Palavras do editor

“A Bíblia, o Alcorão e a Ciência” é uma obra famosa em todo o mundo. A obra foi escrita pelo célebre cirurgião, cientista e pesquisador francês Dr. Maurice Bucaille. Seu livro, escrito em francês e intitulado “La Bible, le Coran et la Science”, atraiu imediatamente a atenção do público esclarecido quando foi publicado pela primeira vez em Paris, em maio de 1976. Foi traduzido para muitas línguas do mundo, incluindo o inglês e o árabe.

O magnífico Alcorão é a chave para a salvação e o bem-estar da humanidade nesta vida e na vida futura, e o único Livro celestial absolutamente livre de erros. No entanto, ao longo dos tempos, tentou-se negar essa verdade. Essas tentativas foram feitas principalmente por eruditos judeus e cristãos e por cientistas.

Neste livro, ele apresentou de modo admirável a concordância entre o conhecimento obtido por meio da pesquisa científica moderna e as descrições da Bíblia. Como esta obra tem sido de grande benefício para aqueles que desejam descobrir a verdade em nossa época de extremo progresso científico, ela vem sendo amplamente discutida e elogiada em todo o mundo. Quando o ilustre jornalista e colunista Sr. Osman Gani traduziu esta extraordinária obra para o bengali, ela foi inicialmente publicada em série, durante vários anos, na revista mensal Prithibi. Recentemente, em uma reunião de oração organizada por ocasião do segundo aniversário da morte do falecido Osman Gani, pessoas ilustres enfatizaram a importância de publicar o livro em forma de obra e disseram que, se fosse publicado, ele poderia tornar-se um meio para a salvação do falecido na vida futura, e que, mesmo após a morte, ele poderia ser merecedor da recompensa da caridade contínua.

Considerando esse aspecto, quando os filhos dignos e os familiares do falecido concordaram alegremente com a publicação da obra, a Academia do Alcorão decidiu publicá-la.

A Academia do Alcorão é uma organização missionária criada com o objetivo de divulgar e propagar os ensinamentos e as mensagens do Alcorão e de disseminá-los amplamente entre as pessoas. Seu principal trabalho é realizar pesquisas centradas no Alcorão e publicar e divulgar os frutos dessas pesquisas. Com a nossa colaboração, já foram publicados o “DICTIONARY OF THE HOLY QURAN”, “Dicionário do Alcorão”, escrito pelo diretor da Academia do Alcorão de Londres, Hafiz Muniruddin Ahmed; o “Dicionário Temático do Alcorão”, escrito pelo diretor da Academia do Alcorão de Daca, Asad bin Hafiz; e a extraordinária narrativa corânica “Belo, Tu és o mais puro”, escrita por Ata Sarkar.

A Academia do Alcorão de Daca está avançando com planos para realizar um trabalho ainda mais amplo sobre o Alcorão. Enquanto isso, com a colaboração da Academia do Alcorão de Londres e sob a nossa supervisão, começou o trabalho de tradução do mundialmente famoso tafsir “Fi Zilalil Quran”.

Rogamos a todos que façam esta súplica: que Allah complete todos os nossos nobres objetivos e conceda ao autor, ao tradutor e ao editor desta obra o direito à salvação na vida futura. Que Allah conceda a todos nós a capacidade de conhecer e compreender Sua Palavra e de agir de acordo com ela.

Amém.

Introdução

As três religiões monoteístas têm, cada uma, seu próprio livro. Sejam judeus, cristãos ou muçulmanos, é esse livro que constitui a base de sua fé. Para todos eles, seus respectivos livros são a forma escrita da Palavra celestial. Essa Palavra veio diretamente de Allah para Hazrat Ibrahim e Hazrat Musa. Já para Hazrat Isa e Hazrat Muhammad (S.A.), veio por intermédio de outro. Hazrat Isa disse que falou em nome de seu pai. E a Palavra que Hazrat Muhammad (S.A.) pregou, ele a recebeu de Allah por intermédio do anjo Jibril.

Considerando os fatos históricos, vê-se que o Antigo Testamento, o Evangelho e o Alcorão pertencem à mesma categoria; isto é, são compilações escritas da Palavra celestial. Os muçulmanos creem nessa doutrina. Contudo, os habitantes do Ocidente, influenciados principalmente pelos judeus e cristãos, não querem reconhecer no Alcorão a dignidade de Palavra celestial.

Considerando a atitude que os membros de uma religião costumam adotar em relação aos livros das outras duas religiões, talvez seja possível encontrar uma explicação para essa doutrina do Ocidente.

O livro celestial dos judeus é a Bíblia Hebraica. Sua diferença em relação ao Antigo Testamento dos cristãos é que o Antigo Testamento contém alguns capítulos que não estavam na Bíblia Hebraica. Essa diferença, naturalmente, não causa grandes dificuldades na prática, pois os judeus não reconhecem que qualquer outro livro tenha sido revelado depois de seu próprio Livro.

Os cristãos aceitaram a Bíblia Hebraica como seu próprio livro, é verdade, mas acrescentaram algo a ela. Contudo, não aceitaram todos os textos escritos e publicados com o objetivo de transmitir as palavras de Hazrat Isa. Os sacerdotes cristãos rejeitaram muitos livros escritos sobre a vida e os ensinamentos de Hazrat Isa. No Novo Testamento, conservaram apenas um número muito reduzido de textos. Entre eles, os quatro Evangelhos canônicos são os mais importantes. Os cristãos não reconhecem nenhuma Palavra celestial posterior a Hazrat Isa e a seus discípulos. Portanto, também não reconhecem o Alcorão como um livro celestial.

O Alcorão foi revelado seiscentos anos depois de Hazrat Isa. Neste Livro, muitos dados da Bíblia Hebraica e do Evangelho foram recontados. Isso porque o Alcorão contém muitas citações da Torá e do Evangelho. (Por Torá entendem-se os cinco primeiros livros da Bíblia, isto é, o Pentateuco de Hazrat Musa — Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio.) O próprio Alcorão ordena aos muçulmanos que creiam em todos os livros celestiais anteriores ao Alcorão (surata 4, versículo 136). Além disso, a Palavra celestial dá especial importância ao papel de profetas como Hazrat Nuh, Hazrat Ibrahim e Hazrat Musa. E é conferida uma posição especial a Hazrat Isa. Isso porque, no Alcorão e no Evangelho, seu nascimento é descrito como um acontecimento sobrenatural. Sua mãe, Maryam, também recebeu uma posição especial. O fato de a 11ª surata do Alcorão ter sido nomeada segundo o nome dela dá uma indicação dessa posição especial.

Os habitantes do Ocidente geralmente não estão informados sobre todos esses fatos acerca do Islã. Considerando a educação religiosa que lhes foi dada por várias gerações e a maneira como foram mantidos na ignorância sobre o Islã, essa situação não parece de modo algum anormal. Por trás dessa ignorância — mesmo nos dias atuais — há um papel enorme desempenhado pelo uso de expressões como “religião maometana” e “nação maometana”, entre outras. Ao empregarem essas palavras e expressões, formaram a falsa ideia de que essa fé religiosa foi instituída por um homem chamado Maomé e de que Deus — no sentido cristão do termo — não desempenha ali nenhum papel. Muitos intelectuais e estudiosos ocidentais estão agora interessados em conhecer as teorias filosóficas, sociais e políticas do Islã, mas não procuram informar-se sobre a própria Palavra celestial do Islã. No entanto, é justamente sobre essa Palavra que deveriam informar-se primeiro.

Muitos não conseguem sequer imaginar com que ódio os muçulmanos são vistos em alguns círculos cristãos. Tenho uma experiência pessoal a esse respeito. Certa vez, quis fazer uma análise comparativa das narrativas apresentadas na Bíblia e no Alcorão sobre o mesmo assunto. Mas meus ouvintes não quiseram aceitar nenhuma narrativa do Alcorão como base nem mesmo para uma discussão temporária. Na opinião deles, citar algo do Alcorão equivalia a trazer à tona o próprio Satanás.

Entretanto, atualmente há indícios de alguma mudança nos níveis mais elevados do mundo cristão. Com base nos temas discutidos no Segundo Concílio Vaticano, um livro foi publicado em francês pelo Departamento do Vaticano para os Assuntos Não Cristãos. Seu título é “Orientação para um Diálogo entre Cristãos e Muçulmanos” — fundamentos do diálogo entre cristãos e muçulmanos. Editora: Ancora, Roma, terceira edição, 1970. Esse livro dá indícios de uma mudança de grande alcance na doutrina oficial dos cristãos.

Abandonando a antiga concepção que existia na mente dos cristãos acerca dos muçulmanos, deformada por um ódio e uma antipatia injustificados herdados desde tempos remotos, o documento “reconhece as injustiças do passado cometidas contra os muçulmanos” e afirma que a mentalidade ocidental educada segundo os ensinamentos cristãos é responsável por isso. Criticando as concepções equivocadas que os cristãos mantiveram durante tanto tempo sobre o fatalismo, o legalismo, o fanatismo e outros aspectos dos muçulmanos, o livro dá especial ênfase à crença na unicidade de Deus e recorda como os ouvintes ficaram surpresos quando, durante uma conferência oficial em março de 1969, o cardeal Koenig declarou enfaticamente essa unicidade na famosa mesquita da Universidade Muçulmana de Al-Azhar. Recorda ainda que, em 1967, ao fim do jejum do mês do Ramadã, o Escritório do Vaticano exortou os cristãos a enviarem saudações aos muçulmanos “com sincero sentimento religioso”.

Após esses esforços iniciais para estabelecer relações estreitas entre a Cúria Católica Romana e o Islã, foram tomadas ainda algumas outras medidas, e as relações foram aprofundadas por meio do intercâmbio de opiniões e da comunicação entre ambos. Embora esses acontecimentos fossem extremamente importantes, não receberam muita publicidade. E isso apesar de terem ocorrido no Ocidente, onde não faltam meios de comunicação como jornais, rádio e televisão.

Em 24 de abril de 197, o presidente do Departamento do Vaticano para os Assuntos Não Cristãos, o cardeal Pignedoli, foi à Arábia Saudita em visita oficial e encontrou-se com o rei Faisal. Contudo, essa importante notícia não recebeu qualquer destaque nas páginas dos jornais. O jornal francês Le Monde publicou a notícia em 25 de abril de 1974, de forma extremamente resumida, em apenas algumas linhas. No entanto, ao considerar o que ocorreu naquela reunião, percebe-se quão importante era a notícia. Durante o encontro, o cardeal apresentou ao rei Faisal uma mensagem de Sua Santidade o papa Paulo VI. Na mensagem, Sua Santidade, “inspirado por uma profunda fé na unidade do mundo islâmico e cristão na adoração do Deus único”, expressou “profundo respeito a Sua Majestade o rei Faisal, como líder do mundo islâmico”.

Seis meses depois, em outubro de 1974, uma delegação de eminentes eruditos da Arábia Saudita foi ao Vaticano em visita oficial e encontrou-se com o papa. Na ocasião, realizou-se ali uma reunião de discussão entre cristãos e muçulmanos sobre “os direitos culturais do ser humano no Islã”. Em 26 de outubro de 1974, o jornal do Vaticano, L’Osservatore Romano, publicou em grande destaque, na primeira página, um relato dessa reunião. Na mesma página e no mesmo dia, o relato do encerramento da assembleia dos bispos realizada em Roma foi publicado em tamanho muito menor.

Mais tarde, o Conselho Ecumênico das Igrejas de Genebra e o bispo de Estrasburgo, Sua Graça Elchinger, receberam os eruditos sauditas. O bispo pediu-lhes que realizassem a oração do meio-dia dentro da própria catedral, em sua presença. A notícia foi de fato publicada, mas provavelmente como um acontecimento incomum, e não por causa de seu profundo significado religioso. Aqueles a quem perguntei sobre o assunto disseram que não estavam cientes do significado religioso do acontecimento.

A abertura e a atitude do Papa Paulo VI em relação ao Islã certamente permanecerão como um capítulo importante nas relações entre as duas religiões. Ele próprio disse que estava “inspirado por uma profunda convicção na unidade do mundo islâmico e cristão na adoração de um só Deus”. É necessário reiterar esse sentimento do chefe da Igreja Católica em relação aos muçulmanos. Tendo sido educados num ambiente de hostilidade aberta, muitos cristãos se opõem, por princípio, a qualquer discussão sobre o Islã. O documento do Vaticano expressou pesar por isso. É por essa razão que eles permanecem completamente ignorantes sobre o que o Islã realmente é e continuam mantendo, como antes, ideias totalmente equivocadas sobre o fato de o Islã ser a Palavra divina.

Ainda assim, ao julgar qualquer característica da Palavra divina de uma religião monoteísta, é necessário compará-la com as características correspondentes das outras duas religiões. Uma consideração abrangente de qualquer questão é certamente melhor do que uma consideração unilateral. Por isso, este livro apresentará uma análise comparativa de alguns temas descritos nas Escrituras divinas das três religiões e, em contraposição, exporá os dados descobertos pela ciência do século XX. Nesse contexto, é necessário compreender que, devido à estreita relação entre elas, surgiu agora uma necessidade especial de as três religiões se unirem. Isso porque as três religiões estão igualmente enfrentando o ataque do materialismo. A ideia de que a religião não tem qualquer harmonia com a ciência é amplamente difundida, tanto nos países influenciados pelo judaísmo e pelo cristianismo quanto nos países islâmicos, especialmente nos círculos científicos. Para examinar essa questão de forma abrangente, seria necessária uma longa discussão.

Neste livro, quero apresentar apenas um aspecto da questão. Isto é, quero examinar as Escrituras divinas das três religiões à luz do conhecimento baseado na ciência moderna.

Antes, porém, de iniciar esse trabalho, é necessário levantar uma questão fundamental: até que ponto a forma atual da Palavra divina é original e autêntica? A resposta

a essa pergunta exige que se examine cuidadosamente o ambiente e as circunstâncias em que essa Palavra foi registrada, bem como os métodos pelos quais ela chegou até nós e foi transmitida.

No Ocidente, o exame e a investigação das Escrituras divinas começaram apenas recentemente. Durante centenas de anos, as pessoas aceitaram a Bíblia, o Antigo Testamento e o Novo Testamento, tal como os haviam recebido. Depois disso, nada fizeram além de apoiá-la. Isso porque consideravam pecado até mesmo a menor crítica. Os sacerdotes tinham a vantagem de ter lido a Bíblia inteira e de estar informados sobre ela. Mas a maioria das pessoas comuns apenas ia à igreja e ouvia a leitura de trechos.

No nível dos especialistas, o exame crítico do texto original levou à descoberta e à divulgação de problemas graves. Como resultado, muitas vezes é decepcionante ler certas críticas assim chamadas. Pois se constata que, ao se deparar com um problema real na interpretação do original, o crítico citou alguma frase ou passagem que deixa claramente evidente que ele tentou ocultar o verdadeiro problema. Nessa situação, quando se aplicam um julgamento objetivo e um pensamento racional, verifica-se que a improbabilidade e a contradição continuam presentes como antes. Entretanto, não faltam esforços para afirmar que tais frases ou passagens da Bíblia estão corretas.

Esse esforço pode tornar-se bastante prejudicial à fé de pessoas ponderadas e racionais em Deus. A experiência, contudo, mostra que, embora algumas pessoas consigam identificar essas improbabilidades e contradições, a maioria dos cristãos não aplica a razão nem o bom senso às questões religiosas.

Alguns hadiths da religião islâmica podem ser comparados aos Evangelhos. A compilação dos relatos das palavras e ações de Hazrat Muhammad (S.) é chamada de hadith. O Evangelho não é outra coisa senão os hadiths de Jesus. Alguns hadiths foram escritos muitos anos depois da morte de Hazrat Muhammad (S.). Do mesmo modo, os Evangelhos foram escritos muitos anos depois da morte de Jesus. Em ambos os casos, existem testemunhos humanos acerca dos acontecimentos passados. Há, contudo, uma diferença no caso dos Evangelhos. Veremos que os autores dos quatro Evangelhos canônicos não foram testemunhas oculares dos acontecimentos que narraram. O mesmo se aplica a alguns dos hadiths mencionados na parte final deste livro.

Entretanto, a semelhança termina aqui. Pois a autenticidade de alguns hadiths já foi discutida e continua sendo discutida. No caso da maioria dos Evangelhos, porém, uma decisão definitiva foi tomada logo nos primórdios da história da Igreja. Nessa decisão, somente quatro Evangelhos foram declarados canônicos, isto é, oficiais. Embora houvesse divergências entre esses quatro em muitos assuntos, isso não constituiu obstáculo à adoção da decisão. Depois dela, foi emitida uma ordem para ocultar todos os Evangelhos restantes. Por isso, foram chamados de “apócrifos”, isto é, não autênticos.

Outra diferença fundamental entre as escrituras cristãs e islâmicas é esta: o cristianismo não possui nenhum livro revelado e escrito. O Alcorão do Islã é tanto revelado quanto escrito.

O Alcorão é a Palavra revelada por Deus a Hazrat Muhammad (S.) por intermédio do anjo Gabriel. Logo após ser revelada, essa Palavra foi escrita; os muçulmanos a memorizaram e a recitam nas orações, especialmente nas orações do mês de Ramadã. O próprio Muhammad (S.) dividiu e organizou essa Palavra em diferentes suratas e, logo após sua morte (num período de 12 a 24 anos), ela foi compilada na forma de um livro durante o governo do califa Uthman. O Alcorão que vemos atualmente é essa obra compilada. [Na realidade, há aqui uma pequena imprecisão factual. Após a batalha de Yamama, ocorrida no ano 12 da Hégira (633 d.C.), o Alcorão Sagrado foi compilado em forma de livro por ordem do califa Abu Bakr (R.A.). Durante seu governo, Uthman (R.A.) mandou fazer muitas cópias dessa compilação e as enviou para várias regiões — tradutor.]

Por outro lado, as escrituras cristãs são uma compilação de relatos indiretos de várias pessoas. Elas não contêm o relato de nenhuma pessoa que tenha visto com os próprios olhos os acontecimentos da vida de Jesus. Muitos cristãos, contudo, acreditam nisso. A questão da autenticidade das escrituras cristãs e islâmicas foi decidida dessa maneira.

A questão de confrontar os relatos das escrituras reveladas com os dados científicos sempre proporcionou matéria para reflexão.

Em certa época, presumia-se que, para aceitar uma escritura revelada como verdadeira, era necessário que ela estivesse de acordo com os dados científicos. Santo Agostinho estabeleceu formalmente esse princípio em sua Carta 82. Mais adiante, citaremos essa carta. Com o progresso das descobertas científicas, porém, tornou-se claro que existem divergências entre a Bíblia e a ciência. Então decidiu-se que tal comparação não seria mais feita. Criou-se assim uma situação que nos obriga hoje a admitir que a Bíblia e a ciência são contraditórias entre si. Naturalmente, não podemos aceitar como Palavra revelada algo cujo relato seja incorreto e falso. Há apenas uma maneira de resolver essa incompatibilidade: não aceitar como verdadeiro o trecho que contém uma afirmação contrária aos dados científicos. Mas essa solução não foi adotada. Em vez disso, declarou-se enfaticamente que a própria Bíblia é verdadeira. Consequentemente, os especialistas do clero adotaram uma posição que de modo algum é aceitável para os cientistas.

Mantendo-se fiel ao princípio enunciado por Santo Agostinho acerca da Bíblia, o Islã sempre sustentou que os relatos do Alcorão estão em completa harmonia com os dados científicos. Recentemente, a revelação do Islã foi examinada minuciosamente. Mas não se constatou necessidade alguma de alterar esse princípio. Mais adiante veremos que o Alcorão contém relatos sobre muitos assuntos relacionados à ciência. A Bíblia também os contém, mas o número de assuntos não é tão grande. Esses poucos assuntos da Bíblia contradizem os dados científicos. Em contrapartida, a maioria dos assuntos tratados no Alcorão está de acordo com os dados científicos. Sob esse aspecto, não é possível fazer qualquer comparação entre os dois livros. Nossa pesquisa revelou esta verdade fundamental: nenhum dado do Alcorão pode ser rejeitado do ponto de vista científico. Contudo, na parte final deste livro veremos que isso não se aplica aos hadiths. Como já foi dito, o hadith é uma compilação dos relatos das palavras e ações do Profeta Muhammad (S.) e é algo completamente diferente da revelação do Alcorão. Alguns relatos dos hadiths não são aceitáveis do ponto de vista científico. Para determinar sua autenticidade, o próprio Alcorão estabeleceu o princípio de aplicar dados científicos e a razão; foi com base nesse princípio que esses hadiths foram examinados.

É necessário explicar um pouco mais a questão de quais descrições dos livros celestiais são aceitáveis ou inaceitáveis do ponto de vista científico. Antes de tudo, é preciso enfatizar que, ao falar aqui de dados científicos, refiro-me apenas àqueles que foram correta e precisamente comprovados e aceitos. Tendo em mente esse princípio, veremos que todas as teorias que outrora eram necessárias para lançar luz sobre determinado assunto ou objeto, mas que, devido ao progresso da pesquisa científica, já não têm a mesma necessidade, foram completamente excluídas da nossa consideração atual. Aqui utilizarei apenas os dados que estão acima de toda discussão e controvérsia. Embora as descobertas científicas só possam fornecer dados incompletos, mesmo esses dados incompletos serão universalmente aceitos, sem qualquer possibilidade de erro.

Como exemplo, pode-se dizer que os cientistas não conseguem sequer indicar uma data aproximada para a chegada do ser humano ao mundo. No entanto, descobriram vestígios da atividade humana que podemos aceitar, sem dúvida alguma, como sendo de dez mil anos antes do nascimento de Jesus. Portanto, não podemos considerar a descrição bíblica sobre esse assunto compatível com os dados científicos. Isso porque as datas e genealogias apresentadas no capítulo da Bíblia chamado Gênesis situam a chegada do ser humano ao mundo — isto é, a criação de Adão — aproximadamente trinta e sete séculos antes do nascimento de Jesus. Talvez a ciência possa nos fornecer no futuro informações ainda mais precisas e exatas do que os nossos cálculos atuais. Mas temos certeza de uma coisa: a ciência jamais nos dirá que o ser humano chegou ao mundo pela primeira vez há 4.376 anos. O calendário hebraico de 1975 afirma exatamente isso. Assim, fica evidente que as informações da Bíblia sobre a chegada do ser humano ao mundo estão completamente erradas.

Todos os assuntos propriamente religiosos foram excluídos desta comparação com a ciência. Por exemplo, a ciência não oferece qualquer explicação sobre como ou por que processo Allah se revelou a Moisés. O mesmo pode ser dito sobre o mistério do nascimento de Jesus sem um pai biológico. Nenhum livro celestial oferece uma explicação material para essas questões. Neste livro, foram considerados apenas os extraordinários fenômenos naturais descritos nos livros celestiais e para os quais há explicações, maiores ou menores. Tendo isso em mente, algo que facilmente chama a nossa atenção é que o Alcorão contém muitas informações sobre determinado assunto, enquanto os outros dois livros contêm pouquíssimas informações sobre esse mesmo assunto.

Primeiramente, examinei a revelação do Alcorão com espírito completamente imparcial e sem qualquer preconceito, observando a concordância entre as descrições do Alcorão e os dados da ciência moderna. Depois de traduzir o Alcorão, descobri que esse livro menciona diversos fenômenos naturais e objetos. Mas, naquela época, eu não tinha conhecimento detalhado sobre eles. Então, quando comecei a ler e examinar o Alcorão em sua língua árabe original, passei a preparar uma lista de todos esses fenômenos e objetos. Depois de concluir essa lista e examinar as provas e evidências, fui obrigado a admitir que não há no Alcorão nenhuma descrição que possa ser contestada do ponto de vista científico moderno.

Mantendo a mesma atitude imparcial, realizei o mesmo tipo de exame no Antigo Testamento e no Evangelho. No caso do Antigo Testamento, antes mesmo de terminar o primeiro livro, Gênesis, percebi que ele contém descrições completamente contrárias aos dados comprovados pela ciência moderna.

Ao começar a examinar o Evangelho, deparei-me imediatamente com um problema grave. Já na primeira página aparece a genealogia de Jesus. Mas há uma discrepância evidente entre a descrição de Mateus e a de Lucas sobre esse assunto. Outro problema é que a descrição de Lucas sobre a primeira chegada do ser humano ao mundo contradiz completamente os dados científicos modernos.

Contudo, creio que essas discrepâncias, improbabilidades e incoerências não dão qualquer indício de falta de fé em Allah. O que essas discrepâncias indicam é apenas a irresponsabilidade humana. Hoje ninguém pode dizer o que havia no texto original. Da mesma forma, já não é possível dizer como ele foi editado com base na imaginação ou como a revelação foi alterada inadvertidamente. Entretanto, algo que agora facilmente chama a nossa atenção é o seguinte: quando nos tornamos conscientes dessas discrepâncias e contradições da Bíblia, os especialistas ou fingem que não as perceberam, ou tentam apresentar uma explicação inventada por meio de jogos de palavras. Ao discutir os Evangelhos escritos por João e Mateus, apresentarei exemplos dessa astuta rede de palavras dos especialistas. Eles ocultam as improbabilidades e contradições por trás da palavra “problema”. Em geral, conseguem ocultar esse “problema” com sucesso. Por essa razão, muitos cristãos não têm a menor consciência desses graves erros do Antigo Testamento e do Evangelho. Nos primeiros dois capítulos deste livro, o leitor encontrará exemplos específicos dessa situação.

O terceiro capítulo contém um exemplo da aplicação natural da ciência à revelação. Foi possível compreender melhor o significado de alguns versículos do Alcorão mediante a aplicação do conhecimento secular moderno. Embora o significado desses versículos não fosse incompreensível, até então era misterioso. Naturalmente, isso não é motivo para espanto. Pois, no caso do Islã, religião e ciência sempre foram consideradas irmãs. Desde o início, o Islã ordenou o estudo da ciência e, como resultado do cumprimento dessa ordem, o enorme progresso alcançado pela ciência durante a idade de ouro da civilização islâmica também beneficiou especialmente o mundo ocidental antes do Renascimento. O esclarecimento proporcionado pelo conhecimento científico moderno sobre alguns versículos do Alcorão abriu um horizonte ampliado de entendimento e compreensão no confronto mútuo entre a revelação e a ciência. Por falta do conhecimento necessário à interpretação, esses versículos eram anteriormente obscuros e incompreensíveis.

Antigo Testamento: limites gerais

Quem é o autor do Antigo Testamento? Em resposta a essa pergunta, a maioria dos leitores do Antigo Testamento provavelmente dirá aquilo que leu no prefácio da Bíblia. Talvez digam que, embora tenha sido escrito por seres humanos sob a inspiração do Espírito Santo (Jibril), o verdadeiro autor é Allah.

O autor do prefácio da Bíblia às vezes se limita a dizer isso. Assim, não há lugar para qualquer outra pergunta. Outras vezes, ele também afirma que talvez obras humanas tenham sido acrescentadas posteriormente ao texto original. Mas, por causa disso, a “verdade” fundamental de nenhuma passagem controversa foi alterada. E dá-se ênfase especial à palavra “verdade”. As autoridades da Igreja assumem essa responsabilidade. Pois somente elas, com a ajuda do Espírito Santo, podem guiar os cristãos crentes pelo caminho verdadeiro. Depois das reuniões dos concílios cristãos no século IV, foram as autoridades da Igreja que publicaram a lista dos livros sagrados; essa lista foi aprovada pelo Concílio de Florença (1441), pelo Concílio de Trento (1546) e pelo Primeiro Concílio do Vaticano (1870). Esses livros aprovados são atualmente conhecidos como o cânone. Após muitas pesquisas e revisões, o Segundo Concílio do Vaticano publicou recentemente uma declaração extremamente importante sobre a revelação. Esse trabalho exigiu três anos (1962–1965) de dedicação e esforço. A maioria dos leitores se sentiu tranquilizada ao ver essa declaração no início das edições modernas da Bíblia. Depois de ler a descrição das garantias dadas durante os últimos séculos acerca da autenticidade da Bíblia, sentiram-se seguros e satisfeitos. Nem sequer lhes ocorreu que pudesse surgir qualquer pergunta a esse respeito.

Existem muitas obras de sacerdotes que normalmente não são publicadas para o público em geral. Ao lê-las, percebe-se que a questão da autenticidade dos diversos livros da Bíblia é, na realidade, muito mais complexa do que parece à primeira vista. Como exemplo, pode-se mencionar a moderna tradução francesa da Bíblia. Essa tradução foi realizada sob a supervisão da Escola Bíblica de Jerusalém e publicada em vários volumes (editora Cerf, Paris). Ao examiná-la, percebe-se uma diferença clara no estilo de exposição. Fica evidente que, assim como no Novo Testamento, também no Antigo Testamento há algumas questões controversas que os comentaristas, na maioria dos casos, não ocultaram.

Também se encontram informações mais precisas na obra do professor Edmond Jacob. O título dessa obra é O Antigo Testamento (título francês: L’Ancien Testament; editora Presses Universitaires de France, Paris). Essa obra, breve e de natureza muito imparcial, apresenta uma excelente perspectiva analítica.

Edmond Jacob afirmou que muitos não sabem que, originalmente, não havia apenas uma Bíblia, mas várias, e que seus textos também eram diferentes. No século III antes do nascimento de Cristo, havia em hebraico pelo menos três livros distintos. O primeiro passou mais tarde a ser chamado de massorético; o segundo foi parcialmente traduzido para o grego; e o terceiro ficou conhecido como o livro samaritano. No século I antes do nascimento de Cristo, surgiu uma tendência clara de introduzir um único livro com base nesse terceiro livro e em substituição a ele. Mas essa tendência só se concretizou um século depois do nascimento de Cristo; foi então que um único texto da Bíblia foi devidamente estabelecido.

Se tivéssemos esses três textos, seria fácil compará-los e poderíamos chegar a uma ideia sobre o que era o texto original ou primitivo. Mas, infelizmente, não temos essa oportunidade. Assim, a situação é a seguinte: além dos Manuscritos do Mar Morto encontrados nas cavernas de Qumran — escritos do período pré-cristão próximo à época de Jesus —, dos Dez Mandamentos do século II depois do nascimento de Cristo, escritos em folhas de árvore e contendo uma versão diferente do texto original, e de alguns escritos fragmentários do século V depois do nascimento de Cristo (a Geniza do Cairo), o mais antigo texto hebraico da Bíblia que se conhece é posterior ao nascimento de Cristo.

A Septuaginta foi provavelmente a primeira tradução para o grego. No século III antes do nascimento de Cristo, os judeus elaboraram essa obra em Alexandria. Foi com base nessa obra que o Novo Testamento foi elaborado. Até o século VII depois do nascimento de Cristo, essa obra era considerada autêntica. O texto grego original geralmente em circulação no mundo cristão foi compilado a partir dos manuscritos chamados Codex Vaticanus, conservado na Cidade do Vaticano, e Codex Sinaiticus, conservado no Museu Britânico de Londres. Esses dois manuscritos datam do século IV depois do nascimento de Cristo.

Neste contexto, também podem ser mencionadas as versões aramaica e siríaca (Peshitta). Contudo, elas são incompletas.

A partir de todas essas versões diferentes, os especialistas conseguiram preparar uma obra “intermediária”. Ela pode ser considerada um compromisso entre as diversas versões. Além disso, existem Bíblias bilíngues e trilíngues, nas quais foram utilizadas as línguas grega, latina, hebraica, siríaca, aramaica e até árabe. A famosa Bíblia de Walton (Londres, 1657) é uma obra desse tipo. Para considerar todos os aspectos, é necessário mencionar ainda outro ponto. As igrejas cristãs de diferentes correntes não seguem a mesma obra, nem adotam a mesma orientação ao traduzir para uma determinada língua. Isso ocorre porque diferentes Bíblias sustentam diferentes concepções e influenciaram diferentes grupos eclesiásticos. Entretanto, a obra que atualmente diversos especialistas católicos e protestantes estão preparando sob o título A Tradução Ecumênica do Antigo Testamento pode ser considerada uma obra única e harmonizada. (Nota do tradutor inglês: foi publicada em dezembro de 1975. Editoras: Le Éditions du Cerf e Le Bazaar et Le Mazès, Paris.)

Assim, vê-se que a intervenção humana desempenha um papel enorme no caso do Antigo Testamento. Pelas alterações e correções que naturalmente ocorreram de uma versão para outra e de uma tradução para outra, pode-se facilmente deduzir que, ao longo de mais de dois mil anos, o texto original do Antigo Testamento foi modificado de várias maneiras.

A origem da Bíblia

Antes de ser compilada em forma de livro, a Bíblia circulava de boca em boca entre as pessoas como tradição popular e também era transmitida como canções entoadas com melodia. Como todas as concepções antigas, essa tradição popular dependia inteiramente da memória.

Edmond Jacob escreveu: “Na primeira fase, todos os povos cantaram. Assim como em outros lugares, também em Israel a poesia veio antes da prosa. Ali, cantou-se durante muito tempo e cantou-se bem. O povo de Israel cantava, com profunda emoção, canções de alegria e de tristeza sobre os acontecimentos de sua história. Aos seus olhos, cada acontecimento tinha um significado. Por isso, expressavam-no também de diferentes formas por meio das canções. Cantavam por diversas razões, e Edmond Jacob mencionou muitas delas. A Bíblia também faz referência a muitas canções: canções de banquete, canções da colheita, canções de trabalho, canções do poço (Livro dos Números 21 e 17), canções de casamento e canções de lamento. Há também muitas canções de guerra, entre as quais se destaca especialmente a canção de Débora (Juízes 5, 1-32). Isso porque essa canção celebra a vitória ordenada e conduzida pelo próprio Yahweh (Livro dos Números 10 e 35): ‘Quando as forças aliadas avançaram, Moisés disse: Ó Yahweh! Desperta! Que teus inimigos sejam dispersos, e que aqueles que te odeiam fujam ao ver-te.’”

Há também exortações e provérbios (o Livro dos Provérbios, os provérbios dos livros históricos e máximas), bênçãos e maldições, e as instruções dos profetas para o povo depois de receberem a revelação.

Jacob disse que todas essas palavras e histórias foram transmitidas de família em família ou divulgadas por meio de instituições religiosas como relatos da história do povo escolhido por Alá. Depois, a história rapidamente se transformou em tradição, como ocorreu com a parábola de Jotão (Juízes 9, 7-12). Nessa parábola, “as árvores avançaram para escolher um rei entre si e ungi-lo, e então fizeram um pedido, sucessivamente, à oliveira, à figueira, à videira e à árvore de salgueiro”. Sobre esse relato, Jacob observou: “No entusiasmo de contar boas histórias, os narradores não se preocuparam com assuntos desconhecidos ou com a improbabilidade de certas épocas.” Por isso, chegou à seguinte conclusão: “A partir dos relatos sobre Moisés e os chefes no Antigo Testamento, talvez seja possível obter uma cronologia aproximada dos acontecimentos históricos. Ao narrar os relatos fundamentais, os contadores de histórias, com a ajuda do encanto e da imaginação, talvez tenham feito com que até mesmo muitos pensadores conscientes considerassem relativamente críveis as histórias primitivas sobre a criação do ser humano e do mundo.”

Há razões plausíveis para acreditar que, quando os judeus se estabeleceram em Canaã, no final do século XIII antes do nascimento de Cristo, começou o uso da escrita para preservar e transmitir as tradições. Contudo, não havia precisão completa na redação e preservação da lei, assunto do qual se esperava então a maior durabilidade. Com efeito, os Dez Mandamentos, que se considera terem sido escritos pela própria mão de Alá, aparecem de duas formas diferentes em dois lugares do Antigo Testamento — Jodas (20, 1-21) e Deuteronômio (5, 1-30). Talvez a mensagem principal esteja correta, mas as diferenças no uso das palavras, no estilo de expressão e nas expressões idiomáticas são muito evidentes. Naquela época, havia grande interesse em manter por escrito cartas, tratados, listas dos nomes de pessoas importantes (juízes e altos funcionários municipais), genealogias e listas de despojos e bens oferecidos como tributo. Foram criados arquivos para preservar todos esses documentos. Mais tarde, livros foram escritos com base nesses documentos, e alguns deles chegaram até nós. Um exame minucioso revela que, em cada livro, foram utilizados vários tipos de composição e estilos de expressão. Parece que as obras de diferentes autores foram incluídas num mesmo livro. Especialistas e pesquisadores talvez possam esclarecer essa questão.

Embora o Antigo Testamento se baseie originalmente em tradições fundamentais, há incoerência na narrativa. Uma parte não tem relação com a outra. Portanto, o processo de composição desta obra pode ser comparado ao processo original de criação da literatura antiga de outros tempos e lugares.

Como exemplo, pode-se considerar o processo da literatura francesa durante a dinastia franca. As guerras, especialmente as guerras para defender a religião cristã, o heroísmo e a bravura dos grandes heróis e os relatos de outros acontecimentos emocionantes ainda eram preservados nessas tradições orais. Mesmo vários séculos depois dos acontecimentos, essas tradições inspiraram poetas, escritores e historiadores. Assim, a partir do século XI, começaram a ser compostos poemas e epopeias com base nessas narrativas que misturavam realidade e imaginação. Entre elas, a mais famosa é A Canção de Rolando. Quando o imperador Carlos Magno retornou da campanha na Espanha, Rolando (La Chanson de Roland) era o comandante de sua retaguarda. Essa epopeia narra sua vida, seu heroísmo e seu sacrifício. O episódio do sacrifício não é de modo algum imaginário. Ele ocorreu em 15 de agosto de 778, durante o ataque da tribo montanhesa dos bascos. Portanto, não se estaria disposto a aceitar a descrição da epopeia como história pura.

Parece que o processo de composição da Bíblia também se realizou exatamente dessa maneira. Aqueles que não reconhecem a existência de Alá consideram a Bíblia inteira uma compilação de lendas e narrativas fictícias. Mas não concordamos com eles. É perfeitamente possível acreditar na realidade da criação, na revelação dos Dez Mandamentos por Alá a Moisés e em acontecimentos de intervenção invisível nos assuntos humanos, como no tempo de Salomão. Mas isso não significa que nossa crença precise ser absoluta. Podemos certamente admitir que aquilo que recebemos por meio da Bíblia é apenas um resumo dos acontecimentos originais e que todos os relatos detalhados precisam ser submetidos a uma crítica e a um exame rigorosos. Pois, quando as tradições orais originais adquiriram forma escrita, havia grande possibilidade de que a imaginação e os embelezamentos humanos fossem incorporados a elas.

Os diversos livros do Antigo Testamento

O Antigo Testamento é uma compilação de obras de diferentes extensões, formas e tipos. Com base em tradições orais, elas foram escritas em várias línguas ao longo de mais de novecentos anos. Depois, em diferentes épocas, com longos intervalos, muitas dessas obras foram revisadas e completadas com base em algum acontecimento ou por alguma necessidade especial.

Essa vasta produção provavelmente foi escrita no início do reinado da dinastia israelita, no século XI antes do nascimento de Cristo. Naquele período, muitos membros da família real eram escritores. Eram sábios e eruditos, e seu papel não se limitava apenas à escrita. A primeira das obras incompletas mencionadas no capítulo anterior provavelmente foi composta nessa época. Havia também uma razão especial para dar-lhes forma escrita. Naquele tempo, dava-se grande importância à preservação de muitos cânticos, poemas épicos, exortações de Jacó e Moisés, os Dez Mandamentos e decretos reais que estabeleciam práticas religiosas. Hoje, é possível encontrar esses elementos nos diversos livros do Antigo Testamento. Algum tempo depois, provavelmente no século X antes do nascimento de Cristo, foi composta a obra Yahvista do Pentateuco. Como nessa obra Alá é chamado de Javé, ela recebeu esse nome. Essa obra é a fonte principal dos cinco primeiros livros atribuídos a Moisés. Mais tarde, foram acrescentadas a ela a obra chamada Eloísta e sua versão Sacerdotal. A obra é chamada Eloísta porque chama Alá de Eloim. Sua versão é conhecida como Sacerdotal segundo o nome dos pregadores chamados sacerdotes do templo de Jerusalém. Essa obra Yahvista primitiva, encontrada no reino meridional de Judá, descreve a história desde os primórdios do mundo até a morte de Jacó.

Já no século VIII antes de Cristo surgiram os profetas escritores. Sabe-se de dois profetas escritores em Israel, chamados Amós e Oseias, e de um em Judá, chamado Miqueias.

Com a queda de Samaria em 721 a.C., o reino de Israel deixou de existir, e a tradição religiosa passou para as mãos do reino de Judá. A preservação das lendas religiosas começou a partir desse período. Foi também nessa época que os escritos javista e eloísta foram reunidos e transformados em uma única obra, denominada Torá. O Deuteronômio também foi escrito nesse período.

Na segunda metade do século VII a.C., durante o reinado de Josias, surgiu o profeta Jeremias; contudo, o relato de suas palavras e de suas obras só adquiriu forma escrita um século mais tarde.

Antes do primeiro exílio na Babilônia, em 589 a.C., foram escritos os livros de Sofonias, Naum e Habacuque. Depois desse período, Ezequiel continuou a proclamar suas profecias. O segundo exílio começou em 587 a.C., por ocasião da queda de Jerusalém, e prosseguiu até 538 a.C.

Ezequiel foi um profeta famoso. Entretanto, o seu livro não estava organizado, durante sua vida, na forma em que atualmente é encontrado. Após sua morte, os escribas que o organizaram dessa maneira foram considerados seus califas espirituais. Esses escribas prepararam a terceira versão do Gênesis, conhecida como versão sacerdotal. Essa versão contém, em um capítulo do Gênesis, o relato do período que vai desde os primórdios da Terra até a morte de Jacó. Assim, uma terceira composição foi incluída no texto original dos escritos javista e eloísta da Torá. Mais tarde, veremos uma característica estratégica dessa terceira composição em alguns livros escritos dois a quatro séculos antes. Foi também nessa época que Lamentações foi publicado.

Em 538 a.C., por ordem de Ciro, chegou ao fim o exílio. Os judeus retornaram à Palestina, e o templo de Jerusalém foi reconstruído. Consequentemente, o trabalho dos profetas e pregadores foi retomado. Nessa época foram compostos os livros de Ageu, Zacarias, Malaquias e Daniel, o terceiro livro de Isaías e o livro de Baruc em grego.

Na realidade, os principais livros religiosos foram escritos no período posterior ao exílio. Por volta de 480 a.C. foram escritos os Provérbios; no século V, Jó; e no século III, Eclesiastes ou Coelet, Cântico dos Cânticos, os dois livros das Crônicas, Esdras e Neemias. Do mesmo modo, no século II a.C. foi escrito o Eclesiástico ou Sirácida, e no século I foram escritos o Livro da Sabedoria e os dois livros dos Macabeus. Contudo, não é fácil determinar quando foram escritos os livros de Rute, Ester e Jonas. O mesmo se pode dizer dos livros da Torá e de Judite. Como os escritos do Antigo Testamento só foram organizados em forma de livro um século antes do nascimento de Cristo, deve-se considerar que as obras correspondentes podem ter sofrido alterações e acréscimos depois das datas aqui mencionadas. Isso porque, durante o século anterior ao nascimento de Cristo, a maioria dessas obras ainda não havia adquirido uma forma exata ou definida.

Assim, desde os primórdios até o surgimento do cristianismo, os judeus consideraram o Antigo Testamento seu monumento religioso e literário. Os diversos volumes, capítulos e seções dessa obra foram escritos, concluídos e revisados entre o século X e o século I a.C. Essa não é uma opinião pessoal minha. Recolhi essas informações e o relato da pesquisa histórica de uma obra confiável e universalmente reconhecida. Trata-se do artigo intitulado “A Bíblia”, da Encyclopaedia Universalis (Paris, 1974, volume III, páginas 246–253), escrito pelo professor J. P. Samdrol, da Faculdade Dominicana de Saulchoir. Essas informações foram consideradas verdadeiras e corretas por especialistas da mais alta qualificação. Portanto, é necessário ter esses dados em mente para compreender e apreender o conteúdo do Antigo Testamento.

Há razões para acreditar que havia revelação misturada aos escritos do Antigo Testamento. Contudo, considerando o estado em que agora recebemos essa obra, há motivos para duvidar de que essa revelação ainda permaneça nela. Pois já vimos que o relato original foi alterado muitas vezes e que muitos escritores intervieram. Assim, pode-se facilmente concluir que eles conservaram apenas aquilo que, de acordo com seu próprio ambiente, suas circunstâncias e suas preferências, consideraram bom, e que somente essa parte chegou até nós.

Quando essas informações objetivas são comparadas com as descrições apresentadas nas introduções das várias versões da Bíblia atualmente divulgadas, percebe-se que os fatos e a verdade originais foram apresentados de maneira completamente diferente. Manteve-se silêncio absoluto sobre toda a história relacionada à composição dos diversos livros. Os temas que, por serem ambíguos, poderiam causar confusão foram deixados exatamente como estavam. Para criar a falsa ideia de que o falso é verdadeiro, as informações foram reduzidas ao mínimo. Assim, na maioria das introduções da Bíblia, a verdade e a realidade foram ocultadas, apresentando-se um quadro diferente. Nos casos dos livros que foram modificados várias vezes, como o Pentateuco, em vez de dizer isso diretamente, afirma-se apenas que alguns detalhes foram acrescentados posteriormente; porém, justamente onde seria necessária uma longa explicação, manteve-se silêncio até mesmo sobre questões de extrema importância. É realmente lamentável que a Bíblia, impressa e divulgada em grande número para o público, contenha informações desse tipo, errôneas e incorretas.

A Torá ou o Pentateuco

O nome Torá, isto é, Torah, é semítico. Em grego, chama-se Pentateuco, ou seja, uma obra concluída em cinco volumes. Os cinco volumes são Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio. O conteúdo principal da coleção dos vinte e nove volumes do Antigo Testamento é constituído por estes cinco.

Esta obra contém o relato do período que vai desde o início da criação do mundo até a entrada dos judeus em Canaã. Pode-se recordar que, depois do exílio dos judeus no Egito e, mais precisamente, após a morte de Moisés, lhes havia sido prometida a entrega daquela terra. Do início ao fim da obra, juntamente com a descrição de diversos acontecimentos, também são apresentadas várias leis para a vida religiosa e social dos judeus. Por essa razão, esta obra também é chamada de Lei ou Torá (Torah).

No judaísmo e no cristianismo, Moisés foi reconhecido durante muitos séculos como o autor da Torá. A base dessa concepção provavelmente está no fato de que Allah disse a Moisés: “Escreve este acontecimento (a derrota de Amaleque) no livro como memorial.” (Êxodo 17:14). Ou, no relato da saída dos judeus do Egito, conforme está escrito: “Moisés registrou os nomes dos lugares de onde partiram.” (Números 33:2), e “Moisés escreveu esta lei.” (Deuteronômio 31:9). Desde o primeiro século antes de Cristo, Moisés é considerado o autor da Torá. Flávio Josefo e Fílon de Alexandria sustentaram a mesma concepção.

Atualmente, porém, essa concepção foi completamente abandonada, e todos chegaram a um consenso sobre o assunto. Ainda assim, o Novo Testamento volta a descrever Moisés como o autor. Na carta aos Romanos (10:5), citando o Levítico, Paulo disse: “Moisés escreveu que a pessoa que pratica o bem conforme está prescrito na lei”, e assim por diante. Em seu Evangelho (5:46–47), João colocou estas palavras na boca de Jesus: “Se tivésseis acreditado em Moisés, acreditaríeis também em mim, pois ele escreveu a meu respeito. Mas, se não acreditais nos escritos dele, como acreditareis nas minhas palavras?” Aqui se encontram indícios de edição, isto é, de alterações na tradução e na expressão do sentido. Pois, no texto original em grego, foi usada a palavra “episteuete”, ou seja, a afirmação foi feita como citação de Jesus. Entretanto, aqui é apresentado como se ele próprio tivesse dito isso. Isso está completamente errado. É assim que explico o motivo.

Tomei do padre de Vaux, diretor da Escola Bíblica de Jerusalém, a estrutura e o exemplo desta explicação. Na introdução à tradução francesa de Gênesis que ele fez em 1962, apresentou uma valiosa e racional introdução ao Pentateuco. Ele não aceitou a identificação feita pelos evangelistas de Moisés como autor da Torá; ao contrário, afirmou o oposto. Ele nos lembrou que “o costume judaico seguido por Jesus e seus companheiros” era aceito até o final da Idade Média. O único que se opôs vigorosamente a essa doutrina foi Ibn Ezra, do século XII. Depois, no século XVI, Karlstadt observou que provavelmente não era possível que Moisés tivesse escrito no Deuteronômio (34:5–12) o relato da própria morte. Ele também citou os escritos de alguns críticos que se recusavam a admitir que, ainda que não toda a Torá, pelo menos parte dela fosse obra de Moisés. Contudo, o papel do padre Richard Simon, do Oratório, foi provavelmente o mais importante nesse assunto. Em seu livro intitulado “História Crítica do Antigo Testamento” (Histoire critique du Vieux Testament, 1678), ele expôs detalhadamente as incoerências na sequência dos acontecimentos da Torá, as muitas repetições de um mesmo tema, a falta de coerência da narrativa e as diferenças de estilo de composição. Após a publicação dessa obra, criou-se por toda parte uma situação vergonhosa. Mas, no início do século XVIII, a linha de argumentação de Richard Simon já não era seguida de modo significativo em nenhuma obra histórica. Naquela época, em relação aos acontecimentos antigos, dizia-se simplesmente: “Moisés escreveu”. Pouco antes, vimos que o próprio Jesus, no Novo Testamento, confirmou que Moisés havia escrito a Torá. Assim, uma antiga lenda tornou-se ainda mais forte. Nessas circunstâncias, pode-se facilmente imaginar quão difícil era contestá-la. Contudo, o médico de Luís XV, Jean Astruc, provavelmente apresentou o argumento mais poderoso.

Em 1753, foi publicada sua obra intitulada “Conjecturas sobre os escritos originais que parecem ter sido usados por Moisés para compor o livro de Gênesis” (Conjectures sur les mémoires originaux dont il paraît que Moïse s’est servi pour composer le livre de la Genèse). Nela, ele demonstrou detalhadamente que o Pentateuco, ou Torá, é um conjunto de escritos reunidos de muitas fontes. Talvez muitos antes dele já tivessem percebido isso, mas ele foi o primeiro a ter coragem de divulgar essa ideia publicamente. Citando exemplos, mostrou que há duas narrativas lado a lado no Gênesis: em uma, Allah é chamado de Yahweh; na outra, de Elohim. Portanto, essas duas narrativas não podem jamais ter uma única fonte. Eichhorn (1780–1783) descobriu informações do mesmo tipo também no caso dos outros quatro livros. Depois, Ilgen (1798) observou que a narrativa descrita por Astruc, na qual Allah é chamado de Elohim, está na realidade dividida em duas partes. Com isso, a base do Pentateuco foi literalmente despedaçada.

No século XIX, foram realizadas investigações mais abrangentes sobre as fontes. Em 1854, foram reconhecidas ao todo quatro fontes. São elas: a versão Yahvista, a versão Eloísta, o Deuteronômio e a versão Sacerdotal. Foi possível até mesmo determinar o período em que foram compostas:

(1) Considera-se que a versão Yahvista pertence ao século IX a.C. (escrita em Judá).

(2) A versão Eloísta provavelmente é de um período um pouco posterior (escrita em Israel).

(3) Quanto ao Deuteronômio, alguns consideram que é do século VIII a.C. (E. Jacob), enquanto outros o situam na época de Josias (Padre de Vaux).

(4) A versão Sacerdotal pertence ao período do exílio no século VI a.C. ou a um período posterior.

Assim, vê-se que o período de composição dos escritos do Pentateuco se estende por pelo menos três séculos. Mas o problema é, na realidade, ainda mais complexo. Em 1941, A. Lods constatou que a versão Yahvista contém três fontes. Da mesma forma, a versão Eloísta contém quatro, o Deuteronômio, seis, e a versão Sacerdotal, nove fontes. E isso sem levar em conta a observação do Padre de Vaux de que foram incorporadas obras de oito autores diferentes. Mais recentemente, considera-se que a maioria das leis ou prescrições do Pentateuco pode ser encontrada em outros lugares, fora da Bíblia, e que elas pertencem a períodos ainda mais antigos. Além disso, supõe-se que os documentos do Pentateuco, isto é, os escritos, tenham surgido em determinada época e contexto, enquanto as histórias neles narradas pertencem, na realidade, a épocas muito anteriores e a contextos diferentes. Por isso, surgiu o interesse em saber como as lendas foram criadas. Em outras palavras, o problema tornou-se tão complexo que é difícil encontrar-lhe o começo e o fim.

Devido à existência de muitas fontes, surgiram tanto diferenças quanto repetições. O Padre de Vaux mostrou, por meio de exemplos, que há diferenças e incoerências entre os diversos relatos sobre o dilúvio, o rapto de José e suas atividades no Egito. Além disso, a mesma pessoa é designada por nomes diferentes, e são apresentados relatos contraditórios de acontecimentos importantes.

Assim, embora o Pentateuco seja uma coleção de diversas fontes e lendas, os autores conseguiram, de modo geral, reuni-las e compilá-las com habilidade. Às vezes, colocaram dois relatos lado a lado; outras vezes, misturaram dois relatos e os apresentaram como um único relato. Apesar disso, as improbabilidades e as contradições permaneceram. Por isso, a era moderna sentiu a necessidade de examinar profunda e objetivamente as próprias fontes originais.

Examinando a composição original do Pentateuco ou da Torá, pode-se facilmente reconhecer que ela é obra de mãos humanas. Este livro foi formado com base em relatos orais, lendas e escritos preservados de geração em geração, provenientes de diferentes períodos da história do povo judeu. A narrativa começa com uma tradição yahvista do início do século X a.C., na qual é descrito o destino próprio de Israel. Esse destino é, nas palavras do Padre de Vaux, “o retorno ao lugar que lhe corresponde no grande plano de Deus para a humanidade”. E termina, no século VI a.C., com uma tradição sacerdotal, na qual as datas e as genealogias são mencionadas com absoluta precisão. No capítulo seguinte veremos que, diante dos dados científicos modernos, são inteiramente erradas as descrições contidas na tradição sacerdotal sobre a chegada do ser humano ao mundo, sua posição na evolução do tempo e o curso da criação. Evidentemente, isso resultou de se ter escrito sobre o texto original.

O Padre de Vaux escreveu: “Nas narrativas dessa tradição, a questão da legitimidade jurídica ocupa o lugar predominante. Por exemplo, o descanso no domingo após a conclusão da criação, a aliança com Noé, a aliança e a circuncisão de Abraão, e a compra da caverna de Macpela, pela qual os sacerdotes adquiriram terras em Canaã.” É preciso lembrar que o período dessa tradição vai do exílio na Babilônia ao retorno à Palestina, em 538 a.C. Portanto, aqui a questão política se misturou inteiramente à questão religiosa.

No caso de Gênesis, já foi estabelecido e reconhecido que o conteúdo do livro foi reunido a partir de três fontes. Em sua análise crítica da tradução, o Padre de Vaux apresentou uma lista indicando com base em qual fonte foi escrito cada parágrafo de Gênesis. Com base nessa evidência, pode-se determinar com bastante precisão quanto do conteúdo de cada fonte existe em cada capítulo. Como exemplo, pode-se dizer que, nos onze primeiros capítulos de Gênesis, a descrição da criação, do dilúvio e do período que vai do dilúvio até a época de Abraão mostra que uma parte foi tomada da tradição yahvista e a parte seguinte, da tradição sacerdotal. Essa situação se mantém do início ao fim de toda a narrativa. Esses onze primeiros capítulos não contêm nenhum material da tradição eloísta. Contudo, é bastante claro que os relatos yahvista e sacerdotal foram misturados entre si. Nos cinco primeiros capítulos, na descrição da criação e dos acontecimentos até a época de Noé, vê-se que, do início ao fim, um parágrafo yahvista é seguido por um parágrafo sacerdotal, dispostos sucessivamente. No relato do dilúvio, especialmente nos capítulos sétimo e oitavo, essa disposição foi feita com frequência ainda maior; isto é, um pequeno parágrafo de um relato foi colocado depois de um pequeno parágrafo do outro relato, e essa disposição é perceptível até mesmo no nível das frases. Em certo ponto, verifica-se que, em um total de cem linhas, o relato foi mudado desse modo dezessete vezes. É por isso que, quando lemos Gênesis, a improbabilidade e as contradições internas se tornam claramente evidentes. A tabela abaixo é relevante a esse respeito.

Fim dos relatos yahvista e sacerdotal nos capítulos 1 a 11 de Gênesis.

* O primeiro número é o número do capítulo.

* O segundo número entre parênteses é o número da coluna. Como às vezes as colunas foram divididas em duas partes, elas são indicadas por a e b.

* “ই” indica o relato yahvista, e “স” indica o relato sacerdotal.

* Exemplo — a primeira linha da tabela mostra que o conteúdo desde a coluna 1 do capítulo 1 até a coluna 4-a do capítulo 2 da Bíblia atualmente em uso foi tomado do relato sacerdotal.

Capítulo — coluna de — capítulo — coluna — fonte

1 — (1) — 2 (4-a) — S

2 — (4-b) — 4 — (26) — I

5 — (1) — 5 — (32) — S

6 — (1) — 6 — (8) — I

6 — (9) — 6 — (22) — S

7 — (1) — 7 — (5) — I

7 — (6) — — — S

7 — (7) — 7 — (10) — I

7 — (11) — – — – — S

7 — (12) — – — – — I

7 — (13) — 7 — (16-a) — S

7 — (16-b) — 7 — (17) — I

7 — (18) — 7 — (21) — S

7 — (22) — 7 — (23) — I

7 — (24) — 8 — (2-a) — S

8 — (2-b) — – — – — I

8 — (3) — 8 — (4) — S

8 — (6) — 8 — (12) — I

8 — (13-a) — – — – — S

8 — (13-b) — – — – — I

8 — (14) — 8 — (19) — S

8 — (20) — 8 — (22) — I

9 — (1) — 9 — (17) — S

9 — (18) — 9 — (27) — I

9 — (28) — 10 — (7) — S

10 — (8) — 10 — (19) — I

10 — (20) — 10 — (23) — S

10 — (24) — 10 — (30) — I

10 — (31) — 10 — (32) — S

11 — (1) — 11 — (9) — I

11 — (10) — 11 — (32) — S

Pode-se compreender muito facilmente, pelo quadro, como o ser humano organizou a Bíblia com as próprias mãos.

Livros históricos

Nestes livros encontramos a história do povo judeu. Essa história se estende desde o momento de sua entrada na terra prometida até o momento de seu exílio na Babilônia. Muito provavelmente, eles entraram na terra prometida na parte final do século XIII e foram exilados na Babilônia no século VI a.C.

Aqui se enfatizou o que é chamado de “acontecimento nacional”, e o acontecimento foi apresentado como o cumprimento da promessa de Allah. Na narrativa, contudo, a verdade e a precisão históricas foram ignoradas. Tendo isso em mente, E. Jacob afirmou que, no caso da suposta destruição de Ai e Jericó, o tema central do Livro dos Juízes (Book of Judges) é a defesa do povo eleito contra os inimigos circundantes e o apoio de Allah a esse povo. Father e A. Lefèvre Crampont disseram, com grande objetividade, no prefácio da Bíblia, que este livro foi alterado várias vezes. A prova disso encontra-se na inclusão de numerosos prefácios e vários apêndices no livro original. A história de Rute também foi acrescentada à narrativa original.

O Livro de Samuel, o Livro de Samuel e os dois livros dos Reis (Book of Kings) são essencialmente obras biográficas sobre Samuel, Saul, Davi e Salomão. Há espaço para debate quanto ao seu valor histórico. Em sua avaliação histórica, Jacob encontrou numerosos erros nesses livros, pois há vários relatos contraditórios sobre o mesmo acontecimento. Também se encontram nesses livros relatos sobre os profetas Elias, Eliseu e Isaías. Ou seja, a história misturou-se com a lenda. Outros críticos, como Father Lefabare, contudo, consideram que esses livros têm “originalidade de valor histórico”.

Os Livros das Crônicas Um e Dois (Chronicles One and Two) e o Livro de Uzair (Book of Nehemiah) foram escritos no século IV a.C. pelo mesmo autor, chamado Waqea Nabish (o cronista). Ele descreveu a história da criação até aquela época, embora na genealogia que forneceu só se encontre o registro até Davi. Na realidade, porém, ele tomou as informações do Livro de Samuel. E. Jacob disse: “Ele copiou literalmente, sem prestar atenção às inconsistências.” Contudo, forneceu algumas informações novas que foram consideradas corretas pelas evidências arqueológicas. E. Jacob disse: “Às vezes, o autor escreveu a história de acordo com as necessidades da religião. Embora o rei Manassés fosse idólatra e tirânico, reinou por longo tempo em paz e prosperidade. Para explicar esse acontecimento, ele afirmou que o rei se converteu durante sua permanência por algum tempo na Assíria (Crônicas Dois, 33:11). Entretanto, não há menção a esse acontecimento em nenhum livro bíblico ou extrabíblico.” Os livros de Uzair e Neemias também foram alvo de severas críticas. Disse-se que os dois livros estão cheios de assuntos obscuros e incompreensíveis. O período cujos acontecimentos são narrados neles — o século IV a.C. — não é bem conhecido, e também não existem muitos documentos extrabíblicos desse período.

O Livro de Tobias (Book of Tobit), o Livro de Judite (Book of Judith) e o Livro de Ester (Book of Esther) também são considerados livros históricos. Contudo, nesses livros a história foi extremamente desonrada. Os nomes de pessoas e lugares foram alterados em nome da religião, e personagens e acontecimentos foram criados. Na realidade, são histórias fictícias, de caráter edificante, que misturam falsidades históricas e improbabilidades.

O Livro dos Macabeus (Book of Maccabees), por sua vez, é de um tipo um pouco diferente. Os acontecimentos narrados nesses livros pertencem ao século II a.C. Este é o relato mais preciso dos acontecimentos desse período. Por isso, esses livros são muito importantes.

Assim, vê-se que os livros classificados sob o nome de históricos não têm qualquer semelhança entre si. Em alguns livros, a história foi de fato narrada corretamente, mas em outros foi narrada de maneira arbitrária.

Os livros dos profetas

Sob este título, encontramos relatos dos ensinamentos daqueles profetas que, no Antigo Testamento, foram classificados separadamente dos grandes profetas, como Moisés, Samuel, Elias e Eliseu. Os ensinamentos desses grandes profetas encontram-se em outros livros.

Os livros dos profetas contêm relatos de acontecimentos ocorridos do século VIII ao século II antes de Cristo.

No século VIII antes de Cristo, encontram-se os livros dos profetas Amós, Oseias, Isaías e Miqueias. O livro do profeta Amós é famoso por sua condenação da injustiça social. Oseias é conhecido por sua perversão religiosa. Por ter sido obrigado a casar-se com uma serva, isto é, uma prostituta sagrada de uma comunidade adoradora da natureza, ele adoeceu e sofreu dores físicas. Ao explicar esse acontecimento, diz-se que, assim como Allah sofre quando as pessoas são pecadoras, mas ainda assim as ama, o mesmo ocorreu nesse caso. Isaías foi uma figura da história política. Reis e soberanos aceitavam seus conselhos e agiam de acordo com eles. Ele vivia com extrema pompa. Além de suas próprias atividades de pregação, seus discípulos publicaram até o século III antes de Cristo as respostas que ele dera a diversas questões. Seus ensinamentos incluem protestos contra a injustiça e o temor do julgamento de Allah. Ele também descreveu a libertação dos judeus após sua saída do Egito e seu retorno à Palestina. No caso do Segundo e do Terceiro Isaías, é quase tão claro quanto a luz do dia que suas atividades proféticas tinham objetivos políticos. Os ensinamentos de Miqueias, contemporâneo de Isaías, eram mais ou menos do mesmo tipo.

No século VII antes de Cristo, Sofonias, Jeremias, Naum e Habacuque ganharam fama por suas atividades de pregação religiosa. Jeremias foi martirizado, e Baruc reuniu e compilou seus ensinamentos e suas palavras. Baruc provavelmente também é o autor de Lamentações.

No início do século VI antes de Cristo, durante o exílio dos judeus na Babilônia, a atividade dos profetas aumentou de modo especial. Entre eles, o papel de Ezequiel foi o mais importante. Ele consolava seus correligionários e lhes anunciava mensagens de esperança. O livro de Obadias descreve a miséria e a desolação de Jerusalém conquistada.

Após o fim do exílio, em 538 antes de Cristo, começaram as atividades dos profetas Ageu e Zacarias. Eles solicitaram a reconstrução do templo. Depois que essa reconstrução foi concluída, foram publicados alguns escritos em nome de Malaquias. Esses escritos eram essencialmente explicações e análises de temas espirituais.

Embora não haja no Antigo Testamento nenhum texto significativo sobre ele, não se encontra nenhuma razão plausível para explicar como o Livro de Jonas foi incluído entre os livros dos profetas. O principal ensinamento encontrado no Livro de Jonas é a necessidade de se submeter à vontade de Allah.

O Livro de Daniel foi escrito em três línguas: hebraico, grego e aramaico. Os críticos cristãos consideram que, sob uma perspectiva histórica, embora o livro contenha boas-novas, elas são desordenadas e contraditórias. Esse livro provavelmente pertence ao período macabeu do século II a.C. E. Jacob considera que, ao dizer que o dia da salvação estava muito próximo, o autor quis preservar a fé de seus compatriotas.

Livros de poesia e sabedoria

Nos livros classificados sob esse título encontram-se provas de uma harmonia literária incontestável.

Entre eles, os mais excelentes são os Salmos, que também constituem os maiores exemplos da poesia hebraica. A maioria dos salmos foi composta por Davi. Os restantes são obras de vários sacerdotes. O tema desses cânticos, usados na oração e na adoração, é o louvor, a meditação, a veneração e a súplica.

O Livro de Jó (Hazrat Ayyub), escrito entre 400 e 500 a.C., é uma obra excelente em sabedoria e conteúdo.

O livro intitulado Lamentações, escrito após a queda de Jerusalém, no início do século VI a.C., provavelmente foi escrito por Jeremias.

Além disso, é necessário mencionar novamente os nomes de alguns livros. Cântico dos Cânticos é uma coletânea de cânticos metafóricos sobre o amor divino; o Livro dos Provérbios é uma coletânea das palavras de Salomão e de outros sábios de sua corte; e Eclesiastes, ou Coelet, é uma coletânea de escritos sobre a essência dos prazeres mundanos e da sabedoria.

Assim, verifica-se que foi elaborado um único livro, reunindo, combinando e misturando aquilo que diferentes autores escreveram sobre diversos assuntos, utilizando diferentes fontes, ao longo de pelo menos sete séculos. Nessas condições, como pode uma parte deste livro complementar a outra, e como ele pôde ser considerado completo e autossuficiente durante séculos? Mas, mais importante ainda: com que fundamento este livro é considerado pelos judeus e cristãos um livro de revelação? É verdade que existem algumas divergências a esse respeito entre certas comunidades, mas não há uma oposição muito acentuada quanto à questão principal. Como expressava a ideia de coisas invisíveis, este livro era chamado em grego de “cânon”.

A coleta desses escritos, porém, não começou na era cristã, mas na era judaica. E o trabalho inicial provavelmente começou já no século VII a.C. Na primeira etapa, algumas obras foram selecionadas para essa compilação. As obras restantes foram acrescentadas posteriormente. É digno de nota, contudo, que os cinco livros incluídos na Torá ou Pentateuco sempre receberam o lugar de destaque. Depois que as declarações dos profetas — previsões de punições correspondentes às más condutas — se concretizaram, nada mais impediu que os relatos de seus ensinamentos fossem incluídos na obra principal. O mesmo se aplicava às suas mensagens de esperança. No século II a.C., o “cânon” dos profetas já havia adquirido uma forma definida.

Por serem utilizadas no culto, outras obras, como os Salmos (cânticos de oração), foram integradas a obras como Lamentações, o Livro da Sabedoria e o Livro de Jó.

Em sua fase inicial, o cristianismo estava mesclado ao judaísmo. Mais adiante veremos que autores modernos e eruditos, como o cardeal Daniélou, realizaram extensas pesquisas sobre esse assunto. Antes de assumir uma nova forma sob a influência de São Paulo, o cristianismo aceitava sem hesitação a herança do Antigo Testamento. Os autores dos Evangelhos seguiam rigorosamente a tradição do Antigo Testamento. Mais tarde, embora os Evangelhos tenham sido revisados com a rejeição dos apócrifos (lendas religiosas), o Antigo Testamento não sofreu praticamente nenhuma revisão. Quase tudo foi mantido.

