventa e nove por cento dos hadiths.

Na realidade, essa afirmação do Sr. Muir também não tem qualquer fundamento. Se ele tivesse sido devidamente informado sobre o método de verificação e exame dos hadiths empregado pelos muhaddiths, jamais teria feito tal afirmação. O Imam al-Bukhari compilou o Sahih al-Bukhari, contendo pelo menos nove mil hadiths, dentre os seiscentos mil hadiths que havia coletado; foi precisamente disso que surgiu a ideia acima mencionada do Sr. Muir. Contudo, depois de concluir sua obra, o Imam al-Bukhari declarou que muitos milhares de hadiths autênticos não puderam ser incluídos nela. O significado claro disso é que os hadiths que ele não incluiu em sua obra não são incorretos nem inaceitáveis, e que, além dos hadiths inseridos em sua obra, ainda existem muitos milhares de outros hadiths autênticos. O Sr. Muir, porém, concluiu disso que o Imam al-Bukhari considerava “incorretos” e “inaceitáveis” todos os hadiths que não foram incluídos no Sahih al-Bukhari. Se todos os hadiths rejeitados pelo Imam al-Bukhari fossem realmente inaceitáveis, ele jamais teria dito que entre eles ainda havia “hadiths autênticos”. Na realidade, todo autor reúne uma grande quantidade de informações adequadas à sua obra, mas o fato de não incluir finalmente tudo o que reuniu em seu livro não significa de modo algum que tudo aquilo se torne “incorreto”. Parece que o senhor Muir desconhecia essa verdade. Provavelmente também não sabia por quais razões um muhaddith declara um hadith inaceitável. Cada hadith chegava ao autor por meio de numerosas cadeias de transmissão, e ele examinava e verificava minuciosamente cada uma delas segundo seus próprios critérios. Quando considerava uma cadeia confiável, aceitava o hadith com base nela; quanto às cadeias em que não podia confiar, ou que se tornavam desnecessárias, ele as deixava de lado. Mas, por causa disso, o hadith original transmitido por diferentes cadeias jamais se torna inaceitável. Na realidade, os hadiths não são contados do ponto de vista de seus matns, mas segundo as unidades das cadeias de transmissão. Por essa razão, não é possível afirmar com certeza quantos hadiths originais o Imam al-Bukhari havia coletado e por quantas cadeias de transmissão eles haviam chegado até ele.

Crítica ao Dr. Sprenger

O Dr. Sprenger criticou severamente, em particular, o método do Imã Bukhari para verificar os hadiths. Ele escreveu em sua obra Life of Muhammad:

‘Os princípios e métodos que ele (o Imã Bukhari) seguiu não podem ser chamados de “crítica dos hadiths”. Ele apenas verificava se a continuidade da cadeia de transmissores estava assegurada, se ela não havia sido interrompida em algum ponto. Além disso, também examinava a conduta — isto é, o caráter — dos transmissores dos hadiths. Isso porque seu princípio era rejeitar qualquer hadith que não estivesse de acordo com sua opinião “maculada pelo preconceito”. Portanto, o fato de ele rejeitar um hadith de modo algum pode significar que esse hadith fosse realmente inaceitável. Contudo, sua obra Jami diferia, nesse aspecto, das demais obras musnad, pois não seguia nenhuma escola específica de fiqh; ao contrário, baseava-se na probidade dos transmissores.’

Ao examinar essas afirmações do Dr. Sprenger, fica claramente evidente que, assim como ele não está familiarizado com os termos técnicos dos hadiths, tampouco tem qualquer experiência com os métodos e as práticas dos muhaddiths. Além disso, não possui uma compreensão clara das diversas condições da ciência dos hadiths.

Os muhaddiths verificam primeiro os hadiths segundo o critério do princípio da diraya. Esse princípio foi extraído do método de atuação por eles seguido no Alcorão, nos hadiths e na prática dos Companheiros ilustres. Ele deve ser seguido necessariamente por todos. Como se trata especialmente de um princípio geral e consagrado, não era necessário que os muhaddiths o declarassem. Pois todos sabem que os muhaddiths certamente verificaram e examinaram os hadiths à luz desses princípios. Se alguém cometeu algum erro nesse processo de verificação e exame, isso é uma questão inteiramente distinta. Cada muhaddith empreendeu o máximo de pesquisa e esforço para manter correta e livre de defeitos a cadeia de transmissão dos hadiths que havia compilado. Sem isso, eles não estariam de modo algum dispostos a aceitar qualquer hadith. Por essa razão, cada muhaddith verificava, examinava e investigava os transmissores dos hadiths, estabelecendo sua própria cadeia de transmissão; e aceitava sem hesitação os hadiths obtidos por meio dessa cadeia.