Antes do fim da Idade Média, pelo menos nos países ocidentais, ninguém tinha coragem de objetar contra essa compilação tão diversificada. Ninguém. Do fim da Idade Média até o início da era moderna, viu-se um ou outro crítico levantar a voz, mas as autoridades da Igreja sempre os silenciaram. Atualmente, é claro, não faltam obras críticas; contudo, embora os especialistas religiosos tenham realizado pesquisas profundas sobre muitos assuntos, abstiveram-se de aprofundar, em suas palavras, as questões “inconvenientes”. Nem sequer se mostraram interessados em examiná-las à luz do conhecimento moderno. Onde havia semelhança entre os relatos bíblicos e os dados históricos, empenharam-se bastante em demonstrar e estabelecer essa semelhança, mas mantiveram-se cuidadosamente afastados de comparar os relatos bíblicos com os dados científicos modernos. Pois perceberam que, se tal comparação fosse feita, as pessoas comuns expressariam dúvidas sobre a autenticidade das escrituras judaicas e cristãs e levantariam questionamentos. Entretanto, essas escrituras permaneceram, durante todo esse tempo, acima de qualquer dúvida e de qualquer questionamento.

O Antigo Testamento e a ciência: alguns fatos comprovados

Há no Antigo Testamento e nos Evangelhos alguns pontos que contradizem os dados obtidos pelo conhecimento moderno. Quando essa contradição ocorre com a ciência, verifica-se que os assuntos são de grande importância.

Já vimos que a Bíblia contém muitas informações historicamente incorretas. Também citamos alguns desses erros apontados por especialistas judeus e cristãos. Por razões bastante naturais, eles minimizaram esses erros. Pois lhes pareceu natural que os autores religiosos apresentassem os dados históricos de acordo com sua religião e escrevessem a história justamente para atender às necessidades da religião. Mais adiante veremos que, no Evangelho escrito por Mateus (Matthew), a verdade foi igualmente distorcida e que foi dada uma explicação do mesmo tipo para tornar essa distorção aceitável como verdade. Mas nenhuma das partes pode aceitar esse procedimento.

Quando se considera a questão com base na lógica, encontram-se muitas contradições e improbabilidades. Se diferentes autores utilizaram diferentes fontes ao escrever o relato de um acontecimento, é perfeitamente natural que o mesmo acontecimento seja descrito de maneiras diferentes. Mas essa não é a única razão, e alguns especialistas demonstraram claramente que o mesmo acontecimento foi submetido a múltiplas versões, que foram feitas adições posteriores ao relato original e que primeiro se escreveu uma explicação e depois se preparou o relato original para ela. Como exemplo, no caso da Torá, pode-se dizer que o padre de Vaux mencionou muitas dessas incoerências e contradições na introdução à sua tradução do Gênesis (págs. 13–14). Mais adiante apresentaremos alguns exemplos. Contudo, depois de ler o relato original, se o leitor concluir que o conteúdo lido não é de modo algum digno de crédito, provavelmente não se poderá culpá-lo muito. Por enquanto, apresentaremos alguns exemplos:

No Gênesis (6:3), afirma-se que, imediatamente antes do Dilúvio, Alá decidiu que a duração da vida humana ficaria daí em diante limitada a cento e vinte anos: “A sua vida será de cento e vinte anos.” Mas, mais adiante, no próprio Gênesis (11:11; 10:32), vê-se novamente que a vida dos dez descendentes de Noé variou de 148 a 600 anos (veja, na lista acrescentada posteriormente, a idade dos dez descendentes de Noé até Abraão). A contradição entre os dois relatos é muito clara. Mas qual é a razão disso? A razão é que o primeiro relato (Gênesis 6:3) foi retirado de uma obra javista do século X a.C., enquanto o segundo relato (Gênesis 11:10–32) foi retirado da versão sacerdotal do século VI a.C. Essa versão é a principal fonte da genealogia. É verdade que, nessa genealogia, a vida de cada profeta foi expressa por um número específico, mas, quando se considera o conjunto, a questão parece impossível.

É justamente neste Gênesis que encontramos o exemplo mais notável de incompatibilidade com a ciência moderna. Essa incompatibilidade existe nos três importantes temas seguintes:

(1) A criação do mundo e suas diversas etapas.

(2) A data da criação do mundo e a data da chegada do ser humano ao mundo.

(3) O relato do Dilúvio.

Agora discutiremos sucessivamente esses três temas.

A criação do mundo

O padre de Vaux observou que, “logo no início do Gênesis, há dois relatos consecutivos sobre a criação do mundo”. Agora examinaremos, um após o outro, se esses dois relatos são compatíveis com os dados científicos modernos.

O primeiro relato

Esse primeiro relato encontra-se no primeiro capítulo do Gênesis e no primeiro versículo do segundo capítulo. Quando julgado do ponto de vista científico, torna-se facilmente evidente que em nenhum outro lugar se encontra tal concentração de erros e falsidades. Portanto, é necessário examinar cada parágrafo separadamente. A citação apresentada aqui foi retirada da Revised Standard Version da Bíblia (Revised Standard Version; publicada por W. M. Collins and Sons em nome da British and Foreign Bible Society, 1952).

Capítulo primeiro, versículos 1–2:

“No princípio, Deus criou os céus e a terra. A terra era sem forma e vazia, e havia trevas sobre a face do abismo; e o Espírito de Deus pairava sobre as águas.”

É possível admitir que aquilo que hoje chamamos de universo estivesse mergulhado em trevas antes da criação do mundo. Mas mencionar que naquela época existia água é mera fantasia. Mais adiante veremos que há fortes indícios da existência de gás ou fumaça nos estágios iniciais da formação do universo. Afirmar que havia água ali é totalmente errado.

Versículos 3–5:

“Então Deus disse: Haja luz; e houve luz. E Deus viu que a luz era boa; e Deus separou a luz das trevas. E houve tarde e manhã, o primeiro dia.”

A luz que se propaga no firmamento é o resultado da complexa interação entre as estrelas. Mais adiante, discutiremos este assunto em detalhes. Segundo a própria Bíblia, nesta etapa da criação as estrelas ainda não haviam sido formadas. Na verdade, antes do versículo 14, as “luzes” sequer são mencionadas. É nesse versículo que se fala da criação da luz no quarto dia — “para separar o dia da noite” e “para iluminar a terra”. Essa descrição está correta. Mas, quando a causa da luz só foi criada três dias depois, mencionar a luz no primeiro dia é absurdo. Além disso, a menção da tarde e da manhã já no primeiro dia da criação também é fruto da imaginação; pois a ideia de tarde e manhã só poderia ser concebida depois que a Terra tivesse sido criada e completasse uma rotação sobre si mesma à luz de seu próprio astro, o Sol.

Versículos 6-8:

“Depois, Deus disse: Haja um firmamento no meio das águas, e que ele separe as águas em duas partes. Deus fez o firmamento e separou as águas que estavam abaixo do firmamento das águas que estavam acima do firmamento. E assim aconteceu. Depois, Deus chamou ao firmamento céu. E houve tarde e manhã: o segundo dia.”

Aqui também aparece essa história da água, e afirma-se que o céu dividiu a água em duas partes. Foi justamente por causa dessa divisão que, ao descrever o dilúvio, foi possível dizer que as águas de cima atravessaram o céu e caíram sobre a Terra.

Mas a ideia de que a água tenha sido dividida dessa maneira em duas partes não é aceitável por razões científicas.

Versículos 9-13:

“Depois, Deus disse: Que todas as águas abaixo do céu se reúnam num só lugar, e que apareça a terra seca; e assim aconteceu. Então Deus chamou à terra seca terra, e às águas reunidas chamou mares; e Deus viu que isso era bom. Depois, Deus disse: Que a terra produza relva, ervas que deem sementes e árvores frutíferas que produzam frutos segundo as suas espécies, contendo sementes, sobre a terra; e assim aconteceu. A terra produziu relva, ervas que dão sementes segundo as suas espécies e árvores que produzem frutos com sementes segundo as suas espécies; e Deus viu que tudo isso era bom. E houve tarde e manhã: o terceiro dia.”

A ideia de que, enquanto a Terra permanecia submersa, a terra firme foi surgindo gradualmente é cientificamente aceitável. Mas a ideia de que, antes da criação do Sol, tenha surgido um sistema organizado de trepadeiras, arbustos e árvores, bem como um processo de reprodução por meio de sementes, não pode ser de modo algum considerada racional; e, pela mesma razão, também não é aceitável a evolução do sistema de alternância entre dia e noite. É importante observar que, segundo o próprio Gênesis, o Sol não foi criado antes do quarto dia.

Versículos 14–19:

“Então Deus disse: Haja luminares no firmamento do céu para separar o dia da noite; e sejam eles para sinais, para estações, para dias e anos, e sirvam de luzeiros no firmamento do céu para iluminar a terra; e assim aconteceu. Deus fez os dois grandes luminares: o maior para governar o dia e o menor para governar a noite; fez também as estrelas. Deus os colocou no firmamento do céu para iluminar a terra, para governar o dia e a noite e para separar a luz das trevas; e Deus viu que isso era bom. E houve tarde e manhã, o quarto dia.”

Embora essa descrição seja, em termos gerais, aceitável, há nela uma grande incoerência. Sabemos que a Terra e a Lua foram formadas a partir de partes fragmentadas de seu astro de origem, o Sol. Portanto, a ideia de que o Sol e a Lua foram criados depois da formação da Terra contradiz completamente a opinião universalmente reconhecida e amplamente aceita sobre a formação do sistema solar.

Versículos 20–23:

“Então Deus disse: Que as águas se encham de seres vivos de toda espécie, e que as aves voem acima da terra, sob o firmamento do céu. Deus criou, assim, os grandes animais marinhos e todos os seres vivos de toda espécie que se movem e povoam as águas, e todas as aves de toda espécie. Deus viu que isso era bom. Deus os abençoou, dizendo: Sede fecundos, multiplicai-vos e enchei as águas dos mares; e que as aves se multipliquem sobre a terra. E houve tarde e manhã, o quinto dia.” Nesse parágrafo há algumas afirmações que não são aceitáveis. Diz-se que o mundo animal começou com o surgimento dos seres marinhos e das aves aladas. E isso teria ocorrido no quinto dia. Mas no versículo seguinte afirma-se que o mundo animal começou na terra no dia seguinte, isto é, no sexto dia. Dentro de pouco citaremos o versículo relativo ao sexto dia. É correto que a vida começou no mar e que, a partir dali, os seres vivos se espalharam pela terra; contudo, trataremos desse assunto mais adiante. Por enquanto, queremos limitar-nos ao conteúdo do versículo. Considera-se que os animais terrestres, especialmente as aves, tenham surgido de uma espécie de répteis da segunda era. Essa hipótese é considerada possível devido a certas características físicas semelhantes entre as duas espécies. Na Bíblia, porém, afirma-se que o surgimento da vida terrestre ocorreu no sexto dia, depois do surgimento das aves. Portanto, essa sequência, segundo a qual outros seres terrestres surgiram depois das aves, não pode ser aceita.

Versículos 24–31:

“E Deus disse: Que a terra produza seres vivos de toda espécie: animais domésticos, répteis e animais selvagens, cada um segundo a sua espécie; e assim aconteceu. Deus fez os animais selvagens segundo a sua espécie, os animais domésticos segundo a sua espécie e todos os répteis terrestres segundo a sua espécie; e Deus viu que isso era bom. Então Deus disse: Façamos o ser humano à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; e que ele domine sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre os animais, sobre toda a terra e sobre todos os répteis que se movem sobre a terra. Deus criou o ser humano à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou. Deus os abençoou e lhes disse: Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e sujeitai-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre todos os seres vivos que se movem sobre a terra. Deus disse ainda: Eis que vos dou todas as plantas que produzem sementes em toda a terra e todas as árvores que dão frutos com sementes; elas vos servirão de alimento. E a todos os animais terrestres, a todas as aves do céu e a todos os seres que se movem sobre a terra, a tudo o que tem vida, dou toda planta verde como alimento; e assim aconteceu. Deus contemplou tudo o que havia feito, e viu que era muito bom. E houve tarde e manhã, o sexto dia.”

A descrição da criação termina aqui. O autor apresentou aqui a lista dos seres vivos que não haviam sido mencionados antes e também descreveu o alimento dos seres humanos e dos animais.

Já mencionamos que foi um erro afirmar que os outros animais surgiram antes das aves. Contudo, foi correto afirmar que os seres humanos surgiram depois dos outros animais. Após o primeiro capítulo da Bíblia, a descrição da criação termina nos três primeiros versículos do segundo capítulo, da seguinte maneira:

Capítulo 2: versículo 13

«Assim foram concluídos os céus e a terra, e todo o conjunto de coisas que neles há. No sétimo dia, Deus cessou a obra que havia feito e descansou de toda a obra que havia realizado. E Deus abençoou o sétimo dia e o santificou, porque nele descansou de toda a obra que havia criado e realizado.» É necessário agora discutir um pouco esse assunto.

De acordo com uma prática de tradução, a palavra hebraica «Shabbath» costuma ser traduzida como «ele descansou». Aqui também foi assim. Mas, na realidade, o relato do descanso de Deus não passa de uma lenda.

O relato citado aqui foi extraído da versão sacerdotal da Bíblia. Essa versão foi escrita no século VI a.C. Contudo, na versão yahvista, escrita vários séculos antes, não há qualquer menção ao descanso de Deus. Aqueles que escreveram sobre o dia de descanso afirmaram, com o objetivo de criar fé e reverência na mente das pessoas comuns, que o próprio Deus havia observado esse dia primeiro. Além disso, descreveram com bastante detalhe e em sequência as obras da criação dos outros seis dias. Mas, ao examiná-las à luz de todas as informações que a ciência descobriu sobre a criação, vê-se que essa sequência não é de modo algum correta; trata-se apenas de uma arbitrariedade.

A ideia de que as etapas sucessivas da criação poderiam ser limitadas ao período de apenas uma semana não é aceitável do ponto de vista científico. Pois hoje sabemos com segurança que a formação dos corpos celestes e da Terra ocorreu sucessivamente ao longo de muitos dias, isto é, durante longos períodos. (Mais adiante examinaremos o relato do Alcorão sobre esse assunto.) Mesmo que o relato da criação termine no relato do sexto dia, sem mencionar o dia de descanso, e que haja a possibilidade de considerar os dias como períodos longos, e não como dias reais ou verdadeiros, à semelhança do relato do Alcorão, o relato bíblico ainda assim não pode ser aceito do ponto de vista científico, devido à impossibilidade da sequência dos acontecimentos. Esse relato é imaginário e inventado. Foi redigido e falsificado não com o objetivo de revelar a verdade, mas com algum outro objetivo.

O segundo relato

Imediatamente após o término do primeiro relato, sem qualquer comentário ou declaração intermediária, começa no Gênesis, isto é, no Livro de Gênesis, o segundo relato da criação. Aqui, naturalmente, não há oportunidade para levantar objeções do mesmo tipo. Contudo, é preciso lembrar que esse relato é mais antigo em outros três séculos e muito breve. Nele, foi dedicado mais tempo à criação do ser humano e do ambiente adequado à sua habitação do que à criação da Terra e dos céus.

Capítulo 2: versículos 4–7

«No dia em que Iavé Deus criou a terra e os céus, ainda não havia na terra nenhuma planta do campo, nem havia brotado qualquer erva do campo. Pois o Senhor Deus ainda não tinha feito chover sobre a terra, e não havia homem para cultivar o solo. Contudo, da terra subia uma inundação que regava toda a superfície do solo. Então Iavé Deus formou o homem do pó da terra e soprou em suas narinas o fôlego da vida; e o homem tornou-se um ser vivente.»

Na Bíblia atual encontra-se esse relato javista. Mais tarde, também foi acrescentado o relato sacerdotal. Contudo, permanece a questão de saber se o relato era originalmente tão breve assim. Ninguém pode afirmar com certeza se, ao longo do tempo, ele foi abreviado e reduzido. Tampouco se pode saber com exatidão se aquilo que hoje se encontra é o relato original.

Esse relato não contém uma descrição detalhada da criação da terra e dos céus. Diz apenas que, quando Deus criou o homem, não havia vegetação na terra (e também não havia chuva), embora a água subisse do solo e umedecesse toda a superfície da terra. Em seguida, afirma-se que, no mesmo momento em que o homem foi criado, «Deus preparou um jardim». Portanto, o homem e as plantas foram criados ao mesmo tempo. Naturalmente, não sabemos quantos milhões de anos transcorreram entre essas duas criações.

De qualquer modo, somente essa objeção pode ser levantada contra esse relato. No relato sacerdotal, afirma-se que a criação do homem e da terra ocorreu na mesma semana, mas o relato javista não diz nada semelhante. Portanto, não há motivo para uma objeção particularmente grave contra esse relato.

A data da criação da terra e do surgimento do homem nela

No calendário judaico elaborado com base nas informações apresentadas no Antigo Testamento, essas duas datas são mencionadas com precisão. Segundo esse cálculo, na segunda metade do ano cristão de 1975 começou o 5.736.º ano da terra. Isto é, em 1975, a idade da terra chegou a 5.736 anos. O homem foi criado alguns dias depois da criação da terra. Portanto, a idade do homem também seria a mesma.

Parece necessário fazer uma pequena correção a esse respeito. Antigamente, o tempo era calculado com base no ano lunar, mas atualmente, no mundo ocidental, ele é calculado com base no ano solar. Essa correção é necessária para tornar o cálculo preciso; contudo, se ela não for feita, a diferença será de apenas três por cento. Portanto, para simplificar o cálculo, estamos ignorando essa diferença. Se um cálculo de mil anos variar trinta anos para mais ou para menos, nossa ideia principal provavelmente não estará muito errada. Assim, com base no cálculo hebraico, podemos dizer com razoável precisão que a terra foi criada aproximadamente trinta e sete séculos antes do nascimento de Cristo.

Mas o que diz a ciência moderna sobre este assunto? É difícil dar uma resposta direta a essa pergunta. Contudo, podem ser encontradas algumas informações sobre a formação do sistema solar. Também é possível chegar a um cálculo razoável a esse respeito. Considera-se que se passaram quatro bilhões e quinhentos milhões de anos desde a formação do sistema solar até o presente. Portanto, a diferença entre esse cálculo universalmente reconhecido e o cálculo apresentado no Antigo Testamento pode ser facilmente determinada. Discutiremos esse assunto em detalhes mais adiante. Antes disso, lançaremos alguma luz sobre o método para obter cálculos a partir da Bíblia.

Esse cálculo pode ser obtido mediante um exame atento da narrativa bíblica. No Gênesis, ou Livro de Gênesis, encontram-se informações precisas sobre quanto tempo se passou de Adão até Abraão. Contudo, no estágio seguinte, isto é, sobre o período entre Abraão e o início do cristianismo, as informações disponíveis são insuficientes. Portanto, são necessárias outras informações para complementá-las.

De Adão a Abraão

Nos capítulos 4, 5, 11, 21 e 25 do Gênesis, ou Livro de Gênesis, é apresentada uma genealogia precisa de todos os antepassados de Abraão até Adão. Também são indicados a duração da vida de cada um e a idade do pai no momento do nascimento do filho. Assim, pode-se determinar facilmente quantos anos depois da criação de Adão cada pessoa nasceu ou morreu. As informações utilizadas na lista abaixo foram extraídas da versão sacerdotal do Gênesis, e somente a Bíblia contém essas informações. Esse cálculo mostra que Abraão nasceu 1.948 anos depois de Adão.

Genealogia de Abraão

—- Data de nascimento após a criação de Adão — Longevidade — Data de morte após a criação de Adão

1) Adão — – 930 — 930

Sete — 130 — 912 — 1042

Enos — 235 — 905 — 1140

Quenã — 325 — 910 — 1235

Mahalalel — 395 — 895 — 1290

Jarede — 460 — 962 — 1422

Enoque — 622 — 365 — 987

Matusalém — 687 — 969 — 1656

Lameque — 874 — 777 — 1651

10) Noé — 1056 — 950 — 2006

 Sem — 1556 — 600 — 2156

 Arfaxade — 1658 — 438 — 2096

 Selá — 1693 — 433 — 2122

 Éber — 1723 — 464 — 2187

 Pelegue — 1757 — 239 — 1996

 Reú — 1787 — 239 — 2026

 Serugue — 1819 — 230 — 2049

 Naor — 1849 — 148 — 1997

Terá — 1878 — 205 — 2983

20) Abraão — 1948 — 175 — 2123

De Abraão a Jesus

A Bíblia não fornece nenhum dado numérico para esse período. Portanto, para determinar o tempo entre Abraão e Jesus, teremos de procurar outras fontes. Atualmente, considera-se, de modo aproximado, que a época de Abraão ocorreu dezoito séculos antes de Jesus. Com base no cálculo do período entre Abraão e Adão encontrado no Gênesis, verifica-se que Adão foi, aproximadamente, um homem de trinta e oito séculos antes de Jesus. Esse cálculo está evidentemente errado, e esse erro provém do cálculo bíblico do período entre Adão e Abraão. Apesar disso, o calendário judaico ainda está baseado nesse cálculo. Com base na discrepância entre os cálculos aproximados dos sacerdotes judeus do século VI a.C. e os dados modernos, podemos facilmente confrontar os guardiões tradicionais da verdade bíblica. Contudo, durante muitos séculos, foi precisamente com base nesse cálculo que se determinou a época dos acontecimentos antigos da vida de Jesus.

Antes do início da era moderna, cada edição da Bíblia trazia uma introdução. Nela, explicava-se a sequência dos acontecimentos desde a criação do mundo até o momento da edição daquela versão. Também havia consideráveis variações de tempo entre as diferentes versões. Por exemplo, na edição Clementina da Vulgata, de 1621, considerou-se que a época de Abraão era ainda mais antiga e afirmou-se que a criação do mundo ocorreu aproximadamente no quadragésimo século a.C. Por outro lado, na Bíblia de Walton, escrita em várias línguas no século XVII, o período dos antepassados de Abraão foi apresentado de forma semelhante à genealogia descrita aqui. Quase todos os cálculos coincidem com essa genealogia. Os editores da Bíblia da era moderna, porém, deixaram de apresentar esse cálculo e essa introdução. Eles compreenderam que as descobertas científicas modernas haviam estabelecido que a criação do mundo ocorreu muito antes; portanto, aquele cálculo antigo já não seria aceitável para ninguém. Deveriam também ter dito claramente aos leitores que a narrativa bíblica se tornara obsoleta e não continha a verdade original. Mas não disseram isso. Pelo contrário, por meio de jogos de palavras, criaram uma cobertura misteriosa, fazendo com que a narrativa bíblica, tal como está, pudesse ser aceita em toda parte sem qualquer alteração.

Por essa razão, a genealogia apresentada na versão sacerdotal ainda é aceita, embora, neste século XX, esse cálculo baseado em uma história fantasiosa não possa de modo algum ser considerado aceitável. Com base nos dados obtidos pelas descobertas científicas modernas, não é possível determinar uma data exata para o aparecimento do ser humano no mundo. Pode-se obter apenas alguma indicação. No entanto, podemos presumir com quase certeza que o ser humano surgiu algum tempo depois da criação da Terra. Pode-se mencionar que existem, ou podem ter existido, outros animais com a mesma forma que a do ser humano. Mas são a capacidade de agir e a inteligência que distinguem o ser humano deles. Com base nos ossos humanos mais antigos descobertos até agora, pode-se supor que o ser humano surgiu há milhões de anos.

A base dessa suposição é a mais recente descoberta de ossos humanos da era pré-histórica. Segundo os especialistas, esse ser humano é denominado homem de Cro-Magnon. É verdade que ossos muito antigos de criaturas com a mesma forma que a do ser humano também foram descobertos em várias partes do mundo, e eles são evidentemente de épocas ainda mais remotas. Mas há margem para dúvida quanto a saber se esses são realmente ossos humanos.

Entretanto, não há dúvida de que os dados científicos indicam uma época muito anterior àquela mencionada no Gênesis para o aparecimento do ser humano. Assim, fica evidente que há uma clara diferença e contradição entre a Bíblia e a ciência moderna.

O Dilúvio e a inundação

Os capítulos 6, 7 e 8 do Gênesis contêm um relato do Dilúvio. Na realidade, são dois relatos, mas, em vez de serem apresentados lado a lado, foram combinados e apresentados como um único relato; essa combinação foi feita de tal maneira que, quanto à sequência e à coesão, parece natural considerá-lo aparentemente um único relato. Há contradições claras entre si nesses três capítulos. A razão é a mesma: o conteúdo foi extraído de duas fontes. Uma é a versão javista, e a outra, a versão sacerdotal.

Parágrafos ou frases dos relatos dessas duas versões foram colocados alternadamente, de tal modo que, nas aproximadamente cem linhas da tradução inglesa, podem ser identificadas pelo menos dezessete mudanças de fonte.

De qualquer modo, o relato é aproximadamente o seguinte: como a depravação humana se tornara ilimitada, Allah decidiu destruí-la juntamente com os outros seres vivos. Ele advertiu Noé e ordenou-lhe que construísse uma arca. Nessa arca, ordenou-lhe que levasse Noé, sua esposa, seus três filhos e as esposas deles, juntamente com os outros seres vivos. A partir desse ponto, aparecem diferenças entre os dois relatos. Um relato (o sacerdotal) diz que foi ordenado a Noé levar um casal de animais de cada espécie. Mas, no parágrafo imediatamente seguinte (o javista), diz-se que Noé deveria levar sete machos e sete fêmeas de cada espécie dos chamados animais “puros”, e um macho e uma fêmea de cada espécie dos animais “impuros”. Mais tarde, porém, afirma-se que Noé levou consigo apenas um casal de animais de cada espécie. Especialistas como o Padre de Vaux consideram que esse parágrafo é uma forma corrompida do relato javista.

No parágrafo javista, afirma-se que a inundação ocorreu em consequência da chuva. Já no parágrafo sacerdotal, fala-se da chuva e das águas que subiram do solo.

Toda a terra, até mesmo o topo das montanhas, ficou submersa. Todos os seres vivos morreram. Depois de um ano, quando as águas baixaram, a arca encalhou no monte Ararat, e Noé desembarcou.

É digno de nota que também há divergência quanto à duração do Dilúvio. No relato javista, afirma-se que durou quarenta dias, enquanto no relato sacerdotal consta que durou cento e cinquenta dias.

O relato javista nada diz sobre em que período da vida de Noé ocorreu o Dilúvio. Mas o relato sacerdotal afirma que Noé tinha então seiscentos anos. Esse relato também apresenta a genealogia de Noé, mostrando sua relação com Adão e Abraão. Com base nas informações fornecidas no Gênesis, calculando-se, verifica-se que Noé nasceu 1.056 anos depois de Adão (ver “Genealogia”). Portanto, o Dilúvio ocorreu 1.656 anos depois da criação de Adão. Quanto à relação com Abraão, o Gênesis afirma que o Dilúvio ocorreu 292 anos antes do nascimento dele.

Segundo o Gênesis, como consequência do dilúvio, toda a humanidade e todos os demais seres vivos da Terra foram destruídos. Mais tarde, os três filhos de Noé e suas esposas povoaram novamente o mundo. Ou seja, a humanidade foi reconstruída. Portanto, quando Abraão nasceu, cerca de três séculos depois, a humanidade já havia sido reconstruída em diversas comunidades. Mas como essa reconstrução teria sido possível em tão pouco tempo? Somente essa pergunta já elimina a possibilidade de veracidade desse relato.

Além disso, esse relato não é compatível com o conhecimento histórico moderno. Considera-se que Abraão nasceu entre 1800 e 1875 a.C. Contudo, se o dilúvio tivesse ocorrido trezentos anos antes dele, seu nascimento teria ocorrido entre os séculos XXI e XXII a.C.

O conhecimento histórico moderno revela que, naquela época, a civilização se desenvolvia em várias regiões do mundo, e seus vestígios ainda podem ser vistos.

No caso do Egito, essa antiga civilização pertence ao período anterior ao Império Médio (2100 a.C.). Esse período corresponde aproximadamente ao Primeiro Período Intermediário, anterior à XI dinastia. Na Babilônia, era então o período da III dinastia de Ur. Sabemos com certeza que não houve qualquer interrupção no curso dessa civilização e que toda a humanidade não foi destruída. Contudo, é exatamente isso que a Bíblia afirma.

Portanto, não podemos aceitar que haja verdade nesses três relatos da Bíblia. Se julgarmos a questão imparcialmente, não teremos outra opção senão reconhecer que o texto bíblico que hoje temos diante de nós não tem qualquer relação com a realidade. Nessa situação, devemos perguntar a nós mesmos se é de fato possível que, na revelação de Allah, tenha sido enviado algo além da verdade. É igualmente impossível imaginar que aquilo que Allah comunicou aos seres humanos não seja apenas irreal, mas também contraditório. Assim, chegamos naturalmente à conclusão de que o texto original da Bíblia foi corrompido e que essa corrupção foi obra humana. Ela ocorreu quando o texto foi transmitido oralmente de uma geração para outra ou, depois de escrito, ao ser copiado ou editado. Quando se sabe que, em cerca de trezentos anos, uma obra como o Gênesis foi editada e revisada pelo menos duas vezes, talvez não seja estranho que esse Livro contenha elementos irreais e improváveis. Naturalmente, hoje percebemos essas irrealidades e improbabilidades porque, graças à pesquisa e à investigação modernas, estamos conseguindo conhecer pelo menos uma parte da verdade, ainda que não completamente, e temos a oportunidade de compará-la com os relatos antigos. Não há outra explicação razoável, e provavelmente não pode haver, além de responsabilizar os seres humanos pelos erros da Bíblia. O surpreendente, porém, é que a maioria dos comentaristas judeus e cristãos não quer aceitar esse argumento. Eles têm seus próprios argumentos e opiniões a esse respeito. É necessário examiná-los cuidadosamente.

As opiniões dos comentaristas cristãos sobre os erros da Bíblia

É de causar espanto examinar as diversas declarações e explicações dos comentaristas cristãos sobre os erros, improbabilidades e contradições encontrados na Bíblia à luz dos dados científicos. Alguns comentaristas reconhecem certos erros e tentam resolver alguns problemas complexos. Outros, evitando os erros, apoiam as afirmações do texto original. Talvez esperem que, espalhando uma névoa de argumentos irracionais, as pessoas esqueçam facilmente aquilo que não é racionalmente aceitável.

O padre de Vaux reconheceu, na introdução à sua tradução do Gênesis, a existência de declarações controversas desse tipo, mas, em vez de explicar sua invalidade, explicou sua validade. Entretanto, ele não demonstrou interesse em reconstruir os acontecimentos antigos de forma racional. Segundo ele, não tem importância própria o fato de que a memória de uma ou duas terríveis inundações no vale do Tigre e do Eufrates tenha, ao longo do tempo, sido transmitida oralmente e adquirido a forma de um dilúvio universal, sendo assim registrada na Bíblia. O verdadeiro significado desse acontecimento é a justiça de Allah diante da hostilidade dos seres humanos e Sua misericórdia para com os justos. O autor bíblico desse acontecimento destacou belamente esse significado.

Assim, foi estabelecida a justificativa para revestir uma lenda popular de santidade celestial. O autor utilizou a lenda para explicar seus ensinamentos religiosos por meio de exemplos e, com base nesse argumento, apresentou também essa lenda como parte da crença humana. Se esse tipo de argumento for aceito como válido, então, numa obra considerada sagrada e composta pela Palavra de Allah, qualquer tipo de impossibilidade pode ser facilmente apresentado como possível. E, se for admitido que houve dessa maneira intervenção humana na Palavra de Allah, encontra-se então uma razão plausível para todo tipo de intervenção e alteração humana no texto da Bíblia. Se a alteração do texto original se torna permitida sempre que há uma finalidade religiosa, então não há mais nada a dizer. Já vimos anteriormente como os autores sacerdotais do século VI alteraram o texto original de acordo com seus caprichos. Nesse caso, não resta nenhuma possibilidade de levantar a voz contra eles.

Muitos comentaristas cristãos explicam os erros, as improbabilidades e as contradições presentes na narrativa bíblica dizendo que os autores da Bíblia expressaram suas ideias em diferentes contextos sociais, culturais ou mentais; portanto, não é estranho que haja discrepâncias. Foi a partir dessa explicação que se difundiu a ideia de diferentes “estilos literários”. Em outras palavras, encontrou-se uma panaceia para o problema. Sempre que se encontra alguma falta de concordância entre dois textos, ela é explicada justamente pela referência a esses diferentes contextos sociais e diferentes estilos. Naturalmente, nem todos aceitam esse argumento. Mesmo assim, seu uso e aplicação ainda não cessaram. Mais adiante, no caso do Novo Testamento, veremos que exatamente esse argumento foi aplicado para explicar contradições evidentes. Há ainda outra técnica utilizada para tornar aceitável algo que não é racionalmente justificável. Ao redor da questão principal, introduzem-se inúmeras outras questões, de caráter justificativo ou explicativo. Com isso, a atenção do leitor é desviada da questão principal.

O cardeal Daniélou adotou exatamente esse método ao discutir o Dilúvio. No artigo intitulado “Flood Baptism Judgment”, publicado na revista “Dieu Vivant”, nome francês da revista “Living God” (nº 38, 1974, pp. 95–112), ele diz: “A mais antiga lenda da Igreja afirma que o significado religioso do Dilúvio contém a imagem de Jesus e da Igreja. É um acontecimento de particular importância. É como um julgamento sobre toda a humanidade.” Depois, citando “Oxygen”, ele afirma, em sua obra intitulada “Homilias sobre Ezequiel”: “O naufrágio do mundo inteiro é salvo no cume.” Em seguida, explicando o significado do número oito, diz: “Oito pessoas são salvas no topo da montanha: Noé, sua esposa, seus três filhos e as esposas deles. Por isso, o número oito é muito importante.” Aplicando em seu favor o argumento apresentado por Justino em sua obra intitulada “Diálogo”, ele diz: “Oito pessoas são salvas no topo da montanha. Essas oito pessoas são, na realidade, apenas símbolos de Jesus, que ressuscitou dos mortos no oitavo dia. Noé é a imagem de Jesus. Ele também é o primeiro progenitor depois do Dilúvio. O que Jesus fez na realidade, Noé apenas havia prenunciado anteriormente.” Ao fazer essa comparação, ele acrescenta que a arca de Noé

era de madeira, e a cruz de Jesus era de madeira. Supostamente, foi precisamente por causa da grande importância dessa semelhança e correspondência que o valor religioso do Dilúvio aumentou especialmente. Em outras palavras, o cardeal pretende dizer que aquilo que não tem relação ou semelhança com Jesus não tem importância alguma.

Muitas coisas poderiam ser ditas sobre esse tipo de comparação em defesa própria. Mas devemos lembrar que essa comparação é apenas um comentário, e ainda por cima sobre um acontecimento que, com base na Bíblia, nem sequer se comprova como um acontecimento universal. E, mesmo que o consideremos correto do ponto de vista temporal, no máximo chegaremos à Idade Média; e a Idade Média foi uma época em que, sobre a Bíblia, não era possível nenhum tipo de discussão além da discussão de caráter exclusivamente apologético.

Entretanto, felizmente, uma atitude racional foi adotada e expressa antes daquela época proibitiva. A esse respeito, pode-se mencionar Santo Agostinho. Seu pensamento era claramente bastante avançado em comparação com sua época. Naquela época, durante a era dos Padres da Igreja, certamente surgiram problemas nas discussões sobre o texto original da Bíblia. Isso porque Santo Agostinho mencionou problemas desse tipo em sua carta de número 82.

Ele disse: “Tenho o mais profundo respeito pelos livros canônicos e não tenho absolutamente nenhuma dúvida de que, ao escrever, os autores escreveram corretamente e não cometeram nenhum erro. Mas, quando encontro nesses livros algum relato que contradiz a realidade, não me resta dúvida de que ou há um erro na minha cópia, ou o tradutor não conseguiu traduzir corretamente o original, ou eu mesmo não compreendi bem a questão.”

Santo Agostinho sequer podia imaginar que houvesse erros nas Escrituras. Ele afirmou enfaticamente que as Escrituras eram infalíveis. Contudo, ao se deparar com algum relato contrário à verdade e à realidade, entre todas as possíveis causas do erro que mencionou, não incluiu a possibilidade de erro do autor original. Essa é a atitude de um crente inquisitivo. Se os problemas entre a Bíblia e a ciência que surgiam em sua época forem analisados com uma mente investigativa como a dele, a maioria deles será facilmente resolvida.

Por outro lado, os especialistas da época atual não querem de modo algum admitir que haja algum erro na Bíblia. Eles não dão nenhuma importância a essa acusação e apoiam com todas as suas forças tudo o que está na Bíblia. Embora o relato bíblico seja claramente contrário à história e à ciência, o padre de Vaux explicou, na introdução do Gênesis, por que é necessário apoiá-lo. “A regra atualmente seguida para o estudo da história

De acordo com essa regra, ele pediu que não se estudasse a história descrita na Bíblia. Em outras palavras, segundo ele, a história pode ser escrita por processos diferentes. É universalmente reconhecido que, quando um relato falso é apresentado na história, ele se transforma em um romance histórico. Nesse caso, a verdade ou os fatos jamais constituem a questão principal. No entanto, os comentaristas ainda não aceitam confrontar o relato bíblico com quaisquer dados da geologia, da paleontologia ou da pré-história. Eles dizem: “Não é necessário que a Bíblia coincida com os dados ou princípios de qualquer dessas ciências. Se alguém tentar buscar essa coincidência, isso será um confronto irreal e uma comparação artificial”

(Introdução do Gênesis, p. 35). É evidente que esse comentário foi feito tendo em mente todos os pontos do Gênesis que são contrários à verdade científica, especialmente o conteúdo dos onze primeiros capítulos. Mas, quando algumas descrições da própria Bíblia foram comprovadas como verdadeiras por investigações modernas, o padre de Vaux não demorou a expressar sua satisfação. “Aqueles que haviam alimentado dúvidas sobre a veracidade dessas descrições podem agora constatar que elas receberam apoio dos dados da história e da arqueologia antiga.” (Introdução do Gênesis, p. 34).

Ou seja, se a ciência oferecer apoio à Bíblia, isso poderá ser aceito como prova válida; mas, se não houver apoio, não se poderá fazer comparação alguma. Essa é a linha de raciocínio dos comentaristas e especialistas.

Os teólogos modernos, porém, descobriram uma maneira de resolver esse problema insolúvel. Eles tomaram a iniciativa de modificar a própria concepção eterna da verdade. Essa nova teoria foi explicada no livro “O que é a verdade da Bíblia?” (Quelle est la vérité de la Bible), escrito pelos teólogos Dhorme e Loret e publicado em 1972 pela La Centurion, de Paris. Não é possível apresentar seus detalhes no âmbito limitado desta discussão. Talvez seja suficiente reproduzir aqui apenas a conclusão a que essa nova teoria chegou a respeito da ciência: “O Segundo Concílio Vaticano absteve-se de estabelecer regras para determinar a verdade ou a falsidade dos relatos bíblicos. Considerando as questões fundamentais, veremos que é de fato impossível formular tais regras. Pois não se pode determinar a validade ou a invalidade do método científico capaz de determinar a verdade dos relatos bíblicos.

É evidente que a Igreja não é capaz de pronunciar-se sobre a validade do “método científico” como meio de alcançar a verdade. Mas não é disso que se trata aqui. A questão diz respeito a fatos comprovados, não a uma teoria ou a um método. Segundo a Bíblia, a Terra foi criada há trinta e sete ou trinta e oito séculos. Mas, para saber que isso não é de modo algum verdade, não é necessário ser muito erudito nos dias de hoje. Sabemos que os seres humanos ainda não haviam surgido naquela época, e que o cálculo feito com base na genealogia bíblica foi comprovadamente errado, de maneira incontestável. O autor Loret certamente está ciente disso. Foi justamente para não ter de enfrentar o problema fundamental que ele fez aquele comentário evasivo sobre a ciência.

O próprio fato de os especialistas cristãos fazerem comentários tão diferentes para enfrentar as informações errôneas da Bíblia, comprovadamente falsas do ponto de vista científico, demonstra que o assunto é realmente desconfortável para eles; e, ao mesmo tempo, comprova também outra coisa: essas informações da Bíblia foram elaboradas por seres humanos, não são uma revelação divina.

Esse desconforto do mundo cristão manifestou-se de forma mais evidente no Segundo Concílio Vaticano (1962–1965). Depois de dezenove anos de longas discussões e de cinco esboços, eles conseguiram chegar a um acordo sobre uma declaração a respeito da revelação. Na introdução do documento conciliar número 4, relativo à revelação, publicado em 1966 pela La Centurion, de Paris, Sua Graça Weber afirmou: “A situação dolorosa que quase havia consumido o Concílio chegou finalmente ao fim dessa maneira.”

Nesse documento, a incompletude (capítulo 4, página 53) e as contradições do Antigo Testamento são reconhecidas francamente: “Antes de Jesus Cristo estabelecer a salvação, os livros do Antigo Testamento desempenhavam um papel importante na condição humana. Foi por esses livros que todos puderam saber quem é Allah e quem é o ser humano, e como Allah trata os seres humanos com Sua justiça e misericórdia. Embora contenham alguns elementos incompletos e obsoletos, esses livros continuam sendo os veículos e as provas do verdadeiro ensinamento celestial.

Os elementos aos quais foram aplicados os adjetivos “incompleto” e “obsoleto” são evidentemente passíveis de crítica, e um dia esses trechos talvez sejam até excluídos. Contudo, qualquer que seja o curso dos acontecimentos no futuro, o princípio fundamental foi agora reconhecido e proclamado com bastante clareza.

O comentário citado acima é parte da declaração geral aprovada pelo Concílio Vaticano. A declaração foi aprovada por 2.344 votos, com apenas 6 votos contrários. Ainda assim, provavelmente não se pode dizer que a declaração tenha sido inteiramente unânime. Com efeito, ao explicar a declaração aprovada, o próprio Sua Graça Weber fez um comentário que acabou modificando a declaração original. Ele disse: “Alguns livros da Bíblia judaica podem ser aceitos apenas provisoriamente, e esses livros contêm certos elementos incompletos.”

Onde o documento original dizia “obsoleto”, a explicação diz “aceitável provisoriamente”; mas será que essas duas expressões têm o mesmo significado? Além disso, ao usar a palavra “judaica”, Weber procurou dar a entender que o documento original criticava especificamente a Bíblia hebraica. Entretanto, a palavra “judaica” não foi usada de modo algum no documento original. Na realidade, o livro criticado pelo Concílio como parcialmente incompleto e obsoleto é justamente o Antigo Testamento dos cristãos.

Conclusão

A Bíblia deve ser examinada exatamente na forma em que existe. Se alguém estiver consciente de sua evolução e de suas sucessivas alterações, será possível compreender que o Antigo Testamento pode conter diferentes relatos do mesmo acontecimento, contradições, erros históricos, improbabilidades e incompatibilidades com dados científicos comprovados. É perfeitamente natural que uma antiga obra escrita por seres humanos contenha erros desse tipo. Esses erros também serão encontrados em qualquer outra obra escrita no mesmo período e nas mesmas condições de ambiente e circunstâncias.

Quando ainda não era sequer possível formular uma questão baseada em dados científicos, e o único meio de identificar improbabilidades e contradições era o raciocínio pessoal coerente, Santo Agostinho compreendeu que Allah não poderia ensinar aos seres humanos algo que não fosse compatível com a realidade. Assim, estabeleceu o princípio de que não se pode afirmar que aquilo que contradiz a verdade tenha vindo de Allah. E, com base nesse princípio, ele era favorável a retirar da Bíblia tudo aquilo que considerasse apropriado excluir.

Mais tarde, porém, quando se constatou que certos trechos da Bíblia eram incompatíveis com o conhecimento moderno, essa atitude já não foi seguida. Essa postura de não aceitar facilmente a verdade tornou-se gradualmente tão forte que foram escritos inúmeros livros para explicar a lógica de manter na Bíblia aqueles trechos incompatíveis com a verdade e a realidade.

O Segundo Concílio Vaticano, contudo, reduziu consideravelmente a força dessa atitude intransigente. Pois, a respeito de alguns livros do Antigo Testamento, expressaram dúvidas, afirmando que neles há certos conteúdos “incompletos e obsoletos”. A questão agora é: essa opinião permanecerá apenas como uma opinião, ou serão tomadas medidas para retirar essas passagens da Bíblia? Na realidade, a situação é que, enquanto não forem retiradas, essas mesmas passagens continuarão sendo mantidas como “veículos e provas dos ensinamentos provenientes de Alá”.

O Evangelho: origem e história

Ao ler o Evangelho, muitos leitores ficam constrangidos e até envergonhados ao compreender o sentido de certas narrativas. Eles se encontram na mesma situação ao lerem, nos diferentes Evangelhos, relatos diferentes do mesmo acontecimento. Foi o que comentou o Padre Roset em seu livro Iniciação aos Evangelhos (Initiation à l’Évangile; publicado por Éditions du Seuil, Paris, 1973). Ele percebeu o quanto os cristãos comuns estavam preocupados e inquietos com essa questão ao responder, durante muitos anos, às cartas dos leitores de um semanário católico. Esses leitores pertenciam a diferentes níveis de instrução e condição econômica da sociedade, e ele observou que os trechos ou assuntos sobre os quais pediam explicações eram, mesmo quando não eram “contraditórios, ridículos ou escandalosos”, vagos, imprecisos e incompreensíveis. Se algum cristão ler atentamente o Evangelho inteiro, realmente não terá outra alternativa senão ficar profundamente angustiado e preocupado.

O livro do Padre Roset foi publicado em 1973. Portanto, seu comentário é muito recente. Até poucos anos atrás, a maioria dos cristãos conhecia apenas a parte do Evangelho que os sacerdotes liam ou explicavam no culto da Igreja ou em alguma cerimônia religiosa. Com exceção dos protestantes, os demais cristãos geralmente nunca liam o Evangelho inteiro. Nos livros didáticos religiosos havia apenas citações. Nunca era apresentada uma citação completa do texto original. Numa escola católica romana, vi livros de Virgílio e Platão, mas não encontrei o Novo Testamento. Uma versão grega do Novo Testamento também poderia ter sido muito útil. Só muito mais tarde compreendi por que aquele livro, ou qualquer outra obra relacionada ao cristianismo, não havia sido deixado ali. Se tais livros estivessem disponíveis, nós, estudantes, talvez fizéssemos perguntas que deixariam os professores realmente em apuros para responder.

Foi a partir dessa percepção que as autoridades da Igreja advertiram antecipadamente os leitores da Bíblia cristã. Nas palavras do Padre Roset: “A maioria dos cristãos precisa receber treinamento sobre como ler o Evangelho.” Concordem ou não com sua explicação, não há como deixar de reconhecer que ele ao menos enfrentou essa situação delicada. Contudo, não se tentou oferecer esse tipo de explicação no caso de um número muito maior de revelações.

Nas introduções das Bíblias impressas para ampla distribuição, nunca se dá qualquer indício de que possa haver motivo para duvidar do texto original da narrativa, de sua autenticidade ou da identidade de seu autor. A respeito dos autores originais cuja identidade não é de modo algum conhecida, ou não pode ser conhecida, essas introduções fornecem muitas informações “corretas e detalhadas”. Muitas vezes, simples suposições são apresentadas como fatos comprovados. Ou afirma-se que determinado sacerdote foi testemunha ocular de determinado acontecimento, embora os especialistas tenham dito exatamente o contrário. Eles apresentam como muito curto o intervalo entre o fim da pregação de Jesus e o aparecimento relacionado a ela. Tentam transmitir a ideia de que todo o relato bíblico foi escrito por um único autor, que o ouviu da boca de uma testemunha ocular e auditiva contemporânea de Jesus Cristo. Entretanto, os especialistas afirmam que não há dúvida de que o texto original foi alterado muitas vezes. É verdade que algumas introduções mencionam a dificuldade de explicar uma ou duas passagens, mas o desprezo com que se tenta evitar esse problema acaba fortalecendo ainda mais as dúvidas na mente do leitor consciente. A essas introduções acrescentam-se apêndices, sobretudo notas. Nessas notas, tenta-se encobrir todas as improbabilidades, contradições e erros manifestos por meio de explicações engenhosas. Mas, para os leitores conscientes e interessados que desejam descobrir a verdade, nada permanece oculto.

Agora abordarei um assunto que surpreenderá ainda mais o leitor. Especialmente aqueles que não estão familiarizados com problemas desse tipo ficarão verdadeiramente atônitos.

Mateus e João nada disseram sobre a ascensão de Jesus ao céu. Lucas, por outro lado, afirmou em seu Evangelho que o acontecimento da ascensão ocorreu no próprio dia da ressurreição. Já no livro chamado “Atos dos Apóstolos”, afirma-se que ocorreu quarenta dias depois. O curioso é que o próprio Lucas é conhecido como o autor desse livro. Marcos de fato mencionou a ascensão, mas não indicou quando ela ocorreu. Por isso, seu relato atualmente não é considerado correto. Nessas circunstâncias, fica claro que não há como considerar correta a ascensão de Jesus com base em qualquer escritura religiosa. Entretanto, os comentaristas religiosos não querem dar absolutamente nenhuma importância ao fato de que ela carece de fundamento.

A. Tricot não fez qualquer menção à Ascensão em sua obra “Pequeno Dicionário do Novo Testamento” (Petit dictionnaire du Nouveau Testament, publicada pela Desclée et Cie., Paris, 1960). No entanto, esse livro foi escrito e publicado justamente para ampla divulgação e distribuição. Por outro lado, os padres Benoit e Boismard, professores da Escola Bíblica de Jerusalém, afirmaram nas páginas 451-452 do segundo volume de sua obra “Sinopse dos Quatro Evangelhos” (Synopsis des quatre Évangiles, publicada pelas Éditions du Cerf, Paris, 1972) que, para compreender o que realmente significa “recurso literário” nas diferenças entre os relatos do Evangelho de Lucas e do livro dos Atos dos Apóstolos, provavelmente não é uma tarefa assim tão fácil.

Ao menos não há, ao que parece, qualquer dúvida de que o padre Roset não compreendeu isso e tampouco aceitou esse argumento. Mas a explicação que ele próprio deu é exatamente do mesmo tipo. Em sua obra “Iniciação aos Evangelhos” (1973, p. 187), ele afirmou: “Como no caso de muitos outros acontecimentos, também neste caso, se o relato bíblico for aceito apenas em seu sentido literal, sem se compreender seu significado religioso, não se obterá explicação alguma. Na realidade, não se trata de expressar um acontecimento real por meio de um símbolo incoerente. Devemos voltar nossa atenção para a intenção religiosa daqueles que nos revelaram esse mistério. Eles nos transmitiram esses acontecimentos misteriosos exatamente na forma que nós, como seres humanos encarnados, somos capazes de aceitar, com nossos sentimentos e nossa compreensão.”

Mas como se pode aceitar essa explicação? Sim, se for possível adotar a atitude de aceitar tudo incondicionalmente e sem questionar, então provavelmente não haverá mais problema algum.

Outro ponto importante do comentário do padre Roset é que ele reconheceu a existência de “muitos outros acontecimentos” desse tipo. Portanto, é necessário examinar a questão profunda, objetiva e globalmente. Parece razoável e pertinente buscar a explicação e a solução considerando as circunstâncias existentes no período em que os Evangelhos foram escritos, especialmente o ambiente religioso daquela época. A lenda oral original adquiriu certa vez forma escrita; depois, foi modificada ao longo das gerações e, até chegar à nossa época, sofreu muitas alterações. Se tivermos isso em mente, provavelmente não haverá muita razão para nos surpreendermos com relatos incompreensíveis, obscuros, contraditórios ou ridículos. O mesmo pode ser dito a respeito dos relatos que parecem incompatíveis com as verdades científicas comprovadas da época atual. Desse encadeamento de argumentos fica claramente demonstrado que tanto a obra original quanto suas alterações foram realizadas por seres humanos.

Nas últimas décadas, a pesquisa sobre textos religiosos, especialmente a pesquisa objetiva, tem atraído a atenção de todos, e também se observa claramente a mudança ocorrida nas concepções religiosas como resultado dessas pesquisas. O padre Kannengiesser, professor do Instituto Católico de Paris, afirmou em sua obra “Fé na Ressurreição, Ressurreição da Fé” (Foi en la résurrection, résurrection de la foi, publicada pelo Beauchesne, Paris, 1974): “Os fiéis não estão suficientemente informados sobre a revolução ocorrida no processo de interpretação da Bíblia depois do período do papa Pio XII.” Pio XII foi papa de 1939 a 1959. Portanto, a “revolução” mencionada pelo autor é um acontecimento muito recente, e, influenciados por ela, alguns especialistas começaram também a ensinar os cristãos comuns dessa maneira. O padre Kannengiesser afirmou: “Com a chegada dessa revolução ao processo de interpretação, a tradição antiga, tida como certa, começou a ser abandonada.”

Ele advertiu: “As informações apresentadas nos Evangelhos sobre Jesus não devem ser aceitas em sentido literal. Na realidade, foram elaboradas por ocasião de certos acontecimentos, a favor ou contra ele, e seus autores apenas registraram as lendas sobre Jesus existentes em suas próprias comunidades.” Sobre a ressurreição de Jesus, afirmou enfaticamente que nenhum dos autores dos Evangelhos declarou: “Eu vi esse acontecimento com meus próprios olhos.” Disse ainda que o mesmo se aplica ao restante da vida pública de Jesus. Pois, conforme se vê nos relatos dos Evangelhos, nenhum dos apóstolos, exceto Judas Iscariotes, abandonou a companhia de Jesus desde o início de sua pregação até o último dia de sua vida.

Avançamos muito desde a antiga doutrina que, apenas dez anos atrás, era defendida e aprovada pelo Concílio Vaticano II. É verdade que essa antiga doutrina ainda é propagada em muitas obras modernas. Ainda assim, a verdade está abrindo lentamente seu caminho.

Contudo, não é fácil revelar essa verdade. Isso porque a resistência à doutrina que vem sendo vigorosamente preservada e defendida desde a Antiguidade não é nada fraca. Para superar essa resistência, será necessário cortá-la pela raiz. Isto é, antes de tudo, será preciso examinar os indícios do surgimento do cristianismo.

Memorial da história: o cristianismo judaico e São Paulo

A maioria dos cristãos acredita que foram escritos pelos próprios homens que estiveram diretamente ligados à vida de Jesus. Portanto, esses textos constituem provas incontestáveis de sua vida e de seus ensinamentos. Não há neles qualquer motivo para dúvida. Assim, uma vez obtida essa certeza de que são originais e autênticos, já não resta oportunidade para discutir os ensinamentos de Jesus. Além disso, como a Igreja está encarregada de promulgar e aplicar os mandamentos dados pelo próprio Jesus, também não se pode alimentar qualquer dúvida quanto à sua legitimidade como instituição. Nas versões populares dos Evangelhos publicadas atualmente, ideias desse tipo são difundidas sob a forma de introduções ou comentários.

Afirma-se sempre, como prova evidente, que os autores dos Evangelhos foram testemunhas oculares. Isto é, não consideram necessário comprovar a veracidade dessa afirmação por meio de testemunhos, provas e informações. Além disso, em meados do século II, São Justino chamou os Evangelhos de “memórias dos apóstolos”. Assim, torna-se praticamente impossível expressar qualquer dúvida sobre esses autores apostólicos. Diz-se que Mateus era uma figura famosa, funcionário da alfândega de Cafarnaum e versado em aramaico e grego. Marcos pode ser facilmente identificado como colaborador de Pedro e, evidentemente, também foi uma testemunha ocular. Lucas era médico, e Paulo falou muito sobre ele. Portanto, dispomos de informações detalhadas a seu respeito. Depois vem João. Ele era filho de Zebedeu, pescador do mar da Galileia e companheiro constante de Jesus.

As pesquisas recentes sobre as circunstâncias do surgimento do cristianismo mostram que, naquela época, não era de modo algum possível apresentar informações com descrições tão detalhadas. Veremos um pouco adiante quem eram realmente os autores dos Evangelhos e que tipo de pessoas eram. Contudo, é preciso deixar claro desde o início que os acontecimentos posteriores ao começo da pregação religiosa de Jesus não ocorreram da maneira como se afirma; tampouco a Igreja foi fundada como resultado da ida de Pedro a Roma. Ao contrário, desde a partida de Jesus deste mundo até a segunda metade do século II, houve conflitos e divergências entre dois grupos. Um grupo apoiava o cristianismo de Paulo, e o outro, o cristianismo judaico. Com o tempo, o cristianismo de Paulo triunfou, e o cristianismo judaico desapareceu.

Foram escritos muitos livros sobre as descobertas recentes a respeito da origem do cristianismo. Entre os autores, merece destaque o cardeal Daniélou. Em dezembro de 1967, um importante artigo seu foi publicado em uma revista francesa chamada “Études” (Estudos). O título do artigo era “Uma nova representação das origens do cristianismo: o cristianismo judaico”. Nesse artigo, ele examinou a história e mostrou que a situação real era completamente diferente do contexto dos Evangelhos apresentado nos livros e folhetos populares. A seguir, apresentamos os principais pontos de seu artigo.

Depois que Jesus deixou este mundo, o pequeno grupo de apóstolos formou uma seita judaica e permaneceu fiel ao culto praticado no Templo

Posteriormente, quando os pagãos se converteram, acrescentaram-se alguns elementos de suas antigas práticas de culto, e foi criado para eles “um método especial”. Então, no Concílio de Jerusalém, em 49 d.C., eles foram isentados da circuncisão e de alguns outros costumes judaicos. Contudo, “muitos cristãos judaicos recusaram-se a aceitar essa isenção”. Esse grupo era completamente distinto do grupo de Paulo, e havia divergência entre os dois grupos a respeito dos pagãos convertidos ao cristianismo (o incidente de Antioquia de 49 d.C.). Paulo afirmava que até mesmo a circuncisão, o sábado e as normas de culto do Templo eram, para os judeus, extremamente antiquados e reacionários. O cristianismo deveria ser libertado dessa lealdade política e religiosa ao judaísmo e aberto à sociedade respeitável.

Para os cristãos judaicos que eram “judeus leais”, ele era um traidor. Em seus documentos, foi identificado como “inimigo” e acusado de seguir uma “política dúbia”. “Até 70 d.C., os cristãos judaicos constituíam a maioria dentro da Igreja, e Paulo era uma pessoa completamente isolada.” O líder era Tiago, parente de Jesus, acompanhado por Pedro (no início) e João. “Tiago era o porta-voz do grupo cristão judaico, que, em oposição ao cristianismo de Paulo, permanecia deliberadamente fiel ao judaísmo.” A família de Jesus desempenhava um papel importante na Igreja cristã judaica de Jerusalém. Depois de Tiago, o líder foi Simeão, filho de Cléopas, que era sobrinho de Jesus.

O cardeal Daniélou citou várias passagens de escritos judaico-cristãos nos quais são expressas opiniões sobre Jesus. Essas obras são o Evangelho dos Hebreus (encontrado entre a comunidade judaico-cristã do Egito), as Homilias e Reconhecimentos, escritas por Clemente, as Hipotiposes, o Segundo Apocalipse de Tiago e o Evangelho de Tomé. (É preciso mencionar aqui que todos esses escritos foram posteriormente considerados apócrifos. Ou seja, foram ocultados pela Igreja estabelecida após a vitória de Paulo. Mais tarde, depois de cortes e alterações, apenas quatro evangelhos canônicos foram mantidos.) O cardeal Daniélou afirmou: “Os escritos mais antigos do cristianismo foram obra dos judaico-cristãos.” Ele também apresentou uma descrição detalhada deles.

“Durante os primeiros cem anos da Igreja, o judaico-cristianismo predominou não apenas em Jerusalém e na Palestina, mas em toda parte. Essa situação perdurou até a vitória de Paulo. Esta é a causa e a explicação da oposição mencionada por Paulo em suas cartas.” Na Galácia, em Corinto, em Colossos, em Roma e em Antioquia, em toda parte Paulo teve de enfrentar essa oposição.

Que a costa sírio-palestina, de Gaza a Antioquia, estava sob a influência do judaico-cristianismo é mencionado nos escritos dos apóstolos e de Clemente. Também há indícios dessa influência na Ásia Menor nas cartas de Paulo aos Gálatas e aos Colossenses. A existência dessa influência na Frígia é relatada nos escritos de Papias. Quanto à Grécia, especialmente à região de Apolo, há informações em uma das próprias cartas de Paulo, a sua primeira carta aos coríntios. A carta de Clemente e a descrição de O Pastor de Hermas revelam que Roma era “um importante centro” do judaico-cristianismo. Em Suetônio e Tácito, os cristãos eram apresentados como uma seita dos judeus. O cardeal Daniélou considera que o judaico-cristianismo também foi inicialmente propagado na África. O Evangelho dos Hebreus e os escritos de Clemente dão indícios nesse sentido.

Para compreender corretamente o contexto em que foram escritos os Evangelhos, isto é, a Bíblia, isto é, o Novo Testamento, é especialmente necessário conhecer todas essas informações sobre o conflito entre as duas comunidades. Depois que o texto original sofreu diversas alterações, a versão da Bíblia que vemos hoje surgiu após a guerra judaica de 70 d.C. e a queda de Jerusalém, quando os cristãos se tornaram poderosos. O cardeal Daniélou explicou o acontecimento da seguinte maneira: “Depois que o prestígio dos judeus foi abalado, os cristãos adotaram uma política de se manterem afastados deles. Em seguida, os cristãos gregos ganharam predominância, Paulo obteve a vitória póstuma, e, ao separar-se política e socialmente do judaísmo, o cristianismo transformou-se em uma terceira nação. Contudo, até a revolta judaica de 140 d.C., o judaico-cristianismo conseguiu manter sua predominância no âmbito cultural.”

Os Evangelhos de Marcos, Mateus, Lucas e João surgiram entre 70 e 110 d.C. Contudo, eles não foram os primeiros escritos religiosos. Isso porque as cartas de Paulo haviam sido escritas muito antes. O. Cullmann considera que Paulo provavelmente escreveu aos tessalonicenses por volta de 50 d.C. Ele provavelmente desapareceu alguns anos antes de Marcos concluir a redação de seu Evangelho.

Paulo é a figura mais controversa do cristianismo. A família de Jesus e os apóstolos apoiadores de Tiago, que estavam em Jerusalém, consideravam-no um traidor do pensamento de Jesus. Paulo criou o cristianismo deixando de lado aqueles que Jesus havia escolhido e atraído para junto de si para a pregação da religião. Ele jamais vira Jesus em vida; apesar disso, conseguiu provar a legitimidade de sua pregação afirmando que, certa vez, quando se dirigia a Damasco, Jesus ressuscitado lhe aparecera no caminho. É perfeitamente legítimo perguntar qual teria sido o destino do cristianismo se Paulo não tivesse existido, e várias possibilidades podem ser imaginadas como resposta a essa pergunta. Contudo, a respeito dos Evangelhos, pode-se afirmar enfaticamente pelo menos isto: se não tivesse surgido aquela situação de conflito entre as várias comunidades, essa obra jamais teria sido criada. A obra foi criada justamente durante o período de intensa divergência e conflito entre as duas partes. Por isso, o padre Kannengisser chamou o Evangelho de “uma obra de guerra”. Naquele período, foi preparada uma compilação selecionando os numerosos escritos sobre Jesus produzidos por ambos os lados. Naquela época, o cristianismo de Paulo triunfou e, por consequência, os escritos passaram a se formar em torno dele. Esses escritos foram chamados de “cânon” e reconhecidos pela Igreja. Todos os demais escritos foram então condenados como não confiáveis e rejeitados.

Assim, o judaico-cristianismo desapareceu. Hoje, sua influência já não existe em parte alguma. Contudo, quando se diz “judaístico”, ainda se faz referência a essa religião. Ao descrever esse desaparecimento, o cardeal Daniélou afirmou: “Como a Igreja se libertou de toda ligação com os judeus, o judaico-cristianismo ficou completamente isolado e desapareceu rapidamente no Ocidente. No Oriente, porém, durante os séculos III e IV, encontravam-se vestígios de sua existência enfraquecida, especialmente na Palestina, na Arábia, na Transjordânia, na Síria e na Mesopotâmia. Todas as demais regiões se uniram à Igreja principal, embora suas culturas ainda apresentassem forte influência semítica. Essa influência ainda pode ser observada nas Igrejas da Etiópia e da Caldeia.”

Os quatro Evangelhos: origem e história

Não se encontra qualquer menção aos Evangelhos em nenhuma obra do período inicial do cristianismo. A primeira menção aparece muito depois da publicação das obras de Paulo. A partir de meados do século II, isto é, depois do ano 140, começam a surgir informações sobre uma compilação de escritos religiosos. Ainda assim, afirma-se: “Desde o início do século II, muitos escritores cristãos declaravam estar familiarizados com várias cartas de Paulo.” Esse comentário aparece na introdução do livro intitulado “Tradução Ecumênica da Bíblia — Novo Testamento”, publicado em Paris em 1972. É importante mencionar, a propósito, que esse livro foi fruto do esforço conjunto de mais de uma centena de especialistas católicos e protestantes.

Embora a redação do Evangelho que mais tarde foi aceito como canônico, isto é, como texto oficial, tenha sido concluída no início do século II, ele permaneceu desconhecido por muito tempo. A obra Tradução Ecumênica afirma que, por volta de meados do século II, algumas histórias narradas nesse Evangelho começaram a ser citadas em outros lugares. Contudo, não é possível determinar com exatidão se essas histórias eram citadas diretamente do texto original ou se os autores as citavam de suas lembranças das lendas transmitidas oralmente.

Na introdução da referida tradução da Bíblia, afirma-se: “Não foi possível identificar nenhuma compilação anterior ao ano 140.” Isso é exatamente o oposto do que Tricot afirmou na introdução de sua tradução do Novo Testamento (1960). Ele disse: “Desde o início do século II, as pessoas usavam a palavra ‘Evangelho’, e por Evangelho entendia-se então a obra que, por volta do ano 150, São Justino chamou de ‘As Memórias dos Apóstolos’ (os ensinamentos dos apóstolos).” Infelizmente, são afirmações e comentários desse tipo que criaram na mente do público uma concepção equivocada sobre a época e a data dos Evangelhos.

Há, naturalmente, outros equívocos. Não é absolutamente correto afirmar que os quatro Evangelhos já existiam completos desde o início. Na realidade, os Evangelhos não alcançaram sua forma completa durante mais de um século após Jesus. Segundo a obra Tradução Ecumênica, os Evangelhos foram concluídos por volta do ano 170 e receberam o status de textos oficiais.

São Justino referiu-se aos autores dos Evangelhos como apóstolos (sahabi). Mas sua opinião não é de modo algum aceitável. Pois, como veremos logo adiante, nenhum dos autores era apóstolo.

Tricot afirmou que os Evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas foram escritos antes do ano 70. Mas essa afirmação não é aceitável, exceto talvez no caso de Marcos. Como muitos outros autores, ele também apresentou os autores dos Evangelhos como companheiros de Jesus. Por isso, determinou a provável época da redação dos Evangelhos de modo que ela pudesse ser próxima ao período da vida de Jesus. A respeito de João, Tricot afirmou que ele viveu até o ano 100 e que os cristãos estavam acostumados a vê-lo presente, em estreita proximidade com Jesus, durante diversas cerimônias religiosas. Contudo, é difícil provar que o Evangelho que circula sob seu nome tenha sido realmente escrito por ele. Como muitos outros comentaristas, Tricot também considera que João (e Mateus) foi a testemunha mais qualificada dos acontecimentos que descreveu. Mas a maioria dos críticos não aceita isso. Na verdade, eles nem sequer reconhecem João como o autor do quarto Evangelho. Mas, se não se pode aceitar racionalmente os quatro Evangelhos como as “memórias” dos companheiros de Jesus, de onde vieram essas obras?

No livro intitulado “O Novo Testamento” (Presses Universitaires de France, Paris, 1967), os autores e Cullmann disseram: “A antiga comunidade cristã pôs por escrito as histórias transmitidas oralmente, e os evangelistas organizaram as histórias de acordo com suas próprias crenças e vontades. Estabeleceram conexões entre os relatos dos acontecimentos e as palavras, e tentaram criar coerência onde havia contradições. Inserindo expressões como ‘depois’, ‘quando ele’ e outras semelhantes, estabeleceram relações entre duas falas de Jesus e mostraram a ordem e a continuidade dos acontecimentos. Ou seja, os Evangelhos de Marcos, Mateus e Lucas — conhecidos como os três Evangelhos sinópticos — não foram escritos com base na história; estruturalmente, são apenas esforços puramente literários.”

Ele acrescentou: “A esse respeito, é especialmente importante observar que, quando as histórias transmitidas oralmente sobre a vida e as atividades de Jesus foram registradas pela primeira vez, a necessidade de pregar a religião, prestar culto e ensinar estava muito mais presente na mente dos autores do que a necessidade de escrever uma biografia, e foi assim que eles registraram todos os relatos. Para apoiar a crença que pregavam, citaram exemplos da vida de Jesus. Na realidade, seus próprios ensinamentos constituíam o assunto principal. Trouxeram exemplos da vida de Jesus como material auxiliar. Às vezes também citaram as palavras de Jesus, mas igualmente com esse mesmo objetivo. Em outras palavras, seu propósito principal não era escrever uma biografia nem redigir uma história, mas pregar a religião.”

Os comentaristas da Tradução Ecumênica da Bíblia também disseram exatamente isso ao descrever a história da composição dos Evangelhos. As narrativas transmitidas oralmente foram misturadas aos discursos dos discípulos de Jesus, e foi esse conteúdo misturado que foi registrado nos Evangelhos. E, como os Evangelhos foram escritos por diferentes autores, naturalmente refletiram perspectivas distintas, e na obra de cada um foram narrados diferentes tipos de lendas.

Mais de uma centena de especialistas, tanto católicos quanto protestantes, adotou coletivamente essa opinião ao interpretar o Novo Testamento. É digno de nota que a decisão tomada pelo Segundo Concílio do Vaticano sobre a Bíblia entre 1962 e 1965 é amplamente incompatível com essa opinião. Já mencionamos uma vez esse documento do Concílio do Vaticano durante a discussão sobre o Antigo Testamento. A respeito do Antigo Testamento, o Concílio afirmou que essa obra contém “elementos incompletos e obsoletos”. Contudo, não expressou nenhuma dúvida semelhante sobre os Evangelhos. Pelo contrário, declarou: “Ninguém pode ignorar esta verdade: entre todos os escritos religiosos, incluindo o Novo Testamento, os Evangelhos ocupam o lugar supremo. Pois eles representam o testemunho singular da vida e dos ensinamentos de nosso Salvador. A Igreja sempre afirmou, e ainda afirma, em todos os lugares, que os quatro Evangelhos provêm dos companheiros de Jesus. O que eles pregavam por ordem do próprio Jesus, escreveram exatamente sob a inspiração do Espírito Santo, e esses escritos constituem o fundamento da fé. Esses escritos são os Evangelhos escritos por Mateus, Marcos, Lucas e João. Nossa Santa Mãe Igreja aprova sem hesitação esses quatro Evangelhos e continua a declarar, como antes, que eles são historicamente autênticos e que neles está registrado com extrema fidelidade tudo o que Jesus, o Filho de Deus, fez e ensinou até sua ascensão ao céu, para a salvação eterna da humanidade. Para que pudéssemos sempre obter informações verdadeiras e sinceras sobre a vida de Jesus, os santos escritores escreveram os Evangelhos exatamente dessa maneira.”

Não há hesitação nem dúvida nessa declaração. Aqui se afirma enfaticamente que a vida, as obras e os ensinamentos de Jesus estão refletidos corretamente nos Evangelhos.

Assim, vemos que a opinião oficial do Concílio do Vaticano não tem qualquer concordância com as opiniões dos autores que citamos acima. A esse respeito, vale recordar mais uma vez o que disse especialmente o padre Kannengieser. Ele afirmou que as palavras dos Evangelhos “não devem ser tomadas literalmente; foram escritos tendo em vista ocasiões específicas” e que são “apenas escritos produzidos em tempo de guerra”. E os autores dos Evangelhos “limitaram-se a registrar as lendas de suas próprias comunidades sobre Jesus”.

Também se pode recordar, a esse respeito, o comentário escrito no livro “Tradução Ecumênica da Bíblia”. Os Evangelhos foram compostos de modo a atender a diferentes grupos, às necessidades da Igreja e à interpretação de certas afirmações das escrituras religiosas. Em alguns casos, foram escritos com o objetivo de corrigir erros e, em outros, de responder aos opositores. Os autores evangelistas escolheram, das narrativas transmitidas oralmente, os conteúdos que lhes agradavam e os registraram.

Portanto, vemos que estamos diante de duas opiniões mutuamente contraditórias. De um lado está a opinião do Concílio do Vaticano; de outro, a opinião recente dos especialistas. O Concílio afirma que os Evangelhos contêm um relato correto das obras e das palavras de Jesus. Contudo, é absolutamente impossível conciliar essa afirmação com as contradições internas, as improbabilidades, as inverossimilhanças naturais e as afirmações contrárias a fatos comprovados que os próprios Evangelhos contêm.

Por outro lado, se admitirmos que os autores selecionaram conteúdos das lendas e compuseram os Evangelhos de acordo com suas próprias perspectivas, ou se os considerarmos escritos para ocasiões específicas ou produzidos em tempo de guerra, então a razão das contradições e improbabilidades encontradas nessas obras pode ser facilmente compreendida. Na verdade, o fato de os Evangelhos serem obras humanas e terem sido compostos nas circunstâncias descritas é a maior prova desses erros. Pode-se supor que os autores eram muito sinceros; mas escreveram tudo sem suspeitar que houvesse algum erro nas informações ou nos relatos. Consequentemente, pode-se supor que seus relatos foram influenciados pela competição entre as comunidades contemporâneas. E não se encontra concordância entre seus relatos e os relatos de outros autores. Na realidade, apresentaram a história da vida de Jesus a partir de uma perspectiva completamente distinta da perspectiva de seus opositores.

Já mostramos que, do ponto de vista histórico, é correta a opinião moderna dos especialistas sobre os Evangelhos. O próprio relato dos Evangelhos fornece apoio a essa afirmação.

O Evangelho de Mateus (o Evangelho escrito por Mateus)

O Evangelho de Mateus aparece logo no início do Novo Testamento. Os outros três Evangelhos vêm depois dele. O Evangelho de Mateus é, na realidade, uma espécie de extensão do próprio Antigo Testamento. Nesse sentido, sua posição foi determinada corretamente.” Os comentaristas da obra “Tradução Ecumênica da Bíblia” observaram que este Evangelho foi escrito justamente para provar que “Jesus completou a história de Israel”. Por isso, Mateus citou frequentemente o Antigo Testamento. Nessas citações, mostra-se que Jesus agiu como o salvador (Messias-Masih) que os judeus aguardavam.

Este Evangelho começa com a genealogia de Jesus. (Mais adiante mostraremos que essa genealogia é contrária à genealogia apresentada por Lucas.) Mateus traçou a linhagem de Jesus, passando por Davi, até Abraão. Mencionaremos em breve o erro existente no relato original. A maioria dos comentaristas, naturalmente, ignora silenciosamente esse erro. Ainda assim, o objetivo evidente de Mateus era estabelecer desde o início o tom fundamental da obra, traçando a linhagem desde Abraão. Com o mesmo objetivo, ele sempre apresentou a atitude de Jesus em relação à lei judaica. Os princípios fundamentais da lei judaica — culto, jejum e esmola — são descritos aqui de forma resumida.

Jesus dirigia seus ensinamentos principalmente ao seu próprio povo. Assim falou aos doze apóstolos: “Não sigais o caminho dos gentios, nem entreis em cidade alguma dos samaritanos; ide, antes, às ovelhas perdidas da casa de Israel” (Mateus 10, 4-6). (A Torá, ou Pentateuco, era o livro religioso dos samaritanos. Eles observavam a maioria dos ritos judaicos e esperavam o advento do salvador. Contudo, haviam construído um templo próprio, em oposição ao templo religioso de Jerusalém.) “Fui enviado somente às ovelhas perdidas da casa de Israel” (Mateus 15, 24). Mas, logo depois, na parte final de seu Evangelho, Mateus ampliou para todas as nações a missão dos primeiros discípulos de Jesus. Ele pôs estas palavras na boca de Jesus: “Ide, portanto, e fazei discípulos de todas as nações” (Mateus 28, 19). O primeiro objetivo, porém, continuava sendo a casa de Israel. Sobre este Evangelho, Tricot diz: “Sob o revestimento grego, os ossos e a carne deste livro são judaicos, e seu espírito também; o tom de todo o livro é judaico, e seus sinais evidentes encontram-se igualmente nele.”

Somente com base nessas provas e opiniões pode-se dizer que o Evangelho de Mateus e outros foram escritos com base nas lendas da comunidade cristã. O. Cullmann afirmou que essa comunidade “tentava sair da religião judaica, mas, ao mesmo tempo, procurava manter a continuidade do Antigo Testamento. Do conteúdo fundamental e do tom geral deste Evangelho percebe-se o esforço para manter esse equilíbrio”.

Além disso, também se podem encontrar afirmações políticas no texto original. Como a Palestina estava sob o domínio romano, naturalmente desejava tornar-se independente e, por isso, pedia a ajuda de Alá. Por se considerarem, entre todas as nações, o povo escolhido por Alá, esperavam que Ele, como Todo-Poderoso, pudesse ajudá-los diretamente. Afinal, no passado, Ele já lhes havia prestado esse tipo de ajuda muitas vezes.

Vejamos agora a identidade de Mateus. Que tipo de homem ele era? É melhor dizer diretamente, desde o início, que ele já não é reconhecido como um dos companheiros de Jesus. Ainda assim, Tricot o apresentou dessa maneira em seu comentário à sua tradução do Novo Testamento (1960). Ele disse: “Quando Jesus o chamou para que se tornasse seu último discípulo, Mateus, também chamado Levi, ocupava o cargo de funcionário da alfândega no posto de cobrança, ou alfândega, de Cafarnaum.” Os Padres da Igreja Orígenes, Jerônimo e Epifânio também sustentavam essa opinião. Mas hoje essa opinião já não é considerada correta. Pois não há absolutamente nenhuma divergência quanto ao fato de que Mateus “escreveu para os falantes de grego, mas conhecia os costumes judaicos e a língua aramaica”.

Os comentaristas da Tradução Ecumênica provavelmente consideram que a origem deste Evangelho ocorreu da seguinte maneira: “Geralmente se supõe que este Evangelho foi escrito na Síria, provavelmente em Antioquia ou na Fenícia, pois ali viviam muitos judeus.” (É digno de nota que também se considera possível que a comunidade judaico-cristã à qual Mateus pertencia tivesse habitantes em Alexandria. Como muitos outros comentaristas, Cullmann também mencionou essa possibilidade.) “Em Jâmnia, ocorreu uma assembleia da sinagoga no ano 80; encontramos indícios de um debate desse tipo contra a sinagoga e o judaísmo farisaico ortodoxo.” Nessas circunstâncias, há muitos autores que pensam que o primeiro Evangelho foi escrito entre os anos 80 e 90, ou talvez um pouco antes. Nada se pode afirmar com precisão a esse respeito; não é possível dizê-lo. Como não conhecemos os nomes verdadeiros dos autores, dispomos apenas das indicações e alusões contidas no próprio Evangelho — assim como temos de identificar um autor por sua profissão. Podemos saber que ele era muito versado nos escritos e nas tradições judaicas. Conhecia e respeitava os líderes religiosos de seu povo, mas os desafiava severamente. Era muito hábil na pregação e em tornar Jesus compreensível ao público. Além disso, dava grande ênfase a que seus ensinamentos se refletissem na vida prática das pessoas. Esse relato apresenta a imagem de um homem que era um judeu instruído, mas que mais tarde se tornou cristão; um chefe de família “que tira de seu tesouro coisas novas e velhas” (Mateus 13, 52). Essa descrição não se ajusta exatamente ao funcionário da alfândega; tampouco se ajusta àquele a quem Marcos e Lucas chamam de Levi e que era um dos doze apóstolos.

Todos concordam que Mateus, tal como Marcos e Lucas, escreveu o seu Evangelho utilizando as mesmas fontes e o mesmo conteúdo. Contudo, veremos pouco depois que a sua narrativa difere um pouco em alguns aspectos importantes. Apesar disso, Cullmann considera que Mateus extraiu amplamente o conteúdo do Evangelho de Marcos, embora Marcos de modo algum tenha sido discípulo de Jesus.

Mateus também alterou o texto original do Antigo Testamento. Veremos essa alteração quando compararmos a genealogia que ele apresenta no início do seu Evangelho com a narrativa do Antigo Testamento. Ele apresentou em sua obra um relato que é “literalmente inacreditável”. Foi esse adjetivo que o padre Canangisar aplicou ao papel dos guardas no episódio da ressurreição de Jesus. Referindo-se à improbabilidade da história de que havia guardas militares junto ao túmulo de Jesus, ele disse: “Esses guardas, em vez de informar os seus superiores, foram informar os principais sacerdotes, e estes lhes deram dinheiro para que contassem mentiras.” Contudo, não é bom sorrir com desprezo de Mateus por causa disso, pois o seu propósito era sério e importante. Ele inseriu em seu livro, à sua maneira, elementos lendários. Assim, a cena que criou mostrou-se adequada justamente para o filme americano chamado ‘Jesus Cristo Superstar’.”

É preciso mencionar que aquele que fez esse comentário é um eminente teólogo e professor do Instituto Católico de Paris.

O relato que Mateus faz dos acontecimentos ocorridos no momento da morte de Jesus oferece outro exemplo da sua fértil imaginação.

“E eis que o véu do templo se rasgou em duas partes, de alto a baixo; houve um terremoto, e as rochas se fenderam; os sepulcros se abriram, e muitos corpos de santos que dormiam foram ressuscitados; e, depois da sua ressurreição, saindo dos sepulcros, entraram na cidade santa e apareceram a muitas pessoas.”

Esse acontecimento descrito por Mateus (27:51-53) não é mencionado em nenhum outro Evangelho. É realmente difícil compreender como os corpos dos santos se tornaram vivos no momento da morte de Jesus (segundo os outros Evangelhos, esse acontecimento ocorreu na véspera do sábado) e saíram dos sepulcros depois da sua ressurreição (segundo os outros Evangelhos, isso ocorreu no dia seguinte ao sábado). Mas não termina aí. Talvez o acontecimento impossível mais notável seja encontrado justamente no Evangelho de Mateus. Entre todas as declarações que os evangelistas afirmam ser palavras do próprio Jesus, este relato de Mateus é o mais difícil de explicar. Sobre o sinal de Jonas, ele disse no capítulo 12, versículos 38-40: “Quando Jesus estava com os escribas e os fariseus, eles lhe disseram: Mestre, desejamos ver de ti algum sinal. Ele respondeu: Uma geração má e adúltera busca um sinal, mas nenhum sinal lhe será dado, senão o sinal do profeta Jonas. Pois assim como Jonas esteve três dias e três noites no ventre de um grande peixe, assim também o Filho do Homem ficará três dias e três noites no coração da terra.”

Assim, vemos que Jesus disse que permaneceria três dias e três noites debaixo da terra. Por isso, Mateus (assim como Lucas e Marcos) situou a morte e o sepultamento de Jesus na véspera do sábado. Consequentemente, o período de permanência de Jesus no túmulo pode ser de três dias, mas não de três noites; na realidade, são duas noites. Em outra passagem (16:1-4), Mateus também menciona esse assunto, mas ali não fala de nenhum período específico. Lucas também não menciona a duração (11:29-32). Mais adiante veremos que, no relato de Marcos (8:11-12), consta que Jesus teria dito que nenhum sinal seria dado àquela geração.

Os comentaristas dos Evangelhos sempre costumam ignorar esse assunto. Ainda assim, o padre Rosset, mencionando essa improbabilidade, disse que Jesus permaneceu no túmulo apenas três dias — um dia inteiro e duas noites. Ele, porém, explicou isso dizendo: “Na verdade, trata-se apenas de uma maneira especial de falar, mas o significado real é três dias.” Não se pode esperar que os comentaristas empreguem um argumento tão sem sentido. A sua atitude é realmente lamentável. Se tivessem dito que essa incoerência surgiu devido a um erro do autor ou do copista, isso teria sido moralmente mais satisfatório e aceitável.

Mas, além de todas essas incoerências e improbabilidades, o Evangelho de Mateus possui uma característica extremamente notável. Essa característica é que a comunidade judaico-cristã está se afastando da religião judaica original, mas, apesar disso, mantém sua lealdade ao Antigo Testamento; em toda a obra, essa corrente de pensamento e esse espírito são os mais dominantes. Do ponto de vista da história da comunidade judaico-cristã, essa característica é muito importante.

O Evangelho de Marcos (o Evangelho escrito por Marcos)

Entre os quatro Evangelhos, este é o menor e o mais antigo. Contudo, esta obra não foi escrita por nenhum apóstolo. O autor talvez tenha sido, no máximo, discípulo de algum apóstolo.

Cullmann afirmou que não considera Marcos um discípulo de Jesus. Entretanto, para aqueles que têm dúvidas quanto à atribuição a Marcos do mérito pela composição deste Evangelho, ele observou que, se Mateus e Lucas soubessem que esta obra “não foi escrita com base no ensinamento de nenhum apóstolo”, não a teriam utilizado da maneira como o fizeram. Mas não se pode chegar a nenhuma conclusão definitiva com base nesse argumento. Em apoio à sua própria dúvida, Cullmann afirmou que costuma citar frequentemente, no Novo Testamento, declarações de um indivíduo chamado “João, também conhecido como Marcos”. Contudo, em nenhuma dessas citações é mencionado o nome de um autor de Evangelho, e o texto original da obra de Marcos também não menciona o nome de nenhum autor.

Devido à falta de informações sobre esse assunto, os comentaristas introduziram detalhes que parecem claramente supérfluos. O Evangelho de Marcos contém o seguinte relato: “E um jovem, envolto em um lençol sobre o corpo nu, começou a segui-lo; eles o agarraram, mas ele, deixando o lençol, fugiu nu.” (Marcos 14:51-52). Os comentaristas supuseram que, como somente o Evangelho de Marcos relata esse acontecimento, o jovem só poderia ser o próprio Marcos, aquele discípulo fiel que tentou seguir seu mestre. (Tradução Ecumênica.) Segundo outros comentaristas, esse episódio é “uma lembrança pessoal, uma prova de autenticidade, uma assinatura anônima e uma prova de que ele era uma testemunha ocular”.

Cullmann considera que “a suposição de que o autor era de origem judaica encontra apoio em muitas palavras e frases”. Contudo, pode-se deduzir, a partir das palavras e frases latinas utilizadas na obra, que ele a escreveu em Roma. Ele se dirigiu aos cristãos que não viviam na Palestina e explicou cuidadosamente as palavras aramaicas empregadas.

Há muito tempo prevalece a ideia de que Marcos era companheiro de Pedro em Roma. O último parágrafo da primeira carta de Pedro é a base dessa ideia (naturalmente, se aceitarmos que essa carta foi escrita por Pedro). Pedro escreveu: “A comunidade que está na Babilônia, igualmente escolhida, saúda vocês, e Marcos, meu filho, também os saúda.” No comentário da Tradução Ecumênica, afirma-se: “Por Babilônia, provavelmente se entende Roma.” A partir dessa suposição, os comentaristas concluíram que, como se supõe que Marcos estava com Pedro em Roma, ele deve ter sido o autor. Ou seja, uma suposição construída sobre outra. Também aqui foi aplicado exatamente o mesmo tipo de argumento usado pelo bispo Papias de Hierápolis, em 150, quando reivindicou Marcos como autor deste Evangelho e o mencionou como “intérprete de Pedro” e possivelmente “colaborador de Paulo”!

Julgando a partir dessa perspectiva, a data de composição do Evangelho de Marcos situa-se depois da morte de Pedro, isto é, entre os anos 65 e 70, segundo a Tradução Ecumênica, e no ano 70, segundo Cullmann.

No texto original, porém, encontra-se uma grande confusão. Em nenhum lugar da obra se preserva qualquer ordem cronológica dos acontecimentos. Logo no início da narrativa (1, 16-20), Marcos falou daqueles quatro pescadores que, ao ouvirem uma única palavra de Jesus, abandonaram tudo e se tornaram seus companheiros. Eles não conheciam Jesus, mas, assim que ele disse: “Eu farei de vocês pescadores de homens”, imediatamente o seguiram. Ao que parece, Marcos não considerou que cada acontecimento deve ter alguma plausibilidade.

Segundo o padre Rosset, Marcos é um “escritor desorganizado”, “o mais fraco e o mais inexperiente dos quatro escritores”. Ele nem sequer sabe como se deve narrar um acontecimento. Para apoiar esse comentário, o padre Rosset citou a narrativa da escolha dos doze apóstolos. A narrativa é a seguinte: “Depois subiu ao monte e chamou para junto de si aqueles que ele quis; e eles foram até ele. E constituiu doze, para que estivessem com ele e para que os enviasse a pregar, e para que tivessem autoridade para expulsar demônios. Assim, constituiu os doze e deu a Simão o nome de Pedro” (Marcos 3, 13-16).

O padre Rosset considera que jamais seria possível escolher companheiros dessa maneira.

Já foi mencionado que, a respeito do sinal de Jonas, Marcos apresentou uma versão completamente oposta à de Mateus e Lucas. Ao falar da apresentação de sinais ao povo (provas da profecia) durante a pregação religiosa de Jesus, Marcos narrou uma história que não é absolutamente crível. Ele disse: “Então os fariseus saíram e começaram a discutir com ele; para pô-lo à prova, pediram-lhe um sinal do céu. Ele, suspirando profundamente em seu espírito, disse: ‘Por que esta geração busca um sinal? Em verdade lhes digo: a esta geração nenhum sinal será dado.’ Depois, deixando-os, voltou a entrar no barco e foi para a outra margem” (Marcos 8, 11-13).

Aqui se encontra, da própria parte de Jesus, a confirmação de sua determinação de não realizar qualquer ato que pudesse parecer sobrenatural. Por isso, os comentaristas da Tradução Ecumênica expressaram sua admiração. Pois, enquanto Lucas disse que Jesus mostraria um único sinal (o sinal de Jonas, como também afirmou Mateus), Marcos disse que nenhum sinal seria mostrado. Lucas, contudo, forneceu uma narrativa mais detalhada, dizendo que Jesus “mostrou ele próprio certos acontecimentos sobrenaturais como sinal” (Lucas 7, 22 e 11, 20).

O Evangelho inteiro de Marcos é reconhecido pela Igreja como original e autêntico. Ainda assim, os comentaristas modernos consideram que o capítulo final (16, 19-20) foi acrescentado posteriormente. Os comentaristas da Tradução Ecumênica são particularmente explícitos a esse respeito.

Nenhum dos manuscritos completos dos Evangelhos, datados do século IV, conhecidos como Codex Vaticanus e Codex Sinaiticus, contém esse capítulo final. Cullmann afirmou: “Mais tarde, essa conclusão foi acrescentada em alguns manuscritos gregos e em algumas outras versões, e seu conteúdo foi extraído dos demais Evangelhos.” Na realidade, podem ser encontr||||adas várias versões dessa conclusão acrescentada. Há uma versão longa e outra breve, e ambas foram incluídas na edição Revised Standard Version da Bíblia, publicada em 1952. Em algumas das versões longas encontram-se ainda certos conteúdos adicionais.

Ao comentar esse assunto, o padre Kannenگیesser disse: “A comunidade cujos membros atestaram a autenticidade do Evangelho de Marcos foi justamente aquela que, quando a obra lhes chegou oficialmente às mãos, suprimiu os versículos finais. Mateus, Lucas ou João não viram esses versículos. Mas todos sentiram que faltava algo que deveria estar presente, que o vazio deveria ser preenchido. Muito tempo depois, quando obras do mesmo tipo que as de Mateus, Lucas e João já circulavam por toda parte, foi elaborado um capítulo final apropriado para o Evangelho de Marcos, e para isso foram recolhidos conteúdos dos outros Evangelhos. Contudo, a falta de concordância entre esse acréscimo e o original pode ser facilmente percebida ao se ler o capítulo 16 do Evangelho de Marcos, dos versículos 9 a 20. Esse acontecimento permite compreender claramente quanta liberdade foi exercida para intervir nos escritos dos Evangelhos até a primeira parte do século II.”

Aqui encontramos a confissão franca de um famoso teólogo de que os seres humanos alteraram os livros religiosos.

O Evangelho de Lucas (o Evangelho escrito por Lucas)

Segundo Cullmann, Lucas é um “historiador”, enquanto o padre Kannengiesser considera que ele é um “verdadeiro romancista”. No prefácio dirigido a Teófilo, Lucas afirmou que, seguindo aqueles que anteriormente haviam escrito relatos sobre Jesus, também iria escrever um relato sobre o mesmo assunto e que, para esse propósito, utilizaria as informações e descrições das testemunhas oculares, juntamente com as informações divulgadas pelos apóstolos. Ou seja, ele próprio não era uma testemunha ocular. Portanto, é de esperar que o relato seja bem planejado, organizado e coerente. Ele escreveu assim a introdução desse relato:

“Muitos empreenderam reunir e compilar os acontecimentos que ocorreram em nossa história religiosa, bem como todas as informações e descrições que chegaram até nós por meio de testemunhas oculares e pregadores. Considerando que me informei minuciosamente sobre todos esses assuntos, julguei que seria bom escrever eu mesmo para você esse relato de maneira ordenada e sistemática, para que você conheça a verdadeira descrição dos fatos sobre os quais foi informado.”

Desde a primeira frase dessa introdução, percebe-se a diferença entre Lucas e Marcos. O Evangelho de Lucas é uma excelente obra literária escrita em grego clássico e está livre de conteúdo grosseiro.

Lucas havia se convertido ao cristianismo como um erudito aristocrata. Sua atitude em relação aos judeus é muito clara. Cullmann mostrou que Lucas omitiu a maioria dos trechos de Marcos sobre os judeus, enfatizou a incredulidade dos judeus em relação a Jesus e mostrou que Jesus tinha boas relações com os samaritanos, de quem não gostava. Mateus, por outro lado, afirmou que Jesus sempre dizia aos apóstolos que se mantivessem afastados dos samaritanos. Este é um dos inúmeros exemplos de como os autores dos Evangelhos colocaram palavras na boca de Jesus de acordo com suas próprias atitudes pessoais. Talvez tenham feito isso de boa-fé. Depois dessas provas de que os Evangelhos são “obras de tempos de guerra” ou foram “escritos para alguma ocasião específica”, há como negar isso? Essa afirmação ficará ainda mais clara quando se compararem o tom e a voz dos Evangelhos de Lucas e Mateus.

Mas quem era Lucas, na realidade? Tentou-se demonstrar que ele era a mesma pessoa que o médico de mesmo nome mencionado por Paulo em algumas de suas cartas e que o autor do Evangelho, Lucas. Os comentaristas da Tradução Ecumênica consideram: “Alguns comentaristas entendem que, pela linguagem precisa e exata com que ele descreveu as pessoas enfermas, fica estabelecida a profissão médica do autor do Evangelho.” Esse comentário é exagerado e supérfluo. Na realidade, Lucas não fez nenhuma “descrição” desse tipo. “A linguagem que utilizou é a linguagem dos eruditos da sociedade de sua época.” Havia um companheiro de viagem de Paulo chamado Lucas, mas seria ele a mesma pessoa? É o que Cullmann pensa.

A época do Evangelho de Lucas pode ser estimada com base em alguns acontecimentos: Lucas utilizou os Evangelhos de Marcos e Mateus. Pela descrição da Tradução Ecumênica, parece que ele provavelmente testemunhou o cerco e a destruição de Jerusalém pelo exército de Tito no ano 70. É provável que tenha escrito seu Evangelho depois desse período. Alguns, contudo, afirmam que ele foi escrito ainda antes.

Os diversos relatos de Lucas não coincidem de modo algum com os relatos de seus predecessores. Já foi apresentada anteriormente uma ideia geral sobre esse assunto. Exemplos dessas divergências são apresentados em várias páginas consecutivas, a partir da página 181 da Tradução Ecumênica. Além disso, Cullmann citou, na página 18 de seu livro intitulado «Novo Testamento», alguns relatos do Evangelho de Lucas que não se encontram em nenhum outro evangelho, e eles não tratam de questões insignificantes ou de meros pormenores.

O relato da infância de Jesus é um tema importante dos evangelhos. Mateus descreveu esse tema de maneira diferente de Lucas, e Marcos nem sequer fez menção à infância de Jesus.

Mateus e Lucas apresentaram duas genealogias diferentes de Jesus. Do ponto de vista da lógica e da ciência, as diferenças e improbabilidades entre essas duas genealogias são tão grandes que um capítulo separado deste livro foi dedicado a uma discussão detalhada sobre o assunto. É fácil entender por que Mateus, por escrever tendo os judeus como destinatários, começou a genealogia por Abraão e incluiu Davi; da mesma forma, é fácil compreender por que Lucas, como erudito convertido ao cristianismo, começou sua genealogia muito mais cedo. Veremos logo adiante que, a partir de Davi, essas genealogias são mutuamente contraditórias.

Mateus, Marcos e Lucas apresentaram de maneiras diferentes muitos relatos sobre o ensinamento e a pregação de Jesus. Até mesmo no que diz respeito à Eucaristia — um acontecimento tão importante do cristianismo (a ceia da Páscoa, a última refeição de pão e vinho de Jesus com seus discípulos) — o relato de Lucas não coincide com os relatos de Mateus e Marcos. (Não é possível compará-lo com o relato de João, pois ele não fez qualquer menção à instituição da Eucaristia como rito religioso durante a ceia da Páscoa.) O padre Rosette afirmou, na página 75 de seu livro intitulado «Iniciação aos Evangelhos», que a linguagem usada por Lucas no relato da instituição da Eucaristia (22, 19–24) é completamente diferente da linguagem de Mateus (26, 26–29) e Marcos (14, 22–24), embora a linguagem de Mateus e Marcos seja quase idêntica. Por outro lado, as características do vocabulário de Lucas são quase iguais às de São Paulo (Primeira Epístola aos Coríntios, 11, 23–25).

Já vimos anteriormente como aquilo que Lucas disse em seu Evangelho sobre a ressurreição de Jesus é exatamente o oposto do que ele disse em Atos dos Apóstolos (as atividades dos apóstolos). Ele é conhecido e reconhecido como o autor dessa obra, e ela é parte integrante do Novo Testamento. No Evangelho, ele disse que o acontecimento da ressurreição ocorreu no dia da Páscoa, mas, em Atos, afirmou — como já vimos — que foi necessário inventar todo tipo de explicações estranhas.

Todos os comentaristas da Tradução Ecumênica que quiseram ser objetivos tiveram de admitir, sem alternativa, que, em princípio, «não era objetivo principal de Lucas escrever um relato exato, conforme a realidade». Ao comparar o relato de Lucas em Atos sobre a ressurreição de Jesus com o relato de Paulo, o padre Kannengiesser afirmou: «Entre os quatro evangelistas, Lucas é o mais emotivo e literário. Nele estão presentes todas as qualidades de um verdadeiro romancista.»

O Evangelho de João (o Evangelho escrito por João)

O Evangelho de João é completamente diferente dos outros três evangelhos. Essa diferença é tão forte e evidente que o comentário feito pelo padre Rosette sobre o Evangelho de João, depois de comentar os outros três evangelhos em seu livro «Iniciação aos Evangelhos», causa no leitor um choque imediato. Ele diz: «Este é um mundo à parte.» E assim é. Esta obra se distingue pela seleção do conteúdo, pela maneira de organizá-lo, pelo estilo da narrativa e dos diálogos. Seu estilo literário, sua geografia e a sequência dos acontecimentos também são distintos. E, segundo Cullmann, ela também é diferente e singular do ponto de vista religioso. Em comparação com os outros, João registrou de maneira diferente as palavras de Jesus. O padre Rosette observou que, nos demais evangelhos, as palavras de Jesus «parecem uma conversa oral, viva e real», mas que, no Evangelho de João, tudo parece ser uma linguagem de meditação; e esse tom é tão intenso que, às vezes, «fica-se imaginando» se essas são realmente palavras de Jesus ou se João, sem ter consciência disso, ampliou a concepção de Jesus com seus próprios pensamentos e ideias.»

Mas quem era João? Quem ele foi? A resposta a essa pergunta é muito controversa. Muitas pessoas deram opiniões diferentes sobre o assunto. O padre Rosette e A. Tricot seguem, nesse aspecto, uma corrente que não alimenta qualquer dúvida quanto à identidade de João. Eles afirmam que o Evangelho de João foi escrito por uma testemunha ocular; João era filho de Zebedeu e irmão de Tiago. Muitas informações sobre ele são bem conhecidas e também foram publicadas em numerosos livros de ampla circulação. Segundo os especialistas em retratos, João aparece ao lado de Jesus em quase todos os retratos, como, por exemplo, na Última Ceia. O apóstolo João era uma pessoa tão conhecida que parece impossível sequer imaginar que o Evangelho não tenha sido escrito por ele.

Embora esse quarto Evangelho tenha sido escrito tão tardiamente, esse atraso provavelmente não pode ser considerado um argumento muito grave contra João. A obra foi escrita provavelmente no final do primeiro século depois da morte de Jesus. Se se considerar que sua composição ocorreu sessenta anos após a morte de Jesus, isso é bastante compatível com o fato de João ter sido jovem na época de Jesus e de ter vivido até os cem anos.

Em sua pesquisa sobre a ressurreição de Jesus do túmulo, o padre Kannengiesser chegou à conclusão de que, entre os autores do Novo Testamento, ninguém além de Paulo pode afirmar ter presenciado esse acontecimento. Apesar disso, João parece dizer que Jesus apareceu pela primeira vez a uma reunião de alguns apóstolos, exceto Tomé — possivelmente incluindo João — (20, 19-24), e, oito dias depois, apareceu novamente a todos os apóstolos reunidos (20, 25-29).

Mas Cullmann não pôde aceitar como verdadeiro esse acontecimento em sua obra intitulada O Novo Testamento.

A obra Tradução Ecumênica afirma que a maioria dos comentaristas não está disposta a aceitar que este Evangelho tenha sido escrito por João. Naturalmente, a possibilidade de que ele não tenha sido escrito por João não pode ser inteiramente descartada. Pois todos os indícios parecem mostrar que o texto do Evangelho que vemos hoje é provavelmente obra de vários autores. A mesma obra afirma ainda: “Na forma em que vemos hoje esse Evangelho, ele provavelmente foi divulgado pelos discípulos do autor, que acrescentaram por conta própria o capítulo 21 e, muito provavelmente, algumas notas (4, 2 e 4, 1; 4, 44; 7, 37d; 11, 2; 19, 35). Quanto à história da mulher adúltera (8, 2-11), todos concordam que a origem desse episódio é desconhecida e que a história foi inserida posteriormente. Apesar disso, as autoridades da Igreja reconheceram essa história como parte do texto original.” Cullmann considera que o versículo 19, 35 foi incluído na obra como o testemunho de uma testemunha ocular. Em todo o Evangelho, esse é o único testemunho explícito, embora os comentaristas considerem que ele tenha sido acrescentado posteriormente.

Cullmann considera que a questão dos acréscimos posteriores é muito clara no caso deste Evangelho, como no capítulo 21. Esse capítulo provavelmente é “obra de algum discípulo, que pode também ter feito pequenas alterações no texto original”.

Não é necessário apresentar aqui em detalhes todas as hipóteses formuladas pelos especialistas sobre o autor deste Evangelho. Pois os comentários dos eminentes escritores cristãos citados acima já fornecem provas suficientes da obscuridade e da incerteza existentes sobre esse assunto.

Muitas questões foram levantadas sobre o valor histórico das diversas histórias narradas por João. As diferenças entre essas histórias e os relatos dos outros três Evangelhos são muito claras. Cullmann ofereceu uma explicação para essa diferença. Em comparação com os outros três evangelistas, ele identificou em João uma perspectiva religiosa distinta, e foi a partir dessa perspectiva que João selecionou as histórias, as palavras e o estilo de narração. Como resultado, seu relato tornou-se mais extenso, e ele fez Jesus, como personagem histórico, dizer aquilo que o próprio Espírito Santo lhe havia revelado.” É por isso que seu relato apresenta diferenças.

Pode-se supor que, por ter escrito seu Evangelho por último, João tenha escolhido as narrativas que favoreciam suas próprias ideias. Não há motivo para se admirar de que certas descrições dos outros Evangelhos não estejam presentes no Evangelho de João. Na página 282 da obra Tradução Ecumênica, são mencionados alguns exemplos dessas descrições. Entretanto, parece estranho que certos acontecimentos não sejam sequer mencionados. Por exemplo, não há absolutamente nenhuma descrição da instituição da Eucaristia. Contudo, essa cerimônia é um aspecto fundamental do cristianismo e constitui a base das assembleias religiosas. É inconcebível que um pensador tão eminente como João, que deu tanta ênfase à contemplação, não mencionasse esse acontecimento. Mas o fato é que ele limitou seu relato à Última Ceia, à lavagem dos pés dos discípulos, à profecia da traição de Judas e ao relato da negação de Pedro.

Por outro lado, o Evangelho de João contém muitas narrativas que não aparecem nos outros três Evangelhos. Isso é mencionado na página 283 da obra Tradução Ecumênica. Nesse caso, pode-se provavelmente supor que os outros não consideraram importantes essas narrativas, mas João as considerou. O que causa espanto, porém, é que, no relato de João (21, 1-14), vemos que Jesus, depois de ressuscitar, apareceu aos discípulos à margem do mar de Tiberíades. Esse acontecimento não passa de uma cópia exata do episódio da pesca milagrosa relatado por Lucas; João, naturalmente, acrescentou muitos detalhes. No relato de Lucas (5, 1-11), afirma-se, contudo, que o episódio da pesca ocorreu enquanto Jesus ainda estava vivo. Esse relato contém uma indicação de que João estava presente no local, e há uma tradição de que João era então um pregador. Como o relato de João aparece no capítulo 21 de seu Evangelho, e se admite que esse capítulo foi acrescentado posteriormente, pode-se facilmente supor que a narrativa foi inserida mais tarde no Evangelho de João justamente porque o nome de João é mencionado no Evangelho de Lucas; em outras palavras, para narrar muito tempo depois um acontecimento da vida de Jesus, o escritor de um Evangelho não hesitou sequer em alterar a versão do relato.

Há ainda outro aspecto em que o Evangelho de João difere dos outros três Evangelhos. Trata-se da duração da pregação de Jesus. Mateus, Marcos e Lucas afirmam que Jesus pregou durante um ano. João afirma que foram dois anos. Couman destacou especialmente essa diferença. Os comentaristas da Tradução Ecumênica dizem o seguinte a esse respeito: “Os três primeiros afirmam que Jesus permaneceu por muito tempo na Galileia; depois partiu em direção à Judeia, e muitos dias se passaram no caminho. Por fim, permaneceu apenas alguns dias em Jerusalém. João, por outro lado, afirma que Jesus viajava frequentemente de uma região para outra. Depois, permaneceu por muito tempo na Judeia, especialmente em Jerusalém (1, 19-51; 2, 13-3, 36; 5, 1-47; 14, 20-31). Ele também menciona várias celebrações da Páscoa (festa judaica de comida e bebida; aniversário do acontecimento em que os anjos destruíram as cidades do Egito, mas pouparam as casas dos judeus). Assim, segundo ele, a duração da pregação de Jesus foi superior a dois anos.”

Nessas circunstâncias, em quem devemos acreditar? Em Mateus, Marcos e Lucas? Ou em João?

As fontes dos Evangelhos

A partir da apresentação geral dos Evangelhos feita anteriormente, e especialmente depois de examinar suas narrativas, surge a impressão de que as obras são “incoerentes e sem continuidade” e claramente “inconciliáveis e contraditórias”. Esse foi o parecer dos comentaristas da obra Tradução Ecumênica da Bíblia. É muito importante citar esses eminentes especialistas, pois o assunto é tão sensível que uma avaliação objetiva dele poderia provocar uma reação grave. Já vimos como algumas ideias relacionadas à história religiosa contemporânea à composição dos Evangelhos podem responder às perguntas que surgem na mente do leitor ponderado diante de certas características desconcertantes da literatura evangélica. Agora é necessário saber o que dizem os livros da época atual, especialmente o que dizem sobre as fontes utilizadas pelos evangelistas ao redigirem os Evangelhos. Também se pode investigar se a história posterior à conclusão das obras oferece respostas às diversas questões levantadas atualmente.

Na época dos Padres da Igreja, a questão das fontes era aceita de maneira muito simples. Nos primórdios do cristianismo, por fonte entendia-se apenas o manuscrito completo do Evangelho escrito por Mateus. A questão tornou-se problemática no caso de Marcos e Lucas. No caso de João, não havia problema algum, pois ele era considerado um autor de tipo diferente. Sobre Marcos, reconhecido como o segundo autor dos Evangelhos, Santo Agostinho afirmou que ele, inspirado pela obra de Mateus, apenas preparou um resumo de seu livro. Quanto a Lucas, o terceiro autor, sua opinião era que ele havia recolhido informações das obras de Mateus e Marcos, os dois. Já mencionamos anteriormente que o próprio prólogo de Lucas também fornece apoio a essa opinião.

Ou seja, a semelhança e a concordância entre os relatos dos diferentes Evangelhos já haviam sido percebidas também pelos leitores daquela época, como nós. Na época atual, os comentaristas da Tradução Ecumênica, depois de examinarem e compararem os textos, chegaram aos seguintes números:

1) Há 330 versículos iguais nos três Evangelhos……

2) Há 178 versículos iguais em Mateus e Marcos……

3) Há 100 versículos iguais em Marcos e Lucas……

4) Há 230 versículos iguais em Mateus e Lucas………

Além disso, cada Evangelho contém alguns versículos que não aparecem em nenhum outro Evangelho. O número desses versículos é: Mateus, 330; Marcos, 53; e Lucas, 500.

Desde a época dos Padres da Igreja até a parte final do século XVIII, durante mil e quinhentos anos, ninguém se preocupou com a origem dos Evangelhos. Todos aceitaram os provérbios e as lendas como verdadeiros. Depois que essas informações foram descobertas na era moderna, começou uma nova compreensão, e tornou-se possível determinar como um evangelista, obtendo informações de outro evangelista, compôs seu próprio relato de acordo com suas opiniões pessoais. Nesse contexto, deu-se especial importância à coleta de informações necessária para a composição dos relatos. Essas informações vieram, por um lado, da tradição oral da comunidade em questão e, por outro, de documentos aramaicos escritos. Não há como saber se esses documentos estavam facilmente disponíveis em forma reunida. Contudo, é certo que cada evangelista utilizou apenas as partes que atendiam às suas próprias necessidades.

Ao longo dos últimos cem anos, foram realizadas pesquisas ainda mais amplas sobre esse assunto, e delas nasceram várias teorias. Essas teorias são extensas e detalhadas, podendo assumir formas progressivamente mais complexas. A primeira teoria é conhecida como “teoria das duas fontes de Holtzmann” (1863). Cullmann e os comentaristas da Tradução Ecumênica explicaram que essa teoria sustenta que Mateus e Lucas, por um lado, talvez tenham sido influenciados por Marcos e, por outro, talvez tenham utilizado um documento comum, que mais tarde se perdeu. Além disso, ambos talvez tivessem suas próprias fontes distintas. A partir desse relato, pode-se chegar ao quadro abaixo:

b 1

Cullmann fez o seguinte comentário sobre o assunto:

1) O texto que Mateus e Lucas utilizaram, provavelmente, não era o Evangelho de Marcos, mas talvez uma composição anterior.

2) Aqui não se deu importância suficiente à tradição oral. Contudo, era precisamente este aspecto que deveria ter recebido a maior atenção, pois os relatos dos ensinamentos e das atividades de Jesus durante trinta ou quarenta anos foram preservados unicamente nessa tradição oral; e cada evangelista era apenas o porta-voz das comunidades cristãs que haviam registrado essa tradição. Assim, talvez possamos chegar à conclusão de que os Evangelhos que temos hoje diante de nós refletem tudo aquilo que as diversas comunidades cristãs antigas conheciam sobre a vida e a pregação de Jesus. Neles também se refletem suas crenças e concepções religiosas. E os evangelistas eram os porta-vozes dessa própria sociedade.

Recentemente, ao examinar o texto e investigar as fontes dos Evangelhos, descobriu-se um processo ainda mais complexo de formação desse texto. No livro intitulado “Synopsis of the Four Gospels” (1972–73), escrito por dois professores da Escola Bíblica de Jerusalém, o padre Benoit e o padre Boismard, afirma-se com especial ênfase que, paralelamente à evolução gradual das tradições e dos relatos, também a evolução do texto ocorreu igualmente por etapas sucessivas. No prefácio que o padre Benoit escreveu para a parte redigida pelo padre Boismard, descreve-se o resultado dessa evolução. Ele disse: “Como resultado da longa evolução da tradição, o uso das palavras e o estilo narrativo que o texto apresenta atualmente evidentemente, e por razões compreensíveis, não são iguais aos do original. Alguns leitores talvez fiquem surpresos ou constrangidos ao saber que certas declarações de Jesus, algumas parábolas ou certas profecias relativas ao seu próprio destino não foram proferidas por ele exatamente na forma como hoje as lemos. Aqueles que nos transmitiram essas palavras modificaram-nas ou transformaram-nas à sua própria maneira. Para aqueles que não estão familiarizados com esse tipo de investigação histórica, essa verdade pode parecer surpreendente e até mesmo escandalosa.”

O padre Boismard explicou, por meio de um esquema complexo, as alterações e transformações do texto original. Esse esquema provém da chamada “teoria das duas fontes” e foi elaborado com base no exame dos diversos textos e em sua comparação. Como o assunto é extremamente complexo, não é possível apresentar aqui um resumo dele. O leitor curioso pode consultar a obra original, “Synopse des quatre évangiles”, publicada em Paris por Les Éditions du Cerf.

As quatro espécies de documentos originais foram consideradas símbolos das fontes originais dos Evangelhos e receberam os nomes de A, B, C e D.

A — O documento A provém de uma fonte judaico-cristã. Mateus e Marcos foram inspirados por esse documento.

B — O documento B é uma reinterpretação do documento A. Essa reinterpretação foi feita para ser utilizada nas igrejas onde os antigos cultos de ídolos e o culto cristão eram praticados simultaneamente. Todos os evangelistas, exceto Mateus, foram inspirados por esse documento.

C — O documento C é a fonte de inspiração de Marcos, Lucas e João.

D — O Documento D representa a maioria das fontes utilizadas por Mateus e Lucas. É o documento comum da «teoria das duas fontes».

Contudo, a redação do Evangelho que vemos atualmente não foi composta diretamente com base em nenhum daqueles quatro documentos originais. Entre eles e a versão atual existia um texto ou versão intermediária — conhecido como Mateus intermediário ou secundário, Marcos intermediário ou secundário, Lucas intermediário ou secundário e João intermediário ou secundário. A partir desses quatro documentos intermediários foram elaboradas as versões finais dos quatro Evangelhos, que também inspiraram a composição de outros Evangelhos semelhantes. A complexa relação existente entre um documento e vários outros é apresentada mais adiante em um quadro. O resultado desta pesquisa sobre as Escrituras tem um significado especial. A pesquisa mostra que, assim como a redação do Evangelho tem uma «história», ela também possui, nas palavras do padre Boismard, um «relato das etapas de sua história». Ou seja, antes da versão final, também havia sido elaborada uma versão intermediária. Um acontecimento bem conhecido da vida de Jesus — a pesca milagrosa — é apresentado no livro de Lucas como tendo ocorrido durante a vida de Jesus. Essa discrepância é evidentemente enorme. Mas, se levarmos em consideração o uso de diferentes fontes e a elaboração de diferentes versões, talvez seja possível encontrar uma explicação coerente. Essa situação nos leva à conclusão de que, quando lemos os Evangelhos, não temos nenhuma garantia de que estamos lendo as próprias palavras de Jesus. Embora o padre Benoît o tenha dito de maneira um pouco indireta, era exatamente isso que queria dizer. Ele advertiu o leitor, mas também o consolou: «Embora o leitor tenha de abandonar a esperança de ouvir diretamente as palavras pronunciadas pela própria boca de Jesus, deve saber que está ouvindo a Igreja e deve acreditar que a Igreja é a porta-voz e intérprete divinamente designada do Senhor Jesus. Deve também saber que o Senhor Jesus falou conosco neste mundo há muito tempo e que agora fala conosco em sua majestade e em sua glória.»

Como é possível conciliar esta declaração formal de que a redação da Bíblia não contém as próprias palavras de Jesus com a declaração contrária do Segundo Concílio do Vaticano? O Concílio afirmou: «A Igreja apoia e aprova sem hesitação os quatro Evangelhos, declarando que estes livros são historicamente autênticos e genuínos; e que tudo o que Jesus, Filho de Deus, fez, disse e ensinou durante sua vida terrena para a salvação eterna e a redenção da humanidade, até sua ascensão ao céu, está correta e fielmente consignado nestes livros.»

É evidente que, no livro da Escola Bíblica de Jerusalém (Sinopse dos quatro Evangelhos), a veracidade desta declaração é diretamente negada.

Padre M. E. Boismard

Sinopse dos quatro Evangelhos

Quadro geral

b 2

Documentos A, B, C e D = documentos originais utilizados na compilação da redação

Intermediário = versão intermediária do texto

A história do texto

Seria um erro imaginar que, depois de escritos, os Evangelhos se tenham tornado a escritura fundamental do novo cristianismo e que fossem mencionados tal como o Antigo Testamento. Pois, naquela época, o principal veículo e fonte das palavras de Jesus e dos ensinamentos dos apóstolos era a tradição oral. Já as cartas de Paulo circulavam por escrito desde muito antes. Essas cartas foram escritas várias décadas antes dos Evangelhos.

Já vimos que não há nenhuma evidência da existência de uma coletânea de escritos dos Evangelhos antes do ano 140. Alguns comentaristas, contudo, ainda escrevem o contrário. Também vimos que, até antes do ano 170, os Evangelhos não haviam alcançado o status de literatura sagrada.

Nos primórdios do cristianismo, circulavam numerosos escritos sobre Jesus. Porém, mais tarde, eles não foram preservados, por não serem considerados corretos e autênticos; por ordem da Igreja, todos os escritos desse tipo foram ocultados. Por isso, receberam o nome de “apócrifos”. Embora tenham sido ocultados ou retirados, alguns escritos foram cuidadosamente preservados. Isso porque, segundo os comentaristas da Tradução Ecumênica, “eles eram geralmente considerados importantes e valiosos”. A mesma opinião também era sustentada a respeito da Carta de Barnabé; mas outros escritos foram “implacavelmente removidos” e, por isso, hoje só se encontram fragmentos deles. Como esses escritos eram considerados portadores de erro, foram retirados da vista dos cristãos fiéis. Ainda assim, tanto quanto se pode saber pelas citações da Igreja, a Bíblia dos nazarenos, a Bíblia dos hebreus e a Bíblia dos egípcios estavam estreitamente de acordo com a Bíblia original. O mesmo se pode dizer da Bíblia de Tomé e da Bíblia de Barnabé.

Alguns dos escritos que foram ocultados apresentam relatos detalhados e fictícios de certos acontecimentos. São apenas lendas populares. Os autores ofereceram esses relatos extravagantes com grande satisfação. Naturalmente, lendas desse tipo também se encontram em todas as outras Bíblias. A esse respeito, pode-se lembrar o relato fictício de Mateus sobre os supostos acontecimentos ocorridos por ocasião da morte de Jesus. Na realidade, em todos os escritos dos primórdios do cristianismo encontram-se elementos de pouca importância e de frivolidade. Essa verdade deve ser reconhecida com honestidade.

Quando a Igreja se tornou organizada, as autoridades fizeram certa seleção devido à abundância de escritos sobre Jesus. Provavelmente, cerca de cem Bíblias foram rejeitadas e apenas quatro foram mantidas. Essas quatro Bíblias são hoje consideradas “canônicas” ou reconhecidas.

Em meados do século II, Marcião de Sinope exerceu forte pressão sobre as autoridades religiosas para que tomassem uma decisão a esse respeito. Ele era um ferrenho inimigo dos judeus e considerava rejeitáveis todo o Antigo Testamento, todos os escritos relacionados ao Antigo Testamento compostos após o advento de Jesus e todos os escritos baseados na tradição judaico-cristã. Considerava correto apenas o Evangelho de Lucas. Pois acreditava que Lucas era o único porta-voz de Paulo e de seus escritos.

Por essa razão, a Igreja declarou Marcião um dissidente. Contudo, aprovou também as epístolas de Paulo, juntamente com os Evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João. Outras obras, como os Atos dos Apóstolos, foram acrescentadas a essa lista. Entretanto, essa lista nunca foi considerada definitiva, pois sofreu alterações contínuas durante os primeiros séculos. Algumas obras que mais tarde foram consideradas rejeitadas haviam sido incluídas anteriormente na lista aprovada; por outro lado, algumas obras que atualmente fazem parte do Novo Testamento aprovado eram consideradas rejeitadas naquela época. Essa controvérsia perdurou até o Concílio de Hipona Régia, em 393, e o Concílio de Cartago, em 397; contudo, aqueles quatro Evangelhos sempre fizeram parte da lista aprovada.

O padre Boismard lamentou que uma grande quantidade de obras tenha sido destruída por ter sido declarada rejeitada pela Igreja, apesar de sua importância histórica. Nós também queremos compartilhar de sua tristeza. Ele, contudo, tentou corrigir em parte essa atitude precipitada da Igreja. Em sua obra intitulada “Sinopse dos Quatro Evangelhos”, ele incluiu, ao lado dos quatro Evangelhos reconhecidos, algumas passagens daquelas obras rejeitadas. Ele observou que esses livros ainda podiam ser encontrados em várias bibliotecas até o final do século IV.

As diversas obras e escritos daquele século foram rigorosamente organizados e classificados. Os manuscritos mais antigos dos Evangelhos também datam desse período. Das obras anteriores, chegaram até nós apenas fragmentos dos papiros do século III e de outro livro do século II. Os dois manuscritos mais antigos escritos em grego sobre casca de árvore foram produzidos no século IV. Um deles é o “Codex Vaticanus”. Esse livro está atualmente preservado na Biblioteca do Vaticano; contudo, nada se sabe sobre onde e como foi encontrado. O outro é o “Codex Sinaiticus”. Esse manuscrito foi encontrado no monte Sinai e encontra-se atualmente preservado no Museu Britânico, em Londres. Ele inclui duas obras declaradas rejeitadas pela Igreja.

A obra Tradução Ecumênica menciona que se sabe da existência de mais duzentos e cinquenta manuscritos (escritos sobre casca de árvore) em diferentes partes do mundo, e que o mais recente deles foi produzido no século XI. Contudo, nem todas as cópias do Novo Testamento que chegaram até nós são iguais. Há entre elas muitas diferenças importantes quanto ao conteúdo, e o número dessas diferenças é grande. Em alguns casos, as diferenças são gramaticais, vocabulares ou relativas à ordem das palavras. Em outros, porém, elas assumiram uma forma tal que, por causa delas, o sentido de todo o parágrafo se modificou. Quem quiser ver exemplos dessas diferenças pode consultar a obra “Novum Testamentum Graece” (Nestle-Aland, United Bible Societies, Londres, 1971). Essa obra contém o chamado texto “intermediário” em grego e exemplos das diferenças entre todas as versões, juntamente com as notas e as margens.

Por mais antigo ou venerável que seja um manuscrito, a exatidão de seu texto é sempre discutível. O Codex Vaticanus é um excelente exemplo disso. Em 1965, foi publicada, sob a supervisão do Vaticano, uma edição fac-símile dessa obra, e os editores informaram no prefácio: “Vários séculos depois de este manuscrito ter sido copiado (presume-se que tenha sido copiado no século X ou XI), um escriba passou novamente a pena sobre ele para tornar os escritos mais claros; contudo, não passou a pena sobre as partes do texto que considerou incorretas.” Assim, nas partes que não foram repassadas a tinta, embora a cor seja muito clara, os escritos podem ser vistos de forma indistinta. Entretanto, não há qualquer indício de que o trabalho de tornar o texto original claro com tinta nova tenha sido realizado com grande fidelidade. Os editores disseram: “Ainda não foi possível determinar a identidade exata daqueles que, ao longo de vários séculos, corrigiram este manuscrito ou escreveram suas notas marginais. Contudo, não há dúvida de que algumas correções foram feitas quando se passou novamente a pena sobre o texto.” Em várias obras religiosas, afirma-se que esse texto foi copiado no século IV. Mas, ao investigar no próprio Vaticano, pode-se compreender que, durante vários séculos depois disso, seu texto foi alterado em diferentes épocas e por diferentes mãos.

Alguns talvez digam que basta comparar com outros textos para determinar o que é correto e o que é incorreto. Sim, isso é verdade; mas, quando o sentido dos diferentes textos também se torna diferente, como escolher um deles como original e autêntico para fazer a comparação? Além disso, já se sabe que aquilo que atualmente é considerado correto pode ser justamente a correção que, na Antiguidade, um escriba fez passando a pena sobre o texto de outro. Mais adiante veremos como, em um parágrafo escrito por João, o emprego de uma única palavra relacionada ao “Paráclito” alterou completamente seu sentido e significado do ponto de vista religioso. (Paráclito é uma palavra grega que significa consolador, muito louvado, portador da verdade, entre outros sentidos. Por meio dessa palavra, a Bíblia predisse a vinda do último Profeta, Hazrat Muhammad, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele. João 16:13. Há indicações ainda mais claras em outras partes da Bíblia. Nota do tradutor bengali.)

Sobre as diferenças entre os diversos textos, Kulmann afirmou em sua obra intitulada “O Novo Testamento”: “As diferenças encontradas nos textos posteriores ocorreram, em alguns casos, por descuido. O copista talvez tenha omitido uma palavra, escrito uma vez algo que deveria ter sido escrito duas vezes ou, quando a mesma palavra aparecia duas vezes em uma frase, talvez tenha omitido completamente o trecho entre essas duas palavras. Tudo isso pode ter acontecido por engano. Em alguns casos, porém, ele pode também ter feito correções intencionalmente ou, numa tentativa consciente de reduzir as diferenças, ter feito correções para harmonizar o texto com algum outro. Mais tarde, quando os escritos do Novo Testamento começaram gradualmente a se separar da literatura cristã antiga e passaram a ser considerados sagrados, os copistas também se tornaram cautelosos. Sem cometer os erros dos copistas anteriores nem exercer pensamento independente, passaram a copiar literalmente, por considerarem o texto sagrado; assim, preservaram exatamente as diferenças anteriores. Além disso, alguns copistas escreviam notas à margem para explicar um parágrafo obscuro. Um copista posterior talvez pensasse que a nota havia sido escrita fora do texto por engano e, por isso, a incorporasse ao próprio texto. Como resultado desse processo, o novo texto se tornou, na realidade, ainda mais obscuro.”

Os copistas de alguns manuscritos fizeram alterações extensas no texto. As traduções latinas, como a “Vulgata” de Jerônimo, do século VI, ou a ainda mais antiga “Vetus Itala”, são mais confiáveis do que as traduções siríaca e copta? Talvez todas essas traduções tenham sido feitas a partir dos manuscritos mencionados acima, e posteriormente esses manuscritos tenham desaparecido. Não sabemos absolutamente nada com certeza.

Esses textos de diferentes versões podem ser divididos em várias categorias com base em algumas características comuns. Segundo Cullmann, essas categorias são as seguintes:

Primeira categoria: o chamado texto siríaco. A maioria dos antigos manuscritos gregos pode ter sido preparada com base na compilação desse texto. Graças à imprensa, ele se difundiu amplamente por toda a Europa a partir do século XVI. Contudo, os especialistas afirmam que este é provavelmente o texto de qualidade mais inferior.

Segunda categoria: o chamado texto ocidental. Esta categoria inclui as antigas versões latinas e o Codex Bezae Cantabrigiensis, nas línguas grega e latina. Segundo os comentaristas da Tradução Ecumênica, uma característica evidente desse texto é oferecer explicações, expressar o mesmo significado mediante o uso de palavras diferentes, fornecer dados estatísticos incorretos e tentar conciliar contradições.

Terceira categoria: o chamado texto neutro. O Codex Vaticanus e o Codex Sinaiticus pertencem a essa categoria. Diz-se que esse texto possui considerável pureza e precisão. É principalmente esse texto que é seguido nas edições modernas do Novo Testamento, embora, segundo a Tradução Ecumênica, ele também contenha erros consideráveis. Quanto a isso, a única coisa que os críticos da era moderna podem fazer é, segundo a Tradução Ecumênica, esforçar-se para reconstruir “um texto que possa ao menos aproximar-se do original. Mas, qualquer que seja a situação, não há como recuperar novamente esse original”.

Os quatro Evangelhos e a ciência moderna

Nos quatro Evangelhos há pouquíssimos acontecimentos capazes de resistir ao confronto com os dados científicos modernos.

Tomemos primeiro a questão dos acontecimentos milagrosos. Há muitos relatos desse tipo de acontecimento, mas não é possível fazer qualquer comentário científico sobre um milagre. Existem dois tipos de acontecimentos milagrosos. O primeiro diz respeito às pessoas, especialmente à cura de doentes — como a cura de insanos, cegos, paralíticos e leprosos, e a ressurreição de Lázaro. O segundo tipo diz respeito ao comportamento das coisas de uma maneira contrária às leis naturais — como Jesus caminhando sobre a água ou a água transformando-se em vinho. Às vezes, porém, acontecimentos puramente naturais também foram vistos de uma perspectiva extraordinária. Isso ocorreu porque o intervalo de tempo era muito curto — por exemplo, uma tempestade que cessou instantaneamente, uma figueira que ficou sem folhas e murchou, ou a captura conjunta de uma enorme quantidade de peixes, dando a impressão de que todos os peixes do mar já haviam se reunido no local onde a rede seria lançada.

Como Allah é Todo-Poderoso, pode facilmente fazer com que todos esses acontecimentos ocorram, e não há razão para se admirar disso. Aquilo que parece difícil ou impossível aos seres humanos não é de modo algum assim para Allah. Mas isso não significa que aquele que crê em Allah possa ignorar as leis da natureza. Não há absolutamente nenhuma contradição entre crer no poder miraculoso de Allah e crer nas leis naturais. Na realidade, ambos são apenas manifestações diferentes do mesmo Poder Supremo.

Pessoalmente, estou disposto a acreditar que Jesus curou um leproso. Mas, quando se declara correta e inspirada por Allah uma narrativa segundo a qual houve apenas uma diferença de vinte gerações entre o primeiro homem e Abraão, sou incapaz de aceitá-la. Lucas disse exatamente isso em seu Evangelho (3,23-28). Dentro de pouco, explicaremos por que essa narrativa de Lucas e a narrativa do Antigo Testamento sobre o mesmo assunto são meras fantasias humanas.

Sobre o nascimento de Jesus, há no Evangelho uma narrativa semelhante à do Alcorão. A lei natural geral que se aplica a toda a humanidade não se aplicou à concepção de Jesus no ventre materno. O acontecimento ocorreu fora do âmbito dessa lei natural. O óvulo formado no ovário da mãe não precisou unir-se a nenhum espermatozoide. Contudo, segundo a lei natural comum, o nascimento de uma criança só é possível depois que o óvulo da mãe se une a um espermatozoide masculino. É claro que, em alguns casos, a reprodução natural de um ser vivo pode ocorrer sem a união com um macho; na terminologia científica, esse processo é conhecido como “partenogênese”. Em alguns insetos, animais invertebrados e aves, observa-se ocasionalmente o nascimento por esse processo. Entretanto, tais casos são certamente raros e excepcionais. Experimentos realizados com alguns mamíferos, especialmente coelhas, mostraram que, sem a união com um macho, pode formar-se no óvulo um embrião em estágio muito inicial. Mas isso é tudo. Não foi possível avançar além desse ponto, e ainda não se conhece nenhum caso de nascimento completo sem a união com um macho, seja por processo natural, seja em laboratório. O caso de Jesus é absolutamente singular. Maria era uma mãe virgem. Sua virgindade permaneceu intacta, e ela não teve nenhum outro filho além de Jesus. Portanto, Jesus constitui uma exceção às leis da biologia.

Na Bíblia, menciona-se ocasionalmente que Jesus tinha irmãos e irmãs (Mateus 13,46-50 e 54-58; Marcos 6,1-6; João 7,3 e 2,12). As duas palavras gregas usadas são “adelphoi” e “adelphai”, e significam irmão e irmã carnais. A palavra semítica presente no original significa parente e provavelmente foi usada no sentido de primos e outras relações de parentesco. Na tradução para o grego, foi cometido claramente um erro.

A genealogia de Jesus

Nas duas genealogias presentes nos Evangelhos de Mateus e Lucas, há muitas questões quanto à veracidade do conteúdo e à sua concordância com os dados científicos. Em outras palavras, há motivos para sérias dúvidas sobre a exatidão dessas duas genealogias. Os comentaristas cristãos ficam muito constrangidos com esse assunto, pois de modo algum querem admitir que essas genealogias são, na realidade, produto da imaginação humana. No século VI a.C., os autores do relato sacerdotal do Gênesis, valendo-se de sua imaginação, elaboraram uma genealogia dos primeiros seres humanos. Mateus e Lucas extraíram muitas informações dessa genealogia e, combinando-as com a narrativa do Antigo Testamento, elaboraram suas próprias genealogias.

Antes de tudo, é preciso deixar claro que, no caso de Jesus, uma genealogia pela linha paterna não tem absolutamente nenhum valor, pois ele não teve pai. Portanto, se alguém quiser elaborar sua genealogia, ela deverá, na realidade, ser a genealogia de sua mãe, Maria.

A seguir, é citada a genealogia de Jesus apresentada por Mateus na Versão Padrão Revisada da Bíblia, publicada em 1952. É significativo que essa genealogia apareça logo no início do Evangelho de Mateus:

A genealogia de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão

Abraão —- era pai de Isaque

Isaque —- era pai de Jacó

Jacó —- era pai de Judá e de seus irmãos

Judá —- era pai de Perez e Zerá, gerados por Tamar

Perez —- era pai de Hezrom

Hezrom —- era pai de Rão

Rão —- era pai de Aminadabe

Aminadabe —- era pai de Naassom

Naassom —- foi pai de Salmom

Salmom —- foi pai de Boaz, gerado por Raabe

Boaz —- foi pai de Obede, gerado por Rute

Obede —- foi pai de Jessé

Jessé —- foi pai do rei Davi

Davi —- foi pai de Salomão, gerado pela esposa de Urias

Salomão —- foi pai de Roboão

Roboão —- foi pai de Abias

Abias —- foi pai de Asa

Asa —- foi pai de Josafá

Jorão —- foi pai de Uzias

Uzias —- foi pai de Jotão

Jotão —- foi pai de Acaz

Acaz —- foi pai de Ezequias

Ezequias —- foi pai de Manassés

Manassés —- foi pai de Amós

Amós —- era pai de Josias

Josias —- era pai de Jeconias e de seus irmãos

Essa situação existia no tempo do exílio na Babilônia. Depois do exílio:

Jeconias —- era pai de Sealtiel

Sealtiel —- era pai de Zorobabel

Zorobabel —- era pai de Abiúde

Abiúde —- era pai de Eliacim

Eliacim —- era pai de Azor

Azor —- era pai de Zadoque

Zadoque —- era pai de Aquim

Aquim —- era pai de Eliud

Eliud —- era pai de Eleazar

Eleazar —- era pai de Matã

Matã —- era pai de Jacó

Jacó —- era pai de José; este José era marido de Maria, de cujo ventre nasceu Jesus, que foi chamado Cristo.

Assim, houve catorze gerações desde Abraão até Davi, catorze gerações desde Davi até o exílio na Babilônia e catorze gerações desde o exílio na Babilônia até Cristo (Mateus 1:1-17). A genealogia apresentada por Lucas (2:23-38) difere da de Mateus. Transcreve-se agora o seu texto da Bíblia, na versão Standard Revisada:

“E o próprio Jesus, quando começou seu ministério, tinha cerca de trinta anos; era, como se supunha, filho de José (Yusuf), filho de Eli, filho de Matate, filho de Janna, filho de José, filho de Matatias, filho de Amós, filho de Naum, filho de Esli, filho de Nagai, filho de Máate, filho de Matatias, filho de Simei, filho de José, filho de Joana, filho de Resa, filho de Zorobabel, filho de Salatiel, filho de Neri, filho de Melqui, filho de Adi, filho de Cosã, filho de Elmadã, filho de Er, filho de Josué, filho de Eliézer, filho de Matate, filho de Levi, filho de Simeão, filho de Judá, filho de José, filho de Jonã, filho de Eliaquim, filho de Meleá, filho de Mená, filho de Matatá, filho de Natã, filho de Davi, filho de Jessé, filho de Obede, filho de Boaz, filho de Salmom, filho de Naassom, filho de Aminadabe, filho de Admin, filho de Arni, filho de Esrom, filho de Perez, filho de Judá, filho de Jacó, filho de Isaque, filho de Abraão, filho de Terá, filho de Naor, filho de Serugue, filho de Reú, filho de Pelegue, filho de Héber, filho de Selá, filho de Cainã, filho de Arfaxade, filho de Sem, filho de Noé, filho de Lameque, filho de Matusalém, filho de Enoque, filho de Jarede, filho de Maalalel, filho de Cainã, filho de Enos, filho de Sete, filho de Adão, filho de Deus.”