Parece que o Dr. Sprenger nem sequer sabe exatamente que tipo de obra é o Sahih Bukhari: um Jami ou um Musnad. Pois ele considerou o Sahih Bukhari uma obra do tipo Musnad.

O Dr. Sprenger acusou o Imã Bukhari de inveja e hostilidade. Isso é uma afirmação completamente infundada. Não há razão para pensar que o Imã Bukhari fosse dominado pela inveja e pela hostilidade. Na realidade, ele estava inteiramente purificado e livre desses defeitos. É por isso que vemos que, embora não fosse adepto da doutrina xiita, ele aceitou e incluiu em sua incomparável obra de hadiths hadiths transmitidos por transmissores xiitas. Além disso, ele era adepto da escola shafiita, mas não hesitou em aceitar, na obra que compilou, muitos hadiths contrários à escola shafiita. Parece que todas essas coisas eram completamente desconhecidas do Dr. Sprenger.

Outras afirmações do Sr. Muir

A este respeito, são dignas de menção várias outras afirmações do senhor Muir. Em certa passagem de sua obra Life of Muhammad, ele comentou sarcasticamente o método de verificação dos hadiths, dizendo:

Para os muhaddiths, não se considerava necessário mencionar o conteúdo principal de um hadith ******************** para que ele fosse aceitável. Bastava mencionar os nomes dos transmissores do hadith.

As palavras do senhor Muir também demonstram que ele não está devidamente familiarizado com a terminologia do ilm al-hadith nem com os métodos de verificação dos hadiths. Com efeito, no mundo dos hadiths, foram estabelecidos e são universalmente conhecidos estes dois métodos para a verificação dos hadiths: riwayat e dirayat. Não pode haver método melhor do que estes para verificar os hadiths. Pelo método da riwayat, verifica-se a cadeia de transmissão do hadith, não havendo então necessidade alguma de mencionar o texto original do hadith. Pelo contrário, pelo método da dirayat, verifica-se apenas a autenticidade do trecho ******************** da mensagem principal do hadith; nesse caso, torna-se irrelevante verificar a condição dos transmissores.

O senhor Muir fez ainda outra afirmação gravemente equivocada. Disse que, entre os muhaddiths, não existiam confiança nem espírito de tolerância mútuos quanto aos princípios e métodos de investigação, verificação e exame dos hadiths. Por isso, cada muhaddith teria aceitado ou rejeitado os hadiths de acordo com seu próprio método. Essa afirmação a respeito dos muhaddiths é infundada. Somente alguém que não tenha a menor compreensão ou respeito pelo conhecimento e pelas ciências islâmicas, ou que esteja firmemente decidido a hostilizar o Islã, poderia fazer uma afirmação desse tipo. O senhor Muir também deseja chamar as divergências de opinião relativas aos princípios do ijtihad de desconfiança e desrespeito mútuos. Na realidade, porém, não se trata de qualquer desconfiança. Trata-se apenas de diferenças nos princípios de ijtihad e nas opiniões ou julgamentos de cada um. Por isso, vemos que o Imam Muslim criticou algumas opiniões ou métodos do Imam Bukhari; contudo, não hesitava nem um pouco em reconhecê-lo e honrá-lo como Sayyid al-Muhaddithin — o maior dos muhaddiths. Na verdade, é justamente por causa das divergências de opinião que surge a necessidade de verificar as cadeias ou isnads dos hadiths.

Como exemplo das divergências de opinião entre os muhaddiths, pode-se mencionar que o Imam Bukhari atribuía importância excepcional à necessidade de um encontro direto entre aquele que transmitiu um hadith e aquele de quem o transmitiu ********************, bem como à necessidade de ambos terem permanecido juntos por longo tempo. O Imam Muslim, porém, considerava suficiente que ambos fossem contemporâneos e pertencessem à mesma época. O Imam Bukhari preferia aceitar somente os hadiths transmitidos por narradores cuja condição de thiqah, “confiáveis” e “dignos de confiança”, fosse reconhecida por todos. Já o Imam Nasa’i aceitava também hadiths transmitidos por pessoas cuja condição de thiqah não fosse reconhecida por todos. Na realidade, tal situação não surgiu por causa de desconfiança mútua, inveja ou hostilidade; tratava-se simplesmente de divergências de opinião e de julgamento, e nada mais. Mais tarde, se os muhaddiths encontrassem uma nova cadeia confiável de transmissão de um hadith, aceitariam esse hadith de acordo com o princípio fundamental estabelecido por qualquer um dos Seis Imames do Hadith. Isso demonstra a amplitude de seu campo de atuação.

— Fim —