Essa genealogia ficará mais clara se for dividida em duas partes e apresentada em duas listas separadas. A primeira lista vai até Davi, e a segunda corresponde ao período posterior a Davi.

Antes de Davi

Relato de Mateus —————————– Relato de Lucas

—– ——- —————————– 1) Adão

—– ——- —————————– 2) Sete

—– ——- —————————– 3) Enos

—– ——- —————————– 4) Cainã

—– ——- —————————– 5) Maalalel

—– ——- —————————– 6) Jarede

—– ——- —————————– 7) Enoque

—– ——- —————————– 8) Matusalém

—– ——- —————————– 9) Lameque

—– ——- —————————– 10) Noé

—– ——- —————————– 11) Sem

—– ——- —————————– 12) Arfaxade

—– ——- —————————– 13) Cainã

—– ——- —————————– 14) Salá

—– ——- —————————– 15) Éber

—– ——- —————————– 16) Pelegue

—– ——- —————————– 17) Reú

—– ——- —————————– 18) Serugue

Mateus, os anteriores a Abraão ——————19) Naor

Nenhum nome foi mencionado. ————– 20) Terá

1) Abraão ——————————– 21) Abraão

2) Isaque ——————————– 22) Isaque

3) Jacó ——————————– 23) Jacó

4) Judá ——————————– 24) Judá

5) Perez ——————————– 25) Perez

6) Esrom —————————— 26) Esrom

7) Ram ———————————— 27) Arni

8) Aminadabe ————————— 28) Admin

9) Naassom —————————— 29) Aminadabe

10) Salmom —————————— 30) Naassom

11) Boaz ——————————- 31) Salá

12) Obede ——————————– 32) Boaz

13) Jessé ——————————– 33) Obede

14) Davi ——————————– 35) Davi

Depois de Davi

Relato de Mateus —————————— Relato de Lucas

14) Davi ——————————– 35) Davi

15) Salomão —————————– 36) Natã

16) Roboão ———————— 37) Matatá

17) Abias ————————- 38) Mená

18) Asa —————————– 39) Meleá

19) Josafá ——————– 40) Eliaquim

20) Jorão ————————— 41) Jonã

21) Uzias —————————- 42) José

22) Jotão —————————- 43) Jodá

23) Acaz —————————– 44) Simeão

24) Ezequias ————————- 45) Levi

25) Manassés ————————— 46) Matate

26) Amós —————————– 47) Jorim

27) Josias —————————– 48) Eliezer

28) Jeconias ————————- 49) Josué

Exílio na Babilônia ———————– 50) Er

29) Sealtiel ————————- 51) Elmadã

30) Zorobabel ———————– 52) Cosã

31) Abiud —————————– 53) Addi

32) Eliacim ————————- 54) Melqui

33) Azor —————————- 55) Neri

34) Sadoc —————————— 56) Sealtiel

35) Aquim ——————————- 57) Zorobabel

36) Eliud —————————– 58) Resa

37) Eleazar ————————– 59) Joanan

38) Menna ——————————— 60) Joda

39) Jacó —————————— 61) José

40) José —————————– 62) Semei

41) Jesus ———————————- 63) Matatias

——————————————— 64) Maate

——————————————— 65) Nagai

——————————————— 66) Esli

——————————————— 67) Naum

——————————————— 68) Amós

——————————————— 69) Matatias

——————————————— 70) José

——————————————— 71) Janai

——————————————— 72) Melqui

——————————————— 73) Levi

——————————————— 74) Matate

——————————————— ৭৫) Heli

——————————————— ৭৬) José

——————————————— ৭৭) Jesus

Diferenças entre o manuscrito e o Antigo Testamento

Além das diferenças na grafia, merecem atenção os seguintes aspectos dos dois Evangelhos:

Evangelho de Mateus

No importantíssimo manuscrito do século VI chamado Codex Bezae Cantabrigiensis, escrito tanto em grego quanto em latim, não há genealogia. A genealogia já desapareceu do manuscrito grego e também desapareceu em grande parte do manuscrito latino. As primeiras páginas provavelmente foram perdidas.

É particularmente digno de nota como Mateus distorceu o Antigo Testamento nesse aspecto. Para produzir uma impressionante demonstração numérica, ele começou a agrupar os nomes mencionados na genealogia, mas, como já vimos, no fim não a completou.

Evangelho de Lucas

Antes de Abraão — Lucas mencionou 20 nomes, mas no Antigo Testamento são mencionados apenas 19 (veja a lista dos descendentes de Adão apresentada anteriormente). Depois do nome de Arfaxade (nº 12), Lucas acrescentou o nome de Cainã (nº 13), embora no Gênesis ele não seja mencionado como filho de Arfaxade.

De Abraão a Davi — nos manuscritos encontram-se menções a 14 a 16 nomes nesse período.

De Davi a Jesus

O exemplo mais significativo de diferença encontra-se no Codex Bezae Cantabrigiensis. A razão dessa diferença é que Lucas, tomando informações da genealogia de Mateus, preparou por conta própria uma genealogia fantasiosa, e os copistas acrescentaram mais cinco nomes à sua lista. Mas, infelizmente, a genealogia do Evangelho de Mateus desapareceu desse manuscrito. Portanto, agora não há mais nenhuma maneira de fazer uma comparação.

Crítica do Evangelho

As duas genealogias que temos diante de nós possuem uma característica comum: ambas as linhas passam por Abraão e Davi. Para examinar a questão, dividiremos a genealogia em três partes: (1) de Adão a Abraão; (2) de Abraão a Davi; (3) de Davi a Jesus.

(1) De Adão a Abraão

Mateus começou sua genealogia por Abraão. Portanto, seu relato não existe neste ponto. Somente Lucas mencionou os nomes dos 20 antepassados de Abraão até Adão. Contudo, já vimos que no Gênesis (capítulos 4, 5 e 11) constam apenas 19 nomes.

Mas é crível que antes de Abraão tenham existido apenas 19 ou 20 gerações? Esse problema foi examinado na discussão sobre o Antigo Testamento. Observando a lista dos descendentes de Adão apresentada no Gênesis e considerando a duração dos períodos mencionados na Bíblia, verifica-se que transcorreram aproximadamente dezenove séculos entre o primeiro aparecimento do ser humano na Terra e o nascimento de Abraão. Atualmente, supõe-se que Abraão tenha vivido em 1850 a.C.; com base nisso, e de acordo com as informações do Antigo Testamento, verifica-se que o primeiro aparecimento do ser humano na Terra ocorreu aproximadamente no século XXXVIII a.C. Já vimos a evidente falsidade dessa cópia do cálculo e a conclusão histórica definitiva que levou a esse resultado.

Todos reconhecem que as informações do Antigo Testamento já não são aceitáveis atualmente. No Segundo Concílio Vaticano, esse tipo de informação foi declarado “obsoleto”. É muito importante a constatação de que foram justamente essas informações cientificamente incoerentes que foram usadas nos Evangelhos, e esse argumento pode ser aplicado contra aqueles que defendem a exatidão histórica dos relatos dos Evangelhos.

Os comentaristas não tardaram a perceber esse perigo. Por isso, querem livrar-se dele dizendo que essa genealogia não é completa e que Lucas omitiu alguns nomes. Afirmam que ele omitiu nomes deliberadamente, pois seu “único objetivo era estabelecer uma linha genealógica aproximada, com as características essenciais, baseada na realidade histórica”. (A. Tricot, Little Dictionary of the New Testament, Paris). Mas não há absolutamente nenhuma razão para dizer isso com base no que consta nos Evangelhos. Pois neles se afirma que A era pai de B, ou que B era filho de A. Especialmente no que diz respeito ao período anterior a Abraão, Lucas baseou-se inteiramente no Antigo Testamento, onde o relato é apresentado desta maneira: depois que A atingiu a idade de P anos, tornou-se pai de B; depois que B atingiu a idade de D anos, tornou-se pai de G. Portanto, não há possibilidade de lacunas.

Com base em todas as informações reunidas na era moderna, a genealogia de Jesus anterior a Abraão, apresentada por Lucas, não pode de modo algum ser aceita.

(2) De Abraão a Davi

Nesse período, as genealogias dos dois coincidem quase completamente, exceto por um ou dois nomes. Os nomes que não coincidem podem ser facilmente explicados como erros do copista.

Mas será que, por isso, devemos concluir que os evangelistas Mateus e Lucas apresentaram relatos exatos?

Segundo os cálculos dos historiadores, Davi viveu por volta de 1000 a.C., e Abraão viveu por volta de 1800–1850 a.C. Ora, para aceitar como corretos os relatos de Mateus ou Lucas, é preciso admitir que, ao longo de aproximadamente oitocentos anos, viveram de catorze a dezesseis gerações. Mas isso é crível? O que é dito no relato dos Evangelhos sobre esse período ultrapassa quase os limites da possibilidade e da credibilidade.

(3) O período posterior a Davi

Ao tentar harmonizar a genealogia de Davi até José, isto é, até Jesus, constata-se que o relato de Lucas não coincide de modo algum com o de Mateus.

Deixando de lado, por enquanto, a evidente falsificação feita no caso de Lucas no Codex Bezae Cantabrigiensis, podemos comparar o que é dito nos dois manuscritos mais respeitados, o Codex Vaticanus e o Codex Sinaiticus.

Na genealogia de Lucas, há ao todo 42 nomes depois de Davi (n.º 35) até Jesus (n.º 77). Em contrapartida, na genealogia de Mateus, há ao todo 27 nomes de Davi (n.º 14) até Jesus (n.º 41). Os nomes dos supostos antepassados de Jesus apresentados depois de Davi são diferentes nos dois relatos. Além disso, os nomes apresentados também não são os mesmos nos dois relatos. Mas não termina aí.

Mateus nos disse que descobriu como os 14 nomes da genealogia de Jesus depois de Abraão foram divididos em três partes. A primeira parte vai de Abraão a Davi; a segunda, de Davi ao exílio na Babilônia; e a terceira, do exílio até Jesus. É verdade que as duas primeiras partes de seu relato têm 14 nomes cada, mas a terceira tem apenas 13 nomes, e não 14. Na lista que ele forneceu, vê-se que Salatiel aparece no número 29, e Jesus, no número 41. Não se encontra nenhuma versão de seu relato em que a terceira parte contenha 14 nomes.

Mateus alterou amplamente a genealogia apresentada no Antigo Testamento para fazer com que o número de nomes em sua segunda parte fosse 14. Os nomes dos seis descendentes de Davi (dos números 15 a 20) coincidem com o relato do Antigo Testamento, mas ele omitiu os nomes dos três descendentes de Jeorão (número 20) apresentados no capítulo das Crônicas: Acazias, Joás e Amazias. Em outra passagem, Mateus afirma que Jeconias (número 28) era filho de Josias, mas no capítulo Segundo Reis do Antigo Testamento vê-se que havia outra pessoa entre Josias e Jeconias, cujo nome era Eliaquim.

Assim, vê-se que Mateus alterou a genealogia apresentada no Antigo Testamento para oferecer uma lista artificial de 14 nomes no período entre Davi e o exílio na Babilônia. Além disso, falta um nome na terceira parte de Mateus. Ou seja, nenhuma das versões atualmente correntes da Bíblia contém exatamente 14 nomes. Pode-se tentar atribuir a falta de um nome ao erro de algum antigo copista, mas isso, na realidade, não é uma questão importante. O importante é que nenhum comentarista se pronunciou sobre o assunto; todos mantiveram silêncio. Qual poderia ser a possível explicação para esse silêncio? W. Trilling, em seu livro “O Evangelho segundo Mateus” (editora Desclée, Paris), destruiu essa piedosa conspiração do silêncio escrevendo apenas uma frase. O assunto é muito importante, pois vários comentaristas deste Evangelho, incluindo a Tradução Ecumênica e o cardeal Daniélou, deram especial ênfase ao enorme significado simbólico do cálculo de Mateus: 3 × 14. Isso significa que esse significado era tão importante para Mateus que, para chegar a esse cálculo, ele não hesitou sequer em ocultar os nomes apresentados no Antigo Testamento.

Não há dúvida alguma de que os comentaristas podem apresentar toda sorte de desculpas para justificar o que Mateus fez. Mas como poderão eles escapar desta verdade: ao ocultar os nomes, o próprio objetivo fundamental que Mateus queria demonstrar foi destruído?

Exposição e comentários de especialistas modernos

O cardeal Daniélou afirmou em sua obra “Gospels of Childhood” (Editions du Seuil, Paris) que o “projeto numerológico” de Mateus tem uma importância simbólica especial, pois foi precisamente por meio dessa proposição que a ascendência de Jesus foi comprovada, e Lucas também apoiou essa questão. Segundo ele, Mateus e Lucas eram, na realidade, historiadores; eles concluíram uma “investigação histórica” e reuniram essas genealogias a partir dos “documentos familiares de Jesus”.

É digno de nota, a propósito, que jamais se encontrou qualquer vestígio dos documentos familiares de Jesus. O autor disse ter tomado conhecimento da existência desses documentos por meio da História Eclesiástica escrita por Eusébio Pânfilo. Mas há muito a dizer sobre a própria competência e confiabilidade de Pânfilo. Além disso, por que os documentos familiares de Jesus conteriam duas genealogias de dois tipos diferentes? Foi simplesmente porque dois supostos “historiadores” apresentaram duas genealogias diferentes que foi necessário descobrir nesses documentos duas genealogias distintas?

O cardeal Daniélou investiu contra todos os que criticaram esse seu ponto de vista: “Ao interpretar o Evangelho, muitos especialistas perderam o rumo por causa da mentalidade ocidental, da ignorância em relação à religião judaico-cristã e da falta de uma perspectiva semítica. Eles impuseram nessa interpretação suas próprias perspectivas, influenciadas por Platão, Descartes, Hegel e Heidegger. Assim, é fácil compreender que tenham misturado uma grande variedade de elementos.” Ora, que relação pode haver entre adotar uma atitude crítica em relação a essa genealogia fictícia e filósofos como Platão, Descartes, Hegel ou Heidegger?

Ao procurar o significado da proposição 3×14 de Mateus, o autor apresentou e analisou uma hipótese absurda. Suas próprias palavras podem ser citadas aqui: “Na realidade, fala-se aqui das dez semanas gerais da revelação judaica. Devem-se excluir as primeiras três semanas para o período entre Adão e Abraão; então restarão sete semanas dos anos; as primeiras seis semanas serão seis vezes sete, relacionadas às três classes de quatorze; e a sétima semana restante começou com o tempo de Jesus, pois, com a vinda de Jesus, começou imediatamente a sétima era do mundo.” Evidentemente, esse tipo de interpretação não merece comentário.

Os comentaristas da Tradução Ecumênica — Novo Testamento também apresentaram o mesmo tipo de interpretação numerológica ridícula. Eles explicaram a proposição 3×14 de Mateus da seguinte maneira:

(a) O número 14 pode ser a soma numérica das consoantes do nome hebraico David: D = 4 e V = 6; portanto, 4 + 6 + 4 = 14.

(b) 3X14=16X7, e Jesus aparece no fim da sexta semana da história sagrada que começou com o surgimento de Abraão.”

No caso de Lucas, essa obra apresenta 77 nomes, de Adão até Jesus, e o número 7 é novamente introduzido da seguinte maneira: 77 é dividido por 7, ou seja, 7X11=77. É evidente que os 77 nomes, resultantes em toda parte da diferença numérica criada pela adição ou subtração de alguma palavra, são inteiramente artificiais e fictícios. Contudo, é digno de nota que esse jogo de números combina bastante bem com a tese.

Com base nas duas genealogias de Jesus presentes nos Evangelhos, os comentaristas cristãos fizeram exercícios de raciocínio tão imaginativos quanto a imaginação de Mateus e Lucas.

Contradições e improbabilidades nas narrativas

Cada um dos quatro Evangelhos contém relatos de muitos acontecimentos que talvez estejam presentes em apenas um, em alguns ou em todos os Evangelhos. Quando o relato de um acontecimento desse tipo é encontrado em apenas um Evangelho, surgem alguns problemas graves. Às vezes, um acontecimento extremamente importante é relatado talvez em apenas um Evangelho. Como exemplo, pode-se mencionar a ascensão de Jesus ao céu no dia de sua ressurreição. Em outros casos, acontecimentos diversos são descritos de maneiras muito diferentes em dois ou mais Evangelhos. Os cristãos geralmente ignoram essas contradições; mas, quando por acaso descobrem essa diferença entre vários Evangelhos, ficam realmente surpresos. A razão de sua surpresa é que, durante muito tempo, lhes foi assegurado que os autores do Novo Testamento haviam visto com os próprios olhos cada um dos acontecimentos que relataram.

Alguns casos desse tipo de improbabilidade e contradição já foram mencionados. Contudo, é sobretudo nos acontecimentos do período final da vida de Jesus e, especialmente, nos acontecimentos posteriores ao seu sofrimento e perseguição que se encontram mais exemplos de diferenças e contradições nas narrativas.

Relato da perseguição

O próprio Padre Rosset observou que o acontecimento da Páscoa (a festa comemorativa da libertação dos judeus da escravidão no Egito) é mencionado, nos diferentes Evangelhos, como tendo ocorrido em momentos diferentes em relação à última ceia de Jesus com os discípulos. João afirmou que a última ceia foi realizada “antes da festa da Páscoa”, mas os outros três evangelistas disseram que a ceia ocorreu durante essa festa. Essa diferença gerou uma improbabilidade evidente: por causa de sua relação com a festa da Páscoa, a própria ceia tornou-se impossível. Para aqueles que conhecem a importância da Páscoa na história judaica e a importância da ceia de despedida de Jesus dos discípulos na história cristã, como é possível acreditar que os evangelistas tenham esquecido completamente a sequência desses dois acontecimentos?

Da mesma forma, cada evangelista apresentou de maneira diferente a descrição da Paixão (o episódio da perseguição e crucificação de Jesus). Em particular, a descrição de João é completamente diferente das descrições dos outros três. Além disso, a descrição que João fez da Última Ceia e da Paixão é muito extensa — quase o dobro da descrição de Marcos e Lucas e cerca de uma vez e meia a de Mateus. No Evangelho de João há um longo discurso de Jesus aos discípulos, que ocupa quatro capítulos (14–17). Nesse discurso, ele diz que está transmitindo suas últimas instruções e deixando seu último testamento religioso. Mas não há sequer vestígio desse discurso nos outros três Evangelhos. Por outro lado, João nem sequer mencionou a descrição que Mateus, Lucas e Marcos fizeram da oração de Jesus no jardim de Getsêmani.

Não há descrição da Eucaristia no livro de João

Ao ler a descrição da Paixão no livro de João, o que mais chama a atenção do leitor é que ele não fez nenhuma menção à cerimônia da Eucaristia (a união com Jesus por meio do consumo do pão e do vinho sagrados) durante a Última Ceia de Jesus e seus discípulos.

Provavelmente não se encontrará um único cristão que desconheça a representação pictórica da Última Ceia. Nessa pintura, vê-se Jesus sentado à mesa com seus discípulos pela última vez. Quase todos os artistas famosos do mundo pintaram essa obra, na qual João aparece sentado ao lado de Jesus. É importante observar que estamos acostumados a considerar esse mesmo João o autor do Evangelho conhecido por esse nome.

Embora isso pareça surpreendente para muitos, é verdade que a maioria dos especialistas não considera João o autor do quarto Evangelho. E nesse Evangelho não há nenhuma menção à Eucaristia. No entanto, o acontecimento em que o pão e o vinho são santificados e se transformam no corpo e no sangue de Jesus é uma parte indispensável do culto cristão. Embora de maneiras diferentes, os outros evangelistas fizeram menção a isso; mas João nada disse a esse respeito. Nas descrições dos quatro, há concordância apenas em dois pontos: a negação de Pedro e a profecia sobre a traição de um dos apóstolos (o nome de Judas Iscariotes é mencionado somente por Mateus e João). E o fato de Jesus ter lavado os pés de seus discípulos antes daquela refeição é encontrado apenas na descrição de João.

Mas qual é a razão de não haver menção à Eucaristia no livro de João? Pensando de maneira imparcial, a primeira resposta que vem à mente é que, se a narrativa dos outros três livros for verdadeira, essa parte do livro de João talvez tenha se perdido. Contudo, os comentaristas cristãos não chegaram a tal conclusão. Pode-se examinar algumas de suas opiniões a esse respeito.

A. Tricot, em seu livro The Little Dictionary of the Testament, afirmou sob o título “Última Ceia”: “Jesus comeu a última refeição com os doze discípulos e, nessa ocasião, instituiu a cerimônia da Eucaristia. Os três primeiros Evangelhos (Mateus, Marcos e Lucas) contêm uma descrição desse fato, e o quarto Evangelho (João) apresenta uma descrição detalhada.” Contudo, sob o título “Eucaristia”, ele escreveu: “Os três primeiros Evangelhos contêm uma breve descrição da instituição dessa cerimônia; ela é uma parte importante do método de ensino religioso do profeta. No contexto da descrição do discurso de Jesus sobre o ‘pão da vida’, João (6:32–58) acrescentou muitas outras informações e detalhes àquela breve descrição.” O surpreendente, porém, é que ele não mencionou de modo algum o fato de João não ter apresentado nenhuma descrição da instituição da Eucaristia. O que ele disse sobre muitas informações e detalhes não tem relação alguma com a instituição da Eucaristia, pois João descreveu principalmente o episódio de lavar os pés dos discípulos. A referência feita pelo comentarista Tricot ao “pão da vida” é algo completamente distinto. Não tem relação alguma com a Última Ceia. Em seu discurso, Jesus apenas mencionou o alimento chamado maná, que os judeus recebiam diariamente da parte de Deus enquanto permaneciam no deserto, depois de terem fugido do Egito sob a liderança de Moisés; e somente no livro de João essa menção foi registrada. Ao falar do pão, Jesus fez incidentalmente uma menção à Eucaristia, e João também registrou isso no parágrafo seguinte, mas não há nenhuma menção a esse assunto nos outros três livros.

Assim, vê-se que João nada disse sobre aquilo que os outros três disseram; e, por sua vez, eles nada disseram sobre aquilo que João disse (a suposta profecia de Jesus). É realmente algo surpreendente!

Os comentaristas da Tradução Ecumênica da Bíblia do Novo Testamento reconheceram a ausência de um relato sobre a Eucaristia na obra de João. Eles dizem: “O povo em geral não demonstra muito interesse pelas lendas ou costumes do antigo Israel. Talvez seja por isso que ele não tenha narrado o acontecimento da instituição da Eucaristia.” Como se pode aceitar esse argumento? João pode não ter interesse pelos antigos costumes dos judeus, mas como poderia ignorar uma cerimônia tão importante da nova religião cristã?

Os especialistas cristãos sentem-se tão constrangidos com essa questão que querem descobrir, na obra de João, algum acontecimento da vida de Jesus no qual se possa encontrar o relato ou uma indicação de algo semelhante à Eucaristia. Pode-se citar, por exemplo, Oscar Cullmann. Em sua obra intitulada “O Novo Testamento”, ele afirmou: “A transformação da água em vinho e o ato de alimentar cinco mil pessoas com cinco pães contêm uma indicação antecipada da Última Ceia, isto é, da celebração da Eucaristia.” Pode-se recordar que, quando faltou vinho numa festa de casamento em Caná, Jesus transformou água em vinho. João narrou esse acontecimento em sua obra (2, 1-12) como o primeiro milagre de Jesus; entre os quatro evangelistas, somente ele o mencionou. Os cinco pães de cevada multiplicaram-se milagrosamente em tal quantidade que foi possível alimentar sem dificuldade cinco mil pessoas. Ao narrar esses dois acontecimentos, João não fez nenhum comentário especial, e aquilo em que os especialistas modernos afirmam ter percebido uma indicação de acontecimento semelhante pode, no máximo, ser chamado de uma expansão anormal de sua imaginação. Cullmann apresentou ainda outros argumentos desse tipo. Ele disse que, no fato de Jesus curar um paralítico e um cego, há “uma profecia do batismo” e que, “na água e no sangue que saíram de um lado de seu corpo após a morte de Jesus, há uma prova de que o batismo e a Eucaristia estão ligados por um mesmo fio”. Que outro comentário se pode fazer sobre argumentos desse tipo?

O padre Rosette descreveu outro argumento estranho de Oscar Cullmann, em sua obra intitulada “Iniciação ao Evangelho”, da seguinte maneira: “Alguns teólogos, como Oscar Cullmann, consideram o episódio de Jesus lavando os pés dos discípulos antes da Última Ceia como um símbolo da instituição da Eucaristia.”

Ao observar os argumentos de todo tipo que os teólogos apresentaram, descendo a qualquer nível para tornar facilmente aceitável aos cristãos comuns a ausência de uma menção à Eucaristia na obra de João, é realmente surpreendente.

As aparições de Jesus após a morte

Já foi mencionado, como exemplo, o livre desenvolvimento da imaginação empregado na obra de Mateus ao relatar um suposto acontecimento milagroso ocorrido por ocasião da morte de Jesus. Sobre os acontecimentos posteriores à ressurreição de Jesus de seu túmulo, os quatro autores dos Evangelhos forneceram quatro relatos diferentes, isto é, contraditórios entre si. O padre Rosette, na página 182 de sua obra “Iniciação ao Evangelho”, citou alguns exemplos desses relatos contraditórios e até mesmo ridículos.

Ele disse: “O número das mulheres que se reuniram junto ao túmulo é apresentado de três maneiras diferentes nos três primeiros Evangelhos. No Evangelho de João, fala-se apenas de uma mulher, que é Maria Madalena. Mas ela fala novamente no plural: ‘Não sabemos onde o colocaram no túmulo’; portanto, parece que não estava sozinha. Na obra de Mateus, um anjo profetizou às mulheres que elas veriam Jesus na Galileia. Mas, pouco depois, Jesus apareceu-lhes junto ao seu túmulo. Lucas, provavelmente prevendo essa contradição, modificou um pouco o relato em sua própria obra. O anjo disse: ‘Lembrem-se de como ele lhes falou quando ainda estava na Galileia…’. Na realidade, Lucas falou de três aparições de Jesus. João também falou de três: duas em Jerusalém, numa sala do andar superior, com uma semana de intervalo, e uma vez à margem do mar da Galileia. Mateus falou de apenas uma aparição na Galileia.”

O padre Rosette excluiu de sua análise o relato correspondente de Marcos, porque considera que essa passagem foi “provavelmente escrita por outra pessoa”.

De todas essas informações fica provado que a afirmação contida na Primeira Carta de Paulo aos Coríntios (15:5-7), de que Jesus apareceu a mais de cinco mil pessoas, apareceu a Tiago, apareceu a todos os apóstolos e apareceu também ao próprio Paulo, não tem fundamento algum.

Diante de tudo isso, é surpreendente que o padre Roset, nessa mesma obra, tenha criticado duramente as descrições pomposas, repletas de imaginação infantil, presentes em alguns escritos sobre a ressurreição de Jesus. Contudo, esse comentário se aplica sobretudo a Mateus e Paulo, pois suas declarações sobre o assunto são inteiramente contrárias às declarações dos demais apóstolos.

Além disso, há uma considerável discrepância entre o relato de Lucas em Atos dos Apóstolos sobre a aparição de Jesus a Paulo e o próprio relato de Paulo a respeito. Observando essa situação, o padre Kanengisser afirmou enfaticamente, em sua obra Fé na Ressurreição, Ressurreição da Fé (1974), que Paulo era “a única testemunha ocular da ressurreição de Jesus, e nenhum outro autor do Novo Testamento pode reivindicar essa honra; por meio de seus escritos, suas palavras chegaram diretamente até nós”. Contudo, ele nunca mencionou ter visto pessoalmente o Jesus ressuscitado. É verdade que “ele abordou o assunto três vezes, com extremo cuidado, mas nunca apresentou qualquer descrição”.

O fato de Paulo, apesar de ser uma testemunha ocular, não ter dito nada claramente torna evidente e manifesta a contradição entre seu relato e os relatos dos Evangelhos.

Oscar Cullmann também observou, em sua obra O Novo Testamento, uma contradição entre os relatos de Lucas e Mateus. Lucas disse que Jesus apareceu na Judeia; Mateus, porém, disse que foi na Galileia.

A esse respeito, também se pode observar a contradição entre os relatos de João e Lucas. João disse (21:1-14) que, depois de sair do túmulo, Jesus apareceu aos pescadores junto ao mar de Tiberíades; em consequência, eles conseguiram apanhar tantos peixes que tiveram dificuldade até para carregá-los. Essa narrativa, na realidade, não é mais que uma repetição da história da pesca milagrosa no mesmo local, que Lucas apresentou (5:1-11) como um acontecimento ocorrido durante a vida de Jesus.

Ao comentar essas aparições de Jesus, o padre Roset afirmou, em sua obra, procurando tranquilizar, que o caráter “incoerente, obscuro e desordenado” do acontecimento produz antes a fé. Pois todas essas informações provam apenas que não houve conluio entre os evangelistas a esse respeito; caso contrário, todos eles certamente teriam apresentado um único relato. Mas será que teria sido realmente possível haver conluio entre eles? Esse argumento é realmente estranho. Na verdade, talvez eles tenham registrado apenas as lendas correntes em suas próprias comunidades, e em todas essas lendas havia, sem que eles soubessem, uma ampliação imaginativa. Diante de tamanhas contradições e improbabilidades na descrição do acontecimento, não resta outro caminho senão chegar a essa conclusão.

A ascensão de Jesus ao céu

Há ainda outras contradições, presentes até o fim da narrativa. Pois nem João nem Mateus mencionaram de modo algum a ascensão de Jesus ao céu; somente Marcos e Lucas a mencionaram.

Marcos disse (16:19): “Jesus foi elevado ao céu e sentou-se à direita de Deus”, mas não disse quanto tempo depois do acontecimento de Jesus sair do túmulo, por ele narrado, ocorreu a ascensão ao céu. É digno de nota que essa frase se encontra no último parágrafo da Bíblia de Marcos. O padre Roset considera o parágrafo “falso”, mas, segundo a Igreja, ele é absolutamente autêntico.

Vejamos então a narrativa de Lucas. Somente Lucas forneceu um relato incontestado do acontecimento da ascensão ao céu (24:51). Ele disse: “Ele separou-se deles e foi levado ao céu.” Por “eles”, entende-se aqui os onze apóstolos, pois Judas, o décimo segundo apóstolo, já havia falecido. A ascensão é mencionada depois do relato de Jesus saindo do túmulo e aparecendo aos apóstolos; por isso, parece que sair do túmulo e ascender ao céu ocorreram no mesmo dia. Como Lucas — que todos consideram o autor de Atos dos Apóstolos — descreveu o aparecimento de Jesus aos apóstolos no intervalo entre a paixão e a ascensão: “Depois de sofrer, apresentou-se vivo diante deles, com muitas provas. Durante quarenta dias apareceu-lhes e falou sobre o reino de Deus” (capítulo 1:3).

É com base nessa narrativa que se celebra a festa da ascensão quarenta dias depois da Páscoa (a festa da ressurreição de Jesus do túmulo). Assim, vê-se que a data dessa festa contradiz diretamente a narrativa do Evangelho de Lucas. Nenhum outro Evangelho apresentou de outra maneira uma justificativa para essa data.

Todo cristão que conhece essa inconsistência sente-se constrangido a esse respeito. A obra “Tradução Ecumênica” abordou essa questão, mas não ofereceu nenhuma explicação. Limitou-se a dizer que talvez esses quarenta dias tivessem alguma relação com a missão de Jesus.

No entanto, alguns comentaristas que querem explicar tudo e harmonizar todas as inconsistências ofereceram algumas explicações estranhas sobre o assunto.

Na obra “A Sinopse dos Quatro Evangelhos”, editada pela Escola Bíblica de Jerusalém em 1972 (volume II, página 451), encontra-se uma explicação estranha desse tipo. Ao criticar ali o termo “ascensão ao céu”, afirma-se: “Na realidade, não ocorreu nenhuma ascensão ao céu em sentido físico, pois, assim como Deus não está embaixo, também não está em cima.” É muito difícil compreender o sentido dessa afirmação. Pois, se Lucas não quis dizer uma ascensão ao mundo superior, o que quis dizer afinal? Em outra parte da obra, afirma-se: “A descrição, em Atos dos Apóstolos, de que a ascensão ocorreu quarenta dias depois da ressurreição do túmulo é um recurso literário; e esse recurso foi empregado justamente para deixar claro, com ênfase, que se havia completado o aparecimento de Jesus no mundo. No Evangelho de Lucas, porém, afirma-se que a ascensão ocorreu na noite do domingo de Páscoa. Isso porque, ao narrar os diversos acontecimentos posteriores à descoberta do túmulo vazio na manhã do dia da ressurreição, Lucas não deixou nenhum intervalo entre os dois acontecimentos. Isso é, evidentemente, um recurso literário. Esse recurso foi adotado para permitir que decorresse algum tempo entre a ressurreição de Jesus do túmulo e seus aparecimentos aos discípulos.”

Não é de modo algum claro o que essa explicação realmente significa. Contudo, provavelmente não é muito difícil entender que o comentarista teceu uma rede de palavras na tentativa de se libertar de uma situação que ele próprio tornou embaraçosa e desconfortável. Na explicação que o padre Roset ofereceu sobre esse assunto em sua obra, a própria dificuldade dele tornou-se ainda mais evidente. Ele falou da ascensão ao céu não uma, mas duas vezes: do ponto de vista de Jesus, a ressurreição e a ascensão ao céu são, de fato, duas partes do mesmo acontecimento; porém, do ponto de vista dos discípulos, a ascensão não ocorreu até que se completassem os aparecimentos dele. Para que a era da Igreja pudesse começar, depois de inspirar os discípulos, ele completou seus aparecimentos a eles e ascendeu ao céu.

Advertindo os leitores incapazes de compreender o significado ou a importância desse profundo argumento (que não possui qualquer fundamento escritural), o padre Roset disse: “Como em muitos outros casos, também neste, se a narrativa bíblica for aceita literalmente, ignorando-se seu significado religioso, o problema parecerá insolúvel. Não se trata aqui de expressar um acontecimento real por meio de símbolos incoerentes. O que temos aqui é que os autores religiosos revelaram o mistério por meio de coisas e objetos do mesmo tipo daqueles que somos capazes de compreender com os sentimentos e a inteligência de nossa vida terrena; por isso, é necessário manter sempre em vista seu propósito religioso e espiritual.”

Na realidade, ao tentar explicar o que não pode ser explicado, os comentaristas tecem esse tipo de rede de frases sem sentido. Naturalmente, quando se tenta sustentar algo que não pode ser sustentado, não há outra alternativa.

A última conversa de Jesus e o Paráclito no Evangelho de João

Somente João mencionou o episódio da última conversa de Jesus com os discípulos. Esse episódio ocorreu depois da Última Ceia e antes da prisão de Jesus. O episódio termina com um longo discurso de Jesus. O relato desse episódio e desse discurso ocupa quatro capítulos do Evangelho de João (14–17). Naturalmente, não há sequer uma menção a esse assunto em nenhum outro Evangelho. Os temas descritos nesses quatro capítulos são muito importantes e significativos para a futura conduta e a visão de mundo dos cristãos. O episódio é narrado num ambiente solene e sagrado, apropriado à despedida de um mestre altamente venerado por seus discípulos.

No entanto, essa comovente cena de despedida, que contém provas da espiritualidade de Jesus, está completamente ausente nos textos de Mateus, Marcos e Lucas. Qual poderia ser a possível explicação para essa ausência? Pode-se perguntar: esse relato existia originalmente nos três primeiros Evangelhos? Foi posteriormente retirado? Por quê? Não há resposta para essa pergunta. Não se encontra resposta em lugar algum. O assunto está realmente envolto em mistério e é difícil de compreender.

Os principais temas desse episódio, presentes no discurso de Jesus, são a condição futura dos seres humanos descrita por Jesus, seu particular interesse em discursar perante a assembleia dos discípulos, a apresentação da verdade a toda a humanidade por meio deles, a identificação do guia que as pessoas necessariamente deverão seguir depois que eles deixarem o mundo e a exposição clara de suas próprias instruções e recomendações a esse respeito. No Evangelho de João, esse guia é chamado em grego de “Paráclitos”; em inglês, é chamado de “Paráclito”. Os trechos fundamentais correspondentes desse Evangelho são os seguintes:

“Se me amais, guardareis todos os meus mandamentos. E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro ajudador (Paráclito).” (14:15–16) Mas qual é o significado da palavra Paráclito? No texto atualmente corrente do Evangelho de João, a palavra é explicada da seguinte maneira:

“Mas esse ajudador, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, ensinará todas as coisas a vós e vos fará lembrar tudo o que vos tenho dito.” (14:26)

“Ele dará testemunho a meu respeito.” (15-26)

“Quando vier o Espírito da verdade, ele vos guiará e conduzirá a toda a verdade; porque não falará por si mesmo; ao contrário, dirá tudo o que ouvir e vos anunciará também os acontecimentos futuros. Ele me glorificará.” (16, 13-14)

Os quatro capítulos de João (14-17) não foram citados aqui na íntegra. Contudo, na parte citada, a ideia principal foi expressa corretamente.

É digno de nota que, no texto, “Paráclito” e “Espírito Santo” são usados no mesmo sentido. Isso não é facilmente perceptível. Especialmente porque, em geral, são usados na tradução os subtítulos do texto, e os comentaristas se empenham em apresentar, em suas obras, a concepção antiga. Ainda assim, se surgir em alguém a menor dúvida quanto à compreensão do significado, poderá ler qualquer explicação de outros especialistas. A. Tricot, em seu livro “Little Dictionary of the New Testament”, explicou assim o termo Paráclito:

“Esta palavra foi traduzida do grego, e somente João usou esse nome ou título no Novo Testamento. No relato que fez do discurso de Jesus após a Última Ceia, ele usou essa palavra quatro vezes (14:16 e 26; 15:26 e 16:7). Usou-a mais uma vez em sua primeira epístola (2:1). No Evangelho, a palavra é aplicada ao Espírito Santo e, na epístola, a Jesus. A palavra Paráclito era corrente entre os judeus gregos no primeiro século depois do nascimento de Cristo. Significa advogado, defensor, intercessor ou mediador. Jesus profetizou que o Pai e o Filho enviariam o Espírito. Esse Espírito substituiria o papel de auxiliador que o Filho desempenhara em benefício de seus discípulos durante sua vida terrena. Ele intercederia como substituto de Jesus, na qualidade de Paráclito ou poderoso mediador.”

Segundo esse comentarista, portanto, parece que, após Jesus deixar o mundo, o Espírito Santo será o guia definitivo da humanidade. Essa opinião coincide com o texto de João? É necessário levantar essa questão, pois os resultados decorrem das causas. Quando se examina o assunto com base nesse raciocínio, vê-se que as palavras seguintes não se ajustam adequadamente ao Espírito Santo: “Ele não falará por sua própria conta; ao contrário, dirá tudo o que ouvir e também lhes anunciará os acontecimentos futuros.” É inconcebível atribuir ao Espírito Santo a capacidade de falar e de ouvir. Essa questão deveria ser levantada em nome da lógica e da coerência, mas, pelo que sei, nenhum comentarista a levantou ou considerou.

Para obter uma compreensão correta desse assunto, é necessário examinar o texto original em grego. Pois todos reconhecem que João escreveu em grego, e não em qualquer outra língua. Li a Bíblia grega chamada “Novum Testamentum Graece” (Nestle e Aland, United Bible Societies, Londres, 1971).

Ao criticar o texto, é preciso primeiro procurar as variantes. Entre os manuscritos do Evangelho de João que foram encontrados, somente no parágrafo 14:26 da famosa versão palimpsesto escrita em siríaco se encontra uma variante que pode alterar o sentido da frase. (Esse manuscrito foi escrito no quarto ou quinto século e descoberto no monte Sinai, em 1812, por Agnes S. Lewis. Sobre o primeiro texto havia sido escrito outro texto; depois que esse segundo texto foi removido, encontrou-se o original. Por isso, o manuscrito recebeu o nome de palimpsesto.) Aqui não se diz “Espírito Santo”, mas simplesmente “Espírito”. O copista teria omitido por engano a palavra “Santo”, ou teria deliberadamente deixado de escrevê-la ao perceber o caráter ridículo de atribuir ao Espírito Santo a capacidade de falar e de ouvir? Além disso, há outras variantes nesse manuscrito, mas são essencialmente gramaticais e não alteram o sentido; portanto, não há necessidade de discuti-las. O importante neste caso é que o sentido aplicado aqui aos verbos “falar” e “ouvir” é exatamente o mesmo em todos os demais manuscritos do Evangelho de João.

O verbo «ouvir» é a tradução do verbo grego «akouo», que significa «perceber o som»; é desta palavra que provém «acústica» (ciência dos sons).

O verbo «falar» é a tradução do verbo grego «laleo»; em sentido geral, significa emitir sons, e, em sentido específico, falar. Essa palavra é usada com frequência no texto grego dos Evangelhos e, sempre que Jesus fez alguma declaração importante durante a pregação religiosa, essa palavra foi utilizada. Portanto, verifica-se que esse termo não é empregado quando alguém fala inspirado pelo Espírito Santo, mas sim, de modo geral, no caso da fala natural dos seres humanos. Em grego, essa palavra é usada para a emissão de sons num sentido puramente casual.

Portanto, os dois verbos «akouo» e «laleo» só podem ser aplicados aos seres vivos que possuem órgãos adequados para falar e ouvir. De modo algum podem ser aplicados ao Espírito Santo.

Por essa razão, a passagem do manuscrito grego do Evangelho de João na qual aparecem as duas palavras «Espírito Santo» (14:26) é totalmente incompreensível — «mas aquele Ajudador» de modo algum pode ser aplicado ao Espírito Santo.

Se as duas palavras «Espírito Santo» forem retiradas, o significado de toda a passagem torna-se claro e compreensível. João, aliás, expressou algo igualmente compreensível em sua primeira epístola, onde por Paráclito ele quis dizer Jesus, sendo esse Paráclito um intermediário da parte de Deus (em muitas traduções e comentários do Evangelho, especialmente nas traduções e comentários antigos, a palavra Paráclito foi traduzida como «consolador»; mas essa tradução está completamente errada). «Segundo João, Jesus diz (14:16): “E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Paráclito”»; isto é, ele está dizendo que, assim como durante sua vida neste mundo ele próprio foi um intermediário da parte de Deus para a humanidade, da mesma forma será enviado “outro” intermediário.

Assim, ao analisar a questão à luz da lógica e da coerência, vê-se que o Paráclito descrito por João é um ser humano, tal como Jesus, e tem a capacidade de falar e de ser ouvido. Portanto, a profecia feita por Jesus significa que Deus enviará posteriormente outro ser humano ao mundo, e ele desempenhará o papel descrito por João; ou seja, se forem considerados os significados exatos das palavras empregadas em relação a um profeta, esta é a interpretação racional de sua passagem.

As duas palavras «Espírito Santo» que aparecem na passagem atual provavelmente foram acrescentadas deliberadamente mais tarde. Como o significado original era uma profecia sobre a vinda de outro profeta depois de Jesus, essa alteração foi adotada com o objetivo de modificar tal significado. Pois, quando a Igreja Cristã foi formada, um de seus principais ensinamentos era que Jesus era o último profeta e que nenhum profeta viria depois dele.

Conclusão

Os quatro Evangelhos são historicamente exatos, originais e autênticos, e aquilo que Jesus fez e ensinou foi transmitido fielmente por meio deles. Essa doutrina tradicional dos cristãos foi também apoiada no mais recente Concílio do Vaticano. Contudo, as informações registradas nesta obra e as opiniões citadas de eminentes teólogos cristãos rejeitam diretamente essa afirmação de exatidão e autenticidade.

Podem ser apresentados vários argumentos a esse respeito.

Os relatos de vários Evangelhos sobre o mesmo assunto contradizem-se entre si, e dois acontecimentos contraditórios não podem ser ambos dignos de crédito. Além disso, muitos cristãos não percebem certas afirmações ou impossibilidades e incongruências contrárias aos fatos reais conhecidos pela ciência moderna. Quando ocasionalmente se deparam com elas, ficam surpresos, pois suas mentes já foram previamente influenciadas pelas explicações imaginárias, misteriosas e poéticas de sacerdotes e comentaristas. Já foram mencionados alguns exemplos da teia desnecessária de palavras que os comentaristas tecem para explicar certos assuntos que qualificam como “difíceis”. Além disso, há nos Evangelhos alguns trechos que são reconhecidos como falsificações, mas que a Igreja declara autênticos.

Segundo o Padre Kannengisser, a crítica moderna dos Evangelhos revelou informações tão “revolucionárias para o método de exposição religiosa da Bíblia” que, em consequência, já não é necessário aceitar literalmente as informações e os acontecimentos relativos a Jesus registrados nos Evangelhos, pois esses relatos foram compostos tendo em vista ocasiões específicas; em outras palavras, são “escritos de guerra”. Graças às pesquisas modernas, passou-se a conhecer detalhadamente a história do judaico-cristianismo e o ódio e a hostilidade entre as diversas comunidades. Por isso, os relatos de acontecimentos compostos nesse contexto são bastante embaraçosos para o leitor moderno. Embora muitos cristãos ainda pensem que os evangelistas, autores dos Evangelhos, foram testemunhas oculares dos acontecimentos que narraram, essa ideia já foi completamente demonstrada como infundada. As pesquisas realizadas na Escola Bíblica de Jerusalém pelo Padre Benoit e pelo Padre Boismard demonstraram claramente que os Evangelhos foram escritos, revisados e corrigidos várias vezes. Além disso, os dois padres advertiram os leitores de que não deveriam esperar encontrar nos Evangelhos nenhuma palavra de Jesus de forma exata ou direta.

Entretanto, não há como negar que os Evangelhos têm um caráter histórico. Por meio dos relatos relativos a Jesus, podemos conhecer, a partir desses livros, a identidade e o caráter de seus autores; podemos saber que eles eram porta-vozes das tradições e lendas de suas respectivas comunidades cristãs primitivas; e, sobretudo, podemos conhecer a disputa e o conflito entre Paulo e as comunidades judaico-cristãs. A obra do cardeal Daniélou é uma fonte confiável sobre todos esses assuntos.

Que há de surpreendente no fato de alguns evangelistas terem distorcido certos acontecimentos da vida de Jesus para apoiar suas próprias doutrinas? Que há de surpreendente no fato de terem omitido alguns acontecimentos? E que há de surpreendente no fato de alguns dos acontecimentos narrados serem inteiramente imaginários?

Essas questões despertam naturalmente em nós o interesse de comparar os Evangelhos com a poesia narrativa medieval. A comparação com o poema chamado “A Canção de Rolando” (Chanson de Roland) talvez seja a mais perfeita. Nesse poema, um acontecimento real é narrado à luz da imaginação, e ele é o mais famoso entre os poemas desse gênero. O acontecimento foi o seguinte: Rolando, enquanto comandava a retaguarda do rei Carlos Magno, foi subitamente atacado pelo inimigo, no campo de batalha, numa passagem montanhosa. Segundo os historiadores, o fato ocorreu em 15 de agosto de 778 (Eginhard) e não foi um acontecimento particularmente importante. Contudo, na narrativa poética, esse pequeno acontecimento foi elevado à condição de capítulo glorioso de uma guerra religiosa e de exemplo da mais grandiosa perícia militar. É verdade que o poema contém uma ampla expansão da imaginação, mas isso não transformou o acontecimento real em falso. Pois é verdade que Carlos Magno teve de travar muitas guerras para defender seu país dos ataques dos inimigos, e o acontecimento relacionado a Rolando foi uma parte delas.

O mesmo pode ser dito a respeito dos Evangelhos. A imaginação de Mateus, as contradições entre os vários Evangelhos, as improbabilidades, as discrepâncias em relação aos dados científicos modernos, as repetidas distorções dos Evangelhos e outras coisas semelhantes provam justamente que há na Bíblia muitos trechos e capítulos cujo único fundamento é a imaginação humana. Mas isso não torna falsa a missão de Jesus. Não há absolutamente dúvida alguma quanto à missão de Jesus. A dúvida está em sua forma e em seu processo.

O Alcorão e a ciência moderna

Introdução

A relação entre o Alcorão e a ciência é surpreendente na sequência lógica da causa ao efeito, especialmente quando se percebe que essa relação é de concordância, e não de discordância. Atualmente, muitos pensam que o confronto entre os livros religiosos e as concepções seculares da ciência é um verdadeiro labirinto. Com poucas exceções, a maioria dos cientistas da época atual está presa nas amarras do materialismo. Eles não consideram a religião senão uma lenda e, em questões religiosas, ou permanecem indiferentes ou demonstram diretamente aversão. Além disso, quando no Ocidente se discutem religião e ciência, as pessoas costumam mencionar apenas o judaísmo e o cristianismo; ninguém sequer pensa no Islã. Na realidade, foram difundidas concepções tão amplamente equivocadas sobre o Islã, baseadas em informações errôneas, que é realmente difícil encontrar ali uma compreensão correta do verdadeiro Islã.

Antes de iniciar qualquer discussão comparativa sobre o Islã e a ciência, é especialmente necessário apresentar uma breve introdução ao Islã. Isso porque, no Ocidente, essa religião é muito pouco conhecida.

Às vezes por ignorância e às vezes com o propósito de difamá-lo, no Ocidente são feitas diversas afirmações e comentários incorretos sobre o Islã. Entre tais afirmações, as relativas a fatos são as mais graves; pois talvez se possa perdoar um erro de concepção, mas, quando se apresentam informações fabricadas no lugar dos fatos reais, isso se torna imperdoável. Muitos intelectuais ocidentais chegaram a incluir em seus escritos mentiras tão explícitas que é difícil não se indignar ao lê-las. Citarei um exemplo, extraído do sexto volume da “Enciclopédia Universalis”. No verbete “Evangelho”, ao comparar a Bíblia com o Alcorão, o autor afirmou: “No caso da Bíblia, os evangelistas não fizeram uma afirmação semelhante à feita no caso do Alcorão: a de que apenas transmitem a autobiografia que Deus teria narrado milagrosamente ao profeta.” Mas o Alcorão não é uma autobiografia. Se o autor tivesse examinado até mesmo a pior tradução do Alcorão, poderia ter entendido que o Alcorão é, na realidade, um livro de ensinamento, um livro de orientação. Mas não o fez e, sem saber nem ouvir, proferiu aquela afirmação falsa. E, no entanto, ele é um professor erudito da Faculdade Jesuíta de Teologia de Lyon. É por causa de afirmações falsas desse tipo que se formaram concepções equivocadas sobre o Alcorão e o Islã.

Entretanto, já surgiu uma nova esperança. Isso porque as diferentes religiões já não são tão fechadas em si mesmas como antes. Elas estão tentando criar entendimento mútuo. Todos certamente ficarão felizes ao saber que os católicos romanos estão tentando estabelecer contatos com os muçulmanos nos níveis mais elevados de suas instituições religiosas. Eles também estão tentando eliminar a ignorância sobre o Islã e corrigir as concepções equivocadas dentro de sua própria comunidade.

Mencionei, na introdução deste livro, a grande mudança ocorrida nos últimos anos, e também falei de um livreto publicado pelo Escritório do Vaticano para os Assuntos Não Cristãos, intitulado “Orientações para um diálogo entre cristãos e muçulmanos”. Esse livreto é um documento de grande importância, pois apresenta a nova perspectiva adotada sobre o Islã. Em sua terceira edição, publicada em 1970, fazia-se um apelo para “corrigirmos nossa perspectiva sobre o Islã e examinarmos objetivamente nossa hostilidade”. Dizia-se: “Devemos avançar, como primeiro passo, para mudar gradualmente a visão com que nossos irmãos cristãos têm encarado essa questão. Esse primeiro passo é o mais importante de todos. A antiga imagem, deformada pelo ódio e pela difamação, que herdamos do passado, deve ser removida; e devemos reconhecer a injustiça que cometemos no passado contra os muçulmanos. Devemos reconhecer também que o Ocidente, educado segundo os ensinamentos cristãos, é responsável por essa injustiça.”

A esse respeito, pode-se mencionar que, no passado, houve uma época em que os líderes dos níveis mais altos da Igreja Católica apoiavam alegremente qualquer oposição ou hostilidade ao Islã, sob qualquer forma ou modalidade, mesmo quando praticada pelos inimigos declarados e conhecidos da Igreja. Como exemplo, pode-se citar o papa Bento XIV, conhecido como o maior clérigo do século XVIII. Quando Voltaire dedicou ao papa uma obra de sua autoria intitulada “Maomé ou o fanatismo” (em francês, “Mahomet ou le fanatisme”, 1941), ele lhe enviou sua bênção sem hesitação, embora a obra fosse uma tragédia de qualidade extremamente baixa, repleta de sarcasmo e zombaria, que qualquer pessoa astuta, capaz de escrever e movida por más intenções, poderia compor sobre qualquer assunto. A peça não teve muito sucesso no palco, mas, ainda assim, os espectadores cristãos a apoiaram com entusiasmo e, somente por essa razão, acabou sendo incluída na coletânea de tragédias francesas.

Nesse livro do Vaticano há um relato de 150 páginas ao todo, no qual as antigas doutrinas cristãs sobre o Islã são refutadas e a verdade real é apresentada.

Sob o título “Um esforço para nos libertarmos de nossos piores preconceitos”, os autores disseram, dirigindo-se aos cristãos: “Também neste campo devemos empenhar-nos em purificar integralmente nossa perspectiva. Em particular, referimo-nos às ‘conclusões preconcebidas’ que são frequentemente, e com extrema leviandade, adotadas acerca do Islã. Devemos assegurar que não conservemos tais ideias nem mesmo no mais íntimo de nosso coração; os muçulmanos devotos consideram concepções desse tipo enganadoras.”

Um exemplo desse tipo de concepção é o fato de os cristãos usarem constantemente a palavra ‘Allah’ para designar o ‘Deus’ dos muçulmanos, como se quisessem dizer que o Deus em quem os muçulmanos creem é uma entidade completamente distinta do Deus dos cristãos. Em árabe, a palavra Allah significa divindade, um ser celestial. O significado dessa palavra árabe pode ser expresso pela palavra inglesa God, isto é, o Deus único e incomparável. Aquele a quem os muçulmanos chamam Allah não é outro senão o Deus de Moisés e de Jesus.

No documento preparado pelo Escritório para os Não Cristãos do Vaticano, este ponto fundamental é enfatizado: “É completamente irracional sustentar a ideia de que Allah não é realmente Deus. No entanto, alguns círculos ocidentais pensam assim. Nos documentos dos concílios cristãos, essa concepção errônea foi refutada e seu verdadeiro significado foi apresentado devidamente. Uma opinião da Lumen Gentium (nome de um documento elaborado no Segundo Concílio Vaticano, realizado de 1962 a 1965) pode ser citada como o melhor exemplo e explicação da crença dos muçulmanos em Deus. Essa opinião afirma: ‘Os muçulmanos professam a fé de Abraão e adoram conosco o Deus único e misericordioso, que é o único juiz do Dia do Juízo Final.’”

Assim, é fácil compreender por que os muçulmanos protestam contra o uso de Allah, em vez de God, nas diversas línguas europeias. Pela mesma razão, estudiosos muçulmanos elogiaram D. Massignon por ter usado a palavra Dieu (Deus), em vez da palavra ‘Allah’, na tradução francesa do Alcorão.

Esse documento do Vaticano afirma: “Para designar Deus, os cristãos de língua árabe têm uma única palavra, e essa palavra é Allah.”

Muçulmanos e cristãos adoram um só e único Deus.

Em seguida, esse documento examina objetivamente outras concepções errôneas relacionadas ao Islã.

É amplamente difundida a falsa ideia de que existe fatalismo no Islã. No documento, essa ideia foi contestada, demonstrando-se, mediante citações do Alcorão, que o ser humano tem responsabilidade individual própria e será julgado com base em suas obras. Também foi contestada a ideia difundida de que, segundo os princípios islâmicos, é legítimo obrigar alguém a aceitar o Islã pela força, afirmando-se que acreditar nesse princípio também é contrário ao Islã. A esse respeito, foram citados os dois versículos seguintes do Alcorão, e afirmou-se que há muita confusão no Ocidente acerca desses dois versículos:

“Não há compulsão na religião” — Surata Al-Baqara, versículo 256.

“(Allah) não vos impôs dificuldade alguma quanto à religião.” Surata Al-Hajj, versículo 78.

Contestando a ideia difundida de que o Islã é uma religião do medo, o documento afirma que o Islã é, na realidade, uma religião do amor. Amar o próximo com base na fé em Allah é o ensinamento do Islã. Sobre a ideia dos judeus e dos cristãos de que o Islã não possui moralidade, mas sim fanatismo, o documento do Vaticano afirma que essa ideia é completamente infundada e falsa: “Quando o cristianismo adquiriu importância política na história, o Islã nunca foi mais fanático do que ele havia sido. A esse respeito, demonstrou-se, por meio de citações do Alcorão, que no Ocidente a palavra ‘jihad’ é traduzida incorretamente: ‘Em árabe, a expressão é al-jihad fi sabilillah, isto é, esforçar-se no caminho de Allah. E esse esforço é realizado para propagar o Islã e para protegê-lo das mãos de seus agressores. Essa jihad não é o “herem” da Bíblia; não é conduzida com o objetivo de destruir, mas de estabelecer os direitos de Allah e dos seres humanos em novas terras. É verdade que no passado houve uso da força e derramamento de sangue durante a jihad, mas isso não ocorreu por causa da jihad, e sim segundo as regras gerais da guerra. Além disso, durante as Cruzadas, não foram somente os muçulmanos que cometeram massacres abomináveis.”

Convém mencionar, a propósito, que os tradutores do Alcorão, inclusive os que são célebres nesse campo, sem abandonarem seus hábitos e tendências secularistas, inseriram em suas traduções muitas coisas que não existem no texto árabe original. Mesmo sem alterar o texto original, muitas vezes pode-se dar a ele um título que modifica o sentido geral desse texto. Como exemplo, pode-se mencionar a famosa tradução de Blachère (publicada por Maisonneuve e Larose, Paris, 1966). Na página 115, ele inseriu um título — “O dever da guerra religiosa” — que não existe no Alcorão. Sob esse título, foi colocado no início um parágrafo que certamente contém um apelo ao porte de armas, mas o caráter atribuído pela linguagem do título não existe em parte alguma. Portanto, se alguém que não leia o árabe original e leia apenas essa tradução concluir que os muçulmanos são sempre obrigados a travar uma guerra religiosa, provavelmente não se poderá culpá-lo muito.

Nesse documento do Vaticano, foi feita ainda outra importante refutação. No Ocidente, geralmente se considera que o Islã é uma religião que mantém os muçulmanos sempre confinados aos limites da Idade Média e os torna incapazes de acompanhar o progresso da moderna era científica. Comparando essa situação com a situação semelhante nos países cristãos, o documento afirma: “Na expansão tradicional do pensamento muçulmano, vemos, porém, a evolução de uma sociedade progressista.”

Tenho certeza de que muitos fiéis, sejam muçulmanos, judeus ou cristãos, ficarão surpresos com esse apoio do Vaticano ao Islã. Isso porque nunca se havia visto anteriormente no Vaticano uma atitude que revelasse tamanha honestidade e abertura de espírito. A atitude do passado sempre foi de oposição e hostilidade. Contudo, pouquíssimas pessoas no Ocidente estão informadas sobre essa nova perspectiva da mais alta autoridade da Igreja Católica.

Naturalmente, aqueles que tinham conhecimento disso não ficaram nem um pouco surpresos com o passo seguinte. Por exemplo: o presidente do Escritório para os Assuntos dos Não Cristãos do Vaticano visitou oficialmente a Arábia Saudita, encontrou-se com o rei Faisal e, depois, uma delegação de sábios sauditas visitou o Vaticano, onde o próprio Papa Paulo VI os recebeu oficialmente. Esses dois acontecimentos ocorreram em 1947. Tendo esse contexto em mente, será fácil compreender o significado espiritual de outro acontecimento importante. O bispo de Estrasburgo, Higrès Elashinger, recebeu os sábios em sua catedral e pediu-lhes que realizassem ali suas orações. Os sábios atenderam ao pedido, e, em sua homenagem, o altar de oração da igreja foi colocado diante deles, voltado na direção da qibla, isto é, em direção à Caaba. Desse modo, representantes dos mais altos níveis do mundo muçulmano e do mundo cristão concordaram em dialogar. Isso porque acreditam no mesmo e único Allah e respeitam as divergências uns dos outros. Nessas circunstâncias, é natural comparar entre si, em todos os demais assuntos, as revelações de ambos os lados. Uma tarefa pertinente dessa comparação é verificar a veracidade dos relatos dos livros de ambas as partes, isto é, do Alcorão e da Bíblia, à luz dos dados e conhecimentos científicos modernos.

A relação entre a religião e a ciência mudou de país para país e de época para época. Contudo, nenhum princípio de qualquer religião monoteísta jamais se opôs à ciência. Também é verdade, porém, que algumas autoridades religiosas muitas vezes colocaram os cientistas em dificuldades. No mundo cristão, durante muitos séculos, as autoridades religiosas opuseram-se ao progresso científico simplesmente pela força, sem buscar o verdadeiro conhecimento da revelação. Também estamos cientes das severas medidas punitivas tomadas contra os cientistas. Já não é desconhecido de ninguém que aqueles que não mudassem de perspectiva, interrompessem suas pesquisas e pedissem perdão eram queimados vivos, e que, por medo disso, muitos cientistas fugiam para um exílio secreto. A esse respeito, pode-se mencionar Galileu. Por aceitar como verdadeira a descoberta de Copérnico sobre a rotação da Terra, as autoridades da Igreja impuseram-lhe uma severa punição. Evidentemente, tomaram essa medida com base numa interpretação equivocada da Bíblia, pois não puderam usar diretamente contra Galileu nenhum versículo da Bíblia.

(Nota do tradutor bengali — As autoridades católicas romanas do Vaticano, recentemente, 350 anos depois, absolveram Galileu e declararam, ao despedi-lo: “O tribunal que condenou Galileu estava errado. O Sol não gira ao redor da Terra; é a Terra que gira ao redor do Sol. Por ter apoiado por escrito e com veemência essa opinião de Copérnico, o cientista italiano Galileu foi condenado pela Igreja Católica Romana em 1633, aos 69 anos de idade, e nos nove anos seguintes cumpriu pena de prisão domiciliar. Em 1980, o papa João Paulo II formou uma comissão composta por cientistas, historiadores e teólogos para reexaminar as provas daquele julgamento. Com base nas recomendações da comissão, a decisão oficial de sua absolvição foi publicada recentemente [semanário Time, 12 de março de 1984].

A perspectiva do Islã em relação aos cientistas, porém, é completamente diferente. Há uma instrução clara a esse respeito num hadith: “Parta em busca do conhecimento, mesmo que tenha de ir até a China.” Outro hadith afirma que buscar o conhecimento é um dever obrigatório de todo homem e toda mulher.

Mais adiante nesta discussão veremos também que o próprio Alcorão exorta ao estudo da ciência. Além disso, os comentários e as descrições explicativas detalhadas presentes no Alcorão sobre diversos fenômenos naturais demonstraram ser compatíveis com os fatos científicos modernos. Não há conteúdo ou exemplo semelhante nos livros da revelação dos judeus e dos cristãos.

É claro que, na história do Islã, alguns crentes também mantiveram concepções diferentes, isto é, desfavoráveis, acerca da ciência. É verdade que, em certas épocas, a responsabilidade de adquirir e transmitir conhecimento foi negligenciada. Da mesma forma, também é verdade que, assim como em outros lugares, de tempos em tempos houve tentativas de impedir o progresso científico no mundo muçulmano. Ainda assim, é necessário lembrar que, durante a gloriosa era do Islã, entre os séculos VIII e XII da era cristã, quando vigoravam proibições científicas no mundo cristão, nas universidades islâmicas realizavam-se inúmeras pesquisas e descobertas no campo da ciência. Ali também eram preservados os importantes recursos culturais e científicos daquela época. A biblioteca do califa em Córdoba possuía quatrocentos mil volumes. Abu Rushd lecionava ali, e havia também meios para ensinar as ciências grega, indiana e persa. Por essa razão, estudantes e estudiosos de toda a Europa iam então para Córdoba, assim como hoje todos vão aos Estados Unidos para completar sua educação. Naquela época, a nação árabe atuava como portadora das civilizações e culturas dos países que havia conquistado; e foi precisamente graças à sua perspectiva erudita e humanitária que recebemos, por seu intermédio, inúmeros manuscritos antigos. Além disso, somos especialmente devedores aos árabes pela matemática — a álgebra foi uma invenção deles —, pela astronomia, pela física — óptica e ciência da luz —, pela geologia, pela botânica, pela medicina — Abu Ali Sina — e por outras áreas. A ciência e o estudo científico adquiriram pela primeira vez caráter e prestígio internacionais nas universidades islâmicas da Idade Média. Em comparação com os dias atuais, as pessoas daquela época estavam muito mais imbuídas de inspiração religiosa; mas isso não criou, no mundo islâmico, qualquer obstáculo para que fossem simultaneamente fiéis e cientistas. Naquela época, a ciência era companheira da religião, e a mudança dessa condição nunca foi justificável.

Para o mundo cristão, a Idade Média foi uma época de confinamento e de devoção rígida às formalidades religiosas. Contudo, é necessário afirmar com bastante ênfase, a esse respeito, que o fato de o ritmo da pesquisa científica ter então desacelerado não ocorreu por causa da revelação judaico-cristã; ocorreu por causa de pessoas que alegavam ser servas dessa revelação. Após o Renascimento, essa situação mudou, e os cientistas, em razão de sua reação natural, começaram a se vingar de seus antigos inimigos. A vingança continua até hoje e, atualmente, no Ocidente, chegou a tal ponto que, nos círculos científicos, quem fala de Alá é visto quase sempre com desconfiança. Essa atitude influencia de modo especial todos os jovens com formação universitária, inclusive os muçulmanos.

Como os eminentes cientistas costumam adotar atitudes extremas, dificilmente se pode esperar que seus jovens seguidores adotem uma atitude diferente. Um cientista da área médica, laureado com o Prêmio Nobel, tem tentado convencer a todos, há vários anos, de que a matéria viva ou os seres vivos podem surgir acidentalmente a partir de alguns elementos básicos. Ele também escreveu um livro sobre o assunto. Segundo ele, sob a influência do ambiente e das circunstâncias, animais bem formados e organizados se desenvolvem a partir daquele organismo primordial e, por fim, transformam-se no complexo organismo humano.

A novidade desse conhecimento científico moderno sobre a criação da vida pode certamente conduzir uma pessoa pensativa a uma conclusão oposta. Quanto mais se estudam as leis, os princípios e os mecanismos da criação e da preservação da vida, mais complexos eles parecem; e, quanto mais se amplia o campo do conhecimento, mais o sábio se enche de admiração. Ele pode perceber que a probabilidade de algo acontecer por acaso nesse longo e sutil processo é muito pequena. Quanto mais descobre informações e processos minuciosíssimos, mais se fortalecem seus argumentos a favor da existência de um Criador. Mas também há pessoas que, em vez de inclinarem a cabeça com assombro e reverência, permanecem altivas em seu orgulho e desafio. Elas torcem o nariz diante da palavra de Alá; considerando essa ideia um obstáculo, rejeitam-na com desprezo, exatamente como desdenhosamente ignoram qualquer interrupção em um momento de entretenimento. Este é o reflexo da sociedade materialista cuja vitória ressoa no mundo ocidental.

Muitos cientistas modernos são hoje portadores e propagadores desse pensamento distorcido e corrompido. Que força espiritual pode ser empregada para enfrentá-los e corrigi-los?

As religiões judaica e cristã reconhecem quase abertamente que não têm capacidade para deter a onda de materialismo e ateísmo que atualmente se espalhou pelo Ocidente. Ambas as religiões estão agora completamente impotentes diante dessa onda, e sua capacidade de resistência diminui cada vez mais de uma década para outra. A onda está gradualmente se tornando avassaladora em toda parte. Hoje, para um ateu materialista, a forma tradicional do cristianismo é vista como um sistema construído ao longo dos últimos dois mil anos com o objetivo de manter o poder e a autoridade de um pequeno grupo sobre a maioria das pessoas. Ele também não considera que a linguagem do judaico-cristianismo tenha qualquer semelhança com a sua própria linguagem. Isso porque as descrições nela contidas apresentam, diante dos dados científicos modernos, tantas improbabilidades, contradições internas e incoerências que ele não as considera de modo algum dignas de atenção; contudo, a maioria dos teólogos afirma que essas descrições devem ser aceitas integralmente como verdades evidentes por si mesmas.

Quando se fala de Islam a um ateu materialista, ele solta um sorriso de quem sabe tudo. Contudo, ele não tem absolutamente nenhuma compreensão correta do Islam. Como a maioria dos intelectuais ocidentais de qualquer religião, a concepção que ele tem do Islam é falsa e enganosa.

É claro que há razões justificáveis para essa situação. Se deixarmos de lado o novo ponto de vista que recentemente começou a se manifestar nos níveis superiores dos católicos, no Ocidente, de modo geral, só se propagam críticas contra o Islam. Aqueles que conseguiram adquirir um conhecimento profundo do Islam estão cientes de quão distorcidamente sua história, seus princípios e seus objetivos foram apresentados. Além disso, os livros publicados sobre o Islam nas línguas europeias, salvo algumas exceções, não são particularmente fáceis de compreender para o leitor comum.

A partir desse ponto de vista, será possível compreender como é importante apresentar-lhes o conteúdo do Alcorão de forma correta e compreensível. Mas, infelizmente, alguns versículos do Alcorão, especialmente os que contêm informações científicas, foram traduzidos de maneira tão deficiente e interpretados de modo tão inepto que os cientistas acabam por criticá-los, aparentemente com razão. Contudo, o Alcorão não merece de modo algum essa crítica. É necessário dar atenção especial a esse assunto a partir de agora. Pois erros de tradução ou confusões na interpretação — cuja relação entre si é frequentemente profunda — que talvez não surpreendessem ninguém há um ou dois séculos, agora tornam os cientistas modernos diretamente hostis. Se, por causa da fragilidade da tradução, o conteúdo se tornar inaceitável do ponto de vista científico, nenhum cientista estará disposto a examiná-lo com sinceridade e concentração. Um excelente exemplo desse tipo de erro será apresentado no capítulo sobre o nascimento humano.

Mas por que há esse tipo de erro nas traduções? Uma possível razão é que os tradutores modernos adotam as interpretações dos comentaristas antigos sem julgamento ou reflexão. Quando uma palavra árabe possui vários significados, os comentaristas antigos talvez tenham escolhido um deles, e, como resultado, suas interpretações podem ter se tornado inadequadas. Mas provavelmente não se pode culpá-los muito por isso. Pois o significado de uma palavra que, devido às descobertas científicas modernas, talvez seja hoje bastante fácil de compreender, não era assim nos tempos antigos. Portanto, surgiu a necessidade de corrigir agora as traduções e as interpretações. No passado, essa correção nunca foi possível, porque o conhecimento e as informações que hoje temos ao nosso alcance ainda não haviam sido descobertos. Essa questão das traduções e interpretações, porém, aplica-se exclusivamente ao Alcorão. Não tem qualquer relevância no caso da Bíblia.

A característica singular da abordagem científica do Alcorão inicialmente me causou grande espanto. Antes, eu nunca poderia imaginar que um texto compilado há quase quatorze séculos pudesse conter descrições de assuntos tão variados e estar tão perfeitamente de acordo com os dados científicos modernos. No início, eu nunca havia acreditado no Islam. Contudo, comecei a examinar o texto do Alcorão com a mente aberta e uma atitude totalmente imparcial. Se alguma influência havia atuado sobre mim, era a influência da educação que recebera na juventude. As pessoas não diziam “muçulmano”; diziam “maometano”. Ou seja, dava-se a entender que, por essa religião ter sido fundada por um homem, ela não poderia ter qualquer valor no que diz respeito a Deus. Como muitos ocidentais, eu também poderia ter guardado então essa falsa concepção do Islam. Essa falsa concepção está hoje tão amplamente difundida no Ocidente que fico realmente surpreso quando vejo alguém que não é especialista falar corretamente sobre o Islam. Portanto, reconheço que, até obter uma concepção diferente da visão corrente no Ocidente, eu era completamente ignorante a respeito do Islam.

Percebi que a concepção ocidental era falsa por meio de algumas circunstâncias excepcionais. Foi inicialmente na Arábia Saudita que tive um indício de que poderia haver um erro nessa concepção.

Minha dívida de gratidão para com o falecido rei Faisal é imensa, e saúdo sua memória com profunda reverência. Ainda guardo cuidadosamente a lembrança da rara honra que ele me concedeu ao permitir que eu ouvisse suas opiniões sobre o Islã, bem como da oportunidade que tive de lhe fazer perguntas sobre algumas dificuldades na interpretação do Alcorão à luz da ciência moderna. Tive também a rara oportunidade de obter muitas informações valiosas dele próprio e de seus companheiros.

Depois de tomar consciência da enorme distância entre a realidade do Islã e a concepção que o Ocidente tem dele, senti especialmente a necessidade de aprender árabe. Pois o árabe não é minha língua materna, embora seja a língua original do livro fundamental da religião que é tão mal compreendida. Meu primeiro objetivo era ler o Alcorão em sua língua original e analisar cada frase à luz das explicações escritas por diversos exegetas. Meu segundo objetivo era examinar especialmente as descrições de vários fenômenos naturais contidas no Alcorão. Isso porque essas descrições incluem muitos detalhes que, quando lidos em árabe, já na primeira leitura se mostram exatos e precisos, parecendo-me desde o início inteiramente compatíveis com os fatos modernos. Pareceu-me então também que seria absolutamente impossível para qualquer pessoa da época de Maomé (que a paz esteja com ele) conhecer tais informações. Mais tarde, li vários livros de autores muçulmanos sobre os dados científicos do Alcorão e tirei grande proveito deles. Contudo, até hoje não soube de nenhuma pesquisa realizada no Ocidente sobre esse assunto.

A primeira coisa que se percebe ao ler o texto do Alcorão é que esse livro aborda muitos temas: a criação, a astronomia, a explicação de certos aspectos da Terra, o mundo animal, o mundo vegetal, a reprodução humana e outros. Encontrei muitas informações errôneas sobre todos esses assuntos na Bíblia, mas não encontrei um único erro no Alcorão. Então parei e perguntei: se o Alcorão foi escrito por algum ser humano, como lhe foi possível, no século VII, registrar informações que hoje vemos ser compatíveis com os dados científicos modernos? E não há absolutamente margem para dúvida de que o texto do Alcorão que temos em nossas mãos é exatamente o daquele período (mais adiante, em um capítulo, tratarei detalhadamente desse assunto). Portanto, que explicação humana poderia ser dada para isso? Creio que não há explicação, nem pode haver.

Parece-me que não pode haver uma explicação racional, segundo a inteligência e o discernimento humanos, para o fato de que um habitante da Península Arábica, contemporâneo do reinado do rei Dagoberto da França (629–639), possuísse, em certos assuntos, conhecimentos científicos que ainda em nosso século XX são considerados pelo menos mil anos adiantados.

O Alcorão foi revelado ao longo de aproximadamente vinte anos, em torno do início do calendário da Hégira (622 d.C.). É hoje um fato estabelecido que, até alguns séculos antes desse período, não havia ocorrido nenhum progresso no campo do conhecimento científico, e que somente após a conclusão da revelação do Alcorão começou a era de atividade da civilização islâmica, incluindo a investigação científica. Aqueles que desconhecem esse fato fazem muitas afirmações absurdas e ridículas. Eu mesmo ouvi várias vezes uma dessas afirmações: se o Alcorão realmente contém alguma descrição extraordinária de natureza científica, isso se deve ao fato de os cientistas árabes serem muito hábeis e avançados, e de Maomé (que a paz esteja com ele) ter sido influenciado por eles. Qualquer pessoa que tenha o mínimo conhecimento da história do Islã compreenderá que esse comentário não é apenas ridículo, mas também fruto da fantasia. Pois sabe que a era medieval do progresso cultural e científico no mundo árabe começou depois de Maomé (que a paz esteja com ele). Além disso, esse tipo de comentário é incoerente e infundado por outra razão: todos os dados científicos aos quais o Alcorão alude, ou que descreve de modo específico e claro, foram confirmados pelas investigações da era moderna.

Por essa razão, ao longo dos séculos, os exegetas do Alcorão, inclusive os da gloriosa era da cultura islâmica, inevitavelmente cometeram erros ao interpretar certos versículos. Evidentemente, naquela época não lhes era possível compreender o verdadeiro significado. Somente muito mais tarde, já próximo de nossa época, foi possível traduzir e interpretar corretamente esses versículos. Em outras palavras, o conhecimento da língua, por si só, não é suficiente para compreender corretamente os versículos do Alcorão. É necessário também possuir conhecimento suficiente dos diversos ramos da ciência. Na realidade, para compreender o Alcorão é preciso ter conhecimento de vários assuntos; nesse sentido, pode-se dizer que é necessário ter à mão uma fonte de conhecimento semelhante a uma enciclopédia. À medida que avançarmos nesta discussão e examinarmos os diversos temas, veremos que diferentes tipos de conhecimento e dados científicos se tornam indispensáveis para compreender o sentido de certos versículos.

Contudo, o objetivo do Alcorão não é explicar as leis que regem e ordenam o universo. Seu objetivo principal é inteiramente religioso. A descrição da soberania de Allah é que inspira o ser humano a refletir sobre os mistérios da criação. Junto a essa descrição, são mencionados fenômenos observáveis pelo ser humano e leis compreensíveis. Isso porque Allah é o único regente e ordenador do universo que inclui o ser humano e a natureza. Uma parte dessa afirmação talvez possa ser facilmente compreendida, mas, para compreender a outra parte, o conhecimento científico é indispensável. Por isso, antigamente, as pessoas só podiam extrair de certos versículos o significado aparente; e, como o conhecimento necessário para evitar conclusões errôneas ainda não havia sido descoberto, não lhes era possível conhecê-lo.

Muitos consideraram pequeno o número de versículos que precisam ser examinados quanto ao seu conteúdo científico. É provável que aqueles que antes de mim prestaram atenção a esse aspecto tenham pensado da mesma maneira. Eu próprio, porém, selecionei um número um pouco menor de versículos do que esses autores muçulmanos. No entanto, escolhi alguns versículos que anteriormente não eram considerados muito importantes do ponto de vista científico. Pelo menos, foi essa a minha impressão. Se por engano eu tiver selecionado algum versículo escolhido por autores anteriores, espero que eles não se incomodem. Em algumas obras, encontrei interpretações científicas do Alcorão, mas elas não me pareceram totalmente precisas. Com espírito aberto e consciência limpa, tentei oferecer minha própria interpretação desses versículos.

Da mesma forma, procurei no Alcorão referências a temas compreensíveis para os seres humanos, mas não apoiados pelos dados científicos modernos. Creio ter encontrado no Alcorão uma referência à existência, no espaço celeste, de outros planetas semelhantes à nossa Terra. Muitos cientistas admitem essa possibilidade, mas ainda não foram obtidos dados científicos que permitam afirmar algo com segurança. Embora ainda haja bastante margem para dúvida, considero meu dever mencionar o assunto.

Se este livro tivesse sido escrito trinta anos antes, teria sido necessário mencionar mais um fato previsto pelo Alcorão. Trata-se de um fato astronômico: a conquista do espaço pelo ser humano. Naquela época, após os primeiros testes de mísseis de longo alcance, as pessoas já podiam presumir, de modo geral, que um dia teriam em suas mãos os meios e equipamentos necessários para ir pessoalmente da Terra ao espaço e explorá-lo. Também se sabia então que um versículo do Alcorão havia previsto que o ser humano um dia conquistaria o espaço. Essa previsão já foi comprovada como verdadeira.

No atual confronto entre as escrituras religiosas e a ciência, os relatos tanto da Bíblia quanto do Alcorão estão sendo examinados à luz de verdades estabelecidas cientificamente. Contudo, nesse caso, a verdade científica deve estar plenamente e solidamente estabelecida, sem deixar absolutamente espaço para dúvidas. Aqueles que não reconhecem a necessidade do auxílio da ciência para compreender o significado das escrituras consideram que não é possível à ciência formular uma concepção razoável e válida para compará-la com os relatos religiosos, e isso se aplicaria igualmente à Bíblia e ao Alcorão. Mas já vimos que, diante das verdades científicas, o relato bíblico não consegue resistir, enquanto o relato do Alcorão coincide exatamente com elas. Eles dizem que a ciência está sempre mudando. O que hoje é aceito como verdade pode ser rejeitado algum tempo depois. Talvez isso seja correto; há algo a dizer também sobre essa questão.

As teorias mudam, mas a verdade não muda. No confronto com as escrituras religiosas, estamos falando de verdades, não de teorias. Uma teoria é apenas uma suposição, enquanto a verdade é uma conclusão testada e comprovada. O objetivo de uma teoria é tornar compreensível um acontecimento ou fenômeno que não é facilmente compreendido. Portanto, depois que novas informações sobre esse acontecimento ou fenômeno são descobertas, a teoria anterior pode ser modificada ou rejeitada, dando lugar a uma nova teoria. Mas, quando uma verdade é comprovada e estabelecida após testes e experimentos, ela não sofre mais alterações. E a determinação de sua definição torna-se mais fácil do que antes. Hoje está comprovado e estabelecido que a Terra gira em torno do Sol e a Lua gira em torno da Terra. Essa verdade não mudará, embora no futuro talvez essas órbitas possam ser determinadas com maior precisão.

Um físico muçulmano chamou minha atenção para um versículo do Alcorão e disse que nele há uma previsão do conceito de antimatéria. Contudo, não pude concordar com ele. Isso porque toda teoria é mutável, e a teoria da antimatéria ainda é uma questão controversa. Entretanto, há boas razões para dar profunda atenção ao versículo do Alcorão que descreve a criação da vida a partir da água. Talvez jamais possamos comprovar essa descrição experimentalmente, mas há muitos argumentos a seu favor. No caso de algo visível como o embrião humano, porém, ao comparar os vários estágios de seu desenvolvimento descritos no Alcorão com os dados obtidos pela embriologia moderna, percebe-se plena concordância e compatibilidade.

Esse confronto entre a ciência e o Alcorão foi realizado também com base em dois outros tipos de comparação. Primeiro, compararam-se os dados apresentados na Bíblia com a ciência; segundo, compararam-se os dados do Alcorão, a escritura da revelação, com os dados dos hadiths sobre as palavras e os atos de Muhammad (s.a.w.).

Na parte final desta discussão, foram comparados os relatos da Bíblia e do Alcorão sobre um acontecimento específico, e seu resultado foi apresentado. Também foi mostrado em que situação os dois relatos se encontram diante do exame e da crítica científicos. Pode-se citar, por exemplo, o exame dos temas da criação do universo e do grande dilúvio, no qual foi destacada a incompatibilidade do relato bíblico com os dados científicos. Também foi apresentada a perfeita concordância encontrada entre o relato do Alcorão sobre o mesmo tema e os dados científicos. Assim, poderemos compreender corretamente, na época atual, qual relato é aceitável e qual não é.

Este ponto é especialmente importante; pois, no Ocidente, judeus, cristãos e ateus afirmam em conjunto, sem qualquer testemunho ou prova, que Muhammad escreveu o Alcorão por conta própria, imitando a Bíblia, ou mandou que alguém o escrevesse. Afirmam ainda que todas as histórias da história religiosa encontradas no Alcorão são apenas repetições das histórias da Bíblia. Dizer isso é prova de extrema tolice. Seria igualmente tolo dizer que Jesus, ao pregar sua religião, tomou inspiração do Antigo Testamento para enganar seus contemporâneos; embora já tenhamos visto que o Evangelho de Mateus foi escrito inteiramente na continuidade do Antigo Testamento. Mas algum teólogo poderia imaginar que, por essa razão, Jesus deveria ser privado da condição de profeta de Allah? No Ocidente, contudo, Muhammad (s.a.w.) é julgado exatamente dessa maneira. Diz-se: “Ele não fez nada além de copiar a Bíblia.” Esse comentário pode, no máximo, ser chamado de um veredicto de charlatão. Pois aqueles que o fazem não analisam profundamente o fato de que a Bíblia e o Alcorão apresentam relatos diferentes de um mesmo acontecimento; portanto, não pode haver qualquer questão de cópia. Naturalmente, eles não querem discutir essa diferença e presumem que os dois livros contêm relatos do mesmo tipo. Consequentemente, não haveria necessidade de confrontá-los com a ciência. Ao discutirmos a criação do universo e o grande dilúvio, lançaremos mais luz sobre essa questão.

A relação de Maomé (que a paz esteja com ele) com os hadiths é exatamente do mesmo tipo que a relação de Jesus com os Evangelhos. Em ambos os casos, trata-se apenas de relatos das palavras e dos atos dos profetas. Em nenhum dos dois casos os autores foram testemunhas oculares. No caso dos hadiths, naturalmente, também houve alguns autores que foram testemunhas oculares. Contudo, aqueles que compilaram os hadiths muito tempo depois da vida de Maomé (que a paz esteja com ele) também são considerados extremamente confiáveis. Os hadiths e os Evangelhos não são escrituras da revelação. Não são a palavra de Allah, mas apenas as palavras do profeta. Nessas obras amplamente lidas encontram-se alguns relatos que, do ponto de vista científico, especialmente como remédios para doenças, são equivocados. Excluímos da nossa consideração qualquer questão religiosa, pois não discutimos essa questão no livro no contexto dos hadiths. Há dúvidas quanto à autenticidade e à confiabilidade de muitos hadiths, e os próprios especialistas muçulmanos discutiram esse assunto. Neste livro, foi mencionado o conteúdo científico de alguns hadiths. Isso porque não há no Alcorão nenhum relato científico que não seja aceitável para os especialistas. A diferença entre os hadiths e o Alcorão, como veremos, é bastante surpreendente.

Diante desse argumento, nada do que dizem aqueles que afirmam que Maomé (que a paz esteja com ele) foi o autor do Alcorão pode continuar sendo aceito. Como poderia um homem analfabeto ser, em termos de qualidade literária, o autor mais importante de todo o universo literário árabe? E como poderia ele, naquela época, proclamar verdades científicas que nenhum outro ser humano seria absolutamente capaz de descobrir então? E sem cometer sequer um erro?

As várias linhas de pensamento deste livro foram desenvolvidas a partir de uma perspectiva puramente científica. E, como resultado, chegou-se à conclusão de que é inconcebível que um homem do século VII tenha apresentado no Alcorão, sobre diversos assuntos, relatos que não pertenciam à sua própria época e cuja veracidade só seria conhecida vários séculos mais tarde. Por isso, pelo menos eu considero que não pode haver uma explicação humana para o Alcorão.

A autenticidade do Alcorão: como foi escrito

Como não há divergência quanto à autenticidade do Alcorão, ele ocupa uma posição única e distinta entre os vários livros da revelação. Essa característica não existe nem no Novo Testamento nem no Antigo Testamento. Nos dois primeiros capítulos, descrevemos como essas duas obras foram sendo alteradas até chegarem à forma atual. No caso do Alcorão, porém, nada semelhante aconteceu, pois ele foi escrito ainda durante a vida de Maomé (que a paz esteja com ele). Como foi escrito, isto é, qual foi o processo, descreveremos logo adiante.

É necessário observar, a esse respeito, que a diferença entre o Alcorão e a Bíblia não está, de modo algum, fundamentalmente relacionada à questão das datas em que essas duas obras foram reveladas. Algumas pessoas levantam esse tipo de questão, mas não levam em consideração as condições e circunstâncias da época em que as escrituras judaico-cristãs e o Alcorão foram escritos. Dizem que uma obra do século VII teria maior probabilidade de chegar até os nossos dias sem alterações do que uma obra com mil e quinhentos anos de idade. Isso é verdade, mas não é suficiente como explicação. Essa afirmação é usada como justificativa para as alterações ocorridas nas escrituras judaico-cristãs; contudo, ela não reconhece o fato de que não havia absolutamente nenhum risco de o texto do Alcorão ser alterado por seres humanos.

No caso do Antigo Testamento, como muitos autores narraram a mesma história e algumas obras foram revisadas muitas vezes desde a época anterior à era cristã, isso deu origem a numerosos erros e contradições. E, no caso do Novo Testamento, isto é, dos Evangelhos, ninguém pode afirmar que as palavras de Jesus ou os relatos de seus atos foram registrados nessa obra de modo correto e fiel à realidade. Além disso, já vimos que nenhum dos vários textos que foram preparados sucessivamente em diferentes épocas era autêntico, e que nenhum de seus autores foi testemunha ocular.

É necessário compreender adequadamente, a esse respeito, a diferença entre o Alcorão e os hadiths. O Alcorão é uma escritura da revelação escrita, enquanto os hadiths são uma compilação dos relatos das palavras e dos atos de Maomé (que a paz esteja com ele). Logo após a morte do Profeta, alguns de seus companheiros começaram a registrar esses relatos. Mas eles também foram registrados posteriormente. (Naturalmente, alguns relatos foram escritos durante a vida do Profeta por ele próprio e por seus companheiros.) No caso da transmissão oral ou da memória, é natural que todo ser humano cometa erros. Por essa razão, todas as obras desse tipo foram aceitas somente após rigorosa crítica e investigação. Contudo, assim como ocorre com os relatos bíblicos, também há margem para maior ou menor autenticidade nos diversos hadiths. Ainda assim, é importante observar que nenhum relato bíblico foi escrito durante a época de Jesus; eles foram escritos muito depois. Os hadiths também não foram compilados durante a vida de Maomé (que a paz esteja com ele); porém, o trabalho de compilação começou logo após sua morte.

No caso do Alcorão, porém, a situação era completamente diferente. Assim que uma revelação era transmitida, o Profeta e seus companheiros tratavam de memorizá-la, enquanto seus seguidores e escribas designados a registravam por escrito. Portanto, o próprio início do Alcorão se baseou em duas características: a memorização e o registro escrito; e ambas constituem provas de sua autenticidade. A Bíblia não possui características semelhantes, nem provas de autenticidade. Esse processo de memorizar e registrar o Alcorão por escrito continuou até a morte de Muhammad (que a paz esteja sobre ele). Naquela época, quando muitos não sabiam ler nem escrever, mas todos podiam memorizar e recitar, havia uma vantagem rara: durante a compilação da revelação em forma escrita, era possível conferir o texto com as recitações de várias pessoas.

A revelação do Alcorão foi transmitida a Muhammad (que a paz esteja sobre ele) por intermédio do anjo Gabriel. Esse processo de revelação estendeu-se por mais de vinte anos. A primeira revelação consistiu em alguns versículos da sura 96 (Al-Alaq); depois, durante três anos, nenhuma outra revelação foi transmitida. Após três anos, as revelações recomeçaram e continuaram por um longo período de vinte anos, até a morte do Profeta, em 632 d.C. Os dez primeiros anos desse período de vinte anos foram anteriores à Hégira (a migração de Muhammad (que a paz esteja sobre ele) de Meca para Medina, em 622 d.C.), e os dez anos seguintes foram posteriores a ela.

A primeira revelação foi a seguinte (sura 96, Al-Alaq, versículos 1–5):

“Lê, em nome de teu Senhor, que criou — criou o ser humano a partir de um coágulo.

Lê, e teu Senhor é o mais Generoso, que ensinou pelo cálamo — ensinou ao ser humano aquilo que ele não sabia.”

Muhammad (que a paz esteja sobre ele) ficou completamente dominado por essa revelação. Mais adiante explicaremos essa revelação especialmente à luz do fato de que ele não sabia escrever nem ler.

O professor Hamidullah observou, na introdução à sua tradução francesa do Alcorão, que um dos temas dessa primeira revelação é “o louvor do cálamo como meio do conhecimento humano” e que “por isso o Profeta se empenhou em preservar o Alcorão por escrito”.

O próprio texto do Alcorão fornece uma prova formal de que, antes da migração de Muhammad (que a paz esteja sobre ele) de Meca para Medina, as revelações transmitidas até aquele momento já haviam sido registradas por escrito. Poderemos verificar agora que o Alcorão é realmente autêntico nesse aspecto. Isso porque o fato de as primeiras revelações terem sido registradas por escrito é mencionado em revelações posteriores. Sabemos que Muhammad (que a paz esteja sobre ele) e seus companheiros estavam habituados a memorizar o texto das revelações, isto é, a recitá-lo de memória. Assim, quando uma revelação posterior menciona que uma revelação anterior havia sido registrada por escrito, era muito fácil comprovar a veracidade dessa afirmação. Bastava perguntar àqueles que haviam sido encarregados de registrar o Alcorão para obter essa prova.

Há menção a isso em quatro suras daquele período, indicando que, antes da Hégira, a revelação recebida até então já havia sido escrita.

—Sura Abasa (80:11-16): “Tal conduta é inadequada; isto é uma exortação. Quem quiser, que a conserve na memória. Ela se encontra num Livro sublime, de elevada dignidade e puro, escrito pelas mãos de escribas nobres e de caráter puro.”

Allama Yusuf Ali afirmou, no comentário à sua tradução do Alcorão, publicada em 1934, que, quando esta sura foi revelada, quarenta e duas ou quarenta e cinco suras, de um total de 114, já haviam sido escritas, e os muçulmanos as conservavam em Meca.

—Sura Al-Buruj (85:21-22): “Na verdade, este é um Alcorão glorioso, inscrito numa Tábua protegida.” —Sura Al-Waqia (56:77-80): “Certamente, este é um Alcorão glorioso, que se encontra

num Livro protegido; ninguém o tocará, exceto aqueles que são puros e santificados. Ele é uma revelação proveniente do Senhor dos mundos.”

—Sura Al-Furqan (25:5): “Eles dizem: ‘Estas são apenas lendas dos antigos, que ele mandou escrever; elas lhe são recitadas de manhã e à noite.’”

Aqui é mencionada a acusação dos inimigos do Profeta. Eles o consideravam um impostor. Espalhavam o boato de que antigas lendas eram recitadas para ele e de que ele mandava escrevê-las. Portanto, vê-se que até os inimigos de Maomé mencionaram que documentos escritos eram preparados.

Numa sura revelada após a Hégira, faz-se pela última vez menção a páginas escritas contendo as exortações celestiais.

—Surata Al-Bayyina (98:2-3): “Um Mensageiro da parte de Deus, que recita um Livro no qual há preceitos retos.”

Assim, o próprio Alcorão fornece provas de que já havia sido escrito durante a vida do Profeta. É amplamente conhecido que havia vários escribas entre seus seguidores, sendo o nome de Zaid ibn Thabit o mais famoso entre eles.

Na introdução à sua tradução francesa do Alcorão (1971), o professor Hamidullah, até a morte do Profeta,

descreveu de maneira admirável a situação existente no período em que o texto do Alcorão foi registrado. Ele disse: “Todos os especialistas afirmam unanimemente que, sempre que uma revelação era enviada, o Profeta Maomé (que a paz esteja sobre ele) chamava um de seus companheiros alfabetizados e mandava que ele a escrevesse, indicando também em que lugar da sequência das revelações anteriores essa nova revelação deveria ser inserida. … Depois que o texto era escrito, ele pedia ao escriba que o lesse para ele e corrigia qualquer erro que houvesse na escrita. … Segundo outro relato, todos os anos, durante o mês do Ramadã, o Profeta recitava para o anjo Gabriel toda a revelação enviada até aquele momento… No Ramadã anterior à sua morte, Gabriel fez com que ele recitasse o Alcorão inteiro duas vezes……… É universalmente conhecido que, além de recitarem o Alcorão nas cinco orações diárias, os muçulmanos, desde a época do próprio Maomé (que a paz esteja sobre ele), estão habituados a recitar o Alcorão inteiro durante o mês do Ramadã com especial atenção. Alguns especialistas mencionaram que Zaid, escriba de Maomé (que a paz esteja sobre ele), esteve pessoalmente presente no momento da compilação final do texto da revelação. Em outros lugares, menciona-se a presença de muitas outras personalidades eminentes.”

Inicialmente, o Alcorão foi escrito sobre diversos materiais. Foram utilizados couro, tábuas de madeira, ossos das omoplatas de camelos, pedras e vários outros materiais. Ao mesmo tempo, Maomé (que a paz esteja sobre ele) ordenava a seus companheiros que memorizassem o Alcorão, e eles assim faziam. Como resultado, muitas pessoas memorizaram o Alcorão inteiro, passaram a ser conhecidas como hafizes e difundiam sua mensagem em diferentes países. Desse modo, com o passar do tempo, a preservação do Alcorão por essas duas vias — por escrito e de memória — demonstrou ser extremamente valiosa e importante.

Pouco depois da morte do Profeta Maomé (que a paz esteja sobre ele), em 632 d.C., o primeiro califa do Islã, Abu Bakr, pediu a Zaid ibn Thabit, antigo escriba principal do Profeta, que fizesse uma cópia completa do Alcorão. Sob a supervisão de Omar, o futuro segundo califa, Zaid começou a coletar informações em Medina. Ele reuniu o texto do Alcorão escrito sobre diversos materiais que estavam em posse de diferentes pessoas e, consultando os hafizes e comparando-o com o que eles tinham memorizado, preparou uma cópia completa. Assim, foi organizada uma compilação exata e plenamente confiável.

Segundo os especialistas, o califa Omar, que se tornou califa em 634, depois de Abu Bakr, preparou e conservou um único volume contendo todo o Alcorão. Antes de morrer, entregou esse volume à sua filha Hafsa, viúva do Profeta.

O terceiro califa, Otomão, esteve no poder de 644 a 655 d.C. Para aperfeiçoar e uniformizar ainda mais a compilação, formou uma comissão composta por especialistas. Essa comissão começou a trabalhar com base na compilação preparada durante o governo de Abu Bakr e que então estava sob a custódia de Hafsa. Eles ouviram os relatos memorizados pelos hafizes e colheram seus testemunhos. Dessa forma, realizaram exames e investigações minuciosos para assegurar a autenticidade de vários trechos. Foram tomadas as mais rigorosas precauções e, mesmo nos casos de menor suspeita, nenhum trecho era aceito como autêntico e exato até que os testemunhos de todas as testemunhas coincidissem. É universalmente conhecido que, em algumas passagens do Alcorão, certos versículos foram corrigidos por outros no que diz respeito às determinações. Se tivermos em mente que o período da missão profética de Maomé (que a paz esteja sobre ele) se estendeu por mais de vinte anos, essa situação encontra uma explicação simples. A comissão concluiu seu trabalho organizando as suratas na mesma ordem e seguindo exatamente a sequência que o Profeta Maomé (que a paz esteja sobre ele) observava ao recitar o Alcorão inteiro durante o mês do Ramadã.

Pode surgir na mente de muitas pessoas a pergunta sobre por que se tornou necessário recolher e compilar o Alcorão durante o período dos três primeiros califas, especialmente no tempo de Uthman. Mas a resposta a essa pergunta é muito simples. Nas primeiras décadas após a morte do Profeta, o Islã expandiu-se rapidamente, e os povos entre os quais ocorreu essa expansão não tinham o árabe como língua materna. Portanto, antes que o texto fosse traduzido para outras línguas, era necessário garantir que o texto na língua original permanecesse correto e exato. Esse era o propósito e o objetivo da comissão de Uthman.

O califa Uthman enviou cópias do Alcorão assim compilado aos diversos centros do Estado islâmico e, por essa razão, o professor Hamidullah afirmou que esse Alcorão da compilação de Uthman ainda pode ser visto nas antigas coleções de Tashkent e Istambul. Atualmente, os mais antigos exemplares do Alcorão encontrados em diferentes lugares do mundo islâmico são todos do mesmo tipo, exceto por um ou dois pequenos erros de cópia. O mesmo se aplica aos exemplares do Alcorão preservados em vários lugares da Europa. (Os especialistas consideram que o fragmento do antigo Alcorão preservado na Biblioteca Nacional de Paris pertence aos séculos VIII e IX da era cristã, isto é, aos séculos II e III da Hégira.) De qualquer modo, o ponto principal é que todas as cópias dos antigos Alcorões encontradas até agora são do mesmo tipo. Talvez haja pequenas diferenças em alguns casos, mas o sentido geral do texto não se altera de modo algum. Se, em determinado contexto, parecer haver possibilidade de mais de uma interpretação, a razão provavelmente é que o método de composição do Alcorão é mais simples que o método de composição dos tempos atuais. Por exemplo, devido à ausência dos sinais que indicam a pronúncia (kasra, fatha, damma etc.), um verbo pode ser tomado tanto como transitivo quanto como intransitivo; um gênero pode ser tomado tanto como masculino quanto como feminino. Mas, como o sentido se esclarece pelo contexto da frase, essa dificuldade, na realidade, não constitui dificuldade alguma.

As 114 suratas do Alcorão estão dispostas segundo o comprimento, com as suratas maiores seguidas pelas menores; mas essa regra também tem exceções. Embora, na maioria dos casos, a ordem cronológica da revelação tenha sido mantida, isso não ocorre em toda parte. Muitas descrições do mesmo tema aparecem em diferentes pontos do texto; por isso, pode parecer que há repetição. Às vezes, verifica-se que, em um mesmo parágrafo, é apresentada em detalhes uma questão que, em outro parágrafo, foi descrita de forma incompleta. Assim como muitos outros temas descritos no Alcorão, diversos dados relativos à ciência moderna estão espalhados por toda a obra. Não há qualquer classificação.

A criação dos céus e da Terra

Semelhanças e diferenças em relação à descrição da Bíblia

A respeito da criação do universo, há no Antigo Testamento, em um único lugar, uma longa descrição contínua; no Alcorão, porém, não há uma descrição única desse tipo. Em vez de uma única descrição contínua, há em diferentes partes do Alcorão muitos parágrafos que lançam luz sobre alguns aspectos da criação e fornecem diversas informações sobre os acontecimentos posteriores do desenvolvimento da criação. Essas informações são às vezes detalhadas, às vezes resumidas. Para obter uma ideia clara de como esses acontecimentos foram descritos, é necessário reunir e compilar versículos de numerosas suratas.

Essa situação, porém, não existe apenas no caso da criação do universo. O Alcorão contém muitos temas importantes sobre os quais diferentes informações e contextos foram descritos em lugares diversos. Podem ser mencionados, por exemplo, vários temas relacionados à Terra ou aos céus, ou ainda diversos temas relacionados à humanidade, pelos quais os cientistas podem interessar-se ou sentir curiosidade. Em cada um desses temas, procurou-se, com considerável esforço, reunir os versículos.

Muitos comentaristas europeus consideram que as descrições da criação no Alcorão e na Bíblia são do mesmo tipo e, por essa razão, costumam apresentar essas duas descrições lado a lado. Mas considero essa ideia completamente equivocada. Pois há claramente muitas diferenças entre as duas descrições. O Alcorão contém informações sobre muitos temas que não são de modo algum irrelevantes do ponto de vista científico, mas há muitos temas não irrelevantes do ponto de vista científico sobre os quais o Alcorão contém informações, sem que a Bíblia tenha qualquer equivalente. Por outro lado, a Bíblia também contém descrições que não têm equivalente no Alcorão.

A semelhança aparente entre os dois relatos é universalmente conhecida. Nessa semelhança, percebe-se à primeira vista que, em ambos os casos, se afirma que a criação foi realizada em seis etapas. Na Bíblia, fala-se de seis dias; no Alcorão, também se fala de seis dias. Mas, na realidade, a questão não é tão simples, sendo bastante complexa; portanto, é necessário examiná-la um pouco.

As seis durações da criação

Segundo o relato bíblico, a criação foi concluída em seis dias, e o sétimo era o sábado, isto é, o dia de descanso. Esses sete dias correspondem aos sete dias da semana. Não há qualquer ambiguidade nesse relato da Bíblia. O relato aqui mencionado encontra-se na versão sacerdotal da Bíblia, e essa versão já foi discutida anteriormente. O relato da versão javista foi agora reduzido a apenas algumas linhas. Portanto, não merece de modo algum consideração neste contexto. Como os sacerdotes do século VI a.C. seguiram esse relato, o povo em geral foi incentivado a observar o sábado. Assim como Deus descansou no sétimo dia depois de trabalhar durante seis dias, esperava-se que os judeus também descansassem no dia de sábado (a palavra hebraica sabbath significa descanso).

Conforme explicado na Bíblia, por “dia” entende-se aquilo que, para um habitante do mundo, significa o período entre dois nasceres ou dois pores do sol. Nesse sentido, se a Terra ainda não havia sido criada, o Sol ainda não havia sido criado e ainda não havia possibilidade de a Terra girar sobre si mesma ou em torno do Sol, de onde veio então esse “dia”? E como se pôde calcular os dias? Portanto, diante da lógica e da coerência, o relato bíblico não pode ser considerado de modo algum aceitável. Logo no início deste livro

essa improbabilidade foi discutida.

Ao comparar a maioria das traduções do Alcorão, verifica-se que, tal como na Bíblia, também no Alcorão se afirma que a criação foi realizada em seis dias. Talvez não se possa censurar muito os tradutores por terem adotado o significado mais comum da palavra árabe em questão. O versículo 54 da 7.ª surata do Alcorão (Al-A‘raf) costuma ser traduzido da seguinte maneira:

“Vosso Senhor é Allah, que criou os céus e a Terra em seis dias.”

Apenas em um número muito reduzido de traduções e comentários do Alcorão se encontra a afirmação de que “dia” deve, na realidade, ser entendido como “duração”. Também se afirma que a palavra “dia” foi empregada no texto do Alcorão justamente para evitar um confronto direto com a crença então amplamente difundida entre judeus e cristãos.

Sem rejeitar este ponto de vista, talvez possamos procurar a solução do problema no próprio Alcorão e, de modo mais geral, examinar o significado e a importância da palavra na língua corrente daquela época. A palavra que muitos tradutores traduziram e ainda traduzem por “dia” é, em árabe, “yawm”, cujo plural é “ayyam”.

O significado comum e usual da palavra é “dia”. Contudo, é preciso observar que, nesse sentido, ela geralmente não indica o período entre o pôr do sol de um dia e o pôr do sol do dia seguinte, mas sim o período entre o nascer e o pôr do sol de um mesmo dia. A palavra “ayyam”, no plural, não significa apenas “dias”, mas também “um longo período”. Embora indique um período indeterminado, trata-se sempre de um período longo. O sentido de “duração de tempo” presente nessa palavra encontra exemplos em outras passagens do Alcorão. Veja o versículo 5 da sura 32 (As-Sajda):

“…um dia (yawm) cuja duração será igual, segundo o vosso cálculo, a mil anos.”

É digno de nota que o versículo imediatamente anterior menciona que a criação foi concluída em seis períodos.

Veja também o versículo 4 da sura 70 (Al-Ma’arij):

“…um dia (yawm) equivalente a cinquenta mil anos terrestres.” Os primeiros comentaristas puderam compreender que “yawm” indica uma duração de tempo inteiramente diferente daquilo que se entende por “dia”; contudo, não possuíam o conhecimento que hoje temos sobre a duração das diferentes etapas do processo de criação do universo. Por exemplo, Abus Suud, no século XVI, não poderia ter o conhecimento astronômico segundo o qual “dia” é definido com base na rotação da Terra; ainda assim, ele considerava que o tempo da criação estava dividido em diferentes períodos, mas que esses períodos não correspondiam ao que se entende por “dia”. Pelo contrário, a duração da criação estava dividida em diversos “eventos” (na língua árabe, nawba).

Os comentaristas modernos também sustentam essa mesma opinião. Ao explicar cada um dos versículos relativos às diferentes etapas da criação, Yusuf Ali enfatizou especialmente, em seu comentário (1934), que não é correto interpretar o significado da palavra “yawm” como “dia”; seu verdadeiro significado é “um período extremamente longo, ou eras e eras, até mesmo séculos e milênios”.

Portanto, pode-se dizer que o Alcorão afirma que seis longos períodos transcorreram para a realização da criação. Embora o ser humano dotado da ciência moderna não possa comprovar quais foram as seis etapas percorridas no complexo processo de criação e formação do universo, está absolutamente comprovado que, nesse processo, transcorreram vários períodos de tempo extremamente longos; por isso, seria ridículo supor que esses períodos correspondessem ao que entendemos por “dia”.

Em uma das passagens mais longas do Alcorão, ao descrever a criação, é apresentado, juntamente com alguns acontecimentos relacionados à Terra, um acontecimento relacionado aos céus. Nos versículos 9-12 da surata 41 (Hâmîm as-Sajda), é dito: (Allah disse ao Mensageiro)

“Dize: Negareis acaso Aquele que criou a Terra em dois dias e Lhe atribuireis semelhantes? Ele é o Senhor dos mundos.”

“Ele estabeleceu sobre a superfície da Terra montanhas firmes, nela colocou bênçãos e, em quatro dias, dispôs nela o sustento, igualmente para todos os que o procuram. Depois, voltou-Se para o céu, que era uma espécie de fumaça. Então disse a ele e à Terra: ‘Submetei-vos, ambos, à Minha ordem, de bom grado ou contra a vossa vontade.’ Eles disseram: ‘Estamos prontos, em obediência.’”

Depois, em dois dias, transformou o céu em sete céus e revelou a cada céu a sua incumbência; e adornou o céu mais próximo com lâmpadas e o protegeu. Tudo isso foi ordenado pelo Allah, o Poderoso, o Onisciente.”

É necessário discutir detalhadamente todos os assuntos mencionados nesses quatro versículos. Em particular, a natureza inicialmente gasosa dos corpos celestes e a definição simbólica do número sete para os céus exigem uma investigação especial. Poderemos compreender o significado e a importância subjacentes a esse número. A conversa de Allah com os céus e a Terra também é simbólica.

Aqui, naturalmente, é expressa a submissão dos céus e da Terra à ordem de Allah depois de terem sido formados.

Os críticos, porém, viram aqui uma contradição com os seis períodos da criação. Dizem que os dois períodos da criação da Terra, os quatro períodos da distribuição do sustento aos seus habitantes e os dois períodos da criação dos céus totalizam oito períodos. Assim, com os seis períodos anteriormente mencionados

há uma contradição clara.

Contudo, esta passagem inspira o ser humano a compreender a soberania de Allah e, na realidade, está dividida em duas partes. Na primeira, fala-se da Terra, e na segunda, dos céus. Essas duas partes estão ligadas pela palavra árabe “thumma”. Essa palavra pode significar “também”, “além disso” ou “depois”. Portanto, pode indicar a sequência dos acontecimentos narrados ou a sequência percebida pelo ser humano. Do mesmo modo, porém, pode tratar-se simplesmente de uma descrição dos acontecimentos, sem a intenção de transmitir qualquer noção de sequência. Seja como for, isso pode ser facilmente integrado aos dois períodos da criação dos céus. Veremos daqui a pouco como o processo da criação do universo é apresentado no Alcorão e, mediante exame e comparação, veremos também que esse processo se aplica conjuntamente à criação dos céus e da Terra e que é compatível com a ciência moderna. Só então poderemos compreender corretamente quão racional é a ideia de que os acontecimentos descritos nesses quatro versículos ocorreram simultaneamente.

Portanto, não há absolutamente nenhuma contradição entre o relato aqui citado e o relato encontrado em outras partes do Alcorão sobre a criação do universo em seis períodos.

O Alcorão não apresenta nenhuma sequência para a criação da Terra e dos céus

As duas suras do Alcorão citadas acima tratam da criação. O versículo 54 da sura Al-A’raf fala da criação dos céus e da Terra; por outro lado, os versículos 9 a 12 da sura Hamim As-Sajda falam da criação da Terra e dos céus e da Terra. Portanto, verifica-se que o Alcorão não apresenta nenhuma sequência quanto a qual dos céus e da Terra foi criado primeiro.

São muito poucas as suras que mencionam primeiro a Terra: apenas duas. O versículo 29 da sura Al-Baqara e o versículo 4 da sura Ta-Ha dizem: “Ele é Quem criou a Terra e os altos céus.” Em contrapartida, são muito mais numerosas as suras que mencionam primeiro os céus, nove ao todo: o versículo 54 da sura Al-A’raf, o versículo 3 da sura Yunus, o versículo 7 da sura Hud, o versículo 59 da sura Al-Furqan, o versículo 4 da sura As-Sajda, o versículo 38 da sura Qaf, o versículo 4 da sura Al-Hadid, os versículos 27 a 33 da sura An-Nazi’at e os versículos 5 a 10 da sura Ash-Shams.

Na realidade, exceto na sura An-Nazi’at, em nenhum outro lugar é apresentada uma sequência específica. Em outros lugares, os dois assuntos são ligados pela palavra “wa”, que significa “e”; ou é usada a palavra “thumma”, que significa “além disso” ou “também”. Assim, pode-se entender apenas uma ligação, mas também se pode entender uma sequência.

Penso que apenas uma sura do Alcorão descreve uma sequência específica dos diversos acontecimentos da criação. Os versículos 27 a 33 da sura An-Nazi’at dizem:

“A vossa criação é mais difícil ou a do céu? Ele o construiu; elevou-o e ordenou-o.”

Ele torna a noite escura e manifesta a luz do sol durante o dia; depois, estende a Terra; dela faz sair suas nascentes e pastagens e fixa firmemente as montanhas; tudo isso para o desfrute de vocês e de seus rebanhos.”

Esta descrição das bênçãos de Allah para os seres humanos na Terra foi apresentada numa linguagem adequada aos agricultores e beduínos dos vales da Arábia. Mas, antes disso, eles são convidados a refletir sobre a criação dos céus. Depois de completar a sucessão da noite e do dia, o estágio em que Allah expandiu e tornou fértil a Terra foi inserido no lugar exato da sequência temporal. Portanto, aqui são mencionadas duas categorias de acontecimentos: uma relativa aos céus e outra relativa à Terra, cuja posição na sequência temporal foi determinada. Pela maneira como o assunto é apresentado aqui, entende-se que a Terra certamente já existia antes de ser expandida; portanto, quando Allah criou os céus, a Terra já existia. Além disso, a expansão e a interligação dos céus e da Terra também dão a ideia de sua coexistência. Assim, não é necessário buscar nenhum significado especial na menção, nos versículos do Alcorão, de que a Terra foi criada antes ou de que os céus foram criados antes. A posição das palavras não pode afetar a sequência da criação, a menos que isso seja explicitamente declarado.

O processo fundamental de formação dos corpos celestes e, como consequência, a formação dos planetas e satélites

Uma breve descrição do processo fundamental da criação dos corpos celestes é apresentada em dois versículos do Alcorão.

Sura Al-Anbiya, versículo 30: “Então, Ele voltou-se para o céu, que era uma espécie de massa de fumaça. Em seguida, disse a ele e à Terra: ‘Submetam-se ambos à Minha ordem, de bom grado ou contra a vontade.’ Eles disseram: ‘Estamos prontos, em submissão.’”

Discutiremos mais adiante o surgimento da vida na água, juntamente com outros problemas biológicos mencionados no Alcorão. Por enquanto, é necessário ter em mente os dois pontos seguintes:

(a) A descrição da presença de uma massa de fumaça composta por partículas pequenas e minúsculas; é justamente esse tipo de matéria que a palavra árabe ‘dukhān’ designa. A fumaça geralmente é formada por uma substância secundária em estado de vapor. Junto com ela, as partículas finas permanecem suspensas e relativamente estáveis. Em temperaturas mais altas ou mais baixas, essas partículas podem permanecer em estado sólido e até mesmo líquido.

(b) A menção ao processo de separação dos componentes daquela massa única de fumaça, que haviam sido inicialmente unidos (em árabe, ratq). É importante observar que a palavra árabe ‘fatq’ significa triturar, desunir e separar, enquanto ‘ratq’ significa unir ou dissolver vários componentes para preparar uma única substância.

Em outros versículos do Alcorão encontra-se, no contexto dos planetas e satélites, a ideia de dividir uma entidade original em várias partes. Logo no início do Alcorão, após a fórmula introdutória “Em nome de Alá, o Misericordioso, o Misericordiador”, afirma-se, no primeiro versículo da primeira surata: “Louvor somente a Alá, Senhor dos mundos.”

A palavra “mundos” é mencionada muitas vezes no Alcorão. Da mesma forma, os céus são mencionados no plural, não apenas por indicarem multiplicidade, mas também por causa do número simbólico 7.

Esse número (7) é usado 24 vezes no Alcorão para indicar diferentes quantidades numéricas. Frequentemente, ele transmite o sentido de “muitos”; não sabemos por quê. Sabe-se que os gregos e os romanos usavam o número 7 para indicar a quantidade de um plural indefinido. No Alcorão, o número 7 é usado para indicar os próprios céus (samāwāt). Na verdade, esse número por si só indica os céus. As sete vias dos céus são mencionadas uma vez:

“Ele criou para vós tudo quanto há na Terra; depois voltou-Se para o céu e ordenou-o em sete céus, e Ele é conhecedor de todas as coisas.” (Surata Al-Baqarah, versículo 29)

“E, acima de vós, criamos sete vias, e não estamos desatentos à criação.” (Surata Al-Mu’minun, versículo 17)

“Aquele que criou sete céus, dispostos em camadas. Não verás nenhuma imperfeição na criação do Misericordioso. Volta o olhar: vês alguma falha?” (Surata Al-Mulk, versículo 3)

“Não observastes como Alá criou os céus dispostos em sete camadas e neles colocou a Lua como luz e o Sol como lâmpada?” (Surata Noé, versículos 15–16)

(É digno de nota que, na Bíblia, tanto a Lua quanto o Sol são chamados de “luz”. Porém, no Alcorão, a Lua é chamada de luz (nūr), enquanto o Sol, neste versículo, é chamado de lâmpada que fornece luz (sijār). Mais adiante veremos que outros qualificativos também são aplicados ao Sol.)

“Construí acima de vós sete céus firmes e criei uma lâmpada resplandecente.” (Surata An-Naba, versículos 12–13)

Aqui, por lâmpada resplandecente entende-se o sol. Os comentaristas do Alcorão concordam que o número 7 não significa outra coisa senão pluralidade. Além do Alcorão, também se constata que, em outros textos da época de Maomé (s.a.w.), o número 7 foi usado para indicar pluralidade. Além disso, esse mesmo sentido é encontrado nos hadith escritos desde o primeiro século após a sua época.

Portanto, há muitos céus e também muitas terras. O leitor do Alcorão pode, por isso, surpreender-se com a possibilidade de existirem outros mundos semelhantes à nossa Terra. Até os nossos dias, essa verdade ainda não foi comprovada pelos seres humanos; contudo, no versículo 12 da Surata 65 (At-Talaq), encontra-se a seguinte informação antecipada:

“Allah é Quem criou os sete céus, e a Terra de modo semelhante; o Seu mandamento desce através de todos os níveis dos céus e da Terra, para que saibais que Allah é Onipotente sobre todas as coisas e que tudo está sob o Seu conhecimento.”

Como vimos anteriormente que o número 7 indica um plural indefinido ou uma grande quantidade, é possível chegar à conclusão de que, segundo a descrição do Alcorão, há no universo muitas outras terras semelhantes à nossa.

O leitor do século XX ficará ainda surpreso ao constatar que o Alcorão menciona três classes de coisas criadas: (1) as coisas dos céus; (2) as coisas da Terra; e (3) as coisas existentes entre os céus e a Terra.

A esse respeito, são dignos de nota os seguintes versículos do Alcorão:

“A Ele pertence tudo o que está nos céus, na Terra, entre ambos e sob o solo.” (Surata Ta-Ha, versículo 6).

“Ele criou os céus, a terra e tudo o que existe entre ambos em seis dias.” (Surata Al-Furqan, versículo 9)

“Alá criou os céus, a terra e tudo o que existe entre ambos em seis dias.” (Surata As-Sajda, versículo 4)

“Criamos os céus, a terra e tudo o que existe entre ambos em seis dias, e nenhum cansaço nos tocou.” (Surata Qaf, versículo 38)

[O fato de que a criação não cansou Alá pode ser considerado uma resposta a uma descrição da Bíblia. Nessa descrição, afirma-se que, depois de trabalhar durante seis dias, Alá descansou no sétimo dia]

Além dos versículos acima mencionados, os versículos a seguir fazem referência a “tudo o que há entre os céus e a terra”: Surata 21 (Al-Anbiya), versículo 16; Surata 44 (Ad-Dukhan), versículos 7 e 38; Surata 78 (An-Naba), versículo 37; Surata 15 (Al-Hijr), versículo 85; Surata 46 (Al-Ahqaf), versículo 3; e Surata 43 (Az-Zukhruf), versículo 85.

É muito difícil imaginar coisas criadas além dos céus e além da terra. Para compreender o significado desses versículos, é necessário avançar do simples para o complexo: primeiro, é preciso tomar conhecimento do que os seres humanos conseguiram determinar sobre os objetos exteriores ao sistema solar e, depois, conhecer também a concepção a que a ciência moderna chegou sobre a estrutura do universo. Mais adiante, discutiremos esse assunto.

Antes de abordar questões puramente científicas, podemos examinar mais uma vez as informações sobre a criação contidas no Alcorão. Essas informações podem ser obtidas dos versículos acima citados:

1) Em geral, há seis períodos para a criação.

2) A conexão entre os céus e a Terra nas diversas etapas da criação.

3) A criação do universo a partir de uma massa primordial de fumaça, depois de sua fragmentação.

4) A existência de numerosos céus e terras.

5) A existência de coisas criadas no espaço entre os céus e a Terra.

Alguns dados da ciência moderna sobre a estrutura do universo

Sistema solar

A Terra e os planetas que giram ao redor do Sol constituem um sistema tão vasto e ordenado que, segundo as medidas humanas, parece imenso. No entanto, a Terra está situada a aproximadamente 93 milhões de milhas do Sol. Para os seres humanos, essa distância é indubitavelmente muito grande, mas é muito menor que a distância do planeta situado mais longe do Sol (Plutão). A distância de Plutão ao Sol é de 3,672 bilhões de milhas, ou seja, aproximadamente 40 vezes maior que a distância da Terra ao Sol. Se essa distância fosse duplicada, seria possível ter uma ideia do tamanho máximo do sistema solar. A luz do Sol leva aproximadamente 6 horas para chegar ao planeta Plutão, embora sua velocidade seja de 186 mil milhas por segundo. Portanto, a luz das estrelas situadas nos confins do sistema solar conhecido leva bilhões de anos para chegar até nós.

As estrelas

Esta Terra nossa é apenas um satélite do Sol. O Sol e os diversos planetas que giram ao seu redor são extremamente pequenos em comparação com o reino de bilhões e bilhões de estrelas. Nas noites de verão, todo o espaço parece estar repleto de estrelas, e esse conjunto de estrelas é chamado de “Via Láctea”. A Via Láctea é enorme e gigantesca. Se a velocidade da luz no sistema solar fosse considerada também em termos de horas, seriam necessários cerca de 90 mil anos para que a luz atravessasse, de uma extremidade à outra, o aglomerado de estrelas mais denso de todo o reino estelar. O reino estelar ao qual pertence a nossa Terra é realmente inimaginavelmente gigantesco, mas, ainda assim, constitui apenas uma parte extremamente pequena do universo. Além disso, fora do nosso reino estelar, existem muitos outros aglomerados de estrelas semelhantes à Via Láctea. Graças ao progresso da astronomia, foi possível descobrir esses aglomerados há pouco mais de cinquenta anos, depois da construção de telescópios precisos e potentes, como o do Monte Wilson, nos Estados Unidos. Eles são extremamente numerosos e estão situados a distâncias tão imensas que foi necessário estabelecer uma unidade especial de medida, chamada “ano-luz”, para medir essas distâncias. A distância percorrida em 326 anos à velocidade de 186 mil milhas por segundo é chamada de ano-luz.

Formação e desenvolvimento das estrelas, dos aglomerados estelares e dos sistemas planetários

O que existia originalmente no lugar atualmente ocupado pelo reino estelar? A ciência moderna não tem resposta para essa pergunta. Talvez seja possível falar de certa duração no curso do desenvolvimento do universo. Mas não há maneira de dizer há quanto tempo essa duração ocorreu em relação à nossa era atual.

A informação mais antiga que a ciência moderna consegue obter é que o universo se formou a partir de uma massa de vapor. Essa massa de vapor, composta principalmente de hidrogênio e de certa quantidade de hélio, girava lentamente. Mais tarde, ela se fragmentou em numerosos pedaços gigantescos. Os físicos estimaram que o tamanho de cada pedaço correspondia ao volume atual do Sol, que é 300 mil vezes o volume da Terra. Foi a partir desses pedaços que se formaram os aglomerados estelares.

Depois, os pedaços se fragmentaram novamente, dando origem a cada uma das estrelas. Os pedaços giravam com velocidade cada vez maior. Em certo momento, iniciou-se o processo de resfriamento, e eles passaram a ser influenciados pela pressão, pela gravitação, pelo magnetismo e pela energia da radiação. Como resultado da contração e da transformação da energia de rotação em energia térmica, as estrelas tornaram-se luminosas. Em seguida, com o início da ação do calor e da energia nuclear, formaram-se moléculas pesadas pela combinação de moléculas leves. Assim começou o processo de evolução: do hidrogênio formou-se o hélio, depois o carbono e o oxigênio e, por fim, os metais e as escórias metálicas. Desse modo, observa-se que as estrelas têm um processo próprio de nascimento, e na astronomia moderna são classificadas de acordo com o estágio atual de sua evolução. As estrelas também morrem. Depois de alcançarem o estágio final da evolução, observou-se que ocorreu uma explosão interna em algumas estrelas e, como consequência, elas se tornaram, na realidade, “cadáveres”.

Já foi mencionado que, ao se separarem e se dissociarem, a massa de vapor primordial deu origem aos diversos planetas e, particularmente, à Terra. Durante mais de vinte e cinco anos, não houve absolutamente nenhuma divergência quanto ao fato de que o Sol adquiriu densidade no interior de um único fragmento da massa de vapor, enquanto os outros planetas adquiriram densidade nos fragmentos de vapor ao seu redor. É necessário enfatizar muito um ponto, que é extremamente importante para o tema em discussão: no processo de formação de um astro como o Sol ou de um corpo não luminoso como a Terra, não há qualquer sucessão cronológica, nem questão de anterioridade ou posterioridade. Há igualdade e simultaneidade quanto à origem e ao desenvolvimento.

A ciência tenta fornecer algumas informações sobre quando ocorreram todos esses acontecimentos. Estima-se que o nosso reino estelar tenha dez bilhões de anos e afirma-se que o sistema solar se formou cinco bilhões de anos depois. Segundo os exames radiológicos realizados por especialistas, a Terra e o Sol têm quatro bilhões e quinhentos milhões de anos. Assim, vê-se que, no que diz respeito ao processo geral de formação do sistema estelar, os astrofísicos conseguiram reunir conhecimentos bastante avançados. O resumo desse conhecimento é que uma massa de vapor em rotação se tornou densa e compacta e, depois, fragmentou-se, formando o Sol e os diversos planetas, que assumiram suas respectivas posições. Entre eles estava também esta Terra do céu. Quanto à Lua, todos agora admitem a possibilidade de que, quando o movimento de rotação foi se tornando mais lento, ela tenha se separado gradualmente da Terra. Em consequência do conhecimento que os cientistas conseguiram adquirir sobre a massa de vapor primordial e sobre o processo de formação das inúmeras estrelas divididas em diversas classes a partir dela, já não há qualquer razão para duvidar da possibilidade da existência de múltiplos mundos. Mas isso não significa que a existência de outras Terras semelhantes à nossa tenha sido confirmada ou comprovada.

A concepção de múltiplos mundos

Ainda assim, os especialistas em astrofísica consideram muito provável a existência de outros planetas semelhantes à Terra. Contudo, levando em conta as condições gerais do sistema estelar, considera-se impossível que ali exista um ambiente semelhante ao da Terra. Portanto, para procurar outra Terra, será necessário buscá-la fora do sistema solar, e considera-se muito provável que existam outras Terras ali pelas razões a seguir.

Os cientistas consideram que, entre os cem bilhões de estrelas da nossa galáxia, pelo menos metade possui sistemas de satélites semelhantes ao do Sol. Essas cinquenta bilhões de estrelas realmente giram lentamente, como o Sol, e essa característica sugere que cada uma delas possui vários satélites próprios. As estrelas estão tão distantes da Terra que seus satélites não podem ser vistos. Entretanto, como as órbitas das estrelas são um pouco curvas e onduladas, considera-se muito provável que possuam satélites. A estrela de Barnard tem pelo menos um satélite companheiro, muito maior que Júpiter, e pode até ter dois satélites. Sobre isso, P. Guerin escreveu: “Todas as evidências indicam que os sistemas de satélites estão amplamente disseminados por todo o universo. Esse sistema não existe apenas no sistema solar e na Terra.” E, consequentemente, é natural que “a vida esteja espalhada por todo o universo, tal como nos planetas que sustentam a vida, especialmente nos lugares onde existem condições materiais e químicas adequadas ao desenvolvimento da vida.”

Matéria interestelar

Já vimos que o vapor primordial se condensou e se fragmentou, dando origem às estrelas, aos planetas e aos satélites. Mas o vapor que permaneceu “sobrando” depois disso agora ocupa o espaço entre as diversas estrelas. Como resultado, a luz das estrelas é refletida sobre ele. Sabe-se também que parte do vapor é escura e relativamente pouco densa, e que ela dificulta o trabalho de levantamento dos astrônomos. Essa matéria permanece como um elo entre os diversos sistemas estelares. Considerando as enormes distâncias entre os diferentes sistemas estelares, parece que, embora essa matéria seja relativamente pouco densa, sua quantidade total é provavelmente muito maior que a quantidade de toda a matéria estelar. Este livro atribui grande importância à situação dessa matéria e afirma que somente por causa dessa “matéria” a concepção da evolução do universo pode sofrer uma mudança considerável.

Agora podemos considerar, à luz desses dados científicos modernos, a concepção do Alcorão sobre a criação do mundo.

Em confronto com as informações do Alcorão

Examinaremos as informações sobre a criação apresentadas pelo Alcorão em cinco aspectos.

1) Segundo o Alcorão, durante os seis períodos da criação dos céus e da Terra, foram concluídas as seguintes obras: a formação dos corpos celestes e da Terra, bem como todos os acontecimentos descritos pelo Alcorão relativos à Terra até que ela se tornasse habitável para os seres humanos, inclusive com alimentos; esses acontecimentos levaram quatro períodos. Esses quatro períodos correspondem aos quatro períodos geológicos da ciência moderna. E sabemos que a ocupação humana começou no último período. Naturalmente, a divisão desses períodos feita pela ciência é apenas uma suposição. Ninguém pode fornecer informações exatas.

É digno de nota que, na surata Hamim Assajda do Alcorão (versículos 9–12), se menciona que a formação dos corpos celestes e da Terra ocorreu em duas etapas. Ora, se tomarmos o Sol e a Terra, seu satélite, como exemplo (o único exemplo que conseguimos compreender), veremos que a ciência nos informa que o Sol e a Terra se formaram a partir da condensação e posterior separação do vapor primordial. É exatamente isso que o Alcorão afirma. Diz-se de maneira clara e explícita que o “fumo” se uniu e depois se separou, formando o Sol e a Terra. Assim, verifica-se que, do ponto de vista factual, existe plena concordância entre o Alcorão e a ciência.

2) A ciência moderna fala de uma conexão entre as duas etapas da formação de uma estrela (como o Sol) e de seu satélite (como a Terra). No versículo do Alcorão que examinamos, essa conexão é mencionada de forma explícita.

3) A existência do “fumo” mencionada no Alcorão na etapa primordial da criação do universo é claramente o “vapor primordial” da ciência moderna.

4) A ciência moderna apoia sem hesitação a menção corânica de que existem vários céus. Esse apoio está presente na opinião dos astrofísicos sobre a grande quantidade de estrelas e sobre seu número. Por outro lado, o Alcorão dá a entender que existem muitos outros mundos semelhantes à nossa Terra, ao menos em certos aspectos, mas a ciência moderna ainda não conseguiu determinar a veracidade dessa ideia. Os especialistas, contudo, consideram muito provável a existência de várias Terras.

5) O Alcorão menciona uma “criação intermediária” no espaço entre os “céus” e a “Terra”. A ciência moderna reconhece a existência de uma “ponte de matéria desconhecida” além dos corpos celestes organizados. É verdade que nem tudo o que é apresentado na descrição corânica pôde ser plenamente comprovado por dados científicos; contudo, os dados do Alcorão sobre a criação do universo não estão de modo algum em conflito com o conhecimento moderno. É particularmente necessário insistir nesse dado corânico porque, sobre o mesmo assunto, todas as informações contidas no Antigo Testamento da época atual são inaceitáveis do ponto de vista científico. A descrição apresentada na versão sacerdotal da Bíblia sobre o mesmo assunto foi escrita pelos próprios sacerdotes durante o exílio na Babilônia, tendo como objetivo principal conferir uma aparência de legitimidade às suas doutrinas religiosas. A descrição da versão javista é tão breve e obscura que não se presta de modo algum a uma consideração científica. É necessário enfatizar e chamar novamente a atenção para essa enorme diferença entre as descrições do Alcorão e da Bíblia. Isso porque, desde os primórdios do Islã, vem sendo feita contra Muhammad (que a paz esteja com ele) a acusação infundada de que ele copiou a descrição bíblica. Essa acusação é inteiramente falsa e sem fundamento. Como poderia um homem de mil e quatrocentos anos atrás corrigir a descrição de seu tempo, eliminando as informações cientificamente errôneas? E como poderia, por esforço próprio, acrescentar informações e descrições cuja veracidade somente a ciência moderna conseguiu determinar e comprovar? Portanto, a acusação de que ele copiou ou corrigiu a Bíblia é completamente ilógica. A descrição da criação no Alcorão é inteiramente distinta da descrição bíblica.

Resposta a algumas objeções

Entretanto, não há divergência quanto à semelhança existente entre o Alcorão e a Bíblia em outros assuntos, especialmente nas descrições da história religiosa. A esse respeito, um fato curioso e digno de nota é que, apesar da coincidência entre muitas informações e ensinamentos do Antigo Testamento, ninguém levanta a acusação de que ele foi copiado. No entanto, justamente por causa dessa coincidência, Muhammad (que a paz esteja com ele) é chamado de impostor no Ocidente (Deus nos livre), e afirma-se que, embora tivesse copiado da Bíblia, ele apresentou esse ensinamento copiado como revelação. A acusação de que ele aprendeu com sacerdotes cristãos e apresentou a mesma coisa como revelação é igualmente infundada. Aos que fazem essa acusação, recomendo que leiam novamente o livro de R. Blachère, “O Problema de Maomé” (Le Problème de Mahomet, Presses Universitaires de France, Paris, 1952). Ele chamou todas essas acusações de “lendas absurdas”.

Também se dá a entender que algumas outras descrições do Alcorão coincidem com muitas crenças anteriores da Bíblia.

Nas escrituras religiosas, geralmente se procura apoio para os relatos sobre a criação. Por exemplo, entre os polinésios existe a crença de que as águas primordiais estavam imersas na escuridão e que, após o surgimento de Tangaloa, elas se separaram. Assim, formaram-se o céu e a terra. Esse relato é comparado ao relato da criação descrito na Bíblia. Há, de fato, uma semelhança entre os dois, mas isso não constitui razão alguma para acusar que o relato bíblico tenha sido escrito copiando essa narrativa.

Da mesma forma, é uma acusação infundada dizer que, por a ideia corânica sobre a separação primordial dos elementos do universo — ideia apoiada pela ciência moderna — ser encontrada sob várias formas em diferentes relatos, ela teria sido copiada desses relatos e inserida no Alcorão. Ainda assim, esses relatos e mitos podem ser examinados atentamente. Neles encontra-se frequentemente uma ideia primordial que parece razoável e que, quando se eliminam as descrições fantasiosas, parece também estar de acordo com aquilo que hoje sabemos — ou pensamos saber — ser verdadeiro. Essa ideia é a de que, no princípio, o céu e a terra estavam unidos e depois se separaram. Mas, quando no Japão se acrescentam a essa ideia um ovo, uma semente dentro dele e a existência de caos por todos os lados, todo o conjunto perde a sua importância. Em outros países, em vez do ovo, acrescenta-se uma planta. A planta cresce lentamente e, ao mesmo tempo, o céu se separa da terra e se eleva acima dela. Também nesse caso, é justamente essa descrição imaginária e detalhada que caracteriza o relato. Ainda assim, a ideia fundamental é encontrada em toda parte.

Para mostrar como a imaginação humana criou ornamentos e revestimentos, e como há uma diferença fundamental em relação à descrição do Alcorão,

foi justamente por isso que os relatos foram mencionados aqui. A descrição do Alcorão não contém nenhum detalhe fantasioso; a linguagem e o uso das palavras são moderados e estão de acordo com os dados científicos modernos. Não é possível oferecer nenhuma explicação humana para o fato de uma descrição tão correta sobre a criação ter chegado ao Alcorão quatorze séculos atrás.

 

A astronomia no Alcorão

No Alcorão há muitas indicações sobre pensamentos e concepções relativas aos céus. Na discussão sobre a criação, já vimos anteriormente que o Alcorão menciona vários céus e várias terras, e fala de uma “criação intermediária” no espaço entre os céus e a terra. A ciência moderna encontrou evidências dessa “criação intermediária”. Os versículos sobre a criação fornecem uma ideia geral do que existe nos céus, isto é, para além da terra.

Além dos versículos específicos sobre a criação, há no Alcorão cerca de quarenta outros versículos que contêm informações astronômicas. Eles oferecem orientação para refletir e formar uma concepção sobre os corpos que compõem o universo. Em alguns versículos, naturalmente, não há nada além de um convite para compreender a majestade do Criador como organizador das estrelas e dos sistemas planetários. De qualquer modo, sabemos que as estrelas e os sistemas planetários se encontram numa posição de equilíbrio perfeito, e Newton explicou detalhadamente, em seu princípio da “atração mútua dos planetas”, que essa posição é estável e sólida.

Nos versículos que citaremos primeiro, não há muitas informações para uma análise científica; ainda assim, é necessário citá-los para chamar a atenção para a onipotência de Alá. Além disso, essas citações são necessárias para compreender a descrição realista da organização do universo apresentada no Alcorão há mil e quinhentos anos.

No caso da revelação, todas estas informações e questões constituem um conjunto completo. Pois esta questão da estrutura do universo não se encontra nem no Antigo Testamento nem na Bíblia. Há, naturalmente, menções a algumas concepções, mas vimos, ao discutir a descrição bíblica da criação, que elas são completamente errôneas e meramente imaginárias. No Alcorão, porém, esta questão é descrita profunda e detalhadamente. O que foi descrito é muito importante, mas o que não foi descrito também é bastante importante. Por exemplo, nenhuma das teorias sobre a estrutura dos corpos celestes que eram correntes na época da revelação do Alcorão é mencionada nele.

Mais tarde, os cientistas demonstraram que todas essas teorias eram completamente errôneas. Posteriormente, será apresentado um exemplo específico a esse respeito.

Embora a questão seja inteiramente negativa, é muito necessário mencioná-la. Pois ouvi muitos daqueles que vasculham os céus e a terra em busca de uma explicação humana para as informações apresentadas no Alcorão — e não de qualquer outra explicação, mas de uma explicação puramente humana — dizerem: “Se o Alcorão contém descrições surpreendentes sobre astronomia, isso se deve ao fato de os árabes serem muito versados nesse assunto.” Mas eles não observam que, nos países muçulmanos em geral, o estudo da ciência ocorreu depois da revelação do Alcorão, e que nem mesmo o conhecimento científico daquela época era suficiente para qualquer ser humano redigir os versículos correspondentes do Alcorão. Mais adiante, demonstraremos, por meio de informações e exemplos, a veracidade desta observação.

Orientações gerais para pensar e conceber o céu

“Acaso não olham para o céu acima deles, vendo como o construímos e como nele não há fissuras?” — Surata 50 (Qaf), versículo 6: questão geral: o ser humano.

“Ele criou os céus sem pilares — vós os vedes…” — Surata 13 (Ar-Ra’d), versículo 2.

“Allah elevou os céus sem pilares — vós os vedes. Depois, assentou-Se no Trono e submeteu o sol e a lua a leis ordenadas………”

Estes dois versículos refutam como falsa a crença corrente de que os céus estão apoiados sobre pilares e que, por isso, não caem, destruindo a Terra.

“Ele elevou o céu…” Surata 55 (Ar-Rahman), versículo 7.

“Ele sustém o céu para que não caia sobre a Terra, exceto com Sua permissão.” — Surata 22 (Al-Hajj), versículo 65.

É agora universalmente sabido que o equilíbrio dos diferentes planetas e satélites dos corpos celestes é determinado e mantido com base nas enormes distâncias que os separam mutuamente, bem como em suas formas e dimensões. Quanto maior a distância, menor é a força de atração mútua. Quando a distância é menor, a força de atração é maior.

Como a Lua está localizada perto da Terra, ela exerce, de acordo com a lei da força de atração, influência sobre as águas dos mares da Terra, e esse

fenômeno é conhecido como maré alta e maré baixa. Se dois planetas se aproximassem muito um do outro, a colisão seria inevitável. Mas a razão pela qual não ocorre colisão é que todos os planetas e satélites estão submetidos a uma lei. Em muitas passagens do Alcorão é mencionado que foi Allah quem os submeteu a essa lei.

Allah disse ao Profeta: “Pergunta: quem é o Senhor dos sete céus e do Grande Trono?” — Surata 23 (Al-Mu’minun), versículo 86.

Já explicamos anteriormente que a expressão “sete céus” não significa apenas sete céus, mas um número indeterminado de céus.

“Ele vos submeteu tudo quanto existe nos céus e na Terra, por Sua graça; nisso há sinais para um povo que reflete.” — Surata 45 (Al-Jathiya), versículo 13.

“O sol e a lua deslocam-se em órbitas determinadas.” Surata 25 (Ar-Rahman), versículo 5.

“Ele criou a noite para o descanso, e a lua e o sol para a contagem do tempo.” Surata 6 (Al-An’am), versículo 96.

“Ele submeteu a vós o sol e a lua, que seguem continuamente a mesma ordem, e submeteu a vós a noite e o dia.” — Surata 14 (Ibrahim), versículo 33.

Aqui, um versículo complementa o outro. É por estarem submetidos à mesma ordem que os planetas e satélites percorrem regularmente as órbitas determinadas. Para expressar esse significado, foi usada a palavra árabe “dā’ib”, cujo sentido original é “trabalhar com dedicação e interesse por algo”. Porém, da maneira como a palavra foi empregada aqui, seu significado e implicação são “continuar fazendo algo com dedicação, de forma imutável, com base em um comportamento determinado”.

Surata 36 (Yā-Sīn), versículo 39: Allah disse: “E, para a lua, determinei diferentes fases; por fim, ela assume a forma de um ramo seco e curvo de tamareira.”

Um ramo de tamareira, ao secar e encolher, assume justamente a forma de uma lua curva. O assunto será explicado mais adiante.

Surata 16 (An-Nahl), versículo 12: “Ele submeteu a vós a noite, o dia, o sol e a lua; e as estrelas também estão submetidas à Sua ordem. Certamente, nisso há sinais para um povo dotado de entendimento.”

O assunto foi considerado precisamente sob a perspectiva prática do importante papel que os corpos celestes desempenham como auxiliares nas viagens humanas por terra e por mar e na contagem do tempo. Se tivermos em mente que as palavras do Alcorão foram dirigidas àqueles que compreendem a linguagem simples da vida cotidiana, será mais fácil entender o significado deste comentário. É por isso que o versículo seguinte apresenta uma formulação ainda mais simples.

Surata 6 (Al-An’am), versículo 97: “Ele criou para vós as estrelas, para que, por meio delas, encontreis o caminho nas trevas da terra e do mar. Ele expõe detalhadamente os sinais para o povo que possui conhecimento.”

Surata 16 (An-Nahl), versículo 16: “E criou sinais indicadores do caminho, e eles se orientam também pelas estrelas.”

Surata 10 (Yunus), versículo 5: “Ele é Quem fez o sol resplandecente e a lua luminosa, e determinou para ela fases, para que possais conhecer o número dos anos e o cálculo do tempo. Allah não criou isso senão com verdade. Ele expõe detalhadamente esses sinais para o povo que possui conhecimento.”

Aqui é necessário mencionar que, na Bíblia, tanto o sol como a lua são chamados de “luz”, sendo um qualificado como “maior” e o outro como “menor”. Já no Alcorão, não se destaca uma diferença de grau, mas uma diferença fundamental, ao chamar um de “resplandecente” e o outro de “luminoso”. Essa diferença talvez possa ser considerada uma simples diferença de palavras, mas, sem criar confusão, de que outra maneira se poderia explicar que as duas não são a mesma luz?

A natureza dos corpos celestes: o sol e a lua

O sol é um esplendor resplandecente (ḍiyā’) e a lua é uma luz (nūr). Essa tradução parece ser mais precisa. Nas traduções feitas por alguns de outra maneira, as duas palavras carregam quase o mesmo significado. A palavra “ḍiyā’” deriva da raiz sw. No dicionário árabe-francês de autoria de Kazi Mirsky, seu significado é apresentado como “tornar-se brilhante” e “iluminar-se” (como o fogo). Naturalmente, também foi usada a palavra “luz”. Consequentemente, do ponto de vista do significado, a diferença natural entre o sol e a lua não se torna tão evidente. Contudo, para determinar essa diferença, podemos recorrer ao próprio Alcorão original.

Surata 25 (Al-Furqan), versículo 61: “Bendito seja Ele, que criou as constelações no céu e nele colocou um sol e uma lua luminosa.”

Surata 71 (Nuh), versículos 15–16: “Não observastes como Allah criou os sete céus dispostos em camadas, e neles colocou a lua como luz e o sol como uma lâmpada?”

Surata 78 (An-Naba), versículos 12-13: “Construí acima de vós sete céus firmemente estabelecidos e criei uma lâmpada ardente.”

Por “lâmpada ardente”, entende-se claramente o Sol. Quanto à Lua, ela é descrita como um corpo celeste que fornece luz (munīr). A palavra munīr deriva da raiz nūr. Portanto, o significado é que a luz (nūr) é aplicada à Lua (munīr). O Sol, por sua vez, é comparado a uma lâmpada (sirāj) ou a uma lâmpada ardente (wahhāj).

Para qualquer pessoa da época de Muhammad (que a paz esteja com ele), era muito fácil compreender essa diferença. Isso porque, para os habitantes do deserto, eram muito familiares o aspecto ardente e intenso do Sol e a luz fria da Lua. Assim, a comparação usada no Alcorão para descrever esses dois corpos celestes é perfeitamente natural. É importante observar, porém, que nessa comparação não foi usado nada que existisse naquela época, mas que não exista hoje. Por isso, mesmo depois de tanto tempo, não temos dificuldade para compreender a questão.

Sabemos que o Sol é uma estrela que brilha internamente e, por isso, irradia calor e luz. A Lua, por outro lado, não produz luz própria; sendo um corpo inerte — pelo menos no que diz respeito à sua camada externa —, apenas reflete a luz recebida do Sol.

Assim, fica evidente que, à luz do que hoje sabemos cientificamente sobre o Sol e a Lua, não há no Alcorão nada que seja contrário a isso.

As estrelas

Assim como o Sol, as estrelas também são corpos celestes. Nesses corpos celestes ocorrem muitos fenômenos naturais; entre eles, o mais facilmente observável é a produção de luz. Em outras palavras, a estrela produz sua própria luz.

A palavra “estrela” aparece treze vezes no Alcorão. A palavra árabe najma, cujo plural é nujūm, provém de uma raiz que significa surgir ou tornar-se visível. Essa palavra expressa apenas o significado de um corpo celeste visível, mas não dá qualquer indicação sobre se o corpo celeste produz sua própria luz ou reflete a luz de outro. Contudo, para deixar claro que esse corpo celeste é uma estrela, o Alcorão emprega uma palavra qualificativa.

Surata 86 (At-Táriq), versículos 1–3: “Juro pelo céu e por aquilo que surge à noite; e o que surge à noite, o que te fará compreender o que é? É uma estrela luminosa!”

No Alcorão, “sáquib” é usado como termo qualificativo da estrela vespertina. A palavra significa “aquilo que atravessa alguma coisa”. Aqui, é empregada no sentido de atravessar a escuridão da noite. A mesma palavra também é usada para indicar a queda de meteoros na Surata As-Saffat (Surata 37, versículo 10). É digno de nota que a queda de meteoros ocorre em consequência de combustões nas estrelas.

O sistema planetário

É difícil dizer se, no Alcorão, os diversos planetas são identificados exatamente da mesma forma que, na época atual, são identificados por nomes específicos.

Os planetas não possuem luz própria; eles orbitam ao redor do Sol. A Terra é um planeta desse tipo, que gira em órbita. Talvez também existam planetas em outros lugares, mas todos os planetas conhecidos até agora estão situados no sistema solar.

Na Antiguidade, além da Terra, os seres humanos já conheciam a existência de planetas. Esses cinco planetas são Mercúrio (Budh), Vênus (Mangal), Marte (Mangal), Júpiter (Brihaspati) e Saturno (Shani). Recentemente, mais três planetas foram descobertos: Urano, Netuno e Plutão. No Alcorão, a palavra “kawkab” (no plural, “kawákib”) é usada para designar o sistema planetário, mas não se indica o número de planetas. No sonho de José (Surata 12 — José), são mencionados onze planetas, mas essa descrição é fictícia enquanto definição.

Parece que uma excelente definição do significado da palavra “kawkab” foi apresentada em um versículo célebre do Alcorão. A natureza espiritual do significado mais profundo dessa definição é muito evidente, e há também controvérsia entre os especialistas religiosos a esse respeito. Contudo, pela descrição metafórica da palavra nesse versículo, parece que provavelmente se trata de um “planeta”.

Surata 24 (An-Nur), versículo 35: “Allah é a luz dos céus e da Terra. A parábola de Sua luz é como um nicho no qual há uma lâmpada; a lâmpada está dentro de uma cobertura de vidro, e a cobertura de vidro é como uma estrela brilhante.” Aqui, trata-se da projeção de luz sobre um objeto que (o vidro) reflete essa luz e também se torna luminoso, exatamente como a Lua é iluminada pela luz do Sol. No Alcorão, encontra-se apenas esta descrição explicativa da palavra “kawkab”.

A palavra também aparece em outros versículos. Porém, em alguns deles é difícil determinar qual corpo celeste é indicado pela palavra. Por exemplo, na surata 6 (Al-An’am), versículo 76; e na surata 82 (Al-Infitar), versículos 1–2.

Contudo, quando se considera isso à luz da ciência moderna, parece que, pelo menos em um versículo, o corpo celeste mencionado aponta especificamente para os planetas que conhecemos.

Surata 37 (As-Saffat), versículo 6: “Embelezei para vós o céu mais próximo com estrelas.”

Será que a expressão corânica “o céu mais próximo de vós” se refere ao sistema solar? É hoje bem sabido que, entre os corpos celestes mais próximos de nós, não há nenhum corpo permanente além dos planetas, e que, no sistema solar, o Sol é a única estrela que possui um nome próprio. Portanto, se não se fala dos planetas, torna-se difícil determinar de que outra coisa se está falando. Assim, a tradução apresentada para o versículo parece correta, e é provável que no Alcorão se esteja falando justamente daquilo que hoje entendemos por planetas.

O céu mais baixo

O céu mais baixo é mencionado várias vezes no Alcorão. Ao mesmo tempo, também são mencionados os corpos celestes, e afirma-se que eles se encontram precisamente no céu mais baixo. Já vimos que, entre os diversos corpos celestes, os planetas devem ocupar o primeiro lugar. Quando, no Alcorão, descrições naturais puramente espirituais são associadas à concepção dos objetos que passamos a conhecer graças à ciência moderna, não conseguimos compreender seu significado com plena clareza.

Por exemplo, podemos compreender facilmente o significado do versículo citado pouco antes (surata 37, As-Saffat, versículo 6: “Embelezei para vós o céu mais próximo com estrelas”). Porém, no versículo imediatamente seguinte da mesma surata (versículo 7), afirma-se: “E o protegemos contra todo demônio rebelde.” A proteção é mencionada na surata Al-Anbiya (surata 21, versículo 32): “E fizemos do céu um teto protegido”; e também na surata Hâmîm as-Sajda (surata 41, versículo 12): “E Ele adornou o céu mais próximo com lâmpadas e o tornou protegido.” Mas aqui nos deparamos com um significado completamente diferente.

Além disso, no versículo 5 da surata Al-Mulk (surata 67), afirma-se: “Embelezei o céu mais próximo com lâmpadas, fiz delas também instrumentos para serem lançados contra os demônios e preparei para eles o castigo do fogo ardente.” O que se pode entender, aqui, por “instrumentos para serem lançados contra os demônios” no céu mais próximo? Seriam essas próprias lâmpadas os instrumentos para serem lançados? (Naturalmente, sabemos que, quando um meteoro chega às camadas superiores da atmosfera, ocorre um fenômeno luminoso semelhante ao de uma estrela sendo lançada.)

Contudo, todos esses assuntos provavelmente estão fora do âmbito da nossa discussão atual. Ainda assim, foram mencionados aqui tantos deles em prol da apresentação de um quadro completo. Como esses assuntos ainda estão fora do alcance da compreensão humana, parece não ser possível obter, mesmo com sua ajuda, uma explicação compreensível.

A organização dos corpos celestes

As informações contidas no Alcorão sobre este assunto dizem respeito principalmente ao sistema solar. Naturalmente, também há muitas referências a objetos exteriores ao sistema solar, e esses objetos foram descobertos apenas muito recentemente. Há dois versículos extremamente importantes no Alcorão sobre as órbitas do Sol e da Lua.

Surata 21 (Al-Anbiya), versículo 33: “Allah criou a noite e o dia, o Sol e a Lua. Cada um se move em sua própria órbita.”

Aqui é apresentada uma informação importante: o Sol e a Lua possuem suas próprias órbitas. Além disso, fica-se sabendo que esses dois corpos celestes se movem segundo seu próprio movimento. Dos dois versículos também se obtém uma informação negativa. É dito que o Sol se move em uma órbita, mas não se diz qual é essa órbita em relação à Terra. Na época da revelação do Alcorão, pensava-se que o Sol girava e que a Terra permanecia imóvel. Essa crença prevaleceu desde a época de Ptolomeu, no segundo século antes de Cristo, até a época de Copérnico, no século XVI depois de Cristo. Mesmo na época de Muhammad (s.), as pessoas mantinham essa concepção; contudo, ela não é mencionada em parte alguma do Alcorão.

As órbitas da Lua e do Sol

A palavra árabe “falak” foi traduzida aqui como “órbita”. Muitos tradutores persas do Alcorão atribuíram à palavra o significado de “esfera”. Seu significado primário certamente parece ser esse. Hamidullah, porém, traduziu-a precisamente como “órbita”.

Os que traduziram o Alcorão em épocas passadas ficaram bastante confusos quanto a essa palavra. Isso ocorreu porque não conseguiam conceber que a trajetória da Lua e do Sol fosse circular. Consequentemente, imaginaram para essa trajetória uma forma que podia ser mais ou menos correta ou completamente errada. C. Hamza Boubekeur, ao mencionar em sua tradução do Alcorão as diversas interpretações da palavra, disse: “Uma espécie de eixo semelhante a uma barra de ferro, em torno do qual gira uma roda; a esfera do firmamento; órbita; os signos do zodíaco; movimento; onda.” Ao mesmo tempo, citou também este comentário do famoso exegeta do Alcorão do século X, Tabari: “Quando não sabemos, devemos permanecer em silêncio.” Portanto, se o conceito de órbita fosse conhecido ou familiar às pessoas na época de Muhammad (s.), não teria sido tão difícil compreender o significado daqueles dois versículos do Alcorão. Assim, o Alcorão apresentou um conceito inteiramente novo, cujo verdadeiro significado só foi possível compreender vários séculos mais tarde.

A órbita da Lua

É amplamente aceito atualmente que a Lua é um satélite da Terra e que dá uma volta ao redor dela a cada vinte e nove dias. Contudo, sua órbita não é perfeitamente circular; na astronomia moderna, ela é descrita como ligeiramente curva. Portanto, a distância da Lua à Terra (240.000 milhas) é uma distância média.

Já observamos a importância atribuída no Alcorão à necessidade de observar o movimento da Lua para calcular o tempo. (Surata 10, Yunus, versículo 5, citado anteriormente.)

Quando o Alcorão foi revelado, os habitantes daquela região estavam acostumados a calcular o tempo com base no movimento da Lua, enquanto vigorava o calendário juliano. Além disso, como o Alcorão foi revelado inicialmente para eles, era apropriado falar na linguagem dos sinais e indícios do céu e da Terra que lhes eram compreensíveis, sem perturbar seus hábitos. Ademais, seu cálculo lunar do tempo era preciso e prático. É hoje universalmente reconhecido que os habitantes do deserto eram muito hábeis na observação do céu; guiavam seus navios pela posição das estrelas e calculavam o tempo pela forma da Lua. Naquela época, esse processo era o mais simples e confiável para eles.

Muitos, além dos especialistas, sabem que existe uma correspondência perfeita entre os calendários juliano (solar) e lunar: 235 meses lunares equivalem exatamente a 19 anos de 365,25 dias segundo o calendário juliano. Mas nem mesmo o cálculo do ano como tendo 365 dias é exato, pois é necessário corrigi-lo a cada quatro anos (ano bissexto). No caso do calendário lunar, essa diferença aparece a cada 19 anos (lembre-se dos 19 anos do calendário juliano ou solar). Esse é o ciclo metônico, assim denominado em homenagem ao astrônomo grego Meton, que, no século V a.C., descobriu essa relação precisa entre os cálculos solar e lunar.

A órbita do Sol

É ainda mais difícil conceber a ideia da órbita do Sol. Estamos acostumados a ver todo o sistema solar disposto ao redor do Sol. Para compreender o versículo do Alcorão, precisamos recorrer à nossa imaginação.

Nossa galáxia contém inúmeras estrelas. A forma de toda a galáxia é semelhante à de um prato: no centro, a concentração de estrelas é muito grande, tornando-se mais rarefeita em direção às bordas. Nessa estrutura, o Sol está muito distante do centro. Os corpos celestes giram ao redor de seus próprios centros. Consequentemente, o Sol também percorre uma órbita ao redor desse mesmo centro. A astronomia moderna conseguiu elaborar uma descrição detalhada desse processo. Em 1917, um cientista chamado Shapley determinou que a distância do Sol ao centro da galáxia era de 10 quiloparsecs, isto é, tantas milhas quanto se obtém colocando 17 zeros depois do número 2. A galáxia e o Sol levam aproximadamente 250 milhões de anos para completar uma volta ao redor de seu próprio centro, e, nessa jornada, a velocidade do Sol é de cerca de 150 milhas por segundo.

É precisamente isto que o Alcorão afirmou, há catorze séculos, sobre o movimento orbital do Sol. A astronomia moderna conseguiu demonstrar experimentalmente a existência desse processo e o seu mecanismo detalhado; e esse êxito é apenas um entre muitos outros.

A questão do movimento da Lua e do Sol no espaço sideral por força própria

Nas traduções do Alcorão feitas por eruditos, essa ideia não aparece. Como nada sabiam sobre astronomia, escolheram, entre os vários significados da palavra árabe em questão, o sentido de “nadar” e assim a traduziram. Isso ocorreu em todas as traduções francesas e também na tradução inglesa do muito respeitável Allama Yusuf Ali (editora: Sheikh Muhammad Ashraf, Lahore, Paquistão). (Nota do tradutor bengali: esse comentário do senhor Bucaille também se aplica à tradução bengali do Alcorão publicada pela Fundação Islâmica.)

O significado do verbo árabe “sahaba” (nas duas passagens citadas, “yasbahun”) é mover-se por força própria. De todos os significados da palavra, depreende-se que a força motriz do movimento provém do próprio corpo do objeto em movimento. Se o movimento, isto é, o deslocamento, ocorre na água, trata-se de “nadar”; se ocorre sobre a terra, trata-se de “caminhar”, ou seja, deslocar-se pela força das pernas. Mas, se o movimento ocorre no espaço sideral, parece não haver outra alternativa senão aplicar o significado original da palavra: mover-se por força própria. Portanto, talvez não se possa dizer que houve um erro na tradução. Primeiro, porque, ao girar ao redor da Terra, a Lua também gira em torno de si mesma, levando em média 29 dias e meio. Por isso, o mesmo lado da Lua está sempre voltado para nós; segundo, porque o Sol leva aproximadamente 25 dias para completar uma rotação em torno de si mesmo. Há algumas diferenças nessa velocidade entre a região equatorial e as regiões polares (não entraremos agora em sua explicação detalhada), mas, de modo geral, a energia desse movimento é produzida pelo próprio corpo do Sol.

Assim, vemos que o sentido da palavra usada no Alcorão se refere precisamente ao movimento da Lua e do Sol gerado por sua própria força. Os fatos descobertos pela ciência moderna confirmaram essa verdade. Não há, ao que parece, maneira alguma de explicar como um homem do século VII, por mais instruído que fosse para a sua época, poderia ter chegado a essa concepção. Além disso, no que diz respeito à astronomia, certamente não se pode considerar Muhammad (que a paz esteja com ele) um homem instruído.

Alguns não aceitam esse argumento. Dizem que, na Antiguidade, muitos homens sábios fizeram previsões que agora foram comprovadas como verdadeiras por testes científicos modernos. Certamente não se baseavam em dados científicos, mas em dados filosóficos. A esse respeito, cita-se o exemplo dos pitagóricos: afirma-se que eles defenderam vigorosamente, já no século VI a.C., que a Terra gira em torno de si mesma e que os planetas giram ao redor do Sol. Mais tarde, isso foi comprovado como verdadeiro por testes científicos modernos. Do mesmo modo, o pensador genial Muhammad (que a paz esteja com ele) talvez tenha imaginado algo que só muitos séculos depois foi reconhecido como verdadeiro. Ao apresentar esse argumento, porém, esquecem-se de mencionar que aqueles racionalistas filosóficos também cometeram erros gravíssimos. Como exemplo, pode-se recordar que os pitagóricos afirmavam categoricamente que o Sol permanecia imóvel no espaço sideral, que o Sol era o centro do universo e que os corpos celestes também eram centrados no Sol. É extremamente comum encontrar, nos escritos dos filósofos antigos, uma mistura de concepções verdadeiras e falsas sobre o universo. Esses homens talentosos, é verdade, legaram ideias muito avançadas para a sua época, mas, ao mesmo tempo, também nos legaram muitas concepções equivocadas. É precisamente nesse ponto que reside, sob uma análise científica correta, a diferença entre eles e o Alcorão. O Alcorão contém numerosas referências e descrições acerca do universo, e cada uma delas foi comprovada como verdadeira pelos testes científicos modernos; nenhuma foi considerada contraditória com qualquer dado científico.

A sucessão do dia e da noite

Quando se considerava a Terra o centro do universo e se acreditava que era o Sol que girava ao redor da Terra, por que não se fez absolutamente nenhuma menção ao movimento do Sol ao falar da sucessão do dia e da noite? O Alcorão não trata exatamente desse assunto, mas ele é descrito da seguinte maneira:

Surata 7 (Al-A‘raf), versículo 54: “Ele cobre o dia com a noite, para que um siga o outro rapidamente…”

Surata 36 (Yá-Sin), versículo 37: “E há para eles um sinal: a noite. Dela retiramos a luz do dia, e então ficam imersos nas trevas.”

Surata 31 (Luqman), versículo 5: “Não vês que Deus faz a noite entrar no dia e o dia entrar na noite?”

Surata 39 (Az-Zumar), versículo 5: “Ele cobre o dia com a noite e cobre a noite com o dia.”

O primeiro versículo citado não requer explicação. O segundo apresenta uma imagem. Na realidade, é no terceiro e no quarto versículos que são fornecidas informações curiosas sobre a transformação do dia em noite e da noite em dia. Talvez a melhor maneira de traduzir o verbo árabe “kawwara” seja usar as palavras “enrolar” ou “envolver”. Foi isso que fizeram os tradutores franceses e russos. O significado original do verbo é “enrolar” um turbante na cabeça, e essa ideia se reflete em todos os sentidos da palavra.

Mas o que realmente acontece no espaço? Astronautas americanos observaram o fenômeno a partir de sua nave espacial enquanto se encontravam na Lua, muito distante da Terra, e também o fotografaram. Eles viram que o Sol sempre — exceto durante um eclipse — mantém iluminada metade da superfície da Terra, enquanto a outra metade permanece na escuridão. A Terra gira em torno de seu próprio eixo, e a condição de iluminação permanece a mesma. Assim, do mesmo modo que a metade iluminada do globo gira uma vez a cada vinte e quatro horas, a metade escura também gira uma vez nesse período. Essa mudança contínua entre o dia e a noite é descrita claramente no Alcorão. Como hoje estamos cientes da rotação da Terra e da estabilidade relativa do Sol, é mais fácil para nós conceber e compreender o assunto. Esse processo eterno de envolvimento e a passagem de uma metade do globo para a posição da outra são descritos no Alcorão como se o conceito de a Terra ser esférica já fosse conhecido naquela época; mas é evidente que isso não está correto.

Além desse conceito da sucessão do dia e da noite, é necessário mencionar o conceito de vários orientes e vários ocidentes. Como o assunto depende da observação comum, trata-se apenas de uma descrição. O Alcorão diz a esse respeito:

Surata 70 (Al-Ma‘arij), versículo 40: “Senhor dos orientes e dos ocidentes.”

Surata 55 (Ar-Rahman), versículo 17: “Ele é o Senhor dos dois nascentes e dos dois poentes.”

Surata 43 (Az-Zukhruf), versículo 38: “Aqui é mencionada a ‘distância entre os dois orientes’, e por meio dessas palavras exprime-se a ideia de uma enorme distância entre dois lugares.”

Se observarmos atentamente o nascer e o pôr do sol, veremos que o nascer e o pôr nem sempre ocorrem exatamente no mesmo lugar. A posição muda conforme as estações. Os dois pontos extremos, em ambas as direções do horizonte oriental, onde o sol nasce, podem ser chamados de os dois orientes. Em diferentes pontos intermediários, o sol nasce e se põe em diferentes épocas do ano. Esse fenômeno é tão comum que pode ser observado a olho nu, não sendo necessária nenhuma experiência científica para comprovar sua veracidade.

O desenvolvimento progressivo do firmamento

Ao descrever a concepção moderna da criação do universo, afirmou-se que, gradualmente, a partir de uma névoa primordial, formaram-se os corpos celestes, as estrelas, o sol e os demais planetas e satélites. Segundo a ciência moderna, essa evolução e esse desenvolvimento progressivo ainda estão ocorrendo no sistema solar e, de modo geral, em todo o universo.

Aqueles que estão familiarizados com esse conceito talvez tenham interesse em compará-lo com alguns versículos do Alcorão. Nesses versículos, menciona-se a manifestação da soberania de Allah.

O Alcorão nos lembra repetidamente: “(Allah) submeteu o sol e a lua a uma ordem; cada um deles percorre sua órbita até um prazo determinado”

Essa frase aparece no versículo 2 da Surata Ar-Ra‘d, no versículo 29 da Surata Luqman, no versículo 13 da Surata Fatir e no versículo 5 da Surata Az-Zumar.

Além disso, no versículo 38 da surata Luqman, a ideia de um destino está associada à ideia de um lugar determinado: “O sol percorre sua órbita estabelecida. Isto foi determinado pelo Poderoso, Onisciente.”

“Órbita estabelecida” é a tradução bengali da palavra árabe “mustaqarr”. Não há dúvida de que essa palavra está associada à ideia de um lugar específico. Agora, o que se pode observar ao comparar essas descrições com os dados da ciência moderna?

O Alcorão menciona um limite para o movimento do sol e também um destino. Fala-se de uma órbita determinada da lua. Para compreender o significado dessa descrição, é necessário conhecer, em termos gerais, a concepção da ciência moderna sobre o movimento das estrelas e, especialmente, do sol. Além disso, é necessário conhecer as trajetórias dos corpos celestes, incluindo a lua, que acompanham o movimento do sol.

Segundo os astrofísicos, o sol tem 450 bilhões de anos. Assim como ocorre com as outras estrelas, também é possível determinar uma etapa da evolução do sol. Atualmente, o sol encontra-se em sua etapa inicial. A transformação dos átomos de hidrogênio em átomos de hélio é uma característica dessa etapa. Essa etapa continuará por mais 550 bilhões de anos. Isso porque se considera que a duração total de estrelas desse tipo seja de 1 trilhão de anos. Observou-se, no caso de outras estrelas desse tipo, que após a primeira etapa começa uma segunda. Nessa fase, termina a transformação do hidrogênio em hélio, o invólucro externo da estrela se expande e a quantidade de calor do sol diminui. Na etapa final, a luminosidade diminui consideravelmente e sua densidade aumenta muito. Esse estado é observado em estrelas do tipo “anã branca”.

O objetivo da estimativa aproximada dos anos apresentada acima é dar uma ideia da duração do período; porém, o importante, na realidade, é lançar luz sobre o processo de evolução. Com base nas observações científicas modernas, é possível agora estimar que, depois de 300 a 500 bilhões de anos, a condição atualmente existente no sistema solar já não permanecerá. Assim como no caso de todas as outras estrelas cuja emissão de radiação e evolução foram registradas até a etapa final, é possível prever que o sol também um dia chegará ao fim.

Pode-se lembrar que o versículo 38 da surata Luqman menciona que o sol se desloca em direção ao seu próprio destino.

Na astronomia moderna, foi possível identificar precisamente esse lugar, que também recebeu o nome de ápice solar (ápice do Sol). O sistema solar está realmente evoluindo no espaço e avançando em direção a uma região específica da constelação de Hércules, cuja posição já foi determinada com precisão e cuja velocidade foi calculada em aproximadamente 12 milhas por segundo.

É necessário mencionar esses dados astronômicos no contexto dos versículos do Alcorão citados acima. Isso porque se observa que os dados da ciência moderna coincidem completamente com a descrição do Alcorão.

A expansão do universo

A descoberta mais surpreendente da ciência moderna é que o universo está em constante expansão. Essa ideia está agora comprovada e estabelecida, embora haja algumas divergências quanto à forma como isso ocorre.

Primeiramente, essa ideia surgiu da teoria da relatividade geral e, mais tarde, recebeu apoio nos estudos e observações dos astros realizados pela física. À medida que cada galáxia se desloca gradualmente em direção ao seu próprio centro, aumenta a distância que a separa das outras galáxias. O tamanho do universo também aumentará na mesma proporção. Paralelamente a esse processo de expansão, a velocidade com que os corpos celestes avançam é superior à velocidade da luz.

Pode-se comparar essa concepção moderna com o versículo 47 da surata Adh-Dhariyat. Deus disse: “Construí o céu com o Meu poder e, certamente, Eu o estou expandindo.”

“Céu” é a tradução da palavra árabe “samā”, que designa o mundo situado acima da Terra. A forma no presente, no plural, do verbo árabe “awsa” é “mūsiʿūna”. A palavra “awsa” significa alargar, expandir, ampliar, tornar abrangente e tornar maior. “Mūsiʿūna” significa: “Nós o estamos expandindo.”

Por não compreenderem esse significado, alguns tradutores fizeram traduções que me parecem equivocadas; por exemplo, na tradução francesa, R. Blachère disse: “Nós damos generosamente”. Outros tradutores, embora tenham compreendido o significado, não puderam expressá-lo com coragem. Hamidullah falou, de fato, da expansão do céu e do espaço cósmico, mas acrescentou também um ponto de interrogação. Muitos tradutores, contudo, depois de se informarem sobre os dados científicos corretos, empregaram em seus comentários o significado apresentado aqui. Esse é o significado adotado na obra de comentário intitulada “Muntakhab”, editada pelo Supremo Conselho para os Assuntos Islâmicos do Cairo. Ali se afirma claramente que o universo está se expandindo.

A conquista do espaço cósmico

Considerando a questão sob esse ponto de vista, é necessário voltar a atenção profundamente para três versículos do Alcorão. Um deles afirma claramente que êxito o ser humano pode alcançar e alcançará nesse campo. Os outros dois versículos, referindo-se aos descrentes de Meca, dizem que, se eles pudessem ascender ao céu, ficariam maravilhados ao contemplar as cenas que ali veriam. Aqui é apresentado um assunto cuja compreensão estava além da capacidade daqueles descrentes.

Primeiramente, este versículo é o versículo 33 da Surata Ar-Rahman: “Ó comunidade dos jinn e dos humanos! Se puderdes ultrapassar os limites dos céus e da Terra, ultrapassai-os; mas não podereis fazê-lo sem poder.”

É necessário explicar e analisar alguns aspectos desta tradução. Primeiro, a palavra “se” indica que o sucesso da proposta depende de uma condição possível ou impossível. Entretanto, na língua árabe é possível transmitir, nesse caso, uma nuance muito mais clara. Para expressar possibilidade, pode-se usar “idhā”; para uma ação executável, “in”; e para uma ação inexequível, “law”. Como a palavra “in” foi usada no versículo em questão, entende-se que a ação é executável. Em outras palavras, é realmente possível ao ser humano ultrapassar os limites dos céus e da Terra. O fato de alguns comentaristas terem oferecido uma interpretação meramente filosófica é refutado precisamente por essa particularidade no uso das palavras.

Segundo, Allah dirigiu-se aos jinn e aos seres humanos, e não a criaturas imaginárias. Terceiro, usou-se o verbo “nafadha”, seguido da preposição “min”, que foi traduzida como “ultrapassar”. Segundo o dicionário de Qazi Mirsky, o significado do termo é “entrar no interior de algo e sair pelo lado oposto” (como uma flecha que entra por um lado de um objeto e sai pelo outro). Portanto, fica indicada uma penetração profunda e a saída para além da área penetrada.

Quarto, parece que o poder (sultān) necessário para tal empreendimento humano virá do próprio Todo-Poderoso. Pois, precisamente no versículo seguinte, é feito um convite para perceber a misericórdia de Allah.

Assim, este versículo contém uma indicação clara de que um dia o ser humano conquistará o espaço sideral. É digno de nota que o versículo não indica apenas a conquista dos céus, mas também a ultrapassagem da Terra, isto é, a conquista do mundo subterrâneo.

Os outros dois versículos são os versículos 14 e 15 da Surata Al-Hijr. Pelo contexto, entende-se que Allah se referiu aqui aos incrédulos de Meca: “E, se lhes abríssemos uma porta do céu e eles continuassem a subir por ela durante o dia, ainda assim diriam: ‘Nossa visão ficou aturdida; ou então somos um povo enfeitiçado.’”

Essas palavras expressam admiração diante de uma cena extraordinária, uma cena que o ser humano jamais havia sequer imaginado.

Pode-se observar que a frase começa com a palavra árabe “law”, traduzida como “se”. Isso significa que a proposta da frase foi subordinada a uma condição que jamais poderia ser cumprida pelas pessoas mencionadas no versículo.

No versículo sobre a conquista do espaço sideral, vimos que se afirma que, graças à inteligência e à capacidade de invenção concedidas por Allah, o ser humano um dia conquistará o espaço sideral. Mas neste versículo é descrita uma cena que os incrédulos de Meca jamais poderão ver. Contudo, essa cena pode ser vista por outros, e o versículo descreve o sentimento que surgirá em sua mente depois de a contemplarem — a visão deles ficará confusa, como acontece quando alguém está embriagado ou sob o efeito de magia.

Desde que, em 1961, os astronautas deram pela primeira vez a volta à Terra no espaço sideral a bordo de uma nave espacial, eles tiveram exatamente essa experiência e, ao descrevê-la, disseram precisamente isso. Hoje é universalmente conhecido que, quando visto de cima da atmosfera terrestre, o céu já não parece azul. Isso ocorre porque, visto de baixo, o céu parece azul devido à atmosfera absorver a luz do Sol. Ao subir para além da atmosfera terrestre, o ser humano vê o céu negro e, pela mesma razão — a atmosfera absorve a luz do Sol — vê a Terra envolta numa tonalidade azul. Como a Lua não possui atmosfera, o céu negro nessa condição é completamente extraordinário e inédito, e as imagens dessa cena são hoje muito conhecidas pelas pessoas.

Também neste caso, ao comparar a descrição do Alcorão com os dados da ciência moderna, ficamos maravilhados e atônitos. Portanto, de modo algum essa descrição do Alcorão poderia ser a descrição de alguém de mil e quatrocentos anos atrás.

A Terra

Assim como os outros temas discutidos até aqui nesta obra, os versículos relacionados à Terra também estão espalhados por várias partes do Alcorão. É difícil classificá-los, e a maneira como os classifiquei aqui é inteiramente o meu próprio método.

Para compreender corretamente o significado, podem-se selecionar primeiro os versículos que mencionam simultaneamente vários temas. Esses versículos têm uma aplicabilidade geral e, com base nos exemplos descritos, conclamam as pessoas a compreender a grandeza e a benevolência de Allah.

Outros versículos apresentam temas mais específicos, como o ciclo da água e os mares, a natureza da superfície terrestre e o clima da Terra.

Versículos de descrição geral

Embora os versículos desta categoria geralmente apresentem razões para reconhecer a misericórdia e a benevolência do Criador para com Sua criação, às vezes contêm descrições que despertam curiosidade do ponto de vista da ciência moderna. Em particular, são especialmente significativas as descrições que eram relevantes para as pessoas da época em que o Alcorão foi revelado. Mais tarde, com base em dados e conhecimentos científicos, algumas dessas concepções e crenças foram comprovadas como equivocadas.

Por outro lado, esses versículos expressam conceitos simples, de fácil compreensão para os árabes. Isso porque, por razões geográficas, o Alcorão foi inicialmente dirigido sobretudo a eles. Eles eram os habitantes de Meca e Medina e os beduínos da Península Arábica. Além disso, esses versículos contêm conceitos de natureza geral, dos quais pessoas intelectualmente avançadas, em qualquer lugar e época, podem extrair conhecimentos mais profundos; e este é um sinal do caráter universal e internacional do Alcorão.

Como já mencionei, os versículos não estão classificados em categorias. Portanto, aqui seguimos a ordem numérica das suratas.

Surata 2 (Al-Bácara), versículo 22: “(Allah) é Quem fez da terra um leito para vós e do céu um teto, e fez descer água do céu, por meio da qual produz frutos para vós. Portanto, conscientemente, não atribuais ninguém como igual a Allah.”

Surata 2 (Al-Bácara), versículo 164: “Na criação dos céus e da terra, na alternância da noite e do dia, nos navios que navegam pelo mar com aquilo que beneficia as pessoas, na água que Allah faz descer do céu, com a qual vivifica a terra depois de sua morte e nela dissemina toda espécie de animais, na mudança dos ventos e nas nuvens submetidas entre o céu e a terra, há sinais para um povo que compreende.”

Surata 13 (Ar-Ra‘d), versículo 3: “E foi Ele Quem estendeu a terra, nela colocou montanhas e rios e criou todos os frutos em pares. Ele cobre o dia com a noite. Nisso há certamente sinais para um povo que reflete.”

Surata 15 (Al-Hijr), versículos 19–21: “E estendemos a terra e nela fixamos montanhas, e nela fizemos germinar todas as coisas em medida equilibrada. E nela estabelecemos meios de subsistência para vós e também para aqueles de quem não sois provedores. E não há coisa alguma cujos tesouros não estejam conosco; e não a fazemos descer senão em quantidade determinada.”

Surata 20 (Ta-Há), versículos 53–54: “(Ele é Allah) Quem fez da terra um leito para vós, nela abriu caminhos para vós, fez descer água do céu e, por meio dela, fez surgir diversas espécies de plantas. Comei e apascentai nela os vossos rebanhos; nisso há certamente sinais para os dotados de entendimento.”

Surata 27 (An-Naml), versículo 61: “(Ele é Allah) que fez da Terra um lugar habitável, fez correr nela rios e estabeleceu nela montanhas firmes, e criou uma barreira entre os dois mares. Há alguma outra divindade além de Allah? Contudo, a maioria deles não sabe disso.”

Aqui se fala da firmeza geral da camada superficial da Terra. Sabemos que, na primeira etapa da formação da Terra, essa camada não era firme antes de esfriar. Ainda hoje, naturalmente, ela não é igualmente firme em toda parte, pois há muitas regiões onde ocorrem terremotos frequentes. A propósito da barreira entre os dois mares, pode-se lembrar que as águas dos grandes rios se misturam às águas do mar na foz dos estuários, ou não.

Surata 67 (Al-Mulk), versículo 15: “Ele tornou a Terra acessível para vós; portanto, percorrei os seus confins e comei do sustento que Ele vos concedeu; após a ressurreição, o retorno será para Ele.”

Surata 79 (An-Nazi’at), versículos 30–33: “Depois, (Allah) estendeu a Terra; dela fez brotar as suas fontes e pastagens, e firmou solidamente as montanhas; tudo isso para o proveito vosso e dos vossos animais.”

Muitos versículos desse tipo enfatizam a importância da água e o benefício da presença de água no solo, isto é, a fertilidade do solo. Não há dúvida de que, nos países desérticos, a sobrevivência das pessoas depende inteiramente da água. Mas, no Alcorão, a apresentação desse tema não se limita a esse pequeno significado geográfico. Segundo a ciência moderna, a Terra é o único planeta do sistema solar que possui água, e é justamente essa característica que o Alcorão enfatiza. Se não houvesse água, a Terra teria se tornado um planeta morto, como a Lua. Entre os diversos temas relacionados à Terra, o Alcorão menciona primeiro a água. Além disso, o ciclo da água também é descrito no Alcorão de modo preciso e exato.

O ciclo da água e os mares

Se os versículos do Alcorão sobre o papel da água na vida humana fossem apresentados consecutivamente, ver-se-ia que neles são ditas coisas que compreendemos com muita facilidade. Isso porque, na época atual, quase todos nós estamos mais ou menos familiarizados com o ciclo natural da água.

Ao considerarmos as ideias que eram correntes na antiguidade sobre esse assunto, vemos que elas se baseavam essencialmente em suposições e imaginação. Embora essas ideias fossem correntes na época da revelação do Alcorão, o próprio Alcorão não lhes deu lugar algum. Ainda que parte do conhecimento necessário para esse trabalho pudesse ser obtida por meio de raciocínios baseados em suposições, tais concepções não podem mais ser aceitas na época atual.

Era fácil supor que a água subterrânea se infiltrava de cima. Na Antiguidade, no primeiro século antes de Cristo, o romano Marco Vitrúvio Polião

era adepto dessa teoria. Contudo, muitos consideravam essa concepção uma exceção. Portanto, constata-se que, durante muitos séculos — período em que o Alcorão foi revelado —, as pessoas mantiveram uma concepção totalmente equivocada sobre o ciclo da água.

Sobre esse assunto, dois especialistas, G. Pastini e B. Blavoux, apresentaram um excelente histórico do problema em um artigo da enciclopédia (Enciclopédia Universalis). Eles disseram: “No século VII antes de Cristo, Tales de Mileto defendia a teoria de que a água do mar, impulsionada pelo vento, avançava em direção à terra firme e, depois de cair sobre o solo, penetrava nele. Platão acreditava nessa teoria e pensava que essa água retornava ao mar por algum profundo túnel subterrâneo (Tártaro). Até o século XVIII, essa teoria teve muitos defensores, entre os quais Descartes. Aristóteles pensava que a água subterrânea se transformava em vapor, congelava no frio das regiões montanhosas e, assim, formava lagos subterrâneos; essa mesma água fluía sob a forma de nascentes. Sêneca (século I), Volger e muitos outros sustentaram essa teoria até 1877. Em 1580, Bernard Palissy formulou uma concepção clara sobre o ciclo da água. Ele disse que a água existente sob a terra provinha da infiltração da água da chuva vinda de cima. Já no século XVII, Mariotte e P. Perrault apoiaram e confirmaram essa teoria.”

Entretanto, nos diversos versículos do Alcorão apresentados a seguir, não há o menor vestígio das variadas concepções errôneas que prevaleciam na época de Muhammad (que a paz esteja com ele).

Surata 50 (Qaf), versículos 9–11: “E do céu fazemos descer uma chuva abençoada, com a qual fazemos crescer jardins, grãos e altas tamareiras, cujos cachos são sobrepostos, como sustento para Meus servos; e com a chuva vivificamos uma terra morta. Assim será a ressurreição.”

Surata 23 (Al-Mu’minun), versículos 18–19: “E fazemos descer do céu água em medida determinada; depois, fazemos com que ela permaneça na terra, embora sejamos capazes de fazê-la desaparecer. Em seguida, por meio dela, fazemos crescer para vós jardins de tamareiras e videiras; neles há muitos frutos para vós, dos quais comeis.”

Surata 15 (Al-Hijr), versículo 22: “E enviamos os ventos fecundantes; depois fazemos descer do céu água e vo-la damos para beber; não sois vós que possuís os seus reservatórios.”

Este versículo pode ter duas interpretações possíveis. A expressão “ventos fecundantes” ou “ventos produtivos” pode significar que muitas sementes e pólen de frutos e flores são transportados pelo vento. Outra possibilidade é que, por meio do vento, muitas nuvens sem chuva se transformem em nuvens carregadas de chuva. Em muitos casos, como nos versículos abaixo, esse papel dos ventos é mencionado:

Surata 35 (Fátir), versículo 9: “É Allah quem envia os ventos, que então movem as nuvens. Depois, Ele as conduz para uma terra estéril e, por meio delas, vivifica a terra depois de sua morte. Assim será a Ressurreição.”

É digno de nota que a primeira parte do versículo é descritiva e, em seguida, sem qualquer intervalo, é transmitida diretamente uma declaração da parte de Allah. Essa mudança repentina na narrativa é frequentemente observada no Alcorão.

Surata 30 (Ar-Rum), versículo 48: “Allah é Quem envia os ventos, que movimentam as nuvens; depois, Ele as dispersa pelo céu como quer, fragmenta-as, e então vês a chuva sair de dentro delas. Ele a faz chegar a quem quer, dentre Seus servos, e eis que eles se alegram.”

Surata 7 (Al-A’raf), versículo 57: “Ele é Quem envia os ventos como anunciadores de boas-novas, precedendo Sua misericórdia. Quando eles carregam nuvens pesadas, Nós as conduzimos para uma terra estéril; depois fazemos chover sobre ela e, com isso, produzimos todos os tipos de frutos. Assim vivificamos os mortos, para que tireis uma lição.”

Surata 25 (Al-Furqan), versículos 48–49: “Ele é Quem envia os ventos como anunciadores de boas-novas, precedendo Sua misericórdia, e faz descer do céu água pura, para vivificar com ela uma terra morta e saciar a sede de inúmeras criaturas e seres humanos.”

Surata 45 (Al-Játhiyah), versículo 5: “Há sinais para o povo que raciocina na alternância da noite e do dia, na água que Allah faz descer do céu, por meio da qual vivifica a terra depois de sua morte, e na mudança dos ventos.”

Aqui é particularmente digno de nota o destaque dado ao papel dos ventos na alteração do ciclo da chuva.

Surata 13 (Ar-Ra‘d), versículo 17 (trecho): “Ele faz descer água do céu, e os vales transbordam, cada qual conforme sua capacidade, e a torrente carrega a espuma que se encontra sobre ela.”

Surata 67 (Al-Mulk), versículo 30: “Dize: Haveis acaso considerado que, se a água penetrasse no subsolo e ficasse fora do vosso alcance, quem vos traria água corrente?”

Surata 39 (Az-Zumar), versículo 21 (parte): “Não vês que Deus faz descer água do céu e depois a faz correr pela terra em forma de cursos de água, produzindo com ela colheitas de diversas cores?”

Surata 36 (Yá Sin), versículo 34: “Nela criámos jardins de tamareiras e de videiras, e fizemos brotar fontes.”

Os três últimos versículos dão ênfase às fontes e ao processo pelo qual elas são abastecidas pela água da chuva. É necessário refletir profundamente sobre isso e, a propósito, lembrar que, na Idade Média, acreditava-se — e sábios como Aristóteles também pensavam assim — que a água das fontes provinha diretamente do subsolo. O professor M. R. Réméniéras, da Escola Nacional de Agronomia da França, descreveu, em seu artigo sobre hidrologia na Encyclopaedia Universalis, as principais etapas do ciclo da água e mencionou os bons sistemas de irrigação existentes na Antiguidade, especialmente no Médio Oriente. Observou que, como as conceções e teorias da época eram erróneas, as pessoas comuns dependiam sobretudo da sua experiência nas atividades de irrigação. Ele afirma: “Até à época do Renascimento (1400–1600 d.C.), prevaleceu exclusivamente uma teoria filosófica. Depois, com o início das pesquisas baseadas na observação objetiva, essa teoria foi abandonada. Leonardo da Vinci protestou contra a teoria de Aristóteles. No livro intitulado ‘Um Discurso Maravilhoso sobre a Natureza da Água e das Fontes, Naturais e Artificiais’, Paris, 1570, Bernard Palissy apresentou informações verdadeiras sobre o ciclo da água e sobre a alimentação das fontes pela água da chuva.”

É precisamente isso — a entrada da água da chuva no subsolo e a sua utilização como fonte — que é descrito no versículo 21 da Surata Az-Zumar.

No versículo 43 da Surata An-Nur, fala-se da chuva e do granizo: “Não vês que Deus conduz as nuvens, depois as reúne e, em seguida, as acumula? Então vês a chuva a sair delas. E Ele faz descer granizo das montanhas de granizo que estão no céu; com ele, atinge quem quer e dele desvia-o de quem quer. O clarão do relâmpago quase lhes tira a visão.”

Neste contexto, é necessário prestar especial atenção ao conteúdo dos três versículos da Surata Al-Waqi‘ah (68–70):

“Haveis acaso refletido sobre a água que bebeis? Sois vós que a fazeis descer das nuvens ou somos Nós que a fazemos chover? Se quiséssemos, tornaríamos a água salgada. Por que, então, não dais graças?”

O fato de Allah ser Todo-Poderoso e poder fazer tudo o que quiser também é lembrado ao mencionar Seu poder de transformar a água doce em água salgada. Na era moderna, o ser humano conseguiu, naturalmente, criar chuva por meios artificiais. Portanto, será possível alguém contestar ou contradizer a descrição do Alcorão sobre a capacidade humana de criar chuva?

A resposta a essa pergunta é: não, não é possível. Contudo, deve-se reconhecer plenamente a limitação do poder humano nesse assunto. O especialista do Serviço Meteorológico francês, M. A. Fassi, escreveu na enciclopédia Universal, sob o título “Chuva”: “Jamais será possível fazer chover a partir de uma nuvem que ainda não esteja madura para produzir chuva ou que não tenha adquirido características próprias para isso.” Em outras palavras, se as condições naturais não forem favoráveis, jamais será possível ao ser humano acelerar o processo da chuva mediante a aplicação de conhecimentos técnicos. Caso contrário, nunca haveria seca ou estiagem. Entretanto, na realidade, vemos que secas e estiagens ocorrem com muita frequência. Portanto, a possibilidade de o ser humano controlar a chuva ou o clima continuará sendo apenas um sonho.

O ser humano não pode, simplesmente por querer, violar as leis naturais permanentes que regem o ciclo da água. Segundo os conceitos da hidrologia moderna, essa lei natural é a seguinte:

Devido ao calor proveniente dos raios solares, a água dos mares e da superfície terrestre transforma-se em vapor. Esse vapor sobe para a atmosfera, condensa-se e transforma-se em nuvens. O vento leva essas nuvens a diferentes distâncias. Então, as nuvens podem dissipar-se sem precipitar, ou unir-se a outras nuvens e tornar-se ainda mais densas, ou dissipar-se e produzir precipitação em alguma etapa do ciclo. Depois que essa chuva cai no mar (os mares cobrem 70% da superfície terrestre), o ciclo recomeça. Quando a chuva cai sobre a terra, pode ser absorvida pelas plantas, ajudando assim no seu nascimento e desenvolvimento. Parte da água das plantas retorna à atmosfera. A água restante penetra no solo e, de lá, retorna ao mar pelo subsolo ou flui para nascentes e rios.

Quando se comparam os dados modernos da hidrologia com os versículos do Alcorão citados neste capítulo, percebe-se entre ambos uma extraordinária concordância e semelhança.

O mar

O caso do mar, porém, é um pouco diferente. No Alcorão não há nenhuma descrição do mar que possa ser comparada com os dados científicos modernos. Contudo, é necessário mencionar com bastante ênfase que, entre todas as teorias, lendas ou superstições sobre o mar que eram correntes na época da revelação do Alcorão, nenhuma recebe apoio em parte alguma do Alcorão.

Alguns versículos tratam do mar e da navegação. Neles há matéria para reflexão, a fim de compreender o poder absoluto de Allah a partir de fenômenos geralmente observáveis. Os versículos seguintes podem ser citados como exemplos:

Surata 14 (Ibrahim), versículo 32: “Ele submeteu os navios a vós, para que navegassem pelo mar segundo o Seu mandamento.”

Surata 16 (An-Nahl), versículo 14: “Ele submeteu o mar, para que dele pudésseis comer carne fresca e dele extrair joias com as quais vos adornais; e vedes os navios sulcando-o, para que busqueis a Sua graça e sejais gratos.”

Surata 31 (Luqman), versículo 31: “Não observais que os navios navegam pelo mar, pela graça de Allah, para vos mostrar os Seus sinais? Nisto há, certamente, sinais para todo aquele que é paciente e grato.”

Surata 55 (Ar-Rahman), versículo 24: “A Ele pertencem os navios que navegam no mar, semelhantes a montanhas.”

Surata 36 (Ya-Sin), versículos 41–44: “E há para eles um sinal: carregamos seus antepassados na arca carregada, e criamos para eles veículos semelhantes, nos quais embarcam. Se quiséssemos, poderíamos afogá-los; então não encontrariam socorrista algum, nem seriam salvos — salvo por misericórdia Nossa e para lhes permitir desfrutar da vida por algum tempo.”

Aqui se fala claramente do transporte de pessoas na arca, isto é, do acontecimento em que Noé (A.S.) foi levado na arca, juntamente com os demais passageiros, até a terra seca.

Há outro fenômeno visível relacionado ao mar que, por causa de sua característica incomum, é facilmente percebido; essa característica também se torna visível nas desembocaduras de grandes rios e do mar. O Alcorão menciona claramente essa característica.

Essa característica é que a água doce do rio não se mistura com a água salgada do mar. Esse fenômeno pode ser observado onde os rios Tigre (Dijla) e Eufrates (Furāt) se encontram. Essa enseada é uma espécie de mar com mais de cem milhas de extensão e é chamada de Chatt al-Arab. Quando as ondas do mar entram nesse golfo, empurram a água doce do rio em direção à terra seca e, desse modo, ajudam na irrigação. Para compreender o significado do texto do Alcorão sobre esse assunto, é necessário entender que a palavra árabe “bahr” designa uma grande quantidade de água e, nesse sentido, pode referir-se tanto ao mar quanto a grandes rios como o Nilo, o Tigre e o Eufrates. A palavra inglesa “sea” também transmite esse sentido geral.

A característica de as águas doce e salgada não se misturarem é descrita nos três versículos abaixo:

Surata 25 (Al-Furqan), versículo 53: “Ele fez correr os dois mares: a água de um é doce e potável, e a do outro é salgada e amarga. Entre ambos, colocou uma barreira e uma separação intransponível.”

Surata 55 (Fátir), versículo 12: “Os dois mares não são iguais: a água de um é doce e potável, enquanto a do outro é salgada e amarga. De cada um deles, podeis comer peixe e extrair as joias que usais.”

Surata 55 (Ar-Rahman), versículos 19, 20 e 22: “Ele fez correr os dois mares, que se encontram, mas entre eles há uma barreira que não podem transpor. De ambos os mares provêm pérolas e corais.”

Depois da descrição do acontecimento principal, mencionam-se as coisas obtidas de ambos os tipos de água, isto é, peixes, pérolas e corais. O fenômeno de as águas doce e salgada não se misturarem não ocorre apenas nos rios Tigre e Eufrates. Ele também ocorre em outros lugares. Embora o Alcorão não mencione os nomes dos rios Tigre e Eufrates, geralmente se considera que é a eles que se faz referência. Suas águas doces não se misturam com a água salgada até chegarem ao mar profundo mais distante.

A superfície da Terra

A formação da Terra é muito complexa. Atualmente, é possível supor, de modo geral, que a Terra se formou a partir de uma camada extremamente espessa, em condições de grande calor. Em seu centro, materiais rochosos ainda se encontram em estado fundido e quente, enquanto a camada superior esfriou e adquiriu forma sólida. A camada superior, ou a pele da Terra, é muito fina; sua espessura costuma ser medida em milhas, ou, no máximo, em unidades de dez milhas. A distância do centro da Terra até a sua periferia é pouco superior a 3.750 milhas. Portanto, em média, a espessura da pele nem sequer chega a um centésimo da circunferência da esfera. No entanto, todos os fenômenos geológicos ocorreram justamente sobre essa pele. No início desse processo, as dobras formadas na pele da Terra deram origem às cadeias montanhosas. Entre os geólogos, esse processo é conhecido como “orogênese” e é muito importante. Isso porque, pela mesma dobra que deu origem às montanhas, a pele da Terra desceu proporcionalmente, criando assim uma base sólida para as montanhas.

A distribuição e a proporção entre os mares e as terras na superfície da Terra só foram estabelecidas muito recentemente, e nosso conhecimento ainda permanece incompleto, mesmo no que diz respeito aos períodos mais recentes e conhecidos. Considera-se que os mares tenham se formado provavelmente há cerca de cinquenta milhões de anos. No estágio inicial, provavelmente toda a massa terrestre tinha a forma de um único bloco e, mais tarde, fragmentou-se, assumindo a forma de vários continentes. Alguns continentes, ou partes deles (o continente do Atlântico Norte e partes da Europa), formaram-se devido à formação de montanhas em regiões marinhas.

Segundo a concepção moderna, a formação e o desenvolvimento das montanhas desempenharam o papel principal na formação da Terra. Desde a fase inicial até a quarta fase, as formações terrestres influenciaram diversos equilíbrios. Algumas partes da Terra se formaram novamente e, assim, ao longo de milhões de anos, modificaram a distribuição e a proporção entre os mares e a terra. Com essas mudanças sucessivas, a área terrestre atual corresponde a apenas três décimos da área dos mares.

Assim, agora talvez seja possível apresentar, de modo bastante geral, uma descrição das mudanças ocorridas nos últimos vários milhares de anos.

A respeito da superfície terrestre, o Alcorão descreve apenas o processo de formação das montanhas. Nos versículos seguintes, fala-se da misericórdia de Allah para com os seres humanos no que diz respeito à formação da Terra. Do ponto de vista científico, aparentemente não há mais nada a dizer sobre este assunto.

Surata 71 (Nuh), versículos 19–20: “E Allah fez a terra para vós extensa, para que pudésseis caminhar por caminhos amplos.”

Surata 51 (Adh-Dhariyat), versículo 48: “E estendi a terra; e quão belamente a estendi!” Fala-se de estender a terra como um tapete. Esse tapete é a crosta da Terra, uma camada extremamente resistente sobre a qual vivemos. Sem essa crosta, a Terra não poderia ser adequada à habitação de nenhum ser vivo, pois seu interior é líquido, quente e destrutivo para a vida. A descrição corânica da resistência e da solidez das montanhas e da crosta terrestre, resultantes das dobras da superfície terrestre, é muito importante.

Surata 88 (Al-Ghashiyah), versículos 19–20: “E como as montanhas foram firmemente instaladas (como tendas), e como a terra foi nivelada?” Os versículos seguintes apresentam uma descrição detalhada de como as montanhas foram fincadas na terra.

Surata 78 (An-Naba), versículos 6–7: “Acaso não fizemos da terra um leito e das montanhas, estacas?” Uma estaca é um pino fincado no solo para prender as cordas esticadas de uma tenda (awtad, plural de watad). Os geólogos modernos reconhecem que as dobras da terra funcionam como a base das montanhas. Segundo eles, o tamanho de cada dobra pode variar de uma a dez milhas. Essas dobras também fortalecem a crosta terrestre. Nesse contexto, pode-se prestar atenção aos versículos seguintes:

Surata 79 (An-Nazi’at), versículo 32: “E Ele fixou firmemente as montanhas.”

Surata 31 (Luqman), versículo 10: “Ele fixou na terra montanhas, para que ela não se inclinasse com vocês.”

A mesma coisa é dita no versículo 15 da Surata An-Nahl, e a mesma ideia é expressa no versículo 31 da Surata Al-Anbiya: “E criei na terra montanhas firmes, para que ela não se inclinasse de um lado para outro com eles.”

Esses versículos expressam a ideia de que a forma como as montanhas foram fixadas garante a estabilidade. Essa ideia é inteiramente compatível com o conhecimento geológico moderno.

O clima da Terra

Já examinamos anteriormente as diversas descrições do céu no Alcorão; agora examinaremos alguns fenômenos da atmosfera mencionados nos versículos. Veremos que não há absolutamente nenhuma contradição entre as informações descritas nesses versículos e a ciência moderna.

Altitude

Quando o ser humano sobe a grandes alturas, sente desconforto. À medida que a altitude aumenta, o desconforto também aumenta. Essa sensação conhecida é descrita no versículo 125 da Surata Al-An’am: “Quando Allah deseja guiar alguém, Ele dilata o seu coração para o Islã; e quando deseja desviá-lo, Ele torna o seu coração estreito e angustiado; para ele, seguir o Islã torna-se tão difícil quanto subir ao céu.”

Alguns comentaristas afirmaram que, na época de Muhammad (que a paz esteja com ele), os árabes não conheciam o desconforto causado pela subida a grandes alturas. Mas essa afirmação não é de modo algum verdadeira. Naquela época, já havia na região árabe montanhas com mais de duas milhas de altura; portanto, não é possível que eles desconhecessem a dificuldade de respirar em tal altitude. Durante a época do Profeta, havia uma população na cidade de Sana’a, capital do Iêmen, cuja altitude em relação ao nível do mar era de aproximadamente 7.900 pés. Alguns comentaristas também viram nesse versículo uma profecia sobre a conquista do espaço sideral, mas isso tampouco é verdade. Pelo menos, não há nesse versículo nenhuma profecia sobre a conquista do espaço sideral.

Eletricidade na atmosfera

Nos versículos seguintes, menciona-se a presença de eletricidade na atmosfera e que, em consequência dela, ocorrem relâmpagos e queda de granizo:

Surata 13 (Ar-Ra‘d), versículos 12–13: “Ele é quem vos mostra o relâmpago, causando temor e esperança, e forma as nuvens carregadas. O trovão glorifica-O com louvor, e também os anjos, por temor d’Ele; Ele lança os raios e atinge com eles quem quer. Ainda assim, eles discutem acerca de Allah, embora Ele seja poderoso.”

Surata 24 (An-Nur), versículo 43: “Não vês que Allah conduz as nuvens, depois as reúne e, em seguida, as amontoa? Então vês a chuva sair delas. Ele faz descer do céu massas de granizo e, com ele, atinge quem quer e o desvia de quem quer. O clarão do relâmpago das nuvens quase tira a visão.”

Nestes dois versículos, descreve-se claramente a formação das nuvens carregadas de chuva, ou nuvens de granizo, e a relação mútua com os raios. No caso das nuvens, elas inspiram esperança por causa de seus benefícios; no caso dos raios, inspiram temor, pois, quando caem, isso ocorre somente pela vontade de Allah, o Todo-Poderoso. A relação entre esses dois fenômenos foi comprovada e corroborada pelo conhecimento científico moderno sobre a presença de eletricidade na atmosfera.

A sombra

O fato de que a sombra existe e pode mover-se é hoje explicado com muita facilidade. Este assunto é descrito nos versículos seguintes:

Surata 16 (An-Nahl), versículo 81: “E, dentre aquilo que criou, Allah providenciou para vós sombras.”

Surata 16 (An-Nahl), versículo 48: “Não observam eles as coisas criadas por Allah, cujas sombras se inclinam à direita e à esquerda, prostrando-se humildemente diante de Allah?”

Não vês como o teu Senhor estende a sombra? Se quisesse, poderia tê-la mantido imóvel; mas fez do sol o seu indicador. Depois, Ele a recolhe gradualmente.”

Além de mencionar que todas as coisas criadas por Allah e suas sombras permanecem humildes diante de Allah, e que Ele pode, se quiser, retirar todos os sinais do Seu poder, estes versículos também mencionam a relação entre o sol e a sombra. A esse respeito, é necessário recordar que, na época de Muhammad (que a paz esteja com ele), acreditava-se que o movimento da sombra era controlado pelo movimento do sol de leste para oeste, e esse princípio era aplicado aos relógios de sol para medir o tempo entre o nascer e o pôr do sol. Sem fazer qualquer menção à interpretação corrente naquela época, o Alcorão descreveu o fenômeno, e a natureza dessa interpretação era tal que ela seria facilmente aceita durante muitos séculos depois de Muhammad (que a paz esteja com ele), embora finalmente se tenha provado errada. No Alcorão, o sol é mencionado apenas como indicador da sombra. É evidente que não há qualquer contradição entre o modo como a sombra é descrita no Alcorão e os conhecimentos e dados modernos sobre este assunto.

O reino animal e o reino vegetal

Neste capítulo, foram reunidos muitos versículos sobre a origem da vida. Além disso, foram incluídos alguns versículos que contêm certas características gerais e específicas dos mundos vegetal e animal. Os versículos sobre este assunto encontram-se dispersos em diferentes partes do Alcorão. Espero que a maneira como tentei classificá-los permita obter uma ideia geral das informações apresentadas no Alcorão.

Devido a certas dificuldades inerentes ao significado das palavras, o exame do texto do Alcorão neste capítulo e no capítulo seguinte criou, por vezes, uma situação bastante delicada. Contudo, foi possível superar esse problema com o auxílio dos dados científicos modernos relativos ao assunto. Esse auxílio pareceu especialmente necessário nos campos animal, humano e vegetal; sem ele, não teria sido possível chegar ao verdadeiro significado e à importância da descrição corânica.

Quando se julga a partir desta perspectiva, ficará claro que, para um cientista, as traduções do Alcorão feitas por eruditos serão necessariamente consideradas erradas. O mesmo se aplica igualmente aos comentários daqueles que escreveram sem o conhecimento científico necessário.

A origem da vida

A origem da vida sempre suscitou perguntas na mente humana. Não apenas sobre a própria vida, mas também sobre as diversas formas de vida que se movem ao seu redor. Examinaremos esta questão de um ponto de vista geral. Como o aparecimento do ser humano na Terra e o crescimento de sua população exigem uma longa discussão, trataremos desse assunto no capítulo seguinte.

Onde o Alcorão descreve de modo geral a origem da vida, a descrição é muito breve. No versículo em que essa descrição aparece, também é descrito o processo de formação do universo:

Sura 21 (Al-Anbiya), versículo 33: “Não veem os que rejeitam a verdade que os céus e a Terra estavam unidos, e então os separamos, e criamos da água todo ser vivo? Ainda assim, não crerão?”

Não há dúvida quanto à ideia de obter algo a partir de outra coisa. À luz disso, o significado do versículo pode ser que todo ser vivo foi criado utilizando a água como elemento indispensável; ou que a vida teve origem na própria água. Ambos os significados estão de acordo com os dados da ciência moderna. A origem da vida está, de fato, na água, e a água também é o principal componente de todas as células vivas. Sem água, a vida simplesmente não poderia existir. Ao considerar a questão de saber se há vida em outro planeta, a primeira pergunta feita é: existe água ali?

Os dados modernos indicam que as formas de vida mais antigas pertenciam ao reino vegetal. Algas marinhas já existiam antes do período Cambriano, isto é, na época das terras mais antigas conhecidas. As células dos animais, ou seja, do reino animal, provavelmente surgiram algum tempo depois, e também vieram do mar.

A palavra água (em inglês, water) foi usada como tradução da palavra árabe “mā’”. A palavra “mā’” pode referir-se à água do céu, à água do mar ou a qualquer tipo de substância líquida? A água no primeiro sentido é indispensável para toda a vida do reino vegetal.

Sura 20 (Ta-Ha), versículo 53: “Ele faz descer água do céu e, por meio dela, produz diversos tipos de plantas, aos pares.”

Esta é a primeira menção aos pares no reino vegetal / Trataremos desse assunto mais adiante. No outro sentido, isto é, quando não se especifica um tipo e se fala apenas de uma substância líquida, um tipo daquilo que se entende por água constitui a base da formação da vida de todos os seres vivos. Sura 24 (An-Nur), versículo 45: “Allah criou todos os seres vivos a partir da água.” Mais adiante veremos que a palavra água também é aplicada ao sêmen.

Quer se trate, de modo geral, da origem da vida, do surgimento das plantas no solo ou do sêmen dos animais, todas as descrições contidas no Alcorão estão plenamente de acordo com a ciência moderna. O Alcorão não menciona sequer uma das lendas e histórias populares sobre a origem da vida que circulavam na época de sua revelação.

Reino vegetal

Seria possível citar integralmente todos os versículos que mencionam a misericórdia de Allah quanto ao surgimento de árvores, plantas e trepadeiras devido à chuva. Contudo, citaremos aqui apenas três versículos:

Surata 16, An-Nahl, versículos 10–11: “Ele é Quem faz descer água do céu; nela há bebida para vós e dela brotam plantas nas quais apascentais os vossos rebanhos. Com ela, Ele faz crescer para vós as plantações, as oliveiras, as tamareiras, as videiras e toda espécie de frutos.”

Surata 6, Al-An’am, versículo 99: “Ele é Quem faz descer água do céu e, com ela, faz surgir plantas de toda espécie; depois, delas faz brotar folhas verdes, das quais produz grãos compactos; e das espatas das tamareiras faz sair cachos pendentes. E cria jardins de videiras, oliveiras e romãzeiras, semelhantes e diferentes umas das outras. Observai os seus frutos quando dão fruto e quando amadurecem. Nisso há, certamente, sinais para um povo que crê.”

Surata 50, Qaf, versículos 9–11: “E fazemos descer do céu uma chuva abençoada, com a qual fazemos surgir jardins, grãos e tamareiras altas, cujos cachos se sobrepõem, como provisão para os Meus servos. E, com a chuva, damos vida à terra morta; assim será a ressurreição.”

Juntamente com essas informações de caráter geral, também foram incluídas informações sobre temas específicos no Alcorão.

Equilíbrio no mundo vegetal

Surata 15 (Al-Hijr), versículo 19: «Criei na Terra todas as coisas na devida proporção.»

Diversidade das propriedades dos diferentes alimentos

Surata 13 (Ar-Ra‘d), versículo 4: «Na Terra há porções contíguas umas às outras; nela há vinhedos, campos de cereais e tamareiras de vários troncos ou de um só tronco. Todas são irrigadas pela mesma água, e, quanto aos frutos, favorecemos algumas delas em relação às outras. Nisto há sinais para um povo que compreende.»

A existência desses versículos é particularmente digna de nota, pois neles são descritas verdades fundamentais em uma linguagem extremamente simples, sem qualquer menção às lendas ou aos mitos da época. Contudo, é a descrição do Alcorão sobre a reprodução no reino vegetal que especialmente atrai nossa atenção.

Reprodução no reino vegetal

No reino vegetal, a reprodução ocorre de duas formas: sexuada e assexuada. Somente a primeira pode ser verdadeiramente chamada de reprodução, pois, nesse caso, atua um processo fisiológico cujo objetivo é produzir um novo organismo semelhante ao progenitor.

Por outro lado, a reprodução assexuada é simplesmente uma multiplicação numérica: o desenvolvimento de uma parte separada da planta-mãe por ação da própria planta-mãe. Guilliermond e Mangenot denominaram esse processo «um tipo especial de nascimento». Um exemplo simples desse processo é fazer uma muda e cortar um ramo da planta, enterrando-o no solo para que nele cresçam novas raízes. Nem todas as plantas podem ser propagadas por estacas; há algumas especialmente adequadas para isso. Em certas plantas nascem brotos ou estolhos que podem ser utilizados do mesmo modo que as sementes. É importante observar que as sementes se formam como resultado do processo sexuado.

No reino vegetal, a reprodução sexuada ocorre pela combinação das partes masculina e feminina de uma mesma planta ou de várias plantas. O Alcorão menciona somente esse processo.

Surata 20 (Taha), versículo 53: “Ele faz descer a água do céu e, por meio dela, produz diversas espécies aos pares.”

A palavra “yauj” significa um dos elementos de um par. O plural dessa palavra árabe é “azwaj”. O significado original da palavra é algo que se une a outra coisa para formar um par. Nesse sentido, ela também é usada para designar um casal e um par de sapatos.

Surata 22 (Al-Hajj), versículo 5: “Tu vês a terra seca; então, quando fazemos descer sobre ela a água, ela se agita, incha e produz toda espécie de plantas agradáveis à vista, aos pares.”

Surata 31 (Luqman), versículo 10: “Ele é quem faz brotar na terra toda espécie de plantas benéficas, aos pares.”

Surata 13 (Ar-Ra‘d), versículo 3: “Ele criou na terra todos os frutos em dois tipos, aos pares.”

Sabemos que, nas árvores superiores, o fruto é o resultado final do processo de reprodução. A organização dessas árvores é muito desenvolvida e complexa. O estágio anterior ao fruto é a flor, que possui órgãos masculinos e femininos. Depois que o pólen é depositado no órgão feminino, forma-se o fruto; depois que esse fruto amadurece, formam-se as sementes. Portanto, todos os frutos comprovam a existência de órgãos masculinos e femininos. É isso que foi dito no Alcorão. É digno de nota que, em algumas espécies, também pode haver frutos a partir de flores estéreis (sem a união do pólen masculino e feminino), como bananas, alguns tipos de abacaxi, figos, laranjas e uvas. Esses frutos também podem nascer de flores férteis.

Quando ocorre a germinação, após o rompimento do revestimento externo da semente, que muitas vezes é muito duro, chega-se ao estágio final do processo de reprodução. Com o rompimento do revestimento externo, as raízes podem brotar; então, essas raízes absorvem os nutrientes do solo e ajudam a fazer nascer uma nova muda.

O Alcorão descreve o processo de germinação da seguinte maneira:

Surata 6 (Al-An’am), versículo 95: “Allah faz germinar o grão e a semente, abrindo-os.” Ao mencionar a existência em pares no mundo vegetal, o Alcorão aplica esse conceito a um campo ainda mais amplo e geral.

Surata 36 (Yá-Sin), versículo 36: “Glorificado e exaltado seja Aquele que criou em pares todas as coisas: as plantas, os seres humanos e aquilo que eles não conhecem.”

Na época de Muhammad (que a paz esteja com ele), talvez houvesse várias conjecturas e especulações sobre “aquilo que eles não conhecem”. Mas agora sabemos com exatidão que a existência de pares ocorre tanto no mundo animal quanto no inanimado, desde o nível mais diminuto até o mais grandioso. É digno de nota que todos esses conceitos do Alcorão estão inteiramente de acordo com o conhecimento e a ciência modernos.

O reino animal

Há no Alcorão alguns temas cuja explicação e análise precisam ser confrontadas com a ciência moderna. Contudo, se alguém compreender com profunda atenção o versículo citado abaixo, não poderá saber plenamente o que o Alcorão realmente apresenta sobre o assunto em questão.

Neste versículo, descreve-se a criação de alguns elementos do mundo animal com o objetivo de levar o ser humano a compreender a misericórdia de Allah para com ele. Descrever as coisas como tendo sido criadas em conformidade com as necessidades humanas é uma característica geral do Alcorão; é essencialmente como exemplo dessa característica que citamos especialmente este versículo. O versículo dirige-se aos habitantes das regiões rurais, e não há possibilidade de considerar o assunto de outra maneira senão sob essa perspectiva.

Surata 16 (An-Nahl), versículos 5–8: “Ele criou os animais; neles tendes vestimentas para vos proteger do frio e muitos benefícios, e deles comeis. E, quando os trazeis de volta do pasto para casa ao entardecer e os conduzis ao pasto pela manhã, apreciais a sua beleza. E Ele criou os cavalos, as mulas e os jumentos para que os montásseis e para ornamento; e cria muitas coisas que não conheceis.” Além dessa descrição geral, o Alcorão fornece algumas informações específicas. Os temas são: (1) a reprodução no mundo animal; (2) a menção à existência de sociedades no mundo animal; (3) a descrição das abelhas, das aranhas e das aves; (4) a explicação sobre a origem dos componentes do leite animal. Agora discutiremos esses assuntos sucessivamente.

1) A reprodução no mundo animal

Nas versículos 45 a 56 da surata An-Najm, o assunto é descrito de forma muito resumida: “Ele cria os dois sexos, o masculino e o feminino, a partir de uma gota de esperma ejetada.” Aqui, “dois sexos” corresponde ao que, nos versículos sobre o mundo vegetal, foi descrito como “pares”. Já discutimos esse assunto anteriormente. Contudo, é digno de nota que aqui o sexo dos pares é mencionado. A descrição segundo a qual é necessária uma pequena quantidade de substância líquida para a reprodução é correta, precisa e plenamente digna de elogio. Foi usada em árabe uma palavra que claramente significa “esperma”. Discutiremos mais adiante a relevância dessa descrição.

2) A menção à existência de sociedades no mundo animal

Surata 6 (Al-An’am), versículo 38: “Não há criatura que se mova sobre a terra, nem ave que voe com as próprias asas, que não seja uma comunidade como vós. Nada omitimos no Livro; depois, todos serão reunidos perante o seu Senhor.” É necessário discutir alguns aspectos desse versículo. Primeiro, a descrição do versículo parece indicar o que acontecerá aos animais e às aves depois da morte. Contudo, aparentemente, o Islã não oferece nenhuma orientação sobre esse assunto. Segundo, parece haver aqui uma menção geral ao destino previamente determinado (takdir). (Já discutimos, no início da terceira parte desta obra, o que se deve entender por takdir no caso dos seres humanos.) O takdir pode ser considerado uma força soberana ou uma força condicionada. Por takdir condicionado, ou dependente de condições, queremos dizer o comportamento que é controlado por características estruturais ou funcionais; por exemplo, um animal age em determinado ambiente de acordo com suas sensações específicas. Essas sensações são produzidas pelo ambiente externo ao seu corpo.

Blachère afirmou que os exegetas de épocas anteriores consideravam que este versículo se referia ao fato de o animal adorar Allah por meio de ações geradas por sentimentos internos. O xeique C. Boubakeur Hamza, em seu comentário à sua tradução do Alcorão, disse: “Como resultado de sentimentos criados pelo conhecimento celestial, todos os animais se organizam em sociedades e afirmam que o trabalho de cada membro deve ser orientado para o interesse de toda a classe.”

Nas últimas décadas, foram realizadas investigações amplas e profundas sobre o comportamento dos animais e das aves, e constatou-se que eles realmente vivem organizados em sociedades. Após a observação prolongada do funcionamento de algumas dessas sociedades, comprovou-se que elas possuem estruturas e organizações definidas. No caso de certas espécies animais, só recentemente foi possível descobrir a existência de responsáveis por sua organização social. Sem dúvida, as abelhas foram o objeto de maior número de estudos, e o nome de von Frisch está ligado à investigação do comportamento das abelhas. Por esse trabalho, Frisch, Lorenz e Tinbergen receberam o Prêmio Nobel em 1973.

3) Descrições sobre a abelha, a aranha e as aves

Quando especialistas em sistema nervoso querem apresentar um exemplo notável do sistema nervoso que dirige e controla o comportamento dos animais, mencionam primeiramente a abelha, a aranha e as aves, especialmente as aves migratórias. Sem dúvida, no caso desses três animais encontra-se uma organização social de tipo altamente desenvolvido. A importância revelada pelo fato de o Alcorão mencionar esses três animais é plenamente compatível com a perspectiva científica. Seu caráter e comportamento são verdadeiramente peculiares. Agora discutiremos sucessivamente cada um desses três animais.

A abelha

É no que diz respeito às abelhas que o Alcorão apresenta a descrição mais extensa. Surata 16 (An-Nahl), versículos 68-69: “E teu Senhor inspirou às abelhas: ‘Construí vossas moradas nas montanhas, nas árvores e nas habitações que os homens constroem; depois, comei de todos os frutos e segui os caminhos que vos foram facilitados por vosso Senhor’. Do seu ventre sai uma bebida de diversas cores; nela há cura para os homens.”

[É digno de nota que é somente dessa forma que o Alcorão menciona a cura das doenças para os seres humanos. O mel é realmente benéfico em certos casos de doença. Não importa o que se diga em contrário sobre esse assunto, em nenhuma outra passagem do Alcorão há qualquer menção à cura de outra doença.]

É difícil determinar o que realmente significa seguir o método do Senhor; contudo, a instrução talvez possa ser entendida em sentido geral. Com base nas informações descobertas até agora sobre o comportamento das abelhas, pode-se dizer apenas que todo o seu comportamento é controlado pelo sistema nervoso. O mesmo é igualmente verdadeiro no caso das aranhas e das aves. A dança das abelhas é um meio de comunicação entre elas: desse modo, informam umas às outras a que distância e em que direção se encontram as flores das quais se pode coletar mel. Além disso, as pesquisas de von Frisch também comprovaram por meio de que tipos de movimentos corporais ocorre a troca de informações entre as abelhas operárias.

A aranha

A aranha é mencionada no Alcorão especificamente para mostrar a natureza temporária de sua morada. Não pode haver coisa mais leve, temporária e frágil do que a morada da aranha (sua teia). O Alcorão diz que a morada da aranha é tão sólida quanto a morada daqueles que adotaram outros senhores além de Deus.

Surata 29 (Al-Ankabut), versículo 41: “O exemplo daqueles que tomam outros como protetores em vez de Deus é o da aranha, que constrói uma casa para si; e, entre as casas, a casa da aranha é certamente a mais frágil, se eles soubessem.”

Elas constroem sua morada com a ajuda de um tipo de saliva secretada por uma glândula da aranha. Esse fio semelhante à seda é extremamente fino e leve. A teia da aranha é tão frágil e efêmera que seria absolutamente impossível para os seres humanos produzir algo semelhante. Os naturalistas ficaram estupefatos ao contemplar a arte extraordinária e surpreendente dessa teia. É digno de nota que é justamente a distribuição variada das células nervosas da aranha que possibilita uma tecelagem geometricamente tão perfeita.

As aves

No Alcorão, há muitas menções às aves. As aves também são mencionadas em relação a acontecimentos da vida dos profetas Abraão, José, Davi, Salomão e Jesus. Contudo, essas menções não têm relevância para o assunto que estamos discutindo aqui.

O versículo seguinte do Alcorão menciona a existência de comunidades de animais sobre a terra e de comunidades de aves no céu. Surata 6 (Al-An’am), versículo 38: “Não há criatura que se mova sobre a terra, nem ave que voe com suas asas, que não constitua comunidades como vós. Não omitimos nada no Livro; depois, todos serão reunidos perante seu Senhor.”

Outros dois versículos mencionam a completa submissão das aves ao poder de Allah.

Surata 16 (An-Nahl), versículo 79: “Não observam eles as aves, que se deslocam facilmente no espaço vazio do céu? Allah é quem as mantém firmes ali.”

Surata 67 (Al-Mulk), versículo 19: “Não observam eles as aves que voam acima deles, estendendo e recolhendo as asas? O Misericordioso é quem as mantém firmes.”

É muito difícil traduzir qualquer uma das palavras desses dois versículos. A tradução apresentada aqui transmite a ideia de que Allah sustenta as aves por Seu próprio poder. O verbo árabe original é ‘amsaka’, cujo significado básico é “pôr a mão, deter, segurar, manter alguém seguro”.

O Alcorão menciona essa completa dependência das aves da ordem de Allah. Pode-se comparar essa condição com os dados da ciência moderna, que demonstraram que certas espécies de aves seguem um padrão determinado quanto às suas rotas de deslocamento. Essas aves, até mesmo seus filhotes inexperientes, atravessam com extrema facilidade e precisão rotas muito longas e complexas, retornando ao ponto de partida em uma data determinada. Isso prova que o programa dessa viagem está previamente instalado em seu sistema nervoso. Não pode haver outra explicação possível para esse fato. O professor Hamburger menciona, em seu livro “Poder e Fragilidade” (La Puissance et la Fragilité), publicado pela Flammarion, Paris, 1972, o famoso exemplo de uma espécie de ave habitante da região do Pacífico, o mutton-bird. Em seis meses, essa ave percorre mais de 15.500 milhas e retorna ao ponto de partida com um atraso máximo de uma semana. É preciso reconhecer que as complexas instruções dessa viagem estão instaladas no sistema nervoso da ave. Sem dúvida, esse itinerário foi previamente determinado; mas quem o determinou?

4) A origem dos componentes do leite animal

A definição apresentada no Alcorão sobre este assunto (surata 16, An-Nahl, versículo 66) coincide exatamente com os dados da ciência moderna. A tradução e a explicação que apresentei aqui são minhas. Isso porque, mesmo nas traduções mais recentes desse versículo, os tradutores deram um sentido que, a meu ver, é totalmente inaceitável. Apresentarei dois exemplos:

Tradução de Blachère (publicada por G. P. Maisonneuve Larose, Paris, 1966): “Certamente, há uma lição para vós no gado. Damos-vos de beber um leite puro, agradável aos que o bebem, que provém do que se encontra entre o alimento digerido e o sangue em seus ventres.”

Tradução do professor Hamidullah (publicada pelo Club Français du Livre, Paris, 1971): “Certamente, há para vós uma lição no vosso gado. Do que há em seus ventres, entre seus excrementos e seu sangue, fazemos-vos beber um leite puro, agradável aos que o bebem.”

Se essas duas traduções fossem mostradas a um especialista em anatomia, ele diria que o assunto é obscuro e que não se compreende exatamente o que se quer dizer. A razão é que, mesmo em termos elementares, não há qualquer correspondência entre a concepção moderna e a concepção apresentada nessas traduções, embora esses dois tradutores sejam arabistas muito renomados. Todos sabem que, mesmo que um tradutor seja especialista em tradução, se não for especialista na ciência em questão, poderá cometer erros ao traduzir uma descrição científica. A meu ver, a tradução correta do versículo seria a seguinte: “Certamente, há uma lição para vós no gado. Damos-vos de beber o leite puro e agradável aos que o bebem, que se encontra em seus corpos e é produzido pela combinação do conteúdo intestinal com o sangue.”

No livro intitulado Muntakhab, editado pelo Conselho Supremo para os Assuntos Islâmicos do Cairo e publicado em 1973, foi apresentada uma explicação desse versículo que é muito próxima da minha. É significativo que o Conselho Supremo tenha recorrido à anatomia moderna para sua explicação.

Quanto ao emprego das palavras, posso dizer, em apoio à minha interpretação, que usei “em seus corpos”; por outro lado, Blachère e o professor Hamidullah traduziram por “em seus ventres”. Observei que a palavra árabe “batn” pode significar “parte central” ou “parte interior de algo”, mas também pode significar ventre. Aqui, a palavra não possui um significado anatômico específico. Contudo, considerando o contexto, “em seus corpos” parece bastante adequado e coerente.

A ideia da “fonte primária” dos componentes do leite deriva da palavra árabe “min” (from em inglês e “de” em português), e a ideia de combinação deriva da palavra árabe “bayni”. Bayni pode significar “entre” no sentido de “no meio de”, mas também pode significar “entre” no sentido de “entre dois”. Naturalmente, a palavra também é usada com o sentido de trazer duas substâncias ou duas pessoas juntas.

Para compreender o significado do versículo do ponto de vista científico, é necessário recorrer à anatomia. A matéria-prima para a nutrição geral do corpo provém das transformações químicas que ocorrem em toda a área ou via determinada do organismo para o processo digestivo. Essa matéria-prima provém do conteúdo intestinal. Depois de chegar ao intestino no estágio apropriado do processo de transformação química, a matéria atravessa a parede intestinal e se dirige à área destinada ao processo circulatório. Esse movimento ou fluxo ocorre de duas maneiras: diretamente, por meio dos vasos conhecidos como “vasos linfáticos”, ou pela grande circulação. Em seguida, essa matéria chega ao fígado e, depois de ser modificada ali, incorpora-se ao sistema circulatório. Assim, tudo passa pela corrente sanguínea.

Os componentes do leite são secretados pelas glândulas mamárias. Esses componentes são nutridos pela essência dos alimentos digeridos que chega a elas através da corrente sanguínea. Assim, o sangue atua como coletor e transportador dessa essência, e é ela que nutre as glândulas mamárias produtoras de leite. Naturalmente, essa essência também nutre todos os demais órgãos e partes do corpo.

O processo inicial que põe tudo em funcionamento consiste na combinação, ao nível da parede intestinal, do conteúdo interno do intestino com o sangue. Foi precisamente essa noção que se descobriu mediante experiências químicas e fisiológicas relativas ao processo digestivo. Na época do profeta Maomé (que a paz esteja com ele), isso era completamente desconhecido e só muito recentemente se tornou compreensível para a humanidade. É importante observar que a circulação do sangue no corpo — isto é, o fato de o sangue estar sempre circulando pelo corpo — foi descoberta por Harvey cerca de dez séculos depois da revelação do Alcorão.

Por isso, considero que a presença de tais informações no Alcorão não pode ter uma explicação de origem humana.

 

A reprodução humana

Sempre que o tema da reprodução apareceu nos escritos mais antigos da humanidade, foram apresentadas descrições incorretas. Na Idade Média, e até em épocas mais recentes, esse tema esteve envolto em lendas e superstições. Além disso, não havia evidentemente outro meio; pois, para compreender o complexo processo da reprodução, o ser humano primeiro teve de adquirir conhecimentos sobre os órgãos e as partes do corpo, inventar o microscópio e descobrir os conhecimentos científicos fundamentais anteriores em diversas áreas, como anatomia, embriologia e obstetrícia.

Mas a situação do Alcorão é completamente diferente. Em várias passagens desse livro, menciona-se o processo específico da reprodução, descrevem-se corretamente as diferentes etapas do nascimento e não há sequer uma descrição incorreta. Tudo é apresentado de maneira simples, em linguagem clara e compreensível para as pessoas, exatamente da forma como a humanidade viria a descobrir muito tempo depois.

A reprodução humana é mencionada em dezenas de versículos, em diferentes contextos. Em alguns casos, uma ou mais etapas específicas são explicadas. Portanto, é necessário reunir os versículos para compreender o assunto em sua totalidade. Como ocorreu com os outros temas discutidos neste livro, também neste caso se tentou reunir os versículos pertinentes e empreender uma análise explicativa.

Algumas noções fundamentais

É necessário recordar alguns conceitos fundamentais antes de prosseguir para uma discussão detalhada. Na época da revelação do Alcorão e durante muitos séculos depois, esses fatos eram desconhecidos da humanidade.

O processo de reprodução humana é do mesmo tipo que o de todos os demais mamíferos. Esse processo começa quando um óvulo, desprendido do ovário, é fertilizado. Essa fertilização ocorre no útero em meados do ciclo menstrual da mulher, e é provocada pelo esperma do homem, ou, mais precisamente, pelo espermatozoide. Um único espermatozoide é suficiente para esse trabalho. Portanto, para a fertilização, é necessária apenas uma quantidade mínima de esperma ou sêmen, pois essa quantidade de sêmen contém milhões de espermatozoides. Os testículos do homem produzem esperma, e outras glândulas situadas ao lado das células e dos canais ligados à uretra também produzem saliva, que se mistura ao esperma.

O óvulo fertilizado se fixa em um local específico do ventre da mulher; depois de descer pelo útero até o ventre, forma-se o embrião, que se instala entre os músculos e os canais. Se o óvulo fertilizado alguma vez se fixar no útero em vez de no ventre, a gravidez será impedida.

Quando o embrião se torna visível a olho nu, ele se parece com um pequeno pedaço de carne, e a forma humana em sua região central ainda não é visível no início. As diversas etapas pelas quais o embrião passa gradualmente ao crescer são hoje amplamente conhecidas. Durante essas etapas, formam-se os ossos, os músculos, os nervos, a circulação sanguínea, os intestinos e outros elementos.

Agora compararemos esses fatos modernos estabelecidos com a descrição do Alcorão sobre a reprodução humana.

A reprodução humana no Alcorão

Não é muito fácil compreender a afirmação do Alcorão sobre a reprodução. A primeira dificuldade é que a descrição desse assunto está espalhada por diferentes partes do Alcorão. Já mencionei essa dificuldade anteriormente. Mas uma dificuldade ainda maior é o problema do significado das palavras, e, por causa desse problema, o leitor interessado pode facilmente ficar confuso.

Na realidade, circulam atualmente muitas traduções e comentários do Alcorão que podem facilmente dar a um cientista uma ideia completamente errada sobre esse assunto. Como exemplo, pode-se dizer que a maioria das traduções descreve o ser humano como tendo sido formado por “sangue coagulado” ou “sangue pegajoso”. Uma descrição desse tipo não é de modo algum aceitável para um cientista especializado no assunto. Na discussão do parágrafo sobre a fixação do óvulo no ventre materno, veremos por que eminentes linguistas árabes cometeram esse tipo de erro por não possuírem conhecimentos científicos.

Pode-se avaliar, a partir deste comentário, quão indispensável é, para compreender a mensagem do Alcorão sobre a reprodução, possuir conhecimento científico além do conhecimento linguístico.

No Alcorão, são descritas com considerável ênfase as diversas etapas do desenvolvimento pelas quais passa um embrião antes de atingir a maturidade no ventre materno.

Surata 82 (Al-Infitar), versículos 6–8: “Ó ser humano! O que te iludiu acerca do teu Senhor? Que te criou, te aperfeiçoou e te harmonizou, e te formou na configuração que Ele quis para ti.”

Surata 71 (Nuh), versículo 14: “Ele vos criou por etapas.”

Além dessa descrição geral, os aspectos para os quais o Alcorão chama a atenção a respeito da reprodução podem ser enumerados da seguinte forma:

1) A fecundação pode ocorrer com uma quantidade mínima de esperma.

2) A composição do esperma.

3) A localização do óvulo fecundado.

4) O desenvolvimento progressivo do embrião.

Agora discutiremos estes assuntos sucessivamente.

(1) A fecundação pode ocorrer com uma quantidade mínima de esperma

Esta ideia é mencionada onze vezes no Alcorão com a seguinte formulação: Surata 16 (An-Nahl), versículo 4: “Ele criou o ser humano a partir de uma pequena quantidade (de esperma).”

Como não há uma palavra exata apropriada, a palavra árabe “nutfah” foi traduzida aqui como “uma pequena quantidade (de esperma)”. A raiz verbal da qual essa palavra deriva significa “cair gota a gota, pingar”, e ela também é usada para designar o resíduo que permanece no fundo depois que um balde é esvaziado. Portanto, essa palavra indica uma pequena quantidade de líquido. Aqui, o líquido refere-se ao esperma, pois em outro versículo a palavra é associada ao esperma.

Surata 75 (Al-Qiyamah), versículo 37: “Não era ele (o ser humano) apenas uma gota de esperma ejetada?” Aqui, a palavra árabe “mani” refere-se ao esperma. Em outro versículo, afirma-se que essa “mera gota” é colocada em um receptáculo forte e seguro (em árabe, “kabāb”), e o receptáculo é evidentemente o órgão sexual.

Surata 23 (Al-Mu’minun), versículo 13: “Então, coloquei-o (o ser humano) como uma gota (de esperma) em um receptáculo forte e seguro.”

É necessário mencionar, neste contexto, que é quase impossível traduzir a palavra árabe “makīn”, usada para explicar “receptáculo forte e seguro”. Essa palavra expressa a ideia de um lugar forte, seguro e honrado. Qualquer que seja a formulação adotada, ela designa o lugar no ventre materno onde o ser humano cresce. É necessário enfatizar especialmente a quantidade de esperma — apenas uma gota — necessária para o processo de fecundação, pois, com base nas informações da ciência moderna, é precisamente isso que agora aprendemos sobre o assunto.

(2) Os componentes do sêmen

A linguagem usada no Alcorão para descrever o fluido fertilizante é bastante intrigante.

(a) “Sêmen” — especificamente — Surata Al-Qiyama, versículo 37.

(b) “O ser humano foi criado de um fluido ejaculado” — Surata At-Tariq, versículo 6.

(c) “Fluido expelido” — Surata As-Sajda, versículo 8, e Surata Al-Mursalat, versículo 20.

O uso da palavra “desprezível” (em árabe, “mahin”) aplicada ao fluido (em árabe, “amsaj”) — “Na verdade, criamos o ser humano de uma gota de fluido misturado” — Surata Ad-Dahr, versículo 2. Muitos comentaristas, como o professor Hamidullah, entenderam “misturado” como uma mistura dos fluidos feminino e masculino. Muitos comentaristas anteriores também disseram o mesmo, pois não lhes era possível obter uma compreensão correta da origem anatômica da fertilização e, especialmente no caso da mulher, da condição biológica envolvida. Eles presumiram que, por mistura, se entendia a mistura dos fluidos do homem e da mulher.

Autores modernos, como o comentarista da obra “Muntakhab”, editada pelo Supremo Conselho para Assuntos Islâmicos do Cairo, corrigiram essa concepção e afirmaram que a gota de sêmen é constituída por diversos componentes. O comentarista de Muntakhab não forneceu uma descrição detalhada, mas, a meu ver, o que disse é suficientemente coerente e objetivo.

Quais são os componentes do sêmen?

O líquido que é denominado sêmen é formado pelos fluidos secretados pelas seguintes glândulas.

(a) Testículos: o fluido secretado por esse local contém espermatozoides, que são, na realidade, células alongadas com uma extensão semelhante a uma cauda, e ficam imersos em um fluido de certo modo leve.

(b) Vesículas seminais: localizadas próximas ao órgão sexual masculino, é nelas que o sêmen se acumula. Esse reservatório também secreta seu próprio fluido, mas nele não há nenhum componente semelhante ao que promove a fertilização.

(c) Glândula peniana: o fluido secretado por essa glândula confere ao sêmen densidade e odor.

(d) Glândulas ligadas à uretra: as três glândulas existentes nesse local são conhecidas, em homenagem aos nomes de três cientistas, como glândulas de Cowper, de Mery e de Littré. As duas primeiras secretam um fluido viscoso, e a terceira, um fluido semelhante a lama ou graxa.

Estas são as fontes e os componentes do “líquido misturado” mencionado no Alcorão.

Certamente, há ainda mais a dizer sobre este assunto. Onde o Alcorão fala do líquido promotor da fertilização, formado por vários componentes, também afirma que, a partir de um componente extraído dessa substância, a linhagem humana será perpetuada. É esse o sentido encontrado no versículo 8 da Surata As-Sajdah:

“Então, Ele produz a descendência dele a partir do extrato de um líquido insignificante.”

A palavra árabe ‘sulāla’ foi traduzida como «extrato». O significado dessa palavra é «a melhor parte de algo retirado de uma coisa e proveniente de outra». Seja como for expressa, essa palavra indica uma parte específica de um todo completo.

A célula por meio da qual o óvulo é fecundado, isto é, por meio da qual ocorre a reprodução, tem forma alongada. Seu tamanho corresponde a um décimo de milésimo de milímetro. Em uma relação sexual normal, o homem produz vários milhões de células, entre as quais geralmente apenas uma penetra no óvulo. As restantes ficam pelo caminho. Calculou-se que, em uma única relação, o homem ejacula alguns centímetros cúbicos de esperma, e que cada centímetro cúbico de esperma contém 25 milhões de espermatozoides. Assim, vê-se que a reprodução é realizada por uma fração minúscula desse líquido, formado por diversos componentes mediante um processo extremamente complexo. Diante disso, não podemos deixar de ficar maravilhados ao observar a perfeita concordância e harmonia entre os dados científicos obtidos pelas pesquisas modernas e a descrição do Alcorão.

(3) A implantação do óvulo fecundado no aparelho genital feminino

Depois de fecundado, o óvulo desce até o útero e ali se implanta. Este fato é descrito no Alcorão da seguinte maneira:

Surata 22 (Al-Hajj), versículo 5: «Conservamos no ventre materno aquilo que desejamos por um período determinado.» O óvulo assume uma forma alongada e adere à parte carnosa do útero (o ventre materno), como a raiz de uma árvore se fixa a uma semente, retirando dela nutrientes. Devido a essa forma do óvulo, ele fica literalmente aderido ao útero. Esse fato foi descoberto recentemente.

Essa questão da aderência é descrita em cinco passagens do Alcorão. Surata 96 (Al-‘Alaq), versículos 1–2: «Lê, em nome do teu Senhor, que criou; criou o ser humano daquilo que se agarra.»

«Aquilo que se agarra» é a tradução da palavra árabe «‘Alaq». Esse é o significado original da palavra. Como significado interpretativo, também se atribui a ela o sentido de «sangue coagulado» ou «coágulo de sangue», e esse sentido é usado em muitas traduções. Porém, esse uso é incorreto, e é necessário ter cautela a esse respeito. Isso porque, no processo de formação humana, jamais existe uma fase de «sangue coagulado» ou de «coágulo de sangue». O mesmo se aplica a outra tradução.

Essa tradução é «cola ou adesão», e ela também não é adequada. O significado original, «aquilo que se agarra», está perfeitamente de acordo com os dados modernos comprovados. Esse conceito aparece em mais quatro versículos, nos quais é descrito o desenvolvimento progressivo até a formação completa do espermatozoide.»

Sura 22 (Al-Hajj), versículo 5: “Nós vos criamos… a partir daquilo que adere.”

Sura 23 (Al-Mu’minun), versículo 14: “Transformamos a gota seminal em algo que adere.”

Sura 40 (Al-Mu’min), versículo 67: “Ele vos criou… a partir de uma gota seminal e, depois, a partir daquilo que adere.”

Sura 74 (Al-Qiyama), versículos 37–38: “Não era ele uma gota seminal derramada? Depois, não se transformou em algo que adere? Depois, acaso Deus não lhe deu forma e o tornou bem constituído?”

A palavra usada no Alcorão para designar o órgão no qual ocorre a gestação ainda é utilizada na língua árabe para designar o útero. Em algumas suras, ele também é chamado de “receptáculo seguro”, e parece que se pretende indicar o ventre materno; essa menção também foi feita exatamente nesse contexto, e parece que se pretende indicar o ventre materno. Pessoalmente, penso que esse é o significado deste versículo, mas não apresentarei aqui uma explicação detalhada, pois a discussão se tornaria longa. Outro versículo requer uma interpretação muito cuidadosa. Sura 39 (Az-Zumar), versículo 6: “Ele vos cria, sucessivamente, nas trevas triplas do ventre de vossas mães.”

“Trevas” é a tradução da palavra árabe “zulumat”. Os comentaristas modernos do Alcorão consideram que aqui se faz referência às três camadas que protegem o bebê durante a formação de seu corpo. As três camadas são a parede abdominal, o útero e o líquido que envolve o embrião.

Não era necessário citar este versículo para a minha discussão principal, mas citei-o para completar o tema. Do ponto de vista da anatomia, não encontro nenhum argumento razoável para contestar a explicação aqui apresentada; mas será que o Alcorão disse exatamente isso com esse significado?

(4) O desenvolvimento do embrião no útero

A descrição que o Alcorão faz de algumas etapas do desenvolvimento do embrião está plenamente de acordo com o nosso conhecimento moderno, e não há no Alcorão sequer uma única descrição que possa ser alvo de crítica por parte da ciência moderna. Depois da descrição daquilo que “se agarra”, o Alcorão nos informa que, em determinada fase, o embrião assume a forma de uma “massa de carne mastigada”. Em seguida, formam-se os ossos, que ficam cobertos de carne. Surata 23 (Al-Mu’minun), versículo 14: “Transformamos aquilo que se agarra em uma massa de carne mastigada; depois, transformamo-la em ossos, que posteriormente cobrimos de carne.”

A tradução da palavra árabe “mudghah” é massa de carne mastigada, enquanto a tradução da palavra “lahm” é carne comum ou não mastigada. É necessário observar essa diferença. No início, o embrião apresenta a forma de uma pequena massa de carne. Em determinada fase de seu desenvolvimento, a olho nu, ele se assemelha a carne mastigada (carne moída). É no interior dessa carne que se forma a estrutura óssea; posteriormente, os ossos são cobertos por músculos, e é justamente nesse contexto que se emprega a palavra “lahm”.

Hoje, o ser humano já sabe que, durante o desenvolvimento do embrião, alguns de seus órgãos permanecem plenamente formados. Certamente, é esse o significado da palavra “mukhallaq” (dotado de forma completa) empregada na surata Al-Hajj.

Surata 22 (Al-Hajj), versículo 5: “Transformamos o esperma em algo que se agarra … e transformamo-los em uma massa de carne plenamente formada ou incompletamente formada.”

O Alcorão também descreve o surgimento dos sentidos e dos intestinos situados no abdômen. Surata 32 (As-Sajdah), versículo 9: “Ele vos concedeu olhos, ouvidos e intestinos.”

Também é mencionado o desenvolvimento dos órgãos sexuais. Surata 53 (An-Najm), versículos 45–46: “Ele é Quem criou o casal, o macho e a fêmea, a partir de uma gota de esperma ejaculado.”

Surata (Fátir), versículo 11: “Allah vos criou da terra; depois, do esperma; depois, fez-vos em pares: macho e fêmea.”

Surata 5 (Al-Qiyamah), versículo 39: “Então, acaso Ele não criou a partir dele o casal, o macho e a fêmea?”

Como já foi mencionado, todas as descrições do Alcorão devem ser comparadas com os fatos e conceitos estabelecidos e reconhecidos na época moderna. Então se verá que há plena concordância e harmonia entre ambos. Ao mesmo tempo, é necessário comparar as descrições do Alcorão com todas as concepções que eram correntes entre as pessoas quando o Alcorão foi revelado, e isso é muito importante. Pois então se verá quão incompatíveis e opostas eram essas concepções em relação às descrições do Alcorão. A maneira como hoje podemos interpretar e analisar o Alcorão certamente não era possível para as pessoas daquela época. Isso porque elas não tinham como dispor da ajuda do conhecimento moderno e da ciência de que dispomos hoje. Na realidade, foi somente no século XIX que as pessoas começaram a adquirir alguma compreensão clara sobre esses assuntos.

Ao longo de toda a Idade Média, diversas concepções e teorias foram elaboradas com base em provérbios sem fundamento, fantasias e narrativas mitológicas, e permaneceram vigentes durante os séculos seguintes. Então, quando Harvey afirmou, em 1651, que “toda vida provém inicialmente de um ovo”, teve início um capítulo fundamental na história da embriologia. Embora a invenção do microscópio tenha acelerado o progresso da ciência naquela época, as pessoas ainda se envolviam em debates sobre os papéis distintos do ovo e dos espermatozoides. O célebre naturalista Buffon era partidário da teoria ovista, mas Bonnet acreditava na teoria da “congregação” das sementes. Segundo essa teoria, todas as sementes dos seres humanos estavam reunidas, uma dentro da outra, no óvulo de Eva (Hawwa), a mãe da humanidade. No século XVIII, foi essa teoria que ganhou aceitação.

Foi justamente quando essas teorias absurdas estavam amplamente difundidas, mais de mil anos antes de nossa época, que as pessoas tomaram conhecimento do Alcorão. Foram necessários vários séculos para que a humanidade descobrisse as importantes verdades fundamentais expressas em linguagem simples nesse Livro.

O Alcorão e a educação sexual

Diz-se que foi somente na era moderna que ocorreram inúmeras descobertas em todos os campos possíveis. Também se considera que houve descobertas revolucionárias no campo da educação sexual, e que o acervo de conhecimento aberto às crianças sobre esse assunto constitui uma grande conquista do mundo moderno. No passado, impunha-se deliberadamente obscuridade sobre esse assunto, e alguns dizem que a religião é responsável por isso. Naturalmente, não dizem nominalmente qual religião seria responsável.

As informações descritas acima demonstram que, há mil e quatrocentos anos, os aspectos teóricos da reprodução humana já haviam sido apresentados à atenção das pessoas. Como naquela época não existiam conhecimentos sobre a estrutura do corpo e a biologia que permitissem explicações mais detalhadas, foram fornecidas tantas informações quanto possível. Também é importante lembrar, a esse respeito, que o assunto foi descrito em linguagem simples, levando em consideração a capacidade de compreensão dos ouvintes daquela época.

Entretanto, a realidade prática não foi de modo algum ignorada. O Alcorão contém muitas instruções sobre as condições cotidianas da vida real das pessoas e sobre como devem se comportar nessas condições. A questão da ciência sexual também não foi deixada de lado.

O tema da relação sexual é discutido em dois versículos do Alcorão. A precisão e a castidade da linguagem dos versículos são expressas com clareza. Contudo, é realmente surpreendente a diferença encontrada nas diversas traduções e interpretações desses dois versículos. Refleti muito sobre esse assunto e li muitas traduções. Mas, por fim, a tradução do Dr. A. K. Gird, ex-professor de Medicina da Universidade de Beirute, pareceu-me correta, razão pela qual reconheci minha dívida para com ele. Sua tradução é a seguinte:

Surata 86 (At-Táriq), versículos 6-7: “(O ser humano) foi criado a partir de um líquido ejaculado. Ele é emitido como resultado da união das regiões sexuais do homem.”

No Alcorão, a palavra «sulb» (singular) indica a região sexual masculina, e a palavra «taraib» (plural) indica a região sexual feminina. Esta tradução parece-me a mais satisfatória. Os tradutores ingleses e franceses traduziram de maneira completamente diferente: “(O ser humano) foi criado a partir de um líquido ejaculado, que sai de entre a coluna vertebral e as costelas.” Isto parece mais uma explicação do que uma tradução. Ainda assim, o assunto não é compreensível.

O comportamento do homem nas relações íntimas com a esposa foi descrito claramente. Sobre a menstruação da esposa, Allah ordenou ao Seu Mensageiro:

Surata 2 (Al-Bácara), versículos 222-223: “Perguntam-te acerca da menstruação. Dize: É uma impureza. Portanto, afastai-vos das mulheres durante a menstruação e não vos aproximeis delas até que estejam purificadas. E quando estiverem completamente purificadas, aproximai-vos delas exatamente da maneira que Allah vos ordenou. Allah ama os que se arrependem e os que se mantêm puros.”

“Vossas esposas são vossa lavoura. Portanto, ide à vossa lavoura como quiserdes. E praticai boas ações para vós mesmos antecipadamente.”

O significado da primeira parte do versículo é muito claro. Aqui, proíbe-se formalmente ao homem ter relações sexuais com a esposa durante a menstruação. Na segunda parte, descreve-se o processo de cultivar a terra, aquilo que o agricultor deve realizar antes de semear. Da semente brota o rebento e nasce uma nova planta. Por meio dessa metáfora, dá-se ênfase à necessidade de lembrar o objetivo da relação sexual, isto é, a procriação. Além disso, a tradução que Blashère fez da parte final do versículo parece indicar os preparativos preliminares antes da relação sexual.

A instrução dada neste versículo é de natureza geral. Neste contexto, costuma-se levantar a questão da contraceção. Contudo, o assunto não foi mencionado nem neste versículo nem em qualquer outro lugar.

Também não há qualquer menção ao aborto. Ao compreender os versículos citados acima, fica claro que o ser humano se desenvolve a partir do embrião como resultado do desenvolvimento daquilo que se adere. Portanto, o respeito e a consideração completos pelo ser humano individual, repetidamente enfatizados no Alcorão, conduzem naturalmente à proibição e à condenação do aborto. Atualmente, todas as religiões monoteístas sustentam esta opinião. Durante o jejum, é permitido ter relações sexuais à noite, no mês do Ramadão.

Surata 2 (Al-Baqara), versículo 187: «Durante as noites do jejum, é permitido que tenhais relações com vossas esposas. Elas são uma vestimenta para vós, e vós sois uma vestimenta para elas. …… Portanto, uni-vos a elas e desejai o que Allah vos prescreveu.»

Contudo, durante o Hajj, as relações sexuais com as esposas são proibidas em Meca. Surata 2 (Al-Baqara), versículo 197: «Aquele que considerar obrigatório para si realizar o Hajj nesses meses não deverá ter relações com a esposa durante o Hajj.» Essa proibição também foi aplicada à caça e às discussões e disputas. No contexto do divórcio, o Alcorão menciona novamente a menstruação.

Surata 65 (At-Talaq), versículo 4: «Quanto às vossas esposas que já não esperam menstruar, se tiverdes dúvidas quanto ao período de espera delas, sabei que o período de espera será de três meses; e o mesmo se aplica àquelas que ainda não menstruaram; quanto às grávidas, seu período de espera será até o parto.»

O período de espera, ou o tempo de espera, refere-se ao intervalo entre o anúncio do divórcio e o momento em que ele se torna efetivo. A expressão «aquelas que já não esperam menstruar» refere-se às mulheres cuja menstruação cessou permanentemente. Ainda assim, como medida de precaução, foi-lhes ordenado que esperassem três meses. Depois disso, elas também podem casar-se novamente.

Àquelas que ainda não menstruaram também foi ordenado que esperassem três meses, e às grávidas, que esperassem até o parto. Essas disposições estão inteiramente de acordo com os princípios da fisiologia moderna. O Alcorão também contém disposições igualmente justas sobre a viuvez das mulheres.

Assim, vê-se que nenhuma das descrições teóricas sobre a reprodução e nenhuma das instruções e orientações práticas sobre a vida sexual contidas no Alcorão é incompatível com qualquer dado da ciência e do conhecimento modernos.

As narrativas do Alcorão e da Bíblia: características comuns

Muitos dos assuntos descritos na Bíblia também são descritos no Alcorão. Entre esses temas comuns estão, em primeiro lugar, as histórias dos profetas — as histórias de Noé, Abraão, José, Elias, Jonas, Jó e Moisés — e as histórias dos reis israelitas. As histórias de Saul, Davi e Salomão. Além disso, há descrições detalhadas de acontecimentos importantes, como a criação dos céus, a criação do ser humano, o dilúvio e o êxodo, e, em todos esses acontecimentos, houve a intervenção de poderes sobrenaturais. Por fim, também estão presentes os acontecimentos relativos a Jesus e à sua mãe Maria, conforme o Novo Testamento.

Se considerarmos, à luz do conhecimento moderno que adquirimos de fontes externas às Escrituras reveladas, o conteúdo apresentado nessas duas Escrituras reveladas, que reação isso provoca em nossa mente? O que vemos?

Tema geral: o Alcorão, o Evangelho e o conhecimento moderno

A respeito do conteúdo comum do Alcorão e do Evangelho, é necessário lembrar, antes de tudo, que nenhum dos temas do Evangelho criticados sob o ponto de vista científico no início deste livro é mencionado no Alcorão.

Jesus é mencionado muitas vezes no Alcorão: o anúncio a Maria do nascimento milagroso de seu filho, a divulgação desse anúncio por Maria, a elevada posição de Jesus como profeta, seu papel como salvador, a transmissão às pessoas da revelação que recebeu, o apoio e a correção da Torá por meio dessa revelação, sua pregação, seus companheiros, califas e feitos milagrosos, sua ascensão até Allah, seu papel no Dia da Ressurreição, entre outros.

No Alcorão, as suratas آل Imran e Maria contêm uma longa descrição da família de Jesus. Ali são descritos o nascimento, a juventude e a maternidade milagrosa de sua mãe, Maria. Jesus é sempre mencionado como “filho de Maria”, e sua linhagem é apresentada exclusivamente pelo lado materno. Nessas circunstâncias, a razão natural e lógica é que, em sentido biológico, ele não tinha pai. Já vimos que, nesse aspecto, há uma diferença entre o Alcorão e os relatos de Mateus e Lucas no Evangelho, pois eles apresentaram a linhagem paterna de Jesus e deram dois relatos diferentes.

O Alcorão apresenta Jesus, pela árvore genealógica de sua linhagem materna, como descendente de Noé, Abraão e do pai de Maria, cujo nome no Alcorão é Imran.

Surata 3 (Imran), versículos 33–34: “Allah escolheu Adão, Noé, a família de Abraão e a família de Imran acima de todos os mundos; eles eram descendentes uns dos outros……”

Portanto, Jesus é descendente de Noé e Abraão pelo lado de sua mãe, Maria, e do pai de Maria, Imran. O erro nos nomes dos antepassados de Jesus que existe no Evangelho também não existe no Alcorão. No início deste livro, discutimos detalhadamente esse assunto.

Ainda assim, para sermos objetivos, é necessário prestar atenção a esta questão mais uma vez. Além disso, é importante compreender a relevância desta questão diante das afirmações infundadas de que Muhammad (s.a.w.) escreveu o Alcorão por conta própria e, para isso, copiou-o principalmente da Bíblia. Se Muhammad (s.a.w.) realmente tivesse escrito o Alcorão por si mesmo e copiado a Bíblia, por que não teria copiado o relato bíblico sobre os antepassados de Jesus? Em vez disso, como teria introduzido um relato que, à luz do conhecimento moderno, está acima de qualquer controvérsia?

É importante observar, a esse respeito, que os relatos do Evangelho e do Antigo Testamento sobre esta questão são mutuamente contraditórios e, por isso, nenhum deles pode ser considerado aceitável.

Temas comuns: o Alcorão, o Antigo Testamento e o conhecimento moderno

Alguns temas comuns ao Alcorão e ao Antigo Testamento já foram discutidos anteriormente. Pode-se recordar que, durante a discussão sobre o Antigo Testamento, ao abordar a criação da Terra, foi demonstrado que o relato do Antigo Testamento é plenamente compatível com os dados científicos. Como esta questão já foi examinada e discutida anteriormente, não há necessidade de repeti-la.

Tanto o Alcorão quanto o Antigo Testamento contêm relatos sobre os reis de Israel. Contudo, os dados e relatos históricos e arqueológicos sobre este assunto são tão escassos que, com base neles, é absolutamente impossível determinar a veracidade ou falsidade desses relatos. O conhecimento moderno é realmente insuficiente a esse respeito.

Quase o mesmo pode ser dito a respeito dos profetas. Ambos os livros contêm relatos sobre este assunto. Contudo, só será possível considerar a questão à luz do conhecimento moderno depois de determinar com precisão quanto das informações sobre o local, a época e as pessoas envolvidas nos acontecimentos chegou até nós.

Entretanto, há dois temas em ambos os livros que podem e devem ser examinados à luz do conhecimento moderno. Esses dois temas são o dilúvio no tempo de Noé e o êxodo no tempo de Moisés.

O episódio do dilúvio pode ser examinado porque esse dilúvio não deixou, na história da civilização humana, qualquer vestígio que pudesse ser citado em apoio ao relato do Antigo Testamento. Por outro lado, não há no conhecimento moderno qualquer dado com base no qual se possa criticar o relato do Alcorão.

E é possível examinar o acontecimento do êxodo porque, em geral, as descrições desse assunto nas duas obras são claramente complementares entre si, e os dados obtidos pelo conhecimento moderno corroboram ambas.

O dilúvio no tempo de Noé: a descrição do Antigo Testamento

No início desta obra, ao discutir o Antigo Testamento, examinamos detalhadamente o acontecimento do dilúvio, e pode-se lembrar que chegamos à seguinte conclusão:

Há não uma, mas duas descrições do dilúvio, escritas em duas épocas distintas. A primeira é a descrição javista, do século IX a.C. A segunda é a descrição sacerdotal, do século VI a.C. Essa descrição é chamada sacerdotal porque foi escrita pelos sacerdotes da época.

Não é possível identificar essas duas descrições separadamente. Uma está misturada com a outra. Alguns parágrafos de uma também aparecem na outra. O Padre de Vaux, professor da Escola Bíblica de Jerusalém, descreveu detalhadamente, com exemplos, em seu comentário à tradução do Gênesis, como parágrafos de uma descrição foram inseridos literalmente na outra. Uma das descrições contém ao todo dez parágrafos javistas. Há parágrafos javistas no início e no fim, e, no meio, um parágrafo sacerdotal foi inserido entre cada dois parágrafos javistas. Como as duas descrições são contraditórias entre si em alguns aspectos, nenhuma delas parecerá racional ou coerente se não for lida levando-se em conta a sequência dos acontecimentos. O próprio Padre de Vaux afirmou: “Nas duas descrições, o dilúvio parece ter ocorrido por dois processos distintos; sua duração também é diferente, e o número de animais que Noé levou em sua arca também varia nas duas descrições.”

Quando examinada do ponto de vista do conhecimento moderno, verifica-se que a descrição bíblica do dilúvio não é de modo algum aceitável pelas razões a seguir:

(1) No Antigo Testamento, o dilúvio é descrito como tendo ocorrido em todo o mundo.

(2) A descrição javista não menciona nenhum período para o dilúvio; porém, a descrição sacerdotal menciona uma data, e indica uma época em que a ocorrência de semelhante catástrofe era absolutamente impossível.

A lógica dessa opinião é a seguinte

A narrativa sacerdotal afirma claramente que o dilúvio ocorreu quando Nuh tinha 600 anos. A partir da genealogia apresentada no quinto capítulo do Gênesis (extraída do texto sacerdotal e citada no início desta obra), vê-se que Nuh nasceu 1.056 anos depois de Adão. Portanto, o dilúvio teria ocorrido 1.655 anos depois da criação de Adão. Por outro lado, pela genealogia de Abraão apresentada no mesmo texto sacerdotal do Gênesis (11:10-32), vê-se que Abraão nasceu 292 anos depois do dilúvio. Sabemos pela própria Bíblia que Abraão viveu aproximadamente em 1950 a.C. Assim, pode-se estabelecer que o dilúvio ocorreu no século XXI ou XXII a.C. Esse cálculo é compatível com as informações apresentadas nas versões antigas da Bíblia. Como naquela época as pessoas não tinham conhecimento sobre o assunto, não era possível apresentar um argumento contrário. Consequentemente, todos aceitavam sem hesitação a cronologia fornecida pela Bíblia. Mas agora que uma noção clara sobre a cronologia dos acontecimentos antigos se tornou universalmente aceita, as datas fictícias fornecidas pelos autores do texto sacerdotal do Antigo Testamento perderam sua credibilidade. Por isso, essas datas foram eliminadas das versões posteriores da Bíblia. Contudo, basta fazer os cálculos com base nas genealogias que ainda não foram eliminadas para que esse erro gravíssimo seja facilmente descoberto. Os comentaristas modernos da Bíblia, naturalmente, não chamam a atenção dos leitores para esse erro, ou não são capazes de fazê-lo.

Como é possível, nos dias de hoje, imaginar que no século XXI ou XXII a.C. tenha ocorrido um cataclismo que exterminou todos os seres vivos da Terra, exceto os passageiros da arca de Nuh? Naquela época, a civilização humana já havia se desenvolvido em várias partes do mundo, e seus vestígios chegaram até nós. Por exemplo, nesse período, após o Antigo Império, o Período Intermediário terminou e teve início o Império Médio. À luz do conhecimento que adquirimos atualmente sobre a história, afirmar que toda a civilização humana foi destruída por aquele dilúvio parece simplesmente absurdo.

Portanto, quando se examina a questão sob o ponto de vista histórico, vê-se que a narrativa bíblica sobre o dilúvio é totalmente contrária ao conhecimento moderno. Além disso, o fato de o texto da Bíblia ter sido alterado por mãos humanas é formalmente comprovado pela existência de duas versões sobre o mesmo assunto.

A narrativa do Alcorão sobre o dilúvio

O Alcorão apresenta uma narrativa geral sobre o dilúvio. Essa narrativa é completamente diferente da narrativa bíblica e, do ponto de vista histórico, também não suscita qualquer questão ou crítica.

O Alcorão não apresenta uma narrativa contínua do dilúvio. Ele apenas menciona, em diferentes suratas, o castigo que se abateu sobre o povo de Nuh. A narrativa mais completa encontra-se nos versículos 25-29 da surata 11 (Hud). Na surata 71 (Nuh) e nos versículos 105-155 da surata 26 (Ash-Shu’ara), encontra-se sobretudo a descrição das exortações de Nuh. Antes de passarmos à análise do curso real dos acontecimentos, consideraremos primeiro o dilúvio mencionado no Alcorão no contexto geral da descida da ira de Allah sobre as sociedades que desobedecem à ordem de Allah.

Na Bíblia, fala-se de um dilúvio mundial como castigo para toda a humanidade que desobedeceu à ordem de Allah. Em contrapartida, o Alcorão fala da descida de determinados castigos sobre determinadas sociedades. Por exemplo, é dito nos versículos 35-39 da surata 25 (Al-Furqan): “Eu havia concedido o Livro a Moisés, havia feito de seu irmão Aarão seu auxiliar e havia dito: ‘Ide até o povo que rejeitou os Meus sinais.’ Então destruí completamente aquele povo. E, quando o povo de Nuh desmentiu os mensageiros, afoguei-os e fiz deles um sinal para a humanidade. Preparei um castigo doloroso para os transgressores. Destruí Ad, Samud, o povo de Rass e muitas comunidades entre eles. Adverti cada uma delas por meio de exemplos e destruí completamente todas elas por sua desobediência.”

Da mesma forma, nos versículos 59–93 da surata 7 (Al-A‘raf), é recordado o castigo enviado sobre o povo de Noé, ‘Ad, Thamud, o povo de Lot (Sodoma) e Madiã.

Assim, verifica-se que, no Alcorão, o dilúvio é apresentado especificamente como um castigo para o povo de Noé. Esta é a primeira diferença fundamental entre a descrição do Alcorão e a da Bíblia.

A segunda diferença fundamental é que o Alcorão não fornece nem o ano ou a data do dilúvio, nem a sua duração, ao passo que a Bíblia os fornece.

A causa do dilúvio é descrita de modo aproximadamente semelhante em ambos os livros. Na descrição sacerdotal da Bíblia (Gênesis 7:11), afirma-se que duas causas atuaram simultaneamente: “Naquele dia, romperam-se todas as fontes do grande abismo, e abriram-se todas as comportas dos céus.” Por outro lado, nos versículos 11–12 da surata 54 (Al-Qamar), diz-se: “Então, abrimos as portas do céu para uma chuva torrencial e fizemos brotar fontes da terra; depois, as águas do céu e as águas da terra se encontraram, conforme uma ordem determinada.”

A descrição do Alcorão acerca dos ocupantes da arca é precisa. A ordem que Allah dá a Noé é cumprida corretamente. Na ordem, determina-se que sejam realizadas as seguintes ações.

Surata 11 (Hud), versículo 40: “Faze subir nela um casal de cada espécie de ser vivo, bem como a tua família e os que creem, exceto aqueles contra os quais já foi decretada a sentença.” E apenas alguns poucos creram com ele.

Aquele que foi excluído da família era um filho pecador de Noé. Apesar da súplica de Noé, a decisão de Allah a respeito dele não foi alterada (surata Hud, versículos 45–46). Além da família de Noé, excetuando-se aquele filho, o Alcorão também menciona, como passageiros da arca, algumas pessoas que haviam crido em Allah.

Na Bíblia, contudo, não há menção a tais pessoas. Na realidade, a Bíblia contém três relatos distintos acerca dos passageiros da arca.

Primeiro relato — segundo o texto javista, é feita uma distinção entre animais e aves «puros» e «impuros». Foram levados para a arca sete pares de cada espécie «pura» (sete machos e sete fêmeas) e um par de cada espécie «impura» (um macho e uma fêmea). (É importante observar que, em todas as línguas semíticas da época, «sete» geralmente significava «muitos». É nesse sentido que deve ser entendido também aqui.)

Segundo relato — de acordo com o relato javista revisado (Gênesis 7–8), foram levados para a arca apenas um par de animais de cada espécie, fosse ela «pura» ou «impura».

Terceiro relato — segundo o texto sacerdotal, estavam na arca Noé (sem excluir nenhum membro de sua família) e um par de animais de cada espécie.

O relato principal do Dilúvio encontra-se no Alcorão, na surata 21 (Hud), versículos 25–49, e na surata 23 (Al-Mu’minun), versículos 23–30. O relato bíblico é praticamente do mesmo tipo; não há nenhuma diferença particularmente significativa.

Na Bíblia, o lugar onde a arca de Noé encontrou terra firme é chamado monte Ararat (Gênesis 8:4), enquanto no Alcorão é chamado Judi (surata Hud, versículo 44). Diz-se que essa montanha é o pico mais alto da cordilheira do Ararat, na Armênia, mas não há prova de que as pessoas não tenham mudado seu nome para harmonizá-lo com os dois relatos. Blachère apoia essa ideia, afirmando que existe na Arábia uma montanha chamada Judi. Contudo, essa correspondência entre os nomes também pode ser artificial.

Por fim, pode-se dizer que é possível identificar de modo correto e preciso as principais diferenças entre os relatos bíblico e corânico sobre o Dilúvio. Algumas diferenças, naturalmente, não podem ser examinadas por falta de dados objetivos. Contudo, quando avaliadas à luz dos dados reconhecidos e universalmente aceitos, verifica-se que o relato bíblico é incompatível com as informações e os conhecimentos descobertos recentemente; isso se aplica ainda mais especialmente à data do Dilúvio e à sua extensão geográfica. Por outro lado, não há no relato corânico nada contra o qual se possa levantar qualquer crítica objetiva. Alguém talvez pergunte se, no período entre a revelação da Bíblia e a do Alcorão, era possível que os seres humanos adquirissem conhecimentos que lhes permitissem conhecer informações corretas sobre o acontecimento. A resposta é não. Pois, desde a época do Antigo Testamento até a época do Alcorão, as pessoas não dispunham de nenhuma outra prova sobre essa antiga história além da Bíblia. Portanto, fica evidente que as mudanças posteriores de sentido e significado na descrição do acontecimento, tornando-a compatível com o conhecimento moderno, não foram obra humana. É preciso, então, aceitar outra explicação ou causa para essa mudança: a revelação enviada posteriormente ao relato bíblico.

 

A Grande Migração

A Grande Migração de Moisés e seus seguidores para fora do Egito (a primeira etapa no caminho para Canaã) é um acontecimento extremamente importante. Embora às vezes seja acusada de ser essencialmente uma lenda, trata-se de um fato comprovado, situado em um contexto conhecido.

Este acontecimento é descrito no segundo livro do Pentateuco do Antigo Testamento, isto é, na Torá (Êxodo). Ali há um relato da viagem pelo deserto e da aliança firmada com Allah no monte Sinai. O Alcorão também apresenta um longo relato sobre esse assunto. Em mais de dez suras, incluindo as suras Araf, Yunus, Ta-Ha e Al-Shuara, há uma longa descrição da relação entre o Faraó, Moisés e seu irmão Aarão, bem como da saída deles do Egito. Em outros lugares, esse acontecimento também é mencionado de forma resumida ou como recordação. Pelo que sei, o nome do Faraó, o principal protagonista do lado egípcio, é mencionado ao todo setenta e quatro vezes em vinte e sete suras.

Ao comparar os relatos do Alcorão e da Bíblia, pode-se observar que, em relação a este acontecimento, há muitas semelhanças entre os dois relatos, mais do que no caso do Dilúvio. É claro que também existem diferenças; contudo, veremos que o relato bíblico possui considerável valor histórico. Isso porque, a partir desse relato, é possível identificar o Faraó em questão, ou, pode-se dizer, os dois faraós envolvidos. O processo de identificação começou com a própria Bíblia e foi completado pelas informações apresentadas no Alcorão. Acrescentando a isso as informações descobertas recentemente e analisando-as criticamente, pode-se situar o acontecimento em um contexto histórico.

O grande êxodo descrito na Bíblia

O relato bíblico começa recordando a entrada dos judeus no Egito com Jacó. Ali, Jacó reencontrou José. Mais tarde, segundo Êxodo 1:8: “Depois se levantou sobre o Egito um novo rei, que não conhecera José.”

Então começou a opressão. O Faraó ordenou que os judeus fossem usados como trabalhadores na construção das cidades de Pitom e Ramessés (Êxodo 1:11). E, para impedir que seu número aumentasse, ordenou que todo menino judeu recém-nascido fosse lançado ao rio. Depois que Moisés nasceu, sua mãe conseguiu escondê-lo de alguma maneira durante os três primeiros meses; em seguida, colocou-o numa cesta à margem do rio. A filha do Faraó, ao avistar casualmente a criança, levou-a para casa e confiou seus cuidados a uma criada. Essa criada era, na verdade, a mãe de Moisés. A irmã de Moisés, escondida a certa distância, viu a princesa levar seu irmão e, fingindo não conhecer a criança, ofereceu-se para procurar uma boa ama, fazendo com que a própria mãe da criança assumisse essa tarefa. A criança foi criada como um dos filhos do Faraó, e recebeu o nome de Moisés.

Na juventude, Moisés foi para um país chamado Midiã. Ali se casou e viveu durante muitos anos. Nessa etapa, a Bíblia (Êxodo 2:23) apresenta uma informação importante: “Naquele tempo morreu o rei do Egito.”

Allah ordenou a Moisés que fosse até o Faraó e tirasse seus irmãos do Egito (na Bíblia, essa ordem aparece no relato da sarça ardente). Aarão, seu irmão, ajudou Moisés a cumprir essa missão. Depois de retornar ao Egito, Moisés foi até o Faraó acompanhado de Aarão. Esse Faraó era o sucessor do Faraó durante cujo reinado Moisés havia nascido.

O Faraó não permitiu que os judeus seguidores de Moisés deixassem o Egito. Allah voltou a revelar uma mensagem e ordenou a Moisés que fizesse novamente o pedido ao Faraó. Segundo a Bíblia, Moisés tinha então oitenta anos. Ele mostrou ao Faraó, por meio da magia, que possuía poderes milagrosos. Mas isso não surtiu efeito. Allah fez cair sobre o Egito um castigo sob a forma de pragas. A água do rio transformou-se em sangue; milhões e milhões de rãs, mosquitos e moscas espalharam-se por todos os povoados; surgiram furúnculos no corpo de pessoas e animais; os animais domésticos morreram; caiu granizo repetidamente; gafanhotos cobriram o país; uma escuridão desceu sobre toda parte; e os primogênitos começaram a morrer. Mesmo assim, o Faraó não permitiu que os judeus deixassem o Egito.

Assim, eles partiram da cidade de Ramsés. Eram seiscentos mil em número, sem contar as mulheres e as crianças (Êxodo 12:37). Mais adiante, veremos que esse número é exagerado. “O faraó preparou o seu carro e levou consigo o seu povo. Tomou também seiscentos carros escolhidos e os comandantes que estavam à frente de todos eles. Desse modo, o rei do Egito perseguiu os filhos de Israel; então os filhos de Israel saíam de mãos erguidas.” (Êxodo 14:6 e 8). O exército do faraó alcançou a margem do mar e capturou o povo de Moisés. Moisés levantou o seu cajado, o mar se dividiu em dois, e ele atravessou para o outro lado com o seu povo sem molhar os pés. “Depois, os egípcios, com todos os cavalos e carros do faraó e os seus cavaleiros, perseguiram-nos e entraram atrás deles no meio do mar. (Êxodo 14:23) A água voltou e cobriu os carros e os cavaleiros; não restou sequer um deles. Mas os filhos de Israel caminharam pelo meio do mar em terra seca, e as águas formavam uma muralha à sua direita e à sua esquerda. (Êxodo 14:28-29)

O relato do Êxodo é muito claro. O faraó estava à frente do seu exército e morreu afogado. Pois o relato afirma: “não restou sequer um deles”. Esse acontecimento também é mencionado nos Salmos da Bíblia: no Salmo 106, versículo 11, e no Salmo 136, versículos 13 a 15. Ali se dá graças a Deus, porque “ele dividiu o Mar de Suf e fez Israel atravessá-lo pelo meio, mas lançou o faraó e o seu exército no Mar de Suf”. Portanto, segundo a Bíblia, não há dúvida de que o faraó morreu afogado no mar. Entretanto, a Bíblia não informa o que aconteceu com o seu corpo.

O grande êxodo segundo o Alcorão

O relato do grande êxodo apresentado no Alcorão é, em linhas gerais, semelhante ao relato bíblico. Contudo, o relato está espalhado por várias suras, sendo necessário reuni-lo e lê-lo em conjunto.

O nome do faraó que governava durante o grande êxodo não é mencionado no Alcorão. Portanto, não é possível identificá-lo. A Bíblia também não menciona o seu nome; sabe-se apenas que um dos seus ministros se chamava Hamã. Ele é mencionado seis vezes no Alcorão (sura Al-Qasas, versículos 6, 8 e 38; sura Al-Ankabut, versículo 39; e sura Al-Mu’min, versículos 24 e 36).

O faraó, perseguidor dos judeus. Sura 14 (Ibrahim), versículo 6: “Moisés disse ao seu povo: ‘Recordai a graça de Deus para convosco, quando Ele vos livrou de um tormento doloroso, degolando os vossos filhos e deixando vivas as vossas mulheres.’”

O versículo 141 da sura Al-Araf também descreve essa perseguição de modo semelhante. O Alcorão não menciona o nome da cidade que os judeus construíram no Egito enquanto viviam como escravos. A Bíblia menciona o seu nome.

O episódio de deixar Moisés, ainda criança, à margem do rio é narrado nos versículos 39-40 da sura Ta-Ha e nos versículos 7-13 da sura Al-Qasas. Segundo o relato do Alcorão, Moisés foi recolhido pela família do faraó. Sura 28 (Al-Qasas), versículos 8-9: “A família do faraó recolheu Moisés. O resultado seria que ele se tornaria inimigo e motivo de tristeza para eles. O faraó, Hamã e os seus exércitos eram criminosos. A mulher do faraó disse: ‘Esta criança será uma fonte de alegria para mim e para ti. Não a mateis; talvez ela nos seja útil, ou talvez a adotemos como filho.’ Na verdade, eles não compreenderam as consequências.”

Segundo a lenda muçulmana, Asiya, esposa do faraó, criou Moisés. Na narrativa corânica, porém, não foi a esposa do faraó, mas os membros de sua casa que encontraram Moisés junto à margem do rio.

As suratas Al-Qasas, versículos 13–28, descrevem a juventude de Moisés, sua permanência em Madiã e seu casamento. Em particular, o episódio do arbusto em chamas é narrado na primeira parte da surata Ta-Ha e nos versículos 30–35 da surata Al-Qasas.

O Alcorão não menciona o envio de dez castigos celestiais sobre o Egito (eles aparecem na Bíblia); menciona brevemente cinco castigos — a inundação, os gafanhotos, os piolhos, as rãs e o sangue — (surata Al-Araf, versículo 133).

O Alcorão narra o êxodo do Egito, mas não contém as informações geográficas nem a menção a uma multidão de pessoas presentes na Bíblia. A descrição bíblica da permanência, durante longo tempo, de seiscentos mil homens, com suas famílias, no deserto não parece verossímil. No Alcorão, a morte do faraó, que perseguia os judeus, é descrita assim: surata 20 (Ta-Ha), versículo 78: “Então, quando o faraó os perseguiu com suas tropas, o mar os submergiu completamente. Os judeus atravessaram. O faraó morreu, e seu cadáver foi encontrado.” Essa importante menção à descoberta do cadáver não aparece na Bíblia.

Surata 10 (Jonas), versículos 90–92: “Fizemos os filhos de Israel atravessarem o mar, e o faraó e suas tropas os perseguiram, por hostilidade e transgressão dos limites da justiça. Quando, por fim, estava se afogando, disse: ‘Creio que não há outra divindade senão Aquele em quem creem os filhos de Israel, e faço parte dos que se submetem.’”

“Agora? Antes disso, tu desobedeceste e foste um dos que espalham a corrupção. Hoje preservarei teu corpo em terra firme, para que sejas um sinal para os que vierem depois de ti. Certamente, entre as pessoas, muitos estão desatentos aos Meus sinais.”

É necessário explicar dois aspectos a esse respeito.

Primeiro, a hostilidade do faraó e sua transgressão dos limites da justiça devem ser compreendidas à luz das tentativas de Moisés de guiá-lo; segundo, preservar ou salvar o faraó deve ser entendido como preservar ou salvar seu cadáver, pois o Alcorão afirma que o faraó foi punido. Surata 11 (Hud), versículo 98.

“No Dia da Ressurreição, ele (o Faraó) estará à frente de seu povo e os conduzirá ao Fogo.”

É digno de nota, neste contexto, que, na descrição dos acontecimentos que podem ser verificados à luz da história, da geografia e da ciência da arquitetura, há as seguintes diferenças entre o Alcorão e a Bíblia:

– O Alcorão não menciona os nomes das cidades construídas pelos judeus seguidores de Moisés nem dos lugares pelos quais passaram durante a Grande Migração.

– O Alcorão não menciona a morte de nenhum faraó durante a permanência de Moisés em Midiã.

– O Alcorão não informa qual era a idade de Moisés quando ele tentou orientar o Faraó.

– O Alcorão não menciona o número dos seguidores de Moisés; a Bíblia afirma, evidentemente de modo exagerado, que eram seiscentos mil homens, além de suas famílias; isto é, mais de dois milhões de homens, mulheres e crianças ao todo.

– A Bíblia não menciona a recuperação do cadáver do Faraó após sua morte. Para a nossa consideração atual, são dignos de nota estes aspectos comuns às descrições dos dois livros:

– O Alcorão confirma o acontecimento da opressão dos judeus seguidores de Moisés pelo Faraó, conforme descrito na Bíblia.

-Nem o Alcorão nem a Bíblia mencionam o nome do rei do Egito.

-O relato bíblico sobre a morte do faraó durante o Êxodo é confirmado pelo Alcorão.

Confronto das informações das Escrituras com o conhecimento moderno

Nos relatos da Bíblia e do Alcorão sobre a duração da permanência dos Filhos de Israel no Egito e o processo de sua saída do Egito, encontram-se algumas informações que podem ser comparadas com o conhecimento moderno. Contudo, essa comparação está fadada a ser desigual, pois algumas informações suscitam múltiplos problemas, tornando muito difícil qualquer discussão sobre as informações restantes.

1) Consideração de algumas informações descritas nas Escrituras

Os Filhos de Israel no Egito:

Pode-se afirmar, praticamente sem risco de erro, que, segundo o relato bíblico (Gênesis 15:13 e Êxodo 12:40), os judeus permaneceram no Egito por 400, ou seja, 430 anos. Apesar dessa pequena diferença entre os relatos de Gênesis e Êxodo, pode-se dizer que o período da permanência dos judeus no Egito começou quando José, filho de Jacó, muito depois de Abraão, foi para o Egito com seus irmãos. É importante observar, porém, que essa informação se encontra apenas na Bíblia; o Alcorão menciona somente a ida ao Egito, sem indicar qualquer ano ou data, e, além disso, não temos em mãos nenhuma prova que possa esclarecer esse assunto.

Os comentaristas modernos, de P. Montet a Daniel-Rops, consideram que, provavelmente no século XVII a.C., quando José e seus irmãos chegaram ao Egito, os hicsos também partiram em direção ao Egito e que, possivelmente, um dos reis dos hicsos os recebeu cordialmente em Avaris, situada no vale do Nilo.

Mas não há dúvida alguma de que essa suposição contradiz inteiramente o relato da Bíblia. Pois a Bíblia afirma (1 Reis 6:1) que, em 171 a.C., 480 anos antes da construção do templo de Salomão,

os judeus teriam realizado o êxodo do Egito aproximadamente em 1450 a.C., e sua entrada no Egito teria ocorrido entre 1880 e 1850 a.C. No entanto, afirma-se que justamente nessa época Abraão ainda estava vivo, e, segundo outras informações da Bíblia, a diferença entre a época dele e a de José era de 250 anos. Portanto, considerando a sequência cronológica dos acontecimentos, esse relato da Bíblia não pode ser aceito de modo algum. Mais adiante veremos a explicação do padre de Fox sobre esse assunto. E, quanto à suposição dos comentaristas modernos, o único fundamento da objeção contra ela é esse relato da Bíblia (1 Reis), embora já tenhamos visto que o relato não é de modo algum aceitável.

Além do relato das Escrituras, não se encontram muitas outras provas ou vestígios da permanência dos judeus no Egito. Nas representações simbólicas do antigo Egito, encontram-se, naturalmente, referências a uma classe de trabalhadores chamada Apiru, Hapiru ou Habiru, identificada — correta ou incorretamente — como hebreus, isto é, judeus. Entre eles havia trabalhadores da construção civil, trabalhadores agrícolas e outros. Mas não há qualquer indicação de onde eles vieram. O padre de Fox disse: “Eles não são nativos; não reivindicam pertencer a nenhuma classe da sociedade local e tampouco possuem, como os nativos, uma profissão ou posição social.”

Em um documento de papiro da época do faraó Tutmés III, eles são mencionados como “trabalhadores dos estábulos”. Sabe-se que, no século XV a.C., Amenófis II capturou 3.600 deles em Canaã e os trouxe como prisioneiros. O padre de Fox observou que muitos deles eram habitantes da Síria-Palestina. Durante o reinado de Seti I (por volta de 1300 a.C.), os Apiru causaram considerável agitação na região de Bete-Seã, em Canaã. No reinado de Ramsés II, alguns deles foram empregados como trabalhadores nas minas, enquanto outros foram usados para transportar pedras destinadas à construção dos altos portais dos templos. Pela Bíblia também sabemos que, na mesma época, eles foram empregados na construção da cidade que era a capital do norte do Egito. Nos textos egípcios, há uma referência aos Apiru no século XII a.C., durante o reinado de Ramsés III.

A palavra Apiru não era usada apenas no Egito; portanto, é difícil dizer se por esse termo se designavam exclusivamente os hebreus. Originalmente, talvez significasse trabalhadores forçados ou escravos, e mais tarde tenha se tornado o nome de uma profissão. A esse respeito, pode-se lembrar um exemplo do uso de uma palavra moderna. Em francês, a palavra suisse tem vários significados: um habitante da Suíça; um soldado mercenário daquele país a serviço do antigo rei da França; um guarda do Vaticano; ou um funcionário de uma igreja cristã.

Seja qual for a situação, não há dúvida de que, durante o reinado do faraó Ramsés II, o trabalho que lhes foi imposto era trabalho forçado ou obrigatório. Também não há dúvida de que ele oprimia os judeus. As cidades de Ramessés e Pitom, mencionadas no Livro do Êxodo da Bíblia, estavam localizadas na parte oriental do vale do Nilo. As cidades atuais de Tânis e Qantir situam-se nessa mesma região, e a distância entre elas é de aproximadamente quinze milhas. A capital construída por Ramsés II também ficava nessa área, e foi ele quem oprimiu os judeus.

Foi nesse ambiente e nessas circunstâncias que Moisés nasceu. O episódio de seu salvamento das águas do rio já foi descrito anteriormente. Ele também possui um nome egípcio. P. Montet mostrou, em sua obra Egito e a Bíblia (publicada por Delachaux e Niestlé, Neuchâtel, 1959), que o nome Mésu ou Mési também aparece na lista de nomes comuns de pessoas do dicionário da linguagem pictográfica escrito por Rank. No Alcorão, naturalmente, é usado o nome Moisés.

Desastres no Egito

Na Bíblia, sob o título “Pragas”, afirma-se que dez tipos de castigos foram enviados por Allah sobre o Egito, e é fornecida uma descrição detalhada de cada castigo. Algumas pragas são também descritas como tendo características milagrosas. No Alcorão, mencionam-se apenas cinco castigos, a maioria dos quais são desastres naturais: uma inundação de grandes proporções, gafanhotos, piolhos, rãs e sangue.

A Bíblia descreve a rápida multiplicação de rãs e gafanhotos. Também afirma que a água dos rios se transformou em sangue e inundou todo o país. O Alcorão menciona apenas o sangue, sem qualquer outra descrição. Evidentemente, com base nessa menção ao sangue, podem ser elaboradas diversas histórias imaginárias. As outras pragas mencionadas na Bíblia são insetos venenosos, enxames de moscas, úlceras dolorosas, granizo, escuridão, a morte do primogênito e a morte do gado. Assim como no caso do início da inundação, essas pragas também começaram de diferentes maneiras e são descritas em várias passagens da Bíblia.

A rota do Êxodo

O Alcorão não oferece nenhuma indicação sobre a rota do Êxodo. A Bíblia, por outro lado, apresenta uma descrição detalhada. Tanto o padre de Fox quanto P. Montet abriram novamente o caminho para a discussão desse tema. É possível que a viagem tenha começado na região de Tânis-Qantir, mas não se encontrou qualquer vestígio da descrição bíblica do restante do caminho. Além disso, não foi possível determinar exatamente em que lugar as águas se dividiram para que Moisés e seu grupo passassem.

A divisão milagrosa das águas

Alguns comentaristas consideram que a divisão milagrosa das águas pode ter ocorrido, possivelmente, por causa da maré baixa e da maré alta, ou de uma erupção em algum vulcão distante. Os judeus podem ter atravessado durante a maré baixa, e os egípcios podem ter se afogado quando veio a maré alta seguinte. Mas tudo isso não passa de mera conjectura.

O lugar do Êxodo na história dos faraós

É possível determinar evidências mais precisas sobre em que período da história se situa o Êxodo. Há muito tempo se sustenta a ideia de que Merneptá, sucessor de Ramsés II, foi o faraó da época do Êxodo. O famoso egiptólogo Maspero, do início do século atual, escreveu em sua obra “Digital Guide to the Cairo Museum” (1900): “Segundo a tradição de Alexandria, Merneptá foi o faraó da época do Êxodo e morreu afogado no Mar Vermelho.” Não tive acesso às provas nas quais Maspero baseou essa afirmação. Mas a declaração de um comentarista tão ilustre e renomado como ele merece ser considerada com a máxima importância.

Além de P. Montet, nenhum outro egiptólogo ou estudioso da Bíblia realizou uma pesquisa significativa a favor ou contra essa ideia. Nas últimas décadas, naturalmente, foram formuladas muitas hipóteses sobre o assunto, mas seu único objetivo tem sido concentrar-se em um único aspecto da narrativa do texto, sem dar atenção aos demais. E, por narrativa do texto, não se entende apenas a narrativa bíblica. Além disso, os formuladores dessas hipóteses tampouco parecem ter levado devidamente em conta que cada uma delas precisa ser compatível com os dados da história e da arqueologia.

A hipótese mais estranha, porém, foi formulada por de Miceli (1960). Ele determinou com absoluta precisão a data e afirmou que o Êxodo ocorreu em 9 de abril de 1495 a.C. Calculou essa data com base no calendário e alegou que, naquele período, Tutmés II era o faraó do Egito. Portanto, ele seria o faraó da época do Êxodo. Em apoio à sua alegação, disse que a múmia de Tutmés II apresentava lesões na pele e que essas lesões eram de lepra. Contudo, não explicou como elas haviam surgido nem por que não poderiam ter outra causa. Entre as dez pragas descritas na Bíblia há uma que consiste em furúnculos. Considerando esses furúnculos como lesões causadas pela lepra, ele chegou a essa conclusão. Sobretudo, a menção bíblica à construção da cidade de Ramsés prova que o Êxodo não ocorreu antes de um Ramsés se tornar faraó.

Além disso, não se pode identificar Tutmés II como o faraó do Êxodo apenas pela observação das marcas em sua pele. Seu filho, Tutmés III, e seu neto, Amenófis II, também tinham marcas semelhantes no corpo, e elas ainda podem ser claramente vistas em suas múmias, conservadas no Museu do Cairo. Os comentaristas consideram que essas marcas provavelmente resultavam de alguma doença hereditária. Portanto, a hipótese de de Miceli não é de modo algum aceitável.

Da mesma forma, a hipótese de Daniel-Rops também não é aceitável. Em seu livro “O Povo da Bíblia” (publicado por Desclée de Brouwer, Paris, 1970), ele declarou que Amenófis II era o faraó da época do Êxodo. Seu pai, Tutmés III, tinha uma atitude extremamente nacionalista. Com base nessa alegação, declarou que Amenófis II era o opressor dos judeus e afirmou que sua madrasta, a célebre rainha Hatshepsut, havia criado o menino Moisés.

O padre de Vaux identificou Ramsés II como o faraó do Êxodo, e sua argumentação parece em grande parte coerente. O que ele afirmou em seu livro “A História Antiga de Israel” (publicado por J. Gabalda & Cie., Paris, 1971) não é compatível em todos os aspectos com a narrativa bíblica, mas uma das provas que apresentou é muito importante. As cidades de Ramsés e Pitom foram construídas durante o reinado de Ramsés II, e a própria Bíblia informa sobre essa construção. Portanto, já não se pode afirmar que o Êxodo tenha ocorrido antes da ascensão de Ramsés II ao trono. Segundo a cronologia apresentada por Drioton e Vandier, a construção dessas cidades ocorreu em 1301 a.C.; segundo a cronologia apresentada por Boulton, ocorreu em 1290 a.C. Outra razão pela qual as duas hipóteses mencionadas acima não são aceitáveis é que, de acordo com a narrativa bíblica, Ramsés II foi o faraó que oprimiu os judeus.

O padre de Vaux considera que o Êxodo ocorreu no início ou no meio do reinado de Ramsés II. Essa datação não é precisa. Parece que ele determinou o período dessa maneira para dar algum tempo a Moisés e seus seguidores para se estabelecerem em Canaã e a Merneptá para fazer um acordo de paz com os judeus. É digno de nota que uma inscrição do quinto ano de seu reinado informa que o faraó Merneptá, depois de subir ao trono após a morte de seu pai, Ramsés II, chegou a um entendimento com os judeus e estabeleceu a paz na fronteira. Entretanto, dois fortes argumentos podem ser levantados contra essa hipótese:

(a) A Bíblia mostra que o rei do Egito morreu quando Moisés estava em Midiã (Êxodo 2:23). Em outra passagem da Bíblia, esse mesmo rei é identificado como aquele que, por meio de trabalhos forçados impostos aos judeus, construiu as cidades de Ramsés e Pitom. Esse rei era Ramsés II. Portanto, é natural que o Êxodo tenha ocorrido durante o reinado de seu sucessor. Contudo, o padre de Vaux declarou ter dúvidas quanto à origem dessa narrativa no versículo 23 do segundo capítulo do Êxodo.

(b) É ainda mais surpreendente que, apesar de ser diretor da Escola Bíblica de Jerusalém, o padre de Vaux não tenha feito nenhuma menção, em sua hipótese sobre o Êxodo, a duas importantes passagens da Bíblia. Entretanto, essas duas passagens afirmam que o rei do Egito morreu enquanto perseguia os judeus em fuga. Esse relato prova que o Êxodo só poderia ter ocorrido no final do reinado de um rei, e não em qualquer outro período. Mas o padre de Vaux supôs que ele ocorreu no início ou no meio do reinado. A esse respeito, é necessário mencionar novamente que não há a menor dúvida de que o faraó perdeu a vida justamente ao perseguir os judeus. Pois a própria Bíblia apresenta um relato preciso sobre esse assunto.

“Então ele preparou o seu carro e levou consigo o seu povo (Êxodo 14:6). O faraó, rei do Egito, perseguiu os filhos de Israel, quando eles saíam.” (Êxodo 14:8). E “as águas voltaram e cobriram os carros e os cavaleiros; assim, de todo o exército do faraó que havia entrado no mar atrás deles, não restou sequer um” (Êxodo 14:28-29). Além disso, também nos Salmos (136:15), ao mencionar a morte do faraó e exortar ao louvor de Deus, diz-se: “Ele lançou o faraó e o seu exército no mar de Suf.”

Assim, vemos que dois faraós morreram durante a vida de Moisés. Quando Moisés estava em Midiã, morreu um faraó, e o outro morreu afogado nas águas do mar durante o Êxodo. Evidentemente, esses dois faraós eram pessoas distintas. Nessas circunstâncias, não se pode aceitar que tenha havido apenas um faraó na época de Moisés. No entanto, o padre de Fox falou de apenas um faraó (Ramsés II). Mas, como a existência de um único faraó não permite responder satisfatoriamente a todas as questões relacionadas, não se pode aceitar como correta a hipótese do padre de Fox.

3) O faraó da opressão foi Ramsés II, e o faraó do Êxodo foi Merneptá. Essa distinção é bastante clara. P. Montet utilizou com grande discernimento a lenda alexandrina mencionada por Maspero. Convém observar que, durante a idade de ouro dos Ptolomeus, antigos documentos históricos eram preservados em Alexandria, mas foram destruídos durante a conquista romana. Todos hoje compreendem profundamente essa perda.

Contudo, o mesmo relato também foi encontrado, muito tempo depois, nas lendas islâmicas e cristãs. (É digno de nota que, em histórias escritas na primeira metade do século XX para instrução religiosa, bem como na história escrita pelo árabe H. Lester, se afirma que o acontecimento do Êxodo ocorreu no Egito durante o reinado de Merneptá.) Montet apresentou a mesma afirmação em sua obra “Egito e a Bíblia” (Dilasox e Nissl, Neuchâtel, 1959). Há também outros argumentos em seu apoio, especialmente o respaldo do relato do Alcorão, embora o famoso arqueólogo Montet não tenha citado o Alcorão. Antes de considerar todas essas informações, porém, examinaremos primeiro a Bíblia.

Embora o nome do faraó em questão não seja mencionado no Êxodo, é utilizada a palavra “Ramsés”. A Bíblia descreve como “Ramsés” o nome de uma cidade construída pelos hebreus mediante trabalho forçado. Hoje sabemos, contudo, que essas cidades estavam localizadas na região de Tânis-Cântir, no vale oriental do Nilo. Na área onde Ramsés II construiu sua capital setentrional já havia anteriormente alguns edifícios. Mas escavações arqueológicas realizadas nas últimas décadas provaram que foi Ramsés II quem transformou o local em uma cidade importante, utilizando para isso o trabalho forçado dos hebreus.

Na época atual, ninguém mais se surpreende ao encontrar na Bíblia a palavra “Ramsés”. Há cento e cinquenta anos, Champollion descobriu como decifrar os hieróglifos e determinou o uso dessa palavra; desde então, ela se tornou geralmente conhecida por todos. Acostumamo-nos a pronunciá-la, lê-la e compreender seu significado. É preciso lembrar, porém, que o significado dos hieróglifos desapareceu no século III a.C., e que o nome não foi preservado em nenhum outro lugar além da Bíblia e de alguns livros gregos e latinos. Mesmo nesses livros, o nome aparece mais ou menos deformado. Tácito utilizou a palavra na forma “Rhampsis” em sua obra “Anais”. Somente na Bíblia a palavra aparece em sua forma correta, isto é, “Ramsés”. No Antigo Testamento, ou Torá, a palavra é mencionada em cinco passagens: Gênesis 47:11; Êxodo 1:11 e 12:37; e Números 33:3 e 33:5.

Em hebraico, o nome Ramsés aparece escrito de duas formas: “Raims” e “Raiyams” (a letra inglesa “i” é usada como equivalente da letra hebraica “ayin”). Na versão grega da Bíblia, a palavra foi escrita como “Ramessê”, e na versão latina, como “Ramsés”. Na edição Clementina francesa (primeira edição, 1621), a palavra também foi utilizada na forma “Ramsés”. Essa era a edição francesa em circulação na época das pesquisas de Champollion, e ele mencionou a grafia bíblica da palavra em sua obra “Resumo do sistema hieroglífico dos antigos egípcios” (segunda edição, 1828, p. 276).

Assim, vemos que o nome Ramsés foi milagrosamente preservado nas versões hebraica, grega e latina da Bíblia. É surpreendente, porém, que os comentaristas das antigas versões da Bíblia não tenham compreendido de modo algum o significado da palavra. Como exemplo, pode-se dizer que o significado atribuído à palavra na Bíblia Clementina francesa de 1621 é ridículo. Afirmou-se que o significado da palavra Ramsés era “o trovão de um animal feroz”.

Da discussão acima, pode-se chegar facilmente às seguintes conclusões:

(a) O Êxodo não ocorreu antes de um faraó chamado Ramsés ascender ao trono do Egito, e não poderia sequer ter ocorrido antes disso. É digno de nota que houve onze reis no Egito com o nome de Ramsés.

(b) Moisés nasceu durante o reinado do faraó que construiu as cidades de Ramsés e Pitom, isto é, Ramsés II.

(c) Ramsés II morreu enquanto Moisés estava em Midiã, e os acontecimentos posteriores da vida de Moisés ocorreram durante o reinado de Merneptá, sucessor de Ramsés II.

Além disso, a Bíblia contém outras informações importantes com base nas quais talvez seja possível determinar em que período exato da história dos faraós ocorreu o Êxodo. A Bíblia diz que Moisés, aos oitenta anos, tentou convencer o faraó a libertar seu povo. “Quando Moisés tinha oitenta anos e Aarão tinha oitenta e três, falaram com o faraó.” (Êxodo 7:7). Em outra passagem (Êxodo 2:23), a Bíblia afirma que o faraó que estava no trono quando Moisés nasceu morreu enquanto Moisés estava em Midiã. É digno de nota que, na descrição dos acontecimentos posteriores, a Bíblia não menciona nenhuma mudança no nome do rei. Dessas duas descrições, entende-se que o período total dos reinados dos dois faraós que governaram durante a permanência de Moisés no Egito foi de pelo menos oitenta anos.

Sabe-se com bastante exatidão que o reinado de Ramsés II durou sessenta e sete anos. Segundo os cálculos de Drioton e Vandier, esse período se estendeu de 1301 a 1235 a.C., e, segundo os cálculos de Rowton, de 1290 a 1224 a.C. No caso de Merneptá, sucessor de Ramsés II, os egiptólogos não conseguem fornecer datas exatas. Contudo, não há dúvida de que seu reinado durou pelo menos dez anos, pois o padre de Fox menciona que há evidências documentais de dez anos. Drioton e Vandier apresentam duas possibilidades: dez anos, de 1234 a 1224 a.C., ou vinte anos, de 1224 a 1204 a.C. Os egiptólogos não conseguem oferecer nenhuma indicação precisa sobre como terminou o reinado de Merneptá; contudo, pode-se provavelmente dizer que, após sua morte, houve graves conflitos internos no Egito durante vinte e cinco anos.

Entretanto, embora não se disponha de informações exatas sobre a duração desses reinados, não se encontram, além de Ramsés II e Merneptá, dois faraós que correspondam à descrição bíblica e cujos reinados somados tenham totalizado oitenta anos ou mais. Moisés tinha oitenta anos quando libertou os hebreus, e na Bíblia esse dado só corresponde à duração combinada dos reinados de Ramsés II e de seu sucessor, Merneptá. É digno de nota, a esse respeito, que também se afirma que a duração combinada dos reinados de Sitos I e Ramsés II foi de aproximadamente oitenta anos. Contudo, esse período não pode ser considerado relevante para nossa análise. Primeiro, como o reinado de Sitos I foi muito curto, não pode ser compatível com a longa permanência de Moisés em Midiã durante sua juventude; segundo, como Moisés permaneceu por longo tempo em Midiã durante o reinado do primeiro dos dois faraós de sua vida, esse primeiro faraó não poderia ter sido Mitos I. As evidências, ao contrário, demonstram que Moisés nasceu no início do reinado de Ramsés II; enquanto ele estava em Midiã, Ramsés II morreu após reinar por sessenta e sete anos; depois, quando Merneptá, filho de Ramsés II, subiu ao trono, Moisés retornou ao Egito e apresentou a esse novo faraó a questão da libertação dos hebreus. Se admitirmos que Merneptá reinou por vinte anos, pode-se dizer que Moisés apresentou a ele a questão da libertação dos hebreus na segunda metade de seu reinado. Rowton considerou essa possibilidade digna de crédito. Portanto, pode-se supor que Moisés conduziu o Êxodo no final do reinado de Merneptá. Não parece ter ocorrido o contrário, pois tanto a Bíblia quanto o Alcorão nos informam que o faraó morreu ao perseguir os hebreus em fuga.

A descrição encontrada nas Escrituras sobre a infância de Moisés e seu acolhimento no palácio do faraó coincide perfeitamente com essa sequência de acontecimentos. É amplamente sabido que Ramsés II morreu em idade muito avançada. Tinha entre noventa e cem anos quando morreu. Assim, verifica-se que se tornou faraó entre os vinte e três e os trinta e três anos de idade e reinou por sessenta e sete anos. É possível que já tivesse se casado antes de se tornar faraó. Portanto, não há nada, nem se encontra em parte alguma qualquer informação ou relato contrário ao fato de algum membro de sua família ter encontrado Moisés (segundo o Alcorão), ou de a esposa do faraó ter encontrado Moisés às margens do Nilo e pedido ao marido autorização para levar a criança ao palácio real. A Bíblia diz que a filha do faraó encontrou Moisés. Considerando a idade de Ramsés II quando se tornou faraó, não seria estranho que ele tivesse uma filha adolescente naquele período. Assim, vê-se que, nesse assunto, não há contradição entre os relatos do Alcorão e da Bíblia.

Esta proposta é inteiramente compatível com a narrativa do Alcorão e contradiz apenas uma narrativa da Bíblia. Já vimos anteriormente que essa narrativa está registrada em 1 Reis 6:1. (No quadringentésimo octogésimo ano depois que os filhos de Israel saíram da terra do Egito, no quarto ano do reinado de Salomão sobre Israel, no segundo mês, Salomão começou a construir a Casa para o Senhor.) Deve-se observar, contudo, que este livro não faz parte da Torá. Essa narrativa é amplamente controversa, e o Padre de Vaux rejeitou diretamente os dados históricos contidos nessa parte do Antigo Testamento, declarando que não são aceitáveis.

É digno de nota que, nessa narrativa, a data do Êxodo foi determinada em relação à construção do local de culto de Salomão. Como a narrativa é controversa e duvidosa, ela não pode ser aceita como argumento contra o curso dos acontecimentos do Êxodo descrito acima.

O problema da inscrição

Os críticos consideram ter encontrado uma objeção à narrativa segundo a qual a perseguição dos judeus foi o último ato do reinado de Merneptá. Eles levantam essa objeção com base em uma inscrição do quinto ano do reinado de Merneptá.

A inscrição é muito importante. Com efeito, entre os hieróglifos, somente esse documento menciona a palavra “Israel”, acompanhada de um adjetivo qualificativo que deixa claro que ela foi aplicada a um “grupo humano ou comunidade”. A inscrição foi descoberta no templo funerário do faraó, em Tebas, e a descrição dos acontecimentos nela registrados começa já no início do reinado de Merneptá. No final do texto, ao mencionar as vitórias obtidas pelo faraó Merneptá contra os países vizinhos do Egito, fala-se de uma vitória específica: “Israel foi destruído, e sua descendência não existe mais.” Com base nessa descrição, afirma-se que o uso da palavra “Israel” mostra que os judeus já haviam se estabelecido em Canaã, isto é, até o quinto ano do reinado de Merneptá. Portanto, o Êxodo deles do Egito já teria sido concluído anteriormente.

Essa proposta não é de modo algum aceitável. Para aceitar essa objeção, seria necessário admitir que os judeus nunca haviam vivido antes em Canaã e que sempre estiveram no Egito. Portanto, essa objeção não pode ser aceita de modo algum. Embora o Padre de Vaux estivesse entre os que aceitavam Ramsés II como o faraó do Êxodo, ele afirmou em sua obra intitulada A História Antiga de Israel, a respeito do estabelecimento dos judeus em Canaã: “Não é possível determinar com exatidão a época em que as comunidades relacionadas com os israelitas se estabeleceram na região de Cades, ao sul; esse estabelecimento pertence ao período anterior ao Êxodo.” Assim, ele reconheceu a possibilidade de que algumas pessoas tivessem deixado o Egito antes de Moisés e seus companheiros. Os homens chamados apiru ou habiru, algumas vezes identificados como israelitas, já viviam na Síria-Palestina muito antes de Ramsés II e do Êxodo, e temos provas documentais de que Amenófis II trouxe de volta ao Egito 3.600 prisioneiros como trabalhadores forçados. Além disso, no tempo de Seti I, havia em Canaã outras pessoas desse tipo, que provocaram desordem na região de Bete-Seã. P. Montet menciona esse assunto em sua obra intitulada O Egito e a Bíblia. Portanto, pode-se supor que Merneptá tenha tomado medidas rigorosas contra esses rebeldes da fronteira e que os que estavam no interior do país tenham se unido sob a liderança de Moisés e depois fugido do país. Essa suposição não é de modo algum incompatível com a descrição da inscrição do quinto ano do reinado de Merneptá. Tampouco é contraditória.

Além disso, o fato de a palavra “Israel” ser mencionada na história do povo judeu não tem absolutamente nenhuma relação com a ideia de que Moisés e seus seguidores tenham se estabelecido em Canaã. A origem da palavra Israel é a seguinte:

Segundo o Gênesis (32:29), Israel é o segundo nome de Jacó, neto de Abraão e filho de Isaque. Os comentaristas da obra Tradução Ecumênica da Bíblia — Antigo Testamento (1975) consideram que o significado da palavra é provavelmente “Alá manifestou-Se em Seu poder”. Como esse nome foi dado a um homem, não é estranho que, em sua memória, seus descendentes tenham sido chamados por esse nome.

Portanto, o nome “Israel” já estava em uso várias centenas de anos antes de Moisés. Assim, não há razão para supor que o Êxodo tenha ocorrido antes do quinto ano do reinado de Merneptá apenas porque o nome aparece numa inscrição do período do faraó Merneptá.

A inscrição apenas menciona um grupo de pessoas designado pelo nome “Israel”. Ela não pode fazer qualquer alusão a uma comunidade politicamente organizada, pois o reino de Israel nem sequer havia sido formado antes do século X a.C. Portanto, a inscrição deve ter se referido a uma comunidade de poucas pessoas. A propósito, é digno de nota que o professor Padre B. Keryer, da Escola Bíblica de Jerusalém, afirmou no comentário à sua tradução do “Livro do Êxodo” (Editions du Cerf, Paris, 1968, p. 12): “Com os outros nomes da inscrição, foi usada a palavra ‘país’, mas com o nome Israel foi usada a palavra ‘comunidade’.”

Agora sabemos que, após um período preparatório de oito ou nove séculos, “Israel” entrou para a história. Durante esse período, muitas comunidades seminomádicas, especialmente os amorreus e os arameus, estabeleceram-se por toda a região. Foi também nessa época que surgiram Abraão, Isaque, Jacó e muitos outros patriarcas tribais, incluindo Israel. A tribo de Jacó passou a ser conhecida pelo outro nome dele, “Israel”, e essa tribo desenvolveu-se mais tarde, muito depois do reinado de Merneptá, como uma entidade política. Com efeito, o reino de Israel existiu de 931 ou 930 a.C. até 821 a.C.

4) Os relatos das Escrituras sobre a morte do faraó durante o Êxodo:

A morte do faraó durante o Êxodo é um tema importante nos relatos do Alcorão e da Bíblia. O assunto está notavelmente presente no texto original de ambos os livros. Na Bíblia, ele é mencionado não apenas no Pentateuco ou na Torá, mas também no Livro dos Salmos, e esse ponto já foi mencionado anteriormente.

É surpreendente que os comentaristas cristãos tenham ignorado completamente o acontecimento. O Padre de Vaux afirmou que o Êxodo do Egito ocorreu na primeira metade ou em meados do reinado de Ramsés II. Mas aparentemente não percebeu que esse faraó morreu justamente durante o Êxodo. Ou seja, esse fato por si só prova que o Êxodo ocorreu no final de seu reinado. No entanto, o chefe da Escola Bíblica de Jerusalém e autor da obra “Ancient History of Israel” não se preocupa nem um pouco com o fato de que sua afirmação não é de modo algum compatível com as informações fornecidas pela Torá e pelos Salmos da Bíblia.

P. Montet afirmou em sua obra “Egypt and the Bible” que o Êxodo ocorreu no período de Merneptá. Mas nada disse sobre a morte do faraó que perseguiu os hebreus.

Essa atitude extremamente surpreendente dos cristãos é totalmente contrária à perspectiva dos judeus. No Salmo 136, versículo 15, dá-se graças a Alá porque Ele “lançou o faraó e seu exército no Mar Vermelho”. Esse salmo é recitado regularmente nas orações judaicas. Os cristãos também sabem que esse relato dos Salmos corresponde inteiramente aos versículos 28–29 do capítulo 14 do Êxodo: “As águas voltaram e cobriram os carros e os cavaleiros; de todo o exército do faraó que havia entrado no mar atrás deles, não restou sequer um.” Portanto, não deveriam ter dúvida alguma de que o faraó e seu exército foram completamente destruídos, e tudo isso está na própria Bíblia deles.

No entanto, os comentaristas cristãos ignoram deliberadamente o episódio da morte do faraó, contrariando todas as provas e evidências. Muitos deles chegam a ir ainda mais longe, mencionando o acontecimento descrito no Alcorão e induzindo os leitores a concepções fantasiosas. Na tradução da Bíblia autorizada e publicada pela Escola Bíblica de Jerusalém (Le Livre de l’Exode, 1968, p. 73, editora Les Éditions du Cerf, Paris), o padre Couroyer, em seu comentário sobre a morte do faraó, afirmou: “O Alcorão (sura 10, versículos 90–92) menciona este acontecimento (a morte do faraó), e existe uma lenda popular segundo a qual o faraó, submerso com seu exército (do que não há qualquer menção no Texto Sagrado), vive no fundo do mar e reina sobre os habitantes daquele lugar, isto é, sobre as focas.”

Com a expressão “Texto Sagrado”, ou texto santo, o ilustre comentarista referia-se claramente à Bíblia e, ao afirmar que essa obra não menciona o afogamento do faraó com seu exército, proferiu deliberadamente uma falsidade. Em segundo lugar, ele mencionou a narrativa corânica de tal maneira que parece que ela é completamente contrária à Bíblia. Em terceiro lugar, imediatamente após mencionar a narrativa corânica, apresentou, em nome da chamada lenda popular, uma história fantasiosa de tal forma que o leitor comum desatento, especialmente aquele que desconhece o Alcorão, poderá formar a falsa ideia de que essa história fantasiosa está relacionada com a narrativa corânica. Contudo, aquilo para que o ilustre comentarista aludiu não tem absolutamente nenhuma relação com o conteúdo dos versículos corânicos. Nos versículos 90–92 da sura 10 do Alcorão (Yunus), é informado que, enquanto o faraó e seu exército perseguiam os Filhos de Israel, estes atravessaram o mar, e, no momento em que o faraó se afogava, clamou: “Creio que não há divindade além d’Aquele em quem creem os Filhos de Israel, e sou dos que se submetem.” Allah respondeu: “Agora! Antes, porém, desobedeceste e foste dos que semeiam a corrupção. Hoje preservaremos o teu corpo em terra firme, para que sejas um sinal para os que vierem depois de ti.”

É somente isso que a sura narra sobre a morte do faraó. Nem nesta sura nem em qualquer outra parte do Alcorão existe a história fantasiosa mencionada pelo comentarista bíblico. O Alcorão afirma claramente que o corpo do faraó será preservado, e essa informação é de grande importância.

Quando o Alcorão foi revelado, os corpos de todos os faraós atualmente considerados, correta ou incorretamente, relacionados ao Êxodo estavam enterrados no cemitério de Tebas, situado do outro lado do Nilo, em relação a Luxor. Naquela época, porém, ninguém sabia disso, e os túmulos só foram descobertos muito mais tarde, no final do século XIX. Como o Alcorão afirma, o corpo do faraó do período do Êxodo foi realmente recuperado e, qualquer que seja o seu nome, hoje qualquer pessoa pode vê-lo na sala das múmias reais do Museu Egípcio do Cairo. Portanto, o fato verdadeiro é completamente diferente da história que o padre Couroyer tentou associar ao Alcorão.

(5) A múmia do faraó Merneptá

Todas as evidências indicam que Loret descobriu, em 1898, no Vale dos Reis, em Tebas, o corpo mumificado de Merneptá, filho de Ramsés II e faraó do período do Êxodo, e que ele foi levado de lá para o Cairo. Em 8 de julho de 1907, Elliot Smith removeu as coberturas da múmia e, em sua obra The Royal Mummies (1912), forneceu uma descrição detalhada desse processo e do exame do corpo. Embora apresentasse alguns danos em vários pontos, a múmia encontrava-se então satisfatoriamente preservada e, desde aquela época, permanece no Museu do Cairo para ser vista pelos visitantes, com a cabeça e o pescoço descobertos e o restante do corpo coberto por tecido. Provavelmente por receio de danos, não se permite mais retirar a cobertura do corpo, e, além das fotografias feitas por Elliot Smith em 1912, o museu não possui nenhuma outra fotografia do corpo inteiro.

Em junho de 1975, as autoridades superiores do Egito tiveram a gentileza de me autorizar a retirar a cobertura da parte coberta do corpo, examiná-la e fotografá-la. Ao comparar o estado atual da múmia com o de sessenta anos atrás, percebe-se claramente que houve deterioração e que alguns fragmentos já não existem de modo algum. Muitos tecidos do corpo mumificado foram danificados, em parte por mãos humanas e em parte pelo tempo.

Desde sua descoberta, no final do século XIX, esses danos são bastante naturais em razão das mudanças nas condições de conservação. Antes de ser descoberta, a múmia permaneceu enterrada no cemitério de Tebas por mais de três mil anos. Atualmente, ela está guardada em uma simples cobertura de vidro. Por isso, não está protegida das influências e reações externas, como o ar e as partículas finas. Além disso, as oscilações de temperatura e as variações sazonais da umidade do ar também a afetam continuamente. O ambiente atual é completamente diferente daquele em que a múmia permaneceu perfeitamente intacta durante quase três mil anos. Já não existe a proteção oferecida pela cobertura que a envolvia. É possível que, enquanto esteve na tumba, ladrões em busca de tesouros tenham causado alguns danos naquela época remota, e também pode ter havido ataques de insetos; contudo, pelo seu estado, parece que naquela época a múmia se encontrava em um ambiente muito mais favorável do que aquele em que se encontra atualmente.

Durante minha visita em junho de 1975, por recomendação minha, as autoridades providenciaram um exame especial da múmia. O Dr. Al-Meligi e o Dr. Ramsays fizeram radiografias da múmia e registraram suas opiniões com base nelas. O Dr. Mornialabi examinou o abdômen e, por uma abertura próxima à garganta, examinou a parte interna do tórax. Assim, pudemos observar claramente o estado do interior do corpo e fotografá-lo. Além disso, o Professor Sicaldi iniciou também um exame médico e forense geral. O processo será concluído após o exame, ao microscópio, dos fragmentos de revestimento que se desprenderam espontaneamente do corpo da múmia. O Professor Minot e o Dr. Douri conduzirão esse exame.

Quando esta obra foi enviada à gráfica (primeira edição francesa, novembro de 1975), o processo de exame ainda não havia sido concluído. Portanto, não foi possível registrar aqui seus resultados.

Entretanto, já foi possível determinar que há marcas de lesões em vários pontos dos ossos e que, em alguns lugares, faltam partes deles. Ainda não foi possível determinar se essa condição ocorreu antes ou depois da morte do Faraó. Sua morte pode ter ocorrido por afogamento, conforme a descrição das Escrituras, ou por um grave trauma psicológico causado pelo medo, imediatamente antes do afogamento, ou ainda pela combinação de ambas as causas.

As dificuldades de conservação da múmia mencionadas acima, especialmente no que diz respeito aos danos nos ossos, podem tornar-se cada vez mais complexas. Portanto, se não forem adotadas imediatamente medidas melhores para impedir a deterioração e aperfeiçoar a conservação, talvez não seja possível manter a múmia intacta por muito tempo. É preciso lembrar que esta múmia é o testemunho e a prova de que a morte do Faraó e a recuperação de seu corpo durante a grande travessia ocorreram por ordem de Allah. Assim, é particularmente necessário cuidar para que, com o passar do tempo, esse testemunho e essa prova não se percam.

Preservar vestígios históricos é um dever natural do ser humano. Porém, no caso desta múmia, esse dever assumiu uma importância e uma dimensão muito maiores. Isso porque esta múmia é a presença concreta do cadáver de um homem que conheceu Moisés, rejeitou sua orientação, perseguiu-o durante sua fuga e perdeu a vida nesse processo. E, conforme a descrição do Alcorão, seu cadáver foi preservado da destruição por ordem de Allah, para servir de sinal às gerações posteriores.

A múmia de Ramsés II, outro testemunho ocular da história de Moisés, assim como a múmia de Merneptá, também foi examinada recentemente. Neste caso, igualmente é necessário adotar medidas semelhantes de proteção e conservação.

Nota do tradutor inglês — Depois de receber os resultados dos exames realizados no Cairo em 1975, o autor, Dr. Maurice Bucaille, apresentou-os no início de 1976 em reuniões de várias sociedades científicas francesas, entre elas a Academia Nacional de Medicina. Com base nas informações obtidas nesses exames, o governo egípcio decidiu enviar a múmia de Ramsés II à França para ser examinada. Assim, a múmia chegou a Paris em 26 de setembro de 1976.

Aqueles que procuram dados modernos em apoio à veracidade da descrição das Escrituras poderão ver a representação concreta dos versículos do Alcorão relativos ao cadáver do Faraó simplesmente visitando a Sala das Múmias Reais do Museu Egípcio do Cairo.

O Alcorão, os hadiths e o conhecimento moderno

No Islã, o Alcorão não é a única fonte das normas e disposições. Durante a vida de Muhammad (que a paz esteja com ele) e depois de sua morte, buscaram-se informações normativas complementares em suas palavras e ações.

Embora desde o início houvesse o costume de registrar os hadiths por escrito, muitos hadiths também foram transmitidos oralmente. Aqueles que coletaram e reuniram os hadiths investigaram detalhadamente os acontecimentos passados antes de registrá-los no papel e trabalharam arduamente para determinar informações exatas. Em todas as compilações confiáveis das palavras do Profeta, encontra-se continuamente, começando pelo nome daquele que ouviu a declaração primeiramente de um membro de sua família ou de seu companheiro, isto é, de um sahabi, e prosseguindo com os nomes de todos os narradores posteriores; somente esse fato já comprova a dedicação, a honestidade e o esforço dos compiladores.

Desse modo, foram reunidos muitos relatos das palavras e ações de Muhammad (que a paz esteja com ele). Eles são conhecidos como hadiths. A palavra hadith significa “declaração”, mas também é costume chamar de hadith os relatos de suas ações.

Algumas compilações desse tipo foram publicadas nas décadas que se seguiram à morte de Muhammad (que a paz esteja com ele). Algumas compilações importantes só foram publicadas duzentos anos depois. As informações e os relatos mais exatos e confiáveis encontram-se nas compilações chamadas Al-Bukhari e Muslim, e essas duas compilações também foram publicadas duzentos anos após a morte de Muhammad (que a paz esteja com ele). Recentemente, o Dr. Muhammad Muhsin Khan, da Universidade Islâmica de Medina, preparou uma compilação explicativa árabe-inglesa dessa coleção (publicada por Shothi Str Board Mills (Conversion) Limited e pelo Talim-ul-Quran Trust, Gujranwala Cantonment, Paquistão. Sahih Al-Bukhari, primeira edição, 1971). Depois do Alcorão, a compilação de Bukhari é geralmente considerada a mais confiável. Houdas e Marçais traduziram essa compilação para o francês sob o título “Les Traditions Islamiques” (Tradições Islâmicas), entre 1903 e 1914. Assim, os hadiths tornaram-se compreensíveis para aqueles que não sabem árabe. Contudo, é preciso ter certa cautela com essa tradução francesa e com algumas traduções feitas por europeus. Isso porque contêm alguns erros e falsidades que não decorreram da tradução, mas da interpretação. Em certos casos, o sentido do hadith em questão foi alterado de tal maneira que a tradução introduziu uma ideia ausente do hadith original.

No que diz respeito às fontes, há uma semelhança entre certos hadiths e os Evangelhos. Trata-se do fato de que nenhum dos compiladores foi testemunha ocular dos acontecimentos narrados e de que eles registraram seus relatos muitos anos depois de os fatos terem ocorrido. Assim como no caso dos Evangelhos, nem todos os hadiths foram aceitos como exatos. Somente um pequeno número de hadiths recebeu, de modo geral, a aprovação dos especialistas. Por isso, exceto em Al-Muwatta, Sahih Muslim e Sahih Al-Bukhari, vê-se em outras obras que, ao lado de hadiths considerados exatos, foram incluídos na mesma obra hadiths duvidosos ou até mesmo diretamente rejeitáveis.

Embora muitas questões modernas tenham sido levantadas a respeito dos Evangelhos canônicos, as autoridades superiores do cristianismo nunca questionaram sua exatidão. Em contrapartida, já nos primórdios do Islã, os especialistas fizeram uma crítica detalhada até mesmo dos hadiths considerados os mais exatos. Naturalmente, ninguém jamais questionou o Alcorão, o livro original que serve como critério de julgamento.

Para verificar como Muhammad (que a paz esteja com ele) expressou, fora da revelação escrita, os temas sobre os quais posteriormente se obtiveram explicações e informações graças ao progresso científico, procurei pessoalmente aprofundar-me na literatura dos hadiths. Embora Sahih Muslim seja exato, escolhi Al-Bukhari, considerado o mais exato, para a minha análise. Sempre procurei lembrar que aqueles que coletaram os hadiths tiveram de depender parcialmente dos relatos orais de outras pessoas e registraram esses relatos juntamente com os possíveis erros ou acertos dos narradores. Assim, o hadith escrito que reúne os relatos de muitas pessoas sobre o mesmo assunto é, sem dúvida, exato. (Na obra Sahih Muslim, os hadiths da primeira classe são chamados de zanni, ou duvidosos, e os da segunda classe, de qati, ou exatos.)

Comparei as descrições dos hadith com os resultados a que cheguei ao comparar o Alcorão com a ciência moderna. O resultado é muito decepcionante. As descrições do Alcorão mostram-se sempre corretas diante da ciência. Contudo, as descrições dos hadith sobre temas científicos mostram-se, em geral, questionáveis diante dos dados científicos. Aqui, examinei apenas os hadith relacionados à ciência.

No caso dos hadith explicativos de alguns versículos do Alcorão, em certas situações foram apresentadas interpretações que, nos dias atuais, são de modo algum aceitáveis.

Já observamos a importância e o significado especial da descrição do Sol no versículo 38 da sura Yasin. Nesse versículo, afirma-se: “O Sol orbita dentro de seu limite determinado.” Contudo, um hadith explica a questão da seguinte maneira: “Depois de se pôr, o Sol …… chega sob o Trono, prostra-se e pede permissão para nascer novamente; a permissão lhe é concedida. Então chegará um dia em que ele estará prestes a prostrar-se… Pedirá novamente permissão para seguir seu próprio caminho (nascer) … então lhe será ordenado que retorne pelo caminho por onde veio, e ele nascerá no Ocidente…” (Sahih al-Bukhari, Kitab bad’ al-khalq, ou Livro do início da criação, volume IV, p. 283, parte 54, capítulo 4, n.º 421). O texto original é obscuro e difícil de traduzir. Contudo, a narrativa alegórica contida nessa descrição transmite uma concepção de que o Sol percorre a Terra. Essa concepção é contrária às descobertas científicas modernas. Portanto, a autenticidade desse hadith é questionável.

No mesmo livro (Sahih al-Bukhari, Kitab bad’ al-khalq, ou Livro do início da criação, volume IV, p. 283, parte 54, capítulo 6, n.º 430), os estágios do desenvolvimento do embrião no útero materno são apresentados em termos de tempo. Quarenta dias para que os componentes do corpo humano se organizem, mais quarenta dias para o estágio de “algo que se agarra” e um terceiro período de quarenta dias para o estágio de “carne mastigada”. Depois, após seu destino ser determinado por intermédio dos anjos, o espírito é insuflado nele. Essa descrição do desenvolvimento embrionário não corresponde aos dados científicos.

Além de uma única observação sobre o possível uso do mel como auxiliar na cura, sem mencionar o nome da doença (sura An-Nahl, versículo 69), o Alcorão não oferece absolutamente nenhum conselho sobre o tratamento das doenças. Nos hadith, porém, são oferecidos conselhos e orientações detalhados a esse respeito. Uma seção inteira do Sahih al-Bukhari (a parte 76) é dedicada aos medicamentos. Essa seção ocupa as páginas 62 a 91 do volume IV na tradução francesa de Houdas e Marçais, e as páginas 395 a 452 do volume VII na edição bilíngue árabe-inglesa do doutor Muhammad Muhsin Khan. Não há dúvida de que essa longa descrição contém muitos hadith baseados em conjecturas. Contudo, ela tem uma importância: nela encontramos uma ideia do que era possível pensar naquela época em diversos campos da medicina. A isso também podem ser acrescentados todos os hadith relacionados à medicina presentes nos demais capítulos de Al-Bukhari.

É assim que encontramos descrições sobre o mau-olhado, a possessão por espíritos e a expulsão deles. Naturalmente, é proibido usar o Alcorão para esse fim em troca de dinheiro. Um hadith afirma que certos dias e datas funcionam como amuletos contra a magia e que a magia pode ser usada contra serpentes venenosas. Contudo, é preciso lembrar, a esse respeito, que, quando não havia medicamentos nem possibilidade de seu uso adequado, era natural que naquela época fossem comuns vários tipos de remédios caseiros. A sangria, as queimaduras cauterizadas, raspar a cabeça em caso de infestação por piolhos e o uso de leite de camela, bem como de diversos animais e plantas, eram bastante populares. Para estancar o sangramento, queimava-se uma esteira de folhas de palmeira e aplicavam-se as cinzas sobre a ferida. Em situações de emergência, tomavam-se medidas à luz do intelecto e da experiência disponíveis naquela época. Contudo, recomendar que se bebesse urina de camela provavelmente não era uma prática muito boa.

Hoje é difícil aceitar como corretas as informações encontradas nos hadith sobre várias doenças. Eis alguns exemplos:

A origem da febre: “A febre provém do calor do Inferno.” Há quatro relatos em apoio a essa afirmação (Al-Bukhari, Kitab al-Tibb, volume VII, capítulo 28, p. 416).

-Há um remédio para cada doença: “Deus não criou nenhuma doença sem também criar o seu remédio” (ibid., capítulo 1, p. 395).

Esta ideia é explicada por meio do exemplo do hadith sobre a mosca: “Se uma mosca cair em algum recipiente, mergulhai-a completamente, pois em uma de suas asas há a doença e na outra há o remédio para a doença” (ibid., capítulos 15-16, pp. 452-453, e Kitab al-Bad’ al-Khalq, parte 54, capítulos 15-16).

-O olhar da serpente provoca aborto (e também pode causar cegueira). (ibid., Kitab al-Bad’ al-Khalq, volume 4, capítulos 13-14, pp. 333-334)

-Sangramento entre dois períodos menstruais: há um hadith sobre este assunto (ibid., Kitab al-Hayd, volume 6, parte 6, capítulos 21 e 28, p. 490). Um hadith apresenta uma breve descrição da hemorragia e afirma que o sangramento provém de um vaso sanguíneo. Outro hadith menciona uma mulher que sofreu dessa doença durante sete anos, mas não é possível saber que fundamento havia para determinar a causa dessa maneira. Contudo, talvez a causa estivesse correta. Esta doença é conhecida como metrorragia.

-As doenças não são contagiosas: além das afirmações gerais encontradas em vários trechos sobre este assunto (ibid., Kitab al-Tibb, volume 7, parte 76, capítulos 19, 25, 30, 31, 53 e 45), são mencionadas algumas doenças específicas: lepra (p. 408), peste (pp. 418 e 422) e sarna dos camelos (p. 447). No entanto, embora se afirme que não são contagiosas, também se aconselha não ir às regiões afetadas pela peste e manter distância dos leprosos.

Por causa desta situação, é possível chegar à conclusão de que existem alguns hadiths que não são aceitáveis do ponto de vista científico. Também há margem para duvidar da autenticidade de hadiths desse tipo. Ainda assim, é necessário mencioná-los. Quando foram comparados com os versículos do Alcorão citados acima, constatou-se que não há uma única palavra errada nem uma única afirmação incorreta nos versículos do Alcorão. Evidentemente, esta observação é muito importante.

A propósito, é necessário lembrar que, após a morte do Profeta, havia duas fontes para obter orientação a partir de seus ensinamentos: o Alcorão e os hadiths.

-A primeira fonte era o Alcorão. Muitos muçulmanos sabiam de cor o Alcorão inteiro e, assim como o Profeta, recitavam-no inúmeras vezes. Além disso, o Alcorão já existia em forma escrita. Isso porque sua transcrição começou ainda durante a vida do Profeta, inclusive antes da Hégira (em 622 d.C., isto é, dez anos antes da morte do Profeta).

-A segunda fonte são os hadiths. Os companheiros próximos do Profeta (os sahabas) e outros muçulmanos que haviam testemunhado diretamente suas ações e palavras guardavam essas coisas na memória e, ao propagar a nova doutrina, além do Alcorão, também recorriam às próprias lembranças.

Após o falecimento do Profeta, o Alcorão e os hadiths foram reunidos e compilados. A primeira coleta de hadiths foi realizada cerca de quarenta anos após a Hégira. A primeira compilação do Alcorão já havia sido concluída durante o califado de Abu Bakr e, sobretudo, durante o califado de Uthman. Durante seu califado — entre o décimo segundo e o vigésimo quarto ano após o falecimento do Profeta — o califa Uthman publicou uma leitura padronizada do Alcorão.

Queremos enfatizar e destacar especialmente a disparidade entre o Alcorão e os hadiths quanto às características de conteúdo e literárias. Não se pode sequer imaginar comparar o estilo do Alcorão com o estilo dos hadiths. Além disso, quando se considera o conteúdo à luz das descobertas científicas modernas, fica-se estarrecido com as diferenças e contradições entre ambos. Espero ter conseguido provar que:

-Por um lado, embora as descrições do Alcorão frequentemente pareçam muito simples, elas contêm significados e informações que foram ou serão descobertos posteriormente pela pesquisa científica.

-Por outro lado, embora algumas descrições dos hadiths estejam plenamente de acordo com as concepções da época, atualmente se constatou que elas não são aceitáveis do ponto de vista científico. Isso não ocorre no caso dos hadiths relativos aos princípios e às normas islâmicos cuja autenticidade não deixa qualquer dúvida.

A esse respeito, é especialmente digno de nota que Maomé (que a paz esteja com ele) não mantinha, acerca de suas próprias declarações, exatamente a mesma perspectiva que mantinha acerca do Alcorão. Ele declarou que o Alcorão era a palavra de Allah. Já vimos que, ao longo de nada menos que vinte anos, classificou as suratas e os versículos do Alcorão com o máximo cuidado e cautela. O Alcorão já havia sido registrado durante sua vida, muitas pessoas o haviam memorizado e ele era recitado continuamente nas orações. Em contrapartida, os hadiths são apresentados essencialmente como relatos de suas ações e opiniões pessoais. Sobre esse assunto, ele próprio não deixou nenhuma instrução: qualquer pessoa que quisesse poderia procurar, em suas palavras e ações, um exemplo para sua conduta pessoal e também divulgá-lo. Ele próprio nada declarou sobre isso.

Como apenas um número muito reduzido de hadiths refletiu os próprios pensamentos de Maomé (que a paz esteja com ele), nos demais hadiths, especialmente naqueles relacionados aos diversos assuntos aqui mencionados, vê-se claramente refletido o pensamento das pessoas de sua época. Basta compará-los com o Alcorão para compreender facilmente quão distantes estão esses hadiths suspeitos ou falsificados. Nessa comparação, uma diferença se torna muito clara (caso isso realmente seja necessário): nos hadiths, isto é, nas obras daquela época, há muitas informações e descrições cientificamente incorretas; no Alcorão, o livro revelado escrito, não há erro algum.

Do ponto de vista religioso, a autenticidade dos hadiths é indiscutível. Mas, no caso dos hadiths relativos a assuntos mundanos, não há qualquer outra distinção em relação ao Profeta. Em um hadith, as próprias palavras de Maomé (que a paz esteja com ele) são relatadas assim: —“Se eu der alguma ordem sobre religião, cumpri-la; mas, se eu der uma ordem segundo meu próprio juízo, lembrai-vos de que sou apenas um ser humano.” Al-Sarakhsi registrou esse relato em sua obra sobre os princípios (Al-Usul) da seguinte forma: “Se eu vos transmitir algo relativo à vossa religião, então agi de acordo com isso; mas, se eu vos transmitir algo relativo a este mundo, vós conheceis muito melhor os assuntos mundanos de vossa própria vida.”

Conclusão geral

Ao chegarmos à parte final desta obra, tornou-se muito claro que a concepção atualmente predominante no Ocidente sobre as diversas escrituras religiosas hoje em circulação não corresponde de modo algum à realidade. Vimos em que condições, épocas e formas foram reunidos e escritos os relatos e materiais do Antigo Testamento, do Evangelho e do Alcorão. As circunstâncias em que esses três livros de revelação foram compilados são completamente diferentes umas das outras, e essa diferença influenciou profundamente a exatidão dos textos e algumas de suas características de conteúdo.

O Antigo Testamento reúne numerosas obras literárias escritas ao longo de quase novecentos anos. As muitas composições fragmentárias e desconexas contidas nessa obra foram alteradas por mãos humanas ao longo de vários séculos. Em certos casos, novas composições foram acrescentadas a algumas delas. Por isso, hoje é muito difícil determinar qual é a origem de cada composição.

Por meio dos Evangelhos, que contêm relatos das palavras e ações de Jesus e do ensinamento que ele desejava deixar após cumprir sua missão no mundo, tentou-se transmitir esse ensinamento às pessoas. Mas, infelizmente, os autores dos Evangelhos não foram testemunhas diretas das informações e dos acontecimentos que registraram. Com base em tradições orais e em algumas obras atualmente desaparecidas, limitaram-se a registrar as notícias e histórias sobre a vida de Jesus que circulavam em diversas comunidades judaico-cristãs. Em outras palavras, não recolheram informações diretamente da fonte original. Basearam-se em relatos de segunda e terceira mão.

Agora devemos considerar as escrituras judaico-cristãs sob essa luz e, em nome da objetividade, rejeitar completamente os antigos dogmas sustentados pelos especialistas religiosos judeus e cristãos.

Como consequência natural da multiplicidade de fontes, surgiram contradições internas e mútuas, muitas das quais já mencionamos anteriormente. Ao escrever sobre Jesus, os autores dos Evangelhos demonstraram exatamente a mesma tendência ao exagero que os poetas franceses medievais exibiam em seus poemas narrativos. Assim, cada acontecimento foi apresentado com base na perspectiva particular do autor correspondente, e os poucos relatos sobre o conhecimento moderno presentes nas escrituras judaico-cristãs mencionadas precisam ser examinados pelo método mais rigoroso.

Ao julgar a questão nesse contexto, a verdadeira causa das contradições, improbabilidades e incoerências pode ser encontrada com muita facilidade. Quando os cristãos percebem essa situação, ficam extremamente surpresos. Ficam ainda mais surpresos quando, depois de permanecerem fascinados e deslumbrados durante muito tempo com os jogos de palavras, a astúcia argumentativa e o estilo poético empregados pelos comentaristas cristãos para ocultar os resultados das descobertas modernas, finalmente compreendem a realidade. A esse respeito, podem ser mencionadas as duas genealogias de Jesus apresentadas por Mateus e Lucas, respectivamente. Deve-se lembrar que essas duas genealogias são mutuamente contraditórias e inaceitáveis do ponto de vista científico. Muitos outros exemplos capazes de causar espanto aos cristãos já foram apresentados anteriormente. É digno de nota que demos um pouco mais de atenção ao Evangelho de João, porque ele apresenta muitas diferenças importantes em relação aos outros três Evangelhos. Em particular, o Evangelho de João não contém nenhum relato da cerimônia da Eucaristia, e muitas pessoas não sabem disso.

A história da revelação do Alcorão é completamente diferente da história correspondente das outras duas escrituras religiosas. O Alcorão foi revelado ao longo de quase vinte anos e, sempre que o anjo Gabriel transmitia a Muhammad (que a paz esteja com ele) uma parte da revelação, os crentes imediatamente a memorizavam. Além disso, ele foi registrado ainda durante a vida de Muhammad (que a paz esteja com ele). A compilação final e definitiva do Alcorão foi concluída durante o califado de Uthman, entre o décimo segundo e o vigésimo quarto ano após a morte do Profeta. Essa compilação foi conferida por aqueles que haviam memorizado o Alcorão imediatamente após sua revelação e que posteriormente o recitavam todos os dias nas orações. Sabemos agora que, desde aquela época, o Alcorão tem sido preservado corretamente e sem alterações. Nunca surgiu qualquer dúvida quanto à sua autenticidade.

O Alcorão começa onde terminam os dois livros celestiais que o precederam. Não há contradições em sua narrativa, nem qualquer sinal da intervenção ou alteração humana que se observa no caso do Evangelho. Ao examiná-lo objetivamente, percebe-se com muita facilidade uma característica literária única em todo o Alcorão. E, ao examiná-lo do ponto de vista científico, constata-se que as informações e as descrições do Alcorão são inteiramente compatíveis com as descobertas científicas modernas. Além disso, o Alcorão contém descrições científicas (que já vimos anteriormente) de tal natureza que é inconcebível pensar que tenham sido fornecidas por qualquer pessoa da época de Maomé (que a paz esteja com ele). Por essa razão, estamos conseguindo compreender, com o auxílio do conhecimento científico moderno, o significado dos versículos do Alcorão que até agora foi possível interpretar.

Ao comparar as descrições da Bíblia e do Alcorão sobre o mesmo assunto, percebe-se com muita facilidade uma diferença fundamental. A descrição bíblica não é de modo algum aceitável do ponto de vista científico, ao passo que a descrição corânica é inteiramente compatível com os dados científicos. Como exemplos, podem ser mencionados a criação primordial e o Dilúvio. No que diz respeito à história do Êxodo, contudo, encontra-se uma importante semelhança entre as descrições da Bíblia e do Alcorão, e essa semelhança é inteiramente compatível com os dados arqueológicos modernos para a determinação da época de Moisés. À exceção dessa única semelhança, há diferenças importantes entre a Bíblia e o Alcorão em todos os demais aspectos. É precisamente por essas diferenças que se demonstra diretamente ser infundada a acusação, feita sem qualquer prova ou evidência, de que Maomé (que a paz esteja com ele) teria copiado a Bíblia para escrever o Alcorão.

Ao comparar as descrições sobre ciência presentes nos hadiths com as descrições do Alcorão, a diferença se mostra tão evidente que a possibilidade de ambos terem a mesma origem é imediatamente descartada.

Esses hadiths podem ter sido atribuídos às palavras de Maomé (que a paz esteja com ele), mas há fortes razões para duvidar da veracidade dessa alegação. Pode-se, contudo, supor que esse tipo de hadith reflita as concepções gerais daquela época.

Considerando o nível alcançado pelo desenvolvimento do conhecimento humano na época de Maomé (que a paz esteja com ele), é absolutamente impossível supor que as descrições científicas do Alcorão sejam obra de qualquer ser humano. Portanto, não é apenas razoável considerar o Alcorão como uma revelação; à luz da certeza de sua autenticidade dada pelo próprio Alcorão e do fato de que suas descrições científicas não podem receber qualquer explicação humana, também é razoável atribuir a este livro uma posição de honra especial.

— Fim —